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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS – FACULDADE DE DIREITO

DIREITO CIVIL V – ANO LETIVO (2021-1)


AVALIAÇÃO I – ANÁLISE DE ACÓRDÃO SOBRE MATÉRIA POSSESSÓRIA

GRUPO
Eduardo Marques Barbosa Lima
Lúcio Marcos Emiliano Júnior
Luiggi Teixeira Bavuzo
Mariana Cordeiro Matos
Nicolas Alexandre Sousa Faleiro
Pedro Neves Manzalli Oliveira
Renan Vasconcelos de Mello Nassif Lemos
Samuel Pacheco Menezes
Thiago de Souza Neves Roberto
Bruno Daniel dos Anjos Silva

IDENTIFICAÇÃO DO JULGADO
TJMG, 9ª Câmara Cível, Apelação 1.0183.08.144244-8/001, Relator: Des. Pedro Bernardes de
Oliveira, Data do julgamento: 15/06/2021, Data da publicação: 24/06/2021

RELATÓRIO DOS FATOS


Sérgio Ribeiro da Silva propôs, em abril de 2008, ação de usucapião contra Roberto
Simões Pedrosa, ação esta que tramitou em 1ª instância perante a 4ª Vara Cível da
Comarca de Conselheiro Lafaiete. Sérgio Ribeiro alegou que celebrou contrato
particular de compra e venda, em 29/03/1985, que teve como objeto um lote de 5.000
m² naquela cidade. Informou que, naquele mesmo ano, emprestou o referido imóvel ao
Sr. Pedro, por meio de contrato de comodato verbal, para que este cultivasse plantações.
Relata que, em 1993, realizou outro contrato de comodato ao Sr. Waldemar Rezende,
que também cultivava plantações no imóvel. Sustentou que sua posse foi sempre
contínua e exercida livre de qualquer violação até setembro de 2007, quando o imóvel
foi objeto de esbulho possessório, com a destruição de cercas divisórias e raspagem da
superfície do terreno. Narrou que o comodatário o avisou do esbulho e resolveu o
contrato de trabalho e que, ao se dirigir ao cartório de registro de imóveis, constatou que
o imóvel foi objeto de nova compra e venda em nome do réu, Roberto Simões Pedrosa.
Por fim, o autor alegou ter preenchido os requisitos para a usucapião extraordinária do
imóvel, pelo que requereu que fosse declarada a aquisição da propriedade. Uma
testemunha alegou, em juízo, que seu tio, Sr. Waldemar, realmente cuidava do imóvel
por contrato de comodato e que o dono da chácara era o autor da ação, Sérgio Ribeiro.
A mesma testemunha afirmou, ainda, que o Sr. Magno, antigo proprietário do terreno,
havia vendido o terreno pela segunda vez. O juízo de 1ª instância entendeu que Sérgio
Ribeiro possuía o imóvel em questão, de boa-fé, desde 1985, quando celebrou a compra
da chácara do antigo proprietário. Ademais, inferiu o Juízo que, apesar do réu, Roberto
Simões, ter adquirido o imóvel em 2007, Sérgio Ribeiro havia adquirido o mesmo
terreno muito antes, em 1985, cumprindo, portanto, o lapso temporal de vinte anos para
usucapião extraordinária em 2005, data anterior à venda do bem ao réu, bem como
entendeu que Sérgio Ribeiro comprovou a posse do imóvel durante todos esses anos.
Sendo assim, o Juízo concluiu que Sérgio Ribeiro preencheu todos os requisitos exigidos
para que a posse fosse capaz de usucapir, bem como atingiu o prazo de prescrição
aquisitiva de 20 anos, pelo que acolheu o pedido inicial, para declarar, com efeito ex
tunc, e reconhecer o direito do autor, Sérgio Ribeiro, sobre o bem imóvel, concedendo-
lhe o domínio útil do bem em questão. Inconformado com a sentença, o réu, Roberto
Simões, interpôs apelação, na qual, alegou que o apelado não comprovou a posse do
imóvel, que adquiriu o bem em 2007, que visita periodicamente o imóvel, que inexiste
qualquer benfeitoria realizada pelo apelado e que exerce função social do imóvel, por
meio do pagamento de impostos. Ao fim, pediu a reforma da sentença, para que fossem
julgados improcedentes os pedidos.

