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VARIANTES TEXTUAIS

DO NOVO TESTAMENTO

Análise e Avaliação do Aparato Crítico


de “O Novo Testamento Grego”
VARIANTES TEXTUAIS
DO NOVO TESTAMENTO

Análise e Avaliação do Aparato Crítico


de “O Novo Testamento Grego”

Adaptação do Com entário Textual de

B ruce M . M etzger

às necessidades de tradutores

e estudiosos da crítica textual

por

R oger L. O manson

Tradução e adaptação ao português

por

V1LSON SCHOLZ

Sociedade Bíblica
do Brasil

3c
3C
DEUTSCHE BIBELGESELLSCHAFT
Missão da Sociedade Bíblica do Brasil:
Promover a difusão da Bíblia e sua mensagem como instrumento de transfor-
mação espiritual, de fortalecimento dos valores éticos e morais e de incentivo ao
desenvolvimento humano, nos aspectos espiritual, educacional, cultural e social,
em âmbito nacional.

Omanson, Roger L.
Variantes textuais do Novo Testamento. Análise e avaliação do aparato
crítico de “O Novo Testamento Grego” / Roger L. Omanson; tradução
e adaptação de Vilson Scholz. Barueri, SP : Sociedade Bíblica
do Brasil, 2010.
624 p. : II. ; 16 x 23 cm

Título original: A Textual Guide to the Greek New Testament.


ISBN 978-85-3111245-4‫־‬

1. Novo Testamento. 2. Crítica Textual. 3. Variantes Textuais. I. Sociedade


Bíblica do Brasil.
CDD 220.9

Omanon, Roger, A Textual Guide to the Greek New Testament,


© 2006 Deutsche Bibelgesellschaft, Stuttgart. Usado com permissão.

Publicado no Brasil por Sociedade Bíblica do Brasil


© 2010 Sociedade Bíblica do Brasil
Αν. Ceei, 706 - Tamboré
Barueri, SP - CEP 06460-120
Cx. Postal 330 - CEP 06453-970
www.sbb.org.br - 0800-727-8888
Todos os direitos reservados

Tradução e adaptação ao português: Vilson Scholz


Revisão, edição e diagramação: Sociedade Bíblica do Brasil
Integralmente adaptado à reforma ortográfica.

Este livro foi escrito para ser usado em conjunto com O Novo Testamento Grego
(edição da Sociedade Bíblica do Brasil) ou a quarta edição do The Greek New
Testament (edição das Sociedades Bíblicas Unidas)

Impresso no Brasil
EA983VTNT - 5.000 - SBB - 2010
INDICE
Prefacio...............................................................................................................................vii
Introdução: A prática da crítica textual do Novo Testamento...................................xii
Bibliografía.................................................................................................................... xxxv
Abreviaturas.................................................................................................................xxxix
O Evangelho Segundo Mateus.......................................................................................... 1
O Evangelho Segundo Marcos........................................................................................56
O Evangelho Segundo Lucas......................................................................................... 107
O Evangelho Segundo João.......................................................................................... 163
Atos dos Apóstolos..........................................................................................................215
Carta de Paulo aos Romanos........................................................................................296
Primeira Carta de Paulo aos Corintios........................................................................ 331
Segunda Carta de Paulo aos Corintios........................................................................ 361
Carta de Paulo aos Gálatas........................................................................................... 382
Carta de Paulo aos Efésios............................................................................................ 393
Carta de Paulo aos Filipenses.......................................................................................412
Carta de Paulo aos Colossenses................................................................................... 422
Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses........................................................... 436
Segunda Carta de Paulo aos Tessalonicenses........................................................... 444
Primeira Carta de Paulo a Tim oteo............................................................................ 449
Segunda Carta de Paulo a Tim oteo.............................................................................457
Carta de Paulo a Tito..................................................................................................... 461
Carta de Paulo a Filemom............................................................................................. 466
Carta aos Hebreus...........................................................................................................469
Carta de Tiago................................................................................................................ 486
Primeira Carta de Pedro.............................................................................................. 499
Segunda Carta de Pedro...............................................................................................513
Primeira Carta de João................................................................................................ 523
Segunda Carta de João................................................................................................ 537
Terceira Carta de João................................................................................................... 539
Carta de Judas................................................................................................................ 540
Apocalipse de João.........................................................................................................547
PREFACIO
As notas que aparecem neste livro se baseiam na segunda edição de A Textual
C om m entary on the Greek N ew Testam ent , de Bruce M. Metzger (1994), obra que foi
traduzida para o espanhol por Moisés Silva e Alfredo Tepox e publicada em 2006
pelas Sociedades Bíblicas Unidas, com o título de Un Com entario Textual al Nuevo
Testam ento Griego. Convém ressaltar que, para se 1er as notas do livro que o leitor
tem em mãos, não é necessário consultar o livro de Metzger. No entanto, é indis-
pensável ter diante de si o texto e as notas textuais (o aparato crítico) de O Novo
Testam ento Grego, publicado pela Sociedade Bíblica do Brasil, ou, então, a quarta
edição do The Greek N ew Testam ent , publicado pelas Sociedades Bíblicas Unidas.
r A ideia deste livro surgiu alguns anos atrás, por ocasião de um dos encontros
trienais dos consultores de tradução das Sociedades Bíblicas Unidas. Os consultores
entenderam que era necessário revisar o Com entário Textual de Metzger. O que
se precisava era um texto mais acessível, um texto que pudesse ajudar tradutores
sem maior formação na área da crítica textual a entenderem por si mesmos e sem
maiores dificuldades os motivos por que determinadas variantes textuais do NT
têm mais chances de ser o texto original do que outras.
‫ ^״‬,As notas que aparecem neste livro não foram escritas para substituir as no-
tas originais de Bruce M. Metzger, mas apenas para simplificar e ampliar aquelas.
Um recurso usado nessa simplificação das notas foi omitir a citação da evidência
manuscrita (isto é, as siglas dos manuscritos) que apoia as diferentes variantes
textuais. Para isto, o leitor terá de consultar o aparato crítico de O Novo Testam ento
Grego.
Desde que foi inicialmente publicado, em 1971, o Com entário Textual de Bruce
M. Metzger atendeu muito bem às necessidades daqueles que estão mais bem in-
formados a respeito das questões de natureza crítico-textual. O livro de Metzger,
com certeza, continuará a preencher essa lacuna. Além disso, a obra de Metzger
discute algumas centenas de outras variantes textuais que não foram incluídas no
aparato crítico de O Novo Testam ento Grego . Devido à natureza deste Comentário,
essas notas foram omitidas.
As notas que integram este livro foram escritas tendo em mente que a língua
materna da maioria dos tradutores do NT não é o inglês, o português, ou qualquer
outra língua majoritária. Em função disto, assuntos técnicos foram explicados em
linguagem não técnica. Entretanto, não foi possível evitar por completo o uso de
termos e expressões técnicas. Por este motivo, no capítulo intitulado “A Prática da
Crítica Textual do Novo Testamento”, aparece um breve panorama da crítica tex-
tual, incluindo a explicação de termos importantes, uma história do texto e uma
descrição dos métodos que os críticos de texto empregam para chegarem às suas
conclusões.
viii VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Neste livro, as notas de Metzger foram ampliadas por meio de considerações


relativas à tradução das leituras variantes que se encontram no aparato crítico (veja,
por exemplo, Lc 4.17; At 2.37; 2C0 5.17). Num caso como 0 de ICo 4.17, por exemplo,
os tradutores não terão maiores dificuldades para compreender, a partir do aparato
crítico em O N ovo T estam ento Grego , que o texto diz “em Cristo Jesus”, e que as va-
riantes são “em Cristo” e “no Senhor Jesus” Mas no caso de leituras variantes como
as de 1C0 7.34, talvez não fique claro quais sejam as diferenças de significado, por
isso as notas explicam como as diferentes variantes são interpretadas e traduzidas.
Ficará evidente que algumas das leituras variantes têm pouca ou nenhuma impor‫״‬
tância para a tradução do texto. As diferenças entre as leituras variantes podem ser
mera questão de estilo (Mt 20.31; 23.9), como o uso ou não de uma preposição diante
de um substantivo (Mc 1.8). Muitas vezes, variantes textuais desse tipo serão tradu-
zidas de forma idêntica na língua receptora. As variantes textuais podem, também,
ser sinônimos (Mt 9.8; 16.27; 28.11), consistir na presença ou ausência de um artigo
(Mc 10.31; 12.26) ou, então, no uso de um pronome de terceira pessoa para indicar
posse (Mt 19.10; Mc 6.41). É possível que a natureza da língua receptora exija que
variantes desse tipo sejam traduzidas da mesma maneira como se traduz a leitura que
aparece como texto e vice-versa. Existem outras variantes que, no caso de traduções
de equivalência funcional, não têm maior importância. Exemplos disso são variantes
relacionadas com formas diferentes de escrever o nome de certas pessoas (Mt 13.55)
ou a presença ou ausência do sujeito ou do objeto de um verbo (Mt 8.25; Mc 9.42).
As notas textuais abordam também algumas das mais importantes diferenças na
divisão e pontuação do texto, sempre que estas implicam diferença de significado
(veja “O Aparato de Segmentação do Discurso”, na Introdução de O N ovo Testam ento
Grego), Edições modernas do Novo Testamento em grego, bem como as traduções,
às vezes divergem quanto à segmentação do texto. Isto se aplica de forma especial
à questão do início de parágrafos e de seções do texto. Entre as mais significativas
diferenças de segmentação do texto discutidas neste livro estão as seguintes:
• divisão ou separação entre parágrafos (lTm 3.1);
• divisão ou separação entre palavras e expressões (Mc 13.9; 2Co 8.3; Ef 1.4);
• uso ou não de aspas para indicar que se trata de discurso direto
(1C0 6.12-13; 7.1);
• início e final de citação direta (Jo 3.13,15,21; Gl 2.14);
• final de citação embutida em outra citação (Mt 21.3);
• existência de observações parentéticas (Lc 7.28; At 1.18);
• pontuação de frases como afirmativas ou interrogativas (ICo 6.19);
• uso de formato poético para indicar que se trata de material tradicional
(Fp 2.6; Cl 1.15);
• õtl visto como recitativo (introduzindo uma citação direta), introduzindo
uma citação indireta, ou introduzindo uma locução causai (Mc 8.16).
PREFÁCIO ix

Recomenda-se que o leitor siga as leituras que aparecem em O N o vo T e sta m e n to


Grego. Em outras palavras, é importante acompanhar o que se encontra no texto e
no aparato crítico (as inform ações ao pé da página) de O N o v o T e sta m e n to Grego,
pois este livro é um com entário sobre o que lá se encontra. As notas textuais deste
livro com frequência dão a tradução tanto da leitura escolhida para ser o texto
quanto das variantes textuais incluídas no aparato crítico, para que se possa en-
tender melhor as diferenças de significado entre e texto e as variantes, e de uma
variante para a(s) outra(s), se este for o caso.
Muitas vezes, para ilustrar essas diferenças, são citadas algum as traduções mo-
dernas, principalmente em língua portuguesa, com o ARA (Almeida Revista e Atua-
lizada, 1993); ARC (Almeida Revista e Corrigida, 2009); NTLH (Nova Tradução na
Linguagem de Hoje, 2000); BN (A Boa Nova — Tradução em Português Corrente,
1993); NVI (Nova Versão Internacional, 2001); TEB (Tradução Ecumênica da Bí-
blia, 1995); NBJ (Nova Bíblia de Jerusalém , 2002); CNBB (Bíblia Sagrada — Tradu-
ção da CNBB, 2a edição, 2002). (Para outras siglas, veja a lista de Abreviaturas.) O
propósito dessas citações não é recomendar a variante como tal ou a sua tradução,
mas unicam ente ilustrar a mesma.
As notas que tratam das diferentes possibilidades de segm entação e de pontua-
ção não incluem nenhum a argum entação exegética a favor ou contra as diferentes
possibilidades, e também não recomendam umas em detrim ento das outras. O pro-
pósito dessas notas é alertar os tradutores para o fato de que existem lugares onde
o significado e a tradução do texto podem ser diferentes, dependendo da divisão
que se faz entre palavras, locuções e frases do texto. Recomenda-se que, neste parti-
cular, os tradutores consultem bons com entários, alguns dos quais aparecem na lis-
ta das obras citadas que se encontra no final das notas referentes a cada livro do NT.
Ao longo desta obra, faz-se referência a comentários em língua inglesa que fo-
ram publicados recentem ente, a maioria dos quais ainda está disponível no merca-
do internacional e aos quais se tem acesso em algum as bibliotecas. Para o estudo
do texto do NT, existem muitos livros e artigos de grande valor em outros idiomas,
como o francês e o alemão; entretanto, nesta obra, levando em conta os leitores que
originalm ente se teve em vista, as referências incluem apenas livros e artigos em
língua inglesa.

ROGER L. OMANSON
Sociedades Bíblicas Unidas
Consultor para Publicações Eruditas
INTRODUÇÃO: A PRÁTICA DA CRÍTICA
TEXTUAL DO NOVO TESTAMENTO

I- D efinição e pr o pó sito d a crítica textual

A c r ític a te x tu a l do NT é o estudo dos textos bíblicos que aparecem nos ma-


nuscritos antigos, com o objetivo de recuperar uma forma de texto que se aproxime
o m áxim o possível do texto exato dos escritos originais (chamados de ‫״‬autógrafos‫)״‬
assim como estes se apresentavam antes de copistas introduzirem alterações e co-
m eterem erros durante o processo de cópia. Como observa Michael W. Holmes, esta
tarefa envolve três aspectos principais:1

(1) A coleta e a organização do material ou da evidência; (2) o desenvolvim ento


de um m étodo que permita avaliar e determinar o significado e as im plicações da
evidência, para que se possa determinar qual das variantes textuais tem mais chan-
ces de representar o texto original; e (3) a reconstrução da história da transmissão
do texto, na m edida em que o material disponível permita tal reconstrução.

A crítica textual não se preocupa com a inspiração do Novo Testamento e não


trata da questão se os textos originais continham erros de conteúdo ou não. Os ma-
nuscritos originais não existem mais. Os únicos manuscritos de que dispom os hoje
são cópias de cópias. O manuscrito mais antigo de um trecho do NT é um fragmento
de papiro que contém uns poucos versículos do Evangelho de João. Este fragmento,
cham ado de data de aproximadamente 125 d.C. Convém notar igualm ente que,
embora a palavra ‫״‬crítica‫ ״‬apareça muitas vezes, em linguagem corriqueira, num
sentido negativo, os eruditos a empregam num sentido positivo, como “avaliação
(da evidência a favor do texto)‫״‬.
Mesmo tradutores que nunca estudaram crítica textual do NT estão, em geral,
conscientes de que existem diferenças textuais nos manuscritos antigos, pois, em
traduções modernas, já se depararam com notas como O u tro s m a n u s c rito s a n tig o s
tê m , O u tro s m a n u s c rito s a n tig o s a c re sc e n ta m , O u tro s m a n u s c rito s a n tig o s n ã o tra-
z e m , e M u ito s m a n u s c rito s o m ite m . Tomemos o exem plo de Gálatas: algumas tradu-
ções não trazem nenhuma nota indicando que existem problemas textuais; a REB
tem som ente três notas textuais, e a NRSV tem sete. Assim, tradutores podem ficar

1 Michael W. Holmes, “Textual Criticism”, in Dictionary of Paul and His Letters (ed. Gerald F. Hawthorne, et
al.; Downers Grove, 111: InterVarsity Press, 1993), 927. Vários estudos recentes indicam que os eruditos
empregam a expressão “texto original” de modo um tanto ingênuo. Veja Eldon Jay Epp, “The Multiva-
lence of the Term Original Text’ in New Testament Textual Criticism”, Harvard Theological Review 92
(1999): 245-281. Num outro escrito, Epp afirma “que a expressão texto original, que muitas vezes é
entendida de forma simplista, tem sido fragmentada pelas realidades de como os escritos do Novo Testa*
mento se formaram e foram transmitidos, e, a partir disso, original precisa ser entendido como um termo
que designa diferentes camadas, níveis, ou significados...” (“Issues in New Testament Textual Criticism”,
in Rethinking New Testament Textual Criticism [ed. David Alan Black; Grand Rapids: Baker, 2002], 75).
XII VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

surpresos ao descobrirem que o N o vo T e sta m e n to Grego lista vinte e oito lugares


apenas em Gálatas onde os manuscritos antigos têm leituras diferentes. O N o vo Tes-
ta m e n to G rego , publicado pela Sociedade Bíblica do Brasil, registra mais de 1.440
lugares em todo o NT onde ocorrem leituras variantes que têm implicações para a
tradução do texto. O texto grego dessa edição não reproduz o texto exato de nenhum
manuscrito específico. Ao contrário, com base no estudo dos muitos manuscritos
antigos, os editores se valeram de métodos (a serem apresentados abaixo) que per-
mitem reconstruir um texto que, à luz do conhecim ento de que dispom os hoje, é o
que mais se aproxima dos textos originais (ou “autógrafos”).
Há m ilhares de variantes textuais nos manuscritos antigos, mas a maioria delas
não passa de erros de grafia ou de outros erros de cópia bem evidentes, não tendo,
portanto, nenhuma importância para a tradução. Entretanto, convém notar que até
m esm o entre as leituras que têm significado para a tradução, isto é, que afetam a
tradução, são poucas aquelas que são de fato significativas para a teologia. Consi-
dere, por exem plo, Mc 1.1, onde alguns manuscritos não têm as palavras υίοΰ 0eoí)
(Filho de Deus). No entanto, mesmo que estas palavras não sejam originais nessa
passagem , o autor com certeza acreditava que Jesus era o Filho de Deus (Mc 1.11;
3.11; 5.7; 15.39).
Muito se discute se é possível ou não determ inar o texto exato dos escritos
originais. Por exem plo, Trebolle Barrera afirma: “Tentar criar um texto recebido
continua sendo um projeto marcado por certa arrogância, e encontrar o original
em casos discutíveis não passa de utopia”.2 Os manuscritos de papiro descobertos
na primeira metade no século vinte nos deram manuscritos que são pelo m enos um
século mais antigos do que os manuscritos que eram conhecidos no século deze-
nove. Para alguns eruditos, esses manuscritos fornecem toda a evidência de que se
necessita para recuperar os textos originais. Para outros, os manuscritos de papiro
apenas nos levam até uma forma do texto que existia no terceiro século, mas não
necessariam ente às formas originais do texto, isto é, o texto como se apresentava
antes que mudanças e erros fossem introduzidos nos manuscritos.

II. OS MATERIAIS DA CRÍTICA TEXTUAL


Como será detalhado nos parágrafos seguintes, existem três fontes que são utili-
zadas para reconstruir o texto original do NT. A mais importante dessas fontes são
os próprios manuscritos gregos. Existem vários m ilhares de manuscritos, que datam
desde o com eço do segundo século até o século dezesseis. Igualmente importantes
são os manuscritos do NT em outras línguas. Por volta do final do segundo século e
com eço do terceiro, o NT já havia sido traduzido para o latim e o siríaco. Um pouco
2 Julio Trebolle Barrera, The Jewish Bible and the Christian Bible: An Introduction to the History of the Bible
(Leiden: Brill/Grand Rapids: Eerdmans, 1997), 413.
INTRODUÇÃO χίίί

depois, foi traduzido para o copta e outras línguas antigas. Os críticos de texto se
referem a essas traduções como versões antigas. Uma terceira fonte para estudo são
os escritos de teólogos cristãos da Igreja Antiga, desde o segundo ao oitavo séculos,
que escreveram em grego e latim , e que citam trechos do Novo Testamento.

M a n u s c r ito s gregos

Esses manuscritos se dividem em dois grupos: (1) m a n u s c r ito s d e t e x to


c o n tín u o , que contêm o texto em ordem, por capítulos e livros, do com eço ao fim;
e (2) m a n u sc r ito s d e le c io n á r io s , que contêm passagens de várias partes do
NT organizadas segundo a ordem em que aparecem na lista de leituras para os do-
m ingos e dias festivos do calendário litúrgico ou eclesiástico. (Veja “Os Manuscritos
Gregos”, pp. xiv-xxiv na Introdução a O N o v o T e sta m e n to Grego.)
O s m ais antigos docum entos foram copiados em p a p iro , um material feito da
m edula da planta de papiro, que era cortada em tiras bem finas que, por sua vez,
eram prensadas umas sobre as outras para formar páginas nas quais se podia escre-
ver. A partir do quarto século d.C. aproximadamente, com eçou-se a fazer cópias em
p e r g a m in h o , um material feito de peles de anim ais. Fazer cópias desses escritos
era um processo caro, por duas razões: o custo elevado do material de escrita e o
tempo necessário para fazer a cópia de um só livro. Em m édia, para se fazer uma
cópia manuscrita do NT em pergam inho eram necessárias as peles de, pelo m enos,
50 a 60 ovelhas ou cabras! O pergam inho foi usado até que com eçou a ser substituí-
do pelo papel no século doze.
Cada um dos manuscritos de papiro é identificado com a letra <p (para “papi-
ro”) e um número. Por exem plo, ^ 46 se refere a um manuscrito do terceiro século
que contém trechos das cartas paulinas. No com eço do século vinte, sabia-se da
existência de apenas nove manuscritos de papiro. Hoje se conhece 116 manuscritos
de papiro, embora muitos sejam bastante fragm entários e contenham apenas uns
poucos versículos. Na Introdução de O N o v o T e sta m e n to G rego aparece um a lista de
116 manuscritos de papiro, mas alguns manuscritos têm mais de um número. Por
exem plo, <p33 e *p58 são fragm entos de um m esmo manuscrito do sétim o século; e
^y>4 e çp67 s£0 fragm entos do m esm o manuscrito copiado por volta do ano 2 0 0 d.C.3
O tipo de escrita usada até o nono século era a escrita u n c ia l ou m aiúscula.
M anuscritos copiados com esse tipo de letra são cham ados de u n c ía is ou m a iú s-
c u lo s. Existem 3 0 6 manuscritos uncíais, embora apenas um pouco m ais do que
dois terços desses manuscritos tenham m ais do que duas páginas de texto. Os ma-
nuscritos uncíais são identificados com uma letra do alfabeto hebraico, latino ou

3 T.C. Skeat, “The Oldest Manuscript of the Four Gospels?” New Testament Studies 43 (January 1997):
1 3 4 ‫־‬, argumenta, de forma bastante convincente, que deveria ser incluído, juntamente com fy64 e 67‫לן‬,
num mesmo manuscrito. Em outras palavras, esses três fragmentos fariam parte de um só manuscrito.
XIV VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

grego, ou então com um algarism o arábico antecedido por um zero. Em alguns


casos, o manuscrito é conhecido por uma letra e um número. O Códice Vaticano,
por exem plo, é um manuscrito do quarto século que, quase com certeza, continha
originalm ente toda a Bíblia grega.4 Geralmente ele cham ado de Códice B, mas
tem tam bém o número 03. Os uncíais eram copiados sem qualquer espaço entre as
palavras e frases. Esse tipo de escrita é cham ada de s c rip tio c o n tin u a (“escrita contí-
nua”). As divisões em capítulos que conhecem os e usam os hoje foram introduzidas
no texto por Estevão Langton, arcebispo de Cantuária, no século treze. A divisão
em versículos teve início em 1551, numa Bíblia impressa por Roberto Stephanus.
Desde o nono século até o tem po em que o NT passou a ser impresso, foi usada
a escrita m i n ú s c u l a (do latim m in u s c u lu s , “bem pequeno”) ou cursiva. Manuscri-
tos que têm esse tipo de escrita são cham ados de m i n ú s c u l o s ou c u r s i v o s e são
identificados por algarismos arábicos. O Códice 33, por exem plo, é um manuscrito
do nono século que contém todo o NT, m enos o livro do Apocalipse. A grande
maioria dos manuscritos gregos de que dispom os em nossos dias (o número chega
a 2 .8 5 6 ) são m inúsculos, e a maioria deles data do período que vai do século onze
ao catorze.
Além dos mais de 3 0 0 0 manuscritos de texto contínuo m encionados acima, exis-
tem 2403 manuscritos de lecionários. Esses manuscritos aparecem no aparato crí-
tico e são identificados pela letra l em itálico seguida de um número ou do símbolo
coletivo Lee (veja “Os lecionários gregos”, pp. xxiv-xxvi da Introdução a O N o vo
T e sta m e n to G rego). A maioria dos manuscritos de lecionários representa o tipo de
texto bizantino (veja abaixo) e, em razão disso, são geralm ente considerados menos
im portantes na tentativa de reconstruir o texto original do NT.
Para uma discussão mais detalhada a respeito dos manuscritos gregos, incluin-
do os lecionários, veja os capítulos 1-4 (pp. 1 7 4 ‫ )־‬da obra T h e T e x t o f th e N e w Testa-
m e n t in C o n te m p o r a r y R esea rch , editada por Ehrman e Holmes.
Os responsáveis por edições modernas do Novo Testamento em grego costu-
mam agrupar as v a r i a n t e s t e x t u a i s (isto é, as diferentes leituras que existem
em alguns manuscritos no m esm o lugar de determ inado versículo) ao pé da página,
numa seção chamada de a p a r a t o c r ít ic o . Em seguida eles listam os manuscritos
que apoiam as diferentes leituras pelas letras ou pelos números que os identificam.
Segundo a maioria dos críticos de texto, esses manuscritos gregos, em especial
os papiros e uncíais, são de grande importância para a tarefa de tentar recuperar
o texto original dos livros do NT. Entretanto, outros especialistas afirmam que os
manuscritos gregos som ente nos fornecem a forma do texto que era conhecida no

4 O número de manuscritos gregos disponíveis hoje que continham, originalmente, todo o NT chega a 61,
mas o número dos que de fato contém hoje todo o NT se aproxima de 50 (veja Daryl D. Schmidt, “The
Greek New Testament as a Codex”, in The Canon Debate [ed. Lee Martin McDonald e James A. Sanders;
Peabody, Mass: Hendrickson, 2002], 469-471).
INTRODUÇÃO XV

terceiro século. Em outras palavras, os manuscritos gregos não dão acesso ao texto
anterior ao terceiro século. Segundo esses especialistas, para recuperar uma forma
mais antiga do texto do NT, que esteja mais próxima do original, também se precisa
de um estudo cuidadoso dos escritos dos Pais da Igreja (veja abaixo) e de um estudo
das antigas traduções do NT para o copta, siríaco e latim (veja abaixo, “Traduções
para outras línguas antigas”).

E scritos dos Pais d a Igreja a n tig a

Importantes líderes da Igreja que viveram entre o segundo e o oitavo séculos e


que escreveram em grego e latim, com frequência citaram versículos do NT. Esses
líderes são muitas vezes cham ados de P a is d a I g r e ja ou, sim plesm ente, o s P a is ,
e o que eles escreveram recebe o nome de obras p a t r í s t i c a s (de p a te r , o termo
latino para “pai”). Os escritos dos Pais da Igreja têm valor especial para o estudo do
texto do NT. Como observa Ehrman, quando se trata de manuscritos gregos, ver-
sões antigas e escritos patrísticos, “apenas os escritos patrísticos podem ser datados
e localizados geograficam ente com relativo grau de certeza”.5 Entretanto, muitas
vezes é difícil saber se os Pais estavam de fato citando um texto ao pé da letra ou se
estavam apenas fazendo alusão ao mesmo. E, se estavam citando, será que citaram
de m emória (talvez de forma incorreta) ou a partir de uma cópia do NT que estava
aberta e ao alcance dos olhos deles? Além disso, as pessoas que copiavam as obras
dos Pais por vezes alteravam o texto durante o processo de cópia, fazendo com que
o texto bíblico citado concordasse com o texto que eles, os copistas, conheciam . Por
essas razões, nem sempre é fácil saber o que um Pai escreveu originalm ente (veja
“O testem unho dos Pais da Igreja”, pp. xxx-xxxiv na Introdução a O N o v o T esta m en -
to Grego).
Contudo, apesar das dificuldades ligadas ao uso dos escritos dos Pais da Igreja,
os eruditos entendem que o estudo dos escritos dos Pais da Igreja antiga contri*
bui para a recuperação do texto original do NT. A Sociedade de Literatura Bíblica
(SBL), por exem plo, patrocina uma série de estudos denom inada “O Novo Testa-
m ento nos Pais Gregos”. O primeiro volum e foi publicado em 1986 e, até agora,
apenas os volum es referentes a uns poucos Pais estão disponíveis. No entanto, entre
outras coisas, cada volum e traz uma lista completa das citações do NT feitas pelo
Pai da Igreja e indica se essas citações reproduzem ao pé da letra o que se encontra
no NT. Alguns eruditos argum entam que os papiros e manuscritos uncíais só nos
dão acesso ao texto conhecido no terceiro século e que “se ... realm ente querem os...
reconstruir um texto ‘o mais próximo possível do original’, tem os que nos valer das

5 Bart Ehrman, “The Use and Significance of Patristic Evidence for NT Textual Criticism”, in New Testament
Textual Criticism, Exegesis and Church History: A Discussion of Methods (ed. Barbara Aland e Joel Delobel;
Kampen, Netherlands: Kok Pharos, 1994), 118.
xvi VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

fontes patrísticas e le v a r a sé rio o te s te m u n h o d essa s fo n te s . E, diferentem ente dos


papiros, o uso da evidência patrística irá... alterar significativam ente a configura-
ção do texto crítico”.6
Para uma discussão mais aprofundada a respeito do uso da evidência dos Pais
da Igreja no estudo do texto do NT, veja os capítulos 15-17 (pp. 299-359) em Epp
e Fee, S tu d ie s in th e T h e o r y a n d M e th o d o f N e w T e s ta m e n t T e x tu a l C r itic is m ; e os
capítulos 12-14 (pp. 1 8 9 2 3 6 ‫ )־‬em Ehrman e H olm es (editores), T he T e x t o f th e N e w
T e s ta m e n t in C o n te m p o r a r y R esearch.

III. H is t ó r ia d a t r a n sm issã o d o t e x t o d o N ovo T esta m en to


Nos primeiros tem pos da Igreja cristã, depois que uma carta apostólica havia
sido enviada a uma congregação ou a um indivíduo, ou depois que um Evangelho
havia sido escrito para atender às necessidades de um determ inado público alvo,
com eçava o processo de cópia desses textos. Esse processo tinha a finalidade de am-
pliar o âmbito de influência desses textos e permitir que mais pessoas se beneficias-
sem desses escritos. Essas cópias manuscritas certam ente apresentariam diferenças
de texto em relação aos originais. Algum as cópias podiam apresentar um número
significativo de diferenças; outras, um número bem reduzido. A maioria dessas
diferenças se devia a erros de caráter involuntário, como a troca de uma letra ou
de uma palavra por outra que tinha um formato quase igual (veja, por exem plo, a
discussão em 2Pe 1.21).
Os copistas tam bém com etiam erros por muitos outros motivos. Se duas linhas
de texto próximas uma da outra com eçavam ou terminavam com o mesmo conjunto
de letras, ou se duas palavras parecidas apareciam quase que lado a lado numa mes-
ma linha, era muito fácil para o copista saltar do primeiro conjunto de letras para
o segundo, fazendo com que om itisse o texto que estava entre esses dois conjuntos.
Esses erros recebem um nom e técnico: “h o m e o a r c to n ” (as letras sem elhantes
apareciam no início das palavras; veja a discussão de 2Pe 2.6) e h o m e o te le u to
(as letras sem elhantes apareciam no final das palavras). Essas duas palavras, “h o -
m e o a r c to n ” e h o m e o te le u to , vêm do grego e significam “início sem elhante”
e “final sem elhante”. Outro tipo de erro ocorria quando o copista acidentalm ente
voltava do segundo grupo de letras ou palavras parecidas para o primeiro grupo e,
equivocadam ente, copiava uma ou m ais letras, sílabas ou palavras duas vezes. O
termo técnico para isso é d ito g r a fía , que significa “escrito duas vezes”. O contrá-
rio da ditografía é a h a p lo g r a fia , que designa a om issão acidental de uma ou mais
letras. Às vezes, os copistas faziam confusão entre letras ou sílabas que tinham
pronúncia idêntica ou parecida. O term o técnico para isso é io ta c is m o .
6 William L. Peterson, “What Text Can NT Textual Criticism Ultimately Reach?” in New Testament Textual
Criticism, Exegesis and Church History: A Discussion of Methods, 151.
INTRODUÇÃO xvii

Erros acidentais com o esses são quase que inevitáveis quando trechos mais lon-
gos são copiados à mão. A probabilidade de que viessem a ocorrer aumentava se
o copista não enxergava direito, se era interrompido enquanto copiava, se estava
cansado ou não se concentrava suficientem ente no seu trabalho. Além disso, como
lembra R. E. Brown, “tam bém se deve contar com a possibilidade de uma leitura
mal feita pela pessoa que ditava o texto para os copistas”.

E x e m p lo de erro r e s u lta n te d e “h o m e o a r c to n ”

Veja a discussão sobre Mc 10.7, onde é possível que as palavras m i


προσκολληθήσεται π ρ ό ς την γυναίκα αυτοί) (“e se unirá com a sua m ulher”) te-
nham sido om itidas porque o olhar do copista passou, acidentalm ente, do καί (“e ”)
que aparece no início dessa frase para ο καί (“e ”) que ocorre no com eço do v. 8.

E x e m p lo d e erro r e s u lta n te d e h o m e o te le u to

Veja a discussão sobre lP e 3.14, onde as palavras μηόέ ταραχθήτε (“não fiqueis
alarm ados”) foram acidentalm ente om itidas porque o olhar do copista passou do
final da palavra φοβηθητε (“vos am edronteis”) para a palavra ταραχθήτε (“fiqueis
atem orizados”).

E x e m p lo s de erros re su lta n te s de d ito g r a fia e h a p lo g ra fia

Às vezes é difícil saber se uma letra foi acidentalm ente repetida (ditografia) ou
acidentalm ente omitida (haplografia). Veja, por exem plo, a discussão a respeito de
νήπιοι (“crianças”) e ήπιοι (“dóceis”), em lTs 2.7.

E x e m p lo s de erros c a u sa d o s p o r io ta c ism o

Em grego coiné, as vogais η, 1 e υ, bem como os ditongos ει, οι e υι passaram a


ter a m esm a pronúncia.78 Os copistas muitas vezes faziam confusão entre os prono-
mes plurais “nós” (ήμεΐς) e “vós” (υμείς) em suas várias formas declinadas, pois as
vogais iniciais destes pronomes eram pronunciadas de forma idêntica (ou seja, com
som de “i”). Veja, por exemplo, as observações a respeito de Cl 2.13. Na passagem
de 1C0 15.54, em alguns manuscritos o substantivo νΐκος (“vitória”) foi alterado,

7 Raymond E. Brown, An Introduction to the New Testament (Nova Iorque: Doubleday, 1997), 48, n. 3.
8 Chrys C. Caragounis, The Development of Greek and the New Testament: Morphology, Syntax, Phonology,
and Textual Criticism (Tübingen: Mohr Siebeck, 2004), mostrou, de forma bastante convincente, quejé
no quarto século d.C. essas vogais e esses ditongos tinham pronúncia idêntica, o mesmo acontecendo
com o e co, e com ε e o ditongo ai. Só no Evangelho de João, o copista de ty66 introduziu 492 erros de
grafía por causa desse fenômeno chamado de iotacismo (501515‫)־‬.
xviii VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

por engano, para νεΐκος (“disputa”). Veja também a discussão a respeito de Ιδόντες
(“vendo”) e είδότες (“sabendo”), em lP e 1.8.
Também as vogais o e ω passaram a ter a m esma pronúncia. As vezes, a única
diferença gráfica entre um verbo no modo indicativo e o mesmo verbo no modo
subjuntivo é essa diferença entre as duas vogais. Veja, por exem plo, a discussão
sobre £χομεν (“tem os”) e εχωμεν (“tenham os”), em Rm 5.1.
Igualm ente, a vogal s e o ditongo ol passaram a ter a mesma pronúncia. Em
função disso, às vezes os copistas faziam confusão entre a desinência verbal -σθε,
que é da segunda pessoa do plural, e a desinência -σθαι, que é do infinitivo. Veja,
por exem plo, 2Pe 1.10.
Os copistas desenvolveram um sistem a de abreviaturas ou contrações para quin-
ze nom es sagrados (n o m in a sa c ra , em latim), como θεός (Deus), κύριος (Senhor),
Χ ριστός (Cristo), Ιη σ ο ύ ς (Jesus), πατήρ (Pai), πνεύμ α (Espírito), e σωτήρ (Salva-
dor). Essas contrações consistiam em escrever apenas a primeira e a última letra
da palavra, ou então a primeira e as duas últim as letras, colocando-se uma linha
horizontal por cima da combinação resultante. As letras de algum as dessas contra-
ções eram sem elhantes, o que às vezes levou os copistas a confundirem uma com a
outra. Veja, por exem plo, as discussões sobre ICo 1.14; ICo 4.17; lTm 3.16.
Num recente estudo sobre o <p13, Head e Warren demonstraram que, por vezes,
os copistas tam bém cometiam erros involuntários devido ao fato de, constante-
m ente, terem de reabastecer ou molhar a ponta do estilo ou ponteiro usado para
escrever. Esse fato contribuiu para que se distraíssem ou tivessem lapsos de visão
ou de m em ória.9
Além desses erros involuntários, algum as alterações eram deliberadas ou inten-
cionais. Os copistas procuravam corrigir a gramática ou polir o estilo de algum as
passagens, ou então esclarecer o sentido de palavras e expressões que eles conside-
ravam obscuras ou ambíguas. Às vezes um copista substituía ou acrescentava o que
parecia ser uma palavra ou forma gramatical mais adequada. Veja, por exemplo, as
observações sobre προπάτορα (“antepassado”) e πατέρα (“pai”), em Rm 4.1.
Às vezes, essas substituições ou acréscim os eram feitos para que a passagem
concordasse com um texto paralelo de outro livro do NT (veja, por exemplo, At
3.22; lTs 1.1 e a discussão sobre o Pai-Nosso em Lc 11.2-4) ou da S e p t u a g ín t a ,
que é uma tradução grega do AT (veja, por exemplo, os comentários a respeito de
At 2 .1 6 ,1 8 1 9 ‫)־‬. Essas mudanças introduzidas com o objetivo de fazer com que um
texto concorde com uma passagem paralela, seja do AT ou do NT, recebem o nome
técnico de h a r m o n i z a ç ã o ou a s s im i l a ç ã o .
Houve momentos em que os copistas faziam m odificações intencionais para “me-
lhorar” a teologia de certas passagens.10 Por exemplo, Lc 2 .4 1 4 3 ‫ ־‬afirma que, quan­
9 EM. Head e M. Warren, “Re-Inking the Pen: Evidence from P Ox. 657 (Sp13) Concerning Unintentional
Scribal Errors”, New Testament Studies 43 (July 1997): 466473‫־‬.
INTRODUÇÃO xix

do Jesus tinha doze anos de idade, ele ficou em Jerusalém após a festa da Páscoa, em
vez de voltar para casa com o grupo de peregrinos. Os melhores manuscritos dizem ,
no v. 43, que ele ficou em Jerusalém sem que “os pais dele” soubessem disso. Uma
vez que José não era o pai biológico de Jesus, um copista mudou as palavras “os pais
dele” para “José e a mãe dele”, provavelmente para salvaguardar a doutrina de que
Jesus nasceu de uma virgem. (Veja tam bém a nota a respeito de Mt 24.36).
Como os parágrafos anteriores dão a entender, durante os anos que se seguiram
à composição dos diferentes docum entos que viriam a fazer parte do NT surgiram
centenas, m esm o m ilhares de leituras variantes ou variantes textuais.

T ra du ções p a r a o u tr a s lín g u a s a n tig a s

Ainda outros tipos de diferenças surgiram quando os docum entos do NT foram


traduzidos do grego para outras línguas. Durante o segundo e o terceiro séculos,
depois que o cristianism o havia sido levado para a Síria, para o Norte da África e
a Itália, bem com o para o centro e o Sul do Egito, era natural que congregações e
pessoas quisessem ter uma cópia das Escrituras em suas próprias línguas. Assim,
surgiram versões para o siríaco, o latim , e vários dialetos coptas utilizados no Egito.
A partir do quarto século foram feitas outras traduções, para o armênio, georgiano,
etíope, árabe e núbio, no Oriente; e para o gótico, eslavo eclesiástico antigo, e (mais
tarde) para o anglo-saxão, no Ocidente. Os críticos de texto se referem às traduções
para essas línguas antigas como v e r s õ e s ou v e r s õ e s a n tig a s (veja “As versões
antigas”, pp. xxvi-xxix na Introdução a O N o v o T e s ta m e n to Grego).
A precisão dessas traduções dependia diretamente de dois fatores: o conheci-
m ento adequado, ou não, que o tradutor tinha da língua fonte (o grego) e da língua
receptora, e o cuidado com que o tradutor fez o seu trabalho. Não deveria nos
surpreender que muitas diferenças tenham surgido dentro dessas versões antigas.
Várias pessoas fizeram traduções diferentes a partir do que podem ter sido formas
ligeiram ente diferentes do texto grego. Além disso, outros indivíduos, que copia-
vam essas traduções, por vezes faziam “correções” para que o texto concordasse
com uma forma diferente do texto conhecida por eles, que podia ser em grego ou
na língua receptora.
Para mais detalhes a respeito do uso das versões antigas no estudo do texto do
NT, veja os capítulos 5-11 (pp. 75-187) em Ehrman e Holmes (editores), T h e T e x t o f
th e N e w T e s ta m e n t in C o n te m p o r a r y R esearch. 10

10 Bart Ehrman, The Orthodox Corruption of Scripture: The Effect of Early Christological Controversies on
the Text of the New Testament (Nova Iorque: Oxford University Press, 1993), mostra que muitas leituras
variantes se originaram quando, no contexto das controvérsias cristológicas do segundo e terceiro sé-
culos, escribas alteraram o texto para fundamentar pontos de vista “ortodoxos”. Veja também Wayne C.
Kannaday, Apologetic Discourse and the Scribal Tradition: Evidence of the Influence of Apologetic Interests
on the Text of the Canonical Gospels (Atlanta: Society of Biblical Literature, 2004).
xx VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

O s u r g im e n to d e “te x to s lo c a is ” e tip o s de te x to

Durante aqueles primeiros séculos de expansão da Igreja cristã, foram se for-


m ando aos poucos os assim cham ados “t e x t o s l o c a i s ” do NT. Congregações
recém -fundadas numa grande cidade ou nas suas proximidades, fosse Alexandria,
Antioquia, Constantinopla, Cartago ou Roma, recebiam cópias das Escrituras na
forma que era utilizada naquela região. À medida que se faziam m ais cópias, o
número de leituras especiais e variantes era preservado e, até certo ponto, aumen-
tado, de m odo que no final do processo havia surgido um tipo de texto que era
típico daquela localidade. Hoje é possível identificar o tipo de texto preservado em
manuscritos do NT pela comparação entre suas leituras características e as citações
dessas passagens nos escritos dos Pais da Igreja que atuaram naqueles importantes
centros eclesiásticos ou nas im ediações dos m esm os.
Às vezes, porém, um texto local tendia a se tornar m enos distinto, pois se mistu-
rava com outros tipos de texto. Por exemplo, um manuscrito do Evangelho de Mar-
cos, copiado em Alexandria, no Egito, pode ter sido levado mais tarde para Roma.
Esse manuscrito acabaria influenciando, até certo ponto, os escribas que copiavam
a forma do texto de Marcos que, àquele tempo, estava sendo utilizado em Roma.
Entretanto, em termos gerais, durante os primeiros séculos a tendência de se criar e
preservar um tipo de texto específico era mais forte do que a tendência no sentido
de criar uma mistura de tipos de texto. Assim, surgiram vários tipos distintos de
texto do NT.

T ipos de te x to

Através de um cuidadoso exam e de centenas de manuscritos e m ilhares de erros


de cópia, os críticos de texto desenvolveram critérios para selecionar os manuscri-
tos e grupos de manuscritos que são mais confiáveis, reconhecendo que todos os
manuscritos têm alguns erros. A maioria dos manuscritos pode ser classificada em
três grupos ou t i p o s d e t e x t o . Alguns manuscritos têm tanta concordância no que
diz respeito ao texto que são designados de f a m í li a s . Por exem plo, a Família 1 é
feita de mais ou m enos m eia dúzia de manuscritos intim am ente relacionados, e a
Família 13 consiste em mais de doze manuscritos que têm vinculação estreita. Mui-
tas vezes, esses manuscritos são listados no aparato crítico sob o símbolo coletivo f 1
e f 13. Os críticos de texto usam a designação técnica v a r i a n t e s t e x t u a i s para se
referirem a diferentes leituras que ocorrem no m esm o lugar em determ inado versí-
culo bíblico. Quando certos m anuscritos concordam de forma consistente, tendo a
m esm a variante ou forma textual em determinada u n i d a d e d e v a r ia ç ã o , isto é,
um lugar onde os manuscritos apresentam duas ou m ais variantes textuais, diz-se
que esses manuscritos pertencem ao m esm o tipo de texto.
INTRODUÇÃO xxi

Convém notar que alguns manuscritos têm um tipo de texto em uma parte ou
seção do NT, e outro tipo de texto em outra parte. Por exem plo, o Códice Alexan-
drino (A 02) representa o tipo de texto bizantino nos Evangelhos, mas um tipo de
texto alexandrino no restante do NT. No livro T h e T e x t o f th e N e w T e s ta m e n t , de K.
e B. Aland, pp. 1 5 9 1 6 2 ‫־‬, aparece uma tabela bastante prática, que agrupa os ma-
nuscritos por século e tipo de texto. Também Daniel Wallace, na p. 311 do capítulo
“The Majority Text Theory: History, M ethods, and Critique‫״‬, traz uma tabela muito
útil, que classifica os manuscritos gregos por século e tipo de texto. Veja tam bém a
seção V, abaixo, “Listas de Testemunhos Segundo o Tipo de Texto‫״‬
Os m ais importantes tipos de texto são os seguintes:

T exto a le x a n d r in o

Westcott e Hort, críticos de texto británicos que viveram no século dezenove, deno‫־‬
minaram esse texto de te x to n eu tro . Embora na maioria das vezes, hoje, seja chamado
de texto alexandrino, por vezes também é chamado de “texto B”. Geralmente é consi-
derado o melhor texto e aquele que, de forma mais fiel, preserva o original. A carac-
terística do texto alexandrino é o uso de poucas palavras desnecessárias. Isto significa
que, em geral, é um texto mais curto, se comparado com os outros tipos de texto, e
um texto que não revela o mesmo grau de polimento gramatical e estilístico que ca-
racteriza o tipo de texto bizantino. Até recentemente os dois principais representantes
do texto alexandrino eram o Códice Vaticano (B 03) e o Códice Sinaítico (01 ‫)א‬, dois
manuscritos de pergaminho copiados por volta da metade do quarto século. Entretan-
to, com a descoberta e publicação, em meados da década de 1950, dos p a p ir o s d e
B od m er (^66 72 73 74 75^ em eSpecial de Vp66 e p 75, que foram produzidos por volta do
final do segundo século ou começo do terceiro, existe agora evidência que indica que
o tipo de texto alexandrino remonta ao começo do segundo século. As versões saídica
e boaírica, em língua copta (que aparecem, no aparato crítico, sob os símbolos copsa e
copbo), também trazem, com frequência, leituras tipicamente alexandrinas.

T exto o c id e n ta l

O fato de eruditos terem reconhecido, inicialm ente, que essa forma de texto foi
usada na parte ocidental do mundo cristão fez com que essa forma de texto recebes-
se o nom e de “ocidental‫( ״‬por vezes chamado tam bém de “texto D”). Mas esse tipo
de texto se encontra também na igreja que usava a língua siríaca, no Oriente, bem
como no Egito. Ele remonta ao segundo século e foi amplamente utilizado na Itália
e na Gália, bem como no Norte da África e em outros lugares. Esse tipo de texto foi
usado por Marcião, Taciano, Irineu, Tertuliano e Cipriano. Sua presença no Egito
é confirmada pelo testem unho de $p38 (aproximadamente 300 d.C.) e de ^p48 (mais
xxü VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

ou m enos o final do terceiro século). Os mais importantes manuscritos gregos que


apresentam um tipo de texto “ocidental” são o Códice de Beza (D 05), do quinto
século (que contém os Evangelhos e Atos), o Códice Claromontano (D 06), do sexto
século (que contém as epístolas paulinas), e, no caso de Mc 1.1— 5.30, o Códice Wa-
shingtoniano (W 032), do quinto século. Além disso, as versões latinas antigas são
im portantes testem unhos do tipo de texto ocidental. Essas versões latinas antigas
(cujos manuscritos são citados, no aparato crítico, pelo símbolo coletivo i t [que re-
presenta o latim íta la ] seguido de sím bolos em sobrescrito que identificam manus-
critos individuais) constituem três grupos principais: africano, italiano e hispânico.
Embora os críticos de texto muitas vezes em preguem a expressão “texto ocidental”,
convém notar que muitos pensam que, diante do fato de os testem unhos do texto
ocidental terem uma relação m enos estreita no que diz respeito às suas leituras,
esse texto ocidental não forma um tipo de texto exatam ente igual ao que se tem em
m ente quando se fala dos tipos de texto alexandrino e bizantino.
A principal característica do texto ocidental é o gosto pela paráfrase. Com relati-
va liberdade, esse texto altera, om ite ou insere palavras, locuções e até frases intei-
ras. As vezes a m otivação parece ter sido a de harmonizar textos, ao passo que em
outros m om entos parece ter sido o desejo de ampliar a narrativa, incluindo material
tradicional ou apócrifo. Algum as leituras têm a ver com mudanças bem pequenas,
para as quais não se encontra uma razão especial. Um dos aspectos enigm áticos do
texto ocidental (que, em geral, é mais longo do que os outros tipos de texto) é que,
no final de Lucas e em algum as outras passagens do NT, alguns testem unhos oci-
dentais om item palavras e versículos que se encontram em outras formas de texto,
até m esm o no tipo de texto alexandrino. No final do século dezenove, alguns erudi-
tos tendiam a considerar essas leituras mais breves como originais. Entretanto, com
a descoberta dos papiros de Bodmer, muitos hoje tendem a ver essas leituras mais
breves como algo excêntrico no texto ocidental e, portanto, não originais.
No livro de Atos, o texto ocidental levanta questões bastante difíceis de respon-
der. Neste livro, o texto ocidental é aproximadamente dez por cento mais longo do
que a forma de texto que norm alm ente é considerada o texto original daquele livro
(para uma discussão a respeito do texto ocidental em Atos, veja a “Introdução a
Atos”, no início das notas relativas a esse livro, mais adiante nesta obra).
Para maiores detalhes a respeito do texto ocidental, veja Epp, “Western Text”; e
Petzer, “The History of the New Testament Text”, pp. 18-25.

U m a fo r m a de te x to o rie n ta l

Esta forma de texto, que, no passado, era conhecida como texto cesa reen se , está
representada, em maior ou menor escala, em vários manuscritos gregos (incluindo
Θ, 565, 700) e nas versões armênia e geórgica (citadas, no aparato crítico, sob o
INTRODUÇÃO xxiii

símbolos coletivos arm e geo). Esse tipo de texto é por vezes cham ado de “texto C”
e se caracteriza por uma mistura de leituras ocidentais e alexandrinas. Por mais
que, na pesquisa recente, se tenha questionado a existência de um tipo de texto
específicam ente cesareense, perm anece o fato de que cada um dos manuscritos
que, anteriormente, eram considerados membros desse grupo ainda é, por si só, um
importante testem unho textual.
Outro tipo de texto oriental, conhecido em Antioquia e seus arredores, foi pre-
servado principalmente em testem unhos siríacos antigos, a saber, nos manuscritos
sinaíticos e curetonianos dos Evangelhos (citados, no aparato crítico, como sir5 e
sir0) e nas citações bíblicas que aparecem nos escritos de Afraates e Efraim, líderes
da igreja síria no quarto século.

T exto b iz a n tin o

Esta forma de texto já recebeu, entre outras, as seguintes designações: “texto


s ír io ”, “texto c o in é ”, “te x to ec le siá stic o ”, “te x to a n tio q u e n o ”, e “texto m a j o r i t á r i o Por
vezes é chamado de “texto A”, porque o Códice Alexandrino é, nos Evangelhos (e só
ali), o mais antigo representante desse texto. Em termos gerais, este é o mais recen-
te dos vários tipos de texto do NT e se caracteriza por sua tendência de ser completo
e apresentar clareza de estilo. Os editores desse texto trataram de elim inar toda e
qualquer aspereza de linguagem , combinar duas ou mais leituras variantes para
formar um texto expandido (um processo cham ado de c o n f la ç ã o ) , bem como
fazer com que o texto de passagens paralelas concordasse entre si (um processo co-
nhecido com o harmonização). Esse tipo de texto está representado, hoje, no Códice
Alexandrino (A 02, nos Evangelhos; no restante do NT, este manuscrito representa
outro tipo de texto), nos manuscritos unciais copiados m ais recentem ente, e na
grande m assa dos manuscritos cursivos ou m inúsculos. No aparato crítico, esses
manuscritos m inúsculos são citados coletivam ente através do símbolo B iz.
Essa forma de texto, criada possivelm ente em Antioquia da Síria, foi levada
para Constantinopla e, dali, foi distribuída em larga escala por todo o Império
Bizantino. Mais ou m enos oitenta por cento dos manuscritos m inúsculos e quase
todos os lecionários trazem um tipo de texto bizantino. Assim sendo, no período
que vai m ais ou m enos do sexto ou sétim o século até à invenção da prensa de tipo
m óvel (1450-1456 d.C.), o tipo de texto bizantino foi, em geral, visto como a forma
de texto que tinha autoridade e que, portanto, foi am plam ente difundida e aceita. A
única exceção talvez tenha sido um ou outro manuscrito que preservou uma forma
de texto m ais antiga.
Em torno do ano 2 0 0 d.C., manuscritos latinos eram utilizados na parte ociden-
tal do Império Romano; manuscritos coptas, no Egito; e manuscritos em siríaco, na
Síria. O grego ainda era usado principalmente na parte oriental do Império Romano.
XXIV VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Na verdade, existem hoje mais de 8 mil manuscritos da Vulgata latina, um número


bem maior do que o conjunto de todos os manuscritos gregos que se conhece. No
final do século sete, o NT era lido em grego apenas numa área bem restrita da Igre-
ja, a Igreja Ortodoxa Grega, cujo patriarcado de maior destaque ficava na cidade
de Constantinopla. A forma de texto grego usada ali era o tipo de texto bizantino.
A rigor, mais ou m enos noventa por cento dos manuscritos que se conhece hoje
e que preservam um tipo de texto bizantino foram copiados depois que o uso do
grego na Igreja ficou restrito a Bizâncio (Constantinopla). Em outras regiões, onde
anteriormente se lia o NT em grego, agora se usava um Novo Testamento traduzido
para uma das línguas locais. Ppr exemplo, no Egito os manuscritos gregos com um
tipo de texto alexandrino foram aos poucos sendo substituídos por traduções para
diferentes dialetos da língua copta. Quando foi inventada a imprensa, no tempo de
Gutenberg, a única forma do texto do NT que ainda se usava era o texto bizantino.
Este últim o aspecto precisa ser bem enfatizado. Alguns eruditos de nossos dias,
baseados no fato de que os manuscritos gregos com um tipo de texto bizantino su-
peram em muito o número de manuscritos que têm um tipo de texto alexandrino,
ainda argum entam que 0 tipo de texto bizantino deve estar mais próximo dos escri-
tos originais do NT.11 A tese é a seguinte: Deus não teria permitido que as leituras
corretas fossem preservadas num tipo de texto (o alexandrino) que tem m enos ma-
nuscritos gregos do que outro tipo de texto (o bizantino). Essa argum entação ignora
as condições históricas que fizeram com que, na maior parte do Império Romano, o
grego fosse substituído por línguas locais.
Com a invenção da prensa de tipo m óvel, que fez com que a produção de livros
passasse a ser um processo m ais rápido e barato em relação à produção de cópias
manuscritas, o texto padrão do NT em edições impressas passou a ser o texto bizan-
tino, de qualidade inferior. Essa situação, até certo ponto lam entável, não é de todo
surpreendente, um a vez que os manuscritos gregos do NT que os primeiros editores
e impressores tinham à mão eram manuscritos que continham o corrompido texto
bizantino.

E dições im p re ssa s do N o v o T e sta m e n to Grego

A primeira edição impressa do Novo Testamento Grego, lançada em Basiléia no


ano de 1516, foi preparada por Desidério Erasmo, um erudito hum anista holandês.
Como não encontrava nenhum manuscrito que tivesse o NT em sua íntegra, Eras-
mo valeu-se de vários manuscritos para as diferentes seções ou divisões do NT. Na

11 Para uma breve argumentação a favor do texto bizantino, feita recentemente, veja Maurice A. Robin-
son, “The Case for Byzantine Priority”, em Rethinking New Testament Textual Criticism (ed. David Alan
Black; Grand Rapids: Baker, 2002), p. 125139‫־‬. Neste mesmo livro aparece uma convincente resposta à
argumentação de Robinson; veja Moisés Silva, “Response”, p. 141150‫־‬.
INTRODUÇÃO XXV

maior parte do seu texto, baseou-se em dois manuscritos de qualidade inferior,


copiados por volta do século doze, um para os Evangelhos e outro para Atos e as
Epístolas. Erasmo comparou esses manuscritos com dois ou três outros manuscritos
e, aqui e ali, inseriu, na cópia encam inhada ao impressor, correções nas margens
ou entre as linhas de texto.
Para o Apocalipse, Erasmo dispunha de um só manuscrito, datado do século
doze, que lhe foi emprestado por um amigo. Acontece que esse manuscrito não tinha
a última folha, onde haviam sido copiados os últim os seis versículos do Apocalipse.
Para esses versículos, Erasmo se baseou na Vulgata latina de Jerónimo, traduzindo
o texto latino para o grego. Como seria de se esperar no caso de um procedim ento
desses, em vários mom entos a reconstrução que Erasmo fez desses versículos inclui
algum as leituras que nunca foram encontradas em nenhum manuscrito grego, mas
que ainda hoje são reproduzidas em edições do assim chamado “T e x tu s R e c e p tu s ”
do Novo Testamento Grego. Em outras partes do NT, ocasionalm ente Erasmo tam-
bém introduzia em seu texto grego material tirado da Vulgata latina, na forma em
que era conhecida naquele tempo. O irônico é que a Vulgata latina, que havia sido
traduzida onze séculos antes de Erasmo, por vezes tem um texto bem próximo do
original, pois é uma tradução que foi feita a partir de m elhores manuscritos gregos.
A primeira edição do Novo Testamento Grego de Erasmo teve tanta aceitação
que logo estava esgotada, tornando necessária uma segunda edição. Essa segunda
edição, de 1519, na qual alguns (mas nem de perto a totalidade) dos muitos erros
tipográficos da primeira edição haviam sido corrigidos, foi utilizada por Martinho
Lutero e por W illiam Tyndale, quando estes fizeram as suas traduções do NT para
o alem ão, em 1522 (Lutero), e para o inglês, em 1525 (Tyndale).
Nos anos que se seguiram, muitos outros editores e impressores publicaram uma
variedade de edições do Novo Testamento em grego. Todas elas reproduziam, em
maior ou menor escala, o m esm o tipo de texto, isto é, aquele que foi preservado nos
manuscritos bizantinos, de produção mais recente. Mesmo quando um editor tinha
acesso a manuscritos mais antigos, fazia pouco ou nenhum uso dos m esm os, pois
estes eram por demais diferentes da forma de texto que havia sido padronizada nas
cópias mais recentes.
Entre as mais antigas edições do NT Grego estão duas de Robert Etienne (mais
conhecido como Robert Stephanus, que é a forma latinizada do nome dele). Trata-se
de um impressor parisiense que, mais tarde, se mudou para Genebra e se associou
aos protestantes daquela cidade. Em 1550, Stephanus publicou, em Paris, sua tercei-
ra edição. Este foi o primeiro NT Grego impresso que trazia um aparato crítico, ou
seja, uma lista de leituras variantes encontradas em diferentes manuscritos. Na mar-
gem interna das páginas dessa edição, Stephanus anotou leituras variantes encon-
tradas em catorze manuscritos gregos, bem como leituras que apareciam em outra
edição impressa, a Poliglota Complutense (publicada na Espanha em 15 2 1 1 5 2 2 ‫)־‬. A
xxvi VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

quarta edição de Stephanus (Genebra, 1551), que, além do texto grego, contém duas
versões latinas (a Vulgata e uma tradução de Erasmo), se destaca porque nela, pela
primeira vez, o texto do NT aparece dividido em versículos numerados.
Teodoro Beza, am igo e sucessor de Calvino em Genebra, chegou a publicar nove
edições do NT Grego, entre 1565 e 1604; uma décim a edição apareceu em 1611,
após a morte dele. A obra de Beza é im portante na medida em que as suas edições
ajudaram a popularizar e padronizar o texto que veio a ser denom inado de te x tu s
r e c e p tu s (que, muitas vezes, é cham ado sim plesm ente de TR). Os tradutores da
Bíblia inglesa King James, de 1611, fizeram bastante uso das edições de Beza, pu-
blicadas em 1588-1589 e 1598.
A expressão te x tu s re c e p tu s (“texto recebido”), aplicada ao texto do NT, se ori-
ginou a partir de um a formulação usada pelos irmãos Boaventura e Abraão Elzevir,
impressores da cidade de Leiden. No prefácio à segunda edição do NT Grego que
os irmãos Elzevir publicaram em 1633 aparece a seguinte afirmação latina: Tex-
tu rn ergo h a b es, n u n c a b o m n ib u s re c e p tu m , in q u o n ih il im m u ta tu m a u t c o r r u p tu m
d a m u s (“Portanto, tens [,am ado leitor,] o texto que agora é recebido por todos, no
qual não apresentam os nada que tenha sido mudado ou corrompido”). Num certo
sentido, esta afirmação, que revela certa dose de orgulho, até se justificava, pois
aquela edição era, em grande parte, idêntica às mais ou m enos 160 outras edições
do NT Grego impresso que haviam sido publicadas desde a primeira edição feita
por Erasmo, em 1516. Muitas vezes, em escritos m enos técnicos, as expressões “tex-
to bizantino” e líte x tu s re c e p tu s ” aparecem como se fossem sinônim as. Entretanto,
é preciso levar em conta que existem aproximadamente 1500 diferenças entre a
maioria das edições do te x tu s re c e p tu s e a forma de texto bizantina.
A forma de texto bizantina, reproduzida em todas as primeiras edições impres-
sas do NT Grego, foi sendo descaracterizada, ao longo dos séculos, pela inclusão de
num erosas alterações feitas por copistas. Muitas dessas alterações não têm maior
significado ou importância, mas algum as fazem significativa diferença. Mas foi
essa forma de texto bizantina, corrompida, diga-se de passagem , que serviu de base
para quase todas as traduções do NT em línguas modernas, até o século dezenove.
Durante o século dezoito, eruditos reuniram uma grande gama de informações
extraídas de muitos manuscritos gregos, bem como das versões antigas e de fontes
patrísticas. Mas, exceção feita a umas três ou quatro edições que, de forma tímida,
corrigiram alguns dos erros mais evidentes do te x tu s recep tu s, foi esta forma cor-
rompida do NT que foi sendo reimpressa em sucessivas edições.
Muitos eruditos que viveram nesse período poderíam ser citados, mas um deles
m erece destaque especial. Trata-se de Johann A. Bengel (1687-1752).12 Foi Bengel
quem com eçou a prática de agrupar os manuscritos em fam ílias a partir das leituras

12 Veja William Baird, History of New Testament Research. Volume One: From Deism to Tubingen (Min-
neapolis: Fortress, 1992), p. 69-74.
INTRODUÇÃO xxvi i

ou variantes que aparecem neles. Ele também elaborou critérios para avaliar as lei-
turas variantes, incluindo o princípio de que a leitura m ais difícil tem mais chances
de ser o original. Bengel, que imprimiu o te x tu s re c e p tu s, foi também o primeiro a
inserir, na margem, uma avaliação das variantes textuais: a indicava a leitura que
ele considerava original; β, uma leitura que era considerada melhor do que aquela
no texto; γ, uma leitura tão boa quanto aquela do texto; ô, uma leitura de valor infe-
rior àquela no texto; e ε, uma leitura sem valor nenhum. A obra de Bengel permitiu
aos eruditos “pesar” o valor dos manuscritos que apoiam determinada leitura, em
vez de sim plesm ente fazer a contagem dos manuscritos.
Foi som ente na primeira metade do século dezenove (em 1831) que o alemão
Karl Lachmann, um estudioso dos clássicos, decidiu aplicar ao NT os critérios que
ele havia adotado na edição de textos clássicos, isto é, da literatura da antiga Grécia
e da antiga R om a.13 Posteriormente, apareceram outras edições críticas, incluindo
as de Constantin von Tischendorf, cuja oitava edição (1869-1872) continua sendo
uma importante fonte de variantes textu ais.14 A influente edição de B.F. W estcott e
F.J.A. Hort, dois eruditos de Cambridge, foi publicada em 18 8 1 .15 Foi ela que serviu
de ponto de partida para as edições das Sociedades Bíblicas Unidas e desta edição
da Sociedade Bíblica do Brasil. Durante o século vinte, com a descoberta de vários
manuscritos do NT que eram muito mais antigos do qualquer um dos outros que
se conhecia até então, foi possível fazer edições do NT que se aproximam cada vez
mais daquilo que se considera como o texto dos docum entos originais.
No século vinte, tanto eruditos da Igreja Católica Romana (Vogeis, Bover e
Merk) quanto eruditos protestantes editaram Novos Testamentos em grego. Du-
rante a primeira metade do século vinte, as sete edições mais utilizadas foram as
editadas pelos seguintes eruditos:

(1) Tischendorf, 1841, 8a ed., 18692) ;1872‫ )־‬Westcott-Hort, 1881; (3) von So-
den, 1902-1913; (4) Vogels, 1920; 4a ed., 1955; (5) Bover, 1943; 6a ed., 1981; (6)
Nestle (‫־‬Aland), 1898; 27a ed., 1993; e (7 ) Merk, 1933; 11a ed., 1992.

Uma comparação entre essas sete edições mostra que as de von Soden, Vogeis,
Merk e Bover concordam com o texto de tipo bizantino mais vezes do que as edições
de Tischendorf, Westcott-Hort e Nestle-Aland, que se aproximam m ais dos manus-
critos que constituem o texto alexandrino. Entretanto, apesar dessas diferenças,
‫״‬essas sete edições do Novo Testamento Grego estão em total concordância... em
mais ou m enos dois terços do texto do Novo Testamento, sendo que as únicas dife-
renças se devem a detalhes de caráter ortográfico (ou de grafia)”. 16
13 Veja Baird, History of New Testament Research. Volume One, p. 319322‫־‬.
14 Veja Baird, History of New Testament Research. Volume One, p. 322-328.
15 Veja William Baird, History of New Testament Research. Volume Two: From Jonathan Edwards to Ru-
dolf Bultmann (Minneapolis: Augsburg Fortress, 2003), p. 60-65.
1 6 Kurt e Barbara Aland, The Text of the New Testament (ed. rev.; Grand Rapids: Eerdmans, 1989), p. 29.
xxviii VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Um pequeno grupo de eruditos continua a defender a ideia de que o texto bi-


zantino está m ais próximo dos escritos originais. Z.C. Hodges e A.L. Farstad, que
rejeitam os m étodos e as conclusões de W estcott e Hort, editaram, em 1982, “O Novo
Testamento Grego segundo o Texto Majoritário” ( T h e G reek N e w T e sta m e n t A c co rd in g
to th e M a jo r ity T ext), um texto baseado na tradição de texto bizantina. A maioria dos
manuscritos dessa tradição são manuscritos cursivos copiados no período que vai do
século onze ao século quinze e que correspondem aos manuscritos que Kurt e Bar-
bara Aland, em T h e T e x t o f th e N e w T e s ta m e n t [O T exto do N o vo T esta m en to ] (edição
revisada, pp. 159-162), denominam de Categoria v. Na maior parte do Novo Testamen-
to, essa edição de Hodges e Farstad apresenta, em cada página, umas três ou quatro
diferenças em relação ao texto publicado em O N o v o T e sta m e n to Grego (edição SBB).
No Apocalipse, o número de diferenças por página é maior ain d a.7‫“ נ‬O Novo Testa-
m ento Grego segundo o Texto Majoritário” (edição de Hodges e Farstad) traz dois
aparatos críticos: o primeiro aponta para diferenças entre os próprios manuscritos
bizantinos; o segundo registra as diferenças entre o texto majoritário impresso por
Hodges e Farstad e o texto impresso na vigésim a sexta edição de Nestle-Aland e na
terceira edição do T he G reek N e w T e s ta m e n t (o texto das Sociedades Bíblicas Unidas).
A maioria dos estudiosos do Novo Testamento discorda dos pressupostos e da
m etodologia adotada por Hodges e Farstad.*18 Portanto, Kurt e Barbara Aland têm
razão quando afirmam que “de certa forma pode-se pressupor que todos os que
hoje em dia trabalham com o Novo Testamento Grego estão usando ou uma cópia
do T he G reek N e w T e s ta m e n t das Sociedades Bíblicas Unidas em sua terceira edição
(GNT3, 1975 [a quarta edição saiu em 1993]), ou a vigésim a sexta edição do N o v u m
T e s ta m e n tu m G raece de Nestle-Aland (NA26, 1979 [a 2 7 a edição saiu em 1993])”. 19
Entretanto, como observou Raymond Brown, o texto que aparece em todas as
edições impressas do Novo Testamento Grego consiste em leituras tiradas de di-
ferentes manuscritos. Isto significa que o texto das edições críticas “nunca existiu
como uma unidade no mundo antigo... Disso decorre que, por mais que os livros
do NT sejam canônicos, nenhum texto grego em particular deveria ser canonizado;
e o m áxim o que se pode reivindicar para uma edição crítica do NT Grego é que ela
goza de aceitação entre os eruditos”.20

1 7 Segundo Daniel B. Wallace, existem cerca de 6.500 diferenças textuais entre o texto grego editado
por Hodges e Farstad e o texto da vigésima sétima edição de Nestle-Aland (“The Textual Basis of New
Testament Translations”, in The Evangelical Parallel New Testament [ed. John R. Kohlenberger III; Nova
Iorque/Oxford: Oxford University Press, 2003], p. xxiv).
18 Veja a resenha sobre The Greek New Testament according to the Majority Text escrita por J.K. Elliott e
publicada em The Bible Translator 34 (July 1983), p. 340-344.
1 9 Kurt e Barbara Aland, The Text of the New Testament ( I a edição inglesa, 1987), p. 218. Em 1959, Kurt
Aland fundou o Instituto para a Pesquisa Textual do Novo Testamento, em Münster, na Alemanha. Este
instituto está publicando uma edição crítica maior do Novo Testamento, que se chama Editio Critica
Maior. Até a presente data, foram publicados volumes avulsos de Tiago (1999), l-2Pedro (2000), IJoão
(2003), e 2-3João e Judas (2005).
INTRODUÇÃO xxix

Para m ais detalhes a respeito de m odernas ed ições críticas do Novo Testa-


m ento Grego, veja o capítulo 18 (pp. 2 8 3-296) em Ehrman e H olm es (editores),
T h e T e x t o f th e N e w T e s ta m e n t in C o n te m p o r a r y R e se a rc h .

IV. C r itério s a d o t a d o s para escolher en tr e leitu r a s c o n flitan tes


EM TESTEMUNHOS DO N 0 V 0 TESTAMENTO

Na seção anterior, o leitor terá notado com o, durante m ais ou m en os catorze


sécu los, quando o NT foi transm itido através de cópias feitas à m ão, um gran-
de núm ero de m od ificações e acréscim os foram introdu zidos no texto. Hoje
tem os m ais ou m enos cinco m il m anuscritos gregos que contém um a parte ou
todo o NT, mas não existem dois m anuscritos que concordem exatam en te em
todos os d etalh es. C onfrontados com um a pluralidade de leituras divergentes,
os editores precisam decidir o que m erece ser incluído no tex to e o que pre-
cisa ser colocado no aparato crítico. Embora, à prim eira v ista , p ossa parecer
um a m issão quase im possível escolh er o texto consid erado origin al do m eio de
tantas varian tes tex tu a is, os eru d itos elaboraram algu n s critérios de avaliação
que são geralm en te aceitos e que facilitam e sse p rocesso de seleçã o . Como será
possível notar, essas con sid erações depend em de probabilidades e, às v e ze s, o
crítico de texto precisa optar entre dois conjuntos de probabilidades. Por m ais
que os critérios que serão apresentados a segu ir form em um esqu em a m ais ou
m enos ordenado, sua aplicação nunca poderá ser feita de m aneira m ecânica ou
im pensada. D evido ao âm bito e à com p lexidad e dos fatos tex tu a is, é im possí-
vel aplicar uma série de regras bem ordenadas com rigor m atem ático e num a
ordem fixa. Cada um a das variantes precisa ser considerada in d ivid u alm en te,
e não pode ser avaliada sim plesm ente a partir de um a regra p ré-estab elecid a.
O leitor deve dar-se conta de que a lista de critérios que será apresentada a
seguir é apenas um a descrição das consid erações m ais im portantes que foram
levadas em conta pela com issão editorial do T h e G reek N e w T e s ta m e n t (e, por
ex ten são , de O N o v o T e s ta m e n to G reg o , edição SBB) quando da escolh a entre
leituras variantes. 20

20 Brown, An Introduction to the New Testament, p. 52. Esse assunto, todavia, pode ser encarado de um
ponto de vista diferente. Segundo Epp, cada um dos mais de 5.300 manuscritos do NT Grego e dos 9.000
manuscritos de versões, dos quais não existem dois que sejam exatamente idênticos, “foram considerados
como tendo autoridade — e, portanto, vistos como sendo canônicos — e usados no culto e nas atividades
de instrução de uma ou mais das milhares de igrejas espalhadas pelo mundo” (“Issues in the Interrelation
of New Testament Textual Criticism and Cânon”, in The Canon Debate [ed. Lee Martin McDonald e James
A. Sanders; Peabody, Mass: Hendrickson, 2002], p. 514). Elliott disse algo semelhante: “os eruditos estão
cada vez mais se dando conta de que cada um dos manuscritos do Novo Testamento era a Escritura cano-
nica, utilizada e vivida por aqueles que possuíam aquela cópia — até mesmo leituras que não têm paralelo
ou que, segundo a erudição moderna, são consideradas secundárias, eram o texto bíblico daqueles cris-
tãos” (“The Case for Thoroughgoing Eclecticism”, in Rethinking New Testament Textual Cnticism , p. 124).
XXX VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Entre os critérios para a avaliação de leituras variantes, a mais importante é


a regra de que se deve “escolher a leitura que m elhor explica a origem das outras
leituras”21 (veja, por exem plo, ITs 3.2). As principais categorias ou tipos de critérios
e considerações que ajudam a avaliar o valor relativo de variantes textuais são os
que têm a ver com
e v id ê n c ia e x te r n a , isto é, com os m anuscritos em si, e com
e v id ê n c ia in te r n a , isto é, com dois tipos de considerações, a saber:
(A) aquelas que dizem respeito a p r o b a b ilid a d e s d e tr a n sc r iç ã o
(isto é, que têm a ver com hábitos de cópia dos escribas) e
(B) aquelas que dizem respeito a p r o b a b ilid a d e s in tr ín s e c a s
(isto é, que estão relacionadas com o estilo do autor).22

E v id ê n c ia e x te r n a , e n v o lv e n d o co n sid e ra çõ es q u e tê m a v e r com :

A . A id a d e e o c a r á te r dos te ste m u n h o s: Em geral, manuscritos mais antigos têm


m ais chances de estarem livres dos erros que resultam de sucessivas cópias. Entre-
tanto, mais im portante do que a idade do manuscrito em si é a data e o caráter do
tipo de texto que ele representa, bem com o o cuidado revelado pelo copista quando
produziu o manuscrito. Por exem plo, embora os manuscritos cursivos 33 e 1739
tenham sido copiados no século nono e décim o respectivam ente, ambos preservam
um tipo de texto alexandrino nas cartas paulinas.
B. A d istr ib u iç ã o g eo g rá fica dos te s te m u n h o s q u e a p o ia m a v a r ia n te : Quando,
por exem plo, manuscritos de Antioquia (na Síria), Alexandria (no Egito), e da Gá-
lia (que corresponde à França e Bélgica de nossos dias) concordam em seu apoio
a determ inada leitura, este fato, deixando de lado considerações de outra ordem,
é m ais significativo do que o testem unho de manuscritos que representam apenas
um centro de produção e distribuição de textos. Entretanto, é preciso ter certeza de
que manuscritos que estão geograficam ente afastados não tenham , de fato, nenhu-
ma dependência entre si. Por exemplo, a concordância entre testem unhos latinos
antigos (Ita la ) e siríacos antigos pode ser resultante do fato de que todos foram
influenciados pelo Diatessarão de Taciano. (Veja “Diatessarão”, pp. xxxiv e xxxv, na
Introdução a O N o vo T e sta m e n to Grego).
C. O r e la c io n a m e n to g e n e a ló g ic o e n tr e te x to s e f a m í l i a s de m a n u s c r ito s : O
sim ples núm ero de m anuscritos que apoiam determ inada variante não prova
necessariam en te a superioridade daquele texto. Por exem plo, se o texto “a” tem
o apoio de vin te m anuscritos e o texto “b”, o apoio de um só m anuscrito, a re­

21 Bruce M. Metzger, The Text of the New Testament (3a ed.; Oxford: Oxford University Press, 1992), p. 207.
2 2 Para um apanhado geral de estudos mais recentes nesta área, especialmente no que diz respeito ao
argumento de que a leitura mais breve é a melhor, veja Epp, “Issues in New Testament Textual Criticism”,
p. 20-34.
INTRODUÇÃO xxx i

lativa vantagem num érica da variante “a” ficaria anulada, caso se descobrisse
que todos aqueles vin te m anuscritos são cópias de um m esm o m anuscrito cujo
copista criou aquela variante “a”. Num caso assim , é preciso comparar aquele
um m anuscrito que tem a leitura “b” com o ancestral com um aos vin te m anus-
critos que têm a variante “a”.
D. M a n u s c r ito s d e v e m s e r p e sa d o s, n ã o co n ta d o s: Em outras palavras, o princí-
pio enunciado no parágrafo anterior precisa de uma form ulação m ais completa.
Em passagens onde é fácil identificar o texto ou a leitura original, percebe-se que,
em geral, alguns m anuscritos são dignos de confiança. Esses são os m anuscritos
aos quais deve-se dar maior peso ou valor na hora de resolver problemas textuais
que envolvem am biguidade ou cuja solução é incerta ou complicada. Ao m esm o
tem po, no entanto, visto que o peso relativo dos diferentes tipos de evidência
não é sempre o m esm o, nunca se pode fazer uma mera avaliação m ecânica da
evidência textual.

