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SUMÁRIO
Capa
Rosto
INTRODUÇÃO
Primeira parte
APELO DO POVO DEPOIS DAS INVASÕES DE GAFANHOTOS E NAÇÕES INIMIGAS (1,1-2,17)
Título (1,1)
Invasão de gafanhotos (1,2-12)
Apelo à penitência (1,13-19)
Para reflexão e debate
Invasão de nações inimigas (2,1-11)
Apelo à penitência (2,12-17)
Para reflexão e debate
Segunda parte
JAVÉ RESPONDE AO POVO (2,18-4,21)
O Dia de Javé como fio condutor do livro
Prosperidade agrícola (2,18-27)
Para reflexão e debate
Efusão do espírito (3,1-5)
Julgamento contra as nações inimigas (4,1-17)
Para reflexão e debate
Restauração de Judá (4,18-21)
Para reflexão e debate
Coleção
Ficha Catalográfica

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INTRODUÇÃO

O tempo de Joel é de profunda crise. Seu livro tem somente quatro capítulos e crises
intermináveis. Nem sempre nos lembramos desse livro da Sagrada Escritura. Às vezes
só é lembrado por causa dos versos citados em Atos 2,17-21. No entanto, o livro de
Joel se reveste de muita importância. Quem o conhece está mais preparado para viver
e passar pela hora de crise.
Joel é um dos chamados profetas menores. Esse título não é dado porque eles são
menos importantes do que os profetas maiores, mas sim porque escreveram textos
mais resumidos, isto é, menores. Na série dos doze profetas o livro de Joel ocupa o
segundo lugar, logo após o livro do profeta Oseias e antes do livro do profeta Amós. O
livro não fornece informações adicionais sobre o autor, não comenta sobre
personagens bíblicos conhecidos nem cita fatos históricos que permitam uma datação
adequada da redação do livro. A posição do livro de Joel entre os doze profetas
menores foi por longo tempo utilizada como argumento pelos defensores de uma
redação mais antiga do livro de Joel, situando-o como contemporâneo de Oseias ou
Amós (século VIII a.C.). Aliado a isso, o fato de não ser mencionada a figura do sumo
sacerdote, que ocupava uma posição central no pós-exílio, bem como a qualidade
poética do autor, que se equipara com os autores clássicos do período pré-exílico,
também têm sido argumentos para defender uma data remota da redação do livro.
No entanto, a datação antiga do livro de Joel já é algo superado. Existem muitas
informações curiosas no livro de Joel que justificam a datação mais recente. Num
primeiro momento podemos destacar que em Joel nunca se menciona o rei; por outro
lado, o texto faz referências aos sacerdotes (1,9.13-14) e aos anciãos (1,2). Outro fato
pitoresco é que em Joel não ouvimos falar dos tradicionais inimigos de Israel, isto é,
os assírios e os babilônios. Em cena estão somente aqueles povos que mantiveram
relação com Israel no chamado pós-exílio, em especial a referência aos gregos (4,6).
Ainda devemos chamar a atenção para outro fato importante: quando no texto de Joel
se fala em Israel, ele é identificado com Judá e não mais com as tribos do Norte. O
interesse do profeta não está voltado para o Norte (4,1-2), mas exclusivamente para os
habitantes de Judá e de Jerusalém (4,1.6.19). É interessante observar que Joel parece
demonstrar relativo conhecimento da vida religiosa praticada em Jerusalém.
Possivelmente tenha exercido sua vocação profética na cidade de Jerusalém e, se assim
o for, é aos habitantes dessa cidade que ele se dirige (2.23). Não podemos ampliar o
público focado pelas palavras de Joel. Ele, certamente, não fala para todas as pessoas.
É a cidade de Jerusalém que se encontra em perigo (2,9).
Percebe-se logo que a mensagem do profeta é muito bem direcionada a uma
cidade cuja população pratica uma religião desconectada da vida. Não é a primeira
vez que Jerusalém se encontra na ordem do dia relativamente à palavra profética.
Muitos anos antes de Joel, Isaías (1,21-23) fez um retrato paradigmático às avessas de
como a cidade de Jerusalém se afastou do projeto de Javé: “Como se transformou em
prostituta a cidade fiel. Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça; agora está
cheia de criminosos! Sua prata se tornou escória, seu vinho ficou aguado. Seus chefes
são bandidos, cúmplices de ladrões: todos eles gostam de suborno, correm atrás de

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presentes. Não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles”. É
importante saber que Joel é um profeta a favor do templo, e sua proposta diante da
celebração errada que se fazia não era a extinção do templo e do culto, mas uma
celebração correta. Os textos de Joel nos levam a essa conclusão ao mostrar Javé
habitando em Jerusalém, no monte Sião, o local do templo de Salomão e de
Zorobabel. No entanto, para continuar existindo será necessário conversão e
arrependimento!
Todavia, um dos argumentos mais convincentes para a autoria mais recente é a
característica literária de Joel, em especial os últimos capítulos, que contêm descrições
escatológicas e apocalípticas.
Pode-se verificar com certa facilidade a abundância em Joel de passagens paralelas
aos livros proféticos e a outros livros do Antigo Testamento. A facilidade, todavia,
acaba nessa constatação, quando uma dificuldade entra em cena. Não há acordo entre
os estudiosos quanto a determinar em que sentido aconteceu esse relacionamento, ou
seja, se é Joel que depende dos demais, ou se são os outros profetas que citam Joel. A
tendência, atualmente, é para a dependência literária do profeta em relação aos que o
antecederam. E visto que, entre os profetas citados, aparece também Malaquias (2,11;
3,4; 3,2.23), pode-se pensar que Joel tenha escrito o seu livro depois dele.
Portanto, estamos no pós-exílio, no início do século IV a.C., e isso já nos leva a
perceber contornos especiais e específicos para Judá nessa época. É fundamental estar
atentos a essas características. Mas quais são elas?
a) Judá não é mais um reino independente.
b) Depois da queda do reino de Israel, a Samaria foi transformada em província
assíria. Os reis neobabilônicos não mudaram essa posição. Judá, por sua vez, não
recebeu um status especial, tal como uma província.
c) Jerusalém fazia parte da província da Samaria e era dependente
administrativamente da satrapia da Transeufratênia.
d) O povo de Deus se descobre como uma pequena etnia perdida nas imensidões
de um império multirracial.
e) É obrigado a se submeter a um rei estrangeiro que ditará normas e leis.
f) Paga tributo e convive com um exército de ocupação.
g) Não controla nem decide mais o seu destino.
h) Não tem esperança de independência política num futuro imediato.
i) A relação entre as aldeias (que eram as unidades produtivas de Israel) e o
império persa se realizava de duplo modo: 1) o governador persa, sediado em
Samaria, extraía tributos das aldeias; 2) mantinha o consenso social por meio do
sacerdócio de Jerusalém, provindo do exílio babilônico e comprometido, pela
sua posição, com o próprio império persa.
Província. Essa palavra já apareceu algumas vezes. É preciso, portanto, esclarecer e
enriquecer com mais alguns detalhes esse tema. A província era em si mesma
pequena. Dificilmente compreendia mais do que 2.500 a 3.000 quilômetros
quadrados. A província era ainda dividida em nove distritos sob o comando de um
oficial (Ne 3,14). O distrito, por sua vez, era subdividido em meios distritos
comandados por um oficial administrativo. Esse sistema administrativo eliminava a
importância dos antigos clãs e famílias como unidades locais. Os limites da província

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ao norte provavelmente compreendiam a linha entre Masfa e Gabaon até o rio Jordão
acima de Jericó. No sul, os limites percorriam a linha entre Betsur e Hebron. A capital
era ainda uma grande cidade, mas não estava densa e suficientemente povoada para
oferecer segurança contra os ataques dos povos vizinhos. A população de Jerusalém
nesse tempo pode ser calculada em cerca de 10.000 habitantes.
Não é um período fácil para o povo de Deus. Na verdade, é uma nova etapa que
está se iniciando. É isso mesmo: o retorno dos exilados marca uma nova etapa na
história – o tempo depois do exílio. Esse chamado “pós-exílio” se estende da volta dos
exilados (538 a.C.) até o nascimento de Jesus Cristo.
Uma época de transformações intensas. Afinal, o império persa, apesar de se
apresentar com atitudes que aparentemente respeitavam o sentimento religioso do
povo, tinha seus próprios interesses a defender. Nenhum império é benévolo por
vocação. Ao contrário, o sentimento que subjaz a um império é o da conquista e do
poder. No caso do império persa não é diferente. Podemos encontrar algumas marcas
vitais do império persa, tais como: a) comércio intenso e lucrativo; b) grandes
propriedades rurais; c) trabalho escravo (o modo de produção está em franco
processo de mudança, o tributarismo vai cedendo lugar ao escravismo, que é uma
forma mais dura e organizada de exploração dos povos oprimidos).

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Divisão do livro
Primeira parte
Apelo do povo depois das invasões de gafanhotos e nações inimigas (1,1-2,17)
1,1: Título
1,2-12: Invasão de gafanhotos
1,13-19: Apelo à penitência
2,1-11: Invasão de nações inimigas
2,12-17: Apelo à penitência
Segunda parte
Javé responde ao povo (2,18-4,21)
2,18-27: Prosperidade agrícola
3,1-5: Efusão do espírito
4,1-17: Julgamento contra as nações inimigas
4,18-21: Restauração de Judá

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Contexto socioeconômico e político
Partindo do pressuposto de uma autoria mais recente para o livro de Joel (como
proposto aqui para o começo do século IV), faz-se necessário conhecermos um pouco
sobre o império persa, povo estrangeiro que dominava o povo de Judá e uma vasta
extensão do mundo conhecido nos séculos VI a IV a.C.
No período que sucedeu ao exílio babilônico, os sistemas de arrecadação tornam-
se obsoletos, em face da nova “ordem mundial”. Não há mais templo: seu papel de
principal instrumento arrecadador de tributos havia chegado ao fim. Contudo, se o
templo perdera sua função arrecadadora, a cobrança de tributo ainda continuava
sendo um expediente de expropriação dos pobres.
Neste período o povo judeu foi subjugado pelos persas que, com uma aparente
liberdade religiosa dada aos povos conquistados, buscavam o interesse do projeto
político e econômico do imperador. Eles colocavam pessoas na liderança, como
Zorobabel, Esdras, Neemias, entre outros, mas não perdiam o controle sobre eles e
sobre o modo como cumpriam suas determinações. Para ajudar a compreender como
os judeus estavam submetidos neste período, é interessante conhecer um pouco mais
sobre esse povo.
Os persas, povo de origem indo-europeia, por volta do século VI a.C. eram
vassalos dos medos, outro grupo indo-europeu. Em aproximadamente 550 a.C., sob o
comando de Ciro, os persas se rebelaram com sucesso contra os medos, o que iniciará
uma onda de conquistas, inclusive da Babilônia. Ciro, rei persa, entra triunfante na
cidade da Babilônia. Lá encontra, entre tantos povos, uma comunidade que descendia
de cativos trazidos de Jerusalém por Nabucodonosor. Logo em seu primeiro ano de
governo na Babilônia, Ciro resolve atender a um pedido da comunidade de exilados e
promulga um edito, devolvendo ao povo de Judá os utensílios do Templo de
Jerusalém. Esse edito pode ser encontrado em Esd 1,2-4:
Ciro, rei da Pérsia, decreta: Javé, o Deus do céu, entregou-me todos os reinos do
mundo. Ele me encarregou de construir para ele um Templo em Jerusalém, nas
terras de Judá. Quem de vocês provém do povo dele? Que o seu Deus esteja com
ele. Volte para Jerusalém, na terra de Judá, para reconstruir o Templo de Javé, o
Deus de Israel. Ele é o Deus que reside em Jerusalém. Todos os sobreviventes, de
todo lugar para onde tiverem imigrado, receberão da população local prata e ouro,
bens e animais, além de ofertas espontâneas para o Templo de Deus, que está em
Jerusalém.
Possivelmente o documento tenha sido preservado em sua forma autêntica, e sua
importância reside justamente no fato de autorizar a reconstrução do Templo de
Jerusalém, pedindo às autoridades locais, os governadores da província de Samaria,
que oferecessem ajuda material para tal empreitada (Esd 6,3-5; 1Cr 36,22-23). A
atitude de Ciro é vista pelos judeus como uma interferência divina nas circunstâncias
em que o povo estava submetido. Um messias, servo de Javé, um instrumento
manipulado por Deus para defender o povo que estava sendo subjugado e explorado
pelo império babilônico. Engano do povo. Não demora muito para os judeus
perceberem que o gesto do líder persa tinha outros interesses por detrás de sua “ação

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libertadora”, conforme acabamos de ver. O tempo de Joel é o tempo do pós-exílio. É
tempo de domínio imperialista. É tempo de precariedade. É tempo de crise.
No reinado de Dario (522-485 a.C.), foram efetuadas várias reformas
administrativas, com a divisão do império em regiões denominadas satrapias,
conduzidas pelos sátrapas. As satrapias tinham certa autonomia, mas eram
severamente fiscalizadas pelos comandantes militares persas, que fixavam a quantia
de impostos de acordo com a região e supervisionavam o seu pagamento, bem como
possíveis rebeliões. Os comandantes militares, que compunham um grupo
significativo de inspetores itinerantes, respondiam diretamente ao soberano persa.
Durante o império persa, a exploração dos camponeses era dupla: dos próprios
governantes persas (externa) e dos líderes religiosos judaicos (interna). O império
persa tinha uma política de tolerância em relação à religião e às tradições culturais dos
povos conquistados. No entanto, de forma inovadora para a época, os líderes
religiosos eram obrigados a pagar taxas, que eram cobradas de suas comunidades
subordinadas. O que demonstra que tal prática não significava respeito pelas crenças
dos povos dominados, mas sim uma forma de fortalecer o império e os interesses
próprios dos governantes persas.
Por outro lado, a Síria-Palestina era marcada por uma economia baseada na vila,
onde os camponeses extraíam os suprimentos agrícolas para sustentar o modo de vida
da elite urbana e para manter a infraestrutura persa. Outra inovação dos persas foi o
estabelecimento do valor de tributo em ouro e moedas, diferente dos impérios
dominadores anteriores, que aceitavam uma parte dos produtos da agricultura e
rebanhos como forma de pagamento. Emerge, nesse período, a cunhagem da moeda e
sua acentuada utilização na economia.
Durante o domínio do império persa, Judá foi um dos territórios mais pobres e
com menor população entre os povos conquistados. Judá estava na categoria da
satrapia “além do rio” e, por isso, obrigada a pagar tributo, além de fornecer ao
império taxas fixas de cereais, animais, armas, recursos humanos e alimentação para
tropas do exército persa. O povo tinha certa liberdade religiosa, mas era subjugado
com pesados tributos e taxas para manter o poder central do império persa.
O modo de produção tributário caracterizava a forma de organização social dos
persas. O modo de produção é uma representação simplificada das diversas formas de
organização social, um instrumento de análise e interpretação de uma determinada
realidade social. Trata-se de uma forma de organizar a produção da vida material que
molda a organização social, política e jurídica, sustentada por uma ideologia que
justifica o status quo. Consiste no conjunto de atividades econômicas predominante
em determinada época. Por isso, para identificar o modo de produção é necessário
identificar três elementos da base econômica: a) a mão de obra; b) os meios de
produção; c) quem se apropria do produto gerado. Toda a organização social, política
e ideológica de determinada sociedade depende destes três fatores e de sua
articulação.
No mundo bíblico podem ser identificados três modos de produção: a) o tribal; b)
o tributarista; c) o escravista. O quadro abaixo resume os três modos de produção:
TRIBAL TRIBUTARISTA ESCRAVISTA

Economia de partilha Baseado em impostos e tributos Economia que reduz tudo a mercadoria

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Troca de serviços Economia dominada pelos reis, dignitários da corte, chefes do exército, Surgimento da classe de homens livres que não
Não há comercialização de sacerdotes chefes do templo, grandes comerciantes e proprietários de terra trabalham e têm a subsistência garantida
produtos Exercício da política e da economia a partir da cidade, com apoio do exército e Mão de obra permanente de escravos
Valorização do coletivo do templo Terra como propriedade privada
Terra como um bem comum Maneiras de pagamento de impostos: produtos, moeda ou dias de trabalhos Excedente de produção pertence aos
Apropriação do produto em base forçados proprietários de terra
igualitária Excedente da produção pertence à minoria dominante Economia mercantil suficientemente
Intercâmbios comerciais quase Divisão de grupos sociais (exploradores e explorados) desenvolvida, inclusive de escravos
inexistentes Intercâmbios comerciais com outras regiões
Sem estrutura de classe (excedente)
Excedentes de produção são O valor do escravo tem como base o corpo e a
revertidos em favor do povo capacidade de produção
Terra, pastagens e rebanhos são
propriedades do clã ou da tribo
Condição para uso dos meios de
produção: pertença à comunidade.

