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Índice

1. Capa
2. Rosto
3. Introdução
4. Abreviaturas
5. Primeira Parte - Ano A
1. Tempo do Advento
1. 1º Domingo
2. 2º Domingo
3. 3º Domingo
4. 4º Domingo
2. Tempo do Natal
1. Missa da noite (24 de dezembro)
2. Missa do dia (25 de dezembro)
3. Sagrada Família de Jesus, Maria e José
4. 2º Domingo depois do Natal
5. Domingo da Epifania do Senhor
6. Batismo do Senhor
3. Tempo da Quaresma
1. 1º Domingo
2. 2º Domingo
3. 3º Domingo
4. 4º Domingo
5. 5º Domingo
6. Domingo de Ramos
4. Tríduo Pascal e Tempo Pascal
1. Quinta-feira Santa
2. Sexta-feira Santa
3. Sábado Santo
4. Domingo de Páscoa
5. 2º Domingo
6. 3º Domingo
7. 4º Domingo
8. 5º Domingo
9. 6º Domingo
10. Ascensão do Senhor
11. 7º Domingo da Páscoa
12. Domingo de Pentecostes

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5. Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum
1. Santíssima Trindade
2. Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
3. Sagrado Coração de Jesus
6. Tempo Comum
1. 2º Domingo
2. 3º Domingo
3. 4º Domingo
4. 5º Domingo
5. 6º Domingo
6. 7º Domingo
7. 8º Domingo
8. 9º Domingo
9. 10º Domingo
10. 11º Domingo
11. 12º Domingo
12. 13º Domingo
13. 14º Domingo
14. 15º Domingo
15. 16º Domingo
16. 17º Domingo
17. 18º Domingo
18. 19º Domingo
19. 20º Domingo
20. 21º Domingo
21. 22º Domingo
22. 23º Domingo
23. 24º Domingo
24. 25º Domingo
25. 26º Domingo
26. 27º Domingo
27. 28º Domingo
28. 29º Domingo
29. 30º Domingo
30. 31º Domingo
31. 32º Domingo
32. 33º Domingo
33. 34º Domingo - Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei
do Universo
6. Segunda Parte - Ano B

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1. Tempo do Advento
1. 1º Domingo
2. 2º Domingo
3. 3º Domingo
4. 4º Domingo
2. Tempo do Natal
1. Natal do Senhor - Missa da noite (24 de dezembro)
2. 2º Domingo depois do Natal
3. Domingo da Epifania do Senhor
4. Batismo do Senhor
3. Tempo da Quaresma
1. 1º Domingo
2. 2º Domingo
3. 3º Domingo
4. 4º Domingo
5. 5º Domingo
6. Domingo de Ramos
4. Tríduo Pascal e Tempo Pascal
1. Quinta-feira Santa
2. Sexta-feira Santa
3. Sábado Santo
4. Domingo de Páscoa
5. 2º Domingo
6. 3º Domingo
7. 4º Domingo
8. 5º Domingo
9. 6º Domingo
10. Ascensão do Senhor
11. 7º Domingo
12. Domingo de Pentecostes
5. Solenidades do Senhor que ocorremno Tempo Comum
1. Santíssima Trindade
2. Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
3. Sagrado Coração de Jesus
6. Tempo Comum
1. 2º Domingo
2. 3º Domingo
3. 4º Domingo
4. 5º Domingo
5. 6º Domingo

5
6. 7º Domingo
7. 8º Domingo
8. 9º Domingo
9. 10º Domingo
10. 11º Domingo
11. 12º Domingo
12. 13º Domingo
13. 14º Domingo
14. 15º Domingo
15. 16º Domingo
16. 17º Domingo
17. 18º Domingo
18. 19º Domingo
19. 20º Domingo
20. 21º Domingo
21. 22º Domingo
22. 23º Domingo
23. 24º Domingo
24. 25º Domingo
25. 26º Domingo
26. 27º Domingo
27. 28º Domingo
28. 29º Domingo
29. 30º Domingo
30. 31º Domingo
31. 32º Domingo
32. 33º Domingo
33. 34º Domingo - Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei
do Universo
7. Terceira Parte - Ano C
1. Tempo do Advento
1. 1º Domingo
2. 2º Domingo
3. 3º Domingo
4. 4º Domingo
2. Tempo do Natal
1. Natal do Senhor
2. Sagrada Família de Jesus, Maria e José
3. 2º Domingo depois do Natal
4. Domingo da Epifania do Senhor

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5. Batismo do Senhor
3. Tempo da Quaresma
1. 1º Domingo
2. 2º Domingo
3. 3º Domingo
4. 4º Domingo
5. 5º Domingo
6. Domingo de Ramos
4. Tríduo Pascal e Tempo Pascal
1. Quinta-feira Santa
2. Sexta-feira Santa
3. Sábado Santo
4. Domingo de Páscoa
5. 2º Domingo
6. 3º Domingo
7. 4º Domingo
8. 5º Domingo
9. 6º Domingo
10. Ascensão do Senhor
11. 7º Domingo
12. Domingo de Pentecostes
5. Solenidades do Senhor que ocorrem no Tempo Comum
1. Santíssima Trindade
2. Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
3. Sagrado Coração de Jesus
6. Tempo Comum
1. 2º Domingo
2. 3º Domingo
3. 4º Domingo
4. 5º Domingo
5. 6º Domingo
6. 7º Domingo
7. 8º Domingo
8. 9º Domingo
9. 10º Domingo
10. 11º Domingo
11. 12º Domingo
12. 13º Domingo
13. 14º Domingo
14. 15º Domingo

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15. 16º Domingo
16. 17º Domingo
17. 18º Domingo
18. 19º Domingo
19. 20º Domingo
20. 21º Domingo
21. 22º Domingo
22. 23º Domingo
23. 24º Domingo
24. 25º Domingo
25. 26º Domingo
26. 27º Domingo
27. 28º Domingo
28. 29º Domingo
29. 30º Domingo
30. 31º Domingo
31. 32º Domingo
32. 33º Domingo
33. 34º Domingo - Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei
do Universo
8. Quarta parte - Próprio dos Santos
1. Janeiro
1. Dia 1º - Solenidade de Maria, Mãe de Deus
2. Dia 25 - Festa da Conversão de São Paulo, Apóstolo
3. Dia 26 - Memória de São Timóteo e São Tito, bispos
2. Fevereiro
1. Dia 2 - Festa da Apresentação do Senhor
2. Dia 22 - Festa da Cátedra de São Pedro, Apóstolo
3. Março
1. Dia 19 - Solenidade de São José, Esposo da Virgem Maria
2. Dia 25 - Solenidade da Anunciação do Senhor
4. Abril
1. Dia 25 - Festa de São Marcos, Evangelista
5. Maio
1. Dia 1º - Memória de São José Operário
2. Dia 3 - Festa de São Filipe e São Tiago, Apóstolos e mártires
3. Dia 14 - Festa de São Matias, Apóstolo
4. Dia 31 - Festa da Visitação de Nossa Senhora
6. Junho

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1. Sábado após o segundo domingo depois de Pentecostes -
Imaculado Coração de Maria
2. Dia 11 - Memória de São Barnabé, Apóstolo
3. Dia 24 - Solenidade da Natividade de São João Batista
4. Dia 29 - Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos
7. Julho
1. Dia 3 - Festa de São Tomé, Apóstolo
2. Dia 16 - Festa de Nossa Senhora do Carmo
3. Dia 22 - Memória de Santa Maria Madalena
4. Dia 25 - Festa de São Tiago Maior, Apóstolo
5. Dia 26 - Memória de São Joaquim e Santa Ana, pais de Nossa
Senhora
6. Dia 29 - Memória de Santa Marta, discípula de Jesus
8. Agosto
1. Dia 6 - Festa da Transfiguração do Senhor
2. Dia 10 - Festa de São Lourenço, Diácono e Mártir
3. Dia 15 - Solenidade da Assunção de Nossa Senhora
4. Dia 22 - Memória de Nossa Senhora Rainha
5. Dia 23 - Festa de Santa Rosa de Lima, Virgem
6. Dia 24 - Festa de São Bartolomeu, Apóstolo
7. Dia 29 - Memória do Martírio de São João Batista
9. Setembro
1. Dia 8 - Festa da Natividade de Nossa Senhora
2. Dia 14 - Festa da Exaltação da Santa Cruz
3. Dia 15 - Memória de Nossa Senhora das Dores
4. Dia 21 - Festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista
5. Dia 29 - Festa de São Miguel, São Gabriel e São Rafael,
Arcanjos
10. Outubro
1. Dia 2 - Memória dos Santos Anjos da Guarda
2. Dia 7 - Memória de Nossa Senhora do Rosário
3. Dia 12 - Solenidade de Nossa Senhora da Conceição
Aparecida
4. Dia 18 - Festa de São Lucas, Evangelista
5. Dia 28 - Festa de São Simão e São Judas, Apóstolos
11. Novembro
1. Dia 1º - Solenidade de todos os Santos
2. Dia 2 - Comemoração de todos os fiéis defuntos
3. Dia 9 - Festa da Dedicação da Basílica do Latrão

9
4. Dia 18 - Memória facultativa da Consagração das Basílicas de
São Pedro e de São Paulo, Apóstolos
5. Dia 21 - Memória da Apresentação de Nossa Senhora
6. Dia 30 - Festa de Santo André, Apóstolo
12. Dezembro
1. Dia 8 - Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora
2. Dia 12 - Festa de N. Sra. de Guadalupe, padroeira principal da
América Latina
3. Dia 26 - Festa de Santo Estêvão, mártir
4. Dia 27 - Festa de São João, Apóstolo e Evangelista
5. Dia 28 - Festa dos Santos Inocentes, mártires
9. Considerações Finais
10. Sobre o autor
11. Ficha Catalográficas
12. Notas

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INTRODUÇÃO

Desde a V Conferência do Episcopado Latino Americano e Caribenho (Aparecida,


2007), a Igreja no Brasil tem dado ênfase em seus Documentos às homilias, ou
reflexões sobre a Palavra de Deus, dentro e fora de nossas celebrações, reafirmando
que “é importante promover uma comunicação mais direta e objetiva, principalmente
nas homilias alicerçadas na Palavra de Deus e na Vida” (cf. Doc. 104, CNBB, n.
204). É esse o objetivo deste livro de reflexões para os domingos, solenidades, festas
e memórias. Aqui estão contidas reflexões que foram preparadas com esmero, tendo
em conta as leituras bíblicas correspondentes a cada celebração do calendário
litúrgico dos anos A, B e C. São reflexões com linguagem simples, porém profunda e
questionadora, que podem auxiliar padres e leigos na preparação de suas reflexões
para as celebrações, catequese, cursos e palestras, ou para o aprofundamento pessoal
de quem acompanha a liturgia dominical e demais celebrações do calendário
litúrgico. Mais que um livro de homilias, essa obra pretende ser um subsídio de
reflexão da Palavra de Deus, com o intuito de responder aos desafios propostos pela
Igreja, no Documento de Aparecida , de oferecer formação bíblica em nossas
comunidades paroquiais. A cada Domingo, Solenidades, Festas e Memórias do
calendário litúrgico, você encontrará uma reflexão bíblica encarnada na realidade,
numa estreita ligação entre a Palavra e a vida, contudo sem dispersar o leitor do eixo
central de cada celebração e do Mistério celebrado.
A encíclica Evangelii Nuntiandi (n. 43) afirma que “muitas comunidades
paroquiais, ou outro tipo, vivem e consolidam-se graças à homilia de cada domingo”.
Assim sendo, não podemos deixar de preparar bem nossas reflexões para essas
ocasiões. Foi pensando também nessa realidade constatada na Evangelii Nuntiandi ,
ainda tão presente em nossas comunidades eclesiais, que este roteiro foi preparado.
Ele quer oferecer à Igreja mais um importante recurso para a preparação das reflexões
bíblicas, que foram aqui colocadas conforme a sequência do ano litúrgico e podem
ser aproveitadas na íntegra, tal qual se encontram aqui neste livro, ou adaptadas para
a realidade de cada comunidade. Poderá ser utilizada também parte de cada uma
dessas reflexões, ou as ideias-chaves que nelas aparecem e que poderão ajudar na
preparação da reflexão que cada um fará. Em vista disso, cuidamos para que as
reflexões não tivessem uma linguagem prolixa, mas sim uma linguagem mais
simples, com uma metodologia clara e envolvente, como pede a CNBB (cf. Doc. 104,
n. 204), evitando que as reflexões ou homilias, sobretudo nas missas e celebrações da
Palavra, se delonguem pela falta de objetividade e clareza. Assim, que as celebrações,
ou mesmo as reflexões pessoais sobre a Palavra, possam ser um real encontro com
Deus, com a própria pessoa e com a comunidade.

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Em suma, essas reflexões foram preparadas com a utilização do método da Lectio
Divina , ou Leitura Orante da Bíblia, método que poderá ser utilizado também pelo
leitor na preparação da sua reflexão. Assim sendo, sugerimos que, antes de ler as
reflexões aqui propostas, sejam lidos, meditados, rezados e contemplados os textos
bíblicos correspondentes à liturgia do dia, que se encontram indicados antes de cada
reflexão, pois assim se extrairá deles uma riqueza maior, e as reflexões aqui propostas
se recobrirão de maior significado e entendimento, podendo ser ampliadas conforme
as luzes apontadas pela Leitura Orante. Desse modo, a proposta é fazer com que a
pessoa leia antes a Palavra de Deus para escutar o que ele tem a dizer e, assim,
conhecer sua vontade e viver melhor essa Palavra, empregando-a na sua vida e na
vida da comunidade, de modo que a Palavra seja de fato o verbo encarnado, que
concede vida em plenitude. Para tanto, o primeiro passo é colocar-se diante de Deus
como fez Samuel: “Fala, Senhor, que teu servo escuta” (1Sm 3,10). Porém, escutar,
silenciar, para ouvir Deus, não depende somente de nós, mas de uma série de fatores
que nos cercam e, sobretudo, de Deus, que nos possibilita entrar em contato com ele e
fazer com que ouçamos a sua voz através da Palavra escrita. Por essa razão, é preciso
criar um ambiente que facilite a meditação e reflexão da Palavra e da leitura dos
textos aqui propostos. Um ambiente de silêncio e recolhimento, sem muitas
interferências externas.
Enfim, que este subsídio possa ajudar todas as pessoas que têm sede de
compreender a Palavra de Deus e passá-la adiante, num processo contínuo de
evangelização. Portanto, use estas reflexões nas suas reflexões pessoal e comunitária,
nos retiros, na pregação da Palavra (homilia ou sermão), na catequese ou círculos
bíblicos, ou em qualquer outra ocasião que demande explicação da Palavra de Deus.

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ABREVIATURAS

Os títulos dos livros bíblicos são abreviados da seguinte maneira:


Ab Abdias

Ag Ageu

Am Amós

Ap Apocalipse

At Atos

Br Baruc

Cl Colossenses

1Cor 1ª Coríntios

2Cor 2ª Coríntios

1Cr 1º Crônicas

2Cr 2º Crônicas

Ct Cântico dos Cânticos

Dn Daniel

Dt Deuteronômio

Ecl Eclesiastes

Eclo Eclesiástico

Ef Efésios

Esd Esdras

Est Ester

Ex Êxodo

Ez Ezequiel

Fl Filipenses

Fm Filêmon

Gl Gálatas

Gn Gênesis

13
Hab Habacuc

Hb Hebreus

Is Isaías

Jd Judas

Jl Joel

Jn Jonas

Jó Jó

Jo Evangelho segundo João

1Jo 1ª João

2Jo 2ª João

3Jo 3ª João

Jr Jeremias

Js Josué

Jt Judite

Jz Juízes

Lc Evangelho segundo Lucas

Lm Lamentações

Lv Levítico

Mc Evangelho segundo Marcos

1Mc 1º Macabeus

2Mc 2º Macabeus

Ml Malaquias

Mq Miqueias

Mt Evangelho segundo Mateus

Na Naum

Ne Neemias

Nm Números

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Os Oseias

1Pd 1ª Pedro

2Pd 2ª Pedro

Pr Provérbios

Rm Romanos

1Rs 1º Reis

2Rs 2º Reis

Rt Rute

Sb Sabedoria

Sf Sofonias

Sl salmos

1Sm 1º Samuel

2Sm 2º Samuel

Tb Tobias

Tg Tiago

1Tm 1ª Timóteo

2Tm 2ª Timóteo

1Ts 1ª Tessalonicenses

2Ts 2ª Tessalonicenses

Tt Tito

Zc Zacarias

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PRIMEIRA PARTE

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ANO A
TEMPO DO ADVENTO
(cor: roxa)

1º Domingo
& Is 2,1-5 | Sl 121(122) Rm 13,11-14a | Mt 24,37-44

Quando estamos esperando a chegada de uma pessoa muito querida na nossa


casa, nós a preparamos com todo carinho, aguardando ansiosamente a sua
chegada. Ficamos felizes desde o momento em que sabemos da sua vinda.
Enfeitamos a casa; providenciamos algo especial para oferecer; damos o melhor
que temos: o melhor quarto, a melhor cama, a melhor comida, os melhores
talheres e pratos etc. Enfim, queremos que ela seja bem acolhida, e para isso
oferecemos o melhor que temos. Quem já recebeu alguém muito querido em casa
sabe muito bem disso. É esse espírito que invade nosso coração no tempo do
Advento. Advento é aquele tempo que enche o nosso coração de alegria porque
preparamos o Natal do Senhor, isto é, a vinda de Jesus. Por essa razão, o Natal é
uma das festas mais importantes do nosso calendário litúrgico, perdendo apenas
para a Páscoa. Começamos, nesse tempo, a enfeitar nossas casas com flores, luzes,
símbolos natalinos. Alguns desses símbolos nem têm muito a ver com Jesus, são
símbolos usados no comércio, mas não deixam de ser símbolos alusivos de um
tempo diferenciado. Assim, o espírito do Natal é o momento em que sentimos essa
alegria da espera de uma noite tão importante, como se espera uma pessoa
querida, que está para chegar a qualquer momento, ou como se espera um filho.
Nesse tempo, ficamos mais sensibilizados. Ajudamos mais aos outros, sobretudo
com presentes e outras atitudes que seriam tão importantes se continuassem
depois do Natal. Esse clima de preparação está na liturgia desse tempo. Veremos,
nesses quatro domingos, o que fazer para estarmos preparados para receber Jesus,
de modo que esse tempo não passe como qualquer outro tempo, mas deixe em nós
a marca da conversão, da mudança para melhor.
Os dois primeiros domingos falarão da segunda vinda. Por essa razão, a liturgia
tem uma característica escatológica. Os outros dois domingos falarão da primeira
vinda, isto é, do nascimento de Jesus propriamente dito. Desse modo, somos
convocados a preparar nosso coração, e não somente a nossa casa, para essa
chegada transformadora. De nada adianta uma casa toda enfeitada de luzes se o
coração de quem nela habita continuar nas trevas. Por essa razão, antes de
qualquer preparação externa, preparemo-nos internamente, pois essa preparação é
a mais importante. É disso que tratam as leituras desse primeiro domingo do

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Advento, o tempo da preparação para a chegada do Senhor, ao falar de um tempo
novo, no qual reinarão a paz e a justiça.
Em vista disso, a liturgia da Palavra desse tempo nos mostrará, de diferentes
formas, como nos preparar para essa vinda. Estejamos, portanto, atentos. Atentos
aos símbolos litúrgicos desse tempo, como, por exemplo, a coroa do advento, que
a cada domingo será acesa uma vela, símbolo da nossa atenção e vigilância; a cor
roxa, símbolo da penitência e da conversão e tantos outros sinais que nos ajudam
preparar melhor para esse momento grandioso, marco de um tempo novo, num
mundo onde as injustiças terão um fim e a paz, de fato, reinará.
É o que anuncia o profeta Isaías na primeira leitura. Numa linguagem figurada,
Isaías fala do “monte da casa do Senhor”. Ele estará firmemente estabelecido no
topo da montanha, como símbolo de poder, visibilidade e estabilidade, enfim, de
segurança. Diante de um mundo com tantas inseguranças e medo, receber o
anúncio de um tempo e de um lugar de segurança e paz é o que todos desejam.
Como isso será possível? É o próprio Isaías quem dá a receita. Basta que os
instrumentos que provocam a morte sejam transformados em instrumento de
trabalho, em algo que favoreça a vida. É isso que ele propõe ao dizer “transformar
suas espadas em arados e suas lanças em foices”. Como podemos atualizar essa
proposta de Isaías? É transformando as armas de guerra em instrumentos que
defendam a vida. É transformando nossas práticas perversas e maldosas em algo
que ajude o próximo.
Paulo, na Carta aos Romanos, da segunda leitura de hoje, fala a mesma coisa,
porém com outras palavras: “despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as
armas da luz. Procedamos honestamente, como em pleno dia”. E ele vai mais
adiante, agora dando alguns exemplos: deixar atitudes como as da gula e das
bebedeiras, as orgias sexuais, as imoralidades, as brigas, as rivalidades. A essas
atitudes podemos acrescentar tantas outras, de acordo com o que cada um pratica,
que é preciso que sejam abandonadas se queremos que esse tempo novo aconteça.
O evangelho fala da chegada desse tempo numa hora e num momento
inesperados. Não que isso seja algo para ser levado ao pé da letra, mas para
mostrar que não há data nem hora marcada para a vinda do Reino. Ele acontece
aos poucos, de acordo com o nosso proceder, no cotidiano da nossa vida. Assim
sendo, Mateus mostra a vinda do Filho do homem comparando-a a um episódio
narrado no livro do Gênesis, o tempo de Noé. Essa comparação simbólica é para
nos alertar da necessidade de estarmos vigilantes, atentos nos afazeres da vida.
Não deixar que as preocupações diárias nos impeçam de cuidar da vida e das
coisas de Deus. Assim, a liturgia de hoje, mais especificamente o evangelho, nos
chama a atenção para a vigilância e, consequentemente, a preparação. Vamos nos
preparar adequadamente para o Natal do Senhor. Que essa grandiosa celebração
não seja apenas um momento na nossa vida ou na nossa liturgia, mas o marco de

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um tempo de mudança, para melhor, na nossa vida e no nosso mundo. Isso é
possível, para que haja empenho, dedicação, atenção e vigilância. Tudo isso deve
levar ao serviço ao próximo, à prática do amor e da caridade para com todos,
principalmente para os que mais necessitam.
Com tudo isso que vemos na liturgia desse primeiro domingo do Advento,
lembramos que estamos iniciando um novo tempo. Esse novo tempo está
simbolizado não apenas no novo ano e tempo litúrgico, mas, sobretudo, nesse
tempo de preparação e memória da vinda do Senhor, para a qual preparamos
nossa vida e o nosso coração. Esse tempo novo sonhado pelo profeta Isaías, pelo
Apóstolo Paulo e, sobretudo, por Jesus só será possível se fizermos essa
preparação, conforme sugere a liturgia da Palavra de hoje.

2º Domingo
& Is 11,1-10 | Sl 71(72) Rm 15,4-9 | Mt 3,1-12

Este segundo domingo do tempo do Advento nos faz um apelo a prepararmos a


chegada do Senhor, preparando seus caminhos. Preparar os seus caminhos
consiste em endireitá-los, ou seja, eliminar tudo aquilo que representa obstáculos.
Foi esse o clamor do profeta Isaías na sua profecia, ao anunciar João Batista, o
precursor de Jesus: “esta é a voz que clama no deserto: preparai o caminho do
Senhor, endireitai suas veredas”. Sabemos que são muitos esses obstáculos, porém
a primeira atitude a ser tomada para a execução desse árduo trabalho vem de
dentro de cada um: a conversão. Sem conversão não é possível fazer mudança
alguma. Quem está satisfeito ou conformado com a situação não quer mudança.
Conversão não apenas no sentido pessoal, individual, mas também no sentido de
mudança de estruturas, e isso exige comprometimento.
Na primeira leitura, o profeta Isaías se limita a dar a boa notícia daquele dia tão
sonhado. O dia em que de um tronco, aparentemente seco, surgirá um broto. Esse
broto se transformará numa árvore exuberante porque nele está o “espírito do
Senhor”. Que tronco e broto são esses? É uma referência direta ao descendente de
Davi, Jesus, que nasceria num lugar insignificante, no qual ninguém depositava
mais esperança, mas promoveria grandes mudanças porque teria atitudes
inusitadas que romperiam com costumes excludentes, como, por exemplo, não
julgar as pessoas ou situações pela aparência ou por ouvir dizer, mexeria com a
terra somente pela força da sua palavra, destruindo os males e suas causas. Suas
ações seriam justas porque ele estaria revestido de justiça. Elas provocariam
grandes transformações, trazendo a paz, a concórdia, a harmonia entre todos. Seria
o fim do dano e da morte.
Assim sendo, Paulo, na Carta aos Romanos, na segunda leitura de hoje, afirma
que tudo o que outrora foi escrito, foi escrito para nossa instrução, para nos

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orientar, para mostrar como podemos fazer que esse tempo novo, tão desejado, de
fato aconteça. O que Isaías anuncia nos traz conforto espiritual, esperança – e é
exatamente para isso, afirma Paulo. É para que tenhamos firme esperança. Sem
uma esperança firme, não haverá empenho na promoção desse mundo harmônico.
Para que isso de fato venha a ser realidade, a liturgia de hoje apresenta a figura
de João Batista. Com sua atitude radical e enérgica, ele rompe o sistema vigente.
Vai para o deserto, se veste e se alimenta de modo despojado, e prega um batismo
de conversão. Quem recebia o batismo de João assumia mudar de vida, ter outras
atitudes, ver o mundo com um novo olhar. Porém, não basta ser batizado: é
preciso, antes, ter se convertido. É o que ele diz aos fariseus e saduceus que
vinham receber o batismo sem se converter. O batismo não é um mero ritual,
mágico, de aparência. É preciso uma mudança interior. E essa mudança é preciso
comprovar através de ações. Mostrar os frutos dessa conversão é necessário.
Quem não mostrar frutos coerentes com a conversão não merece receber o
batismo.
É hora, portanto, de fazer um profundo exame de consciência e começar as
mudanças com uma boa confissão. Uma confissão que seja resultada do
arrependimento pelos erros cometidos e do propósito de mudança. Procure nestes
dias o padre de sua paróquia e faça uma boa confissão. Prepare-se para o Natal do
Senhor preparando o seu coração. Com um coração limpo dos pecados e com o
propósito de ser melhor, não repetindo mais os erros, o Natal começa a acontecer,
de fato. Então, aquele mundo anunciado por Isaías começa a deixar de ser apenas
um sonho para ser realidade. Se a humanidade se convertesse para o bem, não
haveria tanta violência e desrespeito à vida.

3º Domingo
& Is 35,1-6a.10 | Sl 145(146) Tg 5,7-10 | Mt 11,2-11

Este terceiro domingo do Advento, também chamado de domingo da alegria,


nos convida a perceber quais são os sinais de alegria que temos à nossa volta, na
nossa realidade, nessa caminhada até o Natal do Senhor. Quem nos ajuda a
descobrir esses sinais são dois importantes profetas, Isaías e João Batista, e o
próprio Jesus.
Encontrar esses sinais é como encontrar um oásis no deserto, isto é, é motivo de
júbilo. Uma alegria discreta que vai crescendo até explodir em manifestações de
contentamento sem limites. As razões disso tudo? Os textos de hoje nos apontam.
Porém temos que interpretá-las de acordo com a nossa realidade, hoje.
Isaías, na primeira leitura, fala das transformações do mundo com a vinda do
Salvador. É, em primeiro lugar, uma transformação de pessoas, de sentimentos e
atitudes pessoais que possibilitarão a transformação do mundo: mãos e joelhos

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enfraquecidos ganharão força, se firmarão. Isso mostra o fim da dependência, da
submissão, da escravidão. As pessoas poderão caminhar com as próprias pernas e
construir com as próprias mãos. É o símbolo da liberdade. As pessoas deprimidas
criarão ânimo, perderão o medo. Tudo aquilo que deprime e amedronta as pessoas
terá um fim. O que hoje mais deprime e amedronta as pessoas? Os olhos dos
cegos se abrirão, os surdos ouvirão, os coxos andarão e os mudos falarão. Quais
são as coisas que, hoje, tornam as pessoas cegas e as impedem de ver com os
próprios olhos? Podemos fazer uma lista enorme. A mesma coisa se pode dizer
dos surdos, dos aleijados e dos mudos. São muitas as coisas que ensurdecem as
pessoas, paralisam e deixam mudas, basta olhar a política, a educação, os meios
de comunicação tendenciosos que veiculam ideologias dominantes que fazem as
pessoas agir como alguns querem que elas ajam. Quanta libertação, quanta vida o
texto de Isaías promete. A mesma coisa promete o evangelho, porém num
contexto distinto. São, portanto, muitos os motivos de alegria anunciados nesse
terceiro domingo. A chegada do Senhor promete grandes transformações. Mas é
preciso, como diz Tiago na segunda leitura, ter paciência, saber esperar o tempo
certo, como o agricultor espera a semente germinar, crescer e dar frutos. É,
portanto, uma espera ativa. Embora o agricultor não tenha como abreviar o tempo
de crescimento da semente, ele precisa cultivá-la para que ela chegue a dar frutos.
A mesma coisa vale para a vinda do Senhor e seu Reino. Ao querermos esse
mundo anunciado por Isaías, João Batista e Jesus, é preciso esperar ativamente,
fazendo as coisas acontecerem a partir do nosso compromisso.
O texto do evangelho de hoje apresenta João na prisão. A prisão de João nada
mais é que as consequências da sua missão. Preparar a chegada de Jesus custou-
lhe muito, inclusive a sua própria liberdade. Mas nem por isso ele desistiu. Quem
confia não desiste diante dos obstáculos. Segue em frente e não sossega enquanto
não vê seu sonho tornar-se realidade. Na liturgia de hoje, a maior alegria de João
Batista é ver seu sonho se tornando realidade, seu trabalho dando fruto: o Messias
esperado chegou. Ele quer ter certeza disso e envia discípulos para averiguar,
perguntar se ele era mesmo o Messias. E o que os discípulos de João encontram?
Provas concretas da presença do Messias. Não por teoria, mas pelas obras que
estavam acontecendo. Jesus pede que os discípulos voltem e digam a João o que
viram e ouviram: cegos recuperando a visão, paralíticos voltando a andar sem
dificuldade, leprosos curados, surdos escutando, mortos que ressuscitam e os
pobres evangelizados, isto é, tratados com dignidade, respeito, sendo incluídos na
sociedade. Não dá para ter dúvidas. É o Messias.
Quando eles voltam, Jesus se encarrega de exaltar a figura de João Batista,
destacando suas qualidades, sua força e perseverança em anunciar esse tempo
novo. João é engrandecido por Jesus, e Jesus completa que no Reino dos céus
todos serão muito importantes. O menor será maior que João.

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Temos, assim, na pessoa de João Batista, o resumo das alegrias anunciadas
nesse terceiro domingo do Advento: a primeira delas é a de ser reconhecido por
Jesus. É muito bom quando nosso trabalho, nossos esforços são reconhecidos.
Ainda mais quando esse reconhecimento vem de Deus. É uma grande alegria. A
segunda alegria consiste em ter vencido a batalha e não ter se deixado levar pelas
críticas, pelos obstáculos e acusações. E a terceira é o fato de ver a missão
cumprida. O mestre anunciado chegou.
Que a liturgia de hoje nos faça ver os sinais de esperança, nos ajude a ter
firmeza e perseverança e continuar o caminho rumo ao Natal do Senhor.

4º Domingo
& Is 7,10-14 | Sl 23(24) Rm 1,1-7 | Mt 1,18-24

Neste quarto domingo do Advento, às vésperas do Natal, a liturgia nos convida


a olhar para dois personagens muito importantes na história da salvação: José e
Maria. Ambos nos ajudam a preparar melhor o Natal do Senhor, com atitudes que
são modelo de humildade, fidelidade e de justiça, elementos essenciais para que o
Natal não seja apenas mais uma festa de fim de ano.
Para ajudar nesses procedimentos, temos a leitura do profeta Isaías, que nos fala
de esperança através dos sinais que Deus vai colocando na nossa vida. Sem sinais,
nem sempre há esperança, e sem esperança, nem sempre temos atitudes tão
sensatas e nobres como essas que vimos no evangelho de hoje e na segunda
leitura.
Isaías fala de sinais. Que sinais são esses? “Uma virgem conceberá e dará à luz
um filho, e lhe porá o nome de Emanuel.” Um sinal no mínimo estranho e
confuso, porém grandioso. Os sinais nem sempre são entendidos nos seus
significados reais, mas sempre têm algo a nos indicar. O grande apelo deste
domingo é que estejamos atentos aos sinais dessa presença de Deus conosco.
Esses sinais podem ser estranhos, inusitados, simples; seja lá o que e como for, é
preciso saber interpretá-los e ver o que Deus quer de nós com eles. Todos os dias,
Deus emite inúmeros sinais na nossa vida, mas nem sempre percebemos. Às vezes
a nossa insensatez, nossa falta de fé e de justiça nos impede de percebê-los.
Paulo, na Carta aos Romanos, na segunda leitura de hoje, fala da obediência na
fé. A mesma fé que levou José a aceitar Maria como esposa depois do anúncio do
Anjo de que ela estava grávida. Não foi uma decisão fácil. Só alguém de muita fé
e profundamente justo é capaz de uma atitude dessa natureza. O texto destaca essa
grande virtude de José, a justiça. Uma justiça que supera a dos mestres da lei e dos
fariseus. Uma justiça guiada pela fé e pela certeza de que Deus estava com ele.
O evangelho deste domingo traz o sim de José. Estamos mais acostumados a
ouvir e refletir sobre o sim de Maria, mas hoje é o sim de José que ecoa em nossos

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ouvidos. O sim que ele deu ao Anjo, isto é, a Deus, confirmou o sim de Maria.
Desse modo, vemos como ambos, José e Maria, estão sintonizados. Ambos
tiveram dúvidas, receio, medo, insegurança e outros sentimentos humanos quando
o Anjo lhes anunciou a gravidez. Porém, ambos, pela fé, por serem pessoas de
Deus, tiveram a atitude mais acertada, aceitando fazer a vontade de Deus.
Somente quem tem fé consegue, em situações difíceis como essa, ouvir e aceitar
que é Deus quem fala. Deus fala de diferentes maneiras em nossa vida.
Constantemente ele envia seus anjos para anunciar o que devemos fazer, mas nem
sempre estamos abertos a acolher ou entender isso. Anjos podem ser pessoas,
situações e acontecimentos da nossa vida. Todos são portadores de alguma notícia
e nos pedem uma atitude.
Para ouvir e entender a voz de Deus, é preciso que sejamos como José, pessoa
justa. Quem é justo não tem maldade no coração. Quem é justo quer o bem dos
seus irmãos. José, por ser justo, pensava em deixar Maria em silêncio, sem fazer
nenhum alarde, sem escândalos, sem expô-la à humilhação pública como era
costume na época. Mas, mesmo assim, essa não era uma atitude correta. Era um
gesto humano apenas, de um homem bom que, sem entender o que estava
acontecendo, pensava estar agindo da melhor maneira. É nesse momento que entra
a ação do Anjo. Os anjos de Deus vêm sempre na hora certa; se formos pessoas
boas, sensíveis, de fé, vamos também captar no momento exato essa presença,
esse sinal de Deus.
Assim, o que nos pede a liturgia de hoje é sensibilidade para perceber os sinais
de Deus. O maior sinal é Jesus. Não há sinal maior do que ele. A liturgia deste fim
de Advento anuncia a vinda desse sinal. Como está o nosso procedimento? José,
quando entendeu o sinal, fez conforme o Anjo havia pedido, mudou seus
pensamentos e aceitou Maria como esposa. E nós, se temos os sinais desse Anjo
que anuncia a chegada do Senhor, devemos também mudar nossos pensamentos,
nossas ações e acolhê-lo como José acolheu Maria e o Filho de Deus que ela trazia
em seu ventre. Nós mostramos que acolhemos Jesus não apenas por palavras, mas,
sobretudo, por atos. Que as nossas ações revelem Jesus para os nossos
semelhantes. É isso que pedem as leituras deste domingo.
Desse modo, o sim de José e de Maria nos coloca diante do presépio com o
coração cheio de expectativas e esperanças. Queremos que o Emanuel, o Deus
conosco, nos faça cada dia mais sensíveis aos sinais que Deus aponta em nossas
vidas, para podermos também, a exemplo de ambos, José e Maria, dizer sempre
sim a Deus e ser coerentes até o fim. O sim de José e Maria possibilitou que Jesus
nascesse para a humanidade. O nosso sim a Deus possibilitará que Jesus continue
presente entre nós. O sim de José e Maria representou um compromisso com Deus
e com a humanidade. Nosso sim também representa compromisso semelhante.
Somente quem diz sim a Deus consegue dizer não às coisas que não são de Deus.

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Para celebrar verdadeiramente o Natal do Senhor, é preciso dizer sim a ele e não
às coisas que desagradam a Deus. Um sim a Deus significa um não às coisas do
mundo.

TEMPO DO NATAL
(cor: branca)

Missa da noite (24 de dezembro)


& Is 9,1-6 | Sl 95(96) | Tt 2,11-14 | Lc 2,1-14

Celebramos, hoje, a grande e esperada festa do nascimento de Jesus. A segunda


maior festa do nosso calendário cristão. A primeira é a Páscoa. Para esse momento
importante, nos preparamos durante quatro semanas. Foram semanas em que a
liturgia insistiu no aspecto da conversão como o meio mais eficaz para a
preparação. Sem conversão, não é possível ter acesso aos mistérios do Natal do
Senhor. Só um coração convertido à simplicidade dessa festa consegue vislumbrá-
la naquilo que ela tem de essencial: o nascimento do Salvador. Deus que se faz
gente, um de nós, para que possamos ter acesso a ele. Ele se faz um de nós da
maneira mais simples que se possa imaginar. Nasce numa situação inusitada, num
contexto de peregrinação, igual ao dos povos nômades do deserto, dos migrantes e
andarilhos de hoje. Nasce numa estrebaria porque não havia lugar para ele nas
hospedarias. Nasce embaixo das pontes, nas favelas, nas ruas porque não há lugar
para ele nas maternidades, nos hospitais, nos nossos lares. Não havia e ainda não
há lugar para ele. Não há lugar para ele nos banquetes que se promovem nessa
noite. Muitos nem se lembram de que a razão da festa é o nascimento de Jesus.
Pensa-se em tudo, menos no essencial: Jesus.
Deus nos surpreende. Ao vir morar entre nós Deus tem um único objetivo: a
nossa salvação. Para ser salvo precisamos conhecê-lo, ter acesso a ele. Se ele
tivesse nascido num palácio, só os nobres o conheceriam. Os pobres jamais viriam
a Deus porque não há lugar para os pobres nos palácios. Lá eles não adentram.
Mas Jesus, não. Ele nasce numa estrebaria. Abaixo da linha de pobreza. Nessas
condições, todos podem se achegar até ele, principalmente os pequenos, os
marginalizados, figurados nos pastores que foram os primeiros a receber a notícia
do nascimento do Salvador. Os pastores conhecem muito bem o que é uma
estrebaria. Para conhecê-lo, os nobres terão que se curvar, descer até o nível dos
pequenos, senão nunca o verão. Natal é, portanto, a festa da humildade. Nada de
luxo e ostentação de poder. O luxo, a ostentação de riquezas, os banquetes não
condizem com o verdadeiro sentido do Natal do Senhor. Quem só se preocupa
com a festa pode celebrar qualquer coisa, menos o Natal do Senhor.

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A primeira leitura, do profeta Isaías, o profeta da esperança que nos
acompanhou durante todo o tempo do Advento, fala que agora, com o nascimento
do Menino, o filho que nos foi dado, tudo o que significava opressão e morte teve
um fim. Com tintas fortes ele pinta o quadro desse tempo de horror que chega ao
fim com o nascimento de Jesus: acabou a escuridão. As sombras da morte, que a
todos assustavam, tiveram um fim. Não há mais jugo oprimindo o povo. As cargas
pesadas foram tiradas de seus ombros. A arrogância, o orgulho dos fiscais que
exploravam o povo também teve fim. Os sinais de morte, como, por exemplo, as
botas de tropa de assalto, os trajes manchados de sangue, tudo foi queimado,
destruído para dar lugar à paz, à alegria e à felicidade para todos. É tempo de
alegria, de festa, como se festeja uma batalha que foi vencida. Como os ceifeiros
festejam o fim de uma colheita exuberante. O nascimento do Salvador traz esse
tempo novo, e o profeta nos convida para a festa, a alegria. Somos convidados a
engrossar o coro dos anjos e cantar: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz
na terra aos homens por ele amados”.
A segunda leitura da Carta a Tito pede que nos coloquemos diante do presépio e
nos perguntemos: o que ele tem a nos ensinar? Em seguida vem a resposta: ele nos
ensina a abandonar a impiedade, a insensibilidade de nosso coração, e a sermos
mais generosos, mais humildes, mais humanos, mais fraternos. Ensina-nos a
abandonar as paixões mundanas, aquelas coisas que nos desgastam tanto e que, na
verdade, não têm nenhum sentido perante a grandeza do mistério de Deus. Ensina-
nos a viver de modo equilibrado, justo, com piedade. Enfim, nos ensina a viver de
modo puro, sempre praticando o bem. A celebração, a vivência do Natal, consiste
nisso tudo.
O evangelho fala do contexto do nascimento para que não esqueçamos a
humildade e a simplicidade dessa festa. Para que nenhuma outra coisa ofusque o
essencial, ele nasce desprovido de aparatos técnicos e luxo. Apenas uma faixa o
envolve. É essa faixa que vai envolvê-lo, anos mais tarde, quando, ao ser retirado
da cruz, for colocado na sepultura. Um nascimento desprovido de qualquer outro
aparato para que se evidencie a criança, o Salvador. Ele é o mais importante. O
resto é mero detalhe. Quem recebe primeiro a notícia do nascimento são os
pastores, os mais excluídos dos excluídos. São eles os primeiros agraciados com
esta Boa Notícia: “hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o
Cristo Senhor”. É a síntese, o essencial da festa do Natal. Acreditar nisso é o
suficiente para que nossa vida mude totalmente. Conhecê-lo, na sua simplicidade,
faz toda a diferença. Como aos pastores, os anjos dizem para nós nesta noite: “não
tenham medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo”.
O que ainda nos amedronta e impede de encontrar com Jesus na sua
simplicidade? Talvez a sua própria simplicidade. Quantos de nós continuamos a
procurar Jesus nos lugares onde ele, de fato, não está, e por isso não o

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encontramos. Às vezes, até nas nossas igrejas o procuramos de modo errado,
esperando encontrá-lo de outras formas que não condizem com o que ele é.
Quantos festejarão o Natal, porém continuarão vazios da presença de Jesus, como
o presépio sem o Menino?
Para encontrá-lo, é preciso que se dissipe do nosso coração o orgulho, o
preconceito, os medos que nos paralisam, a falta de justiça e de amor ao próximo,
o egoísmo, a ignorância, enfim, como diz a Carta a Tito, as paixões mundanas e a
impiedade.
Que possamos, a partir dessa noite santa, nos curvar diante das manjedouras
desse mundo para visualizar o Salvador. Ouçamos a voz do anjo que continua a
ecoar em nossos ouvidos: “não tenham medo”.

Missa do dia (25 de dezembro)


& Is 52,7-10 | Sl 97(98) Hb 1,1-6 | Jo 1,1-18 ou 1,1-5.9-14

Celebramos na noite que passou o nascimento de Jesus. A luz que veio ao


mundo, anunciada pelos profetas. Hoje, celebramos o Natal, o cumprimento da
promessa de Deus. Nasceu para nós o Salvador, o Príncipe da paz, a luz das luzes.
As nossas casas, a cidade, continuam iluminadas pelas luzes natalinas. São
sinais exteriores de que estamos vivendo um tempo especial. A luz que brilha hoje
ofusca todas as outras luzes. É a luz eterna, a luz de Deus. É de luz que fala a
liturgia desse dia de Natal.
A primeira leitura, extraída do livro do profeta Isaías, fala da beleza dos pés de
quem anuncia e prega essa luz, figurada na paz. Nasceu aquele que é o Príncipe da
paz. É a sua paz que devemos agora anunciar. Uma paz que significa salvação
porque Deus agora reina no mundo, através de seu Filho, Jesus. É tempo de
alegria. Não uma alegria superficial, passageira, mas uma alegria visceral,
duradoura. Deus, através da vinda de seu Filho, consolou seu povo, devolveu-lhe
a esperança, resgatou-nos do pecado. É Deus mostrando seu poder e sua
misericórdia, diz o profeta Isaías. Deus revelando o quanto nos ama a ponto de vir
até nós de forma tão acessível. Aquilo que ele prometeu, por palavras, se
concretiza.
O salmo de hoje canta a realização das promessas: “os confins do universo
contemplaram a salvação do nosso Deus”. Deus realiza prodígios, é a vitória. As
forças da morte foram vencidas. São as razões da nossa alegria. É preciso
manifestar essa alegria de alguma forma. O salmo pede que cantemos a Deus um
canto novo, que cantemos salmos ao som da harpa, da cítara suave. Harpas são
instrumentos natalinos. Os sons de harpa nos remetem a esse tempo mágico do
Natal. São, portanto, muitos os motivos dessa manifestação de alegria que pede o
Natal: a salvação, a justiça, o amor sempre fiel de Deus agora é realidade. Todo o

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resguardo do tempo do Advento explode agora numa grande festa. Os sinais dessa
alegria devem estar por toda parte nas nossas liturgias de Natal e nos símbolos que
usamos nas celebrações, como, por exemplo, nos instrumentos musicais, nas
flores, na cor branca ou dourada, no presépio, com a presença do menino Jesus,
nas luzes etc. É tempo de alegria.
A segunda leitura fala dessa alegria, mostrando Deus, que fala conosco através
de seu Filho. Ele falou e fala de muitas maneiras, mas agora fala por Jesus e em
Jesus. É Deus que se fez um de nós para que pudéssemos ter acesso a ele. A vinda
do Filho significa, segundo a Carta aos Hebreus, “o esplendor da glória do Pai, a
expressão do seu ser”. Ele, o Filho, é maior que todos os anjos. É Deus, na sua
segunda pessoa, presente no mundo. Todos devem adorá-lo. Adorar a Jesus
significa cumprir a sua Palavra, viver os seus ensinamentos, conformar a vida de
acordo com seus preceitos de amor e de justiça.
O evangelho desse dia de Natal fala do verbo que se fez carne e habitou entre
nós. Deus, que no princípio era a Palavra, agora se concretiza na pessoa de Jesus,
luz do mundo. Para que essa luz chegasse até nós foi preciso um tempo de
preparação, simbolizado no tempo da gravidez de Maria, no tempo do Advento e
no tempo em que João preparou os caminhos do Senhor. João é tido como um
homem enviado por Deus para preparar essa chegada que hoje celebramos. Veio
como testemunha da luz. Sua proposta era a conversão. Sem conversão, não será
possível ter acesso, conhecer a Deus através de seu Filho.
João vem anunciar essa grande luz para a humanidade. Luz no sentido de
dissipar as trevas, o poder da morte ou tudo aquilo que representasse escuridão na
vida do povo. Por essa razão, a luz é tema central da liturgia desse dia de Natal.
Cristo como luz do mundo, como diz a antífona da comunhão: “Eu sou a luz do
mundo, quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”.
Ao acolher essa luz como luz para a nossa vida, nós nos tornamos também
filhos de Deus. Renascemos do próprio Deus. Assim, o que era Palavra passa a ser
carne, se concretiza na nossa vida. Cada vez que recebemos a comunhão, ele
entra, literal e simbolicamente, na nossa vida e passa a fazer parte de nós.
Cabe, agora, a cada um de nós, a exemplo de João Batista, anunciá-lo ao mundo.
Recebemos essa infinita graça de Deus, que foi conhecê-lo, através do seu Filho.
Nossa missão, portanto, é anunciá-lo, como pede a primeira leitura.

Sagrada Família de Jesus, Maria e José [1]


& Ec 3,3-7.14-17a | Sl 127(128) Cl 3,12-21 | Mt 2,13-15.19-23

A liturgia deste domingo nos coloca diante da Sagrada Família de Jesus, Maria e
José, e pede que, a partir dessa família, olhemos para a nossa e vejamos como ela
está. Quais são os valores que temos e quais são as coisas a que não damos valor?

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Como anda o nosso relacionamento familiar? Existe amor, respeito, compreensão?
Existe temor de Deus, configurado na prática religiosa, na participação nas
missas, na oração em família, na ajuda mútua? O que precisamos melhorar na
nossa família?
Para responder a essas e outras perguntas, temos as leituras de hoje, que nos dão
profundos ensinamentos.
A primeira leitura é do livro do Eclesiástico. O livro do Eclesiástico faz parte
dos livros sapienciais da Bíblia. Ali está reunida uma parte do conhecimento do
povo daquela época, as experiências vividas, comprovadas, tidas como certas
porque foram testadas no dia a dia. Não são apenas teorias. É conhecimento
empírico. Em vista disso, elas têm muito a nos ensinar ainda hoje.
O primeiro ensinamento que encontramos é que Deus honra os pais nos filhos.
Filhos são tidos como bênçãos de Deus e por essa razão devem ser tratados com
todo carinho e cuidado. Se os pais devem cuidar bem dos filhos, seus maiores
tesouros, o mesmo devem fazer os filhos. É preciso honrar os pais, isto é, respeitá-
los. Esse é um dos mandamentos de Deus. Honrar pai e mãe. Honrar os pais é algo
tão nobre, tão importante que quem o faz recebe o perdão de Deus pelos seus
pecados. É, portanto, um dever, uma obrigação de todos os filhos, porém devemos
fazer isso não apenas porque é dever, mas porque há amor no nosso coração. O
amor é a medida de todas as coisas, e dentro da família isso não é diferente. Ao
contrário, é fundamental. Quem ama honra, respeita, perdoa, busca a harmonia.
Quem repeita a mãe, diz o texto, é como quem ajunta tesouros. O mesmo ocorre
com quem respeita o pai. Quem age assim terá, na velhice, o mesmo tratamento, o
mesmo respeito e carinho dos filhos, e, assim, sucessivamente, a honra e o
respeito vão passando de geração para geração. Quando os membros da família
perdem o respeito de um para com o outro, a sociedade perde o respeito. Quem
não consegue respeitar, honrar o sangue do seu próprio sangue dificilmente
conseguirá amar e respeitar os que não são da sua família. Quem ama cuida, diz o
provérbio popular. Esse provérbio está presente na expressão “ampara o teu pai na
velhice e não lhe cause desgosto enquanto ele vive”. Quem ama seus pais cuida
deles enquanto eles vivem, mesmo que tenham perdido a lucidez. Um dos grandes
desafios da família é manter o cuidado e o amor quando os pais estão
envelhecidos e sem memória. É muito mais cômodo colocá-los em alguma
instituição que cuida de idosos do que tê-los por perto, em casa, e tratá-los com
amor. Só os que amam verdadeiramente conseguem ficar com os pais e tratá-los
bem até o fim de suas vidas. Quem não ama maltrata, humilha e, assim, peca
contra Deus. Porém, os que são compreensivos, pacientes e tratam com carinho
seus pais serão lembrados diante de Deus e terão seus pecados perdoados, insiste
o texto da primeira leitura.

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O salmo de hoje canta o temor a Deus, que significa não o medo de Deus, mas o
amor a ele. Quem ama a Deus verdadeiramente, dá demonstração disso no amor
ao próximo, no amor dentro de casa, uns para com os outros. Quem ama a Deus
age sempre com segurança, consegue suportar as adversidades da vida, como
vemos na família de Nazaré apresentada no evangelho de hoje.
A Carta aos Colossenses destaca o amor que Deus tem por nós. Quem
reconhece esse amor age diferente, começando a demonstrar isso dentro de casa.
Quem reconhece o amor de Deus se reveste de sincera misericórdia, bondade,
humildade, mansidão e paciência. Quem reconhece o amor de Deus na sua vida
suporta todas as dificuldades dentro da família e sabe perdoar, contornar, resolver
a situação da melhor maneira possível. Suportar uns aos outros, como diz a carta,
significa ser paciente e compreensivo. Significa entender os limites do outro e
saber que os outros também são pacientes com os nossos limites. A família é,
portanto, lugar de perdão. Toda vez que tivermos dificuldade, dentro de casa, de
perdoar, vamos lembrar quanto Deus nos ama e nos perdoa. O destaque dessa
segunda leitura é o amor que deve existir dentro dos nossos lares, porque só quem
ama é capaz de perdoar. O amor era, é e continuará sendo o vínculo da perfeição
dentro das nossas famílias. Família que ama é família em que a paz reina. Família
que ama é família unida. Família que ama vive a Palavra de Deus. Família que
ama é família feliz, mesmo que haja desavenças e dificuldades como há em
qualquer família. Família que ama coloca Deus em primeiro lugar dentro de casa.
Nas famílias cujos membros se amam, as esposas são solícitas com seus maridos,
os maridos dão provas desse amor a suas esposas. Os filhos obedecem aos pais e
os pais não ameaçam nem intimidam seus filhos. Assim, os filhos obedecerão a
seus pais não porque têm medo deles, mas porque os amam e os respeitam.
O evangelho, em pleno ciclo do Natal, coloca-nos diante de uma família cheia
de dificuldades, de desafios e obstáculos a serem enfrentados, superados. Só o
amor a Deus e o amor entre eles podem fazer com que José e Maria enfrentem
com valentia e coragem as dificuldades da vida. Depois de ter tido um parto numa
estrebaria porque não havia lugar para eles nas hospedarias, o casal se vê diante da
perseguição ao recém-nascido. Herodes ameaça de morte o Menino. José e Maria
precisam fugir para o Egito para fugir de Herodes. O Menino acaba de nascer e já
é um exilado. Isso lembra as tantas famílias de hoje que são perseguidas pela
violência, pelas drogas e por tantas causas que as expulsam de suas casas, de suas
terras, e precisam viver escondidas para poder sobreviver. Somente o temor de
Deus, o amor que existe entre eles os faz fortes para lutar pela defesa da vida.
Obedecem a Deus e nos dão um exemplo muito importante para as nossas
famílias, hoje. Não importa o que a nossa família esteja passando, o que importa é
o amor que existe dentro dela. Se houver amor a Deus e ao próximo dentro de

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nossos lares, todas as dificuldades e obstáculos serão vencidos. É o que nos ensina
a liturgia de hoje, da Sagrada Família de Jesus, Maria e José.

2º Domingo depois do Natal


& Eclo 24,1-4.12-16 | Sl 147 Ef 1,3-6.15-18 | Jo 1,1-18 ou 1,1-5.9-14

A liturgia deste domingo faz uma espécie de memória teológica da presença de


Deus entre nós. Estamos ainda no contexto do Natal do Senhor, e a liturgia
celebra este mistério: o verbo que se fez carne e habitou entre nós. Assim, as
leituras de hoje contextualizam esse processo, memória do Natal e de tudo o que
esse tempo desdobra.
A primeira leitura, do livro do Eclesiástico, fala dessa presença de Deus entre
nós, usando uma linguagem comparada, ou um símbolo: a sabedoria. A sabedoria
é a revelação de Deus ou do seu projeto de vida entre nós. A sabedoria aqui não é
Deus, mas algo de Deus, uma espécie de “Espírito de Deus”, que ajuda na obra da
criação. O texto diz que ela estava junto de Deus e o acompanhou na obra da
criação, sendo, por fim, entregue a nós, seres humanos, criados à sua imagem e
semelhança. Desse modo, a criação do ser humano, da humanidade, é a
representação do ápice da sabedoria de Deus. Ele nos criou para darmos
continuidade às obras de sua criação. Temos, portanto, essa parcela divina, que é a
nossa capacidade de criar e recriar as coisas, os dons que Deus nos confiou. Com
a nossa inteligência, ou sabedoria, dom de Deus, temos a responsabilidade de
continuar a obra de sua criação. Vemos, portanto, que essa sabedoria está presente
em tudo e em todos, mas nem sempre sabemos fazer uso dela. Como não somos
deuses, mas apenas imagem e semelhança de Deus, falhamos na continuidade da
obra da criação e até mesmo atrapalhamos esse projeto quando nos desviamos dos
seus caminhos. Porém, o mais importante é saber que possuímos um tesouro
incomensurável e que, se soubermos trabalhá-lo, lapidá-lo, podemos crescer
sempre mais em sabedoria e nos tornar santos como nosso Pai celeste é santo. É
essa sabedoria herdada de Deus que nos aproxima dele. Nossa missão neste
mundo é manter esse elo entre nós, humanos, e Deus. É o que nos pede a primeira
leitura ao tratar da sabedoria de Deus como sinal da sua presença entre nós.
A segunda leitura, da Carta aos Efésios, fala dessa mesma sabedoria, porém
como uma bênção. Paulo louva a Deus porque nos abençoou com toda bênção
espiritual, através de Jesus Cristo. Assim, sabedoria não é apenas inteligência,
algo ligado à razão, mas a dimensão espiritual que existe em nós. Vemos, assim,
os dois principais elementos que nos diferenciam dos animais: a razão e a fé. O
ser humano é dotado de razão e fé, e isso nos torna seres muito próximos de Deus.
Próximo no sentido de filiação mesmo, através de seu Filho, Jesus. É isso que
enfatiza a Carta aos Efésios no trecho escolhido para a liturgia de hoje. Paulo

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recorda que fomos escolhidos por Deus antes de tudo, antes da criação do mundo.
Embora o livro do Gênesis mostre que a humanidade foi uma das últimas obras da
criação, isso não significa que sejamos menos importantes, ou que as coisas foram
criadas por ordem de importância. Ter sido criado por último significa o ápice da
criação, a completude do Deus criador. Assim, antes de criar o mundo, ele nos
escolheu, afirma o Apóstolo Paulo nessa carta. Ser escolhidos antes de Deus criar
o mundo significa que temos uma missão importante na obra da criação. Somos
responsáveis pelo mundo, continuadores da missão criadora de Deus e da missão
de Jesus Cristo, a qual temos visto explicitamente nos evangelhos, sobretudo na
parte que corresponde ao chamado e envio pelos seus discípulos. Desse modo,
Deus nos predestinou a sermos filhos adotivos, diz Paulo, e isso significa não
apenas continuidade da missão, mas uma profunda responsabilidade na obra da
criação. Essa responsabilidade é revelada na fé e no amor que temos uns pelos
outros, diz a Carta aos Efésios. Essa fé e esse amor revelarão em nós o rosto de
Deus. Paulo, nas suas orações, agradece a Deus pelo fato da comunidade dos
efésios ter revelado essa fé e esse amor. Isso é sinal de que sua missão não foi em
vão. A missão de Jesus neste mundo não terá sido em vão se nós, cristãos,
continuarmos vivendo o que ele viveu e ensinou. Que Deus nos dê sempre um
espírito de sabedoria para que possamos, como cristãos, revelar Deus aos nossos
irmãos. Somente assim vamos conhecê-lo profundamente. É esse o desejo de
Paulo, Apóstolo, à comunidade dos efésios. Esse deve ser também o desejo de
todo discípulo missionário de Jesus Cristo. Nisso todos reconhecerão que somos
de Deus, que somos de fato sua imagem e semelhança e que o Verbo de Deus
continua habitando entre nós, como mostra o evangelho de hoje.
O evangelho de hoje é o início do Evangelho de São João. Ele fala da criação e
revelação de Deus. Mostra que no começo existia somente a Palavra, o Verbo, e
que a Palavra era Deus. Algo muito próximo da primeira leitura, que usa, em vez
de verbo, o termo sabedoria. João mostra que tudo foi criado por meio dela, a
Palavra, o Verbo de Deus. É na Palavra que estava a vida, e a vida era a luz.
Assim, nessa linguagem profundamente teológica, João fala de Jesus, do Verbo
que se fez carne e habitou entre nós, mistério que celebramos recentemente no
Natal. Cristo, o Verbo encarnado de Deus, habitou entre nós e em nós, como luz.
Luz que veio para dissipar as trevas. Por essa razão falamos tanto de luz no tempo
do Natal. Falamos da luz, destacamos a luz, iluminamos nossas casas, nossas ruas,
o presépio, com muitas luzes. Deus é luz, Jesus é luz. Essa luz que resplandeceu
nas trevas deve estar acesa em nossos corações. Eis o grande apelo do Natal do
Senhor. De nada adianta enfeitarmos nossas casas com muitas luzes se o nosso
coração permanecer nas trevas. A luz que ilumina nosso coração é o amor, a
misericórdia, a compaixão. São esses sentimentos tão humanos que nos tornam

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divinos. São esses sentimentos tão simples que nos tornam filhos de Deus,
irmanados com Jesus. Somente o amor é capaz de dissipar as trevas do ódio.
João Batista foi essa voz que anunciou no meio das trevas a luz de Cristo. A
“voz que clama no deserto”, diz o texto bíblico sobre João Batista. Que deserto? O
deserto do pecado, da maldade humana, das tentações do maligno. Podemos fazer
aqui uma lista de situações que representam os desertos dos nossos tempos. É em
meio a esses desertos, essa escuridão que João foi chamado a anunciar a luz de
Cristo. Isso nos faz lembrar a noite do Sábado Santo, quando, com as luzes da
igreja apagada, o sacerdote entra com o Círio Pascal aceso e anuncia: “Eis a luz de
Cristo”. Assim foi a voz de João Batista no deserto. Ele não era a luz. Era apenas
anunciador e portador da luz. Porém, aquele que anuncia, que porta a luz, também
é iluminado por ela e pode até ser confundido com a luz. Foi o que aconteceu com
João Batista. Ele não era a luz, mas apenas testemunha da luz. Ele veio para dar
testemunho da luz e em nenhum momento aproveitou disso para usurpar o lugar
da luz, isto é, de Jesus. Cumpriu com humildade a sua missão de ser testemunha,
anunciador da luz que viria com Jesus. Ainda hoje, pessoas que anunciam com
fervor a Cristo acabam por ser confundidas, reverenciando, seguindo como uma
espécie de ídolo. Se essa pessoa não tiver clareza do seu papel de anunciador de
Cristo, poderá querer ocupar o lugar de Cristo e confundir as pessoas em vez de
orientá-las. Por essa razão, temos que ter muito cuidado. Anunciar Cristo é
colocar-se, a exemplo de João Batista, no serviço a Deus com humildade, sem se
ensoberbecer pelo fato das pessoas enxergarem, na sua pessoa, um representante
de Deus. Temos muitos padres e pregadores populares, que arrastam multidões, e
sobre esses recai uma grande responsabilidade de não querer ser igual ou maior
que o próprio Cristo. Que tenhamos sempre diante de nós o exemplo de João
Batista, do Apóstolo Paulo e, sobretudo, do próprio Jesus Cristo, que se fez, na
humildade, um de nós e serviu a todos, começando pelos que mais precisavam. É
essa nossa missão e é esse o grande ensinamento da liturgia deste domingo.
Que sejamos fiéis a Deus e ao nosso compromisso cristão de continuarmos
nossa missão de anunciar Cristo, que chegou neste Natal e permanece entre nós.
Ele iluminou nossa vida, e essa luz precisa continuar iluminando a todos,
principalmente os que estão nas trevas. Eis a nossa missão: levar essa luz que é
Cristo a todos os que ainda não foram iluminados por ela.

Domingo da Epifania do Senhor


& Is 60,1-6 | Sl 71(72) Ef 3,2-3a.5-6 | Mt 2,1-12

Celebramos, hoje, a Epifania do Senhor. Epifania significa manifestação de


Deus aos povos, ao mundo. A liturgia nos convida a perceber como Deus se
manifesta, hoje, entre nós. Quais são os sinais dessa manifestação? Como estamos

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reagindo diante deles? O que eles nos ensinam? As leituras propostas para esse
domingo nos dão a resposta. Antes, porém, vale lembrar a importância dessa festa
no calendário litúrgico.
A Epifania era, até recentemente, uma festa popular, com importância similar à
festa do Natal. As famílias se reuniam, celebravam juntas, trocavam presentes. Era
algo grandioso, tanto no sentido religioso quanto no folclórico e social. Hoje a
festa da Epifania, conhecida popularmente como “dia dos santos reis” perdeu
muito desse significado festivo. Apenas a liturgia manteve a sua reserva simbólica
e teológica dessa festa, transformando-a em solenidade religiosa. Para o
calendário litúrgico, essa festa continua sendo muito importante. É tão importante
que em vez de se celebrar no dia 6 de janeiro, celebramos no domingo.
Celebramos, portanto, dentro do ciclo do Natal, a manifestação de Deus, do
Menino nascido na manjedoura de Belém, a estrela de brilho radiante que dissipa
todas as trevas.
A primeira leitura, do livro do profeta Isaías, fala de uma Jerusalém iluminada
por essa luz. Uma Jerusalém que se encontrava em meio a nuvens escuras e
trevas. Agora ela está iluminada pela estrela de Deus, a luz de brilho eterno. Com
isso podemos perguntar: quais são as nuvens escuras que ainda insistem em
envolver nosso mundo, nosso país e nossa vida? Como percebemos a estrela de
Belém em meio a tudo isso?
A nova Jerusalém apresentada por Isaías reúne os filhos que vêm de longe. Ela
agora agrega, soma, acolhe. Todos que a ela se achegam são acolhidos como a
mãe acolhe seus filhos. O coração de todos fica radiante, vibrando, batendo forte,
diz Isaías. É uma alegria, uma riqueza incomensurável, dantes nunca vista. É o
reconhecimento da glória do Senhor, cantada no salmo de hoje: “as nações de toda
a terra hão de adorar-vos, ó Senhor!”.
Na segunda leitura, da Carta aos Efésios, Paulo fala do reconhecimento da graça
de Deus que se revelou a esta geração com o episódio do nascimento de Jesus. A
maior graça de Deus é vê-lo presente entre nós, manifestando essa presença das
mais variadas formas, principalmente em coisas e situações simples, sem
grandiosidade. Dando-nos a oportunidade de nos achegarmos até ele, de
reconhecê-lo, de estar com ele. Com essa manifestação, todos são acolhidos,
inclusive aqueles que estão distantes, os pagãos. Diz Paulo na leitura de hoje: “os
pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são
associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do Evangelho” (v. 6). A
Epifania nos proporciona essa unidade na diversidade.
No evangelho, Mateus contextualiza a manifestação de Deus, a sua Epifania,
semelhante ao que o profeta Isaías anuncia na luz em meio às trevas. Nesse caso,
as trevas têm nome: Herodes e suas ações. O terror que Herodes espalha é
simbolizado pelas nuvens escuras que envolvem a terra. Nascer no tempo do rei

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Herodes significa nascer num tempo muito difícil, de profunda escuridão. Mesmo
assim, a estrela do Menino Deus não é ofuscada. Seu brilho chega a terras
distantes, no Oriente, e atrai os magos que vêm para adorá-lo. Eles vêm seguindo
a estrela até chegar aonde o Menino se encontra. Ao chegar próximo do palácio de
Herodes, a estrela deixa de brilhar e eles perdem o norte, o rumo. A estrela do
Menino Deus não brilha onde há maldade, perversidade, desrespeito à vida. Sem a
estrela para guiá-los, eles vão pedir informações a pessoas próximas de Herodes.
A notícia da presença deles, buscando o local onde estaria o rei dos judeus que
acaba de nascer, logo se espalha e perturba Herodes e todos os seus seguidores.
Não é para menos. Num sistema monárquico não há dois reis. O rei ali era
Herodes. Alguém que vem e quer usurpar o seu lugar, o seu título, o seu poder,
significa uma ameaça real, perturbação da ordem, motivo de preocupação.
Herodes reúne os sumos sacerdotes e os mestres da lei para verificar se a
informação procede. E eles confirmam: Belém não é tão insignificante quanto
Herodes imagina. Desse lugar anônimo, os profetas previram o nascimento de um
chefe que iria ser pastor de Israel, que iria governar o mundo. Com essa
confirmação, Herodes usa suas estratégias para conter a força e o poder deste que
vem para destituí-lo do seu poder nefasto. Chama os magos e pede que eles
confirmem o endereço onde está esse novo rei. Ele também queria ir “adorá-lo”.
Sabemos muito bem o tipo de adoração que Herodes queria fazer. Porém, ao se
afastar do palácio de Herodes, a estrela volta a brilhar, e eles encontram o local
onde está o Menino. O gesto dos magos diante do Menino é de reconhecimento
daquilo que disseram os profetas. Eles se ajoelham diante de Maria e do Menino.
Abrem seus cofres e retiram três presentes (ouro, incenso e mirra), que
simbolizam o tipo de rei que ali está. Um rei diferente de todos os reis vistos até
então.
O ouro representa a realiza de Jesus. Um rei distinto de todos os reis que até
então a história de Israel havia produzido. Um rei bem diferente de Herodes. O
segundo presente, o incenso, representa sua divindade. Estavam diante de um rei
divino e não de um rei qualquer. O terceiro presente, a mirra, significa que esse rei
divino daria a vida pela vida dos seus. A mirra era usada para embalsamar os
corpos na ocasião da morte. Oferecer mirra significou não o reconhecimento da
morte, mas da doação da vida até as últimas consequências, a missão desse novo
rei. Depois de render-lhes essas homenagens, eles retornaram para a sua terra,
seguindo outro caminho. Um caminho que não passaria por Herodes.
O que isso tem a nos dizer?
Diz que, uma vez percebida a manifestação de Deus, nossa vida não será mais a
mesma. Mudaremos os rumos dela, iremos por outros caminhos, deixando para
traz os caminhos que não correspondem aos caminhos de Deus. Os magos têm,
portanto, muito a nos ensinar. Ensinam-nos a buscar a estrela de Belém, a segui-

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la, mesmo que para isso tenhamos que enfrentar os Herodes de nossos tempos.
Ensina-nos a sermos perspicazes e perceber quando alguém quer nos ludibriar,
enganar, trapacear em nome de um suposto bem, uma suposta “adoração”, como a
de Herodes. Ensina-nos a nos colocarmos diante de Deus, reverenciá-lo. Ensina-
nos a abrir o “cofre” do nosso coração e oferecer a ele os mais importantes
presentes: o amor, a justiça e a paz. É isso que ele quer de nós. É também isso que
nos ensina a liturgia da solenidade da Epifania do Senhor. Que saibamos
reconhecer sua manifestação entre nós e que esse reconhecimento provoque
mudanças significativas na nossa vida, para melhor.

Batismo do Senhor [2]


& Is 42,1-4.6-7 | Sl 28(29) At 10,34-38 | Mt 3,13-17

Com a celebração do Batismo do Senhor, fecha-se o ciclo do Natal e inicia-se,


na segunda-feira, o Tempo Comum. Tempo marcado pela vida pública de Jesus,
sua missão. Assim, a celebração deste domingo, com estreito vínculo com o
mistério do nascimento de Jesus, nos coloca dentro da dinâmica da liturgia e nos
conduz à reflexão sobre a nossa missão de batizados, discípulos e missionários de
Jesus Cristo, a partir do mistério da encarnação e da manifestação de Jesus, a
Epifania, celebrada no domingo passado. O Batismo de Jesus é, na verdade, uma
forma importante dele se manifestar ao mundo. É uma espécie de “passaporte”
para a concretização do projeto de Deus, na pessoa e ação de seu Filho, Jesus, que
se inicia com o evento do batismo.
A primeira leitura deste domingo, extraída do livro do profeta Isaías, fala de um
servo que mantém vínculos tão estreitos com Deus que, ao final, vemos que ele é
muito mais do que um servo, é o próprio Filho de Deus que veio para servir e não
ser servido. Ele é apresentado, recebido e confirmado por Deus. Um servo que
compraz a Deus porque faz a sua vontade. Ajusta a sua vida à vida de Deus, e
nisso consiste a justiça, tema que costura as três leituras de hoje. Sabemos que
esse servo do qual fala Isaías é mais do que servo porque nele está o Espírito de
Deus, segundo Isaías. Espírito que fará dele alguém incansável na luta pela vida,
que transformará a realidade julgando as nações com justiça. Um servo que agirá
pacientemente, não alterando a voz, não fazendo as coisas apenas para aparecer.
Um servo que lutará pela vida, principalmente aquela que está por um fio. Onde
houver um fio de esperança numa vida dilacerada como a cana rachada, um pavio
que ainda fumega, ele estará lá para reacendê-lo. Lutará pela justiça e pela
verdade, não desanimando diante dos obstáculos, das dificuldades, das
perseguições, e não desistindo enquanto não vir a justiça estabelecida na terra. Um
servo cujos ensinamentos se espalharão pelo mundo afora, por terras distantes, as
quais enxergarão, em suas palavras, palavras de esperança. É para isso que Deus o

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chamou, diz Isaías. Chamou-o para a justiça. Um servo trazido por Deus a este
mundo, formado por ele, colocado como centro de uma aliança entre Deus e a
humanidade. Enfim, um servo que será uma espécie de luz para as nações. Com
todas essas referências sobre ele, não dá para duvidar de que se trata de Jesus a luz
que celebramos no Natal cuja missão que agora se inicia, com o batismo nas águas
do Jordão, é abrir os olhos dos cegos e libertar os cativos, livrar os que vivem na
escuridão e promover a graça de Deus. Missão dele e nossa que um dia também
fomos batizados. Com o batismo, fomos chamados para essa missão, não
importando quem somos.
A segunda leitura, dos Atos dos Apóstolos, traz a constatação de Pedro de que
Deus não discrimina ninguém. Não importa quem seja a pessoa, que religião ela
professa, qual a sua etnia etc.; basta que se tema a Deus e pratique a justiça, que
Deus a acolhe e a ama como filha. É a grande novidade trazida por Jesus. Deus
não é mais propriedade de um povo específico, mas de todos aqueles que
acreditarem e praticarem a justiça. Em seguida, Pedro relata o acontecimento
espetacular ocorrido depois do Batismo de Jesus: Deus que unge Jesus com o
Espírito Santo e com poder. Com essa unção e com esse poder dado por Deus,
desenvolveu sua missão por toda parte, curando, expulsando o demônio,
promovendo a vida. Foi a realização das profecias. Essa unção e esse poder lhes
foram dados no batismo, como vemos no evangelho de hoje.
Jesus vem para ser batizado por João. João se surpreende. Aquele do qual ele
não se acha digno nem de desamarrar a correia das sandálias está ali, diante dele,
para ser batizado por ele. João protesta: “eu preciso se batizado por ti, e tu vens a
mim?”. Jesus não precisava do batismo de João porque era um batismo de
conversão, para o perdão dos pecados, e ele não precisava de conversão, não tinha
pecados. Então, por que ele quis ser batizado por João? Entendemos o porquê de
Jesus ser batizado por João na sua resposta: “para cumprir toda a justiça”. Jesus
está ali para fazer a vontade do Pai, para ajustar a sua vida à do Pai. Foi por isso
que ele nasceu de uma mulher, numa família, uma das mais humildes de Nazaré;
enfim, quando ele assumiu a encarnação, condição humana, ele não estava
brincando de ser gente. Assumiu em tudo a nossa condição, menos o pecado,
como diz a Carta aos Filipenses (2,6-11). Assim sendo, ele também assumiu o
batismo com o qual as pessoas eram batizadas. Porém, sai logo da água. Sair logo
da água significa que o batismo de João continua com as suas características de
rito de purificação e conversão, mas o que vem a seguir é o que o capacita para a
missão: o céu se abre, e o Espírito de Deus, na forma de pomba, pousa sobre ele.
É a nova criação. Deus então o apresenta ao mundo: “Este é o meu Filho amado,
no qual eu pus o meu agrado”. Ele está pronto para a missão, a mesma anunciada
na primeira leitura.

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É isso que veremos daqui pra frente, nas trinta e quatro semanas do Tempo
Comum. Jesus indo ao encontro dos marginalizados, curando os enfermos,
libertando os cativos, abrindo os olhos dos cegos, desmascarando os que agem
com falsidade, denunciando as injustiças e os desmandos das autoridades,
enfrentando todo tipo de obstáculo. Com tudo isso ele nos dá grandes lições. As
mesmas dadas aos seus discípulos também servem para nós: temer a Deus e
praticar a justiça.
Com os ensinamentos da liturgia de hoje, do Batismo de Jesus, podemos
renovar as promessas batismais e o nosso compromisso com a sua Igreja.

TEMPO DA QUARESMA
(cor: roxa)

1º Domingo
& Gn 2,7-9; 3,1-7 | Sl 50(51) Rm 5,12-19 ou 12.17-19 | Mt 4,1-11

A liturgia da Palavra deste primeiro domingo da Quaresma traz como tema


principal para a reflexão as tentações. São elas as causas do pecado. Quem se
deixa cair em tentação peca e, pecando, se afasta de Deus. Como este é um tempo
oportuno para revermos nossas falhas, fraquezas e pecados, e corrigi-los, nada
mais apropriado do que verificar quais são as tentações que hoje sofremos e em
que muitas vezes caímos para, assim, podermos nos livrar delas.
A primeira leitura, do livro do Gênesis, traz, oportunamente, o tema do pecado
original e da tentação em que Adão e Eva caíram quando estavam ainda no
Paraíso. Na linguagem figurada deste livro, temos a abordagem do tema do
pecado e de como ele entrou no mundo e continua a entrar na vida das pessoas.
Ou seja, o pecado é resultado da queda em tentações, isto é, em algo que promete
trazer algum tipo de benefício, seja ele de posses (bens materiais), de prazeres
(satisfações pessoais) ou simplesmente de ser (realização como pessoa), mas que
na verdade não traz. Elas não passam de engodo, simulações. A tentação de Adão
e Eva é a de serem iguais a Deus, conhecedores do bem e do mal. É, portanto, a
tentação primordial da humanidade. Querer ser igual a Deus continua sendo o
desejo do ser humano, e qualquer tentação (proposta) com esse teor é atraente
porque toda tentação deve ser algo atraente. Se assim não for, não é tentação.
Ninguém consegue tentar a outro com algo que não seja, aparentemente, bom e
fácil, ou então que prometa superar ou ultrapassar os limites.
As ciências e as tecnologias podem representar a tentação de fazer do ser
humano um ser igual a Deus. Ou ainda transformar as pessoas no próprio Deus.
Vemos isso em diversos campos da ciência, principalmente nos da genética, da
medicina e das tecnologias nucleares. A supremacia do ser humano trazida pela

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ciência o desumaniza e o distancia cada vez mais de Deus, como sabiamente
afirma uma passagem bíblica: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque
escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelastes aos pequeninos”
(Lc 10,21). E mais, “Destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a sabedoria dos
inteligentes” (1Cor 1,19). Quando achamos que sabemos mais do que Deus, ou
que podemos desvendar os seus mistérios, ele nos mostra a dimensão da nossa
ignorância com alguns sinais que revelam a nossa fraqueza. Porém, quando nos
reconhecemos pequenos diante dele, ele nos engrandece e nos fortalece. Assim, o
salmo de hoje (50/51) nos ensina como nos colocar diante de Deus com
humildade. Esse salmo é um clamor de misericórdia. Diante do reconhecimento
das faltas e da infinita misericórdia de Deus, a pessoa clama por piedade com a
promessa de que, tendo os pecados perdoados, levará uma vida de retidão. Deus
ouve o clamor dos que se colocam diante dele, reconhecidos de suas faltas. É essa
a essência do sacramento da reconciliação, recomendado neste tempo da
Quaresma.
A Carta aos Romanos tece um paralelo entre Adão e Jesus, e mostra como Deus
é misericordioso diante dos tropeços humanos. O trecho de hoje relembra que se,
por um lado, um só homem (Adão) maculou com o pecado a humanidade, por
outro, um só homem (Jesus) resgatou do pecado essa mesma humanidade. Em
suma, mostra que a graça de Deus é maior que todos os pecados, mas que nem por
isso devemos abusar da sua misericórdia, tentando a Deus, errando
conscientemente. É preciso perceber que esse infinito amor que Deus tem por nós
é exatamente para purificar-nos dos nossos pecados e não para continuarmos no
pecado porque ele nos perdoa. Enfim, Deus perdoa para que não pequemos mais,
e não para que pequemos mais porque somos perdoados.
Paralelo ao tema do pecado, temos o tema da tentação, como foi referido no
início. O evangelho de hoje trata das tentações de Jesus e nos ajuda a perceber
quais são as tentações que hoje continuam a rondar nossas ações e nos levam a
pecar. Porém, não podemos simplesmente colocar a culpa pelos nossos pecados
nas tentações que sofremos e, assim, continuar a cair nelas, isentando-nos da
nossa responsabilidade. A tentação não nos isenta da culpa. Uma vez que caímos
em tentação, a culpa não é apenas do tentador, mas, sobretudo, de quem nela caiu,
porque quem cai em tentação revela ser uma pessoa fraca, despreparada e de
pouca fé. Deus dá a todos inúmeras oportunidades para não errar, mas, pelos
nossos desejos gananciosos, não ouvimos o que Deus nos ensina. Assim sendo, no
evangelho de hoje, Jesus ensina como resistir às tentações usando as armaduras de
Deus e permanecendo firmes nos seus propósitos.
Jesus foi conduzido para o deserto. Deserto é lugar de carências, de aridez, de
faltas. É onde somos confrontados com nós mesmos e com as nossas necessidades
reais e supostas. O deserto simboliza os momentos de sofrimento e debilidade da

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vida. É nesses momentos que se é mais tentado, porque é quando se está mais
vulnerável. Foram quarenta dias de deserto. Nossa Quaresma é uma referência a
esses quarentas dias de deserto de Jesus. Na quarta-feira de cinzas, entramos nesse
deserto Quaresmal e somos convidados ao jejum, caridade e oração. São
condições que desnudam nossa alma, nos desarmam e, ao mesmo tempo que nos
fortalecem, deixam-nos vulneráveis às tentações. É o que sucedeu com Jesus.
Depois de jejuar, Jesus teve fome. A primeira tentação sofrida é a de alimento
fácil, obtido de forma mágica: transformar pedras em pães para solucionar o
problema da fome. Mesmo com fome, Jesus resiste à tentação. Descobre com o
seu jejum que nem só de pão vive o homem. Nossa vida não consiste apenas na
busca de pão, mas de muitas outras coisas, principalmente na prática da justiça,
porque onde há justiça não falta pão para ninguém, não há mais fome. A fome, a
miséria humana é por falta de justiça. Se há quem não tem pão é porque outros
acumulam, e se há acúmulo de pão, não há justiça. A proposta de Deus é que haja
justiça para que todos tenham pão e sejam suprimidas também outras necessidades
elementares, presentes nas demais tentações de Jesus. Para muitos de nós, seria
bem mais fácil e cômodo obter pão da maneira que o diabo propõe, sem se
comprometer com a justiça.
A segunda tentação está relacionada à religião, à fé, à crença em Deus e nos
seus poderes. O diabo propõe uma religião cujo Deus seja mágico e esteja
submetido aos nossos caprichos. Propõe a Jesus desafiar o poder de Deus,
lançando-se precipício abaixo para que Deus o salve. Quantos de nós nos
relacionamos com Deus dessa maneira? Quantos são os que buscam uma religião
que apresente um Deus que faça todas as suas vontades, esteja submetido a todos
os seus caprichos? Uma religião que propõe um Deus dessa maneira é diabólica.
Deus vem em nosso socorro, mas não podemos nos expor ao perigo apenas para
testar seu poder. Quando fazemos isso, estamos tentando a Deus, e Jesus responde
ao diabo dizendo: “Não tentarás o Senhor teu Deus!”.
A terceira e última tentação está voltada para o poder de ser igual a Deus, algo
semelhante à tentação que vimos na primeira leitura. A tentação de ter bens e,
consequentemente, poderes. Porém, com uma condição: ajoelhar-se diante do
diabo, ser submisso a ele, compactuar com suas ações. É um preço altíssimo a
pagar. Porém, quem não tem fé ou está com a fé enfraquecida, poderá cair nessa
tentação. Não são poucos os que por dinheiro e por poder cometem as piores
barbaridades. São os que aceitam ajoelhar-se diante do diabo em troca de certos
favores. É uma das tentações mais usadas e aquela em que mais se cai. Ela está
presente em todas as instituições sociais, na família, na escola, no trabalho, na
Igreja, na política etc. Jesus resiste a mais essa tentação confirmando sua
fidelidade ao Pai, prestando culto somente a ele, isto é, sendo coerente a ele e aos
seus princípios. Com essa firmeza na fé, expulsa o diabo, ensinando-nos que

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somente poderemos expulsar o tentador e as suas tentações mantendo-nos fiéis a
Deus e aos seus propósitos. Quem se deixa levar por outras coisas se enfraquece e
cai nas tentações.
Com tudo isso, a liturgia de hoje é um profundo alerta para que estejamos
atentos diante de todas as tentações e sejamos resistentes a elas. Essa resistência
só será possível se exercitarmos nossa fé, espiritualidade e compromisso com a
vida.

2º Domingo
& Gn 12,1-4a | Sl 32(33) 2Tm 1,8b-10 | Mt 17,1-9

Neste segundo domingo da Quaresma, o da transfiguração do Senhor, Deus nos


convoca a transfigurar nosso coração para poder enxergar com os olhos de Deus
as realidades humanas que nos cercam e que carecem de transfiguração, isto é, de
mudança.
A transfiguração de Jesus está relacionada ao chamado para a missão. Tanto é
que as duas leituras de hoje tratam desse tema, mostrando que tanto Abrão, na
primeira leitura, quanto Timóteo, na segunda, foram chamados para algo que
transfiguraria não apenas as suas vidas, mas a vida de muitos.
Na primeira leitura, do livro do Gênesis, Deus convoca Abrão para uma missão,
com a promessa de terra e descendência. Para isso ele precisaria sair do local onde
vivia, deixar a família e ir buscar o prometido. Era preciso, portanto, desinstalar-
se ou desacomodar-se. Todo chamado consiste numa mudança, e toda mudança
supõe um deslocamento. Ninguém muda algo se permanecer acomodado, sem
mudanças. Porém, mudanças resultam em algum tipo de desconforto. Depende do
tamanho da mudança o tamanho do desconforto. Por essa razão, somos resistentes
a elas. A tendência do ser humano é se acomodar, buscar um lugar onde se sinta
seguro e ali armar a sua tenda, como queria Pedro no Monte Tabor, depois da
transfiguração de Jesus. Mas não era isso que Deus queria de Abrão, nem de
Timóteo, nem de Pedro, nem de nós.
Para conseguir terra e descendência, Abrão teria que se lançar ao desconhecido.
Ir para onde Deus o havia indicado. Somente alguém de muita fé se lançaria a
proposta aparentemente inatingível. Abrão aceitou o desafio e com a bênção de
Deus partiu, como ele havia indicado. Esse texto nos ensina que, se queremos algo
realmente significativo, que faça a diferença, temos que ter atitudes também
significativas, que rompam com estruturas e situações que nos paralisam. Abrão
nos deu um grande exemplo e por isso é considerado patriarca da fé de muitos
povos, sendo o arquétipo das três maiores religiões do mundo: o judaísmo, o
islamismo e o cristianismo.

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O cristianismo ganhou força na figura de pessoas corajosas, prontas para fazer
mudanças radicais em suas vidas em nome de Cristo e dos seus ideais, como
foram Paulo e Timóteo. Na segunda leitura de hoje, Paulo recorda ao amigo
Timóteo que eles devem sofrer juntos nessa missão para atingir os objetivos a que
se propuseram em nome de Cristo. Era um sofrimento em prol de uma causa e não
um sofrimento vão. O que eles estavam sofrendo era resultado de mudanças em
busca de um mundo melhor, com pessoas melhores, prontas para configurar suas
vidas conforme o evangelho. Sofrimento causado pelas provocações que essas
mudanças suscitaram. Paulo recorda a graça e a misericórdia de Deus, que, além
de os salvar, chamou-os com uma vocação santa e manifestou para eles, através de
Jesus Cristo, a sua eterna presença. É, portanto, uma exortação para que o amigo
não desanime diante dos obstáculos.
Precisamos, às vezes, que Deus se manifeste de alguma forma para não
desanimarmos na aridez da missão. Neste tempo Quaresmal, de travessia
simbólica de um deserto, Deus nos concede momentos em que a sua presença se
torna mais evidente. É preciso percebê-la. Assim, não esmoreceremos e
continuaremos firmes nas propostas que ele nos fez para transfigurar o mundo,
conforme sugere a Campanha da Fraternidade. É o que vemos no evangelho de
hoje, da transfiguração de Jesus.
Jesus toma consigo três dos seus discípulos. Talvez os três que mais precisassem
de provas de que Deus estava com eles. Supomos que seja essa a razão de Jesus
tê-los escolhido e não a outros. Pedro, porque foi um dos que mais tiveram
dificuldade de entender as propostas de Jesus e resistiu a muitos de seus planos,
como, por exemplo, quando Jesus quis lavar seus pés; quando não quis que o
Messias sofresse; quando o negou. Estes e outros momentos similares
demonstram falta de compreensão de quem era Jesus e do seu projeto. Os outros
dois irmãos (Tiago e João) são os filhos de Zebedeu. Aqueles cuja mãe queria que
tivessem lugar de destaque (um à direita e outro à esquerda) quando Jesus
estivesse na sua glória. Dá a entender que seguiam Jesus por interesse. Essas
situações levam a supor que a escolha desses três e não de outros tenha tido
motivos de conversão e de transfiguração do entendimento deles.
Jesus os leva a uma alta montanha. O monte Tabor. Vimos em outro momento
que monte e seus derivados (montanha, região montanhosa etc.) são lugares de
encontro com Deus e, portanto, de desafios. Aqui há um paralelo com a subida de
Moisés ao Monte Sinai para receber as tábuas da lei. Jesus, no monte Tabor, se
transfigura diante dos três discípulos, revelando o seu lado divino, de Filho amado
de Deus, o qual devia ser escutado e obedecido. Essa cena se completa quando
aparecem junto dele Moisés e Elias, representando a lei e os profetas. Pedro fica
maravilhado com tudo o que presencia e o seu desejo é permanecer ali para
sempre. Propõe então a Jesus armar três tendas. Elas representam a acomodação, o

41
oposto daquilo que Jesus deseja que eles façam. Sua transfiguração era para que
eles não se acomodassem jamais. Sua proposta é interrompida por um sinal
teofânico. Deus se manifesta através de uma voz saída das nuvens que apresenta
Jesus a eles: “Este é o meu filho amado, no qual eu pus todo meu agrado. Escutai-
o”. O que Deus diz é fundamental para transfigurar a vida desses discípulos. É
preciso confiar que Jesus é o Filho de Deus. Quando sabemos disso,
verdadeiramente, nossa vida muda de figura e passamos a escutar o que ele diz e a
fazer a sua vontade. É o que Deus quer que façam os discípulos de seu Filho. É o
que a liturgia de hoje nos propõe nessa caminhada Quaresmal: transfigurar nosso
coração para podermos transfigurar a realidade que nos cerca. Somente convictos
de que Deus está conosco seguiremos firmes e não desanimaremos diante dos
obstáculos.

3º Domingo
& Ex 17,3-7 | Sl 94(95) | Rm 5,1-2.5-8 Jo 4,5-42 ou 4,5-15.19b-26.39a.40-42

O terceiro domingo da Quaresma nos coloca diante do poço inesgotável de água


viva que é Jesus, e sacia a nossa sede, ensinando-nos, a exemplo da mulher
samaritana, a fazer o mesmo com os que ainda estão distante dessa fonte.
Há um paralelismo entre os símbolos presentes nas leituras bíblicas deste
domingo com o tempo que estamos vivendo na liturgia e na vida, cheia de
desertos, porém com fontes ocultas, aguardando a nossa aproximação como
peregrinos sedentos da misericórdia e do amor de Deus. A água é o fio que
costura as leituras deste domingo e nos faz refletir sobre coisas fundamentais para
a vida.
A primeira leitura, do livro do Êxodo, relata a caminhada do povo hebreu no
deserto, rumo à terra prometida. Foram quarentas anos dentro dos quais houve
momentos de muita aridez, falta de esperança e revolta contra Deus e contra os
líderes que os conduziam. Hoje, o texto escolhido para a liturgia traz um desses
descontentamentos causados pela falta de água. Sabemos que a água é essencial
para a vida. Sem água, não é possível viver. Quando a água vem a faltar, falta o
“combustível” necessário para continuar caminhando. É o que ocorreu com o
povo hebreu no deserto. Faltou água, e eles se revoltaram contra Moisés e contra
Deus. Nos desertos da nossa vida, quando algo importante chega a faltar, como,
por exemplo, um período de dificuldade financeira, a perda de uma pessoa
querida, algo que queríamos muito e que não deu certo etc., há quem se revolte
contra Deus. Às vezes essa pessoa que se revolta contra Deus e com a Igreja é
gente que frequentava as missas, comungava e até ajudava nas pastorais da
comunidade. Porém, seu desencantamento foi tanto com o ocorrido que sua
primeira atitude é de revolta e afastamento. Algo similar ocorre no texto de hoje

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da primeira leitura. A falta de água faz muitos blasfemarem contra Deus e se
revoltarem, mesmo Deus tendo com eles as melhores intenções. Quando isso
ocorre conosco, indica que nossa fé é fraca; que nosso relacionamento com Deus
não é sólido e não está baseado na confiança; que Deus não passa de alguém que
eu manipulo de acordo com as minhas vontades etc. Mas não é isso que ele quer
de nós. Ele libertou-nos para que mantivéssemos com ele uma relação filial, de
liberdade e não de escravos. É nos momentos de dificuldade, de sofrimento e de
deserto da nossa vida que podemos verificar que tipo de relação temos com Deus
e qual é o tamanho da fé que afirmamos ter. Vale lembrar que, apesar das nossas
incoerências e atitudes que desagradam a Deus, ele não nos abandona e faz de
tudo para suprir as nossas necessidades. É o que vemos na primeira leitura. Deus
ordena a Moisés que tire água da pedra para saciar a sede do povo. Algo que,
humanamente, parece impossível. Tirar água da pedra significa que para Deus
nada é impossível. Por pior que seja o deserto que estamos atravessando e a
situação que estamos enfrentando, se confiarmos plenamente, ele aponta um
caminho, uma solução. É preciso confiar, ter esperança, como pede a segunda
leitura, da Carta aos Romanos.
São Paulo, nesta segunda leitura, mostra que a fé justifica a busca, mesmo que
essa busca pareça inatingível. Que a esperança é que nos move e ela não nos
decepciona porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações. Essa fonte
inesgotável da água que jorra para a vida eterna, que é o amor de Deus, se
derrama constantemente na nossa vida e no nosso coração, basta confiar, ter fé e
esperança. É esse amor que nos aproxima de Deus, por mais pecador e excluído
que seja o ser humano. É o que vemos no evangelho de hoje.
Jesus atravessa a Samaria. A Samaria é tida como um lugar de exclusão, uma
espécie de “deserto”. Os judeus não se davam bem com os samaritanos e vice-
versa. Jesus, mesmo sendo judeu, adentra esse território e para junto do poço de
Jacó. Sua parada é estratégica. Ele sabe que os samaritanos são um povo sedento
de Deus, porém buscam a água da vida na fonte errada. Jesus, à beira do poço,
tem sede. Porém, a sede de Jesus não é da água desse poço, mas a sede de justiça.
A sede de ver esse povo, simbolizado na mulher de cântaro nos braços, tendo vida
plena, o que até então não ocorrera. Desse modo, ele manifesta sua sede à mulher.
É a senha para que ela se abra ao amor de Deus e a suas palavras. Num primeiro
momento, ela se espanta: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que
sou uma mulher samaritana?”. A mulher não havia entendido ainda o significado
do pedido. Era, na verdade, um convite para que ela conhecesse o dom de Deus e
a oportunidade que lhe estava sendo dada para saciar definitivamente uma sede de
vida que, até então, aquele povo não havia conseguido saciar bebendo a água de
outras fontes que não fossem a de Jesus. Percebe-se, aqui, que essa tomada de
consciência é um processo. Aos poucos, depois de alguns questionamentos e

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etapas, a mulher vai percebendo quem estava ali, diante dela. Quando Jesus a
conscientiza de sua condição (vários maridos), isto é, de um povo excluído, que
ainda não encontrou o caminho, mas que o busca incessantemente, ela muda
radicalmente a sua vida e se torna discípula e missionária de Jesus. Vai anunciar
aos demais quem havia encontrado à beira do poço. Muitos samaritanos
acreditaram no seu anúncio e foram ao encontro de Jesus. Ao encontrar com Jesus
e beber da “água da vida” oferecida, o samaritano tornava-se seguidor dele e
propagava a notícia a outros. O texto diz que Jesus permaneceu dois dias com os
samaritanos, e os samaritanos permaneceram (creram) com ele.
Diante disso, somos convidados, nesta caminhada no deserto Quaresmal, a nos
aproximar dessa fonte de água viva que é Jesus e permanecer com ele, como
fizeram os samaritanos. Quem bebe dessa água que é Jesus muda radicalmente a
sua vida, como fez a mulher samaritana. Assim sendo, o convite desta liturgia é
para pararmos de reclamar pelas “faltas” que sentimos e nos dirigir à beira do
poço onde está Jesus. Ele nos ensinará a encontrar a água que nos sacia da sede de
Deus, e, saciados, seremos multiplicadores dessa Boa Notícia a todos aqueles que
ainda não encontraram essa fonte e continuam a buscar água em fontes erradas.
Quem o conheceu o adora em verdade e em espírito, e não se prende a pequenos
detalhes que muitas vezes nos fazem perder de vista aquilo que é essencial para a
nossa fé.

4º Domingo
& 1Sm 16,1b.6-7.10-13a | Sl 22(23) Ef 5,8-14 | Jo 9,1-41 ou 9,1.6-9.13-17.34-38

O quarto domingo da Quaresma, também conhecido como domingo da alegria


(Laetare), sinaliza com mais evidências os sinais da Páscoa que se aproxima. É
como se fosse um oásis encontrado no deserto, ou uma luz no fim do túnel. A luz
é, portanto, o tema central deste domingo (no domingo anterior foi a água), que
segue com uma catequese batismal, apresentando mais um símbolo que ajuda não
apenas na preparação daqueles que receberão o batismo na noite da vigília pascal,
mas também na nossa missão de batizados em preparação para a Páscoa. A luz
que ilumina nossa inteligência para enxergarmos a realidade com os olhos de
Deus e não fazer julgamentos precipitados (1ª leitura); a luz da qual renascemos
pelo batismo, que nos faz agir com bondade, justiça e verdade (2ª leitura); a luz
trazida por Jesus, que dissipa as trevas das nossas cegueiras (evangelho).
A primeira leitura, do segundo livro de Samuel, mostra, no processo de escolha
e unção do rei Davi, o apelo para olharmos as pessoas e não julgá-las pela
aparência, como costumamos fazer. Samuel, quando chega à casa de Jessé para
ungir um de seus filhos, logo imagina que o mais belo de todos, Eliab, seria o
escolhido por Deus, mas o Senhor lhe diz: “Não olhes para a sua aparência nem

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para a sua grande estatura, porque eu o rejeitei”. Samuel julga pelos critérios
humanos, mas Deus não. O escolhido nem estava presente. Era o menor de todos,
Davi, desclassificado pelos critérios humanos, mas escolhido por Deus, que vê o
coração e não a aparência dos seus filhos. Assim, Deus nos ensina a ver as pessoas
com o seu olhar. Não são poucas as vezes em que nos precipitamos, julgando as
pessoas pela aparência para depois termos surpresas quando elas se revelam de
outra maneira. Para ter o discernimento de não fazer julgamentos precipitados, é
preciso viver como filhos da luz, como diz Paulo na segunda leitura de hoje.
Os filhos da luz mostram quem são de fato por seus frutos, isto é, por suas
ações. Elas consistem em atos de bondade, justiça e verdade. O filho da luz sabe
discernir o que agrada a Deus e procura fazer a sua vontade. Quem é filho da luz
não compactua com as obras das trevas. Ao contrário, tem atitude profética e as
desmascara. O filho da luz anda de cabeça erguida, não por orgulho, mas porque
tem a consciência tranquila. Seus atos não precisam ser escondidos porque são
bons, justos e verdadeiros. Ele enxerga a realidade conforme Deus a quer e age de
maneira condizente com a vontade de Deus.
O evangelho de hoje, da cura do cego de nascença, mostra que Deus nos resgata
da lama dos nossos pecados e nos propõe vida nova, transformando a nossa vida.
O texto de hoje, como foi dito no início, é destinado à catequese daqueles que
seriam batizados. O objetivo é mostrar que, no batismo, renascemos para uma
vida nova, libertos da escuridão do pecado, da cegueira que impede de vermos a
realidade com o olhar de Deus. Porém, não basta o batismo, é preciso ser
discípulo, seguir Jesus, como fez o cego do evangelho de hoje.
Jesus, ao curar o cego de nascença, suscita uma polêmica na comunidade.
Primeiro porque fez isso em dia de sábado. Os judeus o acusavam de desrespeitar
a lei de Deus e, por essa razão, ele não podia ser alguém vindo da parte de Deus.
Por outro lado, é acolhido pelo que foi curado e pelos que presenciaram a cura.
Como pode alguém que não vem de Deus fazer coisas tão boas para o seu
próximo? Questionava aquele que foi curado, ao afirmar: “Sabemos que Deus não
escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade”. Se
Jesus fosse, de fato “um pecador”, como afirmava alguns, ele não teria feito tal
obra.
Não obstante a cura e a polêmica por ela suscitada, Jesus quer mostrar quanto
ainda somos cegos. Enquanto nosso olhar estiver condicionado àquilo que as
estruturas opressoras propõem, não estamos ainda prontos para as obras da luz. É
preciso libertar nosso olhar, nossa consciência, para enxergarmos a realidade de
outra maneira. Somente assim estaremos prontos para segui-lo.
Ao ter seus olhos abertos, aquele que era cego faz a sua profissão de fé e se
propõe a seguir Jesus. Ele nos chama a atenção para olharmos para dentro de nós
e avaliar como anda a nossa profissão de fé, a nossa prática religiosa, o nosso

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processo de conversão, enfim, o nosso seguimento. A Quaresma é esse convite de
Cristo a fazermos a revisão da nossa caminhada e ver se estamos enxergando bem
a realidade para poder segui-lo, verdadeiramente.