E v id ê n c ia in te r n a , lig a d a a dois tip o s de p ro b a b ilid a d e :

A . P ro b a b ilid a d e s d e tra n sc riç ã o dependem de considerações relacionadas com


os hábitos dos copistas e com a maneira como as letras eram escritas nos manus-
critos.
(1) Em geral, deve-se preferir a leitura mais difícil, especialm ente se, numa
leitura superficial, o texto parece não fazer sentido, mas, após um exam e mais
cuidadoso, revela que é de fato o texto correto. (Neste caso, “mais difícil” significa
“mais difícil para o copista”, que seria tentado a alterar o texto. A maioria das mo-
dificações feitas pelos copistas se caracteriza por sua superficialidade. E claro que,
às vezes, se chega num ponto em que a leitura, de tão difícil que á, não pode ser
original, mas deve ter surgido com o resultado de um erro do copista.)
(2) Em geral, deve-se preferir a leitura mais breve, exceção feita a casos em que

(a) pode ter havido erro de observação resultante de “hom eoarcton” ou ho-
m eoteleuto (ou seja, em que o copista, diante de palavras que têm a
m esma sequência de letras no com eço ou no final, passou da primeira
para a segunda e om itiu o texto que ficava entre as duas); ou em que

(b) o copista pode ter om itido material que ele considerou desnecessário,
ofensivo ou contrário à piedade, ao uso litúrgico ou à prática da ascese.
(3) Visto que copistas tinham a tendência de harmonizar passagens paralelas
que apresentavam pequenas diferenças entre si, sempre que se trata de passagens
paralelas (seja citações do AT ou diferentes relatos do m esmo acontecim ento ou
narrativa nos Evangelhos) deve-se, como regra geral, preferir a leitura que preserva
as diferenças verbais e não aquela que faz com que os relatos concordem entre si.
xxxii VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

(4) Às vezes, os copistas tratavam de


(a) substituir uma palavra rara por um sinônimo mais familiar ou conhecido;
(b) alterar uma forma gramatical m enos refinada ou uma formulação m e‫־‬
nos elegante, adaptando-as aos padrões do grego ático ou do estilo ati-
cista;23 ou
(c) acrescentar pronomes, conjunções, etc., para produzir um texto mais fluente.
B. P ro b a b ilid a d e s in tr ín s e c a s dependem de considerações daquilo que o autor, e
não o copista, provavelmente teria escrito. O crítico de texto leva em consideração:
(1) Em geral:
(a) O estilo e o vocabulário do autor em todo 0 livro;
(b) O contexto imediato; e
(c) concordância com o uso linguístico do autor em outros textos;
(2) Nos Evangelhos:
(a) o pano de fundo aramaico do ensino de Jesus;
(b) a prioridade do Evangelho segundo Marcos (ou seja, que Marcos foi es-
crito primeiro e que Mateus e Lucas tiveram acesso ao texto de Marcos
quando escreveram os seus Evangelhos); e
(c) a influência da comunidade cristã sobre a fraseologia e a transm issão do
texto em questão.

É claro que nem todos esses critérios serão usados em cada caso. O crítico de
texto precisa saber quando convém dar maior atenção a um critério e m enos valor
a outro. Uma vez que a crítica textual é tanto ciência quanto arte, é inevitável que,
em alguns casos, diferentes especialistas façam diferentes avaliações do significado
da evidência textual. Essa divergência é praticamente inevitável quando, em casos
bem concretos, a situação é tão indefinida que, por exem plo, o texto mais difícil
aparece som ente em manuscritos mais recentes, que, em geral, são m enos confiá-
veis, ou o texto m ais longo se encontra apenas em manuscritos mais antigos, que,
de m odo geral, são mais confiáveis.

V . L istas de t e s t e m u n h o s s e g u n d o o t ipo de tex to

Uma lista bastante útil de testem unhos segundo o tipo de texto se encontra em
U m C o m e n ta r io T e x tu a l a l N u e v o T e sta m e n to G riego , de Bruce M. Metzger, pp. 15-16.
Igualm ente valiosa é a lista organizada por século e categoria que aparece em K. e
B. Aland, T h e T e x t o f th e N e w T e s ta m e n t , pp. 159-162.

23 Em 1963, George D. Kilpatrick, um crítico de texto britânico, apresentou a sugestão de que, durante o
segundo século, escribas com uma boa formação linguística tinham a tendência de alterar o grego coiné
e, sob a influência de gramáticos neoaticistas, adaptaram esse grego ao estilo do grego ático. Para uma
extensa relação de artigos escritos por Kilpatrick e J.K. Elliott, bem como argumentos contrários ao ponto
de vista deles, veja Epp, “Issues in New Testament Textual Criticism”, p. 2 5 2 7 ‫־‬.
INTRODUÇÃO xxxiii

V L R efer ên cia s a traduções m odernas

Nas notas sobre as variantes textuais que aparecem neste livro são citadas vá-
rias traduções m odernas, em geral traduções portuguesas. Isto foi feito unicam ente
para fins ilustrativos, e não deve ser interpretado como indício de que uma tra-
dução seja melhor do que a outra ou que se está recom endando a decisão textual
de determ inada tradução quando a m esma é m encionada ou citada no contexto
de um a variante textual. Recomenda-se aos tradutores que sigam as leituras que
fazem parte do texto; mas quando uma tradução moderna como NBJ ou outra opta
pela variante, esta tradução é mencionada ou citada, em alguns casos, para que
tradutores de outras línguas possam entender melhor as diferenças entre a leitura
escolhida como texto e uma ou mais variantes que aparecem no aparato crítico.
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AB Anchor Bible
AD Apostoliki Diakonia (isto é, a edição do Novo Testamento de B. Anto-
niadis, 1988)
ANTC Abingdon N ew Testament Commentaries
ARA Almeida Revista e Atualizada
ARC Almeida Revista e Corrigida
BDAG Bauer, W., F.W. Danker, W.F. Arndt, e F.W. Gingrich. G reek-E n g lish Le-
x ic o n o f th e N e w T e s ta m e n t a n d O th e r E a r ly C h r is tia n L ite ra tu re . 3a ed.
Chicago: University of Chicago Press, 2000.
BECNT Baker Exegetical Commentary on the N ew Testament
BN A Boa Nova — Bíblia Sagrada: Tradução em Português Corrente
BNTC Black’s N ew Testament Commentary
CEV Contemporary English Version
CNBB Bíblia Sagrada — Tradução da CNBB
ESV English Standard Version
FC Tradução francesa em linguagem de hoje (La B ib le e n F ra n ça is Cou-
r a n t)
GNB Tradução alem ã em linguagem de hoje (G ute N a c h r ic h t B ib e l )
Goodspeed The Bible: An American Translation
HCSB Holman Christian Standard Bible
HNTC Harper’s N ew Testament Commentaries
ICC International Critical Commentary
KJV King James Version
LXX A Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento)
Merk Novum Testamentum Graece et Latine
Moffatt The Moffatt Translation of the Bible
NAB New American Bible
NBJ Nova Bíblia de Jerusalém
NCB New Clarendon Bible
NICNT N ew International Commentary on the N ew Testament
NIGTC N ew International Greek Testament Commentary
NJB N ew Jerusalem Bible
NIV N ew International Version
NVI Nova Versão Internacional
NLT N ew Living Translation
NRSV N ew Revised Standard Version
REB Revised English Bible
RSV Revised Standard Version
xl VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Seg Segond (tradução em francês)


SP Sacra Pagina
TEV Today’s English Version
TILH Tradução italiana em linguagem de hoje (Parola del Signore: La Bibbia
Traduzione Interconfessionale in Lingua Corrente)
TNIV Today’s N ew International Version
TEB Tradução Ecumênica da Bíblia
TR Textus Receptus
UBS T h e G reek N e w T e s ta m e n t (edição das Sociedades Bíblicas Unidas)
VP Tradução espanhola em linguagem de hoje (Dios Habla Hoy, Versión
Popular)
WBC Word Biblical Commentary
WH Westcott-HortMc
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
Para uma breve, porém informativa, discussão sobre o texto de Mateus, veja
Boring, “The Gospel o f M atthew”, p. 91.

1.7 8 ‫ ־‬Χσάφ, Xσάφ (Asafe, Asafe) {B}

Os nom es que aparecem na genealogia, do v. 6b ao v. 11, são tirados de ICr


3.5,10-17. Segundo ICr 3.10 (também IRs 15.9-24), o nom e do reí era Asa. No en-
tanto, está claro que a forma mais antiga de texto preservada nos manuscritos do
NT é “Asafe” (assim na FC). Isto porque manuscritos de diferentes fam ilias e tipos
de texto têm o m esm o texto, a saber, “Asafe” Além da evidência dos manuscritos,
há que considerar o seguinte: é bastante provável que os copistas se deram conta
de que “Asafe” era o nom e de um salm ista (confira os títulos de SI 50; 73— 83),
levando-os a alterar o nome para “Asa”, rei de Judá. Manuscritos mais recentes,
bem como o te x tu s recep tu s, têm Χσά (Asa) (veja tam bém a nota sobre o v. 10).
Alguns intérpretes entendem que é muito pouco provável que o autor desse
Evangelho tenha anotado essa lista de nom es sem consultar os nom es dos reis no
AT. Assim, pensam que o nome “Asafe” deve ser um antigo erro de cópia, feito por
um copista que colocou o nome “Asafe” em lugar de “Asa”. Mas é possível que o es-
critor do Evangelho tenha usado uma lista genealógica na qual já constava esse erro
de escrita. Em traduções m odernas, o nome “Asa” aparece em RSV, REB, NVI, NBJ,
TEB, ARC, ARA, CNBB, NTLH, BN e Seg. NTLH optou pelo nom e “Asa”, porque
segue o princípio de consistência entre o Antigo e Novo Testamento, quando se faz
referência à m esma pessoa. Tradutores que seguem esse m esm o princípio colocarão
no texto da língua receptora o nom e de “Asa”, m esm o que aceitem como original o
texto que traz o nome de Xoáqp.

1.10 Αμώς, Αμώς (Amós, Amós) {B}

O apoio textual para “A m ós” é praticam ente o m esm o que existe para “Asa-
fe”, nos vs. 7-8. Com base n esse m aciço apoio de m anuscritos, “A m ós” tem tudo
para ser o texto original. No entanto, “A m ós” é um erro, aparecendo em lugar de
“Am om ”, o nom e do rei de Judá. Em ICr 3.14, a m aioria dos m anuscritos gregos
traz o nom e correto: Χ μώ ν ou Άμμώ ν, embora Α μώ ς apareça em alguns poucos
m anuscritos. No relato sobre o rei Amom, em 2Rs 21.18-19,23-25; 2Cr 33.20-25 ,
vários m anuscritos gregos têm a forma incorreta, Αμώ ς. Assim , embora o texto
(hebraico) m assorético tenha sempre o nome “Amom”, nos manuscritos da Septua-
ginta existe uma alternância entre os nom es “Am om ” e “A m ós”.
S e g u n d o D a v ie s e A llis o n (A C r i t i c a l a n d E x e g e tic a l C o m m e n t a r y o n
th e G o s p e l A c c o r d i n g to S a i n t M a t t h e w , v o l. I, p. 1 7 7 ), o n om e A m ós “p o d e
2 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

representar um a corrupção tex tu a l presen te na fonte usada por M ateus ou na


tradição tex tu a l p osterior a M ateus. Ou, talvez, M ateus sim p lesm en te com eteu
um erro. N este caso, p od eria ser algo in ten cio n a l, um a m od ificação que tem
por objetivo inserir um e lem en to profético — da m esm a form a com o a altera-
ção de Asa para A safe p od eria dar a en ten d er um in teresse na esp eran ça do
sa lm ista ”.
Algum as traduções m odernas têm “Am os” (RSV, NRSV, NAB); outras, “Amom”
(REB, NVI, NBJ, TEB, FC, Seg, ARC, ARA, CNBB, NTLH, BN). NTLH optou pelo
nom e “Amom”, porque segue o princípio de consistência entre o Antigo e o Novo
Testamento, quando se faz referência à m esma pessoa. Tradutores que seguem esse
m esm o princípio colocarão no texto da língua receptora o nome de “Amom”, mesmo
que aceitem como original o texto que traz o nom e de Αμώς.

1.11 έγέννησεν (gerou [ou, foi pai de]) {A}

Segundo o texto, Josias foi pai de Jeconias (isto é, Joaquim). Mas, na verda-
de, Josias foi pai de Jeoaquim e avô de Jeconias. Para fazer com que o texto de
Mateus concorde com a genealogia de ICr 3.15-16, diversos manuscritos uncíais
mais recentes, bem como vários outros docum entos acrescentaram as palavras xòv
Ίωακίμ, Ίωακίμ όέ έγέννησεν (Joaquim, e Joaquim foi pai de). Embora não se
possa excluir a possibilidade de um copista ter, acidentalm ente, om itido essas pala-
vras, o testem unho dos manuscritos favorece o texto m ais breve. Além disso, caso
se acrescentar o nom e Ίωακίμ, o número de gerações desde o tem po de Davi até o
exílio sobe para quinze, em vez de ficar em catorze.

1.16 τον ανόρα Μ αρίας, έξ ής έγεννήθη ,Ιησούς ό λεγόμενος Χ ριστός


(ο marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se cham a Cristo) {A}

Existem três variantes principais: (1) “E Jacó gerou José, o marido de Maria,
da qual nasceu Jesus, que se cham a Cristo”; (2) “e Jacó gerou José, de quem sendo
noiva a virgem Maria deu à luz Jesus, que se chama Cristo”, e (3) “Jacó gerou José;
José, de quem Maria, a virgem , era noiva gerou Jesus, que é cham ado de Cristo”.
Das traduções m odernas, apenas a de Moffatt segue a terceira opção: “Jacó, o pai
de José, e José (de quem a virgem Maria era noiva), o pai de Jesus, que é cham ado
de ‘Cristo”’.
A prim eira opção tem um grande apoio dos m anuscritos. A segunda opção tal-
vez tenha surgido porque um copista pensou que a locução “o marido de Maria”
poderia levar o leitor a pensar, erroneam ente, que os pais hum anos ou físicos de
Jesus eram Maria e o marido dela, José. Diante disso, o texto foi alterado para
“sendo noiva”, em concordância com o verbo μνηστεύεσθαι (ser noivo), no v. 18.
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 3

Quanto à opção três, aparece unicam ente num m anuscrito siríaco do quarto sé-
culo. Provavelm ente é resultado do fato de um copista ter, sem m aior cuidado,
seguido o padrão típico que aparece nas genealogias, em que os nom es são repe-
tidos.

1 .1 8 Ιη σού Χ ρίστου (de Jesus Cristo) {B}

A grande maioria dos manuscritos traz “Jesus Cristo”. Outras variantes são: (1)
“Cristo Jesus”; (2) “Jesus”; e (3) “Cristo”. É difícil decidir qual é o texto original. De
um lado, os manuscritos dão um expressivo apoio à leitura “Jesus Cristo”. Por outro
lado, no NT não é muito comum que o artigo definido του apareça diante do nom e
“Jesus Cristo”, 0 que parece sugerir que “Jesus Cristo” não é o texto original. Além
do mais, os copistas muitas vezes ampliavam os nom es “Jesus” e “Cristo”, acrescen-
tando outras palavras. Aqui, entretanto, a leitura “Cristo”, em alguns manuscritos,
pode ter surgido por influência das palavras έως τού Χ ριστού (até Cristo), no v. 17.
E a leitura “Jesus” pode ter surgido por influência do v. 21, onde diz: “lhe porás o
nome de Jesus”.
Caso os tradutores queiram seguir um a das leituras que traz o nome Χ ριστού,
precisarão decidir se esse termo é usado, neste texto, como um nome próprio ou
um título. A presença do artigo definido τού, combinada com a ênfase de Mateus
sobre Jesus com o o Filho de Davi, faz com que alguns intérpretes entendam que,
neste caso, Χ ριστού faz a vez de um título. Confira a tradução da NRSV: “Ora, o
nascim ento de Jesus, o M essias, foi assim ”.

1.18 γένεσις (nascimento) {B}

Tanto γενεσις quanto a leitura variante γέννησις significam “nascim ento”, mas
γένεσις pode tam bém significar “criação”, “geração”, e “genealogia” (confira o v. 1).
A palavra γέννησις significa “geração” ou “nascim ento”, e veio a ser a palavra que,
em escritos cristãos posteriores, foi usada para designar a Natividade. É fácil de
entender por que os copistas fizeram confusão entre essas duas palavras, pois são
sem elhantes na escrita e na pronúncia.
Aqui, no v. 18, m anuscritos antigos de vários tipos de texto apoiam a leitura
que aparece com o texto em O N o v o T e s ta m e n to G rego. Além disso, a tendência
dos copistas teria sido colocar a palavra γέννη σ ις, com seu sentido m ais espe-
cializado, em lugar de γένεσ ις, que havia sido em pregada em outro sentido, de
“gen ealogia” (ou “relato do nascim ento”), no v. 1. Uma vez que, neste versículo,
γένεσ ις deveria ser traduzido por “nascim ento” (diferentem ente do que acontece
no v. 1), tanto γένεσ ις com o γέννη σ ις terão, neste caso, tradução idêntica na
língua alvo.
4 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

1.25 υ ιό ν (um filho) {A}

O te x tu s r e c e p tu s , seguindo vários m anuscritos uncíais e a maioria dos mi-


núsculos, insere o artigo τόν diante de υ ιό ν e acrescenta a locução αυτής τον
πρω τότοκον (seu filho prim ogênito), que foi extraída de Lc 2.7.

2.4 S e g m e n ta ç ã o

Caso se fizer uma pausa depois do pronom e αυτών, as quatro palavras seguin-
tes podem ser grafadas com o uma pergunta, a exem plo do que ocorre em TEV:
"... e perguntaram a eles: Onde vai nascer o M essias”?

2.18 κλαυθμός (choro) {B}

A leitura m ais longa, θρήνος καί κλαυθμός (uma canção de lam entação e
choro), parece ser o acréscim o de um copista, cuja finalidade é fazer com que as
palavras se aproxim em m ais do texto grego da Septuaginta em Jr 38.15 (que, no
texto hebraico, é Jr 31.15). O texto m ais longo está no te x tu s re c e p tu s e aparece na
tradução da King Jam es Version e tam bém em ARC: “lam entação, choro e grande
pranto”.

3.16 [αύτώ] ([para ele]) {C}

A leitura sem o pronom e αύτώ tem o apoio com binado de m anuscritos gre-
gos, versões antigas e Pais da Igreja, sendo, tam bém , adotada por RSV, NVI,
REB, NBJ, TEB, Seg, NTLH, BN, CNBB. Por outro lado, é possível que o prono-
me ten ha estad o no texto, mas foi om itido por copistas que pensaram que era
supérfluo. O pronom e αύτώ tanto pode enfatizar que apenas Jesus teve essa
visão, com o pod e enfatizar que a visão foi para o b en efício d ele. Para indicar
in certeza quanto ao caráter origin al d esse pronom e, ele aparece, no texto, en-
tre colch etes.

3.16 [καί] ερχόμ ενον ([e] vindo) {C}

A leitura que tem a conjunção καί é apoiada por diversos grupos ou tipos de
texto e, em razão disso, é colocada no texto. Mas, uma vez que καί não aparece
em m anuscritos antigos do tipo de texto alexandrino e do tipo de texto ocidental,
talvez não seja original. Para indicar essa incerteza, καί aparece entre colchetes.
O sentido é o m esm o, independentem ente da leitura adotada. Trata-se de uma
sim ples diferença de estilo.
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 5

4.10 ύπαγε (Vai em bora) {A}

Se as p alav ras ό π ία ω μου (p a ra trá s de m im ) tivessem estad o o rig in alm en te no


texto, fica difícil e n co n trar u m a ju stificativ a plausível p a ra a sua om issão. Por o u tro
lado, se não constavam no texto original, é bem possível que foram acrescen tad as
p o r copistas que lem b raram as p alav ras que Jesus disse a Pedro, em Mt 16.23:
ύ πα γε ό π ίσ ω μου. Σ α τα νά (Vai p a ra trá s de m im , Satanás).

4.17 μετανοείτε, ήγγικεν γάρ (arrependei-vos, pois está próxim o) {A}

As p alav ras μετανοείτε (arrependei-vos) e γά ρ (pois) não ap arecem em um a


versão siríaca a n tig a e em um m an u scrito da A ntiga L atina. É possível que essas
p alav ras não fizessem p a rte do original, m as foram acrescen tad as p o r influência
de u m a form ulação sem elh an te em M t 3.2. E n tretan to , os m an u scrito s gregos, bem
com o a u n a n im id a d e das dem ais versões a n tig as e dos Pais d a Igreja indicam que o
tex to m ais longo tem tudo p a ra ser o original.

5 . 4 5 ‫ ־‬μ α κ ά ρ ιο ι,... πα ρα κλη θή σ οντα ι. (5) μ α κά ρ ιοι ... την γην.


(B em -aventurados ... serão consolados. [5] B em -aventurados ... a terra.) {B}

Se, originalm ente, o v. 5 tivesse vindo logo após o v. 3, estabelecendo um contras-


te en tre céu (v. 3) e te rra (v. 5), é pouco provável que um copista teria colocado o v. 4
en tre essas duas bem -aventuranças. Por outro lado, já no segundo século d.C. alguns
copistas in verteram a ordem das bem -aventuranças nos vs. 4-5, p a ra criar o contraste
entre céu e te rra e p ara colocar lado a lado os π τω χο ί (pobres) e os π ρ α εΐς (m ansos).
Das traduções m odernas, a NJB, a TEB, e a NBJ invertem a ordem dos vs. 4-5.

5.11 [ψευόόμενοι] ([m entindo]) {C}

E difícil decidir se o participio ψ ευόόμ ενοι faz p a rte do tex to ou não. De um


lado, se fosse orig inal, a ausência desse participio n a trad içã o ocidental p o d eria ser
explicada com o u m a alteração in ten cio n al dos copistas, p a ra fazer o texto concor-
d a r com a b e m -av en tu ran ça em Lc 6.22. Por o u tro lado, se o participio não fosse
orig in al, os copistas teriam sido ten tad o s a in serir ψ ευδόμ ενοι, p a ra re strin g ir um
pouco o alcance g en eralizad o das palav ras de Jesus, e p a ra d eix ar explícito o que
e ra visto com o im plícito no texto (confira lP e 4.15-16), a saber, que os cristãos não
são b em -av en tu rad o s q u an d o as pessoas têm bons m otivos p a ra falarem m al deles.
M orris (The Gospel According to M atthew , p. 102, n.36) com enta que ψ ευόόμ ενοι
fica im plícito, “pois o que o inim igo dissesse não seria, de fato, m au, caso fosse
v e rd a d eiro ”. P ara in d icar que não se sabe ao certo se copistas a c resce n tara m ou
6 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

o m itiram o participio, o m esm o foi incluído e n tre colchetes. REB, Seg, NTLH e BN
ad o ta m o tex to m ais breve.

5.22 α υτού (dele/seu) {B}

E pouco provável que copistas te n h a m om itido a p alav ra είκή (sem motivo),


após αυτού, caso tivesse estad o no texto original. Por m ais que a leitu ra com είκή
te n h a am p la d istrib u ição geográfica e seja e n co n trad a a p a rtir do segundo século, é
m uito m ais provável que copistas te n h a m acrescen tad o essa p alav ra, p a ra a b ra n d a r
o rigor daquilo que Jesus está exigindo.

5.32 και ος εάν ά πολελυμ ένη ν γαμήση, μοιχ&ται (e qu alq u er que c asar
com u m a m u lh er rep u d ia d a divorciada, com ete adultério) {B}

O tex to que ap arece no m an u scrito B (o ... γαμήσας [aquele que c asar ...]) pare-
ce te r sido in tro d u zid o em lu g ar do texto aceito com o orig in al p a ra fazer com que o
m esm o se ap roxim asse da co n stru ção g ram atical que ap arece no início do versículo,
a saber, ό ά π ο λ ΰ ω ν (aquele que re p u d ia r ...). O fato de καί ος εάν άπολελυμ ένη ν
γαμήση, μ ο ιχά τα ι não ap arec e r em alg u n s m an u scrito s pode ser explicado com o
om issão d e lib era d a de copistas que ju lg a ra m esse texto supérfluo ou desnecessário.
Em o u tras palavras, se “todo aquele que m a n d a r a sua esposa em bora, a não ser
em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se ad ú ltera [quando ela casar
de novo]”, e n tã o é óbvio que “q u alq u er u m que c a sa r com u m a m u lh er divorciada
[tam bém ] com ete a d u ltério ”.
A d iferen ça e n tre ος εάν γαμήση e ό γαμήσας é, b asicam ente, um a d iferen ça
de estilo, e não de significado (H agner, M atthew 1-13, p. 122, n.b.). Na tradução ,
in d ep e n d en tem e n te do texto que se adote, é preciso levar em conta a g ram ática e
o estilo na lín g u a alvo.

5.44 ά γα π α τε το ύ ς εχθρ ο ύ ς υ μ ώ ν καί προσεύχεσ θε υ π έρ τω ν όιω κόντιον υμάς


(am ai os vossos inim igos e orai p o r aqueles que vos perseguem ) {A}

M anuscritos copiados em d a ta m ais recente am pliam o texto, in serin d o expres-


sões tira d a s do relato p aralelo em Lc 6.27-28. Se expressões com o “bendizei os
que vos am ald içoam , fazei o bem aos que vos o d eiam ” tivessem estado, original-
m ente, no tex to do S erm ão do M onte em M ateus, ficaria m uito difícil explicar por
que foram om itidos em antigos m an u scrito s das trad içõ es a le x an d rin a, ociden tal e
egípcia. Esses acréscim os ap arecem em d iferen tes lugares nos vários m anuscritos
gregos e a form u lação não é sem pre a m esm a, 0 que sugere que se tra ta de acrésci-
mos po sterio res feitos p o r copistas.
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 7

5.47 εθνικοί (g en tio s/p ag ão s) {Β}

Em m an u scrito s m ais recentes, bem com o no textus receptus, a p ala v ra τελώ να ι


(cobradores de im postos) parece te r sido colocada no lu g ar de εθνικοί, p a ra fazer
com que o tex to se aproxim e m ais do que é dito no v. 46. A versão a rm ê n ia ju n ta o
term o τελώ να ι à form a do texto que ap arece em Lc 6.32-34, re su lta n d o τελ ώ να ι καί
οί α μ α ρ τω λ ο ί (cobradores de im postos e pecadores).

6.4 σοι (te /a ti) {B}

A locução εν τώ (f ανερώ (em público) não ap arece nos m an u scrito s m ais antigos
dos tipos de tex to a lex an d rin o , o cid en tal e egípcio. Tudo indica que se tra ta de um
acréscim o feito pelos copistas, com a fin alid ad e de c ria r um paralelism o com a 10-
cução anterior, έν τώ κρύπτω (em secreto). E n tretan to , o que se q uer e n fa tiz a r nes-
se tex to não é ta n to o c a rá te r público d a recom pensa do Pai, m as sua superioridad e
em relação a um a sim ples aprovação h u m a n a (confira os vs. 6,18).

6.6 σοι (te /a ti) {B}

Veja a n o ta referen te ao v. 4.

6.8 ό π α τή ρ υ μ ώ ν (o vosso Pai) {A}

O tex to m ais longo ό θεός ό π α τή ρ υμ ώ ν (D eus, vosso Pai) não ocorre em ne-
n h u m a o u tra passagem em M ateus, e é um acréscim o que reflete a ju stap o sição de
“D eus” e “Pai” nas cartas de Paulo. A form a ό π α τή ρ υμ ώ ν ό ο υ ρ ά ν ιο ς (vosso Pai
celeste), que se e n co n tra em alg u n s m an u scrito s m ais recentes, é, com certeza, um
acréscim o que tem p o r objetivo fazer com que o texto concorde com a form ulação
e n co n trad a nos vs. 9,14. A o corrência do pronom e de p rim e ira pessoa ημώ ν (nosso)
em vários m anuscritos se deve a um e rro de copista, pois, a p a rtir de certo m om en-
to, não se fazia m ais d istinção de pro n ú n cia e n tre as vogais gregas η e υ. FC tem
“Deus, vosso Pai”, m as não fica claro se isso se deve a u m a decisão de ordem tex tu al
ou é ap en as d eco rrên cia dos princípios de trad u ç ão adotados pela com issão.

6.13 π ο νη ρ ο ύ , (do M aligno/do m al.) {A}

Segundo o testem unho de im portantes e antigos m anuscritos alexandrinos, oci-


dentais, etc., bem como de com entários sobre o Pai-Nosso escritos por Pais da Igreja
antiga, o Pai-Nosso term in a com a palavra π ονη ρ ού (v. 13). Para a d a p ta r essa oração
ao uso litúrgico na Igreja antiga, copistas acrescentaram vários finais diferentes, com
8 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

destaque p ara os seguintes: (a) “pois teu é o reino, e o poder, e a glória p a ra sem pre.
Am ém ”; (b) “pois teu é o reino e a glória p a ra sem pre. A m ém ”; e (c) “pois teu é o
reino e o p o der e a glória do Pai e do Filho e do Espírito Santo p a ra sem pre. Am ém ”.

6.15 άνθροοποις (aos hom ens) {C}

Em m uitos m anuscritos, após a palavra ά ν θ ρ ώ π ο ις aparecem as palavras τά


π α ρ α π τώ μ α τα α υτώ ν (as ofensas deles), de sorte que resulta o seguinte texto: “per-
doardes aos hom ens as ofensas deles”. Essas palavras podem ser originais, m as fo-
ram om itidas por copistas que as ju lg a ram desnecessárias, já que ocorrem no v. 14.
Ou, τα π α ρ α π τώ μ α τα α υ τώ ν pode te r sido acrescentado por copistas, p a ra criar um
certo equilíbrio com o v. 14a. No Evangelho de M arcos, copistas acrescentaram um
versículo após Me 11.25, sob a influência desta passagem em M ateus; e, visto que as
p alavras τα π α ρ α π τώ μ α τα α υτώ ν não aparecem nesse acréscim o em M arcos, pro-
vavelm ente tam b ém não são originais em M ateus. Por m ais que se deveria a d o ta r o
texto breve, talvez seja necessário, em algum as traduções, explicitar o conteúdo de
τα π α ρ α π τώ μ α τα αυτών. No caso da NIV, não está claro se houve opção pelo texto
m ais longo ou se as palavras “os pecados deles” (their sins) foram incluídas por razões
ligadas a princípios de tradução.

6.18 σοι (te /a ti) {A}

Veja a n o ta referen te ao v. 4.

6.25 [ή τί πίητε] ([ou o que bebereis]) {C}

De um lado, a leitura que não traz as palavras η τί πίητε pode ser original e essas
p alav ras po d em te r sido acrescentadas p a ra fazer com que o texto concorde com o v.
31. TEB, NBJ, e Seg adotam o texto m ais breve. Por outro lado, essas palavras podem
ser originais, tendo sido om itidas acidentalm ente por um copista cujo olhar passou do
final do verbo φάγητε (comereis) p ara o final do verbo πίητε. Uma vez que existe equi-
líbrio, ou seja, am bas as leituras têm expressivo apoio, as palavras foram colocadas,
no texto, en tre colchetes, para indicar que se tem dúvidas quanto à sua originalidade.

6.28 α ύ ξά νο υ σ ιν ου κοπιώ σ ιν ουδέ νήθουσιν


(crescem ; não tra b a lh a m nem fiam ) {B}

A leitu ra o riginal do Códice Sinaítico (‫ )א‬p arece ser “eles não card am (lã), nem
fiam , nem tra b a lh a m ”. (“C ardar lã” é p e n te a r ou d e sen re d ar a lã com um a car-
da.) A lguns in térp retes p en sam que este é o texto original, m as tu d o indica que se
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 9

tra ta de um erro de copista (a colocação de ξένουσ ιν [= ξαινουσιν] em lugar de


αύξάνουσιν), que foi quase que im ed iatam en te corrigido. A lguns outros m anuscritos
invertem a ordem dos verbos “tra b a lh a r” e “fiar”.
E n tretan to , na m aioria dos m anuscritos, a diferença m ais sensível é en tre form as
do sin g u lar e do plural, no caso dos verbos “crescer”, “tra b a lh a r” e “fiar”. Os verbos
do texto estão no plural. O substantivo κρίνα (flores, em bora a trad u ção tradicional
seja “lírios”) é um n eu tro plural, e form as de neu tro plural, em grego, vêm acom pa-
n h a d as de verbos no singular. Assim, as form as de sin g u lar parecem ser um a corre-
ção por razões de n a tu re z a gram atical. T rata-se de um a diferença de estilo, não de
significado. Em razão disso, os trad u to res terão que u sa r a form a verbal apropriada
na lín gu a alvo.

6.33 την βα σ ιλείαν [τού θεόν] καί την δ ικ α ιο σ ύ ν η ν α ύτού


(ο rein o [de Deus] e a ju stiça dele) {C}

A lguns m anuscritos têm “o reino de Deus e a sua ju stiça”, ou “o reino dos céus
(των ουρανώ ν) e sua ju stiç a ”. O utros, “o reino e a sua ju stiça”. A leitu ra m ais breve,
“o reino e a sua ju stiç a ”, é a que m elhor explica o surgim ento das varian tes, pois os
copistas teriam a tendência de acrescen tar “de D eus” ou “dos céus”, e é pouco prová-
vel que om itiríam essas palavras, caso estivessem no texto original. E ntretan to , Ma-
teus rara m en te se refere ao “rein o ” sem qualificá-lo. Logo, a ausência de u m a quali-
ficação com o “de D eus” ou “dos céus” em vários m anuscritos pode ser resu lta n te de
u m a om issão acidental (veja Davies e Allison, A C ritic a l a n d E x eg e tic a l C o m m e n ta r y
on th e G o sp el A c c o r d in g to S a in t M a tth e w , vol. I, p. 660, n.25). P ara indicar que exis-
tem dúvidas qu anto ao texto original, as palavras τού θεού estão e n tre colchetes.
M esmo que, por razões de n a tu re z a crítico-textual, se prefira o texto m ais curto,
ain d a assim os trad u to res podem seg u ir o exem plo de NBJ, BN e NTLH e explicitar
que “o reino” é “o reino de D eus” ou, então, que se tra ta do “seu rein o ” (NJB e NIV).

7.11 S e g m e n ta ç ã o

Este versículo pode ser trad u zid o com o u m a exclam ação (a exem plo do que
o corre em m uitas trad u çõ es m odernas), com o u m a afirm ação (TEB, seguindo a
p o n tu ação de O N o v o T e s ta m e n to G reg o ), ou com o u m a p e rg u n ta (retórica). Veja
tam b ém Lc 11.13.

7.13 π λ α τεία ή πύλη (larg a [é] a p orta) {B}

As p alavras ή πύλη (a porta), no v. 13, não aparecem em vários m anuscritos e Pais


da Igreja. NBJ, seguindo a variante, trad u z por “entrai pela p o rta estreita, porque
10 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

largo e espaçoso é o cam inho que conduz à perdição” É possível que ή πύλη não seja
original, tend o sido introduzido no texto p a ra com pletar o paralelism o com o v. 14.
Mas a evidência externa que apoia o texto m ais longo é im pressionante. Provável-
m ente, as palavras ή πύλη, nos vs. 13-14, foram om itidas por alguns copistas que não
se d eram conta de que a im agem que se tem em v ista é a de u m a e strad a que leva
p ara um portão.

7.14 τι (como!) {B}

O pronom e interro g ativ o τι tem am plo apoio de m anuscritos. M uitas vezes é tra-
duzido por “q u a l”? ou “o quê”?, m as, neste caso, re p re se n ta a exclam ação sem ítica
‫“( מ ה‬com o!”). No e n tan to , copistas, não com p reen d en d o esse uso pouco com um ,
su b stitu íra m xí pela conjunção òxi (p orque/pois), que aparece no v. 13. A Bíblia da
CNBB exp ressa o sentido exclam ativo desse pronom e: “Como é e streita a p o rta e
a p e rta d o o cam in h o ...!”

7.14 ή πύλη (a p o rta) {A}

Veja o co m en tário sobre o v. 13.

7.24 όμοκοθήσεται (será to rn ad o igual a) {B}

A v a ria n te te x tu a l tem pouca im p o rtân cia p a ra a trad u ção , pois a d iferen ça é


m ais de estilo do que de significado. A form a do fu tu ro passivo tem o apoio de bons
m an u scrito s de d iferen tes tipos de texto. E provável que copistas se lem b rara m da
form a desse dito de Jesus em Lc 6.47 (“eu vos m ostrarei a quem é sem elh an te”) e tro-
c aram o fu tu ro passivo p e la p rim e ira pessoa do sin g u lar do fu tu ro ativo, ομ ο ιώ σ ω
α υ τό ν (vou com pará-lo).

8.7 Segmentação

A resp o sta de Jesu s ao c en tu riã o pode ser in te rp re ta d a com o u m a afirm ação


(“eu irei cu rá-lo”), a exem plo de O Novo Testam ento Grego e a m aio ria das trad u-
ções m o d ern as. Visto com o afirm ação, o que Jesus disse e ra u m a prom essa de que
ele iria c u ra r o servo daquele hom em . M as a resp o sta de Jesu s tam b ém pode ser
p o n tu a d a com o u m a p e rg u n ta , em que o pronom e έγο) (eu) é enfático. TEB, por
exem plo, trad u z: “Irei eu curá-lo?” Como p e rg u n ta , as p alav ras de Jesu s são, ou um
desejo positivo de ajudar, ou u m a expressão de leve c o n tra rie d a d e ou resistência ao
p ed id o feito p o r um gentio. Seria sem elh an te ao que acontece n a h istó ria d a m u lh er
siro-fenícia (1 5 .2 1 2 8 ‫)־‬.
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 11

8.10 π α ρ ' ούόενί τοσ α ύτην π ίσ τ ιν έν τ φ 'Ισραήλ εΰρον


(em [ju n to a] n in g u ém em Israel ta l fé eu en co n trei) {B}

A v a ria n te te x tu a l ουδέ έν τ φ 'Ισραήλ τοσ α ύτην π ίσ τιν εΰρον (nem m esm o em


Israel en co n trei tal fé) é m ais cla ra e m ais fácil do que a leitu ra que ap arece com o
tex to em O Novo Testamento Grego. A v a ria n te p arece u m a ten tativ a de m elh o rar
o estilo e fazer com que o tex to concorde com a form ulação no p aralelo em Lc 7.9.
A om issão de έν τφ 'Ισραήλ (em Israel), em alg u n s poucos m anuscritos, provável-
m en te se deve a falta de cuidado n a h o ra de copiar. A RSV e a Bíblia de A lm eida
trad u z em a v aria n te (“nem m esm o em Israel achei fé com o e sta ”). Já a NRSV e a
Bíblia da CNBB trad u z em o que aparece com o texto em O Novo Testamento Grego:
“em n in g u ém em Israel en co n trei ta n ta fé”. A d iferen ça de significado é m ínim a,
pois “ta n ta fé” sub en ten d e as p alav ras “em n in g u ém ”.

8.18 ο /λ ο ν (um a m ultidão) {C}

A leitu ra que ap arece com o texto tem pouco apoio de m anuscritos, m as as lei-
tu ra s “u m a g ran d e m u ltid ão ” (CNBB), “m u ltid õ es” e “g ran d es m u ltid õ es” (NRSV,
TEB, NBJ) podem todas ser explicadas com o acréscim os feitos por copistas, p a ra
e n fa tiz a r o ta m a n h o da m ultidão que estava ao red o r de Jesus.

8.21 τώ ν μαθητώ ν [α υ το ΰ ] (dos discípulos [dele]) {C}

O peso dos m an u scrito s sugere, de form a enfática, que se om ita o pronom e


αυτοί). No e n tan to , neste caso, tu d o indica que o pronom e seja original e que foi
om itido por copistas, p a ra que os leitores não fossem induzidos a p e n sa r que o es-
criba m encionado no v. 19 era um dos discípulos de Jesus. Como existem argum en-
tos p a ra os dois lados, o pronom e α ΰτου aparece en tre colchetes, p a ra in d icar que
se tem dúvidas q u an to ao texto original. Visto que esse discípulo é, com certeza, um
discípulo de Jesus, o tra d u to r pode explicitar isso, m esm o que aceite com o original
o tex to m ais breve, sem o pronom e. Em alg u m as línguas, não h á com o não explici-
ta r ou incluir o pronom e possessivo n a tradução.

8.25 πρ ο σ ελθ ό ντες (indo e le s/a p ro x im a n d o ‫־‬se eles) {B}

A leitu ra que ap arece com o tex to em O Novo Testamento Grego tem o apoio de
m an u scrito s do tipo de texto alex an d rin o e do tipo de texto ocidental. As leitu ras
m ais longas (“aproxim ando-se os discípulos”, “aproxim ando-se os seus discípulos”,
“ap rox im an d o-se dele os seus discípulos”) são acréscim os posteriores que expli-
citam o que o texto quer dizer. O significado é sem pre o m esm o no caso de todas
12 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

essas v arian tes. Na trad u ção , talvez seja necessário, d ad a a característica d a língua,
ex p licitar o sujeito do particip io προσ ελθόντες.

8.25 σώ σον (salva) {B}

O im perativo σώ σον não tem objeto d ireto especificado. Um a vez que o verbo
“sa lv ar” ra ra m e n te ap arece no NT sem um objeto, o pronom e ήμάς (“no s”) passou,
desde cedo, a ser acrescentado ao texto, n u m a g ran d e v aried ad e de m anuscritos.
Se esse p ronom e fosse original, dificilm ente teria sido om itido. Na h ora de trad u zir,
em m uitas líng u as será b a sta n te n a tu ra l acresce n tar o pronom e “no s”.

8.28 Γ αδαρηνώ ν (dos gadarenos) {C}

A c u ra dos e n d em o n in h ad o s é re la ta d a nos três Evangelhos Sinópticos, e em


cada relato existem trê s v a ria n te s prin cipais relativas ao lu g ar onde o correu o mi-
lagre: Γαδαρηνώ ν, Γ ερασηνώ ν (dos gerasenos), e Γεργεσηνώ ν (dos gergasenos). A
leitu ra que tem m aior apoio de m anuscritos, aqui em M ateus, é Γαδαρηνώ ν. Gada-
ra e ra u m a cidade que ficava un s oito quilôm etros a sudeste do lago d a Galileia.
M esm o estan d o um pouco a fa sta d a do lago da G alileia, m oedas d aquele tem po que
tra z e m o nom e d a G adara têm , em m uitos casos, o d e sen h o de um barco im presso
nelas. Além disso, Josefo, o h isto ria d o r ju d e u do p rim eiro século, fez referência
ao fato de que o territó rio de G adara se e sten d ia até ao lago d a G alileia. A leitu ra
Γερασηνών, que ap arece som ente em versões antigas, é u m a alteração feita por
copistas p a ra h a rm o n iz a r o texto com Mc 5.1 e /o u Lc 8.26,37. O nom e Γεργεσηνώ ν
é u m a correção, possivelm ente b a sead a n u m a sugestão feita por O rígenes, no ter-
ceiro século d.C.

9.4 καί ίδ ώ ν (e vendo) {B}

Aqui existem dois problem as tex tuais: (1) se a conjunção orig in al é και ou δέ;
(2) se o p articip io orig in al é ίδ ώ ν (vendo) ou είδώ ς (sabendo). O testem u n h o dos
m an u scrito s favorece καί em d e trim e n to de δέ. Q uanto ao participio, tu d o indica
que os copistas e n te n d era m que “v e r” os p en sam en to s de alguém e ra algo m enos
ap ro p riad o do que “co n h ecer” esses p en sam en to s. Além disso, o uso do participio
επ ιγνο ύ ς (conhecendo), nos relato s p aralelo s de Mc 2.8 e Lc 5.22, pode te r levado
os copistas a su b stitu ir o verbo “v e r” p o r “co n h ec er”, aqui em M ateus.
P rovavelm ente, a diferen ça e n tre essas v a ria n te s não te n h a m aio r im p o rtân cia
p a ra os tra d u to re s do Novo T estam ento. O verbo grego que aparece n a form a do
particip io ίδ ώ ν (vendo) é m uitas vezes usado no sentido figurado de “dar-se conta
d e ”, “e n te n d e r”. Por isso, ta n to ίδ ώ ν com o είδώ ς serão, provavelm ente, trad u zid o s
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 13

p o r um verbo que significa “sa b e r” ou “dar-se conta d e” Q uanto à conjunção κα ί,


ela é, por vezes, u sad a p a ra e x p ressar contraste. P o rtan to , neste contexto será tra-
d uzid a de form a idêntica à conjunção όέ.

9.8 έφοβήθησαν (ficaram com m edo) {A}

O v erbo que está no texto tem o apoio de m anuscritos antigos e que re p re se n ta m


os tipos de tex to a le x an d rin o e ocidental. M uitos m an u scrito s têm έθαύμ ασαν (eles
se a d m ira ra m /fic a ra m espantados), m as tu d o indica que copistas escrev eram este
verbo p o rq u e n ão e n te n d era m o v erd ad eiro sentido de έφοβήθησαν, no contexto
de Mt 9.8. O m edo, neste caso, se refere a espanto, um tipo de m edo e respeito que
resu lta de u m a d em o n stração de p o d e r e au to rid ad e. NRSV, NVI, CNBB dizem que
a m u ltid ão “ficou cheia de tem o r”. BN tem “o povo ... ficou im pressionado” Assim,
provavelm ente, o verbo έφοβήθησαν será trad u zid o , neste caso, com o se fora um
sinônim o de έθαύμασαν, em bora alg u m as trad u çõ es p refiram “ficaram com m ed o ”
(NBJ), “foram tom ados de tem o r” (TEB), e “ficou com m edo” (NTLH). TEV, FC e
Seg têm algo n essa m esm a linha.

9.14 νηστεύομ εν [πολλά] (jejuam os [m u ito /m u itas vezes]) {C}

A leitu ra νηστεύομ εν π υ κ νά (jejuam os m uitas vezes) é u m a m odificação intro-


d u zid a p o r um copista, p a ra fazer o tex to concordar com a passagem p a ra lela em
Lc 5.33. O texto m ais breve, sem πολλά , pode ser o riginal, pois alg u n s im p o rtan te s
m an u scrito s têm a p en as o verbo νηστεύομεν, sem a co m p an h a m e n to de advérbio.
Por o u tro lado, o adjetivo π ο λ λά (que aqui é usado com o um advérbio) não consta
do p aralelo em Mc 2.18, de sorte que M ateus n ão copiou π ο λ λ ά do Evangelho de
M arcos. Por m ais que não se saiba ao certo se M ateus acrescentou essa p alav ra, ou
se um copista trato u de acrescentá-la p o sterio rm en te, deveria ser d ad o p referên cia
à le itu ra que não tem p aralelo em M arcos. E n tretan to , visto que vários im po rtan -
tes m an u scrito s om item πολλά , esta p ala v ra aparece e n tre colchetes, p a ra m o strar
que existem dúvidas q u an to a seu c a rá te r original. As trad u çõ es m o d ern a s não são
u n ân im es. A lgum as seguem a leitu ra no texto (NRSV, TEV, FC, NTLH, BN); o u tras,
a v a ria n te , isto é, o texto sem o advérbio (RSV, REB, NBJ, NVI, CNBB, TEB, Seg).

9.34 inclusão do versículo {B}

O teste m u n h o dos m anuscritos é altam e n te favorável à inclusão do v. 34. Esta


afirm ação p re p a ra o te rre n o p a ra 10.25, onde Jesus afirm a: “Se c h a m a ra m Belzebu
ao dono da casa ...” A penas un s poucos m an u scrito s o cidentais, seguidos p e la REB,
om item esse versículo. E n tretan to , visto que a acusação dos fariseus não é reto m ad a
14 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

n a co n tin u ação d a n a rra tiv a , alg u n s in té rp re te s e n te n d em que esse versículo foi


tira d o de Mt 12.24 ou Lc 11.15 e inserido neste lugar, em M t 9.34.

10.3 Θ α ό ό α ΐο ς (Tadeu) {B}

É difícil de saber se o texto orig in al é Θ α ό ό α ΐο ς ou Λ εββαΐος (Lebeu). Dá-se pre-


ferência ao nom e Θ α ό ό α ΐο ς, porque tem o apoio de m an u scrito s antigos dos tipos
de tex to alex an d rin o , ocidental e egípcio. As form as de texto m ais longas, “Tadeu,
ch am ad o L ebeu” e “Lebeu, ch am ad o T adeu”, são c laram en te leitu ras posteriores
que com binam as duas form as m ais breves. O nom e Θ α ό ό α ΐο ς não ap arece n a lista
de apóstolos em Lucas (Lc 6 .1 4 1 6 ‫ ;־‬At 1.13), que tem “Ju d as, filho de Tiago”. A leitu-
ra Judas, filh o de Tiago, que aparece em um m anuscrito da an tig a trad u ç ão siríaca,
p ode te r sido im p o rtad a do p aralelo em Lc 6. De m odo sem elh an te, o nom e Judas
Zelotes, que aparece em vários m an u scrito s da A ntiga L atina, pode te r sido criado a
p a rtir de “Simão, ch am ad o Z elote”, que ap arece n a lista de Lucas.
A lguns in té rp retes e n te n d em que Tadeu deveria ser identificado com Ju d as, fi-
lho de Tiago, e que, talvez, o nom e Tadeu foi d ad o “a fim de que houvesse apen as
u m Ju d a s no gru p o dos d oze” (H agner, M atthew 1-13, p. 266). M esm o que os trad u-
to res aceitem que Tadeu e Ju d as, filho de Tiago, são a m esm a pessoa, isso deveria
ser indicado com o u m a possibilidade, n u m a no ta, e não in corporado no texto.

10.23 έτέραν (outro) {C}

Aqui existem dois problem as tex tu ais distintos.


(1) Alguns m anuscritos têm o adjetivo έτέραν e outros têm o adjetivo άλλην (outro). A
leitu ra έτέραν se e n co n tra nos m an u scrito s a lex an d rin o s. E porque este tipo de tex-
to é em g eral su p erio r aos dem ais, é adotado, neste caso. A d istinção e n tre έτέραν
(outro de um tipo diferente) e άλλην (outro do m esm o tipo) nem sem pre é m an tid a
no NT. No contexto de M t 10.23, as duas form as do texto terão a m esm a trad u ção
em líng u as m o d ernas.
(2) A lguns m an u scrito s têm o seg u in te acréscim o: “e se vos p erseg u irem na
o u tra [cidade], fugi p a ra um a o u tra [cidade]”. É possível que essas palav ras te n h a m
sido om itidas por acidente, q u an d o o copista saltou do prim eiro “o u tro ” p a ra o
seg un d o “o u tro ” e om itiu as palav ras que ficavam no m eio. E n tretan to , é m ais pro-
vável que essas palav ras te n h a m sido acrescen tad as, p ara explicar a afirm ação que
segue: “n ão acab areis de p e rc o rrer as cidades de Israel”.
O sentido do tex to m ais breve não é que os discípulos deveríam fu g ir ap enas
p a ra u m a o u tra cidade. Ao co n trário, com o o texto m ais longo deixa bem claro, eles
d ev eríam fugir de to d a e qu alq u er cidade em que seriam perseguidos, indo p ara
o u tras cidades. A NBJ, que a d o ta a v a ria n te , expressa isso m uito bem : “Q uando
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 15

vos p erseg u irem n u m a cidade, fugí p a ra o u tra. E se vos p erseg u irem n esta, to rn ai
a fu g ir p a ra te rc e ira ”.

11.2 ò ià τω ν μαθητώ ν α ύτου (por in term éd io de seus discípulos) {B}

Em lu g ar de ò ià τω ν μαθη τώ ν αύτου, um a leitu ra que tem am plo apoio de


m an u scrito s antigos de d iferentes tipos de texto, a m aio ria dos m an u scrito s traz
δύο τώ ν μ αθη τώ ν α ύ του (dois dos seus discípulos). Esta v a ria n te resu lta de urna
m odificação feita p a ra h a rm o n iz a r o texto com o relato p aralelo em Le 7.18 (7.19 na
ARC), que tem “dois (δύο) dos seus discípulos”.
A e s tru tu ra de alg u m as línguas exige que os tra d u to re s indiquem se João enviou
todos os seus discípulos ou se enviou alguns, m as n ão todos. O sentido que se tem
em v ista é, provavelm ente, que ele m an d o u “alg u n s dos seus discípulos” (NTLH,
BN, FC). Em o u tras línguas talvez seja necessário indicar se João m an d o u “uns
poucos” ou “m uitos” discípulos. N essas línguas, pode-se seg u ir a v a ria n te com o
δύο (dois).

11.7 S e g m e n ta ç ã o

Este versículo tem duas p e rg u n ta s. C onform e o texto, a p rim eira p e rg u n ta ter-


m in a com o verbo θεάσ ασθαι (ver): “Q ue fostes ver no d e se rto ”? T am bém é possível
fazer um corte an tes do verbo θεάσασθαι e e s tru tu ra r o texto assim : “Por que fostes
ao deserto? P ara ver ...”? A observação de Davies e A llison (A C r itic a l a n d E xege-
tic a l C o m m e n ta r y on th e G o sp el A c c o r d in g to S a in t M a tth e w , vol. II, p. 247, n.50) é
correta: “O sen tido não m u d a”.

11.8 S e g m e n ta ç ã o

A exem plo do que ocorre no versículo an terior, a p rim eira p e rg u n ta pode term i-
n a r com 0 verbo ίδεΐν (ver), com o está no texto: “Q ue saístes a v e r”? Mas tam b ém
é possível fazer um corte an tes do verbo ίδεΐν: “Sim, por que saístes? P ara ver ...”
(assim a RSV).

11.9 ίδεΐν; π ρ ο φ ή τη ν (a ver? Um profeta) {B}

Assim com o no versículo an terio r, a p rim eira p e rg u n ta pode te rm in a r com o


verbo ίδεΐν, com o consta do texto, ou, então, pode te rm in a r com o verbo έξήλθατε
(saístes). A coisa se com plica com o fato de alg u n s m an u scrito s tere m as palav ras
n u m a ordem d iferente, a saber, π ρ ο φ ή τη ν ίδεΐν, que só pode ser trad u zid o por “Por
que, então, saístes? P ara ver um p ro feta?” A leitu ra que ap arece com o texto em O
16 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Novo Testamento Grego é am bígua e tem tu d o p a ra ser original, pois a v a ria n te tex-
tu a l elim in a a am biguidade.

11.15 ώ τα (ouvidos) {B}

A locução m ais longa, ώ τα άκούειν (ouvidos p a ra ouvir), ocorre com frequên-


cia em ou tras passagens do NT (Mc 4.9,23; 7.16; Lc 8.8; 14.35), de sorte que não
su rp re en d e que copistas te n h a m inserido o infinitivo άκούειν aqui, em Mt 11.15 (e
tam b ém em Mt 13.9,43). Se o infinitivo fizesse p a rte do texto original, fica difícil de
ex plicar p o r que teria sido om itido em im p o rtan te s m anuscritos. O significado das
duas form as de texto é o m esm o.

11.17 έθρηνήσαμεν (entoam os lam entações/cantam os m úsicas de sepultam ento) {B}

Um g ran d e n ú m ero de m an u scrito s diz έθρηνήσαμεν ύμΐν (nós vos entoam os


lam entações). A v a ria n te não m uda o sentido, ap en as to rn a explícito o que está
im plícito n a leitu ra aceita com o texto. E possível que copistas acresce n tara m o pro-
nom e ύμΐν p a ra c ria r um p aralelo com ο ηύλήσαμεν ύμ ΐν (nós vos tocam os flauta),
d a lin h a an terio r. Se o pronom e fosse original, é pouco provável que os copistas o
te ria m om itido. Além do m ais, o texto m ais curto, que aparece em quase todas as
trad u ções, é apoiado p o r re p re se n ta n te s de d iferentes tipos de texto.

11.19 ά π ό τω ν έργω ν (por suas obras) {B}

A leitu ra ά π ό τω ν τέκνω ν (por seus filhos), que tem apoio de um a gam a de m anus-
critos, provavelm ente foi criada por um copista sob a influência da passagem paralela
em Lc 7.35, que tem o substantivo τέκνων. Tam bém as leituras com o adjetivo π ά ντω ν
(todos) foram criadas sob a influência do texto de Lucas, que tem esse adjetivo.

11.23 μή έως ο υ ρ α νο ύ ύψωθήση (será que serás ex alta d a até ao céu) {B}

Os m ais antigos m anuscritos, que re p re se n ta m todos os tipos de texto pré-


-bizantinos, apoiam a leitu ra que é o tex to de O Novo Testamento Grego. E n tretan to ,
alg u n s m an u scrito s têm ή έως ούρανού ύψωθεΐσα (a que é elevada até ao céu), e
a in d a o utro s têm ή έως ουρανού ύψώθης (que foste elevada até ao céu). Depois de
tere m copiado o nom e Καφαρναούμ, os copistas, ao que parece, o m itiram a prim ei-
ra letra da p ala v ra μή, sendo que, a p a rtir daí, a letra h foi in te rp re ta d a com o sendo
o a rtig o definido fem inino ή ou, então, o pronom e relativo ή.
A opção aceita com o texto é, ao que tu d o indica, um a p e rg u n ta retórica. Em al-
g u m as línguas, é m elhor tran sfo rm a r essa p e rg u n ta n u m a afirm ação enfática, como
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 17

“Tu podes te e x a lta r até ao céu, m as . . Caso for aceita urna das v ariantes, com o
acontece n a KJV e ARC (“E tu, C afarnaum , que te ergues até aos céus ...”), as pala-
v ras de Jesus deveriam ser to m ad as com o irônicas, e não com o a afirm ação de um
fato real. Em razão disso, a leitu ra aceita com o texto e as duas v arian tes têm , essen-
cialm ente, o m esm o significado. Os trad u to res terão de levar em conta a form a que
m elhor com unica o sentido n a língua alvo.

11.23 καταβήση (tu [C afarnaum ] descerás) {C}

Não se tem certeza se o verbo deveria ser “descerás” (καταβήση) ou “serás rebai-
x ad a” (καταβιβασθήση). De um lado, o verbo καταβιβασθήση pode te r sido alterado
p ara καταβήσ η, p ara levar o texto a concordar com Is 14.15, que form a o paño de fun-
do das palavras de Jesus. Por outro lado, a leitura no texto é preferida, porque tem o
apoio de m anuscritos antigos tan to do tipo de texto alexandrino quanto do ocidental.
Q ualquer que seja a leitura adotada, talvez seja adequado trad u z ir assim : “Deus te re-
b aix a rá ” (N ew m an e Stine, A Translator's Handbook on the Gospel o f M atthew, p. 349).

11.27 τον υ ιό ν ... ό ν ιο ς (o filho ... o filho) {A}

O texto aceito como original diz: “e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e nin-
guém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho [o] quiser revelar”. Talvez
não seja de e stra n h a r que alguns copistas alteraram a ordem das palavras p ara “e nin-
guém conhece o Pai, senão o Filho; e ninguém conhece o Filho, senão o Pai e aquele
a quem o Filho [o] revelar”. Essa alteração pode ter sido provocada pela presença da
palavra π α τρ ό ς (Pai) um pouco antes, no m esm o versículo. Essas duas versões do tex-
to ainda aparecem , em alguns m anuscritos, com pequenas variações de form ulação.

12.4 scf α γον (com eram ) {C}

A form a da terceira pessoa do plural tem o apoio de apenas un s poucos m anus-


critos, m as tud o indica que copistas tro c a ra m a form a do plural pelo sin g u lar εφαγεν
(ele [Davi] com eu), p a ra fazer o verbo concordar com a form a verbal no singular,
que aparece em Mc 2.26 e Lc 6.4. A lgum as traduções m o d ern as (NIV, TEV, NBJ,
TEB, FC, ARA, CNBB, BN) colocam o verbo no plural, en q u an to o u tras (RSV, NRSV,
REB, Seg, ARC, NVI) preferem o singular.

12.15 [οχλοι] πολλοί (g ran d es [m ultidões]) {C}

A lguns m an u scrito s têm “g ran d e s m u ltid õ e s”; o u tro s, sim plesm ente “m u ito s”
(πο λλο ί). A le itu ra m ais breve tem o apoio de a n tig o s m an u scrito s a le x a n d rin o s e
18 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

ocidentais. Provavelm ente, copistas, influenciados pela conhecida locução “gran-


des m ultidões” ou “num erosas m ultidões” (por exem plo, 4.25; 8.1; 13.2; 15.30;
19.2), acrescentaram a palavra δχλοι. É possível, embora pouco provável, que a
palavra οχλοι seja original, tendo sido om itida acidentalm ente, quando o copis-
ta com eteu um erro de observação, passando do final da palavra οχλοι para o
final sem elhante do adjetivo π ολλοί. Para indicar que não se tem certeza quanto
ao texto original, a palavra οχλοι foi colocada entre colchetes. Algum as tradu-
ções m odernas adotam a leitura m ais breve (RSV, NBJ, REB, ARA: “m uitos”),
enquanto outras preferem a leitura m ais longa, que está no texto (NRSV: “muitas
m ultidões”; ARC: “uma grande m ultidão de gente”). Em algum as línguas, inde-
pendentem ente do texto adotado, será necessário colocar um substantivo ao lado
do adjetivo “m uitos/m uitas”.

12.25 είδώς δέ (M as/e conhecendo) {C}

A grande maioria dos manuscritos diz είδώς δέ ó Ίησοΰς (Jesus, porém, co-
nhecendo), mas o nome “Jesus” não é original, neste versículo. Era até natural que
copistas acrescentassem ό ’Ιησούς, pensando que isso era necessário para deixar o
texto mais claro. Porém, se o nom e tivesse estado originalm ente no texto, ninguém
teria, de propósito, optado por sua om issão. Na tradução, é possível que se tenha de
explicitar o sujeito. NVI, TEV, NTLH, BN, CNBB, entre outras, trazem o nom e “Je-
sus”, talvez mais por causa dos princípios de tradução adotados do que por estarem
seguindo a variante textual. Quanto à outra variante, ίδών (vendo), que aparece em
alguns poucos manuscritos, veja o comentário a 9.4. Embora είδώς seja um partid ‫־‬
pio, várias traduções m odernas, além de explicitarem o sujeito, preferem um verbo
finito. E o caso de NTLH: “Mas Jesus conhecia os pensam entos deles”.

12.47 [in c lu sã o do versícu lo ] {C}

Ao que tudo indica, o texto do v. 47, que parece ser necessário para o sentido dos
versículos seguintes, foi om itido acidentalm ente quando o copista saltou do infini-
tivo λαλήσαι (falar), no final do v. 46, para o infinitivo λαλήσαι, no final do v. 47.
Por outro lado, manuscritos antigos de vários tipos de texto om item esse versículo.
O texto aparece entre colchetes, para indicar que se tem dúvidas quanto à sua ori-
ginalidade. Algum as traduções modernas (RSV, NJB, NBJ) om item esse versículo;
a maioria o inclui.

13.9 ώτα (ouvidos) {B}

Veja o comentário sobre a m esma variante textual em 11.15.


O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 19

13.11 Segmentação

A conjunção ό τι pode in tro d u z ir u m a frase que responde à questão p o r que


Jesu s fala por paráb o las (v. 10), a saber, “Porque [οτι] a vós foi d ad o ...” (NBJ).
T am bém é possível to m a r οτι com o um a m an e ira de in tro d u z ir u m a citação ou dis-
curso d ireto (a exem plo de NRSV). N este caso, equivale a aspas e o tex to pode ser
trad u zid o assim : “A vós foi dado ...”

13.13 ο τι βλέπ ο ντες ο ν β λέπ ο νσ ιν καί ά κ ο νο ντες ονκ ά κ ο νο υ σ ιν ουδέ σ υ νίο υ σ ιν


(porque, vendo, não veem ; e, ouvindo, não ouvem , nem entendem ) {B}

Sob a in flu ên cia das passagens paralelas em Mc 4.12 e Lc 8.10, vários m anuscri-
tos do tipo de tex to ocidental, ao lado de outros, tro c a ra m a p ala v ra ό τι (porque)
por iva (p ara que). Essa alteração exigiu, ain d a, que os verbos fossem passados do
m odo indicativo p a ra o m odo subjuntivo. Vários m an u scrito s ain d a a crescen tam , a
p a rtir de M arcos (ou Is 6.10), και μή σ ν νιώ σ ιν (e não entendam ).

13.35 δ ιά τον π ρ ο φ ή το υ (por in term éd io do profeta) {C}

Alguns m anuscritos trazem o nom e do profeta; outros, não. A evidência ex tern a


favorece a leitu ra sem 0 nom e. Além disso, se orig in alm en te não havia n en h u m
nom e no texto, vários copistas p o d eríam te r inserido o nom e de um profeta conhe-
cido. Foi o que, de fato, aconteceu em ou tras passagens (veja os com entários sobre
1.22; 2.5; 21.4; At 7.48). Tam bém é possível que um leitor, no tan d o que a citação
vem de SI 78.2, inseriu o nom e de Asafe (X oáq). O utros leitores, por nunca terem
ouvido falar de um profeta com esse nom e, teriam colocado um nom e m ais fam iliar,
como Isaías (Ή σ α ΐο ν). Em bora n en h u m dos m anuscritos disponíveis trag a o nom e
de Asafe, Jerónim o, 0 tra d u to r da V ulgata latina, conhecia alguns m anuscritos que
tin h a m esse nom e no texto.
Por outro lado, quanto ao texto m ais longo, é preciso n o ta r que alguns im portan-
tes m anuscritos têm δ ιά Ή α α ΐο ν τον προφ ή του (por interm édio de Isaías, o profeta).
Esta leitura é m ais difícil do que a leitura que aparece como texto em O Novo Testa-
mento Grego, e não é difícil de im aginar que um e rro tão evidente com o este (atribuir
um texto de SI 78.2 ao profeta Isaías) teria sido corrigido pelos copistas (confira 27.9;
Me 1.2). NEB trad uziu o texto m ais longo, m as a REB adota o texto m ais breve.

13.35 ά π ό καταβολής [κόσμον] (desde a fundação [do m undo]) {C}

Visto que só u n s poucos m an u scrito s om item o substantivo κόσμου (do m undo),


a p alav ra foi incluída no texto. Por o u tro lado, a favor do tex to m ais breve é preciso
20 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

d ize r que κόσμου não ap arece em m anuscritos que re p re se n ta m os tipos de texto


ale x an d rin o , o cid en tal e orien tal. Essa p alav ra pode ter sido incluída por copistas
que co n h eciam u m a form ulação sem elh an te (“a fundação do m u n d o ”), que apare-
ce em Mt 25.34. Como não se tem c erteza q u an to ao que é original, a p alav ra foi
colocada e n tre colchetes. E n tretan to , m esm o que κόσμου não seja p a rte do texto
o rig in al, e stá im plícito no sentido da passagem , com o observa M orris (The Gospel
According to M atthew , p. 355, n.90). Na m aio ria das línguas, não se pode d izer
a p en as “o cu ltas desde a fu n d ação ”; será necessário acrescen tar: “desde a fund ação
do m u n d o ” (TEB, NBJ), “desde a criação do m u n d o ” (FC, NTLH, NVI, CNBB), ou
“desde que o m u ndo foi feito” (REB).

13.43 ώ τα (ouvidos) {B}

Veja o co m en tário sobre a m esm a v aria n te te x tu a l em 11.15.

13.55 ,Ιω σήφ (José) {B}

A lg u n s m a n u sc rito s têm o nom e Ί ω σ ή ς (ou Ί ω σ ή ), q u e re p re s e n ta a pro-


n ú n c ia g a lile ia (‫ )יו סי‬d a fo rm a h e b ra ic a c o rre ta (‫)יו ס ף‬. Essa fo rm a do nom e
p a re c e te r sido in se rid a no te x to de M ateu s a p a r tir de Me 6.3. A su b stitu iç ã o
p o r Ι ω ά ν ν η ς (João) re su lto u de fa lta de c u id a d o d a p a rte dos e sc rib a s, lig ad a
às fre q u e n te s re fe rê n c ia s, em o u tra s p a ssa g e n s, a T iago e Jo ã o , os filh o s de
Z eb ed eu . A le itu ra Ι ω ά ν ν η ς καί Ί ω σ ή ς (João e Joses), que a p a re c e em a lg u n s
p o u co s m a n u sc rito s, é c la ra m e n te u m a c o m b in aç ão de d u a s le itu ra s d is tin ta s , e
n ã o é o rig in a l. C aso os tra d u to re s a d o ta re m o p rin cíp io de u s a r sem p re a m esm a
g ra fia q u a n d o se tr a ta do no m e da m esm a p e sso a , e n tã o , n e ste caso, a fo rm a
do n o m e se rá ig u al à de Mc 6.3, pou co im p o rta n d o que le itu ra é a c e ita com o
o rig in a l.

14.3 Φ ιλ ίπ π ο υ (de Filipe) {A}

M ateu s se g u iu o te x to o rig in a l de Mc 6.17, o n d e c o n sta q u e o n o m e do


p rim e iro m a rid o de H e ro d ia s e ra F ilipe. E n tre ta n to , em v á rio s m a n u s c rito s
o c id e n ta is, o n o m e Φ ιλ ίπ π ο υ é o m itid o aq u i em M ateu s, em c o n c o rd â n c ia com
o te x to de Lc 3.19, o n d e ta m b é m n ã o a p a re c e n o m e n e n h u m . A situ a ç ã o se
co m p lica a p a r tir de in fo rm a ç õ e s p re s ta d a s p elo h is to ria d o r ju d e u do p rim e iro
sé cu lo c h a m a d o Jo sefo , q u e diz q u e F ilipe e ra c a sa d o com S alom é, filh a de
H e ro d ia s. In d e p e n d e n te m e n te de com o se reso lv a esse p ro b le m a h istó ric o e
ex eg é tico , n ã o h á d ú v id a n e n h u m a de que o te x to o rig in a l, n e ste caso, in c lu i o
n o m e d e F ilipe.
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 21

14.9 λυ πη θείς ό βα σ ιλεύς δ ιά (en tristec en d o ‫־‬se o rei por causa de) {B}

O texto, apoiado pelos principais m an u scrito s do tipo de texto alex an d rin o e do


tipo de texto o cidental, é este: “E, entristecido, o rei, por causa dos ju ra m e n to s e
dos que estav am sen tad o s à m esa com ele, o rdenou [que a cabeça] fosse d a d a ” Esse
tex to é am bíguo, pois p erm ite duas in terp retaçõ es: (1 ) por causa dos ju ram en to s,
o rei estav a entristecido; ou, (2) por causa dos ju ra m e n to s, o rei o rd en o u que a ca-
b eça de João fosse en treg u e. Os copistas resolveram isso, m u d an d o o texto p a ra o
seguinte: “E o rei ficou triste; m as (δε) por causa dos ju ra m e n to s e dos que estav am
sen tad o s à m esa com ele, o rd en o u ...” Assim, a am biguidade foi elim inada: o rei
o rden o u que a cabeça fosse e n tre g u e p o r causa do ju ra m e n to que havia feito. Q uase
tod as as trad u çõ es rep ro d u zem a seg u n d a in te rp retaç ã o (2 ), concordando com os
copistas antigos, que e lim in a ram a am biguidade.