A segunda exploração que a comunidade judaica sofria se dava por meio dos ricos
comerciantes ligados às famílias dos chefes dos sacerdotes, que controlavam o Templo
e eram responsáveis por arrecadar os impostos, estipulados em ouro, e que deviam ser
pagos em moeda. Os camponeses eram obrigados a utilizar esse sistema de câmbio
para transformar seus produtos em moeda para pagamento dos impostos. A
tolerância religiosa e cultural dos persas favorecia a aproximação e a cumplicidade dos
líderes e religiosos das nações subjugadas, cúmplices da exploração que levou um
significativo número de pessoas da população à pobreza, miséria e escravidão.
Fica evidente que os líderes religiosos da comunidade tinham interesse no sucesso
do sistema, pois nesse período o Templo passou a ser o centro econômico, político e
religioso do país, fazendo dos seus controladores homens cada vez mais poderosos.
Além dos tributos repassados ao império persa, ainda retinham uma parte para o
próprio Templo, onerando ainda mais os camponeses e o povo em geral.
O império persa sugava a vida do povo, e tudo era feito com a anuência dos líderes
religiosos judeus, que participavam do sistema e podem ser vistos como cúmplices e
executores dessa política de morte. Os sumos sacerdotes e seus familiares, com o
controle do Templo, tornavam-se cada vez mais poderosos e dominadores. Eram os
executores das diretrizes ditadas pelo império persa, mantendo no próprio Templo
uma parte dos produtos arrecadados e vendendo a outra parte para pagar tributo aos
persas.
Ne 5,1-19 descreve a situação de miséria desse período, que resultou em um
protesto generalizado dos pobres e miseráveis, principalmente das mulheres. O
principal problema dos camponeses era o tipo de relação comercial com o rico, que
emprestava dinheiro ao pobre com juros exorbitantes, levando-o à situação de
miserabilidade e fome. O sistema tributário persa, na realidade, teve a função de
acentuar mais ainda uma situação de exploração que já existia na relação de classe da
sociedade judaica. Aquele que era conhecido como povo de Deus exercia, na prática, a
dominação e a exploração dos menos favorecidos. Em especial, o camponês era quem
enfrentava a maior dificuldade, pois, independente da dificuldade, era ele o maior
penalizado. Uma grave crise social surge em Judá, onde os pequenos camponeses
estavam perdendo suas casas e se aprofundando em endividamentos a ponto de
perderem seus próprios filhos, que estavam sendo sujeitados à escravidão e opressão.
Dentro do grupo de camponeses, surge em Ne 5,1-2 outro subgrupo ainda mais

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oprimido e indignado, o subgrupo das mulheres: “O povo pobre, sobretudo as
mulheres, começou a protestar fortemente contra seus irmãos judeus. Uns diziam:
fomos obrigados a vender nossos filhos e filhas para comprar trigo, e assim não
morrer de fome” (Ne 5,1-2). A menção das mulheres nestes versículos não é por
acaso. Na realidade, na obra de Esdras e Neemias, por mais que ela seja reconhecida
pelos textos bíblicos como uma excelente obra, as mulheres não tinham voz nem
espaço. Mas elas não se acomodam a esta situação e mostram sua voz, indignadas com
sua situação de penúria e sofrimento. Durante a construção do muro de Jerusalém, os
homens foram convocados para o trabalho e as mulheres ficaram sozinhas
conduzindo as atividades na terra em estado de miséria. Além de não terem alimento
suficiente, seus filhos e filhas estavam sendo penhorados pelas dívidas e
transformados em escravos e escravas. As filhas estavam em situação pior, pois eram
exploradas sexualmente pelos seus senhores. A exploração sexual é, certamente, um
dos temas abordados por Joel.
Dessa forma, fica bem evidente a situação de pobreza, doença e opressão que
sofriam os camponeses judeus neste período, vítimas de um sistema imperial
estrangeiro que gozava da cumplicidade dos líderes religiosos do próprio povo.

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Primeira parte
APELO DO POVO DEPOIS DAS INVASÕES DE GAFANHOTOS E NAÇÕES
INIMIGAS (1,1-2,17)

O livro de Joel deixa evidente duas partes, ligadas pela relação que existe entre o apelo
do povo diante da crise nacional e a resposta de Javé. A primeira parte do livro (1,1-
2,17) trata de assuntos do cotidiano da comunidade, o mundo presente e real: invasão
de gafanhotos e nações inimigas. A segunda parte (2,18-4,21), por sua vez, aborda
questões que apontam para um futuro desconhecido e para um espaço fora da
realidade dos destinatários, um ambiente escatológico e apocalíptico.
Neste capítulo serão comentadas as descrições das invasões e os impactos que elas
trouxeram para o povo de Judá, e como ele respondeu à convocação de penitência do
profeta Joel, com vistas ao retorno do povo à atividade litúrgica e adoração à Javé,
independente da crise.

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Título (1,1)
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Palavra de Javé vinda a Joel, filho de Fatuel.
Logo de início se indica que as palavras ditas pelo profeta não são absolutamente
dele. São, na verdade, “Palavra de Javé”! Trata-se de uma palavra que ele incorpora a
sua vida. Ela veio de fora e o tomou por completo. Dessa forma, Joel se apresenta
como profeta da parte de Deus e não como alguém que fala em seu próprio nome.
Mais importante é a credencial divina do profeta e não necessariamente informações
a respeito de quem ele é. O mais importante não é o profeta e sim a palavra que ele
carrega em seus lábios. O foco do interesse, portanto, não deve ser lançado sobre Joel,
mas sobre a palavra de Javé que veio a ele. Ele, por conseguinte, não é um gerador de
mensagem, é apenas seu transmissor.
O livro não faz referência à época, domicílio, profissão, nem à condição
socioeconômica de Joel. No primeiro verso somente é citado o nome do profeta e a
sua filiação. O pai de Joel, Fatuel, não ajuda a identificar o protagonista do livro, pois
não é nenhum personagem bíblico conhecido. O nome Joel significa “Javé é Deus”.
Na verdade, seu nome é uma proclamação de fé no Deus de Israel e uma verdadeira
confissão de fé. Ele traz no nome a certeza de que com ele está a presença de um Deus
libertador. O profeta traz consigo uma certeza que fará diferença na crise em que ele e
o povo estão envolvidos. Em meio à crise e ao desespero, o profeta se posiciona bem
no centro crítico como representante da esperança de Deus para todos.
A ausência de informações sobre o próprio profeta, sua família e sua história
pessoal pode ser uma demonstração de que o autor do livro de Joel, como a maioria
dos livros bíblicos, faz uso da pseudonimia. Este recurso era utilizado em ambientes
de opressão, quando o autor tinha dificuldade para expressar suas opiniões
explicitamente. Dessa forma, citava o nome de um personagem conhecido no passado
para fazer afirmações que tivessem impacto no tempo presente, mas que
supostamente foram feitas no passado. Com isso, o autor conseguia passar a
mensagem para seus destinatários, que compartilhavam do mesmo ambiente
histórico, cultural, socioeconômico e político do autor. De modo geral, a intenção
seria de provocar nos destinatários uma mudança de atitude, ou seja, uma posição
crítica diante da situação de opressão, com vistas a uma transformação da realidade
presente. Como poderá ser percebido ao longo deste livro, o contexto do livro de Joel
favorece a utilização deste recurso pelo seu redator final.
É necessário salientar que todo profeta tem um tempo, ou seja, nasce, vive e morre.
Possui um passado, participa do cotidiano e, consequentemente, vislumbra o seu
futuro e do seu povo. Joel é um profeta ligado aos grandes temas de sua época.
Alguém envolvido com as crises que ameaçavam a sua gente. A mensagem do profeta,
por isso, sempre deve ser pensada como endereçada aos seus contemporâneos. Um
profeta sempre fala para sua própria época, e seus contemporâneos são também seus
primeiros ouvintes. Assim, é possível afirmar que toda interpretação de texto
profético que não tenha sentido algum para os contemporâneos do profeta é
certamente uma interpretação falsa. E Joel não pode ser comparado a um falso
profeta: afinal, ele interpreta a palavra a partir da vida do povo. Leva seus
contemporâneos a sério. Assume a crise instalada em seu tempo e lhe propõe solução.

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Joel está inserido bem no centro de um tempo de precariedade. É a partir da
precariedade das relações sociais que ele proporá soluções. Nada mais justo: Joel é um
profeta de seu tempo. Assim sendo, devemos pensar que as palavras de um profeta
precisam, antes de mais nada, fazer sentido aos seus primeiros ouvintes! Joel fala aos
homens e mulheres da sua própria geração. Sua preocupação final tem relação com a
precariedade de vida imposta à sociedade. E, por isso, não desvia seus olhos daquilo
que observa. Na verdade, seu olhar é meticuloso. Como observador da própria
realidade, não põe “panos quentes” nem “faz de conta” que o tempo em que vive faz
parte do desenrolar normal da vida humana. Para Joel a precariedade da vida não é
coisa do destino. A hora em que ele vive tem projeção social.
Não devemos classificar o profeta Joel como um filósofo. Seu interesse não é
construir uma teoria especulativa a partir de sua observação dos acontecimentos. Ao
contrário, o conteúdo de sua fala tem relação com os eventos que experimentava. A
interpretação da história que ele apresenta não era inventada por um processo de
pensamento, e sim algo que possibilitava expor o sentido que ele experimentava no
evento vivido. Tinha a mente aberta para Deus e também para os fatos externos.
Assim se constitui um profeta, ou seja, um olhar sobre o projeto de Deus e outro olhar
em direção à realidade. Olhares simultâneos que não permitem nem para ele e muito
menos para seus ouvintes qualquer tipo de alienação. Diferente de muitas pessoas em
momentos de crise e opressão, o profeta não permanece de braços cruzados e mudo
diante de situações de calamidade social. Ele toma atitude e procura envolver seus
leitores para que siga seu exemplo, tomando ação ativa e coerente diante da realidade
que os cerca, em busca da superação das situações-limite. É preciso observar que o
tempo faz parte de uma construção social e, exatamente por isso, sujeita-se a controle
político, social, religioso ou ainda econômico. Portanto, pode existir um grupo social
que manipule o tempo a seu favor. Todavia, o profeta está atento. Está acima dessas
situações manipulativas. Acima delas, mas junto do povo.
Já vimos que não há muitas informações sobre o nosso profeta. Contudo, as que
são possíveis averiguar apontam para pistas importantes. Sabemos, por exemplo, que
Joel não é mencionado em nenhum outro lugar. Joel não é um nome comum no
Antigo Israel, embora esse nome seja mencionado em textos como 1Sm 8,2; 1Cr 5,4.8;
11,38; 15,7.11; 27,20. Essa informação, longe de desabonar o profeta, leva-nos a
pensar em sua singularidade: um profeta que soube buscar alimento na mística dos
profetas que o antecederam e alimentar seu povo na precariedade em que estava
vivendo. A localização de Joel também se faz importante: ele é de Judá. Podemos
deduzir que tenha vivido em Jerusalém, devido ao interesse que demonstra para com
o Templo e o culto (veja 1,9.13-14; 2,15-17; 4,18), ao tom com que se dirige aos
habitantes da cidade (2,23) e, finalmente, à missão que lhes atribui no futuro
salvamento (4,17-18.20-21).
Devido ao seu interesse pelo Templo, muitos o consideram um profeta cultual, na
mesma linha de Habacuc ou Naum. Esta proximidade com o culto, o Templo e os
sacerdotes fica evidente nos textos do livro, o que pode realmente dar esse
entendimento. Joel se demonstra uma pessoa preocupada com a manutenção das
formas de culto. Ele menciona que o retorno da prática de sacrifícios, que havia sido
interrompida pela praga e pela seca (1,9-16), será uma das bênçãos da fertilidade que

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seguiria o período da seca (2,14). Além disso, reconhece os sacerdotes como ministros
eleitos por Deus para representar o povo nas intercessões e liderança das práticas
cultuais (1,9-14; 2,17). Ele também demonstra apreensão com o bem-estar religioso
do povo de sua terra (1,13,14; 2,13-17,23-27). Se o povo não estivesse bem, ele
também não estaria, pois esse povo é propriedade particular de Javé e Javé é o Deus
desse povo.
A qualidade da redação do livro demonstra que Joel era pessoa culta, um poeta por
excelência. Ele consegue transformar uma crise nacional gerada por infortúnios
catastróficos em poesia. Além disso, outra característica de sua literatura é a variedade
de gêneros literários utilizados:
a) convites (1,2.5.11; 2,1.27);
b) exortações (1,3; 1,8.13-14; 2,12-17; 2,23.26);
c) descrições dramáticas (1,4-12.16-20; 2,2-10);
d) descrições tranquilizadoras (2,21-27; 4,18.20);
e) lamentações espontâneas e individuais (1,5.11; 1,19);
f) lamentações rituais (1,13-15; 2,12-17);
g) expressões extraídas do mundo animal (1,18-20);
h) expressões extraídas da natureza (2,21-22);
i) descrições escatológicas de condenação (4,1.9-16a. 19.21);
j) descrições escatológicas de salvação (3,1-5; 4,16b-18.20);
k) processo judicial contra os inimigos de Israel (4,2-8).
O profeta Joel, em meio a um ambiente de crise, apresenta quatro caminhos
pedagógicos para a libertação de sua comunidade:
1. O caminho dos anciãos/chefes: há um imperativo para que os anciãos “ouçam”
(1,2).
2. O caminho do coração: “Pois agora – oráculo de Javé – voltem para mim de
todo o coração, fazendo jejum, choro e lamentação. Rasguem o coração, e não as
roupas! Voltem para Javé, o Deus de vocês...” (2,12-13a).
3. O caminho do Dia de Javé: encontramos a expressão “o Dia de Javé” quase
como um estribilho que separa os diferentes lances das descrições ao longo do
livro.
4. O caminho do espírito da comunidade: é sobretudo a partir do caminho do
espírito que mais se percebe a libertação comunitária.
Os caminhos pedagógicos serão apresentados de acordo com os comentários a
seguir.

15
Invasão de gafanhotos (1,2-12)
2
Ouçam isto, anciãos; prestem atenção, habitantes da terra! Já terá acontecido coisa igual no tempo de vocês
ou no tempo de seus pais? 3Contem tudo isso a seus filhos; depois, eles contarão para os filhos deles, e estes
irão contar para a geração seguinte. 4Aquilo que o gafanhoto cortador deixou, o gafanhoto destruidor
devorou; aquilo que o destruidor deixou, o gafanhoto saltador devorou; aquilo que o saltador deixou, o
gafanhoto descascador devorou. 5Acordem, bêbados, e chorem! Gemam, beberrões, porque lhes tiraram o
vinho da boca. 6Pois um povo poderoso e sem conta invadiu minha terra. Seus dentes são como de leão e sua
goela como de leoa. 7Deixou minha vinha arrasada e as figueiras reduzidas a galhos secos. Comeu-lhes até a
casca e os galhos ficaram brancos. 8Suspire como virgem revestida de saco por causa do esposo de sua
juventude! 9No Templo de Javé não há mais ofertas nem libação de vinho. Os sacerdotes, ministros de Javé,
estão todos de luto. 10O campo foi devastado, a terra está de luto, o trigo se perdeu, o vinho secou, o azeite
sumiu. 11Fiquem tristes, lavradores; gemam, cultivadores da vinha, por causa do trigo e da cevada, pois está
perdida a colheita dos campos. 12A parreira secou, a figueira murchou. Romã, tâmara, maçã, todas as árvores
do campo secaram. E até a alegria dos homens desapareceu!
Joel não faz distinção de seus destinatários: tanto os anciãos quanto o povo
precisavam ouvir sua mensagem. Todos precisavam ouvir o que Javé tinha a dizer. Na
utilização do imperativo “ouçam” fica evidente o tom de urgência e de autoridade de
quem falava.
O questionamento do autor: “Já terá acontecido coisa igual no tempo de vocês ou
no tempo de seus pais?” tem causado algumas discussões entre os estudiosos do livro.
A praga de gafanhotos era conhecida pelos judeus. Ao longo da história, esse povo
havia passado por algumas experiências como esta. Possivelmente, o autor estava
relembrando o povo sobre algum registro já acontecido da invasão desses insetos e as
consequências desastrosas que ficaram para o povo. O profeta pretendia utilizar a
experiência do povo para exemplificar, de forma simbólica, algo que estava para
acontecer com a nação como um todo.
O profeta incentiva a preservação da tradição do povo de Deus de repassar os
ensinos de geração em geração para manter os conteúdos de sua religião, a
transmissão oral de pais para filhos. Joel adverte todos os habitantes para registrarem
na memória o que estava por acontecer para contarem para as gerações posteriores,
de forma que servisse de exemplo didático para manter vivo na memória coletiva o
poder soberano de Deus sobre a natureza.
O povo já havido tido esta experiência na época dos juízes. Em Jz 2,10 está descrito
o que aconteceu após a morte do sucessor de Moisés, Josué. Um período crítico para o
povo israelita, pois o autor afirma que havia se levantado uma nova geração que não
conhecia a Deus e nem os seus feitos. Como o povo chamado “de Deus”, com uma
tradição oral e registros de manifestações de Deus no meio do povo, realizando
milagres e sinais, poderia não conhecê-lo nem saber de seus feitos? Evidentemente, o
texto quer destacar o momento da história em que os pais deixaram de lado a tradição
de repassar os conhecimentos de geração a geração. Eles preferiram cuidar de seus
próprios interesses pessoais deixando de lado os valores que sempre haviam sido
reconhecidos pelos clãs. Joel incentiva a manutenção da prática de repassar os ensinos
de geração em geração para que não voltasse a acontecer um retrocesso, como houve
após a morte de Josué.

16
Há enorme concentração de catástrofes nas linhas iniciais de Joel. A situação é
muito crítica. Aparentemente não há possibilidade alguma de o quadro se reverter.
Ele é um profeta em meio à crise. Pois é justamente em meio à complexidade da vida
que emerge a vocação profética de Joel. Todavia, é preciso perceber que ele mesmo
não está em crise. Joel surge diante de seus contemporâneos como homem de intensa
fé e de profunda esperança. A calamidade para ele não foi considerada o ponto final
da trajetória histórica de sua gente. Longe de fechar os olhos para a calamidade,
ignorando sua presença, o profeta lança para a calamidade não um olhar de sujeição,
mas de superação. Calamidade leva à conversão, ou pelo menos se espera que
conduza à conversão.
E Joel, partindo precisamente de uma calamidade, mantém a esperança de que a
palavra profética de seus predecessores (Ezequiel, Ageu e Zacarias) não cairá no vazio
e no esquecimento. Na verdade, espera seu cumprimento e o anuncia a plenos
pulmões. O grau de calamidade estampado no texto é enorme. Ele aparece feito
círculos concêntricos que estão em constante processo de agigantamento. Cada onda
se faz mais feroz e destruidora até a destruição final. Nessa situação crítica o povo de
Deus tinha muita memória. Os anciãos lembravam-se das antigas profecias. O fato é
que vários profetas tinham falado a respeito do Dia do Senhor. E era possível perceber
que naquela crise se cumpriam as suas palavras.
Como reagir aos “gafanhotos”? O peculiar de Joel é que seu pequeno livro se
origina de uma experiência do cotidiano, ou seja, a contemplação de uma praga de
gafanhotos. Seu mundo é agrícola, e, exatamente por isso, a ameaça dos gafanhotos
tem para o povo de Deus da época de Joel contornos e imagens de extrema violência e
destruição. No imaginário dos camponeses a nuvem de gafanhotos traz imagens
impregnadas de pobreza e calamidades. O cotidiano está ameaçado e gera-se a crise
no meio do povo. O presente se encontra em vias de destruição. Sem presente não há
futuro. Sem campo não há sobrevivência. A vida se encontra sob forte ameaça. Ao
falar da catástrofe nacional, Joel discorre sobre as diversas variedades (cortador,
destruidor, saltador e devorador) do inseto assolador; observa como se sucedem as
nuvens invasoras e pode ainda contemplar os efeitos destruidores nas plantações. A
cultura agrícola fatalmente será atingida. O desequilíbrio no campo pode trazer
aumento no sofrimento do povo. A fatalidade certamente sairá do campo para atingir
cada um dos camponeses.
A crise parece não ter precedentes. As sucessivas devastações dos gafanhotos,
designadas por quatro termos para indicar a totalidade da destruição, ocorreram
durante um período de pelo menos dois anos, conforme podemos perceber na leitura
de 2,25: “Estou compensando os anos que foram devorados pelo gafanhoto, o
saltador, o descascador, o cortador, meu poderoso exército que um dia mandei contra
vocês”. Se o presente já se encontra bastante conturbado, o futuro deverá reservar
uma intensificação dos desastres. E são exatamente esses desastres que estão
dificultando a vida das vilas camponesas. Afinal, o que se perde com as catástrofes
tem relação total e imediata com aqueles que vivem do campo.
Mas o que se perde com as catástrofes? A lista é extensa e serve para nos mostrar a
complexidade da crise que os camponeses estavam atravessando. Joel faz uma
verdadeira viagem pelo campo e descreve meticulosamente o alcance da destruição.

