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SUMÁRIO

Capa
Rosto
Introdução | Rezar os Salmos hoje
Capítulo 1 | O lugar do livro dos Salmos na Bíblia
Capítulo 2 | Origem e formação do livro dos Salmos
1. Um processo de formação que durou quase 800 anos
2. Preces vindas de todo canto e lugar
3. Oração dos pobres nos centros de romaria
4. Cânticos populares
5. Coleções de Salmos
6. Canto repetido, canto modificado
7. Davi, o autor dos Salmos
8. Os cinco livros dos Salmos: a Lei orante do povo de Deus
9. Enumeração confusa dos Salmos
10. O conteúdo final do livro dos Salmos
Capítulo 3 | O jeito de o povo da Bíblia rezar os seus Salmos
1. Instruções para o povo
2. Instrumentos musicais
3. Participação do povo
4. Expressão corporal
5. Espelho para todo sofredor
6. Um retrato da vida de todos
7. Ambiente organizado da comunidade
Capítulo 4 | Salmo 1 e Salmo 150: observância e gratuidade
Salmo 1: observância e luta
Salmo 150: gratuidade e festa
Os dois perigos que ameaçam a prece
Capítulo 5 | A poesia dos Salmos
Poesia: o lado de dentro das coisas
Alma e corpo da poesia
O jeito como a poesia dos Salmos arruma as palavras e as frases
O desafio da poesia
Capítulo 6 | A raiz dos Salmos
1. Deus ouve o nosso clamor
2. O Nome dele é YHWH
3. A invocação do Nome de Deus
4. Celebrar o Nome
Capítulo 7 | Portas de entrada para o mundo dos Salmos
1. A porta da memória do passado
2. A porta da contemplação da natureza
3. A porta da busca da face de Deus
4. A porta da busca da felicidade
5. A porta da observância da Lei de Deus
6. A porta da certeza do pobre em ser atendido
7. A porta da oração a Deus na solidão da noite
Capítulo 8 | A oração dos Salmos na vida de Jesus e de Maria sua Mãe

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1. A escola de oração de Jesus
2. O tríplice ritmo da oração na vida do povo no tempo de Jesus
3. Jesus convivendo no ambiente de oração do seu povo
4. A oração na vida de Jesus
5. O Pai-nosso: o Salmo de Jesus
6. O Magnificat: o Salmo de Maria, a Mãe de Jesus
Capítulo 9 | As dificuldades na reza dos Salmos
1. Olhando de perto as dificuldades
* Ira, raiva, agressividade, violência, sofrimento como castigo de Deus
* Imagens estranhas, linguagem difícil, fatos desconhecidos
* Afirmações que contradizem a nossa experiência diária
2. Esclarecendo algumas dificuldades
* Considerações sobre a violência e a ira de Deus nos Salmos
* Considerações sobre a pedagogia divina e a imagem que temos de Deus
* Sugestões para as imagens estranhas, linguagem difícil, fatos desconhecidos
Capítulo 10 | O rio dos Salmos: do nascedouro ao mar. Um breve resumo de tudo o
que vimos
1. A nascente
2. As fontes
3. Os córregos
4. O rio
5. O barco
6. Os romeiros
7. Os remos
8. O piloto
9. O porto
10. O mar
Capítulo 11 | Sugestões para assimilar os Salmos na vida
1. Sugestões de como estudar um salmo
2. Sugestão para você fazer o salmo da sua vida
3. Sugestão para a família ou a comunidade fazer o seu salmo
4. Sugestão de como atualizar os Salmos antigos para nós hoje
5. A vida de hoje nos Salmos de ontem
6. Leitura frequente, pessoal e comunitária, a partir de Jesus
Capítulo 12 | Os Salmos: um itinerário para Deus
1. A busca de Deus: Onde encontrá-lo? (Sl 77,4.7-11)
2. O retrato de Deus que orienta a busca (Sl 145,7-10)
3. Amadurecendo em humanidade diante de Deus (Sl 131)
4. O caminho para Deus passa pelo amor ao próximo (Sl 24,1-6)
5. Deus é amor, o amor revela Deus (1Cor 13,4-8)
6. A presença de Deus irrompe na natureza e nas coisas da vida! (Sl 8,2-5)
7. Prisioneiro do desejo de Deus (Sl 63,2.6-9)
8. O Salmo de Jesus (Mt 6,9-13)
9. O Salmo de Maria, a mãe de Jesus (Lc 1,46-55)
10. Um dos muitos Salmos da Igreja e das nossas comunidades
Apêndice | Temas frequentes na oração dos Salmos
1. A raiz de onde nasceram os Salmos
2. A contemplação da natureza como criatura de Deus
3. Amor e fidelidade
4. Deus acolhe os pobres e os indigentes
5. A busca da face de Deus
6. A busca da felicidade: feliz quem busca o Senhor

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7. De noite rezo na cama
Coleção
Ficha Catalográfica

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INTRODUÇÃO
Rezar os Salmos hoje

H á uma diferença entre as palavras “rezar” e “orar”. Posso rezar os Salmos e


posso orar os Salmos. “Rezar” vem de “recitar”: recito, rezo orações que outros
fizeram. “Orar” vem da palavra latina “ora” (bocas): oro, pronuncio com a boca as
orações que eu mesmo fiz. A reza, a recitação, quando feita mecanicamente, favorece
a rotina e torna superficial a oração. No tempo de Jesus, o ideal era este: aprender a
rezar os Salmos de tal maneira que eles despertem a criatividade e levem a pessoa a
produzir o seu próprio salmo. Foi o que aconteceu na vida de Jesus. Ele fez o seu
próprio Salmo que é o Pai-nosso (Mt 6,9-13; Lc 11,2-4). O salmo de Maria, a mãe de
Jesus, é o Magnificat (Lc 1,46-55).
Milton Nascimento tem uma música, cuja letra diz assim: “Certas canções que
ouço cabem tão dentro de mim que perguntar carece: Como não fui eu que fiz?”. Será
que eu posso dizer: certos Salmos cabem tão bem dentro de mim que perguntar
carece: Como não fui eu que fiz? Será que posso chegar a rezar os Salmos de tal
modo que eles expressem aquilo que estou sentindo? Dizia o monge João Cassiano,
do século IV (360-435): “Instruídos por aquilo que nós mesmos sentimos, já não
percebemos o salmo como algo que só ouvimos, mas sim como algo que
experimentamos e tocamos com nossas próprias mãos; não como uma história
estranha e inaudita, mas como algo que damos à luz desde o mais profundo do nosso
coração, como se fossem sentimentos que formam parte do nosso próprio ser”
(Collationes X, 11). Este é, até hoje, o ideal a ser alcançado na reza dos Salmos.
Às vezes, acontece que rezamos um salmo e ele não nos diz nada. Isso nem
sempre é por falta de estudo ou de piedade. Pode ser, simplesmente, como dizia o
monge Cassiano, por falta de atenção “àquilo que nós mesmos sentimos”. Pois, se eu
vivo na superficialidade, sem me aprofundar “naquilo que nós mesmos sentimos”,
não chego a experimentar a vida que é a raiz de onde nasceu o salmo, e o salmo
permanecerá uma oração estranha e distante, que não me diz respeito.
Os Salmos nasceram da vida, e nas experiências da vida encontramos a chave
principal para abrir a porta que nos permite entrar no mundo dos Salmos. E são tantas
as experiências da nossa vida! Alegria numa reunião de família (Sl 128,3); admiração
diante da beleza do pôr do sol ou do luar do sertão (Sl 8,4); revolta diante das
injustiças (Sl 58,2-10); uma criança dormindo tranquila no colo da mãe (Sl 131,2);
um pedreiro que levanta a parede de uma casa (Sl 127,1); saudades da terra natal (Sl
42,5) etc. Tudo aquilo que a vida tem de belo ou de triste pode tornar-se assunto para
uma conversa ao pé do ouvido com este Deus amigo. Assim nasceram os Salmos.
Brotaram da vida do povo. Funcionam como colírio. Ajudam a descobrir os reflexos
de Deus nas coisas da vida.
Este livro quer oferecer uma ajuda, visto que ele traz sugestões e reflexões de
como abrir a porta da casa dos Salmos e encontrar aí dentro um lugar aconchegante,
para poder louvar a Deus e fortalecer em nós o compromisso com a busca do Reino
de Deus e a sua justiça (cf. Mt 6,33). O estudo que faremos tem dois objetivos. O
primeiro é ajudar a conhecer o livro dos Salmos pelo lado de fora, dando informações
sobre a sua origem e o seu uso. O segundo é procurar abrir algumas janelas, por onde

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os Salmos poderão ser observados e meditados pelo lado de dentro. Ambos os
objetivos nascem da mesma preocupação: oferecer uma chave para perceber a sua
importância para a nossa vida.

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CAPÍTULO 1
O LUGAR DO LIVRO DOS SALMOS NA BÍBLIA

H á três tipos de livros no Antigo Testamento: os livros históricos, que descrevem


o passado do povo de Deus; os livros sapienciais ou livros de sabedoria, que
falam da vida presente do povo, da sua sabedoria e da sua luta diária para sobreviver;
os livros proféticos, que conservam as palavras dos profetas para orientar a
caminhada do povo em direção ao futuro.
O livro dos Salmos costuma ser colocado entre os livros sapienciais. Mas o
curioso é que nos Salmos não há só sabedoria. Há também muita história e profecia.
E nos livros proféticos, históricos e sapienciais, não há só profecia, história e
sabedoria; há também Salmos, muitos Salmos. Só uma pequena parte dos Salmos da
Bíblia está no livro dos Salmos; a outra parte, bem maior, está espalhada pelo resto da
Bíblia, até no Novo Testamento.
Algo semelhante acontece com o tempo em que os Salmos foram escritos. Há
Salmos que foram feitos quando o livro dos Salmos ainda nem existia. Por exemplo,
os cânticos ou Salmos de Miriam (Ex 15,21), de Moisés (Ex 15,1-18), de Débora (Jz
5,1-31), de Ana (1Sm 2,1-10). E há Salmos que foram feitos bem depois que o livro
dos Salmos já estava pronto. Por exemplo, os cânticos de Maria (Lc 1,46-55), de
Zacarias (Lc 1,67-79), de Simeão (Lc 2,29-32) e os cânticos das primeiras
comunidades cristãs, que o apóstolo Paulo copiou e conservou nas suas cartas (1Cor
13,1-13; Fl 2,6-11).
Essas breves observações sobre o lugar do livro dos Salmos no conjunto da Bíblia,
sobre o conteúdo do livro dos Salmos e sobre a época em que os Salmos foram feitos,
permitem tirar quatro conclusões muito simples e muito importantes:
1. Amostra: O livro dos Salmos não pretende ter o monopólio da oração; pretende
ser apenas uma amostra de como o povo de Deus rezava naquele tempo.
2. Modelo: O livro dos Salmos oferece um modelo e um estímulo de como se
pode rezar. Quer provocar a criatividade e suscitar novos Salmos, como de fato
suscitou em muitas pessoas.
3. Ajuda: O livro dos Salmos serve como ajuda na hora da precisão. Todos nós, de
vez em quando, temos momentos de vazio e de abandono, em que já não
sabemos como e o que rezar. Numa hora dessas, é bom poder recorrer aos
Salmos e usar suas palavras antigas sempre novas para dirigir-nos a Deus. Foi o
que fez Jesus na hora da sua morte: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me
abandonaste?” (Mc 15,34; Sl 22,2).
4. Vida: Para o povo de Deus, a prece não era um setor isolado, separado da vida.
Pelo contrário! Há um vaivém constante entre prece e vida, vida e prece. As
duas formavam uma unidade.
Duas comparações para resumir o que foi dito:
a) O livro dos Salmos é como a caixa d’água da nossa casa. Parte da água está
dentro da caixa, parte dela está nos canos que percorrem a casa. Canos de dois
tipos: os canos que conduzem a água da fonte até a caixa, e os canos que levam

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a água da caixa até as torneiras. Às vezes, os canos são tantos e tão grandes, que
há mais água nos canos do que na própria caixa d'água. Há mais Salmos nos
outros livros da Bíblia do que no próprio livro dos Salmos.
b) A Bíblia é como uma casa à beira do rio. Você vê o reflexo da casa nas águas
do rio. O rio é a oração dos Salmos. É no rio dos Salmos que você vê refletida
toda a vida do povo: sua lei, sua história, sua sabedoria, sua profecia. Os Salmos
são o lado orante da vida e da história do povo de Deus.

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CAPÍTULO 2
ORIGEM E FORMAÇÃO DO LIVRO DOS SALMOS

N a superfície do livro dos Salmos, aparecem alguns sinais que chamam a atenção:
repetições, interrupções, incertezas quanto ao autor do salmo, confusão quanto à
enumeração dos Salmos. São pequenas janelas que permitem olhar para dentro da
casa e conhecer de perto o longo processo da formação do livro dos Salmos. Elas
revelam como se chegou dos Salmos ao livro dos Salmos.
Na origem de cada salmo, está um salmista, um poeta, uma poetisa, uma pessoa; e
na origem do livro dos Salmos, está a comunidade, ou seja, o povo. Se os 150 Salmos
foram transmitidos ao longo dos séculos e chegaram a ser reunidos num único livro,
isto se deve à iniciativa do povo. O povo se reconhecia nos Salmos e encontrava neles
um reflexo da sua caminhada, uma expressão da sua fé e da sua esperança. Por isso,
os cantava, selecionava e conservava. Assim se chegou dos Salmos ao livro dos
Salmos.
Neste capítulo, veremos de perto os pontos mais significativos deste longo
processo da formação do livro dos Salmos, assim como veremos a sua semelhança
com os livros de canto que hoje circulam nas nossas comunidades.

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1. Um processo de formação que durou quase 800 anos
Alguns Salmos são bem antigos e datam desde o tempo de Davi, que governou o
povo de 1010 até 970 a.C. Outros Salmos já são mais recentes. Os últimos,
provavelmente, são do fim da época persa, em torno do ano 340 a.C. Isto quer dizer
que a formação do livro dos Salmos durou quase oitocentos anos! Por isso, nem
sempre é possível saber em que época exata foi escrito este ou aquele salmo. Essa
incerteza quanto à data da composição da maioria dos Salmos tem um significado
para o seu uso. Não sendo de nenhum tempo certo, dá certo para todos os tempos!

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2. Preces vindas de todo canto e lugar
Alguns Salmos refletem o ambiente da cidade; por exemplo, o salmo que fala do
vigia noturno (Sl 130,6-7). Outros já são mais do interior, da roça; por exemplo, o
salmo que usa a imagem do arado para descrever a exploração dos agricultores (Sl
129,3). Alguns Salmos foram feitos na Palestina (Sl 122), outros no exílio da
Babilônia (Sl 137). Há Salmos que vêm da região do Norte da Palestina, outros do
Sul. Eles vêm de todo canto e lugar! É como hoje: pela letra e pela melodia, você
consegue reconhecer se o cântico vem do Nordeste ou do Sul do país. Na Bíblia, pela
maneira de os Salmos usarem o nome de Deus, os entendidos no assunto conseguem
descobrir se são do Norte ou do Sul da Palestina. Por exemplo, os Salmos 1 até 41
preferem chamar Deus de YHWH , traduzido em algumas Bíblias por Senhor. Os
Salmos 42 até 89 preferem usar o nome Elohim, que significa Deus. Mesmo assim,
na maioria dos casos, é muito difícil saber exatamente em que lugar este ou aquele
salmo foi escrito. Aqui vale o mesmo que acabamos de dizer a respeito da época. Não
sendo de nenhum lugar certo, dá certo para todos os lugares, inclusive para nós aqui
no Brasil.

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3. Oração dos pobres nos centros de romaria
Antes da reforma de Josias de 620 a.C., havia muitos pequenos santuários
espalhados pela Palestina. Cada um desses santuários estava ligado a um fato
determinado da história do povo de Deus. Nas festas, os romeiros iam lá para fazer
suas preces, oferecer os seus dons e cumprir suas promessas. Os sacerdotes os
recebiam e com eles rezavam. Eis uma lista de alguns desses santuários, junto com os
fatos da história que neles eram lembrados e celebrados:
1. Siquém: Lugar onde Abraão recebeu a promessa da terra e fez um altar (Gn
12,6-8).
2. Hebron: Lugar do enterro de Sara e Abraão, junto ao carvalho de Mambré (Gn
13,18; 25,7-10).
3. Moriá: Lugar onde Abraão queria sacrificar Isaque, mas Deus o proibiu (Gn
22,1-2).
4. Bersabeia: Lugar onde Abraão fez um altar e Isaque cavou poços (Gn 21,32-
34; 22,19; 26,23-25).
5. Betel: Lugar onde Jacó teve a visão da escada até o céu (Gn 28,11-19; 1Sm
7,16; 2Rs 2,3).
6. Masfa: Lugar onde Jacó e Labão fizeram aliança para evitar guerra entre irmãos
(Gn 31,44-54).
7. Guilgal: Lugar das doze pedras como memorial da travessia do Jordão (Js 4,19-
24; 5,2-12).
8. Jericó: Lugar onde Josué teve uma visão do chefe do exército de YHWH (Js 5,13-
15).
9. Silo: Lugar de romaria anual, onde Eli acolheu e orientou o pequeno Samuel
(1Sm 1,1-2,10).
10. Carmelo: Lugar onde o profeta Elias refez a aliança quebrada das doze tribos
(1Rs 18,20-40).
As celebrações que se faziam nesses centros de romaria ajudavam o povo a manter
viva a memória e ter um contato direto com a sua origem como povo de Deus. Na
história do Brasil, foram os inúmeros pequenos santuários de peregrinação ligados
aos santos e santas da devoção popular que, ao longo dos séculos, sustentaram e
animaram a fé do povo. Assim era na Palestina: cada região, cada tribo tinha o seu
santuário de peregrinação, no qual lembravam e cultivavam os fatos e as pessoas
importantes da sua história como povo de Deus.
O ambiente daqueles santuários era muito simples, quase familiar. Em Silo, por
exemplo, o santuário era pequeno, e o espaço era apertado. O sacerdote Eli tomava
conta, recebia o povo e conversava com as pessoas. Foi lá que Ana, mãe de Samuel,
entrou no santuário e rezou, derramando sua alma angustiada diante de Deus (1Sm
1,9-11). Sentado na sua cadeira do lado de fora, junto à porta do santuário, Eli estava
tão perto que podia observar até o movimento dos lábios de Ana (1Sm 1,12). Ele
pensou que ela estivesse embriagada e pediu para ela voltar mais tarde, depois que o
efeito do vinho tivesse passado. Ana respondeu: “Não, Senhor! Eu sou uma mulher
atribulada. Não bebi vinho nem bebida forte. Mas derramo minha alma na presença
do Senhor. Não julgues a tua serva como uma vadia! É que estou muito triste e aflita.

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Por isso estou rezando até agora!” (1Sm 1,15-16). Depois da reza, Ana conversou
com Eli e dele recebeu conselhos (1Sm 1,14-18). E ela voltou confortada para casa.
Esse fato nos dá uma ideia de como era o ambiente de oração naqueles santuários.
Era lá que o povo do interior, os pobres, vinham rezar e derramar sua alma diante do
Senhor. Ora, foi no ambiente desses pequenos centros de romaria que surgiram
muitos Salmos, sobretudo os Salmos de lamento, os Salmos dos pobres, Salmos
anônimos.

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4. Cânticos populares
Os Salmos foram surgindo e o povo os cantava, conservando uns e esquecendo
outros. Hoje acontece o mesmo. Certos cânticos das Campanhas da Fraternidade já
foram esquecidos. Ninguém mais lembra deles. Mas se perguntar: “Vocês conhecem
Prova de Amor?”, todo mundo conhece. Pouca gente lembra o autor e a data desde
canto. Mas se perguntar: “Quem escreveu Jesus Cristo, eu estou aqui?”, muita gente
vai saber que foi Roberto Carlos. O mesmo acontecia com os Salmos. O povo
lembrava o autor de alguns. De outros, já não lembrava, ou ficava em dúvida.
Na Bíblia Hebraica, dos 150 Salmos, um terço deles, ou seja, quarenta e nove
Salmos são anônimos. Não têm autor. No título do Salmo 72 se diz: “De Salomão”
(Sl 72,1). No fim do mesmo salmo, se diz: “Fim das orações de Davi” (Sl 72,20).
Ficou a dúvida: é de Davi ou de Salomão? Hoje em dia, às vezes, a gente não sabe se
determinadas músicas são do padre Zezinho, de Zé Vicente ou da Irmã Miriam.

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5. Coleções de Salmos
O livro dos Salmos parece uma colcha de retalhos. Os retalhos são as coleções de
Salmos que já existiam e que foram usadas e adaptadas para compor o livro. Um
simples levantamento dos títulos dos Salmos oferece o seguinte quadro geral:
Os Salmos 3 até 41 são de Davi (menos o Salmo 33);
Os Salmos 42 até 49 são dos filhos de Coré (menos o Salmo 43);
Os Salmos 51 até 65 são de Davi;
Os Salmos 68 até 70 são igualmente de Davi;
Os Salmos 72 até 83 são de Asaf;
Os Salmos 84 até 88 são dos filhos de Coré (o Salmo 86 é de Davi);
Os Salmos 105 até 107 começam com Aleluia;
Os Salmos 111 até 118 começam com Aleluia (menos o Salmo 115);
Os Salmos 120 até 134 são indicados como Cânticos das Subidas;
Os Salmos 135 e 136 começam novamente com Aleluia;
Os Salmos 146 até 150 também começam com Aleluia.

Esse quadro mostra que, antes da existência do livro dos Salmos, já havia coleções
de Salmos para as várias ocasiões de reza e de celebração. Por exemplo, havia a
coleção de Cânticos das Subidas, cujos Salmos eram cantados quando o povo, em
romaria, subia até Jerusalém. A coleção de Salmos chamados Aleluia era usada para
celebrações e festas de louvor. Havia as coleções dos Salmos ligados aos autores:
Davi, Coré, Asaf e outros. Até hoje, é em torno destes mesmos critérios que se fazem
as coleções dentro dos nossos livros de canto: para as partes da missa, para a
animação dos encontros, para romarias, para a devoção aos santos etc.

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6. Canto repetido, canto modificado
Às vezes, um canto do Sul do Brasil reaparece no Nordeste com outra letra e outra
melodia. Parece até um canto diferente. Quando o povo gosta de um canto e com ele
se identifica, ele vai cantando-o e adaptando-o, modificando a letra e a melodia. O
mesmo canto, modificado ou não, aparece em várias coleções. O mesmo acontecia
com os Salmos. Foram surgindo várias coleções: Salmos para as romarias, para as
grandes festas, para as reuniões na sinagoga; Salmos do mesmo autor etc. Os mesmos
Salmos apareciam em várias coleções. Na edição final do livro dos Salmos, essas
coleções foram remanejadas e reunidas numa unidade maior.
Isso explica as repetições que existem dentro do livro dos Salmos. Por exemplo, o
Salmo 14 é igual ao Salmo 53. O Salmo 70 é quase igual aos versículos 14 a 18 do
Salmo 40. A primeira metade do Salmo 108 (Sl 108,2-6) está repetida nos versículos
8-12 do Salmo 57. A segunda metade do Salmo 108 (Sl 108,7-14) está repetida nos
versículos 7-14 do Salmo 60. Se o livro dos Salmos fosse uma única coleção de um
único autor, não haveria tais repetições. É que, por ocasião da redação final do livro
dos Salmos, várias coleções já existentes foram reunidas. O salmo repetido vinha de
outra coleção.