14.24 σ τα δ ίο υ ς π ο λ λ ο ύ ς α π ό τής γης ά πεΐχεν


(m uitos estádios d a te rra [o barco] estav a afastado) {C}

A leitu ra aceita com o texto em O N o vo T e sta m e n to G rego é a que m elhor explica


o su rg im en to das v arian tes. Em alg u n s m anuscritos, o verbo ά π εΐχεν (estava afasta-
do) foi tro cad o de lugar, e, em outros m anuscritos, a p alav ra ικανούς (num erosos)
ap arece em lugar de πολλούς. Estas, no e n tan to , são diferen ças estilísticas, que
não afetam o significado. A lguns m an u scrito s traz em ήν τό π λ ο ΐο ν εν μέσο) τής
θαλάσσης (ο barco estava no m eio do lago), m as esta v a ria n te é sim plesm ente um a
ten tativ a de acom odar o texto de M ateus ao texto de Me 6.47.
Um estád io era urna m edida grega de d istân cia eq uivalente a 185 m etros. “Mui-
tos estád io s afastad o da te rra ” ou “no m eio do lago” estão longe de serem m edidas
exatas; ap en as indicam que o barco estava afastad o da m argem do lago. (A pala-
v ra “e stád io ” deveria ser evitada, pois o leitor ignora seu valor.) Por isso, qu alq u er
locução que expresse esse significado de a fa sta m e n to d a m argem será u m a fiel
trad u ç ão do texto (N ew m an e Stine, A T ra n sla to r's H a n d b o o k on th e G o sp el o f M a t-
th e w y p. 481). A NRSV trad u z assim : “estava d ista n te da te rra ”. NVI tem “já estava
a considerável d istân cia da te rra ”. A Bíblia da CNBB tra d u z p o r “já longe da te rra ”.
A NTLH, por sua vez, tem “já estava no m eio do lago”, m as isto se deve m ais aos
princípios de trad u ç ão ad otados do que a um a p referên cia pela v a ria n te tex tu al.

14.29 καί ήλθεν (e foi) {B}

A leitu ra καί ήλθεν (P edro and o u p o r sobre as águas e f o i te r c o m J esu s ) parecia


e sta r d izen d o dem ais. Em razão disso, foi a ltera d a p a ra o infinitivo έλθεΐν (Pedro
an d o u por sobre as águas p a r a ir te r c o m J e su s). O uso de dois verbos p a ra e x p ressar
22 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

u m a só e a m esm a ação (“an d o u e foi te r com ”) é típico do grego sem itizado do NT.
A ên fase pode e sta r no com eço da ação e o texto pode ser trad u zid o p o r “com eçou a
a n d a r em cim a da ág u a, em direção a Je su s” (NTLH, NAB, FC). Sendo assim , existe
p ou ca d iferen ça de significado e n tre a le itu ra aceita com o texto e a v a ria n te te x tu a l
que está no ap arato crítico.

14.30 ά νεμ ον [ισ χυρόν] (vento [forte]) {C}

O conjunto dos m anuscritos que om item o adjetivo ισ χυ ρ ό ν (forte) é im pressio-


n an te. É possível que copistas ten h a m inserido ισ χυ ρ όν p a ra intensificar a dram a-
ticidade da história. A leitu ra “u m vento m uito forte”, que aparece no m anuscrito
W, reflete essa tend ên cia dos copistas. Mas, visto que os m anuscritos que om item
ισ χυ ρ ό ν são todos do m esm o tipo de texto (alexandrino), é m ais provável que o adje-
tivo seja original e te n h a sido om itido acid en talm en te no an cestral desse tipo de tex-
to. Além do m ais, o adjetivo ισ χυ ρ ό ν parece necessário p ara explicar por que Pedro
estava ficando com m ais m edo ainda. P ara indicar que não se tem certeza qu anto
ao texto original, a p alav ra ισ χυ ρ όν aparece en tre colchetes, no texto. A lgum as tra-
duções m o d ern as dizem apenas “o vento” (RSV, NVI, NBJ, TEB, FC, CNBB); ou tras
traz em “a força do v en to ” (ARA, NTLH) ou “que o vento e ra m uito forte” (BN).

15.4 ο γά ρ θεός εΐπ εν (pois D eus disse) {B}

A p resen ça d a locução την εντολήν του θεού (ο m an d a m e n to de Deus), no v. 3,


provavelm ente levou copistas a tro c a re m “pois D eus disse” p o r “pois Deus ordenou,
d ize n d o ’’ (ο γά ρ θεός ένετειλα το λέγω ν). Se ένετειλατο λεγιυν (ordenou, dizendo)
tivesse estad o no texto original, fica difícil de explicar p o r que teria sido alterad o
p a ra εΐπ εν (disse), que é u m a form a bem m enos expressiva. No p aralelo em Mc 7.10,
o sujeito de εΐπ εν é M oisés. Em alg u m as línguas, a trad u ç ão m ais n a tu ra l desse tex-
to, em seu contexto, é “o rd en o u ”, m esm o que, p a ra tan to , não se necessite aceitar
a v a ria n te com o orig in al (N ew m an e Stine, A Translator's H andbook on the Gospel
o f M atthew , p. 495).

15.6 το ν π α τέ ρ α α ύ τοΰ (o seu pai) {C}

M uitos m an u scrito s acrescen tam as palav ras “ou a sua m ãe ”. As d iferenças e n tre
το ν π α τέρ α α ύτοΰ ή την μητέρα (ο seu pai ou a m ãe), το ν π α τέρ α ή την μητέρα
α ύ το ΰ (ο pai ou a m ãe dele), e το ν π α τέρ α α ύ τοΰ ή την μητέρα α ύτοΰ (ο pai dele ou
a m ãe dele) são ap en as d iferenças estilísticas que não afetam o significado.
De um lado, pode-se a rg u m e n ta r que copistas a c resce n tara m a locução “ou a
sua m ãe ”, pois nos versículos a n te rio re s são m encionados o pai e a m ãe. Por o u tro
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 23

lado, copistas po dem te r om itido as p alav ras “ou a sua m ãe ” por engano. Tam bém
p o d e ría m tê-las om itido in ten cio n alm en te, por en te n d ere m que se tra ta de u m a
rep etição d esn ecessária. Preferiu-se o texto m ais breve p o r ser apoiado pelos me-
lhores m anuscritos. A rigor, não existe d iferen ça de significado e n tre o texto e as
v aria n te s (veja v. 4a e H agner, M a tth e w 1 4 - 2 8 , p. 428). T raduções em linguagem
com um , com o a GNB em alem ão e a NTLH em p o rtu g u ês, tra d u z e m p o r “os seus
p ais”. Não está claro se o texto que ap arece na NBJ, “não está obrigado a h o n ra r pai
ou m ãe ”, se b aseia n a v a ria n te te x tu a l ou ap en as rep ro d u z o sentido do texto, como
acontece em trad u çõ es em lin g u ag em com um .

15.6 τον λό γο ν (a palavra) {B}

E evidente que a locução την εντολήν (o m an d am en to ) foi in serid a p a ra que


o tex to concordasse com o v. 3, m as é m ais difícil decid ir se a leitu ra orig in al era
το ν λό γο ν ou τον ν ό μ ο ν (a lei), το ν λό γο ν tem um apoio m ais consistente dos m a-
nuscritos. Além do m ais, o fato de e sta r sendo citad o um m an d a m e n to específico
p o d e ria te r levado os copistas a colocar την εντολήν ou τον νό μ ο ν em lu g ar de τον
λόγον. É possível, em b o ra pouco provável, que copistas te n h a m colocado λόγον em
lu g ar de νόμον, p a ra fazer o texto concordar com Mc 7.13. Nesse contexto, ta n to
“p a la v ra ” com o “lei” servem com o sinônim os de “m a n d a m e n to ” (N ew m an e Stine,
A T r a n s la to r ’s H a n d b o o k o n th e G o sp el o f M a tth e w , p. 497), e o texto pode ser tradu -
zido p o r “o m a n d a m e n to de D eus” (TEV, CNBB) ou “a m ensagem de D eus” (NTLH).

15.14 τυ φ λο ί eioiv οδηγοί [τυφλών] (cegos são guias [de cegos]) {C}

Em alg u n s m anuscritos, as p alav ras “eles são guias cegos” vêm aco m p an h ad as
pela p ala v ra τυ φ λώ ν (de cegos). Existe tam b ém v ariação n a ordem das p alav ras
em vários m anu scritos, m as essas são diferenças de estilo, não de significado (veja
M orris, The G o sp el A c c o r d in g to M a tth e w , p. 397, n.27). As leitu ras que m elhor ex-
plicam a origem das dem ais são τυ φ λο ί είσιν οδηγοί τυ φ λ ώ ν e οδηγοί είσιν τυ φ λο ί
τυφ λώ ν. Por o u tro lado, ο fato de ta n to o m an u scrito B q u an to o D ap o iarem a lei-
tu ra sem o τυ φ λώ ν d á um considerável peso ao texto m ais breve (adotado em REB,
NIV, NVI, NTLH, FC). P ara in d icar in certeza q u an to ao tex to original, a p alav ra
τυ φ λ ώ ν ap arece, no texto, e n tre colchetes.

15.15 την πα ρ α β ολή ν [ταυτην] ([esta] parábola) {C}

O tex to ad o tad o em O N o v o T e s ta m e n to G rego, que inclui a p ala v ra ταυτην, tem


o apoio de u m a am pla gam a de m anuscritos. P rovavelm ente, copistas o m itiram
τα υτη ν por ju lg a re m in ap ro p riad o u sa r essa p alav ra, visto que a p a ráb o la não é o
24 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

co nteúdo dos vs. 12-14, e sim o que ap arece no v. 11. Por o u tro lado, é im pressionan-
te a com binação de m an u scrito s que dão su p o rte ao texto m ais breve, sem ο ταυτην.
P ara in d icar in certeza qu an to ao texto original, a p alav ra τα υτη ν foi colocada, no
texto, e n tre colchetes.
A lgum as traduções m o d ern as ad o tam a v arian te, trad u zin d o por “a p a ráb o la”
(NBJ). A m aioria das trad u çõ es não deixa claro que “essa p aráb o la” ou “a p a ráb o la”
se refere ao dito do v. 11, como fica claro pela explicação nos vs. 1 7 2 0 ‫־‬. Ao contrário,
dão a im pressão de que “essa p aráb o la” se refere ao conteúdo do v. 14. Por esta razão,
o texto pode ser trad u zid o assim : “Explique p ara nós aquilo que o senhor disse ao
povo” (N ew m an e Stine, A Translator's H andbook on the Gospel o f M atthew, p. 503).

15.31 κ ω φ ούς λ α λ ο ΰ ν τα ς, κυλλούς υ γιείς


(m udos falando, aleijados sendo curados) {C}

A leitu ra que consta do texto é ap o iad a por u m a am pla gam a de m anuscritos.


O utros m an u scrito s têm d iferenças consideráveis q u an to à ordem dos grupo s que
fo ram cu rado s, bem com o os grupos que estão incluídos. No e n ta n to , a m aio r di-
ferença é que alg u n s m an u scrito s om item as palav ras κυλλούς υ γιείς (aleijados
sen d o curados). É possível que as p alav ras κυλλούς υ γιείς não façam p a rte do ori-
ginal, ten d o sido acrescen tad as p a ra co m p letar a série de q u atro grupos m encio-
nad o s no v. 30. E n tretan to , é m ais provável que essas p alav ras fizessem p a rte do
o rig in al, m as foram om itidas p o r copistas que ju lg a ra m d esnecessário d izer que
ta n to “aleijados estav am sendo c u ra d o s” q u an to “coxos estavam a n d a n d o ” (χω λο ύς
π ε ρ ιπ α τ ο ΰ ν τα ς). A p ala v ra greg a κω φ ός pode significar ta n to “incapaz de fa la r”
q u an to “incapaz de o u v ir”, e isto explica a variação, nos m anuscritos, e n tre os par-
ticípios λ α λ ο ΰ ν τα ς (falando) e α κ ο ύ ο ντα ς (ouvindo).

15.39 Μ αγαδάν (M agadã) {C}

Os m elh ores m an u scrito s apoiam o topónim o Μ αγαδάν. M as não se sabe ao cer-


to onde ficava esse lugar, e até se duvida que te n h a existido. A passagem p aralela
em Mc 8.10 tra z “as regiões de D a lm a n u ta ”, que tam b ém é um nom e e u m lugar
desconhecido. M uitos m an u scrito s traz em , em lu g ar de Μ αγαδάν ou Δ α λμ α νουθά
(D alm anuta), a p ala v ra Μ αγδαλά[ν], que é u m a tran slitera çã o p a ra o grego da bem
co n h ecid a p alav ra sem ítica p a ra “to rre ”. Veja tam b ém o co m en tário sobre Mc 8.10.

1 6 .2 3 ‫[ ־‬όψ ίας γενομ ένη ς ... ού δύνασθε;] [a ta rd e chegando ... não podeis?] {C}

Im pressiona o teste m u n h o dos m an u scrito s que não tra z e m esse texto. E pos-
sível que copistas te n h a m acrescen tad o essas p alav ras, que foram tira d a s de um a
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 25

fonte sem elh an te a Lc 1 2 .5 4 5 6 ‫־‬, ou da pró p ria passagem de Lucas, com algu n s
pequenos ajustes. Por o u tro lado, é possível a rg u m e n ta r que essas p alav ras eram
o rig in ais e foram om itidas p o r copistas que viviam em regiões com o o Egito onde
um céu m a tin a l de coloração v e rm elh a não significa a ch egada de chuva. Como
existem a rg u m e n to s p a ra os dois lados, esses versículos foram incluídos no texto,
m as os colchetes indicam que não se tem certeza q u an to à sua orig in alid ad e. A REB
om ite os vs. 2-3.

16.3 S e g m e n ta ç ã o

No texto, a ú ltim a frase do v. 3 ap arece n a form a de u m a p e rg u n ta . Tam bém


se pode e n te n d e r esse texto com o u m a afirm ação, a exem plo do que faz a NRSV:
“Vocês sabem com o in te rp re ta r a a p arên cia do céu, m as não conseguem in te rp re ta r
os sinais dos tem p o s”. O u tras trad u çõ es, com o BN, NBJ e CNBB colocam isso na
form a de u m a exclam ação. Caso se o p ta r pela p o n tu ação no texto, isto é, a form a
de p e rg u n ta , será preciso lem b rar que se tra ta de u m a p e rg u n ta retórica.

16.7 S e g m e n ta ç ã o

A conjunção ο τι po d e in tro d u z ir u m a citação d ire ta , com o no tex to , sendo que,


nesse caso, não é trad u z id a . É o que acontece, p o r exem plo, n a RSV: “E eles dis-
c u tiam o assu n to e n tre si, dizendo: 1Não tro u x em o s p ão ’”. Ou, ο τι pode in tro d u z ir
u m a cláu su la causal, com o n a NTLH: “os discípulos co m eçaram a d iz e r u n s aos ou-
tros: Ele está d izendo isso p orque [οτι] não tro u x em o s p ã o ”. Se õ n for visto com o
causai, “os discípulos p ressu p õ em que a ad v ertên c ia do S en h o r c o n tra o ferm en to
dos fariseu s tem algo a v er com o fato de eles não tere m com ida suficiente, com o
se ele estivesse a co n selh an d o a que tivessem cuidado p a ra não co m p rarem pão
e n v e n e n ad o ” (Allen, A C r itic a l a n d E x e g e tic a l C o m m e n ta r y o n th e G o sp e l A c c o r d in g
to S t. M a tth e w , p. 174).

16.12 τω ν ά ρ τω ν (de pães) {C}

E xiste, a q u i, u m a v a rie d a d e de v a ria n te s te x tu a is , m as a le itu ra que a p a re c e


com o te x to é a que te m bom apoio de m a n u sc rito s. A lguns m a n u sc rito s d ize m
“o fe rm e n to de p ã e s ” (τω ν ά ρ τω ν ). O u tro s tra z e m “o fe rm e n to do p ã o ” (του
ά ρ το υ ), “o fe rm e n to dos fa rise u s e sa d u c e u s”, “o fe rm e n to dos fa ris e u s ”, e “o
fe rm e n to ”. É c o m p re en sív e l que a lg u n s c o p ista s, in flu e n c ia d o s pelo te x to nos
vs. 6, 1 1 , te n h a m a lte ra d o “o fe rm e n to do p ã o ” p a ra “o fe rm e n to dos fa rise u s
e sa d u c e u s”. É p ossível que a le itu ra m ais b rev e, “o fe rm e n to ”, seja o rig in a l, e
to d a s as d e m a is re s u lta ra m de a c réscim o s feitos p o r c o p istas. M as ta m b é m é
26 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

p o ssív el que co p ista s o m itira m as lo cu çõ es ιώ ν ά ρ τω ν ou του ά ρ το υ , p o r en-


te n d e re m q u e n a d a a c re sc e n ta v a m ao se n tid o . O p lu ra l “de p ã e s ” faz p a ra le lo
com o p lu ra l “dos fa rise u s e sa d u c e u s”, que a p a re c e no fin a l do v ersícu lo , m as
n ão ex iste , n e ste caso, d ife re n ç a de sig n ific a d o e n tre as fo rm as do sin g u la r e do
p lu ra l de ά ρ τ ο ς (pão), com o ta m b é m n ão e x iste d ife re n ç a e n tre “o fe rm e n to do
p ã o ” e “o fe rm e n to ”.

16.13 Τίνα λέγουσιν οί ά ν θ ρ ω π ο ι είναι τον υ ιό ν του ά νθρ ιυπ ου (Q uem dizem os
hom ens ser o Filho do H om em ?) {B}

Dois fatores indicam que as leituras que trazem o pronom e με (m e/a mim) não
são originais: (1 ) O pronom e με aparece em diferentes lugares nos m anuscritos que o
incluem , o que sugere que vários copistas acrescentaram με a um texto que não tin h a
esse pronom e; (2) o pronom e aparece nos relatos paralelos em Mc 8.27 e Lc 9.18, de
m odo que, provavelm ente, copistas o te n h a m inserido aqui sob a in flu ên cia daque-
les textos. Seg ad o ta a v a ria n te com ο με e tra d u z assim : “Q uem os hom ens dizem
que eu [με], o Filho do H om em , sou?”

16.20 ό Χ ρ ισ τό ς (o Cristo) {B}

A lguns m an u scrito s inserem o nom e 'Ιη σούς (Jesus) d ian te de ό Χ ρ ισ τός, en-
q u a n to ou tros colocam esse nom e após ό Χ ρ ισ τός. E n tretan to , a leitu ra m ais breve,
que ap arece no texto, tem o apoio de m an u scrito s de vários tipos de texto. Além
disso, o que estava em discussão não e ra se as pessoas reco n h eciam o nom e de Je-
sus, m as se reco n h eciam que ele e ra o M essias (ό Χ ρισ τός).

16.27 την π ρ ά ξ ιν (o procedim ento) {B}

A leitu ra την π ρ ά ξ ιν tem ο apoio de u m a v aried ad e de m an u scrito s e v isu aliza a


o bra de u m a pessoa ou o p ro ced im en to dela com o um todo, razão por que se u sa o
sin g u la r π ρ ά ξ ιν em lu g ar do p lu ral (veja M orris [The Gospel According to M atthew ,
p. 434, η .65], que afirm a que, com την π ρ ά ξιν, “não se tem em m ente n e n h u m a
o bra em p a rticu la r, m as a som a final de to d as as obras de u m a pessoa”). E n tretan to ,
os copistas de vários m an u scrito s gregos e de v árias trad u çõ es a n tig as p refe rira m
a ex pressão m ais conhecida τά έργα (as obras), que e n tro u , tam b ém , no textu s re-
ceptus. E m bora, em alg u n s contextos, possa haver u m a p e q u en a d iferen ça de pers-
pectiva e n tre esses dois substantivos, neste caso eles p arecem ser sinônim os, e a
trad u ç ão re su lta n te será a m esm a. A NBJ diz: “re trib u irá a cada um de acordo com
o seu co m p o rtam e n to ”, e a NVI traz: “e e n tão reco m p en sará a cada um de acordo
com o que te n h a feito”.
0 EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 27

17.2 το φ ω ς (a luz) {A}

A leitu ra τό φ ώ ς tem sólido apoio de m an u scrito s que re p re se n ta m todos os


tipos de texto. E n tretan to , v ário s m an u scrito s ocidentais divergem disso, e com pa-
ram as vestes de Jesu s com a neve (χιώ ν), a exem plo de Mt 28.3. A lgum as trad u çõ es
m o d ern as e lim in am essa com paração com a luz, p referin d o d izer que “as roupas
dele ficaram de um branco b rilh a n te ” (NRSV e tam b ém TEV).

17.4 ποιήσ ω (06ε (farei aqui) {B}

Em lu g ar da leitu ra que ap re se n ta Pedro se dispondo a fazer trê s ten d as, os co-


pistas da m aioria dos m an u scrito s colocaram o verbo n a p rim eira pessoa do plural,
πο ιήσ ω μ εν (façam os), h a rm o n iza n d o o texto com os p aralelo s de Mc 9.5 e Lc 9.33.
A lguns m an u scrito s têm o fu tu ro do indicativo ποιήσ ομ εν ώόε (farem os aqui), e
alg u n s m an u scrito s a in d a om item o advérbio ώόε (aqui).

17.11 Segmentação

C onform e a p o n tu ação no texto, a resp o sta de Jesus é u m a afirm ação de que


Elias de fato havería de v ir e re s ta u ra r to d as as coisas. No ap arato crítico da vigési-
m a sétim a edição de N estle-A land, ap arece u m a o u tra possibilidade de p o ntuação,
em que a resp o sta de Jesus to m a a form a de u m a p erg u n ta.

17.20 ό λ ιγ ο π ισ τία ν (p eq u en a fé) {A}

A p alav ra ό λ ιγο π ισ τία ν ap arece som ente aqui, em todo o Novo T estam ento (em-
bora o adjetivo ο λ ιγό π ισ το ς o co rra q u atro vezes em M ateus), m as tem excelente
apoio de m an uscritos. Visto que ά π ισ το ς (sem fé/in créd u lo ) ocorre no v. 17, é m ais
provável que copistas tro c a ra m ό λ ιγο π ισ τία ν p o r α π ισ τ ία ν (que ocorre 1 1 vezes, no
NT). Supor que te n h a ocorrido o processo inverso é m enos provável.

17.21 omissão do versículo {A}

Não existe razão suficiente que p o d e ria te r levado copistas a o m itir esse versí-
culo n u m a v a rie d ad e tã o g ran d e de m an u scrito s, caso fosse, o rig in a lm e n te , p a rte
do texto de M ateus. Com freq u ên cia, copistas in se ria m num E vangelho m ateria l
que se e n c o n tra em outro. N este caso, p arece que o acréscim o de “M as esse tipo
n ão sai senão p o r m eio de oração e je ju m ”, que ap arece n a m aio ria dos m anuscri-
tos, foi tira d o do p a ra lelo em Mc 9.29 (veja c o m en tário ali). TEB inclui o v. 21 no
texto.
28 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

17.22 σ υσ τρ εφ ό μ ενω ν (reunidos eles) {B}

E provável que copistas e stra n h a ra m a p resen ça do participio σ υσ τρ εφ όμ ενω ν


e, p o r isso, a lte ra ra m o m esm o p a ra o participio ά να σ τρ εφ ομ ένω ν (estando e le s/
ach an d o -se eles), que parecia m ais ap ropriado nesse contexto. O verbo συστρέφειν,
que, aqui, p o d e te r o significado de “en q u an to eles estav am se a g ru p a n d o (ao red o r
de Jesu s)”, ou “Eles estavam a n d a n d o ju n to s ” (REB e Seg), ocorre som ente duas ve-
zes n a m aio ria dos m an u scrito s do NT (aqui e em At 28.3). A m aioria das trad u çõ es
tem “en q u an to eles se re u n ia m ” (NRSV, NAB) ou algo assim . Não está claro quem é
o sujeito do participio. P oderíam ser os doze, os doze m ais os outros discípulos, ou
os discípulos ju n ta m e n te com os de fora. A lgum as trad u çõ es dizem “os discípulos”
(TEV, FC, NTLH, CNBB), m as a m aio ria retém a am biguidade, com o, p o r exem plo,
a NRSV e a TEB.

17.26 ε ίπ ό ν το ς δε (m as ele disse) {B}

A le itu ra que a p arec e com o tex to em O Novo Testam ento Grego é a que m elh o r
explica o su rg im en to d as v a ria n te s. D iante do fato de que o p articip io ε ίπ ό ν τ ο ς
não tem sujeito, a lg u n s copistas a c re sc e n ta ra m o nom e “P e d ro ”. Em a lg u n s m a-
n u scrito s, o p a rticip io foi a lte ra d o p a ra o verbo finito λέγει (diz). T odas as v a ría n -
tes são m eras d ifere n ça s de estilo, que n ão a fe ta m o significado. Na trad u ç ão ,
talv ez a m elh o r opção seja e x p licitar o sujeito, com o em ARA: “R esponden do
P ed ro ...”

18.11 omissão do versículo {B}

As p alav ras “pois o Filho do H om em veio (p ara b u scar e) p a ra salvar o p erd id o ”


não co n stam dos m ais antigos m an u scrito s que re p re se n ta m diferen tes tipos de
tex to (alexand rino, egípcio, an tioqueno ) e foram ex tra íd a s de Lc 19.10. A parente-
m en te, essas p alav ras foram acrescen tad as p a ra fazer a conexão e n tre o v. 10 e os
vs. 12-14.

18.14 υ μ ώ ν (vosso) {C}

E difícil d ecidir se o orig in al é “vosso Pai” (NRSV e a m aio ria das traduções)
ou “m eu Pai” (RSV). “M eu P ai” tem a seu favor um bom apoio dos m anuscrito s,
m as provavelm ente reflete a influ ên cia de του π α τρ ό ς μου (de m eu Pai), no v. 10
(confira tam b ém o v. 35). A le itu ra ημώ ν (nosso), em alg u n s poucos m anuscritos,
provavelm ente resu lto u da confusão e n tre as letras υ (ípsilon) e η (eta), que, no
grego m ais recen te, p a ssa ram a te r p ro n ú n cia sem elhante.
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 29

18.15 άμαρτήση [εις σέ] (p ecar [contra ti]) {C}

É possível que as p alav ras εις οέ (contra ti) sejam u m acréscim o que desde cedo
e n tro u no texto original, talvez tira d o do uso de εις εμέ (contra m im ) no v. 21.
E n tretan to , tam b ém é possível que essas p alav ras sejam originais e foram om itidas
p o sterio rm en te. A om issão p o d e ría ser in tencional, p a ra fazer com que a passagem
se aplique a pecados em geral, com o p o d eria tam b ém ser acidental, re su lta n te do
fato de, em grego m ais recente, η, η e 81 tere m pro n ú n cia m uito parecid a. P ara indi-
c ar que não se tem c erteza q u an to à form a do texto original, as p ala v ras “co n tra ti”
aparecem , no texto, e n tre colchetes. A leitu ra m ais breve é ad o ta d a por REB, NBJ,
TEB e Seg.

18.19 π ά λ ιν [αμήν] λέγω (novam ente [em verdade] digo) {C}

E difícil sab er se a p resen ça das p alav ras αμήν λέγω, no versículo an terio r, levou
copistas a acresce n tar um άμήν d ian te de λέγω, no com eço deste versículo, ou fez
com que om itissem a p alav ra άμήν, p o r ju lg a re m que a m esm a e ra desnecessária.
P ara in d icar que existe in certeza q u an to ao tex to orig in al, a p ala v ra άμήν ap arece
e n tre colchetes. A lgum as trad u çõ es seguem o tex to m ais breve, sem ο άμήν (RSV,
REB, BN, CNBB), ao passo que o u tras seguem o texto m ais longo (NRSV, “verdadei-
ra m e n te ”; ARA, “Em v e rd a d e ”).

18.26 λέγω ν (dizendo) {A}

A m aio ria dos m an u scrito s acrescen ta a p ala v ra κύριε (Senhor) após o participio
λέγων. A RSV faz o m esm o. E n tre ta n to , im pressiona a com binação de m anuscritos
que dão apoio à le itu ra m ais breve. É provável que copistas in se rira m a p alav ra
‫ ״‬S en h o r”, p a ra d a r ao tex to u m a in te rp retaç ã o cristológica. T am bém é possível,
em bora m enos provável, que κύριε fizesse p a rte do original, m as foi om itido p ara
fazer com que o tex to concordasse com a form ulação do v. 29.

19.4 0 κτίσα ς (o que c rio u /o C riador) {B}

E m ais fácil supor que copistas m u d ara m o participio κτίσας, que tem o apoio de
vários m an u scrito s de excelente qualidade, p a ra o participio π ο ιή σ α ς (o que fez), do
que supor o processo inverso. É provável que os copistas in tro d u z ira m essa altera-
ção p a ra fazer o texto co n co rd ar com Gn 1.27, que tem a p ala v ra ποιήσ ας. É m enos
provável que os copistas ten h a m tro cad o π ο ιή σ α ς por κτίσας, p a ra fazer o texto
co nco rd ar com o verbo hebraico usado em Gn 1.27 (‫ ב ר א‬, que significa “criou”).
Q u alq u er que seja o texto adotado, o sentido é o m esm o.
30 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

19.7 ά π ο λΰ σ α ι [αυτήν] (rep u d ia r [a ela]) {C}

Não é fácil d ecidir se o pronom e α υτή ν foi acrescen tad o p a ra d e ix a r claro qual
é o objeto que está im plícito ou se o pronom e foi om itido p a ra fazer a passagem
co n co rd ar com o p aralelo de Mc 10.4, onde não ap arece n en h u m objeto direto após
o verbo. As p alav ras την γυ να ίκ α (a m u lh e r/su a m ulher), que ap arecem em alg un s
m an u scrito s, são u m esclarecim ento acrescen tad o por copistas. P ara in d icar a in-
certeza, o p ronom e foi colocado e n tre colchetes. Q ualquer que seja o texto adotado,
em m uitas lín g u as será necessário explicitar o objeto do verbo no tex to da tradução.

19.9 μή επ ί π ο ρ ν ε ία και γαμήοη άλλην μ οιχά τα ι (não sendo por causa de relações
sexuais ilícitas, e c asar com o u tra m ulher, com ete adultério) {B}

No relato do ensino de Jesus sobre o divórcio, em M ateus, a “cláusula de exce-


ção” ou “cláusula restritiv a ” ap arece em duas form as: π α ρ εκ τός λόγου π ο ρ ν ε ία ς
(exceto p o r m otivo de relações sexuais ilícitas) e μή επί π ο ρ ν ε ία (não sendo por
cau sa de relações sexuais ilícitas). E ntre os m an u scrito s que têm a p rim eira form a
de tex to se en co n tram bons rep re se n ta n te s de vários tipos de texto, m as é provável
que essa form a de tex to te n h a sido criad a p o r in flu ên cia do texto sem elh an te que
se e n co n tra em Mt 5.32. A rigor, não existe diferença de significado e n tre essas
d uas v a ria n te s te x tu a is (H agner, M atthew 14-28, p. 549). Além disso, em vários
m an u scrito s ap arecem as palav ras π ο ιε ί αυτήν μ οιχευθή να ι (a expõe a tornar-se
ad ú ltera [isto é, caso ela c asar de novo]), tira d a s de Mt 5.32, em lugar da expressão
καί γαμήση άλλην μ οιχά τα ι.
E m bora o significado das d u as form as de tex to seja o m esm o, os in té rp retes
não são u n â n im es q u a n to ao que seja esse significado, com o m o stram as seguintes
traduções: “não sendo p o r causa de p ro stitu iç ão ” (ARC), “não sendo p o r causa de
relações sexuais ilícitas” (ARA; veja tam b ém RSV, NRSV, REB, NVI), “exceto em
caso de in fidelidade conjugal” (NIV; veja tam b ém TEV, NTLH, FC, Seg), “exceto em
caso de u n ião ilegal” (NAB, TEB), “fora o caso de u n ião ilícita” (CNBB), “exceto por
m otivo de 1fornicação”’ (NBJ).

19.9 μ οιχά τα ι (com ete adultério) {B}

Após o verbo μ οιχά τα ι, vários m an uscritos acrescen tam καί ό ά πολελυμ ένη ν
γα μ ώ ν (ou γαμήσας) μ οιχά τα ι (e aquele que casa com u m a m u lh e r divorciada co-
m ete adultério). E possível que essas p alav ras te n h a m sido om itidas p o r acidente,
ou seja, a du pla oco rrên cia do verbo μ οιχά τα ι fez com que um copista om itisse o
m aterial que fica e n tre essas duas palavras. E n tre ta n to , é m ais provável que se tra te
de u m acréscim o posterior, p a ra ap ro x im ar o texto d a form ulação em Mt 5.32.
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 31

19.10 μ αθηταί [αυτού] ([seus] discípulos) {C}

C ham a a atenção o conjunto de m an u scrito s que não tem o pronom e αύτου. Por
o u tro lado, é possível que copistas o m itiram ο αυτού, p o r ju lg arem -n o desnecessá-
rio, u m a vez que o pronom e α ύ τφ (a e le /lh e ) ap arece no contexto im ed iatam en te
anterior. P ara indicar in certeza q u an to ao texto original, o pronom e α υτού aparece
e n tre colchetes. Q u alq u er que seja o tex to escolhido, em m uitas línguas será neces-
sário d izer “seus discípulos”. O utro m otivo p a ra d izer “seus discípulos” é e v ita r a
im pressão e rrô n ea de que os fariseus (v. 3) foram cham ados de discípulos.

19.11 τον λόγον [τούτον] ([esta] palavra) {C}

Visto que copistas g eralm en te tin h a m a ten d ên cia de acresce n tar palavras, p ara
to rn a r o texto m ais explícito — p o r exem plo, a crescen tan d o pronom es d e m o n stra ti‫־‬
vos com o το ύ το ν — o texto m ais breve, sem o τούτον, pode ser original. Além disso,
o tex to m ais c u rto tem bom apoio de m anuscritos. E n tretan to , alg u n s copistas po-
dem te r om itido o pronom e το ύ το ν p o r ser am bíguo, pois pode se refe rir ao ensino
de Jesu s sobre o casam ento, nos vs. 3 9 ‫־‬, esp ecialm en te o v. 6, com o tam b ém pode se
referir à observação dos discípulos no v. 10. P ara in d icar in certeza q u an to ao texto
orig inal, το ύ το ν ap arece, no texto, e n tre colchetes.
A lgum as traduções, p a rtin d o do pressuposto de que “e s ta /e s te ” se refere ao
ensino de Jesu s e não à observação feita pelos discípulos, deixam isso explícito no
texto. É o caso da NTLH: “Este en sin am en to não é p a ra to d o s” (tam bém TEV e FC).

19.16 διδάσ καλε (M estre) {A}

A p a la v ra α γα θέ (bom ), que não ap arec e em a n tig o s e bons re p re se n ta n te s


dos tex to s a le x a n d rin o e o c id en tal, foi in se rid a no te x to a p a rtir dos p ara lelo s
em Mc 10.17 e Lc 18.18. “A m odificação de M ateus [em relação a M arcos] ... desvia
a ‘atenção da b o n d ad e de Jesus p a ra o q u an to é bom ob ed ecer à lei (Davies
e Allison, A C ritica l a n d E x eg etica l C o m m e n ta r y o n th e G ospel A c c o rd in g to S a in t
M a tth e w , vol. Ill, p. 42, citan d o R obert H. G undry, M a tth e w : A C o m m e n ta r y o n his
L ite ra r y a n d T h eo lo g ica l A r t [1982], p. 385) (veja tam b ém o co m en tário sobre a
próxim a variante).

19.17 τί με έρ ω τα ς π ερ ί τού α γαθού; εις έστιν ό α γα θό ς (Por que m e p e rg u n ta s


acerca do que é bom ? Um só existe que é bom .) {A}

M uitos dos m a n u scrito s que a c re sc e n ta m αγαθέ (bom ), no v. 16, ta m b é m apre-


se n ta m a ltera çõ e s no v. 17, su b stitu in d o o relato c a ra c te rístic o de M ateus pelas
32 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

se g u in te s p a la v ras, tira d a s dos relato s p a ra lelo s em Mc 10.18 e Lc 18.19: τι με


λ έγεις α γα θ ό ν: ο υ ό είς α γα θ ό ς εί μή εις 6 θεός (Por que m e c h am as bom ? Nin-
g u ém é bom senão um só, que é Deus). Se essa form a de tex to tivesse estad o ,
o rig in a lm e n te , em M ateus, n ão h a v e ria com o ex p licar por que copistas a te ria m
a lte ra d o , c ria n d o um tex to m ais difícil. Além disso, é preciso dizer, a favor da
le itu ra esco lh id a com o tex to , que os copistas com freq u ê n cia a ltera v am a fo rm u ‫־‬
lação n u m dos E vangelhos p a ra faz er com que ela co n co rd asse com o que ap arec e
nos d em ais E vangelhos Sinóticos.

19 .2 0 έψ ύλαξα (tenho o b se rv a d o /te n h o obedecido) {A}

M ateus identifica o in terlo cu to r de Jesus com o um νεα νίσ κος (jovem ou m oço),
nos vs. 20,22. A pesar disso, em alg u n s m anuscritos o texto foi alterad o pelo acrésci-
m o das p alav ras έκ νεότη τός μου (desde a m in h a ju v en tu d e) ou έκ νεότη τος (desde
a ju v en tu d e) após o verbo έφ υλα ξα , p a ra h a rm o n iz a r o texto com os p aralelo s em
Mc 10.20 e L c 18.21.

19 .2 4 κάμηλον (cam elo) {A}

Em lu g ar de κάμηλον, alg u n s poucos m anuscritos gregos m ais recentes trazem


κάμιλον, que significa “co rd a”, “cabo de um barco”. As duas p alav ras ch eg aram a ter
a m esm a p ron úncia, n a h istó ria m ais recente da língua grega.

19.29 π α τέρ α η μητέρα (pai ou m ãe) {C}

A p resen ça do substantivo γυ να ίκ α (m ulher) depois de π α τέρ α ή μητέρα em


m uitos m an u scrito s (um a leitu ra a d o ta d a em Seg) p arece re su lta r da ação de copis-
tas que h a rm o n iz a ra m o texto com Lc 18.29. A su bstituição de π α τέρ α η μητέρα por
γ ο ν είς (pais), que ap arece em outros m anuscritos, pode ser resu ltad o da influên-
cia da m esm a passagem em Lucas ou, então, trata-se de u m a alteração feita por
copistas p a ra sim plificar a red ação do texto. A ausência das palav ras π α τέρ α ή em
D e em vário s m an u scrito s da A ntiga L atina p arece re su lta r do fato de um copista
ter, por acidente, passado por cim a de palav ras que te rm in a m com letras ou sílabas
sem elh an tes (hem eoteleuto).

19.29 έκ α το ντα π λ α σ ίο να (cem vezes m ais) {B}

A leitu ra a d o ta d a com o texto tem sólido apoio de m anuscritos. Além do m ais,


concorda com o texto de Mc 10.30. E, com o M ateus seguiu M arcos, é provável que
M ateus te n h a escrito έκ α το ντα π λα σ ίο να . A leitu ra π ο λ λ α π λ α σ ίο να (m uitas vezes
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 33

mais) provavelm ente se deriva da passagem p a ra le la em Lc 18.30. Esta v a ria n te foi


ad o ta d a em TEB: “receb erá m uito m ais‫( ״‬tam bém em REB e ARA).

2 0 .1 0 [rò] à v u ό η νύ ρ ιο ν καί α υτοί ([o] d en ário cada um tam b ém eles) {C}

P ara d a r m aior ênfase, copistas d eslo caram a locução καί α υτοί (tam bém eles)
p a ra im ed iatam en te após o verbo ελαβον (receberam ). O artig o definido τό pode
te r sido original, ten d o sido om itido por copistas que ju lg a ra m sua p resen ça des-
n ecessária. Por outro lado, o fato de não e sta r nos m an u scrito s B e D sugere que
pode não ser original. Esse a rtig o ap arece e n tre colchetes, p a ra in d icar que se tem
dúvidas q u an to à sua originalidade.
As v aria n te s tex tu ais refletem diferenças de estilo, e não a ltera m o significado
do texto. M uitas trad u çõ es m o d ern as não tra n slite ra m δη νά ρ ίον, p referin d o trad u-
zir por “cada um deles tam b ém recebeu ap en as a d iá ria ” (CNBB; confira NRSV),
“receb eram o m esm o pag am en to dos d em ais” (REB), “receb eram u m a m oeda de
p rata cada u m ” (NTLH, TEB, BN, TEV, FC).

20 .1 5 [ή] ([ou]) {C}

E xiste e q u ilíb rio no que diz respeito à evidência e x te rn a favorável à p resen ça


ou ausência da p a rtíc u la disjuntiv a fj, no com eço do v. 15, pois m an u scrito s que
rep re se n ta m os tipos de tex to ale x an d rin o , ocid en tal, etc. se en co n tram dos dois
lados. Visto que, em grego m ais recen te, ο η e o oi tin h a m p ro n ú n cia idêntica, é
provável que copistas te n h a m , de form a não in ten cio n al, om itido a p a rtíc u la ή de-
pois do p ronom e ooi (a ti), no final do v. 14. P a ra in d ic ar in ce rte za q u an to ao tex to
o rig in al, η foi colocado e n tre colchetes.
V árias tra d u ç õ e s m o d e rn a s n ão re p ro d u z e m essa p a rtíc u la . NBJ, p o r exem -
pio, diz “N ão te n h o o d ire ito de faz er o que q u ero com o que é m eu ? ” (tam b ém
NRSV e TEB). N ão fica c la ro se essas tra d u ç õ e s d eix a m de tra d u z ir a p a rtíc u la
ή p o r e sta re m se g u in d o a v a ria n te ou se o fazem p o r ra z õ es de e stilo d a lín g u a
alvo.

20.16 έσχατοι, (últim os.) {A}

As p ala v ras π ο λ λ ο ί γά ρ είσιν κλητοί, ολίγο ι δέ εκλεκτοί (porque m uitos são


ch am ad os, m as poucos escolhidos) foram , pro v av elm en te, adicio n ad as ao final
desse versículo p o r copistas que se lem b rara m de o u tra p a rá b o la que te rm in a com
as m esm as p ala v ras (veja 22.14). E possível, m as pouco provável, que essas pala-
v ras sejam p a rte do o rig in al e foram om itid as a cid e n ta lm e n te p o r um copista que
foi e n g a n a d o pelo fin al idêntico das p ala v ras έσχατοι e εκλεκτοί.
34 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

20 .1 7 το ύ ς δώ δεκα [μαθητάς] (os doze [discípulos]) {C}

O substantivo μαθητάς (discípulos) aparece e n tre colchetes p a ra indicar que se


tem dúvidas q uanto à sua originalidade. Por um lado, copistas m uitas vezes acres-
centavam a p alavra “discípulos” à locução oi δίόδεκα (os doze), como em 26.20,
e este p o d eria ser o caso aqui tam bém . Por outro lado, é possível que a palavra
μαθητάς fizesse p a rte do original, m as foi om itida p a ra h a rm o n iza r o texto com os
paralelos em Mc 10.32 e Lc 18.31, onde se lê apenas “os doze”. A leitu ra que traz
α ύτού (seus) e que aparece em vários m anuscritos m inúsculos e em versões antigas
é claram en te u m a adição posterior ao texto.
P ara m o strar que “os doze” se refere a um grupo específico de hom ens, algum as
traduções dizem “os Doze” (NBJ e REB). Mas o uso de um a inicial m aiúscula não
ajuda em n ad a aqueles que apenas ouvem o texto ser lido. Por isso, p a ra efeitos de tra-
dução, a m elhor opção talvez seja dizer “os doze discípulos”, m esm o que, por razões
de crítica tex tual, se adote o texto m ais breve.

2 0 .2 2 πίνειν. (beber.) {A}

A frase ή το βά πτισ μ α ... β α π τισ θή να ι (ou ser batizados com o batism o com que
eu sou batizado) não aparece em im p o rtan tes m anuscritos antigos que rep resen tam
vário s tipos de texto. Essas palavras foram acrescentadas por copistas que tra ta ra m
de h a rm o n iz a r o texto com a passagem paralela em Mc 1 0 .3 8 3 9 ‫־‬.

2 0 .2 3 ovk έστιν έμόν [τούτο] δ ο ύ να ι (não m e com pete [isto] conceder) {C}

O objeto direto τούτο (isto) aparece en tre colchetes, p a ra indicar que não se tem
certeza se é p arte do texto original ou se é um acréscim o posterior. Por um lado, essa
palav ra não consta de bons m anuscritos am igos. Além do m ais, aparece em diferen-
tes lugares em alguns m anuscritos, o que parece indicar que não fazia p a rte do origi-
nal, m as teria sido acrescentada em diferentes lugares no texto, por diferentes copis-
tas. Por ou tro lado, visto que τούτο não faz p arte do relato paralelo em M arcos, não
se tem , aqui, u m caso de harm onização. Logo, τούτο poderia ser original. Q ualquer
que seja o texto aceito como original, considerações de ordem gram atical e estilística
podem levar os trad u to res a in serir um objeto direto p ara o verbo “conceder”. É o que
acontece, por exem plo, em ARA, NBJ e TEB.

2 0 .2 6 εσται (será) {B}

A evidência ex tern a claram en te favorece a form a verbal fu tu ra εσται. Mas έστιν,


que é a form a do presente, tem o significativo apoio dos m anuscritos B e D. A m esm a
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 35

variação ocorre tam bém no paralelo de Mc 10.43. Em bora o tem po fu tu ro te n h a tudo


p a ra ser o original, não se tra ta sim plesm ente de u m a referência ao que vai acontecer
no futuro. Segundo Blass, D ebrunner, Funk, A Greek G ram m ar o f the New Testament
(1961) § 362, o fu tu ro do indicativo é usado, por vezes, em ordens categóricas, e
“M ateus faz uso m ais frequente desse fu tu ro do que os outros evangelistas”. A m elhor
m an eira de expressar isso é dizer: “Entre vós isso não deve oco rrer” ou “Entre vós não
deverá ser assim ” (NBJ).

2 0 .3 0 Έ λ εη σ ο ν ημάς, [κύριε,] (Tem com paixão de nós, [Senhor,]) {C}

O substantivo κύριε (Senhor/senhor) foi colocado en tre colchetes p ara indicar que
não se sabe ao certo se essa palavra é p a rte do original ou foi acrescentada poste-
n ó rm en te por escribas. Um a vez que as passagens paralelas em Mc 10.47 e Lc 18.38
trazem o nom e Ιησού (Jesus), é provável que as leituras que incluem esse nom e,
aqui em M ateus, sejam acréscim os posteriores. Tam bém se p oderia a rg u m e n ta r que
o texto m ais curto, sem ο κύριε, é original (assim na REB), e que as leituras m ais
longas são acréscim os feitos por copistas. Além do m ais, o fato de κύριε ap arecer em
diferentes posições em alguns m anuscritos p oderia sugerir que não fazia p arte do
original, m as foi acrescentado em diferentes lugares do texto por diferentes copistas.
E ntretanto, é m ais provável que κύριε seja original e que foi om itido por copistas que
tra ta ra m de criar um paralelo exato com a passagem sem elhante em Mt 9.27, onde se
lê ap en as Έλε'ησον ήμας.

2 0 .3 1 Έ λ εη σ ο ν ημάς, κύριε (Tem com paixão de nós, Senhor) {C}

Alguns m anuscritos trazem a palavra κύριε depois da locução “Tem com paixão de
nós” (como aparece no texto), ao passo que outros trazem κύριε antes dessa locução. O
testem unho dos m anuscritos favorece m ais a segunda form a do texto. No entanto, a lei-
tu ra que aparece como texto tem m ais chances de ser original. Isto porque, ao que tudo
indica, copistas teriam alterado a ordem das palavras para “Senhor, tem m isericórdia
de nós”, fazendo com que o texto concordasse com a form a de texto conhecida e usada
no culto da Igreja. Um bom núm ero de traduções m odernas adota a ordem das palavras
que aparece na v ariante, mas não fica claro se isso se deve a razões de natureza crítico-
-textual ou por questão de estilo da língua alvo. Recom enda-se aos tradutores que ado-
tem a ordem de palavras que fique m ais n atu ral na língua para a qual estão traduzindo.

21.3 Segmentação

N este versículo aparece um a citação em butida, isto é, um a citação d en tro de


o u tra citação, e não se sabe ao certo onde term in a essa citação em butida. As quatro
36 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

últimas palavras deste versículo podem ser entendidas de duas maneiras diferentes:
(1) Podem ser vistas como parte da citação embutida, ou seja, são palavras que os
dois discípulos deveríam dizer a alguém da aldeia à qual Jesus os estava enviando.
Neste caso, o sujeito do verbo άποστελεΐ (enviará ou devolverá) é ό κύριος (o Se-
nhor, isto é, Jesus). Esta é a opção da NBJ: “E se alguém vos disser alguma coisa,
respondereis que o Senhor precisa deles, mas logo os devolverá”.
(2) Por outro lado, a citação embutida pode ser encerrada com o verbo έχει
(precisa), fazendo com que as quatro últimas palavras desse versículo passem a ser
palavras que Jesus dirigiu aos discípulos. Caso se entender que a citação embutida
termina com o verbo έχει, o sujeito do verbo άποστελεΐ passará a ser o dono dos
anim ais. Esta é a opção da RSV, TEV, NTLH, e a maioria das outras traduções. A
NRSV, por exemplo, traduz mais ou menos assim: “Se alguém lhes disser algum a
coisa, sim plesm ente digam isto: Ό Senhor precisa deles’. E ele logo os enviará”.

21.12 ιερόν (templo) {B}

Em muitos manuscritos, as palavras του θεοΰ (de Deus) aparecem depois de


ιερόν. A leitura mais breve tem apoio maciço dos manuscritos e, além disso, os co-
pistas não teriam omitido τού θεού, caso tivesse estado no original. Tal acréscimo
da parte dos copistas era algo bastante natural, e visava dar ênfase ao fato de que
se estava profanando um lugar sagrado. Por outro lado, uma vez que os relatos pa-
ralelos em Mc 11.15 e Lc 19.45 (veja tam bém Jo 2.14) não têm as palavras τού θεού,
seria possível argumentar que essas palavras são originais em Mateus e que foram
om itidas por copistas, com a intenção de harmonizar o texto de Mateus com o texto
dos outros Evangelhos.

2 1 . 2 9 3 1 ‫ ־‬ου θέλω, ύστερον όέ μεταμεληθείς άπήλθεν ... έτέρω


... εγώ, κύριε* καί ούκ άπήλθεν ... ό πρώ τος
(não quero; depois, arrependido, foi ...
ao outro ... Sim, senhor; porém não foi ... o primeiro) {C}

Nesses três versículos, há muitas diferenças entre os manuscritos, sendo que as


principais delas são as seguintes:
(1) Em alguns manuscritos, o primeiro filho diz “Não”, mas depois se arrepen-
de e vai trabalhar na vinha. O segundo filho diz “Sim”, mas não vai trabalhar. A
pergunta que é feita é esta: “Qual dos dois fez a vontade do pai”? A resposta é: “o
prim eiro”. Esta leitura, adotada por quase todas as traduções, tem tudo para ser
original, pelas seguintes razões: (a) Faz sentido que, no momento em que o primei-
ro filho disse “não”, o pai tenho pedido ao segundo filho para que fosse, (b) Essa
leitura tem um apoio de manuscritos levem ente superior ao das outras variantes.
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 37

(2) Em alguns outros m anuscritos, o prim eiro filho diz “sim ”, m as depois se re-
cusa a ir tra b a lh a r na v inha. O segundo filho diz “n ã o ”, m as p o sterio rm en te se arre-
pen d e e vai trab a lh a r. "Q ual dos dois fez a vontade do p a i”? Esses m an u scrito s têm
as seguintes respostas diferentes: “O ú ltim o ” (ó ύστερος), “O ú ltim o ” (ο έσχατος),
“O seg u n d o ” (ô δεύτερ ος), e “O p rim e iro ‫( ״‬ó π ρ ώ το ς). E n tretan to , esta le itu ra não
faz ta n to sentido q u an to a anterior, a p re se n tad a acim a (1). Se o prim eiro filho dis-
se “sim ”, não h avería por que o pai solicitar ao segundo filho que fosse trab a lh a r.
P rovavelm ente, esta leitu ra reflete o esforço dos copistas p a ra fazer com que a or-
dem cronológica, no texto, coincidisse com os acontecim entos históricos. Em o u tras
palavras, o prim eiro filho é visto com o re p re se n ta n te dos ju d eu s em geral, ou, m ais
d iretam e n te , dos principais sacerdotes e anciãos (v. 23) e o segundo filho é visto
com o sendo os gentios ou os cobradores de im postos e as p ro stitu ta s (v. 31). REB,
M offatt, G oodspeed e ARA seguem esta v arian te.
(3) Em alguns outros m anuscritos, o prim eiro filho diz “n ã o ”, m as depois se ar-
rep en d e e vai tra b a lh a r na v inha. O segundo filho diz “sim ”, m as não vai trab a lh a r.
“Q ual dos dois fez a vontade do p a i”? A resp o sta é: “o ú ltim o ”. A lguns in té rp retes
e n ten d em que, por ser a m ais difícil, esta leitu ra é a original, e que os copistas te-
riam alterad o o texto p a ra as form ulações que ap arecem em (1) e (2). E n tretan to ,
esta leitu ra é tão difícil que, no contexto, não faz sentido n en h u m .

2 1 .3 9 α ντό ν έςεβαλον ε'ςεο τον ά μ π ελ ώ νο ς και ά πέκτεινα ν


(a ele, lan çaram -n o fora da v in h a e o m ataram ) {A}

M anuscritos que re p re se n ta m o tipo de texto ocidental deste versículo concor-


d am com a ordem dos acontecim entos em Mc 12.8, onde o filho é m orto e só en tão
lan çad o fora da v in h a. Em M ateus e Lucas (20.15), o filho é lançado fora da v in h a
an tes de ser m orto, u m a ordem que, talvez, reflita o fato de que Jesus foi crucifica-
do fora da cidade (Jo 19.17,20; Hb 13.12-13).

2 1 .4 4 [Κ αί ... αντόν.] ([E ... a ele.]) {C}

M uitos eruditos de nossos dias en ten d em que este versículo, que ap arece na
m aio ria dos m anuscritos gregos de M ateus, seja um acréscim o b asead o em Lc 20.18
e que teria sido inserido no texto de M ateus bem no início da tran sm issão do texto.
Esse versículo é om itido em REB, TEV e na New Je ru sa le m Bible (em bora conste da
NBJ). E n tretan to , este versículo pode ser original, pois as p alav ras em M ateus não
são as m esm as que ap arecem em Lucas. Além disso, se tivessem sido acrescentad as,
um lugar m ais adequado teria sido após o v. 42. Sendo p a rte do original, essas pala-
v ras po d em te r sido om itidas quan do o copista foi e n g an ad o pela sem elh an ça en tre
ο α ντής, no final do v. 43, e ο αύτόν, no final do v. 44. E m bora, provavelm ente, esse
38 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

versículo seja u m acréscim o p o sterio r ao texto de M ateus, é m an tid o no texto, ain d a


que e n tre colchetes, devido à sua a n tig u id ad e e im p o rtân cia n a trad ição tex tu al.

22.10 ό γά μ ο ς (o salão de festas) {B}

A le itu ra ό ν υ μ φ ώ ν (que aqui significa “a sala n u p cial”) parece ser u m a cor-


reção, in tro d u z id a nos m an u scrito s do tipo de tex to a lex an d rin o , que resu lto u do
fato de os copistas en te n d ere m que e ra um ta n to in ad eq u ad o u sa r o term o ό γά μ ος
(casam ento, festa de casam ento) em conexão com o verbo “ficou cheio” (έπλήσθη).
A trad u ç ão do texto será sem pre a m esm a, pouco im p o rtan d o que v a ria n te é con-
sid erad a o rig in al, porque, neste caso, ό γά μ ο ς é usado no sentido m etafórico de “o
salão de festas” (veja Davies e Allison, A C ritic a l a n d E x eg etica l C o m m e n ta r y o n th e
G ospel A c c o rd in g to S a in t M a tth e w , vol. Ill, p. 203; e BD AG, pp. 188-189).

22.23 Σ α δ δ ο υ κ α ιο ι, λέγοντες (saduceus, dizendo) {B}

S egundo as palavras que ap arecem no texto, os saduceus, no início de seu diá-


logo com Jesus, afirm am sua descrença na ressurreição dos m ortos. No entanto,
alg u n s m an uscritos têm o artig o definido oi dian te do participio λέγοντες, o que
significa que essas palav ras co n statam aquilo que os saduceus acred itam (ou não
acreditam ), a saber, “saduceus, que dizem não haver ressu rreição ”. É possível que
o artig o definido seja original e que foi acidentalm ente om itido por copistas que o
co n fu n d iram com o final da p ala v ra Σ α δ δο υκ α ΐο ι, que tem as m esm as vogais do
artig o definido. No en tan to , é m ais provável que os copistas ten h a m acrescentado o
artigo, com o intuito de h a rm o n iz a r o texto com os paralelos em Mc 12.18 e Lc 20.27.
Além disso, n a m edida em que M ateus não costum a fornecer esse tipo de inform ação
a respeito de coisas relacionadas com o judaísm o, é pouco provável que, neste caso,
ele esteja explicando que os saduceus são aqueles que não a cred itam na ressurreição
dos m ortos.
As trad u çõ es m o d ern a s não são u n ân im es. Seguindo a leitu ra aceita com o texto,
a NTLH trad uz: “N aquele m esm o d ia ch eg aram p e rto de Jesus alg u n s saduceus,
a firm an d o que n in g u ém ressu scita” (tradução sem elh an te ap arece em NRSV, NAB
e TEV). S eguindo a v a ria n te , CNBB traduz: “N aquele dia, aproxim aram -se dele uns
saduceus, os quais a firm am que não h á ressu rre iç ão ”. Um tex to sem elh an te aparece
em REB, RSV, ARA, NVI, NBJ, TEB, FC, Seg.

22.30 ά γγελοι (anjos) {B}

A m aio ria dos m anuscritos, seguidos por Seg, tem o acréscim o de θεού ou του
θεού (de Deus) depois do su bstantivo άγγελοι. E m bora poucos m an u scrito s ten h a m
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 39

essa form a de texto m ais breve, ela tem o apoio de im p o rtan te s m an u scrito s que
re p re se n ta m os tipos de texto a le x an d rin o e o cidental. A crescentar a locução του
θεοΰ era algo bem n a tu ra l p a ra os copistas, ao passo que a sua om issão é difícil de
explicar, caso tivesse estad o o rig in alm en te no texto. Em alg u m as línguas, talvez os
trad u to res te n h a m que u sa r um term o p a ra “an jo ” que já c o n te n h a a noção de que
se tra ta de anjos “de D eus”. Por exem plo, “anjo” pode ser trad u z id o p o r “m ensag eiro
de D eus”. Em situações com o essa, não haverá diferen ça e n tre a trad u ç ão d a leitu ra
aceita com o texto e a da v a rian te.

2 2 .3 2 εστιν [ό] θεός (ele é [o] Deus) {C}

A leitu ra que aparece com o texto diz: “Ele não é o Deus dos m ortos, m as dos
vivos”. C ontudo, p a ra d eix a r o texto m ais exato, copistas a c resce n tara m um según-
do θεός (Pois Deus não é um Deus dos m ortos, m as dos vivos), que ap arece n u m a
form a m ais recente do texto. Q uanto ao artig o definido 0, não se sabe com certeza
se copistas o d eix aram fora em an alo g ia ao texto p aralelo em Mc 12.27, ou se copis-
tas in se rira m o artig o no texto, influenciados pelas q u atro o corrências de ό θεός no
contexto im e d iatam en te an terio r. No texto, o artig o ap arece e n tre colchetes, p a ra
sin alizar que não se tem c erteza q u an to ao texto original.
A p aren tem en te, a NTLH tra d u z a v arian te: “Deus não é Deus dos m ortos e sim
dos vivos”. O m esm o acontece n a REB. Na v erdade, não existe real d iferen ça de sig-
nificado e n tre a leitu ra que está no tex to e a le itu ra que tem a repetição do θεός. Em
m uitas lín guas, a p resença ou ausência do artig o definido será d e te rm in a d a pelas
exigências ou características d a língua p a ra a qual se está trad u zin d o .

2 2 .3 5 [νομικός] ([um in té rp re te da lei]) {C}

Por um lado, a inclusão ou p resença da palav ra νο μ ικ ό ς tem um im pressio nan te


apoio da p a rte dos m anuscritos, o que sugere que ela estava o rig in alm en te no texto.
Por o u tro lado, νο μ ικ ό ς não ap arece nos m an u scrito s da fam ília 1 ( / 1), tam pouco
em versões an tig as e em textos de Pais da Igreja de u m a g ran d e v a rie d ad e de luga-
res. Essa om issão é significativa, pois em n e n h u m a o u tra passagem de M ateus se
usa a p alav ra νομικός. Assim sendo, é possível que copistas in se rira m essa palav ra
no tex to a p a rtir da passagem p a ra lela em Lc 10.25. P ara sin a liza r que existem dú-
vidas q u an to à form a do tex to o riginal, νο μ ικ ό ς aparece, no texto, e n tre colchetes.
A TEB (bem com o a ARA, NTLH, NRSV, NIV, TEV, TEB, FC, Seg) segue o texto
m ais longo: “E um deles, um legista, p erg u n to u -lh e p a ra o p ô r à p rova”. O utras
trad u çõ es de νομικός são “p erito na lei” (NVI), “m estre d a Lei” (NTLH), e “do utor
d a Lei” (BN). A NBJ a d o ta o tex to m ais breve: “e um deles — a fim de pô-lo à prova
— p e rg u n to u -lh e ” (a REB faz de m odo sem elhante).
40 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

2 3 .4 βαρέα [καί δυσβάστακτα] (pesados [e difíceis de carreg ar]) {C}

A lguns poucos m anuscritos, bem como REB, NVI, NBJ, TEB, NTLH, FC e Seg,
om item as palav ras καί δυσβάσ τακτα (e difíceis de carregar), m as a leitu ra m ais lon-
ga, ad o tad a por RSV, NRSV, TEV, CNBB, tem sólido apoio dos m anuscritos. Se essas
p alav ras estavam no texto original, é possível que copistas as om itiram de form a
acidental, p assan d o do και que aparece depois de βαρέα p a ra ο καί que vem depois
de δυσβάστακτα. T am bém é possível que copistas ten h a m om itido essas palavras
p o r razões de estilo. Por o u tro lado, existe a possibilidade de essa locução não ser
original, tend o sido in tro d u zid a em M ateus a p a rtir do p aralelo em Lc 11.46. Para
in d icar que existem dúvidas a respeito da form a exata do original, a locução καί
δυσβάσ τακτα foi colocada entre colchetes.

2 3 .9 π α τέρ α μή καλέσητε υ μ ώ ν (não cham eis vosso pai) {B}

Em lugar do prim eiro υμ ώ ν (vosso) que aparece neste versículo, vários m anuscri-
tos do tipo ocidental colocam o pronom e ύμΐν (p ara vós), e alguns m anuscritos gregos
m ais recentes om item o pronom e, p o r considerá-lo desnecessário. As diferenças entre
essas v arian tes são apenas questão de estilo e não de significado. Mais do que as
questões de n a tu re za crítico-textual, o que os tradutores terão de levar em conta ao
trad u zirem esse texto são as características da língua p ara a qual estão traduzindo.

2 3 .1 4 omissão do versículo {A}

O v. 14 não faz p a rte do texto nos m ais antigos e m elhores m an u scrito s dos
tipos de tex to a le x an d rin o e ocidental. Não h á dúvida de que copistas e x tra íra m
esse tex to de Mc 12.40 ou Lc 20.47 e o in se rira m aqui, em M ateus. E sta conclusão
é co n firm ad a pelo fato de que alg u n s copistas colocaram esse texto an tes do v. 13,
ao passo que ou tros o colocaram após o v. 13.

23 .1 9 τυ φ λ ο ί (cegos) {B}

A p aren tem en te, as p alav ras μ ω ροί καί (tolos e), que ap arecem no v. 17, foram
in serid as p o r a lg u n s copistas neste lugar. Isto porque não existe um a razão que pu-
desse ju stific a r a om issão dessas palavras, caso elas tivessem feito p a rte do original.

2 3 .2 3 ά φ ιέ ν α ι (om itir) {C}

O infinitivo aoristo άφεΐναι, que se encontra em alguns textos alexandrinos em


lugar do infinitivo presente άφιέναι, é um a pequena correção de natureza gram atical.
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 41

Se houver algum a diferença de significado em vista, poderia ser a seguinte: o infinitivo


presente enfatiza um pouco m ais o caráter contínuo da ação que está sendo descrita.

2 3 .2 5 ά κ ρ α σ ία ς (falta de dom ínio próprio) {A}

A p alav ra ά κ ρα σ ία ς tem sólido apoio de m anuscritos antigos e de boa qualidade.


No e n ta n to , seu uso ao lado de α ρ π α γή ς (rapina) deve te r sido visto como inapro-
priado, o que levou vários copistas a su b stitu ir ά κ ρ α σ ία ς por outros substantivos,
como ά δ ικ ία ς (injustiça), ά κ α θα ρ σ ία ς (im pureza), ou π ο ν η ρ ιά ς (m aldade).

2 3 .2 6 του π ο τη ρ ιο ύ ... xò εκτός α υ το ί1 (do copo ... o e x terio r dele) (D)

A leitura aceita como texto cita apenas o copo (του ποτηριού), por m ais que exista
um bom testem u nho de m anuscritos que favorecem o texto m ais longo, que inclui a
locução καί τής π α ρ ο ψ ίδ ο ς (e do prato). Esse texto m ais longo é adotado por RSV,
NIV, NVI, NBJ, e Seg. A m aioria dos m anuscritos tem o seguinte texto: “Lim pa pri-
m eiro o in terior do copo e do prato, p a ra que tam bém o exterior deles (αύτών) fique
lim po”. Mas o fato de alguns m anuscritos terem o pronom e singular, “Limpa prim eiro
o interior do copo e do prato, p a ra que tam bém o exterior dele (αύτου) fique lim po”,
dá a en ten d er que no texto original não constavam as palavras καί τής πα ρ ο ψ ίδ ο ς.
Se estas palavras não faziam p arte do original, foram acrescentadas por copistas,
provavelm ente a p a rtir do v. 25. Alguns m anuscritos trazem έξιυθεν em lugar de
έκτος, m as essas duas palavras são sinônim as neste contexto e serão traduzidas de
form a idêntica.

2 3 .3 1 S e g m e n ta ç ã o

S egundo a po n tu ação que se e n co n tra no texto, existe u m a p au sa m aior no final


do v. 31, e as p alav ras καί υ μ είς (e vós), que ap arecem no início do v. 32, form am
u m a u n id ad e com o que se segue no v. 32. E n tretan to , a vigésim a sétim a edição de
N estle-A land dá conta, no ap arato crítico, de que existe u m a p o n tu ação a ltern ati-
va em alg u n s m an u scrito s antigos, a saber, o p onto final é colocado depois de καί
υ μ είς e não no final do v. 31. S egundo essa p o n tu ação a ltern a tiv a , as palav ras καί
υ μ είς são enfáticas, e a tra d u ç ão do tex to passa a ser a seguinte: “Vocês testificam
co n tra si m esm os que são os filhos dos que m a ta ra m os profetas, 32 tam b ém vocês”.

2 3 .3 7 S e g m e n ta ç ã o

Este versículo pode ser e n ten d id o com o u m a afirm ação, a exem plo do que é feito
n esta edição do tex to grego e n a quase to talid ad e das trad u çõ es m o d ern as. Pode
42 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

tam b ém ser escrito na form a de u m a p e rg u n ta , com o em TR e WH. O utra opção,


seguida por m uitas trad u çõ es m o d ern as, é ver aí u m a exclam ação. Caso se ju lg a r
que se tra ta de u m a p e rg u n ta , essa p e rg u n ta deveria ser e n te n d id a com o retórica.

23.38 έρημος (deserta) {B}

O a d je tiv o έ ρ η μ ο ς e s tá a u se n te em a lg u n s m a n u s c rito s , m as a q u e le s que


o in clu em d ão c o n sid e rá v e l ap o io p a ra q u e se c o n sid e re o m esm o com o sen-
d o o rig in a l. E p ro v áv e l que a lg u n s c o p ista s o m itira m e sse a d je tiv o , p o rq u e o
c o n s id e ra ra m re d u n d a n te logo ap ó s o v e rb o άηΤ εται (é a b a n d o n a d a ). E m en o s
p ro v áv e l que o te x to m ais b rev e seja o rig in a l. Em o u tra s p a la v ra s , é po u co
p ro v áv e l q u e c o p ista s te n h a m in se rid o o te rm o έρ η μ ο ς sob in flu ê n c ia do te x to
g reg o de J r 2 2 .5 (onde a p a la v ra a p a re c e n a fo rm a de u m v erb o ), ao q u a l Je su s
e s tá fa z e n d o a lu são .
A le itu ra a c e ita com o tex to p o d e ser tra d u z id a p o r “D eus deixou o Tem plo de
vocês, e ele ficou v a zio ” (p a rtin d o do p re ssu p o sto de que ό ο ίκ ο ς é o Tem plo, e
n ã o Je ru sa lé m ; p a ra u m a d iscu ssão em to rn o do sig n ificad o de ό ο ίκ ο ς n e sta pas-
sag em , veja D avies e A llison, A C r itic a l a n d E x e g e tic a l C o m m e n ta r y on th e G ospel
A c c o r d in g to S a i n t M a tth e w , vol. Ill, p. 322). P a ra efeitos de tra d u ç ã o , talv ez a
m e lh o r opção, em a lg u m a s lín g u a s, seja c o m b in ar as n o çõ es de “a b a n d o n a d o ” e
“d e s e rto ”, a exem plo do que aco n tece n a CEV: “E ag o ra o tem p lo de vocês fica rá
d e s e rto ”.

24.6 γενέσ θα ι (ser/acontecer) {B}

A le itu ra que ap arece com o tex to é ap o iad a p o r u m a g ra n d e v a rie d a d e de ma-


n u scrito s an tigo s. E n tre ta n to , copistas tra ta ra m de fazer acréscim os, b a sta n te na-
tu rá is, ao texto: “to d as as coisas [πάντα] precisam a co n tec er”, “essas coisas [ταΰτα]
p recisam a c o n te c e r”, ou “to d as essas coisas [πά ντα ταΰτα] precisam a co n tec er”. Se
q u alq u e r u m a dessa p ala v ras tivesse constado do o riginal, não e x istiria n e n h u m
m otivo satisfató rio que pudesse te r levado os copistas a om iti-la.
O infin itiv o γενέσ θα ι não tem um sujeito explícito, m as fica im plícito que o que
p recisa aco n tecer são g u e rra s e ru m o res de g u e rra . Por isso, m esm o sem e n tra r na
q u e stão c rític o -tex tu al, talvez em alg u m as lín g u as seja n ecessário ou conveniente
in se rir u m a locução com o “essas coisas”, “esses a co n tecim en to s” ou “essas guer-
ra s”, p a ra se rv ir de sujeito do verbo acontecer. As d iferen ças e n tre essas v a ria n te s
são e stilísticas e não chegam a a lte ra r o significado. C onfira, p o r exem plo, as se-
g u in te s trad u çõ es: “Essas coisas têm de a co n tec er” (BN e REB), “É n ecessário que
tais coisas a co n teç am ” (NVI), “Tudo isso vai a co n te c e r” (NTLH), e “é preciso que
essas coisas a co n teç am ” (NBJ e CNBB).
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 43

2 4 .7 λιμ οί καί σεισμοί (fom es e terrem otos) {Β}

E m bora seja possível que a locução καί λοιμ οί (e epidem ias) te n h a sido om itida
a cid en talm en te, por te r um final idêntico ao das p alav ras λιμ οί e σεισμοί, é m ais
provável que essa locução te n h a sido acrescen tad a em d iferen tes lugares p o r co-
pistas que conheciam o texto de Lc 21.11, onde se fala sobre fom es, terre m o to s e
epidem ias.

2 4 .3 1 σ ά λ π ιγγο ς (tro m b e ta /to q u e de tro m b eta) {B}

A exp ressão σ ά λπ ιγξ μεγάλη (um a g ran d e tro m b e ta = um som forte de trom be-
ta) ocorre som ente aqui em todo o NT, em bora a expressão φ ω νή μεγάλη (um som
ou u m a voz forte) o co rra diversas vezes. Ao que parece, copistas a c resce n tara m a
p alav ra φ ω νή ς ou a locução καί φ ω νή ς ao texto de Mt 24.31, talvez influenciados
pelo relato de Ex 19.16. E m enos provável que φ ω νή ς seja original e que te n h a sido
om itido porque os copistas ju lg a ra m essa p ala v ra desnecessária.
Visto que, neste contexto, σ ά λ π ιγγο ς se refere não à tro m b e ta em si, m as ao som
d a tro m b e ta , não existe real d iferen ça de significado e n tre a v a ria n te e a leitu ra
aceita com o texto. Não existe diferen ça m aior e n tre a trad u ç ão “Ele en v iará seus
anjos com um a g ran d e tro m b e ta ” (CNBB) e a trad u ção “E ele en v ia rá os seus anjos,
com g ran d e clan gor de tro m b e ta ” (ARA; tam b ém KJV e NVI), que parece b asead a
n a v a ria n te tex tu al.

2 4 .3 6 ουδέ ό υ ιό ς (nem o Filho) {B}

Os m elh ores re p re se n ta n tes dos tipos de texto a le x an d rin o e ocidental contêm


as p alav ras ουδέ ό υ ιός, e a sintaxe do texto sugere que essas três p alav ras sejam
originais. M as elas não ap arecem na m aio ria dos m anuscritos de M ateus, incluindo
o tex to b izantin o, de origem m ais recente. C opistas o m itiram essas p alav ras por
causa da dificuldade d o u trin á ria envolvida n a afirm ação de que o Filho não sabia
q u an d o o Filho do H om em viria. É m uito pouco provável a hip ó tese de que o texto
m ais breve seja o rig in al e que as palav ras ουδέ ό υ ιό ς te n h a m sido in serid as a par-
tir de Mc 13.32.

2 4 .3 8 [έκείναίς] ([naqueles]) {C}

Existe sólido apoio de m an u scrito s p a ra a le itu ra “Pois assim com o naqueles


(έκείναίς) dias a n tes do dilúvio”. É possível que a p ala v ra έκείναίς te n h a sido omi-
tida, a cid en talm en te, porque as palav ras ή μ έραις, έκείναίς, e τα ΐς te rm in a m todas
com as m esm as letras. Mas, com o existe tam b ém bom apoio de m an u scrito s p a ra a
44 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

leitu ra m ais breve, sem ο έκείναις, esta p ala v ra aparece, no texto, e n tre colchetes,
p a ra in d icar que se tem dúvidas q u an to à sua orig in alid ad e. A rigor, não existe dife-
ren ça de significado e n tre “Pois assim como, naqueles dias an tes do dilúvio” (TEB,
NRSV, NBJ, BN) e “Nos dias a n tes do dilúvio” (REB, ARA, NTLH, CNBB).

2 4 .4 2 ήμερα (dia) {B}

Em lugar de ήμερα, que tem excelente apoio em m anuscritos, o textus receptus e


a m aioria dos m anuscritos trazem topa (hora), um term o extraído do v. 44. Q ualquer
que seja a leitu ra escolhida, o significado é o m esm o e o texto pode ser traduzido por
“não sabeis qu an d o ” ou “não sabeis em que m om ento”.

