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ALINE CARVALHO

CRISTINA MENEGUELLO
Organização

Dicionário temático
de patrimônio
Debates contemporâneos

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PATRIMONIO CULTURAL LGBT

Camila A. de Moraes Wichers


Tony Boita

o termo patrimônio cultural LGBT é comumente utilizado nas ciências I

sociais aplicadas, em especial na museologia, para enfatizar tombamentos, I

registros e manifestações socioculturais produzidos ou relacionados a I


pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros,
I

bem como para questionar a heterocisnormatividade que marca os bens


I
patrimoniais. As discussões acadêmicas e políticas em torno do patrimônio
cultural LGBT encontram pontos de diálogo com os estudos feministas e I

com a produção sobre gênero [ver "Mulheres e patrimônio"). Durante a I


década de 1970, um contingente variado de acadêmicas passou a estudar
I
as condições de vida das mulheres no intuito de explicar sua subordinação.
Por seu turno, o movimento homossexual também se fortaleceu no I

período, acompanhado de discussões acadêmicas. Foi durante essa busca I

que surgiu e se expandiu o conceito de gênero, compreendido como uma


I
estrutura social, uma dimensão central da nossa vida, envolvendo as formas
I
como os corpos sexuados são praticados, percebidos e categorizados. Se,
nos primeiros anos, os debates se restringiram ao conceito de gênero, I

com o tempo ficou evidente que outros marcadores sociais da diferença


I

deveriam ser considerados nas análises sociais e na luta política. Foram


as feministas negras que iniciaram essas críticas, resultando no conceito
de interseccionalidade, que busca compreender as dinâmicas da interação
1>icion6rlo temático de patrim6nio

' ou mais eixos de subordinação, I A partir de então m


entre doIS ' arcado
ênero sexualidade, raça. classe. entre outros, deve. res
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LGBT. devemos estar atentos às interseccionalidades que perpassam lO
, I e nas polit"Icas publ icas n B eSsa
izada no movimento socla
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desde a Confer~ncia Nacional GLBT de 1008 - quando o "L" passa a .'
Lo t do -G" para dar maior visibilidade às lésbicas, Historie Vlr
na uen e ,amente
outras siglas foram utilizadas, como MHB, (MOVImento HomOssexuai
Brasileiro), MGL (Movimento de Gays e LésbIcas) e GLT (Gays, Lésbicas e
Travestis). Cabe apontar que, em outras partes do mundo) ou mesmo em
segmentos do movimento brasileiro, siglas diversas são utilizadas , cOmo
por exemplo. LGBTQ (Lésbicas, Gay~, Bissexuais, Transgêneros e Queer):
empregada pelo National Park Servlce (NPS), nos Estados Unidos , que
tem um programa especialmente voltado à preservação do patrimônio
de grupos LGBTQ,2 Assim, o trabalho com o patrimônio cultural LGBT
deve considerar as diferenças entre os vários componentes da sigla, a
fluidez dessas classificações e a integração com outros marcadores sociais.
Contudo, o patrimônio cultural LGBT é negligenciado pelas políticas
públicas e pelos governos federal, estadual e municipal, reforçando o
preconceito e a violência. Essa negação ao direito à memória, à cultura e
ao patrimônio soma-se a tantas outras, como cidadania, segurança, saúde
e educação, Cabe, então, cartografarmos alguns patrimônios materiais
tombados e ocupados pelas memórias de pessoas LGBT no Brasil, a saber:
(i) O Cabaret Casa Nova, inaugurado em 1938 na Lapa (RJ) é a mais
antiga casa noturna do gênero no Brasil, tendo sido fechada em 2013; (ii)
o Cine Ideal, um dos primeiros cinemas cariocas, atualmente é a boate
mais popular entre os jovens gays. Ambos estão relacionados a complexos
arquitetônicos tombados no Rio de Janeiro. Destacam-se, também, os bens
imateriais registrados, cujos saberes, celebrações, formas de expressão e

I Crenahaw, 2002,
2 NPS.2019 <https://www.nps.gov/orgsI1207/whatwedo.htm>.

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'Patrimônio cultural LGBT

es são representativos para a comunidade LGBT AI d I _


lugar . guns e es sao:
') concurso Miss Brasil Gay, realizado pela primeira vez há 43 anos, em JUIZ
(1 o
.
de Fora, registrado como patrimônio imaterial desse município em 200 7;
(ii) a festa das Filhas da Chiquita, em que pessoas LGBT de todo o estado
do Pará participam, em Belém, como devotos aguardando a santa passar
_ eIIl seguida à passagem, inicia-se uma das maiores festas profanas do
Círio. Essa manifestação imaterial completará, em 2019, 41 anos de história.
Merecem atenção, ainda, os bens culturais musealizados preservados
em museus e espaços exclusivos da memória LGBT, como, por exemplo:
(i) o Museu da Sexualidade, criado em 1998 pelo Grupo Gay da Bahia,
em Salvador. Seu acervo é voltado para a sexualidade, em especial para a
prevenção e os cuidados com a saúde sexual; (ii) o Museu da Diversidade
- Centro de Cultura, Memória e Estudos da Diversidade Sexual do
Estado de São Paulo, a única instituição no Brasil vinculada a um poder
executivo; (iii) a revista Memória LGBT - RMLGBT, um periódico digital
colaborativo que tem como premissas a salvaguarda e a comunicação
da memória LGBT. Tal iniciativa atende a uma demanda pelo direito à
memória desses grupos, dada a ausência do protagonismo LGBT em museus
e espaços de memória; (iv) o Acervo Bajubá, construído coletivamente,
digitalizado e disponibilizado em seu website. A iniciativa também realiza
percursos em espaços LGBT na cidade de São Paulo; (v) o Instituto de
Arte e Cultura LGBT, iniciativa comunitária que desenvolve exposições,
oficinas, cursos e formações voltados para a preservação das memórias
LGBT no Distrito Federal.

PARA SABER MAIS

BAPTISTA, J. T. & BOITA, T. "Museologia e Comunidades LGBT: Mapeamento


de ações de superação das fobias à diversidade em museus e iniciativas
comunitárias do globo". Cadernos de Sociomuseologia , voI. 54, n. 10. Lisboa,
jul. 2017, pp. 29-56. Disponível em <https:llrevistas.ulusofona.pt/index.php/
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