Título: O triunfo de Angélica Autor: Anne e Serge Golon Título original: Dados da Edição: Editora Nova Cultural 1989

Publicação original: Gênero: Romance Histórico Digitalização e correção: Nina Estado da Obra: Corrigida Nos quase trezentos anos que se seguiram ao descobrimento da América, os franceses tentaram de todas as formas estabelecer um império colonial em terras do Novo ^ Mundo. Desde o início do séc. XVI, quando a ação isolada de corsários e comerciantes os levou a explorar o litoral americano, até o final do séc. XVIII, quando tiveram de se retirar, cedendo ao avanço do imperialismo inglês, os franceses chegaram mesmo a estender seus domínios por um considerável território — no Brasil, nas Antilhas, na América do Norte. O auge da presença francesa na America registrou-se durante o reinado de Luís XIV, quando o Canadá passou a ser uma colónia oficial, administrada diretamente pela Coroa francesa. O comércio e o povoamento foram incentivados, fundaram-se novas cidades, firmaram-se alianças com os nativos. Mas a terra nunca produziu as imensas riquezas ambicionadas, e a sólida presença inglesa na região acabaria por frustrar seus sonhos coloniais. Depois da Revolução, praticamente findava o poderio francês no Novo Mundo. Angélica e seu amor, o Conde Joffrey de Peyrac, viveram o auge do domínio francês em terras americanas.

"Depois de tudo o que passei", conclui Angélica, "o céu bem que me deve a felicidade!" Num derradeiro gesto de esperança, Angélica correu o olhar pelo vasto horizonte ao longo da fortaleza destruída de Wapassu. Além, muito além das montanhas geladas do Canadá, do outro lado do oceano, o Conde Joffrey de Peyrac a esperava. Numa espécie de vazio causado pela saudade e pela angústia, sua mente rodopiou numa embriaguez vertiginosa. Ilusões! Vivera apenas ilusões! Sonhara com um Novo Mundo. Trabalhara para construí-lo. Amara todos aqueles lugares: Katarunk, Wapassu, Gouldsboro, Salem, Quebec. Todos, um a um, deixados para trás. O futuro que a aguardava era ainda um mistério, mas levaria consigo todas aquelas histórias com que preencher horas inteiras de numerosas vigílias e travessias. Reencontraria os amigos, e poderiam brindar e beber alegremente. Sua vida e sua obra não se apagariam. A lembrança de tantos momentos carregados de significados permaneceria como uma soberba promessa de felicidade. Agora seu desejo era navegar para a Europa num belo navio, numa viagem sem atropelos nem tempestades. Lá encontraria um esposo cheio de expectativas, para em seus braços se lançar, prometendo-se mutuamente uma vez mais: dali por diante, nunca mais iriam separar-se! O triunfo de Angélica Anne e Serge Golon Mais uma vez separada do marido, o Conde Joffrey de Peyrac, que partira para a França com o governador da colónia, o Sr. de Frontenac, Angélica não tinha a quem recorrer. Numa cabana perdida na imensidão gelada do interior do Canadá, diante das ruínas do que fora a fortaleza de Wapassu, destruída pelos canadenses comandados pelo Conde de Loménie-Chambord, ela não sabia o que seria de sua vida e das três crianças que a acompanhavam: seus dois filhos gémeos, os bebés Rodrigo Rogério e Gloriandra, além de Carlos Henrique, o enjeitado filho de Jenny Manigault, que tomara a seus cuidados. Os perigos pareciam brotar de toda parte: até sua filha Honorina fora obrigada a buscar refúgio entre os iroqueses, perseguida pela sanha vingativa da diabólica Duquesa Ambrosina de Maudribourg. A Diaba da Acádia e seu aliado secreto, o Padre Sebastião d'Orgeval, seus piores inimigos, como que ressurgiam das trevas. Quem viria em seu socorro: o Arcanjo da profecia? Como, se seu filho Cantor — identificado com o tal Arcanjo — acompanhava o irmão, Florimond, nas homenagens e divertimentos da corte do Rei-Sol, Luís XIV, em Versalhes, do outro lado do oceano? A VIAGEM DO ARCANJO CAPÍTULO I Cantor de Peyrac despede-se da amante e enfrenta os piratas O arcanjo estava no encalço da Diaba, desde a antecâmara do rei. Um pano de tapeçaria que se desloca, uma porta aberta para uma passagem estreita, dois ou três degraus a galgar. A crónica fala daqueles que conduziam do salão da Sra. de Maintenon à sala de bilhar, aonde o rei se dirigia todas as noites para jogar uma partida.

Um pajem o precedia, para segurar o batente de tapeçaria, damas mergulhavam em seus brocados e uma delas se levantava. Dois olhares, um de ouro, o outro de esmeralda, que se cruzam. E na sombra dos labirintos de um palácio, Versalhes, se engolfa o ar salino de um litoral perdido da América, o odor de podridão do peixe que seca ao sol, uma mulher que urra ajoelhada diante de um corpo trespassado por um arpão: "Zalil! Zalil! Não morra!..." "E Ela, tenho certeza", pensara Cantor de Peyrac. No mesmo instante, enfiara um luís de ouro na palma de um lacaio próximo a ele. — O nome dessa mulher que acaba de cruzar comigo!... O lacaio não sabia, mas, estimulado pela fortuna que acabava cair-lhe do céu, não precisou mais de um minuto para voltar e msinuar-se na assembleia que formava um círculo em torno ao bilhar do rei, e sussurrar ao ouvido do belo pajem, tão generoso: — Sra. de Gorrestat. — Seu esposo? Qual é? Seus títulos? — retorquiu-lhe o pajem, doando-lhe. um segundo óbolo. Dessa vez o lacaio abandonou por uma hora seu posto de porta-tocheiro, calculando que, se aquela deserção arriscava atrair-lhe admoestações, custar-lhe-ia menos do que o que tinha a ganhar a serviço daquele jovem senhor. Antes do final da partida do rei, estava de volta e confiava a Cantor, junto ao seu ouvido, tudo o que conseguira recolher. Aquela senhora era a esposa do senhor governador do Nirvanais, recém-chegado a Versalhes por convocação do rei. Corria o boato de que esperava uma nomeação importante. Sua esposa, pessoa de qualidade, discreta e agradável, agradara à Sra. de Main-tenon, que a recebia entre suas damas, o que para elas constituía a melhor maneira de ficar junto ao Sol. Soube que o casal já se preparava para embarcar no Havre para o Canadá, do qual o Sr. de Gorrestat fora nomeado governador. Já no dia seguinte, soube que se tratava exatamente da "viúva" do velho Parys, que se casara com o Sr. de Gorrestat. Tudo se encaixava. Se queria munir-se prontamente do dinheiro para uma viagem além-mar, Cantor precisaria encontrar um expediente. Ele compreendeu. Não havia mais nem um dia, nem mesmo uma hora, a perder. Correu à casa da Sra. de Chaulnes, sua amante. Encontrou-a inquieta por não ver o seu jovem amante havia quarenta e oito horas. Sem querer dar-lhe as razões de sua brusca decisão, Cantor avisou-a que tinha de embarcar urgentemente para a Nova França e que, com esse intuito, teria necessidade de uma soma de vinte mil libras. A Sra. de Chaulnes pensou que o mundo se fendesse em dois. Deu um grito terrível, cujo eco não podia voltar-lhe aos ouvidos sem que se sentisse petrificada de vergonha, de aflição e de dilacerante concupiscência. Um grito de animal frustrado. — Não!... Não você!... Jamaisl Não me deixei... Ele a olhou com um estupor indignado. — Não sabe então, minha cara, que nada dura eternamente? Eis por que nos é preciso colher o fruto e saboreá-lo quando ele nos é dado... Você o sabia quando me recebeu em seu leito. Não existe nada perene no mundo!... Tenho de partir!... Ela o imaginava sozinho, galopando por caminhos, atacado por bandidos, afogado... — Mas o mar!... — gemeu.

fez disso um juramento..... preocupado. O único que guardaria.." — Obrigado — gritou ele. ligado à sorte da nave que o conduz. Falei com meu irmão para que a reem bolse o mais cedo possível. Enquanto "ele a beijava. que poderá negociar. — Não descontente o rei. ela soube que ele era um homem.. depois caixinhas. "dia após dia! — Espere... suas palavras tão sábias. meu querido... encheu-lhe as palmas das mãos. — Mas afinal! O que se passa? Sua família lá na América está em perigo?.. Desvairada de dor. não sabe então que nada é eterno?.. "Minha cara. Entregou-os a ele.. — Ele o chamou? — Não sei. Ele beijou as mãos generosas que seguravam as suas. cantarolando. que nem se dava ao trabalho de contar. abraçando-a. quando tinha a idade dele. que ela lhe confiava. pérolas de um colar. Ela gemia. Obrigado. — Não. — Pior que isso! Ela deixou cair a cabeça em seu ombro. Uma sombra passou-lhe pelo rosto.. pelo menos. Cantor franziu o sobrolho.. sonhando. quem vai abater? — O Mal!.. Trocavam algumas palavras.... como o único tesouro de toda uma vida. minha cara. Cantor voltou e tomou-a nos braços. Morreria com esse viático... diga-me. e derramava na escarcela estendida de Cantor luíses de ouro. um homem que teria tanto sonhado encontrar na aurora de sua vida! Com o qual teria sonhado tanto viver. Subitamente veio-me uma ideia.. — Meu belo sire. seja bendita!. — Não é certo que eu o encontre — respondeu. — Obrigado. fechou-lhe os dedos sobre as jóias como se ali estivesse seu pobre coração.. — Doce amiga. sem me dizer adeus!.. Via-o apenas através de um nevoeiro.... de Chaulnes abria cofres. Dois diamantes de brincos pingentes.. — E reze! Reze por mim! Corria para a porta.. Seu único viático de amor! . Num impulso confuso. enquanto a Sra. A vida toda ela conservaria a lembrança daqueles braços jovens enlaçando-lhe os quadris. Ia esperá-lo. — Não o deixarei partir. — Não! Você não pode partir assim. — O dever não se discute.. Ele se levantou.. Fique com tudo. rememorando seus gestos.. O mar?. Algumas semanas ruins balançando ao sabor das ondas. Isso não era nada. seus raros sorrisos.. cobrindo-o de lágrimas. uma questão de paciência! Sua juventude resplandecente inspirou-lhe o arrependimento de não ter sabido levar as coisas da vida alegremente. O animalzinho dos bosques?. — Meu irmão tratará disso. já sem lágrimas. E ela se afastou. — Você vai encontrá-lo?. Será um pouco de mim que perma necerá com você. Ele se lançou aos seus joelhos como da primeira vez.. daquela fronte juvenil contra seu ventre.Ele riu.

veio em socorro do capitão. Frota e flotilhas de pesca sazonais. Se me matar para ficar com tudo. não apenas será obrigado a dividir com seus piratas. Acabou por encontrar uma embarcação. aplicados na parte traseira de seus crânios. em manter a boa reputação de seu navio. — E continuou: — Estou em suas mãos. A metade do ouro que trago comigo em troca de minha vida. capitão. como roubá-lo e assassiná-lo. ou todos os meus bens e minha vida. Ocultar-lhe-ei seu nome a fim de que não alimente o projeto de me manter cativo para pedif resgate. pois. pode levar vantagem quanto à velocidade sobre os grandes monumentos de três pontes e vinte e cinco canhões. arremessaram-se sobre a forma ali estendida e. As primeiras partidas efetuar-se-iam aproximadamente nas mesmas datas. armado com sua faca. Canadá. dando a Cantor tempo para conseguir uma passagem para si mesmo. daí em diante. mas não poderá desfrutar os poucos luíses que lhe sobrarão. pela cara dos marujos. um porto da Normandia. Sua experiência das travessias e dos navios ensinara-lhe que uma casca de noz rangente. navios de comércio. Encontrou dificuldades. ao saber que a intenção do capitão era percorrer pelo caminho mais direto o Saint-Laurent. — Você matou um de meus homens — disse o capitão. os homens de meu pai o encontrariam e lhe cortariam o pescoço. Proponho um negócio. conseguira se libertar dos laços um pouco apressados com que Cantor o paralisara. Sem contar que seus bandi- . Cantor ofereceu uma boa quantia para subir a bordo. Em qualquer canto do mundo aonde você fosse doravante. fizeram-nas adormecer de vez. duas silhuetas se insinuaram na despensa onde dormia. encarregados do correio e de passageiros para a Nova França. Depois Cantor de Peyrac foi despertar o capitão e pediu-lhe que o acompanhasse a fim de verificar os danos que haviam pretendido causar-lhe. seus dias estarão contados. Se eu chegar vivo às praias do. mas surpreende-me que não se empenhe mais. um dos marinheiros que. fizera-se ao mar dois dias antes. — Capitão — disse-lhe —. após contemplar o cadáver por algum tempo. no mínimo. mas formada por sujeitos que se encontram o mais das vezes no mar. sua esposa e sua comitiva. mas você está também nas minhas. como se não estivesse muito certo de que estivesse ali estirado a seus pés. Enquanto isso. já haviam embarcado todos em coro.. e cuja única vítima fora o manequim de panos e trapos estirado em seu lugar. Era um patacho. e ambos fomos instruídos a esse respeito por nosso pai e seu exemplo. retida por reparos indispensáveis de última hora. dar-lhe-ei a metade do que contém esta bolsa cheia de ouro. Reflita bem. que sua aparência e seus luíses de ouro exibidos não deixariam de suscitar intenções muito precisas em seus espíritos. mas. Soube também. — Eis uma verdade que meu irmão mais velho me repete todas as manhãs. dois socos violentos. Na segunda noite da viagem. Por isso. conhecendo seus homens. Só restava esperar que a tempestade que acabava de se formar sobre a Mancha os deportasse até o golfo da Gasconha e os atrasasse.. Cantor voltou-se e descarregou sobre ele a pistola à queimaroupa. O navio que levava o governador provisório da Nova França. provida de uma tripulação restrita. — Quem não sabe matar não pode viver — replicou seu jovem interlocutor. quero crer que você é um homem honrado e que não tem participação neste complô. que essa intervenção lhe prove a seriedade de minhas palavras. Indiquei a minha família em que navio embarcaria. e você não gozará muito tempo de minha fortuna adquirida.A perseguição levou Cantor de Peyrac até o Havre-de-Grâce. enquanto se ocupavam em lanhá-la a golpes de facão. mais hábil.

Nãò havia notícias de pessoas que tivessem descido na escala e que tivessem embarcado para a baía Francesa. culpado de ter-se ausentado da vigia a fim de praticar seu crime. O sorriso meigo com que abordou Cantor congelou-se quando ao ajoelhar-se perto dele. Portanto. O patacho. O homem de turbante procurou fazer-se entender. mais insosso. Enviaram-lhe um homem de Dieppe chamado Léon. mais recomendada. sem água.. Foi uma travessia fácil. E começarei por lhe sugerir que. O pobre Muçulmano repelido saiu. e o do rio. pés-de-vento. vira um verdadeiro arsenal. Mais próximos do grande continente da América que da Europa familiar. Tranqiiilizou-se em relação à família. As previsões do jovem navegador mostraram-se corretas. evitava os aguaceiros. das peles. piratas e calmarias podres. sentiu a ponta de uma adaga espetar-lhe as costelas. Duas pistolas. que quiseram obter suas riquezas por vias menos diretas. porque ficara dez anos cativo em Argel entre os bárbaros e habituara-se a usar turbantes e aproveitar-se de rapazes.dos de marinheiros tentarão tirá-la de você. era repousante. onde a lei dos homens o fez o único mestre a bordo. a seguir. Nem sequer conseguira ver a bolsa com os luíses de ouro. indo confirmar a seus confrades que não havia nada a fazer. Desse modo. deixou o patacho. após acertar suas dívidas com o capitão. CAPITULO II As aparências de um sonho triste — Cantor esgueira-se ao Convento das Ursulinas Na Terra Nova. O jovem loiro. daquelas que entretém o tédio do marinheiro. depois de Deus. quanto àquele. com o vigor do vira-lata face aos cães de raça. Uma alegre sensação de ter voltado ao país nasceu dentro dele ao aspirar o perfume das fogueiras. pela japona entreaberta do loirinho. — Nosso capitão fecha os olhos para esses jogos. Em Tadoussac. pena leve. confirmou-se que o navio que levava o governador. — Que quer de mim? — perguntou o jovem loiro. — Conhece o regulamento de bordo "Faltas-Castigos"? Quais são os termos para aquela que se prepara para pedir-me que cometa com você? Cantor recitou com uma voz monocórdia de aluno: — Falta: sodomia.. como fora previsto. — Posso pedir-lhe que os abra. e corria a boa velocidade pelas rotas ordinárias. Estavam na outra vertente da viagem. continuava em Quebec. além daquela. proteja-me contra esses piratas com todo o poder e domínio que detém sobre este navio. sentado contra a amurada. sua esposa e escolta. o Muçulmano. E mais a espada pendente do boldrié... às vezes. de acordo com a pena prevista. E devia ter uma adaga em cada bota. tudo permaneceu calmo. um cutelo e uma machadinha como as dos índios. seja colocado na golilha. de ficar três dias no porão. continuava a tentar os bandidos. pena: estrangulamento e lançamento ao mar ou desembarque numa ilha deserta. Paguei-o para isso. após tantos dias na . Em compensação. soprando uma flauta de pastor grego e mergulhando durante horas na contemplação das imagens. Cantor segurava-o com uma mão e com a outra continuava a cortar-lhe a respiração com a ponta do punhal.

atravessando a praça. A tabuleta molhada parecia chorar. as pessoas caminhavam lentamente." Mas. não procurou dar-se a conhecer. tão bela. o lugar perdia sua realidade. apareceu tocada por um morno encanto como uma cidade submersa. muito antes de Quebec. A casa parecia vazia. pois sabia. de selvagens e de grão-senhores. Vendo um filete de fumaça diluir-se preguiçosamente no alto da casa do marquês. inverno após inverno. com os dois atlas de bronze na relva. Tudo estava apagado. sempre tão ridiculamente afoitos em recolher o menor de seus sorrisos e de suas palavras. por muito tempo a água era ainda salgada. sua mãe.salmoura. que ia exibir todas as suas graças de Benfeitora para conquistar a capital. Um latido abafado sugeriu-lhe que só estavam ali a' criada cativa inglesa e a cadela cananéia. A Taverna do Sol Levante estava fechada. a maior parte do tempo dormiu com o chapéu enterrado até o nariz. Contudo. No entanto. sabia já que faria o possível para manter-se incógnito. que protegeriam melhor tanto do sol e da chuva como dos olhares indiscretos. Um calafrio percorreu-lhe a espinha até a raiz dos cabelos. a cidade. bastante fresca. "Ele vai adivinhar que estou chegando. enquanto subia a encosta da Montanha. salmodiando. enquanto não tivesse sondado o ambiente. e nas embarcações que tomou emprestadas para subir o Saint-Laurent. Os crimes começavam. permitia-lhe manter uma aba da capa sobre o rosto. onde viu luzir o reflexo de um pequeno fogo ha lareira. naquele caminho lamacento. Prestando atenção às palavras dos transeuntes. sabido como Quebec acolhia o governador interino e sua esposa. Ia por lá. tão bela com seus sinos e campanários. cheio de mistérios e ameaças. vazio e nostálgico. tinham-no avisado. ocupada em esfregar as peças de prata como se. que seu glutão viera rondar por ali. Vestidas de preto. As cerejeiras silvestres à beira do riacho tinham a cor do sangue. passou pelo pátio e pendurou-se a uma das janelas da grande sala. sempre com o rosto escondido entre a gola da capa e o barrete. Uma neblina antecipando o outono. d'Hourredanne. Começou a subir a Rue de la Petite-Chapelle. Sua intenção era bater à porta da Srta. Diante da ilha de Orléans. tivesse andado com sua corte de crianças. soube que era a Sra. à moda antiga. o olmo e o pequeno acampamento dos huronianos nos wig&ams de casca de árvores. Tomou a direita. Ereta em meio à bruma. apesar de apreciar as sensações amigáveis da natureza. escondido num canto. ao mesmo tempo. Parecia inimaginável que. Quando chegou à praça da catedral. no . um chapéu camponês que comprara na viagem por causa de suas abas largas. não estava deserta nem adormecida. A garoa ocultava as copas das árvores e o cimo do campanário e do domo. Entretanto. Já era outono. Os sinos dobraram. ouvido os comentários. Distinguiu a criada de Ville-d'Avray —a que não quisera ficar quando soube que não teria seu amo só para ela —. mas as persianas estavam fechadas. percebeu.. Seus sentidos alertados dar-lhe-iam uma visão diferente da cidade. A agitação dentro e em torno dela pareceu-lhe fantasmagórica. saltou a rampa. Aquilo tinha apenas as aparências de um sonho triste. o cortejo que passava. Mas não passava de um cenário. Le Bachoys que ia ser enterrada. A casa de Ville-d'Avray ali estava.

— Não me surpreende... a hora noturna do maior repouso e. a meia-voz. Inclinou-se ainda mais para a frente. mas que o Diabo existe. criadas se calam. se felicitassem por sua piedade.. que têm às vezes uma carinha bonita.. com os braços sobre a mesa a fim de falar mais de perto. de mau. Essa mulher. por trás daquela mulher. subitamente. na catedral. a Sra. bastavam para dizer tudo e com precisão. havia algo de feio. e já sabia sua opinião sobre a mulher do novo governador. o jovem explorador de bosques e a mulher do Canadá se interromperam e se entreolharam. Cantor confiava nas pessoas simples. desaparecera. um fungar.. a ela.. Os aborrecimentos choviam sobre as pessoas honestas como granizo. em casa do rei. que ela ouviu sentada diante dele e. mais grave ainda. de múltiplos episódios. Embora todas aquelas damas se congratulassem com sua vinda. Janine Gonfarel... pelo que dizem. Ainda não terminara a terrina de sopa que ela servira ao jovem viajante esfomeado. E começou a fazer-lhe a longa narrativa dos dramas e malefícios que tinham se desenrolado certo verão nas costas da Acá-dia. e dos quais aquela mesma mulher. existe. — Seria preciso saber o que atormenta Madre Madalena. Nesse momento. que reconhecera e seguira desde Versalhes. cocheiros. sua urbanidade para com todos. Seu mosquete estava carregado. de que não lembrava nome ou sobrenome.. A cidade está louca e como que perdida.. fora a instigadora. a freira desfaleceu de horror. soaram duas ou três badaladas. Lembra-se daqueles senhores que fizeram sortilégios numa pedra preta. fossem receber convidados importantes para um lanche ou ceia. ao vê-lo. um dar de ombros. Eis por que a Hen riqueta da Sra. Joana Serein. inclinada para a frente. e que Joana Serein pontuava com breves observações. Eu nunca me engano. as verdadeiras. foi naquele instante mais próxima para ele do que todas aquelas que pudera encontrar desde sua partida. mas nem por isso pensam menos. meu rapaz? Veio com toda a família? — Que nada! Mas trago-lhe notícias de seu amo. Bateu. sua generosidade infinita. nascida no Canadá. mas continuou carrancuda. de Gorrestat. Descobriu que houvera vários atentados inexplicáveis. É isso mesmo o que está acontecendo. queridinho. Sua vida habituara-a a reconhecer as feiticeiras. seu nariz — que ela indicava — avisava que..dia seguinte. . de Baumont morreu. com os sentidos alertados por mudanças sutis na textura do silêncio noturno. — Foi ela que ele viu na pedra preta — disse Cantor. Criados.. que vi muitas vezes em Versalhes. que o exorcista teve de ir procurar com todo o aparato. como ele. apesar de não ser bem com um mosquete que se acabava com aquelas histórias. Delfina tinha fugido e. que os conduziu do fim do dia até a noite.. — Pense o que quiser. a proprietária do Ao Navio de França. — Oh! Você aqui a esta hora. naquela casa abandonada. Ela o reconheceu imediatamente. desfiando suas horas nos diferentes sinos e campanários do exterior.. Longa narrativa. Nós o encontramos entre nós como em toda parte. O senhor governador foi visitá-la e. Por captar a hipocrisia das pessoas importantes e não se deixar iludir por seus trejeitos. Que alívio poder falar com franqueza e quase sem empregar muitas palavras! Uma mímica.

O que lhes deu a uma hora dessas? Contentara-se em abrir a parte de cima da porta lateral e postar-se ali. cujas . estão dando uma batida.. acompanhado de chamados e de injunções: "Abram!. onde uma grande vela se consumia numa pirâmide inchada." Fingindo-se de mulher arrancada do sono. no momento da chegada dos navios. quando a tempestade impedia pôr o nariz fora de casa ou quando se temia o olho do vizinho. reconhecia aquela ferocidade minuciosa para com todos aqueles que a haviam ofendido. cercado de soldados do prebostado e delegados do novo governador. mesmo se fosse um pobre animal dos bosques!. vê-lo sentado àquela mesa. eventuais clandestinos da religião reformada. O preposto dos Assuntos Religiosos retirara-se com seus homens.. encarregado de observar. — Isso nem se discute! Claro! — encorajou-o. ele ouviu um diálogo veemente que por vezes tomava ares de discussão. Admirou a presteza com que ela Vestiu a vasquinha e a touca de-dormir. Ninguém podia. Era. que a repudiara outrora. verificando. é muito mais maligno que um homem! Quanto a sair da casa sem ser visto nem preso. Cantor de Peyrac. que ao cair da tarde ela colocara os batentes internos. desceram às adegas. de modo que não se podia penetrar na casa sem forçar a passagem. — Um carcaju. Cantor sentiu-se empalidecer. E já que. com alívio. que dava na de Banistere. afirmando porém que poderia voltar. aquele manhoso do preposto dos Assuntos Religiosos. Tê-lo-ia reconhecido a ele. — Isso não são modos. que era bem alta. de seu esconderijo. pensando em Wolverines. Villed'Avray. — Ela deu ordens. como a uma janela. Bastaria lembrar a adega do Sr. enquanto ao rés-dochão o ruído surdo de punhos batendo sacudia a porta. antes de mais nada. Surpreendeu-se de que a numerosa tropa que sentia em volta da casa não tivesse ainda irrompido porta adentro e feito um revista completa. Ela baixou de novo a voz. Procuravam um jovem louro que ao chegar não se apresentara no cartório para declarar sua fé católica. ela subira e. Era certamente "ela"! Se subsistira alguma dúvida sobre a identidade da Diaba. Ambos pensaram ao mesmo tempo. teria sido uma pena não se utilizar daquela rede de toupeiras tão cómoda. pois bem! O caminho estava livre! Desde o tempo em que costumavam cavar o chão em Quebec e quando isso trazia um monte de problemas e processos monstro. do lado de fora. ele. sobre os quais tinha de vingar-se. faz mais de uma semana. o filho daquela que não conseguira vencer? — Meu glutão será mais forte que eles todos — afirmou com fervor.Cantor lançou um olhar vivaz para as janelas. nos arredores da cidade. A fiel guardiã da casa de Ville-d'Avray recusara-se a retirar a trava da porta e abrir.. queria encontrar Madre Madalena. ali se encontravam ovelhas sonolentas e palha. nos lugares onde supõem estar sua toca. ela o intimou a levantar-se. ou ele deu ordens terminantes para procurar seu carcaju e matálo.. Sem fazer barulho. não havia problemas. protestantes tentando desembarcar na Nova França. o qual tinha um processo com as ursulinas. todos nós sabemos. A criada alojava-se a meio caminho da escada de pedra. "Eles" se aproximam! "Eles" rondam a casa! Com um sinal do queixo. na qual ele se escondeu. empurrando-a e galgando a parte de baixo da porta. por boa recompensa. Como outrora. Homens e selvagens. na antecâmara do rei.

. ficou ali. punida. Le Bachoys tivera uma frase chocante. que chegavam do outro lado dos muros do claustro. que quis intervir na política que não lhe diz respeito. Madre Madalena rezava por sua cura. A Sra. sem que hoje tenhamos de transformar o novo governador em inimigo. Sozinha nesse concerto de elogios. trabalhar sem descanso. fora relegada ao ateliê de douração. Enquanto lidava com seus instrumentos durante o dia.. — Que Deus a ajude.cavações. sozinha e sem defesa com seu pesado e aterrador segredo. .. Importunada. mas ela chorara tanto. Ouviu o dobre dos sinos. Cogitou-se em privá-la da santa comunhão cotidiana. onde devia. Madre Madalena.. ela replicara: "A serpente também tem maneiras suaves". Dizia-se que a Sra. Não recomece com sua mania. Ela estava morta.. Só se falava da piedade. de Gorrestat. — Minha madre. Madre Madalena ficou esperançosa. como que virada do avesso. tendo de levantar-se à noite para cuidar da "cola de aparas de luvas" ou do urucu e da goma-guta para fazer o vermelhão. depois de ter passado pelas adegas e ter emergido em meio às reservas de vinhos e de queijos do Convento das Ursulinas. Mas a menina que levara o recado voltou anunciando que a boa senhora fora acometida por uma congestão. diante da Sra... a Diaba! — Basta!. cuja chama precisava permanecer estável e baixa. em que se viu uma declaração de guerra. ou à fidelidade que muitos mantinham ao Sr. Reconheça que você quis se tornar interessante. E ela. em desgraça. de Fromenac... a freirinha visionária. mas isso era sinal de ousadia. Esse caso já foi resolvido há muito tempo e suas visões nos causaram aborrecimentos suficientes. que a superiora teve pena dela. Isso desde a visita da mulher do novo governador ao Convento das Ursulinas. tremendo sobre um fogareiro. da caridade da Sra. repreendida. lamentamos pelo Sr. eu apenas disse a Santa Verdade. Portanto. devida talvez ao ciúme. a respeito de uma encomenda de tabernáculo que os burgueses da cidade baixa desejavam oferecer a uma paróquia da costa de Beaupré. "Senhor. Seu coração se congelava. como penitência.. aquela que eu vi elevando-se das águas. feitas sob um terreno pertencente a ele. "Eles" não acreditavam mais nela.. Le Bachoys sacrificara-se muito pelo amor. CAPÍTULO III Madre Madalena. sem ter o direito de falar durante o dia com suas companheiras. Le Bachoys. mas você não teve habilidade. Cantor de Peyrac conseguiu se introduzir até o ateliê de douração da religiosa visionária. da modéstia. Certamente. Ela prestava atenção às tagarelices. tinham por engano levado a seus entrepostos. e que aquilo um dia havia de lhe acontecer. Tendo alguém observado. como a primeira dama da Nova França tinha maneiras suaves. e eis por que ela saberia resistir. Foi assim que. que Ele lhe inspire o arrependimento.. e mostrava uma máscara oposta. Se pelo menos a pobre religiosa pudesse falar com ela em segredo! Madre Madalena conseguiu fazer enviar-lhe um recado. de coragem. de Frontenac. à noite. Le Bachoys era considerada uma "pecadora". recebe uma visita inesperada "Eles" não acreditavam nela. a Sra. e que temiam por seus dias. vai me abandonar?" A cidade se transformava.

não tema nada. do que pelo que ia abater-se sobre o país.O desespero e o terror invadiram o coração da freirinha. de Peyrac. Temia menos por sua vida. Voltando-se. nem de concluir algo. É horrível. Ela está em seus domínios e meus pais ignoram que voltei à América. minha irmã. o mesmo que lhe aparecera. Mas acorri à senhora. era agora que ia se desenrolar o drama da Acádia. Nada aconteceu ainda! Não sejam tão impacientes nem de ser tranquilizados. assaltada pelo demónio súcubo saído das águas. senhor. que teve de retirar os óculos. tal como observara desde a primeira vez que vira a Sra. que ele parecia comandar.. Depois a angústia apunhalou-a novamente. não fará nada para nos salvar?" Atrás dela. Uma onda de alegria inundou-a. de Peyrac se encontrava em Quebec. — Então. A senhora conhece minha mãef Agora ela compreendia. de uma beleza surpreendente. eu me chamo Cantor de Peyrac. precipitadamente: — Impeça-a de fazer malefícios. E aqueles que sabem calam-se ou tremem. "Deus! Piedade!" .para enxugá-los. Naquele halo luminoso e amendoado como a auréola de Cristo. O Arcanjo da visão ali estava. enquanto um monstro de dentes aguçados. É preciso silenciar. quando a interrogavam e a confrontavam com a Sra. nem bem arrancado ao paganismo. E ninguém mais esperava por ele. CAPITULO IV A mensagem redentora do Arcanjo Deus tivera piedade dela. a outra mulher que se opunha à aparição diabólica. quando soube que a Sra. Ora. Silêncio! Estou'só. Juntou as mãos e disse. com um dedo sobre os lábios. Você sabe quem ela é? — Sei. armado com uma espada.. Bom Deus! O senhor sabe servir-se dos homens para Sua justiça e para socorrer os inocentes! Sua emoção era tanta. de Gorrestat se dirigia ao Canadá. percebeu o Arcanjo. Eles decidiram que o caso da visão estava terminado. Ele sacudiu a cabeça. pois estavam turvos pelas lágrimas. E. Caiu de joelhos no ateliê deserto. aos confessores. Como não compreendera há tempos que nada havia acontecido ainda? Era isso o que deveria ter dito aos juízes. via definir-se a eterna imagem. Se a Sra. o arcanjo vencedor se parecia com ela. se lançava sobre a Diaba e a fazia em pedaços. fazendo recuar os espíritos malignos. — Ninguém. a mulher nua. — Não. Os lábios de Madre Madalena tremiam. Vim para lhe recomendar isso e para que saiba . com seus olhos atravessados por sentimentos imundos. estava em perigo. como um rio que regenera uma terra árida. Não dizer mais nada. de Peyrac. e ao qual consagrara sua vocação. Era-lhe indiferente morrer. embora soubesse que um dia a "outra" voltaria para acabar confèla. Ninguém crê em mim. — Minha irmã. e tremia dos pés à cabeça. houve um leve ruído. a obsessão daqueles anos todos de debates e de confrontações que sofrera. "Deus. Por que duvidara? Não sabia que o Bem triunfaria? Ele se aproximou.

a pequena carcaju. pois fora apanhada na armadilha. Onde ela está? — No momento. Vou ao encontro dela. através dos pântanos. Desobedeça à Santa Regra. Acariciou o pêlo sedoso entre as orelhas pequenas e redondas. — Não temo a morte. que tinha o poder de assustar os índios. Por instantes. . Wolverines. Pouco habituado à natureza selvagem. Não é Wolverines.. com a longa cauda soberba. não soube defender-se?." Ajoelhado perto do animal inerte. sentiu ao mesmo tempo a fraqueza e a embriaguez que vêm a nós na convalescença. se preciso for. Desconfiava que os caçadores que perseguiam seu glutão estavam por ali. com o coração batendo e as mãos sobre as armas... Seu grande corpo peludo. que não tiveram sequer tempo de se descobrir para exibir sua ameaça de defesa. As curtas patas dianteiras... que se diluíram numa chuva fugitiva. evite encontrar-se em presença de quem quer que lhe peça para vê-la. chamando umas às outras. Seja mais forte que suas astúcias. Minha irmã. com as garras fechadas.. — E preciso agir com naturalidade. galgou o muro... pois não o podiam distinguir com o nevoeiro. mas doravante seria forte... ouviam-se passos pesados e silhuetas indistintas passavam por perto.. Apesar da máscara negra de bandido. docemente. como você entrou? — Silêncio — repetiu ele. dizem que está em Montreal. De longe. Os lábios.que estou a caminho. Humilhe-se. CAPITULO V Cantor em busca de seu glutão. Ele respondia como se pertencesse ao grupo. Ao perceber que ele desaparecera. Desculpe-se. o corpo abatidój com à longa curva de pêlos dourados que lhe ensolarava o pelame. em torno de seus olhos. Alguém gritou ao longe: — Encontraram-no! Cantor apressou-se." Mas quando se aproximou bem e viu o animal meio virado. e a neblina da alvorada era espessa. permitiam vislumbrar as temíveis presas dos dois lados da mandíbula.. examinou-o. tinha um aspecto tão meigo. mais franzino do que aquele de que se lembrava.... quando se sabe. de focinho curto.. após uma longa e perniciosa enfermidade. compreendeu. Continuava a tremer.. erguiam-se rígidas e impotentes como braços de boneca. — É proibido dar a vitória ao Destruidor — sussurrou ele —. contraídos numa triste careta. Wolverines Cantor abriu a porta do jardim das ursulinas.. — Encontraram o carcaju? — Ainda não! Bicho desgraçado!.. Senão ela conseguirá matá-la também..... Atravessou o cercado. pareceu-lhe menor.. que os assistentes cobiçavam.. O sol começava a aparecer e dissipar as brumas. — O que não a impede de deixar atrás de si um rastro de morte. Não o procuravam por ali.. "Teria se ressentido com a vida dos bosques?. contrastava com a cabeça pequena.. Não incite mais sua vingança. com as pálpebras cerradas. Seus olhos luziam com um brilho tão meigo e ofuscante que ela se perdia em seu esplandor.. Humilhe-se. Desceu até o rio Saint-Charles.. "É uma fêmea.. — Mas.

onde os caçadores iam recomeçar a perseguição a Wolverines. Ou então bem perto.. vislumbrou uma massa escura^ agachada sob arbustos. Wolverines. Wolverines!. Mas vamos vingá-la. Vira tudo. gritando a plenos pulmões: — Siga-me.. venha! Venha comigo.. foi de um a outro dos batedores.E adivinhou: "Sua fêmea!. Afastava-se sem ruído. nem aqueles que o cometeram. Havia tanta tristeza mas também tanta alegria incrédula naquelas pupilas que luziam sob as groselheiras silvestres.. E continuou a falar-lhe até que sentiu que os laços estavam reatados. mais longe. até que pudesse esganá-los. agora.. com o pedido de suspender a caçada e limitar-se àquela caça que ali estava. CAPÍTULO VI Na pista de Honorina — O barqueiro Pedro Lemoine . naquela mesma linguagem de palavras francesas. e ele falava incessantemente. galopando e saltando sobre os obstáculos do sobosque. até conseguir pendurar no alto de um olmo suas cabeças dilaceradas. siga-me.. e um olhar humano à espreita.. Finalmente. onde os terrenos não tinham ainda sido entregues aos arroteadores. Mesmo reconhecendo-o. Mas eu estou aqui. até ali. Parecia-lhe que o glutão não estava longe.. Começou então a correr. um daqueles humanos que haviam matado sua companheira. Wolverines. Venha comigo a Montreal. seguindo-o. daí em diante. em direção à margem do grande rio. A captura e o encarne. — Despojos? Já os têm — disse ele. Já desaparecera.. Mais um crime na série de crimes que vai se espalhar na esteira da Diaba.. o caminho de água. mas que encontrava meio de se espraiar e progredir bastante na cidade. observando-o. vamos vingar sua fêmea. deixaria que Cantor se aproximasse dele. — Isso deverá satisfazê-la... Cantor levantou-se. — É que. — Ela nos fez prometer que lhe mostraríamos os despojos quando voltasse de Montreal. Pelo resto da manhã avançou pelo sobosque e pelas brenhas quase impenetráveis de uma floresta que as lavras relegaram ao cume das encostas. Cantor voltou os olhos para os homens que o observavam. tanto sofrimento mas também tanta felicidade. inglesas ou índias e de onomatopéias que outrora empregava. Nem o crime.. deixando o grupo discutir com veemência sobre quem se apropriaria dos despojos do glutão fêmea. durante longos dias e noites cruéis? Nunca se esqueceria. precedendo-o. estraçalhá-los. — Perdoe-me — disse ele mais uma vez. Sem ruído e à sua maneira peremptória. — Wolverines.. entregando a cada um uma gratificação. depois de tê-los vigiado e perseguido a ambos. a senhora governadora também nos pagou muito bem para que acabássemos com o carcaju que ronda Quebec há dois invernos e que vem causando muitos estragos — observou-lhe um dos homens. Jamais se esqueceria." Ele estava lá longe.. Era a fêmea dele". quando se encontrava na orla do valezinho devastado. separadas do corpo por suas garras e presas vingadoras. olhando à sua volta os homens silenciosos e. até liquidá-los. "Eles mataram a fêmea dele. e havia de persegui-los até derrotá-los. Não o reconheciam.. não cheguei a tempo. os bosques de cimos franjados de chuva perolada.

e . pois "era muito desobediente". antes de sua partida de Versalhes. Sem tergiversar mais. Ali as notícias corriam depressa. e prendê-lo em Quebec. A cidade ao pé do monte Royal estava ainda marcada pela grande feira de peles do outono. e por fim compreendeu que a menina desaparecera. Conhecia muito bem o ser infernal que jurara destruir dessa vez para sempre. cujas funções estava naquele momento assumindo. isso sim!". e que se cogitava inclusive que deveria fazer uma viagem à França. e agora se podia augurar que as obras de caridade seriam beneficiadas. quando uma religiosa. e Honorina. por instinto. num tom leve e casmurro. sem decidir sobre a qual das duas faria sua primeira visita. fora convocada com urgência por monsenhor. apanhar na armadilha. sem dar a isso muita atenção. pôr a salvo. Por isso. de Gor-restat misturado às explicações muito confusas que lhe dava sua interlocutora. Pediu para ver Madre Margarida Bourgeoys. Cantor rodou através. A Sra. hoje mulher do novo governador. se ainda houvesse tempo. a Sra. com esse domínio mais aberto à compreensão e à atividade feminina —. de ar altivo sob um lenço preto bordado de branco. Obrigou-se. maiores detalhes. Madre Delamare disse que Madre Bourgeoys. Medo de saber que chegara tarde demais. Isso também sabia Cantor. Seu espírito permanecia ocupado por dois pólos: Ambrosina. pensou. Cantor jamais estivera em Montreal. tinha movido céus e terra para encontrá-la. que tinham doravante a felicidade de acolher junto àquele que ocupava o mais alto posto da colónia — o que era — explicou num longo parêntese — outro sinal da bênção divina. Mas. o bispo. sua diretora. e ela lhe desagradou. E tinha de se lembrar que a tal Sra. tendo escapado por diversas vezes. captando o nome da Sra. Mas. far-se-ia notar. a exigir. Cantor examinou sem condescendência aquela que lhe falava. que se apresentara como uma grande amiga da Sra. era tocante ver com que dedicação aquela grande dama. decidiu-se pelo Convento de Nossa Senhora. a fim de explicar-se com o arcebispado de Paris.Antes de aparecer diante daquela que vinha perseguindo de tão longe. de Montreal. pois era esse seu objetivo ao empreender aquela viagem aparentemente oficial. Andando para a frente e para trás com hesitação. e que aquela mulher caridosa e alerta parecia ser verdadeiramente uma amiga de sua mãe. de Gorrestat tentara mandar matá-lo. não devia ter esperado para atacar a filha de Angélica. apertando os lábios. Se continuasse a se expor daquela maneira. Se "ela" chegara à ilha de Montreal havia três «emanas. das ruas de Ville-Marie. cuja tradição se perpetuava com a vinda das tribos vizinhas. Sua hesitação em buscar notícias de Honorina era causada pelo medo. Não se enganava. Um pressentimento não parava de atormentá-lo. e se sentia estranho. de Gorrestat. pois até então a colónia só tivera em sua direção governadores privados da doce e generosa influência de uma companheira. que devia proteger. Já estavam se voltando à sua passagem. Lembrava-se subitamente de tê-la encontrado. interessava-se pela menina. seu coração baqueou. em Tadoussac e em Quebec. "Céus e terra! O inferno. compreendeu sua imprudência. de Peyrac. de Maudribourg. Ao saber de seu desaparecimento. era pois comovente e encorajador ter podido constatar com que fervor ela pusera todo o país em ação para encontrar a pequena interna fugitiva e a ajuda que trouxera espontaneamente às pobres religiosas de Nossa Senhora em sua preocupação. Em resumo. em Quebec. que devia surpreender. não se surpreendeu ao ouvila dizer que Honorina de Peyrac não estava mais ali. contudo. o recebeu num parlatório cheirando a cera e maçãs recém-colhidas.

Ela era capaz de tudo. — Não ouso emitir em voz alta minha opinião — sussurrou a freirinha. — E você tem razão. enquanto isso. as meninas comiam pão com melaço e o olhavam com curiosidade. Chegando à cerca que delimitava o pomar. pois sei de fonte segura. uma sombra sinistra rondava. Um sopro deletério envenenava o ar que se respirava... Oh! caro senhor. pois essa pessoa. com medo de incorrer em censuras por tentar proteger as crianças. tapou a face com as mãos e fugiu soluçando para a casa. provocando muito barulho com as pesadas saias. assim que sua superiora virara as costas. usando das prerrogativas de sua posição. detivera tudo e acionara a máquina ao contrário. mandara trazê-la de volta. Um dia encontrariam um pequeno cadáver mutilado. confrangido pela angústia. Por trás da imagem mais inocente. armada com seu suave e inflexível poder sobre os seres de boa vontade. como sobre as almas negras igualmente. Pobres mulheres! Podia-se reconhecer ali o vento de desordem que se levantava à passagem da Diaba. a mulher do novo governador.. Depois a menina desaparecera. Ambrosina? Mais urna que se deixara enganar e que subitamente se achava guardiã do Mal. mas aparentemente não caíra nas mãos de Ambrosina. pois esta mandara continuar as buscas. arauto dos primeiros frios. A menos que fosse apenas um artifício para dissimular seu crime. que tinha por fundo a extensão cinzenta do rio confundida com o céu do mesmo azul-acinzentado que as águas. Depois voltou atrás. que falava extasiada daquele monstro de vícios. Enquanto subia uma alameda de carvalhos que levava à estrada carroçável e que o ocultava da casa.. Como Madre Bourgeoys pudera deixar em seu lugar uma pessoa como aquela que o recebera. o que acontecera a Honorina? . a linha da infinita floresta americana mal se distinguia sob a aproximação de um nevoeiro. uma terceira se escondia. que se trata de um demónio. Mas. mas alegrei-me de que a menina tenha escapado. sob macieiras de ouro polido e cerejeiras nuançadas de encarnado. é o irmão de nossa pequena Honorina. Cantor estava furioso. me pareceu assustadora. pelo que compreendi. entre as santas mulheres. a seu bel-prazer.também a Roma. o rapaz compreendeu como as coisas haviam ocorrido. encontre-a! O que irá dizer Madre Bourgeoys quando voltar? Ela deixou ordem para que a menina pudesse partir com a caravana. em que se misturavam cólera para com as damas do lugar. Ambrosina. A força de interrogá-la. o que era motivo de muitas controvérsias nos meios eclesiásticos. O pesadelo recomeçava. no fim da alameda. ouviu alguém correr atrás dele e percebeu uma jovem religiosa que se esforçava por alcançá-lo. conforme pedido do mensageiro enviado por sua mãe. voltou-se para a casa baixa e branca. — Senhor. contrariava suas ordens. terror em relação a Ambrosina. irmã — desferiu-lhe ele —. O rapaz deixou o lugar num estado de espírito agitado. para impregná-las de pecado. Traçada ao longe. Ela deu um grito de horror. um demónio súcubo.. Suspendera a partida de Honorina. Como nossa irmã Delamare se-deixou enredar a esse ponto?. O coração de Cantor doía-lhe.. olhando para os lados —. em virtude dos estatutos de sua ordem de religiosas docentes mas não clausuradas. de uma fonte eclesiástica. a outra. inquietação por Horiorina. Sentadas na relva. Havia como que um hálito ruim que embotava as cores e o brilho da vida feliz. Essas freiras eram todas retardadas? Uma abandonava suas responsabilidades por uma viagem que podia durar pelo menos dois anos.

Chegou à margem do rio e começou a acompanhar seu curso, sem saber ainda o que fazer. Para abordar a inimiga, a hábil criatura de língua viperina, precisava refazer as energias. Pensava em Honorina e, por trás dás palavras pronunciadas no parlatório: "ela era muito desobediente", "ela desapareceu", "causou uma grande confusão, fugiu", revia a silhueta da garotinha de cabelos ruivos, alta "como três maçãs", com a carinha redonda, desprovida de beleza mas tão cómica, encimando-lhe o lindo pescoço, naquela atitude de desafio e dê dignidade tão característicos... Que força indomável naquela criaturinha! Era por isso que havia uma tendência, a se mostrar duro e injusto para com ela. E ele em primeiro lugar, pensou com remorsos. É verdade que ela era insuportável. Mas continuava a sentir raiva de todas as mulheres, e quando pensou na injustiça que jamais deixara de pesar sobre Honorina, sua cólera estendeu-se àqueles que a tiveram sob sua guarda e que não lhe tiveram amor, portanto, a si mesmo. Todo mundo queria livrar-se "da menina. Ele também, quando estava em Wapas-su, queria que ela fosse punida. Aquela menininha, exigente e suscetível, que monopolizava sua mãe e mesmo seu pai sem qualquer direito, o agastava. De onde vinha aquela menina?... Era melhor não pensar nisso, pois sentia vontade... de desembaraçar-se dela. E agora, era bem feito! Não sabiam nem onde ela estava. Todo mundo quisera isso. Mas era uma coisa horrível, mais pesada que chumbo para se carregar. Pois ela era tão pequena e tão engraçada... Era orgulhosa, teimosa mas indefesa. "O que é uma criança?", diz o iroquês. "Não se pode dar importância a seus atos, pois ela não tem juízo. O que lhe deve o adulto?... Defendê-la enquanto ela se fortalece e cria juízo!... Mas Honorina fora arrancada e lançada ao vento!... Lembrava-se de quando ela lhe levava raminhos de flores, quando lhe engraxava as botas para lhe agradar... Ela sempre o amara. Ele era seu preferido. Por que a repudiara? Não compreendia mais. Era apenas uma criança! Não deveria ter deixado aquele estúpido ciúme corroer seu próprio coração. E agora Honorina estava perdida, por culpa deles todos, por sua culpa... As lágrimas brotavam-lhe dos olhos... Esforçava-se por retê-las. "Seguirei sua pista!... Irei até o fim do mundo. Farei aquela megera confessar. Eu a encontrarei, Honorina... Vou trazê-la de volta." A pequena Honorina em. preces. Fora assim mesmo que ela se anunciara da última vez. Ele havia ido às ursulinas de Quebec para despedir-se dela, antes de embarcar com Florimond. Mas ela mandara dizer pela madre superiora que estava rezando na capela, que tinha tido uma visão... e simplesmente se recusara a vê-lo. Que cabeçadura!..." Enxugou os olhos. "Vou encontrá-la, cabeça-dura!. Sozinho, acompanhava a beira do rio. Estava agora longe da cidade e ultrapassara as últimas casas, dispersas em meio aos jardins e campos. Ouvia apenas o roçar das plantas altas contra as botas e o sussurro dos insetos de fim de verão, cujo número começava a reduzir-se pelas noites frias, agrupados em nuvens vorazes. Maquinalmente dirigia-se para o oeste, tomara a direção oposta à de seu acampamento, um canto sob os chorões que escolhera na extremidade oposta da ilha, num lugar pouco povoado, onde só havia, no alto da colina, um velho moinho abandonado, por que o proprietário do lote nunca trouxera um contingente de pessoas

para povoar essas terras. Os sulpicianos que as haviam cedido estavam em negociações para retomá-las, mas o caso se arrastava, e o lugar, enquanto isso, continuava a ser domínio da caça aquática. . Cantor de Peyrac desembarcara ali pela manhã. Não se aproximara da ilha de Montreal sem precaução, e após uma série de manobras destinadas a confundir sua pista, e a encontrar em cada etapa seu companheiro Wolverines, seguia-o ao longo do rio. Dotado de um instinto que o avisava a distância de suas intenções, o animal esperava-o sob um arbusto no lugar onde o jovem viajante deixava a barca ou o navio em que conseguira passagem por um dia para subir o Saint-Laurent, ou então Cantor, sentado junto à fogueira na noite do litoral, via-o surgir ao cabo de algumas horas, dando grandes saltos cómicos. A canoa servira-lhe para fazer o animal atravessar. E agora, o glutão estava na ilha. Era preciso agir depressa, antes que os cães ou os índios ou habitantes, lavradores, pescadores, caçadores ou casais de namorados o descobrissem e anunciassem sua presença. Cantor de Peyrac tinha dè arquitetar um plano. Mas precisava acalmar dentro de si aquele furacão de inquietação que o submergira. Esforçou-se por se acalmar e encontrou consolo na lembrança de todas as brincadeiras que fizera com Honorina, aquele diabrete de cabelos ruivos. Pois, no fundo, os dois entendiam-se muito bem. Muitas' vezes empoleirava-a nos ombros para fazê-la dançar e saltar "como os índios" em suas danças guerreiras, gritando “iu! iu! iu!", e uma noite enluarada levara-a, às escondidas, para escutar o coro dos jovens lobos, chegando bem perto para vê-los. Uma voz de rapaz cantando sobre a água chegou até ele. "A seis de maio do ano passado, Fui lá para cima... Para fazer por lá uma longa viagem... Ir aos países altos Em meio a todos os selvagens..." Cantor levantou a cabeça e viu que o nevoeiro que vinha de longe recobria o rio. Ele passaria e iria pendurar-se na beirada do monte Royal para o norte. Ou então se dissiparia como por encanto. O outono era uma estação clara e alegre, de cores quentes mas breves. Por trás do nevoeiro, a voz melodios a continuava: "Quando a primavera chega Os ventos de abril sopram em suas velas Para voltar a meu país Na extremidade de Saint-Sulpice Irei saudar minha amiga Que é a mais bonita..." Uma barca despontou, saindo do nevoeiro, conduzida apenas por um rapaz de dezoito a vinte anos, robusto, no qual Cantor reconheceu Pedro Lemoine, terceiro filho de um negociante de Ville-Marie. O mais velho, Carlos de Longueil, servia como tenente no Regimento de Saint-Laurent em Versalhes e fazia parte de sua companhia.

Depois de se olharem, cumprimentaram-se. Pedro Lemoine passara também uma rápida temporada na corte. Apesar da pouca idade, era um marinheiro emérito, que já conduzira navios na travessia do oceano. — Julgava que você estivesse na França. Traz notícias de nosso irmão Carlos? Tivemos notícias dele recentemente por Tiago, meu irmão do meio, que voltou na escolta do Sr. de Gorrestat, o novo governador. Ao ver Cantor franzir o sobrolho, acrescentou: — Isso não quer dizer que estejamos de acordo com ele. Ele é meio louco, o Tiago. Fez parte do conchavo contra o Sr. de Frontenac. Mas tudo isso vai se acalmar com o inverno que se aproxima... E você, teria chegado também com o governador?... — Vim para procurar minha irmãzinha, Honorina de Peyrac. Pedro Lemoine, amarrando o barco numa estaca à margem do rio, saltou para a terra. Estava se dirigindo a Lachine e decidira fazer uma parada, enquanto o nevoeiro se dissipasse. — Sua irmãzinha, você diz? — perguntou, com um ar pensativo. — Imagine que há menos de três semanas ela estava aí, bem no lugar onde você está. Estava aí, sozinha, tão pequena e carregando um grande alforje. Eu a vi. Disse-me que queria ir até o solar do Lobo, à casa dos tios. Levei-a em minha barca e deixei-a não muito longe do solar. — Meu tio De Sancé! — exclamou Cantor, iluminado, pois via ali uma pista para encontrar Honorina. Dera pouca atenção à descoberta de uma parentela no Canadá. Já bastavam todas aquelas que Florimond desencavava em Paris. Subiu por sua vez na barca do jovem canadense. Obteria mais informações lá embaixo. "Ora, vejam, aquela danadinha!", dizia consigo, todo animado, "como soube se arranjar direitinho..." Um vento fresco dissipara as brumas. Cruzaram uma barca carregada de crianças. Os jovens de Montreal passavam a vida sobre a água, manobrando velas. Mosqueadas de branco, as corredeiras se anunciaram a montante. Pedro Lemoine deixou Cantor na extremidade inferior da costa. Disse-lhe que se preparava para partir para o alto Saint-Laurent e que, se quisesse encontrá-lo, estaria em Lachine, onde ia recolher bagagens e mercadorias. CAPITULO VII Mariângela do lobo Um elfo de cabelos loiros descia a campina, ainda verde, correndo e dançando, vindo em sua direção. Tinha um olhar que lhe pareceu familiar. Achou-a imediatamente muito graciosa e, quando ela parou a alguns passos para examiná-lo com ar pensativo, lembrou-se de que uma das filhas daquele tio, reencontrado após um silêncio de quase trinta anos, teria, diziam, os traços semelhantes aos de sua mãe, Angélica de Peyrac, nascida Sancé de Monteloup. O que, na ocasião, lhe parecera impossível. Em seu foro íntimo, devia retratar-se. Não seria mais o único a evocar um rosto que fazia o rei suspirar quando ele aparecia, o que ao mesmo tempo lisonjeava e causava alguma inquietação ao jovem pajem, portador, a contragosto, de sombrias lembranças para Sua Majestade. Esta era uma evidência que acarrateria outra. Os dois jovens pareciam-se de tal forma um com o outro que acabaram por rir.

— Por quê? — Porque o governador e sobretudo sua esposa estão pondo o país inteiro de pernas para o ar. Mas sei o que lhe aconteceu. Ganchos dependurados do teto prendiam lotes de peles. Mas era a garotinha que estavam esperando. do Lobo. eu lhe imploro. eu lhe estou dizendo! Mas tenha paciência. de Frontenac. minha amiga. — Por que você se desola tanto por não ver meus pais? — Eles poderiam dar-me notícias de minha irmãzinha Honorina. Por pouco não a sacudiu. a fim de acolher o governador que substituía o Sr. — Vi-os de longe. tão impaciente estava. — Primeiro ela foi escondida entre os iroqueses da missão de Khanawake. Finalmente alguém que não se deixava iludir. O pobre Cantor sentiu o peito dilatar-se sob o efeito de um alívio incomensurável. Ela o avisou que seus pais estavam ausentes. no Caminho do Rei. e Sra. introduzindo-o numa vasta construção. Só o soube mais tarde. Sua carruagem estava parada embaixo. Ela colocou vivamente a mão no braço do primo. rendas e plumas. mas ela o levou para o lado das dependências de serviço. no grande prado. — Mas o que significa essa-maluquice de viagem e de correr por causa do governador? — gritou Cantor. como periquitos com seus saltos vermelhos. Num canto. . "Eles" tinham voltado. Um índio trouxe-me notícias dela. você me agrada — disse ele. — Por quê? — Para que escape àquela mulher que quer matá-la. e foi lá que a pegaram. esses franceses. — Se é por sua irmã que está preocupado. Dessa vez subiram até o solar. meio granja. E você. O que não impedira que o tal governador chegasse a Montreal quase imediatamente após a partida do Sr. Tinham sido chamados a Quebec e tiveram que partir para a capital. E o problema é que ela não compreendera que daquela vez não fora por eles que tinham voltado. uma boa parte da colheita de feno fora-empilhada. contava Mariângela. deixe-me prosseguir minha história. Ela o mirava com os olhos claros e tranquilos. não? Olhava à sua volta e começava a se surpreender por não ver ninguém mais. dos lados da Madeleine. uma almofada. uma manta e um braseiro como os usados nos navios. em frente a Lachine. Notou alguns objetos de toucador. e foi ali que se sentaram. como se a jovem com jeito de fada fosse a única habitante de um domínio adormecido sob efeito de um súbito encantamento.— Prima. Soube que ela tentqu encontrá-los. Esperou que ela o fizesse entrar no solar. Não sabia o que vinham fazer ali nem o que esperavam. Depois da partida dos pais. meio entreposto. — Você a viu? — Não. — Ela escapou-lhes. Eles voltaram no dia seguinte. passando afetuosamente o braço pelos ombros da adolescente. — Senhor! — exclamou Cantor. e depois os índios a levaram para mais longe. novamente transtornado. lívido. suponho que seja Cantor. posso dar-lhe notícias dela. — As pessoas estão enlouquecendo? — Gom efeito. um pouco trocistas. — Oh. — Venha contar-me tudo isso num lugar tranquilo. abracemo-nos! Como se chama? — Mariângela. não demorou muito para acontecer. longe dos olhos curiosos que vêem de longe. — Fale. um pente e uma escova colocados sobre uma arca.

Chameio. incitada por um trabalho a realizar ou uma diretiva a ser dada. e o mais jovem. — Certo! Eu encontrarei. ficaram muito assustados. — Não o tentaram. geralmente.. sentiu que ela o examinava com os olhos brilhantes de satisfação. atravessar prados ou casas. Você teria de ir pela estrada. — Ela continuou: — Encontraram a casa vazia.. minha amiga. sem se preocupar com a idade ou com a dignidade de sua posição. Era verdade que se parecia com Angélica. Então. O índio batizado me disse que o intinerário devia ficar em segredo para que a menina corresse o menor risco possível. os maiores com os senhores de Saint-Sulpice. Perturbou-se um pouco. casada com o oficial com guarnição no burgo de Saint-Armand. — Minha irmã está salva! Priminha. Tinha-a ainda quando. Será um dia novo. Não devia esquecer que essas moças canadenses eram muito audaciosas.A esposa do governador andava à frente. — gritou Cantor. Não tinha mais forças para pensar em nada. sentia-se esgotado. num país em que faltavam mulheres. subir alegremente uma escada ou uma senda nos bosques. Ela voltou com grandes fatias de pão. Mandei meus irmãos instalarem-se na cidade.. De Gorrestat não conseguia disfarçar seu desprazer diante da inanidade das investigações. essas feras da corte não poderão mais persegui-la no fundo de nossas florestas!. ela se estendeu perto dele no feno-e lhe disse que seu pai lhe propunha partir para França para conhecer a vida de uma jovem nobre francesa. um pichei de sidra. em Khanawake. Eu disse a meus irmãos: "Vamos sumir daqui! Vamos sair por trás e nos esconder no bosque". mas mais tarde. — Anoitece. em sua juventude em Monteloup. lhe davam ajuda. — Que caminho tomaram os homens de Khanawake para ir ao país das Cinco Nações? — Ignoro. eu não quis voltar para dentro da casa.. Enquanto ela se eclipsava. E. pois essa parte do rio não é navegável à noite. alojei-me neste armazém. fê-se girar numa ciranda entusiasta. você tirou de meu coração um peso enorme! Essa caça podre. desejavam reaproximar-se de sua nação iroquesa. julgando agir cor-retamente. e junto dela sentia-se à vontade. Que faria se voltasse à cidade e o reconhecessem? Fique até amanhã pelo menos. . Enquanto ele comia.. Dizia-se à boca pequena que a Sra. Alguns dias mais tarde. como se ele a tivesse conhecido sempre. — Está salva!. onde fazem seus estudos. e suas forças também. Estendeu os membros doloridos. dava-lhe vontade de correr. vi o índio que rondava pelas imediações. Privilegiadas por seu sexo. con-fiaram-na a uma caravana de cidadãos das Cinco Nações que. Mas. apesar de batizados. e ele me contou tudo. Enquanto isso. não será coisa fácil livrar a terra da sua presença ímpia. Apoiado ao cotovelo. procurando alguém para entregar sua mensagem. creia-me. quando viram que aquela mulher vinha procurá-la com tanta constância e quê seus padres jesuítas. entres eles. erguendo-se se atirando o chapéu para o alto. a moça reteve-o. Honorina fugira com a ajuda de uma de suas irmãs batizadas da tribo dos agniers. permanecendo apenas pasmo com esse encontro com sua prima Mariângela. Antes. Agarrando as mãos de Mariângela. e supunha de bom grado que esta devia ter a mesma vivacidade airosa. frios. em casa de minha irmã. em sua primeira infância. Cantor deixou-se cair para trás no feno.. ela houvesse partilhado suas brincadeiras no Plessis ou em Versalhes. O surpreendente era que Mariângela tinha também alguma coisa da alma de Angélica. todas coisas urgentes. Vou buscar-lhe algo para comer. Como ele esboçasse um movimento para se despedir. tenho de acabar com o demónio. Agora que estava tranquilo sobre a sorte de Honorina. Mas. depois de sua passagem. e eles a esconderam.

Ali. não sendo casada e não reconhecendo em si qualquer vocação religiosa. havia certas protuberâncias. Ambrosina de Maudribourg. aliás. a cor . no centro daquela casa de grandes pedras achatadas. os nascimentos anuais. que lançou sobre os dois. sentia-se pouco à vontade. Experimentara o mesmo em Gouldsboro. que. Em primeiro lugar. por instantes. cada golpe desferido. os trabalhos dos campos e do estábulo. estendidos um ao lado do outro. com os olhos fechados. vivendo. endireitar os cachos junto às têmporas e bochechas. como todas as crianças que nascem fora das restrições ou das desigualdades de uma velha sociedade hierarquizada. Ficou-lhe grato por não lhe fazer outras perguntas e por. Mas ali era pior. mas que. posta à sua disposição pelos anfitriões de Montreal. Desde os catorze anos. Devia ser ao mesmo tempo mais infantil e mais amadurecida que suas companheiras.inocentes e naturais. Devia ter-se lembrado de que as terras longínquas exalam forças estranhas.. que as esperava. cresciam estreitamente motivadas por esse destino de mulheres de pioneiros. bundo. Ali estava ela. nos longínquos censos. Pouco adiantava maquilar-se com habilidade. longe de procurar distraílo. nascidas e criadas como ela na Nova França. Estava diante da penteadeira. conquistando. desde que soubera que Angélica fora ali recebida antes dela. juntando as palmas das mãos sobre o peito e tomando a atitude de um mor. Mesmo tendo de reconhcer que era muito bem mobiliada. já não é tempo de nos tratarmos como parentes íntimos? Levantou-se novamente para ir buscar uma grande coberta. Era tudo tão entediante ali! Ao passo em que Gouldsboro. Uma mulher tão bela de se olhar. ter-se posto a dormir. certas cicatrizes que não conseguia apagar inteiramente. Começou a experimentar o insólito dos lugares onde se encontrava. E saboreara cada minuto de aproximação. os anos de formação mundana não eram levados em conta. achava-se numa situação que não tardaria a tornar-se difícil. Nada mais delicioso do que ver obscurecer-se. de Gorrestat. do berço ao casamento. olhou ao seu redor com mau humor. — Primo. pois o frio do crepúsculo começava a se fazer sentir. CAPITULO VIII A ressurreição de Ambrosina — Cantor face a face com a diaba A Sra. que vinha solapar sua febre de ação. havia Angélica. prontas a assumir a solidão do inverno. A desaparição da filha de Angélica parecera-lhe um mau presságio. Os curas de suas paróquias e as religiosas que as ensinavam tinham muita razão em fazê-las passar sem demora da férula da escola àquela do casamento. quase dezessete. de fundadores de famílias. depois de enterrar o narizinho confiante em seu ombro. lhe devolvia o reflexo de um rosto ao qual não estava ainda totalmente habituada. pois havia também o tédio. aos dezesseis anos. Mariângela do Lobo. — O combate é para amanhã — respondeu. fazendo sofrer. devido a inquietação. que lhes pareciam sem sentido. — Em que está pensaiído? — perguntou. não se embaraçavam com os ares reservados.. Os caminhos alambicados do Amor descritos pela Carte du Tendre e as sutilezas das preciosas parisienses eram-lhes desconhecidos. eram afáveis mulheres de colonos.

. ter dado qualquer motivo de suspeita. Precisava desaparecer.. ou aquele. Enquanto acreditava que ele caía em minhas armadilhas. um homem idoso que voltara das colónias e que a tomara como amante. a tornara prudente. O velho Parys satisfaria sua necessidade carnal com ela. A França fervilhante permitia ao casal apagar os últimos vestígios. Uma amarga e inconcebível experiência. muitos artifícios. Julgavam que ela se cobria com um véu por viver à sombra de um amante rico. as defesas masculinas de homens considerados incorruptíveis: eclesiásticos ou altos funcionários devotos. notários" ou homens de negócios. desfigurada. não cedera a seus avanços?. feiticeira e envenenadora. desde a juventude. para se acender. Levara anos para compreender. nem dela. encontram-se> sem dificuldade. que acabariam . Fora preciso esperar.verde de seu olhar. Ah! quantos anos de fingimento! E sem poder sequer oferecer a si mesmo o sutil e secreto prazer de torturar alguma tola esposa de província roubando-lhe o marido. Desmascarava todas as minhas mentiras. Ele a queria. Podia felicitarse por não. que a ajudara a evadir-se. em desfigurá-la e entregá-la aos animais selvagens da noite. de Maudribourg. nos quais o fogo ardente de uma virilidade declinante exige. cada uma de suas perguntas insidiosas tinha por ob-jetivo me desmascarar. de ver cederem. Nenhum escrúpulo. dar as cicatrizes do rosto tempo de se apagarem. igualmente imaginários.. Primeiramente. por quem estava tão loucamente apaixonada. queria ser salva e escapar de seus inimigos. sentia a amargura invadi-la ao rememorar o longo purgatório vivido pela Diaba vencida." Ainda agora. nenhuma falha se insinuara em seu plano. quando lhe insinuava que Joffrey de Peyrac. Queria se espojar sobre ela. por bons escudos legalmente válidos. Desaparecer para sempre. No fundo das províncias. nos quais. acompanhado de data e lugar de nascimento. vivida em terras da América. No final das contas. Mas era Ambrosina que se entristecia ao lembrar-se disso. O pacto foi concluído. um tal de Nicolau Parys.. Sempre preferira os velhos. Tanto um como o outro-se ativeram aos termos do contrato firmado entre eles numa noite sinistra. quando retornara ao local escolhido para sua vingança. como um porco no chiqueiro. diante de seus encantos. nem dele. rangia os dentes ao pensar nisso. em assassinar Henriqueta Maillotin. "Ele me desprezava. como assassina. se tivesse sobrevivido. desconfiou de mim. e mesmo curas complacentes para passar papéis de casamento. de sangue meridional. Quanto a ela. mais voluptuoso ainda. Desde o primeiro instante.. Hoje. fora uma silhueta discreta deslizando pelas ruas. Durante todos esses anos.. O navio se distanciara. mas cujo corpo permaneeia-intacto. Sempre quisera e continuava querendo aquela mulher ferida. Ambrosina sempre fora perita.©velho Parys era um bom comparsa e cúmplice. Ele! Ele! Por que aquele homem galante. Tinha de ser prudente. tentava tornar-se amante da Sra. na costa leste de Tidmagouche. inatacável.por tornar irreconhecível aquela jovem mulher que iria substituí-la no túmulo. ao simples enunciado de um nome de batismo. que a entregariam à justiça do rei.