5º Domingo
& Ez 37,12-14 | Sl 129(130) | Rm 8,8-11 Jo 11,1-45 ou 11,3-7.17.20-27.33b-45

Estamos chegando ao final da nossa caminhada Quaresmal rumo à Páscoa. Este


é o quinto e penúltimo domingo da Quaresma. No próximo domingo (o domingo
de Ramos), entraremos na dinâmica da Semana Santa e nos colocaremos ao pé da
cruz, com Jesus, no Calvário, para ressuscitarmos com ele. Antes, porém, ele nos
dá uma prévia da ressurreição. A ressurreição é o tema que perpassa as leituras
deste quinto domingo, revelando para nós o Deus da vida, através de Jesus que é a
ressurreição e a vida.
Neste quinto domingo, seguimos com a experiência batismal propiciada por este
tempo de preparação para o renascimento a uma vida nova, trazida pela Páscoa.
Nos domingos anteriores tivemos a oportunidade de lidar com os símbolos
batismais que geram vida nova (a água e a luz). Vimos no terceiro domingo Jesus
como a água viva que definitivamente sacia toda sede, inclusive a sede de vida em
plenitude, através do diálogo com a samaritana à beira do poço de Jacó. Nesse dia
ele nos ofereceu a água que lava nossos pecados e nos faz ressurgir para uma vida
nova. No domingo passado, ele se apresentou para nós como luz. A luz que
ilumina nossos passos, que aponta o caminho a ser seguido e que nos faz criaturas
praticantes das suas obras, as obras da luz. Ao abrir os olhos do cego de nascença,
ele também abriu nossos olhos, nos libertou de muitos tipos de cegueira e nos fez
enxergar a vida. Hoje ele se apresenta como a ressurreição e a vida. Quem nele
acreditar, mesmo que morrer, viverá (cf. Jo 11,25).
A primeira leitura, da profecia de Ezequiel, trata de uma situação de morte que
foi transformada em vida pelo amor misericordioso de Deus, que não quer a morte
das suas criaturas, mas que todos vivam. O povo estava no exílio da Babilônia,
vivendo oprimido, como se estivesse na sepultura. E é essa mesma a imagem que
o profeta Ezequiel usou para descrever aquela realidade de sofrimento e morte do
povo exilado de sua pátria, à mercê dos opressores. No texto que antecede o texto
de hoje, Ezequiel descreve a situação de morte desse povo, comparando-o a ossos
ressequidos, sem vida. Ele pinta com cores fortes o quadro de miséria em que vive
o povo de Deus. Porém, em meio a essa situação, apresenta a mão de Deus que faz
com que esse povo recobre a vida e se reerga de suas misérias, saindo dos seus
túmulos, isto é, de sua condição de morte. É a mais latente imagem da
ressurreição usada para mostrar que ela começa aqui, quando se resgata da miséria
e proporciona a vida das pessoas. A figura de linguagem usada por Ezequiel é

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muito oportuna nesse momento da Quaresma, às vésperas da Páscoa. Deus vai
abrir as sepulturas nas quais vivem os que se desviam do seu caminho e retirar
delas os que ali estão conduzindo-os à vida plena. Deus se revela nesse gesto de
recuperação da vida, como Jesus se revelou na recuperação da vida de Lázaro, ao
abrir-lhe a sepultura e ordenar que saísse dela para a vida. A partir de então esse
povo não será mais o mesmo, oprimido e subjugado, mas terá o Espírito de Deus.
E um povo que tem o Espírito de Deus, a ele pertence. Pertencendo a ele, ninguém
mais o subjugará nem o colocará numa situação de morte. É o que Paulo insiste na
segunda leitura de hoje, através da Carta aos Romanos.
Afirma Paulo que, se o Espírito de Deus habita em nós, mesmo que estejamos
feridos de morte pelos pecados cometidos, ele nos recupera para a vida, pela sua
graça e justiça. É isso que estamos vendo durante todo este tempo da Quaresma. O
tempo favorável para a conversão, isto é, para deixar de lado as obras da carne e
voltar a Deus de todo o coração. É preciso, portanto, que façamos a nossa parte,
deixando de lado procedimentos que desagradam a Deus. Se assim o fizermos,
ele, que recuperou a vida do povo hebreu e ressuscitou Jesus Cristo dentre os
mortos, vivificará nossos corpos mortais, nos concederá a vida plena, conforme
prometeu a Israel e a sua descendência. Ele abrirá as covas que cavamos devido
aos nossos pecados e nos resgatará para a vida, como fez Jesus ao amigo Lázaro.
Lázaro está doente. A doença de Lázaro pode representar uma situação de
pecado que o está conduzindo à morte. Jesus ama Lázaro como ama todos os
pecadores, porque somente o amor consegue livrar alguém dos seus pecados e
conduzir à vida. Jesus foi acusado de ser amigo dos cobradores de impostos e dos
pecadores e de fazer refeição com eles. Jesus era muito amigo de Lázaro e de sua
família, representada pelas irmãs Marta e Maria. Elas sabem do amor que Jesus
tem por elas e o avisam da doença do irmão.
O povo judeu, Marta, Maria e Lázaro representam diferentes facetas da
comunidade que se relaciona com Jesus, de diferentes maneiras, refletindo
diferentes concepções a respeito dele. Marta é a comunidade que crê, que professa
a sua fé, que vai ao encontro de Jesus consciente de quem ele é. Maria representa
a comunidade que segue, mas ainda não está totalmente convicta. Lázaro
representa a comunidade que, apesar do amor de Jesus, continua alienada, presa a
suas amarras, suas sepulturas. E o povo judeu representa aqueles que seguem sem
saber o porquê de estar seguindo. Vão com os outros, agem conforme os outros
agem ou determinam. Esses diferentes personagens revelam os diferentes
procedimentos que ainda temos em relação a Jesus e as suas propostas. Dentre
todos esses procedimentos, o de Marta é o que mais se aproxima do
comportamento ideal. Porém, trazemos dentro de nós um pouco de cada um deles.
Este quinto domingo nos propõe que professemos a nossa fé no Cristo Jesus, a
exemplo de Marta, e assim, sigamos com ele até o fim, onde vislumbraremos a

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Páscoa, a ressurreição. Que a promoção da vida trazida nesta liturgia de hoje nos
ajude a promover a vida de todo aquele que vive em situação de miséria,
sofrimento e morte. Que possamos ajudar os Lázaros de nossos tempos a sair de
seus túmulos, retirando os obstáculos, as amarras que impedem que as pessoas
tenham vida plena. Que saibamos também descobrir quais são os nossos túmulos e
as nossas amarras e possamos nos libertar delas para servir a Deus e ao próximo,
livremente.

Domingo de Ramos
(cor: vermelha)
& Procissão: Mt 21,1-11 Missa: Is 50,4-7 | Sl 21(22) | Fl 2,6-11 Mt 26,14-27,66
ou 27,11-54

A celebração de hoje é a da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, depois dessa


caminhada, em que o acompanhamos, durante toda esta Quaresma. Com ela nós
entramos na Semana Santa para participar da Paixão, morte e ressurreição do
Senhor. A liturgia de hoje concentra parte do que vamos viver nesta semana
decisiva, da consumação da missão de Jesus e do legado que ele deixou aos seus
discípulos e missionários.
O primeiro evangelho, lido fora da igreja, no local da bênção dos ramos,
apresenta Jesus entrando em Jerusalém e sendo aclamado rei, o filho de Davi. A
cidade inteira que se agita e o identificou como o “profeta Jesus de Nazaré da
Galileia”. Toda euforia, alegria pela entrada do filho de Davi em Jerusalém vinha
confirmar uma expectativa há muito esperada. Porém, a alegria e a expectativa
não iriam durar muito. Algumas pessoas devem ter estranhado o fato de ele entrar
montado num jumentinho em vez de vir numa carruagem de guerra, própria dos
reis. Havia algo de diferente. Esse que chega seria de fato diferente, mas muitos
não haviam entendido; outros, mesmo sem compreender, aclamaram mesmo
assim. O Messias que estavam esperando era o da concepção judaica. Aquele que
viria com todo poder e transformaria, por si, sozinho, todas as coisas. Seria
vitorioso, não sofreria, não seria humilhado, e todos regozijariam com a sua
presença. Esse era o motivo da alegria, da festa. Por esse motivo estendiam roupas
e ramos de oliveira pelo lugar onde ele iria passar. Era um gesto de
reconhecimento, como fazemos hoje, com os nossos ramos.
Quantos de nós buscamos e nos alegramos com o Cristo vitorioso. Aquele que
resolve todos os nossos problemas, cura todas as nossas enfermidades e angústias,
faz tudo por nós. Esse Cristo é utópico e não existe. Ou existe apenas na nossa
concepção errônea sobre ele. O Cristo, Messias filho de Deus, veio ao mundo para
nos resgatar do pecado e da morte, e para isso assumiu a morte com todas as suas
agruras. É o preço da vitória. Para chegar à glória é preciso, antes, passar pela

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cruz. Não existe ressurreição sem morte. Um Cristo que não passou pela cruz não
é Cristo. Assim esperavam aqueles que o aclamaram rei na entrada de Jerusalém.
Como o Messias não respondeu a essas expectativas, logo depois eles gritaram:
“crucifica-o”. Preferiram Barrabás, um ladrão, em vez de Jesus. Não são poucos
os que, dois mil anos depois, ainda preferem Barrabás em vez de Cristo.
Quem pratica apenas uma religião de louvores e glórias, e não assume as cruzes
que estão em sua volta e não enxerga o irmão que sofre, segue equivocadamente a
Cristo. Na primeira decepção vai se afastar da Igreja e se revoltar contra Deus. Ou
então vai buscá-lo em outros lugares, ou outras religiões que prometem um Deus
mágico que solucionará todos os seus problemas. Mas Jesus não se deixa enganar.
Basta prestar atenção nas suas Palavras e na sequência da liturgia de hoje que
vamos entender perfeitamente quem ele é.
Ele é o Emanuel, o Deus conosco anunciado no Natal. Ele veio como Deus, na
condição divina, mas desapegou-se dessa condição para se aproximar de nós e
experimentar a nossa dor. Somente entende a dor do outro quem passa pela
mesma dor. É o significado da compaixão, vivida por Jesus durante a sua vida
pública. Ele não foi um teórico do sofrimento humano. Ele sentiu na carne tudo o
que sentimos, e muito mais. Quis experimentar os piores sofrimentos para nos
redimir e nos salvar. Por essa razão o hino cristológico da segunda leitura, da
Carta aos Filipenses, diz com muita clareza: “Jesus Cristo, existindo em condição
divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação”. Ele poderia se apresentar
como o povo queria, apenas na condição divina, satisfazê-lo. Mas seu amor por
nós é tão grande que ele quis ser um de nós, esvaziando-se dessa primeira
condição. Esvaziar-se da condição divina não significa deixar de ser Deus, mas
assumir em tudo a nossa condição (exceto o pecado). Ele não veio representar um
papel, brincar de ser gente. Ele se tornou de fato um de nós e melhor do que
ninguém soube o que é a limitação humana. Ao conhecer a limitação humana,
através das perseguições, humilhações e sofrimentos, redimiu-nos de tudo isso e
comprovou que não estamos sozinhos. Que é possível vencer o sofrimento, por
maior que ele seja. É o que vimos na primeira leitura, do servo sofredor, narrada
por Isaías, ao qual atribuímos a figura de Jesus.
Nesta leitura Isaías apresenta aquele que teve a língua adestrada para dizer
palavras de conforto à pessoa abatida. Foram tantos os momentos que vimos Jesus
indo ao encontro de sofredores (marginalizados, doentes, aleijados, pessoas que
haviam perdido entes queridos, pecadores etc.). Levou-lhes a esperança e lhes
resgatou a dignidade. Foi aquele que esteve sempre pronto a ouvir as pessoas. Que
todas as manhãs exercitavam os ouvidos para ouvi-los nos seus sofrimentos e nas
suas necessidades, prestando atenção ao outro, respeitando-o, dignificando-o pela
sua valorização. Assim, os últimos foram os primeiros no seu tratamento e
ensinou seus discípulos a fazerem o mesmo. Contudo, não foi compreendido.

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Mesmo sendo extremamente humilde, foi perseguido, ameaçado e crucificado,
como vimos na narração da Paixão.
Diante de Pôncio Pilatos foi interrogado, acusado de blasfêmia, de querer
usurpar o lugar do rei, e de muitas outras coisas. Ele não ofereceu resistência nem
voltou atrás, como diz a primeira leitura. Pelo contrário, ofereceu as costas para
que lhe batessem e a face para lhe arrancarem a barba. Não desviou o rosto das
cusparadas e foi coerente com o que havia ensinado: “se alguém lhe dá um tapa
numa face, ofereça também a outra; se alguém lhe toma o manto, deixa que leve
também a túnica” (Lc 6,29). Assim, os que o aclamavam rei quando ele entrou em
Jerusalém, agora estavam ali, gritando para crucificá-lo. Zombavam dele,
participavam da sua humilhação. Ele os havia decepcionado. Mas não
decepcionou a Deus. Decepcionou aqueles que não tinham compreendido quem
ele era. Só se decepciona com Jesus quem não o conhece.
Com sua coerência e fidelidade a Deus, abalou as estruturas do poder da época e
continua abalando os poderes deste mundo. É o que mostra o final da narrativa da
Paixão lida neste dia: a cortina que se rasga; a terra que treme; as pedras que se
partem; os túmulos que se abrem e os mortos que ressuscitam. São sinais da
ressurreição já presentes neste início da Semana Santa. É a força de Deus que
esmaga a morte com a Paixão de seu Filho.
Com todos esses elementos, profundamente teológicos e catequéticos, somos
agora colocados na dinâmica desta semana tão importante do calendário litúrgico.
Tudo o que vimos e ouvimos neste dia deve nos estremecer e nos acompanhar não
apenas nesta semana, mas em todos os dias da nossa vida. Que os ramos que hoje
abençoamos sejam o símbolo do nosso compromisso com Cristo e com os nossos
irmãos. Ele não é um amuleto ou algo mágico, que devemos ter para espantar os
males, como muitos pensam. Mas que seja um sinal da nossa declaração e
aclamação de Cristo como o rei da nossa vida. Sejamos, portanto, coerentes com
ele e não o abandonemos nas horas das cruzes. Que o exemplo que ele nos deixou
continue nos inspirando para servir ao próximo na humildade.

TRÍDUO PASCAL E TEMPO PASCAL


(cor: branca)

Quinta-feira Santa
& Ex 12,1-8.11-14 | Sl 115(116B) 1Cor 11,23-26 | Jo 13,1-15

A liturgia de hoje, da instituição da Eucaristia, tem como tema central a


memória. Memória não como uma simples lembrança, mas no sentido teológico
do termo, de viver e reviver algo medular da nossa fé: o mistério de um Deus que
dá a vida por nós para que façamos o mesmo. Esta é, portanto, a liturgia que abre

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o tríduo pascal, colocando-nos dentro da dinâmica da Paixão, morte e ressurreição
do Senhor.
A primeira leitura é extraída do livro do Êxodo e faz memória da saída do Egito,
a páscoa judaica, em que o povo hebreu, sob a liderança de Moisés e Aarão, dá
início aos ritos de passagem da escravidão para a terra prometida. Todos os
símbolos presentes nesta primeira leitura evocam o processo de libertação. É um
momento singular na história do povo hebreu, um marco inesquecível, o começo
de uma nova vida, simbolizada nas expressões “o começo dos meses”, “o primeiro
mês do ano”, ou seja, o ponto de partida, o marco referencial. Aqui começa um
novo tempo na história da salvação. Todos devem estar a postos, isto é, em
prontidão. Devem estar prontos para partir e para partilhar, prontos para se
desinstalar e instalar nos seus corações o desejo de um novo céu e uma nova terra
onde não haja mais escravidão; onde as pessoas sejam tratadas com dignidade;
onde todos tenham seus direitos respeitados e o necessário para viver bem, sem
precisar ser submetidos a humilhações, e tantos outros sonhos e promessas de vida
plena. Porém, para que essas conquistas fossem atingidas, foi preciso muita
coragem, garra e perseverança na busca dos ideais prometidos por Deus. Assim, o
primeiro passo foi organizar o povo, convocá-lo à união e à solidariedade. “Povo
unido jamais será vencido”, diz um grito de protesto que virou canção. Onde há
união, há comunhão, porque a palavra comunhão significa exatamente isso:
comum-união. E a comunhão se dá na partilha. Assim sendo, a comunidade
(comum-unidade) dos filhos de Israel é convocada a partilhar. Cada família
tomaria um cordeiro para preparar a ceia. Se a família fosse pequena deveria
partilhar o cordeiro com os vizinhos, de modo que não sobrasse nada e todos
ficassem satisfeitos. Tudo devia ser muito bem calculado para que não houvesse
desperdícios e nem faltasse a ninguém. Assim, o primeiro ensinamento da
comunhão da páscoa judaica foi a partilha. É algo que vemos também no centro
da Páscoa e da comunhão cristã. Outros símbolos aparecem nesta primeira leitura
que nos ajudam a entender a memória que está sendo feita: com parte do sangue
dos cordeiros imolados se untavam os marcos e a travessa das portas, lembrando
os perigos e, ao mesmo tempo, a proteção de Deus. As ervas amargas eram a
memória das dificuldades enfrentadas e por enfrentar. Os pães ázimos eram o
sinal da pressa para essa passagem. Não havia tempo de fermentar os pães. Esses
alimentos, carregados de simbolismo, eram consumidos numa atitude de
prontidão: comer com os rins cingidos, sandálias nos pés, cajado na mão, prontos
para a partida, prontos para a passagem, prontos para a missão. Tudo feito às
pressas, pois era o momento decisivo, a páscoa, isto é, a passagem tão esperada.
Portanto, não se podia esperar. Era hora de fazer acontecer, e urgentemente. E a
mão de Deus estava com eles, protegendo-os de todas as adversidades. Assim,
temos na primeira leitura a memória da páscoa judaica, ou a festa memorável,

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como o próprio texto nos diz numa exortação para a celebração que deve ser feita
para sempre, como instituição perpétua. É, portanto, a instituição da páscoa
judaica.
A segunda leitura, da primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, trata da
instituição da Eucaristia. A nossa comunhão com o corpo e o sangue de Cristo, o
Cordeiro imolado, que nos ensinou a partilhar, e cujo sangue derramado na cruz
untou nossas vidas como sinal do amor de Deus por nós. A leitura traz, portanto, o
cerne da nossa celebração eucarística, a memória da Paixão, morte e ressurreição.
A essência do mistério pascal. Como a páscoa judaica alimenta a identidade do
povo judeu, a Eucaristia alimenta a nossa identidade cristã. Ela coloca Jesus
dentro da nossa vida e a nossa vida dentro da vida de Jesus, amalgamando-nos
com ele. Assim, cada vez que fazemos memória da sua vida doada por nós,
celebrando a Eucaristia, ele se faz presente na nossa vida, aproximando a nossa
humanidade da sua divindade. A Eucaristia deve cumprir essa função na nossa
vida, santificando-nos. Mas isso não se dá de modo mágico, bastando apenas
comungar. É preciso compromisso com ele. A comunhão deve ser, portanto, o
resultado da nossa entrega; da doação da nossa vida pelos irmãos; da comunhão
com os seus ensinamentos e seu exemplo de vida. Desse modo, todas as vezes que
comungamos da Eucaristia estamos fazendo essa memória até que ele venha.
Assim, a celebração da Eucaristia é também a instituição perpétua da Páscoa de
Jesus.
A Páscoa de Jesus é a nossa Páscoa. Páscoa que fazemos memória na Eucaristia.
Eucaristia que é serviço, doação total, sem limites, comunhão. É o que vemos
hoje, no Evangelho de são João, que destaca o elemento do serviço ao próximo
como essencial para uma verdadeira comunhão. Não é possível comungar com
Cristo se não seguirmos o seu exemplo. O exemplo do serviço na humildade.
Durante a ceia, já sabendo da traição de Judas, ele dá um dos últimos e mais
contundentes exemplos de comunhão: levanta-se da mesa, tira o manto, pega uma
toalha, amarra-a na cintura e, com água numa bacia, lava os pés dos discípulos.
Quem fazia isso eram os servos, no sentido estrito do termo. Jesus dá o exemplo
do servo para que todos pudessem ser servos uns dos outros. Servir ao próximo é,
portanto, a mensagem central do evangelho de hoje e da memória de Cristo.
Eucaristia é, essencialmente, serviço, doação sem restrições.
Assim sendo, é preciso descer dos pedestais onde nós nos encontramos devido
aos nossos cargos, títulos e posses, e tirar o manto do orgulho, da arrogância e do
poder; e colocar o avental da humildade, da mansidão, da simplicidade, da pureza
de coração e nos abaixarmos para lavar os pés dos nossos irmãos, isto é, para
ajudá-los, para acolhê-los, para tratá-los com igualdade e com dignidade, para
servi-los. A lição que Cristo dá aos seus Apóstolos no dia de hoje é uma lição que
não devemos esquecer. Não podemos fazer dessa celebração uma mera

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encenação, como se ela fosse um teatro, mas devemos vivê-la naquilo que ela tem
de essencial, de teológico, de verdadeira memória de Jesus.
Com essa celebração de hoje a Eucaristia se recobre de significado. Não é
possível sair dela do mesmo jeito. Quem sai da celebração da instituição da
Eucaristia do mesmo jeito que chegou não entendeu o seu significado teológico,
não comungou verdadeiramente.

Sexta-feira Santa
(cor: vermelha)
& Is 52,13-53,12 | Sl 30(31) Hb 4,14-16; 5,7-9 | Jo 18,1-19,42

A reflexão hoje proposta pela liturgia da Palavra versa sobre a doação da vida. É
o ápice da missão de Jesus que consuma na cruz o exemplo supremo de amor. Em
vista disso, São Paulo da Cruz recorda que “a Paixão de Cristo é a obra mais
estupenda do amor de Deus”. Por essa razão, hoje não é dia de chorar ou se
lamentar por Jesus, num dolorismo desconectado da realidade, mas de solidarizar
com ele, estando, a exemplo de Maria e do discípulo amado, aos pés da cruz,
numa demonstração do nosso amor por ele. Mas isso não se faz apenas com a
participação da cerimônia da paixão, como muitos imaginam, vindo à igreja
apenas na Sexta-Feira Santa, mas com aquilo que ela representa na sua essência: a
entrega a Deus e ao próximo, solidarizando com as lutas em prol da vida, como
Jesus nos ensinou durante a sua vida pública, sem temer os obstáculos e as
perseguições, como vemos, hoje, na primeira leitura sobre o servo sofredor.
Isaías destaca que, da mesma maneira que as pessoas ficaram chocadas com a
desfiguração do servo, elas se chocariam com a sua transformação e o que esse
sofrimento iria provocar no mundo e nas pessoas: uma transformação radical. É
um sofrimento extremado, mas que não foi em vão porque tinha objetivos bem
concretos: transformar toda dor e sofrimento em alegria. É um prenúncio do que
seria a cruz de Cristo e todo o seu processo persecutório. Aquele que foi
considerado a escória da humanidade revelou-se em todo seu esplendor como o
Salvador dela. Todo o relato da condição do servo apresentado por Isaías é
atribuído a Jesus, como vemos hoje na narrativa da paixão. Ele enfrenta firme e
calmamente todo o julgamento, condenação e morte, sem esboçar resistência. Age
desse modo não pela falta de esperança, mas pela total confiança em Deus, que
não o abandonou, embora muitos imaginassem que ele o tivesse abandonado. Ali,
ao pé da cruz, estavam presentes algumas pessoas que representavam aqueles que
foram e continuariam fiéis a ele. Dentre essas pessoas, Maria, representando a
comunidade judaica que seguiu Jesus e que continuaria fiel a sua missão; o
Discípulo amado, representando os que assumiram o compromisso com ele, o
novo discipulado.

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Assim, confiante e firme, Jesus entrega sua vida por nós. Depois de termos
ouvido, na liturgia de ontem, seu ensinamento sobre o serviço, hoje ele dá a
própria vida, coerente com o que havia dito: “o Bom Pastor dá a vida por suas
ovelhas”, ou “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus
amigos”. Ao dar a sua vida por nós ele nos deixou o maior ensinamento de amor.
Viver a paixão de Cristo é, portanto, solidarizar com os que hoje sofrem; é
compadecer-se da dor do outro; é se consumir para que o outro tenha vida e a
tenha plenamente. Cristo, o sumo sacerdote do Pai, nos deu esse exemplo.
A Carta aos Hebreus, lida na segunda leitura de hoje, fala exatamente disso:
“temos um sumo sacerdote eminente, que entrou no céu, Jesus, o Filho de Deus”.
Temos, portanto, todas as razões do mundo para permanecermos firmes na missão
que ele nos confiou e na fé que professamos. Ele provou na cruz o quanto é capaz
de se compadecer de nós, das nossas fraquezas, de nos defender. Ele assumiu
nossa fraqueza, nossa condição limitada (exceto o pecado) para nos tornarmos
partícipes da sua fortaleza. Qualquer dor não é maior do que a que ele passou por
nós, como vimos hoje no relato da paixão. Isso deve servir de consolo e de alento
quando acharmos que a nossa cruz está pesada demais; quando reclamamos por
coisas tão pequenas; quando achamos que a vida não tem sentido ou valor. Basta
olhar para a cruz e veremos quanto a vida tem valor. Um Deus que é capaz de um
gesto como esse por nós merece todo o nosso respeito e o nosso amor.
Contudo, somos convidados, na segunda leitura de hoje, a nos aproximar do
trono da graça. E com a liturgia da Paixão somos convidados a nos aproximar da
Páscoa, a maior de todas as graças que Deus nos concedeu. Cristo foi atendido
pelo Pai nos seus clamores. Nós somos atendidos por ele quando fazemos da
nossa vida uma entrega total. Que possamos, com a celebração de hoje, aprender o
que significa a obediência a Deus e participar da Páscoa da ressurreição.

Sábado Santo
& Gn 1,1-2,2 ou 1,1.26-31a | Sl 103(104) Gn 22,1-18 ou 22,1-2.9a.10-13.15-18 Sl
15(16) | Ex 14,15-15,1 | Sl (Ex 15) Is 54,5-14 | Sl 29(30) | Is 55,1-11 Sl (Is 12) | Br
3,9-15.31-4,4 | Sl 18B(19) Ez 36,16-28 | Sl 41(42) | Rm 6,3-11 Sl 117(118) | Mt
28,1-10

A liturgia desta noite santa faz memória da passagem de Nosso Senhor Jesus
Cristo da morte à vida. É a vigília da Páscoa do Senhor. A vigília das vigílias. A
mãe de todas as vigílias. Assim, a cerimônia de hoje é carregada de símbolos e é a
mais longa de todas as celebrações. Ela é composta de quatro partes: a celebração
da luz; a liturgia da Palavra; a liturgia batismal e a liturgia eucarística.
A primeira parte, a liturgia da luz, divide-se em três partes: a primeira
corresponde à bênção do fogo novo, em que se prepara e acende solenemente o
Círio Pascal, cuja chama representa o Cristo Ressuscitado, luz do mundo. O Cristo

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de ontem, hoje e sempre, o tempo e a eternidade, o Alfa e o ômega, o princípio e o
fim. Ele permanece aceso durante todo o Tempo Pascal e nas celebrações solenes,
como, por exemplo, nos batizados. A segunda parte deste primeiro momento é a
procissão com o Círio aceso e as luzes da Igreja apagadas. Representa a luz das
luzes, a qual acenderá as nossas chamas, simbolizando a luz de Cristo que
caminha entre nós e nos preenche, ilumina nossa alma, aponta o caminho e nos
faz pessoas iluminadas por Deus. Nesse momento, cada um acende a sua vela na
chama do Círio, tornando a igreja toda iluminada e iluminando também a nossa
consciência de povo de Deus a caminho do Reino definitivo. Enquanto as velas
são acesas, apresenta-se a luz de Cristo. Quando todas as velas estão acesas,
acendem-se também as luzes da igreja e proclama-se a Páscoa do Senhor com o
canto do Exulte, que corresponde à terceira e última parte do primeiro momento
da liturgia desta noite santa.
A segunda parte da cerimônia é a liturgia da Palavra. Através de nove leituras,
sendo sete do Antigo Testamento e duas do novo, intercaladas por salmos,
resgata-se toda a história da salvação, desde a criação do mundo, passando pelo
chamado de Deus, o processo de libertação da escravidão do Egito e a condução à
terra prometida, as leis e os profetas até a Nova Aliança, simbolizada no Cristo,
luz do mundo. Entre as leituras do Antigo e do Novo Testamento há o hino de
louvor, em que fazemos memória dessa passagem com a entoação solene do hino
de louvor (glória). Em seguida, lê-se a Epístola aos Romanos, que recorda o nosso
batismo em Cristo e nosso compromisso com ele. Com o batismo, nossa vida é
transformada e tudo o que é velho morre em nós, para renascermos com ele para
uma vida nova. Após a proclamação da epístola, entoa-se solenemente o canto de
aleluia e proclama-se o evangelho da ressurreição de Cristo. Nele vemos as
mulheres como as primeiras a presenciar e testemunhar a ressurreição, mostrando
sua importância como discípulas e missionárias na Igreja. Não é por acaso que na
Igreja, hoje, a maioria são mulheres. São elas que assumem os principais trabalhos
na comunidade, que levam adiante a missão e continuam a testemunhar a
ressurreição de Cristo através do seu trabalho, da sua dedicação, enfim, da doação
da vida pela comunidade.
A terceira parte da cerimônia é a liturgia do batismo. É quando batizamos as
pessoas que foram preparadas durante a Quaresma e, junto com elas, renovamos
nosso compromisso de batizados, renunciando a tudo o que possa impedir de
sermos autênticos discípulos e missionários e reassumindo o nosso compromisso
com Cristo e com a sua Igreja. Se na Quinta-Feira Santa os padres renovaram seus
compromissos sacerdotais, hoje todos nós, cristãos, renovamos nosso
compromisso de batizados no Cristo Jesus.
A quarta e última parte é a da liturgia eucarística, quando Jesus nos alimenta
com seu corpo e seu sangue. Nós, alimentados por ele, comungando dele e com

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ele, reassumimos continuar sua missão de defender a vida e promover o Reino de
Deus.
Ao término desta santa noite de vigília, devemos sair renovados, alegres e
irradiando luz para o mundo. Que cada um de nós se comporte dessa maneira,
como quem de fato participou da Paixão, morte e ressurreição do Senhor e que,
com ele ressuscitado em nossa vida, possamos fazer como fizeram as mulheres
que testemunharam a ressurreição: não ter medo e ir anunciar aos irmãos tudo o
que vimos, ouvimos e presenciamos. Assim, prolongaremos a Páscoa com nossas
ações.

Domingo de Páscoa
& At 10,34a.37-43 | Sl 117(118) Cl 3,1-4 | Jo 20,1-9

Celebramos hoje o primeiro dia da ressurreição. Dia em que somos convidados,


a exemplo de Maria Madalena, Pedro e o Discípulo amado, a nos dirigirmos ao
túmulo e constatar que de fato ele ressuscitou. Porém, depois de tudo o que foi
vivido e celebrado ontem, na vigília pascal, não nos é permitido que tenhamos os
mesmos sentimentos que Maria Madalena teve quando chegou ao túmulo: o
sentimento de que o corpo havia sido roubado. Esse sentimento é o de quem ainda
está com as imagens da Sexta-Feira da Paixão na cabeça e no coração: o
sentimento da morte, da perda, do vazio, do fracasso, enfim, da decepção pelo
ocorrido que impede de vislumbrar outra possibilidade que não seja a da morte
propriamente dita.
Desse modo, vale a pena perguntar: quem não teve a possibilidade, por algum
motivo, de participar da missa da vigília pascal? Quem participou apenas da
cerimônia da Paixão? Sabemos que boa parte de nosso povo (para não dizer a
maioria) participa mais da Sexta-Feira da Paixão do que da noite da ressurreição.
Por várias razões há uma identificação maior com a dor e o sofrimento do que
com a alegria da ressurreição e, portanto, sente-se mais motivado a participar das
celebrações da Paixão, na Sexta-Feira, que da vigília pascal, no sábado.
Porém, quem fica apenas na Sexta-Feira da Paixão e não participa da
ressurreição permanece com os sentimentos que Maria Madalena teve no início,
quando chegou de madrugada ao túmulo: a sensação de perda e de tristeza. O
Evangelho de João é bastante simbólico e traz muitos elementos que ajudam a
enriquecer o evento da ressurreição. Vejamos alguns destes símbolos: a
madrugada. Madrugada significa um tempo ainda escuro, sem muita clareza. É
madrugada na vida de Maria Madalena e dos demais discípulos. Tudo está envolto
numa espessa névoa que recobre seus corações, causada pela dor vivida na
Paixão. O acontecimento foi trágico demais para ser dissipado de imediato. É
preciso um tempo para assimilar e elaborar todo o ocorrido. Por esse motivo, a

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primeira impressão não passa do sentimento de que alguém havia tirado o corpo
dali. No entanto, madrugada tem também outro significado: é o da aurora de um
novo dia que não tardará a despontar. Se o momento ainda é de escuridão, no
horizonte começam a despontar os primeiros sinais da aurora, do amanhecer de
um novo dia: pedra removida, lençol mortuário dobrado ao lado, faixas de linho
no chão, enroladas num lugar à parte etc. são constatações de um segundo
momento, depois que se adentra o túmulo, depois que se elabora o passamento,
que se faz memória da Escritura.
Se o primeiro momento é de espanto pela perda do corpo, o segundo é de alegria
pela confiança na ressurreição. No primeiro momento ela ainda estava presa ao
corpo que viu ser dilacerado pelo sofrimento da crucificação. Assim sendo, antes
de qualquer coisa ela sai correndo para contar a Simão Pedro e ao outro discípulo
que “tiraram” o corpo e que ela não sabe onde ele está. É o primeiro anúncio, feito
por uma mulher. O anúncio de que algo estranho havia acontecido. Ela quis falar
de algo que, embora não tendo clareza, intrigava seu coração. Essa atitude foi
importante porque despertou a curiosidade dos demais. Eles saíram correndo ao
encontro do Senhor. Diz o texto que saíram correndo juntos, porém o Discípulo
amado chegou primeiro. Quem ama sempre chega primeiro e entende antes os
sinais da ressurreição. Chegou primeiro, mas não entrou. É um gesto de confiança
e paciência de quem verdadeiramente ama e crê. Pedro chegou depois e entrou.
Pedro talvez ainda estivesse com o coração arrependido por ter, dias antes, negado
Jesus por três vezes. Tinha ânsia de conferir o que Maria Madalena havia dito. O
outro discípulo só entra depois. Ele entrou, certificou-se do ocorrido e acreditou.
Ele, o Discípulo amado, acreditou primeiro. Quem ama acredita, mesmo que não
tenha provas palpáveis. A ressurreição nem sempre nos é apresentada com provas
que podemos tocar. É um dado de fé. É a essência da nossa fé. É o que o
Discípulo amado ensina com esse gesto de chegar primeiro, de entrar por último e
de acreditar antes de todos. Depois que ele acreditou, os demais também
acreditaram, e, ao acreditar, saíram para anunciar aos demais. Mas, sobre esse
dado, veremos nas celebrações seguintes. O evangelho de hoje encerra destacando
que a resistência, num primeiro momento, se deu pelo fato de não terem ainda
compreendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos. A
compreensão da Escritura suscita a verdadeira fé no ressuscitado. Ao compreender
a Escritura, eles assumem verdadeiramente a missão de propagadores da Boa
Notícia. É o que vemos na primeira leitura de hoje.
O texto da primeira leitura é do livro dos Atos dos Apóstolos. Esse livro relata
as experiências das primeiras comunidades cristãs depois do evento da
ressurreição. É quando essas comunidades, nas mais variadas formas, dão
testemunho do Cristo ressuscitado. É o que Pedro faz nesta primeira leitura de
hoje: dá um testemunho apaixonado sobre a ressurreição de Cristo, afirmando

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categoricamente que ele ressuscitou; que esteve com Jesus em diversas ocasiões
antes, durante e depois de sua morte; que recebeu dele, antes e depois, a
incumbência de testemunhar que Deus o constituiu juiz dos vivos e dos mortos.
Assim, Pedro se torna figura elementar, fundamental no processo de consolidação
da crença na ressurreição e na formação da Igreja, sendo a base, a pedra
fundamental de sustentação do cristianismo, cumprindo, assim, a profecia de
Jesus: “tu és Pedro e sobre essa pedra construirei a minha Igreja”.
A segunda leitura é da Carta aos Colossenses. Nela, Paulo faz um apelo
contundente a todos nós, cristãos, que vivemos as emoções deste início de Tempo
Pascal. Ao mesmo tempo, lança-nos um desafio: quem de fato ressuscitou com
Cristo para uma vida nova deve mudar de comportamento e mostrar que não
baseia a sua vida em coisas pequenas, medíocres, mas busca as coisas nobres, os
verdadeiros valores, isto é, as coisas do alto. Ele faz um apelo a nos esforçarmos
para viver as coisas do alto. Viver as coisas do alto é deixar de lado
comportamentos, atitudes que não sejam dignas de uma pessoa cristã. É viver e
dar testemunho, com palavras e ações, das coisas de Deus, como Jesus ensinou;
como fez os primeiros discípulos.
Assim sendo, o apelo da liturgia deste primeiro domingo da Páscoa é que
tenhamos a atitude do Discípulo amado: crer. Quem crê não se limita a práticas
religiosas vazias, mas anuncia com convicção a ressurreição. Ela é a razão da
nossa fé, da nossa esperança e da nossa vida cristã. Deixemos que a aurora de um
novo dia desponte na nossa vida e levemos essa luz para os que ainda estão na
escuridão da dor da Sexta-Feira da Paixão, ou na dúvida diante do túmulo vazio.

2º Domingo
& At 2,42-47 | Sl 117(118) 1Pd 1,3-9 | Jo 20,19-31

Na liturgia do segundo domingo da Páscoa, Jesus consolida as provas da


ressurreição com suas aparições e envia os discípulos em missão. É a
característica do Tempo Pascal que se firma nesta liturgia de hoje: a crença na
ressurreição e a missão oriunda dessa certeza. Daqui em diante o apelo será para
perceber os sinais da ressurreição e a prática de tudo aquilo que Jesus ensinou.
O evangelho deste domingo contextualiza os discípulos reunidos, de portas
fechadas, no amanhecer do primeiro dia da semana. O primeiro dia da semana é o
domingo. O domingo é o dia da ressurreição. Assim sendo, na vida dos discípulos
surge um novo tempo. Esse novo tempo se configura na presença do ressuscitado
no meio deles, animando-os na missão. Eles estão com medo, pois os trágicos
acontecimentos recentes ainda estão presentes nos seus corações. O medo está
simbolizado nas portas fechadas. Porém, aqui, não são apenas as portas, no
sentido literal, que estão fechadas. Estão fechadas as portas do coração dos

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discípulos. E por essa “porta”, quando se fecha, dificilmente alguém consegue
passar. Jesus, porém, entra, mesmo estando fechadas as portas. Ele conhecia as
entradas secretas do coração dos seus discípulos. Ao entrar, coloca-se no meio
deles. Já tivemos oportunidade de ver que o ato de se colocar no meio deles
significa que, daqui em diante, Jesus deve ser o centro de suas vidas e de suas
pregações. A missão dos discípulos será abrir as portas dos corações fechados,
descobrir e solucionar as causas desse fechamento (perdoar pecados) e ligar e
desligar as coisas entre o céu e a terra. É a missão do mestre agora confiada aos
seus discípulos.
Quando Jesus se coloca no meio deles, deseja-lhes a paz. A paz é fundamental
para a missão. Coração fechado é sinal de falta de paz. A paz não consegue
adentrar corações que se fecham. Assim sendo, o desejo primordial de Jesus aos
seus discípulos é que a paz esteja com eles e eles sejam portadores da paz. O
mundo estava e está carente de paz. A paz combate a violência e promove o
Reino. São Francisco de Assis, em uma das mais belas orações, pediu que Deus
fizesse dele instrumento de sua paz. Pediu que onde houvesse ódio, que ele
levasse o amor; onde houvesse ofensa, que ele levasse o perdão; onde houvesse
discórdia, que ele levasse a união; onde houvesse dúvida, que ele levasse a fé;
onde houvesse erro, que ele levasse a verdade; onde houvesse desespero, que ele
levasse a esperança; onde houvesse tristeza, que ele levasse alegria; onde
houvesse trevas, que ele levasse a luz. Com isso, São Francisco de Assis,
discípulo e missionário do Senhor, foi um instrumento de paz nas mãos de Deus.
A paz que Jesus desejou a seus discípulos.
Nesse evangelho de hoje, os discípulos são enviados por Jesus como
instrumentos de Deus, portadores da paz, para consolar mais que ser consolados;
para compreender mais que ser compreendidos; para amar mais que ser amados.
Com a certeza de que é dando que se recebe e perdoando que se é perdoado. A
ressurreição de Cristo deu-lhes a certeza de que é morrendo que se vive para a
vida eterna. Vemos, assim, que a paz desejada aos discípulos, repetida três vezes
no evangelho de hoje, é algo essencial para a missão. Sem esses elementos
oriundos da paz, apontados na oração de São Francisco, não é possível que a
missão dê bons frutos. Não é por acaso que, num dado momento da celebração
eucarística, rezamos pela paz e a desejamos uns aos outros, através de um fraterno
abraço.
Depois de desejar a paz, Jesus os envia como o Pai o havia enviado, isto é, como
cordeiros no meio de lobos, porém ungidos com o Espírito Santo. Eles deviam
estar preparados para a missão e para isso deviam tê-lo como modelo. O sopro de
Jesus sobre eles significa o seu Espírito na vida dos discípulos. Eles foram
enviados de qualquer jeito. Estavam agora preparados, ungidos com a presença do
Espírito e, por essa razão, poderiam fazer as mesmas coisas que Jesus fazia:

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perdoar pecados, promover a vida. Todos deveriam ter a mesma certeza. Acontece
que não estavam todos naquele dia. Faltava Tomé. Quando os outros contaram,
Tomé não acreditou e quis provas, algo concreto e palpável para poder acreditar.
Quantas vezes também nós queremos de Deus coisas concretas para poder
acreditar e agir? Quando temos essa atitude demonstramos pouca fé. É o que diz
Jesus a Tomé quando volta, oito dias depois, somente para mostrar que era ele
mesmo, ressuscitado. Jesus repete tudo conforme havia feito anteriormente: entra,
coloca-se no meio deles, deseja-lhes a paz e se dirige a Tomé pedindo que coloque
o dedo nas suas chagas e as observe para que não seja mais incrédulo, mas tenha
fé. E Tomé professa a sua fé, reconhecendo Jesus ressuscitado. Jesus diz que ele
acreditou porque viu, mas será bem-aventurado, feliz, todo aquele que acreditar
sem ter visto. É o apelo que fica para nós hoje, neste segundo domingo da Páscoa:
acreditar mesmo que não vejamos grandes sinais. Eles estão por toda parte, mas
nem todos conseguem percebê-los. Quem tem fé age mesmo sem vê-los, e é
igualmente feliz, como os que percebem tais sinais.
Quem acredita age conforme Jesus ensinou, formando comunidade de fé, de
união, de verdadeira partilha, como vemos na primeira leitura, dos Atos dos
Apóstolos. Esse livro traz o retrato das primeiras comunidades cristãs, que vivem
e anunciam a ressurreição. O trecho escolhido para a liturgia de hoje é um desses
retratos. Quem acredita na ressurreição é perseverante em ouvir a Palavra de Deus
e os ensinamentos dos seus líderes religiosos; vive uma vida de comunhão
fraterna, partilha o pão, reza junto, teme a Deus e, sobretudo, enxerga e é sinal da
ressurreição uns para os outros. Quem crê na ressurreição vive unido em
comunidade, abraça a fé, partilha seus dons e seus bens, celebra junto, faz
memória de Jesus através da ceia, da Eucaristia e de tudo o que dela deriva. Assim
sendo, seremos estimados por muitos e inspiraremos uns aos outros a fazer o
mesmo.
Assim, a ressurreição de Cristo nos faz pessoas novas, renascidas para a graça,
para o amor de Deus, como mostra a segunda leitura, da Primeira Carta de Pedro.
A ressurreição é a razão da nossa esperança, o motivo da nossa alegria, mesmo
que haja provações. Quem suporta as provações demonstra uma fé verdadeira.
Enfim, mesmo que não tenhamos visto sinais, amemos a Deus e ao próximo,
porque Deus é amor e todo aquele que ama traz Deus no seu coração e nas suas
ações. Amar e viver no amor são os melhores testemunhos da ressurreição.

3º Domingo
& At 2,14.22-33 | Sl 15(16) 1Pd 1,17-21 | Lc 24,13-35

O terceiro domingo da Páscoa faz arder nosso coração através da Palavra que
nos provoca e da partilha do pão que abre nossos olhos, mente e coração.

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Conscientes da presença do ressuscitado entre nós, somos transformados por ele, e
as nossas atitudes devem demonstrar essa transformação, essa passagem da pessoa
triste e abatida pela falta de esperança, em pessoa renovada, com novo ardor
missionário, a exemplo dos discípulos que fizeram a experiência do encontro com
Cristo ressuscitado no caminho para Emaús.
O evangelho de hoje coloca dois dos discípulos no caminho de volta para
Emaús. Um caminho que começa de um jeito e termina de outro; um caminho
que, num dado momento, abre-se numa bifurcação que conduz para um retorno, e
esse retorno não significa retrocesso, mas indicação da direção certa. A liturgia de
hoje também nos coloca nessa dinâmica e nos faz refletir e mudar nossas atitudes
caso ainda estejamos com o coração encoberto por nuvens escuras causadas pelo
medo, incerteza, falta de fé ou por qualquer outro motivo que não nos liberte para
servir a Deus e ao próximo.
O caminho do evangelho é o de Emaús, um povoado onze quilômetros distante
de Jerusalém. Os discípulos estão voltando desanimados, decepcionados, com
suas esperanças frustradas pelo episódio trágico da morte de Jesus, aquele em
quem tinham colocado toda esperança, principalmente a de libertação de Israel e
de transformação de suas vidas. Quem já confiou muito em alguém e foi
decepcionado entende um pouco o sentimento desses dois discípulos. Embora
Jesus tenha mostrado o tempo todo que não seria o Messias da concepção judaica,
havia os que ainda acreditavam que ele o seria e, ao verem-no morrer na cruz,
viram morrer também suas esperanças. Isso mostra que eles, de fato, não tinham
entendido os ensinamentos de Jesus. Quantos de nós, cristãos, também não nos
decepcionamos quando as coisas não saem como queríamos, ou quando acontece
alguma coisa dolorosa na nossa vida? Achamos que Deus não é poderoso o
suficiente, senão ele teria nos livrado daquilo. Ou então, quando perdemos alguém
que amamos, ficamos com o coração e o rosto como o dos discípulos no caminho
de Emaús, machucados e tristes.
Mas Jesus não nos abandona. Ele vem, entra no nosso caminhar, na nossa vida e
nas nossas dores e as transforma. Não num passe de mágica, como muitos
esperam, mas através de um método muito eficaz: ensina-nos a ouvir e entender a
Palavra de Deus; faz-se alimento na Eucaristia e, com isso, nossos olhos se abrem
e vemos que não estamos sozinhos, que ele está conosco e, se está conosco, está
também com nossos irmãos. E se eles ainda não sabem disso, temos que ir
imediatamente contar essa novidade, anunciar essa Boa Notícia, como fizeram os
discípulos depois que tiveram os seus olhos abertos.
De volta ao caminho de Emaús, vimos que os discípulos estavam retornando, no
sentido de que, sem o mestre, não era possível continuar a missão. Voltar, aqui,
significa desistir. E era esse o assunto que estavam conversando quando um
“estranho” se aproxima e entra na conversa deles, mostrando-se desinformado, e

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os dois discípulos estranham que ele não soubesse do ocorrido, pois era o assunto
do momento.
O “estranho” era o próprio Cristo ressuscitado, porém eles não o reconhecem.
Não reconhecemos Jesus quando nosso coração está fechado. Mas Jesus não
desiste de nós, como não desistiu dos discípulos. Depois de ouvi-los, Jesus
questiona a inteligência deles. Faz memória da sua vivência e dos seus
ensinamentos. Retoma a Palavra e aponta, passo a passo, todas as passagens da
Escritura que falavam a respeito dele, mas, mesmo assim, eles não o reconhecem.
A fala de Jesus era provocante. Embora não entendessem, algo diferente acontecia
no coração desses discípulos (ardia-lhes o coração). Assim também acontece
conosco. Quando lemos ou ouvimos a Palavra, podemos não entendê-la de
imediato, mas algo fica dentro de nós como uma semente aguardando o tempo de
germinar.
Quando chegam a casa, Jesus faz de conta que vai mais adiante. Já era noite, e
os discípulos o convidam para permanecer com eles. Esse convite mostra que
ainda havia bondade e solidariedade no coração deles. Preocupar-se com um
estranho não é algo que qualquer um faça. Jesus aceita o convite e ceia com eles.
É nessa hora eucarística que eles tomam consciência de quem é que está ali, com
eles: o próprio Jesus, agora ressuscitado. Eles entendem tudo. Compreendem por
que lhes ardia o coração quando ele lhes falava; por que se sensibilizaram e o
convidaram para permanecer com eles naquela noite; por que partilharam o pão
com ele. Tudo estava elucidado. Não havia mais razão para temer, para duvidar,
ou para não se ter esperança e alegria. O mestre venceu a morte. Diante de tudo
isso eles não se contiveram de tanta alegria, mas Jesus desapareceu da frente
deles. Desaparecer da frente deles significa que, a partir desse ponto, eles não
precisariam mais da presença física de Jesus para acreditar. Eles não têm dúvidas
de que ele, Jesus, está presente. E por não terem dúvida, voltam naquela mesma
noite para Jerusalém para contar para os demais essa Boa Notícia. Quando
chegam, têm outra surpresa: Jesus havia aparecido também para Simão. E eles
contaram como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão.
Reconhecer Jesus ao partir o pão significa que nos encontramos com ele, o
reconhecemos em cada gesto de partilha e de solidariedade. Ele se manifesta cada
vez que fazemos algo de bom para o próximo, como fizeram os discípulos. É a
maneira mais eficaz de testemunhar a ressurreição e anunciar essa Boa Notícia,
através de sua Palavra. É o que faz Pedro na primeira e segunda leitura deste
domingo.
Pedro e os demais discípulos estão reunidos em dia de Pentecostes. Junto com
eles está uma grande multidão. Pedro dá um testemunho apaixonado e convicto da
ressurreição de Cristo e mostra as razões da esperança. Mostra que o Espírito
Santo que eles recebem neste dia é a prova de tudo o que ele está dizendo. Assim,

62
a comunidade, movida pelo Espírito Santo, está pronta para dar continuidade à
missão de Jesus.
Essa continuidade deve se manifestar em todo nosso ser. É o que diz Pedro:
quem de fato crê na ressurreição de Cristo deve se comportar como tal. É um
escândalo dizer que somos cristãos, que cremos na ressurreição, se nossos atos
disserem o contrário. Assim sendo, convictos de que Cristo ressuscitado caminha
conosco, que ele está no meio de nós, vamos demonstrar isso com pensamentos,
palavras e ações. É o que nos pede a liturgia deste terceiro domingo do tempo da
Páscoa.

4º Domingo
& At 2,14a.36-41 | Sl 22(23) 1Pd 2,20b-25 | Jo 10,1-10

O quarto domingo da Páscoa é o domingo do Bom Pastor. Com essa temática,


somos convidados a avaliar nossa missão de batizados e nossa ação pastoral, e
verificar se estamos sendo bons pastores, entrando pela porta das ovelhas e sendo
reconhecidos por elas, ou se estamos indo por outros caminhos, isto é, tendo
outros procedimentos que não condizem com aquilo que Jesus quer de nós.
O tema do Bom Pastor é fundamental na liturgia pascal, e por essa razão, desde
o Concílio Vaticano II, essa temática foi dividida entre os três anos do calendário
litúrgico (A, B e C). No ano A, que é este que estamos celebrando, o texto não
fala diretamente do Bom Pastor, mas das preliminares, ou seja, da porta que dá
acesso às ovelhas. Jesus se apresenta como a porta das ovelhas. A única que dá
acesso ao Pai. Quem não entra por ela não compactua com as suas propostas.
Porta significa acesso, caminho, rumo e direção. Em outra passagem ele se
apresenta como “o Caminho, a Verdade e a Vida”, único caminho de acesso ao
Pai. Aqui o sentido é o mesmo.
A imagem do Bom Pastor, embora não faça parte da nossa realidade, é uma
imagem que está no nosso imaginário e transmite segurança. Quem não se sente
amparado ao ver a imagem de Jesus com uma ovelha nos braços? Ela transmite
amor, carinho e proteção. É a imagem da mãe que segura o filho nos braços,
dando-lhe proteção e segurança.
O salmo de hoje (22/23) resume muito bem essa segurança que a liturgia do
Bom Pastor nos transmite. Nesse salmo, Deus se apresenta como aquele que nos
conduz por caminhos seguros. Quem tem Deus como guia não teme, não vacila
diante das tentações, não desanima e segue adiante na missão, sem medo. Quem
tem Deus como o Pastor de sua vida, confia, sabe que nada lhe faltará porque ele,
no tempo certo, suprirá todas as necessidades. Quem tem Deus como Pastor de
sua vida não perde o foco de suas ações, sabe que está no caminho certo, o
caminho que o levará pelos prados e campinas verdejantes, isto é, num lugar de

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fartura, terra que emana leite e mel, lugar de delícias, enfim, a imagem do paraíso.
Tudo isso está contido na expressão “prados e campinas verdejantes”, lugar de
paz, harmonia, lugar de descanso, de águas tranquilas e repousantes, um refrigério
para a alma atribulada. Um Deus que nos socorre nas fraquezas, que restaura as
nossas forças. Toda essa imagem de segurança vem de um Jesus, Bom Pastor, que
conhece suas ovelhas e cuida delas com muito carinho. Ovelhas estas que também
conhecem o seu pastor, como mostra o evangelho de hoje. Há uma cumplicidade
entre o pastor e a ovelha quando este é um Bom Pastor. Quando temos essa
confiança em Deus, entregamos nossa vida e as nossas ações em suas mãos, e ele
nos conduz firmemente, como conduziu os seus Apóstolos e discípulos.
Na primeira e segunda leitura de hoje vemos Pedro dando um testemunho
apaixonado dessa confiança em Jesus, o Bom Pastor. É dia de Pentecostes. Ele
está reunido com os discípulos e uma multidão. Faz memória de tudo o que Jesus
viveu e sofreu, e mostra que muitos dos que ali estão, apesar de terem tido
numerosas provas do amor de Jesus, continuam a seguir por outros caminhos, a
entrar por outras portas, como muitos ainda hoje fazem. Para mudar essa situação,
é preciso conversão, mudar radicalmente de vida, receber o batismo e retomar o
caminho de Jesus, entrando pela porta que ele abre. Para nós, hoje, significa fazer
um profundo exame de consciência, uma boa confissão, e retomar o significado
do nosso batismo. Jesus está aqui, diante de nós, com os braços abertos, pronto
para nos acolher como na imagem do Bom Pastor. Cabe a nós aceitar esse abraço
e receber a sua proteção. Mas, para isso, é preciso conversão, diz Pedro na
primeira leitura.
Não é fácil ser cristão. Também não é fácil reconhecer essa porta diante de
tantas que se abrem e prometem coisas maravilhosas. O que fazer diante da
dúvida, dos obstáculos, dos sofrimentos da missão? É Pedro, na segunda leitura,
quem responde a essas perguntas. É preciso suportar com paciência as
dificuldades da missão. Temos diante de nós a imagem daquele que tudo suportou
e tudo venceu. Assim, nós também poderemos vencer se confiarmos, porque a
confiança nos dá força. Basta confiar no Bom Pastor, que protege a nossa vida e
nos fortalece. Ele, o Bom Pastor, guarda a nossa vida, diz o final da Carta de
Pedro.
Que a Palavra de Deus, hoje, nos ensine a sermos bons pastores. Pessoas
responsáveis umas pelas outras, que amam e cuidam do seu semelhante. Se o
filósofo Thomas Hobbes disse que o homem é o lobo do próprio homem,
podemos inverter esse pensamento e afirmar que o homem pode e deve ser pastor
do próprio homem. É o que Jesus nos ensina no evangelho de hoje: cuidar uns dos
outros, protegendo e, ao mesmo tempo, sendo protegidos. Somente assim teremos
uma sociedade verdadeiramente humana e, portanto, divina, caminho que leva ao
Pai.

64
5º Domingo
& At 6,1-7 | Sl 32(33) | 1Pd 2,4-9 | Jo 14,1-12

Estamos no quinto domingo da Páscoa. No domingo passado, Jesus se


apresentava para nós como a “porta das ovelhas”. Neste domingo ele se apresenta
como o “Caminho, a Verdade, a Vida”, e diz que ninguém vai ao Pai se não for
por ele, isto é, através desse caminho único. Vemos, portanto, que não se trata
apenas de uma doutrina, de uma religião ou de uma Igreja, mas de uma maneira
de ser. Caminho lembra algo dinâmico, em transição, que se faz, isto é, que se
constrói e se trilha, e não algo pronto, estático, sem ação. A expressão de Jesus,
“caminho, verdade e vida”, revela três dimensões de algo único. Um caminho que
conduz à verdade e à vida. Assim fica mais fácil de entender e de relacionar com o
tema do domingo passado, “a porta das ovelhas”, porque ambos revelam um
processo, uma passagem, isto é, a páscoa. Vamos ao que de concreto a liturgia de
hoje nos apresenta.
Fato: o caminho que é Jesus é um caminho que conduz à verdade e à vida.
Quem trilha esse caminho em busca da verdade e da vida as encontrará, mas não
sem antes passar por muitas tribulações, como o próprio Jesus passou e também
os seus discípulos, como estamos vendo durante esse Tempo Pascal, na leitura dos
Atos dos Apóstolos, proposta na primeira leitura das nossas celebrações deste
tempo litúrgico. Tribulações, sofrimentos que resultam das incompreensões, das
perseguições, das calúnias, das ameaças de morte e do medo de tudo isso. Todas
essas situações nos angustiam, perturbam o coração dos discípulos e dos
missionários de Jesus Cristo. Assim sendo, o evangelho de hoje inicia dizendo:
“Não se perturbe o vosso coração”. Quais são as coisas que perturbam, hoje, os
nossos corações? Muitas perturbações nascem dentro da própria Igreja, lugar que,
por desconhecimento dos próprios cristãos, acaba se tornando lugar de conflito,
contendas e desentendimentos, como vimos no início da primeira leitura. Tudo
isso faz com que os corações fiquem perturbados, e pessoas de corações
perturbados terão dificuldade de seguir nesse caminho que conduz à verdade e à
vida. Pessoas perturbadas, ou que perturbam outras, tornam-se pedras de tropeços
na comunidade, como afirma a segunda leitura. O que fazer para não ter o coração
perturbado? O próprio Jesus nos dá a resposta no evangelho de hoje: “Tendes fé
em Deus, tende fé em mim também”. Não precisamos nos preocupar nem nos
estressar. Na comunidade há lugar para todos. Quem pensa que só o seu trabalho é
importante e o dos outros não, não entendeu o que significa comunidade e,
sobretudo, o que é “a casa de meu Pai”. Pode até estar nesse “caminho”, mas
ainda não sabe o que está fazendo nele nem para onde ele conduz.
Jesus deixou muito claro para seus discípulos e para nós sobre isso. “Se não
fosse assim” – diz ele –, “eu lhes teria dito. Sou eu que vou preparar um lugar para

65
vocês”, afirma. Sendo Jesus quem prepara um lugar para nós, e se nós cremos
nele, não há motivo para preocupações ou perturbações. Ele nos conduz por esse
caminho, leva-nos com ele. Basta confiar. Porém, não podemos questionar, ou
dizer como disse Tomé: “nós não sabemos para onde vais. Como podemos
conhecer o caminho?”. Como cristãos, temos obrigação de saber que ele é o
Caminho, a Verdade e a Vida, e que ninguém vai a Deus por outro caminho a não
ser por ele, Jesus. Diz isso quem não conheceu Jesus. Filipe, no texto de hoje,
representa aqueles que estão nesse caminho, na comunidade, mas que ainda não
conseguiram enxergar em Jesus esse caminho, ou o enxergam de modo errôneo.
Filipe pede para Jesus mostrar Deus, e isso lhe seria suficiente. Não é pouco o
que Filipe pede. Todos nós queremos ver Deus, mas Deus só se revela pelo seu
Filho. Quem não consegue enxergar em Jesus o próprio Deus, jamais o verá. A
pergunta de Jesus revela sua surpresa por Filipe ainda não ter percebido nele, o
Filho, a presença do Pai: “Há tanto tempo estou convosco e não me conheces,
Filipe?”. O questionamento vem seguido de uma resposta e de outro
questionamento que são medulares para a fé cristã: “Quem me viu, viu o Pai [...].
Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim?”. Jesus o catequiza
mostrando que suas palavras, seus procedimentos e suas ações não são dele, mas
de Deus Pai. Mostra a unidade que há entre o Pai e o Filho. Quem crê nisso e nele
permanece realiza não apenas as obras que ele fez, mas mais do que isso. É a
possibilidade infinita de ações em prol da vida que Jesus nos confia quando nele
confiamos. É a permanência em Cristo, isto é, a fidelidade a ele que nos fará ser
bons discípulos e missionários e fazer das nossas comunidades uma verdadeira
casa de Deus, lugar que acolhe a todos e onde todos se encontram. Assim, a
comunidade estará em estado permanente de missão, como pediu a Igreja na
Conferência de Aparecida.
Desse modo, a comunidade, a Igreja recobre de importância, como vemos na
primeira e segunda leituras de hoje. Na primeira leitura vemos a expansão do
cristianismo, o aumento do número de adeptos de Cristo e, com isso, o aumento
das dificuldades e dos problemas. Diante das dificuldades, surge a necessidade de
se reunir para organizar, gerenciar melhor as ações. Assim, os Apóstolos mostram
que na comunidade há lugar para todos. Para os pregadores da Palavra e para os
que atendem os necessitados. Percebemos, assim, a necessidade da teoria e da
prática, no anúncio e na vivência da Palavra. Quando nossas comunidades
descobrem que nelas há lugar para todos, cada um com seus diferentes dons
colocados em comum, a comunidade cresce e se solidifica como pedra viva,
fundamentada nessa grande rocha que é o Cristo e seus discípulos. Porém, quando
estamos na comunidade apenas para criticar e apontar as falhas dos outros, nos
tornamos pedra de tropeço, como afirma Pedro na segunda leitura de hoje.

66
Sejamos, portanto, pedras vivas nas nossas comunidades eclesiais e façamos
delas uma verdadeira morada de Deus, onde todos os que se achegam sintam-se
acolhidos, amados e respeitados. Um lugar onde se dissipam as perturbações do
coração para, assim, na paz de Cristo, trilharmos por esse caminho de verdade e
de vida. Sintamo-nos, portanto, como raça escolhida, sacerdotes do Reino, nação
santa e povo que Deus escolheu para proclamar as admiráveis obras de seu Filho,
Jesus.

6º Domingo
& At 8,5-8.14-17 | Sl 65(66) 1Pd 3,15-18 | Jo 14,15-21

A liturgia do sexto domingo da Páscoa nos prepara para as duas solenidades que
se aproximam: Ascensão e Pentecostes. A primeira marca a ida definitiva de Jesus
para junto do Pai, e a segunda, o envio do Espírito que guiará os discípulos na
missão, tornando-os, definitivamente, discípulos e missionários de Jesus Cristo.
Nesse contexto, a liturgia deste domingo contempla elementos dessas duas
importantes celebrações que sinalizam o fim do Tempo Pascal.
Na primeira leitura de hoje, do livro dos Atos dos Apóstolos, vemos Filipe,
depois de ter visto em Jesus o Pai, colocando em prática o que aprendeu. Ele está
na missão que lhe foi confiada, a de anunciar Cristo. No texto de hoje, ele desce à
região da Samaria e, com sua pregação e exemplo, arrasta multidões. Filipe fala
dos ensinamentos de Deus, e a multidão escuta atenta e guarda as suas palavras.
Assim, ao guardar tais ensinamentos, Deus permanece com eles, conforme vemos
no evangelho de hoje, onde Jesus afirma que quem guarda os seus mandamentos o
terá sempre junto de si. Seu Espírito, o Espírito Santo, estará sempre com aqueles
que guardam os seus ensinamentos. É o que acontece na Samaria, com a pregação
de Filipe, que age conforme Jesus agia, mostrando em tudo sua fidelidade ao
mestre: espíritos impuros são expulsos, aleijados são curados, e a vida floresce
numa explosão de alegria. É o discípulo e missionário de Jesus Cristo
promovendo a vida, libertando os oprimidos. A notícia se espalha e chega até
Jerusalém, onde estão os “coordenadores” da missão. Eles percebem que a messe
na Samaria é grande e que há necessidade de mais operários. Foram enviados,
assim, Pedro e João para ajudar na concretização dessa missão e confirmar
aqueles que haviam acolhido a Palavra de Deus. Isso se dá através do envio do
Espírito Santo, que os impulsionou para a missão. É como se eles tivessem sido
crismados, confirmados na sua fé, dito o seu sim definitivo a Deus e à missão de
testemunhar Jesus Cristo em comunhão fraterna e com renovado ardor
missionário. Desse modo, eles receberam o batismo através de Filipe e foram
confirmados por Pedro e João, recebendo o Espírito Santo.

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Com o Espírito Santo, eles agora estariam prontos para dar razão às suas
esperanças, como afirma a segunda leitura, da Primeira Carta de Pedro. Eles
estavam, agora, capacitados para a missão e seriam anunciadores dessa esperança
a outros, aos que não tinham mais esperança, aos que perderam o sentido da vida,
enfim, a todos, mas, principalmente, aos excluídos. Estavam, dessa maneira,
fortalecidos para enfrentar os desafios da missão, como, por exemplo, as
difamações, como alerta Pedro nesta carta. É o Espírito que fortalece e encoraja
para que o discípulo aja. Quem recebe o Espírito Santo não se sente fraco e
abandonado. É amparado por Deus, como afirma Jesus no evangelho de hoje,
quando fala da sua ascensão aos céus e do envio do Espírito defensor que nos
mantém unidos a Cristo e ao Pai.
Para que tenhamos o Espírito Santo conosco, é preciso amar a Jesus, porque
somente quem o ama guarda verdadeiramente o que dele aprendeu, e quem guarda
os seus ensinamentos, diz ele, recebe do Pai outro defensor, o Espírito Santo.
Vemos, assim, Jesus que nos prepara para a sua ascensão, mostrando que sua ida
definitiva para junto de Deus não significa uma perda da sua presença, mas um
ganho incalculável, porque desse dia em diante todos os que amarem e guardarem
os seus mandamentos terão o Espírito Santo, o defensor, o protetor, o encorajador
para a missão. É o Espírito da verdade que só será conhecido por quem amar e
colocar em prática os ensinamentos de Jesus. O discípulo missionário o
conhecerá, diz Jesus, porque vive a sua palavra.
Assim, Jesus, neste sexto domingo da Páscoa, nos consola, conforta e encoraja
para a missão. Não nos sentiremos abandonados, sozinhos ou órfãos. Ele estará
conosco através do Espírito Santo, vivendo e sendo revivido em cada gesto de
amor, de solidariedade e de compromisso com o seu projeto. Assim, vamos
revelando o rosto de Deus aos nossos irmãos, amando-os como Jesus pediu que
amássemos. É a maneira mais eficaz de tê-lo conosco para sempre e, assim, a
missão será permanente.

Ascensão do Senhor
& At 1,1-11 | Sl 46(47) Ef 1,17-23 | Mt 28,16-20

Celebramos hoje a solenidade da Ascensão do Senhor. Durante toda essa


semana que passou, a liturgia nos preparou para essa celebração, colocando-nos, a
cada dia, o discurso de despedida de Jesus e suas recomendações para a
continuidade da sua missão, sendo que essa seria a forma mais eficaz de tê-lo
sempre presente.
Vimos, portanto, que todo aquele que vive seus ensinamentos e coloca em
prática as suas palavras o terá sempre presente. Assim, quarenta dias depois da
Páscoa, chegamos a essa solenidade que significa muito mais que a última semana

68
deste tempo litúrgico (a Páscoa), ou a elevação definitiva de Jesus para o céu, mas
a sua plena glorificação e, consequentemente, a nossa vitória, como diz a oração
do dia: “a Ascensão do vosso Filho já é a nossa vitória”.
Assim sendo, celebrar a Ascensão do Senhor é celebrar o compromisso
definitivo de colocar em prática os seus ensinamentos, indo para a missão e
fazendo discípulos dele todos os povos, como ele havia recomendado.
O Evangelho de Mateus proposto para a liturgia deste domingo não fala
diretamente da ascensão, mas do encontro do ressuscitado com os discípulos, no
monte da Galileia, onde Jesus se apresenta vitorioso e glorioso, com autoridade
divina. Ali ele envia seus discípulos com a missão de fazer novos discípulos,
batizando, observando e ensinando o que ele havia ensinado. Desse modo, ele
estaria sempre com eles e conosco para sempre. Assim, a ida de Jesus para junto
do Pai significa, paradoxalmente, sua eterna presença entre nós, todos os dias.
Toda vez que colocamos em prática seus ensinamentos, ele se faz presente. Ele se
faz presente quando celebramos a Eucaristia; quando proclamamos a Palavra de
Deus; quando nos empenhamos nos trabalhos pastorais e na vivência de
comunidade fraterna; quando solidarizamos com nossos irmãos; quando
socorremos os necessitados; quando praticamos obras de caridade, enfim quando
fazemos o bem. A ascensão de Jesus possibilitou a vinda do Espírito Santo, que
guia nossos passos e ações e nos coloca em sintonia com Deus e na dinâmica do
seu Reino.
Se Mateus não fala diretamente da Ascensão, mas das consequências desse fato
teológico, Lucas a relata com riqueza de detalhes. É o que encontramos na
primeira leitura de hoje, dos Atos dos Apóstolos. Lucas fala que Jesus foi levado
para o céu, mas não sem antes dar instruções, pelo Espírito Santo, aos seus
Apóstolos. Recorda o que vimos durante esses quarenta dias do Tempo Pascal,
isto é, as sucessivas aparições de Jesus, em que ele se mostrou vivo depois de sua
Paixão, com numerosas provas. Agora eles já estariam mais que certos de que ele
de fato ressuscitou e não precisariam, portanto, de novas aparições para acreditar.
Semelhante a Mateus, porém à sua maneira, Lucas recorda a ordem dada por Jesus
nessa ocasião: “Não vos afasteis de Jerusalém, mas esperai a realização da
promessa do Pai, da qual vós me ouvistes falar: ‘João batizou com água; vós,
porém, sereis batizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias’”. É o anúncio
da solenidade do próximo domingo (Pentecostes), quando celebraremos a vinda
do Espírito Santo sobre os discípulos e a cada um de nós, batizados, nos
capacitando e enviando para a missão para os confins da terra.
Jesus é levado para o céu, porém deixou-nos essa missão de sermos discípulos e
missionários, levando a sua Palavra e os seus ensinamentos por toda a terra. A
Ascensão é, portanto, o nascimento da Igreja missionária, guiada pelo Espírito
Santo. Assim sendo, não podemos ficar parados olhando para o alto, como

69
fizeram, a princípio, seus discípulos; devemos seguir adiante, olhar para a frente e
em nossa volta para enxergar a realidade e nela atuar, como Jesus ensinou. A
Ascensão do Senhor nos compromete com a sua missão, como mostra a segunda
leitura, da Carta aos Efésios.
Paulo mostra que Deus nos deu um Espírito de sabedoria para conhecermos e
entendermos o que ele quer de nós. Que estejamos de coração aberto à sua luz
para sabermos qual é a esperança que o seu chamado nos dá, qual é a riqueza da
glória trazida pela sua Ascensão e do seu poder que nos apodera na missão. Cristo
continua sendo a cabeça da Igreja, e nós, os membros que compõem esse corpo.
Com a Ascensão, começa definitivamente a missão de anunciá-lo como Senhor
de todos os povos; Senhor da história, do tempo e da eternidade. Assim sendo, a
liturgia da Palavra dessa solenidade acentua muito mais a missão da Igreja do que
o próprio fato da Ascensão. A Ascensão é o marco da missão. Podemos dizer que
com ela nasce a Igreja missionária, com discípulos que têm a incumbência de
levar aos confins da terra os ensinamentos de Jesus. Hoje, nós somos esses
discípulos. Essa é também a nossa missão. Está em nossas mãos dar continuidade
àquilo que Jesus ensinou.

7º Domingo da Páscoa
& At 1,12-14 | Sl 26(27) 1Pd 4,13-16 | Jo 17,1-11a

Continuamos no tempo da Páscoa, e a liturgia deste domingo enfatiza o tema da


comunidade. Uma comunidade continuadora do projeto e da missão de Cristo.
Sabemos quão importante é a comunidade para a Igreja. A Igreja precisa ser
comunidade, senão ela não será de fato a Igreja de Jesus Cristo. Esse tem sido o
apelo da Igreja no Brasil nos últimos anos, desde a Conferência de Aparecida
(2007). Uma Igreja Comunidade de comunidades, pronta para acolher e servir
mutuamente, na partilha e no amor fraterno. Esses aspectos se destacam na
liturgia deste domingo.
A primeira leitura, do livro dos Atos dos Apóstolos, nos mostra a formação
daquilo que poderíamos chamar de “a primeira comunidade cristã” pós-
ressurreição de Cristo. Essa primeira comunidade se forma em Jerusalém, com
Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de
Alfeu, Simão Zelota e Judas, filho de Tiago, junto com algumas mulheres, dentre
as quais Maria, a Mãe de Jesus. Assim, essa primeira comunidade tem Maria junto
dela. Maria, a Mãe de Jesus, junto com os Apóstolos e tantas Marias, ensina nossa
Igreja a viver o verdadeiro sentido de comunidade, dando seu sim e sendo fiel a
Deus em todas as circunstâncias. Essa primeira leitura destaca que eles tinham os
mesmos sentimentos e eram assíduos na oração. Elementos que são de suma
importância para a vida de comunidade, sobretudo para enfrentar as dificuldades.

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As primeiras comunidades cristãs enfrentaram muitos desafios, sobretudo as
perseguições e as mortes. Se eles não estivessem bem unidos, com os mesmos
sentimentos e propósitos, teriam se dispersado. Além disso, essa primeira leitura
nos ensina a ter sempre Maria, a Mãe de Jesus, junto às nossas comunidades, pois
ela é quem mais nos ensina como viver as propostas de seu Filho, Jesus, e, assim,
enfrentar com força e coragem os desafios e as cruzes. Desafios que a segunda
leitura de hoje destaca com veemência.
A segunda leitura, da Primeira Carta de Pedro, um dos fundadores das primeiras
comunidades cristãs e pedra sobre a qual Cristo construiu a sua Igreja, nos mostra
que todo sofrimento deve ser enfrentado na alegria, pois sofrer por Cristo é
motivo de alegria, pois Cristo sofreu horrores por nós, para a nossa alegria.
Porém, todo sofrimento que não for por Cristo e em Cristo deve ser combatido.
Nisso consiste a vida cristã, ou a vida das comunidades cristãs. Enfrentar os
sofrimentos do mundo para combatê-los, pois todo combate gera sofrimento, mas
o bom soldado, o soldado de Cristo, combate com alegria porque sabe que seu
combate não é em vão. Assim vamos proporcionando a vida para todos; a vida
com qualidade e sem muito sofrimento, pois Cristo quis reunir na cruz todo o
sofrimento. Porém, para combater o sofrimento do mundo, teremos que sofrer.
Parece contraditório, ou paradoxal, mas é isso mesmo. O sofrimento de Cristo é
antídoto contra o sofrimento do mundo. Quem foge do sofrimento de Cristo, se
acomodando em estruturas injustas por medo de sofrer, sofrerá ainda mais, pois o
sofrimento resultado das injustiças é cruel e não conduz à vida. Esse sofrimento
Cristo quis abolir com a cruz, para que não houvesse mais cruzes e que os seus
irmãos não precisassem mais passar pela cruz. Nisso consiste a expressão: “quem
quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perde a sua vida por causa de
mim, vai encontrá-la” (Mt 16,25). Porém, o sofrimento como consequência da luta
pela vida, esse sofrimento é edificante, e todo discípulo deve se alegrar nele, pois
é o caminho para a redenção, mostra Pedro nesta segunda leitura.
Aquele que participa dos sofrimentos de Cristo neste mundo, como os
Apóstolos e discípulos que formaram as primeiras comunidades cristãs, estes
participarão da sua glória. Por isso Pedro nos diz: “felizes de vocês, quando forem
insultados por causa do nome de Cristo; isso significa que o Espírito da glória, o
Espírito de Deus, repousa sobre vocês” (At 4,14). Não é vergonha alguma sofrer
como cristão, diz Pedro. Vergonha é sofrer por coisas vãs, ou por projetos que não
levam a nada. Temos que glorificar a Deus por levarmos o nome de cristãos, pois
Cristo é o exemplo supremo de amor e justiça. Assim, Pedro se revela um
verdadeiro animador de comunidade, encorajando aqueles que enfrentavam as
agruras das primeiras comunidades cristãs. Ainda hoje as palavras de Pedro são
animadoras. São muitas as dificuldades que enfrentamos na Igreja, sobretudo a de
descrença, de falta de esperança e de desrespeito com os símbolos religiosos.

71
Numa sociedade que caminha para a secularização, viver em comunidade cristã,
ser cristão autêntico, continua sendo um grande desafio, e precisamos de alento
como esse que Pedro traz na segunda leitura deste domingo. Porém, Pedro teve
como mestre Jesus, de quem foi discípulo e Apóstolo, e foi a ele que Cristo
confiou a sua Igreja. Assim, Simão tornou-se Pedro, a pedra que sustentaria a
Igreja de Jesus Cristo. Cristo foi a pedra rejeitada pelos construtores, que se
tornou a pedra angular. Essa pedra que sustenta a nossa Igreja é Cristo, tendo
como coluna seus Apóstolos, sobretudo Pedro, que tem muito a nos ensinar, seja
nas coisas que devemos fazer, seja nas que não devemos fazer em relação a Cristo
e aos irmãos. Esse Cristo, que sustentou a esperança e a firmeza dos Apóstolos
nas primeiras comunidades cristãs, está presente no evangelho de hoje com o
mesmo propósito: animar-nos na missão de fazer com que nossa Igreja, nossas
paróquias, sejam verdadeiras Comunidades de comunidades.
Assim, no evangelho de hoje, encontramos a oração de Jesus ao Pai, na qual ele
pede pelos seus; aqueles que o Pai lhes confiou. Estes são também todos nós,
cristãos, que assumimos o compromisso batismal de viver como cristãos em
comunidades cristãs. Portanto, sintamo-nos nesse dia de hoje alvo da oração de
Jesus que pede ao Pai que nos fortaleça na missão de continuar a sua missão.
Cristo pede nesta oração que o Pai lhe glorifique, porque ele já cumpriu sua
missão nesse mundo. E, uma vez glorificado, Cristo glorifica todo aquele que
conheceu o Pai através dele. A missão de Cristo na terra foi a de glorificar o Pai
com pensamentos, palavras e ações, e isso ele também ensinou aos seus
discípulos. Cristo nos deu a conhecer o Pai e o Pai glorifica todo aquele que o
conheceu e dá testemunho dele, tornando-o conhecido e amado. Essa é, portanto,
a missão de nossas comunidades cristãs. O bom cristão é aquele que guarda as
Palavras de Cristo, e guardar as Palavras de Cristo, recebidas do Pai, é colocar em
prática os seus ensinamentos. Nisso Deus se revelará em nós e nas nossas ações.
Assim, Cristo pede por nós nas suas orações, e nós devemos pedir também pelos
nossos irmãos, sobretudo os que sofrem. Não apenas pedir, mas agir em favor
deles, como Cristo fez por nós. Nisso também consiste a missão da comunidade
cristã: rezar uns pelos outros na unidade. Que sejamos um, assim como Cristo e o
Pai são um. A unidade é que marca a vida de uma comunidade, e é isso que
devemos buscar: unidade na diversidade. Na diversidade de dons, de carismas, de
ideias e ideais, mas unidos na proposta de Cristo e na fé que professamos.
Assim, este sétimo domingo da Páscoa nos ensina a viver verdadeiramente em
comunidade, recebendo o alento dos Apóstolos e discípulos de Jesus Cristo, de
ontem e de hoje, e, assim, seguir firmes na nossa missão, sem nos deixarmos
abater pelas dificuldades e obstáculos.

Domingo de Pentecostes

72
(cor: vermelha)
& At 2,1-11 | Sl 103(104) 1Cor 12,3b-7.12-13 | Jo 20,19-23

Hoje celebramos a solenidade de Pentecostes. Percorremos exatos cinquenta


dias do Tempo Pascal, e com essa celebração encerra-se esse tempo litúrgico e
retomamos o Tempo Comum, o tempo da vida pública de Jesus e da nossa missão.
Desse modo, a solenidade de hoje marca, simbolicamente, o início da Igreja
missionária. A Igreja que, guiada pelo Espírito Santo, vai até os confins da terra,
levando a Palavra de Deus e anunciando o seu Reino. É, portanto, do recebimento
do Espírito Santo e do envio para a missão que fala a liturgia da Palavra de hoje.
A primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, coloca Pentecostes cinquenta dias
depois da Páscoa. Daí o significado da palavra pentecostes, que nos seus
primórdios era uma festa agrícola. Depois passou a significar a libertação do povo
hebreu e, com o advento do cristianismo, o sopro de Deus que une, na
diversidade, os seus discípulos, e os envia para a missão. Vemos, portanto, que é
um conceito que, com o passar do tempo, foi ganhando novos significados, sem,
contudo, perder a sua essência. Se Lucas coloca Pentecostes cinquenta dias depois
da Páscoa, João o coloca no domingo da ressurreição, o primeiro dia da semana,
conforme o evangelho de hoje (ano A da liturgia). Embora o coloquem em tempos
distintos, ambos não divergem no significado. Pelo contrário, se complementam,
apontando aspectos que enriquecem o sentido dessa solenidade. Esse
complemento continua na segunda leitura, quando Paulo indica a ação do Espírito
nas ações da comunidade.
A primeira leitura apresenta os discípulos, no dia de Pentecostes, reunidos no
mesmo lugar. Destaque para o elemento da unidade. O Espírito é aquele que une.
Tivemos nesta semana a semana de oração pela unidade dos cristãos. Portanto,
estar reunidos num mesmo lugar não significa fechamento, como vemos no
evangelho, mas união. Lucas, em seguida, relata a manifestação do Espírito Santo
com sinais teofânicos (forte ventania) e símbolos (línguas de fogo) que nos
ajudam a entender melhor esse mistério que preenche a nossa vida de discípulos e
missionários, como encheu a casa onde eles estavam. As línguas de fogo se
repartiam e pousavam sobre cada um deles, isto é, o Espírito preencheu cada um,
na sua individualidade. É a unidade na diversidade, como encontramos na segunda
leitura. Todos receberam dons do Espírito Santo, que os une, dá entendimento,
sabedoria, temor de Deus, fortaleza, ciência, conselho, inteligência. Eles passam a
se entender, mesmo sendo tão diferentes uns dos outros. É a linguagem do amor,
entendida em qualquer parte do mundo. Assim, o Espírito os capacita para
anunciar as maravilhas de Deus na sua própria língua, isto é, faz com que as
pessoas entendam a mensagem e se entendam. Pentecostes é isso: o entendimento
dos povos em torno da Palavra de Deus.

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A Igreja missionária renova constantemente esse compromisso de se fazer
entender e levar a Palavra de Deus a todos, começando dentro de nossas paróquias
e se estendendo para a missão Ad Gentes , nos confins da terra, fazendo com que
aconteça o que cantamos no salmo de hoje: “Envia teu Espírito, Senhor, e da terra
toda a face renova”. O Espírito nos renova e nos recria para fazer novas todas as
coisas, colocando em comum nossa diversidade de dons.
Paulo reforça esse dado da solenidade de hoje, destacando na segunda leitura o
senhorio de Jesus no Espírito Santo. Somos diferentes, temos dons distintos,
porém temos que estar unidos no mesmo Cristo Senhor. Essas diferenças de dons,
de serviços, de ministérios é que fazem a riqueza da nossa Igreja. Uma Igreja
ministerial, a serviço do Reino de Deus, unida pelo Espírito Santo em vista do
bem comum. Ser Igreja é viver na unidade sem perder as particularidades próprias
de cada pessoa e de cada ministério. Paulo usa a imagem do corpo para falar dessa
unidade na diversidade. O corpo é um, embora tenha muitos membros e estes
membros cumprem sua função para promover a unidade do corpo. Assim também
acontece com Cristo, afirma Paulo nessa leitura. Não importa quem somos. O que
importa é como agimos em relação a Cristo e ao próximo. Fomos batizados num
único Espírito para formar um único corpo e nos alimentar dele para manter essa
união. Quem está unido a ele está fortalecido e não teme. Quem não teme se abre
para a missão, como pede o evangelho de hoje.
Depois do ocorrido (Paixão e morte de Jesus), os discípulos se fecharam por
medo. Os símbolos que os cercam mostram essa situação paralisante (noite, portas
fechadas, medo). Porém, é o primeiro dia da semana, começa um tempo novo. A
crença na ressurreição tinha dado lugar ao medo, e do medo surge o desassossego,
a carência de paz. Jesus adentra essa situação rompendo as barreiras que o
paralisam e se coloca no meio deles. Esse gesto de Jesus significa que, de agora
em diante, ele deve ser centro da vida deles. Quem tem Jesus como centro de sua
vida não teme e não se fecha, mas corajosamente se abre para a missão. Jesus, ao
se colocar no meio deles, lhes deseja a paz. Ele sabe que falta paz no coração dos
discípulos. Sem paz não é possível ser discípulo nem missionário. Sem paz não se
pode continuar a missão de Jesus, por isso, o primeiro desejo dele, depois de
ressuscitado, é que os seus discípulos tenham paz. Repetimos esse gesto de Jesus
em todas as celebrações eucarísticas, quando desejamos a paz uns aos outros. É o
desejo de Jesus que se renova nesse gesto simbólico, mas carregado de significado
teológico. Depois de lhes desejar a paz, Jesus mostra as marcas da crucificação,
para que eles não tenham dúvidas de que de fato é ele mesmo, ressuscitado, que
está entre eles.
Hoje, de alguma forma, Jesus continua rompendo nossos isolamentos, se
colocando no meio de nós, desejando a paz e mostrando-se nas marcas de nossos
irmãos que sofrem. Eles são os clamores do crucificado ressuscitado que chegam

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até nossos ouvidos para que não nos esqueçamos da missão que ele nos confiou.
Jesus, depois dessas preliminares, mostra a que veio: sopra sobre eles o Espírito
Santo. Pede que eles o recebam e os envia como o Pai os enviou. Aqui se dá o
Pentecostes de João, bem no dia da ressurreição. Essa passagem nos remete ao
livro do Gênesis, quando Deus criou o homem do barro e soprou sobre ele o
Espírito que lhe deu vida. Aqui temos a nova criação. Jesus, com o sopro do
Espírito Santo, recria os seus discípulos para a missão. É a Igreja missionária que
nasce e está pronta para se expandir até os confins da terra.
Enviar como o Pai o enviou significa, entre outras coisas, servir na humildade,
porém com coragem e firmeza. Significa ser perseverante diante dos obstáculos e
não esmorecer quando as coisas não saem como queríamos que saísse. É estar
pronto para enfrentar os lobos que estão à espreita. Jesus chama, capacita e envia
seus discípulos para a missão. Assim, temos a solenidade de Pentecostes, que
recorda o Espírito que foi soprado sobre nós para exercermos com afinco nossa
missão de batizados.
Retomamos com esta celebração o Tempo Comum. Daqui em diante vamos
deixar nossa vida ser guiada pelo Espírito Santo e nos empenhar na missão dentro
e fora da comunidade. Nosso empenho missionário fará da nossa comunidade
paroquial mais santa e perfeita, tendo como modelo a Santíssima Trindade, que
será celebrada no próximo domingo.

SOLENIDADES DO SENHOR QUE OCORREM NO TEMPO COMUM


(cor: branca)

Santíssima Trindade
& Ex 34,4b-6.8-9 | Sl (Dn 3) 2Cor 13,11-13 | Jo 3,16-18

A solenidade da Santíssima Trindade é uma espécie de síntese do Tempo Pascal,


no sentido “misterial” do termo. Ela nos coloca diante do mistério de Deus, com
toda sua grandeza, e revela o seu infinito amor por nós. Celebrar a Santíssima
Trindade não é celebrar três deuses, mas um único Deus em três pessoas: a pessoa
do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Um Deus que se desdobra em três pessoas
para que possamos ter acesso a ele. Um Deus que se revela no seu mistério porque
nos ama infinitamente e quer que o conheçamos, que o encontremos e o
percebamos no dia a dia da nossa vida. É o que propõe neste dia a liturgia da
Palavra, com leituras que falam do amor de Deus pelo mundo e pela humanidade,
de distintas maneiras, mas que se complementam e formam uma unidade
indivisível.
O evangelho de hoje fala diretamente desse amor de Deus Pai pelos seus filhos,
pela humanidade, pelo mundo. João afirma que “Deus amou tanto o mundo que

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deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a
vida eterna”. É um gesto extremo de amor o que Deus fez por nós ao se fazer um
de nós na pessoa do Filho e se encarnar. Antes ninguém conhecia Deus. Não se
podia ver o rosto de Deus. São muitas as passagens bíblicas que falam desse
“distanciamento visual” de Deus. Ele se manifestava de várias formas, mas não se
podia ver seu rosto nem denominá-lo. Ver o seu rosto ou denominá-lo significava
capturá-lo, isto é, limitá-lo dentro de nossa visão limitada. Qualquer definição de
Deus é limitada porque Deus não se define. Ele é mistério e como mistério não se
pode descrevê-lo. Assim, o amor é o único meio de reconhecê-lo e de ele se
revelar para nós. Ao enviar seu Filho, primeiro o Pai revela o seu infinito amor e,
segundo, o seu rosto. Deus se fez um de nós para que tivéssemos acesso a ele e o
reconhecêssemos na pessoa de nossos irmãos e irmãs. Esse gesto do Pai narrado
no evangelho de hoje é a demonstração do seu imenso amor. Porque nos ama,
quer que tenhamos vida plena, vida eterna. Aqui recordamos outra expressão de
João (10,10): “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude”. É
essa vida plena que Deus quer que tenhamos. Por isso ele enviou seu Filho
unigênito.
Apesar das nossas fraquezas, dos nossos pecados, da nossa cabeça dura, como
diz Moisés na primeira leitura de hoje, ele quer que sejamos salvos. Com a
encarnação, Deus, além de se manifestar, se revela a nós.
A imagem de Deus que sobressai no Antigo Testamento é de um Deus rígido,
severo, que vigia, castiga e pune as nossas faltas. Muitos tinham e têm medo de
Deus por causa disso. Mas não é bem assim. Há muitos momentos em que Deus
se revela bondoso e misericordioso. Um desses momentos é encontrado na
primeira leitura de hoje, do livro do Êxodo. Moisés vai ao encontro de Deus com
as tábuas da lei nas mãos. Ele está pronto para receber as ordens, os preceitos, as
orientações. Vai ao encontro de Deus como um funcionário vai ao encontro do seu
chefe, ou do seu patrão. O que ele encontra o surpreende, fazendo cair com o rosto
por terra, talvez de vergonha por ter tido uma imagem distorcida de Deus. Deus
vem ao encontro de Moisés, descendo de uma nuvem, numa demonstração clara
da sua proximidade e acessibilidade. Ele desce e permanece com Moisés, diz o
texto. Moisés o reconheceu “misericordioso e clemente, paciente, rico em
bondade e fiel”, ou seja, bem diferente da imagem que ele e todos os demais
tinham de Deus. A missão de Moisés agora é levar adiante essa imagem de um
Deus misericordioso, que dissipe a ideia de um Deus severo e punitivo. Diante de
tamanha bondade, Moisés lhe faz alguns pedidos, dentre eles que Deus caminhe
com o seu povo. Caminhar com o povo significa estar sempre conosco, presente
na nossa vida diária, integrado nas nossas lutas e buscas. Representamos esse
Deus que caminha conosco quando fazemos procissões, romarias, caminhadas e,
sobretudo, na solenidade de Corpus Christi , quando saímos pelas ruas com o

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Santíssimo Sacramento. Além de pedir que ele caminhe conosco, Moisés pede que
ele perdoe nossas culpas e nossos pecados e que nos acolha como propriedade
sua. Somos, portanto, propriedade de Deus. Ele ama seus filhos e toda sua criação,
mas quer que nós façamos a nossa parte. Mesmo sendo Deus infinitamente
amoroso e misericordioso, precisamos contribuir para merecer esse amor.
O que fazer então para ser merecedores desse amor grandioso de Deus para
conosco?
Quem nos responde é Paulo, Apóstolo, na segunda leitura de hoje.
Paulo pede à comunidade de Corinto e a cada um de nós que nos esforcemos
para melhorar cada vez mais. É preciso trabalhar nosso aperfeiçoamento,
encorajamento na missão a nós confiada, cultivar entre nós a concórdia, vivendo
em paz na família, na comunidade e na sociedade, porque o Deus trino é o
verdadeiro exemplo de comunidade. Ele nos faz comunidade. A união do Pai, do
Filho e do Espírito Santo nos une a ele e aos irmãos. É vivendo assim, diz Paulo,
que o Deus do amor e da paz estará sempre conosco, caminhando conosco, como
pediu Moisés na primeira leitura.
Acreditando nisso e nos esforçando para melhorar cada vez mais quem somos,
estaremos no caminho com ele rumo ao Reino dos céus.
Que a Santíssima Trindade nos faça verdadeira comunidade de irmãos, sempre
prontos a ajudar o próximo, na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, no amor do
Pai e na comunhão do Espírito Santo, como deseja Paulo na segunda leitura e
como dizemos na exortação inicial da celebração eucarística.

Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo


& Dt 8,2-3.14b-16a | Sl 147(147B) 1Cor 10,16-17 | Jo 6,51-58

Celebrar a festa do Corpo e Sangue de Cristo é celebrar a comunhão que


fazemos com ele. Comunhão é uma união comum, isto é, termos algo em comum
com aquele que comungamos. Quando comungamos do Corpo e do Sangue de
Cristo, ele passa a fazer parte da nossa vida, e nós passamos a fazer parte da vida
de Cristo. Estamos, portanto, amalgamados na vida de Cristo.
Será que todos que comungam têm consciência disso?
Com certeza não, porque se tivessem não haveria tanta falta de amor e de
caridade com o próximo, tantas injustiças e violência, tanto desrespeito à vida.
Comungar significa, entre outras coisas, compactuar, concordar, fazer nossa a
vida e a causa daquele com quem comungamos. Assim, comunhão é
compromisso. Quando recebemos a comunhão, estamos assumindo um
compromisso com Cristo de continuar sua missão; um compromisso de fazer o
que ele fez, ou pelo menos de nos esforçarmos para fazer o que ele fez, isto é,
amar e respeitar nossos irmãos; ver em cada ser humano a imagem e semelhança

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de Deus e, por essa razão, ver em cada pessoa alguém digno de respeito, mesmo
que não saiba disso e, por isso, não viva essa dimensão, ou não faça jus a essa
dignidade representada perante Deus.
Quando celebramos o Corpo e o Sangue de Cristo, celebramos um Deus que nos
ama incondicionalmente; um Deus capaz de se fazer alimento para que tenhamos
vida e vida plena. Sabemos que sem alimento não é possível viver. Precisamos do
alimento para nos manter vivos. Porém, o alimento que aqui recebemos é muito
mais que o alimento material que conhecemos. É o alimento para a alma. O
alimento para a vida eterna. Por essa razão, ele se recobre de significados
teológicos inatingíveis ao nosso limitado conhecimento. É o alimento que
transcende nosso entendimento, que supera as coisas terrenas, que vai além do
imanente e que nos conduz àquele que está acima da nossa compreensão, mas no
nível da fé, porque é mistério. É por isso que logo após a consagração o sacerdote
apresenta a Eucaristia sobre o altar e diz: “Eis o mistério da fé”. Cristo eucarístico
é o mistério da nossa fé. É ele que alimenta nossa fé, sacia todas as nossas fomes e
nos capacita para estar no caminho rumo à terra prometida, o Reino dos céus. É o
alimento que Deus nos oferece nessa nossa curta passagem por esse mundo. Com
ele nos fortalecemos e vencemos as dificuldades e sofrimentos dos momentos de
“desertos” que comumente enfrentamos. Deus, alimento nesta caminhada
missionária e teológica rumo à terra que mana leite e mel, o seu Reino.
Assim, vemos a primeira leitura do livro do Deuteronômio, onde Deus nos
coloca nessa dinâmica de travessia de um deserto, sendo alimentados por ele.
Deus deu alimento ao seu povo para que não perecessem no caminho da
libertação. Deus continua a oferecer-nos alimento para que não pereçamos nesse
caminhar. E não é qualquer alimento. É o melhor de todos os alimentos, como
mostra o salmo de hoje: “A paz em teus limites garantiu e te dá como alimento a
flor do trigo”. Alimentar com a flor do trigo significa que ele nos oferece ricas
iguarias.
Quando participamos da celebração eucarística, Deus nos oferece dois
banquetes, cada qual com ricas iguarias: o banquete da Palavra e o banquete da
Eucaristia. Na mesa da Palavra nos alimentamos com a sua Palavra; o Verbo se
faz carne e habita em nós e nós assumimos o compromisso de propagá-lo, de
anunciá-lo. Quando nos alimentamos da mesa eucarística, é o próprio Corpo e o
Sangue de Cristo que passam a fazer parte de nosso corpo. O Sangue de Cristo
corre em nossas veias e nos faz mais próximos dele. Nós nos tornamos mais
divinos cada vez que comungamos e, por essa razão, temos um grande
compromisso: ser coerentes com a comunhão recebida, a comunhão que fizemos
com ele. Quem comunga do Corpo e do Sangue de Cristo na missa, mas age de
modo inadequado com seu irmão fora dela, comunga indignamente. Assim, Paulo,
na segunda leitura de hoje, questiona sobre a nossa comunhão e nos leva a pensar:

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“o cálice da bênção, o cálice que abençoamos, não é comunhão com o Sangue de
Cristo?”. Se é comunhão, porque então agimos como se ele não estivesse em
nossa vida? A mesma coisa fala do seu Corpo que habita em nós depois da
comunhão. “E o pão que partimos não é comunhão com o Corpo de Cristo?” Pão
partilhado, comunhão realizada. Quem comunga e não sabe partilhar não sabe
comungar ou não entendeu o que significa a comunhão.
Cristo é, portanto, “o pão vivo descido do céu”. Ele veio até nós como alimento.
Deu sua vida para que tenhamos vida. Quando nos alimentamos desse pão, diz o
evangelho, vivemos para sempre com ele. Cristo é o alimento eterno, não
perecível e que não deixa nossa vida perecer.
Com esse espírito, celebramos a solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo. É a
memória da Páscoa que se evidencia de modo mais concreto na liturgia e na vida.
Renovamos hoje o nosso compromisso com Deus e com a comunidade de irmãos.
Somos impulsionados a ir para a missão e levar para os nossos irmãos esse Corpo
e esse Sangue de Cristo presentes em nossas ações e em todo o nosso ser. Que ao
comungarmos possamos deixar transparecer o Cristo que habita em nós.
Ao sair com a Eucaristia pelas ruas, em procissão, estamos mostrando, de modo
figurado, que Cristo está presente na nossa vida e caminha conosco. Que não
estamos sozinhos; que ele acompanha nossos passos e nos faz mais fortes e
perseverantes na nossa fé.

Sagrado Coração de Jesus [3]


& Dt 7,6-11 | Sl 102(103) 1Jo 4,7-16 | Mt 11,25-30

Celebrar a solenidade do Sagrado Coração de Jesus é celebrar o amor


misericordioso e compassivo que Deus tem por nós. Um Deus que ama
incondicionalmente e nos acolhe nas nossas fraquezas e debilidades, nossos
cansaços e fadigas. Assim, João, na segunda leitura de hoje, dá uma das mais
belas definições de Deus: “Deus é amor”.
É um Deus de amor que se revela na primeira leitura, do livro do Deuteronômio.
Deus escolhe seu povo e se afeiçoa por ele. Entenda-se “povo escolhido” como a
humanidade toda. Portanto, a afeição de Deus é por toda a humanidade, sua
criação. Deus ama cada ser humano, por menor que ele seja, e o faz grande e
numeroso, visível diante dos seus olhos. Ele nos livra da escravidão, de todas as
formas de escravidão, e com mão poderosa nos protege. Ele quer o nosso bem
porque nos ama, porque se afeiçoou a nós, seus filhos. Por isso, fez um pacto
conosco, uma aliança de amor, para que pudéssemos tê-lo sempre por perto a cada
vez que cumprimos seus ensinamentos, sua aliança. Quando erramos, ele nos
corrige como um pai ou uma mãe corrige seus filhos para que cresçam no
caminho do bem. Muitos não entendem as correções de Deus e as veem como

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castigo. Passam a ter medo de Deus e substituem o amor pelo medo. Quem vê as
correções de Deus como castigo o faz porque não o ama suficientemente, porque
não aprendeu a amá-lo. Nada é mais agressivo ao coração de Deus do que a falta
de amor, porque a falta de amor leva as pessoas a cometer atos abomináveis.
Quem não ama perde a oportunidade de encontrar Deus e tê-lo presente na sua
vida, confortando-a. A recomendação da primeira leitura é: “Guarda, pois, os
mandamentos, as leis e os decretos que hoje te prescrevo, pondo-os em prática”.
Assim, teremos Deus sempre por perto, e as coisas estarão no caminho certo, o
caminho do amor, como fala João na segunda leitura.
O amor de Deus se revela no amor que temos para com os nossos semelhantes.
“Se alguém diz: Eu amo a Deus, e, no entanto, odeia o seu irmão, esse tal é
mentiroso”, diz João mais adiante (1Jo 4,20-21). Deus, sendo amor, só pode se
manifestar nos gestos de amor. A mais estupenda obra do amor de Deus se
revelou no envio do seu Filho ao mundo para que tivéssemos vida por meio dele,
diz João nessa leitura de hoje. Ele nos deu amor primeiro. Vimos isso no Antigo
Testamento (primeira leitura) e agora no Novo (segunda leitura) ele se revela no
seu Filho Jesus, manso e humilde de coração. Se Deus nos amou assim,
escandalosamente, nós também devemos amar uns aos outros. É a maneira de
fazermos a experiência de Deus. É a maneira de o enxergarmos. Somente pelo
amor enxergamos a Deus, e não de outra forma. É o amor de Deus se realizando
em nós quando amamos uns aos outros. Assim conclui, que “Deus é amor, e quem
permanece no amor permanece com Deus, e Deus permanece com ele”. João
encontrou uma bela maneira de expressar a presença de Deus entre nós.
O amor de Deus é surpreendente. Ele se revela de formas inusitadas, a começar
pelos pequeninos, os fracos, os tidos como últimos neste mundo. Foi por isso que
ele escolheu um dos menores povos para ser seu “povo eleito” (primeira leitura).
Depois se revelou presente nos gestos mais singelos, no amor aos irmãos (segunda
leitura), e agora se revelando nos pequeninos e para os pequeninos a sabedoria de
Deus, ocultando-a daqueles que trazem arrogância no coração, os que se acham
sábios de sabedoria humana. Deus entregou tudo ao seu Filho, e este, diante de
tamanha grandeza, se fez pequeno e humilde para acolher os pequenos e
humildes. O coração de Jesus chega até nossos corações nesse gesto de
esvaziamento da sua grandeza. Assim, podemos chegar ao coração do Pai através
do coração do Filho. Ele vem até nós com o coração de Pai que ama seus filhos e
nos acolhe quando estamos cansados e fatigados sob o peso de nossos fardos. Ele
nos dá descanso. É como o pastor que cuida das suas ovelhas enfraquecidas e as
protege. Seu coração é manso e humilde. Por isso rezamos a jaculatória do seu
coração compassivo: “Jesus manso e humilde de coração, fazei nosso coração
semelhante ao vosso”.

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Que nossa meta de conversão seja esta: fazer nosso coração semelhante ao dele.
Um coração capaz de amar incondicionalmente, capaz de perdoar sempre e de
acolher sempre.
Que o sangue e a água que jorraram do seu coração aberto pela lança do soldado
lavem os nossos pecados e nos fortaleçam na missão de amar e acolher nossos
semelhantes.

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TEMPO COMUM
(cor: verde)

2º Domingo
& Is 49,3.5-6 | Sl 39(40) 1Cor 1,1-3 | Jo 1,29-34

No Brasil, o primeiro domingo do Tempo Comum dá lugar à celebração do


Batismo de Jesus e o início da sua missão. No segundo domingo a liturgia da
Palavra dá continuidade à temática apresentada no primeiro, com a apresentação
medular que João faz de Jesus, logo após o seu batismo, e o convite para o
seguimento em sua missão, fazendo a vontade de Deus, com dedicação e prazer.
Na primeira leitura, Isaías fala de um servo no qual Deus é glorificado. Um
servo preparado por Deus desde o nascimento. Ele foi preparado para recuperar
Jacó e unir Israel, ou seja, um servo que vem para recuperar e unir as pessoas, os
povos e promover a vida. Essa união é a glória de Deus. Deus é glorificado cada
vez que nos irmanamos na sua causa em prol da vida e da construção do seu
Reino. Enfim, esse servo não será apenas servo, mas será a luz para as nações.
Aquele que iluminará os caminhos e indicará a direção a ser seguida pontuará as
ações a serem feitas e levará a salvação por toda parte, até os confins da terra.
Esse servo só poder ser o Messias, o Filho de Deus enviado ao mundo. Nenhum
ser dotado apenas da condição humana teria condições de levar a cabo essa
empreitada vislumbrada pelo profeta nessa primeira leitura. É o servo que veio
para fazer a vontade do Pai e fazê-la com prazer, como diz o refrão do salmo deste
dia: “Eis que venho, Senhor, com prazer faço a vossa vontade”.
Na segunda leitura Paulo e Sóstenes se apresentam à comunidade de Corinto
como os enviados de Deus. Aqueles que foram conduzidos até eles, comunidade
de membros eleitos, para fazer a vontade de Deus. Eles mostram que cada vez que
a vontade de Deus é feita, Deus é glorificado e a comunidade é santificada. Isso
vale para todos e não apenas para a comunidade de Corinto. Porém, infelizmente,
nem todos conseguem enxergar isso e procuram fazer a sua própria vontade. Mas
nem sempre a nossa vontade é a vontade de Deus. Quando a humanidade busca
fazer apenas a sua própria vontade e não busca saber qual é a vontade de Deus,
pode sofrer as consequências de escolhas erradas. Quando isso ocorre, coloca-se a
culpa em Deus e atribui-se as consequências dos seus atos a um castigo de Deus.
Porém, quando deixamos Deus agir na nossa vida, fazendo em nós a sua vontade,
tudo tende a fluir naturalmente, no tempo certo.
João, no evangelho de hoje, ao ver Jesus se aproximar, o apresenta de uma
forma objetiva e profunda: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.
Com uma frase curta ele consegue dizer o essencial de Jesus: o Cordeiro pascal,
que dará a vida por nós. Aquele que veio para fazer a vontade do Pai, sem

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resignação. Sua missão é tirar o pecado do mundo. Ele veio para erradicar as
causas que levam as pessoas a errar. Tirar o pecado do mundo significa, entre
outras coisas, eliminar da face da terra tudo aquilo que faz as pessoas sofrerem,
que diminui a vida ou mata. João o coloca muito acima de si. Seu batismo é com o
Espírito Santo. Quem o recebe tem sua vida transformada radicalmente. O
testemunho de João é contundente: o que tira o pecado do mundo e batiza com o
Espírito. Com esses dois elementos essenciais, temos o suficiente para segui-lo,
testemunhá-lo e fazer a sua vontade.
Assim, a liturgia deste domingo nos introduz na missão de Jesus e nos ensina a
segui-lo com fidelidade, dando testemunho dele, fazendo a sua vontade sem
lamúrias. Assim estaremos provendo um mundo mais justo, mais humano e
fraterno.

