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Educação virtual e interativa

Comunicação e Expressão

Aulas 1 a 20
Sumário
Aula 1 - A aventura de escrever 03
Aula 2 - Desejos de Leitura - O ato de ler 13
Aula 3 - Comunicação e Linguagem 26
Aula 4 - Variações Lingüísticas - 1a. parte 42
Aula 5 - Variações Lingüísticas - 2a. parte 50
Aula 6 - O texto e suas modalidades 54
Aula 7 - Narração - O ato de contar histórias 60
Aula 8 - Narração - O ato de contar histórias 71
Aula 9 - O ato de descrever 81
Aula 10 - O ato de dissertar 89
Aula 11 - O ato de argumentar 105
Aula 12 - Avalie suas habilidades
e seus conhecimentos 114
Aula 13 - Como fazer o resumo de um texto 121
Aula 14 - Leitura crítica 128
Aula 15 - Função referencial e
função poética da linguagem 142
Aula 16 - Como elaborar um currículo moderno 149
Aula 17 - Redação empresarial 157
Aula 18 - Entrevista 164
Aula 19 - Relatório 171
Aula 20 - Conclusão do curso 178
Aula 01 - A aventura de escrever
Olá, meu nome é Walter Armellei Júnior e sou um dos autores deste programa
de Comunicação e Expressão.

Elaborei este curso pensando em tornar cada aula, além de agradável, útil e
desafiadora, a mais próxima possível da realidade de quem estuda e trabalha, ou seja,
de quem lê no dia-a-dia, sem mesmo dar-se conta dessa grande tarefa!

Navegue em todas as aulas e procure regras de nossa língua, técnicas eficazes de


escrita, sugestões e, acima de tudo, textos e exercícios que subsidiarão suas dúvidas.

Vamos começar a vivenciar a aventura da escrita?

A aventura de escrever
Durante esta aula, você será capaz de identificar algumas dificuldades
encontradas por você e por outras pessoas diante do ato de escrever.

Encontrará depoimentos e sugestões e algumas técnicas que o ajudarão a


enfrentar possíveis bloqueios na atividade da escrita.

Verifique.
Quando você é solicitado a elaborar um texto – seja no meio acadêmico, seja no
meio profissional – inicia-se a luta entre o papel, as palavras e o que você quer, pode
e consegue dizer.

Nesses momentos você deve imaginar-se a única pessoa incapaz de dominar as


palavras e escrever o que pretende. Mas essa luta não é só sua.

Pois é, leia os depoimentos a seguir e convença-se de que até mesmo os


escritores consagrados e imortalizados pela literatura consideram o ato de escrever
um desafio mas sempre carregado de emoções e aventuras.

Você conhece o significado da palavra depoimento?


Ato ou efeito de realizar uma revelação de fatos ou verdades.

Vamos ler alguns?

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Depoimento 1
“Quiem supiera escribir!” A exclamação, de um verso de Campoamor, me vem
à lembrança às vezes – como neste momento em que eu tanto precisaria dizer tantas
coisas, e não sei dizê-las.

Esta é a terceira ou quarta vez que ponho o papel na máquina e começo a


escrever; mas sinto que as frases pesam ou soam falso, e as palavras dizem de mais
ou dizem de menos e a escrita daí desentoada com o sentimento.

Saiba Mais - Rubem Braga


Rubem Braga, considerado por muitos o maior cronista brasileiro desde Machado de
Assis, nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, ES, a 12 de janeiro de 1913. Formou-se
em Direito em Belo Horizonte, em 1932, depois de ter participado, como repórter
dos Diários Associados, da cobertura da Revolução Constitucionalista, em Minas
Gerais.Sua marca registrada é a crônica poética, em que reúne estilo próprio a um
intenso lirismo, provocado pelos acontecimentos cotidianos.

Depoimento 2
Esta é uma declaração de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil.
Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a
sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um pontapé contra os
que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza.

E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve.


Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa do
superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta


com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar
montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Saiba Mais - Clarice Lispector


Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, a 10 de dezembro de 1925.
Seus pais imigraram para o Brasil quando ela contava dois meses de idade.
Forma-se em 1944, ano em que publica o primeiro livro, Perto do Coração
Selvagem, fartamente aplaudido pela crítica. Faleceu no Rio de Janeiro, a 9 de
dezembro de 1977.

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Depoimento 3
“Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Então lutamos
Mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão forte
Como um javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse,
teria poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas de carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça (...)”

Saiba mais - Carlos Drummond de Andrade


Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de
outubro de 1902. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida
breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Desde 1954,
colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no
Jornal do Brasil. Drummond foi seguramente, por muitas décadas, o poeta mais
influente da literatura brasileira em seu tempo, tendo também publicado diversos
livros em prosa. Morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987, poucos
dias após a morte de sua filha única, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.

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Depoimento 4
Escrever é montar, jogar um ponto de vista, às vezes tão único, tão restrito
àquele momento, àquelas palavras... E no desejo de gotejar de tinta um papel, só
para tentar transmitir uma onda de sentimentos, pensamento, sensações, as palavras
escapam, brigam, traem-se. É uma guerra. Fico perplexa e desesperada, pedindo
trégua. Prometo a uma o primeiro lugar no próximo parágrafo: a outra, uma amiga
com a qual faria um belo par; tudo em vão.

Chovem tiros e explodem bombas no papel; manchas de sangue nobre borram


o campo. De repente, acontece algo: amasso-as bem com um pesado Aurélio.
Descubro que toquei o coração das palavras, seu ponto fraco.

Elas compreendem! A paz é feita numa harmonia silenciosa. E quem vir essas
briguentas por aí, poderá pensar que nunca houve nada entre nós.
(ex-aluno)

Depoimento 5
As pessoas estão esquecendo de escrever. Escrever mesmo.
Também pudera: é muito vídeo, muito digital, muita impessoalidade.

O ato de escrever, hoje em dia, se resume à frieza dos memorandos assépticos


e dos bilhetes lacônicos. Mas escrever é botar – preto no branco – uma emoção
vermelha de paixão, um sonho verde de esperança, um sorriso amarelo, sem medo
do lugar comum ou do ridículo, percebeu? Escrever é invadir com todos os nossos
fantasmas aquele espaço branco, inocente, descompromissado – e se expor.

Como nossos erros, nossa fragilidade, nossas dúvidas ortográficas.


Escrever é lançar uma ponte sobre o imponderável, é arriscar uma tentativa de
resposta, um toque tipo assim: socorro, estou vivo! Você está?

Por tudo isso é que vale a pena escrever. Agora. Imediatamente. Inadiavelmente.
(ex-aluno)

Atividade em aula
Depois de tomar conhecimento das dificuldades enfrentadas por escritores e
alunos, ao escrever, elabore agora o seu depoimento, um texto de,
aproximadamente, 30 linhas, que expresse seus encontros e desencontros com as
palavras, com o texto.
A sua luta pela expressão

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Registre em seu caderno ou digite em seu computador.
Faça os exercícios.
Registre tudo que considerar importante.

Depois desse passeio pelos depoimentos e da elaboração de seu primeiro texto


em nosso curso, chegou a hora de apresentar-lhe algo bastante importante. Observe
o que escritores consagrados têm a dizer sobre o desafio de escrever.

Sobre o ato de escrever


1o. texto
Escrever não é apenas uma questão de técnica. Não se escreve sem alguma
técnica, é certo. Mas ninguém começa a escrever depois de adquirir a tal da técnica.
Começa-se a escrever porque se deseja fazê-lo, e, então enquanto se vai escrevendo,
vai-se organizando a própria técnica.

O ato de escrever é, primeiro e antes de tudo, a questão do desejo. Ora o


desejo de os outros se reproduzirem em nós através das palavras, ora o nosso desejo
de nos reproduzirmos, multiplicarmo-nos, transcendermo-nos e, mesmo,
imortalizarmo-nos, por meio das nossas palavras.

Ao escrever, revelo-me – revelo a mim mesmo que posso organizar as palavras,


o que as palavras nomeiam, que posso construir, montar o mundo novo também.
Revelo-me a extensão do meu poder, ou seja: a extensão dos meus possíveis. Em
suma, a extensão da minha utopia.

O ato de escrever, antes de tudo, é um legítimo ato de auto-afirmação. E “auto-


afirmação” não é coisa ruim, pejorativa, como dizem os que não gostam de ver os
outros se afirmando. Quem não se afirma é o oprimido, é o submisso, o que se
encontra caído ao chão à espera das ordens.

Uma redação nunca é um produto acabado, pronto para ser entregue ao mestre
e por este enquadrada no conceito devido (ou indevido). Antes, será “red-ação”:
ação de tecer a rede dos acontecimentos e dos relacionamentos, guardando o
acontecido na memória verbal das gerações, pescando o acontecível no extenso lago
das faltas e ausências testemunhadas pelas palavras daqueles que falam.

A palavra é o testemunho de uma ausência. Escrevemos, antes de tudo, para


testemunhar as nossas faltas, quer procurando supri-las, quer buscando carinho para
aliviar a dor. Escrevemos para dizer o que não sabemos, o que não amamos, o que
não somos – mas queremos.

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A palavra é a consciência da ausência. A consciência do não-saber de que
Sócrates, a qual, exatamente, despe-nos da arrogância e aproxima-nos da verdade.

Saiba mais - Adaptado de BERNARDO, Gustavo. Redação Inquieta. 4a.ed.,


São Paulo: Editora Globo, 1991.
BERNARDO, Gustavo.
Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1º de novembro de 1955. Doutor em
Literatura Comparada, é professor de Teoria da Literatura no Instituto de Letras da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Simultaneamente às atividades
acadêmicas, Gustavo Bernardo escreve romances.

2o Texto
Sobre o ato de escrever
Continuando nossa conversa sobre o ato de escrever.
“Escrever é fazer um mau rascunho e em seguida corrigi-lo até desentranhar o
que realmente se pensa.”

Saiba mais - Bioy Casares


Adolfo Bioy Casares nasceu em Buenos Aires, em 1914. Escreveu sua primeira novela
Iris y Margarita, aos 11 anos. Aos 14 anos, Vanidad o Una aventura terrorífica, conto
fantástico e policial. Em 1932 conhece Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo, que junto a
Borges o convencerá a abandonar os estudos e dedicar-se exclusivamente a escrever.
Adolfo Bioy Casares morreu na Cidade de Buenos Aires em 8 de março de 1999.

3o. texto
Sobre o ato de escrever
“O escritor é um homem sozinho dentro de um quarto, diante do papel em
branco e às voltas com os seus demônios que ele conjura, que ele tenta exorcizar: o
demônio da solidão, o da busca, da procura de alguma coisa que não sabe qual seja,
como quem tenta recuperar uma experiência sonhada, ou vivida numa vida anterior.

Ele está começando do nada, vendo pela primeira vez, tentando abrir um
caminho, procurando no escuro... Escrever é um ato de amor.”

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Saiba mais - Fernando Sabino
Fernando Tavares Sabino nasceu a 12 de outubro de 1923, em Belo Horizonte. Em
1930, após aprender a ler com a mãe, ingressa no curso primário. Torna-se leitor
compulsivo, de tal forma que mais de uma vez chega em casa com um galo na testa, por
haver dado com a cabeça em um poste ao caminhar de livro aberto diante dos olhos.

4o Texto
Sobre o ato de escrever
“Quando não estou escrevendo, eu simplesmente não sei como se escreve.

E se não soasse infantil e falsa a pergunta das mais sinceras, eu escolheria um


amigo escritor e lhe perguntaria: como é que se escreve? Que é que diz? E como dizer?

E como é que se começa? E que é que se faz com o papel em branco nos
defrontando tranqüilo?

Sei que a resposta, por mais que intrigue, é a única: escrevendo. Sou a pessoa
que mais se surpreende ao escrever. E ainda não me habituei a que me chamem de
escritora. Porque fora das horas em que escrevo, não sei absolutamente escrever.
Será que escrever não é um ofício? Não há aprendizagem, então? O que é? Só me
considerarei escritora no dia em que eu disser: sei como se escreve.”

Saiba mais - LISPECTOR, Clarice. A descoberta do Mundo. 1a.ed., Rio de


Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.
Romances: O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Maçã no Escuro (1961); A
Paixão segundo G.H. (1964); Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969); Água
Viva (1973); Um Sopro de Vida – Pulsações (1978); Novela: A hora da estrela (1977).
Contos:Alguns contos (1952); Laços de família (1960); A legião estrangeira (1964);
Felicidade clandestina (1971); A imitação da rosa (1973); A via crucis do corpo (1974);
Onde estivestes de noite? (1974); A bela e a fera (1979); Literatura infantil: O mistério
do coelho pensante (1967); A mulher que matou os peixes (1968); A vida íntima de
Laura (1974); Quase de verdade (1978); Como nasceram as estrelas (1987).

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Dicas sobre revisão gramatical
Dicas de hoje, para você guardar e utilizar!

Quando está criando um texto, você fica muito concentrado, procurando captar
seu pensamento. Não deve interromper com pormenores. Escreve as palavras como
elas surgem em sua cabeça, mesmo erradas ou inadequadas. Constrói frases e trechos,
às vezes, até sem sentido. Depois de alguma experiência em seu redigir, sabe que, após
esse registro do fluxo do pensamento, vai reler seu texto, vai vê-lo outra vez, vai fazer
uma revisão (de estilo, de conteúdo, gramatical, do texto em sua estrutura, etc.).

Você também não deve interromper a fluência do seu processo de criação para
lembrar se uma palavra tem acento gráfico, para ver a pontuação, para substituir
palavras ou frases. Primeiro registre seu pensamento. Depois faça uma revisão
gramatical, com calma. Mesmo assim, se você errar, aprenda com seus erros.

Antigamente, aconselhavam aos alunos “escrever pouco para errar pouco”.

Veja só, levarmos esse conselho às últimas conseqüências, concluiremos que não
escrevendo nada, nunca erraremos.

É claro, não é esse o caminho. O caminho para aprender a escrever é escrever


muito e sempre, ler, revisar e reescrever.

Dicas sobre revisão textual


Dicas de hoje, para você guardar e utilizar!

É uma ilusão pensar que um texto nasce pronto. Ele percorre vários
procedimentos até chegar ao leitor. E é na leitura que sua criação se completa.

Mas, antes da leitura, há muito fazer e refazer, escrever e reescrever. Constate,


observando um rascunho de texto de Guimarães Rosa (veja na aula on-line), uma dos
maiores e mais criativos escritores da literatura brasileira.

O primeiro aspecto que deve levá-lo a refazer o seu texto é a persistência do


criador: criador é quem cria e não quem só imagina. Quem só imagina é, no máximo,
imaginoso. Persistir é enfrentar encantos e desencantos do processo. Há momentos
de euforia, em que nos sentimos geniais.

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Alguns segundos depois, achamos o texto péssimo e nos sentimos ridículos,
poucos inteligentes, incapazes de criar. Rasgamos folhas escritas, levantamos da
cadeira, tentamos fugir.

Mas é preciso persistir. Se o texto não ficou bom, é preciso refazê-lo em parte
ou totalmente. Até ficar pronto.

Outra coisa que deve levá-lo a reescrever o texto é a autocrítica raramente justa
no momento da elaboração. A autocrítica precisa ser exercida com certo
distanciamento. Se você acaba de escrever, dê um tempo para julgar se o texto está
bom ou ruim. Leia-o no dia seguinte, na semana seguinte. Será mais fácil apreciá-lo.
Há ainda a insatisfação dinâmica de quem cria.

Mal termina o texto, você fica imaginando o próximo. O melhor texto, para
quem o cria, é o próximo. Isso é bom, é dinâmico, porque nos move a continuar
criando e a melhorar o que fazemos.

Mas não pode ser uma insatisfação tão grande que gere desânimo.

Finalmente, um fato que você já deve ter observado. Há uma distância, uma
defasagem entre o que a gente imagina e o resultado final da redação já realizada.
Costumamos até dizer: “não era bem isso que eu queria escrever”.

Em textos longos e complexos, isso é comum. Parece que a mão que escreve
puxa e conduz a imaginação para além do que foi planejado. Se a distância entre o
que se planejou e o produto for muito grande e o resultado insatisfatório, reescreva
sua redação.

Há várias outras situações nas quais se reescreve a primeira redação feita. Em


todas elas, você deve mostrar que quer criar um texto e não se livrar dele. Será que
muitas de suas redações não merecerão ser reescritas?

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Síntese da aula de hoje
Você deve ter percebido que escrever é um verdadeiro desafio carregado de
emoções e aventuras. As dificuldades existem para todos nós, até para os grandes
escritores já consagrados pela crítica e pelo público.

Não há qualquer modelo, receita ou técnica pronta que possam ensinar-lhe. Mas
você aprenderá a escrever, escrevendo, treinando, exercitando. À medida que for
escrevendo, descobrirá a sua própria técnica, seu estilo, que é pessoal.

Próxima aula
Na próxima aula, falaremos sobre a leitura, Desejos de Leitura - é o outro
componente da relação dialética “leitura – escrita”. É mais um processo carregado
de sedução.

Até a próxima.

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Aula 02 - Desejos de Leitura - O ato de ler
Olá, Meu nome é Dora Fontana Baseio e sou uma das autoras deste programa
de Comunicação e Expressão.

Durante esta aula, você será capaz de compreender o que é leitura, de refletir sobre
o ato de ler e também de se divertir, viajando em algumas passagens de nossa literatura.

Observe o que nos revela Castro Alves sobre leitura e livros:


“Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.”,

Saiba mais - Castro Alves


Antonio Castro Alves é um dos grandes poetas da Literatura Brasileira. Nasceu a 14
de março de 1847, em uma fazenda no interior da Bahia.Morreu em 6 de julho de
1871. É bastante conhecido por sua poesia social, de teor, principalmente,
abolicionista e humanitário, ressoando a voz do povo com acentos retóricos e
declamatórios. Isso o faz um poeta idealista, imbuído de uma visão utópica do mundo
e dos homens. Suas obras são: Espumas Flutuantes, (1870), Gonzaga ou a Revolução
de Minas (1876), A Cachoeira de Paulo Afonso (1876), Os escravos ( 1883).

Observe como estamos mergulhados em textos no nosso dia-a-dia, somos


atravessados por diferentes linguagens e, sem perceber, lemos o tempo todo. Lemos
a expressão facial das pessoas, lemos seus gestos, seus movimentos, sinais, objetos,
cheiros, cores, gostos, e, curiosamente, nossa leitura independe de sermos
alfabetizados ou não.

É a forma que temos para perceber o mundo que se põe diante nós, é a nossa
leitura de mundo.

Você já se percebeu lendo o mundo? Lembre-se do que já fez hoje e observe o


que está fazendo agora.

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Neste momento, você está não só lendo a palavra escrita, mas o seu entorno, o
tamanho das letras, o colorido da página, os ícones, as janelas, os objetos que estão
próximos a você, os sons, o cheiro do ambiente em que está.

Leia, agora, atentamente, um pequeno trecho da palestra de Paulo Freire: A


importância do ato de ler, retirada do livro A importância do ato de ler – em três
artigos que se completam.

Saiba mais - Leitura de mundo


Leitura de mundo é um conceito criado por Paulo Freire, célebre educador brasileiro,
que se comprometeu politicamente com a missão de educar e resgatar a humanidade
do oprimido, a dignidade da pessoa humana.
Seu eixo é aprendizagem da leitura e da alfabetização, para a qual elaborou um
Método (Método Paulo Freire de Alfabetização de Adultos), na década de 1960.
Este conceito de leitura de mundo está presente no capítulo 1 do livro A importância do
ato de ler – em três artigos que se completam – que vale a pena ser lido na íntegra.
Dois outros livros de Paulo Freire são bastante conhecidos: A Educação como prática
de liberdade e Pedagogia do oprimido.

A importância do ato de ler


Rara tem sido a vez, ao longo de tantos anos de prática pedagógica, por isso
política, em que tenho permitido a tarefa de abrir, de inaugurar ou de encerrar
encontros ou congressos.

Aceitei fazê-lo agora, da maneira, porém, menos formal possível. Aceitei vir aqui
para falar um pouco de importância do ato de ler.

Me parece indispensável, ao procurar falar de tal importância, dizer algo do


momento mesmo em que me preparava para aqui estar hoje; dizer algo do processo
em que me inseri enquanto ia escrevendo este texto que agora leio, processo que
envolvia uma compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na decodificação
pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na
inteligência do mundo. A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a
posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele.

Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a


ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e
o contexto. Ao ensaiar escrever sobre a importância do ato de ler, eu me senti levado
– e até gostosamente – a “reler” momentos fundamentais de minha prática,

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guardados na memória, desde as experiências mais remotas de minha infância, de
minha adolescência, de minha mocidade, em que a compreensão critica da
importância do ato de ler se veio em mim constituindo.

Ao ir escrevendo este texto, ia “tomando distância” dos diferentes momentos


em que o ato de ler se veio dando na minha experiência existencial. Primeiro, a
“leitura” do mundo, do pequeno mundo em que se movia; depois, a leitura da minha
escolarização, foi a leitura da “palavra mundo”.

A retomada da infância distante, buscando a compreensão do meu ato de “ler”


o mundo particular em que me ouvia -, me é absolutamente significativa. Neste
esforço a que me vou entregando, re-crio, re-vivo, no texto que escrevo, a
experiência vivida no momento em que ainda não lia a palavra. Me vejo então na casa
mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem
gente, tal a intimidade entre nós – à sua sombra brincava e em seus galhos mais
dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos e aventuras maiores. A velha
casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão, seu terraço – o sítio das avencas de
minha mãe -, o quintal amplo em que se achava, tudo isso foi meu primeiro mundo.
Nele engatinhei, balbuciei, me pus de pé, andei, falei.

Na verdade, aquele mundo especial se dava a mim como o mundo de minha


atividade perceptiva, por isso mesmo como o mundo de minhas primeiras leituras.

Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto – em cuja percepção


me experimentava e, quanto mais o fazia, mais aumentava a capacidade de perceber
– se encarnavam numa série de coisas, de objetos, de sinais, cuja compreensão eu ia
aprendendo no meu trato com eles, nas minhas relações com meus irmãos mais
velhos e com meus pais.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam.


São Paulo: Cortez, 2003.

1a. Atividade em aula


Registre no caderno, ou digite no computador, sua compreensão da frase de
Paulo Freire:

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura


desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade
se prendem dinamicamente.”

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Compreendemos que a leitura da palavra é algo que se acrescenta à leitura do
mundo. Refere-se ao processo de alfabetização, à aquisição do código lingüístico. Ser
alfabetizado é diferente de ser letrado.

Alfabetizados são aqueles que fazem uso da linguagem escrita em situações


simples, cotidianas, em tarefas de ordem prática, tais como ler e escrever o próprio
nome, um bilhete, isto é, fazem uso reduzido da escrita, por isso possuem acesso
interditado a determinados modos de funcionamento da linguagem.

Letrados são aqueles capazes de apreender os variados modos de ler e


conhecer o mundo (a ciência, arte, a filosofia, o mito, o senso comum),
compreendendo a forma como a linguagem se organiza.

Assim, são capazes de exercer a plena cidadania, já que a apropriação desses


conhecimentos alarga o entendimento da realidade, possibilitando participar,
transformar e fruir a realidade mais amplamente.

Para compreender, com mais clareza, a importância da leitura para realização da


plena cidadania, vale a pena ler o livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos. É curioso
observar como a falta de consciência da linguagem, agravada pela escassez da leitura e
dos mecanismos de comunicação, pode comprometer os atos de cidadania. Vidas
Secas é um livro sábio, uma obra de linguagem sobre a não-linguagem.

Saiba mais - Vidas Secas


Vidas Secas, livro publicado em 1938 é uma grande obra inserida no Ciclo
Regionalista Nordestino, capaz de despertar paixões e discussões inumeráveis. Trata
da peregrinação de uma família de retirantes pelos confins do sertão nordestino.
Em estilo conciso, próprio da segunda fase do Modernismo, o romance traduz o
sofrimento humano diante de uma natureza seca e implacável, tanto áspera quanto as
próprias relações humanas que ali se estabelecem e se fortificam devido a pouca
consciência das personagens no que diz respeito ao seu papel como cidadãs.
Reúnem-se, nesta célebre obra neo-realista, homem e natureza, compondo todo o
espetáculo doloroso da realidade brasileira de ontem, de hoje e de sempre, se nada
for feito para transformá-la.

Saiba mais - Graciliano Ramos


Graciliano Ramos nasceu em Quebrângulo, no Alagoas, 27 de outubro de 1892. Foi
Diretor da Imprensa Oficial do Estado em Maceió, em 1930. Acusado de práticas
subversivas, foi para a prisão, em 1936, onde escreveu Memórias do Cárcere, em
1956. Publicou várias obras, entre elas: São Bernardo, (1934), Angústia (1936),
Alexandre e outros heróis (1962), Infância (1945).

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Leia: Aqui, registramos apenas um trecho do primeiro capítulo (Mudança) e um
trecho do último capítulo (Fuga), do livro Vidas Secas (visite o site: http://
www.geocities.com/gracilianoramos/bio.htm) só para você sentir um pouco da vida
do outro e, evidentemente, refletir sobre a sua. Aproveite!

Mudança
“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os
infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos.
Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do
rio seco, a viagem progredira bem três léguas.

Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu
longe, através dos galos pelados da catinga rala. Arrastaram-se para lê, devagar, sinhá
Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça,
Fabiano sombrio,cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao
cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra
Baleia atrás.”E agora, esta outra.

Fuga
“Pouco a pouco uma vida nova, ainda confusa, se foi esboçando. Acomodar-se-
iam num sítio pequeno, o que parecia difícil a Fabiano, criado solto no mato.
Cultivariam um pedaço de terra.

Mudar-se-iam depois para uma cidade, e os meninos freqüentariam escolas,


seriam diferentes deles.(...)As palavras de sinha Vitória encantavam-no.

Iriam para adiante, alcançariam uma terra desconhecida. Fabiano estava


contente e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela era e nem onde era.
Repetia docilmente as palavras de sinhá Vitória, as palavras que sinhá Vitória
murmurava porque tinha confiança nele.

E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de
pessoas fortes. Os meninos em escolas, aprendendo coisas difíceis e necessárias. Eles
dois velhinhos, acabando-se como uns cachorros, inúteis, acabando-se como Baleia.

Que iriam fazer? Retardaram-se temerosos. Chegariam a uma terra


desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente
para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano,
sinhá Vitória e os dois meninos.”

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2a. Atividade em aula
Agora, compare o texto literário de Graciliano, que você acabou de ler com a
tela Os Retirantes, de Portinari. (1944).

Retirantes, Série Retirantes


Os retirantes nordestinos, os trabalhadores rurais de membros deformados, os tons
de marrom e os de roxo dos campos cultivados, expressam a força da terra.

1944 Painel a óleo/tela


190 x 180cm
Petrópolis, RJ
Assinada e datada no canto inferior direito “PORTINARI 944”
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo,SP

Aprecie outras obras famosas de Cãndido Portinari:

Retrato de Euclides da Cunha [1944]


Desenho a nanquim bico-de-pena e nanquim pincel/papel16 x 13cm
Rio de Janeiro, RJ
Assinada na metade inferior direita “Portinari”. Sem data
Coleção particular, São Paulo,SP

Observação: Original para ilustração, reproduzido à página 19, do livro “Perfil de


Euclydes e Outros Perfis”, de Gilberto Freyre.

Retrato de Carlos Gomes - primeiro desenho de Portinari, datado de 1914

1914 Desenho a carvão/papel


43 x 42cm Brodowski, SP

Assinada e datada na metade inferior direita “Candido Portinari 1914”


Inscrições na metade superior direita “LO SCHIAVO”, “SALVADOR ROSA”,
“MARIA TUDOR”; na metade inferior esquerda “TOSCA”, “COLOMBO”,
“CONDOR”, “GUARANY” e no centro da metade inferior “Carlos Gomes nascido
17 julho de 1836 e fallecido 16 setembro de 1896”.
Coleção particular, Rio de Janeiro,RJ

(Brodósqui, SP, 1903 - Rio de Janeiro, RJ, 1962)


Viaje no site : www.culturabrasil.pro.br/portinari.htm

18
2a. Atividade em aula
Escreva:
O que acontece quando lemos um livro de literatura ou quando lemos um
quadro? Quantas são as impressões e sensações que nos despertam?

Registre seus comentários relativos à comparação dos dois textos e das


duas linguagens.

É fato que nossa sensação primeira é de estarmos nos desprendendo e nos


afastando da vida cotidiana, do mundo de nosso fazer prático. É como se uma
consciência imaginante nos libertasse e nos recriasse em um outro mundo: o mundo
do outro. Você sente isso também?

Ao lermos, tanto o livro Vidas Secas quanto o quadro Os Retirantes, nós nos
enveredamos para o sertão nordestino, e de repente compartilhamos da árdua
peregrinação daqueles que nada possuem. Nossa vida mistura-se com a vida de
Fabiano, de sinha Vitória, dos dois meninos, de Baleia, e, por vivenciarmos essa
realidade recriada no plano da imaginação, passamos, muitas vezes, a lutar, no plano
da realidade, pela dignidade da vida humana.

Enfim, o conhecimento que nos é oferecido pela arte literária e pela arte pictórica
apresenta-nos a realidade sob aspectos originais, revitaliza-nos a sensibilidade, pois
passamos a viver a experiência do outro, a ser quem não somos, ou até mesmo,
passamos a conhecer o obscuro de nós mesmos, o nosso lado miserável.

O próprio Graciliano afirma: “As nossas personagens são pedaços de nós


mesmos, só podemos expor o que somos.”

Percebemos, com isso, que a vivência inusitada proporcionada pelas artes


oferece-nos a possibilidade de transformação.

Logo, ler é transformar.

Viaje um pouco com Alberto Caeiro. Se quiser mais, entre no site:


http://www.secrel.com.br/jpoesia/fp207.html

19
O Meu Olhar (Alberto Caeiro)
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Ouça, agora, a música de Caetano Veloso, Os Argonautas.

Trata-se de um dos mais belos poemas da canção popular brasileira – um fado


brasileiro - inspirado em Fernando Pessoa, para uma época de repressão com
tendência à abertura política.

Viaje no Site http://www.mpbnet.com.br/musicos/caetano.veloso/

20
Saiba mais - Caetano Veloso
Nascido em Santo Amaro da Purificação, BA, em 07 de agosto de 1942, é um
célebre inventor da arte musical brasileira, retirando sons, gestos e palavras do mais
árido território, capaz de traduzir o concreto, a dor, um jeito, uma paisagem ou
pessoa na mais variada e sutil percepção da existência.
Revolucionário em sua poesia, o compositor nos presenteia com fraseados sonoros
que mobilizam nossa alma, mostrando-nos a importância não somente de estarmos
vivos como também de lutarmos. Caetano renova a linguagem artística, poetizando
sons de timbres desconexos, afirmando sua capacidade de mostrar as possibilidades
da música de provocar a fruição estética.

Saiba mais - Fernando Pessoa


Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935 ) é considerado um dos maiores
poetas portugueses. Nasceu em Lisboa, esforçou-se por renovar a Literatura
Portuguesa com criação da revista Orpheu, veículo de novas idéias e novas estéticas.
Criou vários heterônimos (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis,
Bernardo Soares, etc.), assinando as suas obras de acordo com a personalidade de
cada um. O poeta modernista faleceu prematuramente em 1935, deixando grande
parte da sua obra ainda inédita.

Leia a letra da música.

Os Argonautas - Caetano Veloso


O barco, meu coração não agüenta tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta o dia, o marco, meu coração o porto, não
Navegar é preciso, viver não é preciso
Navegar é preciso, viver não é preciso
O barco, noite no teu tão bonito
Sorriso solto, perdido
Horizonte madrugada o riso, o arco da madrugada, o porto, nada
Navegar é preciso, viver não é preciso
Navegar é preciso, viver não é preciso
O barco o automóvel brilhante o trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento o porto, silêncio
Navegar é preciso, viver não é preciso...

21
3a. Atividade em aula
O que você imaginou quando leu/ouviu a letra/música?
Registre suas impressões, seus sentimentos, lembranças.

A música, assim como a literatura e a pintura, são textos, de um modo geral


mais polissêmicos e polifônicos do que os textos de outras áreas de conhecimento.
Polissêmicos, porque são abertos a muitas leituras, de acordo com o repertório-vida
do leitor. Polifônicos, porque a voz do autor carrega vozes de outros autores, da
sociedade, da história.

Um leitor competente busca nas entrelinhas, ouve e reconhece antigos textos,


atribui novos sentidos, conhece novos sistemas de referência do mundo, percebe-se
como sujeito capaz de transformar a realidade, participando dela de forma mais crítica.

A música de Caetano que você ouviu e leu põe em diálogo muitas vozes: a do
próprio compositor, a dos antigos navegadores, a do poeta modernista português,
Fernando Pessoa, realizando o que conhecemos como intertextualidade.

Saiba mais - Intertextualidade


A noção de intertextualidade foi introduzida na Teoria Literária por Julia Kristeva, em
1966, por influência da noção de dialogicidade que M. Bakhtin havia desenvolvido no
seu livro Estética da Palavra.

O importante na concepção da literatura como intertextualidade é o questionamento


das visões tradicionais de obra e de autor:

1) critica-se a visão de obra literária como uma obra que seria absolutamente original,
encerrada nela mesma; e
2) portanto opõe-se também ao culto do poeta-gênio. Poeta é alguém que apresenta
uma versão mais criativa das potencialidades literárias da língua e da cultura.

Essa concepção de intertextualidade já estava presente dentro da visão tradicional de


literatura, mas é na pós-modernidade que ganha impulso principalmente com os
novos fenômenos textuais “multimidiáticos”, tais como o hipertexto e a Internet.

Para Lucrécia Ferrara, “intertexto é o diálogo que se produz entre o dentro e o


fora, o interno e o externo, entre um texto e outro texto, entre um segundo e um
primeiro, entre o presente e passado”

(FERRARA, L. D’Aléssio. A estratégia dos signos. 2. ed. São Paulo, Perspectiva,


1986. p. 93).

22
Outros exemplos de intertextualidade

Canção do exílio
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!

Ver “Canção do exílio” de Gonçalves Dias


De Poemas (1925-1931)

Canção do exílio
Minha terra tem palmeiras, Minha terra tem primores,
Onde canta o Sabiá; Que tais não encontro eu cá;
As aves, que aqui gorjeiam, Em cismar –sozinho, à noite–
Não gorjeiam como lá. Mais prazer eu encontro lá;
Nosso céu tem mais estrelas, Minha terra tem palmeiras,
Nossas várzeas têm mais flores, Onde canta o Sabiá.
Nossos bosques têm mais vida, Não permita Deus que eu morra,
Nossa vida mais amores. Sem que eu volte para lá;
Em cismar, sozinho, à noite, Sem que disfrute os primores
Mais prazer eu encontro lá; Que não encontro por cá;
Minha terra tem palmeiras, Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

De Primeiros cantos (1847)

23
Ao ler a composição musical, você se lembrou de fatos, acionou conhecimentos
prévios, tais como idéias, hipóteses, visão de mundo e linguagem sobre o assunto, você,
evidentemente, dialogou com a voz de Caetano, com as outras vozes ali presentes - se
elas fazem parte de seu repertório cultural - e com suas próprias vozes internas, na
tentativa de concordar, discordar, criticar ou aprovar as idéias enunciadas no texto.