17
Não deixa nada de fora. Sua descrição denota também o profundo conhecimento da
vida camponesa. Percebe-se logo que a devastação da terra, bem como a destruição da
lavoura e consequente fracasso da colheita, representavam um forte colapso para a
economia. Acompanhemos a viagem de Joel e a percepção que ele tem da crise ao
utilizar palavras de ruína e de desolação:
a) a videira e a figueira estão secas (1,7);
b) campos assolados, cereal destruído e olivais murchos (1,10);
c) a colheita do campo (trigo e cevada) está perdida (1,11);
d) as árvores frutíferas secaram (1,12);
e) sementes secaram, os silos foram roubados e os armazéns demolidos (1,17);
f) gado gemendo, bois e ovelhas perecendo por falta de pasto (1,18);
g) pastagens consumidas pelo fogo (1,19);
h) rios secos e estepes devoradas pelo fogo (1,20).
A impressão é de que nada fica de fora. Tudo o que é importante para a
sobrevivência do camponês simplesmente se desfaz; foge feito água por entre os dedos
das mãos.
Afinal, quem está perdendo? Os versos seis e sete do capítulo primeiro trazem uma
informação vital: “Pois um povo poderoso e sem conta invadiu minha terra. Seus
dentes são como de leão e sua goela como de leoa. Deixou minha vinha arrasada e as
figueiras reduzidas a galhos secos. Comeu-lhes até a casca e os galhos ficaram
brancos”. Importa dizer que os participantes da situação não estão em estado de
inconsciência. Antes, têm clara percepção do que está acontecendo. Esses
participantes talvez sejam os mesmos que no v. 19 erguem uma súplica. A crise diz
respeito a eles e os atinge em cheio. Muitos são os que vivem sem paz: os que bebem
vinho (1,5), a jovem (1,8), o Templo de Javé (1,9), os lavradores (1,11), os homens
(1,12), os sacerdotes (1,13), os chefes (1,14) e todos os moradores da região (1,14).
Não podemos nos esquecer de que a vinha e a figueira, além de representarem os
frutos, lembram, na tradição profética, a paz doméstica (cf. Is 36,16-17 e Mq 4,4).
Percebe-se que a destruição da videira e da figueira, como símbolos de prosperidade
da terra de Israel, é destacada.
A perícope 1,1-4, que descreve a praga dos gafanhotos, tem uma interessante
relação com alguns livros do conjunto chamado de Livro dos Doze (profetas
menores). A relação se torna mais notável quando se acrescenta Jl 1,6 na ligação
Naum-Habacuc. Naum (3,15) faz uma magistral descrição metafórica da destruição
da grande e poderosa Assíria por gafanhotos. Ele zomba (3,17) dos assírios, temíveis e
comparados com o grande exército de gafanhotos, que não podem evitar a própria
destruição. De forma semelhante, Habacuc (1,9) utiliza da mesma figura, mas agora
contra os inimigos imperialistas de sua época, os babilônios. Estes últimos haviam
derrotado os assírios, portanto eram ainda mais poderosos e temíveis. Para enfatizar a
força numérica e física dos gafanhotos, eles são equiparados a uma nação poderosa, a
ferocidade da mordida compara-se aos dentes de um leão e às presas de uma leoa.
A praga de gafanhotos e a própria experiência das devastações que deixavam eram
bem conhecidas do povo de Israel e dos povos vizinhos. A comparação da praga de
gafanhotos com exércitos também era uma linguagem comum. Nas duas referências
paralelas de Joel citadas (Na 3,15.17 e Hab 1,9), bem como em Is 13, os inimigos são

18
identificados. Entretanto, em Joel o inimigo não é citado diretamente, dando margem
a várias interpretações, de acordo com a datação defendida para o livro. Ao longo da
história de Israel, este povo sofreu várias invasões inimigas. Naquele momento, o que
eles precisavam era de um caminho para superar a crise, independente de quem fosse
o inimigo.
O profeta aponta alguns caminhos pedagógicos como resposta à crise, conforme
citado anteriormente. O primeiro é apresentado nesta perícope: o caminho dos
anciãos/líderes. Há um imperativo para que os anciãos “ouçam” (1,2). Eles são
chamados a exercitar com acuidade os ouvidos. Devem ouvir bem a fim de bem
aconselhar. Joel inicia apelando fortemente à razão dos anciãos. Isso pode significar
que o primeiro capítulo de Joel tem teor sapiencial e mostra semelhanças com a
literatura de Sabedoria. Os anciãos tinham de ouvir bem a pregação profética a fim de
poderem transmiti-la a seus filhos (1,2-3). Busca-se nos anciãos a memória de sua
longa experiência a fim de orientar os passos nos dias críticos que se apresentam no
hoje do povo.
O interesse de Joel está fundamentado no acúmulo de anos e não, como poderia
parecer, em privilégios ou ainda status. Na verdade, ele apela para aqueles indivíduos
da sociedade que guardam a memória dos acontecimentos importantes da história do
povo. A mais antiga memória de libertação do povo e da ação libertadora de Deus
encontra-se nos anciãos. Portanto, a função deles em meio à crise é fundamental. São
os portadores da memória coletiva. Portadores da memória de libertação!
Por isso, além de ouvir, a segunda função dos anciãos seria “contar”. Eles são
contadores de histórias. Mas não de qualquer história, e sim a memória dos eventos
relacionados com os atos de Deus na história. Por exemplo: a fuga do Egito e a
revelação da lei no Sinai, que sempre era revisitada (recontada ou ainda
reinterpretada) nas conversas entre os pais e seus filhos. Os atos salvadores de Deus
ofereciam conveniente instrumento de combate às crises que se instalavam entre o
povo e impediam sua caminhada para um mundo melhor. O costume era contar os
feitos de libertação de Javé para demonstrar sua soberania e fidelidade à aliança com
seu povo. Em Joel, contudo, o que se deve contar são os detalhes de uma catástrofe
como nunca acontecida, um infortúnio para o povo, em especial os camponeses.
Interessante que os primeiros a serem exortados a despertar e reagir foram os que
se encontravam embriagados. Deveriam despertar da estupidez da embriaguez; o
choro iria substituir a alegria proporcionada pelo vinho, que não seria provido devido
à calamidade da praga dos gafanhotos. Ressalta-se nesses a insensibilidade diante da
situação crítica que se apresenta. Pessoas que não percebem o mal que as cerca e o mal
que fazem, encharcadas pela bebida como tranquilizantes para suas memórias e
consciência. Em meio à crise, sempre existem pessoas que não se envolvem com a
solução, preferindo esconder-se em vícios a enfrentar a realidade. Elas não percebem
nem mesmo que a crise muitas vezes pode tirar até o que usam de amuleto para
justificar sua covardia. Quantas pessoas no mundo têm sofrido por terem de carregar
pessoas como estas “nas costas”. O profeta não as exclui, mas as chama para assumir a
responsabilidade pela mudança, junto com os demais.
A fim de demonstrar a profundidade da tristeza a que estariam sujeitos, o autor
apresenta dois exemplos mais terríveis de luto para os judeus: 1) a mulher

19
comprometida para o casamento, cujo futuro esposo morre antes de consolidarem o
matrimônio; 2) o pranto pela morte do filho único que leva consigo o nome da
família. Com a destruição da plantação, o povo estava impedido de apresentar as
ofertas de cereais e de bebida que deveriam acompanhar as ofertas queimadas que
eram apresentadas de forma contínua e consideradas imprescindíveis para a boa
relação e manutenção da aliança com Javé (cf. Ne 10,33), principalmente no período
conhecido como pós-exílico. Por isso os sacerdotes, incapazes de manter suas
funções, estavam enlutados.
No v. 10 o profeta faz uso de sua capacidade poética para expressar a situação da
crise: “O campo foi devastado, a terra está de luto, o trigo se perdeu, o vinho secou, o
azeite sumiu”. Nos versos posteriores o profeta se dirige aos produtores dos produtos
citados: os lavradores, que tiveram suas plantações devastadas antes que pudessem
colher, pois todas as árvores do campo secaram. A principal fonte de suprimento e
entretenimento (vinho) havia se esgotado, levando consigo a alegria do povo. O que
fazer? Como recuperar a situação anterior? Onde encontrar esperanças? Será que
ainda existe possibilidade de mudança? O profeta, nos versículos posteriores, abre
uma janela de esperança, mas a partir de uma atitude do próprio povo.
Uma enorme inversão parece iniciar-se, contrapondo-se às expectativas de
abundância em outros profetas. Nesse momento, ainda que os agricultores trabalhem
e se esforcem ao máximo em suas terras, não desfrutarão do fruto de seu trabalho.

20
Apelo à penitência (1,13-19)
13
Vistam-se de luto e chorem, sacerdotes! Gemam, ministros do altar! Venham passar a noite vestidos de
saco, ministros de Deus! Pois não há mais ofertas e libação de vinho no Templo do Deus de vocês.
14
Proclamem um jejum, convoquem uma assembleia, reúnam na casa de Javé, Deus de vocês, os anciãos com
todos os habitantes da terra. E gritem a Javé.15Ah! Que dia! De fato, o Dia de Javé está próximo e vem como
devastação vinda de Shadai. 16Por acaso não desapareceu da nossa vista o alimento, e da casa do nosso Deus
a alegria e o júbilo? 17A semente secou debaixo da terra, os silos estão vazios, os celeiros estão limpos, pois
falta o trigo. 18Como geme o gado! Os rebanhos de bois andam vagando, pois não há mais pasto para eles. E
até os rebanhos de ovelhas morrem de fome. 19A ti, Javé, eu invoco, pois o fogo devorou a pastagem e a
chama consumiu todas as árvores do campo. 20Até as feras gritam a ti, pois secou a água dos córregos e o
fogo devorou as pastagens.
A situação era desesperadora. Em momentos como este, as pessoas percebem que
não há alternativa a não ser Deus. É de salientar que, na época, os únicos autorizados
a falar com Deus eram os sacerdotes. Eles, ao verem a situação de calamidade,
imediatamente deveriam se voltar para Deus e advogar em favor do povo. Todavia,
como algumas pessoas que ignoram suas responsabilidades em momentos de crise e
preferem ficar na indiferença, parece que os sacerdotes estavam a lastimar, mas não
faziam o que lhes estava determinado. Pessoas assim, infelizmente, precisam ser
motivadas para partirem à ação. No entanto, o gemido do povo, dos animais e da
natureza não era suficiente.
Joel se dirige aos sacerdotes dizendo que eles não podem se submeter ao império
da indiferença. Eles deveriam ser os primeiros a viver um sincero arrependimento e
conversão, a fim de que fossem espelho ao convocar o povo também ao
arrependimento e conversão. Vestir-se de luto e chorar não poderia ser
compreendido como uma atividade teatral. Havia a necessidade de demonstrar
através do próprio corpo que a ausência de Deus deve ser contraposta à sua presença.
O chamado a jejuar é um chamado teológico através do corpo que indica que se tem
fome de Deus e de solidariedade. Jejua-se não por motivos particulares e
preocupações individuais, e sim por causa de Deus que se faz presente quando se
encontra com os fragilizados (Is 58). A crise é tão forte que faz pensar numa possível
ausência de Javé. Não existe celebração. A celebração se transformou em lamento. A
confiança na inviolabilidade do Templo deixa lugar para que se instale o terror da
destruição completa. Procura-se por Deus nos versos. Vasculha-se por entre as crises
e nada! Deus não está no texto. Deus não está presente quando o povo mais precisa
dele. É uma conclusão muito possível. Afinal, está tudo escuro. Por onde andará
Deus?
Duas situações demonstram fortemente esse aspecto da ausência de Javé e a
impossibilidade de reverter a situação. Se nem Deus está próximo é porque não há
solução de espécie alguma.
O primeiro indício da aparente ausência de Javé está em 1,15: “Ah! Que dia! De
fato, o Dia de Javé está próximo e vem como devastação vinda de Shadai”. Já dissemos
e demonstramos que nosso poeta sabe trabalhar muito bem com as palavras. Aqui ele
faz algo de fantástico. Um jogo de palavras é utilizado a fim de demonstrar a crise de
confissão de fé que também está instalada entre o povo. Diz o texto que o Deus Todo-

21
poderoso envia uma devastação, flagelo ou calamidade. Em hebraico as duas palavras,
isto é, “Todo-poderoso” e “calamidade” (shaddai e shod, respectivamente), possuem
forte assonância. Devastação também todo-poderosa em seus efeitos entre os que
trabalham no campo e vivem dele. O jogo de palavras parece insinuar que nesse
período de crise, além de Javé estar aparentemente ausente, até o seu nome torna-se
agourento. A crise parece ilimitada. É do tamanho de Deus e tão poderosa quanto ele.
Podemos ainda perceber um segundo indício da ausência de Javé em 1,16-17. O
profeta iguala os desastres sob o símbolo da falta de alegria. Há desastre no mundo
agrícola e há desastre no mundo cultual. Aos olhos do profeta existe interdependência
entre esses dois mundos: da terra nasce a colheita que é recolhida em silos e
proporciona alimento aos homens, além de oferendas para Deus e os seus fiéis no
Templo; do Templo, por sua vez, procede a bênção dos campos.
Contudo, a relação entre o mundo agrícola e o cultual encontra-se desnivelada. A
harmonia está quebrada. Não há alimento no campo, e sim tristeza. Não há alimento
no Templo de Deus, e por isso a alegria foi embora. Não é à toa que os sacerdotes
iniciam um processo de luto ritual. Ao invés de alegria, o luto. Ao invés de ofertar ao
Senhor, vive-se a escassez (1,13). Os sacerdotes estão de luto porque no Templo
faltam os dons da farinha e do vinho, oferta e libação; a terra está de luto porque ficou
sem grão, sem vinho e sem óleo (material do alimento e das ofertas; veja também Sl
105,15 e Lv 2).
Na quebra da harmonia surge a tristeza tanto no campo quanto no Templo. Crise
é sinal de tristeza! Parece-nos que o profeta está envolvido numa liturgia penitencial
literária. O próprio profeta, talvez incitado pela praga agrícola que devasta tudo o que
encontrava pelo caminho, é o animador e condutor da liturgia. A liturgia acontece da
seguinte forma:
1. convocação do povo para o ato de luto;
2. súplica a Deus;
3. descrição das dificuldades;
4. resposta de Deus, que envolve penitência e conversão;
5. nova convocação do povo para atos expressos de penitência;
6. Deus responde com perdão e promessa.
Uma peculiaridade do livro de Joel é a relação saudável entre sacerdotes e profetas,
diferente do que se observa na quase totalidade dos livros proféticos. Em Joel, os
sacerdotes são obedientes à voz de Deus na boca do profeta. No período pós-exílio
prevalece o governo sacerdotal hierocrático; entretanto, o livro de Joel não se propõe a
dar ênfase nesse modelo de governo, mas na boa relação entre os sacerdotes, os
anciãos do povo e a linhagem profética, uma vez que é Joel quem coordena as ações
comunitárias sem receber nenhuma objeção.
A palavra profética em meio à crise nos chama para a ação em duas formas que se
complementam. A primeira nos leva a viver a partir dos imperativos que impedem a
acomodação e convidam a nos desinstalar do acrisolamento da crise. Não é
condicional, e sim um chamado radical a vencer obstáculos. Joel usa e abusa dos
imperativos. Até mesmo inflaciona os versos com ordens claras. Nosso autor é poeta
de muito talento. Em 1,2-20 usa o imperativo mais de dez vezes, assim distribuído:

22
a) ouçam, prestem atenção, contem (vv. 2 e 3);
b) acordem, chorem, gemam (vv. 5-7);
c) fiquem tristes (vv. 8-12);
d) vistam-se, venham (v. 13);
e) proclamem, convoquem, reúnam, gritem (vv. 14-18).
As ocorrências de verbos no imperativos perpassam todo o livro de Joel;
entretanto, a ênfase está na primeira parte do livro (1,1-2,17). A desproporcionalidade
fica bem evidente quando comparamos os 30 casos da primeira parte com os 13 casos
da segunda parte. Em todo o livro, a maior concentração está na perícope de 1,2-13,
que trata do momento mais crítico, quando a ênfase é dada ao chamado de Joel para o
povo lamentar a catástrofe sofrida. A partir de 1,15 até 1,20 ocorre outra mudança
significativa, pois o imperativo coletivo muda para o lamento pessoal. Aparece pela
primeira e única vez na primeira parte do livro o uso da primeira pessoa. O uso da
primeira pessoa neste contexto ressalta o choro do profeta, e não a divindade.
Os sacerdotes não são motivados pelos verbos no imperativo simplesmente por
serem convocados e devido às suas responsabilidades como intercessores, mas
também porque estavam seriamente envolvidos com toda a crise. Afinal de contas,
sem os “insumos” para o exercício sacerdotal, em um sistema de sacrifícios e ofertas
com base na agricultura, a função dos sacerdotes corria o risco de extinção. Nos vv.
13-14 o profeta exorta com veemência, pois a situação era muito grave e os líderes não
poderiam ficar na inércia diante da crise. Além do mais, uma penitência comum não
servia; era necessária uma atitude mais profunda, e por isso ele exorta para que se
vistam não com roupas sacerdotais tradicionais, e sim com sacos (vestuário que
simbolizava contrição e aflição; cf. Nm 9,1 e Jn 3,5-6), e passem a noite no Templo em
atitude de humildade e sujeição a Deus (2Sm 12,16; 1Rs 21,27).
A ação dos sacerdotes deveria ser convincente e motivadora, uma vez que
deveriam convocar uma assembleia solene com a dedicação intensa dos participantes,
que precisariam cessar toda atividade e fazer um ajuntamento religioso para
clamarem de forma sincera, pedindo misericórdia e libertação de Javé.
Qual o motivo da situação de calamidade como nunca vista? Qual o motivo da
lamentação grupal dos vv. 15-16? O v. 15 traz luz a essas questões, pois anuncia pela
primeira vez no livro o Dia de Javé, nessa perícope, para demonstrar que esse dia era
uma expressão da justiça de Deus e que estava próximo de acontecer. Portanto, os
resultados da praga não eram o fim, pois algo pior ainda estava por vir. Daí a
necessidade da penitência em busca da misericórdia de Javé. Apesar de Joel não
explicitar pecados específicos para Judá, a praga tem o sentido de um ato de justiça de
Deus sobre o povo.
No v. 19 há uma mudança no sujeito da fala, que passa a ser expressão de uma
lamentação individual e não mais grupal. Tem-se a impressão de que o profeta passa a
falar por si mesmo, como que corroborando com a lamentação coletiva, ratificando a
situação de penúria e demonstrando sua preocupação com os animais e a natureza,
que inocentemente são vítimas do sofrimento (1,19-20). Joel por um momento deixa
de lado sua função de profeta que fala da parte de Deus e assume a função de
intercessor, clamando a Deus em favor dos seres humanos.
A segunda ação literária do poeta está no realce dos contrastes. Seria como se

23
desejasse mostrar o reverso da medalha. Não basta olhar o aspecto cinzento da crise.
Torna-se necessário olhar o contraste. Verificar a possibilidade de encontrar, no
reverso da crise, motivos de esperança. E isso o profeta faz com extrema habilidade,
concentração e organização. Duas também são as formas encontradas para
vislumbrar os contrastes:
a) a partir de categorias da vida humana em que se vive;
b) a partir das ações humanas.
A primeira tem relação com as categorias da vida nas quais estamos inseridos. No
texto de Joel o universo em destaque é o do campo, da terra, das pastagens e do solo.
Assim sendo, o realce dos contrastes tem a seguinte esquematização:
bênção crise
fecundidade esterilidade
fruto carestia
plantas e pastagens gafanhotos e seca
felicidade na restauração da produtividade da terra sofrimento dos homens e animais provenientes da praga de gafanhotos
bênçãos para o povo de Deus julgamento divino das nações

Já a segunda ação literária tem a intensa e clara relação com a atitude das pessoas
envolvidas na crise. O texto bíblico revela o seguinte esquema:
bênção crise
festa luto
hino súplica

A noção de bênção e crise nasce a partir dos contrastes que Joel está fazendo. Olha
o passado e percebe o projeto ideal de Deus para o povo. De volta ao presente,
constata a desolação. Em todo o livro de Joel é possível constatar a crise em cada
passo dado. Todavia, sempre se tratará de crises que podem levar para a presença de
Deus ou para o desespero total.
Para reflexão e debate
1. O profeta é leitor da vida do povo, intérprete da realidade. Contudo, sua leitura
somente será verdadeira se estiver inserido na realidade que interpreta, buscando
assim a sua transformação. Quais relações existem entre interpretar e transformar
uma realidade?
2. Muitas vezes temos noção muito precária da figura do profeta. Achamos que é
alguém extremamente diferente de nós e provindo de lugares distantes. Afinal, essa
noção tem fundamento? Onde devemos procurar os profetas?
3. O profeta Joel ensina a não fugir das crises. É preciso enfrentá-las. Ensina que é
necessário resistir sempre e recuar jamais. Não é fatalista diante da crise. Procura
respostas. E você, como se posiciona diante das crises da vida?

24
Invasão de nações inimigas (2,1-11)
1
Toquem a trombeta em Sião; deem o alarme no meu santo monte. Tremam todos os habitantes da terra,
pois o Dia de Javé está chegando e já está perto. 2Será dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e obscuridade.
Como o escurecer, estende-se sobre os montes um povo numeroso e forte; nunca houve povo igual a esse e
nunca mais haverá, por muitas gerações. 3Diante dele vai um fogo que devora; atrás dele uma chama que
incendeia. Diante dele, a terra é um jardim de Éden; atrás dele é um deserto arrasado. Nada se salva! 4Seu
aspecto é como de cavalos e como cavaleiros que correm. 5Seu ruído é como de carros de guerra que vêm
saltando pelos cumes dos montes, estalando como chama que devora a palha, como poderoso exército em
ordem de batalha. 6Os povos se assustam na presença dele, ficam todos pálidos de medo. 7Avançam como
soldados valentes, escalam a muralha como guerreiros; cada um vai no seu caminho, sem se desviar da
fileira. 8Uns não estorvam os outros: cada um segue seu rumo. Ainda que as lanças caiam ao seu lado, eles
não se detêm no caminho.9Invadem a cidade, escalam a muralha, sobem nas casas, entram pelas janelas
como ladrão. 10Diante deles, a terra treme e o céu se abala. O sol e a lua se escurecem, e as estrelas perdem o
brilho. 11Javé faz ouvir sua voz à frente do seu exército. Seus batalhões são os mais numerosos, e os
encarregados de executar a ordem de Deus são valentes. Grandioso e terrível é o Dia de Javé! Quem poderá
suportá-lo?
Em 2,1-11, um par de verbos no imperativo anuncia o surgimento de um exército
temível e poderoso, cujos resultados são semelhantes aos resultados catastróficos
deixados pela praga de gafanhotos. Invasões inimigas que misturam medo, ansiedade
e desespero faziam parte do imaginário coletivo do povo de Deus. Os judeus, durante
sua história, passaram por várias invasões e submissões a inimigos poderosos. O
profeta lembra ao povo o que acontece nestas invasões e não promete livramento, mas
adverte o povo para que se prepare para o evento. Deus está ciente do que irá
acontecer. Ele não somente está ciente como também está coordenando a invasão,
pois os batalhões numerosos que se levantarão estão sob seu comando (v. 11), para
executarem o Dia de Javé.
O v. 1 começa com uma ordem de toque de trombeta militar, alertando o povo
para uma ameaça iminente. Em situações de iminentes invasões inimigas, a sentinela
tinha o dever de tocar a trombeta ou chofar (chifre de carneiro) para alertar o povo
como forma de defesa (Os 8,1; Jr 4,5; 6,1). Em Joel, o objetivo era de anunciar a
invasão inimiga, mas como cumprimento do anúncio do Dia de Javé, que já fora
previsto na perícope anterior. O povo de Israel já havia passado por outras invasões
estrangeiras, mas aqui o profeta faz questão de afirmar que “nunca houve povo igual a
esse e nunca mais haverá, por muitas gerações” (2,2). Os habitantes de Jerusalém
pensavam, de forma equivocada, que estavam permanentemente protegidos enquanto
o Templo permanecesse em pé. A relação que tinham e mantinham com o Templo
poderia ser considerada como mágica, isto é, haviam transformado o Templo num
“amuleto”, criando assim o dogma da inviolabilidade de Sião, e ao mesmo tempo o
amortecimento de suas próprias consciências. O profeta Jeremias várias décadas atrás
havia, de forma corajosa, denunciado a mesma situação (Jr 7,1-10).
“O Dia de Javé está chegando e já está perto” indica a iminência desse dia. Quando
será? O profeta não admite um controle sobre o relógio e seus ponteiros. Se não é
possível saber o dia exato, é bem possível viver em constante atenção! Mais
importante do que saber a data é estar preparado para ela. Quando sabem que algo

25
desagradável está por acontecer, as pessoas têm como primeira preocupação saber
quando vai ocorrer. O profeta nos traz uma lição importante neste texto. As pessoas
estão sujeitas a conviver com momentos alegres e de satisfação, mas também de
dissabores e sofrimento, independente de sua fé. Entretanto, as pessoas de fé precisam
estar preparadas para os momentos indesejáveis, pois a fé é o diferencial. Estes
momentos podem ser consequências de suas atitudes ou não. O que faz a diferença
entre o que serve a Deus e o que não serve é a preparação e a forma como passa por
essas situações.
Do jardim do Éden o profeta vê um deserto (v. 3). A tradição sobre um “jardim de
delícias” encontra-se em muitos textos da Bíblia. Ela ocorre em Gênesis 2,8.10.15;
3,23; 4,16 e no Cântico dos Cânticos, em que vislumbramos um jardim para receber
os amantes. A noção mitológica do paraíso ganha impulso formidável na fértil
imaginação do profeta Ezequiel (28,13; 31,9.16.18). O óbvio contraste com a área
desolada ocorre, por sua vez, em Ez 36,55 e Is 51,3. Em ambos a ênfase dá-se ao poder
transformador de Javé. O profeta Joel usa essa comparação para expressar a completa
mudança no estado da natureza em relação ao povo de Deus: de jardim das delícias
para o deserto das tormentas.
Em seguida, fica evidenciado o motivo da utilização da praga de gafanhotos para
exemplificar uma futura invasão estrangeira. A ação dos gafanhotos é comparada com
a ação de um exército em pleno exercício de guerra. É impressionante a descrição
plástica de Joel: os gafanhotos são comparados a cavalos na aparência (Ap 9,7), na
agilidade (Jó 39,20) e no emprego militar (Os 14,3). São parecidos com carros de
guerra e, certamente por conta disso, o barulho da marcha aterradora dos carros de
guerra chegava aos ouvidos dos povos que seriam conquistados com muito mais
antecedência do que os próprios soldados. O pânico se instalava e criava medo e
desestruturação. A reação das pessoas não é diferente nas duas ações, pois elas “se
assustam na presença dele, ficam todos pálidos de medo” (v. 6). A organização do
ataque também é semelhante, pois os soldados são ágeis e atuam em conjunto,
impossibilitando qualquer reação que venha interromper o ataque violento dos
inimigos (gafanhotos ou exército inimigo). Assim, por exemplo, em 2,7 Joel repete o
desafio do Salmo 42,4.11: “Onde está o seu Deus?” (cf. Ml 2,17), e responde com as
palavras que ele encontra especialmente na segunda parte de Isaías: “Pois eu sou Javé
seu Deus, o Santo de Israel, seu Salvador. Para pagar sua liberdade, eu dei o Egito,
Cuch e Sebá em troca de você, porque você é precioso a meus olhos, é digno de estima
e eu o amo. Dou homens em troca de você, e povos em troca de sua vida. Não tenha
medo, pois eu estou com você. Lá no oriente vou buscar sua descendência, e do
ocidente eu reunirei você. Direi ao norte: ‘Entregue-o’. E ao sul: ‘Não o retenha’.
Traga de longe meus filhos, traga dos confins da terra minhas filhas” (Is 43,3-6).
O exército assírio era implacável em sua marcha expansionista. Cidades e campos
eram completamente devastados (Is 36,10; 37,11-13,18). Nenhuma forma de
crueldade era desconhecida deles. Enérgico e violento são palavras que resumem bem
o império assírio. Por trás de seu crescimento estava evidenciada uma obra de
servidão, realizada com meios e métodos de brutalidade e selvageria que excedem
qualquer qualificação. E não há por que minimizar tal brutalidade. Parece que esse
sentimento selvagem era motivo de alegria e de glória. Pode-se perceber isso na

26
decoração dos palácios assírios: toda a decoração inspirava-se nos mesmos temas, ou
seja, a caça e a guerra. E, mesmo quando a realeza é representada em pleno descanso,
não há como não perceber os requintes de crueldade presentes: numa dessas cenas, o
rei Assurbanipal está descansando num jardim acompanhado pela rainha. Ali bebem
e escutam música. E a poucos passos do rei, que estava sentado embaixo de uma
parreira, podia ser observada, presa a uma árvore, a cabeça de Teuman, vencido na
última expedição contra Elam.
E mais, o rei assírio, figura principal nessa organização de comando, apresentava-
se como o próprio representante de sua divindade – o deus imperial de Assur. Esse
rei, à frente de um imenso exército de funcionários civis e militares, exigia-lhe que
prestassem contas da mesma forma que ele a Deus. O soberano assírio era o
realizador, na primeira pessoa, das destruições e dos extermínios desejados pelos
deuses. É preciso sublinhar por diversas vezes que, diferentemente dos soberanos dos
outros povos, o rei assírio não se qualificava como “pastor do povo”, mas sim como
“vingador do deus Assur”, como fúria devastadora, como férreo dono e senhor das
gentes. Nenhuma crueldade do ofício da guerra era estranha aos reis assírios e aos
seus soldados e oficiais. Diante da mínima resistência, deixavam atrás de si povoados
sem vida e a terra completamente queimada. Novamente as palavras de um dos reis
assírios retratam essa situação: “Muitos prisioneiros queimei a fogo, muitos capturei
vivos: a uns amputei as mãos e os dedos, a outros cortei o nariz e as orelhas, a muitos
vazei os olhos. Fiz um montão de vivos e um montão de cabeças; até as cabeças
enfiadas em paus em torno da cidade. Queimei seus filhos e filhas no fogo. Destruí,
devastei a cidade, queimei-a no fogo e a arrasei completamente”.
Os assírios desejavam ser lembrados como homens cruéis, queriam ser vistos com
a marca da brutalidade e, por isso, consideravam-se o braço da potência destruidora
que é o deus Assur – o deus da guerra – e, consequentemente, se viam como a mais
pura expressão terrena de duas outras terrificantes divindades, Ninurta e Adad,
conhecidas pelo seu caráter altamente belicoso. O avanço inexorável do exército
assírio significava para todas as pessoas o jugo impiedoso ou a destruição total. A
Assíria não admitia aliados, porque só ela devia dominar em todo o mundo
conhecido. O imperialismo assírio deixou marcas por suas ações violentas e por sua
força militar. Era um império mercantil escravista que evidentemente impunha seus
valores através de uma cultura bélica hegemônica. Como todos os impérios da
Antiguidade, o assírio saqueava as cidades e propriedades dos povos vencidos, e
levava muitos deles para o cativeiro. A citação a seguir, de um documento oficial,
mostra de forma clara como os assírios se jactavam de tais práticas. O documento se
refere à campanha de Assurbanipal contra Elam:
Eu conquistei Susa, a capital, residência de seus deuses. Por ordem de Assur e
Ishtar, penetrei no interior de seus palácios; ali vivi com alegria. Abri seus
tesouros, onde estavam acumulados o ouro, a prata, os bens e as riquezas que os
reis de Elam, desde os mais antigos até os contemporâneos, haviam reunido e
acumulado e sobre os quais nenhum inimigo antes de mim havia colocado a mão.
Tomei-os e contei como butim. Prata, ouro, bens e riquezas de Sumer e Akad e
também de Kerduniash (...) os levei como butim para a Assíria. Destruí a torre de
Susa que estava revestida de lápis-lazúli, destruí seu teto adornado de bronze

27
brilhante (...). Minhas tropas de choque penetraram em seus bosques sagrados; e
uma vez que viram o mistério, os entregaram às chamas. Destrocei e destruí os
féretros de seus antigos e modernos reis que não adoravam a Assur e Ishtar, e que
os reis, meus pais, haviam deixado em paz; levei seus esqueletos para a Assíria.
Não deixei suas mãos descansarem, lhes neguei as oferendas mortuárias e as
libações de água. Ao tempo de um mês e vinte e cinco dias devastei os distritos de
Elam (...). Exigi e levei para a Assíria o pó de Susa, Madaktu, Jaltimas e outras de
suas cidades (...). Fiz cessar em seus campos as vozes dos homens, o passo do gado
grande e do pequeno, os alegres cantos de alegria. Deixei estabelecer ali os ônagros,
as gazelas e todas as espécies de animais selvagens.
Os vv. 10-11 repetem textos similares no livro (1,5; 2,1-2; 3,15) para demonstrar a
soberania de Deus sobre tudo o que estava acontecendo. Na literatura bíblica as
expressões “céu e terra” ou “terra e céus” representam a totalidade do cosmos. O
evangelho de Mateus utiliza expressão semelhante para mencionar a catástrofe que se
abateu sobre Israel nos anos 70, com a tomada de Jerusalém e o incêndio do Templo
pelos romanos: “Imediatamente após a tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua
não dará seu brilho, as estrelas cairão do céu e os poderes dos céus serão abalados”
(Mt 24,29). Na sequência é anunciado que “aparecerá no céu o sinal do Filho do
Homem” (Mt 24,30a). Os textos, tanto de Joel como do evangelho de Mateus,
evidenciam a soberania de Deus sobre toda a criação e demonstram que ele está
atento ao que acontece entre os seres humanos e que age quando necessário,
transformando a ordem natural tendo como critério a justiça. Se Javé estava no
controle e o povo estava sendo afligido e sofrendo, o que fazer?

