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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

FACULDADE DE EDUCAÇÃO
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
Área de concentração: ensino e práticas culturais

SONORIDADES DO SUL:
ausências, emergências, traduções e encantaria na educação

Autora: Glória Pereira da Cunha

Dissertação apresentada para obtenção do grau de Mestre


em Educação pela Faculdade de Educação da UNICAMP,
sob a orientação do Profa. Dra. Corinta Maria Grisolia
Geraldi

Campinas
2010
ii
iii
v

dedicatória
À minha mãe, Enilda Pereira da Cunha, por ser a pessoa
especial que é como mulher e cidadã, pelo valor que sempre deu à
música e à educação e, sobretudo, por como me vejo em seus olhos.
Agradecimentos

Que voz vem no som das ondas


Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que n os falla,
Mas que, se esc utarmos, cala,
Por ter hav ido escut ar.
(Fernando Pessoa, Mensagem)

São m uitas as vozes que ecoam nestes escritos :


algumas surgem pote ntes, out ras apenas murmuram;
agradeço aos gritos e sussurros.

Agradeço a todas as minhas professoras, em especial às Marias: Maria Salete


Bento Cicarone , Maria Amália Martins, Cé lia Maria de Castro Almeida, Corinta
Maria Grisólia Geraldi. vii
Agradeço a todos os me us professores, e m especial a João Wande rley Ge raldi,
Milt on José de Alme ida, Jorge Larrosa.

Agradeço a tod@s do GEP EC , em especial ao Guilhe rme P rado e Ana Aragão,


timoneiros e à Rosaura Soligo pe la le itura desse texto e part icipação na banca ;
aos pipoqueiros - CrisHop, Mafê , Rúbia , Wilson e Marcemino - pelos constantes
diá log os e risadas e à Liana, cúmplice na música ; agradeço aos gepecquianos
presentes nos agradáveis e ncontros de orientação em Bare queçaba, casa dos
Geraldi, lugar para ouvir as vozes que che gam com o som das ondas .

Agradeço a Ruth Joffily por anos de conve rsas encantadas sobre educação e
pela rev isão deste texto.

Agradeço a o meu pai, José Maria Mart ins da Cunha, à mamãe e à Cândida,
minha irmã, vozes sempre presentes na caminhada da vida.

Agradeço a os companhe iros que repart iram mús icas comigo, em especial a José
Eduardo Gramani, Marco Antonio Ferrari, Ignacio de Campos e Niels on Sant os.

Agradeço à minha filha, (um) presente nos meus faze res...


Resumo
Glória Pereira da Cunha

Esse trabalho é uma narrativa do que é mais sonoro na educação: a aula. Narrar a aula é
narrar experiências do aprender e ensinar. As narrações - minhas e/ou de colegas do
Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Continuada (GEPEC), Faculdade de Educação,
Unicamp – falam ora como o aluno de fomos, ora como o professor que somos. Com as
histórias, reflito sobre as tensões da atuação do sujeito professor em espaços diversos,
aprendo como é o ensinar em outros lugares e contextos. Ensinar é fazer alguém ver, com
os seus olhos maravilhados, algo que o maravilha a ponto de ser tomado pela necessidade
de procurar saber mais sobre o que o tocou. Só quem está encantado pode encantar. No
meio de tanto reveses, como encontrar o encantamento com a educação? Com as palavras-
personagem de Boaventura de Sousa Santos vou em busca das Sonoridades do Sul: as aulas
e, com elas, as pedagogias ausentes, as pedagogias emergentes e o trabalho de tradução do
professor-intérprete. (http://sonoridadesdosul.blogspot.com)
ix
Abstract
Glória Pereira da Cunha
This work is a narrative of what is most audible in education: the classroom. Narrating the
class is narrating experiences of learning and teaching. The narratives - mine and/ or from
colleagues of the Group of Study and Research in Continuing Education (GEPEC), Faculty
of Education, Unicamp - speaking as the student that we went, and as teachers that we are.
Through the stories, I reflect about the tensions of teacher performance in diverse localities,
I learn how to teach in other places and contexts. Teaching is to do someone to see, with
their wondering eyes, something wonderful about to be taken by the need to find out more
about what touched. Only who is enchanted is able to enchant. In the midst of such
setbacks, how to find the enchantment with the education? Through the words-character
by Boaventura de Sousa Santos I go in search of Sonorities of the South: lessons and, with
them, absent pedagogies, emergent pedagogies and the translation’s work of the teacher-
performer. (http://sonoridadesdosul.blogspot.com)
Sumário
1º Movimento - Cheguei!
1. Guarnicê. 1
2. LáVai 9
Ressonâncias – opção estética e metodológica 12
3. Licença pro meu batalhão de ouro 14
Memorial de identidade 22
4. Saudação à senhora dona-da-casa 31

Intermezzo I — Sobre Adélia e vídeos

2º. Movimento - Seriado de Formação


1. Preludiando 37

2. O Primário 39
Confissões de professores: a primeira indisciplina a gente jamais esquece 41
3. A música e o Barcelona, ginásio e colegio 40
Desabafo de mamãe: Villa-Lobos, aquele chato! 43 x
Déjame que me cuente 46
4. Dilemas Profissionais – duas Pipocas 53
A menina que queria tocar tambor 53
Relato de uma aula 54
5. A Academia, de volta à escola. 57
Samba da aluna doida 59
Quando o futuro chegar me avise: a tecnologia 60
O mail é a mensagem 61
Na época do Cartografia II 66
Diário de Campus (Intermezzo II) 69

3º Movimento: e-Boa, meu orientador do fundo


1. Apresentação 83
2. Formatando e-Boa 85
Dos olhares nos silêncios 89
Das histórias nos silêncios 93
Dos silêncios na tradução 95
Da encantaria 98
3. Revisão sitiográfica: e-Boa em Redópolis 101
Boaventura e a pesquisa em Educação no Brasil 102
Da obsessão à polêmica e poesia 107
4. Diário de Campo e bate-papo virtual 113
Intermezzo III – Viagens d’olhar às viagens do mar

4º Movimento: New Teachers na rede - mestres-griôs na pajelança


quilombola fandangueira
1. Pajelança 121
2. Quilombola 129
3. Fandangueira 138
4. Pajelanças pelo campus: de volta ao futuro. 147

Intermezzo IV – Polifonia do Silêncio

5º. Movimento: Pipocas Pedagógicas – a produção de 2008 do Grupo de


Terça do GEPEC
1. GEPEC 153
{

2. Grupo de Terça 164


Ciranda de Textos 169
3. Explosão de escritos: a produção do Grupo de Terça do GEPEC de 2008 183
Pipocas Pedagógicas: crônicas da hora! 188
xi
Pipoca com e-Boa 192
Princesa de Sedna e a Liga da Justiça 203
Perplexidades do professor 211

Intermezzo V – Transcriação

6º. Movimento : Gran Finalle


1. Urrou 219

2. Inventário 224

3. Adeus, Morena 235

4. Referências Bibliográficas 238


Referências Musicais 248
5. Anexos
Pipocas Pedagógicas: listagem dos textos
Listagem das atas do Grupo de Terça
Guardados da glória
Minhas Escol(h)as
Anexo de poemas
Deve haver um deus

Que não nos governe.


(Canine wisdom)

xiii

Peço a Deus
Pelo bem
De quem me ama
E pelo bem
De quem pode me odiar

Pelo bem
De quem me ajuda a sorrir
e pelo bem
De quem me ajuda a chorar

Pelo bem
De quem gosta de cantar
Minhas toadas
De quem
Dá valor ao meu lugar
(Humberto Barbosa Mendes do Boi de Maracanã) ê Boi!
1º Movimento: Cheguei!

1. Guarnicê
Guarnece batalhão, guarnece
A vida cresce
E meu povo não vai mais perder. Batalhão de ouro, chegou a hora,
(Chico Maranhão) Vamo guarnicê.
(Humberto Maracanã)
Guarnicê são toadas pra reunir, preparar e arrumar;
momento do primeiro encontro, preparação para a organização.
O amo do boi chama o seu batalhão reúne brincantes e devotos, prepara e arruma todos para
dar início à brincadeira.

Reunir
É do som da matraca 1
É pra reunir, vamos guarnicê, Da onça e do pandeiro,
( Boi de Pindaré) Reúne , reúne e guarnece,
Este é o meu Batalhão Brasileiro.
(Pedro Duque)

Agradeço aos que vieram aqui se encontrar comigo para se perder e dançarmos com as palavras
deste texto.
Chamo os olhares da professora Corinta para embarcar junto aos indícios das contra-palavras do
professor Wanderley Geraldi e das poucas palavras de Helena Kolodi e Leminski, na Jangada de
pedra que se aproxima;
do lado espanhol da peninsuilha está o filósofo-professor Jorge Larrosa, e o lado
português, num cenário de saramagos, traz Pessoas e alguém mais.
Nativo do pedaço de rocha que para cerca de nós vem, um ser chega , surge, aparece, de alguma
forma se faz presente, e me lembra que [...] o ser humano não é apenas um ser e a sua circunstância.

É também, e sobretudo, o que falta na sua circunstância para que ele possa ser verdadeiramente

humano.1

1 SANTOS, Boaventura de Sousa (2008). Texto para um programa de concerto do compositor Antonio Pinho Vargas.
Como tem acontecido com frequência, sou assediada por um encantado, e-Boa, um encantado,

alter-ego internetical do cidadão Boaventura de Sousa Santos, português polêmico, poeta,

advogado, sociólogo e socialista.

E-Boa está contido nas suas palavras, em entrevistas de 2001 a 2008 e nos escritos - sérios ou
vadios - postados no território digital da Internet à disposição de todos que aqui/lá convivem;
capítulos de livros e até o clássico Um discurso sobre as ciências, também navegam nestas águas
e fazem parte de suas falas.
Sua primeira aparição foi enquanto lia Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das

emergências;2

conhecia outros textos, algumas idéias, mas, a partir do momento em que comecei a ler
este texto, ele começou a criar vida independente, passou a me acompanhar por toda a parte,
conversando sobre o que eu via e sobre o que eu não via mesmo vendo;
mostrou que eu colecionava e narrava ausências e emergências, pedagogias silenciosas
ou silenciadas, desconsideradas, fora de moda ou do tempo, pedagogias perdidas, opacas e 2
algumas outras que mal tinham vida.

Encantado?
No Maranhão, o termo encantado se refere a seres espirituais recebidos em transe mediúnico
nos terreiros de mina e nos salões de curadores e pajés;
não podem ser observados diretamente, mas podem ser vistos, ouvidos em sonho ou por
pessoas dotadas de poderes especiais, e podem ser observados por todos, quando incorporados;
afinal, a compreensão do mundo excede em muito a compreensão ocidental do mundo.(T, 3)
Este ser virtual caminhou comigo a tentar mostrar o que eu não via, a tal pergunta, aquela
necessária para o bom andamento de uma pesquisa, o mote desta dissertação, o centro dos
questionamentos de minha orientadora: sobre o que você tem escrito? onde quer chegar? ou
sair?;
e suas possíveis respostas...

2 SANTOS, Boaventura de Sousa (2002a). Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências. Este texto será sempre referenciado como “T” (ele é “o” texto
desta dissertação!), seguido do número da página.
Preparar
Devo dar logo as primeiras pistas, coisas pequenas, indícios para que você se sinta seguro e
embarque nesta composição, já que, caro leitor, para levá-lo pela mão, eu não tenho tempo,
cuidado! o tempo nesta dissertação nem sempre se porta como o relógio quer, e só sabem
disto pessoas que vigiam seus cronômetros quando correm pelo espaço,
cuidado! o espaço desta dissertação é múltiplo, real, virtual, encantado, mas também o
da academia, senhora dona da casa.
A compreensão do mundo e a forma como ela cria e legitima o poder social tem muito

a ver com concepções do tempo e da temporalidade. [T, 3]


[...] não podendo o sempre durar sempre, como explicitamente nos tem ensinado a
idade moderna, (Saramago, 8)3

O Boi do Maranhão
Boa tarde, minha gente,
Foi agora que eu cheguei
Fui chegando e fui tocando 3
Se é do seu gosto eu não sei.

Como aqui devo me guarnecer com sua cumplicidade, explico-lhe as senhas desta parte.
Chego cantando o refrão desta canção, um cacuriá de dona Teté, brincadeira que vem lá do
Maranhão, e também de lá vem o Boi, de quem tomo emprestado o formato para a forma do
escrito desta dissertação.
Bumba-meu-boi ou Boi do Maranhão é o auto e as toadas do touro encantado com estrela na
testa, que morre e renasce todo ano pra conosco vadiar;
começa com um Guarnicê, quando o amo do boi chama o grupo e arruma os baiantes e
toda a tropeada para a dramatização do folguedo, soltam-se os fogos e começa a brincadeira;
é o mesmo que fazemos quando precisamos caminhar com muitos para qualquer lugar:
reunir, preparar, avisar e arrumar para iniciar a jornada;
um juntar de forças que se faz cantando e tocando em conjunto, ampliando energia para
a função.
Depois que a trupiada está guarnecida, é hora de falar aos que esperam o Boi e anunciar o local
da apresentação;

3 SARAMAGO, José (1988). Jangada de pedra. Todos os textos deste livro serão referenciados como Saramago seguido da página do livro.
são as toadas do Lá Vai , que são seguidas pelas toadas de Licença, apresentação da
trupiada e pedido de permissão à dona da casa para que o grupo se apresente, tudo com muito
respeito e consideração, coisas próprias de um povo que sabe que em terra alheia deve-se pisar o
chão devagar e com muita consideração.
Gosto do LáVai assim, juntinho, lembrando o ato de lavar, deixar escorrer a água, e com quase
uma só palavra – lávai - conseguimos lavar e lançar a alma em nova empreitada, brincadeiras
deste nosso divertido português!
Para finalizar esta chegança, canta-se a Saudação, toadas de louvação ao boi e ao dono da casa,
na esperança de que todo o Boi seja bem recebido.
Aí, dá-se, propriamente, o início do auto, a encenação da peça, a ―comédia‖, cujo
enredo gira em torno do desejo (antojo, tradição imemorial) de Catirina, o roubo e a
―morte‖ do boi, prisão e castigo do Chico. Catirina é a mulher do pai Francisco que,
grávida, deseja comer a língua do boi; mas não de qualquer boi e sim do mais belo da
fazenda, o xodó do fazendeiro. Para satisfazer a mulher, o negro Chico rouba e
esconde o boi, tira-lhe a língua e oferece-a à gestante. Descoberto o delito, é preso seu
autor, que primeiro nega o crime, mas acaba por confessá-lo à custa de muitas
chicotadas e apertos.4
4
A encantaria vem de toda parte para socorrer o casal:
pajés e caboclos acodem junto com São João Batista, padrinho do Boi, e ainda todos os
santos, orixás e jurema e quem mais for necessário – doutores, farmacêuticos e veterinários - até
que o boi dá sinal de vida e a transgressão de pai Francisco é perdoada com a confraternização
geral em torno do boi novamente em pé.
Depois do auto, iniciam-se as toadas do final com o Urrou, o grito do boi ressuscitado;
é a celebração da renovação, pelo ressurgimento e restabelecimento do boi sacrificado.
E acaba com a Despedida, Linda morena ou Adeus morena, toadas para encerrar a brincadeira,
em que os cantadores, sempre homens, falam da dura separação e dizem que voltam no
próximo ano e se despedem das moças do público com as mais incríveis promessas:

Adeus Morena vou me retirar


Batalhão de Ouro Eu vou, mas eu volto pra te ver
Pra outro terreiro eu vou levar [...] Quando voltar serei dois
E um será ó pra você
(Humberto do Boi de Maracanã)

4 LIMA, Carlos de (2004). Apresentando o bumba-meu-boi do Maranhão.


Peter O'Sagae afirma que
É o Boi uma das representações mais fiéis de nossa brasilidade, um pedaço de nossa
cultura, de nossa própria História, parcela da razão do que atualmente somos. [...]
Folguedo popular que esconde, no conjunto de suas danças, os elementos da
arqueocivilização, reminiscências de um tempo primevo, como a comunicação direta
entre homens e animais, iguais entre si, falantes-brincantes [...]. A tônica do boi é a
crítica social, exercitada através da sátira, presentificando um sentido reivindicatório,
subvertendo a ordem do Estabelecimento. [...] O conflito social que nos dá a História
também perpassa a crônica do Boi. No entanto, dores e mágoas se dissolvem
musicalmente no ritmo de integração das raças. Obviamente, aqui a Alegoria-objeto
Boi cede lugar para a Alegoria Símbolo-Boi de todo o país, como catalisador da
interdependência do modus vivendi de cada grupo étnico em novo território-nação. 5

Quem sentir necessidade de mais explicação viaje pela Internet e procure os cantos e histórias do
Boi do Maranhão;
mas o melhor mesmo é viajar para o Maranhão e assistir, na noite de 23 para 24 de
junho, o batizado do boizinho, lá no arraial do Boi de Maracanã, com direito a ladainhas em
latim e Benditos em português, e verouvir tudo isto com os dois pés naquele chão;
5
depois fique mais um pouco e assista o grande desfile de todos os bois em frente da
Capela de São Pedro que começa na noite do dia 28;
se não puder ir em junho, pode ainda ver a outra festa do Boi, que acontece mais para o
final do ano e que termina com a morte do bichinho.
O Boi encantado, que ressuscita em junho, morre na outra festa, mas reaparece no próximo ano
com pele nova, novos bordados e novas toadas que falam dos acontecimentos do ano – Copa do
mundo, eleições –, de novas aflições – doenças, falta de dinheiro -, tornando cada festa um ato
contemporâneo, sempre a narração da vida daquelas pessoas no ano em que é apresentada.

―A sucessão das estações, a semeadura, a concepção, a morte, e o crescimento são os


componentes dessa vida produtora. A noção implícita do tempo contida nessas
antiqüíssimas imagens é a noção do tempo cíclico da vida natural e biológica‖
(Bakhtin, 1993, p. 22). O sentimento que estabelecia um sinal de igualdade entre as
sucessivas estações climáticas, com as consequências naturais do ciclo biológico, é
ampliado e aprofundado, abarcando os acontecimentos da sociabilidade humana.
Institui-se, assim, o sentimento da temporalidade histórica. No interior de todo esse
processo, o rito festivo sempre joga um papel importante na marcação do tempo,
seja do tempo cósmico-natural, biológico, seja da temporalidade histórica.

5 SAGAE, Peter O' (1998) Do Boi ao Brasil-bumbá: alegria, alegoria.


Vida, morte, ressurreição – ciclo recorrente da existência que marca momentos fortes da
festa. Vida, morte, ressurreição – ciclo recorrente da festa que marca momentos fortes da existência. 6

Boi de Barão
Boi é bicho encantado, universal, mundial, global, um passado presente em todos os cantos
deste Brasil, e, portanto, também neste local!
Saibam senhoras e senhores que foi esse boi local, o Boi Falô, e não esta universidade, que
iniciou a tradição de sabedoria e falação destas paragens;
é daqui mesmo, deste distrito de Campinas onde se aloca a Unicamp, que vem um boi
único, um boi famoso que, de tão grande feito, tornou o local conhecido como Terra do Boi Falô,
mesmo que oficialmente tenha o nome informal de quem foi seu dono: Barão Geraldo;
aqui nosso valente boi local se fez ouvir para garantir o direito ao descanso, ao ócio
religioso, tanto seu, quanto de Toninho, o escravo, seu guia, direito sonegado pelo barão;
informo que não foi um discurso para a academia, como fez depois o macaco de Kafka7,
já que a universidade ainda não existia, afinal eram os idos de 1888.

6
Como se teria formado a arreigada superstição, ou convicção firme, que é, em
muitos casos, a expressão alternativa paralela, ninguém hoje o recorda,[...]
(Saramago, 7)

Era sexta-feira da Paixão;


lá vai o escravo Toninho colocar a canga no boi, obedecendo a ordem do Barão:
trabalhar, trabalhar e trabalhar;
mas o boi, cujos ancestrais das terras do norte sempre comemoravam a fertilidade e
renovação da natureza nesta mesma data em pajelanças d’além mar, considerou a ganância do
nobre barão demasiada e resolveu ensinar;
falou e disse: hoje não é dia de trabalhar!
O escravo, a testemunha de tudo, correu para a sede da fazenda gritando: o boi falô, o BOI falô,
O BOI falô, O BOI FALÔÔÔÔÔ!,
não foi acreditado pelo capataz, mas seu grito ecoou por toda a fazenda com uma
convicção tão firme que escapou do castigo e fez com que o Barão Geraldo de Rezende

6 MIRANDA, Dilmar. Carnavalização e multidentidade cultural: antropofagia e tropicalismo, p.127. O livro citado de Mikhail Bakhtin é A cultura popular na Idade Média e no
Renascimento. Os grifos são do autor.
7 Referência à primorosa montagem de PRIMUS, da Boa Companhia, baseada no conto de Franz Kafka Comunicado a uma academia, a história de um macaco que para fugir da
jaula aprendeu a ser homem e conta isto a uma academia.
acreditasse no ocorrido e ordenasse que ninguém mais trabalharia naquele dia em sua fazenda,
que são essas mesmas terras onde está nossa universidade...
até hoje, nestas plagas, festeja-se a data com uma grande festa na sexta-feira da Paixão,
quando voluntários fazem uma macarronada com molho de tomate e sardinha, servida
gratuitamente para todos.
Do famoso boi local não temos foto, mas
comprovamos os fatos mostrando a do escravo
Toninho, este aí ao lado, que está enterrado no
Cemitério das Saudades, em área nobre, num
túmulo comprada para ele pelo senhor Barão, onde
faz muito sucesso como milagreiro.
Sua história foi contada de boca em boca nestas
terras e agora, nos tempos modernos, em filme
pela Internet.8

Boi, um bicho encantado e engajado e que agora


habita Redópolis. 7
e-Boa e Boi? tudo a ver...

Arrumar
As fontes deste escrito, também tenho que explicar.
O formato distinto das letras, eu uso para arrumar, tornar mais visível os diálogos.
Alguns autores vão assumindo uma personalidade tão própria quando conversam comigo -
sotaques, timbres - que acabaram me obrigando a tentar traduzir estas sonoridades distintas
para formatos distintos de suas palavras; e-Boa tem este leitmotif gráfico para a forma de suas

palavras, assim como Saramago9, tem sua própria fonte e formato assim o Álvaro de Campos, o Pessoa10 de

tabacaria, e alguns de seus outros, enquanto a doce Helena Kolodi11 tem seus haikus assim formatados;

8 Portal do filme: http://www.oboifalo.com.br.


9 José Saramago, escritor.

10 Refiro-me a Fernando Pessoa e seus Heterônimos.

11 Helena Kolodi (1912-2004). Poetisa paranaense de origem ucraniana; foi professora do Ensino Médio e da Escola de Professores.
com letras irregulares, tentei também reproduzir a forma aproximada da minha letra no monte de
fragmentos de escritos que chamo de diários, coisas encontradas em baús.

do baú

do baú é um suspiro! escritinhos que saem de algum achado do inventário;


são textos meus, alguns encontrados e outros reconstruídos;
quando encontrado, foi inventariado e legalizado.

Signos, sonhos, sombras, imagens


Fotos do 1º. ano escolar e diários
quem vai saber.
quantas lembranças trazem.
(p.leminski)

Outros textos desse baú foram


reaproveitados obedecem as normas 8
ecológicas de bom aproveitamento de
palavras já escritas
e trazem o selo de
RECICLADO, como
este aí ao lado ou
um similar.

"Passam os tempos, confundem-se


as memórias, em quase nada acabam por distinguir-se a verdade e as
verdades, antes tão claras e delimitadas e, então, querendo apurar o que
ambiciosamente denominamos rigor dos factos, vamos consultar os
testemunhos da época, documentos vários, jornais, filmes, gravações de
vídeos, crônicas, diários íntimos, pergaminhos, sobretudo os
palimpsestos[...]." (Saramago, 34)
fim
2. LáVai
Lá vai meu boi Vem ver, morena Brilho da Noite
Levantando poeira No descer da ladeira Brilha como brilham as estrelas
Em noite de lua cheia
(Graça Reis do Boi de Cupuaçu)

Ouça este escrito como uma composição musical, não uma sonata tão rígida, tão restritiva com
suas regras, mas como uma fantasia, um gênero de peça instrumental de caráter muito livre que,
sem esta rigidez formal, é moldada pela própria imaginação ou fantasia do compositor.
Para esta Fantasia contrapontística escolhi os sons de cada melodia:
as notas, organizadas em determinadas sequências, formam as minhas melodias,
algumas já conhecidas e outras novas;
minhas porque estão comigo de longe, mesmo vindas de gargantas diversas;
foram as canções herdadas, ou partes delas, as cantadas várias vezes, ouvidas quando
menina em casa, rua ou escola e que, por usucapião, tornaram-se bakhtinianamente minhas;
melodias das várias vozes que entrelaço, aumento e diminuo seus tempos, modifico seus
timbres e volumes;
9
acrescento a esta polifonia outros sons em que sou mais frágil no uso;
não sei como soam junto aos outros, algumas vezes ainda parecem de fora, emprestados:
sons da academia...

Busco consonâncias e ressonâncias.


[...] ao vermos, ouvirmos, sentirmos algo, um fluxo de imagens aparece; falas antigas
ecoam; sons e músicas tocam nos ouvidos da mente, que lembra de cenas e filmes e
fotos; detalhes são recordados e uma rememoração de movimentos vem tomar
presença; a imaginação estimulada devaneia e fantasia o que não existiu; os desejos
aparecem para dizer um olá; indicando direções, medos e afetos mostram sua cara,
nem sempre de modo direto; futuros sonhados delineiam-se e um continuum parece
fazer a ligação entre todo este conjunto, que é o que chamamos aqui de ressonâncias.
12

RESSONÂNCIA
Bate breve o gongo.
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.
(Helena Kolodi)

12 REÑONES, Albor Vives (2004). O imaginário grupal: mitos, violência e saber no Teatro de Criação, p. 47.
Do encontro, o som!
Do breve encontro entre dois tão diferentes - baqueta e gongo - nasce um som;
O tempo breve deste encontro é tão pequeno quanto o tempo do toque da experiência que nos
toca;
o restante são ressonâncias.
O encontro coloca o corpo em movimento, ele vibra;
o som, liberto do material, viaja ao encontro de outros diferentes e desses encontros,
novas ressonâncias surgem.
Sonoridades do Sul
O que há de sonoro na educação?
A aula
um e outro,
encontro
presença
professor & aluno produzindo e provocando ressonâncias
É disto que tratam fundamentalmente os meus escritos,
sobre aula, encontro de dois ou mais diferentes, 10
ressonâncias do entre,
nas encruzilhadas
nos interstícios,
um breve gongo que provoca ressonâncias ao longo da nossa vida.
Aulas
epistemologias ausentes, desperdiçadas, não documentadas, ausências produzidas
epistemologias criadas no dia a dia
emergências aprimoradas ano a ano
epistemologias sonoras do Sul
Sonoridades do Sul
Cantos de professores
Loas que apresentam mundos, escritos do professor-intérprete que contam da polifonia
epistemológica e sensível de uma sala de aula;
Toadas que desfazem ausências e ampliam o presente.
Canções que se comprometem com a construção de um inédito viável, futuros possíveis
de um futuro desinchado.
Narrações do baú, escritos do tempo de aluna-menina e aluna-mulher , nas quais a memória dos
vividos de vários tempos se (con)funde e se dá a ler para receber o escrito de outros professores-
alunos-professores que buscam respostas diferentes das que a herança cultural nos deu;
gente que acredita que ―ao contrário do lema ‗aprender para viver‘, trata-se de assumir
efectivamente que ‗vivemos aprendendo‘.‖13
É na relação que construímos nossa identidade de professor como ―sujeito capaz de considerar o
seu vivido, de olhar para o aluno como um sujeito que também já tem um vivido‖ 14, e que se amplia
polifonicamente com as vozes escritas do vivido de outros, outras narrações de professores;
narrações contadas, algumas escritas, apesar de ausentes no que se considera herança
cultural , e outras por escrever, emergências também não consideradas na vida cultural
―válida‖.

Ambas, minhas e alheias, sonoridades escapadas, laçadas para um texto;


na transformação de ―palavras escritas, indícios de palavras ditas‖;
procuro os vividos, experiências inacessíveis de outros, mesmo quando o outro fui eu, e,
na impossibilidade de encontrá-las, construo novos pedaços de incompletudes que me
movimentam.

Transportemos o conceito de ―excedente de visão‖ para o mundo da vida.


Da vida não há um autor e se estou vivendo, tenho um por-vir e portanto sou 11
inacabado. O todo acabado de minha vida eu não o domino. Por isso o mundo da
vida é um mundo ético, embora a vida possa ser vivida esteticamente.
Consideremonos dentro deste mundo: estamos expostos e quem nos vê, nos vê com
o ―fundo‖ da paisagem em que estamos. A visão do outro nos vê como um todo
com um fundo que não dominamos. Ele tem, relativamente a nós, um excedente de
visão. Ele tem, portanto, uma experiência de mim que eu próprio não tenho, mas que
posso, por meu turno, ter a respeito dele. Este ―acontecimento‖ nos mostra a nossa
incompletude e constitui o outro como o único lugar possível de uma completude
impossível. [...]
Se a experiência de mim vivida pelo outro me é inacessível, esta inacessibilidade, a
mostrar sempre a incompletude fundante do homem, mobiliza o desejo de
completude. Aproximo-me do outro, também incompletude por definição, com
esperança de encontrar a fonte restauradora da totalidade perdida. É na tensão do
encontro/desencontro do eu e do tu que ambos se constituem. E nesta atividade,
constrói-se a linguagem enquanto mediação sígnica necessária. Por isso, a linguagem
é trabalho e produto do trabalho. Enquanto tal, carrega cada expressão a história de
sua construção e de seus usos.15

13 GERALDI, João Wanderley (2004a). A aula como acontecimento, p.19.


14 GERALDI, João Wanderley (2004a). A aula como acontecimento, p.19.
15 GERALDI, João Wanderley (2003c). Palavras escritas, indícios de palavras ditas, p.16.
Ressonâncias
Opção estética do escrito

Deslocamentos provocados pela colocação do texto no espaço da folha de papel;


conversa entre conteúdo e forma de elementos visuais - letras, fontes, colocação espacial
- que provoque estranhamentos no leitor, apesar da restrição da materialidade que a academia
determina: um volume que possa ficar todo igualzinho numa estante um ao lado do outro: a
metáfora visual da verdade única.

Influências concretas de John Cage, compositor e poeta americano, e dos concretistas paulistas
Haroldo e Augusto de Campos aos espaços de José Paulo Paes que sempre habitaram minhas
estantes e meus olhouvidos e de quem herdei uma certa obsessão pela forma e por toda forma das
letras, agora fontes, onde
Todos os elementos do poema têm função ativa, o branco da página, as entrelinhas e
espacejamentos e os sinais de pontuação são utilizados de forma a alcançar uma
maior eficácia da gesticulação semiótica do poeta. Augusto de Campos, em Poem(a)s, 12
fala dos objetivos que cummings pretende alcançar através de seus procedimentos de
criação:
―O que ele pretende é rejuvenescer a linguagem e explorar, com maior
flexibilidade do que permitem as estruturas entorpecidas dos sistemas
convencionais, o universo complexo da percepção e da sensibilidade. É por
isso que ele introjeta num idioma moderno ocidental, como o inglês,
procedimentos derivados do ideograma chinês (a figuralidade de origem
pictográfica e o pensamento por analogia) e de línguas clássicas como o grego
ou o latim, tratando o seu idioma como se fosse uma língua flexionada.‖
(CAMPOS, 1999, p. 14)
Assim como em Mallarmé, a grafia se faz função na obra de cummings. O que ele e
os outros poetas que formam o paideuma pretendiam era a superação da versificação
linear.16

Sem pretender escrever uma dissertação-poema, aproprio-me de algumas características de


nossos poetas concretos para melhor me expressar e superar uma ―prosificação‖ linear.

16 CARVALHO, Audrei Ap. Franco de (2007). Poesia concreta e mídia digital: o caso Augusto de Campos.
Opção metodológica da pesquisa

Munir-me das mais diversas ressonâncias, provocá-las, ouvir caminhos, trilhas e atalhos;
começar a processá-las: juntar os montinhos, perceber algumas ligações, dar a ver
algumas outras que se iniciam, produzir novas conexões, novos nós neste bordado.
Ressonância é produzida pelo que nos toca;
resultado de encontros,
o ressoar dos silêncios amplia a realidade, alarga o presente;
no ressoar do quase inaudível, tento ouvir suas direções, encontros emergem.
Trago neste escrito algumas ressonâncias que formam um referencial teórico sonoro,
contraponto a duas vozes, ambas múltiplas, com os escritos;
aulas formais, ginásio, colégio e universidade, palestras, seminários, congressos;
encontros presenciais para aprendizagem e que só se tornam conhecidos se narrados por
um dos lados diferentes - baqueta ou gongo - que sentiu as ressonâncias deste encontro.

Tornar presentes estas ausências dando materialidade a elas, é um dos objetivos deste escrito. 13
[...] a atenção ao acontecimento é a atenção ao humano e a sua complexidade. Tomar
a aulas como acontecimento é eleger o fluxo do movimento como inspiração,
rejeitando a permanência do mesmo e a fixidez mórbida do passado. 17

17 GERALDI, João Wanderley (2004a). A aula como acontecimento, p.21.


3. Licença pro meu batalhão de ouro!

Pergunte à dona da casa Dona da casa seu terreiro alumiô. O sol entra pela porta,
Se meu boi pode brincá Viva o terreiro em que meu boi chegô! E o luar pela janela
Eu vim foi tirá licença
(Coxinho do Boi de Pindaré) Eu não vou daqui sem ela.
Batalhão de ouro
Sou Glória, 56 anos, filha de Enilda, 85 anos, a quinta de sete filhos; piano sempre me lembra
mamãe e suas irmãs e os saraus caseiros no Rio de Janeiro, casa de vovó; mamãe parou de
estudar na quinta série quando, naqueles idos, a escola passava a ser paga, mas voltou a estudar
e formou-se em pedagogia com mais de 65 anos; nunca exerceu a profissão, mas sim as tarefas
do ofício, porque, entre outras, foi quem alfabetizou suas duas filhas, eu e Cândida;
minha irmã é formada em História e hoje é diretora de uma escola particular; eu
redimensionei o sonho clássico de mamãe - ver suas filhas pianistas – e me tornei percussionista;
profissão e ganha-pão principal por 22 anos, tocando na Sinfônica de Campinas, sempre junto
de tarefas de professora e mãe da Daniella; 14
minha filha, estudou na Escola Cooperativa Curumim e na Escola Municipal de Ensino
Fundamental José Pedro de Oliveira; depois se formou em magistério na primeira turma do
CEFAM – Centro de formação e aperfeiçoamento do magistério - de Campinas, enquanto
cantava em vários corais; me abandonou, foi para Curitiba e, depois de 2 anos de faculdade de
Pedagogia, foi estudar Educação Artística, modalidade música; é cantora, rabequista,
percussionista e professora de Canto Popular da Universidade Federal da Paraíba.

Sempre fui professora, sempre pensei sobre educação, mesmo quando aluna, talvez porque
minhas escolas de adolescência fossem excelentes. Tanto o ginásio e colegial, quanto a de música
eram ambientes muito instigadores, criativos, com professores generosos e interessados.
Um percurso incomum;
este ineditismo da minha formação, só reconheci muitos anos depois quando analisei,
para algumas disciplinas do curso de especialização Ciência, artes e prática pedagógica18, a minha
formação;
entre tapas e beijos dos vários relatos das escolas de meus colegas de curso, eu parecia a
Pollyana19, toda de bem com a vida escolar, professores maravilhosos em prédios modernos com
pedagogias renovadoras e tudo isto dentro do ensino público!

18 Curso de Especialização: Ciência, arte e prática pedagógica, Faculdade de Educação/UNICAMP, 1996 – 1997.
E era verdade!
Não precisei construir o sonho no qual qualidade, respeito e criatividade pudessem ser
deslocados para a educação, e ainda mais para uma escola pública, convencer-me de que uma
outra educação é possível, eu vivi nesses territórios!
Fui cobrada, e com toda razão, pela minha orientadora por ter colocado, em uma versão anterior
desta dissertação, que ser professora e músico foi quase uma opção natural a partir da admiração
que sentia e sinto por vários daqueles meus professores dos anos de formação;
este natural desmerece o trabalho desses profissionais, já que havia sim um esforço deles
para entrarmos em novos mundos, um convite para ver outros horizontes, uma sedução para a
ousadia;
não por acaso eram em grande parte das esquerdas dos anos 60/70 e estavam
encantados, lutando por um mundo melhor nas passeatas e nas salas de aula;
os gestos de lutas transbordavam em seus fazeres e provocaram em nós, alunos, um
interesse pelos seus interesses;
o clima de diálogo também nos dava a certeza de que se interessavam em nos ouvir.
E foi assim que, também numa escola, forjou-se, em tempos antigos, uma outra face que trago, a
de militante política. 15
Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
No final dos anos sessenta, quando falar sobre flores era quase um crime, como escreveu Brecht,
―muso‖ da juventude dos anos 60/70, no poema Aos que virão depois de nós20, numa época de
tempos sombrios e violência, uma professora e seus amigos universitários não silenciaram sobre
tanta injustiça e lutaram, montando um grupo de teatro na escola para, através da arte, mostrar
a vida que se escondia pelos cantos da ditadura, para podermos contar, como o poeta, que:
Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes,
pois implica silenciar
sobre tantos horrores21

19 Pollyana é a personagem de um livro do mesmo nome de Eleanor H. Porter; uma menina totalmente alienada ou extremamente otimista, na opinião de outros, que entrava
num "jogo do contente".
20 BRECHT, Bertold. Aos que virão depois de nós.
21 BRECHT, Bertold. Tempos sombrios.
do baú
diário de 1967, 13 anos, revisitado
minha entrada no grupo de teatro da escola.
"A Dady, Dui e Lou * foram convidados para participar do GRUMASA (Grupo Maria Salete).
No 1º. dia de ensaio, para o teste, eu fui junto. Entramos, sentamos, e, aí, o Daniel apareceu e
deu um papel com a poesia "Os Homens da Terra" (Vinícius de Morais), mandou-os para a frente
(no palco), eu perguntei se poderia entrar também, e, recebendo resposta positiva, também fui
pra frente. Teríamos de recitar a tal poesia. Tremia, mas fui firme ..."

A segunda apresentação.
“Eu estava calma e... bem, para dizer a verdade eu estava apavoradíssima porque tinha medo de
errar "rica tralha", mas conseguia disfarçar [...] desnecessário dizer que eu me apavorei e errei,
disse duas vezes "rica tralha"...

Senhores donos da Terra


Juntais vossa rica tralha (rica tralha)
Vosso cristal, vossa prata
Luzindo em vossa toalha.
Juntais vossos ricos trapos 16
Senhores Donos de terra
Que os nossos pobres farrapos
Nossa juta e nossa palha
Vêm vindo pelo caminho
Para manchar vosso linho
Com o barro da nossa guerra:
E a nossa guerra não falha!22

* apelidos “secretos” de minha irmã e seus amigos do clássico quando apareciam no meu diário

fim
É esta outra face que determina timbres em minha vida: a cidadã, que não aceita e nem se
adapta à realidade dada, desconfia dela e se insere na luta por sua transformação.
Esta terceira face me levou para fazeres diferentes, ainda que alguns ligando música e educação;
exerci cargos de direção no meu partido e fiz parte do governo popular e democrático de
Campinas, como assessora da Secretaria de Municipal de Educação, em 2001, diretora de cultura
(2002) e diretora da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas (2003 e 2004).

22 MORAES, Vinicius. Homens da Terra.


Aquecendo os tambores
Eu ainda estou firme,
E meu povo faz tremer o chão.
Com pandeiro, matraca,
Maracá de prata na mão.
(Humberto, Boi de Maracanã)
Voltei a aquecer os tambores!
esquecidos, entre uma tendinite, que me afastava da percussão, aliada às inúmeras
tarefas de um cargo comissionado militante, meus tambores voltaram a ser aquecidos durante o
tempo do mestrado, mas em outros ritmos;
nos sonhos de percussionista aposentada, eu planejara viver um tempo no Nordeste,
entrar em algum grupo de Boi, Maracatu ou outra brincadeira popular de comunidade, e, para
isto, tinha cultivado alguns lugares, feito planos e contatos;
comecei a me questionar: por que esperar acabar o mestrado para fazer isto? por que não
fazer isto em Campinas?
O cenário musical da cidade estava mudado, vários grupos emergentes haviam surgido, grupos
de percussão, trabalhando com cultura popular, mas... aqui? por que não? 17
Me dei conta de que receava ser iniciante em terra onde fui mestra!
DESALENTO
Existências ancoradas,
sem coragem de içar velas
para os rumos decisivos.
(Helena Kolodi)
Para vencer a resistência que me levava à estagnação, comecei a conhecer e a tocar em vários
grupos e estabeleci pactos de respeito mútuo com minha tendinite: muito alongamento, melhor
alimentação e mais porções de felicidade.
Nos carnavais de 2007 a 2009, toquei todos os dias por mais de 5 horas com 4 grupos diferentes e
me reencantei com o tocar nos grupos de Barão Geraldo; em 2010 fui para o Recife ensaiar e
desfilar com duas nações de maracatu de baque virado: Encanto do Pina e Porto Rico.

E a educação?
Seguia, mas num andamento lento, um adaggio ma non troppo...
A percussão e a música, aliadas à educação, haviam me levado por territórios educacionais bem
distintos e interessantes, que, somados às boas escolas que conheci, haviam me tornado uma
testemunha, seja como aluna, professora ou mãe, de pedagogias preciosas e ausentes e contava
com isto quando iniciei a tarefa.
do baú
Projeto enviado em agosto de 2007 para a seleção deste mestrado

Cúmplices! música e educação,


parceiras, amigas, frequentemente amantes e até casadas
aproximação, distanciamento, contatos
movimentos de contração e expansão
pas de deux, improvisos ou coreografias criadas para grandes palcos com a
assinatura de grandes nomes de sua época
Coreografias: gesto preparado, pensado, analisado, discutido, consensuado e
perpetuado; escritos oficiais, currículos e programas; memória escrita e revisada.
(nos espaços do entre, nos meandros da macroestrutura encontro improvisos)
Improviso: gesto-espaço da ousadia, da curiosa e rápida reflexão, instantâneos para dar
asas à pedra do cotidiano; [...] gestos para o além do determinado, pequenos ou grandes,
singularidades de professores. [...]
Na procura de gestos encontro palavras
escritos, prosa e poesia; 18
memórias contidas em palavras;
memórias transformadas em palavras que são;
O fato de me perceber no mundo, com o mundo e com os outros me
põe numa posição em face do mundo que não é de quem nada tem a
ver com ele. [...] minha presença no mundo não é de quem se adapta,
mas a de quem nele se insere . 23
me insiro com o que carrego: educação e música, cúmplices em mim!

fim

Comecei a pesquisa fazendo inúmeros inventários. Encontrei mais histórias escritas por mim e
outros colegas professores e pensei em reviver os debates que aconteciam no final do século XX
no grupo de pesquisa de que fazia parte, contar o que tinha abandonado antes de ir para a
administração pública, como se fosse possível pegar o comboio da vida numa estação do
passado e seguir em outra direção.
O prazer das memórias era grande e me trazia de volta os retalhos de descobertas que guardara
para um futuro e, por um tempo na lida desta costura, realmente pensei que cosia apenas algo
para se empoeirar, embelezando a parede com suas cores de outrora;

23 FREIRE, Paulo (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p.31.
refletir sobre a memória e suas artimanhas a partir de minhas memórias ―dodicentes‖ me
parecia-me bastante tentador e próprio de uma senhora aposentada, que, em frente a algum
espelho, estava se perguntando, como Helena Kolodi em RETRATO ANTIGO: Quem é essa
que me olha
de tão longe,
com olhos que foram meus?
[...]As águas pensam.
Quando pensam muito
chamam-se espelhos.24

Professora e percussionista se (re)vestindo de pesquisadora, tenho fios e retalhos, quero


aprender a tecer, mas o que fazer com isto?
Quando busco escrever as memórias, ao longo dessa escrita, é como fazer uma viagem
a um mar interior, e como o território interno de cada um não é soberano, sei que foi
através do olhar do outro que pude circunscrever esse território interno. A escrita
tenta fixar os traços das lembranças cada vez mais fugidias.25
Quem me dá essas e outras pistas é a Biga - Abigail Malavasi - colega do GEPEC26 dos idos de
1999 e que reencontro nos escritos de sua tese.
Ela me lembra que ―Para Walter Benjamin existem dois tipos de narrador, o que vem de fora e
19
conta suas viagens e o que ficou e conhece a sua terra, seus conterrâneos e é habitado pelo
passado.‖27
A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os
narradores. [...] "Quem viaja tem muito que contar", diz o povo, e com isso imagina o
narrador como alguém que vem de longe. Mas também escutamos com prazer o
homem [que] sem sair do seu país [...] conhece suas histórias e tradições. [...] podemos
dizer que um é exemplificado pelo camponês sedentário, e outro pelo marinheiro
comerciante.28
Camponesa e marinheira, sedentária e navegante...
A camponesa que há em mim quer um pano bonito para colocar em alguma parede da casa
como uma janela onde o tempo é o passado, o confortável passado de glória...
Enquanto lia minhas histórias e também as de outros companheiros como coisas antigas, apenas
tentava remendá-las, dar novas vestimentas, mas arrastava o mestrado, não acertava seu baque!
Ao mesmo tempo que, aparentemente, pouco realizava da pesquisa, escrevia muito para o

24 SANTOS, Boaventura de Sousa. Ao espelho no hostal del Bosque Izquierdo.


25 MALAVASI, Abigail (2006). A dimensão estética na constituição do trabalho coletivo no interstício da escola constituída.

26 GEPEC - Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada -, da Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP.
27 MALAVASI, Abigail (2006). A dimensão estética na constituição do trabalho coletivo no interstício da escola constituída.
28 BENJAMIN, Walter (1987). O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov.
Grupo-de-Terça do GEPEC (GT), comentando histórias e ―causos‖ de professores, envolvendo-
me com um universo de cotidianos escolares narrados por professores.
O narrador vence distâncias no espaço e volta para contar suas aventuras num
cantinho do mundo onde suas peripécias têm significação. O narrador expressa o que
narra da própria experiência e a transforma em experiência dos que o escutam. Isso
tem a ver com as histórias que se entrecruzam e constroem a memória social e
também com o trabalho do professor. O professor é o que vem de fora e narra suas
viagens.29

Navegar é preci(o)so! e quase inevitável, meio lusitana que sou, por parte de pai. Mesmo sem
saber que rumo tomar, aumentava a tripulação desse barco cujo combustível é o diálogo;
meu batalhão de ouro original cresceu;
além das mulheres da minha família e os ocupantes da Jangada de pedra, navego
também com outros professores generosos que tive, presenciais ou virtuais em forma de livros
ou na tela de um computador: minhas bússolas.
Se oriente, rapaz Considere, rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul A possibilidade de ir pro Japão
Se oriente, rapaz Num cargueiro do Lloyd lavando o porão 20
Pela constatação de que a aranha Pela curiosidade de ver
Vive do que tece Onde o sol se esconde
Vê se não se esquece Vê se compreende
Pela simples razão de que tudo merece Pela simples razão de que tudo depende
Consideração De determinação
É Gilberto Gil, poeta de Oriente30, quem me faz considerar as mudanças de rumo, e me oriento
buscando no Sul a constelação de professores que me orientam pelos mares da educação.
Navego com as estrelas do GEPEC.
Determine, rapaz
Onde vai ser seu curso de pós-graduação
Se oriente, rapaz
Pela rotação da Terra em torno do Sol
Sorridente, rapaz
Pela continuidade do sonho de Adão

Mas discordo do poeta, o sonho é de Eva.

29 MALAVASI, Abigail (2006). A dimensão estética na constituição do trabalho coletivo no interstício da escola constituída.
30 Oriente (1971), Gilberto Gil
Foi ela que foi em busca do conhecimento, mesmo às custas de perder seu paraíso...
Assim, além dos sorrisos, dos olhares e das cumplicidades que toda viagem produz, trago, como
carta de navegação, os professores ligados ao GEPEC;
narrações orais, anotações de suas falas em aulas ou reuniões, ou nas memórias dos
meus diários;
e seus escritos, dissertações, teses, artigos, livros, cartas, e-mails.
Por que ter a produção do GEPEC como referencial teórico? Quem me responde é Adriana
Varani, na sua tese de doutorado:
Pesquisas produzidas neste grupo têm trilhado caminhos no sentido de tomar o
grupo como instância importante na formação continuada do professor[...]. É
importante fazer uma retomada destas elaborações, produzidas pelo/no GEPEC,
porque suas produções apresentam razões para acreditarmos que o grupo é instância
fundamental de formação. Esta retomada também se constitui como necessária, pois
as pesquisas realizadas proporcionam pistas e referenciais para interlocução com o
trabalho de pesquisa que realizo.31

Havia voltado para o canto do mundo onde as histórias que encontrava poderiam ter
significado; 21
sabia agora que criava, dos fios antes encontrados, um pano em formato de vela para a
qualquer momento sacá-la da parede e colocar na base de uma jangada, de pedra ou madeira,
real ou virtual, e voltar a navegar por outros mares, parando em novos portos de passagens.
Cruzeiro do Sul...
Epistemologias do Sul!
As propostas epistemológicas, que tenho vindo a fazer [...] não apontam, apenas, para novos

tipos de conhecimento; apontam, também, para novos modos de produção de conhecimento.

Defino-os, em geral, como epistemologias do Sul, entendendo por Sul a metáfora do

sofrimento humano, sistematicamente causado pelo capitalismo. Trata-se, pois, de um Sul não

imperial[...]32

Perceberam?
é ele aparecendo: e-Boa!

31 VARANI, Adriana (2005). Da constituição do trabalho docente coletivo: re-existência docente na descontinuidade das políticas educacionais.
32 SANTOS, Boaventura de Sousa (2007b). Em torno de um novo paradigma sócio-epistemológico.
Foi esse encantado que me mostrou as pedagogias das emergências, o Ainda-Não, o que aponta
como possibilidade e que é preciso preservar, cuidar, aguar, alimentar, assoprar para que o fogo
não se apague;
emergências que eu percebia na gestualidade da música e da educação, que presenciava
nos grupos de percussão, nos encontros da Casa de Cultura Tainã, nos novos velhos territórios da
educação;
emergências que eu percebia nos grupos de música que se formavam pela universidade à
revelia da instituição compostos por alunos de áreas distintas;
emergências também contidas nos textos de outros professores, nas Pipocas
pedagógicas33, nos quais o institucional se alarga para abarcar, conter, uma outra parte do
mundo.
As emergências são cristais da reinvenção de uma outra educação para um outro mundo
possível, são cristais de encantamentos, respostas à pergunta que ainda não conhecia e que
procurava dentro de mim e nos meus escritos, a pergunta não feita, comprada na feira de
desencantos pós-gestão, momentos de procura de sentidos.
A pesquisa nas gestualidades possíveis entre educação e música era real, mas o objetivo oculto
era o de me provocar, me deslocar da desolação que roubava Pessoa e escrevia 22

do baú
Memorial de identidade: Pessoa, uróboro, professores, monstros afins e a pergunta errada. 34

Não sou nada.


Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto.
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Este texto nasce de um incômodo.


Incômodo causado por coisas que gosto e defendo como certas.

33 Pipocas pedagógicas são crônicas de professores desenvolvidas pelo GEPEC; será apresentada com pompas e glorias no quinto movimento.
34 CUNHA, Glória. Memorial de identidade: Pessoa, uróboro, professores, monstros afins, e a pergunta errada. Texto incompleto. As próximas notas até a de número 40 fazem
parte deste texto.
Certa, essencialmente certa, mas nesta posologia?
Posologia: indicação e dosagem.
Dosagem: que tamanho de recorte ainda mantém o DNA de uma realidade?
Indicação: quem precisa das minhas minudências?

Incômodo como algo desconfortável, que dificulta, que perturba e, procurando adjetivar esta sensação
um pouco mais, diria que a vejo e-xa-ta-men-te como o Houaiss35: algo que não é oportuno, sobrevem em
mau momento, em ocasião imprópria; inconveniente, importuno, inapropriado como uma visita de sogra
em dia de namoro, me entende?
Não? nem eu e por isto incomoda, este é o meu problema...ou solução?
vinheta musical
Fui dar umas voltas lá fora
Nas voltas que o mundo dá
por 4 anos, 2000 a 2004, deixei de ser músico e professora e assumi cargos comissionados na gestão
democrática e popular do PT em Campinas; sem outras explicações, conto apenas que deixei uma
carreira de professora universitária (situação profissional irregular, mas nada que não seria solucionado
com paciência, muita e muita!) e um mestrado bem articulado, mas incompleto, na Faculdade de
Educação da Unicamp.
Cada um é cada um 23
No desejo e no sonhar
(Itaércio Rocha)
meu partido não se reelegeu e acabaram assim os motivos e os (des)caminhos que me levaram àquelas
tarefas.
De volta ao futuro, pensava eu, universidade e música!
Participei do GEPEC – grupo de estudos e pesquisa em educação continuada – de 1997 até 2000; minha
volta depois de mais de 4 anos enfurnada nas burocracias do serviço público, e mais outro lambendo
feridas, não foi fácil e confortável como vestir um chinelo velho, estava mais para sapatos de salto alto e
bico fino: difícil de equilibrar, difícil de caber, difícil de andar: INCÔMODO!
Por um bom tempo procurei o “meu” GEPEC, com as “minhas discussões” e com “minhas companheiras”
e “minha orientadora”; a diferença em tão pouco tempo me assustava, o mundo girava rápido e não tinha
parado para me esperar!.
Em meados de 2005, lendo o texto de qualificação de Maria Natalina36 me dei conta de que a autoria da
dissertação, o eu de quem escreve ganhara outras dimensões; os indícios já estavam delineados em
2000, existia no GEPEC, mas agora estava se constituindo como parte mais importante da dissertação
ou tese e não era apenas o cenário onde acontece a montagem das reflexões.
A autoria não estava mais nas reflexões a partir do “eu pensei/ me ancorei/ me sustentei/ no diálogo
com...”, indispensáveis numa dissertação. Migrara disto para ser a chave do paradigma montado e
remontado para cada pesquisa; mais do que quem urde a trama, o autor passara de tecelão a ser o

35 Quero manter aqui a intimidade que desfruto com o “meu” Dicionário eletrônico Houaiss 1.0, em especial aquele que se aloja na mesma placa mãe que eu neste momento.
36 FARIAS, Maria Natalina de Oliveira (2006). Travessia da prática docente: paisagens que constituíram a formação e o trabalho numa escola de ensino fundamental.
próprio fio da teia que enlaça fatos e conceitos, mais ainda! agora ele é o cara que planta o algodão,
colhe e fia, entrelaça; depois senta e narra, nos conta cada detalhe disto.
Para me explicar como estes caminhos são percorridos, leio Lima 2005, codinome da ex-colega do
GEPEC Maria Emilia, agora de volta à federal de Minas; ela é a autora de Sentidos do trabalho, um livro
de cheiros e sabores, fruto da tese de doutorado feito no GEPEC. Este livro é uma das minhas senhas
para entender o movimento, a busca, dos detalhes da memória pessoal do pesquisador já que nesta
pesquisa “a memória também foi considerada como fonte. Ela está prenhe de sentimentos e de
significados construídos nos acontecimentos‖ 37. Esta memória se cristaliza nas dissertações em narração
de relatos orais – entrevistas, falas de corredores e salas de reunião – e escritos, anotações, narrações e
rabiscos em diários de classe, portfólio ou mesmo em cartas, cartas de Rosaura! 38
Memórias...coisa antiga, mas a principal fonte de onde jorrar tanta memória passara a ser a do próprio
pesquisador. “Tudo que li, ouvi e pensei certamente constituíram de alguma forma minha visão de
mundo‖39, afirmou em sua tese Renata Cunha, doutora pelo também pelo Gepec e orientanda de
Guilherme Prado;
comecei a me perguntar: minha visão de mundo?
para que raios alguém quer ou precisa dela?,
mas me perguntava principalmente:

(E, se soubessem quem é, o que saberiam?),


Por tudo isto este era um incômodo inoportuno, esta pergunta, um problema... ou solução? 24
a pergunta
Solução sim! preciso de uma pergunta para uma pesquisa e isto sempre foi um problema para mim, afinal
havia aprendido que deveria perguntar, que era importante saber perguntar:

Pela ement a da discip lina não dá para t er uma idéia muit o clara do
que va mos enfrentar, mas espero que ela me ajude a encont rar mais
pergunt as 1 so bre as relações ent re a ciência e as suas implicações na
produção e ensino da música.
1 Ontem, numa aula na FE-UNICAMP, o prof. João Bernardo disse que clarificar é tornar as interrogações mais mutáveis e que o objetivo do

conhecimento é formular claramente uma pergunta. Amei!

O texto animadinho acima faz parte de uma avaliação escrita da especialização Ciência, arte e práticas
pedagógicas que fiz na Faculdade de Educação em 1996 e 1997.
Havia feito alguns gestos em relação à academia, mas considero este curso meu primeiro contato real
com pesquisa acadêmica, o início da viagem de busca pelas grandes verdades, aquelas escritas,
pesquisadas, concluídas e cristalizadas. Confesso o inconfessável sim: era, sim, isto que eu esperava da
academia: organização de minhas reflexões, alguma coisa que me dissesse quais eram as regras e onde
estava o belo e pavimentado caminho que eu deveria percorrer para conhecer a Verdade e saber mais,
ainda que não soubesse ainda o que queria saber.

37 LIMA, Maria Emilia Caixeta de Castro (2005). Sentidos do trabalho.


38 Referência à pesquisa sobre cartas de Rosaura Soligo, que fez mestrado no GEPEC com o professor Guilherme Prado.
39 CUNHA, Renata Cristina Oliveira Barrichelo (2006). Pelas telas, pelas janelas: a coordenação pedagógica e a formação de professores nas escolas.
Fuihi. lograda!
O “caminho suave”, não me deram a conhecer, nem sequer me contaram onde estão as pedras, mas fiz
grandes descobertas durante estes dois anos, explorando as novas cartografias aprendidas a partir de
montes de curiosidades, agora chamadas de inquietações epistemológicas, um termo um pouco mais
sofisticado, que exigiam também uma curiosidade mais apurada. Perguntar era mais que possível, era
desejável!, mas havia uns predicados requeridos para as perguntas.

Em busca da pergunta não formulada, li Um discurso sobre as ciências40, de Boaventura de Sousa Santos,
onde o autor coloca estes nossos tempos como o fim do ciclo de hegemonia que nos deixa perplexos e
sem confiança epistemológica. Lia e pensava: só agora é que vim a saber sobre isto! bem eu, que vim
para a academia em busca da Verdade e pegava carona na ambiguidade e na complexidade da situação
do tempo presente, um tempo de transição, síncrone com muita coisa que está além ou aquém dele, mas
descompassado em relação a tudo o que o habita. Tal como noutros períodos de transição, difíceis de entender
e de percorrer, é necessário voltar às coisas simples, à capacidade de formular perguntas simples [...] Uma
pergunta elementar é uma pergunta que atinge o magma mais profundo da nossa perplexidade individual e
coletiva com a transparência técnica de uma fisga.

Convencida! Aprender sobre a importância da pergunta eu aprendi, mas achar uma pergunta de fato
sempre foi um problema, não só meu, mas também foi para Maria Emilia41:

A idéia de que é preciso definir uma pergunta para prosseguir numa investigação tornou- 25
se, inicialmente, muito incômoda, uma vez que esta pesquisa não possibilitou de saída
uma pergunta, mas uma história – em Heródoto, a etimologia da palavra história significa
―investigação‖.
Finalmente! eu tinha a pergunta e era genuína, não a famosa pergunta acadêmica, que pergunta o que
sabe só para poder dar a resposta. Preconceito? Talvez, com certeza sem grandes reflexões, mas diria
que é um senso comum, com seus bons e maus sentimentos.
vinheta visual I (Quino)

40 SANTOS, Boaventura de Sousa (1987). Um discurso sobre as ciências.


41 LIMA, Maria Emilia Caixeta de Castro (2005). Sentidos do trabalho.
Minha pergunta nasceu deste incômodo, ainda que desautorizado por mim mesma, que me habitou e
aguça minha curiosidade que paulofreiramente procura neste texto transitar da ingenuidade para o que
venho chamando de “curiosidade metodológica”.

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),


(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Está entre parênteses e assim deve ficar, quase como um comentário feito com boca semi-fechada, de
mim para mim mesma. O incômodo contrariava toda minha briga contra a impessoalidade da
universidade e suas regras de pesquisas higiênicas.
fim

A pergunta de Pessoa tornada minha me perseguia sem me fazer ganhar espaços, só andar em
círculo;
por mais a sério que a encarasse, com leituras e pesquisas, ainda assim girava; 26
passei a escrever e a pensar sobre os memoriais procurando respostas, sem perceber que
ainda não conhecia minha verdadeira pergunta;
não avançava, mas começava a encontrar, dentro do círculo que percorria, alguns
parceiros - como e-Boa, na pele de seu heterônimo Boaventura de Sousa Santos – e assuntos

como a sala de aula tornada real pela narrativa de professores e a ausência da fala de mulheres
professoras.

do baú
Memorial de identidade: Pessoa, uróboro, professores, monstros afins e a pergunta errada.42

Memorial de formação – como se ceva meu conceito de memorial

Memoriais na educação, memoriais de formação tão completos, tão cheios de detalhes, tão pessoais. Em
Sentidos do trabalho, Maria Emilia43 expõe os objetos arqueológicos de sua pesquisa, entre eles os
fragmentos que ―promovem uma aproximação do que foi e deixam questões abertas [...] vazios que
podem ser preenchidos pela imaginação como os vazios das experiências de vida cuja completude apenas
lhe é atribuída a posteriori por interpretações e memórias.‖ Ela encontrou, ou melhor reencontrou seus

42 CUNHA, Glória. Memorial de identidade: Pessoa, uróboro, professores, monstros afins, e a pergunta errada, continuação. Texto incompleto.
43 LIMA, Maria Emilia Caixeta de Castro (2005). Sentidos do trabalho.
fragmentos pelo “paciente gesto de recolher peças e remover-lhes o pó depositado pelo tempo; raspar de
leve, camada por camada, e desvelar o que havia acomodado embaixo delas; desfazer as nervuras do
tempo que, propositalmente ou por acaso, se dobraram sobre o que precisava ser dito‖ . Além dos
documentos oficiais, a autora declara o não-documentado que “compõe-se de peças desconexas: cadernos
de anotações, agendas, fitas gravadas, bilhetes de alunos, telegramas, presentes de colegas, fotografias de
comemorações de Natal e aniversários, convites de casamento e cartões de despedida, entre outros.‖

A importância da experiência parecia clara para mim, mas o detalhamento, esta intimidade toda, não
estaria fazendo com que os textos produzissem sentidos apenas para quem os escreveu/viveu e seu
pequeno grupo de pesquisa ou colegas da escola? ou outra “panelinha”? Não estaria a intimidade, a
pessoalidade a que estão sendo levadas as dissertações para o pântano da busca ao ego perdido dos
professores?

Enfim: até onde persiste o DNA de uma experiência pedagógica (ou de vida) num cenário que, para ter
sentido, deve ser tão detalhado, tão específico e particular que precisa ser explicado, remontado,
vivenciado e tecido com todas as provas do delito?

Indícios...

Antes de seguir, pistas volto ao mesmo Boaventura de Sousa Santos44 , e, nele encontro reproduzidas as
perguntas de Rousseau que parafraseio tentando aprimorar minha pergunta:
o detalhamento dos memoriais nos escritos de professores contribuirá para purificar ou
27
corromper, esclarecer ou confundir mais o professor?
há alguma razão de peso para substituirmos a forma ampla de conhecimento
reconhecida que podemos partilhar com outros núcleos, institutos, universidades pelo
conhecimento específicos produzido para poucos e inacessível à maioria das pessoas a quem
poderia interessar?
contribuirão essas pesquisas para diminuir o fosso crescente na nossa sociedade entre o
que se é e o que se apresenta ser, o saber dizer e o saber fazer, entre teoria e prática?

Será a resposta também um redondo não?

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,


Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impassivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

44 SANTOS, Boaventura de Sousa (1985/86). Um discurso sobre as ciências. Citação original: “Rousseau formula várias questões enquanto responde à que, também
razoavelmente infantil, lhe fora posta pela Academia de Dijon. Esta última questão rezava assim: o progresso das ciências e das artes contribuirá para purificar ou para corromper
os nossos costumes? Trata-se de uma pergunta elementar, ao mesmo tempo profunda e fácil de entender. Para lhe dar resposta – do modo eloqüente que lhe mereceu o
primeiro prêmio e algumas inimizades – Rousseau fez as seguintes perguntas não menos elementares: há alguma relação entre a ciência e a virtude? Há alguma razão de peso
para substituirmos o conhecimento vulgar que temos da natureza e da vida e que partilhamos com os homens e mulheres da nossa sociedade pelo conhecimento científico
produzido por poucos e inacessível à maioria? Contribuirá a ciência para diminuir o fosso crescente na nossa sociedade entre o que se é e o que se aparenta ser, o saber dizer e o
saber fazer, entre a teoria e a prática? Perguntas simples a que Rousseau responde, de modo igualmente simples, com um redondo não.”, p.7.
o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, como uma sala de aula, ela também
inacessível a todos os pensamentos, mas feita real por narrativas de professores que hoje se desdobram
em pesquisadores

Com mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr umidades nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, intimidades, detalhes mínimos de olhos postos
no particular; escritos, parecidos com os diários-agendas das garotas onde as lembranças vêm com
palavras, bilhetes, cartões de telefone, presos com clipes e com gosto de papel de bala.

MOMENTO CULTURAL: Tabacaria

Diários de garotas, talvez esta tenha sido a chave que abriu a gaveta onde guardava Tabacaria, poema que
me persegue desde os 13 anos, quando me foi dado a ouvir por Maria Salete Bento, professora de
português do ginásio. Na minha memória, Tabacaria não está escrita, é palavra sonora, quase música,
reminiscências do Long Play com a gravação de poemas de Fernando Pessoa recitados por um ator
português.

Como uma fala imagética que acompanha, comenta e uiva, o poeta lança sequências de imagens, que
se sobrepõem e expõem uma parte de seu eu, ou um de seus “eus”, o Álvaro de Campos, o narrador.
28
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tive mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

“Combóio”, com sotaque português, ressoa unido aos riscos do LP em mim há 40 anos junto com a
admiração pela professorinha de português que via sentidos em mostrar isto para uma reles
semiadolescente de escola pública! Não existem mais que duas possibilidades para um ataque estético
destes: ou passa ao largo, não te atinge e some imediatamente, ou te invade e te toma para sempre e
passa a ser parte de você.

Tabacaria foram palavras ouvidas, lidas e repetidas em sua sequência, ou em partes, por mim e me levam a
um mundo de memórias que não são minhas, mas se tornaram minhas pelas prendas, as sensações-vida
que me trazem desde um tempo anterior ao que poderia tê-las sentido

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.


Pessoa narra uma série de acontecimentos que acompanham ou explicam uma sequência de imagens
poéticas ou reais que poderiam compor um memorial de um Álvaro de Campos ávido, sempre ávido,
transitando entre realidade e delírios. Apesar das palavras provocarem imagens caleidoscópicas, o
poema se passa no tempo, um memorial narrado como em tempo real. O poeta narra sensações e
memórias inventadas ou relembradas ao olhar a tabacaria do outro lado da rua da janela de seu quarto,
do seu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é e, se soubessem quem é , saberiam que lá estava
um dos maiores poetas do mundo escrevendo um dos maiores poemas da língua portuguesa, mas,
naquele momento, sua fala era desconhecida, sendo desconhecida não era ouvida.