Ler com competência pressupõe, então, ter conhecimentos prévios – e isso só


se adquire com textos-vida e com textos-lidos, conhecer a língua e ter objetivo
(informação, diversão, estudo etc.).

Saiba mais
Visite o site: www.iel.unicamp.br/memoria.
Procure Márcia Abreu em Diferentes formas de Ler.
Clique em estudos e depois ensaios.
Vale a pena a leitura.

Alguém já lhe falou que é necessário desenvolver o hábito da leitura? Essa idéia é
muito comum e um tanto perigosa. Sabe por quê?

Não se deve desenvolver hábito de leitura, pois hábito é algo que se faz
mecanicamente. Deve-se, sim, desenvolver, ou melhor, despertar o Desejo de Leitura.

Ler não é hábito, Ler é Desejo

Saiba mais
- www.virtualbooks.terra.com.br
- www.bibvir.futuro.usp.br/index.php
- www.ominis.if.ufrj.br/~coelho/livros.html
- http://cultvox.locaweb.com.br/
login.asp?Pagina=%2Fgratis%5Ffilosofia%5Fpolitica%2Easp
- http://www.ig.com.br/paginas/novoigler/download.html

24
Síntese da aula de hoje
Você aprendeu, nesta aula, alguns conceitos, como o de leitura, leitura de
mundo, intertextualidade. Aprendeu, também, a diferença entre ser alfabetizado e
ser letrado bem como a importância da leitura de diferentes textos e linguagens para
ampliar sua visão de mundo.

Você também desenvolveu várias habilidades, como ler, compreender,


interpretar, comparar, comentar diferentes tipos de textos, o que lhe permitiu refletir
sobre a leitura e valorizá-la como instrumento para construção da própria cidadania.

Próxima aula
Enfim, chegamos no final desta travessia...
Na próxima aula, trataremos de comunicação e linguagem, linguagem verbal e
não verbal, diferenças entre língua oral e língua escrita.
Você acha fácil se comunicar?

Até a próxima.

25
Aula 03 - Comunicação e Linguagem
Durante esta aula, você será capaz de compreender o conceito de comunicação
como necessidade humana e refletirá sobre seu uso na sociedade contemporânea.

Será muito divertida nossa trajetória, desta vez, pelos diferentes textos,
tramados pelas diversas linguagens: sonora, escrita, visual, ou seja, da música, do
livro, do cinema, entre outras.

Só para você despertar para o contexto, imagine que o dia está amanhecendo.
Leia atentamente o poema.

Tecendo a manhã
Um galo sozinho não tece uma manhã;
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,


e erguendo em tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

(João Cabral de Melo Neto)

Saiba mais -João Cabral de Melo Neto


João Cabral de Melo Neto – é conhecido como poeta – engenheiro, ou poeta-
arquiteto. Participa da terceira fase do Modernismo, em que o trabalho de
transpiração sobre a linguagem poética é bastante intenso. Nasceu em Recife a 9 de
janeiro de 1920.

Sua obra mais famosa é Morte e Vida Severina.

26
Navegue e descubra mais coisas - link: www.virtualbooks.terra.com.br

- Pedra do sono. Recife: Edição do autor, 1942 (tiragem especial em papel Drexler).
- Os três mal-amados. Rio de Janeiro: Revista do Brasil, 1943.
- O engenheiro. Rio de Janeiro: Amigos da Poesia, 1945.
- Psicologia da composição com a fábula de Anfion e Antiode. Barcelona: O livro
inconsútil, 1947.
- O cão sem plumas. Barcelona: 0 livro inconsútil, 1950. 2a. ed. Rio de Janeiro:
Editora Nova Fronteira, 1984 (com Fotografias de Maureen Bisilliat).
- O rio ou Relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife.
São Paulo: Edição da Comissão do IV Centenário de São Paulo, 1954.
- Dois parlamentos. Madri: Edição do autor, 1960.
- Quaderna. Lisboa: Guimarães Editores, 1960.
- A educação pela pedra. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1966.
- Museu de tudo. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1975.
- A escola das facas. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1980.
- Auto do frade. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1984; 2a. edição, Rio de
Janeiro: Editora Nova Fronteira 1984 (da 2a. edição foi feita uma tiragem de 100
exemplares em papel vergê).
- Agrestes. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985 (tiragem especial em papel
vergê).
- Crime na Calle Relator. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1987.
- Primeiros poemas. Rio de Janeiro: Edição da Faculdade de Letras da UFRJ, 1990.
- Sevilha andando. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1990.
- Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Edição de Orfeu, 1954.
- Duas águas. Rio de Janeiro: Editora José Olympio. 1956 (tiragem especial em papel
Westerprin).
- Terceira feira. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1961.
- Poesias completas. Rio de Janeiro: Editora Sabiá, 1968; 4a. edição, Rio de Janeiro:
Editora José Olympio, 1986.
- Poesia completa. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1986.
- Museu de tudo e depois (Poesia Completa II). Rio de Janeiro: Editora Nova
Fronteira, 1988.Antologias

Antologias
- Poemas escolhidos. Seleção de Alexandre O’Neil. Lisboa: Portugália Editora, 1963.
- Antologia poética. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1965; 8a. edição, Rio de
Janeiro: Editora José Olympio, 1991.
- Morte e vida severina. São Paulo: Teatro da Universidade Católica, 1965.

27
Sabemos, leitor, que o homem não vive sozinho. Ele é ser gregário, sempre
precisa do outro, para a aprender a ser gente, para se reconhecer como humano,
para transformar-se, para modificar o que não está coerente no mundo.

Você percebe, no poema de João Cabral de Melo Neto, que o galo constitui
uma metáfora do homem.

Assim, como um galo, com seu cantar, acorda o outro galo no despertar da
manhã,os homens necessitam uns dos outros para tecerem o amanhã.

Tecer é uma palavra-chave para interpretar este poema, pois, na estrutura


rítmica do texto, observa-se o movimento do tear.

O conceito de metáfora pode também ser percebido e entendido por meio


da obra de arte. Pesquise Marcel Duchamp, obra Chafariz em www.artchive.com
Busque também os verbetes poesia e Duchamp na enciclopédia virtual
www.wikipedia.com

Divirta-se
Veja o filme O carteiro e o Poeta.

Saiba mais - Metáfora


Metáfora – figura de linguagem que se caracteriza por ser uma comparação implícita,
subjetiva, portanto dispensa o uso de elementos de ligação, as conjunções comparativas.

A linguagem figurada é a linguagem conotativa, aquela que tem como causa a imaginação,
o intelecto e a paixão. As palavras assumem um sentido figurado quando a intenção é
expressar sentimentos e idéias em forma de imagens concretas, abstratas ou afetivas.

Pode ocorrer a linguagem figurada tanto na linguagem comum quanto na linguagem literária.

As figuras de linguagem nascem da necessidade expressiva e de nossa incapacidade de


lidarmos com o abstrato fora do contato com a realidade concreta.

28
1a. Atividade em aula
Agora, pense e escreva: o que o texto de João Cabral tem a ver com a idéia de
comunicação e linguagem?

Para auxiliar sua reflexão, assista a um trecho do filme Náufrago, dirigido


por Zemeckis.

Pesquise em www.artchive.com o quadro Guernica de Picasso e em


www.wikpedia.com o verbete sobre o autor.

Etimologicamente, comunicação provém do verbo communicare, em latim, que


se traduz como pôr em comum. Para nos humanizarmos, necessitamos compartilhar
pensamentos, sentimentos, desejos, idéias, regras sociais, entre outros.

Para refletir sobre essa idéia, leia a história das meninas-lobo:

“Na Índia, onde os casos de meninos-lobo foram relativamente numerosos,


descobriram-se, em 1920, duas crianças, Amala e Kamala, vivendo no meio de uma
família de lobos.

A primeira tinha um ano e meio e veio a morrer um ano mais tarde. Kamala, de
oito anos de idade, viveu até 1929. não tinham nada de humano e seu
comportamento era exatamente semelhante àquele de seus irmãos lobos.

Elas caminhavam de quatro patas, apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos para


os pequenos trajetos e sobre as mãos e os pés para os trajetos longos e rápidos.

Eram incapazes de permanecer de pé. Só se alimentavam de carne crua ou


podre, comiam e bebiam como os animais, lançando a cabeça para frente e
lambendo os líquidos. Na instituição onde foram recolhidas, passavam o dia
acabrunhadas e prostradas numa sombra; eram ativas e ruidosas durante a noite,
procurando fugir e uivando como lobos. Nunca choraram ou riram.

Kamala viveu durante oito anos na instituição que a acolheu, humanizando-se


lentamente. Ela necessitou de seis anos para aprender a andar e pouco antes de morrer
só tinha um vocabulário de 50 palavras. Atitudes afetivas foram aparecendo aos poucos.

Ela chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou
lentamente às pessoas que cuidaram dela e às outras crianças com as quais conviveu.

29
A sua inteligência permitiu-lhe comunicar-se com outros por gestos,
inicialmente, e depois por palavras de um vocabulário rudimentar, aprendendo a
executar ordens simples.

(REYMOND, B. Le développement social de l’enfant et de l’adolescent. Bruxelas:


Dessart, 1965, p.12-14, apud CAPALBO, C. Fenomenologia e ciências humanas. Rio
de Janeiro: J. Ozon., p.25-26.)

Saiba mais - Divirta-se: sugestões de filmes


Há outros filmes que mostram essa idéia da necessidade humana de se comunicar
para que ocorra o processo de humanização: O enigma de Kasper Hauser, Nell,
Guerra do Fogo.

Que tal se divertir um pouco nos finais de semana?!


- O enigma de Kasper Hauser
- Guerra de Fogo

Para pensar - Tarzan


Ficha técnica

Título Original: Tarzan


Gênero: Animação
Tempo de Duração: 88 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1999
Site Oficial: http://disney.go.com/DisneyPictures/tarzan/index.html
Estúdio: Walt Disney Pictures / Edgar Rice Burroughs Inc.
Distribuição: Walt Disney Pictures / Buena Vista Pictures
Direção: Chris Buck e Kevin Lima
Roteiro: Tab Murphy, Bob Tzudiker e Noni White, baseado em livro de Edgar Rice
Burroughs
Produção: Bonnie Arnold
Música: Mark Mancina
Direção de Arte: Dan St. Pierre
Edição: Gregory Perler

O que é mais factível: a história real das crianças indianas ou a ficção de Tarzan?. A
linguagem somente pode ser adquirida sob condições sócio-culturais específicas ou
ela é inata a todos nós com “prova” Tarzan?

REYMOND, B. apud CAPALBO, C. Fenomenologia e Ciências Humanas. Rio.

30
A comunicação nasce para enredar os homens, para livrá-los da solidão
involuntária, para favorecer o processo de conhecimento de si, do outro e do mundo.
Entretanto, será que podemos chamar de progresso a esse processo que vem nos
assolando, sobretudo com o que tem sido feito das novas descobertas tecnológicas, dos
meios de comunicação atuais? Ouça a música dos Titãs e pense sobre isso.

Homem primata
Desde os primórdios
Até hoje em dia
O homem ainda faz Homem primata
o que o macaco fazia Capitalismo Selvagem
eu não trabalhava, eu não sabia Ôô ô
que o homem criava e também destruía
Eu me perdi na selva de pedra
Homem primata Eu me perdi, eu me perdi
Capitalismo Selvagem
“I’m a cave man
Ôô ô a young man

Eu aprendi I fight with my hands


a vida é um jogo (with my hands)
cada um por si
e Deus contra todos I am a jungle man,
você vai morrer, a monkey man
e não vai pro céu Concrete jungle!
é bom aprender, Concrete jungle!!
a vida é cruel

Saiba mais - Titãs


Titãs - Os Titãs fizeram parte da geração 80 do rock nacional e ao contrário da
grande maioria dos seus contemporâneos, mantêm-se atuais e atuantes.

Com letras pouco comuns, irônicas e de um protesto implícito contra as convenções


da sociedade, em Cabeça Dinossauro, a banda encontra o seu estilo mais primitivo,
associando guitarras distorcidas, beats tribais e eletrônicos além das letras que
entrariam para a história da música nacional.

31
Formação atual:
• Paulo Miklos - Vocal, sax
• Branco Mello - Vocal
• Sérgio Britto - Vocal, teclados
• Marcelo Fromer - Guitarra
• Toni Belloto - Guitarra
• Nando Reis - Baixo, vocal
• Charles Gavin – Bateria

Também fizeram parte dos Titãs:


• Arnaldo Antunes - Vocal, desde o àlbum Titãs até Tudo ao mesmo tempo agora.
Segue carreira solo.
• André Jung - Bateria, no álbum Titãs

Discografia:
• Titãs (1984)
• Televisão (1985)
• Cabeça Dinossauro (1986)
• Jesus não tem dentes no país dos banguelas (1987)
• Go Back (1988)
• Õ Blésq Blom (1989)
• Tudo ao mesmo tempo agora (1992)
• Titanomaquia (1993)
• Titãs 84-94 (1994)
• Domingo (1995)

É fato que tanto a ciência quanto a tecnologia surgiram para servir o homem.
Há, no fundo de cada invenção humana, um desejo.

Provavelmente, no fundo das descobertas realizadas na área das novas


tecnologias, uma vontade humana de criar uma comunidade mundial, capaz de trazer
o diálogo, capaz de proporcionar ao homem o seu entendimento com os outros
homens. Todavia, parece que estamos passando ao largo dessa vontade humana.

Leia um trecho do livro de Milton Santos sobre a globalização. Segundo o


autor, presenciamos, hoje, a época da tirania da informação e da tirania do dinheiro.
Portanto, vivenciamos uma globalização perversa : o globaritarismo.

32
Os papéis dominantes, legitimados pela ideologia e pela prática da
competitividade, são a mentira, com o nome de segredo da marca; o engodo, com o
nome de marketing; a dissimulação e o cinismo, com os nomes de tática e estratégia. É
uma situação na qual se produz a glorificação da esperteza, negando a sinceridade, e a
glorificação da avareza, negando a generosidade. Desse modo, o caminho fica aberto
ao abandono das solidariedades e ao fim da ética, mas também, da política. Para o
triunfo das novas virtudes pragmáticas, o ideal de democracia plena é substituído pela
construção de uma democracia de mercado, na qual a distribuição do poder é tributária
da realização dos fins últimos do próprio sistema globalitário. Estas são as razões pela
quais a vida normal de todos os dias está sujeita a uma violência estrutural que, aliás, é
a mãe de todas as outras violências. (SANTOS, 2001: 61)
Veja este link www.espacoacademico.com.br.

Saiba mais - Milton Santos


Milton Santos – Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia,
em 1926. Os pais, professores primários, alfabetizaram-no em casa. Aos 8 anos, já
havia concluído o equivalente ao curso primário. Neto de escravos por parte de pai,
foi incentivado a estudar sempre e muito.
Milton Santos escreveu mais de quarenta livros em diversas línguas, sua obra é uma
referência para todos os que pretendem compreender de maneira crítica o mundo
atual. Um pensador otimista, antes de mais nada, que conseguiu distinguir o novo da
novidade, conceitos que ele diferenciava radicalmente. Um geógrafo sério e
combativo, não poupou ninguém de suas severas críticas.

Saiba mais - Sobre pontos positivos da globalização:


http://www.espacoacademico.com.br/037/37pra.htm

Compreendemos que a comunicação, por meio da linguagem, é responsável


pela transmissão das idéias, pensamentos, valores, de geração a geração, ou seja, a
comunicação é responsável pela cultura.

Saiba mais - Cultura


Cultura é conceito de múltiplas definições. A cultura pode ser aqui entendida como o
modo pelo qual os indivíduos ou comunidades respondem às suas necessidades e
desejos simbólicos.

Assim, a cultura, em sentido amplo, engloba a língua que falamos, crenças, costumes,
códigos, instituições, ferramentas, arte, religião, ciência, enfim, toda as esferas da
atividade humana.

33
Todas as atividades básicas, como reprodução e alimentação, são realizadas de
acordo com regras, usos e costumes de cada cultura particular.

Os rituais de namoro e casamento, os usos referentes à alimentação (o que se come,


como se come), o preparo dos alimentos, o tipo de roupa que vestimos, as palavras
de nosso vocabulário, tudo isso é convencionado pela cultura à qual pertencemos.

A cultura torna a vida segura e contínua, confere coesão para as pessoas.

Pesquise exemplos de hábitos de culinária, vestimenta, de comportamentos de outras


culturas.

2a. Atividade em aula


Você já reparou como é difícil estabelecer a comunicação até nas mais simples
situações da vida cotidiana? Você já vivenciou problemas de comunicação?
(Escreva sua opinião. Registre alguma experiência sua que constate essa idéia).

Para aprofundar sua reflexão, leia, agora, dois textos, um verbal e outro não
verbal - que mostram, de uma maneira bastante lúdica, essa terrível dificuldade
humana de se comunicar.

Cometa Halley
De: Diretor Presidente
Para: Gerente
Na próxima sexta-feira, aproximadamente às 17 horas, o Cometa Halley estará
nesta área. Trata-se de um evento que ocorre somente a cada 78 anos. Assim,por
favor, reúnam os funcionários no pátio da fábrica, todos usando capacete de
segurança, quando explicarei o fenômeno a eles. Se estiver chovendo não poderemos
ver o raro espetáculo a olho nu, sendo assim todos deverão se dirigir ao refeitório
onde será exibido um filme documentário sobre o Cometa Halley”.

De: Gerente
Para: Supervisor
Por ordem do Diretor Presidente, na sexta-feira às 17 horas, o Cometa Halley
vai aparecer sobre a fábrica, se chover,por favor, reúna os funcionários, todos de
capacete de segurança e os encaminhe ao refeitório,onde o raro fenômeno terá lugar,
o que acontece a cada 78 anos a olho nu”.

34
De: Supervisor Para:
Chefe de Segurança
A convite de nosso querido Diretor, o cientista Halley, 78 anos, vai aparecer nu no
refeitório da fábrica, usando capacete, pois será apresentado um filme sobre o problema
da chuva na segurança. O Diretor levará a demonstração para o pátio da fábrica”.

De: Chefe de Segurança


Para: Mestre
Na sexta-feira, às 17 horas, o Diretor, pela primeira vez em 78 anos, vai
aparecer no refeitório da fábrica, para filmar o Halley nu, o cientista famoso e sua
equipe, todo mundo deve estar lá e de capacete, pois vai ser apresentado um show
sobre a segurança na chuva. O Diretor levará a banda para o pátio da fábrica”.

De: Mestre
Para: Funcionário
Todo mundo nu, sem exceção, deve estar com segurança no pátio da fábrica na
próxima sexta-feira às 17 horas, pois o manda chuva (Diretor), e o Sr.Halley,
Guitarrista famoso, estarão lá para mostrar o raro filme “Dançando na Chuva”. Caso
comece a chover mesmo, é para ir para o refeitório de capacete na mesma hora. O
show será lá. O que ocorre a cada 78 anos”.

Aviso para todos


Na sexta-feira, o chefe da diretoria vai fazer 78 anos e liberou geral para a festa
às 17 horas no refeitório. Vai estar lá, pago pelo manda-chuva,Bill Halley e seus
Cometas. Todo mundo deve estar nu e de capacete, porque a banda é muito louca e
o rock vai rolar solto no pátio, mesmo com chuva”.

Há vários elementos que envolvem a comunicação:


Emissor: é quem transmite a mensagem.
Receptor: é quem recebe a mensagem.
Canal: é o contato ou meio físico, o veículo pelo qual a mensagem é levada do
emissor ao receptor.
Código: é o conjunto de signos e suas regras de combinação.
Referente: é o assunto da comunicação, o conteúdo da mensagem.
Mensagem: é tudo que o emissor transmite ao receptor, é o objeto da
comunicação. A comunicação realiza-se quando os elementos funcionam
adequadamente.

35
O homem dispõe dos mais variados sistemas de comunicação, por isso é
considerado um animal comunicativo por excelência. Entretanto, é necessário
reconhecer que os animais também possuem comunicação.

As abelhas, por exemplo, comunicam-se por meio da dança para apontar onde
está o alimento e a que distância. Os símios possuem 15 a 20 gritos diferentes de
alarme, comando e inquietação, enquanto os chimpanzés têm 32.

As borboletas atraem o macho pelos odores emitidos. Entre os gafanhotos, a


fêmea é atraída pelos odores do macho.

Aliás, segundo as novas pesquisas, nós dividimos o planeta com vários outros
animais pensantes.

Saiba mais - Pesquise Zoológico de Gênios


Pesquise a matéria que saiu na Revista Superinteressnate, com o título “Zoológico de
gênios”, de janeiro de 2000.

Sabemos que não é possível comunicação sem linguagem, sem um sistema de


símbolos, sem uma língua, sem um dialeto falado ou escrito, sem gestos, expressões
faciais, corporais etc.

No contexto comunicacional, a linguagem verbal é aquela que se faz por meio


do verbo, da palavra e pode ser falada ou escrita. Já a linguagem não verbal é a
que se faz sem verbo, sem palavra, portanto ocorre por meio de gestos, sons, cores,
formas, expressões corporais etc.

Pesquisas apontam que a eficácia da comunicação é maior com a linguagem não


verbal. É muito interessante aprender detalhes dessa comunicação não verbal, por meio
da surpreendente leitura do livro: O corpo fala, de Pierre Weil e Roland Tompakow.

Saiba mais - O corpo fala, de Pierre Well e Roland Tompakow


O livro busca desvendar a comunicação não-verbal do corpo humano. Analisa, em
primeiro lugar, os princípios subterrâneos que regem e conduzem o corpo.
Apresenta a possível significação de alguns gestos e posturas que as pessoas, em
geral, apresentam nas várias situações de comunicação, tanto em encontros
amorosos, quanto em reuniões empresariais, enfim na vida pessoal e profissional.

36
A questão é que nem sempre o significado das expressões é universal. Por exemplo,
balançar a cabeça, na maior parte dos países do Ocidente, significa não, mas, na
Grécia, Bulgária, Turquia, Irã significa sim. O sinal de OK, nos EUA, significa que algo
está ótimo; no Brasil, Rússia e Turquia, é sinal obsceno; no Japão, significa dinheiro,
moeda; na Turquia, homossexualidade.
Mas não deixe de conhecer esse livro que poderá ajudá-lo tanto na vida pessoal
quanto na vida profissional.

Vamos, agora, compreender um pouco da linguagem verbal?


Qualquer tipo de linguagem desenvolve-se por meio de um código de
comunicação. No caso da linguagem verbal, o código é a língua. A título de
diferenciação, a linguagem tem caráter universal, a língua tem caráter particular. No
nosso caso, a língua é portuguesa.
No processo de comunicação verbal, há a linguagem oral e a linguagem escrita.
A língua é a mesma, mas a forma de expressá-la difere.
A língua falada pressupõe contato direto com o falante, o que a torna mais
concreta, mais espontânea, sem preocupação gramatical. O vocabulário é mais
restrito e está em constante renovação.
A língua escrita pressupõe contato indireto, o que a torna mais abstrata, mais
refletida, exige esforço de elaboração e obediência às regras gramaticais, vocabulário
apurado. Há preocupação com regência, colocação, clareza das construções
sintáticas.
Originalmente, só havia língua falada. Primeiro, surgiram as vogais; depois, as
consoantes. A escrita apareceu depois em estágios avançados da civilização e, com o
tempo, ganhou prestígio.

Língua
Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódia
E um profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E quem há de negar que esta lhe é superior

37
E deixa os portugais morrerem à míngua
Minha pátria é minha língua
Fala Mangueira
Fala!

Flor do Lácio Sambódromo


Lusamérica latim em pó
O que quer
o que pode
Esta língua

Vamos atentar para a sintaxe paulista


E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Cadê? Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Hollanda resgate
E Xeque-mate, explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Sejamos o lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisa como rã e ímã...
Nomes de nomes como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé, Maria da Fé
Arrigo Barnabé

Incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o recôncavo, e o recôncavo, e o recôncavo

38
Meu medo!
A língua é minha Pátria
E eu não tenho Pátria: tenho mátria
Eu quero frátria

Poesia concreta e prosa caótica


Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
Será que ele está no Pão de Açúcar
Tá craude brô, você e tu lhe amo
Qué que’u faço, nego?
Bote ligeiro
Nós canto falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem,que flem.

Saiba mais - Caetano Veloso


Caetano Veloso - nasceu em Santo Amaro da Purificação, BA, em 07 de agosto de
1942, é um célebre inventor da arte musical brasileira, retirando sons, gestos e
palavras do mais árido território, capaz de traduzir o concreto, a dor, um jeito, uma
paisagem ou pessoa na mais variada e sutil percepção da existência.
Revolucionário em sua poesia, o compositor nos presenteia com fraseados sonoros
que mobilizam nossa alma, mostrando-nos a importância não somente de estarmos
vivos como também de que lutarmos pela vida. Caetano renova a linguagem artística,
poetizando sons de timbres desconexos, afirmando sua capacidade de mostrar as
possibilidades da música de provocar a fruição estética.

Viaje no site:
http://www.mpbnet.com.br/musicos/caetano.veloso/

Saiba mais - Link


http://www.ideogramas.hpg.ig.com.br

Leia mais: Fernando Pessoa - Mensagem

39
Para Saussure (1977), a língua é um sistema de signos, um conjunto de
potencialidades e de virtualidades dos atos da fala. A fala, ou discurso,constitui ato de
vontade e inteligência, no qual se distinguem as combinações pelas quais o falante
realiza o código da língua com o objetivo de exprimir seu pensamento pessoal.

Câmara Júnior (1977,p.159) define a linguagem como a “faculdade que tem o


homem de exprimir seus estados mentais por meio de um sistema de sons vocais
chamado língua, que os organiza numa representação compreensiva em face do
mundo exterior objetivo e do mundo subjetivo interior”.

Para o autor, “a língua fica sendo, como unidade, uma estrutura ideal, que
apresenta em si os traços básicos comuns a todas as suas variedades. É a invariante
abstrata e virtual, sobreposta a um mosaico de variantes concretas atuais”.

Concluímos, assim, que existe a Língua Portuguesa, como sistema lingüístico, e


também suas variantes: o português de Portugal, da África, do Brasil. Dentro do
Brasil, há as variantes determinadas por fatores geográficos, sociais, situacionais,
profissionais etc. – assunto que abordaremos na próxima aula.

Saiba mais - Ferdinand Saussure


Ferdinand Saussure nascido em Genebra, Suíça, em 1857, foi um dos mais engajados
lingüistas de nossa história.

Estudou em Leipzig, Alemanha,escola onde os chamados “novos gramáticos”


estavam renovando os métodos da gramática comparada.

Saussure dedicou sua vida ao estudo e o ensino do sânscrito (antiga língua sagrada e
literária da Índia, pertencente ao grupo Indo-Europeu), gramática comparada e, nos
últimos anos de sua vida, lingüística geral.

Saiba mais - Câmara Júnior


Câmara Júnior (1977,p.159) define a linguagem como a “faculdade que tem o
homem de exprimir seus estados mentais por meio de um sistema de sons vocais
chamado língua, que os organiza numa representação compreensiva em face do
mundo exterior objetivo e do mundo subjetivo interior”.
Joaquim Mattoso Câmara Jr. foi pioneiro da lingüística e do estruturalismo no país.

Teve importante papel nos estudos de lingüística geral e da história dessa ciência.
Instaurou no Brasil o estruturalismo, doutrina que marcou as ciências humanas a partir da
década de 1960 e que se propunha a compreender uma totalidade (no caso, a língua)
como estrutura definida pela relação funcional entre seus elementos constituintes.

40
Publicou o primeiro compêndio de lingüística da língua portuguesa nos anos 1940.
Em uma época em que o português de Portugal orientava os estudos lingüísticos, ele
sistematizou a língua falada no Brasil.

Fundou o primeiro programa de pós-graduação em lingüística do país e criou o primeiro


curso de línguas indígenas no Rio de Janeiro -onde nascera a 13 de abril de 1904.
http://www2.uol.com.br/cienciahoje/perfis/mattoso/mattoso1.htm

3a. Atividade em aula


Pense no seguinte: como seria sua vida sem a linguagem?

Após a leitura atenta e a interpretação dos textos anteriores, você deve refletir e
escrever. Escrever é uma maneira de se posicionar no mundo, de assumir um compromisso
consigo mesmo acerca do que pensa, do que sente, do que acredita, do que faz.

Agora, é o seu momento de expressão.


Escreva um texto que expresse suas idéias sobre a comunicação e linguagem
ou sobre a ausência delas.

Síntese da aula de hoje


Nesta aula, você reelaborou seu conceito de comunicação e linguagem.

Isso só foi possível por meio da leitura, dos diversos textos, das múltiplas
linguagens (verbais e não verbais), que se entrecruzaram em seu pensar e lhe
permitiram ressignificar seu conhecimento e agregar fios ao seu tecido cultural.

Próxima aula
No próximo encontro, que tal mergulharmos um pouco mais na nossa cultura
para percebermos as diferentes formas de nos comunicarmos?

Nosso próximo assunto são as diferentes variações da Língua Portuguesa. Como


fala o mineiro? Como se expressa o paulista?

Até a próxima.

41
Aula 04 - Variações Lingüísticas - 1a. parte
Na aula de hoje e na próxima, você deverá perceber que uma língua (idioma) se
constitui de um sistema de representação de sinais ou signos de um povo e sua
cultura. É uma convenção social, portanto, arbitrário.

A língua é dinâmica, muda, transforma-se através do tempo e sofre variações


por outras razões também que estudaremos.

Isso significa que, quando escrevemos, o texto deve considerar o público-alvo, e


adequar-se à situação.

Uma língua não funciona apenas como meio de comunicação, mas também
como elemento básico de coesão social, pois se constitui no elo comum de milhões
de indivíduos, dando-lhes consciência de que pertencem a uma comunidade.

Isso não significa, no entanto, que todos os falantes de uma língua utilizem-na de
maneira rigorosamente uniforme. Existe um grande número de fatores (como a
idade, o grupo social, o sexo, o grau de escolaridade etc.) que interferem na maneira
individual de que o falante tem de expressar-se.

A esse fato damos o nome de variações lingüísticas.

Variação histórica
1o. Texto (original, 1536)
Resumidamente podemos considerar a existência de três tipos gerais de variações:
“A lingoagem e figura do entendimento (...) os bos falão virtudes e os maliciosos
maldades (...) sabe falar os q etede as cousas: porq das cousas naçe as palauras e não
das palauras as cousas.”
Fernão de Oliveira

Saiba mais - Fernão de Oliveira


Fernão de Oliveira nasceu em Aveiro, Portugal, em 1507. Homem superior pela sua
capacidade intelectual, padre ou soldado, aventureiro em vários países católicos ou não,
crítico das mentalidades tradicionais. Foi preso pela Inquisição em 1547, regressando à
liberdade em 1551, bastante doente. Figura singular que corporiza um espírito
abrangente de verdadeiro homem do Renascimento. Morreu cerca de 1581. Da sua
notável produção literária, escreveu a famosa Gramática da Linguagem Portuguesa.

42
2o. Texto (atualizado)
A linguagem é figura do entendimento (...) os bons falam virtudes e os maliciosos,
maldades (...) sabem falar os que entendem as coisas: porque das coisas nascem as
palavras e não das palavras as coisas.

Como se pode notar, ocorreram várias modificações. Essas variações se devem ao fato
de que as línguas se alteram com o passar do tempo. As alterações ocorrem tanto na grafia
quanto no sentido de muitas palavras. Além disso, surgem palavras novas (neologismos),
enquanto outras vão deixando de ser usadas (arcaísmos), até desaparecerem.

A esse processo contínuo de modificação de uma língua através do tempo


(diacronia) damos o nome de variação histórica.

1a. Atividade em aula


Vimos que a língua constitui um processo dinâmico, apresentando modificações
ao longo do tempo, denominadas variações históricas.

Leia atentamente a crônica a seguir:


Antigamente
Antigamente, as moças chamavam-se ‘mademoiselles’ e eram todas mimosas e
muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os
janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas
ficavam longos meses debaixo do balaio.

E, se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra


freguesia. As pessoas, quando corriam, antigamente, era para tirar o pai da forca, e
não caíam de cavalo magro. Algumas jogavam verde para colher maduro, e sabiam
com quantos paus se faz uma canoa.

O que não impedia que, nesses entrementes, esse ou aquele embarcasse em


canoa furada. Encontravam alguém que lhes passava manta e azulava, dando às de
vila-diogo. Os idosos, depois da janta, faziam o quilo, saindo para tomar a fresca; e
também tomavam cautela de não apanhar sereno.

Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao cinematógrafo,


chupando balas de altéia. Ou sonhavam em andar de aeroplano; os quais, de pouco
siso, se metiam em camisa de onze varas, e até em calças pardas; não admira que
dessem com os burros n’água.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1971, p.3

43
Você observou que a crônica Antigamente, de Carlos Drummond de Andrade
foi elaborada com uma linguagem também de antigamente, isto é, o autor utilizou,
em tom humorístico, palavras que já não são mais empregadas correntemente hoje.

A essas palavras, dá-se o nome de arcaísmos. Além de palavras, foram usadas


frases feitas e expressões que também não são mais empregadas atualmente. Procure
explicar o significado das seguintes expressões presentes no texto e registre em seu
caderno. Se for necessário consulte seus pais, seus avós ou pessoas idosas.

a) fazer pé-de-alferes
b) arrastar a asa
c) ficar debaixo do balaio
d) levar tábua
e) tirar o cavalo da chuva
f) pregar em outra freguesia
g) embarcar em canoa furada
h) passar manta e azular
i) dar às de vila-diogo
j) fazer o quilo
k) meter-se em camisa de onze varas

Variação geográfica
1o. Texto
“- Te deita no divã, tchê – disse o analista de Bagé.
- Pra quê? – quis saber o paciente, desconfiado.
- Oigalê bicho bem xucro – disse o analista com uma risada agradável, enquanto
torcia o braço do outro e obrigava-o a se deitar.”
(Luís Fernando Veríssimo. O analista de Bagé. Porto Alegre: L&PM, 1982)

Saiba mais - Luís Fernando Veríssimo


Luís Fernando Veríssimo nasceu em 26 de setembro de 1936, em Porto Alegre.
Filho do grande escritor Érico Veríssimo. Morou e estudou nos EUA na juventude.
Jornalista, iniciou sua carreira no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, em 1966.
Participou também da televisão, criando quadros para o programa “Planeta dos
Homens”, na Rede Globo e, mais recentemente, fornecendo material para a série
“Comédia da Vida Privada”.
Sua produção literária é extensa e diversificada. É considerado por muitos “uma
fábrica de fazer humor”.

44
2o. Texto
“- Fale sobre sua vida aqui.
- Eu vivi questão de 34 anos prá trás mesmo, indês que eu nasci. Eu interei im
vida, indês que eu nasci, vivo bem graças a Deus, pessoas boa. Falá aqui, dinheiro não
é nada, mais a gente usa é dinheiro, né? Nunca sobro.”
(Mariza T. Costa Vilefort. Aspectos sintáticos do dialeto caipira da região de
Morrinhos. Goiânia: Universidade Católica de Goiás, 1985)

Você observou alguns registros da língua portuguesa, nos quais se percebem


diferenças regionais bem marcadas. O primeiro trecho apresenta características do falar
do Rio Grande do Sul e o segundo registra a fala de um habitante da zona rural de Goiás.