DECISÃO E SEU FUNDAMENTO


Em 2ª instância, o TJMG entendeu que o apelado demonstrou o exercício de posse mansa
e pacífica, dotada de animus domini, pelo período superior a vinte anos e, por isso,
concluiu pelo atendimento dos requisitos legais para a usucapião, assim como havia sido
entendido na sentença recorrida. Dessa forma, negou provimento ao recurso de apelação.
Para fundamentar tal decisão, o Juízo baseou-se no fato de que a compra do imóvel pelo
apelante ocorreu quando já haviam sido atendidos os requisitos para a usucapião pelo
apelado, de modo que tal aquisição não seria apta a impedir a prescrição aquisitiva já
consumada. Foi reforçado que a usucapião consiste em forma de aquisição originária de
propriedade, ou seja, sua caracterização não depende do registro imobiliário. Ademais,
frisou-se que a sentença na ação de usucapião é declaratória, sendo a aquisição de
propriedade por tal modalidade detentora de efeitos ex tunc, retroagindo à data de
cumprimento do prazo de prescrição aquisitiva. Dessa forma, a aquisição da propriedade
pelo apelante, que ocorreu após a aquisição da propriedade do imóvel por usucapião pelo
apelado, não é capaz de surtir qualquer efeito em relação ao recorrido, visto que a
transferência ocorreu por quem não mais possuía a condição de proprietário, condição
essa que já havia sido perdida pela prévia consumação da usucapião. Frisou-se, ainda,
que, para que seja caracterizada a usucapião, é imprescindível a demonstração cabal da
posse ad usucapionem, sendo esta qualificada pela ininterrupção, ausência de oposição
e animus domini, requisitos elencados no art. 1238 do Código Civil. Ressaltou-se que,
no caso em questão, o proprietário do imóvel celebrou, em 1981, promessa de compra e
venda do imóvel com Roberto Nunes de Miranda, tendo este cedido sua posição
contratual ao apelado, Sérgio Ribeiro da Silva, em 1985. Além disso, na referida
promessa de compra e venda consta convenção de cláusula constituti, sendo concedida
posse ao promissário comprador com a celebração da avença, expediente esse que possui
amparo legal no parágrafo único do art. 1267 do Código Civil. Assim, ao contrário do
que foi alegado pelo apelante, entendeu-se que o recorrido comprovou que exerce posse
no imóvel desde 1985, e este demonstrou que exerce a função social do imóvel, com sua
exploração mediante comodato. Dessa forma, como a posse ad usucapionem do apelado
iniciou-se em 1985 e perdurou até 2007, restou atendido o prazo previsto em lei (art.
1238, CC/02) para a aquisição da propriedade por usucapião, tal como assentado na
sentença recorrida.
ANÁLISE DO CASO E DA DECISÃO
Primeiramente, cumpre salientar que o caso objeto de análise versa sobre uma ação de
usucapião, sobre um imóvel o qual foi objeto de compra e venda tanto pelo apelado, no
caso o Sr. Sérgio Ribeiro da Silva, quanto pelo apelante, no caso o Sr. Roberto Simões
Pedrosa. Acontece que quem primeiramente promoveu o registro do imóvel foi o
apelante, o que faz com ele use de tal argumento para embasar que o imóvel era seu. Já
o apelado, busca evidenciar ser o imóvel dele, como base na usucapião, posto que o
mesmo, aparentemente, exerce a posse sobre o imóvel desde a década de 80. Nesse
sentido, antes de se analisar propriamente o caso, faz-se necessário contextualizar e
explicar sobre posse e usucapião.