Também as falas das mulheres-professoras foram desconhecidas por muito tempo, com poucas falas
transformadas em textos viajando para fora da sala de aula. Quando comecei a pesquisar em Educação,
sempre estranhava que as mulheres, responsáveis por tantas horas-aulas, não escreviam sobre
educação e me perguntava por que, se as mulheres davam tantas aulas, eram os homens a ensiná-las,
com seus livros, como era esse fazer.

fim

Tentei tomar e retomar o texto inúmeras vezes sem conseguir desenvolvê-lo. Uma pergunta
errada pode levar às respostas erradas, e daí a importância de saber perguntar.
A pergunta do texto poderia ser: pra quem e para que interessam os detalhes de um memorial?
A realidade de cada pesquisa é feita pelas escolhas contidas no inventário de documentos e que
formam seus dados. O recorte, o limite, a censura não são dados por si mesmos, e é no memorial
que digo, determino e conto, qual o meu papel nesta pesquisa ( pesquisadora, professora, 29
coordenadora de um grupo, diretora) e qual dos meus heterônimos sociais – gloria aluna,
professora, gestora, músico, percussionista, militante, mãe - está no comando e narrando fatos.

A pergunta que roubei de Pessoa, mesmo sendo uma pergunta errada, desencadeou algumas
reflexões interessantes e que estão aí porque mostram parte do percurso deste escrito.
Reformulando o projeto enviado para o mestrado, Gestando sonhos: gestualidades sobre Educação e
Música, numa tentativa de encontrar um rumo, sem pensar, meus dedos completaram o título:
Gestando sonhos, parindo demônios!
Eram os desencantos pós-gestão, conquistas se dissolvendo no insustentável peso da realidade,
os fantasmas que me afligiam.
A pergunta que procurava para me pôr em movimento não era sobre memórias e memoriais.
(E, se soubessem quem é, o que saberiam?)
Essa pergunta só escondia desconsolos;
não com o fim da história, da Verdade ou da Realidade, ou algo tão mundial, global ou
sideral;
nada que, aparentemente, eu pudesse inculpar à ciência moderna e aos seus asseclas do
rigor monológico;
mas que guarda parentescos locais com tudo isto, com a gestão da verdade e da
realidade construída ao som do mercado, das necessidades capitalistas, da imposição global e
neoliberal de uma realidade que resiste às mudanças, que não larga seu osso.
Meu desencanto era com o fim de mais uma história de gestão democrática, de uma verdade e
luta política, de uma realidade de sonhos e convicções pessoais que se esvaía na lógica
neoliberal. Muito briguei eu comigo,
tive raiva,
me insultei.
E, de incontido desgosto,
em meu próprio ombro chorei. (Eu comigo – Helena Kolody)

A pergunta que emergia deste desconsolo, a pergunta que existia a partir da ausência que me
habitava, encontrei formulada por Wanderley Geraldi no título de um texto e roubo sem
pudores:
Depois do show, como encontrar o encantamento?
E ―vem de longe o eco surdo do bumbá , sambando” 45
à frente de um cortejo de maracatu, reis e
rainhas, lanceiros e batuqueiros da cultura popular brasileira, socorrendo-me na jornada de
descobertas, na busca por respostas. 30
Porque se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania 46

Vento que traz a voz de sereias, poetas pernambucanos que explodem seus versos;
sem amarras ou cera nos ouvidos, me movimento com seu cantar.
Vamo simbora que o mundo arrudiou
Vamo simbora que o mundo arrudiou
E se eu ficar parado aqui eu não vou
E se eu ficar parado aqui eu não vou

Do Lixo do Mangue para Um passeio pel o mundo livre , Um passo à frente e você
não está mais no mesmo lugar" 47
com Chico Scie nce e Siba chega a certeza de que tem

sentido este deslocar porque Toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar ". 48

45 Boi-bumbá, de Waldemar Henrique.


46 Clube de Esquina II, Lô Borges e Milton Nascimento
47 Um passeio pelo mundo livre e Lixo do Mangue, ambas de Chico Science.
48 Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar, de Siba e Fuloresta.
Saudação à senhora dona da casa

lo u va ç ã o a o b o i, a o d o n o d o lo c a l d a
a p re se n t aç ã o e o a n ú nc io d o in íc io d o
auto do boi

São duas, as casas envolvidas nestes escritos.


Uma de saída e outra de chegada.
Uma das casas é a minha, meus universos de referências e de caminhar, e a outra é a da dona
Academia, com seus universos, alguns comuns aos meus e outros diferentes.
Decido louvar a ambas:
Vou fazer a louvação, louvação, louvação
Do que deve ser louvado, ser louvado, ser
louvado.
Meu povo, preste atenção, atenção, atenção.
Repare se estou errado.
Louvando o que bem merece,
Deixo o que é ruim de lado.
31
E louvo, pra começar 49

A casa desta senhora


Ao ler pela primeira vez o texto de Benjamin sobre a casa do burguês, tão cheia das coisas que
não dá espaço para nada, fiz um precipitado mea culpa:
minha casa também é assim! tenho minhas coisas por toda a parte! não deixo espaço a
nada de fora! nada cabe nada aqui, não é permeável!!!!
Tenho algumas crises epstemopsicológicas, felizmente passam logo.
Cheguei em casa decidida a olhar os apinhamentos das paredes e retirar as minhas marcas para
dar lugar ao outro.
Paro na porta de entrada e penso: o que retirar?
a máscara afrocubana, La Negra?
a Kamayurá? a do indígena dos Andes?
ou a do amigo artesão?
as almofadas indianas sob a manta dos Mapuches no sofá amarelinho que fica na parede
que tem a colcha linda de renda Filé nordestina, lado oposto onde estão os móveis que herdei de
meus avós e outros de meus pais...

49 Louvação, de Torquato Neto (poesia) e Gilberto Gil (música).


E encontro a metáfora visual das alegorias desta dissertação: minha casa!
Torturei-me ao exigir definições.
usarei alegorias da música erudita, meu berço, ou da cultura popular, meu batalhão
atual, ou da popular de mercado, do imaginário das emoções subjetivas?
no projeto eu falava de gestos e coreografias, será que faço parceria com a música ou a
dança e deixo as imagens?
Definições impossíveis de definir, já que estas coisas todas são em mim uma só, e, então, assim,
solenemente, declaro:
esta dissertação não é fragmentada;
esta dissertação não é multicultural em suas influências e alegorias!
Reflete a cultura deste Brasil com suas três matrizes culturais formadoras - africana, indígena e
européia - com as quais, de intensidades variadas, todos por aqui são seus benditos frutos.
Por baixo e por cima dos debates, os brasileiros foram construindo o Brasil brasileiro,

com todos os materiais que lhes chegaram às mãos e com os que foram inventando,

com aquela voracidade antropofágica que Oswald de Andrade tão bem caracterizou.

Hoje o Brasil tem suficiente identidade para poder dispensar-se de pensar nela. 50 32
Dispensado o Brasil, dispensada me sinto eu!
Meu avô, Antônio Martins Cunha, nasceu no século XIX em Cardielos, uma aldeia portuguesa
perto de Viana do Castelo, e veio para o Brasil; considero que teve uma vida com experiências
tão complexas, em termos de diversidade de culturas, quanto as de alguém do século XXI.
O que, em nossos dias, querem mostrar como pedacinhos é um todo cultural, é a cultura típica
das pessoas que vivem em centros urbanos ocidentais. As nossas formas de registro e as novas
ferramentas para rastrear informações e árvores genealógicas das pessoas e culturas que nos
formam algumas vezes nos dão uma idéia de fragmentação que não encontra respaldo dentro de
nós.
Tenho, na minha casa, móveis que herdei desse meu avô, inclusive um baú de madeira, sua
mala de quando veio para cá. Esse pouco de Portugal fica junto da arte brasileira - a indígena, a
popular e a erudita - que convive bem com a arte africana e a andina, ao som de Beethoven,
passarinhos, Stravinsky, Gilberto Gil, cachorros, Lunsqui, Paulo Freire, o violeiro, claro!,
Maracatu Porto Rico, Carlos Gomes, Boi de Maracanã, vizinhos, Marlui Miranda, Mundaréu,
Gramanis, Hesperion XX, León Gieco.
É isto que nos gera, como Macunaíma, antropofagicamente pós-caipira, incorporando os
materiais mais diversos, deglutindo a academia nesse banquete para nos construirmos.

50 SANTOS, Boaventura de Sousa (2004a). In: jornal O Globo.


Esse meu misturalismo não é muito diferente dos de outros brasileiros, talvez mais explícito na
minha casa...
Ter ou não sangue negro não muda o ferver da veia quando toco um maracatu, o sangue
cultural já me constitui, já me pertence.
Não sou no maracatu algo diferente do que sou na academia.
Levo ambos comigo. As conversas entre eles e outros mundos vão construindo minhas formas
de conhecer e superar ignorâncias.
A casa da outra senhora
A outra dona da casa é a Academia.
Sempre me vejo como quem chega e pede permissão para entrar, afinal não sou uma cria da
universidade, meu universo de formação foi outro...
Frequento seus bancos há mais de dez anos, mas ainda a estranho;
sinto-me lá, como algo de fora;
um lugar que não me pertence: terra alheia.
Por que não me pertence?
A apropriação do conhecimento pelas ciências exatas e, da educação, pelo mercado, tem tornado
essa universidade mais vazia de saberes, direcionada para um tipo de saber que pode se
converter facilmente em capital, gerar lucro para quem já explora a outros - mercados e pessoas. 33
Começa a ser socialmente perceptível que a universidade, ao especializar-se no

conhecimento científico e ao considerá-lo a única forma de conhecimento válido,

contribuiu activamente para a desqualificação e mesmo destruição de muito

conhecimento não-científico e que, com isso, contribuiu para a marginalização dos

grupos sociais que só tinham ao seu dispor essas formas de conhecimento.

Ou seja, a injustiça social contém no seu âmago uma injustiça cognitiva.51

Não é a esta universidade que saúdo ou peço licença para entrar.


―Deixando o ruim de lado‖, saúdo a outra academia, aquela que é:
lugar de conhecimentos, não apenas das ciências, menos ainda só das exatas;
lugar de conhecimentos, saberes pesquisados, organizados;
conhecimentos vindo de alguns mundos da educação;
conhecimentos de formas diferentes, mas iguais, de perceber o mundo e
caminhar por ele.

51 SANTOS, Boaventura de Sousa (2008). A universidade no século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da universidade, p.69.
Intermezzo I Sobre Adélia & Vídeo
“...não de ve riam u ns de cid ir do qu e só a ou tros cabe rá cu mp rir.
[...] Da te nda s abe o te nde iro, de pu xar sabe m os cavalos
( Saramag o)

Uma outra forma de nos silenciar é transformar nossa voz


na eternidade da escrita
Escrever claro,
Sem ambiguidades!!
(como se a vida fosse nítida e una)
cientificamente
sem devaneios-mulher
SUBSTANTIVOS & VERBOS
MEDIDAS & ESTATÍSTICAS
Penso, logo existo?
Sinto, logo ... hesito!
sinto, sinto, sinto, sinto, sinto, si n t o, sinto, sinto, sin to, sint o
sinto que existo
uma existência feita de adjetivos
- boa, má, ansiosa, plena, vazia –
34
uma existência desmedida
- Quanto pesa sua alegria?
- Madaaame, qual foi o volume do amor que sentiu?
Aos poucos nos tornam
nos tornamos incapazes
castradas
(do pau que nunca tivemos)
temos que falar com língua que não é nossa
sem instrumento que traduza nosso entender
(não é ―pensamento‖ e nem ―sentimento‖, a
gente fatia pra dar conta de conhecê-lo, classificá-lo mas percebe-se/sabe-se uno,

Na lenda d‘aquela que nasce d‘Outro


- do 1º, do que foi feito à Imagem e Semelhança -
¿Já se deram conta?
É ela quem 1º busca o saber...
Foi castigada. castigada?
Com o quê?
Com a expulsão do paraisútero?
(conforto da ignorância)
Com a dor que traz a vida?
(qual mulher troca a não-dor pela vida que gerou?)
Castigo ou Prêmio??
O suor do corpo em troca de nos tornarmos criadores
não apenas criaturas dóceis sem vida
sem risco
sem
imutáveis na perfeição
bibelôs Boa Troca BOA TROCA !

Na lenda d‘aquela que nasce d‘Outro


¿Já se deram conta?
É ela quem 1º busca o saber...
Intuição feminina, dirão em coro ....
* * * * * * Americanfilmes da década de 50* * * * * *
* *Perry Mason* * * * Papai-Sabe-Tudo** e outros homerois
A mulher é sempre uma...
******D o n a - d e - C a s a *******

Sei, sei, sei. Me lembro.


a super-incrível e eficiente secretária do Perry profissional
, mas.........................sempre uma mulher com um homem forte,
sustentando- o na sua posição,
(braço-direito, anjo-da-guarda, a essência da alma-dona-da-casa)
(Robins, coadjuvantes na própria vida)

Ela às vezes tinha alguma grande sacada 35


, que resolvia os problemas,
¿mas ela RACIOCINAVA???
Não, não e não!!
É a tal da Intuição Feminina....
aquilo que faz o sexo fragilco acertar,
(as eternas desmioladas têm sorte, intuição, um presente dos
deuses às pobres de espírito)
Verbete: intuição
Ato de ver ou capacidade de pressentir:
Apreensão direta imediata e a t u a l
de um objeto na sua realidade i
n
d
i
v
i
d
u
a
l .

Perceber, p e r c e p ç ã o c l a r a
ou imediata;
Discernir discernimento,
pressentimento
"....atin ge em toda a sua p leni tude
uma verdade d e ordem d iversa daquel as que s e at ingem por
meio da r azão ou do
conhecimento discursivo ou
anal ít ico".
Bom Presente
BOM PRESENTE!
Os homens escrevem e a s mulhere s lê em
As mulheres ensinam e os homens escrevem
(sobre o ens inar)
Os homens escrevem e as mulher es l êem
Os homens ens inam a mulher a ens inar
?
Por que t emos sempre q ue fazer de conta
que não exis timos? ete rnas
cost elas
a trás
nas costas

"Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes. Nosso maior


medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa
escuridão, que mais nos amedronta.
36
Nós perguntamos: ‗Quem sou eu pra ser brilhante, atraente, talentoso
e incrível?‘ Na verdade, quem é você para não ser tudo isto?...Bancar o
pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se
para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você. E na
medida em que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente
damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo".
Nelson Mandela, discurso de posse, 1994

{ e a mulher-maravilha que seria

no ideal desta criança que não fui

e a mulher-maravilha que seria

no ideal da criança

que fui/sou

e‫؟‬todas as minhoutras faces de


heroína? }
2º Movimento: Seriado de Formação

1. Preludiando Dificílimo acto é o de escrever,


Não tenho um romance de formação, tenho responsabilidade das maiores, basta
uma série! Ao longo do tempo acumulamos pensar no extenuante trabalho que será
histórias e percebemos que não temos apenas dispor por ordem temporal os
―a‖ novela de formação, temos várias. acontecimentos, primeiro este, depois
Os textos que compõem esta série foram feitos aquele, ou, se tal mais convém às
em momentos diferentes da minha formação ou necessidades do efeito, o sucesso de
vida, palavras que aqui se confundem, mas
hoje posto antes do episódio de ontem,
sempre instigados pelo GEPEC ou seu entorno,
e outras não menos arriscadas
suas reuniões, matérias de seus professores-
acrobacias, o passado como se tivesse
coordenadores, seminários ou troca de
sido agora, o presente como um
correspondência.
contínuo sem princípio nem fim [...]
(Saramago, 12) 37
O Primário
Confissões de professores: a primeira indisciplina a gente jamais esquece (2008) foi
escrito para GT – Grupo de Terça do GEPEC -, coordenado pelo professor Guilherme Prado,
com reuniões presenciais e uma intensa troca de correspondência pela lista de discussão da
Internet do grupo.

A Música e o Barcelona – ginásio e colégio


Desabafo de mamãe: Villa-Lobos, aquele chato!
Conto um episódio envolvendo mamãe e Villa-Lobos, que me instigou na adolescência,
mostrando-me que um artista de renome e talento nem sempre é um educador inovador,
coerente e, menos ainda, emancipador. Foi também esse episódio um dos fatores que me levou a
começar a ler sobre educação musical no Brasil e os tempos de estudante de mamãe, tempos do
Canto Orfeônico, tempos de Vargas e Villa-Lobos; tempos envoltos pela aura do artista,
escondendo um educador que se comprometia com a ditadura da época.
Esta narração faz parte também da produção do Grupo de Terça do GEPEC de 2008.
Déjame que me cuente (2007) foi um texto ―encomendado‖ por Liana Arrais. Esta minha
amiga de muitos anos, ex-vizinha, ex-sócia de uma escola de música e agora colega no GEPEC,
me pediu um texto para seu mestrado sobre como havia me envolvido com música e educação e
me tornado professora de música. Naquele momento eu questionava seriamente sobre a
quantidade de detalhes dos memoriais do GEPEC, mas, sem nenhum pudor, escrevia
longamente sobre essas escolhas, contando sobre minhas duas escolas queridas da adolescência:
o Ginásio da Vila Barcelona, depois transformado e rebatizado de Idalina Macedo Costa Sodré, e
a escola de música, Fundação das Artes de São Caetano do Sul.

Dilemas profissionais – duas Pipocas


A menina que queria tocar tambor é sobre um fato acontecido por volta de 1980, que
provocou o início das minhas reflexões sobre a acessibilidade econômica do aprendizado de
música no Brasil, mas só virou palavras escritas em 2010.
Relato de uma aula (1998) foi feito a pedido da professora Corinta como um início, ponto
de partida, de reflexões sobre a própria prática. É a narração de um ensaio, que vejo como uma
aula de música coletiva, de uma banda iniciante do projeto Unibanda/Unicamp, do qual fui
professora, orientadora de curso e maestrina. Escrever o relato havia me deixado mais perplexa
ainda com a distância que via entre o que gostaria de fazer e o que estava fazendo em educação,
o que podia fazer, meus limites. Longe de me desanimar, essa perplexidade me levou a voltar e
continuar os estudos sobre educação e, dez anos depois, enviei o relato para o GT.

A Academia, de volta à escola. 38


A Especialização
Samba da aluna doida
Tecnologia
Primeiro mestrado
O mail (é) a mensagem
Na época do Cartografias II
Diário de Campus (Intermezzo II)

eu e dona Anésia, minha primeira professora


2. O Primário
A cidade é São Caetano do Sul ou o que resta dela além da fábrica General Motors do Brasil,
local do último emprego de meu avô e do emprego de meu pai;
é uma cidade operária que cresce rapidamente destruindo árvores, estamos no final dos
anos 60;
mamãe trabalha em casa, cuidando das filhas e da casa em geral, mas somos criadas, eu e
minha irmã, com a perspectiva de que "o que você vai ser quando crescer" significa exercer uma
profissão, ganhar seu sustento;
papai trabalha nos escritórios da General e meu avô foi guarda de lá;
eu e minha irmã pretendemos manter toda a distância possível dela no nosso futuro.
Pouca coisa me lembro da minha escola primária, que tinha o interminável nome de Grupo
Escolar Dom Benedito Paulo Alves de Sousa e que chamávamos de Grupo Escolar Dom Benedito entra
burro e sai cabrito! Brincadeira mais otimista do que a de algumas crianças de Campinas:
Adalberto Nascimento, entra burro e sai jumento... 52
Uma das poucas lembranças que tenho desta escola foi o primeiro contato com o senhor diretor
no dia da minha matrícula. Fui com minha mãe. A matricula era feita pelo próprio diretor, que
foi muito ríspido conosco quando mamãe disse que não tínhamos religião. Depois, já
39
adolescente, frequentei a casa desse senhor como amiga de seus filhos e sempre fui bem tratada
por ele, mas nunca esqueci sua reação à resposta de mamãe por um motivo, para mim, tão
banal: não tínhamos religião!

Eu fui dispensada das aulas de religião, praticamente só eu e minha irmã tínhamos esta
condição nesta escola, mas frequentemente pedia para assisti-las porque gostava de ouvir as
histórias, de entender os sinais e as falas das rezas, mas sem nenhum outro interesse além desta
curiosidade epistemológica.
A falta de religião me tornou uma prenda para muitas militantes católicas da escola e,
frequentemente, alguma delas, uma servente ou outra autoridade local - do baixo dos meus 7
anos todo mundo era autoridade - me convidava para ir à igreja ou mesmo fazer a primeira
comunhão escondida de meus pais. Essas pessoas tinham uma dificuldade bem grande de
pensar que tanto eu quanto minha irmã realmente não tínhamos nenhuma vontade de
frequentar sua igreja de devoção ou orar para seus ídolos.
Outra lembrança forte da escola vem de uma aluna negra, a única bastante negra, que estudou
comigo naqueles idos;

52 Informação da professora Adriana Varani.


ela usava uma roupa imaculadamente branca, daquele branco de doer os olhos , e os
cabelos sempre trançados, arrumadíssimos;
por algum motivo a professora sempre tinha alguma coisa para falar sobre ela, contra ela,
sempre a reclamar do que ela fazia, de como fazia;
não havia nada nos atos da menina que justificasse a atitude da professora, era uma
aluna comum, educada, mas a diferença entre ela e nós era a cor, e isto fazia uma grande
diferença e foi motivo de várias humilhações para ela.
E a professora?
era uma boa professora em quase todos os outros campos: ensinava, gostava deste fazer;
depois, adulta, quando fui professora de música de seus filhos, considerava-a uma boa
mãe;
mas a lembrança da atitude dela para com aquela menina negra foi o ensinamento mais
significativo, que mais me tocou, que se tornou inesquecível: foi a primeira vez que eu me dei
conta de que existia racismo e que ele estava perto de mim, e, pior ainda: qualquer pessoa,
mesmo alguém que é boa para você, poderia ser ruim para outra, poderia ser racista.

Em 2008 estudávamos indisciplina, no Grupo de Terça. Propus que escrevêssemos sobre nossa 40
primeira indisciplina, porque tinha uma história para contar sobre isto, uma história nada
virtuosa de como enganei minha professora, minha família e nunca fui descoberta!
Um sucesso surpreendente, já que a maioria das minhas colegas de indisciplinas sempre
terminavam suas histórias sendo descobertas em suas colas, fugas ou outra travessura.

Foto da minha turma do primeiro ano primário


Confissões de professores: a primeira indisciplina a gente jamais
esquece...
Julho de 61

Casa de vovó, Rio de Janeiro, sol, primos e primas, mar e brincadeiras, mas ai, ai, ai, ai, ai... a
dona Anésia passou montes de lição! Não sabe quem é a dona Anésia? se ligue, se plu-gue! é
a dona, a fessora, a profa, a tia!
Naqueles idos distantes ela era, para mim, assim no singular e com ênfase de autoridade.
Afinal era a única professora que eu conhecia, aquela que a gente jamais esquece porque foi
a do primeiro ano primário e antes dela só mamãe.
Simpática, amigável, alegre, mais pra vó do que para tia aos olhos-Kronos de 7 anos desta
cronista em confessional atividade. Tive sorte, muito mais que minha irmã que cuja primeira
professora foi uma viúva com luto e rosto fechados, depré total! Minha irmã, durante um
ano inteiro, copiou as expressões de tristeza e contrariedade dessa sua primeira
professora, mas isto é para outra história.
A dona Anésia tinha só um defeito: querer o impossível, cristalizado em tentar me manter
sentada e calada! Até o meio do ano administrei meus desejos com os dela e aprendia 41
lentamente a me manter no meu devido lugar; quando urgências emergentes me deslocavam
pelo santificado chão da sala de aula e ela descobria lá vinha o castigo: ficar plantada, de
pé, na frente da classe.
Mas nas férias do meio do ano ela exagerou em outra missão impossível: montanhas e
montanhas de cópias!
Casa de vovó, Rio de Janeiro, sol, primos e primas, mar e brincadeiras, mas ai, ai, ai, ai, ai... a
dona Anésia passou montes de lição!
Não sei ao certo quanto, mas visualize a Caminha Suave. Abra a cartilha na grande barriga
do bebê lavado pela babá e lá estão : 10
cópias!
e depois mais 10 do C, do D, da lição do
Gato, mais complicada, vai 12 cópias e assim
vai numa interminável quantidade imensa de
cópias de tudo!!!
resumindo: dona Anésia queria inventar
o ―xerox‖ humano, tentava, nas férias,
transformar cada aluno numa fotocopiadora
eficiente!!
Não, não e não! meu problema não era o
conteúdo desprovido de significados ou coisa assim. Nada tão edificante não!
Sim, sim e sim!
Meu problema era a quantidade de vezes que eu teria que repetir este conteúdo e que me
tomava o tempo de estar na rua, de brincar com meus primos, de jogar conversa fora e
coisas boas assim! E pior ainda: ela queria isto com algum tipo de letra identificável o que
me tomava/toma uma quantidade imensa de minutos/horas/anos/séculos!!!
Um problema e uma solução!
Decidi fazer um tantinho de cópias que desse conta de tranqüilizar mamãe e, ao mesmo
tempo, não roubar minhas férias. Decidi fazer de conta que o mundo acabava junto com as
férias em 31 de julho, o que infelizmente, aos meus olhos de 7 anos, não aconteceu!
Fim das férias: e agora, glória?
O que você vai falar para a dona Anésia que depois vai falar para o mundo? entenda-se aí
seus pais, irmã, avós, colegas ou seja toda a sua sociedade! Todo o universo conhecido
saberá que você não fez a lição de casa!!!!
Então eu esqueci meu caderninho no Rio, bem escondidinho num cantinho e fui para casa, em
São Caetano do Sul, São Paulo, que naqueles idos era muito, mas MUITO distante do Rio.
42
Esquecer é coisa de criança!
Falei com a professora, falei com a mamãe; o caderno foi encontrado pela minha avó com
todas as copias que minha mãe me viu fazer.
Tudo tão longe, não carecia enviar por correio, era bastante caro e afinal as lições estavam
lá! É verdade que não eram nem metade da receitinha de dona Anésia, mas deste detalhe só
eu sabia...
Plano perfeito: o caderno voltou para mim, mas nas férias do final do ano, quando dona
Glorinha já havia passado de ano e estava totalmente ―livre‖ de dona Anésia.
O que sempre me espantou nestes acontecimentos é que decidir fazer isto desde o início,
não foi uma coisa de improviso, foi planejado:
decidi não fazer a lição porque queria brincar;
decidi não levar o caderno porque não queria ser pega no erro;
decidi contar a mentira porque achei a melhor saída, medi minha credibilidade e fui
em frente.
Mesmo assim quando vi que tudo deu certo me espantei de como era fácil fazer algo errado
e enganar tanta gente grande;
uma parte da glorinha se sentia muito mal por ter mentido pra tanta gente legal, mas
a outra parte, poderosa, sorria...
Eu podia! Eu tinha a força!
3. A música e o Barcelona – ginásio e colégio

É tempo de explicar que quanto aqui se diz ou venha a dizer é verdade pura e pode
ser comprovado em qualquer mapa, desde que ele seja bastante minucioso para
conter informações aparentemente tão insignificantes, pois a virtude dos mapas é
essa, exibem a redutível disponibilidade do espaço, previnem que tudo pode
acontecer nele. E acontece. (Saramago, 18)

Desabafo de mamãe - Villa-Lobos, aquele chato!

do baú

Diário de Bordo
m ea n dr os d e 19 68

Sou gloria ,16 anos , e esta va e studando piano em casa ,prelúdio


da IV Bachiana de Villa -Lobos;
me sentia divina e maravilhosa , é uma obra de peso, bonita e difícil de
interpretar.
43
Minha mãe, a maior incentivadora dos meus estudos de piano, rodeia , para
na porta e ouve meus estudos;
estou orgulh osa da m inha pessoa ... e capricho!

Numa brecha sonora , mamãe pergunta: que música é est a?


eu: Prelúdio da IV Bachiana!
ela :OH!!!!!!!!
quem é o c omposit or?
eu:VILLA-LOBOS!
ela : Villa-Lobos!!!...
a quele chat o!!?!?!!

E sai da sala resmungando.


A divina aqui continua mais um tempo tocando até que a idéia pega mesmo:
como chato?!!???
e paro de tocar, afinal que modos sã o est es?
Ninguém chama o Villa de chat o!

E que intimidades são estas da minha mãe com o meu compositor, com est e
gênio brasil eiro????!!!!!
E sai o da sa la procurando mamãe, i sto ela vai ter que me explicar!

E st e d i a fu i m esm o pr oc u ra r m am ã e e qu est i on ei sob r e os t er m os p ou c o


a m i g á vei s d ela sob r e o m eu c omp osi t or , e ela pi or ou n os elog i os: a qu ele c ha t o
si m ! m ui t o c h a t o! T ín h a m os qu e f i ca r h or a s em p é e c om sed e! S ó p r a c a n t a r . E
ele a i n d a fi c a va d and o b r on c a s sem p a r a r , u m c h a t o est e V i lla - L ob os!
E m m ei o seg u nd o m a m ã e m a t ou t od a s a s i lu sões e i n f or m a ç ões p osi t i va s qu e eu
t i n ha sob r e os t emp os áu r eos d o C an t o O rf eôn i c o, c ri a ç ã o s up r em a d e Vi lla -
L ob os.
O lh e só: p or volt a d e 19 32 , m a m ã e, c om c er ca d e 7 a n os, h a via f ei t o p ar t e d e u m
d a qu eles c or os d e esc ola s p ú b li c a s d o Ri o, qu e i mp la n t a ra m , ob r i g a t or ia m en t e, o
C a n t o O rf eôn i c o, e, seg u n d o a m am ã e, a t est em u n ha oc u la r d est a h i st ór ia , V i lla -
L ob os oc a si on a lm en t e r eg i a est es c or os e xi g i nd o a os g r i t os u m a d i sci p lin a
b a st a n t e r íg i da d os a lu n os.

E la est a va lá , er a c r i a n ç a e od i a va i st o. P a r ec e qu e n ã o h a vi a um a pr eoc up a ç ã o
sob r e o qu e o a lu n o qu er i a . C a n t o O r f eôni c o! Qu em d i ri a ? ?! !
Don a E n i lda , a t est em u n h a ocu la r d a hi st ór i a...

C i vi sm o e d i sc ip lin a !

E sses er a m os ob j et i vos, a n t er i or es a o en si no d a m ú si ca , p a r a o p r oj et o C a nt o
O r f eôn ic o d a er a V a r ga s. Já c on h ec i a a lg un s p r ós e c on t r a s a o p r oj et o, m a s
a g or a d esc ob r i a u m ou t r o olh a r , d i sti n t o d o soc i ólog o, d o ed u c a d or , d o
i n t érp r et e d e V i lla -L ob os, o p on t o d e vi st a d a s c r i a n ç a s, d os a lu n os.

e m i n h a m ã e n a fi t a ...

fim
44
Esta história começa praticamente junto com o início do ensino de música no Brasil... epa! mas é
possível pensar em quando foi este começo?
Alguns têm como marco a chegada dos jesuítas, ou dos maestros europeus que chegavam com a
corte portuguesa;
outros lembram que a música existia desde sempre nas culturas que estavam aqui antes
da chegada dos europeus, e continuou a ser ensinada por elas sem que isto tenha traço na
história do ensino da música no Brasil;
outros lembram também que outras culturas que aqui chegaram e algumas que nem
queriam vir perpetuaram seus cantos, ensinaram aos seus e aos seus entornos as suas canções
neste misturalismo próprio do Brasil.
Um ensino cheio de ausências, no qual o papel das mulheres como transmissoras das canções e
tradições de um povo não são dimensionadas;
as mulheres, as mães, avós, amas e tias cantaram aos seus pequenos; espalharam,
ensinaram, criaram e misturaram músicas de ninar, de trabalho, de devoção.
Um ensino cheio de ausências, onde o papel dos negros como transmissores desta música
européia não é dimensionado.
negros como padre José Maurício Nunes Garcia, no Rio de Janeiro, e Maneco Gomes -
mais conhecido como pai de Antônio Carlos Gomes -, em Campinas, exerceram cargos
importantes e foram responsáveis pela música - execução e ensino - de toda uma cidade.
Formadores ausentes, assim como ausente está o ensino da música que acontecia nas ruas e nas
comunidades, nas brincadeiras. Ausentes porque não são vistos como ensino, ausentes porque
não são vistos como professores.
A educação e a música na minha vida têm uma matriz materna: avô pernambucano e avó
gaúcha, mamãe nasceu em 1925 e cresceu no Rio de Janeiro com suas 5 irmãs e 2 irmãos;
o Canto Orfeônico, assim como a Escola Normal faziam parte de sua vida, uma de
minhas tias estudou piano no Conservatório brasileiro e outra se formou professora;
educação e música faziam parte da vida da família mesmo morando no subúrbio do
subúrbio, Marechal Hermes, perto da Vila Militar, subúrbio, mas era o subúrbio da capital do
Brasil, Rio de janeiro.!
No mestrado, para uma das matérias que fiz com a professora Corinta, lembrei-me desta
história de minha mãe e pesquisei sobre Canto Orfeônico e o papel de disciplinador a que se
prestou o grande compositor Villa-Lobos.

do baú

Anotações do Seminário sobre arte e ensino:

45
No Brasil, o Canto orfeônico era conhecido e praticado desde 1912, mas somente com o
trabalho de Villa-Lobos ganhou alcance e importância. Para ele, este era o meio mais eficaz de
educação das massas, pois integrava a sociedade num sentimento coletivo e disciplinado de
amor à pátria a partir das canções de exaltação nacional, hinos e que tais.
Em 1932, o presidente Vargas assinou um decreto que tornava obrigatório o ensino de canto
orfeônico nas escolas e criou o Curso de Pedagogia de Música e Canto Orfeônico e o Orfeão
dos Professores do Distrito Federal.
O canto orfeônico era apresentado nas exortações cívicas, que ganharam enorme alcance no
governo Vargas, transformando-se em manifestações públicas de apoio e homenagem à figura
do presidente.
Os espetáculos corais marcavam todos os feriados nacionais: Dia do Trabalho, Independência
do Brasil, Dia da Bandeira. Possuíam dimensões gigantescas e eram apresentados em estádios
de futebol (Vasco da Gama) ou no pátio do Ministério da Cultura. Congregavam cerca de 40
mil vozes infanto-juvenis e mil bandas de música. Do alto de uma plataforma de 15 metros,
Villa-Lobos conduzia a multidão.
fim

E a minha mãe na fita, com sede...


Déjame que me cuente
.
- ensayo sin concierto -
Gloria Cunha dedica a
Liana Arrais, mãe da
Marina, amiga da
Danifilha, minha e do
Zé, que nos apresentou.

Contar a você?!
A você que sabe disto tanto, estava por perto, falávamos muito sobre educação, antes e durante o tempo
que tivemos a ‗escolinha‘? Mas abro Helena Kolody e montes de seus haicais espocam como
FLASHES
Conhecemos, dos outros,
pálidos instantâneos.
(o mais são ignorados subterrâneos)

Resolvendo, então, que tenho mesmo que fazer e que vou caminhar com as micronarrativas de Helena,
vou lhe avisando de meus problemas com limites e (des)medidas: procuro fazer relatos completinhos, me
perco nas veredas dos linksconexões de grandes redes -da vida real e a digital- e, enredada acabo por nada
fazer ou completar;
ou isto ou é apenas preguiça transformada em uma linda desculpa pelos não-fazeres desta
JORNADA
Tão longe a jornada.
E a gente cai, de repente, 46
No abismo do nada.

Sem desculpas, me e te prometo!, vou me ater ao seu pedido: um texto para sua dissertação sobre como e
por que me tornei arte-educadora.
A música surgiu primeiro em minha vida, optei bem cedo por não ser músico; estudava piano desde os 6
anos, sonho de mamãe; detestava as aulas e a professora e resistia bravamente, não estudando nadica de
nada por anos, até que, finalmente, juntei coragem pra dizer à mamãe que os sonhos dela não eram os
meus e que eu detestava piano, detestava música, coisa de velho!

Depois de optar por não ser músico, também optei por não ser professora;
gostava de ter aulas, melhor ainda quando o professor era bom e eu não precisava olhar nem
livros, nem o caderno;
nunca fui estudiosa, mas gostava de estar nas aulas, de ouvir as coisas que não sabia tomando
sentidos, mas, em geral, os professores eram vistos pelos alunos como profissionais menores, profissionais
de segunda classe;
sempre fui uma apreciadora de boas aulas e tive muito professores ótimos, de música e no ginásio
e colégio53;

53 Era ginásio sim e não o fundamental; era colegial sim e não o médio; nomes frutos de minha época de estudante destas coisas e pronto. Nomes na educação são como os
nomes de moedas: inflacionam, perdem sentidos, e então vem alguma reforma, e os nomes mudam. Como ficamos nós, contadoras de histórias? Acredito que, no futuro, as
publicações deverão vir juntas com uma tábua de referências de medidas da época do livro. Assim teríamos o valor das moedas e sua equivalência, os nomes usados para
designar a serialização e outros usados pela educação e vai por ai. E já aviso antecipadamente evitando novos rodapés, que fiz primário e não estive no parquinho, nem no jardim
da infância.
estudava o suficiente para passar de ano, mas quando me apaixonava por alguma tarefa entrava de
cabeça nela: era dedicação total, mas sem desejos de ser a primeira aluna da classe e, menos ainda, de
estar na posição da professora.
Achava um desaforo a forma como os professores eram tratados pelos alunos e decidi desde pequena que
não seria professora!
(Leia com voz solene, grave e pausada:)
E assim, o mundo perdeu uma professora e um músico, e de gorjeta uma arte-educadora!!!
Resumindo foi isto: optei cedo por não ser nada do que me transformei: músico e professora!
Fim do desrelato!
, mas como segurar os ocasos e acasos da vida? ACASO
A inspiração
irmã do vento
sopra onde quer.

e então, na contramão do mundo, surgiu em São Caetano do Sul, o ‗cê‘ do ABC paulista, minha cidade e
da General Motors (talvez um pouco mais dela), uma escola diferente!
Uma não! duas escolas diferentes...
O "meu" ginásio, uma escola estadual, ganhou outros ares junto do prédio igualmente novo e inovador
(todo aberto e sem portas ou portões); 47
a partir de um projeto entre diretora-professores e, pasmem, alunos!! a escola mudou seu
funcionamento para salas ambientes, com muitos livros nas estantes à disposição dos alunos e laboratórios
maravilhosos conseguidos de governos europeus.
Métodos inovadores: aulas expositivas nunca mais! !!
Pesquisa, discussão, trabalho em grupo, construção de cidadanias e autonomias, apresentação de
orquestras na escola, grupo de teatro... acredite quem quiser!

Mas a repressão foi aumentando, aumentando, estudantes/ professores presos, acordo Mec-Usaid, AI-5,
grupo de teatro desmotivado pela censura da época, que proibiu até a montagem de peça infantil e, quase
Sem aviso,
o vento vira
uma página da vida.

Coisas da época, quando vistas por trás dos ombros. Mas aquela escola foi uma revolução para uma cidade
industrial em que nada acontecia e quando a distância entre ela e a capital era grande.
Coisas de 67, 68, quando a esperança ainda existia e não tinha sido totalmente soterrada pelos AI-5,
intervenção no congresso da UNE e outros que tais da direita.
Coisas que nos roubaram, como foram roubadas as Escolas vocacionais. Em São Caetano, havia uma no
mesmo prédio onde começou minha escola de música e, também ela, foi desaparecida.

Damos pouca importância às perdas que tivemos com a ditadura militar;


destas perdas que não se contam em corpos e leis escritas, destas perdas nos esquecemos, mas que
foram muitas;
vi e vivi a esperança do dia-a-dia (aquela que se concretizava em atos comuns, como aulas e
ensaios do grupos de teatro) ser minguada, exterminada.
Meus professores dessa escola, grande parte universitários que na época podiam dar aulas antes de
concluir seus cursos, eram dedicados... Não!
suspeito que era mais que isto: dar aulas era revolucionário e eles eram revolucionários;
além do conteúdo das matérias, havia outros conteúdos políticos e sociais que permeavam a
atuação deles;
mesmo os mais retrógrados tentavam dar ares mais modernos ou mais completos ao ensinado, e,
os mais revolucionários, montavam grupo de teatro que se reunia aos finais de semana, quando a vida, do
palco e da rua, era ensaiada.

Outra característica desses professores era a generosidade do ensinar. Minha irmã, dois anos mais velha e
adiantada nos estudos, fazia o clássico na mesma escola. Muitas vezes, eu acabava a minha aula e ia ver
em que aula ela estava, espiando na janelinha da porta. Os professores me viam e, algumas vezes, eu pedia
para assistir a aula. Para total desespero de minha irmã, os professores sempre deixavam, e eu ainda fazia
perguntas!
Já viram isto?
Aceitar uma criatura-aluna a mais na sala, com dois anos a menos de idade e estudos que os oficiais e
perguntadora do jeito que sou... e já era!!
algum dia vou estudar essa escola;
acho que nada do que aconteceu lá foi por acaso e sim uma intervenção pensada de alguns
universitários, ou, se foi, tive a sorte de estar onde o vento soprou... 48
E depois?
O que uma criatura de 14 anos poderia fazer para preencher o vazio de sua existência adolescente?
Procurar um novo
DESAFIO
A via bloqueada
Instiga o viajante teimoso
a abrir nova estrada.

As luzes dessa escola começaram a diminuir e se acendiam as da "minha" escola de música.

Fruto da insPiração de um prefeito que precisava de uma escola para colocar no prédio já construído, essa
escola surgiu do nada e seguia caminhos que escola nenhuma seguia, menos ainda as de música.
Não era uma faculdade, aliás, as de música mal começavam a existir.
Não era um conservatório, a preocupação não era em conservar e sim em inventar;
fazia coisas assombrosas, como mudar as turmas a cada 2 meses para que cada aluno pudesse ter
a dedicação que escolhesse e fazia isto conversando com os alunos reunindo, ouvindo, discutindo.

Menos de um ano depois de largar a professora de piano e declarar solenemente a meus pais que não
queria nada com música (coisa de velho, claro!) passei a estudar piano 6 horas por dia e música umas 12
horas: havia encontrado uma escola de música onde as coisas faziam, produziam sentidos.
Adorava minhas aulas de música, mas o mais estranho eram as criancinhas das turmas de iniciação
musical.
As criancinhas saindo sorridentes da sala de aula da Fundação das Artes me perturbava.
Por que achavam graça em algo que tinha sido tão difícil em menina pra mim?
Na dúvida perguntei pra Malinha54, minha professora de rítmica e professora das crianças, e ela me
convidou pra assistir uma aula e descobrir com meus sentidos, a resposta. Assisti uma, duas e mais outra e
voltava e voltava até que ela me sugeriu assistir sempre a mesma turma.
Nunca foi um assistir por assistir. Ela me colocou para ajudar, fazer coisas, cantar junto, tocar, falar com a
molecada e aí eu curtia mais ainda. Do alto dos meus 16 anos eu começava a entender que não era o que
se ensinava o problema, era o como, e este não precisava ser sofrido.

Da mesma forma com que eu me divertia aprendendo como eles apreendiam, eles também se divertiam
nas aulas;
mais do que ensinar música, as aulas eram pensadas para viver a música, para criar;
não atingiam a todas as crianças, mas, para mim, era um avanço incomensurável em relação às
aulas de piano que eu havia tido...

Mais generosidades: a Fundação recebia bolsas de estudos de cursos Orff e Willems e outras pedagogias
musicais mais ligadas às crianças.
E quem ia?
os professores, claro, seus assistentes, claro e...
a Glória, claro!, afinal ela está interessada no assunto.
E assim, sem nem pedir, passei a ir a oficinas e cursos de pedagogias e, quase sem perceber, passei do
extra para o oficial e acabei virando assistente das professoras de iniciação musical.
49
No meio de tanta descoberta, ressurgiu na minha vida a professora Maria Salete, coordenadora do grupo
de teatro da minha antiga escola, e me convidava para participar de um projeto: a criação de um parquinho
municipal com uma orientação pedagógica montada em Célestin Freinet!
Deus existe e me ama! É muita sorte...
Eu tinha uns 18 anos, não queria fazer universidade, porque as de música eram ligadas à musicologia, já
estava dando aulas aprendendo teoria e prática ao mesmo tempo e então aparece Salete me trazendo e
traduzindo do francês uns dossiês frenéticos de música, contando sobre a pedagogia Freinet e ....e.... me
mostrando que aquilo que fazíamos na escola de música poderia ser também feito nas salas de aulas
normais, e eu o faria!

Entende porquê eu não podia deixar de ser professora??!


Quando eu era adolescente tantas coisas me foram mostradas sobre educação, teorias, métodos, vivência e
pessoas que eram/são maravilhosas que eu tinha que gostar disto, não tive opção, não!
Mas, eram tempos difíceis, eram anos duros, anos de vigilância e repressão, e
O que vigia e reprime,
passa por baixo do pano
e salta na arena do circo
O projeto de Maria Salete Bento Cicaroni foi enterrado, nati-morto pela ditadura.
Na época, ela disse apenas que o projeto não seguiria adiante, mas estava recebendo cartas anônimas com
ameaças a seus filhos e marido se não desistisse do parquinho, se não desistisse de Freinet!

54 Maria Amália Martins.


Assustada, colocou tudo - pesquisa e projetos - em caixas no porão de sua casa e apenas comunicou aos
parceiros que a prefeitura havia desistido do projeto;
estas caixas quase foram abertas anos depois por mim, conto porque isto faz parte dessa minha
história de ser professora.

Sete anos depois, já em Campinas e percussionista da Sinfônica, estava um belo dia no City Bar
conversando com um colega da orquestra, quando apareceu uma amiga dele e perguntou se ele não estava
interessado em conhecer uma escola Freinet.
Educada que sou, fui falando: eu me interesso!
afinal estava procurando uma escola para a Dani e sonhava com as coisas que há 5 anos atrás a
Salete havia me mostrado.
Estela, a tal amiga, quase com tédio, falou: eu disse Freinet e não Piaget.
Freinet me interessa, o outro não sei quem é não!, respondi sinceramente.

E assim a Daniella, minha filha, foi parar na Curumim, uma cooperativa recém-criada de pais e
professores, muita gente ligada à Unicamp;
as reuniões entre nós que parecia uma assembléia, um grande debate político;
os pais - sim, os pais-homens iam às reuniões, coisa rara em 1980 - realmente falavam,tanto
quanto as mães e não apenas sobre seus filhos, mas sobre o ensino em si, sobre as opções pedagógicas da
escola.
50

Falavam é pouco! Brigávamos, estudávamos.

Foi aí que voltei a encontrar Freinet aproveitando o contato e a amizade com a Ruth Joffilly, que é uma
das pessoas que mais entende de Freinet no Brasil, professora, além de mãe da Moema, também aluna da
Curumim. Quando lhe contei como conheci Freinet, ela ficou curiosa sobre o material que a Salete tinha, e
fomos para Santo André, na casa da Salete, depois de um breve contato telefônico.

Chegamos lá e encontramos a minha professorinha querida, que havia mudado muito pouco, mas estava
angustiada e passou a nos contar a história verdadeira;
só então fui saber que ela havia sofrido ameaças anônimas dos CCC – comando de
caça aos comunistas – ou de outro destes grupelhos paramilitares comuns nos anos 1970
para que não abrisse a escola, cartas que falavam na ligação do Freinet com o PC francês;
ameaçavam seu marido e suas filhas;
ela encaixotou tudo o que tinha de Freinet e os planos da escola, encaixotou seu mestrado na USP
sobre Freinet e nunca mais havia mexido naquilo.

Imaginaram que iríamos formar uma escola de esquerda, começando bem da base, com criancinhas de 4
anos?
Ou então que iríamos criar e engordar criancinhas para, comunistas, comê-las com chá nas reuniões de
professores?

A repressão pode ser burra, mas é sempre perigosa. Neste dia que eu aprendi que ser professora poderia
ser algo
DIFÍCIL
Cavar na rocha o escuro
degrau de cada dia.
Sangrar, mas não ceder.

Foi assim que as coisas me aconteceram, aliás, quase caíram no meu colo...
Não decidi ser professora e menos ainda professora de música, as coisas me pegaram pelo caminho. Não
tive que construir um ideal, uma utopia na educação, ou construir um sonho.
Não! Vivi escolas boas, escolas públicas. Convivi com professores muito bons. Não tenho fé na educação,
confio com a certeza de quem viu com próprios olhos.

Paro por aqui, as palavras agora são todas suas, afinal elas são
PÁSSAROS LIBERTOS
Palavras são pássaros
Voaram!
Não nos pertencem mais.

Beijo da gloria 51

PS: Haikais de Helena Kolody hoje me dizem tudo! Encontrei um lindo para estes nossos problemas de
dons, talentos, inspiração e ensino. Não basta ter talento, mas é a relação que cada pessoa estabelece com
o seu talento é que vai dar a dimensão dele na sua vida.
DOM
Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la
4. Dilemas Profissionais

A menina que queria tocar bumbo

Campinas, lá pelos anos 80.


Eu estava na cidade fazia poucos anos e tocava percussão na orquestra local.
A Sinfônica de Campinas engatinhava. Eu gostava muito dos concertos populares que eram nos
lugares mais inusitados, uma tentativa acertada do regente de envolver diferentes segmentos da
cidade no projeto da orquestra. Campinas era a primeira prefeitura do interior a manter uma
orquestra profissional, tínhamos de convencer a todos de que ela era valiosa para toda a
população.
Palco ao ar livre montado no meio do bairro de periferia, com moradores com pouco poder
econômico e político, coisas que andam juntas.
Tocávamos!
Percussionista de orquestra sempre tem muita pausa e tempo de apreciar a platéia. Notei uma
menininha que sempre ficava de olho em mim. 52
Tocávamos, e ela me encarando, sempre.
Na seleção das músicas, algumas eram especiais para crianças, e ela vibrava e me olhava,
olhava.
Quando acabou, o maestro convidou os presentes a subirem no palco e conhecerem os músicos
de perto, e logo chega a menina com o pai, ele com uma camisa puída, quase transparente, e
bem lavada. Ela me olhava com olhos de admiração, que me faziam um bem danado, e me
perguntou se eu tocava sempre e se tocava todos os instrumentos que estavam lá, e eu crescendo
na parada.
Aí ela falou, com mais admiração ainda:
- Eu não sabia que mulher podia tocar isso!, disse olhando aquele instrumentão, o Bombo
Sinfônico, bem maior que ela
- Agora você já sabe, uma mulher pode tocar tudo o que quiser!, respondeu a feminista
de plantão aqui.
- Pai, pergunta pra ela onde é que tem a escola que vai me ensinar a tocar como ela!
- Dona, onde tem uma escola para eu matricular minha filha? ela gostou mesmo!
Meu mundo caiu. O ensino da música é um ensino caro e, naqueles idos, nesta terra de Carlos
Gomes, não existia nenhuma escola pública ou projeto que oferecesse isto gratuitamente. A
cidade tinha duas orquestras sinfônicas, além de uma grande universidade com cursos de
música inovadores, com alunos-músicos que vinham de várias cidades e estados para estudar
nela, mas não tinha nadica de nada de ensino de música para alguém iniciante ―sem grana‖.
A menina me olhava e esperava.
O pai me olhava e começou a ficar espantado quando me viu com monte de águas nos olhos.
Falar o quê?
Não tinha nada para informar, nada que ele pudesse pagar.
A cidade, pelas minhas mãos, despertava sonhos sem esperança para ela.
Esta história não tem final feliz!
Não consegui falar nada, não consegui dar nenhuma orientação ao pai, tão desorientada fiquei
eu.
Passei a pensar nesta responsabilidade que têm os artistas de serem inventores de sonhos e, anos
depois, ajudei a ―fundar‖ a Unibanda55, um dos poucos ensinos gratuitos de Campinas, mas as
coisas não mudaram muito, não se animem!
A música continua tendo um ensino caro e que dificulta ou impede o acesso à profissão por
aqueles mesmos que, em criança, são estimulados pela ação de ONGs e projetos sociais; depois
de ser e estar artistas, completam 16 anos e são expulsos do palco, viraram adultos e vão para
algum mercado de trabalho, oficial ou oficioso. 53

55 Sobre a Unibanda: “A idéia inicial surgiu em 1987 com a Banda Comunitária da Unicamp. Em 1991 após uma reestruturação a antiga banda se tornou o Projeto Unibanda: uma
banda-escola que promoveu atividades comunitárias e educação musical, contando com sede própria. Com o aprimoramento do projeto surge a Escola Livre de Música da
Unicamp (ELM-CIDDIC) que oferece um curso de formação musical a partir da prática coletiva. Hoje o curso se estrutura em quatro disciplinas: prática em grupo, teoria,
percepção e instrumento. Os instrumentos oferecidos são: flauta, oboé, clarineta, saxofone, trompa, trompete, trombone, eufônio, tuba e percussão”. Disponível em
http://elmciddic.blogspot.com/p/escola.html. Acesso em 14 de julho de 2010.
Relato de uma aula
- não é exatamente uma aula, é ensaio!, mas também é uma aula! -

O cenário é o salão de ensaios da Unibanda, um serviço prestado à comunidade pela Unicamp.


A UNIBANDA é uma escola de música - instrumentos de sopro e percussão - que tem como
obrigatoriedade a frequência de todos os alunos em um de seus agrupamentos, as bandas A, B e C.
Os atores têm de 12 a 50 anos e são cerca de quinze iniciantes em música. Esses alunos fazem parte
da Banda C desde que iniciaram seus estudos de instrumento, algo entre 1 semana a 1 ano.
Além deles, outro personagem estará neste palco: eu, esta escriba!
Sou contratada como orientadora de curso que no mundo verdadeiro significa que a FUNCAMP – uma
fundação que pertence (ou tem??) a Unicamp – me contratou para dar aulas de percussão e organizar
as atividades pedagógicas deste setor, mas por falta de profissional mais adequado, acabei por estar
também maestrina.
A aula/ensaio começa às 17:30 da quarta-feira, sem retardos!

BANDA C !!!!!! Prá dentro!


São 15 pessoas, 15 fontes sonoras falando ou tocando. Desconfio que algumas 54
fazem as duas coisas ao mesmo tempo.

G l ó óóóóóóó r I a

cadê a  chave da secretaria, preciso pegar meu


clarinete.
- Me empresta uma palheta?G l ó óóóóó r I a
- Hoje tem prova? ???
??
Hoje tem proooova???
Comoeumontoestaestante???
Não xeroquei as partituras
porque a secretaria estava fechada, e agora??
Me empresta uma palheta? Hoje tem prova?
- Posso sair mais cedo????
Cadê a chamada? Preciso assinar? Comoeumontoestaestante,
Glória???
Esqueci o caderno, me empresta uma folha?
O script que tocamos é um trabalho americano chato, voltado para as necessidades das bandas
americanas, mas que os nossos professores de sopro adoram...
Ele é extremamente chato-progressivo, ensina o ‗D‘ só depois do ‗A, B, C‘.
Tenho total liberdade para utilizar outro material, mas como não temos, nem eu e nem os outros
professores, tempo para a confecção de material didático este, que sei inadequado, acaba sendo o
sucesso da temporada!
ai, ai, nem comecei o relato e estou me desculpando!
Deixei papel e caneta na minha estante de maestrina para tentar escrever durante o ensaio e relatar
direitinho o que acontece nestes 90 minutos.
Estou semi-morta;
tive aula do professor Milton José de Almeida até meio dia,
almoçei e, às 12:30, iniciei as aulas coletivas de percussão;
depois de 5 horas de batucada emendo direto com este ensaio, sem re–tar-dos!!!!
vamos lá, dona gloria, coragem!!

BANDA C !!!!!! Vamos começar


Foi dada a partida.
UAU! Hoje a coisa está difícil! Acho que vou fazer o relato de uma aula individual onde tenho
55
mais segurança, onde sei aonde vai aportar. Além disso, como é que eu vou prestar atenção em
tudo isto e ainda lembrar de alguma coisa para escrever. Droga!
Vamos começar pela página três.
Pode procurar que tem, sim, o número. Olha direito!
Tá bom, eu mostro onde esta. Ah! O xerox comeu o número....
Da próxima vez confere se está bem feita a cópia!
Ela estava certa, não tinha número nenhum. Como eu poderia adivinhar, o original está até
nítido!
Ei, você ai do sax!!! Cadê o seu instrumento?
Oras, se está ai do seu lado monte-o de uma vez, você tem que fazer isto antes mesmo de entrar na
sala, estamos perdendo tempo, assim o ensaio terá de ir até mais tarde.
Castigo pra quem, hein, dona Glória? Me engana que eu gosto!
Ah, você esqueceu a chave da caixa do instrumento?
Não. Não tente arrombá-la que vai estragar, mas não esquece mais, tá?
É o tipo da coisa imbecil de se falar com aluno. É claro que ele não esqueceu de propósito;
principalmente ele que tem fome de tocar (apesar de não fazer a mínima idéia do que fazer
com o instrumento). Será que eu vou escrever isto no relato?
Antes de começar. Alguém tem dúvidas sobre a matéria da apostila. Hoje é provavelmente a última
aula antes da prova.
Odeio ficar chantageando... então porque tenho usado esta prova para obrigá-los a estudar.
Pouco tempo? Falta de colaboração dos professores de instrumento? Tenho vontade de mudar
tudo isto, mas ...
Compasso?
O que você não entendeu exatamente sobre isto.
Nada!
Ela não entendeu nada, nem o título da apostila...
Gente presta a atenção nesta pergunta, a dúvida dela pode ser a dúvida a sua também.
Matheus, qual é a unidade de tempo desta fórmula de compasso????
Ele não sabe, ele nunca sabe, mas não para de conversar e fica com este arzinho de quem está
entediado. Pelo menos a Mariana pergunta, ela sabe o que não sabe.
Se você não sabe preste atenção ou você vai terá problemas na prova.
Mais ameaças. Ou não é uma ameaça?
Na verdade, eu estou mais preocupada em que ele fique quieto do que auxiliá-lo na prova,
portanto, é uma ameaça!

Ficamos uma boa parte do ensaio tirando dúvidas da tal apostila. Eu resolvi ―pegar‖ a Banda C porque
nenhum outro professor quer dar aulas para iniciante.
Meu maior trabalho nesta banda é fazê-los aprender a ler música, conhecer o código.
Não temos aulas de teoria ou de percepção musical, nossa estrutura é muito precária, falta mão-de-
obra para ensinar - professores ou estagiários - e para a secretaria.
Parte dos nossos professores são alunos do departamento de música com bolsa trabalho, e todos,
estagiários e professores, são mal remunerados. 56
Parte dos alunos são filhos de funcionários da universidade ou de outras pessoas sem possibilidade
de pagar o estudo de música porque ele é um ensino bastante caro que envolve uma atenção quase
individual.
Esta 'classe', a Banda C, é, apesar do meu estresse de quarta-feira, uma turma gostosa que começa a
entrar no ritmo, no meu ritmo é claro!!!!, assim como eu começo a entrar no deles.... Começamos a nos
dar conta do jeito de cada um se expressar.
Eles percebem que eu falo ALTO mesmo e isto deixa de ser ameaçador e se torna engraçado, na
opinião deles, claro! Eu percebo que eles ficam muito excitados com o fato de tocarem e é por isto
que falam tanto e tocam o tempo todo.
Tem também no grupo umas 4 menininhas que eu tenho vontade de dar mil horas de aulas para elas de
tão simpáticas e interessadas que elas são; estes ―amores‖ fazem valer todo o estresse do dia e a
cara de tédio de alguns alunos.

Fiquei muito tentada a não fazer este relato, trocá-lo por outro mais ―bonitinho‖, mais defensável
frente ao que temos estudado, mas é a Banda C que tem me preocupando; fico incomodada com o
moto-niveladora que tenho passado na turma, com a falta de atenção para com os mais iniciantes ou
com os que têm mais dificuldades, mas não consigo enxergar soluções viáveis dentro dos meus
horários e das possibilidades que a instituição oferece.
Se houvesse outra pessoa que assumisse esta aula/ensaio eu teria passado à frente, mas não há. Os
outros professores têm também problemas de horário e salário e preferem as outras duas bandas
com alunos mais adiantados no instrumento e que já conhecem a escrita musical.
5. A academia, de volta à escola
Especialização!

As perplexidades da vida profissional levaram-me de volta à escola nos anos 90.


Comecei minha vida profissional aos 19 anos na mesma escola de música que me formou56, já
casada e grávida da Dani;
dei aulas particulares de música em casa e, em seguida, fui contratada por essa escola
como professora assistente dos cursos de iniciação musical;
depois fui professora nos cursos de adultos, responsável pela matéria Rítmica, quando
editei, por essa escola, uma apostila de leitura de ritmos chamada Rítmica.
A poluição nos afastou de São Caetano do Sul e fomos para Campinas onde se desenvolve o
restante de minha vida;
troquei o piano pela percussão e me tornei instrumentista da Orquestra Sinfônica
Municipal de Campinas;
completei meus estudos de percussão em aulas particulares com diversos professores,
mas principalmente com Luiz Almeida da Anunciação; 57
a inquietação de estudar já estava dada , mas tinha outros fazeres não adiáveis, como ser
mãe e meus trabalhos como percussionista e professora;
por muitos anos consegui apenas fazer cursos rápidos ou de férias sobre algo pontual de
música, um instrumento ou uma técnica;
a graduação, bacharelado em percussão, foi feito numa faculdade particular;
o que era abordado na faculdade, eu já havia aprendido na escola de adolescência e até
com os mesmos professores, mas precisava do título, os tempos estavam mudando, até samba se
aprende na escola...
Filha crescida!
Comecei a sentir falta de algo consistente, mais formativo, e pensei que meu lugar natural seria
com a música;
frequentei como aluna especial o Departamento de Música do Instituto de Artes da
Unicamp onde fiz algumas matérias da graduação para atualizar meus conhecimentos em
algumas áreas da música.
Devo à professora Célia Maria Castro de Almeida três convites que foram fundamentais para
minha vida:

56 Formar não no sentido de diplomar; era uma escola de artes livre, nem Conservatório, o comum da época, nem profissionalizante.
o primeiro foi para participar do Projeto Inajá II, que trabalhava com a formação de
professores leigos, como professora do módulo de Educação artística, viajando para Vila Rica,
Mato Grosso;
o segundo foi para frequentar o Laborarte, grupo de pesquisa vinculado à Faculdade de
Educação, como membro especial, porque era a única que não era aluna da universidade ,
generosidades dessa professora que foram muito importantes pra vencer o medo de entrar num
universo novo, o da Educação;
o terceiro convite da professora Célia foi para me matricular no curso de especialização
Ciência, arte e prática pedagógica, da Faculdade de Educação/Unicamp.
Estes convites foram definindo meu lugar de pesquisa na academia, do Instituto de Artes para a
Faculdade de Educação;
gracias Célia, doutora em educação e generosidades.

Trinta alunos, 10 de matemática, 10 de ciências – física, biologia e química – e 10 de artes, a


maioria trabalhando em escolas públicas. As aulas eram em duas tardes: uma para assuntos
gerais de educação com todos os alunos e outra com os grupos específicos de 10 alunos.
Alguns livros lidos no curso, como A face oculta da escola, de Mariano Fernandez Enguita, e os 58
diálogos entre nós que eles geravam me mostravam cada vez mais a sorte que eu havia tido com
minhas escolas.
O curso, na opinião da maioria dos alunos, foi um sucesso, mas nunca mais foi oferecido.

Samba da aluna doida 57

do baú
Di á r i o d e B ord o
d a t a sola r f ever ei r o d e 2 0 0 8

G a r im p o esc r i t os...
en c on t r o um d ocu m en t o or i g in a l, esc r i t o c om esf er og r á f ic a a zu l, em p ap el
b r a n c o p au t ad o ( li nh a s c or c i nz a ), c om b or d a s c or d e la r a n j a n a s la t er a i s;
é u m t ext o esc r i t o em m ea d os d o p r i m ei r o sem est r e d e 19 9 7 sem som b r a d e
r i g or g r a ma t i ca l ou ort og r á fi c o e sem nen h u ma p r et en sã o a est a r nu ma
d i sser t a ç ã o d e m est r ad o, m a s qu e, d e vá r ia s f or m a s, é o m eu r et ra t o n o in íc i o
d a vid a a c ad êm ic a , in c lu si ve c om a s c onf u sões d e c r édi t os p ela s n ova s id éi a s
qu e t en t a va m m e h a b it a r .
E le a c a b a a ssi m m esm o, sem f i m .. . a c h o qu e f u i d or mi r a b a ti da p elo vi n h o!

57 Samba do Crioulo Doido, de Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), lançada em 1968, retrata com ironia e humor, as confusões dos compositores das Escolas de Samba com
fatos históricos em suas composições para o carnaval.
Samba da aluna doida

Sujeita pós-moderna, possuidora de uma identidade histórica – não


biológica -, sem um self coerente. Minha identidade foi trans-
formada, des-focada, des-locada, des-centrada por Marx, que rejeitou
minha essência universal, por Freud, que descobre que é meu
inconsciente que produz minha identificação, por Ferdinand, que me
tira a autoria do que falo e depois por Foucault que descreveu as
amarras escolares e orquestrais que me tornaram um ―corpo dócil‖.
Marx e este monte de Fs juntaram-se aos novos movimentos sociais
do sistema cultural da Alta Modernidade, como o Feminismo e
outros com ao qual me identifico e tornou político o meu pessoal.

Desta forma a multiplicidade difusa, confusa, contraditória e/ou não


resolvida provocou em mim várias ―posições de sujeitos‖, isto é,
identidades, que mesmo antagônicas conseguiram reunir-se para ler 59
até a página 36. e com a ajuda de um copo de vinho escrever estas
bobagens que segundo Ferdinand não sou a autora, já que me
[.expresso na linguagem que me precede e que carrega ecos e atos
signifi...

Dep oi s d ei um a la p id ad a e t r a n sf orm ei r ea lm en t e n o S a mba d a a lu n a d oi d a


p a r a um t r a b a lh o a c ad êm ic o d o c u r so d e Espec i a li za ç ã o;

fim

Eu, um sujeito p ós-modern o, Marx ra dicalizou


Uso jeans com paletó de te rno , Descar tou a minh a essên cia universal.
Entrei na co ntramã o Saussure me es candalizou
E vim par ar n a Edu caçã o Considerou a minha fala a voz do so cial.
E de pois q uem chega é o Fou cault
Dentr o de uma socieda de E o meu cor po dó cil, men te e fica mal.
Situada na modernida de
Acredito na revoluçã o, mas (breque)
Embarquei na Espe cialização. Chato mesmo é o Adorn o q ue não cur te
rock' n'roll
Quando o futuro chegar me avise: a tecnologia

do baú
Pai, quando o futuro chegar me avise!

Eram os idos de 1980, no tempo em que o PC, o micro agregado que mora
conosco em casa, estava começando sua invasão;
meu pai, ledor de ficção científica e amante da ciência, tinha um cuja memória era uma
fita K-7, a tela era uma televisãozinha e o cérebro era uma caixinha pequena.
Um belo dia papai, encantado com suas descobertas feitas nos cursos de programação, me
mostrou seu novo feito: uma tela que imitava o início da série Jornada nas Estrelas, coisa de
minha extrema predileção, com aquelas estrelinhas que pareciam passar loucamente como se
estivéssemos numa nave espacial,
UAU!!!
lindo, adorei! Mas quis saber como ele tinha feito, e então ele me mostrou o cálculo do
percurso de cada pontinho, uma insanidade de trabalho, e, assim, toda minha animação pelo
emergente computador terminou e nem me interessei pelos joguinhos que tanto encantavam meus
sobrinhos;
“na boa”, virei pra papai e falei: quando o futuro chegar me avise! Até lá estou fora disto!
Agora, depois de quase 20 anos, na Unicamp, um amigo professor do departamento de Matemática
me mostrou o mouse e minha vida mudou completamente: o futuro havia chegado finalmente!
60
fim

Um dos motivos pelos quais voltei a escrever foi o desenvolvimento do computador, que trouxe
novo alento às pessoas que, como eu, têm dificuldades com canetas e lápis;
gosto de escrever desde antes de aprender qualquer letra, era algo bem valorizado em
minha família, mas sempre padeci de uma falta de coordenação motora para fazer do desenho
de minha letra algo compreendido para um número de pessoas maior do que eu e minha filha,
uma sobrevivente!
“Eu seguro minha mão no mouse, para que juntos possamos fazer,
aquilo que não posso fazer sozinha” 58

O computador me deu a possibilidade real de me comunicar por meio da escrita e ser


compreendida;
me apaixonei ao primeiro toque no mouse, mas me rendi mesmo ao conhecer o
copy/paste;
ver meu primeiro texto impresso fez cair qualquer resistência a me relacionar com as
maquininhas.

