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Filosofia da Religião - Unidade 1 - Noção do divino e a Filosofia

Filosofia da
Religião

Unidade 1 - Noção do Divino e a

Filosofia

Luis Henrique Lodi Zaghi


Filosofia da Religião - Unidade 1 - Noção do divino e a Filosofia
Filosofia da Religião - Unidade 1 - Noção do divino e a Filosofia

Introdução

A noção do sagrado está presente em todas as atividades humanas e, em todas

as áreas do agir humano, estão presentes aspectos relativos ao questionamento

metafísico e filosófico, os quais muitas vezes derivam para dúvidas e observações


místico-religiosas.

Ora, em dias nos quais o cepticismo é a tônica central das reflexões acerca da

realidade, estudar a religião como um fenômeno impõe-se de modo imperativo,


especialmente para os que desejam aprofundar-se na compreensão desta realidade.

A filosofia da religião, analisando o seu objeto de estudo, busca na razão as

respostas para compreender qual é o papel da religião e em que circunstância ela é


possível.

O fenômeno religioso é o objeto de estudo da filosofia da religião, e ele é


observado não apenas nos discursos e narrativas confessionais, mas muito

comumente no dia a dia das pessoas, em suas mais variadas manifestações e classes

sociais.

A filosofia, porta da compreensão, é a arte de pensar sobre todas as coisas. Crer


é uma atitude do espírito humano. A sabedoria contida no método filosófico

proporciona uma clareza de visão sobre os fatos e sobre as ideias. E é na conexão

entre filosofia e religião que podemos unir a espiritualidade e a transcendência.

A origem do vocábulo “religião” é, por ora, apresentado como derivado do

termo “relegere”, reler. Segundo Cícero (FARIAS, 2017, p. 32), essa seria a sua origem,

indicado que os que liam atenciosamente ao ponto de reler os textos sagrados eram
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chamados de religiosos. Outra versão aponta que o termo tem origem em “religare”,

religar o homem a Deus (Abbagnano, 2007, p. 858 apud FARIAS, 2017, p.32).

Nosso estudo está dividido em seis capítulos, numa proposta lógica de temas,
próprios a suscitar o interesse pela temática e localizar você para os primeiros passos

no estudo da Filosofia da Religião.

Inicialmente será preciso, no primeiro capítulo, conhecermos os conceitos sobre

o sagrado. Para isso será fundamental que nos aprofundemos quanto às definições de

essência e existência, a fim de compreender os desdobramentos do tema nos tópicos


seguintes. O homem é um ser espiritual? Como se dá a relação entre sua

materidadelidade e espiritualidade?

No segundo capítulo veremos a problemática do mal sob a questão filosófica


e psicológica, como entrave para a compreensão e aceitação de ente divino.

Refletiremos em nosso estudo sobre a racionalidade face às experiências metafísicas

e espirituais. Veremos o problema da aparente dicotomia entre a existência de um

Deus, onisciente e onipotente, e o mal como realidade presente na vida humana.

O terceiro capítulo nos conduzirá ao estudo dos aspectos históricos, culturais e

sociais sobre o surgimento das formações religiosas dos povos antigos e os motivos
intrínsecos desses fenômenos.

No quarto capítulo, estudaremos a teoria sobre a existência de uma lógica


intrínseca de ordem cronológica e metafísica entre as crenças de matrizes mitológicos
dos povos antigos e as concepções filosóficas que deram suporte teórico a muitas

doutrinas religiosas posteriores. Será de grande valia conhecermos a teoria do

hileformismo, apresentada por Aristóteles como base de compreensão das razões do

entendimento sobre o homem como ser composto de corpo e alma.

Por fim, nos últimos dois tópicos seremos apresentados ao pensamento

filosófico de Platão e Aristóteles a respeito da ideia de um ser imaterial, supremo, que


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rege os demais seremos. Tais teorias, inseridas no contexto da grande acervo filosófico

grego, fornecerá suporte teórico que nos proporcionará penetrar na concepção de

uma teodicéia riquíssima, base para aprofundarmos o estudo da disciplina Filosofia da


Religião.

Iniciemos, pois, nosso caminho em busca de uma compreensão da união da


noção de religião sob a luz da filosofia. Bons estudos!

1. Distinção conceitual entre essência e existência

Se observarmos os seres que sabemos existentes, seres reais, mesmo que não
os conheçamos todos os indivíduos – o que seria impossível – podemos deduzir outros

seres e outras espécies. Por exemplo, assim como não é possível conhecer todas as

pedras preciosas que existem, mas é possível ter noção de que elas existam pelo fato
de saber da existência de um diamante, por exemplo. Desse mesmo modo, o fato de

ter ciência do mineral, nos faz compreender que este também pode se apresentar de

várias formas, a saber, o sólido ou o gasoso

Assim, também não é preciso ser biólogo ou botânico para compreender que
há escalas na ordem da natureza, ou na ordem da criação. Essa escala nós a

conhecemos pela definição clássica de minerais, vegetais, animais e homens (animais


racionais).

Os minerais são sem vida e, portanto, sem sensibilidade; eternamente passíveis.

Os vegetais, dotados de vida, mas não de sensibilidade, passíveis, fixos, porém com

uma atração fundamental face ao sol e à terra. Já os animais, espécie com maior
semelhança ao homem, é livre, move-se e tem sentimentos e instintos, mas desprovido

de razão. E aí está o ponto fundamental que nos distingue, a nós, animais racionais

dos irracionais.
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Não querendo extrapolar o campo de estudo do presente trabalho,

relembramos apenas a teoria de que a filosofia apresenta essa diferença fundamental

entre os homens e os animais como sendo a essência humana, a capacidade de pensar,


que reside na alma. Ora, o que é a alma humana?

Para uma melhor compreensão da Filosofia aplicada à Religião, tema da


presente disciplina, é importante responder a esta pergunta.

Na Antiguidade, tanto Platão como Aristóteles, concebiam como

inquestionável a ideia de o ser humano possuir uma essência que o distingue dos
outros seres. Para Platão, a alma habitando o corpo perecível é imortal e divina. Sem

essa alma onde reside a razão, seríamos apenas animais. Na mesma linha filosófica,

Aristóteles apresenta a racionalidade humana, como sua própria essência. Portanto,

ser racional é o fator distintivo do homem para os demais seres.

De modo que a essência, em suma, é o fator que distingue alguém ou algo dos

demais.

Segundo Jolivet (1995, p. 232), “O estudo objetivo dos fenômenos psicológicos


leva-nos a afirmar que o homem possui uma alma, que é uma substância simples e

espiritual”. E acrescenta que é impossível negar a existência da alma, sem tornar, no


mesmo instante, incompreensíveis os estudos acerca da essência e existência
humanas. O estudo antropológico permite constatar no homem duas categorias de

fenômenos distintos: fenômenos materiais, redutíveis a movimentos e

quantitativamente mensuráveis (o peso, a inércia, etc.) e fenômenos qualitativos como

o pensamento, a vontade, o sentimento. Não sendo possível que tais variedades de


fenômenos tão opostos procedam de um só princípio ou de um princípio uno em si

mesmo. Devemos, então, segundo Jolivet (1995, p. 234) admitir no homem a dupla

realidade de um corpo e de uma alma, ato primeiro do corpo orgânico.

A existência humana é a atualização de sua substância.


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Embora, superficialmente, possa parecer tratar-se de um tema comumente

aceito, cremos ser necessária essa primeira abordagem, a fim de compreendermos

melhor as relações do sentido religioso no espectro humano, muito particularmente


levando em consideração as posições materialistas quase hegemônicas dos dias

atuais.

Fugiria muito da pretensão da presente disciplina uma análise mais


aprofundada sobre a temática. Basta-nos definir como ponto de partida para a

presente reflexão a alma como uma realidade concreta, e com base nesta convicção,

a filosofia perene desenvolve, especialmente fundamentada na Escolástica, as


proposições de que, no homem, a alma espiritual é forma substancial do corpo, de

modo que alma e corpo têm entre si a mesma relação que a forma substancial e a

matéria. E que a alma espiritual é a única forma substancial do homem, pelo que há

uma unidade essencial entre alma e corpo.

Você quer ler? Para compreender mais a fundo o tema abordado neste capítulo leia

o artigo de Diego de Sousa Marques, intitulado “A doutrina da essência x existência


na metafísica”. Para acessar, clique aqui.

2. Sobre a questão do mal. A vida da transcendência

De grande importância foi o estudo do capítulo anterior a respeito da alma


humana, pois apenas pela concepção de uma substância espiritual podemos conceber

que a busca constante do homem por explicações de sua existência e pelo desvelar

de seu destino.

Inúmeras são as buscas por essas respostas, e esse caminho é o responsável

pela manifestação do que chamamos de “fenômeno” religioso. Segundo Faria (2017,


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p. 34), “o termo fenômeno tem sua origem na expressão grega phainomenon, que

significa aquilo que se vê, que é visível ou que se apresenta, que se mostra”, e tem

como fundo a ideia de trazer à luz, fazer incidir claridade, mostrar.

Portanto, deduzimos que o fenômeno religioso, ora estudado, traz à luz

questionamentos que, manifestado em tempos, culturas e sob influências diversas,


têm manifestações distintas.

Entretanto, uma característica comum entre as manifestações observadas pela

fenomenologia é a figura do mal.

Pensamos ser conveniente prosseguir nosso estudo, ressaltando o aspecto

“negativo” da questão, pois como contemporâneos de uma época marcada pelo

pragmatismo, muitas vezes compreendemos a ideia de religião como uma fuga da


dor, do medo, do mal e menos como uma ligação com um ser (ou seres) divinos,

espirituais, bons por essência e com os quais há uma relação por liberalidade e

identidade.

O problema do mal é comumente apresentado como sendo a mais irrefutável

objeção à crença teísta. Vasta é a literatura produzida por filósofos analíticos da

religião sobre esse tema que atesta a sua relevância.

O ponto da questão é apresentado como sendo o mal um ente, uma força, uma

energia negativa incontestável, promotor do sofrimento, em contraposição do ser


bom, criador, onipotente e onipresente.

Segundo Jolivet (1995, p. 330), a existência do mal é frequentemente

apresentada como a negação da existência de Deus ou a realidade de uma providência

divina. Discorrendo sobre o “problema do mal”, o mencionado autor argumenta que:

A negação da existência de Deus, longe de resolver o problema do mal, vai


torná-lo completamente insolúvel. Com efeito, se os males que sofremos não
tivessem remédio nem compensação, o mundo seria definitivamente
absurdo, privado de sentido e radicalmente mau. Mas, neste caso, como
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compreender a ordem física que reina no mundo? Se existe uma ordem física,
como não existirá, com mais forte razão, uma ordem moral?

Argumentando sobre a ótica do “dualismo maniqueísta”, Jolivet (1995, p. 331)


defende que a explicação do mal não poderá ser procurada na hipótese de que existirá

um princípio do mal ao lado ou em face de um princípio do bem, como supuseram os

maniqueístas (discípulos de Manes ou Mani, no século III de nossa era). A hipótese


analista é refutada, por um lado, pela unidade interna do universo e, por outro lado,

pelo que encerra de ininteligível, supondo dois princípios absolutamente primeiros,

autônomos e infinitos que se limitariam reciprocamente.

A chave para tentar resolver a questão está na análise e distinção entre o mal

físico e o mal moral. O primeiro pertence à ordem corporal e se traduz pelo sofrimento;

o segundo é essencialmente a violação voluntária e livre da ordem desejada por Deus

e que se chama falta ou pecado. “Um e outro são, não apenas simples ausência de um
bem superior à natureza, mas privação de um bem que convém à natureza”. (Jolivet,

1995, p. 331).

Ora, se compreendermos tanto o mal físico ou o moral como efeitos evidentes

da liberdade natural do ser humano, podemos compreender a existência de ambos,

não apenas suas consequências, mas até mesmo como possibilidade de reparação ou

atenuação de tal mal.

A compreensão dessa possibilidade de transformar o mal, ou valer-se dele, é

justamente o que poderá explicar a busca por um princípio, que é propício, por seu

dinamismo imperativo, a engendrar o fenômeno religioso na história humana.

Esse cenário nos incita a duas reflexões sobre a incompatibilidade intrínseca das

duas existências: de Deus e do mal.


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A primeira reflexão face à constatação do mal no mundo leva a crer que há uma

incompatibilidade com a existência de um ente que tudo vê e tudo pode; pois, se tudo

visse e pudesse, não impediria que sua criação sofresse, portanto, Deus não existe.

Tal argumento, cada vez mais crescente, toma formas e cores diferentes,

quando apresentada, como feito cada vez com maior frequência, sob a ótica de
religiões ou filosofias gnósticas, pelas quais a noção de divindade difere

essencialmente da concepção de um ser consciente, antropomórfico e criador. Mas

apregoa a existência de um ser imanente, natural, panteísta, através do qual a natureza

apenas reverbera a ação individual de cada ser face à sua missão ética original.

A segunda possível reflexão é a de tentar mostrar que a incompatibilidade entre

a existência de Deus e o mal é apenas aparente, havendo uma justificativa moral da

razão de Deus permitir a existência do mal. Essa justificativa é, pois, uma das tarefas
da Filosofia da Religião e se baseia na tese, abordada pouco acima, do livre arbítrio: o

ser humano pode escolher e decidir por si só; decidido, pode escolher pelo mal ou

pelo menos bom; sendo assim, está sujeito às consequências, que podem ser más ou

menos boas. Aí está justificada a existência do mal sem concurso direto de Deus.

3. Formações religiosas arcaicas

A sensibilidade para o metafísico, a busca pela explicação de nossa origem


comum, a constante atração para uma realidade sobrenatural são características

distintivas de história humana, em suas mais variadas épocas e localização geográfica.

O homem sempre buscou explicar o mistério sob o véu do sagrado. Em épocas

de ceticismo e ateísmo prático talvez seja difícil compreender que o homem sempre

foi religioso, ou seja, sempre concebeu e buscou uma identidade com o sagrado.
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Segundo Faria (2017, p. 152), “o sagrado tem sua origem latina no vocábulo

sacer, santo”, e acrescenta que a compreensão do sagrado pode ser encontrada tanto

na história das religiões, quanto na sociologia e na filosofia da religião que

entende o sagrado como ‘aquilo pelo qual se experimenta um contato com o


divino, que suscita simultaneamente admiração e atração, terror e
afastamento’. (LA BROSSE, HENRI e ROUILLARD ANO, apud FARIAS, 2017 p.
152).

O sagrado provoca no indivíduo uma mudança profunda uma vez que o

envolve por completo, desta forma, compreende-se, que o indivíduo em comunidade,


produzindo a vida em sociedade, a molda segundo suas aspirações, dando origem a
formas e maneiras de viver o sagrado e de entender-se sob o enfoque religioso.

Nas três grandes religiões monoteístas, ou seja, que creem em um só Deus, o


judaísmo, o cristianismo e o islamismo, o sagrado está representado em tudo o que

tem relação com esse Deus ou que tenha sido sagrado ou consagrado em um ritual

próprio.

O templo é um lugar sagrado, seja a sinagoga, igreja ou mesquita, com ss livros,

as vestes ou paramentos, os objetos, candelabros, altares, vasos litúrgicos, os tecidos,

toalhas. Além dos objetos inanimados, os representantes máximos de suas religiões

são homens sagrados: rabinos, imãs, sacerdotes, bispos, etc. E por fim, o verbo, o texto
oficial é sagrado, suas fórmulas e formulações têm um caráter do sagrado, pois toca e

por assim dizer, move a Deus.

Mais remotamente, as religiões politeístas e animistas definirão o que é sagrado


é muito mais ampla e se aplica a uma variedade quase infinita de manifestações, de

acordo com as coisas, pessoas, figuras, e aos fenômenos divinizados e cultuados.

Por exemplo, muitas vezes o sagrado é representado pela força da natureza ou

fenômenos naturais, estando presente desta forma, em muitos lugares e situações, tais

como o campo, acidentes geográficos, na água, no fogo, etc.


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Alguns povos mais primitivos adoravam, por exemplo uma rocha, crendo ser

ela um deus, mas nem sempre a noção do sagrado presente na rocha se encerra no

objeto em si. Desta feita, como explicam Gaarder, Helleern e Notaker (2001, p. 18),
citado por Farias (2017 p. 153, 154):

Alguém que adora uma pedra não está prestando homenagem à pedra em
si. Venera a pedra porque esta é um hierofani, ou seja, ela aponta o caminho

para algo que é mais do que uma simples pedra: é o sagrado.

Desta forma, cada religião, cada conjunto de culto, tem seu universo, seu
espaço do sagrado.

Como vimos, o sentimento religioso pode ser observado como fenômeno


universal. Esse movimento da alma humana para o sagrado é encontrado em todas as

sociedades humanas cujo registro pode ser contado pela História.

O sagrado se opõe ao profano e é a ideia do profano que faz compreender com

maior propriedade o conceito de sagrado.

É um ponto onde se deve deter a atenção do filósofo e dos que estudam a

religião sob o prisma de suas razões mais profundas. Segundo Eliade (1992, p. 20)
citado por Farias (2017, p. 154),

os modos de ser sagrado e profano dependem das diferentes posições que o


homem conquistou no Cosmos e, consequentemente, interessam não só ao
filósofo, mas também a todo investigador desejo de conhecer as dimensões
possíveis da existência humana.

Nós vivemos no tempo (chronos) e por isso todas as manifestações de nossa


vida só é compreensível dentro dele. Mesmo os juízos de valor que fazemos sobretudo

têm como base os momentos e os acontecimentos.


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Vemos a importância e relevância do tempo nos ritos de diversas

denominações e manifestações religiosas ao longo da história. Desde os egípcios com

sua magia, aos ritos católicos na divisão de sua liturgia (tempo comum, tempo pascal,
etc).

É ainda mais clara essa íntima relação entre tempo e religiosidade quando
concebemos a crença em sucessivas reencarnações, como ocorre em religiões de

matrizes gnósticas e kardecistas.

