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COMO OS PAIS PODEM APOIAR OS FILHOS COM SEUS ESTUDOS À DISTÂNCIA NESSA

ÉPOCA?

Maria da Penha Oliveira

Essa questão foi formulada por alguns pais e mães presentes em nossos encontros. Acho
que ainda no início da pandemia, quando a realidade do Coronavírus nos convocava
para uma vida com distanciamento social, sem abraços, trabalho e aulas online,
convivência virtual, muitas lives, e uma dor imensa em ver tanta gente partir sem
podermos nos despedir.

Eu não sei como responder exatamente a essa pergunta. Prefiro divagar por outros
caminhos.

No último Dia das Mães, me pediram para fazer uma palestra, e eu escrevi uma crônica
que cabe um pouco dela por aqui para refletirmos esse tema.

Começo essa crônica lembrando uma lendária frase de Coelho Neto. Dizia ele no final
de século 19. Ser mãe é padecer num paraíso! Traduzindo a ideia de maternidade
enquanto um sacrifício, um padecimento sagrado, em que todas as mulheres deviam se
submeter para alcançarem a plenitude. A maternidade como um ato quase religioso. As
mulheres nasciam para serem mães, e se recusar a cumprir esse papel era considerado
uma grande heresia, uma agressão contra a sua natureza. Ter filhos era o papel central
da mulher na sociedade. A reprodução era simultaneamente um instinto, um dever
religioso e um dever para com a sobrevivência da espécie” (BADINTER, 2010, p. 17). O
mito do amor materno.

Claro que evoluímos, e sabemos que padecer no paraíso não é mais uma realidade. E
que o papel da mulher também não é somente procriar.

E nesses últimos tempos tenho ouvido uma outra frase com uma certa constância.

Ser mãe é padecer na pandemia!

Daí, num salto no tempo, com a minha fértil imaginação, me transportei para um futuro
distante, e li uma matéria que trazia uma matéria especial sobre as mães de alguma
décadas passadas, por volta dos anos 2020, no tempo do “Coronavírus”.
A matéria dizia assim: “Naquele tempo, um pouco antes da pandemia, ser mãe era estar
ligada 24 horas por dia em uma infinidade de tarefas. Trabalhar fora e dentro de casa,
cuidar dos filhos, da casa, do marido, ser uma boa profissional, boa mãe, amiga, ser
mulher, e no final da noite ainda ter tempo para namorar o seu companheiro ou
companheira.

Ler todos os sites e blogs sobre educação dos filhos, comida saudável, corpo perfeito,
escolher um bom lugar para as férias etc. Fazer pós-graduação, mestrado, doutorado,
um crescente processo de formação para não perder sua vaga na empresa. No decorrer
da história, ela foi conquistando mais espaço e mais trabalho. Essa mulher não
renunciou a maternidade, apenas agregou outros papéis. Ajeitou sua vida para dar conta
de tudo e para isso terceirizava várias de suas tarefas.

Mas, eis que de repente um vírus, potente, de efeitos catastróficos e características


desconhecidas atingiu o planeta. Nesse momento a única estratégia possível foi o
isolamento social e o lar, doce lar, o único refúgio seguro.

Quase que por decreto, elas deixaram o seu local de trabalho, levaram apenas seu
computador e seu celular. Em casa, ela guardou seu salto fino e sua elegante bolsa cheia
de “post it” com recadinhos, prendeu seu cabelo em um rabo de cavalo, e disse a si
mesma, agora vou realizar um sonho, trabalho remoto: agora vou passar alguns dias
com os meus filhos, acompanhá-los em suas tarefas de casa, acompanhar seu
crescimento físico e psicológico. E vou ter o meu marido ao meu lado, nada de happy
hour ou hora extra com o chefe, ou a chata quarta-feira de futebol.

(Abrindo um parêntese, nessa crônica não falo sobre os homens, mas eu acho que eles
também guardaram seus ternos e pularam para dentro de suas bermudas e pijamas
folgados, deixaram a barba e cabelo crescerem, e pensavam que passariam os dias entre
o trabalho remoto e uma ou outra diversão com seus filhos e com os canais de esporte.)

