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Sociedade & Cultura

Neri de Paula Carneiro

A temática enunciada no título envolve conceitos que, embora se relacionem, são


completamente distintos. E isso já é um primeiro problema: trata-se de ver a sociedade e a
cultura a partir da ótica da sociologia, da antropologia ou da filosofia? Trata-se de frisar que
a sociologia, ou a filosofia, têm uma palavra a respeito da sociedade e outra sobre a cultura?
É a sociedade que produz a cultura ou a sociedade já é uma manifestação cultural?
Neste texto vamos apresentar algumas reflexões que terão esses elementos como ponto de
partida. Temos claro que estas reflexões exigem maior aprofundamento. Entretanto,
justamente por que o tema exige maior reflexão é que não vamos nos furtar aos nossos
comentários e, justamente por isso, queremos propor a reflexão, não para falar de
sociologia, mas para entender a relação da sociedade com a cultura. E para isso nos
utilizaremos tanto de critérios sociológicos como filosóficos.
Uma escolha
Não vamos nos deter na complexidade da relação entre nossos eixos temáticos: sociedade e
cultura. Vamos partir de uma escolha. Vamos assumir que as ciências humanas, têm uma
forma específica de tratar a sociedade a qual, por sua vez, é resultante de processos
culturais. Portanto estamos assumindo que a sociedade não é anterior, mas resultante – pois
construção humana – de processos culturais específicos. Dessa forma nosso ponto de partida
para entender a sociedade é a afirmação de que ela pode ser compreendida a partir de
manifestações específicas. Em função disso podemos dizer que a compreensão da sociedade
somente é possível se nos referirmos a agrupamentos humanos específicos. E esses
agrupamentos também são resultantes de processos específicos. Disso se conclui que
nenhum grupo humano é igual a outro; pode-se falar de aproximações, mas não podemos
nos esquecer que os fenômenos sociais não se repetem: nem no mesmo grupo social nem
em outros grupos, distantes ou correlatos.
Em poucas palavras podemos dizer que as diferentes construções sociais produzem as
diversas sociedades. Os comportamentos de uma família são distintos de outras; as
manifestações sócio-culturais de uma cidade são distintas de outras; a formação de cada
país é específica e não se repete. Um exemplo histórico comprova essa afirmação. África do
sul e Estados Unidos são países com culturas completamente distintas, embora seus
processo de colonização tenham sido originários da Inglaterra. Brasil e vários países da
África foram colonizados por portugueses, e não se pode dizer que na África existam vários
brasis nem que o Brasil seja uma repetição da África. Isso reforça o que estamos afirmando:
os elementos culturais formam cada sociedade específica.
Além disso, precisamos ter claro, como sugere Berges e Luckmann (2004), que embora as
realidades tenham existências independentes da vontade humana, são percebidas de forma
subjetiva. “A vida cotidiana apresenta-se como uma realidade interpretada pelos homens e
subjetivamente dotada de sentido para eles na medida em que forma um todo coerente”
(BERGER; LUCKMANN, 2004, p. 35). Em razão disso podemos dizer que se a percepção é
subjetiva sua interpretação também o será. Essa interpretação subjetiva está relacionada à
consciência que o indivíduo tem do real que o circunda.
Outro elemento que não podemos deixar de ter claro é que ao falarmos de sociedade e de
cultura estamos nos referindo a fenômenos tipicamente humanos. Trata-se de realidades
humanas e, portanto, nosso olhar tem o ser humano como ponto de partida. É ele que
produz cultura, sendo uma das manifestações culturais a vida social ou vida em sociedade. E
aqui, novamente entra a afirmação da subjetividade:
“A consciência é sempre intencional; sempre ‘tende para’ ou é dirigida para objetos. Nunca
podemos aprender um suposto substrato de consciência enquanto tal, mas somente a
consciência de tal ou qual coisa. Isto assim, é pouco importando que o objeto da experiência
seja experimentado como pertencendo a um mundo físico externo ou apreendido como
elemento de uma realidade subjetiva interior”. (BERGER; LUCKMANN, 2004, p. 37)
A constatação inicial, portanto, é a existência do ser humano em suas diferentes
características. O ser humano é uma realidade, mas é uma realidade que atua e interfere
nos fenômenos e, ao mesmo tempo, produz indagações com vista na interpretação dos