Não era mais totalmente a mesma. dela? E por esquecer. o que era mais grave que tinha uma missão a cumprir. Sim. de intrigar. que atrelava a sua fortuna e que. reduzir ao silêncio os "estorvos". se fosse preciso. . Ambrosina designara-se como nativa da província do Poitou.. em Nevers. Não era isso o que mais a tocava.. bem recompensados de mil maneiras. que começou à recrutar seus "fiéis": senhores arruinados ou criados sem escrúpulos. dizia consigo. sob pretexto de parentesco. para ela." Acalentando suas ofensas. longamente urdidos. nascida Richemont. Certos vestígios jamais se apagariam. para dar prosseguimento a sua vingança. durante a viagem do governador efetivo. para se divertir. e que todos admiravam por acompanhá-lo tão corajosamente àqueles longínquos e rudes países. intendente de província. mas munido de apoio seguros e relações importantes. e chegou o momento de o velho Parys falecer. dizia-se. e seu substituto. a apagada. sua esposa. apagada e discreta. os anos haviam passado para Ambrosina. longe de diverti-la. A seguir. comprar alianças ou cumplicidades e. até em Tidmagouche. No pé em que estavam as coisas. vice-rei por vários anos. não teria acabado por esquecer que só tinha um objetivo em vista: vingar-se deles e. "Quanto mais eu descia mais ela se tornava deslumbrante. encorajara-o a se ocupar dos negócios coloniais. por efeito de alguma poção. espreitando no espelho a cura. Para Ambrosina. bem pagos. o Sr. a esquecer? E então calafrios de terror a sacudiam. e depois a ressurreição de seu rosto. nessa questão de origem. O que era excelente. houvera duas semanas em Paris onde se introduzira em algumas repartições. Havia algum tempo. por correspondência entregue por homens da lei. Pois. almas negras de sua espécie. se conseguira enganar a rival. E pouco depois. Não deixava de ser engraçado reclamar. à força de ser tão ajuizada. que transformara em marido. tudo se passara conforme seus planos. tão jovem. O primeiro desses servidores não era. e isso era culpa de Angélica. Os espelhos lhe anunciavam que podia reaparecer à luz do dia. a reclusa. se encarregavam. a própria juventude. imposta ademais por um amo que não suportava o fracasso? Não fora tentada. de Gorrestat? Muito rapidamente e atenta a todas as oportunidades. Múltiplas intervenções obtiveram para ele sua nomeação como governador interino. aquele homem de pouca inteligência e muita vaidade. Não era mais tão bela.E. e eu a mantinha à minha mercê. Ah! quantos anos fingindo. notícias da Sra. depois a pleitear um cargo na Nova França. de Frontenac. Foi apenas depois de desposar. Mas essa fantasia criou-lhe problemas depois.. de Maudribourg e de sua expedição. obrigado a ir a Paris explicar-se com seu soberano. que se fazia chamar Armanda. no final Angélica fora. segundo seus desejos. Por isso. pois parecera-lhe que a outra nutrira com sua derrota a própria beleza. por instantes. o Sr. pedira. de fugir para outra cidade e mostrar-se com o rosto descoberto e sob outro nome. de Gorrestat. despertando seu ódio por "eles". sob sua ordens. o Sr. de qualquer modo. que se mandasse esclarecer o caso do La Licorne. a mais forte. e por vezes se felicitava por isso.. Os véus foram se tornando menos espessos. já se podia considerar certa a desgraça de Frontenac. quando estava doente. sua viúva. aquela evocação do Poitou provocava-lhe raiva. principalmente. que a haviam colocado em xeque. Pois essa identidade falsa lembrava-lhe incessantemente que. sem sabê-lo.

Mas. o que todos eles estavam pensando?. acreditava nisso. pois pretendia acertar ali alguns contenciosos com aqueles que. "Mais tarde. que a odiava por ter mandado executar Maria. Lambia os beiços. saber que a filha do Conde e da Condessa de Peyrac — a menina para a qual Angélica apanhava ame-tistas nas praias de Gouldsboro — era interna na instituição das religiosas da Congregação de Nossa Senhora. como exigia seu novo título de mulher de governador. a ser ali recepcionada e aclamada. conforme soubera. haviam apoiado seus piores inimigos. sentindo vacilar a infalibilidade de suas astúcias.. Prontamente a carruagem dos Gorrestat tomava o caminho do Havre. livre para ir aonde quisesse. uma cidade dos antípodas gelados.. entretanto. desta vez. Seu objetivo não era ser incensada por aqueles xucros coloniais. que conseguiram penetrar no estuário do Saint-Laurent.. para uma reverência ao rei. E já estavam mortos os que deviam morrer. que sentia serem falsas e perigosas." Pena que. o olhar verde de um adolescente fixara-se no seu. "Traidores inimigos. o novo governador. dirigira-se a Versalhes. pelo tempo que for preciso. e armara-se antecipadamente de paciência... pendurado às vergas de sua nau capitânia. que tinha a pretensão de passar por capital. o bufão. E pouco lhe importava começar pela província do Canadá.. conseguira convencer seu esposo.Depois.. Uma "pequena Versalhes". aquela tola da Delfina e a gorda proprietária do Ao Navio de França. que navegava arvorando o pavilhão de franquia do Conde de Peyrac! E em Quebec. sentindo-se reconhecida e suspeita em certos olhares. sua amiga! "São ingleses!". Infelizmente. Por quê? Como?. por causa do nevoeiro.. . Inquietava-se. fizera prontamente justiça.. dessa vez. antecipadamente. Gouldsboro". Por outro lado. com um súbito clarão. A primeira vez viera como uma benfeitora. dizia aquele ridículo Ville-d'Avray. dissera a si mesma. Uma reverência supérflua. o Tenente de Barssem-puy. estava do seu lado. em Montreal. Não receava as travessias. que não a notou de modo algum. a Meiga." Tivera razão. o presente lhe apresentava imagens do passado. Ah! como se alegrara vendo balançar. isso não era de todo inútil. Desde os primeiros dias de navegação no Saint-Laurent.. cuja antipatiapudera perceber. da qual começava a duvidar. a montante do rio. Execute-o para mostrar que não é.. preparando seu sorriso mais gentil. mas os prazeres que antevia nessa captura e nos sofrimentos que infrigiria a pequena vítima compensavam os aborreciamentos daquelas viagens fluviais em meio às homenagens. não se tivesse podido capturar toda a tripulação do pequeno iate. O Diabo.. como o governador Frontenac. daqueles colonos-aldeões grosseiros. O anúncio de sua morte a espicaçara. tinha de passar por Que-bec. E Frontenac. se fosse preciso. e pedido a desgraça do Padre Sebastião d'Orgeval. Mas sua nova função a obrigava a descer até lá. tinham-lhe escapado por entre os dedos. Considerara uma volta afinal da sorte e da proteção oculta. e Ambrosina rejubilava-se por afastar-se da capital e fazer-se ao mar. Mas. indulgente com esses inimigos da França e com os huguenotes franceses renegados. que queriam ser chamados de "habitantes" e que se consideravam como senhores pelo simples fato de terem recebido direitos de caça e pesca. O acaso entregava-lhe a filha de seus inimigos. Nunca tivera a intenção de ficar mofando em Quebec. "Paciência. Joffrey e Angélica de Peyrac. seus aliados. A ilha de Montreal. Junto ao batente de uma porta. ficava longe.

. Conseguira pois afastar da criança seus protetores importantes. Angélica. dissera ao esposo. as provas do crime a sua tão odiada. "Partamos rapidamente para Montreal".. adivinhava que alguns deviam ter pertencido a Angélica. tornarei a encontrá-la! A vingança é um prato que se come frio. não fora pela perda da proteção satânica. Todas as investigações. um inexplicável revés." Quanta paciência e abnegação aparente tivera de demonstrar para apagar a má impressão da cena! Aquelas pessoas do Canadá tinham uma proteção ridícula a adorar suas crianças e a dar-lhes razão em tudo. Deve-se'desconfiar da coalização oculta dos membros de uma mesma família. a Diaba. torturá-la até a morte e enviar." Sim.Mas quanto mais os detestava mais se rejubilava. explodia num riso estridente. pois teria muitas oportunidades mais tarde de fazê-los pagar por sua arrogância. Tudo isso era exatamen-te desagradável. fazendo-a deslizar na outra mão. E depois. sobre a penteadeira. tão maldita inimiga. que se pusera a urrar. menos fáceis de enganar que os humanos do Velho Mundo. o Sr. Era-lhe pois preciso concluir que a menina era tão perigosa quanto a mãe. a mãe daquela criança. por exemplo. ao saber que fugira. Desvanecia-se. possuidora de um incompreensível poder de sedução.. tão desejada. foi procurá-la no convento e. mesmo entre aqueles que pouco se conhecem e não se dão bem. "é preciso que conheçamos todos os nossos administrados antes do inverno. de beleza estonteante. atacara a "eles". Conseguira afastar Madre Bourgeoys. E.. um dente de ca-chalote gravado. e que apaguemos em cada um deles a lembrança do governador anterior. Gouldsboro. a rigor. uma estação nos gelos da pequena corte de Quebec. tudo andara muito bem até então. Pegou aquela mecha entre o polegar e o indicador. conseguira capturá-la de novo. "Muito frio!. tratando-a de envenenadora: "É a Dama Lombarda! É a Dama Lombarda. Angélica. O que havia afinal naquela família que lhe era tão adverso?. de uma espécie mal conhecida." Podia esperar aquele prato de resistência depois de oferecer a si mesma em Montreal o de raptar a pequena Honorina. antes que os desse à filha. de Frontenac. durante anos de desterro numa província da França." E repetindo interiormente o ditado.. novamente. mas de ondas poderosas. uma cumplicidade natural. que Ambrosina. Mas porque. "Mais tarde. ao maltratá-la com raiva. tudo em vão. melhor dizendo. Gouldsboro. a envenenadora.. diante daqueles objetos heteróclitos de valor desigual. Sua presa desaparecia. alteradas por uma inércia demasiado longa. pois era com desprazer que tomava conhecimento de haver naquelas paragens um irmão de Angélica. Pior ainda!. Não fora por culpa de um enfraquecimento pessoal de suas faculdades. se via posta em xeque. e também os tios de Honorina. cria-se entre eles. não fora sequer pelo fato de os franceses e os índios do Canadá se revelarem menos maleáveis... uma fortuna distribuída. e plumas.. já que lhe anunciavam que não podia ser de outra maneira. fazendo que fosse convocada pelo bispo em Quebec. Espalhou à sua frente.. o conteúdo dos dois cofrinhos encontrados no alforje da criança. uma turquesa. uma a uma. Ali havia largada uma mecha flocosa dos longos cabelos ruivos que ela mesma arrancara da cabeça da menina. Você pode esperar. uma vez mais. . Ambrosina agora via claramente. E começava a aceitar. Até o momento em que se encontrara diante daquela menina enfurecida. conchinhas. que jamais lhe faltara.

. Não era uma coisa injusta? Sempre fugir. em voz alta. Ao se aproximar de sua casa.Onde estava ela agora. "Devia ter providenciado os serviços de um mágico. exclamou. E. disse consigo.. Paris inteira tomava conhecimento da prisão da adivinha em causa. como da primeira vez —. e a Sra. Sr. sua partida para o Havre assumira o aspecto de uma fuga. ambos cães de fila do rei. Vicente de Paulo para pregar à gente humilde. Sempre esconder-se. e aquilo lhe parecera inquietante e insólito.." Em Paris. Ora. de Peyrac tinham feito a Quebec. 'Eles' também estão por trás dessa morte. medrosamente. "Se ela for interrogada. que se podiam visitar em seus covis. Dessa vez. sem atrair a atenção da polícia e acarretar. uma de suas mais assíduas clientes.. Seu desaparecimento coincidira com a visita que o Sr. teria uma pletora de endereços úteis. Ambrosina sentira-se aliviada por poder fazer-se ao mar. o tenente de polícia do reino. Contava com o Sr. e a Sra. .. o Sr. Por que Varange desaparecera no momento em que "eles" chegavam? Como se quisesse ceder-lhes o lugar. e há muito tempo. Foi outrora.. Mas ali. morta!" Deu uma gargalhada que finalizava numa cachota macabra e sem eco. Como da primeira vez. sempre dissimular. desse desaparecimento". sempre o horroroso policial Francisco Desgrez. Dois dias depois. para a função de mágico.. a Marquesa de Brinvilliers. Ambrosina tremia só de lembrá-lo. suspeitas e investigações? Passando por Paris. perito na arte de feitiçaria e que a esperava em Quebec.. Seria preferível não deixar em sua passagem nenhuma pista que pudesse ser farejada. nomes de adivinhos e adivinhas. de La Reynie. efetivamente. consequentemente. motivo pelo qual se afastara precipitadamente. Mas que importa que me nomeie? Estou morta". quando lhe escapara no momento exato em que fora prender sua amiga íntima. Entretanto. Por causa daquela personagem. dará o meu nome." Teria podido fazê-lo.. com minha cara Brinvilliers.. de Gorrestat ainda não tinham embarcado quando souberam que La Voisin era acusada de tentativa de envenenamento do rei. aquela pequena miserável? Como alcançá-la? Causar-lhe infelicidade? "Podem-se fazer muitas coisas com cabelos. Como as notícias correm. Uma suspeita assustadora começou á apoderar-se dela. Mas não pôde deixar de olhar em torno. quisera consultar a mais famosa das feiticeiras. o policial atingia o cerne da fortaleza dos envene-nadores. eis que lhe anunciavam sua morte. chamada La Voisin. a Mauvotsiíi. — A Duquesa de Maudribourg está morta! — disse. "Foi ela que o matou!". vira saindo de lá um grupo de "missionários"... àquele Desgrez e a seu mestre. escapando. de Varange. refugiar-se no Novo Mundo — onde poderia se manter incógnita com mais facilidade. daqueles padres pertencentes à or-de-nx fundada pelo Sr.. Desaparecido. por trás daquela prisão. Atenaís de Montespan fugia da corte. num refluxo imprevisível das circunstâncias.

nascido do mais profundo de suas entranhas. Parece que La Voisin ou outra comadre as batizava antes de enfiar-lhes a agulha no coração. O medo e o ódio dilataram-lhe o coração. queriam provas. que o rei pusera em ação. fora de qualquer estratégia. desejava um amplexo amoroso para acalmar ardores quase dolorosos. à guilhotina.. Esquecer o que acontecera na Acádia. Suas entranhas despertavam. Suas mãos se abriam e fechavam no desejo de apertar um pescoço de criança. Essa nova polícia. Antigamente. Mesmo esse Garreau d'Entremont.Estava tão segura de seu pressentimento que não mais conseguia discernir se estava se deixando levar por divagações obsessivas ou se estava sendo avisada magicamente da realidade. muito bem pagas. O Medo! Era a primeira vez. indagava-se com terror. muito ereto. "sem nome e nem mesmo batizadas.... torcendo a boca numa careta de asco. Serei olhada com suspeita. Cometera um erro por esquecer.."Ela vai pagar caro por haver arrancado a Satã sua presa. que trazia em si a dor possível de Angélica.. mas não sofrer. não lhe concederiam sobrevivência. ignóbeis larvas brancas retorcendo-se e bocejando". e seu corpo pareceu-lhe fraco. Sentia medo.. . com a única finalidade de concluir sua missão. teria dito.. se um pacto interior feito com as forças infernais não lhe proibisse empregar esse vocábulo. a não ser em voz alta e para enganar. exigia provas. Angélica matara o Sr. não tinha razão alguma para sobreviver. Como é difícil afinal habitar uma carne tão fraca! E eis que. à pecha de feitiçaria." Mas pediria provas. inspirados pelas evocações lúbricas de seus projetos frustrados. e. "Que volúpia!". bastava recorrer à delação. Queria muito gozar. mesmo. Só podia ter sido ela. adivinhava que era o medo que lhe apertava a garganta. Graças a Deus!.. subjugado. Hoje. Ah! sim. verdadeiras larvas humanas. Que visão ridícula e despropositada! Que importância tinham esses bebés sem nomes. Onde? Quando? Por quê? Como adivinhara que o velho debochado era seu cúmplice? Impossível sabê-lo. Por não tê-lo experimentado nunca.. repetiu. Mas fora Angélica quem matara o Conde de Varange. repetia baixinho com unrlongo suspiro. despertando nele espasmos voluptuosos. "Vou gritar em toda a parte que foi ela quem o matou.."." Provas! Não podia acusar Angélica sem apresentar provas! Deteve abruptamente a louca progressão de seu pensamento.. Idiota. Ele também sabe que foi ela que matou Varange.. e.. eu também. "Tornei-me realmente. "Ah! como odeio as duas!." A frustração e o desejo das visões entrevistas atormentavam-na desvairadamente. de sua vingança inacabada. suplantado por forças que ela mesma desencadeara. E a flor da nobreza da França seria enviada à Bastilha ou ao exílio.. um pescocinho branco e firme. Não devia mais fazer projetos. uma criatura humana?. Senão... o de Honorina. vão me considerar louca. à acusação.. de Varange. Se não o conseguisse desta vez. O Fracasso! A Derrota total! Mas sobrevivera. por culpa dos cadáveres de crianças recém-nascidas.. em comparação às grandes personagens que pagavam um preço tão alto por sua imolação? "Larvas humanas. que só espera uma denúncia nesse sentido. imoladas nas missas negras. muito belo. rezadas sobre um ventre de prostituta..

. não parava de imaginar aquele Cantor de Pey-rac. pois. Apesar disso. mas não domá-las. Estremeceu-se violentamente. Aquele que acabava de entrar era uma resposta a suas dúvidas e indecisões. Eis por que quisera mandar matá-lo imediatamente. sem deixarlhe tempo de perceber nele e nela a falsidade daquelas declarações —. Como era belo esse Cantor de Peyrac! Seu nome e sua beleza faziam ao mesmo tempo rilhar os dentes e subir água à boca. Nada representam quando. senhora. ao sair de Quebec para Montreal. — Não acredito em você. Acredita nele? Havia nos olhos puxados de Ambrosina clarões frios e fixos. era muito fácil levá-los a ceder.. Estava tão convencida disso que. e tão injustamente! A loucura dos homens não tem limites quando o ciúme se apodera deles. O animal fora morto. E quando se tratava de um belo jovem como esse. e não me cabe nenhum mérito. quantas saudades me dilaceraram! Você foi tão maltratada na praia de Tidmagouche. e dera-lhes ordens precisas a seu respeito e do glutão.A voz de um serviçal informando-lhe que um homem jovem desejava falar-lhe chegou ate ela. . apaziguar minha consciência. — Mande-o entrar! Sentiu uma presença no limiar do aposento. quantos remorsos me atormentaram.. na an-tecâmera do rei.. embarcara para a Nova França. Você está viva! E. desde Versalhes. Descrevera-o a seus homens. O atentado fracassara. destruir-lhes a existência.. havia também o medo. portanto. com efeito. belo pajem. — Eu estava à sua procura. — Senhora. como lhes escapulira novamente? Ele tirou graciosamente õ" chapéu de feltro e saudou profundamente.. chegando ao Havre com o esposo.se„trata de me assegurar desse milagre. você me persegue.. Preferia o corpo-a-corpo com o adversário. Desde que se sentira reconhecida por ele em Versalhes. assassinos. tratava-se. senhor!. No corpo-a-corpo era a mais forte. exceto algumas. Posso saber por quê? — Reconheci-a. escravos de seus sentidos e de sua vaidade.. previra sua vinda. de joelhos tremendo. ao meu ardor e à minha paixão. Mistura de medo e de satisfação. Ela podia fazer as mulheres chorar. quantas lágrimas derramei. a vitória estava assegurada de antemão. Ou mentindo. uma surda certeza a obsedava. Não é normal ter querido assegurar-me de que meus olhos não me haviam enganado? — Uma curiosidade tão desmedida. que o impele a vir aos antípodas para satisfazêla? Está gracejando. levantando a cabeça com desafio '—. Oh! senhora — prosseguiu. Eis. para mim. Ela repetiu: — Viram-no correndo em Quebec. Enquanto esses machos imbecis. que importam os mares a atravessar. o que eu tinha a lhe dizer. implorando seu perdão. então? O receio não cessara de atormentá-la. está me reconhecendo? — Certamente — disse ela. procurando saber mais coisas a respeito dela. a de que ele não permaneceria lá. destroçá-las. e voltou-se. ao me lançar em seu encalço. quando todos a julgavam morta há vanos anos. Ridículo! Pois. que tinha os mesmos olhos da mãe. de satisfazer desejos muito diversos de uma simples curiosidade. e por que atravessei os mares. já que um acaso abençoado me permitia. a alguns passos. Entretanto. mas ele. Embarcando talvez em sua perseguição. que deixou à sua espera no lugar. — Senhora.

mas com dificuldade. — Reagiu a seu nome. deixando-a "arrulhar" seu jovenzinho até não poder mais. como na praia de Tidmagouche. era sobretudo aquela mulher aventureira do Novo Mundo — como esse papel lhe agradara! — que alguns anos antes passara. mas mesmo assim a reconheci. duvidando de minha lembrança e de meu fervor.. — Tidmagouche. De que modo poderia provar-lhe esses sentimentos senão cometendo a loucura de persegui-la? O que eu procurava nessa corrida insensata? Veja! Julgando tê-la reconhecido. ou. em vez de censurá-la e desfazer-se dela. em que precisava ser assegurada. quando por ali passara. A tal ponto que.. cujas peripécias nutriram incessantemente suas lembranças com fantasmagorias. — disse. senhora. perdê-la. mistificá-la!" Foi invadida por um tremor. e essas duas luzes se aniquilavam numa espécie de trégua. "Dane-me.. com amargura. vivamente. ao mesmo tempo para levá-la de volta ao passado e fazê-la temer o presente. ouvira mexericos a propósito de uma das damas de honra da rainha. Tiraria partido disso. Arrisco-me à desgraça junto ao rei. numa voz estrangulada. esse estremecimento era o sinal precursor de... Pronuncio este nome sem mesmo acreditar. com ansiedade. — Está me ferindo.. suas possibilidades de sedução. Mas não pensei em nada!. que estava louca por ele. então! Ambrosina! Esse nome cheio-de encanto preencheu minhas noites. mais próxima de meu sonho. Olhou em torno com terror. Os olhos verdes defrontavam-se com o olhar de âmbar.Em Versalhes... — Psiu! — fez ela. Sua beleza. pequeno senhor. Quem faria tal gesto senão impelido pelo ardente e sincero sentimento que ouso confessar-lhe? Não reconhecê-lo é lançar-me ao desespero e desconhecer também a força dos ardores que me inspira.. entre outros.. — lançou. não o pronuncie. que minha carne sirva para issc^L. — Era isso o que me agradava — disse ela.. cuspindo fogo e chamas. tendo já conquistado os edis da colónia. investido já de poder e de arrogância. por meu pecado". pelo menos. Ainda me restava uma dúvida. — Mudei tanto assim? — Sim. — Não me nomeie — intimou-o novamente. . que a apreciava muito. por uma odisseia secreta."sêus receios.. Avançou imperceptivelmente para ela. "mas. — Por quê?. — Eu era apenas uma criança. Ainda não eliminara totalmente testemunhas perigosas de seu passado. de Gorrestat. depois apoderaram-se dele. mas. e estabelecido a reputação de dama caritativa e casta. desde que ele surgira. ao contrario. Sra... cantando incessantemente dentro de mim. ali estava naquelas plebeias províncias. tendo deixado tudo por ela afirmava ele. Não queria ser reconhecida. — Então é você realmente — sussurrou. mudou. Os cantos da boca descaíram-lhe. Pequeno deus. — Ambrosina. fingindo-se deslumbrado. abandonei imediatamente meus cargos na corte. a rainha. de... Havia vários pontos em que não tinha segurança. Ela era ainda. e adivinhou que o trejeito a enfeava. mulher do novo governador. Seu ser se desdobrava. nas praias da Acácia. aturdi-la. Que mistério explica que seja mais bela do que em minha lembrança. Explodiria em insultos. Senhor.. — Tidmagouche!. a Sra. pensou ele. concedera-lhe um feriado de amor ilimitado. com um sorriso matreiro e cruel. Ah! Sra. Mas não pudera refreá-lo.. não me lembro de você ter me tratado com justiça. de Maudribourg.sua rendição? Ele notara suas fraquezas. — Com efeito. um arrefecimento passageiro da luta.

. as mulheres não têm o direito de triunfar sobre mim! As mulheres me pertencem. As pupilas de Ambrosina brilharam com um clarão venenoso. que tinha ciúmes de mim. Reconduzida a uma vida longínqua. até que compreendeu que eram alguns cabelos de Honorina. cintilante. Ah! como as odeio. enojado. É inadmissível! Isso exige punição!.. maltratando-a em sua fúria. Diaba!.. em Gouldsboro. E você também. que rivalizava com a dela. — Elas!. Faço o que quero com eles. Felizmente para ele. assustado com o amor e o domínio da carne. O horror e o asco comprimiam-lhe a garganta. numa praia.. atrás dela. Seja como for.'Era um homem..... — Lembro-me de sua maldade quando. Não.. a única capaz de ajudá-lo a dominar sua cólera. dessa sólida e segura sensualidade primitiva. — Tive medo. Sua mãe! E uma criança. ele a via virar e revirar nervosamente em torno do dedo um longo fio de ouro vermelho. pois disso. alguns dos longos cabelos da ruivinha.. não lhe queria mal. "Eu a matarei. Cantor sentiu que empalidecia. — Bem que eu quis iniciá-lo... flexível. que me eram desconhecidos. inconsciente de trair com essa atitude uma inquietação quanto à perenidade de sua beleza e de seus poderes. eu tentava agradá-lo." — "Elas" me desafiaram — resmungou Ambrosina. ele me renegou e mentiu para satisfazê-la. que a harpia provavelmente arrancara do crânio dela.. tinha daí em diante uma fome e uma sede devoradoras. E. Sua necessidade dele devastava tudo.. — Todavia você estava com aqueles que se lançaram sobre mim para me massacrar! — Deus me livre disso. um dia ou outro. ela se voltara para o espelho e se examinava. — Em seguida. Depois sorriu. ao contrário. em que ele fora quase o mesmo diante dela.. e dediciu acreditar nele. Mas as mulheres.. Mas elas. mais criança. Pois é o mais fraco. disse consigo. serenada. tive. esquecida. Nunca mais. adivinhava que estava falando de Angélica e de Honorina: Uma candente indignação turvou-Ihe a vista. — Tinha medo da cólera de sua mãe. Mulheres. — Não acredito em você — repetiu.. um pouco mais jovem apenas.. enquanto ela falava. minha cara. Apenas elas!. pois se tornara seu meio-irmão mais velho. não há o que temer deles. às duas! Quanto a ele.. uma criança colocada sob Sua proteção. E que me odiava porque eu conseguira seduzir seu pai e atraía o olhar dos outros homens. Creia-me. . não.. Não será um pouco tarde agora para vir implorar meu perdão?. apagada.. que atraía o tempo todo seu olhar. O homem tem todos os direitos. com uma soturna intensidade dolorosa. sacudia-lhe o corpd. um fio de cobre. mas chocava-se-com a onda contrária de sua desconfiança demoníaca. perdeu o controle de suas palavras. — Eu era apenas uma criança. Havia em seu ser um debate incoerente.. O homem tem o direito de ser o mais forte. "Eu a matarei". jurou a si mesmo. a despeito de si mesmo. Que Deus me assista e sustente minha espada!. Elas me escaparam!. Por causa de minha beleza. Não ousou contrariá-la..Ela sentiu junto de si aquela carne rija de um homem muito jovem.. pobre tolinho. sua meia-irmã!. por ter me repudiado. quero-as apenas como vítimas ou cúmplices! Quanto aos homens. elas zombaram de mim. piedade de você. ouviria mulher alguma murmurar-lhe palavras de encontro e promessas voluptuosas.. Um pouco afastado.. da violência que era cometida contra você naquele momento. Ah! como odeio às duas.

e. que poderia fazê-la suspeitar que ele não lhe era totalmente devotado. "Que minha carne sirva ao menos para isso". tomado pelo medo de que pudesse alertá-la pelo quebrantamento de um só de seus "pensamentos.. enquanto ele murmurava: — Onde?. Procurando adivinhar-lhe os pensamentos... fixos nela.. estrangulada. Deu mais um passo em sua direção. O suor molhava as costas do pobre Cantor.. o estalejar de asas como . A menor suspeita do que ele sentia verdadeiramente decidiria sobre seu destino. Saltos de rãs na água adormecida — de uma campina esponjosa coberta de caniços.. Toda a astúcia e sangue-frio de seu pai se reuniam nele. firme. quando?. "Tome cuidado!". Espera-lo-ei lá. "que minha carne. cercado de olmos e de faias-pretas. que tomara de empréstimo a uma de suas criadas de quarto.. que capitulou. na ponta da ilha. pesados. embora também se abrigasse à sombra daquela força e se felicitasse com sua proteção.. Compreendia que a arma se forja pela virulência do inimigo. uma fúria..Como aquela horrível criatura ousava falar delas naquele tom diante dele?.. Fora Florimond quem lhe indicara algumas estratégias e fórmulas que. essa fixidez ausente. e ela se surpreendia com um sentimento mesclado de impaciência e de angústia que não lhe era habitual. pronta a lançãr-se sobre ele. Esse ultimato já dera certo anteriormente.. Acorrentado pelo desejo carnal que o cegaria. CAPITULO IX O fim da Diaba — Reação devastadora do Mal e a fúria dos elementos Oculta sob um manto cinzento. empresta por vezes ao olhar dos homens. Ela estremeceu da cabeça aos pés. Tê-la-ia enganado? Gostaria de crer nisso. obsedada." Ela via tão próxima sua boca polpuda. esvaziando o cérebro de todos os pensamentos. surdo às aterradoras palavras que ela pronunciava como que por descuido. do lado dos bosques. saltos abafados. Para a salvação de todos!. que a subjuga. com a sombra projetada pelo moinho vazio. A seus pés.. e confundindo-se. Compreendia agora aquela força de dissimulação do Conde de Pey-rac. "Que ela não suspeite nada do que o agita. Os mil ruidozinhos do lugar davam-lhe arrepios. brilho de cólera ou de repugnância. ao menor sinal. quase imbecil. pensou. sirva para isso... rangidos. Ali existe um moinho abandonado. a jusante do rio. ferindo sua sensibilidade infantil. Como se ele já fosse uma aquisição indiscutível dela!. ofegante: — Esta noite. pela extensão do perigo.. pretendia.. eram irresistíveis. àquela hora da noite. O desnorteamento ávido que apareceu em seu rosto provocou-lhe náuseas. nada além de uma impávida luz. que tantas vezes o irritara ou decepcionara.. ela esperava. que uma cobiça ardente. Mas ela não conseguiu ler nos olhos claros." E surpreendeu o olhar que ela lhe lançava pelo espelho. coaxos. a fim de provocar sua ira. intimou a si mesmo... Ela respondeu.... que a traição só pode ser evitada com uma traição ainda maior. tornando-o indiferente a tudo o que não fosse ela. E o nevoeiro se soma à noite para dissimular aqueles que não querem ser vistos. junto ao bosquezinho.

como o movimento de uma serpente sutil. Ouviu os passos de um cavalo.. sibilante ascensão prestigiosa e fatal. Estava deslumbrada pelo brilho de suas madeixas douradas sob o grande chapéu emplumado. sempre. De onde lhe vinha essa vontade devoradora de desfrutar o corpo do jovem. pois implicava desobedecerão mestre.de velas moles chocando-se com as ripas do telhado do moinho. mas. — gritou. de um azul inviolado. traje habitual e muito mimado como instrumento dócil. dissociação das naturezas inconciliáveis. menos renunciar àquele instante". — Deixe-me chegar perto — dizia Cantor. indagava-se. Como fora tola deixando-se tentar por essa escapada! Ele já devia estar morto. de saber tudo sobre ele. depois!" E movida por esse pensamento. Alguma coisa de si mesma lhe escapava. que por duas vezes lançaram seu apelo modulado. fazendo de sua carne uma espécie de chama devoradora e sublime. tomada pelo terror. sua irmã. O fenómeno. girava em torno-da cena imunda. disse consigo. o pavoroso ricto daquele que fora expulso do céu para os infernos. O fogo de sua paixão se desprendia de seu ser. E arremetia contra ela. apeara do cavalo e. "Era essa a felicidade conhecida pelos humanos?".. Em sua embriaguez de vê-lo. investia. de conhecer o vigor de seus braços enlaçando-a. como labaredas púrpuras que lhe fossem arrancadas uma a uma. montado pelo jovem herói esperado. Tinha as pupilas fulgurantes. e as dores de um arrebatamento.. Iluminado de frente pelos últimos raios de um crepúsculo que se quisera pálido. — Face de anjo. a fitava com os olhos translúcidos como água límpida. que. matizado por uma claridade mais para lírio do que para rosa. montado no cavalo prateado. de se afogar em suas pupilas límpidas. de segundo em segundo. um cavalo branco apareceu. compreendendo demasiado tarde que esse corpo. nas trevas. Apesar de sua repugnância e do maldito terror que o invadia. A espiral arrastava-a. Mas este não queria afastar-se. ardendo de um desejo que. repetiu a si mesma. onde se abrigavam e despertavam pequenas corujas aveludadas. e as da criatura feminina. ocultou-lhe a visão da bola escura e aveludada fendendo a relva como um projétil. apanhava-a em sua armadilha. perdeu a noção de sua própria realidade carnal. "Não". E ela se transformou no mesmo instante em sua presa devastada. Era tão simples e era o que precisava ser feito. que deveria ter subjugado tão facilmente e que se rira dela? "Tudo. voltava sem cessar. à beira do bosque. O impacto do animal derrubou-a. "Eu o matarei. maldito seja!. nem avançar um passo. que batido pela luz. como se lhe escorregassem das mãos as rédeas que sempre mantivera firmemente sim. esse fogo do sangue vermelho pelo qual "eles" estão prontos a vender sua alma. lá longe. . tentando acalmar o glutão enfurecido. que lhe causava um padecimento tão atroz quanto um esquartejamento. lhe pareceu desconhecido e que deslizou para todos os seus membros. Não podia nem mover-se. passou a língua pelos lábios.. que lhe lembravam as de sua rival. o que lhe inspirava um terror sem nome. A beleza perdida de Lúcifer ficava para o outro. Por que vinha a cavalo? Ele não pertencia a este mundo. lhe formava uma espécie de auréola. Lançava-se com ímpeto sobre ela.

de uma cabeça de mulher de cabelos longos e soltos. Simultaneamente. mas acusavam-no de traição. A tempestade eclodiu! Uma tempestade sem chuva. fez com que todas as testemunhas desistissem de prosseguir as investigações sobre a identidade da vítima. quando se surpreenderam por não encontrar nenhum vestígio dela. onde um Garreau d'Entremont se empenhava em fazer reinar a justiça do rei. Teria subitamente "visto". Estavam ali nos postos avançados.. baixaram-se rapidamente os restos da desditada mulher do novo governador. engolfando-se por uma das chaminés. Achavam indigno que. O cavalo relinchava. mas cujo desaparecimento causou secretamente a muitos um certo alívio. recém-chegados da França. de Gorrestat mandou enforcar um iroquês chamado Magoniganbauit. encontrado lá pelos lados da ponta do moinho. a vomitar. encostando a testa ao tronco de uma árvore. encabritando-se. falando de um cadáver horrivelmente mutilado. e já estava tudo consumido. tinham já servido de pasto às raposas. a meia-voz ou em pensamento-. como o pequeno gato outrora. a capital. que Ambrosina lançara contra ele em Tid-magouche? Adivinhava que era às suas ordens. a verdade do ser aparecido? — Deixe que eu me aproxime! Tenho de fazê-lo! Eu prometi.. Mas a pavorosa descoberta. mistura de carnes e de pedaços de tecido. atiçando-o daí em diante contra a mulher assassina que ele seria encarregado de exterminar. O que sabia Wolverines? Lembrava-se dos cães gigantescos. Cheio de ambições.. um caçador de abetardas acorreu. Os serviçais e as criadas salvaram-se a tempo.. e ricocheteou. pois seu nome significava "amigo do iroquês". Tenho de enterrar-lhe minha adaga no coração. de Gorrestat. ainda se duvidava. com a ajuda de uma polícia inspirada nas reformas do tenente de polícia civil e criminal do reino. Não sobraram senão as paredes de pedra enegrecidas. embebidos em sangue. julgando-a desaparecida no incêndio. Foi preciso esperar para poder sondar as ruínas ainda quentes. e da necessidade de agir. como uma bola caprichosa. Depois você poderá fazer o que quiser!. Foi essa a razão pela qual não se procurou imediatamente a Sra. numa região pioneira. que obedeciam os caçadores que o acossaram em volta de Quebec e tinham matado sua fêmea diante de seus olhos?. pelo estrangulamento. Tratava-se de um índio batizado. o Sr.. pendurada no galho de um olmo. dominado pelo pânico. o Sr. Esse tipo inédito de execução gelou de espanto todos os índios. viera falando com o animal domesticado por ele. não longe dali. Foi o tempo de formar-se uma fila de pessoas até o rio e de se apanharem os baldes. sobre a qual só se falava bem em voz alta. de La Reynie. se impedisse um condenado de entoar seu canto de morte. caiu sobre as ardósias do solar que fora posto à disposição do senhor governador. Atabou quebrando-o e fugiu a galope!. . puxando o galho ao qual estava preso. Um raio. O horrível espetáculo levou os oficiais e fidalgos. Eu prometi. Cercados de homenagens. a ela. tão grandes quanto ursos.. O governador estava aquela noite em casa dos senhores de Saint-Sulpice. Diante dos restos irreconhecíveis que. passando em ziguezague ao nível dos telhados de Ville-Marie. que lhe haviam sido insufladas.— Deixe-me chegar perto! Devo fazer isso! Durante a viagem. a fim de assegurar-me de sua morte. É Na ilha de Montreal as investigações criminais não tinham a seriedade que lhes emprestavam ali em Quebec.

insuficientemente vestidos. mandou que as tropas os cercassem e lhes amarrassem uma corda ao pescoço e aos braços. não tiveram tempo de se reunir. acompanhados cada um de uma pequena escolta de guerreiros.Retomando o projeto que concebera de suplantar em ações gloriosas seus predecessores. A escolha do território era infeliz. se reuniram e dispuseram-se numa flotilha animada e cantante. Quarenta e cinco chefes iroqueses foram assim capturados e enviados a Ville-Marie. que se dirigiu aos cantões com o capelão das tropas. ou não despertavam. o mesmo número da milíci'a. onde não faltavam mortos a vingar. como que possuído. que lhes incitava a curiosidade.~urh pouco menos de abenakis. sendo outros tantos embarcados imediatamente para servir nas galeras de Marselha. Haviam sempre resistido aos apelos do massacre geral dos franceses. trezentos milicianos e o mesmo número de aliados selvagens caíram sobre eles. incessante lançados por Utakê. de Frontenac. Os onondagas comportavam-se. vestidos com suas roupas de verão. o Padre de Guérande. de Gorrestat. nos pântanos invisíveis. seguidores entusiastas nesse projeto. Sem raquetes. embora tardio. enquanto ele pretendia agir como vice-rei. algonquinos ou huronianos. encontrar em Montreal. e conseguiu persuadi-los a enviar uma delegação a Cataracuí para homenagear o novo governador. um dos mais ardorosos chefes da tribo dos agniers. Convocou seu missionário. Muitos foram esmagados pela queda de árvores que. na margem sudeste do lago Ontário. havia vários anos. congelados no sono. duas de suas mais importantes aldeias foram incendiadas: Cassuets e Tuansho. subindo o Saint-Laurent para atingir o Forte Frontenac. deixaram-se tentar por um convite lisonjeiro. sem que ninguém o notasse. Seus guerreiros. os homens se afogavam nos montes de neve. sucumbiam sob o peso da insólita neve. Numerosos capitães e grandes homens das Cinco Nações. tomaram o caminho do lago Ontário. ainda cobertas de folhas. Diante disso. Estava seguro de. isto é. também atados. As tribos. sempre ébrio de raiva e de transportes interiores grandiosos. Nesse momento. Ao término do banquete. mandou-as desembarcar o mais próximo possível. o Sr. Em Cataracuí. que haviam agido apenas como governadores. que lamentavam não ter seu encontro habitual de verão para festins e danças com o Sr. aproveitou-se do pretexto de vingar a morfe ignominiosa da esposa para reclamar o início imediato de uma campanha de represálias até os confins do vale das Cinco Nações. como se a Natureza se sentisse subitamente importunada pelas loucuras delirantes dos homens. Em poucos dias. lançou suas tropas sobre os cantões iroqueses. despertavam sob a neve. numerosos mas dispersos pelas primeiras caçadas. nos lagos que em certos lugares não . como nação pacífica. prendendo-os a cepos que os carpinteiros tinham acrescentado aos preparativos da festa. Soldados vindos da metrópole. Quatro companhias. Seiscentos regulares. Foí um desastre. quando estavam bem adormentados pela boa comida. o inverno abateu sua pesada pata sobre um outono ainda incipiente e que se anunciava brando. o Padre Raquet. depois a Quebec. Assim que foi avisado de que os quarenta delegados das Cinco Nações tinham sido mandados para as galeras da França. "eles começaram a entoar a plenos pulmões seus cantos de mortos". A moderação não beneficiou os onondagas.

o Forte de Richelieu e até o Sorel. iriam morrer de fome dali a algumas semanas. conseguira chegar à grande ilha de Manituline para invernar entre os odjibways. os exércitos bem ou mal reunidos e guiados pelos milicianos canadenses. Antes mesmo de ter percebido a volta de uma nova manhã. na ilha de Lamothe. eles mesmos incomodados pela chegada precoce do frio. uma retomada normal da estação. Até as margens do. ao mesmo tempo curta e simbólica. constatação de uma situação desastrosa.. o conjunto de seu desprazer. e mesmo perdida. como se faz retroceder um cavalo empacado. Assim que abria os olhos. Saint-Anne. o deserto branco se estendia. traidores. detido pelas neves. no peito. um abrandamento. inimigos. mas conhecendo o país. aos quais responsabilizamos. de impotência. O Sr. • Confissão de má sorte. Angélica se sentia melhor. privadas de qualquer ajuda. e pelos quais entravam. em circunstâncias muito penosas. Depois de tê-la repetido energicamente várias vezes. verdade imposta por um subconsciente mais lúcido que seu consciente. cujo vocabulário evocava com o Pátio dos Milagres. Não foi o que se deu. fecharam-se nos fortes ou muralhas das missões que os sobreviventes conseguiram alcançar. censura velada dirigida a nossa própria tolice e que sugere o movimento benfazejo de bater no peito ou de se xingar de imbecil.Atlântico no sul e as do golfo-Saint-Laurent a leste. Num ponto dos quais. os fortes dos lagos Champlain ou Saint-Sacrement. os fortes Saint-Louis e Sainte-Thérèse. Cantor de Peyrac. Mal-estar que traía a percepção profunda que já possuía da situação. que durante esse tempo subira o rio Utauais e chegava à baía Georgiana. de todo tipo e de ambos os sexos. protesto contra o destino adverso. julgando estar atravessando planícies. . havia aquelas garras apertando-lhe o pescoço e. esperava-se uma volta do bom tempo. aquilo lhe saltava ao pescoço. um peso que a impedia de respirar.. franjadas de um mar enegrecido e esverdeado.estavam suficientemente gelados. e contra todos aqueles. prisioneiras de um fortim soterrado. à custa de injúrias e de palavras violentas. com a intenção de alcançar pelo sul os cantões iroqueses. No início. ao norte do rio Hudson. denominado Wapassu.. Fazia-o recuar logo. mas também de feroz reivindicação contra o Céu e os homens. a espera angustiante de Angélica Uma ansiedade. a mais convincente e expressiva começava por um m. que ela não queria ver transformada em angústia. parece trazer do berço. Entre elas. Esse grito devia ser ouvido. uma mulher e três crianças pequenas. compreendido por quem de direito. A leste do Ontário. tudo estava contido naquela palavra. de ter reconhecido a luz da vida ao sair do sono e do esquecimento misericordioso. recobrindo por longos meses espaços infinitos. escondida num canto da memória e que permite exprimir. no lago Ontário. começava a invadi-la sorrateiramente. O DESERTO BRANCO CAPITULO X Em Wapassu destruído. palavra que todo francês. de Gorrestat permaneceu no Forte Frontenac. no grito de derrota. carregando pedaços de gelo.

Com efeito. correr ou dedicar-se a essa atividade especificamente infantil que . ou então a caravana chegaria. estão falando do cachorro. Carlos Henrique era o interprete dos gémeos quando ela não compreendia o que explicavam ou evocavam em sua animação. por sua escolha. Tomava pé novamente com animação. alçar vôo para evocações alegres.. acrescentavam um toque suplementar e às vezes inesperado. os habitantes da pequena república. tomando um tom de lenda ao descrevê-los como heróis de romances. As crianças tinham razão. como dizia Iolanda —. a narrativa das façanhas de seus amigos. cujo desenrolar também lhe era benéfico.. As felicidades vividas em Wapassu jamais poderiam ser apagadas. Vamos tentar encontrar as armadilhas de Lymon White. o sono. nem os atos praticados. As crianças não estavam conscientes dessas duas obsessões que pouco a pouco se instavalam em suas vidas e as comandavam. com a ajuda de seu temperamento... como se reconhecese. cheios de malícia e de surpresa escandalizada. — Lembram-se daquele? Daquela? Ele era gentil? Malvado. era sempre Wapassu.. endireitava-se. estão falando de Granadina. em episódios. sacudia os cabelos. pois revia mais intensamente os rostos de cada um. os definiam. fazendo-lhes. habituara-se a brincar de "a pequena república". e ela se deixava levar a uma visão mais sadia e otímista das coisas. O termo parecia-lhe impróprio em terras da América. mas porque estavam felizes por reconhecer seu cenário familiar. Algumas vezes. O raciocínio recomeçava a funcionar. Viu-se olhando de outro modo os arredores devastados. Estimulava-lhes a memória interessando-se pelas imagens que já haviam acumulado e que. repousavam-nos da monotonia das horas escandi-das pelos instantes muito breves das refeições e pela espera dessa outra evasão abençoada. — Estão falando de Colin. Perguntava-lhes: — Quem habita nossa pequena república? E elas faziam um esforço para evocar os rostos das pessoas que haviam amado e que lhes faziam falta. e ela percebeu que não era apenas porque podiam foliar ao ar livre. Ele lhe dissera: "Eu lhe construirei um reino". como que para espantar-lhes os miasmas da desgraça. de nada adiantava proferir insultos aos quatro ventos. e. Havia ainda o que comer por alguns dias. sempre atentos às palavras proibidas e que não tinham perdido nada de seu requisitório contra a injustiça e a "cachorrada" da existência. saltar. — Levantem-se. As crianças gostavam de sair quando o tempo o permitia. Com as crianças. Pequenos Polegares! Está menos frio. um ser amado. Assemelhava-se a uma crónica. caía na gargalhada diante dos sorrisos e olhos arregalados. até lá. por trás de uma face machucada. as vitórias. ter-se-ia encontrado uma solução. Aquelenão era um reino. comentários que com frequência não eram destituídos de sabor. as roupas. Raimundo Rogério? Falava-lhes daqueles que marcavam sua lembrança ou daqueles de que não se lembravam. à noite.Lançá-lo pelos cantos aliviava-a e lhe devolvia a coragem.. vocês dizem? O que ele fez que não o agradou. Essas conversas permitiam-lhes evadir-se. Para eles. Era uma pequena república. Retratos aos quais os comentários das crianças. de Carlos Henrique e também dos gémeos — aqueles pequenos "venenosos". os revelavam. as apostas. sentindo-se nelas ainda a chama sempre pronta a se acender para brincar.

pertencentes a Joffrey de Peyrac. uma vez ratificada. e a dela. quase sem o saber.. povoava seu refúgio.os adultos chamam "fazer tolices". Continuava. mas naquelas condições. repetia-se. via claramente que a decisão dele de acompanhar Frontenac. parou de erguer a voz e de mover os lábios. Teria desencadeado em vão sua crueldade cega?. cujo último ato — a morte de Loménie-Chambord — lhe pesava no coração. a cada hora.. a do escudo prateado do fidalgo independente. Lembrando um por um dos amigos. o que seria insuportável. A medida que se avança em idade e em experiência. "Eu os detive!'' Julgando apro. e depois Gouldsboro. eles tinham vindo. mas Angélica sabia que teria. seria mais espinhosa de acertar do que a atual. e a tempo pegamos em armas. Angélicatomou consciência do papel que a na tragédia recente. Às vezes. Chegamos a tempo às seteiras. sem esforço. apesar das aparências. Quando pensava nisso. a que permitira evitar o pior. como da primeira vez em Katarunk. prometendo revê-los em breve. Se não estivesse ali. desde o nascimento. estavam formados nesse jogo de defesa inconsciente. teriam prosseguido para o sul.. grande dificuldade em conservar o rifrho de dias normais em sua vida de soterrados. a paisagem. sem dar um só tiro. o que se exige não é permanecer continuamente alerta. "Eu os detive!" Fazia-se essa justiça para manter a coragem. ou se tivesse capitulado. Retornaram na direção do norte. Quanto a Gouldsboro. Na verdade. talvez não deixasse de haver troca de tiros. a viver em comunidade. impusera-se naturalmente. Elas nos favorecerá. porque era isso o que tinha de ser feito.. Com o correr dos dias. porém. ignorando que ela já se encontra ameaçada. diante das quais se apresentava o inimigo. deixado que lhes passassem à frente. Wapassu incendiara-se. com ou sem a ajuda de Saint-Castine. as minas e postos disseminados. mas os vingadores do Padre d'Orgeval limitaram-se a isso. uma lei lógica da Natureza.veitar-se de sua ausência. como se costuma dizer. De pé no topo da colina. Seus instintos tornaram-se únicos. a discorrer com veemência com seu único interlocutor. Também lhe fazia bem evocar tantos anos felizes vividos ao lado de Joffrey e toda aquela vida fervilhante que'se estabelecera e se desenvolvera à sombra de sua proteção e de sua atividade incansável. lançando um olhar de desafio às lonjuras geladas que.. tomavam uma tonalidade ou uma nuança diferente. falava sozinha. a cada dia. Situação que. mas adquirir esse sexto sentido que permite chegar a tempo em socorro dos pontos fracos da fortaleza. e a encontraram. "É uma lei. a bandeira do rei da França teria substituído.. voltando-se para um lado e para outro. "O pior foi evitado". ao longo-do Kennebec. apesar dos debates e das separações que isso custara. de voltar a Wapassu. por viverem unidos. dessa vez. ela e Joffrey. numa mistura de sensações interiores que oscilavam do medo à alegria mais exaltada. Tinham recebido a graça de chegar a tempo nos pontos sensíveis visados pelo inimigo. da admiração e confiança ao receio e rancor. sucessivamente. de uma . bem vazio para crianças habituadas. pois isso era mais um desgaste de energias. e teriam capturado. E. Isto é. Tanto um como outro. O que não queria dizer que se salvaria tudo sem perdas e danos. no torreão do forte. pouco a pouco. Mas fora a melhor estratégia. não tinham.

colocado sobre as brasas. o segredo dos tesouros enterrados. o segredo das consolações.. Misturava-se a esse prazer um sentimento de espera. Angélica. Se um belo dia as almofadas de madeira. alguma coisa ia mover-se ao longe a aproximação da caravana. Levantava-se muito cedo e seu primeiro gesto era empunhar o caldeirão. Já meio enfiado sob a terra. como se fosse a um encontro de afrior. tomava um significado decisivo. uma flor de esperança. aquela madrugada. ao contrário. Diante dela. aquela orgia de cores. Aquele dia. de pé na pequena protuberância de neve gelada. linhas. dava alguns passos como que para se colocar melhor no centra de uma solidão em que sua presença única de ser humano. tornando-lhes perceptíveis as verdades salvadoras. Por esse motivo fazia essas surtidas quase todos os dias.. a neve só podia enterrá-lo ainda mais. Naves do espaço. pesadas e guardadas pelo anjo de espada chamejante. alongadas como dunas sépia-escuras orladas de ouro." De pé na plataforma.certeza de domínio sobre os elementos ao acabrunhamento. fome. esse sangue vermelho e quente que circulava em suas veias. Ela era a Humanidade tremula às portas do Éden. ela se reaquecia e se punha novamente em ação. suor do pão de cada dia. fecharam-se às suas costas. pois as ampliações e reformas não tinham sido feitas . à renúncia diante de sua força cega. a crueldade do destino dos homens e a promessa da grandeza desse destino. um verdadeiro covil. No início. mas com esse minúsculo e vermelho coração vivo que batia dentro dela. frio. edificado contra o talude. a uma festa. das consolações do esplendor. via através delas a imobilidade da Natureza. Mas também. carregadas de ameaças ou. a cortina da noite abriu-se sobre duas nuvens cor de areia. retirando a neve com a pá e desobstruindo a beirada da soleira e os degraus talhados no gelo. Alternadamente. frágil. ferragens. Isso constituíra um problema quando invernavam no fortim de Wapassu.. esperava o sol. que permitiam sair da trincheira. a chegada de socorro. Esta se tornava mais profunda a cada inverno. Como elas.. para essa aventura da Vida que se anunciava e que seria preciso buscar. Suas metamorfoses coloridas anunciavam o aparecimento do astro do dia. a Beleza. a certez -de que dessa vez. Se tivesse nevado durante â noite. se revestissem de gelo. ao baile. CAPITULO XI Imenso abismo de gelo — Um ténue sinal de fumaça Naquela manhã.. "Através de mim. a um casamento. Estas. naquele dia. Sabia também que. gonzos. um viático lhe seria dado. e jogar água quente nos gonzos de couro da porta para desprendê-la. com acesso às galerias de minas. era como uma ópera. ou à borda da trincheira. Estagnavam imóveis por detrás do monte Kathadin. sofrimento. mesmo que o horizonte permanecesse mudo. múltiplas formas. sua inércia petrificada. Através daquele espetáculo grandioso passava a corrente de uma confiança que fortificava todo o seu ser.. era apenas um abrigo para quatro mineiros. não teria mais forças para mover aquela porta pesada e abrir a passagem para fora. a leste. que você contemple o sorriso de Deus!.

nos outros invernos. instante após instante. as duas nuvens. mas sem pressa. sob pena de ver aquela abertura logo condenada. Angélica gostava daquela hora. de um cinza pesado de tormenta. todos os instrumentos da' orquestra afinados. diamantes. a alguns passos dali. Depois que saía. todas as manhãs. ao se estirar e se dividir. multiplicava os punhados de jóias lançadas ao léu. ilhas.na entrada principal. ou dissessem àqueles que se impressionavam com isso: "O inverno se fechou". formava a seus pés uma grande extensão branca. o sol consentia em prosseguir seu caminho para um mundo purificado e. um movimento ao qual era sensível naquele instante grandioso. na fase mais difícil da estação. De todo modo. Nos dias de muito frio. Não estava mais assustada por estar sozinha ali. Era a vida. A imagem não era idêntica. encobrindo-lhes os meandros. Através de uma bruma translúcida. depois desaparecia. quando o sol estivesse a pino. Mexia-se. pareciam duas baleias escuras escoltadas por baleotes. Nos vales indistintos. Um teatro ordenava-se para ela em todos os pontos do horizonte. ao alvorecer. do éter azul.-içava-se para fora do buraco e dirigia-se. Ao meio-dia. chamado o Lago de Prata. por trás do monte mais elevado. pérolas. marcando uma pausa clemente.precedem o alvorecer são talvez as menos sofridas. quando a luz do dia começava a se expandir. estando todas as cortinas erguidas. Dali também se podia abarcar com o olhar o horizonte. que parecia prometer o perdão. desvelando aquele deserto branco mudo. Seria um dia em que o sol teria por mais tempo direito de cidadania sobre o mundo. ele se levantava. nas trevas infinitas do céu e da terra misturadas. a um leve desvio". e onde podia observar o horizonte. . o mesmo e diferente a cada nascer do sol. que retinar a neve. navegando. Suas formas se alongaram. Falava. Perdera um pouco a noção das datas e. Angélica sentia o vento. Agora. nuvenzinhas que haviam surgido. e onde nenhuma luz penetrava. ametistas. A oeste. Quando não se sentia com disposição para os trabalhos de desobstrução. Seus dorsos eram escuros. pois o talude em que estava encostada a casa ocultava uma parte do lago de Wapassu. apanhado por uma pesada cortina de nuvens. não queria reconhecer que se havia atingido aquele momento do ano que. Daquele jade puro ia surgir o astro dourado. fazia com que as pessoas de Wapassu pensassem com seus botões. por aquele dia. como um enorme escudo rosa. transmutado em branco e azul. se nem um nem outro se mostravam muito agressivos. tornando-se. Tinha. Havia uma vida. de um branco cintilante. surdo e congelado. hà noite mal iluminada. praias. subia à plataforma por um alçapão interno. recoberto de uma leve camada de ne^e naquele momento. numa preguiçosa melancolia. parece que o gelo afrouxa seu abraço. Se a neve e as rajadas de vento não sopram. Mas outras vezes o espetáculo se desenrolava com magnificência. sondava o frio e. à beira de uma água azul levemente verde. a luz que subia já enganchava pontas de rubis. não se sabia como. através da massa escura e tormentosa das montanhas adormecidas. continentes com praias cor de mel. as horas que. Era às vezes o único momento do dia em que podia perceber o sol. Este. pois. distendendo-se. acima dos rios e dos riachos. direito usurpado com frequência pelas nuvens invernais. até que. e os ventres. não vinha ali para meditar sobre sua solidão. mas de uma maneira menos minuciosa que do outeiro. as neblinas se destacavam contra um cinza espesso. O lençol estendia-se de um lugar a outro.

poderia deixar as crianças saírem. E como todas as manhas, no momento de deixar a plataforma ou -o belvedere, hesitava,, não se decidia a voltar para dentro; retida pelo encanto, experimentava uma frustração deprimente... Para se decidir a entrar, era preciso que o frio começasse a penetrar em seus ossos, que não sentisse mais nem os pés, nem as mãos entorpecidas, e certa vez teve medo de que o nariz lhe tivesse congelado, como acontecera com Eufrosina Delpeh, a comadre de Quebec, que, a fim de espionar os maus passos da Sra. de Castel-Morgeat, incorrera nesse dano. Voltando para o calor, espreitou, no espelho, com inquietação, seu apêndice nasal, prometendo a si mesma que seria mais prudente no futuro. Se um dia ou outro tivesse de reaparecer em Versalhes, não podia fazê-lo marcada por cicatrizes indeléveis de suas viagens no Novo Mundo. As cicatrizes são gloriosas apenas para os homens. E no entanto, aquela manhã, alguma coisa a detinha. Várias vezes voltou da porta a seu ponto de observação, com a impressão confusa de que um detalhe lhe escapara. Subitamente, com o coração batendo, uma interrogação se esclareceu. Em meio àquelas brumas errantes e longínquas, àquelas névoas exaltadas dos pântanos endurecidos e dos abismos fechados sobre quedas-d'água geladas, seu olhar detivera-se numa mancha ao longe, alternadamente esbranquiçada ou transparente, de formas cambiantes, e que se arredondava por vezes, como que impelida por um sopro do vento, ou, ao contrário, estirava-se verticalmente no ar puro, subitamente calmo, num filete branco. Menos que nada: uma mancha arredondada, depois um filete branco alongando-se, mas que não mudava de lugar. A partir do momento em que reparou nele novamente, não lhe despregou mais os olhos. Prendia até a respiração para poder observá-lo melhor. Estava infinitamente longe e não tinha mais consistência que um sonho. Mas não podia confundir-se nem com as briímas acima dos rios, nem com neblina. Era fumaça. Voltou para casa num transporte de alegria, mas não querendo acreditar naquele frágil indício. Seria fumaça? Muitas vezes durante o dia voltou a sair, a fim de espreitar o sinal, e ele continuava no mesmo lugar. — Você fica saindo o tempo todo! — queixaram-se as crianças. Finalmente, não teve mais dúvida: era fumaça. E, atrás da fumaça, havia homens. Fossem eles quem fossem, representavam a salvação. Ao cair da noite, deu mais uma saída. Voltada para a direção de onde vinham os sinais de fumaça, não conseguiu distinguir nenhum ponto vermelho que, na sombra da noite, teria revelado a localização de uma fogueira. "Por isso mesmo!", tranqúilizou-se. "Eles deixaram o lugar e apagaram o fogo porque continuam 'a caminhar para nós." Ficou observando durante muito tempo; quando, diante da obscuridade crescente, decidiu afinal ir para dentro do fortim, estava tão congelada que mal conseguia mover-se. Apesar da decepção por não ter podido distinguir nenhum ponto vermelho, continuava a ver naqueles diferentes indícios novas razões para esperar. "Eles" vinham, "eles" subiam em sua direção. Aqueles fogos eram de uma parada, antes da última etapa que os traria a Wa-passu, naquela mesma noite.

Algumas horas mais e os homens da mina do Sault-Barré, os da mina do Croissant, talvez os de Gouldsboro, alertados, desabariam na trincheira de neve e bateriam na porta do seu retiro, como daquela primeira vez em que, sob trombas-d'água, tinham se refugiado, após o episódio de Katarunk, e seria um nunca acabar de congratulações: 0'Connell, Lymon White, Colin Paturel... Acendeu o fogo na sala grande. Era o máximo que podia fazer para preparar-lhes uma recepção, fora a aguardente e o vinho... Para fazer as vezes de farol, subiu para fincar na neve uma grande tocha. Preparou os colchões e cobertas, e esperou. Ficou acordada a noite toda, mantendo o fogo aceso, espreitando cada estalo no exterior, julgando ouvir a todo momento ruídos de passos ou de vozes no sopro do vento, e precipitando-se ao seu encontro à soleira~'da porta na noite glacial. Mas pela manhã ninguém tinha aparecido, e o grande silêncio continuava. Entretanto, quando subiu à plataforma, a fumaça ao longe permanecia lá, no mesmo lugar, parecendo divertir-se com sua espera, desdobrando-se de modos diversos, em pequenos topetes ou penachos bem visíveis, tfepois fundindo-se até apagar-se completamente, para tornar a aparecer. Estava sempre lá como um sopro humano falando de vida,Tima respiração humana à superfície da terra. Daí em diante decidiu ir até lá para ver. Pelo menos, tentaria avançar suficientemente ao encontro do fenómeno para formar uma opinião. Se havia pessoas lá, elas representavam socorro, possibilidade que não podia desprezar. A ideia de deixar as três crianças sozinhas, nem que fosse por algumas horas, preocupou-a. Eram tão pequenas! Fez algumas recomendações a Carlos Henrique: entre outras, não se aproximar do fogo; acendera-o com pedaços de turfa, que duravam bastante tempo e não produziam chamas altas. — E se o fogo apagar? — Irão para a cama, sob as cobertas, para se aquecer. Não demorarei muito. Voltarei antes do anoitecer. Enfiou os calções de Lymon White, seu capote de lã grossa, puxou o capuz sobre acabeça, cobrindo-o, além disso, com um de seus gorros de pele, tão apreciados pelos habitantes de Wapassu. Escolheu uma raquete bem leve, pegou uma arma de pederneira, pendurou à cintura um chifre para pólvora e saquinhos com balas. As crianças seguiram-na até a porta, prometendo comportar-se. "E se me acontecer alguma coisa? Um acidente!", pensou, atormentada. "O que seria deles?" Recordou-se de sua angústia, na época de suas cavalgadas no Poitou, naquele dia em que, depois de deixar Honorina, um bebe de dezoito meses de vida, amarrada ao pé de uma árvore, a fim de correr em socorro daqueles homens atacados, recebera um golpe na batalha, perdera a consciência e dera por si na prisão, desconhecendo o que acontecera com a criança, sozinha na floresta. Sem saber o que ia encontrar ao final de sua expedição, voltou ao quarto e escreveu numa folha de papel: "Há três crianças pequenas sozinhas no fortim de Wapassu. Socorrei-as, pelo amor de Deus", e enfiou-a no bolso do capote. Se fosse ferida, se... Era preciso prever tudo e agir "como se..." Mas de fato, estava persuadida de que só se lançava a essa empresa para dissipar uma dúvida insuportável: era ou não fumaça, aquilo?... O que mais receava era estar tendo uma miragem. Encontrou as crianças brincando na sala, onde tinham mais espaço que no quarto.

— Podem brincar um pouco aqui, mais sair, não. — Nem para ir até o lago deslizar um pouco? — perguntou Carlos Henrique, decepcionado. — Deus do céu! Não! Não podem sair, estou dizendo. — Nem para fazer bolas de neve? — Nem para fazer bolas de neve — repetiu. — Por favor, meu homenzinho, você tem de se comportar como um irmão mais velho, como Tomás. Você se lembra de quando ele lhe dizia: "Respeite as instruções". Minha instrução é: "Não saia". Quanto aos gémeos, só lhe restava uma coisa: obedecer a Carlos Henrique. E repetiu-lhe ainda uma vez tudo o que ele devia fazer e não fazer, dirigiu uma última súplica a seus anjos da guarda e saiu para a planície. Avançava sem poder calcular a distância que teria de percorrer. Não sabia se o ponto que visava,e do qual não tirava os olhos, estava próximo ou se situava a horas, ou dias, de caminhada. Aquela fumaça ao longe era um sopro fino, uma mancha ínfima que se diluía, por momentos; perdia-a de vista, depois percebia-a novamente, sem estar certa de não se iludir. Dir-se-ia que era um sopro de agonizante, cuja interrupção significaria para ela, na verdade, quase que a morte. Seria, de qualquer modo, a perda de uma esperança louca. Felizmente, de passo em passo, a fumaça tornou-se mais precisa a seus olhos, lacrimejantes de frio, fatigados de perscrutar a luz para não perder de vista aquele traço azulado, que, finalmente, começou a se desdobrar mais nítido e mais próximo sobre uma cortina de árvores negras. A margem da floresta, homens tinham acendido uma fogueira. Não os via, mas, doravante, sua presença era indubitável. Outros pensamentos a assaltaram. Homens! Amigos? Inimigos? Homens que, vendo-a aproximar-se, uma forma indistinta e desajeitada, mexendo-se na imensidão branca, crendo talvez tratar-se de um animal, poderiam atirar à queimaroupa, como numa caça qualquer. Nesse momento e inesperadamente, um pedaço de bruma amarelada, bastante espessa, arrastou-se para ela pela-esquerda e a envolveu. "Prefiro isso!", pensou. O odor da fumaça a guiaria, pois agora podia percebê-la pelo olfato. Era embriagador. E apesar do perigo possível, Angélica estremecia de impaciência. Subitamente, sob suas raquetes, o solo cedeu. Avançando numa paisagem cujo revelo se esbatia devido à neblina, viu tarde demais a beira de uma falha profunda. Só teve tempo de se agarrar a uma pequena árvore no rebordo. CAPÍTULO XII O cunhado de Passaconaway — Insólita caridade no wigwam abandonado Angélica inclinou-se por cima da ravina. Era daquela falha que a fumaça se erguia em volutas preguiçosas, estendendo-se como um lençol e misturando-se à pesada bruma. Nesse momento, o ramo ao qual se agarrara, e que estava coberto de gelo, quebrou como vidro e ela desabou no buraco, batendo nos rochedos mas sem se machucar, devido à espessura da neve que arrastava consigo.

Viu-se no fundo, quase enterrada pela avalancha, e teve muita dificuldade em livrarse dela, encontrar a arma, que lhe escapara das mãos, e uma das luvas, que lhe fora arrancada. A neve introduzira-se em suas mangas, no pescoço, no capuz. Com movimentos de nadadora, conseguiu atingir um terreno mais firme, encontrando-se junto a um riachinho semigelado. Diante dela erguiam-se as colunatas de gelo de uma queda-d'água, um "salto", como diziam ali. Ao pé de uma cascata, no momento congelada e muda, estagnava-se a fumaça, emanando dos do-mos submersos de dois wigWatns índios, desses abrigos que os nómades armam apressadamente com varinhas flexíveis, sobre as quais jogam pedaços de casca de olmos ou de carvalhos. Através dos interstícios das cascas e sem mesmo derreter completamente a neve, filtrava-se a fumaça, traindo a presença de vida. Ao redor, e apesar da queda da neve fresca da noite anterior, distinguiam-se sinais de um acampamento. Percebeu um trenó e um arreio que emergiam e julgou ter ouvido rosnar um cachorro no interior de um dos dois cogumelos recobertos de branco. Com o dedo no gatilho, ficou à espreita. Ficara tão privada de qualquer presença humana naquelas longas semanas, provavelmente meses, que hesitava e temia o contato. Amigos? Inimigos? índios? Ou exploradores-de bosques canadenses?... A placa de casca que servia de porta afastou-se. Um rosto de mulher índia sob sua tiara de contas mostrou-se a meio, depois apagou-se para dar lugar ao do seu amo e senhor, um índio, o qual, para sair do covil, apontou à frente um alto birote oleoso, ornado de "facões" negros feitos de asas de corvo. Soerguendo a cabeça, observou a intrusa, postada a alguns passos atrás dos arbustos. Pelo perfil arqueado, o queixo curto, os olhinhos faiscantes, ela supôs tratar-se de um abenaki do sul. Assemelhava-se a Pik-sarett. A visão do mosquete não parecia impressioná-lo. Aventurando-se, chamou-o de longe, saudando-o em sua língua. Ele respondeu em francês. — Eu o saúdo. Sou Pengashi, da Federação, dos Wapanogs. De onde saiu, criança? Por sua silhueta, devia tomá-la por um jovem branco. Ela esboçou um gesto para o alto da ravina. — De Wapassu, lá longe. Ele franzia os olhos para vê-la melhor. — Eu pensava que estivessem todos mortos lá. Vi de longe as ruínas do forte e das casas... Deu-se então a conhecer, e ele pareceu agradavelmente surpreso. Ela lhe disse que estava sozinha em Wapassu com três crianças. — Aproxime-se! Entre! — intimou-lhe, afastando-se para abrir-lhe passagem pela estreita entrada. Ela fincou as raquetes diante da soleira, ao lado da cabana, e deslizou para o interior do wigwam. Uma vez fechada a porta, isto é, a placa de casca de árvore recolocada contra a abertura, aquele abrigo estreito, onde só se podia estar sentado, ficou agradável. Estavam imersos numa espessa fumaça, mas Angélica foi sensível sobretudo ao cheiro de mingau, que devia ter sido cozido numa panela colocada sobre as brasas, e do qual duas ou três crianças acabavam de juntar os restos em escudelas de madeira. Eram certamente pessoas muito pobres. Tinha escrúpulos em pedir-lhes comida. Pengashi contava que o inverno os surpreendera quando não havia sequer concluído o comércio de verão nas costas de New Hampshire. Mais que isso, não tivera tempo de caçar e de defumar carne e peixe suficientes para as provisões de inverno.