Crer no poder místico e sagrado do tempo ultrapassa a concepção filosófica


cronológica e do espaço, para penetrar na temporalidade. Farias (2017, p. 158) nos

apresenta a ideia de Japiussú e Marcondes (2008, p. 265) quando afirmam que “o

futuro não é posterior ao passado e este não é anterior ao presente. A temporalidade

se temporaliza como futuro-que-vai-ao-passado-vindo-ao-presente”.

A dimensão do tempo sempre foi de sua importância para todos os povos que,

de uma forma ou de outra, desenvolveram uma vertente religiosa, mais ou menos

profunda. As festas religiosas, suas celebrações e rituais ditaram o rito de suas vidas, e
acompanharam suas alegrias e tristezas. O membro de uma confissão, ao participar de

certa celebração, sentia-se parte atemporal de uma determinada fé; tocando no divino,

vivenciava e fazia parte fundamental de uma realidade invisível.

Mesmo quando as razões religiosas de origem mais profundas não estejam

presentes, o papel da identidade por meio dos ritos vinculados à tradição (tempo)

ainda subsiste. Talvez o maior exemplo disso seja o Carnaval, festa religiosa de origem

cristã, que hoje conserva pouco ou quase nada de vinculação religiosa. Muitas vezes
tais festividades, tomando cores neopagãs apresentam e promovem ideias ou ideais

contrários aos dogmas e doutrinas que permeavam a origem de tais festas. (FARIAS,

2017, p. 160)
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Mas o maior dos marcos da religiosidade dos povos têm perenes significados

que trazem uma íntima relação com a temporalidade, como por exemplo a páscoa

cristã e judaica e o ramadã islâmico (FARIAS, 2017, p. 158).

Os gestos, movimentos, ritos, textos litúrgicos estão presentes em registros

religiosos de variados povos, desde os mais antigos e primitivos. Todos eles têm um
papel de grande importância, engendrando um significado por meio de símbolos ou

tomam simbologias que carregam em si uma eloquência vibrante, como veremos no

capítulo seguinte.

4. O mito como narrativa arquetípica

A doutrina do hileformismo foi apresentada por Aristóteles, para contrapor o


idealismo platônico e nos traz a ideia de que o tudo é composto por material e forma.
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A doutrina hilemórfica defende que toda substância corpórea é composta de

hyle, ou matéria, e morphe, ou forma. Portanto, os dois princípios básicos de todo ser

corpóreo são: a matéria prima e a forma primeira.

Aplicada ao homem, tal doutrina pretende que o corpo do homem, como

matéria prima, é uma substância incompleta, do mesmo modo que sua alma, forma
primeira do homem. Desta forma, somente a alma e o corpo, unidos, constituem a

substância completa: o homem.

Bem compreendida essa questão, ainda que apresentada sumariamente,


apenas para a compreensão do que se segue, podemos facilmente entender que todo

movimento relevante da alma humana tem sua real correspondência em uma

manifestação corpórea, física e visível.

Assim foi desde os primeiros registros da relação do homem com seu universo
místico, e assim tem sido até nossos dias.

Mas, para uma melhor compreensão do mito na formação da ideia religiosa,


propomos a necessária analogia com as fases da vida biológica humana. Assim como

para se chegar à maturidade foi preciso passar pela infância, assim também, para o

intelecto humano foi necessário vivenciar o mito, para posteriormente alçar voos mais
altos.

O mito pode se enquadrar como o simbolismo exteriorizado, rudimentar a


priori, mas profundo em seu significado.

Muitos autores apresentam a filosofia como nascida do rompimento com a

mitologia. Assim teria ocorrido o nascimento da filosofia grega. É-nos permitido

entender essa transição de uma maneira a buscar a compreensão da evolução do


pensamento religioso e do papel da religião na vida humana, pois tanto na fase

primitiva da humanidade, onde surgiram os mitos fundamentais, quanto na mente dos

filósofos antigos, a religião tinha um papel importante (FARIAS, 2017, p. 54).


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Valendo-nos da metáfora das idades humanas, acima mencionada, podemos

pensar numa lógica existente no percurso humano presente das religiões animistas,

mitológicas e posteriormente, nas religiões que, valendo-se da evolução da filosofia,


solidificaram seus argumentos ou foram melhores compreendidas sob um prisma

racional, filosóficos ou sociológicos.

Não obstante, apesar de comumente se apresentar o período mitológico como


cronologicamente anterior e inferior aos períodos nos quais a religião teve um papel

mais relevante e mais estruturado na história da humanidade, a narrativa mitológica,

pela qual os símbolos têm um papel fundamental, é de grande importância,


especialmente quando se considerar o homem como composto hilemórfico, como

acima explanado.

Sendo o homem ser corpóreo e, portanto, sensitivo, auditivo e visual, é de suma


importância que as experiências e as produções intelectivas interiores sejam

acompanhadas por seu reflexo empírico.

Os argumentos simbólicos e mitológicos são como as fábulas, face a sua moral


(da história). Daí se torna mais compreensível que os símbolos carreguem em si

significados morais e éticos, ligados a uma ideia, a um sentimento, crença e fé. São

representações palpáveis e inteligíveis do sagrado.

Você quer ler? Para compreender mais a fundo a relação entre mito, arquétipo e
religião, leia o artigo “Da persona ao mito: arquétipos e mitologia de marca”, escrito
por Francisco dos Santos”. Para acessar o texto clique aqui.

4.1 A teodiceia em Platão


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No processo de passagem da mitologia à filosofia o pensamento evoluiu da

teogonia para a cosmogonia, e posteriormente para a cosmologia. A busca pela

resposta da origem do mundo e a tentativa de explicação da sua organização por meio


de suas forças geradoras (até então ação atribuídas aos deuses), foi objeto do esforço

de muitos filosóficos, ainda que, por muitas vezes, tais tentativas tivessem falhado ou

ainda fossem muito marcadas pela mitologia (FARIAS, 2017, p. 54).

Foi com Sócrates que a filosofia conheceu uma nova e luminosa fase, pois,
iniciando uma série de grandes filósofos, foram apresentadas novas ideias e

concepções acerca do mundo, da divindade, da educação, da política e da sociedade.

Sócrates não deixou escritos, mas graças a seus discípulos, dos quais

destacamos o grande filósofo Platão, conhecemos hoje seu método filosófico.

Os filósofos gregos concebiam a existência da divindade e suas obras estão


repletas de reflexões filosóficas acerca da religião.

Numa teodiceia própria onde discorre sobre a existência de um deus e sua


relação com o homem, Platão afirma que “a emanação” é o processo pelo qual o Uno

(Ser Criador) teria gerado o universo. Assim também, Plotino (neo-platônico) defendia

que o Uno pensou-se a si mesmo, dando origem (por emanação) ao Intelecto. Este,
por sua vez deu origem ao que chamou de a “alma do mundo” que seria o “verbo”, o
ato do intelecto, assim como o intelecto é ato do uno.

Crítico dos pré-socráticos, Platão negava a teoria de que todas as coisas que
existem são geradas pela causalidade. Apresentou ele o conceito do “demiurgo”, ser

que teria organizado a matéria amorfa existente no caos. Segundo Platão (REALI e

ANTISERI, 2007 apud FARIA 2017, p. 68),


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Deus, querendo que todas as coisas fossem boas e, à medida do


possível, não fossem más, tomou tudo quanto havia de visível que não
se encontrava calmo, mas se agitava de forma irregular e desordenada,
e o fez passar da desordem para a ordem, acreditando que isso era

muito melhor do que aquilo que antes acontecia. Com efeito, nunca
foi nem é lícito ao ótimo fazer outra coisa senão a mais bela.

Essa “alma do mundo”, é o demiurgo ordenador de tudo, que unindo a alma


ao corpo do mundo, serviu-se de três princípios: “a essência, o idêntico e o diferente”.

(REALI e ANTISERI, 2007, p. 144 apud FARIA 2017, p. 68)

Você quer ver? Para saber mais sobre as contribuições de Platão no que diz respeito
à religião assista ao vídeo “Religare - Conhecimento e Religião sobre Platão”. Para
acessar clique aqui.

4.2 A teodiceia em Aristóteles

Considerado o criador do pensamento lógico, Aristóteles deixou uma herança


filosófica de grande influência sobre o pensamento humano. Discípulo de Platão,
Aristóteles, com suas ideias, influenciou muito o pensamento teológico medieval,
especialmente com São Tomás de Aquino. Segundo Farias (2017, p. 70),

Os estudos filosóficos de Aristóteles baseavam-se em


experimentações para comprovar fenômenos da natureza. Sua ampla
produção literária atingiu muitas áreas do conhecimento: política,
lógica, ética, moral, teologia, metafísica, didática, poética, retórica,
física, antropologia, psicologia e biologia.

Aristóteles tratou sobre o cosmos e sua origem, e em sua obra Metafísica, livro
XII, o Filósofo discorreu sobre a substância de todas as coisas e sobre a natureza dos
movimentos e da mudança. Para Aristóteles, a substância, como vimos anteriormente,
é a conjunção entre matéria e forma (hileformismo).
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Nessa linha, ele desenvolveu a teoria do ato e da potência, pela qual a matéria
é potência e o ato a forma. Dessa maneira, como vimos no primeiro capítulo dessa
unidade, a substância é o que é e não pode não ser.

Numa teodiceia, matriz da filosofia da religião, Aristóteles defendia que todas

as substâncias existentes são precedidas e sustentadas por uma substância imóvel,

chamada por ele de Motor Imóvel (que move sem ser movido), incorruptível e eterno.
(FARIAS, 2017, p. 70). Tal teoria influenciará profundamente a corrente filosófica

medieval conhecida como Escolástica, cujo expoente máximo foi o filósofo aristotélico

Tomás de Aquino.

Muito próximo da ideia de um Deus criador, Aristóteles define o motor imóvel


como responsável pelo princípio do movimento, mas para além disso, como sua causa

e finalidade. Ser necessário e eterno não tendo princípio nem fim.

Síntese

Caro(a) aluno(a), chegamos ao final da primeira Unidade de nosso estudo.

Nessa primeira etapa pudemos percorrer um caminho inicial na tarefa de compreender


melhor todo o universo em torno da disciplina Filosofia da Religião.

Iniciamos nosso percursos aprofundando nossos conhecimentos sobre a

relação do homem com o sagrado e para isso conceituamos filosoficamente as


definições de essência e existência, para que nos fosse possível compreender as
demais nuances de nosso estudo nos tópicos seguintes. Já que, sendo o ser humano

dotado de corpo e alma, e residindo na alma suas potências intelectivas e sensitivas, é

nela também que se dá a manifestação do fenômeno religioso e as operações de sua

compreensão.

Em resumo, nesta unidade pudemos:


Filosofia da Religião - Unidade 1 - Noção do divino e a Filosofia

● Compreender as definições de essência e existência;

● Abordar a relação do homem com o sagrado na perspectiva dos primeiros

pensadores;
● Estudar o problema do mal e sua transcendência no ser religioso;

● Conhecer os aspectos históricos, culturais e sociais acerca do surgimento das


formações religiosas dos povos antigos e os motivos intrínsecos desses

fenômenos;

● Identificar a lógica entre as crenças mitológicas e as concepções filosóficas que


deram suporte a outras doutrinas religiosas;

● Estudar a doutrina do hileformismo, de Aristóteles, como base para

compreender como o homem assimila os seres espirituais;

No estudo da Filosofia da Religião é fundamental considerarmos três pilares: a

filosofia, a religião e a razão (FARIAS, 2017, p. 210), valendo-se dessas bases


fundamentais avançaremos no aprofundamento dos símbolos religiosos e

conheceremos ao penetrar no universo medieval, conhecermos as perspectivas

agostinianas e tomistas sob o enfoque da Filosofia da Religião.

Na próxima unidade iremos conhecer o legado de Descartes e Leibniz para o


estudo da Teodiceia na Idade Moderna, e por fim conheceremos a fundo as razões da

existência de Deus, apresentadas pela Escolástica em São Tomás de Aquino.

Bom estudo e até breve!


Filosofia da Religião - Unidade 1 - Noção do divino e a Filosofia

Bibliografia

BATAILLE, Georges. Teoria da religião. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.


(acervo eletrônico)

FARIA, Adriano A. Filosofia da religião. Curitiba: InterSaberes, 2017. (acervo


eletrônico)

JOLIVET, R. Curso de Filosofia. São Paulo: Agir, 1995.


Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

Filosofia da Religião

Unidade Nº 2 - Correspondências entre


Filosofia e Religião

Luis Henrique Lodi Zaghi


Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

Introdução
Chegamos à Unidade 2 da disciplina Filosofia da Religião.

Nosso estudo considerou, até agora, um vasto contexto epistemológico


acerca da disciplina Filosofia da Religião. Passeamos sobre as distinções conceituais
entre essência e existência na pena de filósofos gregos clássicos. Aprofundamos
sobre a questão do mal, ponto tão relacionado com a inspiração das doutrinas de
tantas denominações religiosas ao longo dos séculos, como fator onde se baseia a fé
na vida após a morte e suas consequências, tais como prêmios e castigos, etc.
Tratamos sobre a origem das religiões arcaicas e estudados o mito como fator de
origem de muitos conceitos acerca da fé em uma realidade superior. E, por fim, na
Unidade 1 conhecemos aspectos do pensamento de Platão e de Aristóteles sobre a
existência da divindade e sua relação com o homem.

Com efeito, esse estudo nos serve como base para a consolidação da teoria
de que a religião é um dos fenômenos mais importantes que se tenha registro na
história da Humanidade. Ainda que de formas variadas e peculiares, algumas mais
primitivas que as outras, as civilizações sempre desenvolveram sistemas religiosos.

Na infância da humanidade, como podemos nos referir à época em que


começamos a notar essa maior inclinação o homem por ver, especialmente na
natureza, indícios de um ser (ou de seres) dotado de uma origem sobrenatural, era-
se mais concebível uma fé dócil e submissa. Os rudimentares conhecidos sobre a
origem das coisas, e uma forte inclinação ao encantamento face ao desconhecido
eram fatores que bastavam para o homem primitivo crer e adorar.

Com o natural desenvolvimento do caminhar do homem sobre a terra, ele se


questionou sobre o mundo e as coisas a seu redor e buscou novas explicações. A
história registra apenas alguns dos mais brilhantes avanços que a filosofia, herdeira
da mitologia, nos legou.

O homem quis encontrar as respostas às suas dúvidas e explicações para as


novas descobertas e aspirações que cada resposta trazia. E como o homem deve
sempre ser estudado como parte de um contexto sociocultural, cada época, trouxe
suas dúvidas e aspirações específicas.

Na presente unidade, além de nos aprofundar na questão dos símbolos que


o homem engendrou para representar visualmente sua fé e suas crenças,
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

conheceremos a visão filosófica de Agostinho de Hipona e de São Tomás de Aquino,


expoentes do pensamento cristão medieval, sobre a religião.

Passada a época que media a Antiguidade e a Idade Moderna, o mundo


sofreu uma grande mudança e os homens, mesmo tirando o foco na visão
teocêntrica da história, permaneceu à busca de respostas a dúvidas, ainda não
totalmente satisfeitas. Esses investigadores tentaram explicar o fenômeno religioso
e, de certo modo, definir o que é a religião. Nessa unidade vamos estudar dois deles,
Descartes e Leibniz, e veremos o que eles têm a nos dizer sobre o tema de nosso
estudo.

Por fim, retornaremos os olhos à escola tomista e veremos como o Doutor


Angélico – título atribuído a São Tomás de Aquino – apresentou em forma de
definitivas proposições, suas cinco vias da existência de Deus.

Bons estudos!

1. Os símbolos sagrados
Diversos estudos e pesquisas das mais variadas épocas atestam a suma
importância dos símbolos na vida e na cultura dos povos. Podemos asseverar que
tais símbolos são linguagens próprias carregadas de conteúdo comunicativo,
códigos das das aspirações e dos ideais da humanidade. Os registros dos primeiros
símbolos perdem-se na História e são característica da presença humana e de sua
atuação sobre a terra.

Como vimos na Unidade 1, gestos, movimentos, ritos, textos litúrgicos estão


presentes em registros religiosos de variados povos, desde os mais antigos e
primitivos. Todos eles têm um papel de grande importância, engendrando um
significado por meio de símbolos ou tomam simbologias que carregam em si uma
eloquência vibrante.

Esses símbolos têm significados profundos dentro de um determinado


contexto cultural, histórico e religioso. Na esfera civil, considerando a relação do
homem com seu identidade com a terra, sua pátria, o símbolo máximo é a bandeira
ou do hino nacional de um país. Assim, mesmo as crianças, ao participarem de uma
cerimônia cívica, ao hastear da bandeira, ao ouvir ou cantar o hino nacional,
simbolicamente põem a mão junto ao peito. Muitas vezes, dependendo do contexto
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

e do país – mais ou menos patriota - tal evento é permeado de emoção e comoção.


Que honra maior pode ser ter sobre o féretro mortuário a pendão nacional?

São inúmeros e variados os graus de valores presentes e representados por


símbolos. O homem precisa simbolizar suas emoções, suas crenças, seus valores. Os
há que são mais profundos, os quais buscam traduzir convicções associadas a
crenças e instituições.

Como vimos em nosso estudo até o momento, todos os povos, de um modo


ou de outro, engendraram uma fé, uma religiosidade. Umas mais rudimentares,
politeístas, outras mais requintadas e dogmáticas, como por exemplo as três maiores
religiões monoteístas, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Em todas essas
civilizações há registro de túmulos e cemitérios, locais onde há uma área de
sacralidade, onde o mistério tem um lugar especial enquanto remete à ideia de vida
e morte.

Ao aprofundar nosso estudo fica cada vez mais fácil compreender que
especialmente importantes e marcantes são os símbolos de ordem religiosa, por
mais simples que possam parecer. Apesar de sua tão variada origem e penetração
cultural, tais símbolos sempre apontam além do palpável e do ponderável, indicando
uma realidade metafísica.