fenômenos da natureza e humanos. Tendo isso presente podemos nos colocar a seguinte
indagação: O que é o ser humano? Que ser é esse que chamamos de humano? O que o
caracteriza e o diferencia de outros seres existentes.
O Ser humano e outros existentes
O Ser Humano se percebe no mundo e se vê completamente diferente das demais realidades
existentes. É ele quem dá sentido a existência dos existentes. Dá sentido porque pensa,
porque se socializa e porque manipula os elementos da realidade, gerando cultura. Além
disso, e sem entrar no mérito da discussão religiosa, pode-se dizer que o ser humano
transcende à realidade humana.
Reflitamos essas afirmações.
Partimos de uma constatação: praticamente todas as correntes de filosofia, de sociologia, de
antropologia procuram dar uma explicação para esta realidade à qual se chama de ser
humano. Dessas explicações um ponto parece ser comum e sobre a qual as vozes se fazem
unânimes: o fato do homem ser pensante.
Pensar não é só o que se pode entender etimologicamente, com a palavra, dizendo que o ser
humano é capaz de pesar, avaliar, estabelecer valores. Esse pensar refere-se também à
capacidade humana de fazer escolhas; aliás o ser humano avalia, justamente, para fazer
escolhas. Portanto o ser humano é aquele que avalia, escolhe, e faz isso a partir de um
processo reflexivo que exige uma postura introspectiva. Esta por sua vez deriva da
capacidade de abstração. Na verdade quando dizemos diz que o ser humano é capaz de
pensar pretendemos afirmar que ele é capaz de falar, ou de se comunicar a respeito das
realidades com as quais não está em contato imediato. Ele pode representá-las,
mentalmente e nisso se dá um processo de reflexão, pois se trata de “voltar a ver” o que
não está presente.
Outra característica do ser humano é a da sociabilidade. Daí vem a clássica afirmação
aristotélica dizendo que “o Homem é um ser social”. A sociabilidade, ou a capacidade de
viver, sobreviver e existir em coletividade parece ser o que mais bem caracteriza o homem.
Entretanto aqui precisa se fazer uma ressalva. Não nos parece que o ser humano seja,
essencialmente, um ser social, mas se faz social a partir de suas necessidade e para superar
seus medos e suas limitações em relação aos outros e em relação ao mundo.
Dizendo de outra forma: o ser humano é um ser sectário e tende a se isolar e a viver
isolado. Socializa-se porque se percebe impotente diante da natureza, mais forte que ele. E,
por ter medo de não sobreviver procura ajuda de outros seus semelhantes. Assim se faz
sociável numa atitude tipicamente egocêntrica, medrosa e aproveitadora. Para fugir de seus
medos e disfarçar sua fraqueza aproveita-se da fraqueza dos seus semelhantes. Assim sendo
o viver em sociedade é apenas uma forma de o homem se preparar para se isolar depois de
se aproveitar das fraquezas dos outros seres, como ele, fracos e medrosos. Afinal, o que é
nosso lar, se não nosso esconderijo? Sobre a essencialidade má, do ser humano, podemos
acrescentar estas palavras de Nietzsche, dizendo que: “É verdade que repugna à delicadeza,
mais ainda, a hipocrisia de animais domesticados.
(quero dizer os homens modernos, quero dizer nós) representar-se com todo o rigor até que
ponto a crueldade era alegria festiva na humanidade primitiva e entrava como ingrediente
em quase todos os seus prazeres; por outro lado [...]. Indiquei já de maneira circunspecta a
espiritualização e a ‘deificação’ da crueldade que não cessa de crescer e atravessa toda a
história da cultura superior.” (NIETZSCHE, 2005, p. 64)
E logo a seguir o pensador alemão acrescenta: “ ver sofrer; faz bem; fazer sofrer melhor
ainda: ai está um duro princípio, mas um principio fundamental antigo, poderoso, humano,
demasiadamente humano” (NIETZSCHE, 2005, p. 64). Sem sofrimento e sem provocar dor,
o ser humano não produz outra de suas conquistas, coletiva, mas que tem sabores
individuais: o progresso. Podemos dizer que foi a partir da dor e do sofrimento que nasceram
a maioria das inovações produzidas pelo engenho humano.
Mas não vamos, também, entrar na questão do progresso humano. Progresso resultante da
vida social, da superação dos medos e dos desafios. O progresso humano pode ser visto
como resultado da capacidade humana de resolver problemas (capacidade reflexiva-
pensante) e de se associar a outros homens para fortalecer suas fraquezas diante das
realidades mais fortes e que demandam inteligência (ler o interior das realidades) e ação
conjunta.