De acordo com Flávio Tartuce, a posse é um direito de natureza especial, dado ser ela o
domínio fático que a pessoa exerce sobre a coisa. Para o Código Civil de 2002, o tema
da posse é tratado entre os artigos 1.196 ao 1.224, sendo que, nos termos do artigo 1.196,
“Considera-se possuidor todo aquele que tem de fato o exercício, pleno ou não, de algum
dos poderes inerentes à propriedade”.

Ainda dentro da conceituação da posse, temos que, para Silvio Salvo Venosa, a posse é
o fato que permite e possibilita o direito de propriedade. Já para Barros Monteiro, a posse
constitui o sinal exterior da propriedade, sendo o direito do possuidor; é, portanto, o jus
possidendi, pelo qual o proprietário, de modo geral, afirma o seu poder sobre aquilo que
lhe pertence.

Destaca-se, também, o Enunciado 236 da III Jornada de Direito Civil, que diz que
“considera-se possuidor, para todos os efeitos legais, também a coletividade desprovida
de personalidade jurídica”. Nota-se, dessa maneira, que, além das pessoas naturais ou
jurídicas, podem também os entes despersonalizados exercerem a posse.

Tema também interessante é sobre a Função Social da posse. Nesse sentido, cita-se o
Enunciado 492 da V Jornada de Direito Civil, que diz que “a posse constitui direito
autônomo em relação a propriedade e deve expressar o aproveitamento dos bens para o
alcance de interesses existenciais, econômicos e sociais merecedores de tutela”.

Sobre a relação da posse com a usucapião, destaca-se que esta é um dos principais efeitos
decorrentes daquela. Resumidamente, a usucapião, como será abordado mais
detalhadamente adiante, é a aquisição da propriedade por uma posse prolongada ao se
preencher certos e determinados requisitos legais. (Tartuce, 2017)

A usucapião, conforme conceitua Flávio Tartuce (2017), constitui uma situação de


aquisição do domínio pela posse prolongada. Nesse sentido, a lei acaba por permitir que
uma determinada situação de fato, alongada por certo período de tempo, acabe por se
transformar em uma situação jurídica, como, por exemplo, a aquisição de uma
propriedade. Assim sendo, tem-se que a usucapião garante a estabilidade da propriedade,
ao fixar um prazo além do qual não se pode mais suscitar dúvidas quanto ao verdadeiro
titular da posse da propriedade.

Na jurisprudência, podemos citar, para contextualização da usucapião, voto do Ministro


Marco Aurélio Bellizze, abaixo transcrito:

"A usucapião é instituto destinado a dar segurança e estabilidade à propriedade, bem


como consolidar as aquisições e facilitar a prova do domínio, de modo que, entre os
requisitos materiais, não há nenhuma menção à conduta ou inércia do proprietário.
Doutrina. Nos termos do art. 1.261 do CC/2002, aquele que exercer a posse de bem
móvel, interrupta e incontestadamente, por 5 (cinco) anos, adquire a propriedade
originária do bem, fazendo sanar todo e qualquer vício anterior" (STJ, REsp
1637370/RJ, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA,
julgado em 10/09/2019, DJe 13/09/2019).

Outro fator relevante acerca da usucapião, é sobre os seus efeitos. Nesse sentido, de
acordo com Silvio de Salvo Venosa, citado pelo Desembargador Pedro Bernardes de
Oliveira, desembargador esse que julgou a apelação interposta pelo Sr. Roberto Simões
Pedrosa, a sentença de usucapião é declaratória, sendo a aquisição de propriedade por
tal modalidade ocorrida com efeito ex tunc. Nesse sentido, retroage a decisão da sentença
à data do cumprimento do prazo de prescrição aquisitiva.