3º Domingo
& Is 8,23b-9,3 | Sl 26(27) 1Cor 1,10-13.17 | Mt 4,12-23 ou 4,12-17

A liturgia deste terceiro domingo do Tempo Comum firma e confirma a missão


de Jesus, dos seus discípulos e a nossa, de batizados, discípulos e missionários.
Missão essa que consiste em estar nos lugares mais desafiadores, nos territórios
assolados pela violência, morte, ou pela ameaça dela, e ali anunciar a esperança e
apontar uma luz no fim do túnel, recuperando a alegria de viver. Como fazer isso?
Não é nada fácil, mas a liturgia deste domingo nos dá algumas dicas preciosas
nessa direção. Tanto a primeira leitura quanto o evangelho apontam, no início,
situações de perseguição, sofrimento e ameaças de morte. Em meio a tudo isso, a
semente da esperança, da paz, que insiste em germinar e dar frutos de justiça.
A primeira leitura, do livro do profeta Isaías, apresenta Zabulon e Neftali como
lugares que foram esquecidos por Deus e que por isso viraram terra de ninguém,
lugar de gente explorada e humilhada. Porém, em meio a todo esse abandono, que
o profeta classificou como lugar de escuridão, trevas, onde as pessoas habitavam
nas sombras da morte, surge a esperança. Uma luz brilhou nessa escuridão para
dissipar as sombras da morte, fazendo germinar e crescer a alegria, a felicidade.
Que luz é essa a que o profeta se refere? Uma luz que traz de volta a esperança? O
que seria? As pessoas agora se regozijam como povos vitoriosos porque a
exploração, o cativeiro, o sofrimento acabaram. Essa luz veio tirar dos seus
ombros os pesados fardos. Eles não serão mais vítimas da exploração e da
opressão. É a luz do Messias, que nasceu na manjedoura de Belém. Essa leitura é
a mesma que lemos na liturgia da noite do Natal, quando celebramos a luz de
Cristo, que veio iluminar o mundo. É a luz da proteção e da salvação, como diz o
salmo responsorial deste domingo. Com essa luz protetora, as pessoas sentem-se
encorajadas a lutar por seus direitos, a não se calar diante das injustiças, a dar um

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basta a todos os desmandos que as oprimem. Um território que até então só servia
de caminho agora se cobriu de glória. É a profecia de Isaías que se concretiza no
evangelho de hoje.
O texto do Evangelho de Mateus, lido na liturgia deste domingo, apresenta,
portanto, o início oficial da missão de Jesus. O contexto é de violência e
perseguição. João Batista é tirado de circulação, tinha sido preso. Assim, o Antigo
Testamento dá lugar ao Novo. A missão de Jesus começa num tempo nebuloso e
num território historicamente envolto pelas trevas. Ali é lugar de missão. É o local
que Jesus escolhe para consolidar sua vida pública e mostrar a que veio,
cumprindo o que foi dito pelo profeta Isaías: “Terra de Zabulon, terra de Neftali,
caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos! O povo
que vivia nas trevas viu uma grande luz, e para os que viviam na região escura da
morte brilhou uma luz”. É neste lugar inóspito que Jesus começa a pregar a
conversão com a seguinte motivação: “porque o Reino dos céus está próximo”.
Ele é a proximidade desse Reino. A partir do momento em que ele escolheu esse
lugar de morte para anunciar a vida, o Reino se aproximou daquelas pessoas até
então sem esperança e, consequentemente, sem alegria. Jesus é a luz, é motivo de
muita alegria e de esperança. Mas para que essa alegria e essa esperança não
sejam mais uma situação de alienação como tantas vividas até então, é preciso a
conversão, a mudança de vida, a conscientização da situação de opressão vivida e
o compromisso para sair dela. Jesus não veio transformar esse lugar com um passe
de mágica, sozinho. Ele precisará da ajuda de todos, inclusive de discípulos que
farão novos discípulos e se multiplicarão e centenas, milhares e milhares de outros
discípulos e missionários que não temerão pôr a mão na cova da serpente nem os
obstáculos que, com certeza, encontrarão pelo caminho. Tudo isso movidos pela
certeza da proximidade do Reino dos céus àqueles que vivem no inferno, nas
regiões das trevas, como era classificada até então aquela região. Nesse contexto,
Jesus irá escolher seus discípulos. No texto de hoje vemos a convocação de quatro
deles, duas duplas de irmãos, Pedro e André, Tiago e João, os filhos de Zebedeu.
Ao receber o convite de Jesus, eles não titubeiam na decisão. Prontamente
abandonam o barco, as redes e até o pai e assumem a missão de Jesus. Vemos,
assim, que o seguimento de Jesus exige renúncias e rupturas. É preciso romper
com certas estruturas, por mais tradicionais que elas sejam, para poder abraçar
uma nova proposta. É o que fazem esses irmãos ao deixar as redes, a barca e o pai.
É o apelo da liturgia deste domingo a cada um de nós, cristãos, batizados,
membros de uma comunidade eclesial.
Quais são as renúncias que nos são pedidas, hoje, para seguir Jesus? Que
rupturas nós conseguimos fazer para poder abraçar livremente as propostas do
Reino? Isso nem sempre é fácil. Às vezes, nesse seguimento, nos envolvemos com

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situações e coisas tão banais e periféricas que acabamos por esquecer o essencial.
É sobre isso que nos alerta Paulo na segunda leitura.
Paulo, no trecho da primeira Carta aos Coríntios, chama a atenção da
comunidade que está envolvida em discórdia por causa das panelinhas que haviam
se formado em torno deste ou daquele líder religioso. Esses grupinhos dividiam a
comunidade e isso a enfraquecia, atravancando o seu avanço como comunidade de
irmãos em Cristo, de pessoas unidas e concordes no falar e no pensar. Uns
defendiam as ideologias de Paulo, outros, de Apolo, outros, de Cefas (Pedro) e
outros ainda, de Cristo. Com todas essas divisões de pensamentos não seria
possível uma verdadeira comunidade. A missão de Paulo é conscientizar essa
comunidade para que, embora formada por pessoas de distintas opiniões, não se
perdesse o essencial, Cristo e seus ideais. A missão de Paulo não é batizar, mas
conscientizar as pessoas, através da pregação da Boa-Nova da salvação, presente
na força transformadora da cruz de Cristo. O batismo seria algo que viria depois,
quando as pessoas já tivessem plena consciência do seu compromisso, da sua
missão de discípulas. Com isso, ele chama também a nossa atenção. Quantas não
são as desavenças e discórdias que surgem na igreja por coisas banais, como, por
exemplo, o ciúme, as fofocas, as panelinhas etc.? Quando isso ocorre é sinal de
que se perdeu de vista o essencial, Jesus Cristo. É, portanto, algo muito sério e
carece de conversão. É o que pregava Jesus naquelas terras envoltas em trevas:
“convertei-vos, porque o Reino dos céus está próximo”. Com a Eucaristia, esse
Reino se aproxima de nós, mas, envolvidos por contendas na comunidade, nem
sempre nos damos conta disso. Só uma verdadeira conversão e uma mudança de
atitude serão capazes de dissipar as nuvens que encobrem nossa visão e nos
impedem de enxergá-lo na comunhão eucarística e na comunhão com nossos
irmãos.
O convite que Jesus fez aos quatro primeiros discípulos se estende a cada um de
nós: “segui-me, e eu farei de vocês pescadores de gente”. Resgatar vidas é a nossa
missão de batizados. Esse é o grande desafio de ser cristão, e essa é uma das
propostas da liturgia deste domingo.

4º Domingo
& Sf 2,3; 3,12-13 | Sl 145(146) 1Cor 1,26-31 | Mt 5,1-12a

A liturgia deste quarto domingo do Tempo Comum nos convida a refletir sobre
a felicidade. Um tema muito importante para todos, pois fomos criados para
sermos felizes. O filósofo Aristóteles dizia que a felicidade é o fim último do
homem. Mas, afinal, o que é a felicidade? Como Deus a vê e como nós a vemos?
A liturgia de hoje mostra que o conceito teológico de felicidade não tem nada a
ver com o que acreditamos ser a felicidade. Para muitos, felicidade é ter dinheiro,

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poder, beleza, status , sabedoria humana etc. Já para Jesus felicidade consiste em
ser pobre em espírito, que significa, entre outras coisas, deixar-se guiar pelas
coisas de Deus. Assim sendo, bem-aventurança é sinônimo de felicidade. Se bem-
aventurança é sinônimo de felicidade, a liturgia de hoje indica o caminho para ser
feliz, porque as bem-aventuranças fornecem pistas preciosas para obter o Reino
dos céus, a maior promessa de felicidade que alguém pode receber. É o que
veremos nesta liturgia da Palavra.
Fomos criados para sermos felizes, mas, infelizmente, por não entender o que
realmente é a felicidade, a busca desenfreada por ela faz com que o ser humano
provoque a infelicidade de outros. Tudo isso porque a sociedade coloca como
caminho para a felicidade o ter, o poder e os seus derivados. Para alcançar esses
objetivos, provoca-se muito sofrimento e dor, oprimindo, subjugando e até
matando pessoas. É o que vemos na primeira leitura do livro do profeta Sofonias.
O profeta Sofonias escreve num contexto de exílio, isto é, de muito sofrimento,
resultado da opressão dos poderosos sobre os fracos. Aqueles que cometiam
iniquidades e falavam mentiras, cujas línguas eram enganadoras, seriam
destituídos pela cólera do Senhor, diz o profeta. Sobrariam apenas os humildes da
terra, os que colocavam em prática os preceitos de Deus, os que eram vítimas das
injustiças. Restaria, portanto, apenas um punhado de gente pobre e humilde. É
nesse “resto de Israel” que Deus depositará sua confiança e sua força. Estes, por
sua vez, continuarão colocando a sua esperança em Deus, agindo conforme a
vontade dele, com justiça, não cometendo iniquidades como até então muitos
vinham procedendo. Deus escolheu esse pequeno grupo de espoliados por um
sistema opressor para reerguer seu povo. Eles serão apascentados e repousarão,
diz o profeta, e ninguém os molestará. Assim, Deus nos surpreende ao mostrar
que a felicidade não consiste no poder e na riqueza, mas na prática da justiça. Não
é possível ser feliz quando muitos são infelizes, ainda mais quando essa suposta
felicidade foi obtida à custa da infelicidade de outros. O Reino dos céus só será
possível quando todos forem felizes e não apenas alguns. Para isso é preciso
inverter a ordem das coisas, resgatando a dignidade dos pobres e libertando-os de
toda forma de opressão que provoca aflição, subalternidade, desigualdade,
insensibilidade e todas as situações que degradam a vida.
Em vista disso, Paulo, quando se dirige à comunidade de Corinto, uma
comunidade formada por pessoas humildes, de pobres e iletrados, anuncia que
eles são os eleitos de Deus. Deus os escolheu para confundir aqueles que se
achavam sábios. Estes, tidos como fracos, iriam confundir os fortes. Aqueles a
quem até então ninguém dava a menor importância, que eram esquecidos, Deus
escolheu para mostrar quão inútil eram os que se acham importantes. Ninguém
mais iria pisoteá-los, humilhá-los, porque Deus estava com eles. Aqueles que até
então eram oprimidos e esquecidos, tidos como ignorantes, agora se tornaram

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sabedoria, justiça, santificação e libertação. Ninguém mais se gloriaria na riqueza,
no poder ou na sabedoria humana, mas apenas no Senhor. Esse Deus que nos
surpreende com seu amor, transformando as situações de morte em vida plena,
não se cansando de fazer aliança conosco, vamos ver no evangelho de hoje, na
pessoa de Jesus que se compadece da multidão que vive como ovelhas sem pastor,
propondo o caminho para a liberdade e a felicidade.
Jesus sobe ao monte depois de ver a multidão em condições precárias. Ali ele irá
promulgar a nova aliança, ensinando-a aos discípulos para que estes sejam
multiplicadores dos seus ensinamentos. O conteúdo dessa aliança, que não
consiste em um código de leis, mas no caminho para a felicidade, tem como
princípio a inversão dos valores. Enquanto se acreditava que para ser feliz era
preciso ter posses, Jesus afirma que são felizes os pobres em espírito porque o
Reino de Deus lhes pertence, e não há maior motivo de felicidade do que ter o
Reino dos céus. Jesus não está falando de conformismo com a pobreza para obter,
na outra vida, o Reino, mas fala daqueles que pautam suas vidas em Deus e não
em bens materiais. Aqueles que colocam Deus em primeiro lugar em suas vidas
são pobres em espírito – não pobres de espírito, que é algo bem diferente. Uma
vez que eles depositam toda sua esperança unicamente em Deus, sua esperança
não será vã. Assim, a primeira bem-aventurança contém todas as demais. É um
imperativo que ordena o avanço, o seguir adiante na luta por um mundo mais
justo, que um dia a conquista virá. É um encorajamento daqueles que estão aflitos
e que foram subjugados pelos opressores. Eles serão consolados e possuirão o que
buscam, isto é, a terra. Esses pobres em espírito buscam incansavelmente a
justiça, com fome e sede dela. Por essa razão, verão a justiça acontecer. Os pobres
em espírito são pessoas misericordiosas e puras de coração, e por essa razão
obterão a misericórdia de Deus e conseguirão percebê-lo com mais facilidade que
outros. Apesar de viverem em situações de sofrimento e ausência de paz, são
promotoras da paz e por isso sentem Deus como um verdadeiro Pai que as ama e
as protege. Mesmo perseguidas por causa da justiça, injuriadas e caluniadas, não
perdem a esperança e confiam na chegada do Reino que lhes pertence. Estes são
verdadeiramente felizes porque já obtêm a maior de todas as recompensas: a
participação na construção de um mundo onde reina Deus. Onde o amor e a paz se
abraçarão. Um Reino onde a paz será fruto da justiça. Não será um lugar fora
deste mundo, como alguns imaginam, mas que começa aqui, quando se faz a
vontade de Deus.

5º Domingo
& Is 58,7-10 | Sl 111(112) 1Cor 2,1-5 | Mt 5,13-16

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A liturgia deste quinto domingo do Tempo Comum foca na ação missionária,
nas boas obras, e as compara ao sal da terra e à luz do mundo, dois elementos bem
distintos em visibilidade, mas essenciais para a vida. O sal, embora não apareça,
dá gosto e sentido aos alimentos, isto é, à vida. A luz, porém, é muito visível,
existe para iluminar, apontar caminhos, dissipar as trevas. Ambas as comparações
são muito oportunas para a missão e a pessoa do discípulo e missionário Jesus
Cristo. Não é a pessoa do discípulo que tem que aparecer. Ela é apenas o sal. O
seu efeito, as suas ações em prol da vida, estas sim devem aparecem, ser exemplo,
ser luz. São, portanto, dois símbolos que se complementam e resultam naquilo que
é essencial à vida. Como fazer isso? As leituras de hoje nos dão as respostas.
A primeira leitura, do livro do profeta Isaías, é direta na resposta ao dizer que se
alguém quer, de fato, brilhar diante de Deus e neste mundo, que pratique atos de
amor e solidariedade: partilhar, acolher bem, fazer algo para suprir as
necessidades do próximo, não humilhar as pessoas com atitudes arrogantes e
prepotentes, enfim, que haja bondade no coração, e que ela seja colocada na
prática. Somente assim nossa luz brilhará diante de Deus. Além disso, o texto
deixa claro que fazer bem ao próximo também nos faz muito bem. Quantos são os
que estão doentes, com depressão ou estressados, com problemas cardíacos,
porque vivem para si mesmos ou muito ocupados em não fazer nada, como diz
são Paulo em outro texto. O sedentarismo adoece e mata. Quem ajuda o próximo
obtém saúde, diz a primeira leitura de hoje. É saudável fazer bem ao próximo. Nos
lugares públicos, e nos consultórios médicos, deveria haver placas com os
seguintes dizeres: “ajudar o próximo faz bem à saúde” (Is 58,7-8). Esse deveria
ser um alerta dos médicos aos seus pacientes. Quando fazemos bem ao nosso
semelhante, os primeiros a ser beneficiados por essa ação somos nós mesmos. Ser
bom e justo é o caminho certo para que a glória de Deus nos acompanhe.
Glorificamos a Deus quando assim agimos, com bondade e solidariedade. Quem
age desse modo sente Deus mais próximo de si e isso o fortalece. Portanto, para
que tudo isso aconteça, é preciso conversão do coração, mudança de vida,
erradicando dela procedimentos inadequados. É preciso, a cada dia, ter o
propósito de ser melhor e de fazer melhor cada coisa, por mais simples que elas
sejam. É nos pequenos atos que se revela a grandeza do ser humano. Isaías nos dá,
hoje, uma importante dica. Vamos começar deixando de lado o costume perverso
de falar mal da vida alheia. Deixar de lado hábitos autoritários e a língua maldosa
é o primeiro passo para a conversão e o acolhimento de todos, mas,
principalmente, dos que mais necessitam. Assim, seremos uma luz que brilha nas
trevas, como diz o salmo de hoje. Outro passo importante é a prática da
humildade.
Paulo, na segunda leitura de hoje, dá esse exemplo de humildade. Com toda a
sua sabedoria, ele se dirige à comunidade de Corinto, formada por gente pobre,

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humilde, como vimos no domingo passado, e se apresenta como um servo de
Cristo, que está ali para ajudar e não para julgar ninguém, ou ser mais importante
que eles. Para isso, ao anunciar o mistério de Deus, ele usa a linguagem deles, sem
recorrer à linguagem elevada, dos eruditos e supostamente sábios de sabedoria
humana. A única coisa que Paulo julgou saber foi Cristo, e este crucificado, ou
seja, pautou a sua vida e as suas ações naquele que foi o exemplo sublime de
humildade e amor ao próximo. Essa foi a razão da conversão e das ações de Paulo.
Essa deve ser sempre a nossa razão para a conversão e missão. Suas palavras,
entre os humildes, não tinham nada de discursos persuasivos, como fazem alguns
políticos e os charlatões, mas era uma pura demonstração do poder do Espírito.
Tudo isso para que eles também tivessem a fé baseada nesse poder de Deus e não
nas promessas mágicas do mundo, ou nas propostas tentadoras que o mundo
oferece, mas que estão vazias de sentido para a vida.
Com a proposta de Isaías e de Paulo, entramos no evangelho e vemos que o
proposto neste domingo por Jesus é algo semelhante. Todo aquele que quer ser
seu discípulo deve ter consciência disto: fazer o bem sem querer status , e agir
gratuitamente, sem esperar nada em troca desses atos. Nisso consiste ser sal da
terra e luz do mundo. É preciso agir, fazendo com que a vida daqueles que já
perderam o sentido volte a ter sentido. Porém, fazer isso sem aparecer, sem querer
lugar de destaque e honrarias. Quando agimos dessa maneira, estamos sendo sal
da terra e, consequentemente, luz para essas pessoas e para o mundo, porque viver
infeliz, sem ver a beleza da vida, é viver na escuridão. Quem devolve a alegria de
ver e de viver a alguém que está nessas condições, está sendo, em sua vida e na do
mundo, sal e luz. Essas ações precisam ser propagadas, evidenciadas. “Ninguém
acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas, sim, num candeeiro,
onde brilha para todos que estão em casa”, diz o texto. Assim, as boas obras
devem ser divulgadas, evidenciadas e não ficar ocultas. Devem ser evidenciadas
para ser imitadas e não para mostrar quem as fez. Quem as praticou deve ficar
oculto como o sal. O desejo de Jesus é, portanto, que a nossa luz de discípulos e
missionários seus brilhe diante do mundo, para que todos vejam que, apesar de
tantas coisas ruins que os meios de comunicação mostram, há muita coisa boa
sendo feita. Há muita gente que é como o sal da terra e a luz do mundo, heróis
anônimos que não estão nos reality shows da TV nem nas manchetes dos jornais,
mas que estão aí, no meio da massa, dando gosto e sentido à vida de muitos.

6º Domingo
& Eclo 15,16-21 | Sl 118(119) | 1Cor 2,6-10 Mt 5,17-37 ou 5,20-22a.27-28.33-
34a.37

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A liturgia deste sexto domingo do Tempo Comum coloca diante de nós, para a
nossa reflexão, os mandamentos de Deus, revelando a sua sabedoria. São eles que
devem guiar nossos passos e nossas ações. Quem se deixa guiar pelo Espírito
Santo, que tudo esquadrinha, e procura viver os mandamentos de Deus, não
apenas como um código de leis, mas como orientações que se desdobram em
outros procedimentos de bondade e de justiça, mostra que conhece a sabedoria de
Deus, da qual fala Paulo, na segunda leitura de hoje.
A primeira leitura, do livro do Eclesiástico, diz claramente: os mandamentos de
Deus, quando observados e colocados em prática, são para nós um porto seguro.
Deus nos guarda e nos protege através da vivência dos seus mandamentos. Viver
os mandamentos de Deus é a forma mais eficaz de estarmos com ele. É a prova de
que cremos nele. Porém, ele nos dá a liberdade de escolha: viver ou não os seus
ensinamentos. Podemos fazer a nossa escolha, mas, de acordo com o que
escolhermos, teremos resultados congruentes. Isso não é ameaça nem castigo. É a
lei do retorno. Diante de nós, diz o texto da primeira leitura, estão o fogo e a água,
o bem e o mal, enfim, a vida e a morte. Cada um pode escolher aquilo que desejar.
Deus, na sua infinita sabedoria, nos criou inteligentes e deu-nos liberdade para
usar dessa inteligência nas nossas escolhas. Seremos sábios se, de fato, pautarmos
a nossa vida na sabedoria de Deus, assim, tudo tenderá a dar certo, seremos
felizes, como diz o salmo de hoje. O salmo afirma que somos felizes quando, do
nosso caminho, da nossa vida, dissipamos o pecado. Somos felizes quando, na lei
de Deus, pautamos o nosso proceder e, assim, vamos progredindo, crescendo
nesse procedimento correto. Somos felizes quando observamos os preceitos de
Deus e assim o procuramos de todo o nosso coração. Esse salmo é, portanto, um
salmo de bem-aventurança, que mostra os caminhos de Deus e a sua sabedoria,
como fala Paulo na segunda leitura.
Neste trecho de hoje, da primeira Carta aos Coríntios, Paulo fala da sabedoria de
Deus. Um tipo de sabedoria acessível apenas àqueles que pautam a sua vida na lei
do Senhor. Os que de fato amam a Deus e ao seu próximo tornam-se partícipes
dessa sabedoria divina. É o mistério de Deus revelado pelo Espírito àqueles que
no seu viver vão além do cumprimento das normas e regras, dos preceitos
religiosos, e agem com bondade para com seu semelhante, como ensina o
evangelho deste domingo.
Jesus mostra para os seus discípulos e para cada um de nós que não basta
cumprir os preceitos religiosos para ser salvo. As leis de Deus e seus
mandamentos não podem ser reduzidos a meros códigos de normas restritas e
desconectas da realidade. É preciso ir além para não ser considerado o menor no
Reino de Deus. Não basta viver dessa forma, é preciso também ensinar a outros
esses procedimentos que ultrapassam os códigos de leis. Nisso consiste a missão
de Jesus, a de seus discípulos e a de todos os cristãos. De nada adianta ir à missa

90
todos os domingos e comungar, contribuir fielmente com o dízimo e dar esmolas
nas missas, se houver um coração endurecido dentro de nós na hora de ajudar o
nosso próximo, de perdoar as ofensas, de socorrer os necessitados, enfim, de amar
como Jesus amou.
No texto do evangelho de hoje, Jesus retoma os mandamentos e os esquadrinha
para mostrar quanto eles são profundos e não podem ser interpretados e vividos na
superficialidade. Com isso ele escancara a prática legalista dos fariseus, mestres
da lei e doutores e apresenta uma nova forma de vivê-los, uma nova proposta.
Lembrem-se bem, não é um novo mandamento, mas é o verdadeiro cumprimento
do que já existe e que até então era vivido de fachada, como dá a entender o texto.
Nessa nova modalidade de viver os mandamentos, a vida deve ter prioridade, ser
respeitada em todas as suas dimensões. O conceito de justiça trazido por Jesus é
amplo e supera o que até então era tido como justiça pelos mestres da lei e
fariseus. Por exemplo, não basta não matar, é preciso não maltratar o próximo
porque quando um ser humano é maltratado, ele está sendo submetido a uma
forma de morte. Existem muitas maneiras de se matar alguém e não apenas a
maneira literal de se tirar a vida. Quem tira a liberdade de alguém, por exemplo,
está lhe tirando, de certa forma, a vida. Poderíamos, aqui, fazer uma lista de
situações vividas no dia a dia e que representam tipos distintos de mortes. Tudo
isso deve ser evitado no nosso procedimento diário, diz Jesus. A morte pela
calúnia, pela inveja, pela raiva, pelas agressões físicas, verbais e morais etc.
Assim, todos os mandamentos são retomados e redefinidos no seu conteúdo, na
sua abrangência e no seu campo de ação. Jesus vem, portanto, para dar pleno
cumprimento a tudo isso que até então não estava sendo vivido, ou vivido de
modo errado, por pura formalidade. Com isso mostra para cada um de nós que a
nossa prática religiosa não deve se resumir às missas dominicais e demais
sacramentos, mas deve ser colocado em prática aquilo que eles, os sacramentos e
os preceitos religiosos, têm de teológico, de pastoral, essencial para a vida.
Fica aqui uma questão para refletir: será que a nossa vivência religiosa não está
resumida a práticas sacramentais superficiais, desconectadas da realidade e do
compromisso com a vida?
Vale a pena pensar sobre isso e constatar que os mandamentos de Deus não
estão sendo vividos como se deve; é hora de rever a prática religiosa que se tem.

7º Domingo
& Lv 19,1-2.17-18 | Sl 102(103) 1Cor 3,16-23 | Mt 5,38-48

Vimos durante toda esta semana, através da história da criação, quanto Deus nos
ama. Ele quer que sejamos, de fato, como ele nos criou, isto é, à sua imagem e
semelhança. Por essa razão, somos chamados à santidade: ser santos porque

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aquele que nos criou é santo. Somos filhos da perfeição e da santidade e podemos
atingi-la se seguirmos os seus ensinamentos e trilharmos os seus caminhos. Esse é
o tema central da liturgia deste sétimo domingo do Tempo Comum, que trata de
nos indicar os caminhos que nos levam a essa santidade desejada por Deus a cada
filho seu.
A primeira leitura é do livro do Levítico. Podemos dizer que é o coração do
Levítico, o livro que contém os ensinamentos de Deus para a santidade das
pessoas. O trecho escolhido para a liturgia deste domingo parte do seguinte
princípio: “Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. Como ser
santo sem ser Deus? Ser santo não significa não ter pecado. Significa nos
esforçarmos para não pecar e reparar os pecados cometidos. Como fazer isso
diante de tantas tentações? A resposta vem logo a seguir, numa espécie de código
para se obter a santidade. A primeira recomendação é não ter ódio no coração
contra o irmão. O ódio nos distancia não apenas dos nossos semelhantes, mas de
Deus. Ele prejudica em primeiro lugar aquele que traz esse sentimento dentro de
si. Quem tem ódio vai se autodestruindo, tornando-se uma pessoa amarga,
rancorosa, que faz um inferno da sua própria vida. Quem consegue extirpar esse
sentimento do seu coração dá o primeiro passo no processo de santidade. A
segunda recomendação é não sermos omissos diante do pecado do próximo.
Próximo não é apenas aquele que está geograficamente perto de nós, mas é uma
proximidade antropológica, de raça, isto é, qualquer ser humano é meu próximo,
mesmo que ele esteja do outro lado do mundo, ou que viva num submundo do
qual eu desconheço. Quando eu sei que alguém está fazendo algo errado, que
ofende a vida em qualquer uma de suas modalidades, e me calo diante desse ato,
estou sendo conivente com ele, sou, de certa forma, seu cúmplice. Recomenda-se,
portanto, que repreendamos aquele que peca para não nos tornarmos culpados por
causa dele, diz o texto. A outra recomendação fundamental para trilharmos o
caminho da santidade é não cultivarmos o desejo de vingança no nosso coração. O
desejo de vingança é indício de que o coração está cheio de ódio e rancor, e, como
vimos acima, quem traz esses sentimentos no coração não está no caminho da
santidade. Por fim, o texto nos dá a chave da santidade: o amor. Quem ama o
próximo como a si mesmo consegue trilhar os caminhos da santidade. Para
conseguir amar o próximo, é preciso ter sempre diante de si um Deus que ama e
que é misericordioso, e que, portanto, perdoa incondicionalmente, como mostra o
salmo de hoje.
Paulo, na primeira leitura da Carta aos Coríntios, também fala dessa santidade,
mostrando que somos “santuários de Deus”, isto é, que Deus habita em nós e que
por isso todo ser humano é digno de amor e de respeito. Assim sendo, quando
odiamos o próximo, ou deixamos de amá-lo, violamos esse santuário. Toda vez
que um ser humano é agredido na sua dignidade, Deus é agredido nele,

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provocando, assim, uma cadeia de destruição que leva à morte. Nisto consiste a
sabedoria de Deus: amar e respeitar o ser humano. Porém, isso não significa que
devemos colocar o ser humano no lugar de Deus. Depositamos a glória dele, de
Deus, em alguma pessoa, mas, sim, sabendo separar o Criador das suas criaturas.
Saber que tudo pertence a Deus, tanto as pessoas quanto o mundo, a vida e a
morte, e que há uma integração dessas criaturas com seu Criador. Quando a
criatura é atingida, atinge-se também o seu Criador. Quem nos liga a esse Criador
é seu Filho, Jesus, que no evangelho de hoje nos ensina mais uma vez o caminho
para chegar a Deus, o caminho da santidade, o caminho da perfeição. Para isso,
ele parte das leis, dos ensinamentos antigos, e os amplia, apresentando para nós a
novidade, ou originalidade do cristianismo.
Antigamente, bem antes do cristianismo, ou mesmo antes do povo de Israel, já
existia a lei do “olho por olho, dente por dente”. Isto é, se alguém lhe faz o mal,
dê o troco em igual ou pior medida. Era uma lei tribal, para defender a tribo e os
que dela faziam parte. O diferente era visto como inimigo, mesmo que fosse da
mesma espécie. A proposta era combater a violência com outro ato de violência,
tendo como propósito inibir a ação violenta com outra ação de igual proporção,
que colocasse medo. Esse procedimento primitivo de combate é reducionista e
não resolve o problema da violência, podendo apenas inibi-la ou fomentá-la ainda
mais. Porém, mesmo sendo algo que revela o lado primitivo do ser humano, ela
perdura ainda hoje no imaginário coletivo. Jesus, porém, apresenta uma proposta
inovadora. Combater a violência com a não violência. Mas isso só será possível se
não cultivarmos rancor ou ódio no coração, como vimos na primeira leitura. A
solução está no amor. Mas não qualquer tipo de amor. Não apenas o amor àqueles
que são agradáveis, aqueles pelos quais nutrimos algum sentimento bom. A estes
é fácil amar; não exige nenhum esforço da nossa parte. Qualquer um pode fazer
isso, até a pior de todas as pessoas pode amar aqueles que lhe são agradáveis e
favoráveis. A proposta agora é amar o inimigo, aqueles que nos perseguem, que
nos prejudicaram ou querem prejudicar. Aquele que cometeu um ato abominável e
que o irracional do ser humano pede que seja feita justiça usando métodos
equivalentes, como, por exemplo, a pena de morte, o linchamento em praça
pública, a prisão perpétua etc. Quem se diz cristão e aprova atos dessa natureza
para “combater” a violência mostra que não entendeu nada do que é, de fato, ser
cristão, e que seu ser cristão não passa de um grande equívoco.
Combater a violência com o amor é a essência da proposta de Jesus, a sua
originalidade. Enquanto o mundo pede que vingue aquele que praticou uma
maldade, Jesus manda perdoá-lo e, sobretudo, amá-lo. Não é a violência da
vingança que irá recuperar aquele que errou, mas o amor. A violência se combate
com atitudes nobres, que a desbancam, como, por exemplo, dar a outra face
quando alguém nos esbofeteia; oferecer também o manto quando alguém nos leva

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a túnica; caminhar dois quilômetros quando alguém nos obriga a caminhar um.
São exemplos figurados para mostrar que não devemos reagir com violência
diante de atos e propostas violentas. Gandhi, embora não fosse cristão, propôs
esse método ao mundo para implantar a paz e o respeito à vida. Não é odiando o
inimigo que vamos solucionar os males do mundo, ou as consequências dele. O
ódio nada mais é que um combustível que fomenta a violência e os demais tipos
de males. A proposta de Jesus é clara e inovadora: amem os inimigos, rezem por
aqueles que vos perseguem. É a única forma de nos tornarmos perfeitos, santos,
como Deus quer que o sejamos. É o critério para nos tornarmos filhos de Deus,
porque não é possível ter um Pai santo e justo e praticar injustiças e permanecer
nas nossas imperfeições. Deus ama a todos, indistintamente, maus e bons, justos e
injustos, mas o seu amor é para que os maus deixem de ser maus e os injustos
deixem de ser injustos. Nosso perdão e o nosso amor é que irão transformar a
nossa vida e a vida daqueles que perdoamos. Não é nada fácil, mas é o único
caminho, diz Jesus.
É esta a proposta deste sétimo domingo do Tempo Comum: esforçarmo-nos
para sermos perfeitos e santos, tendo como exemplo o próprio Deus, que nos criou
à sua imagem e semelhança. As dicas foram dadas, basta segui-las que estaremos
no caminho certo.

8º Domingo
& Is 49,14-15 | Sl 61(62) 1Cor 4,1-5 | Mt 6,24-34

A liturgia do oitavo domingo do Tempo Comum trata do tema da confiança em


Deus e do serviço a ele como único Senhor, mostrando que, quando se confia
plenamente em Deus, nada falta. Porém, quando não se confia como deveria, o
coração se volta para as coisas materiais, como, por exemplo, o dinheiro,
acreditando que ele trará segurança. Na sua busca se desgasta, têm-se
preocupações excessivas, insensibiliza-se com o sofrimento alheio e esquece-se
do amor de Deus, deixando-o de lado. Tudo isso gera estresse e outras
consequências que desqualificam a vida e fazem perder a noção daquilo que é
realmente importante, essencial: o Reino de Deus e a sua justiça.
Para entendermos essa realidade, os textos bíblicos propostos para este domingo
trazem um Deus que ama mais que um pai ou uma mãe, isto é, um amor gratuito,
desinteressado, pronto a dar a sua vida para que a tenhamos em plenitude. Mas
nem sempre conseguimos entender esse amor. Somos como aqueles filhos
ingratos, rebeldes e egoístas, que querem a todo custo que seus pais façam todas
as suas vontades e, quando elas não são satisfeitas, ficam magoados e acham que
não são amados, que são esquecidos, ou qualquer outro sentimento que não
corresponde ao sentimento que Deus tem pelos seus filhos. É isso que apresenta a

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primeira leitura, do livro do profeta Isaías. Sião sentia-se abandonado e esquecido
por Deus, mas Deus lhe disse: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho
pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre?”. Dificilmente uma mãe
esquecerá o seu rebento porque ele é parte dela, ele precisa dela, ele não sobrevive
sem ela. Se para um ser humano abandonar um filho pequeno não é algo comum,
para Deus isso é impensável. Seu amor por nós não tem limites, e ele jamais irá
nos abandonar. Basta confiar e se entregar totalmente a ele. Isaías consola o povo
de Sião falando de um Deus que ama sem limites, um Deus no qual se pode
confiar plenamente, em quem a alma encontrará repouso. É o nosso rochedo e
salvação, como diz o salmo desde domingo, o salmo da confiança em Deus.
A segunda leitura, da primeira Carta de são Paulo aos Coríntios, mostra Paulo
exortando a comunidade a servir a Deus com fidelidade, sem se preocupar com o
que dizem ou deixam de dizer a seu respeito. Quando se age com a consciência
tranquila, nada poderá atrapalhar essa ação. É, portanto, um pedido de confiança
em Deus que Paulo faz à comunidade de Corinto. Quando confiamos em Deus,
nossos trabalhos na comunidade se tornam mais eficazes, porque não damos
ouvidos a intrigas e falatórios que não procedem. Uma comunidade que confia é
uma comunidade que não desanima na sua missão evangelizadora, mesmo que
sejam muitos os obstáculos e dificuldades. Quem participa de uma comunidade
eclesial está ali para servir a Deus, e quem serve unicamente a Deus não se deixa
levar pelo julgamento das pessoas. Deus passa a ser seu único juiz.
O evangelho de hoje mostra isso com bastante clareza. “Ninguém pode servir a
dois senhores, pois ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o
outro”. Ele se refere ao dinheiro que, muitas vezes, é colocado no lugar de Deus.
A busca desenfreada pelo dinheiro pode fazer com que Deus não tenha mais lugar
na nossa vida. O dinheiro passa a ser o “senhor” da nossa vida, e a ele passamos a
servir, isto é, nos tornamos escravos dele. Uma vez escravizados pelo dinheiro,
nós nos tornamos pessoas duras, mesquinhas, insensíveis e insaciáveis, que
querem sempre mais, e canalizamos, assim, todas as nossas forças para os bens
materiais. A Campanha da Fraternidade de 2009 refletiu com bastante
profundidade sobre esse tema e nos alertou para esse problema que afeta as
pessoas, desqualificando a vida.
O trecho do evangelho escolhido para a liturgia deste domingo mostra que a
pessoa que tem fé, que confia em Deus, não tem excessiva preocupação com os
bens materiais. Ela sabe que Deus proverá, basta fazer a sua parte que Deus, em
seu tempo, fará a parte dele. Somos convidados a olhar em nossa volta as obras da
criação (os pássaros e os lírios dos campos) e perceber como Deus cuida de tudo,
provendo a todas as suas criaturas nas suas necessidades. Se ele cuida com tanto
carinho de algo tão efêmero como a erva do campo, quanto mais de nós, seres
criados à sua imagem e semelhança? Ele fará muito mais por nós. Basta confiar

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um pouco mais. Assim sendo, não vamos canalizar todas as nossas preocupações
apenas com o que vamos comer e vestir, ou seja, com algo meramente pessoal.
Isso revela o nosso individualismo e egoísmo. É preciso pensar as soluções que
poderão ajudar todos a ter o que vestir e o alimento necessário para a vida. É
preciso pensar na prática da justiça. É o que pede hoje o evangelho e as demais
leituras: “buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas
coisas vos serão dadas por acréscimo”. Numa sociedade onde as pessoas buscam
em primeiro lugar a justiça, o Reino de Deus acontece, isto é, todos terão o que
necessitam para viver com dignidade.

9º Domingo
& Dt 11,18.26-28.32 | Sl 30(31) Rm 3,21-25a.28 | Mt 7,21-27

No nono domingo do Tempo Comum, a liturgia da Palavra traz como tema


central os mandamentos de Deus, a sua Palavra, como alicerce para a nossa vida.
É, portanto, um convite para refletirmos sobre onde, quando, como e em quem
estamos pondo a nossa confiança. Será que nossas ações estão pautadas nos
ensinamentos de Deus, na sua Palavra, ou em teorias vazias, dessas que nos são
apresentadas revestidas por uma bonita roupagem, mas que não têm fundamento
ou a solidez necessária para nos amparar na hora dos desafios? Nossa vida é o
resultado de nossas escolhas.
Na primeira leitura, do livro do Deuteronômio, Moisés trata da lei que recebeu
de Deus. São Palavras que deveriam estar gravadas não apenas nas tábuas ou
pedras, como de fato estavam, mas incutidas no coração e na alma, amalgamadas
na vida de cada um como se estivessem amarradas nas mãos e colocadas como
faixa sobre a testa de cada um. Deveria ser parte integrante da vida e, assim, a
vida seria conforme Deus quis que ela fosse. Essa linguagem figurada do início da
primeira leitura mostra quanto a Palavra de Deus deve estar impregnada na nossa
vida. Incuti-la no coração significa gravá-la no coração. No coração gravamos
apenas as coisas que amamos, aquelas que para nós têm um valor incomensurável.
As coisas que se gravam na memória, no intelecto, são passíveis de esquecimento,
mas as que se gravam no coração, jamais serão esquecidas. O coração é o lugar
onde guardamos as coisas que dão sentido à nossa vida. Um ensinamento
guardado no coração cumpre o verdadeiro sentido da palavra “decorar”, que não
significa repetição de palavras sem compreendê-las, mas, sim, não esquecê-las
jamais porque elas têm e dão sentido para a nossa existência. Enfim, a Palavra
deve estar incutida na alma.
Tê-la amarrada nas mãos significa que todas as nossas ações devem estar
fundamentadas nessa Palavra, nos seus ensinamentos. Tê-la colocada como faixa
na testa significa que ela deve estar também na nossa cabeça, na nossa mente,

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porque a mente é o que conduz as ações humanas, e uma mente que contém a
Palavra de Deus conduzirá a ações igualmente de Deus. Com todas essas
elucidações, estamos prontos e livres para fazer escolhas. Temos diante de nós
tanto o bem quanto o mal, bênçãos e maldições. Aquilo que escolhermos, teremos
para a nossa vida. Em suma, essa escolha consiste na seguinte dinâmica: quem
obedece aos mandamentos de Deus tem as bênçãos na vida, quem desobedece têm
maldições. Visto por esse ângulo, parece algo simplista e superficial, e um tanto
quanto punitivo, mas não é bem assim. Os ensinamentos de Deus indicam os
procedimentos que resultam em coisas boas, enquanto os procedimentos que não
vêm de Deus não podem resultar em algo bom. É o preço da liberdade. É preciso,
portanto, ter liberdade com responsabilidade. Quem cumpre os mandamentos de
Deus, quem coloca em prática a sua Palavra, terá uma vida muito mais estruturada
do que os que agem por impulso, de modo superficial, à mercê das influências
oriundas de outras fontes que não as da Palavra de Deus. Palavra esta que se
encarnou através de Jesus Cristo e nos deu vida plena. É o que Paulo mostra na
segunda leitura da Carta aos Romanos.
Nessa carta, Paulo diz que a justiça de Deus se manifestou atestada pela lei e
pelos profetas, mediante a fé em Jesus Cristo. Fé aqui não significa uma atitude
passiva, mas algo que motiva, impulsiona à prática da caridade que é resultado da
compaixão e do amor ao próximo. Acreditar em Jesus é fundamental para que a
Palavra de Deus se realize em nossa vida e a nossa vida seja uma constante
doação. Mesmo diante de todas as nossas fraquezas e pecados, Deus, que é graça,
concedeu-nos o perdão para que voltássemos para os seus caminhos e fôssemos
beneficiados de suas bênçãos. Porém, para que isso ocorra, para que nossa vida
seja abençoada, é preciso ter essa fé encarnada. Quem acredita vive os
ensinamentos de Deus e não apenas repete fórmulas ou palavras decoradas pela
imaginação. Não basta dizer “Senhor, Senhor”, para que se obtenham bênçãos,
mas é preciso ter verdadeira fé e colocar em prática o que ele ensinou, diz o
evangelho de hoje.
Assim sendo, não basta cumprir todas as obrigações religiosas, ir à missa todos
os domingos e comungar, ou ter algum tipo de devoção. Se não houver a prática
da Palavra de Deus, pouco adianta o cumprimento dos preceitos religiosos. Quem
faz tudo isso, mas pratica o mal, é uma pessoa que comete injustiças e não será,
portanto, reconhecida diante de Deus. Toda prática religiosa deve estar em
sintonia com a prática de boas ações, de atos de partilha, solidariedade e amor.
Quem age de forma incoerente é igual a quem constrói uma casa sobre a areia.
Mas quem coloca sua confiança em Deus pratica sua Palavra, tem sua vida
solidificada numa rocha inabalável. É a pessoa que construiu sua casa sobre a
rocha.

97
Diante de tudo isso, os textos bíblicos de hoje nos levam a refletir e questionar
sobre a vivência de nossa fé e verificar como anda nossa prática religiosa. É um
convite à revisão de vida, já nos preparando para a Quaresma que vamos iniciar
daqui a alguns dias. Tudo o que celebramos na missa deve ser vivido no dia a dia
da nossa vida, senão perde o seu sentido de Eucaristia e de comunhão com Deus e
com os irmãos. Nossa prática religiosa não pode se resumir a práticas externas,
vazias de compromisso, mas deve ser expressão de coerência entre fé e vida.
Louvar o Senhor com palavras é fácil. O desafio está em louvá-lo com gestos de
caridade e de amor ao próximo.

10º Domingo
& Os 6,3-6 | Sl 49(50) Rm 4,18-25 | Mt 9,9-13

A liturgia deste décimo domingo do Tempo Comum nos convida a refletir sobre
a fé que professamos e nos leva a questionar como anda a nossa prática religiosa.
Será que ela é comprometida, encarnada na realidade, ou é algo superficial e
desconectado da vida? Será que somos perseverantes ou desistimos fácil das
coisas? Será que a nossa prática religiosa consiste na prática da misericórdia ou
somos dados a práticas de penitências que nada mais são do que atos de
flagelação, que em nada transformam?
A primeira leitura da profecia de Oseias é um alerta, um pedido para que nos
esforcemos para perceber a presença de Deus na nossa vida e na vida da
comunidade. É preciso que haja, da parte de todos e de cada um, esforço para
conhecer a Deus e perceber que ele vem constantemente ao nosso encontro como
vem a aurora, a chuva que molha a terra, diz o profeta. São comparações que dão
certeza e segurança, porém tal comparação é feita por causa da constatação de que
está havendo falta de perseverança. As pessoas desistiam fácil de Deus e de
continuar no seu caminho. Às vezes, começavam as coisas com muito entusiasmo,
mas logo desistiam. É aquilo que costumamos dizer quando há muita euforia em
começar alguma coisa para depois abandonar: “fogo de palha”. É exatamente isso
que o profeta constata ocorrer na prática da fé de Efraim e de Judá. Por essa razão,
ele compara o procedimento deles com a neblina da manhã e o orvalho, que não
duram muito, logo se dissipam e evaporam, ou seja, fé e procedimentos sem
consistência, sem perseverança, que logo desaparecem. Lembra-os que, por essa
razão, já foi duro com eles, tentando corrigi-los. Tudo o que ele fez foi por amor,
pois o que ele mais queria é que vivessem numa fé sólida, tivessem uma prática
religiosa encarnada e não praticassem atos vazios e puramente interesseiros.
Mostra que o desejo de Deus é que eles vivam o amor e não apenas práticas
sacrificiais. Que conheçam a Deus e não apenas façam oferendas (holocaustos)
sem saber, de fato, quem é Deus e o que ele representa nas suas vidas. Enfim, é

98
um profundo ensinamento que tem como objetivo despertar uma fé sólida e
perseverante, como a que encontramos na segunda leitura, da Carta aos Romanos,
quando Paulo traz para a reflexão o exemplo de fé de Abraão, que soube confiar e
esperar em Deus, mesmo nas propostas que lhes parecessem absurdas. Abraão
esperou contra toda esperança, acreditou nas propostas de Deus e por isso realizou
o que seria o seu maior desejo: ter terra e descendência. Tornou-se pai de muitas
nações. Foi, portanto, alguém que não fraquejou, não titubeou na fé, mesmo que
todas as coisas em sua volta dissessem o contrário (tinha quase cem anos, tinha
uma mulher igualmente idosa e estéril, tinha pouca chance de obter terras e, muito
menos, filhos). Ele acreditou. Vislumbrou que para Deus tudo é possível e por
isso tornou-se modelo de fé. É essa fé que hoje somos convocados a retomar para
crer que é possível mudar aquilo que, humanamente, parece impossível. É,
portanto, preciso acreditar.
Acreditar como Jesus acreditou num homem em quem ninguém acreditava:
Mateus. Cobrador de impostos, tido como corrupto e explorador do povo, alguém
que compactuava com um sistema opressor do Império Romano, foi chamado por
Jesus para segui-lo. Não há nada de errado nisso. O contrário, sim, teria algo de
errado. Não foi Jesus quem seguiu Mateus, mas foi Mateus quem seguiu Jesus.
Seguir significa imitar suas ações, estar com ele, tê-lo como modelo. Ao aceitar
seguir Jesus, Mateus se propõe a mudar de vida e, ao mudar de vida, provoca
mudanças também na vida daqueles que o seguiam. Na casa de Mateus, Jesus se
cerca de outros pecadores. Quem está do lado de fora vê essa atitude de modo
superficial, ou por outro viés, mas quem está dentro sabe dos seus propósitos.
Jesus está ali, com aquele grupo de pecadores, porque eles precisam de conversão,
de mudança de vida. Se assim não fosse, não teria motivo para Jesus estar ali. É
isso que ele diz aos fariseus que o criticavam dizendo que ele comia com os
cobradores de impostos e com os pecadores. “As pessoas que têm saúde não
precisam de médicos, mas só as que estão doentes.” Aqueles eram, naquela
ocasião, os que mais precisavam do médico de almas, Jesus, pois estavam como
que doentes pela vida que levavam, corroídas pelo pecado. A presença de Jesus ali
era curativa, transformadora. Tudo isso nos leva a pensar na nossa prática
religiosa. Será que não nos acomodamos numa prática pastoral de manutenção e
nos esquecemos de nos lançar aos desafios? A V Conferência do Episcopado
Latino Americano e Caribenho pediu uma Igreja mais comprometida, mais
missionária. É preciso, portanto, sairmos de nossas estruturas, que nos acomodam
na mesmice, falando sempre a mesma coisa para as mesmas pessoas, aqueles que
não precisam de conversão, e irmos ao encontro dos que estão afastados, dos que
são marginalizados, dos que precisam, de fato, da presença da Igreja nas suas
vidas.

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O que Jesus faz com Mateus deveria também nos instigar na nossa missão
pastoral. Porém, para que isso ocorra, é preciso ser pessoa de fé, ter perseverança
e não desanimar diante dos obstáculos. É o que nos pede a liturgia deste décimo
domingo do Tempo Comum.

11º Domingo
& Ex 19,2-6a | Sl 99(100) Rm 5,6-11 | Mt 9,36-10,8

A liturgia deste décimo primeiro domingo do Tempo Comum tem como tema
central o chamado e o envio dos discípulos para a missão, sob os cuidados de um
Deus amoroso que os guia com poder e força, como vimos na primeira leitura, do
livro do êxodo.
Nesta primeira leitura, Deus chama Moisés e o conduz para o alto de um monte
e lhe dá preciosas recomendações. As recomendações dadas a Moisés são para
todo o povo: obedecer, observar a aliança, o pacto feito entre ele, Deus, e o povo.
Respeitando esse compromisso, o povo se tornaria uma propriedade de Deus, e
sendo propriedade de Deus estaria seguro, amparado, com um Bom Pastor.
Porém, não é bem isso que vai acontecer, como vemos no evangelho de hoje.
Neste evangelho, temos o resultado da desobediência a Deus e à aliança: o
desamparo. Uma multidão de gente cansada e abatida, como ovelhas sem pastor.
Não é que Deus tinha abandonado aquelas pessoas à mercê dos lobos, mas elas
haviam abandonado a Deus, preferindo outros deuses, outros “pastores”, os quais
as abandonaram quando não mais precisavam delas. É com essa multidão de
espoliados que Jesus se depara.
Quando Jesus a encontra, seu primeiro sentimento é de compaixão. A
compaixão é um sentimento divino porque nos faz sentir o sofrimento do outro
como se ele fosse o nosso próprio sofrimento. A palavra hebraica rahamim, que
foi traduzida como compaixão, significa, entre outras coisas, entranha, útero.
Sentir compaixão significa ter um sentimento muito profundo, que vem das
entranhas. Quem é acometido por esse sentimento não descansa enquanto não
fizer algo para diminuir a dor ou o sofrimento do outro porque essa dor e esse
sofrimento não são apenas do outro, mas seus também. Jesus, ao ver aquela
multidão de sofredores, se desmancha de ternura por ela e percebe que há muito
por fazer, mas ainda são tão poucos os que de dispõem a fazer algo pelos outros.
O sofrimento de tanta gente se explica pela falta de solidariedade e de
compromisso entre as pessoas. Falta compaixão. O que as pessoas têm é pena,
mas não compaixão. Pena é aquele sentimento mesquinho que não nos mobiliza.
Quem tem pena vê o sofrimento do outro, acha-o um coitado, mas não move um
dedo para ajudá-lo a sair dessa situação de sofrimento. É o que ocorre com a
maioria das pessoas. Tem-se pena, mas não se tem compaixão. A constatação de

100
Jesus de que a colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos, elucida bem
essa realidade de falta de comprometimento com a vida. Vidas são ceifadas pelo
descaso, abandono e morte, e poucos são os que se colocam a serviço, doando a
sua vida para que outros a tenham.
Jesus foi quem deu esse exemplo primeiro, como vemos na Carta aos Romanos,
na segunda leitura de hoje. Diante da nossa fraqueza, do nosso abandono por
causa do pecado e tantos erros cometidos, ele deu a vida por nós, para que
tivéssemos vida. É o maior exemplo de compaixão. Dar a vida por alguém que
amamos é um sinal grandioso de amor. Dar a vida por um pecador é um sinal
indescritível de amor. Jesus fez isso por nós. Diz a Carta aos Romanos: “Mas
Deus demonstra seu amor para conosco porque Cristo morreu por nós quando
ainda éramos pecadores”. É a explicação mais contundente da compaixão de Deus
por nós e da compaixão de Jesus pela multidão abandonada.
De volta ao evangelho, vemos que, diante da situação de abandono constatada,
Jesus se mobiliza para fazer algo para diminuir o sofrimento daquelas pessoas e
ampará-las. A primeira coisa que ele faz é pedir que seus discípulos rezem. Que
peçam a Deus que envie mais pessoas dispostas a trabalhar em prol da vida.
Lembramos aqui da pastoral vocacional e de todos os que rezam pelas vocações.
Dos que assumem trabalhos na Igreja, na comunidade e na sociedade em defesa
da vida. Devemos pedir sempre nas nossas orações que Deus envie santos
operários para a messe. Depois desse pedido, Jesus os chama e os envia para a
missão. Antes, porém, os capacita. Envia-os com poder. O poder serviço. O poder
para ajudar as pessoas, expulsando de suas vidas os males que as atingem,
figurados nas expressões “espíritos maus” e “qualquer tipo de enfermidades”.
É importante destacar que Jesus, quando chama, chama a todos,
independentemente de quem seja a pessoa. Ele dá oportunidade a todos,
igualmente. Porém, a resposta que damos a ele é que será diferente. É o que
podemos perceber quando Mateus diz quem são os chamados. Em primeiro lugar,
o número doze, com sua simbologia de totalidade. Doze não é apenas uma soma
exata, mas é também o chamado que é estendido a todos. Segundo, quem são os
chamados. Podemos perceber que são pessoas bem distintas umas das outras.
Dentre elas há trabalhadores braçais, pescadores, gente humilde; alguns que não
tinham muita clareza dos desafios do seguimento; gente mal vista, cobradores de
impostos; revolucionários (cananeus) e até traidores. Com perfis variados, essas
pessoas mostram que não importa quem somos, mas sim a disponibilidade para
servir.
Depois de escolher e chamar, ele envia, com recomendações: não andar no
caminho errado; não ter atitudes que deponham contra a missão e o compromisso
assumido com Deus, figuradas nas expressões “não tomar o caminho dos pagãos”
e “não entrar nas cidades dos samaritanos”. É preciso ter prioridade na missão: ir

101
primeiro aos lugares mais necessitados, onde as pessoas estão precisando mais. Há
coisas que são urgentes e outras que podem esperar um pouco mais. Enfim, que o
testemunho dado fale por si. Que cada gesto, palavras ou ações mostrem que o
Reino de Deus está perto. Que é possível construir um mundo melhor. Que
levemos a esperança curativa, que resgata o sentido da vida e a torna plenamente
realizada, como Deus a quer. É um pouco isso que pede a liturgia deste domingo.
Sejamos, portanto, pessoas capazes de se compadecer do sofrimento alheio e
façamos algo que promova a vida e o Reino de Deus. É para isso que fomos
chamados. É essa a missão dos discípulos e missionários de Jesus Cristo.

12º Domingo
& Jr 20,10-13 | Sl 68(69) Rm 5,12-15 | Mt 10,26-33

A liturgia da Palavra deste décimo segundo domingo do Tempo Comum é


marcada pelo encorajamento diante das perseguições. Todo aquele que assume
verdadeiramente a missão de Cristo passa por incompreensões, perseguições e
alguns até são mortos por causa disso. Diante dessa realidade, é comum que se
sinta medo. O medo, na dose certa, não é de todo prejudicial porque ele baliza as
situações, indicando os perigos. Porém, quando o medo paralisa, impede as ações
ou nos faz desistir da missão, passa a ser algo prejudicial. Assim sendo, a
recomendação da liturgia de hoje é: “não tenham medo”. Quem confia em Deus,
quem tem fé, embora ameaçado, não sente medo. Sabe que Deus está do seu lado
e irá defendê-lo e protegê-lo, ampará-lo nos momentos difíceis. É o que
encontramos na primeira leitura.
A primeira leitura é do livro do profeta Jeremias. Alguns chamam de
“lamentações de Jeremias” o texto do qual faz parte a primeira leitura de hoje. Na
verdade, o texto contém confissões. Jeremias faz um desabafo da situação que está
vivendo como profeta. Ele tem a missão de apontar os desmandos da sociedade de
seu tempo, e isso incomoda muita gente, principalmente os que o profeta
denunciava. Dentre eles, alguns que se diziam seus amigos, mas que na verdade
tinham procedimentos que não eram corretos. Diante dessa situação, ele recebe
ameaças, criando-se um clima de terror em sua volta para desencorajá-lo na
missão. Eram feitas denúncias contra ele. As pessoas esperavam a sua derrota, o
seu tropeço, inclusive os ditos “amigos”. Alguns, em vez de ameaças, tentavam
convencê-lo do contrário: que desistisse da missão, fazendo-lhe propostas
tentadoras no intuito de comprá-lo, de seduzi-lo para depois dominá-lo e vingar
suas atitudes proféticas. Mas Jeremias não se vende e não se deixa abater pelas
ameaças nem pelas calúnias. Agarra-se em Deus e confia. Sabe que Deus está do
seu lado; que o bem vence o mal; que a verdade sempre prevalecerá sobre a
mentira, custe o que custar. Ele sabe que, mais cedo ou mais tarde, os que o

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perseguem tropeçarão, sem conseguir vencê-lo nessa árdua batalha que Deus lhe
confiou. Serão derrotados e envergonhados pelo que fizeram. Jeremias confia.
Compara Deus a um exército que tudo conhece. Sabe que Deus tudo vê que não
ignora a situação conflituosa que está ocorrendo. No momento certo fará justiça,
livrará o justo das mãos dos malvados, basta confiar e continuar firme na missão.
É essa confiança de Jeremias que nos é pedida quando passamos por momentos
difíceis por causa da missão. Agir corretamente e ter confiança em Deus são
atitudes muito importantes para não se deixar abater pelo desânimo ou pelo medo.
É isso que pede também o evangelho de hoje: “não tenham medo deles”, diz
Jesus no início do evangelho de hoje. Deles quem? Dos perseguidores, dos
malvados, dos que exploram os outros, dos que praticam injustiça, dos que não
querem ver o Reino acontecer. Jesus exorta os seus discípulos a não ter medo
porque Deus é maior que todas as maldades humanas. Pode-se enganar e esconder
atitudes e situações dos olhos humanos e da justiça terrena, mas de Deus nada se
pode esconder. “Não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não
existe nada de oculto que não venha a ser conhecido”, afirma Jesus nesse discurso
de encorajamento dos seus discípulos. É pedido aos seus discípulos que eles
levem adiante os seus ensinamentos. Aquilo que eles recebem nas reuniões
privadas, nos encontros particulares com Jesus, deve ser multiplicado, espalhado,
propagado para que todos fiquem sabendo. São sementes lançadas que darão
frutos em seu tempo certo, basta não desistir. A missão dos discípulos é anunciar a
esperança a todos, mas principalmente àqueles que vivem situações difíceis, de
abandono, exploração e morte. Ali são campos desafiadores da missão e os
ensinamentos de Jesus devem ser repetidos de modo que todos ouçam, vejam e
vivam. Nisto consiste a expressão de Jesus: “O que eu digo a vocês na escuridão,
repitam à luz do dia, e o que vocês escutam em segredo, proclamem sobre os
telhados”. É o anúncio que deve ser feito. Como vimos na primeira leitura, o
profeta é aquele que denuncia e anuncia. Jesus pede, de seus discípulos e
missionários, atitudes proféticas de anúncio e de denúncia. Ele mostra quanto
Deus o ama, quanto eles são importantes para Deus. Se até os pardais são
valorizados, quanto mais os seres humanos? Se até os fios de cabelo da nossa
cabeça são conhecidos por Deus, quanto mais nossa vida e nosso coração? Deus
nos conhece, nos ama e, sobretudo, nos protege. Com essa certeza, levamos
adiante a missão, mesmo que haja dificuldades, obstáculos e situações que surjam
para impedir os trabalhos em prol do Reino de Deus. A confiança no amor de
Deus é que nos fortalece. Ele quer o nosso testemunho. Quem testemunha Jesus
diante dos homens será testemunhado por ele diante de Deus.
O grande amor de Deus por nós está explícito na segunda leitura, quando Paulo
recorda à comunidade de Corinto que Cristo veio ao mundo para tirar o pecado
dele. Com sua morte, ele dominou o poder da morte. Se a morte foi vencida na

103
cruz, não há porque temer as ameaças humanas de morte. Deus fez isso por nós
não pelos nossos merecimentos, mas pelo seu amor e pela sua graça. Agraciados
por Deus com tamanho gesto de amor, só nos resta amar o próximo e lutar pela
vida. É o que pede a liturgia deste domingo.

13º Domingo
& 2Rs 4,8-11.14-16a | Sl 88(89) Rm 6,3-4.8-11 | Mt 10,37-42

Depois de celebrar uma sucessão de solenidades (Ascensão do Senhor,


Pentecostes, Santíssima Trindade, Corpus Christi , Natividade de São João
Batista), retomamos de uma vez por todas o Tempo Comum. Como foi dito no
início do Tempo Comum, esse tempo é marcado pela vida pública de Jesus e a
nossa missão de discípulos e missionários. É nesse período que testamos com
mais força nosso seguimento, através de leituras que questionam sobre o nosso
seguimento de Jesus Cristo, nosso discipulado, nosso agir em prol da vida e do
projeto do Pai. É sobre isso que nos leva a refletir a liturgia deste décimo terceiro
domingo do Tempo Comum.
Seguir Jesus, ser seu discípulo, não é algo fácil. Ele nunca disse aos seus que
seria fácil. Pelo contrário, sempre mostrou as dificuldades, as durezas da missão,
mas também as recompensas. Tanto naquele tempo quanto hoje, há os que seguem
Jesus e se dizem seus discípulos, sem, contudo, ter clareza do que isso significa, e
das exigências do discipulado. São esses os primeiros a desistir, abandonar o
barco quando as dificuldades, as tempestades, isto é, quando se deparam com os
desafios da missão. Os que seguem Jesus pensando que vão conservar as suas
vidas são os que primeiro se decepcionarão, porque, em vez de conservá-las,
perderão suas vidas. Jesus não quer dizer com isso que essas pessoas
simplesmente morrerão, mas que terão a sensação de ter perdido tempo, gastado
inutilmente a vida, pois não receberão aquilo que pensavam obter. Assim, os que
o seguem por interesses particulares, sem aderir ao seu projeto de vida, ou abraçar
a sua causa, se decepcionarão com Deus nos primeiros obstáculos e faltas que
sofrerem nas suas vidas. Vemos, assim, por que tanta gente se afasta da
comunidade, da religião e até de Deus. São os que o seguiam pensando em
conservar a sua vida. Os que queriam lugares de destaque, os que não entenderam
o que é ser cristão, discípulo de Jesus.
O texto de hoje serve como uma catequese para o discipulado de Jesus.
Podemos dizer que esse texto do Evangelho de Mateus é uma espécie de manual
do cristão, porque ele serve para revitalizar a missão que recebemos no batismo.
Como podemos perceber claramente, o texto de hoje está dividido em duas
partes. A primeira fala das exigências para o seguimento, e a segunda das
recompensas para aqueles que perseverarem nesse seguimento desafiador.

104
Quais são essas exigências?
O desapego das coisas e pessoas e o amor incondicional a Deus. É o
cumprimento do primeiro mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas; não
colocar nada acima dele ou primeiro do que ele. Deus deve vir primeiro na nossa
vida, depois virão as outras coisas e pessoas. Para mostrar a radicalidade dessa
exigência e desse amor, Jesus faz algumas afirmações que soam com muita dureza
aos nossos ouvidos e coração. Ele toca no amor aos nossos pais e filhos. São as
pessoas que mais amamos nesta vida. Porém, quem ama a estes mais do que a ele
não é digno dele, diz Jesus. Isso não significa que não devemos amar nossos pais e
filhos, mas que nosso amor a Deus deve ser maior que este amor. É apenas para
medir (se é que isso é possível) o amor que devemos ter a Deus para poder seguir
verdadeiramente seu Filho, Jesus. Somente um grande amor poderá nos manter
unidos a ele, pois os desafios serão muitos. Quem ama a Deus sobre todas as
coisas permanece fiel a ele até o fim, sem medo de perder sua vida ou as coisas
que conquistou. Jesus quer discípulos que tenham amor verdadeiro no seu coração
e que não o sigam apenas por interesses particulares. O amor verdadeiro perdoa e
acolhe os filhos de Deus e os seus enviados. Encontramos exemplos de verdadeiro
amor a Deus, na primeira leitura.
O profeta Eliseu e seu servo, ao passar por Sunam, foram acolhidos por um
casal de posses que lhe ofereceu refeição. O casal viu que Eliseu era um homem
de Deus e ofereceu sua casa para que eles se hospedassem quando por ali
passassem. Eliseu aceitou de bom grado o convide e ali se hospedava sempre. A
mulher, vendo que Eliseu era um homem bom, de Deus, quis lhe oferecer algo
mais. Resolveu, juntamente com o marido, construir-lhe um quarto de alvenaria,
com cama, mesa, cadeira, candeeiro, ou seja, um espaço com todo o conforto
necessário para que Eliseu se sentisse bem. E Eliseu ficou de fato muito bem
instalado e agradecido por tamanha generosidade. Quis agradecer-lhe de alguma
forma, com alguma recompensa, mas ela era uma mulher rica. Coisas materiais
ela já tinha e não precisava de mais nada. O servo de Eliseu lembrou que ela não
tinha filhos e seu marido já era de idade avançada. Um filho seria o maior
presente que ela poderia receber de Deus. Vale lembrar que naquela época quem
não tinha filhos era visto como privado da graça de Deus.
Foi então que Eliseu pediu a Deus que concedesse um filho àquela mulher.
Chamou-a e disse: “Daqui a um ano, neste tempo, estarás com um filho nos
braços”. A leitura se encerra com essa promessa, com o anúncio dessa
recompensa àquela que tão bem soube acolher.
Com isso vemos que o discipulado de Jesus Cristo passa pelo acolhimento
sincero, amoroso, desinteressado. Quem assim acolhe mostra que acolheu a
proposta de Jesus e entendeu o que significa o discipulado de Jesus, o que é ser
missionário. Porém, isso não é fácil. Exige de cada um de nós um processo de

105
conversão. Como afirma Paulo na Carta aos Romanos, da segunda leitura de hoje:
é preciso morrer para o pecado e viver para Deus. Morrer para o pecado é nos
esforçarmos para erradicar da nossa vida tudo o que impeça de acolhermos o outro
na gratuidade; tudo que impeça de fazer o bem. E viver para Deus é tê-lo em
primeiro lugar na nossa vida, fazendo tudo nele e por ele. Assim estaremos no
caminho certo do seguimento de Jesus. Pequenos gestos de amor e acolhida ao
próximo revelam se estamos neste caminho. O exemplo vem do evangelho:
“Quem der ainda que seja apenas um copo de água fresca a um desses pequeninos,
por ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa”.
Esses pequenos gestos, que estão ao alcance de todos, não passam despercebidos
diante de Deus. Foi o que ocorreu com o casal da primeira leitura que acolheu
com amor e sinceridade a Eliseu, e seu servo recebeu de Deus uma recompensa
impagável. É o que acontece com todos os que acolhem bem e amam
verdadeiramente a Deus.

14º Domingo
& Zc 9,9-10 | Sl 144(145) Rm 8,9.11-13 | Mt 11,25-30

A liturgia do décimo quarto domingo do Tempo Comum nos faz refletir sobre o
Messias e perceber que Deus age no mundo de forma surpreendente, fazendo
mudar nossos conceitos. Toda grandeza de Deus é expressa de modo singelo e
humilde, de modo que possamos ter acesso a ele e agir com a mesma humildade e
mansidão, sem reclamar dos nossos fardos.
A primeira leitura mostra que o Messias não viria ostentando poderes terrenos,
como os reis de até então, mas viria pobre, montado num jumento, o meio de
transporte dos pobres. Isso nos faz lembrar o evangelho do domingo de Ramos, da
“entrada triunfal de Jesus em Jerusalém”.
Zacarias também fala de uma chegada triunfal. O rei que vem chegando é
vitorioso. Ele é justo e fará justiça. A justiça consiste em destruir os instrumentos
de guerra e anunciar a paz a todas as nações, e isso é motivo de alegria. Por essa
razão, Zacarias pede que Sião e Jerusalém dancem e deem gritos de alegria, pois
chegou quem governaria com um poder diferente. Seu domínio se estenderia de
mar a mar, até os confins da terra. É uma profecia de Zacarias porque denuncia as
injustiças e anuncia a esperança. É um novo tempo que vem, diz o profeta.
Com a vinda do Messias, habitou em nós um novo Espírito, diz a Carta aos
Romanos, na segunda leitura de hoje: o Espírito de Deus. Quem recebe o Espírito
de Deus não age mais de modo egoísta, mas muda sua maneira de agir, tornando-a
conforme Deus quer. Não estando mais sob o domínio de instintos egoístas,
passamos a pensar no nosso semelhante e a fazer algo de bom por ele. Quem não é
egoísta ama seu próximo e se preocupa com o seu bem-estar, com a sua vida.

106
Cristo soprou sobre nós, seus discípulos, o seu Espírito, para que a nossa vida se
configurasse à dele. Quem não tem o Espírito de Cristo, diz Paulo, não pertence a
ele. E quem não pertence a ele age de modo egoísta. Isso nos leva a pensar sobre o
nosso agir. Se o egoísmo ainda impera nas nossas ações, é sinal de que o Espírito
de Cristo não está agindo em nós, e se o Espírito dele não habita em nós, estamos
no caminho da perdição.
Como age aquele em quem o Espírito habita?
O evangelho de hoje responde. Age com humildade porque o próprio Jesus agiu
com humildade. Ele tinha tudo para ser visto e tratado como rei, mas preferiu a
posição dos humildes. Nasceu na humildade e viveu entre os humildes. Optou
pelos pobres e excluídos para torná-los grandes diante de Deus. E Deus responde
acolhendo os pequeninos e fazendo-lhes grandes revelações.
Jesus louva o Pai porque ocultou essas coisas dos sábios e inteligentes e as
revelou aos pequeninos. A ele, o pequenino, grandes revelações foram feitas.
Revelações a que os mais sábios dos homens não tiveram acesso. Quem quiser
conhecer essas revelações do Pai precisa conhecer, primeiro, o Filho, e conhecer o
Filho significa segui-lo, fazer o que ele fez. E o que ele fez? Acolheu os humildes
e pequeninos, os excluídos, os que estavam cansados pelo peso dos seus fardos. A
estes pediu que dele se achegassem porque ali encontrariam descanso.
Quantas vezes reclamamos que os nossos fardos estão pesados e achamos que a
nossa cruz é a maior de todas? Só pensa dessa maneira quem não se achegou a
Cristo. Quando nos aproximamos da cruz de Cristo, nosso fardo fica irrelevante.
Foi isso que Jesus quis dizer quando disse para nos achegarmos a ele que
encontraríamos descanso. Às vezes é preciso ver situações piores que a nossa para
entendermos que a nossa situação não é das piores. Ele pede que carreguemos um
pouco a sua cruz para aprender dele a humildade e a mansidão. Ao sentirmos o
peso da cruz de Cristo, nossa cruz ficará tão leve como uma pena, e assim
encontraremos descanso, ou seja, sossegaremos, vamos parar de reclamar que a
nossa cruz está pesada demais. Jesus deu o exemplo ao dizer que a sua carga é
suave e o seu fardo é leve. Que, portanto, aprendamos dele, como ele nos pede no
evangelho de hoje.
É esse Messias que Zacarias anuncia, na primeira leitura. É o Espírito dele que
deve habitar em nós, diz a Carta aos Romanos. Assim seremos pessoas mansas e
humildes de coração, e as nossas cargas e fardos serão suaves e leves.

15º Domingo
& Is 55,10-11 | Sl 64(65) Rm 8,18-23 | Mt 13,1-23 ou 13,1-9

A reflexão deste domingo recai sobre a importância da compreensão da Palavra


de Deus para que ela dê frutos, isto é, dê resultados, signifique algo para a nossa

107
vida e para o mundo, transformando-os para melhor, de acordo com a vontade de
Deus.
A primeira leitura, do livro do Profeta Isaías, relata a transformação provocada
pela Palavra de Deus quando esta é proferida pela boca dos profetas, daqueles que
vivem a Palavra. Profetas de ontem e de hoje. Isaías a compara com a chuva e a
neve que, ao cair sobre a terra, fecundando-a, fazem germinar a semente ou
preparam a terra para a semeadura. Sem a chuva, as sementes não germinam, por
melhor que seja o solo ou a semente. Elas dependem da água para germinar. A
neve tem também uma função importante. Além de proporcionar a umidade do
solo, ela cumpre um papel importante para a agricultura dessas regiões. Quem é
agricultor em regiões frias, onde costuma cair geada e neve, sabe disso. Ambas
são comparadas ao poder que a Palavra tem de transformar a vida das pessoas.
Assim, a Palavra de Deus, proferida pelos profetas, provoca grandes
transformações, porém, é preciso que o coração das pessoas que a recebem seja
preparado como o agricultor prepara o solo para receber as sementes e aguardar as
chuvas para que elas possam germinar. Desse modo, a Igreja vem insistindo na
formação das pessoas. A Conferência de Aparecida enfatizou a importância de
nossas paróquias serem verdadeiras escolas de oração e de formação. Quando se
investe na formação das pessoas, a Palavra de Deus encontra um terreno
preparado para recebê-la e, ao receber a Palavra num coração preparado, ela
germina e produz fruto porque encontrou ali uma terra boa. É o que nos fala o
evangelho de hoje, da parábola do semeador.
Este é um dos poucos evangelhos que vem seguido de uma explicação clara, que
dispensa outras explicações. Mesmo assim, é importante enfatizar alguns
elementos para que ele fique ainda mais elucidado.
Aqui Jesus fala às multidões. Sabemos da dificuldade de falar para as multidões,
para a massa. As multidões geralmente não estão interessadas em compromisso,
mas sim em algo próprio, pessoal, isto é, para a sua vida particular, e a maioria
dos que compõem essa multidão não tem formação para entender a Palavra. É o
que acontece ainda hoje nessas celebrações e encontros que reúnem milhares de
pessoas, como, por exemplo, nas celebrações e eventos presididos pelos chamados
“padres midiáticos”, esses que estão presentes na mídia e que arrebanham
multidões. Catequizar a multidão é algo difícil, e essas celebrações acabam por se
transformar em shows ou espetáculos onde cada um entende o que deseja e a
Palavra de Deus se dilui, fica oculta ou não tem o devido aproveitamento. É para
essa situação que a parábola de hoje, dita à multidão, chama a atenção.
Jesus, diante da multidão, sente-se como o semeador que saiu para semear e
encontrou diversos tipos de terreno. A semente era a mesma, mas os terrenos eram
diferentes. Ele sabia que ali, nos corações das pessoas que compunham a
multidão, havia uma infinidade de “terrenos”, isto é, que haveria diferentes tipos

108
de compreensão e que a fecundidade da semente lançada, isto é, da Palavra
semeada, dependeria do tipo de compreensão que se teria dela. Hoje não é
diferente. A transformação que a Palavra de Deus terá no nosso meio depende da
nossa compreensão. Por essa razão, Jesus contou-lhes a parábola do semeador e
dos diversos tipos de terreno.
O primeiro terreno é o daqueles que vão como rebanho, seguindo multidões,
atrás de líderes religiosos. Muitos vão por causa do líder e não de Deus ou da sua
Palavra. Eles ouvem a Palavra do líder, mas ela fica vulnerável na sua vida e
qualquer outra situação poderá eliminá-la. Outro líder mais carismático que
aparecer poderá atraí-los. São pessoas vulneráveis, que se deixam influenciar pela
mídia ou por imagens ou discursos. São estes que mudam facilmente de religião.
É o “maligno” roubando do seu coração a Palavra que foi semeada porque ela
ficou exposta, sem ser cultivada.
O segundo terreno é o coração daqueles que ficam eufóricos com a Palavra
ouvida, como, por exemplo, aqueles que participam de encontros, retiros,
experiências de oração que mexem com a emoção. Nesse momento imagina-se
que tudo está transformado na sua vida, mas com o passar dos dias perde-se a
emoção e a euforia passa, não sobrando nada do que foi vivido naqueles dias ou
momentos, e a pessoa quer viver outros momentos de intensidade emocional para
se sentir satisfeita. A satisfação é momentânea, como a de um alucinógeno. São os
terrenos pedregosos, diz Jesus, onde a Palavra não encontra raiz para se firmar e
frutificar. É uma religiosidade baseada na emoção e não no compromisso. Basta
que lhes sejam apresentados desafios para que desistam de viver a Palavra.
Desafios não são emocionantes, mas dolorosos. Neles se prova a fé como o ouro
no crisol ou a prata no fogo.
O terceiro tipo de terreno é aquele em que as pessoas manifestam o desejo de
ouvir a Palavra, mas dão prioridade a outras coisas na vida, como, por exemplo,
ao trabalho, ao lazer, as coisas pessoais, materiais, como, por exemplo, a busca
pelo dinheiro, a fama, o poder. Essas coisas ocupam muito espaço na nossa vida e
geram muita preocupação. Quanto mais bens as pessoas possuem, mais
preocupações elas têm. Não é fácil administrar os bens deste mundo. Eles tomam
todo o nosso tempo. Por isso a Palavra de Deus nem sempre encontra espaço para
crescer nesse tipo de vida. Ela é sufocada pelas preocupações. Muitos que buscam
a Palavra o fazem para solucionar seus problemas e preocupações, e não como um
compromisso com o próximo. Essas pessoas são como terrenos cheios de
espinhos.
Por fim, o quarto tipo de terreno, o da terra boa, que são aqueles que ouvem,
compreendem e se esforçam para viver e colocar em prática a Palavra de Deus. Os
que têm compromisso com a vida do seu semelhante, com o planeta, com as

109
questões sociais. Aqui ela dá frutos, isto é, dá resultado, transforma como a chuva
e a neve transformam o solo, como disse Isaías na primeira leitura.
Tudo isso nos leva a refletir: que tipo de terreno é o nosso coração? Será que a
Palavra de Deus está encontrando espaço para germinar e crescer na minha vida,
ou estou desperdiçando a Palavra, tornando-a vulnerável, sufocando-a, enfim,
matando-a? Vale a pena refletir sobre isso e procurar cultivar esse solo que é o
nosso coração de outra maneira, para que a Palavra de Deus encontre aqui sua
morada. Tudo isso porque o mundo espera de nós atitudes que mudem essas
realidades de injustiças e desamor. Como diz a segunda leitura, da Carta aos
Romanos, “toda a criação está gemendo como em dores de parto”. É preciso fazer
algo que mude o mundo e isso só será possível se a Palavra de Deus encontrar em
nossos corações uma terra boa e generosa. A Campanha da Fraternidade de 2011
chamou a atenção para essa realidade. Quem sabe tenha ficado algo no nosso
coração desta Campanha e essa semente possa produzir frutos. Não importa a
quantidade, mas a qualidade desses frutos. Uns dão cem, outros, sessenta, e
outros, trinta. O que importa é que possamos produzir bons frutos.

16º Domingo
& Sb 12,13.16-19 | Sl 85(86) Rm 8,26-27 | Mt 13,24-43 ou 13,24-30

Neste domingo, a liturgia da Palavra tem como proposta levar-nos a refletir


sobre a clemência de Deus, sua fidelidade, seu amor, paciência e perdão para
conosco, conforme canta o salmo de resposta de hoje: “Ó Senhor, vós sois bom,
sois clemente e fiel!”. É o encontro com esse Deus que nos propõe a liturgia deste
domingo, para assim fazermos acontecer o Reino dos céus. Ao encontrá-lo,
descobriremos o que é essencial para a nossa vida cristã, para a nossa vida de
comunidade, enfim, para a nossa missão de discípulos e missionários de Jesus
Cristo.
A temática central que costura os quatro textos das leituras deste domingo versa
sobre o Reino dos céus. O que é o Reino dos céus? Como ele acontece no nosso
meio? Que participação nós temos nele? Como ajudar a construí-lo? Essas e
outras questões sobre o Reino estão presentes nos textos propostos para esse dia.
Esse tema já vem de outros domingos, porém, neste, ele é elucidado com
exemplos que favorecem a nossa compreensão porque, embora se expressem por
meio de parábolas, definem e nos colocam como partícipes do tema. Porém, antes
de tratar das parábolas, é importante ver o que a primeira leitura fala deste Reino.
A primeira leitura é do livro da Sabedoria e não fala diretamente do Reino dos
céus, mas do próprio Deus. Um Deus que nem sempre conseguimos enxergar
porque, por inúmeros fatores, por nossa formação ou desinformação, o vemos
mais como um Deus vingativo, que pune as nossas falhas como nós gostaríamos

110
de punir os outros. Um Deus impaciente, rancoroso, ou seja, um Deus à nossa
imagem e semelhança. Tudo o que somos transferimos para Deus e ele se torna
assustador. Pior é quando essa imagem de Deus é passada para as crianças na
família ou na catequese. Quando isso ocorre, elas crescem tendo medo de Deus e,
muitas vezes, respeitam-no por temor e não por amor. Muitos de nós, adultos, o
vemos ainda dessa maneira, e fica difícil amar um Deus tão duro.
Mas não é bem isso que as leituras de hoje trazem. Pelo contrário, elas nos
revelam um Deus paciente, clemente, cheio de compaixão e amor por nós, sempre
pronto a perdoar, a nos dar mais uma chance. Nós é que não sabemos aproveitar
as oportunidades que ele nos dá.
Assim, a primeira leitura mostra que não há um Deus tão justo quanto o nosso.
Justo no sentido da justiça divina. Vale lembrar que a justiça divina passa pelo
perdão, pela misericórdia, pela paciência conosco, como veremos no evangelho. É
um Deus indulgente para com todos, principalmente com que erram e se desviam
do seu caminho. É difícil entender isso porque o nosso desejo é, muitas vezes, um
desejo de vingança, de querer fazer justiça com as próprias mãos, como os
empregados que queriam arrancar o joio. Deus nos mostra outro lado, outra
atitude, que é a mais correta e prudente. Ele não quer a morte do pecador, quer
que ele se converta e viva.
É um Deus bondoso, porém bondade não é sinônimo de omissão ou de descaso
com as vítimas das injustiças humanas. Desse modo, entendemos quando o livro
da Sabedoria diz: “Mostras a tua força a quem não crê na perfeição do teu poder;
e, nos que te conhecem, castigas o seu atrevimento”. Castigar não tem aqui o
sentido que damos à palavra, mas é o sentido da justiça divina, que tem seu tempo
certo para corrigir os que insistem no erro. É o que vemos no versículo seguinte:
“julgas com clemência e nos governas com grande consideração”. Com este
procedimento clemente ele nos ensina a sermos mais humanos e, ao sermos mais
humanos, tornamo-nos mais divinos porque quem age conforme Deus ensina com
amor, clemência e compaixão, se aproxima de Deus, e todo aquele que se
aproxima de Deus recebe uma parcela da sua divindade. Assim procedendo, diz o
texto, ensina ao seu povo que o justo deve ser humano. É-nos dada, dessa
maneira, a esperança confortadora de que há sempre uma chance, uma
oportunidade para corrigir nossas falhas e retomar o caminho de Deus.
Quem teve a oportunidade de reconhecer a misericórdia de Deus na sua vida
entende do que os textos de hoje estão falando. Não existe nada mais gratificante
do que receber o perdão quando erramos e nos arrependemos do erro cometido. Se
receber o perdão de um irmão já é tão importante, quanto mais o perdão de Deus.
É por essa razão que o salmista nos leva a cantar nesta liturgia que Deus é bom,
clemente e fiel, é amor, paciência e perdão. Quiçá aprendamos com esse Deus tão
misericordioso a sermos também misericordiosos com nossos semelhantes.

111
A segunda leitura, da Carta aos Romanos, continua a falar desse Deus clemente,
amoroso e fiel, quando diz que “o Espírito vem em socorro da nossa fraqueza”.
Deus sabe das nossas fraquezas. Ele não vê em nós o pecador, mas vê seu filho ou
filha tomados pelo pecado. E é exatamente esse pecado que ele busca erradicar da
nossa vida para que viva em nós aquilo que temos de bom. Devido ao pecado, as
atitudes erradas que se apoderam de nós, nem sempre sabemos nos relacionar com
Deus. Não sabemos o que pedir nem como pedir, diz a segunda leitura. Pessoas
que se afastam de Deus têm dificuldade de se relacionar com ele porque projetam
nele aquilo que está nelas mesmas. Nessas situações, diz a Carta aos Romanos, o
primeiro passo é confiar na ação do Espírito Santo. Ele é quem intercede por nós
com gemidos inefáveis. É preciso deixar que o Espírito Santo penetre o íntimo dos
nossos corações, a nossa vida, e transforme tudo o que há de mal dentro de nós.
Deixar santificar-se por ele apesar dos nossos pecados. Com seu auxílio,
poderemos erradicar o joio que existe dentro de cada um de nós e fazer com que
cresça o trigo que todos temos, mas que às vezes fica sufocado pelo joio, isto é,
pelas maldades que insistimos em praticar, apesar da nossa parcela de santidade. É
o que ensina o evangelho de hoje, através de três curtas parábolas.
Jesus conta essas parábolas para uma multidão de pessoas. Não é fácil falar para
multidões. Exige que se tenha uma pedagogia que os faça entender. As parábolas
funcionam quando o público é uma massa de pessoas. As parábolas de Jesus
falam do Reino dos céus. A primeira delas, a parábola do joio e do trigo, mostra
que, aparentemente, as pessoas são semelhantes. Somente pelas obras se identifica
quem é bom e quem não é bom. O joio é muito similar ao trigo na sua fase de
crescimento. Somente na hora da colheita é possível identificar um e outro e
eliminar o que não é trigo. Joio e trigo estão por toda parte, até dentro da
comunidade. Quando se é radical, querendo eliminar todos os males, corre-se o
risco de eliminar junto as coisas boas. Além disso, mesmo as pessoas que em
certos momentos fizeram o mal podem se converter e mudar de vida. É o que
Deus nos ensina com a sua paciência, clemência e misericórdia. O que fazer,
então? As outras duas parábolas nos dão a resposta.
A parábola da semente de mostarda mostra que, por menor que seja o bem que
fazemos, ele pode se tornar grandioso na vida das pessoas e no mundo quando
somado a tantos outros gestos de bondade e solidariedade.
Sobre o fermento na massa, Jesus nos mostra que a prática do bem, mesmo que
invisível, tem o poder de transformar a realidade como o fermento transforma a
massa, fazendo-a crescer.
Devemos ser como a semente de mostarda: pequenos na nossa humildade,
porém grandiosos no resultado de nossas ações. E fazer tudo em silêncio,
transformando o mundo e as realidades de injustiças, sem aparecer, sem fazer

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propaganda de nossos atos, como faz o fermento na massa. Dessa maneira,
estaremos ajudando a construir o reino dos céus.

17º Domingo
& 1Rs 3,5.7-12 | Sl 118(119) | Rm 8,28-30 Mt 13,44-52 ou 13,44-46

Neste domingo, a liturgia da Palavra nos convida a refletir sobre os valores que
temos na nossa vida e qual o nosso procedimento diante deles. Para isso temos
três parábolas e algumas comparações a serem feitas. Todas nos ajudam nesta
revisão de vida proposta pela liturgia e, sobretudo, na nossa mudança de
comportamento diante das propostas do Reino dos céus.
Temos hoje o núcleo do Evangelho de Mateus, que reúne as três últimas
parábolas sobre o Reino dos céus. As duas primeiras falam de valores e a terceira
segue a dinâmica da que ouvimos no domingo passado (a parábola do joio e do
trigo), da oportunidade que Deus dá a todos, indistintamente.
Durante toda a nossa vida lutamos em busca de coisas que consideramos
valiosas, importantes. Algumas dessas coisas acabam por tomar boa parte de
nosso tempo. São aquelas coisas que precisamos para sobreviver (saúde,
educação, moradia, alimentação, vestuário etc.). Ligadas a estas surgem tantas
outras. Boa parte delas é necessidade criada, seja para satisfazer nosso ego
consumista, seja por consequências de situações que vivemos no dia a dia. As
necessidades determinam os valores e os valores determinam a nossa vida e o
nosso comportamento, nossa maneira de ser e de agir em relação a eles e às
pessoas. Todo esse conjunto de situações ajuda a formar a nossa vida e, às vezes,
fica difícil de distinguir o que é de fato valor e o que é um falso valor. Uma das
parábolas do domingo passado já acenava para essa situação quando falava do
joio e do trigo que crescem juntos e são de difícil separação, a não ser na hora da
colheita. Distinguir o que é verdadeiramente valor diante de tantas coisas e
situações que nos são apresentadas como valor fica muito difícil. Exige de nós
sabedoria. Sabedoria para discernir entre o bem e o mal, entre o que é bom e o que
não é bom. Nem sempre temos condições para isso, seja por nossa pouca fé e
pouco envolvimento religioso, seja por nosso envolvimento em demasia com os
problemas e situações que nos afetam no dia a dia, tornando nosso coração
insensível para fazer tal distinção. A primeira leitura trata exatamente disso.
Salomão foi tido como um dos reis mais sábios que a história de Israel produziu.
No início de sua atividade como rei de Israel, ainda adolescente, sentia-se
impotente diante do grande desafio que lhe foi apresentado. O texto de hoje traz
uma das mais belas orações de Salomão, que deveria servir de exemplo para toda
pessoa pública, para todo aquele que tem a missão de governar. O Senhor lhe
apareceu em sonho e lhe disse para pedir o que desejasse.

113
Coloquemo-nos no lugar de Salomão e imaginemos Deus nos dando a
oportunidade de pedir o que quisermos. Isso faz lembrar aquelas histórias em
quadrinhos, ou desenhos animados, em que um gênio aparece e pede para que a
pessoa faça três pedidos. Qual seriam os pedidos que iríamos fazer a Deus se ele
aparecesse diante de nós com a proposta que fez a Salomão?
Mesmo sendo tão jovem e cheio de sonhos, Salomão não pediu nada de
supérfluo. Também não pediu os valores clássicos que toda pessoa pediria, como,
por exemplo, riquezas, poder, saúde, vida longa, ou então a morte de seus
inimigos. Salomão pediu sabedoria para praticar a justiça. Pediu um coração que
pudesse discernir entre o bem e o mal. Pediu o essencial, algo nobre. O pedido de
Salomão agradou tanto a Deus que ele lhe concedeu um coração sábio e
inteligente, como nunca houve outro igual antes dele nem depois, diz o texto.
Porém, Salomão não fez jus ao que Deus lhe concedeu, e o poder e a riqueza lhe
corromperam, e ele governou de modo que oprimiu o povo, como vemos em
outros momentos. Porém, o que importa neste contexto de hoje é o que traz o
texto: a sabedoria para saber pedir e pedir a Deus aquilo que realmente tem valor.
Quando agimos assim, tudo contribui para o bem das pessoas, daqueles que
amam a Deus, diz a segunda leitura da Carta aos Romanos. Tornamo-nos, assim,
imagens de seu Filho, destacando-nos entre os demais, como os peixes bons que
são colocados nos cestos, conforme mostra a terceira parábola do evangelho de
hoje.
As parábolas de Jesus, do Evangelho de Mateus, falam do Reino dos céus. Elas
são formas simples de dizer o indizível, a partir de elementos e situações do
cotidiano. A primeira e a segunda parábola falam do valor desse Reino. Quem o
descobriu faz mudanças radicais em seu comportamento, desfazendo-se de
supostos valores, considerados antes importantes. Tudo passa a ser relativo na sua
vida, e suas ações se voltam para esse valor supremo. É semelhante ao caso do
homem que vendeu todos os bens para comprar o campo no qual havia um tesouro
oculto. A mesma coisa ocorreu com o comprador de pérolas. Quando ele
encontrou uma de grande valor, vendeu as demais e investiu tudo naquela de valor
supremo. O Reino de Deus é esse tesouro escondido no campo, é essa pérola de
valor indescritível. Quem o encontrou faz de tudo para possuí-lo.
Para isso, porém, é preciso discernimento e sabedoria. Que nas nossas orações
possamos, a exemplo de Salomão, pedir que Deus nos dê o discernimento entre o
bem e o mal, entre o que é verdadeiramente valor e o que não passa de falsidade.
Deus nos concede todos os dias essa oportunidade, mas nem sempre
percebemos. É o que mostra a última parábola, a do pescador que lança a rede ao
mar e apanha todo tipo de peixes. O mar é o mundo, a rede são as oportunidades
que Deus nos dá, e os peixes somos nós. Cada um do seu jeito, com a sua maneira
de ser. Deus acolhe a todos. Todos nós estamos na mesma rede, porém, na beira

114
da praia se fará uma triagem. Qual será o nosso destino? O cesto do pescador ou
seremos jogados fora? Deus não quer que nenhum de seus filhos seja lançado
fora. Ele quer que todos nós estejamos junto dele. Para estar junto dele, é preciso
colocar em prática seus ensinamentos. Que ele nos dê sabedoria para descobrir e
viver isso, verdadeiramente. Podemos conseguir isso amando a sua lei, sua
Palavra, como reza o salmo de hoje. Assim, poderemos tirar do nosso baú, da
nossa vida, coisas novas e velhas, isto é, saber distinguir as situações de acordo
com seus verdadeiros valores.

18º Domingo
& Is 55,1-3 | Sl 144(145) Rm 8,35.37-39 | Mt 14,13-21

Depois de ter visto em vários domingos, através de parábolas, como é o Reino


dos céus, a liturgia da Palavra deste domingo traz, de modo prático e direto, os
meios para a concretização deste Reino: a partilha, a solidariedade, o
compromisso com a vida. Tudo isso permeado por desafios, mas também por
sinais de esperança. É o que encontramos em cada uma das leituras deste dia.
Hoje vale a pena começar a reflexão a partir do evangelho. As outras leituras
são complementos da mensagem central contida neste texto, do capítulo 14 do
Evangelho de Mateus, que, como o do domingo passado, forma o coração deste
livro.
Jesus recebe a notícia do assassinato de João Batista. Uma trágica notícia. Seu
coração se comove, embora ele soubesse que todo aquele que trilha seu caminho
está sujeito à perseguição e até à morte por causa disso. A morte de João Batista é
um prenúncio da sua própria morte. Assim sendo, ele busca um lugar afastado
para refletir sobre o ocorrido e também sobre a sua própria missão, que é dar a
vida pela humanidade. Porém, ele não consegue ficar sozinho porque a
“humanidade” lhe segue e lhe persegue. Uma multidão o segue. Essa multidão
representa a multidão dos desamparados, das vítimas de um sistema opressor,
figurado em Herodes e seus correligionários, mandantes da morte de João Batista.
Essa multidão representa aqueles para os quais ele veio. Eles têm fome e sede de
justiça e enxergam em Jesus a possibilidade de aplacar essas necessidades.
Quando os vê, Jesus é tomado por um sentimento divino, a compaixão. A
compaixão é um sentimento divino porque comove. O verbo comover é parecido
com a compaixão. Compaixão significa sofrer com os que sofrem e comover
significa mover com. São, portanto, sentimentos que desinstalam, fazem com que
os que são acometidos por eles se mexam, façam alguma coisa. Quem sente na
pele a dor do outro não sossega enquanto não vê solucionado o que lhe causa o
incômodo. Assim sendo, Jesus se enche de compaixão pelas multidões e se
mobiliza para ajudá-las. Porém, ele não faz isso sozinho, ele envolve seus

115
discípulos na solução do problema. É isso que ele quer também de nós:
envolvimento com as suas causas, o seu projeto, com o que ele ensinou. Cristão
que se acomoda numa religião de mero ritualismo, sem compromisso, não é um
cristão autêntico. Desse modo, quando os discípulos sugerem a Jesus que dispense
as multidões para ir ao povoado comprar comida, ele não concorda. É muito fácil
“dispensar” as pessoas para que elas parem de incomodar. É muito mais fácil e
cômodo agir assim. Quantos de nós damos esmolas aos que nos abordam
simplesmente para nos vermos livres desse outro que nos importuna? Ficamos
com pena, mas pouco ou nada fazemos para mudar a situação deste que sofre.
Aqui está a diferença entre pena e compaixão. A pena não nos mobiliza, não nos
toca a alma e, portanto, não tomamos atitudes transformadoras, apenas meios
paliativos, paternalistas e sem envolvimento com as verdadeiras causas da miséria
alheia. A esmola dada a um mendigo na rua não resolve o problema da miséria,
mas traz apenas um sintoma de alívio para a consciência. Também não se pode
ficar esperando que as autoridades resolvam o problema da miséria, isto é, da
fome, da saúde, da educação, da moradia ou de qualquer outro problema
elementar, sem o nosso envolvimento, sem a nossa participação. É nossa
obrigação, como cristãos e como cidadãos, ajudar a buscar soluções reais para os
problemas que atingem as pessoas, colocando-as numa situação de miséria e
servidão.
Jesus não permite dispensar as multidões para irem comprar alimento. Ele
coloca para os discípulos a responsabilidade para solucionar o problema,
provocando-os: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. A provocação de Jesus faz com
que eles revelem que têm ali alguma coisa: “Só temos aqui cinco pães e dois
peixes”. É pouco, mas eles têm algo. Enquanto cada um se apegar ao pouco que
tem, sem partilhar, muitos passarão necessidade. Jesus ordena que entreguem esse
pouco. Como diz um ditado popular, “o pouco com Deus é muito”. O pouco que
alguns têm, quando partilhado com os que não têm nada, se torna muito. Jesus
pega aquele pouco e agradece a Deus. Tudo o que temos, mesmo que seja pouco,
vem de Deus, e é preciso reconhecer isso. Nada nesse mundo é nosso; nada nos
pertence. Por que então nos apegamos tanto às nossas coisas, aos nossos bens?
Antes de partilhar aquele pouco abençoado, Jesus pede que as multidões
assentem-se. Assentar-se significa dar-lhes dignidade, importância, torná-los
livres da servidão, da miséria da opressão. Os escravos não podiam se assentar.
Sentar-se é sinônimo de liberdade e dignidade. Somente os senhores se
assentavam nas suas cátedras. O povo agora se assenta para receber o alimento. É
o sinal de que Jesus o liberta, traz a vida. O primeiro milagre da partilha começa a
se revelar. Eles não precisarão mais ir ao povoado para comprar, sinônimo da
dependência e sujeição ao dinheiro. A partilha gera uma sociedade nova, um novo
modo de viver onde tudo é de todos.

116
Após todos se assentarem, Jesus entrega o alimento para que os discípulos
façam a partilha. É o gesto medular do evangelho de hoje. A partilha do pouco
que iria se tornar o suficiente para garantir-lhes a liberdade e a vida. Todos
comeram e ficaram satisfeitos, diz o texto. Ninguém passou fome e ainda sobrou o
suficiente para recolher doze cestos cheios.
Muitos leem este texto com uma visão fundamentalista, achando que Jesus fez
ali uma mágica, multiplicando literalmente os pães e solucionando
miraculosamente o problema. Assim, ficam acomodados esperando que esse
milagre se repita e nada fazem para o próximo, nem sequer partilham o pouco ou
o muito que têm. Jesus simplesmente ensina os discípulos a partilhar e mostra que
quando há verdadeira partilha a miséria e o sofrimento têm um fim.
É essa também a proposta da primeira leitura. O profeta Isaías faz um convite
um tanto quanto estranho: “Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós
que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro,
tomar vinho e leite sem nenhuma paga”. Para quem o profeta faz esse convite?
Para gente que tem fome e sede de justiça; gente que passa necessidade de
alimento, de água, enfim, gente que, pelos desmandos, pela opressão e pela
miséria do exílio, não tem nada disso, a quem falta o essencial para viver com
dignidade. Então é um convite tentador.
O profeta não está enganando os oprimidos do exílio com falsas promessas. Ele
lhes suscita a esperança. Quem tem sua esperança alimentada encontra força para
vencer as dificuldades, os obstáculos. Foi o que ocorreu com esse povo. Eles
conseguiram vencer o sofrimento do exílio e voltaram para suas terras, suas casas
e recomeçaram a vida. Foi fundamental o anúncio de esperança do profeta porque
esse anúncio veio junto com denúncias. Assim devem agir os profetas de hoje.
Porém, isso não é nada fácil. É preciso ter fé, ter a confiança de que Deus está
junto para poder enfrentar essas situações e vencê-las. Somente unidos no amor de
Cristo conseguiremos vencer os exílios que continuam a escravizar o povo. Quem
nos diz isso é Paulo, na Carta aos Romanos, na segunda leitura de hoje.
Paulo diz que quando confiamos não há nada que possa nos separar do amor de
Cristo. Nem a tribulação, nem a angústia, nem a perseguição, nem a fome, nem a
nudez, nem os perigos, enfim, nem a morte, nem nada neste mundo conseguirá
nos impedir de agir como Cristo nos ensinou e assim obtermos a vitória. O amor
de Cristo nos dá coragem, fortalecendo-nos, nos fazendo valentes guerreiros
contra as forças da morte.
Tudo isso nos ensina a liturgia da Palavra de hoje, que nos aponta o caminho
certo para chegarmos ao Reino dos céus. Recebemos as ferramentas para construir
esse Reino que começa aqui. São apontados os procedimentos corretos. Se os
seguirmos, o Reino dos céus se tornará uma realidade entre nós. São provocações
e desafios da liturgia deste domingo.