Esse é um ponto importante onde a Filosofia toca a Religião.

O cristianismo, por exemplo, tem em símbolo maior, a Cruz e em algumas


iconografias a Cruz com o Crucificado.

Símbolo simples, duas hastes cruzadas, muitas vezes apenas isso, sem adorno,
sem pretensão, e carregando um grande simbolismo - que deu origem a quase
infinita literatura místico-doutrinária.

O primeiro registro histórico da utilização da Cruz como símbolo religioso


com efeito maximizado, podemos ver no relato do que teria ocorrido com o
Imperador Constantino. Na iminência de enfrentar seu oponente Maxêncio, sobre a
Ponte Mílvia, em Roma, no ano de 312 d.C., Constantino teria ouvido uma voz
misteriosa que o animava dizendo ao mostrar-lhe uma grande cruz: “Com esse sinal
vencerás”. Constantino venceu a famosa batalha e concedeu liberdade religiosa aos
cristãos, findando a secular perseguição aos discípulos do Nazareno.

Assim como a Cruz para o cristão, os símbolos constituem uma manifestação


das aspirações mais profundas de um povo.
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

Assim, é muito comum que as diversas religiões criem sua própria


simbologia. Essa manifestação simbólica de suas ideias têm o objetivo de relacionar
a humanidade com a espiritualidade com seus valores éticos e morais. Muitas delas
contêm narrativas, tradições e histórias sagradas que se têm com finalidade dar
sentido à vida ou mesmo apresentar explicações racionais à origem do universo.

O símbolo religioso é também compreendido como qualquer uso de


símbolos, tais como ideias arquetípicas, trabalhos artísticos, fenômenos naturais. A
maioria das doutrinas religiosas consideram textos, rituais e obras de arte como
símbolos de ideias ou ideais.

O uso de símbolos religiosos além de terem um caráter sagrado, possuem um


riquíssimo fim pedagógico e exprime os valores morais em uma dada sociedade;
transmitem de maneira simples e eficaz os ensinamentos de uma religião, têm uma
função de criar vínculo de maneira fácil e imediata, gerando um sentimento de
solidariedade entre os discípulos de um mesmo credo.

1.1. As religiões e seus símbolos

Neste tópico analisaremos símbolos significativos de diferentes religiões, a fim


de traçarmos a sua importância no interior da compreensão religiosa e de suas
experiências de fé.

1.1.1. O Cristianismo - A Cruz

Antes de ser sinônimo de Cristo e de sua Igreja, a cruz estava vinculada à


morte por condenação a mais abjeta possível. O imperador romano Constantino
aboliu as condenações no início do século IV e essa simples conjunção de duas
hastes passou a ser adotada pelo cristianismo, oficialmente, como sua maior glória.

De acordo com a tradição, com a denominação ou inspiração ritualística, a


forma da cruz pode mudar: cruz latina, cruz de Santo Antão, cruz grega, cruz copta,
etc.

1.1.2. Judaísmo - Estrela de Davi

O maior símbolo do Judaísmo é uma espécie de duas pirâmides, uma tendo a


ponta para cima e a outra para baixo. Essa representação quer indicar a união ou
equilíbrio entre o céu e a terra. O jovem rei David ordenava que fosse gravado tal
símbolo nos escudos de seu generais e soldados como sinal de proteção divina. Daí
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

a origem da “estrela de David” que acabou por tornar-se mais tarde o símbolo do
povo judeu, ilustrando assim, na atualidade, a bandeira de Israel.

1.1.3. Islamismo - Lua crescente com estrela

Assim como variadíssimos são as correntes religiosas dentro do próprio Islã, a


aceitação do símbolo da Lua com a estrela é também objeto de discussão, algumas
correntes mais ortodoxas não aceitam nenhum simbolismo. Utilizando, entretanto
para representar a religião de Maomé, esse símbolo é apresentado como sendo o
casamento da lua com a estrela d’alva; interpretação da aproximação de ambos
astros, fato que ocorre no mês de outubro de cada ano.

Tão variados são os símbolos como o são aquilo que representam. Além das
três maiores religiões monoteístas, acima mencionadas, possuem símbolos que
apresentam, por exemplo o Hinduísmo, com o seu “Om ou Aum” - “aquilo que
protege”. A suástica, símbolo do Jainismo, o qual também pode ser observado no
hinduísmo e no budismo. O termo ‘suástica’ tem origem no sânscrito e significa
“aquilo que traz boa sorte”. Tal símbolo acabou sendo popularizado pelo nazismo no
século XX.

Para além desses símbolos, ainda há muitos outros, tais como o símbolo
Dharmacakra do Budismo, o Yin-Yang, do Taoísmo. A Flor de Lótus da religião
indiana Ayyavazhi, bem como o Hexagrama, do Ocultismo e o Pentagrama (Wicca),
entre outros.

Por onde se manifeste, o homem engendrará símbolos que tendo a finalidade


de representar de modo acessível e visual, tal como sinal sensível, realidades
profundas, filosóficas e espirituais. É próprio do ser humano converter ideias a
imagens, a alegorias, a metáforas. O símbolo é a metáfora da fé.

A filosofia perene já apresentava tal fato em São Tomás de Aquino, o qual em


diversas passagens de sua obra afirmou que é impossível o nosso intelecto, estando
unido ao corpo, compreender intelectualmente algo “em ato” sem que se voltasse
para imagens que o represente. Ele chamava esse processo intelectivo de “conversio
ad phantasmata”. Tal conceito consiste no fato de que para o entendimento da
realidade faz-se necessário que o intelecto se volte para imagens, como condição
indispensável para compreensão do mundo sensível.

Daí se compreende de um lado, a razão pela qual o homem engendra


símbolos palpáveis de realidades invisíveis, e de outro a própria necessidade de tal
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

fato ocorrer para o fluxo natural das potencialidades humanas as mais profundas e
inerentes à sua própria natureza.

2. A teodiceia nas perspectivas de Agostinho de


Hipona e Tomás de Aquino
Teodiceia é um termo que foi utilizado pela primeira vez no século XVII, pelo
filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz, como título de seu “Ensaio de Teodiceia”,
que trata sobre a liberdade humana, sobre a bondade de Deus, e a origem do mal.
Assim, os filósofos do século XVIII apresentava suas dúvidas e proposições sobre o
que hoje chamamos e estudamos de Filosofia da Religião.

O termo literalmente significa “justiça divina ou justiça de Deus”, mas que


acabou tomando na pena de vários autores o sentido de “defesa de Deus” e, mais
adequadamente, o estudo racional de Deus ou “teologia filosófica” (filosofia a
religião).

É mais dentro dessa definição que se encontra nosso presente estudo.

As geniais mentes dos homens que fizeram a Filosofia estavam repletas de


dúvidas e viviam à procura de respostas.

2.1. Santo Agostinho

Muitos séculos antes, um dos maiores filósofos do Cristianismo também foi


profícuo em produzir questionamentos, mas sobretudo em buscar suas respostas.

Se Deus é o criador de todas as coisas existentes e é também o Sumo Bem,


como pode o mundo estar repleto de mal? Qual a natureza do mal? O mal faz parte
da criação? Quais os efeitos do mal na humanidade? Sabendo o homem o que é
bom, por que procura o mal? Foram essas e outras perguntas que Agostinho de
Hipona buscou responder.

Impõe-se ao estudo da Filosofia da Religião a investigação desses dilemas


relativos à existência de um ser divino e à coexistência do que nós comumente
consideramos como seu antípoda.
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

Na busca pela resposta a questão fundamental que permeia toda a essa


temática da coexistência do Sumo bem com o mal, em Agostinho, é que se dá a
compreensão da origem nesta doutrina da reflexão acerca da liberdade humana. Em
sua obra “O Livre Arbítrio” Santo Agostinho busca uma resposta ao problema do
mal, através da vinculação da ideia de mal à vontade humana, buscando isentar Deus
a respeito da criação do mal.

Escrito no final do século IV, O Livre Arbítrio é uma obra de grande


profundidade e fornece muitas respostas dadas por Agostinho sobre as diversas
questões de seu tempo. O pensamento de Agostinho influenciou sobremaneira sua
época e a posteridade. Teólogo cristão, ele foi um baluarte da filosofia e deixou um
lastro de utilíssima literatura sobre dogmática e moral, que influenciou vida social da
vida o Ocidente nos séculos seguintes, durante a Idade Média e até nossos dias.

Sobre a questão em torno do paradoxo mal e da liberdade humana,


Agostinho trouxe questões desafiadoras ao pensamento humano. Questões
comumente cogitadas por todos os homens e mulheres, letrados ou não, como por
exemplo a dúvida sobre como Deus, sendo Sumo bem, permite a existência do mal
no mundo.

Em sua mais pura definição, onde está presente o que chamamos a


Teodiceia de Agostinho, ele responde que sendo Deus o autor de todas as coisas,
onipresente, e onisciente, nada existindo sem ele e ele e tudo existe para nele e para
ele, Deus sustenta o universo com suas leis infalíveis e imutáveis, dentre as quais
encontra-se a leia da liberdade humana, dom dado por Deus que, da mesma
maneira que a concede, também será o justo juiz das ações desses seres livres.

Agostinho baseava sua teoria sobre o Livre Arbítrio, na existência do pecado


e da inegável liberdade humana de pecar. Para ele era certo que o pecado é um mal
voluntário e ninguém duvida ou nega que o homem peca por livre vontade; caso
assim não fosse ninguém poderia ser culpado por seus próprios pecados. De modo
que, se o homem tenha pecado por si só, ele tem liberdade para tal. Aí está
confirmada a doutrina do Livre Arbítrio.

Ora, a máxima cristã de ser igual ao Pai repousa justamente na fidelidade às


suas leis e, portanto, em não pecar. Assim, se o homem está sujeito ao pecado, por
ser livre para pecar, só conseguirá ser fiel à lei moral cristã com o auxílio da Graça,
que iluminará sua vontade, a fim de chegar às coisas mais elevadas.
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

A conclusão da teodiceia agostiniana reside na busca de apresentar uma


explicação para o mal, a partir da ação humana face a relação do pecado e castigo.
Agostinho recoloca a ideia de mal em outro patamar: não mais do mistério, mas do
problema filosófico a ser resolvido.

Os séculos seguintes a Agostinho o mundo conheceu novas visões dessa


Filosofia da Religião, novas teodiceias. A Idade Média foi profícua em aprofundar e
desenvolver a doutrina cristã. Foi no século XIII com São Tomás de Aquino, que sob a
influência de Agostinho, que surgiu uma teodiceia baseada na teoria de um Deus
que é bondade, no qual não pode haver nenhum mal. Doutor da Igreja, como Santo
Agostinho, Tomás de Aquino acreditava é a própria existência do bem permite que
exista o mal. Vamos conhecer a doutrina de São Tomás no âmbito da Escolástica no
capítulo seguinte.

2.2. São Tomás - A Teodicéia Tomista

Quem é Deus? Qual sua origem? Seus atributos? Sua essência? São
questionamentos filosóficos a respeito de possível existência de um ente criador,
sempre existente, que tudo sabe, e tudo pode.

Continuando nossa apresentação das teorias filosóficas acerca de Deus e da


religião, passamos a tratar da teodiceia tomista.

Para São Tomás de Aquino, é característica do ser humano a inclinação de


sua natureza ao sagrado. Esse movimento, espécie de “teotropismo” (movimento em
direção a Deus), representa para a filosofia escolástica uma inevitável busca de um
bem absoluto, perfeito, transcendente e infinito, cuja razão está moldada e é
impelida a adequar-se ao sagrado como seu fim último, objetivando a posse da
felicidade.

Como vimos na Unidade 1, o homem, sensível ao sagrado, encontrou


vestígios de uma realidade superior nas coisas e nos fenômenos da natureza. Desde
o início da filosofia, ainda com vestígios de mitologia, o homem foi se acostumando
em pensar no sagrado e ao que chamou de sagrado, queria indicar o transcendente,
o que a tradição habituou-se a chamar de Deus.

Para Tomás de Aquino, o ser humano, o seu espírito, dom divino, criado à
imagem e semelhança de Deus, se une à materialidade, vivificando a carne
sublimando-a, tornando-se partícipe do sagrado e do santo.
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

É neste sentido que a ideia do Divino é inevitável ao homem, em cujo


coração há sempre uma busca constante, como a razão final de sua própria essência.
Esse fogo interior pela sacralidade, que acendeu no homem o desejo de uma
ordenação interna, e do cultivo dessa ordem, a qual chamou religião, que é a busca
racional do homem a Deus.

O estudo da filosofia medieval evidencia que o grande esforço dos


pensadores dessa época era buscar a perfeita conciliação entre Fé e Razão. Foi nesse
momento da filosofia que se defendia que era perfeitamente possível chegar ao
conhecimento de Deus pela razão, já que Deus conhece-nos e nos dá a conhecê-lo
pela revelação.

São Tomás de Aquino, em sua teodiceia, por meio de sua filosofia da


religião nos indica que a consciência do sagrado nos leva à inevitável experiência de
Deus.

Foi através das teorias tomistas acerca de Deus que concebemos que o
homem através da mera razão natural pode chegar ao conhecimento de Deus ter a
necessidade de conhecê-Lo. Assim, ele explicitou uma variadíssima gama de
doutrinas, uma teologia toda nova, voltada a perscrutar as razões da existência de
Deus, pelas quais pode-se conceber algo da própria essência divina. Vejamos alguns
exemplos dessa visão tomista da filosofia da religião, também conhecida como
teologia racional.

2.3. A existência de Deus

Para São Tomás de Aquino, Deus é o fim último de toda razão, que ele
apresenta como sendo a felicidade. É na posse da verdade, do conhecimento de
Deus e de seus atributos que reside a felicidade humana.

Defende São Tomás que os conhecimentos de Deus não são em absoluto


contrários ao sensível e ao inteligível ao homem. Há muitos meios de se conhecer a
Deus. Da mera criatura, pode-se chegar a Deus. Pelos efeitos se pode conhecer a
causa.

A revelação (teologia revelada) se difere da teologia natural, como dois


caminhos levam para o mesmo destino, que é o conhecimento de Deus. O primeiro
pela luz divina e o segundo pela luz da razão humana. O primeiro superior ao
segundo, não contrário; mas complementar. O primeiro iluminando o segundo para
o ajudar a alcançar o seu fim.
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

Essa busca pela verdade pelos meios naturais, ou seja, a filosofia da religião,
é propriamente uma ciência por terem em seus princípios superiores, bases de
verdade, coerência e não serem em nada contrários filosoficamente à razão natural.

Fácil é compreender esse processo, quando entendemos que a filosofia da


religião, tendo suas bases na teodiceia tomista, é eminentemente prática e empírica
– no âmbito da teologia – porque trata da vida concreta do homem enquanto ser
imerso no sagrado, cultural, histórico e socialmente falando.

Por esse mesmo motivo tal ciência, que estuda Deus e suas manifestações
na humanidade (religião) é a mais alta das ciências. E o é por dois motivos: pelo
próprio objeto que estuda que é Deus, e pelo efeito causado em quem estuda (o
homem) que é a aquisição da sabedoria, da ciência e da santidade.

Por essa mesma razão é a mais digna de ser ensinada e aprendida, uma vez
que compete ao homem que a adquire pelo estudo e contempla pela fé, transmiti-
las aos demais. Mas urge imediatamente considerar se Deus existe e se sua
existência pode ser demonstrada.

2.4. A possibilidade e a necessidade da demonstração de Deus

A existência de Deus, sempre foi uma questão discutida pelas mentes que
buscavam respostas para si e para sua época. No período em que São Tomás
desenvolvia e difundia sua doutrina acerca de Deus e da religião, eram aceitas
algumas teorias sobre a existência de Deus.

Para o pensamento tomista, a ideia de Deus é “inevitável”, pois Deus é


evidente em si mesmo, como causa, mesmo não o sendo para a mente limitada do
homem, que não o alcança totalmente, sendo indispensável o auxílio das
demonstrações metafísicas por meio de seus efeitos; aquilo que provém de Deus.

A mera falta de evidência da existência de Deus, não seria, para a escola


tomista, a negação de sua existência, mas ao contrário. São Tomás defende que há
uma marca indelével de Deus no ser humano, que é a impressão natural de algum
conhecimento difuso dessa mesma existência.

Desse modo, essa mesma existência pode ser demonstrada por meio dos
efeitos de suas obras, materialmente revestidas no mundo temporal.

Nos séculos seguintes, com o findar da Idade Média, a humanidade


conheceu uma onda de grande ceticismo religioso, deu-se grande espaço para o
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

agnosticismo, que é a negação da possibilidade de demonstrar e conhecer a Deus. O


ateísmo veio a reboque e negando a existência de Deus, apresentando uma via
radical do racionalismo, supondo a inexistência de um Deus princípio e fim de todas
as coisas.

Em meio a um novo oceano de dúvidas e de incertezas, mesmo alguns os


filósofos modernos que preconizaram formas especulativas do racionalismo
filosófico, cogitaram a existência de um Deus e suas peculiaridades, como veremos a
seguir.

3. Idade Moderna e Teodiceia: Descartes e Leibniz


Nestes tópicos nos ateremos mais de perto a formulações de dois
importantes filósofos da Idade Moderna a respeito da Teodiceia: são eles René
Descartes e Gottfried Wilhelm Leibniz.

3.1. Descartes

Descartes, filósofo francês do Século XVI ficou conhecido na história e na


filosofia por seu método de estudo baseado em duvidar, em pôr em questionamento
toda verdade concebida como tal. A razão deveria suplantar todo erro e toda falha
metodológica no processo de compreensão de uma ideia ou um objeto. O que não
se adequasse à razão, deveria ser descartado.

Descartes, também se debruçou sobre um tema que ainda em sua época –


mas já com uma roupagem menos mística – era discutido com afinco: a existência de
Deus.

Despido dos aspectos envolvendo a religião propriamente dita, e não


levando em considerações nem fé nem crenças específicas, Descartes também
deixou sua inteligência refletir sobre Deus.