Dependendo de onde o falante vive durante um certo tempo, ele tem uma
pronúncia característica. A essa maneira particular que os falantes de uma região têm
de pronunciar as palavras e as frases dá-se, comumente, o nome de sotaque:
sotaque mineiro, sotaque nordestino, sotaque gaúcho etc.

De região para região do país, observam-se formas distintas de falar. Tais


variações podem ser identificadas no aspecto sonoro (pronúncia), no vocabulário,
bem com certas estruturas de frases e nos sentidos particulares atribuídos a
determinadas palavras e expressões. A esse tipo de diferenças na língua dá-se o nome
de variação geográfica.

Essas variações lingüísticas ocorrem num plano horizontal da língua, isto é entre
as comunidades lingüísticas, sendo responsáveis pelos chamados regionalismos,
provenientes de dialetos ou falares locais.

Suas manifestações são contidas na comunidade por uma língua padrão que,
sendo geralmente compreendida e aceita, nivela as diferenças regionais.

As variações geográficas conduzem a uma oposição fundamental: linguagem


urbana / linguagem rural. A primeira cada vez mais próxima da linguagem padrão
da comunidade, pela ação decisiva que recebe dos fatores culturais (escola, meios de
comunicação de massa, literatura). A segunda mais conservadora e isolada,
extinguindo-se gradualmente com a chegada da civilização.

45
Noturno de Belo Horizonte
[...]
Que importa que uns falem mole descansado
Que os cariocas arranhem os erres na garganta
Que os capixabas e paroaras escancarem as vogais?
Que tem si os quinhentos réis meridional
Vira cinco tostões do Rio pro norte?
Juntos formamos este assombro de misérias e grandezas,
Brasil, nome de vegetal!...

Mário de Andrade

Saiba mais - Mário Raul de Morais Andrade


Mário Raul de Morais Andrade nasceu em São Paulo, a 9 de outubro de 1893.
Depois do curso secundário, ingressa no Conservatório Dramático e Musical.
Formado, passa a viver do magistério particular e na própria escola em que se
diplomara (História da Música). Em 1917, publica Há uma gota de sangue em cada
poema, inspirado na primeira Grande Guerra.

Alinhando-se entre os que pregam moldes estéticos renovadores, torna-se


praticamente o guia de sua geração, e, em consonância com esse papel orientador,
exerce múltipla e ininterrupta atividade intelectual.

Entre 1934 e 1937, dirige o Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de São


Paulo, onde realiza um trabalho verdadeiramente pioneiro. Faleceu na cidade natal, a
25 de fevereiro de 1945. Deixou obra variada – que reflete uma curiosidade
diversificada e um talento polimórfico, sem par em nosso Modernismo – reunidade
em dezenas de volumes, publicados desde 1944.

2a. Atividade em aula


Leia o texto da música caipira a seguir:

Chico Mineiro
Fizemu a úrtima viagi
Foi lá pru sertão de Goiás
Fui eu I U Chicu Mineru
Tamém foi u capatais
Viagemu u di ‘interu
pra chega im Oru Finu

46
Aondi nóis passemu a noiti
numa festa du Divinu
A festa tava tão boa
Mais antis num tivesse idu
o Chicu foi baliadu

pr’um homi discunhicidu


largueI di comprá boiada
mataru u meu companheru
Acabô-si um som da viola
acabo-si u Chicu Mineru
Dispois daquela tragédia
Fiquei mais aburrecidu
Num sabia da nossa amizade
pois nóis dois éramu unidu
Quanu vi seus documentu
mi cortô meu coração
vim sabê qui u Chicu Mineru
Era meu ligítimu irmão.

Considere-se um repórter. Construa um texto para seu jornal, relatando a


história contada na música, utilizando-se da norma culta. Escreva em seu caderno.

Variação sociocultural
Vício na fala

Para dizerem milho dizem mio


Para melhor dizem mio
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados
(Oswald de Andrade)

Você deve ter observado que o poema coloca em contraste palavras usadas por
falantes de diferentes graus de cultura ou níveis socioculturais. A comparação entre as
palavras permite-nos concluir, portanto, que as variações lingüísticas também podem
ser determinadas por fatores ligados diretamente ao falante ou à situação
(contexto), ou a ambos simultaneamente. As variações socioculturais ocorrem
num plano vertical, isto é, dentro da linguagem de uma comunidade específica
(urbana ou rural). São variações denominadas de dialetos sociais.

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Saiba mais - José Oswald de Souza
José Oswald de Souza nasceu em São Paulo, a 11 de janeiro de 1890. Em 1912, viaja
para Europa, ocasião em que conhece o Futurismo. Em 1917, forma-se pela
Faculdade de Direito de São Paulo, trava amizade com Mário de Andrade e Di
Cavalcanti, e com eles faz planos de renovação literária. Instalada a Semana de Arte
Moderna, em 1922, torna-se o principal dinamizador do movimento, e até o fim
mantém a flama de revoltado e irreverente.

Em 1931, adere ao Comunismo, mas dele se afasta em 1945. Faleceu em a 22 de outubro


de 1953, na cidade natal. Escreveu poesias, romances, ensaios, teatro e memórias.

Da sua produção literária, destaque para Memórias Sentimentais de João Miramar


(1924), Pau-Brasil (1925), Serafim Ponte Grande (1933), O Rei da Vela (1937),
Poesias Reunidas (1945).

3a. Atividade em aula


Leia o texto a seguir e analise-o quanto ao nível da fala. Explique a relação que
há entre a variação lingüística e o grupo social ao qual o falante pertence.

O pitoresco na Justiça
Num de seus depoimentos na Justiça, Zé da Ilha, “o saudoso”, prestou as
seguintes declarações:
“- Seu doutor, o patuá é o seguinte: depois de um gelo da coitadinha, resolvi
esquiar e caçar uma outra cabrocha que preparasse a marmita e amarrotasse o meu
linho no sabão. Quando bordejava pelas vias, abasteci a caveira e troquei por
centavos um embrulhador.

Quando, então vi as novas do embrulhador, plantado como um poste bem na


quebrada da rua, veio um pára-quedas se abrindo. Eu dei a dica, ela bolou. Eu fiz a
pista, colei. Colei, ela bronquiou. Eu chutei. Bronquiou mas foi na despista, porque,
muito vivaldina, tinha se adernado e visto que o cargueiro estava lhe comboiando.
Morando na jogada, o Zezinho aqui ficou ao largo e viu quando o cargueiro jogou a
amarração, dando a maior sugesta na recortada.

Manobrei e procurei engrupir o pagante, mas, sem esperar, recebi um cataplum


no pé do ouvido. Aí dei-lhe um bico com o pisante na altura da dobradiça, uma
muquecada nos amortecedores e taquei-lhe os dois pés na caixa de mudança, pondo-
o por terra. Ele se coçou, sacou a máquina e queimou duas espoletas. Papai, muito
rápido, virou pulga, pois o vermelho não combinava com a cor do meu linho. Não
tenho vocação pra presunto e corri.

48
Entrei no china pau e pedi um boi à Moçoró com confete de casamento e uma
barriguda bem morta. Pedi ao caixa pra botar na pindura e ia me pira quando o sueco
apareceu pra me esculachar. Eu sou preto mas não sou gato Félix, me queimei e
puxei a soligem. Fiz uma avenida na epiderme do moço. Ele virou logo América.
Aproveitei a confusa pra me pira, mas um dedo-duro me apontou aos xipófagos e,
por isso, estou aqui.”
Jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1959.

Síntese da aula de hoje


Na aula de hoje, vimos que uma língua sofre variações provocadas por fatores
históricos, geográficos e socioculturais.

Próxima aula
Na próxima aula, vamos explorar as variações lingüísticas ligadas ao falante e à
situação ou contexto em que se comunica.

49
Aula 05 - Variações Lingüísticas - 2a. parte
Para ilustrar e resgatar o que vimos na aula passada sobre os fatores que
provocam variações lingüísticas, click no ícone indicado e observe o esquema
elaborado pelo professor Dino Preti, em sua obra Sociolingüística: os níveis da fala.

Você percebeu, ao analisar o quadro acima, que variações devidas ao falante são:

a) idade
As variações devidas às faixas etárias se limitam muito mais ao vocabulário e
nem sempre são fáceis de surpreender. Modernamente, fala-se muito de uma
“linguagem jovem”, entendendo-se como tal um vocabulário gírico, mais empregado
pelos indivíduos dessa faixa etária.

b) sexo
De acordo com a comunidade, a oposição linguagem do homem / linguagem
da mulher pode determinar diferenças sensíveis, em especial no campo do
vocabulário, devido a certos tabus morais (que geram tabus lingüísticos). Essa
oposição, no entanto, vem perdendo, gradativamente, sua significação, em especial
nas grandes cidades, onde os meios de comunicação de massa e a transformação dos
costumes e padrões morais (atividades exercidas pela mulher fora do lar, novas
profissões, condições culturais como, por exemplo, os movimentos feministas etc.)
têm exercido um papel nivelador importante.

50
c) raça (ou cultura)
São as variações ligadas a fatores etnológicos. São sensíveis essas influências nos
falantes que residem em zonas de maior imigração negra.

d) profissão
A profissão atua decididamente no campo dos registros técnicos ou profissionais
em que os falantes utilizam um vocabulário condizente com a sua atividade. São
exemplos o vocabulário dos vendedores ambulantes, dos médicos, dos advogados,
dos militares, dos políticos etc.

e) posição social
O status do falante também exige dele um cuidado especial com a linguagem,
freqüentemente com a finalidade de ser distinguido dentro do grupo em que atua.
Podemos dizer, feitas as devidas ressalvas, que cada posição social tem a sua
linguagem. Um político, um chefe de Estado, um dirigente industrial, um executivo,
assim como um bancário ou um operário não têm, via de regra, o mesmo nível de
linguagem, embora possam conviver diariamente na comunidade em que atuam.

f) grau de escolaridade
Compare estas duas maneiras de articular o pensamento utilizadas por falantes
em situações diferentes:

1. Se você ver o professor, diz pra ele que eu quero falar com ele.
2. Se você vir o professor, diga-lhe que quero falar-lhe.

A concisão, a economia lingüística e o uso das formas cultas da segunda frase


fazem um bom exemplo de domínio da língua (uso do futuro irregular do verbo ver,
emprego da ênclise e dos pronomes oblíquos, além da forma de 3ª pessoa do
imperativo).

Não há dúvida de que só a freqüência à escola possibilita ao falante dominar tais


formas, ausente da linguagem vulgar.

g) local em que reside


Não nos referimos a diferenças causadas por influência regional, mas apenas a
variações de hábitos dentro de uma mesma comunidade, às vezes ditadas por
diferenças de áreas urbanas (bairros).

O quadro apresentado na página 1 revela também que há variações devidas à


situação ou contexto:

51
Compreendem as influências determinadas pelas condições não-verbais que
cercam o ato da fala. Assim, a presença física do ambiente em que o diálogo ocorre
pode ocasionar um nível de linguagem técnica, formal, fora dos hábitos normais dos
falantes. Da mesma maneira o tema da conversa poderá explicar o emprego de
vocabulário e estruturas cultas ou vulgares, por exemplo.

Os fatores situacionais não dizem respeito diretamente ao falante,


individualmente considerado, mas apenas às circunstâncias criadas pela própria
ocasião, lugar e tempo em que as falas se realizam, e também às relações que unem
os falantes no momento do diálogo. A propósito do grau de intimidade entre os
falantes, fator importantíssimo na análise das falas.

1a. Atividade em aula


Você sabe que, às vezes, o falante utiliza um estilo que não é o seu, para
produzir efeitos específicos, que é o que faz o maestro Júlio Medaglia ao escrever
uma carta ao jornal Folha de São Paulo, em 4/10/1990.

Massa!
Pô Erundina, massa! Agora que o maneiro Cazuza virou nome num pedaço aqui
na Sampa, quem sabe tu te anima e acha aí um point pra bota o nome de Magdalena
Tagliaferro, Cláudio Santoro, Jaques Klein, Edoardo de Guarnieri, Guiomar Novaes, João
de Souza Lima, Armando Belardi e Radamés Gnattali. Esses caras não foi cruner de
banda a la “Trogloditas do Sucesso”, mas se a tua moçada não manjar que ele foi dá
um “look” aí na Enciclopédia Britância ou no “Groves International” e tu vai saca que o
astral do século 20 musical deve muitoa eles.

a) Que grupo social pode ser identificado por este estilo? Transcreva as marcas
lingüísticas (palavras ou expressões) presentes no texto, que revelam características
desse grupo.
b) O texto contém uma crítica implícita. Qual é, e a quem é dirigida?

Faça em seu caderno.

52
2a. Atividade em aula
As variações geográficas conduzem a uma oposição fundamental: linguagem
urbana / linguagem rural. A primeira cada vez mais próxima da linguagem padrão
da comunidade, pela ação decisiva que recebe dos fatores culturais (escola, meios de
comunicação de massa, literatura). A segunda mais conservadora e isolada,
extinguindo-se gradualmente com a chegada da civilização.

Noturno de Belo Horizonte


[...]
Que importa que uns falem mole descansado
Que os cariocas arranhem os erres na garganta
Que os capixabas e paroaras escancarem as vogais?
Que tem si os quinhentos réis meridional
Vira cinco tostões do Rio pro norte?
Juntos formamos este assombro de misérias e grandezas,
Brasil, nome de vegetal!...

Mário de Andrade

Síntese da aula de hoje


Concluindo: as influências de todos esses fatores que aqui percorremos
rapidamente se entrecruzam e se sobrepõem nas variações de fala, a tal ponto que
nem sempre é possível precisar a ação mais direta de um ou de outro. São eles que
nos conduzem aos vários registros falados (culto, comum, coloquial, vulgar,
profissional etc.), cujos limites nem sempre são precisos.

“Há uma grande diferença se fala um deus ou um herói; se um velho amadurecido


ou um jovem impetuoso na flor da idade; se uma matrona autoritária ou uma ama
dedicada; se um mercador errante ou um lavrador de pequeno campo fértil...”
Horácio

Saiba mais - Horácio


Horácio, poeta latino, viveu entre 66 a.C a 8 a.C., em Roma. É o grande inovador da
poesia latina, na qual introduz novos critérios métricos e uma concepção original dos
gêneros literários que cultiva. Passa uns anos azarentos em Roma e Atenas até que
pôde gozar, como Virgílio, da proteção de Mecenas, que lhe oferece uma casa de
campo onde vive livre de cuidados. Entre suas principais obras, as Odes são a sua
obra-prima. Os temas que nelas trata são a expressão lírica da própria vida. A mais
conhecida é a Arte Poética, em que expõe uma série de conselhos para a criação
literária.

53
Aula 06 - O texto e suas modalidades
Na aula de hoje, você deverá diferenciar um texto dissertativo, de um narrativo
e de um descritivo; conhecer suas características e utilizá-los adequadamente.

Deverá reconhecer, ainda, o verbo “haver”, impessoal e empregá-lo


corretamente no texto.

A palavra texto provém do latim textum, que significa “tecido,


entrelaçamento”. Há, portanto, uma razão etimológica para você associar a palavra
texto à ação de tecer, de entrelaçar unidades e partes a fim de formar um todo
inter-relacionado. Releia o poema “Tecendo a manhã”, de João Cabral de Melo Neto,
na página 2, da Aula 3 e perceba ação de tecer na linguagem.

Saber construir textos é uma maneira de ser autor tanto da história individual
quanto da coletiva.

Existem muitas modalidades textuais, todas elas se valem de processos de


composição, que variam conforme as intenções do autor, podendo ser classificadas
em três tipos básicos: narração, descrição e dissertação. Você estudará
detalhadamente cada uma dessas modalidades nas próximas aulas.

Leia, atentamente, os trechos a seguir e compare-os:

1o. Texto
“Todas as noites, depois do jantar, a molecada do bairro se amontoava no
portão da minha casa: era a hora negra das histórias dos lobisomens, bruxas, almas-
penadas, tinha uma procissão de caveiras que passava à meia-noite, cantando, ô
Deus! Como eu tremia...”
(Lygia Fagundes Telles)

Saiba mais - Narração


Narrar é contar uma história real, imaginária ou uma mistura de ambas as coisas.

É uma seqüência de fatos (o quê) ocorridos em local (onde) e tempo (quando)


determinados, com alguém (quem), de algum modo (como), por algum motivo
(por que) que provocam conseqüência (por isso). Quando você narra, convém
incluir trechos em que registre a conversa das personagens.

54
Na narração, é comum predominarem verbos, pois se caracteriza pela ação e pela
progressão temporal, por isso é compreendida como um texto dinâmico.

2o. Texto
O narrador é um artesão da palavra. Confiante em si, simples e sóbrio nos
gestos, equilibrado na expressão corporal, ele deve conduzir a história com
criatividade. Seus gestos devem ser mágicos, leves e calmos. O tom da voz deve ser
definido, modulado, de acordo com o que conta. A correção da linguagem e a boa
dicção são características importantes para o contador. Ao contar, deve evitar
repetições ou tiques. Mobilizado pela emoção, sua tarefa é entrar em sintonia com o
auditório para poder seduzi-lo.
(Lygia Fagundes Telles)

Saiba mais - Descrição


Descrever é apontar as características de um ser, pessoa, objeto, ambiente,
cena, paisagem, estado de espírito. É explicar como são, como se aparentam, de
que são formados.

Permite fazer com que o leitor consiga imaginar, por exemplo, como é uma pessoa
sem que veja seu retrato, entendendo também seu modo de agir e pensar. O texto
descritivo é construído predominantemente por adjetivos que exprimem cor,
forma, volume, características, qualidades etc.

É uma modalidade textual considerada estática, uma vez que não é caracterizada pela
ação ou progressão temporal.

3o. Texto
Contar histórias é arte milenar, é necessidade humana. Nasce da tentativa de explicar
tudo o que o homem desconhece. Desde os primórdios, as histórias eram contadas à noite
e ao redor do fogo. Há muitos tipos de narrativas para se contar: mitos, fábulas, contos,
lendas. Entretanto, o mais importante é deixar que os ouvintes se encantem. Finalmente,
narrar é uma forma de criar diálogo com o outro e consigo mesmo.

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Saiba mais - Dissertação
Dissertar é interpretar, explicar, expor, defender idéias por meio de
argumentos capazes de comprová-las ou justificá-las. Examinar um assunto, formar
um ponto de vista crítico sobre ele, organizar o raciocínio para expressar-se são
habilidades desenvolvidas na construção do texto dissertativo.

Sua estrutura básica é constituída por: introdução, desenvolvimento e conclusão.

Ao comparar os três textos, o que você observou em termos de


semelhanças e diferenças?

É necessário perceber a estrutura dos textos para compreender com mais


clareza, a realidade e, igualmente, encontrar a melhor forma de expressá-la.

1a. Atividade em aula


Leia e analise os trechos a seguir. Classifique-os indicando quais são os do tipo
narrativo, descritivo ou dissertativo e as características de cada um deles:

1o Texto
“Quando chegaram em São Paulo, ensacou um pouco do tesouro para comerem e
barganhando o resto na bolsa apurou perto de oitenta contos de réis. Maanape era
feiticeiro. Oitenta contos não valia muito mas o herói refletiu bem e falou pros manos:
- Paciência. A gente se arruma com isso mesmo, quem quer cavalo sem tacha
anda de a-pé...
Com esses cobres é que Macunaíma viveu.”
ANDRADE, Mário de. Macunaíma. 15ª ed. São Paulo, Martins, 1968. p. 50.

2o Texto
“Que aconteceria, entretanto, se se conseguisse dar de repente a todos esses
párias uma moradia condigna, uma vida segundo padrões civilizados, à altura do que se
ostenta nas grandes avenidas do centro, com seu trânsito intenso, suas lojas de
Primeiro Mundo e seus yuppies esbaforidos na tarefa de ganhar dinheiro?

56
Aí está outro aspecto da tragédia. Explica-se: São Paulo é o maior foco de
migrações internas, sobretudo do Nordeste; no dia em que as chagas da miséria
desaparecessem e a dignidade da existência humana fosse restaurada em sua
plenitude, seriam atraídas novas ondas migratórias, com maior força imantadora.
Assim, surgiriam logo, num círculo vicioso, outros focos de miséria.”
CASTRO, Moacir Werneck de. Alarma em São Paulo. Jornal do Brasil, 9 mar. 1991.

Saiba mais
Yuppies: plural de yuppie, palavra de origem americana formada pelas iniciais de
young urban professional e o final da palavra hippie. A expressão surgiu nos anos
80 para caracterizar jovens profissionais de sucesso, com um estilo de vida
descompromissado e burguês, os quais, na maioria, participaram do movimento hippie.

3o Texto
“O subúrbio de S. Geraldo, no ano de 1924, já misturava ao cheiro de estrebaria
algum progresso. Quanto mais fábricas se abriam nos arredores, mais o subúrbio se
erguia em vida própria sem que os habitantes pudessem dizer que a transformação os
atingia. Os movimentos já se haviam congestionado e não se poderia atravessar uma
rua sem desviar-se de uma carroça que os cavalos vagarosos puxavam, enquanto um
automóvel impaciente buzinava lançando fumaça.

Mesmo os crepúsculos eram agora enfumaçados e sanguinolentos. De manhã,


entre os caminhões que pediam passagem para a nova usina, transportando madeira e
ferro, as cestas de peixe se espalhavam pela calçada, vindas através da noite de
centros maiores.”
LISPECTOR, Clarice. A cidade sitiada. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982. p. 13

2a Atividade em aula
Sobre o tema POLUIÇÃO escreva:

• Um texto descritivo mostrando, um lugar poluído.


• Um texto dissertativo apresentando, as causas dessa poluição e que essa
poluição poderia ser evitada.

57
Dicas sobre revisão gramatical
Emprego especial do verbo “Haver”

Leia e compare estas duas construções:


1. Havia poucas vagas à disposição.
2. Existiam poucas vagas à disposição.

O verbo “haver” empregado no sentido de “existir” é impessoal, permanece,


portanto, sempre na 3ª pessoa do singular. As orações organizadas com um verbo
impessoal não apresentam sujeito.

O verbo “existir”, porém, não é verbo impessoal e deve concordar


regularmente com o seu sujeito.
Assim, na frase: “Poucas vagas existem à disposição”, o sujeito do verbo existir é
“poucas vagas”.

Compare, agora, estas duas construções:


1. Devia haver poucas vagas à disposição.
2. Deviam existir poucas vagas à disposição.

Nas locuções verbais, o verbo auxiliar fica na 3ª pessoa do singular, tornando-


se, também, verbo impessoal.

Saiba mais - Locução verbal


A locução verbal é composta por verbo principal (sempre em uma das três
formas nominais: infinitivo, gerúndio ou particípio) e mais verbo auxiliar (ser, estar,
ter, haver, dever, poder, fazer...).

Os componentes da locução verbal constituem um todo indivisível, de tal modo que


um só deles pode ser entendido como parte.

É pluralidade de forma e unidade de sentido.


Exemplos:
Comecei a falar lentamente.
auxiliar principal(infinitivo)

Estava chovendo muito naquela manhã.


auxiliar principal(gerúndio)

Tinha encontrado o caminho certo.


auxiliar principal(particípio)

58
Saiba mais - Bibliografia de apoio
1. BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. São Paulo: Nacional.
2. CUNHA, Celso Ferreira. Gramática da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Fename.
3. LUFT, Celso Pedro. Moderna gramática brasileira. Porto Alegre: Globo.
4. MEDEIROS, João Bosco. Português instrumental. São Paulo: Atlas.

3a Atividade em aula
Com base nos conceitos estudados na página 58, corrija as frases incorretas:

1. Haviam apenas trinta alunos para assistir à palestra.


2. Existiam muitos professores e poucos alunos na palestra.
3. Nunca pensei que houvessem tantos políticos desonestos.
4. Em seu trabalho, costuma haver debates acirrados?
5. Se existissem marcianos, também poderiam haver lunícolas.
6. Sempre haverão guerras entre os homens?
7. Que haja mais paz é o que todos desejam!
8. Que planos hão de haver para salvar o país?
9. Não sabemos se vai haver muitas cassações no Congresso Nacional.
10. Há de existir dúvidas quanto à veracidade do depoimento.

Síntese da aula de hoje


Na aula de hoje, você aprendeu o que é um texto narrativo, um texto descritivo
e um texto dissertativo.

Aprendeu, também, como empregar corretamente, no texto, o verbo


impessoal “haver”.

Próxima aula
Na próxima aula, estudaremos com mais profundidade o conceito de narração,
o ato de contar histórias. Veremos, também, o emprego de outro importante verbo
impessoal.

Até a próxima aula!

59
Aula 07 - Narração - O ato de contar
histórias
Na aula de hoje, você aprenderá o que é narrar, os elementos e recursos que
envolvem essa modalidade textual. Assim, será capaz tanto de reconhecer quanto de
produzir um texto narrativo.

Além disso, você saberá empregar adequadamente a classe gramatical que


possibilita o processo narrativo: o verbo e suas transformações, segundo os
diferentes discursos: direto, indireto e indireto livre.

Você já ouviu falar da lendária Sherazade, que, ao longo de mais de mil noites,
conseguiu impedir que o xeique Shariar mandasse matá-la, como era seu cruel
costume noturno?

Sabe-se que é bastante antigo o fascínio que as narrativas exercem sobre as pessoas.

Saiba mais -O rei persa Shariar


O rei persa Shariar, vitimado pela infidelidade de sua mulher, mandou matá-la e
resolveu passar cada noite com uma esposa diferente, que mandava degolar na
manhã seguinte.

Ao receber como mulher Sherazade, o monarca sucumbiu ao encanto por mil e uma
noites – o que a poupou da morte.

Está aí uma leitura fascinante capaz de despertá-lo para a sedução do discurso.

Essa história está em As Mil e Uma Noites, uma coleção de contos árabes
compilados, provavelmente, entre os séculos XIII e XVI. São histórias em cadeia, em
que cada conto termina com um suspense que força o ouvinte curioso a retomá-la.

Os mais famosos contos são: O Mercador e o Gênio; Aladim ou a Lâmpada


Maravilhosa; Ali-Babá e os Quarenta Ladrões, Exterminados por uma Escrava; As Sete
Viagens de Simbá, o Marinheiro.

Clique no endereço www.guirh.com.br/pp42.html e aprenda as mil e uma lições para


lidar com a concorrência.

60
A arte de contar histórias remonta às origens da sociedade, pois foi uma das
primeiras manifestações culturais do homem, sendo, portanto, responsável pela
preservação das tradições de um povo.

Veja debate em www//cidade.usp.br/?2005/cinéfilo/sessao2

Saiba mais - Filme Narradores de Javé


Veja o filme Narradores de Javé

Este filme recebeu muitos prêmios nacionais e internacionais.

Após saberem que a cidade onde vivem será inundada para a construção de uma
usina hidrelétrica, os moradores decidem preparar um documento que conte todos
os fatos históricos do local, como tentativa desesperada de salvar a cidade da
destruição.

Dirigido por Eliane Caffé (Kenoma) e com José Dumont, Matheus Nachtergaele,
Nélson Dantas, Gero Camilo e Nélson Xavier no elenco.

Quando se pensa em contadores de histórias, imaginam-se pessoas ao redor de


uma fogueira e um contador. Esse é o narrador tradicional.

Se os homens da Antigüidade narravam suas histórias nas cavernas reais, hoje


nossos homens narram nas cavernas virtuais.

Pesquise José Cardoso Pires – De Profundis - http://www.instituto-camoes.pt/


cvc/literatura/contemporaneos.htm#CardosoPires

Narrar é contar uma história, que pode ser real ou imaginária. A narrativa é uma
forma de composição na qual se representam fatos, reais (livros científicos, livros de
História, notícia de jornal) ou fictícios (artísticos) por meio de signos verbais e não
verbais.

Assim, a modalidade narrativa pode estar presente em diferentes tipos de


textos: mito, conto, lenda, fábula, piada, peça teatral, crônica, novela, romance,
poema, notícia de jornal, música, HQs, entre outros.

Mito - narrativa cujo tema é a origem do mundo, dos homens etc. e cujas
personagens são deuses ou seres sobrenaturais, que realizam ações exemplares.

61
Lenda - narrativa cujas personagens são seres humanos. Liga-se ao histórico e
ao povo que a cria para explicar fatos e fenômenos desconhecidos, formação de
cidades (Atlântida, Eldorado), origem dos povos, fenômenos da natureza, heróis
nacionais e outros.

Fábula - histórias em que as personagens são animais que nos transmitem um


ensinamento.

Conto - narrativa curta que gira ao redor de uma situação, de um conflito.

Crônica – narrativa breve, periódica, episódica e comunicativa da qual faz parte


o humor.

Romance – narrativa mais longa que o conto e, na maioria das vezes, conta um
só drama. Tem maior número de personagens, o espaço onde se passa o drama é
detalhadamente descrito.

Novela – narrativa que se caracteriza pela sucessividade dos episódios, muitas


vezes dos personagens e dos espaços.

Saiba mais
Visite http://sitededicas.uol.com.br/ctrad.htm e pesquise sobre mito, lenda, fábula.

Leia mais:
Mitologia Chinesa. São Paulo, Princípio, s.d.; Fábulas Italianas. São Paulo, Cia das
Letras, 1999.; Abelardo e Heloisa. São Paulo, Martins Fontes, 1988; Romance da
Távola Redonda. São Paulo, Martins Fontes, 1998.

1a Atividade em aula
Compare (estabeleça semelhanças e diferenças entre) os textos narrativos e
anote suas observações:

Lixo
Luís Fernando Veríssimo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira


vez que se falam
— Bom dia...
— Bom dia.

62
— A senhora é do 610.
— E o senhor do 612.
— É.
— Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
— Pois é...
— Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
— O meu quê?
— O seu lixo.
— Ah...
— Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
— Na verdade sou só eu.
— Mmmm. Notei também que o senhor usa muita comida em lata.
— É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
— Entendo.
— A senhora também...
— Me chame de você.
— Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de
comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
— É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas como moro
sozinha, às vezes sobra...
— A senhora... Você não tem família?
— Tenho, mas não aqui.
— No Espírito Santo.
— Como é que você sabe?
— Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
— É. Mamãe escreve todas as semanas.
— Ela é professora?
— Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
— Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
— O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
— Pois é...
— No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
— É.
— Más notícias?
— Meu pai. Morreu.
— Sinto muito.
— Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
— Foi por isso que você recomeçou a fumar?
— Como é que você sabe?
— De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro
amassadas no seu lixo.

63
— É verdade. Mas consegui parar outra vez.
— Eu, graças a Deus, nunca fumei.
— Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
— Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
— Você brigou com o namorado, certo?
— Isso você também descobriu no lixo?
— Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito
lenço de papel.
— E, chorei bastante. Mas já passou.
— Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
— É que eu estou com um pouco de coriza.
— Ah.
— Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
— É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
— Namorada?
— Não.
— Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
— Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
— Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela
volte.
— Você já está analisando o meu lixo!
— Não posso negar que o seu lixo me interessou.
— Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la.
Acho que foi a poesia.
— Não! Você viu meus poemas?
— Vi e gostei muito.
— Mas são muito ruins!
— Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
— Se eu soubesse que você ia ler...
— Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei:
o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
— Acho que não. Lixo é domínio público.
— Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra
da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a
nossa parte mais social. Será isso?
— Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
— Ontem, no seu lixo..
— O quê?
— Me enganei, ou eram cascas de camarão?
— Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
— Eu adoro camarão.

64
— Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
— Jantar juntos?
— É.
— Não quero dar trabalho.
— Trabalho nenhum.
— Vai sujar a sua cozinha.
— Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
— No seu lixo ou no meu?

Os elementos básicos do texto narrativo são:


• Fato - o que se vai narrar (O quê?)
• Tempo - quando o fato ocorreu (Quando?)
• Lugar - onde o fato se deu (Onde?)
• Personagens - quem participou ou observou o ocorrido (Com quem?)
• Causa - motivo que determinou a ocorrência (Por quê ?)
• Modo - como se deu o fato (Como?)
• Conseqüências (Geralmente, provoca determinado desfecho)

Quando analisamos uma narrativa literária, observamos outros elementos:


enredo ou trama; tempo;espaço;personagens; foco narrativo ou ponto de
vista;linguagem;estilo etc.

1. Enredo ou trama - fatos que se desenrolam durante a narrativa. Há


introdução, na qual o autor apresenta a idéia principal, personagens e cenário; um
desenvolvimento, no qual o autor detalha a idéia principal e se compõe de dois
momentos distintos: a complicação (início dos conflitos entre os personagens) e
clímax (ponto culminante) e desfecho, que é a conclusão da narrativa.

2. Tempo - cronológico ou exterior - é marcado pelo relógio, dia mês, hora


etc.; psicológico ou interior refere-se à vivência dos personagens, ao seu mundo
interior.

3. Espaço - onde os acontecimentos se desenrolam.

4. Personagens - são os seres envolvidos nos fatos. Podem ser pessoas,


animais, seres inanimados etc. Protagonista é o personagem principal. Antagonista é o
personagem que se opõe ao principal. Há personagens secundários, que participam
dos fatos, mas não são centrais.

65
5. Foco narrativo ou ponto de vista - o autor cria um narrador, que pode
assumir duas posições:
a- narrador observador - narrador de terceira pessoa - relata os
acontecimentos como observador.
b- narrador personagem - narrador de primeira pessoa - um personagem
participante da história narra os fatos.

6. Linguagem e estilo – níveis, aspectos sonoros, morfológicos, sintáticos,


semânticos, estilo do autor, estilo de época (Romantismo, Realismo, Modernismo etc.)

Narração objetiva x Narração subjetiva


• Narração objetiva: apenas informa os fatos, sem se deixar envolver
emocionalmente com o que está noticiado. É de cunho impessoal e direto. É o que
costuma aparecer nas ocorrências policiais dos jornais, por exemplo.

• Narração subjetiva: consideram-se emoções, sentimentos envolvidos na


história, são ressaltados os efeitos psicológicos que os acontecimentos desencadeiam
nos personagens. Nota-se, claramente, a posição sensível e emocional do narrador ao
relatar os acontecimentos.

Saiba mais - Visite o site:


http://www.edward.art.br/triunfus/aula09/materia.htm

Saiba mais - Os Meninos Carvoeiros: narração subjetiva


Autor: Manuel Bandeira

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
— Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.
Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.
(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.)
— Eh, carvoero!
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles . . .

66
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!
—Eh, carvoero!
Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados.

A narração e os tipos de discurso


Uma narrativa pode trazer falas de personagens entremeadas aos
acontecimentos, faz-se uso dos chamados discursos: direto, indireto ou indireto livre.

Discurso direto: o narrador transcreve as palavras da própria personagem.


Para tanto, usam-se dois pontos, travessão, aspas. Mais modernamente alguns autores
não fazem uso desses recursos. Ex.: - Você sabe que o seu irmão chegou?

Discurso indireto: apresenta as palavras das personagens por meio do


narrador, portanto não há marcações gráficas especiais. Usualmente, há verbo de
elocução, por exemplo: falar, perguntar, responder, indagar, replicar, argumentar etc.
Ele perguntou se sabia que o seu irmão havia chegado.