58 Adaptação de minha lavra do versinho-oração do Jongo Dito Ribeiro, de Campinas. Só troquei por no mouse o que era na sua...
Esta paixão aumentou ainda mais por trazer possibilidades incríveis para meu fazer musical:
escrever um arranjo, ouvi-lo e poder fazer modificações, enviar para outros, sem limites
geográficos precisos, ainda que seletivos, ouvir e ver as partituras de grande parte do repertório
tradicional erudito...
Tecnologia, criação e educação: descompasso e desafino entre o ensino e o fazer musical é o
título do meu primeiro trabalho de peso dentro da academia: a monografia de final da
especialização, sob orientação da professora Célia.
O título é seu resumo: a ferramenta nova passa a ser usada sem desenvolver o seu potencial de
inovação estética. Tentei fazer o mais dentro das regras da academia, embora o curso propiciasse
certas transgressões, mas a apresentação contou com a ajuda de um amigo compositor que, com
um computador, modificava o timbre de minha voz durante a apresentação (live eletronic)
segundo algumas combinações nossas, tornando os textos divertidos ou dramáticos, acentuando
algumas partes e colocando outros sons em diálogo com a apresentação.

Primeiro Mestrado

61
O mail ( é) a mensagem
1997, fim do ano e da especialização e resolvo que quero mais, faria mestrado!
Música, máquina e mestres, meu projeto de mestrado, propunha a construção de uma
ferramenta tecnológica para sanar o que, arrogantemente, eu chamava de desafino e
descompasso entre a tecnologia e a estética musical, denunciados na monografia. Coisas de
quem ainda acreditava no caminho único do progresso tecnológico ligado à opção estética única
correta, lógica derivada da monocultura do saber e do rigor do saber.

É o modo de produção de não-existências mais poderoso. Consiste na

transformação da ciência moderna e da alta cultura em critérios únicos de verdade e

de qualidade estética, respectivamente. A cumplicidade que une as ―duas culturas‖

reside no facto de ambas de arrogarem a ser, cada uma no seu campo, cânones

exclusivo de produção de conhecimento ou de criação artística. Tudo o que o cânone

não legitima ou reconhece é declarado inexistente. A não-existência assume aqui a

forma de ignorância ou de incultura. (T, 12)

Tentava entrelaçar os 3 temas para fundamentar a criação de um programa de computador para


crianças voltado à criação sonora com a opção estética da música erudita contemporânea.
Durante a especialização passei a frequentar o NIED - Núcleo de informática aplicada à
educação - a convite da pesquisadora Maria Cecília Martins, que buscava parcerias para
algumas pesquisas entre novas tecnologia e música. Ela foi outra pesquisadora generosa que me
ajudou a me aventurar neste mundo e a ver a tecnologia de maneira mais ampla.
O NIED é uma unidade especial de pesquisa da Unicamp e suas pesquisas são sobre o uso
educacional do computador e o potencial de sua expansão como ferramenta educacional.
Meu projeto foi selecionado pelo Laborarte, um dos grupos de pesquisa da Faculdade de
Educação, tendo o professor José Valente, então coordenador do NIED, como orientador.

Minha pesquisa com tecnologia e ensino de música transformou-se quando passei a dar aulas no
departamento de música do Instituto de Artes, e comecei, nesse espaço, a trabalhar com as tais
novas tecnologias como parte das minhas atividades;
mantive por um ano um site da minha matéria, com o resumo das minhas aulas de
Rítmica presenciais, informações aos alunos, fotos de todas as turmas, divulgação de eventos
artísticos;
além disso, parte das atividades eram comunicadas, entregues e corrigidas só por e-mail.
No ano seguinte utilizei o TelEduc, um ambiente de ensino à distância que estava sendo
desenvolvido no NIED, e algumas ferramentas ou programas de desenvolvimento auditivo e de
edição de partituras. 62
Mesmo com todo um entorno favorável à pesquisa sobre tecnologia e ensino de música, passei a
me envolver cada vez mais com as discussões sobre o processo educativo em si, a formação de
professores e as formas de comunicação com os alunos, obtidas com as chamadas NTIs - Novas
Tecnologias de Informáticas.
De Música, máquina e mestres, o projeto foi rebatizado de O mail (é) a mensagem, adoro
títulos!
do baú
O mail (é) a mensagem: mensagens enviadas aos alunos e suas repercussões

 introdução
A partir dos ganhos que obtive com as NTIs para meu fazer musical e pedagógico interessei-me pela forma
com que elas eram absorvidas, introduzidas aos alunos dentro da universidade. Trabalhando dentro da
Unicamp, mas não no seu ensino regular, ingenuamente pensava que todos os alunos e docentes da
universidade tinham como aliados as NTIs, afinal temos lá uma das maiores densidades de máquinas por
cabeça do país.
Em 1996, iniciando uma especialização dentro da Faculdade de Educação 59, dei-me conta de que meu
arquétipo não era real. Percebia também o quanto era difícil para o professor de qualquer nível, mas já em sala
de aula, ter que modificar, remodelar o seu ensino pela introdução acelerada dos computadores nas escolas.

59 Ciência, arte e prática pedagógica, curso de especialização de 2 anos tendo como alunos professores de matemática, física e artes.
Ao mesmo tempo ficava fascinada pelas possibilidades sonoras que as novas máquinas forneciam aos
músicos. Era possível fazer agora um exercício de contraponto e ouvi-lo sem ser o executante, sem estar
tocando, uma distância muitas vezes necessária. Fazia arranjos para meus alunos e, antes do primeiro ensaio,
sabia muito bem como iriam soar, graças ao meu PC e sua placa de som. Ao mesmo tempo, visitando
estúdios, observava que nada mais existia sem as NTIs, todo o processo de gravação, tanto para o mercado de
música popular quanto do erudito, depende das máquinas e da habilidade de quem as usa.

Como estávamos preparando nossos alunos para este admirável mundo novo? Nossos alunos serão profissionais
que vão compor a elite musical do país. O ensino de música no Brasil é caro e malfeito. Faltam mão-de-obra,
livros, verba, e, em compensação, sobra preconceito sobre nossa profissão, sobram profissionais mal-
preparados musicalmente, mas bem-produzidos na mídia, consequências diretas do péssimo ensino das artes
em toda a história escolar brasileira e do desinteresse das autoridades em melhorar esse ensino.

Minha proposta nunca foi a substituição do professor por um programa ou uma tela com um professor por
trás. Não acredito que se ensine música sem um contato pessoal, presencial, e nossa tecnologia ainda é
insipiente para fazer toda a tradução que isto requer. Mas, assim como os livros, as máquinas podem ser
ferramentas para melhorar este ensino, para a realização de exercícios de desenvolvimento auditivo, que
muitas vezes são tão mecânicos como fazer flexões, de memorização de regras de harmonia, de pesquisa e
outras mais. Meu singelo objetivo nesse primeiro momento do trabalho era ―apressar‖ o primeiro contato dos 63
alunos com as NTIs para que tivessem tempo, nos 4 anos do seu curso, para descobrir como elas poderiam
ajudá-los na sua forma de criação musical e torná-los competitivo para um mercado cada vez mais
informatizado.

Antes de enviar minha primeira mensagem, a primeira tarefa dos alunos era me mandar seus endereços
eletrônicos. Os e-mails, na ótica da minha ansiedade, demoravam a chegar, mas eu via diariamente o povo do
primeiro ano tentado ―domar‖ os PC ―a vapor‖ do nosso laboratório. Alguns tiveram uma péssima impressão
dessa tecnologia: não se pareciam com o que via em filmes nem com a que era falada pelos internautas. O
futuro ainda não havia chegado ao Instituto de Artes, e, se a comunicação do mundo dependesse da
morosidade dos nossos 486, estávamos (estamos) perdidos.
A reação dos alunos veteranos era de total alheamento, desprezo pela tarefa. Seguramente apostavam no meu
cansaço.

Para esse contato, eu me defrontava com a linguagem e me perguntava: que língua me fala? O que sempre
havia ―mediado‖ meu contato com alunos nos meus quase trinta anos de magistério era a linguagem falada, o
olho no olho, a possibilidade de, a cada segundo, reformular uma frase mal-colocada, um pensamento não-
entendido refletido no rosto do aluno. Como uma fala solta num momento trivial ou uma fala ―dura‖ num
momento crucial soaria sendo agora traduzida apenas por palavras escritas, sem som? Temia que a
impessoalidade, a tal frieza da máquina, tomasse conta da minha relação na troca de e-mails.
Ao mesmo tempo, no meu mestrado, eu me defrontava com paradigmas, metas narrativas e outras explicações
de mundo. Fascinava-me com a linguagem desvendada com volúpia por Bakhtin/Wanderley Geraldi sem me
dar conta, num primeiro momento, que era uma reflexão do que vivia na sala de aula do meu desktop.
Logo nos primeiros dias de aula, percebi que o G60 tinha muito contato com micros e era procurado por
muitos alunos para ajudá-los na tarefa inicial. Conversando, descubro que a intimidade dele era bem grande: 4
anos de Matemática Aplicada na USP, dirigida principalmente para Informática. E assim me via com o
"fantasma" dos professores que querem usar as NTI: um aluno que sabe muito mais do assunto do que o
professor.
Minha sorte-de-iniciante foi que, em nenhum momento, ele ou outro aluno teve uma posição de enfrentamento
ou disputa comigo, ao contrário, ele desempenhou um papel muito importante nessa experiência me dando
dicas e auxiliando generosamente os iniciantes. No 2º semestre, tornou-se meu monitor de informática.
É importante reafirmar que não pensava nesse trabalho como uma ―experiência - para - meu mestrado‖. Para
mim era uma tarefa auto-imposta, uma tentativa de ser coerente com tudo que havia pensado como
educadora. Um trabalho a ser feito e que naquele ―aqui e agora‖ eu era a pessoa mais capacitada a fazer. A
relutância inicial que poderia (deveria?) haver pelas minhas incompetências era abafada por alguns fatores:
não estava substituindo ninguém;
não existia alternativa alguma, era isto ou nada;
sabia aonde achar ajuda dentro da universidade;
sei improvisar. 64
De todos os fatores, o último foi a grande arma.

 Os primeiros e-mails
O estudante entra na universidade e se vê frente a um mundo novo, ele quer este mundo novo, ele quer
encontrar coisas que rompam com aquele cotidiano escolar, seu velho conhecido. Chega sedento e pronto às
novidades. Este primeiro contato com a universidade é estratégico para o professor que deseja introduzir
novas formas de ver o mundo. A abertura deste momento é única.
A tarefa inicial da Terceira Hora foi dada na primeira aula presencial e repetida na segunda, na terceira e na
quarta. Ela consistia apenas em arrumar um endereço eletrônico e me mandar um e-mail avisando assim o
endereço eletrônico com o qual eu me comunicaria. Evidentemente na tarefa já estava embutido saber usar
minimamente um micro e o programa escolhido para navegar. Não tinha quase nada a oferecer, apenas o uso
do nosso laboratório, e minha crença na solidariedade dos colegas hi-tech e no ―fogo inicial‖ do ―povo bixo‖.

O meu desvendar da ―língua-mail‖ começou nas primeiras mensagens. Uma tarefa igual, falada para 60
criaturas-bixo diferentes, pode gerar quase 60 mails diferentes. Assim, os pequenos comentários que
acompanhavam os endereços pedidos, junto com as cores, tamanhos de letras, negritos e itálicos foram alguns
dos indícios desta ―língua-mail‖. A dinâmica, o timbre e a melodia da fala-língua, elementos sonoros do signo
fala, são instintivamente substituídos por esses recursos visuais. Quem GRITA escreve em CAPS LOCK

60 Aluno-bixo micreiro do primeiro ano do Curso de Música Popular, Departamento de Música da Unicamp, 1999.
(CAIXA ALTA), a ênfase assume o negrito. As diferenças só não foram maiores pelo desconhecimento do
uso dessas possibilidades gráficas pela maior parte dos alunos. A economia e a generosidade das palavras
também são outros indícios.
Como todo primeiro contato de conhecimento, tateávamos. O que, o quanto e o como escrever eram
problemas meus e deles. Procurávamos o tom das mensagens, como acontece com qualquer novo internauta
que inicia uma troca de mails. Naturalmente isto ficava mais complexo para eles, sendo eu a professora e sabe-
se lá o que pensa/suporta/permite esta professora...
[...]
Essas modificações de linguagem não ocorriam apenas pelas minhas respostas aos e-mails, mas principalmente
pelo contato presencial nas aulas, no MU-Cantina e MU-Corredor. As matérias do Departamento de Música
têm a sigla MU e, portanto, MU-Corredor e MU-Cantina são as conversas informais de todos - professores,
alunos e funcionários - do departamento. Frequentemente são conversas bastante ricas pra mim. Elas me
servem tanto para orientar os alunos de um modo informal e cotidiano, quanto para ser orientada por eles por
meio de suas críticas, gozações e observações, que certamente não fariam dentro das paredes da sala-de-aula.
A psicologia do corpo social não se situa em nenhum lugar "interior" (na "alma" dos
indivíduos em situação de comunicação); ela é, pelo contrário, inteiramente exteriorizada: na
palavra, no gesto, no ato. Nada há nela de inexprimível, de interiorizado, tudo está na
superfície, tudo está na troca, tudo está no material, principalmente no material verbal. [...] A
psicologia do corpo social é justamente o meio ambiente inicial dos atos de fala de toda 65
espécie, e é neste elemento que se acham submersas todas as formas e aspectos da criação
ideológica ininterrupta: as conversas de corredor, as trocas de opinião no teatro e no
concerto, nas diferentes reuniões sociais, as trocas puramente fortuitas, o modo de reação
verbal face às realidades da vida e aos acontecimentos do dia a dia, o discurso interior e a
consciência autoreferente, a regulamentação social, etc. A psicologia do corpo social se
manifesta essencialmente nos mais diversos aspectos da "enunciação" sob a forma de
diferentes modos de discurso, sejam eles interiores ou exteriores.61
Críticas à professora
Os crimes contra a língua pátria foram uma constante nos meus mails. Minha escrita de e-mails é rápida,
Allegro com semifusas, e acarreta muitos erros de português que não deveriam ter acontecido. A linguagem
coloquial, direta, é boa para este tipo de comunicação, mas não devia ter erros grosseiros, tanto nos mails
particulares, individuais, quanto nos gerais. A função de um professor não deve se restringir ao seu específico
(no caso música e NTI), ela é mais ampla. Quando iniciei este trabalho pensava apenas na minha falta de
preparo tecnológico, que procurei sanar com as aulas do professor Hans e com amigos. Depois, quando fui
fazer a home-page, é que me dei conta do quanto escrevia errado, da troca de letras, da falta de acentos, enfim,
do assassinato constante da língua que estava cometendo.
Na relação tempo-tarefa do educador não é só a quantidade que importa, mas também a qualidade, coisa
sabida, mas sempre reaprendida

61 BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem, p.42.


Palavras em inglês
Existe uma facilidade muito grande em usar termos em inglês: de cara as pessoas sabem do que você esta
falando. Se falo "minha área de trabalho" isto pode significar mil coisas dentro da universidade. Música,
ensino-de-música, metodologia, matérias teóricas de música, percussão, rítmica são todas áreas de trabalho
minhas, desktop é um só, fica óbvio que estou falando de uma maquininha. Em música, os termos usados são
italianos, porque eles, os italianos, dominavam o mundo quando estes termos foram solidificados. Não
tocamos mais fraco e sim mais piano, não tocamos mais devagar, nós rallentamos. As pessoas que mais usam a
grande rede não são pessoas da academia, não participam de debates sobre o uso da língua, estão usando os
termos como eles aparecem e usam o inglês por ser mais fácil, sem ambiguidades.
Não é ―inglesar‖ o português, não estou trocando as palavras que havia em português por outras em
inglês, estou usando o nome novo para coisa nova. É evidente que muitas vezes exagerei aportuguesando uns
termos emeiar, ao invés de uma mensagem eletrônica.
Mas seria trucidada por meus alunos se dissesse:
-Sujeira no rato pode trazer problemas, dificultar seu uso, é preciso limpar o rato. [...]
fim

Na época do Cartografia II
66
Frequentemente nós, gepecquianos, contamos nos memoriais e que tais como é nosso grupo.
Na dissertação de mestrado de Inês Henrique dos Santos Vieira62 ela transcreve o depoimento
do professor Dario Fiorentini:
se não me engano, o GEPEC se formalizou em 1996[...]
a formalização é conseqüência de algo que, já há alguns anos, vinha se constituindo
(desde 1981), sobretudo pelo modo como a Corinta trabalhava com seus alunos,
futuros professores, e também como encarava a pesquisa sobre a prática escolar. [...]
a Corinta é a grande mentora de tudo isso [...] as idéias do GEPEC iniciaram com a
tese dela e com a atuação dela no curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da
Unicamp.
Vejo essa tese também como a primeira narração do GEPEC, porque relata e analisa sua prática
de trabalho com os alunos do curso de Pedagogia no período de 1981 a 1992, 12 anos;
além da reconstituição crítica desse trabalho e das análises, encontro alguns fios que
enlaçam pessoas, que vão tecer o GEPEC,
na lista de pesquisas produzidas pelos seus alunos, e que são parte de sua pesquisa,
estão nomes ligado ao GEPEC até hoje, como Adriana Varani, professora da Universidade
Federal de São Carlos, Mabel Servidone, mestre pelo GEPEC e diretora de escola pública em

62 VIEIRA, Inês Henrique dos Santos (2004). Educação continuada à margem.


Campinas, além de Guilherme do Val Toledo Prado, que, desde 2001, é o principal responsável
pela condução do GEPEC.
Fios que se entrelaçam bordando a rota do grupo, da Unicamp, caminhando contra o vento, para
dentro da escola;
na escola, o encontro com o professor, e dele para a sala-de-aula;
na sala-de-aula, o encontro com o aluno, na procura de cada aluno.
Vejo uma primeira fase do GEPEC do início até a publicação do livro Cartografia do trabalho
docente: professor(a)-pesquisador(a) organizado por Corinta M. G. Geraldi, Dario Fiorentini e
Elizabete M. A. Pereira e editado pelo Mercado das Letras em 1998.
Existem evidentemente as teses e dissertações defendidas no GEPEC durante este período e
outros textos apresentados em congressos que fazem parte desta produção, mas o livro mostra,
sem dúvida, como o grupo resolveu se apresentar publicamente, e por isto digo que o
Cartografia cristaliza esse momento do grupo.

A partir de 2001 a professora Corinta se afastou da universidade para assumir a Secretaria


Municipal de Educação do governo democrático e popular do Partido dos Trabalhadores, e o
professor Guilherme assumiu a coordenação do GEPEC, começando o que vejo como uma 67
terceira fase. Acredito que uma quarta fase pode ter se iniciado com o projeto Escola singular:
ações plurais, desenvolvido na escola Padre Francisco Silva, escola municipal de Campinas, que
contou com o envolvimento grande do grupo e que gerou e ainda gera um intercâmbio intenso
entre os profissionais da escola e o grupo de pesquisa. 63
O que tenho chamado de segunda fase do GEPEC é o tempo entre a publicação do Cartografia e
a fase que se iniciou em 2001 com a coordenação do professor Guilherme;
tempo que não tem nome definido, mas conhecido informalmente no grupo como A
época do Cartografia II, o livro que não foi escrito;
não! isto está incorreto, ele foi parcialmente escrito, quase todo, só não foi publicado..

Quando fiz o inventário para esta pesquisa, consegui grande parte dos textos escritos para o
livro, a formatação do GEPEC em várias versões, suas atas, as várias listas de seus grupos e
outros documentos oficiais que incluí no texto de qualificação, mas que considerei excessivos
para este texto final.

63 Veja mais sobre este projeto em PRADO, Guilherme do Val Toledo; SADALLA, Ana Maria Falcão de Aragão - Em busca da construção de uma escola reflexiva: relatando uma
parceria entre universidade e escola. Saber(e)Educar. Porto: ESES de Paula Frassinetti. N.º12 (2007), p.97-107 . Disponível em http://purl.net/esepf/handle/10000/20
Pesquisando este material, constatei que meu nome constava apenas na lista do livro, afinal eu
não fazia parte do GEPEC, havia entrado no mestrado por outro grupo de pesquisa, mas
participava dele e de seus evento.
O inventário deste material para este mestrado me mostrou a importância das idéias que
permearam aquele momento do grupo e se constituíram para mim em uma nova formação,
depois de anos de prática e também numa procura de como transformar meus pensamentos em
relação a tudo isto em texto.

Crônicas de um aprendizado/ Diário de Campus


Crônicas de um aprendizado é uma série de textos meus escritos para o Cartografia II.
A Linguagem tomava dimensões maiores no GEPEC e em mim graças à influência, aulas e
conversas, de Wanderley Gerald. O gosto de brincar com as palavras já estava presente na
minha vida pela poesia dos concretistas, mas neste ambiente de aprendizado que o GEPEC me
proporcionou, isto crescia e se transformava em ferramenta para pensar a relação com meus
alunos, em maior fruição de narrações, inspiração para novas reflexões e escritos.
Parte dos meus textos produzidos para o Cartografias II estão no movimento e-Boa: meu

orientador do fundo, porque já são um inicio de diálogo com Boaventura de Sousa Santos, já
68
estão à procura de suas palavras, e alguns servem de Intermezzos entre os movimentos desta
dissertação.
Nesse contexto acontece a chegada triunfal de Jorge Larrosa, as idéias e a pessoa, no grupo de
pesquisa, passando a ser uma das grandes influências nas pesquisas feitas a partir de então pelo
grupo. Assisti a três seminários seguidos , praticamente 15 dias de aulas com Larrosa,
entremeados de debates, oficiais e oficiosos, com integrantes do GEPEC e outros professores. As
idéias colocadas sobre experiência e novela de formação me marcaram profundamente e resolvi
fazer um texto relatando as aulas a partir de minhas anotações para os integrantes do grupo
que não puderam assisti-los. Chamei-o de Diário de Campus.
Por muito tempo tentei produzir um outro texto sobre novela de formação para acrescentar à
esta dissertação, mas sem sucesso. Depois de um tempo voltava ao Diário de Campus e parecia
que os outros não possuíam o frescor de descoberta deste texto.
Optei por reconfigurar o texto retirando o que não tinha uma relação mais direta com novela de
formação e a atração pela palavra. Modifiquei também a ordem do item dois já que ele é quase
uma poesia na qual dedico o texto a Jorge Larrosa.
Esse texto é também o Intermezzo II, imenso, ao movimento seguinte. A versão colorida de Diário de

Campus, sem dúvidas, é a mais bonita.

Julho de 1998
Diário de Campus
Intermezzo II

I Seminário Internacional Extensão Seminário Avançado I COLE – Congresso de Leitura - 20 a 23


Universitária 12 a 15 "Seminário sobre Leitura e Produção no
9 e 10 Ensino Superior"
"A Articulação Narrativa da Idéia
"Dificuldades de la Formación en el
de Formação" Profa. Dra. Nuria Pérez de Lara – Univ. de
Mundo Contemporáneo"
Barcelona/Esp.
Prof. Dr. Jorge Larrosa Bondía
Prof. Dr. Jorge Larrosa Bondía Profa. Dra. Corinta Geraldi (GEPEC/FE- 69
Depto. de Teoria da Educação - UNICAMP)
Depto. de Teoria da Educação -
Univ. de Barcelona/Esp Cláudia Riolfi (APGL)
Univ. de Barcelona/Esp
Valdir Heitor Barzotto (APGL; ALB)

Pró/a logo
Bildung – nesta seção tentei fazer um apanhado do que foi falado e
analisado por Jorge Larrosa nos dois seminários e completado por
pesquisa nos textos indicados e na Web. Quase tudo, portanto, não é texto
meu, mas compilações de falas.
Bildungsroman - romance de formação
3 Bildungsroman, 3 finais
Movimento em Falso: Bildungimagem
Carta para Larrosa – feita durante o COLE,
pensando nas angústias da separação do
criador e a criAção. InsPirada
Na Corinta e no útero de todos nós.
PERDER - SE A SI MESMO – e assim comecei a me
encontrar, iniciando a interpretar
P R Ó(a)L O G O

Comecei este texto pensando na Wanda, Zezé, Nana, Guilherme enfim em todos os colegas que
não puderam ir ao seminário ou a partes dele.

Partilhar o que foi proveitoso

Pro l o n g a r a sensação de c r e s c er

Pra mim foi extremamente bom este seminário. Eu estava (com)centrada


nos meus deveres de professora,
trabalhos, provas, repetições, avaliações,
e
, na ânsia de realizar tais tarefas,
não me via mais.

(
O emergencial escolar frequentemente tira de
nós, professores, o tempo do importante
70
)
Este texto começou sério tentando ser claro, lógico, racional: explicativo! mas foi se trans)formando;
alçou vôo levando consigo minha seriedade acadêmica (pouco peso, pouquinho...) e jogando do alto
as sensações que ficaram no ar, o que não são palavras, mas se transformam nelas pra só ser.

Ir para Franca foi ato fundamental para dar um basta na tarefeira e devolver a mim a professora que
pensa

que pensa
que pensa
que pensa
que
tem
a

Pretensão de dar conta do que aconteceu

Percepção de achar o que procuro

no escuro
BILDUNG - conceito de formação
Bildung defini-se por forma, imagem , cultura . 64 65

Bildung ou conceito de formação é o processo pelo qual uma pessoa ou cultura histórica
(dimensão individual ou coletiva) adquire sua própria formação, sua própria humanidade, é o
processo de como se chega a ser como se é (apropriação de sua própria história). 66
Bildung aparece na Alemanha do século XIX; seu conceito, idéia, se forma em filosofia,
educação (modelo pedagógico: educação humanística) e literatura (bildungsroman); surge junto
com o bacharelado em letras e antes da psicologia.
A idéia de Formação circula entre a história, a filosofia e a educação nesta riqueza de campos
distintos.
Caracteriza-se pela IN+DE+TERMINAÇÃO
nem terminado
nem determinado
A formação é um processo anárquico que se suporta na existência. O processo de formação
é ateleológico. 67
“Porque lleva a cada uno a lo propio, en la formación no se define anticipadamente el
resultado. La idea de formación no se entiende teleológicamente, en función de su fin,
en los términos del estado final que sería su culminación. El proceso de la formación
está pensado más bien como una aventura. Y una aventura es, justamente, un viaje
71
no planeado y no trazado anticipadamente, un viaje abierto en el que puede ocurrir
cualquier cosa, y en el que no sabe dónde se va a llegar, ni siquiera si se va a llegar a
alguna parte.”68
A formação se constitui na vida no sentido grego de "Bios", vida como algo humano.
Bildung é memória interior, não exterior (cadernos, fotos)
"O que há em mim da menina que fui?"
"O que há em nós dos gregos que fomos?"
Não é : ensino, transmissão de conhecimento;
Não é : desenvolvimento, padrão fixo, etapas;
Bildung produz singularidades espirituais, forma narrativas, relatos de emancipação, de
autoconsciência, histórias pessoais;

64 Na tradução da Bíblia, em "à sua imagem e semelhança", Bildung é imagem. As próximas notas de rodapé até o final desse movimento fazem parte do texto Diário de
Campus.
65 No sentido da subjetividade das pessoas, não da cultura exterior (Kultur=museus, teatros).

66 “Podríamos definir la bildung como un proceso temporal por el cual algo (sea un individuo, una cultura o una obra de arte) alcanza su propia forma. Su estructura básica es un
movimiento de ida y vuelta que contiene un momento de salida de sí seguido por otro momento de regreso a sí. *…+ o, dicho de otra manera, llega a ser lo que son." LARROSA,
Jorge. La Experiencia de la Lectura, p.314/308.

67 Telos: horizonte possível; busca da verdade; intenção de alcançar a verdade. Toda religião é teleológica.

68 LARROSA, Jorge. La Experiencia de la Lectura, p.271


BILDUNGSROMAN - romance de formação

BILDUNGSROMAN ou romance de formação reflete o universo masculino, branco, burguês e


alemão; o herói (homem, adolescente, classe média), em busca de um sonho (espiritual,
artístico, conhecimento)69, sai de casa (abandona o pai, o que esta programado para ele, busca
o rompimento do seu futuro previsto) 70, percorre uma caminho (uma viagem, uma travessia,
uma busca, uma experiência) e chega a seu destino transformado (outro homem). 71

Bildung produz singularidades espirituais, produz quem e não que (atributos, tipos); quem só
pode se dar conta narrativamente - novelas, filmes - formas que constroem relatos ; seus títulos
são sempre nomes próprios porque o relato é como uma forma de identidade do herói.

Recuperar a experiência, dar um “peso”; a experiência de formação tem a ver com sentidos
(o sentido que damos às coisas) e não com a verdade. O que está em jogo no Bildungsroman
é o que nos acontece, dar um sentido à experiência e o que é narrável dela não é o que
acontece, mas o que nos acontece. Não podemos aprender com a experiência dos que vieram
porque aprender é uma experiência minha, íntima, pessoal, a minha viagem. 72

"Lo esencial de ese viajen de ida e vuelta es que constituye


una auténtica experiencia. Y la experiencia no es otra cosa 72
que ese encuentro de lo mismo con otredad que lo resiste, lo
pone en quistión y lo transforma. Por eso Bildung no es una
mera anexión mecánica o apropiadora de lo otro, sino que
implica un devenir otro de lo mismo y, en el límite, una
auténtica metamorfosis".73

Diferenças entre romance de formação & romance de aventura - no primeiro, o herói muda,
se transforma; ele atravessa um mundo social, concreto, e este mundo vai adquirindo uma
configuração diferente; o mundo que o herói percorre, quando muda o olhar sobre o mundo
deste herói, também muda. No romance de formação temos uma concepção dinâmica, é o
homem em devir, o mundo é uma escola. No romance de aventura o herói não muda, já nasce
pronto, perfeito, é estático.
.
No romance picaresco o herói não é ninguém e não quer ser alguém, não tem as aspirações
burguesas como ter uma identidade.

69 "El punto de partida es siempre lo proprio, lo cotidiano, lo familiar o lo conocido que se divide y se separa de si mismo para ..." LARROSA, Jorge. La Experiencia de la Lectura,
p.315

70 "ir para o ajeno, lo extraño o lo desconocido". LARROSA, Jorge. La Experiencia de la Lectura, p. 315.

71 "y regressar después, formado o transformado, al lugar de origem."(Larrosa - idem pág. 315)
72 "suas narrativas a partir de sua própria mirada." (frase de Núria Perez de Lara proferida no COLE)

73 LARROSA, Jorge. La Experiencia de la Lectura, p.315.


3 Bildungsroman, 3 finais

Larrosa analisou modelos diferentes de 3 romances de formação. Todos se desenvolvem numa


mesma época, a da Revolução Francesa, ressoando neles os ares da liberdade dos povos e a
religiosa.

1. Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister (1796) de Johann Wolfgang von Goethe


(1749-1832) – neste romance o herói sai da casa dos pais e viaja com uma trupe de
saltimbancos; ao final retorna à casa para ser o comerciante que os pais queriam e casar
com a noiva prometida; sua experiência serviu para reafirmar o futuro à ele reservado para
o qual caminha agora com plena aceitação deste destino traçado . É a dialética entre sonho
e realidade, e aqui quem ganha é a realidade. A função da arte procurada pelo herói fica no
terreno do sonho, imprescindível, mas que deve ser abandonada a tempo ou uma profissão
útil, um futuro seguro.
Larrosa74 cita a definição de Josep Murgades75para este gênero:

"una novela que tiene como héroe a un joven inexperto, del que el autor,
con un tratamiento entre irónico y distanciado, nos describe diferentes
estadios del proceso evolutivo que sigue hasta conseguir, sino unos
objetivos claramente definidos, sí al menos una maduración plena de su 73
personalidad en consonancia con los imperativos comunitarios dé la
sociedad".

Aliás, isto me lembra um poeminha do José Paulo Paes:

BILDUNGSROMAN
antes bebia de desgosto
agora bebe por gosto

No romance de Goethe a formação conduziu à resignação.

2. Henrique de Ofterdingen (1801) de Novalis - jovem sonha com a flor azul, que também já
povoara os sonhos de seu pai quando jovem. Sai em viagem.
A formação aqui conduziu à fuga do mundo real.

3. Fragmento de Hiperión de J. CH. F. Hölderlin (1770 - 1802) - A vida humana, singular ou


em grupo, aspira a um sentido. É impossível tanto a satisfação quanto a supressão.
A formação conduziu a tensões que se manifestam e devem ser mantidas.76

74 LARROSA, Jorge (1999). Bildung y niilismo. Notas sobre Falso Movimiento de Peter Handke y Win Wenders.

75 Tradutor catalão de Wilhelm Meister, de Goethe.


histórias contidas nas experiências...
(W anderley Geraldi)
Histórias contadas nas experiências

74

Histórias cortadas nas experiências

76 "Ha de desvelarse algún día el gran misterio, del que espero la vida o la muerte" (Höelderlin)
Ao
deglutir
dar a leer... quizá,
quiçá conseguirei cortar o cordão umbilical

Retirando a cara presença do autor das palavras


Retirando a cara do autor das palavras
Retirando do autor das palavras 75
Retirando das palavras
palavras
suas nossas minhas
palavras
Colocando palavras
Colocando minhas palavras
Colocando as caras das minhas palavras
Colocando a vida nas caras das minhas palavras

quiçá conseguirei cortar o cordão umbilical i


quizá ...dar a leer,
lidodeglutido
ao
PERDER - SE A SI MESMO 77

Perder-se a si mesmo - Uma vez que se tenha encontrado a si mesmo, é


preciso saber, de tempo em tempo, perder-se - e depois reencontrar-se:
pressuposto que seja um pensador. A este, com efeito, é prejudicial
estar sempre ligado a uma pessoa. 78

Interpretar é traduzir , é dizer, entender, ser aquilo que você não é, mas de tal forma
79

que parte disto passa a ser o que você é (transformado pela experiência de ser a
boca do alheio). Eu não me aproprio de uma língua ao traduzi-la, mas me
aproprio de coisas que estão dentro dela, idéias-conceitos, que podem não
existir na minha.
Da mesma forma, ao interpretar um poema ou música eu me aproprio das
palavrasons durante o tempoviagem deste ato, para, em seguida, devolvê-la à
sua origem inaudível, calada. Quem devolve não é mais a mesma pessoa que tomou,
porque, para interpretar o que veio do outro, é necessário perder-se, ser (d)o outro,
76
fundir-se no outro, nas suas palavras, sons, imagens, estrutura .

Bilbung
tradução
experiência
interpretação
idéia do sair de si
para chegar e se encontrar;
movimento de
ida e volta
pêndulo
sair de si e regressar
perder-se para depois encontra-se
(
a experiência de traduzir o mundo nos (trans)forma?
)

77 Primeira e incompleta versão...

78 Nietzsche. Humano, demasiado Humano.

79 ..."cada literatura, al ser traducida, se refleja en el espejo de las otras literaturas para buscar ahí lo que necesariamente se le escapa de si misma.” LARROSA. Jorge, p.314.
"La traducción y la lectura aparecen así como elementos
mediadores entre lo proprio y lo ajeno […]" 80
Para interpretar o que quer que seja, são necessários pontos de interseção
entre o autor/compositor e o tradutor/intérprete. Não posso interpretar uma
música indiana tradicional sem conhecer os princípios de sua estruturação, assim
como não posso traduzir um texto indiano sem conhecer sua língua. Mas não basta
conhecer para traduzir/interpretar, é preciso encontrar o alheio e experimentá-lo
como meu, me apropriar e devolvê-lo para poder continuar existindo como eu e
não como o outro, mas já será um eu diferente.

Um professor diariamente se apropria dos conhecimentos que não foram gerados por ele e os
interpreta numa sala de aula . Quando ele passa a se interessar em aumentar seus conhecimentos em
uma área, a pesquisar mais, a produzir outras idéias, ele passa a ser um pesquisador/criador/autor e não
mais um intérprete. Os conhecimentos que um professor transmite na sala de aula não são
necessariamente conhecimentos que ele desenvolve na sua vida prática, não está modificando,
pesquisando estes conhecimentos, aprofundando o que sabe deles (e em geral nem há esta
77
necessidade). Uma professora alfabetizadora já sabe o alfabeto, ela pode aprimorar a FORMA81 de
transmitir esses conhecimentos, como um pianista aprimora sua interpretação de uma obra, mas não
necessita conhecer mais o OBJETO em si; ela não necessita ser uma poetiza ou romancista para
alfabetizar, o que ela ensina já está há muito determinado, assim como um pianista não necessita ser
um compositor para interpretar 82.
“A arte tem, decerto, uma história, mas nela se sobrepõem
infindavelmente rastros de todas as histórias.” 83
Mas todo conhecimento traz consigo esses rastros, indícios de outros saberes que o
contêm e nos quais está contido. Ao interpretar, desvelo essas pistas. A profundidade
do meu mergulho depende da qualidade e do aprimoramento do uso dos meus
equipamentos.
A interpretação requer um conjunto de conhecimentos:
 eu, meu meio de interpretar – corpo (ator), voz (cantor), instrumento (instrumentista), computador
(música eletroacústica), palco/câmera (ator);
técnicas mil para aumentar a maleabilidade desses meios, para adequá-los à sua visão do que é o
objeto-arte a ser interpretado;

80 LARROSA, Jorge. La Experiencia de la Lectura, p.316.

81 Métodos, metodologias?

82 "reconocer en lo extraño lo proprio, y hacerlo familiar, ese es el movimiento fundamental del espíritu, cuyo ser no es sino el retorno a sí mismo desde el ser del otro".
GARDDAMER, H-G. Verdad y Metodo. Apud LARROSA. Jorge. La Experiencia de la Lectura, p.319.

83 BERNARDO, João. As palavras e as pedras.


 conhecer a linguagem, sua notação e seu significado;
 conhecer o objeto para além do significado das palavras/sons é imprescindível.

Eu, glória-músico84, tenho que entender o que se encontra por trás dos sons, o que a estrutura me diz, o
que a época do compositor me conta dele. A partir do entendimento do alheio, do criador, do além da
bula/poema da partitura na qual ele se expressou dou forma à criatura-música ,que é assim ouvida como
produto/filha de nós dois para ao final dos sons, morrer. Uma partitura gera infinitas músicas no encontro
de cada momento de interpretação numa fecundidade sem limites, numa eterna vida-fênix..

Eu, glória-professora, tenho que entender que se encontra por trás do conhecimento que
ensino, mas não do criador85 dos conhecimentos, o inventor do 2+2. Aí reside uma grande
diferença entre o intérprete de sons/palavras e o intérprete professor. O alheio que
tenho que entender agora é aquele pra quem falo e não aquele que disse. A partir do
entendimento deste alheio, de sua forma de falar, sentar, suas roupas, reclamações, gestos
de sua expressão dou forma à aula, que nasce assim, como produto/filha de nós dois, deste
encontro, para ao final morrer (a próxima aula do mesmo assunto será uma aula diferente,
porque cambiou aquele pra quem falo). Ensinar gera infinitos saberes quando é o encontro 78
entre duas pessoas trocando o que sabem e não a restrita informação sobre o valor
quantitativo de 2+2. e a platéia, essa outra não conta?86

Sim, a platéia conta no momento da interpretação. Ela pode mudar a potência da


minha interpretação, mas não o sentido, este já esta dado a priori. O que esta platéia
vai sentir/entender/perceber é incontrolável pelo artista, compositor ou intérprete.
Nenhuma obra artística é artística por sua própria natureza, pela forma que foi
feita ou por sua estrutura ou até mesmo tempo ideal de seu criador. Para haver
arte é preciso haver quem a olhe com olhar estético, que a transforme de objeto-
coisa em objeto-arte. 87

Um objeto dos kamaiurá, um cesto ou máscara, converte-se em obra de arte pelos olhos de quem vê,
não de quem o fez. Uma sinfonia de Mozart pode ser barulho, ruído incômodo para algumas orelhas.

84 Em Pindorama masculina sou mulher-músico, sim senhor.

85 Descobridor, constatador...qual o termo correto?

86 Idéia a ser desenvolvida, mas...

87 BERNARDO, João. As palavras e as pedras.


A arte não é uma ruína, um despojo, um objeto que possa ter validade por
si. Enquanto arte, ela só existe se for investida desse significado por
aqueles que a olham, ou a escutam.88

Isto independe dos artistas envolvidos, esta é a variável que nos escapa. Alguns
compositores do início do século sonharam a possibilidade de fazer sua música sem o
―prisma deformante‖89 do intérprete. A música para tape solo hoje é usual, mas ela não
diminui o prisma deformante do ouvinte...
Da mesma forma que o que cada pessoa vê numa obra plástica ou num livro
sem tradução, onde a interpretação é direta, sem o intermediário-intérprete-
tradutor não é a mesma que o outro vê/lê, porque ao vermos nos vemos nela,
com o sei-lá-o-que de cada um.90

e o autor/cientista/produtor do conhecimento não deve ser considerado?


Na tradução de um poema, o essencial não é a reconstituição da mensagem,
mas a reconstituição do sistema de signo em que está incorporada a
mensagem, da informação estética, não da informação propriamente
semântica. Por isso sustenta Walter Benjamin que a má tradução (de uma
79
obra verbal, entenda-se) caracteriza-se por ser a simples transmissão da
mensagem original, ou seja: a transmissão inexata de um conteúdo
inessencial.91

Se tal autor viveu de acordo com seus pensamentos ou não, isto não modifica suas palavras, e são estas
palavras e o conhecimento que elas (palavras, sons) transportam que vão aparecer na página do leitor.

O ÚLTIMO HETERÔNIMO

o poema é o autor do poeta

(José Paulo Paes)

88 Idem.

89 Várèse, compositor francês, ansiava pela música eletrônica para que sua idéia musical não sofresse os desvios humanos dos intérpretes, os “prismas deformantes”.

90 Várèse, de novo!

91 CAMPOS, Haroldo de. A arte no horizonte do provável, p.100.


E pra se Achar?

Isto tudo ainda está muito confuso na minha cabeça. Não quero dizer que o professor que
busca mais conhecimentos não deveria fazer isto, ou que o intérprete não deva procurar uma
empatia com a platéia. Devem, é evidente. Conhecimentos e saberes podem ser tomados em
excesso, nosso organismo em geral ejeta o supérfluo, mas procuro o que é mais essencial
nestes fazeres de múltiplos intérpretes.
As metáforas com tradução me parecem um bom caminho. Interpretar –
conhecimentos, sons ou imagens – é traduzir, e traduzir é mais do que mudar a
língua no qual um escrito foi feito. É um transporte de cultura.

LISBOA: AVENTURAS
Palavras de uma mesma língua
tomei um expresso e tão distintas para mesmos
cheguei de foguete gestos.
subi num bonde
desci de um elétrico 80
pedi cafezinho
servira-me uma bica
quis comprar meias traduzo ao dar uma aula,
só vendiam peúgas traduzo quando toco uma
fui dar à descarga obra,
disparei um autoclisma
mas o que é
gritei ― ó cara!‖
o igual e
responderam-me ― ó pá!‖
o diferente
positivamente nestes gestos de mesma
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá palavra ?

(José Paulo Paes)

O ―perder-se de si‖ me parece uma caminho interessante neste eterno retorno do


traduzir o que quer que seja, mas e os caminhos do encontro? Me sinto como uma
Glória Meisnter Handkeriana que passou todo um tempo procurando e tem vontade
agora de ―roubar‖ leminski e dizer:
tudo dito,
nada feito,
fito e deito
E pra acabar...

Mas como este texto não tem final, ele é início, termino brincando de roçar
minha língua na Língua do Caetano e de Luís de Camões e de todos nós
que gostamos de ser e de estar. Brinco com a idéia de poder dançar com
livros, como escreve Nietzsche, filosofando num acertado alemão,
tra(du)zido por Larrosa.

Livrar-se dos laços


, esses abraços,
estar ciente:
o que ata
mata
não só prende 81

estar pronta
para os textos que dancem
....
que me façam dançar

(do passo aprendido


o gesto ensinado)

― não será o mesmo gesto


mas tão intenso quanto‖92

:
interpretar

92 Fala de Adilson Nascimento durante o COLE.


3º Movimento: e-Boa, meu orientador do fundo

1. Apresentação
O presente capítulo sumaria a reflexão teórica, epistemológica e sensorial a que me conduziu um
encantado durante um projecto de investigação com o título original de “Gestando sonhos”, e que poderia
ter o subtítulo “A reinvenção do encantamento educacional", por mim recentemente realizado. Este
projecto propôs-se a estudar as gestualidades entre educação e música: coreografias e improvisos.

do baú
Projeto de mestrado 2006 /apresentação
Coreografias: gesto preparado, pensado, analisado, discutido, consensuado e perpetuado;
escritos oficiais, currículos e programas; memória escrita e revisada.
(nos espaços do entre, nos meandros da macroestrutura, encontro improvisos)
Improviso: gesto-espaço da ousadia, da curiosa e rápida reflexão, instantâneos para dar asas
à pedra do cotidiano;[...] gestos para o além do determinado, pequenos ou grandes,
singularidades de professores. 83
A gestualidade entre música e educação é um entrelaçar de finos fios de dois mundos que se
forma e transforma pela destreza de quem os entrelaça e escolhe o fio que trança.
(de que material são feitos meus fios, que música levo para a escola?
aquela que é arte, com seus saberes e técnicas específicas e os significados
subjetivos que a ela se dá?
aquela que é prática cultural, com toda carga histórica e temporal e identidades
transpiradas que nela se dá?
aquela que é solista ou a que procura parceria?)

fim

Gestos que formam alternativas à educação neoliberal produzidas em territórios variados, que
ampliam o conceito de escola para o de espaço onde ocorre a educação e o de sala de aula para o
espaço do professor;
o conceito de professor é ampliado para além daquele que tem um diploma, carreira ou
outros atestados: professor é o ser que ensina, que tem esta função reconhecida pela outra parte
do binômio, o aluno, numa relação dialógica, consciente ou não;
gestados por professores-intérpretes que me levam para novos/velhos palcos,
geograficamente próximos aos movimentos sociais e ongs, mas que florescem também nas
margens das instituições de ensino, produzindo um a outra qualidade de educação, contraponto
à educação da globalização neoliberal, tecnicista, do capitalismo global.
Percorria sem notar esses palcos quando, em 2008, fui subitamente presenteada com um
orientador do fundo, um ser digital que passou a fazer grandes viagens comigo: e-Boa.

Quem é ele?
e de eletrônico;
parente do e-mail, o Boaventura de Sousa Santos que vem pela Internet, que tem vida
digital, não necessariamente real;
e de encantado.
Sua fala é formada das palavras de Boaventura de Sousa Santos, que habitam o ―aqui agora‖

do mundo virtual; o ―tempo digital‖ torna todas as palavras contemporâneas, não importando
qual seja sua aparição no ―outro mundo‖, dito real, ou sua origem – livros inteiros, capítulos,
artigos, entrevistas, cartas, e-mails, poesia ou contos - antes de serem postadas oficialmente ou
oficiosamente na Internet;
algumas palavras formam escritos ou falas do senhor doutor, outras do cidadão, outras
do poeta, muitas faces, todas militantes.
as palavras, postadas na rede até 31 de dezembro de 2008 e encontradas por mim na
grande rede, estão em entrevistas feitas neste século, artigos de revista, capítulos de livros, 84
palestras, textos de suas polêmicas e seus todos os escritos vadios, poemas e contos.
Escritos tão vadios quanto o fado vadio ..."o equivalente ao samba de morro brasileiro [...] O fado
vadio é cantado nas tascas, botecos despretensiosos que servem cerveja gelada e comidinha com
preços também no diminutivo. E quem solta a voz por aqui? Advogados, cozinheiras, lixeiros,
empresários, arquitetas... até mesmo cantores profissionais, quando estão de folga"93;
e-Boa, habitante de Redópolis, nascido na Ilha Desconhecida94 ou na Ibéria, a que se
desloca pelo Atlântico como uma Jangada de Pedra em busca do sul e de si mesma, se é que
ambas são duas.
e-Boa é o heterônimo que soma todas as palavras disponibilizadas na Internet atribuídas
a Boaventura de Sousa Santos, com sua aprovação ou à sua revelia, costuradas e bordadas por
mim, desta que já me sabem mais de uma.
Perguntei a e-Boa se ele era fruto desta mania tão portuguesa de ter heterônimos, e ele insinuou

que, na verdade, o conhecido doutor talvez seja um de seus heterônimos, junto com o King, o

Boaventura de Souza Santos e sua face poeta, que assina apenas Boaventura de Sousa para

não misturar poesia com seu Santos.

93 SCHIVARTCHE, Fabio. Lisboa sacia ávidos de boa música e comida.

94 SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida.


2. Formatando e-Boa

Do encontro

do baú
Projeto de Mestrado apresentado em 2006

Na procura de gestos encontro palavras


escritos, prosa e poesia;
memórias contidas em palavras;
memórias transformadas em palavras que são.
fim

As narrativas, minhas ou de outros professores, apareciam em vários momentos da minha vida


acadêmica, em citações para alguns trabalhos e, enquanto formatava o projeto para este
mestrado, já tinha me encontrado com as histórias envoltas em silêncios do GEPEC do final do
século XX.
85
do baú
Crônicas de um aprendizado, 1998/apresentação

O que somos nós, professoras, quando nos encontramos, senão contadoras de histórias?
histórias de compreensões, de conquistas, de aprendizados
histórias de perdas, de feridas, de incapacidades, de silêncios,
prenhes de significados, que não precisam de mais explicações já que todas nós
parimos gêmeos múltiplos e únicos deste fazer que é igual sendo sempre diferente:
[...]
contamos
e, ao contar, compartilhamos a aglomerada solidão da sala de aula.

fim

O milagre da multiplicação das histórias, ou de meus olhares para elas, aumentou quando
passei a fazer as catalogações do inventário da dissertação; encontro pequenas história escritas
nas trocas de e-mails com alunos do departamento de música, outras novas-velhas histórias do
GEPEC contidas nas anotações e nos trabalhos acadêmicos, que foram reforçando o que já estava
nos objetivo da pesquisa proposta, contar:
do baú
Projeto de Mestrado apresentado em 2006
Sem verdades e totalidades
[...] sem pretender comparar [...] quero encontrar várias melhores na fala de professores e
alunos, que, como eu, "movem-se constantemente nesta tensão entre a produção e a
imposição de uma verdade única e o surgimento de múltiplas verdades.‖ 95

fim

Em 2008 as histórias começaram a aparecer em novos lugares, não só no baú; elas chegavam
também pela Internet, vindas do Grupo de Terça do GEPEC, com a série de escritos Confissões:
a primeira indisciplina a gente jamais esquece... e depois com as Pipocas pedagógicas: crônicas
da hora!.
Durante o ano, foram mais de 70 histórias escritas por 25 professores.
Mas como trabalhar com essas histórias?
elas me perseguiam, mas não sabia como contar o que elas me contavam.
Em 2008, o grupo de pós-graduandos do GEPEC, participou de uma discussão intitulada
Ciências, que bicho é este? que, entre outros os autores, estudou o pensamento de Boaventura de 86
Sousa Santos. Para a discussão, reli Um Discurso sobre a ciência e comecei a notar que
frequentemente esse autor aparecia nas minhas pesquisas entrópicas pela rede, eu pesquisava
um assunto e, de repente, lá estavam o assunto e ele.
O golpe fatal veio quando postaram o texto Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das

emergências na lista do grupo, como subsídio à discussão;


me apaixonei na hora! releio e releio e ainda não sei o que me fez ficar com tanta
obsessão por esse texto;
aproveito e confesso que comecei este 3º Movimento parodiando o início dele, e, por isto,
com a ortografia de sotaque lusitano: pura obsessão!96
Eu não havia entendido 20% do que estava nele, mas suas idéias eram muito instigantes, mesmo
incompreendidas no todo, como as três conclusões colocadas logo no início
[...] a experiência social em todo mundo é muito mais ampla e variada do que o que a
tradição científica ou filosófica conhece e considera importante. [...] esta riqueza

95 LARROSA, Jorge (1998). Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas, p.205.


96 Introdução original do texto: “O presente capítulo sumaria a reflexão teórica e epistemológica a que me conduziu um projecto de investigação com o título «A reinvenção da
emancipação social» por mim recentemente dirigido. Este projecto propos-se estudar as alternativas globalização neoliberal e ao capitalismo global produzidas pelos
movimentos sociais e pelas organizações não governamentais na sua luta contra a exclusão e a discriminação em diferentes domínios sociais e em diferentes países. O principal
objectivo do projecto foi determinar em que medida a globalização alternativa está a ser produzida a partir de baixo e quais são as suas possibilidades e limites.” (T, 1)
social está a ser desperdiçada. É deste desperdício que se nutrem as idéias que
proclamam que não há alternativa, que a história chegou ao fim e outras semelhantes.
[...] de pouco serve recorrer à ciência social [...] esta ciência é responsável por
esconder ou desacreditar as alternativas. Para combater o desperdício da
experiência, para tornar visíveis as iniciativas e os movimentos alternativos e para lhes
dar credibilidade, de pouco serve recorrer à ciência social tal como a conhecemos. [...]
Para combater o desperdício da experiência social, não basta propor um outro tipo de
ciência social. Mais do que isso, é necessário propor um modelo diferente de
racionalidade [...] que designo como razão cosmopolita. Procuro fundar três
procedimentos sociológicos nesta razão cosmopolita: a sociologia das ausências, a
sociologia das emergências e o trabalho de tradução. (T, 2-3)

Em seguida Boaventura faz a crítica da razão indolente, que contrai o presente, que rouba
experiências, escolhe como verdades sua realidade e seu tempo, silenciando ativamente outras
alternativas, jogando esperanças a um futuro que certamente virá e que tudo pode, é imenso e
certo e, então, não precisa ser cuidado, acontecerá!
A indolência da razão criticada neste ensaio ocorre em quatro formas diferentes: a 87
razão impotente, aquela que não se exerce porque pensa que nada pode fazer contra
uma necessidade concebida como exterior a ela própria; a razão arrogante, que não
sente necessidade de exercer-se porque se imagina incondicionalmente livre e, por
conseguinte, livre da necessidade de demonstrar a sua própria liberdade; a razão
metonímica, que se reivindica como a única forma de racionalidade e, por conseguinte,
não se aplica a descobrir outros tipos de racionalidade ou, se o faz, fá-lo apenas para
as tornar em matéria-prima;97 e a razão proléptica, que não se aplica a pensar o futuro,
porque julga que sabe tudo a respeito dele e o concebe como uma superação linear,
automática e infinita do presente. 98 (T,4)

A produção social destas ausências Este presente apenas parece pequeno porque parte dele

resulta na subtracção do mundo e na nos foi roubada;


ele contém, para além da realidade oficial, experiências
contracção do presente e, portanto,
silenciadas, que parecem inexistente, mas ... "o que não
no desperdício da experiência.(T,15)
existe é, na verdade, activamente produzido como não

existente, isto é, como uma alternativa não-credível ao que existe." (T, 11-12)

97 Rodapé do texto citado: “Uso o conceito de metonímia, uma figura do discurso aparentada com a sinédoque, para significar a parte pelo todo.”
98 Rodapé do texto citado: “Uso o conceito de prolepse, uma técnica narrativa frequente, para significar o conhecimento do futuro no presente.”
Expandir o presente e contrair o futuro.
Acontecimento, fruição de experiências ao nos deixar tocar pelo cotidiano, como canta o poeta
no Canto do povo de algum lugar, em contraponto ao tedioso Cotidiano de outro poeta querido.

Todo dia ela faz


Tudo sempre igual Todo dia ela diz
Me sacode Que é pr'eu me cuidar
Às seis horas da manhã E essas coisas que diz Todo dia eu só penso
Me sorri um sorriso pontual Toda mulher Em poder parar
E me beija com a boca Diz que está me esperando Meio-dia eu só penso
De hortelã Pro jantar Em dizer não
E me beija com a boca Depois penso na vida
De café... Pra levar
E me calo com a boca
A terra cora E a gente chora De feijão
Fim da tarde Porque finda tarde
Seis da tarde...
O sol de todo dia Quando a noite Como era de se esperar
Ela pega
E a gente canta A lua mansa E me espera no portão
Diz que está muito louca
O sol levanta (Caetano Veloso) E a gente dança Pra beijar
E me beija com a boca
88
Todo dia Venerando a noite
De paixão...
dilatação do presente
Toda noite ela diz
Todo dia ela faz Pr'eu não me afastar ocorre pela expansão
Tudo sempre igual Meia-noite
Me sacode Ela jura eterno amor do que é considerado
Às seis horas da manhã E me aperta pr'eu quase
contemporâneo, pelo
sufocar
Me sorri um sorriso pontual E me morde com a boca achatamento do tempo
E me beija com a boca De pavor....
De hortelã... (Chico Buarque) presente de modo a que,

tendencialmente, todas

as experiências e
Expandir o presente e contrair o futuro, ―criar o espaço-tempo
práticas que ocorrem
necessário para conhecer e valorizar a inesgotável experiência
simultaneamente possam
social que está em curso no mundo de hoje. " [T,3) e,
ser consideradas
basicamente, foi isto que me aconteceu;
e-Boa foi criando o espaço-tempo virtual necessário contemporâneas, ainda
para me mostrar o que ele havia escrito naquele texto, gentilezas que cada uma à sua
de autor, ou preocupações com sabe-se lá que loa ou toada uma
maneira. (T, 15)
batuqueira pesquisadora poderia tirar a partir de suas idéias...
Dos olhares nos silêncios

Algumas das idéias colocadas naquele texto me levaram de volta para debates iniciados nos
estudos sobre o silêncio, em 1998;
o texto Polifonia do silêncio, Intermezzo V desta dissertação, faz parte dos meus
escritos desenvolvidos no diálogo com os integrantes de um dos subgrupos do GEPEC criados
em torno da idéia do projeto de um segundo livro do grupo, chamado oficiosamente de
Cartografia II.
esse subgrupo, liderado pela professora Roseli Cação, nasceu da vontade dos integrantes
de preencher os silêncios com nossas vozes, nossos gritos, nossos sussurros e nossos uivos;
o subgrupo ganhou o nome desse escrito que nasceu a partir do e-mail enviado para
uma colega do GEPEC no qual eu contava os acontecidos da reunião a que ela faltara:

do baú
Crônicas de um aprendizado, 1998/apresentação

[...] havíamos falado dos silêncios de professoras e em outros silêncios da escola;


silêncio como revelação, não necessita ser dito; 89
silêncio como opressão, que não pode ser dito.
Lembramos que temos que escrever os textos, vai haver a reunião geral dos grupos,
a primeira amostragem dos escritos...
que escritos? do que vamos falar?
tínhamos do que falar!!!
as coisas saíram bem fáceis, como se estivéssemos pensando nisto todo o tempo em
que falávamos e contávamos nossos causos
¿e não estaríamos sempre pensando nisto?

questionávamos com nossos causos a formação teleguiada, disfarçada de continuada,


pelas secretarias de educação,
os sentidos da sala de aula - que já sabíamos não pertencerem apenas a nós,
professoras;
havíamos, todo o tempo, falado da polifonia dos singulares na construção de uma
produção plural, tanto para nosso fazer de mestras quanto o de discípulas;
caleidoscópios e tangrans do cotidiano: no palco da vida, texto não é tese, são as
vozes ouvidas, e ouvíamos;
do ouviolhar ao escrever: nosso caminho.

fim
Por que escrever?
por que mudar o olhar, por que procurar desfocar e viajar com o olhar?
para ver mais, ver o que se ocultava de um olhar sem movimento;
experiências presentes opacas;
experiências silenciadas;
para ampliar o presente que é tão rápido, fugaz, quase insignificante frente à grandeza
passada - no meu tempo.... antigamente... naquele tempo que era diferente e me dá saudades.... -
e à grandeza futura que chegará, afinal o futuro a Deus pertence!
A versão abreviada do mundo foi tornada possível por uma concepção do tempo
presente que o reduz a um instante fugaz entre o que já não é o que ainda não é. Com
isto, o que é considerado contemporâneo é uma parte extremamente reduzida do
simultâneo. (T, 10)

Não-existências provocando silenciamentos;


provocadas por silenciamentos.
Silêncios obtidos pela arrogância dos que determinam a sua realidade como a única realidade,
seu local como nosso global, como o todo, a sua totalidade como a única existente. Ao contrário
do que querem nos fazer engolir que

o todo é menos e não mais do que o conjunto das partes. Na verdade, o todo é uma
das partes transformada em termo de referência para as demais. É por isso que todas
as dicotomias [...] contêm uma hierarquia: cultura científica/cultura literária; 90
conhecimento científico/conhecimento tradicional; homem/mulher; cultura/natureza;
civilizado/primitivo; capital/trabalho; branco/negro; Norte/Sul; Ocidente/
Oriente; e assim por diante. (T, 7)

Silêncios como os relatados pela gepecquiana Adriana Dickel99 na sua tese, defendida em 2001,
sobre sua escola, onde passou "três anos, de 1981 a 1984, como 'um estranho no ninho', sem coragem de
romper o silêncio e o anonimato. [...] Não esqueço o dia em que pedi licença para 'mim' ir ao banheiro e a
professora, cuja voz ressoava sozinha no ar, disse-me: 'mim' não vai ao banheiro, eu vou. [...] O meu silêncio
estava, no entanto, repleto de sentidos. Carreguei por muito tempo a impressão de que eu estava errada sendo
como era, vivendo nas condições em que vivia, falando como falava."
Não há uma maneira única ou unívoca de não existir, porque são vários as lógicas e os
processos através dos quais a razão metonímica produz a não-existência do que não
cabe na sua totalidade e no seu tempo linear. Há produção de não-existência sempre
que uma dada entidade é desqualificada e tornada invisível, ininteligível ou descartável
de um modo irreversível. O que une as diferentes lógicas de produção de não-
existência é serem todas elas manifestações da mesma monocultura raciona. Distingo
cinco lógicas ou modos de produção da não-existência.

99 DICKEL, Adriana (2001). Limites e possibilidades do trabalho docente mediado pela pesquisa: aspectos sobre a formação da professora-pesquisadora.
A primeira lógica deriva da monocultura do saber e do rigor do saber. É o modo de
produção de não-existência mais poderoso. Consiste na transformação da ciência
moderna e da alta cultura em critérios únicos de verdade e de qualidade estética,
respectivamente. (T, 12)

Todas as reflexões e escritos desta época também estão encharcadas dos debates que a aula da
Corinta sobre o OLHAR, havia provocado desde o semestre anterior e nos acompanhavam pela
academia e aumentavam com a presença de outros do grupo. Escrever começou a ser uma coisa
feita com muita alegria.

do baú
Crônicas de um aprendizado/apresentação

Esta alegria estava permeada todo o tempo pela ressonância percebida


recebida a partir do contato com o grupo,
contar para o grupo;
os textos se transformavam a partir destas várias vozes;[...] 91
Meu início neste grupo foi com as aulas de terça da Corinta em 1998, dentro de uma
matéria na pós-graduação, e depois foi continuando até a formação de sub-grupos,
em 1999, para pensescrever este livro;
quando pensava no que iria escrever - alguma coisa mais séria e com vírgulas no
lugar que mandam - não conseguia começar, percebi nos olhos e falas dos outros que
eram estes os meus textos,
mas como justificá-los?
como eles se enquadrariam no contexto do livro?
Oras, o Gepec trabalha com formação continuada de professores e, afinal, do que eu
falava?
de nós e dos nossos olhares;
pensava nos meus textos como crônicas poéticas de um aprendizado, do meu/nosso
aprendizado dentro deste grupo e, aí, fez sentido!

O primeiro movimento desta viagem foi mover o olhar; estranhamos nossos olhares
olhando pinturas em 3D e textos da Marilena Chauí e outros;
pra poder brincar mais com as palavras, passei a conversar com o Aurélião, meu
dicionário eletrônico predileto, e percebi que o verbete OLHAR era pura poesia e,
então esparramei as palavras do verbete pelo papel para olhar o olhar com outros
olhares.

fim
92

Os escritos de professores - narrativas, cartas e outras - são armas de resistência à não existência
escolhidas pelo GEPEC desde seu início;
suas teses e dissertações são narrativas documentadas de experiências educacionais nas
quais se dá voz a vários parceiros desse processo;
são traduções dos fazeres do ensinar, fazeres que nunca são totalmente técnicos, que
nunca terão existência em estatística e gráficos, porque não têm os mesmos pesos, taram
constantemente as balanças;
para existirem, necessitam ser palavras, necessitam ser narrados, relatados, e isto me
leva, de novo, ao projeto enviado no qual me comprometo a soltar em palavras as
minhas/nossas histórias
do baú
Projeto de Mestrado apresentado em 2006

narro acontecimentos e mostro indícios dos horizontes de possibilidades que me foram


possíveis viver e se tornaram minhas experiências porque me tocaram.
narro porque, desveladas no contar, soltam seus segredos únicos no ressoar das várias vozes,
várias verdades que, como
Luzes inumeráveis
põem ressonâncias dançantes
na sombra de um gesto.
( Variações, Helena Kolody)

fim

As ressonâncias na nossa vida não seguem a linearidade causal, elas não são como uma bola
de sinuca, tocada por um taco, e seguindo na direção dada por este. [...] A linearidade é
caracterizada por um trajeto não só compreensível, como previsível entre uma causa e um
efeito. A ressonância amplia essa compreensão, ao fazer de um estímulo qualquer a base de
um leque, que se abre em muitas direções, muitas delas incomuns, imprevisíveis ou absurdas.
93
[...] Uma ressonância é uma abertura: a falas, olhares, silêncios; [...] abrir naquilo que viu,
ouviu e sentiu, aquilo que teria sido, aquelas falas, olhares e silêncios que fazem da fala dita,
mais e diferente do que ela soou, dos olhares, torceduras e esgueios, penetrações e desvios,
dos silêncios, silêncios. Há muitos silêncios ao mesmo tempo. 100

Das histórias nos silêncios

As histórias à procura de categorias encontravam ali um parceiro para conversar; a ressonância


das palavras de Boaventura invadia minhas pesquisas, minhas histórias e até os ensaios dos

grupos de música; comecei a encontrar e-Boa em todos os lugares, porque ele estava, aparecia,

em todo lugar.
Conversava cada vez mais com este ser, o terceiro lado deste rio de diálogo entre mim e as
histórias, e passei a relacionar o nome do sociólogo em tudo o que eu pesquisava, e, solícito, ele
pulava da minha tela, criando pontes, links, conexões entre as histórias e alguns conceitos/
categorias que ele apresentava.

100 RENOÑES, Albor Vives (2004). O imaginário grupal: mitos, violência e saber no Teatro de Criação, p. 50.
Comecei a reler as minhas narrativas e as de integrantes do GEPEC como um cancioneiro de
pedagogias das ausências. Ausências contidas nos silêncios presentes da produção acadêmica de
professores que ousavam escrever sobre suas práticas, relatos de um Gepec que não se narrou,
que ficou sem registro para não ferir suscetibilidades acadêmicas.

Silêncios e ausências de professores contados na tese de Maria Emilia, seus e de outros:


Ainda hoje indago-me: Que vozes povoaram o seu silêncio, Roberto?[...]. A recusa
desse professor pode ser compreendida como mecanismo de ocultamento daquilo
que não pode, nem deve ser dito. 101
Em seus caramujos,
os tristes sonham silêncios.
Que ausência os habita?
(Os tristes, Helena Kolodi)
Silêncios de palavras plenas de sentido de professores sobreviventes contidos na tese da Abigail
Malavasi102, quando narra que
naquelas situações-limites vivíamos na deriva, nos interstícios, na sombra necessária
para a sobrevivência material e espiritual. Desde cedo havíamos aprendido que o
94
grupo, o encontro com pessoas era proibido e perigoso, porém produzíamos
sentidos, e nos silêncios havia uma multidão de vozes significando, produzindo
sentidos que mesmo não revelados estavam lá marcando os enunciados não ditos. As
palavras medidas e muitas envoltas em silêncio atravessavam e se estendiam para
além das palavras, gerando imenso limiar de significação. E como não havia
visibilidade do silêncio (nem nós e nem nossos alunos éramos percebidos nas classes
de madeira), ele, o ―silêncio‖, estava fora do controle institucional e, como um sopro,
percorria uma infindável trama de palavras não ditas, não escutadas, porém plenas de
sentidos.

Silêncios dos poetas, como os silêncios de Oswaldo Montenegro encerrando a tese de Adriana
Varini 103

Não me tape os ouvidos e a boca


Pois metade de mim é o que grito
A outra metade é silêncio.