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7. Davi, o autor dos Salmos
A Bíblia Hebraica atribui 73 Salmos a Davi, 12 a Asaf, 11 aos filhos de Coré, dois
a Salomão, e um a Moisés, a Ernã e a Etã, respectivamente. Os outros Salmos são
anônimos. Na tradução grega do século III a.C., chamada Septuaginta ou Setenta, há
82 Salmos de Davi, isto é, nove a mais do que no original hebraico. E no tempo de
Jesus, era comum atribuir todos os Salmos a Davi (cf. Lc 20,42). Como se explica
essa vontade de querer atribuir um número cada vez maior de Salmos a Davi? Qual o
sentido de dizer que os Salmos são de Davi?
Depois do exílio, a partir do século V a.C., o rei Davi tornou-se a expressão
preferida da esperança do povo. O Messias seria como um novo rei Davi para
restabelecer o direito pisado dos pobres (cf. Sl 72,1-3; 78,70; 89,4.21; 132,1.10.17).
Para o povo daquela época, Davi era o que os santos são para nós: um ideal a ser
imitado. O livro das Crônicas, que é da época pós-exílica, não fala dos pecados de
Davi e o apresenta como um homem santo. Davi era o herói que encarnava o ideal do
povo. É daí que nascia a vontade de identificação com Davi. Eles queriam ter em si
os mesmos sentimentos que animaram a Davi. Queriam “rezar como Davi rezou,
cantar como Davi cantou”. Por isso, para eles era muito importante poder dizer que
um salmo era de Davi. Isso ajudava o povo a entender e a viver melhor a sua missão.
É por isso que, na tradução grega, vários Salmos deixaram de ser anônimos e são
atribuídos a Davi. Para nós cristãos, o ideal é “rezar como Jesus rezou, cantar como
Jesus cantou”.

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8. Os cinco livros dos Salmos: a Lei orante do povo de Deus
Hoje em dia, nossos livros de canto organizam os cânticos dentro de certa ordem.
A maneira de organizá-los depende do objetivo do editor: cânticos para a missa, para
os tempos do ano litúrgico, para reuniões e assembleias, para romarias etc. O editor
da redação final do livro dos Salmos teve uma ideia genial para organizar em cinco
partes os 150 Salmos que ele conseguiu reunir.
No fim dos Salmos 41, 72, 89 e 106, ele colocou o seguinte refrão de louvor:
“Bendito seja o Senhor, o Deus de Israel, desde agora e para sempre! Amém!
Amém!” (veja: Sl 41,14; 72,18-19; 89,53 e 106,48). Com esses quatro refrãos de
louvor, ele dividiu os 150 Salmos em cinco unidades menores: a primeira de 1 até 41;
a segunda de 42 até 72; a terceira de 73 até 89; a quarta de 90 até 106; e a quinta de
107 até 150. O editor do livro dos Salmos imitou o Pentateuco, o livro da Lei de
Deus, que também tem cinco partes, cinco livros. Desse modo, ele apresentou o livro
dos Salmos como o Pentateuco orante do povo de Deus, ou como o lado orante da
Lei de Deus.

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9. Enumeração confusa dos Salmos
Quando, nas reuniões, se pede: “Vamos rezar o Salmo 50”, tem gente que abre a
Bíblia no Salmo 49, outros no Salmo 50, outros ainda no Salmo 51. Essa confusão
não é de hoje. Ela começou, muito provavelmente, quando, em torno do ano 250 a.C.,
lá no Egito, foi feita a tradução grega da Bíblia, chamada Setenta ou Septuaginta.
Quando o tradutor chegou ao Salmo 10, ele pensou que fosse a continuação do Salmo
9, e traduziu os dois como se fossem um único salmo. Por isso, o salmo seguinte que,
na Bíblia Hebraica, tinha o número 11, passou a ser Salmo 10 na tradução grega. Isso
explica a diferença dos números que existe entre a Bíblia Hebraica e a sua tradução
grega.
Quando, depois da descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes, os apóstolos
saíram pelo mundo afora para levar a todos os povos a Boa-nova de Deus, eles
levaram consigo a tradução grega da Bíblia, pois esta era a língua do povo daquela
época. No século IV, o Papa Dâmaso pediu a Jerônimo que traduzisse a Bíblia para o
latim, que era então a língua mais comum do Império Romano. O Papa queria uma
tradução popular que fosse fiel ao original e que o povo pudesse entender. Essa
tradução latina se chama Vulgata, isto é, Popular (vulgus = povo). Na sua tradução,
Jerônimo seguiu a ordem dos livros da Septuaginta, isto é, da tradução grega.
Por isso, a Igreja Católica segue a enumeração da tradução grega, que foi mantida
na tradução latina de Jerônimo e que, até hoje, continua sendo a enumeração dos
Salmos no breviário do clero e nas traduções em outras línguas. No século XVI,
época da reforma, Martinho Lutero voltou à enumeração original da Bíblia Hebraica.
Por isso, a Bíblia dos Protestantes segue a enumeração da Bíblia Hebraica. Hoje em
dia, na Igreja Católica, muitas traduções estão retomando a enumeração antiga da
Bíblia Hebraica. Para facilitar e evitar a confusão, quase todas as Bíblias colocam o
número da Bíblia Hebraica entre parêntesis. Por exemplo: Salmo 50(51). Outros
fazem o contrário e colocam o grego entre parêntesis. Por exemplo: Salmo 51(50).
Tanto faz. Deus queira que um dia termine essa confusão e que todos adotem a
enumeração da Bíblia Hebraica. Neste livro, usamos a enumeração da Bíblia
Hebraica.
Eis o esquema das diferenças na enumeração dos Salmos:
Bíblia Hebraica Tradução grega
1-8 1-8
9-10 9
11-113 10-112
114-115 113
116 114-115
117-146 116-145
147 146-147
148-150 148-150

20
10. O conteúdo final do livro dos Salmos
O título original hebraico do livro dos Salmos é Sefer Tehilim, isto é, livro dos
Hinos (Louvores). Mas, dentro do livro dos Hinos, é só um único salmo que é
apresentado explicitamente como Hino (Louvor) ou Tehilah (Sl 145,1). Na tradução
grega, o título é Biblos Psalmoon, isto é, livro dos Salmos. Contudo, dentro do livro
dos Salmos, só 57 dos 150 Salmos são apresentados explicitamente como psalmos.
Originalmente, a palavra psalmos ou salmo indicava um tipo de canto que devia ser
acompanhado com um instrumento de cordas chamado psaltérion. Daí vem o nome
salmo ou psalmos. Os outros Salmos são apresentados como oração (Sl 86,1), poema
(Sl 89,1), súplica (Sl 90,1), aleluia (Sl 107,1), salmo-cântico (Sl 83,1), ou como hino
(louvor) (Sl 145,1) etc. Essa diversidade mostra como é difícil identificar, sob um
único nome ou título, todo o conteúdo do livro dos Salmos: hino, salmo, cântico,
oração, poema, lamento, súplica! Tem de tudo! É difícil classificar a vida debaixo de
um denominador comum. Graças a Deus!
Uma vez pronto, o livro dos Salmos começou a exercer uma função muito
importante na vida das comunidades do povo de Deus:
* Conservava a memória, pois lembrava os fatos importantes da história do povo;
* Educava o povo, pois trazia os grandes apelos dos profetas e dos sábios;
* Reforçava a identidade do povo como povo de Deus;
* Cobrava dele o compromisso de fidelidade à aliança;
* Ajudava o povo a manter a fé, a esperança e o amor;
* Possibilitava ao povo o contato direto com Deus;
* Animava a caminhada, comunicando alegria: quem canta seus males espanta;
* Criava nas pessoas sentimento de pertença ao povo de Deus;
* Intensificava o desejo de anunciar aos outros a Boa-nova de Deus.
Numa palavra, o livro dos Salmos era e continua sendo a Lei orante do povo de
Deus.

21
CAPÍTULO 3
O JEITO DE O POVO DA BÍBLIA REZAR OS SEUS
SALMOS

H oje existem várias maneiras de rezar os Salmos. Por exemplo, o Salmo “O


Senhor é meu Pastor” (Sl 23) tem várias melodias e várias letras. Para cantá-lo,
usamos vários instrumentos. Às vezes, é rezado por uma única pessoa, enquanto os
outros escutam; outras vezes, é rezado alternadamente, em coro. Às vezes, depois da
recitação do salmo, fica-se um momento em silêncio para ruminar a palavra ouvida e,
em seguida, cada um repete o versículo que mais chamou a sua atenção.
Essas e outras maneiras são os meios que nós usamos hoje para poder assimilar o
sentido do salmo e rezá-lo como expressão dos nossos próprios sentimentos. O ideal é
este: recriar o salmo de tal modo como se fosse nosso salmo, expressão da nossa fé.
E aí vem a pergunta: Como é que o povo do tempo da Bíblia rezava os Salmos?
Como fazia para assimilá-los na vida? O que podemos aprender deles neste ponto? O
próprio livro dos Salmos oferece respostas bonitas com boas sugestões para nós.

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1. Instruções para o povo
Muitos Salmos, nem todos, têm um pequeno título que funcionava como chave de
leitura. Esses títulos informam sobre a origem, o autor, o tipo e o uso do salmo. São
títulos muito antigos, mas nem sempre são claros para nós. Eles dão uma ideia de
como os Salmos eram rezados naquele tempo.
Eis como exemplo o título do Salmo 57, que diz: “Do mestre do canto. Não
destruas. De Davi. À meia voz. Quando fugia de Saul na caverna” (Sl 57,1):
* Do mestre do canto. Sinal de que eles tinham um responsável que puxava o
canto durante as celebrações. Provavelmente, havia um grupo de cantores que
formava um coral para animar o culto (cf. 1Cr 15,16; 9,33; 2Cr 23,13).
* Não destruas. Era o título de uma música popular conhecida de todos. Esse
Salmo 57 devia ser cantado com a melodia da música “Não destruas”. Hoje
fazemos a mesma coisa. A pessoa faz letra para ser cantada conforme a melodia
de certos cantos populares bem conhecidos, e o dirigente do canto avisa: “Gente,
este cântico deve ser cantado com a melodia de Luar do Sertão”. Todo mundo
conhece. Naquele tempo, ninguém tinha livro na mão. Aprendiam o canto de
memória. Hoje, basta dizer: “Vamos cantar o canto número 57, na página 82”.
Todo mundo encontra o canto.
* De Davi. Atribuir o salmo a Davi ajudava o povo a “rezar como Davi rezou, a
cantar como Davi cantou”. Tornava mais concreta a reza do salmo, pois facilitava
a identificação das pessoas com o rei Davi.
* À meia voz. Indicava que se tratava de um salmo mais meditativo, pois havia
outros Salmos em que o povo era convidado a cantar bem alto “com gritos de
alegria” (Sl 47,2). Nem sempre as celebrações eram silenciosas. Pelo contrário!
Havia “gritos de alegria e de louvor, no barulho da festa” (cf. Sl 42,5).
* Quando fugia de Saul na caverna. Evoca um fato conhecido da vida de Davi (cf.
1Sm 24,1-8), que indicava ao povo quando e por que Davi tinha feito este salmo.
Isso os ajudava a ligar o salmo com a vida, e favorecia a identificação da pessoa
com Davi.

23
2. Instrumentos musicais
Ao que parece, as celebrações eram bem animadas, acompanhadas com muitos
instrumentos musicais. O Salmo 150 enumera vários: trombeta, cítara, harpa, tambor,
instrumento de corda, flauta, címbalo (Sl 150,3-4; cf. Sl 81,3-4). Em outros Salmos
aparecem outros instrumentos como a lira (harpa) de dez cordas (Sl 33,2), o oboé (Sl
46,1).
Havia Salmos que deviam ser acompanhados com um determinado instrumento
musical. Por exemplo, o Salmo 54 foi feito para ser acompanhado com instrumento
de corda (Sl 54,1). O Salmo 46, com oboé (Sl 46,1). O Salmo 33 convida o povo a
tocar os instrumentos e fazer uma grande louvação (Sl 33,2-3). Eles gostavam de
música, de canto e de festa! Eis como o livro do Eclesiástico descreve o final de uma
cerimônia festiva, presidida pelo Sumo Sacerdote Simão:
“Os cantores entoavam cantos de louvor, e o seu canto era acompanhado por
música melodiosa. O povo suplicava ao Senhor Altíssimo, dirigindo orações ao
Misericordioso, até que terminasse o culto do Senhor e acabasse a cerimônia.
Nessa hora, Simão descia do altar e estendia as mãos sobre toda a assembleia de
Israel, para dar a bênção do Senhor em alta voz e ter a honra de pronunciar o seu
nome. Então o povo se prostrava de novo, para receber a bênção do Altíssimo”
(Eclo 50,18-21).

24
3. Participação do povo
Hoje em dia, quando se reza um salmo, todo mundo tem o texto na mão, o que
facilita a participação. Naquela época, não havia texto na mão do povo. Cantava-se de
memória e o povo participava de muitas maneiras. Às vezes, alguém puxava o canto e
o povo respondia em forma de ladainha, dizendo sem parar: “Eterno é seu amor,
eterno é seu amor, eterno é seu amor, eterno...” (Sl 136). Outras vezes, o cantor que
puxava o canto mandava o povo confirmar a prece com a aclamação “Amém!
Amém!” (Sl 106,48). Ou provocava os vários grupos presentes na celebração: “A
Casa de Israel repita: Eterno é seu amor! Agora a Casa de Aarão repita: Eterno é seu
amor! Agora todo mundo que teme o Senhor repita: Eterno é seu amor!” (Sl 118,2-
4).
Em outros Salmos, o povo participava por meio do canto de um refrão que voltava
no começo, no meio e no fim (Sl 80,4.8.20). Outras vezes, participava dançando (Sl
150,4), acompanhando a procissão (Sl 42,5; 24,6-10), fazendo romaria (Sl 122,1-2),
tocando seus instrumentos (Sl 33,2-3). As festas eram alegres e barulhentas (Sl 81,3-
4; Sl 42,5).
Para facilitar a memorização dos Salmos para o povo, havia os assim chamados
Salmos alfabéticos. A primeira letra do primeiro versículo do salmo era a letra A. A
primeira letra do segundo versículo era B. A primeira letra do terceiro versículo era
C, e assim por diante, até a última letra do alfabeto. Por isso eram chamados
alfabéticos. Facilitava a reza de memória. Veja, por exemplo, os Salmos 25; 34; 37;
111; 112; 145.

25
4. Expressão corporal
Corpo e alma formam uma unidade. O corpo acompanha o movimento da mente e
dele procura ser uma expressão e uma ajuda. A expressão corporal faz parte da prece
e lhe dá mais vida. A Bíblia tem muitas informações sobre as várias formas de
expressão corporal que acompanhavam a recitação dos Salmos e a prece em geral:
prostração, genuflexão, inclinação (Sl 95,6; 22,30); levantar as mãos para o alto (Sl
63,5), bater palmas (Sl 47,1), soltar gritos de alegria (Sl 47,1). O profeta Elias, na
hora da reza no monte Carmelo, colocava a cabeça entre os joelhos (1Rs 18,42).
Imitou a atitude de total dependência, igual à do nenê durante os nove meses na
barriga da mãe.
Depois do exílio, quando uma grande parte dos judeus tinha migrado e vivia fora
da Palestina, no Egito e nos outros países ao redor do mar Mediterrâneo, eles criaram
o costume de orientar o corpo. Isto é, durante a oração, eles se voltavam na direção
do “teu santuário” (Sl 138,2), o Templo de Jerusalém que ficava no Oriente.
Rezavam orientados. Faziam isso três vezes ao dia, no momento exato em que, lá no
Templo, se oferecia o sacrifício, de manhã, ao meio-dia e no fim da tarde. Assim,
unidos entre si no mundo inteiro, faziam subir suas preces até Deus junto com a
fumaça dos sacrifícios do Templo de Jerusalém. Até hoje, os muçulmanos rezam
orientando o corpo na direção de Meca, o santuário central da sua religião.

26
5. Espelho para todo sofredor
Como vimos anteriormente, é difícil saber exatamente em que época, em que lugar
e a partir de que fato a maioria dos Salmos foi escrita. Ou seja, não é fácil atingir o
contexto histórico exato da origem dos Salmos. De certo modo, isso era proposital!
Era para permitir que os Salmos pudessem ser rezados em todo tempo e em todo
lugar, sobretudo os Salmos de lamento. Até hoje, num lamento, o poeta costuma
expressar sua dor de tal maneira que a prece possa ser assumida e rezada também por
outras pessoas sofredoras. Por isso, ele não particulariza demais nos detalhes
pessoais, pois isso dificultaria ao outro identificar-se com o lamento. Nem generaliza
demais, pois isso separaria o salmo da vida e ele já não seria espelho para ninguém.
Numa palavra, os Salmos são, ao mesmo tempo, universais e pessoais. Nisso está a
sua arte. Por isso eles são espelho para todo sofredor. Apesar das dificuldades de
linguagem, de cultura, de interpretação, apesar da distância no tempo e no espaço,
muitos séculos e milhares de quilômetros, até hoje, o povo se encontra consigo
mesmo e com Deus dentro dos Salmos. Os Salmos são a sua casa. Nossa casa!
O estudo do contexto histórico da origem do salmo ajuda muito para que, na
oração, o salmo se torne espelho para todo sofredor. Porém, não basta. Para uma boa
reza dos Salmos, é importante lembrar o seguinte: o sentido dos Salmos se concretiza
não só a partir do contexto da pessoa que fez o salmo no passado, mas também, e
sobretudo, a partir do contexto da pessoa que hoje reza o salmo. Por exemplo, o
Salmo 72 diz: “O Senhor liberta o indigente que clama, e o pobre que não tem
protetor” (Sl 72,12). Ao rezar esse salmo, devo pensar não só no indigente e no pobre
do século IV antes de Cristo, mas também, e sobretudo, nos indigentes e nos pobres
de hoje, aqui no Brasil, que eu conheço e dos quais nem sempre me lembro na minha
prece.

27
6. Um retrato da vida de todos
As imagens ou comparações, usadas nos Salmos para expressar a atitude orante do
povo diante de Deus, eram as mesmas que o povo usava para expressar as coisas mais
comuns da sua vida e da convivência diária: criança dormindo no colo da mãe (Sl
131,2), a família em casa ao redor da mesa (Sl 128,3), uma roda alegre de gente
amiga que grita e canta com violão e pandeiro (Sl 33,1-3; 81,3-4), o luar do sertão (Sl
8,4), saudades da terra (Sl 42,5) etc.
Todas as situações da vida estão presentes nos Salmos: alegria, tristeza, solidão,
abandono, perseguição, exploração, repressão, política, governo, vingança, opressão,
desespero, ódio, esperança, doença, morte, amor, casamento, educação, juventude,
velhice, calor, frio, luta, festa... tudo! Os Salmos não distanciavam as pessoas da vida.
Pelo contrário. Traziam a vida para dentro da prece, e levavam a prece para dentro da
vida. Tudo aquilo que dá para rir e para chorar era usado no diálogo com Deus. Os
Salmos têm a variedade da própria vida. Veja mais adiante uma longa lista de
situações da vida refletidas nos Salmos (capítulo 11, item 5).

28
7. Ambiente organizado da comunidade
O povo que hoje participa nas comunidades conhece muitos cânticos de memória:
“O Povo de Deus no deserto andava”, “Da cepa brotou a rama”, “Queremos Deus”,
“Eu confio em Nosso Senhor”, “A Ti, meu Deus”, “Me chamaste”, “Minha vida tem
sentido” etc. Outro dia perguntaram:
– Dona Maria, quando foi que a senhora aprendeu “Queremos Deus”?. Ela
respondeu:
– Sei não, senhor, mas a gente sabe!
Nas nossas famílias e comunidades existe um ambiente organizado de vida que
transmite as coisas sem que a gente se dê conta. Assim, aprendemos o Pai-nosso, a
Ave-Maria e tantos outros cânticos e orações. Da mesma maneira, no tempo de Jesus,
havia um ambiente de vida, sustentado e mantido pela organização comunitária do
povo em torno da sinagoga, e pelos costumes familiares. Nesse ambiente, o povo
aprendia os Salmos de memória. Era como a respiração da vida da comunidade.
Os Evangelhos ainda deixam transparecer alguns traços desse ambiente de oração
da vida comunitária do tempo de Jesus, em que os Salmos aparecem como parte
integrante da vida do povo. Por exemplo, no domingo de Ramos, o povo gritou,
espontaneamente, a frase de um salmo para aclamar Jesus: “Bendito aquele que vem
em nome do Senhor” (Mc 21,9 e Sl 118,26). O cântico de Maria evoca cinco Salmos
diferentes (Lc 1,46-55). Depois da Ceia Pascal, Jesus e os apóstolos saíram da sala e
foram para o Horto das Oliveiras rezando Salmos (Mt 26,30). Três ou quatro das oito
bem-aventuranças que Jesus proclamou para o povo são frases tiradas dos Salmos
(Mt 5,3-10). “Felizes os mansos, porque herdarão a terra” (Mt 5,4; Sl 37,11). “Felizes
os que choram, porque serão consolados” (Mt 5,5; Sl 126,5). “Felizes os puros de
coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8; Sl 24,3-4).
Esses e outros fatos mostram que os Salmos permeavam a vida do povo como o
cimento permeia os tijolos e dá consistência à parede. Os Salmos davam consistência
e expressão à piedade e à fé do povo. Eram ensinados e divulgados através da oração
em família nas casas, através das reuniões da comunidade na sinagoga, e também por
meio das romarias, procissões e celebrações no Templo.

29
CAPÍTULO 4
SALMO 1 E SALMO 150: OBSERVÂNCIA E
GRATUIDADE

O livro dos Salmos é como uma grande rede, onde o povo deita e descansa da
caminhada, se refaz dos estragos e da dor, e acumula novas forças para retomar a
luta. Essa rede está pendurada em dois ganchos bem fortes, o Salmo 1 e o Salmo 150,
que ficam nas duas pontas, o primeiro e o último. Esses dois Salmos descrevem o
ponto de partida e o ponto de chegada da oração. Revelam a tensão que existe entre
as duas motivações mais profundas que nos levam a rezar. O Salmo 1 fala da
meditação e da observância da Lei do Senhor e da luta pela justiça. O Salmo 150 fala
do louvor e da festa total. Luta e festa! Observância e gratuidade! Os dois polos da
oração.

30
Salmo 1: observância e luta
1
Feliz o homem
que não vai ao conselho dos injustos,
não para no caminho dos pecadores,
nem se assenta na roda dos zombadores.
2 Pelo contrário:

seu prazer está na lei de YHWH,


e medita sua lei, dia e noite.
3
Ele é como árvore plantada junto d’água corrente:
dá fruto no tempo devido, e suas folhas nunca murcham.
4
Não são assim os injustos! Não são assim!
Pelo contrário: são como palha que o vento arrebata.
5 Por isso os injustos não ficarão de pé no Julgamento,

nem os pecadores na assembleia dos justos.


