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III Seminário Internacional de Defesa - SEMINDE

08 de Novembro de 2017
Recanto Maestro – RS – Brasil

AT1- Segurança Internacional e Impactos no Desenvolvimento de Tecnologias de Defesa e


Segurança Pública

AS CAPACIDADES MILITARES DOS ESTADOS UNIDOS E IMPLICAÇÕES PARA O


BALANÇO DE PODER NA ÁSIA NA PERSPECTIVA DO DEPARTAMENTO DE DEFESA

Márcio Azevedo Guimarães- Centro de Ensino Superior Dom Alberto.

1
Resumo: O artigo faz um estudo do sistema da balança de poder na Ásia –Pacífico, a partir
da interpretação da competição entre as grandes potências e de suas tendências para o
século XXI a partir do papel dissuasório das capacidades aeronavais norte-americanas em
face do aumento das capacidades defensivas chinesas. A importância das capacidades
militares, que são os meios disponíveis para a realização dos objetivos de natureza
estratégica e estão previstas na Defense Strategic Guidance de 2012 e da Quadrennial
Defence Review DE 2014, durante o governo Obama. Nesse contexto, as disputas
geopolíticas entre as duas principais grandes potências, os Estados Unidos e a China
contextualizam a hipótese do trabalho é a de que a doutrina estratégica definida na
administração anterior possui desdobramentos de ordem estrutural e irá afetar a política
externa de segurança e defesa do governo Trump.

Palavras-chave: balança de poder; capacidades; estratégia; defesa; Ásia.

Considerações Iniciais

A atual doutrina estratégica militar norte-americana remonta aos anos de 2010 e


2012, durante o primeiro mandato de Barak Obama. Dentre seus princípios estratégicos
está o compromisso pela manutenção da produção e comissionamento de sistemas de
armas estratégias em um cenário de forte restrição econômica sobre os gastos militares, o
que redefine a política de segurança da grande potência no sentido de uma ênfase sobre a
diplomacia e a divisão dos custos de segurança com aliados estratégicos regionais a fim de
manter capacidade dissuasória intacta, o que iria ser a tendência geral da política de
segurança de Obama.
Nesse sentido, aqui se procederá a uma análise política, contextualizando-se os
documentos de discussão doutrinários produzidos pelo governo norte-americano entre 2012,
durante a administração do Presidente Barack Obama, segundo os preceitos teóricos da
balança de poder como condição para a manutenção dos Estados Unidos como o provedor
de segurança do sistema internacional.
Portanto, faz–se necessário, a fim de poder analisar a doutrina de segurança de
Obama, um exame prévio do artigo do coronel do Exército americano, John A. Mauk 1,
publicado pelo Instituto de Estudos Estratégicos (ISS), do Departamento do Exército dos
Estados Unidos, órgão do Departamento de Defesa, em dezembro de 2010 sobre os

1
A Risk-Based Approach to Strategic Balance, John A. Mauk, CARLISLE PAPER, Dec. 2010,
disponível em: http://www.StrategicStudiesInstitute.army.mil/ < acessos: 17/05/2017>. O Coronel do
Exército John Mauk serviu sob o comando do Secretário do Exército na Secretaria de Pesquisas
Operacionais. Serviu em 2006 no Iraque como estrategista da embaixada dos Estados Unidos em
Baghda no Quartel-General da Força Multinacional. É pesquisador do processo de formulação de
política de segurança nacional do da Escola Superior de Guerra dos Estados Unidos.

2
grandes interesses estratégicos dos Estados Unidos no contexto pós-intervenção no Oriente
Médio durante o governo Bush.
Para o autor, o interesse nacional norte-americano, no campo da segurança, deveria
ser revisado em termos de prioridades na intensidade da agenda militar, o que está
relacionado com o equilíbrio de poder nos marcos da crise econômica que os anos de
agenda do terror tiveram como impacto sobre a agenda econômica e, por fim, como num
círculo vicioso, desta sobre a agenda de segurança do sucessor de Bush, o democrata
Barack Obama.
Dessa forma, é importante verificar como a percepção das elites dirigentes norte-
americanas na transição de um governo para o outro implicaria na revisão da postura
estratégia ainda no final do governo Bush como resultado dos aspectos financeiros pelos
quais passava a economia americana e que conduziram defesa de uma limitação de gastos
militares com o fim de reduzir os custos da liderança da grande potência no sistema
internacional e, além disso, demonstrar que aspectos estruturais perpassam governos e
condicionam administrações no campo da política externa de segurança.
A análise das principais questões estratégicas é analisado pelo Coronel do Exército
americano, em estudo produzido pelo US Army War College, onde leciona e se dedica a
pesquisas relacionadas ao tema. Nesse sentido, o Comando Conjunto das Forças Armadas
dos Estados Unidos interpreta a concepção do Departamento de Defesa é a de que a
capacidade militar num ambiente econômico de contração do orçamento de defesa é deve
se expandida. Esta expansão foca sua preocupação em uma capacidade de força de
equilíbrio estratégico que possa diminuir os riscos para a segurança em razão da restrição
de recursos no campo da segurança.
Além disso, são realizadas avaliações sobre a possibilidade de redefinições sobre o
equilíbrio e a permanência das capacidades convencionais e nucleares de dissuasão no
balanço de poder em razão do cenário econômico. Assim, a análise de Mauk parte do
cenário de recessão e crescimento da dívida nacional do país que ultrapassaria os doze
trilhões de dólares em 2010, como um alerta para os limites da capacidade da sociedade
americana em apoiar a então política externa de segurança.
As conclusões apontam para a evidência de que conflitos de grande intensidade não
são do interesse nacional em razão da impossibilidade de sustentar economicamente um
engajamento militar em razão dos limites dos recursos econômicos disponíveis no
orçamento de defesa do país.
A partir desta constatação, o Departamento de Defesa do governo Obama, em seu
primeiro mandato, dirigiu os esforços de dotar as Forças Armadas americanas de uma nova
doutrina estratégico-militar em que pudesse ser desenvolvido o conceito de força de