É neste ponto que entra a discussão sobre o sentido da produção humana. O homem
aparece, portanto como um ser que gera cultura. Ou seja, diferentemente de outras
criaturas, o homem se autoproduz reproduzindo o meio que o circunda. Mais do que isso,
recria o mundo natural que o circunda e ao mesmo tempo recria o já criado, dando-lhe novo
significado. Não se prende ao que está pronto, mas está sempre re-significando as
realidades mesmo as que já possuem significado; recria a utilização e a utilidade das
realidades mesmo aquelas que já tem significado e utilidade consagrada.
É graças a essa capacidade re-criadora que o homem pode produzir o mundo e reproduzir o
que existe. Com isso dinamiza não só sua existência como as realidades que o circundam e a
seus concidadãos. E assim está sempre criando ou re-criando a cultura. A cultura que,
talvez, esta sim, seja uma das marcas mais tipicamente humanas, pois é principalmente pela
sua capacidade de recriar o mundo e a cultura que o homem se diferencia dos demais
existentes. Pela cultura e como manifestação cultural, ocorre, também, o processo
associativo que é a vida social ou a sociedade.
O ser humano e a pluralidade das relações

Não se trata, aqui, de esgotarmos a discussão a respeito da natureza humana, mas de


constatarmos algumas de suas características. E dizer que o ser humano pode ser
caracterizado de várias formas, não significa dizer que ele seja ambíguo, mas plural; nessa
pluralidade de interfaces a dimensão sociável é uma de suas características mais marcantes
e visíveis.
Na pluralidade que é o ser humano podemos constatar que ele é, simultaneamente, sociável,
mas tende ao individualismo; solidário, mas tende ao egoísmo; capaz de atos bondosos, mas
tende para a maldade; capaz de atos altruístas, mas tende para a crueldade; capaz de atos
heróicos, mas tremendamente medroso. Percebe-se com potencialidades transcendentes,
mas limitado em sua manifestação material. “Os seres humanos variam em conseqüência
das condições sociais, econômicas, políticas, históricas em que vivem” (CHAUI, 2005, p.
244). De acordo com essa afirmação podemos concluir que o ser humano é resultante de
vários elementos condicionantes. Como já dissemos, a objetividade das relações sociais se
impõem sobre as relações humanas, pois “o ser humano vive em conseqüência”, de vários
elementos condicionantes que o levam a ser o que aparenta ser; mas também lhe fazem ser
o que oculta.
E se quisermos usar uma linguagem Nietzschiana podemos dizer que o ser humano é um
desconhecido. Tanto é desconhecido de si mesmo, como para o outro. E, paradoxalmente,
desconhece a si, mas pretende conhecer aos outros. Pretende lançar-se na empreitada de
conhecer o outro para fugir de si?
“Depois dos acontecimentos, perguntamos, tolamente estupefatos e desconcertados: ‘o que
está acontecendo conosco? Quem somos realmente? E depois contamos, como foi dito, as
trêmulas horas de nossa experiência vivida, de nossa vida, de nosso ser, ai de nós!, nos
enganamos na conta... É que somos precisamente estranhos a nós mesmos. Não nos
compreendemos, temos que nos confundir com os outros, estamos eternamente condenados
a esta lei: ‘não há ninguém que não seja estranho a si mesmo’; nem a respeito de nós
mesmos somos ‘homens de conhecimento’” (NIETZSCHE, 2005, p. 13)
A questão, agora, é saber aonde isso nos vai levar?
A dois pontos extremos: a uma distância cada vez maior de nós mesmos e a nos
escondermos na sociedade. O que somos para nós mesmos? Uma incógnita. Quando nos
perguntam, somos capazes de fazer várias afirmações sobre nós mesmos. Mas são sempre
afirmações aproximativas, pois não conseguimos dizer tudo de nós, pois não temos desejo
de nos apresentarmos, nem a nós nem ao outro. O que é a sociedade, para nós? Um
esconderijo. É onde podemos existir sem nos mostrarmos, pois o que mostramos não somos
nós; o que mostramos é apenas uma fachada para nos mantermos ocultos no meio da
multidão.
E se quisermos ouvir uma palavra da psicologia, podemos dizer que a relação do ser humano
consigo mesmo e com os outros manifesta-se em quatro quadrantes, formando uma espécie
de janela (FRITZEN, 2000). Nessa janela há uma abertura livre e acessível ao “eu” e o
“outro”; há uma segunda abertura conhecida pelo “eu’ e desconhecida pelo “outro”; num