Por fim, antes de se entrar na análise do julgado propriamente dito, se faz necessário
também discorrer sobre os instrumentos legais os quais regem o instrumento da
usucapião. Salienta-se, contudo, que será mencionado aqui tanto o Código Civil de 1916,
como o Código Civil de 2002, posto que, no caso objeto de comento, o apelado Sr. Sérgio
Ribeiro da Silva alega possuir a posse do imóvel desde 1985. Dessa forma, quando da
entrada em vigor do novo Código Civil (2003), já havia se passado mais da metade do
lapso temporal de 20 anos estabelecido no Código Civil de 1916 para a aquisição da
propriedade por usucapião. Sendo assim, transcreve-se abaixo as disposições legais
sobre o tema:

Artigo 550, Código Civil de 1916:

“Aquele que, por vinte anos, sem interrupção, nem oposição, possuir como
seu um imóvel, adquirir-lhe-á o domínio, independentemente de título e boa-
fé que, em tal caso, se presume, podendo requerer ao juiz que assim o
declare por sentença, a qual lhe servirá de título para transcrição no
Registro de Imóveis.”

Artigo 1238, Código Civil de 2002:

“Aquele que, por quinze anos, sem interrupção, nem oposição, possuir
como seu um imóvel, adquire-lhe a propriedade, independentemente de
título e boa-fé; podendo requerer ao juiz que assim o declare por sentença,
a qual servirá de título para o registro no Cartório de Registro de Imóveis.
Parágrafo único. O prazo estabelecido neste artigo reduzir-se-á a dez anos
se o possuidor houver estabelecido no imóvel a sua moradia habitual, ou
nele realizado obras ou serviços de caráter produtivo.”

Nesse sentido, o julgado utiliza os supracitados dispositivos legais para declarar e


reconhecer o direito do autor sobre o imóvel em questão e negar provimento ao recurso
de apelação, pois foi devidamente comprovado nos autos que os prazos legais para o
reconhecimento de usucapião do imóvel em ambos os Códigos Civis, tanto o vigente na
data de propositura da ação, quanto o vigente nos anos que o autor exerceu plenamente
a posse do imóvel, 22 anos, ressalto, foram preenchidos.

Além disso, foram cumpridos os demais requisitos legais para que seja declarada a
usucapião, como o cumprimento da função social do imóvel, por meio de contratos de
comodato e a ininterrupção da posse, já melhor analisados anteriormente.
CONCLUSÕES
Expostos e analisados os fundamentos das decisões, dispositivos legais e doutrinas
referentes ao tema, entendemos que o julgado analisado aplicou de maneira correta a
legislação.

Por proêmio, como já discutido, a propriedade e a posse não são vinculadas e podem ser
exercidas paralelamente por sujeitos diferentes, e em situações de conflito, como o caso
analisado, há de se analisar se quem estava exercendo a posse preencheu os pressupostos
legais da usucapião.

Nesse sentido, entendemos que todos os requisitos legais para o reconhecimento da


usucapião, em convergência com entendimentos doutrinários e julgados anteriores,
foram devidamente preenchidos, o autor, de fato exerceu a posse ininterrupta do imóvel
por 22 anos e continuamente cumpriu sua função social por meio de contratos de
comodato, verbais ou escritos, para cultivação de plantações no terreno.

Sendo assim, os órgãos julgadores em comento foram impecáveis ao aplicar os


dispositivos legais e doutrinários ao caso concreto e, consequentemente, declarar e
reconhecer os direitos do autor sobre o imóvel, resolvendo o mérito da ação de maneira
correta e bem fundamentada.

BIBLIOGRAFIA
Sílvio de Salvo Venosa, Direito Civil V, Direitos Reais, ed. Atlas, 12 edição.

Tartuce, Flávio. Manual de Direito Civil, volume único. São Paulo: Método. (Sétima Edição)

Washington de Barros Monteiro, Carlos Dabus Maluf, Direito Civil 3, Direito das Coisas,
editora Saraiva.

***
AVALIAÇÃO
CRITÉRIOS PESOS (30.0) PONTUAÇÃO
correção formal 6.0
uniformidade no sistema de citação 6.0
clareza expositiva 6.0
material utilizado 6.0
domínio do conteúdo explorado no caso 6.0

TOTAL

OBSERVAÇÕES (PROFESSOR):

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