3
equilíbrio estratégico para lidar com o cenário futuro de guerra irregular que estaria nas
prioridades estratégicas militares tanto quanto a manutenção das capacidades
convencionais e nucleares do país no sistema de balanço de poder.
A CCJO persiste na avaliação estratégica de que as grandes guerras (guerras
centrais convencionais, travadas por Estados qualificados como grandes potências)
persistem como as principais ameaças à segurança dos Estados Unidos. Esta avaliação é
discutida no capítulo do texto o qual aborda a necessidade de capacidades navais
estratégicas em termos da manutenção do país enquanto grande potência balanceadora do
sistema de balança de poder com relação à chineses e russos, além de potências regionais
ou médias (caso norte-coreano).
Dessa forma, não obstante o sucesso relativo do balanço de poder, do equilíbrio
entre as grandes potências ter tornado a hipótese de guerra central entre duas ou mais
grandes potências é menos recorrente em razão da grande capacidade de destruição
convencional e não convencional, uma vez que a guerra nesta escala restringiria as
vantagens de sua recorrência em razão do risco à sobrevivência da sociedade e do Estado
e também em razão dos custos proibitivos em termos econômicos, persiste a compreensão
de que a paz e ausência de guerra entre as grandes potências reside antes na própria
existência da sua capacidade militar2, acima de tudo.
Dentro desta perspectiva, os Estados Unidos deveriam manter intactas suas
capacidades convencionais e nucleares mesmo em um cenário de redução das
probabilidades de conflitos de alta intensidade e concentrar suas prioridades atuais na alta
probabilidade da ocorrência da guerra irregular. Todavia, não se deve esquecer que esta
possibilidade de conflitos de alta intensidade pode acontecer e que os documentos de nível
estratégico produzidos pelas forças armadas americanas aponta para a plausabilidade de
em algum momento, no médio e longo prazos, a dissuasão não ser suficiente para algum
nível de conflito sério entre grandes potências, o que tornaria a intervenção americana
necessária em razão de seu papel estratégico para o sistema de balanço de poder.
Nesse sentido, a estrutura sistêmica incide sobre a estratégia da grande potência de
manutenção da liderança do país no sistema internacional. Isto ocorre em razão das forças
contraditórias do ciclo de acumulação de capitais que estão na raiz da atual crise financeira

2
A capacidade militar pode ser entendida como o conjunto de sistemas de armas convencionais
(exemplo: blindados, artilharia, destróieres, aviação de caça, etc.) e não convencionais (nucleares) e
os recursos humanos capazes de gerir as esferas dos planejamentos estratégico e operacional de
uma ou mais batalhas, além do emprego daqueles armamentos por soldados profissionais na esfera
da tática, visando atingir um objetivo político-estratégico definido por um Estado –Macior pela cúpula
dos oficiais militares. Sobre o papel estratégico, operacional e tático das forças militares terrestre,
naval e aérea e seus respectivos sistemas de armas e seu emprego no campo da ciência militar, ver
DUNNINGAN, James. How to make war: a comprehensive guide to modern warfare in the twenty-first
century. New York: Quill, 2003.