101 LIMA, Maria Emilia Caixeta de Castro (2005). Sentidos do trabalho: a educação continuada de professores.
102 MALAVASI, Abigail (2006). A dimensão estética na constituição do trabalho coletivo no interstício da escola constituída.
103 VARANI, Adriana (2005). Da constituição do trabalho docente coletivo: re-existência docente na descontinuidade das políticas educacionais.
Silêncios e seus andamentos, acréscimos de e-Boa, para pensar um outro tipo de silêncio.

A terceira dificuldade reside nos silêncios. Não se trata do impronunciável, mas dos
diferentes ritmos com que os diferentes saberes e práticas sociais articulam as
palavras com os silêncios e da diferente eloqüência (ou significado) que é atribuída ao
silêncio por parte das diferentes culturas. A gestão do silêncio e a tradução do
silêncio são das tarefas mais exigentes do trabalho de tradução. (T, 43)

Dos silêncios na tradução

Encontrava nos meus escritos sobre interpretação, que me levavam à tradução como
transcriação, pontos de contato com as propostas da terceira parte do texto de Boaventura: o
trabalho da tradução. A partir das reflexões sobre o olhar, comecei a pensar nas relações entre o
fazer do intérprete nas artes – música, pintura - e o do professor.

do baú 95
Crônicas de um aprendizado

Lemos textos de Marilena Chauí104 e Alfredo Bosi e estranhamos mais nossos olhares
com os olhares amarelos de Van Gogh traduzidos no filme Sonhos de Akira
Kurosauwa;
E, sonhando, fomos para as lindas Las Meninas de Velázquez e para as muitas
meninas de Picasso;
fiquei completamente apaixonada pelos quadros e em pensar na idéia da
interpretação;
passou a ser, foi e é uma obsessão fazer as ligações perigosas entre as visões de
interpretação das várias artes, inclusive a de ensinar.

[...] Entre 17 de agosto e 30 de dezembro de 1957 Picasso ficou quase recluso na


Villa La Californie, em Cannes, e pintou 58 óleos, 45 dos quais inspirados em Las
Meninas de Velázquez. [...] Já em 1952, e anos antes de pintar suas meninas,
Picasso escrevia para seu amigo Sabartés:
"Si uno se pusiera a copiar Las Meninas, de toda buena fe, pongamos por
caso, al llegar a cierto punto y si el que copiase fuese yo, me diría: '¿Qué tal sería
poner a ésa un poquitín más a la derecha o a la izquierda?' Y probaría a hacerlo a mi
manera, olvidando a Velázquez. La prueba me llevaría de seguro a modificar la luz o
a cambiarla, con motivo de haber cambiado de lugar a un personaje. Así, poquito a

104 CHAUÍ, Marilena (1993). Janelas da alma, espelho do mundo.


poco, iría pintando unas Meninas que parecerían detestables al copista de oficio; no
serían las que él creería haber visto en la tela de Velázquez, pero serían 'mis'
Meninas.”105

[...] o intérprete em música é super valorizado; conhecemos, tanto na área da


música popular quanto na erudita, mais os intérpretes do que os compositores;
reconhecemos suas vozes, seus movimentos, seus toques, seu estilo... e o que é isto
a não ser sua forma de dizer o que outro escreveu, sua maneira de ser “infiel” à
obra;
perguntas me perseguiam:
¿por que o intérprete é tão valorizado na música - e nas artes cênicas - e o
professor, que é um intérprete de conhecimentos não é?
nós, professores, não geramos esses conhecimentos, não os pesquisamos e
raramente os colocamos em livros, mas interpretamos o que outros pesquisaram, o
que outros escreveram, tal qual o músico-intérprete que toca o que outro compôs, ou
o ator que interpreta o que outro escreveu; nossa platéia é nossos alunos, nosso
palco é a sala de aulas.
¿ por que os músicos-intérpretes se sentem criadores (por mais que
queiramos ser fiéis aos compositores, sabemos que estamos transgredindo) e os
professores, em geral, não?
¿como se tornar um professor-intérprete?
¿como formar um professor-intérprete?
96
“Si busco la verdad en mi tela, puedo hacer cien telas con esa verdad.”
seria este o caminho, buscar a verdade em nossas aulas da mesma forma que
Picasso buscava para suas telas;
o que será isto de buscar a verdade?
qual verdade e de quem?

Então....
e aí, passado um ano com estas novas idéias que foram crescendo em silêncio,
tivemos um seminário sobre Bakhtin com o ilustríssimo Wanderley Geraldi [...]
Essas novas maneiras de verpensar passaram a fazer parte, afinal, do meu cotidiano,
e não tinham um lugarzinho apenas nas manhãs de terça; foi/é a forma como
pensava os movimentos do meu trabalho, tanto de professora quanto de aluna.

fim

Passei a ver que os escritos de professores poderiam ser vistos como uma pedagogia das
emergências, parte de uma sociologia das emergências que ―é a investigação das alternativas

que cabem no horizonte das possibilidades concretas.‖(T, 24)

105 PICASSO, Pablo. Disponível em http://arteenlared.com/espana/exposiciones/olvidando-a-velazquez.-las-meninas.html.


Enquanto a sociologia das ausências amplia o presente, juntando ao real existente
o que dele foi subtraído pela razão metonímica, a sociologia das emergências
amplia o presente, juntando ao real amplo as possibilidades e expectativas
futuras que ele comporta. Neste último caso, a ampliação do presente implica a
contracção do futuro, na medida em que o Ainda-Não, longe de ser um futuro vazio
e infinito, é um futuro concreto, sempre incerto e sempre em perigo. (T, 24)

Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho, (E a felicidade
a perseguir um grande sonho louco. era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho)

( A miragem no caminho, Helena Kolody)

Ausências, superações de ignorâncias não relatadas nas bibliotecas de pedagogia, e


emergências, tentativas de ir além do senso comum do que é ser professor. Nos relatos de
pequenas superações, os dilemas diários de um professor, gestos de improviso da sala de aula,
começo a ver caminhos para um entendimento de como, de dentro das instituições de ensino
brasileiras, nas suas margens, nas suas franjas, criam-se "as alternativas à globalização neoliberal 97
e ao capitalismo global [...] na sua luta contra a exclusão e a discriminação em diferentes domínios

sociais " (T,1) .

Esses relatos de professores mostram os movimentos tanto do cotidiano das escolas narradas
nos textos, quanto do cotidiano da universidade, do espaço do Grupo de Terça do GEPEC, que
propicia essas narrações.
Gosto de medir o movimento da cidade

Pelo pulso das formigas106

Como King, o cão-mônada do livro Escrita INKZ, antimanifesto para uma arte incapaz, lançado
em 2004, gosto de medir a escola pelo pulso das formigas, e para isto fiz uma pajelança
misturando Pipocas com Boaventura!

O encantamento estava feito, agora sobrava o problema do relatar... que é o que tenho tentado
fazer até aqui!

106 SANTOS, Boaventura de Sousa. In: O Evangelho segundo King. SOUSA, Marcio-André.
Da encantaria
Maranhão, meu tesouro, meu torrão
Fiz esta toada, pra ti Maranhão [...]
Esta herança foi deixada por nossos avós
Hoje cultivada por nós
Pra compor tua história, Maranhão
(Humberto Maracanã)

Tentava definir esta aparição de orientador, e-Boa, e encontrei álibis acadêmicos e alegorias

com os textos da Profa. Dra. Mundicarmo Ferretti, que há muito me mostram alguns espaço-
tempos simultâneos aos meus que não percebo. No seu texto Encantaria maranhense: um
encontro do negro, do índio e do branco na cultura afro-brasileira107, encontro que
No Maranhão, o termo encantado é utilizado nos terreiros de mina, tanto nos
fundados por africanos, como a Casa das Minas, quanto nos mais novos e
sincréticos, e é também utilizado nos salões de curadores e pajés. Refere-se a seres
espirituais africanos (voduns e orixás) e não africanos, recebidos em transe 98
mediúnico nos terreiros, que não podem ser observados diretamente, mas que se
afirma poderem ser vistos, ouvidos em sonho ou por pessoas dotadas de poderes
especiais, e podem ser observados por todos, quando incorporados.

Notaram? Encantados também podem ser não africanos!


Os encantados não africanos são conhecidos na comunidade religiosa como seres
humanos que tiveram vida terrena e que, há muitos anos, desapareceram
misteriosamente e/ou tornaram-se invisíveis (encantaram-se).
Mas poderia haver um encantado português?
[...]quando falamos em "encantaria maranhense" não estamos nos referindo a
voduns e a orixás, às divindades africanas amplamente conhecidas. Estamos nos
referindo a outras entidades espirituais recebidas no Maranhão em terreiros fundados
por africanos ou por seus descendentes: nobres europeus associados a orixás e/ou a
santos católicos (como Dom Luís, Rei de França), entidades caboclas de origem
nobre (como Rei da Turquia e Antônio Luís, o "Corre Beirada"), ou representante de
camadas populares e indígenas (como o controvertido Légua Bogi e Caboclo Velho),

107 FERRETTI Mundicarmo (2001). Encantaria maranhense: um encontro do negro, do índio e do branco na cultura afro-brasileira.
e também a seres não inteiramente humanos (como as mães d‘água, os Surrupiras, os
botos e outros) [...]
Entre os encantados portugueses mais famosos do Maranhão temos o Rei Dom Sebastião.
Renascido, para alguns cantores de além mar, numa ilha indescoberta, como canta Fernando Pessoa no
poema XI, A última nau, de A mensagem

Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,


E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol azíago
Erma, e entre choros de ânsia e de presago
Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou?
[...] o rei português Dom Sebastião foi ferido na batalha de Alcácer-Quibir, em julho
de 1578, combatendo os Mouros, e, tendo desaparecido misteriosamente, veio com
toda a sua Corte de Queluz aportar na ilha do Lençol, localizada no município
maranhense de Cururupu, onde permanece encantado. 99
Reza a lenda que em noite de lua o rei Dom Sebastião se transforma em um famoso
touro negro, de estrela reluzente na testa, olhos em brasa, e sai a percorrer a praia de
Lençol de ponta a ponta para protegê-la de ataques inimigos, principalmente da ação
predatória humana. No dia que a estrela reluzente do Rei Touro for atingida por
qualquer meio, a ilha de São Luís afundará. Num dos cânticos do Tambor de Mina, o
Rei Touro é lembrado assim: ―Rei Sebastião, guerreiro militar. Rei Sebastião,
guerreiro militar. Quem desencantar Lençol põe abaixo o Maranhão.‖108
Na praia dos Lençóis
Tem um touro encantado
E o reinado
Do rei Sebastião
Renascido, para alguns cantadores destes sítios, na praia de Lençóis, Maranhão, como canta
Humberto Maracanã na toada acima: Maranhão, meu tesouro, meu torrão.
A família mais famosa de encantados é a do Lençol. Dizem que lá, na praia do
Lençol - Maranhão -, mora o Rei Dom Sebastião, que encantou-se durante a batalha
de Alcácer-Quibir. Essa família é formada apenas por reis e fidalgos. A vinda do Rei
Dom Sebastião ao corpo de uma sacerdotisa é muito rara, alguns falam que ocorre de

108 Disponível em http://zebineh1954.spaces.live.com/Blog/cns!CE2BD75A7D59DC60!908.entry. Acesso em 4 de julho de 2010.


sete em sete anos. Da família do Lençol fazem parte ainda, dentre outros, Dom Luís,
o rei de França; Dom Manoel, conhecido como o Rei dos Mestres; a Rainha Bárbara
Soeira; Dom Carlos, filho de Dom Luís, e o famoso Barão de Goré, tremendo
cachaceiro e chegado num furdunço dos brabos.109
Buenas, e-Boa estaria acompanhado de seus patrícios nobres, se um encantado fosse...

Mas, encantado ainda me parecia um termo muito bonzinho para uma criatura que sempre
puxava meu tapete, me dando tombos, tirando meus já ―anti-gravitacionais‖ pés do chão.
A evidência final de que lidava com um encantado chegou por outra parte do mesmo texto de
Mundicarmo Ferreti
[...] nos terreiros maranhenses os encantados são frequentemente comparados aos
"anjos de guarda". São protetores dos homens ("pecadores"), dotados de poderes
especiais, que estão abaixo de Deus e dos santos. Mas, ao contrário dos "anjos de
guarda", podem castigar severamente seus protegidos.

Era um encantado, CQD!110


De encantado a orientador do fundo foi apenas um passo, uma adaptação livre. Orientador do
fundo é uma adaptação para este contexto do termo marido do fundo, encontrado no texto de 100
Viviane de Oliveira Barbosa, Marido da terra e marido do fundo: gênero, imaginário e
sensibilidade no Tambor de Mina.111
O ―marido do fundo‖ que aparece nas experiências de mulheres praticantes do
Tambor de Mina é uma entidade espiritual; pode tratar-se de um caboclo, de um
guia, de um encantado. [...]
Pode-se sugerir que as vivências dessas mulheres com seus maridos do fundo e da
terra são experiências cotidianas, que lhes imprimem um sentido na vida, que chegam
mesmo a agir diretamente na tomada de decisões em sua história. Não se trata de
uma experiência mística num sentido antitético a uma experiência concreta. Aqui, o
espiritual e o material imbricam-se na teia de conformação de sua existência; o
espaço etéreo da mística e da religião está associado ao mundo concreto da vida,
oferecendo um painel das sensibilidades e da mentalidade dessas pessoas e de suas
práticas religiosas, mas também da sociedade, de modo geral, na qual elas estão
inseridas.
e-Boa, um encantado, meu orientador do fundo...

109 SIMAS, Luiz Antonio Ifabiyi. Encantaria.


110 Como Queríamos Demostrar!
111 BARBOSA, Viviane de Oliveira (2008). Maridos da terra e maridos do fundo: gênero, imaginário e sensibilidade no Tambor de Mina.
3. Revisão sitiográfica: e-Boa em Redópolis

Di á r i o da Di sser t a ç ã o
d a t a sola r 0 3 d e n ovem b r o d e 2 0 0 8

F i c o a qu i em B elo H or i z ont e c om m a m ã e a t é ela m elh or a r ; a


R osa u r a m e su g er iu esc r ever u m di á ri o sob r e est e p er íod o. Bu en a s,
a su g est ã o d ela era p en sa nd o m a i s n o p essoa l, m a s vou f a z er a s
d ua s c oi sa s j u n t a s.

p r ec i so or g a n iz a r mi n h a s in f or ma ç ões sob r e o e - B oa .

Todos os dias eu procurava novidades sobre Boaventura de Sousa Santos, tanto as oficiais –
artigos para revista, abaixo-assinados, entrevistas-, quanto as postadas por desafetos, inimigos,
que escrevem seu nome errado;
deixava minha curiosidade correr, lendo compulsivamente e sem um foco, apenas
procurava todos os dias novos textos e lia;
101
aos poucos comecei a organizar a minha curiosidade, selecionar, reler;
notei que Boaventura dava muitas entrevistas e que forneciam explicações pontuais,
mais acessíveis a quem não é sociólogo, mas se alimenta das suas idéias.

Durante dois meses fiquei em Belo Horizonte com pouco acesso à minha biblioteca; neste
período a Internet e meu micro passaram a ser os grandes arautos do saber, traziam-me o
mundo;
não e não!
não são apenas informação, isto é antigo!
encontro montes de textos que biblioteca nenhuma, se não tiver seu ladinho digital, tem;
claro que também encontramos montes de bobagens, mas também preciosidades.
Comecei a organizar a minha busca, resultando na formatação, ou descoberta, do perfil de
e-Boa escolha dos textos e organização - e na busca dos parceiros, de outros pesquisadores que

usam Boaventura de Sousa Santos como referência em suas pesquisas.


A pesquisa foi toda feita na Internet, pelo site de busca www.google.com.br. Vários colegas se
interessaram em saber como eu fazia minhas descobertas de textos pela rede e resolvi mostrar
aqui como naveguei por estes links usando como inspiração o diário reciclado que voltei a fazer
na época.
Boaventura e a pesquisa em Educação no Brasil

Di á r i o da Di sser t a ç ã o ( DD)
d a t a sola r 10 d e n ovem b r o d e 2 0 0 8

S er á qu e pr ec i so ju st if i ca r mi n ha esc olh a ? Af i na l ele é soc i ólog o e


a d vog a d o e eu f a lo d e edu c a ç ã o e à s vez es d e m ú si c a .
P r oc u r ei n a E du c a çã o e n o I F C H a lg u m a m a tér i a sob r e B oa ven t u r a ,
m a s n ã o en c on t r ei na di c a d e na d a .
V ou p r ocu r ar p ela r ed e

Sem grandes invenções, coloco na janela de busca exatamente o que quero e me chega mais de 8
possibilidades.

102

Algumas vezes preciso especificar melhor o que busco, mas desta vez os dois primeiros links - a
comunicação de um projeto de pesquisa e uma entrevista com o Boaventura - responderam às
minhas dúvidas e ainda me apresentaram a interessantíssima revista Travessias112de onde retiro
as informações abaixo
Influência de Boaventura de Sousa Santos em pesquisas em educação no

Brasil, de Kênia Hilda Moreira e Marcos Lucio de Sousa Gois.

112 A Revista TRAVESSIAS é uma publicação do Grupo de Pesquisas em Educação, Cultura, Linguagem e Arte (PECLA) e do programa de pós- graduação em Letras:lLinguagem e
sociedade da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e tem como objetivo divulgar pesquisas e estudos de professores e alunos pesquisadores ligados à educação,
cultura, linguagem e arte, sob as formas de artigos, ensaios, imagens e sons, documentos e fontes, resenhas, traduções e criação literária. Disponível em 15 de março de 2009 em
http://www.unioeste.br/prppg/mestrados/letras/revistas/travessias/ed_001/ed_001.htm.
RESUMO: O presente texto objetiva apresentar um mapeamento das pesquisas
acadêmicas em Educação (teses e dissertações) produzidas no Brasil até 2006, que
tiveram como referência teórica principal ou complementar o sociólogo português
Boaventura de Sousa Santos. Como referencial teórico-metodológico para esta
investigação, utilizamos Bardin (1977).
PALAVRAS-CHAVE: Mapeamento. Boaventura de Sousa Santos. Pesquisas
Acadêmicas. Educação.
[...] surpreendentemente, das 38 pesquisas encontradas, 14 são em Educação,
representando assim o maior número de investigações de todas as áreas do
conhecimento, ganhando da área de Direito (13 pesquisas) e da Sociologia (duas em
Políticas Sociais; duas em Serviço Social; duas em Sociologia) áreas principais de
atuação do autor.
[...] apresentamos a discussão em três partes: iniciamos com um panorama das
pesquisas realizadas no país em diversos campos do saber sob a influência de Santos,
levantando a abrangência temporal das produções e a localização geográfica e
institucional das pesquisas; em seguida fizemos uma síntese das principais idéias de
103
Santos; na terceira parte, analisamos as pesquisas no campo educacional com
referências a Boaventura de Sousa Santos.

A síntese das principais idéias do Boaventura do artigo é, de forma geral, bastante

esclarecedora, mostrando sua crescente influência nas pesquisas em Educação, mas não
encontrei os trabalhos da Unisinos, de Danilo Streak ou Telmo Adams e alguns outros. Talvez
tenha a ver com a forma com que os dados foram coletados, mas os autores afirmam que, para
realizar o projeto, fizeram "um levantamento bibliográfico a partir das pesquisas cadastradas no
Banco de Teses da Capes, procurando pelo item ‗assunto‘, digitando o termo: ―Boaventura de

Sousa Santos‖. Considerando o aparecimento do termo no título, resumo e/ou palavras-chave".

Sempre aparecendo e-Boa ―baixa‖ no segundo link na forma do sociólogo em uma entrevista -
Dilema do nosso tempo -, e me conta que o seu
trabalho tem tido uma boa recepção na área da educação no Brasil. Aliás, também em
Portugal, só que a comunidade de educação, esta que está interessada nesta minha
temática, digamos assim, é muito pequena, porque também há uma outra comunidade
de educação (hegemônica) a quem não interessa estes temas porque acha que a
educação é uma área de saber sobre o qual apenas os cientistas da educação podem
se pronunciar e, portanto, é uma forma de fundamentalismo disciplinar como outro
qualquer e, para mim, um dos mais vazios de todos. Para aqueles que vêem a educação
como, no fundo, uma educação para a cidadania, ai sim talvez, o meu trabalho tenha
vindo a ter alguma aceitação [...] o meu trabalho dirige-se muito mais aos educadores
até do que aos próprios educandos.
[...] o mestre de todos [ na luta contra a doutrinação e na luta por uma escola de
cidadania ] naturalmente, continua a ser Paulo Freire [ ...]ele, realmente, foi uma luz
para o mundo. 113

Ausências e emergências na pedagogia

Di á r i o da Di sser t a ç ã o ( DD)
d a t a sola r 15 d e n ovem b r o d e 2 0 0 8

R esolvi d a s m in h a s p r eoc up a ç ões sob r e a a dequ a ç ã o a c ad êmi c a ou


n ã o d o u so d a s p a la vra s d e m eu or i en ta d or de f u nd o, r esolvo f oc a r
m i n ha s g a r i mp a g en s em a lg um a s p a la vr a s - c at eg or i a s qu e p r et end o
u t i liz a r e p r oc ur a r os i nd íc i os d e qu e m eu en c a nt a d o j á ba i xou em
sea r a s ed u c ac i ona i s a lh ei a s a t ra vés d e seu h et er ôn i m o B oa vent u ra
d e S ou sa S an t os...
104

das ausências

No site de busca coloco ―Boaventura de Sousa Santos‖ ―PEDAGOGIA DAS AUSÊNCIAS‖ e

encontro 2 links. O primeiro me leva para o jornal digital português A Página e, mais

113 SANTOS, Boaventura de Sousa (2003). Dilemas do nosso tempo: globalização, multiculturalismo e conhecimento, p. 20.
especificamente, para o artigo Por uma pedagogia das ausências: diferentes lógicas no ensinar e
no aprender, de Marisol Barenco, do GRUPALFA / Faculdade de Educação da Universidade
Federal Fluminense, Rio de Janeiro, Brasil.
A autora aconselha aproximar a compreensão de Santos do nosso próprio campo de estudos e

problemas. Ela dialoga com a obra de Boaventura na busca de pontos de ligação entre seu
trabalho e uma possível pedagogia das ausências, tentando compreender lógicas e saberes
legítimos onde o discurso hegemônico nos orienta a ver ignorâncias, primitivismos,
inferioridades, particularismos e improdutividade.
A partir de uma crítica à opressão desse discurso hegemônico ocidental, a autora também chega
nos silenciamentos, já que essa colonização dos significados das outras formas de ser implica um
efeito, produzido cotidianamente nas práticas e instituições, de invisibilização das alternativas,
construída no processo de produção das não existências.

Sabedora de que a escola configura-se como potente instrumento de reprodução da lógica


ocidental, produzindo diferentes tipos de ausências,
propõe caminhar para uma pedagogia das ausências. A ausência, neste sentido aqui
tomada, opõe-se à não existência, na medida em que se trata do reconhecimento do
105
que foi produzido como negação, numa ação de tornar visível e pensar em formas de
construir sua emergência enquanto alternativa [... ] no campo de possibilidades que
desejamos e necessitamos, um mundo em que caibam como presenças o que hoje
narramos como ausências: crianças, jovens, suas histórias, suas culturas e suas
legítimas formas de ser.114
No outro link não encontrei nada mais específico para minha pesquisa, mas achei interessante e
enviei ao Wilson Queiroz, companheiro do GEPEC, que está fazendo pesquisa sobre o professor-
étnico de Campinas.

das emergências
Em seguida fiz uma busca com ―Boaventura de Sousa Santos‖ ―PEDAGOGIA DAS
EMERGÊNCIAS‖ e consigui 5 links que me levaram a 3 textos, todos de um autor que não foi
encontrado na pesquisa feita na CAPES citada anteriormente: Danilo R. Streck, professor e
pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Educação da UNISINOS, Universidade do Vale
do Rio dos Sinos.

114 BARENCO, Marisol. (2008). Por uma pedagogia das ausências: diferentes lógicas no ensinar e no aprender.
Encobrimentos e Emergências Pedagógicas na América Latina,
http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/rle/n6/n6a05.pdf
Revista Lusófona de Educação, 2005, 6, 55-66 de onde retiro o resumo abaixo, disponível
em http://www.humanas.unisinos.br/professores/danilo/emcobrimentoseemergencias.pdf
Este ensaio situa a reflexão no espaço entre as ausências ou ocultamentos e
emergências pedagógicas na América Latina, tendo como referências a pedagogia do
Outro (Paulo Freire), a sociologia das ausências e emergências (Boaventura de

Sousa Santos) e os processos participativos de caráter emancipatório.


Argumenta-se que existe no pensamento popular uma matriz, historicamente
formada, que por sua vez se constitui como base para experiências socialmente
inovadoras. Na formação desta matriz encontram-se, entre outras, as pedagogias da
sobrevivência, da resistência e da relação. São, por fim, apontadas algumas práticas
pedagógicas onde, de forma criativa, esta matriz se atualiza e recompõe.

José Martí e a educação popular: um retorno às fontes


http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1517-97022008000100002&script=sci_arttext
Este texto é uma arqueologia de nossas raízes pedagógicas, anteriores ao Paulo Freire, mas não é 106
nele que encontro pedagogia das emergências e sim nos dados sobre o artigo "que é um dos
resultados do projeto de pesquisa Por uma pedagogia das emergências: a formação da cidadania nos
processos participativos de caráter emancipatório na América Latina, o qual conta com o apoio do
CNPq."

O design do mundo e o ser humano: Sobre a educação e as fronteiras do humano


http://www.unirevista.unisinos.br/_pdf/UNIrev_Streck.pdf
UNIrevista - Vol. 1, n° 2 : (abril 2006) ISSN 1809-4651
Verifica-se, hoje, uma profunda reconfiguração de fronteiras nas ciências, na vida
política e no encontro e desencontro de culturas. Essas mudanças se refletem, no
fim, sobre o que compreendemos como sendo o humano. O ensaio está organizado
em torno de três argumentos: a) que o humano é uma questão de fronteiras,
identificadas a partir das mudanças no campo da informática, das ciências biológicas
e da exclusão social; b) que a fronteira é um lugar de exclusão e risco mas também de
reinvenção, utilizando como base a reflexão de José de Sousa Martins; e que a
educação, hoje, necessita de uma visão complexa dessas fronteiras para poder fazer
delas um espaço de possibilidades. No final do artigo argumenta-se que a educação
pode fazer da fronteira um lugar privilegiado para encontrar-se e desencontrar-se
nestes tempos de mudança. Pleiteia-se especialmente pela recolocação da pergunta
fundamental sobre o humano na prática e na reflexão pedagógica
O autor aponta uma pedagogia das emergências como uma das tarefas, entre outras, que
emergem das reflexões anteriores para este profissional e para a prática educativa em seu
sentido mais amplo.
Uma pedagogia das emergências: A aposta na fronteira como lugar pedagógico está
em que podemos ver ali a emergência de novas possibilidades. Boaventura de

Sousa Santos propõe uma sociologia das emergências para tornar visíveis as
iniciativas que apontam para a existência de uma sociedade que tivesse lugar para
todos. Acredito que nós poderíamos pensar numa pedagogia das emergências que
capturasse, nas fronteiras do humano, os sinais do mundo que desejamos construir.
Lá estão também as pedagogias ocultadas pelos interesses da pedagogia oficial ou
hegemônica.

Da obsessão à polêmica e à poesia

Quando fico obcecada por um autor eu obceco com meu autor todos ao redor.
Falo e refalo sobre ele, distribuo citações aos milhões, envio links relacionando o que outros 107
estudam com meu querido, falo dele com minha mãe, minha filha com quem sobrar pela frente.
Sempre fui assombrada por portugueses, acho que é a contrapartida da linhagem de meu pai
por ter escrito que minhas influências em educação e música são de mamãe;
Pessoa me assombra desde os 14 anos, mais especificamente Álvaro de Campos, mais especificamente
com Tabacaria, um poema que releio frequentemente e parece sempre estar a mudar.
Saramago me surgiu em 1998 vagando para O conto da ilha desconhecida com sua Jangada de
Pedra ; li todas as noites daquele ano e do seguinte trechos destas obras; lia outros livros dele e
de outros, mas toda noite tinha que ler estes textos, caoticamente e recortava frases que citava
em todas as aulas e trabalhos.

Boaventura com o texto Para um sociologia das ausências foi minha primeira obsessão não

literária; demorei muito - 2 meses - para ler o texto inteiro, porque tinha sempre que ler do início
e tentar entender exatamente o que ele queria dizer. Para poder continuar em frente, eu tinha
que largar o texto e procurar outros complementares pela rede.
Assim, meio sem querer querendo, comecei a conhecer mais sobre meu orientador do fundo, suas
diversas facetas, seus artigos, palestras e entrevistas, mas depois voltava do início do texto e
recomeçava.
as polêmicas
Boaventura provoca polêmicas!

Me diverti quando descobri o lado polêmico e adorei; portugueses brigam mais que os
brasileiros, ficam mais indignados e não esquecem até provar e comprovar suas idéias. Meu avô
e meu pai são assim mesmo e, então, me senti em casa com alguém que dá uma boiada pra não
sair de uma briga!
Em Portugal algumas brigas ganharam vulto de polêmica nacional. Vistas daqui do Sul,
algumas parecem quase uma chanchada, em todas as definições do meu Houaiss; confiram, a
seguir, como tenho razão...
Umas das bem conhecidas em Portugal foi a ―Guerra das Ciências‖, iniciada quando o livro Um

Discurso sobre as ciências, de Boaventura de Sousa Santos, foi violentamente atacado por

António M. Baptista.
Um detalhe: esse ataque violento aconteceu não no lançamento do livro, em 1987, mas com uma
defasagem de 15 anos, quando ele já era um clássico. Goste-se ou não do autor, mas esse livro é
lido. Como demorou quinze anos para ler a obra? E mora no mesmo país, fala a mesma língua!

108
De qualquer forma, o interessante é que daí resultaram diversos textos sobre os vários
desdobramentos da obra, desde algumas atualizações e apuro de conceitos pelo autor, até outros
que complementam seus pensamentos ou abrem novas possibilidades a partir de sua obra.

Veja mais em:


1. A Guerra das Ciências, por Eduardo Prado Coelho
http://pascal.iseg.utl.pt/~ncrato/Recortes/EPC_Publico_20031106.htm
2. Jornal das Letras, entrevista a António Manuel Baptista
http://pascal.iseg.utl.pt/~ncrato/Recortes/AMB_JL_20040512.htm
3. A construção de um insulto, resposta de Boaventura
http://pascal.iseg.utl.pt/~ncrato/Recortes/BSSresposta.mht
4. Uma impostura à portuguesa, por João Arriscado Nunes, publicado no Jornal de
Letras edição de 3 a 16 de Abril de 2002
http://www.ces.uc.pt/opiniao/jan/001.php
5. Dissertação de mestrado de Vitor Tomé As «guerras da ciência» em Portugal:
humanização e transformação da ciência ou a morte do pós-modernismo?
http://www.ensino.eu/em-artigo15.pdf.
6. Na revista, on line, A Página encontro alguns artigos bastante bons. Um deles é
Prezados Professores, uma carta para os professores assinada por Boaventura de Sousa
Santos, explicando alguns aspectos de sua obra que estavam sendo postas em cheque neste

debate. Ela se encontra quase que na integra no 5º. Movimento desta dissertação. O outro é A
curiosa critica do professor António, de autoria de Inês Barbosa de Oliveira, da Faculdade de
Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pós-doutoranda na Universidade de
Coimbra, disponível em http://www.apagina.pt/?aba=7&cat=115&doc=9011&mid=2.

a poesia

Do currículo deste morador de Redópolis, é o poeta que parece mais incomodar a razão
indolente de alguns; existe uma polêmica hilária sobre isto, porque uma socióloga, que não é
crítica de arte, resolve se vingar das posições/atuações políticas do sociólogo, atacando sua
poesia.
Quem quiser saber mais sobre isto veja em:
http://ma-schamba.com/cat/boaventura-sousa-santos/

Mas eu não perderia tempo com isto, o melhor é viajar com o King, o cão-mônada, de A escrita
109
INKZ do e-Boa; veja isto na crítica do, também poeta, Márcio-André de Sousa
(http://www.panoramadapalavra.com.br/principal_frame_index58.html)
e http://www.confrariadovento.com/revista/numero8/poesia01.htm

Ou, outra opção ainda melhor é procurar pela Internet suas poesias ou mesmo encomendar seus
livros!
Perguntei a ele sobre as várias faces de seus escritos e ele, heteronimamente, declarou:
[...] há muita gente a quere falar dentro de nós, há muitas escritas a quererem ser
escritas na nossa própria escrita. O que acontece é que vivemos em sociedades que,
devido à especialização funcional, nos obrigam a um certo tipo de escrita, uma escrita
disciplinar, e de alguma maneira, acabamos por evacuar todas as outras
potencialidades de escrita que temos dentro de nós. 115

Boaventura de Sousa Santos também é conhecido pela sua militância na construção do Fórum
Social Mundial e na busca por uma outro mundo possível, fazeres de poeta.

115 SANTOS, Boaventura de Sousa (2005a). SCHWARTZ, Christian. Escrita INKZ – anti-manifesto para uma arte incapaz.
Também pode-se acessar o blog116 da Rosaura Soligo que, além de professora, pesquisadora,
autora e mestra pelo GEPEC, é também blogueira e foi pra quem enviei os textos vadios do
e-Boa.

110

Descobri o poeta e-Boa quando sua poesia A Cidade me surgiu junto com o King e suas
mônadas e gostei mais ainda.
Perfeito!
Envio para o blog de Rosaura Soligo, algumas poesias que encontro.
Perfeito! na verdade perfeito demais...
Durante alguns dias fiquei preocupada em não encontrar logo os defeitos necessários a um certo
distanciamento e defendia esta procura dialogando com a Rosaura e a Liana, do GEPEC, e

116Blog Fragmento de um discurso amoroso. Disponível em http://fragmentosdeumdiscursoamoroso.zip.net/. Acesso em 14 de julho de 2010.


expondo as minhas razões de procurar defeitos no e-Boa; em e-mail eu colocava minhas

desconfianças em relação ao novo orientador:


do baú

Rosaura, Liana
não se enganem, eu sei que me apaixono pelos defeitos!
eu e nós todas, minhas amadas!!! se fôssemos gostar das qualidades este mundo seria simples;
posso conviver com praticamente todas as virtudes básicas do senso comum do bem, mas é
preciso se apaixonar pelos defeitos para estar junto!
e é por isto que procuro os defeitos básicos no Boa;
quando o paixãoautor é morto só nos resta amar o conjunto da obra e colocá-lo na estante de
seu tempo; depois é classificar para o futuro: foi paixão ou não?! [...]
(amo o Mario de Andrade e entendo sua omissão à cor e sexualidade, mas não entendo a
conivência de Villa-Lobos com o ditadura do Vargas e nem sua omissão sobre o
desaparecimento e proibição de outras pedagogias pela pasteurização que o canto orfeônico
causou no ensino de música).
mas quando o sujeito é vivinho da silva, como o Boa, a coisa é diferente;
111
vou procurar seus defeitos! quero saber se posso conviver com eles!

fim

Na procura da deficiência que me daria conforto, imaginei algo fatal: o cara é horrível em
música, não ouve, não gosta de sons que não sejam palavras, detesta músicos, não é sensível e
nem pensa nadinha a este respeito!!
Uma busca simples e radical em Redópolis, <Boaventura de Sousa Santos> e < orquestra>, e,

na hora, e-Boa me baixa na forma das palavras de um programa de concerto e sai dizendo que

São raros os seres humanos que, na busca incessante da sua individualidade,


constroem paradoxalmente identidades colectivas que os transcendem, sejam elas as
de um povo, de uma época, de uma causa, de uma emoção ou aspiração partilhadas.
Porque não usam andaimes em tais construções é simultaneamente transparente e
inabarcável o modo como justapõem o possível e o impossível, a realidade que existe e
a que não existe, o quotidiano e o sublime, o que somos e o que merecemos ser. Por
não sabermos compará-los com a desparadoxal vivência da nossa mediania e das
medianas distinções de que ela é feita, chamamos-lhes artistas.
[...] sem dúvida, um dos compositores e músicos mais importantes do Portugal pós-25
de Abril – é a nossa utopia realista. A sua música é realista porque, de tão próxima, a
podemos tocar quando ele a compõe e toca. E é utópica porque, ao compor e tocar,
ele nos toca nas nossas mais abissais ambivalências, em tudo o que não somos e
poderíamos ser, como indivíduos, país e humanidade.

Encontrei o texto no site do compositor António Pinho Vargas [que] é um desses raros seres

humanos que escreve Boaventura, seu orientador da terra no doutoramento em Sociologia da


Cultura na Universidade de Coimbra. 117

Relaxei!
Passei a aceitar que ele poderia aparecer em qualquer assunto de meu interesse;
parei de procurar defeitos!
e-Boa é meu profeta e a Internet a sua mensageira.

112

117 Disponível em 15 de maio de 2008 em http://www.antoniopinhovargas.com/biografia.php?smenu=referencias&qual=189.


4. Diário de Campo e bate-papo virtual
do baú

Di á r i o d a d i sser t a ç ã o
Da t a sola r , 19 d e n ovem b r o d e 2 0 0 8

t em p o, t em p o, t em p o;
a sen h or a d on a -d a - ca sa c ob r a qu a li d ad e n a f or m a d a qu a lif i ca ç ã o
d a r az ã o d est e di á ri o, m i nh a d i sser t a ç ã o; m i n ha or i ent ad or a m e
c ob r a m a i s exp li c a ç ões.

Qu e cu lp a t en h o eu se ele in ven t a n om es p a r a t ud o! [ ...] m i nh a


or i en t ad or a qu er m ai s exp li c a ç ões e n ã o en con t r ei n enh u ma f or m a
si m p les d e exp li ca r e m en os a in da um Dici on á r i o elet r ôn i c o d a
lín g u a e -B oa ou exp li c a ç ões d o t am a n h o d a qu ela s qu e a g en t e
c oloc a n a en t ra di n ha d o t ext o e j á d á o t om, m a i or ou m en or , d a s
p a la vr a s e t er m os.

O p i or é qu e a t é n os t er m os qu e p ar ec em n or m ai s c om o, p ós -
m od er ni d ad e, d o U m di scu rso sobre a s c i ên c i a s , dá u m t r a b a lh o
i m en so pa r a en t en d er p or qu e a p ós d ele er a , n a ver d ad e, u m a p ós
d e op osi ç ã o, en t en d eu ? n em eu ...
113
Listei e dei uma ordem inicial às algumas coisas que acredito que tenha de dar explicação básica
na dissertação, afinal nem todos falam a língua de e-Boa.
Cinco lógicas ou modos de produção da não existência:
a monocultura do saber e do rigor do saber gera o ignorante;
a monocultura do tempo linear gera o residual;
a lógica da classificação social (racial e sexual) gera o inferior;
a lógica da escala dominantes (universal e o global) que gera o local;
a lógica produtivista (mercado) que gera o improdutivo.

Razão indolente - razão arrogante, razão impotente, razão metonímica (totalidade, a parte que
se denomina todo) e razão proléptica (tempo linear), este nosso lema Ordem e Progresso, dando
bandeira...
Razão cosmopolita
sociologia das ausências - totalidades hegemônicas, epistemicídio;
crítica da razão metonímica - totalidades homogêneas gerando inexistências, a
subtração do mundo, o desperdício da experiência;
ecologia dos saberes, das temporalidades, dos reconhecimentos, das trans-escalas
e da produtividade.
sociologia das emergências contrair o futuro;
crítica da razão proléptica monocultura do tempo linear, contraiu o presente e
dilatou o futuro;
Nada, Não (é dizer sim para a algo diferente), Ainda-Não (o futuro se
inscrevendo no presente), Tudo;
trabalho de tradução -

Globalização and Cia. - contra-hegemonia, igualdade, diferença, Reinvenção da emancipação


social

Epistemologias do Sul

Hermenêutica Diatópica .................................................................SOCORRO!!!!!!!!

Di á r i o d a Di sser t a ç ã o
d a t a sola r 16 d e n ovem b r o d e 2 0 0 8

L ei o d a b i og ra f ia d o B oa ven tu r a na Wi ki p éd ia e a c h o ext r em a m en t e
i n suf i ci en t e, r esolve esc r ever out r a e t en h o b r i g ad o c om o f or um
d e d i scu ssã o p a r a qu e a m in h a ver sã o d e su a b i og r a f ia sej a a c ei t a .
A lg o a ssi m , n o est i lo w i k i p edi a n o: 114
Boaventura de Sousa Santos é um morador deste planeta;
todos somos, eu sei, mas parecem que muitos disto se esquecem!
ele insiste nisto e é por isto que, apesar de tantos títulos importantes, o seu currículo oficial não
dá a dimensão do morador, talvez só do sociólogo e pesquisador.

d a t a sola r : 2 0 d e n ovem b r o d e 2 0 0 8

H oj e t i ve u m a i lu mi n a çã o! No m ei o d o d esesp er o c on h ec id o c om o O
qu e f aço a gora d est a di ssert a çã o, seja o qu e f or, ma s bem ráp id o e
p rá ti c o? , m e d ei c on ta d e qu e p od er i a m e com u ni c a r di r et a m en t e
c om ele.
E le t em a p a r ecid o qu an d o b em qu er , b a st a um a i n voca ç ã o p equ en a
n u m san t o si t e d e bu sc a e lá est á ele m e c on t a nd o ou t r a d uz in d o
m u nd os, t i p os u m g r i ôn et , u m m est r e g r i ô d a I n t er n et!
V ou p er gu nt a r d i r et a m ent e sob r e o qu e p r eci so, sem mu i ta s
d elon g a s.
fim

----------------------------------------------------------------- - .
| Inicio da Sessão: segunda-feira, 20 de novembro de 2008 |
| Participantes: gloria (glocunha@yahoo.com.br) |
| e-Boa (e-boa@)boaventura.org) |
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[19:31:54] e-Boa — olá
[19:32:34] gloria — olá, bjs
[19:33:12] e-Boa — conseguiu reunir as informações que queria?
[19:34:09] gloria — acho que não..... preciso de ajuda
[19:35:00] e-Boa — sei...sei...
[19:36:50] gloria — o q vc sabe??
[19:37:30] e-Boa — sei que precisas de ajuda
[19:38:07] gloria — buenas, então é o seguinte: eu já contei tudo sobre suas aparições, mas minha
orientadora quer explicações menos esotéricas; expliquei que vc apareceu quando eu lia seu texto
Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências com as Pipocas do Gepec, e
disse que o texto...
[19:38:33] e-Boa — [...] sumaria a reflexão teórica e epistemológica a que me conduziu um projecto
de investigação com o título «A reinvenção da emancipação social» por mim recentemente dirigido.
Este projecto propos-se estudar as alternativas à globalização neoliberal e ao capitalismo
global produzidas pelos movimentos sociais e pelas organizações não governamentais na sua luta
contra a exclusão e a discriminação em diferentes domínios sociais e em diferentes países. O principal
objectivo do projecto foi determinar em que medida a globalização alternativa está a ser produzida a 115
partir de baixo e quais são as suas possibilidades e limites. [...]
[19:40:00] gloria — Isto! contei o texto inteirinho da forma mais exata possível, informando que nos
6 países semiperiféricos da pesquisa, foram identificadas 5 áreas temáticas, mas que foram 3 os
fatores que mais contribuíram para essa reflexão toda que está no texto com as 3 conclusões e os 3
procedimentos sociológicos - sociologia das ausências, das emergências e trabalho de tradução -
desta razão cosmopolita; não sem antes, claro, proceder à crítica da razão indolente, que tem 3
pontos de partida e ocorre de 4 formas diferentes: razão arrogante, impotente, metonímica e
proléptica e....
[19:43:12] e-Boa — e...humm??
[19:45:09] gloria — apesar dos meus esforços, acho que, ainda assim, ninguém entendeu nada.
[19:45:15] e-Boa — Escolhi seis países, cinco dos quais semiperiféricos, em diferentes continentes .
[...] para além de Moçambique como país periférico, eram a África do Sul, o Brasil, a Colômbia, a
Índia e Portugal. Nestes países, identificaram-se iniciativas, movimentos, experiências, em cinco
áreas temáticas em que mais claramente se condensam os conflitos Norte/Sul: democracia
participativa; sistemas de produção alternativos e economia solidária; multiculturalismo, direitos
colectivos, pluralismo jurídico e cidadania cultural; alternativas aos direitos de propriedade intelectual
e biodiversidade capitalistas; novo internacionalismo operário. (T, 1)
[19:46:09] gloria — certo, certo, foi o que eu expliquei, mas acho que poderíamos começar falando
um pouco de você; sinto informar-lhe, mas muitas gente ainda não o conhece...
[19:47:12] e-Boa — e...??
[19:47:19] gloria — professores adoram histórias, me conte sobre você, sua formação, o que fez ....
[19:48:00] e-Boa — [...] nasci num período em que Portugal vivia sob uma ditadura[...] Eu militava no
movimento católico progressista, que era extremamente reprimido. Fiz Direito em Coimbra, depois fui
estudar Filosofia na Universidade de Berlim Ocidental. [...] Abandonei a minha ligação com o
movimento católico já antes de ir para Berlim Ocidental, porque a Igreja Católica em Portugal, ao
contrário da brasileira, era muito conservadora, muito reacionária [...]
[...] Quanto ao socialismo, tive a sorte, digamos, de ver um pouco o socialismo real na Alemanha
Oriental. Este socialismo nos anos sessenta era extremamente punitivo. [...] recebíamos
gratuitamente: as obras completas de Lenin, de Marx, de modo nenhum Trotski, que do lado de lá
nunca aparecia [...] Regressei a Portugal e fui para os Estados Unidos em 1969. Aí, fiz uma viragem
para a Sociologia. Especializei-me em Sociologia do Direito [...] doutoramento na Universidade de
Yale, por meio de um trabalho na América Latina e optei pelo Brasil.[...]
Vim para o Rio, disposto a viver numa favela e realizar minha pesquisa[...]. Eu queria estabelecer uma
outra explicação, mostrando que a favela não era o paraíso mas também não era o inferno, era uma
sociedade em que as pessoas em situação de extrema pobreza procuravam uma vida digna.
Era inimaginável, nesta época, para os brasileiros, que um português viesse fazer pesquisa
116
sociológica, porque pesquisa era feita por americanos. Português vem ao Brasil para fazer comércio,
não é? E quando eu chegava na favela, perguntavam: "afinal, qual é o seu negócio? É secos e
molhados, a gente ajuda, é sorvete?" Eu respondia: "não, eu quero mesmo é fazer uma pesquisa". 118
[19:49:30] gloria — você tem uma ligação muito forte com o Brasil. Pode contar um pouco mais
desses primeiros contatos?
[19:51:00] e-Boa — Eu fui fazer a minha tese de doutorado numa favela do Rio de Janeiro, a favela
do Jacarezinho, onde vivi vários meses, realizando observação participante. Isso foi o que mudou a
minha vida. Estávamos no final da década de 60 e início dos anos 70. Era uma época muito
interessante, de grande agitação política, de contestação à guerra no Vietnã. Eu estudava nos
Estados Unidos, na Universidade de Yale, foi a primeira vez que houve uma greve nessa
universidade. Era um momento da radicalização da sociologia, da mudança do quantitativo para o
qualitativo. Havia a idéia de que tínhamos de fazer trabalhos mais próximos dos nossos objetivos,
fazer um trabalho qualitativo face a face, não tanto através de entrevista, que cria distância, mas pela
observação participante, de desenvolver um trabalho com a comunidade. Havia a idéia de que
devíamos ser facilitadores, porta-vozes etc. Portanto, uma nova relação ciência-cidadania. Inicialmente

118 SANTOS, Boaventura de Sousa (2001). Entrevista para a revista Teoria e Debate.
quis fazer o trabalho em Portugal, mas não havia bolsas. Só para a América Latina. Meus dois avós
tinham sido imigrantes no Brasil, do lado paterno e do lado materno, e eu, desde pequeninho, ouvia
histórias sobre o Brasil, achei que era o momento de conhecer as terras sobre as quais tinha ouvido
tantas histórias. Meu avô, que era funcionário da Light, ajudou a construir os carrinhos dos elétricos
(bondes) no Rio, nos anos 20. E fui para lá. Naquela altura, sociologia no Brasil era feita sobretudo
por americanos. Não havia muitos brasileiros na área. Obviamente, não havia nenhum português. De
maneira que os moradores da favela me perguntavam: "O que afinal queres vender? É secos e
molhados? O que tu queres?" "Que é isso! Um português a fazer tese de doutorado?" Não
compreendiam por que eu queria fazer uma tese. 119
[19:52:30] gloria — dá para contar alguma história desta época, você e o Brasil?
[19:52:55] e-Boa — A minha primeira história foi assim: eu cheguei numa favela de palafitas na Baía
de Guanabara e fui recebido pelo líder da favela. Conversamos, otimamente, na casa dele e tal, até
que eu lhe disse que o meu objetivo era fazer uma investigação. O homem agarra uma carabina que
tinha na parede e me diz: "Seu portuga de merda, saí daqui que eu te mato". E eu fiquei espantado,
sem saber o que se tinha passado, porque estávamos numa conversa muito agradável, e eu fui indo
para fora, a recuar, as mulheres a perguntar e ele dizendo: "Esse portuga é cagüete, veio aqui para
117
nos denunciar". Uma dessas mulheres me disse: "Sai devagar, vai pela estrada da favela e vai embora".
Eu saí, virei a esquina e corri para pegar um ônibus. Só parei em Copacabana. 120 [...].
Era 1970, estávamos sob ditadura, [...] o meu trabalho foi feito à volta dessas associações de
moradores. Foi aí que eu conheci [...] o lado da miséria, da exclusão, das condições horríveis em que se
vivia. Fiz a tese e, para não identificar as pessoas e não causar nenhum problema aos meus amigos que
tinham ajudado na pesquisa, pus um nome fictício, ―Direito de Pasárgada‖, título inspirado no poema
de Manuel Bandeira. Durante muito tempo ninguém soube que era na favela Jacarezinho, havia
alguma dúvida, uns diziam que era a Rocinha, outros, Jacarezinho.
[...] Adquiri uma consciência marxista, como dizia José Martí, "nos intestinos do monstro". Foi nos
EUA, com a Guerra do Vietnã e, depois, com as favelas do Rio. Essas foram para mim as grandes
escolas de vida. Morei durante meio ano num barraco na favela do Jacarezinho porque queria ver
como funcionava.121
[20:54:15] gloria — uau, demais, gracias e gracias

119 SANTOS, Boaventura de Sousa (2003). EVANGELISTA, Fernando. O mundo resiste. Revista Caros Amigos. (Tentei acessar este link em 2010, mas parece que foi tirado do ar.
Alguém quer uma cópia?).
120 Idem.
121 SANTOS, Boaventura de Sousa (2001). Entrevista para a revista Teoria e Debate.
[20:54:34] e-Boa — conseguiste as informações que querias?
[20:55:12] gloria — adorei, mas posso abusar?
[20:56:11] e-Boa — uuuuuuunh...
[20:57:09] gloria — que tal mostrar o lado poeta e escrever aí um auto-retrato.
[20:58:10] e-Boa — publiquei um bem interessante com o heterônimo de Boaventura de Sousa no
livro Madison e Outros Lugares, Editora Afrontamento, em 1989. Chama-se

Auto-retrato

Este retrato tem barulho de escada rolante


que se cala em movimento

o chão dos achados


rodeia o mapa de flores pesadas
e os degraus germinam nos pés
à cata de gente média
118
passageira imóvel dos factos

cresce com o excesso latino


a morte vitalícia de um céu mecânico

a espera é d'aço menino


como um século corporal
vestido de santos e arcanjos
entre os pardais da cama
os troféus escondem os donos
e pensam grosso à sobremesa

sou um homem casado


com dois ou três princípios
que não têm fim.

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| Fim da Sessão: segunda-feira, 20 de novembro de 2008 |
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Intermezzo III
Viagens d'olhar à viagem do mar
D a sé rie EST R A NHO S O LHA RES

―a estranheza d o o lhar ao
o lhar para os mesmos lugares...
pra mudar:
mudar o o lhar,
estrangeirar
Abro bem os o lho s
Fecho bem os o lho s
ao estranhar o o lhar culturais
(pra ver o pequen o grande monoculantigo
ou o esc o ndido do visível) M icro scópio

uso Lentes Kronas

lentes de A u m e n t o
binóculos
étnica 119
Mesmo assim meus o lhos
veem apenas reviro os o lho s
o que está na frente vejo um pouco mais de 1 80
frente-lado, nova conquista
,
mas
se quero o TO DO
é preciso um

Iº MOVIMENTO
(rotação)

Rodopiar
Rodopião girando
vejo o mundo em qualquer sentido
(mesmo que ele não os tenha)
até aonde alcança meu telescop' o lho
o todo-pouco à minha volta me pertence

quero mais
quero agora o neo não -visto
o que está longe
IIº MOVIMENTO
(translação)
Locomover Louco mo ver lo como ve r louc omo verlo comove lo
Co r rer do lu g ar f i x a d o ... ( ¿por quem? )
Deixar de ser cen tro -imóvel
sou
centro - m ó e
v L
lentes para modificar! ! ! !
_________ enxer gar os hor izontes!!!!!!!
gira pião como g ira a mãe- terr a! ! ! ! !! ! !!!!!!!
________para o m eu -todo aba rcar! ! ! ! !!!!!!!!!!!!!!!!
brinco de ci randa,
(mas chego no mesmo lugar
perigo de órbi ta:
- giro i n c e s s a n t e c h e g a n d o s e m p r e ao mesmo lugar - )
troco ocasos por acasos,
I Ch ings e dados
o movimento -g iro n ão é como carretel
( tudo igua l, mesm a di reção)
é um nove lo
(caminha e ocupa espaços)
120
loucarandomicament e
é necessário partir portuguesa, me la(n)ç' ao mar:
va ga Saramágico,
va ga va ga
va ga va ga puxa âncoras de Ibéria que, livre d' europa,
va ga va ga
va ga como uma Ilha Desconhecida va ga va ga
va ga
va ga va ga va ga va ga
procurando -se a si mesma
I béria,
boa filh a, (depois de sair pela porta das decisões)à casamar torna
(não é revolta, mas volta)
(¿uma viagem forma ou desvela?)
da mesma forma que se despre(e)ndeu a navegar
pode então, ―Jangada de Pedra, comigo dançar :
Li u ma ve z não se i onde qu e a g aláxia a qu e p e rte nce o nosso siste m a sol ar
se dirig e p ara u ma c onste laç ão qu e ag ora també m não me le mbra o nome , e
e ssa conste laç ão d irig e -se , p or su a ve z, p a ra u m ce rto p onto no e sp aço,
g ostaria de se r mais e xato, mas a mi nha cabe ça não re te ve os p orme nore s,
no e ntanto o qu e eu que ria dize r é o seg u inte , ora re p are mnós aqu i vamos
andando sob re a p e nínsu la , a p e nín su la na ve g a sobre o mar, o mar rod a co m
a te rra a qu e pe rte nce , e a te rra vai rodand o sobre si me sma , e , e nqu anto
roda sob re si me s ma, rod a també m à vo lt a d o sol, e o so l, t ambé m g ira e m
torno de si me smo, e tu do isto j u nto vai na di re ção da tal conste lação, e ntã o
me p e rg u nto, se não somos o e xtre mo me nor de sta cade ia de movi me nto s
de ntro de movi me ntos, o qu e e u g ostaria de sabe r é o qu e é que se move
de ntro de nós e p ara aonde vai, não, não me re firo a lomb rig as , micróbio s e
bacté rias, e sse s se re s qu e hab itam e m nós, falo dou tra coisa , du ma cois a
qu e se mova e que talve z nos mova [.. .].
4º Movimento: New teachers na rede
-mestres-griôs na pajelança quilombola fandangueira-

Pajelança
Quando os futuros são incertos, porque não seguem
uma lei ou uma ordem, todas as possibilidades são
imagináveis.122

121

123

Aproprio-me das palavras do poeta Manoel de Barros porque ele dá uma forma mais bonita às
minhas desculpas, às minhas sinceras desculpas, por mais esse pedido de licença.
Não é exatamente minha pretensão à transgressão, mas digamos que, neste escrito, me dei a
liberdade de ter esta tal luxúria de que nos fala o poeta, a que amplia sentidos de palavras, e,
então, venho aqui narrar uma experiência pedagógica sim, e, portanto, passível de fazer parte de
uma dissertação defendida nesta ilustre faculdade de educação; uma experiência de
aprendizado na qual fui transcendentalmente orientada por um encantado ou um avatar, como
preferirem.

122 GERALDI, João Wanderley. Depois do 'show', como encontrar encantamento?


123 BARROS, Manoel. Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada. Poema VII sobre uma ilustração de Karmo.
Avatar é o nome micreiro daqueles bonequinhos que você pode montar na sua maquininha,
escolhendo essências – cor e forma do cabelo, vestimenta e adereços – e que passa a ser sua
imagem na Internet, seu ser digital em jogos e sites de diversos relacionamentos.
Mas, alerta meu Houaiss, avatar, na Índia, designa um ser divino que desce à terra em forma
materializada, que pode ser, entre outras, humana, e acho que foi exatamente isso, ou mais ou
menos isso, ou algo aproximado a isso, que me aconteceu:

2008, espero a chegada da 60ª reunião da Sociedade Brasileira Pelo Progresso da Ciência -
SBPC- novamente em Campinas;
recordo o clima da última por aqui:
1982, ano da morte de Elis Regina e do desaparecimento das Setes Quedas de Iguaçu pela
construção de Itaipu;
o presidente era o general Figueiredo;
a mais perfeita tradução daquele momento da ditadura foi sua fala, na convenção da
ARENA, seu partido, fazendo os votos de compromisso pela volta da democracia a essas terras,
do compromisso com a abertura política do país : "é para abrir mesmo. E quem não quiser que
abra, eu prendo e arrebento!" 122
Estar lá, juntar gente e falar, era estapear a ditadura!
Ela agonizava, mas um ano apenas nos separava da bomba do Rio-Centro, e, naqueles idos,
estar na SBPC era viver um espaço privilegiado de resistência democrática possível e de trocas
culturais: o campus da Unicamp foi tomado pelas mais variadas tribos!
A reunião da SBPC tinha como tema Ciência para a vida. Foi um coral de várias vozes que,
polifonicamente, cantavam cada um a seu próprio modo, a uma só musa: a vida no seu sentido
integral, vida plena com todos os direitos democráticos a nós negados naquele momento.
Todos juntos somos fortes / Somos ferro e somos aço!
Todos nós no mesmo barco / Não há nada pra temer.
- Ao meu lado há um amigo / Que é preciso proteger
Todos juntos somos fortes / Não há nada pra temer 124
Estávamos em movimento, estávamos em festa, resistimos e resistiríamos até dar outros rumos
ao Brasil, juntos, cientistas, artistas, estudantes, o pipoqueiro e a vendedora de tortas.
A ciência nas salas dos departamentos e a arte nos corredores, auditórios e tendas pelo campus,
juntos na luta por um futuro com um horizonte possível, mas ainda não visível.

124 Todos juntos, do musical Os saltimbancos, de Enriquez Bardotti e Chico Buarque, 1977.
2008, ando pela Unicamp e procuro em vão a SBPC, aquela outra, a que transborda
departamentos, que sai da sala para novos espaços, novas articulações, mas não a encontro;
a universidade cheira às férias de julho e só.
No site do Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU)125 encontro a divulgação desse evento
e algo dos anteriores.
Há 60 anos acontecia a 1ª reunião da SBPC na cidade de Campinas, reunindo pouco
mais de uma centena de pesquisadores no Instituto Agronômico de Campinas, IAC.
Em 1982, ainda sob a ditadura militar, o encontro ocorreu novamente em Campinas,
dessa vez na Unicamp. Agora novamente volta para Unicamp e a expectativa é que
mais de 15 mil pessoas participem do encontro. [...] A SBPC, desde o início da sua
história, sempre teve forte atuação em assuntos políticos relacionados à Ciência e
Tecnologia e consequentemente ao modelo de desenvolvimento do país. Mas foi
durante a ditadura militar que a organização e as reuniões anuais passaram a ser
espaços de resistência democrática.
No editorial de 20 de agosto de 2008 do Causa Operária na rede126, encontro uma crítica a esses
rumos:
Cerca de 12 mil pessoas participaram do evento. [...] A SPBC foi uma farsa. O evento
que deveria promover discussões a respeito do futuro das pesquisas científicas
123
brasileiras serviu como lugar de propaganda do exército, de grandes corporações
privadas de ensino e tecnologia.

Em seguida denuncia as péssimas condições de alojamento dos estudantes e diz que o tema da
reunião - energia, tecnologia e meio ambiente - "não deu espaço para que a maioria dos projetos
desenvolvidos na área de humanas e saúde pudesse expor seus pôsteres ou levantar discussões."
No site do evento encontro que
Para os organizadores do maior evento científico do país, 'a reunião foi um sucesso'
[... ] 12 mil pessoas passaram pelas diversas atividades integrantes da Reunião Anual,
tanto na programação sênior, que concentra as conferências, simpósios e mesas-
redondas, como a ExpoT&C, SBPC Jovem e SBPC Cultural. Deste total, destaca
Guimarães, pouco mais de seis mil se inscreveram no evento.[...] resultado positivo
desta edição da reunião foi a discussão por eixos temáticos. Conseguimos trazer para
dentro da SBPC o debate de temas estratégicos para o desenvolvimento nacional,
como o etanol e a necessidade de inovação.127

125 Portal do Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp. Disponível em http://www.stu.org.br/?q=node&page=18. Acesso em 15 de maio de 2008.
126 SBPC: Parque de diversão dos capitalistas. Portal da Causa Operária. (2008). Disponível em http://www.pco.org.br/conoticias/ler_materia.php?mat=7745. Acesso em 15 de
maio de 2009.
127 AMORIN, Luis (2008). 60ª Reunião Anual da SBPC.
Não encontro o que procuro,
mas há cheiro de mudanças no ar...
(algo está acontecendo! onde?)
deslocamentos...
deslo(u)camentos e itinerâncias...

Aproveito o vácuo da SBPC para embarcar, rumo a outro evento/universo, que dividia meus
quereres na mesma semana, o I Encontro da Rede Mocambo,
outro evento bem perto, mas bem longe;
outro evento bem perto, mas do outro lado da cidade;
desta cidade estranha que tem um outro lado, onde é fácil ir daqui pra lá, mas é difícil
chegar aqui, vindo de lá.
Como descobrir esta cidade, se há poucas pessoas para contar sua história?
Nos últimos 30 anos, Campinas duplicou sua população.
É preciso explicar sobre esta cidade, porque muitos não são daqui, e os muitos dos que aqui
estão não nasceram aqui, não conheceram a Campinas dos anos 60, ainda com o teatro
municipal, mas sem a Igreja do Rosário; 124
nem sabem que ela foi arrancada de seu lugar pela modernidade, para tornar a rua
central da cidade mais corretamente reta, sem desvios, mas sabem que era a igreja dos pretos;
pretos, eles também arrancados do centro, e, então, parece até correto que a santa e seu
espaço os acompanhe para fora do centro, do coração da cidade;
sua falta será sempre menos sentida do que a do Teatro Municipal, orgulho da alta
cultura da elite campineira ou campinense (nunca se sabe!) e que, corretamente, deveria, como
ela, a Igreja do Rosário, ocupar o centro da cidade, agora abandonado por todos.
As pessoas que nasceram e permaneceram nesta cidade acabaram por trocar de lugar, como a
igreja de sua santa, numa diáspora interna, municipal;
algumas empurradas que foram pelo mercado da terra, para fora do centro
- do centro geográfico, do centro social, do centro econômico -
algumas para as favelas,
algumas outras para as novas vilas operárias,
algumas poucas empurradas para condomínios,
também guetos desta cidade sem passado que aumenta seu acervo de muros que
"aprovam as casa e as casas quem mora nelas". 128

128 SANTOS, Boaventura de Sousa (2004). CIDADE.


Procurava um poema para esta cidade;
na gaveta de um site de busca descrevo a minha Campinas -<cidade> - o que ela não tem
- <memória> -, o que quero - <poesia> - e, já quase num impulso incontrolável, somo a isto
<"Boaventura de Sousa Santos">, com aspas, dará samba ou fado?
O resultado foi a aparição deste poema abaixo, uma aparição da face vadia do sociólogo, que
esparramei sobre um cartão postal da cidade.
Sorte minha!, já que o poeta retirou o Santos do nome mais público.129

N esta ci dade não há memória


N em ninguém se lembra
A ci dade assusta
P orque as ruas
Estão a per der consistência
Insidi os amente a ci dade
Len tamen te as fachadas Acorr enta os pés
125
Separ am -se das casas À medi da legal
E vão m orar D os passos
Num deser to próxim o
N esta ci dade
Uma ci dade com ruas As ruas apr ov am as casas
Sem senti do E as casas
Quem mor a n elas

Será que para ser poeta, um sociólogo precisa deixar seus Santos de fora ?
Com suas várias faces (sociólogo, jurista, militante, professor ou poeta), foi assim que elas foram
aparecendo, uma a uma.
Faces, heterônimos?
Desdobramentos de portugueses!
são tão afeitos a isto que, ao conhecermos um autor da beira dessa península, a Ibéria,
pode calhar de estarmos a lidar não com um, mas com uns tantos.
[...] há muita gente a querer falar dentro de nós[...]130

129 Boaventura de Sousa tem 4 livros de poemas publicados: O rosto quotidiano (1966), Têmpera (1980), Madison e outros lugares (1989) e Viagem ao centro da pele (1995).
Este desdobrar de nomes me fez ver que, ao contrário do que sempre acreditamos, Deus é
português e não brasileiro, afinal tem montes de nomes e faces diferentes.
Sim, meus caros, alguém com mais heterônimos do que Ele só o seu Contrário...
A versão de sociólogo de e-Boa foi a primeiro que conheci;
fui apresentado a ele em 1998 e, em várias ocasiões, me servia de amparo para algumas
reflexões;
suas aparições nas minhas pesquisas eram constantes, mas sem uma densidade que me
fizesse desconfiar desse assédio.

Em 2005 pesquisava sobre racismo e decidi que queria caminhar no texto só com autores
brasileiros. Decidi, mas ele se intrometia na conversa deles até me convencer, e acabei por abrir
uma exceção para autores de língua portuguesa...
Mas como dispensar alguém que escreve em apenas dois versículos a mais perfeita tradução do
que eu tentava falar ?
temos o direito a ser iguais sempre que a diferença nos inferioriza;
temos o direito de ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza. 131
Essa frase foi também a inspiradora da letra que fiz em 2010 e que chamei de Rapracatu uma 126
mistura de rap com maracatu.132

Em 2008, uma inquietação da professora Ana Aragão trouxe de novo Boaventura de Sousa

Santos de volta para os debates no GEPEC. Para as reuniões do Seminário de Pesquisa, ela e

Jacqueline Morais postaram na lista do grupo o texto Para uma sociologia das ausências e uma

sociologia das emergências.

Não saiu mais, nem das minhas mãos, ou dos meus olhos, o tal texto;
não sei dizer se realmente o estudava, mas convivia com ele no carro, na sala, na cama e
em outros menos publicáveis;
mesmo assim nunca chegava ao fim, porque ele me provocava, me fazia olhar para o
que eu conhecia de forma diferente, me fazia deslocar, ou desloucar?

130 SANTOS, Boaventura de Sousa (2005a). SCHWARTZ, Christian. Escrita INKZ – anti-manifesto para uma arte incapaz.
131 SANTOS, Boaventura de Sousa (1999). A construção multicultural da igualdade e da diferença, p.61.
132 Depois eu mostro...
Comecei não apenas a deslocar meu olho, a dançar com esse texto, mas foi como se alguns dos
seus nomes-categorias começassem a pular das folhas para a minha frente, colocando legendas
nas coisas que eu via.