Segundo Descartes, a única realidade que realmente pode ser considerada


como sendo verdade é o pensamento, uma vez que que todo pensamento basta a si
mesmo para ser prova sua própria existência. De modo que, ainda que haja uma
dúvida de alguma pessoa se o seu pensamento é real, essa mesma dúvida já um
pensamento. “Penso, logo existo” é a famosa proposição do filósofo francês.

Baseando-se sempre na razão, Descartes passa a cogitar o conceito de


perfeição. Defende ele que quando apresentada a ideia de que algo é imperfeito,
tem-se como base de comparação a ideia de perfeição. Ou seja, trata-se da a
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

ausência de algo faz com que seja imperfeito, sem cuja ausência, haveria perfeição
nesse algo.

Esse raciocínio lógico tem sua origem na razão, e a partir desse espaço que
Descartes começa a conceber a racionalidade da existência de Deus. Pois,
questionando a origem da ideia de um ser divino, ele concebe a ideia de que essa
mesma ideia não poderia ter surgido do nada, pois o nada, não pode criar um ser
não existente, menos ainda ser perfeito poderia surgir do nada.

Daí conclui ele que nunca um ser imperfeito poderia gerar a perfeição. Já
que o mais não pode surgir do menos. A ideia de perfeição surge com o próprio
homem. Essa ideia perfeita, portanto, não poderia surgir de um ser perfeito, aí está
concebida a ideia da existência de um ser perfeito, criador: Deus. Esse ser divino
pode ser a causa de sua própria existência, pois isso seria um dos atribuídos de sua
perfeição. O mesmo não se poderia dizer de um ser imperfeito.

3.2. Leibniz

O alemão Gottfried Wilhelm Leibniz foi um proeminente matemático e


filósofo alemão e teve um papel preponderante na história da matemática e na
filosofia moderna. Mente ímpar em sua época, marcou profundamente nossa época.

Ultrapassando os limites aparentes de um estudo cartesiano Leibniz entre


tantas teorias - cuja explanação extrapolaria em demasiado o propósito deste estudo
– concebia a existência de uma mente inteligente sumamente superior à mente
humana, que ele chamava de Deus.

Surpreende que na pena de Leibniz estivesse presente a ideia de um ser tão


questionado pela filosofia moderna, mas que a sua lógica o fazia conceber como
existente.

Em suas cogitações sobre a existência de Deus, Leibniz parte da cogitação de


uma realidade física. Indica ele, entretanto que há uma outra realidade além dessa.
Essa realidade é conhecida em filosofia como “metafísica”, que trata de realidades
além da mera física.

É nesse ambiente filosófico que Leibniz buscar relevar a existência de um ser


divino, perfeito e eterno.
Leibniz concebia que era um movimento natural do homem, em sua busca
incansável pela verdade, conceber um ente onipresente, que é o autor de todo
movimento e toda a existência, sendo anterior a toda vida. Acreditava ele que isso só
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

era possível através da razão. Ele chamava essa capacidade de através da


racionalidade conhecer as razões das coisas, como sendo um dom de Deus.
Acreditava Leibniz que tendo dado à alma humana, qualidades ímpares, Deus
imprimiu algo como um testemunho divino no homem. E ressaltava que os sentidos
e a inteligência são fontes de provas da existência divina.
Por meio desse dom de Deus, a mente humana pode conhecer esse ser divino
que tudo move sem ser movido ou se mover.
Leibniz, depois de apresentar a razão, como presente na alma humana,
propõe argumentos que, na sua opinião, são provas cabais da existência de Deus.
Acrescenta ele, numa visão racionalista, própria à sua época, que não é necessária a
fé, mas apenas a razão, presente em cada ser humano normal e saudável. Substância
é o termo empregado por Leibniz para indicar o ser responsável pelo universo: razão
originária de todas as coisas existirem.
Essa razão suficiente é o ponto para o qual todas as coisas existentes
convergem. Leibniz acrescenta que essa razão subsiste por si mesma, não sendo
dependente de nenhum outro ser. Essa substância é imutável e existe eternamente,
sem alteração.
Conhecer do pensamento cartesiano, foi em Descartes que Leibniz buscou
base para sua tese sobre Deus, cujo principal atributo seria a perfeição. Existir é a
maior perfeição que se possa ter; a não existência para Leibniz já é uma imperfeição.
Portanto, a perfeição de Deus confirma sua existência.
Sobre o intelecto de Deus, Leibniz defende que nele está contida todas as
formas possíveis de existência. Em sua concepção filosófica, para Deus, todas as
realidades são possíveis e antes das coisas existirem, elas estão nos “possíveis de
Deus”. Se algo não existe na mente divina, ela pertence ao nada e seria impossível
que esta coisa viesse a ser algo. Toda a ordem do universo, a perfeita ordenação dos
astros, todas as constituições dos seres, a organização do cosmos, os mais ínfimos
detalhes da ordem do universo só existem em função dessa vontade dessa mente
divina.
Leibniz apresenta Deus como o intelecto divino onde estão as verdades
eternas, as ideias que são base para todas essas ideias.
O filósofo alemão após apresentar tão claras e evidentes provas sobre a
possibilidade do conhecimento e da existência de Deus, não compreendia como
alguém, ser inteligente, pudesse negar tal verdade. Leibniz cria que tanto sua tese
como o próprio fato da existência de um Deus, são verdades acessíveis a qualquer
um que queira honestamente aceitá-la.
Em sua produção filosófica onde trata sobre Deus, Leibniz diz não conceber
que o universo tenha surgido do acaso. Argumentava tentando mostrar que tanto o
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

homem como o universo não podem ser frutos do nada. Seria irracional alguém que
negasse a existência de Deus, e sua capacidade de ordenar as coisas.
Vemos, portanto, no pensamento desse filósofo da era moderna, que uma
certeza da existência de Deus. Essa clareza filosófica a certa da crença na existência
de um ente superior é a base para compreender que os esforços que muitos
pensadores fizeram para buscar uma melhor compreensão do mistério, que no
universo religioso, chamamos fé.
A fé é a ausência de evidência, a filosofia quer ver no fruto da razão a
suficiente certeza da existência de uma causa primeira, como fato evidente. Quanto
mais nos aprofundamos, mais bases temos para compreender o mistério da mente
humana face ao mistério e ao sagrado.
Voltando à Idade Média, observamos com atenção a lógica tomista na busca
por uma explicação do que São Tomás chamou as provas da existência de Deus.

4. As provas da existência de Deus


Desde que deu-se conta que sua mente poderia ir além do misticismo e que
através da filosofia e posteriormente da ciência, poderia buscar conhecer com maior
precisão a origem de tudo, o homem não mais descansou obter as evidências que
suas dúvidas existência requeriam.

Quando se trata de fé, da crença, esse desejo toma cores ainda mais fortes.

A ciência afirma que a existência de algo só pode ser crível quando


comprovada cientificamente, e, portanto, a existência de um Deus invisível,
conhecido apenas por meio da fé pessoal, não poderia ser comprovada.

Tal máxima é compreensível, pois de fato, sob o prisma lógico-científico é


preciso que algo seja comprovando empiricamente para ser aceito. Mas podemos ao
menos contrapor a ideia de que, uma tese não pode ser considerada errada apenas
porque “ainda” não foi provada.

Quando se fala da existência de Deus, se considerarmos a figura do filósofo e


teólogo medieval São Tomás de Aquino, podemos apresentar um senão a esse
debate.

O maior expoente da Escolástica apresentou em suas obras o que ele


chamou de “As cinco provas da existência de Deus”
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

A filosofia, mãe da ciência, engendrou cinco argumentos de peso, na pena


de São Tomás de Aquino, para justificar a tese da existência de um ser divino, eterno
e imutável. Essa prova seria válida?

Se considerarmos que o próprio conceito a respeito de Deus concebe a sua


intrínseca imaterialidade e caso se levar em consideração o fato de um suposto ser
divino seria o criador de tudo o que existe; não seria equivocado crer que a mera
natureza (parte de sua criação) fosse o limite a compreensão de sua existência?

São Tomás de Aquino apresentou o que ficou conhecido na História como as


cinco vias da existência de Deus. Vejamos quais são:

4.1. Primeira via: prova pelo movimento - Deus, motor imóvel

Segundo Jolivet (1995, p. 297), São Tomás de Aquino considera esta prova, a
mais sólida, a qual para ser bem compreendida é importante considerar a noção de
movimento e o princípio geral em que se baseia a prova.

Considerando a existência do movimento e que esse é sensível a nossos


sentidos, deduz-se que aquilo que se move é movido por algo ou por alguém, por
um motor. A inteligência humana não concebe que algo seja movido por si próprio,
mas que haja um outro motor, sendo este, movido por um outro motor, que teria
sido movido outro, e assim indefinidamente até o infinito. De modo que é razoável
que haja uma origem primeira do movimento, a qual teria de ser um motor, que
produz movimento, sem, entretanto, ser movido por nada. Esse primeiro motor
imóvel seria Deus, o Criador de todo movimento.

4.2. Segunda via: prova de causalidade – Deus, causa primeira

Segundo o doutor Angélico, é necessário que haja uma Causa primeira a


todas as demais causas e a todos os seus efeitos.

Tudo o que é produzido, o foi por alguém ou por alguma coisa. Se assim não
fosse, teríamos que conceber que algo possa ter sido produzido por si mesmo, um
ser anterior a si mesmo. Tese inconcebível pela lógica humana. Conclui-se, pois que,
por exclusão da regressão à anterioridade do próprio ser e até o infinito, é preciso
que haja uma Causa absolutamente primeira, matriz de toda causalidade. Essa causa
não poderia ser senão um ser divino, Causa não causada. (JOLIVET, 1995, p. 299).

4.3. Terceira via: prova de pela existência de seres contingentes


– Deus, ser necessário
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

Para compreender o alcance do argumento contido nessa terceira prova


tomista da existência de Deus é preciso considerar o fato de que o mundo físico é
composto de seres contingentes, ou seja, seres que existem, mas poderiam não
existir, já que os seres não possuem em si mesmos as razões de sua existência.

Deste modo, se todos os seres são contingentes, e portanto, “existem e


deixam de existir”, deduz-se que todos os seres que existiram deixaram em algum
momento de existir e os seres que existem no presente, em algum momento
deixarão de existir. Assim, poder-se-ia concluir que, em algum momento, nada
existia. Tese tão inverossímil como afirmar que afirmar que algo que existe passou a
existir do nada. E São Tomás conclui asseverando que é necessária a existência de
um ser necessário e não contingente (JOLIVET,1995, p. 300).

4.4. Quarta via: prova pelos graus de perfeição dos seres –


Deus, ser perfeitíssimo

A beleza é a base para Tomás de Aquino apresentar sua defesa da existência


de Deus. Profundamente subjetiva, a beleza tem regras estéticas definidas. Objeto do
estudo da arte, tal questão não foge, entretanto à filosofia. Há princípios, regras e
graus de beleza na criação. Tal qualidade sublime do belo, é distribuída entre os
seres de forma sábia, e é necessário que ela tenha sido produzida neles por uma
causa única. Seria impossível defender a teoria de que tais qualidades, comuns a
seres múltiplos e diversos, pertençam a eles meramente em razão de sua própria
natureza. São Tomás argumenta que, se assim fosse não se compreenderia por que
então a beleza se encontraria nesses seres, ora em maior, ora em menor quantidade
e intensidade. Assim, o fato de que haver diferentes graus de beleza, indique que tais
seres participam de uma Beleza existente fora e acima deles mesmos, pairando sobre
esta hierarquia de beleza, e que é a Beleza absoluta e infinita.

Notemos que é possível perceber que uma coisa é maior ou menor que
outra, mais ou menos verdadeira que outra. Isso é sinal de que os homens são
capazes de compreender o fato de que os seres finitos têm em sim algum grau de
perfeição, sem que nenhum deles seja a perfeição absoluta ou um conjunto de todas
as todas as perfeições.

A quarta via propõe que, ainda que nenhum ser tenha esse grau máximo de
perfeição, essa perfeição máxima tem de existir, já que existem seres que a possuem
em algum grau, que participa desse grau absoluto. Evidentemente, esse grau
supremo de perfeição é Deus.
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

4.5. Quinta via: prova pela ordem do mundo– Deus,


inteligência ordenadora

Apoiado no princípio da finalidade, a prova pela ordem do mundo ou


argumento das causas finais, é apresentado por São Tomás pela teoria de que uma
organização complexa, com finalidade específica, exige uma inteligência primeira e
ordenadora. Assim, somente essa inteligência pode ser a razão dessa ordem, ou seja,
os diversos objetos, corpos, indivíduos que fazem parte de um todo, de uma
organização complexa, não têm noção do todo, não agem por si só, assim como as
peças de uma grande engrenagem funcional, produzem um produto, alcançam o seu
fim, mas não são a sua mente ordenadora.

Como diz Jolivet (1995, p. 303) numa organização de meios que objetivem
um fim “os corpos ignoram os fins e, por conseguinte, se os corpos ou os elementos
corporais conspiram em conjunto, é necessário que sua organização tenha sido obra
de uma inteligência”.

Ou seja, todos os seres tendem a uma finalidade, todas as coisas existentes,


existem para um fim, que não é obra do acaso, mas sim de uma inteligência que os
conduz e ordena. Desse modo, é necessário que exista um ser inteligente, ordenador
da natureza e a conduza à sua finalidade. Tal ser só poderia ser Deus.

Ambientada num período de fé, como foi a Idade Média e numa época em
que não havia espaço para tanto ceticismo e dúvidas que os séculos futuros
trouxeram, é fácil compreender que tais posições não sofressem nenhum obstáculo
de ordem alguma.

Provar a existência de Deus, em nossa época, no momento que estudamos


esse tema, parece-se mesmo aos espíritos mais crédulos ou religiosos, algo
impossível e infantil.

Baseamos nossas reflexões sobre esse tema sob os argumentos sob o


enfoque da filosofia, ou seja, busquemos compreender com mais cuidado, os
aspectos lógicos da questão, não para defender uma fé em específico, não para
fechar uma questão, que de si é tão aberta, quanto a discussão sobre a existência e
essência de Deus, mas para exercitar essa fundamental relação entre filosofia é
religião.
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

Síntese
É pelo imenso esforço humano de penetrar no sagrado e buscar explicações
para o mistério que vimos grandes mentes questionar a origem do sobrenatural.

Como vimos, primeiro na unidade 1 e nessa presente unidade, o homem


buscando atender uma necessidade de tornar visível os símbolos da sua fé, os
representou em formas, cores e cenários que atestassem a veracidade e santidade de
sua crença. A par disso, os séculos nos deram grandes mentes com os Padres da
Igreja, que tendo Agostinho de Hipona como figura máxima, produziu vasta e
riquíssima literatura a respeito da visão que sua época explicitou sobre Deus e a
religião. Sem romper com o passado tanto Agostinho, quanto Tomás de Aquino,
outro luminar da Idade Média, desenvolveram doutrinas, redigiram obras que foram
inspiração para a humanidade que viria depois deles.

Mas céticos, menos piedosos e dogmáticos, os homens do Renascimento


foram por outros caminhos filosóficos que os levaram a conceitos mais exigentes e
que requeria respostas científicas (FARIA, 2017, p. 210). Mas, mesmo por esse novo
percurso havia ainda a dúvida, as quais nem mesmo as novas e brilhantes teses que
as evidências científicas descortinavam, podiam explicar. Isso se deu com tantos
filósofos e cientistas, a exemplo Descartes e Leibniz, cujas testes acabamos de
estudar.

Na próxima unidade conheceremos o pensamento alguns outros pensadores


da modernidade e a contribuição que eles trouxeram à Filosofia da Religião.
Filosofia da Religião - Unidade Nº 2 - Correspondências entre Filosofia e Religião

Bibliografia
AGOSTINHO, Santo. Bispo de Hipona. Confissões. Petrópolis: Vozes, 2015.

FARIA, Adriano A. Filosofia da religião. Curitiba: InterSaberes, 2017. (acervo


eletrônico)

JOLIVET, R. Curso de Filosofia. São Paulo: Agir, 1995.


Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

Filosofia da Religião

Unidade Nº3 - Filosofia e Fé

Luis Henrique Lodi Zaghi

Introdução
A riqueza linguística quando se trata do universo da religião é muito
grande.
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

Vasta é a nomenclatura, os matizes, os sinônimos, as nuances. Trata-se


do sagrado, portanto, é preciso ter uma atenção muito grande com a precisão e
a imprecisão dos termos.

Ora, religião, crença, igreja, confissão, fé... Expressões semânticas de


uma profunda realidade que tem o poder de mover povos, comover almas e
transformar corações.

Quando a filosofia trata da religião, o faz com imenso cuidado. Isso


sempre foi assim. Houve época na qual os antigos monges copistas, escribas
que conservavam e replicavam inestimáveis obras de literárias da antiguidade e
da Idade Média, tinham de lavar as mãos a cada vez que escreviam sobre o
papiro ou pergaminho o nome de Deus.

A fé é sagrada e o cuidado em perscrutar as verdades relativas à sua


essência merece toda atenção.

Entretanto, houve épocas em que essa atenção e esse cuidado foi quase
unânime. Como vimos nas unidades anteriores, a humanidade sempre
respeitou e cultuou com máximo respeito e veneração suas entidades sagradas.
A fé sempre fez parte de sua cultura e civilizações. Mas, com a devir dos séculos,
o homem se pôs altivo e, deixando a postura de alma que por vezes estava
metaforicamente de joelhos ou curvada face ao sagrado e pondo-se de pé,
questionou face à razão os seus dogmas mais antigos.

O conhecimento humano, no decorrer dos séculos, tem galgado grandes


patamares de progresso e riqueza. A razão mãe da ciência tem buscado explicar
e ressignificar as verdades antes tidas como absolutas.

A ciência avança a galope e desvela mistérios da natureza humana que


enchem os olhos da humanidade.