Discurso indireto livre: não há identificação de quem a proferiu. Traz, muitas


vezes, um pensamento da personagem ou do narrador, um juízo de valor ou opinião.
Ex.: Indignado, perguntou se sabia que o seu irmão havia chegado.
(Graciliano Ramos)

Dicas sobre revisão gramatical


Ao transformar o discurso direto em indireto, vimos que o tempo do verbo
será sempre passado em relação ao discurso direto.

Discurso direto: - Você sabe que o seu irmão chegou?


Discurso indireto: Ele perguntou se ele sabia que o seu irmão havia chegado.

Saiba mais - Visite os sites:


- http://www.gramaticaonline.com.br
- http://www.priberam.pt/dlpo/gramatica.aspx
- http://www.portugues.com.br

67
2a Atividade em aula
Vamos fazer alguns exercícios? Transforme discursos diretos em discursos
indiretos:

1.— Onde fica a cidade mais próxima? – perguntou o motorista.


2.— Há uma cidade a dois quilômetros daqui - respondeu o guarda.
3.— Tenho pressa — disse o rapaz.
4.— Presenciei toda a cena — declarou o jovem.
5. — Cala-te — ordenou o senhor ao seu vassalo.

Outras classes de palavras, como os pronomes e alguns advérbios, podem


igualmente requerer alterações. Observe o exemplo:

Discurso direto:— Venha cá, meu filho — disse a mãe, nervosa.


— Estarei aí daqui a cinco minutos.
Discurso indireto: A mãe, nervosa, pediu a seu filho que fosse até lá. Ele
respondeu que estaria lá dali a cinco minutos.

Saiba mais - Discurso direto e Discurso indireto

Discurso Direto Discurso Indireto


presente do indicativo pretérito imperfeito do indicativo

pretérito perfeito do indicativo. pretérito mais-que-perfeito simples ou composto

Saiba mais - Visite os sites:


- http://www.gramaticaonline.com.br
- http://www.priberam.pt/dlpo/gramatica.aspx
- http://www.portugues.com.br

Respostas
1. O motorista perguntou onde ficava a cidade mais próxima.
2. O guarda respondeu que havia uma cidade a dois quilômetros dali.
3. O rapaz disse que tinha pressa.
4. O jovem declarou que tinha presenciado / presenciara toda a cena.
5. O senhor ordenou ao vassalo que se calasse.

68
A narração também pode mesclar os níveis de linguagem.Normalmente,
utiliza-se o nível formal nas frases do narrador e o coloquial na fala de algumas
personagens. A voz da personagem deve ser representativa. Se a personagem é um
sertanejo, as características de seu linguajar devem estar presentes, se for um
adolescente, deverá aparecer gíria e assim por diante.

Entendemos por linguagem formal a língua culta, que se caracteriza pela


correção gramatical, ausência de gírias ou termos regionais, riqueza de vocabulário e
frases bem elaboradas.

A linguagem coloquial é aquela que as pessoas utilizam no dia-a-dia


conversando informalmente com amigos parentes e colegas.

É a linguagem descontraída, que dispensa formalidades e aceita gírias,


diminutivos afetivos e palavras de cunho regional.

3a Atividade em aula
Corrente narrativa: jogo virtual
Convide as pessoas de seu mailing list para escreverem uma história junto com
você. Para facilitar as coisas, escreva você mesmo o trecho inicial e passe para o
próximo participante.

Para você, aprendiz da arte da escrita, a simples brincadeira pode trazer


importantes lições. Você vai ver como, a cada novo trecho, a história irá tomando
novo rumo, às vezes escapando àquela que você tinha inicialmente na cabeça.

Mas, quando o jogo rodar e texto retornar a você, imponha-se, então, este
outro desafio: o de tentar reconduzir a história ao seu projeto original. Lembre-se:
quem escreve deve se exercitar constantemente (de preferência, todos os dias).

Por isso, a grande lição que você deve incorporar desta descontraída técnica
coletiva é a humildade de submeter seu texto a pessoas que você considere capazes
de lhe dar boas sugestões e uma ajuda efetiva.

69
Síntese da aula de hoje
Na aula de hoje, aprendemos a importância da narração para o homem de
qualquer lugar e tempo e constatamos como essa modalidade textual está presente
nos diferentes textos que nos são apresentados na vida corrente, tanto literários
(poemas, contos, crônicas etc.) quanto não-literários (jornalísticos, científicos etc.).

Estudamos, também, o emprego do verbo e suas devidas transformações na


elaboração dos vários discursos: direto, indireto e indireto livre.

Entretanto, é importante ressaltarmos que a narração não ocorre como


modalidade pura no texto, ela vem, em geral, acompanhada pela descrição e disso
trataremos na aula 9.

Próxima aula
Na próxima aula, continuaremos a aprender sobre narração, enfocando o verbo.

70
Aula 08 - Narração - O ato de contar
histórias
Na aula de hoje, você aprenderá outros recursos, principalmente relacionados
ao verbo, que lhe permitirão ler e escrever textos narrativos com mais competência.

Aprendemos que somos por natureza narrativos, pois precisamos, mesmo na Era da
Informação, contar nossas histórias, explicar para nós mesmos quem somos, o que fazemos,
como uma forma de nos salvar do esquecimento e de preservarmos nossa identidade.

Pare um pouco, agora, e pense na sua trajetória de vida. Conte uma passagem
significativa. Escreva seu texto com começo, meio e fim.

Saiba mais
Para quem quer refletir um pouco sobre essa idéia, vale ler Walter Benjamim, obra
Magia, técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo:
Brasiliense, 1994.

1a Atividade em aula
Retome seu texto e grife os verbos que precisou usar para contar essa passagem
da existência.

Se narrar é contar história real ou imaginária, o verbo é de extrema importância


para garantir o dinamismo dessa ação.

Verbo é a palavra que expressa processos, ação, estado, mudança de estado,


fenômeno da natureza, conveniência, desejo e existência. O verbo denota
movimento, por isso sua característica de dinamicidade.

Saiba mais - Divirta-se com o verbo


No princípio era o verbo. Depois, veio o sujeito e os outros predicados: os objetos,
os adjuntos, os complementos, os agentes, essas coisas. E Deus ficou contente. Era a
primeira oração.
(Eno Teodoro Wanke)

71
No princípio era o Verbo. O verbo ser. Conjugava-se apenas no infinito. Ser, e nada
mais. Intransitivo absoluto. Isto foi no princípio. Depois, transigiu e muito. Em vários
modos, tempos e pessoas.

Ah, nem queiras saber o que as são as pessoas: eu, tu, ele,nós,
vós,eles...Principalmente eles!

E, ante essa dispersão lamentável, essa verdadeira explosão do SER em seres,até hoje
os anjos ingenuamente se interrogam por que motivo as referidas pessoas chamam a
isso CRIAÇÃO...
(Mário Quintana)

Os modos verbais
Indicativo:expressa certeza ou apresenta um fato como real.
Exemplos:
Faz dias frios em São Paulo.
Faz 10 dias que não te vejo.
Observação: Note que o verbo fazer quando indica tempo decorrido, passado
ou fenômeno da natureza é sempre impessoal por não apresentar sujeito. Deve
permanecer na 3ª pessoa do singular. Em locuções verbais, o auxiliar também fica
da 3ª pessoa do singular, tornando-se impessoal.

Subjuntivo: exprime atitude de dúvida, ou anuncia um fato como possível,


hipotético, provável ou incerto.
Exemplo:
Talvez se não fizesse tanto frio aqui, trabalhássemos menos.

Imperativo: é a expressão da ordem, do desejo, da súplica, do pedido.


Exemplo:
“Vem para a Caixa você também.”
Observação: Note que o verbo vem não combina com o pronome você. Deveria
ser venha, mas como se trata de propaganda, vale o uso mais informal da língua.

Saiba mais - Formação do Imperativo


O tu e o vós do imperativo afirmativo são tirados do presente do indicativo sem os;
as demais pessoas são tiradas do imperativo negativo.O imperativo negativo é tirado
do Presente do Subjuntivo

72
Presente do indicativo Presente do subjuntivo
Eu venho Que eu venha
Tu vens Que tu venhas
Ele vem Que ele venha
Nós vimos Que nós venhamos
Vós vindes Que vós venhais
Eles vêm Que eles venham

Imperativo afirmativo Imperativo negativo


Vem tu Não venhas tu
Venha você Não venha você
Venhamos nós Não venhamos nós
Vinde vós Não venhais vós
Venham vocês Não venham vocês

Os tempos verbais
Ouça uma narração de um jogo de futebol (na aula on-line).

A narração que você ouviu foi feita em um tempo verbal conhecido como
presente histórico, em que se utiliza o tempo presente para narrar um
acontecimento histórico já passado, com o intuito de conferir mais emoção, mais
dramaticidade, mais atualidade ao narrado.

Os tempos verbais do modo indicativo


Tempo é a situação da ocorrência do processo em relação ao momento em que
se fala, como atual ou presente; anterior ou passada; posterior ou futura.

a) presente – o processo verbal acontece no momento em que se fala. Pode


indicar processos habituais.

b) pretérito – o processo verbal acontece no passado.


Estavam satisfeitos com o desempenho do time. (idéia de continuidade no
passado)

c) futuro – o processo verbal acontece no futuro.


Transferirei sua ligação. (ação acontecerá)

73
Obs.: Evitar o uso do gerundismo (eu vou estar transferindo sua ligação) para
ações que se realizarão no futuro.

Saiba mais - Tempos verbais


O Pretérito pode ser:

• imperfeito:
Ex.:Amanhecia quando a escola de samba entrou na avenida. – indica processo
em desenvolvimento quando da ocorrência de outro fato.

Ex.:Gostaria de pedir-lhe ajuda – revela cortesia

Ex.:Se eu fosse você, voltava (no lugar de voltaria) para mim.- mostra
linguagem coloquial ou literária

•perfeito – exprime processos concluídos em período definido do passado.


Ex.:Aprendi tudo.

•mais –que-perfeito – processo que ocorreu antes de outro no passado.


Quando cheguei, o ônibus já saíra/ havia saído.

O futuro pode ser:

•do Presente – processos certos que não ocorreram ainda.ex.:Receberei


aumento.

•do pretérito - expressa processos posteriores ao momento passado a que


nos estamos referindo.Ex.:Não seria feliz sem estudar.

Os tempos verbais no modo subjuntivo


Presente – expressa processos hipotéticos.
Ex.: Espero que esteja bem. (Observe que não existe esteje nem seje)

Pretérito Imperfeito – indica condição. Ex.: Se vendesse a casa, teria mais dinheiro.
Não confunda vende-se (Vende-se casa) com vendesse (pretérito imperfeito
do subjuntivo).

Futuro – revela fatos possíveis. Ex.: Quando for a São Paulo, visitará a exposição.

74
Saiba mais - Divirta-se

O Verbo For
João Ubaldo Ribeiro

Vestibular de verdade era no meu tempo. Já estou chegando, ou já cheguei, à altura da


vida em que tudo de bom era no meu tempo; meu e dos outros coroas. Acho
inadmissível e mesmo chocante (no sentido antigo) um coroa não ser reacionário.
Somos uma força histórica de grande valor. Se não agíssemos com o vigor necessário —
evidentemente o condizente com a nossa condição provecta —, tudo sairia fora de
controle, mais do que já está. O vestibular, é claro, jamais voltará ao que era outrora e
talvez até desapareça, mas julgo necessário falar do antigo às novas gerações e lembrá-
lo às minhas coevas (ao dicionário outra vez; domingo, dia de exercício).

O vestibular de Direito a que me submeti, na velha Faculdade de Direito da Bahia,


tinha só quatro matérias: português, latim, francês ou inglês e sociologia, sendo que
esta não constava dos currículos do curso secundário e a gente tinha que se virar por
fora. Nada de cruzinhas, múltipla escolha ou matérias que não interessassem
diretamente à carreira. Tudo escrito tão ruybarbosianamente quanto possível, com
citações decoradas, preferivelmente. Os textos em latim eram As Catilinárias ou a
Eneida, dos quais até hoje sei o comecinho.

Havia provas escritas e orais. A escrita já dava nervosismo, da oral muitos nunca se
recuperaram inteiramente, pela vida afora. Tirava-se o ponto (sorteava-se o assunto)
e partia-se para o martírio, insuperável por qualquer esporte radical desta juventude
de hoje. A oral de latim era particularmente espetacular, porque se juntava uma
multidão, para assistir à performance do saudoso mestre de Direito Romano Evandro
Baltazar de Silveira. Franzino, sempre de colete e olhar vulpino (dicionário,
dicionário), o mestre não perdoava.

— Traduza aí quousque tandem, Catilina, patientia nostra — dizia ele ao entanguido


vestibulando.
— “Catilina, quanta paciência tens?” — retrucava o infeliz.

Era o bastante para o mestre se levantar, pôr as mãos sobre o estômago, olhar para a
platéia como quem pede solidariedade e dar uma carreirinha em direção à porta da sala.

— Ai, minha barriga! — exclamava ele. — Deus, oh Deus, que fiz eu para ouvir
tamanha asnice? Que pecados cometi, que ofensas Vos dirigi? Salvai essa alma de
alimária. Senhor meu Pai!

75
Pode-se imaginar o resto do exame. Um amigo meu, que por sinal passou, chegou a
enfiar, sem sentir, as unhas nas palmas das mãos, quando o mestre sentiu duas dores
de barriga seguidas, na sua prova oral. Comigo, a coisa foi um pouco melhor, eu
falava um latinzinho e ele me deu seis, nota do mais alto coturno em seu elenco.

O maior público das provas orais era o que já tinha ouvido falar alguma coisa do
candidato e vinha vê-lo “dar um show”. Eu dei show de português e inglês. O de
português até que foi moleza, em certo sentido. O professor José Lima, de pé e
tomando um cafezinho, me dirigiu as seguintes palavras aladas:

— Dou-lhe dez, se o senhor me disser qual é o sujeito da primeira oração do


Hino Nacional!
— As margens plácidas — respondi instantaneamente e o mestre quase deixa cair a
xícara.
— Por que não é indeterminado, “ouviram, etc.”?
— Porque o “as” de “as margens plácidas” não é craseado. Quem ouviu foram as margens
plácidas. É uma anástrofe, entre as muitas que existem no hino. “Nem teme quem te adora
a própria morte”: sujeito: “quem te adora.” Se pusermos na ordem direta...
— Chega! — berrou ele. — Dez! Vá para a glória! A Bahia será sempre a Bahia!

Quis o irônico destino, uns anos mais tarde, que eu fosse professor da Escola de
Administração da Universidade Federal da Bahia e me designassem para a banca de
português, com prova oral e tudo. Eu tinha fama de professor carrasco, que até hoje
considero injustíssima, e ficava muito incomodado com aqueles rapazes e moças
pálidos e trêmulos diante de mim. Uma bela vez, chegou um sem o menor sinal de
nervosismo, muito elegante, paletó, gravata e abotoaduras vistosas. A prova oral era
bestíssima. Mandava-se o candidato ler umas dez linhas em voz alta (sim, porque
alguns não sabiam ler) e depois se perguntava o que queria dizer uma palavra trivial
ou outra, qual era o plural de outra e assim por diante. Esse mal sabia ler, mas não
perdia a pose. Não acertou a responder nada. Então, eu, carrasco fictício, peguei no
texto uma frase em que a palavra “for” tanto podia ser do verbo “ser” quanto do
verbo “ir”. Pronto, pensei. Se ele distinguir qual é o verbo, considero-o um gênio,
dou quatro, ele passa e seja o que Deus quiser.

— Esse “for” aí, que verbo é esse?

Ele considerou a frase longamente, como se eu estivesse pedindo que resolvesse a


quadratura do círculo, depois ajeitou as abotoaduras e me encarou sorridente.

— Verbo for.
— Verbo o quê?
— Verbo for.

76
— Conjugue aí o presente do indicativo desse verbo.
— Eu fonho, tu fões, ele fõe - recitou ele, impávido. — Nós fomos, vós fondes, eles fõem.

Não, dessa vez ele não passou. Mas, se perseverou, deve ter acabado passando e
hoje há de estar num posto qualquer do Ministério da Administração ou na equipe
econômica, ou ainda aposentado como marajá, ou as três coisas. Vestibular, no meu
tempo, era muito mais divertido do que hoje e, nos dias que correm, devidamente
diplomado, ele deve estar fondo para quebrar. Fões tu? Com quase toda a certeza,
não. Eu tampouco fonho. Mas ele fõe.

——
Esta crônica foi publicada no jornal “O Globo” (e em outros jornais) na edição de
domingo, 13 de setembro de 1998 e integra o livro “O Conselheiro Come”, Ed.
Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 2000, pág. 20.

Saiba mais - Visite os sites:


- http://www.gramaticaonline.com.br
- http://www.priberam.pt/dlpo/gramatica.aspx

O número do verbo
O verbo apresenta terminações ou desinências que indicam número singular e plural.
É preciso fazer sempre a concordância. (Abordaremos esse assunto mais adiante)

As pessoas do verbo
A flexão de pessoa indica as pessoas do discurso. São elas:

a) 1ª pessoa é a que fala, também chamada de falante, emissor. Eu e nós. Eu


estudei, nós trabalhamos.

b) 2ª pessoa é aquela com quem se fala, ouvinte ou receptor. Tu e vós. Tu


estudaste, vós trabalhastes. Ao redigir um texto de maneira impessoal, faça-o na
terceira pessoa do singular ou na primeira pessoa do plural. Não misture essas
pessoas no mesmo discurso.

c) 3ª pessoa é a de quem ou que se fala ou o assunto e corresponde aos pronomes


pessoais ele, ela, no singular, eles e elas, no plural. Ele trabalhou, eles trabalharam.

77
As vozes do verbo
a) Voz ativa: o sujeito pratica ação verbal.
Ex.: Nós falamos de futebol.

b) Voz passiva: o sujeito recebe a ação verbal.


Ex.: A casa foi destruída pelo fogo.
Ex.:Comprou- se o livro (= O livro foi comprado).

c) Voz reflexiva: o sujeito pratica e recebe a ação verbal, simultaneamente.


Ex.: João feriu- se. Quando se quer comunicar algo com rapidez, costuma-se
preferir a voz ativa.

Dicas sobre revisão gramatical


Na escrita, prefira o verbo haver em lugar do verbo ter. Ex.: Há pessoas
interessantes aqui.

Atente para a grafia do verbo querer: quis, quiseste, quiserem, quiseram, quiséssemos.

Os verbos abundantes são aqueles que apresentam mais de uma forma,


especialmente no particípio. Exemplos: expressar – expressado – expresso.

• auxiliares ter e haver : forma regular: ter/haver expressado


• auxiliares ser e estar: forma reduzida: ser/estar expresso

Exemplos:
Havia imprimido o documento. O documento foi impresso.
Ela havia chegado cedo. ( não existe havia chego)

Não confunda:
• estudaram (pretérito perfeito do indicativo) com estudarão (futuro presente)-
Ontem, eles estudaram. Amanhã, nós estudaremos. Amanhã, eles estudarão.
• perca (verbo) com perda (substantivo) –Espero que você não perca minha
aula. Bateu o carro e deu perda total.
• põe, impõe( singular) com põem, impõem(plural). Ele põe o documento
sobre a mesa e elas impõem respeito.
• vêm (vir) com vêem(ver), exemplo: Eles vêm cedo. Eles vêem uma saída.
• tem e têm - Ele tem – eles têm
• vem e vêm - Ele vem – eles vêm –(os derivados do verbo ter: ele mantém -
eles mantêm)

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Saiba mais - Visite os sites:
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2a Atividade em aula
Teste seus conhecimentos
1. Se você não ..........(manter-se) bem atualizado, correrá o risco de não
encontrar um lugar no mercado de trabalho.
2. Se ele não.....(fazer) o trabalho, não terá promoção.
3. Eu.. (capto) tudo aquilo pelo que...(optar)
4. Parece inadmissível que os políticos....(agir) com ética neste país.
5. ........(Correr). Você não tem mais nada a fazer aqui.
6. Quando ele ......(ver) o lugar, saberá do que estou falando.
7. Quando ele......(vir), visitarei você.
8. Aí eu não ....(caber)
9. Espero que tudo isso ...(valer) a pena.
10. Não ..(cuspir) no chão, pois é feio.
11. Espero que ele ...(estar) bem e...(ser) feliz.
12. Agora ele ...(poder) fazer, mas até então nunca....(pode)
13. O Estado não .....(intervir –pret.perf.) na economia.

Respostas
1. Se você não se mantiver(manter-se) bem atualizado, correrá o risco de não
encontrar um lugar no mercado de trabalho.
2. Se ele não fizer (fazer) o trabalho, não terá promoção.
3- Eu capto (capto) tudo aquilo pelo que opto(optar)
4- Parece inadmissível que os políticos ajam(agir) com ética neste país.
5- Corra(Correr). Você não tem mais nada a fazer aqui.
6- Quando ele vir(ver) o lugar, saberá do que estou falando.
7- Quando ele vier(vir), visitarei você.
8- Aí eu não caibo(caber)
9- Espero que tudo isso valha(valer) a pena.
10- Não cuspa(cuspir) no chão, pois é feio.
11- Espero que ele esteja(estar) bem e seja(ser) feliz.
12- Agora ele pode(poder) fazer, mas até então nunca pôde(pode).
13- O Estado não interveio(intervir –pret.perf.) na economia.

79
Síntese da aula de hoje
Na aula de hoje, aprendemos vários conceitos e dicas relacionados ao verbo e
que lhes auxiliarão para uma leitura e escrita mais competente de textos narrativos.

Próxima aula
Como enunciamos na aula 7, a narração não ocorre como modalidade pura no
texto, ela vem, em geral, acompanhada pela descrição. Este será nosso assunto da
próxima aula. Para se preparar para essa nova viagem, nesta semana passe a observar
as pessoas com quem convive, os lugares por onde passa, o lugar em que trabalha, a
casa em que mora.

Até mais!

80
Aula 09 - O ato de descrever
Na aula de hoje, você aprenderá o que é descrever e conhecerá elementos e
recursos que envolvem essa modalidade textual. Assim, será capaz tanto de
reconhecer quanto de produzir texto descritivo.

Além disso, você também aprenderá a empregar, adequadamente, a classe


gramatical que favorece a descrição: o adjetivo –o que lhe permitirá ler e escrever
textos desse tipo com mais competência.

Para que descrevemos? Quais os textos descritivos que fazem parte de nossa vida?

Faça uma busca na Internet e retire um texto publicitário que apresente as


características do produto.

Essas características identificam o texto descritivo. Registre qual a finalidade da


descrição ali utilizada.

Saiba mais
Dica: Assista ao programa na hora do intervalo, no canal Multishow. São
apresentadas propagandas excelentes.

Observe como descrição e narração convivem no mesmo parágrafo, e até no


mesmo período.

“Na planície avermelhada, os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os


infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos.
Ordinariamente, andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do
rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma
sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da
caatinga rala”.
(RAMOS, Graciliano. Vidas Secas.)

Descrevemos, em geral, para dar mais veracidade ao que queremos, para registrar
com clareza aspectos marcantes de alguém, de algum lugar, de algum objeto. Há muitos
textos descritivos que fazem parte de nossa vida cotidiana: bulas de remédio, manuais de
computador, de vídeo, de aparelhos em geral, relatórios, resenhas, currículos, mapas,
plantas de edifícios, retratos, naturezas-mortas,entre outros.

81
1a Atividade em aula
Teste seus conhecimentos
Ouça a música “Lua de São Jorge” de Caetano Veloso, verifique a presença da
descrição, identifique as características atribuídas à lua. Escreva-as.

Agora, compare com a tela em que Debret descreve D. João VI.

Saiba mais - Jean Baptiste Debret


Jean Baptiste Debret nasceu na França, em 1768 -1848). Pintor, desenhista, gravador,
professor, decorador, cenógrafo.

Freqüentou a Academia de Belas Artes, em Paris, entre 1785 e 1789, aluno de


Jacques-Louis David (1748-1825), seu primo e líder do neoclassicismo francês.

Por volta de 1806, trabalha como pintor na corte de Napoleão (1769-1821). Após a
queda do imperador e com a morte de seu único filho, Debret decide integrar a
Missão Artística Francesa, que vem ao Brasil em 1816. Instala-se no Rio de Janeiro.

Em 1818, colabora na decoração pública para a aclamação de D. João VI (1767-1826).

De 1826 a 1831, é professor de pintura histórica na Academia Imperial de Belas


Artes, atividade que alterna com viagens para várias cidades do país, quando retrata
tipos humanos, costumes e paisagens locais.Em 1829, organiza a Exposição da Classe
de Pintura Histórica da Imperial Academia de Belas Artes, primeira mostra pública de
arte no Brasil.

Deixa o país em 1831 e retorna a Paris com o discípulo Porto Alegre. Visite o site
itaucultural.org.br

As palavras (ou classes gramaticais) mais usadas na descrição são os adjetivos –


além dos verbos, sobretudo os de ligação(ser, estar, continuar, ficar, parecer etc.).
Veja como Machado descreve a Capitu em Dom Casmurro:

“Catorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio


desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma à
outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes,
nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo largo.”

Também podem ser usadas comparações: “olhos de cigana, oblíqua e dissimulada.”

82
Saiba mais - Machado de Assis
Machado de Assis foi jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo,
nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 1839, e faleceu em 1908.

É o fundador da Cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Ocupou por mais


de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa
de Machado de Assis.

Filho de operário, perdeu a mãe muito cedo, foi criado no morro do Livramento.
Sem condições financeiras, estudou como pôde e, em 1855, com 16 anos
incompletos, publicou o primeiro trabalho literário, o poema “Ela”, na Marmota
Fluminense, jornal de Francisco de Paula Brito, número datado de 12 de janeiro de
1855. No ano seguinte, entrou para a Imprensa Nacional, como aprendiz de
tipógrafo, e lá conheceu Manuel Antônio de Almeida, que se tornou seu protetor.

Machado de Assis se casou com Carolina Augusta Xavier de Novais. Foi companheira
perfeita durante 35 anos, tendo-lhe revelado os clássicos portugueses e vários
autores de língua inglesa.

A obra de Machado de Assis abrange, praticamente, todos os gêneros literários.


Escreveu os romances Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e
Iaiá Garcia (1878), considerados como pertencentes ao seu período romântico;
Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Quincas Borba, entre outros na
linha realista.
Visite o site:machadodeassis.org.br e saiba mais sobre o autor.

A descrição pode despertar nossos órgãos dos sentidos (visão, audição, olfato,
paladar, tato). Sinta o poema de Cecília Meireles.

Rio na Sombra O frio


Som bom
frio. do longo rio.

Rio Tão longe,


sombrio. tão bom,
tão frio
O longo som o claro som
do rio do rio
frio. sombrio!

83
Saiba mais
Visite o site: http://www.secrel.com.br/jpoesia/ceciliameireles1bio.html e descubra a
grande poetisa da literatura brasileira.

Quando a arte literária está em jogo, estamos diante do reino dos possíveis.

Ali tudo é permitido, inclusive romper as regras de uso do adjetivo que, em


geral, qualificam a descrição.

Só para aguçar a sua curiosidade, busque a letra da música de Chico Buarque,


“Apesar de Você” e compare com o poema abaixo de Ana Cristina César.
Observe os diferentes olhares sobre um mesmo tema: o cenário
contemporâneo do pós-golpe de 64.

Registre sua análise e tente descobrir a intencionalidade do autor com essa


caracterização idealizada.

Pesquise um pouco sobre o 1964. Isso pode ajudá-lo a descobrir o que está por
trás dessa construção textual.

São pistas que podem ajudá-lo a descobrir o que está por trás dessa
construção textual.

Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e


dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.

84
Descrição subjetiva x Descrição objetiva
Há dois tipos de descrição:
objetiva - sem impressões do observador, tentando mais proximidade com o real.
Ex.: livro vermelho.

subjetiva - apresenta visão do observador por meio de juízos de valor.


Ex.: livro interessante.

Saiba mais
Visite os sites:
- http://www.gramaticaonline.com.br
- http://www.priberam.pt/dlpo/gramatica.aspx

Dicas sobre revisão gramatical


Ele é paulista, não é paulistano. De onde ele é? Da cidade de São Paulo ou do
estado de São Paulo?
Resposta:do estado de São Paulo. Pesquise os adjetivos pátrios.

Você sabe o que é soteropolitano?


Resposta: adjetivo pátrio referente a Salvador.

Uma empresa sino-brasileira é feita da união de quais países?


Resposta: China e Brasil.

O corpo discente apoiou o corpo docente. Quem apoiou quem, respectivamente?


Resposta: alunos apoiaram professores

Uma pessoa muito amiga é amicíssima. Uma pessoa muito séria é...
Resposta: Seriíssima

Fique atento ao plural dos adjetivos:


Cidadão luso-brasileiro = Cidadãos luso-brasileiros
(2 adjetivos= o último vai para o plural)

Calça amarelo-ouro = Calças amarelo-ouro


(1 adjetivo e 1 substantivo= invariável)

85
Papel cor-de-rosa = Papéis cor-de-rosa ou papéis rosa
(expressão cor-de explícita ou implícita – invariável)

Exceção:
Blusa azul-marinho = Blusas azul-marinho.(invariável, assim como azul-celeste)
Rapaz surdo-mudo = Rapazes surdos-mudos (os dois adjetivos variam)

Pode usar mais bom e mais grande?

Analise as frases:
Ele é mais bom do que esperto.
Minha casa é mais grande do que bonita.

Isso só é possível se houver dois adjetivos para um substantivo.


Se forem 2 substantivos a serem comparados por um adjetivo, a situação é outra.

Observe:
Ele é melhor do que ela. (são duas pessoas comparadas)
Minha casa é maior do que a sua. (são duas casas comparadas)

A posição do adjetivo na frase, muitas vezes, pode modificar o sentido.


Atribua um sentido para os adjetivos em destaque:
a. O alto funcionário quer participar da vida pública.
b. O funcionário alto quer participar da vida pública.
c. Esse simples exercício serve para você entender que a posição do adjetivo
pode modificar seu significado.
d. Esse exercício simples nunca mais será esquecido.

Respostas
a. O alto funcionário quer participar da vida pública.(de posição elevada)
b. O funcionário alto quer participar da vida pública.(de estatura elevada)
c. Esse simples exercício serve para você entender que a posição do adjetivo
pode modificar seu significado.(mero)
d. Esse exercício simples nunca mais será esquecido.(fácil)

Saber usar o adjetivo pode nos ajudar a imprimir, ao texto, uma qualidade
importante: a concisão.

86
Complete as frases com o adjetivo adequado.
1. Um discurso que não tem fim é um discurso.....
2. Uma letra que não se pode ler é.....
3. Um texto que não se pode compreender é.....
4. Lembranças que não se podem apagar são....

Respostas
1.infindável
2.ilegível
3.ininteligível
4.indeléveis

Saiba mais
Visite os sites:
- http://www.gramaticaonline.com.br
- http://www.priberam.pt/dlpo/gramatica.aspx

Síntese da aula de hoje


Na aula de hoje, aprendemos a importância da descrição para conferir
veracidade ao que se narra, para dar imagem mais viva e detalhada ao que se expõe.

Constatamos como essa modalidade textual está presente nos diferentes textos
que nos cercam, literários(poemas, romances, etc.), não-literários (manuais, bulas,
plantas de casa),visuais (quadros de naturezas-mortas, retratos etc.). Percebemos que
um texto será tanto mais rico e dinâmico quanto mais sua trama articular dois ou
mais dos processos de composição, por exemplo: a narração e a descrição.

Além disso, estudamos, também, o emprego adequado do adjetivo em


diferentes contextos.

87
Saiba mais - Você pode tentar uma definição de descrição?
Uma resposta possível: Descrição é o nome que se dá à enumeração ou
apresentação verbal das características essenciais ou contingentes dos seres e coisas –
sejam pessoas, objetos ou lugares.

Caracteriza-se por ser um “retrato verbal” de pessoas, objetos, animais, sentimentos,


cenas ou ambientes.

Segundo uma definição clássica do crítico francês Gérard Genette, a descrição


pressupõe de certa forma a imobilidade (quer dizer, a ausência de movimentos)
daquilo que se descreve, em sua exclusiva existência espacial, fora de qualquer
acontecimento e até de qualquer dimensão temporal.

De fato, na descrição predomina a dimensão ontológica do número – na medida em


que ela dá conta da extensão e da quantidade dos seres e coisas.

Próxima aula
Na próxima aula, nosso discurso se volta para o texto dissertativo.

Enquanto isso,vai pensando na seguinte pergunta: a pena de morte deve ser


implantada no Brasil?

Até breve!

88
Aula 10 - O ato de dissertar
Na aula de hoje, você aprenderá o que é dissertar e conhecerá a estrutura do
texto dissertativo, terá dicas para redigir essa modalidade textual.

Assim, será capaz tanto de reconhecer quanto de produzir textos desse tipo.

Além disso, identificará alguns elementos que conferem coesão e coerência ao texto.

Você se lembra de alguma vez em que precisou convencer alguém sobre seu
ponto de vista? Registre sua experiência.

É capaz de identificar que recurso usou para conseguir isso?

Observe como isso ocorre no discurso platônico.

Pesquise a obra “Fédon”, de Platão, in: Coleção os Pensadores, Editora Abril.

Na vida cotidiana, temos constantemente necessidade de expor idéias pessoais,


opiniões, pontos de vista, convencer o outro de uma idéia nossa e, para isso, usamos
a dissertação, que tanto pode ser oral quanto escrita.

Toda forma dissertativa, discursiva, necessita de regras, e a primeira delas, além


de saber ouvir, é não produzir contradição no discurso.

Toda contradição destrói e nega os argumentos. Por exemplo, não se pode


defender que exercícios físicos em excesso podem prejudicar a saúde e, em outro
lugar do texto, dizer que o jovem deve malhar o máximo que puder. Contradições
desse tipo podem tornar o texto incoerente.

Dissertar é:
• Expor um assunto - nesse caso, a dissertação é expositiva.
• Defender um ponto de vista - nesse caso, a dissertação é argumentativa.

Você pode posicionar-se de modo pessoal, na primeira pessoa do singular ou de


modo impessoal, na terceira pessoa do singular ou na primeira pessoa do plural. Assim,
produzirá uma dissertação subjetiva ou uma dissertação objetiva, respectivamente.

89
Se você é brasileiro, leia a dissertação subjetiva de Cristovão Buarque, ex-governador
do Distrito Federal, durante debate em uma Universidade, nos Estados Unidos, em que
foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. Essa matéria foi
publicada no New York Times / Washington Post, Today e nos maiores jornais da Europa e
Japão. No Brasil, demorou a aparecer e não foi nos jornais.

O jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de


um humanista e não de um brasileiro.

Esta foi a resposta do Sr. Cristóvão Buarque:


De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização
da Amazônia.
Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse
patrimônio, ele é nosso.

Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a


Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais
que tem importância para a humanidade.

Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada,


internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro O petróleo é tão
importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro.

Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou


diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado.

Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser
queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave
quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores
globais. Não podemos deixar que as Reservas financeiras sirvam para queimar países
inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a
internacionalização de todos os grandes museus do mundo.

O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é


guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano.

Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural


amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.

90
Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de
um grande mestre.

Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio,


mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por
constrangimentos na fronteira dos EUA.

Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser
internacionalizada.

Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como


Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, ada cidade, com sua
beleza específica, sua historia do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas


mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até
porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma
destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas
florestas do Brasil.

Nos seus debates, os atuais candidatos a presidência dos EUA tem defendido a
idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida.
Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha
possibilidade de COMER e de ir a escola.

Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país


onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro.

Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as


crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixaão
que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.

Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo.

Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia
seja nossa. Só nossa!”

91
Para fazer uma boa dissertação, é necessário:
1. Conhecer o assunto, ter repertório. (ler, observar fatos, conversar com
pessoas etc.).
2. Refletir sobre o tema, analisar, interpretar.
3. Registrar o fluxo de idéias que aparecem na mente (fatos, informações,
opiniões).
4. Planejar, organizar o caos de idéias que aparecem na mente quando temos
que desenvolver um tema:
a. Propor uma tese ou um tópico frasal – uma frase que aponte a idéia central
que você pretende desenvolver, expor, provar.
b. Registrar idéias e argumentos importantes, não se esquecendo da lógica, do
princípio da não contradição e da continuidade.
5. Executar o plano de redação com clareza, coesão, coerência e correção,
mantendo sempre fidelidade ao tema.

Para entender Lógica, pesquise L. Wittegenstein.

1o. Texto
Tarsila do Amaral
Tarsila do Amaral (1886-1973) nasceu em uma fazenda no interior de São
Paulo. Iniciou-se nas artes em Barcelona, em 1902, onde copiava imagens religiosas.
Dois anos depois, já no Brasil, casou-se com André Teixeira Pinto e teve sua única
filha, Dulce.

Separada, mudou-se para São Paulo em 1913. Conheceu Anita Malfatti (1889-
1964), sua grande amiga. Em 1920, foi a Paris, onde teve o primeiro contato com a
arte moderna européia, com os trabalhos de Pablo Picasso (1881-1973) e a
produção de dadaístas e futuristas.

Em abril de 1922, dois meses depois da Semana de Arte Moderna, voltou ao


Brasil.Conheceu Menotti del Picchia (1892-1945), Mário e Oswald de Andrade e,
junto com Anita, fundou o Grupo dos Cinco.

Nessa fase, a artista trabalhava com pinceladas mais ousadas. Em 1923, voltou a
Paris e retomou as aulas de artes agora não mais convencionais e acadêmicas. Para
conhecer mais telas da pintora visite o site www.tarsiladoamaral.com.br.

92
2o. Texto
Tempos Modernos de Charles Chaplin

3o. Texto
Operário em construção
(Vinícius de Moraes)

Era ele que erguia casas Mas ele desconhecia


Onde antes só havia chão. Esse fato extraordinário:
Como um pássaro sem asas Que o operário faz a coisa
Ele subia com as casas E a coisa faz o operário.
Que lhe brotavam da mão. De forma que, certo dia
Mas tudo desconhecia À mesa, ao cortar o pão
De sua grande missão: O operário foi tomado
Não sabia, por exemplo De uma súbita emoção
Que a casa de um homem é um templo Ao constatar assombrado
Um templo sem religião Que tudo naquela mesa
Como tampouco sabia – Garrafa, prato, facão –
Que a casa que ele fazia Era ele quem os fazia
Sendo a sua liberdade Ele, um humilde operário,
Era a sua escravidão. Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
De fato, como podia Banco, enxerga, caldeirão
Um operário em construção Vidro, parede, janela
Compreender por que um tijolo Casa, cidade, nação!
Valia mais do que um pão? Tudo, tudo o que existia
Tijolos ele empilhava Era ele quem o fazia
Com pá, cimento e esquadria Ele, um humilde operário
Quanto ao pão, ele o comia... Um operário que sabia
Mas fosse comer tijolo! Exercer a profissão.
E assim o operário ia
Com suor e com cimento [...]
Erguendo uma casa aqui E foi assim que o operário
Adiante um apartamento Do edifício em construção
Além uma igreja, à frente Que sempre dizia sim
Um quartel e uma prisão: Começou a dizer não.
Prisão de que sofreria E aprendeu a notar coisas
Não fosse, eventualmente A que não dava atenção:
Um operário em construção.

93
Notou que sua marmita E o operário ouviu a voz
Era o prato do patrão De todos os seus irmãos
Que sua cerveja preta Os seus irmãos que morreram
Era o uísque do patrão Por outros que viverão.
Que seu macacão de zuarte Uma esperança sincera
Era o terno do patrão Cresceu no seu coração
Que o casebre onde morava E dentro da tarde mansa
Era a mansão do patrão Agigantou-se a razão
Que seus dois pés andarilhos De um homem pobre e esquecido
Eram as rodas do patrão Razão porém que fizera
Que a dureza do seu dia Em operário construído
Era a noite do patrão O operário em construção.
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!


E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

[...]

Veja texto na íntegra De fato, como podia


Um operário em construção
Era ele que erguia casas Compreender por que um tijolo
Onde antes só havia chão. Valia mais do que um pão?
Como um pássaro sem asas Tijolos ele empilhava
Ele subia com as casas Com pá, cimento e esquadria
Que lhe brotavam da mão. Quanto ao pão, ele o comia...
Mas tudo desconhecia Mas fosse comer tijolo!
De sua grande missão: E assim o operário ia
Não sabia, por exemplo Com suor e com cimento
Que a casa de um homem é um templo Erguendo uma casa aqui
Um templo sem religião Adiante um apartamento
Como tampouco sabia Além uma igreja, à frente
Que a casa que ele fazia Um quartel e uma prisão:
Sendo a sua liberdade Prisão de que sofreria
Era a sua escravidão. Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

94
Mas ele desconhecia Foi dentro da compreensão
Esse fato extraordinário: Desse instante solitário
Que o operário faz a coisa Que, tal sua construção
E a coisa faz o operário. Cresceu também o operário.
De forma que, certo dia Cresceu em alto e profundo
À mesa, ao cortar o pão Em largo e no coração
O operário foi tomado E como tudo que cresce
De uma súbita emoção Ele não cresceu em vão
Ao constatar assombrado Pois além do que sabia
Que tudo naquela mesa – Exercer a profissão –
– Garrafa, prato, facão – O operário adquiriu
Era ele quem os fazia Uma nova dimensão:
Ele, um humilde operário, A dimensão da poesia.
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela E um fato novo se viu
Banco, enxerga, caldeirão Que a todos admirava:
Vidro, parede, janela O que o operário dizia
Casa, cidade, nação! Outro operário escutava.
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia E foi assim que o operário
Ele, um humilde operário Do edifício em construção
Um operário que sabia Que sempre dizia sim
Exercer a profissão. Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
Ah, homens de pensamento A que não dava atenção:
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário Notou que sua marmita
Soube naquele momento! Era o prato do patrão
Naquela casa vazia Que sua cerveja preta
Que ele mesmo levantara Era o uísque do patrão
Um mundo novo nascia Que seu macacão de zuarte
De que sequer suspeitava. Era o terno do patrão
O operário emocionado Que o casebre onde morava
Olhou sua própria mão Era a mansão do patrão
Sua rude mão de operário Que seus dois pés andarilhos
De operário em construção Eram as rodas do patrão
E olhando bem para ela Que a dureza do seu dia
Teve um segundo a impressão Era a noite do patrão
De que não havia no mundo Que sua imensa fadiga
Coisa que fosse mais bela. Era amiga do patrão.

95
E o operário disse: Não! Sentindo que a violência
E o operário fez-se forte Não dobraria o operário
Na sua resolução. Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
Como era de se esperar De sorte que o foi levando
As bocas da delação Ao alto da construção
Começaram a dizer coisas E num momento de tempo
Aos ouvidos do patrão. Mostrou-lhe toda a região
Mas o patrão não queria E apontando-a ao operário
Nenhuma preocupação Fez-lhe esta declaração:
– “Convençam-no” do contrário – – Dar-te-ei todo esse poder
Disse ele sobre o operário E a sua satisfação
E ao dizer isso sorria. Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dia seguinte, o operário Dou-te tempo de lazer
Ao sair da construção Dou-te tempo de mulher.
Viu-se súbito cercado Portanto, tudo o que vês
Dos homens da delação Será teu se me adorares
E sofreu, por destinado E, ainda mais, se abandonares
Sua primeira agressão. O que te faz dizer não.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado Disse, e fitou o operário
Mas quando foi perguntado Que olhava e que refletia
O operário disse: Não! Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
Em vão sofrera o operário O operário via as casas
Sua primeira agressão E dentro das estruturas
Muitas outras se seguiram Via coisas, objetos
Muitas outras seguirão. Produtos, manufaturas.
Porém, por imprescindível Via tudo o que fazia
Ao edifício em construção O lucro do seu patrão
Seu trabalho prosseguia E em cada coisa que via
E todo o seu sofrimento Misteriosamente havia
Misturava-se ao cimento A marca de sua mão.
Da construção que crescia. E o operário disse: Não!

96
– Loucura! – gritou o patrão Um silêncio de torturas
Não vês o que te dou eu? E gritos de maldição
– Mentira! – disse o operário Um silêncio de fraturas
Não podes dar-me o que é meu. A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
E um grande silêncio fez-se De todos os seus irmãos
Dentro do seu coração Os seus irmãos que morreram
Um silêncio de martírios Por outros que viverão.
Um silêncio de prisão. Uma esperança sincera
Um silêncio povoado Cresceu no seu coração
De pedidos de perdão E dentro da tarde mansa
Um silêncio apavorado Agigantou-se a razão
Com o medo em solidão. De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Saiba mais - Marcus Vinícius de Melo Moraes


Marcus Vinícius de Melo Moraes (Gávea, Guanabara 19.10.1913 - Rio de Janeiro
9.7.1980) é poeta e compositor brasileiro dos mais célebres.

Formou-se em Direito em 1933 e conheceu o poeta Mário de Andrade, com quem


estabelece grande amizade.

Dedica-se ao jornalismo, e apaixonado pela sétima arte, torna-se crítico de cinema.

Ingressou na carreira diplomática, foi vice-cônsul, segundo-secretário da embaixada


em Paris.

Ao lado do compositor Antônio Carlos Jobim e o cantor João Gilberto, Vinícius teve
papel importante no movimento de renovação da música popular brasileira, a que se
deu o nome de Bossa Nova.

1o. Texto
Tarsila do Amaral - Operários

97
2o. Texto
Alugue e assista os dois filmes abaixo:
- Beleza Americana
- Um Mundo Perfeito

3o. Texto
José sua biblioteca,
E agora, José? sua lavra de ouro,
A festa acabou, seu terno de vidro,
a luz apagou, sua incoerência,
o povo sumiu, seu ódio – e agora?
a noite esfriou, Com a chave na mão
e agora, José? quer abrir a porta,
e agora, você? não existe porta;
você que é sem nome, quer morrer no mar,
que zomba dos outros, mas o mar secou;
você que faz versos, quer ir para Minas,
que ama, protesta? Minas não há mais.
e agora, José? José, e agora?
Está sem mulher, Se você gritasse,
está sem discurso, se você gemesse,
está sem carinho, se você tocasse
já não pode beber, a valsa vienense,
já não pode fumar, se você dormisse,
cuspir já não pode, se você cansasse,
a noite esfriou, se você morresse...
o dia não veio, Mas você não morre,
o bonde não veio, você é duro, José!
o riso não veio, Sozinho no escuro
não veio a utopia qual bicho-do-mato,
e tudo acabou sem teogonia,
e tudo fugiu sem parede nua
e tudo mofou, para se encostar,
e agora, José? sem cavalo preto
E agora, José? que fuja a galope,
Sua doce palavra, você marcha, José!
seu instante de febre, José, para onde?
sua gula e jejum, (Carlos Drummond de Andrade)

98
Pesquise sobre o tema, reflita, analise.
Registre o fluxo de suas idéias sem se preocupar com a ordem. Agora, organize-as.

Escreva a introdução de seu texto.


A introdução pode ser feita de várias maneiras:
Ex.: O intensivo aumento dos índices de violência nos grandes centros urbanos
está promovendo uma mobilização político-social.(constatação do problema)
Ex.: A cidade de São Paulo aparece, nos meios de comunicação,como foco de
violência urbana.(delimitação do assunto)
Ex.: Como um dos mais problemáticos fenômenos sociais, a violência está mobilizando
não só o governo brasileiro, mas também toda a população.(definição do tema)

Agora, exponha argumentos que comprovem o que você enunciou na


introdução.Escreva pelo menos três argumentos.
(Os argumentos podem ser compostos por exemplo, comparação, dado de
pesquisa,citação, alusão histórica,causas, consequências etc.)

Releia a introdução e conclua seu texto, confirmando a idéia principal.

Agora veja se o seu texto tem esta estrutura:


1. Introdução: proposição do tema, da idéia principal, do ponto de vista a ser
defendido.

2. Desenvolvimento: desenvolvimento da matéria, argumentação.

3. Conclusão: síntese das idéias discutidas no desenvolvimento, resultado da


argumentação.

1a Atividade em aula
Verifique se o texto que escreveu tem estas qualidades
- Clareza
- Concisão
- Objetividade
- Coerência
- Coesão
- Originalidade
- Correção gramatical

99
Saiba mais
Concisão: consiste em expressar o máximo de informação com o mínimo de palavras.

Objetividade: consiste em expor apenas as idéias significativas.

Clareza: é decorrente de nossa capacidade de organização das idéias na mente e a


adequada transposição para o material idiomático.

Coerência e coesão: qualidades resultantes da conexão harmônica entre idéias de


forma a produzir sentido.

Palavras e expressões facilitam a ligação entre as idéias: Para indicar


acréscimo: e, além do mais, novamente, igualmente, também, similarmente, como
complemento, sobretudo, finalmente, primeiro, segundo, terceiro, por último, além
do mais.
Para introduzir contraste: mas, porém, contudo, todavia, no entanto, entretanto,
embora, pelo contrário, ainda que, apesar de , ao contrário, por outro lado.

Para registrar conclusão, causa, ou efeito: assim, portanto, logo, concluindo,


conseqüentemente, como resultado, em outras palavras, resumindo, em resumo.
Para introduzir exemplo ou ilustração: assim, por exemplo, a saber, isto é,
notadamente, especialmente, tal como, especificamente.

Para enfatizar: principalmente, ainda, mais importante.

Originalidade: criatividade
Correção gramatical é o uso adequado da norma culta, sem desvios.

Dicas para dissertar bem


Confira se está no caminho:
1. Não use ponto após o título.
2. Prefira usar palavras de língua portuguesa a estrangeirismos.
3. Não use chavões, provérbios, ditos populares ou frases feitas.
4. Evite utilizar palavras como “coisa” e “algo”, por terem sentido vago.
5. Repetir palavras ou idéias empobrece o texto. Use sinônimos.

100
Divirta-se com alguns pleonasmos viciosos:
Elo de ligação (você já conheceu um elo de separação?)
Acabamento final (Há acabamento inicial?)
Juntamente com (se vou junto a você, vou com você, concorda?)
Encarar de frente (encarar vem de cara)
Multidão de pessoas ( se fossem peixes,seria cardume, certo?)
Amanhecer o dia (já viu amanhecer a noite?)
Criação nova (se fosse velha, não seria criação)
Retornar de novo (re já significa de novo)
Empréstimo temporário (tudo bem que os últimos, devido à crise, têm sido
definitivos)
Surpresa inesperada (se fosse esperada, não seria surpresa)
Em duas metades iguais (se não fossem iguais seriam metades?)
Há anos atrás (verbo haver já indica tempo decorrido)
Conviver junto(conviver é formado por com + viver)
Escolha opcional (toda escolha é opção)
Planejar antecipadamente (quem planejou depois faliu, certo?)
Possivelmente poderá ocorrer ( o que é possibilidade pode ocorrer)
repetir outra vez ( quem repete faz outra vez)
voltar atrás (já voltou para frente?)
Sorriso nos lábios (dá para sorrir em outro lugar?)
6. Só cite exemplos de domínio público.
7. Não abrevie palavras.

Divirta-se:
Em certa ocasião, uma família britânica foi passar as férias na Alemanha. No
decorrer de certo passeio, os membros da referida família repararam numa pequena
casa de campo e lhes pareceu boa para passarem as férias de verão. Conversaram
com o proprietário, um pastor protestante, e pediram que lhes mostrasse a casa. A
residência agradou muito aos visitantes ingleses, que combinaram ficar com ela para o
verão vindouro. Regressados a Inglaterra, discutiram muito sobre a planta da casa,
quando de repente, a senhora lembrou-se de não ter visto W. C. Confirmando o
senso prático dos ingleses, escreveram ao pastor para obter tal pormenor.

A carta foi assim redigida:


“Gentil Pastor: - sou membro da família que há pouco tempo visitou-o com o
fim de alugar sua propriedade no próximo verão, mas como esquecemos de um
detalhe muito importante, muito agradeceria se nos informasse onde se encontra o
W. C.”

101
O pastor alemão, não compreendendo o sentido da abreviatura W. C. , e
julgando trata-se da Capela da seita inglesa White Chapel, assim respondeu:
- “Gentil senhora: - recebi sua carta e tenho o prazer de comunicar-lhe que o
local a que se refere fica a 12 quilômetros da casa. Isto é muito cômodo, sobretudo
se tem o hábito de ir lá freqüentemente. Nesse caso, é preferível levar comida para
ficar lá o dia todo. Alguns vão a pé, outros de bicicleta. Há lugar para quatrocentas
pessoas sentadas e cem em pé. O ar é condicionado para evitar inconvenientes
comuns nas aglomerações. Os assentos são de veludo ( recomenda-se chegar cedo
para arrumar lugar sentado). As crianças permanecem ao lado dos adultos e todos
cantam o coro.
À entrada é fornecida uma folha de papel a cada pessoa, mas se alguém chegar
depois da distribuição, pode usar a folha do vizinho. Tal folha deve ser substituída à
saída, para ser usada durante todo o mês. Tudo que se recolhe é para as crianças
pobres da região.
Fotógrafos especiais tiram flagrantes para os jornais da cidade de modo que
todos possam ver seus semelhantes no cumprimento de um dever tão humano...”
(Autor desconhecido)

8. Não analise assuntos polêmicos sob apenas um dos lados da questão.


9. Não utilize o texto para propagar doutrina religiosa ou política nem para fazer
propaganda.
10. Evite truncar frases, deixar partes soltas. Use a pontuação correta.
11. Faça argumentação em progressão. Não seja redundante nos argumentos.

Dicas sobre revisão gramatical


ESTE / ESSE / AQUELE
Esses pronomes podem auxiliar na redação de seu texto para conferir coesão e
coerência.

Relação de espaço: proximidade/afastamento


Este - perto de quem fala. Esta caneta aqui é minha.
Esse - perto de quem ouve. Não gosto desse teu jeito de olhar.
Aquele - longe dos dois. De quem é aquele caderno?

Relação de tempo
Este - atual - Durante este mês, farei várias aulas.
Esse - próximo/ de preferência passado. Há dois meses, viajei para a Bahia.
Nesses dias, visitei lugares magníficos.
Aquele - tempo anterior mais afastado. A história versava sobre o começo do
século XX. Naqueles tempos, houve a Semana de Arte Moderna.

102
Relação aos termos da oração
Este- refere-se ao termo mais próximo
Aquele - refere-se ao termo mais afastado
De dois tipos de pessoas gosto muito: as crianças e os velhos. Estes, pela
sabedoria e aqueles, pela curiosidade.

2a Atividade em aula
Exercite:
Papai teve três filhos: João, Gerson e Luís. Este é medroso, esse é preguiçoso
e aquele é esforçado.

Pergunta-se:
Quem é medroso?
Quem é preguiçoso?
Quem é esforçado?

Resposta
Este(Luís) é medroso, esse (Gerson) é preguiçoso e aquele (João) é esforçado.

Relação aos termos da oração


Este - idéia a ser dita
Esse - idéia já dita
Prestem atenção nisto que foi dizer: seja feliz!
Isso que disse há pouco é verdadeiramente o meu desejo.

Saiba mais
Visite os sites:
- http://www.priberam.pt/dlpo/gramatica/gramatica.aspx
- http://www.portugues.com.br

103
Síntese da aula de hoje
Na aula de hoje, aprendemos a importância da dissertação para nossa vida
pessoal e profissional. Compreendemos os tipos de dissertação, a estrutura e a
qualidade dessa modalidade textual, além de dicas para dissertar bem.

Com relação aos aspectos gramaticais, aprendemos a utilizar os pronomes este,


esse e aquele em diferentes situações.

Agora, repense sobre a pena de morte e escreva outro texto dissertativo.


Quanto mais você exercitar, mais aperfeiçoará sua escrita.

Próxima aula
Na próxima aula, continuaremos com o texto dissertativo do tipo
argumentativo. Prepare-se: o assunto será a sedução no discurso. Enquanto isso, vai
pensando que estratégias você costuma usar para seduzir uma pessoa.

Você verá que, no texto argumentativo, não é muito diferente. Se puder,


pesquise sobre isso, afinal nos ensina Fernando Pessoa: “navegar é preciso, viver não
é preciso”. Desculpe brincadeira, mas embarque nessa.

Até breve!

104
Aula 11 - O ato de argumentar
Na aula de hoje, você aprenderá a importância de argumentar, saberá como
reconhecer e produzir texto dissertativo-argumentativo, identificará recursos para
seduzir no discurso.

Além disso, exercitará coesão e coerência.

Você já se perguntou por que algumas pessoas conseguem convencer outras de


seu ponto de vista?
Que recursos utiliza?
Como é possível argumentar com consistência e com coerência?
Como se organiza a estrutura lógica do texto?
Como é possível seduzir por meio do discurso?

Leia, atentamente, o trecho de um dos sermões do Padre Vieira.

Amor menino
Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba.
Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera!

São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar
pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a
circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas.

Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino: porque não há amor
tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a
natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe
as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê que não via; e faz-lhes
crescer as asas com que voa e foge.

A razão natural de toda essa diferença é porque o tempo tira a novidade às


coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para
não serem as mesmas.

Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor?

O mesmo amar é causa de não amar e ter amado muito, de amar a menos.
(Vieira, Pe. Antônio. Sermões. São Paulo, Ed. das Américas. v. 5, p. 197-70.)

105
Saiba mais - Padre Vieira
Padre Vieira nasceu em 1608 e morreu em 1697. Nasceu em Lisboa e, aos seis anos,
veio para o Brasil.

Foi escritor e pregador. A partir de 1638, pronunciou alguns dos mais notáveis sermões.

Eis algumas de suas principais obras: Sermão de Santo António aos peixes; Sermão da
Sexagésima; Esperanças de Portugal - V Império do mundo; História do Futuro, entre outros.

Atividade em aula
Vamos tentar um entendimento do texto?

01. O tema do texto ressalta valor:


( ) real e concreto;
( ) espiritual e insignificante para a vida humana;
( ) espiritual e de grande significado para a vida humana;
( ) material e irreal;
( ) n.d.a.

02. Assinale o que for verdadeiro quanto ao texto acima:


( ) Quanto mais velho o amor, mais forte.
( ) Quanto mais novo o amor, mais intenso.
( ) O amor pode ser transitório ou permanente.
( ) O amor mais intenso é o que dura mais.
( ) n.d.a.

03. O texto enfatiza o problema:


( ) do tempo
( ) do espírito
( ) da matéria
( ) da vida
( ) n.d.a.

04. Podemos depreender do texto que:


( ) valores humanos resistem ao tempo;
( ) valores humanos são pouco importantes;
( ) sentimentos e valores humanos são a mesma coisa;
( ) sentimentos humanos são transitórios;
( ) n.d.a.

106
Atividade em aula
05. Grife no texto qual a tese, a idéia que Padre Vieira defende.
06. Grife 3 argumentos utilizados para defender a tese.
07. Grife a conclusão do autor. Lembre-se de que ela é decorrência da
argumentação e não pode ser contraditória à tese.

Amor menino
Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba.
Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera!
São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar
pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a
circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos
sabiamente pintaram o amor menino: porque não há amor tão robusto que chegue a
ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o
tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já
não fere; abre-lhe os olhos, com que vê que não via; e faz-lhes crescer as asas com
que voa e foge.
A razão natural de toda essa diferença é porque o tempo tira a novidade às
coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para
não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor?
O mesmo amar é causa de não amar e ter amado muito, de amar a menos.

Veja as respostas na aula on-line.

Observe que argumentar é arte muito antiga. Aristóteles, na Grécia, em seu texto
Organon, conhecido por todos como Lógica, mostra como a palavra tem em si
uma estrutura lógica, como a matemática e, a partir dela, podem-se construir
tanto raciocínios exemplares, como raciocínios falsos, sofismas, modelos
argumentativos aparentemente lógicos, porém com premissas falsas.

O célebre filósofo elaborou uma teoria do raciocínio conhecida como


inferência. Inferir é tirar uma proposição como conclusão de uma ou de várias
proposições que a antecedem e são sua explicação ou causa. O raciocínio é uma
operação do pensamento realizada por meio de juízos e enunciada lingüística e
logicamente pelas proposições encadeadas, formando um silogismo A teoria
aristotélica do silogismo é o coração da lógica, pois é a teoria das demonstrações ou
das provas, da qual depende o pensamento científico e filosófico. Um silogismo é
constituído por três proposições. A primeira é a premissa maior, a segunda é a
premissa menor e a terceira é a conclusão.

107
Veja o exemplo clássico:
Todos os homens são mortais.(premissa maior)
Sócrates é homem.(premissa menor)
Logo, Sócrates é mortal.(conclusão)

Agora, conheça o raciocínio falso:


Todos os homens são loiros.
Ora, eu sou homem.
Logo, sou loiro.
Todos os homens são vertebrados.
Ora, meu gato é vertebrado.
Logo, meu gato é homem.

Saiba mais - Divirta-se


Você acha que trabalha demais?
Então vejamos:

O ANO TEM...................................................365 dias


Menos : 8h de sono por dia............................122 dias
Sobram 243 dias

Menos: 8h de descanso diário.......................122 dias


Sobram 121 dias

Menos: domingos............................................52 dias


Sobram 69 dias

Menos: ½ dia por Sábado................................26 dias


Sobram 43 dias

Menos: feriados..............................................13 dias


Sobram 30 dias

Menos: Férias.................................................20 dias


Sobram 10 dias

Menos:Tempo gasto no cafezinho, lavatório, papinho etc....10 dias


Sobram........000dias

Que tal, ainda acha que trabalha demais?

108
Para a argumentação ser eficaz, os argumentos devem possuir consistência de
raciocínio e de provas. O raciocínio consistente é aquele que se apóia nos princípios
da lógica. As provas servem para reforçar os argumentos.

Tipos de argumento:
1. comparação: confronto entre elementos, seja no tempo, seja no espaço,
seja nas características.
2. alusão histórica: resgate de eventos do passado.
3. provas concretas: dados de pesquisa, estatísticos, tabelas, gráficos.
4. relação causa-efeito: estabelece motivos e conseqüências.
5. testemunho autorizado ou argumento de autoridade: apresenta
ponto de vista de pessoa reconhecida na área debatida, utilizando idéias,
pensamentos, frases célebres, citações.
6. fatos-exemplos: narração de fatos com o objetivo de exemplificar.

Reconheça o tipo de argumento utilizado por Padre Vieira nos trechos:


1. “São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de
durar pouco, que terem durado muito.”
Resposta > Comparação: confronto entre elementos, seja no tempo, seja no
espaço, seja nas características.

2. A razão natural de toda essa diferença é porque o tempo tira a novidade às


coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para
não serem as mesmas.
Resposta > relação causa-efeito: estabelece motivos e conseqüências.

As características do texto dissertativo-argumentativo são:


- Expõe ponto de vista sobre um dado assunto.
- Apresenta função persuasiva.

Vale observar a diferença: argumentar não é demonstrar. Demonstrar é


apresentar evidências, por meio de raciocínios lógico-formais.

Argumentar é usar técnicas para conseguir adesão dos espíritos, por meio de
raciocínios persuasivos.

109
Dicas para compreender o discurso da sedução
1. Desperta o interesse e ganha simpatia.
2. Sugere o implícito pelo explícito.
3. Institui sentido figurado, com as figuras de linguagem.
4. Transporta, por meio do imaginário, o receptor para o universo que se pretende.
5. Direciona a comunicação para os sentidos e para os sentimentos, mais do que
para a razão.
6. Faz das palavras imagens, descreve com detalhes.
7. Provoca identificação do receptor com o transmitido.Para isso, é importante
conhecer o repertório pessoal do receptor.
8. Oferece o inusitado, o diferente (“opostos se atraem”).
9. A sedução não se faz apenas com palavras. Ela se faz também com gestos,
posturas, tons, ritmos, entonações, silêncio.

Saiba mais
Importante notar que o discurso sedutor não se sustenta pela lógica, portanto se põe
contra a nossa razão.

Ao primar pelo convencimento emocional, serve para vender, mas não serve, por
exemplo, na relação cotidiana de trabalho, já que este tipo de estratégia, no médio
prazo, quando termina seu encanto sedutor, faz com que o receptor, quando capaz
de operar com a razão, desmistifique tudo.

Encontre um texto publicitário e analise os argumentos (verbais e visuais)


utilizados para seduzir o público a consumir o produto.

O editorial é outro tipo de texto argumentativo.

É um texto que veicula a ideologia do jornal em que é publicado. Ele expressa o


ponto de vista do jornal acerca de um assunto da atualidade, geralmente polêmico,
com a intenção de formar a opinião do leitor.

Busque um editorial de algum jornal, como Folha de São Paulo, O Estado de


São Paulo etc. e analise os recursos utilizados para convencer o leitor do ponto de
vista defendido.

Comece pelo título. Depois observe adjetivos, advérbios, expressões que


revelam subjetividade, adesão a um ponto de vista.

110
Agora que você aprendeu como fazer para argumentar com eficácia, escreva seu
texto argumentativo a partir da análise do gráfico.

Taxas de Participação, por Sexo, segundo Raça/Cor


Região Metropolitana de São Paulo
2003-2004
Ver tabela na aula on-line

Saiba mais - Lembre-se


A estrutura do texto dissertativo-argumentativo é
Introdução: tese, frase que mostra o posicionamento do autor.
Desenvolvimento: argumentação, fundamentação da tese.
Recursos: relação causa-efeito,comparação,depoimento, citação,dados estatísticos,
dados de pesquisa,alusão
histórica, exemplificação, entre outros.
Conclusão: síntese das idéias discutidas no desenvolvimento, resultado da
argumentação. Pode propor soluções.

Atividade em aula:
Exercícios de coesão
1. “O respeito pelo tempo dos outros aumenta a produtividade social, pois o
tempo de todos não é desperdiçado pelas esperas.”
( Revista Veja, 24/03/04).A relação estabelecida pelo conectivo pois é de:
( ) explicação
( ) conseqüência
( ) fim
( ) comparação
( ) condição

2. A conjunção pois, no fragmento anterior, pode ser substituída sem prejuízo


de significado por:
( ) uma vez que
( ) contudo
( ) porém
( ) entretanto
( ) embora

111
3. “ A tragédia interrompe a orquestração da vida como um maestro
ensandecido que resolvesse atirar nos músicos. Tal papel é desde sempre muito
cumprido pelas tragédias naturais como os terremotos, e pelos grandes acidentes,
como os naufrágios e quedas de aviões. Mas estamos no século XXI, e o terrorismo
arrogou exercê-lo.”
(Revista Veja, 13 de março de 2004.)
A palavra como é utilizada três vezes no texto. Releia-o atentamente, observe o
sentido da palavra e depois marque a alternativa verdadeira.
( ) A palavra como possui exatamente a mesma função nos três momentos:
introduz comparação.
( ) A palavra como apresenta funções diferentes: no primeiro caso, introduz
comparação; no segundo e no terceiro casos, serve para introduzir exemplificação.
( ) A palavra como apresenta funções diferentes: no primeiro caso, introduz
comparação; no segundo caso, serve para introduzir exemplificação; no terceiro caso,
introduz condição.
( ) Ela estabelece, nos três casos, a mesma relação de sentido da frase: “Como
não chegava cedo, perdeu a aula”.
( ) A palavra apresenta funções diferentes: no primeiro e no segundo casos,
serve para introduzir exemplificação; no terceiro caso, introduz comparação.

4. O pronome lo (“o terrorismo arrogou exercê-lo) refere-se a :


( ) maestro
( ) músico
( ) papel
( ) terremoto
( ) terrorismo

5. A palavra mas (“Mas estamos no século XXI”) tem como função:


( ) Introduzir idéia de condição e pode ser substituída por talvez.
( ) Introduzir idéia de explicação e pode ser substituída por portanto.
( ) Introduzir idéia de oposição e pode ser substituída por entretanto.
( ) Introduzir idéia de oposição e pode ser substituída por portanto.
( ) Introduzir idéia de explicação e pode ser substituída por porém.

112
Síntese de aula de hoje
Na aula de hoje, você aprendeu a reconhecer e a produzir texto dissertativo-
argumentativo.

Tomou conhecimento dos recursos utilizados para seduzir o receptor e


exercitou coesão e coerência - mecanismos necessários para conferir qualidade a seu
texto.

Próxima aula
Na próxima aula, você fará uma avaliação dos conhecimentos adquiridos até
este momento, em uma aula lúdica e diferente.

Boa sorte!

113
Aula 12 - Avalie suas habilidades e seus
conhecimentos
Olá! Hoje nossa aula será diferente. Faremos alguns exercícios em que você
poderá avaliar sua habilidade em ler, compreender, interpretar textos e aplicar seus
conhecimentos gramaticais.

Atividade em aula
Leia, atentamente, o fragmento:
“A crise de água que a Grande São Paulo vive hoje não é a primeira nem será a
última. Por causa de limites naturais na disponibilidade hídrica, da poluição de rios e
represas, da ocupação desordenada de mananciais, do descaso no uso e da falta de
políticas eficientes para reeducar o consumo e reduzir perdas, a região só tem água
garantida até 2010.”
( Folha de São Paulo, 12 de outubro de 2003)

1. Com base nas informações enunciadas, concluímos que:


( ) “Gato escaldado tem medo de água fria”
( ) “Quem tem boca vai a Roma”
( ) “Santo de casa não faz milagre”
( ) “Quem ama o feio, bonito lhe parece”
( ) “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.”

O texto abaixo refere-se à questão 2.


“Lula disse a empresários que José Dirceu está mais ministro do que antes do
escândalo, ficará no governo até o último dia de seu mandato e continua sendo o
‘capitão do time’ do governo”.
(Revista Veja, 21/04/04).

2. Assinale a alternativa CORRETA com relação ao texto:


( ) O verbo está indica situação estável e não provisória como é comum.
( ) O nível de linguagem do texto é informal.
( ) O texto revela um diálogo com o universo esportivo, em especial, com o futebol.
( ) A expressão “capitão do time” pode ser substituída por líder da equipe
do governo.
( ) Todas as alternativas estão corretas.

114
3. Dependendo da nossa capacidade de sonhar e querer com competência, nós
podemos estender o campo do possível, podemos, portanto, alterar o que seria
previsível não fosse o nosso querer e a nossa vontade. Então aí a coisa complica. A
palavra coisa é usada, neste contexto, e se torna perfeitamente compreensível por
se tratar de um discurso oral. No que se refere ao texto escrito, que deve ser bem
elaborado, a palavra deve ser substituída objetivamente pelo sentido a que se refere.