117
19º Domingo
& 1Rs 19,9a.11-13a | Sl 84(85) Rm 9,1-5 | Mt 14,22-33

Podemos dizer que a liturgia deste décimo nono domingo do Tempo Comum é
vocacional. Isso porque ela trata do chamado de Deus, e junto com o chamado, o
envio, o compromisso, a missão. Assim sendo, oportunamente ela nos leva a
refletir sobre a nossa vocação, o chamado que Deus fez e faz na nossa vida e
como estamos percebendo e respondendo a esse chamado.
A primeira leitura mostra o chamado que Deus faz ao profeta Elias, um dos mais
importantes profetas do Antigo Testamento. Elias está sendo perseguido pela
rainha Jezabel e vai se esconder numa gruta, no alto do monte Horeb, o monte de
Deus. Ou seja, Elias encontra refúgio em Deus, sua única segurança. Quem tem
Deus no coração encontra refúgio nele nas horas de sofrimento, de desespero ou
de medo. Deus foi à proteção de Elias como também é nossa única proteção. Pode
ocorrer, porém, que devido aos acontecimentos que nos deixam temerosos, nosso
coração se feche para o reconhecimento de Deus e não consigamos percebê-lo. Ou
então pode acontecer que o estamos buscando nos lugares errados. Elias espera
Deus passar de forma grandiosa, como, por exemplo, no vento impetuoso e forte,
que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos, ou no terremoto ou no fogo.
Todos eram acontecimentos grandiosos que tudo abalavam, mas Deus não estava
em nenhum desses acontecimentos. É o que muitas vezes acontece conosco: nos
momentos de desespero, buscamos Deus e esperamos vê-lo manifestar-se de
modo miraculoso, em acontecimentos extraordinários na nossa vida, porém ele
nos surpreende e se manifesta nas coisas mais simples, da maneira mais natural
possível, como se manifestou a Elias. Depois de passados todos esses turbilhões,
Elias ouviu o murmúrio de uma leve brisa e Deus foi ao encontro dele assim.
Precisamos cessar os turbilhões que se instalam dentro de nós para poder ouvir
Deus no silêncio de uma brisa suave.
Na segunda leitura, Paulo se mostra indignado com seus compatriotas porque
não respondem como deveriam ao chamado de Deus. Por mais que eles tivessem
tido sinais da presença de Deus nas suas vidas, não tinham o comportamento que
deve ter quem faz a experiência de encontrar com Deus, de ter sido chamado por
ele. Desse modo, Paulo diz que tem no coração uma grande tristeza e uma dor
contínua, a ponto de desejar ser ele mesmo segregado por Cristo em favor
daqueles seus irmãos, os da sua raça.
Será que nós também não estamos procedendo da mesma maneira? Será que
apesar de tudo que Deus nos tem concedido, de todos os sinais que ele já deu na
nossa vida, ainda vamos continuar agindo como se nada tivesse acontecido?
Cristo deu a vida por nós, muitos outros que vieram antes de nós já deram a vida
pela causa de Jesus, e nós continuamos como se nada tivesse acontecido, como se

118
Deus não nos amasse, como se Jesus não nos tivesse ensinado nada? Temos
obrigação de assumir a missão que ele nos confiou, de entrar no seu barco e seguir
adiante, enfrentando as tempestades da vida, porque foi isso que ele fez por nós e
foi isso que ele nos ensinou, quando ensinou seus discípulos a partilhar. Quem
não aprendeu a lição não pode ser seu discípulo. É o que vemos no evangelho de
hoje.
Este evangelho é também vocacional. Trata, entre outras coisas, do chamado a
Pedro para ir ao encontro dele, Jesus, caminhando sobre as águas. Não vamos ler
esse texto ao pé da letra, e fazer dele uma leitura fundamentalista porque perde a
sua riqueza teológica e seu profundo ensinamento para a nossa vida de cristão,
discípulos e missionários de Jesus Cristo.
Podemos observar que o texto tem um contexto. É o contexto da multiplicação
dos pães, o evangelho que vimos no domingo passado. Assim sendo, vemos que o
texto diz, no início: “Depois da multiplicação dos pães, Jesus mandou que os
discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar
enquanto ele despedia as multidões”. Vemos que há um imperativo, uma ordem,
Jesus mandou que eles entrassem no barco. Há algumas traduções que dizem que
ele “obrigou” os discípulos a entrar no barco. O que isso significa? Significa que
depois daquela grande lição recebida, a da partilha para pôr fim à miséria, ao
sofrimento, e à fome, eles tinham obrigação, se quisessem continuar sendo seus
discípulos, de entrar no seu barco, isto é, de assumir a sua missão. Entrar no barco
significa, portanto, estar numa mesma situação, assumir o que ele havia assumido
em prol da vida dos necessitados, fazer o que ele fez. Assim sendo, eles entram no
barco de Jesus e seguem mar adentro. Vale lembrar que mar na literatura bíblica
significa também algo desafiador, assustador, um conjunto de perigo, de males
etc. Eles entraram no barco para enfrentar desafios e não apenas para um passeio.
Porém, quem entra no barco de Jesus, mas não confia nele, ou não tem fé
suficiente, se acovarda diante dos perigos, sente medo e fraqueja diante das
tempestades da vida. Foi isso que aconteceu com os discípulos. Passava da meia
noite e o barco estava longe da terra, sendo assolado por uma tempestade. Eles se
sentiam inseguros e sozinhos. É nesses momentos que testamos a nossa fé.
Quando tudo caminha bem, quando estamos bem, é fácil dizer que cremos em
Deus e que ele é tudo na nossa vida. Porém, quando nos faltam os supostos
apoios, nossa segurança, quando sofremos por algum motivo, quando parece que
não vamos sobreviver a determinados acontecimentos, é aí que vemos se
acreditamos ou não em Deus.
Deus, porém, não nos abandona, embora nem sempre o percebamos ou o
reconheçamos vindo ao nosso encontro. Foi o que aconteceu com os discípulos.
Jesus foi ao encontro deles. Era por volta das três horas da manhã. Nesse horário
começa a aparecer no céu os sinais da aurora de um novo dia. Significa que a

119
vinda de Jesus ao encontro deles, nessa hora, marca um novo tempo, um tempo de
calmaria, de paz, pois somente ele é capaz de acalmar as tempestades de nossa
vida. Significa a esperança. Mas os discípulos estavam tomados pelo medo; não o
reconheceram e pensaram que fosse um fantasma.
Será que Jesus não tem passado de um fantasma na nossa vida? Dependendo do
relacionamento que temos com ele, com a nossa religião, Deus não passa de um
fantasma assustador. Se assim for, nossa vida está longe de encontrar a paz e
estamos ainda na noite escura do medo, da insegurança e da vulnerabilidade
causada pela falta de fé.
Mesmo diante de tudo isso, Jesus vem ao encontro deles e pede que tenham
coragem, que não tenham medo, porque é ele que está indo ao encontro deles.
Assim ele faz conosco todos os dias. Pede que tenhamos coragem e que o
enxerguemos vindo ao nosso encontro. Contudo, Pedro ainda duvida, quer ter
certeza de que é Jesus mesmo e pede uma prova: “Senhor, se és tu, manda-me ir
ao teu encontro, caminhando sobre a água”. Jesus pede que ele vá, mas a fé de
Pedro não é suficiente para enfrentar os desafios longe do mestre. Se ele tivesse
mais fé não pediria tal prova e confiaria, aguardando o mestre no barco. Assim,
Pedro vai ao encontro de Jesus, mas devido ao medo do vento, começa a afundar.
Quando vamos ao encontro de Jesus com medo, inseguros, sem fé, nossos projetos
não vão adiante e nós fraquejamos. É preciso confiar. Ao vê-lo afundar e clamar
por ele, Jesus estende a mão e o segura. É isso que ele faz conosco: nos segura
pela mão e não nos deixa afundar, mesmo que a nossa fé seja fraca.
Depois disso, Pedro é repreendido por Jesus por ser fraco na fé. Discípulos com
a fé enfraquecida não são bons discípulos. Ele nos quer firmes na fé para que
possamos enfrentar com coragem os desafios da missão.
O evangelho conclui-se mostrando que, após Jesus entrar no barco, o mar se
acalma e eles professam a fé em Jesus, reconhecendo-o verdadeiramente o Filho
de Deus. Quando deixamos Jesus entrar na nossa vida, ele acalma as tempestades
que atingem o nosso coração, ele nos encoraja e nos dá a paz.
Todos esses elementos nos ajudam a rever e avaliar nossa vocação, o chamado
que Deus faz na nossa vida, e verificar se estamos respondendo adequadamente a
ele ou se estamos ainda enfraquecidos na nossa fé.

20º Domingo
& Is 56,1.6-7 | Sl 66(67) Rm 11,13-15.29-32 | Mt 15,21-28

O tema da liturgia deste domingo é a salvação. A salvação que é estendida a


todos e não apenas a um determinado povo, grupo, religião ou Igreja. É a salvação
universal, concedida a todos os que ouvem e aceitam o chamado de Deus, os
vocacionados do Pai, independentemente de quem sejam. Com isso, a liturgia de

120
hoje revela um Deus Pai que ama todos os seus filhos, mas que socorre primeiro
os que mais necessitam, como, por exemplo, o estrangeiro, o marginalizado,
enfim, os excluídos da sociedade. Esses são os primeiros no Reino dos céus, os
primeiros beneficiados pela salvação, desde que atendam aos seus apelos,
pratiquem seus ensinamentos e vivam a justiça. É o que nos mostram as leituras
de hoje.
A primeira leitura é do livro do profeta Isaías e seu contexto é o do início do
pós-exílio, isto é, o povo está voltando do exílio da Babilônia e busca reconstruir a
sua vida, trazendo a amarga experiência de ter sido tratado como estrangeiro.
Essas pessoas precisam sentir o amor de Deus que as acolhe, fortalece e ampara, e
o profeta tem esta missão: mostrar-lhes um Deus que está do seu lado,
concedendo-lhe a força necessária para recomeçar a vida. Mostrar que Deus não
discrimina ninguém, nem o povo tido como eleito e nenhum outro povo, pois a
todos é estendida a salvação, a libertação, enfim, a vida, basta que cumpram o
dever e pratiquem a justiça. Quem agir assim será conduzido ao seu monte santo e
se alegrará na sua casa de oração, isto é, encontrarão sua presença na sua
comunidade, na sua igreja, enfim, onde estiverem reunidos em seu nome. Assim,
esta leitura amplia nossos horizontes religiosos e nos ensina a amar e respeitar
mais nossos irmãos, inclusive os de outras denominações religiosas, os diferentes
de nós, os migrantes e imigrantes, os estrangeiros, os exilados, os excluídos. Para
estes devemos voltar nossa atenção, pois são eles que mais necessitam e são estes
que muitas vezes dão provas de maior adesão ao projeto de Deus, como vemos na
segunda leitura e no evangelho.
Na segunda leitura, da Carta aos Romanos, Paulo afirma que fará de tudo, que
dedicará sua vida aos cristãos oriundos do paganismo porque estes, tidos como
estrangeiros e discriminados, foram os que mais aceitaram a proposta de Cristo.
Diz que enquanto ele for Apóstolo dos pagãos, honrará o seu ministério fazendo
por eles aquilo que não pode fazer pelos da sua raça, porque estes não receberam
como deveriam a mensagem de Cristo. Eles, os da sua raça, tiveram todas as
oportunidades do mundo para crer em Jesus e mudar de vida, mas não
aproveitaram essas oportunidades, enquanto os pagãos aceitaram e se
converteram. Quem sabe agora, diz Paulo, com a dedicação a estes, fosse
despertado no coração daqueles certo ciúme e isso os levasse à conversão. É a
esperança de Paulo. Assim, o texto dessa leitura mostra que os excluídos, quando
aderem à proposta de Cristo e professam a sua fé, recebem a mesma herança que
foi reservada aos que são tidos como eleitos. É o que reforça o evangelho, ao
colocar no centro da cena a mulher cananeia, amplamente discriminada.
Jesus está no território dos pagãos (região de Tiro e Sidônia). Pelo que tudo
indica, ele não tem a pretensão de fazer milagres ali. Seus discípulos o
acompanham. Eles estão imbuídos da mentalidade judaica e, portanto, estão

121
seguindo o mestre em busca das ovelhas perdidas da casa de Israel. A mulher que
os procura não pertence à casa de Israel. É uma estrangeira, uma pagã, cuja filha
está sendo atormentada por um demônio. Talvez o mesmo demônio que a
atormentava, atormentava também todo o seu povo: o demônio da discriminação,
do preconceito, da desvalorização; o demônio de serem tratados como cachorros,
vivendo de migalhas, das sobras. Mas ela não se conforma com isso. Busca
incansavelmente a libertação dessa pecha, desse preconceito, enfim, busca
resgatar a dignidade, simbolizada na cura.
Ela segue Jesus, gritando: “Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim”. Ela
reconhece em Jesus o Messias, enxerga nele a esperança, o que muitos da casa de
Israel não conseguiam ver. O tormento dessa mulher é cruel: ver a filha no mesmo
caminho dos demais do seu povo; o caminho da exclusão e da discriminação. Que
mãe não se desespera quando vê que seus filhos estão com o futuro condenado? É
um clamor de desespero. Os discípulos se sentem incomodados com seus gritos,
com seus clamores. Porém, em vez de buscar fazer algo por ela, querem que Jesus
a mande embora. É muito mais fácil mandar embora os que nos incomodam de
alguma forma do que solucionar o problema. Foi essa mesma atitude que eles
pretendiam ter na ocasião da multiplicação dos pães. Eles queriam dispensar a
multidão para ir comprar pães em vez de partilhar o pouco que tinham. Jesus não
permitiu isso e ensinou (e nos ensinou) uma grande lição para ajudar a diminuir o
sofrimento humano: a partilha. Agora a situação volta, porém num outro contexto.
Eles querem que Jesus a mande embora, mas Jesus não esboça reação alguma. É
de difícil entendimento a aparente indiferença de Jesus, mas ele tem os seus
propósitos e um deles talvez fosse testar até onde ia a fé daquela mulher e o
procedimento dos discípulos.
Ela se joga a seus pés e inicia um diálogo carregado de clamores e de
demonstração de fé, de consciência da sua realidade de exclusão e, sobretudo, de
desejo de libertação. Temos, assim, um dos mais belos reconhecimentos de fé,
manifestado por Jesus: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres”.
Assim, ela obtém a cura da filha, isto é, a sua libertação. Ela foi incluída na
salvação porque demonstrou muita fé. Com isso vemos que a salvação é estendida
a todos, desde que se busque com empenho, amor, dedicação e fé essa salvação.
Foi assim com o povo exilado (primeira leitura); foi assim com os cristãos
oriundos do paganismo (segunda leitura); foi assim com a mulher cananeia
(evangelho) e é assim com todos nós. Quando buscamos cumprir o dever cristão,
praticando a justiça, o amor a Deus e ao próximo, tudo é possível, como diz a
Carta aos Filipenses (4,13): “Tudo posso naquele que me fortalece”.
Que sejamos pessoas de fé e tenhamos uma visão mais ampla da religião e do
amor de Deus para com seus filhos e filhas, independentemente de quem eles
sejam. Assim praticaremos uma religião que liberta e não discrimina.

122
21º Domingo
& Is 22,19-23 | Sl 137(138) Rm 11,33-36 | Mt 16,13-20

O vigésimo primeiro domingo do Tempo Comum enfatiza o tema da


responsabilidade que Deus confia a cada um de nós. A responsabilidade do
seguimento correto e do cuidado com as coisas de Deus. Será que estamos
respondendo com fidelidade a esse chamado, ou estamos decepcionando Deus
com o nosso comportamento que não corresponde ao que ele espera de cada um
de nós?
Na primeira leitura, o profeta mostra que será destituído do poder aquele que
não estava governando conforme lhe fora confiado e em seu lugar seria colocado
alguém que governaria com justiça. Relata que Deus havia confiado ao primeiro
uma responsabilidade, mas este se desviou do caminho, deixou que o poder lhe
corrompesse e não agiu como deveria. Assim, seu mandato seria caçado e ao seu
sucessor seria dado tudo o que era dele. Desse modo, o profeta age em nome de
Deus e mostra que quem não governa com justiça não merece estar no governo de
um povo. Essa situação caberia muito bem em qualquer sociedade, inclusive na
nossa, quando assistimos a tantos desmandos e desrespeito, tanta corrupção e
falcatruas. Pessoas que foram eleitas pelo povo, usando dos seus cargos para tirar
benefícios próprios. Sentimos a carência de profetas que denunciem tudo isso e de
políticos que façam jus aos cargos que lhes foram confiados, ou para os quais
foram eleitos.
A segunda leitura fala da sabedoria de Deus, que governa o mundo e tudo
conduz na mais perfeita harmonia, sem que nenhum ser humano consiga sondar
ou penetrar os seus mistérios e nenhum conselheiro precise orientá-lo ou dar-lhe
conselhos. O governo divino deveria ser exemplo e modelo para todos os que
governam. Assim teríamos governos mais justos em todas as instâncias da
sociedade.
No evangelho, Jesus confia a Pedro a árdua responsabilidade de governar a
Igreja, sendo ele a pedra fundamental, a rocha que a sustentaria e a tornaria
inabalável pelos séculos sem fim. Porém, para isso, foi preciso primeiro que Pedro
respondesse com precisão quem é Jesus. Foi o critério fundamental para que lhe
fosse confiada essa responsabilidade. Quem não sabe quem é Jesus dificilmente
irá agir conforme seus ensinamentos. Se ainda há tanto desrespeito à vida, tanta
maldade e tanto desamor entre os cristãos é sinal de que há tantos que ainda não
sabem quem é Jesus. Há muitos cristãos, ou que se dizem cristãos, que dão clara
demonstração de desconhecer totalmente quem ele é. Percebemos essa situação
pelas ações, pela verbalização e pela incoerência entre a vivência do cristianismo
e aquilo que muitas pessoas dizem professar. É comum ver político corrupto dizer
que é cristão; bandidos das mais variadas categorias dizem que são cristãos;

123
pessoas que não respeitam seus semelhantes, que são preconceituosas e omissas
dizem que são cristãs; pessoas que aprovam ou apoiam leis que vão contra a vida
dizem que são cristãs; enfim, uma gama de supostos cristãos que desmerecem a
imagem de Cristo com seus atos e mereciam ser caçados dos seus poderes e de
suas responsabilidades, como ocorreu com o personagem da primeira leitura.
Enquanto estivermos dizendo que Jesus é isto ou aquilo e não chegarmos ao que
ele tem de essencial, não seremos dignos de ter responsabilidades na sua messe.
Isso só será possível através do compromisso. Não podemos ficar esperando que
um ser humano, uma igreja ou religião digam para nós quem é Jesus para
podermos agir em seu nome. É preciso se comprometer com a vida e a sua causa,
somente assim Deus se revelará para nós, como fez a Pedro, dizendo-lhe quem é
Jesus.
Que no nosso coração arda o desejo de querer ver Jesus, Caminho, Verdade e
Vida e nos comprometamos com ele, comprometendo-nos com a vida dos nossos
irmãos que sofrem. Assim, estaremos respondendo à pergunta-chave para um
seguimento autêntico: “Quem é Jesus?”. Sem saber quem ele é, não podemos
segui-lo verdadeiramente. Infelizmente, muitos pensam que estão seguindo a
Cristo, mas seguem algo que não corresponde a quem ele de fato é. Por isso
vemos tantas imagens distorcidas de Jesus, tantos comportamentos que não
condizem com a prática de Jesus e tantas besteiras sendo ditas em nome de Jesus.
É preciso ter muito cuidado para não aderir a uma imagem falsa de Jesus, dessas
que são usadas para fins escusos.

22º Domingo
& Jr 20,7-9 | Sl 62(63) Rm 12,1-2 | Mt 16,21-27

Os desafios do seguimento de Jesus são o tema da liturgia deste vigésimo


segundo domingo do Tempo Comum.
Quais são esses desafios?
O primeiro deles é o desafio do esvaziamento de nós mesmos. Esvaziar de tudo
aquilo que possa impedir de segui-lo e servi-lo livremente. Quando passamos por
esse processo, estamos aptos a segui-lo livremente.
O segundo é o desafio de tomar a nossa cruz, ou seja, não fugir das dificuldades
e sofrimentos, mas enfrentá-las com coragem, porque sofrimento é o que mais
encontraremos no seguimento de Jesus. Quem foge dos seus próprios sofrimentos
não está apto para segui-lo porque o seu seguimento consiste em passar por
muitos sofrimentos, como vemos no evangelho de hoje.
Jesus mostra qual é a sua missão e a missão dos seus discípulos: ir a Jerusalém e
sofrer muito da parte das autoridades (dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos
mestres da Lei). Esse sofrimento seria muito grande, chegando mesmo até à

124
morte, mas para depois ressuscitar no terceiro dia. Ele mostra tudo isso depois que
os discípulos, na pessoa de Pedro, responderam corretamente quem ele era. Pedro,
embora tenha dito que ele era o Messias, o Filho de Deus, estava um tanto quanto
equivocado em sua concepção de Messias. Ele tinha em mente a concepção
judaica de Messias. Aquele que viria com poder e glória para resolver todos os
problemas, sem passar por nenhum sofrimento. Quando Jesus diz que iria passar
por tudo isso e seria morto, Pedro reage chamando-o à parte e dizendo que Deus
não iria permitir que tal coisa acontecesse.
Muitos de nós, embora não sejamos de origem judaica, temos uma concepção
similar de Jesus. Seu sofrimento não nos atinge a ponto de nos convertermos
como deveria ser, mas romantizamos o sofrimento de Jesus, livrando-o da real
crueldade e da dureza. Queremos um Cristo apenas glorioso, sem a mácula da dor
e do sofrimento, um Cristo apenas dos nossos louvores, da Eucaristia que nos
conforta, mas do qual desconhecemos o real significado. A cruz na nossa vida (na
nossa casa, nos nossos altares, nos nossos templos e no nosso pescoço) não passa
de um ornamento e, em algumas imagens, o crucificado não parece agonizar, mas
descansar na cruz. Eliminamos o sofrimento porque não queremos enfrentá-lo.
Esvaziamos o sofrimento da cruz porque preferimos um Cristo sem dor, só na sua
glória. Mas ele deixa claro para os seus discípulos: para chegar à glória, é preciso
passar pela cruz. Não existe glória sem sofrimento, sem cruz. Não que ele tenha
buscado o sofrimento pelo sofrimento, mas sabia que o sofrimento é consequência
do comprometimento com a vida. Quem luta pela vida, pela justiça, pela
construção do Reino de Deus, enfrentará muito sofrimento. Uma religião que só
promete a paz e a glória não passa de alienação. Uma religião que esquece o
significado da cruz não pode ser uma religião séria.
É essa proposta feita por Jesus no evangelho de hoje à qual Pedro resiste e da
qual quer desviar-se. Jesus o chama de pedra de tropeço e de satanás. Pedra de
tropeço significa obstáculo. Agindo daquela maneira Pedro estaria atrapalhando o
projeto de Deus, pois queria desviar Jesus dele. Quantas vezes, como cristãos,
somos também pedras de tropeço? Somos pedra de tropeço quando, por medo, ou
por acomodação, não nos comprometemos com o projeto de Jesus; quando não
lutamos pela justiça; quando queremos uma religião sem compromisso; enfim,
quando o ser cristão não passa das práticas de meros rituais.
Satanás, nesse contexto, significa adversário. Ao chamar Pedro de satanás, Jesus
está dizendo que Pedro, comportando-se daquela maneira, estava sendo um
adversário e não um colaborador, como deveria ser. Somos satanás no projeto de
Jesus quando pensamos “as coisas dos homens”, isto é, quando pensamos
limitadamente; quando pensamos somente em nós e nos esquecemos dos outros;
quando nossa religião nos aliena num mundo individualista, sem nos
preocuparmos com a dor e o sofrimento alheio. Há muitas maneiras de ser pedra

125
de tropeço e satanás no caminho de Cristo. É importante pensarmos sobre isso
para verificar se estamos sendo ou não cristãos autênticos, e se estamos ou não
seguindo Jesus.
Teremos a resposta para essas perguntas se soubermos renunciar a nós mesmos,
se tomarmos a nossa cruz e seguirmos Jesus. Isso exige um processo de
conversão. Não segui-lo apenas para buscar segurança para a nossa vida. Ele não
nos garante esse tipo de segurança que imaginamos ter, porque segui-lo é arriscar
a vida. Aquele que gasta a sua vida seguindo Jesus ganha-a, mas aquele que pensa
em segui-lo para preservar a vida vai perdê-la, diz Jesus. À primeira vista, sua
proposta é pouco tentadora, mas ele garante a maior de todas as recompensas:
encontrar a verdadeira vida e o seu verdadeiro sentido.
Somente entenderá isso quem se deixar seduzir por ele, diz Jeremias na primeira
leitura. Somente uma pessoa apaixonada por Deus é capaz dessa loucura, a
loucura da cruz, diz Paulo na Carta aos Coríntios. Na carta de hoje, escrita aos
Romanos, Paulo exorta-nos a oferecer a nossa vida como sacrifício vivo e
agradável a Deus. A verdadeira espiritualidade consiste nessa entrega total, de
corpo e alma, como alguém que foi seduzido e se deixou seduzir, como diz
Jeremias na primeira leitura. Nessa entrega total, não temeremos os obstáculos, os
sofrimentos, as zombarias, as maldades, chacotas, calúnias, calamidades, enfim,
tudo aquilo que o profeta enfrentou por causa de Deus e seu projeto de amor.
Paulo diz que quem ama a Deus verdadeiramente não se conforma com o
mundo, mas busca transformá-lo. Quem assume a missão de cristão não se
conforma com um mundo com tantas injustiças; não se cala diante delas; não
compactua com tantas maldades. Quem assumiu de fato a missão de cristão busca
a todo custo transformar as realidades de injustiças, mesmo que isso lhe custe a
própria vida, como pede o evangelho de hoje. E isso só será possível, diz Paulo,
nesta leitura, se mudarmos nossa maneira de pensar e de julgar. É preciso mudar
nossos conceitos do que é ser cristão e da própria religião para podermos enxergar
mais adiante, com um olhar profético, capaz de se compadecer do sofrimento
alheio e saber que todo sofrimento tem uma causa que não é da vontade de Deus.
Somente assim poderemos distinguir o que é da vontade de Deus, o que é bom e o
que lhe agrada, diz Paulo nesta segunda leitura.
Que saiamos desta celebração sentindo dentro de nós um fogo ardente a penetrar
nosso corpo, como sentiu o profeta Jeremias. Que esta Palavra nos incomode e
nos desinstale, levando-nos a nos empenhar mais em prol da vida dos nossos
irmãos. É para isso que ele nos chamou. Seguir Jesus é se comprometer com a
vida e a vida dos que sofrem; a vida dos injustiçados; a vida que corre risco. Essa
deve ser a nossa vocação.

23º Domingo

126
& Ez 33,7-9 | Sl 94(95) Rm 13,8-10 | Mt 18,15-20

A Palavra de Deus nos dá respostas para os dilemas e conflitos que vivemos na


comunidade e aponta caminhos para superá-los. Basta que saibamos ouvir o que
Deus tem a nos dizer, através de sua Palavra, e colocá-la em prática no dia a dia
da nossa vida. Parece fácil, mas não é tão simples assim. É preciso que haja amor
no nosso coração. Somente o amor é capaz de superar as dificuldades, sanar as
feridas causadas pelos desentendimentos e recuperar as relações feridas pelos
erros e pelo pecado. É o que propõe a liturgia da Palavra deste vigésimo terceiro
domingo do Tempo Comum.
Vivemos em sociedade e em comunidades, e essa vivência e convivência nos
conferem responsabilidades. Somos responsáveis por tudo o que nela acontece.
Somos responsáveis pela vida dos outros e devemos cuidar uns dos outros. Esse é
o ideal de comunidade que ajuda a construir sociedades justas e fraternas, para
que o Reino de Deus comece nelas.
A primeira leitura, da profecia de Ezequiel, fala que o profeta é o vigia da casa
de Deus. Todos nós, pelo batismo, recebemos a missão profética. Participamos do
reinado de Cristo, do seu sacerdócio e da sua missão profética. Assim sendo,
temos responsabilidades de profeta e a responsabilidade de profeta é vigiar, estar
de atalaia, ser sentinela na casa de Deus.
O que isso significa?
Significa que devemos cuidar uns dos outros. Quando percebemos que um
irmão está no caminho errado, ou que fez coisas que desagradam a Deus, é dever
nosso alertá-lo. Quem vê o outro praticando o mal, agindo errado, e se cala está
compactuando com ele, está sendo cúmplice de suas ações. Desse modo, o profeta
Ezequiel diz que é dever advertir em nome de Deus as ações do ímpio. Se ele não
der ouvidos e preferir continuar no erro, sofrerá as consequências, porém quem o
alertou não será culpado pelo erro. Mas se a pessoa viu e nada fez, ela também é
culpada, e Deus pedirá conta dessa omissão, da negligência de quem viu o erro e
permitiu que ele acontecesse. Assim sendo, esta primeira leitura mostra a
responsabilidade que temos uns com os outros. Por mais que sejamos indivíduos,
nossas relações são interdependentes. É dever de todos cuidar de todos, mas só faz
isso quem ama verdadeiramente. Aquele, cuja medida de suas ações é o amor vai
procurar alertar e corrigir o outro fraternalmente, de modo que a pessoa deixe de
errar. É o que pede a segunda leitura, da Carta aos Romanos.
Esta segunda leitura afirma que a única coisa que devemos aos outros é o amor
mútuo. Cumprir os ensinamentos de Deus consiste exatamente nisso: amar o
próximo. De nada adianta dizer que temos uma religião, que somos pessoas de
bem e que cumprimos nossas obrigações religiosas se não amamos o nosso
próximo. E não é qualquer amor. É amar como amamos a nós mesmos. Se

127
amarmos os outros como a nós mesmos, vamos pensar bem antes de tomar
qualquer atitude que possa magoar, ferir ou diminuir a vida deles.
Quem ama o próximo como a si mesmo não comete adultério, não mata, não
rouba, não cobiça as coisas alheias, não calunia seu irmão, enfim, vive os
mandamentos da lei de Deus porque os mandamentos da lei de Deus consistem
em amar o próximo como a nós mesmos. Assim, toda vez que fizermos ou
dissermos algo para alguém, podemos perguntar antes: eu gostaria que alguém
fizesse ou dissesse isso para mim ou de mim? Creio que deixaríamos de fazer ou
de dizer muita coisa desagradável para os nossos irmãos se assim procedêssemos.
Mas se mesmo assim essas coisas forem ditas e feitas, o que fazer? O evangelho
de hoje traz uma solução precisa para essas situações. Propõe o diálogo e a
correção fraterna. Dessa maneira, o que pede o evangelho de hoje é muito
importante para sanar situações conflituosas e fazer com que a comunidade seja
uma comunidade de irmãos, que se amam verdadeiramente.
São propostos três passos. Se forem seguidos fielmente, poderemos resolver
muitos problemas internos das nossas comunidades que atrapalham a missão.
O primeiro passo consiste em, primeiramente, conversar com a pessoa que errou
ou que nos magoou. Quando percebemos uma atitude errada, ou que tenha nos
ferido, devemos procurar a pessoa e, a sós com ela, abrir o coração e dizer o que
vimos e sentimos em relação a sua atitude. Falar com ela não no sentido de culpá-
la, mas de poder ajudá-la. Tentar, com muito jeito e delicadeza, uma correção
fraterna. Esse é o procedimento mais adequado. Em vez de levar adiante um
problema, falando dele para outras pessoas, a atitude mais sensata é a conversa
direta com a pessoa envolvida. Muitos problemas e situações são resolvidos neste
primeiro passo.
Porém, se essa tentativa não funcionar, não podemos desistir. Há outras medidas
igualmente maduras que podem ser tomadas. O texto de hoje recomenda que
sejam convidadas mais duas ou três pessoas, equilibradas e sensatas, para, juntos,
tentarmos solucionar o problema. Quando mais de uma cabeça pensa e se
empenha na busca de soluções, encontram-se respostas que são de paz e de amor,
pois significam força. Há grandes chances de solucionar o problema nesta
segunda instância.
Mas se mesmo assim não for possível solucionar o problema, então é hora de
trazê-lo para a comunidade, para uma assembleia, para que o problema seja
resolvido e a pessoa seja reintegrada na comunidade. Esse terceiro procedimento
não é para expor a pessoa, mas para que todos possam ajudá-la. Se mesmo assim
ela for resistente e não quiser corrigir a falha, preferindo persistir no erro, então é
problema dela. Ela não será excluída da comunidade, mas estará se excluindo por
conta própria. É o que significa tratá-la como se fosse pagã ou pecadora pública.
Esse terceiro passo tem uma força muito grande porque mostra o verdadeiro

128
sentido de comunidade. Uma comunidade unida pelo amor de Deus. Ali, na união
e reunião das pessoas, Deus se faz presente, e essa presença de Deus concede a
força para que a comunidade aja corretamente. Nisto consiste a expressão: “onde
dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles”.
Deus se faz presente no meio da comunidade que se reúne para solucionar os
seus problemas e celebrar a vida. Uma comunidade que se reúne em seu nome e
com o propósito de viver os seus ensinamentos que são amor. Assim teremos
comunidades verdadeiramente cristãs, comunidades que transformam o mundo e
são lugares onde o Reino de Deus floresce.
Que estejamos sempre unidos pelo amor e que façamos jus à expressão que
usamos durante o abraço da paz: “o amor de Cristo nos uniu”. Somente esse amor
nos torna capazes de dissipar o erro e promover a vida.

24º Domingo
& Ec 27,33-28,9 | Sl 102(103) Rm 14,7-9 | Mt 18,21-35

Hoje a reflexão versa sobre um dos temas mais caros do cristianismo: o perdão.
Mas não é qualquer perdão. Não é o perdão pela metade, se é que isso existe, mas
sim o perdão total, completo, para sempre, infinitamente, não importando a
quantidade de vezes que nossos irmãos nos tenham ofendido. Algo que não é nada
fácil. Diria que é um dos maiores desafios do cristão.
Por essa razão, ser cristão não é fácil. É preciso passar antes por um processo de
conversão. Somente uma pessoa plenamente convertida é capaz de perdoar até
setenta vezes sete e não apenas sete vezes. Como vemos no evangelho de hoje.
Por que perdoar sempre?
Porque o perdão é o único caminho para obter a paz e construir a paz. Quem não
consegue perdoar conserva dentro de si sentimentos detestáveis, como o rancor e a
raiva, afirma a primeira leitura do livro do Eclesiástico. O rancor e a raiva são
sentimentos que nos corroem por dentro, nos destroem e vão matando aos poucos.
Quando eles se instalam dentro de nós, fazem a vida perder qualidade. Quem traz
dentro de si esses sentimentos é uma pessoa triste, mal-humorada, de mal com a
vida, enfim, profundamente infeliz. Tudo o que ela faz é canalizado para o desejo
de vingança. Enquanto ela não se vinga, não vê a punição ou o castigo daquela
pessoa que a ofendeu, ela não sossega. Assim, a pessoa não tem mais tempo para
fazer o bem, para amar e ser amada. Vive amargurada e infeliz.
A primeira leitura diz que quem se vingar encontrará a vingança do Senhor. Ou
seja, nosso relacionamento com Deus é pautado pelo relacionamento com nosso
semelhante. Se amarmos os nossos irmãos e perdoarmos as suas fraquezas, Deus
também perdoará nossas fraquezas, por maiores que elas sejam. É isso que
propomos quando rezamos a oração do Pai-nosso: “perdoai as nossas ofensas

129
assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Nós colocamos uma
condição para Deus. Vale perguntar: estamos perdoando nossos irmãos
verdadeiramente? Será que se Deus nos perdoasse à medida que perdoamos
nossos irmãos, receberíamos, de fato, o perdão de Deus? Podem ter certeza de que
não. Se Deus levasse em conta esse nosso pedido, estaríamos perdidos. Mas ele
tem compaixão de nós e nos perdoa sempre que a ele recorremos. Por sua graça,
ele nos concede o perdão porque tem compaixão de nós, porque é infinitamente
misericordioso. Ele tem compaixão do pecador arrependido, como vemos no
evangelho, mas deseja ardentemente que façamos o mesmo com nossos
semelhantes. Se assim agíssemos, teríamos um mundo onde reinaria a paz e o
amor, pois o perdão gera a paz, e o ódio, o desejo de vingança e a violência. Quem
perdoa coloca um fim ao ciclo da violência. Mas não é bem isso que acontece.
Mesmo recebendo infinitas graças de Deus, nem sempre somos capazes de
perdoar, como mostra a parábola do evangelho de hoje.
Essa parábola é um profundo ensinamento de Jesus para seus discípulos e para
cada um de nós, seus discípulos e missionários. Ele ensina a perdoar sempre, pois
o perdão é a essência dos seus ensinamentos. Pedro pergunta para Jesus se deveria
perdoar até sete vezes se o irmão pecasse contra ele. Jesus percebe que Pedro não
tinha entendido a simbologia do número sete e busca ampliar largamente a
quantidade de vezes que se deve perdoar, porque se ele perdoasse setenta vezes
sete já seria algo importante.
O número sete e seus derivados têm na Bíblia um significado simbólico.
Significam plenitude, totalidade, isto é, sempre, infinitamente. Assim, a resposta
de Jesus é que devemos perdoar sempre. O perdão não se mede por quantidade de
vezes que se perdoa, mas pela profundidade, a sinceridade com que se perdoa.
Desse modo, a parábola de hoje elucida bem essa relação com o perdão.
O rei que resolveu acertar as contas com seus empregados é Deus. Aquele que
lhe devia uma enorme fortuna pode ser qualquer um de nós. Todos nós temos
dívidas impagáveis com Deus, e ele deseja que acertemos as contas com ele. Não
podemos abusar da misericórdia de Deus e não medir as consequências do pecado.
Ele quer a nossa conversão. Mas quando nossa dívida é impagável, isto é, quando
lhe devemos uma enorme fortuna, ao implorarmos pelo perdão, ele se compadece
de nós e nos perdoa. Porém, espera que façamos o mesmo com os nossos
semelhantes. Mas o que ocorre muitas vezes é que, mesmo recebendo o perdão de
Deus por tão grande dívida, não temos um coração suficientemente generoso para
perdoar nosso próximo, mesmo que o nosso próximo tenha feito algo irrelevante
para nós. É o que ocorreu com este empregado perverso. Ele recebeu o perdão de
uma grande dívida, mas ao sair não perdoou seu companheiro, que lhe devia
apenas cem moedas.

130
Será que isso não vem ocorrendo conosco? Quantos são os que acabam de sair
do confessionário, aliviados pelo perdão de Deus, mas não estão dispostos a
perdoar seus irmãos? Essa atitude agride a comunidade e a bondade de Deus. É
uma provocação a Deus e ao próximo, pois revela nossa incoerência entre aquilo
que queremos para nós e o que queremos para os outros. Esquecemos que o
mandamento de Deus é amar o próximo como a nós mesmos. Se os amássemos
como a nós mesmos, daríamos o perdão porque queremos o perdão de Deus.
Tudo o que fazemos não é para nós, mas para Deus, diz Paulo na segunda
leitura, na Carta aos Romanos. Quando fazemos o bem para o próximo, é para
Deus que fazemos. Quando amamos nosso próximo, damos provas de que
amamos verdadeiramente a Deus. Porém, se não amamos nosso semelhante e não
o perdoamos, também não amamos a Deus. Bloqueamos nossa relação com Deus
quando não amamos nosso próximo, quando não o perdoamos.
Por essa razão o perdão é algo essencial. Quando perdoamos as injustiças
cometidas pelo nosso próximo, Deus também nos perdoa, diz a primeira leitura.
Quando guardamos raiva dos nossos irmãos, não tendo compaixão deles, não
podemos pedir que Deus tenha compaixão de nós. São pontuações que a primeira
leitura nos faz e que nos ajudam a refletir.
É preciso, portanto, exercitar a dimensão do perdão na vida, e uma das formas é
pensarmos que ela é muito breve para ser desperdiçada com a raiva e o rancor; é o
que nos ensina o livro do Eclesiástico quando diz: “Lembra-te do teu fim e deixa
de odiar; pensa na destruição e na morte e persevera nos mandamentos”. Se
pensássemos mais sobre isso, talvez poderíamos perdoar mais e não
desperdiçaríamos tanto tempo com o desejo de vingança.
Ajuda, neste processo de conversão, pensar sobre isso e ver que Deus nos ama
infinitamente, como mostra o salmo de hoje. Ele é bondoso, compassivo e
carinhoso. Vamos também ser mais bondosos, compassivos e carinhosos com
nossos irmãos, principalmente com aqueles que nos magoaram, nos ofenderam.
Lembremos que quando confessamos nossos pecados e somos perdoados, Deus
não fica repetindo as nossas faltas, se queixando de nós, como muitas vezes
fazemos com nossos irmãos. Muitas vezes dizemos que perdoamos, mas não
queremos mais conversa com aquela pessoa. Isso não é perdão. Deus não guarda
eternamente seu rancor contra nós, diz o salmo, então porque vamos guardar
eternamente rancor daqueles que nos magoaram?
Para querer uma vida livre, de paz, é preciso aprender a perdoar. Somente os
que aprenderam a perdoar são felizes verdadeiramente e levam uma vida
conforme os ensinamentos de Deus. Então, vamos exercitar isso dentro de nós
para nos tornarmos cada dia melhores. À medida que nos tornamos pessoas
melhores, tudo em nossa volta melhora porque melhoramos os nossos
relacionamentos. O mundo se torna melhor porque nós melhoramos.

131
25º Domingo
& Is 55,6-9 | Sl 144(145) Fl 1,20c-24.27a | Mt 20,1-16a

Neste vigésimo quinto domingo do Tempo Comum a liturgia da Palavra nos


convoca a rever nossas atitudes em relação a Deus e ao próximo e perceber se
estamos respondendo ou não aos apelos que Deus nos faz. Ele nos chama a
qualquer hora, em qualquer momento da nossa vida e nos trata de acordo com a
sua justiça. Faz-nos refletir também sobre a comunidade eclesial, na qual somos
convidados a servir.
Nesta vinha do Senhor que é a comunidade, ou a sociedade, que tipo de
pagamento nós recebemos por nossos trabalhos em prol da vida? Quanto
recebemos e como recebemos?
As leituras de hoje nos dão as respostas, porém, alertam-nos de que os nossos
procedimentos, nossa maneira de pensar e de ver o mundo não é a mesma de
Deus. Deus age diferente de nós. Seu conceito de justiça não é o mesmo que
temos. É isso que lembra Isaías na primeira leitura. Para entender a lógica de
Deus, duas coisas são fundamentais: conversão e ver as coisas com o olhar divino.
A primeira leitura começa falando de conversão ao dizer que devemos buscar o
Senhor enquanto pode ser achado e que devemos invocá-lo enquanto ele está
perto. Temos que aproveitar os momentos que ele passa nas “praças” de nossas
vidas e nos chama para a sua vinha. Se aproveitarmos essas oportunidades,
conseguiremos transformar a nossa vida, pois a recompensa, o pagamento é justo
e generoso, não importando a hora em que somos chamados. Mas é importante
perceber que seu agir é distinto do nosso. O jeito de Deus ser e agir, diz Isaías, é
muito diferente de como nós o imaginamos. Deus não pensa como nós e não julga
como nós. A justiça humana é muito injusta perto da justiça divina. A justiça
divina prima pelos que mais necessitam sem menosprezar os outros. Trata a todos
com igualdade e não leva em conta a quantidade das coisas que se faz, mas a
qualidade e a necessidade de quem as faz. Por isso Isaías afirma, ao se referir ao
jeito de ser do Senhor: “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e
vossos caminhos não são como os meus caminhos”. O caminho de Deus, isto é,
seu procedimento, está acima dos nossos caminhos, pensamentos e
procedimentos, por isso, às vezes, fica difícil de entender a parábola de hoje, que
mostra um patrão que paga igual o trabalhador que trabalhou o dia inteiro,
suportando o cansaço e o calor, e o trabalhador que trabalhou apenas uma hora.
Ao olhar humano parece uma tremenda injustiça, porém, não é bem assim. Ele
havia combinado com os primeiros uma moeda de prata por dia. Esse valor era um
valor justo, superior ao que se pagava para os trabalhadores na época. Era algo
suficiente. Mas ele agiu com bondade e quis dar a mesma coisa para o outro que
trabalhou apenas uma hora. Todos estavam desempregados, todos necessitavam.

132
Perante a justiça humana, que não enxerga o ser humano e as suas necessidades,
mas que age de acordo com uma lógica matemática, o que trabalhou menos iria
receber muito menos. Deus surpreende a todos pagando a todos igualmente. Os
trabalhadores de última hora devem ter ficado radiantes e agradecidos por
tamanha generosidade do patrão, porém, os primeiros, movidos pela inveja,
sentiram que foram injustiçados.
Essa parábola, no contexto das comunidades de Mateus, é uma forte crítica aos
que se achavam melhores que os outros e com mais direitos só por serem da raça
do povo eleito. Nesta ótica, os cristãos vindos do paganismo, os pecadores
convertidos, não mereciam receber o mesmo tratamento que era dado aos que
eram de origem judaica. Mas Jesus tratava a todos igualmente, independentemente
de quem fosse e do tempo que estava junto dele, o que provocava o
descontentamento daqueles que não tinham entendido a misericórdia e a
compaixão com que Jesus agia.
Esta parábola serve também para nós, para entendermos nossa vida de
comunidade, nossas relações fraternas e outras nem tão fraternas assim, as
relações que acontecem dentro de nossas igrejas. Às vezes é comum que aquele
que está há mais tempo se ache dono e com mais direitos do que aquele que está
chegando, ou que está há menos tempo na comunidade. Essa maneira de agir faz
com que se formem panelinhas na igreja; ninguém consegue entrar em
determinados grupos, movimentos e pastorais. Além disso, gera conflitos e
contendas, e a comunidade empobrece com isso. Quando entendemos o que Jesus
quer dizer com essa parábola, em que o patrão paga igualmente a todos,
começando pelos últimos, entendemos que devemos acolher e dar prioridade aos
que estão chegando à comunidade. Os demais já estão firmes e seguros, mas os
novos precisam de mais atenção para poder perseverar. Quando agimos assim,
nossa comunidade cresce conforme os ensinamentos e procedimentos divinos.
Mas para que isso ocorra, é preciso conversão. Conversão como pede a primeira
leitura, vista acima, e a segunda leitura, da Carta de São Paulo aos Filipenses.
Nesta segunda leitura, Paulo fala de si como alguém que chegou à comunidade
cristã depois de muitos outros e que foi recebido por Cristo com um amor
extremo, o que lhe fez converter-se e mudar radicalmente de vida. No texto de
hoje ele fala da sua vontade de ir depressa para junto dele, mas sabe que precisa
continuar ainda na comunidade porque a comunidade precisa dele, e, enquanto ele
estiver neste mundo, fará de tudo para se dedicar integralmente ao próximo,
assumindo as suas dores como Cristo assumiu as suas fraquezas e as fraquezas da
humanidade. Paulo mostra-nos, assim, que a meta da nossa vida deve ser Cristo.
Que devemos fazer tudo por ele e para ele. E isso só será possível fazendo algo
para nossos irmãos, principalmente para os que mais necessitam.

133
Que a liturgia de hoje nos abra o coração e nos faça perceber que Deus passa
constantemente na nossa vida e nos chama para a sua vinha. Na vida de uns ele
passa bem cedo, quando ainda se é criança, na madrugada da vida; na vida de
outros ele passa na adolescência e juventude (às nove horas da manhã); na de
outros talvez ele passe na idade adulta, quando já se está estabilizado (meio dia e
às três da tarde); já há os que recebem a sua visita, o seu chamado, no ocaso da
vida, quando já se está com uma idade avançada (às cinco da tarde). Porém,
independentemente da idade (da hora), ele trata a todos com igualdade. Ninguém
é melhor do que ninguém diante de Deus. Os que mais necessitam dele, os
últimos, os mais marginalizados, terão prioridade no atendimento e receberão o
mesmo que recebem os que foram chamados bem cedo. É o amor de Deus na
nossa vida. Somente vai percebê-lo e agradecê-lo quem foi chamado na última
hora e quem se converteu verdadeiramente.
Que nosso coração se converta para entendermos e agirmos conforme o agir
divino e que o sintamos perto de nós nas nossas invocações, como reza o salmo de
hoje.

26º Domingo
& Ez 18,25-28 | Sl 24(25) Fl 2,1-11 ou 2,1-5 | Mt 21,28-32

Deus continua a nos chamar para trabalhar na sua vinha, como vimos no
domingo passado, quando ele mostrou que passa em vários momentos da nossa
vida e nos chama. Neste domingo a liturgia da Palavra acentua esse chamado,
convidando-nos, diretamente, a trabalhar na sua vinha. Qual será a nossa resposta?
Será que estamos ouvindo o seu chamado? Se o estamos ouvindo, que tipo de
resposta nós estamos dando a ele? Será que dizemos sim, mas depois recuamos e
não vamos, ou dizemos não, mas depois resolvemos ir? A parábola de hoje nos
ajuda a ter clareza de nossas respostas e a tomar uma decisão.
Jesus conta a parábola para os sumos sacerdotes e anciãos do povo, isto é, para
os que tinham, de alguma forma, dito sim a Deus, pela missão que lhes foi
confiada. Porém, tudo indica que esse sim não estava sendo cumprido, e a
parábola de hoje deixa isso muito claro.
É a parábola do pai que tinha dois filhos e convidou ambos para irem trabalhar
na sua vinha. Um disse que não ia, mas depois foi. O outro disse que ia, mas
depois não foi. A pergunta é: “Qual dos dois fez a vontade do pai”. Os sumos
sacerdotes responderam que foi o primeiro e acertaram. Embora este tenha dito,
no início, um não ao pai, pensou bem e mudou de ideia. O pai ficou feliz com
isso. Esse filho é representado pelos cobradores de impostos e as prostitutas. Eles
haviam dito não a Deus pelos inúmeros pecados cometidos. Porém, quando Jesus
os chamou, aceitaram o chamado e mudaram de vida. É o caso do próprio Mateus,

134
único Evangelista a narrar essa parábola. Ele era um cobrador de impostos, mas se
converteu e se tornou Apóstolo e Evangelista. Outros cobradores de impostos que
se sentaram à mesa com Jesus também mudaram de vida depois que receberam o
chamado.
O segundo filho é representado pelos sumos sacerdotes e anciãos do povo. Eles
tinham dito sim a Deus e receberam grandes responsabilidades. Porém, se
achavam santos e perfeitos, mais dignos que outros, a ponto de se sentirem no
direito de apontar o dedo contra os que não pensavam e agiam como eles,
vivendo, assim, uma religião excludente, que legitimava a marginalização dos
pecadores e não lhes dava chance de conversão e mudança de vida. Jesus vem
para mudar essa ordem injusta e mostra que os pecadores são os preferidos dele,
não por causa de seus pecados ou porque aprovasse o pecado, mas pela
necessidade de conversão e salvação que estes têm. Em outra passagem ele deixa
claro essa opção ao dizer que quem tem saúde não precisa de médico, mas sim
quem está doente.
Esta parábola leva-nos a questionar qual das duas categorias de filhos nós
estamos sendo e isso só é possível saber a partir da resposta que damos ao seu
chamado.
Pelo batismo todos nós dissemos sim a Deus. Pelo batismo ele nos chamou a
trabalhar na sua vinha. Desse modo, todos nós somos semelhantes ao segundo
filho. Dissemos sim, mas não são todos que assumem a missão de batizados. Não
basta ir à missa todos os domingos, comungar e cumprir com os preceitos
religiosos para confirmar o sim. Isso é muito importante, mas não basta. Se não
nos comprometermos com a causa de Jesus, que é a de defesa da vida, de amor e
solidariedade para com os que sofrem. Se não fizermos isso seremos como o
segundo filho, que diz num primeiro momento sim, mas depois não confirma esse
sim.
Por outro lado, temos dentro de nós a parcela do filho que diz não num primeiro
momento. Este está representado nos nossos pecados, nas nossas fraquezas, nos
medos que temos de assumir ou no comodismo de uma religião sem
compromisso. Mas quando nos convertemos e assumimos uma nova maneira de
agir, de acordo com os ensinamentos de Deus, damos uma resposta positiva,
vamos ao trabalho na sua vinha e agradamos a Deus. Assim sendo, para Deus
mais vale um pecador que se converteu do que um santo que se corrompeu. Uma
ovelha que estava perdida e foi encontrada do que as noventa e nove que estão
seguras no redil.
Somente vamos entender isso quando entendermos o amor de Deus por nós,
como mostra Paulo na segunda leitura de hoje, da Carta aos Filipenses. Ele nos
questiona: se cremos que há consolação na vida em Cristo; se cremos que existe
alento no mútuo amor; comunhão no Espírito, ternura e compaixão, nós

135
precisamos dar provas disso na nossa prática diária e não apenas em discursos
vazios. É preciso que aspiremos a tudo isso; vivermos unidos no amor; viver na
harmonia; procurar a unidade. Não devemos fazer as coisas por competição ou
vanglória, mas com humildade, reconhecendo sempre a grandeza dos nossos
semelhantes e não os julgar a partir de suas falhas e fraquezas. Temos o exemplo
máximo em Cristo, “que existindo em condição divina, não fez do ser igual a
Deus uma usurpação, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de
servo”. Jesus disse sim ao Pai e foi coerente com esse sim até o fim. Indica-nos
com isso que podemos pertencer a uma terceira categoria de filho: aquele que diz
sim a Deus e se esforça para ser coerente com esse sim até o fim.
Ao viver dessa forma, não julgamos a ação de nossos semelhantes e muito
menos a ação de Deus, como vimos na primeira leitura, da profecia de Ezequiel.
Muitas vezes achamos errada a conduta da Igreja, que perdoa e defende os
pecadores, e esquecemos que é exatamente isso que Deus pede de nós. Chegamos
mesmo a achar que a atitude de Deus não é correta porque ele perdoa os
pecadores. Esquecemos que ele nos perdoa sempre e é por sua misericórdia que
vivemos. É a nossa atitude que é incorreta e não a de Deus, afirma o profeta.
Quando um ímpio se arrepende do mal que praticou e observa o direito e a justiça,
conserva a própria vida. É isso que Deus espera de nós: que sejamos pessoas
convertidas. Que possamos dizer sim ao seu chamado, mesmo que já tenhamos
lhe dito muitos nãos. É o apelo da liturgia deste vigésimo sexto domingo do
Tempo Comum.

27º Domingo
& Is 5,1-7 | Sl 79(80) | Fl 4,6-9 | Mt 21,33-43

Neste vigésimo sétimo domingo do Tempo Comum, a liturgia da Palavra


continua a enfatizar o convite que Jesus faz para trabalhar na sua vinha, porém
com a diferença que hoje a ênfase recai sobre os frutos que estamos produzindo
nesta vinha, ou então sobre como estamos fazendo para que essa vinha produza
bons frutos. Ele nos chamou e nos enviou para a sua vinha, confiando a cada um
de nós responsabilidades para cuidar dela. Assim sendo, ele espera que
respondamos conforme o que ele nos confiou: que produzamos frutos de amor e
de justiça.
Será que é isso mesmo que a humanidade está produzindo? Ou será que se está
produzindo frutos que desagradam a Deus?
As leituras de hoje se propõem a ajudar a refletir sobre isso e muito mais, para
assim nos tornarmos bons vinhateiros na vinha do Senhor.
A primeira leitura, do livro do profeta Isaías, usa uma linguagem figurada, uma
parábola, para falar das nossas responsabilidades, da nossa missão neste mundo. É

136
a parábola do amigo que possuía uma vinha, a qual plantou e cuidou com muito
carinho. O cuidado se revela na escolha de mudas selecionadas, na escolha da
terra fértil para plantar, no cultivo zeloso, limpando-a, tirando-lhe as pedras,
edificando uma torre para vigiá-la, protegê-la, para que ninguém a maltratasse.
Enfim, o proprietário tinha tanta esperança nessa vinha que construiu até um lagar
para pisar as uvas que fossem produzidas.
A parábola da vinha se aplica ao povo de Israel, povo eleito, povo escolhido e
selecionado; a terra fértil onde esse povo foi colocado é a terra de onde manam
leite e mel, a terra prometida; o cuidado com esse povo se revela no processo de
libertação do Egito, tirando-lhes as pedras do caminho na travessia do deserto e
conduzindo-os por meio de líderes até a terra prometida, lugar e lagar onde seriam
produzidos os frutos que Deus esperava desse povo. Porém, o povo foi infiel a
Deus, causando-lhe tristezas e aborrecimentos, o que lhe custou a extradição e o
exílio.
Essa parábola recorda pai e mãe de família que cuidam dos filhos desde o ventre
materno, cercando-os de carinho e proteção, oferecendo tudo o que eles
necessitam para que cresçam com dignidade, sejam íntegros, honestos, pessoas de
bem. Mas quando crescidos, esses filhos se desviam do caminho, não colocam em
prática os ensinamentos recebidos e se enveredam pelos caminhos das drogas, dos
crimes, da violência. Como fica o coração desse pai, dessa mãe diante dessa
situação? Eles se perguntam: onde foi que errei na educação de meu filho ou
minha filha?
Esta parábola se aplica também a nós. Depois de recebermos todo amor, carinho
e cuidados de Deus, produzimos “uvas azedas”, frutos que não servem para o
consumo, isto é, respondemos com descaso e desamor aos cuidados de Deus e
seus ensinamentos. Quando não aprendemos a respeitar nosso semelhante nem o
meio em que vivemos, estamos produzindo frutos que não servem para a vida.
Quando agimos assim, somos videiras que produzem uvas selvagens e não
merecemos mais os cuidados do Senhor.
Essa mesma parábola é retomada no evangelho e adaptada. Com outros
elementos, ela completa a reflexão sobre as nossas responsabilidades missionárias,
nosso agir no mundo. Jesus conta a parábola conhecida como a parábola dos
vinhateiros homicidas. Ele a conta aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo,
para as autoridades, enfim, para os que têm responsabilidades para com a
sociedade, com o povo e com o mundo. Mas ele a conta também para cada um de
nós que, mesmo em parcela menor, também temos responsabilidades para com o
mundo em que vivemos. Responsabilidade com o meio ambiente, com a justiça, o
amor ao próximo, enfim, com a vida.
Jesus fala de certo proprietário que plantou uma vinha com muito carinho e
cuidado, como vimos na primeira leitura, e viajou para o estrangeiro, confiando a

137
vinhateiros os cuidados dessa vinha. Eles se responsabilizaram por cuidar e
partilhar os frutos que ela produzisse na ausência dele. Porém, quando chegou o
tempo da colheita, esses vinhateiros não quiseram partilhar os frutos e espancaram
e mataram aqueles que o proprietário enviou para recebê-los. Até mesmo o filho
do dono da vinha eles mataram, revelando uma violência extrema.
Esse proprietário é Deus. A vinha que ele plantou e cuidou com tanto carinho é
este mundo maravilhoso em que vivemos, com tantas coisas belas, com tudo que
necessitamos para viver bem e em paz; os vinhateiros somos todos nós, chamados
a esse mundo para uma missão, a missão de cuidar desta vinha, deste planeta e de
todos os seres que nele vivem; os empregados são os profetas, os mártires, os
discípulos e missionários de Jesus Cristo, os que assumem a missão de denunciar
e anunciar as injustiças, enfim, os que têm a responsabilidade de buscar os frutos
desta vinha para o Senhor. A reação violenta dos vinhateiros é a reação daqueles
que não cuidam dessa vinha, desse mundo e, pela ganância, pelo lucro
desenfreado, agem com violência e matam aqueles que querem a paz e a justiça,
os que querem um mundo melhor. O filho do proprietário é o próprio Jesus,
recebido da mesma forma, como o recebemos ainda hoje.
Matamos o filho do dono da vinha todas as vezes que não cumprimos os seus
mandamentos; quando não respeitamos nosso próximo nem o meio em que
vivemos; quando praticamos injustiças; quando temos atos de violência ou que
contribuem para a violência e a morte.
Cabe-nos perguntar: o que o dono da vinha fará com esses vinhateiros? O que
Deus fará conosco diante de atos bárbaros de desrespeito à vida?
A resposta que encontramos no evangelho, dada pelos próprios sumos
sacerdotes e anciãos do povo, serve também para nós: ele punirá os responsáveis
pela violência e arrendará a vinha a quem possa produzir frutos de amor e de
justiça.
A punição não significa que Deus castigará os que agem assim. Significa que
nós teremos as consequências de nossos atos imprudentes e irresponsáveis. A
natureza se encarrega de vingar da violência que sofre, seja a curto, médio ou
longo prazo. As sementes que semeamos hoje serão colhidas amanhã e sempre em
quantidade bem maior do que se semeou.
Como semear boa semente? A segunda leitura, da Carta ao Filipenses, traz
algumas sugestões: ocupar com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro,
amável, honroso; tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor.
Agindo conforme os ensinamentos de Deus e dos profetas de ontem e de hoje,
estaremos semeando a boa semente e colhendo bons frutos.
Reflitamos sobre isso e seremos verdadeiros discípulos e missionários de Jesus
Cristo, bons vinhateiros, que devolvem os frutos da videira. Seremos também
videiras verdadeiras, que produzem uvas de boa qualidade. É isso que Deus espera

138
de nós e é por isso que ele nos trata com tanto carinho e cuidado. Façamos o
mesmo para o nosso próximo e para o mundo em que vivemos.

28º Domingo
& Is 25,6-10a | Sl 22(23) Fl 4,12-14.19-20 | Mt 22,1-14 ou 22,1-10

Estamos na reta final do ano litúrgico e a liturgia, nestas seis semanas que nos
restam, acentua o compromisso missionário, o compromisso com a construção do
Reino de Deus, através da construção de um mundo mais justo e fraterno. A
justiça é, portanto, o tema central da liturgia deste vigésimo oitavo domingo do
Tempo Comum. O Reino de Deus nos é apresentado como um banquete, o
banquete da justiça, e somos convidados a fazer parte dele. A justiça é um tema
caro em Mateus, Evangelista deste ano A da liturgia.
Fomos, nos três últimos domingos, chamados por Deus para trabalhar na sua
vinha. No primeiro destes três últimos, o 25º domingo, Jesus passou na nossa
vida, em vários momentos, e nos convocou para a missão. No final,
independentemente do horário em que fomos chamados, ele pagou igualmente a
todos; é a justiça do Reino. No 26º domingo, ele convidou os dois filhos para
trabalhar na vinha, a missão. O primeiro disse que não ia, mas depois foi, e o
segundo disse que ia, mas não foi. Nesse caso, o primeiro fez a vontade do Pai,
pois apesar de ter negado, refletiu, mudou de ideia e agradou ao Pai. Já o outro foi
incoerente e enganou o Pai. Nesse dia fomos questionados sobre a nossa coerência
no compromisso assumido e o tipo de resposta que estamos dando a Deus. No
domingo passado, o 27º domingo, a liturgia nos mostrou a responsabilidade de
cuidar da vinha que ele nos confiou. A missão de cuidar desse mundo e oferecer a
Deus os frutos desse trabalho missionário. Fomos questionados sobre a nossa
responsabilidade. Hoje recebemos um convite para uma festa de casamento, o
banquete nupcial.
Com essa breve memória do processo de convocação para a missão, entramos
no tema da liturgia deste domingo, que está repleto de significados simbólicos. A
festa é o sinônimo de alegria e de vida plena. É o que Deus quer para seus filhos.
Quando se trata de festa de casamento, ela se recobre de outros significados. É
também pacto, aliança, compromisso. É, portanto, a festa da aliança que Deus faz
com a humanidade. Ele, Deus, faz a sua parte: prepara a festa e nos convida
através dos seus profetas. Qual está sendo a nossa resposta?
Através de parábolas e com linguagem metafórica, o texto mostra em detalhes
essa aliança e nos conduz a refletir com profundos questionamentos sobre o nosso
compromisso cristão de construir um mundo mais justo e fraterno.
Quem são os primeiros convocados para esse banquete da justiça? Os primeiros
convidados são as autoridades. Não porque sejam mais importantes, mas porque

139
têm mais poder para transformar o mundo e fazer a justiça acontecer. Nesse caso,
os sumos sacerdotes, que representavam o poder político e religioso, e os anciãos
do povo, que representavam o poder econômico. Trazendo para a nossa realidade,
os primeiros a serem chamados para fazer justiça são os que detêm algum tipo de
poder, principalmente estes que foram citados. Em seguida, todos são chamados,
pois a justiça é compromisso de todos e não apenas de alguns.
Qual foi a resposta desses primeiros? Não aceitaram o convite e deram
desculpas esfarrapadas. Eles tinham outras “preocupações”, as suas posses, os
seus bens: “um foi para o seu campo, outro, para os seus negócios, outros
agarraram os empregados, bateram neles e os mataram”. Estas foram as desculpas
e os procedimentos diante do convite. Quais são as respostas e os procedimentos,
hoje, quando somos convidados para participar do “banquete da justiça”? Quais
desculpas nós arranjamos para não participar do banquete? Uns dizem que não
têm tempo porque trabalham demais; outros, porque têm outras preocupações:
família, negócios, estudos etc. Alguns chegam a ser violentos com os que insistem
no convite, como é o caso daqueles que mandam matar quem prejudica seus
negócios, como vez por outra vemos nos noticiários; por exemplo, os que
cometem crimes bárbaros pela posse da terra, pelo tráfico de drogas, prostituição e
outros interesses escusos que são ameaçados pelas denúncias proféticas. Assim,
vamos entendendo o que Jesus quer dizer para nós com essa parábola de hoje.
Será que Deus desiste de seu projeto de amor diante dessas respostas? Jamais!
Ele envia outros empregados (profetas) e pede para estender o convite para todos,
nas encruzilhadas da vida. Todos, indistintamente, são chamados. Ninguém pode
ficar de fora dessa festa da vida. Bons e maus, justos e injustos, santos e
pecadores. Porém, só um critério é colocado para participar deste banquete: vestir-
se com o traje da festa. E qual é o traje da festa? É o traje da justiça. Quem não se
revestir com as vestes da justiça não poderá participar desse banquete, não
participará da aliança e será tirado da sala, como foi feito com aquele que entrou
sem estar de acordo com o critério colocado pelo dono da festa.
A oportunidade é dada a todos, mas os que não querem aderir à proposta do
Reino ficam fora dele. Entendemos assim o que Jesus quer nos dizer quando diz
que “muitos são chamados, e poucos são os escolhidos”. Não é ele que exclui;
somos nós que negamos o seu convite ou nos recusamos a nos comprometer com
ele.
Se ele passasse aqui hoje, fisicamente, quantos ele encontraria vestidos com os
trajes da festa? Seriam muitos ou seriam poucos? Podem ter certeza de que o
número dos que estão sem o traje é surpreendente. São os que praticam uma
religião de interesses. Só buscam a Igreja quando têm algum interesse particular,
mas quando lhes é pedido algum compromisso, tiram o corpo fora com desculpas
esfarrapadas. Há os que pensam que os que ajudam em alguma pastoral, ou

140
trabalho na comunidade, são pessoas desocupadas. Engana-se quem pensa assim.
Muitos dos nossos agentes de pastoral são pessoas com muitas outras
responsabilidades fora da comunidade, mas que aceitam o convite de Deus para o
banquete da Eucaristia. O banquete que Isaías apresenta na primeira leitura, que
representa a vida que Deus quer para seus filhos.
Porém, para isso, é preciso aprender a viver como ensina a segunda leitura de
hoje. Paulo diz: “Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação,
estando farto ou passando fome, tendo de sobra ou sofrendo necessidade”. O bom
discípulo e missionário não é aquele que busca a Deus apenas em algumas
situações de sua vida, mas em todas responde afirmativamente, com empenho e
dedicação. “Tudo posso naquele que me fortalece”, diz Paulo. Quando cremos,
não há porque recusar o convite. Ele nos capacita para a missão, ele nos dá poder.
Que com esta reflexão proposta pela liturgia de hoje possamos fortalecer o
nosso compromisso missionário, o nosso sim a Deus, e, assim, participar do
banquete da justiça.

29º Domingo
& Is 45,1.4-6 | Sl 95(96) 1Ts 1,1-5b | Mt 22,15-21

Neste vigésimo nono domingo do Tempo Comum, a liturgia da Palavra nos


apresenta um Deus infinitamente grandioso, que nos ama com a mesma
magnitude e por isso tem misericórdia de nós, trazendo-nos de volta para junto
dele quando desviamos do seu caminho. Quando sofremos, ele se compadece de
nós e faz de tudo para aliviar nossas dores e qualquer outro tipo de sofrimento,
inclusive o sofrimento causado pelas formas de servidão a que nos sujeitamos por
causa das vezes que colocamos outras coisas no seu lugar. Assim, a liturgia de
hoje nos ensina a fazer discernimentos entre as coisas de Deus e as que não são de
Deus. A dar a Deus o que lhe é de direito e a devolver para César o que é de
César. Disso depende a nossa vida e a nossa felicidade.
A primeira leitura é do livro do profeta Isaías, que narra sobre a mão poderosa
de Deus libertando o povo do exílio da Babilônia, trazendo-o de volta, através do
decreto de Ciro, rei da Pérsia.
Ciro não fazia parte do povo hebreu, era pagão. Podemos perguntar: mas porque
um rei pagão foi ungido por Deus para essa missão? A unção era dada apenas aos
sacerdotes, reis e profetas do povo eleito. Ciro, mesmo sendo estrangeiro, é
agraciado por Deus com essa unção. Ciro não conhecia Deus, mas foi instrumento
dele para resgatar o povo e devolvê-lo a sua terra. Assim, vemos quanto Deus é
surpreendente em suas ações. De onde menos se espera vem a libertação e a
salvação. Quando tudo parece perdido e sem esperança, surge a esperança dos
lugares e das pessoas mais inusitadas. Assim, Ciro foi tomado pela mão, ungido e

141
conduzido para libertar o povo, dobrando o orgulho dos reis, abrindo portas para
que por ela entrasse o povo de Deus. Deus o chamou pelo nome e o preparou,
embora ele, Ciro, não o conhecesse.
Às vezes, pessoas que nem são religiosas, que não frequentam a Igreja, tomam
atitudes de amor e comprometimento com a vida do semelhante que nos
surpreendem. Por outro lado, vemos também pessoas que se dizem tão religiosas e
fiéis aos preceitos da Igreja, que comungam, mas que não praticam nenhum ato de
caridade e de serviço gratuito aos irmãos. Essa é uma situação que nos leva a
refletir sobre a primeira leitura. Encontramos nela a surpreendente ação de Deus,
através de Ciro, rei da Pérsia. Ele foi ungido para devolver a Deus o que é de
Deus, o povo, as pessoas, criadas a sua imagem e semelhança. Entendemos aqui o
significado da expressão que encerra magistralmente o evangelho de hoje: “Dai,
pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Neste evangelho Jesus está diante de uma armadilha. Os fariseus fizeram um
plano para apanhá-lo e para isso usaram toda a artimanha e a astúcia dos
hipócritas. Enviaram seus discípulos e partidários de Herodes para interrogar
sobre a legalidade de se pagar imposto a César. O imperador romano queria
usurpar o lugar de Deus. Imprimiu na moeda a sua figura, para que, assim, fosse
adorado como um deus. A moeda representava também os altos impostos e a
opressão do povo, a dominação estrangeira e todos os seus desdobramentos
políticos e religiosos. Se Jesus dissesse que era lícito pagar imposto a César,
estaria contradizendo todo o seu projeto de vida e libertação, além de legitimar a
usurpação do lugar de Deus. Se dissesse que não, estaria subvertendo e
contrariando o poder de César e seria tido como um revolucionário, contrário aos
planos da nação, enfim, um subversivo que precisaria ser eliminado. Era, portanto,
uma trama muito bem articulada, mas Jesus não se deixa envolver por ela, nem
mesmo pela falácia que antecede a pergunta. Eles elogiam e destacam seus bons
procedimentos para depois aplicar o golpe. Usam de má fé, como se costuma dizer
das pessoas com essa índole: “estendem o tapete e depois o puxam para assistir à
queda”. Assim fazem os mal-intencionados e perversos, e Jesus percebe a
intenção deles, por isso pergunta diretamente, depois de chamá-los de hipócritas:
“Por que me preparais uma armadilha?”. Em seguida pede que mostrem a moeda
que tinham consigo. Ao ver a moeda, Jesus não responde se é licito ou não pagar
impostos a César, mas faz uma pergunta: “De quem é a figura e a inscrição dessa
moeda?”. A resposta deles o condena: “De César”. Ao imprimir sua face na
moeda, César se colocou no lugar de Deus, construindo uma imagem dele, como
se fosse um deus. Diante disso, temos a célebre frase: “Dai, pois, a César o que é
de César e a Deus o que é de Deus”.
Podemos perguntar: o que é de Deus e o que é de César? Como podemos
discernir o que é de Deus e o que não é de Deus? As leituras de hoje nos ajudam a

142
responder.
De Deus é o ser humano, criado à sua imagem e semelhança, como vimos na
primeira leitura; de Deus são os procedimentos justos, de amor, de honestidade e
integridade, de compromisso com o próximo, enfim, tudo o que gera vida e a
defende. De César são os poderes deste mundo que não servem, mas oprimem; a
arrogância e a prepotência; a hipocrisia; a falta de solidariedade e de compromisso
com a vida etc. Essas coisas precisam ser banidas, devolvidas, porque uma pessoa
de Deus não pode guardar no seu coração tais sentimentos e procedimentos.
Com isso, a liturgia de hoje nos convida a fazer uma revisão de nossas ações
para podermos fazer escolhas acertadas. Ter atitudes que nos conduzam no
caminho de Deus, como fez a comunidade de Tessalônica, da segunda leitura.
A primeira Carta aos Tessalonicenses é o primeiro escrito do Novo Testamento.
Neste trecho de hoje encontramos o relato cheio de esperança de Paulo, por ver
essa comunidade trilhando os caminhos de Deus, vivendo as virtudes da fé, da
esperança e da caridade. Quem cultiva tais virtudes no seu coração cultiva as
coisas de Deus e, assim, devolve a ele o que é dele e, em troca, recebe seu amor e
sua proteção, como vimos na primeira leitura.
Que possamos, com esses ensinamentos, fortalecer nosso compromisso
missionário e seguir trilhando os caminhos de Deus. Assim, faremos jus a nossa
profissão de fé, que reconhece esse Deus Pai Todo-poderoso, criador do céu e da
terra, que nos criou como filhos seus e que por isso se desdobra para que
tenhamos vida em plenitude.

30º Domingo
& Ex 22,20-26 | Sl 17(18) 1Ts 1,5c-10 | Mt 22,34-40

Este trigésimo domingo do Tempo Comum traz como tema central para a nossa
reflexão os mandamentos de Deus. Quando fazemos a catequese, uma das
primeiras coisas que aprendemos (ou que deveríamos aprender) são os dez
mandamentos. Porém, são poucos os que os sabem de cor. Decorar os
mandamentos não é o mais importante. O mais importante é vivê-los. Eis o grande
desafio.
Se hoje são dez os mandamentos da lei de Deus, antigamente não era bem
assim. No tempo do Antigo Testamento havia 613 mandamentos, sendo 365
proibições, e o restante, recomendações. Se hoje temos dificuldade de guardar dez
mandamentos, imaginem como era naquele tempo para guardar tantos
mandamentos. Era muito difícil! Tão difícil que apenas um grupo muito seleto
sabia quais eram esses mandamentos e um grupo menor ainda tinha condições de
vivê-los. A grande maioria, o povo, os iletrados, não sabia, e por não saber, ficava
à margem, era marginalizada, no sentido estrito do termo. Entre esses

143
marginalizados, havia os extremamente marginalizados, os excluídos: os pobres,
os estrangeiros, as viúvas e os órfãos. Categorias que estão presentes hoje nos
versículos escolhidos para a primeira leitura. Vemos, desse modo, quanto a lei, os
mandamentos, era excludente, pois dos dez mandamentos da Lei Mosaica
desdobrou-se uma infinidade de outros mandamentos, dificultando a sua prática,
em vez de facilitá-la. Jesus, sabendo disso, propôs reunir esses mandamentos em
apenas dois. Esse procedimento não excluía os demais mandamentos, mas os
agregava, facilitando o seu entendimento e a sua vivência. Assim, temos o maior
mandamento da lei de Deus: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo
como a nós mesmos”. Esse é o cerne do evangelho e da liturgia de hoje.
Durante os últimos domingos vimos que Jesus foi vítima de diversos tipos de
armadilhas. Hoje não é diferente. Um grupo de fariseus, para experimentá-lo, ou
testá-lo na sua coerência com os ensinamentos de Deus, lhe propôs uma pergunta
capciosa: “Qual é o maior mandamento da lei?”. Naquele tempo havia uma
acirrada discussão sobre qual seria o maior mandamento. Eram tantos e por isso
havia tantas divergências. Boa parte acreditava que a lei do sábado era o maior
mandamento. Diante da pergunta teste, Jesus não titubeou em elucidar esse
equívoco. Ele já havia dito em outros momentos que o sábado tinha sido feito para
o homem e não o homem para o sábado, mostrando que nenhuma lei deve ser
superior à vida ou oprimi-la. Em vista disso, o mandamento de guardar o sábado
não era o mais importante da lei. Entretanto, não fica difícil mostrar qual era o
maior mandamento. Com clareza didática, além de mostrar o maior mandamento,
Jesus questiona o tipo de vivência que esse mandamento está tendo por parte
daqueles que dizem entendê-lo.
Jesus respondeu que o maior mandamento é amar a Deus de todo coração, de
toda a nossa alma e de todo o nosso entendimento, isto é, amá-lo com todo o
nosso ser, de corpo e alma, um amor que vem das entranhas e não apenas um
amor verbal, da boca pra fora. Deus deve vir em primeiro lugar na nossa vida.
Nada nem ninguém deve ocupar o lugar de Deus. Quando colocamos alguma
coisa ou pessoa no lugar de Deus, não o estamos amando nessa magnitude. Além
disso, para esse amor ser completo, há uma segunda parte: “Amará ao teu próximo
como a ti mesmo”. É preciso amar os irmãos como a nós mesmos. Somente quem
ama o irmão demonstra que ama a Deus. Dizer que amamos a Deus é fácil, mas o
desafio está em viver esse amor, no amor aos irmãos.
Tem gente que diz que ama a Deus, mas vive em contendas com seus irmãos;
tem gente que diz que ama a Deus, mas não consegue perdoar pessoas, guardando
mágoas, rancores e ódio no coração; tem gente que diz que ama a Deus, frequenta
as missas, comunga e cumpre com as obrigações religiosas, mas é incapaz de ter
um gesto de solidariedade, com o próximo, não se compromete com os trabalhos
pastorais da comunidade e ainda fala mal da vida alheia; tem gente que pratica

144
atos bárbaros contra outros seres humanos, inclusive os mata, e diz que ama a
Deus, ou o faz em nome de Deus. Pode-se perguntar diante disso tudo: isso é amar
a Deus? Quem assim procede vive os mandamentos de Deus? É óbvio que não.
Jesus diz claramente que não é possível amar a Deus se não amamos os nossos
irmãos. Assim, os mandamentos estão concentrados nestas duas máximas: amar a
Deus e amar ao próximo. Quem cumpre esses dois mandamentos estará
cumprindo todos os demais, podem ser eles dez ou seiscentos e treze
mandamentos.
Desse modo, entendemos porque o livro do Êxodo, nos versículos da primeira
leitura deste domingo, recomenda não oprimir nem maltratar os estrangeiros; não
fazer mal algum à viúva nem ao órfão, não explorar os pobres. No conceito
teológico de próximo, eles são os mais próximos, ou seja, os que mais necessitam
ser amados. Quando aprendermos a amar como a nós mesmos os que são
vulneráveis, os que mais sofrem, os excluídos e marginalizados, estaremos dando
uma grande demonstração de amor a Deus. Isso não é fácil, mas é o caminho
proposto por Jesus para que os mandamentos de Deus sejam colocados em prática.
A vivência da Palavra de Deus não é fácil, é preciso esforço para vivê-la, como
fez a comunidade dos Tessalonicenses. Na segunda leitura de hoje Paulo tece
elogios a essa comunidade que, apesar das dificuldades e desafios, se esforçou e
deu demonstrações concretas desse amor a Deus e ao próximo, tornando, assim,
modelo para outras comunidades e para nós. Modelo de perseverança e fidelidade
aos ensinamentos de Jesus e dos Apóstolos.
Que a nossa comunidade também se esforce para viver esse mandamento
supremo que Jesus hoje nos traz. O mandamento do amor a Deus sobre todas as
coisas, resultado do amor que temos entre nós, uns para com os outros. Com este
procedimento nossa comunidade será um espaço de encontro com Cristo, pois ele
se revela no rosto de cada irmão.

31º Domingo
& Ml 1,14b-2,1-2.8-10 | Sl 130(131) 1Ts 2,7b-9.13 | Mt 23,1-12

A Palavra de Deus deste domingo toca de maneira contundente a nossa vida


cristã e nos leva a questionar sobre a coerência entre aquilo que ouvimos, falamos
e vivemos. Ela nos propõe textos que falam diretamente de situações que servem
muito bem como espelho para a nossa realidade e nos ajuda, assim, a rever nossa
prática e aperfeiçoar ainda mais nossas ações.
Dessa vez a crítica é dirigida às autoridades religiosas, aos que têm algum cargo
ou função de direção e coordenação na comunidade, começando pela ordem
hierárquica da Igreja até chegar às bases, onde estão todos os fiéis leigos.

145
A primeira leitura é da profecia de Malaquias. Malaquias foi um profeta que
exerceu sua ação profética depois da reconstrução do templo de Jerusalém. Esse
dado é importante porque Malaquias representa aquele que foi enviado por Deus,
um mensageiro de Deus para denunciar os desvios religiosos que vinham
acontecendo no novo templo. A obra que tinha sido reconstruída para servir de
lugar de encontro com Deus e de vivência dos seus ensinamentos havia se
transformado num lugar de representações religiosas, de incoerência, e servia
apenas para dar status e visibilidade às pessoas, principalmente às que exerciam
algum cargo dentro dele. Assim, as leis de Deus criadas para libertar as pessoas
tornaram-se pesados fardos. Fardos que as autoridades religiosas fingiam carregar,
mas exigiam que os outros os carregassem de fato.
Nesse contexto entra em ação o profeta, mensageiro de Deus (Malaquias
significa mensageiro). Ele enumera um a um os desvios das autoridades religiosas
e mostra que serão destituídos das suas funções, porque Deus abomina aqueles
que desvirtuam os seus ensinamentos, ou que usam seu nome em benefício
próprio, prejudicando, assim, a outros. Quais são as acusações que Malaquias faz
contra os sacerdotes? Acusa-os de corruptos e de se desviarem dos caminhos de
Deus; de desrespeito ao nome de Deus; de não levarem Deus a sério; de se
desviarem do caminho, isto é, das verdadeiras doutrinas; de não serem líderes que
conduziam o povo no caminho de Deus, tornando-se obstáculo, pedra de tropeço;
de romperem a aliança com Deus, o pacto com Levi; de irem por outros caminhos,
os caminhos do interesse pessoal, do lucro, do poder e do status social; de
promoverem a discriminação de pessoas, excluindo-as da prática religiosa e
marginalizando-as. São acusações muito sérias e, em vista disso, Deus os
rebaixaria dos seus cargos, destituindo-os de suas funções, pois não estavam
cumprindo com a missão que lhes fora confiada.
O que isso tem a nos dizer? Será que na nossa Igreja, hoje, existem lideranças
religiosas que agem de modo similar? Será que tem gente na Igreja querendo obter
vantagens pessoais, como, por exemplo, poder, visibilidade, status ? Será que
nossa religião também não está cheia de normas e regras que mais excluem do que
acolhem as pessoas? E nossos bispos, padres e diáconos, vivem aquilo que
pregam? Eles são coerentes com o que dizem no púlpito da Igreja com a sua
prática diária? São questionamentos suscitados pela profecia de Malaquias. Se
assim agimos, somos seres desprezíveis, afirma o profeta, e não merecemos estar
ocupando a função que ocupamos na Igreja. É preciso, portanto, perceber que
temos um único Pai, Deus, no qual devemos colocar toda nossa confiança e agir
conforme ele nos ensinou, com humildade e coerência, como pede o evangelho de
hoje.
Neste evangelho Jesus se dirige às multidões e aos seus discípulos. Jesus, na sua
missão neste mundo, deixa claro sua opção entre o povo, os seus discípulos e as

146
autoridades, e diz claramente, com outras palavras, que quem não vive a Palavra
de Deus e não respeita o seu semelhante não pode ser respeitado como autoridade,
porque a única autoridade digna de respeito é Deus. Nenhuma pessoa deve
usurpar o lugar de Deus, nem dos patriarcas, nem dos profetas. Porém não era
bem isso que vinha acontecendo, e Jesus denuncia veementemente tais
procedimentos. Mostra que os mestres da lei e os fariseus ocuparam, ou seja,
usurparam o lugar de Moisés, sua cátedra, e a corromperam. Moisés foi um líder
libertador que conduziu o povo da escravidão do Egito à liberdade da terra
prometida, mas aqueles que agora se diziam os entendidos dos seus ensinamentos
estavam agindo de modo oposto, oprimindo o povo com pesados fardos em vez de
libertar. A religião tornou-se, portanto, um instrumento de opressão.
Com certa dose de ironia, Jesus recomenda que seus discípulos e a multidão
observem o que as “autoridades” religiosas dizem, mas que não imitem as suas
práticas, pois elas não têm nada a ver com o que eles dizem. Essa é a primeira
denúncia e recomendação que Jesus faz no evangelho de hoje e nos chama a
atenção para a nossa realidade de comunidade eclesial. Estamos sendo coerentes?
Nossa participação nas celebrações, nossa comunhão eucarística, nossas devoções
e nossa vida de oração tem se estendido nas nossas práticas diárias, nas relações
com nossos irmãos dentro e fora da comunidade?
Em seguida, Jesus denuncia os pesados fardos, as leis, as normas, as
recomendações, enfim, a doutrina cheia de proibições apregoada, e a vida de
aparência que viviam as autoridades religiosas. Eles queriam mesmo era
visibilidade. Queriam ser vistos, bajulados, tratados com diferença, isto é, como se
fossem melhores do que os outros. O pior é que assimilamos essas atitudes e
achamos normais os privilégios que são concedidos a certas categorias. Às vezes
até criticamos, mas quando assumimos um posto de maior poder, agimos da
mesma forma. Quantos são os que, dentro da comunidade, agem como se fossem
melhores que outros? Jesus mostra que dentro da Igreja não deve ser assim. Se na
sociedade as pessoas reproduzem desigualdades, a Igreja tem que ser exemplo,
precisa ser a voz profética que denuncia esses procedimentos e mostrar, na
prática, que ser grande é servir com grandeza e não querer apenas aparecer.
Assim sendo, Jesus mostra que devemos banir de dentro da Igreja os títulos que
só servem para diferenciar e discriminar pessoas. Ninguém deve ser chamado de
mestre ou de pai, ou de guia. Quando endeusamos muito algum líder religioso,
nossa fé corre perigo, pois se esse líder tropeçar, nós tropeçamos na nossa crença.
Quantos são os que vão à Igreja por causa deste ou daquele líder religioso? Já
paramos para pensar nos inúmeros títulos que se tem na Igreja e que, por causa
deles, muitos canalizam suas ações, esquecendo o essencial que é o serviço na
gratuidade e na humildade?

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Paulo, na segunda leitura de hoje, nos dá exemplos concretos de como servir na
humildade: tratar as pessoas com ternura; acolher as pessoas como a mãe acolhe
seus filhinhos; querer o bem dos outros; ensinar a Palavra e vivê-la, enfim, dar até
a própria vida pelos outros se for preciso. Mas isso só será possível se tivermos
amor no coração, se nos afeiçoarmos aos nossos irmãos. Quem cultiva esses
sentimentos nobres no coração não faz dos trabalhos na comunidade um
instrumento de ascensão social e atua incansavelmente em prol da comunidade,
como fez Paulo e seus companheiros nos relatos de hoje da segunda leitura. Eles
trabalhavam noite e dia para não ser um peso para ninguém. Exerceram a missão
de discípulos e missionários, esforçando-se para serem coerentes com os
ensinamentos de Cristo. É isso também que a liturgia de hoje pede a cada um de
nós. Que possamos rever nossas ações dentro e fora da comunidade, e que elas
sejam conformadas às de Paulo, da Carta aos Tessalonicenses. Dessa maneira,
estaremos sendo coerentes com a Palavra de Deus.

32º Domingo
& Sb 6,12-16 | Sl 62(63) 1Ts 4,13-18 ou 4,13-14 | Mt 25,1-13

A liturgia deste domingo traz para a reflexão um tema existencial: o sentido da


vida balizado pela morte. A vida é comparada a um processo, uma passagem, um
tempo de preparação que deve ser vivido com sabedoria e prudência. A sabedoria
consiste em ter atitudes prudentes, buscando fazer escolhas acertadas e ter
procedimentos corretos. Quem assim agir participará da grande festa final, o
banquete do Reino de Deus, comparado a uma festa de casamento, conforme
vemos no evangelho.
A primeira leitura fala diretamente da sabedoria, embora o autor não tenha a
preocupação de definir o que seja essa tal sabedoria, mas dá pistas de como agir
para encontrá-la. A leitura é apropriada para o tema de hoje e não poderia ser de
outro livro que não fosse o Livro da Sabedoria. Esse livro faz parte do bloco de
livros da Bíblia chamado de livros sapienciais. Neles foram reunidas as
experiências vividas pelo povo em diferentes épocas, porém todos,
indistintamente, trazem sentenças e recomendações que ajudam a viver melhor.
Podemos dizer que é o bloco de livros de “autoajuda” da Bíblia. O Livro da
Sabedoria faz parte deles, e o trecho proposto para hoje traz indicações
importantes para todos os tempos.
O primeiro critério para obter sabedoria é querê-la, ou, mais que isso, amá-la.
Todos os que amam a sabedoria, ela se revela a eles, ela se deixa encontrar por
aqueles que a buscam. Assim sendo, o texto recomenda que cada pessoa
empenhe-se nessa busca, isto é, que procure agir com prudência, pois a maior
parte dos erros e fracassos de nossa vida são resultados de atitudes que foram tidas

148
sem a devida sabedoria, imprudentemente. É necessário, portanto, desejá-la. Os
grandes sábios da história da humanidade desejaram a sabedoria e por isso a
obtiveram. Desejar significa ter empenho, buscá-la, se esforçar para obtê-la. Diz o
autor que “quem por ela madruga não terá grande trabalho, pois a encontrará
sentada junto à porta de sua casa”. Madrugar significa se empenhar nessa busca.
Como diz o ditado popular, “Deus ajuda quem madruga”. É sinal de esforço nas
buscas da vida, e tais esforços não passam despercebidos por Deus, que o
compensará concedendo-lhe a sabedoria almejada, prêmio de valor incalculável,
pois da sabedoria emanam as outras ações e obtém-se outras conquistas. A
sabedoria exige de nós procedimentos que nem sempre estamos acostumados a
ter, como a reflexão e a cautela. Dados que aparecem também no evangelho de
hoje, no contraponto entre dois grupos de virgens, sendo que eram cinco
previdentes e cinco imprevidentes. As previdentes são as que agiram com
sabedoria; as imprevidentes, as que não se preocuparam em buscar a sabedoria.
O evangelho de hoje quer nos mostrar que devemos nos preparar sempre, nos
empenhar no aperfeiçoamento de nossa vida, através de práticas responsáveis e
prudentes, tendo como base fundamental e combustível para as nossas ações a
justiça. A justiça é o parâmetro das ações sábias. É ela que nos capacita para
entrar no Reino dos céus, comparado aqui com a festa de casamento, na qual o
noivo (Jesus) nos receberá com alegria. Assim sendo, o óleo que mantém acesas
as chamas da lâmpada das nossas ações é a justiça. Quem não a tem, terá suas
lâmpadas apagadas na hora que mais dela precisar. Já os que são previdentes
manterão acesa essa chama e participarão da festa. Além disso, sem esse
“combustível”, não seremos reconhecidos por Deus. De nada adianta termos feito
práticas supostamente religiosas se nosso proceder foi injusto e prejudicou o
irmão. A prática da injustiça invalida nossas práticas religiosas, por mais que elas
tenham sido executadas ao longo da nossa vida. Por isso é incoerente comungar e
trapacear o semelhante, ou explorá-lo não pagando salários dignos, não
concedendo seus direitos trabalhistas, ou mesmo explorando-o com pesados
fardos e obrigações além de suas forças.
Um dia todos nós prestaremos contas ao Deus de nossas ações. Nessa hora,
contam aqueles que agiram com justiça e foram previdentes, abastecendo suas
lâmpadas, isto é, suas ações, com o azeite da justiça. Por essa razão, a segunda
leitura de hoje traz a preocupação da comunidade dos Tessalonicenses com os que
já morreram. Será que eles participarão do banquete final, junto com os que estão
vivos? Essa era a pergunta que intrigava aquela comunidade que vivia a se
preparar para a vinda definitiva do Reino dos céus. Paulo procura tranquilizá-los,
mostrando que tanto os vivos quanto os que já morreram participarão da festa,
desde que mantenham acesas as chamas da sua fé, do seu amor ao próximo e da
prática da justiça.

149
Que nossa vida de comunidade cristã seja um constante empenho na busca da
sabedoria. Somente assim poderemos agir com prudência e ter nossas lâmpadas
sempre acesas, sem esmorecer na espera.

33º Domingo
& Pr 31,10-13.19-20.30-31 | Sl 127(128) 1Ts 5,1-6 | Mt 25,14-30 ou 25,14-15.19-
21

Este é o nosso trigésimo terceiro domingo do Tempo Comum. O Tempo


Comum tem trinta e quatro semanas. Portanto, estamos chegando ao final de mais
um ano litúrgico. No próximo domingo, com a festa de Cristo Rei, encerraremos o
ano litúrgico A e iniciaremos o ano B da liturgia. Como o comércio, que no final
de ano fecha para balanço, pesando os lucros e prejuízos, nós também deveríamos,
no final do ano, fazer um balanço da nossa vida e ver o que foi bom e o que
poderia ter sido melhor. O que foi bom nós continuaríamos a fazer, e o que não foi
bom, não repetiríamos. É o que propõe a liturgia deste domingo: avaliar como
estamos administrando os talentos que Deus nos confiou.
Há os que pensam que não é preciso fazer balanço porque acham que está tudo
bem; outros, porque se acomodam e deixam as coisas como estão para ver como é
que ficam; outros ainda não agem porque imaginam que têm pouco ou que não
têm talentos para administrar. Mero engano quem pensa dessa maneira. Todos nós
temos algum dom ou talento, se assim não fosse, não estaríamos aqui neste
mundo. Se aqui estamos é porque Deus confiou algo a nós para que geríssemos. A
uns ele deu mais, a outros deu menos, mas a todos ele confiou algo. A diferença
está na maneira como cada um administra o que recebeu. Há os que se empenham
de tal maneira que duplicam ou triplicam seus talentos. Outros, porém, enterram
seus talentos, não lhes acrescentando nada. Quem faz isso perde até o que tem.
Usando uma comparação com o mundo financeiro, quem não investe seu dinheiro
acaba por perdê-lo, porque dinheiro parado desvaloriza. Assim acontece com
nossos dons. Quem coloca seus dons a serviço multiplica-os. Vejamos o exemplo
do professor: ele tem o dom de ensinar e, ao ensinar o que sabe a outro, multiplica
o conhecimento deste e, assim, seu conhecimento vai gerando outros
conhecimentos. A mesma coisa acontece com os trabalhos na comunidade.
Quando partilhamos os nossos dons, outros são beneficiados com eles,
multiplicando-os. Dessa maneira, vamos entendendo a dinâmica da parábola dos
talentos que Jesus contou aos seus discípulos.
O homem que viaja para o estrangeiro é Deus. As pessoas que ele chamou para
administrar seus bens somos nós. Já tivemos oportunidade de refletir sobre isso
com mais ênfase no mês de agosto, o mês vocacional, o mês dedicado ao chamado
de Deus. Ele nos chamou e nos confiou talentos. Os talentos são as nossas

150
capacidades, nossos bens, as coisas materiais ou simbólicas que ele nos concedeu.
Cabe aqui cada um fazer uma revisão dessas coisas, porque muitos pensam que
não as têm. Mas Jesus deixa claro que nem todos recebem as mesmas coisas nem
a mesma quantia. Cada um recebe de acordo com as suas capacidades, mas uma
coisa é certa: todos recebem alguma coisa para administrar. Mesmo que seja
pouco, é preciso administrar da melhor maneira, porque “quem é fiel nas
pequenas coisas também é fiel nas grandes, e quem é injusto nas pequenas
também é injusto nas grandes” (Lc 16,10). Hoje essa expressão retorna na figura
daquele que recebeu um talento e não soube ser fiel no pouco que recebeu,
enterrando-o por preguiça de administrá-lo.
Os que receberam cinco e dois talentos se esforçaram e conseguiram dobrar o
valor dos talentos recebidos. Estes são os que, apesar das dificuldades e não
obstante a quantia recebida de talentos, colocam-nos para todos, partilham, fazem
algo pelo próximo, se comprometem. Administrar talentos não é tarefa fácil, exige
de nós muito empenho e dedicação, muita fé, perseverança e vigilância, pois o
mercado dos bens simbólicos oscila tanto quanto o mercado financeiro. Quem não
está atento toma prejuízo nos seus investimentos. É o que mostra Paulo na
segunda leitura da Primeira Carta aos Tessalonicenses. É preciso vigilância para
não ser surpreendido como um ladrão.
No caso da parábola, quando o senhor voltou, elogiou os que souberam
administrar seus bens, chamando-os de servos bons e fiéis. A recompensa foi
confiar-lhes muito mais, porque, ao terem sido fiéis na administração de tão
pouco, demonstraram que seriam também fiéis na administração das grandes
coisas. Além disso, deu-lhes a maior recompensa que alguém pode receber: foram
convidados a participar da sua alegria. Quando administramos bem e com
empenho os bens que Deus nos confiou, agindo com integridade e honestidade,
partilhando o que temos e o que somos, participamos com ele do seu banquete,
comungamos de fato com ele, isto é, entramos na sua glória, na sua alegria.
Porém, os que por medo ou comodismo, preguiça, covardia ou mau caráter não
administram bem seus bens são repreendidos porque mostram não comungar com
ele e por isso não participarão da sua alegria. Mesmo que o que lhe foi confiado
seja pouco, administre bem, multiplique o pouco que recebeu. Mas não foi isso o
que ocorreu com aquele que recebeu um talento. Ele tinha medo do seu senhor e,
por isso, enterrou o talento. Às vezes não administramos nossos talentos por medo
de Deus, enxergando-o como um “patrão” severo, que castiga. Não fazemos e
ainda criticamos a Deus e os que fazem.
Assim sendo, enterramos os nossos talentos quando temos medo de Deus;
quando nos acomodamos no nosso mundo particular; quando ignoramos o
sofrimento alheio; quando não nos comprometemos com a comunidade, vivendo
uma religião intimista e individualista; quando dizemos que não fazemos o mal,

151
mas também não praticamos o bem; quando omitimos, porque a omissão é pecado
– todo omisso permite que a maldade continue acontecendo; quando criticamos os
que fazem e não fazemos nada para melhorar, enfim, há uma série de situações e
comportamentos que simbolizam talentos que estão sendo enterrados.
Quando Deus vier pedir contas dos bens que ele nos confiou, o que será que vai
dizer a nós? Será que dirá “muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na
administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha
alegria!”, ou dirá: “Servo mau e preguiçoso! [...] devia ter depositado meu
dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o que me
pertence”? Portanto, esforcemo-nos para ouvir o que ouviram os dois primeiros,
pois se ouvirmos o que ouviu o terceiro, estamos perdidos.
Desse modo, como administrar bem os bens que ele nos confiou? A primeira e a
segunda leitura de hoje nos dão importantes ensinamentos. A primeira traz o
exemplo da mulher que sabe administrar as coisas da família, do lar, os bens da
casa. Assim sendo, é classificada como uma mulher forte, que vale muito mais do
que as joias. Saber administrar o lar é um dom, um talento valioso. Essa mulher é
modelo de administradora fiel porque se empenha, ganhando a confiança do
esposo e dos filhos. Ela cuida das necessidades da casa e a conduz com mão
poderosa. Suas obras são louvadas porque sabe gerir os bens que lhe são
confiados. Mas isso não é simples. É preciso dedicação e empenho, perseverança
e vigilância.
Por essa razão, a segunda leitura, da Carta aos Tessalonicenses, enfatiza a
necessidade de vigilância constante. Se não estivermos atentos, perdemos até o
pouco que temos. É o que ocorre com aqueles que enterram os seus talentos.
Quanta gente na comunidade continua com seu talento enterrado. Há tanto por
fazer e é tão reduzido o número dos que se dispõem a fazer algo pelo próximo ou
para a comunidade. Vemos isso nas nossas pastorais. Poucos com muito trabalho
e muitos apenas “assistindo” às missas, sem se envolver com a comunidade.
É hora de fazer esse balanço e assumir gerir melhor os dons e talentos. Se não
fizermos isso, corremos o risco de perder até o pouco que temos, pois uma
semente que não é semeada é só uma semente, mas se for semeada se multiplicará
em muitas outras sementes. Assim acontece com nossos talentos. Quando os
partilhamos, eles se multiplicam. É esse o apelo da liturgia da Palavra desse
penúltimo domingo do Tempo Comum. Sejamos, portanto, administradores bons
e fiéis dos dons que temos e participaremos das alegrias de Deus.

34º Domingo
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo
& Ez 34,11-12.15-17 | Sl 22(23) 1Cor 15,20-26.28 | Mt 25,31-46

152
A solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, marca o fim do
ano litúrgico. A partir do domingo seguinte iniciamos um novo ano e um novo
tempo na liturgia. Assim, a celebração de hoje enfatiza a dimensão do serviço, na
figura do pastor que cuida das suas ovelhas e dá atenção especial àquelas que mais
necessitam. Desse modo, somos convocados ao serviço aos irmãos, sobretudo os
mais necessitados.
Hoje somos convidados a refletir, entre outras coisas, sobre o conceito de rei.
Quando falamos em rei, ou reino, talvez venha à nossa memória a imagem de rei
dos sistemas monárquicos deste mundo, ou dos reis do Antigo Testamento. Mas
Jesus vem nos mostrar um conceito de rei diferente, invertendo a ordem
tradicional. Não é um rei que se serve dos seus súditos, mas um rei que serve os
seus súditos. Por essa razão ele diz: “meu Reino não é deste mundo”. Os reinos
deste mundo são de poderes, riquezas, visibilidade. O Reino que Jesus veio
inaugurar é o reino do serviço na humildade, colocando-se como servo de todos. É
desse reinado que assumimos participar pelo batismo. Foi isso que ele nos ensinou
durante sua vida pública, que tivemos oportunidade de conhecer durante o ano
litúrgico que chega ao fim.
A primeira leitura, da profecia de Ezequiel, mostra o Senhor como pastor que
vai procurar as ovelhas e toma conta delas; resgata de todos os lugares em que
estão dispersas. É o pastor que arrebanha, une e quer que todos sejam um. Ele se
faz presente principalmente nos momentos em que nuvens escuras dispersam as
suas ovelhas. Essa imagem de Deus passa segurança, tranquilidade, confiança. Ele
dissipa os momentos de medo e de insegurança, as ameaças e os obstáculos, e
cuida para que ninguém se perca. Ele apascenta e faz repousar na tranquilidade.
Procura aquela que se perdeu, reconduz a extraviada, enfaixa a perna daquela que
se machucou, fortalece a doente, e vigia, isto é, cuida, daquelas que estão bem.
Que bela imagem de Deus nos passa o profeta. Quem consegue encontrar em
Deus essa segurança não teme as adversidades da vida e se sente forte, pois sabe
que tem um protetor.
Essa imagem do pastor volta no evangelho, agora, como aquele que sabe
distinguir as ovelhas dos cabritos, isto é, aqueles que são dóceis ao Senhor e
escutam a sua voz daqueles que são rebeldes e não seguem seus ensinamentos. O
texto do evangelho é de característica escatológica, no sentido de avaliação,
próprio do final do ano litúrgico, tempo de fazermos um balanço da nossa vida. A
proposta é revermos nossas ações e ver se estamos agindo conforme a ovelha age
com o seu pastor, isto é, obedecendo a sua voz, ou se estamos ignorando seu
chamado.
Vimos durante todo este ano litúrgico que ouvir a voz de Deus é colocar em
prática a sua Palavra. Somente assim seremos reconhecidos por ele quando o
Filho do homem voltar. Nesse dia, o sinal que nos identificará como ovelha do seu

153
rebanho são as ações que fizemos em prol dos que mais necessitam, o bem que
fizemos ao próximo. Quem passou por essa vida e nada fez de bom para o seu
semelhante não será reconhecido.
Somos reconhecidos por Deus quando saciamos a fome e a sede dos que estão
famintos e sedentos; quando acolhemos o estrangeiro; ajudamos a vestir os que
estão nus; cuidamos dos doentes e sofredores, como o pastor cuida da ovelha que
se feriu; quando visitamos os encarcerados, enfim, quando fazemos algo para
diminuir o sofrimento do nosso próximo nas suas mais variadas situações. São
atos dessa natureza, de compromisso com a vida, que nos fazem ser reconhecidos
por Deus. Não basta cumprir com os preceitos religiosos para ser reconhecido por
Deus. Mesmo que tenhamos ido à missa todos os domingos, pagado fielmente o
dízimo e feito nossas orações pessoais e comunitárias, se não tivermos tido atos de
caridade, não seremos reconhecidos. Jesus se revela no irmão que sofre, e isso
está bem claro no evangelho de hoje. Se não conseguirmos reconhecê-los nestes,
ele também não nos reconhecerá. Ele deu a vida por nós, diz a segunda leitura,
como o Bom Pastor dá a vida por suas ovelhas, e ele quer que façamos o mesmo
pelos nossos irmãos que sofrem.
Que possamos encontrar, na liturgia de hoje, a força necessária para
continuarmos nossa missão de pastorear os compromissos que Deus nos confiou.
Que o Cristo, Rei do universo, nos ajude a participar da sua missão profética, do
seu sacerdócio e do seu reinado, que é o serviço. Assim, a solenidade de Cristo
Rei nos mostra o caminho do seu Reino: o serviço. Um rei que serve na
humildade, que se fez um de nós para que pudéssemos ter acesso a ele. Que
tenhamos aprendido essa sublime lição e estejamos sempre prontos a servir. Dessa
maneira, seremos conduzidos pelo pastor e ele não nos deixará faltar coisa
alguma, como diz o salmo de hoje. Que também não permitamos que falte coisa
alguma aos nossos irmãos, para que todos tenham uma vida digna.