Essas mentes geniais têm trazido grandes contribuições para o futuro, as


quais muitas vezes vêm com a negação do passado, especialmente em forma de
crítica aos conceitos religiosos que baseavam a fé social e culturalmente
arraigada nos povos.

É de grande importância conhecermos alguns expoentes do


pensamento crítico acerca da religião. Convém ao teólogo e ao pesquisador da
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

teologia saber por onde caminharam as mentes mais brilhantes quando


buscaram compreender e explicar o onipresente fenômeno religioso.

Eles acertaram em suas teses? Eles chegaram a um bom termo sobre tal
ou qual assunto?

A resposta a estas perguntas não é o objeto desse estudo, até mesmo


porque elas talvez não existam.

Compete a nós, nesse caminho acadêmico, conhecer as correntes


filosóficas que questionaram ou validaram a religião, pensar sobre elas, e
buscaremos trilhar outros caminhos rumo a novos horizontes.

Nesta Unidade conheceremos o pensamento filosófico de Hume e Kant


acerca da religião e de Deus; tomaremos contato com o ateísmo de Nietzsche;
visitaremos a original exposição de Kierkegaard sobre sua experiência religiosa;
nos aprofundaremos na teoria sociológica de Weber sobre a religião e seu papel
junto aos povos e seu desenvolvimento. Por fim, constataremos a importância
da união entre ciência e religião.

Com efeito, a conciliação entre fé e razão talvez seja um dos mais


prementes desafios de nosso século, dado que a ciência, tendo avançado tanto,
parece não preencher o vazio deixado pela religião, que, recolhida a um
segundo plano, surge como tão necessária para sanar tantas dúvidas e
incertezas da atualidade.

1. Hume e Kant: a religião como fato humano

Duas figuras são de grande importância para nossa compreensão da


filosofia da religião na mente de filósofos e pensadores modernos. Os “séculos
de luz”, que se sucederam à Idade Média, pretenderam trazer uma nova visão
sobre a fé e o fenômeno religioso e, portanto, aportar uma nova concepção
sobre a relação do homem com Deus.

Para alguns, a conclusão de longas reflexões e frutos de mentes


brilhantes, (FARIA, 2017 p. 20) foi simplesmente o ateísmo. Outros, entretanto,
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

não optaram por um veredicto tão simples e superficial e buscaram apresentar


os matizes e nuances de uma questão tão arraigada no espírito humano.

1.1. Hume

A tendência em acreditar em poderes e verdades que estão além de sua


compreensão faz parte da natureza humana. Nisso acreditava David Hume, um
filósofo e historiador nascido na Escócia em 1711. Hume tornou-se célebre por
seu empirismo radical e seu ceticismo filosófico.

É através do método racional experimental que Hume busca entender


melhor a natureza humana. É o método científico, usado basicamente para
entender os objetos, para interpretar as pessoas, criando dessa forma a ciência
do homem. Assim, Hume defendia que, explicando o que e como as pessoas são
e qual sua a essência explicaríamos também as demais ciências. Isso se explica
porque, segundo ele, todas as ciências, assim como a física, a matemática, etc.,
estão relacionadas intrinsecamente com as pessoas, pois baseiam-se na razão,
fundamento dessas mesmas ciências e fazem parte da natureza humana (FARIA,
2017 p. 128).

Hume faz uma clara distinção entre as sensações e as ideias. Segundo


ele, tudo o que há em nossa mente é fruto das sensações. As ideias são
percepções dessas sensações. Segundo ele, o sentir está ligado às nossas
sensações mais vivas, as mais recentes, as que marcam mais. O ato de pensar
tem ligação com as ideias, que, sendo uma percepção, são mais fracas. As ideias
são como imagens que com o tempo vão perdendo cor e definição.

Como pressuposto importante para a compreensão do fenômeno


religioso, Hume afirma que não existem ideias inatas, mas essas dependem das
sensações, pois, segundo ele, só podemos ter ideias de algo após termos a
percepção desse algo pelas sensações.

Desenvolvendo sua teoria sobre as ideias, Hume apresenta a teoria de


que ideias simples que nos vêm através das sensações podem se desenrolar em
ideias complexas por meio da memória e da imaginação e da associação de
ideias simples com ideias complexas, especialmente pela analogia, da
proximidade no espaço e tempo e na relação de causa e efeito. Por exemplo,
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

quando vemos uma semente, podemos deduzir que ela será uma árvore se já a
tivermos visto.

Nesse sentido a experiência tem um papel importantíssimo na formação


das ideias, as quais nunca podem existir a priori, pois ela depende da
experiência. Assim, Hume acredita que o que conhecemos como experiência e
realidade é apenas um conjunto de ideias e sensações, sem que haja algo que
relacione essas percepções (JOLIVET, 1995, p. 256).

Num primeiro passo de aplicação filosófica ao fenômeno religioso,


Hume analisa a moral como sendo derivada dos sentimentos, e pouco da razão.
A moral pode até ter um apoio na razão, que a orienta, mas sua base
fundamental são mesmo sentimentos e mais efetivamente a prazer e dor.

Esse binômio está na raiz do fenômeno religioso. Segundo Hume, a


religião nasce do instinto, baseado na dor (fruto dos vícios) e no prazer (fruto da
virtude).

Para Hume, os deuses surgem por causa do medo e da incerteza da


morte; é essa inquietação com a finitude da vida humana que está na raiz da
crença em um deus, crença original, engendrada num contexto histórico, social
e cultural, que influencia e é influenciado pelas disposições morais e filosóficas
do ser humano.

Eis aí o principal esforço de Hume no tocante à temática da filosofia da


religião, a saber: encontrar justamente as origens e as causas do fenômeno da
religião, dos seus efeitos sobre a vida e as condutas humanas.

Hume traz a reflexão de como cada modo de conceber a religião altera a


sociedade, quando há mais tolerância no politeísmo, ao se alegar que não há
uma só verdade sobre um deus único, do que no monoteísmo, com sua verdade
aristocrática. Sob o ponto de vista da filosofia, considera que o monoteísmo
atrai facilmente a defesa filosófica, mas, por sua vez, torna a filosofia “sua serva”.

Na consideração das vertentes filosófica e teológica, Hume não conserva


muita simpatia das religiões cuja divindade toma aspectos antropomórficos e,
sob a ótica da conciliação entre as ordens da razão e da fé, o pensamento de
Hume compreende a teoria da “verdade revelada”, como tese a se considerar,
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

mas como alternativa segura à total ignorância da razão natural acerca dos
assuntos divinos.

Sob o olhar do pesquisador teológico de nossos dias, Hume apresenta as


verdades religiosas acerca da existência de Deus com atributos morais e acerca
da imortalidade da alma ou da redenção do mundo, como não sendo passíveis
de demonstração nem de negação face à razão. Tais verdades só podem ser
afirmadas como plausível e provável à semelhança do que deriva da observação
da ordem fenomênica do mundo.

Desta forma, podemos concluir que a teoria de David Hume sobre a


crença em Deus se identifica com uma perspectiva teísta. Tal postura cética
coloca o ceticismo filosófico como condição para aceder à verdade religiosa.

Vê-se, portanto, que para Hume, mesmo aceitando a existência de Deus,


e considerando que ele seja o autor de tudo o que existe e da ordem do
Universo, a única afirmação categórica em concordância com a razão é que esse
mesmo Deus possui o grau de poder, inteligência e bondade manifesto em sua
obra, de modo que os demais atributos feitos devem ser relegados a meras
hipóteses não comprováveis.

Portanto, em sua busca pela compreensão do fenômeno religioso,


vemos que Hume alcançou um grande avanço face a teorias negacionistas. O
autor escocês, coerente com sua mente inquieta, encontrou algo do que a
religião chama ser a verdade, mesmo quando considera sem propósito crer eu
uma Divindade como algo totalmente compreensível e assimilável pela mente
humana, bem como apresentar o Ser supremo com sentimentos humanos,
como o da gratidão, do ódio e do amor, da amizade e do arrependimento.
Defende ele que essas ideias de um Deus antropomórfico são ilusórias, e que
tais aspectos da natureza humana não poderiam pertencer a uma Inteligência
Suprema. E conclui propondo que a divina natureza de tal ser é pertencente ao
mistério e, portanto, incompatível com os acidentes próprios da humanidade.

No final deste capítulo conhecemos um David Hume, sob um ponto de


vista deísta, defender a existência de um Ser supremo criador, mas não de um
ser redentor do mundo. Isso está muito claro em suas críticas ao
antropomorfismo e à noção de estado perfeito de uma possível vida futura, bem
como pela recusa de atribuir a Deus a bondade e misericórdia, virtudes
essencialmente humanas.
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

1.2. Kant

Kant, filósofo prussiano do século XVIII, muito inspirado por Hume,


deixou em sua obra vastíssimas considerações sobre Deus e a Religião, que nos
serão úteis em nosso presente estudo.

No estudo do fenômeno religioso é, antes de tudo, a relação do homem


com Deus. Kant considerou essa relação especialmente em sua condição
natural.

Como perfeito representante de uma época limítrofe entre o


pensamento teocêntrico da Idade Média e a nova era do pensamento moderno,
onde o homem tomaria o lugar de Deus, como centro e razão de todas as
coisas, Kant desenvolve sua teoria da religião (FARIA, 2017 p. 130).

Protestante de origem e aparentemente fiel aos dogmas de sua fé


original, Kant apresenta uma visão muito de acordo com sua época. Reforma o
modo de ver os dogmas de sua confissão religiosa e traz uma nova visão sobre
as escrituras, as quais apresenta como mero instrumento didático e sobre a
graça, com simples auxílio da razão.

Kant em sua obra critica a Igreja Católica e o papa, mas a leitura disso,
que poderia parecer um movimento natural da fé luterana, é na realidade uma
crítica aos dogmatismos religiosos em sua totalidade. Em suas críticas ressalva a
figura de Cristo, mas não como Deus; menciona o Espírito Santo, mas nada tem
a ver com a visão cristã da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

O centro de suas considerações, presente em sua pena é sempre o


homem e a pretensa razão universal do homem, as capacidades, os desejos e as
necessidade da humanidade. Aí está o centro, a origem e a meta de toda a visão
religiosa de Kant.

Não é uma negação atéia da existência de Deus que está ao descoberto,


Deus não é negado ao estilo ateu, isso é inaceitável para Kant. O que há é uma
nova busca e reconhecimento de Deus que pode ser encontrado dentro do
próprio homem (FARIA, 2017 p. 130).
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

Mas, para Kant, esse Deus, que existe fora do homem enquanto ser
pessoal, não é passível de ser compreendido pela razão humana. Portanto, para
o filósofo prussiano Deus não pode ser objeto de conhecimento ou especulação.
Pretender provar a existência de Deus é tarefa infértil (JOLIVET, 1995 p. 296).

Ao considerar o homem, Kant o considera, em seu aspecto religioso,


como sendo basicamente a vítima de um combate interno entre o princípio do
bem e o princípio do mal. Figura neutra nesse jogo, o homem não seria nem
mau, nem bom. São suas ações que indicariam que caminho tomar e o que se
tornar, um ser bom ou mau.

Para Kant o homem é predisposto ao bem e essa inclinação se dá em


três dimensões (JOLIVET, 1995 pp. 390-391):

1 – sendo um ser vivo, o homem tem uma enorme predisposição para a


animalidade;

2 – por ser um ser racional, tem o homem uma predisposição para a


humanidade;

3 – sendo racional e podendo prestar contas de seus atos, o homem tem


predisposição para a personalidade.

A inclinação à religião verdadeira, segundo Kant, está presente na


terceira predisposição. E esta propensão, ao contrário das duas outras
predisposições, poder ser adquirida e pode ser considerada em três níveis:

1 - a simples fragilidade na observância de máximas boas;

2 - a impureza, a mistura de boas e más motivações, ainda que na observância


de máximas boas;

3 - a perversidade, a propensão a adotar máximas más.


Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

Kant defende que nenhum homem é totalmente bom, mas há em todos


esta propensão, em algum grau. Sendo inclinado ao mal e tendendo a uma
dessas propensões que o impede de seguir fielmente as boas máximas por ele
adotadas, só através da graça que poderia aceder à Salvação. Portanto, para
Kant, é na fragilidade humana que entra a ação da graça divina que o conduz ao
Céu. Tal ação – eminentemente sobrenatural – não pode ser alcançada pela
razão, já sua existência pode ser deduzida.

Em sua teoria sobre a religião, Kant apresenta uma distinção entre a


“religião verdadeira” que, segundo ele, compreende apenas leis, ou seja,
princípios práticos de cuja necessidade incondicional podemos nos tornar
conscientes e que, a partir de então, reconhecemos como revelados através da
razão pura (não experimental), e a “ilusão religiosa”, que consiste em considerar
a observância de leis “estatutárias” – ou seja, que não podem ser descobertas
pela razão.

Para Kant, o caminho natural da religião verdadeira seria o da


progressiva purificação rumo a um Reino de Deus. Neste desejo de purificação,
aos poucos as leis estatutárias seriam deixadas progressivamente de lado, com
sua importância diminuindo cada vez mais até ser alcançado o reconhecimento
da necessidade única da moral, do chamado individual à plena cidadania de
cada um neste Reino de Deus.

Quem é esse Deus de Kant? Como já podemos compreender, para Kant


a ideia de um Deus está além da razão. Pela razão não se pode chegar a esse
conceito de divindade (JOLIVET, 1995, p. 302).

Pode-se, entretanto, conceber conceitos, de forma a que se possa


perceber o objetivo para o qual se dirige o chamado que todo homem tem à
cidadania nesse hipotético povo de deus.

Certamente influenciado por Hume, Kant apresenta o perigo de, nesse


percurso por compreender a Deus, o fazê-lo sentido antropomórfico. É aí que,
segundo Kant, incide-se na “ilusão religiosa”: quando Deus é visto à imagem e
semelhança do homem, como não mais que uma versão ampliada do homem.

Para Kant, Deus é o governante moral do mundo, que só pode ser


descoberto no interior do homem e no ato de se trabalhar em prol de um Bem
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

maior, inseparavelmente ligado à disposição puramente moral, que não pode


ser realizado pelo próprio homem (JOLIVET, 1995 p. 391).

Para Kant, a crença em um Deus só pode ser considerada válida se for


mediante a razão. Essa crença religiosa verdadeira afim com a razão prática
segue a lógica na qual se crê em Deus:

1 – como Criador onipotente do Céu e da terra, ou seja, como legislador santo;

2 – como Preservador da raça humana, seu benevolente Governante e Guardião


moral;

3 – como Administrador de Suas próprias leis santas, ou seja, como Juiz justo.

Ir além dessa tríplice atribuição, Legislativa (ponto 1), Executiva (ponto 2)


e Judiciária (ponto 3), é crer no mistério, e face à razão o mistério não subsiste.

Quanto ao pensamento filosófico-religioso de Kant podemos inferir que,


posicionado historicamente face a um grande dilema do pensamento ocidental
(o teocentrismo e o pensamento iluminista), Kant encontrou a solução na
despersonificação da Divindade. Deus não é mais Deus, não é mais um Deus
pessoal.

O Deus de Kant é a fonte do princípio moral, impresso no coração do


homem. Não se trata mais, portanto, de um Deus revelado; a revelação, em
Kant, não é revelação de um Deus pessoal, mas sim a descoberta da moral. O
homem passa a ser o foco das cogitações filosóficas e o centro de toda teologia
e, portanto, em Kant, realizou-se a máxima de Protágoras: o homem passou a
ser a medida de todas as coisas.
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

2. Teísmo, ateísmo e agnosticismo


No presente capítulo faremos uma necessária ponderação sobre as
definições de termos usados nessa unidade que podem causar confusões e cuja
precisão enriquece o debate acerca da filosofia da religião.

Na presente unidade temos passeado pelo universo riquíssimo das


cogitações das mentes de filósofos modernos acerca do fenômeno religioso. Vez
por outra nos deparamos com termos que causam ora estranheza ora
questionamento, mas que sempre suscitam dúvidas, as quais pretendemos
esclarecer.

2.1. Teísmo

A expressão “teísmo” (do grego théo, “Deus”) é uma crença na existência


de entidades divinas. O adepto do teísmo crê em Deus, na revelação e nos
dogmas.

O teísmo filosoficamente deriva diretamente do questionamento da


existência humana, sua origem e finalidade, cuja resposta é a crença na
existência de um ser consciente, onipotente, criador e pessoal.

A grande maioria dos teístas também compartilha a crença de que Deus


não somente pode intervir diretamente (e, usualmente, de forma sobrenatural)
nos eventos da existência humana, como também pode transmitir revelações e
segredos cósmicos através de profetas, sonhos e experiências religiosas em
geral.

É preciso não confundir o teísmo com o conceito de religião, pois não se


trata de um sistema de normas, regras, leis, costumes e rituais, bem como não
possui sacerdotes e não corresponde a uma dada instituição.

Teísmo é o termo usado para indicar uma corrente de pensamento


filosófico-religioso que concebe a existência de um ou mais deuses. Algumas
religiões são teístas, outras são deístas, panteístas, etc.

2.2 Ateísmo
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

O termo ateísmo tem sua origem no grego “a” (negação) e “théo” (deus) e
define uma posição que prega a não-existência e não-interferência de nenhum
deus ou deuses na cultura e na vida da humanidade.

Para ateus, não há nenhuma lógica ou validade em atos de fé e


religiosidade ou crença em vida após a morte e, portanto, não há consequência
moral dos atos humanos sob o prisma religioso. Segundo os ateus, as religiões
são fruto do erro da racionalidade humana ou do oportunismo filosófico,
econômico e político.

2.3 Agnosticismo

Esta palavra de origem grega, “a” (negação) e “gnósis” (conhecimento,


saber) é muito usada e explorada em nossos dias. A própria origem semântica
de sua definição apresenta a proposição que traz consigo: não é possível saber,
conhecer algo sobre a existência de Deus.