Quando pedi ajuda para minha cidade sem memória, junto do poeta apareceu um cão, King;
existia uma indefinição sobre quem levava quem para passear, trocando sentidos, mas enfim,
poeta e cão, surgiram juntos.
Educado, o cão, foi logo se apresentando:
Sou um flaneur É bom subir aos telhados
Gosto de medir Para ver que as telhas
O movimento da cidade É tão estranho Não estão dispostas
Pelo pulso das formigas Que ninguém estranhe Hierarquicamente
O que se passa 133

E dando sua opinião sobre nós:


Li no chão Se os humanos ladrassem
Que a eternidade vigia o tempo Seriam mais humanos134
Deve ser por isso 127
Que os humanos Vejo apertos de mão
Comem nas horas certas135 Que são combates
Há mãos que não recuperam
Nunca mais136

Desloquei-me para o outro lado da cidade;


desta cidade que sempre teve seus muros, terras cortadas, uma cidade dividida pelas
estradas, uma cidade definida pelo progresso;
alguém sabe onde é o outro lado destas linhas abissais?

Campinas fatiada pelas estradas, hoje de asfalto, ontem de ferro.


Em frente da antiga estação de trem, hoje conhecida como Estação Cultura, encontramos
vestígios do velho progresso: o prédio da antiga fábrica Lidgerwood e os gloriosos e
descascados casarões dos barões do café, fatiados em botecos, lojinhas, estacionamento e templo
religioso.

133 SANTOS, Boaventura de Sousa (2004). King-Cidade.


134 SANTOS, Boaventura de Sousa Santos. In: SOUSA, Marcio-André de. O EVANGELHO SEGUNDO KING.
135 SANTOS, Boaventura de Sousa Santos. In Fotolog.
136 SANTOS, Boaventura de Sousa Santos. In: SOUSA, Marcio-André de. O EVANGELHO SEGUNDO KING.
À direita da entrada da estação, escondidinho, encontramos um pequeno e charmoso túnel que
nos leva ao outro lado e a outros vestígios do velho progresso: as primeiras vilas operárias,
corretamente construídas ao lado do matadouro, do curtume, das instalações dos serviços de
imigração, dos dois lazaretos, tudo em terras de um antigo cemitério.
Campinas fatiada pelas estradas, ontem de ferro, hoje de asfalto.

Anhanguera, Bandeirantes nomes de estradas que continuam fazendo o que seus homenageados
fizeram por aqui, integrando a região com outras mais distantes, separando o que está perto,
cortando em nome do progresso.

O povo preto de Campinas e outros tão pretos quanto, porque pobres eram, foram os moradores
iniciais da Vila Industrial, mas a diáspora econômica deslocou-os para o outro lado da nova
linha abissal, a nova estrada, Anhanguera. É aí, junto aos primeiros bairros da
COHAB/Campinas, que nasce a Tainã, o primeiro porto da minha viagem.

137
Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado 128
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres
são tratados [...]

Da Unicamp à Casa de Cultura Tainã, 20 minutos,


saio da loca, cruzo a Anhanguera, a estrada;
na bagagem, o texto, seu autor e King.

137 Haiti, Caetano Veloso e Gilberto Gil.


Quilombola

Apresento a dona da casa.


A Casa de Cultura Tainã é uma entidade cultural e social sem fins lucrativos fundada em 1989
por moradores da Vila Castelo Branco e região e que se reconhece como quilombo urbano. A
Tainã, caminho das estrelas, nome escolhido através de um concurso, fica desse outro lado da
cidade, um lugar fácil de ir daqui, Barão Geraldo, Unicamp, para lá. Contudo, uma metamorfose
social de tempo e espaço torna extremamente difícil e mais improvável a ocupação desses
bancos que ocupamos aqui por quem vem de lá. A região de atuação da Tainã compreende
quatro vilas populares das regiões sul e noroeste, o outro lado das estradas, onde mora grande
parte da população negra do município.
Nós trabalhamos a questão da identidade cultural por meio das ferramentas tecno-
lógicas. É muito importante para essas comunidades estarem incluídas socialmente e
digitalmente. Assim, podemos ajudar a promover o desenvolvimento local.138

A atuação da Tainã sempre esteve ligada à música e à cultura, em particular a afrobrasileira, mas
TC, Antônio Carlos da Silva, coordenador da Tainã, sempre estimulou a aprendizagem da 129
informática, tanto para o pessoal da casa, quanto para a comunidade.
[...] ao velho racismo da superioridade da raça ariana, junta-se o racismo da
superioridade da raça tecnológica [...] da desigualdade das distribuições,
sedimentadas pelas práticas reiteradas da economia, emerge um novo tipo de
essencialismo, um racismo anti-racista e pro-tecnológico.139
A consciência da importância da tecnologia para o trabalho político da Tainã aproximou-a da
área de informática, inicialmente com a ida de uma unidade do CDI - comitê de democratização
da informática - para sua sede, nos anos 90. Depois começou a se envolver cada vez mais com o
movimento de software livre, difundido pela Rede Mocambo, sua criação. Em uma de suas
frentes de trabalhos, o Estúdio Livre, tem "Todas as ferramentas deste ambiente [...] baseadas nos
conceitos de software livre, conhecimento livre e apropriação tecnológica."140. Isto se expressa
claramente no objetivo do Estúdio Livre: ―Reunir e formar uma comunidade que realiza pesquisa
em software livre", incentivando "a produção e circulação de bens culturais livres (obras que podem
ser distribuídas, remixadas e retransmitidas livremente de forma legal , isto é, por meio de licenças
Creative Commons)."

138 SILVA, Antônio Carlos da. In: Portal da Rede Mocambo. Disponível em http://www.mocambos.net/. Acesso em 24 de junho de 2010.
139 SANTOS, Boaventura de Sousa (1999). A construção multicultural da igualdade e da diferença, p.29.
140 Portal do Estúdio Livre. Disponível em http://www.estudiolivre.org/tiki-index.php?page=sobre&bl. Acesso em 15 de maio de 1999.
A Tainã sempre me chamou a atenção porque tinha uma orquestra de tambor de aço, mais que
rara, ela é a única no país.
Esses tambores de aço, mais conhecidos pelos percussionistas pelo nome em inglês, steel drums,
são originários do Caribe, e chegamos a Campinas praticamente juntos. No meu primeiro ano na
cidade, como percussionista na Sinfônica de Campinas, um grupo do Suriname, uma orquestra
de steel drums (não sabia nem o nome do instrumento em português), ficou algumas semanas em
Campinas. Assisti a várias apresentações, e pela primeira vez eu via em Campinas muitos
negros reunidos. Eram músicos da cidade interessados no instrumento, e entre eles o TC, que
aprendeu a construí-lo e, aos poucos, foi montando sua orquestra de tambores de aço.

Ando por territórios distintos;


a pororoca entre ensino e música, meus dois fazeres prediletos, se dá na rua, na casa, em
escolas, especializadas ou não, em projetos, em turma, só, em grupos, orquestras, corais, bandas,
enfim em toda parte, e gostar disso me transporta a espaços onde a educação não gosta de se
saber lá, ausentando-se atrás de dicotomias.
O ensino formal vê e ordena como sua negativa, o que não comporta: não formal; 130
O que proponho é [...] pensar os termos das dicotomias fora das articulações e
relações de poder que os unem, como primeiro passo para os libertar dessas relações,
e para revelar outras relações alternativas que têm estado ofuscadas pelas dicotomias
hegemónicas. Pensar o Sul como se não houvesse Norte, pensar a mulher como se
não houvesse o homem, pensar o escravo como se não houvesse senhor. O
pressuposto deste procedimento é que [...]a razão metonímica, ao arrastar estas
entidades para dentro das dicotomias, não o fez com pleno êxito, já que fora destas
ficaram componentes ou fragmentos não socializados pela ordem da totalidade.
Esses componentes ou fragmentos têm vagueado fora dessa totalidade como
meteoritos perdidos no espaço da ordem e insusceptíveis de serem percebidos e
controlados por ela.( T, 11)

Desta forma, muitas vezes o ensino de música surge nas pesquisas acadêmicas, como algo
pensado, que tem existência apenas a partir de uma placa colocada em algum prédio ou uma
ementa, um currículo. Não considera ensino a forma de transmissão que escapa aos seus
arquétipos e que acontece em espaços não reconhecidos, como espaços da educação, ou tem a
condescendência de considerá-lo ensino, mas sempre comparando com seus valores formais.
O que é que existe no Sul que escapa à dicotomia Norte/Sul? O que é que existe
na medicina tradicional que escapa à dicotomia medicina moderna/medicina
tradicional? O que é que existe na mulher que é independente da sua relação com o
homem? (T, 12)

Comecei a frequentar a Tainã, a querer saber o que acontecia mesmo por lá e como acontecia, há
cerca de 10 anos. Aparecia, ficava proseando com o TC, Denise ou outros integrantes da casa,
tentando entender o trabalho, as relações dos vários grupos, conhecendo as dificuldades de
manter uma biblioteca, uma sala de computadores e um trabalho cultural numa região onde o
poder público é quase inexistente.
Diversidade, diversas idades, dos miúdos às idosas do centro Toninha, que funciona no mesmo
prédio, conviviam aos sons de hip-hop, reggae, maracatus e sambas tocados em tambores de aço
e de pele. O número de pessoas que circulava no local era bastante grande incluindo um jogador
profissional de basquete nos EUA, um negro americano imenso, que passava meses como
voluntário por lá, ajudando em várias frentes e treinando um time de basquete com gigantes
locais. Diversas vezes aconteciam roubos, e os integrantes da casa passaram no dormir local
para tentar preservar o que havia, incluindo o ―gigante‖ americano que passou um natal 131
sozinho na casa, para que os outros pudessem estar com suas famílias.
Saboreava o que via e apreciava ainda mais o contraste com os falatórios que sempre rodeavam
a casa: local de viciados que não têm onde morar e invadiram um bem público, ajuntamento de
preguiçosos vivendo dos bens da comunidade!
Nesse movimento
Nesse passo
Que vai passo a passo
Passa o tempo
Passa a história
E o som do tambor reaparece
( Pulsar, música e letra do TC)

Tainã é fruto da resistência de algumas pessoas, particularmente do TC e família. Hoje conta


com uma estrutura física razoável, em grande parte resultante do reconhecimento de sua
importância pela comunidade negra de Campinas, que escolheu o projeto de ampliação desse
espaço para receber verbas do orçamento participativo de Campinas de 2001 e 2002 deste setor.
Tornou-se um dos mais importantes Pontos de Cultura141, criando parcerias e projetos que
resultaram, entre outros, na Rede Mocambos.
A Rede Mocambos é uma rede de comunicação social, tambores-bytes tocando, se encontrando,
se comunicando.

É uma rede de comunidades quilombolas, indígenas, urbanas, rurais, associações da


sociedade civil, pontos de cultura, oriundos de norte ao sul do país, conectados
através das tecnologias da informação e comunicação. [...] É uma rede solidária de
comunidades, no qual o objetivo principal é compartilhar idéias e oferecer apoio
recíproco. Os eixos principais que a Rede enxerga são a identidade cultural, o
desenvolvimento local, apropriação tecnológica e a inclusão social. A idéia da Rede
nasceu em quilombos, em particular em um quilombo urbano, a Casa de Cultura
Tainã. [...] Querer escolher os próprios caminhos leva a Rede Mocambos a acreditar
num modelo de cooperação que vê as comunidades procurarem apoio para os
próprios projetos e não as ONGs e as instituições propor e implementar projetos
dentro delas. [...] procuramos apoio do governo para garantir a inclusão digital das
comunidades. Um grande passo foi onde não tinha nem um orelhão, levar uma 132
antena de acesso à internet via satélite, pelo programa GESAC do Governo Federal,
ligar a luz e colocar as comunidades em comunicação na Internet. [...] Atualmente a
REDE MOCAMBOS abriga 27 comunidades (12 pontos de cultura e 15 quilombos);
65 novas comunidades serão integradas à Rede Mocambos e deverão ser conectadas
à internet.142

O evento rival da SBPC nas minhas atenções era o I Encontro da Rede Mocambo, conjunto de
pontos comunitários e quilombolas presentes pelos quatro cantos do país - Manaus, Espírito
Santo, Rondônia, Pernambuco, Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Porto Alegre,
Pará, Piauí - conectados por antenas GESAC.

No portal da Rede Mocambo, podem ser encontradas, bastantes informações sobre a Rede e o
relatório final do I Encontro, que foram minhas fontes neste texto, juntamente com meus
registros escritos, quase diários, da época.

141 Ponto de Cultura é um projeto que faz parte do programa Cultura Viva do Ministério da Cultura. Visa dar um suporte inicial para pequenos grupos culturais e ligá-los em
redes. Mais informações no Portal do Ministério da Cultura. Disponível em http://www.cultura.gov.br/cultura_viva/. Acesso em 24 de junho de 2010.
142 Portal da Rede Mocambo. Disponível em www.mocambo.net. Acesso em 15 de maio de 2009.
Além dos representantes das comunidades, participaram integrantes da Tainã e seus entornos -
alguns artistas de grupos de cultura popular, professores e alunos da Unicamp -, alguns artistas
de Moçambique e candombeiros do Uruguai.
Durante o dia, jovens, adultos e velhos143 conviveram descobrindo as possibilidades dos softwares
livres, técnicas da informática, discutindo políticas culturais e raciais e formas de resistências e, a
cada noite, grupos mostravam sua/nossa cultura num espaço onde tecnologia, arte, ciência e
cultura andaram de mãos dadas, em busca de construções de um outro mundo.
Não participei dos debates. Chegava ao final da tarde para as danças, festas, batuques e muita
conversa e o prazer de encontrar a vida que pulsava por lá, pela leve impressão de que não
precisava entender, só cheirar, olhar, saborear, seguir, como disse e bem escreveu o Leminski, no
poema sem título prazer
da pura percepção
os sentidos
sejam a crítica
da razão

Conheci lá um batuqueiro integrante do maracatu Leão Coroado, grande nação de maracatu de 133
baque virado do Recife e, hoje também, como a Tainã, Ponto de Cultura ligado à rede mocambo,
e avisei o Maracatuca, grupo de percussão em que toco, e nos apresentamos a ele. Todas as
noites ele passou a dar dicas, lições de maracatu, para quem aparecia do grupo, gravou baques e
respondeu perguntas na maior paciência, sem planejamentos e obrigações; queríamos aprender,
e ele ensinava, foi esta a troca.

A cada noite um grupo mostrava sua cultura, de Mãe Lúcia, com o Coco, aos uruguaios com o
Candombe; alguns grupos artísticos e de capoeira da cidade também se apresentaram
aumentando as trocas.
O grupo indígena presente era formado por poucos, mas de etnias diversas, ensinando a dança
na noite de quinta;
dançamos, dançamos e dançamos como cobrinhas desenhando o espaço
- Quanto tempo demora esta dança?, pergunta a menina cansada.
- O tempo da dança é o tempo do peixe assar na fogueira, responde o índio sem parar de dançar,
e nos anima: continuem, falta pouco!

Um outro jeito de contar o tempo.

143 Tenho mais de 50 e posso chamar velhos de velhos e não escondê-los na capa da melhor idade.
Tempo, ritmo, movimento, mudança, O Eterno Deus Mu Dança! 144

Sente-se - e não é somente aqui, mas em qualquer lugar:


Terras, povos diferentes - outros sonhos pra sonhar
Mesmo e até principalmente onde menos queixas há
Mesmo lá, no inconsciente, alguma coisa está
Clamando por mu-dança Sente-se, o que chamou-se Ocidente tende a arrebentar
O tempo da mu-dança Todas as correntes do presente para enveredar
O sinal da mu-dança Já pelas veredas do futuro ciclo do ar
O ponto da mu-dança Sente-se! Levante-se! Prepare-se para celebrar
O deus Mu dança!
O eterno deus Mu dança!
Talvez em paz Mu dança!
Talvez com sua lança
(T, 23)

134
Seguimos, esperando o tempo do peixe, dançando como serpentina em espirais de quilombolas
digitais, dançando e cantando em guarani,
gira pajelança quilombola
girando como num circulador de fulô,
girassol que gira o mundo,
e me encanta
gira e me traz um encantadorientador...
[...] a experiência social em todo mundo é muito mais ampla e variada do que a tradição
filosófica ocidental conhece e considera importante, [...] esta riqueza social está a ser
desperdiçada. (T, 2)

É ele, esse companheiro que está falando, falando! ....


que companheiro?
não um dos do maracatu, estes só tocavam, mas um outro, esse de quem já falei, que
sempre aparece, até sem ser invocado, e aparece dizendo o que quero falar.
Não parava de falar;

144 O eterno deus Mu dança! (1989). Letra e música: Gilberto Gil.


estava maravilhado com a diversidade da Pajelança e começou a falar também que de
nada adiantava recorrer às ciências sociais para tentar estancar esse desperdício de experiências,
que também elas, as ciências sociais, tinham lá suas culpas neste desperdício de experiências
cuja existência aquele encontro provava.
Disse que o problema era maior. Era necessário propor um modelo novo de racionalidade a
partir da crítica ao modelo de racionalidade ocidental dominante que produz ausências e
ocultação. Apontou a razão indolente como um mal do nosso tempo!

— Que isso significa?, perguntei a ele, e não paramos de conversar nesta noite, adeus batuque!

e-Boa — Ela é como uma pessoa preguiçosa. É a razão que não trabalha, não pensa, não se esforça,

acomoda-se na superficialidade das coisas. [...] A razão indolente produz ausências. Produz exclusão.

Dou um exemplo: a razão indolente acredita que só a ciência é pensamento rigoroso. E todos os

outros saberes são irracionais. Acontece que a biodiversidade nos mostra o quão importante é o

saber dos índios, o saber dos povos originários de certas regiões. Saberes sem os quais não

conseguiremos preservá-la. 145


135
— Entendi, é indolente mesmo; um exemplo disto é o afogamento da piscina que existia aqui, na
parte de trás da Casa de Cultura Tainã. Não conhece esta história? Quando foram construir a
Praça dos Trabalhadores, esta praça onde está a Tainã, os habitantes do local estranharam a
escolha e avisaram: aí é lugar de mina d'água, não é bom para construir, mas "aos povos
pequenos ninguém dá ouvidos, não é mania da perseguição, mas histórica evidência" (Saramago )
e continuaram a construir o prédio e a piscina. Terminada a obra, encheram a piscina e ela
afundou, morreu afogada, com o peso da própria água.
e-Boa — a visão indolente da ciência, como fonte única de saber, produziu, por exemplo, a ausência

do pensamento indígena.146

Morador de Redópolis, e-Boa acessa o site Indios On Line 147e abre uma página dizendo que eu

deveria ler uma carta que estava lá para entender do que ele me falava e que isto, toda esta
experiência pulsante que via no Encontro, tinha a ver com as questões do Benjamin, o gajo que
eu estava a ler...

145 SANTOS, Boaventura de Sousa. (2007). Sirva-se um Elixir para a Democracia.


146 Idem.
147 Portal Indio on line. www.indiosonline.org.br/.
e-Boa — A transformação do mundo não pode ser acompanhada por uma adequada compreensão

do mundo. Essa inadequação significou violência, destruição e silenciamento [...] e significou

alienação, malaise e uneasiness no Ocidente. Esse desconforto foi bem sentido por Walter

Benjamin ao mostrar o paradoxo que então passou a dominar — e domina hoje ainda mais — a vida no

Ocidente: o facto de a riqueza dos acontecimentos se traduzir em pobreza da nossa experiência e

não em riqueza. (T, 9)

O escrito do Indios on line que ele quer mostrar tem como título Qual o limite da liberdade de
expressão? É uma carta assinada por Renata Tupinambá, comentando um artigo de Ivar
Hartmann, e questiona: "Como um ser humano pode ter tanto preconceito? de onde vem esse ódio
enraizado contra os povos originários do Brasil? "148
Dramático! Soa exagerado, não?
Meu parceiro acessa o dito artigo em questão, e vejo que Renata não é nem melodramática e
menos ainda exagerada, o artigo está imerso numa arrogância inaceitável, tanto mais vinda de
alguém que é promotor de justiça e professor. Uma arrogância que beira o intolerável. 136
Montezuma, Túpac Amaru e Sepé Tiarajú. No México, Peru e Brasil, foram os
últimos líderes de prósperas nações indígenas, derrotados por civilizações mais
pujantes: espanhóis e portugueses. 149
e-Boa — A não-existência é produzida sob a forma de inferioridade insuperável porque natural.

Quem é inferior, porque é insuperavelmente inferior, não pode ser uma alternativa credível a quem é

superior. (T, 13)

— Foi sempre o que eu ouvi em pequena, na escola e na rua, mas não mudou muito do que se
fala agora. Justificava-se a dominação dizendo que o dominado – índio, negro - é de uma
civilização inferior; também ouvi outras ―pérolas‖ como ―geneticamente inferior‖, para
justificar o domínio dos homens sobre as mulheres ou para justificar a eliminação de alguma
etnia por outra, como os nazistas contra os judeus, negros ou pessoas com deficiência física
acentuada e também foi a fala dos europeus contra os índios das Américas. Olhe só o que ele
escreve depois: ―Com eles encerrou-se a dominação indígena na América. Os índios passaram para
segundo plano e tornaram-se simples espectadores da história da América‖. 150

148 TUPINAMBÁ, Renata. (2008) Qual é o limite para a liberdade de expressão.


149 HARTMANN, Ivar. Raposa do sol e outras raposas.
150 Idem.
e-Boa — A relação de dominação é a consequência e não a causa dessa hierarquia e pode ser

mesmo considerada como uma obrigação de quem é classificado como superior (por exemplo, o

«fardo do homem branco» em sua missão civilizadora). (T, 13)

— É o que ele diz em seguida: "No Brasil de hoje as tribos remanescentes são compostas por
indivíduos semi-civilizados, sujos, ignorantes e vagabundos, vivendo das benesses do poder
branco."151 Benesses aos semicivilizados, um fardo do poder branco!
e-Boa — o que é considerado contemporâneo é uma parte extremamente reduzida do simultâneo. O

olhar que vê uma pessoa cultivar a terra com uma enxada não consegue ver nela senão o camponês

pré-moderno. [...] nessa assimetria se esconde uma hierarquia, a superioridade de quem estabelece o

tempo que determina a contemporaneidade. (T, 10)

— Não os considera sequer brasileiros, diz que a demarcação da Reserva, que se chama Serra do
sol e não Terra do sol, é uma traição ao povo brasileiro, veja: "Somam-se os dois: os índios
atrasados do Brasil - Norte e os americanos e europeus que querem apropriar-se dos recursos
137
minerais de Roraima. Com a complacência do Presidente Lula que concorda com a demarcação de
terras indígenas em Roraima [...]. A traição ao povo brasileiro, irá separar do Brasil um dos mais ricos
de seus territórios: A Reserva Indígena de Raposa Terra do Sol. "152
e-Boa — Raposa Serra do Sol não é a maior nem a única terra indígena em zona de fronteira. Esta

condição tampouco fragiliza a integridade e soberania nacionais, seja porque inexiste, em qualquer

lugar do mundo qualquer movimento separatista indígena, seja porque as terras fronteiriças também

são bens da União. A demarcação contínua, tal como posta, é, ao contrário do alegado por seus

opositores, a salvaguarda da integridade e soberania nacionais, inclusive pelo acesso facilitado de

Polícia Federal e Forças Armadas a bens públicos, o que não ocorreria se reconhecidas

propriedades privadas no referido território.153

Ele contou que escreveu esse texto para o abaixo-assinado a favor da demarcação dessa reserva
que foi apresentado por face mais conhecida, a do sociólogo.

151 Idem.
152 Idem.
153 SANTOS, Boaventura de Sousa. Abaixo-assinado escrito por Boaventura como contribuição à luta em defesa dos povos indígenas de Raposa/Serra do Sol (RR).
e-Boa — A contracção do presente esconde, assim, a maior parte da riqueza inesgotável das

experiências sociais no mundo. Benjamin identificou o problema, mas não as suas causas. A

pobreza da experiência não é expressão de uma carência, mas antes a expressão de uma

arrogância, a arrogância de não se querer ver e muito menos valorizar a experiência que nos cerca,

apenas porque está fora da razão com que a podemos identificar e valorizar. (T, 10)

Terminamos a conversa naquele dia lendo o final da carta de Renata Tupinambá:


nosso espírito nos mostra que existe uma fonte inesgotável de força, que pulsa a cada
respiração e que ela nos liga a todos, dando força para continuar nossa caminhada
nesse mundo, nos mostrando que o valor da vida está nas coisas simples. O passado
nos mostra muitas coisas que muitas vezes no presente não entendemos. Não
devemos ser instrumentos da guerra e sim instrumentos de paz para um mundo
doente. Existe liberdade de expressão, porém não a 'liberdade de agressão' seja física
ou verbal. Que a força de nossos ancestrais esteja sempre conosco, assim como os
saberes. 154
deslocamentos...
deslo(u)camentos e itinerâncias...
138

Fandangueira

A itinerância me levou para Cananéia, II Encontro de Fandango, e, meu companheiro me revela


que estava instalado na função de orientador do fundo, não apenas um colega, e iria a partir de
agora me acompanhar e estar a discutir comigo, enfim, traduzir o que eu lia nos seus escritos
para o que eu via com meus olhos.

Algumas vezes ele me chocava:


e-Boa — é impossível a esperança sem a eventualidade do caixão. (T24)

— O quê?

e-Boa — Como diz Bloch,155 junto de cada esperança está um caixão à espera. (T 24)

— Como?

154 TUPINAMBÁ, Renata. (2008) Qual é o limite para a liberdade de expressão.


155 Rodapé do texto de Boaventura: BLOCH, Ernst (1995), The Principle of Hope. Cambridge, Mass.: MIT Press.
e-Boa — Cuidar do futuro é imperativo porque é impossível blindar a esperança contra a frustração,

o advento contra o niilismo, a redenção contra o desastre, em suma, porque é impossível a esperança

sem a eventualidade do caixão. (T 24)

Já havíamos falado da contração do presente pela razão indolente, que transforma o que não é
igual a si em residual, local, inferior e causa a contração do presente, provocando a inexistência
das experiências que não considera credíveis, e agora e-Boa falava dos procedimentos da razão

cosmopolita.
e-Boa — Para expandir o presente, proponho uma sociologia das ausências. (T,3)

A sociologia das ausências visa identificar o âmbito dessa subtracção e dessa contracção de modo a

que as experiências produzidas como ausentes sejam libertadas dessas relações de produção e, por

essa via, se tornem presentes. Tornar-se presentes significa serem consideradas alternativas às

experiências hegemónicas, a sua credibilidade poder ser discutida e argumentada e as suas relações

com as experiências hegemónicas poderem ser objecto de disputa política. (T, 15)
139
Essas ausências, experiências silenciadas, experiências que não tocaram as pessoas porque não
se pode ser tocado pelo inexistente, pelo que não se conhece, pelo que não se vê, lembrava-me os
relatos dos silêncios de amigas professoras, silêncios constrangedores, ameaçadores e outros
apenas amargos, mas agora ele tentava me mostrar alguma saída.
Outras vezes apresentava idéias estranhas, como querer contrair o meu futuro!
— Que coisa é esta de me tirar um pedaço do futuro? Todos sabem que podemos confiar no

futuro, já que devagar se vai ao longe, devagar eu chego lá, é o progresso! afinal, o futuro a Deus
pertence e quem espera sempre alcança, três ―vez‖ salve a esperança, que é a última que morre.
e-Boa — Contrair o futuro significa torná-lo escasso e, como tal, objecto de cuidado. O futuro não

tem outro sentido nem outra direcção senão os que resultam desse cuidado. Contrair o futuro

consiste em eliminar ou, pelo menos, atenuar a discrepância entre a concepção do futuro da sociedade

e a concepção do futuro dos indivíduos. [...]o carácter limitado do futuro e o facto de ele depender da

gestão e cuidado dos indivíduos faz com que, em vez de estar condenado a ser passado, ele se

transforme num factor de ampliação do presente. Ou seja, a contracção do futuro contribui para a

dilatação do presente. (T, 21)


— Começa a ficar mais claro que não é uma ameaça esta contração do ―meu‖ futuro; é difícil

deixar de lado a idéia de que tudo é possível no futuro...


e-Boa — Bloch convida-nos a centrarmo-nos na categoria modal mais negligenciada pela ciência

moderna, a possibilidade. A possibilidade é o movimento do mundo. Os momentos dessa

possibilidade são a carência (manifestação de algo que falta), a tendência (processo e sentido) e a

latência (o que está na frente desse processo). A carência é o domínio do Não, a tendência é o

domínio do Ainda-Não e a latência é domínio do Nada e do Tudo, dado que esta latência tanto

pode redundar em frustração como em esperança. (T, 23)

— Lembrei-me de uns escritos do GEPEC de 1998. Os textos mostravam as várias vozes ausentes.
Algumas delas que ousavam dizer Não, eram uma afirmação, mesmo que vaga, de algo
diferente do que sua inexistência.
e-Boa — O Não é a falta de algo e a expressão da vontade de superar essa falta. É por isso que o

Não se distingue do Nada. Dizer não é dizer sim a algo diferente. (T, 22)

— Outras vozes quebravam, com murmúrios, sua ausência, Ainda-não de gritos emergentes.
140
e-Boa — O Ainda-Não é a categoria mais complexa, porque exprime o que existe apenas como

tendência, um movimento latente no processo de se manifestar. O Ainda-Não é o modo como o

futuro se inscreve no presente e o dilata. Não é um futuro indeterminado nem infinito. É uma

possibilidade e uma capacidade concretas que nem existem no vácuo, nem estão completamente

determinadas. (T, 22)

E assim fomos, de conversa em conversa, já na busca de emergentes - outros Ainda-não (e quiçá


uns Quase-lá156 - chegamos em Cananéia, SP, para o II Encontro de Fandango, cuja coordenadora
era Daniella Gramani, minha filha.

II Encontro de Fandango
Guaraqueçaba – litoral Sul do Paraná – recebe no final de julho o II Encontro de
Fandango e Cultura Caiçara, que tem como proposta reunir grupos de fandango e de
outras manifestações ligadas à cultura caiçara, do litoral de São Paulo, Rio de Janeiro
e Paraná. O evento será marcado por apresentações, oficinas, mesas redondas e

156 Categoria criada por mim aqui e agora, talvez fruto do meu otimismo nada trágico. Isto não é totalmente sério, mas nem uma brincadeira; algumas experiências parecem
mais sólidas que um Ainda-não, mas ainda não totalmente implantada, faltando algo para ser uma alternativa credível.
bailes. [...] A segunda edição do Encontro tem como característica uma forte
presença jovem, não somente na participação nos grupos de cultura caiçara, mas,
também, numa boa parte da organização. Tendo como principal responsabilidade
registrar o encontro por meio de fotos, filmagem e na elaboração de um blog e de
um boletim.157

Os filhos nos levam sempre a outros universos. Numa certa época, é um universo de fraldas,
leite e chupetas, depois escolas, professoras e festinhas de aniversário e, sobrevivendo - eles e
nós - à adolescência, chegamos numa época de apreciar ou nos desesperar com as realizações de
nossos rebentos. Nesse Encontro eu estava exatamente nesta situação, mãe da Dani e
apreciando, vendo aquele monte de músicos, gente bem velha e outras bem jovens.
Não tinha grandes expectativas com este encontro: fui para lá porque o lugar era lindo e uma
forma de estar com minha filha que mora em outro estado. Levei o texto do e-Boa comigo

porque ela estaria trabalhando, eu teria tempo para ler, e ele era o passaporte de meus encontros
com meu orientador do fundo, cada vez mais presente.
Ele continuava se divertindo com toda a agitação dos últimos dias e falava de seus projetos:
e-Boa — Precisamos cada vez mais trazer para as ciências sociais estes conhecimentos alternativos 141
dos ativistas sociais. Estamos captando experiências, sobretudo nos países de desenvolvimento

intermediário, pois nestes as contradições entre a globalização neoliberal e a globalização alternativa

ou contra-hegemônica, que estamos a tentar promover[...] afirmam-se de modo mais evidente. Porque

os países do Norte se beneficiam da globalização neoliberal e olham com certo cinismo as

alternativas.158

Ele aproveitou para mostrar o portal do projeto Reinvenção da Emancipação Social que
coordenou na pele de Boaventura de Sousa Santos. Além de todo o projeto com seus objetivos e
planejamentos, encontrei em http://www.ces.uc.pt/emancipa/pt/index.html, endereço do
portal, os currículos dos pesquisadores das equipes de cada um dos 6 países pesquisados e
muitos dos seus textos. Adorei! Conhecer o projecto ajudava a conhecer melhor o texto que afinal
era um sumário das reflexões sobre os resultados desse trabalho.

157 Blog do II Encontro de Fandango. Disponível em 2009 em http://www.encontrodefandango.com.br/site/index.php. Acesso em 15 de maio de 2009.
158 SANTOS, Boaventura de Sousa. Entrevista para a Revista Teoria e Debate
Chamou a minha atenção uma parte do projecto chamada Vozes do Mundo, onde ―os

entrevistados ou entrevistadas são activistas ou líderes de movimentos, organizações ou práticas

sociais analisadas no projecto.

A ideia básica das Vozes do Mundo é concretizar a posição epistemológica de que


são muitos os conhecimentos possíveis do mundo e que o conhecimento científico é
apenas um entre eles.
Estes conhecimentos não científicos designam-se frequentemente por conhecimentos
alternativos. Esta designação é problemática, uma vez que o conceito "alternativo" dá
a ideia de algo que se opõe à norma e a norma aqui será o conhecimento científico.
Ora a verdade é que a quase totalidade da vida de grande parte da população
mundial é regida por conhecimentos práticos não científicos e, sendo essa a norma,
então o conhecimento científico é que deve ser considerado como alternativo. [...]
Através das Vozes do Mundo procura-se ter acesso a conhecimentos práticos para
os confrontar com os outros conhecimentos gerados por este projecto, quase sempre
a partir do meio académico, sobre movimentos, organizações, iniciativas sociais. O
confronto entre estes diferentes tipos de conhecimento pode contribuir para
enriquecer a discussão sobre os novos caminhos da emancipação social.[...] 159
142

O vício me leva a uma mesa sobre educação e fandango.


Pergunto a uma das monitoras quem vai falar e ela responde: nós! somos nós os professores, o
pessoal que dá aula de rabeca, fandango; a gente é quem entende disto.
Gostei da resposta e fui.
A mesa toda é de fandangueiros da região: jovens, adultos e velhos! A proposta do encontro era
a apresentação dos trabalhos educacionais que esses artistas educadores desenvolvem, falar das
dificuldades e superações na busca de alternativas de ensino e divulgação do Fandango e de sua
cultura. Esse é um movimento crescente, que tem tido um grande desenvolvimento nos últimos
anos com a criação de associações e cooperativas de fandangueiros, artesãos e outros artistas
populares da região.

Parodiando o Vozes do Mundo de e-Boa, montei o Sussurros do Mundo..

A reconstituição das falas dessa reunião a partir das minhas anotações são os Sussurros do
Fandango, uma parte bem sonora do mundo

159 Portal do projeto Reinvenção da emancipação social. Disponível em http://www.ces.uc.pt/emancipa/pt/index.html. Acesso em 24 de junho de 2010.
O clima da reunião era descontraído com muitas pessoas numa sala-de-aula da escola publica
local. As idades eram as mais variadas, dos 10 aos mais de 80, todos ensinavam fandango,
rabeca, viola ou algo da cultura popular caiçara.

R ..... — (professor de rabeca)


Primeiro peço a benção e licença de todos os mestres fandangueiros, sou da
Associação dos fandangueiros de Cananéia. Estou nesta desde 2006, na oficina de
rabeca; [...] perguntei se podia aprender e me assustava porque era tudo um
aprendizado intuitivo, era olhar e tocar, ele, o professor, não falava nada. Continuei a
oficina de rabeca e, depois do outro encontro daqui, me deu uma grande luz de saber
dos trabalhos que estavam acontecendo; não é resgate, é rememorar o que os antigos
faziam. Eu comecei a ensinar o que aprendi com o meu professor, mas eu explico,
falo com os alunos porque acho que assim fica melhor para eles; em 2007 iniciei no
curso de aprendiz de Griô.

B ..... — (líder comunitário)


Tenho 83 anos e funciono na Associação Quilombola do Vale do Ribeira e tenho 143
uma esperança que a juventude vai ser a garantia da sociedade.
Tenho algumas informações e uma pergunta.
O movimento de desenvolvimento de Fandango não é coisa nova, é coisa antiga;
quando eu me conheci por gente já vi Fandango funcionando.
Se passaram uns 40 anos que não se falou de fandango e agora vemos um novo
começo; principalmente os instrumentos que pareciam que acabavam estão vivos, a
rabeca e a viola.
Para os jovens é coisa nova. Como a sociedade é dependente da classe jovem... Nós
queremos dizer que, se a juventude cair, a coisa toda cai.

E agora a pergunta é: qual será a alimentação que o Fandango vai trazer para a nova
juventude tomar um fôlego?
Eu não sou contra o fandango, eu sou o que está comentando... Qual o caminho que
o Fandango vai desenvolver a juventude?
[...] Quando comecei a ver o mundo, a primeira diversão que vi foi o Fandango.
Temos que trazer os jovens que vão ficar no nosso lugar no Fandango.
Temos que convidar os jovens, chamar para a roda, falar com ele. Ver se ele tem
vergonha e falar que as pessoas acham bonito dançar;
Agora, depois de 20 anos sem Fandango, ficamos pensando em como trazer eles, os
jovens, e convidamos. Precisamos não ver só gente de cabelo branco dançando no
baile, tem de ter gente de cabelo pretinho!!! Aí chamamos os meninos de 10, 11 anos,
fomos na casa deles e conversamos. Eles aceitaram o convite e temos agora uma
comunidade jovem.

A gente dança sério porque estamos mostrando coisa de valor, de sustentar, mas é
educação:
enquanto eu danço eu estou divertindo você;
enquanto eu danço eu estou dando alegria;
enquanto eu danço eu estou fazendo exercício;
enquanto eu danço eu estou dando esperança.

O..... — ( representante de uma associação de fandangueiros de uma grande cidade)


Tem um grande embate que é acharem que os jovens não estão interessados ou não
entendendo o que os mestres estão falando.
A linguagem que o jovem entende precisa ser usada : com MP3, You Tube e toda esta
coisa que o jovem pode baixar na internet e fazer; ser caipira é gostar desta cultura e
não tem nada a ver com não saber usar tecnologia. 144
É preciso usar o que ele entende o que ele sabe fazer.
Temos uma sede onde os jovens se encontram, cantam, dançam, passamos o final de
semana em barracas e a gente vive aquela cultura caiçara durante uns dois finais de
semana por mês e, assim, o jovem vive esta cultura.

São sussurros dos pós-caipiras do Brasil, os descendente do século XXI do Jeca-Tatu. Este
último, assim como o Macunaíma, são os heróis brasileiros. Cada um deles foi contado por um
escritor brilhante, Monteiro Lobato e Mario de Andrade, só que o primeiro dos heróis não foi
compreendido por seu ―biógrafo‖.
É Hermano Viana, inventor do termo pós-caipira, que vai fundo nas palavras de Lobato e retira
de lá as verdades sobre Jeca-Tatu.

Vivas ao manifesto Pós-caipira! 160


[...] hoje não dá pra levar a argumentação do texto a sério. Fazer uma crítica rigorosa
é uma tarefa quase ridícula (mesmo se quisermos elogiar o que existe de interessante
nas entrelinhas, como um proto-ecologismo ou um combate ao conservadorismo ou
coronelismo político que ainda hoje domina grande parte de nossas relações sociais

160 VIANA, Hermano. Manifesto Pós-caipira.


interioranas). Vou aqui fazer um outro exercício, talvez - para o gosto de muitos
leitores - bem amalucado: quero inverter alguns argumentos de Monteiro Lobato,
enxergando qualidades naquilo que para ele só podia ser defeito.

Vou tratar o Jeca Tatu como herói, pelos mesmos motivos que na visão de Monteiro
Lobato ele era uma praga ou um motivo de vergonha nacional. [...] o caipira seria
"espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização, mas que vive à
beira dela na penumbra das zonas fronteiriças." E mais: "recua para não adaptar-se."
Ou então: "existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao
progresso." Eis aí, naquilo que Monteiro Lobato enxergava como vício, todos os
traços de um herói contracultural (ainda mais hoje, quando falar bem do ócio voltou
à moda).
É claro: se achamos, como muita gente continua a achar, que a chegada da
"civilização", ou a adaptação à "civilização" (por si só um conceito duvidoso: afinal, o
que é ser civilizado? há só uma maneira de civilizar-se?) é um bem indiscutível, temos
que condenar o Jeca Tatu. Mas se duvidarmos da bondade ou das boas-intenções da
"civilização"? Não devemos celebrar o homem inadaptado, que recua e não abraça 145
sorridente o "progresso", que desconfia do "civilizado" e por isso prefere viver "na
penumbra das zonas fronteiriças"?

E-Boa se anima com o manifesto e fala que isto ilustra a segunda lógica ou produção de não-

existência, já que ela se assenta na monocultura do tempo linear, a idéia de que a história tem sentido

e direcção únicos e conhecidos. Esse sentido e essa direcção têm sido formulados de diversas

formas nos últimos duzentos anos: progresso, revolução, modernização, desenvolvimento, crescimento,

globalização. Comum a todas estas formulações é a ideia de que o tempo é linear e que na frente do

tempo seguem os países centrais do sistema mundial e, com eles, os conhecimentos, as instituições e as

formas de sociabilidade que neles dominam. Esta lógica produz não-existência declarando atrasado

tudo o que, segundo a norma temporal, é assimétrico em relação ao que é declarado avançado. É nos

termos desta lógica que a modernidade ocidental produz a não-contemporaneidade do

contemporâneo, a ideia de que a simultaneidade esconde as assimetrias dos tempos históricos que

nela convergem. O encontro entre o camponês africano e o funcionário do Banco Mundial em

trabalho de campo ilustra esta condição. Neste caso, a não-existência assume a forma da

residualização que, por sua vez, tem, ao longo dos últimos duzentos anos, adoptado várias
designações, a primeira das quais foi o primitivo, seguindo-se outras como o tradicional, o pré-

moderno, o simples, o obsoleto, o subdesenvolvido.161 (T,12-13)

Jeca Total / Gilberto Gil162

Jeca Total deve ser Jeca Tatu Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Presente, passado Um tempo perdido
Representante da gente no senado Interessante a maneira do tempo
Em plena sessão Ter perdição
Defendendo um projeto Jeca Total deve ser Jeca Tatu Quer dizer, se perder no correr
Que eleva o teto Um ente querido Decorrer da história
Salarial no sertão Representante da gente no olimpo Glória, decadência, memória
Da imaginação Era de Aquarius
Imaginacionando o que seria a Ou mera ilusão
Jeca Total deve ser Jeca Tatu criação
Doente curado De um ditado Jeca Total deve ser Jeca Tatu
Representante da gente na sala Dito popular Jorge Salomão
Defronte da televisão Mito da mitologia brasileira Jeca Total Jeca Tatu Jeca Total
Assistindo Gabriela Jeca Total Jeca Tatu
Viver tantas cores Jeca Tatu Jeca Total Jeca Tatu Jeca
Dores da emancipação Total 146

Presente? O que é o presente para um pós-caipira? O presente pode ser uma maneira
de se perder no tempo, como disse Gilberto Gil: "jeca total deve ser jeca tatu... um
tempo perdido... interessante a maneira do tempo... ter perdição quer dizer, se perder
no correr, decorrer da história". Esse presente, assim pensado e vivido, não é
certamente o fim da história, mas a história vivida sem a ilusão da evolução
totalitária.Cada pós-caipira tem seu próprio tempo, e sua maneira - acocoradamente
correta - de estar no tempo. Lição: o tempo do mangue-beat: nada nostálgico da
pureza perdida do maracatu; e por isso o maracatu está mais vivo do que nunca.
Hoje. O mangue-beat nos ensinou a botar fogo na cultura local, afrociberdelificando-
a. É preciso agora jeco-centrificar o afrociberdelificado. Para fazer coro com o Jeca
Tatu de Monteiro Lobato: "Eta fogo bonito!" 163

161 Negritos por minha conta


162 Jeca Total, letra e música de Gilberto Gil.
163 VIANA, Hermano. Manifesto Pós-caipira.
Pajelanças pelo campus: de volta ao futuro

Só a fumaça fala da ausência do livro. Entre o livro e o não-livro, a fumaça é a


retirada do livro, e o vazio que deixa nessa retirada. E se o sábio não queimar seu
livro, será o estudante quem deverá queimá-lo. Só assim abriram margens nas
páginas, espaços entre as linhas, espaços em branco entre as palavras e as letras.
Somente num livro queimado o estudante pode estudar.

Elogio ao fogo. [...] A Casa do Estudo esta se incendiando. As palavras queimadas já


sobem ao céu, entre os livros já começam a se abrir margens, brancos, espaços
vazios. Ainda não amanhece, mas uma cor dourada torna mais cinza o cinza do
horizonte. Entre os atalhos do labirinto escutam-se risos. No meio do fogo, rodeado
de fumaça, o estudante começou a estudar.164

De volta à Unicamp
147
Volto olhando a Unicamp com olhos que procuram alternativas às norma da Academia, procuro
as diversas atividades ligadas ao ensino de música que acontecem pelo campus; algumas são
semioficiais, podem ser rastreadas pelos documentos da universidade. Em geral são atividades
de extensão ou de algum projeto com respaldo da reitoria, e outras, clandestinas, que
simplesmente ocupam a grama, tornando-a seu espaço, por anos.

A Unicamp é maternidade de vários grupos culturais. Ela tem um campus que proporciona o
encontro de pessoas de várias cidades, estados e mesmo países diferentes, e, com isso, uma
quantidade enorme de quereres culturais.

Isto é ampliado por ter um Instituto de Artes pioneiro em várias modalidades, como
bacharelado em música popular, para o qual artistas são contratados para uma carreira como os
demais setores da universidade ou uma carreira de professor artista, quando não é exigida uma
formação acadêmica. Muitos acabaram formando grupos, constroem teatros e se tornam
moradores da região mesmo não continuando na universidade. Raquel Trindade, filha do poeta
Solano Trindade, foi contratada pelo Instituto de Artes como professora de Cultura Popular,
nos anos 80, e formou um grupo que já tocava maracatu, naqueles idos, pelas ruas das terras de

164 LARROSA, Jorge. (1998) Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas. Tradução: Alfredo Veiga-Neto, p.257.
Carlos Gomes, o Urucungus, Puitas e Quijengês, que continua até hoje nos divertindo com sua
arte.
Outro grupo que se aloca na Unicamp é a Bateria Alcalina165, apitada e coordenada pelo Chico
Santana, ex-aluno da Unicamp (e meu!), que agora é mestre também por ela, mas é mestre de
batuque pelas escolas de samba de que participa. A Alcalina existe desde 2003, ensaia duas
vezes por semana e faz um trabalho que considero bastante sério de ensino de samba. Além da
bateria ela também promove rodas de samba e o bloco União Altaneira, que abrilhanta o
carnaval de Barão Geraldo, distrito de Campinas.

Cito esses grupos como exemplos e por conhecer seu trabalho, mas são muitos os grupos
musicais que se formaram na universidade ou a partir de alguma pessoa ligada a ela .
O currículo oculto que isso pode proporcionar ao aluno da Unicamp é muito grande. A
qualidade do ensino passa a ser mais profunda, atingindo não apenas os objetivos específicos de
seu curso, mas uma vivência com outras culturas, com outros fazeres culturais.
Alguns alunos passam a conhecer mais da própria cultura de seus estados aqui em Barão
Geraldo, quando alunos da Unicamp. Conheci três pessoas que são do Recife, mas começaram a
aprender a tocar maracatu aqui, na terra do Boi Falô... 148

Algumas finalizações precoces

Os quatro movimentos centrais desta dissertação compõem o auto do boi, a história a ser
contada, margeados pelo Cheguei, no início e uma Despedida, ao final. A história começa
comigo e minhas escolas e vai crescendo com histórias de outros, professores e alunos.
Este quarto movimento apresenta-se como uma novela clássica de formação, um romance e
diria mais: um autêntico bildungsroman brasileiro.
Eu me vejo frente a frente com um encantado que se torna que se torna meu orientador do
fundo, mostrando aspectos de seus textos a partir do que vejo. Tudo acontece durante uma
viagem ao outro lado da linha abissal que corta minha cidade e depois à Guaraqueçaba, durante
um encontro de Fandango.
E isso me transforma.
A Glória que queria ver a SBPC na Unicamp percebe que o que procurava estava em outros
espaços. Eu também, fruto desta educação centrada no formal, que não vê esses espaços, não os
via na minha vida e nem na minha pesquisa.

165 Portal da Bateria Alcalina - http://www.bateriaalcalina.com.br/


Espaços negligenciados, que não constam do meu inventário, as oficinas, os encontros com
pessoas, meu inventário das ausências.
Começo também a olhar outras faces deste ensino de música no país.
Como esta música, que perdeu tanto status no ensino oficial, desde os tempos áureos do Canto
orfeônico, tem sido ensinada fora dos conservatórios e escolas especializadas, incluindo aí as
universidades?

Estas últimas continuam seguindo passos e trilhas documentados - ementas, currículos, diários
de classe, legislações - e, mais recentemente, encontram-se nos livros, escritos acadêmicos e
outros do gênero. Grandes organizações sem grandes soluções, a meu ver, para os problemas
que se colocam atualmente sobre a volta da música às carteiras escolares. Uma universidade
como a Unicamp não consegue tirar proveito do ambiente cultural que criou e nem estimular a
que seus alunos o façam e, surpreendentemente, os alunos da música são os que menos
frequentam as atividades musicais de cultura popular.
Nem mesmo os alunos de licenciatura em música parecem ver como proveitoso para sua
atuação futura de professor uma prática de música e dança coletiva, uma vivência em grupos de
cultura popular. 149
Isso evidencia um pouco da face oficial do ensino de música. Mesmo estando dentro de uma
grande universidade que abriga oficial e clandestinamente diversas opções de arte coletiva
ligado á cultura brasileira isto não é nem estimulado e nem levado para dentro das salas-de-
aulas, não entra no currículo nem oficial e nem oculto dos futuros professores de música.

E a outra face do ensino de música?


A face vadia da educação musical?
Aquela que acontecia na comunidade, iniciando pelos cantos da mãe e dos vizinhos, nas
brincadeiras, cantos de trabalho, da roda do jongo, do samba de quintal, nos terreiros e igrejas,
onde acontece agora?
Não quero o olhar que vê isto como prática de música em contraposição a ensino de música e sim
ver como estas práticas ensinam e como perpetuam a tão falada musicalidade de nosso povo
brasileiro.
É o ensino de música que acontece junto com os movimentos sociais e ongs e nas velhas
comunidades dos fandangueiros e nas novas comunidades, como a Tainã.
Não é uma comparação com a oficial, sem dicotomias;
cada um dos ensinos tem sua hora e sua vez, que são discutíveis, mas não é a isto que me
proponho.
Busco as ausências e emergências do ensino cotidiano da música, as que podem ter ou não ter no
seu horizonte de objetivos principais ensinar música, mas que ensina, mesmo que se justifiquem
apenas como projetos sociais.
Volto de balsa, de Guaraqueçaba a Cananéia, sete horas de viagem ao som da rabeca do Zé
Pereira e outros tocadores. Ao final da viagem, não sou a mesma, encantei-me e procuro
encantamentos emergentes ao meu redor.

Para refletir, é necessário encontrar estes caminhos e, como já tinha avisado desde o projeto
desta dissertação, não quero abarcar ou abraçar o mundo, faço a reflexão do que vejo ao meu
redor;
posto que vivo em ambiente privilegiado para esta tarefa, a seleção do que narrar se
torna um problema, e percebo que acabo mais por apontar coisas, a partir das falas do e-Boa,

do que refletir sobre o conjunto delas.

Apontei emergências.
Formação de redes, caminhos para uma globalização contra-hegemônica. Redes dos pescadores
fandangueiros ampliada agora para os aprendizes de griôs e novos rabequistas. Redes 150
tecnológicas com comunidades quilombolas, indígenas e outras ligadas por antenas GESAC.
Redes onde a cultura é parte integrante, e seu ensino é parte do ensino cotidiano da vida.
Mas, o diabo mora nos detalhes...
Ao mesmo tempo vejo que toda minha experiência pessoal com educação e música está marcada
pelo caminhar nas margens das entranhas do institucional, de minhas escolas de adolescência,
relatadas neste trabalho, às atividades de que participei na Unicamp.
Mudam-se os nomes, apuram-se os conceitos, mas o sentido de transgressão a partir da
instituição é uma marca da sociedade brasileira para o bem e para o mal.
Parte das iniciativas sociais e pedagógicas de reinvenção da emancipação social no Brasil ocorre
nesta periferia das instituições, usando seus espaços ou estrutura para fins não completamente à
margem de suas finalidades, mas também não controlados por ela.
O GEPEC desde seu início mostra sinais da consciência que era um espaço de ocupação, de luta,
de procura por uma outra educação possível. Dentro da própria Unicamp, estive em vários
destes lugares, mas o Grupo de terça do GEPEC, em especial no trabalho desenvolvido em 2008,
é o que escolho, como um exemplo de alternativas à globalização neoliberal e ao capitalismo global

produzidas [...] por instituições na sua luta contra a exclusão e a discriminação em diferentes domínios

sociais. (T, 1).

Vai ouvindo...
Intermezzo IV Polifonia do Silêncio

151
5º Movimento: Pipocas pedagógicas
– a produção de 2008 do Grupo de Terça do GEPEC -
Talvez seja possível pensar a leitura como uma oferta de contrapalavras
do leitor que, acompanhando os traços deixados no texto pelo autor, faz
estes traços renascerem pelas significações que o encontro de palavras e
contrapalavras produz. 166

1. GEPEC

Uma rota de narrativas no GEPEC

Na última década, o GEPEC tem trabalhado com o conceito/noção de movimento no currículo,


um currículo em ação
entendido e trabalhado como o conjunto das aprendizagens vivenciadas pelos alunos,
planejadas ou não pela escola, dentro ou fora da aula e da escola, mas sob a
responsabilidade desta, ao longo de sua trajetória escolar. 167 153
O GEPEC encontrou em 1998 a novela de formação, trazida por Jorge Larrosa:
Como sabemos a idéia de formação e a idéia de experiência (de experiência de
formação ou de transformação) andam praticamente juntas, se incorporam uma na
outra. Isto é, a formação ou a transformação de si tem a ver com uma experiência na
qual o sujeito encontra a alteridade. Esta é a origem do ―ex‖ da palavra experiência.
O mesmo ―ex‖ de exterior, de extraño (estranho), de extranjero (estrangeiro), de exílio,
de êxtase. Não há formação que não se realize de um encontro com a diferença e a
alteridade, com o que não sou eu, com o que não é apenas uma repetição ou uma
projeção de mim mesmo168.
Solto a voz nas estradas
Já não quero parar... 169

Não bastava mais a travessia precisávamos escrevê-la!


Na medida em que somos autores de nós mesmos, quando silenciamos nossas
histórias, perdemos a dimensão de autoria da nossa própria constituição como

166 GERALDI, João Wanderley (2003). Depois do 'show', como encontrar encantamento?
167 GERALDI, Corinta Maria Grisólia (1994). Currículo em ação: buscando a compreensão do cotidiano da escola básica, p.117.
168 LARROSA, Jorge (2009). In: AYER, Maurício. Pedagogia do estrangeiro.
169 Travessia, Milton Nascimento.
sujeito, seja porque o modo como somos contados não coincide, necessariamente,
com a interpretação que fazem os sujeitos, seja porque nossa história é prenhe de
vozes e sentidos.170
[...] a escrita possibilita o exercício da necessária expressão. E da generosidade. E do
compromisso. Não só com o outro, mas também conosco. Com o outro porque é
uma forma de compartilhar. E conosco porque a escrita permite a cada um de nós se
conhecer melhor e se dar a conhecer aos outros.171

do baú
e-mail para o professor Guilherme Prado, meados de 2008

[...] comecei a pensar em te contar umas idéias minhas, uma olhada sobre o GEPEC,
[...] não enviava por falta de entender, na hora de escrever, o que queria discutir ou
como tinha chegado nisto;
o que estou mesmo focando é o tempo;
tempo impresso na memória e expresso em narrativas;

[...] de manhã, lendo sobre Deleuze (revista da Educação), me veio a idéia de que o que tem me
inquietado é em estudar a formação do estilo do GEPEC, que se narra nos escritos, que pode ser visto
154
na produção do grupo;
pensar a produção do GEPEC como a formação de um estilo gerado, um tanto refletindo que
Pesquisar é criar devires, exprimir o virtual incluído em uma situação, lançar
multiplicidades que não podem ser presas nas grandes máquinas estatais, geralmente
binárias (tais como homem-mulher, branco-negro, adulto-criança etc.). Nas ciências
humanas e da sociedade desenvolvem-se pesquisas estudando o singular, tais como as
pesquisas etnometodológicas e interacionistas, socioanalíticas e sociopoéticas,
etnocenológicas e ritualísticas. Uma área do conhecimento é criada, aos poucos, na
qual são teorizados os dados produzidos pelos grupos-sujeitos das pesquisas, sendo
estes dados criações singulares, quase artísticas, inesperadas e imprevisíveis, dos
sujeitos pesquisados. Muitas vezes, os pesquisados tornam-se pesquisadores ao
participar da leitura, da análise, da experimentação e da teorização dos dados que
produziram.172
[...] o GEPEC define-se bem a partir de seu nome: grupo de estudos e pesquisas em educação
continuada

170 LIMA, Maria Emilia Caixeta de Castro (2003). Sentidos do trabalho mediados pela educação continuada em química, p.53.
171 PRADO, Guilherme Val Toledo; SOLIGO, Rosaura (Orgs.). Porque escrever é fazer história: revelações, subversões e superações, p.25.
172 GAUTHIER, Jacques. O que é pesquisar - entre Deleuze-Guattari e o candomblé, pensando mito, ciência, arte e culturas de resistência, p.14.
[...] tem o devir em forma do ―continuada‖, porque se dizer continuada é se declarar inacabada e por
fazer;
continuamos a fazer esta mesma coisa continuada com centros em formação, e então somos
um grupo de estudo e pesquisa de educação, nosso fazer, continuados, provocados pela certeza da
incompletude do professor, nosso segundo centro;
é a formação desta pessoa, profissional e cidadão, nosso grande foco;
[...] posso dizer que o caminho do GEPEC foi e é formação de professores.
[...] quem é o professor protagonista da produção do GEPEC? [...]
foi-se definindo pelo caminho como um professor que pesquisa na ação, no momento em que está em
ação na sua prática pedagógica;
sabedores de alguns caminhos que temos pela frente, caminhamos no sentido de mostrar que,
na vida, não existe papel principal e de coadjuvante;
na vida ninguém é extra, daí o rizoma ou a necessidade rizomática de transmitir experiências
pedagógicas a partir da primeira pessoa, do refletor da experiência, o que nos levou ao professor-
autor [...]
se o autor tem como instrumento a língua escrita, então caminhamos nisto com o estudo
materialidade da palavra, da língua em si, com Bakhtin/Geraldi, das formas da língua em novelas,
narrativas, cartas, das alegorias, música, quadros, cordéis [...]
e outras mil e uma possibilidades. fim 155
Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino173. Esses que-fazeres se
encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino continuo buscando,
reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago.
Pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo.
Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a
novidade.174

Produção parcial

Comecei a ter um envolvimento maior com a produção escrita do grupo a partir de uma
pesquisa bibliográfica, sobre formação continuada, pedida pelo professor Guilherme Prado,
para o grupo em 2007. Percebi que encontrávamos vários trabalhos interessantes de diversas

173 Nota de rodapé do texto de Paulo Freire: “Fala-se hoje, com insistência, no professor pesquisador. No meu entender o que há de pesquisador no professor não é uma
qualidade ou uma forma de ser ou de atuar que se acrescenta à de ensinar. Faz parte da natureza da prática docente a indagação, a busca, a pesquisa. O que se precisa é que, em
sua formação permanente, o professor se perceba, se assuma, porque professor, como pesquisador.”
174 FREIRE, Paulo (1998). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p.36.
partes do mundo - livros, artigos, dissertações -, mas esquecíamos de incluir nisso a produção do
próprio grupo.
Não encontrei esta produção organizada e, já na ―pirAção‖ - entendida como lugar de fogo e
ação e um pouco de obstinação maluca - de catalogar para depois inventariar o mundo, como
fez Arthur Bispo do Rosário175, resolvi tomar para mim esta tarefa que acabou constituindo um
aprendizado muito interessante e me levando a ter esta produção como um referencial especial
para minha pesquisa.
O GEPEC não tem ainda uma página do grupo com as informações de sua produção de teses e
dissertação. Essas informações reunidas dariam uma dimensão melhor da importância do
grupo, tanto da gama de temas que têm sido objeto de nossos estudos, quanto dos caminhos
que, como grupo, temos traçado.
Não incluí no texto ou como anexo essas listagens de teses e dissertações com as informações -
título, palavras-chaves, resumo e link para o texto completo -, como havia me proposto a
principio. O aprimoramento das ferramentas de busca da biblioteca digital da Unicamp tornou
uma listagem deste porte praticamente desnecessária. É possível, a partir dos nomes dos
orientadores, encontrar todos os seus orientandos e, abrindo os links, encontrar outros dados
como os resumos das pesquisas e mesmo baixar o texto completo, mas grande parte dos 156
pesquisadores da própria universidade ignoram as possibilidades inovadoras e facilidades que
se pode obter com a destreza no uso dessas ferramentas
Atualmente ainda existem algumas limitações na biblioteca digital que dificultam as pesquisas,
tais como: diferentes formas de digitalização, sendo que algumas não tornam o texto sensível à
busca por palavras, e a falta de armazenamento de pesquisas feitas na Unicamp em convênio
com outras universidades. Apesar de terem sido feitas inteiramente na Unicamp e seus
pesquisadores creditarem isto em seus currículos Lattes, elas não são consideradas produção da
Unicamp e assim não existe a exigência de entrega do texto à biblioteca e, portanto, não estão
obrigatoriamente na Biblioteca Digital da Faculdade de Educação da Unicamp.

Para uma apresentação rápida dos livros ligados ao GEPEC aproprio-me das palavras de Maria
Natalina
[...] encontrei ancoragem nas discussões que o GEPEC tem realizado sobre formação
continuada. [...] Um espaço no qual professores e professoras [...] manifestam suas

175 Segundo Bispo do Rosário, Deus lhe havia dado a missão de reconstruir o universo e registrar sua passagem aqui na terra para apresentar a Ele no dia do juízo final. Registrou
este cotidiano a partir dos objetos que recolhia - restos da sociedade - e preparava com preocupações estéticas compatíveis com os conceitos das vanguardas artísticas, juntando
a isto a palavra, como elemento pulsante constitutivo das obras. Arthur Bispo do Rosário foi diagnosticado como esquizofrênico paranóide e viveu internado 50 anos em na
Colônia Juliano Moreira, um hospital psiquiátrico do Rio de Janeiro e hoje é referência da Arte Contemporânea brasileira. Para saber mais sobre este genial artista leia FARIA,
Fabiana Mortosa. Arthur Bispo do Rosário e seu universo representativo. Disponível em http://www.urutagua.uem.br//005/12his_faria.htm. Acesso em 11 de julho de 2010.
inquietudes, narram experiências como docente, se permitem, no diálogo com o
grupo, rever a própria prática profissional. Um dos resultados desse processo foi a
publicação de dissertações, de teses de doutorado, de livros, dentre os quais destaco
Cartografias do trabalho docente (GERALDI, FIORENTINI e PEREIRA, 1998).
Nesse há a socialização e a discussão de questões que exploram a complexidade da
prática pedagógica, a complexidade do processo de apropriação e produção dos
saberes docentes, o processo de formação contínua do professor/da professora e do
professor como profissional reflexivo e pesquisador da sua prática curricular, através
de um processo coletivo de pesquisa-ação.176
Abro uma janela para colocar o depoimento, encontrado na dissertação de Inês Vieira, do
professor Dario Fiorentini, um dos organizadores e autores do Cartografias:
Dos encontros, surgiu a idéia de fazer um livro que explorasse o conceito de
professor reflexivo e investigador da sua própria prática. [...] O livro, após muitas
leituras e discussões, foi tomando corpo e a produção dos textos tomaram uma
forma mais efetiva, com boas discussões e revisões dos trabalhos. 177

E continuo com Natalina: 157


Já os textos do livro Percursos de autoria: exercícios de pesquisa (CUNHA e
PRADO, 2005) questionam se o professor pesquisa ou reflete sobre o seu trabalho
na escola, e se quando reflete sobre o próprio trabalho está fazendo pesquisa. Nesse
trabalho aponta a diferença e a compreensão da pesquisa e da reflexão como práticas
distintas, mas dependentes e complementares. Aponta também que o professor
pesquisador da escola básica que interroga a sua prática, documenta, investiga, tenta
compreender os seus dilemas, dialoga e constrói ―um jeito‖ de compreensão e de
interpretação de sua realidade, está fazendo pesquisa, e portanto supõe que o
pesquisador não está somente no âmbito da Universidade, e que a pesquisa
considerada legítima pode estar no ―chão‖ da escola. [...]
Um outro trabalho importante do GEPEC foi sistematizado no livro Porque
escrever é fazer história: revelações, subversões e superações (PRADO e
SOLIGO, 2005). Uma obra como as anteriores, fruto de reflexão e de trabalho
coletivo de grupo. Os artigos tratam da escrita numa perspectiva da experiência a ser
narrada, revivida através da escrita. [...] São relatos de experiências de formação que
tomam a leitura e a escrita como fundamentais no processo de formação, do registro

176 FARIAS, Maria Natalina de Oliveira (2006). Travessia da prática docente: paisagens que constituíram a formação e o trabalho numa escola de ensino fundamental, p.31.
177 VIEIRA, Inês Henrique dos Santos (2004). Educação continuada à margem. GEPEC: formação acontecendo nas brechas das instituições escolares, p. 35-36.
de memórias para revelar-se e desvelar-se. E assim diga-se de passagem tomar nas mãos
a própria história. 178

Incluo como publicação do GEPEC o livro Sentidos do trabalho: a educação continuada de


professores, de Maria Emilia de Castro Lima, fruto de sua tese179, que mostra bastante da época do
Cartografia II, com a crescente influência de Bakhtin, Wanderley Geraldi e Jorge Larossa como
autores privilegiados por esse grupo de estudo.

Outros livros mais recentes espelham a produção do GEPEC nos últimos anos:
Narrativas docentes: trajetórias de trabalhos pedagógicos. VARANI, Adriana; FERREIRA,
Claudia Roberta; PRADO, Guilherme Val Toledo (Orgs.). Campinas, SP: Mercado das letras,
2007. Neste livro estão reunidos trabalhos apresentados no I Seminário de produção de
conhecimentos, saberes e formação docente, organizado pelo grupo no interior do 14º Congresso
de leitura do Brasil (Cole), realizado em julho de 2003.
Professor-formador: histórias contadas & cotidianos vividos. VICENTINI, Adriana; FARIAS,
Maria Natalina; SADALLA, Ana Aragão; PRADO, Guilherme Val Toledo (Orgs.). Campinas, SP:
Mercado de letras, 2008. 158
O livro tem prefácio da professora portuguesa Idália Sá-Chaves, uma referência forte para
muitos pesquisadores do GEPEC, no qual ela o apresenta como um livro que
nos fala: da ética das relações, do compromisso com a inovação e com o
desenvolvimento, do denodado esforço de conciliação de perspectivas e de sonhos
que, em cada lugar, e de um modo sempre único, mas intencional e deliberado,
possam restituir sentido e dignidade ao presente de cada passado e ao presente de
cada futuro, para retomarmos uma idéia de tempo cara a Santo Agostinho. Esse
percurso e essa fala múltipla, desenhada e recontada pelos autores, aparece ao leitor
como um grande rio que, capítulo a capítulo, vai engrossando a sua corrente, à
medida que, nele, deságua cada afluente com sua mais-valia traduzida num acréscimo
de visão, que a sua especificidade lhe confere.180

A vigilância epistemológica requerida pela ecologia de saberes transforma o


pensamento pós-abissal num profundo exercício de auto-reflexividade.

