Você está na página 1de 44

Curso: Direito

6º Período
Disciplina: Direito Administrativo II
Professora: Áustria Régia Rezende dos Santos Costa
•INTERVENÇÃO DO ESTADO NA PROPRIEDADE PRIVADA

•O fundamento jurídico geral que autoriza o Estado brasileiro


a intervir na propriedade de particulares é o princípio da
função social da propriedade, estabelecido no art. 5º, XXIII,
da CF/88.

• Embora a própria Constituição assegure


o direito de propriedade (art. 5º, XXII), trata-se de
um direito relativo, na medida em que o seu exercício, para
ser legítimo, deve se compatibilizar com os interesses da
coletividade.
• FUNÇÃO SOCIAL
• Para saber se determinada propriedade cumpre ou não sua função
social é necessário identificar inicialmente se trata-se de propriedade
urbana ou rural.

• PROPRIEDADE URBANA: considera-se urbano o imóvel destinado


predominantemente para fins de moradia, comércio, indústria e
serviços.

• A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às


exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano
diretor (art. 182, § 2º, da CF).
• PROPRIEDADE RURAL: imóvel rural é aquele com predomínio de
utilização agrária e cumpre a função social quando atende
simultaneamente, segundo critérios e graus definidos em lei, aos
seguintes requisitos (art. 186 da CF):
1) aproveitamento racional e adequado;
2) utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e
preservação do meio ambiente;
3) observância da legislação trabalhista;
4) exploração que favoreça o bem-estar de proprietários e
trabalhadores.
• O texto constitucional não distingue, para fins de cumprimento da
função social, entre bens móveis e imóveis. Os requisitos acima
transcritos são claramente direcionados à propriedade imobiliária.
Porém, os bens móveis devem cumprir os mesmos requisitos de
função social exigidos para os imóveis aos quais estiverem vinculados.

• Quanto à propriedade pública, o cumprimento de sua função social,


além dos requisitos gerais exigidos para qualquer propriedade, está
relacionado com atendimento da afetação específica no caso dos
bens de uso especial e do uso múltiplo (multiafetação) característico
dos bens de uso comum do povo.
• CLASSIFICAÇÃO DOS INSTRUMENTOS DE INTERVENÇÃO

• Os instrumentos de intervenção do Estado na propriedade privada


podem ser classificados como:

• FORMAS SUPRESSIVAS DE DOMÍNIO: o Estado intervém na


propriedade modificando a titularidade da coisa, resultando na sua
transformação em bem público.

• É caso da desapropriação, do confisco (art. 243 da CF) e da pena de


perdimento de bens (art. 5º, XLVI, b, da CF);
• FORMAS NÃO SUPRESSIVAS (restritivas) DE DOMÍNIO: a intervenção
estatal ocorre sem alterar a titularidade.

• São formas restritivas de domínio: poder de polícia, servidão,


tombamento, requisição e ocupação temporária.

• São formas não supressivas de domínio o poder de polícia, a servidão,


o tombamento, a requisição e a ocupação temporária.
• FORMAS ILÍCITAS DE INTERVENÇÃO ESTATAL NA PROPRIEDADE

• Há casos como o do apossamento administrativo, também chamado


de desapropriação indireta, em que a intervenção estatal é realizada
por meio de um ato ilícito violador da ordem jurídica.

• LC nº 101/2000 - Art. 46. É nulo de pleno direito ato de


desapropriação de imóvel urbano expedido sem o atendimento do
disposto no § 3o do art. 182 da Constituição, ou prévio depósito
judicial do valor da indenização.
• PROCEDIMENTOS, ATOS E FATOS ADMINISTRATIVOS
INTERVENTIVOS

• A natureza jurídica dos diferentes instrumentos de intervenção na


propriedade privada pode ser de:

• PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO: assim como acontece com a


desapropriação, cuja taxonomia (natureza jurídica) corresponde a
uma sequência encadeada de atos administrativos (rito) tendentes à
transformação do bem expropriado em bem público.

• Garantia do contraditória o da ampla defesa.


• ATO GERAL UNILATERAL: a intervenção estatal na propriedade
privada concretiza-se a partir de atos administrativos geral e
unilaterais interventivos, como ocorre nas manifestações do poder de
polícia ou limitação administrativa.