6
Porque YHWH conhece o caminho dos justos,
enquanto o caminho dos injustos perece.
“Feliz!” é a primeira palavra do livro dos Salmos: “Feliz o homem que não anda
no conselho dos ímpios” (Sl 1,1). Logo no início do Saltério, o Salmo 1 indica como
ponto de partida da oração o desejo da felicidade. Indica o objetivo da oração: ajudar
a pessoa a alcançar a felicidade. Indica o caminho que nos pode levar à felicidade. É
o Salmo dos “Dois Caminhos”. Quem quiser levar uma vida feliz deve fazer uma
opção inicial bem clara entre o caminho dos justos e o caminho dos pecadores (Sl
1,6); deve decidir-se firmemente a viver conforme as exigências da Lei do Senhor (Sl
1,2). E o meio a ser usado para alcançar esse objetivo é a prece: “Meditar dia e noite
na Lei do Senhor” e encontrar nela o seu prazer, a sua felicidade (Sl 1,2). A oração
está intimamente ligada à luta entre o bem e o mal. Ela é vista como um meio
importante para a pessoa poder romper com o caminho da injustiça e manter-se no
caminho da justiça e da Lei do Senhor (Sl 1,1-2). O objetivo da oração é produzir
bons frutos no tempo certo, igual a uma árvore frondosa, sempre verde, plantada à
beira das águas correntes (Sl 1,3).
Resumindo: na abertura do livro dos Salmos, no começo da caminhada do povo
com Deus, está a preocupação com a observância da lei, com a oração constante e
com a eficiência das nossas ações. Essa preocupação é um dos dois ganchos que
sustentam a rede dos Salmos. A influência desse gancho da observância da lei e da
prática da justiça percorre todo o livro até o outro gancho, até o Salmo 150.
Mas a oração não é só um meio para alcançar um fim. Ela é também o próprio fim
que se quer alcançar, amostra grátis da festa final. É disso que fala o Salmo 150.

31
Salmo 150: gratuidade e festa
1
Aleluia! Louvai a Deus no seu templo,
Louvai-o no seu poderoso firmamento!
2
Louvai a Deus por suas proezas;
Louvai-o por sua imensa grandeza!
3
Louvai a Deus tocando trombetas,
Louvai-o com cítara e harpa!
4
Louvai-o com dança e tambor,
Louvai-o com cordas e flauta!
5 Louvai-o com címbalos sonoros,

Louvai-o com címbalos vibrantes!


6
Todo ser que respira louva a YHWH! Aleluia!
O Salmo 150 descreve a felicidade finalmente alcançada após a longa caminhada
pelas estradas da vida. O Salmo 150, o último, apresenta, como num painel luminoso,
o ponto de chegada do caminho da oração. Aqui, no encerramento do livro dos
Salmos, a oração aparece como louvor e festa. “Aleluia! Louvai o Senhor!” (Sl
150,1.6). Com traços curtos e claros, o salmo indica os três lugares que motivam o
louvor: (1) O templo (Sl 150,1), o lugar onde a comunidade se reúne diante de Deus.
(2) O firmamento (Sl 150,1), a natureza onde Deus se revela como Criador do
Universo. (3) As proezas (Sl 150,2), a história, onde Deus se revela, como Libertador
e Salvador, nas maravilhas que operou pelo seu povo.
Templo, firmamento, proezas! Comunidade, natureza, história! As três são a
expressão da “imensa glória” de Deus (Sl 150,2). O Salmo 150 convida todos, sem
distinção, a participar do louvor: “Tudo que vive e respira louva o Senhor!” (Sl
150,6). Ele pede para usar todos os instrumentos (Sl 150,3-5). Todos têm que entrar
na dança (Sl 150,4). Nesse painel luminoso do último Salmo, a humanidade aparece
como um bloco animado, cantando e dançando num louvor eterno diante de Deus.
Resumindo: a história termina no louvor; a gratidão explode em canto: “Tudo que
vive e respira louva o Senhor!”. É a felicidade finalmente alcançada. Este é o outro
gancho em que está pendurada a rede dos Salmos. E, também aqui, a influência desse
gancho percorre todo o livro até o outro gancho, até o Salmo 1. É o gancho da festa,
da gratuidade, do puro bem querer, sem nenhum outro objetivo, a não ser este: estar
aí, diante de Deus, numa presença amiga e gratuita, feliz e alegre, para louvar e
agradecer. Aqui, a oração já não é meio, mas é o próprio ponto final: a festa.
Deitado nessa rede, o povo tem os pés do lado do Salmo 1; a cabeça e o coração
do lado do Salmo 150. Toda oração é, ao mesmo tempo, caminhada e chegada, meio
e fim, observância e gratuidade, pedido e louvor, conversão e gratidão, compromisso
e amizade, lei e graça, luta e festa, busca da felicidade e felicidade alcançada!

32
Os dois perigos que ameaçam a prece
Essas duas dimensões da prece também encerram em si os dois perigos que
ameaçam a prece, entortam a rede e fazem o povo cair no chão.
Um dos dois perigos é achar que basta o louvor (Salmo 150) e que a luta pela
justiça (Salmo 1) não contribui em nada para sustentar a caminhada do povo. É achar
que a graça de Deus faz tudo e que a nossa observância e luta não são necessárias
para a salvação; é achar que nós não podemos nem devemos fazer coisa alguma, pois
a salvação é um dom gratuito de Deus. Essa atitude provoca a passividade que deixa a
história à deriva, entregue à ideologia dominante, sem deixar lugar nem para Deus
nem para o povo.
O outro perigo é achar que o louvor e a celebração não contribuem para animar a
luta entre o bem e o mal; é achar que só a eficiência e o planejamento podem levar a
algum resultado de mudança e de transformação. Isso provoca o voluntarismo que
exclui a ação da graça, elimina a festa, se fecha nas próprias ideias e pode levar ao
fanatismo.
A tentação do intérprete é querer resolver o problema escolhendo uma afirmação e
negando a outra; ou reduzindo o sentido de uma frase ao tamanho do sentido da outra.
A Bíblia, porém, não racionaliza. Ela simplesmente explicita as contradições
existentes na vida, nos fatos e na história. Ela é a imagem do que acontece e existe na
história humana. Ela provoca e convida o leitor e a leitora a assumir a contradição e o
conflito como parte integrante da caminhada, e a permanecer na busca, sem
esmorecer, até chegar ao ponto onde as duas afirmações contrárias se encontram,
como dois galhos nascendo da mesma raiz.
O difícil mesmo é encontrar esta fonte comum, onde os dois córregos, da luta e da
festa, existem unidos, nascendo a cada instante, como irmãs gêmeas, brigando entre si
até hoje, mas como irmãs que se querem bem e que precisam uma da outra.

33
CAPÍTULO 5
A POESIA DOS SALMOS

A oração dos Salmos situa-se mais do lado da poesia e da arte do que do lado da
lógica e da razão. Ainda que seja um assunto meio difícil e complicado, convém
ver de perto esse aspecto poético dos Salmos, pois ele ajuda muito a perceber o rumo
e o objetivo dos Salmos. A poesia dos Salmos é a linguagem humana colocada a
serviço da descoberta gratuita de Deus na vida.

34
Poesia: o lado de dentro das coisas
Poesia não é só uma questão de rima e de ritmo. É muito mais do que isso. A
poesia tem outra porta de entrada, outro caminho de acesso aos segredos da vida.
Consegue ver e experimentar o outro lado dos fatos e da natureza, o lado de dentro,
onde a razão não penetra, a eficiência nada alcança, o planejamento se frustra. Onde a
vida encontra razões para viver que a própria razão desconhece. É o lado onde, no
segredo, a fonte gera a sua água, a flor solta o seu perfume, o passarinho recomeça o
seu canto. Onde o dia nasce, o mar se esconde, o sol descansa. Onde a criança é
adulto, e o adulto continua criança. Onde a dor é acolhida como irmã, e a alegria se
desprende da alma em pranto. Onde existe a escuridão luminosa, o silêncio sonoro, a
solidão partilhada. Onde se encontra a fonte sem fundo que reflete o rosto de quem
nela olha, e lhe faz descobrir o seu eu escondido em Deus.
Quando um artista tem uma inspiração, ele procura expressá-la numa obra de arte.
A poesia que daí resulta carrega dentro de si algo dessa inspiração. É por isso que as
obras de arte atraem e mexem tanto com as pessoas. O mesmo acontece quando
meditamos e rezamos os Salmos. A inspiração que conduziu os autores a comporem
os Salmos continua presente naquelas orações antigas. Através da meditação dos
Salmos, esta inspiração entra em ação e atua em nós comunicando a mesma
experiência de Deus, a mesma maneira de olhar a história, a mesma admiração diante
da natureza.
A poesia dos Salmos é uma faísca da plenitude de Deus, uma amostra da sua
presença no meio de nós. Ela é uma interpretação da fala de Deus. Nada melhor do
que a poesia dos Salmos para ser a expressão do nosso diálogo com Deus.

35
Alma e corpo da poesia
Na hora em que a prece sobe no coração e a inspiração nasce na mente, o salmista,
a poetisa, vai à procura de uma palavra para expressar o que está sentindo. O
casamento perfeito entre a inspiração e a forma literária é a expressão mais alta da
arte. É onde alma e corpo da poesia se unem e geram vida nova. Nem todos os
Salmos alcançam a perfeição poética. Mas todos eles, perfeitos ou não, expressam um
sentir, um sentimento, uma experiência de Deus na vida.
O sentido que o poeta quer expressar e transmitir através da sua poesia ou do seu
salmo não está só nas palavras e frases que ele escolhe e arruma com tanto cuidado,
mas também, sobretudo, no espaço invisível que ele cria entre as palavras e entre as
frases, nas entrelinhas. Arrumando as palavras e as frases dentro de determinada
ordem, o poeta cria entre elas uma tensão, um espaço, uma zona de silêncio, que
provoca o leitor. As palavras assim arrumadas tornam-se como que grávidas de um
novo sentido que, muitas vezes, não se encontra no dicionário.
Entre as frases e as palavras da poesia, do salmo, corre o fio invisível do sentido a
ser captado pelo leitor. O resultado da poesia não depende só do poeta. O poeta inicia
a obra, o leitor deve completá-la. As palavras e as frases do salmo são como um
binóculo que o poeta entrega ao leitor dizendo: “Aqui! Olhe você também para a
vida, para Deus! Você vai gostar!”. E pode até acontecer que o leitor ou a leitora,
olhando pelo salmo, consiga enxergar mais que o próprio poeta.

36
O jeito como a poesia dos Salmos arruma as palavras e as frases
Cada povo arruma as palavras da sua poesia de acordo com as possibilidades e as
exigências da sua cultura e da sua língua. A característica básica da poesia do povo
hebreu é esta: aproximar duas ou mais frases, dois ou mais pensamentos, completos
em si, cada um carregado de um sentido. São como dois polos, entre os quais se
estabelece uma tensão, uma relação; como dois fios, entre os quais salta a faísca
invisível do sentido. O critério usado pelos poetas hebreus para aproximar entre si as
palavras e as frases não é tanto (como na nossa poesia) a associação sonora, o ritmo
ou a rima, mas, sim, o conteúdo, o significado da frase; e isto ocorre de duas
maneiras: em forma de comparação e em forma de paralelismo.

* Em forma de comparação
A comparação é a maneira mais popular para expressar e transmitir um sentido. O
povo recorre à comparação quando quer explicar alguma coisa. A comparação
pertence mais à linguagem falada; ela é menos frequente na linguagem escrita dos
Salmos. Há duas maneiras de se fazer a comparação:
1. Comparar para igualar ou equiparar: “Como... assim...”. A frase menos
conhecida se esclarece a partir da mais conhecida. Alguns exemplos:
“Como vinagre nos dentes e fumaça nos olhos,
assim o preguiçoso para quem o envia” (Pr 10,26).
“Como o animal sedento à procura dos córregos,
assim estou eu à tua procura, Senhor!” (Sl 42,2).
2. Comparar para diferenciar e avaliar. “Melhor... do que...”. O poeta estabelece
uma escala de valores entre as duas frases, o que permite julgar e apreciar melhor
as coisas. Alguns exemplos:
“Melhor um dia na tua casa
do que mil passados em minha casa” (Sl 84,11).
“Mais vale o pouco do justo
do que as grandes riquezas do ímpio” (Sl 37,16).

* Em forma de paralelismo
O paralelismo aproxima ou justapõe duas frases em pé de igualdade e faz com que
uma interfira na descoberta do sentido da outra. O paralelismo é a forma poética
mais frequente nos Salmos. Ele se faz de três maneiras:
1. Uma frase completa o sentido da outra:
paralelismo sintético:
“O Senhor reconstrói Jerusalém,
reúne os exilados de Israel” (Sl 147,2).
“Levanta-te, ó Juiz da terra,
devolve o merecido aos soberbos” (Sl 94,2).
2. Uma frase diz o mesmo que a outra:
paralelismo sinônimo:
“Povo meu, escuta minha lei,

37
dá ouvido às palavras da minha boca” (Sl 78,1).
“O Senhor não rejeita seu povo,
jamais abandona a sua herança” (Sl 94,14).
3. Uma frase diz o contrário da outra:
paralelismo antitético:
“O ingênuo acredita em tudo que se diz,
o esperto discerne as coisas” (Pr 14,15).
“O Senhor conhece o caminho do justo,
o caminho dos ímpios se perde” (Sl 1,6).
“Os ricos passam necessidade e fome,
nada falta aos que procuram o Senhor” (Sl 34,11).

38
O desafio da poesia
Essa reflexão sobre o paralelismo e a poesia na Bíblia encerra uma lição. De um
lado, faz a gente ficar mais humilde; ajuda a relativizar nossas opiniões e a amenizar
nossos conflitos e nossas contradições. Faz perceber que “na casa do Pai há muitas
moradas” (Jo 14,2). Por outro lado, ajuda a perceber e a assumir com mais garra a
grande luta que atravessa a história. Ajuda, como diz o povo, a “dar um boi para não
entrar na briga, e uma boiada para não sair dela”. O mais importante na poesia dos
Salmos não são as normas literárias. O mais importante da janela não é a forma da
janela, mas, sim, o panorama que pode ser visto através dela.
A poesia é como uma seta na estrada, um estímulo, que coloca o leitor num
caminho de busca e de descoberta. Quer provocar nele a mesma experiência que o
poeta ou a poetisa teve. No momento em que conseguirmos encontrar dentro de nós
um reflexo da experiência do poeta, teremos atingido a fonte de onde o poeta bebeu;
teremos encontrado a luz que ilumina os Salmos pelo lado de dentro. Nesse
momento, começamos a “rezar como Davi rezou”, a “rezar como Jesus rezou”.
Aqui vale a pena lembrar as palavras do monge João Cassiano do século IV (360-
465 d.C.):
“Instruídos por aquilo que nós mesmos sentimos, já não percebemos o salmo
como algo que só ouvimos, mas sim como algo que experimentamos e tocamos
com nossas próprias mãos; não como uma história estranha e inaudita, mas como
algo que damos à luz desde o mais profundo do nosso coração, como se fossem
sentimentos que formam parte do nosso próprio ser” (Collationes X,11).
Esse é o ideal a ser alcançado na reza dos Salmos.

39
CAPÍTULO 6
A RAIZ DOS SALMOS

A raiz dos Salmos é o clamor do povo, nascido de dupla fonte: da dor que faz gritar,
e da certeza de fé de que Deus ouve o clamor. Essa certeza da nossa fé encontra
sua garantia e expressão no nome com que Deus quer ser invocado: YHWH, Emanuel,
Deus conosco.

40
1. Deus ouve o nosso clamor
Desde o Êxodo, uma certeza acompanha o povo: “Deus ouve o nosso clamor” (Ex
2,23-24; 3,7-10). Essa certeza percorre os Salmos como a seiva percorre a árvore,
desde a ponta das raízes até a extremidade das folhas.
Mas Deus não atende a qualquer clamor, a qualquer grito. Os profetas de Baal
gritavam. O profeta Elias, debochando deles, até pediu que gritassem mais: “Gritem
mais! Ele é Deus! Talvez esteja conversando ou fazendo negócios, ou então viajando.
Quem sabe está dormindo, e aí ele acordará!” (1Rs 18,27). Gritaram mais, mas Deus
não atendeu! Um Deus que viaja, conversa ou faz negócios; que fica desatento e deve
ser acordado; um Deus assim não vale a pena. Nem existe! É um ídolo, uma fantasia,
criada pelo sistema do faraó e dos reis de Canaã para impedir qualquer tentativa de
rebelião ou de mudança da parte do povo oprimido. Um grito dirigido a esse Deus
não tem resposta, nem pode ter. É um falso Deus que “tem boca, mas não fala; tem
olhos, mas não vê; tem ouvidos, mas não ouve” (Sl 115,5-6). Nem pode atender.
Numa religião assim, aos pequenos só resta o grito, sem esperança de serem
atendidos.
O Deus da Bíblia é diferente. Ele atende ao grito calado do povo oprimido. A
novidade da Bíblia não está na dor que faz gritar, mas na fé de que Deus ouve o grito.
Ele ouve o clamor dos pequenos. Os Salmos são a expressão desse grito de fé:
Para Deus a minha voz: eu grito!
Para Deus a minha voz: ele me ouve! (Sl 77,2)
Segue aqui uma lista de frases tiradas dos Salmos, nas quais transparece a fé de
que Deus escuta o nosso clamor. Passando os olhos nessas preces, você perceberá
como a fé era vivida pelo povo, bem como ela era verbalizada em múltiplas formas
de oração. A lista pode parecer repetitiva e cansativa, mas ela é menos cansativa do
que o sofrimento que provocou esses gritos do povo. Por isso, leia devagar. Sinta o
clamor que se expressa nessas preces. Atrás de cada frase existe um ser humano
angustiado que grita, e uma situação dolorosa que faz gritar. A lista é apenas uma
pequena amostra dos muitos gritos que existem espalhados pelo livro dos Salmos.
Sl 3,5: Em alta voz eu grito a YHWH e ele me responde do seu monte
santo.
Sl 4,2: Quando te invoco, responde-me, ó Deus, meu defensor.
Sl 6,9: YHWH ouviu o meu soluço, ouviu o meu pedido, acolheu a minha
prece.
Sl 9,13: Ele (Deus) não se esquece jamais do clamor dos pobres.
Sl 17,1: Escuta, YHWH, a minha apelação, atende ao meu clamor, dá
ouvidos à minha súplica.
Sl 18,7: No meu aperto invoquei YHWH [...]. O meu grito chegou aos seus
ouvidos.
Sl 28,1-2: A ti, YHWH, eu clamo. [...] Que teu silêncio não me deixe como os
que descem à cova.
Sl 34,16: YHWH cuida sempre dos justos e ouve atentamente seus clamores.

41
Sl 55,18: De tarde, pela manhã e ao meio-dia, eu me queixo gemendo, e
Deus ouve o meu grito.
Sl 69,4: Esgotei-me de tanto gritar, minha garganta queima [...] esperando
por meu Deus.
Sl 77,2: A Deus levanto a minha voz, e grito! A Deus ergo a minha voz, e
ele me ouve.
Sl 99,6: Moisés, Aarão e Samuel clamavam a YHWH, e ele respondia.
Sl 107,6: Na sua aflição, clamaram a YHWH e ele os libertou de suas
angústias (vv.13.19.28).
Sl 116,1: Eu amo YHWH, porque ele ouve a minha voz suplicante.
Sl 130,1: Das profundezas eu clamo para ti, YHWH. Senhor, ouve o meu
grito!
Sl 138,3: Quando gritei, tu me ouviste, e aumentaste a força em minha
alma.
Sl 142,2: Gritando para YHWH, eu imploro! Gritando para YHWH, eu suplico.
Sl 143,6: Para ti estendo os meus braços, a minha vida é terra sedenta de ti.
Sl 145,19: Ele realiza o desejo dos que o temem, ouve o grito deles, e os
salva.

42
2. O Nome dele é YHWH
Na raiz dos Salmos está a nova experiência que a humanidade fez, através do povo
de Israel, de que Deus se colocou do lado dos oprimidos, ouviu os seus gritos,
libertou-os da opressão do Egito e lhes deu a garantia: “Estou contigo” (Ex 3,12).
Essa nova experiência de Deus está concretizada para sempre no nome YHWH, que
desmascarou, de vez, a falsidade do sistema dos reis, e deu aos pequenos a coragem
de enfrentar até o próprio faraó.
O Nome já existia. Em hebraico ele se escreve com estas quatro letras: hwhy
(YHWH). Nome muito antigo, de origem desconhecida. Não se sabe o seu sentido
exato, nem a sua pronúncia correta. Foi a experiência da libertação do Egito, vivida e
aprofundada ao longo dos séculos, que foi dando um sentido novo e sempre atual a
este nome antigo. O novo significado, que foi surgindo, nos é revelado no livro do
Êxodo em forma de dois diálogos entre Deus e Moisés. O primeiro diálogo, por
ocasião da vocação de Moisés, diante da sarça ardente (Ex 3,7-15). O outro diálogo,
por conta do encontro de Moisés com Deus no alto do monte Sinai (Ex 34,5-9).
1º diálogo:
YHWH é presença libertadora no meio do povo (Ex 3,7-15)

Trata-se de um texto denso, muito bem articulado, que transmite a maior das
revelações do Antigo Testamento: o NOME de Deus. Nesse Nome, Deus comunica o
que Ele quer significar para o seu povo, para todos nós, para cada um de nós.
Interpelado pelo grito do povo (cf. Ex 2,23-25), Deus chama Moisés e dá a ele a
missão de libertar o povo (Ex 3,7-15). Eis o texto do diálogo entre Deus e Moisés.
Leia devagar para captar todo o sentido do texto e adivinhar o mistério do Nome
YHWH:
7YHWH disse: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu

clamor por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. 8Por
isso, desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela
terra a uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel, o lugar dos cananeus, dos
heteus, dos amorreus, dos ferezeus, dos heveus e dos jebuseus. 9Agora, o clamor
dos filhos de Israel chegou até mim, e também vejo a opressão com que os
egípcios os estão oprimindo.
10Vai, eu te envio ao faraó, para fazer sair do Egito o meu povo, os filhos de

Israel.” 11Então, disse Moisés a Deus: “Quem sou eu para ir ao faraó e fazer sair
do Egito os filhos de Israel?”.
12Deus disse: “Eu estou contigo; e este será o sinal de que eu te enviei: quando
fizeres o povo sair do Egito, vós servireis a Deus nesta montanha”.
13Moisés disse a Deus: “Quando eu for aos filhos de Israel e disser: ‘O Deus de

vossos pais me enviou até vós’; e me perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’, que
direi?”.
14Disse Deus a Moisés: “Estou que estou”. Disse mais: “Assim dirás aos filhos de

Israel: ‘Estou me enviou até vós’”. 15Disse Deus ainda a Moisés: “Assim dirás aos
filhos de Israel: ‘YHWH, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac

43
e o Deus de Jacó me enviou até vós. Este é o meu nome para sempre, e esta será a
minha lembrança de geração em geração’” (Ex 3,7-15).