25.1 τού ν υ μ φ ίο υ (o noivo) {B}

Alguns m anuscritos antigos têm του νυ μ φ ίο υ καί τής νύμ φ ης (ο noivo e a noiva).
No en tanto, tud o indica que as palavras καί τής νύμ φ ης não sejam originais. Devem
te r sido acrescentadas por copistas, pois a prática usual e ra que 0 noivo viesse p ara
a casa dele acom panhado da noiva, p ara o casam ento. Além disso, a favor do texto
m ais breve está a constatação de que, nos versículos seguintes, se fala unicam ente a
respeito do noivo. Por outro lado, se as palavras καί τής νύμ φ ης faziam p arte do origi-
nal, podem te r sido om itidas p o r copistas que se d eram conta de que tais palavras não
se encaixavam no quadro em que se ap resen ta Cristo, o noivo, voltando para buscar
a sua noiva, a igreja. Em outras palavras, se Cristo vem p a ra buscar a noiva dele, a
noiva não p o d eria e star vindo em sua com panhia.

2 5 .1 3 ώ ρ α ν (hora) {A}

A leitura que aparece como texto tem sólido apoio de m anuscritos. A frase έν ή ό
υ ιό ς του ά νθρώ που έρχεται (em que ο Filho do Hom em virá) foi acrescentada, ao final
desse versículo, por copistas que se lem braram de um a afirm ação sem elhante em Mt
24.44. O sentido das palavras “porque não sabeis o dia nem a hora” fica claro a p artir do
que é dito em Mt 24.36— 25.12. E ntretanto, deixando de lado a questão crítico-textual,
um tradu to r pode m uito bem optar por deixar isso bem claro, acrescentando algo como
“em que o Filho do H om em virá” ou “quando o reino de Deus será estabelecido”. A CEV
traduz assim: “Vocês não sabem o dia nem a hora em que tudo isso vai acontecer”.

2 5 . 1 5 1 6 ‫ ־‬άπεόήμησεν. ευθέω ς π ο ρ ευ θ είς (ele p a rtiu . Im ed iatam en te saindo) {B}

São po ucos os m a n u sc rito s que a p o ia m a le itu ra que a p a re c e com o tex to ,


m as eles são de b o a q u a lid a d e . M ais im p o rta n te do que isto é o fato de que essa
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 45

é a le itu ra que ex p lica o su rg im e n to d a s d e m a is. N ão fica c la ro se o ad v érb io


ευ θ έω ς (im e d ia ta m e n te ) se liga ao que vem a n te s ou ao que vem d ep o is. Ou
seja, o te x to ta n to p o d e sig n ific a r que o se n h o r p a rtiu im e d ia ta m e n te q u a n to
p o d e sig n ific a r que o servo que re c e b e u cinco ta le n to s saiu im e d ia ta m e n te . P a ra
e lim in a r essa a m b ig u id a d e , c o p ista s in tro d u z ira m a p a la v ra όέ em d ife re n te s
lu g a re s do tex to . V isto que όέ a p a re c e q u a se sem p re com o a se g u n d a p a la v ra de
u m a fra se , isto é, n u n c a a p a re c e no início d e la , a p o sição desse όέ d e te rm in a
ou e sta b e le c e o sig n ificad o . (1) ά πεόήμ ησ εν. ευ θ έω ς όέ π ο ρ ε υ θ ε ίς (ele p a rtiu .
E sa in d o im e d ia ta m e n te ) sig n ifica que o que serv o saiu logo. (2) ά πεόή μ η σ εν
ευ θέω ς, π ο ρ ε υ θ ε ίς όέ (ele p a rtiu im e d ia ta m e n te . E sain d o ) sig n ifica que o se ‫־‬
n h o r p a rtiu im e d ia ta m e n te .
Um a vez que, em outros contextos de M ateus, as palav ras ευθέω ς ou ευθύς sem-
pre se ligam ao que segue, o texto foi im presso com um ponto final após o verbo
άπεόήμησεν. Convém n o ta r que o participio aoristo do verbo π ο ρ εύ ο μ α ι é usado,
m uitas vezes, p a ra d in a m iz a r a n a rra tiv a , sem que se esteja d an d o ênfase à ideia de
a n d a r ou viajar. Assim sendo, o texto pode ser trad u z id o p o r “A quele que recebeu
os cinco talen to s logo se pôs a neg o ciar com eles”.
Ig u alm en te se deveria n o ta r que, visto um participio aoristo m uitas vezes de-
n o ta r um a ação a n te rio r à do verbo principal, o significado p o d ería ser o seguinte:
o servo p a rtiu e, depois disso, com eçou a negociar com os talentos. A CEV, por sua
vez, segue a p o n tu ação do texto, m as en ten d e que o sujeito de π ο ρ ευ θ είς é o senhor,
e não o servo. Disso resu lta a seg uinte tradução: “ ... E ntão ele deixou o país. 16
Tão logo o hom em tin h a ido em bora, o servo com as cinco m il m oedas usou esse
d in h eiro p a ra g a n h a r ou tras cinco m il m o ed a s”.

2 5 .2 6 S e g m e n ta ç ã o

As p alav ras que o sen h o r dirige ao servo po d em ser in te rp re ta d a s e p o n tu ad a s


com o u m a p e rg u n ta , a exem plo do que é feito no texto, ou, então, podem ser tom a-
das com o u m a afirm ação. Caso forem en ten d id as com o u m a p e rg u n ta , devem ser
vistas com o u m a p e rg u n ta retórica. Em alg u m as línguas, a m elhor opção é ree stru -
tu r a r o tex to na form a de u m a afirm ação.

2 6 .2 0 μετά τω ν όώόεκα (com os doze) {C}

A lguns m an u scrito s tra z e m μετά τω ν όώ όεκα μαθητώ ν (com os doze discípu-


los); outros, μετά τω ν μ αθη τώ ν (com os discípulos). A exem plo de Mt 20.17, não se
tem certeza se μ αθηταί faz p a rte do texto, co m plem entando a locução ο ί όώ όεκα
(os doze). N este versículo, a evidência e x te rn a , isto é, o teste m u n h o dos m anuscri-
tos, p arece favorecer a leitu ra m ais breve.
46 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

A lg u m a s tra d u ç õ e s , com o a NBJ, TEB, NVI, e CNBB, g ra fa m a p a la v ra


D oze com u m a in ic ia l m a iú s c u la , p a ra s in a liz a r q u e se t r a t a de um g ru p o es-
p e c ífic o d e h o m e n s. E n tre ta n to , e ssa in ic ia l m a iú s c u la d e n a d a a d ia n ta p a ra
q u e m a p e n a s ouve o te x to se n d o lido. P o r e ssa ra z ã o , ta lv e z se ja m e lh o r tra -
d u z ir o te x to p o r “os d o z e d is c íp u lo s ”, com o a c o n te c e n a NTLH. ARA e REB,
ao tr a d u z ir e m p o r “os d o z e d is c íp u lo s ”, a p a re n te m e n te e s tã o s e g u in d o a va-
r ia n te te x tu a l.

2 6 .2 7 π ο τ ή ρ ιο ν (um cálice) {B}

M uitos m a n u sc rito s têm o a rtig o d e fin id o d ia n te do su b sta n tiv o , ou seja, “o


c álic e ”. E n tre ta n to , a te n d ê n c ia dos co p ista s e ra , p ro v a v e lm e n te , a c re s c e n ta r
o a rtig o ao invés de om iti-lo, p a ra fa z e r re fe rê n c ia esp ec ífic a à q u e le cálice, a
sab er, o cálice d a ú ltim a ceia. A lém de d e cisõ e s que d izem re sp e ito ao te x to
o rig in a l, tra d u to re s p re c isa m le v a r em c o n ta ta m b é m o que fica m ais n a tu ra l na
lín g u a p a ra a q u a l e stã o tra d u z in d o .

2 6 .2 8 διαθήκης (aliança) {B}

A p a re n te m e n te , a p a la v ra κ α ινή ς (nova) foi in tro d u z id a a p a r tir d a p a ssa g em


p a ra le la em Lc 2 2 .2 0 . Se κ α ινή ς tiv e sse c o n sta d o do te x to o rig in a l, n ã o h a v e ria
ra z ã o que ju s tific a s s e su a o m issão p o r p a rte de co p istas.

2 6 .4 1 S e g m e n ta ç ã o

C aso se fiz e r um c o rte , ou seja, in s e rir u m a v írg u la ap ó s o v erb o π ρ ο σ εύ χεσ θ ε


(o rai), a c o n ju n ç ão iv a p o d e e x p re s s a r o p ro p ó sito ou o b jetiv o do v ig ia r e o ra r:
p a ra q u e os d isc íp u lo s n ã o e n tre m em te n ta ç ã o (veja D avies e A lliso n , A C r itic a i
a n d E x e g e tic a l C o m m e n ta r y o n th e G o sp e l A c c o r d in g to S a i n t M a tth e w , vol. Ill,
p. 4 9 9 ). C aso, p o ré m , n ã o se fiz e r n e n h u m c o rte ap ó s o v e rb o , iv a p o d e in tro -
d u z ir o c o n te ú d o d a o ra ç ã o , a sab er, “v ig ia i, e o ra i p a ra q u e n ã o e n tre is em
te n ta ç ã o ” (N ew J e ru s a le m Bible).

2 6 . 4 4 S e g m e n ta ç ã o

C aso se fiz e r u m c o rte , em fo rm a d e v ír g u la , a p ó s a p r im e ir a o c o rrê n -


c ia d a p a la v r a π ά λ ιν (n o v a m e n te ), a tr a d u ç ã o s e rá s e m e lh a n te à d e ARA:
“D e ix a n d o -o s n o v a m e n te , foi o r a r ”. C aso, p o ré m , se fiz e r u m a p a u s a a n te s
de π ά λ ιν , a tr a d u ç ã o s e rá s e m e lh a n te à TEB: “Ele os d e ix o u , a fa s to u -s e de
n o v o , e o ro u ”.
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 47

No fin a l do v e rsícu lo , o te x to de O N o v o T e s ta m e n to G rego faz um c o rte ap ó s a


se g u n d a o c o rrê n c ia de π ά λ ιν. C o n fira a NBJ: e o ro u p e la te rc e ira vez, d izen -
do de novo as m esm as p a la v ra s ”. Caso, p o rém , se fiz e r um c o rte a n te s do π ά λ ιν,
e n tã o o ad v erb io π ά λ ιν se liga ao que se g u e, no v. 45, e o se n tid o p a ssa a se r o
se g u in te : E ntão, volto u o u tra vez p a ra os d isc íp u lo s”.

2 6 . 4 5 S e g m e n ta ç ã o

As p a la v ra s Κ α θενόετε [τό] λ ο ιπ ό ν καί ά ν α π α ύ ε σ θ ε (ain d a e sta is d o rm in d o


e d e sc a n sa n d o ) p o d e m se r in te rp re ta d a s com o u m a a firm a ç ã o (a exem p lo de
Seg), u m a o rd em (assim n a TEB e N B J), ou u m a p e rg u n ta (com o em RSV, ARA
e CNBB). C aso se e n te n d e r essas p a la v ra s com o u m a a firm a ç ã o ou u m a o rd em ,
fica im p lícito que Je su s a c e ito u o fato de seus d iscíp u lo s n ão te re m p o d id o v ig ia r
e o rar. N este caso, as p a la v ra s de Je su s “p o d e m a p o n ta r sim p le sm e n te p a ra a
re a lid a d e d a re sig n a ç ã o fin a l de Je su s e sua a c e ita ç ã o d a q u ilo q u e a in d a e stav a
p o r v ir” (H a g n er, M a tth e w 1 4 -2 8 , p. 784). V istas com o u m a p e rg u n ta , as p ala-
v ra s de Je su s p o d e m su g e rir u m a c e rta su rp re s a e d e sap ro v ação .

2 6 . 5 0 S e g m e n ta ç ã o

O sig n ificad o e a p o n tu a ç ã o das p a la v ra s de Je su s 'Ε τα ίρ ε, é q ’ ô π ά ρ ε ι são


a ssu n to de c o n tro v é rsia (veja D avies e A llison, A C r itic a l a n d E x e g e tic a l C o m m e n -
ta r y o n th e G ospel A c c o r d in g to S a in t M a tth e w , vol. Ill, pp. 509-10). P odem ser
p o n tu a d a s com o u m a a firm a ç ã o ou u m a o rd em , a exem plo d e sta e d iç ão do tex to
grego. N esse caso, talv ez se te n h a de in s e rir u m a fo rm a im p e ra tiv a do verbo
“fa z e r”: “A m igo, o que você vai faz er faça a g o ra ” (NTLH; ta m b é m NRSV, REB e
TEB: “M eu am igo, faze a tu a o b ra !”). T am bém p o d e m se r p o n tu a d a s com o um a
p e rg u n ta . C o n fira a ARA: “A m igo, p a ra que v ie s te ”? M esm o que essas p a la v ra s
sejam to m a d a s com o u m a p e rg u n ta , e sta p a re c e ser u m a p e rg u n ta u m ta n to
re tó ric a . Em o u tra s p a la v ra s, Je su s n ão e sta v a p e d in d o n e n h u m a in fo rm ação ,
pois ele sab ia com que fin a lid a d e Ju d a s tin h a v in d o (H ag n er, M a tth e w 1 4 — 2 8 ,
p. 789).

2 6 . 5 5 S e g m e n ta ç ã o

As p a la v ra s de Je su s, “S aístes com e sp a d a s e p o rre te s p a ra p re n d e r-m e , com o


a um la d rã o ”, a p a re c e m , no te x to grego, em fo rm a de p e rg u n ta . T am bém é
possível v e r n esse te x to u m a a firm a ç ã o , que e x p re ssa c e n su ra . C aso se to m a r
o te x to com o u m a p e rg u n ta , essa p e rg u n ta p re c isa se r v ista com o re tó ric a . Em
a lg u m a s lín g u a s, a m e lh o r o p ç ão é tra d u z ir o te x to com o u m a a firm a ç ã o .
48 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

2 6 .6 4 S e g m e n ta ç ã o

A m aio ria dos in té rp retes en ten d e que as p alav ras de Jesus, Σύ εΐπ α ς, devem
ser vistas com o u m a afirm ação: “Tu o d isseste” (ARA e NRSV). Mas essas duas pa-
lavras gregas tam b ém podem ser in te rp re ta d a s com o um a p e rg u n ta , a exem plo do
que ocorre em alg u n s m an u scrito s antigos, conform e u m a n o ta de p o n tu ação alter-
n ativ a n a vigésim a sétim a edição de N estle-A land. Davies e A llison (A C ritica l a n d
E x eg etica l C o m m e n ta r y on th e G ospel A c c o rd in g to S a in t M a tth e w , vol. III, p. 528),
que d efend em o sentido afirm ativo, escrevem : “Aqueles que defendem o p onto de
v ista co n trário g eralm en te p en sam no Jesus histórico, não em M ateus”.

2 6 .7 1 ο ΰ το ς (este) {B}

A leitu ra και ο υ το ς (este tam bém ) p arece te r sido in tro d u zid a no texto de Ma-
teu s a p a rtir do paralelo em Lc 22.59. A leitu ra que aparece no texto tem sólido
apoio dos m elhores m an u scrito s a lex an d rin o s, ocidentais, e siríacos antigos.

2 7 .2 ΓΙιλάτω (Pilatos) {B}

M uitos m an u scrito s tra z e m o nom e Π ο ν τίφ Π ιλά τψ (Pôncio Pilatos). E n tretan -


to, se o rig in a lm e n te Π ο ν τίφ tivesse e stad o no tex to , não h av eria razão suficiente
que ju stific asse sua om issão. Por o u tro lado, te ria sido algo n a tu ra l p a ra os copistas
a c re sc e n ta r “Pôncio” ao nom e do g o v ern ad o r n a p rim e ira p assagem em que esse
nom e o co rre nos E vangelhos. O nom e com pleto ap arece tam b ém em Lc 3.1; At
4.27; lT m 6.13. Na Igreja, depois do tem po dos apóstolos, e ra com um u sa r o nom e
com pleto: “Pôncio P ilato s”. Talvez n e sta passagem os tra d u to re s q u e ira m colocar o
nom e com pleto, “Pôncio P ilato s”, p a ra id en tificar o g o v ern ad o r ro m an o a trav és de
seu nom e com pleto, n a p rim e ira vez que o m esm o ap arece no NT. M uitas trad u çõ es
em lin g u ag em com um to rn a m explícito, neste caso, que Pilatos e ra um g o vernad o r
ro m an o (TEV, FC, GNB, TILH).

2 7 .4 ά θ ώ ο ν (inocente) {A}

Na S ep tu ag in ta, α ΐμ α ά θώ ο ν (sangue inocente) ap arece quinze vezes; α ίμ α


δ ίκ α ιο ν (sangue justo), q u atro vezes; e α ΐμ α ά ν α ίτιο ν (sangue sem culpa), q u atro
vezes. Visto que α ΐμ α δ ίκ α ιο ν e ra um a expressão rara , em com paração com α ΐμ α
άθώ ον, seria possível a rg u m e n ta r que α ΐμ α δ ίκ α ιο ν é original, m as foi alterad o
p a ra α ΐμ α άθώ ον, que é u m a expressão m ais com um . Por o u tro lado, os m anuscri-
tos dão m ais su sten tação à leitu ra α ΐμ α άθώ ον, e o adjetivo δ ίκ α ιο ν pode te r sido
in tro d u zid o p o r copistas a p a rtir de 23.35.
0 EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 49

Em m u itas lín g u as, talvez seja m elhor não tra d u z ir essa expressão h eb raica ao
pé da letra. T am bém as locuções “um hom em ju sto ” “um hom em in o cen te” e “ um
hom em sem culpa” talvez te n h a m a m esm a tra d u ç ão em alg u m as línguas. Assim,
in d ep en d en tem en te da decisão crítico -tex tu al que se tom ar, a trad u ção pode depen-
d er daquilo que soa ou fica m ais n a tu ra l n a lín g u a p a ra a qual se e stá trad u zin d o .

2 7 .9 Ίερ εμ ίο υ (Jerem ias) {A}

O nom e Ίερ εμ ίο υ tem a seu favor o te ste m u n h o de bons m an u scrito s de um a


v aried ad e de tipos de texto. E n tre ta n to , o fato de a passagem citada não se encon-
tr a r em Jerem ias, m as p arece te r sido tira d a de Zc 1 1 .1 2 1 3 ‫־‬, explica por que em
vários m an u scrito s foi inserido o nom e Ζ α χα ρίου , ao passo que outros m anuscritos
om item o nom e p o r com pleto. Dois m an u scrito s tra z e m “Isaías”, talvez por ser ele
o pro feta que m ais vezes é citado no NT (veja o co m en tário sobre õ iá , em 13.35).
P ara possíveis razões que te ria m levado M ateus a escrever “Je re m ia s” em lu g ar de
“Z acarias”, veja Davies e Allison, A C ritic a l a n d E x eg etica l C o m m e n ta r y on th e Gos-
p e l A c c o rd in g to S a in t M a tth e w , vol. Ill, pp. 568-569.

2 7 .1 0 εόω καν (deram ) {B}

Em lu g ar do verbo plural έόιυκαν, que tem a seu favor o peso dos m anuscritos,
alg u n s m an u scrito s têm a p rim eira pessoa do sin g u lar εδω κα (dei). E difícil d izer
se o v (ni) final e n tro u no texto porque a p ala v ra seguinte (αυτά) com eça com u m a
vogal, ou se aq uela letra foi e lim in ad a p a ra que a p ala v ra passasse a se r u m a form a
de p rim e ira pessoa. Essa m odificação p o d ería te r sido cau sad a pela p resen ça do
pronom e μοι (me) m ais p a ra o final do v. 10.

2 7 .1 1 S e g m e n ta ç ã o

A resp osta de Jesus, Σύ λέγεις (tu dizes), é, g eralm en te, escrita com o u m a afir-
m ação, a exem plo do que é feito n e sta edição do texto grego, m as tam b ém se pode-
ria in te rp retá-la com o um a p e rg u n ta (veja o c o m en tário sobre 26.64).

2 7 .1 6 [Ίησ οΰν] Β α ραββαν ([Jesus] B arrabás) (C)

2 7 .1 7 [Ίη σ ο ΰ ν τον] Β α ρ α ββ ά ν ([Jesus] B arrabás) {C}

O a p o io d e m a n u s c rito s p a r a o n o m e “J e s u s B a r ra b á s ” n ã o é e x p re ss iv o .
E n tr e ta n to , é p ro v á v e l q u e o n o m e se ja p a r te d o te x to o rig in a l. A m a io ria
50 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

dos co p ista s d ecid iu om itir e sse nom e, para ev ita r que um c rim in o so fo sse
cham ad o de “J e su s”. No terceiro sé cu lo , O rígen es escrev eu em seu com en tá-
rio: “Em m u itas cóp ias não diz que Barrabás era tam bém cham ad o de Jesus,
e ta lv ez [a om issão] seja a coisa certa a se fa ze r ”. Ele tam b ém escrev eu que
o nom e m ais lon go, in clu in d o Jesu s, não p od eria estar correto, porque “no
âm bito de tod as as E scrituras não aparece n in gu ém que, sen d o pecador, é
ch am ad o de J e su s”.
No v. 17, é possível que o acréscim o ou a om issão do nom e Ίησονν (Jesus) se
ten ha dado de form a acidental, uma vez que o nom e Ίησονν era abreviado para
FÑ e, neste caso, vinh a im ed iatam ente após o pronom e νμ ΐν (a vós): (‫ן‬ μιν Γν ).

Em algun s m anuscritos, no v. 17, aparece o artigo definido τόν antes do nom e


Β αραββαν, o que dá su stentação à tese de que, originalm en te, o texto continha
o nom e Ίησοϋν, ou seja, “Jesus, o [que se cham a] Barrabás”. Uma vez que o
apoio de m anuscritos para o texto m ais longo não é expressivo, o nom e Ίησονν
aparece, no texto, entre colch etes, para indicar que se tem dúvidas quanto à sua
originalidade. A lgum as traduções m odernas adotam o texto com o nom e “Je-
su s” (NRSV, REB, TEV, TEB, FC, NTLH, BN), enquanto outras om item o “Jesu s”
(RSV, ARA, NIV, NVI, NBJ, CNBB, Seg).

2 7 ,2 4 του α ίμ α τος τού τον (deste san gue, o u do san gue deste hom em ) {B}

Os m elhores m anuscritos dos textos alexandrino e ocid en tal não trazem o


adjetivo “ju sto”, que aparece em m uitos m anuscritos. A locução του δίκαιου
(justo) se encontra em diferentes lugares num a série de m anuscritos, o que
sugere que se trata de acréscim os feitos por copistas piedosos de um a época
posterior, na intenção de enfatizar que Pilatos reconheceu que Jesus era ino-
cente. Confira a variante textu al em Mt 27.4. No entanto, Davies e A llison (A
C r i t i c a l a n d E x e g e t í c a l C o m m e n t a r y o n th e G o s p e l A c c o r d i n g to S a i n t M a t t h e w ,
vol. Ill, p. 590, n. 52) optam pelo texto m ais longo, pois “é possível que se trate
de om issão resultante de um salto dos cop istas”, isto é, saltaram do τον para o
final do adjetivo δικαίου. Caso se preferir o texto m ais longo, o sentido será um
dos seguintes: “este san gue ju sto ” ou “o san gue d este ju sto ” (Seg).

2 7 ,2 8 έκδύσαντες α υ τόν (tendo-o despido) {B}

Em vez de dizerem que os soldados tiraram a roupa de Jesus, alguns m anus-


critos dizem que eles o vestiram (ένδυσα ντες). A parentem ente, um copista alte-
rou εκδύσαντες para a variante textu al ένδυ σ α ντες, porque deduziu, de forma
incorreta, que Jesus havia sido despido no v. 26, ao ser açoitado, e que, agora,
os soldados puseram em Jesus (ένδυσα ντες) o m anto escarlate.
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 5‫ו‬

2 7 .2 9 έ ν έ π α ιξ α ν (e s c a rn e c e ra m /c a ç o a ra m ) {B}

A c o m b in aç ão de m a n u sc rito s que tra z e m o a o risto έ ν έ π α ιξ α ν d á sólido


ap o io à le itu ra e sc o lh id a com o tex to . E n tre ta n to , a m a io ria dos m a n u sc rito s tem
o im p e rfe ito έ ν έ π α ιζ ο ν (estav a m e sc a rn e c e n d o /e s ta v a m caço an d o ). O im p erfei-
to p o d e se r fru to d a ação de um co p ista que a lte ro u a fo rm a do a o risto p a ra o
im p e rfeito , com o p ro p ó sito de fa z e r essa fo rm a v e rb a l c o n c o rd a r com o tem p o
im p e rfe ito de ε τ υ π τ ο ν (estav a m b a te n d o ), que a p a re c e no v. 30.
M uitas v e rsõ es in g le sa s tra d u z e m ta n to o a o risto do v. 29 q u a n to o im per-
feito do v. 30 p o r u m a fo rm a de p re té rito p erfeito : “z o m b a ra m d e le ” e “b a te ra m
n e le ”. Na m a io ria d as tra d u ç õ e s p o rtu g u e s a s , p o r su a vez, a p a re c e u m te x to
que p a re c e se r a tra d u ç ã o do im p e rfeito : “e s c a rn e c ia m ” (ARA), “c o m e ç a ra m ...
a c a ç o a r” (N TLH ), “d iz ia m -lh e , c a ç o a n d o ” (N B J), “z o m b a v a m ” (N V I). N ão fica
c la ro se isso se deve a u m a p re fe rê n c ia p e la v a ria n te έ ν έ π α ιζ ο ν ou se é a p e n a s
u m a e s tra té g ia de tra d u ç ã o , in flu e n c ia d a , talv ez , p e la p re s e n ç a do im p e rfeito
ε τ υ π τ ο ν no v e rsícu lo se g u in te .

2 7 .3 5 κλή ρον (a so rte ) {A}

Logo ap ó s as p a la v ra s “tira n d o a s o rte ”, o tex tu s receptus, se g u in d o os m a-


n u sc rito s lista d o s no a p a ra to crítico , a c re s c e n ta o se g u in te tex to : ΐν α πλ η ρ ω θή
το ρη θέν υ π ό του προφ ή του* Δ ιε μ ε ρ ίσ α ν τ ο τά ίμ ά τ ιά μου έ α υ τ ο ις καί ε π ί το ν
ιμ α τισ μ ό ν μου έβ α λ ο ν κλή ρον (p a ra q u e se c u m p risse o que foi d ito p elo pro-
feta: R e p a rtira m e n tre si as m in h a s v e stes, e sobre a m in h a tú n ic a la n ç a ra m
so rtes), que é tira d o de SI 22.18. E xiste a p o ssib ilid a d e de q u e esse te x to seja
o rig in a l, te n d o sido o m itid o p o r a c id e n te , q u a n d o o c o p ista , sem q u e re r, p asso u
do p rim e iro κλήρον p a ra o se g u n d o κλή ρον e d eix o u de c o p ia r o te x to que fica-
v a n o m eio. E n tre ta n to , v isto que e ssas p a la v ra s n ão a p a re c e m em m a n u sc rito s
a n tig o s dos tip o s de te x to a le x a n d rin o e o c id e n ta l, é m ais p ro v áv el que c o p istas,
in flu e n c ia d o s p e la p a ssa g em p a ra le la em Jo 19.24, in s e rira m a c itaç ão do AT no
te x to de M ateus. A lém disso, a lte ra ra m a in tro d u ç ã o p a ra τό ρη θέν υ π ό (ou ò ià)
του π ρ ο φ ή το υ (o que foi e sc rito pelo p ro feta ), que é a fo rm a n o rm a l u sa d a p o r
M ateus p a ra in tro d u z ir u m a c itaç ão b íb lica.

2 7 .4 0 [καί] ([e]) {C}

De u m lad o , a te rc e ira o c o rrê n c ia de καί n e ste v ersícu lo p o d e te r sido om i-


tid a a c id e n ta lm e n te p o rq u e o o lh a r do c o p ista p a sso u do com eço d e ssa p a la v ra
p a ra o com eço d a p a la v ra se g u in te , κ α τά β η θι (desce). De o u tro lado, um co p ista
p o d e te r in se rid o a p a la v ra και, su p o n d o que as p a la v ra s ει υ ιό ς ει του θεού (se
52 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

és o Filho de Deus) se ligam ao que vem antes, e não ao que vem depois, ou seja,
que o tex to deveria ser e n ten d id o com o “salva-te a ti m esm o, se és Filho de D eus” e
não com o “se és Filho de Deus, desce da c ru z ”. Se καί foi acrescentado ao texto, isso
foi feito p a ra estab elecer um paralelo e n tre os verbos “salva-te” e “d esce” A p ala v ra
καί ap arece, no texto, e n tre colchetes, p a ra in d icar que se tem dúvidas q u an to à sua
o rig inalidade.
A le itu ra ad o ta d a com o texto é rep ro d u zid a pela REB (tam bém pela ARA, NBJ,
TEV, TEB), que trad u z assim : “E ntão você é aquele que iria d e stru ir o tem plo e
reconstrui-lo em trê s dias! Se você é de fato o Filho de Deus, salve-se a si m esm o e
[καί] desça da c ru z ”. T raduções com o a NVI (tam bém a RSV, NRSV, NIV, BN e Seg)
seguem a v a ria n te tex tu al: “Você que destrói o tem plo e o reidifica em trê s dias,
salve-se! D esça da cruz, se é Filho de Deus!”

27.42 S e g m e n ta ç ã o

No texto e na m aioria das traduções, aquilo que povo diz, “salvou os outros, m as
a si m esm o não pode salv ar”, é in te rp retad o com o u m a afirm ação. No en tan to , tam -
bém se pode e n te n d er isso como um a p erg u n ta, conform e sugestão que aparece em
n o ta de rodapé n a NRSV: “Ele salvou os outros; será que ele não pode salvar a si mes-
m o?” Se essas p alavras forem en ten d id as com o um a p erg u n ta, trata-se de um a per-
g u n ta feita p a ra zom bar de Jesus, e não de um a p e rg u n ta que esp era u m a resposta.

27.42 βα σ ιλεύς (rei) {B}

Q u an do as pessoas d isseram a respeito de Jesus, “Ele é o Rei de Israel; desça da


cru z agora m esm o”, estavam zom bando dele, e não dizendo que ele era, de fato, o
rei de Israel. No e n tan to , alguns copistas não p erceb eram a ironia dessas palav ras
e a c resce n tara m a p ala v ra ei (se), influenciados pela p resen ça da m esm a no v. 40,
onde se lê: “se és o Filho de D eus”. Se εί tivesse estado, o rig in alm en te, no texto, fica
difícil ex plicar p o r que algum copista teria ju lg ad o necessário om itir essa palavra.
Os trad u to res precisam v erificar se essas p alav ras serão e n te n d id a s com o irô-
nicas n a lín g u a p a ra a qual estão trad u zin d o . Do co ntrário, talvez seja necessário
tra d u z ir p o r algo assim : “Se de fato é o rei de Israel, ele que desça da cruz!” C onfira
a NTLH (tam bém FC): “Ele salvou os outros, m as não pode salvar a si m esmo! Ele é
o rei de Israel, não é? Se d escer agora m esm o da cru z, nós crerem os nele!”

27.49 αυτόν, (a ele.) {B}

Ao fin a l desse versículo, a lg u n s im p o rta n te s m an u scrito s a c re sc e n ta m as se-


g u in te s p a la v ras: “E o u tro , p e g an d o u m a lan ça, lhe a b riu o lado, e logo saiu ág u a
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 53

e sa n g u e ”. M as estas p a la v ra s p rec isa m ser co n sid era d as u m acréscim o feito bem


no início d a tra n sm issã o do tex to , a p a rtir de u m rela to se m e lh a n te em Jo 19.34. É
provável que um leito r se lem b ro u de p a la v ras se m e lh a n te s no E vangelho de João
e a n o to u o que se lem b rav a à m arg e m do tex to de M ateus. M ais ta rd e , um copista
in seriu essas p a la v ras no p ró p rio texto. D iversas tra d u ç õ e s m o d ern a s, com o RSV
e NRSV, re g is tra m essa v a ria n te em n o ta de ro d ap é , e M offatt incluiu a m esm a
no tex to da sua trad u ç ão . D avies e A llison (A C r itic a l a n d E x e g e tic a l C o m m e n ta r y
on th e G ospel A c c o r d in g to S a in t M a tth e w , vol. Ill, p. 627, n. 81) o b se rv am que a
inclusão dessas p a la v ras no te x to de M ateus “fa ria com que Jesu s desse um grito
(v. 50) p o r cau sa do fe rim en to d a lan ça, o que p o d e ria re p re s e n ta r u m a p e d ra
de tro p eço . E stam os quase in clin ad o s a p e n sa r que essas p a la v ra s são o rig in a is”.

2 8 .1 S e g m e n ta ç ã o

Q u a se to d a s as tra d u ç õ e s lig a m as p a la v ra s Ό ψ έ δέ σ α β β ά τω ν (d ep o is do
sáb ad o ) às p a la v ra s q u e se g u e m , no v. 1, re s u lta n d o u m a tra d u ç ã o se m e lh a n te
à d a NRSV: “D epois do sá b ad o , q u a n d o o p rim e iro d ia d a s e m a n a e sta v a des-
p o n ta n d o ”. O a d v érb io όψ έ sig n ific a “ta r d e ”, e o te x to p a re c e e s ta r d izen d o :
“T ard e no sá b a d o , q u a n d o o p rim e iro d ia d a se m a n a e sta v a d e s p o n ta n d o ”. No
e n ta n to , com o o sá b a d o te rm in a v a ao p ô r do sol do p ró p rio sá b a d o , e n ã o ao
a m a n h e c e r do d o m in g o , q u a se to d a s as tra d u ç õ e s e n te n d e m que, n e ste caso ,
q u e é ra ro , όψ έ faz a vez de u m a p re p o siç ã o , sig n ific a n d o “d e p o is d e ”. No en-
ta n to , a v ig é sim a sé tim a e d iç ã o de N e stle-A la n d re g is tra u m a p o n tu a ç ã o a lter-
n a tiv a , que se e n c o n tra em a lg u n s m a n u s c rito s a n tig o s, em q u e e ssa lo cu ç ão é
lig a d a ao fin al d e 27.66. E ssa m a n e ira de g ra fa r o te x to re s u lta n a s e g u in te tra -
dução: “2 7 .6 6 A ssim , eles fo ram com a e sc o lta e p u s e ra m um selo de se g u ra n ç a
n a p e d ra ta rd e [όψέ] no sá b a d o 2 8 .1 Q u a n d o o p rim e iro d ia d a s e m a n a e sta v a
d e s p o n ta n d o ...” (P a ra m ais d e ta lh e s a re s p e ito d e sse te x to co m p licad o , veja
D avies e A lliso n , A C r itic a l a n d E x e g e tic a l C o m m e n ta r y o n th e G o sp el A c c o r d in g
to S a i n t M a tth e w , vol. Ill, pp. 6 6 3 -6 6 4 ).

2 8 .7 S e g m e n ta ç ã o

Este versículo contém um a citação d e n tro de o u tra citação, ou seja, as palav ras
do anjo ap arecem nos vs. 5-7, m as no v. 7 se e n co n tra a m ensagem do anjo que as
m u lh eres deveriam tra n sm itir aos discípulos. S egundo a m aioria das traduções, as
m u lh eres devem d a r o seguinte recado: “Ele foi ressuscitado dos m ortos e, de fato,
vai a d ia n te de vós p a ra a G alileia; ali o v ereis” (assim a NRSV). Com esta segm en-
tação, o p ronom e “vós” não inclui as m ulheres. M as tam b ém é possível e n c e rra r a
citação e m b u tid a com as palav ras τω ν νεκρ ώ ν (dos m ortos). E o que acontece na
54 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

TEB, que tra d u z com o segue: “ide dep ressa d izer a seus discípulos: ‘Ele ressuscitou
dos m o rto s’, e eis que vos precede n a G alileia; lá é que o v ereis”. S egundo esta pon-
tu ação, o p ronom e “vos” inclui as m ulheres.

2 8 .8 ά π ελ θ ο ΰ σ α ι (retiran d o -se elas) {B}

O p articipio ά π ελθο ΰ σ α ι tem sólido apoio de u m a am pla gam a de m anuscritos.


C opistas, po rém , su b stitu íra m essa p ala v ra pelo participio έξελθοΰσαι, harm oni-
zan d o o texto com Mc 16.8. A v a ria n te pode ser trad u z id a por “afastan d o -se d e”
ou, então , “sain d o d e” No con tex to de Mt 28.8, a v a ria n te tem , provavelm ente, o
m esm o significado de ά πελθοΰσ α ι.

2 8 .9 και ίόοΰ (e eis) {A}

M uitos m an u scrito s traz em a le itu ra m ais longa ώ ς δέ έπ ο ρ εΰ ο ν το ά π α γ γ ε ιλ α ι


το ΐς μ α θη τα ις α ύτοΰ καί ίόοΰ (quando estav am saindo p a ra d a r a noticia aos dis-
cípulos dele e eis). No e n ta n to , os m ais antigos e m elhores m an u scrito s dos textos
alex an d rin o e ocidental não têm essas p alav ras adicionais. São u m a am pliação na-
tu ra l do tex to a p a rtir do que é dito no versículo an terior. E possível, em b o ra pouco
provável, que o texto m ais longo seja original, e que essas palav ras foram om itidas
a cid en talm en te quan d o o copista saltou das p alav ras το ΐς μ α θη τα ις α ΰτοΰ (aos
discípulos dele), no final do v. 8, p a ra as m esm as palav ras no v. 9, om itindo tu d o
que ficava no m eio.

28.11 ά π ή γγ ειλ α ν (contaram ) {B}

O verbo α π ή γγ ειλ α ν tem bom apoio de m an u scrito s e suas chances de ser origi-
n al são m aiores do que as do verbo α νή γγειλ α ν (relataram ), que não é usado n enh u-
m a vez no tex to de M ateus. T rata-se de u m a diferença e n tre sinônim os (veja BDAG,
p. 59). Em versão p a ra lín g u as m o d ern as, os dois verbos podem ser trad u zid o s de
fo rm a idêntica.

2 8 .1 5 [ημέρας] ([dia]) {C}

De um lado, existem bons m an u scrito s de d iferen tes tipos de tex to que apoiam
a inclusão do su bstantivo ημέρας. Por o u tro lado, em form ulações sem elh an tes em
o u tras passagens de M ateus (11.23; 27.8), σήμερον (hoje) aparece sem o acréscim o
de ημέρας. P ara in d icar que existem dúvidas q u an to à form a do texto original,
ημέρας ap arece, no texto, e n tre colchetes. Q u alq u er que seja o texto adotado , o
significado não m uda.
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS 55

28.20 α ίώ ν ο ς. (século.) {A}

No te x tu s recep tu s, que segue a m aio ria dos m anuscritos, o E vangelho te rm in a


com um αμήν (am ém ) depois de α ίώ ν ο ς. Este acréscim o reflete o uso do texto no
culto da Igreja. Se αμήν tivesse co nstado do texto o rig in alm en te, fica difícil de ex-
plicar sua ausência dos m an u scrito s de m elh o r qualidade que re p re se n ta m os tipos
de tex to a le x an d rin o e ocidental.

OBRAS CITADAS

Allen, W illoughby C. A C ritical a n d E xegetical C o m m e n ta ry o n th e G ospel A cco rd in g


to S t M a tth e w . 3a edição. ICC. E dinburgh: T & T Clark, 1912.
Bauer, W., E W. Danker, W. E A rndt, e E W. Gingrich. G reek-E nglish Lexicon o f
th e N e w T esta m en t a n d O th e r E a rly C h ristia n L ite ra tu re . 3a edição. Chicago:
U niversity of Chicago Press, 2000 (citado com o BDAG).
Blass, E, A. D ebrunner, e R. W. Funk. A G reek G ra m m a r o f th e N e w T esta m en t a n d
O th er E a rly C h ristia n L ite ra tu re . Chicago: U niversity of Chicago Press, 1961.
Boring, Eugene M. “The Gospel of M atthew .” Páginas 87-505 em The N ew
In te rp reter's B ible, volum e VIII. E ditado por L eander E. Keck. Nashville:
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Davies, W. D., e Dale C. Allison, Jr. A C ñ tic a l a n d E xegetical C o m m e n ta ry on the
Gospel A c co rd in g to S a in t M a tth e w , 3 volum es. ICC. E dinburgh: T & T Clark,
1988, 1991, 1997.
Hagner, D onald A. M a tth e w 1 -1 3 : M a tth e w 1 4 -2 8 . WBC 33a, 33b. Dallas, Tex.:
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Com m entary. G rand Rapids: E erdm ans, 1992.
N ew m an, Barclay M., e Philip C. Stine. A T ra n sla to r’s H a n d b o o k on th e G ospel o f
M a tth e w . Nova Iorque: U nited Bible Societies, 1988.
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
A re sp e ito do te x to de M arcos, veja Taylor, T h e G o sp el A c c o r d in g to S t. M a r k ,
pp. 3 3 4 3 ‫ ;־‬e E vans, M a r k 8 .2 7 — 1 6 .2 0 , pp. lviii-lx.

1.1 Χ ρ ισ το ύ [υιού θεού] (Cristo [Filho de Deus]) {C}

E difícil d izer se as p alav ras υ ιού θεού (Filho de Deus) são o riginais ou são um
acréscim o posterior, pois a evidência está dividida e há a rg u m e n to s p a ra os dois
lados. Por u m lado, é possível que fizessem p a rte do texto original, m as foram ,
sem querer, o m itidas p o r um copista. Visto que as p alav ras Χ ρ ισ τού e θεού eram
abrev iadas com o χ γ e θγ, um copista p o d ia facilm ente ser e n g an ad o p o r essa sem e-
lh an ça, saltan d o d a p rim e ira p alav ra p a ra a seg u n d a e om itindo a locução “Filho de
D eus”. A com binação de m an u scrito s que apoia o texto m ais longo é m uito significa-
tiva e eloquente. Por o u tro lado, o texto m ais breve é u m a leitu ra a n tig a, e os copis-
tas m uitas vezes am pliavam os títulos de livros. P ara in d icar que não se tem certeza
q u an to ao tex to original, as p alav ras υ ιο ύ θεού aparecem , no texto, e n tre colchetes.

1 .1 S e g m e n ta ç ã o

M uito se discute o relacio n am en to e n tre o v. 1 e aquilo que segue (veja a dis-


cussão em Guelich, M a rk 1:1— 8 :2 6 , pp. 6 -7 ).1 Q uem en ten d e que o v. 1 é um títu lo
p a ra todo o livro ou p a ra a p rim e ira seção do livro (vs. 2-8? 2-11? 2-13? 2-15?), fará
um corte ou u m a pausa m aior no final do v. 1. Caso, porém , o v. 1 for lido em con-
ju n to com os vs. 2 3 ‫־‬, o sentido será que a boa nova de Jesus C risto com eçou com o
(ou de acordo com aquilo que) Isaías, o profeta, escreveu. Uma trad u ç ão que reflete
cla ram en te a conexão e n tre o v. 1 e os vs. 2-3 é a seguinte: “1 A boa notícia de Jesus,
o Ungido, com eça 2 com algo que o p ro feta Isaías escreveu: ...” (R obert J. Miller,
ed., T h e C o m p lete G ospels, p. 13).

1 .2 έν τώ ,Η σ α ΐα τώ π ρ ο φ ή τη (em Isaías, o p ro feta ) {A}

A citação nos vs. 2 3 ‫ ־‬foi e x tra íd a de dois textos diferentes do AT. A p rim eira
p a rte foi tira d a de MI 3.1, e a seg u n d a, de Is 40.3. P o rtan to , é fácil de e n te n d e r por
que copistas te ria m tro cad o as palav ras “em Isaías, o p ro feta” pela form ulação m ais
genérica “nos p ro feta s” (εν το ΐς π ρ ο ψ ή τα ις). S egundo France ( T he G ospel o f M a rk ,

1 Os problemas textuais e exegéticos de Marcos 1.13‫ ־‬possibilitaram muitas interpretações diferentes desse
texto. Mais recentemente, J. K. Elliott chegou até a sugerir que esses três versículos foram acrescentados
a uma versão de Marcos cujo início original se havia perdido. (J. K. Elliott, “Mark 1.1-3 — A Later Addi‫־‬
tion to the Gospel,” New Testament Studies 46 [October 2000]: 584-588.)
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 57

p. 60), esta é “uma ‘correção’ óbvia”. A leitura adotada como texto em O N o v o Tes-
ta m e n to Grego tem o apoio dos mais antigos manuscritos que representam os tipos
de texto alexandrino e ocidental.

1.3 S e g m e n ta ç ã o

Caso se fizer uma pausa maior no final do v. 3, os vs. 2-3 podem ser entendidos
como indicando que o com eço do evangelho estava em concordância com a profe-
cia das Escrituras. Caso, porém, se colocar uma vírgula no final do v. 3, os vs. 2-3
podem ser entendidos como um comentário parentético. Nesse caso, o v. 4 se liga
diretam ente com o v. 1 e o sentido passa a ser que o evangelho com eçou quando
João Batista apareceu no deserto. Joel Marcus (M a rk 1— 8, p.145) prefere esta se-
gunda interpretação e explica: “Gramaticalmente, 1.2-3 tem as características de
um parêntese, pois o verdadeiro ‘com eço das boas novas’ se dá em 1.4, com o apa-
recimento de João, que prepara o cam inho de Jesus; 1.2-3, de forma parentética,
deixa claro que essa m anifestação de João cumpre a profecia das Escrituras”.

1.4 [ο] βαπτίζω ν εν τη έρήμω καί ([ο] Batista no deserto e) {C}

Alguns manuscritos om item o artigo definido ô e outros manuscritos om item a


conjunção καί (e). Uma vez que os Evangelhos Sinópticos geralm ente se referem a
João como “o Batista”, parece mais provável que copistas tenham inserido o artigo
definido, neste caso, para ajustar o texto à formulação tradicional. Como os copis-
tas passaram a entender a locução ό βαπτίζω ν como um título, alguns omitiram
a palavra *caí. (Ficava estranho dizer “João, o Batista, apareceu no deserto e [καί]
pregando” ) O artigo aparece, no texto, entre colchetes, para indicar que existem
dúvidas quanto a sua originalidade.
Com o artigo, o participio βαπτίζω ν é um título, e a tradução será: “João Ba-
tista apareceu no deserto e estava pregando”. Sem o artigo, o participio se refere
à atividade de João, e a tradução passa a ser “João estava batizando no deserto e
pregando”. Em algum as línguas, inclusive o inglês, caso o participio βαπτίζω ν for
entendido como um título, significando “Batista”, será necessário inserir um artigo
no texto da tradução (João, o Batizador), pouco importando se, no texto grego, o
artigo é original ou não.

1.6 τρίχας (pelos) {A}

Quase todos os manuscritos dizem “pelos de cam elo”, e não “pele de cam elo”
(δέρριν). É possível que um copista tenha colocado a palavra “pele” em lugar da
palavra “pelos” por influência de Zc 13.4, onde diz que profetas se vestirão de
58 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

“peles com pelo s”. Em algum as cu ltu ras, u m a trad u ç ão literal desse tex to pode ser
m al-en ten d id a, pois um casaco feito à base de pelos de cam elo é considerado u m a
peça bem elegante. A REB, por exem plo, tra d u z assim : “João usava u m a v estim en ta
rú stica feita de pelos de cam elo”. A NJB (inglesa) segue a v a ria n te tex tu al: “João
usava u m a rou pa feita de pele de cam elo”.

1·8 υ δ α τι (em /com água) {B}

No texto o riginal provavelm ente não constava a preposição έν (em /com ), e a


ten d ên cia dos copistas deve te r sido in se rir a preposição d ian te da p alav ra υδα τι,
porque este é o texto nas p assagens p a ra lelas de Mt 3.11 e Jo 1.26. A d iferença pode
ser u m a sim ples q uestão de estilo, em grego, sem qu alq u er diferença de significado.
C onform e consta em BGAD (p. 3 2 6 3 3 0 ‫)־‬, a preposição έν pode in d icar um local
(“em ”) com o pode in d icar m eio ou in stru m e n to (“com ”). A presença ou ausência da
preposição no texto o riginal não a ltera a trad u ç ão do texto, assim que as exigências
ou n o rm as g ram aticais da lín g u a recep to ra ou lín g u a alvo é que vão d e te rm in a r
com o o tex to será traduzido.

1.11 έγένετο εκ τω ν ο υ ρ α νώ ν (veio dos céus) {B}

A lguns poucos testem u n h o s om item o verbo έγένετο. Isso pode te r ocorrido de


form a acidental, m as pode tam b ém ser um a alteração intencional, p a ra harm oni-
zar o texto com o paralelo em Mt 3.17, onde se lê: καί ίδοϋ φ ω νή εκ τω ν ο υ ρ α νώ ν
λέγουαα (e eis u m a voz dos céus dizendo). A leitu ra εκ τώ ν ου ρ α νώ ν ήκοΰσθη (dos
céus foi ouvida) é um a reform ulação do texto, p a ra m elhor, feita a p a rtir de qual-
q u er u m a das o u tras duas leitu ras ou form as do texto.
Em alg u m as línguas, talvez soe e stra n h o dizer que “veio um a voz”. Assim, n a
h o ra de trad u zir, talvez se te n h a que dizer algo com o “foi ouvida u m a voz do céu”
ou “u m a voz do céu d isse”. T am bém pode ser necessário u sa r um verbo, na trad u -
ção, m esm o que se aceite com o original o texto m ais breve, sem ο έγένετο. Como
observa Joel M arcus (M ark 1— 8, p. 161), “... m esm o que, o rig in alm en te, esse verbo
[έγένετο] não fizesse p a rte do texto, o leitor precisa pressu p o r ou su p rir um verbo
assim ”.

1.14 εύ α γγέλιον (boa notícia) {A}

É óbvio que copistas in se rira m as p alavras τής βα σ ιλείας (do reino) no texto,
p a ra ap ro x im ar a insólita form ulação que aparece em M arcos da expressão “o reino
de D eus”, que é m uito m ais freq u en te nos Evangelhos e que aparece no versículo
seg u in te (Mc 1.15).
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 59

1 .2 4 Segmentação

No texto de O Novo Testamento Grego, as p alav ras ήλθες ά πολεσ α ι ήμάς (vieste
p a ra nos d estru ir) ap arecem na form a de u m a p e rg u n ta . E n tretan to , podem tam -
bém ser en ten d id as em sentido afirm ativo: “Vieste p a ra nos d e s tru ir”. N este caso,
“revelam conhecim ento adicional da p a rte do espírito im undo. Se forem en ten d id as
com o p e rg u n ta ... essas p alavras revelam m edo, além de conhecim ento adicio n al”
(Gundry, M ark: A C om m entary on His Apology fo r the Cross, p. 76).

1 .2 7 τι έστιν τούτο: ó iò a /ή καινή κατ' ε ξ ο υ σ ία ν καί


(Ο que é isso? Um novo en sin am en to com au toridade; até) {B}

A leitu ra que aparece com o texto em O Novo Testamento Grego é apoiada por
apenas uns poucos m anuscritos, m as são m anuscritos im p o rtan tes. Além do m ais,
essa leitu ra é que m elhor explica o surg im ento das dem ais v arian tes, que são tod as
elas ten tativ as de m elh o rar o texto ou polir o estilo do grego. A lgum as das v aria n te s
revelam que copistas te n ta ra m m elh o rar o estilo, in tro d u zin d o alterações deriva-
das do tex to p aralelo em Lc 4.36. France (The Gospel o f M ark, p. 99) observa, com
razão, que os elem entos fu n d am en tais, διδαχή καινή e κατ' εξουσίαν, ap arecem em
todos os testem unhos, “de sorte que o sentido básico não é afe tad o ”.

1 .2 7 Segmentação

Se a locução κατ’ εξο υ σ ία ν (seg u n d o /co m a u to rid ad e) é lig ad a ao que vem


an tes, com o aco ntece no tex to de O Novo Testam ento Grego (e tam b ém n a NRSV,
TEB, e NTLH), a tra d u ç ã o passa a ser: “O que é isso? Um novo e n sin a m e n to com
au to rid ad e! Ele m an d a até nos esp írito s m a u s”. E n tre ta n to , caso se fizer um corte
an tes de κα τ’ εξο υ σ ία ν (assim na RSV e na ARA), a tra d u ç ã o será: “O que é isso?
Um novo en sin am en to ! Com a u to rid ad e ele m a n d a até nos esp írito s m a u s”. Ou
seja, a a u to rid a d e de Jesus é ligad a a seu p o d e r sobre esp írito s m aus, e não a seu
ensino.

1 .2 9 εκ τής συναγεογής έξελθόντες ήλθον


(da sinagoga ten d o [eles] saído, en tra ram ) {B}

E m bora, n este caso, e x ista u m a série de v a ria n te s te x tu a is, a d ife re n ç a m aio r


resid e e n tre a le itu ra que tem o p a rtic ip io e o verbo no p lu ra l (έξελ θό ντες e
ήλθον) e a q u elas que têm o p a rtic ip io e o verbo no sin g u la r (έξελθώ ν e ήλθεν),
com Je su s com o sujeito. A fo rm a do p lu ral, que a p arec e com o te x to em O Novo
Testam ento Grego, é a que m e lh o r ex p lica a o rig em das o u tra s le itu ra s. C opistas
60 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

se ria m te n ta d o s a a lte ra r o te x to do p lu ra l p a ra o sin g u lar, p a ra d a r m aio r aten -


ção a Jesus; h a rm o n iz a r o tex to com os p a ra le lo s em Mt 8.14 e Lc 4.38, on de os
v erb o s e stão no sin g u lar; e p ro v id e n c ia r um a n te c e d e n te p a ra o p ro n o m e α ύ τω
(a ele), no v. 30. Caso se a d o ta r a le itu ra que a p arec e com o tex to , o sig n ificad o
se rá este: “Tão logo sa íra m d a sin ag o g a, e n tra ra m na casa de Sim ão e A ndré,
com T iago e Jo ã o ” (NRSV).
As le itu ra s com o p a rtic ip io e o verb o no sin g u la r têm expressivo apoio de
m a n u scrito s. A lém disso, p a re c e e s tra n h o d iz e r que “e n tra ra m ... com Tiago e
J o ã o ”, com o se Tiago e Jo ão não estiv essem incluídos no verb o “e n tra ra m ”. Por
esses m otivos, a lg u m as tra d u ç õ e s m o d e rn a s, in clu in d o a RSV, NAB, NBJ, BN,
o p ta m p elas v a ria n te s te x tu a is. A BN, p o r exem plo, tra d u z assim : “D epois disto,
Je su s saiu da casa de o ração e foi com Tiago e Jo ão p a ra a casa de Sim ão P ed ro
e A n d ré ”.

1 .3 4 α υτόν (a ele) {A}

M arcos concluiu o texto com αυτόν, m as copistas fizeram vários acréscim os,
tirad o s, p ro vavelm ente, do p aralelo em Lc 4.41, onde diz ότι ηδεισαν τον Χ ρ ισ τό ν
α υ τό ν είναι (pois sabiam ser ele o M essias). Se q u alq u er um a das le itu ra s m ais
longas tivesse estad o o rig in a lm e n te no tex to de M arcos, não h av eria com o ex plicar
p o r que te ria sido a lte ra d a ou elim in ad a.
M esm o n ão sendo original, a leitu ra m ais longa é um a in te rp re ta ç ã o c o rre ta do
significado, a saber, os dem ônios sabiam que Jesus era o M essias. Não se está que-
ren d o d izer que os dem ônios sabiam que aquele era Jesus e não u m a o u tra pessoa.

1 .3 9 ηλθεν (foi) {B}

Em lu g ar do verbo ηλθεν, m uitos m an u scrito s têm ην (estava). O uso de ην com


u m p articip io (neste caso, κηρύσσω ν [pregando]) form a u m a co n stru ção g ram a-
tical que dá um pouco de ênfase, e esse tipo de co n stru ção é com um em M arcos.
M as o verbo ηλθεν é n ecessário p a ra d a r co n tin u id ad e à ideia de έςή λ θον (vim), no
versículo an terio r. Além disso, o verbo ην foi, provavelm ente, inserido no tex to p o r
copistas que con h eciam a passagem p a ra le la de Lc 4.44.
A d ife re n ç a e n tre as d u as le itu ra s é m ais u m a q u e stã o de p e rs p e c tiv a do que
de sig n ificad o . A fo rm u la çã o ην κηρύσσ ω ν a p o n ta p a ra “a a tiv id a d e c o rriq u e ira
à q u al Je su s p a sso u a se d e d ic a r a p a rtir d a q u e le m o m en to ...” (F ran ce, The Gos-
pel o f M ark, p. 113). S eg u n d o o tex to , Je su s “foi p o r to d a a G alileia, p re g a n d o
n a s sin a g o g as d eles e e x p u ls a n d o d e m ô n io s”. S eg u n d o a le itu ra v a ria n te , Je su s
“e sta v a p re g a n d o n as sin a g o g as d eles p o r to d a a G alileia e e x p u lsa n d o d em o -
n io s ”.
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 61

1 .40 [καί γο νυπ ετώ ν] ([e a jo e lh a n d o ‫־‬se]) {C}

É b astan te sólido o testem unho de um a com binação de m anuscritos que apoia


a leitu ra m ais breve, sem as palavras καί γονυπετώ ν. Por outro lado, as passagens
paralelas de Mt 8.2 e Lc 5.12 dizem que o leproso se ajoelhou (em bora com palavras
diferentes das que aparecem em Marcos). Isso parece d ar suporte à ideia de que a
referência ao ajoelhar-se fazia p arte do relato de M arcos (partindo do pressuposto de
que tan to M ateus como Lucas se valeram de M arcos ao escreverem seus Evangelhos).
Se καί γο νυπ ετώ ν αυτόν (e ajoelhando-se diante dele) é p arte do texto original, a
leitura m ais breve pode ter surgido quando um copista com eteu um erro de obser-
vação e passou de αυτόν (que vem logo após o participio παρακαλώ ν) p ara ο αυτόν
que vem depois de γονυπετώ ν. Para indicar que existem dúvidas quanto à form a do
texto original, a palavras καί γονυπ ετώ ν foram incluídas, no texto, entre colchetes.

1.41 σ π λ α γχν ισ θ είς (m ovido de com paixão) {B}

Em lu g ar do participio σ π λ α γχν ισ θ είς, alg u n s m anuscritos têm o participio


ό ρ γισ θ είς (irado). Por ser a leitu ra m ais difícil, alg u n s in té rp retes e n ten d em que ela
é original. E ntre as trad u çõ es m odernas, a NBJ (bem com o a REB) segue a v a ria n te
tex tu al: “Irado, esten d eu a m ão ”. E xegetas que ad o tam a v a ria n te te x tu a l sugerem
d iferen tes razões por que Jesus teria ficado irado (veja G uelich, M ark 1:1— 8:26,
p. 74) ou por que a v a ria n te tem m ais chances de ser original (veja M arcus, M ark
1— 8, p. 206). Em tem pos recentes, quem se levantou a favor da v a ria n te te x tu a l foi
B art E h rm an (“A Leper in the H ands of an A ngry Je su s”, p. 7 7 9 8 ‫)־‬.
E n tretan to , a qualidade e a diversidade dos m anuscritos que apoiam a leitu ra
ad o tad a como texto são im pressionantes. Além disso, em duas o u tras passagens de
M arcos (3.5; 10.14) nas quais se diz que Jesus ficou irado não houve ten tativ a de
copistas no sentido de corrigir o texto. P ortanto, é m uito pouco provável que neste
caso copistas te n h a m alterad o ό ρ γισ θείς p a ra σ π λ α γχν ισ θ είς, em bora France [The
Gospel o f M ark, p. 115] cham e a atenção p a ra o fato de que, em 3.5; 10.14, havia
m otivos óbvios p a ra Jesus ficar irado. Talvez a presença da p a lav ra έμβριμησάμενος
(advertindo severam ente), no v. 43, te n h a levado um copista a tro c a r “m ovido de
com paixão” por “ficando irad o ”. T am bém é possível que a sem elh an ça e n tre as pa-
lavras aram aicas p a ra “ter com paixão” (ethraham ) e “ficar fu rio so ” (ethra‘em) te n h a
causado alg u m a confusão na hora de tra d u z ir o texto p a ra o grego.

1 .4 4 Segmentação

Caso se fizer um corte ou um a pausa (vírgula) após o nom e de M oisés (Μ ω ϋσής),


a exem plo do texto de O Novo Testamento Grego, a locução εις μ α ρ τυ ρ ιο ν α ύ το ΐς
62 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

(como um testem u n h o a eles) se relaciona m ais de p erto com a ação do leproso. Ou


seja, o leproso deve m ostrar-se ao sacerdote como um testem u n h o p a ra (ou, contra)
eles (αύτοΐς, que pode ser tan to o povo como os sacerdotes). Essa in terp retação
tra n sp a re c e claram en te na NTLH (e tam b ém na TEV e FC), que tom a α ύ το ΐς no
sentido de todos: “m as vá p ed ir ao sacerdote que exam ine você. Depois, a fim de
p ro v ar a todos que você está curado, vá oferecer o sacrifício que Moisés o rd en o u ”.
Caso, porém , não se fizer um a pausa antes da locução εις μ α ρ τύ ρ ιο ν α ύ τοΐς, es-
sas palavras, então, podem ser conectadas com a ação de Moisés, e o sentido passa
a ser que o leproso deveria fazer o que Moisés havia ord en ad o com o um principio
ou urna lei p a ra o povo de Israel (αύτοΐς) [veja Lv 14]. Nesse caso, a p alav ra grega
μ α ρ τύ ρ ιο ν significa “m a n d a m e n to ” ou “lei”, com o às vezes acontece na Septuagin-
ta, e o pronom e α ύ το ΐς se refere ao povo judeu. Caso se a d o ta r esta segm entação
do texto, a segunda m etade do versículo p o d erá ser trad u z id a assim : “m as vai,
m ostra-te ao sacerdote e oferece pela tu a purificação o que M oisés prescreveu com o
lei p a ra eles”.

2 .4 προσενέγκα ι (levar a) {B}

O texto grego diz: “E não p od endo levar a ele [Jesus]”. O leitor e sp era encon trar,
após o infinitivo προσενέγκα ι, o pronom e αύτόν, que indica o objeto direto (levá-
-10), ou seja, “não podendo levá-lo [isto é, levar o paralítico] a Je su s”. No en tan to ,
com o esse objeto direto não aparece no texto, copistas tra ta ra m de su b stitu ir o in-
finitivo προσενέγκα ι pelos infinitivos π ρ ο σ εγγίσ α ι (aproxim ar-se de) e προσελθεΐν
(vir a ou ir até). F izeram ‫־‬no por razões gram aticais, pois n en h u m desses dois infi-
nitivos exige um objeto direto.
Talvez seja necessário, na tradução, in se rir um objeto direto após o verbo “le-
v a r” (levá-Zo), ou, então, u sa r um verbo com o “aproxim ar-se”, por m ais que se aceite
com o orig in al o texto im presso em O Novo Testamento Grego. C onfira a BN: “com o
eles não co nseguiam levá-lo até ju n to de Je su s” e ARA: “não p o dendo aproxim ar-se
d ele”.

2 .5 ά φ ίε ν τα ι ([teus pecados] estão perdoados) {B}

No texto im presso em O Novo Testamento Grego, o verbo está no tem po p resen te,
e isso foi seguido p or M ateus (M t 9.2). O tem po perfeito ά φ εω ντα ι (foram perdoa-
dos) e n co n tra bom apoio de m an uscritos, m as p arece te r sido in tro d u zid o p or copis-
tas que conheciam o relato p aralelo em Lc 5.20.
O tem po p resen te é, neste caso, um exem plo do que os gram áticos ch am am de
“p resen te aorístico”. Isto significa que a ação é v ista com o um acontecim en to que
se d á no m om ento em que a pessoa está falando: “Teus pecados estão perdo ado s
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 63

n este exato m o m en to ”. O verbo no tem po p resen te não deveria ser trad u z id o por
u m p resen te progressivo ou contínuo: “estão sendo p e rd o a d o s”.

2 .9 ά φ ίεντα ι ([teus pecados] estão perdoados) {B}

Veja o co m entário sobre o v. 5.

2 .14 Λ ευίν (Levi) {A}

O nom e Α ευί, que ap arece em alguns m anuscritos, é ap en as u m a form a diferen-


te de escrever o nom e que ap arece com o texto em O Novo Testamento Grego. Levi
não faz p a rte d a lista dos doze discípulos em Lucas (Lc 6.13-16; At 1.13) e M arcos
(3.14-19). O nom e 'Ιά κω βον (Tiago), que aparece em m anuscritos do tipo ocidental,
deve te r sido incluído p or in fluência de Mc 3.18, onde Ιά κ ω β ο ν xòv το ν Ά λφ α ίο υ
(Tiago, filho de Alfeu) aparece en tre os doze (tam bém em Lc 6.15 e At 1.13).

2.15 Segmentação

Caso se fizer um corte (em form a de ponto) após a locução και ή κολούθουν
α ύ τφ (e o seguiam ), com o acontece no texto de O Novo Testamento Grego, o sentido
é o seguinte: “tam b ém m uitos cobradores de im postos e pecadores estavam assen-
tados com Jesus e seus discípulos — pois eram m uitos os que o seg u iam ” (NRSV).
Provavelm ente, esse “m uitos o seg u iam ” é um a observação e n tre p arén tesis que se
refere aos discípulos de Jesus, m as que pode tam b ém e sta r se referin d o aos cobra-
dores de im postos e pecadores.
Caso, porém , se fizer um corte antes da locução καί ή κολούθουν α ύ τφ , como
acontece em algu ns m anuscritos antigos, essa locução se co n ectará com o v. 16 e o
sentido p a ssará a ser que alguns escribas seguiam Jesus: “15 ... M uitos cobradores
de im postos e pecadores estavam assentados com Jesus e seus discípulos, pois eram
m uitos. 16 E até m esm o os escribas que eram fariseus o seguiam . [Os escribas]
vendo Jesus com er ...” (Veja o co m entário sobre a v a ria n te seguinte.)

2 . 1 5 1 6 ‫ ־‬α ύ τφ . (16) καί oi γρ α μ μ α τείς τω ν Φ α ρισ α κυν ίδ ό ντες


(a ele. [16] Ε os escribas dos fariseus, vendo) {C>

Aqui, existem dois problem as textuais: (1) Em lugar da in u sitad a locução “os
escribas dos farise u s”, a m aioria dos m anuscritos traz a locução m ais com um “os
escribas e os farise u s” (oi γρ α μ μ α τείς καί oi Φ α ρισ α ίοι). (2) Um a vez que, nos
Evangelhos, o verbo “se g u ir” é usado quando se fala dos discípulos de Jesus, e
n u n ca quan do se fala daqueles que se opõem a ele, o ponto final deve ser colocado
64 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

após o pronom e αύτψ , no final do v. 15, com o aparece no texto. No en tan to , alg un s
copistas colocaram o ponto depois da p alav ra πολλοί (m uitos). Essa m odificação
fez com que se inserisse a p a lav ra καί antes do participio ίδό ντες (vendo). A v arían -
te tex tu a l diz o seguinte: “E os escribas dos (ou, e os) fariseus o seguiam , e [καί]
vendo-o com er ...” (Veja o com entário sobre a segm entação do v. 15, acim a.)

2.16 έσθίει (come) {B}

O acréscim o das p alavras καί πίνει (e bebe) parece um a inserção feita n atu ral-
m ente por alg u n s copistas, talvez por influência da passagem p a ra lela de Lc 5.30,
onde se lê: “Por que com eis e bebeis?” O texto m ais breve, que aparece com o texto,
foi seguido por M ateus (9.11), que ain d a acrescentou as p alavras ó διδά σ κ α λο ς
υ μ ώ ν (o vosso M estre). Este acréscim o de M ateus foi, por sua vez, inserido por al-
gu n s copistas em d iferentes lugares de Mc 2.16.

2 .2 2 ά π ό λλ υτα ι καί oi άσκοί ([o vinho] se perde e os odres) {C}

A leitu ra que m elhor explica a origem das v aria n te s é aquela que aparece com o
texto, ou seja, “o vinho ro m p erá os odres e se perd e o v inho e os o d re s”. Um a vez
que a locução “e os o d re s” parece exigir um verbo, os copistas de alguns m anus-
critos colocaram o verbo ά π όλλ υτα ι depois do substantivo oi άσκοί e a lte ra ra m a
pessoa do verbo, p assan d o -a do sin g u lar p a ra o plural: ά π ο λ ο ΰ ν τα ι (se perdem ).
Além disso, influenciados pelos textos paralelos de Mt 9.17 e Lc 5.37, copistas inse-
riram o verbo έκχεΐται (se d erram a), por e n ten d erem que este era um verbo m ais
ap ro p riad o do que ά π όλλ υτα ι p a ra descrever o que acontece com o vinho.
A p rim eira v a ria n te , que diz respeito a a crescen tar ou não um verbo que acom-
p an h e o substantivo oi άσκοί, é um a sim ples questão de estilo, em grego. As trad u -
ções terão que levar em conta aspectos estilísticos das línguas m odernas. A decisão
q u an to a que verbo u sa r na trad u ção tam b ém vai d e p en d e r daquilo que fica m ais
n a tu ra l n a lín g u a p a ra a qual se está trad u zin d o . NBJ, por exem plo, diz “e ta n to o
v in h o com o os odres ficam in u tiliz ad o s”. ARA traz “e tan to se perde o vinho como
os o d re s”. A NTLH tra d u z por “o vinho se perde, e os odres ficam e strag a d o s”.

2 .2 2 ά λ λ α οίνον νέον εις άσκούς καινούς (m as vinho novo em odres novos) {C}

As p alav ras “se ele fizer isso, o v inho ro m p erá os odres, o vinho se perde, e os
odres ficam e strag a d o s” (εί δε μή, ... oi άσκοί) form am um paréntesis. O verbo da
p a rte final do v. 22 é o verbo βάλλει (põe), que aparece bem no início do v. 22. Omi-
tin d o o trech o que form a o p aréntesis, o texto fica assim : “E nin g u ém põe (βάλλει)
v in h o novo em odres velhos ... m as [põe] v inho novo em odres novos”. Ao que
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 65

parece, alg u n s copistas não se d eram conta de que o verbo βάλλει fica im plícito no
final do versículo, levando-os a a cresce n tar βλητεον (deve ser posto [de Le 5.38]) ou
βάλλουσιν (põem [de Mt 9.17]). A om issão de άλλα οίνον νέον εις άσκούς καινούς
em alg un s m anu scritos pode te r sido intencional, pois, sem um verbo, essa locução
não fazia sentido. Ou, a om issão pode te r sido acidental, d eco rren te da repetição
dos substantivos οίνος e ασκός.
Ao se trad uzir, questões de estilo e g ram ática da lín g u a alvo podem ser m ais
im p o rtan tes do que as diferenças e n tre βάλλει, βλητεον, e βάλλουσιν.

3 . 7 8 ‫[ ־‬ήκολούθησεν]. καί α π ό τής Ί ο υ δ α ία ς καί ά π ό 'Ιεροσολύμ ω ν


([seguia], e da Ju d eia e de Jerusalém ) {C}

Existe, aqui, um gran d e núm ero de varian tes, e não se sabe ao certo qual é o
texto original. Os m aiores problem as são os seguintes: (1) se o verbo “se g u ir” é sin-
g u iar (ήκολούθησεν) ou plural (ήκολούθησαν); (2) se o pronom e α ύτω (a ele) deve
e sta r no texto, logo depois do verbo; e (3) se o próprio verbo faz p a rte do texto.
Existe, tam b ém , alg u m a variação na sequência das palavras: “Ju d eia e Je ru sa lé m ”
ou “Je ru sa lé m e Ju d e ia ”.
Segundo Joel M arcus (Mark 1— 8, p. 257), provavelm ente as v ariações e om is-
sões se devem à e stra n h a colocação do verbo ήκολούθησεν, “que in terro m p e a des-
crição das localidades e é reiterado pela locução ‘veio ter com ele’, em 3 .8 ”. A leitu ra
aceita como texto parece ser a que m elhor explica a origem das dem ais leitu ras ou
v ariantes. Essas diferenças não terão m aior im p o rtân cia p a ra a trad u ção do texto,
pois questões de estilo da lín g u a alvo vão d e te rm in a r se é necessário in se rir um
verbo, se esse verbo precisa ser sin g u lar ou plural, e se esse verbo precisa de um
com plem ento pronom inal. O verbo ήκολούθησεν aparece, no texto, en tre colchetes,
p a ra in dicar que existem dúvidas q uanto à sua o riginalidade.

3 .8 πλήθος πολύ (um a g rande m ultidão) {A}

O fato de πλήθος πολύ não ap arecer em alguns poucos m anuscritos se deve, pro-
vavelm ente, a um retoque estilístico, feito p a ra ev itar a repetição dessas palavras,
que já aparecem no v. 7.

3.14 δώ δεκα, [ούς καί α π ο σ τό λ ο υ ς ώνόμασεν] ϊνα ώ σιν μετ' αυτού


(doze, [que tam b ém cham ou de apóstolos,] p a ra estare m com ele) {C}

A evidência externa favorece a leitura aceita como texto em O Novo Testamento


Grego, m as tam bém é possível que as palavras entre colchetes não façam p arte do
texto original, tendo sido acrescentadas por influência de Le 6.13, que tem as palavras
66 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

οΰς καί ά ποστόλους ώνόμασεν. Para m ostrar que não se tem certeza quanto ao texto
original, essas palavras foram colocadas entre colchetes. Algum as traduções moder-
nas om item as palavras entre colchetes (por exemplo, REB, TEB, NBJ, CNBB).

3.16 [καί έποιησεν τούς δώ δεκα.] καί ([e designou os doze,] e) {C}

Um g rand e núm ero de m anuscritos não traz as palavras en tre colchetes, m as elas
parecem necessárias p a ra reto m ar o assunto do v. 14, que havia sido interrom pido
pelo com entário p arentético ΐνα ... δ α ιμ ό ν ια (para estarem com ele, e p ara os en-
v iar a p reg ar e a exercer a autoridade de expulsar dem onios). Por outro lado, essas
palavras podem ter en trad o no texto quando, por acidente, copistas rep etiram essas
palavras, que aparecem no início do v. 14. P ara indicar incerteza quanto ao texto
original, as palavras καί έποιησεν τούς δώ δεκα foram colocadas en tre colchetes.
A v arian te π ρ ώ το ν Σ ίμ ω να καί (primeiro Simão, e deu a Simão o nom e de Pedro)
foi, provavelm ente, criada por um copista que queria m elh o rar a redação de um
texto esquisito ou com plicado, além de harm onizá-lo com o paralelo em Mt 10.2. A
v arian te καί π ερ ιά γο ν τα ς κηρύσσειν τό εύαγγέλιον (e an d an d o por aí a p ro clam ar o
evangelho), que aparece no m anuscrito W, tem poucas chances de ser original, pois
esse m anuscrito tam bém insere τό εύαγγέλιον (ο evangelho) após κηρύσσειν, no v. 14
(esta v a rian te não foi incluída no ap arato crítico do v. 14).