De acordo com a filosofia agnóstica, o ser humano é muito limitado para


compreender por meio de sua racionalidade de alcance ínfima a existência ou
não de um deus, de vários deuses ou de entidades superiores a nós. Assim, o
agnóstico prefere abster-se da discussão teológica (JOLIVET, 1995 p. 292).

Dessa definição se compreende que muitos dos que se auto-definem


como “ateus”, o são na realidade “agnósticos”.

O agnóstico é quem defende que a questão da existência ou não de um


ser supremo não foi nem nunca será resolvida.

Como dissemos, é comum vermos o uso equivocado do termo


“agnóstico”, no sentido de um meio-termo entre teísmo e ateísmo.

Isso é estritamente incorreto, pois teísmo e ateísmo separam aqueles


que acreditam num Deus daqueles que não acreditam. O agnosticismo por sua
vez define aqueles que acreditam que a razão não pode penetrar a esfera do
sobrenatural.

No agnosticismo, admite-se que a questão acerca da natureza exata da


causa primeira original de todas coisas não pode ser resolvida com base no
conhecimento atual da humanidade, dilema o qual talvez nunca venha a ser
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

efetivamente solucionado. Geralmente isso significa apenas que os agnósticos


se posicionam com ceticismo em relação à existência de Deus: não podem
afirmar que existe, nem tampouco que não existe.

3. Filósofos e a religião

Vimos que a questão da fé, longe de ser ponto pacífico ao longo dos
séculos, é algo profundamente polêmico. Ao longo do período que sucedeu à
Idade Média, a humanidade conheceu um crescente movimento de
questionamento e a própria crença em um Deus, teoria que antes era sólida
certeza moral, passa a ser questionada.

3.1 O ateísmo de Nietzsche

Como vimos, mesmo na negação do comumente aceito, muitas mentes


geniais engendraram teorias novas para responder a velhas perguntas.

Em nossa viagem, chegamos ao século XIX e em seu tumultuar de


acontecimentos, ideias e descobertas, período no qual a religião e a questão da
fé continuaram a ter papel preponderante.

Nesse percurso encontramos talvez o mais categórico crítico das


religiões entre os filósofos modernos, que foi o filósofo prussiano Friedrich
Wilhelm Nietzsche.

Não é fácil falar de religião em Nietzsche, filósofo famosamente


conhecido por anunciar a "morte de Deus", pois seu ateísmo e suas severas
críticas às religiões dogmáticas o fazem ser considerado como ateu e inimigo de
qualquer tipo de religião (FARIA, 2017 p. 20).

Todo aquele que se interrogar pela concepção de Friedrich Nietzsche


acerca do cristianismo e das religiões em geral deve fazer uma pausa e,
elevando a vista a um patamar superior, deve deitar a atenção no contexto em
que nasceu e viveu.
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

Nascido na Prússia, apesar de ser considerado um filósofo alemão,


Nietzsche veio ao mundo num século conturbado e de grandes transformações.
O ambiente em que cresceu vivia ainda os desdobramentos da Revolução
Francesa, evento histórico que marcaria a história da humanidade para sempre
e deixaria rastros, vestígios e traumas profundos em todo o Ocidente.

O universo germânico em que vivia sofreu essas influências e produziu


outras tantas mudanças viscerais.

A nota dominante à época era a mudança de página, a negação a tudo o


que fosse o passado, tanto no campo político, metafísico e religioso.

Nietzsche não fugiu à regra, bem ao contrário, sua mente brilhante se


moldou a seu tempo e buscou resposta na mesma linha de negação que sua
época o impelia.

Imaginemos um jovem que desde menino queria ser pastor, que na


primeira juventude entra para a faculdade para estudar teologia, que o conduz
ao estudo da filosofia. Os seus primeiros passos indicam os rumos de seu
pensamento e, mesmo quando já definidos os pilares de seu ateísmo, Nietzsche
nunca deixou de lado o dilema entre fé e razão.

Nietzsche quis apresentar a maior constatação de seu século: a morte de


Deus e o descrédito do Deus cristão (FARIA, 2017 p. 139). O Deus cristão que
outrora era o centro de tudo que agora parecia perder seu espaço. O Deus que
era a base dos valores da velha Europa, parece não mais se sustentar e,
consequentemente, sua crença perde o valor e abre o caminho para o ateísmo.

Deus era até então o valor absoluto e inegável, regente do mundo e


fundamento de todas as leis. Mas agora estaria morto. O ser mais forte e mais
sagrado que o mundo até então possuíra sangrou totalmente sob os punhais
desses homens das luzes. Quem os limpará deste sangue?

O dilema de matar alguém que supostamente nunca existiu, deixou o


legado do vazio existencial do século XIX. Com a morte de Deus o homem foi
condenado a vagar num vazio de sentido.

Essa é a herança de Nietzsche para os séculos futuros: o niilismo.


Embora não seja um termo cunhado por Nietzsche, ele faz uma reinterpretação
e dá um sentido mais profundo diante do cenário em que se produz sua teoria.
Foi em Nietzsche que o termo niilismo se torna objeto de reflexão filosófica.
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

A filosofia da Religião, ao estudar o legado de Nietzsche, constata que,


para essa nova visão sobre o fenômeno religioso, a religião, que já vinha sendo
considerada um amuleto ou um caminho para uma ascensão social, agora se
apresenta apenas como um caminho para que pessoas tidas como pobres em
espírito consigam superar seus sofrimentos (FARIA, 2017 p. 139).

3.2 Kirkegaard: a experiência religiosa


Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

Ao contrário do que se possa imaginar, nem todos os filósofos


modernos basearam suas teorias na dúvida e na negação.

A história conheceu Soren Aabye Kierkegaard, nascido em 1813, em


Copenhague.

Kierkegaard é considerado o primeiro existencialista (FARIA, 2017 p.


132). Estudou teologia e filosofia na Universidade de Copenhague. Seu
pensamento é marcado pelo subjetivismo, pela ênfase à experiência pessoal.
Fez análises profundas sobre os sentimentos humanos, como o amor, o medo, a
angústia e a falta de sentido da existência.

Kierkegaard vivenciou a experiência religiosa, assim como muitos dos


filósofos seus contemporâneos. Seu pensamento é desenvolvido a partir do seu
íntimo. Uma escolha consciente, baseada no pensar por si próprio.

Apesar disso, Kierkegaard não ficou alheio a seu século e experimentou


os valores da tradição ao mesmo tempo que a “moda” filosófica de seu tempo.
Mas foi sobretudo em sua existência pessoal que Kierkegaard encontrou os
elementos fundamentais para a elaboração de seu pensamento.

Em meio a uma vida repleta de perturbações, o resultado de sua filosofia


é uma novidade, muito mais de acordo com suas próprias experiências do que
com outros sistemas anteriores há seu tempo. Das influências que recebe, parte
de um conceito amplamente utilizado por Sócrates, o conceito de ironia.

Kierkegaard baseia seu pensamento em sua cultura incomum e nos


profundos complexos sentimentais (FARIA, 2017 p. 132). Tendo a si mesmo e
seus problemas como campo de análise, ele quer encontrar uma explicação
para a sua existência. Não se satisfez em analisar o conteúdo da consciência
para se desenvolver uma filosofia da existência. Defendia ele que era preciso
cunhar o arcabouço de ideias acerca dessa temática, e estabelecer uma dialética
entre essas ideias. Foi na cogitação dessa dialética que ele considerou os
estágios da existência: estágio estético, estágio moral e estágio religioso.

Na busca por definir e desenvolver os aspectos mais profundos desses


três estágios da experiência humana, Kierkegaard, mais precisamente na análise
do estágio religioso, aprofunda-se na questão da fé e da religião.
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

Assim, para Kierkegaard o importante era compreender-se a si mesmo, o


que equivaleria a perceber o que Deus realmente quer que se faça, sendo
fundamental encontrar a verdade que seja verdadeira em si mesmo, encontrar a
ideia em prol da qual se possa viver e morrer.

Em 1848, Kierkegaard passou pela experiência de sua própria conversão.


Aos poucos foi delineando sua filosofia através da qual propôs que a
subjetividade isolada é má, assim como o também é a objetividade de Hegel.
Assim, para ele, a única salvação era a subjetividade.

Para Kierkegaard Deus é como que uma subjetividade infinita e


inspiradora. E em meio e em decorrência das críticas, cada vez mais crescente
ao Cristianismo histórico, o filósofo defendia que os resultados dos eventos
históricos eram incertos, sendo o mais importante a escolha subjetiva.

A crença em Deus era um salto de fé, um comprometimento com o


absurdo, que leva alguém a fazer uma escolha por algo que significa tanto para
si que chega a arriscar a própria vida.

No século das dúvidas, dos descréditos, das incertezas, da “morte de


Deus”, Kierkegaard propunha uma fé que não precisa de provas para aquele
que crê e vive essa mesma fé. Sua filosofia afirma que a fé é inviável quando há
provas e certezas.

3.3 Weber: a coletividade religiosa

Ainda no contexto histórico-social do século XIX, nos encontramos diante


de mais mudanças tão profundas que deixaram marcas inclusive na crença
religiosa da época. A revolução industrial trouxe transformações marcantes que
mudaram em muito o modo como o homem ocidental via o mundo.

Assim, a temática religiosa e o fenômeno religioso expandiram sua


penetração e passaram a ser estudados por diversos teóricos de áreas outrora
distante de temas religiosos, tais como a psicologia e a sociologia nascentes.

Dentre os expoentes pensadores do final do século XIX, destaca-se


Maximilian Karl Emil Weber, nascido em Erfurt, Alemanha, em 1864. Mais
conhecido como Max Weber, foi um intelectual, jurista e economista alemão
considerado um dos fundadores da Sociologia.
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

No campo da sociologia aplicada à religião, Weber concentrou a sua


atenção nas religiões que atraíram um grande número de fiéis e que
influenciaram o curso da história. O foco de suas teses foi quanto à relação
entre a religião e as mudanças sociais. Weber defendia que os movimentos
inspirados na religião tinham potência para produzir grandes transformações
sociais.

Weber conhecia a história das religiões e seu papel crucial na origem das
sociedades humanas. Sabia ele que o homem sempre esteve em busca de um
sentido e significado para sua existência. A humanidade está em busca não
apenas de um apoio emocional, mas da certeza moral e cognitiva para enfrentar
os dilemas de sofrimento e da morte. A sociologia de Weber considerava em sua
pesquisa que a humanidade sempre buscou na religião e em suas
manifestações os sinais de transcendência e de esperança.

Assim, Weber preocupou-se em destacar a integração racional dos


sistemas religiosos como resposta aos problemas básicos da condição humana,
tais como a contingência, a impotência, a escassez, etc.

Weber pretendia que as religiões, como fonte de respostas a tais


questionamentos e incertezas – respostas que se tornavam integrantes da
cultura e das estruturas institucionais da sociedade –, tinham uma influência
profunda e de maneira íntima em todas as atividades da existência humana.
Para Weber, a religião oferecia uma resposta final ao problema humano do
sentido e significação existencial.

Deste modo, segundo Weber, religião é uma das fontes produtoras de


mudanças sociais. Nesse contexto, os dogmas religiosos e sua respectiva
interpretação compõem essa visão do mundo. Para o pensamento weberiano é
preciso compreender tal fenômeno para compreender a conduta dos indivíduos
e dos grupos sociais.

4. O papel da ciência no universo filosófico e


religioso sobre Deus
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

O fenômeno religioso apresentado como forma do homem se relacionar


com Deus e com os demais em função de Deus sempre encontrou críticas de
toda ordem. A principal e mais ardilosa é a de que toda teoria religiosa é inimiga
da ciência. Assim, é comum o discurso fundamentado na ideia de que, se a fé se
localiza no âmbito da “doxa” (opinião), a ciência se fundamenta na “episteme”
(conhecimento).
Como as ciências avançam sobre dados seguros e empíricos, verificados
pela experiência, foram surgindo pensadores ao longo da história convencidos
de que, sempre que a ciência “desvendava” um mistério, a religião recuava um
passo no terreno da mente e nos corações humanos.
O conhecimento científico é uma conquista recente da humanidade.
Seria, entretanto, equivocado crer que antes do século XVI não havia nenhum
rigor na investigação dos fenômenos. A defesa dessa tese corresponderia a um
equívoco primário, facilmente refutado apenas com a remissão aos
conhecimentos históricos sobre a filosofia grega, filha da mitologia e neta do
senso comum.
Durante séculos a Filosofia e a Ciência andavam de braços dados (FARIA,
2017 p. 32). Foi na modernidade que o divórcio se operou, buscando cada um
seu objeto, por meio de seu método próprio. Dessa forma, nasce a ciência
moderna, delimitando objeto e criando método.
A filosofia grega clássica cogitou a religião em sua plenitude, onde Deus
era considerado como o regente do cosmos, o mantendo em seu ritmo
originário.
Copérnico operou uma revolução, o que significou também o início do
pensamento subjetivo. O homem agora questiona o acesso ao real e fala de
realidade a partir da subjetividade, apoiando-se apenas na razão e na
experiência.
No decorrer da história, sobretudo em função do Iluminismo, surgiram
teóricos que consideram a religião como consciência falsa, ideologia,
superstição e que almejam, pela razão e natureza, transformar a consciência
humana a partir, sobretudo, do domínio tecnológico sobre as forças da
natureza. A alienação era identificada com a falta de conhecimento científico e
com argumento metafísico.
Entretanto, antes do surgimento dessa pseudo-dicotomia, a relação
ciência-religião nem sempre foi vista com preconceito.
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

Durante milênios a religião foi tema da filosofia como qualquer outro


objeto de estudo. Por essa razão, todos os grandes filósofos trataram dela de
uma maneira ou de outra.
Portanto, longe de se crer antípodas, religião e ciência, fé e razão, devem
andar de braços dados, devem percorrer o mesmo caminho, trocar as próprias
experiências. Uma pela sua profundidade (a ciência) e outra pela sua vastidão
de horizontes (a religião). Isso porque a razão é insuficiente para conhecer as
verdades éticas ou religiosas, e não chega a Deus. É o coração que alcança o
conhecimento de Deus.
A experiência filosófica postula que a ciência, apesar dos seus progressos,
não será capaz de explicar tudo (FARIA, 2017 p. 40). Cada vez ganhará mais
terreno no campo daquilo que hoje parece inexplicável. Mas os limites do
conhecimento, por muito longe que cheguem, terão sempre diante de si um
infinito universo de mistério, onde a fé caminha sem temores, nem tropeços.
Uma poderá sempre penetrar no campo da outra, sem nunca a desrespeitar. A
ciência não dá garantias ou sugestiona a fé, assim como à fé não convém pôr
empecilhos à ciência.
A ciência se ocupa das coisas visíveis, a fé, das invisíveis. Ambas devem
permanecer em seus limites. A ciência explicando como o mundo e as coisas são
feitas e a religião, porque se está neste mundo, como se deve estar nesse
mundo, de onde viemos e para onde vamos.

Síntese
Quão misteriosas são as cogitações do espírito humano e quão
maravilhosas são suas conclusões, tão mais extraordinárias quando participam
da necessária humildade face ao mistério.

Nesta Unidade pudemos percorrer caminhos os quais, ainda que não


tão profundamente explorados, nos deram uma visão incrível sobre o esforço
do homem em buscar a verdade, em procurar responder às dúvidas de seu
espírito e de sua época.

Tais mentes ao manifestarem à história suas inquietações e suas


versões, contribuíram de modo extraordinário para a elucidação da verdade.
Mais pelo esforço do caminho do que pelo objetivo alcançado.
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

Muitas vezes, mesmo a teoria equivocada, posteriormente eficazmente


refutada, teve um papel incrível, pois talvez sem sua explicitação, nunca
teríamos chegado à resposta. Com efeito, uma boa pergunta é meio caminho
andado para a resposta. Nós todos buscamos respostas, mas muitas vezes não
sabemos nem como perguntar.

Em resumo, nesta Unidade:

Conhecemos um pouco do intrigante Hume, que afirma que não existem


ideias inatas, mas essas dependem das sensações;
Vimos o pensamento do genial Kant, para quem é na fragilidade humana que
entra a ação da graça divina que o conduz ao Céu;
Reforçamos as diferenças entre teísmo (crença na existência de entidades
divinas), ateísmo (não-existência e não-interferência de nenhum deus ou
deuses na cultura e na vida da humanidade) e agnosticismo (defesa de que a
questão da existência ou não de um ser supremo não foi nem nunca será
resolvida);
Abordamos a visão do inquieto Nietzsche acerca da religião e sua denúncia
da morte de Deus;
Compreendemos as ideias do misterioso Kierkegaard, para quem o
importante era compreender-se a si mesmo, o que equivaleria a perceber o
que Deus realmente quer que se faça;
Nos debruçamos sobre o magistral Weber e suas teorias sobre a religião,
sendo que preocupou-se em destacar a integração racional dos sistemas
religiosos como resposta aos problemas básicos da condição humana;
Vimos a importância da ciência para a contínua busca da verdade religiosa e
metafísica.

O caminhar da humanidade em busca de respostas, tem sido muito


sinuoso. Ainda que longe de demonstrar uma cabal teoria sobre a origem do
mundo, da religião, etc., cada passo que o homem deu, registrado nas penas de
mentes magistrais, são um caminho riquíssimo, se não para a posse da verdade,
ao menos para comprovar a teoria latente no coração humano, de que há algo
do lado de lá.
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

Bibliografia
Filosofia da Religião - Unidade 3 - Filosofia e Fé

BATAILLE, Georges. Teoria da religião. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.


(acervo eletrônico)

FARIA, Adriano A. Filosofia da religião. Curitiba: InterSaberes, 2017. (acervo


eletrônico)

JOLIVET, R. Curso de Filosofia. São Paulo: Agir, 1995.