No caso, a palavra coisa poderia ser traduzida por:


( ) mundo
( ) situação
( ) casamento
( ) convivência
( ) país

1o. Texto
O texto a seguir refere-se às questões 4 a 12.

O Homem e a natureza
A idéia de que a natureza existe para servir o homem seria apenas ingênua, se
não fosse perigosamente pretensiosa.

Essa crença lançou profundas raízes no espírito humano, reforçada por doutrinas
que situam corretamente o homo-sapiens no ponto mais alto da evolução, mas
incidem no equívoco de fazer dele uma espécie de finalidade da criação.

Pode-se dizer com segurança que nada na natureza foi feito para alguma coisa,
mas pode-se crer em permuta e equilíbrio entre seres e coisas.

A aquisição de características muito específicas como a linguagem, raciocínio


lógico, memória pragmática, noção de tempo e capacidade de acumular não fizeram
do homem um ser superior no sentido absoluto, mas apenas mais bem dotado para
determinados fins.

Isso não confere autoridade para pretender que todo o resto do universo
conhecido deva prestar-lhe vassalagem, como de fato ainda pretende a maioria das
pessoas com poder decisório no mundo.
(Luiz Carlos Lisboa, Jornal da Tarde, abril de 2001)

115
Atividade em aula
4. Todo texto dissertativo - oral ou escrito - compõe-se de três partes: uma
introdução, um desenvolvimento e uma conclusão. Na Introdução, normalmente
localiza-se a tese do autor, a idéia principal que ele busca defender ao longo do texto.
Grife a tese do texto.

5. O desenvolvimento do texto compõe-se pela argumentação - que é de


extrema importância para que se tenha consistência e qualidade. O primeiro
argumento apresentado é:
( ) Acreditar que o homem é finalidade da criação é equívoco.
( ) O homo sapiens é a espécie mais evoluída.
( ) Toda crença é reforçada por doutrinas.
( ) Todo o universo deve se submeter ao homem.
( ) n.d.a.

6. O segundo argumento apresentado no texto é:


( ) Tudo na natureza tem uma função.
( ) Deve haver troca e equilíbrio entre os seres e as coisas.
( ) Tudo está em desequilíbrio na natureza.
( ) Todo o universo tem que sucumbir à vontade humana.
( ) n.d.a.

7. O terceiro argumento apresentado no texto é:


( ) O fato de o homem ser superior não significa que ele pode mandar em tudo.
( ) O fato de o homem ter linguagem não o qualifica como responsável
pela natureza.
( ) O fato de o homem ter linguagem, raciocínio lógico e outras qualidades que
o diferenciam dos animais não justifica que ele seja superior.
( ) O fato de o homem possuir qualidades superiores não o qualificam como cidadão.
( ) n.d.a.

8. A conclusão do texto pode ser resumida:


( ) ser bem dotado significa ser superior à natureza.
( ) ser superior implica ser vassalo.
( ) ser superior significa não ser vassalo.
( ) ser bem dotado não implica ser superior à natureza.
( ) n.d.a.

116
9. A palavra Isso que inicia o terceiro parágrafo do texto refere-se à:
( ) linguagem
( ) raciocínio lógico
( ) memória
( ) noção de tempo
( ) o fato de ser bem dotado

10. Na frase “A idéia de que a natureza existe para servir o homem seria apenas
ingênua, se não fosse perigosamente pretensiosa”, se trocássemos a conjunção se, o
sentido manter-se-ia em:
( ) “A idéia de que a natureza existe para servir o homem seria apenas ingênua,
embora não fosse perigosamente pretensiosa.”,
( ) “A idéia de que a natureza existe para servir o homem seria apenas ingênua,
caso não fosse perigosamente pretensiosa.”,
( ) “A idéia de que a natureza existe para servir o homem seria apenas ingênua,
porque não é perigosamente pretensiosa.”,
( ) “A idéia de que a natureza existe para servir o homem seria apenas ingênua,
porém não seria perigosamente pretensiosa.”,
( ) “A idéia de que a natureza existe para servir o homem seria apenas ingênua,
portanto, seria perigosamente pretensiosa.”,

11. A palavra dele, no fragmento “mas incidem no equívoco de fazer dele uma
espécie de finalidade da criação”, refere-se:
( ) espírito humano
( ) homo sapiens
( ) evolução
( ) ponto
( ) equívoco

12. A partícula lhe, na passagem “todo o resto do universo conhecido deva


prestar-lhe vassalagem”, refere-se:
( ) universo
( ) resto
( ) homem
( ) pessoas com poder decisório
( ) autoridade

O texto a seguir refere-se às questões 13 e 14.


“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura
desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade
se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura
crítica, implica na percepção das relações dentre o texto e o contexto.”
(Paulo Freire)

117
13. É possível depreender do texto que:
( ) A leitura do mundo é mais abrangente do que a leitura da palavra.
( ) A leitura do mundo é menos abrangente do que a leitura da palavra.
( ) A leitura do mundo depende da leitura da palavra.
( ) A leitura do mundo, para ser ampliada, não depende da leitura da palavra.
( ) A leitura crítica independe das relações entre o texto e o contexto.

14. As palavras desta e daquele, no texto, referem-se respectivamente à:


( ) do mundo / da palavra
( ) da palavra / do mundo
( ) leitura / mundo
( ) palavra / contexto
( ) linguagem / texto

15. Como reconstruir um país______ um quarto das crianças [afegãs] não


chega a completar 5 anos de idade? (National Geographic, novembro de 2003.)
A alternativa que preenche adequadamente a lacuna é:
( ) cujo
( ) na qual
( ) que
( ) onde
( ) para o qual

16. Assinale a alternativa correta:


( ) Se você não se opor, eu participarei da decisão.
( ) Quando eu vir você, darei o recado.
( ) Quando eu ver você, saberei o que dizer.
( ) Se você composse uma canção, eu ficaria feliz.
( ) Se você pôr essa resposta errada, vai perder pontos.

Veja as respostas na aula on-line.


Avalie-se:
Se você acertou todas as questões(16) : Parabéns!! Gabaritou!!
Se você acertou de 13 a 15 questões: está ótimo!
Se você acertou de 9 a 12 questões: está bom!
Se você acertou de 5 a 8 questões: está regular!
Se você acertou de menos de 4 questões: está insatisfatório!Leia mais, pesquise mais,
estude mais.

118
Atividade em aula
Associe as modalidades textuais:

1. O narrador é um artesão da palavra. Confiante em si, simples e sóbrio nos


gestos, equilibrado na expressão corporal, ele deve conduzir a história com
criatividade. O tom de sua voz deve ser modulado de acordo com o que conta. A
correção da linguagem e a boa dicção são atributos importantes para o contador.
( ) Descrição
( ) Narração
( ) Dissertação
( ) Poema narrativo

2. ”Todas as noites, depois do jantar, a molecada do bairro se amontoava no


portão da minha casa: era a hora negra das histórias dos lobisomens, bruxas, almas-
penadas, tinha uma procissão de caveiras que passava à meia-noite, cantando, ô
Deus! Como eu tremia...”(Lygia Fagundes Teles)
( ) Descrição
( ) Narração
( ) Dissertação
( ) Poema narrativo

3. Contar histórias é arte milenar, é necessidade humana. Nasce da tentativa de


explicar tudo o que o homem desconhece. Desde os primórdios, as histórias eram
contadas à noite e ao redor do fogo. Há muitos tipos de narrativa para se contar: mitos,
fábulas, contos, lendas. Narrar é uma forma de criar diálogo com o outro e consigo.
( ) Descrição
( ) Narração
( ) Dissertação
( ) Poema narrativo

4. João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia


num barracão sem número. Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
( ) Descrição
( ) Narração
( ) Dissertação
( ) Poema narrativo

119
Síntese da aula de hoje
Na aula de hoje, você exercitou sua leitura, seu vocabulário, identificou
elementos, textos, concluiu e resumiu idéias, ativou seus conhecimentos dos aspectos
gramaticais, trabalhou com coesão e coerência, enfim, foi um momento lúdico e
enriquecedor em que você pôde avaliar suas habilidades de leitura, compreensão,
interpretação de textos – que lhe preparação para a vida pessoal e profissional,
dando-lhe uma das competências fundamentais de nosso século: a comunicação.

Próxima aula
Na próxima aula, continuamos com nossa programação, abordando técnicas
para fazer resumo de um texto, atividade indispensável para quem pretende adquirir
facilidade na construção verbal organizada e completa.

Até lá!

120
Aula 13 - Como fazer o resumo de um texto
Na aula de hoje você deverá aprender como elaborar o resumo de um texto,
isto é, identificar as principais idéias e palavras-chave de um texto.

Você vai perceber que se trata de uma atividade indispensável para quem pretende
adquirir facilidade na construção verbal organizada e completa, seja oral ou escrita.

Não é apenas o estudante que precisa desenvolver essa habilidade, mas muitos
profissionais que têm, na leitura, as fontes principais de informação.

O que é resumir um texto?


É reproduzir, sinteticamente, o que foi expresso de maneira ampla pelo autor.
Para resumir, é necessário observar o que é essencial e o que é secundário
(repetições, explicações, exemplificações etc.).

Ao resumir, aprende-se a relacionar as idéias principais e a compreender, com


clareza, o assunto do texto.

O resumo abrevia o tempo de quem faz uma pesquisa; difunde informações de


tal modo que pode influenciar e estimular a consulta do texto completo.

Conceitos importantes a serem pesquisados


• Argumentação
• Tópico frasal
• Parágrafo
• Conotação e denotação

Consulte as obras:
• GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna. Rio de Janeiro: FGV, 2000.
• MEDEIROS, João Bosco. Redação Científica. (5ª ed.), São Paulo: Atlas, 2003.
• Correspondência – técnicas de redação criativa. (16ª ed.) São Paulo: Atlas, 2002.

Consulte o site:
•www.portugues.com.br/semantica/polissemia.asp

121
Procedimentos gerais
1. Faça, primeiramente, uma leitura atenta, sem anotações, para tomar
conhecimento das idéias principais. No final dessa leitura, você deverá ser capaz de
responder à pergunta genérica: qual o assunto do texto?

2. Faça uma segunda leitura (e outras tantas, se necessário), anotando à margem


o que for importante para a compreensão mais detalhada do texto. Em uma
dissertação, pontue os argumentos. A parte teórica deverá figurar sempre, ao passo
que os exemplos e mesmo as explicações longas poderão ser abreviadas ou até
suprimidas.

3. Sublinhe as palavras-chave no texto que marcam as idéias fundamentais


para a compreensão (essas palavras estão quase sempre na parte teórica). Utilize-se
de uma ficha para as anotações.

4. Fique atento para as palavras de ligação que estabelecem a estrutura lógica dos
raciocínios (assim, além do mais, pois, porque, por conseguinte, em decorrência etc.).

Dicas práticas
1. Em uma dissertação, os parágrafos marcam as partes da estrutura geral que
consiste em: ponto de vista ou tópico frasal, argumentação e conclusão.
Por isso, você pode fazer o resumo de cada parágrafo. Aconselhamos dois
resumos: um do parágrafo e outro do próprio resumo, a fim de encontrar a maneira
mais concisa de expressão.

2. Resumidos os parágrafos, você deve ler a seqüência dos resumos, para


adequar a linguagem de acordo com o esquema geral das idéias.

3. Você não deve apresentar juízo valorativo, opinar ou criticar, pois o objetivo é
apenas elaborar um resumo e não um comentário, uma interpretação ou uma
resenha. Evite introduções do tipo: “o autor diz que...”, “o autor continua afirmando
que...” etc. Anote exclusivamente o pensamento expresso pelo autor.

4. Os exemplos citados para confirmar ou explicar a parte teórica devem ser


resumidos apenas quando imprescindíveis à compreensão do raciocínio.

5. O bom resumo deve conservar o estilo do texto original, como nível de


linguagem, ironia, humor etc.

6. Evite a repetição de frases inteiras do original.

122
7. Respeite a ordem em que as idéias ou fatos são apresentados.

8. Um resumo, normalmente, deve ter de dez a vinte por cento da extensão do


texto original.

1a Atividade em aula
Exercite os seus conhecimentos

Leia o texto a seguir:


“Se perguntarmos a qualquer brasileiro o que ele espera do novo governo, ele
diria que espera a paz. Pode ser que não use o substantivo, mas empregará um dos
seus muitos sinônimos. O pão é o primeiro nome da paz.

Não é à toa que a paz está normalmente associada à abundância. Se pedirmos a


qualquer criança que desenhe uma casa, ela colocará sobre o telhado chaminé e
fiapos de fumaça. Sem chaminé e sem chamas no fogão, a casa não é lar. Assemelha-
se a um túmulo.

Para o trabalhador, a paz é um conjunto de realidades: emprego seguro, salário


justo, comida à mesa e escola para os filhos. É também segurança: certeza de que
pode deixar a mulher e os filhos em casa e que, no trajeto entre sua moradia e o
lugar do trabalho, as ruas serão livres e não haverá bandidos que o assaltem, nem
policiais que o metralhem, sob a desculpa da suspeita.

Para os artistas e intelectuais, o primeiro nome da paz é liberdade. Liberdade de


criar e de expor os frutos de sua imaginação ou de sua descoberta. Sem liberdade,
ainda que houvesse pão e houvesse segurança, não haveria paz.
A cada brasileiro a sua paz.”
Revista Isto É, nº 417, p.27.

Analisando o texto
Qual é o assunto ou o tema do texto?
O texto diz o que representa a paz para o povo brasileiro.

Qual é a palavra-chave do tema central?


A paz, não é mesmo?

O conceito sobre a paz é o mesmo para todos os segmentos da sociedade


retratados no texto?

123
O que significa a paz para qualquer brasileiro?
“O pão é o primeiro nome da paz”.

O que significa a paz para o trabalhador?


“...a paz é um conjunto de realidades: emprego seguro, salário justo, comida à
mesa, escola para os filhos, segurança...”

E para os artistas e intelectuais, o que significa a paz?


“...paz é liberdade”.

Resumo
Qualquer brasileiro espera a paz de um governo. O pão é o primeiro nome.

Para o trabalhador, a paz é um conjunto de realidades: emprego seguro, salário


justo, comida à mesa, escola para os filhos e segurança.

Para os artistas e intelectuais, o primeiro nome da paz é liberdade de criar e


expor os frutos da sua imaginação.

A cada brasileiro a sua paz.

Saiba mais - Resumo final


Sugestão
Qualquer brasileiro espera de um governo a paz, que significa pão.

Para o trabalhador, paz significa um conjunto de realidades: comida, emprego, salário,


escola e segurança.

Para os intelectuais, paz é liberdade de criar e de expressar-se.

A cada um a sua paz.

2a Atividade em aula
Faça agora você o resumo deste texto. Observe os procedimentos e as dicas
que foram sugeridas.

124
“Não faz muito tempo, o trabalho estava intimamente associado ao tipo de
pessoa que você era e ao que suas inclinações e talentos naturais o levariam a fazer
pela comunidade: ferreiro, parteira, costureira, agricultor, médico e assim por diante.

Trabalho e serviço estavam mais intimamente associados.


Os talentos naturais eram os elos.

A Revolução Industrial e a produção em massa acabaram com esse sistema


cômodo. As fábricas empregavam milhares de trabalhadores. As pessoas
abandonavam a dura e incerta luta pela vida em sua pequena comunidade para aceitar
empregos monótonos, mas seguros nas cidades. Um emprego era igual a milhares de
outros; os funcionários eram considerados peças intercambiáveis – rotativas, mais ou
menos permanentes.

Os trabalhadores passaram a acreditar que precisavam aderir a alguma


organização para sobreviver, ter sucesso e sustentar sua família. As pessoas perderam
a sensação de auto-suficiência e a confiança de que dispunham de recursos internos
para fornecer valor à comunidade e, com isso, ganhar a vida. Perdeu-se também a
rotina diária de apoio aos vizinhos e de ser apoiado por eles também. O trabalho
girava mais em torno do dinheiro e status do que do serviço ou comunidade.

Abandonar o lar em busca de trabalho fez as pessoas perderem o contato não


apenas com suas famílias e comunidade, mas também com suas forças, inclinações e
desejos naturais. Os poucos que se conscientizaram disso muitas vezes passaram a
acreditar que lhes faltavam bvcondições de “perseguir o seu entusiasmo”. Muitos
perseguiam o de outra pessoa e aos poucos perdiam o ânimo, a ligação com seus
verdadeiros valores e dons singulares.

Atualmente, o ânimo das pessoas está se extinguindo porque elas perderam de


vista sua determinação e impulso interiores. Funcionários designados apenas para uma
parte de um serviço nunca têm a oportunidade de desenvolver o domínio sobre ele.

As pessoas não se sentem confortáveis ou confiantes se não dominarem algo.

FARREN, Caela. Carreira de sucesso: como administrar e garantir o emprego em


tempos difíceis. São Paulo: Futura, 2000. pp.50-51.

125
3a Atividade em aula
Assista a um dos três filmes sugeridos e faça o resumo dele.
1. O show de Truman, o show a vida.
2. Feitiço do Tempo.
3. Náufrago.

4a Atividade em aula
Faça o resumo de um livro que você leu ou de um artigo de jornal ou revista
que tenha sido relevante para sua análise da sociedade.

Dicas de revisão gramatical


Emprego dos pronomes relativos

Observe as duas frases:


1. Li um livro.
2. O livro emocionou-me.

Li um livro que me emocionou.

Na frase 2, a palavra livro foi substituída pelo pronome que.

Esse pronome tem a função de substituir a palavra com a qual está relacionada.
Denomina-se, por esse motivo, pronome relativo.

Pesquise sobre pronome relativo.


O que é?
Quais os tipos?
Quando devem ser utilizados?

Consulte os sites:
http://www.gramaticaonline.com.br
http://www.priberam.pt/dlpo/gramatica/gramatica.aspx

1. Comprei o livro.
2. Você se referiu ao livro.

Comprei o livro a que você se referiu.

126
Os pronomes relativos devem sujeitar-se à regência dos nomes e dos verbos a
que estão subordinados. Assim, antes do pronome relativo, deve ocorrer a
preposição que for exigida pelo termo ao qual estiver associado.

1. A loja fazia promoções.


2. Comprei o livro na loja.

A loja [comprei o livro na loja] fazia promoções.


A loja [na loja comprei o livro] fazia promoções.

A loja na qual comprei o livro fazia promoções.


Onde

5a Atividade em aula
Encaixe as orações secundárias no lugar adequado, empregando o pronome relativo:

1. O livro está esgotado. / O professor recomendou o livro.


2. O filme é interessante. / Eu assisti ao filme.
3. A janela era ampla. / Através da janela podíamos ver o mundo.
4. O poeta é paulista. / Você apreciou os versos do poeta.
5. É bem antiga a cidade. / Eu moro na cidade.
6. Esta é a paineira. / Nós adorávamos a sombra da paineira.
7. Havia um recado na portaria do hotel. / O recado estava escrito em código. /
O terrorista encontra-se hospedado no hotel.
8. As revistas proporcionam ao público horas de entretenimento / As revistas
pertencem ao jornalismo. / O jornalismo é periódico. / O público lê as revistas.

Síntese da aula de hoje


Na aula de hoje, você aprendeu a fazer resumo. Exercitou a capacidade de
sintetizar idéias. Além disso, relembrou alguns aspectos da dissertação bem como o
uso do pronome relativo.

Próxima aula
Na próxima aula, o assunto é leitura crítica e produção de resenha.

Até lá!

127
Aula 14 - Leitura Crítica
Na aula de hoje, você deverá aprender como elaborar a resenha de um texto,
ou seja, desenvolverá a capacidade de síntese, de interpretação e de crítica.

Você vai perceber que se trata de uma atividade fundamental para a formação
de uma mentalidade científica.

Além disso, deverá aplicar adequadamente a concordância verbal.

Resenha
A resenha é um tipo de redação técnica que pode ser definida como um resumo
minucioso ou crítico. Há resenhas descritivas e resenhas críticas.

O objeto de uma resenha pode ser um acontecimento, textos, obras culturais,


como romance, peças de teatro, filmes. O resenhista terá sempre um procedimento
seletivo e o relato dependerá de sua finalidade.

Seu objetivo é conduzir o leitor para mensagens referenciais, por isso a


linguagem deve ser objetiva, em 3ª pessoa. Incluindo variadas modalidades de textos
- descrição, narração e dissertação -, esse relato detalhado pode ser um instrumento
de pesquisa ou atualização bibliográfica.

A leitura analítica é sua base.

Resenha descritiva
Na resenha descritiva, é importante ressaltar a estrutura da obra (partes,
número de páginas, capítulos, assuntos, índices, nome do tradutor), o resumo do
texto, a perspectiva teórica, o gênero (crítica literária, livro de negócios, romance
teatro, ensaio), o método adotado.

Resenha crítica
Na resenha crítica, acrescentam-se comentários e julgamentos do resenhista,
comparações com outras obras, avaliação da relevância do texto.

128
A resenha crítica compreende uma abordagem objetiva (em que se descreve o
assunto, sem emitir juízo de valor) e uma abordagem subjetiva (apreciação crítica em
que se evidenciam os juízos de valor de quem a elabora).

Leia uma resenha descritiva


Arquitetura do conhecimento
Thais Helena dos Santos, da Agência EducaBrasil At.: Regina Ramos

Despertar hábitos de estudo científico em estudantes para permitir o


desenvolvimento de uma vida intelectual disciplinada e sistematizada. A proposta é
do professor Antônio Joaquim Severino, da Faculdade de Educação da USP, em seu
livro Metodologia do trabalho científico, reeditado pela Cortez Editora.

A obra, que está na 21ª edição, aborda uma iniciação metodológica ao trabalho
intelectual a ser desencadeado desde o limiar da vida universitária. Segundo Severino,
que leciona Filosofia da Educação, o livro traz propostas práticas, instrumentos
operacionais, técnicos ou lógicos, para o estudo visando uma organização científica e
maior aprofundamento na ciência, nas artes ou na filosofia.

Em vários momentos do texto é possível perceber o objetivo do trabalho em


dar subsídio para o estudante transformar seu aprendizado num criterioso processo
de construção do conhecimento. Diz o autor que isso só será possível se o aluno
conseguir aprender apoiando-se constantemente numa atividade de pesquisa,
praticando uma postura investigativa.

Em relação às edições anteriores, o texto foi acrescido de elementos


metodológicos e técnicos para o melhor aproveitamento dos recursos tecnológicos,
mais precisamente o uso do computador e da Internet. A listagem das editoras, com
as respectivas informações, endereços e linha de publicação, foi suprimida, com o
argumento de que na Internet esses dados são facilmente encontrados.

O livro, voltado para estudantes de graduação e pós-graduação, mostra no


segundo capítulo como fazer uma documentação (bibliográfica e temática) pessoal e
utilizá-la como método de estudo. “O estudante tem que se convencer de que sua
aprendizagem é uma tarefa eminentemente pessoal; tem de se transformar num
estudioso que encontra no ensino escolar não um ponto de chegada, mas um limiar a
partir do qual constitui toda uma atividade de estudo e de pesquisa, que lhe
proporciona instrumentos de trabalho criativo em sua área”, argumenta o autor.

129
O terceiro capítulo merece destaque por ensinar como fazer uma leitura, uma
análise textual, temática e interpretativa, além de uma síntese pessoal. Segundo o
autor, a leitura analítica permite o aprofundamento do estudo científico. Por meio de
um modelo apresentado no livro, o estudante pode fazer um trabalho mais rigoroso
sobre o texto.

“A leitura, cientificamente conduzida, é instrumento fundamental para a


aprendizagem no ensino superior, uma vez que todas as demais atividades, inclusive as
aulas, a pressupõem. O texto é entendido como portador de uma mensagem codificada e
transmitida pelo autor ao leitor. A leitura é uma atividade de decodificação desta
mensagem. Tal trabalho é feito pela leitura analítica”, explica o autor, argumentando que
esse trabalho serve para o estudo pessoal, para preparação de seminários, para
elaboração de relatórios, roteiros de estudo, de resenhas e de resumos.

Para a realização de um seminário, o livro fornece algumas diretrizes, desde os


objetivos definidos até o esquema geral de desenvolvimento, com texto-roteiro e
outras questões. O seminário, segundo o autor, é entendido como método de estudo
em grupo e atividade de classe específica aos cursos universitários. “Nesse sentido, o
seminário pressupõe e desenvolve tanto a leitura analítica como a leitura de
documentação, alimentando também a reflexão e criando contextos e problemas
sobre os quais versarão futuras pesquisas do universitário”, salienta.

A elaboração de uma monografia também é tratada no texto de Severino. Todas


as etapas — determinação do tema-problema-tese do trabalho, levantamento da
bibliografia, leitura e documentação, construção lógica do trabalho, redação, construção
do parágrafo — são apresentadas e discutidas. Os aspectos técnicos da redação e as
formas de trabalhos científicos são abordados numa linguagem prática e acessível.

Segundo Severino, tanto a pesquisa quanto a reflexão são os objetivos finais da


vida científica universitária. “Se isso se concretiza quase que só na pós-graduação, não
se pode perder de vista que a graduação deve ser, irrefutavelmente e apesar de todos
os fatos em contrário, uma rigorosa iniciação à pesquisa e à reflexão”, alerta. E
continua: “Ao universitário cabe adquirir disciplina rigorosa para a expressão
codificada de seu pensamento, qualquer que seja sua área de estudo”.

O capítulo sobre a Internet como fonte de pesquisa garante ao aluno um


primeiro contato à iniciação e ao manuseio dos recursos tecnológicos na busca de
informações para seus trabalhos de pesquisa. O texto apresenta orientações para o
acesso à Internet e aos demais equipamentos de informática e multimídia. O registro
documental dos dados colhidos também é abordado.

130
Os trabalhos de pós-graduação são tratados no sétimo capítulo. O autor faz
observações metodológicas, fala sobre qualidade e forma, comenta o processo de
orientação, do projeto de pesquisa e as exigências éticas do trabalho acadêmico.

No último capítulo do livro, os pré-requisitos lógicos do trabalho científico são


apresentados, abordando a formação dos conceitos, das demonstrações, dos juízos e
dos raciocínios. O livro traz ainda anexo de revistas, dicionários especializados,
bibliografias e metodologia de pesquisa e uma bibliografia comentada.

Livro: Metodologia do trabalho científico


Autor(es): Antônio Joaquim Severino
Editora: Cortez N° páginas: 278

Saiba mais
Visite o site:
http://www.educabrasil.com.br/eb/exe/texto.asp?id=45

Agora, leia uma resenha crítica.


Amnésia, o tempo como construção

Resenha do filme Amnésia (título original, Memento). Direção e roteiro,


Christopher Nolan, EUA 2001, distribuidora Paris Filmes

Por NORMA CÔRTES Historiadora, Mestre em História Social pela PUC-Rio e


Doutora em Ciências Humanas (ciência política) pelo IUPERJ.

É bolsista recém-doutor pelo CNPq junto ao Departamento de História e ao


PPGH da UERJ, onde leciona disciplina na área de Teoria e Metodologia da História e
desenvolve pesquisa sobre Nelson Werneck Sodré e João Cruz Costa Amnésia
provocou mais espanto que boa crítica.
E quase passou despercebido pelo grande público.
Nos cinemas do Rio de Janeiro não teve uma temporada expressiva, mas
quando foi lançado em vídeo passou a ser bastante procurado.
É desses filmes cult, divulgados informalmente, que se pode ver em casa, na
telinha da televisão.
Não exige uma sala de projeção especial — o seu forte não são imagens, mas a
lógica do seu enredo.

131
A história é banal. Após o estupro seguido do assassinato da esposa, homem
perdeu a habilidade de memorizar qualquer acontecimento recente e iniciou uma
saga de vingança.

Não se tornara um completo desmemoriado; sabia quem era, lembrava-se do


seu nome (Leonard), onde havia nascido e permanecera consciente do seu passado
até o momento do acidente.

O problema é que a partir daí virou um prisioneiro do presente.

Vivia cada instante como se fosse o único, sendo incapaz de lembrá-los ou de


concatenar a sucessão das suas experiências rotineiras. Sua memória não guardava
coisa alguma por mais de uns poucos minutos.

Condenado à vida vegetativa, Leonard perdeu a faculdade de dar sentido às suas


vivências. O filme consiste neste imbróglio: o protagonista sofre de amnésia recente;
quer encontrar os assassinos da mulher; e tenta superar sua deficiência mnemônica
com a mesma obstinação que alimenta pela vingança. Para isso se impôs uma
disciplina férrea e sistemática registrando todos os acontecimentos cotidianos.

Munido de máquina Polaroid e caneta, ele fotografava a tudo e a todos,


anotando qualquer pequeno fato que lhe acontecesse. Não satisfeito, adotou uma
solução ainda mais radical e tatuou no próprio corpo a seqüência ordenada dos
resultados da sua investigação. Pensava que através desse curioso sistema de notações
supriria suas falhas de memória. Afinal, se o continuum do real lhe escapava, inventou
um artifício que mantivesse e fixasse a ordem dos fatos.

É no roteiro que está a originalidade do filme. Obedecendo à percepção


temporal do protagonista esquecido, a narrativa fílmica desconstrói o sentido natural
do tempo e se apresenta de trás para frente. Quer dizer, em vez de as tomadas
seguirem o encadeamento cronológico padrão vindo do passado para o presente —
diretamente, ou mesmo em flashsback que geralmente retornam aos fatos anteriores
para reconstituírem linear e cumulativamente a sucessão de eventos —, Amnésia
conta seu enredo na ordem temporal inversa. A história começa pelo fim.

Em sua primeira cena, a revelação de um negativo Polaroid, a imagem


fotografada de um cadáver empalidece lentamente. No avesso do sentido usual, a
foto não se torna nítida e aos poucos vai sumindo até desaparecer. Apesar de fugaz,
a cena insinua toda a estrutura do roteiro. Desde o início sabe-se que o protagonista
matou um homem, mas tal como desmemoriados, desconhecemos os fatos prévios
que conduziram àquela situação.

132
Contra toda obviedade, Amnésia desmonta os elos do raciocínio linear e impede
que se estabeleçam vínculos fáceis entre a contigüidade temporal e a explicação
causal. Na marcha ré do tempo, o filme é uma dramática perseguição às causas das
ações do seu protagonista.

No limite, trata-se de uma tentativa desesperada para oferecer sentido às ações de


um homem que mesmo sem conseguir entender o significado dos seus próprios atos,
quer obstinadamente alcançar uma meta futura. Entre a memória de um passado perdido
e a perseguição de um destino que, sendo realizado ou não, será inexoravelmente
esquecido, o protagonista está preso em um tempo eternamente atual.

Sua consciência não registra a experiência da mobilidade temporal e, portanto, o


presente se lhe parece inalterado. Não que tivesse desaprendido o significado das
palavras antes/passado, durante/presente, depois/futuro. Leonard não perdeu o
entendimento ou a razão; e algumas de suas faculdades intelectuais permaneciam intactas.

O que ele não possuía mais era a capacidade de reunir os fragmentos das suas
ações emprestando-lhes algum sentido. Sabia quem era e aonde queria chegar, mas
não entendia se o que acabara de fazer era compatível com sua identidade e intenção.
Refém do esquecimento, Leonard perdeu a natural habilidade de compreender e
explicar o fluxo do tempo.

É por esta razão que Amnésia contém um desafio aos historiadores. Além de
ser um engenhoso quebra-cabeça, o filme tangencia as indagações sobre quais
critérios avaliam os atos humanos. A questão é clássica.

E nos tempos modernos foi Maquiavel quem primeiramente fixou seus termos
ao polarizar fortuna e virtude. Desde então, os estudiosos vêm se perguntando qual é
o foco do juízo racional sobre as ações, ou seja, sob qual aspecto se interpreta a
conduta dos homens? Considerando a intenção dos agentes ou os efeitos dos atos?

A virtú ou as circunstâncias casuais? Levando em conta o livre arbítrio ou a


determinação das escolhas? Valorizando os princípios morais ou as conseqüências
políticas? Chamando os homens à responsabilidade ou deixando-os entregues à suas
convicções? Pólos indissociáveis — a despeito dos esforços de Max Weber para
racionalizar a questão —, esses dilemas exprimem as múltiplas faces de um lento
processo de alteração cognitiva. Eles encerram o simultâneo processo de dissolução
da idéia de uma natureza humana eterna, a conformação do indivíduo como cidadela
livre e voluntária e a valorização da História e da mobilidade temporal como
princípios de compreensibilidade dos assuntos humanos. Em outras palavras, trata-se
do esvaziamento dos paradigmas atemporais junto ao surgimento da visão de mundo
moderna cujas fórmulas explicativas da vida dos homens são historicizantes.

133
Nesse sentido, o filme interessa aos historiadores não apenas porque enfrenta o
dilema dos efeitos perversos envolvidos nas nossas escolhas — situações em que a
ação ou a omissão pode resultar em malefícios infinitamente piores que o previsto
pelas (boas) intenções —, mas principalmente porque sugere que a inteligibilidade
desse dilema supõe a construção em retrocesso de uma seqüência causal, ou
seja, implica em resgatar uma História que compatibilize fins e meios, conseqüências
com intenções. Em outras palavras, a força dramática de Amnésia não reside
somente no fato de o protagonista hesitar em agir. Mais que a imprevisibilidade
inscrita nas suas decisões (o que, de resto, é comum a todos os mortais), Leonard se
depara como a perda da faculdade de lembrar e reconhecer suas próprias ações.

Portanto, mesmo que estivesse orientado por todos os manuais de boa conduta
ou animado pela mais maquiavélica das astúcias, sem memória, tornara-se incapaz de
dar sentido àquilo que fizera. E tal como fazem os historiadores (os profissionais da
memória), se viu obrigado a escolher e fixar os fatos dignos de serem lembrados
para, a partir deles, forjar retrospectivamente uma série causal.

Afinal, quando perdeu o entendimento espontâneo da sucessão temporal, seus


esforços para compreender a marcha dos acontecimentos e enquadrá-los numa
narrativa minimamente convincente passaram a ser tão arbitrários e artificiais quanto
suas (in)decisões de agir.

Sob esse aspecto, o filme é uma lição de teoria da História — digo, é uma aula
de como o historiador lida com sua matéria prima: o tempo. Igual à personagem do
filme, o historiador está preso ao presente e aborda o passado a partir dessa
circunstância. A História, disse Marc Bloch, é elaborada do presente. Inescapável, tal
pertencimento ao presente não é, contudo, um interdito à inteligibilidade do passado.
Justo o contrário. Pois se guarda os limites, também reúne as condições de
possibilidade (epistêmicas e ônticas) da inteligência historiadora. Diálogo entre
horizontes temporais díspares, a História consiste numa relação complexa,
mútua e reciprocamente constitutiva do presente, do passado, do futuro.

Em outras palavras, o passado é reinterpretado constantemente pelo presente


que, por sua vez, se reordena a cada atualização do ontem e reelabora novas
projeções de futuro que, mais uma vez, reforçam (ou não) a necessidade de outras
visões da História.