3.18 καί Θ α δ δ α ιο ν (e Tadeu) {A}

A colocação de Λ εββαΐον (Lebeu) em lugar de Θ α δ δ α ιο ν ocorre, em m anuscri-


tos ocidentais, tam b ém em Mt 10.3, onde m uitos docum entos com binam as duas
leitu ras (veja o co m entário sobre Mt 10.3). A om issão de Θ α δ δ α ιο ν no m anu scrito
W deve te r sido acidental, pois som ente onze pessoas são m encionadas, em vez de
doze. Um m anuscrito latino antigo, que tam b ém om ite Tadeu, acrescen ta ludas
(Judas) depois de B artolom eu.

3 .2 0 έρχεται (chega) {B}

O verbo no singular, que aparece em m anuscritos antigos dos tipos de texto ale-
x a n d rin o e o cidental, foi alterado , na m aio ria dos testem u n h o s, p a ra a form a plural
έρ χο ντα ι (chegam ), que é o texto m ais fácil, na sequência dos vs. 1 7 1 9 ‫־‬.

3 .21 ά κοΰσαντες οί π α ρ αύτού (quando seus am igos ouviram ) {A}

A p aren tem ente, o texto orig in al oi π α ρ ' αύτού (“seus am igos” ou “seus paren-
te s”) era tão ofensivo ou chocante que, em vários m anuscritos, foi m udado p a ra
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 67

“q u an d o 05 escribas e os outros o uviram a respeito dele, saíram p a ra o prend er,


porque diziam : ‘Está fora de si’.” (Q uanto ao significado das p alav ras οί π α ρ ’ αυτοί),
veja France, The Gospel o f M ark, p. 166.)

3 .2 9 ά μ α ρ τή μ α τος (pecado) {B}

O substantivo α μά ρτη μ α (pecado) aparece, nos q u atro Evangelhos, ap en as aqui


e no v. 28. No resta n te do NT, ap arece som ente três vezes. Em alguns m anuscritos,
os copistas fizeram um a tro ca p or ά μ α ρ τία ς (pecado), que é p a lav ra m ais conhe-
cida. O utros copistas acresce n tara m κρίσεω ς (juízo) ou κολάσεως (castigo), p a ra
a m e n iz ar a dificuldade d eco rren te da in u sitad a expressão “réu de pecado e te rn o ”.

3 .3 2 οί ά δελφ οί σου [και a i ά δελφ α ί σου] (teus irm ãos [e tu as irm ãs]) {C}

A m aio ria dos m anuscritos não traz a locução καί a i ά δελφ α ί σου (e tu as irm ãs).
Tudo indica, porém , que essas palav ras são originais. Devem ter sido om itidas, de
m odo acidental, q u ando o copista passou do p rim eiro pronom e σου ao segundo
pronom e σου. O utra possibilidade é que se tra te de om issão intencional, visto que
as irm ãs não ap arecem no v. 31 nem no v. 34. Além disso, se essas palav ras não
fossem originais, e sim um acréscim o feito por um copista, seria m ais lógico que
fossem in seridas no v. 31, e não aqui, no v. 32. No en tan to , o texto m ais breve tem
um sólido apoio de m anuscritos, o que faz com que a locução καί αί ά δελφ α ί σου
apareça, no texto, en tre colchetes, p a ra indicar que h á dúvidas q u anto ao texto ori-
ginal. REB, TEB, NVI, BN e NTLH ad o tam o texto m ais breve, om itindo a locução
“e tu as irm ã s”.

4 .8 και α υξανόμενα (e crescendo) {C}

A leitu ra que m elhor explica o surgim ento das dem ais é o participio nom inativo
n eu tro plural α υξανόμενα, que concorda com o sujeito n e u tro plural άλλα (“ou tras
[sem entes] caíram em te rra boa, e, crescendo e au m en tan d o , p ro d u ziram fruto;
e p ro d u z ira m ”). Alguns copistas en te n d era m m al o participio ά να β α ίνο ντα (eres-
cendo), supondo que m odificava o substantivo m asculino sin g u lar κα ρπ όν (fruto),
e não o n e u tro plural άλλα. Em função disso, havia u m a forte ten d ên cia no sen-
tido de a lte ra r o n e u tro plural α υξανόμ ενα p a ra o participio m asculino sin g u lar
α ύξα νό μ ενον ou p a ra α ΰ ξά νο ντα (que pode ser m asculino sin g u lar ou n e u tro plu-
ral), que podem se referir tan to ao fruto quanto às sem entes. O utro fator que con-
trib u iu p a ra que o participio fosse alterad o foi a tro ca do plural άλλα pelo sin g u lar
άλλο, feita em alguns m anuscritos p a ra que o texto concordasse com o sin g u lar
άλλο nos vs. 5,7.
68 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

As v aria n te s talvez não te n h a m m aior im p o rtân cia na hora de trad u zir, pois o
significado é basicam ente o m esm o, pouco im p o rtan d o se era o fruto ou a sem ente
que estava crescendo e aum entado. Em algum as línguas, talvez não soe bem d izer
que a sem ente, e não o fruto, estava “crescendo” e “a u m e n ta n d o ”.

4 .8 εν ... εν ... εν (um a ... o u tra ... outra) {C}

Esta v ariante tem pouca im portância p ara a tradução. Não existe diferença de
significado entre as leituras εν e εις. A m aioria dos m anuscritos traz εν, que tan to
p o d ería ser a preposição εν quanto o num eral εν. Nos m anuscritos uncíais, em que as
palavras aparecem sem acentuação, os dois (a preposição e o num eral) são escritos do
m esm o jeito. Caso se o p tar por êv (em), essa preposição precisa ser entendida como
indicando um a proporção. O m ais provável é que o original seja εν, refletindo influên-
cia do aram aico, onde o num eral “u m ” (‫ ) ח ד‬é um sinal de m ultiplicação (“vezes”).

4 .1 5 εις α υ το ύ ς (neles) {C}

Essa u n id ad e de v ariação tem pouco significado p a ra a trad u ção do texto. Em


vários m anuscritos, a form ulação é suavizada pela colocação do dativo εν α ύ το ΐς
(neles) em lu g ar do acusativo εις α υτούς, m as a d iferença tem a ver com estilo, não
com o significado. Em outros m anuscritos, o texto foi alterad o p a ra ficar m ais pró-
xim o da fraseologia εν τη καρδία αύτού (em seu coração), que aparece em Mt 13.19.
Por fim , alg u n s poucos m anuscritos têm um texto que foi alterad o p a ra conco rdar
com ά π ό τής κα ρδία ς α ύ τώ ν (do coração deles) em Lc 8.12. M esm o seguindo a
leitu ra que ap arece com o texto, em m uitas línguas não será possível d izer sim ples-
m en te “n eles”; será preciso dizer “no coração d eles” (confira a NTLH).

4 . 2 0 εν ... εν ... εν (um a ... o u tra ... outra) {C}

Veja o co m entário sobre o v. 8.

4 . 2 4 καί προσ τεθήσ εται ύμΐν (e m ais vos será acrescentado) {A}

As p alav ras καί προστεθήσεται ύμΐν foram om itidas em alguns m anuscritos, tal-
vez de form a acidental, n a m edida em que o copista foi e n g an ad o pela sem elh an ça
e n tre μετρηθβσβΤλίγΜίΝ e προστεθΗσβΤλίγΜίΝ. As p alavras τοΐς άκούουσιν (aos
que ouvem ) p arecem um co m entário acrescen tad o por um copista p a ra explicar a
conexão e n tre essas palav ras e βλέπετε τί άκούετε (tende cuidado com o que ouvis),
que ap arece no com eço do versículo. Um m an u scrito latino e a versão gótica têm o
seg u in te texto: “será acrescen tad o a vós que credes”.
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 69

4 .2 8 πλήρη[ς] σίτον (grão bem m aduro) {C}

As v a r i a n t e s n ã o tê m n e n h u m a i m p o r t â n c i a p a r a a t r a d u ç ã o , p o is n ã o
p a s s a m de d i f e r e n ç a s de e s tilo n a l ín g u a g r e g a q u e n ã o m u d a m o s ig n ific a -
do. A l e i t u r a q u e t r a z o c a so a c u s a tiv o , π λ ή ρ η σ ίτ ο ν , é g r e g o c lá ssic o . Em
g r e g o h e le n ís ti c o , q u e e r a c o m u m e n t e f a la d o n u m p e r í o d o m a is r e c e n t e ,
u s a v a - s e , m u it a s v e z e s, a p e n a s a f o r m a n o m i n a t i v a do a d je tiv o π λ ή ρ η ς , in-
d e p e n d e n t e m e n t e do c a so g r a m a t i c a l do s u b s ta n t iv o q u e e r a q u a lif ic a d o .
A f o r m a n o m i n a t i v a π λ ή ρ η ς é a q u e m e l h o r e x p lic a a o r ig e m d a s o u t r a s
l e i t u r a s . No e n t a n t o , d i a n t e d a i m p r e s s i o n a n t e c o m b in a ç ã o de m a n u s c r i t o s
q u e a p o ia m π λ ή ρ η , o s ig m a f in a l a p a r e c e e n t r e c o lc h e te s no te x t o de O Novo
T e sta m e n to Grego.

4 .4 0 τί δειλοί έστε; οίλπω έχετε πίστιν


(Por que estais com medo? Ainda não tendes fé?) {A}

A le i t u r a que a p a r e c e com o te x to em O Novo Te stamento Grego é a q u e te m ,


de longe, o m ais sólido a p oio de m a n u s c r ito s . A le i t u r a π ώ ς ούκ (“C om o é que
n ã o te n d e s fé? ”) p a re c e se r r e s u lta d o de u m a t e n t a t i v a de s u a v iz a r, e m p a r t e ,
as p a la v r a s d u r a s que Je s u s d irig iu a seus d isc íp u lo s. Em lu g a r de ο υ π ω (ain-
d a não), a lg u n s m a n u s c r ito s tê m ο ύ τ ω ς ( a s s im /d e s s a m a n e ir a ) , que se lig a
ao que v e m a n te s no te x to , a saber, τί δ ε ιλ ο ί έστε. A ssim s e n d o , em lu g a r de
“a in d a n ã o (οΰπεο) te n d e s fé? ”, o te x to p a s s a a ser “p o r q u e e s ta is a ssim com
m edo?”

5.1 Γερασηνών (dos gerasenos) {C}

Das várias leituras, Γερασηνώ ν é a que tem o m elh o r apoio de m an u scrito s


(antigos re p re se n ta n te s de dois tipos de texto, a le x a n d rin o e ocidental). A lei-
tu r a Γ α δ α ρ η νώ ν (dos gadarenos) é u m a correção p a ra h a rm o n iz a r o texto com
Mt 8.28, e Γεργεσηνώ ν (dos gergasenos) é u m a correção que, pelo que pare-
ce, foi o rig in a lm e n te sugerida por O rígenes (veja o co m e n tá rio sobre Mt 8.28).
Γεργυστηνώ ν, que aparece no Códice W, é u m a le itu ra esquisita que tem pouco
apoio de m anuscritos.
A cidade de G e rasa ficava a un s v in te q u ilô m e tro s do lago de G e n esaré . Fran-
ce (The Gospel o f Mark, p. 227) talvez te n h a razão, ao s u g e rir que Γ ερα σ η νώ ν
“p ro v a v e lm e n te r e p r e s e n ta ou u m uso pouco preciso do te rm o p a r a d e s ig n a r
to d a a região de D ecápolis ..., da q ual G e rasa e ra a cidade m ais im p o r ta n te , ou
sim p le sm e n te u m a co n fu são e n tr e n o m es s e m e lh a n te s, se n d o que a cidade m ais
b e m c o n h e c id a a p a re c e em lu g a r d a o b sc u ra G e rg a s a ”.
70 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

5 .2 1 του ,Ιησού [έν τω πλοίω ] (Jesus [no barco]) {C}

As p alav ras έν τω π λ ο ίψ e n co n tram apoio no texto alex an d rin o bem com o em


o u tro s tipos de texto; não ap arecem em alguns m anuscritos, seja por om issão invo-
lu n tá ria , seja p or influência do tex to p aralelo em Lc 8.40, que não tra z essas pala-
vras. P en sar que essas palav ras não são originais, m as foram acrescen tad as p o r u m
copista a p a rtir do que fica im plícito no contexto, é u m a hipótese pouco provável.
Como não se tem c erteza q u an to ao texto original, essas p alav ras aparecem , no tex-
to, e n tre colchetes. M esm o que se considere original o texto m ais breve, a locução
έν τω π λ ο ίω com certeza expressa o sentido que se tem em vista.

5 .3 6 π α ρ α κ ο ΰ σ α ς (não dan d o im p o rtân cia ou ouvindo sem querer) {B}

O significado do participio π α ρ α κ ο ύ σ α ς é am bíguo, o que fez com que, em mui-


tos m anuscritos, fosse substituído por άκούσας (ouvindo), que aparece no texto
p aralelo de Lc 8.50. NRSV segue o texto e trad u z o participio por “ouvindo sem
q u e re r”. T am bém a NVI segue o texto, m as prefere a o u tra trad u ção possível desse
participio: “não fazendo caso”. G uelich CM ark 1:1— 8:26, p. 291, n. 1) afirm a: “A
discussão é irrelev an te, pois as palav ras que Jesus dirigiu ao chefe da sinagoga
m o stram que, m esm o 4ouvindo sem q u e re r’, ele fez pouco caso da m ensagem que
havia sido tra n sm itid a ”.

6 .2 και αί δ υ νά μ εις ... γινό μ ενο ι (e as m arav ilh as ... sendo feitas) {C}

As v a ria n te s não têm m aior im p o rtân cia p a ra a trad u ção , pois as diferen tes lei-
tu ra s são diferenças de estilo que não afetam o significado. A leitu ra aceita com o
texto, que re p re se n ta o tipo de tex to alex an d rin o , é a m ais difícil do ponto de v ista
g ram atical e a que m elhor explica a origem das dem ais v arian tes. M uitos m anuscri-
tos têm o verbo γίνο ν τα ι ou γ ίνω ν τα ι (este últim o precedido po r iva), que resu lta
n um estilo m ais elegante do que o texto com o participio γινόμ ενοι.

6 .3 τέκπων, ό υ ιό ς (carpinteiro, ο filho) {A}

Todos os uncíais, m uitos cursivos, bem como im p o rtan te s trad u çõ es antigas têm
o seg u in te texto: “Não é este o carp in teiro , filho de M aria”? Logo no início da his-
tó ria da Igreja, alguns não cristãos rid icu larizav am o cristianism o, dizendo que seu
fu n d ad o r era um sim ples carp in teiro . Essa pode te r sido a razão por que, em vários
m an u scrito s, o texto foi h arm o n iza d o com Mt 13.55 e alterad o p a ra “não é este o fi-
Iho do carp in teiro , o filho de M aria”? T am bém a versão siríaca p ale stin a evita d izer
que Jesus é carp in teiro , om itindo as p alav ras ò τέκτω ν (o carpinteiro).
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 71

6 .3 και Ίω σ ή το ς (e Joses) {B}

Essas v aria n te s não têm m aior im p o rtân c ia p a ra trad u to res que a d o tam o prin-
cípio de escrever sem pre da m esm a m a n e ira o nom e ou os nom es de u m a m esm a
pessoa. Sendo assim , neste caso a form a do nom e será idêntica àquela de Mt 13.55,
in d ep e n d en tem e n te da leitu ra que é aceita com o original.
A leitu ra Ίω σ ή το ς tem expressivo apoio de u m a com binação de m anuscrito s
alex an d rin o s e ocidentais, além de outros im p o rtan tes m anuscritos. Vários outros
m an u scritos têm o nom e Ίοχτήφ, que ap arece no texto de Mt 13.55. O nom e Ίω σ ή ,
que ap arece em alguns m anuscritos, rep re se n ta a pro n ú n cia galileia (‫ )יו סי‬do he-
braico ‫“( יו ס ף‬Ioséf”).

6 .1 4 m i ελεγον (e diziam ) {B}

A form a da terceira pessoa do plural ελεγον parece ser o texto original. Copistas
a lte ra ra m isso p a ra a terceira pessoa do sin g u lar ελεγεν (ele dizia), em concordân-
cia com ήκουσεν ([H erodes] ouviu). A contece que os copistas não se d eram conta
da e stru tu ra desse texto, ou seja, as p alavras “H erodes ouviu” são in terro m p id as
p a ra que se in tro d u za, de form a p aren tética, três opiniões que as pessoas tin h a m a
respeito de Jesus (καί ελεγον ... άλλοι δε ελεγον ... άλλοι δε ελεγον). Só então, no
ν. 16, o escritor rela ta aquilo que H erodes ouviu.

6 .2 0 πολλά ήπόρει, καί (ficou m uito perplexo/confuso, e) {C}

A lguns eruditos e n ten d em que a leitu ra ήπόρει é um a correção basead a em


Lc 9.7, onde se diz que H erodes estava “m uito p erplexo” (διηπόρει). Mas a leitu ra
aceita com o texto tem sólido apoio de m anuscritos. Além disso, o uso do adjetivo
πολλά com o advérbio, no sentido de “m uito” ou “b a sta n te ”, condiz com o estilo de
M arcos. E m bora m uitos e variados m anuscritos gregos e versões antigas tra g a m a
leitu ra πολλά έποίει (ele fazia m uitas coisas) em lugar de πολλά ήπόρει, não faz
m aio r sentido dizer, nesse contexto, que H erodes “fazia m uitas coisas”. Segundo
H ooker (The Gospel According to Saint M ark, ρ. 161), πολλά, neste caso, talvez sig-
nifique “m uitas v ezes”, no sentido de que H erodes, depois de ouvir João falar, fazia
isso m uitas vezes.

6 .2 2 θυ γα τρ ό ς αύτου *Hpqjõiáôoç (sua filha H erodias) {C}

N enhum a das leituras chega a ser satisfatória. A leitura aceita como texto tem o me-
lhor apoio dos m anuscritos, m as o sentido é complicado (complicado dem ais, segundo
Edwards [The Gospel According to Mark, ρ. 187, η. 27], que afirm a que essa leitura “é
72 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

tão confusa a ponto de não ter sentido nenhum ”, e France, The Gospel of Mark, p. 258).
Segundo a leitura com ο αύτοϋ, a m oça é descrita como filha de Herodes Antipas e se
cham a Herodias, que é o m esmo nom e da segunda esposa de Herodes Antipas. Mas, se-
gundo o v. 24, ela é a filha de Herodias. Fontes extrabíblicas dizem que o nome dela era
Salomé e que Herodes Antipas era o tio dela. A leitura θυγατρός αυτής τής Ήρίρόιάδος
deve significar algo do tipo “a filha da própria H erodias”. Ou o pronom e αυτής pode
refletir um a característica do aram aico em que o pronom e antecipa um substantivo, ou
seja, “e quando a filha H erodias entrou”. A leitura θυγατρός τής Ήρίρόιάδος (filha de
Herodias) é a m ais fácil de todas e parece ter surgido a p artir da om issão involuntária
do pronom e αυτής. (Para um a discussão a respeito desses problem as históricos e tex-
tuais, veja Guelich, M ark 1:1— 8:26, p. 332; e Joel M arcus, M ark 1— 8, p. 396.)
As trad u ções divergem quanto ao texto que adotam . Confira as seguintes: “Q uan-
do veio H erodias, a filha dele” (NRSV), “a filha dela veio” (REB), “A filha d esta
H erodíades veio” (TEB).

6 .2 3 αυτή [πολλά] (a ela [com veem ência]) {C}

Faz p a rte do estilo de M arcos u sa r o adjetivo πολλά em sentido adverbial (=


“m uito, com veem ência, in sisten te m e n te ”), com o em 1.45; 3.12; 5.10,23,38,43;
6.20; 9.26; 15.3. Assim, é possível que π ολλά seja original, neste caso, ten d o sido
om itido acid en talm en te p or alg u m copista. Por o utro lado, a g ran d e qualid ad e dos
m an u scrito s que não tra z e m π ολλά sugere que esta p alav ra pode não ser original.
P ara in d icar que não se tem certeza q u an to ao texto original, πολλά foi inserido no
texto e n tre colchetes.

6 .2 3 õ τι (aquilo que) {C}

A v a ria n te te x tu a l m ais im p o rtan te , n este caso, não tem m aior significado p a ra


a trad u ç ão do texto. A leitu ra aceita com o texto tra z o pronom e relativo indefin id o
n e u tro ó τι. Visto em conjunto com εάν e um verbo no subjuntivo, pode ser trad u -
zido p o r “tu d o o q u e”. Assim, õ τι εάν με αίτησης pode ser trad u z id o p or “q u alq uer
coisa que m e p e d ire s”.
No en tan to , alguns copistas se equivocaram , to m an d o οτι pela conjunção δτι,
que é u sad a p a ra sin a liza r o início de u m a citação d ireta, equivalente a dois pontos
e aspas. Assim, a c h a ra m que e ra necessário acresce n tar o pronom e relativo ó, p a ra
d a r inicio ao texto seguinte. Visto que, neste caso, ό τι equivale a dois pontos e aspas
e não é trad u zid o , e visto que o pronom e relativo ó tem , n este caso, o m esm o signi-
ficado do pronom e relativo indefinido ó τι, a v a ria n te em n a d a difere do significado
da leitu ra a d o ta d a com o texto. As dem ais leitu ras rep re se n ta m v a ria n te s p ró p rias e
típicas de alg u n s poucos m anuscritos.
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 73

6 .3 3 έκεΐ και πρ ο ή λ θο ν α υ τού ς (e ch eg aram lá antes deles) {B}

A leitu ra aceita com o texto tem sólido apoio de m anuscritos. E provável que
copistas a lte ra ra m προήλθον, uns p a ra πρ οσ ή λθον (foram até lá) e outros p a ra
συνήλθον (foram com), porque ju lg av am que u m a m ultidão a pé não p o d e ría ter
chegado àquele lugar m ais rap id am en te do que as pessoas que estavam no barco.
A leitu ra que aparece no textus receptus, em concordância com alguns uncíais e
g ran d e n ú m ero de cursivos, é um a com binação de duas leitu ras d istintas: εκεί και
π ρ ο ή λ θ ο ν α υτούς e συνήλθον π ρ ο ς α ύ τόν (ae ali ch eg aram prim eiro do que eles, e
aproxim aram -se d ele‫״‬, KJV e ARC).

6.41 μ αθη τα ΐς [αύτού] (discípulos [dele]) {C}

Esta v a rian te te x tu al pode não ter m aior im p o rtân cia p a ra trad u to res, u m a vez
que, em m uitas línguas, é m ais n a tu ra l e até m esm o necessário dizer “seus disci-
p u lo s” em vez de “os discípulos”. France (The Gospel o f M ark, p. 260) tem razão ao
d izer que a p resença ou ausência do pronom e não afeta o significado. A evidência
e x te rn a está m ais ou m enos dividida, com um a m etade apoiando a leitu ra com o
pronom e αύτού, e o u tra m etade apoiando a leitu ra sem o pronom e. N orm alm ente,
M arcos diz “seus discípulos”, sendo que “os discípulos” é u m a form ulação m ais rara.
P o rtan to , o estilo de M arcos favorece a leitu ra μ α θη τα ΐς αύτού. Por o utro lado, ma-
nuscritos do tipo de texto a lex an d rin o om item o pronom e. Visto que, em geral, se
prefere com o texto original as leitu ras m ais breves que têm apoio do texto alexan-
drino, é possível que o pronom e não seja original. P ara sin alizar que existem dúvi-
das q u an to ao texto original, o pronom e aparece e n tre colchetes. RSV, REB, NBJ,
TEB, CNBB, BN, ARA e NTLH seguem o texto m ais breve (“deu-os aos discípulos”);
a NVI trad u z o texto m ais longo (“entregou-os aos seus discípulos”).

6 .4 4 [τούς άρτους] ([os pães]) {C}

A v a ria n te tex tu a l pode não ter m aior im p o rtân cia ao se tra d u z ir o tex to p a ra
lín g u as em que o verbo “com er” sem pre é tran sitiv o — isto é, em que o verbo exige
u m objeto direto. Nesses casos, a trad u ção seria igual, m esm o que se optasse pelo
tex to grego m ais breve, isto é, sem o objeto direto.
Q uanto ao apoio de m anuscritos, existe um equilíbrio en tre os que incluem as pa-
lavras τούς ά ρ του ς e os que om item estas palavras. Além disso, vários docum entos
(como D W sir5) que frequentem ente têm um texto m ais longo, neste caso têm um
texto m ais breve, o que parece sugerir que a leitu ra m ais breve é original. Por outro
lado, é m ais provável que copistas ten h a m sido tentados a om itir as palavras τούς
ά ρ το υ ς do que a inseri-las no texto (caso lá não estivessem ), pois se p erg u n tav am
74 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

por que m otivo os pães eram m encionados e os peixes, não. P ara indicar incerteza
q u an to ao texto original, as palavras τούς ά ρ του ς foram colocadas en tre colchetes.

6 .4 5 εις xò π έρ α ν (p ara o outro la d o /p a ra a o u tra m argem ) {A}

A locução εις τό π έρ α ν não aparece em vários testem u n h o s, sem dúvida por


causa de dificuldades de ordem geográfica. S egundo Lc 9.10, Jesus a lim en to u a
m u ltid ão de cinco m il hom ens em B etsaida, que ficava nos dom ínios do te tra rc a
Filipe, a leste do rio Jordão. P o rtan to , causa e stra n h e z a que em M arcos se diga que,
após o m ilag re dos pães e dos peixes, os discípulos te n h a m ido “p a ra o outro lado,
a B etsaida” (ARA) ou “a B etsaida, no lado leste do lago” (NTLH). A NVI não trad u z
εις τό πέραν. P ara um a discussão a respeito das dificuldades de ordem geográfica,
veja France, The Gospel o f M ark, pp. 264-265.

6 .4 7 ήν (estava) {B}

Em vários docum entos de peso, o expressivo term o π ά λ α ι (que, n o rm alm en te,


significa “há m uito” ou “a n tig a m e n te ”, m as que, neste caso, tem que significar “já ”,
“p o r um bom tem p o ”, ou “naquele m o m en to ”) aparece logo após o verbo ην. Seria
possível a rg u m e n ta r que M ateus (que escreve τό όέ π λ ο ΐο ν ήδη ...14.24) pode te r
tido acesso a u m a cópia de M arcos que incluía π ά λ α ι. Agora, se π ά λ α ι tivesse es-
tad o o rig in alm en te no texto de M arcos, fica difícil de explicar sua ausência n u m a
v aried ad e tão g ran d e de testem unhos. A REB opta pelo texto m ais longo: “Era ta rd e
e o b arco já (πάλαι) estava bem longe sobre as á g u a s”.

6 .5 1 λία ν [εκ περισσού] εν έα υτοΐς (m uito [por dem ais] d e n tro deles) {C}

O duplo superlativo λία ν εκ περισ σού é característico do estilo de M arcos. Além


disso, tem o apoio de u m a v aried ad e de testem u n h o s com am pla distribuição geo-
gráfica. No en tan to , visto que im p o rtan te s docum entos não trazem a locução εκ
περισσού, ela aparece e n tre colchetes, p a ra indicar dúvida q u anto à sua origina-
lidade. A d iferença e n tre as duas leitu ras pode ser assim expressa: “ficaram total-
m ente e sp a n ta d o s” e “ficaram e sp a n ta d o s”.

6 .5 1 έξίσ τα ντο (ficaram espantados) {B}

Muitos m anuscritos têm um texto m ais longo έξίσταντο καί έθαύμαζον (ficaram
espantados e se m aravilhavam ; confira ARC). A leitura m ais breve deve ser preferida,
pois o texto m ais longo soa como um a tentativa dos copistas de au m en tar a dram a-
ticidade da narrativa. Seja como for, o texto m ais longo apenas “dá m ais ênfase, sem
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 75

afetar o significado” (France, The Gospel o f M ark, p. 269). É possível que os copistas
ten h am sido influenciados por At 2.7, onde os m esm os verbos aparecem lado a lado.

7.3 πυγμή (com o punho) {A}

N um contexto em que se explica abluções cerim oniais dos ju d eu s, fica difícil de


e n te n d er o significado de πυγμή (literalm en te, “com [o] p u n h o ”). Por causa dessa
dificuldade, alguns copistas om itiram πυγμή. O utros colocaram em lugar de πυγμή
u m a p alav ra que faz m ais sentido, com o πυκνά (m uitas vezes ou bem ) ou m om ento
(num in stan te), ou prim o (prim eiro). (Estas duas últim as, em m anuscritos latinos.)
Os estudiosos já a p re se n tara m várias explicações p a ra esse “com o p u n h o ”.
H ooker (The Gospel According to Saint M ark, p. 175) sugere três significados possí‫־‬
veis: (1) “com um p u n h ad o de á g u a ”; (2) “até o p u n h o ”; e (3) “fazendo um a concha
com as m ão s”, e afirm a que “q ualquer que seja o significado exato, parece que
o objetivo era lim par as m ãos com a m enor q u an tid ad e possível de água (já que
ág u a era escassa)”. (P ara u m a discussão m ais ap ro fu n d ad a, veja Guelich, M ark
1:1— 8:26, pp. 3 6 4 3 6 5 ‫־‬.) Em todo caso, é im p o rtan te saber que “M arcos está des-
crevendo u m a purificação ritu al, e não um a lavagem p a ra fins de h ig ien e” (France,
The Gospel o f M ark, p. 282).
Das tradu ções m o d ern as, a RSV indica, n um a n o ta de rodapé, que u m a p alav ra
grega de significado incerto não foi trad u zid a. NRSV, ARA, TEB, e NTLH pare-
cem seguir um a das leitu ras variantes: “não com em sem lavar cu id ad o sam en te as
m ão s”. A lguns exegetas en ten d em que, nesse contexto, πυγμή significa “até o co-
tovelo”, e esta in terp retaç ã o fu n d am e n ta a trad u ção que aparece em NBJ e CNBB:
“não com em sem lavar o braço até o cotovelo”.

7.4 α γο ρ ά ς (do m ercado) {A}

O estilo da p rim eira p a rte do v. 4 é um ta n to q u an to rude: “e do m ercado se


não lavam não com em ”. P ara polir o texto, vários m anuscritos a crescen tam όταν
ελθω σιν (quando voltam do m ercado, não com em sem se lavarem ).
A locução άπ* ά γο ρ ά ς pode significar “quando voltam do m ercad o ”. Se isto for
assim , a v aria n te apenas e sta ria to rn an d o explícito o significado im plícito de α π ’
ά γοράς. Se este é o sentido que se tem em vista, en tão M arcos está explicando
que os fariseus lavavam as m ãos porque existia a possibilidade de, no m ercado,
e n tra re m em contato, ain d a que acidental, com pessoas cerim o n ialm en te im puras
(Hooker, The Gospel According to Saint M ark, p. 175). Mas tam b ém se pode enten-
d er άπ* ά γο ρ ά ς no sentido de “e tu do do m ercad o ” e β α π τίσ ο η π α ι no sentido de
“eles lavam ” e não no sentido de “eles se lavam ”. C onfira a NTLH (bem com o a
NRSV): “E, antes de com er, lavam tu d o o que vem do m ercad o ”.
76 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

7 .4 β α π τίσ ω ν τα ι (lavam ) {B}

É possível que o texto alex an d rin o te n h a preservado o verbo original ρ α ντίσ ω ντα ι
(aspergem ) e que copistas ten h a m feito a tro ca por β α π τίσ ω ντα ι, um verbo m ais co-
nhecido. E n tretanto, é m uito m ais provável que copistas alexandrinos ten h a m feito
a substituição dos verbos, talvez com a intenção de fazer com que o uso do verbo
β α π τίζειν (batizar) ficasse restrito à p rática cristã. Mais provável, porém , é que fize-
ram a m odificação porque e n ten d eram a locução ά π ’ ά γοράς no sentido de “q ualqu er
coisa do m ercado” e, assim , consideraram o verbo ρ α ντίσ ω ντα ι m ais apropriado do
que β α π τίσ ω ν τα ι, p a ra expressar o seguinte significado: “sem aspergirem [aquilo
que vem] do m ercado, não [o] com em ”. A NBJ segue a v a rian te tex tu al, m as inter-
p reta o verbo no sentido de “se asp erg ir”, e não no sentido de “asp erg ir a com ida
que vem do m ercado”. A trad u ção resu ltan te é: “não com em sem antes se asp erg ir”.

7 .4 καί χαλκίω ν [καί κλινών] (e vasos de m etal [e cam as]) {C}

É difícil d ecidir se as palav ras καί κλινώ ν (e cam as) foram acrescen tad as por
copistas influ enciados pelas leis de Lv 15, ou se essas palav ras foram om itidas. Se
houve om issão, pode te r ocorrido acid en talm en te porque, ao ler o texto, o copista
passou do final de χα λ κίω ν p a ra o final de κλινών; por ou tro lado, pode tam b ém
te r ocorrido d elib erad am en te, porque a noção de lavar ou asp erg ir cam as não fazia
sentido p a ra o copista. Tanto o texto com o a v a ria n te têm sólido apoio de m anus-
critos. P ara m o stra r que não se tem certeza q u an to ao texto original, καί κλινώ ν
ap arece en tre colchetes. A lgum as trad u çõ es m o d ern as p referem o texto m ais breve
e om item καί κλινώ ν (por exem plo, NRSV, REB, NBJ, BN).

7.7-8 άνθρώπων. άφέντες ... άνθρώπων. (de homens. Abandonando .. .dos homens.) {A}

A v a rian te tex tu al, trad u zid a na A lm eida Revista e C orrigida (“como o lavar
dos jarro s e dos copos, e fazeis m uitas ou tras coisas sem elhantes a e stas”), não se
en co n tra nos m ais antigos e m elhores docum entos. Trata-se, com certeza, de um
acréscim o, feito por um copista, a p a rtir do v. 4. O fato de esse texto m ais longo
ap arecer em dois lugares diferentes — em alguns docum entos, no início do v. 8; em
outros, no final do v. 8 — ajuda a m o strar que se tra ta de algo que foi acrescentado
p o sterio rm ente ao texto original.

7.9 στήσητε (m anter/estabelecer) {D}

É m uito difícil decidir se o texto original é στήσητε ou se é τηρήσητε (guardar).


Copistas podem ter achado que στήσητε era o verbo m ais adequado nesse contexto
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 77

e decidiram colocar esse verbo no lugar de τηρήσητε (guardar). De outro lado, por
descuido, copistas podem ter sido inconscientem ente influenciados pela locução την
εντολήν του θεού (ο m an d am en to de Deus), que aparece no contexto anterior, e co-
locado τηρήσητε no lugar de στήσητε. A segunda opção é a m ais provável. A lgum as
trad u çõ es m o dernas seguem o texto (“m a n te r” ou “estab elecer”; BN e NVI [em no ta
de rodapé]); outras trad u zem a v a rian te (“o b serv ar” ou “g u a rd a r”; NBJ, TEB, NVI).

7.16 omissão do versículo {A}

Na m aioria dos docum entos, este versículo faz p a rte do texto, m as não ap arece
em im p o rtan tes docum entos do tipo de texto alex an d rin o . Tem tu d o p a ra ser um
co m en tário feito por um copista (que ex tra iu esse m ateria l de 4.9 ou 4.23), que se
en caix a m uito bem no texto, considerando-se o que é dito no v. 14.

7.19 κ α θα ρ ιζω ν (p u rific an d o /d ec lara n d o puros) {A}

É im p ressionante o peso dos m an u scrito s que traz em a p alav ra καθαριζω ν, u m a


form a de p articipio m asculino sin g u lar do verbo καθαρίζω . A dificuldade de enten-
d er o que esse term o significa d en tro do contexto em que se e n co n tra levou copistas
a te n ta r v árias correções e m elhorias, tro can d o o participio m asculino p or um par-
ticípio n e u tro ou u m a form a verbal de terceira pessoa. Veja o com entário a respeito
da segm entação, na n o ta seguinte.

7.19 Segmentação

As palavras καθαρίζουν πά ντα τά βρώ ματα (declarando puros todos os alim en-
tos) podem ser entendidas de diferentes m aneiras. A dificuldade de ordem gram atical
é que “essa construção de participio fica como que pendurada no ar, sem qualquer
conexão sintática que seja óbvia” (Guelich, M ark 1:1— 8:26, p. 378). Uma vez que o
participio καθαρίζουν é m asculino singular, o sujeito do participio pode ser Jesus (da
m esm a m aneira como Jesus é o sujeito oculto do verbo λέγει [diz], no v. 18) e o texto
pode ser visto como um com entário parentético do evangelista Marcos, destacando o
significado daquilo que Jesus disse. Confira a NBJ: 19 ‘“porque n ada disso en tra no
coração, m as no ventre, e sai p ara a fossa?’ (Assim, ele declarava puros todos os ali-
m entos.)”. Visto como parte de um com entário parentético de Marcos, καθαριζω ν será
traduzido por “declarando puros”, com o “sentido de declarar que não m ais devem ser
considerados cerim onialm ente ‘im puros’” (France, The Gospel o f M ark, p. 291).
Caso se a d o ta r a leitu ra v aria n te , ou seja, o participio n e u tro καθαρίζον, o su-
jeito do p articipio não será m ais Jesus, m as p assa rá a ser ο π α ν (tudo) do v. 18, e o
texto será en ten d id o como a continuação das p alavras de Jesus. C onfira ARC: 19
78 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

“porque não e n tra no seu coração, m as no v en tre e é lançado fora, ficando p u ras
todas as com idas?”

7 .2 4 Τ ύρου (de Tiro) {B}

As p alav ras καί Σ ιδ ώ ν ο ς (e de Sidom) p arecem um acréscim o, feito p a ra har-


m o n izar o texto com os paralelos em Mt 15.21 e Mc 7.31. Caso tivesse constado no
orig inal, não h á m otivo que explique por que teria sido om itido por algum copista.
E ntre os testem u n h o s que apoiam o texto m ais breve se en co n tram rep re se n ta n tes
do tex to o cidental, bem com o de outros tipos de texto.

7 .2 8 κύριε (Senhor) {B}

O m esm o que foi dito a respeito da v a ria n te do v. 24 se aplica a esta v a ria n te .


Ao que p arece, a p a la v ra v a i (sim), que ocorre oito vezes em M ateus, q u a tro vezes
em Lucas, e n u n ca em M arcos, foi in se rid a aqui a p a rtir da p assagem p a ra le la
em Mt 15.27. ARA e NVI trad u z em a v arian te: “Sim, Senhor, m as até os cachorri-
n h o s ...”. France (The Gospel o f M ark, p. 295), que aceita a v a ria n te com o original,
tem razão ao a firm a r que essa leitu ra com vai não deveria ser in te rp re ta d a com o
se a m u lh e r estivesse docilm ente aceitando o que Jesus tin h a acabado de dizer; ao
co n trário , de form a bem decidida ela rejeita o que ele acab ara de dizer.

7 .3 1 ήλθεν διά Σ ιδ ώ ν ο ς (passou por Sidom) {A}

S egundo o texto, que tem o apoio dos m elhores rep re se n ta n tes alex an d rin o s e
ocidentais, bem como de outros testem u n h o s ou docum entos im p o rtan tes, Jesus fez
u m a volta, p assando por Sidom, uns quinze quilôm etros ao n o rte de Tiro, seguindo
n a d ireção sudeste, atrav essan d o o rio Leontes, p assando por C esareia de Filipe
m ais ao sul, descendo pela m argem leste do rio Jordão e aproxim ando-se, assim , do
lago da G alileia pelo lado o riental, d en tro do territó rio de Decápolis.
A leitu ra καί Σ ιδ ώ ν ο ς ήλθεν (e de Sidom, foi [em direção ao lago da G alileia]) é
u m a m odificação feita por copistas, que ta n to pode te r sido acidental (por influên-
cia da típica expressão “Tiro e Sidom ”), como pode ter sido intencional (porque o
ro teiro seguido por Jesus p arecia d em asiad am en te circular). ARC reflete a v a rian te
tex tu al: “to rn an d o a sair dos territó rio s de Tiro e de Sidom, foi ...”

7 .3 5 καί [ευθέως] (e [!m ediatam ente]) {C}

A pred ileção de M arcos pelo advérbio ευθύς (que, por vezes, é escrito como
ευθέω ς em vários m anuscritos) au m e n ta as chances de o riginalidade desse advér-
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 79

bio no p resen te versículo. Por o utro lado, é im pressionante a com binação de tes-
tem u n h o s que não têm ευθέω ς, o que sugere que o advérbio não é original. P ara
in d icar que não se tem certeza q uanto ao texto original, ευθέω ς foi colocado en tre
colchetes. NVI segue o texto m ais breve, ao passo que ARA trad u z o texto m ais
longo.

8 .7 εύλογήσας αυτά (abençoando-os [= ab en ço an d o os peixes]) {B}

Em a lg u m a s lín g u a s, as v a ria n te s te x tu a is não te rã o m aio r im p o rtâ n c ia , pois


so a rá e s tra n h o d iz e r que a lg u é m a b e n ç o o u peixes. Isto p o rq u e, n o rm a lm e n te , o
su jeito do v erb o “a b e n ç o a r” é D eus. N essas lín g u a s, talv ez seja m ais a d e q u a d o
d iz e r que Je su s “deu g raças a D eus p o r e le s” (com o n a NTLH), p o r m ais que se
aceite com o o rig in a l a le itu ra que a p a re c e com o te x to em O Novo Testam ento
Grego. E pouco p rovável que M arcos tivesse em v ista q u a lq u e r d ife re n ç a de sig-
n ific ad o e n tre o p a rtic ip io ε ύ /α ρ ισ τ ή σ α ς , no v. 6, e o p a rtic ip io εύ λο γή σ α ς, aq u i
no v. 7.
A leitu ra aceita com o tex to tem a seu favor os m elhores m anuscritos. A le itu ra
εύχα ρ ισ τή σ α ς (dando graças) parece te r surgido p or in flu ên cia do v. 6. Vários
teste m u n h o s om item o pronom e n e u tro p lu ral αυτά. É possível que copistas julga-
ram que esse pronom e e ra dispensável, u m a vez que o pronom e τα ϋτα , que apa-
rece logo a seguir, tam b ém se refere aos peixes. Ou, o m itiram o pronom e porq u e
p e n sa ra m que não e ra ap ro p riad o d izer que Jesus abençoou os peixes, em vez de
“a b e n ç o a r” a Deus, isto é, d a r graças a Deus.

8.10 τά μέρη Δ α λμ α νουθά (as regiões de D alm anuta) {B}

Aqui ex istem dois g ru p o s de v a ria n te s te x tu ais, e m b o ra o p rim e iro não afete


a tra d u ç ã o do texto. A le itu ra τά μέρη (lite ra lm e n te , “as p a rte s ”; aqui, porém ,
no sen tid o de “regiões em v olta de u m a cid a d e ”) tem o apoio de quase todos
os m an u scrito s u n cíais, de m uitos im p o rta n te s m an u scrito s cursivos e, em razão
disso, tem tu d o p a ra ser o o rig in al. As dem ais opções, isto é, a locução sin ô n im a
τά õ p ia (as regiões), que a p arece no tex to p a ra lelo de Mt 15.39, e as v a ria n te s τα
όρη (os m ontes) e τό ο ρ ο ς (o m onte), carecem de um apoio m ais expressivo de
m an u scrito s.
D alm an u ta (que aparece em todos os m anuscritos uncíais, exceção feita a D) é
um lu g ar que não se sabe ao certo onde ficava. Sem saber o que fazer com essa pa-
lavra, que não aparece em n en h u m outro lugar do NT, copistas a su b stitu íra m por
Μ αγεόά(ν) (M agadã) ou Μ αγόαλά (M agdala), que são leitu ras que ap arecem no
texto paralelo de Mt 15.39. Q uanto a ten tativ as de identificar D alm anuta, confira
Strange, “D a lm a n u th a ”.
80 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

8 .1 5 Ή ρ ψ δ ο υ (de H erodes) {A}

A leitu ra τω ν Ή ρ ω δ ια ν ώ ν (dos H erodianos), da qual já se tem registro nos


séculos terceiro e q u arto é, com certeza, um a alteração que foi in tro d u zid a por
in fluên cia de 3.6; 12.13.

8 .1 6 Segmentação

Um a vez que εχουσιν (têm) é um a form a verbal de terceira pessoa, δτι pode ser
visto com o um a form a de a p re se n ta r o assunto sobre o qual os discípulos estavam
conversando e a trad u ção p o d erá ser como esta: “Assim com eçaram a falar en tre
si a respeito do fato de não terem p ão ” (REB). No en tan to , é possível e n te n d er δτι
com o u m a conjunção que in tro d u z um a frase que dá o m otivo por que os discípu-
los com eçaram a conversar en tre si. Neste caso, a trad u ção de δτι será “p o rq u e”,
ou seja, “Assim com eçaram a falar en tre si porque não tin h a m p ão ”. Joel M arcus
(Mar/c 1— 8, p. 5 0 6 — 7) acrescen ta as p alavras “que ele havia dito isso”, p a ra que o
contexto faça algum sentido: “E eles estavam discorrendo en tre si que ele havia dito
isso porque eles não tin h a m p ão ”.
O textu s receptus, em concordância com m uitos m anuscritos, tra z a p rim eira
pessoa do p lural έχομεν (temos). Caso se a d o ta r essa v aria n te , δ τι p assa a ser reci-
tativo (equivalente a dois pontos e aspas) e não tem tradução. Nesse caso, o texto é
trad u zid o por “Assim co m eçaram a d izer uns aos outros: ‘Não tem os p ão ’”. M uitas
trad u çõ es m o d ern as ap re se n tam as palav ras dos discípulos com o u m a citação dire-
ta. P rovavelm ente, porém , isso se deve m ais a questões estilísticas da lín g u a p a ra a
qual se está trad u z in d o do que a u m a p referência pela v a ria n te tex tu al.

8 .2 6 μηδέ εις την κώμην είσέλθης (nem m esm o e n tre s no povoado) {B}

Parece que as principais variantes textuais se desenvolveram na seguinte sequência:


(1) μηδέ εις την κώμην είσέλθης (nem m esm o e n tres no povoado)
(2) μηδενί εϊπης εν τη κώμη (não fales com n in g u ém no povoado)
(3) μηδέ εις την κώμην είσέλθης μηδέ ειπ ης τινί εν τη κώμη
(não e n tres no povoado nem m esm o fales com alguém no povoado)
(4) ύ πα γε εις τον οΐκόν σου καί μηδενί εϊπης (vai p a ra a tu a casa
e não fales com ninguém )
(4a) καί + εάν εις την κώμην είσέλθης (e + se e n tra re s no povoado)
(4b) εϊπης + εις την κώμην (fales + p a ra d en tro do povoado)
(4c) εϊπης + εν τη κώμη (fales + no povoado)
(4d) καί 4- μηδέ εις την κώμην είσέλθης μηδέ εϊπης τινί εν τη κώμη
(e + não en tres no povoado nem fales com nin g u ém no povoado)
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 81

A leitura (1), que é apoiada por antigos representantes dos tipos de texto alexandri-
no, oriental e egipcio, parece ser a form a m ais antiga do texto. A leitura (2) surgiu com
a intenção de esclarecer o significado de (1), e a leitura (3) é, certam ente, urna m istura
de (1) e (2). A leitura (4), que am plia o texto de (2) por meio de urna frase introdutória,
parece ter dado origem a várias outras alterações que se encontram em testem unhos
ocidentais bem como em outros testem unhos. A leitura adotada como texto parece
significar que o hom em m orava fora do povoado e que Jesus lhe pediu que fosse direta-
m ente p ara casa, sem en trar no povoado p ara contar às pessoas o que havia acontecido
(Hooker, The Gospel According to Saint M ark, p. 199).

8 .3 8 λόγους (palavras) {B}

Se λόγους não fosse original, fica difícil de explicar sua presença num a tão grande
variedade de diferentes tipos de texto. A leitura mais breve faz sentido (“qualquer que se
envergonhar de mim e dos meus [seguidores]‫)״‬, mas λόγους tem tudo para ser original e
foi omitido acidentalmente, por causa do final sem elhante das palavras έμούς e λόγους.

8 .3 8 μετά (com) {A}

A leitura que tem ο καί (e) em lugar de μετά parece ter surgido por descuido de
um copista, ou porque, de form a intencional, se tratou de harm onizar o texto com o
paralelo em Lc 9.26 (“quando vier na sua glória e na do Pai e dos santos anjos”).

9.10 Segmentação

Caso a locução προς έαυτοΰς (uns aos outros/entre si) for ligada ao que vem antes,
no v. 10, o significado é este: “Assim, eles guardaram [¿κράτησαν] o assunto entre si, per-
guntando o que seria esse ressuscitar dentre os m ortos” (NRSV). O verbo ¿κράτησαν tem
o significado de “guardaram na m ente”. Evans (Mark 8:27—16:20, p. 42) comenta: “Fica
implícito que não com partilharam isso nem mesmo com os outros discípulos”. Caso, po-
rém, se fizer o corte após προς εαυτους, estas palavras se ligam ao que segue e ¿κράτησαν
passa a significar “observaram ” ou “obedeceram ”. NBJ traduz: “Eles observaram a reco-
mendação perguntando-se o que significaria ‘ressuscitar dos m ortos’”. NTLH traduz: “Eles
obedeceram à ordem, mas discutiram entre si sobre o que queria dizer essa ressurreição”.

9.14 έλθόντες ... είόον (chegando ... viram ) {B}

A leitura que tem as form as verbais no singular, a saber, έλθών ... εΐδεν, dá des-
taque a Jesus, ao passo que o plural requer que se faça distinção en tre “eles” (ou seja,
Jesus, Pedro, Tiago e João, reto rn an d o do m onte da transfiguração) e “os discípulos”
82 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

(isto é, os outros nove que haviam ficado na planície). A leitura com os verbos no plu-
ral tem sólido apoio de m anuscritos. Além disso, é m ais provável que copistas dariam
um destaque m aior a Jesus e tro cariam o plural pelo singular, para que Pedro, Tiago
e João não fossem excluídos do grupo cham ado de “os discípulos”. Visto que tam bém
Pedro, Tiago e João eram discípulos, talvez seja conveniente, em algum as línguas,
dizer “quando eles se aproxim aram dos outros discípulos”. Confira a NTLH: “Q uando
eles chegaram perto dos outros discípulos”.

9 .2 3 τό 81 δύνη (se podes) {B}

O artig o τό é um a indicação de que se tra ta de u m a citação. Ao dizer “se p o d e s”,


Jesus, atônito, ecoa as palav ras daquele pai (Hooker, The Gospel According to Sa in t
M ark, ρ. 224). Jesus rep ete as p alavras daquele pai, visando a d e safia r as pessoas:
2 2 “... se podes alg u m a coisa, tem p en a de nós e ajuda-nos. 2 3 E Jesus lhe respon-
deu: ‘Se podes!’ (τό εί δύνη) Tudo é possível p a ra quem tem fé”.
A lguns copistas, não e n ten d en d o que Jesus estava rep e tin d o as p alav ras do pai
do m enino, in se rira m um πισ τεύσ αι (crer) no texto, fazendo com que o sujeito do
verbo “p o d e r” não seja m ais Jesus, e sim o pai do m enino. Ou seja, se faz referên cia
à capacidade do pai p a ra crer. Disso resultou que aquele τό ficou m ais esquisito
ain d a, levando à sua om issão, em m uitos m anuscritos.

9 .2 4 π α ιδ ιο ύ (do m enino) {A}

Em m an uscritos m ais recentes, copistas e corretores in seriram a locução μετά


δα κ ρ ύω ν (com lágrim as), p a ra a u m e n ta r a d ram aticid ad e da n a rra tiv a . Caso essa
locução tivesse estado no texto, não há com o explicar por que teria sido om itida.

9 .2 9 προσευχή (com oração) {A}

À luz da crescente ênfase d ada ao jejum , n a Igreja A ntiga, é com preensível que
um copista te n h a acrescen tad o ao texto, em form a de com entário, a locução καί
νηστεία (e com jejum ), que acabou p or fazer p a rte do texto da m aioria dos testem u-
nhos. E ntre aqueles que se o p u seram a esse acréscim o estão im p o rtan tes represen-
ta n te s dos tipos de tex to ale x an d rin o e ocidental.

9 .3 8 καί έκωλύομεν αυτόν, ότι ούκ ήκολούθει ήμΐν


(e nós lho proibim os, porque não estava nos seguindo) {B}

Em m eio a m uitas variações de m enor im p o rtân cia, ap arecem três leitu ras prin-
cipais, que não chegam a a fe ta r a trad u ção do texto, pois são m ais diferenças de
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 83

estilo do que de significado: (1) ae nós lho proibim os, porque não estava nos seguin-
d o ”; (2) “que não estava nos seguindo, e lho proibim os”; e (3) “que não estava nos
seguindo, e nós lho proibim os, porque não estava nos seg u in d o ”. Esta ú ltim a leitu ra
é u m a com binação das duas p rim eiras e pressupõe a existência daquelas.
Prefere-se a leitu ra (1) por dois m otivos: (a) é apoiada pelos m elhores testem u-
nhos, e (b) porque, na seg u n d a leitura, os copistas reescrev eram o texto, fazendo
com que a locução “que não estava nos seg u in d o ” aparecesse im ed iatam en te após
“alguém que, em teu nom e, expelia dem ônios” (um a alteração que exigiu, tam b ém ,
que a conjunção oil [porque] fosse sub stitu íd a pelo pronom e relativo ός [que].)
A leitu ra (2) tem o apoio de vários testem u n h o s ocidentais e, em função disso,
não su rp reen d e que a NBJ te n h a preferido esse texto (“que não nos segue ... e o
im pedim os porque não nos seg u ia”). E m bora esta leitu ra inicie com um a cláusula
relativ a (“que não nos segue”), o sentido é claram en te este: os discípulos o im pedi-
ram , porque ele não os estava seguindo.

9.41 έν όνόμ α τι ότι (com base no fato de q u e/p o rq u e) {A}

A expressão έν όνόμ α τι ότι (literalm en te, “em nom e p o rq u e ”), por m ais estra-
n h a que seja, é p erfeitam en te aceitável, em grego (veja BDAG, p. 714, § 3). Mas pa-
rece que algu ns copistas e stra n h a ra m essa expressão, levando-os a alterá-la p a ra έν
ό νό μ α τι μου (em m eu nom e) ou έν τω όνόμ α τι μου (em nom e de m im ). Segundo a
leitu ra aceita como texto, alguém dá ao seguidor de Jesus um copo de água porque a
pessoa que está com sede p erten ce a Jesus. Segundo as v a ria n te s tex tu ais, a pessoa
que dá o copo de água faz isso em nom e de Jesus, ou seja, pelo respeito que a pessoa
que d á essa ág u a tem pela pessoa de Jesus.

9 .42 π ισ τευ ό ν τω ν [εις έμέ] (que creem [em m im ]) {C}

A v ariante tex tu al pode não ter m uita im portância p a ra um trad u to r pois, em


algum as línguas, o verbo “c rer” precisa vir seguido por um objeto. Nesses casos, é
n a tu ra l acrescentar “em m im ”, m esm o que não se aceite a variante como original. As
palavras εις έμέ têm sólido apoio de m anuscritos. Por outro lado, um a com binação de
im p o rtan tes testem unhos om ite essa locução. Além disso, εις έμέ pode ter sido inse-
rido no texto de M arcos por influência do paralelo em Mt 18.6. P ara indicar que não
se tem certeza quanto ao texto original, as palavras εις έμέ aparecem en tre colchetes.

9 .4 4 omissão do versículo {A}

As p alav ras όπου ó σκώληξ ... ού σ βέννυτα ι, que não ap arecem em im p o rtan tes
testem u n h o s antigos, foram acrescen tad as por copistas a p a rtir do v. 48.
84 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

9 .4 5 εις την γέεννα ν (no inferno) {A}

Influenciados pelo paralelo no v. 43, copistas foram estim ulados a acrescen tar
diversos qualificativos ao texto, como ano fogo que não se ap ag a”. O texto tem ótim o
apoio de rep resen tan tes dos tipos de texto alexandrino, ocidental, oriental, e egípcio.

9 .4 6 omissão do versículo {A}

Veja o co m entário sobre o v. 44.

9 .4 9 π α ς γάρ π υ ρ ί άλισθήσεται (pois cada um será salgado com fogo) {B}

As p alav ras iniciais desse versículo foram tra n sm itid a s em três form as princi-
pais:
(1) π α ς γάρ π υ ρ ί άλισθήσεται (“pois cada um será salgado com fogo‫;)״‬
(2) πά σ α γάρ θυσ ία άλί άλισθήσεται (“pois cada sacrifício será salgado
com sal‫ ;)״‬e
(3) π α ς γάρ π υ ρ ί άλισθήσεται καί πάσα θυσία άλί άλισθήσεται (“pois cada
um será salgado com fogo, e cada sacrifício será salgado com sal”).
A h isto ria do texto parece ser a seguinte: N um período bem rem oto, um co-
p ista viu em Lv 2.13 (“com todas as tu as ofertas oferecerás sal”) urna pista p a ra a
com preensão dessa e stra n h a afirm ação de Jesus e an o to u essa passagem do AT à
m arg em de sua cópia de M arcos. Mais tard e , outros copistas su b stitu íra m o texto
por esse co m en tário na m argem , criando a leitu ra (2), ou acresce n tara m o com en-
tário m arg in al ao texto, criando a leitu ra (3). E ntre as o u tras alterações estão as
seguintes: π υ ρ ί ά ναλω θήσεται (será consum ido pelo fogo), θυσία άνα λω θή σετα ι
(sacrifício será consum ido), εν π υ ρ ί δοκιμασθήσεται (será testad o pelo fogo), πά σ α
δέ ουσ ία άνα λω θή σετα ι (e to d a substância [deles] será d estru íd a).
Um co m e n ta rista bíblico escreveu que pelo m enos quinze diferentes in terp reta-
ções desse versículo já foram propostas. A explicação de H ooker (The Gospel Accor-
ding to S a in t M ark, p. 233) teria am pla aceitação e n tre os in térp retes. Ela afirm a
que, n este caso, o verbo “sa lg a r” deveria ser en ten d id o com o “p u rific a r”.
P arece que a chave p a ra o uso que M arcos faz desse ditad o neste contexto é o
p aradoxo de ser “salvo pelo fogo” (1C0 3.15). Assim com o o fogo, o sal é um agente
p u rificad o r (Ez 16.4; 43.24); pode, tam b ém , tra z e r desolação e d estru ição (Jz 9.45;
Sf 2.9). Porém , d iferen tem en te do fogo, o sal é u m a fonte de vida (2Rs 2.19-22);
pode ser usado p a ra ev itar que a com ida ap odreça. P o rtan to , m esm o se tra ta n d o de
urna m etáfo ra m ista, a noção de que hom ens podem ser salgados com fogo resum e
m uito bem a m ensagem dos vs. 43,45,47: o processo de purificação pode d estru ir,
m as pode tam b ém preservar.
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 85

M esm o que se adote a leitu ra que ap arece com o texto, não é recom endável fazer
u m a trad u ç ão literal. Seria m elho r colocar na trad u ção o sentido provável desse
texto e, n u m a nota, explicar que não se tem certeza q u an to ao sentido desse texto.
C onfira a NTLH: “Pois todas as pessoas serão pu rificad as pelo fogo, assim com o os
sacrifícios são purificados pelo sal”.

10.1 ficai] π έρ α ν τού *Iopòávou ([e] além do Jordão) {C}

M orna H ooker descreve m uito bem a dificuldade ligada a esse versículo (The
Gospel According to S a in t M ark, p. 235): “Jesus inicia sua viagem p a ra o Sul, rum o
a Jeru salém , m as o roteiro dele não fica claro. M uitos ju d eu s atravessavam o rio
Jo rd ão e e n trav am na Pereia, p a ra não terem que p assar p or S am aria, m as a afir-
m ação de que Jesus foi p a ra as regiões da Ju d eia e o outro lado do Jordão (ou seja,
a Pereia) in verte a ordem n a tu ra l e isso, é claro, deixou os prim eiros copistas per-
plexos”.
A leitu ra διά του π έρ α ν τού Τ ορόάνου (através da região do Jordão), que foi
seguida pelo textus receptus em concordância com vários uncíais e a m aio ria dos
cursivos, é um a correção feita por um copista que não sabia o que fazer com as di-
ficuldades geográficas en co n trad as em leitu ras m ais antigas. O texto a lex an d rin o
tra z καί πέραν, e os textos ocidental e an tio q u en o têm πέραν. A leitu ra π έρ α ν tem
bom apoio de m anuscritos de vários tipos de texto, m as é possível que ο καί te n h a
sido om itido p a ra h a rm o n iz a r o texto com o paralelo em Mt 19.1. P ara in d icar que
não se tem certeza q u anto ao texto original, καί aparece, no texto, e n tre colchetes.
Não se sabe com certeza o que significam essas d iferentes leituras. (1) Segundo
a leitu ra aceita com o texto (“na região da Ju d eia e além do Jo rd ã o ”), Jesus pode ter
ido p rim eiram en te da G alileia p a ra a Ju d eia e, ten d o chegado à Judeia, atravessou
p a ra a Pereia (T ransjordânia), no lado leste do rio Jordão. C onfira a NVI: “Então
Jesus saiu dali e foi p a ra a região da Ju d eia e p a ra o outro lado do Jo rd ã o ”. Mas a
leitu ra no texto pode, tam bém , ser e n te n d id a com o se, em algum m om ento d u ran te
sua viagem iniciada na Galileia, Jesus te n h a atravessado p a ra a Pereia, no lado leste
do rio Jordão, e te n h a e n trad o na Ju d eia a p a rtir do lado leste do rio. Em ou tras
palavras, não fica claro se Jesus passou pela Pereia en q u an to estava a cam in h o da
Jud eia, ou se foi p ara a Pereia depois que tin h a chegado à Judeia. (2) Segundo a lei-
tu ra πέρ α ν (“o territó rio da Judeia, além do Jo rd ã o ”), Jesus pode te r ido da G alileia
p a ra o lado leste do rio Jordão (a T ransjordânia), sem ter ido à Ju d eia com o tal. Ou,
o significado pode ser o seguinte: ele foi rum o ao Sul pelo lado leste do rio Jord ão
e en tão e n tro u na Judeia. (3) Segundo a leitu ra que aparece no textus receptus (“na
região da Ju d eia através da região do Jo rd ã o ”), Jesus foi da G alileia p a ra a Judeia,
dirigindo-se ao Sul através da Pereia, no lado leste do Jo rd ão (e não passou por
S am aria, indo rum o ao Sul).
86 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

1 0 .2 καί προσ ελθόντες Φ α ρ ισ α ίοι (e fariseus tendo c h eg ad o /ap ro x im an d o ‫־‬se) {B}

O principal problem a apresentado pelas variantes tem a ver com a presença ou


ausência das palavras προσελθόντες (oi) Φ αρισαίοι. Será que o texto original (apoiado
principalm ente pelo tipo de texto ocidental) trazia apenas o verbo έπηρώτων, um a
form a im pessoal da terceira pessoa do plural (“as pessoas lhe p erg u n taram ” ou “foi-lhe
p erg u n tad o ”), e a referência aos fariseus foi acrescentada em muitos testem unhos por
influência da passagem paralela em Mt 19.3? Tal explicação faz sentido, m as o paralelo
em M ateus não é totalm ente paralelo (προσήλθον αύτω Φ αρισαίοι [fariseus vieram
até ele]), e a leitura m ais longa tem amplo e im pressionante apoio de m anuscritos.
Das traduções m odernas, a REB segue a leitura m ais breve: “Perguntaram -lhe: Έ
lícito um hom em divorciar-se da sua m u lh er’”? E ntre os m anuscritos que têm o texto
m ais longo, alguns trazem o artigo definido oí diante do substantivo Φ αρισαίοι, m as
a leitu ra sem o artigo tem os m elhores m anuscritos do seu lado. Sem o artigo, o sig-
nificado é “alguns fariseus” (ARA, NTLH, NBJ, NVI).

10.6 α υ το ύ ς (os/a eles) {B}

Alguns testem unhos om item o pronom e αυτούς, que é o objeto direto, por julgá-lo
desnecessário, m as os m anuscritos favorecem a sua presença no texto. Muitos ma-
nuscritos contêm o sujeito ό θεός (Deus) para o verbo έποίηοεν (fez), m as ό θεός foi,
provavelm ente, acrescentado por copistas que queriam evitar um m al-entendido, ou
seja, que leitores pensassem que o sujeito de έποίηοεν era Moisés, m encionado no v. 4.
Caso, na língua alvo, não fique claro quem é o sujeito do verbo “fez”, o trad u to r
deveria acrescentar a palavra “Deus”, m esm o que se aceite como original o texto que
aparece em O N ovo T estam ento Grego. Confira a NTLH: “Deus os fez hom em e m u lh er”.

1 0 .7 μητέρα [και προσκολληθήσεται π ρ ο ς την γυ να ίκ α αύτοΰ]


(m ãe [e se u n irá com a sua m ulher]) {C}

Será que as palavras καί προσκολληθήσεται π ρ ο ς την γυναίκα αύτού foram


acrescentadas na m aioria dos m anuscritos, para fazer a citação concordar com a for-
m a m ais longa que aparece em Mt 19.5 (e Gn 2.24)? Essas palavras não aparecem
em bons m anuscritos do tipo de texto alexandrino. Ou será que foram om itidas sem
querer, quando um copista passou do καί que abre essa frase ao καί que aparece no
início do v. 8? Parece que essas palavras são necessárias, pois, do contrário, οι δύο
(os dois), no v. 8, podería ser entendido como um a referência ao pai e à mãe! Como
existem argum entos p a ra os dois lados, essas palavras fazem p arte do texto, só que
aparecem en tre colchetes. A NBJ prefere o texto m ais breve: “7 Por isso 0 h o m e m
d e ix a rá 0 seu p a i e a su a m ã e , 8 e os dois serão u m a só c a rn e ”. D entro da leitura m ais
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 87

longa, π ρ ο ς την γυνα ίκα é preferível a τη γυναΐκι, que é, claram ente, um a correção
p a ra m elho rar o estilo. O significado destas duas leituras é o m esm o.

10.13 oí όέ μ αθηταί έπετίμησαν α ύ το ίς (e os discípulos os rep reen d eram ) {A}

As variantes podem não ter m aior im portância para a tradução do texto, pois é pos-
sível que o tradutor prefira usar um substantivo em lugar de um pronom e, caso o pro-
nom e resultar ambíguo. Confira a NTLH: “algum as pessoas levaram as suas crianças
a Jesus para que ele as abençoasse, m as os discípulos repreenderam aquelas pessoas”.
O pronom e α ύτοις poderia ser entendido como um a referência às próprias crian-
ças, e não aos adultos que as levaram a Jesus. P ara evitar qualquer am biguidade
quanto ao alvo da repreensão dos discípulos, alguns copistas substituíram o pronom e
α ύτοις (os/a eles) por τοΐς προσφ έρουσ ιν (aqueles que estavam apresentando) ou
το ΐς φέρουσιν (aqueles que estavam trazendo). A leitura aceita como texto tem exce-
lente apoio de m anuscritos. Além disso, os textos paralelos em Mt 19.13 e Lc 18.15,
que têm o pronom e “os”, dão a en ten d er que M ateus e Lucas en co n traram no texto de
M arcos o pronom e αύτοις, ao escreverem os seus Evangelhos.

10.19 μή άποστερήσης (não d e fra u d a rá s/e n g a n a rá s) {A}

O m and am ento “não d e fra u d ará s” traz à m em ória o texto de Êx 20.17 ou Dt 24.14,
segundo a fraseologia encontrada em alguns m anuscritos da Septuaginta. Porém ,
m uitos copistas devem ter entendido que esse m andam ento não deveria aparecer
n um a lista que traz vários dos Dez M andam entos, e o p taram por omiti-lo. M ateus
(19.18) e Lucas (18.20) fizeram o m esm o, ao seguirem o texto de M arcos, na compo-
sição de seus Evangelhos.

10.21 δεύρο άκολούθει μοι (vem, segue-m e) {A}

O textus receptus, a exem plo de m uitos m anuscritos cursivos, acrescenta α ρ α ς


το ν στα υρόν (tom a a tu a cruz), tirad o de 8.34. O texto m ais breve tem excelente
apoio de m anuscritos. Além disso, a ausência das palavras α ρ α ς τον στα υρόν nos
relatos paralelos de Mt 19.21 e Lc 18.22 dá a e n ten d er que essas palavras, original-
m ente, não faziam p a rte do texto de M arcos.

1 0 .2 4 έστιν (é) {B}

Copistas tra ta ra m de a b ra n d a r o rigor das palavras de Jesus a respeito de quão


difícil é e n tra r no reino de Deus, inserindo várias qualificações que restrin g iram
sua aplicação em term os tão am plos e ligaram essas palavras m ais d iretam e n te ao
88 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

contexto. Assim, em alguns m anuscritos se en co n tra τούς π επ ο ιθ ό τα ς επί χρήμασιν


(os que confiam em riquezas), em outros se lê πλ ο ύσ ιο ν (um rico), e um m anuscrito
cursivo traz oi τά χρήματα έ /ρ ν τε ς (os que têm posses).

10 .2 5 κάμηλον (cam elo) {A}

Veja o co m entário sobre Mt 19.24.

10 .2 6 π ρ ο ς εαυτούς (uns aos o u tro s/e n tre si) {B}

A leitura π ρ ο ς αυτόν (a ele) parece ser um a correção alex an d rin a de έαυτούς, que
tem do seu lado um bom apoio de m anuscritos. Uns poucos m anuscritos tro caram o
pronom e reflexivo έαυτούς pelo recíproco άλλήλους (uns aos outros). A lguns outros
m anuscritos não têm pronom e nenhum , m as é possível que copistas ten h am om itido
o pronom e p ara h arm o n izar o texto com os paralelos em Mt 19.25 e Lc 18.26, onde
não ap arece n en h u m pronom e. A RSV trad u ziu a v a ria n te “a ele”, m as a m aioria das
trad u çõ es m o d ern as segue a leitu ra que aparece como texto em O Novo Testamento
Grego.

10.31 [01] ([os]) {C}

Esta v a ria n te não tem m aior im p o rtân cia p a ra trad u to re s do NT, pois u sa r ou
não u sa r o artigo vai d e p en d e r das características e exigências da lín g u a p a ra a
qual se está trad u zin d o . De um lado, o peso dos m anuscritos favorece a om issão
do artig o definido oi. Mas, por ou tro lado, é possível que copistas te n h a m om itido
o artigo, neste caso p a ra h a rm o n iz a r o texto com o p aralelo em Mt 19.30, onde o
artig o não aparece.

1 0 .3 4 μετά τρεις ημέρας (depois de três dias) {A}

A locução μετά τρ εις ημέρας é típica de M arcos, o correndo tam b ém em Mc 8.31


e Mc 9.31. Afora isso, aparece, em referên cia à ressu rreição de Jesus, apenas em Mt
27.63. C opistas tro c a ra m essa locução por τή τρίτη ημέρα (ao terceiro dia), que é
u m a ex p ressão m uito m ais freq u e n te no NT. C onfira os p ara lelo s em Mt 20.19 e
Lc 18.33, onde ap arece τή τρίτη ημέρα.
Se as locuções μετά τρ εις ήμέρας e τή τρίτη ημέρα têm ο m esm o significado,
é um assu n to que divide as opiniões dos estudiosos. Caso μετά τρ εις ήμέρας sig-
nifique “no terceiro dia depois d e ste ”, ou seja, “o dia depois de a m a n h ã ”, as duas
locuções são sinônim as e p odem te r a m esm a trad u ç ão (veja Taylor, The Gospel
According to St. M ark, p. 378, p a ra evidências de que as duas locuções têm o m esm o
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 89

significado). Caso, porém , a locução “depois de três d ias”, em M arcos, signifique


“no q u a rto d ia ”, então o texto de M arcos não deveria ser trad u zid o de form a idénti-
ca aos paralelo s em M ateus e Lucas.

1 0 .3 6 τι θέλετε [με] ποιήσω (que quereis que [eu] faça) {C}

As v arian tes, neste caso, não afetam a tradução, pois são m eras diferenças es-
tilísticas: τί θέλετε με ποιήσ αι (que quereis que eu faça?) e τί θέλετε ποιήσ ω (que
quereis que faça?). A leitu ra que m elhor explica a origem das v a ria n te s é aquela que
ap arece com o texto, em que o pronom e acusativo με é seguido de um subjuntivo de-
liberativo, e não do infinitivo ποιήσ αι, com o seria de se esperar. Na verd ad e, m uitos
m anu scrito s m ais recentes tra z e m o infinitivo em lugar do subjuntivo. É possível
que, neste caso, copistas te n h a m sido levados a fazer alterações por causa de um a
p e rg u n ta sem elh an te no v. 51.

10 .4 0 άλλ' οις (m as p a ra a q u eles/m as p a ra os quais) {A}

Várias das versões antigas in te rp re ta ra m o grego aaaoic com o sendo urna só


p alav ra α λλο ις (a outros). A leitu ra aceita com o tex to significa que Jesus não tem o
direito de conceder lugares de h o n ra (a ninguém ); é Deus quem vai d a r esses luga-
res àquelas pessoas p a ra as quais ele os p reparou. Na Igreja A ntiga, alg u n s cristãos
se ap eg aram a esse texto p a ra defen d er a ideia de que, p or conseguinte, Jesus es-
tav a su b o rd in ad o a Deus e não era igual a Deus. A alteração p a ra α λ λ ο ις pode te r
sido intencional, p a ra rejeitar tal noção a respeito de Cristo, pois a v a ria n te te x tu a l
significa: “Não com pete a m im conceder (a vós, os discípulos) m as (com pete a m im
conceder) a outros [αλλοις], p a ra os quais foi p re p a ra d o ”.

10 .4 0 ήτοίμασται (está preparado) {A}

Esta v aria n te pode não ter m aior significado p a ra trad u to res, pois, em m uitas
línguas, o agente do verbo ήτοίμασται será explicitado, in d ep e n d en tem e n te do tex-
to que se está seguindo. C onfira a NTLH: “Pois foi Deus quem p rep aro u esses luga-
res e ele os d a rá a quem q u iser”. A presença da locução υπό (ou πα ρά) του π α τρ ό ς
μου (por m eu Pai) em vários testem u n h o s, alguns deles antigos, é u m a inserção
feita a p a rtir do paralelo em Mt 20.23.

1 0.43 έστιν (é) {A}

A p aren tem ente, um copista colocou a form a do fu tu ro έσται (será) em lu g ar do


p resen te, p a ra a b ra n d a r um pouco o tom das p alav ras de Jesus. Essa leitu ra com
90 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

o verbo no fu tu ro tem o apoio de vários uncíais e da m aio ria dos m inúsculos. A


form a com o fu tu ro pode tam b ém te r surgido p or in fluência de εσται, que ap arece
n a lin h a seguinte.
O p resen te pode ser e n ten d id o com o um p resen te que c o n stata um fato, e não
com o u m a ordem ou u m a afirm ação com respeito ao futuro. Em o u tras palav ras,
“n ão é assim que é e n tre vós”. Por outro lado, alguns verbos gregos, inclusive o ver-
bo “se r”, p odem ser usados no tem po p resen te com u m a referência a ação fu tu ra.
Q u an d o form as do p resen te e do fu tu ro ap arecem em sequência, como neste versí-
culo, a form a do p resen te dá m ais ênfase ou expressa m aior grau de certeza do que
o verbo no tem po fu tu ro . Isto significa que a d iferença e n tre έστιν e εσται pode ser
de ênfase, não de tem po.