178 FARIAS, Maria Natalina de Oliveira (2006). Travessia da prática docente: paisagens que constituíram a formação e o trabalho numa escola de ensino fundamental, p.31-32.
179 LIMA, Maria Emilia Caixeta de Castro (2003). Sentidos do trabalho mediados pela educação continuada em química.
180 SÁ-CHAVES, Idália (2008). Como rios que (con)fluem. In: VICENTINI, FARIAS, SADALLA, PRADO (Orgs). Professor-formador: histórias contadas & cotidianos vividos, p.7.
Requer que os pensadores e atores pós-abissais se vejam num contexto semelhante
àquele em que Santo Agostinho se encontrava ao escrever suas Confissões, o qual
expressou eloqüentemente desta forma: ―Converti-me numa questão para mim‖. A
diferença é que o tópico deixou de ser a confissão dos erros passados para ser a
participação solidária na construção de um futuro pessoal e coletivo, sem nunca ter a
certeza de não repetir os erros cometidos no passado. 181

Resumindo essas publicações, diria que o GEPEC, após pesquisar uma cartografia do trabalho
docente procurou os sentidos do trabalho enveredando pelos percursos de autoria como opção
de formação, porque escrever é fazer história, revelações, subversões e superações,
transformando o cotidiano e percorrendo narrativas docentes: trajetórias de trabalhos
pedagógicos do professor-formador, histórias contadas e cotidianos vividos: reinvenções de
emancipações; caminhos da docência ética, entendida aqui como ―a relação de cuidado e
prudência para fazermos o nosso trabalho de modo comprometido com o humano.‖ 182

Uma rota de formação de grupos no GEPEC 159


As reelaborações neoliberais das novas/velhas políticas da educação dos anos 90, que
mantinham as divisões e aprofundavam desigualdades para dar sobrevida ao capitalismo,
roubavam palavras e lemas das lutas da esquerda. Maquiado, o neoliberalismo na educação
tornava mais difícil a sobrevivência de projetos emancipadores e também a dos professores,
jogados de lado ao pensar novas políticas.
A importância do grupo na formação e sobrevivência dos professores é analisada por Adriana
Varani na sua tese de doutorado mostrando que
Ao mesmo tempo em que as políticas educativas têm um discurso sedutor,
progressista, esses mesmos discursos são produzidos distantes da escola, distantes
das produções cotidianas. Mas este mesmo sujeito que esteve/está à mercê de
desejos formulados nos gabinetes por "sabichões e sabichonas" (FREIRE, 1997),
também encontrou/produziu espaços para as resistências e novas produções, novas
construções, especialmente porque a construção da cultura em aula é um trabalho

181 SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes, p. 94. Para o autor o pensamento moderno consiste num
sistema de distinções visíveis e invisíveis, as linhas abissais, que divide a realidade social em dois universos diferentes. *...+” as linhas cartográficas ‘abissais’ que demarcavam o
Velho e o Novo Mundo na era colonial subsistem estruturalmente no pensamento moderno ocidental e permanecem constitutivas das relações políticas e culturais excludentes
mantidas no sistema mundial contemporâneo. A injustiça social global estaria, portanto, estritamente associada à injustiça cognitiva global, de modo que a luta por justiça social
global requer a construção de um pensamento ‘pós-abissal’.”
182 Nota provisória: tenho certeza de que esta frase aspada é de alguma publicação do GEPEC, mas não consegui encontrar a fonte. Alguém me ajuda?
incerto e indeterminado, aberto e vulnerável. O trabalho pedagógico em aula é fluido,
imprevisível, complexo, denso, leve/pesado, produtor/reprodutor.183

Novos espaços cavados nas margens, nos entre-lugares, nos interstícios da profissão, a busca da
sobrevivência na parceria, no encontro com um outro também silenciado pelas verdades
institucionais, ausências que necessitam ser contadas para o alargar do presente para mais além
do que sonha nossa vã história oficial da educação brasileira.
No grupo do GEPEC foi incorporada a idéia, sistematizada na tese de Adriana Varani, de re-
existência a partir do encontro, de que há grupos de professores que "re-existem" ao se
organizarem no coletivo, dando novo sentido ao seu processo de trabalho. O grupo se torna um
espaço para o professor resistir às condições adversas de trabalho e, ao resistir, ele acaba por
existir novamente, re-existe, através, inclusive, da pesquisa.
É sobre a possibilidade de re-existir que estudos foram promovidos, iniciados ou
incentivados pelo/no GEPEC e também se dirigiram ao encontro da idéia da defesa
do grupo como instância de formação.Ao narrar as experiências vividas, manifestar
as inquietudes e revoltas face às condições de trabalho, os professores no grupo
resistem, não apenas negando o que se impõe como política educacional, mas 160
também produzindo novas formas de ser e estar professor, novas formas de saberes
sobre a escola, e neste sentido tomam nova existência. 184

Adriana Varani, no seu doutorado, conta sobre a importância dos grupos na vida e na produção
do GEPEC, desvelando algumas das muitas vozes que contam palimpsestamente essa trajetória.
Estar em grupo, e valorizá-lo no processo de pesquisa e de construção de uma
"prática pedagógica outra" por parte do professor e da escola, foi uma constante na
pesquisa de Geraldi (1993) e no processo histórico do GEPEC. [...]
Trabalhos estudaram grupos que se reúnem por necessidades do cotidiano e têm o
apoio da academia (DICKEL, 1996, MESSIAS, 2000, GARCIA, 2002, SAMPAIO,
2003), outros estudaram projetos governamentais que proporcionam a formação de
grupos (LIMA, 2003), outro estudo voltou-se para um grupo de professores que se
reuniram, sem vínculo com a universidade, para realizar um projeto na área da
tecnologia dentro da escola (FERREIRA, 2004). O próprio movimento do GEPEC,

183 VARANI, Adriana (2005). Da constituição do trabalho docente coletivo: re-existência docente na descontinuidade das políticas educacionais, p.31.
184 Idem, p.34.
no que se refere ao sentido dado por alguns professores ao estarem neste espaço, foi
tema de uma dissertação (SANTOS, 2004). 185

Rosa Barros, também doutora pelo GEPEC, escreve sobre a importância da reflexão em neste
grupo:
No GEPEC, falamos... nos conhecendo e nos deixando conhecer; verbalizamos
dúvidas e temores, partilhamos acertos e erros. Pouco a pouco, fomos tecendo
nossas histórias de formação: coletiva (do grupo) e individual (de cada membro em
particular). Longe das técnicas produtoras dos saberes homogêneos, participamos de
produções artesanais. [...]
A minha prática docente estava relacionada com o meu tema de pesquisa e eu nunca
tinha dado a isso a menor importância. O GEPEC ajuda a valorizar o nosso trabalho
como professora. Então decidi reconstruir a minha prática, mas a reconstrução se
deu de uma forma crítica. Isso também é legal; olhar para a prática, identificando o
que precisa melhorar: onde estão os limites, onde há problemas, o que pode ser
modificado. Olhar todos os aspectos que compõem essa prática é difícil, muito
difícil, e o grupo me deu essa referência, essa base, essa coragem. 186 161

FALA outra ESCOLA

O GEPEC, como outros grupos de pesquisa, tem professores e orientandos que se reúnem para
este objetivo específico de orientar as pesquisas e a adequação delas para o formato de teses e
dissertações. A forma de organização destas reuniões no GEPEC não é fixa. Alguns anos foi
feita em grupos e em outras com encontros individuais e/ou com o auxilio de alguma matéria
oferecida por um dos professores coordenadores.
Foi a partir da necessidade de dialogar com outros grupos de pesquisa, outros pesquisadores,
outros professores trabalhando em sala de aula, mas afastados da universidade, saber o que
pensam e fazem, contar o que pensamos e fazendo, que o GEPEC passou a organizar o
Seminário FALA outra ESCOLA, que estará em 2010 em sua 5ª edição.
Desde 1999 o Grupo organiza Encontros com objetivo de criar espaço para as
diversas vozes da escola veicularem suas produções. Inicialmente, em Encontro
denominado "Fala Professora", os professores tiveram oportunidade de dizer de seu

185 Idem, p.33 e 35.


186 BARROS, Rosa Maria Ribeiro (2000). Contextos educacionais e etnias em presença: um processo de construção identitária, p.28 e 40.
trabalho. Com a intenção de tomar a escola como espaço que transcende a ação
docente, em 2002 passamos a criar o Seminário "Fala (outra) Escola". 187
Seminário ―Fala (outra) escola‖, FALA outra ESCOLA, ou apenas ―o‖ FALA como
carinhosamente o chamamos no GEPEC,
[...] objetiva criar um espaço de diálogo de experiências e de socialização das
produções dos profissionais da educação que vivem a escola como espaço-tempo de
humanização das relações, de produção e trocas culturais e de produção de
conhecimentos. É voltado para a comunidade escolar — pais, estudantes,
professores, diretores, coordenadores e funcionários — que acredita nas
possibilidades de construção de uma "escola outra": uma escola mais humana, mais
viva, imersa nos conflitos cotidianos decorrentes das políticas impostas à
comunidade escolar e voltada para a emergência dos fazeres e saberes de todas as
pessoas da escola. 188

O espaço do FALA, é indispensável para o diálogo do grupo com o local, com os professores da
cidade de Campinas, tanto das redes públicas, quanto privadas, que têm pouco ou nenhum
lugar para falar de suas descobertas, de sua prática, de sua produção de conhecimentos, que têm 162
sido desacreditada e ignorada pelas políticas de reciclagem de professores e de imposição de
pedagogias formuladas em gabinetes.
Apesar das limitações impostas pelas condições de trabalho vividas pelos/as
professores/as, as pesquisas revelam ainda que a pesquisa do/a professor/a
representa uma possibilidade concreta de construção de novas práticas e que seu
olhar investigativo, além de iluminar essas mesmas práticas, também questiona
teorias e produz conhecimentos e saberes caros ao universo da escola e da
academia.189

Mas foi de fora do GEPEC que encontrei um texto que considero a mais perfeita tradução da
importância e possibilidades do FALA. É um artigo de Daniela Pereira da Silva, do GRUPALFA
- Pesquisa em educação das classes populares -, Universidade Federal Fluminense, Rio de
Janeiro, publicado no A página da educação, de Portugal, ―uma revista trimestral ,
especializada em educação, ensino, sociedade e culturas‖190 que existe impressa e on line.

187 Página do V FALA. Disponível em http://www.fe.unicamp.br/falaoutraescola/apresentacao.html. Acesso em 10 de julho de 2010.


188 CUNHA, Renata Barrichelo; PRADO, Guilherme do Val Toledo. A produção de conhecimento e saberes do/a professor/a-pesquisador/a, p.272.
189 CUNHA, Renata Barrichelo; PRADO, Guilherme do Val Toledo. A produção de conhecimento e saberes do/a professor/a-pesquisador/a, p.270-271.
190 A página da educação. Disponível em http://www.apagina.pt/. Acesso em 3 de julho de 2010.
Ter estado nesse evento permitiu-me compreender, no diálogo com outras e outros
professores que, apesar de estarmos inseridas em um projeto global que subalterniza
e oprime as professoras e professores, desqualificando nossos saberes, fazemos parte
também da construção de um outro projeto que visa romper com esse projeto
hegemônico. Reconhecer a existência e artimanhas desse projeto global foi um
primeiro passo para a possibilidade de construção de um outro projeto contra-
hegemônico.
Os três dias do evento serviram, entre outras coisas, para reacender a esperança das
que lutam pela democratização da gestão, do acesso e permanência das crianças
oriundas das classes populares numa escola que se pretende de qualidade social.
Mostrou-me que não somos poucas e poucos, visto que foi preciso suspender as
inscrições dias antes do início do evento por ter sido atingida a capacidade máxima
do auditório onde seria realizado [...]191

163

191 SILVA, Daniela Pereira da. Uma outra escola é possível.


2. Grupo de Terça

do baú
Zumbi, saia justa e jogos de palavras: produzindo reflexões no Grupo de Terça, 2006.192

Este artigo tem como objetivo contar como no Grupo de Terça do GEPEC reflexões foram
provocadas e construídas no segundo semestre de 2005 produzindo
múltiplos olhares tra(du)zidos pelos materiais oferecidos e postados na internet e nas falas
dos encontros quinzenais;
múltiplos olhares construídos por experiências que se entrelaçam, brincando e dialogando com
músicas e poesias;
múltiplos olhares reescritos com trocas, na certeza de que a depuração de conceitos em
educação se dá a partir do espelhamento da riqueza da diversidade humana.

O GEPEC - Grupo de estudos e pesquisas sobre educação continuada – faz parte da Faculdade de
Educação da Unicamp e está completando 10 anos agora, em 2006. Da página eletrônica do grupo193
retiro a metáfora de Rejany Dominck que define bem a sua configuração atual:
é como se o GEPEC fosse uma praia com surfistas. Tem gente que surfa
regularmente, outros não. Tem gente que só fica na praia olhando, tem gente com 164
pranchas de todos os tamanhos e estilos; tem aqueles que são escolados e os
iniciantes; os que nadam enquanto os outros surfam; os que surfam reto e os que
fazem manobras.
É uma diversidade, mas não uma loucura sem nexo; todos amam o mar, é um lugar
que te tira o chão. Creio que o que mais caracteriza este grupo que ama o mar é
que todos são professores e estão lidando com a escola nos seus diversos
níveis.

O GEPEC se reúne para produzir e organizar o Seminário FALA outra ESCOLA e o Seminário sobre
produção de conhecimento, saberes e formação docente, que acontece dentro do COLE –
Congresso de leitura – e também nos reagrupamos nas matérias oferecidas pelos professores
responsáveis pelo grupo e em grupos de pesquisas e debates.

Dos agrupamentos do GEPEC gosto mais do Grupo de Terça;


mais livre,
mais diverso,
mais criativo, amplia o conceito de produção acadêmica;

192 Apresentado nos diálogos do III FALA outra ESCOLA; inédito em palavras impressas.
193 http://www.fe.unicamp.br/gepec/
mais construtor de pensamentos plurais, mais denso pela própria diversidade de abordagens
que temos lá, fruto de distintas vidas escolares;

alguns já fizeram muito e mais um pouco na universidade - mestrado, doutorado - outros que
estão chegando e procuram nela seu canto, como há também os que não têm certeza de que
deveriam estar por lá, na academia, ainda não se convenceram desse namoro;

somos tod@s professor@s, mas também diretoras, orientadores, coordenadoras, músicos,


economistas, pedagogos, matemáticos e temos até dentista!

e isto produz olhares dessemelhantes!

Construídos a partir de diferentes lugares da educação e na observação e reflexão da lida diária,


esses olhares e olhadelas são oferecidos generosamente ao grupo em narrações orais, nos encontros
quinzenais, ou em escritos, dos e-mails às teses e livros.
A palavra nos (a)trai e gostamos de contar paulofreireanamente uns aos outros as descobertas,
anunciando em escritos as novidades, porque
a escrita permite se conhecer melhor,
a escrita permite se dar a conhecer aos outros,
escrever é fazer história!

E sabemos com Paulo Freire que ―estar no mundo necessariamente significa estar com o mundo e 165
com os outros [ e] estar no mundo sem fazer história, sem por ela ser feito, sem fazer cultura [...],
sem aprender, sem ensinar, sem idéias de formação, sem politizar não é possível.‖ 194
Nos alinhamos com Paulo Freire.
Caminhamos com a certeza de que através destas trocas de escritos, nossos e alheios, o GEPEC
provoca o movimento da esperançosa busca que nos ensina o mestre:
A matriz da esperança é a mesma da educabilidade do ser humano: o inacabamento
de seu ser de que se tornou consciente. Seria uma agressiva contradição se, inacabado
e consciente do inacabamento, o ser humano não se inserisse num permanente
processo de esperançosa busca. Este processo é a educação. Mas precisamente
porque nos achamos submetidos a um sem-número de limitações – obstáculos
difíceis de ser superados, influências dominantes de concepções fatalistas da História,
o poder da ideologia neoliberal, cuja ética perversa se funda nas leis do mercado –
nunca, talvez, tenhamos tido mais necessidade de sublinhar, na prática educativa, o
sentido da esperança do que hoje. Daí que, entre saberes vários fundamentais à
prática de educadores e educadoras, não importa se progressistas ou conservadores,
se salienta o seguinte: mudar é difícil mas é possível. 195

fim
194 FREIRE, Paulo (1998). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p.34.
195FREIRE, Paulo (1996). Educação e esperança. In: Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos.
No artigo Uma experiência de produção coletiva de texto, de Cláudia Roberta Ferreira,196 o
Grupo de Terça é analisado por sua produção de textos coletivos, que acabou por se tornar uma
de suas marcas.
Cláudia analisa três experiências coletivas de textos:
1. Galhos e penas: uma reflexão crítica sobre um projeto de reconstrução da escola pública
brasileira. Entre 1997 e 1998 foram feitos a pesquisa e os escritos que geraram o texto que foi
publicado na Revista de Educação, PUC - Campinas, v3, n.6, p.13-19, jun.1999.
2. Professor e professor-coordenador: diferentes olhares, diferentes saberes. Entre 2001 e 2002
aconteceram a pesquisa e diálogos que geraram esse texto. Sua última versão foi divulgada e
teve seu resumo publicado no 14º COLE e no VII Congresso estadual paulista sobre a
formação de educadores.
3. Das lições de Rancière às nossas lições. Em 2003 o grupo, a partir de uma sugestão de Jorge
Larrosa, leu o livro de Jacques Rancière, O mestre ignorante. As discussões e debates sobre o
livro estenderam-se até 2004, quando um texto coletivo foi produzido.

Ciranda de Raças 166


Alma não tem cor Branquinho Azul amarelo
Por que eu sou branco? Neguinho Verde verdinho marrom
Branco negão
Alma não tem cor
Percebam que a alma não tem cor
Por que eu sou negro? (Alma não tem cor,
Ela é colorida
André Abujamra)
Ela é multicolor

A rotatividade do GT é grande e as identidades e memórias de cada ano são transmitidas pela


permanência maior de alguns, a volta de outros filhos pródigos e a permanência de muitos na
lista de discussão do grupo, como bem definiu Marcemino Bernardo na ata da reunião do grupo
de 15 de abril de 2008:
O Grupo de Terça me parece, às vezes, como aquelas sombras à beira de uma longa
estrada ensolarada e empoeirada, por onde a gente anda... anda, e então pára e
descansa. Ao abrigo do sol, os viajantes conversam. Sempre tem gente nova
chegando, ficando, indo, voltando.
Grande parte dos autores dos três textos coletivos relatados por Cláudia Ferreira tornaram-se
mestrandos, doutorandos e, terminado suas pesquisas, voltaram a suas cidades de origem ou

196 FERREIRA, Cláudia Roberta. Uma experiência de produção coletiva de texto. In: PRADO, Guilherme Val Toledo; SOLIGO, Rosaura (Org.). Porque escrever é fazer história:
revelações, subversões e superações, p. 229-243.
assumiram trabalhos que os impediram de continuar no grupo. Na roda que roda que nos
caracteriza, enquanto alguns se afastaram por esses ou outros motivos, eu e outros voltamos
para o Grupo de Terça em 2005, junto com novos professores, novos olhares.
Em 2005 e 2006 trabalhamos bastante o tema Raça, sob a coordenação do professor Guilherme
Prado, quase como uma compulsão, sem controle;
combinávamos mudar de assunto num encontro, considerando já esgotado o que mal se
iniciava, mas, no encontro seguinte, dúvidas, ―causos‖ e reflexões nos traziam para junto dele;
desnaturalizado no altar do Brasil sem racismo, ele se mostrou próximo, parte do nosso
ensinar, corisco transversal de gestos e palavras.
No III FALA, vários textos individuais foram apresentados como fruto dessa discussão.
Apresentei o texto Zumbi, saia justa e jogos de palavras: construindo reflexões no Grupo de
Terça, no qual pretendia caminhar apenas com autores brasileiros e me vi invadida por um texto
de Boaventura de Sousa Santos, sem ainda notar que isto se tornava cada vez mais frequente.

do baú
Do texto Zumbi, saia justa e jogos de palavras: produzindo reflexões no Grupo de terça,
2006. 197 167
Não há obrigatoriedades no grupo de terça, a não ser aquelas que criamos, o que é sempre um
complicador.
Escolhemos a cada semestre o tema que vamos debater e o que vamos fazer com as reflexões e, no
segundo semestre de 2005, o escolhido foi raça! não, é etnia que se fala! é raça!
Primeiro complicador: raça ou etnia?

Uma professora do grupo, A., traz um artigo onde se afirma que o termo correto é etnia, já
que raça é a humana, ou seja, apenas uma.

Ah, é?, exclamo e reclamo eu, antes existia raça e servia para dizer ―racinha ruim‖, ―é de
outra raça‖; agora que a palavra raça foi apropriada pelo movimento negro, virou nome de
revista, premiação, ela caiu de moda??? foi deletada do idioma? Isto é que é eliminar o
racismo por canetada!

ou é descoberta recente que somos todos humanos, demasiadamente humanos, de apenas uma
raça?

197 Apresentado nos diálogos do III FALA outra ESCOLA; inédito em palavras impressas.
Sabendo que a ―promoção‖ da ingenuidade para a criticidade não se dá automaticamente como nos
ensina nosso querido Paulo Freire, procuro argumentos entre os vários textos enviados pelos
companheiros do grupo e escolho 3 andarilhos destas trilha para me auxiliar.
O primeiro é de Ilma Fátima de Jesus, maranhense, apresentado à nós pela Rosaura Soligo, afirma
que ―como a Biologia Molecular (através do Projeto Genoma Humano) soterrou o conceito biológico de
raça, a sua utilização só se justifica devido ao seu conteúdo social. As raças são conceitos
socialmente construídos e se reproduzem no cotidiano da vida brasileira e não poderia ser diferente
aqui. Mas que não podemos deixar de falar em raças no nosso país, isso é verdade.‖
Encontro em Boaventura de Sousa Santos a mesma indignação minha, melhor colocada, claro: ―Só

quem pertence à raça dominante tem o direito (e a arrogância) de dizer que a raça não existe ou que a identidade

étnica é uma invenção.‖198

E completa Abdias Nascimento:

Ao mesmo tempo a noção de que raça não existe, hoje predominante na biologia, é
transplantada para a vida social. Num passe de mágica, deixam de existir as raças como
categorias sociais historicamente construídas e também o racismo. A intenção dessa
falsificação canhestra é transformar os negros de alvos em produtores do racismo. 168

fim

Instigados pela professora Corinta, fizemos também um texto coletivo, costurado a muitas mãos
e apresentamos no FALA. Sua produção foi fundamental para criar a rede de confiança e de
trocas na lista do grupo e propiciar a explosão das Pipocas pedagógicas e, por esse motivo,
decidi incluí-lo nesta dissertação.
Enviei a última versão que tinha dele para a lista do Grupo de Terça e pedi para os autores
fazerem uma revisão de suas palavras, se julgassem necessária, e avisando que pretendia incluí-
lo nesta dissertação.
O texto que segue está constituído de três partes: Introduzindo, escrita por Ana Maria Campos,
Ciranda colorida e Finalizando, texto feito por mim a partir da seleção e organizado de
ressonâncias da apresentação no FALA enviadas para a lista do grupo.
O texto Ciranda colorida foi feito a partir de textos escritos e orais de pessoas do grupo
registrados em atas ou enviadas para a lista. Originalmente, cada cor de letra é a representação
de um dos autores, formando uma colcha de Filé, bordado típico do nordeste brasileiro.
A versão em preto se sustenta igualmente, mas não é tão bonita.

198 SANTOS, Boaventura de Sousa (2006). As dores do pós-neoliberalismo.


Ciranda de textos
grupo de terça do GEPEC 2005/2006

Esta ciranda não é minha só


Ela é de todos nós
Ela é de todos nós
(Capinan)

Introduzindo - desenrolando um novelo embaraçado...


Nada é tão embaraçoso quanto conversar, escrever, refletir sobre preconceitos... Afinal,
quem não os tem? Não é mesmo, querido leitor ou leitora? A despeito dessa constatação
quase óbvia, com uma frequência maior do que a que gostaríamos, não conseguimos perfurar a
“crosta” da obviedade e confrontarmo-nos profundamente num movimento que provoque a
elaboração de uma outra auto-organização subjetiva e de atitudes.
O debate que iniciamos no Grupo de Terça do GEPEC, em 2005, sobre racismo/etnia/
preconceito/negritude/africanidades revelou, de início, uma incapacidade, ou talvez insegurança
nossa, de definir sobre o que exatamente estávamos tratando. Assim, fomos juntando palavras
e conceitos que pudessem traduzir um incômodo para uns, espanto para outros, tristezas e
sentimentos intangíveis, pouco conhecidos, ou talvez não nomeados, para muitas e muitos de 169
nós...
No princípio fomos partilhando as dúvidas e atitudes assumidas em determinadas
situações de convívio familiar, escolar, de lazer... e contando uns para os outros as vivências;
registrando timidamente as nossas incompletudes e os nossos vazios de saber e, ao mesmo
tempo, procurando por respostas que não estavam prontas. Estávamos vivendo no grupo um
importante e incomum trabalho de produção coletiva de sentidos para o desvelamento e a
desconstrução de uma “lógica de classificação social assentada na monocultura da
naturalização das diferenças”, conforme tão bem explicitou Boaventura de Sousa Santos*.
Talvez esse movimento possa parecer desimportante para muitas pessoas, mas insistimos no
registro por considerarmos que esses debates estavam provocando repercussões significativas
em nossas prosaicas ações cotidianas, como também em nossas tentativas de respostas aos
desafios presentes no mundo em que vivemos. Assim, também lembramo-nos do que nos
ensinou Paulo Freire há muito tempo:

A possibilidade de admirar o mundo implica estar não apenas nele, mas com ele; consiste
em estar aberto ao mundo, captá-lo e compreendê-lo; é atuar de acordo com suas
finalidades a fim de transformá-lo. Não é simplesmente responder a estímulos, porém algo
mais: é responder a desafios. As respostas do homem aos desafios do mundo, através das
quais vai modificando esse mundo, impregnando-o com o seu "espírito", mais do que um
puro fazer, são atos que contêm inseparavelmente ação e reflexão.
Porque admira o mundo e, por isso, o objetiva; porque capta e compreende a realidade e a
transforma com sua ação-reflexão, o homem é um ser da práxis. Mais ainda: o homem é
práxis e, porque assim o é, não pode se reduzir a um mero espectador da realidade, nem
tampouco a uma mera incidência da ação condutora de outros homens que o transformarão
em "coisa". Sua vocação ontológica, que ele deve tornar existência, é a do sujeito que opera
e transforma o mundo. 199

Os registros, que ora apresentamos em forma de Ciranda de Textos, são a tentativa


que empreendemos coletivamente de “dar a ver”, ainda que de modo precário, visto que não
reproduzem a intensidade dos sentidos, sentimentos e ações, os debates que temos realizado
nesses últimos tempos. São “quase-memórias” constitutivas de um jeito de ser no Grupo de
Terça do GEPEC.
O percurso não é linear e cadenciado, pois estamos em permanente desassossego,
buscando maneiras de sermos melhores; de outro jeito. O fato é que, a partir do início das
discussões, passamos a observar com mais cuidado as atitudes corriqueiras, e esse olhar tem
se revelado de maneira singular para cada membro do grupo. Sinceramente acreditamos estar
motivadas e motivados para o aprofundamento dessas questões. Sabemos, no entanto, que
vamos escorregar algumas vezes e acertar em outras, pois o peso de uma cultura colonial
insistentemente atualizada encontra-se impregnado em nós. De qualquer maneira
reconhecemo-nos encarnando o risco de nos implicarmos na construção de um outro mundo
possível a partir de nosso trabalho de educadoras e educadores.
Para encerrar este registro, desenrolando um pouco mais o embaraçado e contraditório
novelo de sentimentos e sentidos, queremos fazer ressoar, mais uma vez, a observação do
mestre Paulo Freire na sua postura radical e propositiva quanto ao trabalho do educador e da
educadora: 170
Se é possível obter água cavando o chão, se é possível enfeitar a casa, se é possível crer
desta ou daquela forma, se é possível nos defender do frio ou do calor, se é possível desviar
os leitos de rios, fazer barragens, se é possível mudar o mundo que não fizemos, o da
natureza, por que não mudar o mundo que fazemos, o da cultura, o da história, o da
política? [...]
Uma das coisas mais significativas de que nos tornamos capazes, mulheres e homens, ao
longo da longa história que, feita por nós, a nós nos faz e refaz, é a possibilidade que temos
de reinventar o mundo e não apenas de repeti-lo.200

Segundo Santos essa lógica


Consiste em distribuir as populações segundo categorias que naturalizam hierarquias. As classificações racial e sexual são
as mais salientes manifestações desta lógica. Ao contrário do que sucede com a relação capital/ trabalho, a classificação
social assenta em atributos que negam a intencionalidade da hierarquia social. A relação de dominação é a conseqüência, e
não a causa, dessa hierarquia, e pode ser mesmo considerada como uma obrigação de quem é classificado como superior
(por exemplo, o ―fardo do homem branco‖ na missão civilizadora do colonialismo). Embora as duas formas de
classificação (raça e sexo) sejam decisivas para que a relação capital/ trabalho se estabilize e se difunda globalmente, a
classificação racial foi a mais profundamente reconstruída pelo capitalismo. De acordo com esta lógica, a não-existência é
produzida como uma forma de inferioridade, inferioridade insuperável porque natural. Quem é inferior, porque
insuperavelmente inferior, não pode ser uma alternativa credível a quem é superior. 201

199 FREIRE, Paulo (1974). Uma educação para a liberdade, p.7-8.


200 FREIRE, PAULO (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p.44 e 55.
201 SANTOS, Boaventura de Sousa (2005b). O Fórum social mundial: manual de uso.
Ciranda Colorida
- tecendo com linhas desembaraçadas -
Pra se dançar ciranda
Juntamos mão com mão
Formando uma roda
Cantando uma canção
(Capinan)

Mafê (falando para os colegas do GEPEC) — Olá pessoas!

Vou ler um texto que escrevi pensando no que entendi do que foi falado no último encontro do
Grupo de Terça do GEPEC. Escrevi uma carta para vocês dizendo "o que ficou" do trabalho do
GEPEC com etnia em minha prática.

Wilson — Após o encontro de ontem a professora Corinta nos instigou e nos questionou.

Glória (imitando Corinta) — Ninguém conectou o FALA com o mês da consciência negra
quando estaremos próximos ao dia de Zumbi, 20 de novembro? Será que isto significa que o
tema anterior não mudou nossa prática? Que não colocamos as questões debatidas na nossa
vida? Não faz parte da nossa história de vida, da nossa novela de formação?
171
Ana — Foi colocada a necessidade de se registrar o que foi produzido e quais os impactos
sobre nossa prática destes nossos estudos. Eu estava lendo os relatos que tenho e pensando
em como faríamos o texto coletivo sobre nossa experiência de formação sobre
etnia/raça/africanidade...

Mafê — Caros colegas gepequianas e gepequianos: o tempo que destinamos ao estudo sobre
etnia valeu? Para quê?

Até hoje ainda não damos um nome só para aquilo que estudamos durantes o semestre final de
2005 e o inicial de 2006. São várias as possibilidades: questão racial, étnica, étnico-racial,
africanidades, preconceito...

Foram vários os relatos de experiências vividas em escolas, salas de aula, várias questões
postas.

Ana — Gostaria de registrar um episódio ocorrido em uma sala de crianças de seis anos.
A professora e os alunos estavam envolvidos em um projeto sobre as famílias e suas
composições e trabalharam o livro A história de cada um, da editora Scipione. A história
apresenta vários personagens de diversas etnias que contam sobre suas composições
familiares. São personagens negros, brancos, amarelos que frequentavam uma mesma escola.
Após a leitura e pesquisas sobre as famílias de cada um dos alunos da sala de aula todos
resolveram desenhar os personagens tomando por base o tamanho real das crianças. Ter os
personagens dentro da sala de aula, colados na parede, significava viver a história e fazer parte
dela.
O trabalho do grupo terminou. Todos estavam felizes, e, em meio a tanta alegria e satisfação,
um dos alunos fez a seguinte colocação:
– Professora, mas os meninos da história não são da mesma cor! Eles não são dessa cor que a
gente desenhou. Quando eu for fazer o meu desenho eu quero fazer da cor que eu sou!

Mafê — Muitos materiais partilhados, e cavamos uma sensação cada vez maior de que
precisávamos olhar para nossa cultura ocidental como sendo uma entre outras. Uma imposta
sobre outras...

Glória — Na verdade, nem sei se sabemos bem o que é racismo, ou se racismo é acreditar
numa superioridade qualitativa de uns sobre os outros. E foi acreditando nessa superioridade
que o homem branco, europeu, nos legou o currículo a ser trabalhado nas escolas, perpetuando
os seus valores, crenças, cultura.

Pobres alunos! O que fazer exatamente com o que aprendemos na escola, se não aprendemos
a trabalhar com a diversidade? E acima de tudo: respeitá-la.

Os estudos e debates acontecidos nos encontros do Grupo de Estudos e Pesquisas em


Educação Continuada - GEPEC - da Faculdade de Educação da UNICAMP fizeram-me, mais 172
uma vez, refletir sobre o assunto.

Que papel desempenho eu, como formadora de professores para o ensino fundamental, neste
delicado e intrínseco tema?

Ana — A professora foi pega de surpresa! [...] cada personagem da história tinha uma
tonalidade diferenciada de pele e essa característica não foi respeitada na reprodução dos
desenhos, pois o mesmo papel manilha, de tonalidade bege, foi utilizado para desenhar todos
os personagens. [...] Na verdade, a professora havia se preocupado com o tamanho do papel,
mas não havia pensado na importância de respeitar a cor de cada personagem. Como a
professora poderia ter deixado escapar detalhe tão fundamental... ainda mais ela, que havia
escolhido o livro pelo fato de representar tão bem a diversidade humana!

Pois é, há tanto que se pensar para planejar uma atividade que, às vezes, questões
fundamentais acabam sendo deixadas de lado. E por quais razões? Várias podem ser as
respostas. Mas o mais importante nesse processo foi o fato de a professora ter avaliado seu
trabalho e considerado as colocações dos alunos para dar continuidade às atividades do
projeto.

Mafê — Dentre tantas perguntas colocadas pelo grupo, gostaria de conversar com vocês sobre
algumas que foram colocadas para mim, ou por mim... Dizer de como foi minha experiência
com o trabalho desenvolvido pelo GEPEC nos últimos semestres.
Iniciados os trabalhos, uma de nossas tarefas era resgatar vivências em sala de aula
relacionadas ao tema. Para mim o diálogo com as crianças sempre foi uma questão importante.
Então, fui buscar uma inquietação latente: como falar em etnia com eles? Quem é negro, ou
negra, no grupo? Ou devemos nos classificar como pretos e pardos? Seria esta a nomenclatura
certa? A cor da pele é o que nos chama para conversas sobre discriminação, etnia,
africanidades, com as crianças. Como tratar tais assuntos com eles?

Wilson — Kabenguele Munanga faz uma reflexão interessante sobre que identidade que
queremos construir com nossos alunos, com a escola, na sociedade. E para isso ele apresenta
e propõe uma discussão sobre pelo menos três conceitos de Identidade:

1ª Identidade: Legitimadora: “elaborada pelas instituições dominantes da sociedade, a fim de


estender e racionalizar sua dominação sobre os atores sociais.” 202

Acredito que esta identidade coloca para a escola ou o individuo uma condição de legitimadora,
do que está posto na sociedade, apenas reproduzindo tais relações, sem questionamentos.

2ª Identidade: Resistência: “é produzida pelos atores sociais que se encontram em posição ou


condições desvalorizadas ou estigmatizadas pela lógica dominante. Para resistir e sobreviver,
eles se barricam na base dos princípios estrangeiros ou contrários aos que impregnam as
instituições dominantes da sociedade “(ver Calhoun, Craig (ed). Social theory and the Politics of 173
identity. Oxford: Blackwell, 1994, p.17; apud Castells, op.cit.p.18). 203

Podemos pensar como aquela escola ou indivíduo que tem consciência sobre a transformação
necessária da sociedade, porém, criam-se grupos de certa maneira não legitimados pelo poder
dominante que não conseguem inserir-se na sociedade de forma abrangente. Acredito que o
Hip-hop e as diversas expressões da cultura negra muito contribuíram nesta perspectiva ao
longo da nossa história.

3ª Identidade: Projeto: “quando os atores sociais, com base no material cultural a sua
disposição, constroem uma nova identidade que redefine sua posição na sociedade e,
consequentemente se propõem em transformar o conjunto da estrutura social.” 204

É possível pensar que esta identidade propõe para a escola ou individuo trabalhar com a
perspectiva da transformação da sociedade, a partir da elaboração conjunta de outras
possibilidades de estruturas e relações sociais, e que também é apontada pela lei 10.639/03.

Mafê — A pergunta que me coloquei em abril deste ano sobre “se nomes a serem dados à pele
deveriam ser uma questão”, foi uma dentre outras perguntas suscitadas pelo GEPEC (nem
lembro mais se diretamente). Eu consegui, aos poucos, melhorar meu olhar sobre as dúvidas

202 MUNANGA, Kabengele. Diversidade, etnicidade, identidade e cidadania, p.3.


203 Ibdem
204 Ibdem.
das crianças, ver na aparência física uma questão delicada a ser trabalhada, junto aos porquês
da ditadura da beleza, à leitura de livros com personagens negros belos e não em postura de
submissão, como livros didáticos costumam apresentar com suas ilustrações dos séculos XV e
XVI .

Glória — A elaboração da caixa de recordações, da própria linha do tempo, da pesquisa sobre


a origem étnica, da história dos seus ascendentes, da própria identidade étnica para
posteriormente serem discutidas e analisadas – fez como que as alunas do curso normal
superior se redescobrissem a cada etapa do projeto. [...] O processo de resgate da própria
identidade foi considerado por elas mesmas como instigante e, ao mesmo tempo, doloroso. Ao
reviver a própria história de vida, a dos avós e a dos seus pais, o processo de “branqueamento”
durante a sua formação e o quanto esse processo havia influenciado na autoestima de cada
uma. [...] Assumir a própria etnia em uma sociedade que discrimina a diversidade étnica seja
pela rejeição da existência da discriminação, ou pela manifestação de uma pseudoigualdade,
requer coragem para se reconhecer, para reviver e superar os traumas do passado.

Mafê — Reencontrei uma experiência que tive com alunos de segunda série, em 2004, na
construção de um personagem negro... Um pedacinho do relato:

Deste trabalho e de outras experiências menos intensas com a questão da raça/etnia, fica a
dúvida sobre qual a melhor maneira de tratar a dificuldade que as crianças apresentam com a 174
COR da pele: mais do que serem descendentes de africanos, filhos de classe popular ou até
mesmo de terem cabelos mais crespos ou menos crespos, a cor da pele e o cuidado excessivo
que as crianças têm ao denominá-la me incomoda e ainda não tenho segurança para trabalhar
esta questão. Por algumas informações que tive em minha formação e outras desconfianças
que tenho hoje converso com eles, discuto questionando-os e passando-lhes as informações
que recebi, sem saber muito bem em quais conceitos e nomes deveríamos chegar, e destacar,
ou até se nomes a serem dados à pele deveriam ser uma questão... Pulgas que ficam atrás de
minhas orelhas e que, no máximo, consigo dividi-las com as crianças...

Wilson — Acredito que o professor, enquanto referência na escola e na sociedade, precisa


assumir, na prática pedagógica, uma identidade de resistência histórica de nossas lutas, com a
perspectiva da construção de uma identidade projeto, para que, na escola e na sociedade, os
alunos se reconheçam, sejam reconhecidos, aprendam sobre a cultura negra, como cultura
brasileira, e desperte na sociedade brasileira a assunção desta, como sendo de todos, que
potencialize em nosso educando, novas possibilidades de construção da identidade nacional,
de que o Brasil muito necessita.

Glória (falando para a Ana) — E naquela primeira história? As cores da pele de cada aluno,
como foram contempladas?

Ana — Laboratório de cores! A professora da classe e a professora de Artes juntaram-se em


meio a vários potes de tintas para misturar cores. Cada criança teve que comparar a tinta que
estava em mãos com a cor de sua pele. E podemos assegurar: não houve cor igual!
Muitas misturas foram feitas para atingir a cor próxima do real tom de pele de cada aluno que, a
cada pincelada no papel, deixava registrado um pouco de marca, de sua vida, de sua história,
na beleza de sua cor.
E assim todos foram representados, do seu jeito, de sua forma e de sua cor!

Mafê — Como tratar de história da África nas séries iniciais, sem que o tema caia sobre as
cabeças das crianças como mais um tópico da lista de conteúdos?
Comecei a ensaiar algumas possibilidades ainda não tão integradas ao trabalho como um todo,
da maneira como eu gostaria. Iniciamos, nas segundas séries, neste segundo bimestre, uma
tentativa de trabalhar com temas ligados às africanidades. Todas as segundas-feiras, quando
misturamos as turmas, com o objetivo principal de organizar melhor o trabalho de atendimento
às necessidades específicas da área de escrita com as crianças. Assistimos a história ―Ifá, o
Adivinho‖ narrada pelo programa de TV ―Livros Animados‖, disponibilizado pelo curso ―A
cor da Cultura‖.

Ana — Quero narrar um episódio! Estávamos em círculo, numa reunião de planejamento de


professores, quando a Vera Lúcia achou de contar uma história de sua vida! Paramos para
ouvi-la, quem é que não gosta de uma boa história, não é mesmo? E foi assim...

Era uma vez uma menina negra, muito tímida, que tinha um avô alto, sempre bem vestido e
cheiroso, seguro de si, dono de sua história e de uma pequena “venda” à beira do caminho da 175
cidade.
O avô contava às netas que seus pais tinham sido escravos, trazidos da África num daqueles
intermináveis sequestros que os colonizadores europeus promoveram no continente negro,
deportando-os para as Américas.
Depois de muito trabalho forçado e também de resistência à opressão do colonizador,
conquistaram a liberdade de não mais fazerem trabalho forçado. Outro tipo de liberdade, a do
espírito, assim como a econômica, deveria ser conquistada arduamente, dia após dia,
reafirmando a dignidade que a pessoa humana deve ter. [...] então, Vera Lúcia cresceu ouvindo
as histórias de seu avô e, mais do que isso, vivenciando com ele a afirmação de sua
autoridade, de sua dignidade, de seu trabalho de comerciante de “secos e molhados”. “Mesmo
algemado, um homem não pode nunca se curvar”, ensinava o velho negro às suas netas.

Mafê — A partir daí elencamos com as crianças as perguntas que a conversa sobre a história
suscitou e começamos nosso trabalho... Meu grupo quis saber de onde vem a língua que nós
falamos? Na África, que língua eles falam?”... Pano prá manga!
Durante alguns encontros do GEPEC de terça, no ano passado, Lucy me incomodou com uma
frase mais ou menos assim: temos que parar de dizer que não sabemos como fazer, que não
temos material, precisamos meter as caras e buscar, procurar, ir fazendo...”. Eu pensava: estou
no meu limite! Procurar mais o quê? Achava já ter incluído o que eu poderia em meu
planejamento.
Hoje, entendo melhor o que Lucy dizia e entendo também meu incômodo na época. Entrando
em contato com textos sobre o assunto e com pesquisas na Internet, meu “não saber”
generalizado, foi se tornando um “não saber” específico. Já é um conforto pensar: Não sei
sobre as línguas faladas na África, preciso buscar... Não sei sobre as grandes Estados
Africanos e a divisão que fizeram deles...

Glória (como se falasse para a Mafe) — Nos ensina Amadou Hampâté Bâ:

Quando se fala da “tradição africana”, nunca se deve generalizar. Não há uma África, não há
um homem africano, não há uma tradição africana válida para todas as regiões e todas as
etnias. Claro, existem grandes constantes (a presença do sagrado em todas as coisas, a
relação entre os mundos visível e invisível entre os vivos e os mortos, o sentido comunitário, o
respeito religioso pela mãe, etc.), mas também há numerosas diferenças: deuses, símbolos
sagrados, proibições religiosas e costumes sociais delas resultantes variam de uma região para
outra, de uma etnia a outra; às vezes, de aldeia para aldeia. 205

Ana — Um final de ano, próximo do Natal, o pai de Vera Lúcia resolveu sair à procura de
brinquedos para presentear as filhas [...] achou em uma das lojas uma boneca negra. Gostou!
Comprou para a filha mais nova, que nessa época deveria ter por volta de três anos de idade.
Natal! Missa! Festa e... presentes!
O pai foi chamando uma a uma as filhas e entregando os embrulhos coloridos, vistosos. Cada
qual mais ocupada com seu presente não percebeu a hora que a pequena caçula abriu o seu
pacote.
176
A menina deu um grito de pavor! Jogou a boneca negra longe e começou a chorar! As irmãs
assustadas correram para apanhar o presente.
O pai ali, perplexo diante da reação da filha!
Vera Lúcia buscou a boneca negra e foi ter com a irmãzinha, tentando reverter a situação, mas
não houve jeito.
- “Coitadinha, ficou assustada, pai, mas isso passa!”
É, passa! Mas demora. Demorou.
- “Afinal, nunca tinha visto uma boneca negra! E com três anos, dizia a Vera Lúcia, é difícil
entender o que se passa à nossa volta...”
Será mesmo? Ela própria passou a observar, se questionar, movida, talvez, pelo exemplo do
avô, que teimosamente ocupava com altivez o seu lugar no mundo, orgulhoso de suas origens.

Nunca mais Vera Lúcia esqueceu esse episódio da infância, imprimindo à sua vivência de mãe
e de educadora de filhos de outras famílias o orgulho da raça, a afirmação da dignidade da
pessoa humana e a doçura para agir em favor da vida!

Muito comovidas e agradecidas ficamos todas nós por termos sido presenteadas com uma
reflexão tão arrebatadora de como é ser e estar negra num país em que a sociedade opera
ideologicamente com o mito da democracia racial.

205 HAMPÂTÉ-BÂ, Amadou. Prólogo In: Amkoullel, o menino fula.


Mafê — Tenho como fonte destas perguntas o material escrito do curso “Africanidades-
Brasil”, oferecido pela UNB e que ocorre à distância. Não teria feito inscrição em um curso
nestes moldes não fosse a sensibilização proporcionada pelos encontros do GEPEC.

Entendo, hoje, que o estudo da história da África não vem para que simplesmente entendamos
melhor a nossa cultura... Vem para que possamos entender melhor a cultura do outro. Imagino
como seria o mundo hoje se a África não tivesse sido esquartejada da maneira como foi com o
“neocolonialismo”...

Culturas em que a mulher tinha importância grande na organização social e política, oem que
não havia propriedade privada... Quanto a nossa cultura deixou de ganhar com os massacres
ocorridos (que ainda ocorrem) na África!...

Por estas e outras questões, além de saciar o desejo de nomear a própria pele, muitas dúvidas
ainda precisam ser lançadas em salas de aula a nossos alunos.

Como ser capaz de despertar dúvida, sem valorizar o que julgamos, hoje por lei, parte do
conhecimento a ser apreendido pelas crianças?

Glória — Conto a história de Tião Rocha enviada pelo Wilson e indicado pela Kátia:
177
Eu sou sobrinho de uma rainha, dizia Tião menino a seus professores, menino pequeno no seu
primeiro dia de aula.

Repetiu e repetiu, se lembrando da Tia Gorda, a tia rainha, orgulho do guri, repetiu e repetiu até
tomar um cala boca e conhecer a diretoria da escola.

Aprendeu a pisar no chão devagar e demorou quatro anos pra de novo falar na tia rainha e
ouvir do velho professor de história outro cala a boca seguido do desaforo: Você não pode ser
de família real, olha seu nome, olha a sua cor...

Contrariado, Tião sai em busca de suas origens e pesquisa a vida de reis, rainhas e
personagens importantes, mas não encontrou os seus personagens importantes espelhados na
história oficial, mas continua. Vira antropólogo, especialista em Culturas Populares e Folclore,
mais ainda, um educador que trabalha com cultura.

E a tia Gorda? Uma rainha sim, a Rainha Perpétua do Congado!

De agosto a outubro, ela, devidamente vestida com manto, coroa e cetro reais, era
homenageada com danças e embaixadas por ternos de Moçambiques, Congos, Marujos,
Vilões, Catopês e Caboclinhos. E saía em alegres cortejos pelas ruas, protegida,
acompanhando as guardas, cantando e louvando Nossa Senhora do Rosário, santa branca,
padroeira e patrona das irmandades negras e católicas que construíram estas Minas Gerais.
Mafê — Quis compartilhar com vocês algumas perguntas que povoam meus planejamentos,
leituras e minha relação com meninos e meninas negras, em sua grande maioria, em minha
sala de aula. Dizer o que “valeu” para mim, de todo o trabalho que realizamos juntos.

A escrita deste texto foi uma experiência curta, porque o tempo e outros compromissos de fim
de bimestre não permitiram mais, com pinceladas sobre perguntas que gerariam maiores
reflexões, mas bastante gratificante por permitir que eu tenha registrado alguns indícios de
escolhas que tenho feito em meu trabalho com as crianças e em minhas horas dedicadas ao
estudo neste ano.

Wilson — Por saber que a coerência, assim como a escrita, é algo a ser exercitado, narro
minhas percepções, visões e ações acerca das questões étnicas a partir deste caldeirão de
estímulos. Percebemos, durante o período das nossas discussões e estudos, a complexidade e
amplitude deste tema, presente até mesmo na dificuldade de encontrar um título para definir o
trabalho que fizemos.

Gosto da possibilidade de um título aberto – Ciranda de Textos - abrangente e ao mesmo


tempo diverso e específico. E acredito que de fato seja necessária esta percepção para quem
deseja mergulhar neste universo, e que, mesmo não querendo, estas questões se impõem
quando menos esperamos.
178
Que bom! Assim pudemos pensar no ser humano, nosso maior objeto de estudo, durante este
período, um ser humano em particular classificado como negro, e estudar os diversos grupos e
movimentos, suas características individuais e coletivas, percebê-los e saber das suas
percepções, deixá-los falar e ouvi-los, expressar-se e ser expressão, sentir e ser sentido, enfim
viver, pois, como sinaliza Paulo Freire:

Estar no mundo sem fazer história, sem por ela ser feito, sem cultura, sem "tratar" sua própria
presença no mundo, sem sonhar sem cantar, sem musicar, sem pintar, sem cuidar da terra, das
águas, sem usar as mãos, sem esculpir, sem filosofar, sem pontos de vista sobre o mundo, sem
fazer ciência, ou teologia, sem assombro em face do mistério, sem aprender, sem ensinar, sem
idéias de formação, sem politizar não é possível.206

Ana — O GEPEC sempre acompanhou o caminho que fui construindo neste tempo todo.
Caminho meu, caminho nosso, pois aprendi que não vamos sós. Esse grupo querido foi
essencial para a reflexão sobre a pesquisa na educação, sobre a formação docente, sobre a
importância de um grupo de ancoragem para tantos assuntos sérios que povoam nossa vida de
educadores. Este grupo tem um papel importante na minha vida!

Mafê — Peço desculpas pelo formato estranho do texto, quase que uma série de tópicos. Foi o
possível no momento. Um abraço grande.

206 FREIRE, Paulo (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p.34.
Finalizando – olhando o trançado feito, cantando um verso final

Após o FALA conversamos e trocamos alguns e-mails sobre como faríamos o texto final,
aquele que todos vão ler e conferir!
Resolvi escrever, contar um pouco deste texto e dar um final, sabendo que, até virar de todos,
fatalmente iria se transformar.
Apropriei-me dos relatos nos quais cada um colocava suas impressões sobre o FALA, roubei
um pouco mais das palavras de cada um para dizer que:
O seminário dos dias 16, 17 e 18 de novembro, foi o gesto de interrupção de que eu precisava
para planejar melhor minhas escolhas de formas de estudar e pensar minha prática para o ano
que vem.
O seminário ficou lindo, especial, emotivo e carinho... como sempre!!! Foram três dias
especiais...
É difícil para quem “começa a vida” na universidade, depois de anos de separação, decidir o
quanto deve se empenhar nos eventos que surgem, mas [...] alguma coisa me dizia que eu
deveria deixar o máximo de coisas “para trás” e me dedicar ao seminário nestes dias. E como
foi difícil! Tantas coisas acumularam nesta semana. [...] longe da escola, longe de trabalhos que 179
tinha para terminar, longe das louças para lavar, longe de qualquer outro compromisso que não
fosse conhecer pessoas, ouvir idéias diferentes das minhas, apresentar-me com pessoas
queridas, dizer de idéias e práticas que são tão caras a mim... Estar inteira em um lugar só. Que
correria! mas valeu a pena... Realmente foi muito gratificante pra mim estar com pessoas tão
especiais e amáveis...Obrigada pela paciência e por tudo!
O Gepec é de fato um grupo que faz jus ao nome. Não só estuda e pesquisa temas do universo
complexo da educação, como procura desempenhar seu papel formador, tanto na fase inicial,
quanto na continuada. Parece consensual para as pessoas que, de fato, levam a educação a
sério, que a sociedade brasileira não corrigirá as profundas desigualdades sociais existentes se
não sair da retórica e partir pra ação de verdade. E nós sabemos que a formação consciente e
consistente do educador é condição basilar para as mudanças sonhadas.
Como consequência das apresentações nos diálogos, amanhã estarei na escola sabendo que
temos lá uma força maior do que eu imaginava... Graças ao nosso debate “latino” de sexta à
tarde, passei o domingo e o dia de hoje ouvindo Tarancón!
Olhei para mim e para minha história sob vários aspectos. Melhorei meu olhar para meu
entorno. Enxerguei melhor minhas raízes...
Em momentos de emoção como esses, é inevitável não lembrar-me de Paulo Freire, por isso,
partilho com todos uma de suas pérolas.
A educação é permanente não porque certa linha ideológica ou certa posição política ou certo
interesse econômico o exijam. A educação é permanente na razão, de um lado, da finitude do
ser humano, de outro, da consciência que ele tem de sua finitude. Mais ainda, pelo fato de, ao
longo da história, ter incorporado à sua natureza não apenas saber que vivia, mas saber que
sabia e, assim, saber que podia saber mais. A educação e a formação permanente e fundam aí
[...]o ser humano jamais pára de educar-se [...]
A melhora da qualidade da educação implica a formação permanente dos educadores. E a
formação permanente se funde na prática de analisar a prática. É pensando sua prática,
naturalmente com a presença de pessoal altamente qualificado, que é possível perceber
embutida na prática uma teoria não percebida ainda, pouco percebida ou já percebida, mas
pouco assumida.207
Na Ciranda de textos, poesias e prosas, outro fio do urdimento de Paulo Freire vem agora de
Natalina, contada pela Mafê, que, em uma mesa, trouxe o mestre que nos diz, em Pedagogia
da autonomia, sobre ser professor-pesquisador:
Fala-se hoje, com insistência, no professor pesquisador. No meu entender o que há de
pesquisador no professor não é a qualidade ou uma forma de ser ou de atuar que se acrescente à
de ensinar. Faz parte da natureza da prática docente a indagação, a busca, a pesquisa. O de que se
precisa é que, em sua formação permanente, o professor se perceba e se assuma, porque
professor, como pesquisador.

Assim como um fio puxa o outro, a cada verso, outro deve seguir, a ______. (1996). cada
escrito outro deve falar. Cito agora, vindo de Rosaura, um escrito do “nosso” Gui!
180
Buscando encontrar resposta para as diferentes situações-problema vividas na instituição, temos
conseguido criar, como o diria o Mestre Paulo Freire, alguns inéditos viáveis, construções
compreensivas da realidade, próprias e singulares, algo do sonho que utopicamente imaginamos,
mas que vamos conseguindo realizar e que se encontra destacado no conturbado cotidiano da
escola, visível por uma práxis libertadora. Assim, vai se transformando a cultura predominante e
se abrindo a perspectiva de produzir saberes e conhecimentos a partir da constante elaboração
teórica da instituição escolar e da instituição universitária e do diálogo entre essas duas instâncias.
Trata-se de uma experiência importante de parceria efetiva e dinâmica, que temos procurado e
conseguido viver com sabedoria e emoção.208

Guilherme do Val Toledo Prado é professor da Faculdade de Educação da Unicamp,


coordenador do Gepec e do trabalho de etnia do Grupo de Terça. Neste texto ele se referia a
um outro trabalho, mas, sincreticamente, aproprio-me do texto, porque o FALA também é um
destes inéditos viáveis, algo de sonho ou de milagre.

Milagres como o relatado por Mafê:

207 ______. (1993). Política e educação: ensaios, p.12 e 37.


208 PRADO, Guilherme do Val Toledo.
Lembrando da tempestade de questões e palavras que passaram pela minha cabeça quando o
Guilherme perguntou se alguém teria alguma coisa a dizer, ao final da mesa de ―encerramento‖...
Achei melhor não pagar mico!

Eu sei quando algumas lágrimas se aproximam, ou quando a coisa está pulsando com força que
não dou conta de controlar!

Daí não falei nada, achando que estaria a salvo de soluços, e sabe a que horas eu consegui parar?
Umas 17h!
“A cada mil lágrimas sai um milagre”
Diz a frase de Alice Ruiz estampada no folder do espetáculo Milágrimas, que assisti ontem.
Devo ter vertido, com certeza, mais de mil lágrimas neste seminário!
Então um milagre aconteceu!

Milagre.S.m. 1. Feito ou ocorrência extraordinária que não se explica pelas leis da natureza 2.
Acontecimento admirável, espantoso. 3 Portento, prodígio, maravilha. 4. Ocorrência que produz
admiração ou surpresa. (Dicionário Aurélio)

Apesar de acreditar que existem leis da natureza humana que expliquem o que aconteceu
comigo, ouso chamar de milagre pela força, maravilha e surpresa que me tomaram algumas
181
descobertas que fiz acerca de idéias que eu cultivava e de ações tão incoerentes em relação a estas
idéias e ao mesmo tempo tão coerentes com minha história de vida e de formação.

Emoção!! [...]

e sentir o coração pulsar e passar pelas veias o sentimento de "des-coberta" que


sempre nos é possível quando estamos juntos, quando partilhamos nossas 'dores e delícias' e
quando nos assumimos “humanos, demasiado humanos”.

um momento de silêncio, é necessário.

Psiu! um pedido de silêncio .


Referências bibliográficas

Hampâté-Bâ, Amadou. Amkoullel, o menino fula. Tradução de Xina Smith. São Paulo: Palas Athena:
Casa das Áfricas, 2003.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: UNESP,
2000.

______. Uma educação para a liberdade. 4ª.ed. Porto: Dinalivro, 1974.

______. (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa

MUNANGA, Kabengele. Diversidade, etnicidade, identidade e cidadania

ROCHA, Tião. Uma história e muitas vidas. Disponível em: http://www.cpcd.org.br/release/tiao.pdf.


Acesso em 8 março de 2005.

SANTOS, Boaventura de Sousa. O Fórum Social Mundial: manual de uso. São Paulo: Cortez, 2005.

Paleta dos textos


Alba Mendes Buffa – Racismo e antiracismo na escola (texto)
Alice Kulina Simon Esteves – Diferença étnica na alfabetização 182
Ana Maria Campos – Um facho de Luz (texto) e introdução
Cláudia Roberta Ferreira – e-mail pós-Fala
Glória Pereira da Cunha – organização e textos complementares
Heloísa Helena Dias Martins Proença – e-mail pós-FALA
Ivani Ruela de Oliveira Silva – e-mail pós-FALA
Liana Arais Seródio– frase de um e-mail enviado para a lista
Maria Fernanda Pereira Buciano – e-mail provocador do texto e carta
Patrícia Regina Infanger Campos– Toda cor é bela (texto)
Rubia Cristina Cruz Menegaço, – retirado de e-mail enviado para a lista
Sandra Regina Faria Area – e-mail pós-FALA
Wilson Queiroz - e-mail, artigo enviado e Reflexões sobre as discussões sobre
Raça, Etnia (texto)

Outros participantes do GEPEC que estiveram nos debates, conversas, sugestões e trocas de
materiais que resultaram neste texto:
Guilherme do Val Toledo Prado, Corinta M. G.Geraldi, Adriana Varani, Adriane Pianowski,
Alessandra J. S. da Silva, Andréa B. B. Brino, Carlito F. da Silva, Elisabete G Zuza, Inês
H.S.Vieira, Isabel C. Rodrigues, Jane Vignado, José Antônio de Oliveira, José Carlos P.
Nascimento, Josefa da Conceição, José Paulo M. da Silva, Kátia Maria Eugênio, Laura Chaluh,
Luci Crispin P. Micaelo, Luciano Marcos da Silva, Mabel Servidone, Mara Silvia B. Caruso,
Marcemino Bernardo Pereira, Marco Romero, Mônica M. Fujikawa, Mônica Maria B. de Luca,
Paulo Roberto Formari, Renata B. Cunha, Rosaura Soligo, Roseli R. Pilonetto, Rosemary B. F.
Pontes, Rosilene Slaviero, Silvia T. Bardy, Vaniza Ghidotti, Vera Lúcia da S. Almeida.
3. Explosão de escritos: a produção do Grupo de Terça do
GEPEC de 2008

A produção do GT em 2008 pode ser apresentada em números a partir das duas provocações
que geraram os escritos:
1. Confissões: a primeira indisciplina a gente nunca esquece... como aluno!
Entre março e abril de 2008:
9 narrações de indisciplina enviadas à lista pelos autores CrisHop, Glória, Edna,
Liana, Marcemino, Natalina, Rosaura, Wilson e a narração-desabafo da Mafê;
3 atas com ―contação‖ de indisciplinas e debates presenciais: duas de Marcemino
Bernardo e uma de Glória;
2 textos de apoio de integrantes do grupo enviados à lista por Rosaura Soligo e Ana
Aragão.

2. Pipocas Pedagógicas: crônicas da hora!


Entre maio e dezembro de 2008:
65 crônicas enviadas e outras, incidentais, inseridas em outros textos;
vários textos de apresentação das histórias ou de ressonâncias sobre uma história 183
recebida;
cerca de cinco diálogos-reflexões, diversas vozes, desencadeados a partir de algumas
dessas histórias.
A incerteza dos números de textos e de autores é porque algumas histórias não foram postadas
como histórias, mas aparecem no corpo do e-mail introduzindo outra história anexada, e outras
estão narradas nas atas a partir do relato oral na reunião quinzenal e, outras ainda, aparecem no
meio de um comentário.

Confissões: transgressões e indisciplinas de professores


Depois de mais de dois anos estudando sobre raça e preconceito, em 2008 resolvemos mudar de
tema e atacar algo que permeava várias conversas e preocupações dos professores do grupo:
indisciplina!
Em meados de março sugeri na reunião semanal que escrevêssemos sobre nossa primeira
indisciplina como alunos para, a partir das nossas próprias indisciplinas, entender a indisciplina
dos alunos. No entanto, minha sugestão escondia outra intenção, confessada ao grupo quando
enviei ―minha‖ indisciplina .
do baú
e-mail enviado com a minha indisciplina

Povo das terças

Confesso: a sugestão de tarefa que fiz para o grupo foi porque tinha uma personagem à
procura de autor, para que escrevesse uma história que existe desde seus 7 anos! É inédita
no papel, na fala e até no mundo virtual, só escapando com vida no HD da minha cabeça.
Por que ainda não contei?
Ela me deixa um tanto embaraçada, afinal fui menina comportada, sem reprovações ou
grandes máculas escolares, mas este início não foi muito... , digamos assim, virtuoso!
Isto é certo: esta história não foi nada virtuosa... carece de uma lição ou moral ou, ao menos,
algum final onde epicamente declararia: ―e a partir daí me dei conta de meu erro e me tornei
uma aluna modelo!!!‖
(palmas, lágrimas nos olhos e a certeza de que a verdade e os bons hábitos se aprendem
também com os... ,digamos, enganos! )
fim

No registro do encontro de 01/04 feito e enviado à lista de discussão por Marcemino Bernardo 184
estão os primeiros movimentos provocados pelas confissões e o papel do coordenador do grupo:
Colegas do Grupo de Terça
[...] aconteceu a primeira ―rodada‖ de leitura das nossas ―indisciplinas escolares‖. Os
relatos estão quase todos na lista e, apesar da particularidade de cada situação, no
geral ouvimos histórias engraçadas, travessuras perdoáveis e com alguma lição ao
final. Após a leitura de cada texto, a conversa se estendia, pois, como todo bom
―causo‖, a gente queria saber sempre mais. Uma conversa puxa a outra, que puxa
mais uma, e muitas outras histórias de indisciplina se juntaram às nossas. Foi
divertido.
Durante estas estendidas do assunto – mediadas pelo Prof. Guilherme –, o grupo foi
construindo a percepção de que não se sabia mais que objeto era aquele: a
Indisciplina. Posto que não é nossa intenção produzir uma definição, o Guilherme
insistiu no foco sobre o ―jogo‖ entre os sujeitos que se constituem na escola. Quais
são as relações que constituem o sujeito ―aluno indisciplinado‖, ou o ―professor
indisciplinado‖?
Deixei o encontro animado.

O debate sobre indisciplina prossegue na lista de discussão do grupo, e, de Rosaura Soligo,


ausente da reunião presencial, mas sempre presente na virtual, chega outra contribuição:
A indisciplina seria o descumprimento das regras do jogo da escola e da sala de aula e
da relação escola-professor-aluno, a despeito da intenção daquele que transgride,
ou seria algo intencionalmente realizado?

Fiquei aliviada, de qualquer forma, minha indisciplina era mesmo uma indisciplina, já que fora
intencionalmente realizada!
Parece bobagem esta minha afirmação de alívio, mas depois de algum tempo já não sabíamos
mais o que era indisciplina...
Descobri, para meu total espanto, que esta pessoa que vos escreve e mais outras duas
professoras éramos as únicas do GT que não tínhamos o currículo manchado pela prática da
cola.
As mais ―santas‖ não ousavam colar, mas eram traficantes de informação, passavam a cola;
outras, quase tão ―santas‖, foram reincidentes, apesar de já na primeira vez terem sido
pegas em flagrante delito.
Pela definição proposta por Rosaura, então, todos os envolvidos, colados e coladores, estavam
sim praticando uma indisciplina, mas agora, visto por olhos mais velhos, isso transformou-se
em algo diferente de indisciplina? 185
Colar e/ou passar cola não é uma indisciplina?

Ressonâncias sobre nossas confissões de indisciplinas

Dois tempos tornam as mesmas coisas diferentes.


CrisHop, que, apesar de indisciplinada confessa, pulava muros e portões para fugir das aulas,
nunca colou - pasmem! -, escreve que:
antes de qualquer coisa preciso entender primeiro o que é indisciplina, também não
considero hoje nenhuma das ações escritas ou comentadas no grupo indisciplina. No
tempo que todos os atos foram cometidos eram indisciplinas.
Dois olhares tornam as mesmas coisas diferentes.
Rosaura coloca um problema para nossa definição de indisciplina: a pluralidade de conceitos
sobre o assunto resultante não de tempo distintos, mas de sujeitos:
fiquei pensando que se tentarmos nos deslocar para o lugar do sujeito que ―comete‖
o ato talvez possamos compreender melhor esse conjunto de ações que chamamos
de indisciplina. Porque eu pulei o muro da escola, cabulei aula, contestei certos atos e
mais uma porção de coisas que não considero indisciplina de forma alguma, mas
certamente meus professores achavam que era...
E Crishop continua
A indisciplina é fruto da Cultura Escolar, eu penso assim. Mas o que mexeu comigo
foi o que você escreveu sobre ―tentar nos deslocar para o lugar do sujeito que
comete o ato‖, você sabe que há anos vivo nesse lugar e acabei gostando.

A discussão é retomada na reunião presencial, conforme ata de Liana de 10 de abril:


Retomando a pergunta deixada pela Glória: quem nunca colou?
A Luísa disse que ela não e pediu logo pra ler a sua história di-IN-ciplinada – se colar
todo mundo cola, é de praxe, então não colar deve ser falta de disciplina. Talvez falta
de técnica, habilidade, percepção, intuição...
Luísa, como assim, nunca colou?
Ah! Não teve opção. Ou era isso ou ser uma das que ―azedavam o bolo‖, então optou
por ser daquelas que ganhavam balinhas, graças a Deus. Graças a Deus não foi expulsa
da escola, não foi alvo de pressão e castigos físicos, inclusive. Disse que acabou por
―tomar ares de revolta‖ lá pela época do colegial.
Posição semelhante como a relatada por Natalina: "As primeiras rebeldias chegaram
já estava no ensino médio [...] Portanto considero que a minha vida na infância
186
sempre foi muito séria. Muitas vezes era cúmplice de situações em virtude do meu
silêncio e da minha neutralidade. Então, ser disciplinada demais a mim me parece
uma total indisciplina.