44
Um breve comentário
Ex 3,7-9: Interpelado pelo grito do povo (cf. Ex 2,23-25), Deus desce, vê a
opressão e resolve libertar o povo.
Ex 3,10-11: Por isso, chama Moisés: “Vai, eu te envio ao faraó, para fazer sair do
Egito o meu povo, os filhos de Israel”. Moisés fica com medo, esconde o medo atrás
da humildade e diz: “Quem sou eu para ir ao faraó e fazer sair do Egito os filhos de
Israel?”.
Ex 3,12: Na resposta, Deus não se refere ao pretexto da humildade, mas procura
desfazer o medo e diz: “Estou contigo!”. Esta promessa é a chave para captar o
significado do nome YHWH.
Ex 3,13: Moisés não consegue crer na promessa e esconde sua falta de fé atrás de
outro pretexto: “O povo vai perguntar: Qual o seu nome?”.
Ex 3,14-15a: Na resposta, Deus se dirige de novo à falta de fé de Moisés e repete,
literalmente, por duas vezes, a mesma promessa: “Estou que Estou”. É como se
dissesse: “Moisés, certissimamente estou com você! Disso você não pode duvidar”.
Em seguida, Deus repete de novo a mesma promessa: “Assim dirás: Estou me
mandou”. A expressão Estou é uma abreviação da afirmação Estou que Estou. No
fim, o texto passa da primeira pessoa (Estou) para a terceira pessoa do mesmo verbo e
diz: “Assim dirás: Está me mandou!”. Deus, falando de si mesmo, diz: Eu estou
contigo. Nós, falando de Deus, tiramos a conclusão e dizemos: Ele está conosco. Em
hebraico, a terceira pessoa singular do verbo estar se escreve YHWH, que são
exatamente as mesmas quatro letras do nome de Deus. Desse modo, o antigo nome
recebe aqui um novo significado. Ele é interpretado como sendo a afirmação
categórica e definitiva, da parte de Deus, de que Ele está sempre conosco: Estou
contigo! Certissimamente estou contigo!
Ex 3,15b: Só no fim do diálogo, Deus se refere à pergunta de Moisés sobre o nome
e diz: “Este é o meu Nome para sempre. Sob este Nome serei lembrado de geração
em geração”. Deus já não quer ter outro nome, a não ser YHWH, que significa: Estou
com você, Estou que Estou, Deus conosco! Até hoje, continuamos reafirmando essa
mesma certeza central da nossa fé. Na missa, o celebrante diz: “O Senhor esteja
convosco!”. O povo responde: “Ele está no meio de nós”. O nome YHWH é a certeza
definitiva da presença de Deus no meio de nós. É a expressão do solene compromisso
que Deus assumiu consigo mesmo de estar sempre conosco para nos libertar da “casa
da escravidão”.
Esse diálogo nos faz saber que o nome YHWH é a garantia total e absoluta da
presença de Deus no meio de nós. É essa certeza da fé que aflora na memória do povo
quando, nos Salmos, invoca a Deus sob o nome de YHWH.
No Antigo Testamento, este nome ocorre mais de seis mil vezes, sem falar dos
inúmeros nomes que terminam em -ias ou em -ia, que são abreviações do nome
YHWH. Por exemplo, Jeremias, Isaías, Zacarias, Malaquias, Josias etc. O nome YHWH
é o eixo da história. É o pavio da vela. Os fatos da história, registrados na Bíblia, são
a cera ao redor deste pavio. A luz desse Nome ilumina por dentro os fatos da história,
os fenômenos da natureza e a vida do povo.

45
2º diálogo:
YHWH é amor e fidelidade, compaixão e piedade (Ex 34,5-9)

O outro diálogo entre Deus e Moisés revela a bondade e a ternura de YHWH, sua
fidelidade e compaixão para conosco. Deus manda Moisés cortar duas tábuas de
pedra para escrever nelas os mandamentos da Lei. Moisés corta as tábuas e sobe a
montanha (Ex 34,1-4). Lá em cima acontece o diálogo:
5YHWH desceu na nuvem e ficou junto com Moisés, que invocou o nome de YHWH.
6
YHWH passou diante de Moisés, proclamando: “YHWH, YHWH, Deus de compaixão
e piedade, lento para a cólera e cheio de amor e fidelidade. 7Ele conserva seu amor
por milhares de gerações, tolerando a falta, a transgressão e o pecado, mas não
deixa ninguém impune: castiga a falta dos pais nos filhos, netos e bisnetos”.
8
Moisés caiu de joelhos por terra e adorou. 9Depois disse: “YHWH, se eu gozo do
teu favor, continua em nosso meio, mesmo que este povo seja cabeça dura. Perdoa
nossas faltas e pecados, e recebe-nos como tua herança” (Ex 34,5-9).
Esse diálogo é um dos textos mais bonitos que a memória do povo de Israel
conservou. O próprio Deus afirma que o nome YHWH significa compaixão e piedade,
amor e fidelidade. O seu amor alcança “milhares de gerações, tolerando a falta, a
transgressão e o pecado” (Ex 34,7). O castigo só alcança quatro gerações: pai, filho,
neto e bisneto. E mesmo para essas quatro gerações Moisés intercedeu junto a Deus e
pediu: “Perdoa nossas faltas e pecados, e recebe-nos como tua herança” (Ex 34,9).
Nós ficamos impressionados com o castigo até a quarta geração e esquecemos a
misericórdia até milhares de gerações. Não há proporção entre quatro gerações e
milhares de gerações. Além disso, esquecemos o perdão que Moisés pediu para essas
quatro gerações. Esquecemos Jesus que pediu a Pedro para perdoar setenta vezes sete
(Mt 18,22). Esquecemos que Jesus chegou a pedir perdão para o soldado que o estava
matando na cruz (Lc 23,34). Sim, milhares é bem mais que quatro. Jesus o
confirmou!
Resumindo: o nome YHWH é sinônimo de ternura, bondade, gratuidade, perdão,
misericórdia, amor fiel, piedade, compaixão, benevolência, presença amiga. É esta
ternura inacreditável e totalmente gratuita de Deus que aflora na memória do povo
quando, nos Salmos, invoca Deus sob o nome de YHWH.
Eis uma lista de alguns textos dos Salmos nos quais transparecem a ternura e o
amor de Deus. Saboreie essas preces e sinta o amor de Deus que neles se expressa.
Lendo os Salmos, você vai encontrar muitos outros textos e poderá completar a lista:
Sl 5,8: Por teu grande amor eu entro em tua casa.
Sl 6,5: Liberta-me. Salva-me por teu amor.
Sl 13,6: Quanto a mim, eu confio no teu amor.
Sl 25,6: Lembra-te da tua compaixão
e do teu amor que existem desde sempre.
Sl 25,10: As veredas de YHWH são todas amor e verdade.
Sl 31,20: YHWH, como é grande a tua bondade!
Tu a reservas para os que temem a ti.

46
Sl 33,5: O amor de YHWH enche a terra.
Sl 33,22: Esteja sobre nós o teu amor,
como está em ti a nossa esperança.
Sl 36,6: YHWH, o teu amor está no céu
e tua verdade chega às nuvens.
Sl 86,5: Tu és cheio de amor para todos que te invocam.
Sl 86,15: Deus de piedade e de compaixão,
lento para a cólera, cheio de amor.
Sl 103,17: O amor de YHWH existe desde sempre.
Sl 112,4: YHWH é piedade, compaixão e justiça.
Sl 136: “Eterno é o seu amor!”
(refrão repetido 26 vezes neste Salmo).
Sl 117: Eis o Salmo mais curto da Bíblia
que resume tudo nestes dois versículos:
Aleluia! Louvai a YHWH, nações todas,
glorificai-o, todos os povos!
Pois seu amor por nós é forte,
e sua verdade é para sempre! Aleluia!

47
3. A invocação do Nome de Deus
O nome é a pessoa! É a presença! Invocar esse nome de Deus é como pronunciar o
nome da pessoa amada. Dá para entender que o profeta Isaías chegou a dizer: “Sim,
YHWH, o teu nome e a lembrança de ti resumem todo o desejo da nossa alma” (Is 26,8).
Poder invocar esse Nome é a raiz da prece. Os Salmos são como 150 flores que
nasceram desta raiz plantada no coração do povo. Da vivência desse nome tão breve,
de apenas quatro letras, nasceram milhares de preces e Salmos em todas as direções,
em todas as formas e gêneros literários. O nome YHWH é a sua raiz.
Em hebraico, as quatro letras YHWH, associadas às letras do verbo YHWH, que
significa estar, revelam variedade das invocações encerradas neste Nome Divino:
YHWH Ele está conosco!
Grito de louvor, que professa e celebra a certeza da presença de
Deus!
YHWH Ele esteve conosco!
Grito de ação de graças, diante da experiência libertadora de
Deus.
YHWH Ele estará conosco!
Grito de esperança, na certeza de ser libertado.
YHWH Ele está ou não está conosco?
Grito de dúvida e de angústia da fé em crise.
YHWH Ele esteja conosco!
Grito de dor e de sofrimento, pedindo socorro,
certo de ser atendido.
YHWH Possamos estar contigo!
Grito de desejo de estar sempre com Deus.
YHWH Ele está no meio de nós, nós que estamos vivos aqui!
Grito de compromisso, nascido da vontade
de ser fiel.

Sete significados do mesmo Nome. Sete gritos nascidos de situações diferentes,


todos dirigidos ao mesmo Deus YHWH. Sete expressões do mesmo clamor, nascido da
dor e da fé, da esperança e do desejo de ser fiel.
Para evitar que este nome sagrado fosse pronunciado levianamente sem o devido
respeito, combinaram de pronunciar aquelas quatro letras YHWH não como Iahweh ou
Javé, mas como Adonai, que quer dizer Senhor. Por isso, algumas bíblias escrevem
Senhor, em vez de YHWH ou Javé.
Na Carta aos Filipenses, o apóstolo Paulo diz que Deus deu a Jesus “o Nome que
está acima de qualquer outro nome” e pede que “toda língua confesse que Jesus
Cristo é o Senhor” (Fl 2,9-11). Ou seja, Jesus, pela sua paixão, morte e ressurreição,
é a prova viva e definitiva de que Deus continua sendo YHWH, Emanuel (Mt 1,23),
Deus conosco, Adonai, Senhor. “Quem vê a mim vê o Pai” (Jo 14,9).
Esse NOME é invocado em todas as modalidades, com todos os instrumentos, sob
todas as formas literárias, misturado com todos os assuntos da vida. Só no livro dos
Salmos, ele é rezado e ruminado, invocado, cantado e gritado mais de 650 vezes, sem

48
falar das inúmeras vezes em que simplesmente se alude ao NOME sem pronunciá-lo
(cf. Sl 9,3; 23,3; 31,4; 44,6.9.21; 45,18; 48,11 etc.). Rezar os Salmos é penetrar no
mistério do Nome de Deus. É permitir que o mistério desse Nome nos envolva, nos
compenetre e nos santifique. Jesus manda rezar: “Santificado seja o teu Nome” (Mt
6,9). Maria rezava: “Seu Nome é santo” (Lc 1,49).

49
4. Celebrar o Nome
Veja como o desejo de celebrar o Nome transparece no livro dos Salmos. Veja a
quantidade de sinônimos que eles inventaram para expressar o desejo de louvar o
Nome do Senhor e de verbalizar a convicção mais profunda da sua fé:
* Amar o nome (Sl 5,12);
* Cantar o nome (Sl 7,18);
* Tocar para o teu nome (Sl 9,3);
* Conhecer o nome (Sl 9,11);
* Invocar o nome (Sl 20,8);
* Guiar pelo nome (Sl 31,4);
* Exaltar o nome (Sl 34,4);
* Celebrar o nome (Sl 44,9);
* Comemorar o nome (Sl 45,18);
* Agradecer ao nome (Sl 54,8);
* Temer o nome (Sl 61,6);
* Jurar pelo nome (Sl 63,12);
* Buscar o nome (Sl 83,17);
* Bendizer o nome (Sl 86,9);
* Dar glória ao nome (Sl 86,12);
* Proclamar o nome (Sl 102,22);
* Lembrar-se do nome (Sl 119,55); e
* Abençoar o nome (Sl 129,8).
“Sim, YHWH, o teu nome e a lembrança de ti
resumem todo o desejo da nossa alma” (Is 26,8).
“Nosso auxílio está no nome YHWH,
que fez o céu e a terra” (Sl 124,8).

50
CAPÍTULO 7
PORTAS DE ENTRADA PARA O MUNDO DOS
SALMOS

H á portas que os Salmos abrem para entrar no nosso mundo, e há portas que nós
abrimos para entrar no mundo dos Salmos. São portas que se encontram em
cada esquina da nossa vida, em cada página do livro dos Salmos. Portas de
movimento duplo: passando por elas, nós entramos no mundo dos Salmos, e os
Salmos entram dentro da nossa vida. Eis algumas dessas portas
1. A porta da memória do passado;
2. A porta da contemplação da natureza;
3. A porta da busca da face de Deus;
4. A porta da procura da felicidade;
5. A porta da observância da Lei de Deus;
6. A porta da certeza do pobre em ser atendido; e
7. A porta da oração a Deus na solidão da noite.

51
1. A porta da memória do passado
Na memória do seu passado, o povo encontrava muitos motivos para invocar a
Deus, pedir a sua ajuda, louvar o seu Nome e agradecer a sua bondade. Os Salmos
rezam e cantam os prodígios que Deus operou ao longo da história (Sl 150,2). A
história é muito mais do que só a enumeração de fatos que aconteceram no passado.
A história é a própria vida do povo. É a rocha firme debaixo dos seus pés. É a sua
“carteira de identidade”.

52
* A memória do passado, carteira de identidade
Quem perde a memória perde a sua identidade. Já não sabe mais quem é, nem de
onde veio, nem para onde vai. O passado não é um museu. Os dois, passado e
presente, se misturam na unidade da consciência que o povo tem de si mesmo e o
orientam na sua caminhada em direção ao futuro.
A história, o passado, a memória, são o próprio povo que, a cada momento, sem
parar, ininterruptamente, sai do passado, passa pelo presente e entra no futuro. A
história são as pessoas: Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, Jacó com Lia e Raquel. É
Moisés, sua esposa e sua família. São os fatos: o êxodo, as pragas do Egito, a
travessia do mar Vermelho, os quarenta anos no deserto, o maná e as codornizes, a
conclusão da aliança, a entrada na Terra Prometida, o tempo dos juízes e dos reis, os
profetas e as profetisas, o cativeiro. São os levitas, as doze tribos, os clãs, as famílias,
os costumes, as festas, as romarias. São as muitas lutas e guerras com suas derrotas e
vitórias. É a vivência da aliança, o compromisso com a observância dos Dez
Mandamentos, entregues ao povo no monte Sinai por intermédio de Moisés. É
Jerusalém, o Templo, os centros de romarias, as celebrações, as orações. São as
reuniões semanais na sinagoga. É Davi como modelo de oração para os Salmos. São
também as tentações do dinheiro, do prazer e do poder, a escuridão angustiante do
cativeiro. São as infidelidades, os muitos pecados, a opressão, a tristeza, a perda de
identidade, as crises de fé, as traições, a saudade. São as lembranças dos bons tempos
passados com a família, com os amigos, nas comunidades. A história é o tapete da
vida que ficou para trás e que a memória enrola e leva consigo através do presente
para o futuro.
Essa história ou memória do povo é contada e cantada, em prosa e verso, de mil
maneiras, na Bíblia inteira, sobretudo nos Salmos, em todos os Salmos! Sim, em
todos os Salmos!

53
* Tirando lição da história
Alguns Salmos meditam o passado de maneira mais explícita. Eles refletem sobre
os fatos da história, sempre os mesmos fatos, mas cada salmo o faz de uma maneira
diferente. Isso mostra a grande variedade do olhar de fé com que o povo meditava
sobre o seu passado e dele tirava força, esperança e orientação para a sua caminhada.
Eis um exemplo de três Salmos:
Salmo 105: enumera os fatos da história para revelar a bondade e a ternura de
Deus.
vv. 1-6: Convida para louvar a Deus pelas maravilhas que Ele operou no
passado.
vv. 7-25: Descreve a história, desde a promessa a Abraão até a escravidão
no Egito.
vv. 26-38: Descreve a saída milagrosa do Egito e a travessia do mar
Vermelho.
vv. 39-44: Descreve a passagem pelo deserto até a posse da Terra Prometida.
v. 45: Deus fez tudo isto “para que observassem as suas leis”.

A palavra final do Salmo 105 aponta para o assunto do Salmo seguinte, pois
suscita a pergunta: “Será que eles observaram a lei?”. A resposta vem no Salmo 106.
Salmo 106: Enumera os mesmos fatos para provocar arrependimento e
conversão:
vv. 1-6: Convite ao louvor e à conversão, pois eles não observaram a lei.
vv. 7-39: Conta as infidelidades: o povo não observou a lei, apesar da
bondade de Deus.
vv. 40-43: Por isso, receberam o castigo merecido.
vv. 44-48: No fim, a misericórdia de Deus prevalece sobre o pecado e a
transgressão.

Com a observação final sobre a grandeza da misericórdia de Deus, o salmista


anima o povo e oferece a chave para o Salmo 107, que enumera os mesmos fatos em
quatro blocos para revelar o amor de Deus:
Salmo 107: Nos quatro blocos, Deus acolhe nosso clamor e provoca reação de
louvor:
vv. 1-3: Introdução: convite ao agradecimento por tantos atos de
libertação.
vv. 4-9: Primeiro bloco: no deserto, sem caminho: Deus mostrou o
caminho.
vv. 10-16: Segundo bloco: na escuridão, na prisão sem ajuda: Deus os
libertou.
vv. 17-22: Terceiro bloco: no erro, injustos, morrendo: Deus os curou.
vv. 23-32: Quarto bloco: na tempestade no mar, sem saída: Deus acalmou o

54
mar.
vv. 33-41: Faz um resumo dos critérios colhidos do passado para aprender a
ler a vida.
vv. 42-43: Conclusão: Quem é sábio “saiba discernir o amor de YHWH”.
Assim, através da oração desses e de tantos outros Salmos, o povo trazia o passado
para o presente. A reza dos Salmos o levava a abrir-se para Deus e sentir-se povo de
Deus, descendentes de Abraão e Sara.

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2. A porta da contemplação da natureza
* A crise do cativeiro fechou todas as portas
No cativeiro, eles tinham perdido tudo: Templo, sacrifícios, oblações, terra, casas,
monarquia, rei, palácios, tudo. Tudo desapareceu como capim verde diante do calor
do sol. Tudo ficou seco, destruído. A fé tinha perdido seus apoios, a esperança estava
sem horizonte. A aliança parecia quebrada para sempre. Muita gente já andava
dizendo: “Deus rompeu conosco. Ele nos abandonou” (cf. Jr 33,23; Is 49,14; Ez
8,12). “Nossos ossos estão secos e nossa esperança se foi. Para nós, tudo acabou” (cf.
Ez 37,11). É trágico esse lamento que descreve o desânimo do povo no cativeiro:
“Fugiu a paz do meu espírito. Já não sei mais o que é ser feliz” (Lm 3,17).
A única coisa que tinha sobrado para eles era a memória das coisas que Deus tinha
feito no passado. Mas para muitos era uma saudosa memória de um passado que não
voltaria nunca mais. Muitos desacreditaram de tudo e chegaram a dizer: “Eu disse
comigo: acabou-se a minha força, a esperança que me vinha de YHWH” (Lm 3,18). É a
ausência total de esperança. A porta da memória do passado fechou! Parecia fechada
para sempre!
Qual a força que os fez levantar a cabeça e os levou a enfrentar e superar aquele
terrível desânimo? Foi a descoberta que os profetas fizeram através da contemplação
da natureza.

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* A natureza como sinal da presença de Deus no meio do povo
Desde sempre, o povo sabia que a natureza tinha a ver com Deus, mas foi só a
partir do cativeiro da Babilônia que a presença de Deus, revelada na natureza, se
tornou para eles um dos motivos mais fortes para tirá-los do desânimo, para
reencontrar o sentido da vida e sustentá-los de novo na fé, na esperança e no amor.
Foi, sobretudo, o profeta Jeremias que abriu esta janela da contemplação da
natureza. É como se ele dissesse ao povo: “Vocês dizem que Deus já não cuida de
nós e que deixamos de ser povo de Deus! Eu afirmo que Ele não nos abandonou. E
sabem por quê? É que o sol vai nascer amanhã. Nabucodonosor pode ser forte e nossa
infidelidade pode ser grande, mas nem o poder de Nabucodonosor nem os nossos
pecados conseguem impedir o nascimento do sol amanhã”. Eis o texto de Jeremias:
“Se vocês puderem romper a minha aliança com o dia e com a noite, de modo que
já não haverá mais dia nem noite no tempo certo, também será rompida a minha
aliança com o meu servo Davi” (Jr 33,20-21).
“Assim diz YHWH, aquele que estabelece o sol para iluminar o dia e ordena à lua e
às estrelas para iluminarem a noite, aquele cujo nome é YHWH dos exércitos:
quando essas leis falharem diante de mim – oráculo de YHWH –, então o povo de
Israel também deixará de ser diante de mim uma nação para sempre!” (Jr 31,35-
36).
Jeremias ajudou o povo a ler a natureza com um novo olhar. Na harmonia dos
fenômenos da natureza, ele via um sinal da presença amorosa de Deus e da sua
fidelidade com o povo. A sequência inalterada dos dias e das noites; o sol que se
levantava todos os dias sobre a cidade destruída; a lua minguante e crescente; a
alternância das estações do ano; as chuvas, as plantas, as sementes, tudo isto era para
ele um sinal de que Deus continuava fiel ao seu povo e de que não havia rompido a
aliança. Pois a certeza do nascer do sol não depende dos poderes deste mundo, nem
da nossa observância da Lei de Deus, mas está impressa na lógica da criação. É pura
gratuidade, bem-querer do Criador. É promessa que não falha. Cada manhã, através
da sequência dos dias e das noites, Deus nos fala ao coração e diz: “Como é certo que
eu criei o dia e a noite e estabeleci as leis do céu e da terra, também é certo que não
rejeitarei a descendência de Jacó e de meu servo Davi” (Jr 33,25-26).
Assim, para o povo do cativeiro, a natureza começou a ser um sinal transparente
da presença amorosa de Deus no meio deles. Jeremias tirou a conclusão: uma
presença tão gratuita no universo inteiro só é possível se for expressão de um amor
eterno. Ele disse: “De longe YHWH me apareceu: Eu te amei com um amor eterno, por
isso conservei para ti o amor” (Jr 31,3). Essa redescoberta do amor de Deus devolveu
ao povo a autoestima. Deus não rompeu a aliança. O retorno é possível. Agora eles
sabem que nada poderá separá-los do amor de Deus (cf. Is 40,1-2a; 43,1-5; 46,3-4).
Já não se desesperam, nem diante dos próprios pecados nem diante do poder opressor
de Nabucodonosor. Deus é mais forte (cf. Is 40,12-18). Ele os conduz com poder
criador (cf. Is 40,25-31).
Como resultado desse novo olhar, a natureza deixou de ser o santuário dos falsos
deuses; a história já não era mais decidida pelos opressores do povo; o mundo da
política já não era mais o domínio de Nabucodonosor. Por trás de tudo, começam a

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reaparecer os traços do rosto de YHWH, o Deus do povo. A natureza deixa de ser uma
ameaça, e se torna a casa do povo, o jardim de Deus. Eles se sentem em casa na
natureza e começam a ver em tudo os traços do rosto de YHWH, o Deus do povo, nosso
Deus, aquele que nos ama com amor eterno!
A experiência desse amor eterno e gratuito de Deus, estampado na natureza,
transparece nos Salmos de muitas maneiras:
* Como gratidão sem limites (Sl 103,1-5);
* Como motivo de arrependimento (Sl 32,5);
* Como pedido de perdão (Sl 51,8-11);
* Como convite ao louvor (Sl 150);
* Como maravilha não merecida (Sl 107,8.15.21.31);
* Como expressão do poder divino que liberta e salva (Sl 107,43); e
* Como estribilho que se repete sem parar: “Eterno é seu amor!” (Sl 136).
Desse modo, os Salmos prestam uma grande ajuda. Eles nos devolvem o olhar da
contemplação e nos ajudam a entender como a Palavra de Deus se revela na beleza e
na grandeza da natureza:
Sl 8,2.4.10: A beleza do luar e das estrelas revela a bondade de Deus.
Sl 19,2-7: A grandeza silenciosa do firmamento revela a Palavra criadora de
Deus.
Sl 29,3-10 Um grande temporal é como a voz de Deus.
Sl 33,6-12: A harmonia do universo é uma expressão da Palavra de Deus.
Sl 65,6-14: A natureza revela como Deus cuida de nós.
Sl 74,12-17: A obra da criação é fonte da certeza de que Deus está conosco.
Sl 89,10-15: A obra criadora nos faz entender melhor a obra salvadora.
Sl 95,4-5: A natureza revela a grandeza e o amor de Deus por nós.
Sl 104,1-35: O salmo inteiro: Terra! Louve a Deus!
Sl 119,89-91: A palavra salvadora é estável como a palavra criadora.
Sl 136,1-26: O salmo é uma ladainha da criação e da salvação: “Eterno é o seu
amor!”.
Sl 150,1-6: O salmo convida: “Tudo que vive e respira louve o Senhor”.