Desprovido de munições, tendo que abandonar suas peles num esconderijo ao pé de uma árvore, tornara a subir para as montanhas do interior para reunir-se à gente de sua tribo; estavam, porém, quase na mesma situação que ele, e todo mundo se dispersara, a fim de arriscar sua sobrevivência, cada um por seu lado. Seu irmão mais velho encorajara-o a dirigir-se ao norte, a fim de pensar o inverno sob a proteção dos brancos de Wapassu. Mas, após uma longa e penosa viagem, cruzou com alguns grupos dispersos de abenakis e algonquinos, que perambulavam, desorientados, e que o avisaram de que o Forte do Homem do Trovão estava destruído, não havendo vivalma ali. No entanto, não querendo acreditar naquilo, ele prosseguiu, e percebeu de longe as ruínas enegrecidas; resignou-se, mas, como estava quase sem víveres, antes de partir em outra direção procurou um lugar propício para acampar, a tempo de preparar armadilhas. Esperava poder apanhar alguma caça, muito rara devido ao inverno precoce. Tinham erguido suas cabanas havia três dias. No fundo de sua ravina, preocupado apenas com as armadilhas e a caça, antes de pôr-se novamente a caminho, nâo.pensara em examinar mais de perto o sítio de Wapassu e procurar ali sinais de vida, o que explicava que não tivesse notado a fumaça do fortim. Sua intenção era continuar para o norte e pôr a família ao abrigo das missões no Forte de -Richelieu ou no Forte Sainte-Anne. Enquanto falava, fumava seu cachimbo em pequenas baforadas e conservava uma expressão satisfeita, abanando a cabeça com o ar entendido de alguém que tem convicções próprias e que se felicita por ter conduzido tão bem os negócios. — O Forte de Richelieu? O Forte Sainte-Anne? Mas fica muito longe — observoulhe Angélica. — Por que não tentam voltar Pela Chaudiéré em direção a Quebec? Teriam de percorrer uma distância menor. Ele sacudiu a cabeça. Ouvira dizer que o exército do novo governador invernava no Forte de Richelieu e nos dos lagos Saint-Sacrement e Champlain, e que as barcas haviam passado todo o outono levando um abastecimento monumental de Montreal para lá. Não apenas ficaria com os seus, protegido da fome, mas também estaria no local quando chegasse a primavera, para participar da grande campanha guerreira que se preparava contra as Cinco Nações iroqueses. De repente perguntou o nome das crianças que estavam com ela no fortim, e quando ela respondeu, manifestou novamente uma grande satisfação. — Carlos Henrique! Carlos Henrique! — repetiu várias vezes. Depois, inclinando-se para ela, com um ar malicioso, confiou-lhe: — Sou o cunhado de Jenny Manigault. Em resumo, ele era o irmão de Passaconaway, o chefe dos pemacooks, que raptara Jenny, e com quem ela fora se encontrar depois de sua fuga, confiando seu filho Carlos Henrique a Angélica. Pengashi achava que seu irmão mais velho agira mal raptando uma francesa. — Nós dissemos a ele, no começo, nós, seus parentes, amigos. "Meu irmão, tome cuidado", sempre lhe dizíamos. "Você raptou uma francesa, e nossos aliados brancos do Canadá vão criar problemas conosco." Então, ele foi se esconder nas montanhas Verdes, mas, depois, avisou-me que soubera que sua cativa francesa era da mesma religião que os ingleses, daqueles que tinham crucificado Nosso Senhor Jesus Cristo, e que, por essa razão, seus compatriotas franceses a considerariam como prisioneira, se lhes propusesse devolvê-la. E, longe de resgatá-la, os franceses a entregariam a

outros abenakis como butim. Compreendeu então que ninguém viria tomá-la dele, se soubesse precaver-se contra uns e outros. A última vez que Pengashi vira o irmão, o chefe Passaconaway, ele se preparava para "descabanar" com sua família, comnosta de Jenny e da criança que tivera com ela, uma menininha, sua mãe e um jovem primo, que perdera toda a família na guerra do Rei Filipe. O inverno anunciava-se muito rigoroso nas montanhas Verdes. Quis se aproximar do litoral, preocupando-se em não atrair a suspeita dos colonos ingleses que avançavam, cada vez mais numerosos, em direção às montanhas para deslindar a floresta, e que viam por toda parte, assim que a pluma de um selvagem despontava, contingentes guerreiros do norte canadense, franceses e abenakis, vindos para escalpelá-los. Passaconaway não era batizado como Pengashi, que era cristão, assim como sua família, e até seus pais. Passaconaway desconfiava dos homens brancos que podiam vir tomar-lhe Jenny; dos franceses, porque ela era de sua raça, e dos ingleses, porque era de sua religião. Ficaria feliz por poder levar a Jenny notícias do filho. — Se você voltar para o norte, não terá tempo de rever seu irmão nem de transmitir a Jenny notícias de seu filho — disse ela. Mas essa noção de tempo e de distância não impressionava o índio. De qualquer modo, a campanha de guerra contra os iro-queses os conduziria para perto das regiões onde se escondiam Passaconaway e sua pequena tribo. Depois que os iroqueses fossem aniquilados, Pengashi poderia seguir um contingente decidido a recolher as cabeleiras dos ingleses entre os habitantes das fronteiras, o que o colocaria nos limites da hinterlândia do New Hampshire e das montanhas Verdes. Poderia subtrair alguns dias aos combates para encontrar os seus e visitá-los. No wigwam de Pengashi havia duas mulheres. A' mais nova dava de comer a um bebe amarrado a uma pequena prancheta. Era sua filha mais velha, cujo marido morrera esmagado por uma arvore, durante seu êxodo. — As neves chegaram muito cedo. As árvores não tinham ainda perdido as folhas. Com o peso, muitas delas se quebraram. A outra, a esposa, observava Angélica com um olhar pouco ameno. Apesar da estreiteza da cabana, resolvera besuntar os cabelos com gordura de urso líquido. As índias tinham sempre muito cuidado com os cabelos. Aquela, a despeito de sua situação precária, não derrogava seus hábitos. Perguntou a Angélica se não tinha um pente para dar-lhe, de chifre ou de osso, pois o seu, de madeira, se quebrara. Pengashi mandou-a calar-se, com mau humor, e Angélica compreendeu que lhe censurava desperdiçar banha de urso quando suas provisões estavam esgotadas. Sua filha mais velha, a jovem viúva, por sua vez, indagou se a mulher branca podia fornecer-lhe uma faixa para seu-recém-nascido. Acusava também o inverno. Não pudera fazer uma provisão daquela penugem de caniço ou de madeira de pruche socada com que se revestiam as coxas dos bebes, a fim de não sujar as peles. Mais uma vez, o índio mandou a filha calar-se, lembrando que as mulheres tinham usado o pó da madeira de pruche para desengordurar os cabelos, antes de lavá-los, só para tornar a engordurá-los depois. Seus cabelos! Sempre seus cabelos! E não tinham o que comer! Mas logo depois pedia a Angélica, para ele, álcool e também uma coberta, pois não pudera ir à feira buscar nos navios ou no posto do holandês as mercadorias de que precisavam.

Pengashi explicava aos pais quem era ela e as razões de sua vinda. Raptei esta menina. ordenou com voz rude à pequena criada que atiçasse o fogo. Pengashi. fazendo-lhe m sinal para que entrasse com ele. que não podiam manter a velocidade. Acabou de fumar seu cachimbo e. Daqui a pouco estará suficientemente grande para tornar-se minha esposa. Esperava socorro. Angélica surpreendeu o olhar de curiosidade que ela lhe lançava e viu uma pupila clara numa carinha magra escurecida pelo sol e pela gordura. Dois velhos encontravam-se ali. mas que deixava vislumbrar manchas de sardas. Coberto com um gorro de pele. pediu-lhe que o acompanhasse ao lado de fora. que esperara pacientemente sua decisão. Observando a pequena índia curvada sobre sua tarefa. È por isso que Ganita não gosta dela. de um pouco daquele produto de troca. Angélica e seu anfitrião tomaram seus lugares. estendia-o à velha esposa. para jogá-los numa panela colocada sobre os tições. podia-se perguntar se tinham ouvido alguma coisa do que lhes dizia o filho. Tinham lenha para se aquecer. com um grupo aliado. Estava sozinha naquele fortim com as três crianças. presos na testa por uma tira bordada com miçangas coloridas e cerdas de porco-espinho. sentados com muita dignidade no fundo da cabana.um homem e uma mulher de tranças grisalhas. dando-se ao trabalho de respeitar as regras de cortesia devidas aos ancestrais. mas até agora não chegara ninguém. os cabelos trançados. menos atenta a suas palavras que aos gestos. Depois de fechar cuidadosamente a abertura. Ela já não era uma criança de yenngli. Esperou que o calor voltasse ao interior da cabana para desenrolar as peles. Pusera-se a caminho tão persuadida de estar indo em direção a uma miragem que não pensara em se munir. não podia deixar de olhar cobiçosamente para a tigela com gordura de urso e um resto de mingau de milho. apesar da corrida na floresta. por menores que fossem. lançando-se depois avidamente àquela suprema bolinha de pasta.Angélica lamentou não ter trazido álcool. envolto em peles. entre as quais Carlos Henrique. raspava cuidadosamente uma pele. que um companheiro sobrevivente fora buscar. Ela era tão pequena e tão loura! Fui eu quem lhe calçou os primeiros mocassinos. seguimos a campanha do Toga Negra. pelo menos. deve ter compreendido a linguagem muda de seus olhares. Arranjei um meio de cortá-los e costurá-los. Enquanto falava. mas as reservas de alimentos estavam se esgotando. agachada ao lado do fogão. no centro da cabana. E a neve recobrira completamente o lugar das armadilhas. — Meu irmão era tão louco por sua cativa branca! Deu-me vontade de ter uma também em meu wigwam. pois . dirigindo-lhe novamente uma de suas piscadelas de conivência. Este não se aborrecia com sua indiferença. para que desse algumas baforadas. dirigiu-se ao segundo wigwam. Há alguns anos. . Eles escutavam. depois de muitas encenações. Com certo orgulho. Mais uma pequena cativa inglesa. mostrou um grande bloco gelado de uma matéria avermelhada.os yennglis nos perseguiam e tivemos de matar quase todos os nossos outros cativos. Ele penetrara até o fundo do wigwam e soerguera uma placa de casca de árvore que formava a parede. Recomeçou a explicar sua situação. que desceu ate as proximidades de Portsmouth. sem parar de fumar e sem que um músculo de seu rosto se mexesse. sempre fumando. Uma menina de cerca de doze anos. acabou. E depois. Com a perspicácia de seus congéneres. tinham um reflexo dourado. Apesar da gordura que os untava. da qual arrancava os últimos fiapos de carne e de nervos. Coloquei-lhe esses mocassinos nos pés. endurecidas pelo gelo. tirando um volumoso pacote coberto de gelo. Então dei-a como criada para meus pais. Angélica ouvia-o. o homem fumava seu cachimbinho de pedra vermelha e a intervalos. as crianças acabaram deixando-o para o cachorro.

Acabou tirando-a meio maquinalmente. Eles defendem do escorbuto. Meus pais não dirão nada. Pegou num canto uma velha lâmina de espada bem afiada e. Com todo o arsenal armazenado nos flancos do fortim de Wapassu. Enquanto ordenava à pequena criada que costurasse as bordas do embrulho. Apesar de batizado. cujo valor parecia apreciar tanto quanto o ouro. preferia dirigir-se ao Grande Espírito. de um outro buraco. Mas vou fazê-la confessar. cortou um grande retâgulo de carne. um saco. quando se tratava de caça. a volta lhe pareceu fácil e rápida. entregando-a a Pengashi e explicando-lhe que Jenny reconheceria aquele anel. mas não consigo encontrá-lo:. O inverno é um inimigo traiçoeiro e cruel. talvez eu consiga um pouco de carne para partilhar com você. nem tinta consigo. Chegou a casa antes da noite. — Eu sou o cunhado de Jenny Manigault — respondeu. parcelas pretas ou amarronzadas de um produto leve. Ela não tem miolos. nem pena. e nunca é demais precaver-se. acrescentava três ou quatro pastilhas de suplemento. — Deixa esses frutinhos dos bosques incharem dentro de um caldo. Ela prometeu trazer aguardente. depois parecia reconsiderar e arrepender-se de seu gesto. pois sou batizado. e não usava nenhuma jóia. uma coberta para sua velha mãe e a faixa para o bebe. Ela logo ia querer fazer uma patuscada. Não tinha papel. Aposto que foi essa danada da Ganita que o furtou de mim. Abrindo-a. Angélica procurou alguma coisa que pudesse deixar com o selvagem e que testemunharia a Jenny que ele a encontrara. uma palavra escrita. Para Tenny. Assim ele poderá ver que falo a verdade. com três ou quatro golpes decisivos.Não teria com você algum objeto que eu pudesse entregar-lhe uando tornar a vê-la? Meu irmão mais velho acha que sou mentiroso. Volta daqui a três dias. enrolando-o num pedaço de pele. Quando a mão ficou cheia. do lado de fora. o que ela fez com rapidez e habilidade. — Tenho também um presentinho que Jenny me deu para seu filho. Essa generosidade que demonstrou e que o deixou satisfeito não lhe custou caro. contou na concha da mão. Pengashi rejubilou-se. Com alegria por levar víveres suplementares para alguns dias. se o Grande Espí rito continuar a ser bom comigo. podia dar-se a esse luxo. sacudia um pouco o saco. também cuidadosamente cortado. e se corrigia. — Pode dar-me também seu fuzil? — pediu o abenaki. após guardar a aliança na sacolinha suspensa ao pescoço que todo índio usa no peito. Quem sabe! Com o fuzil. Exceto uma aliança muito larga em seu dedo emagrecido. pediu que Angélica estendesse as suas para recolher a preciosa provisão. Mas não contei tudo a minha mulher Ganita. derramando mais um pouco. . puxava. Eles aprovam que eu seja parcimonioso. do qual retirou duas raízes de rábano e uma colherona encerrada numa bainha de couro corrediça. como o parentesco o constrangesse a certas obrigações para com ela. hesitava novamente. que vira em sua mão. Um filhote de gamo. — Tenho direito a um fuzil. com tanto cuidado quanto um avarento com suas moedas. --. Ela se confundiu em agradecimentos. Hesitava.— Fiz uma boa caça anteontem.

caindo como um dilúvio. As árvores estavam transformadas em longos círios gigantes. pareciam não ter fim. chorando suas lágrimas de cera lívida. apesar de quase apagados. foi arrastada para o fundo. Esperou. Pengashi erguia suas cabanas na parte mais fundas das ravinas. Agora o vento cessara totalmente. afundava até os joelhos a cada passo que dava. Como da primeira vez. depois de desobstruir mais ou menos os arredores da entrada. deixando sob um céu baixo e ameaçador um mundo decapado. Ela deixou para falar-lhe sobre a mãe mais tarde. apertou contra o peito as crianças. mais pesadona que um urso. e. Avançava lentamente. sendo varrida de um lado para outro. um vento desagradável começou a soprar. vestígios de sua antiga pista. Dessa vez. houve uma calmaria. um pente. Com medo de se perder. mas suficiente para que tivesse a possibilidade de saber em que direção estava indo. a neve recomeçou a cair. guiando-se pelo sulco muito tímido do trajeto anterior. turbilhonando com lassidão. e. confundindo-se com os rochedos submersos. por terem sabido esperá-la sem se assustar com sua ausência. Apesar das raquetes. na mesma precipitação de neve. apesar de não estar muito bem provida. mole e silenciosa. Devido ao adiantado da hora. Vento seco mas glacial. Fez suas recomendações a Carlos Henrique. naquela estação. teve de esperar pelo dia seguinte para ir ao acampamento dos índios. . encontrou. lamentou não tê-las cortado mais compridas. não perdera nem a raquete nem as luvas. com as folhas despojadas cor de osso. que corroía como poeira de aço a superfície da neve. sabendo que não poderia dar dois passos sem ser derrubada. os ramos em forma de candelabro. As coníferas estavam negras como tinta. O céu baixava cada vez mais. duas cobertas de lã inglesa de Limburgo para os avós. Os flocos ficaram mais esparsos. depois outro. não tendo pressentido a tempo o desnível. Mas. pobre coitado. como da vez anterior. No intervalo. durante a noite. um dia o vento começou a amainar. Será que conseguiria.Aliviada. Aquele Pengashi a enganara com seus projetos de voltar para as montanhas Verdes. se quisesse rastejar. era impossível tentar localizar os sinais de fumaça do pequeno acampamento perdido. Contra qualquer expectativa. Como eram corajosas. algumas faixas de pano e. e a própria cascata desaparecera. sem uma pitada de neve em suas agulhas. Com a passagem constante de névoas e nuvens no horizonte. em enormes flocos macios. Finalmente. compreendeu por que. pois a neve. Precisou de mais tempo para se livrar da neve. esperou mais-um dia. recoberto por uma carapaça de gelo. ainda não se levantara e provavelmente não se levantaria. sem o mínimo galhinho. que transforma uma paisagem já escura numa muralha intransponível. o que não tinha gravidade. içou-se para fora e rumou para a planície. Prosseguiu a caminhada. Quase imediatamente. teria rodopiado. A ravina assumira um aspecto fantasmagórico. atingir as missões do norte? Deixou passar alguns dias antes de retomar o caminho de seu acampamento. a neve recomeçou a cair em grande flocos. munira-se de um feixe de varinhas para balizar a pista. não percebeu a beirada abrupta do despenhadeiro e. ameaçava recobri-las dali até a sua volta. parando pouco a pouco. Um trecho do horizonte se descobriu para oeste num espaço restrito. sem se inquietar e sem fazer tolices! — Comemos ê depois dormimos — disse Carlos Henrique. em compensação. Caía compacta. Na manhã seguinte. tão pequenas. mas o vento. ao rés-do-châo. Levaria um quartilho de aguardente. mas as pancadas de neve. pois ela lhe amortecia a queda. mas.

Pengashi deixara-lhes o wigwam para abrigá-los. aproximando-se. afastou a casca de árvore da entrada. Nas mãos abertas de cada uma das duas personagens hieráticas. retomou sua marcha para o norte. o homem com seu gorro de peles e a velha com sua tiara bordada enfeitada com uma pena. Sob a luz baça que entrava pela abertura. Depois. compreendeu que estavam mortos. infiltrando-se por um buraco no teto. tal como os deixara. da primeira vez. numa direçào tão distante quanto incerta. o bebe e a cativa inglesa. Só depois de um bom tempo. e no entanto nobre e sereno. e acompanhado pela mulher. Com um gesto instintivo. Pouco a pouco. lá onde só existe calor e luz. sem pensamentos. até que viu à sua volta que a neve começava a se depositar sobre suas roupas e que estava petrificada de frio. Saudou-os. não se cansava de contemplá-los. sentados lado a lado. não se preocupou por não ver fumaça. . estendeu a mão para a panela. o velho índio colocara o objeto sagrado diante dele. recolocando cuidadosamente a placa de casca de árvore que servia de porta. Chamou. sublinhando-lhes de branco as dobras das roupas. Segundo o ritual e a tradição. eu fico. ajoelhada diante das duas dignas múmias.Nem sinal dos wigwams. Não pareciam dar-se conta daquela neve fina que pouco a pouco os recobria e. retida involuntariamente. Angélica ficou inerte. depois. como já esperava. Tinham fumado calmamente o cachimbo da paz. a filha mais velha. após a última baforada. os filhos. "Eles descabanaram. na obscuridade que pouco a pouco se resfriava. impassíveis. não teve resposta. Seme-lhava-se a um grande cascalho de lama. Mas. Quando o galho desabara sobre o teto do wigwam. com as mãos colocadas sobre os joelhos. o ancestral dissera: "Meu filho. estava vazia e meio encoberta pela neve. Uma fina poeira de neve. Minha pista termina aqui". Levantou a cavilha de madeira. continuando seu caminho pelas planíceis do Grande Espírito. passando-o um para o outro. com seus passos lentos nas raquetes. sem saber por quê. Com uma última panela colocada sobre os tições. e percebeu os dois velhos no fundo. em seu alívio de sabê-los presentes. Esperaram que o último tição se apagasse repartindo então os últimos bocados de alimento terrestre. e depois. um último fogo aceso diante deles. contendo duas supremas rações da sagamité. repousava uma espécie de torrão de alguma coisa indistinta. assim como os dois velhos. deixaram vir a morte. eles já estavam longe. com as pernas cruzadas. uma última pitada de tabaco para o cachimbo do pai. quando notou o cachimbo apagado colocado diante do homem e constatou a invasão da cabana pelo sopro-imperceptível da poeira de neve. Continuavam tão vivos que se continha para não colocar em seus ombros as cobertas que trouxera. fixavam-lhe os olhos turvos. um detalhe insólito atraiu-lhe a atenção adormecida. No momento em que Pengashi e sua família partiam de novo. por aquele espetáculo macabro. carregando e arrastando os aprestos dos pobres e derradeiros bens. também salpicado de neve. à procura das missões e dos postos franceses." Depois. pulverizava os tições do fogão. percebeu a forma redonda de um dos dois abrigos e. pelos espaços nevados e pelos furacões.

Eram os brincos que Jenny Manigault de La Rochelle usava no dia em que fora raptada pelos índios. Recuando de joelhos. e não se podia saber de que modo repercutiria o menor choque. Havia também uma sacolinha de couro colocada sobre a porção que a mulher segurava. misturado com pedaços de carne e frutas secas. — Obrigada! Obrigada! Que Deus os abençoe. Angélica contemplou-os com emoção. As crianças não eram infensas ao que ela mesma. enfiou seu butim na sacola. Evitava sempre falar a esse respeito e não respondia quando se aludia a ela. entre saquitéis. A última refeição dos ancestrais. atingia-os. Trémula. por outro lado. tinham pensado. reconheceu uma armadilha de aço para os pequenos animais de pele e se lembrou de que se queixara a Pengashi de não ter encontrado as que o inglês colocara no outono. saiu do wigwam. desejando que sua aliança pudesse um dia chegar até a pobre criança.Mas ao se aproximar percebeu quê era comida. Em troca do fuzil. evitar-lhe o máximo tempo possível o ultraje dos animais carniceiros. Portanto. de sua odisseia com a índia. esforçando-se por tapar a abertura no teto. Deveria ver nesse gesto uma suprema oferenda ao Deus da caridade sem limites que os Togas Negras lhes ensinaram a cultuar? O que era uma ração a mais nesta terra. o que levara vários meses. Transbordante de gratidão. a ruptura não teria deixado nele uma ferida? Evocá-la não iria despertar sua nostalgia e mergulhá-lo na melancolia? Ele aprendera a sorrir em Wapassu. chocou-se com um objeto envolto em pele. o índio lhe deixava um de seus instrumentos de caça para comércio. que poderia lhe oferecer uma última oportunidade. Estremeceu com uma alegria insensata. A fome tornava a todos frágeis. Ajustou e firmou melhor a porta. em que não haviam tocado. olhando uma última vez para os velhos. experimentava. que o arrastara duas estações de wigwan a wigwan. que não vira anteriormente. desprendeu os dois pedaços das palmas esquelétricas e hesitou. conteve-se. ainda que fosse mais fácil distraí-los. Prestes a entregar o presente a Carlos Henrique. pequenas granadas engastadas em prata cinzelada. cerdas de porco-espinho. a falar-lhe da mãe. reconhecera nela sua mãe. Sabia que. onde estariam saciados para sempre? A mulher branca e as crianças brancas de Wapassu tinham fome. um par de brincos pingentes deslizou na mão de Angélica. adulta. Dois grandes blocos congelados de mingau de milho. quando iam partir para lá. via brilhar aquelas cruzinhas de ouro feitas e usadas pelos índios batizados do sudeste. pois parecia fazer parte da oferenda. Uma coisa de nada tocava-os. medalhas. entre os amuletos de dentes de ursos. não conservava uma lembrança feliz. receou abalar o bom equilíbrio do menino. também pegou-a. Se. . CAPITULO XIII Os pingentes de Jenny Manigault — A loucuras do silêncio Quando esvaziou a pequena sacola de couro encontrada perto da avó. interrogando-os com o olhar: "E para mim? Sabiam que eu ia voltar?" Em seus peitos. Pela forma. a fim de. Ao se retirar. Sua sensibilidade se aguçava. oscilava. colares de conchinhas.

pois fora a única a consolar sua pequena infância abandonada. tanto pelos brancos como pelos índios. um fidalgote provinciano. lâminas de espadas. enquanto se perguntava se era mesmo daquele modo que se procedia e censurando-se por não ter testemunhado maior interesse pelo manejo daqueles engenhos de desgraça. foi preparar a armadilha que lhe deixara Pen-gashi. Tocada pelo inverno. e o barão nunca enforcou ninguém. Ela sonhou com favas no toicinho e feijões de Boston. a fim de pegar um veado ou dois. na América. em seguida. Disse consigo que fora estúpida. As armadilhas serviam à captura dos animais de pêlo. organizavam com os vizinhos batidas em suas terras. Não se arrependia de ter-lhe deixado a arma. praguejava contra os camponeses furtivos que lhe pilhavam os coelhos-bravos para poder colocar um coelho na panela. Ali. os senhores da vizinhança. em troca das mercadorias de trato: machados. quando ele estivesse maior. em Salem. panelas. Honorina. Pego em flagrante pelo couteiro. que assustou as crianças. reservando-se aos chefes o uso das armas de comércio. segundo a lei senhorial. sentados em volta de uma boa mesa. Em sua juventude. na casa de Abigail. Agarrou-se à ideia de que Pengashi falaria dela. mas arrebataram-lhe a esperança. facas. Chamou Ruth e Noémia em seu socorro.Recolocou as modestas jóias na sacolinha. Assim que pôde. Não gostava de imaginar aquele estalo perpétuo das armadilhas fechando-se sobre os bichinhos dos bosques. o índio teria alguma possibilidade. a situação lhe pareceu pior que antes. "que vinham em suas canoas. não era tão sensível em relação aos bichos. com sua mania de se identificar com toda criatura inocente maltratada. a fim de não descontentar os franceses. se degustavam regados com creme e melaço. a carne de veação era caçada com fuzil. Mas será que Pengashi voltaria algum dia. e muitos outros objetos dos quais eram ávidos e aos quais nãò podiam renunciar. sacrificou uma bolinha de carne para a isca. toda caça desaparecera no céu e na terra. mortais as tempestades. Muitos continuavam a caçar com arco. Mais tarde as entregaria. ele também. a influenciara. que. tão esfomeados quanto seus aldeões nos anos de má colheita. Tinham-lhe dado uma prorrogação de alguns dias de alimentos. num lugar que lhe pareceu propício à passagem da caça. A visão daquela pequena família errando através do deserto branco forneceu-lhe a medida do isolamento em que estava encerrada. moeda de câmbio. com a malvada mandíbula de aço que era preciso fechar sobre o pulso. Colocou-a ao abrigo de uma árvore. ou quando tivessem saído daquele pesadelo e estivessem todos reunidos. no entanto. a alguma distância do posto. partilhando-o entre eles. Com o fuzil. . Ele gostava dela. Saberiam que estava viva. na primavera os indígenas levavamnos para a feitoria ou entregavam-nos aos viajantes e exploradores de bosques. ao menino. mas ele estava se generalizando. por isso Angélica se desinteressara. Mas os San-cé de Monteloup sempre foram pobres demais para pagar os serviços de um couteiro. As vezes. o homem arriscava-se a ser enforcado. com os dedos entorpecidos. Armas de caçadores furtivos! Seu pai. à praia dos vivos? Sem fim era a pista. Seres humanos tinham vindo e. os índios comeriam o cachorro. Despertou dando um grito de decepção. Pensava vagamente em tudo isso enquanto lutava. aquela música macabra que pairava perpetuamente nos grandes espaços selvagens. Como último recurso. aguardente. O tráfico de peles era terminantemente recusado em Wapas-su.

Dizia-lhes que o cão boboca dera provas de grande inteligência. adivinhando que era o fim de Wapassu e que era preciso fugir. CAPITULO XIV Entre a fome e a tempestade Angélica começava a duvidar de que o "pior fora evitado". obrigava-se a falar com as crianças. Era preciso lutar contra a loucura do silêncio. alguns se tornavam novamente selvagens e indomáveis. Se desaparecesse. "Não pense. enquanto Carlos Henrique se inclinava sobre ela. Quando Honorina voltasse. A ele. Eles saberão encontrar o caminho. ao longe. e o inverno chegara cedo demais. que emprestavam a tudo um sentido diverso daquele que lhe atribuíra outrora. no momento do ataque dos índios. Tinham sido habituados a viver ao ar livre e. "Os cavalos!. manter sua atenção desperta. ensinar-lhe-ia a atirar com o arco. Pensava em Wallis.. tão só. Joffrey recebendo a notícia. Era a mais forte de todos. Os últimos anos tinham sido marcados por um selo de vitalidade cintilante. depois sua própria morte. símbolo dos iroqueses. de florestas e precipícios. "Honorina. Os trabalhos dos homens. Procurarão o caminho das charnecas e dos planaltos... "Eles descerão para o sul. Nós lhe trazíamos cavalos! Trazíamos o teto e o incenso da fumaça dos homens. Irão para os lugares onde há menos neve e muita grama e povoarão a América. como que tomados de pânico. de certa forma. no fim do verão. Havíamos feito umcontrato com você. que se lhe deparavam como na mesa do rei... Imagine antes que estão felizes por ter reencontrado o espaço. enquanto corria para a cabana de Lymon White para se refugiar. Os cavalos!" No outono passado. reencontrarão seu instinto. ele. quando subia à plataforma. mamãe! Eu os vi galopar! Não se deve ficar triste. sua égua." Mas o Maine era uma região muito difícil.. . Não sabia se aquela visão lhe causava mal-estar ou se a tranquilizava. o anunciara. Seus rostos pálidos iluminavam-se quando se pronunciava o nome de Honorina. que estava entre os iroqueses. o fogo de seu coração e as chamas de seu génio. "Você prometeu. Pensava nos primeiros dias de sua chegada ao Novo Mundo. não podia fazer isso." O pior seria a morte das crianças. "Você me traiu! Você me traiu". seria ela quem infligiria o golpe de misericórdia naquele homem indómito. aureolados ao mesmo tempo de esplendores terrestres e ingerências místicas. inquieta e atormentada como ela. que haviam jurado terminar com a alegre força daquele espírito livre.Montanhas de pratos fumegantes. galopavam através das pradarias. Daria o triunfo a seus inimigos. minha queridinha! Meu tesouro!" Honorina sobreviveria. tão renegado. percebera numa visão relâmpago os cavalos que.. censurava ao horizonte mudo. Livres. se organizarão em rebanhos. E fora encontrar-se com Honorina.. Fora embora antes do incêndioe. — Não chore." As crianças berravam a plenos pulmões. que dissera: "Agora não poderia mais viver sem você". Trazíamos a aliança dos homens de boa vontade. que se defrontara com a tartaruga gigante.

. Depois de preparar o café com o máximo cuidado. Eu lhe prometo que sobreviverei". você me deixou depois de tirar-me todas as forças. que a disputava comigo. o coro dos destruidores. os bispos. os ciumentos.". .. mas um tirano de qualquer modo. que acompanhava as poucas colheradas de alimento. é preciso não esquecê-lo. dando-o também às crianças.. como Dalila. que não me deixaria capturar nas malhas do Amor. para em seguida desaparecer e me deixar desarmado diante daqueles que juraram minha perda. Pois sabia que desgastava inútilmente suas forças.Você me corroeu o coração. Mas bebeu com avidez. Para ganhar . O coro dos medíocres. teria alucinações. os ignaros.. De tanto procurar em todos os cantos.. Angélica. : Ninguém. Estava dominada pelo medo das alucinações. encontrou um restinho de pó de café turco numa lata.. sustentava-se com aguardente. em todos os lugares!. os tiranos débeis e os tiranos inspirados... num estado de sonolência.. Partir. E depois.. meu amor. e todos pareceram menos dolentes depois.. Ciclo infernal... parcimoniosamente dividido entre eles. que ruim!.. os devotos. Dois dias.. de insultar o destino.. Pegava um pouco de aguardente no côncavo da mão e friccionava as crianças para revigorá-las. E todos sabem que esse apelo à ajuda suprema. ela se privava.. clamando com alegria: "Desta vez. Pôs cinturões e retalhos de couro para ferver e fazer uma gelatina." "Não pense! Não pense!". estão vencidos!. como o Rei-Sol. como da primeira vez. três dias no máximo. Ao despertar. Pois então.. já não eram as expressões enérgicas do Pátio dos Milagres que lhe voltavam aos lábios." "Jó!... quando sua imaginação esmorecia. os tolos. os pedantes.. que lhes dispensaria os corações em farrapos. Andar até os bosques lá embaixo. azar. ouvia-se murmurar: "Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!. invocações que lhe emergiam à consciência como as bolhas de seu desespero.um. sem as crianças!. Será que poderia fazê-lo?. com os cabelos de Sansão. ordenava Angélica a si mesma.. — Hum." Bem se vê que tudo isso foi escrito por homens e não por mulheres!. Carlos Henrique fez uma careta.. como fizera no início. mas. É preciso crer em Deus! Deus permanece.". Fazia parte dos fenómenos da fome...Ele teria o direito de censurá-la para todo o sempre. bebeu-o como um néctar precioso. Já nem tinha coragem. Foi um belo dia. como diz a oração. Tinha de resignar-se a isso.. Lymon White tinha suas pequenas fraquezas. Deus lhe devolveu tudo. tão convencido de seu poder de sair de todas as dificuldades por seus próprios meios." — "Não! Não! Não diga isso.. "Deus que está em toda parte. toda manhã. No fim.. quando se manifesta no ser humano.. Dir-lhe-ia: ". os medíocres.Jó queixando-se de sua miséria a Deus: "Tu me engoliste como o leite! Tu me partiste como o queijo. Não poderia naquele dia arrastar-se até a ravina de Pengashi. e que ela sobrevivesse e reaparecesse diante dele.. o que é repulsivo... Nenhum ser humano!... dia para as crianças. que atingiu o fundo de sua desgraça. os incapazes. gritou. composta por um bardo feroz. desta vez. Não! O pior seria a morte das crianças. A neve caíra sem descanso. história caçoísta recomeçada. a mim.. significa que ele entrevê o fim de suas esperanças terrestres..

A frisa malva e cinza das montanhas desenrolava-se contra um céu realmente cor de pêssego. de manhã. contrastando com o encarneiramento das montanhas. aíordou dura de frio. de La Rochelle. arrastou-se para o abrigo. não saberia dizer até hoje com que forças. sem que se pudesse saber se era dia ou noite. As noites e os dias sucediam-se. tomava ares de fuga. de um azul água-marinha. se esforçava para abrir a porta e subir para ver o nascer do sol. não paravam de passar. por ocasião de breves claros no céu. saindo e se movimentando. Os negros esquadrões de tempestade. Aquecera seus corpos franzinos com tisanas. quando tudo o que pode ser comido já o foi? Não se deixa nem a um talo de grama tempo para crescer entre os lajedos. A noite. Mas. Não tinha mais coragem de vê-las definhar. encontrando-a sempre vazia. "O que se haveria de encontrar numa cidade. — Eles passam! Eles passam! Estão apenas passando. Angélica abençoou o céu por estar o posto tão profundamente ancorado na terra e na rocha. O poente aquela noite foi de um amarelo agressivo. espreitando-lhes a respiração em seus lábios descorados. às quais misturava plantas calmantes. que poderiam consumir. Apertava as três crianças contra si. e só conseguiu reencontrar o fortim guiando-se pelo cheiro fugaz da fumaça. Era belo mas inquietante. Não veio de mansinho. esqueciam as agonias da fome. Quando.. seu distanciamento da casa. ácido. perdeu-se. CAPÍTULO XV Em meio ao delírio. jovem mãe de três crianças. Outra vez. quando se arrastava novamente até lá. Se se limitasse àquele único cómodo. sob o Cardeal de Richelieu. Acabou por retirar a isca. mas com uma violência brutal que acordou as crianças." Então Angélica se precipitava à cabeceira das crianças. "Certa manhã. entretanto. pensei que estivesse dormindo. desmaiou no caminho. em meio às rajadas de neve. estavam dormindo. "Por que você é tão cruel?". já que dispunha de muitas. "Tão bela e indiferente?" Também lhe foram recusados aqueles momentos em que. presenciara o sítio de La Rochelle. acreditaram que o teto ia despencar. elevando as mãos com as palmas unidas como para uma invocação. não poderia levantar-se mais e deslizaria lentamente no sono da morte. Mas estava morto. contava ela. cobrindo-as de beijos e murmurando-lhes palavras reconfortantes. No sono." "Foi meu filho mais velho que se foi em primeiro lugar".. sacerdotisa de um sacrifício de que era a única celebrante. Por enquanto. onde as crianças repousavam. o blizzard começou a soprar. extraía forças da impressão de estar fazendo alguma coisa. gritava à Natureza. com os filhos ao lado até . procurou-a em vão. surpresas. habituadas todavia a esses uivos das noites de inverno e às sacudidelas dos batentes. Depois subia de novo ao outeiro. Postava-se diante do horizonte.Examinava periodicamente a armadilha. o cadáver de um mártir Precisava ao menos reunir suas energias para mover-se através do espaço estreito que lhes permanecia reservado. Uma vez. A velha Rebeca que. Mas lembrava-se das histórias da velha Rebeca.

Ergueu a gola do manto até os olhos. mas decidiu que esses trabalhos lhe revigoravam as forças. Alimentou as crianças. Proteção contra o frio! Todos os dias viria despregar um pano da cortina. milho. da temperatura no exterior. acabou toda a comida. Depois. batendo o tacão no assoalho. podia ler muito bem em suas carinhas e corpos o que lhes faltava. apenas o sono delas. na grande sala. no gesto habitual. mimou-as. pelo menos. Deu consigo correndo _ na superfície gelada e cintilante. Estava coberta por um suor de fraqueza.resolução com que começava cada estação. família por família. e cada dia. Entretanto. o escorbuto. parcimoniosamente. um frio cruel lhe mordia o rosto. deslizou convulsivamente para fora da passagem que cavara no gelo. a única saída pela qual a luz do dia podia ainda escoar-se. cuidou delas. fugia da visão de seu último sono. na soleira da habitação principal de Wapassu. percebeu que a porta bloqueada pela neve tornava impraticável a saída. tinha obrigação de servir-se delas. passo a passo. quando se sentisse mais forte. Poderia orientar-se? Desprender o aparelho da massa de neve? Começou a andar em volta do quarto. Arrancou com a faca a proteçào de pele. untada de óleo. visitava os acampamentos indígenas mais próximos. se espalhavam fora dos muros.que.. Ainda restavam muitas provisões: gorgura.'a serenava. até a armadilha. para ouvir o barulho de seus passos. receando a cada dia perceber os sinais precursores do mal terrível. Pelo interstício desobstruído. lhe restavam ferramentas. Endireitava-se. ocupou-se em tapar o respiradouro com uma proteção de esponja e de peles. Ela mesma. a tranquilizava. Do lado de fora. Despertas. — Levante-se! Mova-se. na qual uma fonte de luz invisível projetava salpicos de cobre: aurora ou crepúsculo? Permaneceu observando bastante tempo. a fim de seguir a evolução das horas. talvez. decidindo afinal que era crepúsculo. Já que. Dedicava-se todos os dias a retirar o gelo do respiradouro. Arrastou um escabelo para junto do respiradouro. Um muro de gelo bloqueava quase inteiramente a abertura. soergueu-se gritando: — Não quero vê-los morrer!.. atravessava os pátios. Lançava aos ombros sua manta. enrijecia-se. se empenharia em abri-la e depois arrastar-se. dosando cada bocado. Outra hora. Por ali. embora lhe notasse a inquietante apatia. cotidiano. A fome chegaria antes do escorbuto. inspecionava os estábulos e armazéns. percebendo-lhes a avidez. para o fundo de seu túmulo. desesperada. prometeu a si mesma. as crianças enroscaram-s*e no entorpecimento. pouco a pouco. agia como um autómato. transpunha os limites das muralhas. Após engolir os últimos bocados. repetindo: . Com a condição apenas de que a tempestade não voltasse a enterrar o mundo em sua noite eterna. Içou-se até o respiradouro. parando de dispensar-lhes seu próprio calor e suas forças vitais. enrolou-as mais nas peles de gato selvagem. Recolocou a pele que servia de cortina. adormecessem também para sempre contra seu corpo de gelo. ganhou novas esperanças ao vê-las sorrir e até rir e pronunciar algumas palavras. talvez mais. Seu olhar seguia a fuga da superfície da neve. fixando-as com pregos. Abria a porta do quarto e tomava o corredor com a mesma. que não podia satisfazer. is fazendas vizinhas que. Naquele dia. era o deserto. ou os sinais precursores da morte. Ia poder desse modo determinar o andamento dos dias e das noites. do mesmo modo que é necessário mexer-se e ativar-se quando o entorpecimento do gelo se apodera dos membros e do espírito. como uma água turva mas presente. para três ou quatro dias. agora. seria mais fácil deslizar para fora. carne salgada.

Não inimigos ferozes. Recolou a armadilha. O sinal de que atingiriam o fim do túnel. caiu de encontro às mandíbulas da armadilha que emergia do chão. a saída se tornara impraticável.. afastando-se da árvore sob a qual morria seu filho Ismael. Viu-se no centro de um inexplicável feixe de hostilidades que a haviam rodeado a vida toda e soube claramente que. Mas não pôde voltar a ela. mostrando-lhe as etapas de sua vida que a haviam conduzido àquela hora. partiremos ainda. Com você. Tome-me. "nunca houve ninguém a não ser você. Morte próxima. O fel que lhe queimava as entranhas tornava-se uma maré de amargura. Desprendeu-o por milagre.. submergindo-lhe os pensamentos.. preparou uma isca suscetível de trair animais maiores e carniceiros. quase invisível." "Oh! meu amor". Seus cálculos avisavam-na de que era noite.. Apertou-o contra o peito.. dirigira-se à sala grande e tentara desobstruir o orifício do respiradouro. Eu lhe prometo. bloqueado. Seu cérebro começou também a girar loucamente. por condição. Não voltaremos mais. por sua culpa. Simplesmente inimigos que eram seus inimigos porque não podiam ser seus amigos. agora que. branco no meio de todo aquele branco. gelo. jamais houve alguém além de você. atraindo amigos. — Obrigada! Obrigada. Ela girava e andava pela grande sala deserta e gélida. e que soubessem por que motivo queriam aniquilá-la. dessa vez.. dessa vez.. Com fragmentos da pele do coelho e um pouco dos ossos moídos. voltou à armadilha. Pegou o coelho nos braços.. Víveres esgotados. iremos para qualquer lugar. irmãozinho! Como és bom! Como és bom por teres vindo! Nunca sentira de forma tão intensa e terna a aliança do homem e do animal.. Mas de que servia enumerar os dias e as horas? Iam morrer. que dissera ao homem: "Eu. toda tentativa de sair e distanciar-se deles equivaleria a uma condenação à morte imediata. "Contarei essa história às crianças.." Mais dois ou três dias de alimentação! — Obrigada! Obrigada. perdemos o Paraíso terrestre". protegendo as mãos com o xale' e com o auxílio da faca. Mas inimigos por natureza. Era uma noite lúgubre. — Obrigada! Obrigada. encontrou os gestos que devia fazer. Que aqueles que estavam a caminho para salvá-los chegariam a tempo. Neve.. como Agar no deserto. irmãozinho!. Aquele era o sinal. irmãozinho! No dia seguinte. Tropeçou. Acalentava contra o peito o animalzinho rígido e com grande orelhas erguidas. Um coelho das neves ali estava preso." . pouco importa!. congelado e tão hirto quanto as mandíbulas de aço. exclamou. Percebendo uma calmaria do lado de fora. Iremos à China. sirva-se de mim para sobreviver. nunca cessara de estar cercada de inimigos.. para constatar que. em outros termos.. ou uma árvore abatida? Dia ou noite? Já não se podia saber. eu quero muito.. Tudo estava tapado. nascida da fome e da desgraça. O animal.— Não quero vê-los morrer! — e afastando-se. Que erro cometera para ser assim condenada? Não soubera se submeter? Deveria ter se submetido? "Mas eu obedeci ao Amor. De novo ergueuse o espectro da fome. pois a tempestade levantou-se prolongando o aprisionamento dos seres vivos ao fundo de seus abrigos.

estava aliviada por não ter mais que alimentar esperanças sem futuro. E esse santo decidira fazer guerra a três princípios que ele abominava. E sobretudo contra os representantes de Deus?" Loménie a adjurara: "Não temos o direito de esquecer os ensinamentos de nossa infância. Mas quem virá dizer-me: "Você não se enganou. As perguntas embarálhâvam-se em sua cabeça: "Estávamos errados por não compreender? Por não nos submetermos?. mas cujo desenrolar de pensamentos precipitados. um dia. ao fato de que não se pode ter razão contra todos? Contra o mundo inteiro?. A morte de um santo veio para lembrar-me isso. . seu cérebro rodopiava numa embriaguez vertiginosa. não terá razão contra ele". O que importava não era servir a Deus. perdida. Cara Angélica. Tinham sonhado com um Novo Mundo.. Loménie estava certo. voltando o rosto para os quatro cantos da sala.Continuava a andar como um animal enjaulado e se sentia animada a decidir sobre sua vida. e assustados de perdê-las.. via o que ocultava sua fachada comum. Tudo era tão claro e tão nítido daí em diante! Ilusões! Vivera apenas ilusões! Ilusões que viu se cristalizarem na ingénua imagem de Gouldsboro que acalentara o tempo todo. E Quebec apagara Wapassu e. E vinga assim seus ministros desafiados!. iria sentar-se.. Rostos desfilavam. em Gouldsboro. e Que-bec. Naquele espécie de vazio causado pela fome e pela angústia. mais preocupados em manter suas crenças. sinto-o. Ruth e Noémia seriam enforcadas nos patíbulos de Salem. aniquilada. Não haveria mais distâncias. como se ali estivessem emboscados interlocutores.. Você me consolou com seu fervor.... A tocha crepitava como que chorando..' "Pecamos por audácia. As dificuldades seriam aplainadas. Pela primeira vez.. não era destituído nem de lógica nem de lucidez. Quantas vezes sonhara que um dia. Não se luta contra um santo. os dogmas e práticas que eles idolatravam.'" Esperou.. O Espírito desaparecera por trás dos quadros rígidos e pontuais... O que importava era a forma de consolo ritual com que se decidia servi-lo. pois. também ela moribunda. E tudo era silêncio. Tinham labutado para construí-lo... Mas Angélica. Não traiu a mensagem.. Sua agitação se acalmava.. quando a morte estava ali. cercada de amigos.. Gouldsboro e Salem. fé. aos pouquinhos. pelo menos. submeta-se. continuava a se debater: "Que erro imperdoável cometi? Tão grande que tenha de pagar com a morte de meus filhos? Faltou-me humildade? Quem nos virá dizê-lo? Quem nos reconhecerá? Se Deus se cala. Ela amara Wapassu. do que em agradar ao Todo-Poderoso. numa corrida desabalada que não conseguia deter. Tudo era fracasso. "Faltou-nos humildade".. Deteve-se... agachados na sombra que a triste tocha acesa mal conseguia dissipar. A predição se cumpria. e que a graça do batismo foi-nos dada ao nascermos. e que seria agradável. A cortina fechada diante da qual tripudiara por tanto tempo abrira-se e. fraca. aparentemente opostos e incoerentes. reiterou. confiança? "Quem me responderá? "Acusadores não me faltam.

alguns punhados daqueles grãos transparentes e marrons recolhidos na superfície dos lagos. sufocar. Duas vezes ressoara uma pancada na porta. nenhuma voz para gritar: "Jesuíta. Logo iria poder dar aos filhos uma sopa de feijões... A tempestade soprava lá fora e nenhum socorro podia ser esperado. e quando. no silêncio já quase tumular do pequeno posta enfiado na neve. porta aberta a todas as heresias. igual à que produziria um punho vigoroso batendo-na porta ou o choque de um bastão-manejado com as duas mãos ou da coronha de um fuzil. quando a fome os ameaçava. Aquela mesma porta ali. enquanto sua carne estremecia. ademais. perceberam silhuetas nuas inclinadas sobre a trincheira de neve._ engrossada com carne-seca desfiada. nada mais. houve um baque. enquanto ela estremecia e sustinha a respiração. Foi breve e súbito. Era a mesma sensação que a fizera erguer-se uma noite em sua primeira invernada. Jonas. talvez!? Depois.. com uma efervescência. Teria forças para abrir aquela porta? Era preciso. puxaram a pesada porta revestida de uma carapaça de gelo. a aveia-louca que se coloca para germinar num pouco de água morna e que cura o escorbuto. . que. interrogando ainda o silêncio novamente opaco. que aos olhos dele não era. apoiando-se. houve uma segunda pancada. através das rajadas do blizzard. sucedendo a sua exaltação. numa mulher.. Nenhuma pancada a alertara daquela vez. O estremecimento de uma alegria incrédula começou a correr-lhe nas veias. sem se precipitar para se convencer de que não havia sido vítima de uma alucinação. com desânimo. Apenas uma sensação poderosa. no Illinois. Oh! meus filhos! Como vai ser bom! E depois arroz integral. lhes traziam víveres. "Oh! por que. mas muito nítido. a mesma alegria diante do milagre a invadia com tanta violência que receava cair se esboçasse um gesto.. uma espécie de pancada na porta. a mulher. inadmissível. "Ele triunfa!" pensou." A tensão. com a Sra. bem quente.Primeiramente. mais surda. Permaneceu rígida. enfim sua liberdade de espírito. a consciência do estado lamentável em que se encontrava a invadia com uma onda sufocante. que 'eles' viriam. ... As duas. E. Eram Tahutaguete e seus mohawks. caiu bruscamente. ressoando demoradamente. "Eu sabia que ele viria. E hoje. Utakê! Utakê! Eu sabia que ele não ia me abandonar. não haveria um dedo que se erguesse acusador. fazendo-a desfalecer. numa voz átona: "Há alguém lá fora". e. Ela dissera. tinha certeza. por que é preciso que triunfe dessa forma?" Nesse exato momento. disse consigo. rival do homem no coração de Deus e perversa por natureza. caçoando um pouco. um arrepio de seda tal como o dos riachos no momento do degelo. duvidando de seus sentidos. que a mantinha vibrante como a corda de um arco. depois a beleza. Dessa vez. E. de modo algum. Dessa vez." Tremia dos pés à cabeça. enquanto seus companheiros abanavam a cabeça. Alguma coisa chocou-se contra a madeira. quando toda uma obra gigantesca e benfazeja estava perdida. caminhou para a porta. excetuando-se as modulações sibilantes do vento turbi-lhonando incessantemente ao redor. Seus ombros se abateram. você é um criminoso! E um destruidor! "Ele triunfa". um dom do céu mas uma armadilha de Satã. enviados por Utakê e o Conselho das Mães Iroquesas.. sem poder determinar de onde exatamente viera o ruído. "e nós estamos perdidos.

Percebeu a lua entre nuvens de aço negro esgarçado. Alguma coisa se movera. duas até. Teve de lutar. em relevo. inchado. Finalmente encontrou uma saliência mais dura numa das extremidades e.. Febrilmente. Teria sonhado?. Um movimento humano ocorrera. que o sonho acabasse. se o fizesse. a esperança de que o milagre da primeira invernada se repetisse?.. "Eles" tinham vindo. Alguma coisa havia mudado. A tempestade não tinha a severidade cruel da outra vez. Mantinha-a dentro de si como um peso enorme suspenso que não queria deixar cair. Mas nada no mundo poderia fazê-la afastar-se de sua presa.... Era um saco enorme. mas nenhuma silhueta humana se perfilava naquele cenário. hesitou.. Surpresa e adivinhando a tempestade iminente. adivinhou as dobras de uma textura inólita. E. Víveres!. forçandose a suportar o amplexo coercitivo do frio. levantou os olhos para o cimo da trincheira. Não conseguindo movê-lo mudou de tática...... procurava agarrar uma saliência. Pensou em entrar para pegar as luvas. A tempestade desabou. mas lua se escondeu com a chegada súbita de espessas nuvens escuras arremessando-se ao assalto do céu. quando conseguiu agarrá-la. Não! Não! Não tinha sonhado! Ouvira uma pancada. Sentia. sem nada dizer. uma dobra que lhe permitisse puxar com força suficiente para abalar e arrastar o volume pelo leve declive que dava acesso à porta. como que invadida por um pesadelo. E se fosse uma alucinação? Não! Não! Não tinha sempre conservado no coração. Sua esperança não queria morrer... Víveres!. Provisões!. para abrir aquela porta que dava para a noite como um perigoso abismo cheio de monstros dissimulados.Andou até ela com passos duros e arrastados de velha. A crista branca dos altos entulhos de neve diante da porta resplandecia. Estava muito fraca. Após retirar a tranca e girar as chaves. Sentia que acontecera algo. que corriam céleres num céu de chumbo derretido. com a cabeça abaixada para escapar às bofetadas da ventania. Então não tinha sonhado!. Parecia um bloco de pedra lançado horizontalmente no chão. no momento de afastar o pesado batente.. Forçava tanto a vista que seus olhos choravam de frio. turbilhões de neve que. depois cambaleou e por pouco não caiu sobre um obstáculo. alterando a imutável e impávida solidão que os cercava.. até o fundo do buraco onde se encontrava. em alguns segundos. Feijões! Milho! Abóboras secas!... como se lamentassem ter deixado se instaurar por alguns instantes uma sutil trégua.. com os dedos nus esfolados pelo gelo.. em que a obscuridade e a claridade se entrelaçavam tumultuosamente.... e os mantinha prisioneiros. o resto sucedeu-se com relativa facilidade. Recuava.. Chocara-se contra uma massa dura e escura. que um fino pedrisco soprado pelo vento norte" já estava recobrindo de pó: um saco! um saco grande!. e pouco a pouco conse- . tornou a avançar.. apoiando-se à madeira. A noite deixara de ser deserta. obstruindo a entrada. abaixando o céu ao nível da terra e derramando. provavelmente lançada do alto da trincheira. de joelhos.. ameaçavam soterrar a ela e ao fardo que tentava deslocar.. couro ou pano áspero. se comprimia entre as paredes. encobrindo bruscamente a lua. Abarcou com os braços a massa que. pois ele a esmagaria e ela não sobreviveria. Sua mão apalpou. temendo. Com o rosto estendido para o rebordo de neve deu um passo adiante.

Seu esforço fora tão grande e tão desesperado. Acalmou-se. ele estava todo costurado. enquanto. tornasse a operação impossível. pálidas e fechadas. dos lábios ressecados. Angélica. A neve derretida em volta da massa estendida revelava um casulo comprido de pele grosseiramente curtida. oprimida por um decepção incomensurável.. E teria agora desejado apagar aquela descoberta diante da porta. da cabeça aos pés. esgotado? Não! Não o teria confundido. Não era um saco contendo víveres que fora deposto à sua porta. Num canto. Angélica arrastou-se mais uma vez para a abertura. e ainda de que era urgente voltar a fechar aquela pesada porta antes que a neve. Seus sentidos recusavam-se a compreender. ganhou vida. aparentemente queimada. colocar os ferrolhos. que a sensação de alegria e de triunfo vivida ao descobrir aquela encomenda diante da porta se dissipara. julgou vislumbrar naquela fresta o esboço de um rosto. provavelmente um francês. a projètara ao ápice da felicidade. se abandonava à cadência ofegante de sua respiração. afastou aquele espécie de capuz. entreabrindo-se ligeiramente. Um explorador de bosques perdido?. o que significava? Que tipo de brincadeira? Que mascarada? Pela palidez das pálpebras abaixadas. já insensíveis à mordida do frio. apoiou-se ao batente para não cair. empurrá-la. Cada movimento lhe era custoso. "Que isso não tenha acontecido! Que não seja isso!" O destino não tinha o direito de brincar assim com sua miséria! Aquela cabeça de morto no fundo de um capuz obscuro. a todo custo. que achara fria pouco antes. parecia-lhe agora sufocante. ficar na obscuridade. exausta. aproximou-se e ajoelhou-se. subitamente horrorizada. achou a forma estranha. como numa mortalha. ajustá-la. enquanto trombas de neve se introduziam às suas costas. . o que lhe emprestava um aspecto macabro. Na penumbra. da garganta. aquele saco que encerrava sua salvação e a das crianças. Viera-morrer junto à sua porta. fechada quase inteiramene de uma ponta a outra por uma tira de couro trançado.. entrar na grande sala. para onde arrastava o saco. Permaneceu petrificada. O saco continuava ali no chão. arregaçados sobre o brilho dos dentes.. enegrecido. Retirar a neve. Mas uma das extremidades"êstava solta. virar a fechadura. Era um cadáver. numa pele virada com o avesso para fora. com um pacote informe. a luz fraca da tocha vacilava. Abatida por uma imensa fadiga. que lhe passava como um fogo através dos pulmões. Os lábios eram dois traços delgados carbonizados. contrastando com o negrume do rosto. Aproximou a mão temerosamente. desde o início. com pálpebras cerõsas. no rosto. Experimentava apenas um sentimento morno de esgotamento. O silêncio voltou. aquilo que. Angélica. Consciente de estar finalmente abrigada e de que devia evitar. Ora. fechava os olhos. puxar a porta. A face de um homem apareceu-lhe enegrecida. adivinhou que era um homem branco. conferia-lhe um comprimento desmedido.. ergueu-se. lutando para não desfalecer. que se amontoava. A sala. A luz fraca da tocha. Havia também sangue coagulado. colocar a tranca. depois os abria. pouco antes. projetando sua sombra. no qual as queimaduras do gelo se misturavam à sujeira de uma barba negra e hirsuta. Hesitante e apunhalada por uma suspeita súbita. Reunindo suas forças.guiu encontrar a soleira.

. de pé. sem conhecer. — O que você fez. sem vida. Utakê?.. Mas seu entendimento recusava-lhe qualquer clemência. — Pobre infeliz!. alargando a abertura.. Sabia! Este crucifixo pertencia ao mártir que estava estirado ali. diante dele.. levantou-se de um salto. é outro padre que o está usando. ao menor toque. um padre!. não pensava nada. Utakê mantivera sua promessa: "Irei lançar a seus pés o corpo de seu inimigo!... Não se enganava sobre a inanidade de tal explicação falaciosa. Só os iroqueses seriam capazes de uma visita tão cruel e inútil. CAPÍTULO XVI Frente a frente com o jesuíta Sebastião d'Orgeval Teria desejado dizer-se: é sangue. A tal ponto que tinha a impressão de já ter vivido várias vezes aquele instante que acabara de viver. alcatrão. Mas por quê? Mecanicamente puxou um cordão. ali a seus pés. Quanto tempo ficou imóvel? . Angélica. A incredulidade. "eles" tinham vindo. o brilho vermelho de um rubi. enfim! O perseguidor!. perseguira com seu ódio. Sabia.. a seus pés. O inimigo sem rosto. Era a carne de um homem queimado. queimado.. Sobre o peito o crucifixo se incrustava nas próprias feridas. Aquele instante em que seu olhar vira brilhar no centro da pequena cruz. desvanecendo-se depois como fantasmas. com os olhos dilatados.. aquela forma informe em decomposição. Chegara o instante que devia chegar. como uma gota de sangue. seu crucifixo. Este corpo era o delel Este cadáver era ele! Ele. — Uma mártir!. a Mulher que ele. que.. Mas não dizia. o jesuíta maldito. ele. ao qual aderia um pedaço de carne.. em vez de se darem a conhecer. Quando afastava os pedaços de couro enrijecidos. mortificado de cem modos?. Sebastião d'Orgeval.Então.. mais de raiva impotente que de medo. fora de si. Ele.." Ele. Franceses? índios? Iroqueses? Ãbenakis} Presenças humanas na noite mortal e deserta do inverno. movidas por um sentimento de fatalidade inelutável. "Eles". "eles" depuseram aquele morto à sua porta. Subitamente. E ela. Morto!. a certeza de estar vivendo um pesadelo e de estar sendo vítima das alucinações da loucura lutavam dentro dela.. arrastou alguma coisa que estava colada e viu tratar-se de um retalho de pano preto. A pele e a carne daquele homem já deviam estar em putrefação. Teria podido dizer consigo: este crucifixo.. O que você fez? Continuava trémula.. uma pequena cruz simples de missionário. se desfazia. Sua garganta contraiu-se de horror e de piedade. quebrado. o irredutível.. lançando àqueles restos macabros um olhar também" quase extinto. Angélica perdeu o fôlego.. Parecia breu. lembrando-lhe que ela sempre soubera também que isso aconteceria um dia.

Vocês me mataram! Eu morro por sua causa!. Ou então.. E. na indignação e na raiva que a sacudiam. Não tremia mais. foi preenchido por uma infinita tristeza.. Dir-se-ia o lamento de uma criatura humana. acreditou ter perdido o juízo. — .. arrancar o batente à neve e aos gelos. A salvação! A vida! Precipitou-se em direção à porta para fugir das imagens atrozes e encontrou.. aquela forma estendida. a seus pés. obrigava-o a considerá-lo sem anteparos. Sentiu queimar-lhe o estômago torturado. Comida. e levou a mão à boca para reter uma náusea incoercível. requerendo suas últimas forças para um novo dilema. por mais espantosa que fosse. da revolta e da repulsa. — Vocês me traíram... ela o iptimou a se pronunciar.. índios! Vocês me traíram. vingança e alimento? Um espasmo retorceu-lhe as entranhas.. mais uma vez. Um cozido quente!. tão triste e nostálgico como o que às vezes paira sobre Salem ou Gouldsboro.. reencontrava o clarão vacilante da tocha nas paredes de madeira desniveladas do fortim de Wapassu e sua solidão tumular. Como um animal teimoso. Se queixumes escapavam dos lábios daquele morto. segundo sua lógica e sua ética.. se reconhecia que dos lábios negros daquele morto se escapavam queixumes. pôs-se velozmente em funcionamento.. forças redobradas para soerguer ainda a pesada tranca.. à realidade. ... agachados. reconduzia-o à frente do obstáculo. devia admitir portanto que estava. girar as chaves. generosidade e crueldade. nus e selvagens.. imperativamente.Voltem! índios. • Mais uma vez. Amarga e estéril vitória! A onda tocava-lhe os lábios. fustigado por um chicote áspero.. enceguecida. Não sofria mais fome ou medo. Um apelo tão dilacerante que ficou abalada. como uma maré cinzenta que se dilata e sobe sem ruído. nem alegria. Havia dentro dela apenas um grande vazio que. Teve de recuar.Alguns segundos talvez? Longos minutos? Durante esse tem-Do a natureza misericordiosa concedeu-lhe uma total ausência de sensações e pensamentos. carne. Lançou-se para fora. voltava à superfície de si mesma. Misturava palavras francesas e iroquesas. Não têm o direito!. fazendo-a vacilar. puxar os ferrolhos.. Zumbindo nos seus ouvidos. quando julgava ter tocado o fundo do desespero. plangente como o sopro de uma concha marinha distante. carne. da qual percebeu se escapar em certos instantes o gemido lúgubre. nem triunfo. O blizzard a acometia com mil serpentes furibundas.. e. recusando abandonar-se ao delírio e. Mas continuava a gritar: — Voltem! Voltem! Mohawksl.... e saboroso!. silvando. Começou então lentamente a voltar a si.. por que Utakê o jogara à sua porta? Por que 6 devolvera vivo a ela? Para satisfazer a qual de suas leis vingativas ou canibais? Para que ela acabasse com ele? Para que o comesse?. por mais demente que parecesse. Ora. atrás de montes de neve endurecida?.. isso devia significar que ainda estava vivo?!. sem falsear a verdade.. nem revolta.. Estava louca?. sua angústia renascia. Era isso o que ele queria. voltem! Voltem!. Nem dor. estridentes.. chamando-os com todas as suas forças.. Seu cérebro. Estariam escutando-a. nem ódio. chegava até ela intermitentemente um apelo lamentoso. índios iroqueses. nas noites de nevoeiro ou de lua. de raízes primitivas... vivo? E nesse caso. pouco a pouco.. Não têm o direito de fazer isso!. entretecendo obscuramente sabedoria e loucura. na tormenta.

O pensamento das crianças arrancou-a de um estado de languidez semelhante a uma suave embriaguez. "Eles vão se congelar!" Os braços abertos para socorrê-los só encontraram o vazio.. Os furores do inverno bateriam em vão. Levantandp-se. Teve de trabalhar muito para desobstruir a porta. colocou mais lenha e turfa na lareira e.. Inquietava-se. Adormeceu. Mas continuavam a dormir pacificamente. um gémeo de cada lado de Carlos Henrique. Um sentimento de culpa a atormentava. arrastou-se até o quarto e viu os três. mas isso não tinha importância.. entre o esquecimento dispensado pelo sono e a apreensão latente por aquilo que a aguardava quando voltasse à^realidade. Adormeceu. aquilo fazia bem. Pensou em ir repousar um pouco. de volta ao interior do posto. Não tinha necessidade de mais nada! Sentada na pedra da lareira. enfiou-se sob as cobertas perto das crianças. ainda indolor. O medo de ter-lhes quase causado a morte com seu desmaio era tão grande que nada mais importava. disse consigo com um alívio" infinito. Seria a mistura de liquens e grãos que lhes dera para beber antes de pô-los na cama.Caiu desmaiada na mortalha profunda e suave da neve amontoada à porta. o fogo duraria bastante. retornou à entrada para terminar o que não tivera tempo de fazer: fechar a porta inteiramente. Estava feliz. Todavia. apoiou-se ao montante do fogão. como a derradeira refeição. não a tendo encontrado. sentia-se loucamente reconhecida para com o céu. que continuavam a dormir serenamente na cama grande.. Cambaleando de fadiga. E pareceu-lhe ler naqueles rostinhos emagrecidos um reflexo da beatitude que acabava de experimentar. Mais tarde se lembraria de ter-se ali afundado com um infinito alívio. chamando-a e. que lhe retirava todas as forças. seu primeiro olhar lúcido era para elas e. pois seu refúgio estava novamente fechado. Como ousava deixar-se dominar daquela maneira pelos nervos quando era afinal o único amparo daquelas três pequenas vidas?!. "Eles dormem demais.. e a neve derreteria ali dentro. Ficou contemplando as crianças. inclinando suas pequenas cabeças para ele. Voltando ao quarto bem aquecido. ergueu-se de um salto. Sim. seu coração baqueava com o receio de que a morte as tivesse alcançado enquanto ela dormia. no grande leito. continuava perseguida pela ideia de que haviam. formando uma grande montanha. depois refletiria. Olhou o que restava no fundo da tigela. haviam saído à sua procura. Foi um momento de transição misericordioso. A neve penetrara em turbilhões no interior da sala central. e era o que bastava. aterrorizada. como a cada vez." . mas repousado. "Tudo está resolvido". Consagrou à tarefa de fechar a porta as últimas reservas de energia. E preciso despertá-los. e dessa vez soube que fora mesmo vítima de uma alucinação.. quase inconsciente. Seu corpo estava leve. "tudo está resolvido". mas já não sentia fraqueza. Abastecido com madeira de olmo. que lhes fizera bem?. acordado e. Julgou ver diante dela três pequenas silhuetas cinzentas no blizzard mortal. Tranquilizada. Seu despertar a fazia flanrar. que as apoiava no pescoço. que lhe pareceu deliciosamente morno. aqueceu-o sobre as brasas e bebeu demoradamente a mistura bem quente. achando-lhes as bochechas um pouco rosadas. A lembrança das crianças reanimou-a. O pior fora evitado!. acordou tremendo.

"Será que sonhei?" Ela olhava suas mãos esfoladas pelo gelo. transpassada pela flama de uma lamparina que invadia o aposento. uma vez reanimado. levantava-se. não podia explicar-se o que a impelira a fugir para apagar o horror daquilo que acabava de surgir rompendo a monotonia já horrível dos dias que estava vivendo. incrédula aingV è alimentando uma secreta esperança de que todos os vestígios daquele pesadelo tivessem desaparecido.Mas. Esse pensamento lhe deu a noção. Cada detalhe de sua luta insana contra a neve. alisava maquinalmente as roupas e jogava um casaco aos ombros." Ela se tranquilizava: "Eu sonhei". Não queria saber a continuação. a goela negra da noite abocanhando-a em suas presas. Gemia alto. Estava agora certa de ter visto brilhar um rubi no crucifixo? Talvez fosse apenas sangue.. Sua decepção. sua loucura. examinou-o de longe. Estátua jacente negra e imóvel. vinha-lhe à memória e lhe deixava amarga a boca. mas. e eram víveres. produziu chamas alegres. o fogo mantivera-se sob as cinzas e. ao acordar. E se realmente "ele" ainda estivesse lá? "O que você fez?". aterrada. Seu alento flutuou imediatamente em vapor diante dela. tremendo de ansiedade. reclamariam comida. o silêncio tumular da grande sala quando ela conseguira reentrar e empurrar os pesados batentes protetores.. Caminhou apoiando-se às paredes. Apoiou-se à guarda da cama e se lembrou: "Não há mais nada para comer". A neve estava acima das janelas. no meio da sala. seus gritos. Lembrou-se. estendido. soltando uivos sinistros. custasse o que custasse. Parada à soleira da porta. Quisera sair para tentar.. . quase devorando-a. contra o peso do saco. não eram víveres. Tropeçava no acre bafio da decepção que quase a matara.. pensou. fragmentos do que acontecera na véspera se impuseram: ouvira uma batida na porta.. Não constatara que aquele homem estava coberto de chagas?. na sala ao lado? perguntou-se. Na lareira.. Mas ele continuava lá. a um só tempo assustadora e insólita. 'ele' estava morrendo e você o abandonou!" . por aquela ténue luz de alabastro. "Eu sonhei. havia um saco. tal como o deixara na noite anterior. Não. Emergindo como que das profundezas de um oceano no-turno. sobre o soalho. Por que essa obsessão?" Porque Ruth lhe havia dito: "Eles vão sair do túmulo!!!" Sentiu-se louca e culpada. repetia. "Que delírio dominou-me? Pensei que era. tocada pelo terror e pela aversão. o corredor e a sala estavam gelados. "Na verdade. Em contraste com o quarto bem aquecido. E aquele grande corpo negro no centro. sua cólera contra Utakê. a mergulhar no misericordioso sono para esquecer. Dentro e fora do forte. sangue. ela adivinhava que o sol brilhava num céu purificado. caçar. a tempestade amainara. e esse cadáver estava vivo. O corpo ainda estaria lá. Tinha perdido a cabeça! "O que você fez?" Com gestos lentos. contra a porta. inerte. Fraca e lúcida agora. de uma outra presença partilhando aquele abrigo perdido. Reinava uma grande calma. "Eu sonhei!" Houvera um cadáver. O Padre d'Orgeval. ali no chão.