A importância do envio das atas para o grupo não era para mero registro, mas para provocar a
continuação da reunião pela lista de discussão e motivar os faltantes a se presenciarem na reunião
seguinte.
A escrita de minha indisciplina, relatada no segundo movimento desta dissertação como parte
do meu seriado de formação, levou-me a uma pesquisa sobre minha/nossa cartilha Caminho
Suave, que me surpreendeu muito. Descobri que dona Branca, a autora, fora uma professorinha
que fez uma cartilha para seus alunos, mas que acabou sendo adotada oficialmente em todo o
Brasil, para muitas gerações de escolares, por mera estagnação mental dos responsáveis pelos
ensino no Brasil. De certa forma me fez repensar sobre a cartilha em si, tirando o ranço e as
cismas de aluna que me acompanhavam desde os 7 anos...

A Tabela a seguir visa apenas mostrar a dinâmica de envio de textos para a lista de discussão
virtual. Além deste 21 escritos, nessas 5 semanas, os integrantes do Grupo de Terça enviaram
outros e-mails com comentários aos textos recebidos e estímulos para a produção de outros
textos.
Tabela de envio dos textos

AUTOR Nome DATA TIPO

Cris Um pulo para a liberdade 30/03 Narração

Gloria Confissões de professores-alunos 31/03 Narração

Edna Narração

Liana Desmoralização no quesito indisciplina 24/03 Narração

Mafê Desabafo 31/03 Narração

Marcemino Primeira indisciplina: ainda vou ter uma 01/04 Narração

Natalina ...Como estudante! 31/03 Narração

Rosaura Minha primeira indisciplina levou tempo... 31/03 Narração


187
Wilson ... Como estudante! 23/03 Narração
Ata de reunião
Marcemino Inicio da contação de causo 03/04
de 01/04

Marcemino Comentários sobre a reunião 19/04 Ata-comentário

Ata de reunião
Gloria Indisciplinas - relatos 21/04
de 15/04
Liana Quem não colou? 29/04 Ata de reunião

Ana Aragão Indisciplina / texto 10/04 Texto público

Rosaura Contrato didático 13/04 Texto público

A data refere-se ao envio do texto para a lista e, por esse motivo, elas divergem com as datas da
reunião relatada.
PIPOCAS PEDAGÓGICAS: Crônicas da hora

188
Tudo aconteceu mesmo assim como está no banner que fizemos para o IV FALA outra ESCOLA,
em 2008, e que foi retirado do e-mail que enviei para o Grupo de Terça do GEPEC tudo
documentado, provado, comprovado e divulgado.
Em conversa por telefone com o Marcemino sobre como tinha sido produtivo o trabalho no
grupo com as Confissões das indisciplinas, comentávamos que começava a desacelerar. Os
escritos tinham aparecido em quantidade e qualidade muito boas, mas algumas pessoas do
grupo ainda relutavam em mostrar os seus. Afinal, estávamos na U- NI- CAM- P e nos
obrigávamos a dar terminações mais acadêmicas aos textos, o que impedia um fluir maior
deles, mesmo que não a sua fruição.
Falamos das pequenas dificuldades de escrever, porque afinal a Unicamp é a Unicamp, uma
grande academia, e, por mais que queiram nos fazer crer alguns professores, aprendemos que
temos de nos justificar para escrever qualquer coisa, mesmo que seja um acontecido pequeno,
um olhar sobre a vida, uma olhadela que só eu dei e sei dela!, Tudo deve ser justificado com
antecedentes, inclusive esta letra em caps lock, que escrevo em itálico para ser perdoada pelo
estrangeirismo para falar da transgressão em maiúscula, e Saramago vem em minha ajuda, já
que gosta de letras grandes depois de vírgulas, mas ele pode, é Saramago e, afinal, quem somos 189
nós para termos alguma consideração original?, se é que o original existe!, e se não é tão original
assim, deve aparecer com suas notas de rodapé, com nomes das pessoas que escreveram este
original e seus textos com todas as palavras devidamente formatadas, porque, afinal, se não for
assim, não será possível saber quem é o dono das palavras que vão dizer o que você viu e
pensou, ou não sabem que é preciso dar nome aos bois? dizer quem é o dono das palavras, ou
não sabem que o subversivo do Bakhtine foi exilado no Cazaquistão? talvez seja por isto mesmo,
pelo crime de roubo das palavras alheias, e o Bachelar já nos advertia, com aquele arzinho entre
deus e papai Noel, que ―não há verdade fundamental , mas erros fundamentais‖, e, apesar de
suas boas intenções, isto só parece ainda mais assustador, e, então, é prudente deixar claro que
não esta errando só, por sua culpa apenas, tudo é parte de uma quadrilha, e então temos mesmo
de colocar o nome de todos os responsáveis pelas palavras, e é por isto, estas e outras, que
temos de ter cuidado com as palavras!, não se pode esparramá-las assim pela página em branco
impunemente como se estivéssemos escolhendo feijão para a panela , o que torna tudo muito
difícil e acaba nos dando medo das palavras, mesmo quando a palavra nos (a)trai, mas isto não é
desculpa para desrespeitar as normas, e não deveria ter ditescrito isto - a palavra nos (a)trai - de
novo, já que, a poucas páginas atrás, isto lá está, e isso não é aceito pelas regras, esta repetição só
acontece na vida e não nas páginas de um escrito para ser lido numa universidade, porém ―As
palavras são traidoras. A linguagem diz o que não quero dizer‖! 209 e ―só usamos tão destramente a
linguagem porque na realidade é ela que nos usa a nós. Ao falarmos, pronunciamos o tempo
acumulado por todas as culturas.‖ 210 [...] as palavras não dizem o que deveriam, são de mais, são
de menos, peço-lhe que me desculpe,[...] (Saramago, )

Voltando...
pensando nestas poucas e pequenas preocupações que temos quando tentamos escrever
e que nos imobilizam, é que acabamos falando sobre uns textinhos que estávamos fazendo e que
se pareciam;
uns escritinhos assim, bem despretensiosos, coisa pouca, alguns quase bilhetes de
acontecidos sobre escola, alunos e que resolvemos propor ao grupo todo;
eu, ansiosa, fui imediatamente para o micro e mandei um e-mail fazendo a proposta para
o grupo que depois se transformou no banner do IV FALA.
Menos de uma hora depois que enviei esse e-mail, apareceu a primeira ressonância, vinda da
Rosaura, e, ainda no mesmo dia, apareceu a segunda, vinda do professor Guilherme,
coordenador do GT.
190
do baú
1ª. ressonância
de: Rosaura Soligo para: [Grupo de Terça]
quando: terça, 29 de abril de 2008, 14:30 assuntinho: Pipocas Pedagógicas

Amei essa das pipocas! Parabéns aos autores dessa idéia maravilhosa.
Infelizmente não poderei de novo ir ao encontro de hoje.
um abraço e boa tarde a todos
Rosaura
PS. Vejam se esta minha (abaixo) seria uma crônica da hora, que, embora com
certeza do gênero pipoca, não sei se é exatamente das pedagógicas - talvez
esteja mais para as psicológicas... Rs.

2ª. ressonância
de: Guilherme para: [Grupo de Terça]
quando: terça, 29 de abril de 2008, 19:30 assuntinho: Pipocas Pedagógicas

209 GERALDI, João Wanderley. Anotações minhas no IV COLE, Congresso de Leitura.


210 BERNARDO, João. As palavras e as pedras. In: ALMEIDA, Milton José. Cinema arte da memória.
Gloria e queridos!
Adorei as Pipocas pedagógicas!
É isso que precisamos para podermos ―estourar‖ em reflexões e mostrar que dentro
de cada amarelinho que somos, existe um branco em forma e conteúdo, cada um,
muito diferente do outro [...]
fim

Retirei do baú as ressonâncias enviadas por Guilherme e Rosaura porque é importante que
estejam nesta genesis das Pipocas. De pouco ou nada adianta lançar grandes idéias, quando se
trabalha em grupos, menos ainda quando o que é lançado são pipocas, coisas efêmeras;
a rede necessária para uma idéia surfar num grupo depende do abraço que as outras
pessoas dão ao colocado; é ele que faz com que a idéia cresça, ou estoure, e se espalhe pelo
grupo como nos aconteceu.

A primeira história não foi um relato de sala de aula, mas é o diálogo de uma professora com
um taxista que, entre outras pérolas, explicita o senso comum sobre nosso fazer, oscilando entre
nos ver como heroínas, carrascos ou vítimas. Mostra a marginalidade profissional em que temos 191
sido jogadas. O desprestígio da profissão no mercado de trabalho se esparrama para dentro da
sociedade e não nos torna modelos viáveis, competitivos, aos olhos de nossos alunos e ao seu
entorno.
PAULISTANAS NATURALMENTE INVASIVAS
- Desculpe perguntar, mas qual é sua classificação profissional? É advogada, é?
- Não, sou professora.
- ‘Hei de vencer mesmo sendo professora’?
- É. Mais ou menos.
- [...]
- Hum, sei. A senhora ensina criança a ler, né?
- É... mais ou menos.
- Com um porrete na mão!
- Acho que não precisa disso tudo...
- Ou com uma arma?
- O senhor acha isso, é?
- Ah! é! A senhora não viu a reportagem de ontem na televisão? Blá, blá, blá...
- Hum...
- Os alunos vão de arma na escola! [...]

A segunda a pipocar demorou uma semana e foi CrisHop, mas chegou com tudo. Enviou três
histórias,
as famosa pipocas doces Vovózinha, as que mais gosto. Essa pipoca fala de duas
crianças que são meus alunos este ano, achei melhor não colocar seus nomes e
chamar cada um com o nome do seu herói preferido , conforme a autora. Estas
histórias foram o início de uma série de histórias com a mesma turma de
crianças, na qual pudemos acompanhar o desenrolar cotidiano de
aprendizagens como se fosse quase um seriado da TV.

A primeira das histórias começa com a apresentação daquele que se tornou o meu
personagem predileto, o Super-homem!

Eu sei, ela sabe e você sabe!!!!!!!!!!!!!!


Super-homem tem 06 anos, não fala com ninguém, passa o dia desenhando e
comentregando seus desenhos para mim. Quando peço alguma explicação
sobre os desenhos, simplesmente olha, ri e volta ao seu lugar. Acredito que
pensando ―pobre mortal‖. É lindo e introvertido.

Pipoca com e-Boa


192
“[...]é de humano costume declarar o que somos
antes de dizer ao que vimos, mormente em caso
de tanta importância [...]” (Saramago, 77)

Cá entre nós, todo o ―converse‖ anterior é necessário, para que fiquem um pouco mais sérios e
acadêmicos os acontecidos, mas nada aconteceu com tanta nota de rodapé e clareza. Quando
leio este levantar de história pessoal, ou de um grupo, sempre imagino as pessoas fazendo isto
previamente e chegando às conclusões que levam à pesquisa em si, à decisão de fazer isto ou
aquilo.
Acredito que muitos o façam, mas não é esse o meu caso. O que houve foi uma grande confusão.
Estava me sentindo exatamente como escreveu, em 2009, Paulo Freire, em seu último livro:
Teve uma época na minha vida que não sabia se ia por aqui ou por ali. Parece que
isto é normal. O mundo é muito variado. Resumindo, estava bem perdido . 211

Então, no meio da confusão entre ter uma dissertação para escrever e, ao invés disso, me centrar
em me descentrar lendo os escritos alheios, entre os batuques do maracatu, um dia resolvi
imprimir as Pipocas e suas conversinhas todas. Chamo de conversinhas o que vinha junto com

211 Paulo Freire escrevendo em 2009? Sim, este é também nome de um amigo violeiro que também, como seu homônimo, é escritor. FREIRE, Paulo. (2009). Nuá. As músicas dos
mitos brasileiros, p.16.
elas, os recadinhos de quem enviava e os comentários que se seguiam, alguns formando
verdadeiros debates.
Arrumei e imprimi tudo, levei pro meu quarto e fiquei olhando pra elas e, ao nosso lado,
repousava o Para uma sociologia das ausências, o texto que me acompanhava aonde eu ia e que,
naqueles idos, lia começando em qualquer parte, relendo o que parecia não ter lido ainda, como
se fosse um poema, me entende?
As aparições do e-Boa aconteciam tanto na Tainã quanto nas minhas leituras das Pipocas, mas

que eu tentava dar um ar menos esotérico quando escrevia para o professor Guilherme,
coordenador do Grupos de Terça.

do baú
e-mail para o professor Guilherme Prado

[...] comecei a pensar no Grupo de Terça como a experiência do GEPEC que


mais contribui para a ampliação de experiências pedagógicas; e disto passei a
ver as Pipocas como a mais bela tradução da sociologia das ausências, porque
cada uma expande o domínio das experiências sociais já disponíveis, nos quais essa 193
multiplicação e diversificação ocorre pela via da ecologia dos saberes (Pipoca da Liana), dos
tempos (Pipoca da Liana), das diferenças (Pipoca da Mafê, do Marcemino, da Cris e a da
Rosaura, com o taxista menosprezando a profissão da cliente), das escalas (todas as
Pipocas), e das produções, porque cada Pipoca recupera um sistema alternativo de
produção – conhecimentos/estratégias/técnicas pedagógicas - que a ortodoxia
produtivista capitalista ocultou ou descredibilizou, aqui representada pelas políticas
públicas que têm transformado cada vez mais a Educação em um bom negócio, criando
programas (com auxílio de micros, TVs e que tais) que tornam o professor um papagaio
bem treinado, e nos quais sua experiência com seus alunos não deve ser vista como
geradora de conhecimentos.

Buenas, só agora estou vendo isto ligado, porque me dei conta de que não tinha lido
várias das Pipocas. Aí comecei a organizar um arquivo com cada uma e o e-mail de envio
(que às vezes revela muitos outros sentidos) e alguns dos comentários prá lá dos adorei!
[..]você tem este olhar que adoramos receber e enviar (também reveladores pra quem
gosta de seguir pistas!).
fim
Para os autores, o registro da prática provocava reflexões e ações educativas, e o envio para o
grupo gerava comentários;
eles provocavam uma nova onda de reflexões e ações, e isto foi um bom motivo para
continuarmos a escrever histórias e comentá-las.
Com a organização das histórias, comecei a ver outros valores, que vão para além de um
movimento de grupo de autoajuda pedagógico, não que isto seja pouco!

Professor é um profissional que vive rodeado de gente, mas muito só.


Ele está rodeado de alunos, mas o trabalho em si é muito solitário: todo o tempo ele está
tomando decisões sem o respaldo de uma equipe, de um grupo de apoio.
No momento da sua performance de professor, ele é tão solitário quanto um pianista num recital
solo. Claro que muitas pessoas existiram e fizeram os movimentos necessários para a sua
atuação acontecer. Houve pesquisadores, compositores, digitalizadores, copistas, editores,
professores, construtores de instrumentos e de prédios, colegas de estudos, seus familiares,
enfim muitos contribuem para o desempenho, mas ambos, o pianista e o professor, estão sós
quando usam destramente os sons, notas ou palavras, quando interpretam conhecimentos.
194
Primeiro li as Pipocas na ordem de chegada na lista do grupo.
Vi como uma escrita se emaranhava na outra, ajudava, instigava, coisa que já havíamos falado e
comentado nos encontros.
Cada Pipoca era uma cor que formava bordado novo, que
caminhava como uma linha colorida no filé, que forma
uma flor, depois vira traço, começa outro desenho e acaba.
Era assim, deste mesmo jeito: uma história provocava
respostas, outras histórias ou reflexões, ou mesmo debates,
até que ou por exaustão ou por outra novidade-pipoca
postada, ela acabava, igualzinho mesmo o desenho destas
rendas nordestinas, o filé, que acabam quando acaba a linha e só, sem finalizar ou olhar para o
que passou, só outra cor emendando e continuando.

Depois separei por autor e fui lendo o conjunto de cada um, dando-me conta do sabor diferente
de cada autor. Já conhecia o estilo de cada um, mas agora era um pouco como separar as jujubas
por cor e comer as vermelhas primeiro, depois as amarelas, me entende?
Assim, comecei a sentir mais o gosto de cada autor, suas abordagens, alguns, diretos, e outros,
rodeando o acontecido, também comecei a enxergar as crianças e a sala de aula dos professores
do ensino básico, já que os personagens-alunos mantinham-se nos vários textos.
Colocar todas as descobertas que fiz a partir destes escritos, que ganharam para mim
importância até maior que as dissertações e teses no entendimento dos movimentos gerados
numa sala de aula, seria tarefa para muito mais tempo do que disponho.

Como recortar?
Primeiro trabalhei com os textos ―pré-Pipocas‖, as indisciplinas, mas elas não me motivaram o
suficiente; são muito interessantes para mostrar o Grupo de Terça deste início de escritos mais
descompromissados com a escrita acadêmica, mas não serviam para o que mais quero apontar.
Já no final do desespero do ―tenho que acabar esta dissertação‖, percebi que tinha de fazer uma
escolha, coisa difícil, porque cada autor me levava para um universo diferente.
Optei pela produção pipocal de dois professores do grupo, Cristina Maria Campos, a CrisHop, e
Marcemino Bernardo Pereira, pela admiração que sinto por seus relatos teletransportadores, que
me levam a outros mundos.

A idéia inicial era reproduzir o que tinha acontecido quando comecei a organizar esta produção,
com o e-Boa se entremeando na minha leitura e mostrando as ausências, emergências que os
causos contavam e o papel de tradutor que têm os professores. 195
Mas...
nada é como deveria ser quando se trata de um encantado, lembram? Sua característica é
também ―puxar o tapete‖, mais ainda este que, literalmente, me desnorteava...
ele se recusava a aparecer e dialogar com as questões que eu necessitava para escrever
sobre as Pipocas, mas resolvi inquiri-lo sobre uma questão bem a seu gosto, e que também
precisava de ajuda para resolver neste escrito.

A questão nascia da saudação à senhora dona-da-casa, a academia, final do primeiro capítulo,


no qual pretendia ser extremamente formal e obediente às regras acadêmicas e me explicar
segundo suas normas.
Para me entender melhor com as formalidades da academia, frequentei a matéria oferecida por
dois professores do GEPEC, Guilherme Prado e Ana Aragão.
Considerei que uma das perguntas feitas – como você pode afirmar que está fazendo ciência
com sua pesquisa? – era a chave para me resolver com estas questões.
Não conseguia ter uma resposta adequada.
A exigência nem era para uma resposta completa, mas eu queria me resolver com isto e então
resolvi procurá-lo em Redópolis para me ajudar e lá estava ele todo proseador.

Tivemos outra daquelas conversas virtuais:


--------------------------------------------------------------------.
| Início da Sessão: segunda-feira, 16 de maio de 2010 |
| Participantes: |
| gloria (glocunha@yahoo.com.br) |
| e-Boa (e-bo@ventura.org.tr) |
.--------------------------------------------------------------------.
[18:31:58] gloria — olá, bjs!
[18:31:59] e-Boa — olá
[18:32:02] gloria — então... de novo preciso de ajuda!!
[18:32:05] e-Boa — sei...sei..
[18:32:06] gloria — Faz tempo que não falamos e tenho algumas dúvidas e elas envolvem coisas que
você tem me mostrado, me ensinado e que as sei certas, mas ainda não me sinto, digamos,
epistemologicamente segura pra articular-las no meu texto, coisa que a universidade me exige. Aí, eu me
lembrei daquela briga, a tal Guerra das ciências, de um sujeitinho que resolveu atacar seu trabalho de
sociólogo e até mesmo quem escreve ...
[18:31:48] e-Boa — trata-se de calúnias que não merecem resposta. Já os ataques ao meu
trabalho devem ser objecto de reflexão serena. 212
[18:31:50] gloria — legal! Sem problemas?
[18:31:52] e-Boa — por que razão haverei eu de ocupar com este tema tão rara e tão preciosa
196
ocasião de me comunicar convosco?
[18:31:53] gloria — gracias... mas eu preciso. Já contei que estou escrevendo uma dissertação? Então, a
senhora dona da casa, onde escolhi cantar esta loa, é a universidade e, portanto, isto deve ser um trabalho
acadêmico, com um ar, digamos, de conhecimento científico. E onde é que ficam os tais sujeitos com este
objeto tão exatinho?
[18:32:09] e-Boa — O conhecimento científico é uma construção social porque não há uma relação
directa e imediata entre sujeito e objecto. Entre eles interpõem-se mediações que extravasam da
relação: teorias, conceitos, métodos, protocolos e instrumentos que simultaneamente tornam possível
o conhecimento e definem os seus limites.
[18:32:14] gloria — mas o social não fere a racionalidade destas ciências exatas?
[18:32:29] e-Boa — O social, longe de ser externo à racionalidade da ciência, é constitutivo dela.
Por exemplo, os procedimentos de prova não dispensam a intervenção de mecanismos de confiança e
de autoridade vigentes nas comunidades científica e, como tal, irredutíveis aos procedimentos dos
cientistas tomados individualmente.
[18:32:31] gloria — isto está me cheirando a um vale tudo...

212 Todas das falas de e-Boa deste diálogo estão em Prezados professores (SANTOS, Boaventura de Sousa (2002b). Considerei importante citar esse texto quase na íntegra por

ser destinada exatamente aos professores e trazer, numa linguagem bem acessível e clara, alguns temas com os quais frequentemente nos confrontamos. Sempre que as

palavras do e-Boa forem de outro lugar, isto está especificado.


[18:32:31] e-Boa — Isto não significa que o conhecimento científico seja arbitrário.
[18:32:34] gloria — Por que?
[18:32:39] e-Boa — Por duas razões principais. Em primeiro lugar, porque as mediações são o
resultado de consensos alargados no seio da comunidade científica. São esses consensos que
tornam possíveis os conflitos através dos quais o conhecimento progride.
[18:32:44] gloria — Sim, mas tem ciência que se diz exata, com todas suas medições acordadas entre a
comunidade científica, e que sua verdade só resiste até que seja de derrubada por outras nova verdade;
certo?
[18:32:49] e-Boa — O que conta como verdade é a ausência provisória de um conflito significativo.
Em segundo lugar, porque apesar de todo o conhecimento ser uma intervenção no real, isso não
implica que o real possa ser modificado arbitrariamente. Pelo contrário, o real resiste, e nisso consiste
o seu carácter activo.
[18:32:54] gloria — mas ele existe ou não?
[18:33:01] e-Boa — A existência do real não pressupõe a transparência do real.
[18:33:04] gloria — o quê???? Como???
[18:33:09] e-Boa — O que conhecemos do real é a nossa intervenção nele e a sua resistência. Esta
resistência faz com que a certificação das consequências do conhecimento fique sempre aquém da sua 197
total previsibilidade. É por isso que as acções científicas tendem a ser mais científicas que as suas
consequências. É por isso também que os novos conhecimentos geram novos desconhecimentos, aí
residindo a sua incontornável incerteza.
[18:33:14] gloria — isto me lembra Paulo Freire e suas sabedorias sobre a inconclusão que estão no
Pedagogia da Autonomia: ―É na inconclusão do ser, que se sabe como tal, que se funda a
educaç ão como processo permanente. Mulheres e homens se tornam educáve is na
medida que se reconhecem inacabados. Não foi a educaç ão que fe z mulheres e
homens educáveis, mas a consciência de sua inconclusão é que gero u sua
educab ilidade‖ 213. Incompletos somos, e incompleto, o que fazemos, o que pesquisamos, nossas
certezas. E ainda, no mesmo livro, ele diz que ―Só, na verdade, quem pensa certo, mesmo
que, às ve zes, pense errado, é quem pode ensinar a pensar certo. E uma das
condições necessár ias a pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas
certezas. ‖ 214 Eu acho muito difícil conviver com tudo isto, em muitos momentos eu achei que a
universidade me daria todas as certezas que me faltavam. As Ciências Sociais convivem bem assim com
esta incerteza que nos traz a realidade social?
[18:33:19] e-Boa — Desde meados do séc. XIX começou a desenhar-se um confronto entre uma
concepção "positiva" e uma concepção "crítica" da ciência social. Ambas visam analisar a realidade

213 FREIRE, Paulo (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p.34.
214 FREIRE, Paulo (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p.15.
social, mas enquanto a primeira reduz a realidade ao que existe e, como tal, tende a conformar-se com
o que existe, a segunda inclui na realidade a sua potencialidade e a sua capacidade para ser de modo
distinto daquele que hoje prevalece – e melhor. A concepção positiva procura descrever os
fenómenos sociais a partir de um ponto de vista alegadamente neutro e crê que a objectividade dos
métodos de investigação protege a ciência das "contaminações" do contexto social e político em que a
ciência é feita, das ideologias e do senso comum. Baseia-se numa separação estrita entre factos e
valores e nega que, por via dessa separação, possa sufragar valores não explicitados. Refere-se a um
cânone de autores clássicos, europeus e norte-americanos, defende as diferenças disciplinares e
despreza tudo o que está para além desse cânone e, sobretudo, a produção científico-social das
sociedades não-ocidentais.
[18:33:23] gloria — ―Lembro da sábia frase de King no Escrita INKZ: Cânone deve ser uma armadilha
para apanhar humanos.‖215 Cachorro esperto aquele, se calhar, mais do que nós, humanos.
[18:33:29] e-Boa — Só os cães
Sabem
Universalizar para dentro.
198
[18:33:34] gloria — às vezes acho que você tem mais de King do que de Boaventura, afinal fica
flanando pela Internet, como ele pela cidade...
Mas agora o que preciso mesmo é me entender humanamente com essas dúvidas sobre a ciência. Você
falou das duas ciências, mas principalmente da positivista, que acabou transportando seu lema para o da
bandeira do meu país: Ordem e Progresso. Acho que foi de tanto olhá-la que acabei por acreditar nela, ao
menos no passado, agora já estou curada. Mas me diga da outra ciência social, a crítica.
[18:33:39] e-Boa — a ciência social crítica assenta numa concepção dinâmica da realidade, do social
e do conhecimento. A realidade contém em si tendências e alternativas, umas possíveis, outras já
disponíveis mas marginalizadas ou ocultadas, e o conhecimento científico tem de as envolver a todas.
Aliás, o conhecimento científico é parte integrante dessa realidade ampla, é ele próprio um processo
social dinâmico onde é possível identificar, para além das concepções dominantes, as alternativas e os
conhecimentos emergentes. Não há, pois, conhecimento neutro, já que todo ele é situado histórica e
socialmente. A profissão de neutralidade tem servido quase sempre para valorizar o status quo contra
as forças que o contestam.
[18:33:40] gloria — E, de novo, Paulo Freire: ―Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a
minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que meu ‗destino‘ não é um
dado mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser

215 SANTOS, Boaventura de Sousa (2005a). SCHWARTZ, Christian. Escrita INKZ – anti-manifesto para uma arte incapaz.
gente porque a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de
possibilidades e não de determinismo.‖216
[18:33:41] e-Boa — A possibilidade é o movimento do mundo.(T)
[18:33:42] gloria — é... eu me lembrei que você havia me falado disto quando explicou sobre a sociologia
das emergências.

[18:33:43] e-Boa — A sociologia das emergências é a investigação das alternativas que cabem
no horizonte das possibilidades concretas.
[18:33:45] gloria — a sociologia das ausências vai ampliar o presente juntando ao conhecido, ao real
existente, o que foi silenciado, o real inexistido, e a sociologia das emergências?
[18:33:46] e-Boa — a sociologia das emergências amplia o presente, juntando ao real amplo as
possibilidades e expectativas futuras que ele comporta. Neste último caso, a ampliação do
presente implica a contracção do futuro, na medida em que o Ainda -Não, longe de ser um futuro
vazio e infinito, é um futuro concreto, sempre incerto e sempre em perigo.

[18:33:47] gloria — E por ser o futuro incerto e em perigo é preciso aprender a transformar a realidade,
intervir, não ver com passividade o presente e nisso a educação tem um papel importante. De novo Paulo
Freire, ele diz que ―ensinar exige a apreensão da realidade‖ e que temos ―capacidade de aprender, não
apenas para nos adaptar, mas sobretudo para transformar a realidade, para nela intervir, recriando-
a‖217, o que me leva especificamente ao que estou estudando, formação de professores e, portanto, 199
educação, que trabalha exatamente apresentando e ensinando realidades através da socialização de
conhecimentos, de valores, etc.

[18:33:49] e-Boa — acho que a educação, se ela se limitar a reduzir a realidade ao que existe, ela vai
ser a grande projetora do conformismo. E o grande problema dos sistemas educativos nacionais foi
que, exatamente, reduziram a realidade ao que existe. E nós não podemos fazer isso precisamente
porque hoje há muita realidade que é desperdiçada, muita experiência que é desperdiçada;
exatamente porque há realidades que são ativamente produzidas para não existirem, para serem
desqualificadas ou porque são ignorantes. É o conhecimento do camponês ou do candeeiro que não
se aprecia porque é ignorante; ou o conhecimento do indígena, que é um outro conhecimento que não
tem nada a ver; ou é o inferior, porque é de uma raça ou de uma etnia inferior, ou é o residual, porque é
o atrasado, ou é o preguiçoso, porque não produz segundo a norma capitalista porque está numa
economia solidária que não tem os mesmos critérios, digamos assim, da avareza e do lucro. Portanto, a
nossa sociedade produz ativamente realidades que desqualifica. E, como desqualifica, não entram no
sistema de ensino. E, como não entram no sistema de ensino, a educação, por mais progressista que

216 FREIRE, Paulo (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p.30.
217 FREIRE, Paulo (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p.30.
sejam os seus profissionais, acaba por ser sempre agente do conformismo. E é exatamente o grande
desafio que eu penso que a educação tem: é, realmente, ver como é que hoje, na nossa sociedade, a
gente produz duas grandes realidades que não existem e que são fundamentais: uma é aquilo que eu
chamo de a "sociologia das ausências", é esta ausência, a ausência do discriminado, a ausência do
inferior, a ausência do residual, a ausência do atrasado, e poderíamos falar de milhões de pessoas. E
é preciso trazer essa ausência, digamos assim, torná-la presente, transformar essa ausência numa
carência e, portanto, em um desejo de preenchimento. Por outro lado, o que não existe como pista,
como eu dizia, a tal indigência, aquilo que é apenas um sinal, que não está credibilizado, que não tem os
grandes meios ao seu dispor mas que, no entanto, é uma semente, é uma semente que está inscrita
dentro das subjetividades, dentro das práticas de pequenos grupos, de movimentos sociais, de
pequenas organizações. E essa semente tem que ser acarinhada, essa semente deve ser tratada e
deve ser desenvolvida. E a educação tem esse potencial e, infelizmente, da forma como ela foi
institucionalizada, na forma como ela quis criar currículos únicos, da forma como ela se oficializou, de
alguma maneira, ao oficializar-se, perdeu, realmente, essa tensão perante o emergente, perante o novo,
perante o inconformismo, que eu penso que acabou por perpassar todo o sistema educativo. 218
200
[18:34:04] gloria — De novo Paulo Freire com Pedagogia da autonomia, um livro que em muito
momentos, é de pura poesia e, em outros, é manifesto: ―Tenho o direito de ter raiva, de
manifestá- la, de tê-la como motivação para minha briga tal qual tenho o direito de
amar, de expressar meu amor ao mundo, de tê -lo como motivação de minha briga,
porque, histórico, vivo a História como tem po de possibilidades e não de
determinação. Se a realidade fosse assim porque est ive sse dito que assim teria de
ser, não haveria se quer por que ter raiva. M eu dire ito à raiva pressupõe que, na
experiência históric a da qual partic ipo, o amanhã não é algo pr é-dado, mas um
desafio, um problema.‖ 219Adoro esse inconformismo dele sintetizado em ―O mundo não é.
Está sendo.‖
[18:34:06] e-Boa — Paulo Freire, grande educador brasileiro, que se preocupava com uma
educação conscientizadora e libertadora, é uma pedagogia nova, é onde muitas pessoas... Por
exemplo, até com uma pequena idéia simples - por exemplo, se nós, ao invés de construirmos um
submarino, dedicássemos aquele dinheiro do submarino, quantas casas de habitação social
poderíamos construir na América Latina? 220

218 SANTOS, Boaventura de Sousa. (2002). Entrevista para o programa Roda Viva, p.13.
219 FREIRE, Paulo (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p. 16.
220 SANTOS, Boaventura de Sousa(2002). Entrevista para o programa Roda Viva, p.8.
[18:34:14] gloria — ou ―Por que não aproveitar a experiência que têm os alunos de
viver em áreas da cidade desc uidadas pelo pode r público para discut ir, por
exemplo, a poluição dos riachos e dos córregos, e os baixos níve is de bem -estar das
populações, os lixões e os riscos que oferecem à saúde das gentes? Por que não há
lixões no coração dos bairros ricos ou puramente remediados d os centros urbanos?
Esta pergunta é considerada em si demagógica e reveladora da má vontade de quem
a faz. É pergunta de subversivo, dizem certos defensores da democracia.‖ 221
[18:34:19] e-Boa — E as pessoas ficam absolutamente espantadas. É esta pedagogia, digamos
assim, que tem que ser feita e essa, sim, que vai criar as tais subjetividades que se movem por causas e
não por interesses. 222

[18:34: 20] gloria —Você conheceu Paulo Freire?


[18:34:22] e-Boa — Eu li, naturalmente, como todos, o Paulo Freire, nunca tive ocasião de privar
com ele, apesar de que, numa fase final, quase estivemos juntos, e penso que todos nós acabamos por
ser influenciados por muitos de seus ensinamentos. Talvez seja isso que ressoa nos meus escritos
porque é muito virado ao meu futuro, é muito virado para a juventude, é muito virado para a criação de
novos paradigmas e para as chamadas subjetividades paradigmáticas. Eu penso que a educação
201
devia ser uma criação constante de subjetividades paradigmáticas, porque, para criar subjetividades
sub-paradigmáticas, não é preciso escola para coisa nenhuma; para isso basta deixar andar as
crianças por aí, aprendem mais fora das escolas do que nas escolas, até porque, na escola têm que
desaprender muitas coisas.223
[18:34:25] gloria — Se aprendem apesar da escola, então pra que serve a escola?
[18:34:29] e-Boa — Só através de uma criação sistemática, apurada, metódica do pensamento
crítico independente, da cidadania ativa, de uma luta por uma transformação emancipatória
paradigmática, se justifica a escola e, aí,sim, ela tem toda a legitimidade e deve continuar. O grande
desafio é saber se os estados e os municípios estão interessados em financiar uma escola que não
está ao serviço deles, mas que está ao serviço do futuro. 224
[18:34:31] gloria — acho que poucos, bem poucos; perguntei a uma professora da rede municipal de
Campinas, Mafê, sobre o que os debates sobre um novo regimento interno tinham a ver com privatização e
precarização do ensino público em Campinas, algo que ela colocara rapidamente num e-mail para o Gepec
de Terça e que eu não tinha entendido; a resposta dela mostra que este desafio de que você fala, uma
escola ao serviço do Futuro ,está longe, ao menos do ―meu‖ local. O que ela escreve é o grito de quem

221 FREIRE, Paulo (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p.37.
222 SANTOS, Boaventura de Sousa(2002). Entrevista para o programa Roda Viva, p.8.
223 SANTOS, Boaventura de Sousa. Dilemas do nosso tempo: globalização, multiculturalismo e conhecimento, p.21.
224 SANTOS, Boaventura de Sousa. Dilemas do nosso tempo: globalização, multiculturalismo e conhecimento, p.22.
trabalha na sala de aula procurando um ensino emancipatório e vê seu trabalho ameaçado tanto pelo
mercado com a terceirização da educação quanto pela desqualificação de seu trabalho. Vai ouvindo...
OI Gló!!
Tentando te responder..
Temos visto, cada vez mais, usos de índices e avaliações do trabalho docente
atrelados unicamente a resultados, provas realizadas pelos alunos, como um
argumento (colocado como inquestionável) para adoção de apostilas únicas para a
rede e terceirização do ensino público, ou seja, a entrega (não mais tão lentamente)
de unidades inteiras sob gestão de entidades privadas.[...]
Cada vez mais os documentos chegam para um ―aparente debate‖, feito às pressas...
A impressão que dá é que se busca uma ―desculpa aparentemente democrática‖:
"...nós fizemos a proposta para o debate, não tivemos retorno, então CUMPRA-SE".
É como se tudo o que ―nos faltasse‖ para que sejamos ―tecnicamente‖ preparados
para atender a população estivesse sendo oferecido e providenciado, com os devidos
registros de ―disponibilidade para novas idéias dos docentes da rede‖... se não damos
conta, é porque somos incompetentes... daí vêm mais ―soluções mágicas‖, mais
controle, mais apostilas e a contratação de ―gente que faz‖ para fazer o que dizem
que não sabemos... Uma cadeia de ações que tem sempre o discurso da
202
desqualificação de fundo...[...]

[18:34:32] gloria — Depois conversamos, e ela fez questão de me colocar que, apesar de, no e-mail, estar
se referindo à nossa cidade, isto acontecia em toda a região, em todo o estado. A Mafê é uma das grandes
pipoqueiras do meu grupo de pesquisa
[18:34:33] e-Boa — ???????

[18:34:34] gloria — eu já te contei das Pipocas!! Então, são uns escritos de professores, ―causos‖ de
sala-de-aula; a CrisHop diz que ―essas Pipocas são reflexo dos alunos, da amorosidade,
amizade e felicidade que trazem todos os dias para sala de aula. São dinâmicos,
ale gres, falantes, só me resta fazer a minha parte, que é retribuir tudo isso.
Olhando um pouco além da Cult ura Escolar‖. Mas já o Marcemino diz que ―das
Pipocas que pipocam na escola, aque las que não estralam direito são, para mim, as
mais interessantes: não deixam de ter lá a sua mac iez, mas ao mesmo tempo, não
me deixam esquecer da dure za do milho. ‖
[18:34:35] e-Boa — ???????
[18:34:34] gloria — As Pipocas são portais, me entende? Me teletransportam para outros universos,
ou você pensa que é só você que pode?
[18:34:36] e-Boa — ???????
[18:34:37] gloria — não entendeu ainda? Então vai ouvindo...
Princesa de Sedna e a Liga da Justiça

Um dos universos em que me enfiei com as Pipocas foi o da CrisHop, chamada assim porque fez
sua dissertação sobre Hip-hop na escola. Nas histórias e também ao vivo, nas aulas, os alunos
dela são chamados pelos nomes de super-heróis, de piratas ou por seus sobrenomes, sempre de
acordo com combinações prévias, coisas lá entre eles, povinho que está no segundo ano do
ensino básico de uma escola da periferia de Campinas. Ela literalmente me levou para outros
mundos e também aos seus alunos...

Pirada NÃO Pirata

[...] Eu brincava com eles que era de Sedna, um planeta descoberto em 2004 e que
tudo lá era minúsculo, por isso usava mini-saia aqui na Terra, um planeta pra lá de
estranho.
E para eles terem idéia da minha Sedna, um lugar gelado e escuro, muito longe do Sol,
li para eles durante o ano todo O Pequeno Príncipe, lia duas linhas por dia, não queríamos
que acabasse.
203
Poderíamos pensar que foi apenas uma maneira criativa de passar o tempo com os alunos, mas
muito mais coisas ela retira disto, vai ouvindo:

É claro que toda a estranheza da Terra era enorme para minha pessoa uma ET, não sabia
de nada, nadica de nada do que se passava aqui. Então as produções de texto eram
diárias. ―Pra que serve um Médico‖, ―Porque ir ao banheiro‖, ―Pra onde vão os dentes
quando caem‖, geralmente eram sobre os assuntos falados em sala, e pra tudo eu fazia
um carnaval e exigia uma explicação.
— Como uma bexiga foi parar dentro da sua barriga? Ela estava cheia ou vazia quando
isso aconteceu? [...]
Tive até aula de Ciências nesse assunto e aprendi muito. [...]
Um dia o pirata G. chegou com um tesouro debaixo do braço e um sorriso no rosto, era
um Atlas Universal, e lá, em alguma folha do meio, estava Sedna e toda a sua história, e
era bem longe do Sol mesmo e também pequeno.
Assim fizemos a nossa viagem de piratas procurando lugares para serem explorados na
Revista Terra, recortando palavras desconhecidas e lugares bonitos, e tudo isso ia para o
nosso Baú de Tesouros, aqueles saquinhos dourados que vêm dentro do café Mellita, mas,
é claro, para eles era o ouro de Sedna e, por isso, bem cuidado e guardado.
Nosso Baú depois se transformou em texto, e os textos Histórias de Vida foram
apresentados aos pais no final do ano.
------------------------------
Prô, eu também “sô” robô!!!

Como sou de Sedna, sou um robô, por isso minha turma de heróis/piratas já assistiu
alguns filmes sobre o assunto: Eu, Robô e Inteligência Artificial, sugestão deles, e, por
último, O Mágico de Oz, sugestão minha.
Este último foi o mais engraçado, porque foi o que mais mexeu com o assunto, o Homem
de Lata enferrujado e depois enferrujar quando fica na neve. Isso foi demais para eles,
que começaram a reparar em algumas coisas:
— Prô, você tem medo de enferrujar, é por isso não toma água? Pirata A Bordo. [...]
Hoje a Pirata L. chega atrasada e vai direto pra mesa e fala:
— Prô, prô! Empurrando todos que estavam na frente dela.
Depois de mil empurrões e reclamações ela consegue falar:
— Prô, descobri que também ―sô‖ robô, igual você. Um sorriso enorme.
— Como? Pirata Fortão.
— Cheguei do médico agora e ele falou que tenho uma saúde de ferro!!!!

Pipocas do Coração
No Planejamento do começo do ano aparece: Órgãos do Corpo Humano, estranhei,
pensando que estamos no 2º ano e, de repente, temos coisas mais importantes pra 204
estudar.
Pra não ficar muito, muito chato, espalhei pela classe revistas e livros sobre o assunto à
espera da melhor hora para entrar no tema. O que não foi muito difícil, sendo eu de
Sedna e desconhecendo totalmente um Corpo Humano [...]

Em outras duas Pipocas, ela conta sobre a experiência de troca de correspondência entre seus
alunos do segundo ano de uma escola pública e os alunos uma escola particular, tudo feito e
organizado como se deve, com planejamento e conversas de e-mail entre diretoras e orientadora
pedagógicas das duas escolas.

Eu contei pra S.!


Esse ano, meus piratinhas passaram por uma experiência maravilhosa segundo eles.
Escrever e receber cartas da Escola Curumim. [...] Uns escrevem e trazem para ler,
outros pedem pra corrigir ou ajudar a responder, deixo livre para cada um fazer do jeito
que achar melhor, eles sabem que esse é um momento deles.

Eles são igualzinho à gente!


[...] Na escola a preocupação da diretora, OP e professoras:
— Eles são melhores que os nossos?
— Eles sabem que nossas crianças são pobres e alguns favelados?
— Você não tem vergonha de pagar mico não?
Cada criança levou sua carta para casa, leu com os pais, explicou novamente o projeto
para os pais, e ficamos de escrever as respostas ontem.
Então conversei com cada um sobre o conteúdo da carta recebida, como ia ser a
resposta, o que tinha achado da carta, do novo amigo ou amiga, se tinha estranhado
alguma coisa. Pensando como a equipe da escola.
As respostas foram deliciosas:
— Cris, tá na cara que você não dá aula nessa escola, olha que força a menina colocou no
lápis.
— Eles são iguais à gente, tem uns que escrevem com letra de mão e outros de forma.
— Nussa, nussa você viu que tem um monte de pai separado igual ao meu.
— Lá é melhor porque na classe tem mais meninos, aí eles não perdem na votação para as
meninas, aposto.
— Profª. você viu que todo mundo gosta do Ben 10, do Homem Aranha e por sorte
ninguém falou em Xena.
Aí o Mosquitinho Elétrico solta:
— Eu não entendi ainda porque eles estudam na escola particular se eles são igualzinho à
gente.

Comecei a sentir o gosto do cotidiano de cada um na escola, ver como lidavam com problemas 205
grandes, mas principalmente com os miúdos.
Parece pouco? Para mim foi muito!
Faço mestrado em Educação, mas nunca vivi este cotidiano de professora de escoloa,
acompanhando todos os dias uma turma, e nem Paulo Freire ou Freinet, para citar os queridos,
podiam ter me mostrado isto;
já havia lido sobre alguns métodos de ensino ao longo da vida;
acompanhei de perto os primeiros anos escolares de minha filha numa escola cooperativa
de pais e professores e, depois, no que era permitido, em uma escola pública;
discutimos no GEPEC temas fundamentais que percorrem as salas de aula como
indisciplina, etnia, apatia;
sabia algo sobre a gestão das escolas; aprendizagem dos 12 meses que trabalhei como
assessora da Secretaria Municipal de Educação;
mas, afinal, a última vez que estive no dia a dia de uma turminha do Ensino
Fundamental foi como aluna e chamava-se Primário!
O que essas narrativas pequenas, as Pipocas, me mostraram foram os improvisos, as
epistemologias criadas no sufoco do imediato, na resposta que não pode esperar para depois,
porque aquela criatura de 6, 7 anos está ali, espera por você, e não dá para dizer, como fazemos
confortavelmente no ensino superior: me mande as perguntas por e-mail!
O que você faria se um dia você encontrasse sua classe atordoada, alguns chorando, todos se
lamentando, porque uma letra vai ser tirada do alfabeto?

Vão tirar uma letra no meu nome


[...], chego à fila e encontro um festival de choros, lamentações e caras tristes.
Na sala não consigo me comunicar, pois o choro é grande. [...] Vitinho fala:
— É que eles.... e começa a chorar alto de novo.
Bem preocupada, olhei para a sala procurando um aluno que estivesse em melhores
condições de falar, dei de cara com o Gabriel, muito triste, mas sem chorar, que falou:
— É que vão tirar uma letra do nosso nome e eles tão com medo que seja a letra do nome
deles.
— Quem vão tirar? Perguntei. [...]
— No Jornal Nacional passou uma matéria e falou que algumas letras vão sair do alfabeto
e nós achamos que pode ser do nosso nome e vai ficar muito feio ou tem que mudar. Se
tirarem o G eu terei que chamar Abriel e não quero.
Nessa hora todos pararam de chorar e começaram a me dizer como ficariam os nomes:
— Eu vou chamar Itor, fala o Vitinho já calmo. Se tirarem o V. E não quero é ―horrorível‖
— Eu vou ter que chamar Odrigo. Se for o R.
— Eu vou chamar Iúlia, disse a Giúlia.
206
E deixei correr o desfile de nomes de A ao V.
Depois perguntei de novo sobre a matéria, não podia falar que eles não haviam entendido,
embora pensasse isso.
[...] fui atrás da informação certa.
Não consegui nada, ninguém, assistiu JN na noite anterior. Pra conseguir trabalhar e
ganhar tempo pra entender o que acontecia, combinei com eles o seguinte:
— Bom, vamos escrever uma carta para o Presidente, falando pra ele que nós aqui de
Campinas [...] não queremos que o nosso nome perca nenhuma letra. [...], vamos escrever a
carta pedindo isso e depois a gente escreve um texto escolhendo uma letra para tirar do
nome e fala que se tiver que mudar, a gente quer escolher a letra. E vamos ver o que vai
dar.
Assim passamos a manhã escrevendo ao presidente e escolhendo uma letra para ser
retirada do nome, caso isso acontecesse. Uma manhã que voou e acabou cheia de risos
com os novos nomes existentes na sala.
À noite em casa meu irmão que tb não assistiu o Jornal, disse que no trabalho o pedido
foi:
— Pergunta pra uma das suas irmãs que são professoras se o K o W e o Y já não fazem
parte do alfabeto? Pq ontem no JN saiu que elas vão passar a fazer parte do alfabeto
agora.
Uma bobagem, um mal-entendido, gerou a confecção de um texto coletivo cuja motivação – por
que escrever e para quem - estava dada pela vida e pela preocupação das crianças e não por um
plano prévio. Mais do que isto, um texto que, ao ser construído, constrói cidadania e ensina
resistência a algo com que não concordamos.
Muitos professores, por inexperiência ou por rigidez, talvez só afirmassem para as crianças que
elas haviam entendido mal e começariam a cumprir rigorosamente seu plano de aula, descolado
da realidade à sua frente.
Não estou defendendo que não haja currículos e planos de aula. Todo improviso em música é
feito a partir de uma montanha de referências - padrões rítmicos, escalas, encadeamentos
harmônicos e outros – que são estudadas, trabalhadas, para poder fluir quando se improvisa, no
diálogo com outros músicos, quando em grupo, no diálogo consigo mesmo, com este seu
momento, quando se está tocando sozinho. Improviso é fruto de diálogo.
É destes tipos de improvisos de professor-intérprete que falo aqui, não o fazer por não ter
planejado, mas aquele que é construído no diálogo com os alunos, aquele que conversa com
suas preocupações, com sua vida, sem esquecer que existe um programa a ser cumprido, que
existe um planejamento, que as crianças devem aprender determinados conteúdos.
Ambos, professor e músico não apresentam coelhos tirados da cartola, mágicas que surgem. 207
Suas produções têm a ver com infinitas outras vozes das quais eles se tornam intérpretes à frente
da classe. Ambos, o pedagógico e o musical, partem de ouvir o outro e fazem construções que se
dão nos espaços do entre. Uma boa aula é uma construção entre o professor e seus alunos, como
uma improvisação se constrói entre o músico e o público.

As formas com que as crianças da CrisHop se chamam dão margem a vários estudos, pesquisas
sobre os super-heróis, sobre os Piratas. Vai ouvindo...

O Herói da Semana
Após um semestre estudando todos heróis possíveis e imagináveis que
frequentam a Sala de Justiça, entra em ação o combinado com todos no início do
semestre, o projeto ―O Herói da Semana‖.
O herói escolhido seria o projeto de estudo de uma semana toda, com direito
a roupa, poesias, textos, desenhos no vídeo e feitos por eles, recortes, cartas, fotos,
mural de exposição e tudo mais que a imaginação da Sala permitisse. [...]

Agora qualquer distância é longa


Este trimestre estamos trabalhando história da vida de cada aluno e todo ano
começamos pelo nome, família, coisas assim.
Resolvi mudar um pouco e ficar mais tempo no nome, ou melhor, no sobrenome.
Combinamos que nesses meses de maio e junho todos iriam chamar os amigos pelo
sobrenome. Muito legal, mas quando uma criança fala:
— Campos. Fico mais perdida que eles, que erradamente pensei que ficariam. [...]
nesse meio tempo descobri a C., uma delícia de menina [...]
Quinta passada ela chegou eufórica [...]
Na sala, ela nem guardou a bolsa e veio gritando:
— Campos, ontem no mercado achei a Fuji, a Gomes, casada com o Costa, e a Gomes de
Sá sozinha, riu deliciosamente.
Abriu a bolsa e tirou um filme de máquina Fuji, sobrenome da Tha., uma lata de atum
Gomes da Costa, sobrenomes da Gigi e do Gabi e falou do bacalhau Gomes de Sá,
sobrenome da Male.
Foi delírio geral, todo mundo amou.
— ―Nussa‖, Campos, não sabia que o sobrenome era tão legal assim. Fala do Carvalho que
dias depois se descobriu árvore.
Hoje, na reunião de pais, a mãe da C. pediu desculpas às mães das crianças e disse que
não conseguiu fazê-la desistir da idéia.
As mães disseram que entenderam a brincadeira dela e só fizeram uma reclamação:
— Cristina, qualquer distância agora é enorme, porque eles andam olhando cada cantinho 208
pra achar um sobrenome, seu ou de um amigo, para trazer na classe e fazer mercado
então:
— Afffffffffffffffffffffffff

Nos escritos da Cris encontro também como ela cria cumplicidade com os pais no cotidiano
escolar das crianças, como mostram o texto acima e o das correspondências entre escolas, e vai
se construindo como professora, mudando hábitos, obrigando-se a assistir televisão porque,
como conta na Pipoca:

Você não assistiu o Jornal Nacional?


Após vários embates com meus pequenos heróis sobre televisão, me restou a rendição.
Organizo-me todos os dias pra ver pelo menos um programa indicado por eles, afinal não
posso perder um debate, adoram quando jogo a toalha.
Então passo as minhas tarde entre a Xena, Bem 10, Chaves, Todo Mundo Odeia o
Chris, Liga da Justiça, As Visões da Raven, X Men, Uma família da Pesada e um monte de
desenhos japoneses que ainda nem guardei o nome.

Uma professora que vive a escola, que não é se sente responsável apenas pelos alunos
designados para ela naquele ano, vive tanto a sala-de-aula, quanto o ―espaço do meio‖
O Fantástico Mistério de Feiurinha
Na escola tenho um comportamento que não agrada a maioria dos professores e me
―custa‖ mil broncas da diretora, [...]
Eu vivo a escola, converso com alunos no corredor, aposto corrida com outros, brinco de
cerca viva, pulo corda, pego a colher na mão fingindo que tomo a merenda. Só que quase
tudo isso no ―espaço do meio‖ do horário de aula, quando eles saem para o banheiro ou
―biblio‖ e eu para pegar algum material na sala dos professores ou ―biblio‖.
O bom é que rimos muito quando nesse ―espaço do meio‖ somos surpreendidos pela
Diretora que dá uma bronca. Claro que depois.
E o positivo é que conheço todos os alunos que estudam no meu período e uma grande
parte do outro e já viramos amigos. [...]

O ano de 2008 chegava quase ao fim. Em novembro Cris nos avisa por e-mail:
As pipocas a partir de agora serão sobre transição. Estou preparando meus pequenos
para outras professoras, sei da necessidade porque ainda acompanho o sofrimento
dos alunos do ano passado que vivem na porta da sala, ou nas conversas com as
mães. 209
Um ano de debates e ainda não consegui entender a escola e porque ela é tão
ÁRIDA, porque ela recusa risadas, olhares, palavras e vidas produzidos pelas crianças
e adolescentes que vivem nela.

Procuro a Pipoca mais adequada para terminar este escrito sobre a Princesa de Sedna e reluto
entre alguns, os da transição, quando as crianças vão, aos poucos, despedindo-se da professora
robô, alguns querendo adotá-la como irmã e outros desenhando corações para torná-la gente, ou
o do aluno que ela encontrou depois de 15 anos. Por mera curiosidade resolvo ler uma de 2009,
que nem deveria estar no meu inventário, segundos meus critérios de só escrever sobre as de
2008, mas que me invade.
Esta Pipoca final foi enviada em 6 de março de 2009. Ela vai inteira, sem retalhar, sem recortar,
sem fatiar, para proporcionar a quem leia a mesma emoção, aquele ―prazer da pura percepção‖, que
nos conta e canta Leminski, aquele que transforma ―os sentidos em crítica da razão‖, reencantam.

Meu Príncipe!
Em 2008 Wally era o Herói Pica-pau, depois o Pirata Guardião, alegre, brincalhão,
ninguém sabia que ele teve Meningite aos 04 meses e ficou 15 dias em coma.
Para todos os amigos, Wally era apenas enrolado demais, e estava sempre à procura dele
mesmo. Por amor, respeito e amizade aprendeu também com os amigos as letras do seu
nome, alguns números, a dividir o material, o Jardim Japonês, a leitura de um livro:
— Quem quer ler comigo? Todos sabiam que o ―comigo‖ era na realidade ―para mim‖. E
todos queriam.
Mas a professora de Ed. Especial e eu sabíamos que Wally tinha um Diagnóstico
―Hidrocefalia Moderada‖ sequela da Meningite. Mas isso era o de menos pra Sala de
Justiça. Wally era muuuuuito legal.
Depois descobri que a mãe não suportou a doença e deixou Wally para trás, tinha uma
filha pra ―Fama‖, então seus dias eram Raul Gil, Globo e Agência de Modelos. E Wally:
— Nunca vou ser como a Winnie irmã.
Um dia, para pôr fim à tristeza de Wally, falei:
— Não vai ser mesmo. Você é mais bonito, inteligente e tem uma coisa, é um Príncipe, o
Meu Príncipe. Contei para ele e os amigos a história dos meus heróis da Infância: Príncipe
Planeta e Príncipe Safiri, todos já conheciam o Pequeno Príncipe.
E todas as manhãs eu falava:
— Meu Príncipe...!!! E os amigos ajudavam:
— Príncipe da Prô....
Wally, Pica-pau e Guardião sumiram, só existia o Meu Príncipe.
Uma semana depois, a Psicóloga do CEI liga na escola pra contar que isso foi muito
importante para ele. Que pela primeira vez desde os 05 anos ele chegou ao CEI falando.
Fim de ano, infelizmente não pude ir com os Piratas, nem com meu Príncipe para o ano 210
seguinte, nos despedimos com a promessa de:
— Prô você vai ―na‖ minha sala falar Bonjour?
— Sim.
2009, 17 de fevereiro, chega à fila a mãe do Meu Príncipe:
— Cris, você pode me ajudar? O Wally não ―qué vim‖ na escola porque a Norma não
―chama ele‖ de Príncipe. Olho pro Meu Príncipe, triste, abatido, o chamo no cantinho e
falo:
— Príncipe querido, a Norma não pode te chamar de Príncipe porque você é o MEU
PRÍNCIPE, nem do seu pai, nem da sua mãe ou da Lê. Quando você crescer, nem sua
namorada, amiga, esposa, ninguém pode te chamar de Príncipe, tá?
— Nem quando eu for do tamanho do Guarda Belo? (guarda da escola).
— Não, porque, aí, eu vou ser velha igual Rhéya Silvia, e, mesmo assim, você vai continuar
Meu Príncipe!
Com um sorriso ele balança a cabeça e corre animado pra fila, contando para os amigos:
— Ainda sou o Príncipe da Prô!!!!!
Falo com a mãe que esse é um dos caminhos, se precisar tentamos outro.
Segunda-feira chego à escola e a Norma vem para meu lado com a maior cara feia e fala:
— Cristina Campos (reflexos da diretora) sua ..., esquece o Wally. Sem entender
pergunto:
— Por quê? Uma vez meu aluno, para sempre meu aluno. Penso eu.
— Porque agora não posso nem olhar pra ele que ele fala com uma cara de espanto:
— Não me chama de Príncipe, sou Príncipe só da Prô Cris!! E isso mil vezes por dia.

01) Todos os nomes usados no texto são fictícios [...]


02) Não posso ir às salas falar Bonjour, pedido das professoras feito à diretora, que
transformou em ordem. Com a seguinte frase ―Quem é inteligente obedece, Cristina Campos‖. E
vc que é da UNICAMP deve ser né?
03) Tenho o espaço do meio para viver a escola com meus Piratas, e nosso Navio viaja na
brincadeira, na risada e na amizade de irmãos e irmãs.

Perplexidades do professor

do baú
Ressonância da Pipoca Meu príncipe, da CrisHop

---- Original Message -----


do: marcemino
para: gepec_gt@grupos.com.br enviado: 06 de março de 2009
Assuntinhot: Re: [GEPEC - Grupo de Terça] Pipocas saudadosa de 2008.
211
Oi Cris
Lindo demais o seu texto, e para mim foi quase um "puxão" de orelhas.
Temos também lá no Melico as nossas crianças "especiais" e confesso que me esforço muito
para conseguir trabalhar com elas da mesma maneira com que trabalho com os outros,
mas permaneço num foco por demais iluminista e racional, procurando tratá-los apenas
como "cidadãos de direitos". Mas lendo a sua pipoca entendi que a dimensão é outra, eles
merecem sim, serem tratados como Príncipes e Princesas justamente por serem isso mesmo,
especiais, que nos mobilizam, encantam e emocionam.
Na segunda feira vou tentar outro olhar sobre eles, este que tomei emprestado de você.

fim

Dos muitos e-mails que as Pipocas da CrisHop provoca em resposta, escolhi o do Marcemino,
porque ele exprime a forma como ele se apresenta ao grupo: perplexo e em reconstrução.
Ele é a única pessoa que eu conheço que afere um cronômetro pela respiração
Já no ônibus para Barão, comecei a testar o aparelhinho, tive a impressão de que o
tempo passava rápido demais. Será que estava com defeito? Então prendi a
respiração e cronometrei..... trinta segundos! É o meu tempo. Funciona. 225
Além de vigiar cronômetros o Marcemino é professor de História e projeto de informática em
uma escola municipal de Campinas e mestre pelo GEPEC226 e é dessa escola que chegam suas
perplexidades e preocupações, como no início do segundo semestre de 2008, quando ele
andava preocupada com as ―gincanas‖ escolares, vai ouvindo...

Já faz muito tempo que não aplico uma prova, mas em meio a sinais dos tempos
como Saeb, Enem, Saresp e outros a serem criados, sinto ser da minha
responsabilidade treinar os alunos nesta modalidade de avaliação. Não foi fácil
elaborar perguntas objetivas, com uma margem segura de respostas previstas e
mensuráveis. Mas fazer o quê, esta ainda é a maneira mais eficiente de se calcular a
rentabilidade dos conteúdos aplicados. São aplicações de renda fixa a curtíssimo
prazo, mas o rendimento é baixo e o risco é alto. Não se inventou ainda uma álgebra
que dê conta de tanta complexidade.
212
Essa complexidade transparece nas duas Pipoquinhas enviadas em 15 de novembro de 2008,
que mostram equívocos entre as expectativas do professor e as do aluno.

Esta era uma turma de oitava série, já no segundo semestre, finalzinho do ano
letivo. Havia um menino que atrapalhava a aula porque falava o tempo todo, mas de
quem eu gostava. Ele era muito talentoso para escrever, não só pelo bom
desenvolvimento das idéias quanto pela letra.
─Lauro, você escreve muito bem. Vai prestar vestibulinho para quê?
─Não sei não, professor.
─Rapaz, mas você precisa pensar nisso. Sei lá, presta vestibulinho para
alguma área de comunicações, você escreve muito bem. Jornalismo... Você ainda
pode ser um advogado na vida.
E ele, meio sem jeito:
─Sei não, professor. Preciso conversar com meu pai.
Algum tempo depois voltei a perguntar:
─E então Lauro, já decidiu?

225 O previsto, o acaso e o tempo que passa. Marcemino Bernardo Pereira. Pipoca enviada em 09/11/2008.
226 PEREIRA, Marcemino Bernardo. Múltiplos projetos: produção de vida variada no oficio de professor.
─Esses negócios que o Sr. falou ai é bom, mas eu conversei com meu pai e
vou prestar para ―patrulheiro‖ mesmo.

Na Pipoca Escolástica ele conta como escrever sobre os acontecidos da escola é uma maneira de
ser conhecer como professor:
Fazer registros do que acontece na sala de aula tem se tornado um hábito
muito interessante e divertido. Procuro fazê-los ainda no calor dos acontecimentos -
durante a aula ou ao chegar em casa, no mesmo dia - e quando os leio algum tempo
depois, o ―professor Marcemino‖ que toma forma nestes escritos nem sempre
coincide com aquele que tanto prezo.

e nos mostra algumas desta anotações como esta:


Este outro é do dia 29 e escrevi já em casa.
“Hoje estou um pouco irritado. Senti-me desrespeitado na sala de aula, na sétima série A,
principalmente. Eu estava com pressa e querendo manter a minha autoridade, sei lá, então entrei já
meio “bravo”, acho que foi isso. Ali dentro tem uma turma que só me atrapalha. Dei uns berros e
ouvi comentário do tipo...ele está nervoso...ai fiquei mais nervoso ainda, mandei dois garotos para 213
fora da sala e tentei manter o controle sobre os demais....tudo era motivo para um ou outro rir. E
isso me deixou mais irritado ainda. Nem pude fazer os meus registros normalmente. Tchau! Fui!”

Algumas Pipocas de 2008 do Marcemino tiveram um charme especial. Todo final


encontrávamos um questionário provocado pelo ―causo‖ e o desta Pipoca acima foi:
Lição
Complete as frases preenchendo a linha pontilhada:
A colonização..................................................................colonizados.
A escolástica....................................................................da escola.

Na Pipoca Costurada de 30 de agosto de 2008 ele entremeia texto dos alunos no seu texto. Era
um estudo sobre imigração e ao final lá estão, em negrito, suas Lições:
Lição: Responda no caderno e entregue se puder.
Multiculturalismo é múltiplo de 2 ou de 3?
Como se comemora a memória?

As perguntas receberam muitas respostas, como a da Cris –


Lindo, lindo.
Multiculturalismo é múltiplo de gente e a memória se comemora assim desse jeito
que vc fez.
Repartindo, contando, escrevendo, valorizando, incentivando e estando do lado
dessa geração que fica na nossa memória, e que leva a gente na dela.

Eu sempre fiquei com esta segunda pergunta na cabeça, na espera, e a resposta eu encontrei,
dois anos depois, com uma pipoca chamada Carta de amor, do próprio Marcemino.

do baú
Trechos de dois e-mails enviados em 2010

Marcemino

Como comemorar a memória? Lembra desta sua pergunta?


Você a colocou em outro escrito, Pipoca Costurada de 2008 e nunca soube responder, mas nem
consegui esquecer a pergunta;
agora, encontrei a resposta em outra Pipoca sua, a Carta de amor, vai ouvindo meus
recortes no teu texto:
214
- Professor, a minha irmã mandou uma carta para o Senhor. [...]
Guardei a folha de caderno três vezes dobrada, mas sem muita precisão, para ler
depois - “não aprendeu muita coisa sobre dobradura nas aulas de arte” - pensei.
A autora da carta foi minha aluna em 2008, na sexta série, e tinha muita dificuldade
para escrever. Parece que havia uma parede entre ela e os textos que eu distribuía
para estudo e pesquisa, a nossa comunicação era muito precária.
[...]
Uma das explicações para tanta dificuldade era o comportamento inadequado dela na
sala de aula: ria alto e ficava trocando bilhetinhos com as colegas.
Por conta disso tudo, fiquei curioso para ler o meu ―presente‖.
“Estou aqui para falar que estou morrendo de saudades, e é muito ruim ficar longe das pessoas que
amamos e respeitamos” - diz nas primeiras linhas, após me cumprimentar [...]
A carta é uma declaração de amor a escola. Está endereçada a mim, mas ela a finaliza
mandando um abraço “pra todos que fez e faz parte da minha vida”, e em seguida cita a
todos nós, sem exceção, dos professores às “donas da faxina”.
Que escrita é esta? Da escola é que não é.
[...]
As idéias estão estranhas porque nunca vi texto encarnado - “estou aqui”! Como
assim? Este jeito de escrever e os saberes que o anima não cabem na ficha de
avaliação.
[...]
Ainda aprendo alguma coisa deste escrito em folha de caderno três vezes dobrada,
mas sem muita precisão.

Como comemorar a memória? Acho que agora eu sei: em uma carta de amor dobrada três
vezes sem muita precisão.
Escrevê-las talvez seja uma forma de se acertar na memória, com ―o tempo e essas contas que
temos para acertar ou não com ele, [ já] que de certa maneira vamos percebendo com o passar do tempo que
tem contas que independe do tempo.‖ (do teu e-mail de 15 de março de 2010)

Achei um poeminha do Pessoa, na pele do Álvaro de Campos, e envio pra você e pra tod@s
que estão espiando este e-mail, um dos versinhos porque acho que completa a pesquisa de 2
anos para responder à sua pergunta:
Como se comemora a memória?
Resposta: em ridículas cartas de amor, dobradas 3 vezes.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor 215
É que são
Ridículas
(Pessoa / àlvaro de Campos)

fim

[18:38:38] gloria —Então, isto é que são as Pipocas, entendeu? São uns escritos pequenos que levam
a gente a conhecer outros mundos ou a olhar melhor o seu próprio mundo, por isso falei que me
teletransportavam. São bem diferentes dos seus escritos...
[18:38:39] e-Boa — Mas também gostava de escrever outras coisas, como histórias realmente
muito rápidas. 227
[18:39:07] gloria — rápidas?
[18:39:09] e-Boa — histórias que estejam coincidentes com a velocidade de nossa época, em que
os começos coincidam com o fim.
[18:39:17] gloria — interessante
[18:39:19] e-Boa —. Mas isso, é claro, é a impossibilidade da minha escrita. Este será o meu silêncio
– que será, se calhar, a face final da minha escrita. 228
[18:40:01] gloria — trágico!

227 SANTOS, Boaventura de Sousa (2005a). SCHWARTZ, Christian. Escrita INKZ – anti-manifesto para uma arte incapaz
228 SANTOS, Boaventura de Sousa (2005c). SCHWARTZ, Christian. Fórum social mundial 2005
[18:40:02] e-Boa – sou um otimista, trágico. É o que eu tenho dito de fato, não estou a pensá-lo

agora. [...] otimista trágico, para mim, significa que estou consciente das dificuldades, mas tenho

sempre que ver uma saída.229


[18:40:01] gloria — então me ajude a encontrar uma saída para minha dissertação. Preciso juntar
mais tudo o que conversamos com a educação. A sociologia das ausências propõe algum modelo
educacional?