154
SEGUNDA PARTE

155
ANO B
TEMPO DO ADVENTO
(cor: roxa)

1º Domingo
& Is 63,16b-17.19b; 64,2b-7 Sl 79(80) | 1Cor 1,3-9 | Mc 13,33-37

Estamos iniciando um tempo importante na liturgia, o Tempo do Advento. A


marca desse tempo é a preparação para a celebração da primeira vinda do Senhor,
o seu Natal, e por isso precisamos saber quais são as marcas de nosso tempo,
conforme nos pedem as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no
Brasil (2011-2015). E por ser um tempo de preparação, os textos propostos para
esse domingo falam de revisão de vida, pois preparação aqui significa fazer uma
profunda revisão e reparação dos nossos erros, para nos aproximarmos do Natal
com o coração preparado, como se estivéssemos preparando um presépio, com a
delicadeza e a singeleza que ele representa. Para isso é preciso atenção, cuidado,
vigilância. É um tempo de alerta.
A primeira leitura é do livro do profeta Isaías. Isaías é o profeta que vai nos
acompanhar durante estas semanas que antecedem o Natal. Ele é conhecido como
o profeta da esperança, pois tem um modo muito especial de falar dela. Esperança
é uma palavra bem adequada para falar deste tempo, pois esperança vem de
espera, e nós estamos num tempo de espera. Não de uma espera passiva, cruzando
os braços e aguardando que algo aconteça, ou chegue até nós conforme sonhamos.
É uma espera ativa, comprometida, em que nos empenhamos para que essa vinda
aconteça. Não existirá o Natal no sentido teológico do termo se não nos
prepararmos e se em nosso coração não existir essa esperança ativa da qual fala o
profeta Isaías. Se assim não for, o Natal será apenas uma festa como outra
qualquer, de comidas, bebidas, enfeites, muitas luzes, mas o nosso coração
continuará uma manjedoura vazia, e uma manjedoura vazia não passa de uma
estrebaria, ou seja, um lugar para animais. A manjedoura, como a cruz, recobre-se
de significado teológico com a presença de Jesus nela. Sem ele, ela é só uma
manjedoura. Mas com Jesus, tanto a manjedoura como a cruz se transformam.
Uma manjedoura sem o Cristo não tem valor salvífico; como cristãos, não é isso
que queremos. Queremos que Jesus nasça na manjedoura do nosso coração em
nosso meio, e para que isso ocorra é preciso conversão. Assim, a conversão é a
forma mais eficaz de preparação. E é de conversão que trata a primeira leitura.
Isaías coloca nessa primeira leitura uma espécie de oração, onde se clama a Deus
pedindo que ele não deixe os filhos seus se desviarem do caminho. Creio que essa

156
deve ser também a nossa preocupação neste tempo. São muitas as coisas que nos
desviam do caminho. Cabe aqui, a cada um, fazer uma lista dessas coisas e
situações, e procurar corrigi-las. Esse é um bom propósito para o início do
Advento. Além disso, o profeta lembra que muitas vezes temos o coração duro, e
a dureza do coração nos faz desviar dos caminhos de Deus. Pessoas de coração
duro são insensíveis, e pessoas insensíveis não percebem o Cristo que vem na
humildade da manjedoura. O profeta questiona a Deus, perguntando por que ele
permite que o nosso coração se endureça, porém não é Deus que permite a dureza
de nosso coração, somos nós que, pela insensibilidade, falta de fé e tantos outros
fatores, vamos permitindo que ele fique petrificado. Por isso, nada melhor do que
termos um tempo que nos conduza a uma avaliação, revisão de vida, e nos
provoque para fazermos mudanças. Não podemos perder essa oportunidade que
Deus nos concede. Cabe a cada um de nós fazer a sua parte. Assim, veremos
Deus, que volta o seu rosto compassivo para nós e nos recoloca no seu caminho.
Assim, a proposta de Isaías nesta primeira leitura é a de fazermos com os nossos
pecados o que se faz com o fogo: o fogo queima o ramo seco e faz a água ferver,
livrando-a de suas impurezas. Esse é o tempo de eliminar o que não serve para a
vida, fazer uma varredura no nosso coração, purificá-lo para acolher Jesus. Com
esses procedimentos internos nós teremos atitudes externas que revelarão a vinda
de Cristo.
A segunda leitura, da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, também fala de
preparação. O Apóstolo manifesta a sua alegria por ver uma comunidade que
caminha nos caminhos de Deus, sempre pronta a viver os seus ensinamentos e
reparar os erros. Que alegria Deus sente por nós quando nos vê unidos, em
comunidade, preparando a sua chegada, na alegria que isso representa. Preparar a
chegada do Senhor é permanecer firme no testemunho dele, no anúncio da sua
chegada, e esse anúncio se dá através de atos que revelam a sua presença entre
nós. É preciso, portanto, diz o Apóstolo, que o testemunho de Cristo torne-se
firme entre nós. Quem não anuncia com firmeza mostra que não confia e que não
acredita plenamente, enfim, mostra que não tem fé. Quando isso ocorre, tudo
perde o sentido e a celebração do nascimento de Cristo se esvazia. É esse Cristo
que testemunhamos que nos fortalece, sem o testemunho somos fracos, somos
ramos que vão se desligando da videira e secam. Por essa razão, esperar é, ao
mesmo tempo, testemunhar. É esse o sentido de uma espera ativa. Nisso consiste
esse tempo de espera. Uma espera que se dá no testemunho, na ação, no
comprometimento. Nisso consistem os motivos da alegria de Paulo nessa carta
dirigida à comunidade de Corinto. Uma comunidade que, como diz uma canção
popular, sabe fazer a hora e não espera acontecer.
O apelo do evangelho desse primeiro domingo é para a vigilância. Vigilância
consiste em preparação. Quem se prepara dá sinal de que está atento e, portanto,

157
vigilante. Por essa razão, neste tempo de preparação para o Natal, temos que ter o
cuidado de nos prepararmos adequadamente. Quem não estiver preparado
dificilmente celebrará o verdadeiro Natal de Jesus. Assim sendo, temos que ser
vigilantes para não cair em tentação, pois elas são muitas e estão em toda parte,
inclusive dentro da Igreja. Vigilantes para rever nossas falhas, nossos erros,
nossas omissões, nossas vaidades e ambições. Vigilantes para detectar se nossas
ações condizem com as propostas cristãs, se nós estamos de fato comprometidos
com a construção do Reino de Deus. Qualquer deslize pode provocar o desvio do
caminho e prejudicar esse processo de preparação. Em vista disso, o evangelho
começa com um pedido de atenção – “prestai atenção” –, diz o texto. Quando
alguém nos chama a atenção é porque algo importante está para acontecer, ou algo
de errado está acontecendo. Assim, começar o Advento com esse pedido de alerta
é sinal de que algo muito importante está por vir, e de fato está, e nós precisamos
estar preparados. Dentro do calendário litúrgico, o Natal é a segunda maior
celebração em importância teológica, perdendo apenas para a Páscoa. Por esse
motivo, temos que estar preparados e vigilantes. Não é hora, portanto, de perder
tempo. Que ninguém fique dormindo, diz Jesus, no evangelho de hoje. Para
ilustrar essa vigilância, Jesus conta a parábola do homem que viaja para o
estrangeiro e confia responsabilidades para seus empregados. Quando ele voltar,
vai pedir contas a esses empregados da missão a eles confiada. Como cristãos,
somos servos de Deus e dos nossos irmãos, e a nós foram confiadas
responsabilidades. Portanto, esse é um tempo especial de serviço, de dar o melhor
de nós, nos capacitando e nos preparando para o Advento do Senhor Jesus. É,
portanto, um serviço de preparação para a chegada do Senhor que vem no Natal. É
hora de arrumar a casa, não apenas no sentido externo, de colocar enfeites
natalinos, mas de arrumar a casa do nosso coração. Aqui sim o local precisa estar
bem arrumado, adornado com as luzes do amor, da justiça, da solidariedade, do
comprometimento com as causas emergenciais deste mundo e com a vida dos que
sofrem. Isso é vigilância, isso significa atenção, cuidado, vigilância no sentido
estrito do termo.
Preparar para o Natal é semelhante àquelas ocasiões em que vamos receber uma
visita importante na nossa casa. Queremos que a visita encontre a casa bem
arrumada, acolhedora, de modo que ela se sinta bem, se sinta acolhida, esperada,
enfim, amada. É esse acolhimento que devemos proporcionar a Jesus neste tempo
de preparação para a sua chegada. Um acolhimento que se configure em obras e
que não dure apenas o tempo do Advento, mas em todos os dias da nossa vida. As
luzes e os enfeites natalinos são retirados logo após a celebração do Natal, mas os
enfeites, os adornos do nosso coração não devem ser retirados jamais. Se eles não
permanecerem, estamos dando demonstração de que não fomos vigilantes, não
nos preparamos de fato. Embora o Advento e o Natal sejam apenas tempos

158
litúrgicos, não podemos descuidar da nossa fé, da nossa preparação. Nossa vida e
nossa Igreja devem ser espaços de preparação permanente. Somente assim a
Igreja, e nós, que somos Igreja, estaremos cumprindo o papel de missionários,
promotores do Reino de Deus que vem com o Advento do seu Filho Jesus, mas
que não sabem o dia e a hora. Portanto, prestemos atenção, estejamos vigilantes, é
o Advento do Senhor. Vamos testemunhar sem desanimar, pois as ações de Jesus
se prolongam nas nossas ações. “Eis um tempo de conversão, eis o dia da
salvação”, eis o nosso desafio deste tempo litúrgico de preparação para o Natal.

2º Domingo
& Is 40,1-5.9-11 | Sl 84(85) 2Pd 3,8-14 | Mc 1,1-8

O convite da liturgia da Palavra deste segundo domingo do Advento é para


prepararmos os caminhos do Senhor em vista da sua chegada. É, portanto, um
tempo de intensa preparação, e devemos estar atentos, como nos foi pedido no
domingo passado, quando a liturgia da Palavra nos chamou a atenção para a
vigilância. Do tema da vigilância, passamos para a preparação e, assim, seguimos
rumo ao Natal.
A primeira leitura, do livro do profeta Isaías, mostra que o tempo já se
completou, ou seja, já se está vivendo um tempo novo, de expectativas, pois o que
era um tempo de escravidão, sofrimento e morte está chegando ao fim. Vemos
nitidamente nesse anúncio a esperança que é própria desse profeta. Nós também
vivemos um tempo de esperança, porque Advento é esperança. Nessa primeira
leitura, Jerusalém se reergue de sua miséria e se reveste com as vestes da justiça.
Anuncia-se aqui o surgimento de um novo céu e uma nova terra, a Jerusalém
celeste. Todos os crimes da antiga Jerusalém foram perdoados e agora é hora de
recomeçar. Enxergamos aqui o sentido deste tempo de Advento que estamos
vivendo. É o tempo de corrigir erros e de confiar na misericórdia de Deus. Esse
Deus que nos perdoa e renova as nossas forças, a nossa vida, como renovou
Jerusalém. Somos semelhantes à Jerusalém do profeta Isaías, prostrados pelos
nossos pecados, mas resplandecentes pela luz do Cristo que está vindo. É,
portanto, tempo de conversão, vigilância, preparação. Isaías fala de uma voz que
grita no deserto para abrir um caminho para Deus. Em qual deserto nós vivemos
hoje e quem é essa voz?
Nós hoje vivemos em diversificados tipos de desertos, sobretudo no deserto da
fé, onde a religião, a crença em Deus está perdendo o seu valor. As pessoas
colocam outras coisas no lugar de Deus e não percebem que a sua vida está se
transformando num deserto. As insatisfações são reflexos desse deserto. As coisas
materiais dão uma falsa satisfação, ou uma satisfação momentânea, mas não
preenchem as lacunas deixadas pela ausência de Deus. São muitas as vozes, os

159
clamores que nos cercam, pedindo que abramos os nossos olhos e, com os olhos
abertos, abramos um caminho nesse deserto. A Igreja no Brasil tem apontado
diversos caminhos, diversas propostas para a travessia desse deserto, dentre eles o
de uma paróquia mais missionária, uma paróquia que seja comunidade de
comunidades. Essa é uma das maneiras de nos achegarmos até estes que estão
distantes de Deus. É também uma maneira de trazer Deus para dentro de nossas
igrejas, de nossas vidas, pois elas estão áridas. Áridas por causa das influências
que recebem de coisas e situações que não são de Deus. O apelo de Isaías nessa
leitura é que se aplaine uma estrada nessa região de terra seca que se tornou o
coração de muita gente. Uma região de terra seca que se tornou o nosso mundo,
com tanta violência, corrupção e morte. Uma estrada que nos conduza a Deus.
Nossa missão na Igreja é exatamente esta: abrir caminhos na secura desse deserto
da fé para que um maior número de pessoas possa se achegar a Deus. Abrir esse
caminho significa eliminar os obstáculos que estão impedindo que as pessoas
tenham acesso às coisas de Deus. Isaías usa uma linguagem figurada para falar
desses obstáculos, comparando a vales que precisam ser aterrados, a montes e
colinas que carecem ser nivelados, a terrenos acidentados que devem ser
transformados em planícies e a elevações que devem ser transformadas em lugares
planos. São figuras de linguagem para falar dos grandes obstáculos que temos pela
frente e da necessidade de superá-los. Cientes dessa missão e das dificuldades que
vamos encontrar, devemos nos revestir de coragem, força e fé. É possível superar
os obstáculos, por maiores que sejam. Deus é nossa força. O objetivo, a meta a ser
atingida é bem maior que os obstáculos que temos pela frente. Somente
eliminando esses obstáculos podemos ver revelada a glória de Deus. Vemos,
assim, que Cristo nascerá em nossa vida se conseguirmos eliminar tudo aquilo que
representa obstáculo para a sua chegada. Advento é tempo de anunciar essa
esperança. É hora de subir as colinas mais altas e gritar que um tempo novo se
aproxima. Esse grito deve ser revelado nas nossas ações. Quanto mais agirmos em
prol da vida, ajudando a diminuir os obstáculos que impedem as pessoas de ser
felizes, de se encontrar com Deus, mais nossa voz será ouvida nesse deserto. São
apelos que ecoam dessa profecia de Isaías que temos na primeira leitura de hoje.
A segunda leitura, da Segunda Carta de Pedro, pede já no seu início que sejamos
pacientes e perseverantes nessa busca de Deus, abrindo seus caminhos. Mostra
que o nosso tempo é diferente do tempo de Deus. Nós queremos resultados
imediatos e se eles não vêm quando pedimos ou queremos, desanimamos na
missão. Mas não devemos agir assim. Não podemos esquecer, diz Pedro, que para
o Senhor um dia é como mil anos e mil anos como um dia. Ou seja, o tempo de
Deus não é o nosso tempo. Nosso tempo é marcado pelo relógio, e o tempo de
Deus não. Portanto, por maior que sejam as dificuldades, não podemos desanimar.
No momento de Deus veremos os obstáculos sendo vencidos. E diz mais, “o

160
Senhor não demora para cumprir o que prometeu”. Nós é que somos
demasiadamente impacientes. Aplainar esses caminhos tortuosos exige de nós
paciência, perseverança e fé. Deus não quer que percamos a nossa fé e que nos
desviemos dos seus caminhos. Basta confiar e seguir seus ensinamentos que no
momento certo as coisas darão certo. Pedro lembra ainda da prontidão que
devemos ter nessa abertura dos caminhos para Deus. Nós nos encontraremos com
ele quando menos esperarmos. E quem não estiver preparado, vigilante, pode não
perceber e perder a oportunidade desse encontro. É o que a liturgia do Advento
nos propõe: preparar os caminhos do Senhor, preparar para o Natal do Senhor,
para que esse dia chegue e não seja um dia como outro qualquer, vazio da
presença de Deus, mas um dia que marque o recomeço de uma nova vida em
Deus. O Natal não é um dia mágico, embora se fale da magia do Natal. Quem não
se preparou para ele, quem não aplainou os caminhos, como pediu Isaías,
dificilmente se encontrará com Jesus no seu Natal. Não queremos que esse dia
passe em branco na nossa vida. Assim, façamos por merecer a sua chegada,
preparando o nosso coração, purificando-o de toda obra má e promovendo a paz e
a justiça.
Nessa mesma linha da preparação segue o evangelho de hoje. O Evangelista
Marcos retoma o livro do profeta Isaías, que vimos na primeira leitura de hoje, e
reforça o significado da preparação, colocando as indicações para a preparação da
chegada de Jesus. Somos como João Batista, mensageiros a preparar os caminhos
do Senhor. Será que somos mesmo? Cabe pensar sobre isso. A liturgia indica que
deveríamos ser esses mensageiros, tendo João Batista como modelo, como
referência, como paradigma neste processo de preparação para o Natal.
Nós, como cristãos, estamos sendo essas vozes que gritam nos desertos de
nossos tempos?
Ser discípulo missionário de Jesus Cristo é ser essa voz que grita no deserto. A
forma com que João Batista gritava era através do batismo. O batismo de
conversão. Quem assumia o batismo assumia mudar de vida, revestir-se de uma
vida nova, livre dos erros, dos pecados, das falhas cometidas, para adentrar a vida
nova com Cristo. É o mesmo apelo que o profeta Isaías fez na primeira leitura a
Jerusalém. Nós somos essa Jerusalém que se reveste com as vestes da justiça para
celebrar a vinda do Senhor, simbolizada pelo Natal.
João fez toda essa preparação para a vinda do Senhor, na humildade. Vestia-se
de modo humilde, alimentava-se humildemente, apenas do necessário para a vida
e dizia da grandeza de Deus, colocando-se bem abaixo dele, dizendo que daquele
que viria ele não era digno nem de desamarrar as correias de suas sandálias. É
essa humildade que deve existir em nosso coração nesse tempo do Advento.
Assim, esse tempo de preparação para o Natal não é um tempo de consumo, como
o comércio e os meios de comunicação mostram. É tempo de consumir nossas

161
energias na evangelização, na missão e não em bens materiais, em comidas e
bebidas. João nos deu o exemplo mais contundente e deveríamos imitá-lo. Não é
por acaso que esse personagem aparece na liturgia nesse tempo do Advento.
Assim, temos diante de nós três grandes personagens que nos ajudam nesse
processo de preparação para o Natal do Senhor: o profeta Isaías, que nos ensina a
sermos comprometidos com a construção do Reino de Deus, eliminando toda
forma de obstáculos que possam impedir sua chegada; Pedro, o Apóstolo que se
tornou a rocha na qual a Igreja está alicerçada, e ele nos pede perseverança e fé
nesses caminhos tortuosos para chegar a Deus; e João Batista, que foi a voz
clamando no deserto, pedindo que todos se preparassem, se convertessem,
mudando de vida para receber o Cristo que veio. Com esses três grandes exemplos
da história da Salvação, nós nos sentimos fortalecidos e amparados nesse
caminhar rumo ao Natal do Senhor. Sejamos, portanto, perseverantes e nos
empenhemos nessa preparação.

3º Domingo
& Is 61,1-2a.10-11 | Sl (Lc 1) 1Ts 5,16-24 | Jo 1,6-8.19-28

O terceiro domingo do Advento, também conhecido como “domingo da alegria”


( Gaudete ), traz como apelo, nesse processo de preparação para o Natal, a alegria
dessa espera. Todo tempo do Advento é tempo de alegria, mas uma alegria
contida para expressá-la no Natal. Esse tempo é similar a um tempo de gravidez.
Durante a gravidez, a mulher se alegra porque em breve trará uma vida ao mundo,
mas é uma alegria cuidadosa, porque, se ela não se cuidar, poderá abortar a vida
do seu ventre e pode não haver nascimento nem a alegria plena que esse tempo de
gravidez traz. Por essa razão, o Advento tem esse sentido de uma alegria
cuidadosa, sem muito barulho na liturgia, pois é tempo de preparação, vigilância,
tempo em que o coração se enche a cada dia de alegria, mas discretamente contida
na espera. À medida que o Natal se aproxima, nos alegramos cada vez mais.
Assim, o terceiro domingo nos dá amostras concretas dessa alegria, apontando os
sinais do Natal que se aproxima. Por isso, as leituras de hoje, direta e
indiretamente, trazem explícita ou implícita essa temática. Por essa razão, neste
domingo pode ser usada a cor rosada nos paramentos litúrgicos e algumas flores
discretas poderão ornamentar o espaço sagrado, mas sempre com o cuidado de
não confundir a alegria do Natal com a alegria da preparação para o Natal.
Infelizmente há quem confunda esses dois tempos, e basta começar o Advento
para encher a igreja de luzes e até outros símbolos que nem sempre são símbolos
natalinos, cristãos, como se a igreja fosse um shopping center . Portanto, é preciso
ter cuidado com isso também, para não abortarmos o Advento achando que ele já
é o Natal, ou que o Natal é apenas comercial, como o comércio o apresenta ao

162
consumidor. Quando isso ocorre, somos acometidos de um grande equívoco
litúrgico-teológico. É como se estivéssemos vivendo uma “gravidez psicológica”,
onde se vai parir vento em vez de vida. Depois das festas do Natal não sobra nada
a não ser dívidas: dívidas no comércio, dívidas conosco e dívidas com Deus.
Assim, que a alegria desse domingo não seja confundida com as alegrias do tempo
do Natal nem com as alegrias fugazes do consumo de bens materiais. O único
presente que temos que dar para os nossos irmãos é o amor, e ele não custa nada.
Assim, neste domingo se evidencia a alegria da espera, isto é, daquele que tem
esperança, daquele que acredita que um novo tempo virá.
Nesse clima de discreta alegria temos a primeira leitura, que traz o verdadeiro
espírito do Advento. É o reconhecimento de que o Espírito do Senhor está sobre
nós, que ele nos ungiu e que ele nos enviou para dar boas notícias aos pobres, aos
que sofrem. Essa é a razão da nossa alegria. Que grande alegria nós sentimos
quando alguém nos traz uma boa notícia. Saber que Deus nos escolheu para dar
boas notícias aos que sofrem é uma alegria redobrada. Alegria de quem a recebe e
de quem a anuncia. “Eis que eu vos anuncio uma grande alegria”, diz outra
passagem bíblica que leremos em breve no Natal. Essa grande alegria começa
hoje, ao sermos ungidos e enviados até os que sofrem para dizer-lhes que seus
sofrimentos terão um fim. Como é bom ser portador de boas notícias. Infelizmente
há quem se sinta bem dando más notícias. Estes gostam de ver o sofrimento dos
outros e não a sua alegria. Mas hoje somos convidados a dar boas notícias. Talvez
muitos estejam se perguntando: mas que boa notícia eu darei? Basta continuar
lendo o texto de Isaías e encontraremos a resposta. Ao enviar para dar uma boa
notícia, essa boa notícia é resultado daquilo que nós nos propomos a fazer de bom
aos nossos irmãos. Curar os corações feridos... Quantas pessoas estão com o
coração ferido pela dor da perda de um filho, pela mágoa causada por outra
pessoa, pelas incompreensões, pela doença, pelas diversas formas de maldade
humana. Levar uma palavra de esperança, de conforto a essas pessoas é diminuir o
seu sofrimento, é curar corações feridos. Quando vamos levar essa boa notícia,
vamos levar a nossa ajuda, a nossa solidariedade, o nosso comprometimento com
essas pessoas. Tempo de preparação para o Natal é tempo de solidariedade. É
tempo em que muitos ficam com o coração sensibilizado e procuram ajudar o
próximo, dando-lhe um presente, uma cesta de natal, algo que possa tornar sua
noite de natal diferente de outras noites. Quando o nosso coração se sensibiliza, e
nós buscamos fazer algo de concreto para os nossos irmãos, estamos levando-lhes
uma boa notícia, estamos curando seus corações feridos, estamos dando boas
notícias aos pobres, enfim, estamos proclamando a libertação daqueles que, de
alguma forma, vivem nas mais variadas formas de prisão. Porém, essa libertação
será concreta se o nosso gesto for além da entrega de um bem material. Se for, de
fato, um gesto de comprometimento com a transformação da situação de

163
sofrimento do outro, esse gesto será libertador. Somente assim estaremos fazendo
gestos libertadores. Somente assim estaremos proclamando ou promulgando o ano
da graça de Deus. Com isso lembramos que, no Natal, no final de ano, desejamos
tudo de bom para nossos amigos. Esse procedimento é uma manifestação do
desejo desse ano repleto das graças de Deus, mas esse desejo precisa brotar do
fundo do nosso coração, da nossa sinceridade, e se revelar na prática, no
comprometimento de fazer com que esse desejo se torne realidade. Por essa razão,
o profeta Isaías fala de transbordamento de alegria em Deus. Quando cultivamos
no nosso coração esses sentimentos bons, ele nos veste com a veste da salvação,
nos cobre com o manto da justiça para que sejamos promotores dela. Esse é o
caminho da salvação. Que essa alegria esteja em nós e que possamos levá-la
adiante para os nossos irmãos. Com esse procedimento, nossa alegria não será
uma alegria passageira, alienada, mas uma alegria plena porque somos promotores
do Reino de Deus. Deixemos que o Espírito do Senhor aja em nós e sejamos,
assim, anunciadores de boas notícias. Notícias que alegram os corações carentes.
Nessa mesma direção vai a segunda leitura, da Primeira Carta aos
Tessalonicenses. Encontramos já no início dessa leitura um pedido de alegria. O
Apóstolo Paulo pede que sejamos sempre alegres e rezemos sem cessar. É tempo
de alegria e tempo de oração. Temos aqui outra síntese desse tempo litúrgico e da
característica deste terceiro domingo. Uma alegria orante, de espera, de
expectativa, de esperança de coisas boas que estão por vir e que já estão
acontecendo. São muitos os motivos de alegria que temos. Há muito que
agradecer. Somos ingratos quando achamos que na nossa vida não há nada que
agradecer. Infelizmente há quem só tenha olhos para as coisas negativas, para as
desgraças, e se esquecem das graças. Aqui é pedido para olharmos mais para as
graças do que para as desgraças e agradeçamos a Deus por tudo que ele nos tem
dado. É hora de fazer um balanço mais acurado, observar com atenção tudo em
nossa volta e no nosso coração, e fazer escolhas acertadas, optando pelo que é
bom e deixando de lado o que não é bom. É uma ótima sugestão para a preparação
que estamos fazendo para o Natal. Essa leitura pede categoricamente: “fiquem
longe de toda espécie de mal”. Se queremos nos preparar verdadeiramente para o
Natal, e que ele aconteça de fato na nossa vida, precisamos ficar longe das coisas
que não são de Deus. Portanto, fiquemos longe de pessoas que não pensam nas
coisas de Deus, não nos envolvamos com intrigas, fofocas, maledicências e outras
coisas que não promovem a vida. Advento é tempo de converter o coração, e a
conversão se dá quando demonstramos, por procedimentos, que estamos de fato
mudando. Mudar para melhor é um grande motivo de alegria. Assim, se você não
puder fazer nada para ajudar o seu próximo, faça algo para ajudar a mudar o que
há de mal em você. Dessa forma você já estará ajudando muita gente. É a dica que

164
Paulo traz implícita nessa segunda leitura quando pede que nos afastemos de toda
espécie de mal.
O evangelho foca a figura de João Batista, o profeta que anuncia a alegria,
preparando os caminhos do Senhor, anunciando com isso a esperança, um tempo
novo que se aproxima, e em que as estruturas arcaicas serão transformadas,
substituindo as regras da lei pelas regras do amor. João é a testemunha desse
tempo novo que se aproxima. Com seu gesto, ele nos convida a sermos também,
neste tempo de Advento, testemunhas do Natal do Senhor que vem. O testemunho
cristão é fundamental para combater os procedimentos profanos que invadem a
celebração do Natal. João não era a luz, mas testemunha da luz. Ou seja, não era o
Messias, mas testemunha dele. Nós não somos deuses, mas testemunhas de Deus,
e isso só vai ser real se nossos gestos demonstrarem isso. Não é gritando
versículos bíblicos nos lugares públicos que estamos testemunhando Cristo que
vem, mas no nosso comprometimento silencioso com as boas ações. Assim foi o
testemunho de João. As pessoas ficaram confusas, não sabiam quem ele era, mas
ele afirmava que não era o Messias nem um profeta. Era apenas uma voz gritando
no deserto. Aqui está a essência da missão de João Batista. Ser essa voz que grita
no deserto. É essa também a maneira mais eficaz de anunciarmos boas notícias;
ou seja, sendo essa voz que grita nos desertos de hoje. Voz que grita contra a
corrupção; contra as mais variadas formas de violência; contra o desrespeito à
vida; contra o descaso com os sofredores. Devemos ser vozes que gritam contra a
falta de educação, de moradia, de hospitais etc. Essa voz, esses gritos precisam ir
às ruas e anunciar que um tempo novo é possível. Esse grito profético tem muita
força e pode transformar o mundo. É esse o apelo deste terceiro domingo: sermos
vozes, como João Batista e tantos profetas de ontem e hoje, gritando no deserto.
As vozes serão ouvidas, e os desertos, transformados. Assim, estaremos
anunciando esse tempo novo do qual falam as leituras de hoje e a liturgia deste
terceiro domingo do Advento.
Que o Espírito do Senhor esteja sobre nós para anunciarmos boas notícias e que
essas boas notícias sejam resultado das nossas ações, do nosso comprometimento
com a vida.

4º Domingo
& 2Sm 7,1-5.8b-12.14a.16 | Sl 88(89) Rm 16,25-27 | Lc 1,26-38

Estamos às vésperas do Natal do Senhor. Desse modo, a liturgia desse quarto


domingo do Advento acentua o tema da preparação, convidando-nos a preparar
uma morada digna para o Senhor Jesus que vem. Desse convite surge uma série de
perguntas; cabe a nós pensar e buscar responder à luz das leituras de hoje.
O que significa construir uma morada para Deus?

165
Como deve ser essa morada?
Como devemos proceder na construção dessa morada?
Quem pode nos ajudar nesse processo de construção?
Essas e outras perguntas emergem da liturgia da Palavra, e as leituras nos
apontam as respostas.
Já vimos nos domingos que se passaram que o Advento é o tempo de preparação
para o Natal, isto é, a vinda de Jesus. Isso está bem claro para todos nós que
estamos acompanhando a liturgia da Palavra, as Missas deste tempo. Porém, resta
saber se estamos preparando corretamente essa morada. Se somos cristãos de fato,
não podemos querer recebê-lo de qualquer jeito. Precisamos arrumar nossa casa,
porque ele vem para fazer morada nela.
De que casa nós estamos falando?
Não é a casa em que moramos, no sentido literal do verbo, mas a casa do nosso
coração. Esta sim precisa ser arrumada, modificada, preparada, de modo que ele
não a encontre bagunçada pelos nossos pecados, pela nossa falta de fé e de amor
ao próximo. Infelizmente, muita gente, influenciada pelo consumo que os meios
de comunicação exaltam neste tempo, pensa que deve arrumar apenas a casa onde
mora. Por isso enfeitam-na com luzes, flores, geladeira cheia. Compram roupas
novas, presentes para trocar na noite de Natal, mas se esquecem do principal, o
coração, a alma, o ser interior. A casa está linda, pronta para receber as visitas
para a ceia, mas o coração continua o mesmo, sem revisão, sem confissão, enfim,
sem conversão, despreparado, desarrumado. A casa poderá estar cheia na noite do
Natal, mas o coração estará vazio. Quantas pessoas nessa época se lançam nas
compras, mas depois sentem um vazio enorme, sem aparente explicação. Dizem
que não gostam dessa época porque ela traz lembranças passadas, de pessoas
passadas, ou qualquer outra desculpa para justificar a tristeza de um coração
vazio. Tudo isso porque não prepararam uma verdadeira morada para o Senhor,
não ouviram os apelos da Palavra de Deus no tempo do Advento. Será que
estamos preparando o coração ou somente a casa? Como podemos preparar o
coração? Vejamos a primeira leitura e suas respostas.
A primeira leitura de hoje, do segundo livro de Samuel, mostra Davi satisfeito
porque foi ungido rei e recebeu tantas benesses de Deus. Em troca, ele quer
construir uma morada para a Arca da Aliança, isto é, para Deus. Ele se acha o
todo-poderoso, e quer construir um palácio para Deus. Davi não entende que Deus
não precisa de palácios, de moradas suntuosas. O que Deus quer é um coração
convertido, que faça o bem. Não existe morada melhor para Deus do que um
coração bom. Há quem pense como Davi, nesta época, quando o Natal se
aproxima, ou em outras épocas. Quer arrumar a casa em vez de arrumar o coração,
como foi dito antes. Há quem goste de construir igrejas belíssimas, capelas do
Santíssimo maravilhosas, mas descuida da formação para a conversão, descuida

166
da espiritualidade e da prática da caridade. Uma paróquia que só se preocupa com
a beleza do templo e não com a beleza da alma, da missão, da evangelização, está
desvirtuada dos caminhos de Deus. Temos que ter essa preocupação sempre, mas
de um modo especial neste tempo do Advento, para não reduzir a nossa
preparação para o Natal a enfeites e símbolos externos. Davi estava pensando
dessa maneira. Sua intenção era boa. Ele se comoveu ao ver que estava morando
num palácio e a Arca de Deus estava sem lugar. Através do profeta Natã, Deus
mostra o caminho e o procedimento correto a Davi, dizendo que sempre andou
com o povo, ajudando-o a atravessar o deserto, sem ter morada fixa. Depois,
escolheu e ungiu Davi para ser rei e lhe concedeu tudo o que ele tinha até então,
mas mesmo assim não caberia a este construir uma morada. Sua morada seria
construída pelo seu descendente. Temos aqui uma breve referência, indireta, a
Jesus, o descendente de Davi, que iria firmar uma nova Aliança entre Deus e o seu
povo e iria construir a verdadeira morada para Deus, através do seu corpo pregado
na cruz e nos corpos de todos os que são crucificados pelas maldades humanas. É
essa a morada de Deus. Deus mora onde a vida carece dele. Onde as pessoas
fazem a sua vontade, colocando em prática os seus mandamentos, seus
ensinamentos. É essa a lição que Deus dá a Davi e a todos nós nestes dias que
antecedem o Natal. Que saibamos construir uma morada que agrade a Deus e não
nos preocupemos apenas com coisas externas. Com a preparação de uma morada
digna dele, estaremos dando glória e louvor a Deus, como mostra a segunda
leitura, da Carta de São Paulo, Apóstolo, aos Romanos.
Nessa carta, o Apóstolo diz que devemos glorificar a Deus, pois tudo o que
temos e somos foi ele quem nos deu. Nada do que temos vem pelos nossos
méritos, mas pela graça de Deus. Muitos poderão dizer que o que têm é fruto
apenas dos seus esforços. Quem pensa assim está enganado e tomado pela
prepotência. Davi pensou assim em certos momentos e por isso achou que poderia
fazer algo para Deus, oferecendo-lhe bens materiais. Deus não precisa de bens
materiais. Ele precisa de bens espirituais. Estes sim agradam a Deus. Assim
sendo, glorificamos a Deus quando lhe oferecemos os dons, os talentos, os bens
espirituais que cultivamos no coração, que se revelam em obras de amor e
caridade. A maior glória a Deus é socorrer os necessitados, fazer o bem, se
comprometer com a promoção da vida. O mistério do Natal nos traz tudo isso, diz,
com outras palavras, a Carta aos Romanos. Essa revelação do mistério que estava
envolvido no silêncio desde os tempos eternos se manifesta no Natal, e por isso
não podemos deixar que um evento litúrgico como esse passe de qualquer jeito. É
preciso preparação, no sentido teológico do termo, para que ele nos conduza à
obediência da fé, dando nosso sim a Deus, como fez Maria, no evangelho de hoje.
O evangelho desse domingo traz o sim de Maria. Antes, porém, há todo um
processo de preparação. O Anjo Gabriel vem para preparar no coração e no seio

167
de Maria a morada de Deus. Maria, com o seu sim, passa a ser a Arca da Aliança,
cumprindo a profecia do Antigo Testamento.
Desse texto podemos extrair muitos ensinamentos para que possamos preparar a
morada do Senhor neste Natal. Podemos nos colocar no lugar de Maria e sentir
como se dá o processo de preparação. Foi dito no início do Advento que este
tempo é similar a um tempo de gravidez. E é isso mesmo! No Advento, todos nós
ficamos, ou deveríamos ficar, grávidos dessa presença de Deus em nós; é preciso
que isso se revele nos nossos atos, na nossa preparação.
Maria é uma mulher simples, comum, como tantas mulheres, como tantas
pessoas, e Deus a escolhe para ser a Mãe do Salvador. Deus age na vida de
pessoas comuns, por isso, não nos desanimemos, achando que Deus se esqueceu
de nós. Deus não se esquece dos seus filhos, como não se esqueceu de Maria e
tantas outras pessoas. Maria levava uma vida comum, mas a partir desse anúncio,
ela tem sua vida transformada. Virou celebridade diante de Deus, mas não se
aproveitou disso para se colocar como melhor diante das outras pessoas. Pelo
contrário, seu sim representou serviço a Deus. Quando dizemos sim a Deus e
aceitamos receber no nosso coração o seu Filho Jesus, significa que devemos ser
fiéis a ele e fazer tudo conforme ele nos pediu. Temos aqui o exemplo de Maria.
Ela ficou insegura, sentiu medo, mas, encorajada pelo Anjo, pela fé em Deus,
aceitou, assumiu o compromisso e levou adiante, até o fim, o seu sim com
coerência.
Com esse texto vemos que Deus entra na nossa vida, alegra-nos com a sua
chegada, nos enche da sua graça e diz para nós que está sempre conosco. É esse
sentimento que este tempo deve nos dar. Quem tem a certeza de que Deus está
com ele não desanima e não se preocupa com o supérfluo, levando adiante o seu
projeto e a coerência com o sim dado a ele. Isso não quer dizer que estaremos
isentos de preocupações e de sofrimentos, mas quer dizer que ele nos ajudará a
superar as preocupações e os sofrimentos, basta confiar. Foi o que o Anjo disse a
Maria. Disse para não ter medo que o Senhor estava com ela. Quem tem Deus na
sua vida não teme e segue adiante.
Agora, às vésperas do Natal, a liturgia da Palavra nos traz esses ensinamentos,
colocando diante de nós a figura de Davi, mostrando como devemos proceder para
construir uma morada para Deus. Coloca também em destaque a figura de Maria,
como exemplo de preparação para a morada de Deus. Maria não ficou preocupada
com a casa, tanto é que seu Filho, Jesus, nasce numa estrebaria. Ela se preocupou
com o coração. Ali Jesus encontrou uma morada digna. É essa preparação que
temos que fazer agora. Se ainda não tivermos feito, ainda há tempo. O que não
pode acontecer é chegarmos ao Natal com a casa limpa e o coração sujo. Sigamos
o exemplo de Maria e nos coloquemos diante de Deus dizendo a ele que aqui está
o seu servo e que ele faça em nós segundo a sua Palavra. Ainda dá tempo, mesmo

168
que tenhamos muitos pecados a serem corrigidos e perdoados. Para Deus nada é
impossível. Então, o que estamos esperando? Vamos dar logo nosso sim a Deus e
abrir as portas de nosso coração para que ele venha e faça morada. Eis o grande
apelo da liturgia deste quarto domingo do Advento e último domingo antes do
Natal do Senhor.

TEMPO DO NATAL
(cor: branca)
Natal do Senhor
Missa da noite
(24 de dezembro)
& Is 9,1-6 | Sl 95(96) | Tt 2,11-14 | Lc 2,1-14

Celebramos hoje a grande e esperada festa do nascimento de Jesus. A segunda


maior festa do calendário cristão. A primeira é a Páscoa. Para este momento
importante, nos preparamos durante quatro semanas. Foram semanas em que a
liturgia insistiu no aspecto da conversão como o meio mais eficaz para a
preparação. Sem conversão, não é possível ter acesso aos mistérios do Natal do
Senhor. Só um coração convertido à simplicidade desta festa consegue vislumbrá-
la naquilo que ela tem de essencial: o nascimento do Salvador. Deus que se faz
gente, um de nós, para que pudéssemos ter acesso a ele. Ele se faz um de nós da
maneira mais simples que se possa imaginar. Nasce numa situação inusitada, num
contexto de peregrinação, igual ao dos povos nômades do deserto, dos migrantes e
andarilhos de hoje. Nasce numa estrebaria porque não havia lugar para ele nas
hospedarias. Nasce embaixo das pontes, nas favelas, nas ruas porque não há lugar
para ele nas maternidades, nos hospitais, nos nossos lares. Não havia e ainda não
há lugar para ele. Não há lugar para ele nos banquetes que se promovem nesta
noite. Muitos nem se lembram que a razão da festa é o nascimento de Jesus.
Pensa-se em tudo, menos no essencial: Jesus.
Deus nos surpreende. Ao vir morar entre nós, Deus tem um único objetivo: a
nossa salvação. Para ser salvos, precisamos conhecê-lo, ter acesso a ele. Se ele
tivesse nascido num palácio, só os nobres o conheceriam. Os pobres jamais viriam
a Deus porque não há lugar para eles nos palácios. Lá eles não entram. Mas não.
Ele nasce numa estrebaria. Abaixo da linha da pobreza. Nessas condições, todos
podem se aproximar dele, principalmente os pequenos, os marginalizados,
representados pelos pastores que foram os primeiros a receber a notícia do
nascimento do Salvador. Os pastores conhecem muito bem o que é uma
estrebaria. Para conhecê-lo, os nobres teriam que se curvar, descer até o nível dos
pequenos, senão nunca o veriam. O Natal é, portanto, a festa da humildade. Nada
de luxo e ostentação de poder. O luxo, a ostentação de riquezas, os banquetes, não

169
condizem com o verdadeiro sentido do Natal do Senhor. Quem só se preocupa
com a festa pode celebrar qualquer coisa, menos o Natal do Senhor.
A primeira leitura, do profeta Isaías, o profeta da esperança que nos
acompanhou durante todo o tempo do Advento, fala que agora, com o nascimento
do Menino, o Filho que nos foi dado, tudo o que significava opressão e morte teve
um fim. Com tintas fortes, ele pinta o quadro desse tempo de horror que chega ao
fim com o nascimento de Jesus: acabou a escuridão. As sombras da morte que a
todos assustavam tiveram um fim. Não há mais jugo oprimindo o povo. As cargas
pesadas foram tiradas de seus ombros. A arrogância, o orgulho dos fiscais que
exploravam o povo também teve fim. Os sinais de morte, como as botas de tropa
de assalto, os trajes manchados de sangue, tudo foi queimado, destruído para dar
lugar à paz, à alegria e à felicidade para todos. É tempo de alegria, de festa, como
se festeja uma batalha que foi vencida. Como os ceifeiros festejam o fim de uma
colheita exuberante. O nascimento do Salvador traz esse tempo novo, e o profeta
nos convida para a festa, a alegria. Somos convidados a engrossar o coro dos
anjos e cantar: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens
por ele amados”.
A segunda leitura, da Carta a Tito, pede que nos coloquemos diante do presépio
e nos perguntemos: o que ele tem a nos ensinar? Em seguida vem a resposta: ele
nos ensina a abandonar a impiedade, a insensibilidade de nosso coração e sermos
mais generosos, mais humildes, mais humanos, mais fraternos. Ensina-nos a
abandonar as paixões mundanas, aquelas coisas que nos desgastam tanto e que, na
verdade, não têm nenhum sentido perante a grandeza do mistério de Deus. Ensina-
nos a viver de modo equilibrado, justo, com piedade. Enfim, ensina-nos a viver de
modo puro, sempre praticando o bem. A celebração, a vivência do Natal, consiste
nisso tudo.
O evangelho fala do contexto do nascimento para que não esqueçamos a
humildade e a simplicidade dessa festa. Para que nenhuma outra coisa ofusque o
essencial, Jesus nasce desprovido de aparatos técnicos e luxo. Apenas uma faixa o
envolve. É essa faixa que vai envolvê-lo, anos mais tarde, quando, ao ser retirado
da cruz, for colocado na sepultura. Um nascimento desprovido de qualquer outro
aparato para que se evidencie a criança, o Salvador. Ele é o mais importante. O
resto é mero detalhe. Quem recebe primeiro a notícia do nascimento são os
pastores, os excluídos dos excluídos. São eles os primeiros agraciados com a Boa
Notícia: “hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um salvador, que é o Cristo
Senhor”. É a síntese, o essencial da festa do Natal. Acreditar nisso é o suficiente
para que nossa vida mude totalmente. Conhecê-lo, na sua simplicidade, faz toda a
diferença. Como aos pastores, os anjos nos dizem, nesta noite: “não tenham medo!
Eu vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo”.

170
O que ainda nos amedronta e impede de encontrar com Jesus na sua
simplicidade? Talvez a sua própria simplicidade. Quantos de nós continuamos a
procurar Jesus nos lugares onde ele não está, de fato, e por isso não o
encontramos? Às vezes, até nas nossas igrejas procuramos de modo errado,
esperando encontrá-lo de outras formas que não condizem com o que ele é.
Quantos festejarão o Natal, porém continuarão vazios da presença de Jesus, como
o presépio sem o Menino?
Para encontrá-lo, é preciso que se dissipem do nosso coração o orgulho, o
preconceito, os medos que nos paralisam, a falta de justiça e de amor ao próximo,
o egoísmo, a ignorância, enfim, como diz a Carta a Tito, as paixões mundanas e a
impiedade.
Que possamos, a partir desta noite santa, nos curvar diante das manjedouras
deste mundo para visualizar o Salvador. Ouçamos a voz do anjo que continua a
ecoar em nossos ouvidos: “não tenham medo”.

Missa do dia
(25 de dezembro)
& Is 52,7-10 | Sl 97(98) Hb 1,1-6 | Jo 1,1-18 ou 1,1-5.9-14

Celebramos na noite que passou o nascimento de Jesus. A luz que veio ao


mundo, anunciada pelos profetas. Hoje, celebramos o Natal, o cumprimento da
promessa de Deus. Nasceu para nós o Salvador, o Príncipe da paz, a Luz das
luzes.
Nossas casas, a cidade, continuam iluminadas pelas luzes natalinas. São sinais
exteriores de que estamos vivendo um tempo especial. A luz que brilha hoje
ofusca todas as outras. É a luz eterna, a luz de Deus. É de luz que fala a liturgia
deste dia de Natal.
A primeira leitura, extraída do livro do profeta Isaías, fala da beleza dos pés de
quem anuncia e prega essa luz, figurada na paz. Nasceu aquele que é o Príncipe da
paz. É a sua paz que devemos agora anunciar. Uma paz que significa salvação
porque Deus agora reina no mundo, através de seu Filho, Jesus. É tempo de
alegria. Não uma alegria superficial, passageira, mas uma alegria visceral,
duradoura. Deus, através da vinda de seu Filho, consolou o seu povo, devolveu-
lhe a esperança, resgatou-o do pecado. É Deus mostrando seu poder e sua
misericórdia, diz o profeta Isaías. Revelando quanto nos ama, a ponto de vir até
nós de forma tão acessível. Aquilo que ele prometeu com palavras se concretiza.
O salmo de hoje canta a realização das promessas: “os confins do universo
contemplaram a salvação do nosso Deus”. Deus realiza prodígios – é a vitória. As
forças da morte foram vencidas. São as razões da nossa alegria. É preciso
manifestar essa alegria de alguma forma. O salmo pede que cantemos a Deus um

171
canto novo, que cantemos salmos ao som da harpa, da cítara suave. Harpas são
instrumentos natalinos. Os sons da harpa nos remetem ao tempo mágico do Natal.
São, portanto, muitos os motivos dessa manifestação de alegria que pede o Natal:
a salvação, a justiça, o amor sempre fiel de Deus agora é realidade. Todo o
resguardo do tempo do Advento explode agora numa grande festa. Os sinais dessa
alegria devem estar por toda parte nas nossas liturgias de Natal e nos símbolos que
usamos nas celebrações, como os instrumentos musicais, as flores, o branco e o
dourado, o presépio, a presença do Menino Jesus, as luzes etc. É tempo de alegria.
A segunda leitura fala dessa alegria, mostrando Deus, que fala conosco através
de seu Filho. Ele falou e fala de muitas maneiras, mas agora fala por Jesus e em
Jesus. É Deus que se fez um de nós para que pudéssemos ter acesso a ele. A vinda
do Filho significa, segundo a Carta aos Hebreus, “o esplendor da glória do Pai, a
expressão do seu ser”. Ele, o Filho, é maior que todos os anjos. É Deus na sua
segunda pessoa, presente no mundo. Todos devem adorá-lo. Adorar a Jesus
significa cumprir a sua Palavra, viver os seus ensinamentos, conformar a vida de
acordo com seus preceitos de amor e de justiça.
O evangelho deste dia de Natal fala do Verbo que se fez carne e habitou entre
nós. Deus, que no princípio era a Palavra, agora se concretiza na pessoa de Jesus,
luz do mundo. Para que essa luz chegasse até nós, foi preciso um tempo de
preparação, simbolizado pelo tempo da gravidez de Maria, o tempo do Advento e
o tempo em que João preparou os caminhos do Senhor. João é tido como um
homem enviado por Deus para preparar essa chegada que hoje celebramos. Veio
como testemunha da luz. Sua proposta era a conversão. Sem conversão, não será
possível ter acesso, conhecer a Deus através de seu Filho.
João vem anunciar essa grande luz para a humanidade. Luz no sentido de
dissipar as trevas, o poder da morte ou tudo aquilo que representasse escuridão na
vida do povo. Por essa razão, a luz é tema central da liturgia deste dia de Natal.
Cristo, como luz do mundo, como diz a antífona da comunhão: “Eu sou a luz do
mundo, quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida”.
Ao acolher essa luz como luz para a nossa vida, nós nos tornamos também
filhos de Deus. Renascemos do próprio Deus. Assim, o que era Palavra passa a ser
carne, se concretiza na nossa vida. Cada vez que recebemos a comunhão, ele
entra, literal e simbolicamente, na nossa vida e passa a fazer parte de nós.
Cabe, agora, a cada um de nós, a exemplo de João Batista, anunciá-lo ao mundo.
Recebemos essa infinita graça de Deus, que foi conhecê-lo, através do seu Filho.
Nossa missão, portanto, é anunciá-lo, como pede a primeira leitura.

Sagrada Família de Jesus, Maria e José [1]


& Eclo 3,3-7.14-17a | Sl 127(128) Cl 3,12-21 | Lc 2,22-40 ou 2,22.39-40

172
Celebrar a Família de Jesus, Maria e José é celebrar a vida de toda família,
tendo como modelo a Sagrada Família, pois em Cristo toda família é sagrada.
Assim, a liturgia da Palavra deste domingo, ainda dentro do ciclo do Natal,
ilumina nosso olhar para enxergarmos o valor de nossa família, ou de toda família,
mostrando quão importante é essa instituição. A família é a base da sociedade. É
nela que aprendemos, ou deveríamos aprender, as primeiras noções de
sociabilidade, de convívio humano, de respeito ao próximo, como viver e
conviver como irmãos. Quando a família não vai bem, a sociedade não vai bem. A
família é o “termômetro”, ou o medidor da qualidade da sociedade. Sabendo
disso, a Igreja enfatiza a importância da família e mostra o cuidado que devemos
ter com ela. Família é algo sagrado porque é dela que nascem as pessoas de bem.
Se a família está de bem e for estruturada, terá grandes probabilidades de gerar
pessoas igualmente de bem e bem estruturadas. Pessoas que respeitarão seu
semelhante, terão amor ao próximo e compaixão pelos que sofrem, sem provocar
danos aos outros. É claro que há exceções, mas a probabilidade de se ter pessoas
de bem em famílias de bem é muito grande.
Se a família é o retrato da sociedade, ou a sociedade é o retrato das famílias,
como andam as famílias de nossa sociedade? Não precisa ser um especialista em
família para enxergar que algo não vai muito bem. Para isso, vejamos os
acontecimentos da sociedade, a violência; os roubos de várias naturezas e
instâncias, desde aquele que rouba nas ruas até os que roubam dos cofres
públicos; o desrespeito para com idosos; desrespeito para com as minorias ou com
os diferentes. Mas boa parte das pessoas que praticam tais atos é “de família”.
Que família é essa? Vamos pensar sobre isso hoje, tendo diante de nós os textos
propostos para essa liturgia.
A primeira leitura, do livro do Eclesiástico, traz recomendações importantes
para as famílias de todos os tempos e de todas as categorias. Sim, hoje temos
famílias de diversas categorias ou naturezas. Não mais apenas aquele modelo
similar à Família de Jesus, do pai, mãe e filho, ou filhos, mas famílias compostas
apenas pela mãe ou somente pelo pai; famílias em que os filhos são criados pelos
avós; famílias de casais de pessoas do mesmo sexo; famílias sem nenhum pai nem
mãe; enfim, há uma gama de tipos de família. Em qualquer um desses tipos de
família, deve haver a educação para o amor e o respeito ao próximo. Se assim não
for, a família será um fracasso e não contribuirá para a sociedade, pois poderá
formar indivíduos que não saberão viver e conviver em sociedade. Por essa razão,
as recomendações dessa primeira leitura são muito importantes. Ela dá ênfase ao
respeito. Que o pai seja honrado pelos filhos. Filhos são, portanto, a honra dos
pais. Mas não basta ter filhos para que eles sejam honrados. É preciso educá-los
para isso. Os filhos honram os pais quando os respeitam, quando são motivos de
orgulho, e os pais têm grande responsabilidade nisso, através da educação dada

173
aos filhos. Quem ensina os valores cristãos, éticos e morais aos filhos terá filhos
com tais valores. Caso contrário, não se pode esperar que eles os honrem com
seus procedimentos. Os filhos devem também honrar os pais. Portanto, a
responsabilidade não é apenas dos pais. Filhos que horam seus pais alcançam o
perdão dos pecados, diz o livro do Eclesiástico. Temos aqui um destaque ainda
maior na boa relação familiar, na estrutura da família. Pessoas que buscam honrar
seus pais vão se comportar como pessoas de bem, pois saberão que seu próximo
também tem, ou teve, um pai, uma mãe, uma família, ou seja, que é humano como
ele. Quem vê o outro como igual não provoca danos a ele, pois se temos
consciência que a outra pessoa sente dor como nós sentimos não vamos querer
que ela sofra, assim como não queremos sofrer.
Recebe muitos prêmios diante de Deus quem ora, respeita seus pais, mas não
somente diante de Deus, também aqui neste mundo, pois quem leva uma vida
honrada promove uma sociedade honrada, boa de viver e conviver, e isso não tem
preço. Assim, o texto desta primeira leitura segue dando recomendações valiosas,
como cuidar dos pais na velhice. Que nobre essa atitude! A velhice é o destino de
todos os que não morrerem antes, portanto, se não for por bondade, que seja pela
preocupação com o dia de amanhã. Cuide de seus pais, principalmente se eles
estão na velhice, dependentes, e até mesmo sem a perfeição das faculdades
mentais. Mesmo que eles fiquem caducos, diz a leitura, seja compreensivo e não
os despreze. Quem despreza os pais na velhice despreza o próprio Deus. Deus vê
nossas atitudes em relação ao próximo, sobretudo se esse próximo é alguém
debilitado, carente de nossa ajuda e amor. Pensemos nisso neste dia e olhemos
com mais carinho para a nossa família.
A segunda leitura, da Carta aos Colossenses, segue nessa mesma linha, quando
nos pede que nos vistamos de sentimentos de compaixão, bondade, humildade,
mansidão, paciência. Precisamos desses sentimentos na família e na sociedade
para poder conviver como irmãos. Somente assim vamos suportar uns aos outros,
diz o Apóstolo Paulo. É assim na família, é assim na comunidade e também na
sociedade. Sem esses sentimentos e procedimentos, não vamos suportar as
fraquezas de nossos irmãos e os irmãos não suportarão as nossas fraquezas. Essa
é, portanto, outra recomendação muito importante para a vida em família. Na vida
em família, ou em comunidade, sempre vamos ter queixas contra alguém. Por
isso, e por outras razões, precisamos perdoar uns aos outros, ser compreensivos,
ter compaixão e misericórdia, caridade pastoral, enfim, fazer bem às pessoas.
Esses sentimentos, aprendemos também na família e na comunidade. Assim, a
família, a comunidade eclesial é o lugar em que devemos aprender a nos revestir
de amor, porque somente com amor vamos conseguir viver bem. O amor é o laço
da perfeição, diz o Apóstolo Paulo nessa segunda leitura. Com amor vamos sentir
a paz de Cristo que habita em nossos corações e em nossos lares. Que possamos,

174
dentro de nossas famílias, levar uma vida de oração. Quem reza unido, em família,
permanece unido dentro e fora dela.
O evangelho destaca a Sagrada Família, mostrando o cotidiano de uma família
parecida com tantas outras famílias daquele tempo e do nosso. Uma família que
cumpre os preceitos religiosos e que vive unida no amor. Essa é a base de
qualquer família. José e Maria levam o Menino para ser apresentado no templo,
conforme pedia a tradição judaica. É uma espécie de “batismo”. No batismo,
apresentamos a criança à comunidade, munida de padrinhos. Jesus foi apresentado
à comunidade com dois padrinhos: Simeão e Ana. O texto não usa esse termo. O
que faço aqui é apenas uma comparação desse gesto da Sagrada Família com os
gestos de batizados das nossas famílias. Simeão cumpre o papel de padrinho, pois
se alegra ao receber nos braços o Menino e enxerga nele o Filho de Deus.
Profetiza que ele será um divisor de águas na história da humanidade, que ele
seria causa de queda e reerguimento de todos em Jerusalém, e que uma espada
atravessaria a alma dessa família, sobretudo da mãe, no sentido da missão que
Jesus teria nesse mundo. Diz poder morrer em paz porque viu a salvação, a glória
de Deus através do Menino. Já Ana, a profetiza, também é uma espécie de
“madrinha” do Menino. Ela também divulgou a importância do Menino a todos.
Muitas vezes os caminhos que os filhos escolhem trazem muito sofrimento e
preocupação às mães. Diante de tudo isso, o comportamento dessa família é de
sintonia com Deus, colocando em suas mãos todas essas profecias e sentimentos.
Vemos, assim, uma família que confia e que reza unida, que tem muitas
dificuldades, como qualquer família, mas que se mantém firme na fé e na unidade.
Temos muito a aprender com a Sagrada Família. O exemplo de Jesus, Maria e
José deve servir para as nossas famílias. Que possamos valorizar mais uns aos
outros, em família, e assim seremos indivíduos que sabem valorizar e respeitar
seus semelhantes, mesmo que estes não sejam de sua família de sangue. Que a
pastoral familiar possa estar sempre fortalecida no trabalho com as famílias e que
as famílias de nossa paróquia se sintam membros dessa pastoral tão importante.
Que neste novo ano assumamos o compromisso de viver melhor em família.

2º Domingo depois do Natal


& Eclo 24,1-4.12-16 | Sl 147(147B) Ef 1,3-6.15-18 | Jo 1,1-18 ou 1,1-5.9-14

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”, rezamos na oração do Angelus.


Hoje, a liturgia da Palavra deste segundo domingo do Natal nos convida a refletir
sobre esse Verbo que se fez carne e veio habitar entre nós, Jesus, o Filho de Deus.
Jesus é a imagem visível do Deus invisível, “o primogênito da criação, nascido
antes de todos os séculos, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado,
consubstancial ao Pai”, como professamos a nossa fé, através do Símbolo Niceno-

175
constantinopolitano. Esse Deus consubstancial ao Pai, celebramos há alguns dias
no Natal e agora temos entre nós, imagem de Deus e nossa. Com essa alegria de
ter Deus tão próximo, somos convidados a celebrar essa grandeza teológica e
perceber como Deus nos ama.
A primeira leitura, do livro do Eclesiástico, mostra a sabedoria de Deus que
conduz a nossa vida e nos aponta o caminho a seguir, de modo que sejamos
também sábios nesse caminho rumo à Pátria Celeste. Não apenas a sabedoria no
sentido grego do termo, ou seja, intelectual, mas, sobretudo, a sabedoria teológica.
Aquela sabedoria oculta aos sábios deste mundo e revelada aos pequenos, como
vemos numa outra passagem do evangelho. O texto de hoje, dessa primeira
leitura, diz que essa sabedoria sai do Altíssimo e arma sua tenda entre nós. Deus
arma sua tenda entre nós, ou seja, vem morar entre nós. A tenda de Deus era
simbolizada no Antigo Testamento, entre outros símbolos, pela Arca da Aliança.
No Novo Testamento, Maria simbolizou essa arca e essa tenda, trazendo Jesus ao
mundo, no seu ventre, e colocando-o no meio de nós, sobretudo dos mais
humildes. Deus armou sua tenda porque nos amou e nos escolheu, nos predestinou
como herdeiros seus. Somente quem ama é capaz desse gesto. Deus dá provas do
seu amor por nós ao se fazer um de nós, exceto no pecado, para que tivéssemos
acesso a ele. Essa é a sabedoria de Deus que nos abençoou com toda a bênção
espiritual, como diz a segunda leitura de hoje, da Carta aos Efésios.
Diz essa carta que Deus nos escolheu em Cristo antes de criar o mundo. Somos
o seu povo eleito e por isso o apelo é que sejamos santos e perfeitos. Acreditar que
Deus habita entre nós é buscar corrigir falhas e pecados, e trilhar o caminho da
perfeição, ou da santidade. Essa é a proposta dessa segunda leitura. Essa perfeição
só é possível no amor. Quem ama está no caminho da perfeição. Mas não é
qualquer amor. É o amor como ele nos amou, ou seja, um amor capaz de dar a
vida pelos que necessitam dela. Somos predestinados a ser filhos adotivos de
Deus, e esse é um grande presente de amor. Temos que fazer jus a esse presente a
nós concedido. Assim, o Jesus que celebramos no Natal representa as abundantes
graças que Deus derramou em nós. Graça de sermos chamados de filhos de Deus;
graça de termos nossos pecados perdoados; graça por ele ter aberto para nós toda
a sabedoria e inteligência que vem dele; graça por nos fazer conhecer o mistério
de sua vontade, enfim, infinitas graças. Graça da sabedoria de Deus no Verbo
encarnado.
O evangelho segue a mesma linha dessas duas primeiras leituras, mostrando-nos
o Verbo eterno do Pai, Palavra que existia voltada para Deus e que Deus, na sua
infinita bondade, voltou para nós. Ao voltar para nós sua Palavra, ele se deu a
conhecer. Primeiro através dos profetas, e depois através do seu Filho Jesus.
João foi um dos últimos profetas a anunciar a encarnação do Verbo. Ele veio
para dar testemunho da luz e em nenhum momento se deixou ofuscar por ela, nem

176
assumiu o seu lugar. João foi portador da luz, mas não era a luz. Com isso, dá-nos
um exemplo de como ser portadores da luz. Se nós queremos que o Natal de Jesus
resplandeça entre nós, precisamos ser, daqui em diante, portadores da luz.
Conforme o exemplo de João Batista, durante todo o tempo do Advento, nós
anunciamos a luz. Agora devemos ser portadores dela. Seremos portadores da luz
se nossas ações forem de luz, ou seja, iluminadas por Deus, inspiradas por ele.
Quem age conforme a vontade de Deus é o anunciador dessa luz. Não basta ter
celebrado o Natal com festa. É preciso agora levar adiante esse Natal, através dos
nossos gestos de comprometimento com a vida dos nossos irmãos que sofrem,
fazendo o bem sem olhar a quem. Eis uma forma de testemunhar a luz de Cristo.
Se não agirmos assim, o mundo continuará a não conhecer a Palavra, o Verbo que
habita em nós, ou no meio de nós. É nos gestos de amor e solidariedade que
revelamos o Verbo de Deus que habita em nós. Muitos continuarão a não recebê-
lo, mas é preciso perseverança e fé. Se amarmos uns aos outros como ele nos
amou, nisso todos reconhecerão que somos de Deus e que Deus habita em nós.
Que tenhamos a sabedoria divina para anunciar sua Palavra e a presença dele
entre nós. Somente assim estenderemos o Natal do Senhor em todos os dias do
ano.

Domingo da Epifania do Senhor


& Is 60,1-6 | Sl 71(72) Ef 3,2-3a.5-6 | Mt 2,1-12

Celebramos hoje a Epifania do Senhor. Epifania significa manifestação de Deus


aos povos, ao mundo. A liturgia nos convida a perceber como Deus se manifesta,
hoje, entre nós. Quais são os sinais dessa manifestação? Como estamos reagindo
diante deles? O que eles nos ensinam? As leituras propostas para este domingo
nos dão a resposta. Antes, porém, vale lembrar a importância desta festa no
calendário litúrgico.
A Epifania era, até recentemente, uma festa popular, com importância similar à
festa do Natal. As famílias se reuniam, celebravam juntas, trocavam presentes. Era
algo grandioso, tanto no sentido religioso quanto no sentido folclórico e social.
Hoje a festa da Epifania, conhecida popularmente como “dia dos santos reis”,
perdeu muito desse significado festivo. Apenas a liturgia manteve a sua reserva
simbólica e teológica dessa festa, transformando-a em solenidade religiosa. Para o
calendário litúrgico, essa festa continua sendo muito importante. É tão importante
que em vez de celebrar no dia seis de janeiro, celebramos no domingo.
Celebramos, portanto, dentro do ciclo do Natal, a manifestação de Deus, do
Menino nascido na manjedoura de Belém, a estrela de brilho radiante, que dissipa
todas as trevas.

177
A primeira leitura, o livro do profeta Isaías, fala de uma Jerusalém iluminada
por essa luz. Uma Jerusalém que se encontrava em meio a nuvens escuras e
trevas. Agora ela está iluminada pela estrela de Deus, a luz de brilho eterno. Com
isso podemos perguntar: quais são as nuvens escuras que ainda insistem em
envolver nosso mundo, nosso país e nossa vida? Como percebemos a estrela de
Belém em meio a tudo isso?
A nova Jerusalém apresentada por Isaías reúne os filhos que vêm de longe. Ela
agora agrega, soma, acolhe. Todos que a ela se achegam são acolhidos como a
mãe acolhe seus filhos. O coração de todos fica radiante, vibrando, batendo forte,
diz Isaías. É uma alegria, uma riqueza incomensurável, antes nunca vista. É o
reconhecimento da glória do Senhor, cantada no salmo de hoje: “as nações de toda
a terra hão de adorar-vos, ó Senhor!”.
Na segunda leitura, da Carta aos Efésios, Paulo fala do reconhecimento da graça
de Deus que se revelou a essa geração com o episódio do nascimento de Jesus. A
maior graça de Deus é vê-lo presente entre nós, manifestando essa presença das
mais variadas formas, principalmente em coisas e situações simples, sem
grandiosidade. Dando-nos a oportunidade de nos achegarmos até ele, de
reconhecê-lo, de estar com ele. Com essa manifestação todos são acolhidos,
inclusive aqueles que estão distantes, os pagãos. Diz Paulo na leitura de hoje: “os
pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são
associados à mesma promessa em Jesus Cristo por meio do Evangelho” (v. 6). A
Epifania nos proporciona essa unidade na diversidade.
No evangelho, Mateus contextualiza a manifestação de Deus, a sua Epifania,
semelhante ao que o profeta Isaías anuncia na luz em meio às trevas. Neste caso,
as trevas têm nome: Herodes e suas ações. O terror que Herodes espalha é
simbolizado pelas nuvens escuras que envolvem a terra. Nascer no tempo do rei
Herodes significa nascer num tempo muito difícil, de profunda escuridão. Mesmo
assim, a estrela do Menino Deus não é ofuscada. Seu brilho chega a terras
distantes, no Oriente, e atrai os magos que vêm para adorá-lo. Eles vêm seguindo
a estrela até chegar aonde o Menino se encontra. Ao chegar próximo do palácio de
Herodes, a estrela deixa de brilhar e eles perdem o norte, o rumo. A estrela do
Menino Deus não brilha onde há maldade, perversidade, desrespeito à vida. Sem a
estrela para guiá-los, eles vão pedir informações a pessoas próximas de Herodes.
A notícia da presença deles, buscando o local onde estaria o rei dos judeus que
acaba de nascer, logo se espalha e perturba Herodes e todos os seus seguidores.
Não é para menos. Num sistema monárquico, não há dois reis. O rei ali era
Herodes. Alguém que vem e quer usurpar seu lugar, seu título, seu poder, significa
uma ameaça real, perturbação da ordem, motivo de preocupação. Herodes reúne
os sumos sacerdotes e os mestres da lei para verificar se a informação procede. E
eles confirmam: Belém não é tão insignificante quanto Herodes imagina. Nesse

178
lugar anônimo, os profetas previram o nascimento de um chefe que seria pastor de
Israel, que iria governar o mundo. Com essa confirmação, Herodes usa suas
estratégias para conter a força e o poder deste que vem para destituí-lo do seu
poder nefasto. Chama os magos e pede que confirmem o endereço onde está esse
novo rei. Ele também queria ir “adorá-lo”. Sabemos muito bem o tipo de adoração
que Herodes queria fazer. Porém, ao se afastarem do palácio de Herodes, a estrela
volta a brilhar e eles encontram o local onde está o Menino. O gesto dos magos
diante do Menino é de reconhecimento daquilo que disseram os profetas. Eles se
ajoelham diante de Maria e do Menino. Abrem seus cofres e retiram três presentes
(ouro, incenso e mirra), que simbolizam o tipo de rei que ali está. Um rei diferente
de todos os reis vistos até então.
O ouro representa a realeza de Jesus. Um rei distinto de todos os reis que até
então a história de Israel havia produzido. Um rei bem diferente de Herodes. O
segundo presente, o incenso, representa a divindade deste rei. Eles estavam diante
de um rei divino e não de um rei qualquer. O terceiro presente, a mirra, significa
que esse rei divino daria a vida pela vida dos seus. A mirra era usada para
embalsamar os corpos na ocasião da morte. Oferecer mirra significou não o
reconhecimento da morte, mas da doação da vida até as últimas consequências, a
missão desse novo rei. Depois de render-lhes essas homenagens, eles retornaram
para a sua terra, seguindo outro caminho. Um caminho pelo qual não passariam
por Herodes.
O que isso tem a nos dizer?
Diz que, uma vez percebida a manifestação de Deus, nossa vida não será mais a
mesma. Mudaremos os rumos, seguiremos outros caminhos, deixando para traz os
caminhos que não correspondem aos caminhos de Deus. Os magos têm, portanto,
muito a nos ensinar. Ensinam-nos a buscar a estrela de Belém, a segui-la, mesmo
que para isso tenhamos que enfrentar os Herodes de nossos tempos. Ensina-nos a
sermos perspicazes e perceber quando alguém quer nos ludibriar, enganar,
trapacear em nome de um suposto bem, uma suposta “adoração”, como a de
Herodes. Ensina-nos a nos colocar diante de Deus, reverenciá-lo. Ensina-nos a
abrir o “cofre” do nosso coração e oferecer-lhe os mais importantes presentes: o
amor, a justiça e a paz. É isso que ele quer de nós. É também isso que nos ensina a
liturgia da solenidade da Epifania do Senhor. Que saibamos reconhecer sua
manifestação entre nós e que esse reconhecimento provoque mudanças
significativas na nossa vida, para melhor.

Batismo do Senhor [2]


& Is 42,1-4.6-7 | Sl 28(29) At 10,34-38 | Mc 1,7-11

179
Celebrar o Batismo do Senhor é uma rica oportunidade para refletirmos sobre o
nosso batismo e a missão que nele recebemos. Batismo é compromisso, é missão.
Sem esses elementos, o batismo se esvazia. Com o batismo não apenas nos
filiamos a uma religião, mas nos filiamos a Deus. Através do Batismo, que lava os
nossos pecados, nós, purificados, nos tornamos filhos de Deus. Jesus deu o
exemplo e, como qualquer um de nós, recebeu o batismo. Ele não precisava ser
batizado, porque já era Filho de Deus, mas, a partir do momento que assumiu a
condição humana, assumiu-a em todas as suas dimensões, exceto no pecado, e por
isso não quis ser diferente. Assim, ele recebe um batismo semelhante ao nosso,
legitimando o seu significado, a sua importância.
Antes, porém, de refletir sobre o Batismo de Jesus, é importante refletir sobre o
significado do batismo. A primeira leitura oferece um belo texto que ajuda a
elucidar esse sacramento. Já vimos que, com o batismo, nós nos tornamos filhos
de Deus. Com isso, temos uma das primeiras e a maior de todas as
responsabilidades: nos comportar como filhos de Deus. Cabe aqui um
questionamento: será que estamos nos comportando mesmo como filhos de Deus?
Façamos, portanto, um exame de consciência e vejamos se as nossas atitudes
revelam essa filiação divina. Creio que muitos de nós vão ficar decepcionados ao
término dessa avaliação e perceberão que ainda carecemos de conversão.
O batismo não é um ato mágico. É, acima de qualquer coisa, um compromisso.
É um pacto que fazemos com Deus. É, portanto, compromisso com Deus, com os
irmãos, com a comunidade. Pelo batismo, fomos escolhidos por Deus, diz a
primeira leitura. Deus coloca em nós o seu agrado, sua confiança, e espera que
procedamos como filhos dele. Temos o exemplo supremo, Jesus, o Filho amado
do Pai, obediente a ele, capaz de dar a vida pelos seus irmãos. É o servo de Deus,
não no sentido de escravo, mas de quem o serve, do filho que serve o Pai no
serviço aos irmãos. Com o batismo, Deus coloca em nós o seu Espírito, para que
promovamos o direito entre as nações, ou seja, que pratiquemos a justiça. Assim,
com a filiação divina recebida no batismo, nós nos tornamos pessoas empenhadas
na missão de promoção do Reino de Deus. Não devemos, portanto, ficar
murmurando, reclamando ou querendo aparecer na missão, no trabalho na
comunidade, ou em qualquer forma de servir a Deus. É preciso coragem, firmeza
e humildade. Lutar sempre pela vida, em qualquer circunstância ou situação. Onde
existir uma esperança de vida, ali deve estar o batizado se empenhando para salvá-
la. Nisso consiste não quebrar a cana rachada nem apagar o pavio que ainda
fumega, como vimos na primeira leitura. Devemos ser o alento, o sopro para
aumentar a chama desse pavio e não apagá-lo, pois o texto se refere à chama da
vida. Há muitas vidas, cujas chamas estão se apagando. Aqui entra a missão dos
batizados, dos filhos de Deus. Fomentar essa vida, recuperando-a. Além disso, é
também missão do batizado promover fielmente a justiça, sem desanimar ou se

180
abater, pois serão muitas as causas de desânimo e abatimento. Quem assume
verdadeiramente o seu batismo não descansa enquanto não vir implantada sobre a
terra a justiça. Assim, todo batizado é alguém que não se cala diante das
injustiças, que não se conforma em ver irmãos seus sofrendo injustiças. Com o
batismo, recebemos o sopro do Espírito Santo. Deus nos recria, nos firma nesse
mundo e confirma a missão que nos confiou. Enfim, pelo batismo ele nos chama
para a justiça, tomando-nos pela mão, capacitando-nos para enfrentar os desafios
da missão.
Todos, sem distinção, são acolhidos por Deus através do batismo. Deus não faz
distinção de pessoas, diz a segunda leitura, dos Atos dos Apóstolos. Ele aceita
todos aqueles que aceitam o batismo, isto é, aceitam praticar a justiça e caminhar
nos seus caminhos, não importando quem nós somos nem o nosso jeito de ser. A
segunda leitura recorda ainda as transformações trazidas ao mundo depois do
Batismo de Jesus. A partir do seu batismo, Jesus assume sua vida pública,
mostrando com isso a essência do batismo, a missão. Por essa razão, dentro da
liturgia, começamos oficialmente o Tempo Comum com a celebração do Batismo
do Senhor. O Tempo Comum, com suas trinta e quatro semanas, traz a vida
pública de Jesus, seu caminhar até Jerusalém, enfim, sua missão. Com o nosso
batismo, também assumimos, ou deveríamos assumir, a nossa missão. Muitos
podem perguntar: como uma criança pode assumir uma missão? A criança assume
a missão através de seus pais e padrinhos. São eles que assumem a missão de
educar a criança na fé católica, de acompanhá-la e ensiná-la nos caminhos de
Deus. Essa é uma das razões de se ter padrinhos de batismo e que estes estejam
cientes e preparados para assumir tal compromisso. Vemos, assim, que, depois do
batismo, Jesus andou por toda parte, fazendo o bem e curando todos os que
estavam dominados pelo mal, porque Deus estava com ele. Assim também nós,
pelo batismo, devemos assumir nossa missão de discípulos missionários de Jesus
Cristo e fazer o bem, ir aonde há carência de pessoas que fazem o bem e ali ajudar
na implantação do Reino de Deus. Eis nossa missão de batizados. Ela começa em
casa, se estende para a comunidade eclesial e dali vai para outros lugares,
sobretudo os lugares que desafiam. Isso é ser missionário, isso é viver a missão de
batizado.
O evangelho traz a figura do Batista, João Batista. Nada mais oportuno na festa
do Batismo do Senhor, pois foi João quem batizou Jesus. Antes, porém, houve um
tempo de preparação. Às vezes reclamamos porque existe em nossas comunidades
preparação para o batismo. É comum ver pessoas querendo ser batizadas, ou
batizar alguém, mas sem passar por um tempo de preparação. Esses são os que
mais precisam de preparação, pois querem receber o batismo sem saber o seu real
significado. João Batista promoveu um tempo de preparação para o batismo. A
preparação começava pelo exemplo prático. Levava uma vida de humildade,

181
simplicidade, austeridade e fé. Assumiu um compromisso de preparar o Batismo
do Senhor, preparando outros também para esse compromisso. Anunciava a vinda
de alguém mais forte que ele. Alguém tão importante que ele, João, não se sentia
digno de se abaixar diante dele para desamarrar suas sandálias. É assim que João
preparava a chegada de Jesus, destacando uma grandeza que se dá pela
humildade. E Jesus confirma tudo isso que disse João Batista. A partir de Jesus, as
pessoas não seriam mais batizadas apenas com água, mas também com o Espírito
Santo. Por essa razão, durante a cerimônia do batismo, o batizando é ungido
também com o óleo do crisma, que representa a vinda do Espírito Santo sobre ele.
Antigamente, o sacramento do crisma era ministrado junto com o batismo. Após o
Concílio Vaticano II, a Igreja mudou essa prática, separando o dia de recepção
desse sacramento, colocando-o bem mais tarde, depois que a pessoa pudesse dizer
por si mesma que queria mesmo confirmar o batismo.
Mas, voltando ao evangelho, vemos que Jesus chegou de Nazaré da Galileia e
foi batizado por João no Rio Jordão. Junto com esse gesto carregado de
significados, outros símbolos aparecem: o céu se rasga, o Espírito Santo desce
sobre ele, Deus o apresenta ao mundo: “Tu és o meu Filho amado; em ti encontro
o meu agrado”. Todos esses gestos, reproduzimos na ocasião do batismo.
Apresentamos as crianças (ou adultos) à comunidade; elas são ungidas,
mergulhadas nas águas que purificam do pecado. Assim, a vida dos batizados é
transformada. Começa aí a missão. Jesus também começou sua missão oficial, sua
vida pública a partir do batismo.
Temos, assim, neste dia de hoje, algumas pistas para a reflexão sobre o nosso
batismo a partir do de Jesus.

TEMPO DA QUARESMA
(cor: roxa)

1º Domingo
& Gn 9,8-15 | Sl 24(25) 1Pd 3,18-22 | Mc 1,12-15

A Quaresma é o tempo favorável para a conversão. Estamos no primeiro


domingo deste tempo que a liturgia nos oferece para fazermos uma profunda
revisão de vida e assumirmos um compromisso de mudança. Serão quarenta dias
de reflexão intensa, sempre com o enfoque na conversão. Tudo isso para nos
prepararmos bem para a maior de todas as celebrações do nosso calendário
litúrgico, a Páscoa.
Neste primeiro domingo, o tema que perpassa as três leituras e o salmo é o da
purificação de nossos pecados. Deus nos dá mais uma chance, mais uma

182
oportunidade para revermos nossas falhas, nossos erros, e voltarmos para o seu
caminho, regenerados de nossas faltas, purificados de nossos pecados.
Assim, a primeira leitura, do livro do Gênesis, resgata a imagem do dilúvio
como uma forma de aliança que Deus fez com Noé para salvar a criação. O
dilúvio representa a destruição daquilo que é mal, que não tem mais salvação nem
regeneração, e a recriação ou salvação daqueles que assumem a proposta de
mudança de vida. O arco-íris que aparece depois das chuvas representou a Aliança
que Deus fez com Noé. Vale lembrar que aliança é pacto, compromisso assumido
entre duas partes. Nesse caso, Deus faz aliança com a humanidade. O fato de tê-la
salvado do dilúvio não significa que daquele momento em diante ela poderia viver
como quisesse, isto é, sem Deus. Pelo contrário, significou que Deus cumpriu sua
parte no projeto de salvação e que nós, povo salvo por ele, temos que cumprir a
nossa parte. Se não formos fiéis, haverá mais dilúvios, outros tipos de tragédia
ceifarão muitas vidas, como de fato estão ceifando. Diante disso, podemos pensar,
neste tempo da Quaresma: quais são os dilúvios que continuam a abater a terra, os
povos e animais, a criação? E quais são as causas de tudo isso? Há o dilúvio da
miséria, das desigualdades sociais, da fome, das doenças incuráveis, causados
pelo não cumprimento do pacto feito com Deus. Quando a humanidade rompe a
aliança com Deus, abre caminhos para os diversos tipos de destruição. Alguns
chegam a culpar Deus pelas tragédias que ocorrem, mas esquecem que a maioria
das catástrofes e tragédias são causadas pela imprudência humana, pelo descaso
com a obra da criação, pelo desrespeito à vida. É mais fácil culpar Deus que
assumir a culpa. Pelo comportamento inadequado de alguns, muitos inocentes
sofrem as consequências. Por exemplo, quando a natureza é desrespeitada pelos
gananciosos, provocando desmatamentos, poluindo rios, envenenando alimentos,
sonegando impostos, fomentando a corrupção, desviando verbas públicas da
saúde, moradia e educação, todos pagam por isso um preço muito alto,
principalmente os pobres, que pagam com a vida o rompimento do pacto que a
humanidade fez com Deus de cuidar da obra da criação em vez de prejudicá-la.
Tudo isso nos faz pensar nessa primeira leitura, colocando diante de nós a imagem
do dilúvio e da aliança que Deus fez com Noé. Quando a humanidade for fiel a
essa aliança, o dilúvio não voltará a destruir os seres vivos.
A segunda leitura, da Primeira Carta de Pedro, destaca que o pecado tira a nossa
vida e isso desagrada a Deus, pois ele nos criou para a vida. Assim sendo, Cristo
morreu uma vez para nos libertar do pecado. Foi o justo que deu a vida pelos
injustos. Sua morte de cruz significa a nossa redenção. O sangue derramado na
cruz lavou-nos dos nossos pecados. Com essa contundente prova de amor e de
purificação, deveríamos continuar nos esforçando para manter em nós essa
pureza. Ao olharmos para a cruz de Cristo, deveríamos recordar que ela é o
instrumento da nossa purificação e nos esforçar para nos manter puros de corpo e

183
alma. Rebeldes que somos, ele nos torna santos e perfeitos, filhos de Deus, pelo
seu sangue derramado na cruz. Assim, como o dilúvio foi uma tragédia, embora
necessária para purificar a humanidade do pecado, a morte de cruz foi também
uma tragédia sem precedente, mas necessária para salvar a humanidade. É Deus,
mais uma vez, mostrando quanto nos ama. E nós, o que estamos fazendo para
demonstrar o amor que temos por ele e por nossos irmãos? Creio que ainda muito
pouco. Não vamos perder essa oportunidade da Quaresma para a nossa conversão,
para podermos mostrar com atos que estamos no caminho da conversão, da
mudança de vida, buscando viver conforme os ensinamentos de Deus. Pedro
recorda nessa segunda leitura que as águas do dilúvio representaram o batismo
que nos salvou. Cabe a nós seguir esse caminho de santidade e pureza que nos foi
apontado nessas duas leituras.
O evangelho apresenta Jesus sendo impelido para o deserto. Deserto é lugar de
aridez, portanto, de desafios. É nos momentos de desafio que testamos nossa fé,
nossa sintonia com Deus. Quem não está preparado sucumbe nos momentos de
deserto da vida. Jesus permaneceu no deserto durante quarenta dias. Nós estamos
iniciando uma caminhada Quaresmal que significa nossos quarenta dias de
deserto. Durante esses quarenta dias, seremos colocados diante de grandes
tentações, questionamentos e desafios. Como lidaremos com eles? Jesus foi
tentado por Satanás no deserto. No deserto de nossa vida, somos também tentados
constantemente por Satanás, mas nem sempre temos a resistência de Jesus. Falta-
nos força porque nos falta a fé. E falta-nos a fé porque nos deixamos conduzir por
coisas que não são da vontade de Deus. Depois dos quarenta dias de deserto, que
foram para Jesus como uma espécie de batismo, ele volta para a Galileia e prega a
Boa Notícia. Ele volta num contexto de grandes desafios, perseguição e morte.
João Batista tinha sido preso. A prisão de João Batista representou o
prolongamento do deserto de Jesus. Ele teria que continuar a lutar contra as forças
da morte. Assim, diante desses grandes desafios da missão, Jesus chamou
discípulos, pessoas que iriam ajudar nessa empreitada de combate à morte. Os
discípulos chamados responderam prontamente e seguiram Jesus.
Hoje, no início dessa caminhada de deserto, ele também nos chama. Temos que
fazer como fizeram os discípulos Simão e André, Tiago e João: deixar nossas
barcas, nossas redes, para entrar na barca de Jesus e assumir a rede dele. É esse o
momento de mudança, de conversão. O chamado nos é feito, cabe a cada um de
nós responder com solicitude. Eis o grande desafio dessa Quaresma.
Que possamos deixar que Deus lave os nossos pecados e nos purifique para a
vida. Que possamos responder prontamente ao chamado de Jesus e segui-lo nessa
árdua missão. Eis um tempo de conversão. Não percamos essa oportunidade.

2º Domingo

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& Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18 Sl 115(116B) | Rm 8,31b-34 | Mc 9,2-10

No segundo domingo da Quaresma, a liturgia nos traz o tema da transfiguração


do Senhor, como um apelo a transfigurarmos a realidade que está em nossa volta,
para que ela revele a presença de Deus. Para que isso aconteça, é preciso fé,
confiança em Deus e oferecer-lhe o que temos de mais sagrado. Somente vamos
reconhecer o Cristo transfigurado e, assim, transfigurar para o mundo e com o
mundo, se houver em nós uma entrega total, resultado de nosso amor e de nossa fé
em Deus. É o que nos mostra a liturgia da Palavra de hoje.
Na primeira leitura, do livro do Gênesis, encontramos um dos atos de fé mais
contundentes. Abraão, que oferece a Deus o seu único filho. Não era um filho
qualquer. Era um filho nascido da promessa de Deus. Era a única esperança de
Abraão de descendência, mas Deus pede que ele o ofereça em sacrifício. Temos
aqui a prova mais difícil de Abraão para provar a sua fé. Esse episódio nos leva a
avaliar a nossa. Estamos na travessia do deserto Quaresmal. Tempo de avaliar a
nossa fé, colocando-nos diante da aridez de nossa vida. Nesse tempo oportuno,
Deus nos concede a graça de olharmos à nossa volta, em nosso interior e avaliar
quais são os nossos valores e em quem depositamos nossa confiança, e assim
perceber que lugar Deus ocupa na nossa vida. Abraão foi testado diversas vezes,
mas prova como essa ele ainda não tinha tido. Quem de nós teria coragem de
sacrificar o próprio filho em nome de Deus? É claro que Deus não quer isso de
nós, mas esse exemplo nos é colocado para enfatizar que não há nada mais
importante do que Deus, e quando o amamos de todo coração, com toda a nossa
alma, ele se revela na nossa vida de modo surpreendente. Abraão fez conforme
Deus havia pedido, porém, não sem dor no coração, pois ali estava o seu bem
mais precioso nesse mundo, o seu único filho. Se imaginarmos a cena de um pai
levando o filho para o sacrifício, em nome de sua fé, é algo paradoxal e
extremamente perturbante. Mas Abraão tinha tanta confiança em Deus que sabia
que ele não permitiria tal coisa, como de fato não permitiu. Ele provou sua fé em
Deus e Deus o abençoou, multiplicando a sua descendência como as estrelas do
céu e a areia da praia.
Na segunda leitura, da Carta aos Romanos, vemos que agora é Deus quem
oferece seu único Filho por nós. A cruz de Cristo é o amor de Deus elevado ao
extremo. A obra mais estupenda do amor de Deus, como disse São Paulo da Cruz.
Quem ama é capaz de oferecer seus bens mais preciosos. Quem ama a Deus é
capaz de oferecer-lhe a própria vida. Por essa razão, não devemos temer, diz a
Carta aos Romanos, pois se Deus é por nós, quem será contra nós? Quando temos
essa confiança que Deus é por nós, que Deus está conosco, não tememos as
adversidades da vida e da missão, os desafios que enfrentamos na vida. Basta
colocarmos nossa vida nas mãos de Deus que ele a conduzirá conforme sua

185
vontade. Ele nos levará ao cume da montanha sagrada e lá se revelará a nós, como
fez Jesus com alguns de seus discípulos.
No evangelho de hoje, encontramos a clássica cena da transfiguração do Senhor.
Esse episódio nos leva a refletir sobre várias situações, sobretudo a nossa fé e a
maneira como nos relacionamos com Deus. Essa fé que muitas vezes precisa de
sinais para ser fortalecida. No texto de hoje, vemos Jesus, que toma consigo
Pedro, Tiago e João e os leva, sozinhos, a um lugar à parte, sobre uma alta
montanha. Esse primeiro versículo suscita alguns questionamentos que nos
ajudam a aprofundar a reflexão e o entendimento da transfiguração. Por que
Pedro, Tiago e João, e não os outros? Por que um lugar à parte? E por que esse
lugar à parte era uma alta montanha? É importante lembrar que esses três
discípulos tiveram algumas atitudes que revelaram uma necessidade especial de
conhecer quem Jesus era de fato e qual a sua missão. Pedro tinha dificuldade de
entender o projeto de Jesus. Amava muito Jesus, como muitos de nós, cristãos,
mas também, como muitos de nós, ele se equivocava com os ensinamentos do
mestre. Quando Jesus disse a Pedro que ia sofrer muito, ser crucificado e morto, e
que ressuscitaria no terceiro dia, Pedro quis desviá-lo do sofrimento, desviá-lo da
cruz, ou seja, desviá-lo dos planos de Deus. Pedro não havia entendido que Jesus
teria que passar pela cruz para vencer a cruz. Nessa ocasião, Jesus disse que não
pensava nas coisas de Deus, mas dos homens, e que, se continuasse pensando
assim, seria pedra de tropeço na sua vida. E disse mais, disse para ele ir para longe
dele, chamando-o de Satanás, pois ele não pensava como Deus queria que ele
pensasse. Além disso, Pedro enxergava em Jesus o Messias da concepção judaica
e não o Cristo que veio para dar a vida para que todos tivessem vida. Em outro
momento, quando Jesus lavou os pés dos discípulos, Pedro, não entendendo o
gesto, não quis permitir que Jesus lavasse seus pés. E Jesus disse-lhe que, se ele
não lavasse seus pés, Pedro não teria parte com ele. Depois Pedro quis que Jesus o
lavasse todo, mostrando mais uma vez o seu não entendimento do gesto de Jesus,
que não era apenas um gesto de purificação, mas um gesto de serviço. E há
também o episódio da negação de Pedro. No momento em que Jesus mais
precisou dele, ele disse que não o conhecia. Assim sendo, Pedro carecia de ver
Jesus na sua transfiguração.
Por outro lado encontramos os dois irmãos, Tiago e João. Eles queriam seguir
Jesus para obter um lugar de destaque quando Jesus estivesse na sua glória. Ou
seja, também não tinham entendido o projeto de Jesus. Diante dessa atitude, é
preciso presenciar a transfiguração de Jesus para poder segui-lo de modo
diferente, doando a vida, por amor, e não apenas buscando benefício próprio, ou
por interesses. Quantas pessoas estão na Igreja não para servir, mas por outros
motivos? Percebemos isso pela maneira como essas pessoas procedem em relação
ao seu semelhante e com o próprio Deus.

186
Desse modo, hoje todos nós somos chamados a ir com Jesus ao alto dessa
montanha e lá fazer com ele a experiência da transfiguração. Essa montanha pode
ser a nossa comunidade, onde celebramos a Eucaristia. Podem ser os lugares de
desafio que nos cercam, ou que estão geograficamente longe de nós, mas que
clamam pela nossa ajuda. Pode ser a pessoa do irmão que sofre, ou as várias
situações que nos são colocadas na nossa vida, que mexem com nossa estabilidade
ou nossos sentimentos. São “montanhas”, no sentido figurado do termo, para as
quais constantemente somos impelidos a ir e fazer a experiência da transfiguração.
Elas nos fazem enxergar as muitas coisas que precisam ser transfiguradas, mas só
serão se antes transfigurarmos nossa maneira de crer em Jesus, enxergando nele o
próprio Deus no meio de nós. Sem essa certeza, não faremos grandes mudanças na
nossa vida, nem na vida dos nossos semelhantes, nem na realidade que nos cerca.
Assim sendo, a montanha é lugar de desafio e de encontro com Deus. Todas as
vezes que encontramos na Bíblia referências à montanha, ou aos seus derivados,
devemos saber esses dois significados. Desse modo, levar esses discípulos à
montanha é levá-los ao encontro com Deus na pessoa de Jesus, e encontrar-se com
Deus significa ter consciência dos desafios da missão. Jesus os leva ao alto de
uma montanha e se transfigura diante deles. Transfigurar é mudar de figura. É
passar de uma imagem para outra. Ou seja, até então esses discípulos, e muitos
outros, enxergavam nele apenas um profeta, ou o Messias da concepção judaica,
aquele que viria para transformar o mundo e todas as coisas sem a ajuda deles –
enfim, um Messias mágico. Então, com a transfiguração, eles tiveram outra
concepção de Jesus. Ele é o Messias, o Filho amado de Deus, e é preciso que sua
voz seja escutada, obedecida. Quem pediu isso foi o próprio Deus Pai. Assim, a
transfiguração é a revelação de Deus àqueles que ainda não tinham muita clareza
de quem ele era. Muitos de nós, ainda hoje, estão carecendo da transfiguração de
Jesus, pois não são poucos os que o seguem equivocadamente. O mundo, mais do
que nunca, precisa dessa transfiguração.
Na transfiguração temos alguns símbolos: roupas brancas, brilhantes,
transparentes, símbolos daquele que iria alvejar suas vestes com sangue, dando a
vida pela vida dos seus. Essa transparência revela a sua transcendência. Jesus não
foi apenas humano. Se assim fosse, não passaria de um profeta. Mas ele se
mostrou muito além do humano. Mostrou-se divino, o Filho amado de Deus,
confirmado pelo Pai. Junto com ele apareceram Elias e Moisés, simbolizando as
leis e os profetas. Ele não veio para abolir as leis, mas para lhes dar pleno
cumprimento. Ele é também profeta e daria continuidade à missão dos profetas,
suscitando outros profetas e sendo ele também profeta nas suas ações, enquanto
estivesse neste mundo. Por isso, todo discípulo, todo batizado, recebe também a
missão profética de transformar, transfigurar, mudar de figura certas realidades

187
que carecem dessa transfiguração. Assim, ele apresentou aos seus discípulos qual
era a sua missão. A transfiguração revela também a nossa missão.
A transfiguração revelou também a grandeza de Deus em Jesus, e isso é
maravilhoso. Maravilhados com todos esses acontecimentos, os discípulos
queriam eternizar esse momento, armando ali as suas tendas. Porém, não era esse
o objetivo da transfiguração. Era fazer com que os discípulos, conhecedores de
quem era Jesus, levassem adiante a sua missão, desarmando as suas tendas, isto é,
não se acomodando. Pedro, mais uma vez, não sabia o que estava dizendo, por
isso pediu para armar ali a sua tenda, junto com os demais. Foi preciso que Deus
Pai interferisse nessa cena e apresentasse Jesus, pedindo que eles o escutassem.
Escutar Jesus é levar adiante sua missão, indo ao encontro dos necessitados e das
realidades necessitadas, para transformá-las. É esse o apelo da transfiguração do
Senhor. Não dá para participar dessa celebração sem sair dela transfigurados, ou
com o coração ardendo pelo desejo de transfigurar o mundo, conforme a proposta
de Jesus.
O evangelho mostra no final que, de repente, eles olham em volta e não veem
mais ninguém, a não ser Jesus com eles. Agora começa a missão. Jesus está com
eles, e eles estão com Jesus. A partir desse momento, eles enxergaram Jesus de
outra maneira. E enxergando de outra maneira, tiveram procedimentos diferentes,
mais sintonizados com a proposta de Jesus. Eis o apelo desta celebração: enxergar
Jesus como o Filho amado de Deus e escutar o que ele diz. É disso que o mundo
está precisando. É disso que nós estamos precisando. Há muito cristão que não
consegue enxergar em Jesus o Filho amado do Pai, e por isso tem procedimentos
que não condizem com o ser cristão. Temos que descer da montanha, isto é, sair
de nossas celebrações com o ardente desejo de anunciá-lo, através de nossa
postura missionária e não apenas contando o que vimos e vivemos. Não apenas
com uma prática religiosa intimista, sem compromisso com a vida.

3º Domingo
& Ex 20,1-17 ou Ex 20,1-3.7-8.12-17 Sl 18(19) | 1Cor 1,22-25 | Jo 2,13-25

O terceiro domingo da Quaresma traz para a nossa reflexão o tema do zelo pela
casa de Deus como meio que nos conduz a ele, isto é, à salvação. Esse tema tem
muitos desdobramentos; é possível extrair dele muitos ensinamentos para o nosso
crescimento na fé e na vivência do verdadeiro sentido de ser Igreja. Diante desse
tema medular do evangelho de hoje, cabe-nos perguntar: em que consiste esse
zelo pela casa de Deus? Zelo significa, entre outras coisas, cuidado, atenção,
vigilância, temas que são sinônimos e que estão presentes nesse tempo litúrgico da
Quaresma, quando estamos nos preparando para a Páscoa. Assim sendo, não
podemos perder de vista esse fio condutor da nossa reflexão, ou chave de leitura.