"O que foi que eu fiz? Mesmo que fosse ele. Perdoe-me. O sinal de que sobre eles velava uma força mais justa e misericordiosa que a dos homens. Então ainda estava vivo? Inimaginável! Febrilmente. O que não a deixava menos terrificada. pobre homem! As lágrimas a cegavam. encontrou seu espelhinho e passou-o diante dos lábios rígidos. agora que ele estava morto? E por sua culpa! Seu olhar desceu até o crucifixo. Inclinada. os rostos em lágrimas daqueles "chorões" cujas estátuas velam junto aos túmulos dos reis.. sacudiu-a num sobressalto salutar de nojo e de cólera. como mármore. Fustigou-se. no vazio da sombra. Era o sinal." Movida por uma infinita piedade. A mão lhe tremia. por um infinito remorso. — Está vivo! Instantaneamente reencontrou força e coragem. e ela não compreendia que espécie de medo ou rancor a agitara ao vê-lo. meu padre. um francês. O que ia fazer. Eu pequei. eles todos estariam salvos. um mártir. Utakê! Não compreendeu quem eu sou!. um padre missionário católico. o que é um absurdo. no fundo das cogulas de pedra revolvidas. . talvez. procurou nos bolsos.. ela encontrava ali. impelida por uma febre de resgate. perscrutando os traços informes e desconhecidos.Certas tribos primitivas fogem e descabanam se se comete a inabilidade de introduzir em sua aldeia uma encomenda com aquela forma alongada de um cadáver. mas não pôde negar o vestígio do hálito que aflorava.fez? O infeliz estava moribundo.. E agora ele está verdadeiramente morto. Perdoe-me!. Compreendia-os. não tinha o direito de deixá-lo morrer. ela fugira. O sinal da Redenção. a vista se lhe embaralhava. ela também rígida. comendo-o. chegou-se suavemente e ajoelhou-se junto ao corpo. um cristão. "Você não me conhece. Não adiantava mais nada chorar. Era um homem branco. Se conseguisse arrancar aquele homem à morte. O rubi! Com os olhos pousados na face martirizada. Acabava de discernir um leve vapor flutuando acima do rosto imóvel. o sinal do Céu sobre a Terra. Quem poderia ser esse jesuíta? E por que trazia ao pescoço o crucifixo do Padre d'Orgeval? Um arrepio tomou conta dela. um jesuíta. Uma face enegrecida pela barba hirsuta e sangrenta. ela se interrogava. O rubi ali estava e cintilava. "Mesmo assim. dizia consigo. um irmão. — Perdoe-me. impelindo-a a fugir. tal como nas criptas medievais se descobrem. aquela mesma face que. afastava tom as duas mãos os pedaços de couro enrijecido do capuz e. "O que você. um moribundo. um sentimento de urgência. "Vou cuidar dele! Tenho de salvá-lo!" Apressou-se. aquele selvagem!" Com as entranhas retorcidas. as cicatrizes e queimaduras. Pensava: "Perdoe-me. ele ganhou." O pensamento de que o chefe dos mohawks montara aquela horrível mistificação a fim de que ela pudesse se vingar de seu inimigo-acabando com ele e. entrevira na véspera. E não deveria ter feito aquilo." Era um homem branco..

pois retirar os pedaços de tecido negro ali aderidos exigiria um trabalho de muita paciência. germe de aveia-louca.. ficou surpresa por encontrar espécies de almofadas. de cujo segredo era depositária. que tinham se quebrado.. evitando que as feridas se deteriorassem. Seria preciso esperar para tratar das queimaduras do peito. adivinhou-lhe o conteúdo. pelo menos. o remédio impregnara as papilas ressecadas e que ele ia se insinuar lentamente e reanimar o corpo petrificado. entorpecendo-o como ao animal que hiberna.Dirigiu-se ao outro cómodo para atiçar o fogo sob panelas cheias de água.. e teve de cortá-lo em placas. fazia-os deslizar na palma da mão. tudo isso para ir jogá-lo na soleira de um covil onde Angélica. Deslumbrada. retirou o primeiro saco de pele de gamo.. As crianças continuavam a dormir. Outros sacos e saquinhos continham arroz. em sua mortalha de couro. os instrumentos de cirurgia. pois o couro malcurtido era tão resistente e liso quanto a madeira 'de um reboque. pelo negror das tempestades sibilantes e das noites. empreendendo uma corrida alucinada pela brancura imaculada dos dias. como uma casca de árvore. Como a decepção na noite anterior. "água da vida". untando as pálpebras grudadas pelo sangue e pelo pus com um bálsamo emoliente. Era um risco. Voltou com um cântaro de bebida tépida. o cofre de remédios. Isso lhe tomou um tempo enorme. e. pois sabia que somente o frio o mantivera vivo. — Oh! Utakê! Utakê! Deus das Nuvens!. faixas de bandagem. tal como um avarento contemplando sumamente extasiado suas moedas de ouro. pois receava ver transbordar da cavidade bucal o precioso líquido. a bebida através das frestas entre os dentes. Um corpo sacudido por montes e vales nevados. Juntara à bebida que queria fazê-lo engolir uma boa dose de álcool. grãos e pedaços de abóboras secas. Empenhava-se agora em desprender o corpo em todo o'comprimento do couro espesso e muito duro daquela espécie de casulo no qual ele fora envolto e costurado inteiramente. atrás daqueles índios seminus. Puxando-o. — Víveres! As crianças!. arrastando aquele corpo. pois a xícara ficou vazia e ela se persuadiu de que. iroqueses ou abenakis. da cabeça aos pés. carne salgada. que pareciam estar ali para envolver e acolchoar o corpo do mártir. Vendo. inchado e esticado. a alegria de hoje poderia tê-la matado. Aquilo acabaria com ele ou o ressuscitaria. abandonadas por todos." O estojo enrugado cerrava-se sem cessar.. Sob os lábios enegrecidos e ressecados. Desistiu de arrancar o crucifixo de seu estojo de carne.. por léguas. a mandíbula crispada fechara-se como um estojo. ervilhas. caído ou apodrecido. "Jamais os compreenderei. à cabeceira. Precisaria cuidar para que não se reaquecesse depressa demais.. podia imaginar que "eles" o haviam arrastado assim. e suas crianças pequenas. e ainda milho. gota a gota. lavou-lhe o rosto. mas um imperceptível reflexo de deglutição deve ter-se produzido. correndo aos saltos em suas raquetes. a Dama do Lago de Prata. ... Entretanto. índios. Sob o envelope duro. Mas conseguiu filtrar. morriam de fome. sempre confiara na promessa contida na denominação latina "aqua vitae". Como da outra vez! Feijões. antes mesmo de ter desamarrado o atilho. Com sua "água" benfazeja. um pedaço de corda pendurada.. feijões do vale dos'Cinco Lagos!. feijões. no gelo. Elas serão salvas.

Decorreu um longo tempo. Eu me chamo. Ele não se moveu. que. ofegante: — Sou a Condessa de Peyrac. Mas se poderia jurar que uma luz azul brilhara.— Obrigada. Sê me ouve.. que. A vida retomava seu curso. Encontrava-se num limiar temível. Virando a cabeça.. muito intenso. A mesma voz abafada e frágil elevou-se. respondeu. O olhar ali estava também. mas distinta." Falava bem alto e ria de felicidade. — Está me ouvindo. Não receie mais. errava às portas da morte. disse consigo.. Vou curálo. e teria desejado adiar o momento de transpô-lo. Essas palavras a ajudaram a compreender que ele estava vivo. "Elas estão salvas! Obrigada. em voz alta: — Está em segurança.. Vou cuidar de você... E também teria ele ouvido? Compreendido? "Vou preparar a comida para as crianças".. aquele infeliz trouxera-lhes a salvação.. meu padre. Com os olhos presos àquele elhar de cego. Sentiu vertigem. Disse. e. senhora... permita-me.. A obscuridade recuara." Mas eis que o fenómeno se repetia. . o mesmo brilho azul emergia translúcido.. Os olhos pálidos se animavam. Ou seria uma ilusão? O fruto de sua obsessão? Nenhuma força poderia tê-la obrigado a interrogá-lo. um olhar diluído. mas também trespassado por uma cintilação dura e ferina: o brilho da safira. O sol brilhava.. e o feixe de luz incidia sobre ela.. percebeu que as pálpebras do moribundo estavam levantadas. d'Orgeval.. "depois.. — Per. naquelas pupilas turvas. tente mover as pálpebras.. meu padre?. havia tantos dias. mexendo-se no vazio várias vezes. Sebastião. erguia as mãos juntas num gesto de gratidão.. de um azul muito ténue. Estaria morrendo? Foram os lábios que se moveram. desmentindo por sua fraqueza o olhar no qual acabava de se reunir toda a energia do corpo percluso. um som escapou deles e uma voz longínqua e penosa. Teve de inclinar-se para mais perto a fim de captar as palavras pronunciadas. incolor. depois.. Sentiu que alguém a fitava em sua expressão de alegria delirante.. meu Deus!. As pálpebras não pestanejavam. rae apresente. mas um olhar. veremos. Ele penetrava pelo estreito respiradouro. a lembrar-se daquilo que precedera seu estado de inconsciência.. Renasceu a áspera vontade de retirar dos limbos aquele espírito que. meu Deus! Ajoelhada. Sua cabeça girava. muito puro. perguntou: — Quem. é você? Ela hesitou.. por um momento. por sua vez. Por mais estranho que fosse o meio empregado pelo sutil Uta-kê para socorrê-la... meu Deus! Obrigada. faça-me um sinal. devolvendolhes a vida com o colorido da íris. E era lamentável e quase dilacerante ouvir aquele timbre partido e ver aqueles lábios feridos esforçarem-se por pronunciar as fórmulas de cortesia consagradas pelo uso de uma educação aristocrática. Um olhar filtrava-se por elas. E os olhos permaneciam fixos e sem expressão.

exceto aquelas nuvens evanescentes de duas respirações conjugadas. E Carlos Henqrique. Na véspera — tinha sido na véspera? —. sacos de milho e de feijões. e tudo isso parecia alucinação. e deslizavam para fora da cama as perninhas magras. o vapor prateado de seus fôlegos esgotados fremia entre eles. E somente depois ela se alimentara. A JANGADA DE SOLIDÃO CAPITULO XVII O refúgio volta à vida — Cuidados com o mártir moribundo As ressurreições obtidas por uma terrina de mingau de milho enriquecido com um pouco de carne-seca incluem-se entre aqueles fenómenos que redimem a enfermidade do mundo e confortam as crenças num Deus bom e generoso. Angélica de Peyrac e o jesuíta Sebastião d'Orgeval olhavam-se frente a frente. E agora elas despertavam como numa bela manhã de Wapassu outrora. minha mãe. nada parecia vivo. impacientes de partir para a descoberta de todas as surpresas que lhes prometia aquele novo dia. Oh! Caro e santo alimento! Pendurara imediatamente caldeirões na cremalheira. O próprio Utakê mandara dizer-lhes: "O Padre d'Ofgeval está morto". como pássaros. mais uma vez. e num outro pusera feijões com um pouco de sal natrão para apressar o cozimento. Era preciso aparentemente tão pouco e dons da terra tão modestos para conduzir da beira do túmulo aquelas crianças cheias de vida e que a fome estiolava como flores privadas de água! Angélica alimentara-as com pequenas quantidades. emergia de um repouso mais próximo do desfalecimento que do sono. Era tarde demais! Mas acontecera. O estranho processo que usara Utakê para socorrê-la continuava a mantê-la em estado de incerteza. fora tão-somente uma formiga laboriosa transportando tesouros inestimáveis para o quarto comum: saquinhos de carne-seca e arroz integral. condensadas pelo frio. dividindo-as em porções cotidianas. Nada se movia no forte perdido. . que se vestira com esmero e impusera aos gémeos pelo menos vestir uma casaco por cima das roupas de dormir. plantava-se diante de Angélica e lhe dizia: — Posso ajudá-la. Os três estavam muito mais lúcidos que ela. Aquilo não deveria ter acontecido daquele modo. que. deixando-as adormecer entre cada colherada. a cuidar do "morto"? Tinha ele encontrado um meio de sair do quarto e de explorar a casa? E de descobrir na sala grande aquele corpo estirado no chão? Certamente. lascas de abóboras secas que ela preparara e reservara. durante algumas horas. para duas vidas prestes a extinguir-se. relegando para o fundo do pensamento a lembrança da declaração que lhe fizera aquela voz moribunda: "Eu sou o Padre d'Orgeval".O feixe de sol se deslocava com lentidão. onde colocara punhados de trigo-sarraceno. Ténue sinal de vida. Tinham ingerido esse primeiro viático sem abrir os olhos. diluíra a carne-seca em água morna para introduzi-la de surpresa na boca das crianças inertes com os pedaços de abóbora amassados.

"Eu sou louca". pensou. como toda criança. começou a fazer seu plano de ação para cuidar daquele infeliz: tinha ervas. Pegou uma escova e começou a escovar-lhes os cabelos.. o processo de salvação estava iniciado. A vida. E o pobre mártir talvez não fosse senão um pobre jesuíta dos Grandes Lagos que enlouquecera com as torturas. dirigindo-se a Carlos Henrique —.. porque seria preciso alimentá-lo quando ele saísse de seu estado letárgico. tatuado. Será que se reaqueceria? Voltaria à vida? Emer-geria de seus limbos? Conseguiria retornar da condição de um cadáver. Era agora que acreditava realmente na morte anunciada pelo Padre de Marville. como naqueles gestos ou mistérios da velha Europa. e sua feroz e inexplicável paixão. Há ainda muitos dias pela frente antes do fim da invernada. os mesmos atos colocados. e sua declaração: "Eu me chamo Sebastião d'Orgeval".. manteria sua insensibidade. o gla-bro índio nu. teria talvez suportado esse espetáculo com mais simplicidade do que ela. as mesmas personagens irreconciliáveis: de um lado o 'missionário de sotaina preta.. O que posso fazer?. nascido em terras da América.. Faria os curativos no cómodo ao lado. e depois os seus. as regras do teatro erigido onde. Aí está. cada personagem desempenhava seu papel simbólico segundo um ritual imutável. a selvageria que o embalara. um pouco menos. Mas prefiro que fique aqui cuidando de Raimundo Rogério e Gloriandra. do outro... Ali. aceitando sem dificuldade.. o cenário dos lugares de seu nascimento. Não recomece a pensar. ocorrera um milagre. bálsamos. Ouviu-se murmurar: "Não aguento mais esses selvagens! Não os suporto mais!.. bandagens... Pois. você é muito gentil. de lagos com horizontes sem fim e vales desertos. em sua essência.. como um código de honra. uma barba inquietante e suà febre de levar.. — Não — respondeu mais alto. Mas agora. Pois não podia ser de outra maneira. tendo chegado ao fundo do desespero e confessado a si mesma: "É o fim". a fim de que não caiam no fogo e não façam tolices. sobre um fundo de florestas e de águas cascateantes.a Deus as almas pagãs. Até ele. Caldo também. Entretanto. o "comatoso". O frio ali era glacial. dando-se algum tempo para recuperar as energias. cruz na mão. fosse ela a sua ou a dos outros. nos estrados montados nos átrios das igrejas e das catedrais. Basta um pouco de sopa no estômago para que nos sintamos novamente criaturas dignas de viver. com a escova na mào. não canse seu cérebro. fatigada. Mais uma vez estou abandonando-o!" Depois. pela morte pela tortura. de um corpo miserável que ela teria cuidado como de uma criança. Se ele não o matasse. chapéu grande. "Como o abandonei desse modo?!. Mas quem pode ser ele?" Não acreditava realmente que ele tivesse falado com ela. Mas Carlos Henrique. apesar de precariedade de sua situação. emplumado. confundia-se em seu espírito com os efeitos de sonhos ou de obsessão.. dizia: "Um pouco mais. A seguir seria preciso arrastá-lo para aquele cómodo. em que via uma garantia de que todos eles chegariam com vida ao término daquela longa viagem de inverno. era a gesta dos dois mundos defrontando-se. é isso: alimentação. Ele está morto! Ele vai morrer!. instalá-lo diante da lareira. um ser humano que se faria conhecer e partilharia sua clausura invernal? Temia mostrar ao menino o estado a que um ser humano podia ser reduzido pela crueldade de seus semelhantes. . querido.Mas nada lhe assegurava que fosse Utakê o chefe iroquês mo-hawk que lhe enviava aqueles víveres salvadores.

Foi preciso cortar-lhe bem ou mal a barba eriçada. estava banhada de suor. porém. as pernas esqueléticas. O pior seria arrastá-lo até o quarto. Não saberia dizer do que o homem estava vestido. colocando compressas de água quente ao redor. não podia deixar de murmurar. Ao contrário. tinha de mais sagrado. E notou que o membro viril não sofrera qualquer dano. o fio ténue daquela existência. Continuava contudo a respirar. coberto agora de pomada e ataduras. num gesto desconside-rável ou muito brutal. Apesar do frio penetrante que reinava na grande sala. uma morte que todo guerreiro digno desse nome sempre desejava tão lenta quanto terrível. Mas por muito pouco. A dor voltavalhe com a consciência. colocou-a num pano branco. A fim de obter esse resultado. a marca continuou ali. Restava uma superfície considerável de carne que fora poupada. procuravam evitar o derramamento de sangue. a seus olhos. O primeiro. . Finalmente examinou-o. Quando tentou deslocá-lo. para não partir. foi inútil tomar todas as precauções. os braços. algumas causadas pela aplicação em cheio de machados incandescentes e outras por sovelas incandescentes que atravessavam um músculo. desde o nascimento até a morte. no lugar onde ele jazia desde a sua chegada. coberto de tantas queimaduras. Tendo cortado com certa dificuldade a pele coriácea de um gibão. conseguindo torturar um prisioneiro mais de doze horas. na qual o olho do minúsculo rubi cintilava. "e nossos huronianos. mas com um alento tão fraco que ela se perguntava por onde começar sua tarefa. disciplina cujo pensamento e preparação não cessavam de dominar sua vida. e até dois dias. Era costume dos iroqueses respeitar a vítima naquilo que ela.. um exame intrigado lhe fazia observar a "distribuição" das queimaduras. Segurou a cruz de madeira de buxo. que se sentiriam culpados de reCusar a um adversário valoroso. fez essa primeira operação na sala grande. ainda lhe era possível manter-se vivo. Queimaduras e mais queimaduras. incrustada. essa tradição das tribos iroquesas de fazer peref cer nos suplícios mais bárbaros aqueles que os haviam combatido era uma marca de honra. Angélica soubera por pessoas do Canadá que os iroqueses eram peritos na administração dos suplícios.Tinha agora de fazer-lhe curativos dos pés a cabeça. Sentia náuseas. do leve vapor acima dos lábios." Dessa vez poder-se-ia dizer que haviam torturado o missionário de modo a permitirlhe sobreviver.-Não amarravam seu inimigo no pilar de torturas com o intuito de humilhá-lo e de aviltá-lo. Mas depois de lavar e relavar-lhe o corpo.. transudando sangue entre as carnes enegrecidas. Precisou cortar o cordão que a sustinha ao pescoço. afirmara-lhe com certo orgulho um L'Aubigniere ou um Nicolau Perrot. "É uma ciência". "Pobre infeliz! Pobre infeliz!. indo de uma ferida a outra e sem compreender como. Como havia resolvido. ele deu um profundo gemido. algumas das quais exalavam um cheiro pútrido. demonstram muita habilidade nessa prática. cheia de nós e pegajosa de sangue seco. retirou peça por peça os farrapos negros de uma sotaina. sem que ele morresse ou perdesse a lucidez. Quando quis retirar o crucifixo. Sofrer e aplicar bem a tortura constituía um dos mais preciosos ensinamentos que eles recebiam. que são de raça iroquesa. ele não dava nenhum sinal de vida. Espreitava as reações no rosto do supliciado. Ao acaso das conversas. Depois de lavá-la piedosamente. Fora.

Depois friccionou-lhe o crânio e as têmporas com um vinagre medicinal. nela. deu um estertor e tornou-se mais pesado ainda. na luta contra o frio. malcuidada. por outro. depois de tê-lo instalado na cama. Sobre os travesseiros de crina e de ervas. enquanto sua cabeça balançava para todos os lados. acreditando cada vez menos nisso. cerrando os dentes. E. poderia ajudá-lo a se reaquecer. pois era preciso evitar que ele perdesse. Aplicou-lhe compressas sobre os olhos queimados pela reverberação da neve e ameaçados de cegueira branca. não devia mais recair num estado letárgico. do estado de coma. Vamos pô-lo de um lado e ficaremos do outro. Só depois que lhe colocou diante dos lábios um espelhinho. ele susteve os pés envoltos em curativos. como o desditado rei da Espanha que. em estado de exalar com dignidade o último suspiro. bastava o estado em que se encontrava. que o traria de regresso ao convívio dos vivos. você ficará no meio para cuidar de todos. reduzir a dolorosa inflamação de uma ferida com alguma pomada. Essa solução não a satisfazia. a sua dependência. Tentava lembrar-se de que se tratava do Padre d'Orgeval. Ali está sempre quente. Por um lado. no chão. fazê-lo beber alguns goles. O processo de cura. De estranho que era tornava-se seu filho. pois tinha uma prática de muitos anos — na verdade desde a infância —. ela o içava como podia do outro lado da cama. Naquele dia. não encontrara ninguém para afastá-lo do braseiro. acalmar-lhe os sofrimentos. e ela. . Tiveram de recomeçar várias vezes. Com seixos envoltos em peles ou panos grossos. e os gemidos da mulher e do menino respondiam aos profundos gemidos do mártir. meu menino.. como um frango com o pescoço quebrado. umedecer-lhe os lábios ressecados.— Tenho de transportá-lo — explicou-lhe bem alto. encontrando o sinal de uma tonsura. e nele. caía para a frente ou tombava para trás. suas últimas forças. arriscava-se a se res-íriar. doente. ela colocara um pano branco. Tratava-se pois realmente de um padre. \ Pensara ém instalá-lo numa enxerga diante do fogo. — Devemos colocá-lo em nosso leito. Com muita energia. em suma. quando doente e enfermeira descansaram um pouco. Lutava antecipadamente contra o apego que ia tecer-se coti-dianamente entre eles. os aproximavam. nos quais se apoiava a cabeça descarnada. vigiar a febre ou a perigosa recaída de fraqueza. devia prosseguir incessantemente para uma volta à consciência. sua mãe. para ficar assado. precursor da morte. á seu devotamento. e ela suspirou ao vê-lo protegido do chão duro e do frio e na situação de um honrado doente destinado a se encaminhar para a cura ou. Mas ele soçobrou novamente. Foi finalmente deitado em toda a extensão. esperando que sua voz o alcançasse onde ele se encontrava. — Tem razão. seu assassino. podia morrer com a face assada. seu inimigo. mudar as compressas. em sua fadiga.. segurando sob os ombros a comprida e sinistra marionete machucada. Sabia que esses cuidados que lhe dispensava com habilidade. Agora que transpusera esse limiar de hibernação. Carlos Henrique trouxe-lhe a solução que. além da linha fatal. enquanto. resolveu cortar-lhe os cabelos. ficou convencida de que não dera o último suspiro. Dessa vez aceitou a ajuda da criança. que foi pegar no quarto. devido. pois cuidar e receber cuidados é uma das mais espontâneas linguagens de paz e de compreensão mútua. não lhe ocorria. se o fogo ficasse muito alto. Poderia à noite. quando estivesse ao seu lado. caso contrário. pois o preposto encarregado protocolar mente dessa função não pôde ser encontrado.

das mãos do aldeão das Cévennes.. mostrando apenas a ponta do nariz. e os clarões abafados das brasas faziam cintilar o rubi. onde ele permanecera durante anos. Uma fraude?. esquecer que "devia à sua vinda as bochechas mais rosadas de seus filhos e a volta à vida no forte. eczema. ela sobressaltou-se várias vezes ao descobrir sua forma imóvel estendida na cama. O sol tinha virtudes terapêuticas divinas.Inerte. mais precioso que o .. as pálpebras irritadas e avermelhadas pela fumaça.. Depois.. Um pouco de sua carícia e as crianças lânguidas recuperavam o apetite. fixa êm'sua rigidez mortal. A noite foi tranquila. Colocara o crucifixo do jesuíta sobre o anteparo da lareira.. Mais de uma vez constatara a cura de feridas ulcerosas. vacilantes. exposto aos raios do deus Febo. recuperando sua saúde. Ou na verdade nosso irredutível inimigo?. Não podia. acima daquele buraco esfumaçado.. vendo as crianças correrem pela casa com uma necessidade de se expandir. uma lufada de ar secou-lhe as palavras no fundo da garganta. Cobertos como estavam. fechou o alçapão da plataforma. que o levara do massacre no qual perecera sua ama-de-leite. petrificante.. a do falso celeiro acima. numa atmosfera confinada. acordou persuadida de que tinha sonhado aquela intrusão extravagante em sua existência condenada. Enfiou as crianças tal como estavam na cama grande. era também difícil acreditar que ele fosse real. e ele permaneceu de boca aberta. o frio oprimiu-os. foi tomada por uma necessidade de sentir-lhe a carícia. e depois de ter por sua vez posto as crianças na cama. dar-tros. incapaz de tornar a fechá-la. O sol brilhava. arrumando os remédios.. cruel. eles ficaram ali. Fê-las engolir uma bebida quente com uma grande colher de mel — aquele mel. Salvei Ambrosina. em sua infância. machucado. não tendo um sopro de vida. "O que eu devia fazer? Agi corretamente?. com uma mistura de satisfação e de terror.. o vigor. Mas quem ele é?. Húrarite aquele dia. e refugiou-se no quarto único.. concebeu o projeto de -levá-los para fora a fim de tomar ar. E desse modo deixei-a continuar a praticar seus crimes. Nos primeiros dias.. Cuido dele. Arranquei-a das mãos dos homens que queriam matá-la. numa luz dourada pálida. Qual é o dever do ser humano em. atormentada por questões que toldavam sua alegria primeira ao receber os víveres para salvar os filhos. — Bem sei que é de você que vem todo milagre.. pela exposição aos raios solares. o instalara no terraço do palácio de Toulouse. — O cruz. permaneceu indecisa. e. Quando Carlos Henrique quis falar. perdoe-me — disse em voz alta.. de reencontrar agilidade e forças.nosso tempo?. que lhes feria os olhos enfraquecidos pela penumbra. Joffrey contara-lhe de que modo sua mãe. Pus minha filha em perigo!. encontrou-o. enterrado sob a neve. Pela manhã. Quando anoiteceu. fazendo-os cair como os passarinhos nos galhos nas florestas. sem se resolver a ir deitar-se junto àquela lastimável múmia. Mas ao adivinhá-lo. perigo!. Voltou para acender um bom fogo na lareira da sala principal e ferver um grande caldeirão de água. Angélica apressou-se a fazê-los descer para dentro.. Em ambos os casos. que estivera prestes a se transformar em seu túmulo. interrogando-se.. Içou-os pelo alçapão à pequena plataforma que servia de telhado acima de seu antigo quarto e reuniu-se a eles. ao lado do moribundo. ao recebê-lo ferido.. as bebidas que poderiam ser necessárias durante a noite e coberto o fogo com cinzas. porém. Podia-se percebê-lo através dôs interstícios das janelas e das ombreiras que ela tapara cuidadosamente contra o frio de todas as maneiras possíveis.

verificar as aberturas. — E ele responde? — Não. cuja porta. cujos anúncios observara.. que repetiam a todo momento: navio. Mas dizem que ainda não se deve enviar a pomba para fora. Angélica só podia compreender algumas palavras" de seu pequeno jargão. não deve! não deve! — Mas o que estão dizendo? — informou-se com Carlos Henrique. Contei-lhes que estamos na Arca de Noé. Falo frequentemente com ele enquanto você está preparando a comida ou quando vai buscar lenha no depósito. com os olhos brilhantes. Angélica temia em alguns momentos que o vento uivante acabasse por enganchar-se no fortim de Wapassu.. mãe. janelas.. Depois a temperatura baixou mais ainda. para quem essa linguagem não era Jiermética e que seguia sua exposição aprovando com a cabeça. carregando-os rígidos e pálidos como se. De pé na tina. pluf. o que é raríssimo acontecer. como uma pedra. Angélica só se levantava para cuidar do fogo. permaneceram encolhidos sob as cobertas. Três dias. tagarelando com loquacidade.. Carlos Henrique voltou-se para a cama e gritou: — Não é. ambos exagerando os detalhes. ocupava a quarta parte do espaço. Readquiriram logo as cores e se animaram. dizem que ela cairia. transportou para o quarto seus caldeirões de água fervente.. que encontrara também entre as vitualhas enviadas. Oh! mamãe. por mais enfiado que estivesse na terra e na falésia. Não poderia voar. exsudando em seu cestinho de casca —. encheu uma tina de madeira e.. deixando-se cair na tina em meio aos salpicos. com uma violência. a paisagem de fim de mundo que haviam entrevisto. preparar as . passou pela superfície da terra a velocidades incalculáveis. — Estão dizendo que as águas ainda não se retiraram e que não se deve soltar a pomba! Sabe. foi tão terrível que ursos adormecidos morreram de frio em seus covis. portas. que desenraizou árvores. do Labrador ao sudoeste do Maine. que. — fez Raimundo Rogério. ao mesmo tempo lívida e de um azul pálido translúcido. — Com quem estás falando? — Com o "morto".... e a tempestade. Olhe como agitam os braços e depois param para mostrar que ela não poderia voar. Naquele "ano. pássaro. mais terrível ainda que as que trazem a neve. Ela não teria onde pousar.ouro. desvestiu-os e mergulhou os três. mais ainda do que o frio. o inverno que tomou de assalto o Escudo Lau-renciano. carregou aldeias de wigwams inteiras com seus habitantes. imitado imediatamente pela irmã. é verdade. O frio era tão intenso que foi uma tempestade seca. o vento do nordeste. que não se pode ainda enviar a pomba?. Mas ouve tudo. e lhe arrancasse o telhado como uma simples panela perdendo sua tampa. quatro dias. "esse cruel inimigo do homem" vindo do pólo. reforçar as trancas das ombreiras.. quando o banho ficou pronto. Não teria pois de sair daquele último refúgio interior. — Veja. o "nordait" dos canadenses. uma fúria. Transportara para o quarto comum uma considerável provisão de madeira. Faz frio demais. procurando no sono o esquecimento das saturnais externas. mesmo dentro da casa. morto. houvesse tido o dom de petrificá-los. ceifou como uma lâmina gigante afiada o cimo dos bosquezinhos nas ilhas dos lagos. excitaram-se. — Pluf. declarou-se. Eles gostam muito disso. como na Arca de Noé!. O blizzard. era sacudida em alguns momentos. Os gémeos contavam uma história com grandes gestos descritivos que faziam respingar a água. empilhada.

. quando as crostas caíram... A carne tornava-se sadia. Ela notara.. num lugar onde podia restaurar suas forças.. Entretanto as feridas do rosto se cicatrizavam. causadas aparentemente por instrumentos pontudos ou garras..rações de alimento — com a preocupação que recomeçava a despontar. de outro. Insensivelmente ele começou a recusar alimento. Falava-lhe num tom baixo. mas chagas estranhas. e ela viu esboçarem-se traços de um rosto que não era destituído de beleza. pois. Era preferível tomar tisanas quentes de camomila e de tília para ter um sono tranquilo a enervar-se e assustar-se com os clamores selvagens que corriam lá em cima sobre a terra. e Angélica punha-se ao mesmo tempo irritada e desesperada. procurava o que poderia despertar nele. inconsciente. suspiravam alguns penitentes um pouco exaltados. "A beleza de Cristo". o vento parou completamente. Deus o exige! Abra a boca!. um religioso. As crianças pareciam não se perturbar com aquele ruído do vento. sempre ameaçador com o fogo.Faça um esforço!. — É preciso viver. Deixava-o escorrer pelas comissuras dos lábios.. As tempestades da América do Norte haviam embalado suas curtas vidas. padre. que não eram queimaduras. que aumentava seu esgotamento. Mas. o inchaço cedera e formaram-se cascas. o que . alhures. mas dessa vez era um sono melhor. de um lado. concedendo-se apenas curtos períodos de repouso. uma beleza viril e regular.. se desanuviou. e. As bochechas se encheram. suave e persuasivo. o Padre d'Orgeval.. da primeira vez em que as tratara. e em outros. cuja fumaça era soprada para dentro pelas lufadas contrárias. Depois de alguns dias. Uma calma surpreendente estabeleceu-se. Longa e ingrata tarefa. era um alimento precioso que não se podia desperdiçar. É um dever. sabendo que o conhecimento pode ser atingido sem que nada se perceba. alerta contra os assaltos lúgubres do exterior. isso indicava que ele estava começando a perder os reflexos da sobrevivência. Quanto a ela. o estado de insensibilidade no qual ele mergulhava advertia-a da lenta aproximação de uma saída fatal. os furores do blizzard começaram a amainar e. inflexões ou palavras que o despertem e o tirem de sua apatia. fazer todas aquelas bocas avidamente entreabertas engoli-las. por sons. os traços das feridas começaram a se apagar. dando ao doente um aspecto deplorável. a imensa fronte. Ele permanecia inerte. ao evocar seu confessor. permanecia acordada. sobre a qual caíam mechas de cabelos com reflexos castanho-dourados. Em certos certos momentos ela o sentia muito distante. de que não se esgotassem muito rapidamente —. Precisava também trocar os curativos do ferido. Dormiam muito. E ele parecia às vezes mais morto do que quando o descobrira em sua mortalha de couro. certa noite. Esses buracos estavam infectados e envenenados à volta toda. que traziam sombrias ameaças: a destruição da habitação sob a ventania ou o incêndio. seu interesse pela existência e encorajá-lo a fazer um esforço a fim de voltar à superfície de seu ser e se alimentar. embora lívida.. Pelo amor à Santa Virgem! Mas essas objurgações piedosas não produziam nenhum efeito. Tente engolir. Pelo amor de Deus!.. Como para as crianças. CAPITULO XVIII A caçada ao alce — Angélica e os lobos — Diálogo com um morto Ao cabo de seis dias. dar de beber às crianças e ao doente.

uma conífera elegante. seu sorriso. de o movimento de terror refluir para enviar os sinais de esperança. na testa. pois era uma floresta furta-cor e cintilante. atraídos continuamente. a mesma floresta o cercava. nas pálpebras. dispersos aqui e ali. diante do qual se estendia o mosaico vermelho. nãp conseguindo saciar-se com sua carne viva. carvalhos e castanheiros. embaixo. — E nossa casa? — interrogou. um pinheiro azul de tronco rosa. Apoiava-se ao braço de Joffrey e sentia o calor de seu braço. como em todo episódio dramático. Ficou tão contente que julgou estar vivendo um conto de fadas. que se voltava incessantemente para ela. tendo às suas costas a floresta murmurante.. O abutre caíra daquele céu azul-pálido da Ile-de-France?. Angélica soube que naquela manhã. de seu corpo.. ela dormia como uma criança feliz. Uma floresta que poderia. pois seus caminhos e veredas tinham a clara elegância de aléias traçadas. Havia uma volúpia em andar naquele caminho calçada com sapatos tão encantadores.ter sido um parque. um pequeno castelo claro. mas que levava além a outros domínios. mas tudo era muito real. numa das encruzilhadas.. A garra de um abutre pegou-lhe o. na boca. Chegaram à beira de um promontório e postaram-se ali. Ao derredor. sabendo instintivamente que podia relaxar a guarda.coincidiu para Angélica com o melhor sono de que desfrutou após um longo período e um sonho paradisíaco. ao despertar. Curiosamente. fosse porque chegara o momento. No seio da floresta o pequeno castelo era uma ilha cor de mel. .. mas era uma floresta humana. sua presença. com seus recantos de sombra e de luz. estava encerrada com as crianças num buraco sob a terra enquanto uma tempestade furiosa passava acima de suas cabeças. nos cabelos. Joffrey1 passou um braço por seus ombros e com o outro indicou-lhe. e ela via pousar na areia_a-ponta de seus sapatos de cetim bordado rosa e prata. ou talvez de uma floresta. e a doçura de seus lábios pousando-lhe no rosto.pulso e ela não conseguiu dar um grito. escoltados por pequenos faiais e bosquezinhos de freixos e. Estaria querendo pegar a pomba? Emergiu do sonho num estado de sofrimento que a deixou emudecida. vira pousar um pássaro branco cercado de luz: a pomba da Arca. Ela perguntou: — Há um pombal aqui? — Sim. pois era a primeira vez que o descobria.. outros campos lavrados. suas rochas e águas murmurantes. O braço de Joffrey enlaçou-lhe os ombros e sua voz dizia: — Construí para você muitos palácios e casas.. malva e azul de-canteiros à francesa. Nesse pesadelo. e viveu esse sonho que lhe pareceu tão verdadeiro que a percorreu com uma impressão subjacente de que tivera um pesadelo horrível na noite anterior. sua pele suave e morna. há um pombal. Mas este é o presente do rei!. cheia de árvores de espécies escolhidas e bem ordenadas. de sua perna contra ela em sua caminhada. Fosse por pressentir o fim da tempestade. Que sonho estúpido! Num momento em que fazia um tempo tão boni to naquela primavera e os pássaros cantavam apaixonadamente nas árvores! Estava apoiada ao braço de Joffrey enquanto caminhavam pelas alamedas de um parque. Sentia a adoração de seu olhar. rebanhos de corças e javalis. lançando notas escuras sobre a seda verde das folhagens.

Terá carne até a primavera. pulou para fora da cama. Começou a enfiar mecanicamente o casaco e as botas.. Voltando-se subitamente. Estava inclinada a acreditar nele. fixando no catre aquele desconhecido que lhe falara com uma voz vinda de alhures e que continuava a fitá-la com olhos ardentes.. O que queria dela? . expostas ao inverno infernal. — A mesma voz estranha adjurava-a: — Aproxime-se! Obedece u-lhe. Um homem que ela não conhecia e de olhos dementes estava inclinado sobre ela. Faz muito frio! E estou muito fraca. Discutiam e brigavam por causa da carne... Então ela pensou que a vida — se estava ainda viva — tomava aspectos fantásticos e burlescos. — E..A garra em seu punho era uma mâo... Estava pronta a arriscar-se por uma ilusão.. carne até a primavera. Ele estava realmente ali: Estava realmente vivo. os olhos arregalados.. Bruscamente. no lugar de seu "morto". A voz autoritária arrancava-a de seu sonho.. Apresse-se! Que está esperando?.... todavia. de humano para humano. — Chegue mais perto! Ele estendia para ela dois braços hirtos. a vida está la fora. ninguém virá.. — Aproxime-se. como os índios exacerbados pela fome. um alce canadense!. Deixou o mosquete tombar contra a parede. Depois tirou o mosquete do cabide. Era a primeira vez que dialogava com ele.. livrando-se da garra do abutre que a segurava. Era o Padre Sebastião d'OrgeVal. Com o coração disparado. morreria sozinha. Ninguém para socorrê-la.. que tinham dificuldade em se mover. desconfiada da loucura que parecia ter-se apoderado daquele semimorto e sem conseguir resistir a ele. encolerizado. — Se eu cair. As crianças morrerão. Mas cada etapa pareceu-lhe insuperável. — Apresse-se! Apresse-se! O que está esperando? — Não posso sair. Uma mão horrível. sem forças para sustentá-lo. e as duas mãos que a seguravam dobravam sua vontade renitente. — Está delirando. Isso lhe dará carne.. Tem de abatê-lo. por causa do alimento do qual sua sorte dependia.. incerta de que essa ordem emanasse dele.. e sei quando o animal está rondando. como todas as verdadeiras criaturas daquele deserto branco. Acorde. não o deixe escapar. senhora. — Levante-se! Levante-se! Há um alce lá fora. uma miragem.. — Na verdade. procurou o polvorinho e o saco de balas.. — Não! Eu sei. de vivo para vivo. quase lhe tocando o rosto e repetindo: — Há um alce lá fora. — Que está dizendo? Como sabe que há caça lá fora.. perguntava a si mesma quem era aquele homem barbudo que estava vendo ali. diante dela.. A notícia penetrou no espírito de Angélica. com os dedos mutilados. Ele repetia: — Abata-o. Você deve sair.. de seu entorpecimento. roídos.. Depressa. Não se deve deixá-lo afastar-se.. Por onde sair? Conseguiria subir ao telhado? Colocar as raquetes? Avançar na neve profunda? Ela cairia. um alce? — Vivi muito tempo prisioneiro dos iroqueses. você não acredita em mim — disse ele. olhou para o leito.

agora que constatava a inanidade de seu aviso. o animal agitou-se e tomou alguma distância. Branca era a planície gelada. Sra. que avançava como uma ilha num mar leitoso. se ela ali estivesse. mantendo-a ali apertada. Melhor do que qualquer arcabuzeiro. as florestas junto às quais impalpáveis rastros de bruma pareciam captar em luzes fugazes os reflexos da claridade lunar. mas. movida por uma vontade feroz. olhando para todos os pontos do horizonte. Dirigiu-se à sala grande. prestes a se quebrar sob o efeito do gelo. o animal apareceu. precisos. Se o animal passara junto.. ávida por surpreender. que estava apenas a uma toesa do solo com a acumulação das neves. sempre com aquela energia de ferro contra a qual sua fraqueza não tinha qualquer poder.. Seus olhos doíam. Procedeu a um exame do bosque-zinho mais próximo. A noite estava mais glacial do que julgara. Não quisera acreditar nele. semelhante a uma frágil concha de nácar. suavizando o azul aveludado da noite. Devia ter gestos lentos. E. — E se eu falhar o tiro? — Não falhará.. puxava-lhe a cabeça contra seu ombros. poderia primeiro verificar se havia realmente.. decepcionada. Não queria desistir sem antes ter tentado tudo. o eco de um passo. Decidira sair pelo sótão. Você foi chefe de guerra. destacando-se contra a neve.. . Sra. Olhou em torno de si. arreada da cabeça aos pés. percebia. As estrelas. Depois pensaria em garantir a outra presa. Calculara que àquela distância tinha ainda uma chance de atingi-lo. Sentia florescer em seus cílios cristaizinhos de gelo. tinha tanta sede. Você pode. mas clara pela magia de uma lua quase redonda. naquele silêncio petrificado. Mas a neve em volta do fortim era um belo tapete branco imaculado que havia muito tempo não era pisado nem por homem nem por animal. para ir desemboscar aquela caça fantasma na floresta. que agarrou um punhado de neve e o levou à boca. Ouviu-o falar acima dela. à casa. Deu a volta na plataforma. coisa se moveu. Nada se mexia. talvez alertado. — Você poderá fazê-lo! Sempre ganhou! Com esse alce. Saindo cautelosamente de seu abrigo. — Dois! São dois! Uma fêmea e seu filhote! Começaria pelo adulto. Tem de abatê-lo. deveria encontrar suas pegadas. Atrás dele. sobre a plataforma. pequenas e numerosas. Seu espírito desanuviado permitia-lhe raciocinar. e não podia tremer. A dor causou-lhe um choque e depois lhe fez bem. Mas eis que. viu-se de pé. que a esperança a invadira imediatamente. O blizzard arrancara a neve das árvores. um alce.. depois começou a correr. Aproximou-se da beirada de madeira contra a qual pretendia apoiar-se. emprestando-lhes silhuetas e volumes tenebrosos.. Foi nesse instante que discerniu uma agitação na zona de sombra projetada junto ao pequeno bosque. aspirando o ar. juncavam o firmamento de rastros pálidos. O que lhe picava o rosto eram gotas de suor geladas. o movimento de uma sombra. e um alce de menor porte surgiu na sua esteira. Dizem que você atira muito bem. Ganhe! Ganhe mais uma vez. Avançava com passos hesitantes. nas paragens do ioite. Dali. Sua silhueta parecia imensa. haverá carne até a primavera para você e seus filhos. Sua língua estava tão seca. de Peyrac. Subitamente. negros os buques de árvores. e pensou em saltar por cima da muralha. alguma. de Pey-rac. como ele afirmava.. tudo era branco ou negro. Sob a abóbada celeste.Obrigava-a a ajoelhar-se perto da cama.

não viu mais o alce. o mantivera de pé por alguns segundos após sua morte. você diz?. Vendo-a aumentar. Os lobos. visara a cernelha para atingir o coração. em meio ao estrondo dos ecos do tiro. o animal continuava de pé. pareceu hesitar e parou. de impaciência e. Reunindo todas as suas faculdades de visão. — Se tiverem tempo de chegar^não lhe deixarão nada. não sabendo com que dedos podia realizar os gestos necessários. Depois desmoronara pesadamente. escandia a louca decepção de Angélica. Não se deve abandoná-lo aos lobos!.. repetido de maneira infinita até os últimos cimos curvos dos montes Apalaches.. diminuindo e abafando-se. meu caro padre. uma base larga e preênsil como ventosas. era o inverno vencido.. Subitamente o adulto voltava a galope. Era muito longe. Apressese. rindo e soluçando. — Consegui! Consegui! Oh. que se preparava para mudar de lugar para visar melhor o filhote.. Estamos salvos! Estamos salvos!"' — Trouxe o animal? Ele a empurrava. Despencou pelos degraus das escadas do sótão. —Trouxe o animal?. enfim. virando para a direita e para a esquerda um perfil papudo com um longo focinho caprino. O filhote fugira e se refugiara. obrigada. Quando ombreou a arma e pôs o dedo no gatilho.. tomar fôlego!. Angélica... ao levantá-lo. levantava a arma para mirar novamente. sentiu que aquele dedo em repouso aderira à placa de aço e que deixava. De revolta. compreendeu que o animal se reaproximava e pôs-se prontamente em posição à beira da seteira. vendo-o diminuir. de precisão e de instinto. um retalho de carne. uma sombra negra sob o luar.de ansiedade. Uma espécie de embriaguez de alegria invadiu Angélica. Mas. O animal caíra fulminado. pois não os sentia mais. e apertando com os braços o corpo de seu morto-vivo. Para lá do corpo do animal morto.. Decidiu tentar o tiro.. e o eco de seus cascos. pois temia que a cabeça pequena e móvel fosse um alvo menos seguro. ao abrigo do bosquezinho.. Em Seu lugar havia um montículo negro sobre a superfície lívida da extensão nevada. Apenas a pressão de seu corpo repartida pelas quatro patas dotadas de cascos flexíveis.. Quando olhou. Agora não podia mais atirar da plataforma. de consternação. que tentara seguir a corrida da mãe. a corrida e depois parar e farejar o ar. Desejava deixar o animal aproximar-se o máximo possível.. atravessou cómodos e corredores quase sem tocar o chão. não compreendeu inicialmente a direção tomada por aquela massa em movimento. de esgotamento. Ela soltou um grito. Mal percebeu o ferimento.Sobre a neve dura. e ela quase caiu ao pé da cama.. o alce se distanciava como que galopando.. Mas quando.. mulher tola! . pois ele parecia impelido como uma bala na direção do posto. — Ah!. Os lobos! Meu Deus!. não quis arriscarse a vê-lo partir numa outra direção e atirou. tremula. Recarregou apressadamente. A dor nada era naquele momento crucial. — Consegui! Consegui! Jogou-se ao pé da cama. diante do efeito de uma vitória tão completa e cheia de segurança de vida mais embriagadora ainda. Tentar ao menos atingir aquele. Não me deixa respirar. O menor....

Ele simplesmente queria a sua morte. não aguentava mais! Amanhã iria buscar o animal.. — repetia ele. quando estava conseguindo galgá-la. introduzindo-o pela porta. eu os ouvi! As luzes. aquele homem. teria de cortá-lo antes. ordenou mentalmente. um uivo suave elevou-se aparentemente bem próximo. içou-se para fora da trincheira. Não tivera tempo de pôr as raquetes. arrastando atrás de si o trenó emba-raçante. Teve apenas de dar algumas pancadas com pás e picaretas de quebrar gelo para abri-la mais. que é a melhor arma. que mergulhasse novamente naquele frio glacial para mocrer. por causa da sanha com que a empurrara. Não. A trincheira diante do posto estava coberta de uma fina poeira raspada pelo vento na superfície da neve endurecida. Com a tocha em punho. e que era imperdoável ter-se deixado levar àquela histeria e ter esquecido a irrupção possível dos lobos num lugar de caça. ... Perguntara-se algumas vezes se poderia-odiar o jesuíta que os prejudicara tanto. fechaduras. Leve uma tocha. que parecia polida por uma plaina. Reassumira seu autocontrole. na noite em que encontrara o "cadáver" na soleira. mulher tola!" Era preciso reconhecer que a maneira como se lançara sobre ele chorando de alegria vazava-se no delírio mais imbecil e mais deliquescente. Senão. Mas agora sabia que o odiava com todas as forças. os esforços que despendera para desprender a porta.. — Cuidado com os lobos. Estava muito calma agora. é melhor do que cordas. aquela espécie de trenó de couro não curtido. Essas diferentes possibilidades apresentavam-se ao seu espírito numa velocidade vertiginosa.. funcionavam bem. Vá! Vá. deslizaria facilmente. com uma rapidez inigualável. dos problemas insuperáveis do momento... — Não conseguirei.. Apenas a tocha. no qual os iroqueses lhe haviam enviado o Padre d'Orgeval. Sobre essa neve. uma coberta para puxar sua caça sobre a neve. Fora de cogitação içar o alce morto à plataforma. pegue uma tira de pano para amarrar o animal. Pegue um trenó selvagem ou um pano grosso. Estava furiosa contra ele. Pegou uma comprida como um círio e bem embebida e foi acendê-la na lareira do quarto comum. — Vá! Estou lhe dizendo! O tempo está passando! A pistola de dois canos? Não havia nenhuma em condições de funcionamento. mas seu uso na neve endurecida era inútil e teria atrasado sua caminhada. se tiver uma preparada. principal. e para introduzi-lo pelo alçapão pequeno. pois elas são muito rígidas.. munida de um saco cheio de rolos de correias e tiras de pano. pelo menos abri-la. barras de ferro. que julgara ver à fímbria da floresta. e. Por sorte. aberto em toda a sua largura. — Apresse-se. as diferentes fases da operação que se anunciava. Untara-os com um pouco de geléia de líquen. gritando: "Apresse-se. ocupou-se da tocha. o que lhe seria impossível fora da casa. com seu domínio. a tocha. Ocupada com sua vindita.Eles não estão longe. E em primeiro lugar precisava desprender a porta. se se considerasse que uma fervilhante cólera interior pode gerar algumas vezes o sangue-frio distraindo o espírito. Só tinha uma solução: pôr o alce abatido naquela sala. Na sala grande.. pois tinha de decidir sem demora. apresse-se!. surtiram seus efeitos. correias para içar a carga. Os gonzos. aquele intruso. seriam os olhos deles? Não. E uma pistola de dois canos.

"Com isso estamos garantidos. o menor girava em passos cautelosos rias longas patas filiformes. que Honorina amava tanto. còm o mosquete atravessado sobre o trenó. Atirou à queima-roupa.O alce fêmea continuava ali. criando um círculo de luz que manteria a distância as feras esfomeadas. Quando se levantou. e que lhe pareceram menos fosforescentes do que ao longe nos bosques. retidos todavia pela chama da tocha na retaguarda e pela chuva de fagulhas que chovia sobre eles a cada solavanco. Uma vez a caminho. gritando: — Para trás! Para trás! Mas ele se recusavam a recuar. Manejou a faca e o machado freneticamente. e percebeu os lobos que vinham a galope da orla da floresta. com as patas agarradas ao solo. E ao se inclinar para apanhar a pata do filhote de alce e puxá-lo para ela. Angélica correu para pegá-lo e colocá-lo novamente no trenó. o gelo sobre o qual se deslocavam tornava a tarefa fácil. atrelou-se às correias de couro e conseguiu abalar sua curiosa equipagem. meus bons amigos — disse-lhes. de todos os movimentos insólitos. Enquanto vigiava incessantemente. quase humanos e como que suplicantes. acreditando num dado momento que o gelo lhe soldara o flanco ao solo. antes que ela caísse na neve. Com a tocha nas mãos. Eles retomavam sua corrida em direção à presa entrevista. E em volta da forma abatida. Apanhou a tocha e colocou-a na dianteira do alce abatido. tremendo da cabeça aos pés e olhando a sua volta como se todas as saídas estivessem fechadas à sua fuga. para lá da luz. puxava. ela empurrava. — A carne vai ser minha. sobreviveremos até a primavera. cujas idas e vindas se cruzavam e entre-cuzavam numa hesitação febril. quase correndo. colocando-o ao alcance da mão. O tiro tinha-os imobilizado apenas ligeiramente. orelhas. que caíra do trenó e que ela percebeu. o bale enervado e mudo dos lobos. caído. medrosos de todos os ruídos. Mas a fiel amiga subitamente vacilou. adivinhando que os lobos se lançavam em seu encalço. O terror do jovem animal era tal que sua chegada pesada e ruidosa não conseguira fazê-lo afastar-se do cadáver do outro. Andava tão depressa quanto podia. pelas patas. pensou. — Tarde demais. sacudia sobre o trenó o corpo enorme do alce. pontilhada pelas luzes douradas de seus olhos. "Dois". vendo-o cair perto da mãe. Incidente que começara na sua primeira fase por provocar o recuo dos lobos. Depois endireitava-se." Foi então que ouviu como que o sussurro de uma maré avançando. içando por cima mais facilmente o corpo do filhote e fixando a tocha na retaguarda sob o peso dos corpos dos animais. mas receosas do fogo do homem. os olhos dos lobos. quase ao nível dos seus. do outro lado do animal e prestes a enfiar-lhe as presas. Angélica parou e plantou á tocha no solo. amarrou-o de qualquer jeito com as tiras de bandagem que ele recomendara como preferíveis às cordas. mas tropeçou e caiu. Depois recarregou o mosquete. Angélica não teve tempo para deter o trenó e precipitar-se para trás para pegá-la. a espinha abaixada ao mesmo tempo para a esquiva e para o salto para a frente. mas apenas brilhantes. Agitou a tocha com frenesi. parecendo uma vaga de espuma cinza rolando para ela. Ainda dava tempo. a menos de dez passos. agarrando-o como lhe era possível. Viu . e desprendeu-o bem depressa. O que provocara a queda da tocha fora o deslizamento do filhote mal arrimado. ávidos e tristes. com o risco de apagar-se. mais meigos ainda do que os dos cães. felizmente. um barulho feito dê marteladas pequenas e continuadas. Não se deixou impressionar por sua volta furtiva e rápida. viu. os lobos estavam bem perto dela.

"devo fazê-lo.. de joelhos. yiria colocar um bálsamo agridoce em seu coração.. Outra vez. porque têm fome. havia prendido o mosquete. irmãos.. Fantasmagoria! Muito tempo depois. lançando gritos agudos de vingança e alívio provocados pelo aspecto cómico do trágico. Perguntava-se incessantemente se os lobos. irmãos. derrubou sua carga para baixo e saltou por sua vez." Começou a recuar lentamente. — Deixo-lhes o filhote — gritou-lhes. depois de darem cabo prontamente de sua magra ração.. Levantando os olhos julgou distinguir um lobo maior. E o lobo ali. olhando para ela.. não a seguiriam. duvidando ainda de sua boa esmola. Isso era uma coisa que os faria rir e bater as mãos. O animal se deslocava.. Apenas quando se levantou foi que pôde vê-los aproximarem-se do filhote de alce. do quaí ela tivesse sido a parteira minúscula. dos olhos tristes. e a porta nada de se abrir. mal-equilibrada. ao cair... como no conto de Gargân-tua. rolando sobre a neve e apagando-se com crepitação. a tocha. A carga virava. mais magro e mais velho que os outros.. Era ela a mais feroz. A sombra do forte mergulhou-a na obscuridade.. eles não se moveram. sendo às vezes ultrapassada pelo trenó. Era para permanecer ao nível de seus olhos. Preferiu hão parar. Ela se lembraria que murmurara com os lábios rachados: "Eu lhe suplico! Eu lhe suplico!. não querendo deixar nada de sua presa.. fome!. pensou. fome. Angélica atrelou-se aos arreios de couro com uma energia redobrada. submetidos como ela à provação infernal que ameaçava suas existências: a fome." "Fome. por seus gestos. "Vou deixar-lhes o filhote". inclinado e apontando o focinho pontudo enquanto ela tentava empurrar a porta para introduzir na sala o corpo do enorme alce.. irmãos. repetiram os ecos intermináveis do país do cristal. surpreendentemente clara e poderosa.". enquanto ela os fixou com o olhar. trepidando e raspando ao passar por asperezas com um ruído repercutido que lhe enchia os ouvidos." Contaria às crianças que o eco dos lugares perdidos de Wapas-su desaparecido cantara: "Nós somos irmãos. Chegando finalmente à beira da trincheira. "Deixolhes o filhote. caiu. e depois se lançarem vorazmente a ele.. Não tinham ferocidade.. irmãos!" E que a passagem do alce através das portas e do sass obscuro do fortim era exatamente igual a um monstruoso parto. e. E dessa vez eles se sobressaltaram e deram um pulo para trás. ao ouvir aquela voz humana que se erguia. . devo. Um leve declive facilitava sua corrida para o forte. cinco ou seis. Voava. Chegara ao trenó e permanecia de joelhos. no ar gelado. Havia barrancos nos quais caiu. Próximo ao final. Irmãos. aquele lobo que talvez não tivesse visto. Dificuldades surgiram. e sua carga a aco"mpanhava sem dificuldade. o que era mais perigoso do que ficar de pé. irmãos!. a lembrança do lobo de focinho comprido e dos olhos oblíquos e humanos. continuando a brandir a tocha para imporlhes respeito pelo tempo que pudesse.como estavam magros e eram pouco numerosos no total.. Estava ali debatendo-se naquele buraco com aquele animal do tamanho de um cavalo que. Empurrava-o mal-emal sobre o trenó e refazia os nós com dedos inexistentes. e porque somos irmãos.. sonhadores e todavia cheios de interesse.

muito nutritiva. Não se deve esperar — disse.alce e por seus grandes olhos extintos sob cílios semelhantes a escovas. — Você queria visar o coração? — Sim. o fel. um prato especial. — Ele não tem coração — lançou-lhe ela. triture!. As duas portas estavam fechadas. Pode-se fazer uma boa sopa de cola. que teria dito: "Pobre alce!" — Dar-me-á ao menos algum tempo para cuidar de meus filhos e preparar-lhes um caldo? — gritou a seu atormentador e guia no corte da carne. raspe. não tinha qualquer consideração pelo estado de fadiga no qual ela se encontrava e que a tornava meio atoleimada. mas de um macho... — A bala estourou-o."Meus filhos". — A que distância? — Ao alcance de um tiro. — É preciso retirar as vísceras. num tom impaciente.. Tínhamos carne daí em diante. de couro? Ele não parou durante toda a noite de indicar-lhe as etapas do trabalho. — Sim. parecia-lhe. Carne. corte. — Não era um filhote. descabelada e com as mãos ensanguentadas: — E agora? Ele dizia: — Pegue uma serra. nem ninguém podia vir tirá-lo de nós.. Serre. dispondo ali todos os seus caldeirões. a bexiga. pratos. escudelas.. Ele lhe dava instruções precisas para retirar o coração. diria. enquanto os dois pirralhos. mas um alce provavelmente novo. sempre com aquela careta que ela julgava ser um sorriso zombeteiro. que podem estragar as partes sadias. magro e de menor tamanho que o ancestral. como se previsse a revolta de sua lassidão. um machado. Sempre aquele brilho de ironia. O homem deitado dirigia-lhe um olhar zombeteiro.. — Pela manhã vão ver se eles deixaram os cascos.. vestidos com roupas limpas que o menino os ajudara a vestir. — Só uma bala?. como se sua excitação lhe parecesse pueril. separar os miúdos. Ele era exasperante. como último recurso. ... até a primavera!" — Dei-o aos lobos — declarou-lhe com ar de desafio —. "o alce finalmente ali estava na sala do forte. E agora é preciso destrinchar o animal. dei-lhes o filhote!. Ela acendera um fogo bem alto na outra sala. um cutelo. Tem um avental grande. Nem os lobos. começavam a chafurdar no meio dos quartos de carne e a se interessar pelas orelhas do. — Como se explica que não seja uma fêmea? — Porque é um macho — retrucou ele. O que a surpreendeu muito foi descobrir que não se tratava de uma fêmea.. Só percebeu a chegada do dia e que já estavam no meio da manhã quando viu Carlos Henrique diante dela propondo-se a ajudá-la. E vinha perguntar-lhe. Não tinham o sentimentalismo de Honorina. — Um filhote o acompanhava. cortar a língua.

Era isso mesmo o que ele era. você.. os gestos se tornavam seguros. Preparou para ele uma tigela do divino e quente néctar e. Não poderia nem arrastá-lo até o posto nem subir ao teto e entrar na casa. mas era um boa coisa ser capaz de irritar-se contra alguém. era a receita de sua "Tia Nenibush". seria preciso renovar-lhe as compressas. ditava-lhe a receita do caldo. Duas luzes puras que emergiam daquela cloaca cinza na qual se perdia seu olhar habitual Sua voz. Você. Não esperava tanta bondade de sua parte — ironizou ela. e sua alegria era tanta que se esquecia de seus membros doloridos e das horas de provação. em vez de caldo de carne. com tantos esforços e sacrifícios aqui! Tomou fôlego e. Os segundos eram preciosos. Ele tinha um olhar muito azul.. reações de pessoa viva e. depois de têlo acomodado um pouco. novamente longínqua. os pedaços que ela devia usar. Não acontecera nada. que. não mais semimorta. os gestos daqueles que têm com que se aquecer e se alimentar sobre a terra. por minha falta de civilidade. depois do alce. julgando que iria desmaiar de tanto bem-estar. deixou fluir sua onda de cólera. se elevou. com agressividade. como ele continuassecalado. edificado. Ele era destestável. Deu de beber às crianças. bebido um cálice cheio de vinhos capitosos.. palavras. continuou sua obra de destruição. Já estava na hora de ele ouvir aquelas verdades de sua própria boca. surpresa com seus gestos. Ele se calava Ela pensava que. Dirigiu-se cambaleante para a lareira. Oh! Obrigada a você. você. Você me concede um pouco de repouso?!. Ainda não era hora para isso. disse-lhe. que é a causa de nosso estado miserável. Bebeu por sua vez.Ele perguntou-lhe se ela colocara os pedaços principais de carne envoltos em peles ou em cascas de árvore no gelo. orgulho. fê-lo beber em pequenos goles. — Realmente. Não passa de desprezo. senhora.. ela se perguntava ainda o que fazia ali. egoísmo. como fez. Olhando para o leito. mesmo morto. A caça passava ao seu alcance. mortes e desastres? E ainda por cima me insulta! Ah! Como você odeia as mulheres! Via-lhe a face" empalidecer e o olhar turvar-se. e o raciocínio.. Mesmo assim. E azar dele se reassumia sua aparência de tronco morto e apodrecido. A porta estava fechada. Julga que me diverte curar suas feridas. Não seria você quem poderia me ajudar! Nem nenhuma dessas frágeis crianças! Você não sabe de nada!. A vida voltaria a ser cotidiana. mas encantada.. Repouse. mas não conseguia refrear suas.. — O menino já me dispensou alguns cuidados. senhora.úma a uma. Você me repugna. Sustentando-lhe a cabeça. Era sinal de que a ceifeira não os alcançara. . concebido. — E lhe informarei em primeiro lugar que tive razão em não me lançar do telhado onde me encontrava empoleirada para trazer para dentro aquele animal enorme. — Creio dever apresentar-lhe minhas desculpas. pois era vida que voltava para ela. fraca e hesitante. a quem injustamente devo tantas desgraças. entregou-o a ele. esgotar-me para devolver-lhe a vida. meu e dessas pobres crianças. embriagada como se tivesse.. construído. a você. abatido sobre a terra que vai absorvê-lo e enterrá-lo. tantas derrotas. a quem devemos a perda de tudo o que havíamos sonhado. Eu posso esperar. consentindo finalmente em que interrompesse o trabalho. jesuíta! Caro mensageiro da noite e dos iroqueses. Estava ao mesmo tempo enojada e superexcitada. e Angélica começou a considerá-lo um loucov Ou então era ela que estava ficando louca por ter respirado aquelas exalações de sangue e de entranhas quentes. — Isso não era motivo para me insultar.

mas que não estávamos ainda preparados para ela.. calou-se novamente e pareceu apagar-se e desaparecer. portanto. Mas não sei se era de alegria. Ele estava morto. Foi para ela um choque supremo. — Deus sabe que eu não estava pronto para nada do que me dispus a viver. Caiu de joelhos junto à cama.. e toda a vilania. — Ele! — respondeu o menino.Quando ela se calou. vindos dele e naquele lugar. — Quem colocou essa pele sobre mim? — perguntou a Carlos Henrique.. eu lhe devo mil desculpas. expirara. estava morto de verdade. morto. que estava de pé ao seu lado. Repetiu várias vezes. Ele estava morto." Seria preciso novamente ficar sozinha. — Eu não estava pronta para viver um instante tão sublime — disse ela. Tudo foi surpresa. com as pálpebras azuladas e fechadas. o que a fez apoiar-se à parede. — Nossos corpos são fracos para as correntes que os atravessam — disse ele. toda a lama que permanecem no fundo dos corações dos homens emergem à superfície naquele que não possui uma alma suficientemente forte para resistir a esse rebaixamento. com o coração pulsando ainda com uma emoção que não conseguia nem controlar nem explicar. da embriaguez de vitória.. E depois. de reconhecimento.. ele falou entretanto. mas nem sempre é o que havíamos previsto. Ele reunira suas últimas forças. senhora. O trato com os bárbaros torna as pessoas grosseiras. Via-o tão pálido. depois de ter abatido o alce. apontando para o homem deitado. que se apagou como a chama de um fogo de palha. "Carne até a primavera. Ficaria novamente sozinha com as crianças. Dessa vez. o ar contrafeito. deixando-à completamente sem forças. senhora. que apagava a exaltação da vitória. — Não sei o que me deu — reconheceu —. para gritar assim e perder a cabeça. e sua voz continuava inteligível. A loucura se apodera de nós quando percebemos que estávamos armados para a vitóra... Essa súbita humildade fez ceder sua cólera. que compreendeu que o esforço feito por ele para levar a bom termo a batalha do alce o aniquilara. Daí nosso desnorteamento. Depois de ter assim falado com uma clareza e uma lucidez que não deixavam de ser estranhos. num tom de súplica intensa: "Perdoe-me! Perdoe-me!". como se desertasse do ser vigoroso e decidido que o habitara por algumas horas. — Há coisas enterradas que subitamente saem como cóleras ou desesperos de crianças que jamais teriam sido expressos. — Estamos prontos para o que devemos viver — respondeu ele —. apesar de lenta e rouca. Tinha sobre os ombros uma coberta de peles. — Tem razão. Foi o balbucio das crianças que a despertou.. invadida por uma terrível decepção. Essas ressurreições e desaparições tinham algo de esgotante. Não estava. Sua voz baixou. e calou-se. Adormecera de joelhos. Pronunciara uma última palavra: "Perdoeme". Dormira tão bem que não compreendia muito bem onde estava. Pousou a fronte sobre a mão inerte e pôs-se a soluçar. com a testa apoiada à mão do morto. Fiquei enlouquecida. Perdoe-me. .

e. Respondia àquela voz como à de um fantasma. Ele tinha de viver. Pois. O receio da terrível gangrena invadiu-a. sorriu. com a pele esticada.. examinando-lhe as pernas no dia seguinte pela manhã. Acariciou-a várias vezes. Não se reaquecera nem ao calor de sua fronte.". só havia duas saídas: a morte ou a ablação do membro atingido. O Padre d'Orgeval estava morto. Ficou muito tempo apoiada. Uma trégua seria possível. Angélica notava que uma delas estava mais inchada. recompondo-se depois com brutalidade. — Quando? — Antes de adormecer. Examinou-a.. Mas sentiu estremecer a mão que segurava entre as suas. pensou rememorando aquele instante em que ele dissera: "Aproxime-se! Venha! Venha mais para perto!" E em que a pegara com mãos que pareciam garras e. "Que força existe nele!". Teve a impressão de que os lábios lhe devolviam o sorriso. ou pelo menos um ser enfraquecido. .. seu pior inimigo?. levantando a cabeça. não. . e ele exclamou: — Você lamentaria então minha morte!? meu fim? Eu. com a face apoiada. sair e matar o alce. "Não! Não! Isso eu não poderia fazer. Era uma mão fina e longa que permanecia aristocrática. Quando uma coisa como aquela começava. A mão permanecia gélida. CAPÍTULO XIX A cumplicidade de náufragos desenganados Ela reconhecera ser ele Sebastião D'Orgeval. e aquele que ali estava era um impostor. Eles também.." Tinha cortado uma alce inteiro. Quando a febre baixou. agora que havia carne para muito tempo.. apesar da deformação dos dedos cortados e das unhas arrancadas. o que lhe era mais difícil de suportar. e depois. ele. parecia morto e em outros voltava a habitar-lhe o corpo. de joelhos. a força para se levantar. e balbuciando o tempo todo frases indistintas. Ser-lhe-ia preciso esperar para obter resposta às perguntas que colocava a si mesma.permaneceu prostrado. por instantes. Uma febre muito alta apoderara-se do doente. dando a Angélica novamente a impressão de que um morto partilhava a moradia. martirizado pelos iroqueses.Acabava de se perguntar . — Porque julguei que você havia morrido. Mas a febre não baixava. lamuriando-se e virando a cabeça da direita para a esquerda e repetindo: "Oh! que ela se cale!. O espectro da gangrena se afastou. teria desejado rejubilar-se e distender-se. — Por que você chorava? — perguntou uma voz. à força. Obstinou-se em prodigaJizar-lhe todos os remédios de que dispunha.se não fora visitada por um "verdadeiro" morto que. Ele se agitava. Ela continuava. como quando dormira aquele sono reparador. mas ter de serrar uma perna de um ser vivo.à sua mão. ' A mão cerúlea era bem a mão de um morto. Convencer-se disso iria exigir-lhe mais tempo. declarado morto havia dois anos. espreitando-lhe o estremecimento. O passado edificara situações e imagens e tudo isso se esboroava diante da realidade. um moribundo. apoiara a cabeça dela contra seu ombro comunicando-lhe sua força. não poderia! Readquiriu sua força interior. em iroquês. Muitos sinais haviam sido dados. sem o perceber.

uma expressão sorrateira.Considerando que talvez fosse realmente o Padre d'Orgeval.. Essa força que alguns momentos irrompia nâo parecia pertencer ao mesmo indivíduo que. confessando na Acádia. que sabia tudo. que ela amamentava ao mesmo tempo que a mim. mas também.. —Já lhe disse! Sou Sebastião d'Orgeval. fazê-lo voltar ao que era antes. E seu olhar vacilou. que para evadir-se pegara o crucifixo. a sotaina do falecido Padre d'Orgeval. sem desviar-lhe os olhos. Colocado ao. parecia estar se deixando deslizar para a morte por covardia. — Quem é você? — repetiu. — Não é o jesuíta santo e mártir. aqueles que diziam ter o dom da ubiquidade. de Zalil. de embrutecimento.. mas que lhe despertou novamente as dúvidas. tudo. novamente lúcido. desocupado.. mas também que sofria as traições de seus amigos. bêbado. o intolerante Padre d'Orgeval. — Sim. que conduzia suas tropas ao combate brandindo sua bandeira bordada... em Quebec. sua irmã de leite.. enquanto escovava os cabelos das crianças contando-lhes uma história. ele queria matar-me. Não é ele. como o da Diaba. viu naquele olhar. voltando-se em sua direção. hesitante: — Não. Vou desmascará-lo... Aquele que jazia ali era um impostor. Sinto-o. de expressão ambígua e subitamente angustiada. cuja significação não poderia precisar. Certa manhã. continuando. o grande. mas. Disseram-me que fui eu que acabei por estrangulá-lo em nosso berço comum. Fixava-a com aquele sorriso sardónico. Depois recomeçou a sorrir com a brusca ironia. Puxou um escabelo e sentou-se à sua cabeceira.. meu verdadeiro irmão de leite. de exaustão. desdentado. . que se prostrava em preces ao pé do altar. pelo que me lembro. abandonando-se às visões de seu delírio ou do torpor. o intratável. seu nome começa com A. sua identidade.. Ele pareceu perturbado como uma criança com medo de não encontrar a resposta correta. Ambrosina? Sua pele terrosa empalideceu. Depois respondeu. Estava decidida a preparar-lhe uma armadilha para confundi-lo. o que lhe pareceu muito desagradável. ele mudou de expressão e pareceu inquieto. espreitando aquela face estranha. após um breve silêncio: — Entretanto. a mãe de Zalil foi também minha ama-de-leite antes dele. A moléstia que o corroía ia além de seus males físicos. algum explorador de bosques. — Fale-me de sua irmã de leite — disse ela. Não pôde impedir-se de lançar-lhe: —Quem é você? A essa pergunta abrupta. Ela insistiu. excomungado. Como poderia esquecer essa criatura do Diabo. num tom de conversa. da Companhia de Jesus. que ela julgou vulgar. Aproximou-se do leito. Teria desejado apagar os vestígios das sevícias que sofrera. sentiu que ele "a observava de maneira consciente. que odiava a Mulher porque só conhecera mulheres infames e as combatia como a encarnação do Mal. em virtude de uma tendência a envesgar que se seguira à febre alta. a atormentava. O filho mais velho de Zalil. tinha um pé aleijado. _ Não! Não é o Padre d'Orgeval. Ele era um ser de elite. por vezes. Esboçava uma espécie de careta zombeteira.. o pensamento de que os índios haviam levado o grande missionário a um tal grau de depauperamento. articulava mil intrigas e fabricava velas verdes perfumadas com a cera dos frutos da flor-de-cera... Você!— Você é desprezível. Roubou seu crucifixo. e. nos grandes Lagos..séu lado. Seu: olhar turvou-se e ele virou a cabeça. não era minha irmã de leite..