4
que reduz capacidades, somada ao comportamento dos Estados Unidos na decisão
estratégica equivocada de comprometer seus recursos financeiros na guerra iraquiana no
começo da década passada, o que vem comprometendo o sistema de balanço de poder em
termos de redução dos investimentos em termos quantitativos de armas estratégicas, no
quadro da competição militar com outras grandes potências.
No médio e longo prazos, este cenário pode apontar para a redução da capacidade
estratégica dos Estados Unidos manter o padrão atual de dissuasão e, somados à crise
econômica, são as questões de ordem estrutural que poderiam incentivar a expansão das
potências desafiantes à ordem hegemônica americana, que tudo leva a crer que está em
fase de corrosão.
A ausência atual da hipótese de guerra central entre grandes potências não significa
a ausência de necessidade de manter os gastos militares em nível compatível com as
exigências de eficácia do sistema de armas estratégicos convencionais e nucleares a fim de
respaldar a capacidade do país em agir como balanceador offshore na Eurásia. Essa lógica
política somada à necessidade de manter a economia aquecida em um nível razoável,
relacionada em parte com a lógica do keynesianismo militar por meio das encomendas de
sistemas de armas de natureza estratégica e caracterizado por capacidades de emprego
ofensivo, é que explica a necessidade de manter os gastos militares em nível estratégico
mesmo em um cenário de curto prazo que aponte para a baixa probabilidade de ocorrência
de guerra central no curto prazo.
Assim, duas lições devem ser tiradas dessa situação que serve de contexto para as
preocupações dos militares americanos para com a guerra irregular. A primeira é a de que
existe uma instrumentalidade da lógica político-militar de segurança para a lógica
econômica. São interdependentes uma da outra, apesar de possuírem objetivos singulares.
No entanto, a efetividade de alcançar tais objetivos depende do entrelaçamento entre estas
duas lógicas. Desta forma, os recursos econômicos são necessários para custear a
pesquisa, produção e comissionamento de sistemas de armas estratégicos de que os
Estados Unidos dependem para respaldar seu papel de líder do sistema de balanço de
poder.
Por outro lado, a manutenção de um complexo militar industrial, que fomente a
economia tanto pelo lado da oferta (corporações de defesa) como de demanda
(Pentágono)3, favorece a inovação tecnológica que é transferida para a indústria civil de
3
Criado no governo Truman, em 1947, pelo National Security Act, que reformulou a estrutura
institucional de segurança do país. Trata-se da sede político-administrativa do Departamento de
Defesa dos Estados Unidos no estado americano da Virgínia, na cidade de Arlington, próximo ao
Distrito de Colúmbia (Washington),capital dos EUA, que é formado pela alta cúpula de oficiais
generais de mais alta graduação da Marinha, Exército e Força Aérea, que integram o Estado Maior
Conjunto e coordena - a nível estratégico - as missões institucionais dos Departamentos de cada uma
das três forças singulares, estabelece as diretrizes no plano estratégico e doutrinário militar que irão
5
forma garantida e relativamente estável por ter o Estado como grande comprador e
investidor em pesquisas caras, sendo atrativo para as empresas (lógica do capital).
Em razão disso, o ciclo de acumulação prossegue suas fases tendo na força militar
do Estado a garantia de seus lucros, de impacto pela tecnologia dual para a economia
americana como um todo, favorecendo a reprodução de lucros no setor produtivo de alta
tecnologia. Todavia, duas questões aqui e que impactam no balanço de poder, podem
conduzir à guerra central no futuro e não podem ser dissociadas.
A primeira é a lógica de segurança, de natureza geopolítica e que, dada a fase de
restrição de capitais na produção pela fase de financeirização 4, reduz provisoriamente,
recursos disponíveis para que os Estados Unidos consolidem sua unipolaridade militar
frente a chineses e russos em razão da competição por investimentos militar que, assim,
possui tanto uma lógica comercial quanto de segurança que são complementares para a
liderança hegemônica do país.
Com isso, a grande questão é a perda da capacidade num médio e longo prazos, em
razão da horizontalização das capacidades, de manter a dissuasão entre as grandes
potências, o que poderia gerar instabilidade entre os polos principais do sistema que, a partir
de crises pontuais recorrentes, como o caso da Coréia do Norte, das disputas entre a China
e Taiwan, das disputas da China pela posse das ilhas que pertenciam ao Japão (Kurilas e
Salalinas) e da própria viabilidade da cooperação estratégica russo – chinesa, poderiam
conduzir a alguma forma de guerra de alta intensidade (guerra central) 5 em que os Estados
Unidos estariam implicados em razão do seu papel de liderança do sistema de balanço de
poder na Ásia, onde se situam seus principais interesses geopolíticos e econômicos.
Assim, na outra borda da Eurásia, onde seus interesses geopolíticos 6 se defrontam
com o gigante russo e cujo eixo de disputas se situa na questão do petróleo e do gás
natural, onde persiste a guerra civil síria, o papel russo de aliado de Damasco, a complexa
questão do processo de paz entre Israel e Palestina, os ventos da primavera árabe no Egito,
informar as doutrinas específicas do Exército, da Marinha e da Força Aérea, fixa as diretrizes de
política industrial estratégica de defesa e a coordenação superior dos laboratórios de pesquisa e dos
contratos de aquisição de sistemas de armas com as corporações privadas produtoras e implementa
as diretrizes políticas definidas pelo Presidente e, por delegação, do seu Secretário de Defesa, que
são as autoridades superiores a nível político.
4
A tese dos ciclos de acumulação de capital e da alternância entre as fases de industrialização
(produção) com as de financeirização do capital privado e suas implicações para os interesses
estratégicos e para a formação da balança de poder entre os Estados se encontra no cerne dos
estudos do cientista político italiano Geovanni Arrighi. Ver ARRIGHI, Geovanni. O Longo Século XX.
São Paulo, Editora UNESP, 1996.
5
Guerra central é todo o conflito de alta intensidade generalizado entre forças militares da quase
totalidade Estados que são considerados como grandes potências. Exemplo: a Primeira (1914-18) e a
Segunda Guerra Mundiais (1939-45). Sobre guerra central ver MEARSHEIMMER, John. (2001). The
tragedy of great power politics. New York: W.W.Norton & Company.
6
Sobre os grandes interesses geopolíticos e estratégicos dos Estados Unidos Ver BZERZINSKY,
Zigbnew. The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives. Maps. 223 pp.
New York: Basic Books. 1998.
6
o papel desestabilizador do Estado Islâmico (terrorismo não estatal) e a incógnita do papel
iraniano7 trazem desafios estratégicos para a diplomacia e a agenda de segurança dos
Estados Unidos em um cenário de menos recursos disponíveis para a ação como gendarme
militar, após os reveses políticos da ação no Iraque.
A segunda questão e que está interligada pela estrutura sistêmica à primeira é a
lógica do capital, que é a necessidade e pressão dos capitais privados para que a
competição econômica se resolva pelo recurso à guerra entre as grandes potências para
garantia de acesso à insumos estratégicos e manutenção de mercados, o que pode ocorrer
caso a capacidade de dissuasão estratégica venha a falhar.
Existe ainda uma terceira questão e que derivaria dessa segunda questão que trata
da possibilidade de um desvio das lógicas do capital e do territorialismo dentro do Estado
americano, caso este, por meio do Pentágono, não consiga exercer seu controle normativo
sobre a transnacionalização das corporações de indústria militar e caso a ação do capital
financeiro e das demais corporações comerciais americanas sejam exitosas em uma
transferência de seus centros decisórios para outro país.
Essa hipótese ou mesmo o surgimento de novos setores produtivos na China em que
migrem os capitais financeiros para investir em novos setores ou enfim, uma combinação de
todos estes fatores em que num cenário de longo prazo, mas ainda no século vinte um, os
interesses por mercados e insumos em uma aliança de uma parte entre velhos e novos
capitais produtivos e financeiros escolhessem um novo santuário político estatal (outra
grande potência) em que a lógica da maximização de lucros poderia criar uma competição
grave entre os capitalismos americano e chinês e, apostando num novo ciclo, agora chinês,
conduziria a uma guerra central de graves proporções.
Tais cenários são ainda prematuros mas não podem ser descartados e irão
depender, contudo, da capacidade de manutenção da dissuasão dos Estados Unidos, por
um lado, e da capacidade econômica e militar dos principais polos rivais, de outro. Assim, a
manutenção das capacidades convencionais e não convencionais em razão da hipótese de
guerra de alta intensidade é fundamental pela lógica do poder da dissuasão e pelas
necessidades do ciclo de acumulação. Dessa forma, as capacidades convencionais e não
convencionais dos EUA permanecem como fortes elementos de dissuasão, conforme
análise do estudo do Cel. Mauk.
Em síntese, o estudo e a avaliação da CCJO propõe, nesse contexto, recapitalizar,
modernizar e expandir as capacidades dos Estados Unidos em uma era na qual o

7
A opção do governo Obama em negociar tratado de segurança nuclear em 2016 faz parte de uma
lógica em que o país necessita reduzir recursos para sua agenda de segurança e criar uma situação
diplomática em que reconheça no Irã, a partir de uma política de apaziguamento, um papel de
estabilizador regional, para o que concorre a parceria estratégica dos iranianos com turcos.
7
Departamento de Defesa deve de forma realista ter a expectativa de uma redução estrutural
do seu orçamento de defesa.