28
Apelo à penitência (2,12-17)
12
Pois agora – oráculo de Javé – voltem para mim de todo o coração, fazendo jejum, choro e lamentação.
13
Rasguem o coração, e não as roupas! Voltem para Javé, o Deus de vocês, pois ele é piedade e compaixão,
lento para a cólera e cheio de amor, e se arrepende das ameaças. 14Quem sabe, ele volte atrás e se arrependa,
deixe atrás de si uma bênção, oferta e libação de vinho para Javé, o Deus de vocês. 15Toquem a trombeta em
Sião, proclamem um jejum, convoquem uma assembleia. 16Reúnam o povo, organizem a comunidade,
chamem os anciãos, reúnam os jovens e crianças de peito. O jovem esposo saia do quarto, a jovem esposa
deixe o leito. 17Os sacerdotes, ministros de Javé, venham chorar entre o pórtico e o altar, e digam: “Javé, tem
piedade do teu povo! Não entregues tua herança à vergonha, à caçoada das nações”. Por que se deveria dizer
entre os povos: “Onde está o Deus deles?”
O autor de Joel, depois de anunciar a invasão inimiga que estava por acontecer,
chama o povo para o arrependimento. Coloca o convite na boca de Deus: “voltem
para mim de todo o coração”, demonstrando a disposição divina em perdoar e
consolar em momentos difíceis. O autor, com grande habilidade, conduz uma inter-
relação entre os imperativos utilizados. A maioria dos imperativos em 2,13 e 2,15 é já
utilizada em cada um dos intervalos anteriores de subunidades, porém numa
sequência invertida para reiterar e resumir a mensagem do profeta até o momento.
Ao usar a fórmula oracular (“oráculo de Javé”), o profeta deseja enfatizar a
urgência da hora e, ao mesmo tempo, justificar o oferecimento da esperança profética.
Contudo, o profeta Joel é cuidadoso. Sabendo da importância da conversão a Deus,
usa a expressão “oráculo de Javé” uma única vez. Faz, portanto, da expressão uma
raridade. Certamente porque não deseja enfraquecer o teor de sua mensagem com o
uso indiscriminado da expressão oracular.
Antes de tudo é preciso conhecer a situação a que se refere o livro do profeta Joel.
Ela é apresentada no primeiro capítulo. Uma praga aniquiladora de gafanhotos
assolava a terra de Judá. Lá moravam judeus em torno do Templo de Jerusalém,
liderados por sacerdotes e anciãos.
A terra, que estava agora sendo devastada, era um dos mais fortes laços entre Deus
e o seu povo. Todos os dias o povo oferecia o produto da terra no Templo do Senhor.
Tal oferenda chamava-se tamid. Por causa da praga, o povo não tinha mais condições
de trazer sua oferta a Deus (1,9). A situação de penúria deixou o povo em situação de
inércia. Algo precisava ser feito para provocar uma mudança no comportamento do
povo, algo que despertasse sua esperança. Qual caminho poderia ser trilhado?
O profeta apresenta o segundo caminho pedagógico: o do coração, centro da
personalidade humana (vv. 12-13a). Trata-se do contexto de uma liturgia penitencial
que parte de uma crise nacional e uma carência generalizada, vivida pelo povo devido
a uma série de catástrofes (praga de gafanhotos, seca, falta de chuvas, morte de
animais, ausência de insumos para sacrifícios no templo, entre outros). Nessa liturgia,
que não apresenta sacrifícios ou ofertas materiais, todas as pessoas são convidadas a
participar, sob a condução dos sacerdotes, para oferecer seu “próprio coração”. A
oferta material deveria ser trocada pela oferta de si mesmo. Não bastaria levar uma
oferta ao altar e continuar da mesma maneira. O arrependimento deveria ser
profundo e sincero, atingir todo o coração. Nesse sentido, a linguagem plástica de Joel
nos ajuda a bem compreender a exigência: rasgar as vestes num gesto automático não

29
exige quase nada daquele que confessa; muito mais difícil é rasgar o coração; uma
atitude que exige entrega de si mesmo e transformação tanto interior quanto exterior.
O povo, evidentemente, participa da penitência na expectativa do retorno da
fertilidade da terra e sua consequente prosperidade, o que reestabeleceria o
oferecimento regular de ofertas no culto. Para Joel não era suficiente ser considerado
pertencente ao povo de Deus e muito menos morar na terra santa. Haveria a
necessidade de uma integral conversão, um retorno a Deus!
Entretanto, Joel não anuncia em hipótese alguma uma salvação/libertação
incondicional. Ele exige conversão interior e profunda e, por isso, apela ao coração
dos ouvintes. De acordo com o modo de pensar hebraico, tal apelo dirigia-se também
à consciência das pessoas. Para os judeus daquela época, o coração não somente
representava a sede dos sentimentos, mas também dos pensamentos.
O profeta passa a proclamar um dia de jejum (v. 15). A expressão “toquem a
trombeta em Sião” é a mesma utilizada em 2,1, mas enquanto em 2,1 temos o
contexto bélico, aqui temos uma convocação solene do povo para uma penitência
pública. O toque é dado em Sião, que outrora era símbolo do local permanente da
dinastia monárquica de Davi, e que em Joel é o centro do governo universal de Javé.
Na primeira convocação em 1,14, primeiramente foram identificados os
participantes (anciãos e todos moradores da terra), ao passo que em 2,15-16 primeiro
se especifica a assembleia geral e sua organização, com o objetivo de reunir a
congregação para renovar a aliança com Javé; a menção dos participantes fica por
último, com detalhamento dos grupos distintos. No dia da convocação o povo teria de
se afastar de suas atividades normais, vestir-se de um tecido grosseiro feito de pelos de
carneiro, abster-se de comida e bebida e ainda reunir-se no Templo para orar.
A prática comum para o povo de rasgar as roupas (o costume de rasgar as vestes
era parte da reação cultural diante de uma crise – cf. 2Rs 19,1), fazer jejum, lamentar e
chorar para atender os rituais religiosos é questionada e o povo é convidado a
expressar uma conversão autêntica, com foco no interior e não nos atos exteriores.
Aliás, diante da situação de crise nacional, o jejum, o lamento e a lágrima já haviam se
tornado práticas involuntárias. Aqueles que nada mais tinham de animais e vegetais
para oferecer a Javé podiam oferecer um “sacrifício” interior, uma devoção sincera.
Essa seria ocasião para demonstração de arrependimento. Todo o povo estava
intimado a participar.
No v. 16, a referência aos anciãos não tem o objetivo de identificá-los como uma
instituição religiosa oficial, mas tão somente situá-los ao lado dos jovens e crianças de
peito. Todos, a despeito da diferença de idade, estavam sujeitos aos perigos da guerra
e ao sofrimento. Em consonância com a imagem da criança de peito, o autor introduz
também aqueles que se preparam para o matrimônio e a paternidade. Até mesmo os
noivos eram chamados, e a lua de mel deles teria de ser interrompida, com o noivo
saindo do quarto onde o casamento seria consumado (Jz 15,1; 2Sm 13,10; 2Rs 9,2; Ct
1,4), e a jovem esposa deixando o leito (2,16) onde aguardava o noivo para a
celebração do matrimônio (Sl 19,6). O homem recém-casado era dispensado de
alguns compromissos, como o serviço militar, priorizando o convívio e a intimidade
do casal (Dt 20,27; 24,5). Todavia, Joel não lhes dá esse privilégio. Esse dia de jejum já
era um costume, mas o dia de jejum proposto por Joel seria muito diferente.

30
A liturgia convocada por Joel não estava no calendário litúrgico do povo de Israel.
Tratava-se de uma liturgia extraordinária e diferenciada da tradição:
a) A convocação é feita por um profeta e não por um sacerdote.
b) Mesmo aqueles que eram dispensados desse tipo de convocação foram
incluídos.
c) Não é mencionado o oferecimento de sacrifícios de animais ou vegetais para o
Templo.
d) A ênfase é dada na mudança interior do indivíduo e da comunidade.
O momento, portanto, era excepcional. A sobrevivência do povo estava em jogo,
bem como sua relação com Deus. Outrora a terra e seus produtos haviam sido a
expressão concreta da bênção de Deus, e a oferenda diária desses produtos
comunicava a gratidão do povo a Deus. Agora, a terra não manava mais leite e mel, e
as oferendas a Deus estavam paradas. A forma do relacionamento com Deus teria de
ser outra. Outrora, quando as pessoas oravam durante o jejum, rasgavam suas roupas.
Desta vez, por ordem do profeta, essa prática fica abolida (2,13), para deixar uma só
saída: rasgar o coração. Em outras palavras, o povo teria de mudar profundamente de
sentimento e de ideia, e humilhar-se diante de Deus. Tudo isso valia a pena porque o
povo ainda acreditava que Deus é misericordioso (2,13). O profeta sensibiliza o povo
para o fato de que a situação de calamidade poderia ser revertida. Ele não tinha
garantia de que Javé mudaria a situação, mas havia motivo para ter esperança diante
de um Deus gracioso.
Apesar de não ser mencionado nenhum pecado específico cometido pelo povo ou
de qualquer exigência ética, nem ser atribuído o infortúnio que sobreveio a Judá
como um castigo de Deus (exceto referências indiretas em 1,5 e 2,25), o profeta exorta
o povo a uma conversão sincera. Para Joel o caminho do coração passa pela
conversão. Não basta o caráter litúrgico e ritual, como apresentado pelo texto: vestir-
se de saco, ficar de vigília, chorar, soltar bramidos, proclamar um jejum, convocar
uma assembleia, reunir os anciãos no Templo, tocar a trombeta no alto do monte Sião
para dar o alarme, levar as oferendas ao Templo, reunir pessoas idosas, crianças,
lactentes e até jovens esposos. O texto de Joel indica que tudo isso é muito importante
se estiver atrelado a algo ainda mais importante e fundamental: a conversão.
Exatamente por isso um imperativo é bastante repetido: “voltem para mim” (2,12).
Joel procura sugerir que ainda resta tempo para uma volta profunda e completa para
Deus, assinalando e reforçando o elo da grande corrente profética presente nos
seguintes textos: Dt 30,10; Os 3,5; 7,10; 11,5; 14,2.3.5; Is 9; Jr 3,12.14-22; Ez 18,30;
33,11.
O v. 14 deixa entreaberta uma porta para gerar a esperança. O verso surge como
uma teimosia de Deus diante do ímpeto do povo de Jerusalém em continuar com suas
transgressões. O “quem sabe” de Deus parece abrir novamente a porta que o povo
havia fechado. Apesar de tudo, mesmo assim, Deus ainda esperava por eles
oferecendo a esperança de salvação. Algo belo no estilo poético de Joel é que, em meio
a tantas situações desesperadoras, algumas pequeninas expressões de esperança são
inseridas na narrativa. Joel utiliza um sonoro “talvez”. O verso está subordinado ao
“talvez” de Deus, por mais tenebrosa e catastrófica que esteja a situação. Ainda que as
lágrimas, o luto, a seca, a falta de alimentos e a praga de gafanhotos agridam

31
absurdamente a vida e ponham a existência em perigo, há em Deus um “talvez”. Toda
conversão a Deus é combinação de paciência divina e misericórdia. Joel deseja falar
que a crise não tem a última palavra. Talvez Deus ainda intervenha e mude a situação.
Percebe-se ainda no verso uma questão retórica: “quem sabe”. A resposta é uma
negativa implícita, ou seja, “ninguém sabe”. O pouco uso da expressão na Bíblia
(podemos encontrá-la em 2Sm 12,22; Jn 3,9; Sl 90,11) aproxima-a do sentido do
“talvez” em Am 5,15b (“Talvez Javé, Deus dos exércitos, tenha compaixão do resto de
José”) e 2Rs 19,4 (“Talvez Javé, seu Deus, tenha ouvido as palavras do copeiro
mor...”).
Mas não devemos pensar que a mudança de Deus seja provocada simplesmente
pela mudança do povo. Certamente o que faz com que Deus mude é a sua
misericórdia, que exige como condição prévia a conversão do povo. A partir dessa
constatação podemos então compreender que a conversão do povo há de gerar toda
uma série de manifestações cultuais, assim como a conversão a Deus se manifesta na
pronta manifestação do seu perdão eficaz. Joel está bem longe de qualquer atitude
mágica, de qualquer ligação automática entre o rito praticado pelo ser humano e a
ação de Deus.
O texto de Joel nos ensina que as atitudes externas para manifestar penitência
pouco servem se não forem a expressão de conversão autêntica ao Senhor. Sua
admoestação consiste numa intimação ao arrependimento (vv. 12-14) e ao chamado
comunitário de lamentação (vv. 15-17). O apelo ao retorno a Javé de todo o coração
requer uma decisão pessoal e ação que provoque resultados. Ambas encorajadas por
uma promessa de salvação. Parece que Joel está se inserindo na tradição dos antigos
líderes de Israel, quando confrontavam o povo com a decisão de retornar a Javé com
todo o seu ser, na esperança de que tal conduta pudesse provocar a compaixão divina.
Contudo, a promessa condicional de libertação proposta por Joel está baseada no
caráter de Javé mais do que em alguns atos poderosos. A soberania de Deus continua
intacta. A misericórdia de Deus sempre triunfa sobre sua ira quando seu povo se volta
para ele com o coração quebrantado.
O profeta exorta os sacerdotes a assumirem a liderança e intercederem pelo povo:
“Os sacerdotes, ministros de Javé, venham chorar entre o pórtico e o altar, e digam:
‘Javé, tem piedade do teu povo! Não entregues tua herança à vergonha, à caçoada das
nações’. Por que se deveria dizer entre os povos: ‘Onde está o Deus deles?’ ”. Na
primeira convocação (1,13), o profeta já havia advertido os sacerdotes para não
utilizarem suas ricas vestimentas, mas se vestirem com pano de saco. O momento era
para atos de humildade e não de pompa. Agora Joel determina como proceder,
inclusive como orar. Nas condições normais em Israel, os sacerdotes é que deviam
tomar a iniciativa e decidir sobre os assuntos religiosos e conduzir o povo, mas neste
contexto é Joel quem toma a iniciativa e comanda a cerimônia penitencial.
Os sacerdotes estavam vivendo uma nova realidade. Eles não tinham nada, nem
bens materiais nem animais, para ofertar no Templo. Um bom momento para
refletirem o que realmente importava para Javé. Joel deixa bem claro que a retidão de
coração é o que mais importa para Javé. Em situações de crises e calamidades como a
que viviam os sacerdotes e o povo, é muito comum as pessoas assumirem atitudes
depressivas e de apatia. Elas precisavam de motivação para retomarem suas forças. Os

32
sacerdotes, provavelmente, estavam nessa situação apática e Joel foi o canal que
motivou os sacerdotes a retomarem suas funções e responsabilidades como
mediadores entre Deus e o povo.
O contexto de calamidade em que o povo se encontrava é considerado como ação
do próprio Javé, uma manifestação do Dia de Javé. Dessa forma, o Dia de Javé
explícito nos dois primeiros capítulos do livro de Joel é tido como um tempo de
desgraça para Judá e Jerusalém. Ele convoca os sacerdotes para tomar a frente e o
povo para realizar a cerimônia solene de penitência, oferecendo os corações a Deus,
com a certeza da intervenção divina (2,12-14). A resposta de Deus será apresentada na
segunda parte do livro (2,18-4.21).
Fica evidente no final da perícope (Jl 2,17) a manutenção da predileção do povo de
Judá por Javé, independente das circunstâncias que estavam vivendo. Na oração, os
sacerdotes apelam para a aliança firmada, que garantia a posição de Judá como povo e
herança de Javé. Nesta aliança o nome de Deus também estava em jogo: “Por que se
deveria dizer entre os povos: ‘Onde está o Deus deles?’ ”. O contexto da oração
intercessória dos sacerdotes não se resume na condição precária de Judá, mas vai
além, ligando a questão da submissão de Judá aos povos estrangeiros, tema
predominante no livro de Joel.
Para reflexão e debate
1. Quando uma situação é por demais problemática e crítica, nós a enfrentamos ou
procuramos nos iludir, dizendo a nós mesmos que tudo vai bem? O que Joel diria a
esse respeito?
2. Onde podemos encontrar Deus quando a crise se instala?
3. Qual a importância da profecia para um povo que vive em meio à crise?
4. Conseguimos enxergar algum “talvez” de Javé para nós, hoje?
5. Conversão para Joel é um imperativo. Não basta viver a partir de rituais
mecânicos e sem vida. Não é suficiente envernizar a fachada de cada um com
aparente religiosidade se o coração não tem compromisso com o projeto de Javé. A
profecia de Joel exige conversão a Deus, ao próximo e à comunidade no combate à
crise. Como a profecia e a conversão tocam a mim e à minha comunidade?

33
Segunda parte
JAVÉ RESPONDE AO POVO (2,18-4,21)

O s imperativos utilizados pelo autor, conforme citado na primeira parte do livro,


dão uma pausa abrupta em 2,18. A partir de 2,19b passa-se a utilizar a primeira
pessoa do singular, com exceções das subunidades 2,21-24 e 4,9-16, que inclusive são
as únicas da segunda parte do livro que voltam a utilizar verbos no imperativo. A
primeira subunidade (2,21-24) pode ser uma interjeição do orador com relação à
declaração divina de bênção e salvação para o povo, enquanto a segunda (4,9-16)
contém o comando para ações futuras do profeta. A avaliação do uso estratégico de
voz e imperativos demonstra uma mudança radical no uso de imperativos modais na
primeira metade do livro e de instruções declarativas na primeira pessoa do futuro na
segunda metade do livro.
A segunda parte do livro apresenta um novo horizonte para o povo de Israel, bem
como aos demais povos, pois a visão é ampliada para fora do território de Judá, ainda
que a ênfase continue sendo para o “povo escolhido”. A partir 2,18 é descrita a
resposta de Javé ao apelo ou pedido de socorro do povo de Judá. O Deus apresentado
aqui é único e atua de forma universal, controlando tudo o que está acontecendo e
determinando um dia de julgamento universal para os inimigos do povo de Judá, com
o estabelecimento de um reino global com sede em Sião.
A perícope de 2,18-4,21 faz paralelo com o oráculo antibabilônico de Is 13, e o
leitor dificilmente pode evitar a percepção da metáfora gafanhoto-exército de Joel
nestes livros (Isaías, Naum e Habacuc), no que se refere à história de Judá e Jerusalém.
Independente da quantidade de autores, fica evidente que o livro foi “costurado”
por um redator final que teve a preocupação de criar um vínculo entre os capítulos do
livro, apresentando de forma progressiva, do natural para o sobrenatural, o ato
libertador de Javé, o Deus único e universal. O fio condutor utilizado foi o tema do
“Dia de Javé”, expressão emprestada de outros livros escritos antes do profeta,
conforme abordado na introdução.