— Não. — Com que ardor você me defende!. Ele permaneceu estendido por um breve momento e depois lançou o corpo para trás. com a volta da saúde. mantendo-se rígido e de olhos fechados. atenuado. desejado por Deus. Não falemos de assuntos lúgubres. Angélica perguntou a si mesma se. acredito.. tal como os que dispensam as brasas ardentes de um fogo minando sob um manto de cinzas. mas peque fortemente!. — Sim! Sim! É assim. por favor. Que tenha sido cercado em sua infância por mulheres perversas e cruéis. como duas lâminas brilhantes de duelistas cruzando-se no início de um combate para avaliar suas forças. mais precisa. Mas quando se levantava por deixá-lo repousar." — Oh! Não me fatigue. lá longe. Não creio. tomandolhe a mão entre as suas. Voltando à realidade. Calvino ou São Tomás. levou-a aos lábios: — Deus a abençoe! — murmurou. Pois não está apto a decidir sobre o que é pecado ou não! Ela falara sem refletir. Mas que tenha sido feito à sua imagem. mas não destituído de vivacidade e de brilho. — Você foi carregado com um fardo muito grande. ela protestou energicamente: — Tolices! Quiseram persuadj-lo dessa fábula para assustá-lo. Quero dizer simplesmente que é preciso lançar sobre sua vida um outro olhar. padre. Na verdade ignoro tudo a seu respeito. por mais jesuíta que seja. ele não estaria novamente passando desta para melhor.Angélica estremeceu. e não me fará mudar de ideia... não acredito. cuja cor azul se tornava. Quanto mais estranho é o nascimento. Mas talvez você tenha razão. Não estou em condições de discutir teologia... sob o efeito da contrariedade. e não sem motivos.. era mesmo você?.. lembrando-se das palavras que Ambro-sina gostava de repetir com exaltação e nostalgia: "Éramos três crianças malditas. A personagem que lhe foi atribuída: o missionário. nas montanhas do Dauphiné". mas não se deixou impressionar. Não quero aceitar que tantos horrores. tantos atos vis sejam o caminho de meu destino. o guerreiro. que dizia: "Peque. Ele se debateu. ou não passava de uma roupagem. Isso a aproxima de Lutero. escravizá-lo. ele se ergueu com um movimento ágil e. por não ter tido mais cuidado. um disfarce para um período transitório? Não teria se tornado jesuíta apenas para poder mais facilmente tomar seu atalho? — Que me conduziria aonde? — Aonde está chegando.. E que você deveria parar de se preocupar com o que diz Lutero. . Seus raciocínios estão fortemente maculados de heresia. Os dogmas! A Letra! Armas que matam. Fora uma troca de palavras súbita. o padre devotado à salvação das almas. Seguir-se-ia um período silencioso. mais exigente o destino. e arrependeu-se por ter sido tão ríspida. — Você poderia expor-me os motivos? — Não o conheço suficientemente bem. Tive uma amostra disso com sua Ambrosina. considerá-la através de outras verdades.... e ela reencontrou o brilho perigoso de suas pupilas. o conquistador de mundos novos para a glória de Deus e do reino. Essas últimas palavras fizeram-no estremecer. Era na verdade um manto de neve. talvez..

O deserto branco afrouxava seu abraço. ." Era uma voz humana. quanto nos navios. náufragos. gemeu e depois murmurou: — Dê-o às crianças.. que era ali chamado também "moléstia da terra". de aveia-louca. pois o dia. ou então: "Ah! que ela se cale!. a angústia.. como se dava conta. Dava uma colherada todos os dias às crianças. se juntasse ainda o de vê-lo sucumbir. como uma jangada carregada de homens exangues descendo a corrente de um rio noturno em direção à luz da primavera. únicos sobreviventes na superfície do mar. O conforto que experimentava. em que precisava levantar-se para cuidar do fogo. A noite.. escutava a respiração de seu morto.. em resposta ao grande silêncio que estivera prestes a enterrá-la nos limbos da loucura. No silêncio da noite. finalmente. Em palavras breves e sussurradas teciam-se uma cumplicidade. que era quente e onde se podia distender no repouso. distribuir as refeições. levou-os ao fundo da sombra. Até o dia em que isso também se evaporou. o leito. quando faltavam víveres frescos. ancorada no fundo de seu ser.E Angélica perdeu um pouco a noção do tempo.. em que se misturavam o medo que se ligava a um nome inimigo e o receio que sentia permanentemente de vê4o morrer. Censurava-lhe antecipadamente esse último golpe. — Sente dores? — Não. que realizava muito lentamente. desfrutando daquela calma em que todas as coisas tranquilizadoras estavam enfim nos devidos lugares.. — Está dormindo? — Não. e compreendeu que não queria que ele morresse porque se lhe afeiçoara. ele virou a cabeça. chamando um ao outro nas brumas. Tudo havia mudado. acordava surpresa por sentir a doçura de momentos em que. às vezes. Teria visto esse fim como o anúncio inelutável do deles. do repouso concedido a seus membros enfraquecidos. do sono das crianças. do dia seguinte. Suas rea-ções primeiras haviam se acalmado. escovar-lhes os cabelos. Restava apenas a obsessão de que. uma aproximação de cegos procurando-se em sua obscuridade. Cozinhar. para germinar dia após dia. a todos os fracassos que a ele devia. dar banho nas crianças. do calor. Suas sensações aguçadas percebiam tudo a respeito daquela existência que tomara lugar ao lado deles em seu túmulo. Via-o terminar com prazer.. esse leito levou-os de um dia para o outro do inverno mortal. seria então o momento de ir para trás de sua cortina fazer suas abluções e sentar-se diante do espelho para cuidar por sua vez dos cabelos. esquecer a fome e as angústias. Mas algumas vezes sentia-se logo exausta de se manter sentada e voltava rapidamente para a cama. quando quis introduzir-la nos lábios do "comatoso". era muito curto. permitia-lhe relaxar. tão escuro e tão pouco diferente da noite. esses germes representavam uma defesa contra o escorbuto. podendo enfiar-se novamente sob as cobertas. que ela se cale!. Mais tarde levantar-se-ia para alimentar outra vez toda a sua gente. entrecortada em alguns momentos pelo estertor ou por palavras desconexas.. "Sede!. Sede!. Por que me salvou? Por que não me comeu?. sendo tão ameaçador nas invernadas. trocar os curativos. A claridade dos carvões abrigados sob as cinzas lançava reflexos róseos e dançantes na vigas baixas do abrigo. onde se deixava ficar com um suspiro de bem-estar. e os trabalhos diurnos... se dispersara. dividindo-o bem ou mal entre noites. Colocava em pratos revestidos com estopa úmida pequenas porções de arroz.". Sou uma boca inútil. A presença humana ao seu lado deixara de causar-lhe um mal-estar ambíguo.

"Queria não me esquecer de nada". E começou a discorrer em seu tom de professor catedrático sobre os princípios expostos na Practica Inquisitionis.. de uma doçura e de uma ternura infinitas. de um dia a uma noite e de uma noite a um dia. Eis por que se ativeram a três pontos principais: a roda. pontuado de momentos de encantos. É noite. se deixava dominar pela influência da noite. — Não é noite. que ajuda os mortais a conduzir a vida. de uma clareza incríveis: os gestos. um tempo fora do tempo. Durmamos. o cavalete e o interrogatório pela água. para a purificação.. ensinamentos. dir-se-ia ela um dia. Esses assuntos podem alimentar seus pesadelos. obscuro e opressivo como um subterrâneo por onde se rateja sem esperança de algum dia encontrar a luz solar na outra extremidade. consciente da vacuidade do mundo enfim deserto. também. mais perigosas que as tempestades uivantes. os silêncios. um período interminável e muito breve. tudo foi trocado entre eles. Há muito esqueci o que é viver sem sofrer. mas dia. Essas palavras lhe viriam aos lábios quando se voltasse para aquele tempo. Narrativas. como ele parecia esperar uma resposta ou comentário. um dos célebres manuais da Inquisição.. escrito por Bernarel. mas. Seguir-se-iam pois as horas e os dias. Isso ajudou Angélica a dar à existência uma estrutura mais de acordo com a disciplina. quase os meses do coração do inverno. que nasciam daquela pegajosa intimidade do inverno. O fogo vinha em seguida. e em que Angélica sentia o estranhamento de ser conduzida por forças vitais de uma espécie desconhecida. de uma simplicidade. Citou "Faudencia de tormento" como método de tortura utilizado de modo corrente. seu núcleo duro e negro. pois amiúde não souberam se era dia ou noite. No início. o pensamento se comprazia em eclodir mais livremente. intimou-o a meia-voz: — Cale-se. se o vento ia soprar ou se a geada ia aumentar. podia resistir melhor à tentação de se estirar e se refugiar no sono. que aquelas pesadas e inesgotáveis quedas de neve. discussões. as palavras e até essas praias cegas do sono. como que dando continuidade a uma conversa anterior. tentação que a ameaçara quando. no início do século XII. ele sempre sabia se do lado de fora era dia ou noite. confissões. "Como fomos felizes!"." vindas para ajudá-los a atravessar o inverno num estado de graça semelhante ao que se deve experimentar quando se anda sobre as águas e que. dizia consigo Angélica. que foi o Grande Inquisidor de Toulouse durante quase vinte anos. para reuni-los em meses. não podendo mais agarrar-se senão a vagas claridades que não sabia como interpretar. . o sangue não devia verter-se de maneira a acarretar uma morte demasiado rápida. Tudo tinha um sentido.Uma vez ele respondeu: — Não sei. confidências. noites em que. dizia. cortado de remissões ensolaradas. mistificador como úmTlabirinto. Sem se mexer e sem mesmo reabrir os olhos. envolvendo de neve algodoada dias em qué o sono tinha tanta importância. Tudo era de uma leveza. se a neve caía ou se o céu estava limpo. Sendo o dia destinado a se ficar de pé e aos trabalhos. deixou-o prosseguir seu sinistro discurso.. pela duração de sua salvação. as semanas. Nela. receando o enfraquecimento da memória. os libertava do peso e da impotência que oprimem os humanos. julgando que estivesse delirando. depois em anos.

nessa"estação. numa noite de Epifania. mas era uma ótima cozinheira. aos arrancos. a maga de Salem. — Quem era sua Tia Nenibush? — Minha ama iroquesa. com sua voz rouca. de magister mundano: — Senhora. sobras do festim. expulsos de seus territórios pelas intempéries. fora cotidianamente cumulado em seus anos de cativeiro. e eles só começam a crescer novamente por volta de abril. numa certa medida. à razão. — O alce macho perde os chifres em dezembro. Por exemplo. em que as respostas tinham sido dadas pouco a pouco sobre ele. Irritado e perigoso. num esforço supremo. uma fêmea com o filhote. aumenta a excitação do cio. arrastando os gémeos para ouvi-lo. naquela época do ano. seu passado. não podia ser uma fêmea com o filhote. em que duas vozes subterrâneas. hesitante e aplicada. — Que estúpida! Eu sabia tudo isso. fora buscar. dialogavam tendo por único eco um balbucio de crianças ou o crepitar do fogo na lareira de seixos. gostaria de ouvir-me falar sobre os alces? — Os alces? Mas Carlos Henrique. deviam ser os últimos sobreviventes de um bando disperso pelo frio e pela fome. As palavras que lhe escapavam às vezes. até se tornar aquele soberbo penacho que. No início. Como se tivesse se esforçado para reunir dentro de si os pedaços de uma personagem que se esfacelara. que o Padre Massérat e seus companheiros morriam sob a neve. replicara: "Alguém um dia lhe dirá". garantia: — Gosto quando ele conta histórias de bichos. ocupada em redigir suas "Crónicas da jangada de solidão". Daí por que é impossível encontrar. e à qual Ruth. abafadas pela noite e pelo peso do inverno. no dia seguinte à caça. retraçavam esse calvário. no outono. a alguns passos de sua casa? . E eis què ele lhe explicava por que. parece-me. o mingau de milho ou de trigo-sarraceno. os destinos. diante de uma janela ensolarada. suas voltas à superfície tomavam um aspecto estranho. A pergunta que ela fez: — Como sabia que havia um alce lá fora? Respondeu irrefletidamente: — E você? Como soube. cujos estupores profundos da alma o haviam ferido. a propósito de discussões para tornar saborosa a sagamité. as revoluções dos tempos e dos espíritos. seu chamado faz então ressoar as florestas. como que por descuido. e até aquela pergunta que um dia se colocara: "E eu? Quem sou eu?". de uma ganga de embrutecimentos. Conhecia pelo menos oito receitas diferentes para preparar o trigo-sarraceno. um velho e um jovem. aberta sobre os murmúrios de um parque. de preferência no crânio. mas estava fora de mim. com as quais.Imaginava-se mais tarde com uma pena na mão. misturados a alguns ossos e pedaços de pele. mamãe. Foi no dia em que Angélica estava fervendo os cascos do filhote de alce que. segundo seu relato. mas também sobre o futuro. dizia de repente. — Os dois animais. e que encontrara em meio aos rastros dos lobos.. — Ele não tinha chifres — arguiu Angélica. acrescido do efeito mais material de revoadas de pauladas. Dir-se-ia que esta emergia.. Para o jesuíta o desenvolvimento da crónica seguia a evolução lenta e anárquica de sua volta à saúde e. A fêmea só parirá oito meses depois. explicou: — Oh! Minha Tia Nenibush me cobria de pancadas.

— Sim. Verrumou-a com um olhar feroz. além de tudo. Ela recebia pois a confirmação daquilo que até então fora apenas uma suspeita. Jamais me havia visto!. Sua culpa. Pareceu-me muito sério e pouco afeito a brincadeiras. e deixou-se cair sobre o travesseiro. Como se explica a divulgação de sua morte e.. jamais foram avaros de suas falanges em prol da salvação dos índios. solícitos em testemunhar pela tortura diante dos pagãos sua fé cristã e sua dedicação ao rei da França. tudo!. — Por que tanta animosidade no que se refere a mim. Eu sou testemunha". durante seus anos de América. perdendo as forças.. Acompanhava-o Tahutaguete. Adivinhando a que incidente ele aludia. Nesse ponto. por sua culpa. Ora.. Você está morto. Mas.. "Seu inimigo não pode mais prejudicá-lo. em condições de abordar com franqueza e simplicidade o tema. o chefe dos mohawks. que confirmava as declarações do Padre de Marville. — Padre — disse-lhe um dia —. acreditamos nesse primeiro sentido. Está já na lista das beatificações apresentadas a Roma. compreendia melhor que estava diante de um homem que vinha perseguindo-os com sua hostilidade havia muito tempo. da parte de Utakê. um de seus dedos. murmurando: — Mas foi por culpa sua. com os olhos faiscando de cólera. — Ele ousou fazer isso!. O jesuíta soergueu-se na cama. fim. —O que dizia exatamente esse colar? —Na verdade.. sobre eles.Ele sabia muitas coisas sobre ela. um riso rouco e desencantado. sentiu que não estavam. falam de relíquias santas. padre. — Aquele que levou a notícia não tinha nada que autorizasse a dizer que era um tagarela. eu mesma o ouvi afirmar: "O Padre d'Orgeval morreu como mártir. missionários ou exploradores de bosques. um colar de wampum. Sebastião d'Orgeval. morto como mártir dos iroqueses. ele se .. no sentido em que o entende. que levava a meu esposo. e que a atacara pessoalmente. se se lembrasse a que ponto. E afinal não havia nisso 'nada de tão maravilhoso.. mas ele ria às gargalhadas.. E nos descreveu seus suplícios e seu. nem um nem outro. eu a vi. pois os canadenses. em breve virá a canonização. —É verdade. avisando-lhe: "O Padre d'Orgeval está morto"... nas procissões em Quebec costumam levar.. Vi o colar e decifrei-lhe a "mensagem". Mas as palavras exatas do wampum eram: "Seu inimigo não pode mais prejudicá-lo". começou a esclarecer pontos obscuros.. num relicário. ainda que isso não prove nada. com um tom de desprezo: — Os tagarelas gostam de criar lendas. Por essas explosões de raiva. Viu-o sacudir-se em espasmos e julgou que estivesse sufocando. a existência daquele jesuíta estivera mesclada à deles. Oh! Como isso era verdadeiro!. o chefe dos onondagas. o Padre de Marville. no que se refere a você.. Pouco a pouco. padre? Você não me conhecia. Trata-se de um de seus irmãos de ordem." Voltou-se para ela. sem que ela pudesse saber se se referia a Utakê ou ao Padre de Marville. há mais de dois anos já? Ele fechou os olhos e deixou passar um tempo antes de responder.. —Ele fez isso! Ele fez isso! — repetiu várias vezes.

Nascera pois entre mulheres demoníacas. a mulher primeira do pecado. Desde muito jovem. em especial no da mentira e crueldade. o princípio feminino do Mal. esmerava-se em todos os vícios. — Eram todas Liliths. Adivinhava o mergulho que ele seria obrigado a dar. Infância soturna. Voltou com frequência a seus anos de estudos na adolescência.. cada uma delas submissa. Não parecia convencido de que se tratasse da mesma Ambrosina. que lhe colocara. Foi minha intervenção que decidiu a partida em favor do bispo. ele demonstrou indiferença. de diferentes formas. Ele falou a esse respeito de boa vontade. — Eu tinha um tio. Preferia que ambos permanecessem nas explicações superficiais. encantadora como um anjinho. pela graça de Deus. ao Maligno. ao lado de seu temível pai. não sei mais. Ela não pensava que você lhe devolveria suas armas: astúcia e impertinência. para ir massacrar os hereges das regiões vizinhas. Ignoro se. o eclesiástico queria ficar com uma parte da herança. tanto pelas armas dos argumentos como por ameaças e alguns socos. O que acontecera depois que fora para as tribos iroque-sas não lhe interessava.. Ambrosina. Falava de bom grado sobre sua infância. e meu pai tentou inutilmente demonstrar-lhe que eu era seu único herdeiro. Os dois enormes indivíduos lutaram durante dois dias. bispo ou cónego. nas zonas proibidas de seu ser.. de que tudo o que eu vivia no domínio paterno não era sadio e acabaria por causar minha perda moral e física. ai de mim! Pois ela tampouco estava morta. da baía Francesa!. no início da adolescência. um espadeirão nas mãos. ela se informou sobre os acontecimentos que o tinham levado daquele rude Dauphiné ao convívio dos jesuítas. sem conseguir demovê-lo. Ele pôs na cabeça que eu devia entrar para as ordens. Seu espírito parecia detido diante dos primeiros episódios de sua luta. Ela voltou para concluir sua obra. D'Orgeval deu um sorriso zombeteiro. Mas quando começou a explicar-lhe com veemência o desenrolar dos últimos acontecimentos. Ela o encorajava. que os aproximava pelo conhecimento íntimo e sem ilusões que cada um deles tinha acerca daquela criatura. Consciente. Você triunfou! — Não inteiramente. — Um magnífico combate para duas belas mulheres!. e que somente ela podia fazê-lo. dominada pela noite e pelos massacres. insisti junto a meu tio em acompanhá-lo.. como que invadido por uma angústia enorme. que fora seu amigo dos tempos de colégio. como filho caçula. falando da amizade do jovem Cláudio de Loménie-Chambord. provavelmente por causa das histórias e da pessoa de Ambrosina. abençoado pelo capelão do castelo. irmão de meu pai. Como ele evocasse Loménie. Pressentia que era de seu dever ajudá-lo nisso. — E foi esse paradigma de vícios que você nos enviou para alcançar seus objetivos de abater seus rivais. tão perigosa. um dia ou outro. pois . Foi assim que entrei para o Colégio de Clermont dos Jesuítas em Paris. e elá preferia restringir-se àqueles primeiros esboços de confidências. ainda muito jovem. exceto de seu tempo de noviciado. tão feroz em descarregar a férula da Igreja sobre suas ovelhas quanto meu pai com sua espada sobre os hereges. Essa infância parecia familiar a Angélica.chocava contra um obstáculo que o deixava ofegante.

mas ele se referia a seus mestres-jesuítas... A baía Francesa é um tal cadinho de nações que todos podem ainda encontrar ali o seu lugar. Voltava depois à infância. sempre se mostrou disposto a encontrar todo habitante ou missionário da região. pior que isso. a luz estivesse à minha espera. Mas havia mais alguma coisa. A obra que eu abraçara. Mas eu tivera uma espécie de sonho: "Tudo começa. quando eu embarcava para a América..tratava-se de longos anos de iniciação.. depois de anos de lutas. Ao contrário. onde me esperava meu antigo condiscípulo Cláudio de Loménie-Chambord. Era um flibusteiro das Pequenas Antilhas. e que a disciplina da ordem lhe impunha calar. ao se instalar nas costas do Maine com cartas de gerência do Massachusetts. não foi o perigo da vinda dele o que me alertou. vindo para cá. eu alimentava ilusões. parecia-lhe. mas para deplorar.. — Para dizer a verdade. nem sequer estava presente nas paragens da baía Francesa. — Creio poder assegurar-lhe que meu^esposo. eu continuava esperando encontrá-la. As mulheres escapam com mais facilidade a essas influências. torceram. Naquele dia ele se recusou a dizer qualquer outra coisa. quando soube que um fidalgo de aventuras.. O êxtase é algumas vezes concedido somente ao inocente. dessa vez. — As crianças se lembram do inefável. Os caminhos que fui obrigado a tomar em seguida afastaram-me de sua doçura. Quanto a mim. apontando o quadril. e em que fora bemsucedido. que eu viera trazer para cá. fiquei imediatamente de sobreaviso. Tomei informações sobre ele. aquele que ele preparava para mim era de uma espécie desconhecida. Tudo começa". Dominado pelas fontes e pelo sangue. Mais tarde. vedados ao profano. esse trazia consigo minha perda. Se eu via nele um perigo. A América! Acreditava que. nas costas da Acádia.. — Quebraram não. ela sabia que nele isso era sinal de uma dor insuportável. Mas nada em sua vida fora anódino. Uma vez mais. E ela julgava que' estivesse falando dos torturadores iroqueses. preenchia minha expectativa!. — Eles me quebraram alguma coisa aqui — dizia. Recomendava-lhe então que tivesse pa ciência.. se instalava nessa no man's land do Maine. a perda daquele estado de inocência quando chega a adolescência. para se aliar a ele. Julguei reencontrar isso algumas vezes junto ao pequeno Cláudio de Loménie. no início. à negra infância. Conseguem conciliar melhor a' lu"z e a sombra. gritava-me uma voz na nuvem. até que o ramo cheio de seiva se tornasse seco e petrificado e incapaz de renascer. a assuntos menos penosos. inglês. Via estender-se até os confins dessa terra selvagem o reino de Cristo. escocês. francês. Eu era -urna criança da natureza. a harmonia e ó caos. Com que rapidez a cinza e a areia são lançadas sobre seus sonhos.. que não dependia nem do rei da França nem do rei da Inglaterra.... Dessa vez. CAPÍTULO XX Uma paixão condenada . que não conseguia superar com palavras sem desmaiar. que se tornara Cavaleiro de Malta. — Ele continuou: — Por isso. ignorava tudo a seu respeito. alguns anos mais novo que eu. reconduzia-o a questões anódinas. Quando fingia não se lembrar ou estar confuso.

assim como da região do Richelieu. de que pudesse ser percebida por um estrangeiro-. A essa altura. "E foi então que eu A vi. 'a mulher nua saindo das águas". a fim de chegar antes 'deles'.—Seja como for. "A floresta chamejava. depois prepararia a emboscada. mas com cavalos. Mas quando ele se calava. daqueles que subiam do sul numa caravana.. a certeza de que nenhum daqueles estrangeiros lhe escaparia. "Agíamos sem a aprovação de Frontenac... reconhecidamente escaldante. Cláudio atearia fogo no posto. Continuou. que ela julgava dentre os mais inalienáveis. comandados pelos melhores senhores canadenses que já me haviam acompanhado em minhas campanhas contra os heréticps da Nova Inglaterra: L'Aubigniere. Mas eu andava como num pesadelo. "Não sei por que esse detalhe me atormentava o espírito como uma verruma de artesão penetrando profundamente na madeira e extraindo-lhe a substância. num âmbito de milhares de milhas ao redor. Eu o apressara a pôr-se em ação. "Pronto!". Eu andava na floresta. apesar do cuidado que tínhamos tido em prepará-la. Maudreuil. Havia expresso muitas vezes sua defesa quanto a seus direitos. "O pressentimento associado a meu sonho abalava minha convicção de levar aquela campanha a bom termo. de poder. eu tinha conseguido até então que os diques não se rompessem — declarou de repente. O vermelho e o dourado das árvores no outono cercavam-me de chamas imóveis. numa cálida tarde de verão indígena. "Ele e eu tínhamos feito um acordo de "arrancar sem demora as raízes do invasor. Ela. Menos por pudor que por estar habituada a esse tipo de debate. a fim de retomar fôlego. devia investir contra o posto de Katarunk. Minha angústia chegou a tal ponto que. uma tranquila segurança de se mostrar finalmente o mais forte. não apenas com mulheres e crianças.. banhar-se num dos dez mil lagos da regiãodo Maine americano. pensou Angélica.. eu a via chamejar a meus olhos. a cavaleiro de um lago. "Estava indo pois ao seu encontro. foi naquele dia do outono. como lhe acontecia regularmente. no cimo de um promontório. uma afirmação de não se deixar deter por nada. e com Loménie e as tropas que os esperavam para trucidá-los. por ordem minha. monocórdia e por instantes trémula: — A primeira vez que os diques se romperam. Huronianos e algonquinos. Loménie.. Pois uma notícia me fora transmitida: 'eles' subiam com cavalos. Ela era em toda parte a presença temível. Ele calou-se. Pont-Briand. . seguro de ter posto tudo em açào para acabar com os indesejáveis. Menos por tolerância que por lassidão. de passagem por ali. região por outro lado considerada tão impenetrável que havia poucos riscos. De minha parte eu me preparava para reunir-me a um segundo contingente de forças armadas vindo de Trois-Rivieres e de Ville-Marie.. e o calor incandescente do dia contribuía para essa miragem. dando a impressão de que perdera o fio do pensamento ou que adormecera. "Eu começava a andar num estado desdobrado. com uma voz sufocada. tive de me deter. Depois. ela não procurava romper o silêncio. que prometiam -proliferar. deixou passar um longo momento de silêncio. Estava ao mesmo tempo com os estrangeiros e seus cavalos. mas não era a primeira vez que meu amigo de infância e eu fazíamos nossos negócios de acordo com nossas próprias ideias. realizando uma façanha sem precedentes. "Havia nessa audácia de invadir o centro de uma região até então deserta. Quero dizer. e que eu sentia como um desafio.

Ele gemeu. estrangeiros jurados de destruição. Ao contrário. — Fale agora. com uma voz sufocada.. Mas eu me escondi. Como explicar o sentimento que se apoderou de mim? Mais do que um sentimento. Depois do que acabava de me acontecer. Isso exigia demais de mim. Encontrei-me só. mas também sua amplitude secreta. insaciável. menos que ninguém. jamais tive a menor dúvida de que não fosse você a mulher demoníaca da visão de Madre Madalena de Quebec. Que você queria esconder? — O que me aconteceu. num mundo povoado de inimigos. a partir daquele dia. foi o que se encarregaram de fazê-la compreender no decorrer dos anos. a dar. fazendo de mim um danado que queimava de um fogo cujo domínio jamais eu suspeitara. mas do mesmo modo que o animal em perigo se camufla. voltando à sua cabeceira.. A vontade de reduzir o caso a suas proporções normais ditou-lhe uma reflexão muita chã. — É verdade.permanecia. aproximando-me de seu objeto.Que isso tenha acarretado toda uma série de dramas. A palavra é fraca. Decidi esconder-me atrás das mentiras. sem sequer a fé num deus qualquer ao qual pudesse oferecer o sacrifício de minha metamorfose. Ela se levantou e foi encher uma tigela com uma bebida quente. melhor. como o jovem rico do Evangelho. indecifrável para todos ou quase todos. Um dia eu lhe explicarei tudo. prudentemente. amparando-o enquanto ele bebia. não porque lhes desse crédito. poderia enganar-se a esse respeito! — É verdade — concordou. e que deviam ser evitados e combatidos. "Quantas confissões tinham me descrito os mesmos sintomas irresistíveis. as únicas palavras que podiam obrigá-lo a reconhecer que ele se utilizara disso para subjugar os espíritos. Único em minha espécie. Decidi prosseguir meu caminho na direção escolhida. pois abrem-nos um paraíso. que eu me apresentasse diante de vocês. A descoberta de paixões desconhecidas? Você não pode compreender. Devia obedecer à iluminação? "Não pude fazê-lo. se quiser.. em que se é o único a penetrar. — Não me diga que julgou ter visto realizar-se a visão da Madre Madalena sobre a Diaba da Acádia que agitava sua grei! Você. E tudo não passou de uma lenta e convulsiva queda de todo o meu ser até o fim. "Caí fulminado como por um raio." — Valia a pena fazer disso um drama tão grande? — disse ela. . deslizou-lhe o braço sob os ombros.. de complicações e até guerras. por isso mesmo. — Mas afinal o quê? — Como vou sabê-lo.. ele exigia que eu abandonasse tudo.. pois era assim que eu sempre considerara os transportes do amor. que teriam provavelmente-ocorrido cedo ou tarde. adivinhava-o antecipadamente. e dos quais. em que vira apresentar-se ao mesmo tempo toda a artificialidade do fenómeno. me sentia presa.. não tinha outra alternativa. Mas. subitamente. mas que . às penas de uma paixão que só poderia ser corrosiva e mortal. Depois. O Amor!. e que reconhecesse: "Sou um dos seus". — Sim! Pois era a negação de toda a minha vida e. Eu compreendia.. entreguei-me. Seu peito erguia-se de maneira espasmódica. através de delícias e sofrimentos. mas que encontraram um pretexto para eclodir. tudo foi destruído. "Pior: agindo dessa maneira. "Encontrei-me nu. o Amor. minha condenação. que somos os únicos a viver.

"Perdi meus poderes. de que estava prisioneiro dos iroqueses. Não sem antes fustigar-me com palavras duras. e a Sra. reconstruído no estreito que ligava o lago Huron ao lago Superior ou Tracy. isolados. os andastes. e de seus ajudantes e servidores franceses. banido e relegado. no momento em que me sentia mais desprovido. mas também para receber proteção dos militares franceses. O ponto de ligação dos missionários era esse estabelecimento do Forte Sainte. num súbito acesso de cólera: — Sem sua intervenção."Contra você e os seus. Daí o rumor que se espalhara prematuramente nas cidades. que se apresentavam como anos ativos de apostolado. meu superior. E. os outros jesuítas. não recebeu nenhuma notícia de quem quer que fosse. ademais. naquele último encontro. Maubeuge me exilou." Deteve-se. num clarão. eu já sabia. nem com a importância dos trabalhos aos quais eu dedicava meus dias. censos e senhorias da Nova França.. Fui para muito longe. num outro tom de voz: — Maubeuge. para lá das corredeiras. não somente a fim de poder praticar sua nova fé. Eu o soubera. Eles deixavam o vale dos Cinco Lagos para vir se reunir à sombra dos franceses e dos jesuítas. cuidadosamente dissimulados aos olhos de seus irmãos de religião. o povoado de Lachine. Segundo o que dava a entender. convertidos. o jesuíta. os do Erie. e não mesurpreendeu. e vocês não a teriam conquistado. Eu estava vencido de antemão. de onde partiam. como. todas as expedições para o alto Saint-Laurent e os Grandes Lagos. " "Sentia no fundo de mim a covardia. — Nem com o que podia acontecer-me. me exilou. nada mais que selvagens. tentei todos os meus planos. e à exceção da passagem de alguns "viajantes" ou exploradores de bosques.-Marie. sempre estivera. Mandei buscar na França a súmula do processo de feitiçaria movido outrora contra seu marido. O Sr.. num estado de transes nervosos. sozinho e sem amigos. "Meus votos de obediência me obrigavam a me afastar. raros e a semanas de marcha uns dos outros. As missões agrupavam os índios batizados e os catecúmenos de nações iroquesas. e também iroqueses das Cinco Nações. e o medo de ser despojado daquilo que constituía minha força dominadora sobre os outros me atormentava. Fora os homens de guarnição dos fortes. Continuou. Entretanto. Ninguém procurou se informar sobre o lugar em que se encontrava nem fazer chegar-lhe às mãos qualquer mensagem. — De fato. mais ou menos desprovidos de licença. pois nenhuma notícia chegava jamais sobre ele. no fundo. o que ele me disse. recusando-se a tomar conhecimento de fosse o que fosse que acontecesse no Canadá ou na Acádia. depois lançou.Mas sua vitória em Quebec suplantou-me em rapidez. selvagens. de Peyrac . Procurava evitar os exploradores de bosques e os comerciantes canadenses. perto de Montreal. Situava-se a meses de navegação do último ponto da Nova França habitado. perseguidos e expulsos de suas tribos por esse fato." Falou pouco dos meses passados nos povoados de um largo setor entre o lago Frontenac ou Ontário e o lago Huron. parecia ter atravessado aqueles anos. mais ou menos dispersas e aniquiladas pelas guerras com seus congéneres pagãos: os neutros. como do Forte Frontenac. compreendi que ninguém se preocupava comigo — disse com um muxoxo de amargura. Quando vocês se aproximaram de Quebec.. à beira de um lago. eu teria retomado a cidade. a fraqueza invadindo-me.

que Ele nos destrua a todos. que não comece um novo dia. Eu olhava com inveja meus companheiros Marville e Labour. Conhecíamos a sorte que nos estava reservada. "Estava no inferno. E eles. dizia comigo. Certa manha de verão. dizendo-lhes que eles estavam nas mãos do Senhor. guerreiros e prisioneiros chegaram às cercanias de uma das primeiras aldeias do vale dos iroqueses. E era mais simples dizer que eu era cativo dos iroqueses. dormiam. que. vermes da Criação. em companhia do Padre de Marville e de um jovem "dado"canadense. e subitamente os troncos das árvores se desdobraram com uma silhueta humana. surgindo desse caos como que para me desafiar. "Ora. O céu era surdo. e todos procuravam voltar-se para os vencedores. via aproximar-se o momento das assustadoras torturas que já conhecera. Você. sempre a mesma. 'E agora esse corpo. em meu pensamento. depois de terem rezado. eu me dirigia a uma aldeia para celebrar a missa. além de alguns neófitos. E a lembrança daquela a quem eu devia minha queda voltou-me ao pensamento. disse ele. A tortura e a morte nos esperavam.' "Ah! A agonia de Cristo.. — Nenhum de nós tinha ilusões. felicitar-se com minha perda.. colocando a mão sobre a dela. humanos dementes e cruéis. "Tudo isso é falso. "Subsistiam em meu espírito apenas o medo visceral das torturas e. como você disse. a não ser por existir. como estava próxima! Nenhum anjo veio me consolar. ávidos em se beneficiar com o encontro. Eu não fizera por merecê-lo. rejubilar-se. Eu mesmo os exortara a essa serenidade." CAPÍTULO XXI O suplício entre os iroqueses— Um covarde entre os heróis —Eis em que circunstâncias fui capturado. O calvário começava. Estamos andando pelo centro de uma floresta aparentemente deserta. por me ter aparecido! "Mas. mas na qual os pássaros estão calados. Mas apenas depois de minha 'morte'. Você sabe como eles são. naquele momento. haviam mergulhado num sono tranquilo. as razões daquela odiosa fatalidade. "Fui invadido por uma fria paralisia.estavam em Que-bec. mas que jamais chegue o instante da dor que nos preparam. que havia um ano fora para ali devotar-se à conversão dos selvagens. eu hauria um sombrio sustento . Você não viveu. As palavras saíam-me dos lábios como substâncias estranhas.: "Não". Eu desaparecera. que não conheceu o amor. Não conheceu a felicidade. tremendo dos pés à cabeça. enquanto eu. foi inicialmente anunciada na Nova Inglaterra. vai ser entregue aos bárbaros para suplícios aos quais sua carne se recusa. Que Deus pare a terra. cativo eu fui. Um rosto. Você não tinha nenhuma responsabilidade sobre aquele delírio que me corroía havia tanto tempo. Num inferno às portas do qual havia deixado toda e qualquer esperança. "Queriam esquecer-me. como um animal forçado que sente a morte e espera o abate. espreitando as horas. reconfortados por minhas palavras. antes de o ser na Nova França. uma silhueta de mulher. Emanuael Labour. penetrado pelo terror. 'Ah! que a noite jamais termine. E eis-nos cercados por fantasmas emplumados que se apoderam de nós. Depois de dois dias de caminhada.. essa morte que. Estava num inferno povoado de demónios. "A noite foi longa na cabana onde fomos encerrados. quando fomos cercados por um contingente de guerreiros iroqueses.

"Três pilares nos esperavam. que haviam sido colocados numa outra cabana. 'Duas vezes.num sentimento de rancor e de ódio para com uma personagem símbolo — uma mulher — que.. Outros se calavam. Por um interstício das paredes da cabana. para ter-se combatido e feito perecer amigos e parentes mútuos. de seus amigos!. surgiu Utakê. como ridícula e perigosa impostura. Toga Negra. Toga Negra!'. ouvi nossos índios cristãos. para conservar-lhes a brancura e a saúde. com sua aparição. os guerreiros eram numerosos. que me enfrentou com seu olhar brilhante. cuja malícia jamais soubemos discenir.' "Pus-me a tremer. ter perdido meus dedos. Outra coisa. 'Inveja'. Ouço dizerem: 'Que belos dentes têm esses selvagens!' E eu sei que você procurou descobrir nosso segredo para conservar os seus tão belos e brilhantes quando eram quando chegou a nossas terras. munido de um sílex de gume afiado e de um pequeno malho e. "As náuseas do medo atormentavam minhas entranhas. Até a clareira onde. nem de ser diminuído diante de seus inimigos. disse ele. pegando-lhe a mão. nossos índios continuavam a insultar seus torturadores. Mas Deus me enganara. mas por instantes podia-se ouvi-lo vogar pela floresta. '"Você tão orgulhoso de sua dentadura. entre aqueles demónios prontos a me imolar pàrecia-me não só intolerável. £ eu o vi mascar goma misturada com argila fina e suco de su-magre branco. "Diante de mim. não! Duas vezes. Por essa brecha todas minhãs defesas haviam fugido. vi a luz do dia invadir um céu puro e suave. fazendo-me abrir a boca. "Minha presença-naqueles lugares. "Ao alvorecer. já bem queimados. mas com olhares lúcidos ainda. periodicamente. "O sol nasceu. refletindo-se na superfície de um lago. porém. e todos devemos nos esforçar para enfrentá-lo eventualmente. Um serviço limpo e rápido. Não me bastava ter sido torturado uma vez. Ora. conforme o ritual.. por uma litania de insultos e de responsos. uma coisa é tomar consciência de um erro ou de um fracasso. quebrou-me dois dentes. pois o canto se distanciava. "Revezando-se junto às vítimas. acima da aldeia. Você não gosta de sofrer. mas de uma insuportável injustiça. cortado apenas. transtornara o curso de minha vida. é perceber sua própria existência. "Disse-lhe uma vez que eu não estava preparado para nada do que empreendera. reunidos numa espécie de silêncio solene e preocupado. "Desse despertar dava minha perda. começou a serrar-lhe uma falange com o gume de uma concha. com a língua cortada ou queimada. lançavam-se ao rosto uns dos outros as razões que possuíam para se odiar. Percebi que vinham buscá-los. huronianos e iro-queses. num último sobressalto de dignidade. como todos os brancos. eu impedia de sair.. fruto ela mesma de um monstruoso engano. e sobretudo. já longa. não!' "Eu acreditava ter ganho por meu primeiro suplício direito à serenidade e à predominância. nos quais. e muito mais mortal. para lá da palavra. sempre espreitando. "Subia-me aos lábios um grito que. nossos dentes sadios. como nós. começarem a cantar seus cantos de morte. Depois percebi os bafios do cheiro de carne grelhada tão característico que uma-brisa levava até nós: o odor dos suplícios. "Um guerreiro aproximou-se do jovem Emanuel e. "Foi então que ele se aproximou de mim. também nesse caso. "Levaram-nos por nossa vez. ..

e que. "Depois. — Eu não ocultava absolutamente. os carrascos e as vítimas. nãol-Mais uma vez. Emanuel.. o que era reservado aos guerreiros poltrões que davam mostra de pusilanimidade diante da morte e do suplício.. daqueles. e que. o olhar azul e cândido daquela criança. com a fronte na poeira.' gritava-lhe. Mas era-lhe preciso prosseguir o alucinante relato. "Eu pensava: 'Eles já me tiraram dois dedos. O papa me recusará autorização por causa de minhas mutilações. Rastejava a seus pés. quando se lutou a vida toda para dominar os demónios do medo — continuou ele. me olhava.. todos aqueles olhares se apagaram. "Levantaram-me brutalmente. — Acalme-se. Eu teria beijado a terra viva. e. passaram a ser um único olhar."Tudo se misturava. Os olhos de Utakê eram duas lâminas cortantes." assistiam a minha ignóbil fraqueza. pois saberá que não sou digno'.. Nió pelos sofrimentos e pela morte próxima. Que me poupasse sobre tudo o suplício. disse comigo. mas por mim. 'Graças a Deus'. não!. . As lágrimas escorriam em pequenos sulcos pela face machucada. me olhava. do pequeno 'dado2 canadense. se me cortarem outros. — Faz mal a seus olhos. sem um queixume nem um sinal de medo. mas o centro de meu espírito tornou-se um turbilhão de revolta.. Acariciou-lhe suavemente a fronte.. Ela se levantou e foi banhar-lhe as pálpebras. "Mas essa situação humilhante foi julgada ainda muito honrosa para mim. nu. Não poderei mais dizer a missa. 'Mate-me... que se deixava destacar. estará acabado. enquanto ele arquejava com soluços secos e dilacerantes. meu Padre! Tornaremos a falar de tudo isso um outro dia. Ycalme-se! Acalme-se! — dizia-lhe Angélica. desespero e recusa. num tom baixo e reconfortante. no pilar de torturas.. dentre os neófitos. Eu a teria comido. daqueles que me cercavam. Eu ouvia esse grito e não sabia que era eu que bramia. 'Mais uma vez. mas poupe-me da tortura.. —Há uma certa volúpia em ser covarde. Dessa vez.' "O que havia de mais horrível nessa cena abjeta era perceber os olhares perdidos. horrorizado!. acredite-me. horrorizado!. semimortos. Você pode ficar cego. "Joguei-me de joelhos diante de Utakê. "Eu ouvira os chefes discutirem sobre entregar-me às mulheres e às crianças. "Era uma coisa demente e sem lógica." —Não chore — disse ela. os amigos e os inimigos. suplicando-lhe que me poupasse. e dessa vez ele não passará por cima disso. "Um grito! Um grito de pavor soprou em meu peito como um furacão... adivinhando o veredicto. se estreitaram. que havia trazido a toda a Companhia uma vergonha sem precedentes. pais e irmãos para fazê-lo morrer como um covarde sofrendo dores inomináveis. Estava abnubilado por aquele dedo branco do jovem adolescente que o índio ia serrando com a concha. aquelas pequenas criaturas inocentes de unhas pontudas não eram melhores que seus esposos. O que posso dizer-lhe? Como descrever o covarde alívio que eu experimentava por me reencontrar vivo e ver afastar-se o espectro sinistro dos sofrimentos desumanos? Pouco me importava o desprezo com que todos me cumulavam.. e pelas gotas de sangue caindo pesadamente no chão. farei o que você quiser.. permaneci estendido no chão. "Meio desfalecido depois dessa crise. tanto dos carrascos quanto de meus infelizes companheiros prometidos ao martírio. que ja haviam derramado seu sangue.e sofrido sua paixão pela fé cristã. escandalizados. constelada de equimoses e de cicatrizes pérfidas. os vivos e os mortos. incrédulos.

— Assim. tanto mais que eu era muito desastrado.. escoldado por Tahutaguete. que o honrava." 'Não espere nada de mim'. de L' Aubigniére. Utakê sabia que estávamos na Nova Inglaterra. Mas isso não a consolava. portanto. de que eu era seu filho ou a reencarnação dele. Essa perda a deixava sem ninguém para levar-lhe caça e realizar as tarefas que a idade avançada não lhe permitia mais efetuar. mas nós. 'você. precisamente. e queria que fôssemos avisados antes do franceses. pois jamais se vira uma mulher da aldeia servida por um prisioneiro que se houvesse mostrado tão covarde diante da morte. Era esse. e isso era muito vergonhoso para ela." — murmurou. a quem eu havia combatido tanto. que ela perdera na guerra. E isso não lhe concederei tampouco. ainda não lhe fora dado como escravo.. A vergonha recaía sobre ela. o terrível segredo que o jovem Emanuel queria confiar-me no jardim. como se recitasse uma frase que lhe martelava a memória.. apoiando-se na certeza.. no momento daqueles acontecimentos. que representava meu filho?' Eu tentava mostrar-lhe que. a mim. e ela era objetivo de zombaria e de brincadeiras perpétuas por parte das companheiras. como deseja. — O jovem Emanuel? Os iroqueses não o imolaram? — Não. . torturado durante pelo menos seis horas pelos huronianos do Sr. Ora. Ela abriu bruscamente os olhos... Você é muito vil.-Ora. Você susparia o título de mártir junto a seus irmãos. e tudo o que implicavam. e esclareciam em seu espírito. pois vira em sonho que eu era seu filho e que minha atitude diante dos chefes das Cinco Nações a desonrara. para si mesma. Os termos da confissão que acabara de fazerlhe. dizia-me. entre os índios. de seu martírio. morrera com muita coragem. Mas para ela essa divisão do tempo não passava de brincadeira. mas de sua existência. Ele acompanhava o Padre de Marville quando este. nós o vimos vivo. e me feriu com sua conduta. pouco robusto.. Então eu lhe lembrava que seu filho. meu esposo e eu. Ela falara a meia-voz. que se estabeleceu pouco a pouco. Você nos faz não só duvidar da grandeza de seu Deus. não existe antes e depois. Angélica ficou durante muito tempo sentada à sua cabeceira.. para ser seu servidor e substituir-lhe o filho. — Agora compreendo. me atiraram como lixo aos pés de uma mulher velha. 'Não lhe concederei o benefício de matá-lo com um golpe de tomabawk. chegou a Salem para levar a notícia dè sua "morte" e. disse-me. Oh! Como ele tinha razão! "Haveria criatura mais desprezível e mais despojada de todas as possibilidades de prejudicá-la que eu?! Mas eu compreendo a que imperativo obedeceu Marville. esse colar que dizia: "Seu inimigo não pode mais prejudicá-la". Ela confundia seu filho e a mim. você sabe que os sonhos têm para os índios uma prioridade absoluta sobre a realidade dos fatos." CAPITULO XXII À cabeceira do supliciado Quando ele se calou. — Por que Utakê quis que os ingleses fossem os primeiros a saber? — Não era "os ingleses primeiro". com as pálpebras fechadas. o chefe dos onon-dagas. "Para certas coisas. — "Inimigos mais terríveis do que eu sou para você. 'Como você pôde fazer isso'. tão repugnante em suas súplicas. "Minha patroa me moía de pancadas.' "Nada mais de seu desprezo me atingia. enviou primeiro a você. em seguida. aniquilado. mesmo quando.

Era uma ideia louca. de pavor e de pesar. Eu não era mais nada para eles. por não ter outra solução para ocultar sua vergonha.. No momento em que o chefe Utakê baixava sua mão e. eu gritava em vão. deve-se fazer-lhe justiça". Era preciso salvar a honra da ordem!" "E certamente não poupou esforço para isso." Deu um soluço profundo.... A morte do herói que eu havia sido. eu proferi. por desprezo. feito de humilhação. teria proferido em seu suplício: "É ela! É por sua culpa que morro!"? — Tudo isso é verdadeiro. Sua intuição era portanto correta. Eles não me vingariam como eu merecia ser vingado..... O que há de verdadeiro nessa acusação que.. que eu quisera ser?. que eu conseguira persuadir-me de meu enfeitiçamento. Tinham dormido durante minha agonia! Horrorizados com minha abjuração.a suas palavras.. a morte total.. Levantou-se para ir preparar e aquecer as rações." Ele se agitava. da covardia do maior e do melhor dentre deles... que devo minha morte. um sofrimento verdadeiro. ao que parece. a Dama do Lago de Prata é a causa de minha morte. declarando-me morto.. é a ela.. Minha morte total. enquanto ele continuava a falar... de dar àqueles que eu escandalizava pelo menos uma explicação que ateuasse o alcance de meu ato. concedia-me perdão.. minha inimiga de sempre. Vinguemme!. Eles não eram meus amigos!. eu admito — disse ela. Eu não existia mais. acusá-la. a mulher cuja visão me arrastara por um processo que eu não odia nem analisar. Soube que. que eu tinha sido vítima dos maus espíritos. subsistia em mim a vontade de clamar minha justificativa.. A ordem dos jesuítas tinha sido marcada com a mais horrível das máculas: a abjuração. monstruosa.. não deu atenção . Podia-se adivinhar o que sentira aquele jesuíta convicto diante da ruína do mestre.. receando que fosse acometido por um novo acesso de febre. Em toda aquela cena não deixara de supor o tempo todo uma mentira oculta. sentira vibrar um sofrimento de esfolado vivo. a seus olhos. — Eu falava de minha morte. a morte de mim mesmo. com todas as minhas forças essas palavras. que eu sentia desabar sobre mim.' "Vi suas faces lívidas e rígidas.. "Eu gritava: 'É ela. numa loucura fatalmente con-ária a tudo o que era o caminho reto de minha vida até então. — Que seu irmão em religião o tenha feito passar por morto. gritei. . — Mas que tenha aproveitado a oportunidade para invocar sobre nós a maldição do céu e nos tornar responsáveis-por seu suplício. A verdadeira morte. Vinguem-me!. Sim. e Angélica. o objeto responsável por minha ruí-a. pensou Angélica. Eles não me vingariam. "Eu o sei. que sonhara ser. Soube que nunca me tinham amado. Através da personalidade orgulhosa do Padre de Marville... de devotamente. a você especialmente. nem admitir. E fora ela que me matara. por exemplo. semelhante a um estertor. fazê-los acreditar.. eles me rejeitavam. avisando-o de que estava na hora de seus "ágapes" cotidianos. e só me aparecia ""esse caos. que devo minha p^rda. de respeito que eu acreditava que tivessem por mim. Nada subsistia dos sentimentos de afeição.. como lhe disse. rememorando o luxo de detalhes com que o jesuíta lhes descrevera em Salem a "morte gloriosa" do Padre d'Orgeval.. durante anos de mutismo e de solidão. a Mulher..testemunha de meu renegamento. ponto de me persuadir de estar certo. ao denunciar os sortilégios e gritar-lhes: "E ela! E ela que me condena. mas minha obsessão nutrira-se de tantas aberrações. de decepção. Ela. áDama do Lago de Prata. isso era levar a hipocrisia muito longe..

e embaixo. Ria sem querer daquela lembrança. Havia recebido um abalo interior mais violento que o da tortura.. — Palavra de honra. Angélica. parece até que você o aprova!. como profeta vingador. quando as duas "coisinhas". estava sentada nos degraus da escada de Mrs. deve ter-se apegado a esse pensamento de combater inimigos. meus pequenos Peyrac!. Pelo menos foi como indiquei a Marville. haviam desaprovado em altos brados a intervenção do Padre de Marville. Cranmer. "Vocês são a consolação do mundo! São o tesouro de minha vida!". apontava-a e gritava: "E ela que é a causa dessa morte".. Não era hora para amenidades. Olhando para os gémeos. a sotaina esfarrapada. mas.. como um segredo ao seu ouvido." Dava a cada uma um pouco de carinho.. Tomava-as nos braços e ninava-as. Era um ritual imutável.. Então. Depois de alimentar seus filhotes. sua casa. Mas não era o momento de recomeçar o debate. conteve-se.. Explodira então o vigoroso concerto gemelar e contestador daquelas criaturas que. Pois bem! Agora vejo que não é lenda quando dizem que os jesuítas sempre se apoiam. Fez as crianças se levantarem. com o rosto encovado pelas privações. precisava construir uma versão. e depois as fazia sentar-se num banco diante dela. E o espetáculo se encerrara. "Enquanto Tahutaguete o conduzia para a costa. cercada por todas as mulheres inglesas e heréticas da casa. "Para não ser por sua vez destruído. adorava sua fragilidade e sua inocência. murmurava. sua criadagem e tripulantes?." Ou simplesmente as amas-de-leite nervosas e curiosas tinham esquecido a hora da mamada?. derramava sopa numa escudela e distribuía o alimento em suas boquinhas abertas como as de passarinhos.." Angélica escutava-o. ou a obscura intuição daquilo que se declarava hostil à sua família. juntas. os cabelos embaraçados e sedosos. em sua perplexidade. uma após outra. em qualquer circunstância.. e sendo seus recursos de transmutação mística limitados. eu gritava que era preciso destruir aquela feiticeira. em seu roupão caseiro. sua mes-nie. seus pequenos corpos harmoniosos e perfeitos. a parturiente. para despertá-las suavemente. enquanto passeava de lá para cá. "Vocês já faziam parte da tribo. apesar de vontade de descrevê-la a seu hóspede. de nossos combates imbecis!. baixinho. pôs a esquentar o caldeirão cheio de água para as abluções e arrastou o escabelo para o outro lado da cama. não pesavam seis libras. evocou-lhes a primeira cólera. que acabara de pôr no mundo em Salem. em que a vida e o vigor fremiam novamente. o Padre de Marville. Humilhado como estava diante de minha ruína. seus dois anos e meio completos e solidamente postados em seu lugar nesta terra...— É verdade. à cabeceira . deu-lhes um pauzinho de ju-juba para enganarlhes a fome. intrigada. caso não estivessem saciados. a luz de seus olhos e de seus sorrisos. Está bem! Está bem! Ele agiu corretamente.. o caminho a seguir para prosseguir minha luta. Beijava-lhe as bochechas frescas. Teria sido o rumor de vozes desagradáveis ou o fato de se verem subitamente postas de lado por pessoas habitualmente atentas e subitamente transformadas como galinhas no galinheiro pela aparição de um jesuíta no seio da puritana Salem. "São a justificativa de nossas lutas ferozes. deve ter re-moído sua amargura. cantarolando-lhes um versinho.

— Sim!. Será que o mandou para mim para que acabasse com você. — Folgo em saber que ele tenha sido poupado — murmurou ele. CAPITULO XXIII O segundo martírio do jesuíta Conversavam sobre temas que teriam feito arregalar-se de uma surpresa inquieta os olhos de quem quer que não tivesse vivido na América. Não se deve pensar nisso.. que. depois cuspia. sentou-se com a tigela na mão e começou a fazê-lo engolir caldo em pequenas colheradas.... um irmão de combate. — É por isso que você tem essas duas feridas nas costas? Notara que não eram queimaduras. Folgo em saber que tenha escapado ao fogo.. Seja por apatia. Não.do ferido... ele demonstrava uma verdadeira repugnância em relação à comida.. Ele me comia. em pequenos pedaços que um guerreiro me retirava das omoplatas com uma faca bem afiada. você estava vivo! Não! Não! Utakê.. realmente.... o impetuoso e sorrateiro corcel do destino fizera-o perder as estribeiras. Ajudou-o a recostar-se nos travesseiros a fim de poder alimentá-lo mais comodamente.. E depois. pôs-se a considerá-lo como um irmão. Via nele um homem que superestimara os próprios talentos para dominar o cavalo fogoso da vida. dizendo: "Como sua carne é imunda!" — Quando aconteceu isso? Em que suplício? .. o fim do mundo.. julgou o momento inoportuno para revelar-lhe toda a verdade a propósito do pobre Emanuel... E que tenha conservado a vida.. em vez de víveres. para a glória de Deus e o benefício dos homens... enfraquecidos. Foi uma vertigem causada pela fome. Ele saberá o que fazer dela. — Talvez!. — Pois bem! A mim eles comeram — disse — um pouquinho assim. Se isso me passou pela cabeça. Não havia nenhum outro recurso. que meus filhos estavam morrendo. e julgando-o pela medida de suas experiências e à luz das confidências que acabava de ouvir. o fim de nossos mundos. uma tentação. Não sabia nunca se conseguiria fazê-lo comer sem dificuldades... — Você teria me comido? — perguntou ele. os fatos se encarregam de avisá-lo disso!" Essa máxima dirigia-se também a si mesma.... resposta que só podem ser trocadas por aqueles que falam. — Ele. seja por desejo de economizar provisões. Tudo isso é muito louco. numa dependência infantil? Suas mãos. um cadáver. Naqueles momentos irritava-se menos com ele do que quando ele discorria com uma súbita autoridade. apesar de seus cuidados deixavam profundos sulcos na pele..... Foi um pensamento fugaz. perguntas. e tivera uma esperança tão grande.... Vendo-o sereno e aceitando com docilidade o alimento que lhe oferecia.. Não sei o que ele quis. o comesse?. também estava morto. Não sei. Eu estava exausta. "Quando não se está preparado... Também pensei nisso... Emanuel... na penumbra de uma invernada sem fim. infelizmente. o jovem "dado" que tinha um nome tão belo. foi com horror.. seus braços estavam muito fracos para poder segurar a tigela e levar à boca a colher sem derrubá-las. certo dia em que ela lhe contava a descoberta na soleira da porta e o desagrado por encontrar. Seria o fim. Não.. enquanto me levaram ao suplício.. uma vida que ele pretendera superior. E que eu escandalizara tanto.. Sentia-se humilhado por estar entregue à sua mercê.. Começava a compreender que não tornaria a ver o homem que amo. e que as feridas cicatrizadas.

Eu acabara por me acalmar. Tínhamos conversas interessantes.. ganhamos os prémios do desajeitamento entre os senhores selvagens. você pode imaginar como. e à sua frente.. foi ela que se encarregou de me cantar meu canto de morte com o concerto que ofereceu com protestos e uivos.. agarrando-se. As mulheres índias não são nada tolas. "Vieram e me disseram a fórmula consagrada e para mim aterradora: 'Meu irmão. em que foram me buscar novamente. "Creio que nem vi passar as estações. Depois foi aquela outra manha. missionários. aonde o chefe dos mohawks. Gostam de refletir sobre os destinos humanos. Eu voltava muito depois delas. "Ó Hatskon-Ontsi. Você que é o maior entre os maiores dos Togas Negras." — Ouvi quando você repetia: "Ah! que ela se cale! que ela se cale!" — Sem dúvida. As neves começavam cedo aquele ano. Era evidentemente moído de pancadas da manha à noite. . o mohawk. ao saber da chegada de meu pior inimigo. Fez-se um longo discurso. encontrei alguns guerreiros em volta dos chefes das Cinco Nações. Eram pessoas muito jovens... minha cara Tia Nenibush.. encarregados de me levar à aldeia vizinha. Não receava nem desejava a morte. pois. talvez três?. -Durante meses.. pobre mulher. trata-se mesmo dela!. mas num estado de estupor e de abatimento que bambeava tanto as pernas que tiveram de me segurar pelos braços. não apenas mudo. Utakê. Minha única obsessão era o receio de perecer sob as dores do fogo. "Já lhe disse. "Segui-os. Um outono? Dois outonos. ia à floresta buscar um animal que um parente dela lhe caçava. "Você é mais desajeitado que os yennglis". "Não compreendi quando vi diante de mim quatro guerreiros. "Quanto a Nenibush. perdendo-me nas brenhas. "Estava pois nessa situação quando vieram naquela fria manhã em que estava tingindo peles. Eu estava tingindo peles. Fui imediatamente invadido por uma mortal inquietação. — Mas eu julgava que Utakê tinha decidido poupá-lo! — Eu também acreditava que já estava resolvido. Foi entretanto nesse trajeto que um deles começou a comer minhas costas. embaraçaçdos com nossas sotainas. coragem! Chegou o momento de cantar seu canto de morte'. acabara de chegar. nem a monotonia daqueles trabalhos humilhantes. acompanhando por zombarias das indiazinhas ágeis que também iam buscar os produtos da caça dos pais ou esposos. e o domínio dos sonhos abrem múltiplos labirintos à sua imaginação. aterradas por meu comportamento. Seus gritos gravaram-se em minha memória e me perseguem em meu sono. que descontava em mim seus nervos. furiosa. a meus trapos para não me deixar ir.. no terceiro. mais ainda que os exploradores de bosques comerciantes. Ia. me acostumara à minha escravidão. Eu recolhia e cortava lenha para ela. e no fundo éramos bons amigos. aqui está você! Teria reencontrado a amizade de seu Deus e o caminho de Sua Força?. que vinham procurar-me. como lhe disse. "Foi apenas no meio do caminho que os guerreiros conseguiram li-vrar-se dela. tropeçando nas raízes.. Utakê. a menos que me fosse concedida por um golpe de tomahawk. entre os jovens corajosos. diziam-me.— No segundo". Têm muito tutano. o que mantinha as forças de minha Tia. que são indianizados.. se quiser. Ao chegar ao burgo. Ouço-a ainda gemendo e maldizendo. à qual retiravam uma segunda vez seu filho-prisioneiro-escravo. que minha Tia e eu devíamos preparar para o parente caçador. nós. Chamavam-me de Mulher Negra e riam de meu desajeitamento para encontrar o caminho e penetrar na floresta. Não temia mais nem as pancadas nem as fadigas daquela existência. Nem as contei. O inverno era atroz.. eu me habituara..

"Pus-me a gritar de pavor. Não apenas o meu eu. com os punhos bem cerrados. "Diante disso. Só Gonsigo rever claramente o momento em que. quando ficaram bem perto. Depois. que elas me aplicaram aqui e ali. a droga ajudou-me a voltar ao ponto de partida. Nós. rostos. Quando chegou a mim. Estávamos vazios. eles começaram a morder e mordiscar. "Após deliberarem. 'Elas então irromperam com gritos agudos. que nos rejubilamos desde muito cedo com a ideia da morte nas torturas. Depois duas delas avançaram e. levaram-me para outra aldeia. No início circulou uma cabaça. vi que seguravam. vidas antigas que sobrecarregavam meu eu. "Finalmente. jorrando de cada uma das Casas Compridas como uma torrente rolando as águas mortíferas. que tinham se insinuado no centro de meu ser atual. reservada unicamente ao exercício de fumar. Depois desmaiei completamente. E calar-me. os chefes. aspirado por um fenómeno que me seria difícil descrever. pois creio que. Meus pulmões queimavam. os anciões. mais como médicos do que como torturadores. inteiramente impregnados de fumaça. Como lhe descrever? Também nesse ponto minhas lembranças são caóticas. cuja gravidade ultrapassa sua competência. só com a cabeça de fora. fora de seu direito. nas faces. paralisando-o com as gavinhas de uma vinha inculta. isto é. calou-se. mais do que de dor. Mas era tarde demais. que nascemos no orgulho de nossa morte. na testa. Minha covardia e minha fuga tinham feito deleita inimigo implacável. as palavras. encontrei minha alma..você nos feriu e insultou mais que ninguém. personagens de um tempo passado. onde havia uma choupana especial para pitar. Os cantos salmodia-dos sustentavam o estado de idiotia. Isso durou muito tempo. A couraça . Sim. por uma nova razão.. Falavam entre eles e me observavam com um ar sombrio e desanimado. alguns de seus 'prestidigitadores' e eu. "Era uma casa pequena. pediram-me que tirasse mais baforadas que os outros. pois nos o entregaremos às mulheres'. exibindo uma boca de dentes afiados. a fim de provar a grandeza do homem. teria podido suportar a dor em silêncio. após um longo momento. denso. e não ficaria surpreso se tivesse durado dois ou três dias. agora sei.. Os anciãos continuavam à minha volta. a seu ver. sabia-o. sem nenhum alimento. durante essa 'ausência'. sufocando-o. você nos humilhou em nossas crenças. mas.. disse: ' 'Vejo pelo seu rosto que não se emendou e que não merece sofrer a prova dos bravos. Entidades embaraçosas e estéries. de uma maneira. como os médicos contemplados um caso desesperador. pois apagou-se quase inteiramente de minha memória. "Senti náuseas. lanharam-me o rosto com a ponta de caniços cortantes. furioso por ter sido enganado. seguro por mil punhos miúdos e com garras. O ar estava azul. O cachimbo da paz começou a circular de boca em boca. não para beber mas para as necessidades naturais. Ficamos assim fumando sem beber. Mas não se rejubile tão depressa. arrastando-me para um canto até a sala do Conselho. "Revejo a cena. mas pouco me importava. os diferentes amálgamas de minha alma. Mas este logo se tornou rarefeito. "Deveria ter dominado aquele sentimento de repulsa. em que mal cabíamos. desembaraçando-se pouco a pouco dessas sombras. mais complicado que isso. unicamente para o líquido. desonrosa. enquanto as mulheres histéricas riam e repetiam que iam deixá-los atacar meus olhos. pequenos roedores que se debatiam. os anciãos interviram e me retiraram das mãos das mulheres e das crianças. que é deixar a criatura nova prosseguir livremente seu destino. "Ouvi-os pronunciar palavras que tinham mais ou menos o seguinte sentido: 'É preciso no entanto prepará-lo".' "Eu ferira profundamente Utakê. O que eu suponho é que. Eu me desou-rava mais uma vez. submergindo-o.não me atingiram. Durante essa 'viagem' talvez eu tenha conseguido expulsá-las.

ele voltou ao que se seguira à saída da choupana de pitar. Creio ter sofrido o suplício. No entanto. o que aconteceu em seguida? — Ignoro-o. que era preciso ao menos isso! Ajudou a quebrar essa concha petrificada ao redor do núcleo de meu ser." Passou a falar do mistério dos conhecimentos que o continente ainda inexplorado do Novo Mundo continha... Vejo Utakê acima de mim. Eu os cobria de vergonha.. Garagonti. que começou a nomear à meia voz: — Utakê... Era preciso pegá-los muito jovens. Os índios das possessões espanholas têm um cogumelo que permite tais regenerações. deslizando através do céu como velas.. Ele me diz: . por suas próprias forças. Eu não era um ser honrado. Somente o futuro diria o benefício que eu iria retirar daquela terapia singular. escolheram um lugar afastado da aldeia. Depois continuou a rir e. Tahutaguete.era tão dura. Nisso... com caras de nojo de pessoas obrigadas a realizar a mais entediante e insípida das tarefas. Dessa vez. Vejo os machados incandescentes que passaram ao longo de minhas coxas e parece-me sentir aquele cheiro infecto de carne queimada sufocando-me. que não aproveitava os precisos tesouros e ensinamentos "dispensados pela natureza tutelar.. melhor dizendo. depois de refletir por muito tempo. pois parece-me que estou estendido no chão. "Estavam tão convencidos de que não podiam tirar muita coisa de mim que renuciaram a pedir-me para cantar meu canto de morte enquanto me conduziam de novo ao sacrifício.. — Ainda assim.. "Usadas eventualmente. Os anciãos não se iludiam.... Para eles.. eu não estava curado... elas salvam o espírito sem prejudicar o corpo. mas. para fazer deles homens dignos desse nome. sempre ele. e prepararam os instrumentos para aquecer ao fogo: machados. ele é muito grande e ele me domina. Ela esperava com paciência. os brancos eram uma espécie ingrata e inoportuna. Não sei se gritei novamente. muitas drogas são úteis quando a alma não pode. Mas ele repetiu: — Ignoro-o. uma visão. mas que estavam podres e eram portanto perigosos. — Tenho ainda uma última lembrança.. É muito vago. "Eu adivinhava seus sentimentos. pois continuavam a me olhar com ar dubitativo. atrás dele há o sol e grandes nuvens brancas dilatando-se." Angélica ouviu-o dar risadinhas como se revisse o espetáculo. Deu novamente uma risadinha nervosa e soluçante.. onde havia um velho pilar abandonado. modeladas pela luz. para torturar uma criatura tão reles. naqueles momentos. reencontrar o fio de seu destino porque o Maligno. Ela pensou-que ele tivesse adormecido. E. e creio ter sofrido horrivelmente. ajudando pelo menos a sobreviver sem enlouquecer tudo quando o que é humano se fecha. Hiyatgu. a ablação de órgãos importantes. e sobretudo as expressões aborrecidas dos carrascos humilhados.. sentia-me mais como alguém que acaba de sofrer uma cirurgia. sovelas. aumentando a vergonha de meus infelizes carrascos. Gosadaya... lembro-me também. — E. Deixou passar um longo tempo. diziam. de minha parte. se divertiu em embaraçá-lo para perdê-la. ela percebia-lhe um espírito jovem e brincalhão que apenas sua existência entre os selvagens lhe permitira exprimir.

aquele nome. ela adivinhava que Joffrey despertava nele um antagonismo mais confuso. sua voz se abrandava.. julgo ter conservado a esperança de que um dia eu poderia entrever a face luminosa da mulher. depois de ter-lhe conhecido o lado venenoso. sofrimento e compaixão. estaria procurando no silêncio o esquecimento? Ela continuaria a falar-lhe. Vou enviá-lo para além dos montes.. provocando nele uma irritação mesclada de amargura. Não admitirei que deixe em nossas memórias uma lembrança de desprezo e que se ouse dizer. sem sabê-lo." 'Não creia que vou perdoar-lhe a vergonha. "Entretanto. então. contra a qual não há remédio. todas as dores.. A taça da salvação seria afastada de meus lábios. Minha via. extasiado e aterrorizado. que havia arrastado Adão e toda a criação ao caos do pecado. tornarei encontrá-lo. como nenhuma mãe. mostrava-se prudente quando se sentia tentada a mencionar Joffrey de Peyrac. Seus olhos cruéis chamejaram. Hatskon-Ontsi. a quem cabe esse direito.. A gente acredita que parte para as missões da América. a você que foi tão grande. Você atraiu maiores inimigos que eu. mas agora sei que parti para um outro encontro.. houve um período de interminável mutismo. Eu retornaria às áridas e inelutáveis certezas da crueldade do mundo. até ser digno de que eu devore o coração!. Ela curava minhas feridas e dava-me de beber.' "Diante do enigma dessa resposta. "Então. houve uma longa viagem obscura. de que não me lembro. "Perguntei-lhe: "Por que não acaba comigo?" " 'Não cabe a mim acabar com você. Quão sutil e refinada foi sua vingança! Do mesmo modo que não podia fugir do tição inflamado aproximando-se de minha carne. a fim de manter-lhe o espírito alerta. a "traição" vinha do homem. '"Eu lhe declaro.. quando.'" — Em seguida. eu disse meu nome. "Da época mais sombria de minha infância.. você sofrerá. Entretanto.. "Eu a reconhecia e nunca pensara vê-la tão próxima. Se ele proclamava muito alto que ela era sua principal inimiga. pois dessa vez. e ele devia ter sonhado com um mundo em que todos os homens se uniriam para rebaixar e reduzir ao silêncio a Eva culpada.. senti medo novamente.. nesta terra. compreendi o quê Utakê quisera." C A PIT U L O X X IV Amor e ódio no jogo das paixões Após esses dois longos e penosos relatos. Mortificado em seu orgulho. ou dizer: "meu esposo". não podia furtar-me à derradeira prova: "O sonho ia estourar. nenhuma mulher jamais fizera por mim.. Hatskon-Ontsi. encontrava seu significado naquele caminhar. A quem iria entregarme?. Mas eu o perseguirei. pois sabia que. todas as paixões. Evitava instintivamente pronunciar-lhe o nome. "Quando despertei estava entre seus braços. a você que me enganou e me insultou mais que ninguém no mundo. quando seu nome for evocado: aquele que não merece sequer um nome era o inimigo de Utakewata! Você vai partir. por minha vez.. eu esperava. só pude ler em seu rosto tristeza. Ela se identificou. .