Doutrina Político-Estratégica em relação às capacidades militares das Forças


Armadas dos Estados Unidos.

Dentro destes marcos estratégicos conceituais elaborados no referido estudo da


Escola de Guerra do Exército dos Estados Unidos, dois anos mais tarde, em 03 de janeiro
de 2012, o Presidente Obama lança a Defense Strategic Guidance (DSG/2012)8.
A partir da Doutrina de Segurança Nacional de 2012, o governo americano
estabeleceu novas prioridades em relação aos principais sistemas de armas- caças,
misseis, porta-aviões e destróieres e blindados dentro da grande estratégia e dos limites
orçamentários devidos à crise econômica e às necessidades de contenção de recursos em
face da diminuição da liquidez dadas pelas características do atual ciclo de acumulação de
capital.
A doutrina lançada no final de seu segundo mandato, e que será analisada adiante,
em 2015, apenas reforçou esta tendência, conforme será visto.
Em 03 de janeiro de 2012, o Defense Strategic Guidance foi apresentado pela Casa
Branca, e seus princípios gerais esboçados na mensagem do Presidente Barack Obama.
Nesse documento estratégico de alto nível, faz-se a menção ao encerramento da guerra no
Iraque e a captura de Osama bin Laden, no Afeganistão, no contexto de um momento de
transição dos Estados Unidos em que a situação fiscal do país requeria um fortalecimento
da economia no longo prazo a partir da adoção de medidas como o Budget Control Act, de
2011, (ou Lei de Controle Orçamentário) que ordenava a redução dos gastos federais,
incluindo os gastos com defesa (DSG, 2012, p.03).
Obama menciona que "De fato, tendo encerrado as guerras atuais, nós devemos nos
concentrar num amplo espectro de desafios e oportunidades, incluindo a segurança e a
prosperidade da Ásia-Pacífico." (DSG, 2012, p.03)9.
Percebe-se assim, a preocupação fundamental com a região mais importante em
termos econômicos e estratégicos para as relações exteriores norte-americanas, onde se
encontram as duas grandes potências que podem, no longo prazo, representar um desafio à
ordem estruturada pelos Estados Unidos e onde se encontram as principais forças
americanas de contenção e dissuasão - a presença oceânica da Marinha.

8
Sustaining U.S. Global Leadership: Priorities for 21th Century Defense. 2012.. Disponível em:
http://www.defense.gov/news/defense_strategic_guidance.pdf. Acesso: 17/05/2017.
9
Sustaining U.S. Global Leadership: Priorities for 21th Century Defense. 2012. Disponível em:
http://www.defense.gov/news/defense_strategic_guidance.pdf. Acesso: 17/05/2017.
8
Outra grande preocupação é com a região do Oriente Médio, onde, todavia, percebe-
se o movimento de apoio à reconstrução econômica, ao fortalecimento dos mecanismos de
segurança regional e ao fortalecimento das parcerias estratégicas com países aliados, numa
clara tendência a divisão de custos em termos da agenda de segurança regional.
Ainda na introdução do documento10, o Presidente Barak Obama sublinhou a
importância da manutenção das capacidades convencionais e não convencionais do país
num quadro de restrições orçamentárias e de necessidade de enfrentar novas ameaças à
segurança dos Estados Unidos.
As principais orientações contidas na NSG 2012 podem ser sintetizados nos
seguintes objetivos estratégicos:
1-liderança do sistema internacional desde 1945 deve ser mantida intacta as a um
baixo custo financeiro que não comprometa as capacidades militares.
2-uma década de guerra no Iraque e Afeganistão para proteger os interesses
americanos
3-era pós- engajamento no Oriente Médio=manter interesses econômicos vitais e
proteger os interesses americanos no mundo em acelerada mudança geopolítica e diante de
mudanças fiscais na economia do país.
4-estratégia de defesa dos interesses estratégicos em um quadro de redução dos
gastos militares
5- ênfase no espaço geopolítico da Ásia-Pacífico e do Oriente Médio;
6- corte inevitável nos investimentos dos sistemas de mísseis de longo alcance e
alternativa de dividir os custos da proteção dada por sistemas de mísseis com os aliados
regionais
7- manutenção da capacidade nuclear de dissuasão.
8- manutenção da capacidade convencional com a aviação de caça de quarta
geração e investimentos para desenvolver qualitativamente a aviação de caça de quinta
geração, com maior capacidade de furtividade, velocidade, entrega de mísseis de longo
alcance com ogivas convencionais e nucleares com maior capacidade de penetração no
solo adversário;
9- investimento em tecnologia avançada que envolve sistemas informacionais,
ciberespaço, radares e sistemas eletrônicos para dotar aeronaves de caça, submarinos
convencionais e nucleares que tenham capacidade de entrega de sistemas de mísseis e
objetivos estratégicos que possam evitar serem detectados por sistemas de defesa
avançado.