• Característica: generalidade (a implementação das limitações dele


decorrentes origina-se de um ato administrativo chamado de geral).
• ATO INDIVIDUAL UNILATERAL: instrumentos de intervenção estatal
na propriedade que são veiculados por meio de atos individuais
(porque dirigidos a bem determinado) e unilaterais.
• Exemplo: servidão, o tombamento, a requisição e a ocupação
temporária;

• FATO ADMINISTRATIVO: a intervenção estatal na propriedade


privada pode dar-se como decorrência de um acontecimento material
relevante para o direito administrativo, um fato administrativo. É o
que ocorre no apossamento administrativo (desapropriação indireta).
• AUTOINTERVENÇÃO” NA PROPRIEDADE

• Hipóteses raras em que os mecanismos estatais de intervenção na


propriedade alcançam o próprio patrimônio público.

• Exemplo: normas sobre direito de construir (posturas municipais,


gabaritos públicos, poder de polícia), cuja obrigatoriedade também
vale para prédios públicos. A autointervenção também é compatível
com os institutos da desapropriação, servidão e tombamento.
• AUTOINTERVENÇÃO” NA PROPRIEDADE

• Autointervenção própria quando a propriedade pública objeto da


intervenção pertence à mesma pessoa estatal interveniente.
Exemplo: prédio da Prefeitura obrigado a respeitar altura máxima
fixada pelos regramentos municipais.

• Autointervenção imprópria o bem público objeto da intervenção


pertence a pessoa estatal diversa daquela autora da intervenção.
Exemplo: desapropriação, pela União, de terreno pertencente a
Estado-membro.
• DESAPROPRIAÇÃO

• É o procedimento administrativo pelo qual o Estado transforma


compulsoriamente bem de terceiro em propriedade pública, pagando
indenização prévia, justa e em dinheiro.

• Trata-se da modalidade mais agressiva de intervenção do Estado na


propriedade privada, na medida em que suprime o domínio do bem
expropriado, razão pela qual é o único instrumento de intervenção
que garante prévia indenização (art. 5º, XXIV, da CF).
•A desapropriação constitui também a única
modalidade interventiva na propriedade com
natureza jurídica de procedimento administrativo,
devendo garantir contraditório e ampla defesa ao
expropriado (art. 5º, LV, da CF).
•DESAPROPRIAÇÃO DIRETA: o procedimento é
realizado de forma lícita, em conformidade com
o devido processo legal, especialmente
atendendo às regras impostas pela Lei Geral de
Desapropriação (Decreto-lei n. 3.365/41).
•DESAPROPRIAÇÃO INDIRETA: é o esbulho
possessório praticado pelo Estado quando
invade área privada sem observância do
devido processo legal.
•CONFISCO

•É a supressão punitiva de propriedade privada pelo


Estado sem pagamento de indenização, com regime jurídico
disciplinado pelo art. 243 da Constituição Federal, cuja
redação foi modificada pela Emenda Constitucional n.
81/2014.

•“Sem qualquer indenização ao proprietário e sem prejuízo


de outras sanções previstas em lei.”
•Existem agora duas hipóteses ensejadoras de
confisco, podendo recair sobre propriedades urbanas
ou rurais onde forem localizadas:
•a) culturas ilegais de psicotrópicos (drogas);
•b) exploração de trabalho escravo, na forma da lei.
•O procedimento judicial do confisco, expropriação
ou “desapropriação confiscatória” é disciplinado pela
Lei n. 8.257/91.

• EC n. 81/2014 modificou também a destinação dos bens confiscados:


os bens imóveis confiscados serão destinados à reforma agrária e a
programas de habitação popular. Já no caso dos bens móveis objeto
de confisco, reverterão a fundo especial com destinação específica,
na forma da lei.
• CF, art. 243.
• Se a gleba objeto do confisco, após o trânsito em julgado da sentença
que a incorporou ao patrimônio federal, não puder ter em cento e
vinte dias a destinação prevista na lei, ficará incorporada ao
patrimônio da União, reservada, até que sobrevenham as condições
necessárias àquela utilização (art. 15 da Lei n. 8.257/91).

• O STF entendeu que o proprietário pode afastar a


pena de confisco se comprovar que não incorreu em culpa, ainda
que in vigilando ou in eligendo (RE 635.336).
• PERDIMENTO DE BENS
• É a modalidade interventiva que implica a supressão compulsória de
propriedade privada pelo Estado como consequência da prática de
crime.

• Prescreve o art. 5º, XLVI, da Constituição Federal: “a lei regulará a


individualização da pena e adotará, entre outras, as seguintes: a)
privação ou restrição da liberdade; b) perda de bens; c) multa; d)
prestação social alternativa; e) suspensão ou interdição de direitos”.