Sua face estava emaciada. tentativa de justificativa à qual não queria renunciar. Era uma missão sagrada. a aliança eficaz em tudo. Você era o Homem negro que estava por trás da Diaba da visão. O conhecimento mútuo. "Com esses dois. como em Katurunk. Atacar o Forte de Wapassu em nossa ausência e queimá-lo.Por provocação. soube melhor não quem ele era. mais do que com qualquer outro. não sabendo nada sobre seu fim. querendo decifrar em seu rosto a sentença em que se recusava a acreditar. mas quem era você. jamais tive qualquer querela. e. — Foi você que o matou? — Sim! Reclinou-se lentamente para trás. que o afastaram de você. Temiamuito por sua vida. Em nossas missões e em nossos trabalhos. Um entendimento perfeito. Inclinando para ela. pois conhecia-o muito bem. — Eu não disse a ele para vir. falava do desafeto sentimental do Cavaleiro de Malta em relação a ele. "E você mente a si mesmo. O que lhe aconteceu foi lógico e sem más intenções. Nem sombra. Sempre contou com ele. "Fqlo de um de meus colegas de ordem. . seu amigo e mestre. — Pont-Briand não era alguém que se pudesse elevar ao nível de amigo. que eram uma parte de mim mesmo!" — Como soube que o Cavaleiro de Loménie estava morto? — Morto!? Seu grito explodiu como o de um homem que acaba de ser atingido no coração por um punhal assassino. para obter nossa capitulação! Sempre esperou que ele se arrependesse de sua cegueria. ele fitava-a com um olhar alucinado. "Mas deixemos Pont-Briand. quando dizia: "Eu o perdi". que voltasse a você. perdi meus dois amigos mais queridos. Angélica compreendeuque. — Como julgar os seres sem deixá-los fazer uma escolha. Dessa vez ele não faltaria com seu de ver. — Acontece que foi ele quem ouviu melhor seu apelo: "Vingue-me". — Por sua culpa. que o levara a pronunciar-se a nosso favor. "Ele pretendia renovar a façanha frustrada de Katarunk. Eu tinha catorze anos e ele. onze. e realizaria seus desejos de álém-túmulo. — Fui a causa disso? — Você é a causa de todas as desgraças da Acádia. Uma vez mafs. onde ele me sorriu pela primeira vez. Era apenas um executante. que reconhecesse seus erros culposos. Você o soube sempre. o Reverendo Padre de Vernon. E foi só você aparecer para tudo desmoronar! O meus amigos desaparecidos! Quanta mágoa por tê-los perdido assim!. Foi sentar-se ao pé da cama a fim de olhá-lo de frente. ele não hesitava em se mostrar acerbo. — Você o induziu a isso de maneira hábil e maquiavélica. No outono. e assim se desmascarar? Eu movi para a frente esse peão. a vocês. e depois do Cavaleiro de Loménie-Chambord. como fez em outras oportunidades. Cjueria mantê-lo afastado de minha desgraça. — Ele?! Não é possível! Onde? Quando foi isso? — Aqui mesmo. — Pont-Briand? Ele se impacientava. quando recomeçava a falar. de Peyrac. meu irmão dileto desde o colégio de Clermonte. e também a que tipos de provocações podia reagir o Sr. graças a essa manobra. Ele cumpriu seu papel. você o enviara para a vingança. e ele veio. até então. "Mas eu estava presente.

eu teria sido entregue a Ambrosina. — O Cláudio. O sofrimento o consumia. não sem ter antes pilhado e depois incendiado Wapassu. pelo menos sua lendária habilidade lhe terá poupado uma longa agonia? Pois. não como triunfadora dessa vez. Eu o abati."Não tinha outra alternativa senão executar-me. libertando-se com tanto mais cólera quanto nunca deixara de recear ter tremido demais ao puxar o gatilho.. Ali. numa de minhas voltas. Por várias vezes ele se defendeu de ter feito a Sra. após obter a rendição de todos os nossos territórios até Gouldsboro. jamais a perdoaria. Meu medo das mulheres. quem sabe. Ambrosina esteve comigo em Paris.. suas tropas se retiraram. ou reconduzir-me à Nova França. — E devo perdoar a você? Você se preocupa com nossos feridos. Ela sabia que sua paixão me repugnava. encorajando-a a fretar uma expedição cujo objetivo era enviar colonos. mas por falta de energia para continuá-lo. como butim. crianças que vi nascer aqui em Wa-passu e que foram arrastadas pelas "pistas intermináveis do retorno". de Maudribourg vir para a América. Gouldsboro. vi-o aproximar-se. Depois. discípula de Satã. é preferível acabar com um ferido a arrastá-lo pelas intermináveis pistas do retorno!. morrendo talvez de frio e de esgotamento. que caíra nas mãos dos hereges. onde eu estava refugiada. com aqueles que seus "vingadores" deixaram agonizar na ravina ou. correr o sangue. ferido.. concebi a ideia de fazê-la servir a meus desígnios. Ele estava persuadido de que eu me deixaria convencer. ofegantes como dois lutadores esgotados pelo combate e que olham. que tinha influência. meu amigo. não por falta de acusações para lançar ao rosto um do outro. Isso tinha raízes tão profundas! Jamais me tentou. não pensava que viria. de Belial e das oitenta legiões do Inferno!.. pálido e sem fôlego. reconquistar um território que eu julgava francês. É melhor assim. minhas amigas. — Com efeito! E preferível o verme e a sujeira das Casas Compridas iroquesas a cair nas mãos de uma Ambrosina. Quando soube que estava rica. pasmos. — Selvagens fedorentos? Por que fala assim dos selvagens? Eu a ouvi felicitar-se por saber que sua filha Honorina estava refugiada com os iroqueses e em segurança. que erguera uma barreira entre ela e meu desejo. O ciclo infernal estava fechado. — Ele morreu imediatamente. quando eu ali pregava. O que mais poderia fazer? Render-me? Trair os meus? Meus esposo? Meu amigos? Todos aqueles que haviam confiado em nós? "Privadas de seu chefe. espero?. ou entregues cativas.. — Se tivesse de encarar seus longos sofrimentos e sua agonia.. Por sua culpa! Por sua culpa! Eles se espreitaram. Cláudio! — gritou — Meu irmão. O que não impede que seja um destino terrível ser prisioneiro dos índios. abespinhados. no incêndio? Ignoro tudo o que aconteceu a meus amigos. Aquele que você havia escolhido. de Lúcifer. a selvagens fedorentos. — Apesar de tê-la encorajado a trabalhar em meus projetos. Jamais me perdoou por haver fugido dela.. escolhidos entre corsários ou flibusteiros. não é? — Não sei! — gritou. "Do alto deste fortim.. minhas companheiras. Segurou-lhe o punho. — Eles retiraram o corpo e se foram. Pelo menos você o matou imediatamente. cessaram o debate... Ela era meu medo. mas como prisioneira. Diga-me. longe de qualquer socorro. Senão." Ele baixava as pálpebras. não sei se poderia perdoar-lhe o destino dessas mulheres e crianças. .

em resumo. Tomou-a em seus braços — . Começava assim: Minha cara criança. Naquele momento.seu esposo. nas quais me solicitava o obséquio de fazer chegar a carta anexada à Sra.. — Estava apaixonado por você. — Ela não deveria ter nome. Denunciou-a numa carta que lhe era destinada. indo: de um ministério a outro. Não pode censurar-lhe não se ter mostrado um executante hábil e eficaz nas missões que lhe confiou. e ela se rejubilava por desempenhar um papel num obra que causaria dramas e derrotas. Essa carta continha um envelope selado com suas armas e algumas breves linhas. ele ainda não a havia trazido consigo.Para me tirar da água.. "Julga que o fato de o Padre de Vernon tê-la desmascarado seja razão suficiente para que você se queixe de tê-lo perdido." — Pensei ter entendido que no momento de partida do La Licorne a polícia estava em seu encalço. o seguinte: "Sim. — Ambrosina também jamais foi uma criança. por minha culpa? Ele continuava a ser-lhe muito dedicado. francamente! Ele. espionar os novos ingleses ou assegurar-se da mi-nha presença no navio de Clin Paturel. acabava de ser presa pelo policial Desgrez. Ela recrutou Colin Paturel. Estava ainda na casa do Barão de Saint-Castine. "Quando lhe foi dada a oportunidade de desenvolver astúcias e enganos e desempenhar o grande papel de sedutora junto a um número considerável de homens. depois de tramar sua morte. Vi brilharem seus olhos quando lhe falei de.. — Você está obcecado. Tive essa carta sob os olhos e lembro-me que ela dizia. Teve tempo para reunir todas as informações a seu respeito. ela era minha penitente. mas não é a mulher que me indicou expressamente como tal. Toda vez que a nomeio sinto um calafrio — Ela se chama "legiões". pudemos.. depois de tê-la deixado reconquistar Gouldsboro. enquanto amigo. — Bela consciência! — Era uma carta de amor. ela deve ter tomado a decisão de fazer parte da expedição. minha pequena companheira do VOiseau Blan". Mas como você sabe de tudo isso? — Recebi dele uma carta enviada da fortaleza de Pentagouet.. ela fez' maravilhas. Frio com gelo! Confundi-o facilmente com um inglês. de Peyrac caso lhe acontecesse alguma desgraça. Eu era seu confessor. Era um produto das trevas. Sua melhor amiga. seu "navio e sua tripulação. como o Coronel de Loménie-Chambord. A Diaba está em Gouldsboro.. de Brinvilliers. Ou seja. conciliar-nos. — Padre de Vernon suspeitou dela imediatamente. — Aquela carta? Então você a leu? — Sim! Eu era seu confessor. Tomando. a iniciativa de contrariar minhas ordens e de julgar minhas intenções. Os armadores mais empedernidos vinham comer em suas mãos.. a Condessa de Peycrac!!.. um monstro de perversão. Eu a encorajava a colocar-se como benfeitora para a salvação da Nova França. meu padre. mas que ela furtou em seguida."Em Paris. — Belo confesso! — Essas licenças são autorizadas aos diretores de consciência. Os togados caíam como patinhos em suas armadilhas.. Quando lhe indiquei sua presença. também ele. depravada desde a mais tenra idade. Era muito hábil e ultrapassava de muito as recomendações que eu teria podido fazer-lhe. Senhor! Que jesuíta! Fazia-me pensar em meu irmão Raimundo. ela e eu. E descobria-se uma das maiores envenenadoras da história. o Padre de Vernon! um verdadeiro jesuíta. a Sra. .

recompondo-se — . Mas há mais algumas coisas. você quer dizer que eu não faço o jogo. os desgarrados ou os inecrupulosos.. aqueles poucos segundos de hesitação antes de atirar. não?. Entre as leis do Céu e as da Terra.. O meu caro Merwin! Como estou feliz!. O Padre de Vernon não pôde deixar a senteça ser execultada. — Perdoe-me! — disse. os 'ternos'. "É fácil abusar da bondade e do impulso dos corações generosos para causar sua perda. Eu o abati ". Não conseguia esquecê-lo..escandalizado com a brutalidade com que ela resumira a cena fatal: "Ele vinha com as mãos nuas. aos pés da força?.Subitamente. onde.. E subitamente você se revela astuta. Sem terçar armas?. Ele também fizera sua escolha. meus filhos.. com a ajuda de Saint-Gastine.. O ser humano está no meio. — Se bem entendo. Ele mergulhou!. escapar àquela escolha.. Necessitaria de horas para descrevê-los.. porque lhe expus todos os conflitos e tormentos que agitaram minha alma e partiram meu coração.. Sempre me foi insuportável dar a meus inimigos a'satisfação de minha derrota sem fazê-los arrepender-se. a rir tanto que as crianças. Não suportava principalmente a insensibilidade dela." O Amor me protegeu. seria tão fácil. Aquele da mulher hereditariamente submissa. de um modo ou de outro. falando de paz.. o humor de Angélica mudou. como pretendia. . Era chocante! — Mais chocante para mim. sobretudo. e ela começou a rir... Eu o abati". do guerreiro. deixá-lo continuar. — Compreendo agora como você pôde vencer Ambrosina. Julgam-na uma mulher sensível. Mais tarde... teria deixar-meenternecer. meu padre. ele voltou ao assunto de Loménie-Chambord. Haveria mortos. renegando a aliança que fizera conosco. são os outros. Não é a primeira vez que me fazem essa censura e. "Você me achou brutal. Não pôde deixar que eu fosse afogada. mas a vida é tão maravilhosa! Uma vidente mê disse um dia: "O amor a protege!. não é? "Fazer o jogo. E a mediocridade. E a vida. Foi Sebastião d'Orgeval quem dessa vez voltou lentamente os olhos a fim de observar aquele perfil de mulher ao seu lado. meus partidários.. deixar-me submeter. sem pé nem cabeça. prostrando-se.. sua campanha até Gouldsboro. "Não somos nós.... não é coisa certa. implacável. O da sensibilidade e da generosidade.' "Mas ele continuava a avançar. quem sabe?.. O da fraqueza. Eu lhe gritava: 'Não se aproxime! Não se aproxime!. Contando com a afeição que eu lhe dedicava para render-me mais facilmente. escapar a todos os que não o compreendiam mais?. A fraqueza muitas vezes apenas adia o massacre e multiplica sua amplitude. que não têm escrúpulos. fatalmente espezinhadas e destruídas pela crueldade e traição dos adversários."Que jogo?.. vulnerável.. que nos mostramos duros e intratáveis. sem isso!. em minhas palavras. O que acontecia com ele? Recaíra sob sua égide a ponto de fazer pouco de sua própria honra. aureolado pela luz proveniente da lareira. Ele não tem escolha. repetiu. que ficam desolados com isso. ou contra ele. acordadas. Sou uma sagitariana.. entregando-lhe Wapassu. Restabelecer o equilíbrio entre o Bem e o Mal. É isso o que ela não lhe pode perdoar. Uma questão de justiça. vencida. o estabelecimento lhe teria sido entregue. desastroso — replicou Angélica —. é a felonia dos outros que nos obriga à escolha. inclinandose espontaneamente diante do homem.. Ficara alvoroçado. a imitaram. comprazer a sua memória? Ou tentava escapar?.. por pouco que seja. para comprazê-lo.. segui-lo. aquela boca fina e perfeita que pronunciava tais palavras.

Seu antagonismo explodiu mais uma vez. ela tomara o cuidado de fazê-lo flexionar as pernas. Saiba. pelo menos uma vez na vida. desespero diante do irreparável. imperfeitos. Os progressos foram lentos. parecem fúteis. como daquela vez em que ele se erguera para alcançar-lhe a mão e beijá-la. e ele se apoiava com a outra mão no pequeno Carlos Henrique. Chegava o momento de encorajá-lo a mover-se ainda mais. CAPÍTULO XXV A fuga das crianças — Esperança de salvação Imaginavam sempre que tudo fora dito. a de servir-lhe. as lágrimas que fizeram correr. que se arriscavam a ficar deformados pelas cicatrizes. "Cláudio de Loménie morreu porque ele fizera sua escolha. — Hoje você deve tentar sentar-se — disse-lhe ela. Acima deles passavam os-eoros do vento e também o dos anjos em cavalgadas fantásticas. depois de um longo período inclemente de noites e tempestades. paz. Para sobreviver ou para defender a inocência. marcados contudo por etapas decisivas. os lutos que engendraram. esquelético. Enquanto retomavam forças. pela cintura. Pois eu também o amava. uma vez saciadas. a uma palavra. um dia em que temos de pegar em armas. o carregava."Quer o queimaremos. E isso evitava o enrijecimento dos membros. entre eles. Sr. por terem. feito o jogo de reles paixões que. mas aprendi como ela era inelutável. enquanto ela o segurava. quer sonhemos com harmonia. apesar das dores. Desde o início. o desespero. por boa vontade. flutuaram sobre águas pacíficas. despertavam-se o rancor. arrependimentos por terem se mostrado medrosos. chega um momento em que somos obrigados a fazer uma escolha. sempre imperfeitas. quer não. desengonçado. E depois. Poucos são os que podem evitar enfrentá-la. com um dos braços em volta de seus ombros. os arrependimentos. esgotados. Pois ela notara que ele podia executar movimentos que davam mostras de flexibilidade e de vigor. estendendo-lhe as mãos para segurá-lo. mas conseguindo deslocar os pés algumas polegadas. . e isso ocorreu todavia de um acontecimento que deveria ser marcado pelo signo da alegria: sua primeira saída do fortim." Essas duas cenas convulsivas deixaram-nos abalados. felicidade cotidiana. que a paz voltara a reinar. ou melhor. que o faziam gritar. durante o qual não puderam fazer nada além de ficar enterrados em seu buraco. compreendendo a inanidade de suas discussões e a profundidade de um sentimento que vinha de longe e que se parecia com a amizade. Rancor por ter pago um tributo tão pesado. d'Orgeval. crianças felizes em meio a nossas obras fecundas. desproporcionais em relação aos desastres que acarretam. superadas de uma hora para outra como que por um milagre. como um polichinelo quebrado. que me impôs um ato de que nunca me consolarei. Um dia ele ficou de pé. a uma alusão. estendidos lado a lado. saída que veria os primeiros passos do "ressuscitado" à luz do dia. das queimaduras. E essa obrigação o que mais odeio.

erguia uma bárbara catedral do outro lado da colina. as interpelações dos homens. andava-se de trenó e as crianças deslizavam à beira do lago. presas do frio e da luz. Odiou-o por isso. os risos das mulheres. — Com você. chamando-se ou encorajando-se em seus trabalhos. tendo ela e Carlos Henrique dificuldade em sustentá-lo. antes que a tempestade os aprisionasse por outras longas semanas. Isso lhe partiu o coração. A de não levar em conta a emoção que tais palavras. causaram sua perda. ela decidiu dar uma saída com ele e as crianças. sempre evitara voltar-se para aquele lado. vou envelhecer dez anos — disse-lhe ela. Com as crianças. Fora um erro não ter renunciado a ela e prosseguir em seu desígnio. sapatos do guardião da casa — o que teria acontecido cõm o pobre mudo? —. Enfraquecida pela contrariedade e pelo rancor que aquelas reflexões mal-intencionadas de seu paciente lhe haviam provocado. E a época. Trouxe-lhe para aquela ocasião calções. estremecendo: — Como ousa brincar sobre suas traições? A canalha perniciosa de que se cercaram. Angélica e Joffrey subiam ao cimo do torreão e olhavam a animação em volta da bela fortaleza de madeira de Wapassu. Estava preocupado em avançar ao longo do corredor. A aventura começava mal. além do casaco e do gorro de pele forrados. Quando conseguir transpor a trincheira gelada. distribuindo salsichas e pães com melaço. achando-se de pé ali na neve. que era preciso amealhar. mas hoje. Quando da chegada do Padre d'Orgeval moribundo. Angélica desprendera a porta. Cometeu uma imprudência. obrigou-se a ter paciência e permaneceu em silêncio. depois de ter-lhe tirado os andranjos que o cobriam. que organizava suas partidas de patinação e piqueniques no Pão de Açúcar. nos outros invernos. por causa das palavras que acabara de ouvir. passando as breves horas ensolaradas do dia a flanar. Os gritos das crianças soavam ao longe. injustas e revoltantes. em que alguns ursos se arriscam a uma saída titubeante para em seguida tornar a mergulhar num sono mais benéfico. O frio continuava intenso. foi amargo. o olhar que Angélica lançou sobre a planície branca e resplandecente. haviam proliferado em torno. pusera o nariz para fora e percebera a carícia do sol para lá do abraço do gelo. experimentava uma perigosa vertigem medindo toda extensão do desastre. recoberto de neve. ela vasculhara entre as camisas e coletes de Lymon White para vesti-lo.Como o tempo melhorara. na . Como ele estava de pé e muito vacilante. custando-lhe cada passo um grande esforço e provavelmente muita dor. erguiam-se toldos em volta de braseiros. Saíam para tomar ar e sol como uma panaceia. sentiu-se mal. A estação atravessava um período de estabilidade. pois acabara por se esquecer. meias. Para as crianças eram sempre dias de alegria. O que via destacar-se contra o céu azul eram as ruínas de Wapassu. Nessa época. todo mundo saía. em vez de feliz. no meio da invernada. você e seu esposo. ou. com a fumaça elevando-se dos telhados enterrados das outras casas que. despertavam nela. Quando viu o jesuíta. Em Wapassu. para imitar a sociedade de Quebec. entre quatro paredes. sob sua salvaguarda. sob o peso das neves. ia-se ver os índios. cujo caos. Faziam-se visitas. que era arrastar todo mundo para fora. Nas saídas precedentes. equipado dos pés à cabeça. passeava-se com as raquetes. perto das quedas Montmorency. Mas ele não compreendeu. mas o sol brilhava sobre a neve recém-caída e fofa. não resistiu à malícia de perguntar-lhe se ele não ficava impressionado por estar vestido com os trajes de um inglês puritano congregaciònalista de Massachusetts. Ele replicou.

Dirão que ele se suicidou? Receio que uma vontade estranha o impeliu a isso. de Peyrac. Pois bem! Aí está. Você ganhou. a você. Mas o espetaculo era para ela ainda mais penoso pelo fato de se encontrar diante do homem que quisera aquela derrota e que podia rejubilarse com ela. sentiu-se enlouquecer de indignação." Ela ofegava. Morreu para que ninguém conhecesse a verdade sobre sua ruína. — E?„. espreitando-a com um olhar ansioso. a você... Ele não aguentava mais sentir-se envolvido nessa felonia. Ele não a acusou. de pé ao seu lado. "Você o teria feito. a Dama do lago de Prata. para arrastar aquela pobre criança. mas não enganaria ninguém.. Eis o que explicava sua palidez e seu desatino. Ele foi até o jardim. inocentada pelas mais altas instâncias da Igreja. Marville soube o que conseguiria colocando-o nos altares. como diz. teria sacrificado a criança também você. ter-me-ia dito chorando. ele transmutou esse chumbo em . Repisara-as por muito tempo. Eis o resultado! As palavras violentas lhe saíam da boca.. enfraquecida pela fome. para me fazer revelações. A honra da ordem está salva... Mas era incapaz de ordená-las. E como Angélica julgasse ter surpreendido no olhar fixo pousado sobre ela um brilho de alívio." O jesuíta tentava acompanhar-lhe as palavras loquazes.. — Teria sido preciso tão pouco para que tudo fosse salvo!. a destruir-se a si mesma.. de seus fiéis. E nossa obra está aniquilada.. não é? Você o teria feito? Teria jogado com seus "poderes".. dirigindo-se a forma masculina. Pois as últimas adjurações de um santo mártir são ordens sagradas. a se afogar voluntariamente. No dia seguinte recolhiam das águas . de dar uma coesão ao que lhe queria explicar. Era preciso salvar a honra da ordem.urgência das ameaças da fome. tão cristão.. que o traíram. sublinhavam as palavras irrisórias que ouvia a si mesma pronunciar. a desencadear certas influências. desorientada. — Olhe! — gritou. em Salem. como o Padre de Marville o fez. padres.. Tudo não passa de mentiras". como tantas vezes fizeram. quando julgam necessário.. — Você também acha que está tudo bem assim. ia gritar-me: "Não é verdade! O Padre d'Orgeval não morreu como mártir entre os iroqueses. Ele falou? — Não teve tempo. pela fadiga e pelas torturas. vocês. se não soubesse que vocês não hesitam. lançando-as aos quatro ventos do universo gélido. para que o pobre Emanuel tivesse tido tempo para me falar antes de morrer! — Morrer? Emanuel? Você não me havia dito que ele fora poupado? — Pelos iroqueses. Sabendo que não poderia jamais apagar a realidade de seu ato. como se poderia explicar tal gesto.. carregando seu segredo para o túmulo? Ele. — Eis sua obra! Rejubile-se! Você se queixa de seus amigos.do porto o corpo de Emanuel Labour. Não se lamente mais disso. Intimou o rapaz a calar-se e segui-lo. Pequenas nuvens de vapor escapavam-lhe da boca.. Não o revi mais. — As últimas palavras de um mártir têm o peso de ordenações! O imperativo de um testamento!. encontrar um pretexto para sua fraqueza.. Olhai à sua volta. tão corajoso. Ia falar. Mesmo assim eles o vingaram bem. repetindo-as em voz alta quando ficava sozinha no silêncio do deserto branco. senão para dissimular sua fraqueza diante das torturas. O Padre de Marville surgiu diante de nós. Sra. "Eis o que estava prestes a me dizer. Ia confiar-me sem dúvida o que vira no vale das Cinco Nações. sim! Mas não pelos seus! Ele está morto!. "mas vejo meus mais veneráveis mestres construírem uma lenda destinada a enganar as almas piedosas".

com os olhos fechados. a glória e a reverência que lhe são devidas. pensou. Mais uma vez Angélica se encontrava diante de um desconhecido. Mas como é que elas conseguem? Eu mal tenho forças para dar alguns passos. Perdoem-me! A mim. meus irmãos jesuítas do Canadá. Mas ele simplesmente se ajoelhara. E vocês. O meu Deus! — Não se mova — disse ele. Começou a sacudir a cabeça e repetiu várias vezes: — O que foi que eu fiz?!.. Ele o canonizou. indigno. e pela virtude de suas santas chagas. verdadeiros sacrificados de Deus. Padre d'Orgeval. — Estão lá.ouro puro e. Glória lhe seja prestada. o mais vil. a mim. voltando à realidade.. e depois erguendo-os para ele.. dissimulando-o. mas também de incredulidade. — Acalrne-se! — Não poderei jamais ir tão longe para buscá-las. pois sentia o suor escorrendo-lhe pela espinha e congelando-se. Você é o maior... vocês. "De que adianta essa diatribe dirigida a um ressuscitado que não se aguenta em pé e que não consegue dar um passo?!" E retomou fôlego. subitamente. foi que êu fiz?!. para lhes servir.. —Para onde foram? Olhava ao_redor. conservem-me sua piedade. sua mandíbula caída. Depois. Estava errada por falar assim. de exemplo e não para suscitar sua veneração idólatra. numa expressão de estupor. E quem iria se arrepender do resultado de uma tão brilhante impostura!. isso de nada mais adiantava e não vingava ninguém. que "tinha uma visão penetrante. as felonias às quais impeli os meus. Seus lábios estavam secos. a mim. e elas voam como pássaros. A luz que tornava sua face translúcida viria do sol ou da transfiguração interior de seu ser?. eu lhes suplico.. Recomeçou a bater os dentes de frio e de pânico.. à beira do lago. perdera as crianças de vista.. orem por meu resgate. E ela o viu erguer os olhos. Edificam-lhe capelas. a mim. o fez servir à maior glória de Deus e do reino. Estão se afastando. que morreram apenas pelo amor de Cristo e não pela adulação dos homens. deslizando na neve — disse o Padre d'Orgeval. Acabava de dar-se conta da maquinação que o Padre de Marville armara em torno de seu nome.. involuntariamente. "De que adianta a cólera?". O que. Perdera a cabeça discutindo com aquele homem.. a vergonha de nossa santa ordem. O frio raspava-lhe a garganta. Pela fraternidade de nossos compromissos. — Elas vão voltar. .. Vagarosamente dobrou os joelhos. Viu sua boca aberta. perdoem-me! "Perdoem-me os erros cometidos por minha culpa. — Perdoe-me. perdoem-me! Perdoem-me por ter usurpado. e multidões lhe dirigem preces e súplicas. depois as mãos para o céu. perguntando-se onde ficara o indivíduo ao qual acabava de dirigir seu violento requisitório. que o mundo esquecerá. gritar dessa maneira. vocês. dignem-se assistir-me na hora da minha morte!. Seu irmão em religião fez mais do que vingá-lo. arrependendo-se de sua explosão e do estado em que se colocara. muito caros e santos e modestos mártires.. viu-se novamente cercada pelo grande silêncio branco e o frio cruel. — Onde estão?— Onde estão? Onde estão as pobres inocentes?. — Onde estão as crianças? — gritou. Vão voltar por conta própria. Ela estendeu o braço para ampará-lo. Você os simboliza a todos.. ó.Levantara-se e colocara-lhe a mão no ombro. o mais covarde. Como alcançá-las?. As" crianças haviam sumido. a vocês somente. Angélica tossia. Emanuel.

Com a menina no colo. de carnes inchadas e gengivas sanguinolentas. Sentia aquele braço nervoso enlaçando-a para sustentá-la e impedi-la de lançar-se à procura das crianças. Angélica não via mais as crianças e estava inquieta. elas vão voltar! Acalme-se... — Não. Não parta! . o mal já lhe parecia muito adiantado. três pontos redondos. acáriciava-lhe o rosto redondo.Uma bruma sorrateira de fim de dia começava a despontar ao longe. — Estão vindo? — Sim. — Não consigo vê-las. sempre alegre.. não lhe era possível detêlo. dando a mão aos gémeos. pois teria caído e não poderia levantar-se. Talvez por causa disso. apodrecida. dando às florestas azuis um tom pastel.. Angélica levou mais tempo para se alertar. os frês muito satisfeitos com sua expedição. — O minha princesinha! O meu tesouro! Não é possível! Sei ainda tão poucas coisas sobre você! Não tive ainda tempo para conhecê-la. Começou a perceber-lhe a aproximação ao notar a palidez e a fatiga da pequena Gloriandra... pois faltavam-lhes elementos essenciais à alimentação. enquanto os pequenos lábios inchados se esforçavam em vão para esboçar um sorriso. Essa encantadora boneca. mas três pontos que aumentavam visivelmente de segundo em segundo. tão pequenas e desengonça-das estavam em suas roupas. Desaparecer!. estão vindo. e que se haviam habituado a vê-la transpor. Mais eis que despontava a face insidiosa do segundo mais cruel inimigo das invernadas. as iniciativas de seus irmãos. Face horrível. que bamboleavam sem pressa ao lado dele. e que seguia. com uma animação tão devotada quanto admirativa. Eles são o nosso perdão! São a nossa salvação! O SOPRO DO ORANDA CAPITULO XXVI Insinua-se o "mal da terra" Ela acreditava que o alce. E voeê se vai!. que pareciam vesti-la. Carlos Henrique no meio. que nem sequer eram silhuetas. acariciava os longos cabelos negros. estão voltando. Desde as primeiras horas de seu nascimento.. Estavam vindo. Eu lhe suplico.. fornecendo-lhes reservas de carne até a primavera. depois da fome: o escorbuto. fundindo toda a paisagem por trás de um véu de irrealidade. — Estão voltando? — Sim... por suas próprias forças e sem prejuízos. ocultá-la em seu abandono contra o ombro da mãe. Não ralhe com eles. em que as pupilas de um azul cambiante se haviam turvado. tão belos e incrivelmente longos numa criança tão pequena. De todo modo. — Não lhes diga nada. como se nascessem do ouro vermelho do inverno. não a acostumara à inquietação. dando provas de uma vigorosa saúde. Onde estão? Elas vão desaparecer. Depois as crianças ressurgiram diante dela. garantiria sua sobrevivência até lá. ela sobrenadava como um pequeno peixe valente na correnteza das doenças e provações físicas que se abatiam sobre o irmão. E quando se deu conta.

O que você receia? — O escorbuto. E na regente da Aquitânia. que não alcance o fim do inverno. A filha do Conde de Toulose. sabia que estaria no caminho mais curto. — Essa angústia. Mas nos primeiros instantes só podia apertar a criança contra o peito. Ela mordia os lábios. A esse espírito tutelar ela confiou a criança condenada. Caso . fazia esquecer. Disse-lhe que decidira partir e andar até encontrar um posto ou uma missão. e que todos reveriam a primavera com saúde. a ternura comovente que aquele belo rosto. sentiu-se melhor. Em seguida. novamente. assa loucura. e sem lhe confessar uma lembrança coti-diana." Estipulado o acordo. com voz firme: — Confie. voltou a estirar-se na cama e fechou os olhos com um profundo suspiro. Pensou em Joffrey. e Angélica compreendia e partilhava esse sentimento. Compreende agora o que isso quer dizer. guardara a sensação de jamais tê-la deixado. Sua bravura devia ter dado à mãe de Joffrey o poder de continuar a velar por ele no além-túmulo. sobre a qual ele dizia. Como defender-se da horrível doença?. Ia encontrar um meio. não! — Ah! Você vê?. estampada em sua fisionomia. Descobria-lhe nos traços transtornados a vulnerabilidade de seu coração. — E eis que recomeço a recear que me seja tirada. mas a mais próxima para eles. embora não o menos acidentado. ao cabo de alguns instantes. às vezes tão imperioso. não! — murmurou.. Podia ser que estivesse deserta. não se tem uma reserva de forças. sua mãe. evocando as vagabundagens de sua juventude aturdida. que.. Para este.. Acreditara piamente que estivessem a salvo de tudo. que estava deitado... Pensou nas mulheres de sua linhagem. disse. Aquela mulher adorara seu filho. eram seu primeiro reflexo sob o choque da descoberta. — Outra vez. Quando tivesse encontrado o fio de um outro riozinho que serpenteava no verão entre falésias de duzentos pés de altura.. não.. e era a primeira vez que ele a via retendo as lágrimas. Que todos ali estivessem mortos ou tivessem ido embora. E o segundo golpe que provoca a queda. Mas.. soberba e ardente. vestido com o casaco e o gorrinho de Lymon White. ornada de todas as graças. uma das mais modestas. ao despertar. Gloriandra de Peyrac! A princesinha! A pequena maravilha!. Ia subir para o norte até atingir os canais gelados de Mégantic. eu a julgava salva — murmurou Angélica. chegou até ela. Ele fez um esforço para sentar-se e sair da cama. foi inclinar-se sobre a criança e examiná-la com atenção. viu-o de pé junto à cama. mesmo no fim do mundo. A voz do jesuíta. Outra vez. na região da HauteChaudiere. Ele se informava sobre sua preocupação.Esse terror". — Minha filhinha. "Você não tem o direito de deixar que lhe retomem sua filhinha. com um olhar que podia ser tão fulgurante. de onde traria o suplemento de víveres necessários. com pequenos passos de doente de gota. apaixonadamente. dos abenakis. depois.. CAPITULO XXVII Uma partida insensata De manhã. para chegar à Missão de São José.

ó mulher bem-amada. permanecem ali para dar assistência às populações errantes. com a qual o chefe huroniano. no inverno. e ela compreendera muito bem que ninguém podia escapar dele nem penetrar ali antes do degelo. como que posto em comunicação com um contato invisível. pois aquela era uma região para os insensatos. farinha. o lugar é impraticável por causa das cheias da Chaudiere. "A sabedoria manda que nos fiemos nos remédios dos selvagens. sem que todos lhe predissessem morte certa. feijões e grãos de aveia-louca para germinar. para matá-lo em duelo. No verão. ela se lançou sobre ele. ela insistiu: — Você está fraco. Angélica não podia habituar-se à ideia. que condena o isolado perdido sob as rajadas de neve. abraçando-a também. as façanhas isoladas de intrépidos como o jovem Alexandre ou Pacífico Jusserant. — Viva. ainda doente. o grupo de Loménie e D'Árreboust. salvara a tripulação de Car-tier. todas as coisas que afastam em pouco tempo o escorbuto. que perseguira Pont-Briant até o lago Mégantic. — Você voltará. conservados sob a neve. mais milho. e se uma delas o surpreendesse. lembrou-se da vinda de Pont-Briand e de seu índio." Angélica levantara-se. No máximo. Ele ergueu o dedo. Todavia. insensato e fadado ao fracasso irreparável. Ele virá. talvez um servidor leigo. lançando um olhar à pequena Gloriandra.é? — Voltarei. e também milho. quando já deram provas de eficácia. E se não pudesse achá-los no caminho. — Sua filha foi atingida — disse ele. que tentam alcançar Levis e Quebec a fim de buscar socorros e que. quem sabe repolhos. Mal se mantém de pé.contrário. cada um querendo deixar ao outro o viático de sua confiança. Mesmo um homem vigoroso não teria podido pôr-se a caminho naquela época do ano para atravessar a região por uma extensão tão grande. durante a primeira invernada no rio Saint-Charles. Mas. conforme a terrível expressão. encontraria em sua farmacopeia aquela famosa casca de árvore. Estava de pé diante dele. Havia às vezes alguns que sobreviviam e que voltavam. A distância era imensa. se os padres os cultivassem. ele "se perderia". apesar da esperança que despertava. ou frutos secos. sem ponto de referência nas trilhas apagadas. não. Quanto mais pensava nela. nessa etapa. no próprio ar que respiramos. — E se os jesuítas o reconhecerem? E se não o deixarem voltar? — Só existem dois jesuítas lá. Depois. Num movimento. O círculo dos furacões cercava sua ilha deserta. ferido. sem conseguir acreditar em sua decisão. mais o projeto lhe parecia o que era: louco. e até daquela louca tripulação de Joffrey. procuraria algo para mudar a sempiterna dieta de carne de alce. repolhos. E você. sob as árvores. e um coadjuntor temporal. — Eu trarei a casca específica para isso — repetiu —. a fim de que meu sacrifício não seja inútil! CAPITULO XXVIII . morrem de fome e frio no caminho. Eu o chamarei. três brancos. viva! — disse ele. — O sopro do Oranda me sustentará. ameixas-pretas. Jamais conseguiria chegar até lá! Pereceria no caminho. dizimada pelo escorbuto. o "dado" do Padre d'Orgeval. quando se abandona a cabana isolada infestada finalmente de pernilongos. apertáhdo-o em seus braços. As tempestades ameaçavam todos os dias. Um professor. Os loucos do deserto branco. — O que é o Oranda? — O Espírito" e a força suprema no seio das coisas. o Padre de Lambert.

Era a pista que lhe fazia sinal. esquálido. "esses odores! Um cheiro de incenso. os missionários fechavam as portas da pequena paliçada que cercava a habitação. Salve Regina! Salve Rainha do Céu! Foi o tempo de sair da floresta. Os índios tinham uma aparência estranha. meio enlouquecido pela solidão dos bosques. Seu dialeto era quase incompreensível para os abenakis da região. as nuvens portadoras de neve fugiram. O novo governador parecia . pois as feridas se tinham aberto de novo.. Ele seria um homem como os outros. o medo. retomando a língua algonquina quando o índio aparecia. Depois de ter rezado o terço na capela e entoado os cânticos com os fiéis. Murmúrios de preces. Recusou-se a perceber seu corpo. voltava a cabeça para trás. primo? — perguntou-lhe o irmão coadjuntor. Dialogavam uns com os outros. não se lançou sobre o alimento que lhe apresentavam. mas ele os examinava em segredo e desconfiava de sua sutileza. Escutava aquelas vozes de homens falando francês. Respeitavam o silêncio do hóspede estrangeiro. Caiu a noite. atravessava as vibrações douradas do sol. Seus lábios enegrecidos pelo gelo e pelo sol esboçaram um sor-nso quando avistou a cruz da capela. signo de amor! Deus crucificado! Escândalo do Universo. Onde abordar os montes para atravessá-los. "Como eu te amo. Foi através das rajadas sibilantes que ouviu o carrilhão» O sino da salvação! O sino do ofício noturno. Ingleses sanguinários do sul haviam acabado com sua revolta para sempre. Não era ele que reconhecia a pista. Um cheiro de pão! De velas apagadas. mas ele sabia que estava perto e não se perdeu. e o céu limpou-se. Os dois jesuítas consideravam-no em silêncio. Não possuía mais corpo. sentiu que as vestes se lhe colavam na carne em diferentes pontos. De missais! Ruídos de irmãos arrumando os terços na sacristia. Ele era apenas um ouvido atento. lutando pela salvaguarda de uma mulher e de crianças pequenas. A floresta que se abria diante dele. Flocos de neve eriçavam-lhe a barba.Um companheiro de miséria — Apenas um corpo em movimento Ele saltava! Galgava o espaço! Quebrava o cristal do frio. Sobreviventes da grande confederação dos narragassetts. — Fizemos pão — disse-lhé o-missionário que o acolhia. "Oranda! Oranda!" O Grande Espírito lhe trazia sua desforra. "Todos esses ruídos de uma missão". ele se dizia. Quando se sentou diante da lareira. Ele sacudiu a cabeça negativamente. Todavia." Os dois homens de batinas pretas voltaram para a sala comum. Fez um sinal indicando que queria primeiramente apenas aquecer-se e repousar. Por instantes. Ele se inquietou. como eu te amo!" O cheiro cálido era embriagador.. Depois compreendeu que sua aparência era a de um joão-ninguém. Atribuiu-lhes parentescos com os narrangasetts do sul. a fome. Uma brusca tempestade levantou-se no último dia. Sabia onde transpor as falhas do terreno com um salto. atravessar uma longa planície e subir lentamente para a missão. Depois conversaram sobre acontecimentos da Nova França. mas o tempo permaneceu limpo. que tinha um rosto de sólido camponês. Houve algumas borrascas. Estariam achando estranho que não se identificasse? — Você se perdeu. primeiro sobre os nómades que acampavam à sua porta.

a fim de decidir sobre o dia seguinte. apaixonado pelo seu corpo. pensava. mas terei oferecido a você esse presente. encontrando uma doçura e um conforto nesse tratamento ousado. Notícias chegadas recentemente tinham informado aqueles dois solitários sobre mudanças de política. Depois tranqúilizou-se. e ele ficou muito atento. Tinha de responder. acentuando seu lado um pouco limitado de "viajante" taciturno que se "perdera" no furor do inverno. referindo-se à visão de uma mulher e à ternura de seu olhar pousado nele.. com os filhos de seu amor.decidido a reduzir os iro-queses que trabalhavam para os ingleses. sinal de uma amizade mais profunda e que nunca transporia seus lábios. Receava também trair-se por seu olhar. Wapassu não existia mais. O irmão dispôs escudelas sobre a mesa e copinhos de estanho. detida pelo inverno. a campanha do Sr. mesmo que você não pertença senão ao outra. Perguntava-se se não estariam falando para ele. tão hostil à Companhia de Jesus.. Não sou nada perto dele. . que queriam detê-lo. amigo? Obedeceu-lhes. mesmo que eu seja apenas um companheiro de passagem. "Você está lá longe". sofreu nas mãos dos iroqueses. com os olhos baixos. conservá-la viva para ele. meio indulgente. Falou de uma viagem aos andastes e como permanecera em seguida entre os sioux. parece-nos. atrasara seu avanço. aquelas tribos do extremo oeste dos Lagos. pois "eu sou aquele que veio para lhe dar apoio e ajudá-la a viver até que você possa se encontrar do outro lado do inverno e correr novamente para seja amor. receando cair nas mãos de seus torturadores no caminho de volta. repetia a si mesmo. — Você vem partilhar nossa refeição. e depois a rudeza do inverno. mais tivera dificuldades dessa vez de escapar aos sioux. mas você me pertence se eu o quiser"." Ficava sentado no canto da lareira. muito rigoroso aquele ano. deram-lhe um olhar de piedade e de respeito. seu sorriso. Também falaram de Wapassu. e não renasceria de suas cinzas. e não a compreendia mais. e respondia às perguntas que lhe faziam resmungando. de Gorrestat contra os iroqueses o encorajara a fazer uma tentativa. compreendendo que se tratava apenas de um diálogo banal. — Você também. que é mais que sua vida. um olhar que ela só tinha para ele. Calava-se. fora dissolvida. por havê-lo reconhecido. um inimigo ao qual você nunca perdoará. aquele que habita em seu coração. "e me pertence. lá embaixo. um pobre homem que merece piedade. ou se não adivinhavam de onde ele vinha. Seu coração batia. como os que travam após um dia de trabalho aqueles que se encontram e comentam a situação. A coalizão que Frontenac imprudentemente fizera com o fidalgo francês. Calava-se. Quando avançou a mão para pegar o pedaço de pão que lhe estendiam. No outono. O anúncio da companhia do Sr. um companheiro de miséria. aquela que alimentara outrora.. cujas etapas não haviam podido acompanhar. Começara uma campanha militar. O ninho de piratas ímpios fora queimado. que são aliadas dos neutros e dos petuns. meio provocante. como se se tratasse de uma cruzada santa. aquele pelo qual você enlanguesce seu corpo.. aliado dos hereges da Nova Inglaterra. sua força. Ouviu-os felicitar-se pela partida — dizia-se já "pelo chamado" — do Governador Frontenac. decidindo-se a retirar o gorro preto e as luvas forradas. de Loménie pusera fim àquela perigosa vizinhança. Naquele ardor de destruir Wapassu que sentia em suas palavras. Pensava nela. mal refeito das fadigas e dos esforços que tivera de fazer para escapar à morte branca. tão longe. reconhecia sua própria raiva. Não sou nada.. meu irmão.

difundia um halo dourado-escuro como o das iluminuras. O fogo diminuía na lareira. Conversaram e ele se deixou ficar a escutá-los. Na missão. — Nós nos levantamos para rezar as matinas — disse o Padre de Lambert. de pé ali na penumbra o homem com mãos de mártir. — Faz-se tarde. que estou vendo ali.. — Temos uma reserva pequena de bebidas alcoólicas aqui. direi a missa. até a eternidade. cuja família está sem notícias há três anos? — perguntou o padre. O irmão coadjuntor lembrou-se de que precisava vigiar até o fim o cozimento do pão da segunda fornada. em troca das peles. esforçou-se por interrogá-los sobre seus trabalhos. Chegavam em grupos cada vez mais numerosos. aprová-los. E sobretudo da embriaguez. O Padre de Lambert e o irmão aquiesceram com um sinal de cabeça. eles partem em campanha. eles compreendiam que o único refúgio que podiam doravante encontrar era à sombra da cruz católica e a da bandeira do rei da França. primo! Ia continuar a fazer-lhe perguntas. assim que o tempo melhora e o frio fica menos intenso. sentia-se seu irmão mais do que nenhuma outro poderia sê-lo e. — Não o reconheço. mas. Os índios não ouviam com boa vontade a boa palavra. tendo perdido tudo para os ingleses. Estavam diante da porta. defendê-los-das feitiçarias de seus "prestidigitadores" e da amoralidade de suas mulheres. Mas o irmão coadjutor sacudia a cabeça antes dele. admirava-os. Nem sequer fazemos cerveja. as velas eram reservadas para a capela. encorajá-los por breves palavras. nascido da própria tempestade. separado deles para sempre. Não era fácil alimentá-los. naquele banco de-pedintes. habituado aos índios. mergulhada na gordura de urso.— Não será você um habitante do cabo da Madeleine. Sebastião d'Orgeval foi o primeiro a tomar consciência de que a noite avançava. dormirei nesta sala. se me permitirem. disse o padre. como o véu da morte. o que cria muitos conflitos. ao mesmo tempo. Todos os rostos da Nova França lhe pareciam ser perigosamente familiares. Em seguida. meus amigos — murmurou. — Não é tempo de irem descansar? Quanto a mim. segurando lamparinas chamadas de "bico-de-corvo". — Eu vigiarei — interpôs-se o hóspede. Quantos catequistas? Quantos batismos por ano? Falaram de bom grado sobre seu ministério. Eles olhavam para o homem. como que por uma dura e intransponível cortina. que muitas vezes roubam nas armadilhas das tribos locais. tocado de piedade por eles. tornando a subir para Sorel ou Levis para obter provisões de aguardente. e suas luzes vermelhas e saltitantes refletiam-se nas faces dos três homens sentados à mesa e inclinados uns para os outros numa atitude de confiança. o hóspede que viera do frio desértico. Mas. Mas. Os dois religiosos levantaram-se silenciosamente. Você . de compaixão pela rudeza de sua existência. Ficarei feliz por retribuir-lhes a hospitalidade com algum serviço. Para desviar-lhes a atenção. como que surgido. Apenas para os doentes e feridos. e que não procurava mais simular a postura canhestra e ríspida de um explorador de bosques insubmisso. — Nossos dias não nos dão muito tempo para isso. Esse ano. que causava grandes crimes. de suas rajadas e de seus gritos. repousem. cuidar deles. a pretexto de caçar. invejava-os. sabendo em que fonte santa hauriam sua coragem.— Peço-lhes. cuja mecha. para não tentá-los. havia aquelas tribos algonquinas que haviam subido do sul.

Precisava aproveitar esse curto espaço de tempo. com passos tão leves e gestos tão precisos que nem um índio teria podido supreendê-lo. O produto de sua rapina fora solidamente arrumado no reboque. retirou . comprido e sólido. sal. nem nos assoalhos da habitação. avaliou o tempo que ainda seria preciso para que os pães ficassem assados. passou pelos ombros os arreios do reboque e pôs-se a caminho através do pátio. ficaria feliz por assisti-lo. Era apenas um corpo em movimento. nem dor. gorros. grãos de aveia-louca. com gravidade. nem fadiga. chegasse às narinas dos religiosos adormecidos. Voltou para a casa. Procurava ainda um objeto que achou finalmente num cofre-zinho da sala grande e. No inverno guardavam ali reboques e raquetes. Do armazém. Em certo momento receou que aquele incenso generoso do mais nobre alimento do homem. Em último lugar. Deslocava-se com tal serenidade evanescente que parecia não deixar nenhum rastro nem na neve. caixas de ameixas e de conservas de limões verdes. e retiraram-se. a fim de abafá-lo. os eflúvios se elevavam como uma oferenda sagrada. aquecendo-se com seu calor e dizendo consigo que aquele perfume de pão era o mais embriagador da terra para uma pessoa esfomeada. Os primeiros movimentos que esboçou provocaram-lhe caretas de dor. Dispôs o reboque do lado de fora.. já arreado. O aterro de neve. Entreabriu a porta da cabana e viu o pátio interno atravancado de neve com um terrapleno desobstruído diante da casa. antes de se afastar. feijões. Para ele. Toda a astúcia corporal do índio estava nele. Não sentia mais nada. como se lhe falasse frente a frente e ouvisse suas explicações. Depois calçou as raquetes. No ar gelado.estará conosco? — Com alegria. depois de confessar-me. Fizeram um sinal de cabeça afirmativo. pelo cheiro que dele se desprendia. Sorriu. Cobriu os pães fumegantes com uma coberta de cornércio. e o brilho claro do luar lhe era indiferente. Depois entrou num telheiro contíguo que devia servir de cozinha no verão. botas e luvas forradas. pães de açúcar. Pensou nas mãos suaves de Angélica aplicando compressas nos ferimentos e naquela rugazinha entre suas Sobrancelhas quando se punha examinar com atenção uma chaga. Agia sem fazer qualquer ruído. voltou à habitação e abriu o forno para pegar os pães que estavam bem crescidos e que se poderiam considerar assados. tornando a apertar as fivelas e atilhos.retirando também o par de raqueques. "Rápido! Apressemo-nos!" Foi até o forno e. e um par de raquetes de reserva. abóboras secas e todo tipo de ervas. Segurava-os junto ao coração com voluptosidade. trigo-sarraceno. debruado de luar. potes de conservas de gordura de pato. trouxe sacos de farinha de trigo. Sua noite seria curta. projetava sua sombra até o limiar. não haveria sono. Dirirgiu-se à sacristia da capela e pegou alguma coisa numa das prateleiras. E se não me julgar indigno. o pão. melaço. Pegou-os todos e levou-os um a um para o reboque. suas feridas se fizeram lembrar. Escolheu um reboque grande. Não poderia cuidar delas. pesados casacos de pele ou capotes de lã grossa com capuz. Quando tornou a se levantar. Voltou para o interior da cabana e foi abrir o galpão onde eram guardadas as provisões. colocou algumas cinzas no fogo. Ao chegar à porta da paliçada. nem na terra batida dos armazéns e das adegas.

depois de fazer uma rápida ins-peção no armazém de víveres.. Olhou na direção do sudeste e viu. enterrando-os. — Onde foram parar todos os pães da segunda fornada? — gritou o Irmão Adriano. — Uma assombração não furta três sacos de farinha de flor de trigo. para o perigoso sudeste inabitado. três de milho e a metade de nossa reserva de ameixas — observou o Padre de Lambert. — Estou chorando porque me lembro de nossa vigília ontem à noite. De madrugada.. meu irmão? — interrogou o padre professo. em direção do qual se fora o desconhecido... —Que me importa o furto. amontoados em covis. muito pesaroso. uma neve revolta caíra. mas pela miséria e a angústia da derrota. nuvens escuras sobrevoaram a missão.habilidosamente as diversas cavilhas. dos quais se elevava um lençol estagnante de fumaça. voltou-se. os dois religiosos foram à sala comum e o convertido abriu a porta do forno. mas eram lágrimas suaves. — Vamos! Vamos! São apenas algumas libras de farinha roubadas! Ele deixou o suficiente para nós. No coração da noite. — Que mais queria que roubasse?. a missão. Pouco depois. Comida é o que ele queria. sob o brilho da lua ou de uma leve névoa. Durante a noite. wapanogs e wonolancets. — Por que chora. Num nível inferior. Era para ela que ele se dirigia. se não ele mesmo e seus furtos. havia os wigwams dos índios. Como nos . Seguiram-na até um pouco além da paliçada e ficaram a olhar para as lonjuras. — Vamos ver se não roubou mais nada — disse o irmão. Crianças choravam. Lágrimas corriam-lhe pelas faces de camponês. sem que pudesse retê-las. Eles nem pensaram em persegui-lo. como um sonho. rejeitar. uma barra preta que subia lentamente.. batera à sua porta e pedira hospitalidade. mas era apenas um prelúdio de quedas mais pesadas que não deveriam tardar. A interrogação do dia seguinte como um peso infinito que nunca mais se poderia fazer recuar. já semi-enterrada"sob massas de neve. — Será que sonhamos? Era uma assombração?. ele olhava à sua volta e não discernia nenhum vestígio daquele que. a pista do reboque e das raquetes ainda era visível. girou a chave'da forte fechadura que eles haviam colocado para desencorajar os ladrões noturnos e começou a avançar pela planície. não apenas pelo inverno. Mas poucas luzes brilhavam. como a própria vida. A neve recobriria as pegadas do ladrão. velhos tossiam. pois. — Para levar o saque. Do outro lado da colina. No tapete fino e aveludado formado pela neve fresca. na noite anterior. acima das montanhas iluminadas pela lua. decepcionados por não ver seu hóspede na missa. e prometia ser feroz. economizavam lenha. — Ele pegou o reboque. Desorientado. começava a desaparecer aos seus olhos. a tempestade passara por eles. Era um barulho que mal se ouvia. A pequena cruz do sino continuava a brilhar como filigrana prateada contra o céu azul-escuro e vazio. quando. muito fraco. não se via brilhar nenhuma estrela. longínquo. A tempestade continuava a avançar. — Não é por isso que estou chorando — disse o convertido. cães latiam.. O padre não queria contar que notara o desaparecimento de uma sotaina e de um missal. Os ruídos eram abafados. A tempestade.

"Oranda! Oranda!" Havia várias milhas já deveria ter percebido ao longe aquele vestígio de fumaça que olhos exercitados não podem confundir com os rastros de neblina e que o teriam avisado da aproximação de Wapassu.. pois avistava fortim de Wapassu.. Ela estava encostada e cedeu.. minhas crianças!.." Fez alto. caindo na trincheira com sua carga.. — Aqui estou. por que deixaste uma loucura dessas apoderarse de mim? Eu queria servi-lo.diluída do ar gelado. O atroz estava diante dele.. "Eles estão mortos! Eles estão mortos!" Lançou-se pela encosta lançando gritos e apelos desesperados.. Aqui estou. Quase quebrou o pescoço. Ele parava e torcia as mãos. a pista branca. Depois continuava. batendo vagarosamente contra o vazio e o silêncio. Mas nenhum filete de fumaça se elevava acima do telhado meio enfiado sob as neves. Através dela eu queria destruir a Mulher. — Havia uma espécie de claridade em torno dele. Não pensava que ela fosse tão frágil. investia contra a porta pesada. estou chegando! Estou chegando!.. dizia consigo. retorcendo-lhe as entranhas.. engolindo.. no fundo do impávido horizonte translúcido e gélido. lembro-me apenas que seus olhos eram azuis como o céu e que nossos corações estavam repletos de alegria. Levantava-se de novo. Como se não soubesse que atrás de toda mulher existem crianças! O Senhor. quis sua destruição. Seus olhos choravam de dor por trás da máscara de couro. sonhador. "O que eu fiz?". se dilatava. Um pânico que. voava por cima dos barrancos. pensava. — Não me lembro de mais nada além disso. farejando o vento. estava a Punição!. Já devia ter percebido o cheiro de fumaça. CAPÍTULO XXIX "Eles estão mortos!" Várias milhas antes ele já retomara seus saltos dementes.. tão alegre. Nem de suas palavras. você o notou? — Com efeito — disse o padre. Nada. Tarde demais! Lá embaixo. Nenhum movimento. sem vê-la. Vou preparar-lhes uma boa sagamité. Deus. E uma apreensão mortal o abatia. e uma serenidade em nós e à nossa volta. Queimava os olhos para descobrir aquele vestígio de vida na paisagem morta. impelido pelo ritmos das raquetes batendo na neve e pelo barulho de sua respiração sibilante.. por mais ténue que ela fosse. por trás das fendas da máscara de couro indígena que fizera para se proteger da reverberação. a cada passo. nem dos assuntos dé nossas conversas. tão meiga! Não pensei nas crianças pequenas.sentíamos bem quando ele estava sentado co-nosco.. Jamais em toda sua vida experimentara um choque tão terrível. "Eu quis sua morte. . partilhando nossa refeição e conversando! Que luz! O padre. por que me fez nascer entre os demónios? Por que regou minha infância com sangue?.

não se aqueceu deitando sob as cobertas? Ela explicou-lhe que receara ser arrastada pelos delírios da febre. mas que.. Teria se resfriado ou seria um ataque de malária? — Agora estou aqui. Trago-lhe também compota de cidra. A claridade de um sol pálido entrando pela pequena bandeira da janela. — Aqui estou.. com airelas. Compreendeu que ela não sabia mais há quantos dias ele partira.. vertendo-lhe água. evitara acender o fogo. Estavam geladas. era preciso aproveitar aquele sol. minhas crianças — resmungava —.. que tinha parado à . podia ficar acordada.. ameixas e todo tipo de fruta seca. pois. com boa intenção de mantê-lo aceso. Tinha saído com as crianças. Foi um estalejar das chamas que despertou Angélica. — Quase morri de sofrimento quando não vi nenhuma fumaça acima do telhado.. chegou ao quarto no fundo do corredor e entrou. Pendurava o caldeirão à cremalheira. Em seguida. que não havia retirado. a fim de se habituar à penumbra. novamente estremecendo. Estava tão fatigada. bem quente. e ela se ergueu com um sobressalto de espanto. que não encontrara mais forças para os gestos essenciais dos cuidados às crianças. tremendo dos pés à cabeça. permanecia na soleira da porta. Tocou-lhes as mãos. numa atitude de abandono que traía uma grande fadiga.. Então ela lhe confessou como um pecado que.. Ainda ofegante.. agora estou aqui. espreitando-lhe o olhar. mel. começou a quebrar gravetos e reunir ramos e cavacos para acender o fogo. Vou prepararlhes uma boa sagamité. Ajoelhado na pedra da lareira. — Onde está sua mãe? — Mamãe está dormindo! — responderam com um gesto em direção ao quarto. os ganizes no assoalho de madeiras grossas. melaço. e Angélica viu entre os cabelos espessos a tonsura. com efeito.Embaraçado pelas raquetes. havia alguns dias. semelhante a uma hóstia branca. ou que as crianças resolvessem brincar com ele... as faces.. — O Senhor! — murmurou. Ela lhe disse que as horas do dia lhe pareceram muito quentes. com gravidade. diante da qual a neve fora retirada. Viu o viajante de joelhos diante dela. ele julgoú-a morta. Trago-lhes a vida.. piscando os olhos feridos. — O Senhor! Que sofrimento! Mas cheguei a tempo. percebendo que ia perder os sentidos. preferindo deixar o fogo apagar-se para economizar um pouco da provisão de lenha. no meio da sala jogavam cucarne tranquilamente. Ela estava sentada diante da lareira apagada e dormia.. Ficando sentada. estava com febre. — Por que. Ele pousou a fronte em seus joelhos.." Com passos titubeantes. E continuaram a fazer soar. pensava: "Ela está morta! E as crianças confundem sua imobilidade e seu silêncio com um sono profundo. Pouco a pouco distinguia com estupor as três crianças muito agasalhadas. Estou aqui. se está febril. amarelecia seu rosto já muito pálido.. grãos de aveia-louca. receando cair ou não poder vigiá-lo. — Por que não acendeu o fogo? — gritou. mas percebeu o leve movimento de sua respiração.

vinho.. e apresentam. de modo às vezes excessivo. e já lhe mostro nossas riquezas. milagre das searas. Esse é um defeito feminino. Só as acenderiam para as festas. A menina estava melhor. Angélica se resfriara quando fora procurar tripas de rochedo e casca de espinheiros para Gloriandra. que fica muito quente mas demasiado rala no fim das invernadas. Eu me encarregarei de cuidar de você. Pão. — Vou só chamar à ordem aqueles jogadores inveterados que estão na sala entretidos numa partidinha de cucarne. Mas ela virou a cabeça. Abriu os olhos e percebeu na parede as rodas de pão da Missão de São José. confiando apenas em seus atos. disse ela. por excelência. um defeito de dona de casa. ela o ouviu delirar. Está um chiqueiro. como uma lâmpada acesa de vigília." Ela olhava ao seu redor com desolação. E também velas. Com muitas precauções. encolhida sob as cobertas..espera de sua volta. foi abundantemente provida. Deixara-o. conseguiu engolir algumas colheres do mingau. o alimento dos franceses. logo seria o dia de Santa Honorina. daquele pão que é. . faz tempo que nem varro nem arrumo a casa. quando se persuadirá que o mais precioso de si mesma é invisível? Você parece desprezar esses "poderes" com que. Não era de seu temperamento fazer isso.. o combate contra o inverno podia ser retomado. murmurando que não tinha fome. As mulheres só se sentem em paz com sua consciência quando podem provar sua utilidade. todavia. Mas ia-economizá-las. E quando não houvesse mais pão. — Faremos um bolo em homenagem a sua grande irmã e rezaremos por ela. Cristo o denunciou quando foi visitar Marta e Maria. a justificativa de sua existência. poderiam assá-lo. água. Deitou-a.. Conseguira encontrá-las e dera-lhe uma tisana. Durante a noite. Podem constituir o último recurso para engrossar a sagamité. Fariam crescer um bom pão no forno. E. sal. Pois bem. havia muito pouco na missão. Agora que o sopro do Oranda permitira ao jesuíta seu giro de salvação. Apesar de suas recusas. dispostas como rostos bonachões velando por ela. de braços cruzados. no lugar onde guardavam as provisões. nascido no entanto de tão poucas coisas. fora um erro não ter ficado a esperá-lo. Farinha de flor do trigo. não me comprometi a mante-los todos com vida de qualquer maneira? Até a minha volta. ele a carregou e colocou na cama. tão cedo não se corrigiria. Que só conseguia manter-se viva repetindo-se incessantemente: "Não adormeça. um pouco de fermento e farinha. transferindo a outra pessoa todas as responsabilidades. Apenas vinho de missa. com as pálpebras baixadas sobre uma martelante dor descabeça. trazia uma provisão de aguardente. — Desculpe-me. concordou em -que era um dos prazeres da vida abandqnar-se à doença. apesar de suas admoestações. — Agora estou aqui. cobrindo-a com cuidado. Dispôs as rodas de pão nas prateleiras ao longo das paredes do quarto e da sala grande. Vinho. Em compensação. O fortim de Wapassu assinara um novo contrato com a sobrevivência. prato vital e rico. Mas. produto do grão mais precioso que o ouro. Depois vou preparar-lhe uma sopa digna de minha Tia Nenibush. — Mulher de pouca fé — disse ele —.