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3. A porta da busca da face de Deus
A face é o rosto, é a pessoa, é presença! “É a tua face que eu procuro, YHWH!” (Sl
27,8). O rosto revela a pessoa com tudo o que ela representa para nós. É como o
desejo do noivo de ver o rosto da noiva, desejo tão bem expresso pelo profeta Isaías:
“Como o jovem se casa com uma jovem, assim o teu Criador casará contigo; como o
esposo que se alegra com a esposa, assim o teu Deus se alegrará contigo” (Is 62,5).
Se a busca da face de Deus existe em nós, é porque o próprio Deus suscitou em
nós esse desejo. Diz o salmo: “Feliz quem tu escolhes e aproximas de ti!” (Sl 65,5).
Dizia Santo Agostinho: “Tu nos fizeste para Ti, e o nosso coração estará irrequieto
até que não descanse em Ti”. Desejo mútuo: de Deus para nós, de nós para Deus!
Segue aqui uma lista de Salmos, nos quais transparece o desejo de contemplar a
face de Deus e de sentir bem de perto a sua presença:
Sl 4,7: YHWH, levanta sobre nós a luz da tua face.
Sl 13,2: YHWH, até quando esconderás de mim a tua face?
Sl 17,2: Que minha sentença provenha de tua face!
Sl 22,25: Deus não desdenhou a desgraça do pobre, nem lhe ocultou a sua
face.
Sl 27,8: Ouço no meu coração: “Procurem minha face!”. É a tua face que
eu procuro.
Sl 30,8: YHWH, escondeste a tua face, e eu fiquei abalado.
Sl 31,17: Faze brilhar tua face sobre o teu servo. Salva-me por teu amor.
Sl 31,21: Tu os escondes onde escondes a tua face, longe das intrigas
humanas.
Sl 42,3; Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo. Quando voltarei a
ver a tua face?
Sl 51,11: Esconde dos meus pecados a tua face e apaga toda a minha culpa!
Sl 67,2: Deus tenha piedade de nós e nos abençoe, fazendo a sua face
brilhar sobre nós.
Sl 89,15: Justiça e direito sustentam o teu trono. Amor e fidelidade
precedem tua face.
Sl 143,7: Não me escondas a tua face: eu ficaria como os que baixam à
cova.

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4. A porta da busca da felicidade
A busca da felicidade é outro tema que marca o livro dos Salmos, do começo ao
fim. O Salmo 1 começa com estas palavras: “Feliz o ser humano!” (Sl 1,1). O último
salmo canta a felicidade já alcançada (Sl 150,1-6). Os Salmos percorrem e rezam o
caminho que leva à felicidade.
Eis algumas frases tiradas dos Salmos, nas quais transparece a variedade dos
caminhos para realizar a busca da felicidade. Você pode completar a lista:
Sl 1,1: Feliz o homem que não vai ao conselho dos ímpios.
Sl 2,12: Felizes aqueles que nele (Deus) se abrigam.
Sl 32,2: Feliz aquele cuja ofensa é absolvida, cujo pecado é coberto.
Sl 33,12: Feliz a nação cujo Deus é YHWH, o povo que ele escolheu como
herança.
Sl 41,2: Feliz quem cuida do fraco e do indigente: YHWH o salva no dia
infeliz.
Sl 65,5: Feliz quem tu escolhes e aproximas de ti para morar no teu
templo.
Sl 84,6: Felizes os que encontram em ti a sua força.
Sl 94,12: Feliz o homem a quem tu educas, YHWH, a quem ensinas com a tua
lei.
Sl 106,3: Feliz quem observa o direito e pratica a justiça em todo o tempo.
Sl 112,5: Feliz quem tem piedade e empresta, e conduz seus negócios com
retidão.
Sl 128,1: Feliz quem teme a YHWH e anda em seus caminhos.
Sl 144,15: Feliz o povo onde isto acontece. Feliz o povo cujo Deus é YHWH.

Jesus retoma tudo isso nas oito bem-aventuranças (Mt 5,3-10):


Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céus.
Felizes os aflitos, porque serão consolados.
Felizes os mansos, porque possuirão a terra.
Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Felizes os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia.
Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.
Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
Felizes os perseguidos por causa da justiça,
porque deles é o Reino do Céus.

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5. A porta da observância da Lei de Deus
Salmo 1. Logo no início do Saltério, se diz que a observância da Lei de Deus é o
caminho que leva à felicidade através da prática da justiça. E a observância se faz
meditando dia e noite na Lei do Senhor.
Salmo 119. Este é o salmo mais comprido da Bíblia. São 176 versículos. Em cada
um desses 176 versículos, o salmista usa cento e setenta e seis vezes a palavra lei ou
algum sinônimo. O salmo medita e reflete, sem parar, a Lei do Senhor. E a gente se
pergunta: Qual a ideia que ele se faz da lei? Lei que ameaça e condena, ou lei que
acolhe, orienta e educa? Pois uma insistência exagerada na observância da lei pode
levar a esquecer-se da misericórdia. Pode levar a pessoa a obedecer a Deus mais por
medo do que por amor. O Salmo 119 ensina o contrário. Em vez de medo, suscita
amor, e o faz de duas maneiras: direta e indireta.

61
* A maneira direta
A maneira direta transparece nos sinônimos que o salmo usa para indicar a Lei de
Deus. Eis alguns dos muitos sinônimos que aparecem nos 176 versículos: caminho (v.
1), mandamento (v. 6), palavra (v. 9), promessa (v. 11), estatuto (v. 12), preceito (v.
40), testemunho (v. 59), norma (v. 63), vontade (v. 70), lei (v. 72), lâmpada (v.105),
direito (v. 121), bem (v. 122), amor (v. 124), nome (v. 132), face (v. 135), e outros. O
que predomina nesses sinônimos não é a imposição autoritária de um legislador
anônimo que ameaça com castigo, mas sim a preocupação de um pai amoroso que
quer indicar um rumo para seus filhos e suas filhas, para que acertem o caminho na
vida. O próprio termo hebraico torah, usado para indicar a Lei de Deus, significa
rumo, orientação, direção, instrução, caminho.
A maneira direta também transparece quando o salmo fala do objetivo que a
observância da lei quer alcançar na vida das pessoas. Para o salmista, o objetivo é a
felicidade, e não o medo. Logo nos primeiros dois versículos, ele exclama duas vezes
em seguida:
“Felizes os íntegros em seu caminho,
os que andam conforme a vontade de YHWH.
Felizes os que guardam os seus testemunhos,
procurando-o de todo o coração” (Sl 119,1-2).
A observância da Lei do Senhor é o caminho para se atingir a felicidade, viver
feliz e sentir-se bem diante de Deus. Essa maneira de olhar a observância da Lei não
tem nada de ameaça ou de legalismo. Não provoca medo, mas sim vontade de amar e
de agradecer e de irradiar este amor na convivência diária.

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* A maneira indireta
À primeira vista, o salmista se apresenta como um apaixonado pela Lei de Deus,
pois dela fala do começo ao fim, em todos os versículos! Mas o curioso é que ele
nunca diz o que a Lei pede, nem cita alguma norma ou decreto da Lei. Nos três
primeiros versículos, ele sugere que vai meditar sobre a Lei de YHWH, mas já no
versículo 4 ele muda o discurso e começa a falar diretamente com Deus, o autor da
Lei, e diz: “Tu promulgaste os teus preceitos para serem observados à risca” (Sl
119,4). E desde o versículo 4 até o fim (com exceção, talvez, do versículo 115), ele
não fala mais sobre a Lei, mas fala diretamente com Deus, o autor da Lei. Assim, em
vez de ser uma meditação sobre a Lei, o Salmo 119 se transformou numa conversa
amorosa e bem demorada do salmista com o próprio Deus, o autor da Lei. Em todos
os versículos, de 4 até 176, o salmista fala na segunda pessoa do singular e se dirige
ao tu de Deus. Na realidade, a paixão dele não é a Lei, mas sim o autor da Lei, o
próprio Deus, YHWH, ele mesmo!
Eis algumas afirmações do salmista que confirmam esta paixão por Deus, o autor
da Lei: “Minhas delícias são os teus mandamentos que eu amo tanto” (Sl 119,47; cf.
119,97.113.119.127.132.140.159.163.165.167). Em outro lugar, ele afirma: “Que teu
amor seja a minha consolação, conforme a promessa ao teu servo” (Sl 119,76; cf.
119,64.124.149). Em outro lugar ainda, ele fala da vida plena que a Lei lhe comunica:
“Tua promessa me traz vida” (Sl 119,50; cf. Sl 119,25.37.40.77.93.116.154.156.
159). Sobra pouco espaço para ameaça, medo de castigo e de condenação. O amor
pelo autor da Lei faz observá-la com um olhar diferente e ajuda a entender melhor
como “meditar dia e noite na Lei do Senhor” (Sl 1,2).

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6. A porta da certeza do pobre em ser atendido
Como dissemos, a raiz dos Salmos é o clamor do povo, nascido da fé de que Deus
ouve e acolhe o clamor dos pobres. É essa certeza que nos dá coragem de pedir uma
ajuda a Deus, como a gente faz com a pessoa amiga da qual sabemos que sempre nos
acolhe. Deus é essa pessoa amiga! Ele fez opção pelos pobres, confirmada por Jesus
que dizia: “O Espírito do Senhor está sobre mim. Ele me ungiu e me enviou para
anunciar a Boa-nova aos pobres” (Lc 4,18).
Eis uma lista de algumas frases de Salmos, nas quais transparece a certeza de que
o pobre sempre pode contar com Deus, o amigo de todas as horas:
Sl 9,19: O indigente não será esquecido para sempre.
Sl 10,12: Levanta-te, YHWH! Ergue a tua mão! Não te esqueças dos pobres!
Sl 10,14: A ti se abandona o indefeso; para o órfão tu és um socorro.
Sl 12,6: YHWH declara: “Agora me levanto para defender os pobres
oprimidos”.
Sl 14,6: Vocês podem confundir o plano do pobre, mas o abrigo dele é
YHWH.

Sl 18,28: Tu salvas o povo pobre e rebaixas os olhos altivos.


Sl 25,9: Ele encaminha os pobres conforme o direito, e ensina aos pobres
o seu caminho.
Sl 40,18: Quanto a mim, sou pobre e indigente, mas o Senhor cuida de
mim.
Sl 68,6: Pai dos órfãos, protetor das viúvas, assim é Deus em sua morada
santa.
Sl 72,14: Redime os pobres da astúcia e violência, o sangue deles é
precioso a seus olhos.
Sl 109,21: Liberta-me, pela ternura do teu amor, porque sou um pobre
indigente!
Sl 109,31: Ele se colocou à direita do pobre para salvar a sua vida da mão
dos juízes.
Sl 138,6: YHWH é sublime, mas olha para o humilde e percebe de longe o
soberbo.
Sl 140,13: Eu sei que YHWH faz justiça ao pobre e defende o direito dos
indigentes.
Sl 146,7s: YHWH faz justiça aos oprimidos, dá pão aos famintos, liberta os
prisioneiros.

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7. A porta da oração a Deus na solidão da noite
Todos nós, de vez em quando, na escuridão da noite, quando o sono foge e a
angústia toma conta, rezamos a Deus e buscamos a sua face pedindo a Ele para nos
trazer a felicidade que parece fugir de nós. Outras vezes, é para agradecer a alegria e
a paz que Ele nos comunica. Eis alguns Salmos, nos quais transparece o costume de
rezar a Deus durante a noite:
Sl 4,5: Tremam e não pequem. Reflitam no silêncio do leito.
Sl 4,9: Em paz me deito e logo adormeço, porque só tu, YHWH, me fazes
viver tranquilo.
Sl 6,7: Sinto-me esgotado de tanto gemer, e de noite eu choro na cama.
Sl 16,7: Bendigo a yhwh que me aconselha e, mesmo de noite,
interiormente me instrui.
Sl 63,7: Quando me lembro de ti no meu leito, passo vigílias meditando
em ti.
Sl 77,3: À noite estendo a mão sem descanso, e minha alma recusa
consolo.
Sl 88,2: YHWH, meu Deus, de dia eu te peço auxílio, e de noite eu grito em
tua presença.
Sl 119,55: yhwh, eu me lembro do teu nome durante a noite, e observo a tua
lei.
Sl 119,62: À meia-noite eu levanto para te agradecer por tuas justas normas.

Motivada por tantos motivos, sem parar, a prece do pobre subia até Deus, de todos
os lugares, em todos os tempos, de dia e de noite, invocando a Deus sob o Nome
YHWH. Sempre! E até hoje, a mesma prece, o mesmo salmo sobe até Deus: “YHWH,
meu Deus, de dia eu te peço auxílio, e de noite eu grito em tua presença” (Sl 88,2).

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CAPÍTULO 8
A ORAÇÃO DOS SALMOS NA VIDA DE JESUS E
DE MARIA, SUA MÃE

O s primeiros cristãos, sobretudo Lucas e João, conservaram a imagem de Jesus


vivendo em contato permanente com o Pai. A respiração da vida de Jesus, o seu
alimento diário, era fazer a vontade do Pai (Jo 4,32; cf. Jo 5,19-20.30; 8,16; 10,15;
14,9-11.20; 15,9). Em vários momentos ele aparece rezando, sobretudo nos
momentos decisivos de sua vida. E no centro da vida orante de Jesus estão os Salmos.

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1. A escola de oração de Jesus
Durante o exílio na Babilônia, e sobretudo depois, criou-se no povo judeu o
costume de reunir a família para rezar, diariamente, nos mesmos momentos em que,
lá no Templo, se oferecia o sacrifício. Foi também no período depois do exílio que
começou o lento surgimento da sinagoga com suas celebrações semanais nos sábados.
Assim foi nascendo todo um contexto de oração com um ritmo diário, semanal e
anual. O ritmo diário acontecia dentro da casa, no ambiente da família. O ritmo
semanal desenvolvia-se na sinagoga, no ambiente da comunidade. O ritmo anual
com suas festas, que nós chamamos o ano litúrgico, irradiava sua influência para a
vida do povo a partir do Templo de Jerusalém. O objetivo dessa reorganização da
vida depois do exílio era voltar a viver plenamente as exigências da aliança e, assim,
refazer o ritmo de vida que tinha sido destruído pelo trauma do cativeiro.
Era nesse ambiente familiar e comunitário impregnado pela leitura orante da
Palavra de Deus, que tanto Maria como Jesus aprenderam de memória os Salmos,
como nós hoje aprendemos de memória nossas orações e cânticos. Havia preces e
Salmos para todos os momentos importantes da vida. Nos Salmos que cantavam e nas
bênçãos que invocavam, eles lembravam os acontecimentos mais importantes da sua
história. Isso os ajudava a reforçar sua identidade e missão. Era uma verdadeira
catequese. Tudo isso nos dá uma ideia de como era o ambiente orante da vida do
povo daquela época nas pequenas comunidades do interior, onde Jesus se criou e
viveu durante aqueles trinta anos da sua breve vida entre nós.
A escola de oração de Jesus era esta vida do dia a dia em casa, na família e na
comunidade. Foi lá que ele aprendeu a conviver, a trabalhar e a rezar. O apóstolo
Paulo evoca este ambiente de oração na sua carta a Timóteo. Ele escreve: “Desde a
infância você conhece as Sagradas Escrituras” (2Tm 3,15). “Lembro-me da fé sincera
que há em você, a mesma que havia antes na sua avó Loide, depois em sua mãe
Eunice e que agora, estou convencido, também há em você” (2Tm 1,5). A mãe
Eunice e a avó Loide ensinavam as coisas da fé para Timóteo (cf. 2Tm 1,5; 3,15). No
caso de Jesus, a mãe Maria e a avó Ana as ensinavam.
A escola de oração de Jesus era, sobretudo, a sua intimidade com Deus, seu Pai.
Aqui está o coração, a respiração da sua vida. A intimidade com o Pai dava a ele um
critério novo para ler e rezar os Salmos. Jesus buscava o sentido na fonte. Não ia da
letra até a raiz, mas ia da raiz até a letra. A partir da sua experiência de Deus como
Pai, os Salmos adquiriam para ele um sentido novo, mais pleno.

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2. O tríplice ritmo da oração na vida do povo no tempo de Jesus
A oração diária em casa na família
O povo rezava muito, todos os dias, de manhã, ao meio-dia e à noite, nos três
momentos em que, lá no Templo de Jerusalém, se oferecia o sacrifício. Assim, a
nação inteira se unia diante de Deus. A oração consistia em rezar as 18 bênçãos (de
manhã, ao meio-dia, à noite) e o Shemá (de manhã e à noite). A recitação dessas
preces era intercalada com Salmos. Eis o esquema da oração que Jesus rezava todos
os dias:
* As 18 bênçãos (de manhã, à tarde e à noite).
* O Shemá, composto de três benditos e três leituras (de manhã e à noite):
1. Um bendito ao Deus Criador do povo.
2. Um bendito ao Deus Revelador, que se revela e elege o povo.
3. Três leituras:
Dt 6,4-9: receber o Reino.
Dt 11,13-21: receber a Lei de Deus.
Nm 15,37-41: receber a Consagração.
4. Um bendito ao Deus Salvador que liberta o povo.
* Tanto as 18 bênçãos como o Shemá, tudo era misturado com Salmos.
A oração semanal no ambiente comunitário da sinagoga
Nos sábados, eles se reuniam na sinagoga para ler a Bíblia, rezar juntos e tratar da
vida da comunidade. Havia um esquema fixo para a primeira leitura da Lei de
Moisés. A segunda leitura dos profetas era livre. Dependia da escolha do leitor (cf. Lc
4,17). O Rabi Aqiba (50-135 d.C.), no seu tratado Pirquê Abot, descreve este
ambiente comunitário da seguinte maneira: “O mundo repousa sobre três colunas: a
Lei, o Culto e o Amor”. A Lei era a leitura da Sagrada Escritura. O Culto era a
celebração, a oração dos Salmos. O Amor era a preocupação em descobrir como
ajudar as pessoas necessitadas da comunidade. Até hoje, é este o ambiente da reza nas
nossas comunidades. O povo se reúne para ler e meditar a Bíblia, para rezar juntos e
para ver como ajudar as pessoas necessitadas da comunidade.
A oração anual através das romarias
A Lei recomendava que, a cada ano, todos fossem ao Templo de Jerusalém para
“comparecer diante de Deus” nas três grandes festas do ano: Páscoa, Pentecostes e
Tabernáculos (Ex 23,14-17; 2Cr 8,13). A partir dos doze anos de idade, Jesus
participava das romarias anuais para Jerusalém (Lc 2,41-50). De Nazaré até
Jerusalém eram em torno de 140 quilômetros, isto é, mais ou menos cinco dias de
viagem. Andavam em uma média de 30 quilômetros por dia. As romarias eram
realizadas sempre em grupos; com suas rezas e cânticos, criavam muita comunhão
entre as pessoas. No Evangelho de João, transparece que, durante os três anos da sua
vida pública, Jesus foi no mínimo umas três ou quatro vezes em romaria ao Templo
de Jerusalém (cf. Jo 2,13; 5,1; 7,14; 12,12-19).
Casa-Família: ritmo diário. Sinagoga-Comunidade: ritmo semanal. Templo-Povo:
ritmo anual. Os Salmos faziam parte desse ambiente de oração, ou seja, formavam o

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seu eixo. Recitando e cantando os Salmos, o povo aprendia a rezar, e foi assim que
Jesus aprendeu junto com Maria, sua mãe, e os rezava ao longo de toda a sua vida.
Quando no sofrimento faltam palavras para falar com Deus, os Salmos, decorados
desde jovem, ajudam a rezar. Foi assim que Jesus rezou os Salmos no horto das
Oliveiras e quando estava morrendo na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me
abandonaste?” (Mt 27,46 e Sl 22,2). “Em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc
23,46 e Sl 31,6).
Os dois primeiros capítulos do Evangelho de Lucas oferecem uma amostra de
como a piedade popular naquela época era marcada pela oração dos Salmos. Nesses
dois capítulos, transparece o contexto de oração que marcava a vida das pessoas. Eles
mostram como os Salmos ocupavam um lugar central na piedade do povo:
Zacarias e Isabel: Conforme as informações da Bíblia de Jerusalém, o cântico de
Zacarias (Lc 1,67-79) evoca 21 frases do AT, das quais seis são de Salmos. O mesmo
vale para o cântico de Maria (Lc 1,46-55): 19 evocações do AT, as quais cinco são
Salmos. Os dois cânticos são fruto de longa meditação dos Salmos e da história do
povo de Deus.
Simeão e Ana: O mesmo se diz do velho Simeão (Lc 2,25-35) e da profetisa Ana
(Lc 2,36-38). Os dois viviam naquele ambiente de oração, que se criou ao redor do
Templo, e assim tornaram-se capazes de reconhecer a presença de Deus numa criança
recém-nascida, levada para o Templo por um casal pobre lá da Galileia.