1 1 .3 α υ τό ν ά ποσ τέλλει π ά λ ιν (o m an d a o u tra v ez/o m an d a de volta) {B}

O tem po fu tu ro ά ποσ τελεΐ (m andará), que é m ais b ran d o do que o presen te


α ποσ τέλλει, parece ser u m a correção feita por copista. A v a ria n te m ais significativa
diz respeito à p resen ça ou ausên cia do advérbio π ά λ ιν (novam ente, o u tra vez). A
leitu ra sem ο π ά λ ιν precisa ser e n te n d id a no sentido de que a pessoa que recebe o
recad o de Jesus a te n d ería aquele pedido, m an d a n d o im ed iatam en te o ju m e n tin h o
até Jesus (H ooker, The Gospel According to Sain t M a rk, ρ. 259). É possível argu-
m e n ta r que o advérbio não é original, m as foi acrescen tad o por copistas que se
p reo c u p ara m com o que seria do anim al. Iria Jesus m andá-lo de volta? Mas, urna
vez que copistas não acresce n tara m π ά λ ιν no p aralelo em Mt 21.3, é provável que o
p ró p rio M arcos, e não copistas posteriores, te n h a escrito πάλιν. Além disso, m anus-
critos ta n to do tipo de texto alex an d rin o q u an to do tipo de texto ocid en tal apoiam
a leitu ra m ais longa, com o advérbio.
A m aio ria das trad u çõ es en ten d e todo esse texto, a saber, “O Senhor precisa
dele e ele (= Jesus) logo o m a n d a rá de volta p a ra aqui”, com o a m ensagem que os
dois discípulos d everíam tra n sm itir ao dono do ju m e n tin h o . No en ta n to , tam b ém é
possível tra d u z ir assim : “Dizei: Ό S enhor precisa dele’. E ele (= o dono) im ediata-
m en te o m a n d a rá de volta p a ra cá” (Seg). Veja o co m entário sobre a segm entação
do versículo p aralelo de Mt 21.3.

1 1 .1 9 έξεπ ο ρ εύ ο ντο έξω τής πόλ εω ς (saíram da cidade) {C}

E m bora exista a possibilidade de o verbo no sin g u lar έξεπορεύετο (ele saiu)


ser orig in al, ten d o sido tro cad o pelo plural, p a ra concordar com o participio plu ral
π α ρ α π ο ρ ευ ό μ εν ο ι e o verbo plu ral εΐδον do versículo seguinte, o peso da evidência
ten d e a a p o iar a form a do plural. A om issão do verbo no Códice L é resu ltad o de
um erro de cópia.
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 91

A NBJ ad o ta a v a ria n te tex tu al: “Ao en tard ecer, ele se dirigiu p a ra fora d a ci-
d a d e ”. Caso se p refe rir a leitu ra que aparece com o texto, talvez seja m elhor d izer
“Jesus e os discípulos sa íram ” (NTLH), e não sim plesm ente “eles sa íram ”, pois, do
co n trário , os leitores p o d eríam p e n sa r que “eles” se refere aos principais sacerdotes
e escribas, m encionados no v. 18.

11.22 'Έ χετε π ίσ τιν (Tende fé) {B}

A leitu ra aceita com o texto é u m a exortação a que os discípulos te n h a m fé em


Deus. A lguns m anuscritos, todavia, tra z e m εί εχετε πίστιν. Essa v a ria n te pode ser
e n te n d id a com o u m a condicional, ou seja, “se ten d es fé”. Ou, εί pode ser en ten d id o
com o p a rtíc u la in terro g ativ a que in tro d u z um a p e rg u n ta , a saber, “Tendes fé?” A
leitu ra εί εχετε π ίσ τιν exige que as p alav ras que seguem no v. 23, “em v erd ad e vos
afirm o ”, form em a oração principal dessa construção (“se tendes fé em Deus, então
em v erd ad e eu vos afirm o ”). No en tan to , em o u tras passagens dos E vangelhos, as
p alav ras άμήν λεγιο νμ ΐν sem pre ap arecem no início de u m a frase e não são pre-
cedidas por um a oração condicional. E provável que essa v a ria n te te n h a surgido
q u ando um copista alterou o texto, fazendo-o concordar com as palav ras de Jesus
em Lc 17.6: “Se tiverdes fé como um grão de m o sta rd a ” (veja tam b ém Mt 21.21).

1 1.24 έλάβετε (recebestes) {A}

Neste caso, as v a rian tes podem não ter m aior im p o rtân cia p a ra trad u to res, pois
as d iferen tes form as verbais não expressam n ecessariam en te diferenças de signi-
ficado. O tem po aoristo (“p assad o ”) έλάβετε re p re se n ta o uso sem ítico do perfeito
profético. (Este perfeito profético expressa a certeza de um a ação fu tu ra. Em outras
palavras, no AT os profetas às vezes se referiam a eventos fu tu ro s com ta n ta certe-
za, que falavam deles como se já tivessem acontecido.) C opistas a lte ra ra m o texto
p a ra o tem po p resen te λαμβάνετε (recebeis), ou, influenciados pelo p aralelo em
Mt 21.22, p a ra o tem po fu tu ro λήμψεσθε (recebereis). Em algum as línguas, caso o
aoristo έλάβετε for trad u zid o por um verbo no p retérito perfeito, talvez não fique
claro o sentido do perfeito profético. P ortanto, a m elhor opção talvez seja u sa r o
fu tu ro , com o em "crede que o receb ereis”.

11.26 omissão do versículo {A}

A au sên cia desse versículo em testem u n h o s antigos que re p re se n ta m todos os


tipos de texto indica que existe g ran d e probabilidade de que essas p alav ras foram
in serid as p or copistas a p a rtir do texto de Mt 6.15. É m enos provável a hip ó tese de
que as p alavras do v. 26 sejam p a rte do texto original, m as foram acid en talm en te
92 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

om itidas porque um copista passou, sem querer, das p alavras τά π α ρ α π τώ μ α τα


υμών, que ap arecem ao final do v. 25, p a ra as m esm as p alav ras ao final do v. 26,
om itindo, assim , o conteúdo do v. 26.

1 2 .2 3 έν τη άναστάσει [όταν άναστώ σιν]


(na ressu rreição [quando eles ressuscitarem ]) {C}

As v arian tes, neste caso, têm pouca im p o rtân cia p a ra trad u to res, pois são m ais
d iferenças de estilo do que de significado. O uso de palav ras que, a rigor, são des-
n ecessárias faz p a rte do estilo de M arcos, m as copistas, provavelm ente por não se
d arem conta deste d etalh e, o m itiram όταν ά να στώ σιν (quando eles ressuscitarem ),
por ju lg a rem isso um acréscim o desnecessário (M ateus e Lucas tam b ém o m itiram
essas p alav ras ao fazerem uso de M arcos, provavelm ente pela m esm a razão.) Vis-
to que é difícil im a g in ar que um copista te n h a p en sad o ser necessário fazer um
co m en tário a respeito da locução έν τη άναστάσει, as p alav ras ό τα ν ά να στώ σιν
p odem m uito bem ser originais. Todavia, u m a vez que os testem u n h o s que om item
essas p alav ras são, em geral, testem u n h o s confiáveis no que diz respeito ao texto
original, as p alav ras ότα ν ά να σ τώ σ ιν aparecem , no texto, e n tre colchetes, p a ra
in d icar in certeza q u an to ao texto original.
P ara in d icar com m ais clareza que o v. 23 con stitu i o cerne da questão, copistas
in se rira m οΰν (portan to ) em d iferentes lugares, em vários testem unhos.
Q u alq u er que seja a opção dos trad u to res, o texto m ais longo, com ότα ν
άναστώ σιν, ou o texto m ais breve, sem esta locução, um a trad u ção literal do texto
pode n ão ser a m elh o r opção. Na verdade, tan to o tex to com o a v a ria n te podem re-
su lta r n a m esm a trad u ção . C onfira a NTLH: ano dia da ressurreição, q u ando todos
os m ortos to rn a re m a viver, de qual dos sete a m u lh e r vai ser esposa?” Q uan to à
conjunção οΰν, tra d u to re s têm que u sa r conjunções de acordo com as necessidades
d a lín g u a alvo, sem levar em consideração as discussões em to rn o do texto original.

1 2 .2 6 [ó] θεός ... [ό] θεός ([o] Deus ... [o] Deus) {C}

As v a ria n te s não têm im p o rtân c ia n e n h u m a p a ra trad u to res, pois o uso ou não


do artig o definido com o substantivo “D eus” d ep en d e das características da lín g u a
p a ra a q ual se está trad u zin d o . France (The Gospel o f M ark, p. 470) tem razão, ao
d ize r que “a q uestão é m ais de ordem estilística do que exegética”. Q uase todos os
testem u n h o s têm o artig o o d ian te das três vezes em que ocorre o substantivo θεός
n e sta citação de Êx 3.6. A lguns poucos, e n tre ta n to , om item o artigo n a seg u n d a
e terc eira ocorrência, e a com binação desses testem u n h o s dá considerável apoio
à h ip ó tese de que o texto m ais breve é original. P ara in d icar que existem dúvidas
q u a n to ao tex to original, o artig o aparece duas vezes, no texto, e n tre colchetes.
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 93

1 2 .3 4 [αυτόν] ([o/a ele]) {C}

E sta v a ria n te não tem m aio r significado p a ra tra d u to re s, pois n a m aio ria das
lín g u as a form a do grego não será seg u id a lite ra lm e n te . P a rtin d o -se do pressu-
p o sto de que o pro n o m e α υ τό ν é o rig in al, não é de su rp re e n d e r que m uitos co-
p istas o te n h a m om itido, p or razõ es de estilo. O p ronom e in te rro m p e a seq u ên cia
do texto. Em vez de d ize r aJesu s, vendo que ele h av ia resp o n d id o sa b ia m e n te ”, o
tex to diz uJesus, v e n d o ‫־‬o, que ele h av ia resp o n d id o sa b ia m e n te ”. Por o u tro lado,
é n o táv el o peso dos m an u scrito s que apoiam a om issão do p ronom e. P ara in d ic ar
in c e rte z a q u a n to ao que o rig in a lm e n te co n stav a no tex to , o p ro n o m e a p arece
e n tre colchetes.

1 2 .3 6 ύποκά τω (debaixo) {C}

A citação no v. 36 vem de SI 110.1, conform e o texto da S e p tu ag in ta (na LXX,


nosso SI 110 é SI 109), onde se lê: ύ π ο π ό δ ιο ν τω ν π ο δ ώ ν σου (como um estrad o
p a ra os teus pés). O fato de tam b ém Mt 22 .4 4 ter υποκάτω , e não ύ π ο π ό δ ιο ν, dá
a e n te n d e r que M ateus te n h a seguido um texto de M arcos que tra z ia a p alav ra
υποκάτω . Um a vez que citações desse Salm o em Lc 20.43 e At 2.35 têm o substan-
tivo ύ π ο π ό δ ιο ν, a ten d ên cia dos copistas teria sido a lte ra r o texto de M arcos p a ra
harm o n izá-lo com a form ulação e n co n trad a na S eptu ag in ta. ARC segue a v a ria n te
tex tu al: “até que eu p o n h a os teus inim igos por escabelo dos teus p é s” (o m esm o n a
New Jerusalem Bible).

12.41 καθίσας κατέναντι τού γαζοψ υλακίου


(tendo-se assen tad o dian te da caixa de ofertas) {B}

A m aio ria das v aria n te s não tem significado m aior p a ra a tradução. A leitu ra que
m elh o r explica a origem das dem ais é aquela que aparece com o texto. A probabili-
dade de copistas in serirem ó ‘Ιησούς (Jesus), p a ra explicitar o sujeito do participio
καθίσας (tendo-se assentado) e do verbo έθεώρει (observava), é m aior do que a
pro b ab ilid ade de om itirem essa locução. Em ou tras passagens, M arcos em prega
κατέναντι (11.2; 13.3), m as nu n ca ά π ένα ντι (defronte d e /p e ra n te ).
T radutores que iniciam u m a nova seção no v. 41 fariam bem em in se rir o nom e
“Je su s” por questão de clareza, q u alquer que seja o texto original. As palav ras
κατέναντι e ά π ένα ντι são sinônim as e podem ter a m esm a trad u ção na lín g u a alvo.
A v a rian te que faz diferença na trad u ção é o participio έστώ ς (p arad o ou de pé),
que tom a o lugar de καθίσας em vários m anuscritos. Ao que parece, alguns copistas
e n te n d e ra m que seria m ais apropriado que Jesus estivesse p arad o no Templo, em
vez de sentado, m as essa leitu ra tem apoio lim itado de m anuscritos.
94 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

1 3 .2 ώδε λίθος επί λίθον (aqui p e d ra sobre pedra) {B}

Essas v a ria n te s têm p o u ca im p o rtâ n c ia p a ra a trad u ç ão . A le itu ra aceita com o


tex to tem sólido apoio de m an u scrito s. A v a ria n te λίθ ο ς επί λίθίο (p ed ra sobre pe-
dra) n ão p assa de v a ria çã o estilístic a que não afe ta o significado e pro v av elm en te
re flita u m a in flu ê n cia de Lc 21.6. A v a ria n te que não tra z o advérbio ώδε (aqui)
tem o m esm o significado do texto, que tem o advérbio.

1 3 .8 έσονται λιμ οί (haverá fomes) {B}

É possível que as p a la v ras m i τ α ρ α /α ί (e tu m u lto s) sejam o rig in ais e que um


co p ista a c id e n ta lm e n te as te n h a om itido, por causa da se m elh an ç a com a p a la v ra
άρχή (princípio), que vem logo a seguir. M ais provável, porém , é que o tex to m ais
longo seja exem plo de um tex to em ex p an são , a u m e n ta d o de d ifere n te s form as
pelos copistas. A lguns m a n u scrito s têm λιμ οί καί λο ιμ ο ί και τα ρ α χα ί (fom es e
ep id em ias e tu m u lto s), p ro v av elm en te p o r in flu ê n cia de Lc 21.11.

1 3 .9 Segmentação

C aso se fiz e r um c o rte ou u m a p a u sa após εις σ υ ν έ δ ρ ια , o se n tid o se rá o


se g u in te : “p o rq u e vos e n tre g a rã o aos trib u n a is [εις σ υ ν έ δ ρ ια ]; e se reis açoi-
ta d o s n a s [εις] sin a g o g as; e c o m p a re c e re is p e ra n te g o v e rn a d o re s e reis, p o r
m in h a c au sa , p a ra lh es s e rv ir de te s te m u n h o ”. É po ssív el, ta m b é m , fa z e r u m
c o rte d ep o is de εις σ υ ν α γ ιο γά ς, e n ão d ep o is de εις σ υ ν έ δ ρ ια , de so rte que
as d u a s lo cu çõ es vão com o v erb o π α ρ α δ ώ σ ο υ σ ιν (e n tre g a rã o ). N este caso, o
se n tid o p a ssa a ser: “Vos e n tre g a rã o aos trib u n a is e às [εις] sin a g o g a s, sereis
m o íd o s de p a n c a d a s, c o m p a re c e re is p e ra n te g o v e rn a d o re s e reis p o r m in h a
cau sa: n isso eles te rã o um te s te m u n h o ” (TEB) (veja a d isc u ssã o em E vans,
M a rk 8:27— 16:20, p. 309).
Caso se fizer u m co rte ao fin al do v. 9, depois de εις μ α ρ τ υ ρ ιο ν α ύ το ΐς (com o
um te s te m u n h o a eles), o v. 10 dá início a u m a nova sen ten ça: “E p rim e iro é ne-
cessário que a to d as as nações [τά έθνη] o ev an g e lh o seja p ro c la m a d o ”. A lguns
te ste m u n h o s an tig o s, to d av ia, fazem u m a p a u sa d e n tro do v. 10, depois de καί
εις π ά ν τ α τα έθνη (e a to d as as nações), e não depois das p a la v ra s εις μ α ρ τ υ ρ ιο ν
α ύ το ΐς, no fin al do v. 9. A m a io ria desses m an u sc rito s ta m b é m tra z δε δει (m as
é n e cessário ) depois de π ρ ώ τ ο ν (prim eiro ). Caso se a d o ta sse esta se g m en taç ão
a lte rn a tiv a , o se n tid o p a ssa ria a ser o seg u in te: “9 ... co m p a rec ere is p e ra n te go-
v e rn a d o re s e reis p o r m in h a causa, com o um te ste m u n h o aos ju d e u s [α ύτοΐς] 10
e aos g en tio s [καί εις π ά ν τ α τά έθνη]. Mas p rim e iro é n e c e ssá rio [π ρ ώ το ν δέ δει]
que ο ev an g e lh o seja p ro c la m a d o ” (veja a discu ssão em Evans, p. 310).
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 95

1 3 .3 3 ά γρυπ νειτε (vigiai) {B}

A in serção das p alav ras καί προσεύχεσ θε (e orai) é o tipo de acréscim o que
m uitos copistas p rovavelm ente fariam sem que um estivesse d e p en d e n d o do ou-
tro, em p a rte , talvez, por in flu ên cia de 14.38. Se essas p a la v ras tivessem co n stad o
o rig in a lm e n te no texto, fica difícil explicar sua om issão no teste m u n h o com binado
de vário s m an u scrito s que re p re se n ta m os tipos de texto a le x a n d rin o e o cidental.

14.5 επά νω (acim a de/sobre) {A}

Aqui, o advérbio έπάνεο é usado de form a coloquial, em referência ao núm ero


300, ou seja, “Pois este perfum e po d eria ser vendido por acim a de (= m ais de) tre-
zentos d en ário s”. Possivelm ente alguns copistas teriam om itido o advérbio porque
tin h a m objeções a esse uso coloquial. Ou, talvez, om itiram -no porque foram influen-
ciados pelo relato paralelo em Jo 12.5, onde o advérbio não é usado. É m uito forte
o apoio que os m anuscritos dão ao texto m ais longo, isto é, ao texto com o advérbio.

1 4 .2 4 τής διαθήκης (da aliança) {A}

A leitu ra que aparece como texto tem considerável apoio de m anuscritos. Se


καινής (nova) fosse original, não há com o explicar p or que teria sido om itido. É
m uito m ais provável que um copista te n h a acrescen tad o a p alav ra καινής p o r in-
fluência do relato paralelo em Lc 22.20; 1C0 11.25. Ao se trad u zir, talvez seja bom
explicitar que se tra ta da alian ça de Deus. C onfira a BN (o san g u e da a lian ça de
Deus) e a NTLH (o sangue que g aran te a alian ça feita por Deus). A Bíblia da CNBB,
que segue a Nova V ulgata, trad u z a v ariante: “o m eu sangue da nova A liança”.

1 4.25 ούκετι ον μή πύο (não m ais beberei) {C}

A ausência de ούκετι (não m ais) em bom núm ero de m anuscritos é, provável-


m ente, fruto da ação de um copista que om itiu essa p alav ra p a ra h a rm o n iz a r o
texto com a passagem p aralela de Mt 26.29, que não tem esse ούκετι. O uso do
verbo π ρ ο σ τιθενα ι (acrescentar) com o infinitivo πειν ou π ιεΐν (beber) em alguns
m an u scrito s reflete influência sem ítica ou hebraica, em que se usa o verbo “acres-
c e n ta r” p a ra ex p ressar a ideia de “o u tra vez”. Essa expressão sem ítica constitu i um a
d iferen ça form al que não altera o significado.

1 4 .3 0 ή όίς ¿λέκτορ α μιονήσαι (antes que o galo cante duas vezes) {C}

Alguns copistas m udaram a posição da p alavra όίς (duas vezes), colocando-a


após o infinitivo μιονήσαι, m as isso é um a sim ples diferença estilística que não vai
96 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

se refle tir na m aioria das traduções. O utros copistas om itiram òíç por com pleto, pro-
vavelm ente influenciados pelos relatos paralelos em Mt 26.34; Lc 22.34; Jo 13.36.

1 4 .3 8 S e g m e n ta ç ã o

Caso for ad o ta d a a segm entação que aparece no texto de O Novo T e sta m e n to


G rego , o sentido é o que ap arece na m aioria das traduções: “Vigiai e orai, p a ra que
não sejais te n ta d o s”. Caso, porém , se fizer um corte após γρηγορειτε (vigiai), ocorre
u m a leve m u d an ça de sentido, pois as p alavras “p a ra que não sejais te n ta d o s” se
ligam m ais d iretam e n te ao segundo verbo. A REB trad u z assim : “E stejam atentos,
todos vocês; e orem p a ra que vocês não sejam subm etidos ao te s te ”. Nessa m an eira
de e n te n d e r o texto, a conjunção iva não expressa propósito, m as indica o conteúdo
da oração (= orem , p ed in d o que não sejam tentados).

1 4 .3 9 τον α ύτόν λόγον είπ ώ ν (a(s) m esm a(s) palavra(s) dizendo) {A}

Tudo indica que um copista acid en talm en te om itiu essas palavras. Talvez for-
m assem um a “lin h a de significado” num antigo a n cestral do Códice de B e z a r Me-
nos provável é a hipótese de que um copista te n h a acrescentado essas p alavras
que, depois, e n tra ra m em todos os tipos de texto, com exceção do ocidental. A REB
a d o ta o texto m ais breve: “Mais um a vez ele se afasto u e o ro u ”. A presença dessas
p alav ras “e n fatiza a inten sid ad e do conflito de Je su s” (Hooker, T he G ospel A ccor-
d in g to S a in t M a rk , p. 349).

1 4 .4 1 S e g m e n ta ç ã o

As p alav ras de Jesus aos discípulos, Κ αθευδετε το λ ο ιπ ό ν και ά ναπαυεσθε (ain-


da [το λοιπόν] estais do rm in d o e descansando), p odem ser en ten d id as com o u m a
exclam ação ou afirm ação (ARA, Seg), u m a ordem (TEB, NBJ), ou um a p e rg u n ta
(NRSV, NTLH, BN, NVI). Em tom afirm ativo, as p alav ras de Jesus podem ser en-
ten d id as com o u m a acusação. Como p e rg u n ta , p odem rev elar sua decepção. Se
en ten d id as com o u m a ordem , essas palav ras são, em geral, vistas com o irônicas
ou ex p ressan d o irritação e c o n traried ad e. T am bém é possível e n te n d e r as p alav ras
de Jesu s com o au torização a que os discípulos d u rm am , pois ele term in o u de o rar

2 Textos eram, por vezes, divididos em linhas significativas de locuções ou frases, para ajudar o leitor a dar
a entonação correta e fazer as pausas no lugar adequado. Todos os livros do NT, com exceção do Apoca-
lipse, eram, por vezes, copiados na forma de linhas de significado. O Códice de Beza (quinto século) é o
mais antigo manuscrito do NT que traz o texto disposto na forma de linhas de significado. Veja Metzger,
Manuscripts of the Greek Bible: An Introduction to Paleaeography, p. 39-40; e Metzger, The Text of the New
Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration, p. 29-30.
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 97

e não m ais precisa que vigiem com ele. Neste caso, porém , as p alav ras seguintes,
“levantai-vos, vam os!”, p arecem não se e n caix ar m uito bem (é o que co n stata Fran-
ce, The G o sp el o f M a rk , p. 588). A TEB, por exem plo, trad u z assim : “C ontinuai a
d o rm ir e descansai! A cabou-se”. Veja tam b ém Evans, M a rk 8 : 2 7 — 1 6 :2 0 , p. 416; e o
co m en tário sobre Mt 26.45.

14.41 απέχει* ήλθεν ή copa (Basta! Chegou a hora) {B}

A dificuldade de in terp retaç ã o do uso im pessoal do verbo ά π έχει n este con-


tex to fez com que copistas intro d u zissem um a série de alterações. Talvez influen-
ciados por Lc 22.37, vários testem u n h o s, especialm ente ocidentais, a crescen taram
το τέλος depois de απέχει (significando, talvez, “o fim defin itiv am en te chegou”).
A lguns testem u n h o s om item άπέχει. E xistem m uitas incertezas q u an to à trad u ção
de α πέχει. Pode significar “b a sta!” (ARA, NTLH, NRSV, NVI, REB), referindo-se ao
sono dos discípulos. T am bém pode significar “já chega”, referindo-se à c en su ra que
Jesus dirigiu aos discípulos em form a de p e rg u n ta . P ara u m a discussão m ais apro-
fu n d ad a a respeito dos possíveis significados de ά πέχει, veja Evans, M a rk 8 : 2 7 —
1 6 :2 0 , p. 407, n. k, e pp. 416-17; tam b ém France, The G o sp el o f M a rk , pp. 5 8 8 5 8 9 ‫־‬.

1 4.48 S e g m e n ta ç ã o

As p alav ras de Jesus podem ser vistas com o um a p e rg u n ta , a exem plo do texto,
ou, então, como um a afirm ação. A TEB, por exem plo, tra d u z isso p or u m a excla-
m ação (“saístes ... p a ra apoderar-vos de m im !”). Se o texto grego é in te rp retad o
com o um a p e rg u n ta , deveria ser vista como p e rg u n ta retórica. Q ualquer que seja a
solução, se afirm ação ou p e rg u n ta , as p alavras de Jesus são um p rotesto co n tra a
m an e ira como estava sendo preso. Veja o com entário sobre Mt 26.55.

1 4 .6 4 S e g m e n ta ç ã o

As p alavras ήκονσατε τής βλασ φ ημίας (ouvistes a blasfêm ia) podem ser inter-
p reta d as como um a afirm ação, a exem plo do texto, ou como um a p e rg u n ta (W H).
Tanto a frase a n te rio r como a que segue esse texto são p erg u n tas. M esmo que o
texto grego seja en tendido como u m a p e rg u n ta , será com certeza um a p e rg u n ta
retórica, que em m uitas línguas precisa ser trad u z id a como um a afirm ação.

14.65 α ντώ (nele) {A}

Em vez de dizer que alguns cuspiram nele (αντώ), vários testem u n h o s dos tipos
de te x to o c id e n ta l e o rie n ta l, c e rta m e n te in flu e n c ia d o s p elo re la to p a ra le lo em
98 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Mt 26.67, su b stitu íra m o pronom e α ύ τφ por α υτόν τώ προσώπου (no rosto dele).
Veja tam b ém a n o ta sobre a v aria n te seguinte.

14.65 προερήτευσον (Profetiza!) {B}

A leitura aceita como texto é apoiada pelo texto alexandrino e por várias tradu-
ções antigas, e é a que m elhor explica o surgim ento das variantes. O texto m ais longo,
incluindo a p e rg u n ta τις έστιν ó π α ισ α ς σε (quem é que te bateu?), parece um a adição
com o propósito de h arm o n izar o texto de M arcos com Mt 26.68 ou Le 22.64. Algu-
m as das leitu ras m ais longas incluem tam b ém as p alavras “agora p a ra n ó s” (νυν
ήμΐν) e “M essias” (Χ ριστέ).

14.68 [καί αλέκτω ρ έφώνησεν] ([e o galo cantou]) {C}

É difícil decidir se essas p alavras foram acrescen tad as ou excluídas do texto ori-
ginal. É fácil explicar seu acréscim o ao texto: copistas teriam sido ten tad o s a in se rir
as p alav ras p a ra e n fa tiz ar o cu m prim ento literal da profecia de Jesus, em Mc 14.30.
É possível que copistas te n h a m tam b ém concluído que P edro não p o d ería saber que
o galo estava can tan d o a seg u n d a vez, se não houvesse um a referência ao fato de
que ele h av ia can tad o antes.
T am bém é fácil explicar a om issão dessas palavras: copistas quiseram harm oni-
zar o texto de M arcos, que fala de duas vezes em que o galo cantou, com o texto dos
três outros Evangelhos, que rela ta m apenas um m om ento em que o galo cantou. E
possível que copistas te n h a m tam b ém se p e rg u n ta d o por que P edro não se arrep en -
deu logo que ouviu o galo c a n ta r a p rim eira vez.
Um a vez que essas duas m an eiras de in te rp re ta r as evidências fazem sentido, e
d ian te do fato de que ta n to o texto com o a v a ria n te têm sólido apoio de m anuscri-
tos, essas p alav ras foram deixadas no texto, só que e n tre colchetes, p a ra in d icar que
não se tem certeza q u an to à sua g enuinidade. TEB e NVI, bem com o RSV e REB,
o p ta ra m pelo texto m ais breve.

14.72 έκ δευτέρου (pela seg u n d a vez) {B}

A lguns testem u n h o s om item έκ δευτέρου, provavelm ente p a ra h a rm o n iz a r o


tex to de M arcos com o relato dos outros E vangelhos (M t 26.74; Lc 22.60; Jo 18.27);
veja tam b ém o com entário sobre 14.68.

14.72 ό τι Π ριν αλέκτορα φ ω νή σα ι δίς τρ ις με ά πα ρνήσ η (Antes que o galo can te


duas vezes, três vezes m e negarás) {B}
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 99

A lg u m as d essas v a ria n te s aq u i n ão têm m aio r sig n ificad o p a ra o tra d u to r.


A le itu ra a c e ita com o te x to é a que m e lh o r ex p lica a o rig em das d e m a is. A po-
sição dos a d v érb io s δ ίς (duas vezes) e τ ρ ις (três vezes) foi a lte ra d a em a lg u n s
m a n u sc rito s, p a ra m e lh o ra r o estilo e a so n o rid a d e do tex to , p a ra u m a le itu ra
em voz a lta . Essas d ife re n ç a s, p o rém , não se rão p e rc e b id a s em tra d u ç õ e s p a ra
lín g u a s m o d e rn a s. A lguns m a n u sc rito s o m item o a d v érb io δ ίς p e la s m esm as
ra z õ e s m e n c io n a d a s n a d isc u ssã o a re sp e ito do n ú m e ro de vezes que o galo can-
to u , em Mc 14.30 e Mc 14.68.

14.72 καί επ ιβ α λ ώ ν εκλαιεν (e caiu em si e chorou) {B}

O significado do p articip io επ ιβ α λ ώ ν neste co n tex to não e stá claro. Já foi in-


te rp re ta d o no sen tid o de “p e n so u a resp eito d isso ” [= ele p e n so u a resp eito da
p ro fecia de Jesus], “cobriu a cab e ça ”, “se jo g o u no c h ã o ”, e “com eçou”. É u m a
le itu ra difícil, que levou copistas de vários m an u scrito s o c id e n ta is a su b stitu ir
o p a rticip io pelo verbo ή ρξα το (ele com eçou). Em a lg u n s teste m u n h o s, o im per-
feito εκλαιεν (chorava) foi su b stitu íd o pelo ao risto έκλαυσεν (chorou), talv ez p o r
in flu ê n cia das passag en s p a ra le la s em Mt 26.75 e Lc 22.62. Se neste con tex to
ε π ιβ α λ ώ ν significa “com eçou”, en tão não existe d ifere n ça de significado e n tre
ε π ιβ α λ ώ ν εκλαιεν e ή ρςα το κλαίειν. BDAG (p. 368) afirm a: “T anto ‘com eçou a
c h o ra r’ (REB, [NBJ, BN, NVI]) q u an to ‘caiu em si e c h o ro u ’ (NRSV, [ARA, NTLH])
rep ro d u z em o se n tid o ”.

15.2 Segmentação

As p alav ras Σύ λέγεις (Tu [o] dizes) podem ser in te rp re ta d a s com o urna afir-
m ação, a exem plo do texto, ou como um a p e rg u n ta . Se for u m a afirm ação, en tã o o
p ro n o m e enfático " tu ” p o d e ría su g erir que Jesus concorda, em b o ra dê a e n te n d e r
que teria se expressado um pouco d iferen te daquilo que Pilatos tin h a acabado de
dizer. Como p o n tu ação altern a tiv a , WH reg istra a possibilidade de fazer disso u m a
p e rg u n ta . O sentido a cab aria sendo o m esm o, pois, em se tra ta n d o de p e rg u n ta ,
seria u m a p e rg u n ta retórica.

15.8 ά να βά ς ό ο /λ ο ς (vindo/subindo a m ultidão) {B}

A leitu ra ά να β ά ς ό ο /λ ο ς tem sólido apoio de m anuscritos. O significado po-


d e ria ser que a m ultidão “subiu” ou foi até a residência de Pilatos, na fo rtaleza
A ntonia. E n tretan to , com o se pode p erceb er nas passagens de 2Sm 23.9; 2Rs 3.21
e Os 8.9 no texto da S e p tu ag in ta, copistas às vezes faziam confusão e n tre os ver-
bos ά ν α β α ίν εiv (subir) e ά να β ο ά ν (cla m a r/g ritar). Esse tipo de confusão é a m ais
100 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

provável explicação p a ra a leitu ra ά να βοή σ α ς ό ο /λ ο ς (a m ultidão gritou), que


ap arece n a m aio ria dos m anuscritos. A lguns m an u scrito s acrescen tam o adjetivo
δλο ς (toda), p a ra d a r m aio r d ram a tic id a d e à n a rra tiv a .

15.12 [θέλετε] ποιήσω ([quereis] que eu faça) {C}

A m a io ria dos m a n u s c rito s a p o ia a le itu ra que a p a re c e com o tex to . E xiste


a p o ssib ilid a d e de o v erb o θέλετε (quereis) ser o rig in a l, h a v e n d o sido o m itid o
p o r c o p ista s que tr a ta r a m de h a rm o n iz a r o te x to de M arcos com o p a ra le lo em
Mt 2 7.22, o n d e esse v erb o n ão a p a re c e . P or o u tro lado, a le itu ra sem o v erb o
θέλετε é a p o ia d a p o r b o n s m a n u s c rito s . E é po ssív el que θέλετε n ão seja origi-
n a l, m as te n h a sido a c re s c e n ta d o p o r in flu ê n c ia do v. 9, que tem esse v erb o ,
ou p o r in flu ê n c ia das p a ssa g e n s p a ra le la s em M t 27 e Lc 23 (na fo rm a de u m
p a rtic ip io ), que ta m b é m têm o v erb o “q u e re r ”. O v erb o θέλετε a p a re c e e n tre
c o lch etes, no te x to , p a ra in d ic a r in c e rte z a q u a n to à le itu ra o rig in a l.
A lguns poucos m anuscritos têm outro texto: θέλετε ΐνα ποιήσω (quereis p a ra
que eu faça), que, na verdade, é apenas u m a d iferença estilística no grego. Se o
texto diz “Que quereis que eu faça ...? ” (NRSV, NTLH, CNBB) ou “Q ue farei ...? ”
(REB, ARA, TEB, NBJ, NVI, BN), o sentido é b asicam ente o m esm o.

15.12 [ôv λέγετε] ([este a quem cham ais]) {C}

A fraseología d iferente que aparece na passagem p a ra lela em M ateus parece


su g erir que o au to r de M ateus conhecia o texto m ais longo no Evangelho de M arcos
(sem pre p ressu pondo que o au to r de M ateus fez uso de M arcos quan d o escreveu seu
Evangelho). No en tan to , a om issão dessas duas p alavras tem sólido apoio de m anus-
critos. Não sendo p a rte do texto original, é possível que ten h a m sido acrescen tad as
com a in ten ção de a trib u ir aos principais sacerdotes a responsabilidade pelo título
“O Rei dos Ju d e u s”. Como não se tem certeza de que essas palav ras fazem p a rte do
original, elas ap arecem e n tre colchetes.
O tex to m ais longo aparece na m aioria das trad u çõ es (ARA, NTLH, NBJ, NVI,
TEB, BN). A v a ria n te foi trad u z id a na Bíblia da CNBB: “Que quereis que eu faça,
então, com o Rei dos Ju d eu s?”

1 5 .2 8 omissão do versículo {A}

Os m ais antigos e m elhores m an u scrito s dos tipos de texto a le x an d rin o e oci-


d e n ta l n ão tra z e m o v. 28, que diz: “E cum priu-se a E scritura que diz: Έ ele foi
contado com m alfeito res”’. Se o v. 28 tivesse estad o o rig in alm en te no texto, não h á
com o explicar p or que te ria sido om itido. M arcos rara m e n te faz citações d iretas do
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 101

AT. A citação, neste caso, é de Is 53.12, e todo esse versículo foi, provavelm ente,
inserido no texto de M arcos a p a rtir de Lc 22.37.

1 5 .3 4 εις 11 έγκατέλιπές με (por que m e abandonaste?) {B}

A leitu ra aceita com o texto tem sólido apoio de m anuscritos. Parece provável
que copistas a lte ra ra m a ordem das palav ras p a ra με έγκατέλιπες, com o objetivo
de fazer com que o texto ap resen tasse a m esm a ordem e n co n trad a em Mt 27.46.
É m enos provável que με έγκατέλιπες seja original, m as teria sido alterad o p a ra
έγκατέλιπες με, com o objetivo de fazer com que o texto tivesse a m esm a ordem
das p alav ras e n co n trad a no texto de SI 22.2, conform e a S ep tu ag in ta. T irante o que
p o d eria ser um a p eq u en a diferença de ênfase no pronom e “m e”, o significado das
duas leitu ras é essencialm ente o m esm o e não haverá d iferen ça de trad u ç ão e n tre
am bas n a m aioria das línguas.
O m an u scrito D, com o apoio de alguns m an u scrito s da A ntiga L atina, tra z εις
τί ώ νείδ ισ ά ς με (por que m e u ltra ja ste /in ju ria ste? ). Pode ser que um copista te n h a
criado essa v a ria n te porque não conseguia e n te n d e r com o Deus p o d ia te r abando-
n ado Cristo n a cruz.

1 5 .3 9 δ τι ο ύ τω ς έξέπνευοεν (que assim ele havia expirado) {C}

A leitu ra que aparece como texto tem o apoio de m anuscritos do tipo de texto ale-
xan d rin o . No entanto, um núm ero expressivo de m anuscritos, rep resen tan d o urna
v aried ad e de tipos de texto e áreas geográficas, tem o participio κράξας (dando um
grito) dian te do verbo έξέπνευσεν. E provável que o texto m ais breve seja original,
pois copistas provavelm ente acrescen taram o participio κράξα ς influenciados pelo
texto paralelo em Mt 27.50. Neste contexto, o acréscim o não chega realm en te a alte-
ra r o sentido do texto (Hooker, The Gospel According to Saint M ark, p. 378).

1 5 .4 4 εί π ά λ α ι (se fazia m uito tem po) {B}

E possível que copistas ju lg a ra m inap ro p riad o usar, nesse contexto, a p alav ra


π ά λ α ι (fazia m uito tem po) e em razão disso tro c a ra m π ά λ α ι por ήδη. E m bora exista
expressivo apoio de m anuscritos p a ra εί ήδη (se já) em lugar de εί π ά λ α ι, é pouco
provável que ήδη seja o riginal e que te n h a sido tro cad o por π ά λ α ι p a ra ev itar a
rep etição de ήδη, que aparece um pouco antes no m esm o versículo.
O significado da leitu ra que aparece como texto é que Pilatos cham ou o cen-
tu riã o e p erg u n to u “se fazia m uito tem po que Jesus havia m o rrid o ” (NTLH). O
sentido da v a ria n te εί ήδη é este: “C ham ando o centurião, p erg u n to u -lh e se Jesus
já tin h a m o rrid o ” (NVI). Convém ob serv ar que, em bora π ά λ α ι n o rm alm e n te signi-
102 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

fique “p o r um bom tem p o ”, pode tam b ém significar “já ” (como parece ser o caso
aqui). Se for assim , π ά λ α ι e ήδη são sinônim os e a trad u ç ão dos dois term os será
idêntica. BDAG (p. 751) a firm a que π ά λ α ι, quan d o em pregado no sentido de “já ”,
refere-se a um p eríodo de tem po “um pouco m ais longo do que o período de tem po
sugerido pelo uso de ήδη”.

16.1 δ ια γενο μ ένου του σαββάτου ... καί Σαλώ μη


(Depois que term in o u o sábado ... e Salom é) {A}

A leitu ra aceita com o texto tem um im pressionante apoio da p a rte de m anus-


critos. O m anuscrito D e um m anuscrito da A ntiga L atina om item os nom es das
três m ulheres. Tal om issão se dá, com certeza, no interesse de sim plificar o texto.
Além disso, D e alguns m anuscritos da A ntiga L atina om item tam b ém as p alav ras a
respeito da passagem do sábado. Essa om issão abre espaço p a ra a com pra dos per-
fum es n a sexta-feira, em concordância com Lc 23.56. A REB reg istra essa v a ria n te
em n o ta de rodapé. Um a trad u ção da v a ria n te , com eçando em 15.47, ficaria assim :
“M aria M adalena e M aria, m ãe de Joses, v iram onde o corpo foi colocado. E foram
e co m p raram p erfu m es p a ra irem u n g ir o co rp o ”.

16.2 ά να τείλα ντο ς του ήλιου (tendo d e sp o n tad o o sol) {A}

Em vários m an u scrito s do tipo de texto ocidental, o participio aoristo


ά να τείλ α ντο ς foi substituído pelo participio p resen te ά να τέλ λο ντο ς (quando nas-
cia); isto p a ra h a rm o n iz a r o texto com os relatos p aralelos em Mt 28.1, Lc 24.1 e Jo
20 .1, que m o stram que as m ulheres foram ao tú m u lo an tes do n ascer do sol.

1 6 .9 2 0 ‫ ־‬O final ou os finais de M arcos

São b a sta n te com plicados os problem as tex tu ais e literários relacionados com o
final de M arcos. (P ara discussões m ais ap ro fu n d ad as a respeito de final de M arcos,
veja B ratcher e Nida, A Translator’s H andbook on the Gospel o f M ark, pp. 506-507,
5 1 7 5 2 2 ‫ ;־‬Evans, M ark 8:27—16:20, pp. 540-551; E dw ards, The Gospel According
to M ark, pp. 497-504; e France, The Gospel o f M ark, pp. 6 8 5 6 8 8 ‫־‬.) Os m anuscrito s
traz em q u atro finais d iferentes p a ra M arcos.
(1) Os doze últim os versículos do texto de M arcos com um ente aceito não apa-
recem nos dois m ais antigos m an u scrito s gregos (‫ א‬e B), no m an u scrito Bobiense
da A ntiga L atina (itk), no m anuscrito da siríaca sinaítica, em m ais ou m enos cem
m an u scrito s arm ênios, e nos dois m ais antigos m an u scrito s georgianos. C lem ente
de A lex an d ria e O rígenes (segundo e terceiro séculos) não dão m ostras de que sa-
biam da ex istência desses doze versículos. Além disso, Eusébio e Jeró n im o (quarto
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 103

e q u in to séculos) a firm am que esses versículos estavam au sen tes de quase to d as


as copias gregas de M arcos que eles conheciam . Vários m anuscritos que contêm
esses versículos tra z e m no tas de copistas dan d o conta de que copias gregas m ais
an tig as não tin h a m esse texto. Em outros m anuscritos, essa p assagem tra z sinais
que os copistas colocavam no texto p a ra in d icar que se tra ta v a de um acréscim o ao
docum ento.
(2) Vários m anuscritos, inclusive q u atro m anuscritos gregos de escrita uncial,
têm um final m ais breve, antes dos vs. 9 2 0 ‫־‬. Veja, abaixo, o co m entário sobre O
Final Mais Breve de M arcos.
(3) O final trad icio n al de M arcos, tão conhecido a p a rtir da King Jam es Version
e de o u tras trad u çõ es do textus receptus (inclusive a de A lm eida), se e n co n tra na
g ran d e m aioria dos m anuscritos. Os m ais antigos Pais da Igreja que revelam conhe-
cim ento de p a rte ou de todo esse final longo são Irineu e o D iatessarão de T aciano
(segundo século). Não fica claro se Ju stin o M ártir (segundo século) conhecia esse
texto. Em sua Apologia (1.45), ele inclui cinco p alav ras que ocorrem , em ordem
d iferen te, em Mc 16.20.
O vocabulário e o estilo desse final m ais longo diferem do resto do E vangelho de
M arcos, e isto sugere que os vs. 9 2 0 ‫ ־‬não são originais. Existem certas incoerências
en tre os vs. 1 8 ‫ ־‬e os vs. 9 2 0 ‫־‬. Exem plos disso são a reap resen tação de M aria Ma-
d alen a, no v. 9, ela que acab ara de ser m encionada em 15.47; 16.1, e o fato de não
se m en cio n ar as ou tras m ulheres que aparecem nos vs. 1-8. É provável que o final
longo te n h a sido tom ado de outro docum ento, escrito talvez n a p rim e ira m etad e do
segundo século, e colocado logo após os vs. 1-8, p a ra d a r ao Evangelho um final
m ais apropriado.
4. No q u a rto século, segundo um testem u n h o p reserv ad o po r Jerónim o, circu-
lava tam b ém um a versão expan d id a do final trad icio n al (1 6 .9 2 0 ‫)־‬, p reserv a d a hoje
no Códice W ashingtoniano (W ). Veja, abaixo, a discussão sobre os vs. 1 4 1 5 ‫־‬.
Visto que o final m ais longo de M arcos é im p o rtan te na trad ição te x tu a l do
Evangelho, ele foi incluído no texto. E n tretan to , aparece e n tre colchetes duplos,
p a ra in d icar que não é original.

O FINAL MAIS BREVE DE MARCOS

Vários m anuscritos, inclusive quatro m anuscritos gregos uncíais dos séculos sete,
oito e nove, trazem , após o v. 8, o seguinte texto (com algum as pequenas variações):

“Elas n a rra ra m brevem ente a P edro e seus com panheiros o que lhes havia
sido anunciado. E, depois dessas coisas, o próprio Jesus enviou p or m eio
deles, do O riente ao O cidente, a sag rad a e incorruptível p roclam ação da
salvação e tern a. A m ém .”
104 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Todos os m anuscritos que têm este final m ais breve, com exceção de um m a-
nuscrito da A ntiga L atina, a crescen tam tam b ém os vs. 9 2 0 ‫־‬. A lguns m anuscrito s
dizem : “E, depois dessas coisas, o próprio Jesus apareceu [έφάνη] e enviou”. Um
p eq ueno nú m ero de m anuscritos traz: aO próprio Jesus ap areceu a eles [έφάνη
α ΰ τ ο ΐς ]”. E n tretan to , estas variações são acréscim os posteriores. A p alav ra “am ém ”
provavelm ente fazia p a rte desse final m ais breve desde o início, m as, p osteriorm en -
te, qu an do foram acrescentados os vs. 9 2 0 ‫־‬, acabou sendo om itida.

O FINAL MAIS LONGO DE MARCOS ‫ ־‬VARIANTES DENTRO DE MARCOS 1 6 .9 2 0 ‫־‬

Visto que os vs. 9 2 0 ‫ ־‬estão faltan d o nos m anuscritos m ais antigos e de me-
lho r qu alid ad e que, n o rm alm en te, são usados p a ra id en tificar tipos de texto, nem
sem pre é fácil decidir e n tre as v aria n te s que ocorrem nesse trecho. Em todo caso,
deve ficar claro que os d iferentes graus de certeza ({A}, {B}, {C}) não q uerem d a r
a e n te n d e r que q u alq u er um a dessas v a ria n te s é o riginal ao Evangelho de M arcos.
Ao co n trário , essas letras se referem a graus de certeza no que diz respeito ao que é
orig in al a este acréscim o po sterio r ao Evangelho de M arcos.

1 6 .1 4 1 5 ‫ ־‬έπίστευσαν. καί εΐπ εν α ύ το ΐς (acreditaram . Ε disse-lhes) {A}

S egundo o teste m u n h o de Jerónim o, no q u a rto século se conhecia u m a versão


e x p an d id a do final trad icio n al de M arcos (1 6 .9 2 0 ‫)־‬, que hoje está p reserv a d a em
um único m an u scrito grego. O Códice W ashingtoniano (W) inclui o seguinte, após
o v. 14:

“E eles aleg aram em sua defesa: ‘Este tem po de iniquidade e incred u lid ad e
está sob o dom ínio de S atanás, que não p erm ite que a verdade e o p o d er de
Deus prevaleçam sobre as coisas im puras dos espíritos [ou, que não p erm ite
que quem está sob o p o d er dos espíritos im undos a p reen d a a verdade e o
p o d er de Deus]. Por isso, revela agora a tu a ju stiç a ’. Foi o que disseram a
Cristo, e Cristo lhes respondeu: Ό fim dos anos do p o d er de S atan ás se cum -
priu, m as outros acontecim entos terríveis se aproxim am . E eu fui e n treg u e à
m orte p or aqueles que p ecaram , p a ra que reto rn e m à verdade e não p equem
m ais, a fim de que sejam h erd eiro s da glória de ju stiç a esp iritu al e incorrup-
tível que está no céu.”

O teste m u n h o de m an u scrito s favorável a esse final que ap arece no Códice W


é e x tre m a m en te reduzido, e esse final inclui várias palav ras e expressões que não
fazem p a rte do v ocabulário de M arcos ao longo do Evangelho. P rovavelm ente esse
final foi redigido p o r um copista do segundo ou terceiro século que quis a b ra n d a r
um pouco a severa condenação dos onze discípulos em Mc 16.14.
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS 105

16.17 γλώ σ σα ις λαλήσουοιν κ α ινα ΐς (falarão novas lín g u as/n o v o s idiom as) {B}

A m aio ria dos m anuscritos tem o adjetivo κα ινα ις (novas). É provável que esse
adjetivo seja original e que te n h a sido om itido acid en talm en te, quando um copista
passou por cim a dele, traíd o que foi pela sem elh an ça e n tre essa p alav ra e as três
p rim eiras p alav ras do v. 18. O significado de καιναις, neste caso, é quase com cer-
teza “e stra n h a s p a ra quem as fala”, e não “novas” no sentido de línguas que até
en tão não se conheciam . Por essa razão, a REB trad u z assim : “e falar em línguas
e s tra n h a s ”.

16.18 [καί έν ra le χερσίν] õcpetc ([e nas mãos] serpentes) {C}

As p alav ras και έν τα ΐς χερσίν (e nas m ãos) foram colocadas e n tre colchetes
p a ra in d icar que não se tem certeza se são originais, ou se são um acréscim o pos-
terior. De um lado, ap arecem em m an u scrito s do tipo de tex to a le x an d rin o , e em
função disso podem ser originais. De o utro lado, podem te r sido acrescen tad as
p o r copistas influenciados pelo relato de At 2 8 . 3 6 ‫־‬. Além disso, se o rig in alm en te
faziam p a rte do texto, fica difícil de explicar sua ausência n u m a g am a tão am pla
de m an u scrito s.

16.19 κύριος ‘Ιησούς (Senhor Jesus) {C}

Em lu g a r da le itu ra que a p a re c e com o tex to , o u tro s m a n u sc rito s tra z e m “o


S e n h o r Je su s C risto ”, “o S e n h o r”, e “J e s u s ”. E n tre os v á rio s títu lo s que a Ig reja
d eu a Je su s, o uso isolado de κ ύ ρ ιο ς (S enhor), sem n a d a que o a c o m p a n h e , pa-
rece um d e se n v o lv im e n to m ais re c e n te , u m a fo rm a m ais solene do que κ ύ ρ ιο ς
’Ιησ ούς.

16.20 σημείων, (sinais.) {B}

Sobre o acréscim o de άμήν (am ém ) na m aioria dos m anuscritos, veja o com en-
tário sobre Mt 28.20.

OBRAS CITADAS

Bauer, W , F. W. Danker, W. F. Arndt, and F. W. Gingrich. Greek-English Lexicon o f


the New Testament and Other Early Christian Literature. 3a edição. Chicago:
U niversity of Chicago Press, 2000 (citado com o BDAG).
Bratcher, Robert G., e Eugene A. Nida. A Translator’s Handbook on the Gospel o f Mark.
Leiden: E. J. Brill, 1961.
106 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Edw ards, Jam es R. The Gospel According to M ark. The Pillar New Testam ent
Com m entary. G rand Rapids: E erdm ans, 2002.
E hrm an, Bart D. UA Leper in the H ands of an Angry Jesu s.‫ ״‬Páginas 77-98 em New
Testament Greek and Exegesis: Essays in Honor o f Gerald E Hawthorne. Ed. Amy
M. D onaldson e Tim othy B. Sailors. G rand Rapids: E erdm ans, 2003.
Evans, Craig A. M ark 8 :27— 16:20. WBC 34b. Nashville: Nelson, 2001.
France, R. T. The Gospel o f Mark: A Com m entary on the Greek Text. NIGTC. G rand
Rapids: E erdm ans, 2002.
Guelich, R obert A. M ark 1:1— 8:26. WBC 34a. Dallas, Tex.: W ord, 1989.
Gundry, R obert H. Mark: A Com m entary on His Apology fo r the Cross. G rand Rapids:
E erdm ans, 1993.
Hooker, M orna D. The Gospel According to Saint M ark. BNTC. Peabody, Mass:
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M arcus, Joel. M ark 1— 8. AB 27. Nova Iorque: Doubleday, 2000.
Metzger, Bruce M. Manuscripts o f the Greek Bible: A n Introduction to Palaeography.
Oxford: Oxford University Press, 1981.
Metzger, Bruce M. The Text o f the New Testament: Its Transmission, Corruption, and
Restoration. 3a edição, am pliada. Oxford: Oxford U niversity Press, 1992.
Miller, R obert J., ed. The Complete Gospels: A nnotated Scholars Version. Sonom a,
California: Polebridge Press, 1992.
Strange, Jam es E. “D alm an u th a.” Página 4 no volum e 2 de The Anchor Bible
Dictionary. Ed. David Noel Freedm an. 6 volum es. Nova Iorque: Doubleday,
1992.
Taylor, Vincent. The Gospel According to St. M ark. 2a edição. Londres: M acm illan,
1966.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS
A respeito do texto de Lucas, veja Fitzmyer, The Gospel A c co rd in g to L u ke I — IX,
pp. 128-133, e Bock, L uke 1:1— 9:50, pp. 1 9 2 0 ‫־‬.

1 .8 S eg m en ta çã o

Caso se fizer um corte ou um a pausa ao final do v. 8, as palavras κατά τό έθος


τής ίερα τείας (segundo ο costum e do sacerdócio), no início do v. 9, se conectam
ao que segue, a saber, “coube-lhe por sorte, segundo o costum e sacerdotal” (ARA).
Caso, porém , se fizer um a pausa após κατά τό έθος τής ίερα τείας, e não ao final
do v. 8, o sentido passa a ser “ele estava exercendo diante de Deus o sacerdócio no
tu rn o de sua classe, segundo o costum e sacerdotal”.

1 .2 8 σου ([conjtigo) {A}

Um am plo espectro de testem unhos antigos apoia a leitura que aparece como
texto. E ntretanto, m uitos testem unhos acrescentam , após o “contigo”, as palavras
ευλογημένη σύ έν γυ να ιξίν (bendita és tu entre as m ulheres). Essa form a m ais
extensa de texto aparece no te x tu s receptus. Se, porém , o texto m ais longo fosse
original, não há como explicar ao certo por que copistas teriam sido levados a omiti-
-lo em tantos testem unhos antigos. Provavelm ente essas palavras foram inseridas
neste contexto por um copista que conhecia esse texto a p a rtir do v. 42.

1 .3 5 τό γεννώ μ ενογ (o que há de nascer) {A}

As palavras εκ σου (de ti) são, ao que parece, um acréscim o feito bem no início
da história da transm issão do texto por um copista que queria fazer com que essa
p arte do versículo tivesse a m esm a form a das duas linhas anteriores (no m esm o
versículo), as quais term in am cada qual com o pronom e de segunda pessoa (σε e
σοι). O texto mais longo teve am pla aceitação na Igreja A ntiga por influência do
D iatessarão de Taciano. Para efeitos de tradução, talvez seja conveniente em de-
term inadas línguas acrescentar as palavras “de ti”, to rnando explícito o que está
apenas implícito no texto grego.

1 .4 6 Μ αριάμ (M aria) {A}

Quem disse as palavras do assim cham ado M a g n ific a t (vs. 46-55)? Todos os tes-
tem unhos gregos e a quase totalidade das versões antigas e do testem unho patrísti-
co dão conta de que foi M aria. Por outro lado, segundo m eia dúzia de testem unhos,
m orm ente latinos, essas palavras foram ditas por Isabel.
108 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Existem três m aneiras de se avaliar esses dados: (1) O texto original dizia ape-
nas Και ειπεν, Μ εγαλύνει... (e disse: E ngrandece...), e os copistas tra ta ra m de
explicitar o sujeito do verbo είπεν, uns colocando M aria, outros, Isabel. (2) Origi-
nalm ente constava o nom e de Isabel, m as por questões de ordem d o u trin ária liga-
das à veneração da Virgem, a m aioria dos copistas teria colocado “M aria” em lugar
de Isabel. (3) O riginalm ente o texto trazia o nom e de M aria, m as vários copistas,
p artin d o do pressuposto de que o M agnificat estava incluído no assunto do έπλήσθη
πνεύμ α τος άγιου (ficou repleta do Espírito Santo), no v. 41, e dando-se conta do
uso de συν αυτή (com ela [Isabel]), no v. 56, colocaram “Isabel” no lugar de M aria.
É possível que no texto original não houvesse nom e nenhum . Mas, diante do
fato de a esm agadora m aioria dos m anuscritos apoiar a inclusão do nom e de M aria,
prefere-se o texto com Μ αριάμ.

1.66 χειρ κυρίου ήν (a m ão do Senhor estava) {A}

A últim a frase deste versículo (E a m ão do Senhor estava [ήν] com ele) é um a


observação que o autor faz p ara seu leitor, ou seja, a citação d ireta term in a com
τούτο εσται (este vai ser). Tais observações são típicas de Lucas (confira 2.50; 3.15;
7.39; 16.14; 20.20; 23.12). Alguns copistas, porém , se equivocaram , pensand o que
essas palavras faziam p arte da p erg u n ta daqueles que ouviram falar de Zacarias.
Assim sendo, om itiram o verbo ήν e criaram a leitu ra que aparece em vários teste-
m unhos ocidentais: “e todos os que ouviram essas coisas guardavam -nas no cora-
ção, dizendo: Ό que será que esse m enino vai ser, pois a m ão do Senhor está com
ele?’”

1.74 εκ χειρός εχθρώ ν (da m ão de inim igos) {B}

As v arian tes textuais não têm m aior im portância para a tradução. A inserção do
p ro n o m e η μ ώ ν (nossos) é u m a créscim o até n a tu ra l, e sp e c ia lm e n te p o rq u e o
v. 71 diz εξ εχθρώ ν ημών (de nossos inim igos). As leituras com τώ ν (dos) e π ά ντω ν
(de todos) são obviam ente acréscim os posteriores ao texto. Na hora de traduzir, em
m uitas línguas será algo bem n a tu ra l inserir tan to o artigo “dos” quanto o pronom e
“nossos”. C onfira “da m ão dos nossos inim igos” (NVI, NBJ, RSV) e “das m ãos dos
nossos inim igos” (TEB, NRSV).

1.78 επισκέψ εται (fará b rilh ar/v isitará) {B}

Tudo indica que o futuro έπισκέψεται, apoiado por um a variedade de testem u-


nhos antigos, foi trocado pelo aoristo έπεσκέψατο (fez brilhar/visitou) para harm o-
n izar o tem po verbal com a form a do aoristo que aparece no v. 68 e que ARA trad u z
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 109

por “[Deus] visitou”. É provável que algum copista ten h a pensado que a coisa m ais
certa a fazer era concluir o cântico profético de Zacarias da m esm a m aneira como
havia com eçado, a saber, com um verbo no aoristo. Em conexão com o problem a
textual, não fica claro se u0 sol nascente das a ltu ra s” se refere a João, que já tin h a
vindo, ou à vinda de Jesus como o Messias. A TEB traduziu por “nos visitou o astro
nascente vindo do alto”, m as a m aioria das traduções prefere, neste caso, u sar o
tem po futuro.

2.2 Segmentação

Caso se fizer um a pausa após a p alavra προ.)τη (prim eiro), o sentido é o se-
guinte: “Este foi o prim eiro recenseam ento desse tipo; foi feito quando Q uirino
era governador da Síria” (REB). Caso, porém , não se fizer pausa nesse lugar, o
sentido passa a ser aquele expresso em m uitas outras traduções e tam bém em n o ta
de rodapé na REB: “Este foi o prim eiro recenseam ento realizado quando Q uirino
era governador da Síria”. S em elhante é a tradução da NVI: “Este foi o prim eiro
recen seam en to feito quando Q uirino era governador da Síria”. Fica im plícito, nesta
segunda m an eira de org an izar o texto, que m ais tard e Q uirino fez um segundo
recenseam ento. A lguns in térp retes entendem que, neste contexto, πρώ τη significa
“a n te s” e tradu zem por “Este recenseam ento foi realizado antes de Q uirino ser
g o v ern ad o r”.
A interpretação e segm entação desse versículo estão interligadas com questões
históricas. Segundo o historiador judaico Josefo e vários outros escritos daquela
época, Q uirino fez esse recenseam ento em 6 ou 7 d.C., tendo sido o prim eiro do
gênero naquela região. Acontece, porém , que esta data coloca o nascim ento de
Jesus após a m orte de H erodes, o Grande, em 4 a.C. Diante disso, alguns exegetas
sugerem que Q uirino governou a Síria em duas oportunidades, a prim eira delas
d u ran te o reinado de Herodes, o G rande. Q uirino teria, então, realizado um “pri-
m eiro recen seam ento” no tem po de Herodes, e um segundo recenseam ento entre
6 e 7 d.C., d u rante seu segundo m andato de governador. (Para um a análise mais
d etalh ad a dos problem as de interpretação e tradução deste versículo, veja Fitzmyer,
Luke I—IX, pp. 4 0 0 4 0 5 ‫ ;־‬M arshall, The Gospel of Luke, pp. 98-104; e N olland, Luke
1— 9.20, pp. 99-102. Veja tam bém Potter, “Q uirinius”.)

2.9 καί άγγελος (e um anjo) {B}

A leitura mais breve tem o apoio de um a variedade de bons m anuscritos. Além


disso, é difícil im aginar por que ióov teria sido om itido caso estivesse, originalm en-
te, no texto. Por outro lado, a leitura και lôov (e eis) concorda com o estilo solene
de Lucas nos capítulos 1—2 (onde ióoú aparece dez vezes).
110 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

2.11 Χ ριστός κύριος (o Messias, o Senhor) {A}

Parece que Lucas usou de propósito a com binação Χ ριστός κύριος, que não apa-
rece em nen hum outro lugar do NT, e não a form ulação Χ ριστός κυρίου (Messias
do Senhor), que é m uito m ais frequente. Era de se esperar que copistas estran has-
sem essa inusitada com binação e introduzissem várias alterações, nenhum a das
quais tem significativo apoio de m anuscritos.

2.14 εν ά νθ ρ ώ π ο ις εύόοκίας (entre hom ens de [a] boa vontade) {A}

A diferença entre ARC,


“Glória a Deus nas alturas,
paz na terra,
boa vontade p ara com os hom ens”,

e ARA,

“Glória a Deus nas m aiores alturas,


e paz na te rra en tre os hom ens, a quem ele quer bem ”

é m ais do que sim plesm ente um a questão de interpretação do significado do texto


grego. Tem a ver, antes de m ais nada, com o estabelecim ento do texto original.
Esse Cântico dos Anjos term in a com ευδοκία (boa vontade) ou ευδοκίας (da boa
vontade [de Deus])?
A palavra no caso genitivo, que é ευδοκίας, é a leitura m ais difícil (do ponto
de vista dos copistas) e tem o apoio dos m ais antigos representantes dos tipos de
texto alexandrino e ocidental. O texto no caso nom inativo, que é ευδοκία, pode ter
surgido como um a ten tativa de m elhorar o sentido da passagem . Pode, tam bém ,
ser resultado de um descuido no processo de cópia, pois, no final de um a linha, a
diferença en tre ευδοκίας e ευδοκία seria unicam ente a presença de um m inúsculo
sigm a em form a de m eia-lua: ey A 0 K 1 A c.
O sentido parece ser não que a paz divina apenas pode ser dada onde já exista
boa vontade hum ana, m as que, com o nascim ento do Salvador, a paz de Deus re-
pousa sobre aqueles que ele escolheu segundo a sua boa vontade. A locução “entre
hom ens de [sua] boa vontade” aparece em vários hinos hebraicos que estão en tre as
descobertas de Q um ran, bem como num fragm ento aram aico descoberto na m esm a
localidade de Q um ran. A expressão sem ítica “da boa vontade de D eus” significa
“ser colocado num relacionam ento favorável com Deus, em que se experim enta
sua m isericórdia e seu poder através de sua fidelidade à aliança” (Nolland, Luke
1— 9:20, p. 109). Nos prim eiros dois capítulos de Lucas aparece um grande núm ero
de expressões sem íticas, inclusive a locução “entre hom ens a quem ele quer bem ”.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 111

2.33 ό πατήρ αυτού καί ή μήτηρ (ο pai dele e a mãe) {B}

Para salv ag uardar a dou trin a de que Jesus nasceu de um a virgem , em vários
m anuscritos, alguns deles antigos, ό πατήρ foi substituído pelo nom e ,Ιωσήφ (José).
O utros testem unhos acrescentam o pronom e αύτοΰ (dele) depois de μήτηρ (mãe),
por razões estilísticas, isto é, para com binar com ό πατήρ αυτού ou, então, por
transferência, quando não m ais se precisava do pronom e no início dessa frase, por-
que o nom e “José” foi colocado em lugar de “0 pai dele”. Além de algum as leituras
que aparecem em apenas uns poucos m anuscritos, a leitura ,Ιωσήφ ό πατήρ αυτού
καί ή μήτηρ αυτού (José, ο pai dele, e a m ãe dele) é claram ente um a com binação
de leituras anteriores ou m ais antigas.

2.38 ,Ιερουσαλήμ (Jerusalém ) {A}

A leitura ,Ιερουσαλήμ é a que m elhor explica 0 surgim ento das dem ais leituras.
A inserção da preposição εν (em) elim ina a am biguidade gram atical quanto a tratar-
-se de um a referência à “redenção de Jeru salém ” ou à “redenção em Jeru salém ”. A
substituição por Ισ ρ α ή λ (Israel) realça as im plicações teológicas desse texto. O ter-
mo ,Ιερουσαλήμ deveria ser visto como sinônim o de Israel, no v. 25 (Johnson, The
Gospel o f Luke, p. 56). ‘Ιερουσαλήμ é usado, aqui, como um a sinédoque (um a figura
de linguagem em que um a p arte é usada para falar do todo) para Israel (M arshall,
The Gospel o f Luke, p. 124).

3.22 Σύ εί ό υιός μου ό αγαπητός, εν σοί ευδόκησα


(Tu és ο m eu Filho am ado, contigo estou plenam ente satisfeito) {B}

A leitura que aparece no texto ocidental, “Tu és o m eu filho; eu, hoje, te gerei”, e
que é ad o tad a em NBJ e TEB, era am plam ente conhecida nos três prim eiros séculos
da era cristã. No entanto, parece um a leitura de origem m ais recente, baseada em
SI 2.7. O uso da terceira pessoa (“Este é ... com ele”), que aparece em uns poucos
testem unhos, é certam ente um a alteração p ara que o texto com bine com a form a
dessas palavras em Mt 3.17.

3.32 Σαλά (Salá) {B}

O nom e do pai de Boaz não é sem pre o m esm o nos teste m u n h o s antigos.
P arece que o tex to o rig in al é Σ αλά , que copistas p o ste rio re s a lte ra ra m p a ra
Σ α λ μ ώ ν (Salm om ), em co n co rd ân cia com o p a ra lelo em Mt 1 .4 5 ‫ ־‬e o tex to de
lC r 2.11, na S ep tu ag in ta. O utros copistas tro c a ra m o nom e po r Σ α λ μ ά ν (Sal-
m ã), u m a le itu ra que ap arece no m an u scrito B em Rt 4.20-21. Tendo em v ista a
a n tig a tra d iç ã o de que Lucas era um sírio de A ntioquia, talvez seja significativo
112 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

que a form a Σ αλά p a rece co n co rd ar com um a tra d iç ã o síria p re se rv a d a em vá-


rias versõ es siríacas.
E n tre as tra d u ç õ e s m o d e rn a s, a lg u m a s p re fe re m “S a lá ” (RSV, NRSV, ARA,
NBJ, TEB, NTLH), o u tra s, “S alm o m ” (NVI, TEV, Seg). A REB tra z “S a lm a ”. A
TEV u sa o nom e “S alm o m ” d evid o ao p rin cíp io de c o n sistên c ia e n tre o AT e
o NT q u a n d o se faz re fe rê n c ia à m esm a p esso a. (Como diz Bock, “Caso Σ αλά
for o rig in a l ... e s ta rá se re fe rin d o à m esm a p e sso a que se tem em v ista com
o nom e Σ α λ μ ώ ν ” [Luke 1:1— 9:50, p. 361.]) Se tra d u to re s p a ra o u tra s lín g u a s
a d o ta m o m esm o p rin cíp io de c o n sistên c ia , o nom e d essa p e sso a se rá o m es-
m o em to d o o AT e NT, pouco im p o rta n d o que p a la v ra é a ce ita com o o rig in a l
n e ste caso.

3.33 του Ά μιναόάβ του Χδμιν του Α ρνί


(filho de A m inadabe, filho de Adm im, filho de Arni) {C}

Aqui existe um a confusão de le itu ra s v a ria n te s. No e n ta n to , aq u ela que apa-


rece no tex to, a d o ta d a p ela m aio ria das trad u ç õ es, p a rece a m ais satisfató ria,
além de ser o tex to que era conhecido n a igreja a le x a n d rin a em tem pos bem
an tig o s. Os nom es de A dm im e A rni não ap arec e m no AT, o que fazia com que
co p istas se sen tissem te n ta d o s a om iti-los po r com pleto. A le itu ra του Α μ ινα όά β
του Α ράμ (filho de A m in ad ab e, filho de Ram ), a d o ta d a p ela NVI, tem o apoio de
um im p re ssio n a n te e sp ec tro de teste m u n h o s. E n tre ta n to , com u m a le itu ra que
tem três nom es, a exem plo da que é aceita com o texto, a g en ealo g ia de Jesu s
em Lucas form a um cuid ad o so p a d rã o a rtístico , bem m ais e lab o rad o até do que
a g en ealo g ia em M ateus (veja Mt 1.17). Na g en ealo g ia de Lucas, de Adão até
A braão, as gerações são 3 x 7; de Isaque a Davi, 2 x 7; de N atã a S alatiel (pré-
-exílico), as gerações são 3 x 7; de Z orobabel (pós-exílico) até Jesu s, 3 x 7, o que
d á u m to ta l de 11 x 7, ou 77 gerações desde A dão até Jesus. A tra d u ç ã o “filho
de A m in ad ab e, filho de A rn i”, que ap arec e na REB, p a rece um a c o n je ctu ra que
n ão se b a seia em um só m a n u scrito seq u er (veja tam b ém a d iscussão em Bock,
Luke 1:1— 9:50, pp. 361-362).

4.4 ά νθ ρ ω π ο ς (h o m em /ser hum ano) {B}

A leitu ra m ais breve, que tem apoio de m anuscritos antigos e de boa qualida-
de, tem tu d o p a ra ser original. As form as m ais longas do texto são m odificações
in tro d u zid as po r copistas na in ten ção de fazer o texto concordar com o p aralelo
em Mt 4.4 ou com o texto de Dt 8.3, conform e a S eptu ag in ta. Essa concordância
p o d ia ser p alav ra por p alav ra ou, então, segundo o sentido daquelas passagens.
Se q u alq u er u m a dessas leitu ras m ais longas fosse original, ficaria difícil de expli-
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 113

car po r que não aparecem num a com binação de testem u n h o s tão valiosos quan to
aqueles que traz em o texto m ais breve.

4.17 ά να π τΰ ξα ς (tendo desenrolado) {B}

Nas sinagogas, as cópias disponíveis dos livros do AT tin h a m a form a de rolos.


P o rtan to , Lucas está correto, ao dizer que Jesus “d esen ro lo u ” (ά να π τΰ ξα ς) o rolo.
Porém , visto que copistas cristãos estavam acostum ados com livros em form a de
códice (ou livro), tro c a ra m o verbo ά ν α π τΰ ξ α ς (que ocorre som ente aqui, no NT)
pelo verbo ά νο ιξη ς (tendo aberto).
É possível, em bora m enos provável, que ά νοίξα ς seja original. Neste caso, um
copista teria trocado o verbo ά νο ίξα ς por ά να π τΰξα ς, aqui no v. 17, p ara fazer a
ação inicial de d esenrolar corresponder m ais de perto com a ação final de fechar ou
enrolar, descrita no v. 20 com o verbo π τΰ ξα ς (enrolou).
Em alg u m as línguas, a ú n ica p a la v ra disponível p a ra “rolo” ou “livro” se refe-
re a um volum e com p ág in as em form a de livro. N essas lín g u as, so aria e stra n h o
fala r sobre “d e se n ro la r” um livro. Em razão disso, talvez se te n h a que dizer, na
lín g u a alvo, que Jesus “ab riu ” o livro. As trad u çõ es que dizem que Jesu s “de-
senrolou o ro lo” (NRSV, NIV, NBJ, TEV, TEB, FC) estão seguindo o que ap arece
como texto em O Novo Testamento Grego. O utras, que dizem que ele “abriu o ro lo ”
(REB) ou “abriu o liv ro ” (RSV, ARA, NTLH, NVI, CNBB, BN), p rovavelm ente se
b aseiam em ά ν α π τΰ ξ α ς (desenrolou), m as preferem o verbo “a b rir” pela m esm a
razão que levou os copistas antigos a c ria r a v a ria n te te x tu a l ά νο ίξα ς.

4.18 άπέσταλκέν με (ele me enviou) {A}

Logo após ά πέσταλκέν με, vários m an u scrito s a crescen tam as p alav ras
ίάσ ασ θα ι τους σ υ ντετρ ιμ μ ένο υ ς την καρόίαν (a c u ra r os q u eb ra n tad o s de co-
ração). T rata-se de um evidente acréscim o feito por copistas p a ra fazer o texto
co n co rd ar m ais de p erto com a passagem de Is 61.1, conform e a S e p tu ag in ta.

4.34 Segmentação

As palav ras ήλθες άπολεσαι ήμάς são p o n tu ad as, no texto, como um a pergun-
ta, ou seja, “Vieste p ara nos d e stru ir? ” (CNBB). E n tretan to , podem tam b ém ser
vistas como um a afirm ação: “Vieste p ara nos p e rd e r” (TEB).