34
O Dia de Javé como fio condutor do livro
O terceiro caminho pedagógico é o fio condutor, que faz a interface entre as duas
partes integrantes do livro de Joel. O Dia de Javé como tema central no livro de Joel é
inegável. O Dia de Javé são os momentos da história nos quais Deus intervém
sobrenaturalmente, utilizando como instrumentos os fenômenos atmosféricos ou os
exércitos humanos. Nesses dias, Deus realiza um julgamento público, castigando ou
salvando. Esta expressão na Bíblia Hebraica se repete por 15 vezes, aparecendo 13
vezes nos profetas menores, 5 destas em Jl: 1,15; 2,1; 2,11; 3,4 e 4,14.
A expressão “o Dia de Javé” funciona quase como um estribilho que separa os
diferentes lances das descrições. Em 1,15 ela constitui como que uma articulação
entre a descrição da invasão dos gafanhotos e da carestia que se seguiu e, por isso, tem
caráter devastador. Em 2,10-11 indica a transição para o convite à conversão. Em 3,4,
prenuncia o início da transformação e termina com a salvação prometida a Israel. Os
dois significados – castigo e anúncio de salvação – estão presentes no texto. De fato,
2,10-11 é seguido de exortação à conversão e da salvação concedida por Deus,
enquanto no Dia do Senhor, prenunciado em 3,4, também se realiza o castigo das
nações inimigas. O livro de Joel faz uso exaustivo dessa expressão ao utilizá-la cinco
vezes (1,15-18; 2,1-2; 2,10-11).
No que se refere ao Dia de Javé, Joel é devedor à tradição que remonta a Amós
(5,18-20), Sofonias (1,14-18), Abdias (15), Zacarias (12,3; 14,1) e Malaquias
(3,2.19.23), mas também a livros de outros profetas, como Isaías, Jeremias e Ezequiel.
A incidência do tema nos profetas menores é mais expressiva, se comparada com os
profetas conhecidos como maiores. Essa proporcionalidade a favor dos profetas
menores tem levado alguns estudiosos a defender que esse é o tema central nos livros
dos Doze. Chegam a afirmar que o livro de Joel é o cerne desse conjunto devido à
ênfase dada ao tema no livro. Assim, o Dia de Javé se apresentaria não somente como
fio condutor do livro de Joel, mas de todo o conjunto dos doze profetas, como
alternativa literária do último redator do livro de Joel e do conjunto dos Doze. O Dia
de Javé era a expressão do castigo que o Deus de Israel infligiria ao seu povo por causa
de suas faltas. Tendo chegado o castigo, com a queda de Jerusalém em 587 a.C., as
perspectivas mudaram profundamente. Principalmente com Joel, o Dia de Javé se
aplicaria no castigo contra Israel. Mas depois da conversão e do perdão, adquire para
Israel dimensão de felicidade e de esperança. Em compensação, os inimigos de Israel
seriam punidos nesse dia, por causa de todas as desgraças que infligiram ao povo do
Senhor.
O Dia de Javé contém tanto oráculo de condenação como oráculo de salvação. O
primeiro é destinado aos injustos, sejam do povo de Israel, sejam de povos
estrangeiros. O povo de Deus se sentia exclusivo de Deus por vários motivos, como
por terem recebido os mandamentos “diretamente de Deus”, por meio de Moisés,
pela posse das escrituras, dentre outros motivos. Por isso, tinha atitudes de um povo
arrogante, com privilégios de cometerem injustiça e mesmo assim serem protegidos
por Deus, como se Deus agisse com parcialidade, com um peso e duas medidas. Os
profetas criticaram veementemente essa atitude do povo, advertindo-o com oráculos
de condenação quando agia injustamente, em especial as lideranças que tinham poder

35
sobre os demais. A orientação profética era de conversão, atitudes de penitência e
mudança de atitude para alcançar a misericórdia divina. Caso contrário, a imposição
de pena estava estabelecida. Por outro lado, os oráculos de salvação eram proferidos
para as pessoas que aceitavam a repreensão e mudavam de atitude, buscando uma
vida com práticas de justiça.
Dessa forma, o tema Dia de Javé no livro de Joel é mais fácil de ser compreendido
como “oráculo de juízo”. Assim, destaca o julgamento efetuado por um Justo Juiz,
Javé, o Deus da Justiça, que intervém na história em defesa dos oprimidos e
injustiçados. Este julgamento é aplicado de forma imparcial, independente de raça,
cor ou religião. Condenação para as pessoas que escolhem as práticas de injustiça e
desumanização e salvação para os indefesos que são objetos de práticas violentas.
Portanto, o Dia de Javé em Joel é um dia de condenação para o ímpio e de salvação
para aquele que for considerado justo diante de Javé. Assim, as ações corretivas são
consideradas como coordenadas pela soberania de Deus, independente de como
fossem executadas (exército inimigo ou outro meio).
Aos olhos de Joel, o Dia de Javé é comparado a um exército denso e numeroso
(2,2); inumeráveis são seus acampamentos (2,11); seu aspecto é de cavalos (2,4); os
povos tremem diante dele (2,6). Para o profeta os gafanhotos são como terríveis
exércitos que avançam devastando os que encontram pela frente, até destruírem a
última cidade. Joel faz uso do exercício da imaginação profética. Os gafanhotos
transformaram-se em exército ordenado que assalta e conquista uma cidade. Mais
parece um pesadelo. Tanto os habitantes do campo quanto os da cidade só podiam
assistir estarrecidos e impotentes à invasão.
Joel faz uma releitura do termo “o Dia de Javé”, deslocando-o da expectativa da
realização histórica para uma realização distante e indefinida. Trata-se, possivelmente,
da aplicação da justiça que gerações anteriores, de vertente apocalíptica, sempre
sonharam como certa para uma data futura, como se pode notar principalmente nesta
parte final do livro.

36
Prosperidade agrícola (2,18-27)
18
Javé teve ciúmes da sua terra e se compadeceu do seu povo. 19Javé respondeu a seu povo: Eu lhes mandarei
trigo, vinho e azeite em abundância, e nunca mais farei de vocês a vergonha das nações. 20Mandarei para
longe o invasor do norte, para um lugar seco e deserto: a vanguarda para o mar do oriente e a retaguarda
para o mar do ocidente. Aí, ele vai cheirar mal e feder, porque foi longe demais. 21Terra, não tema. Alegre-se
e faça festa, pois Javé fez coisas grandiosas. 22Não temam, animais do campo, pois o verde voltou às
pastagens da estepe. As árvores já estão carregadas de frutos, a figueira e a parreira já produzem sua
riqueza. 23Alegrem-se, filhos de Sião, e façam festa a Javé, o Deus de vocês. Pois ele mandou no tempo certo
a chuva mansa e fez cair também a chuva forte: as primeiras e as últimas chuvas, tudo como antigamente.
24
As eiras estão cheias de cereais, as tinas estão transbordando de vinho e azeite novo. 25Estou compensando
os anos que foram devorados pelo gafanhoto, o saltador, o descascador, o cortador, meu poderoso exército
que um dia mandei contra vocês. 26Agora vocês poderão comer com fartura e louvar o nome de Javé, o Deus
de vocês, pois no meio de vocês ele fez maravilhas. Meu povo nunca mais passará vergonha. 27Vocês ficarão
sabendo, então, que eu estou no meio de Israel. Eu sou Javé, o Deus de vocês, e não há outro. Meu povo
nunca mais passará vergonha.
O leitor do livro de Joel vê saltar do texto uma mudança radical quando a leitura
chega a 2,18. A alteração é nítida, o que marca uma nova fase na estruturação do livro.
O v. 18 é decisivo e serve como ponto de apoio para toda a estrutura do livro. A
linguagem de catástrofes e crises, acompanhada de tensão com relação às incertezas
quanto ao futuro, até aqui demonstra que Israel havia alcançado o ápice de sua
miséria. Toda a nação está lamentando a situação catastrófica do país. No entanto, o
verso enfatiza a misericórdia de Javé que se compadece de seu povo. A realidade
muda de imediato, e uma nova linguagem, que mantém o julgamento, direciona-o
para um público composto por inimigos históricos de Judá e Jerusalém. As notícias
começam a mudar de tom, a libertação e esperança passam a ser expectativas que
sobressaem. Se a porta de entrada do livro mostrava uma situação sombria para o
povo de Deus, agora todas as janelas da casa vão se abrindo. Novos ares, novas luzes.
Realmente um dia de jejum e conversão aconteceu e o povo ficou, dessa forma,
humilhado. Então o profeta deu a resposta de Deus às orações feitas naquele dia
(2,18).
A partir do v. 19 Javé fala diretamente ao povo para o encorajar por meio de
promessas de salvação e prosperidade. Trata-se de uma resposta à atitude de retorno
do povo quando advertido pelo profeta. Javé tem uma ação positiva em relação ao
comportamento do povo e demonstra sua disposição para não permitir situações que
conduzam Judá à continuidade de submissão às nações estrangeiras. O ciúme divino
citado no v. 18 tem sentido positivo como aquele utilizado no Sl 9,10, que demonstra
um zelo consumidor concentrado na pessoa amada, como também demonstra o zelo
de Deus pela sua própria honra e glória. Como resultado vemos a resposta de juízo
contra os inimigos, e de compaixão para o povo de Judá.
Conforme já mencionado, se o Dia de Javé em Joel for compreendido como dia de
juízo, uma ação imparcial de Javé, é possível identificar claramente a diferença da
referência a esse dia entre as duas partes do livro. Na primeira metade do livro (1,2-
2,17) o Dia de Javé é apresentado como oráculo de condenação, uma forma de
julgamento e de destruição, como condenação estabelecida. No entanto, na segunda

37
metade (2,18-4,21) o “Dia de Javé” é apresentado como efusão do Espírito de Javé
indistintamente para todas as pessoas, independente de nacionalidade, gênero, cor ou
classe social. A condenação também está presente, mas como pena para os injustos,
enquanto aqueles que são considerados justos são salvos da vida de opressão. Essa
visão do livro possibilita entrever a intenção do autor, que desenvolve a redação do
texto focando no clímax da mensagem de esperança para os justos, nos versos finais
do livro.
É importante observar que a mudança da sorte e a superação da crise acontecem a
partir do próprio povo. A transformação, para ser verdadeira, tem de acontecer a
partir de baixo. O povo em crise é sujeito de sua própria história. Contudo, o que de
novo está acontecendo na vida do povo?
Antes parecia que Javé estivesse completamente ausente da história amarga de seu
povo. Agora não. Sua presença é constante e forte. Javé surge como o autor e
protagonista das mudanças: ele fará proezas e prodígios. Além disso, o texto também
acrescenta tom muito pessoal à relação de Deus com o povo, indicando que o tempo
de medo ficou para trás:
a) “Não temam” (2,21-22);
b) “Eu estou no meio de Israel” (2,27);
c) “Meu povo” (2,27).
Na segunda parte do livro, além da diminuição dos imperativos, muda também a
intenção. São agora imperativos com função motivadora, solicitando ações de ânimo
diante da promessa de salvação divina, que mudará a realidade do povo de Judá e
Jerusalém. Sinalizam abundância onde anteriormente havia escassez. Os sinais de
abundância em Joel têm nome. Vamos percebê-los:
a) “eu lhes mandarei trigo, vinho e azeite em abundância” (2,19);
b) “o verde voltou às pastagens da estepe, as árvores já estão carregadas de frutos, a
figueira e a parreira produzem sua riqueza” (2,22);
c) “ele mandou no tempo certo a chuva mansa e fez cair também a chuva forte”
(2,23);
d) “as eiras estão cheias de cereais, as tinas estão transbordando de vinho e azeite
novo” (2,24);
e) “vocês poderão comer com fartura e louvar o nome de Javé, o Deus de vocês”
(2,26).
O tema da abundância está presente em todos os versículos. Buscam-se a
restauração da produtividade da terra e o restabelecimento da prosperidade agrícola.
Esse tema não é novo. A tradição já o conhecia. Basta ler Dt 7,13-14; Ag 2,15-19; Am
9,3; Sl 46,5.
O contraste com os gafanhotos consumindo tudo o que encontravam pela frente
pode ser intencional. O v. 26 parece dizer isso: o povo de Javé agora pode comer
vorazmente, afinal seu apetite desenfreado é resultado da severa privação ocasionada
pela praga de gafanhotos. Todo o mundo ficará satisfeito. Javé dá garantia a seu povo
com essas palavras: “vocês poderão comer com fartura”; todavia essa não é a última
palavra. O povo deseja também louvar o nome do seu Deus. O louvor ocorre
frequentemente em contextos de adoração; o objeto do louvor humano recai sobre a

38
teologia deuteronômica do nome divino.
As expressões são carregadas exatamente para denotar a renovação e a
abundância, e também para deixar bem claro o vínculo entre a carestia e o domínio
estrangeiro, como registrado em 2,19 e em 2,23.
A abundância prometida era a chuva. Chuva que cairia no tempo certo e seria
capaz de curar as queimaduras da seca e a devastação do gafanhoto. O verso é
insistente e está sobrecarregado de imagens, e por isso adota três formas de chuva: a
temporã após a semeadura, a tardia quando chega a maturação, e outros aguaceiros
menos definidos. O texto não somente destaca a importância da chuva como também
salienta o fato de que ela chegaria no momento oportuno.
Deus prometeu restaurar a produtividade da terra e garantiu que o povo
permaneceria na posse dela. A relação com Deus seria mais profunda depois da crise.
Os sobreviventes do povo saberiam que Deus estava no meio deles (2,27) e teriam
poder pelo espírito a ser derramado. O povo todo haveria de contar com profetas.
A suspensão das catástrofes (praga de gafanhotos e seca) transforma o ânimo do
povo, que reconhece a ação divina e, principalmente, sua presença libertadora. Agora
a promessa é de um dia de justificação para o povo de Judá e Jerusalém, que “nunca
mais passará vergonha” (v. 27).
Para reflexão e debate
1. Toda crise tem o seu reverso. Toda noite anuncia um novo amanhecer. Joel
conseguiu orientar seu povo à luta para ver a bênção da fecundidade instalada no
interior da crise. Orientado, o povo libertou a bênção e fecundou a vida. A crise,
muitas vezes, paralisa o movimento e impede a visão. Uma das armas de Joel para
ajudar a si mesmo e o povo era olhar a crise a partir do contraste, enxergando
dessa forma a esperança. E você?
2. Em Joel encontramos algumas expressões surpreendentes. Uma delas assim diz:
“Javé respondeu a seu povo” (2,19). Deus se revela dentro da história de seu povo e
o povo aprende a escutar Deus a partir da realidade. Não há espaço para
escapismos e alienação. Para Joel, Deus sempre fala a partir da realidade. Você já
pensou que o cotidiano de cada um e do povo é o ambiente preferido do falar e do
agir de Deus?

39
Efusão do espírito (3,1-5)
1
Depois disso, derramarei meu espírito sobre todos os viventes, e os filhos e filhas de vocês se tornarão
profetas. Entre vocês, os velhos terão sonhos e os jovens terão visões! 2Nesses dias, até sobre os escravos e
escravas derramarei o meu espírito! 3Farei prodígios no céu e na terra: sangue, fogo e colunas de fumaça. 4O
sol vai se mudar em trevas, e a lua em sangue, diante da chegada do Dia de Javé, grandioso e terrível!
5
Então, todo aquele que invocar o nome de Javé será salvo, pois a salvação estará no monte de Sião e em
Jerusalém – como disse Javé –, e entre os sobreviventes estarão aqueles que Javé tiver chamado.
Esta pequena perícope pode ser dividida em três blocos literários. O primeiro
bloco (vv. 1-2) contém a garantia de salvação, confirmando a mensagem introduzida
na seção anterior. O segundo bloco (vv. 3-4) anuncia os sinais da soberania divina. O
terceiro (v. 5) é o elemento de conclusão e que dá sentido às seções anteriores (2,12-
17; 2,18-27). A perícope tem forte vinculação temática com 2,18-27, ambas tratando
das características da restauração que estava por vir.
A narrativa é iniciada pelos dois primeiros versos que assinalam o que vai
acontecer. Nestes versos são destacados o autor da fala, o conteúdo e os destinatários.
O primeiro verso (3,1) introduz a volta do Dia de Javé. Todavia, esse dia é
apresentado de forma mais expandida do que a abordagem dada na primeira parte do
livro (1,1-2,17). A ênfase da primeira parte do livro era o julgamento e a destruição,
enquanto no início deste capítulo se oferece a salvação para os arrependidos e se
mantém o julgamento de condenação para os que não se arrependeram e continuam
nas práticas de injustiça.
A destruição e situação de penúria causada pelas invasões dos gafanhotos e das
nações inimigas ficaram para trás. Um cataclismo cósmico atinge a todos e causa
bem-estar e um futuro cheio de esperança, uma dádiva de Deus ao povo que o buscou
em penitência com coração convertido e sincero. O autor de Joel utiliza uma forma de
interpretação que é característica da mentalidade apocalíptica, que amplia a realidade
e a história humana, já que estas não são capazes de expressar a ação a ser realizada
por Javé.
O quarto caminho pedagógico apresentado pelo autor é, portanto, o caminho do
Espírito da comunidade. Uma comunidade, diga-se de passagem, inclusiva. Joel
parece dizer que profetizar é tão bom que vai ser para todos, revelando assim a
existência de um movimento que deseja ver a ação do espírito se espalhando pelo
povo todo. Para isso, Joel estabelece um requisito indispensável, registrado em 3,5.
Ora, para obter a salvação se faz necessária a indicação do nome do Senhor, o
reconhecimento de que Javé está presente e atuante. Dessa forma, o espírito de Deus
transformará todos em profetas, ou seja, todos os que invocarem (o nome de Javé)
serão capazes de interpretar, dentro de suas vidas e da história, os sinais da presença e
da vontade divinas, como o faziam os antigos profetas de Israel.
Seria razoável pensarmos na possibilidade de ler “o nome de Javé” em Joel de
forma intertextual. Nesse caso, dois outros profetas contribuiriam com a leitura. O
primeiro deles é Jeremias, que assim se expressa: “E depois vocês se apresentam diante
de mim, neste Templo, onde meu nome é invocado, e dizem: ‘Estamos salvos!’, para
depois continuarem praticando essas abominações” (Jr 7,10). O segundo profeta é
Sofonias, que afirma: “Deixarei em você um resto, um povo pobre e fraco, que se