188
Jesus diz: “o zelo pela tua casa me consome”. Jesus se deixa consumir pelo zelo
da casa de Deus e nos ensina a fazer o mesmo. Todo cristão deve se consumir pelo
zelo da casa de Deus, e zelar pela casa de Deus é zelar por aquilo que pertence a
Deus.
E o que pertence a Deus?
Não vamos imaginar apenas o templo, a igreja prédio, mas a Igreja corpo,
figurada nas pessoas. Zelar pela casa de Deus é em primeiro lugar zelar pela vida.
Eis a nossa missão primordial: zelar pela vida de todos, sobretudo daqueles cuja
vida corre perigo, ou que não está sendo respeitada. Por essa razão, temos os
Mandamentos da Lei de Deus, que são mandamentos que defendem a vida. É o
que vemos na primeira leitura. Essa leitura traz os dez Mandamentos da Lei de
Deus e explica cada um deles passo por passo, elucidando a atitude de zelo de
Jesus que encontramos no evangelho de hoje.
Assim, a primeira leitura, que é do livro do Êxodo, faz uma profunda reflexão
sobre os dez Mandamentos. Todos eles se voltam, em primeiro lugar, para a vida e
depois para as coisas e situações que cercam a vida. Assim vemos Deus, as
pessoas, as relações sociais e religiosas, as atitudes das pessoas e da sociedade.
O primeiro mandamento diz respeito a Deus. Ele deve estar em primeiro lugar
na nossa vida. Quem coloca outras coisas ou pessoas no lugar de Deus, em sua
vida, desrespeita não apenas a Deus, mas ao próximo, pois quem não tem Deus e
não o respeita dificilmente respeitará seus semelhantes. Por essa razão esse é o
primeiro mandamento: “amar a Deus sobre todas as coisas”. Tudo o que temos
vem de Deus, e devemos amá-lo e honrá-lo em primeiro lugar. Sem Deus, não
somos nada e nada podemos. Acho significativa a expressão comumente usada
pelo nosso povo diante de algum projeto ou ação: “se Deus quiser”. Mostra a
importância de Deus em nossa vida. Não basta querermos, é preciso que Deus
também queira. Por isso rezamos, na oração do Pai-nosso: “Seja feita a tua
vontade assim na terra como no céu”. Ou seja, é a vontade de Deus que deve ser
feita, e não a nossa vontade, pois a nossa vontade nem sempre coincide com a
vontade de Deus. Há muita coisa que queremos, mas que não é da vontade de
Deus. Cabe pensar sobre isso quando as coisas não dão certo, e que por isso
ficamos lamentando contra Deus, ou contra a situação. Deus quer sempre o nosso
bem, e se algo não deu certo naquele momento, é porque ainda não era o
momento, ou não era da vontade de Deus. Deixar-se guiar pela vontade de Deus
nos faz mais seguros, confiantes, e não sofremos tanto com as perdas, com os
supostos fracassos, ou com as coisas que não saem de acordo com os nossos
planos ou vontades. Basta entregar nas mãos de Deus e fazer a nossa parte. Se for
da vontade dele, ele fará a sua parte e o projeto se concretizará. Assim sendo,
amar a Deus acima de tudo é colocar tudo o que fazemos e a nossa vida nas mãos
de Deus, e não colocarmos nada em seu lugar. O mundo está cheio de propostas

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tentadoras, que em todo momento buscam excluir Deus e valorizar em demasia o
ser humano, como se fôssemos deuses, ou as coisas, como se fossem melhores
que Deus. Porém, o resultado disso é sempre catastrófico e se reflete num mundo
de pessoas frustradas e sem esperança, pessoas escravas de seus próprios desejos.
Deus continua querendo nos tirar da escravidão, mas muitas vezes insistimos em
permanecer nela, pois ainda não percebemos a importância dele na nossa vida.
O segundo mandamento pede que não pronunciemos o seu santo nome em vão.
Há muitas maneiras de pronunciar o nome de Deus em vão, e uma delas é querer
instrumentalizar Deus de acordo com nossas vontades. Criamos muitas vezes um
Deus à nossa imagem e semelhança e queremos que ele faça sempre a nossa
vontade, mesmo que essa vontade seja absurda e injusta. Usar o nome de Deus em
vão é dizer que professa uma fé, que comunga, mas na prática fazer o contrário do
que pede a fé professada ou a comunhão recebida. Nossas igrejas estão cheias de
pessoas que tomam o santo nome de Deus em vão, pois se dizem religiosas, mas
fazem mal aos semelhantes, são injustas ou omissas diante das necessidades de
quem precisa. Tomar o nome de Deus em vão não é apenas pronunciar o seu
nome inadequadamente, mas usar o seu nome para justificar coisas e situações
injustas. Há quem usa a Palavra de Deus para manipular as pessoas, extorqui-las
ou para justificar atos que não são de Deus. Por isso, todo cuidado é pouco.
Quando fazemos isso, estamos profanando seu nome e seu templo santo, como
mostra o evangelho de hoje.
O terceiro mandamento trata do descanso. Devemos cuidar de nosso corpo,
templo santo de Deus, descansando no dia do Senhor e aproveitando esse dia para
nos dedicar exclusivamente a ele, através da prática de nossa fé. No nosso caso
esse dia é o domingo. Domingo é o dia do Senhor. Devemos dedicar esse dia a ele
e santificá-lo, participando da Santa Missa, comungando com ele, abastecendo a
nossa fé, nosso corpo e alma, para que seja uma semana abençoada. Há uma
expressão que diz: “domingo sem missa, semana sem graça”. Esse trocadilho
mostra que, quando vamos à missa aos domingos, nossa semana se enche da graça
de Deus. Ao contrário disso, a vida perde a graça em todos os sentidos quando
excluímos Deus dela, ou quando o colocamos em segundo plano. Por isso, o
descanso semanal, além de ser lei, é dever religioso, pois o corpo precisa de
descanso. Quem não descansa se torna escravo do trabalho, e Deus não quer ver
ninguém escravizado. É o que vemos no início dessa primeira leitura: “Eu sou
Javé seu Deus, que fiz você sair da terra do Egito, da casa da escravidão”. São
muitos os que vivem ainda na casa da escravidão porque lhes são roubados os
domingos, ou porque usam o domingo para fazer outros trabalhos, ou coisas
ilícitas, em vez de se dedicar a Deus.
O quarto mandamento acentua a honra aos pais. Os pais são os primeiros
representantes de Deus (ou pelo menos deveriam ser). Eles nos deram a vida;

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devemos honrá-los em primeiro lugar por isso. Como honramos a Deus, que nos
deu a vida, devemos honrar nossos pais, que também nos deram a vida. Mesmo
que eles não sejam os pais ideais, devemos fazer todo esforço para honrá-los,
respeitando-os, cuidando deles, pois eles cuidaram de nós na infância. Quem
honra seus pais recebe bênçãos de Deus, diz o mandamento, tendo sua vida
prolongada.
Em seguida, encontramos o mandamento que está no centro dos dez
mandamentos: não matar. Não matar não significa apenas não tirar literalmente a
vida de alguém, ou a nossa própria vida, mas também as mortes no sentido
figurado do termo. Há muitas maneiras de se matar alguém. Matamos uma pessoa
quando de alguma forma contribuímos para diminuir sua vida, seja por palavras
ou por ações; matamos as pessoas com a nossa língua, quando espalhamos
fofocas, maldades sobre alguém; quando prejudicamos alguém intencionalmente;
quando nos omitimos diante de situações que atentam contra a vida de outros,
como quando sabemos que algo vai prejudicar alguém e não fazemos nada para
combater; quando defendemos ou nos omitimos nos casos ligados ao campo da
ética e da bioética (aborto, eutanásia). Enfim, há muitas formas de matar; devemos
estar atentos a todas elas para não deixar de cumprir esse quinto mandamento.
O sexto mandamento fala do adultério. É um tema polêmico. A pessoa adúltera
rompe a aliança com seu cônjuge e com Deus. Portanto, desrespeita a vida, viola o
templo sagrado do corpo e faz dele um antro de ladrões, como mostra o
evangelho, num sentido figurado. Esse mandamento não tem apenas uma carga
moral, mas também ética e teológica. O adultério é um desrespeito à vida e por
isso deve ser combatido. Isso em defesa da família, bem precioso que todos nós
devemos preservar.
O sétimo mandamento fala de não roubar. O roubo é também um pecado
gravíssimo, pois de alguma forma atenta contra a vida. Há muitas maneiras de se
roubar e muitos são roubados, ou roubam sem perceber. Esse mandamento
condena não apenas os atos individuais, mas também de sistemas sociais que se
firmam a partir do roubo. Basta olhar para o cenário político de nosso país que
enxergaremos um quadro dantesco de roubos, com consequências catastróficas
para todos, sobretudo os mais fracos. Esse pecado agride profundamente a Deus,
como Jesus se sentiu agredido no evangelho de hoje, quando viu o templo
transformado num covil de ladrões. A atitude de Jesus no evangelho de hoje é
uma atitude enérgica. Essa deve ser a atitude de todo cristão diante do roubo e do
desrespeito à vida. É preciso “virar a mesa”, ou seja, mudar essa situação, essa
história de roubos e mais roubos que desqualifica a vida de muitos, colocando-os
na miséria e em situações de morte.
O oitavo mandamento fala do falso testemunho. O falso testemunho abarca uma
série de situações. Entre elas, quando falamos mal dos outros; quando nossos atos

191
não correspondem ao que se espera de um cristão; quando compactuamos com
sistemas ou pessoas opressoras; quando somos incoerentes, professando uma fé e
agindo de modo contrário a ela.
E, por fim, o nono e o décimo mandamentos, que tratam de um tema similar:
eles condenam a cobiça, a inveja de todas as formas. A inveja é a causa de muitos
males. Quem é invejoso tem em seu coração a semente do mal, pois é tentado em
todo momento a prejudicar seus semelhantes. As pessoas invejosas são frustradas
e fazem de tudo para que os outros vivam o mesmo inferno que elas vivem. Elas
estão também dentro de nossas comunidades eclesiais e, em nome de sua
frustração, têm atitudes que prejudicam a outros. Essas são comumente pessoas
rancorosas, insatisfeitas, maldosas. Elas cobiçam e, por não terem o que cobiçam,
fazem de tudo para atrapalhar aquele que é alvo de sua cobiça. Assim, temos hoje
os mandamentos como referência fundamental para a nossa prática cristã e
vivência de nossa fé rumo à Páscoa do Senhor. Esses mandamentos norteiam as
demais leituras deste domingo.
A segunda leitura, da primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, traz um tema
estritamente passiológico, isto é, ligado à Paixão de Cristo. Viver a fé cristã é
pregar Cristo crucificado. Pregar Cristo crucificado é pregar um Cristo
comprometido com a vida até as últimas consequências, e não apenas um Cristo
doce, fácil de ser seguido. Comprometer-se com esse Cristo é comprometer-se
com a vida de todos os que sofrem e, por isso, combater qualquer forma de
injustiça, sobretudo aquelas que atentam diretamente contra a vida. A cruz de
Cristo é o sinal mais contundente desse comprometimento. Quem quer ser cristão,
mas ignora a cruz de Cristo, não pode dizer que é cristão. Quem se diz cristão,
mas crucifica seus irmãos por atos e palavras, deveria ter vergonha de dizer que é
cristão. É escandaloso ser cristão e não se comprometer com os crucificados de
hoje. Foi preciso o escândalo da cruz para que os escândalos do mundo fossem
combatidos. Eis o compromisso dessa segunda leitura de hoje.
Por fim, o evangelho sintetiza tudo o que vimos acima, apresentando um Jesus
que se choca com as atitudes das pessoas que se diziam religiosas, mas que tinham
práticas que contradiziam a religião. Pessoas que usavam a própria religião e os
espaços sagrados para explorar a outros. A atitude de Jesus é uma atitude de
profundo zelo à casa de Deus. Ele nos ensina com esse gesto a zelar pela casa de
Deus e por todos os que representam seu templo santo, isto é, as pessoas, a vida, a
obra da criação. Tudo o que é de Deus merece o nosso respeito, e quem não
respeita as coisas de Deus e as pessoas também não merece respeito. Que a atitude
de Jesus nos ajude a ser fortes e corajosos para enfrentar as situações de corrupção
e maldade que imperam dentro e fora da Igreja.

4º Domingo

192
& 2Cr 36,14-16.19-23 | Sl 136(137) Ef 2,4-10 | Jo 3,14-21

Neste quarto domingo da Quaresma, a liturgia da Palavra coloca diante de nós,


para a nossa reflexão, a infinita misericórdia de Deus, mostrando que Deus é
infinitamente amoroso e misericordioso, mas que devemos fazer a nossa parte.
Quem não quer se converter, isto é, quem não mudar de vida, sofrerá as
consequências de seus atos inconsequentes. E aí não adianta colocar a culpa em
Deus, pois ele faz de tudo para que sejamos salvos, para que tenhamos vida plena,
mas nem sempre sabemos aproveitar as oportunidades que Deus nos concede. A
Quaresma é uma dessas oportunidades. Esse é o tempo de revisão de vida mais
importante, tempo de fazermos um balanço de nossos procedimentos e acertar o
que precisa ser acertado, corrigindo nossas falhas, nossos pecados, os desvios de
nossa vida e de nossa conduta. Enfim, é tempo de conversão, como vimos no
primeiro dia da Quaresma, quando nos foi pedido para rasgarmos o nosso coração
e não as nossas vestes. Assim, a liturgia de hoje fala de conversão, trazendo
exemplos que nos ajudam a fazer esse caminho de volta ao Pai, como fez o filho
pródigo.
A primeira leitura, do segundo livro das Crônicas, traz o exemplo de um povo
que não soube ouvir a voz dos profetas e, em consequência disso, foi exilado na
Babilônia. Hoje existem muitas Babilônias, que são as coisas e situações que nos
escravizam e nos distanciam de Deus. Elas são resultado da nossa desobediência a
Deus, por não sabermos ouvir a voz dos profetas de nossos tempos, que
continuam a nos alertar de diferentes maneiras. Vimos, nessa primeira leitura, os
crimes cometidos pelos poderosos e pelo povo. Quando os que deveriam dar
exemplo cometem crimes, o povo comumente também segue pelo mesmo
caminho. Numa sociedade em que os políticos e demais poderosos são corruptos,
não se pode esperar outro tipo de comportamento do povo, pois a maioria
daqueles que nós escolhemos para governar nosso país e dirigir instituições
públicas são pessoas que antes cobravam de outros. Assim, vemos que conversão
é também educação moral e ética, ter princípios, valores cristãos e não apenas
suposta atitude religiosa. Há muitos que estão no poder e se dizem religiosos.
Alguns chegam mesmo a fundamentar suas ações na Palavra de Deus, justificando
seus atos, ou ludibriando o povo com discursos supostamente religiosos. Porém, é
pelos atos que se revela quem são as pessoas. No caso da primeira leitura, tais
pessoas, em vez de ouvir a voz dos profetas, ignoram e aumentam seus crimes,
imitando as abominações de outras nações. Somos peritos em imitar os outros nos
seus erros, e isso revela uma falta de princípios. Quem tem atitudes ilícitas porque
outros também têm, achando que não será punido, poderá, em algum momento,
pagar por isso. É o que mostra essa primeira leitura. Eles profanaram o templo,
cometeram outros atos que desagradavam a Deus, mas Deus, na sua grande

193
misericórdia, enviou mensageiros, um após o outro, querendo poupar seu povo e
sua habitação, mas não houve jeito. Eles não se converteram e continuaram
cometendo erros. As consequências não tardaram a chegar. Os caldeus vieram e
destruíram tudo, levando-os para o exílio na Babilônia, a fim de servirem como
escravos. Levaram todos os que conseguiram escapar com vida, porque muitos
morreram. Essa situação ajuda a ilustrar a situação que vivemos hoje. Até quando
vamos viver num mundo de corrupção e desrespeito à vida? Até quando vamos
continuar surdos aos mensageiros que Deus constantemente nos envia, a fim de
nos alertar contra nossos erros e os erros daqueles que estão no poder? É o
momento oportuno para refletirmos sobre tudo isso e buscar mudar de vida e
ajudar outros a fazer o mesmo.
Não podemos ignorar esse Deus rico em misericórdia, diz a segunda leitura. Até
quando ele vai nos socorrer? Não podemos abusar da misericórdia de Deus. Seu
amor por nós é grande, mas grande também deve ser o nosso empenho em fazer
jus a esse amor grandioso. A Carta aos Efésios diz que Deus nos deu a vida
juntamente com Cristo quando estávamos mortos por causa de nossas faltas. É
isso que Deus tem feito ao logo da história da Salvação, porém ainda não foi o
suficiente para a nossa conversão. O que ainda é preciso que Deus nos faça para
nos convertermos? Ele nos deu seu Filho unigênito para que tivéssemos vida, mas
parece que a cruz não nos diz nada. Há muitos escritórios de poderosos tendo a
cruz na parede como adorno, mas essa cruz está esvaziada. Quem tem nos seus
espaços ou traz no seu peito a cruz apenas como adorno, mas não sabe o que ela
representa, banaliza o sagrado. A cruz nesses espaços é um profundo desrespeito a
Deus, pois banaliza o seu verdadeiro significado. É um escândalo, pois a cruz
significa a vida de Deus a nós doada, para que ninguém mais fosse vítima da cruz.
Porém, muitos dos que têm a cruz nos seus gabinetes continuam a crucificar a
outros, com atos de corrupção e desrespeito à vida. Devemos, sim, ser contra a
cruz nas repartições públicas, pois a cruz nesses espaços representa uma
profanação do sagrado e um esvaziamento daquilo que ela verdadeiramente
significa. A cruz deve estar nos espaços sagrados, e não profanos. A cruz deve
estar nos lugares onde se defende a vida e não onde a vida é banalizada.
O evangelho traz de modo contundente a cruz de Cristo como sinal da
conversão. No início do texto, é resgatada a similaridade da cruz com a serpente
que Moisés levantou no deserto a fim de curar os que eram picados pelas
serpentes. Temos aqui o antídoto contra a morte extraído do próprio instrumento
de morte. Vale lembrar que o soro que combate a picada de serpentes é extraído
do próprio veneno. É um exemplo significativo quando comparado à cruz. A cruz
era um abominável instrumento de morte. Deus fez com que esse instrumento de
morte se transformasse em instrumento de vida, mas para isso foi preciso que
Jesus passasse por ela. Assim, a cruz de Cristo significa o fim de todas as cruzes.

194
Quem tem a cruz de Cristo como adorno e continua a crucificar a outros não
entendeu nada do verdadeiro significado da cruz. Quem acreditar na cruz
redentora será salvo por ela, diz São João no evangelho de hoje. Acreditar na cruz
de Cristo é desacreditar todas as outras formas de cruzes. “A cruz de Cristo é a
obra mais estupenda do amor de Deus”, diz São Paulo da Cruz. O evangelho de
hoje confirma isso, ao dizer que “Deus amou de tal forma o mundo que entregou o
seu Filho único para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida
eterna” (Jo 3,16). A cruz de Cristo deve ser o sinal supremo para a nossa
conversão. Quem não consegue se converter tendo diante de si a cruz corre sério
risco de se tornar vítima das cruzes que ainda significam escravidão, violência e
morte. O alerta foi dado na primeira leitura, confirmado na segunda e ratificado no
evangelho. Para estarmos livres das cruzes, sinais da morte, precisamos assumir a
cruz de Cristo, sinal de vida. A cruz de Cristo é o antídoto contra o veneno das
outras formas de cruzes. Cristo em sua cruz é a luz que veio ao mundo. Se
continuarmos a preferir as trevas das outras formas de cruzes, sofreremos as
consequências disso. Assim, o apelo do evangelho é para escolhermos a luz de
Cristo e não as trevas que o mundo oferece. O sinal que nos identifica são as
opções, ou escolhas que fazemos na vida. Quem optar pela luz terá a luz. Quem
optar pelas trevas vai ter trevas em sua vida. As obras de quem optou pela luz são
boas; as dos que optaram pelas trevas são más. Esses são os sinais que identificam
quem é quem neste mundo marcado por tantas injustiças.

5º Domingo
& Jr 31,31-34 | Sl 50(51) Hb 5,7-9 | Jo 12,20-33

Estamos no nosso último domingo antes da Semana Santa. No próximo


domingo, celebraremos o Domingo de Ramos, o domingo da entrada triunfal de
Jesus em Jerusalém, o portal da Semana Santa. A caminhada de Jesus vai
chegando ao fim. Tudo será consumado. Viemos acompanhando seus passos.
Estamos nos encontrando com ele e subindo com ele até o Calvário. Como será o
nosso comportamento diante dos últimos sofrimentos de Jesus? Como nos
portaremos e comportaremos diante da cruz? Essas questões norteiam nossa
reflexão nesse quinto domingo da Quaresma e nos colocam diante de Deus, que se
revela misericordioso para com todos, sobretudo com aqueles que durante essa
Quaresma tiveram o firme propósito de encontrar Jesus e se converter.
O profeta Jeremias, na primeira leitura, fala desse dia que se aproxima. O dia em
que Deus firmará uma nova aliança. Essa nova aliança que é Jesus estará gravada
em nosso peito e em nosso coração. Trazer gravada no peito e no coração essa
aliança não significa apenas trazer no peito a cruz como adorno ou sinal de nossa
devoção, mas tê-la impregnada, impressa no coração e na alma, isto é, em todo o

195
nosso ser. A cruz na qual Jesus será levantado, diz o evangelho, é a cruz que deve
nos atrair e ela só vai nos atrair se estiver impressa em nosso coração. No coração,
imprimimos apenas as coisas que amamos. O que imprimimos no coração, não
esquecemos jamais. A primeira aliança foi impressa na memória do povo e,
portanto, foi esquecida ou rompida. Essa nova aliança será gravada no coração,
decorada, no sentido estrito do termo. Se não a gravarmos no coração, não
seremos atraídos por ela, e se não formos atraídos por ela, não seremos
verdadeiramente cristãos. Há muitos que se dizem cristãos, mas que não foram
atraídos pela cruz. Não foi a cruz que os atraiu, mas apenas as glórias de Cristo.
Assim, a leitura do profeta Jeremias mostra o poder dessa nova aliança. A
primeira revelou um Deus que se compadeceu de seu povo que vivia na
escravidão e o tomou pela mão, ajudando-o a se libertar. Porém, esse mesmo povo
foi muitas vezes rebelde e não reconheceu o amor de Deus, rompendo com essa
primeira aliança. Esse procedimento, infelizmente, ainda persiste em muitos de
nós que, apesar do amor de Deus, agimos como se ele não nos amasse. Temos
comportamentos que revelam esse desconhecimento de Deus, comportamentos
que desagradam a Deus. Jeremias mostra que Deus, conhecendo a ignorância
desse povo, não desistiu dele e se propôs a fazer uma nova aliança, um novo
pacto, de modo que abrissem a mente e o coração para o amor dele. Essa
insistência de Deus com seu povo revela seu amor incondicional e sua compaixão.
Não é um amor humano, limitado. É um amor que vai até as últimas
consequências, como vemos nessa nova aliança, que representa a mais
contundente prova de amor por nós. A cruz fala por si. Não precisamos explicá-la,
diz o profeta Jeremias, com outras palavras, quando diz: “Ninguém mais precisará
ensinar seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘procure conhecer Javé’. Porque
todos, grandes e pequenos, me conhecerão”. A cruz é a revelação do amor de
Deus, o sinal sublime da nova aliança, como veremos com mais riqueza de
detalhes na Semana Santa, sobretudo na liturgia do tríduo pascal.
A segunda leitura resgata um pouco da trajetória espiritual de Jesus, colocando-
o no limiar da cruz. Mostra sua vida de oração, preces e súplicas; sua dor na
iminência da morte, para que Deus o livrasse da morte. Livrar da morte aqui não
significa fugir da cruz, mas enfrentar a cruz e transformá-la em instrumento de
redenção, em antídoto contra a morte. É exatamente esse o significado da cruz, e
quando Jesus, entre lágrimas, pede que Deus o livre da morte, significa que ele
está em estreita sintonia com o Pai, assumindo a morte de cruz para que todas as
cruzes, toda forma de morte, no sentido literal de oposição à vida, fosse abolida.
Livrar da morte significa livrar de tudo o que pode causar a morte da alma,
simbolizado no terrível instrumento de tortura que era a cruz. Assim, ao assumir a
cruz, ao passar pela morte de cruz, Jesus a transforma. Agora a morte não terá
mais poder sobre a vida. Com sua passagem pela cruz, Jesus transfigura a cruz. É

196
a aliança que Deus faz conosco, como mostrou a primeira leitura. Jesus gravou em
nosso coração o seu amor por nós. Assim, não dá para olhar a cruz e não enxergar
nela o amor de Deus. Embora seja aparentemente paradoxal tudo isso, a cruz e
todo sofrimento de Jesus revelam a grandeza do amor de Deus, que não mede
esforços para nos livrar da morte. Desse modo, essa segunda leitura coloca diante
de nós um Cristo obediente ao Pai, extremamente humilde, e nos ensina como
devemos nos relacionar com Deus. Quem obedece ao Filho obedece ao Pai, e
quem obedece ao Pai recebe o prêmio eterno da salvação. Que o sacerdócio de
Cristo nos ensine a viver nesse mundo a missão que ele nos confiou, como um
verdadeiro sacerdócio, servindo-o na humildade, sendo obedientes a ele. É o que
nos pede esse trecho da Carta aos Hebreus.
O início do evangelho de hoje mostra alguns gregos querendo ver Jesus. O
desejo de ver Jesus deve ser também o nosso desejo. Ver Jesus significa ter a vida
mudada por esse encontro com ele. Quem encontra Cristo tem sua vida
transformada. Vemos isso em diversas passagens bíblicas. Somente quem, de
alguma forma, fez a experiência do encontro com Jesus visualizou-o de alguma
maneira, consegue enxergar nele o redentor de sua vida. Eles viram um Jesus
autêntico, prestes a ser crucificado e glorificado. Assim, o texto do evangelho de
hoje é uma síntese de quem é Jesus: sofrimento e glória. São dois aspectos de um
mesmo Deus. Quem o vê em apenas um desses aspectos tem uma visão parcial e
incompleta dele. Há os que só o enxergam no sofrimento. Fazem penitências, atos
de sacrifícios, choram nas celebrações da Semana Santa, sobretudo na sexta-feira
santa, mas ficam aí, parados na dor, como se Cristo tivesse findado na cruz. Quem
o vê apenas na cruz, sem a glória da ressurreição, não entendeu a cruz. A cruz é
passageira, caminho para se chegar à glória, mas não algo estático. Por isso ela é
redentora. Ficar somente na cruz, na dor, é esvaziar a cruz, é ver em Jesus um
fracassado. A cruz não é o fracasso de Cristo, mas a sua vitória, pois ele não
permaneceu na cruz. Passou por ela para entrar na glória. Da mesma forma são os
que ficam apenas na glória e não querem enxergar a cruz que veio antes da glória.
Quem enxerga apenas um Cristo glorioso, sem sofrimento, mostra que não
entendeu a sua glória. Há muitos que querem a glória sem precisar passar pela
cruz, mas Jesus foi categórico ao dizer: “quem quiser me seguir, renuncie a si
mesmo, tome a sua cruz e siga-me, pois quem quiser ganhar sua vida vai perdê-la,
e quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, este a salvará”. A
glória de Cristo só foi possível porque ele passou pela cruz. Uma glória sem a
cruz não é libertadora, não é glória. Assim também é uma religião que enxerga
apenas uma das facetas de Cristo. Ela não passa de alienação. São muitos os que
querem enxergar apenas um Cristo doce e glorioso, abominando a cruz e todo o
sofrimento libertador. Esses são os que não querem compromisso com os que
sofrem, não querem uma Igreja comprometida com a vida, sobretudo com a vida

197
dos que são vítimas das cruzes de nossos tempos. É preciso, portanto, vê-lo na dor
e na glória, com tudo o que esses dois aspectos representam. Foi esse Cristo que
Filipe apresentou aos gregos. Ao encontrarem Cristo, este lhes falou diretamente
de sua hora e de tudo o que ele iria passar. Mostrou que, como a semente, que se
não morrer não gera frutos, ele também precisaria passar pela cruz para salvar a
muitos dela. É essa a dinâmica do cristianismo: cruz e ressurreição. A cruz
significa o envolvimento com o sofrimento, de modo comprometido, para livrar os
que dele são vítimas. A glória é a vitória dos que enfrentaram o sofrimento,
lutaram contra as forças da morte e a derrotaram. Seguir a Cristo é assumir a sua
cruz. Isso ele deixa muito claro. Quem quiser segui-lo apenas para obter
vantagens, glórias, terá grandes decepções. Quando Cristo assumiu a cruz,
assumiu a glória de Deus. Assim, o texto do evangelho de hoje revela essa estreita
sintonia entre Jesus e o Pai. Com a cruz, Jesus expulsou o príncipe desse mundo e
atraiu-nos a ele, gravando em nosso coração o sinal dessa nova aliança, como
disse o profeta Jeremias na primeira leitura.
Que possamos nos preparar para a Semana Santa que se aproxima, tendo diante
de nós os elementos que a liturgia desse domingo nos trouxe. Vamos passar com
ele pela cruz e chegar às glórias da ressurreição. Eis a dinâmica teológica do
cristianismo. Sem a cruz não há ressurreição.

Domingo de Ramos
(cor: vermelha)
& Procissão: Mc 11,1-10 ou Jo 12,12-16 Missa: Is 50,4-7 | Sl 21(22) | Fl 2,6-11
Mc 14,1–15,47 ou 15,1-39

Entramos hoje na Semana Santa. Entrar na semana simboliza entrar em


Jerusalém, com todo o significado teológico que essa expressão carrega. Por essa
razão, a abertura da Semana Santa se faz com a entrada triunfal de Jesus em
Jerusalém. Triunfal porque ele é acolhido como rei, embora houvesse certo
equívoco nessa recepção calorosa da multidão, que, como hoje, nem sempre
entende quem de fato é Jesus e qual é o seu reino. Muitos esperavam a entrada de
um rei nos moldes do sistema da época, na sua carruagem apropriada, adornada de
pedras preciosas, cercado de súditos que o serviam, como os reis da época. Porém,
eles têm uma primeira decepção. Jesus não entra dessa maneira, mas sim montado
num jumentinho, o meio de transporte dos pobres. Mostra com esse e tantos
outros gestos e procedimentos que não é um rei das concepções do mundo, mas
um rei diferente. Mostra que seu reinado é outro. Um reino de serviço, um reino
de humildade, um rei próximo do povo, com o povo e para o povo, muito
diferente do que se tinha até então. Eles esperavam o Messias triunfante da
concepção judaica e o que veem é uma pessoa simples, que chega com

198
simplicidade, e se achega às pessoas sem maiores cerimônias e formalidades.
Jesus encontra o caminho preparado com roupas e ramos estendidos pelo chão,
gestos de acolhimento. Porém, muitos dos que estenderam suas roupas e ramos
pelo caminho por onde ele iria passar compactuariam com a sua condenação,
como vemos, logo em seguida, na narração da Paixão, do Evangelho de Marcos.
Essa celebração recorda o procedimento de muitos de nós, que louvamos a Cristo
com os lábios e recebemos a comunhão nas missas, mas o condenamos com a
nossa prática e com a nossa língua. São muitas as maneiras de condenar a Cristo,
como, por exemplo, quando compactuamos com sistemas opressores; quando nos
omitimos diante de situações de injustiças; quando falamos mal de nossos
semelhantes; quando damos vazão a fofocas e intrigas que diminuem a vida de
nossos irmãos e irmãs dentro e fora da comunidade. São muitas as formas de
condenação de Cristo que hoje fazemos e que mostram a necessidade de
conversão que temos.
A humildade de Jesus revelada no primeiro evangelho se confirma na primeira e
na segunda leitura. A primeira leitura, do livro do profeta Isaías traz um relato da
missão de Jesus e a de todos os seus discípulos. Deus o capacita e nos capacita
para falar e viver como discípulos, ajudando os desanimados a se animar na vida e
na missão. Ajudar com palavras e com ações. O servo dessa primeira leitura
mostra que nossas palavras devem ser palavras de encorajamento, porém, quantas
vezes, em vez de encorajar as pessoas, nossas palavras ferem, machucam,
magoam e até matam? É triste ver pessoas que se dizem cristãs tendo atitudes
anticristãs. Onde fica a missão de discípulo de animar, encorajar, como mostra a
primeira leitura? Nossos ouvidos precisam estar atentos para ouvir o clamor dos
nossos irmãos que sofrem, e não cerrar a dor dos que sofrem, ignorando-a, ou
colaborando para que seu sofrimento seja ainda pior. Deus abre nossos ouvidos a
cada manhã, diz a primeira leitura, exatamente para que escutemos os seus
clamores e os clamores de nossos irmãos que continuam sendo crucificados tão
perto de nós, e nós pouco ou nada fazemos para diminuir ou dirimir a sua dor.
Quando agimos dessa maneira, nossa voz se une à voz das multidões que dizem:
“crucifica-o!”. É extremamente doloroso saber que milhões de vozes continuam a
gritar crucifica-o, em vez de ajudar a carregar a cruz. Pior ainda quando essas
vozes ecoam dentro de nossas igrejas, vindo de pessoas que dizem comungar com
ele, pessoas que estendem seus ramos no domingo, mas que na semana o
crucificam. Deus abre nossos ouvidos, e não podemos recuar ou voltar atrás, diz a
primeira leitura. Não podemos resistir aos seus clamores. Quem resiste ao clamor
de um irmão que sofre e não se compadece de seu sofrimento, mostrando-se
insensível a sua dor, não deveria dizer que é cristão. Diante dos desafios do
mundo, dos inúmeros clamores, precisamos agir com coragem e com humildade,
como o servo dessas leituras de hoje. Precisamos sentir esse Deus que nos

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fortalece nessa missão e não nos sentir humilhados por sermos humildes.
Devemos permanecer com firmeza e coragem, pois ele está conosco. Somente
assim venceremos as agruras da vida e os torturadores que insistem em crucificar
os fracos e indefesos, ou os que lutam em defesa destes e do seu Reino.
A segunda leitura, da Carta aos Filipenses, reforça essa humildade do rei que
entra em Jerusalém. Mostra que, mesmo ele tendo a condição divina, não se
apegou a sua igualdade com Deus. Jesus tinha tudo para ser diferente e distante,
mas preferiu ser simples, humilde, próximo das pessoas. Mostrou com maestria
que se aproximar do povo não o distanciava de Deus. Engana-se quem pensa que
ser simples e humilde, estar junto ao povo, inferioriza e distancia da grandeza de
Deus. Pelo contrário, quanto mais nos aproximamos dos pequeninos, mais nos
engradecemos diante de Deus, mais nos aproximamos dele. É o que mostra essa
segunda leitura. Ao esvaziar-se de si mesmo, ele não perdeu sua essência divina,
mas abriu espaço na sua vida e no seu ser para acolher o humano, sobretudo os
que sofrem; os pequenos, os preferidos de Deus. Ao assumir a condição de servo,
ele nos mostrou o Reino do serviço. É esse rei que entra hoje na Jerusalém de
nossa vida e a transforma. Ao tornar-se semelhante a nós, ele concedeu-nos a
graça de também nos tornarmos semelhantes a ele, dando-nos uma parcela de
divindade. Todo ser humano tem uma parcela divina concedida por Cristo pelo
fato de ele ter assumido a nossa condição humana. Ele se humilhou para nos
exaltar, procedendo de modo contrário a muitos de nós, que gostamos de humilhar
os outros para nos exaltar. Quem se exalta a custa da humilhação dos outros
merece ser rebaixado, humilhado, como diz outra passagem bíblica: “quem se
humilha será exaltado e quem se exalta será humilhado”. É também isso que nos
ensina esse hino cristológico da segunda leitura aos Filipenses. Deus exaltou Jesus
grandemente porque ele soube fazer-se pequeno. Todo aquele que se faz pequeno
diante de Deus e dos irmãos, e o serve na humildade, será exaltado perante Deus.
Que possamos, na humildade de coração, dobrar nossos joelhos ao nome de Jesus
e que nossa língua confesse e professe a nossa fé em Jesus, o Filho de Deus. Isso
nós fazemos não somente com atos de piedade religiosa, mas, sobretudo, com
amor e compromisso para com nossos irmãos.
O evangelho de hoje é a narração da Paixão segundo Marcos. Vemos todo o
processo de condenação de Jesus. É interessante observar como a liturgia deste
domingo sintetiza o mistério pascal da Paixão, morte e ressurreição de Cristo,
antecipando o tríduo pascal e colocando de modo muito evidente as duas facetas
de Jesus: humano e divino. Uma complementando a outra. O humano revelado no
primeiro evangelho e nas duas leituras seguintes, e o divino revelado no ápice da
humanidade humilhada, condenada e crucificada. A narração da Paixão revela a
grandeza de Deus que se revela na fraqueza humana. É a cruz e todo o processo
persecutório se transformando em vida plena. A narração da Paixão tem muito a

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nos ensinar. Ela não apenas nos coloca no clima da Semana Santa, mas mostra
que carecemos de conversão, pois sem nos convertermos não conseguiremos
enxergar Deus na humilhação da cruz e nem nos nossos irmãos que continuam
sendo crucificados. Vários elementos e personagens que aparecem nessa narração
fazem parte de nós. Trazemos dentro de nós um pouco dos doutores da lei e do
Sinédrio que condenou Jesus, quando achamos que sabemos mais que os outros e
que por isso podemos julgá-los e condená-los; somos também um pouco de
Pilatos quando “lavamos as nossas mãos” diante dos problemas, nos omitindo
para não nos comprometer com o que crucifica nossos irmãos. Daqui nasce a
expressão popular “lavar as mãos”, sinônimo de não envolvimento, de não
consideração a determinada coisa, pessoa ou situação, como sinônimo de omissão;
somos um pouco dos chefes dos sacerdotes quando acusamos as pessoas, como se
fôssemos santos e perfeitos; somos Barrabás quando nossos atos ilícitos são
encobertos e ficamos impunes porque conseguimos enganar as pessoas sobre eles,
ou quando inocentes pagam pelos nossos erros; somos a multidão que condenou
Jesus quando nos deixamos levar pela maioria, quando não temos personalidade,
quando a influência dos outros nos domina; trazemos dentro de nós um pouco dos
soldados que levaram Jesus para o pátio para ser condenado publicamente.
Quantas vezes expomos as pessoas, mesmo que sem intenção ou entendimento
dos fatos, apenas porque estamos obedecendo cegamente a ordens de outros, ou a
um sistema religioso moralista que condena em vez de perdoar. Mas graças a
Deus trazemos dentro de nós um pouco de Cirineu quando somos solidários e
ajudamos os irmãos a carregar a cruz; trazemos dentro de nós uma parcela de
Verônica quando enxugamos o rosto daqueles que sofrem, dando-lhes gestos de
conforto; temos em nós uma parcela do ladrão que se converteu na última hora e
que por isso foi salvo; somos um pouco do oficial do exército quando enxergamos
nos sofredores Jesus expirando e morrendo na cruz e reconhecemos que esses são
filhos de Deus e que merecem nossa compaixão porque são vítimas de injustiça;
somos essas mulheres que olham de longe, sem nada poder fazer a não ser rezar
pelos que sofrem e agonizam; somos João e Maria aos pés da cruz quando não nos
afastamos do sofrimento dos nossos irmãos, mesmo podendo fazer tão pouco por
eles. Enfim, precisamos de mais Cirineus que ajudem outros a carregar as suas
cruzes; mais Verônicas que ajudem a diminuir a dor do outro, confortando-o com
gestos e palavras; precisamos nos converter mais, mesmo que estejamos no fim da
nossa vida, como fez o ladrão arrependido. Enfim, precisamos ser mais humanos
para nos tornarmos mais divinos. São situações e procedimentos que nos ensinam
a liturgia da Palavra do Domingo de Ramos.

TRÍDUO PASCAL E TEMPO PASCAL


(cor: branca)

201
Quinta-feira Santa
& Ex 12,1-8.11-14 | Sl 115(116B) 1Cor 11,23-26 | Jo 13,1-15

A liturgia de hoje, da instituição da Eucaristia, tem como tema central a


memória. Memória não como uma simples lembrança, mas no sentido teológico
do termo, de viver e reviver algo medular da nossa fé: o mistério de um Deus que
dá a vida por nós para que façamos o mesmo. Esta é, portanto, a liturgia que abre
o tríduo pascal, colocando-nos dentro da dinâmica da Paixão, morte e ressurreição
do Senhor.
A primeira leitura é extraída do livro do Êxodo e faz memória da saída do Egito,
a Páscoa judaica, em que o povo hebreu, sob a liderança de Moisés e Arão, dá
início aos ritos de passagem da escravidão para a terra prometida. Todos os
símbolos presentes nesta primeira leitura evocam o processo de libertação. É um
momento singular na história do povo hebreu, um marco inesquecível, o começo
de uma nova vida, simbolizada nas expressões “o começo dos meses”, “o primeiro
mês do ano”, ou seja, o ponto de partida, o marco referencial. Aqui começa um
novo tempo na história da salvação. Todos devem estar a postos, isto é, de
prontidão. Prontos para partir e para partilhar; prontos para se desinstalar e instalar
nos seus corações o desejo de um novo céu e uma nova terra onde não houvesse
mais escravidão; onde as pessoas fossem tratadas com dignidade; onde todos
teriam seus direitos respeitados e o necessário para viver bem, sem precisar ser
submetidos a humilhações, e tantos outros sonhos e promessas de vida plena.
Porém, para que estas conquistas fossem atingidas, foi preciso muita coragem,
garra e perseverança na busca dos ideais prometidos por Deus. Assim, o primeiro
passo foi organizar o povo, convocá-lo à união e à solidariedade. “Povo unido
jamais será vencido”, diz um grito de protesto que virou canção. Onde há união,
há comunhão, porque a palavra comunhão significa exatamente isso: comum-
união. E a comunhão se dá na partilha. Assim sendo, a comunidade (comum-
unidade) dos filhos de Israel é convocada a partilhar. Cada família tomaria um
cordeiro para preparar a ceia. Se a família fosse pequena, deveria partilhar o
cordeiro com os vizinhos, de modo que não sobrasse nada e todos ficassem
satisfeitos. Tudo devia ser muito bem calculado para que não houvesse
desperdício nem faltasse a ninguém. Assim, o primeiro ensinamento da comunhão
da páscoa judaica foi a partilha. É algo que vemos também no centro da páscoa e
da comunhão cristã. Outros símbolos aparecem nessa primeira leitura e nos
ajudam a entender a memória que está sendo feita: com parte do sangue dos
cordeiros imolados se untavam os marcos e a travessa das portas, lembrando os
perigos e, ao mesmo tempo, a proteção de Deus. As ervas amargas eram a
memória das dificuldades enfrentadas e por enfrentar. Os pães ázimos eram o
sinal da pressa para fazer essa passagem. Não havia tempo de fermentar os pães.

202
Esses alimentos, carregados de simbolismos, eram consumidos numa atitude de
prontidão: comer com os rins cingidos, sandálias nos pés, cajado na mão, prontos
para a partida, prontos para a passagem, prontos para a missão. Tudo feito às
pressas, pois era o momento decisivo, a páscoa, isto é, a passagem tão esperada
que, portanto, não mais se podia esperar. Era hora de fazer acontecer, e
urgentemente. E a mão de Deus estava com eles, protegendo-os de todas as
adversidades. Assim, temos na primeira leitura a memória da páscoa judaica, ou a
festa memorável, como o próprio texto nos diz numa exortação para a celebração
que deve ser feita para sempre, como instituição perpétua. É, portanto, a
instituição da Páscoa judaica.
A segunda leitura, da primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, trata da
instituição da Eucaristia. A nossa comunhão com o corpo e o sangue de Cristo, o
Cordeiro imolado que nos ensinou a partilhar, e cujo sangue derramado na cruz
untou nossas vidas como sinal do amor de Deus por nós. A leitura traz, portanto, o
cerne da nossa celebração eucarística, a memória da paixão, morte e ressurreição.
A essência do mistério pascal. Como a páscoa judaica alimenta a identidade do
povo judeu, a Eucaristia alimenta a nossa identidade cristã. Ela coloca Jesus
dentro da nossa vida e a nossa vida dentro da vida de Jesus, amalgamando-nos
com ele. Assim, cada vez que fazemos memória da sua vida doada por nós,
celebrando a Eucaristia, ele se faz presente na nossa vida, aproximando a nossa
humanidade da sua divindade. A Eucaristia deve cumprir essa função na nossa
vida, santificando-nos. Mas isso não se dá de modo mágico, bastando apenas
comungar. É preciso compromisso com ele. A comunhão deve ser, portanto, o
resultado da nossa entrega; da doação da nossa vida pelos irmãos; da comunhão
com os seus ensinamentos e seu exemplo de vida. Desse modo, todas as vezes que
comungamos da Eucaristia estamos fazendo essa memória até que ele venha.
Assim, a celebração da Eucaristia é também a instituição perpétua da Páscoa de
Jesus.
A Páscoa de Jesus é a nossa Páscoa. Páscoa de que fazemos memória na
Eucaristia. Eucaristia que é serviço, doação total, sem limites, comunhão. É o que
vemos hoje, no Evangelho de São João, que destaca o elemento do serviço ao
próximo como essencial para uma verdadeira comunhão. Não é possível
comungar com Cristo se não seguirmos o seu exemplo. O exemplo do serviço na
humildade.
Durante a ceia, já sabendo da traição de Judas, ele dá um dos últimos e mais
contundentes exemplos de comunhão: levanta-se da mesa, tira o manto, pega uma
toalha, amarra-a na cintura e, com água numa bacia, lava os pés dos discípulos.
Quem fazia isso eram os servos, no sentido estrito do termo. Jesus dá o exemplo
do servo para que todos pudessem ser servos uns dos outros. Servir ao próximo é,

203
portanto, a mensagem central do evangelho de hoje e da memória de Cristo. A
Eucaristia é, essencialmente, serviço, doação sem restrições.
Assim sendo, é preciso descer dos pedestais onde nos encontramos devido aos
nossos cargos, títulos e posses, e tirar o manto do orgulho, da arrogância e do
poder, e colocar o avental da humildade, da mansidão, da simplicidade, da pureza
de coração e nos abaixarmos para lavar os pés dos nossos irmãos, isto é, para
ajudá-los, para acolhê-los, para tratá-los com igualdade e com dignidade, para
servi-los. A lição que Cristo dá aos seus Apóstolos no dia de hoje é uma lição que
não devemos esquecer. Não podemos fazer dessa celebração uma mera
encenação, como se ela fosse um teatro. Mas vivê-la naquilo que ela tem de
essencial, de teológico, de verdadeira memória de Jesus.
Com essa celebração de hoje, a Eucaristia se recobre de significado. Não é
possível sair dela do mesmo jeito. Quem sai da celebração da instituição da
Eucaristia do mesmo jeito que chegou não entendeu o seu significado teológico.
Não comungou verdadeiramente.

Sexta-feira Santa
(cor: vermelha)
& Is 52,13–53,12 | Sl 30(31) Hb 4,14-16; 5,7-9 | Jo 18,1–19,42

A reflexão hoje proposta pela liturgia da Palavra versa sobre a doação da vida. É
o ápice da missão de Jesus, que consuma na cruz o exemplo supremo de amor. Em
vista disso, São Paulo da Cruz recorda que “a paixão de Cristo é a obra mais
estupenda do amor de Deus”. Por essa razão, hoje não é dia de chorar ou se
lamentar por Jesus, num dolorismo desconectado da realidade, mas de solidarizar
com ele, estando, a exemplo de Maria e do discípulo, amando, aos pés da cruz,
numa demonstração do nosso amor por ele. Mas isso não se faz apenas com a
participação da cerimônia da Paixão, como muitos imaginam, vindo à igreja
apenas na Sexta-Feira Santa, mas com aquilo que ela representa na sua essência: a
entrega a Deus e ao próximo, solidarizando com as lutas em prol da vida, como
Jesus nos ensinou durante a sua vida pública, sem temer os obstáculos e as
perseguições, como vemos, hoje, na primeira leitura sobre o servo sofredor.
Isaías destaca que, da mesma maneira com que as pessoas ficaram chocadas
com a desfiguração do servo, elas se chocariam com a sua transformação e com o
que esse sofrimento provocaria no mundo e nas pessoas: uma transformação
radical. É um sofrimento extremado, mas que não foi em vão porque tinha
objetivos bem concretos: transformar toda dor e sofrimento em alegria. É um
prenúncio do que seria a cruz de Cristo e todo o seu processo persecutório. Aquele
que foi considerado a escória da humanidade revelou-se em todo seu esplendor
como o Salvador dela. Todo o relato da condição do servo apresentado por Isaías

204
é atribuído a Jesus, como vemos hoje na narrativa da Paixão. Ele enfrenta firme e
calmamente todo o julgamento, condenação e morte, sem esboçar resistência. Age
desse modo não pela falta de esperança, mas pela total confiança em Deus, que
não o abandonou, embora muitos imaginassem que ele o tivesse abandonado. Ali,
ao pé da cruz, estavam presentes algumas pessoas que representavam aqueles que
foram e continuariam fiéis a ele. Dentre essas pessoas, Maria, representando a
comunidade judaica que seguiu Jesus e que continuaria fiel a sua missão; e o
Discípulo Amado, representando os que assumiram o compromisso com ele, o
novo discipulado.
Assim, confiante e firme, Jesus entrega sua vida por nós. Depois de termos
ouvido na liturgia de ontem o seu ensinamento sobre o serviço, hoje ele dá a
própria vida, coerente com o que havia dito: “o Bom Pastor dá a vida por suas
ovelhas”, ou “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus
amigos”. Ao dar a sua vida por nós, ele nos deixou o maior ensinamento de amor.
Viver a Paixão de Cristo é, portanto, solidarizar com os que hoje sofrem; é
compadecer-se da dor do outro; é se consumir para que o outro tenha vida e a
tenha plenamente. Cristo, o sumo sacerdote do Pai, nos deu esse exemplo.
A Carta aos Hebreus, lida na segunda leitura de hoje, fala exatamente disso:
“temos um sumo sacerdote eminente, que entrou no céu, Jesus, o Filho de Deus”.
Temos, portanto, todas as razões do mundo para permanecer firmes na missão que
ele nos confiou e na fé que professamos. Ele provou na cruz quanto é capaz de se
compadecer de nós, das nossas fraquezas, de nos defender. Ele assumiu nossa
franqueza, nossa condição limitada (exceto o pecado), para nos tornarmos
partícipes da sua fortaleza. Qualquer dor não é maior do que a que ele passou por
nós, como vimos hoje no relato da Paixão. Isso deve servir de consolo e de alento
quando estivermos achando que a nossa cruz está pesada demais; quando
reclamamos por coisas tão pequenas; quando achamos que a vida não tem sentido
ou valor. Basta olhar para a cruz e veremos quanto a vida tem valor. Um Deus que
é capaz de um gesto como esse por nós merece todo o nosso respeito e o nosso
amor.
Contudo, somos convidados na segunda leitura de hoje a nos aproximar do
trono da graça. E com a liturgia da Paixão somos convidados a nos aproximar da
Páscoa, a maior de todas as graças que Deus nos concedeu. Cristo foi atendido
pelo Pai nos seus clamores. Nós somos atendidos por ele quando fazemos da
nossa vida uma entrega total. Que possamos, com a celebração de hoje, aprender o
que significa a obediência a Deus e participar da Páscoa da ressurreição.

Sábado Santo
& Gn 1,1-2,2 ou 1,1.26-31a | Sl 103(104) Gn 22,1-18 ou 22,1-2.9a.10-13.15-18 Sl
15(16) | Ex 14,15-15,1 | Sl (Ex 15) Is 54,5-14 | Sl 29(30) | Is 55,1-11 | Sl (Is 12) Br

205
3,9-15.31-4,4 | Sl 18B(19) Ez 36,16-28 | Sl 41(42) | Rm 6,3-11 Sl 117(118) | Mc
16,1-7

A liturgia desta noite santa faz memória da passagem de Nosso Senhor Jesus
Cristo da morte à vida. É a vigília da Páscoa do Senhor. A vigília das vigílias. A
mãe de todas as vigílias. Assim, a cerimônia de hoje é carregada de símbolos e é a
mais longa de todas as celebrações. Ela é composta de quatro partes: a celebração
da luz, a liturgia da Palavra, a liturgia batismal e a liturgia eucarística.
A primeira parte, a liturgia da luz, divide-se em três partes: a primeira
corresponde à bênção do fogo novo, em que se prepara e acende solenemente o
Círio Pascal, cuja chama representa o Cristo Ressuscitado, luz do mundo. O Cristo
de ontem, hoje e sempre, o tempo e a eternidade, o Alfa e o ômega, o princípio e o
fim. Ele permanece aceso durante todo o Tempo Pascal e nas celebrações solenes,
como, por exemplo, nos batizados. A segunda parte deste primeiro momento é a
procissão com o Círio aceso e as luzes da igreja apagadas. Representa a luz das
luzes, a qual irá acender as nossas chamas, simbolizando a luz de Cristo que
caminha entre nós e nos preenche, ilumina nossa alma, aponta o caminho e nos
faz pessoas iluminadas por Deus. Nesse momento, cada um acende a sua vela na
chama do Círio, tornando a igreja toda iluminada e iluminando também a nossa
consciência de povo de Deus a caminho do Reino definitivo. Enquanto as velas
são acesas, apresenta-se a luz de Cristo. Quando todas as velas estão acesas,
acendem-se também as luzes da igreja e proclama-se a Páscoa do Senhor com o
canto do Exulte, que corresponde à terceira e última parte deste primeiro momento
da liturgia desta noite santa.
A segunda parte desta cerimônia é a liturgia da Palavra. Através de nove
leituras, sendo sete do Antigo Testamento e duas do novo, intercaladas por
salmos, resgata toda a história da salvação, desde a criação do mundo, passando
pelo chamado de Deus, o processo de libertação da escravidão do Egito e a
condução à terra prometida, as leis e os profetas até a Nova Aliança, simbolizada
no Cristo, luz do mundo. Entre as leituras do Antigo e do Novo Testamento há o
hino de louvor, em que fazemos memória dessa passagem com a entoação solene
do glória. Em seguida, lê-se a Epístola aos Romanos, que recorda o nosso batismo
em Cristo e nosso compromisso com ele. Com o batismo, nossa vida é
transformada e tudo o que é velho morre em nós, para renascermos com ele para
uma vida nova. Após a proclamação da epístola, entoa-se solenemente o aleluia e
proclama-se o evangelho da ressurreição de Cristo. Nele vemos as mulheres como
as primeiras a presenciar e testemunhar a ressurreição, mostrando a importância
das mulheres como discípulas e missionárias na Igreja. Não é por acaso que na
Igreja, hoje, a maioria dos fiéis são mulheres. São elas que assumem os principais
trabalhos na comunidade, que levam adiante a missão e continuam a testemunhar

206
a ressurreição de Cristo através do seu trabalho, da sua dedicação, enfim, da
doação da vida pela comunidade.
A terceira parte desta cerimônia é a liturgia do batismo. É quando batizamos as
pessoas que foram preparadas durante a Quaresma e, junto com elas, renovamos
nosso compromisso de batizados, renunciando a tudo o que possa impedir que
sejamos autênticos discípulos e missionários, e reassumindo o nosso compromisso
com Cristo e com a sua Igreja. Se na Quinta-Feira Santa os padres renovaram seus
compromissos sacerdotais, hoje todos nós, cristãos, renovamos nosso
compromisso de batizados no Cristo Jesus.
A quarta e última parte é a da liturgia eucarística, quando Jesus nos alimenta
com seu corpo e seu sangue. Nós, alimentados por ele, comungando dele e com
ele, reassumimos continuar sua missão de defender a vida e promover o Reino de
Deus.
Ao término desta santa noite de vigília, devemos sair renovados, alegres e
irradiando luz para o mundo. Que cada um de nós se comporte dessa maneira,
como quem de fato participou da Paixão, morte e ressurreição do Senhor e que,
com ele ressuscitado em nossa vida, possamos fazer como fizeram as mulheres
que testemunharam a ressurreição: não ter medo e ir anunciar aos irmãos tudo o
que vimos, ouvimos e presenciamos. Assim, prolongaremos a Páscoa com nossas
ações.

Domingo de Páscoa
& At 10,34a.37-43 | Sl 117(118) Cl 3,1-4 ou 1Cor 5,6b-8 Jo 20,1-9 ou Mt 28,1-10
ou Lc 24,13-35

Celebramos hoje o primeiro dia da ressurreição. Dia em que somos convidados,


a exemplo de Maria Madalena, Pedro e o Discípulo Amado, a nos dirigir ao
túmulo e constatar que, de fato, ele ressuscitou. Porém, depois de tudo o que foi
vivido e celebrado ontem, na vigília pascal, não é permitido que se tenha o mesmo
sentimento que Maria Madalena teve quando chegou ao túmulo: o sentimento de
que o corpo havia sido roubado. Esse sentimento é o de quem ainda está com as
imagens da Sexta-Feira da Paixão na cabeça e no coração: o sentimento da morte,
da perda, do vazio, do fracasso, enfim, da decepção pelo ocorrido que impede de
vislumbrar outra possibilidade que não seja a da morte propriamente dita.
Desse modo, vale a pena perguntar: quem não teve a possibilidade, por algum
motivo, de participar da missa da vigília pascal? Quem participou apenas da
cerimônia da Paixão? Sabemos que boa parte de nosso povo (para não dizer a
maioria), participa mais da Sexta-Feira da Paixão do que da noite da ressurreição.
Por várias razões, há uma identificação maior com a dor e o sofrimento do que

207
com a alegria da ressurreição e, portanto, sente-se mais motivação a participar das
celebrações da Paixão, na Sexta-Feira, que da vigília pascal, no sábado.
Porém, quem fica apenas na Sexta-Feira da Paixão e não participa da
ressurreição permanece com os sentimentos que Maria Madalena teve no início,
quando chegou de madrugada ao túmulo: sensação de perda e tristeza. O
Evangelho de João é bastante simbólico e traz muitos elementos que ajudam a
enriquecer o evento da ressurreição. Vejamos alguns destes símbolos. A
madrugada significa um tempo ainda escuro, sem muita clareza. É madrugada na
vida de Maria Madalena e dos demais discípulos. Tudo está envolto numa espessa
névoa que recobre seus corações, causada pela dor vivida na paixão. O
acontecimento foi trágico demais para ser dissipado de imediato. É preciso um
tempo para assimilar e elaborar todo o ocorrido. Por esse motivo, a primeira
impressão não passa do sentimento de que alguém havia tirado o corpo dali. No
entanto, a madrugada tem também outro significado: é o da aurora de um novo dia
que não tardará a despontar. Se o momento ainda é de escuridão, no horizonte
começam a despontar os primeiros sinais da aurora, do amanhecer de um novo
dia: pedra removida, lençol mortuário dobrado ao lado, faixas de linho no chão,
enrolados num lugar à parte etc. são constatações de um segundo momento,
depois que se adentra no túmulo, depois que se elabora o passamento, que faz
memória da Escritura.
Se o primeiro momento é de espanto pela perda do corpo, o segundo é de alegria
pela confiança na ressurreição. No primeiro momento, ela ainda estava presa ao
corpo que viu ser dilacerado pelo sofrimento da crucificação. Assim sendo, antes
de qualquer coisa, ela sai correndo para contar a Simão Pedro e ao outro discípulo
que “tiraram” o corpo e que ela não sabe onde ele está. É o primeiro anúncio, feito
por uma mulher. O anúncio de que algo estranho havia acontecido. Ela quis contar
algo que, embora não tendo clareza, intrigava seu coração. Essa atitude foi
importante porque despertou a curiosidade dos demais. Eles foram correndo ao
encontro do Senhor. Diz o texto que saíram correndo juntos, porém o Discípulo
Amado chegou primeiro. Quem ama sempre chega primeiro e entende antes os
sinais da ressurreição. Chegou primeiro, mas não entrou. É um gesto de confiança
e paciência de quem verdadeiramente ama e crê. Pedro chegou depois e entrou.
Pedro talvez ainda estivesse com o coração arrependido por ter, dias antes, negado
Jesus por três vezes. Tinha ânsia de conferir o que Maria Madalena havia dito. O
outro discípulo só entrou depois. Entrou, certificou-se do ocorrido e acreditou.
Ele, o Discípulo Amado, acreditou primeiro. Quem ama acredita, mesmo que não
tenha provas palpáveis. A ressurreição nem sempre nos é apresentada com provas
que podemos tocar. É um dado de fé. É a essência da nossa fé. É o que o
Discípulo Amado ensina com esse gesto de chegar primeiro, de entrar por último
e de acreditar antes de todos. Depois que ele acreditou, os demais também

208
acreditaram no que viram e, ao acreditar, saíram para anunciar aos demais. Mais
sobre esse dado veremos nas celebrações seguintes. O evangelho de hoje termina
destacando que a resistência num primeiro momento se deu pelo fato de não terem
ainda compreendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos
mortos. A compreensão da Escritura suscita a verdadeira fé no ressuscitado. Ao
compreender a Escritura, eles assumem verdadeiramente a missão de
propagadores da Boa Notícia. É o que vemos na primeira leitura de hoje.
O texto da primeira leitura é do livro dos Atos dos Apóstolos. Esse livro relata
as experiências das primeiras comunidades cristãs depois do evento da
ressurreição. É quando essas comunidades, nas mais variadas formas, dão
testemunho do Cristo ressuscitado. É o que Pedro faz nesta primeira leitura de
hoje: dá um testemunho apaixonado sobre a ressurreição de Cristo, afirmando
categoricamente que ele ressuscitou; que esteve com Jesus em diversas ocasiões
antes, durante e depois de sua morte; que recebeu dele antes e depois a
incumbência de testemunhar que Deus o constituiu juiz dos vivos e dos mortos.
Assim, Pedro se torna figura elementar, fundamental no processo de consolidação
da crença na ressurreição e na formação da Igreja, sendo a base, a pedra
fundamental de sustentação do cristianismo, cumprindo, assim, a profecia de
Jesus: “tu és Pedro e sobre essa pedra construirei a minha Igreja”.
A segunda leitura é da Carta aos Colossenses. Nela, Paulo faz um apelo
contundente a todos nós, cristãos, que vivemos as emoções desse início de Tempo
Pascal. Ao mesmo tempo, lança-nos um desafio: quem de fato ressuscitou com
Cristo para uma vida nova deve mudar de comportamento e mostrar que não
baseia a sua vida em coisas pequenas, medíocres, mas busca as coisas nobres, os
verdadeiros valores, isto é, as coisas do alto. Ele faz um apelo para nos
esforçarmos para viver as coisas do alto. Viver as coisas do alto é deixar de lado
comportamentos, atitudes que não sejam dignas de uma pessoa cristã. É viver e
dar testemunho, com palavras e ações, das coisas de Deus, como Jesus ensinou;
como fez os primeiros discípulos.
Assim sendo, o apelo da liturgia deste primeiro domingo da Páscoa é que
tenhamos a atitude do Discípulo Amado: crer. Quem crê não se limita a práticas
religiosas vazias, mas anuncia com convicção a ressurreição. Ela é a razão da
nossa fé, da nossa esperança e da nossa vida cristã. Deixamos que a aurora de um
novo dia desponte na nossa vida e levemos essa luz para os que ainda estão na
escuridão da dor da Sexta-Feira da Paixão, ou na dúvida diante do túmulo vazio.

2º Domingo
& At 4,32-35 | Sl 117(118) 1Jo 5,1-6 | Jo 20,19-31

209
Estamos no segundo domingo da Páscoa. Esse domingo traz a presença do
Ressuscitado no meio da comunidade dos discípulos, para que eles percebam e
deem testemunho da ressurreição. Desse modo, a ênfase dada neste domingo é a
do encontro do Ressuscitado com a comunidade. Os textos mostram que somente
em comunidade podemos fazer a experiência desse encontro. Um dos discípulos,
Tomé, não estava com eles e por isso, sozinho, não pôde encontrar o
Ressuscitado. Duvidou quando os outros lhe contaram. Precisou que ele estivesse
junto com os demais para poder encontrar Jesus. Ele viu, acreditou e testemunhou.
Com essas notas introdutórias ao evangelho, entendemos a tônica da liturgia deste
domingo: a importância da comunidade para o encontro com o Cristo
ressuscitado.
A primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, traz um dos retratos das primeiras
comunidades cristãs. A Igreja, hoje, tem se esforçado para beber na fonte dessas
primeiras comunidades para repensar o modelo de comunidade que temos e
queremos. Desde a Conferência de Aparecida, estamos vivendo na Igreja um
processo de renovação das paróquias, buscando torná-las Comunidade de
comunidades, lugar de verdadeiro encontro com Cristo. Sem esse encontro, não
seremos testemunhas dele. Porém, isso só será possível se nossas paróquias
voltarem a ter como modelo as primeiras comunidades cristãs, relatadas nos Atos
dos Apóstolos. Um desses modelos nós temos na primeira leitura de hoje. Uma
comunidade que tinha um só coração e uma só alma, simbolizando a unidade. Ter
um só coração e uma só alma significa, entre outras coisas, ter sentimentos
comuns em relação a Cristo e a sua proposta. Além disso, eram pessoas que
partilhavam. A partilha é algo essencial na vida de comunidade. Sem a partilha
não se pode dizer que se vive em comunidade. Quando as pessoas se apoderam de
coisas, situações ou espaços, e não conseguem viver a dimensão da partilha, a
comunidade se descaracteriza, deixando de ser verdadeira comunidade.
Assim, o texto dessa primeira leitura fala de partilha de tudo, de bens, de dons e
da própria vida. Como ficam as nossas comunidades diante de uma proposta como
essa? Muitas vezes temos dificuldade de partilhar até pequenas coisas, como
ideias e espaços, quanto mais partilhar bens! É algo desafiador. O texto não deixa
dúvida de que sem a vivência de comunidade não é possível encontrar o
Ressuscitado, não é possível uma verdadeira vida cristã, pois não existe vida cristã
fora da comunidade. Mesmo que estejamos fechados nos nossos mundos, tolhidos
pelo medo, Jesus não desiste de nós. Mas é preciso que em algum momento haja
partilha, senão a comunidade deixa de existir. O texto dessa primeira leitura
destaca ainda o testemunho da ressurreição. Quando vivemos em comunidade, e
nela fazemos a experiência do encontro com Cristo, não podemos ficar parados,
guardando para nós mesmos essa riqueza do encontro com ele. É preciso anunciar.
Aqui está a essência da missão. Foi para isso que Jesus esteve entre os discípulos

210
depois de ressuscitado, como vemos no evangelho de hoje. Nessa primeira leitura,
vemos que os Apóstolos davam testemunho da ressurreição com grande poder
porque Deus lhes deu esse poder e essa certeza. Quando partilhamos o que temos
e o que nós conhecemos, o que temos e conhecemos se multiplica, pois partilhar é
semear, e semear é multiplicar. Essa é a única equação em que a partilha, a
divisão, resulta em multiplicação. Os membros da comunidade que possuíam bens
vendiam esses bens e traziam os resultados dessa venda para que os Apóstolos os
distribuíssem de acordo com a necessidade de cada um. Assim, ninguém
acumulava e ninguém passava necessidade. Essa é a base da comunidade cristã.
Nessa base, devemos alicerçar nossas comunidades cristãs de hoje. Sem esse dado
fundamental, estamos longe de ser comunidade cristã e não sendo comunidade
cristã dificilmente faremos a experiência do encontro com o Ressuscitado.
A segunda leitura, da Primeira Carta de São João, fala dessa confiança em
Cristo. Fé e confiança que nortearão nossas ações missionárias, nosso testemunho
da ressurreição. Quem acredita nasceu de Deus, isto é, é filho de Deus, e quem é
filho de Deus se comporta como tal. Assim sendo, demonstramos que acreditamos
em Deus não pelo que dizemos, mas pelos nossos atos. Quem diz que é cristão,
que acredita em Deus, mas se comporta de modo contrário aos mandamentos de
Deus, demonstra que não acredita e, não acreditando, não pode ser considerado
seu filho. Assim, quem ama a Deus deve amar os filhos de Deus, diz São João.
Não dá para entender quem diz que ama a Deus e odeia o seu irmão, diz outra
passagem bíblica. Assim, quem ama a Deus deve se esforçar para viver os
mandamentos, e os mandamentos não são pesados, diz São João, porque quem é
de Deus sente prazer em viver o bem e fazer o bem. Assim, os mandamentos se
tornam algo inerente à vida do cristão. Quem vive os mandamentos tem muito
mais força para vencer os obstáculos, vencer o mundo, diz São João.
O evangelho é estritamente pascal e está no contexto desse tempo litúrgico. O
evangelista João coloca esse encontro dos discípulos com o Ressuscitado no
domingo (primeiro dia da semana) e na comunidade. Esse dado preliminar tem
muito a nos dizer. O domingo é o dia do Senhor. Domingo é o dia em que
fazemos o encontro com o Senhor na missa, na Eucaristia. Isso não quer dizer que
somente na missa encontramos o ressuscitado, mas destaca o valor da celebração,
pois a celebração é o encontro da comunidade, e encontro com Cristo. Aqui
vemos a importância de nos esforçarmos para virmos à missa aos domingos. Além
disso, o texto mostra uma comunidade fechada pelo medo, o que nos faz refletir o
fechamento que muitas de nossas comunidades vivem. São muitas as situações
que levam ao fechamento, entre elas, a falta de consciência de comunidade; o
egoísmo; o medo, nos seus diversos desdobramentos, como, por exemplo, medo
de perder espaço e poder, medo de partilhar, medo do que os outros vão dizer,
enfim, são muitos os medos que fecham o nosso coração. Vale lembrar que o

211
fechamento dos discípulos ia além do fechamento literal de portas – era,
sobretudo, o fechamento do coração. Esse é o pior fechamento. Eles fecharam o
coração por medo. Haviam tido uma terrível decepção. Aquele em quem eles
tinham depositado toda a confiança tinha sido morto barbaramente. Eles ainda não
tinham ainda a certeza da ressurreição. A falta dessa certeza os deixava
amedrontados, sem esperança e, sobretudo, fechados em si mesmos. Uma
comunidade que se fecha em si mesma perde a sua riqueza e deixa de ser
comunidade, passando a ser apenas um grupo qualquer. Jesus não quer que isso
aconteça com os seus discípulos. Por essa razão, ele entra e se coloca no meio
deles. Colocar-se no meio deles significa que daquele momento em diante o Cristo
ressuscitado teria que ser centro de suas vidas, centro da comunidade. Nossas
comunidades devem ter Cristo ressuscitado no seu centro, isto é, ele deve ser a
razão da nossa comunidade e nada nem ninguém deve ocupar o seu lugar. Jesus se
coloca no meio deles e deseja a paz. Esse é o primeiro desejo de Jesus depois da
ressurreição. Sem paz, não haverá missão. Assim, cada discípulo missionário de
Jesus Cristo deve ser um promotor da paz. Após desejar a paz, mostra-lhes as
mãos e o lado, mostra as marcas da crucificação para que eles não tenham dúvida
de que quem está ali no meio deles é o Cristo ressuscitado e não um fantasma.
Jesus insiste na paz, mostrando quão importante ela é para o mundo. A Igreja
missionária é uma Igreja promotora da paz. Em seguida, Jesus os envia, mas não
os envia de qualquer jeito. Envia como o Pai o enviou. Ou seja, envia os seus
discípulos como cordeiros no meio de lobos, envia-os com humildade e com
coragem. Os desafios da missão são muitos. Sem coragem e humildade, não
daremos conta da missão. Humildade não é sinônimo de fraqueza ou de
submissão, mas de simplicidade na ação, enfrentando as dificuldades. Envia-os
com autoridade. A autoridade de perdoar pecados, ou seja, de enfrentar e
solucionar problemas.
O texto destaca que Tomé não estava com eles naquele primeiro encontro. Jesus
não vai ao encontro de Tomé, mas espera que Tomé vá ao encontro da
comunidade para se manifestar a ele. Os demais tinham dito a Tomé do encontro
com o Ressuscitado, mas ele não acreditou. Quando nos isolamos da comunidade,
quando não caminhamos com a comunidade, temos dificuldade de entender e de
perceber o Cristo ressuscitado, e temos dificuldade de acreditar no testemunho dos
que vivem em comunidade. Foi o que aconteceu com Tomé. Porém, quando Tomé
voltou a se reunir com ele, Jesus retorna e se manifesta a ele também. Jesus volta
e repete os mesmos gestos, manifesta os mesmos desejos a todos, mas depois se
dirige exclusivamente a Tomé, pedindo que toque nas marcas dos pregos. Quantos
de nós temos também a mesma atitude de Tomé. Não caminhamos com a
comunidade como deveríamos e questionamos certos valores. Além disso,
queremos provas concretas para acreditar. Quando Tomé viu os sinais, acreditou,

212
professou sua fé e tornou-se um anunciador da ressurreição. Cristo o repreende
dizendo que ele acreditou porque viu, mas que são bem-aventurados todos os que,
mesmo sem ter tido grandes sinais, testemunham a ressurreição. Creio que essa
mensagem serve também para nós hoje, para que sejamos anunciadores da
ressurreição mesmo que não vejamos grandes milagres acontecerem. Basta crer
que ele está entre nós para podermos anunciá-lo.
Que possamos perceber os muitos sinais que Deus realiza na nossa vida e em
nosso meio, mas mesmo que não percebamos, que a nossa fé seja suficiente para
anunciá-lo da mesma maneira. É o que nos pede a liturgia de hoje. Para isso, não
podemos perder o vínculo com a comunidade, pois é nela e para ela que ele se
manifesta.

3º Domingo
& At 3,13-15.17-19 | Sl 4 1Jo 2,1-5a | Lc 24,35-48

O terceiro domingo da Páscoa traz o conteúdo do anúncio da ressurreição: o


arrependimento e a conversão dos pecados. Estamos num tempo em que a liturgia
pede a nossa atenção para perceber os sinais da ressurreição e de que maneira
Cristo ressuscitado se apresenta para nós hoje. Uma vez percebendo, é hora de
anunciá-lo. Assim, os textos bíblicos que temos neste tempo nos trazem a
insistência com que Jesus aparece aos seus discípulos. E um dado muito
interessante são as formas e situações com que ele aparece. Vale a pena resgatar
algumas delas, pois isso nos ajuda a entender a Palavra de Deus e a perceber como
ele se manifesta hoje em nosso meio.
Desde sua Paixão, morte e ressurreição, ele tem se manifestado aos discípulos
de modo inusitado. Estamos vendo isso a cada domingo do tempo da Páscoa. A
primeira vez ele apareceu a Maria Madalena, na figura de um jardineiro. Ela
chegou a desconfiar dele, achando que ele, o jardineiro, havia roubado o corpo.
Depois, apareceu quando estavam de portas fechadas, amedrontados, e pensaram
que Jesus era um fantasma. Apareceu também como um peregrino, transeunte ou
andarilho no caminho de Emaús, e fez arder o coração dos discípulos. Eles só o
reconheceram quando ele partiu o pão. Ele apareceu também como um pedinte, à
beira do mar da Galileia, perguntando se teriam algo para comer. Enfim, são
situações inusitadas e em figuras igualmente inusitadas. Tudo isso para nos
mostrar que ele se revela ressuscitado no cotidiano de nossa vida, no rosto de
pessoas simples, basta termos a sensibilidade para percebê-lo. Assim, entendemos
melhor a dinâmica da liturgia da Palavra do tempo Pascal, sobretudo a deste
domingo.
Neste domingo, a liturgia convoca não apenas para a percepção da presença do
Ressuscitado, mas também faz um apelo para a conversão. Quem encontra o

213
Ressuscitado muda de vida, se converte. Quem se converte comunica a sua
conversão, levando essa Boa Notícia a outros, para que também se convertam.
A primeira leitura faz uma memória do mistério pascal (Paixão, morte e
ressurreição) lembrando os pecados daqueles que condenaram Jesus à morte, ou
que compactuaram com ela. Mas, sobretudo, anuncia a infinita misericórdia de
Deus, que é capaz de perdoar até mesmo atos dessa natureza. Quando há
arrependimento, pedido de perdão e conversão, Deus nos perdoa, mesmo que o
nosso pecado seja tão grave quanto o de se ter compactuado com a morte de
Cristo. Essa deve ser a essência do nosso anúncio. Anunciar a misericórdia de
Deus, que, apesar dos nossos pecados, nos perdoa, nos faz renascer com ele para a
glória. É essa a missão dos discípulos. É essa a missão de todo aquele que crê na
ressurreição e percebe seus sinais no dia a dia.
A segunda leitura chama a atenção para uma vida justa e santa, para que não
pequemos. Se pecarmos, teremos um defensor, um advogado que é Jesus, o justo e
santo, que faz santo todo aquele que se arrepende, se converte e retoma o caminho
de Deus. Com a cruz, ele expiou nossos pecados, e por isso devemos anunciar
essa maravilha a todos os que ainda não o conhecem, ou que não entenderam a
dinâmica do mistério pascal. É isso que Jesus pede que seus discípulos façam
quando aparece sucessivamente para eles, como mostra o evangelho de hoje.
Jesus, neste evangelho, aparece para os discípulos exatamente no momento em
que alguns deles partilham como tinham encontrado com ele no caminho de
Emaús, e como ele se revelou ao partir o pão. Jesus aparece nesse momento,
deseja-lhes a paz, e percebe que eles ainda estão cheios de medo. Discípulos
medrosos não terão bom desempenho na missão. Portanto, Jesus trata logo de
dissipar o medo deles, buscando deixá-los à vontade, mas os questiona sobre o
fato de eles ainda estarem perturbados e com o coração cheio de dúvidas. A
atitude dos discípulos revela a atitude que muitas vezes temos. Apesar das provas
da ressurreição que recebemos todos os dias, ainda nos deixamos levar pela
insegurança, pelas perturbações e pelos medos. Como poderemos dar testemunho
dele dessa maneira? Enquanto não dissiparmos do nosso coração esses
sentimentos, não seremos totalmente livres para testemunhar a sua ressurreição.
Jesus continua a mostrar as suas mãos e pés com os sinais da crucificação, mas
temos ainda dificuldade de assimilar esses sinais. Esses sinais estão presentes nas
mãos e pés de nossos irmãos que sofrem. Isso bastaria para darmos testemunho
dele, mas ainda temos dificuldade. Quando isso acontece, revela que ainda
carecemos de conversão.
Por fim, Jesus tenta tranquilizá-los, pedindo algo para comer, como fazia
quando ainda estava com eles. Com esse gesto, Jesus busca quebrar o clima de
surpresa e susto que pairava no ambiente. Vemos, assim, quanto Jesus se esforça
para se revelar para eles e para nós de maneira simples e tranquila, mas nós, às

214
vezes, deixamo-nos tumultuar por outras situações, dificultando nosso
entendimento dele e de sua proposta.
Depois que os cativa, Jesus faz memória de sua missão, abrindo a mente deles.
Conscientes da presença de Jesus, poderão ir para a missão. É isso que ele faz
conosco neste domingo. Ele vem e se coloca no meio de nós, no altar da
Eucaristia, na mesa da Palavra e na assembleia. Mostra-nos suas mãos e seus pés
chagados e pede que sejamos testemunhas da sua ressurreição. Seremos
testemunhas dele quando fizermos o que ele ensinou. Eis a proposta da liturgia
deste terceiro domingo da Páscoa.

4º Domingo
& At 4,8-12 | Sl 117(118) 1Jo 3,1-2 | Jo 10,11-18

O quarto domingo do tempo da Páscoa é também conhecido como o domingo


do Bom Pastor. Aqui somos convidados a avaliar nossa ação pastoral e descobrir
se estamos sendo bons pastores ou não; se estamos desenvolvendo bem nossas
ações pastorais, mas essa descoberta se faz por atos e não apenas por palavras. Há
muitos que se dizem bons pastores, mas na hora da prática, ou seja, quando chega
o perigo, os desafios, eles não enfrentam, não assumem. Nessas horas se revelam
os bons pastores. Na comunidade paroquial, sabemos quem é Bom Pastor pelo
compromisso e pela fidelidade de cada um. Nem todos que estão na Igreja são
bons pastores. Para ser Bom Pastor, é preciso conversão pessoal e pastoral, senão
estaremos apenas reproduzindo ações supostamente religiosas.
Quando se fala em pastor, logo vêm à mente o Papa, os bispos, os padres ou os
pastores de Igrejas evangélicas. Esses são pastores por excelência, ou deveriam
ser, mas são pastores também todos aqueles que assumiram um trabalho pastoral,
uma responsabilidade, seja na Igreja, seja nas diversas outras instâncias da
sociedade, mas na Igreja essa conotação se recobre de significados. Por essa
razão, os trabalhos na comunidade eclesial são chamados de pastoral, ou seja,
ação de pastores. Pastor é aquele que cuida ou que tem responsabilidade por algo
ou alguém. Porém, o evangelho alerta para duas categorias de pastores: os bons
pastores e os mercenários, isto é, os bons e os maus pastores. Há também os falsos
pastores. Estes se intitulam pastores, mas agem apenas por interesse e não se
preocupam com as ovelhas. A preocupação desses mercenários ou falsos pastores
está voltada para o retorno que as ovelhas podem dar, mas não para o amor às
ovelhas. Já o Bom Pastor cuida com amor, ama as ovelhas e dá a vida por elas se
preciso for. Aqui está a diferença fundamental entre o bom e o mau pastor.
Jesus se apresenta como o Bom Pastor. Ele é a referência suprema de Bom
Pastor. Assim sendo, ele apresenta as características do Bom Pastor e alerta sobre
os maus pastores, apontando também as características desses. Desse modo,

215
podemos identificar os bons pastores e os mercenários, e também avaliar se
estamos sendo bons ou maus pastores.
A primeira característica do Bom Pastor: ele dá a vida por suas ovelhas. Jesus
deu a vida por nós. Seguir a Cristo e o seu pastoreio é ser capaz de dar a vida
pelos outros. E mais, Jesus não diz que devemos dar a vida apenas aos que
amamos. Para esse talvez não seja tão difícil, pois o amor move para essas ações,
como uma mãe que morre um pouco a cada dia para que seus filhos tenham vida.
Ela faz renúncias e, se for preciso, priva-se até do seu alimento para alimentar
seus filhos. É o instinto materno. Mas arriscar a vida por pessoas com que não
temos laços de sangue, que pouco conhecemos, simplesmente porque sua vida
corre risco, ou porque ela está precisando, é um ato heroico e revelador do Bom
Pastoreio. Desse modo, o Bom Pastor arrisca sua vida para defender as ovelhas.
Quando ele vê o lobo chegar, enfrenta o lobo, mesmo que este represente uma
ameaça a sua vida. É o que fazem os que defendem os injustiçados. Conhecemos
pessoas que morreram em devesa da causa de outras pessoas, mesmo sem
conhecê-las diretamente. Lembramos aqui os mártires, os que tombaram em
defesa da vida dos injustiçados, de índios, posseiros, migrantes e outras categorias
de marginalizados. Quem luta em defesa dos marginalizados é Bom Pastor porque
coloca sua vida em risco para defender a causa e a vida dos que sofrem injustiças.
Essas categorias de pessoas são ovelhas vulneráveis aos lobos, e se elas não
tiverem pastores que as defendam, cairão nas garras dos lobos. Quando alguém
assume uma pastoral de fronteira, por exemplo, está dando demonstrações
concretas de que é um Bom Pastor.
A segunda característica do Bom Pastor é o conhecimento de suas ovelhas. Há
uma identificação entre o pastor e as ovelhas. Já que o texto faz uma comparação
agrária, do mundo animal, para tratar dos que têm e dos que não têm compromisso
com a vida, vale trazer um exemplo desse mesmo universo. Os animais
domésticos conhecem quando as pessoas gostam ou não deles. Um cachorro, por
exemplo, tem essa sensibilidade muito aguçada. Ele conhece pelo olhar se o seu
dono, ou qualquer outra pessoa, gosta ou tem medo dele. Eles conhecem quando
alguém rejeita. Se entre os animais irracionais isso fica evidente, quanto mais
entre os seres humanos. Porém, o humano usa de muitas simulações para disfarçar
seus sentimentos e procedimentos. Quantos são os que se aproximam dos pobres e
indefesos apenas para usá-los, ou explorá-los ainda mais? Vejamos em época de
eleições. Todos os candidatos se achegam às periferias, às áreas de risco, aos
lugares onde os pobres vivem. Mas eles não estão preocupados com os pobres.
Eles estão interessados no seu voto, ou naquilo que aquela situação pode lhe trazer
de benefício. Não é o amor aos pobres e a defesa deles que os move até eles, mas
o interesse em tirar benefício para si e para os seus. Esses são maus pastores, mas
eles só serão reconhecidos depois que forem eleitos. Por essa razão, pede-se que

216
se pesquise o histórico de cada candidato para não confundir na hora de eleger.
Essa situação revela que há lobos vestidos de pastores, com aparência de bons
pastores. Eles darão algo hoje para tirar em dobro, ou até mais, amanhã. Quem
elege um candidato porque recebeu dele algum benefício vai pagar caro por isso.
A política brasileira apresenta um quadro real dessa categoria de pastores e lobos.
Portanto, todo cuidado é pouco. Jesus alerta não apenas no âmbito político, mas
também no âmbito religioso. Há muitos pastores nas Igrejas que são maus
pastores. Por essa razão, Jesus diz que o Bom Pastor conhece as suas ovelhas e
elas o conhecem.
A terceira característica do Bom Pastor é o cuidado. Quem ama cuida, diz uma
expressão popular. O Bom Pastor guia, conduz, orienta suas ovelhas para que elas
sigam no bom caminho. Faz isso porque as ama. Aponta o caminho e prepara
essas ovelhas para que não se deixem enganar pelos falsos pastores, pelos
mercenários, enfim, pelos lobos. São aqueles que se preocupam com a formação
dos seus fiéis, de modo que tenham uma visão crítica do mundo e da religião, e
não se deixem enganar por nada nem por ninguém. O mau pastor é aquele que usa
a Palavra de Deus, a Bíblia, para manipular as pessoas e extorquir dinheiro e
procedimentos de acordo com seus interesses. Já o Bom Pastor tem uma
identificação com suas ovelhas, e elas se identificam com ele. Ele se dedica a elas
por amor, não por obrigação. Quando alguém age na Igreja por obrigação está
revelando ser um mau pastor.
O grande desafio da Igreja hoje é identificar os bons pastores e os mercenários.
As indicações de Jesus continuam válidas, ou seja, é pelas obras que se conhecem
as pessoas, e não apenas pelo discurso. Mas mesmo pelas obras é preciso ter
muito cuidado e uma visão crítica, pois há “obras de fachada”, e essas supostas
obras boas podem ter prazo de validade, ser oportunistas. Cabe avaliar, analisar e
discernir com maturidade os procedimentos dos pastores para não se deixar
enganar.
A primeira leitura mostra Pedro agindo como Bom Pastor. Ele está, nesse
momento, enfrentado os lobos e se colocando numa posição de defesa das ovelhas
e dos propósitos do pastor supremo, Jesus. Ele fala com firmeza e coragem contra
os maus pastores e contra os lobos que estão à espreita, mesmo que sua vida esteja
correndo risco. Ele nos ensina, dessa maneira, a sermos também autênticos
anunciadores da ressurreição. Anunciar a ressurreição é anunciar a proposta, o
projeto de vida daquele que morreu e ressuscitou e que é, portanto, a referência
máxima de Bom Pastor.
A segunda leitura mostra o grande amor de Deus por nós. Ele fez de seu Filho,
Jesus, um pastor exemplar. Com Jesus nos tornamos muito mais que ovelhas, nós
nos tornamos filhos de Deus, e quem crê nisso age como filho. Se ainda não
cremos é porque ainda não conhecemos a Deus. Mostra que conhece a Deus quem

217
crê no seu Filho, Jesus, e dá testemunho dele com pensamentos, palavras e atos,
diz São João nesta segunda leitura.
Vemos, assim, na liturgia de hoje, Jesus, o Bom Pastor, revelando sua ternura,
seu cuidado, sobretudo para os pobres e sofredores. Ele nos enche de alegria e nos
convida a entregar nossa vida em suas mãos, para que cuide de cada um de nós e
nos ensine a cuidar dos nossos irmãos e irmãs como bons pastores.

5º Domingo
& At 9,26-31 | Sl 21(22) 1Jo 3,18-24 | Jo 15,1-8

Neste domingo, a liturgia da Palavra nos traz o tema da união com Cristo, ou da
unidade em Cristo. Estamos no quinto domingo da Páscoa. A liturgia continua
com as características deste tempo litúrgico, ou seja, o testemunho da ressurreição
dado pelos discípulos de Jesus Cristo. Para dar um testemunho autêntico,
precisamos estar unidos a ele. Sem essa união, esse vínculo com Cristo, nosso
testemunho não é verdadeiro. É esse o critério fundamental para sermos discípulos
de Jesus. O discípulo é aquele que segue o mestre; que obedece aos seus
ensinamentos; que lê pela sua cartilha, isto é, pelos seus mandamentos. Se Cristo é
nosso mestre e Senhor, é a ele que temos que obedecer e seguir, e a mais ninguém.
Assim, a primeira leitura traz o testemunho fiel de Paulo. Porém, ele teve
resistência em ser aceito. Tudo por causa do seu histórico de perseguição aos
cristãos. Ele havia demonstrado por palavras e atos que não estava unido a Cristo.
Assim, quando se converteu, teve certa dificuldade de ser reconhecido como
verdadeiro discípulo, mesmo tendo um discurso eloquente, inflamado. Foi preciso
que outro Apóstolo, Barnabé, tomasse Saulo consigo e o apresentasse à
comunidade. Como Barnabé era alguém de confiança, as pessoas confiaram na
sua palavra e aceitaram Saulo, que depois se tornaria Paulo, o grande missionário.
Barnabé relatou o encontro de Saulo com o Senhor e como o Senhor lhe havia
falado. Esse testemunho de Barnabé a respeito de Saulo o introduziu na
comunidade, e ele pôde então desenvolver seu trabalho missionário com a firmeza
e a coragem que lhe era peculiar. Paulo tornou-se assim um dos Apóstolos mais
importantes, embora não tivesse tido a graça de estar pessoalmente na companhia
de Jesus. Mesmo assim, devemos a ele a propagação do cristianismo e a formação
de muitas comunidades. Com Paulo e os demais, a Igreja crescia em Comunidade
de comunidades e se espalhava pelos quatro cantos da terra, no sentido simbólico
do termo. Temos em Paulo o aspecto da Igreja missionária, católica e apostólica
no sentido estrito do termo. Missionária porque assumiu a missão de Cristo,
católica, no sentido da sua universalidade, e apostólica porque está alicerçada nos
Apóstolos. Hoje ela é, além de missionária, Católica, Apostólica e Romana,
porque em Roma está sua sede, sob a égide do sucessor de Pedro, o Papa. É essa

218
Igreja que nasce unida a Cristo no livro dos Atos dos Apóstolos, e assim quer
permanecer.
Essa Igreja deve ter suas ações embasadas no amor. No amor a Deus e ao
próximo, como mostra a segunda leitura, da Primeira Carta de São João. Nesta
segunda leitura, encontramos o pedido para amar não apenas com palavras ou com
a língua, mas com obras de verdade. Somente assim demonstraremos que estamos
unidos a Cristo, isto é, do lado da verdade, como afirma essa leitura. Quem ama
faz o bem a seu semelhante, e quem faz o bem ao seu semelhante tem a
consciência tranquila. Esse deve ser o comportamento do discípulo missionário de
Jesus Cristo. Ter a consciência tranquila não tem preço, e Deus é maior que a
nossa consciência. Assim sendo, quem age em sintonia com Cristo tem a
consciência tranquila. Assim, quando a nossa consciência não nos condena,
sentimos confiança de nos dirigir a Deus, através das nossas preces, das nossas
orações. Temos a liberdade de pedir e de agradecer, isto é, de nos relacionar com
ele, porque mantemos nossa fidelidade a ele. Essa fidelidade se revela na vivência
dos seus ensinamentos, dos seus mandamentos. E o mandamento é amar a Deus e
amar uns aos outros. Desse modo, quem cumpre o mandamento de Deus está com
ele, diz essa segunda leitura. O vínculo que nos une a Deus é o cumprimento de
seu mandamento. Quem diz que está unido a Deus, mas não vive os seus
mandamentos, não está unido a ele. É como um ramo fora da videira. Assim nos
mostra o evangelho de hoje.
Neste evangelho, Jesus se apresenta como videira verdadeira, tendo Deus Pai
como agricultor e nós, seus discípulos, como os seus ramos. Essa imagem elucida
bem o sentido de unidade de Cristo. Quem está unido a ele está unido a Deus, e
quem está unido a Deus produz bons frutos. Essa é a síntese do evangelho. Assim,
todo discípulo deve estar unido a Cristo e se esforçar para permanecer nessa
união. Como numa videira, os ramos envelhecem e se enfraquecem. É preciso
que, vez por outra, seja podada para dar novos brotos, recuperar e se revigorar,
mas nunca se desconectar desse tronco que é Cristo. São muitos os desafios que
nos enfraquecem enquanto ramos dessa videira. Por isso não podemos deixar de
nos alimentar pela seiva que vem do tronco dessa videira que é Cristo. Para se
alimentar da seiva de uma árvore, o ramo precisa estar unido a ela. Assim, quem
perde o vínculo com Cristo e vai por outros caminhos é como o ramo que se
desligou da videira. Ele seca, e ramo seco não dá fruto, servindo apenas para ser
jogado fora ou queimado. Assim, Jesus usa a parábola da videira para falar da
necessidade dos seus discípulos continuarem unidos a ele.
Hoje são muitas as doutrinas contrárias a Cristo. Se não tomamos cuidado,
acabamos por ser cooptados por elas. Por essa razão, a Igreja procura manter
sempre essa unidade e fidelidade, mesmo que por causa disso seja criticada ou
perseguida. Somente quem não entende o sentido dessa unidade vai por outros

219
caminhos, ou critica os procedimentos da Igreja. Aquele que permanece fiel à
doutrina da Igreja, aos ensinamentos de Cristo, é ramo unido à videira, é ramo que
produz fruto. Cristo quer que seus discípulos deem muitos frutos e frutos bons,
frutos que gerem outros frutos, como a dinâmica da semente. Assim, vez por outra
é bom checar nossa vida espiritual e pastoral para ver se estamos bem unidos a
essa videira que é Cristo. Caso percebamos alguma falha, precisamos
imediatamente corrigi-la para que nunca haja a desconexão de Cristo.
Coloquemo-nos então nas mãos do agricultor, Deus Pai, para que ele cuide dos
ramos dessa videira que somos nós. Não murmuremos quando ele nos podar. É
para o nosso bem, para o nosso crescimento. Ramo que nunca foi podado não
produz frutos de qualidade. A poda é dolorosa, mas necessária para o crescimento
dos ramos e necessária para a produção de bons frutos. Assim, a dinâmica que
Deus usa para o nosso crescimento na fé é a mesma que o agricultor usa com as
suas videiras. Ele poda, irriga, coloca adubo e aguarda os frutos. Aguarda o tempo
que for necessário, de acordo com a natureza de cada um, mas se não dermos
fruto, ele cortará de vez, pois videira que não dá fruto inutiliza a terra, e o
agricultor precisa que a terra produza. Assim também acontecerá conosco.
Precisamos nos manter unidos a essa videira que é Cristo e produzir bons frutos.
Frutos de justiça e de paz. Frutos de amor a Deus e ao próximo. Frutos de
compromisso com a vida. Eis a nossa missão, a missão de todo batizado que quer
ser discípulo missionário de Jesus Cristo. É o que nos pede a liturgia da Palavra
deste quinto domingo da Páscoa, o domingo da videira verdadeira.

6º Domingo
& At 10,25-26.34-35.44-48 Sl 97(98) | 1Jo 4,7-10 | Jo 15,9-17

O sexto domingo da Páscoa traz o mandamento do amor como tema central para
a nossa reflexão. O amor é a base de tudo. Sem amor, nada vinga; nada vai
adiante, nada dá fruto. Na missão é a mesma coisa. Se ela não for desenvolvida
com amor, seus frutos não permanecerão. Somente permanece aquilo que é fruto
do amor. Esta é a recomendação suprema de Jesus: “amem-se uns aos outros”. É a
partir dessa recomendação que desenvolveremos nossa reflexão neste dia.
Começamos pela primeira leitura, do Livro dos Atos dos Apóstolos. Pedro está
diante da casa de Cornélio, um pagão, e presencia uma cena inusitada. Cornélio se
prostra aos seus pés. O que leva Cornélio a agir dessa maneira? É o
reconhecimento de Pedro como um homem de Deus, um representante de Deus,
um portador de Deus. Pedro é visto dessa maneira por ele por uma única razão: o
amor que ele tem para com seu semelhante, para a missão que Cristo lhe confiou.
É o amor a Cristo que faz de Pedro um homem que transmite o amor, sendo
reconhecido e respeitado dessa maneira. Cornélio não consegue fazer distinção

220
entre Cristo e Pedro, pois o amor de Cristo está amalgamado em Pedro. Todo
aquele que vive o amor de Cristo deixa Cristo transparecer em si. Para Cornélio,
Pedro é Persona Christi , isto é, uma pessoa de Cristo, ou que traz Cristo em si. É
esse reconhecimento que faz com que Cornélio se prostre diante de Pedro quando
esse está à sua porta. É um grandioso gesto de acolhida. Cornélio acolhe Pedro na
sua casa e na sua vida. Pedro sente-se constrangido pelo gesto de Cornélio, pois
não se sente digno de tal ato. Diz a Cornélio que também é apenas um homem e
não um deus. Começa aqui um diálogo amistoso, amoroso, que possibilita a
entrada de Pedro na casa e na vida de Cornélio. Percebemos aqui que houve uma
acolhida recíproca. Da parte de Pedro, a humildade na maneira de abordar
Cornélio, de se dirigir até a sua casa. Essa humildade e esse amor possibilitam a
abertura e o acolhimento da parte de Cornélio. Quando nos dirigimos às pessoas
com amor e humildade, a probabilidade de sermos acolhidos da mesma maneira é
muito grande. Essa é a recomendação a todos os missionários que visitam as
famílias em seus domicílios. Esse encontro entre Pedro e Cornélio é um encontro
epifânico, isto é, revelador de Deus. Pedro reconhece no gesto de acolhimento de
Cornélio que Deus não faz distinção de pessoas, que Deus se revela até naqueles
que parecem estar distantes dele. Nós, com os nossos preconceitos, é que fazemos
distinção de pessoas. Não dá para irmos para a missão, nem testemunhar a
ressurreição de Cristo, se levarmos no coração preconceito, ou então fizermos
distinção de pessoas. Deus não faz distinção entre as pessoas. Pelo contrário, ele
aceita quem o teme e pratica a justiça, diz essa primeira leitura. O evangelho é
para todos os que desejarem acolhê-lo, para todos os que aceitarem e estiverem
dispostos a ser pessoas justas. Cornélio dá um exemplo concreto desse
acolhimento e abre espaço para que os que estavam ali, em sua volta, também
acolhessem Jesus na pessoa de Pedro. Temos aqui nesse encontro um momento de
Pentecostes. O Espírito Santo desce sobre os que estavam reunidos com Pedro,
ouvindo o anúncio da Palavra feito por ele, mesmo sendo pessoas pagãs, o que
confirma o constatado por Pedro de que Deus não faz diferença entre pessoas.
Assim, ele viu que o batismo não pode ser negado a ninguém que o deseja, mesmo
que essa pessoa não faça parte daquele grupo ou religião. Se ela deseja o batismo,
ela deve ser batizada. Ali mesmo Pedro ordenou que elas fossem batizadas,
mostrando o amor de Deus nesse gesto de acolhimento através do batismo.
A segunda leitura traz, com muita evidência, o tema do amor e o pedido que
Jesus faz no evangelho, para que amemo-nos uns aos outros. São João, nessa
primeira carta, da segunda leitura, faz o mesmo pedido. Faz isso afirmando que
todo amor vem de Deus. Quem ama manifesta Deus, mostra que nasceu de Deus,
que é um portador de Deus e que conhece a Deus, mesmo que não saiba falar
sobre ele. Há pessoas que não têm nenhum discurso sobre Deus, que não
encontram as palavras certas para falar de Deus, mas mostram Deus através do

221
seu amor. Isso vale para todos nós. Mais que falar sobre Deus, é preciso
demonstrar Deus, e isso nós só podemos fazer através do amor. Não dá para falar
de Deus se não tivermos amor. Nem sempre os que têm discursos belíssimos
sobre Deus conseguem revelar Deus. Deus só se revela em gestos de amor.
Somente quem ama consegue conhecer verdadeiramente a Deus e revelá-lo ao seu
próximo, diz São João nesta segunda leitura. Quem não ama não conhece a Deus,
diz categoricamente São João. Temos nessa leitura uma das mais belas definições
de Deus – se é que Deus pode ser definido: “Deus é amor”. Jesus foi o exemplo
supremo de amor. O amor capaz de dar a vida. Ensinou-nos que se queremos ter
Deus na nossa vida, precisamos amar e amar não apenas com palavras, mas,
sobretudo, com gestos, com obras de amor.
Assim como Deus nos amou, Jesus nos amou, diz o evangelho. Jesus nos amou
dando a vida por nós, assim nós devemos amar nossos irmãos. Somente o amor
nos faz permanecer em Deus. Quem diz que crê em Deus, ou que tem Deus no
coração, mas não consegue amar, é um mentiroso. Deus não habita onde há ódio
ou desamor. O único meio de se ter Deus na nossa vida é através do amor. E esse
meio se dá através da vivência dos seus mandamentos. Os mandamentos de Deus
são mandamentos de amor. Quem vive os mandamentos, não por obrigação, mas
por convicção, permanece no amor de Deus. Quem vive os mandamentos tem em
si a alegria de Jesus, e a alegria dele é uma alegria completa. Toda alegria ou
felicidade que não vem dele não passa de euforia passageira. A alegria verdadeira
e duradoura só pode vir de Cristo e da vivência de seus mandamentos de amor.
Assim, amemo-nos uns aos outros como ele nos amou. O amor capaz de morrer
pelo outro. Não existe amor maior que esse, diz Jesus. Se queremos permanecer
no amor de Deus, que permaneçamos na sua vida, como seus amigos, como seus
filhos, como membros de sua família. Somente o amor é capaz de nos tirar da
escravidão. Tudo o que não for amor é caminho para a escravidão, diz Jesus com
outras palavras nesse evangelho de hoje. Ele nos escolheu porque nos amou.
Assim, nós também devemos fazer escolhas acertadas na nossa vida e essas
escolhas só serão acertadas se forem pautadas no amor e na justiça.
Enfim, ele nos escolheu porque nos amou. Ele nos escolheu por amor e nos
enviou em missão. Assim, toda missão deve ser fruto do amor, da dedicação ao
próximo. Com esse gesto, revelaremos ao nosso próximo o amor de Deus, como
fez Pedro a Cornélio e aos demais pagãos que o rodeavam. É o amor que une as
pessoas e as torna filhas de Deus. Quem desenvolve sua missão com amor colhe
frutos de amor na missão. Quem age com amor, tudo o que pede a Deus recebe.
Que possamos amar-nos uns aos outros, pois somente assim Deus permanecerá
entre nós.

Ascensão do Senhor

222
& At 1,1-11 | Sl 46(47) Ef 1,17-23 ou 4,1-13 ou 4,1-7.11-13 Mc 16,15-20

O Domingo da Ascensão do Senhor é a celebração da elevação definitiva de


Jesus junto ao Pai, não como uma despedida, mas uma concretização da sua
vitória e da nossa, como discípulos e missionários dele. Assim, a elevação de
Jesus não significa distanciamento, mas aproximação definitiva, pois com a
Ascensão do Senhor se cumpre por completo a promessa de Deus.
Vimos, até agora, durante as seis semanas da Páscoa, Jesus aparecendo
insistentemente aos seus discípulos e apontando provas da sua ressurreição. Tudo
isso para que eles não duvidassem de que, de fato, ele ressuscitou. E uma vez
tendo essa certeza, eles dariam continuidade à sua missão, levando aos confins da
terra o anúncio de sua Palavra. Com a sua Ascensão, Jesus deixa de insistir, ou de
aparecer como antes, pois confia que os discípulos já não têm mais dúvidas sobre
a sua ressurreição. Assim sendo, a festa da Ascensão do Senhor marca não apenas
a ida definitiva de Jesus para junto do Pai, mas é um marco da certeza dos
discípulos na ressurreição de Cristo. Com essa festa nós também podemos deixar
de procurar sinais ou provas da ressurreição e podemos ir confiantes para a
missão, na certeza de que o Ressuscitado, de junto do Pai, caminha conosco em
Espírito. Esse Espírito que ele enviará de junto do Pai, como veremos no próximo
domingo, com a solenidade de Pentecostes. Desse modo, celebramos a partir de
hoje três grandes festas no nosso calendário litúrgico: a Ascensão, Pentecostes e a
Santíssima Trindade. Depois retomaremos o Tempo Comum, cuja característica
principal é a vida pública de Jesus, a sua missão e a nossa. Temos, assim, com a
festa de hoje, o marco inicial para a nossa missão, na certeza da ressurreição.
Podemos então resumir a Ascensão como certeza da ressurreição e fundamento da
missão. E é por essa razão que a missão, ou o envio para a missão, é o tema
principal que marca a liturgia deste domingo.
Na primeira leitura, do início do livro dos Atos dos Apóstolos, Lucas se
encarrega de dizer aos amigos de Jesus, ou seja, aos seus discípulos e a cada um
de nós, que ele já tratou de tudo sobre Jesus no seu primeiro livro. Seu primeiro
livro é o Evangelho de Lucas. Ali nós encontramos desde o nascimento, vida
pública, Paixão, morte e ressurreição de Jesus, até a sua Ascensão aos céus.
Acompanhamos seus passos durante seu peregrinar até o calvário e ressuscitamos
com ele na sua Ascensão. Por isso, a liturgia insiste em dizer que a sua Ascensão
já é nossa vitória. No início dessa leitura, Lucas se dirige a Teófilo. Teófilo não é
uma pessoa específica. A palavra Teófilo significa “amigos de Deus”, ou, em
outras palavras, discípulos de Jesus. “Téo” significa Deus e “filos” significa
amigos. Assim sendo, Lucas dá esse recado aos amigos de Deus, como já foi dito.
Esclarecida essa primeira questão, entramos no texto e vemos que ele descreve
passo a passo a Ascensão do Senhor. Faz uma espécie de memória de tudo o que

223
já vimos desde o primeiro domingo da Páscoa. Ou seja, as sucessivas aparições de
Jesus, as instruções dadas aos discípulos até que eles se convencessem de que
Jesus, de fato, tinha ressuscitado. Durante essas aparições, encontramos uma
espécie de catequese para os discípulos, ensinando-os a serem missionários, e
como levar adiante a sua proposta, ou seja, como deveriam agir. Com essas
instruções finais é que eles vão para a missão aos confins da terra, ou seja, por
toda parte. Esse legado chegou até nós, seus discípulos e missionários. Além
disso, nessas recomendações Jesus confirma que eles receberam o Espírito Santo,
o qual nós veremos com mais ênfase no próximo domingo. Nestes textos de hoje,
a recomendação fundamental é o anúncio. Que ninguém fique preocupado com
outras coisas, como, por exemplo, a restauração de Jerusalém, ou o fim do mundo.
A essência da missão é o anúncio de um novo mundo, mas sem data e hora para
acontecer. Depois dessas recomendações finais, Jesus é levado para o céu sob as
vistas deles. Eles continuavam a olhar para cima, até que homens vestidos de
branco aparecem e pedem para que deixem de olhar para o alto e olhem para a
frente, pois de agora em diante eles precisariam olhar adiante, para o mundo, e
não para o céu, pois Jesus agora se encontraria no rosto de cada irmão que sofre.
Temos aqui um alerta para não nos prendermos a uma religião que só olha para o
alto, sem olhar em sua volta. Quem não se compromete em diminuir o sofrimento
dos irmãos aqui, e fica buscando Deus fora do mundo, não conseguirá enxergá-lo.
A missão consiste nesse compromisso de ir ao encontro dos que sofrem, por isso
não podemos ficar olhando somente para o alto, alienados da realidade que nos
cerca. Quem busca Deus apenas no céu perde importantes oportunidades de
encontrá-lo aqui na terra.
A Carta aos Efésios, da segunda leitura, mostra que Deus nos deu um espírito de
sabedoria exatamente para sabermos distinguir essas situações e não nos prender a
espiritualidades vazias de compromisso, pois é o compromisso com os irmãos que
vai nos revelar Deus e nos fazer conhecê-lo profundamente. Quem estuda uma
teologia desconectada do mundo dificilmente vai conhecer Deus. Poderá saber
teorias abstratas sobre Deus, mas dificilmente fará a experiência de Deus. Por essa
razão, há muitos teólogos que falam muito bem de Deus, mas não o conhecem,
pois conhecem apenas teorias sobre ele. O encontro com Deus se faz na missão,
no encontro com os irmãos, no dia a dia da vida, se comprometendo com as
mesmas causas com que Jesus se comprometeu durante a sua vida pública. Assim
sendo, precisamos pedir que Deus abra os nossos olhos e ilumine a nossa mente,
diz essa segunda leitura. Assim, não ficaremos apenas na teoria e poderemos
compreender a esperança para a qual ele nos chamou. Somente assim vamos
compreender a riqueza da herança que Jesus nos deixou ao ir definitivamente para
junto do Pai. Ele foi, mas não nos deixou órfãos nem abandonados. Foi e enviou o
Espírito Santo, para que nos guie e aponte o caminho.