10
Sustaining U.S. Global Leadership: Priorities for 21th Century Defense. 2012.. Disponível em:
http://www.defense.gov/news/defense_strategic_guidance.pdf. Acesso: 17/05/2017.
9
9-redução das forças convencionais e ênfase no emprego de forças de elite
especializadas
10- ênfase nas parcerias estratégicas regionais, com destaque para o papel do Reino
Unido, da OTAN e da Índia, a depender do teatro estratégico regional de operações.
Dessa forma, o presidente Obama conclama o país a rever suas prioridades em
termos de interesses estratégicos nacionais após uma década de guerra e gastos com
defesa, contexto no qual enfatizou a relevância do provimento de segurança e da
prosperidade na região Ásia –Pacífico.
Na apresentação do documento, como visto, fica patente a ênfase no compromisso
com o esforço em reconstrução política e econômica das sociedades do Oriente Médio, a
partir da ênfase em parcerias estratégicas e participação de aliados no esforço de garantir a
segurança regional e o compartilhamento de custos (burdensharing) nesse sentido, tendo
destacado o caso da Líbia e da missão de bombardeio contra posições de grupos
insurgentes na esteira da queda do ditador Muammar Kadafi (DSG 2012, p.03).
Em seguida, o documento explicita alguns conceitos esboçados pelo Presidente
Obama, a partir da mensagem do Secretário de Defesa Leon Panetta, o qual realça que a
nova diretriz de segurança estratégica do Departamento de Defesa estabelece as
prioridades de defesa para o século XXI capazes de sustentar a liderança global dos
Estados Unidos (DSG, 2012, p.04).
Praticamente enfatizando os principais pontos já mencionados pelo Presidente, o
Secretário destaca os seguintes pontos:
- forças armadas menores, flexíveis e dotadas de tecnologia avançada;
-aprofundar a presença global na Ásia Pacífico e no Oriente Médio;
-estratégia de dissuasão e emprego do poder militar a fim de derrotar adversários
que busquem negar a projeção de poder dos Estados Unidos;
-manutenção da capacidade dissuasória nuclear
-ênfase nas parcerias estratégicas;
-ênfase nas capacidades militares em termos de avanços tecnológicos;
-investimento em poderosa base industrial.
A avaliação contida nos principais objetivos estratégicos a serem realçados pela
DSG é reflexo da diretiva estratégica do Presidente na condição de Comandante-em - chefe
ao Departamento de Defesa, que proporcionou ao chefe de Estado americano por meio de
relatórios de alto nível informações detalhadas e avaliações técnicas das lideranças militares
e civis do DOD, em que estão incluídas os Chefes Comandantes do Estado-Maior Conjunto
das Forças Armadas, as Secretárias dos Departamentos Militares e os Comandantes
Combatentes.

10
A preocupação maior é a partir da revisão e adaptação das prioridades estratégicas,
em razão das reduções no orçamento de defesa, que envolvem o investimento e
canalização de recursos para os principais sistemas de armas que possibilitam a
manutenção, a um custo financeiro razoável, da capacidade dissuasória estratégica do país,
assim como a reorganização das forças combatentes militares para se adaptarem às novas
prioridades de defesa e projeção de poder em novo cenário de segurança para o país (DSG
2012, p.07):
This assessment reflects the President.’s strategic direction to the
Department and was deeply informed by the Department.’s civilian and
military leadership, including the Joint Chiefs of Staff, the Secretaries of the
Military Departments, and the Combatant Commanders. Out of the
assessment we developed a defense strategy that transitions our Defense
enterprise from an emphasis on today.’s wars to preparing for future
challenges, protects the broad range of U.S. national security interests,
advances the Department.’s efforts to rebalance and reform, and supports
the national security imperative of deficit reduction through a lower
level of defense spending. (DSG 2012, p.07) grifado no original
O documento ao tratar dos principais desafios do ambiente internacional para os
interesses estratégicos dos Estados Unidos, realça que os interesses econômicos e de
segurança do país estão intrínsecamente ligados à região do Pacífico e do Extremo Oriente
asiático, assim como o Oceano Índico, onde o país necessitaria ter condições de
rebalancear a região (diga-se, os principais estados como as grandes potências como China
e potências regionais como a Coreia do Norte).
Toda a complexidade nas relações sino-americanas é tratada no parágrafo a seguir,
em que se percebe a preocupação, por um lado, com o significativo crescimento das
capacidades militares chinesas e sua ascensão enquanto potência econômica e militar
regional, o que pode afetar os interesses econômicos e estratégicos norte-americanos na
região, apesar do compromisso de ambos os países com a paz e a estabilidade, bem como
pelo intenso intercâmbio bilateral entre ambos11:
11
As relações econômicas e financeiras entre os dois países, relacionadas, por um lado, com o
déficit americano em suas balança de transações correntes e, por outro, o grande incremento da
parceria comercial – são os principais parceiros comerciais recíprocos – tem levantado a discussão
sobre o impacto da complementaridade econômica e comercial que conduziria à interdependência
complexa e recíproca capaz de afastar qualquer hipótese de conflito militar entre as duas grandes
potências. Não obstante, pela análise dos documentos de alto nível estratégico produzidos pelo DOD
realçam a assertiva do realismo político em que as capacidades de defesa dissuasórias é que são as
garantidoras do equilíbrio de poder que mantém a segurança e evitam a guerra e não a
interdependência econômica:1-ANNUAL REPORT TO CONGRESS,Military Power of the People’s
Republic of China 2007, Offi ce of the Secretary of Defense, Military Power of the People’s Republic
of China, A Report to Congress Pursuant to the National Defense Authorization Act Fiscal Year
2000,Section; 2-ANNUAL REPORT TO CONGRESS,Military and Security Developments Involving
the People’s Republic of China 2010, Office of the Secretary of Defense, Military and Security
Developments Involving the People’s Republic of China 2010, A Report to Congress Pursuant to the
National Defense Authorization Act for Fiscal Year 2010; 3-The U.S.-CHINA Military: Scorecard,
Forces, Geography, and the Evolving Balance of Power 1996–2017, Heginbotham, Eric, author. The
U.S.-China military scorecard : forces, geography, and the evolving balance of power, 1996-2017 /
Eric Heginbotham ... [and thirteen others, Library of Congress Cataloging-in-Publication Data,
www.rand.org/t/rr392 Published by the RAND Corporation, Santa Monica, Calif.
11
The maintenance of peace, stability, the free flow of commerce, and of U.S.
influence in this dynamic region will depend in part on an underlying
balance of military capability and presence. Over the long term,
China.’s emergence as a regional power will have the potential to affect
the U.S. economy and our security in a variety of ways. Our two
countries have a strong stake in peace and stability in East Asia and an
interest in building a cooperative bilateral relationship. However, the growth
of China.’s military power must be accompanied by greater clarity of
its strategic intentions in order to avoid causing friction in the region.
The United States will continue to make the necessary investments to
ensure that we maintain regional access and the ability to operate
freely in keeping with our treaty obligations and with international
law12. Working closely with our network of allies and partners, we will
continue to promote a rules-based international order that ensures
underlying stability and encourages the peaceful rise of new powers,
economic dynamism, and constructive defense cooperation.(DSG 2012,
p.08.) grifado no original
A seguir a DSG 2012 (p.10) estabelece as prioridades das forças armadas norte-
americanas:
1-contra-terrorismo e guerra irregular;
2-dissuasão e capacidade de derrotar um agressor - As forças militares dos Estados
Unidos devem possuir capacidade de dissuasão. Isto implica na capacidade de negar ao
agressor a possibilidade de atingir seus objetivos militares somada à capacidade
complementar de impor custos inaceitáveis ao agressor em termos militares.
Em razão dos interesses globais em diversas regiões do mundo, suas forças
armadas devem estar preparadas para operações combinadas em quaisquer ambientes- ar,
mar, terra, ciberespaço – e possuir capacidade de dissuasão ou negar acesso aos objetivos
de um ator agressor, ainda que os Estados Unidos estejam envolvidos em guerras de larga
escala (guerra central) em outro cenário estratégico. Assim, o documento expressamente
destaca que:
Our planning envisages forces that are able to fully deny a capable state.’s
aggressive objectives in one region by conducting a combined arms
campaign across all domains .– land, air, maritime, space, and cyberspace.
This includes being able to secure territory and populations and facilitate a
transition to stable governance on a small scale for a limited period using
standing forces and, if necessary, for an extended period with mobilized
forces. Even when U.S. forces are committed to a large-scale operation in
one region, they will be capable of denying the objectives of .– or imposing
unacceptable costs on .– an opportunistic aggressor in a second region.
U.S. forces will plan to operate whenever possible with allied and coalition
forces. Our ground forces will be responsive and capitalize on balanced lift,
presence, and prepositioning to maintain the agility needed to remain
prepared for the several areas in which such conflicts could occur. (DSG
2012, p.10)