Todos foram se adaptando ao isolamento social e se divertiam com as lives onde


cantores e bandas famosas se apresentavam. Diversas outras lives aconteciam para
ensinar sobre comportamento, psicologia, cuidar de filhos, ser mulheres etc. E essa
mulher não perdia nenhuma, pois tinha fome e sede de perfeição. Errar era quase um
crime.
Era março de 2020. Ela sonhava que a pandemia cessaria em maio, mas chegou junho,
agosto e a brincadeira ficou muito chata. E o sonho se transformou em pesadelo. Chegou
a segunda onda em 2021.

Ela não sabia da missa, metade. De repente, tudo pareceu estranho, tudo se
transformou quando essa mulher, mãe, precisou dispensar seus funcionários: não mais
cozinheira, arrumadeira, faxineira, babá, jardineiro, não mais a vó , a sogra, a tia, a
psicóloga do filho, a professora particular, não mais a cabelereira, a manicure e de
repente ela se viu naquela casa apenas com o marido, seus filhos, seus gatos ou seus
cachorros, suas plantinhas e mais, uma máquina de lavar, um ferro de passar e uma pia
cheia de louça. E, claro, o seu computador cheio de tarefas do seu trabalho, o celular
sinalizando mensagens sem parar, porque, seu chefe, sim um CHEFE que precisava
mostrar-se indispensável no seu trabalho, e demandava 24 horas por dia.

De repente, sua casa se abriu para o chefe, para os grupos, para a igreja, a escola, para
a psicóloga, ou seja, sua casa virou um campo aberto, privacidade zero. A pandemia os
isolou em casa, fechou a porta de saída e abriu as janelas do ZOOM, do Google Meet e
de outros aplicativos. O núcleo familiar ficou junto 24 horas por dia. Nunca conviveram
tanto. Pais, mães, filhos, bichos, plantinhas, pia de louça, lavadoras de roupa, política,
ciência etc.

E de tão juntos, ampliaram o olhar, a escuta, o toque e todos foram enxergando uma
outra realidade. Viram brotar o stress, as crises familiares, crises nos casamentos, no
trabalho, depressão, ansiedade, irritação, medo do futuro etc.

Exageros à parte, o que podemos fazer com tudo isso, ou como podemos lidar com todo
esse conteúdo que a pandemia nos trouxe?

Pensávamos que passaria logo! Mas estamos há quase dois anos vivendo essa realidade.
O mundo tecnológico e virtual ainda domina nossa convivência, embora hoje, estamos
muito melhores que há um ano, graças Deus, graças à ciência, graças ao SUS ....

Ainda precisamos saber como lidar com nossos filhos com seus estudos à distância?

Sim! Essa é a nossa realidade e penso que veio para ficar. Muitos estudos e pesquisas
são realizados nesse sentido. Não exatamente com as crianças “presas em casa”, mas
com a possibilidade do remoto como uma ferramenta que agrega e ensina. As escolas
estão se abrindo ao ensino híbrido, e creio que daí, novos e melhores tempos chegarão
para a educação.

A pandemia nos trouxe outras formas de lidar com o mundo.

Talvez ainda vamos demorar a nos acostumar com essa metodologia, somos filhos e
netos da tabuada, da decoreba, da resposta sem reflexão. Do tempo em que as provas
mediam o conhecimento e o valor de uma criança. Somos do tempo em que se esperava
o lançamento do livro de história ou de ciências para entendermos o mundo. Do tempo
da departamentalização dos conteúdos. Tempo em que estudar medicina não precisava
entender de política ou economia, ou quem fazia engenharia, não precisava entender
de povos e cultura.

Hoje vivemos a história, a ciência, a política, a economia, o cuidado com o meio


ambiente, a religião tudo ao mesmo tempo, tudo fazendo parte de uma única coisa que
pode nos tornar muito melhores e mais integrados à luz.

Há quem acredite que tudo voltará ao normal de antes. Outros acreditam que estamos
no fim dos tempos. Outros ainda, acham que vamos encontrar um novo normal. Não sei
responder exatamente. Só sei que olhando através da história, eu confio que estamos a
progredir sempre. A vida é uma evolução progressiva constante.

“É passando por inúmeras transformações, no tempo e no espaço, durante milhares de


séculos, por meio do trabalho, da vontade, do esforço, de todas as alternativas da alegria
e da dor que a alma se eleva, acumulando uma soma sempre crescente de saber e
virtude; sentindo-se, assim, mais estreitamente ligada aos seus semelhantes, de forma
a se comunicar mais intimamente com o seu meio social e planetário.” DENIS, Léon. O
problema do ser, do destino e da dor. Cap. Evolução e finalidade da alma.