224
Com a Ascensão, Cristo adentra aos céus e se assenta à direita do Pai, muito
acima de qualquer outro poder. Com essa certeza, podemos seguir adiante na
nossa missão, pois ele nos dá a sua força para seguir adiante, conforme mostra o
evangelho de hoje.
“Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Notícia para toda a humanidade.”
Com essa ordem, o evangelho mostra o legado da Ascensão do Senhor. Ele vai
para junto do Pai e nos confia essa árdua responsabilidade: sermos os
continuadores de sua missão. Muitos sinais nos acompanharão nessa missão; entre
eles, a força para expulsar os males que atingem a humanidade, como, por
exemplo, as mais diferentes formas de demônios. São muitos os demônios que
continuam a possuir e a dominar as pessoas, e esses precisam ser expulsos para
que as pessoas tenham vida em plenitude. Isso se faz falando uma nova língua, a
língua que Jesus ensinou, ou seja, a linguagem do amor. Quem fala a língua do
amor fala com autoridade, consegue enfrentar situações difíceis e até mesmo
perigosas, e nada lhe fará mal. Agindo assim, teremos mãos curativas, ou seja,
mãos solidárias, capazes de se estender aos que sofrem, aos necessitados,
devolvendo-lhes a esperança e a vida. Temos, assim, no evangelho de hoje, a
essência da missão. Jesus, depois de dar essas recomendações finais, foi levado
para junto do Pai, com a certeza de que seus discípulos continuariam sua missão.
Os discípulos foram em missão, pregando por toda parte e sentindo a presença
de Deus, que os ajudava. Assim sendo, o desafio que a liturgia desse domingo nos
apresenta é o da continuidade da missão de Jesus. Hoje aqui nós nos encontramos
com ele como os primeiros discípulos. Ele nos falou através das leituras.
Comungamos com ele, isto é, fizemos comunhão com ele, assumindo esse
compromisso. Resta-nos, portanto, sair daqui com essa certeza e levar adiante o
compromisso assumido. Desse modo, a Ascensão do Senhor confere à nossa vida
um grande significado, nos ascendendo junto com ele ao Pai, através do nosso
compromisso de discípulos.

7º Domingo
& At 1,15-17.20a.20c-26 | Sl 102(103) 1Jo 4,11-16 | Jo 17,11b-19

A liturgia do sétimo domingo do tempo da Páscoa traz para a nossa reflexão


critérios para tomarmos decisões. Vemos que o principal deles é a oração. É
importante rezar sempre, mas, sobretudo, diante de momentos de escolha, de
decisões, ou quando confiamos algo a alguém. É assim que a liturgia da Palavra
de hoje conduz a nossa reflexão, e esta deve ser também uma oração, afinal,
quando vamos à missa, vamos para rezar, celebrar a vida, colocar nas mãos de
Deus a nossa vida e a vida de nossos irmãos.

225
A primeira leitura, do livro dos Atos dos Apóstolos, traz o processo de escolha
daquele que ocuparia o lugar deixado vago por Judas, o traidor. Os Apóstolos se
reúnem e seguem um procedimento adequado para fazer tal escolha. Eles rezam
antes, colocam nas mãos de Deus as decisões para que o Espírito Santo ilumine e
indique a pessoa certa. É esse também o procedimento que a Igreja procura ter
quando vai escolher os seus dirigentes, como, por exemplo, nos Conclaves. A
escolha de um Papa é feita sob a luz do Espírito Santo. Fica claro quanto isso é
acertado. O Sumo Pontífice, quando é escolhido, é escolhido não apenas por
critérios humanos, mas tal decisão é guiada pelo Espírito de Deus. Procedimento
similar se dá na escolha dos Bispos e em todas as instâncias da Igreja. Para a
escolha de um Bispo, além da indicação, é feita acurada e sigilosa averiguação e
avaliação do candidato, sempre sob a ação do Espírito Santo, para que a pessoa
escolhida seja indicada também pelo Espírito Santo, que seja uma pessoa de Deus.
E assim, em todas as instâncias da Igreja, as escolhas e decisões devem ser
tomadas mediante oração e entrega a Deus. Quando esses procedimentos são
feitos, a probabilidade da escolha ser acertada é muito grande. Muitos podem até
não concordar ou aprovar, mas se Deus aprovar, tudo se encaminhará da melhor
maneira. Assim também devem ser nossas ações. Não deveríamos tomar nenhuma
grande decisão sem antes rezar e fazer uma entrega total nas mãos de Deus.
Devemos fazer isso na nossa vida particular de oração e nas nossas decisões na
comunidade, nas nossas paróquias. Quantas coisas poderiam ser melhores se
tomássemos esses procedimentos fundamentais de quem tem fé, de quem acredita
em Deus e deixa sua vida ser guiada por ele. É o que nos ensinam as leituras de
hoje.
A segunda leitura destaca que nossos procedimentos devem estar sempre
embasados no amor, senão ele não é um procedimento que vem de Deus. Se Deus
nos amou tanto, por que nossas decisões e relações não são fundamentadas no
amor? Quem age com amor terá resultados que só poderão vir do amor. Não
precisamos ver literalmente a Deus para agir com amor, diz São João nesta sua
primeira Carta. Basta amarmos uns aos outros e veremos a Deus na face de nossos
irmãos, pois esta se revela em cada gesto de amor. Tomar decisões pautadas no
amor é a decisão mais acertada que podemos ter. Quem age apenas pela razão,
visando lucro ou vantagens, dificilmente conseguirá enxergar Deus nesses
procedimentos. Deus permanece em nós quando nossas ações são feitas com amor
e por amor. Assim, temos neste trecho da Carta de João, uma das mais belas
definições de Deus: Deus é amor. Somente através do amor veremos a Deus ou
permaneceremos nele. Quem não ama não permanece em Deus. Judas não amava,
por isso não permaneceu com Jesus, como vimos na primeira leitura. Ao escolher
outro para ocupar o seu lugar, os Apóstolos pedem a Deus que os ilumine para

226
escolher aquele que tivesse amor a Deus no seu coração. Assim, Matias foi
escolhido como resultado de uma escolha feita com amor.
O evangelho traz uma profunda oração de Jesus, pedindo que guarde, ilumine e
proteja os seus Apóstolos. Sua oração se assemelha à oração de um pai ou mãe
que pede proteção para os filhos. O pedido principal é que eles permaneçam
unidos. Vemos aqui o desejo de Jesus pela unidade, pela comunidade. Deus se
entristece quando seus filhos se dispersam, quando não se mantêm unidos, quando
vão para outros caminhos. Que pai ou mãe fica feliz quando seus filhos não são
unidos, quando não há verdadeira unidade em casa, ou quando eles se desviam do
caminho? Assim acontece com Deus. Quando nos dispersamos, entristecemos o
coração de Deus. Assim, Jesus pede nessa oração que seus discípulos sejam um,
assim como ele é um com o Pai. Essa passagem bíblica é comumente usada na
semana de oração pela unidade dos cristãos. A cada dia vemos o surgimento de
novas religiões, novas seitas, e ficamos a perguntar: será isso da vontade de Deus?
Quanto mais religiões vão surgindo, mais as pessoas se dispersam na sua fé,
formando pequenos ou grandes grupos que muitas vezes rivalizam entre si,
disputando a posse de Deus, como se Deus fosse propriedade desta ou daquela
religião. Tudo isso é triste de ver e mostra que o mundo carece de nossas orações.
Assim, a oração de Jesus pede a unidade, a proteção de Deus, a fidelidade a sua
Palavra e a sua missão. Esse deve ser também o teor de nossas orações e o
compromisso que devemos ter com Deus, com nossa Igreja e com nossos irmãos.
O compromisso da unidade, apesar das nossas diferenças e maneira diferente de
pensar. A comunidade é feita de pessoas diferentes. Essa é a riqueza da
comunidade, porém não podemos perder aquilo que temos de essencial, que é a
pessoa de Jesus Cristo e seus ensinamentos. Quando perdermos isso, perderemos
o sentido da nossa fé e da comunidade fundada nos Apóstolos.
Assim, Jesus se despede dos seus discípulos e vai para junto do Pai. Vai, mas
não os deixa órfãos. Ele pede ao Pai que envie o Espírito Santo para guiar os seus
passos e as suas decisões. Desse modo, confiemos sempre no Espírito Santo que
habita entre nós. Ele nos guia e conduz em nossos passos, ajuda nas nossas
decisões, basta que confiemos e entreguemos nossas ações a ele. É essa confiança
que nos ensina a liturgia deste sétimo domingo da Páscoa. Que, como pede Jesus
no evangelho de hoje, sejamos guardados do maligno. Que tenhamos a
consciência de que não pertencemos a esse mundo, mas estamos aqui para uma
breve missão, e que ela, apesar de breve, deve ser fecunda, com ações que ajudem
a revelar Deus no meio de nós. Façamos, então, todos os dias, uma consagração a
Deus e levemos sempre uma vida de oração e de sintonia com Deus. Assim,
nossas decisões serão acertadas e guiadas por ele.

Domingo de Pentecostes

227
(cor: vermelha)
& At 2,1-11 | Sl 103(104) 1Cor 12,3b-7.12-13 ou Gl 5,16-25 Jo 20,19-23 ou Jo
15,26-27; 16,12-15

Hoje celebramos a solenidade de Pentecostes. Percorremos exatos cinquenta


dias do Tempo Pascal e com esta celebração encerra-se esse tempo litúrgico e
retomamos o Tempo Comum, o tempo da vida pública de Jesus e da nossa missão.
Desse modo, a solenidade de hoje marca, simbolicamente, o início da Igreja
missionária. A Igreja que, guiada pelo Espírito Santo, vai até os confins da terra,
levando a Palavra de Deus e anunciando o seu Reino. É, portanto, do recebimento
do Espírito Santo e do envio para a missão que fala a liturgia da Palavra de hoje.
A primeira leitura, dos Atos dos Apóstolos, coloca Pentecostes cinquenta dias
depois da Páscoa. Daí o significado da palavra pentecostes, que nos seus
primórdios era uma festa agrícola. Depois passou a significar a libertação do povo
hebreu e, com o advento do cristianismo, o sopro de Deus, que une, na
diversidade, os seus discípulos, e os envia para a missão. Vemos, portanto, que é
um conceito que, com o passar do tempo, foi ganhando novos significados, sem,
contudo, perder a sua essência. Se Lucas coloca Pentecostes cinquenta dias depois
da Páscoa, João o coloca no domingo da ressurreição, o primeiro dia da semana,
conforme o evangelho de hoje. Embora o coloquem em tempos distintos, ambos
não divergem no seu significado. Pelo contrário, complementam-se, apontando
aspectos que enriquecem o sentido dessa solenidade. Esse complemento continua
na segunda leitura, quando Paulo indica a ação do Espírito nas ações da
comunidade.
A primeira leitura apresenta os discípulos, no dia de Pentecostes, reunidos no
mesmo lugar. Destaque para o elemento da unidade. O Espírito é aquele que une.
Tivemos nesta semana a semana de oração pela unidade dos cristãos. Portanto,
estar reunidos num mesmo lugar não significa fechamento, como vemos no
evangelho, mas união. Lucas, em seguida, relata a manifestação do Espírito Santo
com sinais teofânicos (forte ventania) e símbolos (línguas de fogo) que nos
ajudam a entender melhor esse mistério que preenche a nossa vida de discípulos e
missionários, como encheu a casa onde eles estavam. As línguas de fogo se
repartiam e pousavam sobre cada um deles, isto é, o Espírito preencheu cada um,
na sua individualidade. É a unidade na diversidade, como encontramos na segunda
leitura. Todos receberam dons do Espírito Santo e esses dons os unem, dão
entendimento, sabedoria, temor de Deus, fortaleza, ciência, conselho, inteligência.
Eles passam a se entender, mesmo sendo tão diferentes uns dos outros. É a
linguagem do amor, entendida em qualquer parte do mundo. Assim, o Espírito os
capacita para anunciar as maravilhas de Deus na sua própria língua, isto é, faz

228
com que as pessoas entendam a mensagem e se entendam. Pentecostes é isso: o
entendimento dos povos em torno da Palavra de Deus.
A Igreja missionária renova constantemente esse compromisso de se fazer
entender e levar a Palavra de Deus a todos, começando dentro de nossas paróquias
e se estendendo para a missão Ad Gentes , nos confins da terra, fazendo com que
aconteça o que cantamos no salmo de hoje: “Envia teu Espírito, Senhor, e da terra
toda a face renovai”. O Espírito nos renova e nos recria para fazer novas todas as
coisas, colocando em comum nossa diversidade de dons.
Paulo reforça esse dado da solenidade de hoje, destacando, na segunda leitura, o
senhorio de Jesus no Espírito Santo. Somos diferentes, temos dons distintos,
porém temos que estar unidos no mesmo Cristo Senhor. Essas diferenças de dons,
de serviços, de ministérios fazem a riqueza da nossa Igreja. Uma Igreja
ministerial, a serviço do Reino de Deus, unida pelo Espírito Santo em vista do
bem comum. Ser Igreja é viver na unidade sem perder as particularidades próprias
de cada pessoa e de cada ministério. Paulo usa a imagem do corpo para falar dessa
unidade na diversidade. O corpo é um, embora tenha muitos membros, e esses
membros cumprem sua função para promover a unidade do corpo. Assim também
acontece com Cristo, afirma Paulo nesta leitura. Não importa quem somos. O que
importa é como agimos em relação a Cristo e ao próximo. Fomos batizados num
único Espírito para formar um único corpo e nos alimentar dele para manter essa
união. Quem está unido a ele está fortalecido e não teme. Quem não teme se abre
para a missão, como pede o evangelho de hoje.
Depois do ocorrido (Paixão e morte de Jesus), os discípulos se fecharam por
medo. Os símbolos que os cercam mostram essa situação paralisante (noite, portas
fechadas, medo). Porém, é o primeiro dia da semana, começa um tempo novo. A
crença na ressurreição tinha dado lugar ao medo e do medo surge o desassossego,
a carência de paz. Jesus adentra essa situação rompendo as barreiras que os
paralisam e se coloca no meio deles. Esse gesto de Jesus significa que, de agora
em diante, ele deve ser o centro da vida deles. Quem tem Jesus como centro de
sua vida não teme e não se fecha, mas corajosamente se abre para a missão. Jesus,
ao se colocar no meio deles, lhes deseja a paz. Ele sabe que falta paz no coração
dos discípulos. Sem paz, não é possível ser discípulo e missionário. Sem paz não
se pode continuar a missão de Jesus, por isso, o primeiro desejo dele, depois de
ressuscitado, é que os seus discípulos tenham paz. Repetimos esse gesto de Jesus
em todas as celebrações eucarísticas, quando desejamos a paz uns aos outros. É o
desejo de Jesus que se renova neste gesto simbólico, mas carregado de significado
teológico. Depois de lhes desejar a paz, Jesus mostra as marcas da crucifixão, para
que eles não tenham dúvidas de que de fato é ele mesmo, ressuscitado, que está
entre eles.

229
Hoje, de alguma forma, Jesus continua rompendo nossos isolamentos se
colocando no meio de nós, desejando a paz e mostrando as marcas nas marcas de
nossos irmãos que sofrem. Eles são os clamores do crucificado ressuscitado que
chegam até nossos ouvidos para que não nos esqueçamos da missão que ele nos
confiou. Jesus, depois dessas preliminares, mostra a que veio: sopra sobre eles o
Espírito Santo. Pede que eles o recebam e os envia como o Pai os enviou. Aqui se
dá o Pentecostes de João, bem no dia da ressurreição. Essa passagem nos remete
ao livro do Gênesis, quando Deus criou o homem do barro e soprou sobre ele o
Espírito que lhe deu vida. Aqui temos a nova criação. Jesus, com o sopro do
Espírito Santo, recria os seus discípulos para a missão. É a Igreja missionária que
nasce e está pronta para se expandir até os confins da terra.
Enviar como o Pai o enviou significa, entre outras coisas, servir na humildade,
porém com coragem e firmeza. Significa ser perseverante diante dos obstáculos e
não esmorecer quando as coisas não saem como queríamos que saíssem. É estar
pronto para enfrentar os lobos que estão à espreita. Jesus chama, capacita e envia
seus discípulos para a missão. Assim, temos a solenidade de Pentecostes, que
recorda o Espírito que foi soprado sobre nós para exercermos com afinco nossa
missão de batizados.
Retomamos com esta celebração o Tempo Comum. Daqui em diante, vamos
deixar nossa vida ser guiada pelo Espírito Santo e nos empenhar na missão dentro
e fora da comunidade. Nosso empenho missionário fará da nossa comunidade
paroquial mais santa e perfeita, tendo como modelo a Santíssima Trindade, que
será celebrada no próximo domingo.

SOLENIDADES DO SENHOR QUE OCORREM NO TEMPO COMUM


(cor: branca)

Santíssima Trindade
& Dt 4,32-34.39-40 | Sl 32(33) Rm 8,14-17 | Mt 28,16-20

Embora a liturgia da celebração da Santíssima Trindade não tenha a pretensão


de discorrer sobre a Teologia da Trindade, nem fazer um tratado sobre a Trindade,
é importante esclarecer, de antemão, alguns pontos para evitar certas confusões,
erros e má interpretação do tema, sobretudo achar que a Trindade significa três
deuses. Não são três deuses, mas três pessoas em um único Deus: o Pai, o Filho e
o Espírito Santo. Assim, as leituras propostas para essa festa tratam de discorrer
sobre cada um deles, mostrando, por fim, a sua unidade na diversidade, revelando,
assim, a grandeza de Deus e seu insondável mistério. Por essa razão, a Trindade é
o sinal da unidade, da perfeita comunidade. É o Deus uno e trino que se desdobra

230
em três pessoas para que possamos ter acesso a ele, conhecê-lo e, ao conhecê-lo,
amá-lo e testemunhá-lo, como pede o evangelho de hoje.
A primeira leitura, do livro do Deuteronômio, trata da primeira pessoa da
Santíssima Trindade: o Deus Pai. Mostra com clareza e evidência sua unicidade,
sem se contradizer com a sua trindade. Esse texto dissipa toda dúvida sobre a
unicidade de Deus. Não existe outro Deus. Ele é único e perfeito, e existiu antes
de todos os tempos. A leitura fala da grandeza desse Deus e seus poderes. Um
Deus que caminha com seu povo e que se revela de inúmeras maneiras, sempre
cheio de compaixão e misericórdia, tão grande, mas ao mesmo tempo tão próximo
e tão solidário. O Deus da vida e que dá a vida, fazendo de tudo para que todos
tenham vida em plenitude, libertando de todas as formas de opressão, escravidão e
morte, desde o Egito até nossos dias. É esse Deus que devemos seguir e meditar
em nosso coração, pois não existe outro além dele. Para que ele esteja conosco,
basta seguir os seus mandamentos, viver a sua Palavra, os seus ensinamentos. Se
fizermos isso, tudo correrá bem para nós e nossa família, hoje e sempre, e
veremos nossos dias se prolongarem sobre a terra como prêmio pela obediência a
ele, diz a primeira leitura.
Esse Deus Pai nos ama tanto que enviou seu único Filho, Jesus Cristo, a
segunda pessoa da Santíssima Trindade, para que pudéssemos conhecê-lo, amá-lo
e propagá-lo. Ele se fez um de nós. Quer prova maior de amor? Esse gesto de
Deus é surpreendente. Até então nunca ninguém tinha visto a Deus, mas para que
pudéssemos conhecê-lo, ele enviou seu Filho, assumindo, assim, a condição
humana, exceto o pecado. Assim, o evangelho fala de Jesus, da sua e da nossa
missão. No monte, lugar de encontro com Deus, se dá o encontro definitivo dos
onze discípulos com Jesus. O número dos Apóstolos era doze, porém o evangelho
fala de onze. Está vago o lugar de Judas. Esse décimo segundo lugar está
reservado para nós. Nós, como discípulos missionários dele, devemos ocupar esse
lugar. Portanto, neste dia em que celebramos a Santíssima Trindade, somos
convidados a subir com os onze ao monte, na Galileia, para ali encontrar com ele,
o Deus Filho. Mesmo que alguns ainda duvidem, ele não será menos Deus pelo
fato de certas pessoas duvidarem. Deus não depende de nossa crença para existir.
Nós é que precisamos acreditar para poder conhecê-lo. Quando cremos no Deus
uno e trino, ele vem ao nosso encontro, se aproxima e se revela a nós. Nesse
encontro, ele revela a sua grandeza, como vimos na primeira leitura. Aqui, mais
uma vez, Deus revela sua grandeza e poder na pessoa do seu Filho, dizendo:
“Toda a autoridade foi dada a mim no céu e sobre a terra”. Quando reconhecemos
sua grandeza, sua autoridade, nós lhe obedecemos. Portanto, ele nos envia com
autoridade para a missão. Pelo fato da festa da Santíssima Trindade estar no início
do Tempo Comum, tempo da vida pública de Jesus e sua missão, a liturgia de hoje
tem a intenção de nos colocar também na dinâmica desse tempo litúrgico,

231
acentuando o envio para a missão. Vemos, assim, com clareza, Jesus, que envia os
discípulos: “Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem discípulos
meus”. De que maneira os discípulos fariam outros discípulos? Em nome do Deus
trino, ou seja, batizando em nome da Trindade, em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo. Assim, todas as nossas ações religiosas, todas as nossas
celebrações, iniciam e terminam em nome da Trindade. O Deus trino está em toda
parte: no sinal da cruz e na cruz propriamente dita. Porém, não basta batizar. O
batismo, por si, não é um ato mágico. Muita gente pensa que basta batizar para
que a pessoa esteja pronta, ou preparada. Não é bem assim. O batismo é o sinal do
compromisso, é a aliança selada com Deus numa determinada religião, mas para
que a pessoa professe aquela fé e seja discípula, é preciso preparação,
ensinamento. Assim sendo, Jesus pede que batize em nome do Deus trino, mas
ensine. Ensine os batizados a observar tudo o que ele ordenou; observar os seus
mandamentos. Aqui voltamos mais uma vez à primeira leitura, que destaca a
importância dos mandamentos de Deus na vida dos fiéis, dos discípulos. A única
maneira de Deus permanecer conosco é através da vivência de sua Palavra, ou
seja, da vivência de seus mandamentos. Por essa razão, Jesus é enfático quando
diz que, se vivermos e ensinarmos os seus mandamentos, ele estará sempre
conosco, até o fim do mundo. Simples assim. Às vezes, procuramos tantas
maneiras de conhecer Deus ou de estar com Deus em tantos lugares, quando na
verdade basta viver os seus mandamentos para que ele esteja conosco em qualquer
hora e lugar. É o que nos ensina o evangelho de hoje, ao tratar da segunda pessoa
da Trindade, Jesus.
A segunda leitura, da Carta aos Romanos, fala da terceira pessoa da Trindade, o
Espírito Santo, e pede para que nos deixemos guiar pelo Espírito de Deus, pois
todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos dele. Temos, assim, a
maneira mais eficaz de identificar quem é filho de Deus e quem é escravo. Basta
deixar-se guiar pelo seu Espírito. Quem é guiado pelo Espírito de Deus faz as
coisas de Deus, faz o bem, vive os seus ensinamentos, pois seus ensinamentos são
para o nosso bem. Quem não é guiado pelo Espírito de Deus comporta-se como
escravo. Há muita gente que diz ter uma religião, mas tem comportamento de
escravo, pois enxerga Deus como um patrão castigador, pronto para punir ou
recompensar. Pensando e agindo dessa maneira, ela também reproduzirá com seus
semelhantes a maneira de pensar sobre Deus. Essas são, comumente, pessoas de
coração duro. Pessoas que rezam, cumprem preceitos religiosos, vão à missa, mas
têm dificuldade de perdoar, de amar, porque não conseguem conceber um Deus
que ama e que perdoa. A Igreja está repleta de pessoas rancorosas, mal-amadas,
que por qualquer coisa derramam o seu rancor sobre as outras, condenando-as,
como se fossem santas e perfeitas. Pessoas que agem dessa maneira não estão se
comportando como filhas, mas como escravas, pois somente quem não se enxerga

232
filho de Deus pode agir dessa maneira, sem amor, mas com rancor. Se Deus é
amor, seus filhos devem agir com amor. A Carta aos Romanos nos mostra que
chamamos Deus de Pai (Abba! Pai) e, portanto, devemos nos comportar como
filhos.
É a terceira pessoa da Trindade, o Espírito Santo, quem nos assegura de que
somos filhos de Deus. A ele devemos confiar nossa vida e nossas ações, para que
elas sejam de fato vidas e ações condizentes com ações de pessoas que são filhas
de Deus. Assim, vemos quão grande é Deus. Além de nos amar
incondicionalmente e se desdobrar para que possamos ter acesso a ele e conhecê-
lo, ele nos faz herdeiros dele. Não existe herança maior do que a herança que
recebemos de Deus. Herdeiros com Cristo, diz a segunda leitura. Herdeiros de sua
dor, de seus sofrimentos, mas também de sua glória. Eis a razão da nossa vida:
herdar a glória de Deus. A maior herança que se pode receber. Tudo isso nós
recebemos através de um Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. Façamos jus a
essa filiação com palavras e ações, de corpo e alma, e Deus estará sempre
conosco. É o que nos pede a liturgia da festa da Santíssima Trindade.

Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo


& Ex 24,3-8 | Sl 115(116) Hb 9,11-15 | Mc 14,12-16.22-26

Celebrar a solenidade do Corpo e Sangue de Cristo é fazer memória da Nova


Aliança que Deus fez conosco, tendo Cristo como centro de nossa vida e de
nossas ações. A celebração de Corpus Christi remonta ao século XIII. Ela foi
instituída pelo Papa Urbano IV em 08 de setembro de 1264, como forma de
evidenciar ainda mais a presença real de Cristo na Eucaristia. Com essa
celebração devemos perceber ainda mais a importância da Eucaristia na nossa
vida, não como um ritual mágico, mas como compromisso com Deus e com a
Comunidade eclesial, com os irmãos. A Eucaristia se esvazia de significado se
não for acompanhada de compromisso, pois Aliança significa pacto, e pacto
significa compromisso entre duas ou mais partes.
A liturgia da Palavra deste ano B do calendário litúrgico traz textos bíblicos que
destacam essa característica da Aliança que Deus fez com seu povo, mostrando a
Antiga Aliança, na primeira leitura, com sangue de cordeiros imolados no pacto
com Deus, e o sangue de Cristo, o Cordeiro de Deus, no evangelho, que derramou
seu sangue por nós. A Carta aos Hebreus, na segunda leitura, se encarrega de fazer
essa passagem da Antiga para a Nova Aliança, mostrando o amor de Deus que se
derrama por nós, suprimindo, assim, toda forma de sacrifício, de sofrimento ou
dor. O sacrifício de Cristo abole todas as outras formas de sacrifício. É Deus que
renova sua aliança conosco através de um estupendo gesto de amor.

233
Assim, celebrar essa festa é celebrar a vida de Cristo em nós. Esse Cristo que
nos ama incondicionalmente e que, por nos amar tanto, dá a sua vida por nós, dá o
seu corpo e o seu sangue como alimento, fazendo, assim, parte de nossa vida,
através da comunhão eucarística e da sua Palavra. Toda vez que celebramos a
Eucaristia, fazemos memória desse sacrifício, até que ele venha, diz a Oração
Eucarística, mas hoje a celebração eucarística ganha um significado todo
particular. É esse Cristo que caminha conosco, recordando a presença de Deus na
caminhada do povo hebreu pelo deserto, rumo à terra prometida. Quando saímos
em procissão pelas ruas, com o Corpo de Cristo na hóstia consagrada, elevada no
ostensório, recordamos diversos momentos da história da Salvação. Lembramos a
serpente levantada no deserto, que curava os que olhavam para a haste levantada;
recordamos a caminhada do povo hebreu no deserto, como já foi dito; fazemos
memória de um Deus que continua a caminhar com seu povo, ajudando-nos a
atravessar os desertos de nossas vidas, enfim, fazemos memória da Nova Aliança,
o pacto ou compromisso que Deus tem conosco e que temos com ele.
A primeira leitura, do livro do Êxodo, mostra Moisés apresentando as leis de
Deus ao povo e o povo assumindo com Moisés e com Deus o cumprimento dessas
leis e mandamentos. Eles prometem fazer tudo o que Deus mandar, tudo o que
Deus pedir, ou seja, eles prometem fazer a vontade de Deus. Vemos, assim, que
basta fazer a vontade de Deus e ser fiel à sua Aliança que as coisas caminham no
rumo certo, pois assim deixamos Deus guiar os nossos passos. Para concretizar
esse compromisso, essa Aliança com Deus, eles fazem um pacto através de um
ritual: constroem um altar, oferecem holocaustos e imolam novilhos como
sacrifícios de comunhão. Uma parte do sangue dos animais sacrificados foi
colocada em bacias, e outra, derramada sobre o altar. Deu-se, assim, um pacto
ritual da Aliança de Deus com seu povo. Uma aliança feita com sangue de
novilhos que mais tarde foi rompida pela infidelidade do povo, mas Deus não
desiste dele, porque o ama. Assim, com o passar do tempo, ao romper essa
Aliança, esse pacto, Deus viu que era preciso uma nova Aliança, agora totalmente
diferente, algo revelador do profundo amor de Deus pelo seu povo. Assim, a Carta
aos Hebreus mostra Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo
através de seu sangue, como essa Nova Aliança. Ele entra no santuário, isto é, na
nossa vida, de outro modo, diz a leitura. Não mais através do sangue de bodes e
novilhos, mas com o seu próprio sangue. Foi a maneira mais eficaz de nos libertar
definitivamente da escravidão do pecado. Se antes os sacrifícios tinham a função
de purificar o exterior, como disse a Carta aos Hebreus, agora o sacrifício de
Cristo purifica o interior, a alma, e por isso somos salvos por ele. Ele purifica
nossa mente, nosso coração e todo o nosso ser, para podermos servir de corpo e
alma ao Deus vivo, sem nos preocuparmos com ritos sacrificiais vazios de
compromisso com Deus.

234
O evangelho de hoje, estritamente pascal, traz o sentido pleno dessa nova
Aliança, mostrando que Cristo redimensionou os sacrifícios antigos de modo que
eles fossem agora transformados num sacrifício que agrade a Deus. Temos, assim,
a ceia pascal, memória da páscoa judaica que faz a passagem para a Páscoa cristã.
Durante a ceia Jesus apresenta seu corpo e seu sangue como sinal da nova
Aliança. Os discípulos assumem assim um compromisso com ele. Todas as vezes
que celebramos a Eucaristia, todas as vezes que comungamos, fazemos essa
memória, atualizamos esse compromisso, essa aliança. Hoje, ao celebrar a
solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo, reafirmamos esse compromisso com
ele, até que ele venha.
Ao sair pelas ruas com o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, passando sobre
tapetes coloridos, devemos recordar o significado simbólico desse gesto de
preparar os caminhos do Senhor. Enfeitar o trajeto onde o Cristo Eucarístico vai
passar significa, entre outras coisas, assumir o compromisso de preparar seus
caminhos da melhor maneira. Como podemos preparar os caminhos do Senhor?
Com justiça e com amor. Sem esses dois ingredientes, nenhum caminho será
digno de sua passagem. Portanto, não basta enfeitarmos as ruas, ou os locais onde
o sacerdote vai passar com o Cristo Eucarístico. É preciso também, e sobretudo,
enfeitar, isto é, preparar o coração, a alma, para que deles emanem os verdadeiros
ornamentos que agradam a Deus. Devemos, assim, nos revestir com as vestes da
justiça, estender nos seus caminhos os tapetes do amor, e assim estaremos, de fato,
preparando uma bela trajetória para a passagem de Cristo. Assim, os tapetes, ou as
ruas que decoramos, devem refletir a beleza de nosso coração, do nosso
compromisso com Cristo, e não ser apenas um ritual ou procedimento estéticos
vazios, como os sacrifícios antigos. A beleza que agrada a Deus é a beleza de um
coração convertido, pronto a servi-lo nos seus filhos e filhas que sofrem as
mazelas de uma aliança da qual nem sempre nós cumprimos a nossa parte.

Sagrado Coração de Jesus [3]


& Os 11,1.3-4.8c-9 | Sl (Is 12) Ef 3,8-12.14-19 | Jo 19,31-37

O Sagrado Coração de Jesus tem muito a nos ensinar. Ele nos ensina a bondade,
o amor e a compaixão; ensina a nos relacionarmos como irmãos e a revelar o rosto
materno de Deus em nossos atos e palavras. Ao celebrar a festa do Sagrado
Coração de Jesus, peçamos que esse Jesus manso e humilde de coração faça o
nosso coração semelhante ao dele. Um coração capaz de se compadecer do
sofrimento alheio e dar a vida para resgatar do sofrimento o irmão que sofre. Um
coração sensível à prática do bem.
A primeira leitura, da profecia de Oseias, mostra esse Deus amoroso, de coração
compassivo, revelando o amor paterno na figura de um Pai que trata seus filhos

235
com todo carinho e cuidado. O profeta usa uma linguagem figurada para falar
desse Pai amoroso, de coração sensível, com uma bondade incomensurável.
Mostra que quando Israel era menino, ele o amou. Ou seja, amou seu povo desde
sua formação como povo. Ele nos ama desde o ventre materno. Quando esse povo
cresceu, tornou-se escravo no Egito. Ele o chamou e com mão e braço forte o tirou
da escravidão. É esse Deus que todos os dias nos tira das diversas formas de
escravidão a que nos submetemos, mas nem sempre reconhecemos esse gesto
amoroso do Deus Pai e do seu coração compassivo para com o nosso sofrimento.
O povo hebreu, apesar dos cuidados de Deus, se afastou dele, não reconhecendo
seu amor. Nós também, muitas vezes, nos afastamos de Deus, seja por orgulho,
prepotência ou ignorância. Nem sempre sabemos reconhecer esse amor infinito de
Deus na nossa vida; um Deus que sempre quer o nosso bem. O povo hebreu
desviou-se dos caminhos de Deus e passou a adorar outros deuses, oferecendo
sacrifícios aos baais e queimando incenso aos ídolos, diz o profeta. Nós, muitas
vezes, colocamos outras coisas no lugar de Deus, como o dinheiro, o poder, o
prazer etc. Ou então através da prática de uma religião que busca apenas a
satisfação pessoal, esquecendo Deus e os irmãos. São atitudes que revelam o
afastamento de Deus e a abertura de espaço para que outras coisas ocupem o lugar
dele na nossa vida. O profeta Oseias chama a atenção para essa situação, para que
vejamos nossos atos e retornemos no caminho de Deus; retornemos para os seus
braços amorosos de Pai que acolhe os filhos com o coração ardendo de amor,
apesar das rebeldias e desvios desses filhos. Deus ensinou o povo hebreu, mas
parece que eles não aprenderam a lição. Ele nos ensina todos os dias, na escola da
vida, mas demonstramos não ser alunos aplicados, ou filhos obedientes. Somos
rebeldes e, como outrora, também somos um povo de cabeça dura. Até quando
vamos rejeitar os ensinamentos de Deus? Até quando vamos continuar repetindo
os mesmos atos de rebeldia? E até quando Deus terá paciência conosco e nos
perdoará? Cabe pensar nessas questões neste dia do Sagrado Coração de Jesus,
pois seu coração continua sangrando por nós, e cada vez que não obedecemos a
sua voz, que não o escutamos, ou que praticamos coisas que o desagradam, é
como se cravássemos lanças no seu coração; é como se abríssemos seu lado
esquerdo com uma lança, como fez o soldado do evangelho de hoje. Porém, ele
continua a segurar nossas mãos e nos ensinar, como um pai ou mãe segura a mão
do filho que aprende a dar os primeiros passos. Foi isso que ele fez com o povo
hebreu. É isso que ele faz conosco todos os dias. Porém, não percebemos que é
Deus quem cuida de nós e continuamos a achar que fazemos tudo por nós
mesmos. Não percebemos que sem Deus não somos nada; nada podemos fazer de
bom sem ele. Ele nos atrai com laços de bondade, diz o profeta, com cordas de
amor, e por isso não podemos achar que Deus nos amarra ou nos aliena. Ele é
liberdade e foi para a liberdade que ele nos libertou. Os laços de amor não

236
prendem, não amarram, simplesmente unem na liberdade de escolha. Quem ama
deixa livre, embora o amor seja um laço, ou um enlace. Porém os laços do amor
não são prisões. Por isso, um casal, quando se une em matrimônio, por amor,
realiza um enlace matrimonial. Quer dizer que eles foram enlaçados pelo amor.
Nessa relação amorosa do Pai conosco, temos a certeza de que ele nos enlaça e
não nos abandona, porque quem ama cuida e não deixa seu amado escapar por
outros caminhos. Assim, o profeta Oseias apresenta alguns questionamentos no
final desta primeira leitura que revelam a grandeza do coração de Deus, que se
inflama de amor por nós: “Como poderia eu abandoná-lo, Efraim? Como haveria
de entregar você a outros, Israel? Será que eu poderia tratá-lo como Adama? Eu
poderia tratá-lo como Saboim? O meu coração salta no meu peito, as minhas
entranhas se comovem dentro de mim”. Não dá para negar a força dessas
expressões. Um Deus que tem um coração que arde de amor por nós e cujas
entranhas se comovem cada vez que vê um filho seu sofrendo, ou se desviando do
caminho. É esse também o coração de Jesus.
A segunda leitura, da Carta aos Efésios, traz o anúncio de Paulo, cuja missão é
anunciar aos pagãos o amor do Coração de Jesus, que se inflama de amor pelos
pequenos, marginalizados e excluídos. Pelos que sofrem, pelos desamparados,
enfim, por todo aquele que, como a ovelha perdida, se desvia do caminho. Paulo
fala dessa Igreja missionária, cuja missão é anunciar o amor de Deus Pai e do seu
Filho Jesus, até os confins da terra, para que todos conheçam a multiforme
sabedoria de Deus e o seu amor infinito, a ponto de dar ao mundo o seu Filho
unigênito para que nos aproximássemos dele na confiança e na fé. Que possamos
reconhecer esse amor infinito de Jesus e, assim, dobrar nossos joelhos diante do
Pai, e que ele faça Cristo habitar em nossos corações, pela fé.
O evangelho de hoje, de São João, traz um trecho da morte de Jesus, quando um
soldado atravessou o lado dele com uma lança, e imediatamente saiu sangue e
água. Dois elementos que simbolizam vida, ou a passagem da morte para a vida.
Esse gesto mostra a consumação do amor de Cristo por nós, derramando seu
sangue na cruz e lavando os nossos pecados. É o coração de Jesus transbordando
de amor por nós. Apesar de o sangue simbolizar também a morte, a água
simboliza o Espírito que dá a vida. Morte e vida se entrelaçam nesse gesto. É a
vida vencendo a morte. Com sua morte, Jesus trouxe a vida. É a consumação da
expressão “o Bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas”. Esse gesto deve tocar o
nosso coração, para que nos esforcemos para ter um coração semelhante ao dele,
capaz de dar a vida pelos nossos irmãos. Assim, concluamos essa nossa reflexão
repetindo juntos, três vezes, a jaculatória do Sagrado Coração de Jesus: “Jesus
manso e humilde de coração, fazei nosso coração semelhante ao vosso”.

237
TEMPO COMUM
(cor: verde)

2º Domingo
& 1Sm 3,3b-10.19 | Sl 39(40) 1Cor 6,13c-15a.17-20 | Jo 1,35-42

A liturgia deste domingo traz o tema do chamado e do seguimento. Dois temas


interligados, inseparáveis, pois todo chamado de Deus supõe uma proposta de
seguimento e exige de nós uma resposta. Porém, há quem não aprendeu a ouvir o
chamado de Deus, como o menino Samuel, e que precisa de outros para ensinar-
lhes a ouvir. Há os que ouvem, isto é, sabem o que é da vontade de Deus, sabem o
que é bom e o que é mal, mas optam pelo que não é bom, configurando ou unindo
seu corpo a corpos que estão ainda presos no pecado, como mostra a segunda
leitura. Estes carecem de conversão. E há os que ouvem e seguem prontamente, e
ainda ajudam outros a também conhecer e seguir Jesus, como vemos no evangelho
de hoje, na pessoa de André, discípulo de João.
E nós, como estamos ouvindo e respondendo a esse chamado?
É o que propõe a liturgia de hoje: saber ouvir Deus que chama, de diferentes
maneiras, e responder com solicitude a esse chamado. Mas não vamos ficar
esperando ouvir uma voz do além para segui-lo. Ele chama de outras maneiras e
em diversas situações.
A primeira leitura, do primeiro livro do profeta Samuel, traz o chamado que
Deus fez ao profeta ainda menino. Deus sempre tem propósitos na nossa vida e
nos chama muito cedo, no alvorecer da vida. Há pessoas que ouvem esse chamado
ainda crianças e conseguem responder. Samuel estava com o profeta Eli e ouvia
uma voz que o chamava insistentemente. Ele se levantava e se dirigia até Eli,
achando que era ele quem estava chamando. Na terceira vez que Samuel foi até
Eli, este entendeu que era Deus que o chamava e o orientou como proceder.
Ensinou Samuel a responder corretamente, dizendo “fala, Javé, que o teu servo
escuta”. Temos aqui a ideia central dessa primeira leitura. Colocar-se à disposição
de Deus para que ele fale na nossa vida e aponte o caminho certo, o reto agir, o
proceder conforme a sua vontade. Muitas vezes, ficamos surdos para os insistentes
chamados de Deus, ou não queremos entender que é Deus quem nos chama.
Arranjamos desculpas, fingimos não entender, ou não entendemos de fato. Nesse
último caso, precisamos que alguém nos ensine a escutar e responder
corretamente. Precisamos de alguém que nos ajude. No caso de Samuel, ele teve
Eli, que foi um anjo na sua vida, ensinando-o a responder com solicitude ao
chamado de Deus e se colocando à sua disposição. Diz essa leitura que, depois
disso, Deus começou a agir na vida de Samuel, tornando-o o grande profeta que
ele foi.

238
O que essa primeira leitura tem a nos ensinar?
Ela nos ensina muitas coisas, dentre elas que Deus não tem um tempo certo para
chamar. Ele pode chamar quando ainda estamos no ventre materno, ou então
quando ainda somos crianças, como foi o chamado de Samuel, ou então quando
somos jovens, adultos ou anciãos. Há muitos jovens que ouvem o chamado de
Deus e descobrem sua vocação em tempo de colocar-se a serviço de Deus e do
próximo. Já outros têm dificuldade e levam anos para saber o que Deus quer de
sua vida. Mas não basta ouvir o chamado, é preciso se colocar à disposição de
Deus. Para ele agir em nossa vida, precisamos fazer como Samuel: deixar que
Deus fale e nos colocar numa postura de escuta. Ou então como fez Maria quando
o anjo lhe fez o anúncio da escolha para ser a mãe do Salvador. Ela, embora
confusa com a proposta, disse: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim
segundo a sua palavra”. Assim sendo, nossa disposição de ouvir o chamado de
Deus é fundamental para que ele seja ouvido de fato. Quem se fecha para Deus
não vai ouvir o seu chamado, ou pode até ouvir, mas não vai entender que é Deus
quem chama.
O evangelho de hoje continua o tema do chamado, dando destaque agora ao
seguimento, à pronta resposta daquele que viu Jesus e que se encantou por ele a
ponto de segui-lo. Foi o que ocorreu com André, discípulo de João e irmão de
Simão. Estando com dois de seus discípulos, João viu Jesus passar. Ele não
perdeu a oportunidade de apresentá-lo a eles. João o apresenta como “o Cordeiro
de Deus”. Essa apresentação de Jesus feita por João aos seus discípulos, nós a
recordamos todos os dias na Eucaristia, ao apresentá-la a assembleia: “Eis o
Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. E a assembleia responde:
“Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma
palavra e serei salvo”. Ou seja, manifestamos a nossa indignidade em recebê-lo na
nossa vida, no nosso coração ainda tomado pelo pecado e pelas resistências em
entender o seu chamado, mas sabemos que ele pode transformar a nossa vida e o
nosso coração com apenas uma palavra. Quem confia verdadeiramente em Deus,
no Cristo presente na Eucaristia, o Cordeiro de Deus imolado por nós, por causa
de nossos pecados, torna-se digno de recebê-lo, de segui-lo, de testemunhá-lo.
Assim, João apresenta Jesus a André e ao outro discípulo. Ambos, depois dessa
apresentação, seguem Jesus.
O que está faltando a nós para segui-lo de fato?
Será que ele não nos está sendo apresentado, ou nós é que não queremos
percebê-lo, reconhecê-lo?
Quando seguimos Jesus, não somos ignorados por ele. Os discípulos de João
estavam seguindo Jesus, e ele percebeu esse seguimento. Voltou para eles e
perguntou o que eles estavam procurando.

239
Qual seria a nossa resposta se Jesus se voltasse para nós e perguntasse o que
estamos procurando quando o seguimos, quando vamos à missa, quando
buscamos outros sacramentos?
O que queremos quando nos tornamos cristãos?
Podem ter certeza de que muitos ainda não sabem, pois são muitos os que
recebem a comunhão, o batismo e outros sacramentos, sem saber qual o seu real
significado. Recebem, mas não assumem os sacramentos. São os que são
batizados por superstição, tradição, ou por qualquer outro motivo pessoal, ou que
recebem a comunhão ou o sacramento do crisma, mas não querem compromisso
com Deus e sua Igreja. E o número de pessoas que procedem dessa maneira não é
pequeno. Ao ser questionado por Jesus, eles têm a resposta, eles sabem o que
estão querendo e buscando. Eles querem saber onde Jesus mora. Eles querem
conhecer a morada de Deus. Querer saber onde é a morada de Deus significa
compromisso, pois a morada de Deus é o seu Reino. Buscamos o Reino de Deus,
mas esse Reino é fruto da justiça, do compromisso com a vida, não é algo mágico.
Buscar conhecer a morada de Jesus, seu Reino, sem se comprometer com ele, é
buscá-lo de modo errado. Jesus viu que eles tinham no coração um verdadeiro
desejo de conhecê-lo, por isso os convidou: “venham e vocês verão”. Diz o texto
que eles aceitaram o convite. Eles responderam ao chamado. Eles foram e viram
onde Jesus morava. E ao ver onde Jesus morava, suas vidas se transformaram.
Quem faz esse encontro verdadeiro com Cristo tem sua vida totalmente
transformada. Foi o que ocorreu com André e o outro discípulo. Eles começaram a
viver com ele naquele mesmo dia. De discípulos de João, passaram a discípulos de
Jesus. Houve uma mudança de rumo nas suas vidas, uma transformação total.
André, um dos que ouviram e seguiram, não parou por aí. Tornou-se “pescador”
de gente, isto é, discípulo missionário de Jesus Cristo. Ele foi ao encontro de seu
irmão e disse que havia encontrado o Cristo. André apresentou Jesus ao seu irmão
Simão. Quando Simão encontrou Jesus, viu também sua vida ser transformada.
Desse dia em diante, passou a se chamar Cefas, que quer dizer pedra. Ou seja,
tornou-se o Pedro que conhecemos. Jesus precisa de muitas “pedras”, isto é,
Pedro, José, João, Maria... para construir seu Reino. Precisamos nos tornar uma
dessas rochas que ajudam a alicerçar o Reino de Deus. Portanto, não sejamos
pedras de tropeços, obstáculos para que o Reino aconteça, mas pedras que
edifiquem, fortaleçam, tornem sólido o Reino entre nós. Esse é o propósito do
chamado de Jesus. Ele está esperando nossa resposta, e a nossa resposta não pode
ser apenas verbal, ou seja, apenas com louvores e atos penitenciais, mas também
com atos concretos, com um verdadeiro compromisso cristão. Esse compromisso
começa dentro de cada um de nós e se estende para a comunidade, como vemos
na segunda leitura de hoje, da primeira Carta de São Paulo aos Coríntios.

240
Quando comungamos, alimentamos, fortalecemos nosso corpo com a presença
de Cristo, que passa a habitar em nós. Desse modo, devemos fazer jus ao Cristo
que recebemos na Eucaristia. A comunhão é compromisso com ele. Quem dele
comunga, mas não vive conforme ele viveu e ensinou, banaliza a Eucaristia e
mostra que não está comungando de fato, mas apenas praticando um ritual vazio.
A comunhão se completa com as nossas ações, diz Paulo nesta leitura, com outras
palavras. Quando comungamos, mas depois não respeitamos o nosso corpo,
praticando atos de imoralidade, por exemplo, vulgarizamos a comunhão recebida.
Com a comunhão, nosso corpo passa a ser membro de Cristo, e isso supõe que
sejamos dignos dessa presença em nós. Se não somos, ele nos faz ser, como vimos
anteriormente, ao dizer “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha
morada, mas dizei uma palavra e serei salvo”. Porém, não basta dizer isso da boca
para fora. É preciso dizer isso de coração e assumir um propósito de mudança, diz
Paulo Apóstolo.
Que o nosso corpo, isto é, nossos atos, sejam coerentes com o Corpo de Cristo
que recebemos na comunhão e que o nosso seguimento a ele não se resuma a
práticas devocionais ou sacramentais, mas a atos de amor ao próximo, de
compromisso com a vida, enfim, de ações concretas, ações que promovam a
morada de Deus, isto é, o seu Reino, que também é nosso. Façamos, portanto,
como Samuel e André, vamos nos colocar sempre prontos a ouvir o chamado de
Deus, a vê-lo e segui-lo, e cultivar no nosso coração o desejo de ver sua morada,
pois somente assim vamos querer permanecer com ele.

3º Domingo
& Jn 3,1-5.10 | Sl 24(25) 1Cor 7,29-31 | Mc 1,14-20

O tema do chamado continua presente na liturgia deste domingo, porém, com


enfoques distintos. Sempre que temos na liturgia a temática do chamado, é para
refletirmos sobre o chamado que ele nos fez e faz e, sobretudo, sobre a nossa
missão e a missão da Igreja. Quais são os apelos da Igreja hoje? Quais são os
nossos apelos? Neste domingo o chamado volta como tema para não esquecermos
que somos chamados por Deus e que temos uma missão. Qual? A resposta é de
cada um, mas ela precisa ser pensada em comunidade. Vale lembrar que estamos
praticamente no início do Tempo Comum na liturgia, tempo em que vemos a vida
pública de Jesus e a sua missão. A partir da missão dos profetas e Apóstolos, e da
missão de Jesus, fundamentamos a nossa missão e a responsabilidade com o
projeto de Deus a nós confiado. Assim, não fica difícil responder qual é a nossa
missão e avaliar como estamos respondendo ao chamado dele.
A primeira leitura traz o chamado que Deus fez a Jonas. Deus colocou diante
dele uma árdua missão: ir converter uma grande cidade. Nínive era uma

241
metrópole, e sabemos que as metrópoles têm grandes desafios pastorais. Assim, o
desafio da missão de Jonas lembra o desafio da pastoral urbana, a pastoral dos
grandes centros, onde as pessoas vivem numa dinâmica que favorece o
individualismo, o distanciamento uns dos outros e, consequentemente, o
distanciamento de Deus, pois a correria do dia a dia e as inúmeras situações e
propostas que cercam as pessoas levam-nas a pensar que Deus não tem
importância. Daí emerge uma série de questionamentos: como lidar com essa
realidade? Como ser profeta dentro dos grandes centros urbanos? Como ser Igreja
Comunidade de comunidades, onde a sociedade conduz para o individualismo?
São desafios das “Nínives” de nossos tempos, sobre as quais a missão de Jonas
nos leva a refletir. Jonas, apesar das resistências aos apelos de Deus, assume a
missão. Ele caminhou o dia todo pela cidade, anunciando a proposta de Deus, de
conversão daquele povo, e, por incrível que isso possa parecer, os habitantes de
Nínive começaram a acreditar em Deus. Ou seja, eles não acreditavam em Deus.
Era uma cidade de pessoas que haviam suprimido Deus de suas vidas. Isso nos faz
lembrar a onda do secularismo que atinge as grandes cidades da Europa e que vem
chegando com muita força aos grandes centros urbanos de nosso país. Esse é um
dos grandes desafios da Igreja e da pastoral nas grandes cidades. Precisamos de
pessoas como Jonas, que, apesar de suas limitações, assumem a missão de
evangelizar nessa realidade de aridez religiosa. A conversão se deu do maior ao
menor, ou seja, todos se converteram, e a missão foi um sucesso. Quantas vezes
temos resistências aos apelos de Deus e não aceitamos a missão por achar que ela
é impossível? Para Deus, nada é impossível. Se Jonas não tivesse aceitado a
missão, a cidade não teria se convertido e teria sido destruída. Estava, portanto,
em suas mãos uma grande responsabilidade, a vida daquela cidade. Quanta
responsabilidade Deus tem colocado em nossas mãos como discípulos e
missionários, mas nós não percebemos? Se fraquejarmos, se não cumprirmos
nossa missão, se não respondermos ao chamado, muitas vidas perecerão. Muitos
ainda não têm consciência disso, e por causa dessa falta de consciência, não
respondem ao chamado de Deus. Outros não respondem por comodismo ou por
falta de fé, falta de confiança em Deus. Quando a missão parece maior que nós, é
natural fraquejar, lastimar e até ter atitudes infantis, mas se confiamos em Deus,
ele nos dá força para suportar e vencer. Jonas se sentia impotente diante da
missão, mas o resultado dela foi grandioso, muito maior que ele.
Assim, o texto mostra que Deus nos capacita quando nos envia para uma
missão. Portanto, não tenhamos medo. Confiemos mais em Deus e ele agirá em
nós de modo que nossas ações sejam transformadoras. Para que isso ocorra em
nós, é preciso que passemos por um processo de conversão. Jonas cumpriu sua
missão, mas ainda continuou tendo atitudes que revelavam a sua pequenez, no
sentido de ainda não ter compreendido completamente o projeto de Deus. O

242
versículo dez mostra Jonas se lamentando por causa de uma hera, na qual ele se
protegia do sol, que secou, e Deus mostra para Jonas que ele deveria se preocupar
com coisas mais importantes. Ele acabara de salvar uma cidade e estava triste
porque secou uma planta que nem foi ele quem plantou. É o que acontece conosco
muitas vezes. Não percebemos as urgências que nos cercam e perdemos muito
tempo com coisas pequenas, com detalhes. Na vida da comunidade eclesial é a
mesma coisa. Há tanto por fazer, tantas coisas importantes e urgentes clamando a
nossa ação e a nossa preocupação, e nós perdemos tempo com coisas sem
importância, nos desgastamos com coisas irrelevantes. Cabe pensar nisso também
ao refletir sobre a missão de Jonas, pois, como diz a segunda leitura, da primeira
Carta de São Paulo aos Coríntios, o tempo é breve, ou, como dizem os jovens, “a
fila anda”.
Se o tempo se tornou breve, como diz o Apóstolo Paulo, é hora de nos
preocuparmos com aquilo que é essencial. Não podemos perder tempo com coisas
insignificantes. Porém, a proposta desta segunda leitura é que vivamos de modo
desprendido, sem nos apegar àquilo que somos ou fazemos. Talvez seja este um
dos grandes desafios do missionário, hoje: não se apegar. Não se apegar não
implica insensibilidade, mas a capacidade de saber até quando somos necessários
em determinado lugar. É natural que aprendamos a amar as pessoas que nos
cercam e a área de missão onde atuamos, mas chega um momento em que é
preciso desarmar a tenda, colocar as ferramentas da missão na mala e se dirigir
para outra área de missão. Nisso consiste ter, mas se comportar como se não
tivesse, chorar as dores e o sofrimento da vida, mas viver como se não chorasse,
isto é, não deixar que nossos limites e fraquezas, nossas sensibilidades,
atrapalhem a missão. Assim, Paulo vai pontuando as coisas que temos e fazemos
no dia a dia, para nossa sobrevivência e convívio social, mostrando que tudo isso
é parte da vida de qualquer pessoa, mas que não devemos centrar apenas nisso, ou
viver em função disso. A vida é muito mais que isso. Há algo maior que todas
essas coisas nos esperando; precisamos nos lançar nessa direção, pois tudo nesta
vida é passageiro. Assim, a leitura chama a atenção para a brevidade da vida. Não
vamos perder tempo com bobagens. Há muito a fazer e coisas importantes a serem
atendidas, pessoas precisando de nós, vidas sendo ceifadas, enfim, a messe é
grande, mas os operários são poucos.
Vemos no final desta segunda leitura uma estreita sintonia com o final da
primeira. Deus chama a atenção de Jonas por causa da sua preocupação exagerada
com a hera que secou. Paulo mostra a brevidade do tempo e chama-nos a atenção
para nos preocuparmos com o que realmente importa a Deus. Foi para isso que ele
nos chamou, como mostra o evangelho de hoje.
O evangelho contextualiza o chamado dos discípulos, destacando a necessidade
de pessoas para a missão. É um tempo de sofrimento, perseguição e morte. É

243
preciso conter essa onda de violência que assola o mundo da época de Jesus (e da
nossa época). O Evangelista Marcos traz a situação do momento, mostrando que o
chamado de Jesus se dá depois que João Batista foi preso. Depois desse episódio e
todas as suas consequências, Jesus volta para a Galileia. A Galileia é território de
missão, é lugar de desafio, e é dentro dessa realidade que ele chama os seus
primeiros discípulos. Vale lembrar que neste domingo a liturgia traz mais uma vez
o chamado de Simão e André, porém de um modo diferente. Enquanto o
Evangelista João (como vimos no domingo passado) tratou do chamado desses
dois irmãos mostrando que Jesus foi apresentado primeiro a André, por João
Batista, e André se encarregou de apresentá-lo ao irmão, Simão, Lucas mostra o
chamado desses dois irmãos de modo distinto. Jesus está passando na beira do
mar da Galileia e vê Simão e seu irmão André pescando. Jesus os convida para
segui-lo com a proposta de fazer deles pescadores de gente. Diz o texto que eles
imediatamente deixaram as redes e seguiram Jesus. É claro que o texto está
simplificado, resumido, sem entrar em detalhes do processo desse chamado. Foi
uma forma sintética de o autor relatar o chamado desses dois discípulos, mas
sabemos que, entre o chamado e a resposta, muita coisa aconteceu até que eles se
convencessem de que seguir Jesus, aceitar sua proposta era algo realmente
importante. O mesmo se deu com Jonas. Houve muita resistência antes de ele
aceitar a proposta de Deus. Mas o que importa aqui é que o chamado se dá no
cotidiano de nossa vida, em meio às nossas atividades diárias, e não em situações
miraculosas ou especiais, como muitos podem imaginar. Deus passa todos os dias
na nossa vida e faz o seu chamado, apresentando os desafios. Só o fato de
sabermos da existência de situações calamitosas já é uma espécie de chamado.
Mas às vezes estamos tão envolvidos na labuta diária, ou distraídos nos nossos
afazeres, que não percebemos ou não ouvimos o chamado. Achamos que os
acontecimentos, as tragédias humanas são “normais”. Quando perdemos a
capacidade de nos sensibilizar com a dor alheia, isso é um forte indício de que
carecemos de conversão. Assim, perdemos, muitas vezes, a oportunidade de fazer
algo maior e mais importante do que aquilo que estamos fazendo.
Jesus continua passando no meio de trabalhadores e desocupados, chamando-os,
como fez com os irmãos Simão e André, com os filhos de Zebedeu, Tiago e João,
e com tantos outros. Assim, ele segue ainda hoje passando e chamando, não sem
antes mostrar as situações de desafio que nos cercam. Basta olhar em nossa volta
para ver quantas coisas e situações estão clamando, pedindo o nosso
envolvimento, o nosso empenho, a nossa participação para ajudar a solucionar. E
nós continuamos a jogar nossa rede no aquário de nossa vida, sem nos preocupar
com os grandes mares, com as águas mais profundas, com os verdadeiros desafios
da missão. Desse modo, o evangelho chama a nossa atenção para a missão. Aliás,
toda a liturgia de hoje tem o propósito de chamar a nossa atenção, para avaliarmos

244
como estamos procedendo diante dos apelos do mundo. É preciso estar mais
atento ao chamado para poder responder com solicitude. Eis o apelo da liturgia da
Palavra deste domingo.

4º Domingo
& Dt 18,15-20 | Sl 94(95) 1Cor 7,32-35 | Mc 1,21-28

Neste domingo somos convidados a refletir sobre os ensinamentos de Deus,


dados com autoridade, para que possamos também agir em nome de Deus, com
autoridade, expulsando de nossa vida, e da vida de nossos irmãos, tudo o que não
é de Deus. É muito comum as pessoas terem dúvidas sobre o que é e o que não é
de Deus e, diante disso, agirem equivocadamente, colocando Deus fora de seus
planos ou buscando coisas que não são de Deus. Pessoas que agem assim abrem
espaços para os “espíritos maus” se apoderarem delas, e pessoas apoderadas de
espíritos maus promovem grandes estragos na comunidade, na família e na
sociedade. Precisamos ter quem nos oriente nos caminhos de Deus, pois nem
sempre temos o discernimento para isso. Precisamos de pessoas que falem,
ensinem e vivam com autoridade e não com autoritarismo. É o que nos propõe a
liturgia da Palavra deste domingo.
A primeira leitura, do livro do Deuteronômio, trata desta questão: profetas que
ajudem o povo a discernir os caminhos de Deus para agir conforme a vontade
dele, fazendo o bem e promovendo a vida. Assim sendo, a ênfase dessa primeira
leitura recai sobre o papel dos profetas. Profeta é aquela pessoa que recebeu de
Deus uma missão e a ela se dedica fiel e coerentemente. Todos nós, pelo batismo,
recebemos uma missão profética, mas nem sempre a exercemos como
deveríamos, ou por não sabermos que a temos, ou por nos termos desvirtuado, ou
desviado dela por influência dos “maus espíritos”. Por isso, além de não exercê-la,
muitas vezes não percebemos os profetas que nos cercam e nos alertam sobre os
males. Quando isso ocorre, agimos de maneira que desagrada a Deus e ao
próximo, pautando nossa vida em coisas fúteis, vãs e sem sentido. Por exemplo,
não são poucas as pessoas que leem horóscopo e agem conforme o que viram
escrito sobre seu signo. Essas pessoas esquecem os ensinamentos de Deus para
seguir os ensinamentos de pessoas que nem sempre sabem o que estão falando.
Ou então seguem outras pessoas que não têm discernimentos cristãos, ou de
acordo com a Palavra de Deus, e assim vão construindo suas vidas sobre areia
movediça. Essas pessoas ficam vulneráveis e sucumbem diante de qualquer
problema, pois não têm suas vidas alicerçadas em Deus. Em vista disso, a
primeira leitura faz um alerta para aqueles que consultam astrólogos e adivinhos,
mas não ouvem os ensinamentos dos profetas. Deus suscitará profetas no meio
desse povo e eles terão a missão de apontar os bons caminhos, denunciando os

245
que procedem de modo errado e apontando o que é certo. Vemos, assim, que Deus
fala através dos profetas, pois ninguém ouve diretamente a voz de Deus, diz essa
primeira leitura. Cabe a nós perceber, entender e obedecer essas vozes, esses
sinais que nos são enviados, no cotidiano de nossa vida, e perceber o que Deus
quer de nós. Assim, Deus diz que fará surgir do meio de nossos irmãos pessoas
cuja missão profética fará a diferença na nossa vida. É preciso saber ouvi-las.
Quem são esses profetas? Pode ser o padre de nossa paróquia, um religioso ou
religiosa, um leigo, um pai ou mãe, um amigo ou um irmão, e até mesmo uma
pessoa desconhecida que Deus coloca no nosso caminho para nos ensinar algo.
São muitos os profetas e situações proféticas que temos em nossa volta. Porém, o
que nos impede de percebê-los? Talvez seja a nossa insensibilidade, ou a nossa
falta de fé, ou ainda nossa carência de formação religiosa. Enfim, são muitas as
situações que nos tornam ignorantes da Palavra de Deus e da sensibilidade
religiosa. Desse modo, a primeira leitura chama a atenção para essas e outras
coisas que nos ajudam a fortalecer a nossa fé e o nosso compromisso com Deus,
sem nos deixar levar por falsos profetas, ou por situações e acontecimentos que
pouco ou nada têm de Deus.
Para que isso aconteça, precisamos nos dedicar mais a Deus e nos livrar das
preocupações mundanas, ou seja, daquelas coisas que ocupam a maior parte de
nosso tempo e que nos fazem esquecer Deus e os seus ensinamentos. É o que
propõe a segunda leitura, da primeira Carta de São Paulo aos Coríntios. Nessa
segunda leitura, o Apóstolo chama a nossa atenção para que nos livremos das
preocupações. De quais preocupações? Daquelas que muitas vezes achamos que
são elementares, mas que na verdade são secundárias e roubam o nosso tempo.
Por exemplo, a nossa condição, seja ela social ou sexual, não deve ser desculpa
para não nos dedicarmos às coisas de Deus. A pessoa que não é casada, por
exemplo, deve cuidar das coisas de Deus de modo que lhe agrade, e não levar uma
vida fútil, sem compromisso, diz São Paulo, com outras palavras. Paulo mostra
que quem é solteiro tem muito mais possibilidade e condição de servir a Deus,
mas nem sempre isso acontece. Pelo contrário, às vezes, a pessoa solteira fica tão
envolvida com as tentações do mundo que se esquece de Deus. Ou então, se a
pessoa é casada, se preocupa apenas com seu cônjuge e com a casa, esquece Deus,
a vida espiritual. Ou seja, independentemente da situação ou condição da pessoa,
ela deve se dedicar a Deus e colocá-lo sempre em primeiro lugar na sua vida.
Paulo diz isso como Apóstolo e como profeta, para o bem da sua comunidade e da
nossa, pois uma pessoa ou comunidade que não tem Deus como prioridade não
pode ser uma pessoa ou uma comunidade de Deus, e quem não é de Deus não está
com ele e, não estando com ele, pode estar com o que é mau. É preciso, portanto,
eliminar de nossa vida essas situações ou procedimentos que não são de Deus ou
que não nos conduzem a ele. É o que mostra o evangelho de hoje, quando Jesus

246
ensina com autoridade a expulsar os males que nos impedem de agir conforme a
vontade de Deus.
O evangelho começa destacando os ensinamentos de Jesus, com a autoridade
que lhe é peculiar, ou seja, com a autoridade que vem de Deus, uma autoridade
que faz toda a diferença. Seus ensinamentos não são como os ensinamentos dos
doutores da Lei. Os doutores da Lei ensinam teorias e Jesus ensina teoria e
prática. Os doutores da Lei ensinam, mas não vivem o que ensinam. Jesus ensina e
vive o que ensina. Aqui estão as diferenças fundamentais entre os ensinamentos
de Jesus e os ensinamentos dos doutores da Lei. A coerência é fundamental nos
ensinamentos. Quem ensina, mas não vive o que ensina, desacredita do próprio
ensinamento. Nisso consiste a autoridade de Jesus. Fala com autoridade aquele
que vive o que fala. Isso vale para o padre, para o pastor ou professor, para os
pais, para os agentes de pastoral, enfim, vale para todos nós. Se quisermos ensinar
com autoridade, devemos dar testemunho, na prática, daquilo que pregamos, ou
que ensinamos. Esse é um dos primeiros e fundamentais ensinamentos de Jesus.
Depois dessa introdução fundamental, o evangelho coloca Jesus diante de um
homem possuído por um espírito mau. A presença de Jesus faz com que ele, o
espírito mau, se sinta incomodado. Quem é verdadeiramente profeta incomoda os
que não são. Incomoda os que não agem conforme os ensinamentos de Deus. Só a
presença de pessoas de Deus já incomoda os que ainda não têm Deus no coração.
Quantas vezes nos vemos envolvidos em problemas sem que entendamos de
imediato a razão? São os “espíritos maus” que são incomodados com a presença
dos justos. Os justos, os bons, os profetas, sempre serão perseguidos, caluniados e
até mortos por causa dos “espíritos maus” que povoam a mente de pessoas que
ainda não conheceram Deus. Essas situações desagradáveis podem ocorrer em
todos os lugares, inclusive dentro da comunidade eclesial e da família. Mas não
podemos nos deixar sucumbir a elas. É preciso força, perseverança e fé. Aqui
entra o ensinamento de Jesus com autoridade. Deus nos concede autoridade sem
precisarmos ser autoritários. Pessoas religiosas autoritárias ainda não conheceram
a autoridade de Jesus, por isso agem com autoritarismo. A autoridade nos faz falar
e agir com amor. O autoritarismo nos faz falar e agir pela lei, pela força, pelas
rubricas, e isso não conquista, não atrai e, sobretudo, não expulsa os “espíritos
maus”. Pelo contrário, dá-lhes mais força, pois o autoritarismo é procedimento de
quem não conheceu o amor de Deus. As pessoas ficavam encantadas,
maravilhadas com os ensinamentos de Jesus exatamente porque seus
ensinamentos eram de amor e não apenas pautados nas leis. Quando agimos com
amor, é possível acabar com os males que se apoderam de pessoas e de situações,
e somente assim podemos construir um mundo melhor, com pessoas melhores.
Eis a proposta do evangelho de hoje e da liturgia da Palavra como um todo.

247
Portanto, sejamos profetas e vivamos nossa missão de construir um mundo mais
justo e fraterno, onde as pessoas se amem e se respeitem. Um mundo onde não
haja tanta violência e tanto desrespeito à vida. Um mundo onde os “espíritos
maus” não encontrem mais espaços e somente as pessoas de espírito bom possam
desenvolver suas ações. Nisso consiste a nossa missão profética.
Que nossas palavras e ações levem outros a pensar e desejar um mundo melhor
e que todos tenham consciência da sua responsabilidade na promoção do Reino de
Deus que começa aqui.

5º Domingo
& Jó 7,1-4.6-7 | Sl 146(147) 1Cor 9,16-19.22-33 | Mc 1,29-39

Os textos propostos para a liturgia deste domingo são profundamente


existenciais, pois falam do sentido da nossa vida e da nossa missão neste mundo.
Eles colocam diante de nós questões que mexem com todo o nosso ser, pois
tratam da vida e das razões de estarmos neste mundo. Não são textos para nos
colocar em crise existencial, ou de fé, mas para nos reanimar na fé e na esperança,
pois precisamos saber o que viemos fazer neste mundo e como estamos exercendo
a nossa missão.
A primeira leitura abre a nossa reflexão com um texto do livro de Jó. A história
de Jó é bastante conhecida. Ele era um homem de bem e de bens, tinha tudo o que
qualquer pessoa desejaria ter: bens materiais, dinheiro, uma bela família, saúde,
amigos, fé em Deus. Muitos podem até dizer: “quando se tem tudo isso, fica fácil
crer em Deus! Quero ver crer em Deus na miséria!”. Pois é, Jó tinha tudo isso,
mas perdeu tudo, restando-lhe apenas a fé em Deus. Muitos, diante de tamanha
perda, perdem a fé também. Há quem perca a fé por muito menos. Basta perder
um bem qualquer, ou então um bem realmente valioso, como um ente querido,
para se revoltar contra Deus e achar que ele não existe ou que o está castigando.
Jó passa por um processo doloroso de perdas. Perde seus bens materiais, ficando
na miséria. Consequentemente, perde os amigos. Os poucos que ficam ao seu lado
em nada ajudam, apenas aumentam o seu sofrimento, julgando-o por ter perdido
tudo e culpando-o pelo sofrimento. Como se não bastasse, ele perde também a
família e a saúde, e se vê em extremo sofrimento. O texto de hoje relata esse
estado de miserabilidade de Jó, que vê sua vida perdendo o sentido para nos
ajudar a refletir sobre o sentido da nossa vida e da nossa missão nesse mundo. Jó
passa noites em claro, refletindo e esperando pela chegada de um novo dia, para
ver se algo de novo e melhor lhe acontece, mas quando o dia chega, as coisas
continuam de mal a pior, e ele aguarda a chegada da noite para ver se tem
descanso. Nesse dilema existencial, questiona sobre o sentido da sua vida e a
compara à de um homem que está cumprindo um serviço militar, ou seja, de

248
dureza e obrigações, sem prazer nas coisas que faz. Ou então a um diarista, que
trabalha em troca de um salário, mas não vê sentido nas suas ações. Porém, esse
salário, essa recompensa é irrelevante diante do pesado fardo, tornando a sua vida
algo penoso, tendo como herança meses de ilusão e noites de fadiga. Ele se vê
consumido por miséria e dor, com a esperança se esvaindo pela falta de sentido
das coisas e pelas constantes perdas. Diante de tal situação, sua vida é colocada a
nu, sem subterfúgios nem esperanças. Diante de tudo isso, surge o
questionamento: como confiar em Deus? Jó fez essa pergunta diversas vezes, e o
final do livro mostra que valeu a pena confiar, embora ele tivesse tido muitos
momentos de fraqueza, medo e desespero, próprios de qualquer ser humano diante
do sofrimento extremado, como foi o seu caso.
Mas o que tudo isso tem a nos dizer?
Essa situação mostra que às vezes é preciso chegar ao fundo do poço para ver
que Deus não nos abandona. Mostra que Deus é maior que todas as nossas dores e
misérias. Mostra que nossa missão neste mundo não se encontra nos bens que
possuímos, e que quem tem fé verdadeira, mesmo que seja minúscula como um
grão de mostarda, é capaz de superar e vencer os obstáculos e sofrimentos. Enfim,
mostra que a nossa missão neste mundo é lutar contra o sofrimento, mesmo que
para isso tenhamos que ver nossa vida ameaçada, ou a nossa esperança por um fio.
Lutar não apenas contra o nosso sofrimento, mas contra o sofrimento de nossos
semelhantes e de qualquer ser vivo. Somos, assim, operários do Senhor, servos na
sua messe e trabalhadores de sua vinha. Não devemos agir por recompensa, mas
por amor a Deus, é o que nos mostra a segunda leitura, da primeira Carta de São
Paulo aos Coríntios.
Nesta segunda leitura, Paulo Apóstolo mostra que sua missão é anunciar o
evangelho, e isso não é título de glória para ele, mas obrigação, ou seja, uma
necessidade que lhe foi imposta. Por essa razão, ele não tem direito a salário.
Desse modo, ele mostra que, embora seja livre em relação a todos, tornou-se servo
de todos, no sentido de servir a todos como missão a ele confiada e não como
busca de status . Com essa exortação, Paulo nos mostra que nossa missão neste
mundo é servir. “Quem não vive para servir não serve para viver”, diz um dito
popular que se encaixa bem nas explanações do Apóstolo. Assim sendo, o sentido
de nossa vida está em servir. Quanto mais servimos, ajudando a outros,
gratuitamente, mais nossa vida se recobre de sentido e significado. Quem não
ajuda o próximo, quem não faz o bem vê sua vida perder o sentido, como Jó viu
sua vida perder o sentido quando perdeu seus bens. Há muitas pessoas cheias de
posses, mas com uma vida vazia e sem sentido. Podemos ter de tudo nesta vida,
do bom e do melhor, mas se não formos pessoas solidárias, aptas a ajudar os
outros e a fazer o bem, nossa vida fica sem sentido. Aqui está a explicação por
que fazer o bem ao próximo nos faz tão bem. A pessoa nem precisa ser religiosa

249
para se sentir bem fazendo o bem. É algo inerente ao ser o humano. É o que dá
sentido à vida. Quem ainda não descobriu isso não descobriu o sentido da vida e
vive de modo que seus dias não passam de sombras que passam. Assim, essa
segunda leitura vem completar a primeira, mostrando que o sentido da vida
consiste em fazer o bem, em servir sem esperar nada em troca.
O evangelho trata dessa mesma questão, mostrando Jesus fazendo o bem e
ensinando os seus discípulos a fazer o mesmo. O bem é algo contagiante. Quem é
beneficiado pelas boas ações de outros se coloca prontamente à disposição para
também fazer o bem. É o que vemos nesse evangelho. Jesus sai da sinagoga e vai
logo à casa de Simão. Temos aqui alguns procedimentos importantes de serem
elucidados. O primeiro deles é que Jesus mostra uma Igreja que sai dos seus
templos e vai ao encontro das pessoas, sobretudo dos necessitados, ou que passam
por algum momento de dificuldade e sofrimento. É o que a Igreja vem pedindo
nos últimos tempos: pede que saiamos de nossos templos e vamos ao encontro das
pessoas. Não dá mais para ficar esperando que as pessoas venham até nós, nas
nossas igrejas; é preciso que a Igreja vá até as pessoas. É essa a verdadeira missão
de nossas paróquias. Quando falamos de uma paróquia missionária, falamos de
uma paróquia que vai ao encontro das pessoas. Jesus deu esse exemplo e mostrou
que isso é transformador. Uma Igreja que espera pelas pessoas está fadada ao
fracasso. A missão da Igreja é ir ao encontro dos irmãos que sofrem. O irmão que
sofre está figurado na pessoa da sogra de Simão, que está prostrada, acamada,
com febre. A enfermidade a impede de servir, de ajudar a outros. Ela dependia dos
outros, ela dependia de mãos caridosas que lhe fossem estendidas para poder se
reerguer. Assim sendo, temos aqui um gesto transformador de Jesus que, ao se
aproximar dessa mulher prostrada pela febre, reergue-a e faz com que sua febre
desapareça. Assim, Jesus foi aonde ela estava, aproximou-se dela, segurou-a pela
mão e a ajudou a se levantar. Temos aqui a ideia central desse evangelho: Jesus
nos ensina a ser solidários. Ele mostra que a nossa missão é ser solidário, é
estender a mão aos necessitados, é ajudá-los a se levantarem, para que eles
também possam fazer o mesmo com outros que necessitam. Esse gesto é
transformador, é epifânico porque revela Deus. Quando Jesus estende a mão a
essa mulher e a ajuda a levantar, a febre desaparece, e ela começa a servir. Aqui
está o sentido da vida e da missão a nós confiada. Toda vez que estendemos a mão
a alguém que necessita, revelamos Deus para essas pessoas, e as pessoas que
encontram Deus têm suas vidas transformadas. Elas recobram as forças e
adquirem um novo sentido para a vida. Não há nada mais gratificante do que ver
alguém recuperando a vida e servindo a Deus e aos outros. Por essa razão, os
médicos têm uma missão tão importante. Mas não somente eles, todos nós, pois
todos nós podemos ser solidários e fazer o bem. Todos nós podemos recuperar
vidas, devolver esperanças, dar um pouco mais de alegria aos que estão com a

250
vida por um fio. São muitas as pessoas que vivem situações semelhantes à de Jó
ou da sogra de Simão, que estão carentes de mãos solidárias que as toquem e
ajudem a se levantar de suas prostrações ou misérias.
O que temos feito para nossos irmãos que sofrem? Quantas pessoas ajudamos
nos últimos meses? Como têm sido nossas ações de solidariedade?
Vale a pena pensar sobre essas questões e perceber que a vida só tem verdadeiro
sentido se ajudarmos nossos semelhantes a ter uma vida melhor. Jesus não se
limitou a ajudar a mulher a se levantar de sua prostração. Ele continuou sua
missão, foi para outros lugares, foi ao encontro de outros necessitados e nos
mostrou com isso que não basta fazer o bem esporadicamente. É preciso fazer o
bem sempre e em todo lugar, pois há muitos que precisam de nós, de nossa ajuda,
de mãos solidárias. Há muito que fazer, e não podemos nos acomodar. Sabemos
que isso não é fácil, mas é o que dá sentido à vida. Essas ações solidárias devem
estar fundamentadas numa vida de oração, senão caímos na aridez e no
assistencialismo. Esse é outro ensinamento do evangelho de hoje. Depois de
intensa atividade de ajuda ao próximo, Jesus se retira para rezar. Com isso ele
mostra que, apesar das demandas, das necessidades das pessoas, precisamos nos
abastecer na oração. Ela é o nosso combustível. Sem uma vida de oração, nossa
missão não vai muito longe. As pessoas continuam a buscar Jesus mesmo quando
ele está retirado em oração, mas ele não desiste de rezar porque há necessitados.
Pelo contrário, intensifica sua oração para ter força na missão, para ir a outros
lugares onde outros precisam dele. Com isso, ele mostra que a missão é itinerante
e sua fundamentação está na oração.
Que a nossa vida seja uma vida dedicada ao serviço do evangelho, ou seja, a
serviço da vida para todos. É o que propõe a liturgia da Palavra deste domingo.
Assim, Jesus orienta a nossa fé, nossa vida de oração e a nossa missão.

6º Domingo
& Lv 13, 1-2.44-46 ou 2Rs 5,9-14 Sl 31(32) | 1Cor 10,31–11,1 | Mc 1,40-45

Nenhum tipo de exclusão agrada a Deus, sobretudo aquela que está envolta em
preconceito e discriminação. Existem muitos tipos de exclusão. Algumas veladas,
outras escancaradas. Já bem antes do tempo de Jesus, elas existiam e eram
legitimadas pela lei, eram oficializadas. Por exemplo, quem fosse acometido pela
lepra era banido da comunidade, do convívio social e condenado à mais radical
forma de exclusão até que a doença fosse curada. Porém, como dificilmente
alguém seria curado dessa doença, quem a tinha estava condenado à morte. O pior
era que, antes de morrer literalmente, a pessoa passava por um tipo de morte
moral, tendo que se identificar publicamente como leproso, ficar sem cuidado e
gritar que era impuro para que ninguém se aproximasse dela. Assim mostra o livro

251
do Levítico, na primeira leitura que temos hoje. Essa primeira leitura nos prepara
para a reflexão do evangelho, quando Jesus se propõe a romper com essa cruel
modalidade de exclusão.
Toda e qualquer forma de exclusão é cruel e ofende profundamente a Deus. Não
precisamos voltar nos tempos bíblicos para encontrar exclusões. Elas continuam a
existir e provocam as mesmas agressões físicas e morais de antes. Num passado
não muito distante, a lepra ainda era uma doença temida e excludente. Tanto era
que os hospitais que cuidavam dos leprosos eram construídos em lugares
afastados, e a pessoa que fosse diagnosticada com a doença, conhecida hoje como
hanseníase, era tirada da família e internada nesses locais afastados, sendo
impedida até mesmo de receber visitas. Hoje a hanseníase já tem cura, e as
pessoas são tratadas em casa, mas surgiram outros tipos de doenças igualmente
excludentes. Na década de 1980, quando a AIDS ganhou visibilidade, os
portadores do vírus ou quem já tinha desenvolvido a doença era praticamente
excluído do convívio social e visto como pessoa perversa. O doente ia definhando,
ficando desfigurado, e, não bastando as dores físicas, havia a dor da condenação
moral, pois eram vistos como “imorais”, pois é uma doença sexualmente
transmissível associada, sobretudo, às práticas homossexuais. Criou-se um mito
em torno da doença semelhante à lepra, com o agravante da morte moral antes da
morte física. O desconhecimento e o preconceito fizeram com que muitas vidas
fossem ceifadas. Assim, vemos que a pior doença de todos os tempos é mesmo o
preconceito, que é fruto da ignorância. Esta, sim, exclui e mata as pessoas. É esse
tipo de enfermidade que Jesus combate, propondo a cura não apenas dos
acometidos de enfermidades desta e de outras naturezas, mas a cura ou conversão
dos portadores de preconceitos.
O evangelho de hoje trata dessa questão de modo exemplar, ensinando-nos
como agir diante das mais diferentes enfermidades que assolam o mundo,
sobretudo a “enfermidade” do preconceito. Vemos, neste texto de hoje, que um
leproso chegou perto de Jesus. Temos aqui um ato inusitado. Como alguém que
não podia chegar perto de ninguém, como vimos na primeira leitura, chega perto
de Jesus? Ele chegou perto de Jesus porque Jesus permitiu que ele chegasse. Jesus
não teve preconceito com o leproso. Se Jesus tivesse agido como pedia a Lei, teria
mantido distância dele e não teria possibilitado a cura. O fato de Jesus permitir
que o leproso se aproximasse abriu uma brecha para que o preconceito fosse
rompido. Ele possibilitou com esse gesto inovador e libertador que o leproso fosse
visto como alguém digno de acolhida. O gesto do leproso mostra seu desespero.
Ele pede de joelhos que Jesus o cure. Ele enxerga em Jesus alguém capaz de curá-
lo. Ele confia. Há aqui dois elementos fundamentais para a inclusão e a cura: o
desejo do leproso de ser curado e o desejo de Jesus de acolher e curar o leproso.
Com esses dois elementos essenciais abre-se o caminho para a cura. Em seguida,

252
o texto diz que Jesus fica cheio de ira. A ira não é contra o leproso nem pelo fato
de ele ter se aproximado dele, mas pela situação de exclusão e miserabilidade do
leproso e de tantos que viviam em situação similar, sem ter ninguém por eles.
Jesus se revolta com uma sociedade ignorante e preconceituosa, que exclui, em
vez de incluir, que mata em vez de defender a vida. E o pior de tudo isso é que
essas coisas eram feitas em nome de Deus. O nome de Deus estava sendo usado
em vão e de forma distorcida, pois Jesus veio para restaurar a vida, mas encontrou
vidas sendo eliminadas por pura ignorância. Desse modo, Jesus prontamente
estende a mão, toca-o e manifesta o desejo de que seja curado. Temos aqui outros
gestos profundamente libertadores. Aquele de que ninguém se aproximava foi,
então, tocado, acolhido, amado. Não há remédio mais eficaz do que o amor, o
carinho, ou seja, sentir que alguém se preocupa. Esse gesto de Jesus é elementar e
nos ensina a amar mais as pessoas, sobretudo as que sofrem algum tipo de
exclusão, pois somente assim recuperaremos a sua vida. Não há nada mais
gratificante do que ter alguém que se aproxime de nós com amor, quando estamos
sofrendo. É muito confortante para um doente, no leito de morte, ter alguém ao
seu lado, segurando a sua mão e mostrando com esse gesto que essa pessoa não
está abandonada, não está sozinha. Esses gestos são curativos. É o que propõe a
pastoral da saúde, por exemplo, e outras pastorais que cuidam de pessoas com
algum tipo de debilidade ou exclusão. Jesus ensina esse gesto ao permitir que o
leproso se aproxime, sobretudo quando o toca. Diz o texto que no mesmo instante
a lepra desapareceu. Qualquer exclusão desaparece quando há amor, quando não
há preconceito. Esse gesto é purificador. Assim, curado, o homem é dispensado.
Jesus trata a questão com autoridade, severidade, pois com a exclusão não se
brinca. Ele sabe que está mexendo numa situação complicada. Lidar com uma
sociedade preconceituosa não é fácil. Com isso, Jesus enfrenta muitos problemas,
e teve de enfrentar muitas dificuldades. Ele não foi contagiado pela doença de
pele da pessoa que havia tocado, mas se tornou vítima do preconceito. Pelo fato
do homem curado contar o ocorrido, Jesus também foi impedido de entrar na
cidade, foi considerado impuro, evidenciando um preconceito que até hoje
trazemos em nós quando usamos aquele conhecido provérbio: “diga com quem tu
andas e direi quem tu és”. Ou seja, se você está com um leproso, você também é
leproso, mesmo que não tenha a doença. Isso ocorre ainda hoje, e é o que mais
dificulta os trabalhos da Igreja. Dentro da própria Igreja há muito preconceito.
Podemos dizer que as pessoas mais preconceituosas estão dentro das Igrejas, pois,
pelo fato de se acharem santas e perfeitas, se veem no direito de julgar e condenar
aquelas que não são como elas, ou que não pensam como elas pensam. Essas
pessoas provocam grandes estragos dentro de nossas comunidades e atrapalham a
missão daqueles que, como Jesus, querem o fim do preconceito, acolhendo e
amando as pessoas como ele nos ensinou a fazer.

253
É com essa questão que Paulo Apóstolo se confronta na segunda leitura de hoje.
Paulo pede à comunidade que faça as coisas pela glória de Deus e não pela própria
glória ou visibilidade. Na Igreja, não fazemos as coisas para nós mesmos, mas
para os outros. Quem não age assim não entendeu o sentido de ser Igreja. Por isso,
um dos apelos de Paulo nessa segunda leitura é que não sejamos motivo de
escândalo. Não há escândalo maior do que o preconceito e a discriminação de
pessoas. Isso ofende não apenas os discriminados, mas profundamente a Deus.
Desse modo, Paulo se coloca como exemplo, pedindo que a comunidade imite
seus gestos porque ele está imitando a Cristo. Isso é fundamental: sermos
imitadores de Cristo; não como atores que interpretam um papel, mas como
pessoas convertidas às propostas de Cristo. A proposta de acolher, amar e não
discriminar, julgar ou condenar as pessoas. Se agirmos conforme Cristo nos
ensinou, estaremos construindo um mundo melhor e menos excludente.
Comecemos dentro de nossas comunidades e nas nossas famílias e teremos uma
sociedade mais humana e fraterna.

7º Domingo
& Is 43,18-19.21-22.24b-25 | Sl 40(41) 2Cor 1,18-22 | Mc 2,1-12

O anúncio de um tempo novo, construído pelos que creem em Deus e assumem


a sua Palavra, é a proposta da liturgia deste domingo. Um tempo e um mundo
novo que começa com o anúncio do profeta Isaías, passa pelos propósitos de
Paulo Apóstolo e chega até Jesus, seguindo a dinâmica proposta pelas leituras
deste dia, cujo objetivo é a promoção da vida, através da libertação de toda forma
de opressão.
Sabemos muito bem que muita coisa precisa ser mudada, transformada,
corrigida, para que haja menos injustiças e sofrimentos. Sabemos também que boa
parte das coisas desagradáveis que acontecem e que geram sofrimentos é
provocada por nós mesmos, seres humanos, pelos nossos pecados. Pecado é tudo
aquilo que prejudica a outros ou a nós mesmos. Desse modo, o profeta Isaías, na
primeira leitura, nos alerta para não ficarmos presos ao passado, mas olhar para a
frente, pois quem vive preso ao passado perde uma rica oportunidade de olhar o
presente e planejar melhor o futuro. Há quem fique remoendo mágoas e rancores e
não aprende a perdoar e a seguir adiante, buscando viver melhor. É preciso
perceber que Deus todos os dias nos dá novas chances, novas oportunidades, ou
seja, ele faz novas todas as coisas, ou faz coisas novas todos os dias, basta
percebermos que a nossa vida ganhará novos significados.
Por que não percebemos as coisas novas que brotam todos os dias em nossa
volta?

254
Porque nós comumente ficamos presos ao passado, às coisas que já
aconteceram, e muitas vezes esse passado é algo que não é bom. As pessoas
amarguradas, de mal com a vida, são aquelas que só olham para as coisas ruins do
passado e não veem as coisas novas e boas que surgem em sua volta. Não
conseguem perdoar e, assim, não se libertam dessas situações opressoras que
degradam a vida. É essa a proposta de Isaías nesta primeira leitura: corrigir os
erros do presente e libertar de um passado que traz más recordações. Além disso,
Isaías diz que Deus vai abrir um caminho no deserto e rios em lugar seco. Não é à
toa que Isaías é considerado o profeta da esperança. Ele mostra um Deus que
renova nossa vida, mesmo que estejamos atravessando momentos de deserto, não
vislumbrando uma saída, um caminho. A imagem do deserto é muito usada na
Bíblia para falar dos momentos difíceis. Deserto é lugar de aridez, de escassez, de
dificuldades. Quem já atravessou, literalmente, um deserto sabe o que ele
significa. Além disso, na região do profeta, deserto era algo muito comum. Ao
usar essa imagem, ou figura de linguagem, qualquer pessoa entendia o que ela
significava para a vida. Todos nós temos momentos de deserto na vida. Uns mais,
outros menos, mas não há quem não tenha passado, em algum momento da vida,
por situações difíceis. Nessas horas, confiar num Deus que aponta caminhos, que
nos faz vislumbrar uma luz no fim do túnel, é extremamente confortante. É esse
Deus que Isaías anuncia nesta primeira leitura e que nos enche de esperança e fé.
Todos nós sonhamos com um tempo e um mundo onde não haja mais violência,
maldades, desrespeito à vida. Assim sendo, é necessária a nossa colaboração, é
preciso o nosso empenho. Precisamos fazer a nossa parte. Se continuarmos a
praticar os mesmos atos de pecado, que agridem a outros e a Deus, dificilmente
veremos realizado esse mundo novo anunciado pelo profeta.
Precisamos, portanto, ser coerentes com a Palavra de Deus, diz Paulo Apóstolo,
na segunda leitura de hoje. Ele deu-nos o exemplo, sendo coerente. Ser coerente é
não ficar “em cima do muro”, uma hora dizendo sim, outra hora dizendo não à
Palavra de Deus. Para Deus temos que dizer sim sempre, mesmo que isso traga
consequências desagradáveis para a nossa vida, pois dizer sim a Deus é dizer não
às injustiças e dizer não às injustiças nem sempre é fácil. Muitos, diante de
ameaças, chantagens ou suborno, dizem sim às injustiças e, ao dizer sim às
injustiças, estão dizendo não a Deus. Desse modo, Paulo diz que a palavra que ele
dirige não é “sim e não”, mas unicamente sim. Todo cristão deveria dizer
unicamente sim a Deus. O sim a Deus está figurado no “amém” que dizemos após
cada oração, ou para coisas que queremos que de fato aconteçam. Porém, há
muitos “améns” que são ditos a coisas que desagradam a Deus, e ditos de modo
subliminar. Nisso consiste o pecado que o profeta Isaías mostrou na primeira
leitura e que Jesus também mostra no evangelho de hoje, pois o “sim” ou o
“amém” às injustiças gera situações que paralisam as pessoas, tornando-as

255
dependentes, submissas, escravas, enfim, situações geradoras de morte. Jesus vem
para libertar dessas e de outras situações e para isso propõe a libertação do
pecado, isto é, das causas dessas situações de morte.
O evangelho nos coloca diante da dinâmica do Reino: libertar-se do pecado para
libertar de todas as formas de opressão, sofrimento e morte. Como vimos na
primeira leitura, os “desertos” de nossa vida são causados pelos pecados nossos ou
de outros, mas todos eles estão relacionados com atitudes que não condizem com
os ensinamentos de Deus. No texto de hoje, vemos Jesus, que chega a Cafarnaum.
A notícia da sua chegada logo se espalha. As pessoas estavam sofrendo e viam
nele a esperança de se libertar de seus “desertos”. Dentre essas pessoas, um
paralítico. O paralítico é sinônimo da dependência, ou seja, de uma vida
totalmente atrelada aos favores e à boa vontade de outros. Há quem queira um
povo paralítico, dependente de seus benefícios, para poder usá-lo quando quiser.
Era assim no tempo de Jesus, e é assim ainda hoje. Basta olharmos para o nosso
cenário político. Não há muito investimento em educação e saúde. Duas coisas
elementares para uma sociedade são tratadas com descaso. Uma sociedade que
não tem educação como prioridade e deixa morrer à míngua o seu povo é uma
sociedade que gera paralíticos, pessoas paralisadas, que não pensam por si, mas
pensam e veem o que outros querem que elas pensem e vejam. Um povo que não
aprendeu a pensar é um povo alienado, dominado, doente. É essa situação que
Jesus encontra em Cafarnaum. Um paralítico que vem carregado por outros. Nem
sempre encontramos pessoas como as que o paralítico encontrou, que são
esforçadas e criativas para solucionar o problema. Jesus se comove com o esforço
deles e com o desejo do paralítico de andar com as próprias pernas. Ele o cura, e
isso provoca a ira dos que queriam vê-lo sempre dependente. Quem se propõe a
fazer algo de bom para o seu semelhante ou que busca alternativas para solucionar
ou diminuir as misérias humanas é taxado logo de inimigo do governo, ou de
subversivo, ou de qualquer outra acusação que desmerece suas ações. Isso quando
não é perseguido e morto. A proposta de Jesus é libertadora, mesmo que isso
provoque a ira de outros. Essa proposta é feita também a nós. Se queremos um
mundo como o que desejou o profeta Isaías na primeira leitura, e o que desejou
Jesus ao curar o paralítico, é preciso comprometimento com a libertação de todas
as formas de exclusão e alienação. Não dá para dizer que somos cristãos se não
nos comprometermos com as propostas cristãs. Cristão que não promove a vida,
lutando contra as opressões, não pode dizer que é cristão.
Que o exemplo desses quatro homens do evangelho de hoje sirva para a nossa
vida. Eles viram a situação de opressão e de dependência em que vivia o paralítico
e buscaram uma forma de levá-lo até Jesus. Eles se empenharam, foram criativos,
demonstraram muito esforço. Seus esforços foram recompensados, pois
conseguiram o que buscavam. Assim também acontece conosco quando nos

256
empenhamos na defesa da vida, na luta por um mundo melhor. Tudo pode parecer
árido, difícil, e haverá muita gente para nos desestimular ou desencorajar, mas
quem perseverar conseguirá alcançar o que busca. É o que mostra o evangelho de
hoje.
Façamos, portanto, acontecer o tempo novo proposto pelo profeta na primeira
leitura. Para isso, precisamos ser coerentes com a Palavra de Deus, diz Paulo
Apóstolo, na segunda leitura, e essa coerência exige empenho, esforço,
determinação e coragem, mostra Jesus no evangelho de hoje.

8º Domingo
& Os 2,16b.17b.21-22 Sl 102(103) | 2Cor 3,1b-6 | Mc 2,18-22

Somos convidados hoje a refletir sobre a presença e a ausência de Deus em


nosso meio. A presença de Deus é percebida pelos sinais que ela emite, como
alegria, paz, esperança, amor, a prática da justiça, entre outras coisas. Sua
ausência é notada também por sinais, isto é, pelas coisas ruins, opostas às que
foram citadas. Tanto sua presença como sua ausência dependem de nós, da nossa
relação com ele, da fidelidade à aliança que fazemos com Deus. Deus nunca nos
abandona e quer estar sempre perto de nós, mas nós o abandonamos ou nos
distanciamos dele pelos nossos comportamentos, pelas atitudes que o desagradam
e tantas outras ações que não favorecem a vida. É o que nos mostram os textos
bíblicos propostos para a liturgia deste domingo.
Na primeira leitura, da profecia de Oseias, encontramos um Deus amoroso e
misericordioso, pronto para perdoar os pecados do seu povo e reatar com ele a sua
aliança, o pacto ou compromisso nupcial. Oseias usa aqui uma figura de
linguagem, falando dessa relação de Deus com seu povo, através de um pacto
nupcial, um casamento. Casamento é uma aliança, um compromisso entre duas
partes. Aqui, Deus se apresenta como o noivo, e o povo de Israel, como noiva.
Porém, essa noiva tinha se prostituído antes, desvirtuado o compromisso, mas o
noivo a amava profundamente e estava disposto a perdoar. Assim, o noivo faz
uma nova proposta, dá uma nova chance para que ela se emende, corrija seus
erros e volte para junto dele. Ele se propõe a seduzi-la, reconquistá-la a todo
custo. Tudo isso porque a ama. Para isso, ele propõe transformar sua desgraça em
porta da esperança. Ele deixará de ser apenas um ídolo para ela, sendo agora seu
marido. Seus ídolos, com os quais ela tinha se prostituído, serão agora esquecidos,
e apenas ele, o esposo fiel, será lembrado. Ele se propõe a se casar com ela para
sempre, na justiça e no direito, no amor e na ternura. É assim que Deus age com
seu povo, é assim que ele age conosco. Ele nos ama e está sempre pronto a
perdoar, apesar dos nossos desvios, dos nossos pecados, das vezes que colocamos
outras coisas no lugar de Deus, fazendo dessas coisas nossos ídolos. Mas esse

257
casamento, essa aliança só vai se concretizar de fato se fizermos a nossa parte e
não nos prostituirmos mais com outros ídolos.
Como vimos, num casamento, duas partes assumem um compromisso, assinam
um contrato. Mas na união com Deus, não há assinatura de contrato. Nenhum
papel é assinado, diz Paulo Apóstolo na segunda leitura. A assinatura está gravada
no coração, e as coisas que gravamos no coração, jamais as esquecemos. Daí a
expressão “recordar”, que significa trazer de volta ao coração. Essa palavra evoca
uma memória afetiva, oriunda do sentimento, do coração e não apenas do
intelecto. Por essa razão, num casamento, o que faz a sua duração é o amor, e não
o papel, ou contrato que os noivos assinam. Assinaturas de contratos, cartas de
recomendação ou qualquer outro documento escrito não garantem a fidelidade ou
a durabilidade de uma relação nem dizem quem são realmente as pessoas. O que
garante tudo isso é o amor. Deus quer que assinemos com ele um contrato de
amor, e não algo escrito apenas no papel. Dessa maneira, as leis escritas na tábua
não permaneceram eternas, mas permanece eternamente a nova aliança, feita com
o sangue de Cristo, resultado do mais estupendo amor de Deus pela humanidade.
Paulo mostra para a comunidade de Corinto esse amor de Deus, por isso diz não
fazer nenhum contrato com eles nem pedir carta de recomendação de ninguém,
nem deles, os Apóstolos. Diz ele, “nossa carta de recomendação são vocês, carta
escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens” (2Cor 3,2). Ou
seja, o amor que Paulo tem por aquela comunidade é que sela esse compromisso.
Quem ama verdadeiramente tem um compromisso com a pessoa amada ou com a
comunidade. Deus tem um compromisso conosco porque nos ama e quer ver se
nós também o amamos, não por palavras ou por documentos, mas por atos que
revelem esse amor. Paulo pede que sejamos cartas vivas de Cristo, ou seja,
testemunhas vivas de sua Palavra. O Apóstolo confia nisso e por essa razão se
lança na missão, na certeza de que é isso que Deus quer dele e da comunidade que
Deus lhe confiou. Ele se sente instrumento de Deus, cuja missão é escrever no
coração das pessoas o amor de Deus, para que estas também sejam testemunhas
desse amor e instrumento para continuar escrevendo, não com tinta, mas com a
própria carne, esse amor de Deus no coração das pessoas. Esse amor é que traz a
presença de Deus na nossa vida e na vida da comunidade, e quem tem a presença
de Deus revela isso no seu comportamento.
Há muito comportamento religioso que revela mais a ausência do que a
presença de Deus. Às vezes rezamos para um Deus distante de nós e nos
comportamos como se Deus estivesse mesmo longe. Quem age assim revela que
carece de conversão, de amadurecimento na fé, de compromisso com Deus e com
os irmãos. Nossas igrejas estão cheias da ausência de Deus, não porque ele queira
estar ausente, mas porque nelas há pessoas que ainda não se encontraram com
Deus. Repetem-se atos devocionais mecânicos, mas vazios de espiritualidade.

258
Reproduzem costumes e tradições, mas não sentem uma fé verdadeira, um
compromisso com Deus. Por essa razão, há tantas discórdias e rivalidades dentro
de nossas comunidades eclesiais. Vale lembrar que pessoas que se encontraram
verdadeiramente com Deus não agem como se Deus não existisse, e tem muita
gente agindo como se Deus não existisse, e o pior é que essas pessoas frequentam
igrejas. Damos amostras de que Deus está na nossa vida pelos nossos atos.
Quando, em vez de julgar ou condenar os outros, ou nos envolver em contendas e
disputas de poder que não condizem com as propostas cristãs, somos pessoas de
bem, preocupadas em fazer o bem. Quando demonstramos por palavras e atos a
nossa convicção de que Deus está conosco, ele se revela a todos, diz, com outras
palavras, Paulo Apóstolo nessa segunda leitura. E essa convicção que temos
diante de Deus é graças a Cristo, e não mérito nosso. Nenhuma obra boa que
praticamos é mérito nosso, mas de Cristo, que nos fortalece. Sejamos, portanto,
ministros dessa nova aliança que é Jesus Cristo. Essa nova aliança incorruptível
que Deus fez conosco, selando em nosso coração o seu amor, através de seu Filho,
Jesus, o noivo que veio para ficar conosco fazendo dessa vida uma verdadeira
festa nupcial. Por essa razão, dizemos, na hora da comunhão: “felizes os
convidados a participar do banquete nupcial do Cordeiro”. Quem nele crê possui a
vida e faz da sua vida uma constante doação.
O evangelho também traz, de modo figurado, a imagem da festa de núpcias,
onde o noivo está presente e por isso é motivo de alegria para aqueles que estão
com ele. Eles não precisam jejuar. Essa festa é a vida, e o noivo é Jesus. Quem
tem Jesus na sua vida não precisa de outros recursos ou subterfúgios, ele basta. É
essa a resposta que Jesus dá àqueles que vinham questionar por que os seus
discípulos não jejuavam, enquanto outros jejuavam. O jejum é o indicativo de
uma ausência de Deus, causada pelo pecado. Quando pecamos, nos afastamos de
Deus e só voltamos a nos aproximar dele quando nossos pecados são confessados
e perdoados. Assim, o jejum é um instrumento de revisão de vida, um meio para
sentir nossas faltas e repará-las, mas não pode ter um fim em si mesmo. Quem
jejua por jejuar, ou apenas para se penitenciar, sem a finalidade de correção do
erro, não entendeu o verdadeiro sentido do jejum. Por isso, naquele momento, não
tinha sentido os discípulos de Jesus jejuarem. Eles já tinham Jesus com eles, por
que jejuar? Depois que Jesus fosse tirado do meio deles, aí sim eles deveriam
jejuar, para fazer memória da sua presença e com isso tê-lo de volta. Assim sendo,
o evangelho de hoje explica o sentido do jejum e de outras práticas penitenciais e
religiosas que somente têm sentido se forem caminhos, ou meios, para nos
aproximar de Deus. Se assim não for, essas práticas não passarão de atos vazios e
sem sentido. Precisamos, portanto, ter o cuidado para não cair em práticas
supostamente religiosas, mas que não favorecem o crescimento espiritual. Se
assim fizermos, seremos como os que jejuam na festa de casamento, mesmo tendo

259
à mesa o noivo. Ninguém vai a uma festa de casamento para jejuar, ou ficar com o
rosto triste. Festa de casamento é lugar de alegria, de celebrar com os noivos e de
fazer refeição com eles. A presença de Jesus na nossa vida é motivo de alegria, de
festa, mas quando percebermos que nossas atitudes nos distanciam dele, é hora de
jejuar, isto é, de ter atitudes que nos façam rever nossos erros e retomar o caminho
de Deus. Eis as propostas da liturgia deste domingo.
Façamos dessa vida uma grande festa, um banquete onde todos possam
participar e comungar com Cristo, e não um banquete apenas para alguns.