• como o perdimento tem natureza sancionatória, não


se cogita de qualquer indenização devida pela perda da propriedade.
• PODER DE POLÍCIA (LIMITAÇÃO ADMINISTRATIVA)
• Consiste em restrições gerais impostas pelo Estado sobre liberdade e
propriedade privadas, em benefício do interesse público.
• Entre os instrumentos de intervenção do Estado na propriedade
privada, o poder de polícia é o único que atinge as propriedades em
geral, na medida em que cria limitações aplicáveis simultaneamente
a um conjunto indeterminado de bens móveis ou imóveis.
• O poder de polícia desdobra-se em três atividades estatais
fundamentais:
• limitar;
• fiscalizar;
• sancionar.
• CARACTERÍSTICAS:

• a) manifesta-se por meio de atividades administrativas ou


legislativas;

• Poder de polícia em sentido amplo: Exemplo: O Estatuto da Terra (Lei


n. 4.504/64).

• Poder de polícia em sentido estrito: Exemplo: fiscalização municipal


sobre obras.
• CARACTERÍSTICAS:

• b) é sempre geral;

• c) não gera direito a indenização;

• d) atinge liberdade e propriedade;

• e) é um direito pessoal, e não real;


• f) regula a prática de ato ou a abstenção de fato (Art. 78 do CTN);

• g) atividade restritiva ( compatibilizando a liberdade e propriedade


privadas com as necessidades do interesse público);

• h) é externo (como regra geral, o poder de polícia atinge os particulares);

• i) é discricionário ( é atribuída ao agente público com uma certa margem


de liberdade e em casos raros, como no ato de licença, o poder de polícia
pode ser vinculado)

• j) é indelegável a particulares.
• j) é indelegável a particulares. O exercício do poder de polícia é
manifestação do poder de império do Estado (ius imperii), sendo por
isso indelegável a particulares (art. 4º, III, da Lei n. 11.079/2004).

• Entretanto, doutrina e jurisprudência admitem a delegação de


atividades materiais de apoio ao poder de polícia.
• Exemplo: manutenção, por empresa privada, de radares instalados
para fotografar infrações de trânsito.
• SERVIDÃO ADMINISTRATIVA

• É um direito real público sobre propriedade alheia

• Diferentemente da desapropriação, a servidão não altera a


propriedade do bem, mas somente cria restrições na sua utilização,
transferindo ao Estado parte das faculdades de uso e gozo.
• Os exemplos mais comuns são: 1) placa com nome da rua na fachada
do imóvel; 2) passagem de fios e cabos pelo imóvel; 3) instalação de
torres de transmissão de energia em terreno privado.
• Decorrente da supremacia do interesse público sobre o privado, a
servidão, em regra, independe de registro para produzir seus efeitos
regulares, pois sua eficácia resulta diretamente do ato de instituição.

• Ao contrário da limitação administrativa (poder de polícia), a


servidão atinge bem determinado, gravando-o com restrição
específica que não se estende aos demais bens.

• Sendo uma restrição especial, a servidão pode gerar direito à


indenização desde que o prejudicado demonstre significativo
prejuízo decorrente da limitação imposta. Porém, a regra é não
haver indenização.
PODER DE POLÍCIA VERSUS SERVIDÃO ADMINISTRATIVA

PODER DE POLÍCIA SERVIDÃO ADMINISTRATIVA

VALORES ATINGIDOS Liberdade e propriedade propriedade


NATUREZA JURÍDICA Direito pessoal Direito real

CONTEÚDO Gera obrigações de não fazer (em regra) Produz dever de tolerar

INDENIZAÇÃO Não indeniza Não indeniza


ABRANGÊNCIA Todos os bens Bem determinado
CONCEITO LEGISLATIVO Art. 78 do CTN Art. 40 do DL n. 3.365/41
DELEGABILIDADE Indelegável a particulares Indelegável a particulares

Vigilância sanitária, polícia de trânsito, Placa com nome da rua na fachada do


EXEMPLOS regras municipais sobre direito de imóvel, passagem de fios e cabos sobre
construir, fiscalizações em geral. a propriedade.

Natureza discricionária.
Se a restrição for muito excessiva, cabe
DICAS ESPECIAIS Excepcionalmente, pode vincular
ação de desapropriação indireta.
também o estado.
• TOMBAMENTO

• É um instrumento específico de intervenção na propriedade,


instituído com a finalidade de preservação histórica,
cultural, arqueológica, artística, turística ou paisagística do próprio
bem tombado. Posicionamentos minoritários consideram que a
natureza jurídica do tombamento seria de limitação
administrativa (poder de polícia).