Diante isso, sou uma pessoa otimista. Prefiro pensar que nossos filhos estão tendo
oportunidade de aprender outras matérias importantes para sua evolução, porque nos
preocupar tanto com a perda de conteúdo escolar. Prefiro pensar nesse tempo de
isolamento como um tempo de imersão no núcleo familiar que há muito estamos
delegando para as escolas.
Penso pessoalmente, que enquanto família, ESTÁVAMOS vivendo uma época de
completa submissão aos especialistas, educadores, coach, psicólogos, às redes sociais,
aos blogueiros etc. ESTÁVAMOS quase perdendo a nossa essência. Perdendo a conexão
com nós mesmos, com o que aprendemos de modo natural com nossa história. Pois criar
filhos se transformou em um grande desafio. Nada lhes podia faltar. Eles tinham que ser
os melhores. De tanto estimular a aprendizagem, penso que uma criança de sete anos,
na atualidade, provavelmente tem mais informações do que tinha os pensadores da
Grécia antiga. E o resultado são crianças mentalmente agitadas, desconcentradas,
impulsivas, por vezes desobedientes, até porque damos todas as condições para
aprenderem, mas não queremos que nos confronte ou nos contradiga.

E é por isso que não trouxe uma resposta pronta para o tema proposto. Prefiro acreditar
e confiar no saber de cada um de vocês para uma saída desse caos. Acreditar numa
verdadeira conexão de vocês com seus filhos para buscarem as respostas. Havia
pensado em fazer essa aula mais compartilhada, até conversei com o Eduardo, mas o
curto tempo não permite o trabalho em grupo e um compartilhamento. Mas em breve
voltamos à nossa sala!

Posso dizer apenas que devemos ter prioridades. Sair do altamente sofisticado para algo
mais simples. Devemos nos abrir para o novo. Provocar nossa pulsão de vida. O querer
viver é que faz as pessoas se preservarem e se desenvolverem com maior segurança em
busca de qualidade de vida e felicidade.

É fato que vivemos uma imensa crise pandêmica. Crise familiar, crise de identidade, crise
no trabalho, nas escolas, nas instituições etc. Mas crise é momento de passagem, de
decisão, de separação e de oportunidade,

Gostaria que a suposta matéria que li no futuro sobre mães na pandemia, fosse assim
complementada: “E os pais e mães estressados, sedentos por informações, que
buscavam a perfeição, aprenderam outros valores na educação de seus filhos.
Tornaram-se mais pacientes, perceberam o real valor das relações e do afeto.
Aprenderam a se conectar com sua essência, a fazer conexões com sua luz própria, com
sua competência. Aprenderam a lidar com a vida de modo muito mais simples,
aprenderam a dividir tarefas. Aprenderam a estabelecer prioridades e flexibilizar as
demandas: O que é mais importante, a casa arrumada ou ouvir uma boa música com
meus filhos? Aproveitaram o tempo que estavam juntos para interagir, se conhecerem,
fazerem novos planos de futuro. Aprenderam que o afeto é o que constitui o ser
humano. Mais vale uma boa conversa com afeto do que mil sermões baseados em
teorias. Aprenderam que o cérebro é uma parte do corpo que precisa ser irrigado com
muito afeto para que se desenvolva. Esses pais e mães aproveitaram para fortalecer os
vínculos com seus filhos, a se reconhecerem como seres em evolução, renunciando à
“perfeição” e sendo apenas “pais suficientemente bons”. Fortaleceram os vínculos com
seu companheiro ou companheira, seus pais, seus amigos. Aprenderam que a escola
tem um lugar importante na vida dos filhos, mas que sem amor, não produzirá bons
frutos.

Aprenderam a cuidar de si mesmos. A dividir as tarefas com companheiro ou


companheira, com os filhos. Aprenderam a respeitar o outro com o seu saber e sua
história desta e de outras vidas. Seres em constante evolução. Aprenderam a escutar, a
contemplar, a agradecer ... Aprenderam que o verdadeiro homem de bem é o que
pratica a lei de justiça, amor e caridade na sua maior pureza.

Aprenderam e se evangelizaram!

Palestra por ocasião da aula pais na Comunhão espírita de Brasília, em 28/08/2021

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