40
refugiará no nome de Javé” (Sf 3,12). Jeremias e Sofonias claramente associam o nome
de Javé ao comportamento que leva à prática da justiça e ao exercício da
solidariedade. Joel também não participaria dessa tradição ao usar o “nome de Javé”?
Provavelmente sim! E, consequentemente, também seria possível pensar que a
insistência de Joel na realização do culto como manifestação de conversão e bênção
não deveria deixar a impressão de que ele fosse simplesmente pró-Sião. Invocar o
“nome de Javé” traz a implicação de aproximar a mística da libertação a um Deus que
caminha solidariamente com o povo. Nesse sentido, para Joel, Sião e Jerusalém se
apresentariam como locais de salvação porque também deles emanaria a prática da
justiça.
Nesse caminho, é fundamental fazer todo o possível para evitar que alguém passe a
manipular o espírito de Deus. Para Joel não há nem pode haver monopólio do
espírito. Não há sequer uma única pessoa ou instituição que possa se arrogar
detentora do espírito de Deus. A advertência de Joel é que esse caminho se faz
coletivamente. Uma grande peregrinação do povo de Deus em busca de sua
libertação. Uma vivência comunitária do espírito!
Jl 3,1-5 faz lembrar Nm 11,26-30. Neste texto Moisés queixa-se a Deus do peso do
governo, e Deus lhe responde repartindo o dom do espírito entre setenta anciãos
escolhidos e designados. Quando os dois anciãos que não haviam assistido à
cerimônia ficam cheios do espírito e começam a profetizar no acampamento, um
jovem corre para dar a notícia a Moisés, e o seu ajudante Josué lhe insinua que proíba
tal atividade. A isso Moisés responde: “Você está com ciúme por mim? Quem dera
todo o povo de Javé fosse profeta e recebesse o espírito de Javé!” (Nm 11,29). Com
certeza a profecia de Joel está radicalmente ligada a esse desejo de Moisés, superando
maravilhosamente a visão de Dt 18,15, muito restritiva: “Javé, o seu Deus, fará surgir
do meio de vocês, dentre os seus irmãos, um profeta como eu: a ele vocês vão ouvir”.
A menção do derramamento do espírito no Antigo Testamento não é exclusiva do
profeta Joel. Também podemos encontrá-la em Is 32,15; 44,3-5; Ez 36,27-28; 37,14 e
Zc 12,10. Na tradição judaica, somente pessoas proeminentes da nação tinham esse
privilégio de receber a ação do espírito sobre eles, como Gideão (Jz 6,34), o rei Saul (1
Sm 16,14), o profeta Ezequiel (Ez 2.2), dentre outros. A manifestação do espírito em
Joel é comunitária, e não individual.
O dom do espírito rompe as barreiras de gênero, idade e classes sociais. Um dom
que anula por completo toda e qualquer discriminação (3,1-2). Fato muito
interessante é que aparentemente o conteúdo de 3,1-5 esteja limitado e concentrado
na comunidade de Israel; todavia, prestando um pouco mais de atenção, nota-se que o
primeiro enunciado (3,1) tem alcance universal: “todos os viventes” (literalmente
“toda carne”). O autor, ao mesmo tempo que está restringindo o alcance da
mensagem, insinua que, a partir do momento em que o dom do espírito for
concedido a todos, até mesmo a distinção de povos ou de nações cairá por terra.
Javé passa a ser apresentado por Joel como um Deus diferente daquele que era
divulgado pela teologia dos sobreviventes do exílio, como por exemplo Esdras e
Neemias, ou seja, um Deus exclusivo e protetor do povo de Israel. Agora, Javé é
apresentado como libertador dos enfraquecidos e excluídos de todo o mundo
conhecido. O espírito dele é derramado sobre todos os viventes, independente de

41
faixa etária, gênero, classe social. A mudança de pensamento é significativa. O livro de
Joel apresenta uma literatura revolucionária para a cosmovisão tradicional judaica.
Percebe-se uma mudança de estilo fortemente influenciada, provavelmente, por um
imaginário coletivo em desenvolvimento e uma progressão universalista, comum na
literatura apocalíptica.
A perícope apresenta novas relações sociais, uma sociedade em que todos
participam por igual. Um ambiente onde não há espaço para exclusões de qualquer
ordem. Para Joel a nova sociedade levada a efeito pelo espírito é, necessariamente,
uma sociedade de inclusão. Ao procurar restaurar as relações sociais, o profeta se vê
disposto a anular toda e qualquer discriminação. Uma sociedade baseada em
discriminações favorece o surgimento de escalas de poder. Uns poucos podem mais e
fazem valer seus direitos, e outros servem e obedecem. Joel aponta três situações
diferentes em que a discriminação pode surgir com força e prejudicar a construção de
uma sociedade a partir de relações sociais bem ajustadas:
a) discriminação de idade: “velhos e jovens”;
b) discriminação de classe social: “escravos e escravas”;
c) discriminação de gênero: “filhos e filhas”.
O verbo utilizado por Joel para descrever a ação inclusiva do espírito é “derramar”.
O verbo era aplicado originariamente a líquidos (água ou sangue). A imagem literária
do poeta é cheia de plasticidade. O verbo “derramar”, usado duas vezes, lembra a
imagem de uma chuva torrencial que cai sobre todos e que encharca e transforma a
todos. O texto leva a pensar que a ação criadora das novas relações sociais é uma
criação do espírito. Vem de cima e afeta a todos. As pessoas são dominadas
(encharcadas) por uma proposta de vida diferente. Nessa vida, ainda que diferentes,
são sempre iguais. O rompimento das barreiras acontece porque o espírito é
derramado em grande medida. Não se trata de um privilégio de alguns em detrimento
de muitos. Muito menos se trata de um espírito que cria distinções entre pessoas de
primeira e pessoas de segunda classe. Não se trata de porções limitadas do espírito,
mas de um derramamento.
Historicamente a concessão do espírito era destinada a pessoas com uma missão
específica dada por Deus, como já citado no caso de Moisés e seus auxiliares. Também
os juízes recebiam o espírito para capacitá-los no governo (Jz 3,10; 11,29; 14,6), os
profetas eram conhecidos como “homens do espírito” por serem intérpretes da
palavra de Javé (cf. 2Sm 23,2; 2Rs 2,9; Is 48,16; 61,1; Zc 7,12). Sobre o futuro
descendente de Davi, o messias esperado, com base em Is 11,2, esperava-se que
repousasse sobre ele o espírito do Senhor para que pudesse governar com sabedoria e
temor do Senhor.
Entretanto, se em Joel a concessão é claramente para todas as pessoas, sem
qualquer distinção, em momento algum se informa uma data definida. A promessa é
para um tempo futuro. Essa abertura de data permitirá que alguns séculos depois os
primeiros cristãos leiam o texto de Joel como que antecipando o que ocorreu em
Pentecostes (At 2,16-21), ou seja, a presença permanente do Espírito na Igreja. Joel
pode ser considerado como o profeta do Pentecostes. No dia de Pentecostes o Espírito
de Deus foi concedido a todos, sem distinção de idade, sexo, raça ou condição social.
A Igreja passa a se apresentar como o novo povo de Deus, um povo que acolhe todo

42
aquele que crê, pois, como ensina o apóstolo Paulo: “Não há distinção entre judeu e
grego, porque Jesus é Senhor de todos, e concede suas riquezas a todos os que o
invocam. ‘Pois todo aquele que invoca o nome do Senhor, será salvo’ ” (Rm 10,12-13).
Um povo de profetas, um povo que sabe descobrir e transmitir o significado da vida, à
luz de sua fé em Deus e em Cristo. A inspiração em Joel não fica restrita a Lucas e ao
apóstolo Paulo, mas influenciará também os evangelhos sinóticos, em especial o
sermão escatológico descrito em Mt 24,21.29 e paralelos, bem como o autor do
Apocalipse (Ap 6,12-13.17; 7,14; 9,7-9; 9,15; 22,1).
O segundo bloco da perícope introduz uma série de manifestações cósmicas como
sinais que se realizarão nos céus e na terra (duas dimensões de uma única realidade)
para anunciar a chegada do Dia de Javé. A descrição dos vv. 3-4 relembra os prodígios
descritos em Ex 14,19-20, bem como a descrição de Am 8,9. Todavia, a descrição de
Joel pode ter sido inspirada por fenômenos naturais como eclipses, terremotos ou
erupções vulcânicas, que antigamente eram justificadas como eventos sobrenaturais
ocorridos por uma intervenção da divindade. O profeta enfatiza que o Dia de Javé
será “grandioso e terrível”. Um dia que ficará marcado, inesquecível. A expressão
“grandioso e terrível” num primeiro momento pode parecer assustadora, mas dentro
do contexto de 3,1-5 é um susto agradável, pois é um dia de salvação e bênção para os
justos diante de Deus. Os sinais, tanto nos céus como na terra, são criados por Deus. É
ele quem “faz” e quem “muda”.
O quinto e último verso da perícope 3,1-5 muda o foco da dimensão geográfica. A
atenção não está mais nos sinais dos céus, mas em lugares concretos, símbolos de
refúgio e salvação: o monte Sião e a cidade de Jerusalém. Estes lugares, pela tradição
judaica, tinham a função de dar refúgio aos injustiçados, enfraquecidos e excluídos,
que aí deveriam aguardar até que Javé interviesse e revertesse a situação deles. Lugar
de refúgio é lugar de invocar o nome de Deus para ser salvo: “Então, todo aquele que
invocar o nome de Javé será salvo”. Os salvos encontrariam refúgio em Jerusalém e se
reuniriam no monte de Sião como comunidade cultual, ampla e inclusiva. Todas as
pessoas, sem distinção, poderiam se abrigar na cidade de refúgio e se unir à
comunidade dos salvos. Guardada as devidas proporções, pode-se ver na cidade de
Jerusalém e no monte Sião uma memória do monte Sinai como ambiente de
encontro, celebração e adoração a Javé, lugares da manifestação da glória de Deus (Sl
99, 110, 122, 126,128, 134, 146, 147).

43
Julgamento contra as nações inimigas (4,1-17)
1
Nesses dias, nesse tempo, eu vou mudar a sorte de Judá e Jerusalém. 2Vou reunir todas as nações do mundo
e fazê-las descer ao vale de Josafá. Aí abrirei um processo contra elas, por causa de Israel, que é meu povo e
minha herança. Pois elas espalharam Israel entre as nações e repartiram entre si minha terra. 3Rifaram meu
povo. Trocaram meninos por prostitutas, e meninas a troco de vinho para se embriagarem. 4E vocês, o que
querem de mim, Tiro, Sidônia e distritos da Filisteia? Vocês, por acaso, vão se vingar de mim? Se pensarem
nisso, faço recair essa vingança sobre suas próprias cabeças. 5De fato, vocês roubaram minha prata e meu
ouro, levaram para seus templos os meus tesouros. 6Vocês venderam aos filhos de Javã os filhos de Judá e de
Jerusalém, somente para afastá-los da terra deles. 7Pois agora, eu vou tirá-los do lugar para onde foram
vendidos. Faço voltar contra vocês aquilo que vocês praticaram: 8pela mão dos filhos de Judá, venderei os
filhos e filhas de vocês, e eles os venderão à distante nação dos sabeus. Assim falou Javé. 9Proclamem isto
entre as nações: Preparem uma guerra santa, alistem soldados. Venham, avancem todos os guerreiros!
10
Transformem seus arados em espadas, e as foices em lanças! Diga o covarde: “Eu sou um soldado!”
11
Corram, venham todas as nações vizinhas e se reúnam aí. (Javé, manda teus soldados lá do alto.)
12
Venham, nações, e subam ao vale de Josafá, porque eu me sentarei aí para julgar todas as nações vizinhas.
13
Lancem a foice, porque a colheita está madura. Venham pisar, pois o lagar está cheio e as tinas
transbordando, porque é grande a maldade das nações. 14Multidões e multidões no vale da Decisão, porque
está próximo o Dia de Javé, no vale da Decisão! 15O sol e a lua se escurecem, e as estrelas perdem seu brilho.
16
Javé ruge desde Sião, desde Jerusalém faz ouvir seu grito: os céus e a terra começam a tremer! Javé, porém,
é um esconderijo para seu povo, é um abrigo para os filhos de Israel. 17Vocês ficarão sabendo que eu sou
Javé, o Deus de vocês, que moro em Sião, meu santo monte. E Jerusalém será santa. Estrangeiros nunca mais
passarão por dentro dela.
O capítulo 4, como um todo, retrata em uma imagem escatológica os efeitos de
longo prazo da resposta de Javé à oração e à penitência dos sacerdotes de 2,17. Jl 4,1-
17 pode ser dividida em três seções distintas: introdução (1-3), chamada para o
julgamento escatológico (4-8), e oráculo contra Tiro, Sidon e a Confederação Filisteia
(9-17). Os três primeiros versos (1-3) introduzem as duas últimas subdivisões do
capítulo (9-17 e 18-21).
No estudo da primeira parte do livro vimos que 2,1-11 anuncia a catástrofe
escatológica para Jerusalém. Agora, na segunda parte do livro, as perícopes de 4,1-3 e
4,9-17 anunciam a reversão, ou seja, a prosperidade para Jerusalém. Estamos,
portanto, diante de textos relacionados, porém no sentido inverso: o primeiro para
anunciar calamidades para o povo de Jerusalém, e o segundo para anunciar a reversão
das calamidades em bênçãos. Nesta perícope (vv. 1-17) ficam bem destacadas as duas
partes do Dia de Javé, salvação para os justos e condenação para os injustos.
O texto inicia com o anúncio da chegada da restauração de Judá e de Jerusalém (v.
1) e do julgamento de todas as nações do mundo no vale de “Josafá”, que significa
algo como “o Senhor julga” (v. 2). O nome tem caráter apenas simbólico. De fato, em
4,14 se lhe dá o nome de vale da Decisão ou da Trilhadeira, para indicar o ato que nele
é realizado. O texto do profeta Joel não situa esse vale em local geográfico
determinado, assim como não situa no tempo os atos que Deus ali realiza. O motivo
do julgamento seria a humilhação a que sujeitaram o povo de Judá e Jerusalém (v. 3).
O segundo bloco (vv. 4-8) apresenta um ato central que se caracteriza como
julgamento ou ajuste de contas. Além disso, aí é apresentado o Juiz Supremo num

44
processo criminal contra os injustos com suas práticas desumanizadoras. É
importante notar que se trata de um julgamento que é direcionado, pois, afinal, o
pecado é especificado e os nomes são dados aos autores. Tiro e Sidon eram as duas
principais cidades da Fenícia. No início, Tiro estava localizada no continente, mas por
questões de segurança foi posteriormente transferida para uma ilha rochosa próxima;
enquanto os distritos da Filisteia se localizavam a sudoeste da Palestina e abrangiam
uma área de 64 km de comprimento por 24 km de largura, sendo compostos por um
povo excessivamente agressivo com os israelitas. A disputa entre estes povos e o povo
de Israel era constante, um verdadeiro círculo vicioso de violência. Todavia, a
violência anotada em Joel não diz respeito apenas ao roubo de bens e riquezas
materiais, mas também ao assalto à liberdade humana, ao tráfico humano. O povo
estava sofrendo com traficantes de crianças de Tiro, Sidon e dos distritos da Filisteia
(v. 4).
Eles apanhavam meninos para vendê-los aos gregos como escravos (vv. 6-7). O
autor não se preocupa em mencionar a maneira como os acusados iriam ser reunidos,
mas dá ênfase às acusações: deportações, expropriações e abusos sexuais. Os vv. 3 e 6
trazem forte densidade social. Há uma grande denúncia de que os pequeninos de
Israel estavam sendo transformados em mercadoria barata e vendidos como escravos.
Joel condena o tráfico humano bem como a instrumentalização de meninos e
meninas que perdiam sua condição de ser, trocados por prostitutas ou por vinho! A
literatura pós-exílica menciona o relacionamento comercial de escravos entre os
gregos e fenícios (Ez 27,13; 1Mc 3,41). A submissão como escravos para nações
estrangeiras, consideradas imundas pelos judeus, era um golpe severo e humilhante
para o povo de Deus.
No entanto, os vv. 7 e 8 demonstram que a última palavra seria de Javé. Ele
anuncia que faria o mesmo com as nações injustas e opressoras do povo de Judá e
Jerusalém. Tudo que o haviam feito para os judeus seria retribuído a eles (lei da
retribuição ou lei da retaliação). Os filhos e filhas de Judá e Jerusalém voltariam para a
terra natal, restaurados, e por meio deles se faria a vingança (v. 8).
No terceiro bloco (vv. 9-17), os protagonistas voltam a ser as nações do mundo,
não apenas os vizinhos imediatos. O profeta retoma o aviso que havia interrompido
no v. 3. As nações seriam chamadas para guerrear contra o povo de Deus, mas
haveriam de ser derrotadas. Trata-se de uma guerra santa. Apesar de a batalha não ser
descrita, pode-se perceber uma inversão completa dos símbolos que serviram a outros
profetas para descrever a era messiânica (Is 2,4; Ml 4,3; Zc 9,10). A imagem que para
os profetas Isaías, Malaquias e Zacarias era de calma e paz, Joel a reverte em imagem
bélica, um chamado para a guerra. Para a batalha final, os instrumentos agrícolas que
deveriam produzir o bem-estar e a vida serão transformados em instrumentos de
guerra e morte. Uma inversão completa registrada nos vv. 10-11.
Já se falava de Judá e Jerusalém no v. 1. A garantia desse novo momento é a
presença de Javé em Sião. Ele se senta em Sião para julgar: não está no trono para
atender pedidos, mas para anunciar a sentença aos injustos e opressores. A punição é
descrita de forma metafórica por meio de imagem agrícola, uma figura dupla
(colheita de grãos e prensa das uvas): “Lancem a foice, porque a colheita está madura.
Venham pisar, pois o lagar está cheio e as tinas transbordando, porque é grande a