. e isso influíra mais sobre sua saúde que as privações. — A Sra. Ah! que belo par formamos!. Aposto que suas feridas se reabriram e que você nem sequer tomou uma tigela de caldo. Àquele viajante que acabava de atravessar o Tártaro gelado do Inferno. uma assombração. Se havia . outros sabem e se calam e só falam-depois. — Venha aquecer-se na cama. o traço de garra na casca de uma árvore. permaneciam. e agora úmida. dizem as mas línguas que tinha uni encontro amoroso. de Gorretast fora passear à noitinha lá pelos lados do moinho.. A pele lívida sob a barba hirsuta.. nem de passos. a não ser. Uns falavam de um animal selvagem que a teria feito em pedaços. outros. só oferecera queixas e nenhuma hospitalidade. nem de patas. nada. ele lhe falou da morte daquela que eles continuavam a chamar de Ambrosina de Maudribourg. Mas... Parecia quase em pior estado do que quando o encontrara costurado na mortalha de couro. segundo dizem. revezando-se um ao outro. no outono. — Dessa vez. Ele estava estirado diante da pedra da lareira.. de uma estranha agressão. — Você soube detalhes? Não é usual uma dama de prestígio ser atacada por um animal selvagem na ilha de Montreal. — E o Arcanjo "estava lá! E o monstro!. Apesar da reputação de piedade e virtude que já havia granjeado. CAPITULO XXX A profecia se cumpriu Dias depois. sozinha. — Ela morreu! Um animal selvagem devorou-a. tendo se afastado em seu passeio. irritando as feridas.. enrolado numa coberta. em visita oficial a Montreal. continuariam a fazer a morte recuar. despender tal esforço?! Despertou-o suavemente. dirigindo-se a ponta do Moinho. mas sentindo-se melhor. o nariz azulado. Dormia um sono febril e murmurava frases sem nexo. — Sempre a mesma ambiguidade quando se fala dela. fora vítima. foi ajé ele e ajoelhou-se ao seu lado. Como pudera executar tal façanha. os olhos afundados na sombra do capuz. Mas. Uns são inocentes e querem acreditar em seu encanto. que é bem povoada.divididas a respeito da agressão. Tivera contudo tempo de dizer-lhe que ele parecia um espectro. é verdade — murmurou ele. muito abalada pelas condições horríveis desse atentado sem precedentes. — Não é a primeira vez que isso acontece. jamais acreditara que voltasse. Ainda fraca.. E depois? O companheiro de infância de Ambrosina sorriu sardónico. na extremidade oeste da ilha. As opiniões da colónia. A esposa do novo governador. Então ela se afastou.. de um ataque de um grupo de iroque-ses que rondavam sorrateiramente nesse fim de verão. Sofrera sua partida como uma morte. um esqueleto sob a roupagem gelada por seu suor na corrida. Surpreendera a notícia nas palavras trocadas pelos dois jesuítas da Missão de São José.. Sozinha. — O que viram? — Nada! Nem ninguém! Não havia vestígios nos arredores.Então ele voltara? Mas onde estava? Na realidade.

escaparam. manifestando o desejo de encontrá-los e oferecer-lhes um festim em suà honra. abria-se para quatro fogos diferentes. A profecia se cumpriu. que o inverno afrouxava seu abraço. Preferia aquela neve. segundo os ferimentos. Entretanto. pendurada sobre eles como que os envolvendo em seu . como todos os anos. A CONFISSÃO CAPITULO XXXI Um comediante nato Assim que readquiriu forças e ficou em condições de cuidar ele mesmo das feridas das pernas. que estava em expedição num lugar distante.vestígios foram apagados. pretendendo continuar a campanha na primavera. O gelo. arranjou forças para enfrentar sua desdita num ardoroso desejo de vingança. para provar a si mesmo. não parava de vigiar os fogos. parecia recuar. Retiraram-se para os fortes e feitorias de comércio. pensava ela. Ele subia à plataforma para farejar as mudanças de tempo. o esposo aniquilado. de um rigor sem igual. Angélica. enquanto o corpo jazia no chão a alguns passos dali. A lareira do pequeno cómodo correspondia-se com a chaminé central. saía novamente como uma sombra. Os iroqueses. Dispôs-se a reanimar a casa entorpecida. O novo governador enviou uma convocação aos chefes das Cinco Nações. "Apenas Utakê. construída segundo os modelos da Nova Inglaterra. de que fora antes vítima de um animal feroz — o que também não deixava de parecer inverossímil. Mas com a chegada do inverno. e depois levados a Quebec. as tropas tiveram de retroceder. tão temível. seria preciso ser um espírito ou um frequentador dos bosques. para apagar vestígios com tanto talento. Mas a própria neve era sinal de um abrandamento. Um dava para o antigo quarto dos Jonas. os chefes foram raptados e acorrentados. tão perto da cidade —. "O exército continuou em direção ao Vale dos Cinco Lagos. com algumas baixas. uma expedição de guerra. pois. para a grande sala. Tahutaguete. recorreu-se à astúcia. aceitaram o convite do novo Onôn-cio. de Gor-restat algo para alimentar-lhe o sofrimento e o desejo de represálias. "Um chefe huroniano foi propor-lhe uma "caldeira". Para justificar essa exibição de navios e barcos carregados de armas partindo para o lago Cham-plain. Desobstruíam com constância a entrada do túnel. — O Mal prossegue seu caminho. que lamentavam não ter estado no pawa do Forte Frontenac em Cataracuí. Era preciso dar ao Sr.estar uma pessoa cuja cabeça foi encontrada na forquilha de uma árvore. branco e cinza da neve enjoativa e invasora. que dava apenas para o universo fechado. Nevou abundantemente. apesar das evidências. isto é. que. Angélica não a odiava. instalou-se no quarto de Lymon White. Conseguiram persuadi-lo de que a morte da mulher se devia a um grupo de iroqueses e. A noite. dormia um sono mais reparador. O que habilitou em seguida a tese de um ataque de índios. não tendo mais com o que se preocupar. que não tivera coragem de olhar o corpo. os senhores canadenses e os aliados selvagens puseram-se em ação. O exército. Estará ela realmente morta? — Tanto quanto pode . Os dois outros. de onde foram enviados às galeras do rei. e as portas e janelas foram novamente bloqueadas. e. Durante a refeição. parece. Entrava de mansinho.

dar primazia à procriação. quando era seu inimigo declarado. uma noite em Quebec — e era simplesmente Joffrey. fazendo com que para que cada um deles o outro fosse o símbolo do fogo que queima no coração de todos os seres. essa imagem. mas que lhes permitira prosseguir com alegria e. ele se furtara. muitas outras vezes. com paz de coração. abrigando-se por trás de outros porta-vozes. e várias vezes. Ou então. Ao vê-lo ficou estupefada. a aparição inopinada de um deles fizera-a estremecer. depois: '"Onde arranjou essa sotaina?!" E finalmente. ele afirmou que isso não punha em questão sua presença entre eles. amor carnal recusado. . na penumbra da casa dos jesuítas.regaço. ao círculo sem fim de um universo sem vida ou ao sopro das tempestades. Desejava simplesmente falar com ela. Havia somente dois ou três pontos ainda que gostaria de esclarecer. apertando-lhe a cintura magra. Mas forma inacabada. uma silhueta negra. amor do coração aceito. Como o inverno era longo! Todavia. conferia-lhe uma silhueta quase feminina. mas reconhecera uma vez mais o Padre de Guérande. Depois adivinhando seu receio. fino. nos tempos primeiros. por uma silhueta entrevista. lavadas previamente em água fervente. à qual juntara um pouco de cinzas. pelo colarinho alto com o avesso branco arredondado. E agora ali estava. Cláudio de Loménie-Chambord. segurando a ponta do crucifixo onde brilhava o rubi. ele lhe pedia para não se emocionar e não interromper sua tarefa. E assim. frequentemente. falou de seu amigo mais dileto.. Simultaneamente ela pensou: "Como é belo!". Aquela neve salvara-os no outono. evocou sua amizade e aquela forma de amor existente entre eles. Fosse na pequena casa de Ville d'Avray. até que pudesse deixá-los entre amigos. era o Padre de Vernon. à beira de um bosque — mas não era ele. quase elegante em sua toga preta. com uma espécie de devoção. cada dia marcava um avanço. obsedada por. sem deixar-lhe tempo de abrir a boca.vestido com uma sotaina preta. a ajudava agora. Naquela manhã. acusador e implacável. ao pé da escada. a qual devia.. Mas sempre. daí em diante. julgara tê-lo visto aparecer. uma vez que não tiveram outra escolha. Subitamente o Padre d'Orgeval surgiu diante dela. Quando se lembrava do estado em que fora deposto na soleira da porta aquele que. os caminhos árduos de devotamento e sacrifícios de suas vocações. Chegou a hora do combate". estava sentada ao lado da lareira enrolando as tiras de bandagem. com um ar espanhol. que haviam vivido desde a juventude e durante os longos anos naquela incompletude. e quando receava constantemente vê-lo surgir diante dela. com multo cuidado e vigilância. o largo cinto. encantadora e dilacerante. à imitação do grande Inácio de Loyola. Primeiramente. Estava exatamente como o imaginara outrora. porque interdita pela dura Bíblia. Lentamente. Usara abundantemente aquelas faixas. pois. Amor sublimado. com um medo pânico: "Ele vai-se embora!" Mas. oriundo do mesmo lar único do amor essencial.. podia alinhar os rolinhos de tecido branco e deixá-los de reserva no cofre de farmácia. delgado. só podia. mas. e através do qual tinham podido amar com paixão e ternura o resto da humanidade. com a mão colocada sobre o peito. esperando não ter de servir-se deles por um bom tempo. felicitar-se com a marcha do tempo. pensara: "Desta vez é ele!. que voltava tarde da noite vestido com seu capote preto. sutil. Ele permaneceria ao seu lado até a volta da primavera. Eosse uma vez Penobscot. sempre em Quebec. confundindo-o com outras.

que vinha me revelar o inverso oculto de seu mistério e ensinar-me que a força de um tal sentimento podia dar a todo indivíduo a sensação de existir na terra. decepcionar. Voltei a mim tomado pela confusão e também pelo terror.. O desmoronamento de toda a sua vida. Estavam sozinhos no mundo. Apontavam-me com o dedo. a . Não precisavam recear nem ser compreendidos. Num mundo destruído. e que é tudo para nós. acabava de compreender que o Amor. noção ignorada e que vinha me tocar com sua luz. Nem desencaminhar. inacessível. "Achara minha jogada. e o amor carnal também. desmantelamento dos quadros que a sustinham. já que ele o pedira. prosseguindo um discurso que devia ter repetido amiúde a si mesmo — eu me pergunto atualmente se não teria sido melhor para a glória de Deus que não nos tivéssemos separado de forma alguma. Pouco a pouco sentiu-se invadida por uma convicção tranquilizadora de que naquela hora podiam dizer um ao outro tudo. e seu coração se rejubilou ao ouvir esse padre de batina preta conceder a seu amor proibido uma espécie de absolvição indireta. ferir. e que eu fora culpado.. "Foi assim. A ideia da Diaba anunciada atravessou-me o espírito e foi-me difícil refrear um grito de vitória. Tomou novamente a palavra.. Mas era demais. Ensinam-nos em nosso noviciado a dominar pela sublimação esses desejos imperiosos. tratava-se realmente do Padre Sebastião d'Orgeval ali à sua frente. No entanto.— E ainda — disse. "Censurava a meu corpo estar implicado nesta revelação.' A Mulher. Ela o escutava atentamente. que eu confundia com concupiscência. numa ruptura de todo o ser. pensou em Ruth e Noémia. abençoei a Deus por isso. o Amor. ninguém podia recolhê-las para distorcê-las e transformá-las em armas mortíferas. dizendo que devia voltar àquele dia de outono. pois aprendi que nada é mais criativo e vitorioso que o amor sincero. que não desejam ser envolvidos. de tê-lo ignorado. Não quis reconhecer a Luz. Eu desfaleci. estavam sozinhos sem outra testemunha a não ser o Criador. o Amor. Quanto a eles. Sensações de arroubos e de arrebatamento jamais experimentados. Eu era um mestre nisso.. Aquele dia em que. Talvez porque não visse como materializar a revelação. e reconheço que esse puro e terno amor que eu nutria por meu irmão predileto me preservou do peso da solidão e da aridez do coração e preencheu por muito tempo meu ser afétivo. "Aquilo que eu entrevira era muito louco. dizendo: 'Ele ficou louco. dando involuntariamente uma suavidade ritual àqueles gestos simples dos afazeres cotidianos que acalentam a vida. A loucura de Babel agitava-se para além das fronteiras visíveis. Consequência da revelação. deixando em paz meus sentidos. enquanto continuava a enrolar as tiras. Procurava retomar pé em meu universo familiar. ao lago de Moxie.. No momento. deserto. decepcioná-los.. mas com mais lentidão. Quando ele falou do ardor do sentimento que o unira ao Conde de LoménieChambord. podia ser o caminho do sagrado. Eu me obstinei. — Soube então que o Amor era um dom de Deus. muito culpado. enganar. Ela me feria em todas as defesas que eu edificara para me preservar contra aquilo que eu odiava e que mais me aterrorizava: o Amor. fazer inimigos que destruíssem suas vidas e a dos seus entes queridos. Renunciar a meus melhores amigos. Ninguém podia ouvir suas palavras.

"Nós nascemos cegos. prisioneira?. Mas isso não muda nada.. rígido. e seu desfecho. Sim. seu amor. que na realidade ocultava todas as loucuras de um sentimento amoroso.. assustados por monstros. o homem que a possuía e que. aviltar aquilo que não merecia triunfar. Falava de campanhas de guerra. era também amado por ela... não quisera matar.. se conseguia acolher com uma fronte serena o anúncio de que ele quisera sua morte. Eu começava a compreender que o duelo tinha mais importância do que eu lhe queria atribuir. Adivinhara quem era minha aparição. Vibrava.. quis sua morte para extirpar aquilo que me corroía... Teria desejado que ele desmerecesse esse amor. partia para massacrar os protestantes com minha grande espada. forjado no poder sobre os seres. Era muito tarde para mim. de cruzadas. procuro desculpas. eu entrevira os cavalos dos homens no sobosque. mas tão convencido de servir a Deus e de que Ele me perdoaria esses crimes.. Eu acreditava querer abater. seu amante. e eu não conseguia suportar isso. uma caravana. Não as tenho. era mais sensível quando se tratava daquele a quem adorava.. Teria desejado afastá-lo. nasciam sob o aguilhão de uma atração à qual eu recusava dar um nome. "E como circunstância agravante.. E Piksarett desapareceu com você!. como você vê. e gritava: 'Tragam-na até aqui!' Estava certo de atingir o objetivo. a fim de poder encontrar razões para pensar nele.. "Mas quando se vê claro. sabia que você estava lá. sem nada esperar em troca. depois de Brunswick Falis. destruir. e não sabia com que impaciência. a fim de justificar a obsessão de meus pensamentos. crendo que em seguida reencontraria minha alma. pois ele começava a conhecer melhor Angélica e sabia que. tudo entrava nos eixos. Quando era criança. "Sinto-me criminoso por fêf continuado a viver dando àquilo que realizava aparências de açóes virtuosas. Não assegurou-lhe. Essa confissão era mais difícil.. seu esposo. que eu chamava de ódio.. "Todos os projetos de derrotas.. vencida. de perseguições quê fomentava contra vocês. é então que começa a culpa. — Não julga que a vida sempre lhe foi fácil.. não? — tentou protestar Angélica. Podia continuar minha guerra."para cumprir minha missão. de vingança. Teria desejado ver sua soberba diminuir. Não ria!.. levamos anos para compreender que não passam de espantalhos de palha e de madeira morta. Mas ela não foi. por uma verdade entrevista. Meu corpo estava formado. O que eu esperava daquele instante em que ela estaria diante de mim. o homem a quem ela pertencia." Falou em seguida sobre o rancor e o ciúme devorador que sentira pelo outro.. "Quando subi para o assalto de Newchevanik.. "Soube-o no dia em que deixei de ter a consciência pura dian-:e dos meus atos. no poder. estava apavorado. "Louco. Deixar tudo.. — Ele sabia tudo — atalhou ele —.. apagar. cercados por neblinas. de captura. e estava obsedado por uma única coisa: aproximar-se disso. naquele lugarejo de puritanos na colina.. quebrar sua insolente aptidão para viver. em virtude de uma injustiça intolerável. . na guerra.. "Acreditava que era para destruir os inimigos de Deus. "Esse amor. Portanto. que eu não era o único a decidir esse duelo.liberdade da consciência.. a ele...

pensara muitas vezes.. ensiná-la. — Padre d'Orgeval. Eis o que eu queria confessar-lhe para que o passado não deixe subsistir equívocos e amarguras entres nós. ela disse: — Posso fazer-lhe uma pergunta? E como ele aquiecesse com um movimento da cabeça. Mas. Moliere. nem o amor. Era preciso desembaraçar esses acontecimentos do engano das aparências: Eu não combatia por Deus e vocês ?ião eram Seus inimigos. merecia tanto? Eu o maldizia. "Comecei a invejá-lo por não ter moralidade. maravilhá-la. eu o sentia justo. tudo era imponderável. É preferível ficar cego a compreender que a luz da Verdade não nos é concedida segundo nossos méritos. E melhor continuar a acreditar que somos um dos eleitos." — E agora.'mas fora correspondido. após um longo silêncio meditativo. Angélica acabara de enrolar as faixas. mas segundo o Plano. libertino.. aquele Conde de Peyrac. Mas que ela não falaria.. o que se liga ao êxtase divino. aquele homem pelo qual ela estava tão perdidamente apaixonada e que não havia recusado nem a carne.. Por que ele e não eu?. ela o olhava. Era ele quem tinha razão. zombava da Igreja e de suas instituições — seu processo não fora provocado pelas queixas do bispo de Toulouse? — Eu via que." Calou-se. Entretanto. o que pensa a esse respeito? — Que Deus acolhe todas as vias que exaltam Sua grandeza e celebram Sua bondade. E no entanto. Não apenas descobrira o Amor. Ele achou-lhe uma graça -infinita e fechou os olhos. ela disse: — Onde arranjou essa sotaina en perfeito estado? Pensei ter feito em pedaços aquela que você usava quando chegou! — Tomei-a emprestada aos missionários de São José. Um leve sorriso brincava-lhe no canto dos lábios. nem servidão e vassalagem de qualquer espécie para com ninguém. às vezes me pergunto se seu erro inicial não teria sido entrar para os jesuítas em vez de se apresentar ao grupo do Sr. Ateu. colocando-as cuidadosamente uma após outra no escabelo ao lado. Com as mãos sobre os joelhos. ele havia coroado essa existência culposa pela descoberta das mais elevadas e embriagadoras alegrias. "E uma coisa terrível descobrir o erro que se cometeu e a amplitude das armadilhas nas quais se caiu. e tinha havido muitas palavras. o verdadeiro. em contrapartida a tantas transgressões efetuadas com desenvoltura e sem se preocupar com o escândalo. "Tudo aconteceu alhures. Tendo obtido a mais bela das mulheres. porque andava no caminho de sua verdade.. Ele que andava pelo Caminho da Verdade. — Por que a vestiu hoje? — Para confissões difíceis às vezes é necessário uma armadura.Como era afortunado. "Aquele fidalgo de aventuras. Não é um comediante nato? . lá onde se abrem. Estou tranquilo e seguro de mim mesmo. Percebeu que a deixara nervosa. Tinha medo de compreendê-lo. pisava em todos os preceitos.. arrebatá-la. tudo e tão lento na terra.. com efeito.. Ele foi aquele designado para satisfazê-la. entre os justos. Isso também eu tive de enfrentar. Pois. apesar de perdido diante dos meus. fora amado por ela. nem apegos. para sempre. e jamais se perturbara com as leis. os novos olhares e onde se preparam as transformações das gerações.

O frio continuava forte e trazia incessantemente pesadas nuvens fustigadas de neve. Durante as breves saídas que se permitiam fazer. esforçavam-se em vão por perceber aquele ruído ténue. como ele dissera. subindo gradualmente para os desencadeamentos ordenados da tempestade. Sebastião d'Orgeval encorajava-a a fazer projetos no sentido de uma volta à Europa.cansativa. de Nova York a Quebec. É preciso ter gosto pela declamação e pela tragédia para pregar. uivos. isso era muito relativo. Podia falar-lhe de Joffrey. Ele a escutava avidamente. . mesmo com Abigail. reunidos novamente no único quarto.. estertores. refúgio dos homens. O sr. Deu-se conta de que nunca tivera oportunidade de falar a respeito dele ede seu amor. — Nem por isso esses deslocamento e essa mudança cortarão os elos que vocês já estabeleceram com o Novo Mundo. quando falavam. Algumas vezes viu-o lendo um missal. que iria curar-me disso. Os homens têm muita razão de construir cidades. Seu instinto gregário os impele a pôr em comum todos os bens e serviços de que têm necessidade para sustentar esta mísera vida que uma côdea de pão e um vizinho caridoso podem salvar da morte. sabiam que ainda não estavam a salvo de um despertar de suas forças numa derradeira cnse. durante a qual destruiria ludo. como os velhos tiranos loucos.. Os períodos de dias mais tépidos surgiam entre duas tempestades. mas que se denomina "o pássaro da primavera" e que teria prefigurado para eles a pomba da Arca. E não seria viver com os índios. guardou cuidadosamente a sotaina "emprestada" e recolocou o crucifixo sobre o batente da lareira do quarto de Angélica. Só quem não conheceu o deserto branco do inverno nas re-giãos incivilizadas pode se queixar das cidades. do mesmo modo que sempre fez em todo o resto do mundo.do furacão. e não lhe será difícil conservar um pé em cada porto. um pouco". de Peyrac é tão hábil quanto os novos ingleses em singrar os mares com seus navios. Daí em diante. era. a impassibilidade de uma paisagem onde ainda se lia a morte de todas as coisas. Oprimidos pelo eterno silêncio." Velha harmonia. Companhia familiar que escutavam. que caíam como cataratas ou turbilho-navam com agitação.. num clima de confiança e de familiaridade novas. a cidade. um pouco desgastada. obrigando-os a se encerrar em casa. que são comediantes natos. No colégio fiz todos os grandes papéis dos heróis da Antiguidade. estridente do pássaro que nunca se vê. em atrelagens conduzidas por um vento único que conhecia seus caminhos e só tinha uma finalidade: devastar a terra até o osso.— Sempre fui. se discerniam um imperceptível abrandamento nas violências. que provavelmente também tinha trazido da missão. CAPITULO XXXII Um aspecto do espírito de Joffrey de Peyrac — Sonhos de regresso à Europa A seguir. junto ao único fogo que devia ser mantido com sentimentos mesclados de simpatia e de receio pelo que bramia acima de suas cabeças. Mas quando se falava em tepidez. Assobios. falavam das cidades longínquas que reveriam um dia. Pois você não ignora que a educação dos jesuítas atribui muita importância ao teatro. aquele ruído das águas que recomeçam a murmurar nas profundezas dos bosques. pois. Em vão se voltavam para as árvores mais próximas para ouvir o apelo aflautado.

o Pai das Águas. era a beleza de Versalhes que lhe aparecia. Os espanhóis não reagirão. e as guerras que delas decorrem. índios ou brancos. entre . Ele falara. de uma selva perigosa. A corte era uma selva. até no golfo do México. naqueles dias em que toda visão se adorna com um véu de clemência. das campanhas de represálias. cuja espécie lhe era tão contrária. e quem mais que ela podia saber disso? No entanto. A dois. o que é pior. poderiam desfrutar. se conseguir descer o rio Mississipi. sem distinção de vítimas. e quem sabe?. dos massacres perpetrados de ambas as partes. dançam. cumprira sua missão diplomática. Se a vida se extinguisse em toda parte. como o rei.Em sua opinião. A dois. continuam a procurar e a criar todas as formas de Beleza para encantar os olhos e os espíritos! "Pois isso significa que o fogo continua a crepitar. E preciso que ele volte ao Canadá. de Frontenac. E. aos olhos de Angélica. o peso do silêncio e a rudeza do cenário que reencontrava eram difíceis de superar. se em toda parte só houvesse miséria. o destino das colónias não se resolveria apenas por aqueles que ali se encontravam. de preferência às intrigas sortidas que circulavam nas estranhas do palácio. que existam banquetes onde se podem degustar. — Veja que é de Versalhes que se decidem as partilhas. segurando com as duas mãos enormes e deliciosas frutas. fora do círculo. riem. e que há esperança para nós de vir um dia também a sentar-nos. — Versalhes governa os destinos desses povos até os confins dos vales mais desconhecidos e menos visitados. Quando voltava desses desvaneios. Mas ela sentia forças vivas prontas a se erguer. não sem razão. — Dá para imaginar que em algurfia parte existem palácios onde se dança. ou seus partidários. a todas as formas de arte. os encantos de Versalhes e o que ali havia de excelente e que tão poucos apreciavam no trato com o soberano. — E no entanto — disse Angélica — é mais difícil voltar com confiança a um lugar onde se sofreu do que fazer ali suas primeiras armas. um louco imbecil. ébria de todos os prazeres. teria desejado estar perto dele. paz e riqueza. Era o culto que o rei prestava à Beleza. vivos. onde se deleitam com músicas celestes. Do lado de fora. em alguns pontos. perdidos em nossa geena. — A bússola está lá — dizia. de La Salle não tardará a ir plantar o estandarte do rei da França no Illinois. e pode-se agradecer aos céus por isso. para com aqueles que. as intrigas fomentadas contra ele teriam conduzido nosso melhor governador à Bastilha. Pois o novo governador é um louco. ou. Se seu esposo não tivesse podido acompanhar o Sr. mas também o Templo do Beleza. um planeta deserto e congelado. absolvia Luís XIV. onde se fazem rega-bofes de patês tão grandes que uma criança disfarçada em Amor pode ali se esconder para surgir sob os aplausos de uma corte coberta de pérolas e fitas. — E a Nova Inglaterra ficará cercada. O Sr. dá para imaginar — dizia ele —. o que. fogo. "Quanto reconhecimento não devemos ter nós. neste momento. Agora que Jof-frey entrara em contato com o rei. É preciso fazer ainda mais por ele. Miúdas expedições de formigas roem os espaços. colhidas nos jardins do rei? — Sim. das guerras. É a honra de nossa estrela Terra manter assim sem descanso. ingleses ou franceses. ainda que numa única lareira do mundo. Receava ainda um último e sorrateiro golpe do destino. Ela evocou a corte. que já se tornara infernal. Não havia saída. tudo seria mais fácil e principalmente mais divertido. até sua embocadura. não deixá-lo sozinho no meio daquela fauna absurda e fútil. então seria realmente o fim do mundo.

nenhum adereço. que Joffrey não teria hesitado em lançar e desenvolver com brilho e ardor nas cortes antigas da Arte de amar. E com ela que devemos iluminar nossos sonhos e ambições. Em várias oportunidades o Padre d'Orgeval repetiu que desejava que o Sr. as teorias que enunciava. Com a diferença de que ao Trovador do Languedoc.os que estendem suas mãos a essas chamas revigorantes e partilhar com eles o festim. lava incandescente que escapa ao vulcão divino. eram exatamente aquelas. "Certamente. Se meu esposo desejar meu retorno à Europa e decidir ali esperar-me. No momento. e sobretudo por falsos alarmas. O importante era o rei. que carrega nossos êxtases e arrebatamentos. tem também sua força irresistível. o Sr. Nenhum bibelô. dentre a multidão de pensamentos que fermentavam no cérebro genial do senhor da Aquitânia. nada que possa devolver-me o gosto pela existência e me ajudar a encontrar o esquecimento daquilo que perdi. se se sabe que num só ponto o fogo permanece. meu amor. era o rei. Pois sentia que as palavras que ele empregava. eficaz. Nós nos reencontraremos na paz e falaremos juntos". de Peyrac faria mais para o bem dos povos e dos continentes do que tentando lançar-se em socorro dos seus. meu caro diretor de consciência. móveis. que havia perdido sua voz no átrio de Norte-Dame quando ali o arrastaram com uma corda no pescoço. seda. Mas a vaga de ouro e de pedrarias dos esplendores da vida. tudo estará pronto e não faltará nada. O FIM DO INVERNO CAPÍTULO XXXIII . Aprendera a calar-se. qualquer desconforto! Deve poder aproveitar todos os prazeres que sua fortuna lhe permite e que a capital do reino coloca à' sua disposição." Dir-se-ia que havia nele um aspecto do espírito de Joffrey. carruagens. a vaga de lama. Cada vez mais ela acreditava ouvi-lo quanto o jesuíta se exprimia. belas parelhas. Seu coração ansiava por Joffrey. repugnava expor atualmente em voz alta o fundo de seu pensamento. Ela pensava baixinho: "Eu o compreendo. Tudo é permitido à esperança. ausência de preocupações domésticas. Tudo seria conduzido magistralmente. Seu imenso poder de concentração não deixava de criar nos corações ciumentos uma impressão de abandono. belos quadros. é poderosa. crimes e torpezas. Nas paredes de seus palacetes e de suas residências campestres. de Peyrac não perdesse suas forças inquietando-se com a sorte de sua família. ricas tapeçarias. Ser-lhe-á preciso uma numerosa criadagem devotada. de Peycrac devia também preparar com o maior cuidado sua instalação no reino da França. — Estou aqui para velar por vocês. — Talvez até demais — acrescentou. que nos arrasta. Ela se divertia quando este insistia em que o Sr. Sebastião d'Orgeval estava convencido disso. se dirigia ao género feminino. objetos jdeestima. jóias para vos ornamentar. por exemplo. nossas alegrias e ardores. Mas o que ele enunciava por sua conduta causara transtornos mais importantes que seus discursos. e ela sempre se inquietara quando seu interesse. — Pode estar certo — dizia-lhe ela —. Ela afirmou-lhe que sempre vira Joffrey consagrar-se a uma tarefa sem se deixar distrair no momento por nada. com uma ponta de censura. veludo para vos vestir. E conquistando-o. — Você não pode vir a sofrer.

cavada per lagos. Era uma loucura ter trazido para ali cavalos. que só podia se abrir para alguns loucos que saltam as corredeiras. Eles reaparecerão. uma teia de aranha. — Não quero dizer que estarão mortos. Assim que seus perseguidores tiverem se retirado. — Então. e que se chamava. de Gorrestat e seu exército retomariam a campanha contra os iroqueses. Cercarão os povoados e os queimarão. o Atlântico e o SaintLaurent. envoltas em panos impregnados de óleo. Os próprios povos nómades não se agrupavam ali.. o Sr. também não disseram que você voava pelos ares?!. Ele trará consigo todos os sobreviventes. eles ressurgirão na face"da terra e. nesse.. com zombaria. sim. Mas ele apenas sorriu. não longe daqui. Dela só posso esperar perambu-lações solitárias. de Peyrac. Padre d'Orgeval. de uma linha de cristas a outra. e não longe daqui. E como ela esperasse a continuação. ele consentiu em dizer algo mais. Inutilmente os perseguirão. Assim que o degelo começasse e os riachos. se está persuadido de que vão surgir.. Havia abundância de munições. O fim do inverno representava a volta dos homens. até em sua solidão. mergulhado em profundas reflexões. não haviam sofrido danos. — Por onde eles passarão? — Creio que sei. ou então pertencer a um contingente de guerra iroquês em expedição para o litoral. Não me sinto feito para ser ermitão. — O que quer dizer com isso? — Terão desaparecido! — repetiu. Ele conservava a lembrança daquilo que surpreendera na Missão de São José. meu padre. Opôs a sua instância um rosto subitamente sombrio. mas. inextricável. Tenho uma opinião sobre isso. Bem cuidadas. e que "podia tornar-se invisível? Entretanto. intrigada. . O mais isolado anacoreta pertence.A face oculta de Deus — Rei e rainha da Criação.. uma teia de aranha.. penso que deve haver uma explicação material que você vai dar-me.. Mai-ne ou Acádia. Pois era um trecho de deserto impenetrável. empolada de montanhas em vagas sucessivas que lhe barravam o acesso. — Não nego o maravilhoso em muitos fenómenos. ou que conhecem os bloqueios secretos dos precipícios ou os entrançados misteriosos de pistas antigas. lançava ele. Um deserto. ter julgado que se poderia um dia abrir estradas nesse lugar. Utakê escapará uma vez mais. Ele conhecia de cor todos os segredos da imensa região de rochedos e de brenhas de florestas selvagens. que um dia se coriseguiria unir o norte e o sul. — Eles estão em prontidão no lugar. estriada de falhas profundas intransponíveis numa extensão de léguas. Pode ser que seja o fim dos iroqueses. incivilizável. conforme as bandeiras. Para que existência? Para que obra? — Sua vida. Mas eu os conheço.. Era preciso ser canadense ou abenaki para arriscar-se nesses lugares. atravessando-o.. — Quero dizer que terão se tornado invisíveis. — Ela já não me interessa. na complicação e no visco de sua teia. Era uma utopia da parte do Sr.. — Para que vida?. e creio que você tem razão. anjos entre flores de luz Surpreendeu-o examinando as armas. rios e lagos ficassem livres dos gelos. Dois terços da França. Pois eles terão desaparecido da face da terra. Mas não dizia mais nada. é preciso fugir. Seja. inverno e verão. com um gesto indicando apagamento..

que é o Estado católico das possessões inglesas. Ele sorria vendo que suas palavras atingiam seu objetivo e que o ardor que já lhe inspirava a perspectiva de se debater pela salvação de seus amigos punha-lhe nas faces uma cor rosada. De qualquer maneira. Menos pela perspectivas dessa existência. Mesmo no fundo dos desertos. em que os mergulhavam o frio e a obscuridade ainda reinantes. Você haverá de encontrá-los e ainda salvá-los. os tetos arruinados. onde estiver. Existem lugares muito bons desse tipo. nos dias que passavam. em seu íntimo. tentando sorrir e amenizar as palavras. Aqueles que. Por isso. No Dauphiné. — Oh! eu sei. ouviram o apelo do deserto. a imitar a corajosa e constante Mãe do género humano. então... você verá. vendo a terra renascer por sinais invisíveis. a pior seita francesa. esta terra que não se recusava a reflorir da nudez e das devastações do inverno. abadias. que já governa a metade da Europa e uma parte do Novo Mundo. seus "pobres de Lyon". seus quacrés.. apesar de tudo vazia. grutas junto a águas murmurantes. E disseram-me que havia monges procurando refúgio em Maryland. — Assim que a primavera chegar — dizia ele —. Existem belos valezinhos que incitam à oração. — Seremos sua comunidade. Toga Negra". você sabe! — disse ela. que Angélica sabia ainda existir e que o encorajava a partir para outros lugares. Você deve isso a mim. A França é rica desses lugares de recolhimento.. do que por esse medo diante da ideia de cair novamente nas mãos do iroquês. O eremita liga-se a seus irmãos de espécie. encorajavam-se mutuamente a emergir da inércia da morte.. O soberano. que lhe recomendam afastar-se a tempo? O jesuíta desviou os olhos e sacudiu docemente a cabeça. Minha América. que teria de enfrentar... você deve superar sua fadiga e sarar. — Você pode tudo.. os objetos perdidos que a neve levada pelos ares nos devolve.." seus lolardos ingleses.. Não existe mais comunidade para mim. dirige orações ao mesmo Deus. O rei está a seus pés. medita sobre as mesmas verdades. como ele. a escuta. Conheço um deles. Apenas alguns dias no. Adivinhando. pois nenhuma luz poderia substituir a vocação religiosa que queimara por tanto tempo.s separam da salvação: a primavera. estaremos ligados a você. por exemplo. Seus heréditos de todo género. que estou dizendo? O cetro do rei está em suas mãos. Sentia-se tentado. Mas. o afrouxamento do círculo de gelo do inverno.. Tomei consciência disso em nossas palestras. Existe uma energia irresistível em recomeçar tudo. — Utakê me disse: "Eu voltarei. minha cara. E o que me trará a primavera. Mas não são a América. quanto trabalho para limpar o lugar! Contando as barreiras quebradas. — Nada de mortos. que professam o gosto da mesma austeridade e sobretudo das mesmas disciplinas místicas. — Não — afirmou ele..a uma comunidade escolhida por ele. e por sua influência. — Alguns capuchinhos eremitas encontraram um lugar para erguer seu oratório lá pelos lados do rio Saint-Jean ou do istmo de Chignecto. Há cartuxas. Não o abandonaremos. esses val-denses de que falam como que do Diabo em nossas montanhas. você poderá agir e fazer o bem. eles não estão todos mortos. . — Seja.. e os corpos.. você deixará que o salve? Ouvirá meus conselhos. mais ainda que os cátaros. as sendas cortadas. Ora. sobre os quais você fala com tanta ternura: seus hu-guenotes. não é? — Quantos corpos terei"de contar? Terá ficado algum sob os escombros de Wapassu?. prometi a mim mesmo comer seu coração. mais do que pelas armas.

como ele lhe recomendava. Você mesmo dizia que não se deve tentar compreendê-los. a Criação é um lento nascimento. de suas experiências entre as tribos. nem perder a razão seguindo os meandros de seus pensamentos. para isso}" Ela protestou com ardor. falando sobretudo da sua vida de missionário. parar de se atormentar para desfrutar-lhes a riqueza e o encanto. Saberei avaliar o momento de me afastar tranquilamente. elas se prolongarão.. e. que seriam as horas derradeiras do inverno. — Sinto-me melhor agora. Encontrar-lhe-ei um refúgio. Angélica ficava na cama com as crianças e seus brinquedos. pode recusá-la. Os homens podem chegar à destruição. Não~o sabemos. E o completamento da Criação que perseguimos. — Não posso deixá-la sozinha com as crianças. Nenhum povo. Prometo-lhe. um lento partejar. — Elas sobreviverão — dizia ele —. — Utakê me disse: "Você deve isso a mim. que se deixara transportar por sua eloquência e que subitamente se reencontrava em sua pobre cabana —. como essas crianças pequenas. Ele voltava menos ao passado. Não é por mim que receio. até nós. Mais longe. Não veio do outro lado do oceano. pois sua voz é a própria voz da Criação. por mais humildes'que sejam. Eles fêm ouvidos e não ouvem". Por trás desta palavra. "Povos desaparecem por ter recusado o avanço. Aqueles que não querem ouvir desaparecerão. A estação das tempestades e das quedas de neve ainda não se encerrou. — E no entanto todos os ouvidos humanos podem ser abertos para ouvi-las. nenhuma ideologia. Mas "eles têm olhos e não vêem. A evolução da Criação é nosso dever. Ele tinha razão... às vezes. a . Ela sabe o que faz. Fuja! Vá para a baía Francesa. por se igualarem a opiniões tão grandiosas. Parta sem demora. Condena aqueles que se recusam a seguir sua torrente imperiosa. Todos os espíritos são seus depositários. nem por ninguém. Ocorreu então a Angélica que era preciso reter aquelas horas. A noite de inverno que torna os dias tão curtos. Sare! Sarará mais depressa se não se atormentar nem por mim. "A natureza esmaga aqueles que se opõem à sua marcha. mas engendra. jamais à destruição completa antes da hora.que não consome. seu feixe. Depois de realizados os trabalhos do dia. — Não! Não! Uma vez!. — Não fique o tempo todo pensando em me mandar embora. Cada um contribui com seu raminho. Julgamo-nos senhores dela. e às criaturas frágeis também. para esse grande fogo. A noite ainda era profunda.. Escondê-lo-ei num lugar seguro.— Loucura! Não se deixe levar pela loucura dos selvagens. Utakê sabe o que diz quando me avisa: "Quero comer seu coração". Duas vezes!. uma lenta encarnação do poder divino que se encontra instilado. mas pelo encontro dos elementos mais fortes que existem nelas com o que há de mais forte em nós. Cruelmente. reduzindo-os certas vezes a uma cinzenta travessia de algumas horas. sempre mais longe. Já basta! Você pagou seu tributo a sua vocação. o jesuíta sentava-se diante do fogo. Toga Negra. Não tema nada. Ora. Angélica não protestou mais. algodoada de neve caindo ou zebrada de rajadas fustigantes." — Um fogo também o atingirá se pronunciar tais palavras no púlpito — disse Angélica. Nós o encontraremos. pois essa força é cega e irresistível. insuflado nas maravilhas do mundo. e recomeçavam a falar casualmente e depois a conversar mais demoradamente.

. ávida de conhecimento. Eles não querem saber. encarregada de manter com vida as crianças pequenas. Divertiam-se tratando assim com impertinência as personagens bíblicas.. Mas. submetidos. ao domínio do sonho e da visão. apesar de tudo. na qual o acaso o fez nascer. Se eu posso desdobrar meu corpo e se ele permanece aparentemente mergulhado no sono enquanto meu espírito viaja e vê esse corpo pesado elevá-lo acima da terra e deslocálo. eles estão lá. O que os cativa são suas pequenas preocupações. — Não. Uns falam de milagres e outros falarão de ciências!. A solidão de seu estado e o excesso de sofrimentos padecidos fizeram recuar. Viera como um anjo. Elas ficavam imóveis e boquiabertas. pelo menos. nos tronos. Não se pode abrir-lhes o horizonte. inelutável. tratando-as como marionetes no pequeno teatro de seus colóquios. penetrei no caminho de um segredo natural. por intermédio de revelações pessoais. a essas curiosas. E se eu digo Deus. dominadora. força que devia se ligar.. Não o verão. sentiam-se. mas porque.. em cadeiras de palha ou em banquetas de tapeçaria de cetim. não é sequer porque Deus me concede uma graça ou por ter recebido um dom. ela é vasta e vazia e o futurp lhe está aberto. não é. mas também a pequena Honorina perdida entre os iroqueses. com que malícia impediu-as de agir. "Entretanto.Natureza.. ela é muito vazia e muito vasta para ouvir e compreender o que acontece. — Olhe-as — murmurava ele —. o círculo dos olhares-juízes que não cessam de pesar sobre cada membro de uma sociedade. o que vai acontecer. Antes mais audaciosa já e sem temor a Deus. como que por um fio de prata. cheios de desenvoltura. com toda a humanidade. sobretudo de pensar. dirigindo os grandes olhos para um e para o outro. e já aturdida e indisciplinada por natureza. render sua força de mulher que enfraquecia. é arrastado. O desaparecimento da vida em torno deles transformara-os em rei e rainha da Criação. até apagá-lo. e levantam o nariz para ouvir o pregador.. Abandonados num astro morto. O tom de brincadeira e de comédia que adotavam e os risos que não conseguiam refrear faziam com que as crianças prestassem atenção a suas palavras." — Foi a punição de Eva. Sua força de mulher e de mãe amorosa. as mulheres são mais aptas que os homens a apreender os mistérios ocultos. à de . Verão seu ídolo. — Eles estão lá. Nela se descobrem mais facilmente os segredos enterrados. Para escorar. cortando lenha. Era como a presença de um anjo. imperativa. podiam olhar do alto os poderosos da Terra. podendose dizer que as palavras mais abstratas tinham o poder de mergulhá-las em êxtase. E mesmo a América.. Ouvia-o andando de lá para cá no posto. por natureza!.em bancos de madeira. Eis por que eu a amo. em relação a soberanos que dirigiam o mundo. Eles riam. transportá-las para fora de si mesmas. O severo jejum ao qual estavam. não vêem que se oculta a face de Deus.. falando com as crianças. Ele é estreito demais. como são belas! São flores de luz. Com que cuidado. Talvez seja por isso que o Espírito Maligno se preocupou tanto em ocultarlhes a verdade. não o compreenderão. sentados. Do mesmo modo. mas pouco lhes importam as palavras que lhe caem dos lábios. de adivinhações pessoais. não o conceberão a imensa aventura dos mundos à qual cada homem. seus pequenos negócios. Levantava-se diante do fogo e olhava a seus pés como se contemplasse do alto do púlpito uma assistência ocupando a nave de uma igreja. liberava-lhes o espírito tal como uma leve embriaguez.

abrigo. de reunir todos os seus à sua volta. era de uma brancura de alface. teve uma recaída. o autorizassem à dizer: "Ergamos aqui nossa tenda. Como a vinda das flores. Mas as forças do homem mais4orte são tão fracas. perto de Joffrey. Sua voz sob a janela no fim da invernada. apesar de sua coragem sem limites. e. sob a beira do telhado que está começando a gotejar.. Joffrey de Peyrac. Querubim. Ela abrira caminho na sombra e no gelo. seus meios. acompanhada de lolanda e de Querubim.Joffrey. todos. Sua força seria a sua. e depois. Cantor. ao qual se sucedia o frio glacial das noites.. Marcelina certamente estava viva e. a Bela. Sua constância sustentaria a sua. quando a apertava nos braços. o invencível. e. CAPITULO XXXIV A primeira flor da primavera Ele entreabriu a porta cautelosamente. como estavam naquela época. de socorro para iniciar o périplo de sua existência em meio às emboscadas deste século. todos os jovens que tivessem necessidade de ajuda. Angélica pensava em Cantor. que lutava. da trama de suas alianças. após alguns instantes em contato com o ar e com o sol. com o cálice aberto sobre pistilos dourados e ornado por algumas folhinhas em feixes verdeclaros. dizendo: — A primeira flor! Segurava entre o polegar roído e o dedo médio truncado um açafrão rosa. Ho-norina se juntaria a eles em Gouldsboro. sem dúvida nenhuma. Onde Joffrey dissesse: "Fiquemos!". o conde-cavaleiro. e todos se reencontrariam: Florimond. seu conhecimento dos homens. Somente o Espírito pode multiplicar a força. ao longe. e isso lhe lembrava o tempo da costa Leste. força de todos eles. no qual cada um combateria no torreão que devia guardar. Ele não passa de um ponto mínimo no universo. Ela compreendia o que ele quisera dizer-lhe. era preciso reconhecer que as intervenções do céu para sua salvaguarda tomavam as mais irnprevisíveis formas e rostos. como com um sangue novo subindo-lhe ao rosto. o defensor. sob efeito do calor do dia. onde sua prudente experiência. Que teto abrigaria tão numerosa família? Que província seria seu feudo? Pouco importava!. A ideia de atravessar o oceano para consegui-lo cessara de parecer-lhe insuperável. tão reduzidos! Nem todo o ouro do mundo pode resgatar a impotência na qual o çojocam muitas vezes as escolhas de suas lutas ou de seus mandatos. Honorina. fora cuidar dela.desde a última doença. se encontrava acuado. e depois embarcariam. por eles. a primeira flor!" Teve uma súbita vontade de revê-lo. num jarrinho de água. em palavras febris e apaixonadas. — Encontrei-a ao virar uma placa de gelo. Deixou a flor junto dela. quando Marcelina. "Mãe. levemente esverdeada. o indómito.. avaliando como aquele homem estava investido de encargos. Mesmo Joffrey. sob sua asa. Uma vez aceito isso. dizia consigo. Aqui podemos viver em paz ainda um tempo de nossa vida". Raimundo Rogério e Gloriandra. Era apenas um inverno. refúgio. lolanda também. e em quantas partilhas. . E também o pequeno Carlos Henrique e todas as crianças. de rever os filhos. portanto. Ela não parara de tossir. na última noite na costa Leste. Tossia. se soergueu e se adornou com todas as suas cores. tudo ia ordenar-se espontaneamente.

mas também a volta dos homens. Isso não nos impedirá."Joffrey! Joffrey!. não quis que renunciassem à saída cotidiana. explicou-lhe. Mas isso não significa nada. — O Pai Inverno não quer ceder. Ele tinha hábitos de celibatário. e poderemos nos encontrar!" Gelo. Acendeu o fogo em todas as lareiras do fortim. à noite. infiltrando-se como um elemento espesso que tivesse preparado uma temperatura polar. que haviam recomeçado a respirar. e desanimada com a recaída. E para convencê-los ao mesmo tempo da iminência dessa volta e permitir-lhes olhar uma última vez de frente o inimigo que não os tinha vencido. pois aquele era apenas o último assalto do Pai Inverno. Veriam diminuir. olhando-o mais de perto. Um vento forte se ergueu. Angélica levantou-se tiritando de frio e batendo o queixo. de homem que aprendera a se arranjar sozinho. Sebastião d'Orgeval mostrou-lhes ao longe a mesma bruma dourada. como no milagre do óleo santo do templo ou no dos pães e peixes do Evangelho. que deixava escoar lágrimas de alegria. da qual parecia ter guardado de sua expedição à Missão de São José uma reserva inesgotável e que se renovava incessantemente. — A florzinha tinha razão em se conservar sob a neve — sussurrou. Era o gelo. da qual só se tomaria consciência sob seu efeito paralisante e mortal. tudo isso anunciava a salvação. — Ele luta ainda. As árvores. esse ruído distante nas florestas proveniente do murmúrio das águas liberadas. trouxe seixos enrolados em flanela com que os cercou e fez Angélica tomar uma bebida qilente. Ilusão. A colheita das pequenas estrelas de verdura ligava-se a um ritual solene no início da nova estação. a fim de se certificar de que as chaminés estavam puxando na medida certa. Essa flor. e ela o ouviu o resto da noite — ou melhor. descobria-se que essa neve que não havia caído pulverizava o fundo já verdejante dos vales. e a neve . A neve derreteria depressa. essa franja de espuma à beira do telhado. e as próprias crianças desistiram de debater-se. Permaneceram imóveis. A primavera não e. com uma dose de aguardente.stá longe. Colheram dentes-de-leão. colocando-as de lado para secar. sob uma luz translúcida que parecia brotar de todas as direções. Angélica recomendou que se raspassem as raízes. Mas ouviu as crianças se agitarem e se queixarem em seu sono. bruma com uma água de pérola arrastando-se com as aparências desses vapores de calor que se vêem no verão. Atiçou o fogo. Podiam-se permitir essa orgia de lenha. e a superfície opaca do lago que ela percebera como um espelho sem polimento. Mas. pressentiu-lhe a presença. persuadida de que fora acometida por outro acesso de febre. daqui a uma semana. logo a primavera vai eclodir. cintilante de mil fogos. encolher-se a superfície de seu manto branco. de colher dente-de-leão e comer nossa primeira salada. Mas é em vão. pois ele tinha sempre a mesma maneira furtiva de se deslocar como os felinos ou os índios — ir e vir para vigiar as lareiras e subir à plataforma. foram imediatamente ajaezadas de gelo até a ponta da última agulha ou raminho. no seio de uma paisagem de cristal. A primavera sempre volta. curiosamente inaudível. — Ela sabia melhor que nós que o inverno ainda não acabou. Seu companheiro logo chegou com cobertas e peles.

— Então.. nesse caso. que viriam buscá-lo para fazê-lo morrer pelas torturas. Partirei amanhã. Dessa vez. "Está esperando que 'eles' cheguem". As pequenas flores nos escoltaram até agora e nossas provisões estão terminando. como de hábito. enfim repousada. você possa descer comigo até o lago. Feliz! Ele merece viver. Quero que ele viva. quando acordar. Quando despertar... As crianças estão brincando diante da casa. "Não quero que ele tenha de passar de novo por provações atrozes. Essas diferentes perspectivas faziam-na oscilar entre a alegria e a angústia. O sol se punha. De todo modo. e Colin Paturel estaria provavelmente mais apressado aquele ano para vê-la pôr-se em marcha. com uma sensação de verdadeira convalescença. falaremos de meus pro-jetos. — Haverá de colhê-las na Ile-de-France.. pensou. — Em Wapassu?! Acabou-se. . acabou-se. — Beba mais uma tisana! É a última que nos resta. As notícias iam começar a correr. Voltou com uma tigela nas mãos. Pagou um preço muito alto. Durma sossegadamente. como diziam as crianças espantadas. como teria pensado em um de seus filhos ameaçado. Sentia-se bem. Não quero mais que seja ignorado e desprezado. que os ajudarão a pescar enquanto sua caravana não chega. ou dos índios incivilizados. Ou irá colocá-lo novamente ao pescoço?" . Depois do trabalho que tive para curálo. Levou-a para o quarto e ajudou-a a deitar-se. sem saber se lhe recomendava fugir dos homens civilizados. durma e recupere suas forças. Eu teria perdido quase todas as colheitas.. Deslizou para o sono com felicidade e. Vou até a beira do lago colher vime para fazer nassas. pensou. com uma mistura de irritação e de mágoa. CAPITULO XXXV A chegada dos homens de Gouldsboro — O cheiro da grelha dos iroqueses Antes de abrir os olhos. Por ora." Sobre as superfícies esponjosas liberadas. — Prometo-lhe que partirei. Ela repetia: "Fuja! Fuja!". tranqúilize-se. apesar de não confiar inteiramente neles. "para onde ela foi!!. ela pensou: "Quem estão queimando?" O cheiro que lhe invadia o sono apagou-se quando voltou à consciência em seu quarto do fortim de Wapassu. Olhou para a lareira onde estava o crucifixo e viu brilhar o rubi.. eu o obedeço. E agora. Chegariam de Gouldsboro e conheceriam finalmente a sorte de Wapassu." Pensou nele com ternura. pés calçados de mo-cassinos já estavam a caminho... Esses preparativos pareceram-lhe de bom augúrio.." — Você me promete que partirá amanhã?. — Sim! Sob a condição de que.desapareceria "sem que se saiba". ele poderia partir.. As flores estão em toda parte. "Vai deixar-me o crucifixo quando se for?. para informar-se sobre Angélica.. formar-se-ia uma caranava para subir para o alto Kennebec. São as amigas mais fiéis do homem. mas logo renascerão e você poderá colhê-las. pela primeira vez. Vou dormir para adquirir forças. "Não tem o direito de me fazer isso. Vejo que está bem recuperada.. e ela dormira apenas algumas horas. ou depois de amanhã. que não compreenderiam mais sua linguagem.

tempestuoso. O mar gelou na embocadura dos rios Penobs-cot e Kennebec. O rapaz começou a falar com loquacidade. as neves e. iriam encontrar os pirralhos com tão boa saúde!. quando o frio começou a amainar. quando Gouldsboro estava ameaçada de um ataque. parecendo aliviado por ver que ela o reconhecia e se lembrava dele sem esforço. combatendo o inimigo principal: o frio. Paturel organizou imediatamente uma caravana de socorro.que o inverno se mostrou a seguir. ele fugiu.. cara Dame Angélica. repetia.shranger lhes fora preciosa. ao vê-la acordada. naquele ano. Já estavam acostumados com o silêncio hibernal. depois de ter atravessado tais provações. vestido de preto.. se isso já não tivesse acontecido. de ir debruçar-me sobre os hieróglifos em país inglês. ficaram aterrados. Enfim. Na verdade. sorrindo. Este parecera reconhecê-lo com alegria... Lymon White fora retido como cativo numa aldeia abenaki. Dame Angélica. o que era preferível à morte e reconfortava um pouco seus amigos. Depois. como cresceram! E estão falando que é uma maravilha! Quem podia imaginar. — Marcial Berne? Que faz aqui? — Encarregaram-me de velar por seu repouso. Nenhuma notícia chegava até lá. que. depois de nos asseguramos de que estava com vida. pois os rios e cursos de água ainda estavam gelados. que aguardavam mais detalhes. Mas achei que não era momento. cada qual vivera em sua fortaleza.. e só esperavam que ela despertasse para ficar inteiramente tranquilos e festejar esse feliz desfecho de uma provação tão longa e terrível. apoiada aos travesseiros. e mais que nunca. Você dormia tão profundamente ao chegarmos. que não levara menos de dois meses a se deslocar. correndo grande perigo de perecer. percebeu. mais do que nunca. a fome. dirigindo-se como pôde aos lugares habitados. . voltando a cabeça. para muitos. — Que alegria de encontrá-la com vida! Que alívio à nossa angústia. um jovem de colarinho branco. O Sr. o inglês mudo chegara. de que Wapassu fora atacado e queimado no outono. E acrescentou que o pai de Carlos Henrique quisera fazer parte da caravana. que. proveniente de vagos rumores de relatos indígenas. A neve abateu-se sobre nós. Diziam que todos os habitantes haviam sido levados como prisioneiros para Quebec. a deixamos entregue a seu sono reparador Angélica ergueu-se. Levava a notícia surpreendente de que Angélica e seus filhos estavam vivos em Wapassu. ele também temera pelo filho. sentado à sua cabeceira. conduzido por um empregado do posto do holandês de Houssnock. Sua experiência de bu. — Bom dia. Nosso outono foi perturbado. As crianças! Como estão bonitas! — extasiava-se —. na costa. Quando a tribo "descabanou" por causa da fome.Depois. Dame Angélica. Ele riu. e um frio de rachar árvores. Era melhor conservar todos os braços valentes. para olhá-lo com mais atenção. tanto mais . — Você não havia partido para Boston para seus estudos?. Vendo-a ouvi-lo com atenção. — E eis que nos encontramos há algumas horas do lugar. todo mundo estava feliz. nem desconfiavam do que acontecera em Wapassu. que. Descartou-se resolutamente a pavorosa perspectiva.. ele contou que. — Tem boa memória. levantou-se e dirigiu-se para ela. Quando chegou até eles a notícia.

escondemo-nos primeiro. Seres humanos tinham-nos finalmente encontrado em sua solidão e. tão sonhado. Depois. — Como a vida é boa! Ao ouvir esses detalhes. maquinalmente. e a prova disso era que. e que tantas vezes parecera impossível de se realizar. Ao ver-nos. compreendeu que não estava sonhando. e não: "O que estão queimando?" Era um homem das praias atlânticas.chegar àquele coração das montanhas. e. dois dentre nós se mostraram e o chamaram. e a alegria. e na moldura da porta baixa apareceu a forte estatura de Colin Paturel. — Com efeito! — reconheceu Colin. — Oh! meus caros homens! — exclamou.do pobre mudo que Angélica e as crianças estavam desprovidas de tudo lá em cima. Descreveu o medo lancinante que tiveram de não encontrá-los vivos. —Quem estão queimando? — murmurou Angélica. E Colin começava a contar o que Marcial já havia exposto. Seu olhar ansioso se iluminou quando viu Angélica recostada ao travesseiro e parecendo atenta ao que lhe explicava Marcial Berne. Seu subconsciente continuava a se sentir indisposto por aquele cheiro de fogo. quero me levantar! Seu olhar caiu sobre o crucifixo. como parecia estar sozinho. Eram fogueiras de um acampamento? Não estava mais habituada ao cheiro dos humanos. o que era o cúmulo da felicidade e do reconforto. que os acolheram com muita graça. Colin pareceu não ouvir ou não compreender o sentido da pergunta estranha.Um pesado passo de botas fez ranger o assoalho do corredor. Não o viram?. Aqui. e ainda estava aturdido pelcTcombate com as florestas e rochedos que tivera de travar para .. — Depressa. Não entendia por que ela dizia: "Quem estão queimando?". Tinha o aspecto de um explorador de bosques. quantas vezes tinham sido detidos pelas últimas tempestades de neve e as incomodida-des do degelo. compreendendo pelas narrativas — se assim se podia dizer —. o renascimento pôs-se a correr-lhe pelas veias com a mesma alegre vivacidade de uma fonte que finalmente quebra sua prisão de gelo. no batente da-lareira. em que custaram a acreditar. Quando viu Colin inclinar-se para ela.. lançando-se-lhes ao pescoço e cercandoos com os braços. eram os seus. sapatos e brinquedos. Um verdadeiro milagre! Capaz de incitar os próprios huguenotes a colocar uma vela diante de alguma divindade papista falando de milagre. — Oh! que ideia sublime! — exclamou Angélica. Foi nesse momento que este deixou de ser para Angélica uma aparição ainda incerta. muito penetrante e desagradável para ela. ele . além de víveres.. acontecera. O momento tão esperado.. encontraram?.. — Eele? — Ele? — O homem que estava conosco. percebemos na outra margem um homem que estava colocando armadilhas ou nassas. roupas de mulher e de crianças. as dificuldades de locomoção. como tiveram de esperar para se pôr a caminho para as regiões inacessíveis do interior. — Com efeito — continuou Colin.. roupa-branca. receando que surgissem em seu encalço exércitos vindos do norte. O anúncio demasiado tardio do desastre de Wapassu. — Quando chegamos à beira do lago.. enquanto Marcial lhe lançava um olhar atento e depois se calava. por descobrir no forte as crianças muito vivas e espertas. haviam trazido. tudo oferecido com a melhor boa vontade pelas damas e crianças de Gouldsboro. e não do interior. de incêndio. os homens de Gouldsboro. Insistia em que haviam acreditado no milagre de sua-sobrevi-vência..

"Ela está viva". Não sei se utilizaram outros caminhos. o que nos fez perder alguns dias preciosos. "Você não sabe nada". Enfim. pois. aumentadas por aquelas abandonadas pelos nossos ajudantes índios. que cheiro de fogo e de carne grelhada é esse. senhora. Vigiei melhor por sua estrela do que você o fez... pelo próprio Utakê. com a voz subitamente embargada. quase entornou o caldo. ao travesseiro. Seguíamos o caminho habitual. disse ele. Fechou os olhos. Parece um acampamento índio. sempre com um desdém supremo. — Os iroqueses estão lá embaixo! — disse Marcial. primeiro para nos defender de sua emboscada. Enfim. Não sei se queria apoderar-se de seu fantasma ou de seu espírito. Estão preparando um regra-bofe? Estou com náuseas.. — era um contingente de guerra. receando chegar demasiado tarde. depois para nos fazer reconhecer por eles e persuadi-los de que hão tínhamos intenções hostis. A afeição de seus olhares pousados nela a reaquecia. e nós.. — Para onde ele se dirigia? — Para Wapassu. Segurava-os agora. CAPITULO XXXVI O perdão de Utakê — O coração do mártir — Encontramo-los lá pelos lados de Katarunk. de Saint-Castine. e. as ruínas de Wapassu. — Colin. —Deus seja louvado! — repetia. Sobre isso também nossas discussões não foram fáceis com esse selvagem. atrasando-nos um pouco devido ao peso das cargas. não sei. esse missionário está morto há dois anos. o antigo posto destruído — emendou logo Colin. — Ele fugiu. adormecendo ao ver presenças tranquilizadoras. Continuava a segurar-lhes as mãos.. E logo reveria Joffrey. Não os deixaria mais. do alto de uma colina. retornar ao convívio dos humanos como quando se retorna a casa. que estamos habituados aos abenakis batizados do Sr. Esses demónios não são nada fáceis. — Utakê? — É o nome dele. pois fora morto.abandonou precipitadamente o que estava fazendo e fugiu.. Apesar de sua garantia. Os índios malecitas e etchemins que nos acompanhavam se retiraram. um dia. estávamos perto de você — concluiu Colin. . Os iro-queses continuaram em nosso encalço ou nos precediam. consentiram em deixar-nos prosseguir. — Finalmente! Deus seja louvado! — suspirou ela. subitamente fraca. mas temíamos não conseguir encontrá-la viva. avistamos. pois sabíamos que estava lá. uma sensação confusa continuava a atormentá-la. "Eu sou amigo de Te-conderoga.. o chefe desses intratáveis convenceu-se de que não pertencíamos aos "normandos". que se encontrava aqui. Entretanto. e não os vimos mais. inimigos deles. Enfim. insistíamos em dizer-lhe que estávamos impacientes por vir em seu socorro. dizia-me com desprezo quando eu lhe tentava demonstrar que o padre não podia estar em Wapassu. retorquia-me. pelo que nos foi dito. e pouco depois. como uma criança medrosa.Sentíamo-nos em brasas. — Meus caros homens! Ia poder voltar a viver.. "Não pense que é mais amigo do que eu e que ele me deva menos que a você.. eu tentava fazê-lo compreender que tínhamos pressa de chegar ao nosso destino. recostando-se. como nós. se não me falha a memória. Por outro lado. não sabíamos como tratálos. Essa reflexão ou nossa impaciência demasiado evidente. Dizia querer "apoderar-se de um jesuíta. tão forte?.. normando". o Padre d'Orgeval.

olhos cujo poder conhecera e que naquele momento analisava dizendose que éleS arrebatavam a alma. nem segurança. nem a vitalidade de coração. Ele me gritou: "Aquele que eu procuro está lá.Segurou a mão de Angélica... como fizera outrora nas estradas do Magreb. . — Então. quando se aproximou. "Em seguida. "O jesuíta foi diretamente a Utakê. Segurava uma cruz.. nem a energia. eu estaria morto. — Vamos levá-la de volta a Gouldsboro. Vi o chefe mohawk correr em minha direção desabaladamente. Angélica a você e a seus filhos. e chegamos próximo da parte baixa do fortim. Ela o ouvia olhando-o fixamente. acentuando a cor verde. . — Pois bem.. mas nunca estive tão próximo de ter o crânio rachado. Um homem sob esse olhar não tinha escapatória. E estendeu o dedo para o alto da colina. Já é muito que esses terríveis inimigos dos franceses tenham concordado em nos deixar com vida. Não temos condições de defesa ou de ataque. comandados por Utakê. que não podíambs atravessar." — E então?. Angélica permanecia petrificada. brancos e selvagens igualmente petrificados. apesar de o encanto também existir. e perguntando-nos que intenções se ocultavam por trás de sua audácia. Ele nos ajudará a nos defender pela diplomacia. percebemos o Toga Negra. cautelosamente. contornamos o lago.." — E eles o pegaram — murmurou Marcial. e ele fugiu. Ambos são da Gasconha... Certamente aquele rosto tão querido trazia a marca de provações indizíveis. pelo oeste. imóvel como uma aparição. se se tratar dos iroqueses.. sem ter tempo sequer para levar a mão à coronha da pistola. E então. sob a perturbação que o subjugava apesar de todas as rudes e rígidas barreiras que o Governador Colin Paturel quisera erguer entre eles. mais de "apoderar-se" do que de "encantar". Você o deixou escapar!. meus companheiros não puderam nem levar a arma ao ombro. brandindo o tomahawk. Mas ele parou. e. "Erguendo os olhos. não voltar. os iroqueses saíram da floresta. Um jesuíta estava em pé lá no alto. ao qual empenhou lealdade. ou seja. Desviou a cabeça. Ela o fitava com aqueles olhos claros que se dilatavam. — E o homem? — repetiu Angélica. ouvindo decrescer dentro dela o eco daquele gongo solene: "Eles o pegaram". dizendo-lhe: 'Eis-me aqui'. para disfarçar a emoção. Mas ele começou a descer para nós num passo tranquilo. — Avistamos esse homem na outra margem do lago. Somente lá estará fora de perigo. se tivermos algum problema com as pessoas da Nova França. de Peyrac. enquanto ficávamos todos em suspenso.. e prometeram-se assistência mútua. mas era evidente que as atravessara e dominara sem querer abandonar nada de sijnesma.. na acepção mais próxima da palavra "arrebatar". Infelizmente! Aqui a batalha está perdida. nesse momento. O Barão de Saint-Castine e seus etchemins e malecitas nos defenderão de qualquer adversário que apareça enquanto o Sr. vi no centro do crucifixo uma pedra vermelha brilhante. Temos de partir sem demora.. límpida e rara. Se ele não tivesse parado do mesmo modo brusco a alguns passos de mim. e ele se perguntava de onde lhe viera a ideia de que estava enfraquecida e que talvez lhe seria preciso — reencontrando com doçura e compunção em sua fisionomia as cicatrizes do deserto — carregá-la nas costas no caminho de volta. e pelas armas. apesar de sermos franceses." Protestei energicamente. já lhe dissemos! — replicou. Esperávamos que desaparecesse. estendendo-a a nossos olhos.

vários dos homens de Gouldsboro. Com veemência. gritar com desespero: — Por quê. Ajude-me. erguendo-se num salto. Leve-me até eles!. Angélica! Basta de riscos! Basta de loucuras! Já não obtivemos muito do céu encontrando-a a você e a suas crianças. ela vacilava. trazendo de lá um pilar de paliçada enegrecido. apoiada a ele. o odor de fumaça e um rumor incessante de tambores. tiraram-lhe as roupas e começaram a supliciá-lo. recémliberada do degelo.— Colin. mas era ela que o arrastava dirigindo-se ao valezinho onde estava reunida a massa sombria e emplumada dos iroqueses e de onde se elevava. iria sozinha. — Angélica. "Ah! não me amolem com seus 'piores inimigos'!.. estou lhe dizendo! Não podemos intervir. Era realmente ela. Aproveitar que eles estão. Eles o haviam levado. Ajude-me a andar. Não suportarão que os brancos se intrometam. contou. Dame Angélica?. pensou ela. — Vocês.. por quê. só estarei seguro de sua vida quando a tiver levado para a margem. — Eu lhe suplico. Mas eu posso.. Se eu pudesse andar. sem vê-las. os seguiram de perto. Mais tarde voltar-Ihe-ia à lembrança o choque que sentira ao distinguir o espaço deserto que permanentemente os cercara preenchido de súbito por presenças humanas.. que a acompanhara durante toda a invernada. entre os quais o grande Siriki. Não suportarei que ele caia novamente em suas mãos. Você decide nossa morte! Pense nele! Ela teve uma breve hesitação.... Com que cara vou me apresentar diante de seu esposo se -você não estiver mais viva? Esse pesadelo me atormenta.. talvez.. Depois de fincá1© no chão. — Joffrey faria o mesmo! Subitamente ela se precipitou... transportados por um vento sereno. Correr. enquanto.. Seus costumes são sagrados. prontos para qualquer eventualidade. Temos de partir o mais cedo possível. e não tinha nada de uma moribunda. mas seu olhar não os enganava. vivas?!. segurando os mosquetes. Sentia-se mais leve descalça para correr. lançou-lhe todas as palavras que lhe giravam pela cabeça desde a sua chegada. Um de nossos piores inimigos. Será preciso matar todo mundo. Mas . — Deixe-me! Você não pode saber.. Angélica sobressaltou-se.. A um sinal de Colin. Todos os que a viram aparecer como que saída de um túmulo a reconheceram. amarraram o jesuíta. Depois seu chefe subira até as ruínas de Wapassu.. o que fizeram com ele? O que fizeram com ele? Ele virava a cabeça. Ouvia Marcial. o jovem huguenote de La Rochelle. É apenas um jesuíta.".. Não estamos em condições. Vestia sua pobre saia velha. enquanto outros iam se postar nas cercanias do fortim e na plataforma. tinha o aspecto de um fantasma... quer que nos massacrem? Sabem como eles são com seus prisioneiros. pelo amor de Deus. — Angélica. Atravessou. Eles não me metem medo.. ocupados. Mas não teve forças para lançar-se sua resposta. — Leve-me até eles! Colin a segurou. sem saudálas uma ala de pessoas.. Estava agora descalça sobre o tapete castanho-douradó da relva esmagada.. Colin a sustentava. E ainda que tentássemos.. Pois ele a conhecia e teria agora desejado que ela tivesse dormido por mais tempo. para o valezinho. esquecendo-se de calçar os sapatos.

devorando-a para sobreviver. O coração dela também ardia. Tarde demais!. cheia de energia e de esperança. que sucumbisse àquela crise de força sobré-humana. Era impossível contarlhe. arrastar Colin. Não posso deixar que façam isso. Pôde avançar novamente. lançando seu apelo numa voz alta e clara. enquanto avançava. — Utakê! Utakê! Dê-me sua vida!. em que uma força contrária nos prega ao chão. Colin — murmurava Angélica.. Ouvia aproximar-se o ruído dos tambores.. mas do heroísmo. o que explicava a sensação de estar no mesmo lugar. em meio às manchas sarapintadas de suas pinturas de guerra.. Era apenas a força de Colin que a sustinha. — Eu lhe suplico. E diante dela. não!.. cortando pequenas tiras sobre seu peito. Mas precisava chegar lá embaixo. Receava agora. Seu silêncio não era o da morte." Lá embaixo!.. magra e miserável. Mas ela não o ouvia. não tenho mais o wampum. O wampum. impelindo-a para a frente. Uma prece ali estremecia: "Meu Deus. Foi a única coisa que viu inicialmente.. Teria desejado correr. Colin não podia saber.. — Você não pode compreender. as longas. De revolta e de pesar. longas e longínquas montanhas dos Apalaches se desenrolavam.. Ele voltou para ela o rosto. ficou a olhar de longe. faça que.. Ela chegava tarde demais!. e o grupo. e. — Utakê! Utakewata! Dê-me sua vida! Ela ia sozinha. até o fim dos tempos.. contra um céu pálido com trilhas mais verdes nos vales. amarrada ao pilar em meio às danças sincopadas de alguns "prestidigitadores" e à fumaça das brasas a seus pés... não se destrua — implorava ele. por tê-la sentido tão frágil em seu corpo emagrecido. rápida. — Veja.. enquanto facas passavam e tornavam a passar lentamente. do outro lado da grande ravina.. Era muito longo para contar-lhe. e teve de parar para reter o grito que lhe subia aos lábios e retomar fôlego. e era nessa direção que se inclinava seu esforço.. você está fraca. com as crianças nos braços.. e tão feroz e terna que as ruínas enegrecidas de Wapassu. Vai cair. O cheiro de fogo e de carne queimada se intensificava. a cavaleiro do lago na ponta do bosque.. Tudo entrou nos eixos. Uma natureza virgem e soberba despertara. Finalmente chegou! E viu imediatamente.. pareciam belas... Tudo se tornou diferente.. seu olhar era febril. De revolta e de pesar impotentes... Mas olhando novamente na direção do supliciado. Seus pés mal tocavam a terra... — Duas vezes. não! Três vezes.. eu não chegue demasiado tarde!. o deus tutelar da América.. viu que ele inha a cabeça erguida e os olhos voltados para o céu.. sabiamente. um homem branco cercado pelo bale horrível dos machados incandescentes que faziam chiar a pele de suas coxas..ninguém queria voltar para dentro. como nos pesadelos. Seu cérebro estava como que vazio. Sua cimeira . faça que.. O coração da América queimando a própria carne. o deus vermelho. Uma silhueta de carne nua.