Filosofia da Religião - Unidade Nº 4 - Religião e Mundo Moderno

Filosofia da
Religião

Unidade Nº 4 - Religião e Mundo


Moderno

Luis Henrique Lodi Zaghi


Filosofia da Religião - Unidade Nº 4 - Religião e Mundo Moderno
Filosofia da Religião - Unidade Nº 4 - Religião e Mundo Moderno

Introdução
Reconciliação é uma palavra cada vez mais em voga em nossos dias. Quando
se fala em modernidade, parece que sempre este termo é a anteposição do antigo,
a negação do ultrapassado, o antídoto para o mofo das ideias e dos costumes que
hoje se quer substituir pelo novo.

Mas, também, por outro lado, o sentimento de saturação face ao exagerado


acesso a tudo e à torrente de informação - que nem sempre são qualidade - dá a
sensação de que é preciso uma retomada, um voltar ao ponto de partida. E o sentido
da reconciliação do que somos com o que fomos, no sentido de ligação com quem
nos precedeu, é cada vez mais forte e mais necessário.

Só se pode reconciliar o que em algum momento se separou, se desvinculou. Não


se pode negar que o suceder dos séculos, especialmente após o fim da Idade Média,
e a partir do Renascimento iniciou um processo de divórcio entre a fé e a razão.
Desde o século XIX, e especialmente o século passado, constituiu-se como a época
das mentes esclarecidas em contraposição ao mundo que ficara para trás, onde
crenças em realidades fabulosas tinham moldado a mentalidade do homem do
passado.

Veremos a seguir que, paradoxalmente, a fé aparentemente apagada; que a


crença em um Deus, pretensamente morto; ainda latejavam e sussurravam no fundo
da mente humana, indicando respostas que as certezas do pragmatismo
contemporâneo pareciam desconhecer.

Nos capítulos a seguir trataremos sobre a possível reconciliação entre fé e razão;


trataremos sobre a diferença entre religião e seita e suas peculiaridades;
discorremos sobre a relação entre religião e religiosidade no contexto do mundo
moderno; e, por fim, estudaremos sobre como a superficialidade na fé pode
engendrar superstições que busca atender ao anseio de espiritualidade do homem
moderno.

Bons estudos!
Filosofia da Religião - Unidade Nº 4 - Religião e Mundo Moderno

1. Fé e razão: compatibilidades
Crer em uma realidade sobrenatural e ao mesmo tempo buscar basear essa
crença em princípios racionais parece loucura ou, ao menos, equívoco do
entendimento humano, em nossa época de pragmatismo e ceticismo.

A ciência teria vindo para preencher o vazio de certezas do homem. Houve


épocas em que o homem cogitava existir a partir da fé ou, ao menos, centralizava-se
na filosofia para alcançar a resposta para suas inquietações. Vimos, no final da
Unidade 3, como Tomás de Aquino apresentava sua teoria racional apresentada
como provas da existência de Deus.

Com efeito, no debate do universo da Filosofia da Religião é imprescindível


incluir um conceito fundamental: a razão (FARIAS, 2017 p. 116).

Quando a filosofia passou a ter forma no ideário humano, a religião era uma
realidade que impregnava toda a sociedade e indicava rumos e modos de ser. Os
primeiros pensadores da filosofia desenvolviam seus arcabouços teóricos tendo a
religião como conceito sempre presente. A razão surgiu nesse ambiente em que a
crença, a fé, tinha total cidadania.

Quando os questionamentos sobre a origem do mundo, da realidade do


mundo e das coisas eram postos em relevo, a ideia da existência de Deus era
inevitável:

Deus existe, ou existiríamos apenas nós, perdidos neste imenso universo? O mundo
é um cosmo ou um caos? A história humana tem sentido? E se tem, qual é? Ou, então,
tudo – a glória e a miséria, as grandes conquistas e os sofrimentos inocentes, vítimas
e carnífices – tudo acabará no absurdo, desprovido de qualquer sentido? E o homem:
é livre e responsável ou é um simples fragmento insignificante do universo,
determinado em suas ações por rígidas leis naturais? A ciência pode nos dar certezas?
O que é a verdade? Quais são as relações entre razão científica e fé religiosa? Quando
podemos dizer que um Estado é democrático? E quais são os fundamentos da
democracia? É possível obter uma justificação racional dos valores mais elevados? E
quando é que somos racionais?

Com esses questionamentos que Reale e Antiseri (2005 apud Faria, 2107 p.
116) iniciaram o preâmbulo de seus estudos sobre a história da filosofia.

Haveria alguma compatibilidade entre Fé e Razão? Entre ciência e


religiosidade?
Filosofia da Religião - Unidade Nº 4 - Religião e Mundo Moderno

Para ilustrar a presente temática lembremo-nos da secular polêmica, que


poderíamos chamar de o “velho realejo”, acerca da figura emblemática que é tão
explorada hoje em dia quando se quer apresentar a pseudo-dicotomia entre Fé e
Razão: Galileu Galilei.

No ano de 2008, surgiu nas páginas dos principais jornais do mundo os


relatos da infeliz e desastrosa polêmica, suscitada pela oposição de alguns
professores e alunos à presença de SS. Bento XVI na abertura do ano acadêmico da
Universidade La Sapienza de Roma.

“Este é um evento incongruente” e não de acordo com a laicidade da ciência,


afirmavam os signatários de uma carta endereçada ao reitor Renato Guarini.

Fiéis à postura sectária de alguns que se auto-intitulavam “defensores da


razão”, diversos estudantes, no dia 15 de janeiro de 2008, tomaram a reitoria da La
Sapienza e brandindo bandeiras e cartazes não pouparam ofensas ao Papa Bento
XVI e à Igreja Católica. “O Papa é contra a Universidade”, “Semana anticlerical”, “nós
resistiremos contra o papado”, “Papa, talvez não tenhas compreendido: não te
queremos aqui” e ainda “o corpo vivo do saber, contra o peso morto da fé”.

Um pouco de história: a Universidade La Sapienza fora fundada por um Papa,


Bonifácio VIII, em 20 de abril de 1303, por meio da Bula “In Supraemae Praeminentia
Dignitatis o Studium Urbis” em plena Idade Média. E em 2008, o sucessor de Bonifácio
VIII não fora “autorizado” a dirigir a palavra à comunidade acadêmica.

Bento XVI cancelou sua visita. Nos dias subsequentes, uma grande polêmica
acendeu toda a Itália e mundo católico em geral. Diversos governantes e
personalidades italianas manifestaram-se indignados pelo posicionamento dos 67
professores e de dezenas de alunos.

O pretexto apresentado para a recusa à presença pontifícia em La Sapienza


estava expresso no conteúdo da carta-protesto:

Magnífico Reitor, com estas poucas linhas desejamos levar ao seu conhecimento o
fato de que somos inteiramente de acordo com o conteúdo da carta de crítica que o
colega Marcelo Cini dirigiu-lhe sobre a notícia a propósito da desconcertante iniciativa
que precede à intervenção do Papa Bento XVI por ocasião da inauguração do Ano
Acadêmico na La Sapienza. Não temos nada a acrescentar aos argumentos de Cini,
exceto um pequeno detalhe. Em 15 de março de 1990, ainda cardeal, em um discurso
na cidade de Parma, Joseph Ratzinger repetindo a afirmação de Feyrabend disse: “à
época de Galileu, a Igreja permaneceu muito mais fiel à razão que o próprio Galileu.
Filosofia da Religião - Unidade Nº 4 - Religião e Mundo Moderno

O processo contra Galileu foi razoável e justo”. Estas são palavras que, na qualidade
de cientistas fiéis à razão e em nome da laicidade da ciência e da cultura, e no respeito
deste nosso Ateneu, aberto a docentes e estudantes de todos os credos e de todas
as ideologias, desejamos que o incongruente evento possa ainda ser anulado” (La
Stampa, 2008).

Ao observar-se com mais atenção a bandeira utilizada pelos paladinos da


razão, vê-se que é ainda o antigo realejo do processo de Galileu.

Régine Pernoud, ilustre historiadora francesa do século XX, diretora dos


Archives Nacionales de France, representou bem em uma de suas obras, o equívoco
histórico acerca da temática em torno de Galileu. Certa vez pediu a uma de suas
assistentes de consultar um texto do século XIII em que se explica a forma
arredondada da Terra. “Meu Deus! - exclamou a assistente, surpreendida - sempre
me disseram que ‘Galileu tinha sido queimado vivo, na Idade Média, por dizer que a
terra era redonda’”.

Pernoud explicou-lhe que havia três erros históricos nesta afirmação: não
tinha sido Galileu quem descobrira que a Terra era redonda; Galileu nunca fora
queimado em nenhuma fogueira, mas apenas aprisionado; e enfim, isso tudo não se
passara na Idade Média. Infelizmente, esta assistente da famosa historiadora não foi
a única a cometer equívocos sobre esta história “mal contada”.

Galileu Galilei nascido em Pisa em 1564, após uma fracassada tentativa de


entrada na vida religiosa, dedicou-se por desejo de seu pai, ao estudo da medicina.
Também esta carreira foi abandonada, dando preferência a sua apetência pela
matemática, primeiro em Pisa e depois a partir da prestigiosa Universidade de Pádua,
Galileu passou a ser conhecido em toda Itália.

Data de 1595, o primeiro indício de seu interesse pela astronomia, ano em


que elaborou uma explicação mecânica do fenômeno das marés. Defensor do
geocentrismo, Galileu adere posteriormente às teorias heliocêntricas de Copérnico.

O sistema heliocêntrico não era novidade. Já no século III a.C, Aristarco de


Samos, o “Copérnico da Antiguidade”, como foi chamado, havia colocado o sol imóvel
no centro do universo. Mas foi realmente Copérnico quem fez a grande virada da
astronomia, que reintroduziu o sistema heliocêntrico, numa versão muito parecida à
de Aristarco de Samos. A sua principal obra foi De revolutionibus oribium coelestium,
publicado no ano de sua morte 1543).
Filosofia da Religião - Unidade Nº 4 - Religião e Mundo Moderno

O novo sistema foi utilizado pela própria Igreja Católica para reformar o seu
calendário litúrgico, permitindo-lhe prever com exatidão para cada ano a data da
Páscoa. O cálculo de Copérnico permitia corrigir os erros simplificando
enormemente todos os cálculos de Ptolomeu, entre outras vantagens.

Não é nossa pretensão aprofundar o tema relativo ao processo de Galileu,


por esse motivo passaremos brevemente sobre este assunto, como referencial de
análise para a temática fé e razão.

incrível que possa parecer aos olhos dos “cientistas” modernos, Galileu sempre teve
apoio dos eclesiásticos de seu tempo, seus amigos e discípulos, inclusive cardeais, e
papas, apesar de suas polêmicas e ousadas interpretações da Sagrada Escritura.
Igreja sempre deu liberdade a Galileu para continuar com suas pesquisas, no
entanto, o que preocupava era o fato de Galileu se adentrar cada vez mais no terreno
exegético-escriturístico, forçando uma decisão urgente do Santo Ofício.

Apesar de todas as advertências de que deixasse em paz o lado teológico da


questão e recorresse apenas às ciências naturais para demonstrar o novo sistema,
Galileu quis compor um trabalho sobre as relações entre a teologia e as ciências
naturais, com base nas suas interpretações peculiares da Bíblia. O Cardeal Roberto
Belarmino, futuramente canonizado, havia recomendado que Galileu não
apresentasse o sistema heliocêntrico como verdade definitiva e não forçasse novas
interpretações da Sagrada Escritura, enquanto não houvesse provas demonstrativas
do novo sistema. Nada, entretanto, o impedia que o defendesse como hipótese
científica. A verdade é que Galileu não disponha destas provas. O único argumento
que apresentava baseava-se na explicação do fluxo e refluxo das marés, o que, a
bem da verdade, é uma prova falsa do ponto de vista científico, já que esse fenômeno
se deve à atração da lua e não do movimento da terra.

Neste período morre o Papa e é eleito Pontífice o Cardeal Maffeo Barberini,


seu amigo pessoal, com o nome de Urbano VIII. Após diversos encontros com o novo
Papa, Galileu se anima e tenta voltar à baila as suas teses. O Papa lhe dá apoio, mas
o aconselha, no entanto, a não entrar em conflito com o Santo Ofício e a tratar o
sistema de Copérnico como hipótese. O gênio escreve o livro Diálogo sobre os dois
grandes sistemas do universo. Depois de diversos vais-e-vens, o livro é examinado e
aprovado, com pequenas modificações, as quais Galileu não executa, o que impede
de obter o imprimatur em Roma. Para burlar a inquisição, Galileu vai a Florença onde
consegue a autorização e publica sua obra. Quando a notícia da publicação do livro,
Filosofia da Religião - Unidade Nº 4 - Religião e Mundo Moderno

sem as devidas modificações pedidas, chega a Roma, o caso estoura e o resultado


adverso não se fez esperar. Urbano VIII, tendo em conta a desobediência formal,
passou o assunto à Inquisição.

Galileu é chamado a Roma para julgamento e foi submetido a quatro


interrogatórios, sendo que no último deles em 21 de junho de 1633, quando lhe
perguntavam solenemente se defendia o sistema copernicano, respondeu
negativamente.

No dia seguinte publicou-se a sentença: Galileu foi condenado a três anos de


prisão e à recitação semanal dos sete salmos penitenciais. O Papa comutou a
sentença no mesmo dia e Galileu não foi para a prisão, mas para o palácio do
embaixador de Florença; depois passou a viver em Siena, na casa do arcebispo
Piccolonini, seu discípulo e admirador. Finalmente, a pena foi reduzida e foi-lhe
permitido voltar a Florença em 10 de dezembro de 1633, cinco meses e oito dias
depois da condenação. Em 8 de janeiro de 1642, assistido, como bom cristão, Galileu
falece.

Esses fatos demonstram que a busca pelo divórcio entre a Fé e Razão é mais
recente do que imaginamos. Os primeiros filósofos desejavam basear suas
descobertas filosóficas nas raízes da mitologia. Na Idade Média, uma das principais
características da escolástica fora a busca pela reconciliação entre Fé e Razão. Com
a advento da Renascença e os descobrimentos científicos passou a acreditar-se ser
possível propor a separação epistemológica entre o conhecimento científico e a
experiência mítico-religiosa.

Misteriosa relação existe entre a crença em realidades abstratas e a busca


contínua e racional do ser humano pela verdade. Este mistério parece tomar um
vulto ainda maior quando a ciência se volta para o estudo do órgão “sede da razão”:
o cérebro.

1.1. Cérebro humano e razão

O cérebro é centro da razão humana. E tal a importância desse órgão para a


compreensão relação entre fé e razão que, mesmo na linguagem bíblica cristã, o
vocábulo “coração” é muitas vezes apresentado como sendo o cérebro humano.
Vejamos alguns exemplos:

- “Jesus, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: ‘Por que pensais o mal em vossos


corações?’” (Mt 9, 4).
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- “O Senhor viu que a maldade do homem era grande sobre a terra, e que era
continuamente mau todo pensamento de seu coração” (Gen 6, 5).

As neurociências, na busca de desvendar, ainda que na medida do possível,


este magnífico universo chamado cérebro humano, vêm realizando desde meados
do século XX inúmeras experiências, tendo como fruto, surpreendentes descobertas.

Ken Wilber, um dos modernos cientistas que têm procurado integrar ciência
e religião, afirma que os antigos místicos da religião, como São Boaventura e Hugo
de São Vitor, afirmavam que todo ser humano possui três tipos básicos de
conhecimento: o olho da carne, o olho da mente e o olho da contemplação – o olho
da carne seria o empirismo da ciência; o da mente, o conhecimento racional e lógico;
e o olho da contemplação, o olho do conhecimento espiritual.

A ciência sempre negou a existência do conhecimento do espírito ou de qualquer


tipo de inteligência que transcenda o domínio material, apresentando os fatos
unicamente pelos sentidos (olhos da carne). Aí está o erro da máxima que prega que
a espiritualidade começa quando a ciência termina, pois na realidade, uma completa
a outra na procura da verdade.

1.2. Fé e razão: duas asas do espírito humano

Em sua encíclica Fides et Ratio (Fé e Razão), João Paulo II afirmava que a fé e a
razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva
para a contemplação da verdade. O texto católico afirma que foi Deus quem colocou
no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O
conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, pudesse chegar também à
verdade plena sobre si próprio (JOÃO PAULO II, Fides et Ratio, 1998).

Quando a busca pelo preenchimento do vazio existencial, tão característica


em nosso mundo atual, encontra um modus vivendi, uma maneira de relacionar-se
com as certezas científicas, de modo a compreender seu papel fundamental na vida
humana, dá-se a tranquilidade da ordem, definida por Santo Agostinho, como “paz”.

Assim, as compatibilidades entre Fé e Razão residem na clara compreensão


dos seus respectivos campos conceituais. A fé não é contrária à evidência, a evidência
não esgota o objeto da fé.

A razão uma vez alcançada abre novas portas para o conhecimento e


tranquiliza o espírito pela posse a evidência. Por sua vez, a Fé, crença no invisível, no
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sobrenatural, num ser criador, em uma força ordenadora, obtém sua satisfação na
humildade face ao mistério e na fidelidade a um princípio superior que se manifesta
misticamente no interior do crente e simbolicamente em formas, regras, estilos de
vida, fórmulas e formas que satisfazem a sede humana pelo infinito.

2. Religiões e seitas
Quando falamos de fé, logo enquadramos tal fenômeno em um modelo
definido de manifestação; uma espécie de prateleira onde encontramos logicamente
o que queremos entender conceitualmente.

“Qual a sua fé?” “Eu professo a fé...”.

E nesse sentido nos habituamos a entender a fé como ela realmente é vivida


em sociedade. A religião, como fenômeno social, é também compreendida como a
manifestação de cada indivíduo, mas realizada socialmente. O conceito de Religião
vem sempre relacionado ao termo latino “religare”.

A fé quando compreendida como Religião pressupõe um modelo; um formato


específico. Essa forma de ser religioso, de manifestar-se religioso, de pertencer a
uma religião é o modo como entendemos nossa relação com o divino e como
queremos ser compreendidos socialmente.