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3. Jesus convivendo no ambiente de oração do seu povo
Nos Evangelhos, Jesus aparece convivendo e participando neste contexto orante
da vida do seu povo com seu tríplice ritmo de oração. Eis alguns momentos de
oração. Pesquisando, você encontrará outros momentos espalhados pelos quatro
Evangelhos.
Ritmo diário e familiar
* Jesus levanta bem cedo para rezar (Mc 1,35).
* Reza antes das refeições (Lc 9,16; 24,30).
* A pedido das mães, ele dá a bênção às crianças (Mc 10,16).
Ritmo semanal e comunitário
* Jesus costuma participar da oração na sinagoga nos sábados (Mc 1,21; Lc 4,16).
* Durante a reunião semanal, ele se levanta para fazer a leitura (Lc 4,16).
* Participa da reunião para transmitir o seu ensinamento ao povo (Mc 6,2).
Ritmo anual do Templo
* Aos doze anos de idade, ele vai ao Templo, à casa do Pai (Lc 2,46-50).
* Participa das romarias no Templo de Jerusalém nas grandes festas (Jo 5,1).
* Celebra a Ceia Pascal com seus discípulos (Lc 22,7-14).
Nos Evangelhos, Jesus aparece rezando e usando os Salmos de muitas maneiras:
para dirigir-se ao Pai, para transmitir sua mensagem ao povo, e para refutar as
críticas dos adversários.
* Para dirigir-se ao Pai: Além da reza diária dos Salmos, em casa, com a família
e da recitação semanal na comunidade, Jesus aparece rezando os Salmos,
sobretudo nos momentos difíceis de sofrimento, no Horto e na cruz. No Horto, ele
desabafa: “Minha alma está triste” (Mc 14,34; Sl 31,10). Este mesmo sentimento
de dor e de tristeza aparece em outro salmo (Sl 42,6). Na cruz, Jesus reza dois
Salmos: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?” (Mc 15,34; Sl 22,2) e
“Em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46; Sl 31,6).
Além disso, os evangelistas recorrem aos Salmos para descrever certas cenas que
acontecem durante a Paixão e morte de Jesus:
* “Voltem atrás os que planejam o mal contra mim” (Jo 18,6; Sl 35,4);
* “Dividiram minhas vestes e sobre a túnica lançaram a sorte” (Mc 15,24; Sl
22,19);
* “Na minha sede me deram fel de beber” (Mt 27,34; Sl 69,22);
* “Aquele que comigo põe a mão no prato, esse me entregará” (Mt 26,23; Sl
41,10);
* “Confiou em Deus, que o livre agora” (Mt 27,43; Sl 22,9); e
* “Nenhum osso lhe será quebrado” (Jo 19,36; Ex 12,46; Sl 34,21).
Esta maneira de usar os Salmos para descrever os fatos da vida de Jesus era para
sugerir aos leitores que Jesus era de fato o Messias, anunciado pelos profetas e
aguardado através da reza dos Salmos.
* Para ensinar o povo: Aqui há todo um campo a ser investigado. De acordo com
a concordância da Bíblia de Jerusalém, vários ensinamentos de Jesus são
evocações de frases de Salmos. Por exemplo:

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* “Felizes os mansos, porque herdarão a terra” (Mt 5,4; Sl 37,11);
* “Felizes os aflitos, porque serão consolados” (Mt 5,5; Sl 126,5-6);
* “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8; Sl 24,3-4);
* O pai que vê em segredo, escuta a prece feita em segredo (Mt 6,4; Sl 139,2-4);
* O abandono à Providência Divina (Mt 6,25-34; Sl 127);
* A parábola da vinha (Mc 12,1; Sl 80,9-19); e
* “Eu sou o Bom Pastor” (Jo 10,11; Sl 23).
Assim, há muitas outras evocações de Salmos espalhadas pelos ensinamentos de
Jesus. Algumas vêm do próprio Jesus; outras, muito provavelmente, vêm das
comunidades que usavam as frases conhecidas dos Salmos para transmitir os
ensinamentos de Jesus.
* Para refutar e criticar os adversários: Nas discussões com os fariseus e os
doutores da Lei, Jesus respondia com frases dos Salmos, conhecidas de todos.
* “Da boca dos pequeninos e das criancinhas
preparaste um louvor para ti” (Mt 21,16; Sl 8,3);
* “A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se a pedra angular” (Mt 21,42; Sl 118,23);
* “O Senhor disse ao meu Senhor:
‘Senta-te à minha direita’” (Mt 22,44; Sl 110,1);
* “Vereis o Filho do Homem
sentado à direita do Poderoso” (Mc 14,62; Sl 110,1).

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4. A oração na vida de Jesus
Eis uma lista de momentos da vida de Jesus, em que ele aparece rezando:
* Aos doze anos de idade, lá no Templo de Jerusalém, casa do Pai (Lc 2,46-50);
* Na hora de ser batizado e de assumir sua missão, Jesus reza (Lc 3,21);
* Na hora de iniciar a missão, passa quarenta dias no deserto (Lc 4,1-2);
* Na hora da tentação, ele enfrenta o diabo com textos da Escritura (Lc 4,3-12);
* Na hora de escolher os doze apóstolos, passa a noite em oração (Lc 6,12);
* Na hora de fazer levantamento da realidade, ele reza (Lc 9,18);
* Vendo o Evangelho revelado aos pequenos, louva a Deus (Lc 10,21);
* Na cura do surdo-mudo, olhou para o céu e gemeu (Mc 7,34);
* Na hora de ressuscitar Lázaro: “Pai, eu sei que sempre me ouves!” (Jo 11,41-
42);
* Ele costuma participar das celebrações nas sinagogas nos sábados (Lc 4,16);
* Nas grandes festas, participa das romarias para o Templo de Jerusalém (Jo 5,1);
* Reza antes das refeições (Lc 9,16; 24,30);
* Procura a solidão do deserto para rezar (Mc 1,35; Lc 5,16; 9,18);
* Rezando, desperta nos apóstolos a vontade de rezar (Lc 11,1);
* Rezou por Pedro, para ele não desfalecer na fé (Lc 22,32);
* A pedido das mães, dá a bênção às crianças (Mc 10,16);
* Celebra a Ceia Pascal com seus discípulos (Lc 22,7-14);
* Ao sair da Ceia para o Horto, reza Salmos com os discípulos (Mt 26,30);
* Na crise, sobe o monte para rezar e é transfigurado enquanto reza (Lc 9,28);
* Na hora da despedida, reza a oração sacerdotal (Jo 17,1-26);
* No horto das Oliveiras, ele reza: “Triste é minha alma” (Mc 14,34; cf. Sl
42,5.6);
* Na angústia da agonia, pede aos três amigos para rezar com ele (Mt 26,38);
* Na hora de ser pregado na cruz, pede perdão a Deus pelos carrascos (Lc 23,34);
* Na cruz, ele reza: “Meu Deus! Por que me abandonaste?” (Mc 15,34; Sl 22,2);
* Na hora da morte: “Em tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23,46; Sl 31,6); e
* Jesus morre soltando o grito do pobre (Mc 15,37).
A vida de Jesus era uma oração permanente. A ele se aplica o que diz o salmo:
“Eu sou oração!” (Sl 109,4).

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5. O Pai-nosso: o Salmo de Jesus
Jesus estava rezando. Um dos discípulos, motivado pelo jeito de Jesus rezar, pede:
“Jesus, ensina-nos a rezar!”. Como resposta, Jesus ensinou o Pai-nosso. Nos
Evangelhos, existem duas versões deste Salmo de Jesus: a versão de Lucas (Lc 11,2-
4), mais breve, com cinco pedidos; a de Mateus (Mt 6,9-13), mais longa, tem sete
pedidos.
O Pai-nosso, o Salmo de Jesus, é uma cartilha, na qual ele resumiu todo o seu
ensinamento na forma de uma prece dirigida ao Pai. Nela, Jesus retoma as grandes
promessas do AT e pede que o Pai nos ajude a realizá-las. Os primeiros três pedidos
dizem respeito ao nosso relacionamento com Deus Pai; os outros quatro, ao
relacionamento entre nós, irmãos e irmãs.
No tempo de Jesus, o relacionamento do povo com Deus era marcado pela
insistência dos escribas e fariseus na observância das normas da Lei e da pureza legal.
Através das suas palavras e ações, nascidas da sua experiência de filho, Jesus trouxe
uma grande novidade. O Deus que parecia distante como um juiz severo adquiriu os
traços de um Pai bondoso de grande ternura, sempre presente, pronto para acolher
seus filhos e suas filhas. Essa Boa-nova de Deus como Pai, testemunhada e
comunicada por Jesus, tornou-se a nova chave para reler e rezar os Salmos com um
novo olhar. Por isso, costumamos terminar a reza dos Salmos com a invocação da
Santíssima Trindade, da qual Jesus é a revelação para nós.
Não basta o estudo para que os Salmos liberem o seu sentido; é preciso ter “os
mesmos sentimentos que animaram Jesus” (Fl 2,5), ter nos olhos e no coração a
consciência e a liberdade de filhos e filhas de Deus que Jesus nos comunicou. Do
contrário, os Salmos continuam cobertos por um véu que impede a descoberta plena
do seu sentido. “É só pela conversão ao Senhor que o véu cai. Pois o Senhor é
Espírito e, onde há o Espírito, aí há liberdade” (2Cor 3,17).

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6. O Magnificat: o Salmo de Maria, a Mãe de Jesus
Três características marcam o cântico de Maria (Lc 1,46-55): ela conhecia os
Salmos de memória, tinha consciência clara da situação social e política do seu
tempo, conhecia a história e a missão do seu povo.
a. Maria conhecia e rezava muito a Bíblia, sobretudo os Salmos
O cântico do Magnificat mostra como Maria vivia sua fé e como ela meditava a
Palavra de Deus. O Magnificat está permeado de frases da Bíblia, sobretudo dos
Salmos. Conforme as informações da Bíblia de Jerusalém, dezenove textos do AT
são evocados ou mencionados no Magnificat, vindos dos livros de Isaías, Habacuc,
Gênesis, Jó, do cântico de Ana e, sobretudo, dos Salmos. Parece até uma colcha de
retalhos, feita com frases e palavras tiradas da Bíblia. Sinal de que Maria conhecia a
Bíblia quase de memória! De tanto meditar a Palavra de Deus, quando ela mesma
rezava, usava as palavras da Bíblia para dirigir-se a Deus. Muitas vezes, nós fazemos
o mesmo e usamos as palavras da Bíblia para entrar em contato com Deus.
b. Maria tinha consciência clara da situação social e política do seu
povo
No Salmo de Maria, transparece que ela conhecia as pretensões dos soberbos (Lc
1,51), a ganância dos ricos (Lc 1,53) e a opressão dos poderosos sobre os pequenos
(Lc 1,52). Ela se faz porta-voz da esperança do seu povo (Lc 1,54-55). Unir o
conhecimento crítico da realidade com a leitura orante da Bíblia era a chave que abriu
os olhos do coração de Maria para ela poder escutar os apelos de Deus, tanto na vida
do seu povo como na sua própria vida.
c. Maria conhecia a história e a missão do seu povo
No Magnificat, Maria expressa a sua fé de que as profecias do AT estavam se
realizando. Deus estava cumprindo aquilo que havia prometido aos pais. O
Magnificat é louvor e gratidão a Deus por ele estar realizando as promessas: “Socorre
Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, conforme prometera aos nossos
pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre” (Lc 1,54-55).
Essas três características mostram como Maria lia a Bíblia e como rezava os
Salmos. Elas são um colírio que limpa os olhos e ajuda a pessoa a perceber os apelos
de Deus na realidade da sua vida.
Tente ler devagar o cântico de Maria, pensando nela, como se você estivesse ao
lado dela, rezando o cântico junto com ela, lá na casa de Isabel e Zacarias. Faça você
também o seu salmo a partir das passagens bíblicas que são importantes para você na
sua vida.

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CAPÍTULO 9
AS DIFICULDADES NA REZA DOS SALMOS

1. Olhando de perto as dificuldades


* Ira, raiva, agressividade, violência, sofrimento como castigo de Deus
Há Salmos violentos de vingança e de ódio contra os inimigos. Um salmo diz:
“Deus esmaga a cabeça dos seus inimigos, o crânio cabeludo do criminoso
contumaz” (Sl 68,22). E pede para Deus matar os adversários a ponto de ele, o
salmista, poder banhar seus pés no sangue dos inimigos (Sl 68,24). Eles chegavam a
rezar contra a Babilônia: “Feliz quem agarrar e esmagar teus nenês contra a rocha”
(Sl 137,9). Uma coisa assim nós não a desejamos nem para o pior inimigo. O Salmo
109 pede a Deus “que a mulher dele (do inimigo) se torne viúva e os filhos órfãos”
(Sl 109,9). É muito ódio e vingança! E chegam a cantar: “Ele (Deus) feriu reis
poderosos, porque eterno é seu amor! Matou reis famosos, porque eterno é seu
amor!” (Sl 136,17.18). Não estamos acostumados a celebrar a morte dos inimigos
como expressão do amor de Deus por nós! Como dirigir uma prece assim a Deus?
* Imagens estranhas, linguagem difícil, fatos desconhecidos
Imagens estranhas: um salmo compara a fraternidade com o óleo derramado sobre
a cabeça de Aarão, que vai descendo pela barba até as roupas dele (Sl 133,2). Nomes
difíceis: de pessoas e lugares desconhecidos (Sl 60,8-11; 83,7-12), ou de fatos de que
não participamos. Por exemplo, Meriba e Massa (Sl 95,8). É difícil celebrar algo que
a gente não viveu nem conheceu.
Há traduções que não traduzem bem. Uma Bíblia traduz: “Minha vida está ligada
a ti, e tua direita me sustenta” (Sl 63,9). Outra Bíblia traduz a mesma frase de outro
jeito: “Eu me agarro a ti, tu me seguras com tuas mãos”. O salmo se refere à imagem
tão familiar da criança agarrada nas costas do pai, e o pai a segura com suas mãos.
Ambas as traduções são fiéis ao texto original, mas a segunda tradução é mais fiel à
linguagem de hoje. Traduzir não é fácil. O tradutor do livro do Eclesiástico já dizia:
“As coisas expressas originalmente em hebraico não têm a mesma força quando
traduzidas para outra língua” (Prólogo).
* Afirmações que contradizem a nossa experiência diária
O salmista diz: “Já fui moço e agora estou velho, mas nunca vi um justo
abandonado, nem seus filhos mendigando pão” (Sl 37,25). O que a gente mais vê
hoje é o povo bom e justo vivendo no abandono, passando necessidade. A afirmação
do salmista parece sem fundamento. Como entendê-la e como rezá-la?
Hoje, muita gente questiona o valor da prece. Uns dizem: “Antigamente, a gente
rezava para ter saúde; hoje, a gente vai ao médico”. Outros dizem: “Antigamente,
quando não chovia, a gente pegava a imagem de Santo Antônio. Fazia procissão e
esperava a chuva. Se chovia demais, corria para virar a imagem e esperava que a reza
fizesse a chuva parar. Agora, participando do sindicato, a gente ri desses costumes,
pois sabe que tem de se virar sozinho mesmo!”. O que responder a eles?
A visão que hoje temos do universo é bem diferente da visão do povo da Bíblia.
Para eles, a terra era o centro do Universo. A lua, o sol e as estrelas eram lâmpadas

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que Deus tinha colocado no teto do mundo para iluminar nossos passos. Hoje
sabemos que o sol é uma pequena estrela de segunda categoria na periferia da nossa
galáxia. Nossa galáxia tem em torno de 100 bilhões de estrelas, e calcula-se que há
em torno de 100 bilhões de galáxias no universo. As estrelas mais distantes ficam a
bilhões de anos-luz. A visão que hoje temos do Universo já não é a mesma de ontem.

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2. Esclarecendo algumas dificuldades
* Considerações sobre a violência e a ira de Deus nos Salmos
Depois que Jesus veio, fica difícil para nós rezar preces tão violentas. É grande o
contraste com o ensinamento de Jesus, que manda amar os inimigos (Mt 5,44) e
perdoar setenta vezes sete (Mt 18,22). Também é grande o contraste com o
sentimento humano nosso de hoje que não consegue ser tão agressivo a ponto de
pedir que alguém esmague as crianças do inimigo contra a rocha. E a gente fica com
uma pergunta na cabeça: Como entender e rezar estes Salmos? Como Jesus os
rezava? Qual a sua mensagem para nós hoje? Seguem aqui algumas considerações
precárias:
1. Muitas vezes, na Bíblia, a própria agressividade é expressão de um agudo
sentimento de justiça. Um salmo, por exemplo, pede a morte do inimigo, porque “ele
não se lembrou de ter clemência, e perseguiu o pobre, o indigente e o coração contrito
até a morte” (Sl 109,16).
2. Hoje dizemos: “Matei todo mundo de susto!”. Não matou ninguém! Assim,
nem todas as expressões violentas da Bíblia podem ser tomadas ao pé da letra.
Quando o salmo pede que os nenês sejam esmagados contra a rocha (Sl 137,9), não
pede a morte das crianças, mas pede que a injustiça não se reproduza e que ela morra
com aqueles que hoje a sustentam e a praticam.
3. Jesus disse: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; desse
modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol
igualmente sobre maus e cair a chuva sobre justos e injustos. Sede perfeitos como
vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,44-45.48). Ele manda perdoar setenta vezes sete
(Mt 18,22) e oferecer o lado esquerdo a quem bate no lado direito (Mt 5,39). Mas é
bom lembrar que Jesus não ofereceu o outro lado quando o soldado bateu no rosto.
Ele disse: “Se falei errado, prove! Se falei certo, por que você me bate?” (Jo 18,23).
4. Jesus manda ser bom, mas não bobo. As palavras de Jesus não podem ser
explicadas de tal modo que favoreçam a opressão violenta do sistema neoliberal pela
passividade ingênua dos cristãos. Jesus quer que, dentro das nossas comunidades,
haja comunhão e perdão. Mas diante do opressor, o cristão deve ter a coragem de
Jesus: “Se falei errado, prove! Se falei certo, por que você me bate?” (Jo 18,23).
5. Diante da violência que aparece nos Salmos, alguém pergunta: “Como é que se
pode pedir a bênção de Deus para poder esmagar os inimigos?”. A resposta
satisfatória só teremos encontrado quando soubermos responder a esta outra pergunta:
“Como é que nós, cristãos, ao longo da história, pudemos aceitar a escravidão como
permitida por Deus? Como é que nós, cristãos, em defesa da civilização cristã,
pudemos matar tanta gente?”. Só na Segunda Guerra Mundial de 1939 a 1945,
conduzida por cristãos, matou-se mais de 50 milhões de pessoas. A violência
institucionalizada do sistema neoliberal é muito maior do que a violência dos povos
daquele tempo. Cisco no olho do outro é trave nos nossos olhos (cf. Mt 7,3-5; Lc
6,41-42).
* Considerações sobre a pedagogia divina e a imagem que temos de Deus
1. Deus faz com o povo o que a mãe faz com seus filhos. Todos nós nascemos
cheios de limitações, mas a mãe nos aceita e nos ama do jeito que nascemos e somos.

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Ela vai nos educando com muita paciência, puxando a orelha se for necessário. Deus
aceitou o seu povo do jeito que o encontrou lá no Egito, cheio de defeitos, e procurou
educá-lo, lentamente, pacientemente. Desde Abraão até Jesus foram 1.800 anos! Essa
paciência divina é consolo para nós. Deus tem conosco a mesma paciência.
2. No relacionamento entre duas pessoas acontece o seguinte: só aos poucos, à
medida que cresce a convivência, vai melhorando o relacionamento, e você percebe
melhor o que a amizade exige de você. O mesmo vale para o nosso relacionamento
com Deus. No início, quando Deus chamou Abraão, o povo imaginava Deus de um
jeito. Passando pelo Êxodo, pela época dos Juízes e dos Reis e, sobretudo, pelo
cativeiro, o povo chegou a entender melhor o que Deus estava pedindo. Se num
determinado período o povo pensava que podia ou devia matar os inimigos em nome
de Deus, no período seguinte, a consciência crescia e o povo descobria que já não era
permitido o que antes parecia normal.
3. Um exemplo muito claro é esta afirmação de Jesus: “Vocês ouviram o que foi
dito: ‘Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo!’. Eu, porém, lhes digo: amem os
seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim, vocês se tornarão
filhos do Pai que está no céu, porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a
chuva cair sobre justos e injustos” (Mt 5,43-45). Assim, chegando o povo mais perto
de Deus e Deus mais perto do seu povo, eles foram aprendendo. Ao longo dos 1.800
anos, desde Abraão até o tempo de Jesus, assistimos a este filme tão bonito da
pedagogia divina que conduzia o seu povo para que se tornasse um povo cada vez
mais humano, capaz de realizar o duplo ideal: amar a Deus e amar ao próximo.
4. Jesus veio revelar o rosto de Deus como Pai. A semente desta Boa-nova já
estava no chão da vida desde os tempos de Abraão, e foi crescendo. Errando e
acertando, o povo foi adivinhando o caminho, aprendendo aos poucos, tirando lição
dos fatos e dos próprios erros. Mas a flor só abriu e o fruto só apareceu plenamente
em Jesus. Só aí ficou claro aonde Deus queria chegar quando chamou Abraão e Sara,
quando decidiu libertar o povo da opressão do faraó no Egito, e quando deu os Dez
Mandamentos a Moisés no monte Sinai.
5. Falando dos mandamentos, por seis vezes, Jesus chegou a dizer: “Vocês
ouviram o que foi dito aos antigos, mas eu digo!” (Mt 5,21.27.31.33.38.43). E no fim,
ele resumiu tudo nesta frase: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos
outros. Como eu vos amei, amai-vos vós também uns aos outros” (Jo 13,34). E nesta
outra frase: “Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês
também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os Profetas” (Mt 7,12).
* Sugestões para as imagens estranhas, linguagem difícil, fatos desconhecidos
1. Ler a Bíblia com maior frequência: Nos Salmos ocorrem comparações
estranhas, nomes difíceis de pessoas desconhecidas, histórias de que nunca ouvimos
falar. É só através de uma leitura mais frequente da Bíblia que essas histórias
estranhas se tornarão mais conhecidas e mais familiares para nós. E quanto maior
nosso conhecimento da história do povo da Bíblia através da leitura mais frequente,
mais fácil será fazer a ligação entre Bíblia e vida, e mais fácil será ver nos Salmos a
expressão das nossas vivências.
2. Participar da comunidade: Achamos difícil rezar os Salmos que celebram fatos
de que não participamos. Mas nós celebramos o aniversário da morte de Dom Oscar

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Romero, assassinado em 1980. Apesar de muitos de nós não terem vivido o fato,
conseguimos celebrá-lo como parte de nossa vida, pois descobrimos o chão comum
que nos une a ele. O mesmo vale para os fatos da Bíblia. A participação mais intensa
na vida da comunidade e na caminhada do nosso povo ajuda a descobrir melhor o
chão comum com o povo da Bíblia e nos permite assumir, como fazendo parte da
nossa vida, fatos de que não participamos, tanto do povo hebreu, como dos povos de
hoje.
3. Alargar a consciência: Fabiana perguntou a dona Maria, uma senhora idosa:
“Dona Maria, hoje estou alegre, mas na igreja devo rezar um salmo triste. Como é
que eu faço?”. Maria respondeu: “Você está alegre, muito bom! Graças a Deus! Mas
neste momento, no mundo inteiro há muita gente triste, gente que sofre, gente
perseguida, angustiada. Tanto sofrimento! Aqui na comunidade, quando nós rezamos,
nós não rezamos só por nós mesmos. Nós representamos, diante de Deus, todos estes
nossos irmãos e irmãs. Pense neles, Fabiana. Na sua consciência deve ter um
lugarzinho para esse povo todo. Ninguém comparece sozinho diante de Deus. Deus
quer que nós, como Jesus, carreguemos as dores e as alegrias uns dos outros”. Bonita
a resposta de dona Maria para Fabiana, para todos nós!
4. Os Salmos são humanos, sinceros, realistas: Existe oração perfeita e oração
imperfeita (cf. Mt 6,5-10). A principal perfeição da oração é que ela seja sincera, sem
fingimento nem hipocrisia; que ela corresponda ao que somos e queremos ser. A
imperfeição maior é quando os lábios dizem uma coisa, e a vida diz outra. Essa
imperfeição chegou a afetar o culto no Templo de Jerusalém e foi denunciada pelos
profetas (cf. Is 1,10-15; Am 5,21-25; Jr 6,20). Jesus chegou a denunciar a mesma
imperfeição em alguns fariseus e doutores da Lei (Mc 7,6-8; cf. Mt 15,8). Na reza, o
importante é a gente apresentar-se diante de Deus do jeito que somos, como o
publicano na parábola de Jesus: “Meu Deus, tem dó de mim, que sou pecador!” (Lc
18,13). Neste ponto, os Salmos têm muito a nos ensinar. São orações sinceras. São a
expressão do desejo de ser fiel a Deus e à caminhada do povo.