4.44 εις τάς συναγω γάς τής Τ ουόαίας (nas sinagogas da Judeia) {B}

Tendo em vista a referência anterior (Lc 4.14) ao início do m inistério de Jesus


na Galileia, a leitura τής Τ ουόαίας é, com certeza, o texto m ais difícil e é adotado
114 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

n a m aioria das traduções. Copistas alteraram isso p ara τής Γ αλιλαίος (da Galileia),
em concordância com os paralelos em Mt 4.23 e Mc 1.39, e essa leitura é ad otad a
por Seg. O utros copistas tra ta ra m de contornar essa dificuldade substituindo τής
Ί ο υ δ α ία ς por τω ν ,Ιουδα ίω ν (dos judeus).
A lguns in té rp re te s e n te n d em que, neste caso, “Ju d e ia ” se refere a to d a a
te r r a de Israel, in clu in d o a G alileia, com o acontece tam b ém em 1.5; 6.17; 7.17;
23.5. Ou seja, a refe rên c ia não se re strin g e à p a rte sul, co n h ecid a com o Ju d e ia
(Fitzm yer, The Gospel according to Luke I— IX, pp. 5 5 7 5 5 8 ‫ ;־‬M arshall, The Gospel
o f Luke, pp. 198-199; N olland, Luke 1— 9:20, p. 216). Por essa razão , BN diz “E
p reg av a po r todo o país ñas casas de o ra ç ã o ” (tam bém NTLH e FC), e a tra d u ç ã o
alem ã em lin g u a g em com um (Gute N achricht Bibel) tra z “nas sinagogas da te rra
dos ju d e u s ”.

5.17 οΐ ήσαν έληλυθότες (que tin h am vindo) {B}

A leitura aceita como texto, reproduzida na m aioria das traduções, tem o apoio
da esm agadora m aioria dos testem unhos. É a leitura m ais difícil, pois dá a en ten d er
que em cada aldeia havia fariseus e m estres da Lei, que, agora, tin h am vindo até Je-
sus. O texto pode ser traduzido assim: “achavam -se ali sentados fariseus e doutores
da Lei, vindos de todos os povoados da Galileia, da Judeia e de Jeru salém ” (NBJ).
Alguns testem unhos om item o artigo οΐ e outros o substituem por δέ, de sorte que
são os doentes (e não os líderes) que vêm de todos os lugares para serem curados.
A varian te pode ser traduzida assim: “Fariseus e m estres da Lei estavam sentados
ao redor dele. Pessoas tin h am vindo de todos os povoados da Galileia, da Jud eia e
de Jeru salém ” (REB).

5.17 εις τό ιάσθαι αυτόν (para ele curar) {A}

Copistas não se deram conta de que κυρίου (do Senhor) se refere a Deus, e não a
Jesus, e que o pronom e αυτόν é o sujeito e não o objeto de τό ιάσθαι (curar). Assim,
su bstituíram αυτόν por um a form a plural, como αΰτους (a eles), π ά ντα ς (todos),
αυτούς π ά ντα ς (a eles todos) ou τούς άσθενούντας (os enferm os). BN (bem como
TEV, NTLH e FC) coloca o nom e de Jesus em lugar do pronom e “ele”, para elim inar
a am biguidade: “O poder do Senhor estava com Jesus para cu rar os doen tes”.

5.33 οι μαθηταί (os discípulos) {B}

Copistas que se lem bravam do relato paralelo em Mc 2.18 colocaram as pala-


vras δια τί (por quê?) diante de οι μαθηταί (os discípulos), transform ando aquela
afirm ação em pergunta.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 115

5·38 βλητέον (deve ser posto) {B}

A palav ra βλητέον é o único adjetivo verbal term inado em -τέος em todo o


NT. Em alguns testem unhos, foi substituído pelo verbo βάλλουσιν (põem ), por in-
fluência da passagem paralela de Mt 9.17. A variante não tem m aior im portância
p a ra o tradutor, pois o sentido não m uda. Em alguns testem unhos, tam bém foram
acrescentadas, a p a rtir de M ateus, as palavras m l άμφ ότεροι σ υντη ρούντα ι (ou
τηρούνται) (e am bos se conservam [ou são guardados]).

5.39 inclusão do versículo {A}

E p raticam ente incontestável o testem unho dos m anuscritos que favorecem a


inclusão do v. 39 no texto. Sua om issão em vários m anuscritos ocidentais pode ser
resultado da influência de M arcião, que rejeitou essa afirm ação, por enten d er que
a m esm a confirm ava a autoridade do AT. (M arcião, que foi influente na prim eira
m etade do segundo século, rejeitou o AT e acreditava que o Deus de Jesus não era
idêntico ao Deus do AT.)

5.39 [καί] ([e]) {C}

Existe tan to equilíbrio na argum en tação a favor e contra a presença de καί no


texto que o m esm o foi colocado entre colchetes, p ara indicar que não se tem certeza
quanto ao texto original. Sem a conjunção καί, o estilo é m enos polido, m as o sen-
tido é essencialm ente o mesmo.

5.39 χρηστός (bom) {A}

Copistas tro caram o adjetivo “bom ” pelo m esm o adjetivo em grau com parativo
(χρηστότερος, m elhor), ao que parece p ara to rn ar m ais clara a com paração entre
beber vinho velho e vinho novo. E ntretanto, a lição do texto é que certas pessoas,
por causa de seus pressupostos, não querem nem m esm o provar o novo (o evange-
lho), porque estão satisfeitas com o fato de que o velho (a lei) é bom. As traduções
não são unânim es: algum as seguem o texto (RSV, NRSV, NBJ, REB, Seg); outras
preferem a v ariante (NVI, TEV, TEB, CNBB, BN, FC).

6.1 εν σαββάτω (num sábado) {C}

Após o substantivo σαββάτω, muitos m anuscritos acrescentam δευτεροπρώ τος


(literalm ente, “segundo-prim eiro”), palavra que não ocorre em nenhum outro lugar
na literatu ra grega. Provavelm ente essa palavra ten h a surgido devido a um erro
116 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

de cópia. É possível que um copista tenha acrescentado ao texto a palavra πρώ τω


(prim eiro), pois, no v. 6, se faz referência a “outro sábado” (εν ετέρου σαββάτω).
Depois, outro copista, notando que um sábado já havia sido m encionado em 4.31,
escreveu δεύτερα) (segundo) e deletou πρώτου, colocando pontos por cim a das letras
desta palavra, pois essa era a m aneira usada para indicar que certa palavra não
fazia p arte do texto. Um copista posterior não percebeu aqueles pontos por cim a da
palavra προυτω e, por engano, com binou δευτέρου e πρώ τω num a única palavra, que
foi inserida no texto.
O utra explicação, apresentada por T. C. Skeat (Novum Testamentum, XXX (1988),
pp. 1 0 3 1 0 6 ‫)־‬, é que um copista ten h a repetido por engano as letras βατω, depois de
copiar σαββάτου. Um copista posterior interpretou ο β de βατω como δευτέρω (se-
gundo) e o a, como προυτου (primeiro), e viu no του um a indicação de que o adjetivo
deveria concordar em caso gram atical (dativo) com σαββάτω. Q ualquer que seja a
explicação, praticam ente todas as traduções ficam com a leitura im pressa como tex-
to (veja tam bém Bock, Luke 1:1— 9:50, p. 534-535).
Se a palavra δευτεροπρώ τος for original, o significado pode ser algo como “um
segundo (sábado) depois de um prim eiro”, referindo-se, talvez, ao segundo sábado
depois da festa dos pães asmos, sendo que o prim eiro sábado poderia ser o que ocor-
reu durante a sem ana da festa propriam ente. TEB preferiu a variante, traduzindo
por “Ora, num segundo sábado do prim eiro m ês”. Uma nota, incluída em algum as
edições da TEB, explica que “o segundo sábado do primeiro mês do ano judaico fica
perto do período da colheita (Lv 23.5-14). Nessa data, a lei de Moisés proíbe com er
os grãos da nova colheita”.

6.4 και έδωκεν τοΐς μετ’ αυτού (e deu [os pães] aos que com ele estavam ) {A}

Esta variante não tem m aior im portância para a tradução, pois o acréscim o de
καί (tam bém ) apenas esclarece o significado: Davi deu os pães também aos que es-
tavam com ele, que tam bém deles com eram . O acréscim o de καί após έδωκεν em ‫א‬
(Códice Sinaítico), A (Códice A lexandrino) e outros m anuscritos dá m ais força à ar-
gum entação (e ele deu [os pães] tam bém aos que com ele estavam ). Mas esse acrés-
cimo parece ter sido feito por copistas que talvez, m as não necessariam ente, estives-
sem h arm onizando o texto com o paralelo em Mc 2.26, que tem a palavra “tam bém ”
(και έδωκεν καί). Se “tam bém ” tivesse estado originalm ente no texto, não há razão
que justifique por que teria sido excluído do texto, ao longo do processo de cópia.

6.4 μόνους τούς ιερείς; (exclusivam ente aos sacerdotes?) {A}

O Códice de Beza (D) transfere o v. 5 p ara depois do v. 10, e, em seu lugar, co-
loca o seguinte: “No m esm o dia, ele viu um hom em trab a lh a n d o em dia de sábado
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 117

e disse-lhe: ‘Hom em, se sabes o que estás fazendo, és feliz, m as se não o sabes, és
m aldito e tran sgressor da lei’”. Assim, o copista (ou editor) do m anuscrito D faz
com que Lucas relate três incidentes relacionados com Jesus e o sábado, sendo que
o ponto alto é a afirm ação de que o Filho do Hom em é senhor do sábado.

6.5 κύριός έστιν τού σαββάτου ό υιός τού ά νθρώ που


(é senhor do sábado o Filho do Homem) {B}

R epresentantes bem antigos de diferentes tipos de texto não têm καί (até) antes
das palavras τού σαββάτου (do sábado). Ao que parece, copistas inseriram esse
καί para to rn ar as palavras de Jesus um pouco m ais enfáticas (sem falar que isso
faz com que o texto se aproxim e m ais da passagem paralela em Mc 2.28). Além da
leitu ra im pressa como texto, deve-se preferir, no texto, a ordem das palavras que
difere da ordem encontrada em Marcos.

6.10 ειπεν (ele disse) {A}

Vários grupos de testem unhos apresentam um texto idêntico ao relato paralelo


em Mc 3.5, que diz que Jesus olhou p ara os que estavam em volta dele “com ira”
(μετ’ οργής). Mas, por motivo de reverência, é pouco provável que Lucas teria usa-
do as palavras εν οργή (em ira) ou μετ' οργής (com ira).

6.31 ποιείτε (fazei) {B}

As v ariantes não têm m aior im portância para tradutores, pois o significado não
m uda em relação ao texto. A leitura m ais breve, que tem apenas o im perativo da
segunda pessoa do plural ποιείτε, é apoiada por um am plo espectro de testem unhos
antigos e é preferível a leituras m ais longas como καί υμείς ποιείτε (tam bém vós
fazei). As leituras m ais longas são, cada um a a seu m odo, alterações introduzidas
por copistas que quiseram deixar o texto m ais parecido com a passagem paralela
em Mt 7.12.
A ordem das palavras, no grego, é a seguinte: “e como quereis que façam a vós
as pessoas, fazei a elas igualm ente”. Para efeitos de tradução, talvez seja necessá-
rio, em um a ou outra língua, acrescentar o pronom e “vós” e com pletar o paralelo,
adicionando a palavra “tam b ém ”.

6.35 μηδέν (nada) {B}

Na literatu ra grega, o verbo a p a rtir do qual é form ado o participio ά π ελπ ίζο ντες
norm alm ente significa “p erd er a esp eran ça” ou “d e sesp erar”, m as, neste caso,
118 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

o contexto parece exigir o sentido de “e sp era r”. A leitura μηόενα άτιελπίξοντες


(de ninguém desesperando) não se encaixa tão bem no contexto quanto μηδέν
ά π ελ π ίζο ν τες (nada esperando). Parece que a form a μηόενα surgiu quando um
copista acidentalm ente escreveu duas vezes a vogal inicial do participio (fenôm eno
denom inado de ditografia), num a época em que não havia espaçam ento entre as
palavras. Mais tarde, quando se passou a deixar espaço entre as palavras, o prim ei-
ro a ficou sendo a últim a letra da palavra anterior, μηδέν.

6·48 διά το καλώς οίκοδομήσθαι αυτήν (por ter sido bem construída) {A}

Apenas Lucas diz que a casa não se abalou “porque havia sido bem construí-
d a ”. Isto concorda com a afirm ação an terio r de que o construtor havia cavado bem
fundo e posto o alicerce na rocha. Copistas, porém , tro caram isso pela razão apre-
sen tad a em Mt 7.25: “porque havia sido edificada sobre a rocha”. Por ser um fia-
g ran te caso de harm onização, prefere-se a leitura que aparece como texto, que tem
tam bém do seu lado os m elhores m anuscritos. A om issão dessas palavras em vários
docum entos é resultado de um descuido, quando um copista, sem querer, passou
do αυτήν que aparece um pouco antes no texto ao αυτήν que se encontra no final
do versículo.

7.7 ίαθήτω ό π α ΐς μου (seja curado o m eu servo) {B}

O verbo no m odo im perativo, que aparece como texto, dá às palavras do centu-


rião um tom de certa form a arrogante. Copistas tra ta ra m de suavizar isso um pou-
co, alteran do o verbo p ara o fu tu ro ίαθήσεται (será curado), em concordância com
o tem po futuro que ocorre no paralelo em Mt 8.8. A TEB (bem como RSV, NRSV
e NBJ) trad u z assim : “m as dize um a palavra e seja o m eu servo cu rad o ”. BN (e a
m aioria das outras traduções), por outro lado, diz: “Basta que tu dês um a ordem e o
m eu em pregado ficará cu rad o ”. Não fica claro se este tipo de tradução que aparece
n a BN resu lta da opção pela v ariante, ou se os tradutores sim plesm ente decidiram
a b ra n d ar o tom das palavras do centurião.

7.10 δούλοv (servo) {A}

É difícil d ete rm in a r se άσθενουντα (doente) foi acrescentado — à m oda de um


contador de histórias — p a ra identificar aquele servo, ou se foi om itido por des-
necessário ou porque contradizia ύ για ίνοντα (curado). As palavras “en co n traram
curado o servo enferm o” só podem significar “e n co n traram curado o servo que
havia estado enferm o”. Uma vez que a leitura m ais breve tem bom suporte de ma-
nuscritos, foi escolhida p ara ser o texto, neste caso.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 119

7.11 εν τφ έξης (logo depois) {B}

Com o artigo fem inino έν τη έξης (no seguinte), o leitor precisa suprir o subs-
tantivo fem inino ήμερα (dia), ou seja, “no dia seguinte” (ARA, Seg). Com o artigo
m asculino έν τφ έξης (no seguinte), o leitor insere, m entalm ente, o substantivo
m asculino χρόνω (tem po/período de tem po), ou seja, “logo depois” ou “em segui-
d a ” (a m aioria das traduções). Acontece, porém , que em outros lugares, ao escrever
τη έξης, Lucas não faz uso da preposição έν (Le 9.37; At 21.1; 25.17; 27.18). Por
outro lado, quando o leitor precisa suprir a palavra χρόνω Lucas usa έν τω καθεξής
(Le 8.1). No todo, é m ais provável supor que um a indicação de tem po genérica (em
seguida) fosse trocada por um a expressão m ais definida (no dia seguinte) do que
supor o contrário. Além disso, a leitura que tem apoio m ais consistente de m anus-
critos é τφ έξης (logo depois ou em seguida).

7.11 oí μαθηταί αυτόν (os discípulos dele) {B}

A antiguidade e a diversidade dos tipos de texto que apoiam a leitura aceita


como texto são b astan te expressivas. Por outro lado, é possível que copistas ten h am
om itido a palavra ικανοί (muitos), ou intencionalm ente (a locução oi μαθηταί
αυτού ικανοί é e stran h a e, em todo o NT, aparece som ente aqui), ou acidentalm en-
te (em vista da com binação kmo, que aparece na sequência). Além disso, a palavra
ικανοί é um a das favoritas de Lucas (de um total de 40 ocorrências, no NT, 27 estão
em Lucas-Atos).

7.19 κύριον (Senhor) {C}

E pouco provável que copistas teriam om itido o nom e ,Ιησούν (Jesus). Além
disso, κύριον se encaixa bem no estilo de Lucas.

7.24 S e g m e n ta ç ã o

Veja o com entário sobre Mt 11.7.

7.25 S e g m e n ta ç ã o

Veja o com entário sobre Mt 11.8.

7.26 S e g m e n ta ç ã o

Veja o com entário sobre Mt 11.9.


120 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

7.28 γυνα ικώ ν Τεοάννου (de m ulheres do que João) {B}

A leitura m ais breve, que tem tam bém o apoio dos m ais antigos m anuscritos, é
a que m elhor explica o surgim ento das outras variantes. Parece que copistas extre-
m am ente zelosos acrescentaram a palavra προφ ήτης (profeta), para assim excluir
Cristo da com paração (ou seja, “não existe nenhum profeta m aior do que Jo ão ”), ao
passo que outros adicionaram του Β απτιστου (Batista), para fazer o texto concor-
d ar com Mt 11.11.

7.28 Segmentação

Ao exem plo de traduções como NRSV, NTLH, BN, é possível enten d er os vs.
2 9 3 0 ‫ ־‬como um a afirm ação p aren tética do evangelista, na qual ele explica ao seu
leitor como as pessoas reagiram ao que Jesus disse. Segundo esta interpretação, o
objeto direto im plícito da form a verbal άκοΰσας (tendo ouvido), no v. 29, é “aquilo
que Jesus disse”. Caso se entenda que os vs. 2 9 3 0 ‫ ־‬form am um parêntese escrito por
Lucas (como acontece em NRSV, etc.), então, diferentem ente do que ocorre com os
versículos anteriores e seguintes, não serão usadas aspas, que indicariam tratar-se
de citação direta.
Tam bém é possível en ten d er os vs. 29-30 como um a continuação das palavras
de Jesus, e não como um com entário parentético do evangelista. Nesse caso, elas
farão p arte de um trecho m aior (vs. 2 4 3 5 ‫ )־‬que aparece, todo ele, entre aspas. Se-
gundo esta interpretação, o objeto implícito de άκούσας é “aquilo que João disse”.

7.32 έθρηνήσαμεν (entoam os lam entações) {B}

Para criar um m aior equilíbrio entre as locuções, o textus receptus, apoiado por
um bom núm ero de m anuscritos, insere o pronom e da segunda pessoa do plural
ύμΐν (para vós/vos) após o verbo έθρηνήσαμεν. O texto mais breve tem 0 apoio de
um a grande variedade de tipos de texto.

7.35 π ά ντω ν τω ν τέκνων αυτής (todos os filhos dela) {B}

Alguns testem unhos om item a palavra πάντω ν. Isso resulta num a harm onização
com o texto de Mt 11.19, no que diz respeito a este detalhe do texto, e ao m esmo
tem po facilita a interpretação do versículo. E ntretanto, a m aioria dos testem unhos
tem πάντω ν, algo que condiz com a predileção de Lucas pelo adjetivo πα ς (6.17,30;
9.43; 11.4). A colocação de πά ντω ν em diferentes lugares do texto, refletida nos ma-
nuscritos, não implica em alteração de significado. Os m elhores m anuscritos apoiam
a colocação de πά ντω ν no início dessa locução, como aparece no texto. A leitura em
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 121

que πά ντω ν aparece depois de αυτής provavelm ente surgiu quando essa palavra,
que havia sido om itida para h arm onizar o texto, neste porm enor, com M ateus, foi
reinserida, só que no lugar errado. A leitura πά ντω ν τω ν έργων αυτής (todas as
suas obras) resulta de um a harm onização total com o paralelo de Mt 11.19. Se urna
tradução literal do texto não fizer sentido, um a opção m elhor talvez seja algo como
“aqueles que aceitam a sabedoria” (NTLH) ou “nos que de fato a aceitam ” (BN).

7.39 προφ ήτης (profeta) {A}

O acréscim o do artigo ó (o) diante de προφ ήτης é um a alusão exegética àquele


que á “o Profeta” prom etido em Dt 18.15. Confira Jo 1.21; 6.14; 7.40.

7.45 είσήλθον (entrei) {A}

Um pequeno núm ero de testem unhos, seguidos pela TEB, coloca είσήλθεν ([desde
que] ela entrou) em lugar da form a de prim eira pessoa do singular είσήλθον. A va-
ríante parece um a tentativa de evitar a sugestão de um exagero, ou seja, que a m ulher
ficou beijando os pés de Jesus desde o m om ento em que ele entrou naquela casa.

7.47 S e g m e n ta ç ã o

Caso não se fizer um corte depois das palavras ου χάριν (por isso), essas pala-
vras vão com λέγω οοι (te digo) e indicam a razão para aquilo que Jesus diz a se-
guir. O significado é: “Por isso [ού χάριν] eu te digo: os m uitos pecados dela foram
perdoados, como m ostra o fato que [ότι] ela m uito am ou”. Mas, caso se fizer um
corte ou pausa após ού χάριν, as palavras λέγω οοι podem ser vistas como parenté-
ticas e o sentido passa a ser este: “ela ungiu os m eus pés com perfum e porque [ού
χάριν], eu te digo, os m uitos pecados dela foram perdoados”.

8.3 α ύτοις (lh es/a eles) {B}

O pronom e plural tem o apoio de bons representantes dos tipos de texto ale-
x an d rin o e ocidental. O singular, referindo-se a Jesus (confira Mt 27.55; Me 15.41),
parece um a correção de caráter cristocêntrico, influenciada talvez por M arcião
(quanto a M arcião, veja o com entário sobre 5.39).

8.26 Γερασηνών (dos gerasenos) {C}

Das d ifere n te s v a ria n te s, p refere-se Γερασηνώ ν, p o r trê s m otivos: (1) tem a


seu favor o m elh o r apoio de m an u scrito s (re p re se n ta n te s an tig o s ta n to do tipo
122 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

de tex to a le x a n d rin o com o do tipo de tex to o cid en tal); (2) a le itu ra Γ αόα ρη νώ ν
(dos g ad aren o s) tem tu d o p a ra ser um a correção feita por um copista, p a ra har-
m o n iz a r o tex to com o p a ra lelo em Mt 8.28; e (3) Γ εργεσηνώ ν (dos gergasenos)
é, p ro v av elm en te, u m a correção que, ao que tu d o indica, foi in ic ialm e n te pro-
p o sta po r O rígenes (veja o c o m en tário sobre Mt 8.28).

8.37 Γερασηνών (dos gerasenos) {C}

Veja o com entário sobre o v. 26.

8.43 ητις [ία τροΐς προσαναλώ σασα δλον τον βίον]


(que [com m édicos havia gastado tudo o que tinha]) {C}

O te x to m ais b rev e, e n c o n tra d o no φ 75, tem a seu favor o te s te m u n h o de


m a n u sc rito s a n tig o s, b em com o re p re s e n ta n te s de v á rio s tip o s de tex to . A evi-
d ê n c ia e x te rn a fav o rece a le itu ra m ais b reve. Por o u tro lado, a fra se ία τ ρ ο ΐς
π ρ ο σ α ν α λ ώ σ α σ α δ λ ο ν το ν β ίο ν p a re c e u m a fo rm a a b re v ia d a do te x to encon-
tra d o em Me 5.26. É d ifícil im a g in a r que a lg u é m que não fosse o p ró p rio Lucas
tiv esse re e sc rito M arcos de urna fo rm a tão h a b ilid o sa , e n c u rta n d o o te x to e
c o lo can d o o p a rtic ip io π ρ ο σ α ν α λ ώ σ α σ α (que o c o rre so m en te aq u í, em to d o
o NT) em lu g a r da fo rm a v e rb a l m ais com um ό α π α νή σ α σ α (h a v ia g astad o ),
que a p a re c e em M arcos. Urna vez que a e v id ê n cia in te rn a dá su s te n ta ç ã o ao
te x to m ais longo (que a p a re c e em NRSV, TEV, TEB, CNBB, NTLH, FC, Seg, BN,
NVI) e a e v id e n cia e x te rn a (o peso dos m an u scrito s) ap o ia o te x to m ais b rev e
(p re fe rid o p o r RSV, REB, NIV, NBJ), o te x to m ais longo faz p a rte do te x to de
O Novo Testam ento Grego, m as a p a re c e e n tre co lch etes p a ra in d ic a r in c e rte z a
q u a n to ao o rig in a l.

8.44 όπισθεν ηψατο του κρασπέδου


(por trás tocou na o rla /b a rra ) {B}

A lg u n s te s te m u n h o s , em c o n c o rd â n c ia com o te x to p a ra le lo de Mc 5.27,
n ão tra z e m as p a la v ra s του κ ρ α σ π έδ ο υ . No e n ta n to , essas p a la v ra s a p a re c e m
em M ateu s e in te g ra m as assim c h a m a d a s “c o n c o rd â n c ia s m e n o re s de M ateu s
e Lucas c o n tra M a rco s”, ou seja, lu g a re s onde M ateus e Lucas, de fo rm a in d e-
p e n d e n te , fiz e ra m a m esm a a lte ra ç ã o em re la ç ã o ao te x to de M arcos, que foi
u m a d as fo n tes u sa d a s p o r M ateu s e Lucas. E ssa c o n c o rd â n c ia com M ateu s,
em d e sa c o rd o com M arcos, p o d e ria su g e rir que as p a la v ra s του κ ρ α σ π έδ ο υ
sejam um a c réscim o p o s te rio r ao te x to de Lucas. No e n ta n to , o im p re ss io n a m
te ap o io de m a n u s c rito s fav o rece a in c lu sã o d e ssa s p a la v ra s no tex to .
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 123

8.45 Π έτρος (Pedro) {B}

Copistas podem ter acrescentado “e os que estavam com ele”, p ara fazer o texto
concordar com o que se encontra em M arcos και έλεγον αύτω οί μαθηταί αυτού
(e os seus discípulos lhe disseram ), ou para que Pedro não arcasse sozinho com a
responsabilidade de censurar Jesus. Em todo o caso, a leitu ra m ais breve tem sólido
apoio de m anuscritos. Quase todas as traduções m odernas seguem a leitura que
aparece como texto, m as M offatt prefere a variante: “Como todos negassem , Pedro
e seus com panheiros disseram ...”

8.45 καί άποθλίβουσιν (e [te] apertam ) {B}

É possível que copistas alexandrinos ten h am om itido a frase “e dizes: ‘Q uem


me tocou?’” por razões estilísticas. E ntretanto, o fato de esse texto existir em vários
form atos diferentes aum enta a probabilidade de que seja um acréscim o, e essas di-
ferentes form as seriam tentativas de fazer o texto concordar com o relato paralelo
em Mc 5.31.

8.49 μηκέτι (não m ais/não) {B}

A m aioria dos m anuscritos traz a negação μή, m as um a considerável com bina-


ção de testem unhos tem μηκέτι, que, em todo o Evangelho de Lucas, ocorre apenas
n esta passagem .

9.1 δώδεκα (doze) {B}

Pelo que parece, Lucas adotou a form a prim itiva de fazer referência aos disci-
pulos encontrada em Marcos (6.7), a saber, τούς δώδεκα (os doze), que é a form a
do texto p reservada em representantes bem antigos dos tipos de texto alexandrino
e ocidental. Posteriorm ente, copistas acrescentaram ou substituíram todo o texto
por μαθητάς (discípulos; confira o paralelo em Mt 10.1, onde se lê τούς δώδεκα
μαθητάς [os doze discípulos]), ou, então, acrescentaram αποστόλους (apóstolos),
com ou sem a adição de αυτού (seus). Q uanto à tradução desse texto, veja os comen-
tários sobre Mt 20.17; 26.20.

9.2 ιάαθαι [τούς ασθενείς] (curar [os doentes]) {C}

O fato de o texto m ais breve, sem τούς άσθενεις, aparecer no m anuscrito B e em


sirc s dá considerável peso ao texto m ais breve. As outras form as do texto parecem
expansões criadas por copistas com a finalidade de suprir um objeto para o verbo.
124 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Por outro lado, a evidência da Siríaca Antiga se enfraquece diante da constatação


de que “os enferm os” aparece como o objeto do verbo “c u ra r” ao final do v. 1. Além
disso, em Lucas, o verbo ίάομαι sem pre vem seguido de objeto direto, exceto quando
usado na voz passiva. Diante da falta de consenso, as palavras τούς άσθενεΐς apare-
cem entre colchetes, para m ostrar que não se tem certeza quanto ao texto original.
Q ualquer que seja a leitura aceita como original, a gram ática e o estilo da língua
alvo podem determ in ar que se insira, ou não, um objeto direto para o verbo “c u ra r”.

9.3 [àvà] δύο ([cada um] duas) {C}

A variante textual não tem m aior im portância para a tradução. A leitura com à v á
parece deixar explícito o que está implícito no contexto, a saber, que cada um dos
discípulos não deve levar mais de um a túnica. Sem à v á (cada um), o texto poderia le-
var ao m al-entendido de que os Doze, como grupo, só deveríam ter um a túnica entre
si. Teria Lucas acrescentado à v á ou será que foi obra de copistas posteriores? O utra
possibilidade é que copistas alexandrinos, pressupondo que os leitores entenderíam
corretam ente o texto, om itiram àvá, harm onizando a passagem como os paralelos
em Mt 10.10 e Mc 6.9. Como existem essas diferentes possibilidades, e visto que não
se tem certeza quanto ao texto original, à v á aparece, no texto, entre colchetes.

9.10 εις πόλιν καλουμένην Βηθσαϊδά (para um a cidade cham ada Betsaida) {B}

Aqui, existem m uitas leituras variantes, m as prefere-se o texto alexandrino por-


que as dem ais leituras parecem tentativas de superar as dificuldades decorrentes da
referência a “um lugar d eserto /so litário ”, no v. 12. Em alguns m anuscritos, copistas
acrescen taram a locução εις τόπ ον έρημον (para um lugar deserto), tira d a dos
paralelos em Mt 14.13 e Me 6.32; em outros, essa locução foi colocada em lugar de
πόλιν (cidade). Em alguns m anuscritos, “povoado” tom a o lugar de “cidade”, e em
outros não aparece nem “cidade” nem “povoado”.

9.26 λόγους (palavras) {A}

Veja o com entário sobre Mc 8.38.

9.35 έκλελεγμένος (eleito/escolhido) {B}

O texto original de Lucas é, com certeza, έκλελεγμένος, que, em todo o NT,


ap arece num sentido um tan to quanto técnico apenas aqui. As dem ais leituras,
que trazem form ulações m ais conhecidas, resu lta ram da ação de copistas que
su b stitu íram a p alavra por outras, p ara h a rm o n iza r o texto com outras passa-
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 125

gens dos Evangelhos (εκλεκτός: 23.35; άγαπητός: Mc 9.7; Le 3.22; α γα πη τός εν ώ


ευδόκησα: Mt 17.5).

9.47 είδώ ς (sabendo) {C}

Por m ais difícil que seja decidir com segurança entre είδώ ς (sabendo) e ίδώ ν
(vendo), a leitura είδώ ς tem a seu favor testem unhos tan to do tipo de texto alexan-
drino como do tipo de texto de A ntioquia (veja tam bém o com entário sobre Mt 9.4).
Q uanto ao significado dessa variante para a tradução, veja a discussão a respeito
de Mt 9.4.

9.49 έκωλΰομεν (tentam os proibir) {B}

Parece que o texto original é a form a verbal de im perfeito έκωλΰομεν, que tem
o apoio dos m ais antigos m anuscritos e de valiosos testem unhos alexandrinos. A
form a verbal έκωλΰσαμεν, que é um aoristo e se traduz por “proibim os”, podería ser
original, tendo sido alterada para έκωλΰομεν para h arm onizar o texto com o parale-
lo em Mc 9.38, m as isso é m enos provável. A form a do im perfeito pode ser traduzida
por “tentam os proibir” ou “fizemos várias tentativas de im pedir”.

9.54 αυτούς (os/a eles) {B}

A form a de texto ώς καί Ή λ ία ς έποίησεν (como Elias tam bém fez), bem como as
leituras m ais longas nos vs. 55-56, tiveram um a circulação relativam ente am pla em
certas partes da Igreja antiga. Entretanto, o fato de essa locução e essas frases não apa-
recerem em im portantes testem unhos antigos sugere que se trata de acréscimos feitos
a p artir de algum a fonte desconhecida, que pode tanto ter sido oral como escrita.

9 .5 5 5 6 ‫ ־‬α ΰτοΐς (os/a eles) {A}

Ao final do v. 55, alguns testem unhos acrescentam : “e disse: ‘Vós não sabeis de
que espírito sois’”; e, no início do v. 56, alguns testem unhos dizem : “pois o Filho
do Hom em não veio para d estru ir as alm as dos hom ens, m as p ara salvá-las”. Esses
acréscim os têm ainda m enos apoio de m anuscritos do que o acréscim o ao v. 54 (veja
o com entário ao v. 54). O acréscim o ao v. 56 é um eco de Lc 19.10 (veja Jo 3.17).

9.59 [Κύριε.] ([Senhor,]) {C}

A palavra κύριε não aparece em alguns m anuscritos de peso, e essa leitu ra é


a d o ta d a por REB, ARA, NBJ, TEB, CNBB e Seg. Só que essa om issão é e stra n h a .
126 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

O que teria levado copistas a om itir essa palavra? Por outro lado, tam bém é possível
que a palavra ten h a sido inserida no texto a p a rtir do v. 61 ou, então, do paralelo
em Mt 8.21. E ntretanto, um a vez que κύριε pode ter sido om itido acidentalm ente,
num a época em que κύριε era escrito de form a abreviada (einê Rê eniTpe'fON),
essa palavra foi inserida no texto de O Novo Testamento Grego, só que entre colche-
tes, p a ra indicar que não se tem certeza quanto ao texto original.

9.62 εΐπεν δε [προς αυτόν] ό 'Ιησούς (disse [-lhe/a ele] Jesus) {C}

É difícil decidir que form a de texto é a que m elhor explica o surgim ento das
dem ais. A locução π ρ ο ς αυτόν está faltando em im portantes m anuscritos. O utros a
colocam após ό ,Ιησούς. O m anuscrito D traz ό δε ,Ιησούς είπεν αύτω, que é um a
sim ples inversão da ordem das palavras, e o m anuscrito Δ om ite ό 'Ιησούς. Não se
tem segurança em relação a nenhum a das leituras, m as a que foi escolhida p ara ser
o texto é a m ais satisfatória. Uma vez que alguns im portantes m anuscritos om item
π ρ ο ς αυτόν (lh e/a ele), estas palavras foram colocadas entre colchetes, para indicar
incerteza quanto ao texto original. A única v ariante que tem algum a im portância
p ara trad utores é a que registra a om issão de π ρ ο ς αυτόν. A colocação de π ρ ο ς
αυτόν (lh e/a ele) antes ou depois de ,Ιησούς não altera o sentido do texto. Tam bém
não existe diferença de significado entre προς αύτόν e αύτω.

9.62 έπιβαλώ ν την χεΐρα επ' αροτρον καί βλέπιον εις τά όπίσω
(pondo a m ão no arado e olhando para trás) {C}

A lguns testem unhos têm um a ordem das palavras diferente, a saber, εις τα
όπίσω βλέπω ν καί έπιβαλλώ ν την χεΐρα αύτού επ' αροτρον (para trás olhando
e pondo a m ão dele no arado), m as isto provavelm ente resulta de um descuido de
algum copista. Em todo caso, a ordem das palavras que se encontra na variante não
faz m uito sentido. Im portantes testem unhos não trazem o pronom e αυτού (dele),
em bora este possa ter sido om itido por razões de n atu reza estilística (visto como
desnecessário quando se fala de m em bros do corpo). Usar ou não usar um pronom e
na tradução vai depender das características da língua para a qual se está traduzin-
do, pouco im portando o texto que é aceito como original.

10.1 έβδομήκοντα [δύο] (setenta [e dois]) {C}

Q uantos Jesus escolheu e enviou p ara que fossem adiante dele: setenta ou se-
ten ta e dois? A evidência externa, ou seja, o testem unho dos m anuscritos, está m ais
ou m enos dividida ao meio. De um lado, os principais representantes dos grupos
alex an d rin o e ocidental, bem como a m aior p arte da Antiga Latina e da Siríaca Si-
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 127

naitica, apoiam o num eral “setenta e dois”. De outro lado, outros testem unhos ale-
xandrinos de valor relativam ente expressivo, bem como outros docum entos dignos
de consideração, se unem a favor do núm ero “seten ta”.
Os fatores que são significativos para a avaliação da evidência in tern a (questões
como estilo, ênfase teológica, etc.) são am bíguos. Será que o relato do envio dos
70 ou 72 discípulos tem valor simbólico? Sendo assim , qual dos dois núm eros m ais
bem expressa esse simbolismo? As respostas a essas perg u n tas são quase que ilimi-
tadas, dependendo do que se entende ser o sim bolism o que Jesus e /o u Lucas e/o u
aqueles que tran sm itiram esse relato tin h a m em vista.
Por exem plo, m uitas vezes se pressupõe que o sim bolism o ten h a em vista um a
alusão à fu tu ra proclam ação do evangelho a todos os países do m undo. No entanto,
m esm o neste caso não existe certeza absoluta, pois no texto hebraico de Gn 10 o
núm ero das nações é setenta, ao passo que no grego da Septuaginta o núm ero che-
ga a setenta e dois. Para rep resen tar o equilíbrio entre os dois blocos da evidência
ex tern a e a am biguidade da evidência interna, a palavra δύο (dois) foi colocada
entre colchetes, para indicar incerteza quanto ao texto original. E ntre as traduções
m odernas, algum as têm 70 (RSV, NRSV, ARC, ARA, Seg), outras, 72 (REB, NVI,
NBJ, TEV, NTLH, TEB, BN, FC, CNBB).

10.15 καταβήση (tu [Cafarnaum ] descerás) {C}

E difícil decidir se o verbo deveria ser “descerás” (καταβήση), que tem apoio
m ais sólido de m anuscritos, ou “serás rebaixada” (καταβιβασθήση). Será que copis-
tas substituíram καταβήση por καταβιβασθήση, para d ar m ais ênfase às palavras
de Jesus? Ou será que substituíram um verbo m ais raro (καταβιβάζεσθαι) por um
verbo m ais comum (καταβαίνειν), fazendo assim com que as palavras de Jesus se
aproxim assem mais de Is 14.15, conform e o texto da Septuaginta, que é o pano de
fundo daquilo que Jesus disse? A leitura no texto é preferida, porque tem o apoio de
m anuscritos antigos dos tipos de texto alexandrino e ocidental. Q ualquer que seja a
leitura adotada, em m uitas línguas talvez a m elhor opção seja usar a voz ativa, tendo
Deus como sujeito: “Deus te rebaixará” (veja tam bém o com entário sobre Mt 11.23).

10.17 [δύο] ([dois]) {C}

Veja o com entário sobre o v. 1.

10.21 [έν] τω πνεύματι τφ ά γίφ ([no] Espírito Santo) {C}

O fato de “exultou no Espirito Santo” ser um a expressão e stra n h a (que não tem
paralelo em n en h u m a ou tra passagem das Escrituras) pode te r levado à om issão de
128 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

τώ ά γίω em alguns testem unhos. As palavras ό ,Ιησούς (Jesus) são um acréscim o


posterior, pois não aparecem nos testem unhos m ais antigos e, quando aparecem ,
não se en co ntram sem pre na m esm a posição d en tro do texto. Visto que, na Sep-
tu ag in ta, não raras vezes o verbo άγα λλιά αθα ι (exultar) vem acom panhado de
preposição (έν ou επί), έν foi m antido no texto, m as en tre colchetes, pois m uitos
dos bons m anuscritos om item a preposição. Na hora de traduzir, a presença ou a
ausência da preposição grega não fará diferença nenhum a.
A leitu ra [εν] τω π νεύ μ α τι pode ser in te rp re ta d a de duas m aneiras: (1) no
Espirito (Santo); ou (2) em (seu próprio) espírito, isto é, em seu interior. E xultar
“no E spírito Santo” significa que o Espírito é “a fonte e a inspiração da alegria e do
louvor que Jesus dirige ao P ai” (Fitzm yer, The Gospel According to Luke X —XXIV,
p. 871).

10.22 πά ντα (todas as coisas/tudo) {A}

No início do v. 22, m uitos testem unhos acrescentam καί στραφ είς π ρ ος τούς
μαθητάς είπεν (e, voltando-se para os discípulos, disse). Esse texto é, com certeza,
um acréscim o posterior, feito por copistas a p a rtir do v. 23, com o objetivo de criar
um a transição entre a oração de Jesus (v. 21) e as palavras dirigidas aos discípulos
(v. 22). Lucas não costum a rep etir palavras ou locuções, como acontece na leitura
variante.
Segundo a leitura aceita como texto, o v. 22 faz p arte da oração que Jesus dirige
ao Pai. Mas, porque se dirige a Deus na terceira pessoa, um a tradução literal pode
causar confusão em algum as línguas. Por m ais que as palavras do v. 22 façam p arte
da oração de Jesus, a intenção dele era que os discípulos ouvissem o que ele estava
dizendo.

10.38 αυτόν (o/a ele) {B}

P raticam en te todos os testem u n h o s traz em a locução “na casa d ela” depois


do pronom e αυτόν. Agora, se essa locução tivesse estado o rig in alm en te no texto,
não h á um m otivo claro que p o d ería te r levado copistas a om iti-la. Por outro lado,
d izer p u ra e sim plesm ente que ela “o receb eu ” (ύπεδέξατο αυτόν) é o tipo de afir-
m ação que parece clam ar por u m a com plem entação apropriada. Foi e x atam en te
isso que os copistas fizeram , algu ns a crescen tan d o οικία ν (casa), outros acrescen-
ta n d o οίκον (casa), algum as vezes com o pronom e αυτής (dela) ou έαυτής (dela
p rópria), o u tras vezes sem pronom e n enhum . Não há dúvida de que a v aria n te
te x tu a l “n a casa d e la ” expressa o que está im plícito na afirm ação de que “ela o
re c e b e u /h o sp e d o u ”, e o tra d u to r do texto pode m uito bem o p ta r por explicitar
isso tam bém .
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 129

10 .4 1 4 2 ‫ ־‬μεριμνάς και θορυβάζη περί πολλά, ενός δε έστιν χρεία


(te preocupas e estás inquieta a respeito de m uitas coisas,
m as apenas um a é necessária) {C}

Parece que o verbo θορυβάζεσθαι (inquietar-se), que no NT ocorre som ente nes-
ta passagem , deixou m uitos copistas inquietos, levando-os a colocar em seu lugar
o verbo τυρβάζειν, que é de uso m ais frequente na língua grega. Visto tratar-se de
sinônim os, essa variante em nada altera a tradução do texto. Parece que a m aioria
das dem ais variantes resultou do fato de se in te rp retar ενός (apenas urna) como
urna simples referência aos vários tipos de com ida que M arta estava p reparand o
para aquela refeição, em vez de tom ar essa palavra num sentido espiritual. Alguns
colocaram ολίγω ν (poucas coisas, isto é, poucos pratos) em lugar de ενός, abran-
dando o tom categórico desse “apenas u m a ”. Por fim, em alguns testem unhos que
de m odo geral têm excelente qualidade, as duas leituras foram com binadas, resul-
tan do a form ulação “poucas coisas são necessárias ou m esm o um a coisa só”, cujo
sentido não está bem claro. A om issão das duas locuções em alguns testem unhos
provavelm ente representa um esforço deliberado de te n ta r en ten d er um texto com-
plicado. A m aioria das traduções m odernas segue a leitura que aparece como texto
em O Novo Testamento Grego, m as a NBJ diz “no entanto, pouca coisa é necessária,
até m esm o um a só”. ARA tem um texto sem elhante.

11.2 πάτερ (pai) {A}

No culto da Igreja Antiga, a form ulação do Pai-Nosso que m ais se usava era a
que se encon tra em M ateus. D iante disso, causa surpresa que um a tão g rande va-
riedade de testem unhos antigos ten h a conseguido resistir ao que deve ter sido um a
ten tação m uitíssim o forte, ou seja, a ltera r o texto de Lucas p ara aproxim á-lo da
form a m uito m ais conhecida que se encontra em M ateus. Levando em conta essa
tentação, não surpreende que a grande m aioria dos testem unhos ten h a o texto
como segue, que é idêntico a Mt 6.9: Πάτερ ημών ό εν τοΐς ο ύ ρ α νο ΐς (Pai nosso
[que estás] nos céus).

11.2 έλθέτοο ή βασιλεία σου (venha ο reino teu) {A}

No Pai-N osso em Lucas, a v a ria n te te x tu a l m ais in te re ssa n te é a p etição “ve-


n h a sobre nós o teu E spírito Santo e nos p u rifiq u e ”, p re se rv a d a de form a subs-
ta n c ia lm e n te id ên tica em dois m an u scrito s cursivos ou m in ú scu lo s (m an u scrito
700, do século onze, e m an u scrito 162, d a ta d o de 1153 d.C.). O fato de essa
petição ser citad a em textos de G regorio de Nissa, na C apadócia, e M áxim o-
-C onfessor m o stra que a m esm a le itu ra a p arec ia em cópias do E vangelho de
130 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Lucas co n h ecid as e u sad as nos séculos q u a tro e cinco de nossa era. G regário, em
um de seus serm ões sobre o Pai-N osso, diz e x p re ssam en te que, em lu g ar da pe-
tição rela tiv a à v in d a do reino, Lucas tem έλθέτω τό ά γ ιο ν π νεύ μ α σου έφ' ήμάς
και κ α θα ρ ισ ά τω ημάς (venha ο teu E spírito Santo sobre nós e nos p urifique).
M áxim o c o n firm a esse te ste m u n h o de G regorio. Ao co m e n ta r Mt 6.10, M áxim o
o b serv a que aquilo que M ateus d esig n a de “re in o ” o u tro ev an g e lista ch am a de
“E spirito S a n to ”. P ara com provar isso, M áxim o cita (talvez a p a rtir de G regorio)
as p a la v ras έλθέτευ σου τό π νεύ μ α τό ά γιο ν και κα θα ρ ισ ά τω ημάς (venha ο teu
E spírito Santo e nos p urifique).
T ertu lian o é quem p reserv a o m ais antigo vestígio de um a petição dessas.
Num rápido co m entário sobre cinco das petições do Pai-Nosso que se en co n tram
em Lucas (não se sabe ao certo se à base de seu próprio texto, à base do texto de
M arcião, ou ain d a de am bos), T ertuliano coloca im ed iatam en te após a invocação
do Pai um pedido pelo Espírito Santo, seguido pela petição que tra ta do reino de
Deus. Isto indica que num antigo texto ocidental (de M arcião e /o u de T ertuliano)
deve te r constado a leitu ra citada por G regário (ou, pelo m enos, a p rim eira par-
te desse texto), m as que a m esm a estava no lugar de ά γιασθήτω το ονομά σου
(santificado seja o teu nom e). Por fim, há quem e n ten d a que o Códice de Beza (D)
p reserv a um a p a rte do pedido pelo E spírito, pois nesse m anuscrito, após o pedido
ά γιασθήτω ονομά σου (síc) (santificado seja teu nom e), aparecem as p alavras έφ’
ημάς έλθέτω σου ή βασιλεία (sobre nós venha o teu reino).
Como se deveria a v alia r esse testem u n h o ? A ntes de tudo, não há com o afir-
m ar com certeza que a locução έφ' ήμάς (sobre nós), que aparece no Códice de
Beza, deva ser to m ad a como indício de u m a petição m ais a n tig a relacio n ad a
com o E spírito Santo. O rar p a ra que o nom e de Deus seja san tificad o “sobre n ó s”
condiz p e rfe ita m e n te com referências, no AT, a fazer com que o nom e de Deus
“hab ite a li” (por exem plo, Dt 12.11; 14.23; 16.6,11, onde a S ep tu ag in ta trad u z
po r “p a ra que o m eu nom e seja invocado a li”). Além disso, a evidência de T ertu-
lian o deriva de um tra ta d o que ele escreveu quan d o já era m em bro da seita m on-
ta n ista , o que o lev aria a ter um in teresse todo especial em textos relacionado s
com o E spírito Santo. N um a explicação a n te rio r do Pai-Nosso, que ele fez antes
de se to rn a r m o n ta ñ ista, T ertuliano não dá m ostras de que conhecia um a petição
sem elh an te a essa.
Tudo indica, pois, que a leitu ra v ariante é um a adaptação litúrgica da form a
original do Pai-Nosso, usada talvez por ocasião do rito do batism o ou da imposi-
ção de mãos. A vinda purificadora do Espírito Santo é um conceito cristão e ecle-
siástico tão característico que, se originalm ente tivesse feito p arte do Pai-Nosso,
não h á como explicar porque, na esm agadora m aioria dos testem unhos, teria sido
substituído pela petição “venha o teu reino”, que em sua origem é um conceito reli-
gioso de características bem m ais judaicas.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 131

11.2 ή βασιλεία σου (ο reino teu) {A}

Após o pronom e σου (teu), a grande m aioria dos testem unhos insere γενηθήτω
το θέλημά σου, ώς εν ούρανω και επί τής γης (seja feita a tu a vontade, como no
céu tam bém sobre a terra), um texto extraído de Mt 6.10. Se originalm ente o texto
de Lucas contivesse essas palavras, fica difícil e n co n trar um a boa razão que teria
levado copistas a om iti-las nos vários testem unhos citados no aparato crítico.

11.4 πειρα σμ όν (tentação/provação) {A}

Uma variedade de excelentes testem unhos, citados no aparato crítico, resistiu à


tentação de h arm o n izar o texto de Lucas com a versão m ais popular do Pai-Nosso,
que se encontra em M ateus (Mt 6.13).

11.10 άνοιγ[ήσ]εται (será aberto) {C}

Não é fácil optar entre o futuro άνοιγήσεται (será aberto) e o presente άνοίγεται
(é aberto). De um lado, a form a do futuro pode ter surgido quando copistas a co-
locaram em lugar do presente, para fazer o texto concordar com o verbo futuro
άνοιγήσεται que aparece no final do v. 9. De outro lado, o presente pode ser re-
sultado de um a m odificação do tem po futuro, para fazer o texto concordar com
os verbos no tem po presente que aparecem no início do v. 10. Para expressar o
equilíbrio que existe entre essas probabilidades, as letras ησ aparecem , no texto,
entre colchetes. Q ualquer que seja a decisão textual, os trad u to res devem se d ar
conta de que “as form as do presente têm todas um sentido fu tu rista ” (Nolland,
Luke 9:21— 18:34, p. 628, n. c) e deveríam u sar form as verbais que expressam o
sentido futuro implícito de um a form a que soe n a tu ra l na língua alvo. Note-se, por
exemplo, que a TEV traduz os três verbos do v. 10 por form as do futuro: “receberá
... ach ará ... será a b erto ”.

1 1 .1 1 ίχθυν (um peixe) {B}

É difícil d eterm in ar se, a exem plo de Mt 7.9, o texto de Lucas tin h a originalm en-
te dois pares de term os (peixe/cobra e ovo/escorpião), sendo que um terceiro par
foi acrescentado a p a rtir de M ateus (pão/pedra); ou se Lucas trazia, originalm ente,
os três pares, sendo que um escriba, acidentalm ente, ten h a om itido as palavras
“pão, lhe d ará um a pedra; ou tam b ém ”. O texto m ais breve é apoiado por bons ma-
nuscritos gregos, bem como por versões antigas e pelo testem unho de vários Pais
da Igreja. A leitura m ais longa, que aparece em Seg, parece ter sido criada quando,
a p a rtir do relato paralelo em M ateus, se acrescentou a referência a pão e pedra.
132 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

1 1 .1 1 καί ά ντί ιχθύος (e em lugar de peixe) {C}

A v arian te tex tu al não tem m aior im portância para a tradução, pois traduto res
deveríam usar um a form ulação clara e n a tu ra l na língua para a qual estão tradu-
zindo. A leitura καί (e) preserva um a form a de expressão sem ítica que a m aioria
dos copistas substituiu pela negação μή, que é a partícula interrogativa grega que
n orm alm ente se usa para fazer um a p erg u n ta que espera um a resposta negativa
(veja tam bém a nota seguinte).

11.12 έπιδώ σει (dará) {C}

A variante tex tu al não tem m aior im portância p ara a tradução, pois, a exem plo
do que foi dito na nota anterior, tradutores deveríam usar um a form ulação clara e
n a tu ra l na língua alvo, independentem ente do texto que se esteja seguindo. E fácil
perceber que a m aioria dos copistas inseriu a p artícu la μή (veja os com entários
sobre o v. 11) com o objetivo de a le rta r o leitor p ara o fato de que as palavras que
seguem devem ser entendidas como um a pergunta.

11.13 ό πατήρ [ó] έξ ουρανού (o Pai [o] do céu) {C}

Tendo em v ista o p a ra lelo em Mt 7.11, ό π α τή ρ υ μ ώ ν ό εν το ΐς ο ύ ρ α ν ο ΐς


δώ σ ει (vosso Pai que e stá nos céus d a rá ), fica fácil e x p licar o su rg im en to das
le itu ra s v a ria n te s ό π α τή ρ υ μ ώ ν ό έξ ο ύ ρ α νο υ (vosso Pai que é do céu) e o
π α τή ρ υ μ ώ ν ό ο υ ρ ά ν ιο ς (vosso Pai celeste). É m uito m ais difícil d ecid ir e n tre
εξ ο υ ρ α νο ύ (o Pai d a rá do céu o E spírito Santo aos que lhe p ed irem ) e ό έξ
ο υ ρ α νο ύ , que p a rece ser u m a c o n stru çã o de sen tid o eq u iv alen te a ό έν ο ύ ρ α ν ώ
έξ ο υ ρ α νο ύ (que e stá no céu do céu). Existe g ran d e eq u ilíb rio no que diz res-
p eito à ev id ên cia e x te rn a , e a a rg u m e n ta ç ã o b a se a d a n a evid ên cia in te rn a não
ch eg a a ser convincente. Assim sendo, o a rtig o ό a p arece, no texto, e n tre col-
ch etes, p a ra in¿dicar in ce rte za q u a n to à sua o rig in a lid a d e. Em a lg u m as lín g u as,
será n e ce ssá rio u tiliz a r um pronom e possessivo, por m ais que o tex to grego diga
a p en a s “o P ai”.

11.13 πνεύμ α ά γιον (Espírito Santo) {B}

A le itu ra π ν εύ μ α ά γ ιο ν tem excelente apoio de m an u scrito s, e o su rg im en to


das v a ria n te s “bom E sp írito ”, “b o a d á d iv a ” e “boas d á d iv a s” pode ser explica-
do com o altera çõ e s feitas p a ra que o tex to concordasse com a p a la v ra ά γα θά
(boas), que ap arece no com eço d este versículo, bem com o com a p a la v ra ά γα θά
em Mt 7.11.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 133

11.13 Segmentação

Veja os com entários sobre Mt 7.11.

11.14 [m i αυτό ήν] ([e este era]) {C}

De um lado, a frase m i αυτό ήν κοχρόν (e este era mudo) dá a im pressão de ser


um a expressão sem ítica no estilo de Lucas. De outro lado, é considerável o testem u-
nho da evidência externa que apoia o texto mais breve. Para refletir o conflito entre
esses dois tipos de considerações, as palavras και αυτό ήν foram colocadas entre col-
chetes. Além das decisões de n atu reza crítico-textual, tradutores terão que em pre-
gar um estilo que seja n atu ral na língua para a qual estão traduzindo. Confira, por
exemplo, ARA: “De outra feita, estava Jesus expelindo um dem ônio que era m udo”.

11.23 σκορπίζει (espalha) {A}

O acréscim o do pronom e acusativo με (me), que indica o objeto direto, resulta


num a leitura tão difícil que praticam ente não faz sentido. Tem tudo para ser um
erro com etido por um copista.

11.24 [τότε] λέγει ([então] diz) {C}

A evidência externa favorece a leitura m ais longa, que aparece no texto. Entre-
tanto, tam bém é possível que um copista ten h a acrescentado o advérbio τότε, se-
guindo o texto paralelo em Mt 12.44. Urna vez que existe conflito en tre a evidência
in tern a e a evidência externa, o advérbio aparece, no texto, entre colchetes, p ara
indicar que não se tem certeza quanto ao texto original. Ao se trad u z ir o texto, tal-
vez se ten h a que usar um advérbio ou inserir um a palavra como “en tão ”, na língua
receptora, para que o texto ten h a m aior n aturalidade.

11.25 σεσαρω μένον (varrida) {Β}

Não há dúvida de que a form a original desse relato é aquela que aparece no texto
de O Novo Testamento Grego. Muitos copistas não conseguiram resistir à tentação de
h arm onizar o texto com o paralelo em Mt 12.44 e introduziram a palavra σχολάζοντα
(vazia/desocupada) antes ou depois de σεσαρωμένον, com ou sem καί (e).

11.33 [ούδέ νπό τον μόόιον] ([nem debaixo de um cesto]) {C}

Visto que Lucas preferiu não usar μόόιον (cesto) em 8.16, palavra esta que apa-
rece no paralelo em Marcos (e Mateus), é bem possível que essa palavra, ju n tam en te
134 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

com a locução como um todo, não fazia p arte da form a original desta passagem . De
outro lado, um a vez que essa locução aparece em im portantes e variados testem u-
nhos, foi incluída no texto, só que entre colchetes, para indicar incerteza quando ao
texto original. NRSV, REB, e TEB ad otaram o texto mais breve.

11.42 ταΰτα δέ εδει ποιήσαι κάκεΐνα μή πάρει ναι (mas estas coisas era necessá-
rio fazer e aquelas não deixar de lado) {B}

Para M arcião (veja os com entários sobre 5.39), essas palavras eram totalm en te
inaceitáveis, levando-o a om iti-las de sua edição do Evangelho de Lucas. Sua ausên-
cia do Códice de Beza (D) pode ser resultado de um lapso da p arte do copista ou,
m ais provavelm ente, se deve à influência da form a m arcionita desse texto.

11.48 οίκοδομεΐτε (edificáis) {C}

Uma vez que o verbo οίκοδομεΐν (edificar) norm alm ente requer um objeto direto,
a m aioria dos copistas acrescentou um objeto direto adequado a p artir do v. 47, algo
como “tú m u lo s” ou “m onum entos”. Mesmo sem e n tra r na questão crítico-textual, é
possível que, por razões de gram ática ou estilo, trad u to res ten h am que inserir um
objeto direto na língua receptora. A m aioria das traduções acrescenta o objeto dire-
to “os tú m u lo s” (RSV, NRSV, ARA, NVI, TEV, NTLH, CNBB, TEB, FC) ou, ainda, “os
m onum entos” (REB), m as não fica claro se isto se deve ao fato de terem optado pela
v arian te ou se é um a decisão ditada por considerações gram aticais e estilísticas da
língua receptora.

12.1 S e g m e n ta ç ã o

Caso se fizer um corte ou um a pausa depois de πρώ τον, como acontece no texto,
o sentido será: “Passou Jesus a dizer, antes de tudo, aos seus discípulos: Acautelai-
-vos” (ARA). Caso, porém , se fizer um a pausa antes de πρώ τον, o sentido passa a
ser: “Ele começou a dizer a seus discípulos: Em prim eiro lugar, acautelai-vos” (NBJ,
n o ta de rodapé).

12.14 κριτήν ή μεριατήν (juiz ou p a rtid o r/re p artid o r) {B}

A leitura que aparece como texto tem sólido apoio de m anuscritos e é a que me-
lhor explica o surgim ento das variantes, pelos seguintes motivos: (1) O substantivo
μεριατήν é um a palavra rara que ocorre som ente aqui em toda a Bíblia grega. (2) Co-
pistas teriam alterado o texto por influência de Êx 2.14, onde se lê: τις σε κατέστησεν
αρχοντα καί δικαστήν; (quem te pôs por governante e juiz?). (3) O segundo term o
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 135

teria sido om itido, ou acidentalm ente (por causa de final sem elhante ao da palavra
anterior), ou de propósito (por ser visto como inadequado p ara se falar sobre Cristo).

12.21 inclusão do versículo {A}

O fato de o v. 21 não aparecer no m anuscrito D e em alguns m anuscritos da An-


tiga Latina deve ser interp retad o como um acidente, pois a evidência ex tern a que
favorece a inclusão do versículo tem um peso considerável. Além disso, é pouco pro-
vável que um escritor cuidadoso como Lucas passaria diretam en te do verbo εΐπεν
no v. 20, que tem como sujeito Deus, ao verbo είπεν no v. 22, cujo sujeito é Jesus.
Ao final do versículo, diversos m anuscritos copiados em d ata m ais recente in-
cluem a conhecida frase ταϋτα λέγων έφώνει, Ό ε /ω ν cora άκούειν άκουέτω (di-
zendo isto, clamou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça), que talvez ten h a sido
tira d a de Lc 8.8 ou Mt 11.15.

12.22 μαθητάς [αυτόν] (discípulos [dele]) {C}

O uso do pronom e αυτού com bina com o estilo de Lucas. A evidência ex tern a
é im pressionante em seu apoio à presença do pronom e no texto. No entanto, visto
esse pronom e não constar em vários im portantes m anuscritos antigos, ele foi co-
locado no texto, entre colchetes, para indicar que não se tem certeza quanto à sua
originalidade. Em algum as línguas será necessário incluir o pronom e por razões
de gram ática ou estilo, m esm o que por razões de crítica tex tu al se en ten d a que o
m esm o não faz p arte do texto original.

12.27 αυξάνει· ον κοπιά ουδέ νήθει (crescem; não trab alh am nem fiam) {B}

A v arian te textual ούτε νήθει ούτε υφαίνει (não fiam nem tecem ) é apoiada por
testem unhos ocidentais. Trata-se de um retoque estilístico que copistas fizeram em
função da referência que, na sequência do texto, se faz às vestes de Salom ão (veja
tam bém os com entários sobre Mt 6.28). REB, NBJ, ARA e TEB trad u zem a varian te
textual.

12.31 την βασιλείαν αυτόν (o reino dele) {B}

E m ais provável que του θεού (de Deus) tenho sido colocado em lugar do prono-
me αυτού (dele/seu) do que im aginar o processo inverso. A leitura τού θεού καί την
δικαιοσύνην αύτού (de Deus e a sua justiça) é um acréscim o que vem da passagem
p aralela em Mt 6.33. O pronom e não aparece em ^75‫ נ‬, m as isto condiz com a tendên-
cia de om itir pronom es pessoais, que é um a característica do copista desse papiro.
136 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

12.39 οΰκ (não) {B}

Parece que, originalm ente, o texto de Lucas não tin h a as palavras έγρηγόρησεν
αν καί (teria vigiado e). É quase certo que copistas tro cariam o texto m ais breve
pelo texto m ais longo que se encontra no paralelo em Mt 24.43, ao passo que, se o
texto m ais longo fosse original, fica difícil en co n trar um bom m otivo que teria leva-
do copistas a o p tar por sua om issão. O texto m ais longo aparece em Seg.

12.56 π ώ ς οΰκ οϊδατε δοκιμάζειν (como não sabeis interpretar) {B}

Em bora seja possível que copistas ten h am acrescentado o verbo οιδατε (sabeis),
assim ilando o texto ao que aparece na prim eira m etade do versículo, é m ais prová-
vel que om itiram o verbo para d ar m ais ênfase à condenação proferida por Jesus.
“Por que não sabeis [οϊδατε] in te rp retar ...? ” é um a p erg u n ta que dá a enten d er que
o problem a é falta de conhecim ento. “Por que não interpretais ...? ” é um a p erg u n ta
que dá a en ten d er que o problem a é falta de vontade ou disposição de u sar o conhe-
cim ento que se tem .

13.7 εκκοψον [οΰν] αυτήν (corta [pois] a m esm a) {C}

Q uanto à evidência e x te rn a, existe eq u ilíb rio e n tre os teste m u n h o s que


apoiam a inclusão de οΰν (pois) e os teste m u n h o s que não favorecem essa in-
clusão. Além disso, não h á a rg u m e n to s convincentes que indiquem o que Lucas
ou um copista p o ste rio r te ria escrito, neste caso. Por essas razões, οΰ ν ap arece,
no texto, e n tre colchetes, p a ra in d icar que não se tem certez a q u an to à form a do
tex to orig in al.

13.9 εις τό μ έλ λ ο ν εί δέ μή γε (no próxim o ano; se não /d o contrário) {B}

A leitu ra que ap arece como texto é a m ais difícil, pois o p en sam en to é inter-
rom pido no m eio da frase e não chega a ser concluído. Ou seja, aE se vier a d a r
fru to no próxim o ano (εις τό μέλλον), nesse caso, m uito bem; se não, c o rta-a‫״‬. Na
m aio ria dos testem u n h o s, houve um a te n tativ a de m elh o rar o estilo, altera n d o
a ordem das p alav ras p a ra εί δέ μή γε, εις τό μέλλον (se não, no ano que vem
p o d erás cortá-la).

13.19 δένδρον (árvore) {B}

E m bora exista a possibilidade de que copistas ten h am om itido o adjetivo μέγα


(grande) p ara h arm o n izar o texto de Lucas com o paralelo em Mt 13.32, é m uito
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 137

m ais provável que μέγα ten h a sido acrescentado (assim como foi, tam bém , acres-
centado em alguns testem unhos no texto paralelo em M ateus), p ara intensificar o
contraste en tre o grão de m ostarda e a árvore.

13.27 έρεΐ λέγεον ύμιν (ele dirá, dizendo a vós) {C}

A leitura aceita como texto não tem grande apoio de m anuscritos, m as pare-
ce ser a que m elhor explica o surgim ento das outras leituras. O uso do participio
λέγων (dizendo) fica esquisito em grego, e provavelm ente rep resen ta a construção
hebraica do infinitivo absoluto: “ele certamente dirá a vós”. Por ser um a form ulação
estran h a, alguns copistas tro caram o participio pelo indicativo λέγω (“ele dirá a
vós: Digo ...”), outros om itiram -no porque entenderam que não era necessário.

13.27 o vk olôa [υμάς] πόθεν έστέ (não conheço [a vós] de onde sois) {C}

A leitu ra ουδέποτε ειδον υμάς (nunca vos vi), que aparece no m anuscrito D, sur-
giu por influência do paralelo em M ateus (ουδέποτε έγνω ν υμάς, 7.23). A ausência
de πόθεν έστέ em vários m anuscritos cursivos parece ser fruto de um equívoco da
p arte de copistas, que foram traídos pela sem elhança entre o final dessa locução e
a palavra seguinte, άπόστητε. Tanto a evidência ex tern a quanto a evidência in tern a
estão divididas, ou seja, existe um equilíbrio en tre fatores que apoiam a inclusão do
pronom e υμάς e fatores que depõem contra essa inclusão. Em vista disso, o prono-
me foi incluído no texto, só que entre colchetes, p ara indicar que não se tem certeza
quanto à form a do texto original.

13.34 Segmentação

Veja os com entários sobre Mt 23.37.

13.35 ò οίκος υμών (a vossa casa) {B}

A lguns testem unhos acrescentam έρημος (deserta/ab an d o n ad a), pois copistas


tra ta ra m de h arm o n izar o texto com Jr 22.5 ou com o texto que se encontra na
m aioria dos m anuscritos de Mt 23.38. A leitura m ais breve, adotada como texto,
tem sólido apoio de m anuscritos.

13.35 έως [ήςει οτε] εϊπητε (até que [virá quando] direis) {C}

As v a ria n te s têm pouca ou n e n h u m a im p o rtâ n c ia p a ra a tra d u ç ã o , pois re-


fletem d iferen ças de g ra m á tic a e estilo que não a fe tam o significado. O uso do
138 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

subjuntivo depois de ότε, com o oco rre no texto, é fenôm eno raro. Isso deve ter
levado cop istas a a lte ra r o tex to, h a rm o n iz a n d o ‫־‬o com o p a ra lelo em M ateus
(έω ς αν εϊπητε, 23.39). A NRSV e a NTLH tra d u z e m o texto: “E eu afirm o que
vocês não me verão m ais, até ch eg ar o tem po em que d irã o ”. ARA, pelo que pa-
rece, tra d u z a v a ria n te : “E em verd ad e vos digo que não m ais me vereis até que
v en h ais a d iz e r”. No e n ta n to , o significado das duas form ulações é p ratica m en te
o m esm o.

14.5 υιός η (3ους (um filho ou um boi) {B}

A leitura m ais antiga preservada nos m anuscritos parece ser m esm o υ ιός ή
βοΰς. Uma vez que ficava esquisito dizer-se “um filho ou um boi”, copistas teriam
trocado υ ιό ς por όνος (um jum ento; veja 13.15) ou por πρόβατου (um a ovelha; veja
Mt 12.11). Vários testem unhos com binam as três palavras: um jum ento, um filho
ou um boi.

14.17 έτοιμα έστιν (está preparado) {C}

No paralelo em Mt 22.4 consta πά ντα έτοιμα (tudo [está] preparado), o que


levou m uitos copistas a inserir o adjetivo πά ντα (tudo) depois do verbo έστίν (está)
ou, então, antes de έτοιμα (preparado). Alguns m anuscritos têm a form a plural
είσίν (estão), m as o peso dos m anuscritos favorece a form a do singular, έστίν.

15.1 πά ντες (todos) {A}

Lucas gosta de u sar a palavra πά ντες (veja os com entários sobre Lc 7.35). Por
isso, a falta dessa palavra em vários testem unhos pode ser decorrente de um erro
involuntário. O utra possibilidade é que copistas intencionalm ente ten h am om itido
o term o, por não se sentirem à vontade com a hipérbole, ou seja, que todos os cobra-
dores de im postos e pecadores estavam se aproxim ando de Jesus.

15.16 χορτασθήναι έκ (fartar-se de/saciar-se com) {B}

Levando-se em conta a antiguidade e a diversidade dos tipos de texto represen-


tados pelos testem unhos que apoiam o texto, prefere-se a leitura χορτασθήναι έκ
em detrim ento da leitura γεμίσαι την κοιλίαν αύτου α πό (encher ο seu estôm ago
com). Várias traduções dão a im pressão de que o p taram pela varian te (por exem-
pio, REB, NVI, TEB). No entanto, existe pouca diferença de sentido, se é que existe,
en tre “saciar-se com as alfarro b as” (NRSV) e “encher o seu estôm ago com as alfar-
ro b as” (NRSV, nota).
0 EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 139

15.21 υιός σου (teu filho) {A}

Uma com binação de vários m anuscritos de boa qualidade apoia a inclusão


da frase ποίησ όν με ώ ς ένα τω ν μ ισ θίω ν σου (trata-m e como um dos teus tra-
b alhadores). Existe a possibilidade de que essas p alavras sejam originais, tend o
sido om itidas, d u ran te o processo de cópia, por acidente ou, então, de m an e ira
intencional. No en tan to , é m ais provável que copistas te n h a m inserido essa frase
no texto por in fluência do v. 19.

16.8 S e g m e n ta ç ã o

A p alav ra ότι pode ser in te rp re ta d a como um indicador de discurso indireto.


Ou seja, o sen hor elogiou o a d m in istrad o r desonesto (dizendo) que o adm inis-
tra d o r agiu com esperteza. E n tretan to , ότι pode tam b ém ser tom ado em sentido
causai, isto é, o senhor elogiou o a d m in istrad o r desonesto porque o a d m in istrad o r
tin h a agido com esperteza.

16.12 ύμέτερον (vosso) {A}

A v a ria n te ήμέτερον (nosso) tem todo o jeito de ser um re fin a m e n to teológi-


co p o ste rio r (= “p e rte n c e n te ao Pai e ao F ilho”) que ex p ressa a origem d iv in a
das riq u ezas v e rd a d e ira s (v. 11). P arece que a le itu ra m a rc io n ita έμόν (m eu)
tam b ém refle te essa p e rsp ec tiv a teológica. É m ais provável, to d av ia, que co-
p istas, a cid en talm en te , te n h a m escrito ήμετερον em lu g ar de ύμέτερον, pois
no grego m ais recen te as vogais υ e η p a ssa ra m a te r a m esm a p ro n ú n cia. O
con tex to favorece a le itu ra ύμέτερον, pois a a n títe se c o rre ta p a ra “dos o u tro s”
(ά λλοτρίω ) é “v osso”.

16.21 τω ν πιπτόντιυ ν (das que caíam ) {B}

Esta v arian te não tem m aior im portância p ara a tradução. A locução τω ν


ψ ιχίω ν (as m igalhas) foi acrescentad a por copistas a p a rtir de Mt 15.27. Não está
claro se traduções como “das m igalhas que caíam da m esa do rico” (ARA) e “as
m igalhas que caíam da sua m esa” (BN) se baseiam na v arian te ou se são, simples-
m ente, ten tativas de expressar em bom po rtu g u ês o significado de τω ν π ιπ τό ντω ν.

16.21 πλουσίου (do rico) {A}

Alguns testem unhos acrescentam as palavras και ούδεις έόίόου α ύ τφ (e nin-


guém lhe dava [nada]). Copistas inseriram esse texto por influência de Lc 15.16.
140 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

16.23 καί έν τφ αδη (e no Hades) {A}

A v arian te não tem m aior im portância p ara a tradução do texto, pois o sentido é,
essencialm ente, o m esmo. Vários testem unhos, em especial representantes do tipo
de texto ocidental, não trazem ο καί e, assim, conectam a locução preposicional έν
τω αδτ] diretam ente com o verbo έτάφη (foi sepultado), no v. 22. A evidência ma-
nuscrita favorável à inclusão de καί é b astan te significativa. Além disso, Lucas, em
geral, evita construções assindéticas (a junção de duas orações sem o uso de um a
conjunção como “e”).

17.3 εάν άμάρτη ό άδελφός σου (se teu irm ão pecar) {A}

Para fazer o texto concordar com o v. 4 (veja um a passagem sem elhante a esta
em Mt 18.15), em vários testem unhos foi acrescentada a locução εις σε (contra ti).
Neste caso, o texto m ais breve é quase com certeza original, pois é apoiado pelos
m elhores m anuscritos. No entanto, o texto m ais longo, traduzido em ARA e TEB,
provavelm ente esclarece o sentido que se tem em vista.

17.7 Segmentação

Caso se fizer um corte ou um a pausa antes de Ευθέως (im ediatam ente/logo), o


sentido será este: “Q ual de vós dirá ao seu servo ... Vem logo e senta-te à m esa?”
Mas, se o corte for feito depois de Ευθέως, como no textus receptus (texto recebido),
o sentido passa a ser: “Q ual de vós que tem um servo aran d o o cam po ou cuidan-
do do gado, quando este voltar do cam po, lhe dirá logo (ευθέως): Vai e senta-te à
m esa?”

17.9 τα δια τα χθέντα (as coisas ordenadas) {B}

Não há razão plausível que explique por que αύτω (a ele) ou, então, ού δοκώ
(acho que não) te riam sido om itidos, caso tivessem o rig in a lm e n te constado do
tex to orig in al. A re sp o sta ού δοκώ tem tu d o p a ra ser um co m en tário que um co-
p ista an o to u à m argem de um m an u scrito , e que acabou sendo in serid o no texto
o cid en tal. Q uanto ao αύτω , m uitos copistas com c erteza se v iram inclinad os a
inseri-lo no texto, pois τά δ ια τα χθ έν τα p arece exigir um objeto se m elh an te a
esse. L iteralm ente, o tex to grego diz: “porque fez as coisas o rd e n a d a s”. No en-
tan to , trad u ç õ es com o “porque obedeceu às suas o rd e n s” (NTLH) e “por te r feito
o que lhe fora m a n d a d o ” (NBJ) são, ao que tu d o indica, trad u çõ es que levam em
co nta a form a n a tu ra l de d izer isso em p o rtu g u ês, e não trad u ç õ es da v a ria n te
com o tal.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 141

17.18 Segmentação

Este versículo pode ser in terp retad o como perg u n ta, a exem plo do que ocorre
em O Novo Testamento Grego, m as poderia tam bém ser visto como um a afirm ação.