45
maldade das nações”. Is 63,1-6 também utiliza a figura da prensa das uvas para
exemplificar o tipo de punição para os opressores de Judá e Jerusalém.
Em Jl 4,15-17 a ênfase é dada aos elementos cósmicos como forma de manifestação
de Javé no monte Sião. A nação de Judá é protegida, aperfeiçoa o conhecimento de
seu Deus e sua capital tem vínculo permanente estabelecido com Javé, enquanto o
julgamento é direcionado aos seus inimigos, as nações estrangeiras, que serão
condenadas pelo sangue derramado (4,19). A destruição é direcionada a todas as
nações do mundo pelas práticas de violência e desumanização. Até mesmo “o sol e a
lua se escurecem, e as estrelas perdem seu brilho” (v. 15). No Antigo Oriente Próximo
a escuridão tinha papel importante no pensamento religioso, sempre ligado a algo
nocivo ou maléfico, ou seja, causava espanto, temor e tristeza. Em Joel tem o sentido
de anunciar a manifestação de Javé, uma forma de teofania ligada diretamente ao Dia
de Javé, um dia em que se manifesta a ira de Deus (Is 13,10; Ez 32,7; Mt 24,29; Mc
13,24). Essa é uma forma de literatura que pertence ao gênero literário apocalipse, que
tem por objetivo desvelar a realidade no âmbito de visão cósmica, tendo como ênfase
a soberania divina.
Em meio ao pânico universal e cósmico o povo pode salvar-se porque o próprio
Javé é refúgio e fortaleza (4,16-17). O rugir de Javé desde Sião é uma representação de
seu poder (Jr 25,30; Am 1,2) sobre os céus e a terra, ou seja, a totalidade da criação.
O destaque para a sublimidade de Sião como monte inviolável e habitação de Javé,
conforme a tradição de Sião, é uma demonstração da predileção de Javé – e
certamente uma predileção do profeta Joel – por essa cidade e seu povo, sendo
escolhida como sede de seu governo universal. A tradição de Sião está intrinsicamente
ligada ao elemento monárquico e à dinastia davídica, que com o tempo transformou o
monte em um local simbólico no imaginário dos judeus, como centro político e
religioso. Após a queda de Judá e a destruição do Templo, Sião havia se tornado
símbolo de vergonha e desgraça nacional, imagem que foi sendo resgatada pelos
profetas, sendo em Joel retomada de forma sublime – todavia, com o deslocamento da
centralidade da figura monárquica da linhagem de Davi para a centralidade do reino
de Javé, o único rei, que habita em Sião.
As forças da natureza, que provocaram as calamidades em Judá, agora são
instrumentos de bênção. A liturgia penitencial realizada com o coração sincero havia
chamado a atenção de Javé, que retorna ao povo por meio da fecundidade da terra e
da prosperidade. O Deus que habita em Sião e é o juiz universal de todo o cosmo,
tomando por base o critério da justiça e misericórdia, reverte a situação de Judá. Joel
se utiliza de textos de Jeremias (25,34-36) e de Amós (2,4-8; 2,6-16) que previam o
juízo sobre Israel e Judá pelos seus atos de injustiça, invertendo porém o sentido,
interpretando de forma positiva para Judá e condenatória para seus inimigos, as
nações estrangeiras que afligiram seu povo.
O texto apresenta outra forma de teofania, em que Javé é representado por formas
de sons de animais e fenômenos meteorológicos, expressões que são utilizadas
também por outros livros, como Is 5,29 (rugir de um leão) e Jó 37,4 (som de trovão).
Ele é terror para as nações estrangeiras inimigas e segurança para Judá. Assim, Javé é
apresentado como um abrigo seguro. A expressão tem o sentido de um lugar onde as
pessoas buscam abrigo em situações de tempestades, bem como lugar de refúgio para

46
fugitivos ou homens de guerra. Uma proteção interna e externa contra os inimigos,
que no caso de Javé é impenetrável e indestrutível. Um contraste com a situação de
insegurança das nações que não confiavam e não conheciam Javé.
A ação salvífica de Javé é motivo para que os habitantes de Judá reconheçam de
uma vez por todas sua identidade e sua soberania sobre tudo e todos. Essa
aproximação conduz a uma proclamação que nunca se cumpriu: “E Jerusalém será
santa. Estrangeiros nunca mais passarão por dentro dela” (v. 17), mas que se transfere
para uma data futura, na esperança de uma época pacífica, com a intervenção de Javé
na própria história.
Alimenta-se a esperança de que as consequências dos eventos do exílio babilônico
em 587 a.C. seriam desfeitas. Javé voltaria a habitar no meio da cidade e sua forma
original seria resgatada (Sl 125,1; Is 2,2-5). Os deuses das nações estrangeiras, tidos
como mais poderosos que o Deus de Judá e Jerusalém, conforme a crença popular da
época, são desmascarados e declarados inexistentes (referência a um monoteísmo
instituído). Desse modo, cumpre-se a promessa de Jl 2,27. As sedes das grandes forças
imperialistas e opressoras se tornarão como um deserto estéril, enquanto Judá e
Jerusalém desfrutarão de fertilidade, prosperidade e paz.
Para reflexão e debate
1. É melhor enfrentar em comunidade os problemas da vida. Joel não dá espaço para
valores individualistas e mesquinhos. Para ele a libertação passa pela comunidade.
Às vezes podemos viver segundo nossos próprios interesses e nos desviamos dos
problemas da comunidade. Qual caminho Joel aponta para nós?
2. Não é possível monopolizar o espírito. A comunidade é a pátria do espírito. Por
meio dele e por ele podemos e devemos derrubar as barreiras que separam as
pessoas. O espírito, de acordo com Joel, nos deixa iguais, e não diferentes. É possível
monopolizar o espírito por causa de interesse pessoais, sociais e religiosos?
3. Reflita sobre a responsabilidade de vivenciarmos a vida do espírito de maneira
responsável e pública. É importante nessa reflexão também fazer a leitura de Gl
3,25-29.

47
Restauração de Judá (4,18-21)
18
Nesse dia, as montanhas gotejarão vinho novo, das colinas escorrerá leite, e a água correrá em todos os
riachos de Judá. Do Templo de Javé brotará uma fonte que irrigará o vale das Acácias. 19O Egito será uma
desolação e Edom será um deserto desolado, por causa da violência contra os filhos de Judá, por terem
derramado sangue inocente na terra deles. 20Judá será habitado para sempre, e Jerusalém por todas as
gerações. 21Vingarei o sangue deles que ainda não foi vingado. E Javé habitará em Sião.
Para elaborar essa perícope, Joel serve-se de textos de outros profetas. Desde o
início já utiliza o termo “nesse/naquele dia”, que era tradicional entre os profetas para
anunciar o dia da intervenção de Javé (Is 4,1-2; 10,20; Os 1,5; Jr 30,8). Am 9,13
empresta sua descrição da montanha gotejando vinho, e Joel acrescenta que “das
colinas escorrerá leite”, talvez uma alusão à terra prometida que manava leite e mel.
Ez 47 e Zc 14,8 cedem a descrição de fontes de águas que nascem no Templo e irrigam
a terra. Em contraste com a seca e falta de alimento (1,17-2,3), faz-se memória da
promessa da terra prometida que “mana leite e mel” (Ex 3,8). No entanto, em Joel é
leite e vinho novo. Faz lembrar também Dt 11,11, que apresenta a promessa de uma
terra prometida que haveria de receber a fertilidade da chuva enviada por Javé, e as
fontes e mananciais descritos em Dt 8,7. A ênfase é dada à origem desta prosperidade,
o Deus que fez a promessa, Javé, o defensor dos injustiçados.
O autor finaliza o livro com uma descrição poética:
a) da reversão completa da antiga situação de crise e penúria que assolava Judá
devido à praga de gafanhotos descrita no início do livro (v. 18);
b) do anúncio de juízo contra antigos e tradicionais inimigos de Israel e Judá (v.
19);
c) da promessa de perenidade para Judá e Jerusalém (v. 20);
d) do reino universal de Javé com sede em Sião (v. 21).
A prosperidade de Judá somente será completa se seus adversários forem
completamente derrotados. Assim sendo, Joel menciona dois antigos inimigos – Egito
e Edom – que sofrerão desolação comparável àquela que o povo de Deus sofreu por
causa da praga de gafanhotos (v. 19).
O Egito é exemplo do império estrangeiro opressor e Edom é exemplo do irmão
traidor. O Egito sempre foi lembrado por ter sido a “casa da escravidão”, de onde o
povo foi libertado, bem como pelas constantes invasões das fronteiras de Judá (1Rs
14,25-26; 2Cr 12,2-12; 14,9-15; 16,8). O Egito, por intermédio do faraó Neco, também
foi responsável pela morte de Josias (2Rs 23,28-30), personagem importante na
tentativa de unificação das tribos de Israel e fortalecimento da monarquia. Quanto a
Edom, era lembrado por não permitir a passagem do povo de Israel por suas terras
durante a peregrinação (Nm 20,14-21; 21,4; Jz 11,17-18), em lutas contra Israel, às
vezes aliado a outros inimigos (1Sm 14,47; 2Sm 8,13-14; 2Cr 20,1) e, acima de tudo,
por seu comportamento covarde quando Judá caiu diante dos babilônicos,
principalmente na venda de judeus como escravos (Sl 137,7; Jr 49,7-22; Ab 10-14).
Em contraste com Judá e Israel, o Egito, a dádiva do Nilo, foi abençoado com
abundância de água. A maioria dos riachos de Judá secava inteiramente nos períodos
de seca. Joel descreve Judá em ótimas condições, ou seja, a permanente residência de

48
Javé em Sião reverterá totalmente a situação. Nesta nova realidade, não haverá mais
estação de seca em Judá, mas abundância de água para as pessoas e para os animais.
Uma fonte inesgotável sairá do Templo do Senhor em Jerusalém (Jl 4,18; Ez 47,1-12;
Zc 14,8). Então Judá poderá se alegrar com a abundância de água, ao passo que o
Egito se transformará num lugar desolado e completamente seco. Edom, por estar
numa região desolada, dificilmente encontrará o suficiente para a sua sobrevivência.
Tudo isso por causa da extrema violência e atrocidades que perpetraram contra o
povo de Deus. Em Ab 10 encontramos expressão similar: “e da violência praticada
contra seu irmão Jacó”. Edom é Esaú, irmão gêmeo de Jacó, e os maus-tratos de Edom
contra os judeus foram particularmente intensos. Os edomitas eram um espinho
constante na vida dos judeus. Eles se aproveitavam das calamidades dos judeus para
se beneficiarem. Por isso há vários oráculos e textos contra eles: Is 34; Ez 25,12-14;
35,15; 36,5; Jr 49,7-22; Lm 4,22; Ab 10-16; Sl 137,7. Amós denuncia a covardia dos
edomitas contra judeus pacíficos: “Assim diz Javé: Por três crimes de Edom e por
quatro, não voltarei atrás. Porque perseguiram seus irmãos com a espada e não lhes
mostraram misericórdia; acenderam sua ira para sempre, guardando furor eterno.
Porei fogo em Temã e queimarei os palácios de Bosra – diz Javé” (Am 1,11-12).
A voz que parece aterrorizar o universo é também a voz que congrega e orienta ao
caminho verdadeiro (vv. 20-21). O tema da presença de Javé em Sião encerra o livro.
A presença de Javé em Judá e Jerusalém é a causa de tamanha prosperidade. A
expressão teofânica de Javé muda nos últimos versículos. Se antes ele se sentava no
vale de Josafá para julgar e desde o monte de Sião lançava seu rugido (ou seja, uma
figura ameaçadora para quem não estivesse em paz com ele), agora ele habita em Sião
e governa junto com seu povo. Podemos ver então que os habitantes de Judá e de
Jerusalém são os sobreviventes de 3,5, e seus descendentes são os cheios de espírito, a
comunidade profética e perfeita. O Dia de Javé inaugurou a era perpétua.
O capítulo quatro fecha trazendo o cerne da mensagem do livro de Joel, ou seja, o
que mais incomodava a Deus e qual seria sua reação. Os crimes dos inimigos que
oprimiam o povo de Judá são anunciados, sobretudo o tráfico humano. O julgamento
será no Dia de Javé, dia de ira para os infratores. O profeta proclama a condenação
(vv. 9-16). Javé anuncia o lugar de seu trono para governar e julgar (Sião) e o
resultado final de bênção contínua, o retorno do paraíso (vv. 17-21).
Para reflexão e debate
1. Da escassez surge a abundância. Javé é o protagonista dessa mudança. Todavia,
não a realiza sozinho. O povo foi atrás, fez a sua parte. Não ficou acomodado,
esperando que tudo caísse do céu. Joel nos lembra que é necessário ao povo
desinstalar-se de seu acomodamento e colocar os pés no caminho. É preciso fazer
história. Que tipo de história sua comunidade está escrevendo ou fazendo?
2. As promessas no livro de Joel têm conteúdo quase exclusivamente agrário. Afinal,
era do campo que o povo retirava a sobrevivência. Hoje, a grande maioria das
pessoas vive em centros urbanos. Qual o conteúdo das promessas de Javé para os
moradores das cidades?

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Coleção LENDO A BÍBLIA

• Lendo o livro de Joel, Luiz Alexandre Solano Rossi e Natalino das Neves
• Lendo o Evangelho Segundo João, Pedro Lima Vasconcellos

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Direção editorial:
Claudiano Avelino dos Santos
Coordenação editorial:
Paulo Bazaglia
Capa:
Anderson Daniel de Oliveira
Imagem de capa:
Jesus lava os pés de Pedro, Ford Madox Brown (1852-6)
Coordenação de desenvolvimento digital:
Guilherme César da Silva
Desenvolvimento digital:
Daniela Kovacs
Conversão EPUB:
PAULUS

Lendo o Livro de Joel [livro digital]; / Luiz Alexandre Solano Rossi [autor] / Natalino das Neves [autor]. – São
Paulo: Paulus, 2018. – Lendo a Bíblia
1,6Mb; ePUB
Os textos bíblicos são tirados da Nova Bíblia Pastoral, Paulus, 2014.

© PAULUS – 2018
Rua Francisco Cruz, 229 • 04117-091 – São Paulo (Brasil)
Tel.: (11) 5087-3700 • Fax: (11) 5579-3627
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52
Scivias
de Bingen, Hildegarda
9788534946025
776 páginas

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Scivias, a obra religiosa mais importante da santa e doutora da Igreja


Hildegarda de Bingen, compõe-se de vinte e seis visões, que são
primeiramente escritas de maneira literal, tal como ela as teve,
sendo, a seguir, explicadas exegeticamente. Alguns dos tópicos
presentes nas visões são a caridade de Cristo, a natureza do
universo, o reino de Deus, a queda do ser humano, a santifi cação e
o fi m do mundo. Ênfase especial é dada aos sacramentos do
matrimônio e da eucaristia, em resposta à heresia cátara. Como
grupo, as visões formam uma summa teológica da doutrina cristã. No
fi nal de Scivias, encontram-se hinos de louvor e uma peça curta,
provavelmente um rascunho primitivo de Ordo virtutum, a primeira
obra de moral conhecida. Hildegarda é notável por ser capaz de unir
"visão com doutrina, religião com ciência, júbilo carismático com
indignação profética, e anseio por ordem social com a busca por
justiça social". Este livro é especialmente significativo para
historiadores e teólogas feministas. Elucida a vida das mulheres
medievais, e é um exemplo impressionante de certa forma especial
de espiritualidade cristã.

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53
54
Santa Gemma Galgani - Diário
Galgani, Gemma
9788534945714
248 páginas

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Primeiro, ao vê-la, causou-me um pouco de medo; fiz de tudo para


me assegurar de que era verdadeiramente a Mãe de Jesus: deu-me
sinal para me orientar. Depois de um momento, fiquei toda contente;
mas foi tamanha a comoção que me senti muito pequena diante dela,
e tamanho o contentamento que não pude pronunciar palavra, senão
dizer, repetidamente, o nome de 'Mãe'. [...] Enquanto juntas
conversávamos, e me tinha sempre pela mão, deixou-me; eu não
queria que fosse, estava quase chorando, e então me disse: 'Minha
filha, agora basta; Jesus pede-lhe este sacrifício, por ora convém que
a deixe'. A sua palavra deixou-me em paz; repousei tranquilamente:
'Pois bem, o sacrifício foi feito'. Deixou-me. Quem poderia descrever
em detalhes quão bela, quão querida é a Mãe celeste? Não,
certamente não existe comparação. Quando terei a felicidade de vê-la
novamente?

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55
56
DOCAT
Vv.Aa.
9788534945059
320 páginas

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Dando continuidade ao projeto do YOUCAT, o presente livro


apresenta a Doutrina Social da Igreja numa linguagem jovem. Esta
obra conta ainda com prefácio do Papa Francisco, que manifesta o
sonho de ter um milhão de jovens leitores da Doutrina Social da
Igreja, convidando-os a ser Doutrina Social em movimento.

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57
58
Bíblia Sagrada: Novo Testamento - Edição
Pastoral
Vv.Aa.
9788534945226
576 páginas

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A Bíblia Sagrada: Novo Testamento - Edição Pastoral oferece um


texto acessível, principalmente às comunidades de base, círculos
bíblicos, catequese e celebrações. Esta edição contém o Novo
Testamento, com introdução para cada livro e notas explicativas, a
proposta desta edição é renovar a vida cristã à luz da Palavra de
Deus.

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59
60
A origem da Bíblia
McDonald, Lee Martin
9788534936583
264 páginas

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Este é um grandioso trabalho que oferece respostas e explica os


caminhos percorridos pela Bíblia até os dias atuais. Em estilo
acessível, o autor descreve como a Bíblia cristã teve seu início,
desenvolveu-se e por fim, se fixou. Lee Martin McDonald analisa
textos desde a Bíblia hebraica até a literatura patrística.

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61
Índice
Rosto 2
INTRODUÇÃO 4
Primeira parte 12
APELO DO POVO DEPOIS DAS INVASÕES DE
12
GAFANHOTOS E NAÇÕES INIMIGAS (1,1-2,17)
Título (1,1) 13
Invasão de gafanhotos (1,2-12) 16
Apelo à penitência (1,13-19) 21
Para reflexão e debate 24
Invasão de nações inimigas (2,1-11) 25
Apelo à penitência (2,12-17) 29
Para reflexão e debate 33
Segunda parte 34
JAVÉ RESPONDE AO POVO (2,18-4,21) 34
O Dia de Javé como fio condutor do livro 35
Prosperidade agrícola (2,18-27) 37
Para reflexão e debate 39
Efusão do espírito (3,1-5) 40
Julgamento contra as nações inimigas (4,1-17) 44
Para reflexão e debate 47
Restauração de Judá (4,18-21) 48
Para reflexão e debate 49
Coleção 50
Ficha Catalográfica 51

62

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