12
Aqui a menção aos tratados de cooperação muiltilateral e bilateral no campo da defesa com aliados
regionais com Índia, Japão e Taiwan, além do papel de importantes organizações internacionais cujo
objetivo é caracterizar uma aliança militar nos moldes da OTAN e sob os auspícios das Nações
Unidas: o caso da OTASE.
12
3- Projeção de poder apesar dos desafios da estratégia adversária de anti-
acesso/negação de área (A2/AD). - Este tópico se relaciona com a necessidade de
desenvolver capacidades de projeção de poder como condição de viabilidade de dissuasão
contra atores estatais dotados e grande capacidade sofisticada, mas que usarão meios
assimétricos de enfrentamento militar, incluindo guerra eletrônica e cibernética, o domínio de
capacidades assimétricas como sistemas avançados de defesa aérea, mísseis cruzadores e
balísticos de capacidade ofensiva estratégica de médio e longo alcance.
Nesse sentido, a China é expressamente mencionada, assim como o Irã, que
segundo a inteligência militar do Pentágono estariam comprometidos com meios
assimétricos de garantir a capacidade de projeção de poder. Assim, cumpriria às forças
armadas norte-americanas (com ênfase na Marinha e na Força Aérea) a capacidade de
contrarrestar tais ações por meio da contenção da projeção de poder de potências regionais
e médias, a partir da capacidade de operar no ambiente A2/AD, o qual envolve a
capacidade de negação de área e anti acesso.
Primordialmente desenvolvido pelos sistemas defensivos chineses no campo dos
mísseis balísticos e dos radares eletrônicos tanto em bases terrestres, como em suas forças
aéreas (caças chineses) e navais (vasos de superfície e submarinos), as táticas militares
empregadas pelos militares chineses buscam, em essência, tornar altamente custoso a
ação ofensiva militar norte americana em profundidade sobre o território chinês em hipótese
de conflito militar, o que poderia desequilibrar em desfavor dos Estados Unidos, o balanço
de poder asiático.
Somadas aos regimes de controle de mísseis e de não proliferação nuclear,
previstos no direito internacional, em um plano mais sub-regional, os casos da Coreia do
Norte e do Irã possuem os mesmo desafios, só que em escala menor. No caso norte-
coreano, as implicações são mais drásticas pela presença da grande potência chinesa-
atualmente a segunda maior potência militar do planeta - o que destaca o papel de aliança
estratégica da Coreia do Sul, do Japão, das Filipinas, da Indonésia, da Austrália e da
fundamental aliança estratégica com a Índia no grande esquema de segurança estratégico
da Ásia -Pacífico e do Sudeste Asiático.
Nesse sentido, o desenvolvimento de capacidade de operar em ambiente A2/AD e a
implementação do conceito de acesso de operação conjunta – Joint Operacional Acess
Concept (JOAC) - de suas três forças militares, somadas ao desenvolvimento de última
geração de bombardeios furtivos, sistemas de defesa de mísseis, capacidades espaciais e
navais são fundamentais para que o país consiga obter as condições de implementar a
estratégia dissuasória contra as outras principais grandes potências como condição de

13
manter a supremacia política no sistema de balança de poder regional. Nestes termos,
prossegue o documento:
Accordingly, the U.S.military will invest as required to ensure its ability to
operate effectively in anti-access and area denial (A2/AD) environments.
This will include implementing the Joint Operational Access Concept,
sustaining our undersea capabilities, developing a new stealth bomber,
improving missile defenses, and continuing efforts to enhance the resiliency
and effectiveness of critical space-based capabilities.(DSG 2012, p. 10-11)
4-Manter o compromisso com a eficácia da dissuasão nuclear, com a capacidade de
contenção e, no limite, impor derrota inaceitável ao adversário potencial.
Aqui se abre a possibilidade de os objetivos com a dissuasão serem alcançados com
uma força nuclear menor, com a consequente diminuição do número de armas nucleares no
inventário americano e, com isso, terem um menor papel na estratégia de segurança
nacional do país.
Da mesma forma, este ponto faz parte da grande estratégia de dissuasão que
envolve armas convencionais também e em certa medida, destina-se obviamente aos dois
principais adversários em potencial, por serem as outras duas grandes potências militares
em termos nucleares e convencionais que se seguem aos Estados Unidos e que possuem
interesses geopolíticos em suas respectivas esferas regionais. Sendo assim, seus
interesses colidem com os grandes interesses estratégicos da grande potência
balanceadora que possuí interesses globais, e mais precisamente no entorno geoestratégico
destas duas grandes nações eurasianas – Rússia e China.
Por fim, o documento pretende-se de longo prazo, realçando seu alcance para o
prazo de 2020 em termos de adaptação de suas capacidades militares (sistemas de armas,
estrutura organizacional das forças combatentes) para lidar com os riscos e ameaças aos
seus interesses estratégicos e lidando com a capacidade de se adaptar ao ciclo de
mudanças orçamentárias.
Neste sentido, o documento em sua conclusão final alude a que nunca antes fora
necessário o devido equilíbrio entre capacidades de defesa e os recursos (econômicos)
disponíveis:
The United States faces profound challenges that require strong, agile, and
capable military forces whose actions are harmonized with other elements of
U.S. national power. Our global responsibilities are significant; we cannot
afford to fail. The balance between available resources and our security
needs has never been more delicate. Force and program decisions made
by the Department of Defense will be made in accordance with the strategic
approach described in this document, which is designed to ensure our
Armed Forces can meet the demands of the U.S. National Security Strategy
at acceptable risk.” (DSG 2012, p. 16.) grifado no original
A revisão e atualização das prioridades estratégicas delimitadas pela doutrina
estratégica do governo Obama de 2012 foi anualmente operacionalizada em razão do
orçamento anual do governo para o Departamento de Defesa em relação aos investimentos