terceiro quadrante a abertura permite que o “outro” conheça aspectos do “eu” que esse “eu”
desconhece. E, por fim, o quarto quadrante refere-se a uma área obscura da qual nem o “eu
nem o “outro” têm conhecimento ou controle. Isso também ajuda a confirmar o universo de
desconhecimento que é o ser humano, pois como diz um verso de uma música de R. Seixas.
“cada cabeça é um mundo”. Isso ajuda a explicar esse emaranhado de possibilidades que é o
ser humano.
Mas o fato é que nossa individualidade se relaciona com outras individualidades e nisso se
manifesta uma vida social. Trata-se de constante interação em que nossa subjetividade
interage com outras subjetividades, de forma objetiva. Podemos dizer que as relações são
objetivas, mas as intenções que produzem as relações e que se ocultam por trás das
relações são subjetivas. A intencionalidade de cada um é desconhecida pelo outro. E aqui,
novamente, nos valemos das palavras de Berger e Luckmann (2004) quando afirmam que a
realidade da vida cotidiana:
“Apresenta-se a mim como um mundo intersubjetivo, um mundo de que participo
juntamente com outros homens. Esta intersubjetividade diferencia nitidamente a vida
cotidiana de outras realidades das quais tenho consciência. Estou sozinho no mundo dos
meus sonhos, mas sei que o mundo da vida cotidiana é tão real para os outros como par
mim mesmo. De fato não posso existir na vida cotidiana sem estar continuamente em
interação e comunicação com os outros. Sei que minha atitude natural com relação a este
mundo corresponde à atitude natural dos outros, que eles também compreendem as
objetivações graças às quais este mundo é ordenado, que eles também organizam este
mundo em torno do ‘aqui e agora’ do seu estar nele. Sei também, evidentemente, que os
outros têm uma perspectiva deste mundo comum que não é idêntica à minha. Meu ‘aqui’ é o
‘lá’ deles. Meu ‘agora’ não se superpõe completamente ao deles. Meus objetivos diferem dos
deles e podem mesmo entrar em conflito”. (BERGER; LUCKMANN, 2004, p. 40, grifo nosso).
Tudo isso para demonstrar que o ser humano é um ser que, se relaciona, mas, ao mesmo
tempo, procura se isolar. E se “meus objetivos diferem dos deles” posso dizer que meu
mundo também é distinto. Podemos dizer que, mesmo estando no mesmo mundo
objetivamente falando, vivemos em mundos diferentes.
O ser humano é diferente.
O ser humano é dotado de uma capacidade criadora e recriadora que lhe permite não só
manipular o mundo, mas, principalmente recriar o mundo. Diferentemente do animal que
possui apenas uma inteligência concreta o ser humano desenvolve e se desenvolve a partir
de uma inteligência abstrata. Graças a ela o ser humano reproduz experiências, inventa
novas utilizações para os mesmos objetos. Cria as técnicas e as capacidades de reaproveitar
e recriar suas ações e produções. E com tudo isso transforma o mundo e se transforma com
o mundo. Por tudo isso o ser humano se renova, constantemente; é outro a cada instante.
As ações do ser humano são temporais. Isso implica dizer que as ações humanas são
históricas, pois mesmo morrendo um homem, suas experiências e suas realizações
permanecem e podem ser reaproveitadas, recriadas, reformuladas por outros homens.
Mesmo os que não são seus descendentes podem utilizar seus saberes. O ser humano,
portanto, consegue visualizar o fato, as realizações e as produções num antes, no agora e
num depois.
Neste aspecto vale a pena recordar os versos da música “Canto para minha morte” de Raul
Seixas e Paulo Coelho:
“Oh morte, tu que és tão forte,
que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
E eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém de quem não gostava
Até no uísque que não terminei de beber aquela noite...”
(SEIXAS; COELHO, 1976, grifo nosso)
A partir de experiências do passado o homem analisa seu agora e projeta o futuro. Faz isso
por que consegue representar as realidades pela linguagem e pelo pensamento abstrato.
Mesmo não tendo acesso ao passado e sabendo que o futuro é uma interrogação, mediante
a linguagem recria as realidades, comunicando-as e por meio do pensamento abstrato recria
as realidades criando modelos que podem ser transformados e reinterpretados. Essas
transformações produzidas pelo pensamento e pela ação histórica é o que chamamos de