É claro que não se inventa o tempo passado. Trabalhando com documentos,


registros, arquivos, provas testemunhais etc, os historiadores em geral estão
sinceramente vocacionados a buscar a verdade dos fatos e procuram, nos limites da
nossa falibilidade, comprovar suas investigações. (E caso façam inferências pouco

134
convincentes, considerando que pertencem a uma comunidade de intelectuais
atentos, competitivos e prontos a lançar dúvidas sobre as conclusões uns dos outros,
vale lembrar que o debate interpares consiste numa instância limite para aferição do
que é social e historicamente aceito como verdadeiro.) Portanto, dificilmente
concordariam com a hipótese de que são ficcionistas, artífices inventivos de um
mundo imaginário, fantasioso e irreal.

O que importa, porém, não é contrapor o “realismo histórico” à admissão da


liberalidade construtiva do historiador. A questão não se cinge à oposição entre as
evidências empíricas e a margem de autonomia do intérprete da História. Trata-se,
antes, de enfatizar a artificialidade do empreendimento historiográfico.
Diferentemente do memorialista, o historiador mesmo que seja protagonista dos
acontecimentos não os lembra espontaneamente.

Na oficina da História, a montagem de uma continuidade qualquer de eventos


não é um dado natural, mas resulta de pesquisa (cujos princípios metódicos
pertencem a um corpus disciplinar reconhecido) e também de muito trabalho e
esforço intelectual.

Trata-se de uma empresa cognitiva que critica e seleciona fatos, define seus
significados, estabelece as séries seqüenciais em que se encaixam e, por fim, conecta
todo esse material sob uma escrita literariamente arbitrária. Além disso, e a despeito
das suas inclinações teórico-metodológicas, os historiadores se entregam a tal tarefa
na contramão do fluxo temporal.

Quer dizer, à semelhança do roteiro de Amnésia, não se lançam ao passado


saltando sobre um vácuo de tempo. O retorno ao passado não é um simples
transplante do hic et nunc para o período histórico que pretendem investigar. Ao
invés disso, os historiadores recuperam os atuais vestígios do passado e, num
regresso às avessas, reconstroem (no limite, inventam) a ordem da contigüidade
factual estabelecendo suas conexões causais.

Esta aproximação artificial e regressiva é nítida quando, por exemplo, antes


mesmo de lidar mais estreitamente com as fontes primárias, o historiador cerca o
debate historiográfico em torno do seu objeto de pesquisa. Ele visita os clássicos, os
autores consagrados e o círculo de idéias que ao longo dos tempos se produziu sobre
seu objeto de interesse não só por cautela, mas porque nesse reconhecimento à
tradição intelectual reside seu caminho de aproximação com o passado. Afinal, caso
estude a antiguidade oriental, não será catapultado do hoje à civilização babilônica.
Com efeito, seus passos de pesquisa (leia-se método) em vez de serem meras

135
técnicas de investigação, devem ser considerados em si mesmos como um modo de
resgatar a própria historicidade dos elos que vinculam o presente ao passado. Dessa
forma, a historicidade da investigação — o pertencimento da razão histórica ao
tempo presente — se expressa nos procedimentos metódicos que foram sendo
adotados e o historiador precisa tornar essa dimensão do seu trabalho
intelectualmente produtiva (em Verdade e Método, Gadamer explora tal questão).

Prisioneira do presente, a inteligência historiadora é artífice do tempo. Ao


registrar o sentido das ações, estabelecer início e fim dos processos factuais, conectar
intenções e conseqüências e descrever o rumo dos acontecimentos, os historiadores
emprestam ritmo e significado à experiência da mobilidade temporal.

Não que o tempo seja criatura da consciência histórica.

Justo o contrário — para usar os termos de Heidegger, se pode dizer que ela
encontra no tempo a sua morada. Todavia, assim como em Amnésia, a faculdade
mnemônica não existe a priori do próprio empreendimento que busca compreender
a ordem dos fatos.

E o filme encerra essa lição: descreve os passos de (des)construção do sentido


do tempo, convidando os historiadores a refletirem sobre seu ofício.

Saiba mais
Visite o site:
http://www.espacoacademico.com.br/022/22ccortes.htm

1a Atividade em aula
Depois de ter lido as resenhas, você deve estar apto para escrever a sua.

Escolha se quer fazer a descritiva ou a crítica. Selecione um objeto (textos,


obras culturais, como romance, peças de teatro, filmes).

Faça várias leituras para ganhar familiaridade com o texto.

136
Procedimentos para elaborar resenha científica:
1. Na introdução, deve-se apresentar o assunto de forma genérica até chegar
ao foco de interesse, ou ao ponto de vista que será focalizado. Uma vez apresentado
o foco de interesse, procura-se mostrar a importância dele, a fim de despertar o
interesse do leitor.
Cabe, nesse momento, expor:
a) Referência bibliográfica (autor, título da obra, local da edição, editora, data,
número de páginas, formato).
b) Credenciais do autor _ informações, nacionalidade, formação universitária,
títulos, livro ou artigos publicados.

2. No desenvolvimento, devem ser apresentados os seguintes itens:


a) Resumo da obra – resumo das idéias principais. De que trata o texto? Qual a
característica principal? Descrição do conteúdo e dos capítulos ou partes da obra.
Para facilitar a descrição do assunto, sugere-se a construção dos argumentos por
progressão, que consiste no relacionamento dos diferentes elementos, mas
encadeados em seqüência lógica, de modo a haver sempre uma relação evidente
entre um elemento e o seu antecedente.
b) Conclusões da autoria – A quais conclusões o autor chegou?
c) Metodologia da autoria – Que métodos utilizou? Dedutivo? Indutivo?
Histórico? Comparativo? Estatístico? Que técnicas utilizou? Entrevistas?
Questionários?
d) Quadro de referência do autor – que teoria serve de apoio ao estudo
apresentado? Qual o modelo teórico apresentado?

3. Na conclusão, é importante (principalmente na resenha crítica)


a) Crítica ou apreciação do resenhista – julgamento da obra.
Qual a contribuição da obra?
As idéias são originais?
Como é o estilo do autor: conciso, objetivo, simples, objetivo, realista, idealista?
O autor atingiu os objetivos propostos?
O texto supera a pura retomada de textos de outros autores?
Há profundidade na exposição das idéias?
A tese foi demonstrada com eficácia? A conclusão está apoiada em fatos?

b) Indicações do resenhista
A quem é dirigida a obra?
A obra é endereçada a qual área do conhecimento?

137
Dica importante
A apreciação crítica deve ser feita em termos de concordância ou discordância,
com base em uma leitura racional, não apenas emocional (gosto/ não gosto), levando
em consideração a validade ou a aplicabilidade do que foi exposto pelo autor. Para
fundamentar a apreciação crítica, deve-se levar em conta a opinião de autores da
comunidade científica, além da visão de mundo.

A resenha bem redigida é uma valiosa ferramenta de pesquisa, mas se a crítica


apresentada é impressionista (gosto/não gosto), ela deixa de ter interesse para o
pesquisador.

Pesquise:
Metodologia científica
Referências bibliográficas - ABNT

Consulte as obras:
• GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna. Rio de Janeiro: FGV, 2000.
• MEDEIROS, João Bosco. Redação científica – a prática de fichamentos,
resumos e resenhas. 3ed., São Paulo: Atlas,1997.
• MEDEIROS, João Bosco. Redação científica. São Paulo: Atlas, 2002.
• SEVERINO, Antonio J. Metodologia do trabalho científico. São Paulo: Cortez, 2003.

Dicas de revisão gramatical


Concordância Verbal

1.O verbo concorda com o sujeito em número e pessoa.


Abaixo estão os nomes dos participantes.

2. Se o sujeito for um pronome de tratamento - verbo na 3ª pessoa.


Vossa Senhoria não é justo. / Vossas Senhorias estão de acordo comigo.

3. Sujeitos ligados por ou – verifique a idéia.


Pedro ou Paulo será eleito. (idéia de exclusão – verbo no singular)
O calor forte ou o frio excessivo prejudicam a saúde (idéia de inclusão –
verbo no plural)

4. A maioria, a maior parte de, grande parte de - verbo no singular ou plural.


Grande parte dos eleitores votou/votaram.

138
5. Com a expressão mais de + numeral - verbo concorda com o numeral.
Mais de um candidato prometeu melhorar o país. Mais de duas pessoas
vieram à festa

6. Nomes só usados no plural - a concordância depende da presença ou não


de artigo.
Os Estados Unidos são uma nação poderosa. Estados Unidos é uma nação
poderosa.
Os Lusíadas são/é a obra de Camões. (facultativo para nome de obra)

7. Com o pronome relativo quem - verbo na 3ª pessoa do singular,


concordando com o pronome quem ou com o antecedente.
Fui eu quem falou/falei. Fomos nós quem falou/falamos.

8. Com o pronome relativo que - verbo concorda sempre com o antecedente


Fomos nós que falamos.

9. Com sujeito composto posposto ao verbo - concordância normal ou atrativa


(com o núcleo mais próximo)
Está ausente a família e a escola. Estão ausentes a família e a escola.

10. O verbo ser é impessoal quando indica data hora e distância, concordando
com a expressão numérica ou a palavra a que se refere.
Eram seis horas. Hoje é dia dez.

11. Com sujeito composto por:


• núcleos em gradação - verbo singular ou plural.
Um minuto, uma hora, um dia passa/passam rápido.
Mas, se houver um pronome síntese, concordância com o pronome.
Risos, gracejos, piadas, nada a alegrava.

12. Com a expressão um e outro - verbo no singular ou no plural.


Um e outro falava/falavam a verdade.

13. Com a expressão um ou outro - verbo no singular.


Um ou outro rapaz virava a cabeça para nos olhar.

14. Com a expressão nem um nem outro - verbo no singular.


Nem um nem outro falava a verdade.

139
15. Com sujeito composto ligado por nem - verbo no plural.
Nem o poder, nem a glória lhe trouxeram a felicidade.

16. Com a expressão um dos que - verbo no singular (um) ou plural (dos que)
Ele foi um dos que mais falou/falaram.

17. Se o sujeito é número percentual - observar a posição do número percentual


em relação ao verbo. O verbo concorda com o termo posposto ao número.
Sabe-se que 80% da população tinha mais de 21 anos. Dez por cento dos
sócios saíram da empresa.

18. Se o sujeito for composto ligado por com - observar presença ou não de vírgulas.
o verbo no plural sem vírgulas. Eu com outros amigos limpamos o quintal.
o verbo no singular com vírgulas, idéia de companhia. O presidente, com os
ministros, desembarcou em Brasília.

19. Sujeito indeterminado + SE (IIS) - verbo no singular.


Precisa-se de balconistas.

20. Com sujeito paciente ao lado de um verbo na voz passiva sintética - verbo
concorda com o sujeito
Alugam-se casas.

2a Atividade em aula
Vamos exercitar?

Complete as lacunas com os verbos entre parênteses no tempo indicado.


1. _________________ o vento e a chuva. (vir- Pret.perf.ind)
2. O vento e a chuva _____________ a plantação. (destruir-pret.perf.ind)
3. Chocolates, balas, sorvetes, nada ____________ .(agradar-pret.imperf.ind)
4. Napoleão com seus soldados ___________a Europa.(invadir- pret.perf.ind.)
5. Cerca de duzentas pessoas ____________________(morrer-pret.perf.ind.)
6. O professor, com seus alunos _______________ao teatro. (ir-fut.pret.ind)
7. Você ou ele ____________________ com o cargo.(ficar-fut.pres.ind.)
8. __________________-se apartamentos. (vender-pres.ind.)

Veja as respostas na aula on-line

140
Síntese da aula de hoje
Na aula de hoje, você aprendeu a fazer resenha descritiva e resenha crítica.
Exercitou a capacidade de ler analiticamente, exercitou sua capacidade de juízo
crítico e sua habilidade para produzir texto científico.

Além disso, relembrou regras de concordância verbal – assunto importante para


que você não cometa “gafes” quando se apresentar para as pessoas, em entrevistas,
em reuniões, em palestras, em provas de concurso, entre outros.

Próxima aula
Na próxima aula, o assunto é texto literário e texto não literário.

Prepare-se para viver grandes emoções!

Até lá!

141
Aula 15 - Função referencial e função
poética da linguagem
Na aula de hoje, você deverá identificar a função referencial e a função poética
da linguagem, distinguir as duas e empregá-las adequadamente na elaboração do
texto.

Para que você saiba o que é função referencial e função poética da


linguagem e perceba as diferenças entre elas, é importante distinguir dois níveis de
linguagem: denotativo e conotativo.

Procure no dicionário o sentido da palavra “noite”, por exemplo.

Uma palavra empregada no sentido usual, comum, literal, naquele em que os


dicionários registram em primeiro lugar, dizemos que está empregada em seu valor
denotativo.

Saiba mais
Noite = Espaço de tempo em que o Sol está abaixo do horizonte. Obscuridade que
reina durante esse tempo; escuridão, trevas.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio Século XXI: O dicionário da
língua portuguesa. 3ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, p. 1412.

Leia agora este trecho do poema e traduza o sentido que o autor procurou
estabelecer à palavra “noite”:

“É noite. Sinto que é noite


não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos,
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.”
ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969, p. 88.

142
Qual é o sentido da palavra “noite”?
Será o mesmo definido nos dicionários?
Com certeza, não. A palavra “noite”, nesse caso, assume significados
múltiplos e subjetivos.

Uma palavra usada no sentido figurado, afetivo, transcendendo ao sentido


comum, sugerindo outras idéias de ordem abstrata, relacionadas com emoções,
sentimentos ou conceitos, dizemos que é usada no valor conotativo.

1a Atividade em aula
Coloque nos parênteses a letra D, quando a palavra destacada em itálico estiver
empregada no valor denotativo; coloque a letra C, caso a palavra estiver empregada
no valor conotativo:

a. O entardecer é exuberante nos dias de outono.


b. O que sentirei quando se aproximar o entardecer de minha vida?
c. As grandes metrópoles envolvem o homem em seus braços frios.
d. Os braços dela eram sensuais.
e. No rosto do rapaz transparecia a fúria de uma tempestade interior.
f. Após a tempestade ter acalmada, continuaram a viagem.
g. O Vale do Jequitinhonha expressa a aflita face da miséria.
h. Ao chegar à festa, ela me deu um delicioso beijo na face.
i. Uma flor, o Marcos!
j. Uma flor às mulheres, no seu dia.

Veja as respostas na aula on-line

A ciência e o jornal: mensagens referenciais


Pesquise:
• Função referencial da linguagem.
• Linguagem denotativa ou denotação.

Função referencial da linguagem


A linguagem denotativa é construída em bases convencionais, elaborada em função
das normas do código, produzindo informações definidas, claras, transparentes, sem
ambigüidades. Essa linguagem caracteriza a mensagem referencial.

143
Por ser uma forma de comunicação direta, a função referencial da linguagem
está presente em quase todas as mensagens do nosso cotidiano, quando nos
referimos a situações que nos rodeiam e quando conversamos.

É a mensagem que se propõe informar o leitor, transmitindo-lhe dados e


conhecimentos precisos. O uso da função referencial é dominante no discurso científico,
que tem intenção de produzir uma informação teórica. Organiza, também, a estrutura da
mensagem dos noticiários de rádio e televisão e a comunicação nas empresas.

Está centrada sobre o referente, a informação.


O uso da função referencial marca-se, lingüisticamente, com o traço da 3ª
pessoa do verbo, ou seja, de quem ou do que se fala.

O plano de expressão de um texto referencial não tem nenhuma relevância,


pois sua finalidade é apenas veicular conteúdos.

A linguagem não apresenta nenhuma combinação nova ou inesperada de palavras.

Saiba mais - Bibliografia:


• ARMELLEI, Walter Júnior & FRANK, Genice & BASEIO, Dora Fontana. Coleção
Leitura & Escrita: Funções da Linguagem. São Paulo: Editora Esetec, 2004, volume II.
• CHALHUB, Samira. Funções da linguagem. São Paulo: Ática, Série Princípios.
• VANOYE, Francis. Usos da linguagem. São Paulo, Ed. Martins Fontes.

Leia este artigo publicado na Revista Isto É e observe esses elementos:


Faça o registro no seu caderno.

“Os vivos, de repente, começariam a invejar os mortos. Sobre a Terra devastada


restariam alguns poucos hospitais. Metade do corpo médico teria desaparecido e nas
farmácias todo o estoque de medicamentos do mundo não bastaria para aliviar o
sofrimento de apenas um terço das vítimas. Em meio ao apocalipse, ressurgiriam
epidemias extintas desde a Idade Média, e por longos anos se multiplicariam os casos
de câncer e aberrações genéticas, mesmo em países distantes.

Aterradoras, mas verossímeis, estas são algumas das conclusões a que chegaram
23 cientistas da Europa Ocidental, Estados Unidos e Rússia, a quem a Organização
Mundial da Saúde (OMS), órgão das Nações Unidas, encomendou um estudo sobre
as conseqüências médicas de uma guerra nuclear.

144
Para chegar a tão sinistras previsões, os especialistas contratados pela OMS
valeram-se de conhecimentos científicos e do saldo da terrível experiência de
Hiroshima e Nagasaki – as cidades japonesas onde, em agosto de 1945, se utilizou
pela primeira vez uma bomba nuclear contra seres humanos. (...)”

A literatura e a função poética


Pesquise, utilizando-se da mesma indicação bibliográfica citada na página 144:
•Função poética da linguagem
•Linguagem conotativa ou conotação.

Função poética da linguagem


Na função poética da linguagem, o plano de expressão articula-se com o plano
do conteúdo, contribuindo também para a significação global. O texto não procura
apenas informar o leitor, dizer o mundo, mas recria-lo nas palavras, de modo que,
nele, importa não apenas o que se diz, mas o modo como se diz.

Na elaboração da mensagem, utilizam-se recursos de forma e de conteúdo que


invocam o nosso olhar para a própria mensagem, causando-nos surpresa,
estranhamento e prazer estético.

Essa função se manifesta a partir da exploração de certos recursos expressivos


da linguagem, que criam efeitos sonoros e rítmicos no texto e desenvolve o sentido
conotativo das palavras – o chamado sentido figurado ou metafórico.
Há predominância da função poética nos textos literários – prosa ou verso.
Podemos encontrá-la também em textos de propaganda, slogans publicitários,
canções populares e em outras produções verbais.

A literatura e a função poética


Compare este poema com o texto anterior, o artigo da Revista Isto É, e perceba
as diferenças.

A rosa de Hiroshima
Pensem nas crianças Da rosa da rosa
Mudas telepáticas Da rosa de Hiroshima
Pensem nas meninas A rosa hereditária
Cegas inexatas A rosa radioativa
Pensem nas mulheres Estúpida e inválida
Rotas alteradas A rosa com cirrose a anti-rosa atômica
Pensem nas feridas Sem cor sem perfume
Como rosas cálidas Sem rosa sem nada.
Mas oh não se esqueçam (Vinícius de Moraes)
145
2a Atividade em aula
O texto a seguir é um texto literário, em que predomina a função poética da
linguagem. Empregando a função referencial da linguagem, isto é, a linguagem
denotativa, reescreva o texto de forma que simule uma notícia de jornal.

Lembre-se de que uma notícia de jornal é relato de um fato novo que desperta
o interesse da comunidade e deve, portanto, informar ao leitor: o que aconteceu?,
quem estava envolvido?, quando?, onde?, como ocorreu? E por quê?

O grande desastre aéreo de ontem


Para Portinari
“Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com
a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua
cabeleira negra e seu estradivário.

Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos


irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva
de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a
nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida.

Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a
louca braçada ao ramalhete de rosas, que ela pensou ser o pára-quedas, e a prima-
dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa.

E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres
mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão
tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma
estrela cadente, vem com as pernas do vento.

Chove sangue sobre as nuvens de Deus.

E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.”


(Jorge de Lima)

3a Atividade em aula
Desta vez, proceda inversamente ao exercício anterior. Selecione, em revistas
ou jornais, uma notícia de jornal, um texto não-literário.

Empregando a função poética da linguagem, isto é, a linguagem conotativa,


reescreva o texto de forma que envolva o leitor, despertando-lhe emoções.

146
Lembre-se de que uma narrativa literária deve conter alguns elementos como:
personagens, ação, enredo, tempo-espaço e um narrador, que conta a história em
primeira ou terceira pessoa.

As palavras possuem vários sentidos e valores, como já vimos.

Mas só adquirem um valor e sentido precisos dentro do contexto fraseológico


em que estão inseridas.

A adequação entre a exigência do contexto e a escolha certa do vocábulo e o


conhecimento de seu significado preciso revelam um eficiente uso do vocabulário.

Denomina-se polissemia o fenômeno ocorrido com a palavra que é capaz de


simbolizar várias idéias, dependendo do contexto lingüístico em que se encontra, que
é a frase.

Dissociar uma palavra da frase é despojá-la de seu sentido.

4a Atividade em aula
Leia este artigo publicado na Revista Isto É

Constate o caráter polissêmico da palavra linha, conceituando com uma


explicação o sentido que assume nas seguintes frase:
a. No cesto de costura, havia vários carretéis de linha.
b. A linha telefônica ficou interrompida após a tempestade.
c. Quando puxei a linha, surgiram dois peixes grandes.
d. Os territórios foram separados por uma linha divisória.
e. Inicialmente, foi definida a linha básica da discussão.
f. Ao longe, com muita nitidez, percebia-se a linha do horizonte.
g. Ela perdeu a linha ao ouvir a minha resposta.
h. Escreva bem em cima da linha.
i. Este ônibus faz a linha Centro – Santo Amaro.
j. Ele caminha em linha reta.

E assim, você deve buscar no dicionário, ou em meio às inúmeras expressões


que constituem nossa linguagem, outros exemplos do valor polissêmico de certas
palavras igualmente ricas em significado.

147
Síntese da aula de hoje
Na aula de hoje, você aprendeu vários conceitos importantes como:
função referencial e função poética da linguagem, conotação e denotação e o
valor polissêmico das palavras.

Procure pesquisar todas as funções da linguagem na bibliografia indicada.

Você perceberá que a linguagem oferece recursos ricos para que você expresse
suas idéias e suas emoções. Vale a pena!

Próxima aula
Na próxima aula, iremos trabalhar com a elaboração do seu currículo.

Até breve!

148
Aula 16 - Como elaborar um currículo
moderno
O objetivo da aula de hoje é oferecer instrumentos e informações para que você
elabore o seu currículo. Um currículo objetivo e atualizado.

Você deverá também adquirir alguns conceitos básicos sobre a concordância


nominal e utilizá-los corretamente em seus textos.

Elaborar o seu currículo, significa apresentar, de forma resumida, as suas


principais habilidades e competências, o seu perfil profissional e traços marcantes de
sua personalidade. Significa, enfim, escrever sobre si mesmo, sobre seu próprio Eu.

Com o objetivo de criar sensibilização para essa tarefa, leia estes dois poemas
que expressam, de forma poética, o desafio de escrever sobre o Eu.

Saiba mais - Caçador de mim Nada a temer senão o correr na luta


Por tanto amor Nada a fazer senão esquecer o medo
Por tanta emoção Abrir o peito à força, numa procura
A vida me fez assim Fugir as armadilhas da mata escura
Doce ou atroz Longe se vai sonhando demais
Manso ou feroz Mas nunca se chega assim
Eu caçador de mim Vou descobrir
O que me faz sentir
Preso a canções Eu caçador de mim
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu caçador de mim

Autor desconhecido
Música de Milton Nascimento

149
Traduzir-se Uma parte de mim
Uma parte de mim é permanente:
é todo mundo: outra parte
outra parte é ninguém: se sabe de repente.
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
Uma parte de mim é só vertigem:
é multidão: outra parte,
outra parte estranheza linguagem.
e solidão.
Traduzir uma parte
Uma parte de mim na outra parte
pesa, pondera: - que é uma questão
outra parte de vida ou morte –
delira. será arte?

Uma parte de mim Ferreira Gullar


almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Atividade em aula
1º - Elabore, resumidamente, uma biografia em que sobressaiam aspectos
expressivos e pitorescos de sua vida. Procure traduzir, em palavras, a personagem
EU, desvendando-se em sentimentos e idéias.

2º - Narre um fato de sua infância que você considere significativo para sua
formação.

Objetivos de um currículo
Ao redigir o currículo, tente imaginar, com detalhes, o caminho que ele deve
percorrer dentro de uma empresa. As qualificações descritas serão julgadas para
definir se o candidato se adapta ou não à cultura do empregador.

O currículo, salvo raríssimas exceções, será apenas mais um entre os muitos que vão
ser selecionados pelos recrutadores. O método de trabalho desses profissionais, em geral,
varia entre as seguintes opções: alguns selecionam o candidato pelos pontos positivos
observados; outros, fazem por eliminação, sempre de olho nos aspectos negativos.

150
Os empregadores, em geral, buscam combinação entre as características do
candidato à vaga, as exigências do trabalho e, ainda, em relação à cultura da empresa.

Quanto maior o equilíbrio entre os fatores, maior a chance de ser bem sucedido
na seleção.

Estabeleça os seus objetivos


Quanto mais direcionados forem os seus objetivos profissionais, melhores serão
as chances de sucesso na procura de um novo emprego. Para isso, identifique todos
os itens que julgar fundamentais para alcançar o seu objetivo. Avalie também a sua
situação atual, o que pode melhorar, quais as suas virtudes e defeitos e,
principalmente, o ponto aonde pretende chegar.

Pergunte-se:
1. Ao ler meu currículo, fico feliz com minha descrição?
2. Posso ser contatado em meu atual emprego ou isso pode causar
complicações?
3. A linguagem adotada é compreensível mesmo para quem não é da área?
4. Deixei de lado alguma informação pessoal que tenha importância específica
para meu currículo?
5. As informações pessoais e profissões que escolhi passam uma impressão
satisfatória e fiel à realidade?

Como preparar o seu currículo


• Seu nome, experiência profissional, empresas onde já trabalhou, além de
outros itens julgados importantes, devem receber tratamento especial. Cuidado para
não exagerar. A letra maiúscula não é recomendável e letras muito pequenas
dificultam a leitura.

• Seja objetivo (duas páginas são o suficiente), mas procure mostrar que você é
o profissional adequado à vaga oferecida, personalizando o documento de acordo
com a empresa.

• Cuidado com a apresentação: o documento deve estar em bom estado, sem


erros de português e perfeitamente legível. Nunca envie xerox.

• Não use papel de tamanho fora do comum, e tome cuidado para a margem não
ficar muito estreita. O ideal é papel branco liso, tipo A4, recomendado pela ABNT.

151
• Evite abreviar os nomes das empresas onde já trabalhou e das escolas onde
estudou. Números de documentos e filiação, por exemplo, são dados de pouca
importância no currículo, interessam quando você for admitido pela empresa.

• Nunca assine o currículo. Encare-o como um “cartão de visitas” ampliado. Caso


queira, redija uma carta de apresentação, ressaltando suas qualidades e seus planos.

Dez itens que são avaliados em currículos


1. O candidato tem outras habilidades pertinentes?
2. Há muitos erros de gramática e/ou digitação?
3. O currículo contém alguma informação que dê uma idéia da personalidade do
entrevistado?
4. O currículo demonstra a velocidade e direção do progresso da carreira do
candidato?
5. Há lapsos de cronologia no currículo?
6. As qualificações são pertinentes com as instituições descritas no currículo?
7. Qual a permanência média do candidato nos empregos?
8. O candidato está fazendo um movimento lógico na carreira?
9. Há evidências de ascensão profissional no currículo?
10. O estilo do currículo indica um candidato bem organizado?

3a Atividade em aula
Elabore, agora, o seu currículo, com base nas informações e orientações sugeridas.

Pesquise antes os sites:


- www.conteudoescola.com.br
- www.unic.br/ciee/pages/curriculo.asp
- www.bibli.fae.unicamp.br/cv.htm
- www.catho.com.br/elaboracaocv

Dicas sobre revisão gramatical


Princípio geral sobre concordância nominal

Observe estes exemplos:


“Alta noite, lua quieta
adjetivo subst subst adjetivo

152
Muros frios, praia rasa” (C. Meireles)
subst adjetivo subst adjetivo

“Não serei o poeta de um mundo caduco” (Drummond)


art subst art subst

“Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo” (Drummond)


numeral subst art subst

“Toca essa música de seda,...” (C. Meireles)


pronome subst

O adjetivo e as palavras adjetivas, o artigo, o numeral e o pronome são palavras


modificadoras do nome (substantivo), e concordam com os substantivos a que se
referem em gênero e número.Pesquise as regras de concordância nominal nos livros:
1. BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. São Paulo: Nacional.
2. CUNHA, Celso Ferreira. Gramática da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Fename.
3. LUFT, Celso Pedro. Moderna gramática brasileira. Porto Alegre: Globo.]
4. MEDEIROS, João Bosco. Português instrumental. São Paulo: Atlas.

Anexo(s), anexa(s), quite(s)


Envio-lhe anexo meu currículo para análise.
adjetivo substantivo

Seguem anexas as cópias do contrato.


adjetivo substantivo

Estamos quites com a Receita Federal.


adjetivo

Anexo, incluso, apenso são adjetivos, devem, portanto, concordar com o


gênero e o número do nome (substantivo) a que se referem.

Embora sejam comuns, na linguagem comercial e jurídica, as expressões “em anexo”


e “em apenso” devem ser evitadas, pois tais palavras são adjetivos e não advérbios.

Quite, adjetivo, significa “livre”, “desobrigado”, e deve concordar com o


número do nome a que se refere.

153
4a Atividade em aula
Corrija as frases incorretas:

1. Anexo, seguem as cópias que você solicitou.


2. As cópias apensas devem ser juntadas ao processo.
3. Incluso, seguem os documentos ainda não assinados.
4. Pago o último boleto bancário, estaremos quite.
5. A lista de preço anexa entrará em vigor no próximo mês.
6. Minha advogada providenciará para que as cópias incluso sejam juntadas ao processo.
7. As fotos enviadas anexo são da viagem de formatura.
8. Estou quite com os meus antepassados?

Veja as respostas na aula on-line

Muito obrigada, eu mesma, eu própria


Muito obrigada, disse a jovem.

Muito obrigada, disse a jovem.


adjetivo substantivo

Nós mesmas queremos agradecê-lo pela oportunidade.

Obrigado com significado de “agradecimento”, “grato”, “reconhecido” é


adjetivo. Deve, pois, concordar com o gênero e número da pessoa que faz o
agradecimento.

Se forem duas ou mais mulheres: obrigadas.


Se forem dois ou mais homens: obrigados.

Obrigado pede a preposição por, e não de. Portanto, a um “obrigado” se


responde “por nada”, e não “de nada”. Se preferir, responda “não há de quê”.

A um “obrigado” ou a um “obrigada”, a resposta adequada deverá ser:


“obrigado (a), digo eu a você”.

154
5a Atividade em aula
Complete as frases com a forma correta da palavra entre parênteses:

1. A cliente já quitou sua dívida, ela________pagou a duplicata. (mesma/mesmo)

2. O diretor disse à recepcionista:


- Quando receber a doação, você deve agradecer, dizendo:_______________
(muito obrigado / muito obrigada)

3. “________________- falou a jovem aos rapazes.


E acrescentou: podem deixar,__________________costurarei o maiô”.
(muito obrigado / muito obrigada; eu mesmo / eu mesma)

Veja as respostas na aula on-line

Meio / meia
Achou um meio de ganhar a vida.
art subst.

Não era homem de meias palavras.


adjetivo substantivo

Bebeu meia dúzia de cervejas.


numeral ———> substantivo

Ela anda meio preocupada.


advérbio ———> adjetivo

A palavra meio pode variar ou não, dependendo de sua função.


• Meio é substantivo e varia, portanto, quando vem precedido de artigo,
pronome, numeral (determinantes).
• Meio é adjetivo e, assim, varia, quando vem acompanhando um substantivo.
• Meio é numeral e, por isso, varia, quando indica a metade.
• Meio é advérbio e, como tal, não varia, quando se relaciona a um verbo,
adjetivo ou outro advérbio.

Pesquise as classes gramaticais das palavras: palavras variáveis e invariáveis.

155
6a Atividade em aula
Complete com a palavra meio, promovendo a concordância adequada:

1. Hoje a professora está _____________nervosa.


2. Ela não usa de _____________palavras.
3. Precisamos descobrir um _____________de acalmá-la.
4. A despesa ficou _____________elevada.
5. Este é o único _____________ que eu conheço.
6. Já era meio-dia e _____________ quando ela chegou.
7. A sala de aula estava _____________caótica.
8. As ondas estão _____________ bravas hoje.
9. Ela comprou _____________ preta.
10. Bebeu _____________ garrafa de cachaça e não caiu.

Veja as respostas na aula on-line

Síntese da aula de hoje


Você aprendeu hoje a elaborar o seu currículo, com clareza, objetividade e
atualização. É um instrumento importante para que o mercado de trabalho conheça o
profissional que você é.

Aprendeu, também, os princípios básicos de concordância nominal e, com


certeza, você saberá aplicá-los em cada situação cotidiana.

Até a próxima aula. Você aprenderá a redigir alguns documentos empresariais.

156
Aula 17 - Redação empresarial
Na aula de hoje, você aprenderá a redigir alguns documentos empresariais.

Além disso, reconhecerá alguns vícios de linguagem que não devem ocorrer em
sua produção escrita.

Com as novas exigências de comunicação rápida e eficaz, decorrentes do


processo de globalização e do aparecimento da mídia e da informática, a cultura
empresarial tem se modificado sensivelmente.

A modernização dos textos empresariais tornou-se necessidade urgente.

Diferente do texto jornalístico ou literário, o texto empresarial precisa ter


eficácia, a fim de obter resposta imediata do receptor.

Um texto mal escrito pode:


• Desmotivar para a leitura;
• Gerar confusão de informações;
• Provocar falta de credibilidade;
• Causar retrabalho;
• Produzir conflitos;
• Causar perdas lucrativas.

A correspondência empresarial é o conjunto de documentos por meio dos quais


é estabelecida a comunicação interna e externa das empresas. É, ao mesmo tempo,
meio de comunicação e instrumento de marketing.

São características do moderno texto empresarial:


• Concisão
• Objetividade
• Clareza
• Coerência
• Coesão
• Linguagem formal e simples
• Correção gramatical

157
Saiba mais
Concisão consiste em expressar o máximo de informação com o mínimo de
palavras.
Objetividade consiste em expor apenas as idéias significativas.
Clareza é decorrente de nossa capacidade de organização das idéias na mente e a
adequada transposição ao material idiomático.
Coesão e Coerência são as qualidades resultantes da conexão harmônica entre
idéias de forma a produzir sentido.
Linguagem formal e simples refere-se ao nível e estilo de linguagem que segue a
norma gramatical vigente e deve ser compartilhado com o destinatário a fim de
garantir a comunicação e assegurar uma boa imagem da empresa.
Correção gramatical é o uso adequado da norma culta, sem desvios.

Dicas para escrever correspondência eletrônica


• Seja objetivo no campo assunto de seu e-mail, resuma em poucas palavras o
que será tratado;
• Use mensagens breves e diretas - o correio eletrônico é caracterizado pela
versatilidade e rapidez. A mensagem inteira deve ser lida em uma única tela. Se for
maior, anexe;
• Prefira as fontes Times New Roman ou Arial para garantir que será lida;
• Cuide do português. Evite gírias e abreviações;
• Faça saudações;
• Assine a mensagem;
• Só use parênteses em formas combinadas, se possível
Ex.: senhor(es)/ Diretor(a)/ Não é possível :Datilógrafo(a) – datilografoa;
• Identifique e numere anexos;
• Revise;
• Pesquise sobre netqueta.