E isso tem seu valor. sabia que eu o pouparia.. que disse esta frase insensata: "Perdoem seus inimigos"... — Portanto.... Sua pose mudou um pouco.. e tenho outro Deus para me julgar. O rosto pintado pareceu transmudar-se em pedra. Ah! você brilha e no entanto nos desnorteia.. — Não preciso obedecer as suas leis.. Enviei-o a você para que acabasse com ele. e o que podemos nós contra a estrela que está colocada no centro do céu. os movimentos de seu braço tornaram-se ao mesmo tempo acusadores e líricos. tem o coração reto e segue seu caminho sem se desviar.. — Olhem! Eis aqui uma mulher louca a serviço de um deus louco. imóveis nas órbitas dilatadas. pare de usar artimanhas comigo. Você me enganou. E você não o fez.. — Sim. Utakê. estrela fixa. Eu lhe enviei o jesuíta para que acabasse com ele. Depois. Ela é louca mas é fiel a seu deus. que ele falava muito bem apesar do sotaque agudo resultante de uma pronúncia gutural. Ela. Até quando você se obstinará em salvar aqueles que a rejeitam ou aqueles que querem sua perda? O que importa esse jesuíta? Por que quer salvar-lhe a vida? Ele era seu inimigo. Venho de outro país..erguida e os pingentes das orelhas fremiam. lançaram estranhos fulgores. e é ela quem me dita ordens. Pode muito bem dá-la uma segunda. E vem gritar: "Devolvalhe a vida! Devolva-lhe a vida!. Continuou a se agitar com uma mímica que significava que estava sufocando de indignação e com gestos derrisórios que exprimiam que toda a sua razão era suplantada pela inconsciência dos seres. — Deilhe a sua e a de seus filhos. Você o sabe muito bem. Eu a desprezo.. mal-humorado. — Queria saber se você era de fato isto: a estrela fixa. dirigindo-se com ênfase às tropas iroquesas. ei-la.. As palavras que lhes caíram da boca tiveram uma espécie de ressonância eterna. Estabeleceu-se um longo silêncio.. Salvou o inglês doente e o iroquês ferido. Então. apontando sempre para a mesma direção?. Você me deu sua vida uma vez. e sobretudo dos brancos. numa mistura de dialeto mohawk e de francês..e subitamente. — Até quando você me pedirá vidas? — lançou-lhe enfim. Utakê começou a andar para lá e para cá.... e sobretudo das mulheres!. Segui-la! Na noite de nossas almas.. Uma mulher tão louca quanto seu deus. o pirata francês abatido e o Toga Negra moribundo. animando-se — com suas unhas à moda das mulheres. Aproximou-se alguns passos.. antes de enviá-lo. você. O chefe dos mohawks permitiu-se uma breve risada. lhe disse: "Voltarei para buscá-lo e devorarei seu coração". Você desobedeceu às leis da justiça. mas sua expressão continuava ameaçadora. . — Vocês a ouviram?. Utakê. Não basta?. sua expressão mudou e adquiriu uma gravidade solene. — Não! Você sabia que eu não acabaria com ele. Sou eu que a cumulo de benefícios. Você não se desvia de seu caminho. que permaneceu hirto como o de uma estátua. você é bem isso.. Deus-das Nuvens. Com um gesto lento e hierático estendeu para Angélica o braço. Não parecia surpreso por vê-la ali. A prova é que. — Eu não o desnorteio. enquanto ela parava. — Sim!. Enviei-o para que acabasse com ele — insistiu. na noite de nossos corações. agrupadas na encosta relvada. que atravessou o oceano. retesando-s. quase sem movimento de lábios. Kawa... pelo menos. os olhos de jade.

nem apagar o luto. a de fazer morrer lentamente um inimigo abominável — que. Um outro ronco se elevou. a dor causada por seus ensinamentos fanáticos. Eles também. Você infringiu os princípios da Liga Iroque-sa. Se houvesse. graças a minhas astúcias e minhas injunções. inimigos hereditários e que não tardariam também a pagar por todos esses crimes. cuja sombra encobriria para sempre o espírito de Hiyatgu ao se lembrar dos filhos. desde minha volta. mortos nas muralhas de sua cidade de Onondaga ou nas chamas daquelas Casas Compridas incendiadas. Utakê. preparavam suas ferramentas de tortura com a aplicação e a seriedade de trabalhadores conscienciosos. instalados em torno da fogueira.O chefe das Cinco Nações recomeçou a andar de um lado para outro. Sem extingui-lo completamente. nós também participamos da caçada. — Mas não será dito que não obtive nada! . Seu discurso. como um animal feroz. sabia que a aprovação se dirigia às palavras de Utakê. Ainda veria aqueles que se agitavam à sua volta nesta terra? Todavia. A isso se acrescentava a da vingança. sempre os defendi de suas emboscadas. da mulher. mal havia começado o suplício. colocaria um bálsamo nos mais vivos ressentimentos. mas. chamado Hiyatgu. — Não é uma caça. por suas ordens. A um sinal deje. um jovem guerreiro avançou e cortou as cordas que amarravam o prisioneiro. a ordem de Utakê de libertá-lo e sua subsequente execução provocaram a cólera daqueles que participavam do suplício e que. tão atroz. acolhidos com tão boa vontade por aqueles traidores huronia-nos e aqueles malditos algonquinos. apesar das cordas cortadas. sabendo que ofereceria aos manes dos desaparecidos. dos quais faço parte. agora que o perigo foi afastado. Não tem o direito de nos tirar a caça. traduzida por um surdo ronco. precipitou-se para a'arena. — Pois bem! Eu lhe darei sua vida! Não quero que escarneçam de você por ter respeitado os preceitos loucos de seu Deus louco — declarou. O Conselho colocou-me à frente daquilo que restava de nossos povos. já lhe retiravam das mãos —. orgulho e satisfação. que encontrava finalmente o objeto em que saciar esse ardente sentimento de desforra. tarefa para a qual ele. imóvel. ele permaneceu de pé. e não entre os mohawks. tão profundo e prolongado que poderia fazer acreditar na aproximação da tempestade se o céu não estivesse tão puro e azul. pois. dos guerreiros. E. — Não existe chefe supremo entre nós. Deviam devolver-lhe a vida para que viesse destruí-los novamente? Sua tirada veemente provocou uma aprovação geral por parte dos iroqueses presentes. mas meu inimigo — retorquiu Utakê. conhecendo seu adversário. as galeras do rei da França. mas seu furor era visível e os gestos exagerados o tornavam explícito. adivinhando que tinha o controle da situação. ele seria escolhido entre os onondagas. Mas. multiplicada. pronunciado em seu dialeto loquaz. Hiyatgu. : — Seja! Devolva-o — gritou-lhe com raiva. quando fui raptado e levado para o outro lado do oceano para remar nos grandes barcos. Hiyatgu não se deixou iludir. sem se perturbar. não admitia ver-se privado de uma nobre e difícil tarefa. Um deles. era reconhecidamente muito hábil e cuja execução lhe proporcionava intensas sensações. Hiyatgu. Não comece a esquecê-lo. haviam causado a partida dos seus. para as terras de caça do Grande Espírito. Cpmo seus associados presentes. — Somente eu sofri com ele em minha juventude. era difícil de acompanhar. interpelou Utakê de modo mais direto. seus apelos à guerra contra o iroquês. imerecida e prematura. dessa vez.

encostado ao pilar do suplício. Leu ainda nele uma súplica ardente.. brandindo o machado e o tomahawk. tiras de carne que ali se grudaram. aspirava ao mérito. Um guereiro puxou-o para a frente pelo ombro. balançando seu trofeu como um incensório ou um hissope. sempre de pé. O jesuíta permanecia de pé. Hiyatgu. Ele a via mas distanciava-se como num navio rumo às margens ida alegria eterna. pesada. da espinha até os rins. ele não caía. cortou com uma lâmina aguçada o alto da testa e puxou. Dessa vez ele acabara. os dois chefes haviam prosseguido sua querela. haviam explorado o dédalo dos mistérios do Amor e das múltiplas aparências sob as quais se dissimula sua chama. o ardente desejo de um coração que viera para a Nova França para a salvação dos selvagens e que os amara tanto. e sua palavra traída pelo . mas que. Quando dois homens. aspergia a relva de sangue ao seu redor. Num salto. triunfante. eu o entregarei aos iroqueses. Seu olhar ainda azul iluminou-se com uma centelha de alegria. E eles comerão seu coração. cego por uma súbita chuva de sangue. desprenderam-se. triste e quase humilde de um homem que não se julgava digno. Um grito saído de todas as bocas sublinhou seu ato imprevisto e cruel.Sua manobra foi demasiado rápida.. Seu olhar turvou-se. Insensível à indignação e à cólera que provocava. o arrancaram do pilar. podia alcançá-lo nas zonas do inferno. afastou-Sé.. Indagava-lhe suplicante quem iria dispor de seu cadáver. eu lhe prometo — disse a meia-voz e ainda que essa decisão lhe fizesse mal —.. Viva para que meu sacrifício não tenha sido em vão". cortados por imitações de cânticos cristãos. De seu crânio escalpelado. Empunhando-lhe a cabeleira. Houve então um brilho zombeteiro. Angélica desamarrou o lenço de pescoço e tentou suavemente estancar-lhe o sangue.. para sempre. Chamou a meia-voz: — Padre! Padre d'Orgeval! Meu amigo! A voz dela. pôs-se a emitir urros alucinados. primeiramente pelo insulto depois entregando-se ao bale da luta. A última exigência de sua vocação. — Sim. pegando-o pelos braços. A vida apagara-se na face sangrenta. Não voltaria mais dentre os mortos. continuando a se desafiar. e ela julgou ouvir a adjuração que ele lhe repetira com tanta frequência: "Viva! Viva! Por seu triunfo e por nossa luz. ajoelhada num chão duro sujo de sangue. Durante essa cena. louco de raiva por ter visto sua supremacia e seu direito de clemência questionado. inclinando-se até envolvê-lo com os braços e aproximar o rosto do dele. pulou sobre o prisioneiro. E... mas. ou do paraíso onde seu espírito já vagava? Desejava ouvi-la? Ele levantou as pálpebras. eu o entregarei a eles. mulher longínqua e terrestre. e ela sentiu que permanecia. apesar disso. Ela se ajoelhou. Estava tão próxima dele! Tinham seguido juntos trilhas pouco comuns. girando um em volta do outro. na obscuridade da terra. depois uma expressão grave e imperiosa. E você permanecerá entre eles. o sangue corria-lhe pelo rosto em mil regatos enceguecedores. na última hora. Ela compreenderia? Mas ela compreendia tudo.. pois as pálpebras haviam se fechado sobre o olhar ainda brilhante. Foi aquele corpo sangrando que arrastaram e lançaram aos pés de Angélica. Utakê.

O mais rápido a abrir o peito do morto e arrancar-lhe o coração. com o machado e o tomahawk. Ela era tão leve. — Não! Não é assim. O céu tornava-se vermelho no poente. e que não conseguiram ser atingidos por golpes suficientemente mortais para colocar este ou aquele fora de combate. O dia acabava. imaterial! A pressa de arrancá-la às loucuras mortais que campeavam naquelas paragens apoderou-se dele. ficou decidido que Utakê e o outro se bateriam num duelo iroquês. tão fortes um quanto o outro. mas a questão foi acertada pela eloquência de Utakê. Colin Paturel levantou a jovem mulher nos braços e a levou até o forte. receberemos os conselhos deste coração que nos trouxe o ódio e que nos amava. a paz para nossos cantões que renascerão. quando a lua de cornos pontiagudos . com passes e cambalhotas magistrais e que concluiu resolutamente pela vitória. os outros fizeram silêncio. ao devolvê-lo a nós. pois não fomos todos exterminados.gesto do rival. e a luta entre esses últimos sobreviventes das Cinco Nações estava prestes a estourar e se transformar em batalha. partilharam e devoraram o coração de seu inimigo Hatskon-Ontsi.como um punhal oscilava no céu de um azul primaveril. este. Foi portanto um combate muito curto e cerrado. Assim que os chefes iroqueses pegaram das mãos de Angélica o corpo do Padre d'Orgeval. dos dois chefes.. Este coração está purificado. — Mas ele está envenenado — retorquia o outro. A discussão alteou-se a graus de veemência elevadíssimos. perolado de sangue. os chefes das Cinco Nações Iroquesas sobreviventes. essa querela em palavras e ameaças foi sangrenta. O coração de Hatskon-Ontsi não tem mais veneno. — Para não Se tomar seu veneno ao mesmolempo que sua força. Temos de comê-lo palpitante ainda. aquele coração tão discutido. — Ei-lo. Poderemos marchar em busca da paz. a disputa se reacendeu quando se colocou o problema de saber se o coração do jesuíta seria comido assado ou cru. e que o chefe dos onondagas tinha prioridade sobre o dos mohawks.' Seria preciso ficar até o dia seguinte. a confiança que devemos concederlhes para sua sobrevivência e a nossa. deve ser assado. por assim dizer. Vamos alimentar-nos deste coração purificado. pouco usada por aqueles chefes. sem muita dificuldade. . Utakê levantou. Na luz púrpura. o jesuíta duas vezes morto e várias vezes mártir. Embriagados mais por uma mágoa que não conseguiam definir do que pela aguardente. A mulher branca fezrse fiadora dele ao reclamá-lo. Ele nos inspirará. Este coração é puro. A paz para nossas aldeias. Dessa vez Utakê foi o mais rápido. Mais tarde. Ele nos trará o conhecimento desses franceses indomáveis que nos confundem o espírito e enganam nossos corações. Tocados pelo respeito. porque ele deve nos comunicar sua força sobre-humana e sagrada. Finalmente. lembrando-lhe incessantemente que as sentenças que estatuíam o destino de um prisioneiro deviam ser tomadas no Conselho. Enterro o machado de guerra ao mesmo tempo que devoro este coração. — Eu sou filho da Paz. na ponta dos dedos. Então. e nos guiará para saber o que devemos esperar deles. confrangidos ao mesmo tempo por uma dor e uma esperança imensas.. O dia já ia muito alto para que se pudesse organizar a partida.

mas mais suavemente... apenas o som de uma voz diferente que rompera a noite eterna dos dias de inverno. — Por que dormi? Por que dormi tanto tempo? Se eu tivesse acordado no momento em que vocês chegavam acompanhados dos iroqueses." Angélica começou a rir em meio a suas lágrimas. Mas Colin ficou junto dela.Como era autoritário!. As crianças' estão sozinhas!. Mas'quando os selvagens o pegaram eleretirou-o e deu-o para mim: Disse-me de modo muito cortês. veladas por pares de olhos zelosos e enternecidos. que não as perdiam de vista um só instante.. Via Colin sentado ao seu lado. dizia algumas palavras que aludiam à paz que encontraria entre eles em Gouldsboro. sob a guarda de sentinelas que se fenderiam a cada duas horas e que vigiariam permanentemente os bosques. de Peyrac está adormecida. em lufadas. Ou poucas coisas. tudo recomeça". e. quando via a onda de soluços se acalmar. tesouros que era preciso agora levar com vida para as praias. quando o arrastavam: "Suba depressa para o forte. você não me disse que o jesuíta levava ao pescoço um crucifixo. estrangeiros de todas as nações e aventureiros de todo tipo. Era um maníaco!. que ela percebia com sua pequena cintilação Vermelha refletindo as luzes do fogo. Alguns meses de inverno para atravessar. mas muito firme: "Senhor. 'Os homens haviam surgido. dizia ele.. o relógio do tempo soara. — Colin. Por que dormi? Continuou a chorar. afinal. se não houvesse esse crucifixo. Ela tem estado muito doente. artesãos. . Essas palavras não chegavam até ela. com seus mineiros. já haviam comido e dormiam no antigo quarto dos Jonas. trabalhadores. saciadas de guloseimas. Acampariam no velho abrigo aquela noite. ele teria tido tempo de fugir. As portas de gelo se romperam. Ela erguia as pálpebras doloridas e via-se sozinha na jangada da sobrevida. por favor. Um fantasma acompanhando-a com sua força para ajudá-la a chegar ao fim do túnel: Teria podido acreditar que ele não existira. sempre ali. Angélica pediu que a deixassem chorar sozinha. era maníaco como uma mulher!.. As crianças. Teria podido acreditar que havia sonhado... mãos diligentes haviam acendido fogos em todas as lareiras.. Gritou-me de longe.. Quero que ao despertar veja este crucifixo em seu lugar habitual". "Tudo tem fim!. familiar. para esses detalhes... E foi o fim dos dias sem fim. que não deveria tardar. Uma pancada. os arredores e mais assiduamente o valezinho onde faiscavam as fogueiras dos iroqueses e de onde chegava.. soldados. as lonjuras. mas ei-la fora de perigo.. no quarto em que neste momento a Sra.Com as ventanias noturnas aproximava-se uma noite gelada. Oh! realmente. tenha a bondade de recolocar este santo objeto no batente da lareira. Bens preciosos que se julgavam perdidos. o ronco lúgubre dos cantos e dos tambores. — . Podia acreditar que nada acontecera. Subitamente. Dormiam apertando nos braços os brinquedos trazidos para elas de Gouldsboro. Nada a não ser alguma coisa muito simples e muito natural na vida dos homens. Recriava-se o alegre ambiente que haviam conhecido os homens de Peyrac na primeira invernada. e a inquietação e a ternura daquele olhar claro. — Não creio que quisesse isso — disse Colin. e no fortim.. atento. e que caminhava estendendo-o a você? — Isso mesmo. à volta próxima do conde.

com uma piscadela cúmplice. para nossa infelicidade.. que continuava à sua cabeceira. foi para Angélica mais turbulenta. Como ela estava fraca.. Não havia necessidade de . — Tenho de esperar Honorina. Colin pôde satisfazer-lhe a vontade logo.. nervosa e diáfana!. — Obrigado! Obrigado. — E verdade! Honorina!. e julgava lembrarse de que a menina estava interna no colégio das religiosas em Montreal. pelo odor dos longos meses passados nas trevas. prometendo interiormente convencê-la no dia seguinte. Mas. Eu sei por que não quero deixar wapassu — disse a Colin. Ela não sabe que Wapassu foi incendiado e tentará encontrar-nos aqui. como para lembrar-lhe um segredo entre eles. Abigail pensara em tudo. que podiam me dar notícias de Honorina. — Graças a Deus!.. mas sempre indomável.. Se ela passou o inverno numa de suas nações. repetia. Haviam-na deixado dormir.. Ela lhe explicou que era preciso ir ao encontro deles ou convocá-los imediatamente. vendo Angélica agitar-se. que não tivera tempo de tratar.. "Os iroqueses! Os iroqueses!". mas ao ver-se vestida com roupas limpas e pouco usadas e reconhecer nas pregas da saia. Sem tentar distraí-la de sua ideia fixa.. Julgou que fosse dizerlhe: "Há um alce lá fora!.. Inclusive juntara ao que mandara um saquinho de cascas de quina trazidas por Shapleigh. apesar da chegada do dia. perseguindo um pensamento que lhe fugia mas que. A segunda fase de seu repouso. ouvindo o mar bater nas praias de Gouldsboro. Mas ele contentou-se em sussurrar-lhe: "E Honorina?". um pouco antes da aurora. Soube que dormia quando o rosto de jesuíta veio inclinar-se sobre o seu. "Os iroqueses. insistiu. Levahte-se". e que ainda tinham uma obra comum a resolver..belos dentes... — Os iroqueses ainda estão por aí? — Sim! Muito ruidosos e desagradáveis.. atirou-se para fora da cama. —Obrigado por ter salvo a felicidade de nossas vidas suplantando sua morte. mas são eles.CAPITULO XXXVII Um último discurso de Utakewata — Notícias de Honorina Mais tarde retirou as roupas sujas de sangue do mártir e impregnadas pelo cheiro de fumaça. pois apenas por eles podia esperar obter notícias de Honorina. Desejava chorar mais. com todas as energias reanimadas. deixando-se rodear por suas atenções. Colin Paturel ajoelhou-se junto dela e colocou os lábios sobre a mão abandonada. Seus olhos eram azuis e não havia nenhuma brecha negra no sorriso dos. Logo estaria junto à doce amiga. esqueci-me de pedir-lhe informações. uma euforia benfazeja a conquistou. Por ora. pelo menos alguns dentre eles. Deslizou para o sono tranquilamente. se tornou preciso. continuam a parlamentar e a querelar no fundo do valezinho. enquanto esperava que surgissem as velas do navio que traria Joffrey de volta. pelo odor do inverno. mas num quarto ensolarado. afirmou-lhe que ficariam em Wapassu o tempo que fosse preciso para esperar Honorina. Estava sozinha dessa vez. meu cordeiro — murmurou-lhe. ao final. Era preciso dormir. a noite ainda era profunda. Zangada consigo mesma. Colin Paturel ignorava tudo a respeito da odisseia de Honori-na.. olhando-a recair no sono como que sob o efeito de um desmaio." Acordou gritando: "Os iroqueses". do blusão e do lenço o perfume discreto de sua amiga Abigail. pensava.

Angélica percebeu a grande poltrona de madeira que fora levada para fora. a maior parte daqueles que tinham vindo das margens para socorrê-los nutria uma forte desconfiança em relação-aos índios do interior. Fora alguns.. ou-que tinham tido a oportunidade de viver nas aldeias fronteiriças. quando haviam chegado em caravana para encontrar. não deixariam de se interessar por aquele espetáculo multicolorido de uma delegação iroquesa. sua arenga.. e cujos contingentes de guerra vinham de muito longe semear o pânico entre os algonquinos do leste. ou talvez nada. e que será longa. — Sim. sem fadiga. não temia nada. que haviam andado pelos bosques à procura de peles. "Esses índios. Com ele. que suscitou murmúrios de desaprovação ao seu redor." Na esplanada. no fundo daquele covil. Tinha pressa de interrogar Utakê. a multidão castanha dos iroqueses se agitava. De sua parte. Estavam vindo até eles. A esquerda. Ao longe.. quem sabe falado com a menina. e seus gestos de idas e vindas pareciam indicar que estavam se preparando para partir. percebido. distinguia uma parte do Lago de Prata. perseguida pelos lobos. Temia apenas perder a paciência. que ele pretende dirigir-nos antes de despedir-se. alguém que a tivesse visto. . e que lhe devolveria a esperança. Dele talvez obtivesse uma indicação. meu valente compa-nheirinho. que lhe pareceu mais deserto ainda que nos primeiros dias. esquecido de que sobre sua planície branca ela correra. homens do grupo. pousada no braço da poltrona. muito temidos. apesar das guerras.convocá-los. epidemias e fome. Saindo. os quatro mineiros que já haviam começado a trabalhar ali. em sua espera de receber algumas notícias sobre a filha. Angélica permanecia calma. e principalmente os ferozes iroqueses. estava persuadida. seu olhar abarcava a perspectiva de Wapassu. mais ainda em relação aos iroqueses. arrastando um cadáver de alce. Ou ser vencida pela impaciência durante o discurso. sacudindo a cabeça com resignação. O que mais lhe iria pedir Utakê? O impossível. você é meu filho. Deveria pois esperar sem nervosismo o final da arenga. jamais os compreenderei!. Conserve sua mão na minha e fique bem ereto como o orgulhoso soldado que é. Angélica abraçou-o e apertou-o contra o peito. Utakê fizera-se anunciar com os seus para dali a uma hora. você também. — Eu também estou aqui — disse-lhe Carlos Henrique. reverberando ao sol. Ela explicou àqueles que se inquietavam que a visão das crianças lisonjeava os índios. mas não era por isso que tomava essas medidas. Pediu aos dois rapazes encarregados de vigiar Raimundo Rogério e Gloriandra que viessem colocar-se ao seu lado com as crianças. — O mensageiro do mohawk recomendou que lhe fosse preparada uma cadeira para que você possa escutar.. Seus dois rebentos. lembrando-lhe sua presença com uma voz gentil. Uma pequena mão colocou-se sobre a sua. anos antes. será preciso que nossas sentinelas dissimulem as suas — recomendou Angélica a Colin. provando-lhes que não inspiravam receio e que eram recebidos como amigos da família. Angélica tomou assento na poltrona preparada para ela. Vai ficar de pé ao meu lado e me ajudar a receber o chefe das Cinco Nações. na curva verdejante do valezinho. — Se eles subirem sem armas. garantindo-lhe que estava viva. podia-se esperar qualquer coisa.

Apenas um precipício e uma ponte que faltava para passá-lo. nós dois. Eis por que eu o poupei — disse. quase tão magros quanto lobos esfomeados. Ele torcia meu ser por dentro como uma pele ria água do rio. e você vai partir. quando. os meandros das grutas e rios subterrâneos. ladeada pelo pequeno Carlos Henrique. Ele se mantinha na terra. braceletes de penugens tingidas de vermelho. Tinham deixado os mosquetes no vale.preciso separá-los'. E eis por que Hiyatgu está vivo. e você. um sol ainda frio de inverno os iluminava. foi de curta duração. Os chefes das Cinco Nações pararam a alguns passos da poltrona. Ignorava que haviam vivido escondidos longos dias nas trevas da terra. leve e invisível para me agarrar. O que significa. — Um de nós deveria estar morto.. num percurso de várias léguas. tal como as linhas superpostas das montanhas.. Foi um combate que nada decidiu. ainda que tivesse escolhido com cuidado. Mas. de pé atrás dela. Apesar do penacho de plumas e de peles.ocativo ao chefe dos onondagas. Mais tarde. contrariamente ao aviso que havia dado. as palavras adequadas. Kawa. Levavam na cintura as machadinhas de combate e os tomahawks de pedra vermelha ou branca. Kawa: de seu último combate. que se mantinham com a mecha pronta para o ataque.— Eis nossos teatrais que avançavam — disse a Colin. Cada palavra puxava outra e ia mais longe. lembrar-se-ia dela como uma mão aflorando as cordas de uma harpa. em seu francês castigado. Mas a cláusula é secreta e é preciso esconder-s.. cerdas de porco-espinho nos cabelos levantados. foi um discurso difícil de compreender.e daqueles que não vêem a ponte e que não compreendem por que nós a atravessamos. mas pode conduzir à ponte. — Tenho ainda necessidade de ouvir uma palavra apenas de sua boca. É a lei. e de uma força tão grande! Foi o que disse o Toga Negra: 'Unidos não se pode abatê-los. você corria para a frente. e quase sem rancor. — Mas Teconderoga não está mais aqui. jamais. depois do fogo. assegure-me que aquele que morreu ontem não voltará . e que lhe pareceu mais tenso e menos à vontade que se tivesse de tomar de assalto toda uma frota de piratas das Antilhas. atravessando. Sua carne pareceulhe pálida sob a retícula azulada das tatuagens. E eis-nos aqui diante de você com vida. olhava-os vir sem receio. Todavia. É. Provavelmente. "Você. arcado sob o peso da ciência. como de meu combate com Hiyatgu. Sebastião d'Orgeval-explicara isso ao chefe das Cinco Nações?. se não quiser perder tudo. Um sol pálido. Assegure-me. Dois e unidos. Quanto a ela. e Angélica fez sinal aos portadores de mosquetes. não houve vencedor nem vencido. Utakê talvez o tivesse ouvido em sonho.. "Teconderoga me fez fazer coisas bem estranhas desde que o vi. e pelo eco do eco. A homilia de Utakê. Eis-me obrigado a andar ainda um pouco ao lado de meu caminho. você é o espírito flutuante de Teconderoga. Ele obrigou minha razão a pensar um pouco ao lado de seu caminho habitual. Porque na realidade não há inimigo e não há guerra. colares de dentes de urso." Onde. Soube disso quando os vi em Kátarunk. e cujos sons chegassem até ela amplificados pelo eco. eles estavam magros... o que é um sofrimento e um perigo. seguidos de uma massa de guerreiros reunidos. ele começou falando com toda a simplicidade sobre sua querela com Hiyatgu. para que se escondessem atrás da casa ou nas brenhas ao redor. lançando um olhar prov.

a América que deixavam para trás parecia-lhe como um campo de ruínas. — Você fala no passado. mas sabia que. você dizia. Não estava em condições de lançar sobre o futuro um olhar otimista. e sobretudo seu interlocutor. os selvagens. mesmo feridos ou ameaçados como estavam presentemente. — Quer dizer que ele terá descoberto a justiça de nossa causa e a horrível traição com que nos oprimem nossos inimigos? — interrogou o mohawk.. — Ofereço-íhe este colar de porcelanas — disse ele.para nos destruir. — É tudo o que me resta do tesouro de guerra dos mohawks. julgara que ia desfalecer. cujas pupilas negras refletiam uma centelha de alegria e triunfo. — Ele desapareceu no incêndio de Wapassu. Eu sei que você principalmente o sentirá presente para ajudá-lo na sua tarefa e combater ao seu lado. — Você crê realmente? — recomeçou Utakê. contra nós? — Não! Os franceses não precisam dele da mesma forma que vocês. Guarde-o como símbolo de minha aliança eterna. . Nesse breve instante em que fechara os olhos para refletir. uma terra queimada. Hatskon-Ontsi perturbava e enfraquecia meus julgamentos. As pálpebras de Angélica fecharam-se novamente. pela apresentação e refutação dos argumentos de sua defesa e de seus ataques. iroqueses das Cinco Nações. Angélica fechou os olhos. que os franceses chamam de "agniers". uma terra que se devoraria a si mesma até que os renovos de raízes mais robustas conseguissem firmar-se e dominar o caos. mostrando. mas precisava responder-lhe'e devolver-lhe a confiança. Utakê. a fim de continuar uma discussão "de valor". não o perca. — Não irá ele aplicar-se em ajudar seus irmãos de raça.. Não há vencido nem vencedor. Daqui a algum tempo ele se infiltrará entre você. eram capazes de adiar sua partida e minimizar o perigo que os espreitava. ou pelo menos adormecer. Do mesmo modo que Teconderoga me fortalecia. Dá a si mesmo a resposta. A imagem de Wapassu destruído. porque nunca houve inimigo. Você. e este.. e o wampum que teceram com suas próprias mãos está enterrado sob as cinzas. Digo-lhe isso porque foi o que ele me disse e porque é o que sinto também. — Você é avisado dessas coisas melhor que eu mesma. — Mas eu não perdi o wampum das Mães das Cinco Nações que você me enviou em nossa primeira invernada aqui — protestou Angélica. tomando fôlego por um longo período. de tal modo estava fatigada. surpresa de ler em seus traços impassíveis uma ansiedade real. ficando surpresa por ver o chefe das Cinco Nações inclinado diante dela e apresentando-lhe nas duas palmas uma fina tira de couro com contas de koris brancas. Talvez se pudesse encontrá-lo nos escombros. — Ele terá descoberto que você mereceu tê-lo ao seu lado para apoiá-lo e aconselhálo até o fim de seus dias — respondeu com firmeza. Reabriu-as corajosamente. não? — As mães que o enviaram a você estão mortas — disse Utakê com uma voz cava —. — A fome e a derrota enfraqueceram a clareza de minhas pres-ciências. os franceses. mas erguendo as pálpebras com dificuldade.. Veio para ficar entre vocês. e foi por vocês que ele veio. que comeu seu coração. Assim são os sinais. uma resistência que poderia levá-los até a noite. pretas e malva. sabe agora como ele os amava." — Cpmo você pode duvidar? — disse ela.

Ele recuou alguns passos, deixando o fio de conchinhas enfiadas sobre os joelhos de Angélica. — E agora tenho de dar-te notícias de sua filha, cujo nome é impronunciável,« que nós, iroqueses, chamamos de Nuvem Vermelha — disse, num,tom voluntariamente neutro e comedido. Mas seu olhar faiscou de malícia, rejubilando-se antecipadamente com o que ia suscitar com essas palavras numa francesa tão impulsiva quanto aquela que estava à sua frente e que, ainda que se esforçasse por respeitar as maneiras ponderadas dos índios, continuava submetida ao sangue fervilhante e anárquico da raça dos caraspálidas sem educação. Não podia falhar. Angélica soltou uma exclamação de alegria, e sua expressão dolente deu lugar à mais desperta excitação do mundo. — Honorina! Minha filha Honorina! Você sabe alguma coisa sobre ela?... Sabe onde ela está? Ah! diabo de mohawk! Por que se calava? Por que não.o disse logo? — Porque em seguida você não teria escutado coisa alguma dos discursos que eu tinha de fazer-lhe. Não teria dado a menor atenção às palavras muito importantes que tinha a lhe comunicar antes de deixá-la, para talvez nunca mais rever, e eu fazia questão de me dirigir a uma pessoa atenta. Você não teria sequer notado, eu a conheço — disse com um grande gesto desiludido —, que eu lhe oferecia meu único ramo de porcelanas em sinal de aliança eterna, ó Mãe que você é! ó Mulher! Mulher! Mulher que você é, pois você é três vezes mulher, pela lua e pelas estrelas. Há mulheres que podem se lembrar do homem que foram num outro ciclo, e encontrar as palavras ou atitudes que não chocam absolutamente a dignidade daquele que a ela se dirige, mas você sempre foi demasiado mulher para se preocupar com isso... — Fale! — exclamou Angélica, agarrando-se com ambas as mãos nos braços da poltrona. Se estivesse lidando com Piksarett, ter-se-ia levantado para sacudi-lo por suas tranças de honra. — Fale! Eu lhe suplico, Utakê! Diga-me tudo o que sabe sobre ela e não me faça esmorecer, ou prometo que vou me lembrar que fui também um guerreiro que manejava o cutelo melhor que você mesmo, e que o fez compreender isso uma noite junto à fonte, e isso não aconteceu numa vida anterior. Utakê deu uma gargalhada, imitada por seus companheiros, que não compreendiam inteiramente a alusão, mas apreciavam a animação da cena. Depois, acalmando-se: — Seja! Dir-lhe-ei tudo o que sei sobre ela. Vou primeiro dizer o que sei com certeza. — Onde ela está? Está viva? Você a encontrou?... O mohawk fez uma expressão melindrada. — Se eu a encontrei? Que está dizendo? Se ela partilhou todos os meses de inverno a vida de uma família na Casa Comprida do ohtara do Chevreuil aux Oneiouts, e, todos os dias, eu, que me dirigia ao Conselho da Federação como chefe das Cinco Nações, via-a e conversava com ela, até o dia em que, maldito seja, o novo Onôncio de Quebec conduziu novamente suas tropas até nosso vale dos Cinco Lagos e queimou o provoado de Tuansho, apesar de suas fortes paliçadas, após um combate assustador. "É por isso que não posso responder com certeza à primeira pergunta: 'Onde está ela?...' Nem à segunda: 'Ela está viva?...' Pois, talvez você o ignore, quase toda a população desse povoado pereceu, exceto alguns poucos miseráveis que consegui

arrastar comigo e subtrair por minha habilidade ao furor vingador dos franceses e de seus danados huronianos, e desses cachorros de abenakis. Tudo o que posso dizer com certeza é que ela não estava entre nós." Ele repreendeu com um gesto o movimento desesperado de Angélica. "Sei que algumas mulheres e crianças iroqueses, disseram-me, foram levadas pelos franceses até as missões de São José ou de Quinté, perto do Forte Frontenac, mas não posso dizer-lhe seguramente se ela estava entre elas." Cobrindo o rosto com as mãos para dissimular seus traços, Angélica recusava-se a encarar que a criança tivesse perecido nas chamas das aldeias incendiadas. Era impossível. Era-lhe pois preciso desejar que Honorina estivesse em poder do.s franceses, seus compatriotas, que eles a tivessem levado de volta a Madre Bourgeoys ou a seu tio e sua tia do Lobo. Utakê levantou os braços com solenidade como para reclamar do céu a inspiração e, das pessoas presentes, a mais escrupulosa atenção. — E agora vou lhe dizer o que sei dela, Nuvem Vermelha, por vidência. Fechou os olhos e começou a sorrir. — Ela chega! — murmurou. — Ela vem para você! Nao se apresse em deixar estes lugares, Kawa, pois sua filha se dirige para o Lago de Prata para aqui encontrá-la. Ela está acompanhada... por um anjo!... Novamente deu uma sonora gargalhada como se tivesse sido testemunha de uma brincadeira. — Ah! Você me escuta neste momento, e desta vez sem dormir!... Ria cada vez mais, sustentado pela hilaridade de seus guerreiros. E com essas explosões de uma alegria franca, suscitada mais uma vez pelas expressões aturdidas dos brancos, e por suas dificuldades em dar fé às revelações tão seguras dos sonhos, os iro-queses se afastaram e se separaram daquela que provavelmente jamais tornariam a ver. Atordoada pelo que Utakê acabara de dizer-lhe, Angélica compreendeu demasiado tarde que eles se haviam eclipsado. E quando quis pelo menos fazer voltar Utakê para pedir-lhe mais informações e despedir-se melhor dele, não se encontrou mais nem sinal do chefe mohawk nem de seus companheiros. — Por favor, alcancem-no — suplicou ela. Utakê não dissera sobre Honorina: "Eu a via todos os dias?..." Queria interrogá-lo sobre a menina perdida no coração da vasta América. E depois deu-se conta de que em nenhum momento pensara em agradecer-lhe pelos sacos de alimento que ele lhe mandara por intermédio do jesuíta. — Alcancem-nos! Mas não conseguiram encontrar os iroqueses, que haviam partido à procura dos fragmentos errantes de suas tribos, a fim de reconduzi-los ao vale dos Ancestrais, e à procura de seus inimigos para exterminá-los. Tinham-se diluído na vasta paisagem de montes, bosques e abismos, nas pistas invisíveis e não-traçadas. E, para dizer a verdade, ninguém se sentia realmente muito ansioso por alcançá-los. CAPITULO XXXVIII A odisseia de Cantor e Honorina Cantor puxou o barco para a pequena praia, num recanto do rio, e depois, içando-o sobre a cabeça, carregou-o até um abrigo de rochedos, onde o escondeu sob os galhos.

— Não iremos mais muito longe pela água — disse. — Temos de ir a pé. Mas se andarmos bastante, poderemos estar em Wapassu um pouco depois do meio-dia. A criança índia que o acompanhava opinou com seu penacho vermelho de cabelos eriçados, e pôs-se a andar docilmente atrás dele. Cantor segurava-a por uma corda presa ao pulso, pois a criança estava meio cega, e, no início de sua viagem, por várias vezes, quase a perdera ao atravessar florestas muito cerradas. — Onde arranjou esse selvagenzinho? — perguntara-lhe o boticário do Forte Orange, naquela noite em que, depois de atravessar mil perigos, puderam dormir ao abrigo das muralhas da cidadezinha anglo-flamenga, no alto Hudson. Respondera que era um órfão iroquês, que recolhera entre os sobreviventes dos massacres, e epidemias que haviam dizimado o vale dos mohawks. Era difícil confessar ao bravo holandês, que, muito caridoso, fora buscar uma pomada para cuidar dos olhos do pequeno ma-quas, que o bugrinho era sua meia irmã Honorina de Peyrac. Honorina fora enfim encontrada por ele num campo de refugiados do lago Ontário, entre as mulheres e crianças iroquesas reunidas pelos franceses sob a ptoteção dos sulpicianos de Quinte. O Sr. de Gorrestat, o intratável e limitado governador com que fora brindada a Nova França — provisoriamente, dizia-se, mas que parecia um pesadelo —, não esperara o degelo completo das neves para lançar novamente seus exércitos contra os cantões iroqueses. Foi assim que Cantor, que, ele também, desde os primeiros sinais de degelo, se pusera a caminho, não sem incorrer no risco de enfrentar as últimas e temíveis tempestades do rigoroso inverno, só encontrara, quando se aproximou das regiões onde queria procurar sua jovem irmã, povoados devastados pelos combates, fumegantes ainda dos incêndios. Desnorteou-se perguntando-se se não estaria morta, onde deveria investigar. Diziam que os iroqueses tinham "desaparecido da face da terra... Um contingente dos mais valentes e dos principais "capitães" daquelas nações, entre os quais o incansável Utakê, evaporara-se no momento de uma batalha decisiva, e os viajantes e exploradores de bosques supunham-nos escondidos da perseguição dos franceses e de seus aliados índios sob os labirintos subterrâneos de grutas, cuja longa rede se desenrolava invisível através de várias dezenas de milhas. Mas nenhum branco jamais penetrara ali. E corria uma lenda de que a obscuridade era ali tão profunda que uma permanência muito prolongada naquelas trevas fazia perder a visão. Cantor ocupava-se com os sobreviventes, sobretudo com as mulheres e as crianças, entre as quais lhe restava uma esperança de obter alguma informação sobre a pequena Honorina. Jamais esqueceria sua alegria, mesclada de terror e de compaixão, quando finalmente a encontrara, uma noite, à luz das fogueiras, quando a segurara nos braços, uma pequena caça gordurosa, magra de fazer medo. Terror porque por pouco não a reconhecera sob seus trajes de menino, repudiando-a inicialmente; então ela escapara e ele tivera de percorrer todo o campo lançando seu chamado de antigamente: "HonnL. HonnL." Compaixão, descobrindo-á desfigurada pelas marcas da varíola, cuja epidemia começara por dizimar as populações iroquesas já durante o inverno. Não diziam até que fora o Sr. de Gorrestat que tivera a ideia de mandar introduzir cobertas de comércio que haviam abrigado variolosos entre os inimigos, cuja perda pretendia?... Mas diziam tantas coisas! Os flagelos abatiam-se sobre aquelas regiões selvagens como o furacão. Dir-se-ia que as intenções tinham possibilidades de materialização e

Ele era como a irmã. por outro lado. no lugar em que os surpreendia? E pobre daquele que procurasse enfrentá-lo. o perigo dos lagos e dos rios. cuja pista maltraçada os levava a Wapassu. a travessia das aldeias irOquesas incendiadas. eram o irmãozinho e a irmãzinha que ele não conhecia. onde se concederam uma noite de repouso sob o conforto dos colchões de penas dos holandeses. caía. carregando-a nos braços. não havia razão para impedir-me de me vestir de menino. pois o domínio do frio impedia qualquer movimento. E a casa. subiriam novamente para Goulds-boro. longe de qualquer abrigo. Em Quinté. Tinha vontade de dizer-lhe que ela se parecia com um porco-espinho sem touca. teria achado mais seguro continuar a viagem descendo em direção a Nova York. Estava tão orgulhosa por estar vestida como um menino iroquês! — Utakê disse que eu era digna de ser um guerreiro. empreendiam a longa viagem de volta para Wapassu. tão cúmplice. mas continha-se. a casa deles. Era bem feito para essas mulheres idiotas que queriam que eu fosse buscar lenha ou apanhar o animal morto pelo caçador. pela selvageria das florestas. Cantor se interrogara. dissera consigo. eram seus amigos. pensara: ".. Em Orange. readquirindo já as rabugices de irmão mais velho. ficava em Wapassu.. que não lhe permitira salvar a tempo Honorina. cujo gelo cedia sob °s pés. já que havia meninos aos quais permitiam vestir-se de mulher quando não sentiam gosto pelas armas. enfrentando os barrancos do degelo. Ela estava abusando. O périplo teria exigido vários meses. que a gente se dispunha a conquistar o mundo para ser digno dele. pensava Cantor enquanto. Mas teria podido fazê-lo? Pois o inverno é implacável e os teria apanhado a ambos em qualquer lugar inexoravelmente. pois eu atirava bem com o arco.. não puderam voltar para os odjibways sem "se perder". sob pretexto de que eu era uma menina. qualquer deslocamento dos seres durante meses na superfície de um continente. de escala em escala. no no man's land do deserto branco. Ela se perguntava como bebés daquela idade haviam podido realizar tantas proezas em suas curtas vidas. Era o rosto e os olhos de sua mãe. pilhadas e cobertas de cadáveres. e. raro mas tão caloroso. E. Elas se realizavam mais depressa que o pensamento. Na Europa. perdia-se. Maldito inverno! Muito precoce. podia-se conceber o poder do deus feroz do inverno que os petrificava a todos. enquanto. e. Era melhor continuar em direção ao leste. que quiseram prosseguir seu caminho em direção à grande missão dos jesuítas em Sault-Sainte-Marie. sua alegria de vê-los. num passo estugado. o sorriso dele. Tivera de carregá-la nas costas e acabara por prendê-la com uma cordinha. a imobilidade da morte também tinha o poder incomensurável de congelar subitamente todo sinal de vida por centenas e milhares de lugares. os espanhóis. Por pouco os dois irmãos Lemoyne. que já não era muito hábil.pobrezinha! Ela. Ele se voltava e olhava-a andar atrás dele "com um profundo sentimento de felicidade. que eles não paravam de imaginar. era a presença do pai. agora esbarrava em tudo. a casa deles. os Jonas.. receber-lhe a aprovação. De voltar o mais depressa possível para a casa dele. Se o Hudson fora desobstruído dos gelos. entre duas tempestades. . seus braços abertos. Sentia a impaciência de voltar para casa. longo e rigoroso. mas dos quais Honorina não parava de falar-lhe. "Maldito inverno!". Só o conseguiram graças a uma fogueira que Cantor acendera para eles.de rapidez anormais. talvez. tão estimulante.Que importa! Está viva! Nossa mãe a curará!" Sua única oportunidade. seguia a linha da crista dos montes eriçados. Depois.

brotos. só via tristes rostos indígenas inclinados sobre ela e que sacudiam a cabeça: "Não. Cantor sentiu-"os". rememorando fatos que haviam se apagado de sua memória desde que fora acometida pela doença. levava todos os verões seu dízimo num buque de flores de seu jardim às religiosas da Santa Casa. alquimia. — Quem? — Minha mãe. urrando: "Minha mãe está morrendo! Oh! façam alguma coisa por ela!. — Acha que ela esteja morta? — perguntou um dia.". Ela nao pode morrer. Calou-se. A velha índia não estaca mais lá. É uma lei. E você sabe o que acontece nesses casos?.. sua mãe não está aqui!" Uma velha índia compreendeu o que era preciso fazer para manter viva a menininha branca. enevoada. ofereciam uma aparência esbatida. quatrocentos regulares canadenses e o mesmo número de índios das missões. Talvez fosse um engodo! A floresta estava vazia.. mas Cantor não a levou a mal. vira Angélica moribunda. Filho do Dr. O exército franco-índio — cento e vinte soldadosda metrópole. ele fora convocado porque tocava pífaro e tambor. Jogou-se com-ela atrás de um arbusto. Corriam de uma toca a outra. e estava curada. Uma vez ela acordou. Um receio se apoderava dela.-e Honorina sabia que sua mãe jamais viera. ir ao rio. no celeiro molhado -pelas brumas baixas. Pouco depois. E. como numa operação de transmutação química. os franceses chegaram e se encarregaram das mulheres e das crianças sobreviventes. Desde a mais tenra idade. folhas tímidas. uma bandeira com uma flor-de-lis.. que. — Não! — Um bem imprevisto nasce desse mal intenso. Vou lhe explicar por quê. e quando despertar sua mãe estará aqui". ele não sonhara. Nas proximidades do lago de Saint-Sacrement. viu flutuar. persuadida de que sua mãe estava ao seu lado. Depois continuava suas confidências. ouvira discutir ao seu redor química. atrás de cada árvore!.. o rufar dos tambores semeava o terror nos corações iroqueses. que começava a recobrir com uma resina esverdeada os renovos pegajosos. enroladas como lagartas. e começara a correr. lutava a fim de poder falar-lhe. pululando à sua volta. o do jovem Ragueneau. Mas quando voltava a si. garantindo o avanço e os guardas .As vezes ela parava.. Dizia-lhe: "Beba este caldo.. um rosto adolescente apareceu-lhe entre os ramos. Honorina balançava a cabeça. Ela contou que numa noite de inverno. Erguendo os olhos.. Muitas forças malignas se aliaram contra ela. Os sobos-ques sob o efeito dos primeiros sinais da primavera. que está me esperando em Wapassu. Nào. — Não grite! "Eles" estão em toda parte!. propícia a todas as emboscadas. com seus dez filhos. com o qual havia cantado Meia-noíte cristã na noite de Natal. fenómenos científicos.. Por sorte. Ela dizia "minha mãe" num tom possessivo. Ragueneau. — "Eles" estão em toda parte. na Catedral de Quebec. enquanto estava dormindo. parcialmente. Precedendo o exército. várias vezes Angélica fora visitá-la. pois morrera. informando-se sobre a saúde da índia que a adotara. Podia levantar-se. — Não! Isto não e possível. nos cantões iroqueses. Negava enfaticamente. pondo em polvorosa todos os habitantes da Casa Comprida. No fogo vermelho da febre.

Wapassu não estava longe. era preciso. continuando seu giro rumo ao leste. os saltos que. à procura dos sobreviventes das Cinco Nações. descer ao fundo das gargantas. Um dia. inextricável. e cativos para se desincumbir de uma perseguição inútil. de degrau em degrau. Com os índios. interrompida em toda parte. sem trilhas. misturado à tropa e arrastando o selvagenzinho cego." Para alcançar o norte do Maine. várias vezes por dia.. para efetuar qualquer avanço. e que não levavam a parte alguma. Era a última etapa numa suave manhã. perceberam o cimo ainda recoberto de neve do monte Kathadin. Já ia tão longe o navio. Apesar de sua habilidade e faro. As noites eram gélidas. — Cansada? Estava surpreso. onde. sem animais. Cantor devia atravessar esse exército em toda a sua extensão como um rio. semelhantes a sobreviventes do frio. onde se comia bem. aproveitou os bivaques. muitas vezes desativadas. com o barco sobre a cabeça. — Ela me tirou tudo. — Que está dizendo? . — Ela me tirou minhas caixinhas de tesouros! — choramingava Honorina. envernizando-os com resina de abeto balsâmico.. acabava de costurar barcos de casca de árvores à beira de um rio. Continuando rumo ao leste. Mas os cursos de água tornavam-se navegáveis. O jovem Ragueneau lançou-lhe aos ombros um dólmã branco rasgado. sem homens. onde se reuniam wigwams. o verdadeiro Maine. entre duas nuvens de um dia um pouco invernal. Assim vestido.. a perseguição. cortada por buracos e despenhadeiros atravessada por inúmeras torrentes.. Tornara-se novamente um adolescente do Novo Mundo. atravessaram lagos. uniforme do célebre regimento de Carignan. o fim da Diaba! Era como se ela nurtcà tivesse existido! Surpreendia-se até ao pensar que tinha vivido na corte da França.de flanco — seguia a habitual pista que conduzia aos mohawks e aos oneidas. Depois afastou-se da longa fila guerreira que deslizava inexoravelmente em direção ao sul. Cantor comprou um barco e os dois remaram. Ouviu atrás dele gemidos de cachorrinho e voltou-se. irmão e irmã desceram o rio. até o dente de cachalote de casca de castanha e a conchinha que você me tinha dado. encontrar uma passagem na efervescência das torrentes ou das quedasd'água. pois jamais ela se queixara das longas caminhadas que lhe impunha. pensava com despeito. Na hora não sabia do que ela estava falando. "Essa pista era tortuosa. proveu a mochila com enguias defumadas. Os índios tinham recolhido a seiva adocicada do ácer e recuperavam as forças bebendo-a. Cantor surpreendia-se girando no mesmo lugar entre os galhos de árvores quebradas hesitando entre as pegadas de pistas indígenas. Mais uma ou duas horas de caminhada. atravessaram uma região deserta. mas o sol aquecia durante o dia. carne-seca e rações de pão. Os bosquezinhos de Versalhes tinham-no feito perder o senso de direção naqueles cerrados. Levavam suas peles e discutiam a direção que deviam tomar para ir ao comércio: seja na direção dos franceses.. que emergia do inverno como sarças ressecadas. os levavam para outros lagos ou vales sulcados de rios. Uma pequena tribo de índios nómades.. seja na direção dos ingleses. Penetravam no Maine. o golpe de misericórdia. ficou ali por vários dias. transpuseram.. com a possibilidade de tropeçar com os primeiros habitantes das fronteiras da Nova Inglaterra e ali recolher escalpo. escalar novamente a falésia abrupta do outro lado.

quando ela choramingava. sua mãe. levando pela mão sua irmã selvagenzinha.. e mais animado. sob a comoção de uma impaciência infantil. como anteriormente. que em sua exultação continha a mesma vasta impressão de vitória.. "Estamos chegando!. de perfeição. campos lavrados. que.. o antigo fortim. os artesãos. preparadas para os cavalos. — Nada — respondeu. Crispou inadvertidamente a mão em torno da de Honorina. Compreendeu? Ela sacudiu gravemente a cabeça. Cantor? — perguntou ela. "Para tanta felicidade. e. no entanto. recobertas de vegetação nova. pensou ele. Honorina encontraria consolo para a perda de-seus tesouros.. e. daquele belvedere. A porta se abria e eles penetravam todos juntos por ela. — Estamos chegando! Logo veremos. deveria ter-lhe parecido mais povoado. — Até o anel de meu pai e a carta de minha mãe — continuava. notou o movimento de silhuetas humanas em torno. e em que sentiu que englobava todos os seus num movimento novo. Descreveram-lhe pastagens cobertas de rebanhos. e fora bem feito!. Tudo era imenso e luminoso. pois ali passara uma invernada. mas desertas. mas sobre ás habitações cercadas de jardins que haviam proliferado para além da paliçada. voltara a ser um jovem explorador de bosques. em todo caso. Ele reconhecia o quadro e só via extensões desertas. um dia cantarei numa abadia Sua glória. não apenas sobre a construção e reformas do grande forte. de alargamento infinito que acabava de experimentar no momento em que murmurou estas palavras: "Estamos chegando!". Tinham-lhe feito em cartas muito relatos detalhados. sonhador. . compreendeu? E depois disso. — O que foi.". Avançou mais e descobriu as ruínas enegrecidas.. os pequenos gémeos! Os Jonas. e já contemplava com um olhar desconcertado e vagamente ansioso o sítio de Wapassu. mais bem construído. Honorina.. Eram pulsações tão dolorosas que não conseguia pensar além destas duas perguntas torturantes que lhe soavam na cabeça a cada batida: "O que aconteceu? Onde estão todos? O que aconteceu?. cuja aproximação de Wa-passu devia ter-lhe despertado as lembranças. os soldados! Seu coração pulsava fortemente no peito. felicitando-se de que ela não pudesse distinguir esse espetáculo de desolação." No instante seguinte. — Talvez tenha sido isso o que a enfraqueceu — murmurou. E..A doença deixara-lhe uma fraqueza na garganta. que. Seu pai. os Malapra-de. sua voz ficava ininteligível. — O que está havendo? Onde estão todos?... ela ficou como que paralisada. Mas não mais. Onde estão todos?" Continuou a andar. — O que está dizendo? — O anel de seu pai e a carta de sua mãe devem ter-lhe saltado ao rosto.. Estava de tal modo aflito. encostado ao pico rochoso. e um novo trecho de paisagem descòrtinou-se a seus olhos. Pouco a pouco. a casa. que não reconheceu imediatamente.. Eles tinham mordido a Envenenadora. lhe era tão familiar. ravinas drenadas. pensou imediatamente. Foi a vez de Honorina tentar compreender e interrogá-lo.. num tom de homilia. com o olhar tão emba-ralhado. nesse pensamento.

. Quatro dias.. eu o vejo — respondeu ele. explorador de bosques tarimbado. erguia os braços para o sol. Velho da Montanha! Aqui estou. Angélica não podia aceitar a sentença. Angélica acabara por conseguilos. pois bem. Mas o cômico iroquesinho com o rosto bexiguento iluminado de alegria. não caia — gritou ele... ansiosas por se afastar antes que aparecessem contingentes de guerra de não se sabe que nação."Até que há bastante gente. E desta vez posso vê-lo! Oh! Cantor! Como estou feliz! A vida é bela!. acompanhada ou não de um anjo. familiarizado com Wapassu.. Honorina não encontraria o lugar deserto. mais embaixo. seis dias de prorrogação!. mas contra os quais não teriam condições de lutar. e o pai de Carlos Henrique. Sua mãe! Sim! Era ela! Recomeçou a respirar. Partir sem voltar a cabeça! Abandonar tudo! Jamais tornaria a ver Wapassu.. apavorado. e. disse consigo. se ocupavam em reunir os elementos da caravana. .. Eu voltei. Honorina. Olá. A pequena Honorina não surgira dos bosques.. — Cuidado. como predissera aquele louco do Utakê.. minha amiga — dizia Colin.. Se fossem fiar-se nos sonhos dos selvagens. o irmão e sua jovem irmã... segurou-lhe a mão... — Quem você está vendo?. — Também o vê. foram buscar Angélica e Colin Paturel. Partir!. — Está nos sorrindo. Cantor? — Sim. pensando bem".. instalados no fortim. CHEGADA DE CANTOR E HONORINA A WAPASSU CAPITULO XXXIX "Encontramos as crianças! Podemos partir" — Um novo limiar de felicidade — É preciso partir. Propunham ficar no lugar. Os dois homens se encarregariam dela e a levariam até Gouldsboro. Estavam lá em cima. Colocou-a escanchada nas costas e desceu saltando de rochedo em rochedo rumo a Wapassu. diziam as pessoas das orlas. — Cantor! Estou vendo-o! Estou vendo-o. — Está olhando para nós dois. Apesar dessa nova decisão. ainda invisíveis aos olhos daqueles que. Um vestido de mulher. Mas os últimos adiamentos se esgotavam.. preparando-se para tomar o caminho do sul e deixar o lugar.. o inglês mudo. Honorina arrancou a mão da sua e precipitou-se.na falésia rochosa batida obliquamente pelos raios do sol. Se as predições do iroquês por acaso se realizassem.. venha. Vamos fazerlhes uma surpresa daquelas. sob inspiração de um pro-jeto que permitiria conciliar tudo... Ambos permaneceram imóveis lá no alto. Lymon White. mas estava com as pernas bambas pelo medo que sentira. — O velho da Montanha! Eu o vejo! Hoje posso vê-lo! Pegou-a na beira do precipício.. cinco dias. — E você não está completamente cega! Hurra! Hurra! Agora. as sombras e as luzes esculpiam o relevo de uma face augusta e pacífica. na ponta do rochedo..

o jesuíta. Pois. a inquietação por Hono-rina suplantou a do drama recente.. cinco. contentando-se em murmurar-lhe palavras de conforto e agasalhá-la quando ela acordava em prantos.. Nas primeiras noites. Esperando essa morte. com a mesma celeridade com que a primavera começava a invadir de verdor os vales. aonde você vai?" Andara pela ravina e apresentara-se diante dos homens vindos para fazê-lo perecer.. Isso já acontecera vaias vezes em sua vida. De que se queixas?. de despojamento. lhe houvesse gritado: "Morto.. ancoravam-na outra vez à terra. seu ... Irritava-se com sua pressa em deixar o lugar.. Ele também desaparecia. Fora até o quarto de Lymon White.. Seu espírito. lançara-lhes: "Fiquem bemcomportados! Não se mexam! Eu voltarei". A maldita! A magnífica!. as previsões lógicas. em que por isso a colocassem totalmente entre eles. A primavera subia como o mar!." Deixara-o sangrar em seus braços. Quatro. Ela se agitava no sorto.. colocara o cinto e enfiara o cordão do crucifixo no pescoço. como quando se põe de lado uma roupa. se evaporasse.. mas pode ser facilmente estancado. quando se deitava. você que ode ser tão súbita e tão breve! Colin. Vestira sobre o corpo descarnado a Toga Negra... tendo percebido os primeiros homens aparecendo do outro lado do lago. — Olhem para as crianças! Elas sabem que não voltarão mais.. mas nunca com aquela impressão de ruptura. sentado pacientemente à sua cabeceira.O Wapassu! É proibido conhecer o Éden na terra? Mas você o conheceu. E passando junto às crianças. Jamais parecera tão bela.. Não sabia ainda em quê. Às vezes irritava-se com eles por suas palavras sensatas. perguntara-se se não teria podido tentar cuidar dele. Ah! longa. em seguida. tão suave. Depois saíra. longa morte.. Esperando essa morte.. tão cheia de flores e de cantos de pássaros. cinco. mesmo com Colin. — Mais . E talvez o pequeno Carlos Henrique. Abotoara-a de alto a baixo com os dedos enfermos.. seis dias de prorrogação. ao vê-lo. o ruído das vozes.. aniquilada. Depois. Desperta. derretesse. não tentava convencê-la. como às vezes demora a vir. é pouco! E no entanto aqueles dias estavam investidos de um poder de esquecimento e de renascimento que valia por anos. aquele movimento de silhuetas em torno dela. Estava mudada. ele abandonara suas nassas de pesca e correra em direção ao fortim pela última vez. censurando-se.. quando sua saúde melhorou. mesmo escalpelado. Eu deveria.um dia! Esperemos mais um dia — suplicava Angélica. Era preciso que ele morresse. se apagasse como por encantamento um tempo de morte que parecera que jamais terminaria. das alterações. Quatro.porque estava dormindo. seis dias. e não era preciso mais que isso para que.. Aquele momento em que. O sangramento de feridas na cabeça é abundante. Seu sono daí em diante tornou-se tranquilo e profundo... ainda que ela procurasse retê-lo sob o aguilhão do apego e do remorso. sempre se lembrava daquele momento que ele vivera e que ela não vira.. dissipando-se a visão que a obsedava e que não conseguia deixar de reviver ponto por ponto. "Eu deveria ter cuidado dele.. os projetos materiais e sólidos referentes à partida sobretudo por não poder explicar-se e comunicar-se realmente om nenhum deles.

— Perdoem-me — repetia incessantemente. Isso a punha nervosa. nesse período transitório que a levava da doença à saúde. feitos de cascas de árvores sobre arcos flexíveis. A palidez diáfana tingia-se de rosa nos pômulos. de modo que.. — Honorina! Ergueu a forma frágil. julgou morrer de felicidade. e. readqui-riam flexibilidade e brilho.e não compreendiam: onde estavam o posto. o sinal de partida foi atrasado. Os olhos de Angélica percorreram o horizonte de Wapassu. No último momento. correndo também com os braços estendidos. apertando-a nos braços. Mas eles lhe perdoavam tudo. que observavam de longe os brancos.. O último dia consentido havia terminado. depois.. resultante dos artifícios das mulheres que se aprontam para um baile. aqueles bosques haviam lhe confiado um segredo inefável. apresentava essa beleza perturbadora. e. não deviam estar longe. Entretanto. tropeçando. deixar-se tomar pelo peso da terra era-lhe proibido Os índios. Uma criança índia corria em sua direção. o que se censu-ava. o pão. Enquanto se lançavam à sua procura. a caravana estava formada diante do fortim. como que sob as mãos hábeis de um mestre cabeleireiro que os nutrisse com óleos revigofantes. Angélica sentiu perpassar-lhe o mesmo sopro luminoso que transfigurava todo sofrimento. como não eram testemunhas suas agitações interiores. naquela manhã. que tinham aproveitado os preparativos para escapar de uma vigilância demasiado constrangedora. Contemplavam o sítio transformado do Wapassu que estavam habituados a frequentar. pois não encontravam as três crianças. debatiam-se como pássa-os contra as grades de uma gaiola demasiado estreita. facilmente impaciente. os copos cheios de continhas coloridas?. os latidos dos cães e os gritos das crianças recriavam a trama familiar que anunciava os trabalhos de verão. subitamente também se animaram e se dirigiram para eles em massa. Tinham tomado gosto pelas explorações pessoais. Aqueles montes... paixões e esperanças de seu ser.. sua alma. com exclamações afetuosas. recusando a realidade. tão leve. os carregadores recolocaram no chão as cargas que já tinham içado aos ombros. a sombra cavada sob os olhos já não era senão um círculo azulado sabiamente esbatido. Subitamente não se sentiu mais triste.coração. inclusive Colin. — Fui um pouco ríspida. Foi como o cimo de uma vaga de amor arrebentando. Esquecê-lo. os lábios descoloridos ganhavam vida. . e não soube que presciência a fez lançar-se para ela. Angélica estava tão ressentida com Colin que nem lhe respondia quando ele lhe dirigia a palavra. e. só podiam rejubilar-se. Na verdade maravilhavam-se com a rapidez com que reassumia a vitalidade: Ao sol. seus cabelos. resumindo todos os transportes. por vê-la readquirir o espírito combativo e bastante vigor para scutir e opor-se-lhes quando a instavam a partir. . levantavam os pitis de peles sobre varas cruzadas ou os wigwams arredondados como cascos de tartaruga. Os índios nómades começavam a chegar em pequenas famílias. com os braços abertos. A fumaça lenta das fogueiras.

. replicou: — Sim. em sua marcha de volta rumo ao sul.. — Ele foi me buscar entre os iroqueses — disse Honorina orgulhosa. Um guerreiro iroquês voltou para nós!. os suíços. pelo que vejo.. voltaram gritando: — Encontramos as crianças! Podemos partir. os três pirralhos. girando loucamente com a criança junto ao coração. que sentira um choque gelado ao ouvir a terrível palavra: "a varíola"!. Podiam partir. E ela ria... que teriam sido imoladas à malignidade de uma Ambrosina. os valões e os lolardos ingleses. E todo mundo caiu na risada... sob qualquer máscara. Adivinhou tudo. seria preciso aproveitar o desaparecimento das neves para ir aos postos e minas inacessíveis informar-se sobre os sobreviventes do inverno. Era um homem. Queria isso. não é?!. a perseguição que fizera. Cantor!.. Ela sentiu-lhe a força determinada. um guerreiro iroquês! Venham todos. se o futuro que os esperava estava carregado de mistério. que não estavam a par de nada. Nesse momento.. O você!. — Eu sabia que você viria.. — Cantor!. o gesto que realizara.. Reencontrariam os Jonas. desafogando a necessidade de distender-se. ou dos ataques do outono. Sua vida não estava arruinada.. lambuzados de fuligem por terem tentado explorar as ruínas e segurando os primeros buques de flores colhidas. e nossa mãe vai curá-la. nova e quase desconhecida.. O encontro que o levara a embarcar. estava-o igualmente de um montão de histórias a serem contadas uns aos outros e que preencheriam as horas de numerosas vigílias ou travessias. Estava agora num novo limiar. bastante contentes consigo mesmo mas prontos para a partida.. nem a cimeira de cabelos vermelhos viscosos de resina tinham-na enganado.. sua obra não estava apagada... mas fazendo um pequeno desvio por Quebec. Montreal e Ontário. a chama dos olhinhos de Honorina. Teria reconhecido. Exigia que não houvesse mais vítimas.. Não haveria vítimas. A única coisa que não aceitaria era que houvesse outras vítimas. E. As imagens se precipitavam.. — Um guerreiro iroquês!.. — Viu seu pai? Cantor arregalou os olhos.. mas está viva. os Malaprade e seus filhos. mas foi ele quem a tomou nos braços. dois ou três homens devotados. O futuro desconhecido já se preenchia.Nem o aspecto repelente do rosto e dos trajes. A perda dos bens não era nada. realizou seus sonhos. Angélica compreendeu que. vejam que maravilha. de onde você vem?.. Ignorava que o Conde de Pey-rac fora para a Franca... Essa voz e essas palavras desviaram a atenção de Angélica.Era assim. — De Versalhes — respondeu Cantor. No alarido que se seguiu. com Honorina junto a ela e. . Angélica colocou-a nó chão para estender a mão para o rosto de Cantor.. muito mundano —. Vítimas inocentes. indomável. os espanhóis. Seus navios haviam se cruzado no oceano.. Mas. à sua frente. nem o disfarce de menino.. em primeiro lugar. Wa-passu permaneceria uma rica e soberba messe de lembranças e de felicidades.. feroz..-mma voz gritou: — Senhor Deus! Ela teve varíola! Uma outra voz.

tocados por Seu poder. 24.. 16. 8. desafiando com as pupilas verdes a luz da primavera. Sua vista ameaçada? Ainda estava em tempo.. você será bela! E será feliz!. 10. 11. "Depois de tudo!. a pele fina de criança crivada de cicatrizes? Levaria mais tempo! Ou talvez pouco tempo!?." Abraçou-a apaixonadamente.. para um rei ponderado. amigos fiéis. A pele do rosto. conseguiria. 4. 5.. 6. 18. "Não haverá mais vítimas! Será assim! Sinto-o! Encontraremos todos os nossos amigos perdidos!. "Eu irei.. 22. 19. como se apertasse contra si sua vida nova. 15. e mais uma vez. 2. E você. 23.E poderiam beber e brindar alegremente. Maldita Angélica no Barco do Amor Angélica no Fim do Arco-íris Angélica na Floresta em Chamas Angélica e a Caçada Mortal Angélica e Seu Amor Proibido Angélica Ultrajada Angélica e a Duquesa Diabólica A Satânica Rival de Angélica Angélica e o Çomplô das Sombras Angélica.. aumentando depois a acuidade da visão atingida pela horrível doença. O céu bem que me deve isso!. Ela os encontraria. Rebelde Guerreira Angélica. fontes de rios sagrados depositários da corrente divina.. com o prestígio assegurado. Pegou-a no colo para ver-lhe o rosto de perto e examiná-lo. nunca mais separar-se dele." Ordem ideal de leitura das aventuras de Angélica: 1.. Não faltavam forças miraculosas no mundo: mãos curadoras. um esposo cheio de expectativa. impacientes por revê-la. 12.. 9. minha criança... pensou. Dependia dos meios que empregasse.. percorrerei o mundo se for preciso. De uma coisa estava certa: conseguiria que os sinais de sofrimento e da maldição que tinham se abatido sobre ela desde o nascimento se apagassem do rosto da criança bem-amada. Clandestina. 7. taumaturgos. Assumiu a responsabilidade de cuidar das pálpebras. 20. Rainha de Quebec O Inesquecível Natal de Angélica Angélica e o Perdão do Rei Angélica e as Feiticeiras de Salem O Fascínio de Angélica . Os Amores de Angélica O Suplício de Angélica Angélica e o Príncipe das Trevas A Vingança de Angélica Angélica e as Insídias da Corte Angélica. Cativa no Harém Angélica. 21. 14. antes de singrar para a Europa num belo navio.. Quanto a Honorina?... ainda uma vez. 3. a Favorita do Rei Angélica e o Pirata Angélica. .. numa viagem que não conheceria tempestades.. você será salva. à saúde de todos. mais uma vez. 13. nos braços do qual se lançaria prometendo a si mesma. nas praias de Gouldsboro. 17. lugares consagrados. "Depois de tudo!"..

em 1928. Çonheeeram-se e casaram-se na Africa. 26. Angélica amou. com o dinheiro de um prémio literário. celebridade na época: formado em geologia. cruzara o misterioso continente em busca de ouro e diamantes. lançado em 1959. odiou. ou completar sua coleção: na próxima quinzena sai o no 1 e. fez e sofreu intrigas. sustentado por uma narrativa de excelente qualidade literária. Marquesa dos Anjos. para onde Anne. viajara como jornalista. foi imediato. Angélica e a Estrela Mágica O Triunfo de Angélica Caro leitor. já casados. De volta à França. foi temida ou adorada. encerramos a publicação de todos os livros escritos por Anne e Serge Golon. Anne resolveu entrevistá-lo. em Toulon (Franca). um sucesso da Nova Cultural. a partir da próxima quinzena. O sucesso de Angélica. Não perca a oportunidade de sugerir a amigos. a cada quinze dias. Tanto assim que. presentear. sairão as edições seguintes de Angélica. a Marquesa dos Anjos. mineralogia e química. em 1952. com as aventuras de Angélica. animando os autores a produzirem novos volumes. O Editor OS AUTORES: ANNEE SERGE GOLON Serge Golonbikoff nasceu em -Bukhara (URSS) em 1903 e Simone (Anne) Changeuse. Nos 26 volumes que apresentamos. Angélica protagonizou a maravilhosa trama que a conduziu da corte resplandecente do Rei-Sol às sarjetas de Paris. estaremos reiniciando o lançamento dos títulos dessa série. . tiveram a ideia de escrever unia novela histórica ambientada no século XVII: Serge colhendo as informações no Arquivo de Versalhes e Anne exercitando um talento para as letras manifestado já na infância. Neste volume. fizeram da heroína uma das personagens mais famosas do mundo. num verdadeiro turbilhão de emoções. Estes.25. Atraída por sua fama. dos haréns da África à intimidade de piratas. Serge era uma . acabando por participar da descoberta de estanho em Katanga (Zaire). Foi um grande êxito de vendas. traduzidos para vários idiomas e transpostos para o cinema. a inesquecível Marquesa dos Anjos.

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