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CAPÍTULO 10
O RIO DOS SALMOS: DO NASCEDOURO AO MAR
Um breve resumo de tudo o que vimos
A oração dos Salmos é como a água do rio que percorre e fertiliza a terra. Os
Salmos percorrem e fertilizam a história e a vida do povo de Deus, do começo ao fim.
“Há um rio, cujos braços alegram a cidade de Deus, santificando as moradas do
Altíssimo” (Sl 46,5). Vamos acompanhar o seu curso, desde o nascedouro até o mar,
indicando dez mirantes, a partir dos quais se pode olhar e estudar o livro dos Salmos.
Pode haver alguma repetição, mas um pouco de repetição não faz mal. É o arroz com
o feijão, de todos os dias, e não achamos ruim.

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1. A nascente
A nascente é o lugar onde a água está dentro do chão, nas cabeceiras do rio. A
nascente do rio dos Salmos é a experiência de Deus nas contradições da vida; é a
convicção de que YHWH, o Deus vivo e libertador, está presente na nossa vida. Ele nos
ouve quando o invocamos. A nascente dos Salmos é a certeza de que Deus escuta
nosso clamor em todas as situações da nossa vida. Através da reza dos Salmos,
aprendemos a experimentar a presença de Deus nas contradições da vida.

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2. As fontes
As fontes são os lugares onde a água sai do chão e começa a correr sobre a terra.
As fontes do rio dos Salmos são os motivos que levam o povo a sair de si, para
dirigir-se a Deus e rezar. Cada salmo tem o seu motivo, alguns desses motivos
aparecem com maior frequência. Até hoje, os mesmos motivos estão na origem das
nossas orações, revelando, assim, a afinidade dos Salmos com a nossa vida. Eis
alguns desses motivos:
1. A história: O passado é lembrado para cantar as maravilhas de Deus (Sl 105,1-
45); para animar as pessoas (Sl 107,1-43) e levá-las à conversão (Sl 106,6-47); para
agradecer, pois eterno é seu amor (Sl 136,1-26), amor que se revela em tudo que nos
acontece ao longo dos anos da vida.
2. O conflito entre fé e realidade: Este conflito provocava neles a crise de fé. O
presente era tão diferente do passado! Será que Deus mudou (Sl 77,8-11)? Às vezes,
lhes dava a impressão de que o mal tinha vencido e derrubado os bons (cf. Sl 14 e
53), e vinha a tentação: “Vou falar como eles!” (Sl 73,15), vou seguir o exemplo
deles, dos maus. Hoje também, muita gente já desacreditou e seguiu por outros
caminhos. A reza dos Salmos pode ajudar a enfrentar e vencer a crise.
3. O sofrimento: O sofrimento das pessoas gerou o maior número de Salmos:
perseguição (Sl 3,2-3), solidão (Sl 142,5), doença (Sl 41,4-9; 88,9), escuridão (Sl
88,2-7) etc. O sofrimento provocava desejos de vingança (Sl 109,6-15). É difícil você
encontrar uma pessoa que nunca teve algum sofrimento na vida. Os Salmos
continuam bem atuais para todos nós.
4. A Lei de Deus: “Felizes os íntegros que andam na Lei (vontade) do Senhor” (Sl
119,1). Alguns Salmos revelam a mística profunda a que as pessoas chegavam
meditando e observando a Lei de Deus (Sl 19,8-11). A fiel observância da Lei de
Deus levava a um amor apaixonado por Deus, o autor da lei. Nos Salmos, a Lei de
Deus não era uma imposição que abafa e reprime, mas sim uma expressão do amor
eterno de Deus que conforta e sustenta. Veja o longo Salmo 119,1-176.
5. As festas do povo: Muitas festas! Da semeadura à colheita! As três grandes
festas do ano, com suas romarias ao Templo, marcavam o ritmo da vida orante do
povo: na primavera, a festa dos ázimos (Páscoa) ou da semeadura; no verão, a festa
das semanas (Pentecostes) ou do começo da colheita; no outono, a festa das tendas ou
do final da colheita (Ex 23,14). Não existe pessoa que não goste de uma festa. Vida
sem festa é comida sem sal; sertão sem chuva; rosto sem sorriso.
6. A busca da face de Deus: “Senhor, há muito que te procuro com grande
ansiedade!” (Sl 63,1): buscar Deus no Templo (Sl 23,6; 27,4; 84,1-5; 122,1); em
todos os momentos da vida (Sl 139,1-12); o desejo de viver na presença dele, para
sempre (Sl 16,11).
7. Compromisso da aliança: A aliança entre Deus e o povo era como a aliança
entre o noivo e a noiva. Cada um deve poder contar sempre com a fidelidade do amor
do parceiro. Quando aparecia alguma dúvida neste ponto, a aliança corria perigo de
rachar. Nos Salmos, o salmista questiona o povo: “Será que Deus, parceiro de
aliança, pode contar sempre com a fidelidade do amor do seu povo?” (cf. Sl 50,5.16;
55,21; 74,20; 78.10.37; 83,6; 89,4.29.35.40; 103,18; 105,8; 106,45; 111,5; 132,12).

82
8. A penitência: A história mostra que o perdão de Deus é maior que o pecado (Sl
106,6-12.43-46) e que sem Deus não há saída (Sl 30,7-8). Por isso, o salmista pede
perdão (Sl 51,1-19). A confissão liberta (Sl 32,5-8). Pedro perguntou: “Quantas vezes
devo perdoar? Sete vezes?”. Sete vezes significa sempre. Jesus respondeu: “Setenta
vezes sete! (Mt 18,21-22). Setenta vezes sempre!”.
9. A natureza: “A tua presença irrompe por toda a terra!” (Sl 8,2). Na harmonia do
Universo, o povo descobriu a força da Palavra de Deus que o conduzia. “Sem fala e
sem palavras, sem que a sua voz seja ouvida, a toda terra chega o seu eco, aos confins
do mundo a sua linguagem” (Sl 19,4-5; cf. 29,3-9; 33,4-12). Sobretudo o longo
Salmo 104 (Sl 104,1-30).
10. A esperança: A esperança é a última que morre! É a esperança de um dia
chegar à libertação e à vida plena, que hoje nos leva a rezar os Salmos. Pedimos que
Deus realize suas promessas (Sl 72,3-16). “Espero ver a bondade do Senhor na terra
dos vivos!” (Sl 27,13).
Enumeramos só esses dez motivos. Cada um, na sua própria vida, sabe que há
muitos outros motivos que nos levam a rezar. Também nos Salmos transparecem
muitos outros motivos que levavam as pessoas a entrar em contato com Deus. Para
penetrar melhor no sentido dos Salmos e para ligá-los com a nossa vida, vale a pena
verificar e enumerar os Salmos onde esses dez motivos aparecem e transparecem e,
além disso, anotar os outros motivos além dos dez que aqui enumeramos.

83
3. Os córregos
Os córregos são os pequenos leitos que a água vai formando ao sair do chão. Os
córregos que alimentam o rio dos Salmos são os assim chamados gêneros literários.
Eles indicam a maneira como o povo costumava expressar-se na oração. Eles
canalizam a água das fontes. Para perceber o alcance dos gêneros literários, convém
refletir sobre os nossos gêneros literários: benditos, lamentos, trovas, excelências,
desafios, congada etc., e as nossas modas musicais: valsa, marcha, samba, bolero,
moda de viola etc. Cada um desses “gêneros literários” e “modas musicais” revela
algo sobre o nosso jeito de ser e sobre a nossa maneira de rezar, de cantar e de fazer
festa. Cada gênero e cada moda têm suas características e seus limites. Por exemplo,
quem quer fazer música para enterro não vai pegar o ritmo rock. “Noite Feliz” não
serve para Sexta-feira Santa. Por quê? A resposta a essa pergunta é evidente. Ela
ajuda a entender o sentido e o alcance dos gêneros literários para a oração dos
Salmos. Como já vimos, em muitos Salmos, logo no primeiro versículo, se indica
com uma única palavra o tipo de gênero literário daquela época: salmo, lamentação,
cântico, oração, súplica, canto de subida, aleluia ou louvor.

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4. O rio
O rio é a correnteza que se forma com a água dos vários córregos e que, em
seguida, percorre e irriga o país. O rio dos Salmos é a oração que percorre e irriga a
história. Os Salmos são o lado orante da história do povo de Deus. Alguns momentos
ou situações do passado são lembrados com maior frequência: a Criação (Sl 104,1-
30); o tempo do Êxodo (Sl 105,18-41; 114,1-8); o tempo dos reis com suas festas:
casamento (Sl 45,2-18) e coroação (Sl 21,2-13); seus bons propósitos (Sl 101,1-8) e
suas guerras (Sl 20, 2-10); a dispersão depois do cativeiro (Sl 44,10-13) e a destruição
do Templo (Sl 74,1-11; 79,1-5; 80,5-7.13-17).

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5. O barco
O barco acolhe, carrega e protege as pessoas, e as leva rio abaixo até o porto do
destino. No rio dos Salmos, o barco é tudo aquilo que dá identidade às pessoas e as
protege: é a comunidade que carrega os passageiros, como num barco; é a situação
em que o povo se encontra que o leva a rezar; são as gerações que se sucedem no
decorrer da história, transmitindo sua fé, sua esperança, seu amor, sua busca de Deus,
sua vontade de caminhar e de lutar por uma convivência humana mais justa. Nos
Salmos, transparece a situação da comunidade e do povo: situação econômica, social,
política e ideológica; transparecem suas crises, lutas e sofrimentos; transparecem sua
fé, sua esperança, seu amor, suas tradições. O estudo dessa situação do povo ajuda a
ligar os Salmos com a nossa atual realidade. Pois, na situação conflituosa do povo
daquele tempo, reconhecemos algo de nós mesmos, algo dos nossos problemas e
conflitos.

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6. Os romeiros
Os romeiros são as pessoas que entram no barco, pagam passagem e nele se
acomodam até o barco encostar no cais do porto do lugar do destino. No barco do rio
dos Salmos, os romeiros somos todos nós, ou melhor, cada um de nós. Pois nos
Salmos transparece não só a caminhada do povo todo, mas também o itinerário
pessoal de cada romeiro em direção a Deus. Não é só o povo que reza os Salmos.
Cada um de nós, individualmente, reza a Deus. A maior parte dos Salmos são orações
na primeira pessoa do singular (Sl 3,2.4; 4,2; 5,2-3; 6,2-3; 7,2; 9,2-3; 11,1 etc.). É o
indivíduo, cada pessoa, que reza: homem ou mulher, velho, jovem ou criança, casado
ou solteiro, rico ou pobre [...]. Como Ana, a mãe do profeta Samuel (1Sm 1,9-18),
cada pessoa derrama diante de Deus a sua alma. Especialmente os lamentos e as
súplicas mostram como a luta pessoal de cada um e a luta do povo formam uma
unidade. Ambas as lutas são importantes e se entrelaçam numa unidade indivisível.
“O povo de Deus no deserto andava [...]. Também sou teu povo, Senhor [...]!”

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7. Os remos
Os remos são a força que mantém o barco em movimento. A força, que mantém o
povo no rio dos Salmos e o leva a não desistir da viagem, é a aliança que Deus
concluiu com o povo. Os remos da aliança nos são oferecidos pela iniciativa gratuita
da parte do amor de Deus que, sempre de novo, surpreende o povo e o convoca,
apesar das falhas e infidelidades, a recomeçar a vivência da aliança. Os remos são o
desejo de ser fiel à aliança com Deus, à vontade de observar a sua Lei e ao
compromisso de viver como povo de Deus. A aliança é o coração do povo de Deus.
Os Salmos são o eletrocardiograma, que registra os altos e baixos das pulsações deste
coração ao longo da história. Eles levam a “meditar a Lei do Senhor, dia e noite” (Sl
1,2) e lembram as suas exigências (Sl 15,2-5). A certeza de fé na presença de Deus
em Jerusalém, “a cidade de Deus” (Sl 46,5), vem da certeza da aliança. Ela gera a
coragem de gritar a Deus (Sl 77,2). A transgressão da aliança leva ao julgamento e à
condenação (Sl 50,1-23).

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8. O piloto
O piloto orienta o barco e o conduz são e salvo para o cais do porto da
ressurreição. Para o povo judeu, o piloto era o rei Davi. Muitos Salmos eram
atribuídos a Davi. Eles queriam rezar como Davi rezou. Para nós cristãos, o piloto
que orienta o barco no rio dos Salmos é Jesus. Foi a partir da vida e do ensinamento
de Jesus que o barco retomou o rumo do porto da ressurreição. A sua Paixão, morte e
ressurreição são a nova chave de leitura que nos revela o sentido profundo dos
Salmos, e nos ajudam a rezá-los como sendo a nossa oração. Como já vimos, Jesus
usou os Salmos para dirigir-se ao Pai (cf. Mc 14,34 e Sl 31,9-10; 42,5-6; Mc 15,34 e
Sl 22,1; Lc 23,46 e Sl 31,6), para transmitir sua doutrina ao povo (cf. Mt 5,4 e Sl
37,11; Mt 5,8 e Sl 24,3-4; Mt 5,5 e Sl 126,5 etc.) e para criticar seus adversários (cf.
Mt 21,42 e Sl 118,22-23 etc). Rezou os Salmos na Última Ceia (cf. Mt 26,30), no
horto (cf. Mt 26,38 e Sl 42,6), na cruz (cf. Mt 15,34 e Sl 22,2) e na hora de morrer
(cf. Lc 23,46 e Sl 31,6). Por isso, ao terminar a reza de um salmo, nós dizemos:
“Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”. É para lembrar que em nós reza o
Espírito de Jesus (Rm 8,26-27), que o Pai derramou sobre nós no dia de Pentecostes
(At 2,1-4).

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9. O porto
O porto é onde o viajante alcança o objetivo da sua viagem. O porto do rio dos
Salmos, onde o povo e os romeiros querem atracar, é a realização da aliança; é a
observância perfeita da Lei de Deus; é a construção de uma sociedade mais justa e
fraterna, cuja amostra procuramos realizar em nossa vida, nas nossas famílias e
comunidades. Esse ideal está presente nos Salmos. Neles transparecem os projetos do
povo, meditados na oração. Projeto de abundância (Sl 72,16), de libertação dos
opressores (Sl 72,12-13), de justiça (Sl 58,2-12), de fraternidade (Sl 133) e de paz (Sl
120,7).

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10. O mar
O mar é onde o rio desemboca, despejando nele suas águas, sem parar, séculos a
fio, sem que o mar transborde. O mar onde desemboca o rio dos Salmos é Deus. Ele
mesmo! O rio corre para o mar e nele se perde, desaparece. O rio dos Salmos corre
para Deus e nele desaparece, vivendo para sempre. Nos Salmos, transparecem os
traços do rosto de Deus. Transparece a experiência que o povo tinha de Deus, e o que
Deus significava para ele. O povo recorria a imagens e comparações para comunicar
a experiência de Deus e da vida que não cabe nas palavras. São muitas imagens e
comparações nos Salmos! Inúmeras: “Força, Salvador, Rocha, Fortaleza, Abrigo,
Rochedo, Escudo, Torre, Refúgio!”. Tudo isso em apenas dois versículos (Sl 18,2-3)!
Essas são as dez janelas que podemos abrir sobre o livro dos Salmos. Dez pistas
para rezar essas preces antigas, e assim podermos recriá-las hoje na nossa vida. O
ideal a ser alcançado pela reza e pelo estudo dos Salmos é poder parafrasear as
palavras de Milton de Nascimento: “Certos Salmos que rezo cabem tão bem dentro
de mim que perguntar carece: Como não fui eu que fiz?”.

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CAPÍTULO 11
SUGESTÕES PARA ASSIMILAR OS SALMOS NA
VIDA

1. Sugestões de como estudar um salmo


Pegue um salmo de que você gosta e tente seguir uma ou duas sugestões que mais
servem para você poder entrar no salmo, e o salmo entrar em você.
1. Descobrir as divisões dentro do Salmo. Elas revelam a articulação do
pensamento, o rumo da prece. Isso ajuda a interiorizar o conteúdo e favorece a
oração.
2. Descobrir a situação que levou o salmista a rezar. Eis um exemplo, o Salmo
41: Foi a doença que o levou a rezar, pois ele está no “leito de dor” (v. 4); doença
grave, pois “está deitado e nunca mais vai se levantar” (v. 9); havia fofocas
maliciosas: “meus inimigos falam mal de mim” (v. 6); e a traição de um amigo, que
“é o primeiro a me trair” (v.10).
3. Descobrir o objetivo que o salmista quer alcançar. Um exemplo é o Salmo 101:
o que leva a rezar é o desejo de praticar “o amor e a justiça” (v. 1), tanto na vida
familiar (vv. 3-4.7), como na convivência com os outros (v. 5) e na administração (v.
6). Ele chega ao ponto de querer acabar com todos os injustos da terra (v. 8).
4. Descobrir as imagens usadas para expressar a oração. Eis um exemplo, o
Salmo 23: imagem do pastor: “O Senhor é meu Pastor” (vv. 1-4); a imagem da
hospitalidade que acolhe e protege: “Preparas uma mesa para mim bem na frente dos
meus inimigos” (v. 5). As duas imagens são retomadas no fim (v. 6).
5. Descobrir a fé do salmista que transparece no Salmo. Um exemplo é o Salmo
27: nele transparecem o lado luminoso da fé que dá coragem e ajuda a superar o
medo (vv. 1-6), e o lado escuro da fé que sente Deus bem longe e pede ajuda (vv. 7-
14).
6. Descobrir os traços do rosto de Deus que transparecem no Salmo. Como
exemplo citamos o Salmo 18: Deus recebe nove títulos: força, rochedo, fortaleza,
libertador, rocha, refúgio, escudo, força que salva, baluarte (vv. 2-3). Quais os traços
do rosto de Deus que transparecem em cada um desses títulos?
7. Verbalizar os sentimentos que você teve ao rezar o salmo: as coisas boas que
sentiu ao rezar o salmo, ou a resistência que a reza do salmo suscitou em você.

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2. Sugestão para você fazer o salmo da sua vida
1. Procure dar uma resposta a esta pergunta: Quais os elementos que não podem
faltar no salmo da minha vida? Os elementos que você vai juntando serão os tijolos
para a construção do seu salmo.
2. Comece a construir a casa do seu salmo, organizando os tijolos de tal maneira
que expressem o que você é e vive.
3. Tente encontrar um refrão a ser repetido após cada parte do salmo.

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3. Sugestão para a família ou a comunidade fazer o seu salmo
1. Conversar entre si numa reunião da família ou da comunidade, para assim
descobrir quais os elementos que não podem faltar no nosso salmo.
3. Em seguida, juntos, organizar os vários elementos para ir construindo o salmo
da família ou da comunidade.
4. Fazer um refrão que acompanhe a reza do Salmo 151.

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4. Sugestão de como atualizar os Salmos antigos para nós hoje
1. Escolha o salmo de que você mais gosta e que mais expressa seu sentimento,
sua fé e seu compromisso.
2. Procure entrar na pele do salmista e procure saber: “Como o salmista teria
escrito esse mesmo salmo se ele vivesse hoje aqui no Brasil, no mesmo lugar onde eu
vivo?”.
3. Em seguida, tente reescrever esse salmo como se fosse hoje.

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5. A vida de hoje nos Salmos de ontem
Alguma vez você já ficou maravilhado diante da beleza de uma criança? Já teve
saudades? Já viu um pedreiro levantar uma parede? Já teve medo de guerra? Já viu
uma vez uma criancinha dormir no colo da mãe? Antes de nós, alguém já viveu e
experimentou tudo isso e muito mais ainda. Para ele, essas coisas da vida
funcionaram como um despertador e ele se lembrou de Deus, que está na raiz de
tudo. Para ele, a vida, com tudo que tem de belo e triste, a natureza, com todas as suas
belezas e ameaças, tudo que dá para rir e para chorar tornou-se transparente como
vidro, revelando e lembrando o Deus amigo que nos sustenta e encoraja. E, quase
sem ele se dar conta, essas coisas da vida tornaram-se para ele o assunto para uma
boa conversa com este Deus amigo. Assim nasceram os Salmos. Brotaram da vida
com Deus.
Aqui segue uma longa lista de situações humanas que todos conhecemos. São
como fotografias da vida de cada dia. O povo da Bíblia as usou como assunto da sua
conversa com Deus. Essas fotografias talvez nos possam ajudar a encontrar na vida o
assunto para a nossa conversa com Deus:
Sl 1,3-4 Árvores à beira da água, folhas secas levadas pelo vento.
Sl 2,1-3 Ameaças de guerra e de assaltos.
Sl 3,2-4 Estou na fossa. Não tem mais solução.
Sl 3,6-7 O sono tranquilo de quem tem a consciência em paz.
Sl 4,8-9 Alegria e paz que vêm de Deus.
Sl 6,7-8 Perder o sono de tanta tristeza.
Sl 8,4-5 O luar do sertão com as suas estrelas que ninguém consegue
contar.
Sl 10,8-10 Emboscada de animais traiçoeiros e selvagens no meio do mato.
Sl 10,17-18 A segurança de quem se sente protegido por Deus.
Sl 11,1-2 Os passarinhos fugindo e esvoaçando, assustados pelo tiro do
caçador.
Sl 12,4-5 Gente ruim que leva todo mundo na sua conversa sem conteúdo.
Sl 13,2-4 Ninguém gosta de mim. O próprio Deus já nem sabe que eu
existo.
Sl 14,1 Gente que diz abertamente: “Deus não existe”.
Sl 19,5b-7 A beleza do sol da aurora. Nada consegue manter-se na escuridão.
Sl 22,1-19 Sofrimento e solidão total.
Sl 23,1-3 Um rebanho de ovelhas, deitado na sombra junto ao córrego.
Sl 27,5 Ter onde encontrar um amigo para ser acolhido e receber
hospedagem.
Sl 27,10 É muito raro um pai ou uma mãe abandonarem seus filhos.
Sl 32,3-5 O peso da consciência a remoer por dentro: aceitar ou abafar?.