Vejamos fragmentos de textos, cartas, relatórios, correspondências que contêm


expressões inadequadas:

São Paulo, 02 de agosto de 2005.


À Vitória Editora
At.: Regina Ramos
Comunicamos que o serviço solicitado poderá ser executado a curto prazo se os
documentos requeridos na carta anterior forem providenciados o mais rápido possível.

A curto prazo é inadequado. Use “em curto prazo”. Pergunta-se: em que


prazo será efetuado o serviço?

158
A resposta deve ser “em curto prazo, em longo prazo, em médio prazo”.

Maiores informações podem ser obtidas através do telefone 9987-5634.


Atenciosamente.
Estela Fontana

Evite maiores informações. O adequado é mais informações, pois o que


se deseja são informações melhores, mais informações e não maiores ou menores.

Através só deve ser utilizado com as seguintes acepções:


-> de um lado para o outro : Viajou através do país.
-> ao longo de: Andava através dos jardins.
-> por entre: Estudou através de anos.

No sentido de meio, usa-se por meio de, portanto a expressão “através do


telefone” deveria ser “por meio do telefone”, já que o telefone é o meio pelo qual a
empresa poderá entrar em contato.

Saiba mais - Consulte os links:


http://www.espirito.org.br/portal/palestras/klickeducacao/
http://www.mariopersona.com.br/redacao.html
http://www.mp.sp.gov.br/Diretoriageral/Estudos/Guia2.htm
http://www.sk.com.br/sk-write.html

Outras dicas para escrever carta


• A/C (aos cuidados de) deve vir no envelope e não dentro da carta, a não ser
que o envelope seja janelado. At.: ( à atenção de) e não Att.: (attention), por favor,
estamos no Brasil.

• Evite iniciar a carta com “venho por meio desta”, “venho através desta”,
“venho pela presente”, pois não agregam informação. Prefira: Informamos que...
Solicitamos...

• Evite terminar a carta com “sem mais”, pois, geralmente, você necessitará
falar novamente com a pessoa.

• Antes de lhe e lhes, a forma verbal não perde a terminação s, mas antes de
nos cai o s no final do verbo.

159
• Os pronomes de tratamento (Vossa Senhoria, Senhor, Vossa Excelência)
exigem verbos e pronomes na terceira pessoa. Vossa é usado em relação à pessoa
com quem se fala e Sua em relação à pessoa de quem se fala.

São Paulo, 08 de março de 2005.

Prezados clientes,

Comunicamos que o nosso horário de atendimento foi alterado.


À partir de segunda-feira, 10 de agosto, atenderemos das 8h30min às 18h, sendo
nosso horário de almoço meio-dia e meio e passamos a fazer entregas a domicílio.

Atenciosamente,

Em a partir: não há acento indicador de crase, pois a preposição vem seguida


de verbo, portanto, não há encontro da preposição a com o artigo a.

O adequado é meio-dia e meia: meia refere-se à hora (meio dia e meia hora).

Existem as duas expressões - em domicílio / a domicílio, porém são utilizadas em


situações diferentes.

Em domicílio é utilizada quando o verbo ou nome que o precede forem


estáticos. Ex.: Fazemos entrega em domicílio (em casa).

A domicílio é utilizada com verbos de movimento, que peçam a preposição a.


Ex.: Vamos a domicílio executar o serviço (vamos a casa).

Mais dicas
Homem diz OBRIGADO.
Mulher diz OBRIGADA.

A NÍVEL DE NÃO EXISTE


AO NÍVEL DE: à mesma altura de alguma coisa. (ao nível do mar)
EM NÍVEL DE: em nível estadual, no nível municipal, em nível de supervisão.

EM CORES (não a cores)

160
ENQUANTO - significa ao passo que. Enquanto você canta, eu trabalho.
Não se usa enquanto que. Não é possível usar: Enquanto professor, acho que
deveria melhorar sua postura. (Correto: Como professor, acho que deveria melhorar
sua postura.)

MESMO(s) E MESMA(s) - não podem ser usados para substituir substantivos (com
função pronominal – nomes e pronomes).Ex.: Chegou o material que eu aguardava. O
mesmo trouxe idéias novas. Correto: Chegou o material que eu aguardava.

Ele trouxe idéias novas.

ASPIRAR
Aspirava a um cargo melhor.(desejar)- aspirar a algo
Aspirava o pó.(respirar) – aspirar algo

ASSISTIR
Assisti ao jogo (presenciar)- assistir a algo
O médico assistiu o doente. (socorreu, ajudou)- assistir alguém
Ela assiste aqui (morar)

OBEDECER/DESOBEDECER
Obedeceram aos pais. Obedecemos às leis.- obedecer a alguém ou a algo

PAGAR /PEDIR/ PERDOAR –algo a alguém


Paguei os honorários ao advogado.
Pedi que minha mãe viesse.
Perdoei ao meu pai.

PREFERIR – uma coisa a outra


Prefiro ir ao shopping a ficar em casa.

VISAR
Visamos à realização profissional.(desejar)- visar a algo
Visei o cheque.(pôr visto) – visar algo

IMPLICAR – uma coisa implica outra


A conquista implica trabalho.

SEJA/ESTEJA
Não existe seje nem esteje.

EM FÉRIAS: um funcionário entra “em período de férias”.

161
JUNTO A - ao lado de
Então não é possível conseguir um empréstimo junto ao banco. Consegue-se
empréstimo no banco.

Cuide da pronúncia
• Advogado(d mudo)
• recorde – recordes
• rubrica
• gratuito – intuito - circuito
• impregna-designa-estagna-consigna-impugna-repugna- resigna ( g mudo)
• subsídio (som de s) como subsolo

Cuide da grafia
• Reivindicar
• asterisco
• beneficente
• privilégio
• sobrancelha

1a Atividade em aula
Complete as lacunas:
1. Estou _____________ convidá-lo para a festa. (a fim de/ afim de)
2. O professor havia _____________ o presente.(aceitado/aceito)
3. O convite foi _____________ (aceitado/aceito)
4. _____________ chovia, inundava tudo. (À medida que / Na medida em que)
5. _____________ não existiam provas, optou-se pela absolvição. (À medida
que / Na medida em que)
6. Estão _____________ as faturas. (anexo)
7. Está _____________ o documento. (anexo)
8. O dólar, _____________ cair, subiu. (ao invés de, em vez de)
9. Usei dólar _____________ real. (ao invés de, em vez de)
10. _____________, abordaremos a questão da identidade cultural. (a
princípio/ em princípio)
11. _____________, toda teoria deve ser comprovada na prática. (a princípio/
em princípio)
12. Nenhum presidente pode ir _____________ desejo da população. (de
encontro a/ao encontro de)
13. Saí _____________ minhas necessidades. (de encontro a/ao encontro de)
14. O caso passou _____________ (despercebida/desapercebida)

162
15. _____________ o uso da maconha. (Descriminou/ Discriminou)
16. _____________ os habitantes das favelas. (Descriminou/ Discriminou)
17. A minha _____________ na capital foi excelente.(estada/estadia)
18. Estava ________ de saúde, por isso ficava de __________humor. (mal/mau)
19. Visitei a _________ de esportes da loja; depois fui a uma _____________
de cinema.(seção/sessão)
20. __________ tiver dinheiro, não irei viajar. (se não/ senão)
21. Assuma uma nova postura, ________ teremos problemas. (se não/ senão)
22. Espero que você não _____________ tempo. (perca/perda)
23. Bateu o carro de deu _____________ total. (perca/perda)
24. Ele sempre _____________ boas notícias. (traz/trás)
25. Ficaram para _____________ todas as mágoas. (traz/trás)
26. Espero que vocês façam uma boa _____________ (viagem/viajem)
27. Espero que vocês _____________ bem. (viagem/viajem)

Veja as respostas na aula on-line

Síntese da aula de hoje


Falar e escrever bem são ferramentas importantes para quem precisa e quer
caminhar rapidamente na vida profissional. Escrever com correção e com clareza é
fundamental para o sucesso profissional e pessoal.

Essas foram as habilidades que você exercitou na aula de hoje.

Próxima aula
Na próxima aula serão apresentadas outras dicas sobre situações profissionais,
como entrevista, elaboração de currículos, técnicas de comunicação oral, postura,
apresentação pessoal, a linguagem do corpo entre outras curiosidades.

Até breve!

163
Aula 18 - Entrevista
Na aula de hoje, serão apresentados vários aspectos importantes que compõem
uma entrevista: técnicas de comunicação oral, postura, apresentação pessoal, a
linguagem do corpo e outros detalhes.

Ao receber o currículo, o selecionador analisa as qualificações descritas para


definir se o candidato se adapta à cultura da empresa, buscando equilíbrio entre as
características do candidato e as exigências do trabalho.

Preenchidos esses requisitos, o candidato é chamado para entrevistas, momento


de perguntas abertas, que pedem respostas elaboradas e não monossilábicas, porém
com linguagem simplificada, sem rodeios que tornam as frases longas e sem
objetividade.

Antes de ir à entrevista, é necessário um estudo detalhado dos negócios da


empresa, dos concorrentes do mercado em que atua, dos produtos que fabrica, de
sua cultura, pois, as perguntas, além de pessoais, serão direcionadas ao conhecimento
profissional e à organização.

É necessário, também, que o candidato vista-se de acordo com a vaga disputada


e com a cultura da empresa – não é conveniente, por exemplo, vestir terno para uma
entrevista em uma agência de publicidade que adote um estilo bem informal, ou
vestir-se descontraidamente para uma entrevista conservadora.

Sobre a maneira correta e adequada de vestir-se para uma entrevista, a revista Você
S/A, da Editora Abril tem sugerido em várias edições recentes. Faça uma pesquisa.

Consulte o site: www.vocesa.abril.com.br

O entrevistador não deve ser tratado com intimidade, porém, muito formalismo
ou timidez podem ser interpretados como arrogância ou dificuldade de socialização.

Os entrevistadores estão treinados para “ler” os sinais do corpo, que podem


ser tão reveladores quanto às palavras, já que “o corpo fala”. Portanto, é importante
enfrentar a entrevista com calma e tranqüilidade, evitando roer as unhas, passar a
mão constantemente no cabelo, colocar os cotovelos na mesa, esparramar-se na
cadeira, mascar chiclete; contudo gestos de apoio, como olhar nos olhos ou balançar
a cabeça para quem está falando, cria empatia.

164
O entrevistador questiona o candidato com o objetivo de identificar habilidades
profissionais, técnicas e práticas. Geralmente são analisadas as habilidades
organizativa, analítica decisória, social e comunicativa e, para isso, o candidato é
colocado em situações hipotéticas.

Algumas perguntas são básicas nas entrevistas, como as que seguem.


Consulte o livro HINDLE, Tin. Como fazer entrevistas. São Paulo: Editora
Publifolha, série Sucesso Profissional.
• Por que você deseja mudar de emprego?
• Quais são as suas principais qualidades?
• Como foi sua relação com outras empresas?
• Qual foi o ponto alto de sua carreira até agora?
• Que experiência você tem em resolver problemas?
• Quais são as suas metas de longo prazo e como você supõe poder alcançá-las
nesta empresa?
• Como você acha que contribuiria para esta empresa?
• O que você considera ser a maior conquista de sua vida?
• O que você está procurando antes de tudo no emprego?
• Onde você se vê dentro de cinco anos?
• Como você lida com pressões de prazo?
• Você gosta de ser parte de uma equipe ou prefere trabalhar sozinho?
• Como o seu melhor amigo o descreveria?

É preciso apresentar-se de forma persuasiva, considerando as modernas técnicas


do marketing pessoal. Para isso, são necessários argumentos que convençam a
empresa da necessidade da contratação, mostrando os benefícios e a contribuição
para o sucesso dos negócios que essa contratação lhe fará.

As pessoas que vendem bem seus conceitos e idéias tendem a obter sucesso.

Visite os sites:
- www.etiquetaempresarial.com.br
- www.catho.com.br

A linguagem do corpo
Em uma entrevista, os entrevistadores estão treinados para ler os sinais do
corpo que podem ser tão reveladores quanto as palavras. Seu corpo fala o tempo
todo, mas nem sempre passa mensagem igual ao que você está dizendo.

No trabalho, onde a negociação está sempre presente, entender essa linguagem


pode ajudá-lo a conseguir seu objetivo.

165
Há uma obra clássica, O corpo fala, cuja leitura é indispensável para quem
deseja, efetivamente, aprender a ler o outro e a si mesmo.

Saiba mais - Consulte as obras:


WEIL, Pierre & TOMPAKOW, Roland. O corpo fala. Rio de Janeiro: Vozes, 1984.
DAVIS, Flora. A comunicação não-verbal. São Paulo: Summus Editorial, 1973.

A comunicação oral
É fato que as empresas modernas buscam pessoas criativas, multifuncionais e
capazes de se comunicar satisfatoriamente.

Uma comunicação oral bem realizada é tão fundamental quanto uma


comunicação escrita eficaz para o sucesso de uma empresa hoje.

Sabe-se que a comunicação oral envolve tanto aspectos verbais quanto não-verbais.

É necessário equilibrar essas duas linguagens: a linguagem das palavras e a


linguagem do corpo. Formas de escrita, expressão do rosto, gestos, olhar, entonação,
maneira de vestir-se – tudo envolve a comunicação.

A expressão oral é uma habilidade a ser desenvolvida ou aperfeiçoada, pois


projeta a imagem de quem a domina e propicia a abertura de canais para o
crescimento profissional e social. Há muitas técnicas para isso.

Elementos da comunicação
Todo texto, seja ele oral ou escrito, envolve:
- Emissor
- Canal
- Receptor
- Código
- Referente
- Mensagem

Saiba Mais
Consulte o livro: VANOYE, Francis. Usos da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1981.

Visite o site: www.vocesa.abril.com.br/1edicao/ponto1.html

166
Dicas para falar bem
O orador é aquele que diz o pensa e pensa no que diz. (Brian)

1. Prepare-se para falar (abasteça-se com conteúdo para expor bem mais
tempo que o combinado).

2. Seja você mesmo: use a naturalidade e drible o medo. Saiba o que vai dizer.
Use roteiro, se necessário.

3. Pronuncie bem as palavras: não omita a pronúncia do /r/ e /s/ finais e do /i/
intermediário. Evite as indesejáveis repetições “hum”, “ah”, “né”, “ta”, “certo”, entre outras.

4. Fale com boa intensidade (nem alto para não irritar, nem baixo para que
todos ouçam).

5. Fale com boa velocidade (não fale rápido demais, nem devagar demais).

6. Fale com bom ritmo: alterne altura.

7. Tenha um vocabulário adequado: não use termos pobres ou vulgares, gírias,


palavrões, nem palavras muito rebuscadas e jargões. Analise as características e
expectativas dos ouvintes.

8. Cuide da gramática.

9. Tenha postura adequada: não coloque mãos nos bolsos, nas costas; não cruze
os braços, deixe-os soltos naturalmente ao longo do corpo. Evite gesticulação excessiva.
Não se movimente de um lado para o outro. Não levante muito a cabeça e o tórax.
Deixe o semblante descontraído e seja sorridente. Ao falar, olhe para todas as pessoas.

10.Tenha início, meio e fim.

11.Fale com emoção.

Saiba mais
Consulte as obras:
POLITO, Reinaldo. Como falar corretamente e sem inibições. São Paulo: Saraiva,
2001.
____ Um jeito de falar bem. São Paulo: Saraiva, 2001.
Visite os sites:
- http://noticias.aol.com.br/negocios/colunistas/reinaldo_polito/2005/0018.adp
- http://www.aol.com.br/carreiras/fornecedores/aol/2005/12/01/0001.adp

167
Atividade em aula
Teste suas habilidades de falar em público.

Responda apenas uma das alternativas de cada questão a seguir. De forma


sincera, diga como você é e não gostaria de ser. Assim, poderá avaliar melhor sua
capacidade de comunicação.

1. Como você se sente ao falar em público?


a) natural, sem tensões;
b) tenso, mas com o controle da situação;
c) muito tenso, com dificuldades para lidar eficientemente com a situação.

2. Ao ser convidado para falar em público:


a) você prepara sua fala, seguindo um esquema seu, independentemente do
público que vai ouvi-lo;
b) você prepara sua fala de acordo com seus objetivos e o interesse do público;
c) você não prepara sua fala.

3. Se você for convidado para falar sobre um assunto que não conhece com
profundidade:
a) você recusa;
b) você aceita, desde que tenha tempo suficiente para se preparar;
c) você aceita, mesmo sem ter tempo de se preparar.

4. Ao organizar sua fala, você pensa em um início, meio e fim:


a) às vezes;
b) sempre;
c) nunca.

5. Como você inicia sua fala:


a) entra direto no assunto, de forma objetiva;
b) tenta conquistar os ouvintes;
c) inicia de qualquer maneira.

6. Como você encerra suas apresentações:


a) com uma frase forte, mesmo que não tenha muita ligação com o assunto;
b) recapitula a essência da mensagem e pede ação ou reflexão;
c) termina secamente, com a frase “era isso o que eu tinha para dizer, obrigado”.

7. Como você estabelece a intensidade (volume) da voz diante do público:


a) de acordo com o seu potencial;
b) de acordo com o ambiente;
c) não tem preocupação com a intensidade.

168
8. Que tipo de vocabulário você usa:
a) o que conhece, próprio da sua profissão, atividade ou estudo;
b) simples e objetivo, de acordo com o público;
c) bem informal, até com gírias.

9. Ao falar, você:
a) não gesticula, sente-se amarrado;
b) gesticula com moderação, reforçando o que está dizendo;
c) gesticula demais.

10. Qual é o ritmo de sua fala:


a) nem rápido nem devagar, sempre com a mesma velocidade;
b) alterna, com velocidade normal, rápida e lenta;
c) fala sempre muito rápido ou muito devagar.

11. Como você pronuncia as palavras:


a) corretamente, com certo exagero;
b) corretamente, sem exagero;
c) sumprimindo algumas letras e sílabas de algumas palavras.

12. Como é sua comunicação visual:


a) olha para algumas pessoas;
b) olha para todas as pessoas;
c) não olha para o auditório.

13. Como você constrói suas frases:


a) saem truncadas, mas completas;
b) saem completas e ordenadas;
c) às vezes costuma interrompe-las na metade.

14. Em uma reunião, como você se comporta:


a) nem sempre fala, mas fica sempre atento;
b) fala com objetivo e fica sempre atento;
c) fica calado e com receio de que peçam as sua opinião.

15. Qual é o seu estilo de comunicação:


a) controlado, objetivo, sem grandes emoções;
b) natural, com emoção;
c) afetado.

Faça o teste na aula on-line e verifique sua pontuação.

169
Próxima aula
Pasquale Cipro Neto, o professor de português mais famoso do Brasil, diz que
os novos tempos exigem que se abra a boca.

“O abrir a boca é dominar o idioma, com conteúdo, com clareza, é ser


convincente, saber estruturar as informações. Quem não abre a boca hoje está
perdido. E quem abre a boca melhor, sai-se melhor”, afirma.

Espero que a aula de hoje tenha contribuído para que você se saia melhor na
vida, como profissional, como pessoa.

Até a próxima!

170
Aula 19 - Relatório
No final desta aula, você deverá saber o que é um relatório, distingui-lo de um
relato, conhecer sua estrutura, seus diversos tipos e elaborar um de acordo com as
suas necessidades profissionais.

Deverá saber, também, empregar a crase corretamente.

O que é um relato de atividade?


É simplesmente a notícia que se dá sobre a execução de um trabalho de que nos
encarregaram. Um condutor de obras, por exemplo, fará o relato do avanço dos
trabalhos da construção de um edifício.

Pode tratar-se também de inventariar, por ordem expressa, certa quantidade de


ferramentas ou de material novo; ou de relatar circunstancialmente um debate, a
reunião de uma comissão ou os resultados de uma visita ou entrevista particular e do
que nela se disse, viu e ouviu.

O redator, nesses casos, limita-se a descrever o que observou. Procura ser o


mais exato e completo possível, de forma a satisfazer que lhe confiou a missão e que,
normalmente, não está a par do assunto. A objetividade é indispensável.

Não se interpreta, não se analisa nem se fazem propostas de ação. Um relato é,


usualmente, curto.

O que é um relatório?
Um relatório é uma descrição de fatos passados, analisados com o objetivo de
orientar o interessado para determinada ação. Isso significa que, se o relatório deve
possuir todos os predicados de um relato de atividades, é, no entanto, bem mais rico
e complexo do que ele: tem de juntar-lhe as vantagens de uma lúcida análise e da
consideração do objetivo a atingir.

Saiba Mais - Consulte os livros:


ARMELLEI, Walter Júnior & BASEIO, Dora Fontana & OLIVEIRA, Sueli Cain de.
Comunicação empresarial. Coleção Leitura & Escrita. São Paulo: Esetec, 2005.

BOUSQUIÉ, G. Como redigir um relatório. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1984.

171
MEDEIROS, João Bosco. Português instrumental. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2000.

LEIGH, Andrews. Como fazer propostas e relatórios. São Paulo: Nobel, 2002

1a. Atividade em aula


Assinale, com R, o que é tipicamente característico de um relato; e, com RR, o
que caracteriza o relatório e o distingue do simples relato:

1. Contém, apenas, informações sobre a execução de um trabalho de que nos


encarregaram.
2. O redator deve limitar-se a descrever o que viu, observou ou escutou,
conforme a tarefa.
3. As informações relatadas devem ser detalhadas e claras e, o quanto possível,
completas. O estilo deve ser objetivo.
4. O redator não deve incluir apreciações de caráter pessoal, interpretações dos
fatos relatados e, muito menos, propostas de ação.
5. As informações contidas destinam-se a informar quem solicitou o trabalho.
6. Contém, além das informações sobre fatos passados, também uma análise
que tem como objetivo orientar os superiores hierárquicos para determinada ação.
7. A análise feita sobre os fatos relatados deve ser competente e muito clara,
baseada em argumentos sólidos, de preferência de caráter técnico ou científico.
8. Conforme o caso, pode conter soluções de problemas levantados, desde que
tais soluções tenham cunho técnico ou científico.

Veja as respostas na aula on-line

Seja qual for a área, o profissional prepara mensagens, escreve textos e entre
eles, um dos mais elaborados, é o relatório.

O relatório varia de acordo com o assunto e com as finalidades; classifica-se,


então, em executivo, operacional, de auditoria, contábil, científico, de cobrança, de
vendas, de reuniões, de controle.

O primeiro passo para sua elaboração é a fixação dos objetivos, dos métodos
de trabalho e da definição do destinatário. Esses dados ajudam a escolher opções que
atingem mais eficazmente quem irá ler e avaliar.

172
Em seguida, é conveniente esquematizar, planificar. Essa estrutura varia
conforme o objetivo e o tipo de relatório, porém qualquer que seja o tipo, são
aconselháveis cabeçalhos breves, que facilitem a leitura e despertem interesse,
numeração progressiva, pois ordena as seções e permite visão mais clara do todo e
linguagem clara, concisa, simples, adequada ao destinatário.

Algumas dicas para redigir um relatório


1. Qualquer que seja a estrutura, os parágrafos não devem ser muito longos, o
texto deve ser fácil de ler, a estética deve despertar atenção, deve-se evitar pronome
pessoal de 1ª pessoa e frases subjetivas.

2. Conforme o tipo de mensagem – informativa, persuasiva, de orientação –


que se queira passar, o desenvolvimento poderá ser um texto narrativo ou
dissertativo, em forma de itens ou em forma de texto contínuo.

3. Dividir o relatório em seções e subseções realça as idéias e facilita a leitura.


Os títulos devem ser curtos e escritos de modo semelhante, portanto, se o primeiro
deles for um substantivo, todos os outros também devem ser; se forem usadas letras
maiúsculas no primeiro, em todos os outros também, devem ser.

4. É aconselhável o uso de tabelas para tornar as informações mais visíveis, fáceis


e acessíveis ao leitor, além de economizar espaço.

5. Deve-se trabalhar, também, a aparência, a apresentação do relatório,


cuidando de aspectos como disposição e espaçamento, gráficos e ilustrações, papel,
encadernação e capa.

6. Aconselha-se deixar margens amplas e entrelinhas de 1,5 ou 2 linhas, inserir


gráficos sempre que apresentar doze ou mais números, encadernar o material e
apresentar uma capa com ilustração simples e com título em negrito.

Como sugestão, segue esquema para elaboração de relatório administrativo.


Nem todos os dados apresentados precisam ser utilizados; o objetivo do texto
determina a organização.

Capa
Documentos com mais de 6 páginas devem apresentar uma capa e nela devem
conter: título do relatório, nome do relator ou do setor, cidade e ano.

173
Folha de rosto
• Título do relatório
• Para quem se destina
• Elaborado por
• Assunto
• Local
• Data da elaboração
• Tipo de relatório (parcial, total, inicial, final)
• Natureza (normal, confidencial, reservado, secreto)

Resumo
Se o relatório for longo, aconselha-se fazer um resumo, de poucas linhas,
destacado em um quadro, após a folha de rosto.

Sumário
Quando muito longo e com muitos itens, é recomendável o sumário, que
organiza o texto por temas, facilitando a leitura.

Desenvolvimento
• Objetivo (o que se pretende)
• Métodos (entrevista, questionário, testes etc.)
• Meios (instrumentos)
• Duração (tempo)
• Pessoal envolvido
• Fatos, constatações, problemas
• Causas e efeitos
• Recomendações (medidas a serem tomadas)
• Conclusões (resultados esperados)

Anexos
É composto pelo material acessório. Gráficos podem ser colocados entre os
anexos, porém deve-se estudar a conveniência de seu uso no corpo do texto.

Bibliografia

Local e data

Assinatura

Nome legível

Identificação funcional

174
2a Atividade em aula
Com base no roteiro apresentado, elabore um relatório, voltado à sua área de
trabalho, que contemple as três modalidades textuais: descrição, narração e dissertação.

Dicas de revisão gramatical


Uso da crase
Crase = preposição + artigo definido feminino
À = A + A(S)

Nós iremos a a praia.


Nós iremos à praia.

Eles assistem a as aulas.


Eles assistem às aulas.

Não pode haver crase nos seguintes casos:


1. Os alunos chegaram a pé carregando as mochilas.
antes de nomes masculinos

2. A Sessão começará a partir das 18 horas.


antes de verbos

3. O casal chegou a certa ilha por força do destino.


antes de pronomes indefinidos

4. Aquele livro causou a ti e a mim boas impressões.


antes de pronomes pessoais

Saiba mais - Consulte as gramáticas:


1.BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. São Paulo: Nacional.
2.CUNHA, Celso Ferreira. Gramática da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Fename.
3.LUFT, Celso Pedro. Moderna gramática brasileira. Porto Alegre: Globo.
4.MEDEIROS, João Bosco. Português instrumental. São Paulo: Atlas.

175
3a Atividade em aula
Preencha as lacunas com a, às, as, os, ao, aos, ou às:

1. Fui a o show, depois voltei a a cidade.


Fui ____ show, depois voltei _____ cidade.

2. A sentença foi desfavorável a o réu.


A sentença foi desfavorável _____ réu.

3. O atraso será prejudicial a os objetivos e a as pesquisas.


O atraso será prejudicial _____ objetivos e _____ pesquisas.

4. O jovem escreveu a carta a a namorada.


O jovem escreveu a carta ______ namorada.

5. Isto se destina a homens ou a mulheres.


Isto se destina a homens ou ______ mulheres.

Veja as respostas na aula on-line

4a Atividade em aula
Preencha as lacunas com a, às, as, os, ao, aos, ou às:

1. Assim não irá _____ nenhuma festa, disse a mulher ciumenta.

2. Dei _____ ela uma flor, e ela ofereceu _____ mim um presente que
jamais esquecerei.

3. Tinha um profundo amor _____ certa jovem.

4. Não gosto de comprar ____ prazo, sempre compro ____ dinheiro.

5. Bebida é nociva ____ crianças.

6. Promoveremos sessões _____ partir da meia-noite.

7. Os soldados iam ____ pé, mas o sargento viajava ____ cavalo.

8. Depois da viagem, os professores chegaram _____ casa exaustos.

176
9. Graças _____ Deus, vivemos em liberdade.

10. O terremoto atingiu ____ vila e ____ cidades próximas.

Veja as respostas na aula on-line

Síntese da aula de hoje


Na aula de hoje, você aprendeu a elaborar um relatório, optando por uma
estrutura adequada às necessidades do seu trabalho profissional; a diferenciar um
relatório de um relato e, aprendeu também, empregar a crase corretamente.

Assim, estamos chegando ao final deste curso. Destinaremos a próxima aula


para avaliação geral e auto-avaliação.

Até lá!

Saiba mais
O editor de texto Word, possui uma série de recursos de escrita que podem ajudar,
desde a formatação, até a escolha da apresentação.

177
Aula 20 - Conclusão do curso
O objetivo dessa última aula é resgatar e avaliar os principais conceitos,
habilidades e competências desenvolvidos durante o curso.

Leia o texto a seguir e responda as questões:

Poema tirado de uma notícia de jornal


João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num
barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
(Manuel Bandeira)

Atividade em aula
1. No “Poema tirado de uma notícia de jornal” predomina que função da linguagem?
a. ( ) metalingüística, centrada no código, que define elementos da própria
linguagem.
b. ( ) referencial, centrada no referente, produzindo informações definidas,
claras, denotativas.
c. ( ) poética, centrada na mensagem, sendo o que importa não é apenas o
que se diz, mas o modo como se diz.
d. ( ) emotiva, centrada no emissor, exprimindo emoções.
e. ( ) conativa ou apelativa, centrada no receptor, tem o objetivo de
influenciar, convencer alguém.
f. ( ) fática, centrada no canal da comunicação, tem o objetivo de estabelecer
contato entre emissor e receptor.

2. O conteúdo do texto de Manuel Bandeira apresenta elementos de qual modalidade?


a. ( ) descritiva
b. ( ) dissertativa
c. ( ) narrativa
d. ( ) musical

178
3. Observe que o autor do texto utilizou intencional e predominantemente os
verbos no tempo:
a. ( ) pretérito perfeito do indicativo
b. ( ) presente do indicativo
c. ( ) pretérito imperfeito do indicativo
d. ( ) pretérito mais-que-perfeito do indicativo
e. ( ) pretérito imperfeito do subjuntivo

4. Na expressão “Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu


afogado.”, quanto à colocação do pronome se, pode-se afirmar que:
a. ( ) está incorreta, o correto é “atirou-se”, pois não há palavra que atraia o
pronome se.
b. ( ) está incorreta, porque reproduz a língua informal do grupo social da
personagem João Gostoso.
c. ( ) está correta, porque o autor tem licença poética para reproduzir a língua
informal da personagem.
d. ( ) está correta, porque o advérbio depois atrai o pronome se, portanto ele
fica antes do verbo.
e. ( ) é indiferente, segundo às normas gramaticais.

5. Compare esse texto com uma notícia de jornal qualquer. Lembre-se de que
comparar é identificar semelhanças e diferenças. Consulte os sites e selecione uma notícia.
www.uol.com.br
www.folha.com.br
www.estado.estadao.com.br

6. No texto de Manuel Bandeira predomina objetividade ou subjetividade?


Espera-se que o aluno perceba que o texto de Bandeira é mais subjetivo
comparado a uma notícia de jornal.

7. O texto analisado apresenta todos os elementos que compõem uma notícia


de jornal?
Espera-se que o aluno perceba que esse texto está incompleto para ser uma
notícia de jornal.

8. O que falta ao poema para ser tratado como uma autêntica notícia de jornal?
Acrescente os dados.
Espera que o aluno perceba que faltam mais informações concretas e precisas
como a data e as possíveis razões do aparente suicídio, menção às pessoas que
testemunharam o fato etc.

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9.Transforme o texto de Bandeira, de natureza literária, em outro de natureza
não-literária, jornalística. (Transformar significa mudar a forma) Não se esqueça de
incluir os dados levantados anteriormente.
Espera-se que o aluno crie um texto, explorando a função referencial da linguagem.

10. Escreva, agora, um parágrafo descritivo, explorando as características físicas


e psicológicas de João Gostoso sugeridas no texto.
Não se esqueça de que em uma descrição predominam os adjetivos e os verbos
que expressam qualidade, estado ou mudança de estado.

11. Com base, na descrição elaborada por você, crie um diálogo entre João
Gostoso e uma outra personagem de seu meio social, evidenciando marcas
lingüísticas dos interlocutores a partir de seu contexto sócio-cultural.
Espera-se que o aluno utilize o discurso direto na elaboração do diálogo e nível
de linguagem coloquial, adequado ao perfil da personagem.

12. O nível de linguagem em que o texto é escrito retrata a realidade do


carregador de feira-livre?
Espera-se que o aluno perceba que apesar de o texto retratar a realidade
sociolingüística de um carregador de feira-livre, há poucas marcas lingüísticas dessa
realidade no texto. Predomina o nível culto ou formal da linguagem.

13. Há rupturas da norma culta na construção sintática de Manuel Bandeira? Por


quê? Quais? (Pesquise sobre estilo)
Há algumas rupturas da norma culta, como por exemplo: “João Gostoso”,
“...ele chegou no bar...”, a ausência de pontuação interna.

14. O poema de Bandeira apresenta apenas informações sobre a realidade de


carregadores de feira-livre ou intencionalmente apresenta um olhar crítico sobre
essa realidade?

15. Escreva um parágrafo dissertativo posicionando-se em relação a esse tema,


concordando ou discordando de Bandeira.

Sobre os conceitos, as habilidades e as competências


desenvolvidos neste curso
Você penetrou no mundo misterioso das palavras e percebeu o quanto a
comunicação é complexa: ela possui vários elementos que interagem entre si.

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Viajou pela linguagem e conheceu os diversos fatores que provocam as
variações lingüísticas. Constatou que para cada situação e contexto, há uma forma
adequada para expressar o que se pensa e o que se sente.

Você aprendeu a distinguir um texto dissertativo de um texto narrativo e de um


descritivo, bem como a escrever com criatividade, organização e coerência,
utilizando-se das três modalidades.

Aprendeu, também, a elaborar textos fundamentais para sua vida profissional,


como: o seu currículo, uma carta empresarial, relatório, a técnica de resumir e a
resenha. Viu a importância da comunicação oral numa entrevista, processo decisivo
de uma contratação.

Transitou pela gramática – temida por muitos – de forma suave, prática e


didática, deparando-se com casos e questões do nosso cotidiano.

Síntese do curso
Após percorrer esse caminho traçado na primeira aula, você chegou, enfim, ao
final de mais uma etapa de um processo em que se constrói o conhecimento, pois a
busca é permanente.

A trilha exigiu leitura atenta, pesquisa, consulta a obras, navegação em sites,


elaboração de exercícios, produção de textos, releitura dos textos, enfim,
dedicação, disciplina intelectual e muita prática. Relembrando as palavras de Clarice
Lispector, “escrever aprende-se escrevendo”.

Com certeza, as aulas tornaram seu olhar sobre a realidade, sobre a vida, mais
crítico, e despertaram emoções e paixões que só a palavra, a literatura, a arte
conseguem fazê-lo.

Parabéns!

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