cultura. O homem, portanto, ao recriar seu mundo produz cultura. Produz valores culturais
ou bens culturais. Criando, inclusive, um importante elemento cultural que é a vida social.
Nas palavras de Aranha e Martins (1997), ocorre que “as diferenças entre o homem e o
animal não são apenas de grau, pois, enquanto o animal permanece mergulhado na natureza
o homem é capaz de transformá-la, tornando possível a cultura” (Aranha; Martins, 1997, p.
6. grifos no original)
Mas não é só. A ação humana, produzindo cultura, produz realidades a partir de
intencionalidades: uma dessas criações intencionais é o trabalho. Enquanto a ação humana,
produzindo cultura por meio do trabalho, que é uma ação intencional, os animais não são
capazes nem ao menos de trabalhar, pois não são guiados por intenções, pois lhes falta a
vontade e a capacidade de decidir. Por isso dizemos que as ações animais não se
reproduzem. O ser humano, por seu lado, transforma o mundo pelo trabalho e sua ação
transformadora é conduzida pela intencionalidade; age com finalidade consciente.
Outra característica do ser humano e da ação humana é a consciência da pertença a um
grupo. A ação humana não se dá isoladamente. A produção cultural e o trabalho humano são
ações sociais. Mesmo que, como já dissemos, sejamos movidos por interesses egocêntricos,
tendemos a realizar nossos desejos e necessidades em conjunto com outros.
O ser humano é um ser social, sociável e solidário. Social por que não vive só, mas em
bandos, chamado de sociedade; e necessita dela para sobreviver. Sociável por que consegue
manter relações com outros de sua espécie, mesmo com eventuais adversários; mesmo que
seja para tirar proveito pessoal dessas relações. Relações que são, ao mesmo tempo,
conscientes e intencionais. Por isso, também, o ser humano é solidário. Não por
benevolência, mas por necessidade. Por que sabe que necessita dos outros o ser humano
age em troca de benefícios. Faz ao outro para que o outro retribua. E nisso, mais uma vez,
aparece a intencionalidade. Mesmo que a solidariedade seja interesseira, ela caracteriza a
ação humana.
A ação humana, que é trabalho e que é cultura, e que não se esgota no tempo, pois
permanece na ação intencional de outros seres humanos, se dá pela assimilação de modelos
sociais estabelecidos. O ser humano é o que é, mediante a cultura, que é resultante do
trabalho. O ser humano desenvolve-se dentro de um grupo que já possui valores aos quais
considera válidos e que acha necessário que sejam preservados. Por esse motivo, para
transmitir esses valores, essas informações, esses saberes para os demais ou para os mais
jovens, o ser humano cria instrumentos e canais de comunicação. O ato ou o processo
através do qual os seres humanos se comunicam e comunicam seus valores e os elementos
culturais é o processo educacional.
O mundo humano, portanto, que não existe independentemente do ser humano, é um
mundo de significados e como tal precisa ser, ao mesmo tempo recriado, ressiginificado e
transmitido. O mundo humano só existe enquanto existe o ser humano e por isso ele é
constantemente recriado, como cultura e como valores a serem transmitidos às novas
gerações. Por isso o ser humano dá tanta importância à educação, pois ela é um dos
principais meios de recriação do mundo: recria a sociedade e a cultura.

Referências
ARANHA, Maria L. Arruda; MARTINS, Maria Helena P. Filosofoando: introdução à filosofia. 2
ed. São Paulo: Moderna, 1997

BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da Realidade: tratado de


sociologia do conhecimento. 24 ed. Petrópolis: Vozes. 2004.

BRANDÃO, Sílvia R. Rocha A Vocação Humana: uma Abordagem Antropológica e Filosófica


disponível em http://www.hottopos.com/vidlib7/sb.htm acessado em 15 de janeiro de 2005

CHAUÍ. Marilena. Convite à filosofia. 13 ed. São Paulo: Ática, 2005.

FRITZEM, Silvino José. Janela de Johari. 17 ed. Petrópolis. Vozes, 2000

MONDIN, Batista, O Homem, quem é ele?, 2ª ed. S.P: Paulinas, 1982.

NIETZSCHE, F. A genealogia da Moral. São Paulo: Escala, 2005.

SEIXAS, Raul; COELHO, Paulo. Há 10 mil anos atrás, Guanabara: Philips, 1976. 1 disco
(39:40 min) 33 1/3 rpm, microssulco, estéreo, 6349 300.

Neri de Paula Carneiro – Mestre em Educação, Filósofo, Teólogo,

Publicado em: 20/04/2008