14
nos sistemas de armas convencionais e não convencionais relacionados com a projeção de
poder do país nos cenários geopolíticos do Oriente Médio e Ásia-Pacífico.
Por outro lado, condições sistêmicas de ordem econômica e estratégicas, de longo
prazo, persistem, na interpretação dos documentos disponíveis, em relação ao cenário
econômico restritivo e a necessidade de manutenção das capacidades de defesa para a
estabilidade da balança de poder entre as grandes potências.
A continuidade da recessão mundial influencia a demanda dos mercados
consumidores que se contraem em razão de questões como queda na arrecadação fiscal
dos países, baixa do poder de compra dos consumidores, crise de produtividade, tendências
ao aumento de preços de matérias primas em razão da escassez e/ou dificuldade de acesso
a materiais estratégicos em razão do custo para a tecnologia para a extração de insumos,
ou a distância geográfica, entre outros fatores.
Assim, a produção em geral encarece num quadro competitivo entre as corporações
e suas economias nacionais, num quadro que afeta também a oferta, a produção no
cômputo geral da economia, tanto dos países centrais quanto dos países da periferia do
sistema econômico mundial.
Nesse aspecto, a necessidade da economia americana retomar o crescimento e
poder manter sua dianteira competitiva em relação aos outros polos econômicos
capitalistas, revela a necessidade de investir em parques produtivos das novas tecnologias.
Para isso, o complexo industrial de defesa dos Estados Unidos integra as mais avançadas
corporações necessitam do investimento maciço em pesquisa, inovação e técnicas de
produção para dois grandes objetivos indissociáveis: 1- criar produtos de defesa que tornem
o Estado cliente com capacidades estratégicas de manter sua supremacia militar e 2- a
partir do investimento financeiro e científico proporcionados por instituições públicas (do
Estado americano, como fundos de pesquisa, bancos públicos, entre outros) além do
investimento privado das corporações (algumas delas com capacidade financeira ampliada
pela aquisição e fusão entre alguns bancos e empresas), gerar a transferência, a um custo
relativamente baixo, da inovação gerada no setor de defesa, para sua aplicação e produção
para a indústria civil.
Neste contexto, a competição militar, desde a II Revolução Industrial, se relaciona
com a competição econômica das empresas que desenvolvem artefatos bélicos, tem sido
caracterizada, tanto no campo convencional como não convencional, pela aplicação de
tecnologias e métodos cada vez mais eficazes na aplicação tática, de combate, em razão
das necessidades militares de garantia da ameaça do uso do poder militar (dissuasão) ou do
eficaz uso para derrotar o inimigo fazendo cessar a agressão e a vontade de lutar.

15
Assim, desde o advento dos modernos sistemas estratégicos de armas industriais,
percebe-se que os arsenais anuais devem ser continuamente modernizados, seja por meio
da manutenção e da atualização constante dos equipamentos já existentes ou pelo
desenvolvimento de nova geração daqueles mesmos arsenais, com maior capacidade
ofensiva militar. E isto custa caro. E da manutenção dessa capacidade ofensiva depende a
continuidade da manutenção da capacidade dissuasória entre as grandes potências que são
os polos do sistema interestatal de balanço de poder.
As capacidades de projeção de poder, tanto através da manutenção da capacidade
dissuasória nuclear no campo dos vetores e ogivas termonucleares, dos sistemas de
mísseis antibalísticos e dos mísseis balísticos intercontinentais embarcados em submarinos,
em vasos de superfície e em sistemas terrestres, bem como na capacidade convencional de
contrarrestar as capacidades assimétricas de negação de acesso desenvolvidas por
chineses e russos, apoiados no poder dos aviões bombardeios, de caças de última geração,
de destróieres e navios cruzadores coordenados pelos poderosos porta-aviões são o centro
nevrálgico das capacidades aeronavais dos Estados Unidos. (Defense Budget Priorities for
Fiscal Year 2012, p. 08-10).
Nesse sentido, o programa da 2014 Quadriennial Defense Review (QDR)13 prevê a
priorização de recursos para apoiar as operações militares no Afeganistão e nas demais
áreas do mundo para a contenção da ameaça terrorista. A estratégia de defesa segue os
princípios doutrinários do primeiro mandato de Obama, no sentido de que para sustentar a
liderança global do país é necessário manter o equilíbrio entre as demandas estratégicas e
o cenário de incertezas fiscais. Nesse sentido, o documento dispõe que:
The updated defense strategy, as set forth in the QDR, is right for the nation,
sustaining the global leadership role of the United States and providing the
basis for decisions that will help bring the military into balance over the
next decade and responsibly position the Department for an era of both
strategic and fiscal uncertainty. (Defense Budget Overview. United States
Department of Defense Fiscal Yeaar 2017 Budget Request, FY2017, p. 08)
grifado no original
O documento prossegue tratando das tendências de natureza geopolítica que falam
do desenvolvimento do cenário estratégico que aborda a agenda de segurança das grandes
potências como a Rússia e sua postura agressiva em relação a países vizinhos e os
programas de modernização militar de anti acesso da China, além de sua diplomacia para
recuperar a plena soberania das águas internacionais onde se situam ilhas estratégicas, a
questão taiwanesa, as ilhas Spratli e o Mar da China.
A fim de garantir a capacidade de balanceamento da Ásia, as forças americanas
precisam de capacidade de contrarrestar o crescente investimento dos chineses em
capacidades antiaéreas e antinavio (A2/AD), que implicariam no futuro, numa disputa e
Quadriennial Defense Review, Departament of Defense, Secretary of Defense. Washington D.C.,
13