• Trata-se da única forma de intervenção na


propriedade autorreferente, pois, enquanto os outros instrumentos
visam à tutela de interesses públicos gerais, o tombamento volta-se
para a conservação e preservação da própria coisa.
• Diferentemente da servidão, e assim como os demais instrumentos
de intervenção na propriedade, o tombamento tem natureza de
direito pessoal e sua implementação depende, segundo a maioria da
doutrina, da expedição de ato administrativo discricionário.

• A disciplina normativa do tombamento é realizada pelo Decreto-lei


n. 25/37, que prevê o tombamento voluntário, realizado por
iniciativa do proprietário, e o tombamento compulsório, imposto
administrativamente se o dono, após notificação, se opuser à
inscrição da coisa no Livro do Tombo.
• O tombamento pode recair sobre bens móveis ou imóveis,
públicos ou privados, cuja conservação seja de interesse da
coletividade (art. 1º do Decreto-lei n. 25/37), sendo obrigatória a
efetivação do registro de sua instituição no cartório competente.

• Tombamento não transforma a coisa tombada em


bem público, mantendo-a no domínio do seu proprietário. Nada
impede, por isso, que o bem tombado seja gravado com ônus ou
encargos, como hipoteca, penhora e penhor, mas sujeita o dono a
uma série de restrições extensíveis também a terceiros.
• Admite-se tombamento geral e individual. Tombamento geral é
aquele fundamentado em norma abstrata e que recai sobre
quantidade indeterminada de bens.
• Exemplo: tombamento de um bairro histórico. Já o individual incide
sobre bem determinado.

• Tombamento total recai sobre o bem inteiro. Exemplo: tombamento


sobre imóvel de interesse histórico. Parcial é aquele sobre parte do
bem.
• Exemplo: tombamento somente sobre a fachada de casarão.
•Denomina-se tombamento definitivo o efetivado ao final do
processo administrativo instaurado com tal finalidade,
exigindo posterior transcrição no registro de imóvel.

•Já o tombamento provisório constitui medida cautelar no


processo administrativo visando resguardar o resultado útil
do rito.
• Com a entrada em vigor do novo Código de Processo Civil, foi
revogado o art. 22 da Lei do Tombamento, que conferia direito de
preferência à União, ao Estado e ao Município, nessa ordem, na
aquisição da coisa tombada (art. 1.072, I, do CPC).

• Agora, o proprietário é livre para alienar o bem diretamente ao


comprador.

• No caso de alienação judicial, os arts. 891 e 892 do


CPC garantem aos entes federativos preferência na compra do bem
tombado.
•Desaparecendo o interesse público na
manutenção do tombamento, é possível
proceder à sua extinção, de ofício ou a
requerimento da parte interessada,
denominada destombamento.
• REQUISIÇÃO

• É a utilização transitória, onerosa, compulsória, pessoal (não real),


discricionária e autoexecutável de um bem privado pelo Estado em
situações de iminente perigo público.

• Quanto ao regime jurídico aplicável, a requisição pode


ser civil ou militar.

• DICA: trata-se de instituto a ser utilizado como instrumento de


exceção, na medida em que depende da ocorrência de situação
emergencial.
• Exemplos de requisição bastante comuns em provas:
• 1) escada para combater incêndio;
• 2) veículo para perseguição a criminoso;
• 3) barco para salvamento;
• 4) terreno para socorrer vítimas de acidente.

• Embora o texto constitucional faça referência à


“propriedade particular”, a doutrina admite requisição de serviços,
em hipóteses como a convocação de mesários para eleição, de
jurados para Tribunal do Júri e de conscritos para o serviço militar
obrigatório.
• OCUPAÇÃO TEMPORÁRIA

• Ocupação provisória ou temporária é a modalidade de intervenção


do Estado na propriedade de bens particulares em apoio à realização
de obras públicas ou à prestação de serviços públicos, mediante
utilização discricionária, autoexecutável, remunerada ou
gratuita e transitória.

• Pode ter como objeto bem móvel ou imóvel.

• Não tem natureza real.


•A instituição pode ocorrer mediante ato formal, na hipótese
de apoio à desapropriação, ou pela simples ocupação
material, dispensando formalidade, nas situações
desvinculadas de desapropriação.

•Quanto ao motivo, a ocupação difere da requisição, pois


dispensa a caracterização de iminente perigo público,
podendo ser realizada em qualquer situação de
necessidade vinculada à obra ou serviço público.
•A respeito da indenização, quando a
ocupação for vinculada à desapropriação, o
art. 36 do Decreto-lei n. 3.365/41 fala em
ocupação remunerada, sendo obrigatória a
indenização.
• Bibliografia:

• Alexandre Mazza. Manual de direito administrativo / 10. ed., rev. e atual.2020