[18:40:02] e-Boa – A sociologia das ausências estima-se, exatamente para incorporar toda essa

riqueza da experiência social. Na educação, sem duvida que a sociologia das ausências propõe um

outro modelo educacional e de conhecimento. Não pode ser o modelo de conhecimento formal porque

a educação tem a ver com a ecologia dos saberes e, para mim, também o processo educativo deve ser

ele próprio também orientado por estas ecologias de saberes, onde os diferentes saberes procuram

articular de uma maneira virtuosa, respeitando as experiências e as trajetórias de cada um, sem

menosprezar, no entanto, aquilo que de novo se pode aprender, de modo a posicionarmos numa

sociedade, que e uma sociedade que também tem desafios, digamos, de cognição, de conhecimento 216
cientifico e tecnológico, as quais também não podem ser de maneira nenhuma ignoradas. O que é

necessário é que a educação não contribua para a monocultura do conhecimento científico. 230

[18:40:01] gloria — os artistas agradecem...

[18:40:02] e-Boa – Ela, ao contrário, tem que ter uma outra concepção que recuse a monocultura do

rigor científico, sem, no entanto, desperdiçar também a experiência preciosa que a ciência nos pode

trazer e que tem trazido.231

[18:40:03] gloria — Isto é importante de frisar: não é uma substituição - de conhecimento, culturas
ou de ciências – é aproveitar todos os conhecimentos, certo?
[18:40:04] e-Boa – Não faria sentido descentrar a epistemologia do universo das ciências naturais

para a recentrar no universo das ciências sociais concebido como o oposto do primeiro. O importante,

229 SANTOS, Boaventura de Sousa (2005c). SCHWARTZ, Christian. Fórum social mundial 2005
230 SANTOS, Boaventura de Sousa (2006c). Revista Inter-Legere
231 Idem.
é repensar o conhecimento científico em toda a sua diversidade à luz das suas possíveis relações com

outros saberes não científicos que orientam a vida quotidiana das pessoas 232
[18:40:11] gloria — Isso acabaria com a hierarquia entre os saberes?
[18:40:12] e-Boa –As hierarquias entre conhecimentos não podem ser estabelecidas em abstracto,

mas sim em concreto, isto é, em função das intervenções concretas no mundo. Se eu quero ir à lua,

necessito de conhecimento científico; mas se eu quero preservar a biodiversidade, preciso do

conhecimento indígena e camponês. [...] as hierarquias entre saberes são necessárias mas devem ser

contextuais e pragmáticas.233

[18:40:13] gloria — buenas, só mais um lance; andei lendo pela rede que uns e outros o acusam de
relativista colocando ao mesmo nível os vários saberes, mas vejo que não é bem isso.
[18:40:15] e-Boa – Sempre afirmei que o pensamento crítico, orientado para a transformação social

emancipatória, não pode ser relativista. O importante é, pois, não confundir pluralismo epistemológico

com relativismo epistemológico. A ecologia dos saberes não é possível sem pluralismo epistemológico,

e seria um exercício inútil no marco do relativismo epistemológico. [...]


217
O importante é salientar a incompletude de todos os conhecimentos e o potencial que existe nos

diálogos entre eles. O conhecimento prudente decorre sempre desses diálogos e das

constelações de saberes que permitem construir. 234

[18:40:16] gloria — E como é que pode ocorrer esta convivência entre saberes tão diferentes, no qual
alguns em muito mais poder do que outros?
[18:40:17] e-Boa – Vivemos numa sociedade onde o saber científico tem muito mais poder, e, por
outro lado, são diferentes na medida em que têm diferentes linguagens, diferentes conceitos. E é
nesse nível que entra a tradução. Cada movimento é uma tradução recíproca entre movimentos. [...]
Traduzir é encontrar diferenças, mas sobretudo semelhanças, com o objetivo de que as lutas de cada
um sejam a luta de todos.235

232 SANTOS, Boaventura de Sousa (2007c). Apud TAVARES, Manuel. Em torno de um novo paradigma sócio-epistemológico.
233 Idem.
234 Idem.
235 SANTOS, Boaventura de Sousa (2007c). In: Mosaico – Estudos em psicologia.
Intermezzo V

218

passado &
& L B ee R d a d E
B
―Desviagens da poesia que (como sabia M aiakó vski ) — toda
— é uma viagem ao desconhecido. VIA LINGUAGEM.‖
(A u gu st o de Campo s )
"construção de uma outra qualidade‖...
(Wanderley Geraldi)

A t r a ç ã o
t r a ç ã o
t r a i ç ã o
t r a d i ç ã o
t r a d u ç ã o
t r a d i ç ã o
t r ansi ç ã o
t r a n s cri ç ã o
t r a ns cria ç ã o
6º Movimento: Gran Finale
- urrou, inventário, despedida, e referências
bibliográficas, anexos –

1. URROU!

"Lá vem meu boi urrando, meu vaqueiro se espantou,


subindo o vaquejador, o gado da fazenda
deu um urro na porteira, com isso se levantou.
(Coxinho do Boi de Pindaré)
Quando leio um poema que me pega mesmo, eu não consigo explicá-lo com outras
palavras, de um jeito diferente do que aquele em que o poeta colocou as palavras;
a forma que surge do arranjo das palavras, é o que ele é, e é o meu entendimento
dele, se for de outra maneira deixo de ter o sentimento do poema.
219
O Para uma sociologia das ausências, tinha este jeito de poema para mim;
não conseguia resumir, resenhar e nem explicar o texto, apenas repeti-lo;
pensei que acabaria por me tornar uma Pierre Menard236, quixotescamente reescrevendo 219
aquele texto, só me faltando, talvez, um curso de direito, um doutorado em Ciências
Sociais, coordenar uma pesquisa igual à que deu origem ao texto e algumas outras
pequenas coisas desse tipo.

Mas chega Saramago, que se encantou ao longo desta viagem, saindo, desta vez, não da
Jangada de Pedra, mas da Caverna237, e o que me fala é quase uma reprimenda:
Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há
quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura,
ficam pregados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras
postas a atravessar a corrente de um rio, se não estão ali é para que possamos
chegar à outra margem, a outra margem é que importa... A não ser que tais rios

236 Personagem do conto de Borges - “Pierre Menard, autor del Quijote” - que reescreveu a obra de Cervantes, linha por linha, parágrafo por parágrafo, repetindo tudo
igualzinho ao original, até os erros da primeira edição.
237 SARAMAGO, José. A caverna. Apud. CAMPOS, Ignacio. Interações timbrísticas na música eletroacústica e mista.
não tenham duas margens, mas muitas que cada pessoa que lê seja, ela, a sua
própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem que terá de chegar...
Ou não chegar, só navegar, permanecer no entre, não ser nem uma e nem outra
margem, mas a Terceira margem, uma das terceiras margens possíveis.
Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a
sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção
de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa,
para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de
todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.238

Quando iniciei este texto, ―Eu estava muito no meu sentido‖, mas ao final, quando o sino tocava e
a sina não tinha mais como esperar, eu temia acabar sendo ―o que não foi, o que vai ficar calado.‖
Como o filho do pai cumpridor, ordeiro e positivo do conto de Guimarães Rosa, ―Sofri o grave
frio dos medos, adoeci‖ por ter de inventar o que as palavras me diziam, por ter de me lançar no
rio sem saber da outra margem, de qual margem chegar. 220

Bati na porta das petições e pedi um barco:


Dá-me um barco, disse. [...] 220
E tu para que queres um barco, pode-se saber
Para ir à procura da ilha desconhecida
[...]Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos
mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa
de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida,
[...]Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus
marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas.
[Saí] por outra porta, a das decisões, que é raro ser usada, mas quando o é, é.239

Arrumei a tripulação, meu Batalhão de Ouro, e aprendia com ele a navegar no mar com o barco
que pedi: “um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim”.

Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a


linguagem, é como se o fosse. 240

238 ROSA, Guimarães. A terceira margem do rio. Disponível em http://www.releituras.com/guimarosa_margem.asp. Acesso em 16 de julho de 2010.
239 SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida.
Tornei-me escriba da viagem. Trago aqui os meus relatos com a sensação de que este é só um
porto de passagem, que não dei conta da viagem ao porto de chegada pretendido.

Nesses escritos procurei apresentar retalhos de ausências e emergências na educação;


procurei também as pistas do professor-intérprete, o que se sabe inteiro na frente de outras
pessoas - voz, corpo, sentidos, emoções, inteligência -, capaz de produzir mais topoi241 entre
quem ensina e quem aprende.
[...] quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando
nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, 242

A partir de reflexões improvisos - olhares relâmpagos da lida cotidiana, o igual/diverso de cada


professor -, narrativas foram escritas e dadas a ler;
escrita enredando escrita: novos múltiplos olhares construídos pelo entrelaçar das
experiências e tra(du)zidos por novos escritos com novas e plurais concepções de pedagogias
emancipatórias.
Retalhos, pedaço, parte que se tira, fragmento;
a tesoura deste trabalho foi se construindo por meio do diálogo com palavras-conceitos
contidos no texto Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências, do sociólogo
221
português Boaventura de Sousa Santos, e de outros textos do autor postados na Internet.
Por uma educação cosmopolita:
retalhos de ausências: pedagogias tecidas no tear do silêncio, tornadas invisíveis pelos
221
fios arrogantes dos escolhidos, dos donos da verdade;
retalhos de emergências: frágeis indícios, possibilidades, um porvir na penumbra, entre
o Tudo e o Nada, um passo adiante do Não, cheiro de um Ainda-não possível;
retalhos de tradução: transcriações para poder partilhar, contar a novidade, caminhar
entre mundos incompletos, mundos de professor e mundos de alunos, aprender modos de
trocar nossas ignorâncias pelos conhecimentos de outros e retribuir com outros modos "A fim
de consertar a minha ignorãça, mas só acrescenta"243, e, ao acrescentar, me move para suprir estas
novas ignorãças.
[...], mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa
do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda

240 SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida.

241 Designam-se, em geral, por topoi ou lugares comuns e constituem o consenso básico que torna possível o dissenso argumentativo, (T,42)

242 SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida.


243 BARROS, Manoel. O livro das ignorãças.
faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha
Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma. 244

Transformação: a direção em busca de impossíveis utopias cambia para procurar lugares comuns
de entendimento, inéditos viáveis.
Professores transgressores, traidores, tradutores, transcriadores de mundos.
Cotidianacontecimentos: contrapalavras para, durante e depois do show, encontrar o
encantamento na educação.

Amo — Boa noite, meu povo que viero aqui me vê


Com esta brincadeira, trazendo grande prazê.
Viva os grandes e os pequenos! Esse é o meu devê
Saí pra cantá boi bonito pro povo vê.245

Urrou, urrou, urrou, urrou


meu novilho brasileiro 222
que a natureza criou!" (Coxinho do Boi de Pindaré)

Urrou é momento que celebra a alegria de todos pelo restabelecimento do boi depois de ter sido
sacrificado. 222
É o final da festa, é a despedida da jornada.
Tenho esta grande dificuldade: colocar FIM, essas três letrinhas, no final de um texto.
Tantas coisas ficaram por dizer e poderiam aqui estar como:
as lições, as muitas lições desse caminhar com e-Boa, colocadas de forma mais claras;
o entrelaçar desses aprendizados novos com currículo, pensando sobre um currículo de
ausências e emergências;
uma proposta, para os cursos de formação de professores, de um currículo com mais
opções de matérias ligadas à área artística, com práticas coletivas (coral, orquestras,
bandas, bateria de escola de samba, grupo de maracatu, grupo de samba, grupo de
teatro, grupo de dança);

244 SARAMAGO, José. O conto da ilha desconhecida.


245 Encarte do CD Guarnicê, uma singela opereta popular, do grupo Mundaréu.
propor publicações para incorporar os saberes e experiências de professores através de
coleções de textos de professores focalizando, como nas Pipocas Pedagógicas, aspectos
variados do trivial do professor;
ou falar da descoberta de uma grande ausência epistemológica em várias universidades
brasileiras: o pensamento de Boaventura de Sousa Santos! um silenciamento articulado por
setores que se contrapõem intelectualmente a ele, que chegam ao absurdo de proibir seus
orientandos de citá-lo em suas pesquisas. Um exemplo claro de epistemicídio premeditado!

Encantados, como e-Boa, fazem-me querer continuar a escrever, mas feiticeiras, como Ruth
Joffily, minha amiga e revisora desta dissertação, auxiliam-me a colocar, se não um ponto final,
uma interrupção neste escrito.
Agradeço imensamente a ambos.

O Gran Finale está composto desse URROU!, do Inventário, do Adeus Morena, Referências
Bibliográficas, Referências Artísticas e Anexos.
Apesar do adiantado das páginas, achei interessante colocar o que escrevi sobre inventário por
223
tê-lo citado em diversos momentos. O inventariado em si – apesar de ter sido imenso -, as
listagens e catalogações não constam, por que os dados inventariados não foram importantes
para a escrita final da dissertação, mas foram importantes as reflexões que resultaram desse 223
fazer. Apenas o inventário parcial dos meus guardados consta dos anexos como exemplo.
Um Inventário olhado por suas ausências, o que revela? e as emergências, estão presentes, ou ao
futuro, a um deus, pertencem?
Adeus Morena traz um trechinho da última conversa com meu orientador do fundo e uma
música feita em parceria com ele.
Após as Referências Bibliográficas estão as Musicais e finalizo formalmente com os agregados
acadêmicos, os anexos, que contêm:
1. Listagem das Pipocas de 2008 enviadas para a lista do Grupo de Terça.
2. Listagem das atas mais importantes e textos enviados para o GT em 2008.
3. Guardados da Glória - mostra parcial do tipo de inventários que fiz; esta catalogação diz
respeito aos meus textos guardados discentes.
4. Minhas escol(h)as – algumas informações à respeito de escolas citadas no texto.
5. Anexo de Poemas.
A sensação é quase de tristeza, de que não consegui dar conta de muitas coisas que queria, mas
agora acabou.
Fim!
Definitivamente: este é o início do fim...
2. O Inventário

Sempre que me proponho a escrever sobre determinado assunto, sou tomada por uma sensação
de que tenho que desvendar, descobrir, saber tudinho do tudo, do mais completo, e me ponho a
derrubar a biblioteca enquanto revisto arquivos e pastas reais ou virtuais.
Felizmente dura pouco esta insanidade.
Quando, por sugestão da minha orientadora, comecei a catalogar meus dados para um futuro
inventário, por um tempo isto virou uma obsessão, e cataloguei:
o GEPEC da época do Cartografia II - arquivos digitais, meus e da professora Corinta,
contendo a relação de pesquisadores - alunos e professores -, divisão dos inúmeros grupos do
livro, algumas atas e rascunhos de textos da criação do grupo; arquivos digitais e textos dos
outros autores do grupo Polifonia do Silêncio ao qual eu pertencia; percebi então a importância
de também relacionar toda a produção oficial do GEPEC, ou seja as
teses e dissertações orientadas pelo GEPEC,
meus trabalhos para a universidade e outros escritos, porque grande parte registrava
cotidianos do grupo - aulas e elaboração dos textos do livro - e as minhas descobertas
epistemológicas a partir do contato com alguns autores em palavras escritas ou orais; já que
224
havia considerado importante os textos discentes e, uma coisa leva à outra, fui procurar a glória
discente mais velha ainda nos
escritos de criança e adolescente, que reli, e me deram outras dimensões de minha 224
formação a partir das palavras daquela glória-menina escrita em palavras e nas imagens das
fotos oficiais de minha vida escolar que encontrei junto dos diários, aquelas com a classe
e com dona Anésia, a profa. do primeiro ano, fotos que pareciam ilustrar uma das
Pipocas e outros escritos do Grupo de Terça, porque numa manhã de sol comecei a reler
todas as Pipocas, e um amigo apareceu para mostrar novas coisas nas mesmas palavras
misturadas à dele, o
e-Boa, todas suas palavras escritas, textos e entrevistas, encontradas na Internet e seu
ladinho vadio.
Felizmente, dura pouco esta insanidade.

Alguns catálogos foram terminados e estão apresentáveis, outros estão por terminar, mas não
fazem parte da dissertação por não serem necessários à compreensão ou comprovação do texto.
Catalogar não é fazer inventário - já sei, já sei e já sei!-, mas é um passo adiante do coletar,
minha especialidade.
Deus, o Diabo e o Inventário

Algo incomodava-me naquela frasezinha de abertura do artigo Mitos, emblemas, sinais de


Carlo Ginzgurb246, e olhe que eu sou apreciadora desses aforismos, escritinhos que prefaciam os
escritos e dão uma amostra grátis do que vamos ler:
Deus está no particular.
Incomoda, incomoda e me incomoda.
Resolvo-me desincomodar e protesto:
deus o que, cara pálida?
quem disse que quero encontrar só um lado, mesmo que seja o lado d' Ele?
não quero, não acredito mais na verdade; l
e-Boa, lá pelo 4º Movimento me disse: O que conta como verdade é a ausência provisória de um

conflito significativo.247
isto mesmo, Meu Rei! e tem muito conflito nesta área!
Não acredito mais nesta Verdade de caixa-alta, com letras que denotam sua importância e
singularidade, a verdade única, a verdadeira, a escolhida como ―o Todo‖, aquela que é mais 225
que a soma das outras verdades, mas que agora, porqueiramente , não me convence mais 248

porque limita, filtra o que posso ver nos meus guardados, já dá por certo o que quer que eu
encontre, a sua idéia de deus.
225
Mas o que se pode encontrar nos fragmentos, nos detalhes, quando não se sabe a resposta desde
o princípio da procura?
Imaginação no ar!
Surfo pela internet e encontro um blog, o Socio[B]log249, onde isto também é um incômodo
discutido: alguns observam que a expressão – ―Deus está no particular‖ - está ligeiramente
transformada e que pode ser encontrada como o diabo está nos detalhes ou deus está nos
pormenores, já que cada qual culpa um dos dois pelos desatinos ou benesses do destino.
Quem é culpado por tanto detalhe, deus ou o diabo?
Se não houvesse detalhes, não era tudo mais simples? mais fácil de ler a placa para chegar à
verdade?

246 G I NZB UR G, Ca rlo . M itos, e m blem as, si nai s: m o rfo l og ia e h is t óri a. Sã o Pa u lo : Com pa n hi a d as Let ras , 1 989.
247 SANTOS, Boaventura de Sousa. Prezados Professores.
248 “A verdade é a verdade, diga-a Agamenon ou seu porqueiro. Agamenon: De acordo. O porqueiro: não me convence.” MACHADO, Antonio. Juan de Mairena. Apud LARROSA,
Jorge (1998).
249 So ci o [B ]l og u e 2.0 . Dis p o ní v el em ht t p: //s o ci ob l og u e. webl og . com. pt /a rq u i vo /013 185. p h p . A cess o em 15 d e m a io d e 2009 .
Diabo, Deus, ou ambos, quem habita as pregas das coisas, os detalhes, os decisivos detalhes que
fazem tudo ser tão mais complicado na vida real e na acadêmica?
Em sociologia as duas expressões são utilizadas amiúde. Embora, sublinhe-se, em
contextos diversos e com propósitos descoincidentes. A «versão divina» [...] serve,
fundamentalmente, de referência à incontornável relevância dos pormenores mais
minúsculos, descurados e negligenciados da realidade social. É, aliás, por isso, que aí
se apela a um esquadrinhamento minucioso dos pormenores secundários e se
promove uma acentuada valorização dos detalhes supostamente insignificantes. De
acordo com o que ali se defende, esses pormenores, quando colocados sob o olhar
esmiuçador e escrupuloso do investigador, tornam-se interpretáveis e revelam-se
carregados de sentido e/ou significação. Quanto à «versão diabólica», igualmente
popular, [...] é utilizada para descrever as dificuldades dos investigadores em
operacionalizarem o seu arsenal de ferramentas proveniente do vasto instrumentário
disciplinar. 250
Concordo!
―Há certas frases que se iluminam pelo opaco", escreve Manoel de Barros.
226
Dei-me por satisfeita, então, com a epígrafe escolhida pelo Ginzburg, não por ela em si, parcial
que só ela, mas pela movimento que a ausência, presente nela, despertou em mim.

[...] quer se trate de Deus ou do Diabo e qualquer que seja a origem da expressão,
parece haver pouca controvérsia quanto à importância dos detalhes. É, porventura,
226
isso que nos resta sublinhar. 251
A ausência de outros lados me fez pensar nas várias outras faces dos detalhes, que provocam
novas relações e que, frequentemente, me enredam para suas pequenas histórias dentro dos
detalhes de outras histórias com detalhes, numas ―mil e uma noites‖ que atrasa as urgentes
definições de minha pesquisa, mas
quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências,
de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, um
inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser
continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis. 252

250 NOGUEIRA, João. L. (2003). In: Socio[B]log).


251 NOGUEIRA, João. L. (2003). In: Socio[B]log).
252 CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas.
Invenções & Inventário

Adoro detalhes.
Recolher e guardar coisinhas, como rabiscos numa folha de papel, é uma atividade prazerosa,
mas é preciso depois catalogar, ordenar, dar um sentido aos guardados.
Primeiro comecei timidamente, mas, depois, não conseguia parar de fazer isto; demorei a
entender porque tenho me interessado pelos inventários;
estranhava, porque isto é meu oposto.

do baú

Di á r i o da Di sser t a ç ã o
ép oc a d e sep a r a r o m a t er ia l p a r a u m in ven t ár i o

mais coisas e mais coisas


guardo coisas
pó, fios, restos, lencinhos sujos
guardo
227
não catalogo ou separo
as coisas simplesmente se decantam em algum lugar
o tempo faz meu trabalho: seleciona
de quando em quando uma tempestade me obriga a arrumar compulsivamente e as coisas
227
acabam sendo juntadas em caixas e pastas;
alguma hora vão novamente ser vítimas de alguma seleção por motivo de mudanças
ou necessidade íntima;
depois de um tempo, vão para o lixo ou
viram dados de uma tese;
neste caso, acabam sendo catalogadas para aparentar seriedade;
Mas não se enganem: são restos de memórias que se foram, apenas isto;
seus significados específicos se foram, e o que sobra é a provocação, a coceira
que, de alguma forma, nos desperta.

fim

O inventário é o ladinho iluminista dos memoriais;


quando deus e o diabo podem se alojar nos detalhes, é preciso ter cuidado com eles e
respondemos com extremos, ao requerido.
Acredito que dois movimentos levam a esta iluminação toda, com seus números e siglas, no
meio de nossa complexidade, com as pesquisas educacionais que acreditam na singularidade
humana:
o primeiro é o dos Memoriais, que, ao se tornarem mais pessoais, mais íntimos, mais
subjetivos, procuram, na catalogação do todo possível - sempre deixando espaço para
―OUTROS‖ -, a classificação do impossível, redenção das provas concretas coletadas;
é a fala do ―está tudo lá, pode ser reconstruído o mosaico da experiência, está tudo lá,
catalogado e encontrável!‖
Os saberes produzidos nos embates cotidianos das aulas ficam, em geral, na
memória dos que partilharam/construíram o processo. A memória tem suas
artimanhas. Esquecemos, muito se perde, e é irrecuperável, permanece o que, por ter
sido significativo, peculiar, marcante, tenha permanecido enganchado em seus
labirintos.253

o segundo é que os Memorados, ao se tornarem seus próprios narradores, procuram na


catalogação do todo impossível da vida narrada rever o que escolheram guardar e, então, como
um tangram, recriam formas a partir dos fragmentos das quais elas foram partes, tecendo o fio 228
entre o que temos de provas concretas e o que nos passou.

Junto do recriar, damo-nos conta de que o autor, o contador da história dos detalhes, é agora
diferente daqueles guardado no baú, tem outras motivações, que não as do coletor de detalhes.
228
Esta multiplicidade de tempos, que caracteriza o fazer do inventário, produz novas formas-
sentidos ausentes na consciência do gesto original de guardar.

Lições do Inventário

Ausência da Glória
A primeira empreitada do meu inventário foi o Cartografia II. Descubro que guardei tudo o que
apareceu na minha frente a respeito do GEPEC de 1999 em caixas e pastas reais e digitais.
Consigo no micro da Corinta alguns documentos quase oficiais dessa época. Como os meus, são
diversas cópias diferentes de mesmos arquivos, diversas formatações de mesmos escritos, com
pequenas modificações, com listagem dos diversos grupos do GEPEC, seus planejamentos de
trabalho.

253 G ERA LD I, Co ri nt a M a ri a G ris ol i a. ( 1993 ) Pro dução do e ns i no e pe s quisa na e duc aç ão : est u do s o b re o t ra ba lh o do cen t e n o cu rs o d e
p ed ag og ia .
De tanto olhar esses arquivos, comecei a repensar meu primeiro mestrado, em 1998; quase
caminhei para refazer o projeto atual em cima apenas de uma história, a do Cartografia II, já que
tinha reunido muitos dos textos que seriam publicados, arquivos que mostravam o
funcionamento complexo do GEPEC de 1999 e que não se encontravam.
Passei a olhar esse material como a matéria-prima de minha pesquisa, e, caro leitor, o diabo
mora nos detalhes...
Uma das coisas que me animava a escrever esta história era minha ausência na dissertação de
Inês Henrique dos Santos Vieira, orientada pelo professor Guilherme do Val Toledo Prado.
Fomos colegas de GEPEC, participávamos do mesmo subgrupo e de toda ―ferveção‖ com a
entrada de Jorge Larrosa, nosso contato com ele e o movimento para o Cartografias II. Sua
dissertação foi defendida em 2004 e tem como título Educação continuada à margem. Li os
escritos da Inês com a familiaridade de quem esteve por perto, mas em nenhum momento eu,
Glória, aparecia.
Isto acabou sendo um estímulo, afinal o GEPEC fazia um trabalho imenso, envolvendo várias
pessoas, e, então, poderia escrever exatamente sobre esse mesmo tempo, mostrando o que havia
―escapado‖ da dissertação da Inês.
Procuro nos arquivos fornecidos pela Corinta, as listas do grupo de março de 1999, de que 229
grupos a Inês e eu participávamos, mas eu também não estou lá.
Procuro em outros arquivos, uma cópia com modificações, e eu também não apareço lá, e dou-
me conta de que, até aquele momento, eu era só uma aluna de matérias da Corinta.
229
Em outro arquivo, de meados do segundo semestre de 1999, sou eu quem está organizando estas
listas do GEPEC (de quem fazia parte de qual subgrupo do livro) e organizando as tarefas para o
livro.
Uma análise posterior do meu histórico escolar na Unicamp mostrou-me que, durante três anos,
fiz ao menos uma matéria por semestre com a Corinta ou outro professor do GEPEC, mas sem
me transferir do Laborarte, onde planejávamos um livro sobre ensino de arte254.
Eu não estava presente nos escritos da Inês, nem encontrava o meu GEPEC nele, porque não
fazia parte do grupo até março de 1999. Meu olhar sobre o grupo só poderia ser diferente do da
Inês, porque eu falo de um grupo visto pelo lado de fora, deste GEPEC que não pede carteirinha
e que tem sua face atual no Grupo de Terça. Quando a idéia do livro vai tomando corpo, fui
convidada para estar nele com meus escritos, e, apaixonada, passei a ajudar na organização, a
me envolver com tudo a tal ponto que, quando pensei em escrever sobre o GEPEC, não me
lembrava que não fazia parte do grupo, esta não era a minha história, e, portanto, não era a
pessoa adequada para contar uma história truncada, mal acabada desse livro abortado.

254 O ensino das artes, FERREIRA, Sueli (Org). Campinas, SP: Papirus, 2003
Fazer a catalogação deste material e esta análise posterior das listagens de pessoas e atividades
em cruzamento com meu histórico escolar foi fundamental para decidir os rumos deste trabalho.
Por pouco não direcionei tudo para mostrar o que gostaria que tivesse sido o Cartografia II,
para mostrar o livro que sonhei. Os fatos que levaram esse livro a não ser publicado não têm
relação com o que o motivou, o que gerou textos tão interessantes, hoje dispersos em artigos e
dissertações e teses. Entrar no litígio não me interessava, não era a minha história e, assim,
graças ao senhor Inventário, voltei a recolocar o Cartografia II na perspectiva de uma parte
importante das reflexões, mas não central, desta dissertação.

Inventário, fundamentalmente, é uma droga!

O guardado dos outros é sempre interessante, você vai criando a criatura/fato inventariada a
cada descoberta.
Mas o SEU inventário é um horror!
você se vê frente ao seu passado pelos seus restos, sem o seu arsenal de desculpas que
rodeavam o dado, o resto, o detalhe importante que...
230
Meus cadernos de escola!
nunca joguei fora um caderno e nem guardei;
eles desapareceram da minha vida, ou vista, em algum momento por obra do Saci, do
espírito santo ou de minha pessoa, que pode ter perdido, ou, em algum momento de lucidez,
230
jogado fora;
meu pai guardou alguns cadernos meus da adolescência e só os resgatei faz três anos;
tem gente que é assim na nossa vida, além de nos dar a vida vai nos entregando umas partes
que a gente deixa pelo caminho...
são os textos que tenho, escritos entre 1965 e 1973 quando tinha de 11 a 19 anos.
O horror é/foi descobrir que meus cadernos são iguais aos de hoje:
os escritos não têm um foco, um assunto, uma matéria;
são partes de diários misturadas com equações, redações, poesias, recados, contas de
supermercado;
trazem gostos e sabores, ou seja, derrubei café, queimei com incenso, virei as folhas com
creme nas mãos ...
nem Champollion nem eu conseguimos decifrar 100% dos caracteres, mas se
constituíram de informações valiosas para triangular com meus escritos da especialização e do
mestrado sobre minhas escol(h)as.
Para me defender dessa desorganização, meus trabalhos para as matérias do mestrado trazem
resumos do que foi feito e lido na aulas e se tornaram uma material interessante, complexo e
completo, sobre minhas reflexões desse período.

Catálogos de reflexões
Iniciei com o que encontrei em pequenos arquivos-catálogos de reflexões encontradas nas
produções do GEPEC sobre memória (memorial), inventário e sobre o próprio grupo. Minha
leitura dessa produção toda do GEPEC sempre foi mais nesta direção: em saber o que a pesquisa
provocou no pesquisador-autor e não exatamente qual foi a experiência pesquisada. Esses
arquivos mostram a maturação de algumas idéias dentro do GEPEC, como as dos silêncios,
deslocamentos do olhar, cotidiano, franjas-brechas-margens-interstícios, entre-lugares de vários
nomes, novela e romance de formação, memória, memorial e narração, como se tornar um autor
sem deixar de ser professor.

Para um inventário das ausências e das emergências


Como já declarei, minha dificuldade não está em guardar, coletar é comigo mesma, mas na hora
de inventariar, aí começa meu drama! 231
Como juntar os montinhos?
por tempo! qual?
o linear, cronológico, por data?
mas algumas experiências são tão irrelevantes, tão triviais... OPA! será?
231
Iniciei um exercício diferente com meus guardados a partir do contato com o texto Para uma

sociologia das ausências. Minha grande base para as infindáveis listagens foram os caminhos
trilhados impressos na produção do GEPEC. O inventário da tese da Corinta é interminável e,
por força de seu tamanho, vai criando novas formas de apresentar esse material. Neste sentido, a
dissertação, mais do que a tese, de Adriana Dickel é um grande exemplo de organização deste
tipo de material, mas é Jacqueline de Fátima dos Santos Morais, em 2006, com a tese Percursos
de uma experiência de formação continuada: narrativas e acontecimentos, orientada pelo
professor Guilherme, que vai condensar este caminho. Além de mostrar como este assunto é
abordado e resolvido em algumas produções (de Adriana Varani, Maria Emilia Lima e Renata
Cunha) ela dialoga com Morin para superar os riscos - incompletudes, contradições, imprecisões
- de uma arqueologia de documentos.

Procurei fazer e pensar o meu inventário a partir destes ganhos de reflexão que Jacqueline e
outras pesquisadoras do GEPEC escreveram, mas a partir da leitura do texto Para uma sociologia
das ausências, passei a reolhar meus guardados de outra forma, tentando enxergar o que faltava

neles, o que não guardei, o que não encontrei, o que ausentei, transformando em categorias de
meu inventário as ausências e emergências dos meus catálogos:
quais foram as coisas silenciadas?
as pistas que estão por perto, mas parecem não se encaixar em nada, é um recado de
pouca importância, mas que guardamos, guardamos... por que guardamos?
as experiências ausentes foram silenciadas porque não soavam modernas, bonitas,
contemporâneas ou oficiais?
experiências discentes silenciadas, como as relatadas no Grupo de Terça, Confissões de
professor: a primeira indisciplina a gente jamais esquece... como aluno! ou nas Pipocas

Após o exame de qualificação tentei suprir algumas das ausências detectadas e escrevi textos
que parcialmente dão conta das ausências que relato a seguir.

Primeiros silêncios, primeiras ausências


1. Silenciei no meu seriado de formação sobre os cursos rápidos de música, oficinas, cursos de
férias que são extremamente formativos na minha vida de músico. O esfacelamento do ensino 232
de música e a falta de professores adequados a um ensino mais específico são alguns dos
motivos que levaram os profissionais da minha geração a se formar tendo como grande suporte
de aprendizado os cursos e encontros de férias. Em geral é a oportunidade de suprir as carências 232
da formação normal, carências tanto de qualidade, quanto de quantidade, de outros aspectos da
música.
Fiz uma infinidade de pequenos cursos de artes em geral ou cultura popular e até de poesia
(letra de canções). Dos cursos rápidos de música, fiz de música gregoriana à de vanguarda,
bateria de escola de samba, maracatu, mas nunca pensei na forma com que estava se dando ali a
educação, não os incluí nestas reflexões como fiz com todos os meus cursos oficiais!
por que não me lembrava?
por que não pensei neles como gestos de educação importantes na minha vida, se sei
que foram?
Assumi as falas e gostos do Lattes?

2. Outro silenciamento é o da religião.


é grande o número de pessoas que regulam sua vida - ética, moral - por sua religião,
reproduzindo seus ritos ou parte deles e renovando sua fidelidade por meio de batismos ou
outra confirmação de fé;
se isto tem esta importância, influencia na sua visão de mundo, nos caminhos que as leva
à educação e como nela caminham, por que pouco disto encontramos nos memoriais?

3. Outro silenciamento é o dos conflitos raciais, algo a que sempre fui muito sensível. Minhas
fotos do primário me lembraram da ausência de crianças negras; era uma escola municipal, de
um bairro com muitas crianças, só uma aparece na foto. Na adolescência, na época dos Panteras
Negras e Angela Davis, as reflexões sobre racismo cresceram e foram sempre um dos meus
focos, alimentado por novos olhares da mídia como as reportagens sobre isto da revista
Realidade, que mostravam o Brasil que eu via e não o contado.
Ótimo, não?
E por que isto não aparecia no meu inventário? Porque guardava isto em silêncio?

Só a partir das reflexões provocadas texto de Boaventura é que me dei conta dessas ausências e
acrescentei os textos Ciranda de Textos, Saia Justa e o ―causo‖ da professora com minha
coleguinha negra do segundo ano e as abordagens sobre religião.

emergências 233
O que seria um inventário de emergências? Ainda não sei bem, mas talvez seja como pequenos e
recentes sinais, pegadas numa direção possível; um cheiro de um possível inédito viável, um
Ainda-não.
233
Uma reflexão sobre os guardados mais recentes, uma reflexão quase sobre o que se deveria
guardar, inventário a priori, do que viveremos.

Vejo o trabalho no Maracatuca, grupo de maracatu de baque virado do qual faço parte, como
parte das emergências não relatadas ou pouco relatadas. É formado por pessoas ligadas à área
de Humanas que buscam o maracatu sobretudo como uma diversão, um laser cultural e
acabamos encontrando outras motivações. O maracatu virou a forma de conhecer melhor o
Brasil, nossas culturas, para nos comunicarmos com outras pessoas. Quando tocamos num
assentamento do MST – Movimento dos Sem Terras – é o som que sai das alfaias e abes que nos
leva para perto das pessoas, são nossas pontes, nosso terreno comum.
Conforme o João Guedes, antigo apitador do grupo:‖ Não é você que escolhe o maracatu, é ele
que te escolhe...‖
O grupo começou na Unicamp, fruto de um trabalho que tem suas origens na Casa de Cultura
Tainã, e depois saiu de lá buscando a comunidade, os bairros do distrito. Atualmente grande
parte dos membros trabalha com educação social. É grande a procura de educadores com
alguma formação artística, com outros conhecimentos que possam ajudar na conversa com
segmentos marginalizados da sociedade.
Os ex-alunos de música, mesmo de licenciatura, acabam não sendo capacitados para estas
funções porque seus cursos não têm matérias com foco para a área social.
Os ex-alunos de ciências sociais, mesmo sem conhecimento prévio de música, entram nos
grupos de capoeira, maracatu, samba, danças e vão se qualificando para assumir as funções de
educador-artista social.

Qual será o território de ensino dos alunos das licenciaturas em música?


Estas experimentações no inventário - pensar o que não está ou o que aparece como indício - são
frutos ainda de uma reflexão inicial, de uma possível forma de pensar a formação, tendo como
base o não documentado, o que não deixou rastros fora, só dentro.

234

234
2. Adeus Morena

Adeus, morena Tem a barra de lamê


Para o ano se Deus quiser Tem as pontas muito finas
Eu quero bordar seu nome Tem o couro muito lindo
Na aba do meu chapéu Quem bordou foi a menina
("Barra de Lamê", de Cacau)

Final da nossa última conversa...

[18:39:09] e-Boa — o que estou à procura é do reencantamento da vida.[...] eu procuro o

reencantamento, que já não pode ser só pela arte, não pode ser só pelas ciências sociais – talvez

pelas duas, juntas, seja possível. Mas não é trabalho de um artista ou de um sociólogo só. É um

trabalho de gerações, de jovens, de muita gente que queira agarrar nessas idéias e frutificá -las de

uma maneira ou outra 235


[18:39:07] gloria — e as histórias curtas e os poemas, está escrevendo?

[18:39:09] e-Boa — vou articulando com a minha vida profissional, porque trabalho
235
fundamentalmente como sociólogo, e portanto o ritmo dessa escrita é totalmente subordinado a

um outro ritmo. Não posso prever quando é que vou fazer. Vou avançando aos poucos. Neste

momento, tenho ainda outros projetos além desses. Estou a escrever rap, por exemplo. Vamos

ver o que é que dá. 255

[18:39:17] gloria — Rap? uau! então tomo coragem e mostro duas músicas. É uma (con)fusão, algo
entre um rap meio funk e o baque e jeitão de uma loa de maracatu. Fiz em parceria com você, mas
sem você saber. Chama-se Rapracatu, e vai na levada do ―baque das ondas‖, o baque do maracatu
nação de baque virado Porto Rico, lá do Pina, Recife. A outra foi em parceria com você, o Paulo
Freire e a minha pessoa, é um Cacuriá. Vai ouvindo..

255 SANTOS, Boaventura de Sousa (2005a). SCHWARTZ, Christian. Escrita INKZ – anti-manifesto para uma arte incapaz
O MOVIMENTO DO MUNDO (cacuriá)
glóra, Paulo Freire e e-Boa
Arrudiei, arrudiei, arrudiei,
Arrudiei e o que eu encontrei
Eu encontrei uma garrafinha no chão
Arrudiei o mundo na contramão. (refrão)
Eu estava na praia do Seixas
Procurando um lugar pra poder cantar
Eu encontrei um monte de lixo
Um monte de vida para reciclar.
(refrão)
Colocaram uma cerca na praia
Eu acho que é pro mar não poder passar
Se encontrar uma cerca na minha vida
Eu faço como ele e vô travessar
(refrão)
No mar você pode confiar 236
A água que vai é água que vem
Em gente é difícil acreditar
Nem sempre quem vai depois vem.

Vai, vem, vai, Vai, vem, vai, 236


Vem, vai, vem Vem, vai, vem
Vai, vem vai, Vai, vem, vai,
Vou pro mar buscar meu bem. Vai, vem vai, vou mudar isso também

O mundo não é, o mundo está


O mundo não é, o mundo está
A gente pode mudar
Possibilidade faz mudar

O mundo não é. O mundo está


O mundo não é. O mundo está
A gente pode mudar
Possibilidade faz girar
Possibilidade faz brincar
A possibilidade é o movimento do mundo!
Repracatu
- um rapfunk no baque do maracatu -
(março de 2010) letra: e-Boa e gloria

Tenho o direito de ser igual / Tenho o direito de ser diferente (bis)


Preciso de terra, de teto, de escola,
Saúde e comida como toda a gente (bis)
Mas também quero diversão e arte
Amor e carinho por toda parte (bis)

Posso ser igual, posso ser diferente / Posso me tornar muito mais consciente, (bis)
Você tem sua fala, sua cara, seu jeito
História pra contar, histórias pra eu ouvir
Mas eu tenho minha fala, minha cara, meu jeito
História pra contar daquilo que eu vivi

Posso ser igual, posso ser diferente / Posso me tornar muito mais consciente, (bis)
Tenho o direito de ser igual
Quando a diferença discrimina é maus
Tenho o direito de ser diferente
237
Quando a igualdade excluir minha gente.

237
A península parou. Os viajantes descansarão aqui neste dia, a noite e a manhã
seguinte. Chove quando vão partir. [...] A viagem continua.

[...] Voltei, é a sua história, alguém há de querer contá-la um dia. Os homens e as


mulheres, estes, seguirão o seu caminho, que futuro, que tempo, que destino. A
vara de negrilho está verde, talvez floresça no ano que vem. (Saramago, final)

Linda morena, diga adeus que vou -me embora


Se você não vem comigo, você vai ficar chorando
Vou embarcá de camarote, meu navio tá no cais me esperando
Venha vê como é bonito o mar, quando o dia vem raiando.
(Boi de Morros)

ê Boi! e-Boa!
ê Boi! (todos agradecem e saem de cena)

FIM
4. Referências Bibliográficas

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VIANA, Hermano. Manifesto Pós-caipira. Disponível em
http://www.oocities.com/violaeletrica/manifesto.htm. Acesso em 6 de junho de 2010.
VICENTINI, Adriana Alves Fernandes; FARIAS, Maria Natalina de Oliveira; SADALLA, Ana Maria Falcão de
Aragão; PRADO, Guilherme do Val Toledo (Orgs). Professor-formador: histórias contadas & cotidianos
vividos. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2008.
247
VIEIRA, Inês Henrique dos Santos (2004). Educação continuada à margem. GEPEC: formação
acontecendo nas brechas das instituições escolares. 2004. 103 f. Dissertação (Mestrado em Mestrado)
GEPEC, Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, 2004.
247
5. Referências Musicais

Boi

Chico Maranhão (São Luis)


Guarnece batalhão, guarnece (http://www.chicomaranhao.com)
Humberto Barbosa Mendes (Boi de Maracanã)
Peço a Deus. CD Guarnicê, do grupo Mundaréu.
Batalhão de ouro, chegou a hora.
Adeus Morena vou me retirar
Maranhão, meu tesouro, meu torrão
Coxinho (Boi de Pindaré)
Guarnicê /Bandeira Branca - CD Guarnicê, do grupo Mundaréu.
Urro do Boi - CD Guarnicê, do grupo Mundaréu.
Pedro Duque (Boi de Pindaré
Itaércio Rocha (Curitiba e Rio) - Cutuca rapaziada
Graça Reis (São Paulo, Boi Cupuaçu) - Levantando Poeira – CD Toadas de Bumba-meu-boi.
248
Disponível em http://caracol.imaginario.com/beloboi/grcupuacu.html. Acesso em 19 de julho
de 2010.
Cacau São Paulo, Boi Cupuaçu) - Barra de Lamê. CD Toadas de Bumba-meu-boi. Disponível 248
em http://caracol.imaginario.com/beloboi/grcupuacu.html. Acesso 18 de julho de 2010
Wlademar Henrique - Boi-bumbá . Disponível em
http://www.mpbnet.com.br/musicos/waldemar.henrique/letras/boi_bumba.htm. Acesso em
13 de julho de 2010.
Boi de Morros – Linda Morena - CD Guarnicê, do grupo Mundaréu.
Teté – Choro da Lera – CD Cacuriá de D. Teté. Produção: Laborarte. Disponível em
http://letras.terra.com.br/cacuria-de-dona-tete/779710/. Acesso em 18 de julho de 2010.

Outras

André Abujamra - Alma não tem cor. http://glaucocortez.com/2010/04/04/da-serie-obra-


prima-alma-nao-tem-cor-de-andre-abujamra-no-karnak/ Letra e vídeo do André com o Karnak
e do Chico César.

http://www.mocambos.net/.
Antônio Carlos da Silva (TC) - Pulsar. Disponível em
Caetano Veloso - Canto do povo de algum lugar,

Capiba e Lui Coimba – Minha Ciranda. Disponível em http://letras.terra.com.br/lui-


coimbra/495691/. Acesso em 18 de julho de 2010.

Chico Buarque
Cotidiano
Todos juntos , canção do musical Os saltimbancos de Enriquez - Bardotti e Chico
Buarque, 1977. Disponível em http://www.chicobuarque.com.br/letras/todosjun_77.htm
Acesso em 15 de maio de 2009

Chico Science
Um passeio pelo mundo livre, de Chico Science. Disponível em
http://letras.terra.com.br/chico-science/268824/. Acesso em 13 de julho de 2010.
Lixo do Mangue, de Chico Science. Disponível em http://www.letras.com.br/chico-
science/lixo-do-mangue. Acesso em 13 de julho de 2010.
Siba - Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar. Disponível em
http://letras.terra.com.br/siba-fuloresta/1269410/. Acesso em 13 de julho de 2010
249
Gilberto Gil
Oriente. (1971) Disponível em
http://www.gilbertogil.com.br/sec_discografia_obra.php?id=112. Acesso em 31/08/2009
O eterno deus Mu dança! (1989). Disponível em
249
http://www.gilbertogil.com.br/sec_discografia_obra.php?id=352
Louvação. parceria com Torquato Neto (poesia). Disponível em
http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaBrasileira/VanguardasPoeticas/Torquato_Neto
_poesia.htm. Acesso em 1 de junho de 2010
Jeca Total. Disponível em http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_info.php?id=118&letra.
Acesso em 24 de junho de 2010.
Haiti, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Glória Cunha e Boaventura de Sousa Santos – Repracatu.

Milton Nascimento e Torquato Neto - Travessia

Oswaldo Montenegro - Metade. Disponível em http://www.vagalume.com.br/oswaldo-


montenegro/metade.html. Acesso em 18 de julho de 2010
http://www.vagalume.com.br/oswaldo-montenegro/metade.html.
ANEXOS

1. Listagem das Pipocas pedagógicas, de abril a novembro de 2008,


para a lista do Grupo de Terça
ordem alfabética de autor
Ana Maria Campos O previsto, o acaso e o tempo que passa 11/11
Ana Maria Campos Que fazer? 27/10 Dilemas de professor
Ana Maria Campos Como se comemora a memória?‖ 31/08 Reflexões (3 Pipocas)
Cris Eu sei, você sabe, ela sabe 07/05
Cris Eles são igualzinho a Gente! 10/05
Cris Agora qualquer distancia é longa 21/05 Técnica
Cris Vão tirar uma letra meu nome 25/05 Técnica
Cris Você não assistiu o Jornal Nacional!?! 27/05 Técnica
Cris Pirada nâo pirata 29/05
Cris Profa. Tem muito ―A‖ aqui, cê num 6/06 Técnica
acha?!!!
Cris Get up/sex machine 12/06 xiv
Cris O Herói da Semana 24/08 Eleição
Cris Super naomi 25/08 Esperar crescer
Cris Por um triz 27/08
Cris Pipocas poéticas 12/09 xiv
Cris Arruma outro cochip (Só existe em 13/10 N
Sedna)
Cris Pipocas do Coração 06/11
Cris Eu contei pra S! 12/11 Unicamp/ corresp.
Cris O Fantástico Mistério de Feiurinha 12/11 Quem é Cris / difer.
Cris Prô eu também ―so‖ robô!!! 13/11 Unicamp/ corresp.
Cris 10 coisas boas pra se fazer na Terra 14/11 Transição
Cris Eu te adotei! 17/11 Carinhos
Cris Tudo quanto... 24/11 Saudades (21 Pipocas)
Cris Tacones lejones 31/08 Palavras novas
Emile Alunos & profs 09/12 (1 pipoca)
Gloria * Relato de uma aula * * 21/10 Saudades
Gloria Que mão dona? 0505
Gloria Pipoca molhada 21/10
Gloria O griladinho 06/10 Saudades (4 Pipocas)
Guilherme Pipocando 31/08 (1 pipoca)
José Ant. de Oliveira As borboletas precisam ser soltas 12/05 Dilemas do professor
José Ant. de Oliveira Na despedida do mês de julho, vidas 31/07 Cotidiano e currículo (2
entre a multidão Pipocas)
Kátia-griot Pipoca: sentidos (tato, olhar) 18/10 Magias (1 pipoca)
Liana De estorvo a inspiração 05/06
Liana Pipoca encruada 15/06 (2 pipocas)
Luciana Super parabéns inteiro! 17/06 Freinet / publicada
Luciana Uma pipoquinha universa! 29/05 (2 pipocas)
Mafê Brincando com Manoel de Barros 13/06 Reflexões
Mafê Pipoca em branco e preto 13/06
Mafê Conversando com mamães 29/09
Mafê Sobre leitura – livro de recortes de jornal. 29/09 Técnica (4 Pipocas)
Marcemino Humildade 17/06
Marcemino Fascismo ilustrado 30/08
Marcemino Escolástica 24/06
Marcemino Pipoca costurada 18/08 Costurando os escritos
de aluno
Marcemino Prova 23/8
Marcemino Pátria amada 06/09
Marcemino Bilhetinhos:pipoca da intransigência 09/09
Marcemino Anarquia 24/09
Marcemino Anarquia (parte 1) 14/10
Marcemino ―Aconteceu comigo‖ 04/11
Marcemino O previsto, o acaso e o tempo que passa 09/11
Marcemino Equívocos 15/11
xv
Marcemino Causo rápido 24/11 (13)
Marcemino Tempo 21/09
Natalina Ô Diretora, ninguém, nós não
agüentamos mais...
28/05 xv
Rosaura Não confie em Pipoca com mais de ... 27/08 Micro-contos
Rosaura Paulistanas naturalmente invasivas 29/04 Preconceitos(2 Pipocas)
Tâmara Carta- pipoca 25/09 (! Pipoca)
Vivian Diz ai, eu mereço ?!? Preconceitos
Vivian Afinal? Quem é o autor? 28/05 Comunicar (2 Pipocas)
Wilson Idosos dos Tempos Modernos 20/05 Preconceitos

Wilson Pipoca indigesta 23/06


Wilson Pipoca escandalosa 31/08
Wilson Pipoca cordel (4 pipocas)
2. Atas principais, textos, reflexões e debates – de abril a novembro de
2008, enviados para a lista do Grupo de Terça

Pessoa Objeto Data O que


Marcemino Ata 0104 01/04 Ata de reunião – inicio da contação
de causo
Ata 0310 03/10 Ata de reunião
Cris Ata 10/06 10/06 Ata de reunião
Gloria Ata 15/04 15/04 Ata de reunião
Marcemino Ata 1504 15/04 Ata de reunião / palpites
Ata 2309 23/09 Ata de reunião
Liana 29/04 Ata de reunião
Liana Li-indisciplina 10/09 Reflexões e debate
Emile, Glória Reflexões sobre entonação e Debates
Pipocas
Wilson Reflexões sobre PIPOCA 13/09 Reflexões sobre escrito

Gloria Pesquisa para confissões Cartilha Caminho Suave e penitência


Rosaura Contrato didático 13/04 Texto público
Rosaura Breve caracterização de Texto público xvi
alguns gêneros narrativos
Ana Aragão Indisciplina / texto 10/04 Texto publico sobre indisciplina

Ana Maria
Campos
Texto / Madrigal Melancólico
Manuel Bandeira
xvi
3. Guardados da Glória

LOCAL dos guardados em papel


Caixas: Marrom, Amarela, Rosa
Pastas – P1, P2

TIPO de material
Material Escrito – original / cópia xérox ou impressa / caderno / fichas / anotações / partitura/
carta/e-mail / pauta de reunião
Caderno – Diário, Escolar
Folha solta
Documentos Oficiais - Certificado de conclusão, boletim, relatório, currículo, currículos, listas de
presença, projetos de mestrado, projetos de curso etc
Publicações – livros, jornais, programas, sites
Trabalhos DISCENTES – meus e de alunos
Textos sem publicação – plano de cursos, rascunhos, rabiscos e desenhos
xvii
TIPO de conteúdo / Personagens
ALUNA (Ad As)
Estudo FormaL (EFd EFs);
xvii
Fundação das Artes e estudos musicais ( FAd FAs);
Unicamp Fac. de Educação Especialização (U FE Ed U FE Es)
Unicamp Fac.de Educação Mestrado I – GEPEC I (U FE M Id U FE M Is)
Unicamp Fac. de Educação Mestrado II – GEPEC II (U FE M IId U FE M IIs)
PROFESSORA (Pd Ps)
Departamento de Música – Unicamp
Unibanda - Unicamp
Livro
Outros
GESTORA (Gd...Gs)
Pró-Arte
SME
OSMC
OUTRAS (Td...Ts)
Trupe
Outros
Observação: em todos eles observar que é sempre dois tipos de cada um dos descritos acima;
posso ter um dado DAQUELE período ou classificação qualquer ou um dado SOBRE AQUELE
período ou classificação;

TIPO de material
Material Escrito – original / cópia xérox ou impressa / caderno / fichas / anotações /
partitura/ carta/e-mail / pauta de reunião
Documentos Oficiais - Certificado de conclusão, boletim, relatório, currículo, currículos, listas de
presença, projetos de mestrado, projetos de curso etc
Publicações – livros, jornais, programas, sites
Trabalhos DISCENTES – meus e de alunos
Textos sem publicação – plano de cursos, rascunhos, rabiscos e desenhos

SUPORTEs:
Papel Impresso / Papel Outros
Digital Disquete, Site, Outros
Material Audiovisual xviii
visual – fotos, slides
áudio - fitas k7, cd...
audio-visual – filmes
Material Outros
xviii
CÓDIGO ANO Arq.
Micro
M.P1.EC1 1965 primeiro diário;
RP.D 1966
M.P1.EC2 1966 2º.C Vespertino – poesias
RP cópia da poesia Barões da terra (GRUMASA) que deve ser de 1968
M.P1.EC3 1967 3º. ginasial Barcelona, inauguração do colégio, dona Hermelinda, irmã
RP.D , redação, bailinhos, a escola era o centro da vida, fanfarra, teatro,
Bienal. desfiles; virei adolescente! sai do piano e entrei no teatro
M.P1.EC4 1968 cópia das resoluções do II Congresso da UNE – Diário deus; o caderno
RP.D tem de tudo um pouco; ata da fundação do Centro acadêmico
morte de Bob Kennedy
M.P1.EC5 1969 Viagem a Caxias do Sul; peça de teatro
RP.D
M.P1.EC6 1969 Chegada à Lua / Fascs
RP.D texto desabafo de 1973 no caderno
M.P1.EC7
RP.D
M.P2.E 2005 Histórico Escolar meu no curso Especialização em Ciência, Arte e
RO. 1 Prática pedagógica, da faculdade de Educação da Unicamp.
M.P2.ES 1996 Zezinh avaliação do primeiro semestre da Especialização
RP.te1 1º.s a3
M.P2.ES 1996 Helena análise do texto A face oculta da Escola, Mariano Fernández Enguita,
RP.te2 1º.s 1 capítulo 6 e 7. Escrito sobre a consciência da prática e militância.
M.P2.ES 1996 Helena a partir do texto organização do trabalho pedagógico escrevi um
RP.te3 1º.s 2 primeiro texto sobre o Ginásio da Vila Barcelona e Maria Salete
M.P2.ES 1996 Luiz1 Inicio de uma análise sobre a formação do professor de música no
RP.te4 1º.s Brasil é título do escrito; FASCS, inicio da vida profissional, Cuba
M.P2.ES 1996 Luiz2 é um rascunho do trabalho anterior, mas tem uma parte do texto
RP.te5 1º.s diferente e interessante
M.P2.ES 1996 Roseli1 nossos roçares da língua de Luiz de Camões. Língua opaca, primeiras
RP.te6 1º.s comparações entre a língua e a música e aula como performance
artística;
M.P2.ES 1996 Corinta relato de uma aula-ensaio da Unibanda; não tem anotação do que é,
RP.te7 1º.s ??? mas me recordo que foi a primeira tarefa que a Corinta me deu!
PerplexidadesI
M.P2.ES 1996
RP.te 1º.s
M.P2.ES 1996 Zézinh ETA semestreinho complicado, sô!! avaliação do semestre
RP.te10 2º.s a2
M.P2.ES 1996 Ernesta sobre Lógica histórica e outras lógicas
RP.te11 2º.s 2
M.P2.ES 1996 Ernesta sobre o filme de André Delvaux A obra em negro, do livro de
RP.te12 2º.s 1 Marguerite Yourcenar
M.P2.ES 1996 Célia1 sobre o livro Da camiseta ao museu de Yara Peregrino
RP.te13 2º.s xix
M.P2.ES 1996 Célia2 sobre Multiculturalismo
RP.te14 2º.s
M.P2.ES 1997 Zézinh Reflexões do semestre
RP.te20
M.P2.ES
1º.s
1997
a1
Lilian1 releitura do texto de Enguita e novas reflexões xix
RP.te21 1º.s
M.P2.ES 1997 Lilian2 Considerações Insetológicas nada científicas; encontréis um rascuño
RP.te22 1º.s que mostra que este texto começou por causa da sinfônica e so
autoritarismo do Benito. Viva o Inventário!
M.P2.ES 1997 Lilian3 análise e comentários sobre o capítulo 1 de Máquinas de Imaginário de
RP.te23 1º.s Arlindo Machado; trabalho que dá o pontapé na monografia
M.P2.ES 1997 Zan texto publicado no Volver sobre os meus anos 60; panorama dos
RP.te31 1º.s Festivais; brincadeira com o cientista social...
M.P2.ES 1997 VOLVER – folhetim-trabalho para a matéria do Zan
RP.te32 1º.s

M.P2.ES 1997 Dario1 Capra! Teia


RP.te40 2º.s
M.P2.ES 1996
RP.te 2º.s
M.P2.ES 1996
RP.te 2º.s
M.P2.ES 1996
RP.te14 2º.s
M.P2.ES 1996
RP.te14 2º.s
M.P2.ES 1996
RP.te14 2º.s
M.P2.ES 1996
RP.te14 2º.s
M.P2.ES 1996 Célia2 sobre Multiculturalismo
RP.te14 2º.s
T. Ps1 textos e programas sobre tecnologia
T. Ps2 guardados do mestrado
T. Ps3 guardados do GEPEM – grupo que fazia parte do LABORART/textos,
xerox de livro e teses. PROJETO SONS DA UNICAMP
T. Ps4 NÃO SEI AINDA –coisas para ver se faz algum sentido depois

Material/Código Total Identificação


Marron, Amarelo, Rosa, Transparente – caixas dos guardados
P1 P2... – pastas das caixas
Ps1- pasta suspensa
E – escritos
C – caderno
S – folha solta impressa
M – folha solta manuscrita
V – registros visuais, F -foto, Q - quadro, D - desenhos
A – registro em áudio k7, LP, CD e outros
xx
RP -Registros pessoais / RA - Registros de alunos /RC - Registros de colegas?

4.2.2 Fotos Oficiais xx


ARQUIVO DE FOTOS
sem código na foto
CÓDIGO ANO
M P5 VF 1961 Nov. Foto Oficial Escolar 1º. ano com professora Anésia
M P5 VF 1961 Foto Oficial Escolar 1º. ano com turma do 1º.B meninas
negras
M P5 VF 1962 Foto Oficial Escolar 2º. ano com professora dona Alma
M P5 VF 1962 Foto Oficial Escolar 2º. ano com turma
M P5 VF 1963 Agost. Foto Oficial Escolar 3º. ano com professora
M P5 VF 1963 Foto Oficial Escolar 3º. ano
M P5 VF 1964 Foto Oficial Escolar 4º. ano com professora Gessy dos
Santos Costa
M P5 VF 1964 Foto Oficial Escolar 4º. ano com turma
M P5 VF 1968?? Formatura do Ginásio – 8 fotos
4. Minhas Escol(h)as
em São Caetano do Sul
site sobre São Caetano do Sul
http://www.fpm.org.br/fundacao.asp

Grupo Escolar, e agora EE, Dom Benedito Paulo Alves de Souza


Informações confirmadas em 15 de maio de 2009; disponível em
http://www.fpm.org.br/bairros/santapaula/santapaula.asp
O desenvolvimento do bairro foi incrementado, a partir da década de 1950, com a
construção do Grupo Escolar Dom Benedito Paulo Alves de Souza, da Igreja
São João Baptista e a constituição da Sociedade Amigos de Vila Paula, entidade que,
nos anos de 1960, lutou pela conscientização dos moradores para a construção de
passeios públicos na avenida Goiás. Nos anos de 1970, a Avenida Goiás foi
duplicada, e nos dias de hoje o Bairro Santa Paula é reconhecido por suas
características peculiares.
xxi
E.E. Idalina Macedo Costa Sodré, antigo Ginásio da Vila Barcelona
Informações confirmadas em 15 de maio de 2009; disponível em http://www.idalina.org/
A Escola Estadual Dona Idalina Macedo Costa Sodré foi inaugurada no dia 30 de xxi
Dezembro de 1968. Localizada no município de São Caetano do Sul (cidade
considerada, segundo pesquisa do Mapa da Exclusão digital no Brasil, a mais incluída
digitalmente no país).
Nossa escola é palco de grandes empreendimentos. Aqui existem o Centro de
Línguas "Maria Salete Bento Cicaroni"256 (que ministra aulas de Francês, Italiano e
Espanhol) e o CEDP - Centro Educacional para Desenvolvimento de Projetos (um
empreendimento único no Brasil), que gerencia e administra projetos científicos com
o uso de novas tecnologias na educação, participando de uma comunidade virtual
junto à Escola do Futuro/USP.

Em 1964 [...] passou a funcionar o Ginásio e Colégio de Vila Barcelona.


Enquanto isso, aguardava-se a construção de um novo edifício [...] com maior capacidade de atender
à comunidade não só de São Caetano do Sul, como também bairros próximos de Santo André e São
Paulo. [...] No dia 30 de dezembro de 1968, já nas dependências das novas instalações, à rua

256 É uma ho m en ag em p a ra a m i nh a p ro f ess o ra d e po rt ug u ês e f ra n cês q u e ci to em vá ri os mo men t os d es t es es cri tos ;


Conselheiro Lafaiete n.º 619, passa a funcionar o Colégio Estadual Dona Idalina Macedo Costa
Sodré.
Foi inaugurada [...], sob administração estadual do senhor Governador Roberto Costa de Abreu
Sodré, cuja avó foi homenageada dando nome a escola.

Fundação das Artes de São Caetano do Sul (FASCS)


Informações confirmadas em 15 de maio de 2009; disponível em
http://www.fascs.com.br/index.asp?dados=historico
Estávamos em plena ditadura militar, iniciada em 1964, e o Brasil atravessava um dos
períodos mais difíceis de sua história. Em 1968, que terminaria com a decretação do
Ato Institucional nº 5 (o famigerado AI-5, que nos afundou ainda mais no arbítrio e
na violência), o povo de São Caetano do Sul ganhou uma certeza de que a barbárie
não triunfaria: em 25 de abril nascia a Fundação das Artes de São Caetano do Sul;
inicialmente com a Escola de Música e, nos meses subsequentes, com as de Teatro e
Dança. No ano seguinte, com a Escola de Artes Visuais, completava-se o quadro que
até hoje se mantém.
xxii
em Campinas

Escola Curumim xxii


Conto meu encontro com a Escola Cooperativa Curumim no Déjame que me cuente (2º
Movimento). Freinet me levou à escola, queria para minha filha o que sabia possível desde que
havia lido sobre ele poucos anos antes.
Durante os anos de 1979 a 1983 participei bastante das atividades da escola, já que eu e minha
filha nos tornamos vizinhas dela. Inicialmente foi uma cooperativa de pais e professores, que
interrompia a assembléia para avisar que era preciso que as pessoas fossem para o aeroporto dar
suporte aos exilados da ditadura que retornavam. Tempos de esperança, de luta, com horizonte
provável de dias melhores, e muitos pais desta escola faziam parte destes movimentos de luta.
Para saber mesmo sobre esta escola leia a dissertação Cooperação e democracia na escola : a
construção de parcerias no cotidiano escolar como formação continuada, de Glaucia de Melo
Ferreira, orientada pela Corinta, onde encontro que "A história da escola é também a da
constituição da formadora e do projeto de formação que foi possível desenvolver, sendo um trabalho
com a pedagogia Freinet e não sobre ela."
Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento ao Magistério - CEFAM
Centro de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério -- CEFAM -- foi um projeto da Secretaria
de Educação do governo do Estado de São Paulo em que havia o antigo Curso de Magistério no
ensino médio em período integral com um trabalho de dedicação exclusiva por parte dos
professores.
Minha maior ligação com a unidade de Campinas foi como mãe. Daniella, minha filha, foi da
primeira turma da escola e pude observar e valorizar, deste lugar, o trabalho realizado pelo
corpo docente.
Sobre este tema o GEPEC tem na sua produção três trabalhos: a tese de Adriana Varani e a
dissertação de Maria Jose de Oliveira Nascimento, ambas sobre o CEFAM/ Campinas, e a
dissertação de Maria Natalina sobre o CEFAM/ Hortolândia, as três do GEPEC. Além destes
trabalhos, aconselho a leitura, livro e/ou tese, de Maria do Rosário M. Magnani (Em
Sobressaltos: Formação de professora. Campinas, SP: Editora da Unicamp. 1997 ), orientanda do
professor Wanderley Geraldi e professora de português da minha filha, que lhe deu o Jangada
de Pedra que ficou comigo...

xxiii
PROJETO INAJÁ
257

O Projeto Inajá, construído para formar professores leigos, foi idealizado e liderado por
educadores progressistas (locais e advindos das regiões Sul e Sudeste do país), em parceria com xxiii
secretários de Educação das prefeituras envolvidas e do governo do Estado do Mato Grosso
(MT), em convênio com a Unicamp (Camargo, 1997). A luta pela escola foi fundida com a luta
pela terra liderada pelo bispo D. Pedro Casaldáglia. Apesar dos inúmeros conflitos internos
intragrupos (nos quais não faltaram ressentimentos) e dos externos que foram permanentes na
região chamada de barril de pólvora brasileiro, o Projeto foi concluído e transformou-se numa
referência importante a outros. A Secretaria de Educação (MT) recriou o Inajá no Projeto Ger-
Ação (da zona rural e zona urbana afastada) e no Projeto Tucum, para professores-índios. Parte
dos professores formados ingressou em cursos superiores.

Graças ao convite da professora Célia Maria Castro, participei do Inajá II e coordenei a matéria
Educação Artística em 1997, na cidade de Vila Rica, Mato Grosso.
Preciso acrescentar as Pipocas desta experiência, na qual metade da turma era Tapirapé e Karajá.

257 D E R O SSI, Vera Lú cia Sa b o ng i. Proje to s pol ítico - pe dagógi cos e m anc i padores : h is t óri as a o co nt rá ri o.
5. Anexo de poemas

"Não posso evitar o ódio que têm meus pensamentos


de ir até o fim; a respeito de uma simples coisa,
surgem dez mil pensamentos milhares de
interassociações com esses dez mil pensamentos e
careço de vontade de eliminá-los ou detê-los, nem
tampouco de reuni-los num pensamento central, onde
os seus pormenores sem importância, mas associados
podem-se perder. Introduzem-se em mim; não são
pensamentos meus, mas pensamentos que passam xxiv
através de mim. Não pondero, sonho; não me sinto

xxiv
inspirado, deliro."

(Fernando Pessoa)

Todas estas palavras foram consideradas necessárias para


explicar que temos vindo mais vagarosamente do que estava
previsto, mas a concisão não é uma virtude definitiva, às vezes
perde-se por falar muito, de acordo, mas quanto não foi ganho por
ter se dito mais do que o suficiente." (Saramago, 261)

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