9º Domingo
& Dt 5,12-15 | Sl 80(81) | 2Cor 4,6-11 Mc 2,23–3,6 ou 2,23-28

A reflexão de hoje gira em torno da Lei de Deus e das nossas leis. As leis, as
bíblicas ou dos nossos Códigos de Leis, existem para favorecer as pessoas, para
dar qualidade à vida, de modo que a vida e o direito das pessoas sejam
respeitados. Porém, quando uma Lei é colocada acima das pessoas, ela perde o
seu sentido, pois em vez de ajudar, atrapalha, e em vez de libertar, oprime. É o
que vinha ocorrendo com a Lei do sábado. Jesus questionava a maneira como as
pessoas interpretavam as Leis, sobretudo a lei do descanso no sétimo dia, o sábado
judaico.
A Lei do descanso é fundamental, e até hoje ela continua sendo algo elementar,
mesmo que tenha perdido para alguns o sentido religioso. Descansar é necessário
para recuperar as forças, e todos têm direito ao descanso, sobretudo os escravos,
os criados e as criadas, diz a primeira leitura. Vivemos hoje num mundo onde o
descanso não é mais respeitado. Por necessidade, ganância ou qualquer outro
motivo, os dias de descanso, os feriados e finais de semana ou até mesmo as férias
viraram mercadoria, moeda de compra e venda. Na nossa realidade, o domingo
deixou de ser, para muitos, um sagrado dia de descanso. Quando a pessoa não está
trabalhando na empresa, está trabalhando em casa ou no próprio negócio. Ter um
dia para descansar e se dedicar ao Senhor, como pedem as Sagradas Escrituras,
está ficando cada vez mais escasso. Pensa-se apenas no trabalho, no dinheiro, no
lazer, enfim, pouco ou nada de uma lei tão importante é respeitado.
A primeira leitura, do livro do Deuteronômio, o Livro das Leis, trata da Lei do
sábado. Mostra a importância de se guardar o sábado como o dia do Senhor, o dia
santificado, pois é o dia de se fazer memória pascal, ou seja, da libertação da
escravidão do Egito. Por essa razão, todos devem ter dias de descanso, inclusive
os escravos, pois o povo hebreu também foi escravo. Essa memória feita no
sábado era fundamental para não se perder o vínculo com um Deus libertador.
Assim sendo, a Lei do descanso no sábado era uma lei de cunho libertador, que
fazia memória da liberdade, algo de Deus. Mas com o passar do tempo essa Lei

260
foi sendo desvirtuada. Em vez de ser memória da libertação, passou a oprimir.
Tudo isso por causa do radicalismo e das incoerências em relação a essa e a outras
leis. O radicalismo consistia em não se fazer absolutamente nada no sábado, nem
mesmo socorrer um necessitado. E as incoerências se davam por parte daqueles
que ditavam as Leis para os outros cumprirem, mas eles mesmos não as
cumpriam. Diante dessa situação, entendemos melhor o evangelho de hoje,
quando Jesus age no dia de sábado de modo a provocar a ira daqueles que
defendiam radicalmente tal lei, sem ver a situação de opressão das pessoas e a
miséria humana.
O texto do evangelho de hoje traz duas situações em que Jesus age em dia de
sábado, contrariando a Lei e aqueles que a radicalizavam. A primeira situação
apresenta Jesus atravessando um campo de trigo num dia de sábado com seus
discípulos e colhendo espigas para comer. A outra é Jesus curando, na sinagoga,
um homem da mão seca. Diante dessas duas situações, os fariseus questionam
Jesus e o ameaçam de morte. Jesus age dessa maneira não apenas para provocá-lo,
mas para questionar uma lei que não favorecia a vida. Jesus, permitindo que seus
discípulos colham espigas para comer num dia de sábado, mostra que quem tem
fome não pode esperar. A fome é uma das necessidades mais urgentes do mundo,
e quem, em nome de uma lei, se omite, protela ou não atende os clamores dos
famintos não pode dizer que está agindo conforme a vontade de Deus. Dar pão a
quem tem fome é uma das ações que nos fazem ser reconhecidos diante de Deus,
diz Jesus, em outro momento. Assim, Jesus mostra que há coisas que não podem
esperar, pois é a vida que está correndo risco. A mesma situação é a dos doentes.
Quem tem uma pessoa doente não espera para socorrê-la. Até mesmo um animal
doente não se deve esperar para socorrer depois, quanto mais as pessoas. Depois
pode ser tarde demais. Jesus cura o homem da mão seca em dia de sábado, na
sinagoga, para mostrar a todos que o bem não tem dia, hora nem lugar para ser
feito. Todo dia é dia de fazer o bem, e não se pode esperar. Ao agir dessa maneira,
Jesus não está contradizendo a Lei, mas dando-lhe pleno cumprimento, pois a Lei,
na sua origem, tinha como finalidade favorecer, defender a vida, e nada é mais
coerente com essa Lei que defender a vida, fazer o bem a quem precisa e socorrer
os necessitados, os que têm fome ou passam por alguma situação que carece de
ajuda imediata. São muitas as pessoas que encontramos em nosso dia a dia que
carecem de ajuda imediata. Não dá para esperar para ajudá-las.
A atitude de Jesus tem o intuito catequético. Ele mostra que é preciso fazer o
bem sempre e nenhuma Lei deve impedir isso. Sabemos que nem sempre é fácil,
pois há ainda certas leis que são cegas, no sentido de não contemplar a vida, mas
apenas as normas. Quando as pessoas fazem uso dela cegamente, caem no erro
dos fariseus, pois esquecem o lado humano e as particularidades de cada caso ou
situação. As leis existem para normatizar situações e ordená-las, no sentido de

261
colocar ordem e fazer justiça, mas em todos os casos, a vida deve ser prioridade.
Quando uma lei não favorece a vida, ela perde a razão de existir. É isso que Jesus
questiona. Mais que questionar as leis, ele questiona as interpretações e o uso que
se faz das leis.
Nesse sentido, Paulo Apóstolo, na segunda leitura de hoje, pede que sejamos luz
em meio às trevas deste mundo. Um mundo que cria leis que favorecem a poucos.
Um mundo de injustiças, onde as leis só servem para defender quem tem poder
econômico ou influência na sociedade, ignorando pobres e marginalizados,
sobretudo os famintos e doentes. Ser luz é ser profeta, é defender os direitos das
minorias, dos que são esquecidos pelas leis ou dos que não têm ninguém que os
defenda. A glória de Deus brilha em nós cada vez que lutamos contra as
injustiças, cada vez que fazemos a lei ser cumprida também para os pequenos. São
valores que não podemos perder em nossa vida. Valores humanos que tocam o
divino. Esses tesouros, nós levamos em vaso de barro, diz o Apóstolo. Ou seja,
são preciosos demais, mas estão envoltos em fragilidade e dificuldade. São muitas
as dificuldades que enfrentamos para viver esses valores da justiça, mas não
podemos desistir. Quem confia plenamente em Deus não abandona o barco
quando vêm as tempestades, não abandona a luta quando o inimigo parece maior e
mais poderoso. Nessas situações, precisamos lembrar o alento dado pelo Apóstolo
nesta segunda leitura: “somos atribulados por todos os lados, mas não
desanimamos”. Quem desanima diante das tribulações mostra que não confia
plenamente em Deus. E são muitas as tribulações. “Somos postos em extrema
dificuldade, mas não somos vencidos por nenhum obstáculo.” As dificuldades, por
mais extremas que possam parecer, não devem ser motivo para nos darmos por
vencidos. Quem se dá por vencido diante dos obstáculos não os vence, e quem
não os vence é um fracassado. Não queremos ser fracassados no projeto de Deus,
ou na missão a nós confiada, por isso devemos seguir adiante, enfrentando as
dificuldades e superando-as. É o que pede o Apóstolo nesta segunda leitura.
Embora sejamos perseguidos, não seremos abandonados por Deus. Mesmo que o
mundo pareça estar contra nós, Deus está conosco, e “se Deus é por nós, quem
será contra nós?” (Rm 8,31). Deus estando conosco, podemos estar prostrados,
mas não aniquilados. Aniquilado está aquele que não confia em Deus, aquele que
coloca sua força nos seus próprios músculos, mas se esquece de Deus, este sim
será aniquilado.
Com esse ânimo e coragem dados pelo Apóstolo e por Jesus, sejamos
cumpridores das Leis de Deus, da sua Palavra, mas não leiamos a Bíblia de modo
fundamentalista, de modo que ela oprima as pessoas. A Palavra de Deus é
libertação, e não opressão. Se ela estiver sendo lida de modo a oprimir as pessoas,
é preciso urgentemente rever essa forma de interpretá-la, pois a Palavra de Deus é
vida plena, e não lei que condena.

262
10º Domingo
& Gn 3,9-15 | Sl 129(130) 2Cor 4,13-18–5,1 | Mc 3,20-35

A liturgia da Palavra deste domingo nos convida a refletir sobre os desafios que
temos na vida, sobretudo na missão de fazer deste mundo o mundo sonhado por
Deus. A imagem do mundo sonhado por Deus, nós a encontramos no livro do
Gênesis, com a ideia do paraíso. Cabe pensar: quais são os nossos maiores
desafios, hoje, na construção de um mundo melhor? Onde esses desafios se
encontram? Na família? Na comunidade? Na sociedade? Ou dentro de cada um de
nós? Com esses questionamentos, e outros que possam suscitar os textos de hoje,
mergulhemos na Palavra de Deus e vejamos o que ela nos aponta e que respostas
ela nos traz.
A primeira leitura é do livro do Gênesis. Temos neste texto o pecado de Adão e
Eva, que, seduzidos pela serpente, comeram do fruto proibido. Ao comer do fruto
da árvore proibida, eles acessaram o mundo do pecado, simbolizado na vergonha
da nudez e na necessidade de provisão de coisas e situações para as necessidades
criadas desde então. Surgia assim uma busca desenfreada de bens que seriam
insaciáveis. Essa passagem, com linguagem simbólica, trata da desobediência a
Deus e das suas consequências. Quando desobedecemos a Deus, entramos num
mundo de tentações, de maldades, de coisas e situações que nos deixam nus,
limitados, vulneráveis e reféns de um sistema que nunca nos deixa satisfeitos.
Essa situação relatada no Gênesis desencadeia a desarmonia entre as pessoas e o
meio em que vivem, rompendo, assim, com a proposta do paraíso e colocando a
humanidade num mundo de competições e sofrimentos, num mundo de
concorrências, rivalidades e tentações que vão cada vez mais desviando o projeto
de Deus e distanciando de nós o paraíso.
Tendo diante de nós esse quadro apresentado na primeira leitura, podemos olhar
o nosso mundo, nossa sociedade, os espaços onde vivemos. Percebemos que essa
relação desencadeada no Gênesis não tem fim. Vivemos num mundo onde
dificilmente alguém assume a culpa pelas coisas erradas que faz. A culpa é
sempre do outro. No Gênesis o homem colocou a culpa na mulher. A mulher
colocou a culpa na serpente, e a serpente tornou-se o símbolo do mal, o “bode
expiatório” da desobediência. Porém, independentemente de quem foi o culpado,
todos pagaram pelo erro. É assim mesmo que acontece quando alguém erra.
Embora se jogue a culpa em algo, ou alguém, todos ou muita gente sofre as
consequências do erro. Essa é a dinâmica da sociedade, pois nesse paraíso criado
por Deus, há uma interdependência entre todas as coisas. Quando algo é violado,
quebrado ou desrespeitado, as consequências desse ato repercutem em muitas
outras coisas. Vejamos o exemplo do desequilíbrio ecológico. Quando alguém
destrói uma área verde, desmatando-a, todo o ecossistema sofre com esse ato

263
aparentemente isolado. O mesmo ocorre com as enchentes e inundações. Aquele
objeto jogado na rua junta-se a milhões de outros objetos, entupindo bueiros,
canais e poluindo os rios. O resultado disso é catastrófico e nós nem percebemos
que colaboramos com ele de alguma forma. Quando vemos acontecer
desmoronamentos de encostas soterrando famílias inteiras, ou enchentes que
arrastam casas, desabrigando e desalojando pessoas, colocamos a culpa no
governo, que nada faz, ou nas famílias que vão morar em áreas de risco, mas
esquecemos que isso é resultado da pobreza e do não comprometimento de todos
nas pequenas e grandes ações, sobretudo na erradicação da miséria. Desse modo,
o livro do Gênesis vem nos mostrar que continuamos a cair na tentação das
“serpentes” de nossos tempos e depois queremos colocar a culpa nos outros.
Jesus, no evangelho de hoje, busca expulsar os “demônios” que continuam a
possuir muitos de nós, mas encontra dificuldade até mesmo entre seus familiares,
que o acusam de louco. Loucura mesmo é ver o mundo e as pessoas sendo
destruídos e não fazer nada. Loucura é se acomodar diante de tantas tragédias,
fruto do desrespeito e da desobediência a Deus. Loucura é colocar a culpa nos
outros e se isentar das situações que dizem respeito a todos. As acusações sofridas
por Jesus são as mesmas que sofrem hoje todos os que querem recuperar a ideia
do paraíso, do Reino de Deus, sonhando com um mundo melhor, mais justo, onde
as pessoas tenham direito a uma vida com qualidade e dignidade. Em nome do
ser, do ter e do poder, as pessoas são tentadas e caem nas armadilhas que depois
vão prejudicar não apenas a elas, mas a muitos. As serpentes estão por aí, em toda
parte, e os demônios também. Porém, só podemos expulsá-los pelo dedo de Deus,
ou seja, pelas coisas de Deus, pelos seus ensinamentos, caso contrário, eles
permanecerão aí, disfarçados de coisas boas, como os frutos da árvore proibida.
Neste evangelho Jesus alerta que só pode fazer o bem quem é do bem. Satanás
não pode expulsar Satanás. Quem está envolvido com o mal não pode fazer o
bem. É preciso livrar-se primeiro do mal para poder fazer o bem. Por essa razão,
não podemos nos vender por propostas aparentemente boas, pois se elas têm
origem no mal, não poderão ser boas. Por exemplo, não basta uma mineradora
doar leite para as famílias carentes das áreas exploradas se ela continua a poluir
com mercúrio e outros metais pesados os rios de onde essas famílias tiram o seu
sustento. Uma suposta boa ação não justifica um erro ou um mau procedimento. É
preciso corrigir primeiro o erro e depois fazer boas ações.
Outro alerta que Jesus faz nesse evangelho é sobre as brigas internas das
famílias e até mesmo da comunidade. Onde há muitas brigas internas, há também
divisões, e onde há divisões, há enfraquecimento, e tudo que enfraquece corre o
risco de morrer. Muitas famílias se desmantelam por causa de contendas internas.
Muitas comunidades não crescem, ou até desaparecem, porque houve discórdias e
divisões entre os seus membros. Vimos na primeira leitura a origem do

264
desmantelamento do paraíso a partir das divisões geradas pela desobediência a
Deus. Quem quer seguir seus próprios interesses, sem pensar nos demais, acaba
por gerar situações que prejudicarão a muitos. Para que isso não venha a ocorrer,
ou para que tenhamos força para vencer as dificuldades quando estas aparecem, é
preciso obedecer a Deus. Obedecer a Deus é colocar em prática a sua Palavra. É
isso que nos pede a última parte do evangelho de hoje, quando Jesus diz que sua
mãe e seus irmãos são todos aqueles que fazem a vontade de Deus. Fazer a
vontade de Deus é o caminho para reconstruir o paraíso, ou seja, para a construção
de um mundo melhor. Esse ensinamento, nós o encontramos também na segunda
leitura de hoje, da segunda Carta de São Paulo aos Coríntios.
Nessa carta, o Apóstolo fala porque acredita, porque crê na Palavra de Deus, e a
transmite com firmeza e fé. Deus é o único capaz de transformar as situações de
morte em vida. Se ele é capaz de ressuscitar a Cristo, ele ressuscita também a nós.
Portanto, Deus é capaz de reverter essa ordem injusta, esse mundo dominado
pelas tentações. Basta crer e agir que as coisas podem mudar, diz Paulo, com
outras palavras. Não podemos perder a coragem, diz ele. Embora nosso físico
desfaleça ante as dificuldades deste mundo, há dentro de cada um de nós uma
pessoa interior que vai se renovando a cada dia pela graça de Deus. Quem confia
sente essa renovação e não esmorece diante das dificuldades, dos desafios e das
inúmeras situações que representam obstáculo para a missão de construir um
mundo melhor.

11º Domingo
& Ez 17,22-24 | Sl 91(92) 2Cor 5,6-10 | Mc 4,26-34

As parábolas são recursos de linguagem que tornam uma mensagem eterna e ao


mesmo tempo atual. Por essa razão, encontramos na Bíblia muitas parábolas.
Aliás, a Bíblia é uma grande parábola, por isso é um livro eterno e tão atual, do
qual extraímos constantes ensinamentos. A linguagem, através de parábolas,
enriquece o texto, pois o torna adaptável a qualquer realidade ou situação, e cada
um pode tirar dele um ensinamento que corresponda à sua vida, sem empobrecer o
texto. Por detrás das parábolas há grandes ensinamentos. As parábolas bíblicas são
um poço de sabedoria, tanto no Antigo como no Novo Testamento, porém, no
Novo Testamento elas ganham contornos mais característicos de parábolas,
embora no Antigo Testamento haja também muitas parábolas, ou textos que
contêm uma linguagem figurativa, como recurso de linguagem para ajudar na
compreensão da mensagem. Neste domingo temos parábolas tanto no evangelho
quanto na primeira leitura.
A primeira leitura, da profecia de Ezequiel, traz um texto que fala do poder de
Deus, usando uma parábola, ou linguagem comparativa, que é a do cedro

265
exuberante, de cuja copa será extraído um broto. Esse broto, plantado no topo da
montanha, vai virar uma árvore gigantesca, mais exuberante ainda do que o cedro
do qual esse ramo foi retirado. Seus ramos produzirão frutos, diz o profeta, e
atrairão pássaros vindos de longe, os quais encontrarão ali abrigo, fazendo seus
ninhos nesses ramos. Ao final, o profeta revela o poder de Deus, mostrando que
ele rebaixa a árvore alta e eleva a árvore baixa. Que pode fazer secar a que está
verde e fazer brotar a árvore seca. Um Deus que fala e faz.
O que tudo isso tem a nos ensinar?
Encontramos aqui um paralelismo com textos dos evangelhos, os quais
conhecemos muito bem. Entre eles, aquele em que Deus derruba dos tronos os
poderosos e eleva os humildes (cf. Lc 1,52). Depois, a parábola da semente de
mostarda, da qual o evangelho de hoje também faz referência. A semente de
mostarda é considerada a menor de todas as sementes, porém, depois que germina,
torna-se uma grande árvore, maior que todas as hortaliças, e abriga pássaros nos
seus ramos. Enfim, tudo isso para falar do Reino de Deus e do seu poder
transformador. Nesta primeira leitura, encontramos uma mensagem clara de
esperança para um povo humilhado pelo exílio, que busca reconstruir sua vida. A
árvore exuberante da qual foi tirado um broto é a própria Jerusalém, ou o povo
hebreu, que foi retirado de sua terra, mas que ressurgirá como um povo forte,
reconstruindo a sua vida, melhor que antes. É, portanto, a imagem de um Deus
que faz ressurgir das cinzas aqueles que parecem ter sido aniquilados. Um Deus
capaz de transformar situações aparentemente irreversíveis. Um Deus que tudo
pode e que nos faz lembrar que tudo nós podemos naquele que nos fortalece (cf.
Fl 4,13). Mostra que Deus não abandona seus filhos, por mais que eles tenham
errado e sofram as consequências de seus erros. É um Deus que quer a vida e não
a morte, a liberdade e não a escravidão. Um Deus que não é apenas teoria, mas
que age de modo surpreendente. É esse Deus que precisamos descobrir em quem
devemos acreditar para não sucumbirmos diante das tragédias humanas, dos
sofrimentos e dos obstáculos que encontramos no caminho ou no processo de
construção do Reino de Deus, diz o Apóstolo Paulo na segunda leitura. É esse
Reino que o evangelho de hoje também nos revela através de parábolas.
Esse Reino é comparado à semente. A imagem da semente é muito significativa
e enriquece nossa compreensão acerca do Reino de Deus. Uma semente parece
algo insignificante. Quase ninguém presta atenção a uma semente, mas ela tem
um poder grandioso, um potencial incrível. Uma ínfima semente pode se
transformar numa árvore gigantesca e produzir sombra, frutos, dar abrigo aos
pássaros, às pessoas, sem contar o seu benefício na natureza e na nossa vida, pois
as árvores têm uma função importante no meio ambiente e no ar que respiramos.
Mas quase ninguém pensa nisso quando olha uma semente, principalmente se essa
semente for minúscula. Quando Jesus compara o Reino de Deus a uma semente,

266
ele quer mostrar para seus discípulos e para nós que esse Reino é algo a ser
semeado, gestado, construído, e que depende também de nós e de nossas ações.
Ele não está pronto, como muitos imaginam. Está em processo de germinação e
crescimento, e cabe a nós ajudar nesse processo. Mostra também que esse reino é
feito de pequenos gestos, como os do semeador, e que esses pequenos gestos
podem se tornar grandiosos perante Deus e nós mesmos. Além disso, podemos e
devemos semear as sementes no campo do Senhor, mas não depende de nós a sua
germinação e crescimento. Nossa parte, ou missão, é semear e cuidar. Deus faz a
parte dele. Vemos, assim, na dinâmica da semente, uma parceria entre o ser
humano e Deus. A parte que cabe a Deus, nós não entendemos, pois são os seus
mistérios, mas cabe a nós fazer a nossa parte, que é semear, cuidar e colher. O
resto pertence a Deus. Se não fizermos a nossa parte, podemos não obter os
resultados da semente. Além disso, o evangelho de hoje traz a parábola da
semente de mostarda para falar do Reino de Deus, mostrando que, embora ela seja
muito pequena, depois de sua germinação e crescimento, surpreende a todos,
proporcionando muitos benefícios. Assim é o Reino de Deus. Ele é construído de
pequenos gestos, com pequenas sementes. Temos em nossas mãos essas sementes,
mas não as enxergamos, ou não queremos ou não nos esforçamos para enxergá-
las. O problema é que, não enxergando, não a semeamos. Ou então enxergamos,
mas não damos importância por se tratar de algo tão pequeno e aparentemente
insignificante. Com isso perdemos a oportunidade de construir o Reino de Deus.
Quais são hoje as sementes de mostarda que temos?
Cada um pode olhar em sua volta e procurar descobrir essas sementes, esses
sinais, que podem ser aquelas pessoas que têm um potencial maravilhoso, mas que
não são valorizadas na comunidade; os trabalhos que vêm sendo realizados na
comunidade, mas que, por parecer insignificantes, não são apoiados ou
incentivados; ou ainda os dons e talentos nossos ou de tantas outras pessoas que
não são colocados em prática. Além dessas sementes, podemos descobrir muitas
outras. Nossa missão é descobrir, semear e cultivar essas sementes. Elas poderão
se transformar em coisas grandiosas que farão a diferença na vida de muitas
pessoas, na vida da comunidade e da sociedade. Quantas dessas sementes já estão
dando frutos? Vejamos o exemplo da pastoral da criança. Ela nasceu pequena
como a semente de mostarda, mas ganhou visibilidade internacionalmente. Não
apenas visibilidade, mas resultado. Isso é o mais importante. Muitas vidas foram e
estão sendo salvas por essa pastoral. Mas não é fácil a missão de semear. Muitos
perdem a própria vida nessa missão, como foi o caso da fundadora dessa pastoral,
a Dra. Zilda Arns, que morreu num terremoto no Haiti, quando semeava a
semente dessa mostarda naquelas terras. É essa também a nossa missão na
construção do Reino de Deus. Com pequenos gestos, ele vai sendo construído e
ganhando visibilidade, como o cedro da primeira leitura e as sementes do

267
evangelho. A explicação desses gestos, nós a encontramos nos resultados, e não
em teorias.
Para isso, é preciso confiança, diz São Paulo na segundo leitura. A confiança em
Deus e no seu Reino faz toda a diferença. Sem acreditar, confiar, nenhuma
semente será semeada, e se não forem semeadas, continuarão sendo apenas
sementes, sem sofrer transformação. Não basta termos a semente, é preciso
semear e cultivar. Nisso consiste nossa missão, e é disso que fala o Apóstolo
Paulo nesta segunda leitura, da segunda Carta aos Coríntios. Deus nos deu um
corpo para o colocarmos a serviço, para sermos semeadores do seu Reino. Esse
corpo não é nossa morada eterna. Ele apenas abriga temporariamente a nossa
alma. A morada eterna é o Reino que ajudamos a construir com os nossos atos.
Nesse corpo, temos que agir como se estivéssemos fora de casa, pois a nossa casa
é a morada eterna, o Reino definitivo, diz o Apóstolo. Aqui, apenas começamos a
construir esse Reino com os nossos procedimentos. Diz Paulo nessa leitura que
nós colhemos o que semeamos. Se a semente for boa, vamos colher bons frutos,
mas se o que semeamos é discórdia, maldade ou outras coisas que não edificam a
vida, não podemos esperar colher coisas boas. Enfim, diz ele: “de fato, todos
deveremos comparecer diante do tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a
recompensa daquilo que tiver feito durante a sua vida no corpo, tanto para o bem
como para o mal” (2Cor 5,10). Vemos aqui, com clareza, a nossa responsabilidade
na construção desse Reino. Cabe a cada um de nós fazer a nossa parte e cuidar
para que o Reino seja construído para todos. Estejamos, portanto, confiantes na
nossa missão.

12º Domingo
& Jó 38,1.8-11 | Sl 106(107) 2Cor 5,14-17 | Mc 4,35-41

Tempestades são fenômenos assustadores da natureza. Quem já viu ou teve que


enfrentar uma tempestade sabe quanto ela amedronta. Nessas horas, pedimos
socorro às forças dos céus, porque nos vemos muito pequenos e impotentes diante
dela, e não há quem consiga acalmá-la a não ser Deus. Refletindo sobre isso me
vem à mente a imagem da onda gigante, o tsunami que atingiu a Tailândia alguns
anos atrás, e outras que se repetiram em outros países. Imaginem a imagem de
horror, de pânico, vivida pelos que foram atingidos por ela! Hoje, na liturgia da
Palavra, temos a imagem da tempestade para falar da força e do poder de Deus em
nossa vida, desde que confiemos nele. Para Deus, nada é impossível, inclusive
acalmar as tempestades, mas é preciso confiar, ter fé, para que as tempestades
sejam acalmadas. A tempestade é uma figura de linguagem que os autores bíblicos
usam para falar de momentos de extrema dificuldade, e essa imagem aparece
diversas vezes na Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Hoje, por

268
exemplo, temos duas delas. Na primeira leitura vemos Deus, que fala com Jó do
meio da tempestade, e no evangelho, Jesus acalmando a tempestade que ameaçava
afundar o barco dos discípulos. Ambas as alusões referem-se a momentos difíceis.
A primeira leitura é do livro de Jó. Conhecemos bem a história de Jó. Inclusive
há uma expressão popular baseada nesse livro que se refere à paciência nos
momentos complicados. A “paciência de Jó”. Ela está relacionada á fé, pois Jó
havia perdido tudo, restando-lhe apenas a fé que tinha em Deus. Essa fé foi a sua
“tábua de salvação”. Sem ela, ele não teria recuperado a vida e as coisas que
perdeu. Muitos, por muito menos, blasfemam contra Deus e se revoltam com a
vida. Mas Jó permanece firme. Não que tenha sido fácil para ele, ou que ele tenha
aceitado passivamente as desgraças que caíram sobre ele e sua família. Pelo
contrário, discutiu com Deus, brigou com ele muitas vezes, mas não perdeu a fé.
Sua vida foi envolta numa grande “tempestade”, e nessas horas, como foi dito
acima, restou-lhe apenas Deus. Apenas é um modo de falar, porque Deus é tudo,
não o resto. Com a tempestade ninguém pode fazer nada, a não ser Deus. Somente
ele pode acalmá-la. Não existem técnicas humanas para acalmar uma tempestade,
ou deter um mar revolto, ou uma onda gigante. É essa imagem que encontramos
na primeira leitura, que retrata o sofrimento de Jó e o sofrimento de tantas pessoas
que enfrentam as tempestades da vida, mas ainda têm Deus consigo.
Assim, a primeira leitura mostra Deus falando com Jó no meio dessa
tempestade, ou seja, dessa situação conturbada, violenta que Jó está vivendo. E o
que Deus fala? Deus fala do seu poder. Ele é maior que as tempestades. Deus
questiona Jó, perguntando quem é que fechou o mar como se fosse uma simples
porta, impedindo que suas águas engolissem toda a terra? Mostra para Jó que foi
ele quem colocou as nuvens no céu e deu névoas para proteger a terra; mostrou
também que é ele quem coloca limite a tudo e permite que cheguemos até onde
ele quiser, não mais que isso. Enfim, esse diálogo de um Deus poderoso com Jó
medroso serve para mostrar-lhe que o sofrimento pelo qual ele, Jó, está passando,
não é maior que o poder de Deus. Com essas comparações, percebemos como é
limitada a nossa compreensão acerca de Deus e quão pequena é a nossa fé.
Achamos muitas vezes que só nós temos problemas e que esses problemas são os
piores e os maiores do mundo. Porém, Deus quer mostrar que, por maior que seja
o nosso problema, a nossa dificuldade ou a tempestade na nossa vida, ele é maior.
Essa leitura traz, assim, um conforto, uma esperança muito grande. Conforta
nosso coração saber que todo sofrimento tem um fim, que nada é para sempre e
que um dia as coisas vão melhorar, a tempestade vai passar. Tempestades são
fenômenos passageiros. Não há tempestade que dure para sempre, embora,
quando aconteça, tenhamos a sensação de que não vai terminar nunca. Cinco
minutos de tempestade parecem uma eternidade, mas a eternidade pertence

269
somente a Deus. Basta confiar e ele nos fará ver a bonança depois das
tempestades.
O evangelho traz também uma situação de tempestade. Os discípulos estão no
barco com Jesus, rumo à outra margem, e no meio da travessia começou a soprar
um vento muito forte, fazendo com que as ondas entrassem na barca. Sabemos
que quando um barco enche de água ele afunda. Esse era o medo dos discípulos.
Mas Jesus estava no barco. Ele estava na parte de traz e não no leme, por isso o
medo e a insegurança. Além disso, achavam que Jesus estava dormindo. Quem é
que consegue dormir no meio de uma tempestade no mar? Vemos, assim, que essa
é também uma linguagem figurada. O barco significa a missão. O mar representa
os desafios dessa missão. Entrar no barco de Jesus significa assumir a missão com
ele. Porém, há muitos que entram nessa barca, mas não têm consciência das
responsabilidades que terão pela frente, dos desafios a enfrentar. São aqueles que
assumem o batismo como se o batismo fosse apenas um produto, ou algo mágico,
sem compromisso. Quem pensa assim entra numa “canoa furada” e vai pular fora
dela tão logo a água comece a penetrar no seu interior. Ou então vai sofrer muito
diante das tempestades, do revolto mar da vida. Foi isso que aconteceu aos
discípulos. Embora fossem discípulos de Jesus, pessoas das quais se esperava um
compromisso com ele, na hora da dificuldade, da tempestade, pensavam que Jesus
estava dormindo. Quantos de nós achamos que Jesus está dormindo no barco da
nossa vida porque ele nos deixa passar por situações difíceis e dolorosas? Mas não
é Jesus que está dormindo. Somos nós que estamos dormindo, ou seja,
acomodados, sem muita responsabilidade com o batismo que assumimos.
Recebemos um batismo, mas não queremos compromisso com Deus, com a Igreja
nem com os irmãos. Enfim, entramos no barco, mas não temos consciência do que
ele representa e dos mares que temos que atravessar. Por essa razão, entramos no
barco, mas não deixamos que Deus o conduza. Queremos nós mesmos continuar
no leme. Para Deus, sobra apenas um espaço no fundo, ou no convés, quando
sobra. Quando precisamos dele, o chamamos. Tem muita gente que age assim. Só
procura Deus quando está em apuros. Quando tudo está bem, mar calmo e sem
grandes ondas, segue tocando o barco como se Deus não existisse. Mas basta uma
onda maior, ou o mar ficar revolto, que recorre a Deus. Se ele demorar, acusa-o de
estar dormindo, ou seja, de ter abandonado. São os cristãos sem consciência do
seu batismo, da sua missão. Deus precisa estar no leme do barco de nossa vida
para enfrentarmos as tempestades sem que ele afunde. Mesmo que seja nas horas
de dificuldade, é bom procurar a Deus. Ele sempre vem em nosso socorro. Ele se
importa conosco, mas não quer que sejamos tão medrosos. O medo mostra a falta
de confiança, falta de fé. Jesus questiona os seus discípulos, perguntando: “por
que vocês são tão medrosos? Vocês ainda não tem fé?”. Talvez ele faça para nós
as mesmas perguntas quando ficamos apavorados diante das tempestades da vida.

270
É preciso rever nossa fé, nosso proceder, pois discípulos medrosos terão
dificuldades de atravessar o mar, isto é, a missão. É disso que fala Paulo, na
segunda leitura deste domingo.
Quem nos impulsiona nessa missão é o amor de Cristo, mas preciso crer nesse
amor, diz ele. Jesus nos deu provas contundentes desse amor, mas ainda há muitos
que não acreditam ou não conseguem entendê-las. Assim sendo, nossa missão é,
primordialmente, levar esse amor de Cristo, de modo que as pessoas entendam e
vivam esse amor. Se não fosse o amor de Cristo por nós, não seguiríamos na
missão, pois são tantas as tempestades, tantos os obstáculos, tantas as pessoas que
querem afundar nosso barco ou que pereçamos diante dos obstáculos. Se Cristo
morreu por nós – e não há prova de amor maior que essa – por que então temos
tanta dificuldade de propagar esse amor? Será que continuamos fracos na fé?
Cristo não é só aparência na nossa vida, ele é real. E quem crer na realidade de
Cristo haverá de transformar-se numa nova criatura, diz o Apóstolo. Uma criatura
capaz enfrentar as tempestades. Sejamos, portanto, promotores de um tempo
novo, onde haja menos medos e angústias, pois todos saberão que Deus é maior
que tudo.
Enfim, a liturgia deste domingo enfatiza a fé. Uma fé capaz de nos encorajar
diante das dificuldades. Uma fé que nos move e nos faz mais fortes.

13º Domingo
& Sb 1,13-15; 2,23-24 | Sl 29(30) 2Cor 8,7.9.13-15| Mc 5,21-43 ou 5,21-24.35b-
43

A liturgia deste domingo traz como tema central a fé. A fé diante de todas as
situações, sobretudo daquelas que parecem não ter mais solução, como, por
exemplo, diante da morte. A morte é sempre algo que assusta e mexe com a nossa
fé. Todos os nossos medos, de uma forma ou de outra, estão relacionados com o
medo da morte, que é o maior de todos os medos. A morte simboliza o fim, a
aniquilação e, sobretudo, um mistério. Toda a nossa luta neste mundo consiste
numa luta contra a morte e contra o sofrimento que pode conduzir à morte. As
religiões têm teorias sobre a vida após a morte, mas ninguém volta para confirmar
ou negar o que é dito sobre ela. Independentemente de sabermos como é após a
morte, sabemos que ela, a morte, um dia virá. A morte física é a única certeza que
temos. Dela ninguém escapa, mas podemos escapar da morte eterna e das mortes
no sentido figurado. Destas os textos bíblicos falam com autoridade.
Vemos, assim, que há diversas concepções de morte. Todas estão relacionadas
com a morte física porque esta oferece suporte real para entendermos os outros
tipos de morte, inclusive a morte eterna, a condenação, a morte daqueles que não
se salvam. Assim sendo, a liturgia da Palavra deste domingo nos conduz a uma

271
reflexão não sobre a morte, mas sobre a fé na vida. Deus quer a vida, e não a
morte. Diante disso, podemos questionar: mas então por que morremos? Não é
apenas dessa morte que falam os textos de hoje. A essa morte física até Jesus foi
submetido. Sua submissão à morte reservada a todo ser vivo foi para mostrar que
ela é apenas uma passagem para a vida plena. Mas essa vida plena tem seu início
aqui, antes da morte física. Deus nos criou para viver bem, felizes, saudáveis, num
mundo que fosse uma amostra do paraíso. Por essa razão, lutamos contra o
sofrimento e a morte. Essa luta é própria do ser vivo. Até mesmo os animais e as
plantas lutam para viver. Se Deus criou todas as coisas, ele as criou para a vida,
embora ela tenha um tempo determinado. Deus não quer que nada nem ninguém
morra antes do tempo. É disso que tratam as leituras de hoje.
A primeira leitura, do livro da Sabedoria, começa falando que “Deus não fez a
morte nem se alegra com a perdição dos seres vivos”. Entendemos aqui que não se
trata apenas da morte física, pois o texto fala de “perdição”. Está perdido aquele
que não adentra a vida eterna no Reino de Deus porque nesta vida praticou apenas
obras das trevas. Deus criou tudo para uma existência plena, como diz Jesus, “Eu
vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude” (Jo 10,10). Deus quer a
plenitude da vida. Ninguém foi criado para sofrer. O sofrimento é causado por
consequência de atitudes humanas, e não por Deus. Ele nos quer sadios, de bem
com a vida e promovendo a vida. Não quer pessoas envenenadas pelo ódio, pela
maldade, pela ganância, pelas coisas que provocam sofrimento e diminui a
qualidade da vida, abreviando-a. Ele não quer que o mundo dos mortos reine
sobre a terra. O reino dos mortos é uma linguagem figurada para tratar das coisas
que acontecem e que desagradam a Deus. O mundo dos mortos é o mundo
daqueles que são inimigos da vida, inimigos de Deus e promovem coisas que
provocam o sofrimento. Não foi para isso que ele nos criou. Quando alguém sofre,
Deus sofre nessa pessoa sofredora, porque é a sua criação que está sofrendo.
Quando a criação sofre e geme as dores do parto (cf. Rm 8,22), é Deus que sofre,
porque Deus se compadece do sofrimento daqueles que ele criou e sobretudo
daqueles que são sua imagem e semelhança. Por isso ele quer que a justiça reine
sobre a terra, porque a justiça é imortal, diz o livro da Sabedoria.
O evangelho trata do tema da fé e mostra Jesus empenhado em diminuir o
sofrimento humano. Ele está no meio de numerosa multidão. Todos sofredores.
Uns mais, outros menos, mas todos têm algum tipo de sofrimento e buscam se
livrar dele, enxergando em Jesus a solução para isso. O sofrimento faz parte da
vida, mas não é querido por Deus. Jesus deseja livrar todos do sofrimento, mas há
casos que são mais urgentes. Há sofrimentos que são maiores, e ele busca socorrer
primeiro os mais necessitados, cuja vida corre maior risco. Isso não quer dizer que
ele se esquece dos demais. Porém, é preciso fé. Sem fé, dificilmente vamos ser
curados dos nossos sofrimentos. A ação de Deus precisa da nossa fé para poder

272
agir e interagir conosco. É o que mostra a atitude da mulher que toca em Jesus no
meio da multidão, sem que ele saiba quem ela é. Era uma mulher que vinha
sofrendo de hemorragia havia muitos anos. Ela confiava no poder de Deus em
Jesus, e por isso queria apenas tocar nas suas vestes. Sua fé era tanta que para ela
bastaria tocá-lo. Jesus estava indo às pressas socorrer a filha de um dos chefes da
sinagoga, chamado Jairo, que estava à beira da morte. Ele não tinha como dar
atenção à mulher nem à multidão que o comprimia. Mas quando a mulher o toca,
ele sente, ele foi tocado pela fé dessa mulher. Foi um toque diferente de todos os
que o tocavam por falta de espaço. O toque da mulher foi o toque de alguém que
tem fé, de alguém que busca firmemente Deus e por isso ela foi curada, pois seu
sentimento tocou o coração de Jesus. Não foi um toque mágico. Se assim fosse,
todos os que esbarravam nele naquela multidão teriam sido curados. Vemos aqui
que a fé fez toda a diferença. Jesus tocado, comovido, disse à mulher que foi a sua
fé que a curou. Ela poderia voltar em paz.
De volta a sua missão, ele recebe a notícia de que a filha de Jairo havia morrido.
Não havia mais nada a ser feito, e Jairo podia, agora, deixar de incomodar o
mestre. Todas as esperanças tinham se dissipado, menos a de Jairo, que recebeu
de Jesus o encorajamento de que precisava. Jesus disse para ele não ter medo, mas
ter fé. Quem confia em Deus, mesmo diante da morte encontra força para
acreditar e seguir adiante. Jesus foi com o casal, Jairo e a esposa, até onde estava a
menina, enquanto as pessoas choravam a morte dela. Jesus pergunta por que estão
chorando se a criança não morreu. Foi quando ele disse que ela estava apenas
dormindo, o que provocou a ironia dos presentes, pois eles não tinham fé. A
menina estava cercada de pessoas sem fé, exceto Jairo. Jesus desmistifica a morte
e enxerga nela apenas um sono que conduz a pessoa para um despertar para uma
vida plena. Ao tomar a menina pela mão e ajudar a levantá-la, Jesus mostra a
todos que nossa missão é reerguer os que estão caídos, prostrados,
marginalizados, sofrendo algum tipo de morte. A menina se levantou e começou a
andar. Esse gesto é um gesto extremamente libertador. Andar com as próprias
pernas significa liberdade, autonomia, vida plena, entre outras coisas. É essa a
vida promovida e defendida por Jesus. Ele não quer ver ninguém prostrado pelo
sofrimento. Todos se admiraram da atitude e da coragem de Jesus, mas ele pediu
que ninguém ficasse sabendo. Ou seja, muitos poderiam interpretar esse gesto
como um gesto mágico, uma cura fantasiosa, enfim, aqueles tipos de interpretação
miraculosa que muitos ainda fazem de qualquer processo de libertação. Não
podemos atribuir magia à religião, mas sim à fé. A fé é capaz de transformar
realidades, porque a fé nos move, nos faz buscar com afinco aquilo que
desejamos. Foi o que aconteceu com a mulher que sofria de hemorragia e com
Jairo. Coisas que pareciam impossíveis foram alcançadas porque estes tiveram fé

273
e não desistiram das suas buscas, mesmo tendo diante de si uma multidão que os
atrapalhasse. Eles romperam a multidão, enfrentaram a morte e obtiveram a vida.
Por isso, Paulo, na segunda leitura, elogia a comunidade de Corinto, que
sobressai na fé. Quem sobressai na fé sobressai em todas as outras coisas. É o que
encontramos nessa segunda leitura. Uma comunidade que merece o elogio do
Apóstolo porque era composta de pessoas perseverantes na fé, e por serem
perseverantes na fé, perseveravam nas obras de misericórdia, no amor, na partilha,
fazendo da comunidade uma comunidade de vida, uma comunidade que refletia o
Reino de Deus. É isso que se espera de nossas comunidades eclesiais hoje.
Comunidades que vivam no amor de Cristo, que promovam e defendam a vida. As
obras de generosidade destacadas nessa primeira leitura devem também estar
destacadas em nosso coração e nas nossas comunidades. Enfim, que nunca
percamos a fé, pois é ela a nossa esperança de construir um mundo novo, onde
todos tenham vida e vida em plenitude, sem pessoas prostradas pelo sofrimento.

14º Domingo
& Ez 2,2-5 | Sl 122(123) 2Cor 12,7-10 | Mc 6,1-6

A dureza de coração é um dos grandes obstáculos para perceber e viver os


milagres que Deus opera entre nós todos os dias. Quem tem o coração duro é,
geralmente, orgulhoso, arrogante e acha que Deus deve fazer suas vontades. Além
disso, com um coração endurecido, perde-se a sensibilidade de fazer e receber os
bens, distanciando, assim, o Reino de Deus. É o que nos mostra a liturgia da
Palavra deste dia, pedindo humildade, força, perseverança e fé.
A primeira leitura, da profecia de Ezequiel, mostra Deus pedindo ao profeta que
vá anunciá-lo a um povo de coração duro. Vemos, assim, que Deus age por meio
do profeta. Faz do profeta um instrumento para amolecer o coração de um povo
que ele ama, mas que ainda não percebeu o amor por causa da dureza do seu
coração. Hoje as coisas não são muito diferentes. Há muita gente de coração duro,
inclusive dentro das Igrejas. Gente que não age como profeta e não dá espaço para
os profetas agirem; gente que se fecha no seu mundinho e não consegue enxergar
além daquilo que está em sua volta e, muitas vezes, o que está em sua volta não
são sinais de Deus, mas sinal de um deus criado à sua imagem e semelhança. É
preciso, portanto, ampliar nossos horizontes, enxergar mais longe, no sentido de
não julgar as coisas pela aparência, ou simplesmente não julgar as coisas ou
pessoas, mas sim fazer o bem. Quando julgamos as pessoas, não temos tempo de
amá-las, e quem não ama não pode enxergar Deus, porque Deus é amor (cf. 1Jo
4,8). Talvez seja essa a realidade do povo de Israel do contexto dessa primeira
leitura. Deus pede que o profeta se coloque em pé para ouvi-lo. Colocar-se em pé
significa prontidão. É preciso estar pronto, de prontidão, de atalaia, para ouvir a

274
Deus. Quando o evangelho é proclamado, durante a Missa, ficamos em pé. É um
sinal de prontidão para ouvir e obedecer a Deus. É essa a postura pedida ao
profeta Ezequiel nesta primeira leitura. O profeta ficou em pé pelo pedido de
Deus. Ou seja, foi o Espírito do Senhor que entrou nele e o pôs em pé, como diz o
profeta Isaías: “O Espírito do Senhor Javé está sobre mim e me ungiu. Ele me
enviou para dar a Boa Notícia aos pobres, para curar os corações feridos...” (cf. Is
61,1; Lc 4,18). Quando nos dispomos a ouvir Deus, ouvimos mesmo e assim ele
nos unge e nos envia. Ele fala de diferentes modos e por meio de diversas
situações ou pessoas, basta que tenhamos disponibilidade para ouvi-lo. Muitos
não ouvem porque não se colocam à disposição de Deus, para ouvi-lo. Uma das
situações que nos impedem de ouvir Deus é ter um coração endurecido, dizem as
leituras de hoje. Os conterrâneos de Jesus não quiseram ouvi-lo, por isso ele não
pode fazer milagres nesse lugar. Eles se fecharam para a Boa Notícia trazida por
Jesus, e esse fechamento se deu pelo descrédito. O descrédito era também o
problema que impedia o povo hebreu de reconhecer Deus, de saber que havia um
Deus que o amava e queria que eles andassem em seus caminhos. Assim sendo, a
missão de Ezequiel nesta primeira leitura foi levar Deus para aquele povo. Esta
continua sendo a nossa missão. Temos que levar Deus àqueles que ainda não
acreditam nele, ou para aqueles que acreditam de maneira errada,
instrumentalizando Deus, como se Deus fosse mais um instrumento a seu serviço.
Há muitas concepções erradas de Deus, e isso dificulta que os milagres
aconteçam, ou seja, que as coisas mudem para melhor. O povo para o qual o
profeta foi enviado era um povo rebelde, um povo que havia se rebelado contra
Deus. Rebela-se contra Deus aquele que quer usar Deus como se ele existisse a
seu serviço. Quando agimos assim, invertemos os papéis, pois queremos que Deus
nos sirva, mas não queremos servir a Deus. Há muita gente que só quer ser
servido por Deus, mas não se preocupa em servi-lo. Servimos a Deus quando
servimos nossos irmãos, sobretudo quando servimos a quem precisa de ajuda,
quem passa por necessidades, enfim, quando servimos a Deus, Deus se revela em
nós e nós revelamos Deus aos nossos irmãos. Eis nossa missão profética. Quando
agimos assim, de qualquer modo, as pessoas ficam sabendo que existem pessoas
comprometidas com a vida, que existem profetas. O mundo precisa de profetas, de
pessoas dispostas a fazer o bem, a ajudar o próximo, a amolecer com seu amor, o
coração endurecido dos que ainda não conhecem a Deus.
Jesus encontrou dificuldade de anunciar a Boa Notícia em Nazaré, sua terra.
Embora falasse com sabedoria, encantando as pessoas com sua eloquência, não
pôde fazer milagres. O canal de comunicação entre eles estava obstruído pela
dureza do coração. Tudo indica que eram pessoas preconceituosas. Eles não
deram credibilidade a Jesus porque conheciam sua família, e a família de Jesus era
uma família simples. Esse tipo de preconceito ainda existe. Há lugares em que as

275
pessoas querem saber de que família você é para julgar, para dar credibilidade ou
não. Se for de família rica, com sobrenome conhecido, há grandes chances de ter
atenção, caso contrário, a pessoa é ignorada, desmerecida, desvalorizada e
dificilmente será possível fazer ali alguma coisa que contribua. Quando não há
acolhimento, tudo se torna mais difícil. Jesus não foi acolhido em Nazaré e ali não
pôde fazer milagres, diz o texto de hoje. A atitude dessas pessoas deixou Jesus
admirado, pois perderam uma rica oportunidade de conhecer Deus através de
Jesus, mas a rebeldia, o preconceito, a dureza de coração as impediu.
Assim acontece hoje com muitos missionários. Há quem ouça a voz de Deus e
assuma a missão de anunciá-lo, mas ainda há muitos corações endurecidos. Além
disso, quem anuncia precisa ser humilde, firme, perseverante, diz Paulo Apóstolo
na segunda leitura. Não é porque somos missionários, pessoas consagradas, ou
dedicadas, ou ainda engajadas na comunidade, que sabemos mais que os outros,
ou que somos santos e perfeitos. Quem pensa ser melhor que os outros, não
evangeliza, mas promove discórdia na comunidade. Por essa razão, Paulo diz que,
para que ele não se inchasse de orgulho, ou soberba, por ser missionário e ter tido
revelações extraordinárias, foi lhe dado um espinho na carne. Havia um “anjo de
Satanás” que o espancava e não o deixava esquecer a sua miséria. Ou seja, não
deixava que ele esquecesse os seus pecados, sua fraqueza, suas limitações. Todos
nós temos fraquezas e limitações, por isso não nos cabe julgar, mas amar. Quando
reconhecemos nossas fraquezas, os “espinhos de nossa carne”, agimos de modo
mais humano e compassivo. Somos constantemente perdoados por Deus, mas por
que temos, então, tanta dificuldade de perdoar? Quem reconhece a misericórdia de
Deus é também misericordioso com seus irmãos. Nosso mundo está carente de
pessoas misericordiosas, de pessoas que amem mais. Parece que as religiões estão
se esquecendo de ensinar o amor e o perdão, focando mais a busca da perfeição,
como se fôssemos produtos de uma indústria que não permite falhas. Aquele que
foge do padrão de qualidade é descartado. Não podemos entrar na engrenagem de
um sistema industrial em que o controle de qualidade passa pelo descarte dos que
não são perfeitos. A Igreja é lugar de pessoas pecadoras que buscam a santidade, e
a santidade só será atingida se existir amor, perdão, misericórdia. Não podemos
ser soberbos o ponto de achar que não temos pecados, que somos melhores ou
superiores aos outros. Esse procedimento impede que se perceba a presença de
Deus e os milagres não acontecerão. Como nos ensina o Apóstolo, temos que
descobrir a força na fraqueza. Enxergar, naqueles que a sociedade rejeita, um filho
de Deus que precisa de outra chance, que precisa de credibilidade, que precisa de
oportunidade e, sobretudo, de amor. Todos nós temos fraquezas e fortalezas.
Ninguém é só fraqueza, ou somente força. Esses dois lados existem em nós e
devem estar bem equilibrados para podermos agir com equilíbrio. É essa a
proposta do Apóstolo Paulo nessa segunda leitura. Não deixar que o orgulho da

276
força endureça nosso coração, mas também não deixar que as fraquezas impeçam
que acreditemos em nós mesmos e nos nossos irmãos que também têm as suas
limitações.

15º Domingo
& Am 7,12-15 | Sl 84(85) Ef 1,3-14 ou 1,3-10 | Mc 6,7-13

Podemos dizer que a liturgia deste domingo é vocacional. Vocacional porque


trata do chamado e do envio de profetas, Apóstolos, discípulos missionários. Eis o
propósito dessas leituras: despertar em nós o ardor missionário a partir do
encontro com Jesus Cristo que fazemos na liturgia eucarística e na liturgia da
Palavra, tendo diante de nós o chamado do profeta Amós, de Paulo Apóstolo e dos
Apóstolos que Jesus chamou e enviou dois a dois para a árdua missão de anunciar
o Reino, expulsando demônios, curando os doentes e anunciando a Boa Notícia do
Reino de Deus. Eis, portanto, a nossa missão. Porém, não pensemos que ela seja
fácil. Há grandes desafios e obstáculos. Quem ainda não os encontrou é porque
ainda não adentrou o cerne da missão. É o que nos mostram as leituras deste
domingo.
A primeira leitura é da profecia de Amós. Amós, um homem simples, camponês
que cultivava sicômoros e pastoreava o gado, como tantos da sua época, foi
chamado e enviado por Deus para profetizar em Betel, santuário do rei, território
dominado pela força e poder de um rei tirano. A missão não foi fácil; primeiro,
pela simplicidade, ou talvez ingenuidade de Amós, que sem experiência ou
descendência de profeta, como ele mesmo disse, depara-se com Amasias, que o
alerta para ir embora daquela área para profetizar em outro lugar. Pede que ele vá
para Judá, pois ali é lugar do rei, e o rei não permite que ninguém o incomode.
Amós sente que terá dificuldade pela frente, mas não se arroga por ser profeta.
Pelo contrário, disse não ser profeta, mas apenas um trabalhador. Foi Deus quem
o tirou de sua profissão para dar-lhe uma missão, ordenando-o a profetizar para o
povo de Israel. Ele não desiste e segue firme.
A atitude de Amós é uma atitude exemplar de profeta. Ele ouve e responde ao
chamado de Deus. Ele deixa o que fazia antes, a profissão, o seu meio de sustento,
para responder aos apelos de Deus. Vai com humildade, e nem quer assumir o
nome de profeta, mas apenas o papel de profeta. Por isso ele vai com
simplicidade, firmeza e coragem. A humildade de Amós não é sinal de fraqueza,
mas obediência a Deus. Vale lembrar que ser humilde não é ser bobo, não é
deixar-se intimidar pelas ameaças, pois Amós não se deixou amedrontar pelas
ameaças de Amasias. Ele confiava em Deus. Ele tinha certeza de que Deus estava
com ele. Quem tem essa confiança não teme, não abandona a missão, não fraqueja
diante das ameaças. Como Amós, todos os que quiserem ser verdadeiros

277
discípulos missionários de Jesus Cristo, respondendo com solicitude ao chamado
de Deus, vão encontrar obstáculos, dificuldades. Há muitos que querem calar a
voz dos profetas, mas, como diz um canto popular, “se calarem a voz dos profetas,
as pedras falarão”. O profeta é convicto da sua missão, embora nem sempre tenha
convicção de que seja realmente profeta, como nos mostrou Amós.
A Carta aos Efésios fala desse chamado, mostrando-nos que esse chamado é
uma bênção. Deus nos abençoou com toda bênção espiritual quando nos escolheu
em Cristo para sermos santos e sem defeito diante dele, no amor. Nossa missão
primordial é a busca da perfeição, da santidade, mas isso não é possível se não
lutarmos por um mundo melhor. Santidade é não se omitir na missão, no
enfrentamento dos problemas e dificuldades, mas lutar contra elas, de modo que o
Reino aconteça. Todo aquele que luta pela justiça está no caminho da perfeição e
da santidade. Deus nos cumulou de toda bênção, e se confiamos nisso, não temos
porque temer. Ser abençoado por Deus não significa que não teremos problemas
ou dificuldades, significa que conseguiremos vencê-las, pois Deus está conosco. É
essa a confiança do profeta. Sem essa confiança, ninguém consegue ser profeta
nem exercer sua missão profética. Temos muitos batizados que não exercem sua
missão profética por medo, por comodismo ou por alienação. É muito mais
cômodo praticar uma religião sem compromisso, focada apenas na espiritualidade
intimista, do que arregaçar as mangas e lutar contra as injustiças. Muitas vezes
essas injustiças estão dentro da própria comunidade e não apenas fora dela. A
missão profética começa, portanto, dentro de casa, da comunidade e se estende
pela sociedade como um todo. Essa missão deve ser exercida com amor e pelo
amor, diz a Carta aos Efésios. Se somos predestinados a ser filhos adotivos por
meio de Cristo, temos que fazer jus a essa filiação. Cristo dedicou sua vida
terrena, ensinando e vivendo os ensinamentos do Pai. Nós, como discípulos
missionários de Jesus Cristo, temos que ensinar e viver a sua Palavra, para que o
mundo seja melhor e mais similar ao Reino de Deus. É isso que nos garante a
herança eterna.
O evangelho fala do chamado dos doze discípulos e do envio, dois a dois, para a
missão. Temos, de antemão, uma informação importante: a missão é comunitária.
Embora o chamado seja individual, pois Deus chama cada um à sua maneira, a
missão não pode ser individualista. O fato de Jesus os enviar em duplas mostra
essa parceria, mostra o trabalho em equipe, o trabalho feito em comunidade ou em
comunhão. Quem quer fazer tudo sozinho, ou espera que os outros façam por ele,
não vai muito longe.
Assim sendo, além de chamá-los e enviá-los, Jesus os capacita. A formação, a
preparação é muito importante. Embora tenhamos recebido no batismo a missão
profética, não nascemos prontos. O profeta não nasce pronto. Ele precisa de
capacitação. O essencial já se tem como profeta, pelo batismo, mas falta o

278
complemento que é a preparação, pois a preparação é que nos dará autoridade. É
essa capacitação que Jesus oferece aos seus discípulos. Ele os prepara para a
missão, dando-lhes poder sobre os espíritos maus. Isso é fundamental. São muitos
os “espíritos maus” que estão por aí, roubando a vida de muitos, e é contra esses
que somos chamados a profetizar. Amós, na primeira leitura, foi profetizar contra
o “espírito mau” que desvirtuava e matava Israel. Os discípulos de Jesus foram
enviados a profetizar, isto é, denunciar os “espíritos maus” do seu tempo,
anunciando a Boa Notícia do Reino, curando os doentes. Somos chamados a
profetizar contra os espíritos maus dos nossos tempos, que não são poucos, mas
exigem de nós poder, isto é, preparação, fé, perseverança e, sobretudo, amor, pois
sem amor não se constrói o Reino de Deus.
Jesus deixa claro nesse evangelho que, para sermos verdadeiramente profetas,
discípulos missionários, é preciso despojamento. Jesus pede que seus discípulos
não levem muita coisa. Levem apenas o essencial. Sandálias nos pés e cajado nas
mãos, os dois símbolos da missão. As sandálias são o símbolo daquele que
caminhar muito, ir ao encontro das pessoas, ser itinerante. O cajado é o símbolo
do poder, o instrumento de defesa, o sinal da autoridade dada por Deus. É por isso
que o Papa e os bispos têm um cajado. Ter cajado e ser despojado, eis um
procedimento importante para o missionário. Ter poder, mas não se apegar ao
poder. Quem não consegue ser despojado terá dificuldade na missão, pois muitos
tentarão nos comprar com dinheiro, presentes, propostas mirabolantes, cargos,
poder etc. Se não ficarmos atentos, cairemos nessas armadilhas dos “espíritos
maus”, com cara e estratégia de bons. Eles agem com aparência de pessoas de
bem, prometem coisas aparentemente boas e são extremamente convincentes. Ter
poder e autoridade é saber identificar essas armadilhas e se desvencilhar delas.
Jesus dá recomendações aos seus discípulos. Ele os prepara, mostra como
proceder. Isso é muito importante. Não podemos ir para a missão de qualquer
jeito. É preciso se preparar espiritual e intelectualmente. Jesus destaca também a
dimensão do acolhimento. O acolhimento é sinal de Deus, de pessoa aberta para
Deus, porém os discípulos vão encontrar também gente que não é acolhedora, que
não os receberá. Diante dessas rejeições, não podemos esmorecer. Quando não
somos bem recebidos, ou quando somos maltratados na missão, Jesus recomenda
que não levemos isso adiante. Devemos deixar ali mesmo o ocorrido, sem ficar
alimentando mágoas ou rancores pelo ocorrido. Isso está simbolizado no gesto de
tirar dos pés a poeira daquele lugar.
Por fim, o evangelho traz o resultado da missão: os discípulos vão, pregam e
convertem muitas pessoas. Além disso, eles expulsam muitos demônios e curam
muitos doentes. Vemos, assim, que eles fizeram o mesmo que Jesus fazia. Não é
imitação, mas continuidade da missão. Quem é um autêntico cristão faz coisas
parecidas com as que Cristo fazia, faz o bem. Isso é fundamental.

279
Que possamos sentir o chamado de Deus e atender esse chamado com força e
coragem. Há muito por fazer e nós podemos fazer muita coisa boa. É o que Deus
quer de nós, é o que pede a liturgia da Palavra deste domingo.

16º Domingo
& Jr 23,1-6 | Sl 22(23) Ef 2,13-18 | Mc 6,30-34

O enfoque da liturgia da Palavra deste domingo é sobre os pastores. Pastor é


uma linguagem figurada para falar daqueles que têm, ou deveriam ter,
responsabilidade para com um povo, uma comunidade, um grupo, seja a família, a
pastoral, porque o próprio nome “pastoral” está relacionado ao pastor, ou seja,
aquele que tem uma responsabilidade de pastor. Assim sendo, se coordenamos
uma pastoral, ou fazemos parte dela, somos, de alguma forma, pastores, tendo,
portanto, responsabilidade pastoral. Na Igreja, quando falamos de pastor, a
primeira ideia ou imagem que vem à nossa mente é a da hierarquia da Igreja: o
Papa, os bispos, os padres, enfim, os consagrados. Mas, como já foi dito, pastor é
todo aquele a quem foi confiada uma responsabilidade por alguém. Portanto, ao
falar de pastor, a liturgia de hoje não está tratando apenas dos dirigentes da Igreja,
nem apenas dos governantes, mas de todos os que têm responsabilidade para com
alguém. Mesmo sendo assim, é importante saber que a figura daqueles que
governam é primordial. Assim sendo, a primeira leitura, do profeta Isaías, traz
uma denúncia e um anúncio contundentes.
Temos, nesta leitura, logo de início, um “ai”. Esse “ai” é mais que um alerta – é
um oráculo, uma denúncia profética. O profeta Isaías diz: “ai dos pastores que
espalham e extraviam as ovelhas do meu rebanho”. Naquele tempo, bem mais que
hoje, a imagem de pastor era muito forte e expressiva. Ao pastor eram confiados
os cuidados com as ovelhas. O dono das ovelhas dava ao pastor essa
responsabilidade, e ele precisava amar as ovelhas como se elas fossem dele. Ele
deveria estar o tempo todo com as ovelhas e cuidar delas, protegendo-as dos
perigos. A ovelha, animal dócil e frágil, confiava no seu pastor, pois ele era – ou
deveria ser – seu protetor e defensor. Quando os lobos se aproximavam, era o
pastor quem os espantava para que as ovelhas pudessem pastar tranquilamente,
sem ser incomodadas nem correr risco de vida. Porém, se o pastor fosse relapso, e
não tivesse cuidado com as ovelhas, elas se espalhavam, se separavam do
rebanho, extraviando do caminho e tornando-se ainda mais vulneráveis, presas
fáceis dos lobos e de outros perigos. Assim, o papel do pastor era, além de
proteger, manter as ovelhas unidas no rebanho, pois estando juntas elas tinham
mais segurança e era mais fácil protegê-las.
Assim, quando o profeta usa essa imagem de pastor, ele a usa para falar
daqueles aos quais foram confiadas responsabilidades com o povo.

280
Responsabilidades políticas, econômicas e religiosas. Era e é obrigação destes,
enquanto pastores, cuidar do povo como se cuida de um rebanho, pois boa parte
dos que compõem o povo é massa e se deixa influenciar por qualquer coisa. Isso
representa risco de extravio, de desvio do caminho e, sobretudo, risco de vida. O
político que não tem responsabilidade para com o seu povo, que o elegeu, e o
deixa abandonado é um mau pastor. O mesmo se diz dos padres, dos pastores das
Igrejas evangélicas, enfim, de qualquer líder ou dirigente religioso. Quem não
cumpre com responsabilidade sua missão de pastor não merece ser pastor, não
merece a confiança do povo. Assim, o oráculo de Isaías é dirigido a estes,
profetizando que Deus vai pedir contas de suas ações irresponsáveis e vai tirar
destes as ovelhas. Será Deus, o dono das ovelhas, quem tomará conta delas,
protegendo-as como elas merecem ser protegidas.
Essa expressão, ou imagem, de um Deus Bom Pastor nos remete ao salmo de
hoje (22/23), que diz “o Senhor é o meu pastor e nada me faltará”. É esse pastor
que vai conduzir as ovelhas para bons caminhos, pelos prados verdejantes, dando-
lhes segurança. É um salmo extremamente confortador, pois fala daquele em
quem podemos confiar cegamente: Deus. Esse é o pastor que nunca nos
decepcionará. Quem confia em Deus não desanima da missão, ou na missão,
quando os seus pastores não são como deveriam ser. Tem muita gente que se
afasta da Igreja por causa do padre, ou por causa de algum outro agente de
pastoral. Deus mostra nesta liturgia da Palavra que a Igreja é muito maior que os
seus pastores. Os pastores devem cuidar da sua Igreja, do seu rebanho, mas eles
não são a Igreja nem o rebanho. Assim sendo, quando lemos o salmo 22/23 e
meditamos sobre ele, sentimos essa força que emana de Deus, o Bom Pastor. Esse
Bom Pastor é relacionado a Jesus na primeira leitura. O profeta Isaías fala desse
Deus que tomará os cuidados do seu povo, vindo ele mesmo fazer esse papel de
Pastor. Além disso, ele dará pastores bons, pastores que cuidarão com carinho e
responsabilidade dessas ovelhas. Lembramos aqui daqueles que gastam suas vidas
na missão. Graças a Jesus, o Bom Pastor, temos tantos bons pastores, discípulos
missionários de Jesus Cristo. Jesus escolheu Apóstolos, teve e tem muitos
discípulos missionários, e estes têm a missão de continuar a missão de Jesus,
sendo bons pastores. Vez por outra surge um pastor que não é bom, que não cuida
das ovelhas e as deixa extraviarem, mas estes são minoria. A riqueza da Igreja
está nos seus bons pastores, naqueles que não medem esforços para fazer o bem,
mas que nem sempre aparecem.
A segunda leitura destaca esse Bom Pastor que reúne as ovelhas. Ou seja,
aqueles que estavam longe, extraviados do caminho, perdidos pelos descuidos dos
maus pastores, foram trazidos para perto dele. Tudo isso foi feito pelo seu sangue
derramado na cruz. A cruz é o elemento aglutinador, que reúne os dispersos, que
nos une a Deus. Cristo, o Bom Pastor, fez isso por nós, diz a Carta aos Efésios.

281
Ele é a nossa paz, a nossa segurança, a nossa união. É por ele que nos reunimos
em comunidade. É ele o sentido da comunidade cristã. Ele derruba o muro da
separação, unindo judeus e pagãos e formando um só rebanho e um só pastor. Ele
nos reconciliou com Deus pelo seu sangue derramado na cruz, formando, assim,
um só corpo. Cristo, o Bom Pastor, anunciou-nos a paz, principalmente aos que
estavam distantes e carentes de paz, pois quem se afasta de Deus tem insegurança.
Ele enviou bons pastores para cuidar desse seu rebanho e não deixá-lo extraviar,
apresentando-nos, sempre, diante dele.
No evangelho, os Apóstolos que Jesus escolheu como continuadores de sua
missão de Pastor estão agora voltando da missão e partilhando os feitos
missionários. Jesus se alegra em ver seus pastores cuidando bem do rebanho,
desempenhando bem sua missão, pois essas ovelhas estavam carentes de bons
pastores. Porém, a necessidade era tanta que eles não tinham tempo nem de
descansar. O pastor precisa de descanso, precisa recuperar suas forças para poder
cuidar bem do rebanho, mas há momentos em que isso se torna quase impossível,
pois as ovelhas correm risco, e o pastor não pode descuidar delas. É o que relata o
evangelho de hoje. Jesus os convida a ir para um lugar afastado para descansar,
mas a multidão sedenta não dá trégua e os segue, chegando ao local antes deles.
Quando Jesus vê aquela multidão de necessitados, de ovelhas sem pastor, tem
compaixão. Temos aqui uma palavra-chave, um sentimento divino. Já tive
oportunidade de descrever sobre ela e ainda falarei muito dela, mas vale a pena
retomar, nesse momento, a explicação, porque essa palavra é fundamental nesse
texto. A compaixão é aquele sentimento que faz com que sintamos a dor do outro.
Diferentemente da pena, que é um sentimento mesquinho – pois a pena não
transforma a situação de sofrimento, apenas visualiza –, a compaixão é
transformadora. Quem tem pena vê o sofrimento do outro, mas não move um dedo
para ajudá-lo. A compaixão não é assim. Quem sente compaixão faz qualquer
coisa para diminuir ou erradicar o sofrimento da vida daquele que sofre, porque o
sofrimento do outro é o seu próprio sofrimento. Ao ver aquela multidão de
necessitados, de desamparados, Jesus sente compaixão . Ao sentir compaixão, ele
adia o descanso e vai ao encontro deles, ensinando-lhes muitas coisas. O pastor é
aquele que ensina, ou seja, que aponta caminhos, que mostra a direção. Ensinar
significa que Jesus não fez nenhuma mágica com aquele povo, não soluciona os
problemas deles de modo paternalista e miraculoso, como muitos imaginam, mas
lhes ensina a buscar a solução para os seus problemas. É essa a missão do pastor.
Os governos populistas fazem as coisas pelo povo para ganhar nome e
visibilidade. Os populares ensinam o povo a agir de modo consciente, para que
caminhem com as próprias pernas, pensem com a própria cabeça e não se deixem
enganar por falsas promessas, falsos pastores. A pedagogia de Jesus é libertadora.
Ele ensina muitas coisas.

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Vivemos numa sociedade em que o povo precisa aprender muita coisa, mas são
poucos os pastores que ensinam mesmo. Estamos cheios de pastores que só
pensam em si mesmos, que fazem as coisas para aparecer e se esquecem de suas
ovelhas. Isso nós encontramos não apenas no campo da política, mas também da
religião, da educação, da saúde e de outros campos elementares para a vida, que
urge por bons pastores.
Enfim, o apelo deste domingo é para que sejamos bons pastores e que saibamos
eleger bons pastores. É um conjunto de responsabilidades e de todos e não apenas
de alguns.

17º Domingo
& 2Rs 4,42-44| Sl 144(145) Ef 4,1-6 | Jo 6,1-15

A partilha é o tema primordial que une as leituras deste domingo e nos une
como irmãos na comunidade dos fiéis. Sem partilha, não há solidariedade, e sem
solidariedade, não haverá comunidade. Se queremos uma paróquia Comunidade
de comunidades, temos que começar pela solidariedade, pela partilha dentro e fora
dela. Somente assim conseguiremos um mundo melhor, onde não haja mais fome.
A fome é sinal visível da falta de partilha. Quando vemos um país de miseráveis,
logo sabemos que nesse país não há partilha. Na comunidade eclesial, isso
também ocorre. Uma comunidade que não partilha seus bens, seus dons e talentos
é uma comunidade pobre. Ou pior, não é comunidade, é grupo de pessoas. Diante
disso, temos hoje as leituras que nos ajudam a refletir sobre o tema da partilha
como algo essencial para a vida em comunidade e na sociedade.
A primeira leitura, do Segundo Livro dos Reis, traz a recomendação do profeta
Eliseu para que o homem de Baal-Salisa que havia levado os primeiros frutos de
sua colheita para ofertar a Deus, como era costume na época, partilhasse com o
povo dessa oferta. Eram aproximadamente cem pessoas. Uma multidão se
comparada aos vinte pães de cevada e um pouco de trigo que ele tinha trazido para
a oferta. O homem questiona Eliseu, pois não acredita que tão pouco seria
suficiente para tanta gente. Eliseu insiste na partilha e ele obedece. Diz o texto que
todos comeram e ainda sobrou. Vemos aqui um paralelismo com o evangelho,
pois ambos trazem a multiplicação dos pães, resultado da partilha. Eliseu não fez
ali nenhuma mágica ou milagre, apenas ensinou o homem a partilhar. Muitas
vezes, fazemos ofertas a Deus, mas não abrimos nosso coração para a partilha.
Achamos que temos muito pouco para partilhar e damos apenas esmolas. Porém,
enquanto acharmos que temos pouco, nunca partilharemos. E o pior é que, pela
ganância, nunca vamos achar que temos o suficiente, pois entendemos que
devemos partilhar o que sobra e não o que nos é essencial. Há muita gente que
doa, mas não partilha. Doar é diferente de partilhar. Doamos o que está sobrando,

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o que não nos serve mais, o que não nos interessa. Doamos aquilo que não nos vai
fazer falta, e esse tipo de doação não é transformadora porque vamos continuar
acumulando e tratando os que não têm como pessoas inferiores, que devem ficar
com as sobras, ou com o nosso lixo. Deveríamos pensar que aquilo que não serve
para nós também pode não servir para outros. Isso me faz recordar as campanhas
que comumente fazemos em nossas igrejas, para que as pessoas doem algo, como,
por exemplo, roupas, alimentos, calçados etc. Quanto lixo nós arrecadamos nessas
campanhas! Chegam coisas que não servem mais para ninguém, de tão velhas e
estragadas que estão. Alguns usam essas campanhas para jogar fora o lixo
acumulado em casa. Isso não é partilha. Partilha é dar ao outro, ou aos outros,
aquilo que nos é importante. É partilhar o pouco que temos porque isso vai fazer a
diferença. Os textos de hoje falam de partilha, e não de doação. Eliseu pediu que o
homem partilhasse aquele pouco que tinha. Ao partilhar, viu que não faltou para
ninguém. Nem para ele, nem para as cem pessoas que ali estavam. Pelo contrário,
sobrou. Quando todos partilharem do pouco que têm, todos terão e ainda sobrarão
muitas coisas. Porém, enquanto as pessoas só pensarem em si, querendo sempre
mais, vamos ter sempre miséria e miseráveis, pois a falta de solidariedade é que
gera essa situação. O evangelho de hoje diz a mesma coisa, com outras palavras.
Jesus está às margens do mar da Galileia. As margens do mar representam o
campo de missão. Nesse campo de missão, há muitos necessitados, uma multidão.
Era a multidão que seguia Jesus porque enxergava nele a esperança de um mundo
novo, sem misérias, sem tanto sofrimento, porque via as maravilhas que fazia em
prol da vida. Jesus enxerga essa multidão que o cerca quando ergue os olhos. É
preciso erguer os olhos, estar com os olhos bem abertos para enxergar a multidão
de necessitados que nos cerca. Quando olhamos somente para dentro, ou em torno
de nosso próprio umbigo, não enxergamos as necessidades de nossos irmãos.
Precisamos ampliar nossos horizontes de fé, nossa visão teológica e espiritual para
conseguir perceber o que Deus quer de nós e o que ele coloca no nosso caminho,
ou em nossa volta, para ajudarmos os outros. O evangelista João não diz que Jesus
teve compaixão ao ver aquela multidão de necessitados, como dizem os demais
Evangelistas, mas tudo indica que esse sentimento divino se apoderou dele, pois
sua atitude revela isso. Somente quem tem compaixão é capaz de buscar uma
solução para o problema. E essa solução não foi mágica. Muitos leem essa
passagem da multiplicação dos pães como se Jesus tivesse feito a mágica para
multiplicar os pães. Se ele tivesse feito isso, não seria Deus, mas um mago, ou
adivinho que estaria contribuindo para manter o povo naquela situação de miséria.
O que ele faz é um ato grandioso, por isso é considerado milagre. Entenda aqui
milagre como algo extremamente importante e transformador. Ele ensina a
partilhar. Os discípulos tinham detectado que entre eles havia um rapaz com cinco
pães e dois peixes. Muito pouco para uma multidão de aproximadamente cinco

284
mil pessoas. Além disso, antes de falarem desse pouco, Jesus os havia questionado
sobre a situação. Jesus não quis resolver tudo sozinho, e isso é mais uma prova de
que ele não fez nenhuma mágica. Ele partilhou o problema com os seus discípulos
e os envolveu na busca por solução. Eles tinham que ajudar a resolver o problema
da fome daquela multidão, pois isso era também problema deles. Semelhante ao
homem da primeira leitura, eles duvidaram se seria possível fazer isso. Muitas
vezes preferimos duvidar a ajudar. Enquanto não acreditarmos que a partilha e a
solidariedade são a solução, o problema da miséria e da fome não terá solução.
Felipe questiona Jesus: “onde vamos comprar pão para eles comerem?”. Ele ainda
não tinha se dado conta de que não é comprando que se resolveria o problema, ou
seja, não é com atitudes paternalistas que vamos solucionar o problema da fome.
É com a partilha que se resolve. O discípulo fala em dinheiro, em quantidade de
dinheiro, mas em nenhum momento fala de partilha do que já se tem, mesmo que
aquilo que se tem seja pouco. André, porém, constata que ali tem alguma coisa,
mas em seguida questiona: “mas o que é isso para tanta gente?”. André, em grego,
significa homem. É a humanidade, guiada por Jesus, enxergando um caminho,
uma solução, uma luz no fim do túnel, mesmo que essa luz esteja quase se
apagando. É essa mesma humanidade que duvida que o pouco partilhado seja
capaz de mudar a situação. Diante disso, Jesus vai apontando o caminho e
mostrando como proceder. É assim que ele age conosco. Faz com que percebamos
a realidade que nos cerca e que encontremos uma solução. Quem espera um Deus
mágico ou busca uma religião cujo Deus faz tudo pelas pessoas, se aliena e não
ajuda a transformar a realidade. Deus não quer uma religião de alienação, mas de
libertação. Ao propor que eles se assentem e partilhem esse pouco, Jesus propõe
mudar essa realidade com a ajuda deles e com aquilo que eles têm. Aqui a liturgia
de hoje está apontando para nós o caminho para a transformação do mundo. É
preciso detectar o que temos e como podemos fazer com que isso que temos sirva
para todos.
Quando os discípulos e a multidão presentes obedecem a Jesus, tudo dá certo.
Todos comem, ficam satisfeitos e ainda sobra. Lembramos aqui aquela passagem
das bodas de Caná, quando Maria pede que os que serviam na festa de casamento
obedeçam a Jesus. Bastou obedecer e o problema da falta de vinho foi
solucionado. Bastou que os discípulos e a multidão obedecessem a Jesus,
sentando e partilhando o pouco que tinham entre eles, para o problema ser
solucionado. É assim que funciona na comunidade e na sociedade. Quando uma
comunidade ou sociedade tem muitos problemas, muitas carências, é sinal de que
não está partilhando, as pessoas não partilham, surgem as desigualdades, as
carências e até mesmo as misérias. “País rico é país sem pobreza”, diz um slogan
do governo brasileiro, mas não é bem assim – país rico é país que partilha seus
bens, que distribui bem a sua renda, que não permite que uns poucos acumulem

285
tanto e tantos passem necessidade. Um país onde as pessoas aprendam a partilhar,
e não roubar para acumular. País que assim procede é um país de miséria, mas
país que partilha é país de riquezas. É esse ensinamento que encontramos hoje na
liturgia da Palavra.
Para isso, é preciso que sejamos humanos, humildes, amáveis, pacientes e
suportemos uns aos outros no amor, diz a Carta de São Paulo aos Efésios, que
temos na segunda leitura. Somente mantendo entre nós os laços de paz
conservaremos essa unidade e essa solidariedade. Temos que enxergar a
comunidade como corpo, diz o Apóstolo nesta leitura. Quando vemos a
comunidade como corpo, sentimos em nós as dores dos nossos irmãos, sentimos o
sentimento divino da compaixão. Enquanto não virmos o mundo como um corpo,
não sentiremos em nós a dor daqueles que não têm o essencial para viver.

18º Domingo
& Ex 16,2-4.12-15 | Sl 77(78) Ef 4,17.20-24 | Jo 6,24-35

Há muitas pessoas que vivem uma religião de troca com Deus. Elas só
acreditam em Deus se Deus lhes der algum sinal convincente, alguma coisa em
troca de seus atos, ou simplesmente lhes dê algo, mesmo que não se tenha
oferecido nada a ele. Nesse caso, quando não se percebem os sinais, ou algo que
mostre a ação de Deus, não se crê nele, ou se murmura contra ele. Já ouvi muita
gente revoltada com Deus porque não teve seu pedido atendido. Podemos
perguntar: que fé nós temos quando procedemos dessa maneira? Deus não está ao
nosso serviço, mas somos nós que devemos servir a Deus. Porém, muitas vezes
nos equivocamos e invertemos os papéis. Sem perceber, nos colocamos no lugar
de Deus e queremos que ele faça as nossas vontades, nos atenda quando
desejamos, e mesmo assim nos achamos no direito de exigir dele que responda
prontamente às nossas necessidades, ou supostas necessidades, como se fôssemos
o Senhor, e Deus, nosso servo. É um pouco isso que nos mostram as leituras de
hoje, sobretudo a primeira leitura e o evangelho. Porém, elas indicam também
quem é Deus na nossa vida e como devemos proceder para ter com ele uma
verdadeira sintonia e não apenas uma relação de troca.
A primeira leitura, do livro do Êxodo, mostra a travessia do povo hebreu no
deserto rumo à terra prometida. Essa travessia é longa, e em toda longa travessia
corremos o risco de desanimar, ou perder as perspectivas, o horizonte, a meta
aonde se quer chegar. O trecho de hoje mostra o povo num desses momentos,
murmurando contra Deus porque não tem o alimento desejado. Deus jamais
deixaria seu povo perecer no deserto, mas era preciso fidelidade, confiança e
perseverança para atravessar os momentos difíceis. Toda libertação é um
processo, e todo processo exige perseverança e fé. Quantos são os que desistem

286
dos seus sonhos ou dos projetos de Deus por falta de perseverança e fé! Henry
Ford dizia que não existem pessoas fracassadas, existem pessoas que desistem. E
é bem isso mesmo que acontece. Se desistimos dos nossos empreendimentos,
nunca vamos realizar nada. O povo hebreu estava prestes a desistir dos projetos de
Deus, pois passavam por um momento de dificuldade, de aridez, e não
conseguiam vislumbrar a terra prometida. Eles se revoltaram contra Moisés e
Aarão, seus líderes, e contra Deus, e diziam naquele momento de revolta que
preferiam morrer na escravidão do Egito, mas com panelas de carne em sua volta,
do que estar naquele deserto com alimento escasso. Algo similar se passa com
muitos de nós. Preferimos a escravidão das supostas coisas boas do que a aridez
de um processo de libertação e vida. Mesmo diante das lamentações e murmúrios,
Deus não os abandona e lhes dá sinais mais fortes. Portanto, se é comida com
fartura que eles querem, Deus faz chover pão do céu para eles. Porém esse “Pão
do Céu”, eles e nós só veremos em Jesus. Ali, naquela realidade de deserto, o pão
enviado era apenas um alimento passageiro, um sinal, um indicativo de que algo
muito maior estava reservado para eles. Se perseverassem, teriam o Pão do Céu,
ou seja, teriam o próprio Deus como alimento, e quem tem Deus como alimento
supera todas as outras carências, sobretudo a carência de comida, pois essa
comida passageira alimenta o corpo, mas não alimenta a alma. Como diz a oração
do Pai-nosso, Deus nos dá o pão de cada dia e não pão para ser acumulado. Eles
querem pão com fartura, pão para comer e guardar, e Deus diz que lhes dará a
porção de cada dia, e isso lhes basta. Temos que aprender a viver com aquilo que
nos é necessário e não acumular, pois quando acumulamos, outros podem não ter.
É a partilha sobre que refletíamos no domingo anterior. Porém, muitos não se
contentam em ter o suficiente, e querem sempre mais, e de modo mais fácil. Estes
nunca estão satisfeitos, e são os primeiros a murmurar contra Deus ou contra
aqueles que intermedeiam suas necessidades. O que Deus quer é que seu povo
obedeça às suas leis e não aja influenciado por outras orientações, propostas ou
tentações. A escravidão tem armadilhas tentadoras. Ela nos pega por aquilo que
desejamos ou que de fato precisamos. No caso da escravidão do Egito, eram as
deliciosas panelas com carne que os atraíam, ou seja, os prendiam pelo estômago.
Hoje, há muitas formas de tentações ou de prisões; basta fazermos uma
observação mais acurada e crítica que vamos perceber claramente essas tentações
e como elas nos colocam contra Deus, como colocou o povo hebreu na travessia
do deserto. Mas a bondade de Deus é infinita. Ele sempre ouve nossos murmúrios
e compreende nossas limitações, respondendo, em seu tempo, aos nossos
clamores. Foi o que fez com o povo que reclamava da falta de alimento. Enviou
do céu codornizes para que eles fossem alimentados com carne, como era o desejo
deles. Veja como Deus se desdobra para satisfazer nossas necessidades e desejos,
mas mesmo assim não ficamos satisfeitos, pois muitas vezes nossos desejos não

287
correspondem aos desejos de Deus. Nós, porém, nem sempre entendemos as
respostas de Deus e, como o povo hebreu, perguntamos: “O que é isso?”.
No evangelho, a multidão entrou na barca e seguiu Jesus. Entrar na barca
significa seguimento. Porém, nem sempre temos clareza do que significa esse
seguimento. Muitos entram na barca e seguem por interesses próprios, buscando
satisfazer necessidades pessoais. Essa multidão que entra na barca e segue Jesus
está interessada no alimento que ele pode proporcionar. Vale lembrar que essa
passagem vem logo em seguida à da multiplicação dos pães, a partilha, que vimos
no domingo passado. Eles seguem Jesus porque comeram e ficaram saciados, mas
não tinham aprendido a lição da partilha, do compromisso de partilhar o pouco
que se tem para que todos tenham, e preferiam que outros lhes suprissem as suas
necessidades. Jesus percebe isso e faz a seguinte afirmação: “vocês estão me
procurando não porque viram os sinais, mas porque comeram os pães e ficaram
satisfeitos”. Em seguida dá-lhes uma recomendação fundamental: “não trabalhem
pelo alimento que se estraga; trabalhem pelo alimento que dura para a vida
eterna”. Ou seja, invista no essencial e não fique na superficialidade das coisas.
Quantos de nós se prendem a coisas superficiais na Igreja e esquecem o essencial?
Isso acontece com muita frequência em nossa prática cristã. Entramos na barca de
Jesus e o seguimos, ou seja, temos uma religião, frequentamos uma comunidade,
vamos à missa e comungamos, mas não porque vemos nela sinais de Deus, mas
porque queremos algo de Deus. Queremos que ele sacie as nossas vontades, as
nossas necessidades, mas nem sempre estamos preocupados em ver se estamos
procedendo corretamente, ou se estamos apenas usando Deus para o nosso
benefício próprio. Jesus alerta aquela multidão para enxergar além das aparências,
para perceber que os sinais indicam algo mais profundo. Ele havia lhes ensinado a
partilhar. Esse era um sinal que precisava ser captado, entendido, para poder
enxergar mais longe o verdadeiro pão que é Jesus. Jesus se revela na partilha. A
partilha em si não é Jesus, mas abre nossos olhos para enxergá-lo, como ele fez
com seus discípulos no caminho de Emaús. Foi na hora de partir o pão que eles
perceberam que era Jesus o peregrino que entrou na conversa deles no caminho e
que acabou indo se hospedar em sua casa, fazendo refeição com eles. O gesto de
partilha é revelador; se não aprendermos isso, vamos continuar buscando um Deus
que satisfaça todas as nossas vontades, sem compromisso real. Isso é perigoso,
pois podemos fomentar uma religião mágica que aliena em vez de nos libertar
para a vida. Foi isso que Deus quis mostrar para o povo hebreu na travessia do
deserto. É isso que Jesus quis mostrar à multidão que o procurou para obter mais
alimento. Ele aproveitou essa oportunidade para ensiná-los a buscar o verdadeiro
pão, o Pão da vida. É isso que o Apóstolo Paulo nos ensina na segunda leitura de
hoje.

288
Ele recomenda a não vivermos como os pagãos, ou seja, não vivamos em função
apenas de benefícios pessoais, de uma religião de troca, de barganha ou de
benefícios pessoais. Religião é compromisso com a vida e a vida para todos.
Quem vive como pagão, vive longe de Deus, diz Paulo, mesmo que esteja dentro
da Igreja. Há muita gente que vive perto da Igreja, mas longe de Deus, perdendo a
sensibilidade com aquilo que é essencial na religião. A proposta, portanto, é nos
revestirmos de uma pessoa nova, vivendo na justiça e na santidade, no amor e na
solidariedade, porque essas coisas vêm de Deus, diz São Paulo aos Efésios.
Porém, para que isso aconteça, é preciso que abandonemos a mentira; não
cultivemos raiva no nosso coração; evitemos o pecado. Enfim, não dar ocasião ao
diabo, pois ele está à espreita, esperando uma oportunidade para lançar suas
armadilhas. Assim, diz São Paulo, “quem roubava, não roube mais”, mas trabalhe
honestamente, sendo útil para os irmãos, para a comunidade e a sociedade, de
modo que construamos um mundo melhor, mais justo, mais fraterno. Isso faz
parte do processo de libertação e da conquista da terra prometida, ou seja, de um
mundo onde todos possam ter vida e vida em plenitude. Enquanto existir pessoas
que só pensam em si mesmas, sem preocupação com a partilha e com a
solidariedade, teremos um mundo de desigualdade e sofrimento, e a terra
prometida estará longe de ser uma realidade. É preciso, portanto, nos
alimentarmos do Pão da vida que é Jesus para refazermos nossas forças nessa
travessia, nessa busca, sem querer retornar ou permanecer na escravidão.
Depois da catequese de Jesus, a multidão viu que tinha necessidade do Pão da
vida e Jesus se apresentou a ela como esse Pão, mostrando que quem dele se
alimenta nunca mais terá fome. Se ainda há tanta fome no mundo é porque ainda
há muita gente que não está se alimentando desse Pão da vida. Ou seja, não
entenderam as propostas cristãs, não estão comungando com Cristo. Cabe pensar
nisso neste domingo e rever nossos procedimentos cristãos.

19º Domingo
& 1Rs 19,4-8 | Sl 33(34) Ef 4,30–5,2| Jo 6,41-51

Deus nos alimenta constantemente nas nossas necessidades. Ele nos quer em pé,
firmes, prontos para a missão, sobretudo naqueles momentos em que os
acontecimentos desagradáveis nos desanimam e nos deixam prostrados.
Precisamos, todos os dias, nos alimentar desse Pão da vida dado pelo Pai, que é
Jesus, para termos força na caminhada e vencer os obstáculos.
O alimento é algo fundamental em nossa vida. Sem nos alimentar, morremos. Se
o alimento material abastece o corpo e nos coloca em pé para as lutas diárias, há
outro tipo de alimento igualmente fundamental: o espiritual. Quem está
alimentado espiritualmente tem a alma alimentada, e a alimentação da alma nos

289
coloca em sintonia com Deus. Em sintonia com Deus, tudo podemos, pois tudo
podemos naquele que nos fortalece. Costumo dizer que a oração é o nosso
combustível espiritual, nosso alimento. Sem ela, não vamos longe nesta nossa
vida nem na outra. Portanto, para viver, precisamos de dois tipos de alimento: o
material e o espiritual. Quem alimenta só o corpo deixa morrer a alma, e quem
alimenta somente a alma deixa morrer o corpo. Precisamos de ambos para a vida
neste mundo, por isso precisamos de força e fé. É o que nos mostram as leituras
deste domingo.
Na primeira leitura, do Primeiro Livro dos Reis, Deus dá alimento ao profeta
Elias, para que ele siga na sua missão. Elias está sob a mira da perseguição de
Jezabel. Ela o perseguia e o ameaçava de morte, e ele precisou fugir e se esconder.
Essa fuga não significa que Elias tenha fugido da missão que Deus lhe havia
confiado, mas foi uma forma de Deus o proteger para que não se tornasse vítima
das ameaças de Jezabel. Porém, toda perseguição e ameaça são desgastantes, nos
desanimam, e quem já passou por isso sabe quanto é difícil lidar com tais
situações. Há momentos em que tudo parece perdido, ficamos sem rumo e sem
motivação para continuar na luta, ou até mesmo perdemos a vontade de viver. Foi
o que aconteceu com Elias, como vemos nessa primeira leitura. Ele está
deprimido, só quer dormir para ver se o problema se soluciona por si. Neste
momento de dor, ele pede que Deus lhe tire a vida, porque está se achando a pior
pessoa do mundo. Esse é um sentimento típico de quem sente depressão. As
causas, o texto deixa bem claras, como vimos acima. Porém, Deus não o
abandona. Nesse momento de desânimo, ele adormece. Porém, um anjo o desperta
e pede que ele se levante e coma. Ele vê ao seu lado pão assado em pedras quentes
e uma jarra de água. Ele come e bebe, mas volta a dormir. O anjo insiste que ele
desperte novamente e, mais uma vez, pede que ele coma, pois o homem tinha uma
missão a cumprir, um árduo caminho a percorrer, um caminho maior que as suas
forças. Elias obedece porque sabe que é Deus quem o chama. Fortalecido pelo
alimento, segue sua missão, caminhando quarenta dias e quarenta noites. Essa
expressão recorda os quarenta anos do povo hebreu no deserto, os quarenta dias
que Jesus esteve no deserto, recorda o tempo da nossa Quaresma, enfim, significa
um tempo de grandes desafios, de obstáculos a serem vencidos, de purificação, de
teste. Enfim, é o tempo necessário para obter aquilo que se busca como projeto de
Deus. Esse tempo é simbólico e nos faz pensar nos desertos que precisamos
atravessar nesta vida para chegar ao lugar prometido por Deus. Para atravessar
esse deserto, precisamos estar alimentados. Quem não tiver a sua espiritualidade
alimentada não poderá vencer os obstáculos desse deserto e não o atravessará.
O evangelho traz algo similar para a nossa reflexão. Jesus se apresenta como o
pão que desceu do céu para alimentar-nos nos desertos desta vida. Isso provoca a
ira dos judeus, pois eles afirmavam que conheciam a sua família e por isso não

290
acreditavam que ele poderia ter descido do céu. Jesus, porém, pede que parem
com tais críticas, pois somente o reconhecerá como pão do céu aquele que for
atraído por Deus. Quem não for de Deus, ou não viver os ensinamentos de Deus,
terá dificuldade de enxergá-lo dessa maneira. Aquele que escuta e vive a Palavra
de Deus se achega a ele, Jesus, imagem do Pai. Até então ninguém tinha visto
Deus, mas Deus, através de Jesus, possibilitou que a humanidade o conhecesse,
pois o único que viu o Pai foi ele, Jesus, pois este veio de Deus. Jesus dizia isso
com muita firmeza, o que provocava ainda mais a ira dos que não acreditavam
nele. Vemos, assim, Jesus entrando num deserto semelhante ao de Elias. Eles vão
ameaçá-lo de morte, persegui-lo, enfim, tornar sua vida um tormento. Mas ele não
desiste. Segue até o fim sua missão, pois Deus está nele e promete a vida eterna a
todos os que estiverem junto com ele, porque os fortalecerá nessa missão. Desse
modo, Jesus se apresenta como o Pão da vida. Um pão diferente do pão que os
antepassados deles comeram no deserto e morreram. Esse pão que é Jesus é o pão
que desceu do céu, o alimento eterno, o Pão da vida eterna.
Assim, quando comungamos, nos alimentamos desse pão. É o pão que nos dá
força, que não nos deixa desanimar, que nos coloca em pé e mostra o caminho
que, embora árduo e difícil, podemos percorrer. Esse pão é compromisso, é
parceria, é Deus conosco, e quem tem Deus consigo não fraqueja na missão, por
mais difícil que ela possa parecer. No final desse evangelho, Jesus fala da sua
própria carne como alimento. Ele se consome para que tenhamos vida e a
tenhamos em plenitude. Ele dá vida ao mundo, mas o mundo ainda não descobriu
esse alimento, essa vida que emana da cruz de Cristo.
Desse modo, a segunda leitura pede que sejamos coerentes com a comunhão que
fazemos com Cristo, não entristecendo o Espírito Santo, pois, embora passemos
por momentos difíceis, atravessando desertos dos mais variados tipos, Deus, pelo
Espírito Santo, nos marcou para o dia da libertação. Crer que tudo passa, ou seja,
que os desertos terão um fim, que um novo céu e uma nova terra chegarão, é crer
num Deus da libertação, que nos fortalece nesse peregrinar rumo à pátria celeste.
Para que tudo isso aconteça, é preciso a nossa colaboração. É preciso afastar de
nós qualquer aspereza, sendo pessoas dóceis, amáveis, atenciosas com todos,
sobretudo com os mais necessitados. Não devemos tratar ninguém com desdém,
diz a Carta aos Efésios, pois isso não agrada a Deus. Além disso, é preciso afastar
de nós a raiva, gritaria, insulto e todo tipo de maldade. Ou seja, são atitudes que
precisam ser evitadas no relacionamento humano para que o relacionamento com
Deus não seja prejudicado e os espaços em que vivemos se tornem espaços da
presença de Deus. Esse deserto que se tornou o mundo e, muitas vezes, a nossa
vida revela a ausência de valores e atitudes como a bondade, a compreensão, o
perdão mútuo, enfim, procedimentos que são de Deus. Por isso, a Carta aos
Efésios pede que sejamos bons e compreensivos uns com os outros, perdoando-

291
nos mutuamente, assim como Deus nos perdoou. Essas recomendações são regras
de ouro para a boa convivência e para a construção do Reino de Deus. Somente
assim vamos atravessar os “quarenta” dias, ou anos, de deserto da nossa vida.
Vemos, portanto, que rico alimento Deus nos dá. Ele nos dá o pão da Palavra e o
Pão eucarístico. Alimentados por eles, encontraremos a força necessária, como
Elias, os Apóstolos e tantos outros discípulos missionários de Jesus Cristo.
Peçamos, portanto, que Deus nos dê sempre desse pão e que alimentados por ele
façamos a nossa parte.
Que cada um se sinta tocado pelo anjo de Deus que o desperta para a vida e para
a missão. Alimentemo-nos do Pão da vida e sigamos firmes na nossa missão.

20º Domingo
& Pr 9,1-6 | Sl 33(34) | Ef 5,15-20 | Jo 6,51-58

Hoje a liturgia enfatiza a presença de Deus entre nós para que possamos
comungar com ele e tê-lo em nossa vida. Deus se apresenta para nós de diversas
maneiras, mas é preciso sabedoria e discernimento para conhecê-lo e recebê-lo em
nós. Diz São João, no prólogo de seu evangelho, que no princípio era o Verbo e o
Verbo era Deus, mas que depois se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1,1-14).
Diz a primeira leitura que no princípio era a Sabedoria e a Sabedoria se fez carne
(no evangelho de hoje) para que pudéssemos dela alimentar-nos. Temos, assim,
dois elementos que se completam nessas duas leituras, intermediadas pelo apelo
da segunda leitura, que nos dizem que não sejamos tolos, ingênuos, vulneráveis.
São elementos que estão muito bem costurados entres as quatro leituras deste
domingo.
Na primeira leitura, ele nos é apresentado como a própria sabedoria. O livro dos
Provérbios fala de Deus de uma maneira poética, agradável, de um jeito que nos
faz entender que Deus está em toda parte, mas que é preciso ter uma sensibilidade
teológica, sabedoria para percebê-lo. O texto diz que “a Sabedoria está
chamando”. É um sentido de clamor, de apelo, de chamado de atenção mesmo.
Deus tudo sabe, tudo vê, conhece toda a sua criação nos mínimos detalhes, mas
quer que a sua criação suprema, o ser humano, seja sábio, saboreie as maravilhas
de Deus e não passe seus dias em brancas nuvens, ou praticando maldades.
Quantos de nós passamos insensíveis às obras de Deus? Mário Quintana diz, num
de seus versos, que “o que mata um jardim não é o abandono. O que mata um
jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente”. Assim acontece conosco.
Muitas vezes passamos indiferentes pelas obras maravilhosas da criação, sem
perceber que elas revelam Deus. São tantos os que não o veem, não enxergam as
suas maravilhas e só têm olhos para as coisas rasas da vida, tendo, portanto, um
deus raso em sua vida. Assim, a voz da Sabedoria, a voz de Deus clama por toda a

292
parte, por toda a criação, diz o livro dos Provérbios. Clama “nas elevações, ao
longo do caminho, nas encruzilhadas das estradas, junto às portas na entrada das
cidades e nos portões de saídas”. Isto é, Deus se faz presente e se manifesta no dia
a dia de nossa vida, sobretudo nos momentos difíceis, na nossa missão, nos
momentos em que tudo parece confuso e não sabemos que decisão tomar, enfim,
em todos os lugares e situações, mas é preciso sensibilidade, sabedoria para
percebê-lo. Ele vem a nós e nos alerta para não sermos tão ingênuos. Julgamos
ser espertos, sábios, mas no fundo não passamos de pessoas ingênuas que se
deixam levar pela ilusões da vida, pelas coisas efêmeras. Esse texto de hoje nos
interpela a ter mais sagacidade e bom senso, pois são duas qualidades que muitos
já perderam ou nunca tiveram. Temos que escutar mais a Deus, pois ele tem
coisas importantes a nos dizer todos os dias, através dos acontecimentos, das
situações e pessoas que ele coloca na nossa vida, no nosso caminho. Ele quer a
justiça, pois dos seus lábios saem coisas justas, e quem as escuta e pratica vive na
justiça, e a justiça é a chave para o Reino dos céus.
Assim sendo, a segunda leitura, da Carta aos Efésios, pede que estejamos
atentos à maneira como vivemos. Não sejamos tolos. A vida é muito curta para ser
desperdiçada com coisas que não nos edificam em nada. Portanto, como um
complemento da primeira leitura, a Carta aos Efésios pede que sejamos pessoas
sensatas, que aproveitam o tempo presente para fazer o bem porque os dias são
maus. Ou seja, há tanta maldade, tanto desrespeito à vida e às demais coisas
sagradas que quem não for sábio, sensato e justo perderá sua vida sem se dar
conta disso. E quantos são os que perdem a vida nessas circunstâncias! Deus não
quer que se perca nenhum de seus filhos, mas ainda há uma carência muito grande
de sabedoria divina no ser humano para valorizar a vida como deveria. Temos,
portanto, que compreender a vontade do Senhor, mas a insensatez nos impede.
Quando nos deixamos levar pelas tentações da vida, como, por exemplo, a
embriaguez, como mostra essa segunda leitura, abrimos caminho para outras
coisas más na nossa vida. A embriaguez, além de levar à libertinagem, como diz
essa leitura, leva também à violência, ao roubo, ao desrespeito à vida, enfim, a
muitas coisas que desqualificam a vida de quem se embriaga e de quem tem
algum contato com essa pessoa. São muitos que procuram refúgio na bebida, no
cigarro e em drogas ilícitas, esquecendo-se de Deus e do seu poder transformador.
A pessoa sábia, sensata, é aqu