March, 4, 2014.
16
eventual negação aos Estados Unidos, do controle de parte dos mares da região, afetando
drasticamente a condição de balanceador off shore dos Estados Unidos e, com isso, sua
condição de grande potência com pretensões hegemônicas.
Assim, o que está em jogo é no mínimo, tanto a busca do equilíbrio de poder, a fim
de garantir o status quo, mas que envolve, de preferência, a maximização de poder entre as
duas grandes potências, eis que a tecnologia avançada em quatro grandes variáveis da
estratégia de dissuasão pode ser a resposta para o bloqueio do comércio da principal região
econômica do mundo, comprometendo, com isso, o papel de liderança dos Estados Unidos
no sistema internacional em função de eventual desequilíbrio do balanço regional entre as
grandes potências na Ásia.
Nesse sentido, as novas gerações de bombardeios com capacidade furtiva, de
serem reconhecidos por radares inimigos em sobrevoo tanto em águas jurisdicionais quanto
internacionais, mas próximas do território adversário (denominados stealh/ diminuição da
assinatura eletrônica de aeronaves), como os casos de caças de 4ª e 5ª geração, como os
F-22 e os F-35, a manutenção das capacidades dos submarinos, destróieres e capacidades
aeroespaciais.
Depreende-se, portanto, que os mesmos desafios impostos em 2012 persistem, na
competição militar para o desequilíbrio da capacidade dissuasória entre as grandes
potências americana e chinesa são tendências de natureza estrutural que perpassam
administrações governamentais sucessivas e situam-se dentro daqueles objetivos
estratégicos consensuais fundamentais para as elites políticas, diplomáticas e militares dos
Estados Unidos.

Considerações Finais

Os grandes interesses estratégicos representam uma política de Estado que está


consolidada em todos os documentos de nível doutrinário e estratégico dos Estados Unidos
desde o final da Segunda Guerra Mundial e o começo da Guerra Fria.
A manutenção do status quo pela estabilidade das balanças regionais de poder nos
teatros da Eurásia estão entre estes interesses fundamentais desde o final da Segunda
Guerra e atualmente convivem com sinais de futuro reerguimento da Federação Russa e da
ascensão chinesa e das disputas do Mar do Sul da China fundado em princípios jurídicos
como a soberania no contexto do revisionismo histórico.
O interesse nacional americano é, em primeiro plano, o de manter o status quo de
sua posição dominante no sistema internacional, frente aos desafios estratégicos impostos
pelas duas outras principais grandes potências, Rússia e China e em relação a qualquer

17
ameaça de natureza estatal e não estatal proveniente das regiões onde se acham a
intersecção de interesses estratégicos entre estas três grandes potências, de um lado, e os
interesses geoeconômicos, com as potências aliadas da União Europeia (Estados alemão e
francês, principalmente).
A preocupação estratégica maior passa a ser com os esquemas de balanço de poder
na Ásia, devido ao papel das forças militares estacionadas nas bases sul-coreana e
japonesa e ao papel do poder naval na região de maior dinamismo comercial do mundo e
capitaneada pelo principal Estado com capacidades de desafiar futuramente a primazia
estratégica americana na região: a China.
Assim, uma lógica complexa entre as dinâmicas econômico-política, de um lado, e
estratégica, de outro, aponta para a evolução de tendências rumo a uma futura
multipolaridade do sistema internacional, formado por um conjunto de grandes potências irá
continuar a desenvolver, pela diplomacia bilateral e multilateral, junto a organismos
econômicos, políticos e militares, uma governança mundial 14, em que a equação de
segurança e o papel dos Estados Unidos enquanto principal ator militar será fundamental
para observar os padrões de comportamento do ator estatal hegemônico em relação às
possíveis disputas com outras grandes potências ascendentes na Eurásia, em especial
China e Rússia, o que trará decisivos desdobramentos para o sistema internacional no
campo geopolítico no médio e longo prazos.
Dentro desta lógica sistêmica, pautada pela lógica do conflito, da autoajuda, da
incerteza e da anarquia, somente a manutenção do equilíbrio de poder respaldado por
capacidades militares é o verdadeiro fiador da estabilidade e paz mundiais.
Assim, pela capacidade de projeção de força de sua Marinha e do papel estratégico
dos porta-aviões com aviação de caça embarcada, destróieres, cruzadores e dos
submarinos nucleares e sistemas de mísseis de longo alcance com ogivas guiadas
nucleares, bem como da aviação estratégica (bombardeios B-52) e do domínio das
tecnologias procedentes da internet e ligadas a doutrina de guerra cibernética, os Estados
Unidos são ainda os únicos a contar com uma presença militar global em prover segurança
aos seus interesses políticos e econômico e agir como grande potência garantidora da
estabilidade das balanças regionais de poder na Europa, na Ásia Central e Oriente Médio e
principalmente na Ásia-Pacífico e Sudeste Asiático .

Referências Bibliográficas

14
Governança. A governança é a capacidade das sociedades políticas de contarem com sistemas de
representação em instituições e ter participação decisória em etapas de processos de gestão e
deliberação, além de um conjunto dos poderes legislativo, executivo e judiciário, a administração, o
governo, o parlamento, os tribunais, que caracterizaram o Estado e o sistema das Nações Unidas no
sistema internacional atual.
18
ARRIGHI, Geovanni. O Longo Século XX. São Paulo, Editora UNESP, 1996.

BZERZINSKY, Zigbnew. The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic
Imperatives. Maps. 223 pp. New York:
Basic Books. 1998.

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Century Defense. 2012.. Disponível em:
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DUNNINGAN, James. How to make war: a comprehensive guide to modern warfare in the
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MAUK, John A. A Risk-Based Approach to Strategic Balance, John A. Mauk, CARLISLE


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