96
Sl 32,9 Cavalos e burros bravos que só obedecem na base do cabresto.
Sl 33,1-3 Roda alegre de gente amiga que grita e canta com violão e
pandeiro.
Sl 33,16-17 Não adianta fazer depender a segurança da força das armas.
Sl 34,5-9 Quem é amigo, comunica aos outros os frutos da sua experiência
de fé.
Sl 36,3 Falta total de consciência crítica.
Sl 41,4-5 Quem é doente, e não tem remédio, pede a Deus que o cure.
Sl 41,7-10 O pobre canceroso, quando cai doente, todos fogem dele.
Sl 42,5 Saudades da terra e das procissões nas festas.
Sl 44,12-13 Gado de corte engorda para morrer. Vai para o matadouro sem o
saber.
Sl 46,5 A fonte de água cristalina.
Sl 49,8-10 Não ter dinheiro suficiente para comprar aquilo que a gente
gostaria.
Sl 50,3 Relâmpago e tempestade violenta.
Sl 50,16 Gente que sabe de cor os mandamentos, mas não os observa.
Sl 51,5-11 O peso da consciência leva a fazer revisão de vida.
Sl 51,18-19 Só quer oferecer sacrifícios, mas não sabe o que Deus quer de
fato.
Sl 58,2-6 A prepotência dos ricos e poderosos sem juízo.
Sl 63,2a.7 Madrugar e fazer vigília para rezar e agradecer.
Sl 63,9 O pai carrega o filho nas costas e o filho se agarra bem firme no
pai.
Sl 72,6 A chuva e o orvalho que irrigam a terra.
Sl 72,16 As espigas maduras do trigo, ondulando nos campos ao sopro do
vento.
Sl 73,3-12 O pobre que sente inveja dos ricos.
Sl 73,13-15 Diante da desonestidade dos ricos, muita gente se revolta e perde
a fé.
Sl 81,12-13 O homem cabeçudo: só aprende apanhando e dando cabeçadas.
Sl 84,4 As andorinhas, fazendo os seus ninhos nos telhados das velhas
igrejas.
Sl 84,7 A chuva da primavera enche as cisternas e as fontes ressequidas.
Sl 90,10 A vida dura 70 anos. Raramente alguém ultrapassa os 80.
Sl 95,4-5 Montanhas, mar, terra firme. A montanha não cede, o mar não
sobe.
Sl 103,15-16 O capim do campo que hoje cresce e amanhã já seca.

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Sl 119,105 O farol do carro que rasga a escuridão e ilumina a estrada na
frente.
Sl 121,5 Deus é nossa sombra. Ninguém consegue livrar-se da própria
sombra.
Sl 124,4-5 Inundações que arrastam tudo que encontram no caminho.
Sl 126,4 O sertão que desperta, inundado pela chuva repentina.
Sl 126,5-6 O lavrador semeia sofrendo, para colher com alegria.
Sl 127,2 Levantar bem cedo e trabalhar até altas horas da noite [...]. Para
quê?
Sl 128,1-4 A alegria de estar em casa com a família; todos ao redor da mesa.
Sl 130,6 O vigia noturno caminha a passos lentos, esperando o raiar da
aurora.
Sl 131,2 Uma criança, dormindo tranquila no colo da mãe.
Sl 139,11-12 As trevas da noite que assustam e ameaçam.
Sl 142,5 Gente sofrendo na solidão, abandonada por todos.
Sl 147,4 A noite sem nuvens com suas estrelas que ninguém consegue
contar.
Sl 148,7-10 Alegria tão grande que convida até os animais e as coisas para
cantarem.

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6. Leitura frequente, pessoal e comunitária, a partir de Jesus
A leitura em comunidade ajuda a leitura individual e a leitura individual ajuda a
leitura em comunidade. Não basta ler só individualmente, nem basta ler só em grupo.
Os dois tipos de leitura se completam. A leitura feita em comunidade ajuda cada um a
entender melhor o salmo. O sentido que assim se descobre vai muito além daquilo
que eu sozinho poderia descobrir. E é importante ter bem presente que a Bíblia é o
livro da comunidade, da Igreja. Mesmo quando leio sozinho, estou lendo o livro da
Igreja, que me foi entregue pela comunidade e que, ao longo dos séculos, alimentou e
animou a caminhada de milhares e milhares de comunidades cristãs.
Jesus, a partir da sua experiência de filho, sem mudar uma letra sequer, mudou
todo o sentido do Antigo Testamento (Mt 5,17-18). O mesmo Deus, que parecia tão
severo e distante, adquiriu os traços de um Pai bondoso de grande ternura! Essa é a
nova luz nos olhos que o espírito de Jesus nos comunica, e que libera para nós o
sentido pleno das palavras da Bíblia (cf. Jo 14,25-26; 16,12-15). O ideal é rezar os
Salmos com este novo olhar que Jesus nos concede: “Vivo, mas já não sou eu, é
Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

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CAPÍTULO 12
OS SALMOS: UM ITINERÁRIO PARA DEUS

1. A busca de Deus: Onde encontrá-lo? (Sl 77,4.7-11)


Lembro-me de Deus e fico gemendo,
medito, e meu respirar vacila.
De noite, reflito em meu coração,
fico meditando e me pergunto:
“O Senhor vai rejeitar-nos para sempre?
Nunca mais será favorável a nós?
Sua misericórdia já se esgotou?
Sua promessa terminou para sempre?
Será que Deus se esqueceu da sua bondade?
Ou fechou as entranhas com ira?”.
E eu digo: “Este é o meu mal:
Deus mudou! Já não é mais o mesmo!”.

100
2. O retrato de Deus que orienta a busca (Sl 145,7-10)
Nosso Deus é o Deus que
faz justiça aos oprimidos,
Dá o pão aos famintos,
liberta os cativos.
Abre os olhos dos cegos,
endireita os encurvados,
protege os estrangeiros,
ampara o órfão e a viúva,
ama os justos.
Transtorna o caminho dos maus,
este é o nosso Deus,
seu poder subsiste eternamente!

101
3. Amadurecendo em humanidade diante de Deus (Sl 131)
Meu coração não é ambicioso, Senhor.
Meus olhos não enxergam mais do que podem.
Não frequento a alta roda.
Não tenho pretensões grandiosas.
Dentro de mim, tudo se aquietou.
Paz e serenidade vieram para ficar,
igual à criança, depois de mamar,
dorme tranquila no colo da mãe.
Minha gente, que Deus nos ajude
a esperar nele, hoje e sempre!

102
4. O caminho para Deus passa pelo amor ao próximo (Sl 24,1-6)
Nossa terra é de Deus!
O mundo inteiro, com todos os seus habitantes, a Ele pertence.
Ele mesmo lançou suas fundações,
e as mantém bem firmes.
Quem poderá aproximar-se verdadeiramente deste Deus?
O que se exige para viver na sua santa presença?
Ter limpas as mãos e puro o coração,
Não se fixar nas aparências nem jurar falso.
Quem proceder assim obterá a bênção do Senhor,
e a justa recompensa do Deus que salva.
São estes os homens e as mulheres,
que andam à sua procura.
Que buscam ansiosamente a sua presença.

103
5. Deus é amor, o amor revela Deus (1Cor 13,4-8)
O amor é paciente,
o amor é prestativo.
Não é invejoso,
não se ostenta,
não se incha de orgulho.
Não faz nada de inconveniente,
não procura seu próprio interesse,
não se irrita, nem guarda rancor,
não se alegra com a injustiça,
mas se regozija com a verdade.
Tudo desculpa,
tudo crê,
tudo espera,
tudo suporta.
O amor jamais passará!

104
6. A presença de Deus irrompe na natureza e nas coisas da vida! (Sl 8,2-
5)
Senhor nosso Deus,
a tua presença irrompe por toda a terra!
O universo inteiro canta a tua glória.
Na candura das crianças se revela a tua força,
pois diante delas se desarmam até os mais violentos!
Senhor, quando me extasio a olhar o céu estrelado,
quando contemplo as noites de luar,
e penso que foste Tu seu criador, eu me pergunto:
“Que valor imenso não deve ter o ser humano,
para estar sempre na tua lembrança
e ser tratado com tanto carinho!”.

105
7. Prisioneiro do desejo de Deus (Sl 63,2.6-9)
Senhor, tu és o meu Deus,
há muito que te procuro com grande ansiedade.
Como a terra seca do sertão à espera da chuva.
Todo o meu ser anseia por ti.
Tu enches o meu ser até a plenitude,
fazendo aflorar aos meus lábios cantos de alegria.
Até mesmo durante o meu repouso
está viva em mim a tua lembrança.
Passo as noites pensando em ti.
Tens sido para mim um apoio,
quando experimento a tua proteção.
Sinto vontade de cantar de alegria,
eu me agarro a ti, e Tu me seguras com tuas mãos.

106
8. O Salmo de Jesus (Mt 6,9-13)
Pai nosso, que estais no céu,
santificado seja o vosso Nome,
venha a nós o vosso Reino,
seja feita a vossa Vontade,
assim na terra, como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,
e não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do Mal.

107
9. O Salmo de Maria, a mãe de Jesus (Lc 1,46-55)
Minha alma engrandece o Senhor,
e exulta meu espírito em Deus, meu Salvador,
porque olhou para a humildade de sua serva.
Doravante, todas as gerações
me proclamarão bem-aventurada,
porque o Poderoso fez em mim maravilhas:
e santo é o seu nome.
Sua misericórdia chega aos que o temem,
de geração em geração.
Ele realiza proezas com seu braço:
dispersa os soberbos de coração,
derruba os poderosos do seu trono e eleva os humildes;
sacia de bens os famintos, despede os ricos sem nada.
Socorre Israel, seu servidor, fiel ao seu amor,
como prometera aos nossos pais
em favor de Abraão e de seus filhos para sempre.

108
10. Um dos muitos Salmos da Igreja e das nossas comunidades
Ave, Maria, cheia de graça,
o Senhor é convosco.
Bendita sois vós entre as mulheres,
e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus,
rogai por nós, pecadores,
agora e na hora da nossa morte. Amém.

109
APÊNDICE
TEMAS FREQUENTES NA ORAÇÃO DOS SALMOS
(para os que querem continuar o estudo e o
aprofundamento)

1. A raiz de onde nasceram os Salmos


A raiz dos Salmos é a certeza de que Deus escuta nosso clamor e responde ao
nosso grito: Salmos 3,5; 4,2.4; 5,2-3.4; 6,9-10; 9,13; 10,17; 12,6; 17,1.6; 18,7;
20,2.10; 21,3; 22,2-3.6.25; 27,7; 28,1-2.6; 30,3.9; 31,23; 34,5.7.16.18; 40,2; 54,4;
55,18; 56,10; 57,3-4; 61,2; 64,2; 65,3; 66,17-18; 69,4.14.17.34; 71,2; 72,12; 77,2;
79,11; 80,2; 81,8; 84,9; 86,1.6.7; 88,2-3.14; 99,6.8; 102,2-3.21; 106,44;
107,6.13.19.28; 116,1-2.4; 118,5.21; 119,145-149.169-170; 120,1; 130,1-2; 138,3;
140,7; 141,1; 142,2-3.6-7; 143,1-2.6-7; 145,18-19.

110
2. A contemplação da natureza como criatura de Deus
Na harmonia do Universo e nos fenômenos da natureza, o povo descobre a força
da Palavra de Deus que o conduz: Salmos 1,3-4; 8,2.4.10; 18,8-16; 19,2-7; 24,1-2;
29,3-10; 33,6-12; 36,6-8; 42,2; 46,2-4; 48,8; 50,3; 65,6-14; 68,9-10; 72,5-8; 74,12-
17; 77,17-21; 78,69; 89,10-13.37-38; 90,5-6; 93,1-4; 95,4-5; 96,9-13; 97,1-6; 98,4-9;
104,1-35; 114,1-8; 119,89-91; 125,1-2; 135,6-7; 136,5-9; 144,5-7; 147.7-9.14-18;
148,1-10; 150,1.2.6.

111
3. Amor e fidelidade
Compassivo é o amor de Deus por nós: Salmos 5,8; 6,5; 13,6; 17,7; 18,20; 21,8;
23,6; 25,6.7.8.10; 26,3; 31,8.17.22; 32,10; 33,5.18.22; 36,6.8; 40,11.12; 42,9; 44,27;
48,10; 51,3; 52,10; 57,4; 59,17; 61,8; 63,4; 66,20; 69,14; 78,38; 79,8; 85,8;
86,5.13.15; 88,12; 89.3.15.25.29.34.50; 90,14; 92,3; 94,18; 98,3; 100,5; 101,1;
103,4.8.11.17; 106,1.7.45; 107,1.8.15.21.31.43; 108,5; 109,21; 111,4; 115,1; 117,2;
118,1-4.29; 119,64.76.88.124.149.159; 136,1-26 (26 vezes); 138,2.8; 145,8.

112
4. Deus acolhe os pobres e os indigentes
Salmos 9,13.19; 10,12.14.17; 12,6; 14,6; 18,28; 22,25.27; 25,9; 34,3.7; 35,10;
37,11; 40,18; 41,2; 68,6.7.11; 69,30.33.34; 70,6; 72,2.4.12-14; 74,19.21; 76,10; 82,3-
4; 86,1; 103,6; 107,41; 109,16.21-22.31; 138,6; 140,13; 146,7-9; 147,6.

113
5. A busca da face de Deus
Salmos 4,7; 10,11; 11,7; 13,2; 17,2.15; 22,25; 24,6; 27,8-9; 30,8; 31,17.21; 39,14;
42,3; 44,4.25; 51,11.13; 67,2; 80,4.8.17.20; 88,15; 89,15.16; 90,8; 102,3; 104,29;
105,4; 119,58,135; 143,7.

114
6. A busca da felicidade: feliz quem busca o Senhor
Salmos 1,1; 2,12; 32,2; 33,12; 34,9; 40,5; 41,2; 65,5; 73,28; 84,5.6.13; 89,16;
94,12; 106,3; 112,1.5; 127,5; 128,1; 144,15; 146,5.

115
7. De noite rezo na cama
Salmos 3,6; 4,9; 6,7; 16,7; 17,3; 22,3; 36,5; 42,9; 63,7; 77,3.7; 78,34; 88,2; 92,3;
119,55.62; 130,5-6.

116
Coleção Lendo a Bíblia

• Lendo o livro dos Salmos, Carlos Mesters e Francisco Orofino


• Lendo o livro de Joel, Luiz Alexandre Solano Rossi e Natalino das Neves
• Lendo o Evangelho segundo João, Pedro Lima Vasconcellos

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Direção editorial:
Claudiano Avelino dos Santos
Coordenação editorial:
Paulo Bazaglia
Imagem de capa:
A dança de Miriam, iluminura do Saltério Tomić, Bulgária, c. 1360
Coordenação de desenvolvimento digital:
Alexandre Carvalho
Desenvolvimento digital:
Daniela Kovacs
Conversão EPUB:
PAULUS

Lendo o livro dos Salmos: a lei orante do povo de Deus / Frei Carlos Mesters. – São Paulo: Paulus, 2019.
2,2 Mb; ePub
ISBN 978-85-349-4956-9

1ª edição, 2019 (e-book)


© PAULUS – 2019
Rua Francisco Cruz, 229 • 04117-091 – São Paulo (Brasil)
Tel.: (11) 5087-3700
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119
Scivias
de Bingen, Hildegarda
9788534946025
776 páginas

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Scivias, a obra religiosa mais importante da santa e doutora da Igreja


Hildegarda de Bingen, compõe-se de vinte e seis visões, que são
primeiramente escritas de maneira literal, tal como ela as teve, sendo, a
seguir, explicadas exegeticamente. Alguns dos tópicos presentes nas visões
são a caridade de Cristo, a natureza do universo, o reino de Deus, a queda do
ser humano, a santifi cação e o fi m do mundo. Ênfase especial é dada aos
sacramentos do matrimônio e da eucaristia, em resposta à heresia cátara.
Como grupo, as visões formam uma summa teológica da doutrina cristã. No
fi nal de Scivias, encontram-se hinos de louvor e uma peça curta,
provavelmente um rascunho primitivo de Ordo virtutum, a primeira obra de
moral conhecida. Hildegarda é notável por ser capaz de unir "visão com
doutrina, religião com ciência, júbilo carismático com indignação profética, e
anseio por ordem social com a busca por justiça social". Este livro é
especialmente significativo para historiadores e teólogas feministas. Elucida
a vida das mulheres medievais, e é um exemplo impressionante de certa
forma especial de espiritualidade cristã.

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Santa Gemma Galgani - Diário
Galgani, Gemma
9788534945714
248 páginas

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Primeiro, ao vê-la, causou-me um pouco de medo; fiz de tudo para me


assegurar de que era verdadeiramente a Mãe de Jesus: deu-me sinal para me
orientar. Depois de um momento, fiquei toda contente; mas foi tamanha a
comoção que me senti muito pequena diante dela, e tamanho o
contentamento que não pude pronunciar palavra, senão dizer, repetidamente,
o nome de 'Mãe'. [...] Enquanto juntas conversávamos, e me tinha sempre
pela mão, deixou-me; eu não queria que fosse, estava quase chorando, e
então me disse: 'Minha filha, agora basta; Jesus pede-lhe este sacrifício, por
ora convém que a deixe'. A sua palavra deixou-me em paz; repousei
tranquilamente: 'Pois bem, o sacrifício foi feito'. Deixou-me. Quem poderia
descrever em detalhes quão bela, quão querida é a Mãe celeste? Não,
certamente não existe comparação. Quando terei a felicidade de vê-la
novamente?

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DOCAT
Youcat, Fundação
9788534945059
320 páginas

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Dando continuidade ao projeto do YOUCAT, o presente livro apresenta a


Doutrina Social da Igreja numa linguagem jovem. Esta obra conta ainda com
prefácio do Papa Francisco, que manifesta o sonho de ter um milhão de
jovens leitores da Doutrina Social da Igreja, convidando-os a ser Doutrina
Social em movimento.

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124
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Bíblia Sagrada: Novo Testamento - Edição
Pastoral
Vv.Aa.
9788534945226
576 páginas

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A Bíblia Sagrada: Novo Testamento - Edição Pastoral oferece um texto


acessível, principalmente às comunidades de base, círculos bíblicos,
catequese e celebrações. Esta edição contém o Novo Testamento, com
introdução para cada livro e notas explicativas, a proposta desta edição é
renovar a vida cristã à luz da Palavra de Deus.

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126
127
A origem da Bíblia
McDonald, Lee Martin
9788534936583
264 páginas

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Este é um grandioso trabalho que oferece respostas e explica os caminhos


percorridos pela Bíblia até os dias atuais. Em estilo acessível, o autor
descreve como a Bíblia cristã teve seu início, desenvolveu-se e por fim, se
fixou. Lee Martin McDonald analisa textos desde a Bíblia hebraica até a
literatura patrística.

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Índice
Rosto 2
Introdução | Rezar os Salmos hoje 6
Capítulo 1 | O lugar do livro dos Salmos na Bíblia 8
Capítulo 2 | Origem e formação do livro dos Salmos 10
1. Um processo de formação que durou quase 800 anos 11
2. Preces vindas de todo canto e lugar 12
3. Oração dos pobres nos centros de romaria 13
4. Cânticos populares 15
5. Coleções de Salmos 16
6. Canto repetido, canto modificado 17
7. Davi, o autor dos Salmos 18
8. Os cinco livros dos Salmos: a Lei orante do povo de Deus 19
9. Enumeração confusa dos Salmos 20
10. O conteúdo final do livro dos Salmos 21
Capítulo 3 | O jeito de o povo da Bíblia rezar os seus Salmos 22
1. Instruções para o povo 23
2. Instrumentos musicais 24
3. Participação do povo 25
4. Expressão corporal 26
5. Espelho para todo sofredor 27
6. Um retrato da vida de todos 28
7. Ambiente organizado da comunidade 29
Capítulo 4 | Salmo 1 e Salmo 150: observância e gratuidade 30
Salmo 1: observância e luta 31
Salmo 150: gratuidade e festa 32
Os dois perigos que ameaçam a prece 33
Capítulo 5 | A poesia dos Salmos 34
Poesia: o lado de dentro das coisas 35
Alma e corpo da poesia 36
O jeito como a poesia dos Salmos arruma as palavras e as frases 37
O desafio da poesia 39
Capítulo 6 | A raiz dos Salmos 40
1. Deus ouve o nosso clamor 41
2. O Nome dele é YHWH 43
3. A invocação do Nome de Deus 48

129
4. Celebrar o Nome 50
Capítulo 7 | Portas de entrada para o mundo dos Salmos 51
1. A porta da memória do passado 52
2. A porta da contemplação da natureza 56
3. A porta da busca da face de Deus 59
4. A porta da busca da felicidade 60
5. A porta da observância da Lei de Deus 61
6. A porta da certeza do pobre em ser atendido 64
7. A porta da oração a Deus na solidão da noite 65
Capítulo 8 | A oração dos Salmos na vida de Jesus e de Maria sua
66
Mãe
1. A escola de oração de Jesus 67
2. O tríplice ritmo da oração na vida do povo no tempo de Jesus 68
3. Jesus convivendo no ambiente de oração do seu povo 70
4. A oração na vida de Jesus 72
5. O Pai-nosso: o Salmo de Jesus 73
6. O Magnificat: o Salmo de Maria, a Mãe de Jesus 74
Capítulo 9 | As dificuldades na reza dos Salmos 75
1. Olhando de perto as dificuldades 75
* Ira, raiva, agressividade, violência, sofrimento como castigo de Deus 75
* Imagens estranhas, linguagem difícil, fatos desconhecidos 75
* Afirmações que contradizem a nossa experiência diária 75
2. Esclarecendo algumas dificuldades 77
* Considerações sobre a violência e a ira de Deus nos Salmos 77
* Considerações sobre a pedagogia divina e a imagem que temos de
77
Deus
* Sugestões para as imagens estranhas, linguagem difícil, fatos
78
desconhecidos
Capítulo 10 | O rio dos Salmos: do nascedouro ao mar. Um breve
80
resumo de tudo o que vimos
1. A nascente 81
2. As fontes 82
3. Os córregos 84
4. O rio 85
5. O barco 86
6. Os romeiros 87
7. Os remos 88
8. O piloto 89

130
9. O porto 90
10. O mar 91
Capítulo 11 | Sugestões para assimilar os Salmos na vida 92
1. Sugestões de como estudar um salmo 92
2. Sugestão para você fazer o salmo da sua vida 93
3. Sugestão para a família ou a comunidade fazer o seu salmo 94
4. Sugestão de como atualizar os Salmos antigos para nós hoje 95
5. A vida de hoje nos Salmos de ontem 96
6. Leitura frequente, pessoal e comunitária, a partir de Jesus 99
Capítulo 12 | Os Salmos: um itinerário para Deus 100
1. A busca de Deus: Onde encontrá-lo? (Sl 77,4.7-11) 100
2. O retrato de Deus que orienta a busca (Sl 145,7-10) 101
3. Amadurecendo em humanidade diante de Deus (Sl 131) 102
4. O caminho para Deus passa pelo amor ao próximo (Sl 24,1-6) 103
5. Deus é amor, o amor revela Deus (1Cor 13,4-8) 104
6. A presença de Deus irrompe na natureza e nas coisas da vida! (Sl 8,2-5) 105
7. Prisioneiro do desejo de Deus (Sl 63,2.6-9) 106
8. O Salmo de Jesus (Mt 6,9-13) 107
9. O Salmo de Maria, a mãe de Jesus (Lc 1,46-55) 108
10. Um dos muitos Salmos da Igreja e das nossas comunidades 109
Apêndice | Temas frequentes na oração dos Salmos 110
1. A raiz de onde nasceram os Salmos 110
2. A contemplação da natureza como criatura de Deus 111
3. Amor e fidelidade 112
4. Deus acolhe os pobres e os indigentes 113
5. A busca da face de Deus 114
6. A busca da felicidade: feliz quem busca o Senhor 115
7. De noite rezo na cama 116
Coleção 117
Ficha Catalográfica 118

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