O ser humano, movido por seu instinto de sociabilidade, por seu carácter gregário,
busca aceitação social e mais que isso, aceita-se e encontra-se como ser individual
no embate e no reflexo do seu eu com os demais. Encontrando-se em sua própria
alteridade. O seu ser religioso é condicionado pelo meio em que vive e esse mesmo
meio determina ou condiciona o credo específico ao qual pertencerá.

E essa relação com uma crença institucional é tão forte que, vemos ser mais
fácil o rompimento com relações profundas, como o matrimônio, ou outros vínculos
familiares, do que a baldeação para outra confissão religiosa.

Desta forma, as religiões são realidades que vinculam compromissos, muitas


vezes sob pena de grandes consequências negativas, caso esses vínculos sejam
rompidos. São conjuntos de crenças, ritos baseados em doutrinas e princípios que
procuram ligar o ser humano ao transcendente, ao sagrado, ao divino.

Assim, lembramos as principais religiões, tais como o Cristianismo, o


Islamismo, o Judaísmo, o Budismo, o Hinduísmo, etc.
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Sabemos, entretanto, que especialmente desde o século XX, particularmente nos


países do novo mundo, têm surgido estilos e maneiras do ser religioso que diferem
profundamente das religiões tradicionais acima mencionadas.

Não obstante, vemos que as novas formas de religião têm surgido no seio das
principais instituições mencionadas. Curioso notar que o rompimento com as
crenças, ou com aspectos doutrinários de determinada religião, muitas vezes
engendra uma nova forma de ser religioso, que são geralmente muito semelhantes
às anteriores, mantendo a mesma matriz com pequenas diferenças.

A esse tipo de rompimento costuma-se chamar “seitas”. Que podem ser


definidas como correntes de pensamento ou de prática dentro de cada uma das
religiões. Desse modo, as igrejas pentecostais, por exemplo, do ponto de vista de
algumas denominações cristãs tradicionais, podem ser consideradas sectárias.

O exemplo máximo da aplicação do termo seita é o fenômeno do


protestantismo considerado pelo prisma do catolicismo. Sabemos que sob o influxo
reformador de Martinho Lutero, e seguindo suas máximas questionadoras, um terço
da Europa católica, tornou-se adepta do Sola Scritura.

A partir daí tantas outras seitas (rupturas com o Catolicismo Romano),


surgiram por todo o mundo por meio das mais variadas motivações e interesses. O
próprio Cristianismo, em sua origem, fazendo uma ruptura institucional, se bem que
não doutrinária (em sua essência) com o judaísmo, foi denominado como seita.

Segundo o Dicionário Aurélio, o vocábulo “seita” deriva do latim secta, que


significa seguidor. A criação de uma seita, é motivada pela divergência de um
pensamento hegemônico, oficia.

Referimo-nos mais especificamente ao aspecto religioso, em função do teor


de nosso estudo, mas conceitualmente falando uma seita pode ter o caráter político,
moral, filosófico etc.

Raramente vemos um grupo se autodenomina como uma seita. Geralmente


esse termo vem acompanhado de um viés pejorativo. Um grupo pode denominar
outro grupo de seita por causa do seu ponto de vista, mas o grupo por esta alcunha
taxado pode autodenominar-se como uma religião.

Face a estas definições, é importante considerar o fenômeno da subjetividade


religiosa de nossos dias (FARIAS, 2017 p. 36).
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Isso para compreender como cada indivíduo, inserido na sociedade atual, está
vulnerável a aderir a uma novidade religiosa (seita) ou a ser influenciado em função
da efemeridade dos sentimentos, e sobretudo, das convicções, criar a sua própria
crença alternativa, a qual, uma vez encontrando outras aspirações semelhantes,
pode acabar por constituir um novo grupo em torno de uma nova visão religiosa.

Nossa época é, portanto, um celeiro de novas visões religiosas, que podem,


dentro desse binômio acima expostos, representar novas seitas.

3. Religião e religiosidade atual


Para falar de nossa época visando à busca de uma compreensão atual da
religião, é preciso entendermos o quão profundamente diverso é este mundo de
agora em relação ao que viveram nossos antepassados.

A história é testemunha das mudanças naturais dos tempos, dos avanços e


dos retrocessos, mas nenhum outro século conheceu tantas mudanças,
testemunhou tantas transformações como o século XX, e o nosso presente século.
O mundo conheceu uma transformação radical e de vertiginosa rapidez nos últimos
150 anos.

Diferente de nossos pais e avós, nós hoje temos um acesso rápido e fácil a
todo tipo de informação e as respostas à muitas dúvidas pululam diante de nossos
olhos.

As informações, as notícias, que antes levavam dias, meses, até anos para
chegar até nós, hoje nos atropelam em questão de segundos, quando abrimos um
computador, tablet ou quando consultamos o smartphone.

Somos a geração da informação, temos respostas e pontos de vistas para


tudo, somos especialistas em diversos temas. Parecemos nos bastar a nós mesmos;
a tão sonhada autossuficiência, livre das amarras de toda dúvida, desnudada de toda
falsidade, de toda mentira, enfim alforriada de qualquer superstição dominante,
enfim. Mas, paradoxalmente, o coração do ser humano parece cada vez mais
inquieto.

Quantas descobertas científicas! Encontramos a cura para diversas doenças!


Chegamos à Lua! Mas, parece que não encontramos a paz.
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Essa nostalgia do sagrado está bem expressa no trecho de “As Confissões” de


Santo Agostinho, que mesmo tendo sido escrito há tantos séculos, ainda nos parece
tão atual: “todavia, esse homem, particulazinha da criação, deseja louvar-Vos. Vós o
incitais a que se deleite nos vossos louvores, porque nos criastes para Vós e o nosso
coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós” (Agostinho, 2015 p. 27).

Os séculos passaram, o modo do homem de ser e possuir sobre a terra


mudou, transformou-se, mas a essência humana, ainda permanece. A humanidade
sempre buscou uma maneira de responder aos anseios mais profundos de sua alma.
A ciência dividiu-se em especialidades cada vez mais específicas para buscar dar
conta dessa demanda pelo autoconhecimento e, sobretudo, pela auto-afirmação
humana, onde o sentido de origem e finalidade (de onde venho e para onde vou)
precisa ser elucidado.

Vimos ao longo da história, essa busca seguir caminhos diversos, conforme a


experiência de cada povo, civilização e indivíduo. Sem a pretensão de emitir juízos de
valor sobre o acerto de uns e o erro de outros, nesse caminho por resposta,
podemos friamente fazer uma análise, que aparentemente, uns chegaram mais
perto de respostas que outros. Essa conclusão se pode fazer pelo menos quanto aos
objetivos alcançados: paz social, felicidade comum, progresso econômico, riqueza
cultura etc.

Mas o que era considerado o ápice da realização humana para uma civilização
ou época histórica, não o era para outro povo ou período. Por exemplo, para o
católico medieval, a relação com a posse de bens não tinha uma relação tão grande
com a satisfação religiosa, quanto para o homem protestante na Renascença. A
autossuficiência agrícola para o camponês pré-Revolução Francesa bastava-lhe, mas
não para o inquieto operário urbano do final do século XIX.

A sociologia nos oferece subsídios riquíssimos para analisarmos essa


realidade quando, por exemplo, apresenta a Revolução Francesa e a Revolução
Industrial como marcos profundos na vida humana, que ditaram novo estilo de vida,
verdadeira revolução no modo humano de se entender e ser entendido. A religião,
face a essas mudanças, especialmente notadas a partir do final do século XVIII e início
do século XIX, passou a sofrer uma metamorfose significativa em suas manifestações
e no modo como o ser humano a pratica.

O ambiente social, cultural ou familiar exercem uma profundas influências


sobre o ser humano e o mundo. E este, tendo mudado profundamente, forjou uma
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nova concepção de pessoa, mais pragmáticas, céticas, imediatistas e materialistas.


Especialmente considerando as transformações nas relações dos indivíduos com o
trabalho, com o meio em que vivem, com o seu tempo, a relação dos homens e
mulheres entre si, a mudança de perspectiva pessoal face ao progresso material, as
reformulações das distâncias, o surgimento de uma vinculação dos indivíduos com a
terra e o capital. Mas, ainda assim, o ser humano permanece um ser religioso.

Qual religião pratica? Que Deus (ou deuses) busca e adora? Que grau de
comprometimento a uma doutrina, a uma fé, a regras e dogmas?

Isso mudou, e é preciso entender essa nova concepção de pessoa, que tem
suas necessidades materiais (corpo) satisfeitas de outras maneiras, mas que cedo ou
tarde, precisará satisfazer suas necessidades espirituais (alma).

Ainda que confusamente, a pessoa vivente na modernidade busca relacionar-


se com o divino. Essa busca muitas vezes, especialmente em indivíduos com frágil
vinculação a uma religião tradicional, toma aspectos muito subjetivos. A religião da
individualidade, do “achismo” vai se apresentando como a solução para essa
inquietação.

No mundo do “prêt-à-porter”, especialmente após o fim da Segunda Guerra


Mundial, uma nova mentalidade tomou conta do estilo de vida, particularmente do
homem ocidental.

Você sabia? A expressão prêt-à-porter significa "pronto a vestir" e foi criada pelo
estilista francês J.C. Weil, no final de 1949, depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

O fenômeno religioso não poderia ficar longe dessa transformação.

Assim, surgiram religiões para todos os gostos e aspirações. A preocupação


com uma certa legitimidade original, com uma autenticidade doutrinária deu lugar à
religião, instituição, filosofia ou seita, que proporcionasse uma maior satisfação dos
sentidos.
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Deste modo, surgiram de um lado novas religiões e manifestações de


misticismos, quanto variações das religiões já tradicionalmente conhecidas.

No universo protestante houve um grande crescimento das entidades de


caráter pentecostal, com forte apelo às sensações e à vinculação da prosperidade
pessoal com a justificação na fé. No âmbito católico, com a convocação do Concílio
Vaticano II houve uma grande relativização dos dogmas seculares que norteavam o
modo de ser e viver católicos. As portas se abriram, as mentes também. A religião
outrora solene, sagrada, tornou-se mais popular e profana. Era preciso esquecer as
diferenças e buscar a unidade. Os frutos desse relaxamento doutrinário e litúrgico
ainda é discutido longamente por vastas correntes em nossos dias, e ainda será
objeto de longas discussões e debates, os quais fogem do escopo imediato de nosso
estudo.

Até meados do século XX, ou se era religioso ou se era ateu. Hoje em dia, um
dos grandes desafios da fé é o indiferentismo religioso, muito mais do que o ateísmo
prático.

Como vimos, a satisfação pessoal é a meta do indivíduo em religiosidade na


existência contemporânea. O amor justifica tudo. E sob o significado de amor não se
tem uma clara definição. Compreende-se assim, que diante de uma nova visão de
religião, de uma nova relação com o sagrado e a fé, um novo “mercado” se abre; e
com isso, muitos oportunistas podem surgir para oferecer soluções fáceis para
questões profundas da alma humana.

A depressão galopante, a hipertensão, e tantos outros problemas


relacionados à ansiedade são reflexões de que muitos ainda estão perdidos mesmo
quando creem estar caminho rumo a um objetivo.

Um novo campo para o teólogo também surge, rico de oportunidades. Se no


século XIX a razão questionava a fé, em nosso século, a fé está presente e não mais
compete com a razão, pois não lhe opõe mais obstáculo. O indivíduo, ainda que
menos religioso enquanto tal, é um ser que aceita melhor o misticismo, sem ser
institucional, crendo-se livre para pensar como quer. Ou seja, fé e razão acabam
caminhando em direções opostas, não mais como antípodas, mas como
desconhecidas.

E aqui há um risco, pois, como quis a Escolástica medieval provar, e como


vimos no primeiro capítulo dessa Unidade, a fé não é contrária à razão, ainda que
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uma e outra transitem em “frequências” diversas. Desse modo, sem a bússola da


razão, o senso religioso pode degenerar na fantasia, na mera imaginação e até
mesmo no desumano. Exemplo disso temos nas religiões ou seitas fundamentalistas,
grupos fanáticos, que se creem orientados por vozes e mensagens do além ou uma
autoridade pessoal ou escriturística. A razão pode não alcançar as verdades da fé,
mas poderá sempre conferir e validar suas as credenciais.

O fenômeno religioso em nossos dias chama a atenção. O ateísmo e ondas


de misticismo andam juntos. Talvez não se exagere ao dizer que há surto de
religiosidade emocional quase irracional.

4. Superstição e superficialidade
“Quem não sabe o que procura, não sabe o que encontra”. O velho e tão
simploriamente sábio ditado popular, pode nos ajudar a elucidar o fenômeno
religioso onde a superstição toma status de autenticidade.

A falta de adesão racional a um princípio religioso criou nas mentes que ainda
buscam ou sentem necessidade de espiritualidade uma superficial afiliação à crenças
e ideias místicas. Esse fenômeno chamamos de superstição.

Quando se perde a noção do sagrado e do seu papel da vida do homem como


um ser hilemórfico (composto de corpo e alma) – conforme vimos em Unidades
anteriores – corre-se o risco, paradoxalmente de se atribuir qualidades
sobrenaturais a objetos, pessoas, pensamentos, que, transformados em verdadeiros
amuletos, seriam próprios a transmitir paz, tranquilidade, certeza, e afastar a dúvida,
a dor, o sofrimento, o medo, o fracasso etc.

O subjetivismo leva ao relativismo, a ciência e a pseudo-onipotência da


técnica, criada pela posse dos benefícios da tecnologia, acaba criando um relativismo
sistêmico (FARIA, 2017, p. 41).

A procura do sentido da vida - e do porquê de se viver, lutar, sofrer, morrer -


leva naturalmente a Deus, visto que as respostas imediatas são insatisfatórias. A nova
religiosidade emotiva ou meio-irracional assume aspectos supersticioso e acabamos
por criar fetiches religiosos. Tais como a religião do sucesso, pelo qual a superstição
leva a crer que que a fé e a religiosidade são penhor de sucesso e segurança, tanto
econômica, quanta afetiva e biológica. A doença, a pobreza, as desgraças seriam
obras do mal, que deve ser contido mediante a força da fé.
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Um outro tipo de superstição no âmbito do fenômeno religioso é um certo


das crenças tradicionais, acrescentando-lhe, por vezes, uma nova revelação, com
vistas a adequar a fé primitiva às necessidades atuais.

As religiões de cunho panteísta, geralmente de origem oriental, se encaixam


nesse contexto com um viés mais esotérico. O panteísmo ou o monismo se
caracterizam por uma forma velada de ateísmo, pois professa que Deus, o homem e
o mundo são da mesma substância ou são divinos, de modo que o ser humano pode
mais e mais exercer poderes próprios da divindade.

Neste contexto, o ateísmo assume outra representação de modo que longe


de negar simplesmente a Deus, cria na prática uma espécie de fé na negação da
divindade. Sartre dizia em sua obra-prima “Les Mots”, que o “ateísmo é um
empreendimento difícil e de longo fôlego” o qual ele cria ter realizado até o fim. Já
para Nietzsche a sua exaltação da vida e do super-homem era a substituição da
divindade por uma série de ídolos feitos absolutos no lugar de Deus

Para a multidão das individualidades de nosso mundo plural e globalizado os


novos ídolos têm outra face e se identificam com o sexo, o dinheiro, as drogas, o
esporte, o sucesso econômico e social, os prazeres estéticos, desejados e vividos de
modo exagerado e com fins a tranquilizar a alma e preencher o vazio existencial.

Síntese
Sempre se creu que as crises são excelentes ocasiões para a descoberta e
novos rumos, de novas soluções, para a criação de novas respostas a para novas
perguntas.

Assim, a filosofia da religião encontra, por absurdo que pareça, um campo


fecundo para a dilatação de suas fronteiras de conhecimentos e pesquisa, na crise
de fé do indivíduo moderno.

O estudo do fenômeno religioso ambientado em nossos dias, apresentado


como realidade contemporânea faz-nos questionar como a modernidade vê, vive e
se relaciona com o sagrado.

Não se pode mais negar que o sagrado está presente mesmo em meio ao
caos mental, cronológico, social e econômico em que vivemos. A fé e suas facetas
permeiam todas as atividades humanas. Vimos recentemente, em nossa época cada
vez mais aberta às discussões com viés político e ideológico, até parlamentares
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sendo flagrados em oração, agradecendo a Deus, por terem logrado obter valores
ilícitos por meio de propinas. Até no crime, no ato amoral, o homem crê no sagrado
e se vale de sua ajuda.

O ser humano é um animal sagrado, poderíamos dizer.

A reconciliação entre fé e razão é um tema constantemente presente, ainda


que indiretamente no debate religioso. A procura por entender as religiões e o
dinamismo da religiosidade é uma necessidade. Convém ao teólogo investigar e
compreender como a busca pelo transcendente pode desviar para a superstição,
filha da superficialidade.

Estas e outras questões, como a relação entre as religiões tradicionais e as


seitas, foram objeto de estudo nessa unidade 4.

Para se ter uma noção, a mais ampla possível de uma realidade, é preciso
tomar-lhe distância. Nesse estudo, pudemos deitar um olhar tão amplo quanto cabia
no objetivo dessas páginas.

Assumindo compromisso com o verdadeiro ato de pesquisa na religião,


busquemos sempre compreender as mais profundas razões da origem e finalidade
do fenômeno religioso, pois a filosofia é a farol que ilumina o caminho a ser trilhado
rumo a uma melhor compreensão das misteriosas verdades da fé.
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Bibliografia
AGOSTINHO, Santo [Bispo de Hipona]. Confissões. Petrópolis: Vozes, 2015.

BATAILLE, Georges. Teoria da religião. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

FARIA, Adriano A. Filosofia da religião. Curitiba: InterSaberes, 2017.

LA STAMPA. Scienziati contro il Papa. 14 Gennaio 2008. Disponível em:


<https://www.lastampa.it/cronaca/2008/01/14/news/scienziati-contro-il-papa-
1.37112843>. Acesso em: 10 set. 2019.

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