17.23 ιδού έκει, [ή,] ιδού ώδε (eis ali, [ou,] eis aqui) {C}

A m aioria das variantes, neste caso, tem pouca ou nen h u m a im portância para
trad u to res do texto, pois não passam de m udanças na ordem das palavras ou alte-
rações estilísticas que não afetam o significado. Em parte, essa grande variedade
de leituras se originou do fato de que, em grego m ais recente, ει, η, e 1 passaram
a ter a m esm a pronúncia, e em p arte porque copistas desatentos fizeram confusão
en tre essas diferentes letras ou form as do texto. Além disso, é possível que copistas
ten h am sido influenciados pelo paralelo em M arcos (ώδε ... έκεΐ, 13.21), que co-
nheciam de m em ória. A leitura que aparece como texto é a m ais antiga preservada
nos m anuscritos que conhecem os. No entanto, um a vez que ή não aparece num a
g rande variedade de testem unhos, foi colocado entre colchetes, p ara indicar que
não se tem certeza quanto ao texto original.

17.24 ό υιός του ά νθρώ που [έν τη ήμερα αυτού]


(ο Filho do Hom em [no seu dia]) {C}

É possível que copistas, sem querer, ten h am om itido a locução εν τή ήμερα


αύτου por causa da sem elhança entre o final das palavras ά νθρώ που e αυτού. Por
outro lado, os m elhores represen tantes dos tipos de texto alexandrino e ocidental
om item essa locução. Para sinalizar que existem dúvidas quanto à form a do texto
original, a locução foi posta entre colchetes. A variante com π α ρ ου σ ία (vinda), um a
palavra que não ocorre nenhum a outra vez em Lucas, resulta de alterações feitas
para h arm o n izar o texto com o paralelo em Mt 24.27. Tradutores precisam decidir
se um a tradução literal reproduz, ou não, o sentido que se tem em vista com έν
τή ήμερα αυτού. A NTLH, por exemplo, traduz assim: “no dia em que o Filho do
Hom em v ier”.

17.33 ος εάν ζητήση τήν ψυχήν αυτού περιποιήσασθαι


(Q ualquer que procura a sua vida preservar) {B}

As variantes, neste caso, não são m uito significativas para o tradutor, pois o
sentido acaba sendo o mesmo. Alguns copistas tro caram o verbo π ερ ιπ ο ιεΐσ θ α ι
(salvar ou preservar), que, nos Evangelhos, ocorre som ente aquí, pelo verbo σφ ζειν
(salvar; confira 9.24), que é um verbo bem m ais conhecido. O utros copistas (na
142 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

tradição ocidental) m udaram o verbo p a ra ζω ογονεΐν (salvar um a vida), que, nos


Evangelhos, ocorre apenas na segunda m etade deste versículo.

17.36 omissão do versículo {A}

É possível que o v. 36 tenha sido om itido por acidente, um a vez que tanto o v. 35
como o v. 36 term inam com o verbo άφεθήσεται (será deixado). Entretanto, levando-
-se em conta o considerável peso dos m anuscritos que apoiam o texto m ais breve,
parece m ais provável que copistas tenham inserido as palavras do v. 36, para harm o-
nizar o texto com Mt 24.40.

18.11 π ρ ο ς έαυτόν ταΰτα προσηύχετο


(p a ra /a respeito de si m esm o essas coisas ele orava) {C}

A evidência ex tern a favorece a leitura ταύτα π ρ ο ς έαυτόν προσηύχετο (essas


coisas a respeito d e /p a ra si m esm o ele orava). No entanto, a ordem das palavras
m ais difícil (para um copista) parece ter sido προς εαυτόν ταύτα προσηύχετο, um a
vez que a locução π ρ ο ς έαυτόν pode ser conectada tan to com σταθείς (posto em pé)
quanto com προσηύχετο. Em alguns testem unhos, essa leitura m ais difícil foi modi-
ficada para καθ’ εαυτόν ταύτα προσηύχετο ([estando em pé] sozinho ele orou essas
coisas). Diante da dificuldade de se enten d er o que significa a locução π ρ ο ς έαυτόν
(especialm ente quando aparece ao lado do participio σταθείς), vários testem unhos
sim plesm ente om itiram essa locução.
O sentido provável da leitura que aparece como texto é este: aO fariseu, em pé,
sozinho, orava assim ...” A lguns intérpretes, todavia, sugerem que a locução π ρ ο ς
έαυτόν, que aparece im ediatam ente após o participio σταθείς, deveria ser entendí-
da como um a expressão idiom ática aram aica, com o significado de “posicionando-
-se” ou “ocupando o seu lu g ar”. O significado da variante ταύτα π ρ ο ς έαυτόν
προσηύχετο é este: “O fariseu se pôs em pé e orou para si m esm o”. A NBJ tradu z
assim: “O fariseu, de pé, orava in terio rm en te”.

18.24 Ίό ώ ν όέ αυτόν ό Ιη σ ο ύ ς [περίλυπον γενόμενον] είπεν


(vendo-o [muito triste tendo ficado], Jesus disse) {C}

De um lado, a leitura m ais breve, sem περ ίλ υπ ον γενόμενον (m uito triste ten-
do ficado), tem apoio m uito consistente de m anuscritos. Além disso, o fato de
περ ίλ υπ ο ν γενόμενον não aparecer, no texto, sem pre no m esm o lugar, segundo o
testem u n ho de diferentes m anuscritos, dá a entender que copistas inseriram essas
palavras no texto a p a rtir do relato do v. 23 (περίλυπος έγενήθη). Por outro lado,
um a vez que Lucas tem a tendência de rep etir um a palavra ou locução que ocorre
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 143

no contexto, essas palavras poderíam m uito bem ser originais. Para indicar que não
se tem certeza quanto ao texto original, as palavras περ ίλ υπ ον γενόμενον foram
colocadas en tre colchetes.
As traduções m odernas não seguem todas pelo m esm o cam inho: algum as tra-
duzem o texto (ARA, NTLH, TEV, FC), outras optam pelo texto m ais breve:
(NRSV, NVI, REB, NBJ, TEB). Tradutores devem levar em conta que o hom em rico
é quem ficou triste, e não Jesus.

18.25 κάμηλον (um camelo) {A}

Veja o com entário sobre Mt 19.24.

19.15 τί όιεπραγματευσαντο (o que tin h am conseguido ganhar) {B}

A leitura τις τί όιεπραγματευσατο (ARC: u0 que cada um [τις] tin h a ganhado,


negociando”), que se encontra na m aioria dos m anuscritos cursivos e no textus
receptus, parece ser resultado do em penho de copistas em to rn ar a narrativ a m ais
precisa. A leitura que traz a form a simples do verbo na terceira pessoa, ou seja, a
form a sem o prefixo preposicional (έπραγματεύσατο), foi derivada do v. 13.
Uma vez que os versículos seguintes deixam claro que os servos ou em pregados
tin h am feito um trabalho individual, e não tin h a m agido como um grupo, talvez
seja m elhor, para efeitos de clareza na tradução, ad o tar o significado expresso pela
variante. Não está claro se a NBJ (e tam bém a REB) traduz a v ariante ou expressa
o sentido da leitura no texto, ao traduzir: “p ara saber o que cada um tin h a feito
re n d e r”.

19.22 Segmentação

A segunda m etade deste versículo pode ser in terp retad a como um a p erg u n ta, a
exem plo do que acontece no texto de O Novo Testamento Grego, m as pode tam bém
ser p o n tu ad a como um a afirm ação. Algum as traduções, que optam por trad u zir
isso como um a pergunta, deixam claro que se tra ta de um a p erg u n ta retórica. Por
exemplo, “Você não sabia que ... ?” (NRSV e REB).

19.25 inclusão do versículo {A}

Tudo indica que o v. 25, que se encontra nos m elhores m anuscritos gregos, fazia
p arte do texto original, m as foi om itido em vários testem unhos ocidentais, p ara
que a passagem ficasse igual ao texto de Mt 2 5 .2 8 2 9 ‫־‬, ou, então, por razões de or-
dem estilística, para criar um vínculo m ais estreito entre o v. 24 e o v. 26. É pouco
144 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

provável que o v. 25 seja um a nota colocada na m argem e que, posteriorm ente,


copistas ten h am inserido no texto, pois neste caso dificilm ente os copistas teriam
deixado em aberto quem é o sujeito do verbo είπαν (disseram ). Sem o sujeito ex-
presso, o texto é am bíguo, ou seja, o sujeito pod ería ser aqueles que estavam ali
(v. 24), ou aqueles para quem Jesus estava contando a parábola.

19.38 ό ερχόμενος ò βασιλεύς (o que vem, o rei) {C}

A leitura aceita como texto é a que m elhor explica a origem das outras leituras.
É trad u zid a na NBJ: Bendito aquele que vem, o Rei ...! E ntretanto, a m aioria dos
testem unhos diz ό ερχόμενος βασιλεύς (Bendito seja aquele que vem como rei em
nom e do Senhor), e esta variante parece estar por detrás da tradução que aparece
em ARA: “Bendito é o Rei que vem em nom e do Senhor!” (tam bém está assim na
REB, NTLH e NVI). O utros testem unhos om item ό βασιλεύς, harm onizando, assim,
a citação com o original no AT (SI 118.26) e com os paralelos nos outros Evangelhos
(Mt 21.9; Mc 11.10). A om issão de ό ερχόμενος em alguns m anuscritos se deve,
provavelm ente, a um equívoco de copista, que foi traído pelo final idêntico das
palavras ευλογημένος e ερχόμενος e acabou esquecendo de copiar um a delas. O
texto ocidental, influenciado talvez por Mc 11.10 e Jo 12.13, repete ευλογημένος e
altera a posição de ό βασιλεύς dentro da frase, o que resulta num texto bem fluente:
ευλογημένος ό ερχόμενος εν όνόμα τι κυρίου, ευλογημένος ό βασιλεύς (bendito ο
que vem em nom e do Senhor, bendito o rei).

19.42 εν τη ήμέρα ταύτη καί σύ (neste dia tam bém tu) {B}

A inserção de καί γε (sim!) antes de εν τη ήμέρα dá um a ênfase toda especial a


essa locução, m as provavelm ente não passa de um acréscim o posterior (afora a va-
rian te n esta passagem , em todo o NT καί γε ocorre apenas em At 2.18, num a citação
do AT). A leitu ra καί σύ εν τη ημέρα ταύτη (tam bém tu nesse dia) dá a im pressão
de ser um retoque estilístico.

19.42 ειρήνην (paz) {B}

Parece m ais provável que copistas acrescentaram o pronom e da segunda pes-


soa do singular σου (ou ooi) do que supor que o ten h am om itido. Se a locução τα
π ρ ο ς ειρήνην “significa, neste caso, ‘aquelas coisas que contribuem p ara a tu a paz’”
(M arshall, C om m entary on Luke, ρ. 718), a varian te não m uda o sentido do texto.
Não está claro se traduções como “o que te pode tra z e r a p az” (CNBB, NIV, FC, Seg)
se baseiam na varian te tex tu al ou são apenas m aneiras de expressar com m ais cia-
reza o significado do texto.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 145

20.9 άνθρωπός [τις] έμντενσεν αμπελώνα ([certo] homem plantou uma vinha) {C}

Aqui, há quatro leituras a serem consideradas, m as elas não têm m aior im portân-
cia para a tradução do texto. As que aparecem no m anuscrito C (άμπελώνα άνθρω πος
εφύτενσεν) e no m anuscrito D (άμπελώνα έμντενσεν άνθρω πος) concordam na ante-
cipação do substantivo que dá o cenário da parábola (concordando, neste particular,
com as leituras mais im portantes do paralelo em Me 12.1). A única diferença entre
as duas outras leituras em Lucas, que têm sólido apoio da evidência externa (o peso
dos m anuscritos), é a presença ou ausência do pronom e indefinido τις. De um lado,
há que considerar que Lucas, em geral, escreve άνθρω πός τις (10.30; 12.16; 14.16;
15.11; 16.1,19; 19.12); de outro lado, muitos dos mesmos testem unhos que inserem
τις aqui em Lucas tam bém inserem τις na leitura de Marcos, que tem m enos chan-
ces de ser original. Para refletir o equilíbrio que existe entre esses dois conjuntos de
considerações, τις foi colocado, no texto, entre colchetes. Não existe diferença de sig-
nificado entre a leitura que tem ο τις e aquela que não o tem . A tradução portuguesa,
“certo hom em ”, pode dar a im pressão errônea de que se trata de um hom em especí-
fico. No entanto, o pronom e indefinido grego tem exatam ente o sentido contrário.

20.27 oi [άντι]λέγοντες (que negam ) {C}

As variantes não têm m aior im portância para o tradutor, pois o sentido de “que ne-
gam existir” e “que dizem que não existe” é o mesmo. De um lado, a evidência externa
dos m anuscritos que apoiam a leitura λέγοντες tem peso considerável, pois inclui bons
representantes dos tipos de texto alexandrino e ocidental. De outro lado, essa leitura
pode ter surgido quando copistas alteraram o participio άντιλέγοντες, para fazer o
texto concordar com o paralelo em Mt 22.23 (evidência interna). Além disso, λέγοντες
é a leitura mais fácil, pois evita a dupla negação expressa através de άντιλέγοντες ...
μή (negando ... não). Uma vez que existe tensão entre evidência interna e evidência
externa, as letras άντι foram colocadas entre colchetes. A leitura οΐτινες λέγουσιν (os
quais dizem) é, com certeza, um a correção feita por razões de estilo.

20.34 τον α ιώ να ς τοντον (deste m undo) {A}

Depois de τοντον, vários testem unhos ocidentais inserem um a form ulação típi-
ca, γεννώ ντα ι vai γεννώ σιν (são gerados e geram ).

20.36 ό ννα νται (podem ) {B}

Em vez de dizer d iretam ente “não podem m ais m o rrer”, vários testem unhos (a
m aioria ocidental) abrandam isso um pouco, usando a palavra μέλλονσιν (“não vão
m ais m o rrer”).
146 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

20.45 xoiç μαθηταΐς [αύτού] (aos discípulos [dele]) {C}

Esta v arian te pode não ter m aior im portância para tradutores de algum as lín-
guas (veja o com entário sobre Mt 19.10). Parece que, depois que leitores com eçaram
a se d ar conta que οι μαθηταί (os discípulos) não carecia de um pronom e possessivo
identificador, a tendência dos copistas era sim plesm ente suprim ir o pronom e αυτού
(dele). Neste versículo, todavia, o que parece ser um texto posterior (mais breve),
tem o apoio significativo da com binação entre os m anuscritos B e D. R efletindo
essas considerações conflitantes, o pronom e αύτού aparece entre colchetes.

21.4 δώ ρα (dons/ofertas) {B}

A locução του θεού (de Deus) parece um acréscim o feito por um copista para
explicar a palavra όώ ρα a leitores gentios que nunca tin h am visto ο γαζοφ υλάκιον
(gazofilácio ou caixa das ofertas; v. 1) no Templo de Jerusalém . Talvez a m elhor
opção seja não trad u zir o texto literalm ente. Nesse contexto, a palavra δώ ρα pode
significar “o ferta” e o significado é “puseram [na caixa das ofertas] os seus dons
[τά δώ ρ α ]”. Tam bém pode significar “caixa das o fertas”, ou seja, “puseram [suas
ofertas] na caixa das ofertas [εις τά δώ ρα ]”.

21.11 καί α π ουρανού σημεία μεγάλα εσται (e do céu grandes sinais haverá) {C}

Existe um a variedade de leituras, m as nen h u m a delas tem m aior im portância


p ara a tradução, pois não passam de alterações na ordem das palavras, que não
afetam o significado. Uma vez que não existem argum entos convincentes, baseados
no que Lucas ou um copista podería ter escrito, que indiquem um a dessas leituras
como sendo original, decidiu-se ad o tar o texto que aparece no m anuscrito B. A
ordem das palavras que aparece neste m anuscrito pode ter levado copistas a colo-
car as palavras num a ordem diferente, em outros m anuscritos, ou seja, trata-se da
leitu ra m ais difícil.

21.19 κτήσασθε τάς ψ υχάς υμώ ν (ganhareis as vossas alm as) {C}

O im perativo aoristo, que tem razoável apoio de m anuscritos, parece preferível,


pois tudo indica que a tendência dos copistas era a de substituir essa palavra por
um a form a do futuro (κτήσεαθε), visto que outras form as do tem po futuro são usa-
das várias vezes no contexto anterior. O futuro do indicativo expressa com m ais ên-
fase do que o aoristo im perativo um aspecto ou elem ento de prom essa. No entanto,
em português será necessário usar um a form a equivalente ao futuro, m esm o que se
aceite como original a form a escolhida p ara ser o texto em O Novo Testamento Grego.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS ‫ ו‬47

21.35 ώς παγίς‫ ־‬έπεισελεύσεται γάρ (como armadilha; pois há de sobrevir) {B}

As palavras ώς π α γίς se conectam com o final da oração anterior, como é o caso


no texto, ou deveriam ser conectadas com o início da oração seguinte (ώς π α γίς
γάρ έπεισελεύσεται)? A prim eira alternativa parece preferível, por duas razões: Em
prim eiro lugar, o peso da com binação de testem unhos alexandrinos e ocidentais
que apoiam a ordem das palavras com ο γάρ após o verbo; e, em segundo lugar, a
probabilidade m aior de que copistas, lem brados de Is 24.17, alterariam a posição
de γάρ dentro do texto, fazendo com que ώ ς π α γίς se conectasse com o que segue.
O sentido do texto é o seguinte: “venha sobre vós rep entinam ente, 35 como um
laço. Pois há de sobrevir a todos os que vivem sobre a face de toda a te rra ‫( ״‬ARA). O
significado da variante é este: “venha sobre vos repentinam ente. 35 Pois como um
laço há de sobrevir a todos ...”

21.38 αυτού, (a ele.) {A}

Depois deste versículo, oito m anuscritos que integram a fam ilia 13 ( β 3) acres-
centam o relato da m ulher flagrada em adultério (Jo 7.53— 8.11). Essa inserção
foi, com certeza, sugerida pelo paralelo entre a situação descrita neste versículo
e o cenário que está implícito em Jo 8 .1 2 ‫( ־‬veja tam bém o com entário sobre Jo 7.
53— 8.11). Por outro lado, urna nota na NBJ sugere que esse acréscim o pode m uito
bem ter sido escrito por Lucas e que “encontraría aquí excelente contexto”.

22.16 ότι ού μή q;άγω (que nunca m ais com erei) {B}

Parece que copistas inseriram ούκέτι (não mais), p ara ab ran d ar um pouco essa
afirm ação tão categórica (confira o texto preferido em Mc 14.25). Se essa palavra
tivesse estado originalm ente no texto, não há como explicar por que teria sido omi-
tida num a tão grande variedade de testem unhos de boa qualidade. O significado
das v ariantes é basicam ente idêntico ao significado do texto.

2 2 .1 7 2 0 ‫{ ־‬B}

Em Lucas, o relato da últim a ceia foi transm itido em duas form as principais de
texto: a m ais longa ou tradicional, que se encontra em todos os m anuscritos gregos,
exceto D, e na m aioria das versões antigas e nos testem unhos patrísticos, e que tem
a sequência cálice-pão-cálice; e a m ais breve ou ocidental, que om ite os vs. 19b e
20 (τό υπέρ υμών ... έυ/υννόμ ενον), resultando na sequência cálice-pão. Existem
quatro form as de texto interm ediárias, que parecem ser m aneiras de fazer um a
acom odação entre as duas form as principais do texto, a saber: (1) dois m anuscritos
148 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

da Antiga Latina alteram o texto m ais breve, colocando v. 19a antes do v. 17, do que
resu lta a sequência tradicional de pão-cálice; (2) a siríaca curetoniana tem o mes-
mo texto, só que am pliado pela inserção das palavras de 1C0 11.24 após v. 19a; (3)
a siríaca sinaítica tem um texto m ais longo ainda, resultante da inserção de “após
terem ceado”, no início do v. 17, e de “isto é o m eu sangue, a nova aliança” (v. 20b)
en tre os vs. 1 7 1 8 ‫ ;־‬e (4) a siríaca peshita, bem como alguns outros testem unhos, não
trazem os vs. 17-18, talvez devido a hom eoteleuto. Para que se possa fazer a compa-
ração, as seis form as do texto aparecem em colunas paralelas, na página seguinte.
É óbvio que o problem a principal tem a ver com os m éritos das duas form as
principais do texto, um a vez que as dem ais form as podem ser explicadas, de m odo
m ais ou m enos satisfatório, como m odificações do texto m ais breve ou, então, do
texto m ais longo.
E ntre as considerações arroladas a favor da originalidade do texto m ais longo
estão as seguintes: (1) A evidência externa que dá sustentação à leitura mais breve
rep resen ta apenas um a parcela do tipo de texto ocidental, ao passo que os dem ais
rep resen tan tes do texto ocidental se alin h am com testem unhos de todos os outros
tipos de texto dos tem pos antigos no apoio à leitura mais longa. (2) Supor que o edi-
tor do m anuscrito D, perplexo ante a sequência cálice-pão-cálice, ten h a elim inado
a segunda m enção do cálice, sem se preocupar com a ordem invertida entre cálice
e pão que disso resultaria, é m ais lógico do que supor que o editor da versão m ais
longa ten h a extraído de IC oríntios a segunda referência ao cálice, para corrigir a
sequência que parecia incorreta, e, nesse processo, ten h a acabado deixando no tex-
to a prim eira referência ao cálice. (3) O surgim ento da versão m ais breve pode ser
explicado pela teoria da disciplina arcana, ou seja, que, p ara evitar que a eucaristia
fosse p rofanada, um a ou m ais cópias do Evangelho segundo Lucas, feitas p ara cir-
cularem en tre leitores não cristãos, não traziam a fórm ula sacram ental depois das
p alavras iniciais.
Entre as considerações a favor da originalidade do texto m ais breve estão as
seguintes: (1) Em crítica tex tu al do NT, geralm ente se prefere a leitura m ais breve.
(2) Uma vez que o texto dos vs. 19b e 20 é sem elhante às palavras de Paulo em
ICo 11.24b-25, fica a suspeita de que a carta de Paulo seja a fonte do texto que foi
acrescentado à leitura m ais breve. (3) Nos versos 19b-20 aparecem vários elem en-
tos linguísticos que não se encaixam m uito bem no estilo peculiar de Lucas.
Existe a possibilidade de que a leitura m ais breve (adotada pela REB) seja um a
não interpolação ocidental (veja a Nota após o com entário sobre Lc 24.53). No en-
tan to , é m ais provável que as sem elhanças entre os vs. 19b-20 e ICo 11.24b-25 se
deva à fam iliaridade de Lucas com a prática litúrgica existente nas igrejas de Paulo,
fato este que ajuda, tam bém , a explicar a presença de term os e expressões que não
são típicos de Lucas nos vs. 19b-20. Além disso, a evidência ex tern a dá apoio m aciço
ao texto m ais longo.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 149

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5-1
150 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

22.31 Σ ιμώ ν (1) (Simão) {B}

O textus receptus, em concordância com um bom núm ero de testem unho s,


acrescen ta είπ εν όέ ό κύριος (e ο Senhor disse), como que sinalizando o início
de um novo assunto. O texto m ais breve tem sólido apoio de m anuscritos. Além
disso, teria sido n a tu ra l in se rir urna frase como aquela sem pre que se com eçasse
u m a leitu ra bíblica nesse lugar.

2 2 .4 3 4 4 ‫![[ ־‬omissão dos versículos]] {A}

Esses versículos não ap arecem em testem u n h o s antigos que re p re se n ta m u m a


v a rie d ad e de tipos de texto. Além disso, dois outros fatores sugerem que esses
versículos não são originais: (1) em alguns m anuscritos, copistas m arc ara m esses
versículos com asteriscos ou obelos, o que significa que não os tin h a m por origi-
nais; (2) em m an u scrito s da fam ília 13 e em vários lecionários, esses versículos
(e, nos lecionários, tam b ém a p rim e ira p a rte do v. 45) foram colocados após Mt
26.39. O fato de esse relato a p arec e r em um a série de m anuscritos, alg u n s deles
antigos, bem como a citação do m esm o em textos de Ju stin o , Irineu, H ipólito,
Eusébio e m uitos outros Pais, prova que se tra ta de um relato b a sta n te antigo.
Provavelm ente esses versículos foram inseridos no texto a p a rtir de u m a anti-
ga fonte de tradições não canônicas a respeito da vida e da paixão de Jesus. Essa
fonte pode tan to ter sido oral como escrita. Existe, é claro, a tese de que esse texto
era original, m as, em várias regiões da Igreja, te n h a sido om itido por pessoas que
en te n d ia m que um relato que ap resen tav a um Jesus tão frágil e fraco não concor-
dava com a afirm ação de que ele tin h a particip ação na onipotência divina do Pai.
No en tan to , essa tese é m enos provável. M esmo assim , em bora essa passagem seja
um acréscim o p o sterio r ao texto, foi colocada no texto, e n tre colchetes duplos, em
função de sua a n tig u id ad e e de sua im p o rtân cia na trad ição tex tu al.
As trad u çõ es m o d ern as não são unânim es: algum as om item esses versículos
(RSV), alg um as incluem (NVI, NBJ, REB, TEV, TEB, CNBB, BN, Seg), e ou tras
incluem o texto, só que en tre colchetes (ARA, NTLH, FC) ou colchetes duplos
(NRSV).

22.46 Segmentação

Caso se fizer um a pausa após o im perativo προσεύχεσθε (orai), o sentido é


este: “Levantai-vos e orai, p a ra que não en treis em te n ta ç ã o ” (ARA). Caso não se
fizer u m a p au sa após o verbo, o sentido passa a ser: “L evantem -se e orem p a ra
que não sejam te n ta d o s” (NTLH). Em o u tras palavras, o “p a ra que não sejam ten-
ta d o s” é o conteúdo da oração.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 151

22.52 Segmentação

Veja os com entários sobre Mt 26.55.

22.62 inclusão do versículo {A}

É possível que esse versículo ten h a entrado no texto de Lucas a p a rtir da passa-
gem p aralela em Mt 26.75. No entanto, urna vez que, nos testem unhos que incluem
esse versículo, a fraseologia é praticam ente a m esm a, é m ais provável que essas
palavras sejam originais e que foram om itidas, por acidente, em vários testem unhos
antigos.

22.68 άποκριθήτε (respondereis) {B}

É possível que as palavras μοι ή άπολύσητε (a m im nem [me] soltareis) te-


n h am sido om itidas, por acidente, no an cestral ou nos ancestrais dos m anuscri-
tos alexandrinos, devido à sem elhança en tre o final das palavras ά ποκριθήτε e
άπολύσητε. Isso, todavia, não explica a ausência dessas palavras em m anuscritos
de outros tipos de texto. Por isso, tudo indica que as palavras μοι e ή άπολύσητε
sejam com entários inseridos por copistas bem no início do processo de transm is-
são do texto.

22.70 Segmentação

Segundo a pontuação que consta no texto, a prim eira p arte do v. 70 é um a


p erg u n ta dirigida a Jesus: “Logo, tu és o Filho de D eus”? (ARA). No entanto, essas
palavras podem tam bém ser traduzidas como um a afirm ação, a exem plo da TEB:
“Então és o Filho de Deus!” A resposta de Jesus é entendida e grafada, no texto,
como um a afirm ação (veja ARA, NTLH, etc.), m as podería ser vista tam bém como
um a p erg u n ta (veja tam bém Mt 26.64).

23.3 Segmentação

Veja o com entário sobre Mt 27.11.

23.11 [καί] ô *Ηρώδης ([tam b ém /até mesmo] Herodes) {C}

A leitura que aparece como texto é apoiada por ^ 5. É tam bém a leitura m ais
difícil, um a vez que, naquele contexto, não fica claro qual é a força de καί, em bora
καί provavelm ente sinalize que “o com portam ento de H erodes e dos soldados dele
152 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

represen ta oposição adicional a Jesus, ou seja, algo que ia além daquilo que os
principais sacerdotes e escribas já estavam fazendo” (N olland, Luke 18:35—24:53,
p. 1121, n.b). De outro lado, é im pressionante a com binação de testem unhos que
apoiam a leitu ra ό 'Η ρώ δης. Como não se tem certeza quanto à form a do texto
original, καί aparece, no texto, entre colchetes.

23.15 άνέπεμψεν γάρ αυτόν π ρ ο ς ημάς (pois ο m andou de volta p ara nós) {A}

Copistas fizeram m uita confusão ao escreverem essas palavras. Produziram


afirm ações banais, como άνέπεμψα γάρ υμάς π ρ ο ς αύτόν (pois eu vos enviei para
ele), que aparece no textus receptus, ou, então, form as de texto que não têm signifi-
cado nenhum , como άνέπεμψα γάρ αυτόν π ρ ος υμάς (eu ο enviei para vós, isto é,
eu enviei Herodes p ara vós!). A leitura que aparece como texto tem a seu favor os
m elhores m anuscritos, além de ser a que m elhor se encaixa no contexto. Essa lei-
tu ra faz sentido. Mesmo assim, Nolland (Luke 18:35—24:53, p. 1127) observa que
a locução “p ara nós” (que equivale ao pronom e grego ημάς) soa um tan to quanto
estran h a, um a vez que as pessoas com as quais Pilatos está falando não teriam es-
tado lá quando H erodes m andou Jesus de volta.

23.17 omissão do versículo {A}

Duas coisas m o stram que esse versículo é um acréscim o p o ste rio r ao texto:
(1) Não ap arece em teste m u n h o s antigos. (2) Nos m anuscritos que traz em esse
texto, ele ap arece em lugares diferentes: em alguns, após o v. 16; em outros, após
o v. 19. Existe a possibilidade de que esse versículo te n h a sido om itido aciden tal-
m ente, pois os vs. 17-18 se iniciam com letras sem elh an tes. No e n tan to , isto não
explica a om issão do texto em tan to s m anuscritos, tam pouco por que aparece em
lu gares d iferen tes nos m an u scrito s que incluem essas palavras. Esse versículo é
um co m en tário redigido por um copista, a p aren te m e n te baseado em Mt 27.15 e
Mc 15.6.

23.23 αυτώ ν (deles) {B}

Com o propósito de identificar m ais d iretam ente aqueles que ped iram que Jesus
fosse crucificado, copistas inseriram as palavras και τών ά ρχιερέω ν (e dos prin-
cipais sacerdotes) depois do pronom e αυτών. Existe a possibilidade de que essas
palavras sejam originais, tendo sido om itidas, acidentalm ente, por copistas que fi-
zeram confusão entre o pronom e αυτώ ν e o substantivo άρχιερέω ν por causa da
sem elhança entre o final dessas duas palavras. No entanto, essa possibilidade é
rem ota ou pouco provável.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 153

23.34 omissão do v. 34a

[[ό δέ ,Ιησούς ελεγεν. Πάτερ, άψες αύτοις, ού γάρ οιδασ ιν τί ποιούσιν.]]


HE Jesus disse: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.]] {A}
C ham a a aten ção o fato de essas p ala v ras não co n stare m em teste m u n h o s an-
tigos que re p re se n ta m vários tipos de texto. A lguns estu d io so s chegam a su g erir
que essas p a la v ras foram d e lib e ra d a m e n te om itid as po r copistas que v iam na
d e stru iç ã o de Je ru sa lé m um a prova de que Deus não h av ia p e rd o a d o os ju d eu s,
e que não p o d iam a d m itir que se desse a im pressão de que um a oração de Jesu s
te n h a ficado sem resp o sta. No e n ta n to , ta l explicação de u m a su p o sta origem do
tex to m ais breve é pouco convincente. P rovavelm ente, essa afirm aç ão não fazia
p a rte do tex to o rig in al do E vangelho de Lucas, m as, ao m esm o tem po, é bem
possível que se tra te de um dito a u tên tico de Jesus. O texto, que deve te r sido
acresce n tad o ao E vangelho de Lucas por copistas d esconhecidos num estágio
re la tiv a m e n te p rim itivo da tra n sm issã o do texto, foi incluído, e n tre colchetes
duplos, no lu g ar onde tra d ic io n a lm e n te ap arece, em Lucas. A m aio ria das trad u -
ções m o d ern a s co n sid era essas p a la v ras com o p a rte do texto. A NTLH coloca o
versículo e n tre colchetes. A NRSV faz uso de colchetes duplos.

23.38 επ' αύτώ (sobre ele) {A}

A referência, neste lugar, às três línguas (grega, latin a e hebraica) em que


estava escrito o título no alto da cruz é, quase com certeza, um com entário adi-
cionado por um copista, que encontrou esse m aterial em Jo 19.20. Tudo indica
que esse acréscim o não é original, pelos seguintes m otivos: (1) Está ausen te de
vários dos m ais antigos e m elhores testem unhos; (2) os testem u n h o s que inserem
as p alav ras divergem en tre si (na ordem em que são m encionadas as línguas; no
participio inicial, γεγραμμένη ou έττιγεγραμμενη; e na ordem em que aparecem o
participio e a locução έ π ‘ αύτώ); (3) caso tivesse estado o rig in alm en te no texto,
não há como explicar por que m otivo teria sido om itido pelos copistas. Veja tam -
bém os com entários sobre Jo 19.20.

23.42 εις την βασιλείαν σον (para o teu reino) {B}

À p rim eira vista, a leitura ad otada como texto, com a preposição εις (para),
soa como se fosse um a correção, visto que, com o verbo ελθης (vieres), o uso da
preposição εις parece m ais apropriado do que a preposição εν (em). E n tretanto, εις
se encaixa bem na teologia de Lucas (confira 24.26: “e n tra r na [εις] sua glória”),
m elhor do que qualquer das outras leituras. O texto que aparece na m aioria dos
testem unhos, όταν ελθης έν τη βασιλεία σον (quando vieres em /com teu poder
154 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

real), e m ais ainda a leitura do Códice de Beza (D), εν τη ήμερα τής έλεΰσεώς σου
(no dia da tu a [segunda] vinda), refletem um m aior interesse pelo reino escato-
lógico. Segundo N olland (Luke 18:35—24:53, p.1150, n. d), se o texto traz εν, a
referência será à segunda vinda de Cristo.
O significado do texto é “quando com eçares o teu dom ínio rea l” ou “quando
com eçares a re in a r”, o que, na visão de Lucas, se dá por ocasião da ascensão e
exaltação de Jesus. A REB traduz por “quando fores para o teu tro n o ”. A variante
significa: “quando vieres outra vez como rei”.

23.45 του ήλιου έκλιπόντος (havendo um eclipse do sol) {B}

Neste caso, as variantes não têm m aior im portância para a tradução, pois o sig-
nificado é praticam ente o mesmo. A frase και έσκοτίσθη ó ήλιος (e o sol se escure-
ceu) parece ser a leitura m ais fácil, que os copistas tro caram por um a construção
de genitivo absoluto com o participio aoristo, ou seja, του ήλιου εκλιπόντος [em
alguns testem unhos aparece o participio presente έκλείποντος], e que pode signifi-
car “o sol parou de b rilh a r” ou “o sol foi eclipsado”.

24.3 του κυρίου ,Ιησού (do Senhor Jesus) {B}

A leitu ra que aparece como texto tem um im pressionante apoio de m anus-


critos e é a d o tad a pela m aioria das traduções. O texto m ais breve (veja a N ota
sobre Não In terpolações O cidentais, após o com entário sobre Lc 24.53), sem του
κυρίου ,Ιησού, que foi ado tad o em RSV e NRSV, pode te r surgido por influência
do v. 23, que diz apenas que “não e n co n trara m o corpo d ele”. A om issão de κυρίου
(Senhor), reg istra d a em alguns testem u n h o s, reflete a in fluência de Mt 27.58 ou
Me 15.43. Em At 1.21; 4.33; 8.16 se fala do Senhor ressuscitado u sando a locução
“o S enhor Je su s”.

24.6 ούκ εστιν ώόε, άλλα ήγέρθη


(ele não está aqui, m as ressuscitou) {B}

E possível que essas palavras, que não aparecem no m anuscrito D e em vários


m anuscritos da Antiga Latina, sejam um acréscim o (veja a nota após o com entário
sobre Lc 24.53), baseado em Mt 28.6 e /o u Mc 16.6. A RSV e a REB, na verdade,
o p taram pelo texto m ais breve. No entanto, visto que a fraseologia de Lucas é um
pouco diferente da que aparece em M ateus e M arcos (Lucas usa a palavra “m as”
[αλλά]), é m ais provável que o próprio Lucas ten h a escrito essas palavras, e não al-
gum copista que teria harm onizado o texto de Lucas com o dos outros Evangelhos.
Em todo caso, a leitura que aparece no m anuscrito C é, com certeza, um a correção
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 155

feita por um copista com o objetivo de h arm o n izar o texto de Lucas com os parale-
los nos outros Evangelhos.

24.10 ήσαν δε (e eram ) {B}

A om issão de ήσαν δε parece um a tentativa de m elhorar a sintaxe. A leitura ήν


δέ (e era) dá um destaque especial a M aria M adalena. A tradução desse texto é tare-
fa com plicada (M arshall, The G ospel o f Luke, p. 887, apresenta seis possibilidades de
tradução; veja tam bém a discussão em N olland, Luke 1 8 : 3 5 —2 4 : 5 3 , p.1191). Caso
se ad o tar o texto e a pontuação que aparecem em O N o v o T e s ta m e n to Grego, o versí-
culo pode ser traduzido assim: “Foram M aria M adalena, Jo an a e M aria, m ãe de Tia-
go, e as outras m ulheres com elas que contaram isso aos apóstolos” (NRSV). Caso,
porém , se fizer um corte após “M aria, m ãe de Tiago”, as outras m ulheres reiteram
e reforçam a m ensagem tran sm itid a pelas três m ulheres citadas nom inalm ente.
Nesse caso, o versículo pode ser traduzido assim: “Eram M aria M adalena, Jo a n a e
M aria, m ãe de Tiago; tam bém as dem ais que estavam com elas confirm aram estas
coisas aos apóstolos” (ARA).

24.12 in clu são do versícu lo {B}

Há quem entenda que o v. 12 é um acréscim o (veja a nota logo após o comen-


tário sobre Lc 24.53) feito a p a rtir do texto de Jo 2 0 .3 ,5 6 ,1 0 ‫־‬. No entanto, esse
versículo é um antecedente n atu ra l ao v. 24, que pressupõe o conteúdo do v. 12. A
sem elhança entre este versículo e o texto de João se deve ao fato, b astan te provável,
de que os dois evangelistas tira ram essa inform ação de um a tradição comum . A
RSV e a REB tira ram o v. 12 do texto.

24.13 εξήκοντα (sessenta) {B}

Tudo indica que a v ariante εκατόν εξήκοντα (cento e sessenta) surgiu em cone-
xão com a identificação de Emaús como a localidade de A m w âs (em nossos dias,
Nicópolis), que fica a um as 22 m ilhas rom anas (176 estádios) de Jerusalém . Essa
identificação foi feita por alguns Pais da Igreja, como Eusébio e Jerónim o, em bora
eles não indiquem a distância. No entanto, um a distância dessas é m uito grande
p ara ser p ercorrida num final de dia ou começo da noite (v. 33). O “sete” que apa-
rece no m anuscrito itc tem sua origem num erro de copista. Uma vez que poucos
leitores de nossos dias sabem que um estádio equivale a m ais ou m enos 185 m etros,
m uitos trad utores se valem de equivalentes m odernos, como “a cerca de onze qui-
lôm etros” (BN, NVI), “m ais ou m enos dez quilôm etros” (NTLH, CNBB), ou “a duas
horas de viagem de Jeru salém ” (TEB).
156 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

24.17 καί έστάθησαν (e pararam ) {B}

Uma variedade de testem unhos, alguns deles antigos, apoia a leitura que apare-
ce como texto. Todavia, a m aioria dos outros testem unhos traz καί έστε (e estais),
fazendo com que essa locução integre a p erg u n ta anterior. O sentido do texto é “E
ele lhes perguntou: ‘Que estais discutindo entre vós à m edida que cam inhais?’ E
eles p a ra ram entristecidos”. O sentido da variante é este: “E ele lhes perguntou:
‘Que estais discutindo entre vós à m edida que cam inhais e estais entristecidos?”’

24.19 Ν αζαρηνού (N azareno) {B}

Se Ν αζαρηνός e Ν αζω ραίος têm o m esm o significado, a v ariante textual não


tem m aior im portância para a tradução, pois as duas form as podem ser traduzidas
por “de N azaré”. É provável que copistas substituíram a palavra Ν αζαρηνός, de uso
m enos frequente (seis vezes no NT, incluindo um a outra vez em Lucas [nenhum a
vez em Atos]), pela palavra Ν αζω ραίος (Nazoreu), que tem uso m ais frequente no
NT (treze vezes, incluindo oito ocorrências em Lucas e Atos).

24.32 [εν ήμΐν] ώς έλάλει ήμΐν ([em n ó s/d en tro de nós] quando falava a nós) {C}

A leitura variante não tem m aior im portância para tradutores, pois o sentido
p erm anece essencialm ente o m esmo. Além disso, em algum as línguas a frase ao
nosso coração ardia dentro de nós” será trad u zid a por um a expressão idiom ática
n a tu ra l nessas línguas receptoras. Em bora im portantes testem unhos de diversos
tipos de texto apoiem a leitura m ais breve, é possível que copistas ten h am om itido
a locução εν ήμΐν porque ju lg aram que era desnecessária naquele contexto. Por
isso, έν ήμΐν aparece, no texto, entre colchetes, para indicar que não se tem certeza
quanto à form a do texto original.

24.36 καί λέγει α ύτοΐς, Ειρήνη ύμΐν (e diz a eles: Paz seja convosco) {B}

As palavras εγώ είμι, μή φοβεΐσθε (sou eu; não tem ais) aparecem , em alguns
m anuscritos, antes de ειρήνη ύμΐν, e em outros, depois. E ntretanto, essas palavras
são, com certeza, um acréscim o posterior, tirado talvez de Jo 6.20. É m enos seguro,
todavia, que a om issão das palavras καί λέγει α ύτοΐς, Ειρήνη ύμΐν, que ocorre no
m anuscrito D e na versão A ntiga Latina, seja original. “Paz seja convosco” era urna
saudação sem ítica com um naquele tem po, e era o tipo de saudação que se p o d eria
esp erar naquele contexto. Alguns intérpretes entendem que essas palavras são um
acréscim o baseado em Jo 20.19, onde aparece o m esm o texto (veja tam bém a N ota
sobre Não Interpolações O cidentais, após o com entário sobre Lc 24.53). Mas, um a
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 157

vez que Lucas e João têm m uitos pontos de contato em suas narrativas da Paixão e
da Páscoa, é m ais provável que Lucas teve acesso à m esm a tradição à qual João tam -
bém teve acesso. Além disso, os m anuscritos dão sólido apoio ao texto m ais longo.
A m aioria das traduções m odernas adota o texto im presso em O Novo Testamento
Grego, m as a REB preferiu a leitura sem καί λέγει αύτοΐς, Ειρήνη ύμΐν.

24.40 inclusão do versículo {B}

Este versículo não aparece em alguns testem unhos ocidentais (e foi om itido na
tradução da RSV e da REB), talvez porque parecia desnecessário após o v. 39. No
entanto, tam bém é possível que esse versículo ten h a sido acrescentado na m aioria
dos dem ais testem unhos (veja a nota após Lc 24.53) a p a rtir de Jo 20.20, com um a
pequena e necessária alteração (a passagem em João m enciona as m ãos e o lado
de Jesus; esta passagem faz referência a suas m ãos e a seus pés). Caso, porém , essa
passagem tivesse sido acrescentada a p a rtir do relato de João, é provável que os
copistas teriam deixado algum indício de sua origem em João, como, por exemplo,
a colocação de την πλευράν (o lado) em lugar de τους π ό δα ς (os pés), aqui, no v.
40, ou tan to aqui como no v. 39.

24.42 μέρος (um pedaço) {B}

As palavras καί ά πό μελισσιού κηρίου (ou, κήριον) (e de um favo de m el), que


aparecem em m uitos dos m anuscritos m ais recentes e tam bém no textus receptus,
são, com certeza, um acréscim o ao texto, pois é pouco provável que teriam sido
sim plesm ente om itidas em tantos dos m elhores rep resen tan tes dos tipos de texto
m ais antigos. Uma vez que, na Igreja antiga, o m el era usado na celebração da Ceia
do Senhor e tam bém na liturgia do batism o, é possível que algum copista ten h a
inserido esse detalhe no texto, p ara que houvesse apoio bíblico a essas práticas
litúrgicas.

24.47 μετάνοιαν εις ά^εσ ιν α μ α ρτιώ ν


(arrependim ento para perdão de pecados) {B}

E difícil, com base na evidência interna, decidir entre as leituras εις e καί, um a
vez que, em outros textos, Lucas usa tanto μετάνοιαν εις como μετάνοιαν καί (por
exemplo, βάπτισμ α μετάνοιας εις άμεσιν em Lc 3.3 e δούνα ι μετάνοιαν τφ Ισ ρ α ή λ
καί áq:εσιν ά μ α ρτιώ ν em At 5.31). O peso dos m anuscritos favorece, ainda que
de leve, a leitura escolhida para ser o texto. Além do m ais, tendo em vista que a
preposição εις aparece logo a seguir no texto, é m ais provável que copistas ten h am
trocado o prim eiro εις por καί, do que im aginar o processo inverso. O significado
158 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

do texto é “arrep en d im en to para a rem issão dos pecados” (ARA, NBJ, NVI) ou
“arrep en d im en to que traz o perdão dos pecados” (REB). O sentido da varian te é
“arrep en d im ento e perdão de pecados” (RSV, NIV, TEB, NTLH, BN).

24.47 Segmentação

Caso se fizer um corte ou um a pausa após a locução εις πά ντα τά έθνη, como no
texto de O Novo Testamento Grego, o sentido é “47 e que arrependim ento e perdão
de pecados devem ser proclam ados em seu nom e a todas as nações. Com eçando de
Jerusalém , 48 vocês são testem unhas dessas coisas” (NRSV, nota). Mas, se se fizer
a pausa ao final do versículo, e não depois de εις πά ντα τά έθνη, o sentido é o se-
guinte: “47 E que, em nom e dele, a m ensagem sobre o arrependim ento e o perdão
dos pecados seria anunciada a todas as nações, com eçando em Jerusalém . 48 Vocês
são testem u nhas dessas coisas” (NTLH; tam bém NRSV, ARA, e a grande m aioria
das dem ais traduções).

24.47 άρξάμενοι (com eçando) {B}

A leitu ra que m elhor explica a origem das dem ais, além de ter bom apoio de
m anuscritos, é o participio nom inativo m asculino plural α ρ ςά μ ενο ι. No en tan to ,
esse participio “p e n d u ra d o ” não se relaciona g ram aticalm en te com o restan te da
oração. Na ten tativ a de m elh o rar a sintaxe, alguns copistas su b stitu íram essa for-
m a pelo acusativo (ou nom inativo) n e u tro sin g u lar ά ρ ξά μ ενο ν (que tam b ém é um
p articipio sem conexão d ireta com outro term o da oração e que, a p aren te m e n te,
se refere a tu do que se disse antes, no v. 47). O utros copistas escreveram a form a
do genitivo p lu ral άρξαμ ένω ν, ficando su bentendido o pronom e plural “vós”, ou
seja, “com eçando vós de Je ru sa lé m ”. O nom inativo sin g u lar ά ρ ξά μ ενο ς surgiu,
provavelm ente, da ten tativ a de fazer o sujeito concordar com εΐπ εν (ele disse),
que aparece no v. 46. Todavia, essa leitu ra não faz m uito sentido, se é que tem
algum .

24.49 και [ιδού] εγώ (e [eis] que eu) {C}

De um lado, a com binação de testem unhos que om item ιδού parece sugerir que
a leitu ra m ais breve é original. De outro lado, não há m otivo aparente que teria
levado copistas a altera r a solene e enfática declaração καί ιδού εγώ, que parece
m uito adequada em se tratan d o das últim as palavras de Jesus. Além disso, a lei-
tu ra m ais longa tem expressivo apoio de m anuscritos. Para indicar que não se tem
certeza absoluta a respeito da form a do texto original, ιδού foi colocado, no texto,
en tre colchetes.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 159

24.51 και άνεφέρετο εις τον ουρανόν (e foi elevado para o céu) {B}

A m aioria das traduções m odernas adota o texto m ais longo. A REB, por sua vez,
ad ota o texto m ais breve, e é possível que essa leitura ocidental m ais breve, sem
καί άνεφέρετο εις ιό ν ουρανόν, seja original, e que o texto m ais longo seja urna
não interpolação ocidental (veja a “N ota sobre Não Interpolações O cidentais‫״‬, logo
após o com entário sobre 24.53). A Siríaca sinaítica abrevia o v. 51, om itindo όιέστη
(afastou-se) e εις τόν ουρανόν, do que resulta o texto “E enquanto os abençoava,
foi elevado do meio deles”. Essa leitura m ais breve ainda faz referência à ascensão
de Jesus.
No entanto, é m ais provável que a leitura m ais longa, que aparece como texto,
seja original, pelos seguintes motivos:
(1) O ritm o do texto parece exigir a presença dessa frase (confira as duas frases
coordenadas, ligadas por καί no v. 50 e nos vs. 5 2 5 3 ‫)־‬.
(2) As p alavras de a b e rtu ra do livro de Atos (aNo prim eiro livro, ó Teófilo,
tra te i de tu d o aquilo que Jesus com eçou a fazer e ensinar, até ao dia em que foi
elevado [άνελήμφθη]”) dão a e n te n d er que Lucas p ressu p u n h a que havia feito
referência, ain d a que de passagem , à ascensão de Jesus, no final de seu p rim eiro
livro.
(3) Se o texto m ais breve fosse original, fica difícil de explicar a presença de καί
άνεφέρετο εις τόν ουρανόν em tantos testem unhos de diferentes tipos de texto,
com eçando com o ^75‫ ל‬que d ata de aproxim adam ente 200 d.C.
(4) Se um copista tivesse acrescentado essa frase ao texto do Evangelho, porque
se dera conta das im plicações de At 1.1-2 (veja o ponto 2, acima), seria de esp erar
que tivesse usado um a form a do verbo άναλαμβάνειν, usado em At 1.2 e em outras
passagens que se referem à ascensão. Um copista teria concluído que o uso do verbo
άναφέρειν era m enos apropriado, pois norm alm ente esse verbo é usado, no NT, no
sentido específico de “oferecer”.
(5) A om issão dessa frase em alguns teste m u n h o s pode ser explicada com o
um lapso ou falha de observação da p a rte de um copista que, sem se d a r conta,
passou de κλίλνεφ έρετο εις τόν ου ρ α νό ν p a ra Κλίλύτοί. Pode, tam b ém , ser ex-
p licad a como om issão intencional, p a ra resolver a a p a re n te co n trad ição e n tre
este relato, em que a ascensão parece oco rrer no final daquela noite do p rim eiro
dom ingo de Páscoa, e o relato de At 1.3-11, que coloca a ascensão q u a re n ta dias
depois da Páscoa; ou, então, p a ra estab elecer um a sutil diferen ça teológica e n tre
o Evangelho de Lucas e o livro de Atos, colocando to d as as descrições em que Je-
sus é ado rado no perío d o após a ascensão, em Atos. Isso pode explicar, tam bém ,
a om issão das p alav ras πρ οσ κυ νή σ α ντες α υτόν (adorando-o), no v. 52 — pois,
u m a vez rem ovido o relato da ascensão, p arece pouco ap ro p riad o dizer-se que
Jesus foi adorado.
160 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

24.52 προσκυνήσαντες αύτόν (adorando-o) {B}

E possível que a leitura ocidental m ais breve, sem προσκυνήσαντες αντόν, que
foi ad otad a na RSV e na REB, seja original, e que a leitura m ais longa seja um acrés-
cimo alexandrino (veja a “Nota sobre Não I n te r p o la te s O cidentais‫״‬, logo após o
com entário sobre Lc 24.53). É m ais provável, todavia, que essas palavras tenh am
sido om itidas por copistas. Isso pode ter ocorrido de form a acidental (quando o
copista, por engano, passou de λ γ τ ο ι p ara \γ τ0 Ν ), ou, talvez, de form a intencional
(para que o texto com binasse m elhor com a leitura m ais breve do v. 51; veja a últi-
m a observação a respeito da v ariante anterior, Lc 24.51).

24.53 εύλογοϋντες (bendizendo) {B}

As leituras α ίνοΰντες καί εύλογοϋντες (louvando e bendizendo) e εύλογοϋντες


καί α ίνούντες (bendizendo e louvando) são, com certeza, leituras m ais recen-
tes, que resu ltaram da com binação entre as leituras m ais antigas εύλογοϋντες e
αίνούντες. A dificuldade está em decidir entre as duas leituras m ais antigas, por
m ais que, em algum as línguas, os dois participios possam ser traduzidos de form a
idêntica. De um lado, seria possível a rg u m en tar que o participio de εύλογεΐν é origi-
nal, pois se tra ta de um verbo de uso frequente em Lucas (aparece outras doze vezes
no Evangelho de Lucas, ao passo que αίνεΐν aparece em apenas três outras passa-
gens). De outro lado, visto que no grego patrístico m ais recente, isto é, no período
posterior ao Novo Testam ento, o verbo εύλογεΐν passou a ser um term o tipicam ente
cristão, usado para louvar a Deus (em contraste com o uso que os pagãos faziam
de αίνεΐν), tudo indica que a tendência dos copistas teria sido substituir αίνούντες
por εύλογοϋντες.
O estudo do contexto tam bém não resolve a questão. Pode-se argum entar, de um
lado, que a presença de εύλογεΐν nos vs. 50-51 levou copistas a colocar εύλογοϋντες
no lugar de αίνούντες no v. 53. De outro lado, visto que, nos vs. 50-51 se diz que
Jesus abençoou (εύλόγησεν e εύλογεΐν) os discípulos, é possível que copistas te-
n h am concluído que, ao se descrever aquilo que os discípulos fizeram , seria mais
adequado u sar a palavra αίνούντες. Uma vez que a evidência in tern a não dá um a
resposta clara, optou-se pela leitura εύλογοϋντες, que tem o apoio de testem unhos
antigos e de diferentes tipos de texto.

24.53 θεόν. (Deus.) {A}

A palavra άμήν (amém), que não consta dos m ais antigos e m elhores represen-
tan tes dos tipos de texto alexandrino e ocidental, é um acréscim o litúrgico feito por
copistas (veja tam bém o com entário sobre Mt 28.20).
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS 161

NOTA SOBRE NÃO INTERPOLATES OCIDENTAIS

Uma das características do texto ocidental é a om issão, aqui e ali, de palavras e


passagens que aparecem em outros tipos de texto, incluindo o alexandrino. Como
se deveria avaliar essas om issões num a form a de texto que, em geral, é m ais longa
do que os outros tipos de texto? Segundo um a teoria popularizada ao final do sé-
culo 19 por W estcott e Hort, essas leituras m ais breves do texto ocidental deveríam
ser aceitas como texto original, por m ais que sejam apoiadas por testem unhos oci-
dentais que, em geral, são considerados de qualidade inferior, num a com paração
com os m anuscritos B e ‫ א‬, que geralm ente são considerados como de qualidade
superior. W estcott e H ort classificaram nove dessas leituras m ais breves como “Não
Interpolações O cidentais”, p artin d o do pressuposto de que, nessas passagens, todos
os testem unhos de que dispom os, exceto os ocidentais (ou, em certos casos, alguns
dos testem unhos ocidentais) contêm palavras que foram acrescentadas ou inter-
poladas. Essas nove passagens são Mt 27.49; Lc 22.19b24.3,6,12,36,40,51-52 ;2 0 ‫־‬.
Na segunda m etade do século 20, essa teoria passou a ser questionada cada vez
mais. Com a publicação dos Papiros Bodm er 0 p 66 72 73 74 75), o testem unho do tipo
de texto alexandrino retrocedeu do quarto século (m anuscritos B e ‫ ) א‬ao segundo
século, e hoje se pode n o tar com que fidelidade o texto foi copiado e recopiado no
período que vai entre o estágio representado por 75‫ לץ‬e o estágio representado pelo
Códice Vaticano (B). Além disso, eruditos se m ostraram críticos, em relação ao fato
de W estcott e Hort, sabe-se lá por que razão, terem dispensado um tratam en to es-
pecial a nove passagens do Novo Testam ento (colocando-as entre colchetes duplos),
sem darem o m esmo tratam en to a outras leituras que tam bém não aparecem em
testem unhos ocidentais. Por exemplo, em Mt 9.34; Mc 2.22; 10.2; 14.39; Lc 5.39;
10.41-42; 12.21; 22.62; 24.9 e Jo 4.9, o texto ocidental traz um a leitura m ais breve,
m as a m aioria dos críticos de texto (inclusive W estcott e Hort) entende que, nesses
versículos, o texto m ais longo é o original.
Com o surgim ento da assim cham ada Redaktionsgeschichte (em português, crí-
tica da redação), intérpretes passaram a an alisar os pressupostos e as tendências
literárias e teológicas que n o rtearam a form ação e transm issão do m aterial que apa-
rece nos Evangelhos. Os eruditos passaram a d ar atenção renovada à possibilidade
de que interesses teológicos específicos da p arte de copistas poderíam explicar a
om issão de d eterm inadas passagens em testem unhos ocidentais. Seja como for, os
editores do texto grego das Sociedades Bíblicas Unidas exam inaram cada um a das
nove “não interpolações ocidentais” em seus próprios m éritos e à luz da evidência
m ais am pla de m anuscritos, fazendo uso de m etodologias m ais atualizadas.
Cum pre m encionar ainda dois estudos recentes dessa questão das não interpo-
lações ocidentais que discordam das conclusões dos editores de O Novo Testamento
Grego (e dos editores do The Greek New Testament). Após um cuidadoso estudo dos
162 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

textos relevantes, B art E hrm an (The Orthodox Corruption of Scripture, especial-


m ente pp. 181-261) escreve: “Talvez seja m elhor to m ar esses textos como Tnterpo-
lações não ocidentais’, pois neles a tradição ocidental, de form a isolada, se coloca
contra as tendências antidocéticas dos escribas daquele tem po” (p. 242). Igualm en-
te instrutivo é o estudo que Parker (The Living Text o f the Gospels, pp. 148-174) fez
sobre aOs três últim os capítulos de Lucas”. Parker, que defende a originalidade das
não interpolações ocidentais, escreve: “O verdadeiro grupo é todo o texto de Lc 22 a
24, que requer tratam en to especial devido à proporção em que continuou a crescer
ou a se desenvolver. D entro desse texto em expansão, as não interpolações oci-
dentais são um subgrupo distinto que se caracteriza, em particular, por sua ênfase
antidocética” (p. 173).

OBRAS CITADAS

Bock, Darrell L., Luke 1:1— 9:50; Luke 9:51—24:53. BECNT. Grand Rapids: Baker
Books, 1994, 1996.
Ehrm an, Bart D. The Orthodox Corruption o f Scripture: The Effect of Early
Christological Controversies on the Text o f the New Testament. Nova Io rq u e/
Oxford: Oxford University Press, 1993.
Fitzmyer, Joseph A. The Gospel According to Luke I-IX; The Gospel According to Luke
X —XXIV. AB 28, 28a. G arden City, N. Y.: Doubleday, 1981, 1985.
Johnson, Luke Timothy. The Gospel o f Luke. SP 3. Collegeville, M innesota: The
Liturgical Press, 1991.
M arshall, I. How ard. The Gospel o f Luke: A Commentary on the Greek Text. NIGTC.
Grand Rapids: Eerdm ans, 1978.
Nolland, John. Luke 1— 9:20; Luke 9:21— 18:34; Luke 18:35—24:53. WBC 35a,
35b, 35c. Dallas, Tex.: Word, 1989, 1993, 1993.
Parker, David C. The Living Text o f the Gospels. Cambridge: Cambridge University
Press, 1997.
Potter, D. S. “Q uirinius”. Páginas 588-589 no volum e 5 de The Anchor Bible
Dictionary. Editado por David Noel Freedm an. 6 volumes. Nova Iorque:
Doubleday, 1992.
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO
P ara urna breve discussão sobre o texto de João, veja Brown, The G o sp el A cc o rd -
in g to J o h n (i —x ii), pp. CXXXI-CXXXII; e H aenchen, A C o m m e n t a r y on the G ospel
o f J o h n , vol. 1, pp. 40-43.

1 .3 4 ‫ ־‬ουδέ εν. δ γεγονεν έν (nem um a só coisa. O que foi feito em) {B}

As palavras ô γεγονεν devem ser ligadas ao que vem antes ou ao que vem depois?
Nesse lugar, os m anuscritos m ais antigos não têm pontuação. E, m esm o que tivessem ,
essa pontuação, a exem plo da pontuação encontrada em versões antigas e citações
patrísticas, seria simples reflexo da com preensão que, naquele tem po, se tin h a a res-
peito do significado da passagem .
A p ontuação que aparece no texto concorda com a m aioria dos escritores do perío-
do an terio r ao quarto século (tanto ortodoxos quanto hereges), que ligaram õ γέγενον
ao que segue. Q uando, porém , no qu arto século, os arianos e os hereges m acedônios
com eçaram a apelar a esse texto p ara provar que o Espírito Santo deveria ser conside-
rado um a criatura, escritores ortodoxos passaram a conectar õ γεγονεν ao texto ante-
rior, elim inando, assim , um possível uso desse texto pelos hereges. A pontuação que
aparece no texto tam bém se encaixa bem no balanço rítm ico dos versículos iniciais
do Prólogo, onde o paralelism o “g rad u al‫ ״‬ou ascendente parece exigir que o final de
um a linha corresponda ao início da linha seguinte.
Por outro lado, é preciso m encionar que João tem predileção por frases ou orações
que com eçam com a preposição έν seguida por um pronom e dem onstrativo (veja
13.35; 15.8; 16.26; 1J0 2.3,4,5; 3.10,16,19,24; 4.2, etc.). ARA (a exem plo da m aioria
das traduções m odernas) prefere a pontuação alternativa e traduz assim: “e, sem ele,
n ad a do que foi feito (ò γεγονεν) se fez. A vida estava nele”.

1.4 ήν (era) {A}

Para contornar a dificuldade sem ântica decorrente do fato de se tom ar ô γεγονεν


(v. 3) como sujeito de ήν (“aquilo-que‫־‬veio‫־‬a‫־‬ser nele era vida”), em vários m anuscritos,
versões antigas e textos de Pais da Igreja o tem po do verbo foi m udado do imperfeito
p ara o presente (έστιν). No entanto, a presença de um segundo ήν (na frase ή ζευή ήν το
φω ς, que vem logo a seguir) parece exigir que o prim eiro tam bém seja um imperfeito.

1.6 S e g m e n ta ç ã o

Caso se in serir u m a v írg u la após ανθρεοττος, bem com o após θεού, a locução
“enviado por D eus” se to rn a p aren tética. C onfira a REB: “A pareceu um hom em
164 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

cham ad o João. Ele foi enviado por D eus”. Caso, porém , não se colocar u m a v írg u la
após ά ν θ ρ ω π ο ς, a ênfase recai sobre o fato de João te r sido enviado por Deus. A
TEB tra d u z assim : “Houve um hom em enviado por Deus; seu nom e era Jo ã o ”.

1.9 Segm entação

Caso se fizer um corte ou um a pausa após ά ν θ ρ ω π ο ν (hom em ), o participio


ερχόμ ενον (vindo) se refere ao substantivo nom inativo n eu tro φ ω ς (luz). Confi-
ra, p o r exem plo, a ARA: ua v e rd a d eira luz, que, v in d a ao m undo, ilum ina a todo
hom em (πά ντα ά ν θ ρ ω π ο ν )” (p ara u m a a rg u m e n ta çã o a favor dessa segm entação,
veja C arson, The Gospel According to John, pp. 1 2 1 1 2 2 ‫)־‬. Caso, porém , não se fizer
u m corte após ά νθρ ω π ο ν, o participio se refere ao substantivo acusativo m asculino
ά νθ ρ ω π ο ν. C onfira, p or exem plo, a trad u ç ão altern a tiv a reg istra d a à m argem da
NBJ: “Era a v erd a d eira luz que ilum ina todo hom em que vem ao m u n d o ”. Segundo
B easley-M urray (John, p. 12), “ta n to u m a referência com o a o u tra fazem sen tid o e
se en caix am bem no contex to ”.

1.13 oi ov k ... έγεννήθησαν (os quais não ... nasceram ) {A}

Vários testem u n h o s antigos, em g ran d e p a rte latinos, têm esse texto no singu-
lar. “[Ele] que nasceu, não do sangue, nem da v ontade da carne, nem da von tad e
do hom em , m as de D eus”. O sin g u lar faria referência à origem divina de Jesus. A
Siríaca C u reto n ian a e seis m anuscritos da Siríaca P eshita traz em um sujeito p lu ral
(“os q u ais”) e o verbo no sin g u lar (“n asce u ”).
Todos os m an u scrito s gregos, bem com o o testem u n h o das versões antigas e das
citações p atrísticas, apoiam o nú m ero plural, que se refere a pessoas que p assam
a ser filhos e filhas de Deus em razão da iniciativa divina. (D entro do versículo,
existem diversas v aria n te s de m enor im p ortância: alguns m anuscritos om item o
artig o 01, o que faz com que o versículo não te n h a n en h u m vínculo g ram atical com
o versículo anterior. O utras v aria n te s deste versículo ap arecem na n o ta seguin te a
respeito de Jo 1.13.)
Vários exegetas m odernos d efen d eram a orig in alid ad e do singular. No en tan -
to, a concordância e n tre a esm agadora m aioria dos m anuscritos gregos favorece o
plural, que, além do m ais, concorda com o ensino característico do Evangelho de
João. A form a do sin g u lar pode ter surgido do desejo de levar o Evangelho de João
a fazer alusão explícita ao fato de Jesus ter nascido de um a virgem , sem falar da
influ ên cia do sin g u lar que ap arece ao final do versículo a n te rio r (o pronom e αυτοί),
ao final do v. 12). A form a do sin g u lar foi ad o ta d a na Bíblia de Je ru sa lé m de 1966.
No en ta n to , n a Nova Bíblia de Je ru sa lé m e na revisão feita em 1998 (publicada no
Brasil em 2002), optou-se p ela form a do plural.
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO 165

1.13 ουδέ εκ θελήματος àvópóç (nem da vontade do hom em ) {A}

Neste versículo, a seg u n d a e a terceira locuções a p resen tam sem elh an ças ta n to
no início (ουδέ ... ουδέ) como no final (σαρκός ... ά νδρ ό ς), o que fez com que co-
pistas acid en talm en te om itissem ou um a ou outra. O copista original do m anu scrito
E, bem com o copistas de vários outros m anuscritos m inúsculos, o m itiram a locução
ουδέ εκ θελήματος σαρκός (nem da vontade da carne). O copista original do m a-
nuscrito B om itiu a locução ουδέ εκ θελήματος ά νδρός.

1.18 μ ονογενής θεός (único Deus) {Β}

Q uando, em m eados da d écada de 1950, pesquisadores do texto do NT chega-


ram a conhecer as leituras de ^p66 e ^p75 (veja a discussão a respeito do texto alexan-
d rin o em “A P rática da Crítica T extual do Novo T estam ento”, na In trodução deste
livro), o peso da evidência e x te rn a favorável à leitu ra μ ονογενής θεός au m en to u
consideravelm ente. A leitu ra μ ονογενής υιός (único Filho), a d o ta d a p or RSV, NBJ,
NTLH e BN, é com certeza a leitu ra m ais fácil. No en tan to , p arece que copistas cria-
ram essa leitura, influenciados por Jo 3.16,18; lJ o 4.9. Não há razão que p o d ería
te r levado copistas a om itirem o artig o definido d ian te do substantivo θεός; m as,
q u an d o υ ιός (Filho) tom ou o lu g ar de θεός (Deus), copistas teriam acrescen tad o o
artigo. A leitu ra m ais breve, ό μονογενής, pode até p a re ce r original, pois explicaria
a origem das dem ais leituras. No en tan to , carece de um apoio m ais sólido ou ex-
pressivo de m anuscritos.
A lguns co m en taristas m odernos consideram μ ονογενής um substantivo e pon-
tu a m o texto de tal form a que resu ltam três designações diferen tes p a ra aquele que
revela Deus (μ ονογενής, θεός, ό ώ ν εις τόν κόλπον του π α τρ ό ς). A leitu ra aceita
com o tex to foi trad u z id a por “Deus Filho único ”, n a TEB, e “but God th e O ne an d
O nly” (m as Deus que é uno e único), na NIV (em inglés). S egundo Beasley-M urray
(John, p. 2, n. e), caso se a d o ta r a leitu ra que aparece com o texto em O Novo Testa-
m ento Grego, “θεός precisa ser visto com o aposto de μονογενής, no sentido de ‘Deus
q u an to à sua n a tu re z a ’, a exem plo do que acontece em 1.1c”.

1.19 [προς αυτόν] ([a e le /lh e ]) {C}

A v arian te tex tu al não tem m aior im p ortância p a ra o tradutor, pois o sentido


con tin u a o m esm o. É difícil decidir se copistas om itiram a locução π ρ ο ς αυτόν, por
en ten d erem que era supérflua (pois m ais adiante no m esm o versículo aparece o
pronom e αυτόν), ou se essa locução foi acrescentada, neste local ou após a p alav ra
Λ ευίτας (levitas), p a ra d eixar o texto m ais claro. O ptou-se pela leitu ra m ais longa,
que tem o apoio do m anuscrito B, em bora π ρ ο ς α υτόν ainda ap areça en tre colchetes,
166 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

p a ra indicar que não se tem certeza quanto à form a do texto original. O sentido é
essencialm ente o m esm o, quer se diga “as autoridades judaicas m an d a ram de Je-
ru salém sacerdotes e levitas p a ra p e rg u n ta rem a Jo ã o ‫( ״‬BN), quer se diga “quando
os ju d eu s lhe (προς αυτόν) en v iaram de Jeru salém sacerdotes e levitas p a ra lhe
p e rg u n ta re m ” (ARA).

1.21 Tí οΰν; Σύ Ή λ ία ς εΐ: (Ο que, então? És tu Elias?) {C}

Aqui existem v árias form as a ltern ativ as de texto ou v aria n te s com chance de
serem o texto original, m as foi escolhida aquela que tem o apoio de m anuscritos
antigos que rep re se n ta m diferentes tipos de texto. A lguns m anuscritos traz em τις
(quem ) em lu g ar de τί (o quê), e nem sem pre a ordem das palav ras e a divisão en-
tre elas é a m esm a; no en tan to , qu alq u er que seja a leitu ra escolhida com o texto, o
sentid o é essen cialm en te o m esm o.

1.26 εστηκεν (se postou) {B}

O tem po perfeito, que João usa com frequência num sentido teológico, tem u m a
força to d a especial nesse contexto (algo com o “existe Um que se postou no m eio
de vós”). Em vários testem u n h o s gregos, bem com o em diversos testem u n h o s lati-
nos, siríacos e coptas, não se deu m u ita atenção a essa n u an ça, pois optou-se p ela
form a do tem po p resen te, que parece m ais a d eq u ad a do ponto de v ista sintático.
Além do p resen te στήκει, ou tras leitu ras (o im perfeito έστήκει e o m ais-que-perfeito
είστήκει) não se e n q u ad ram no contexto e têm pouco apoio de m anuscritos. A m aio-
ria das trad u çõ es não reflete essa n u a n ça ou sutil d iferença e n tre o p resen te e o
p erfeito do verbo grego. Em razão disso, não se sabe ao certo se um a trad u ç ão com o
“no vosso m eio encontra-se alguém que vocês ain d a não conhecem ” (BN) se b aseia
no tex to ou n a v a ria n te te x tu a l στήκει.

1.28 εν Β ηθανία εγένετο (em B etânia aconteceram ) {C}

A leitu ra m ais an tig a e que se en co n tra em re p re se n ta n tes de vários de tipos de


tex to é Β ηθανία. Se a v a ria n te Β ηθαβαρά (B etabara) fosse original, não h averia
com o explicar por que copistas teriam alterad o esse texto p a ra Β ηθανία. O rígenes,
viajando p ela te rra de Israel no terceiro século, não conseguiu localizar n e n h u m a
B etânia do ou tro lado do Jo rd ão (até hoje não se sabe ao certo onde ficava essa
B etânia, que não deve ser co n fu n d id a com a cidade de B etânia que ficava p e rto de
Je ru sa lé m e que é m en cio n ad a em Jo 11.1,18.) Em razão disso, O rígenes adotou
a le itu ra Β ηθαβαρα, que, ao que parece, constava em alguns poucos m anuscrito s
que ele conhecia. O utro m otivo que levou O rígenes a p referir essa leitu ra é que ele
0 EVANGELHO SEGUNDO JOAO 167

pensav a que o significado desse nom e era “casa da p re p a ra ç ã o ”. S egundo O rígenes,


um nom e bem apropriado, com o ele m esm o explica: “P ara alguém que foi enviado
d ian te da face de Cristo, p a ra p re p a ra r o cam in h o d ian te dele, que lugar seria m ais
ap ro p riad o como lugar de batism o do que a ‘casa da p rep a ra ç ã o ’?” (Comentário
sobre João, livro VI, § 24 [40]).

1.34 ó υ ιό ς (o filho) {B}

Em lugar de “o Filho de D eus”, vários testem u n h o s, esp ecialm en te ocidentais,


tra z e m “o eleito de D eus” (leitu ra que é ad o ta d a na REB e na NBJ, e d efendid a por
C arson, The Gospel According to John, p. 152). A lguns testem u n h o s traz em “o eleito
Filho de D eus”. Com base na a n tig u id ad e e diversidade dos testem u n h o s, prefere-se
a leitu ra ό υιός. Essa leitu ra é tam b ém a que com bina com o vocabulário teológico
de João.

1.41 π ρ ώ το ν (prim eiro) {B}

A leitu ra π ρ ώ το ν é apoiada por testem u n h o s antigos e de d iferentes tipos de


texto. O significado é que a p rim eira (πρώ τον) coisa que A ndré fez, depois de ter
sido cham ado, foi p ro c u ra r o seu irm ão. A v a ria n te π ρ ώ το ς (no caso nom inativo)
significa que A ndré foi o prim eiro seguidor de Jesus a co n v erter alguém . Essa va-
rían te, que não foi a d o tad a p or n e n h u m a trad u ç ão m o d ern a, seria tra d u z id a por
“A ndré foi o p rim eiro a e n co n trar e dizer ...” A leitu ra π ρ ω ί (na m a n h ã [seguinte]),
que fica su b en ten d id a na p alav ra m ane que aparece em dois ou três m an u scrito s da
A ntiga L atina, evita as am biguidades das ou tras leitu ras e dá contin u id ad e à nar-
rativ a do v. 39. A p rim e ira edição da Bíblia de Je ru sa lé m reg istra essa v a ria n te , em
n o ta de rodapé: “ao a m a n h e c e r”. H avia sido a d o ta d a tam b ém na trad u ç ão inglesa
de M offatt.

1.42 *Κοάννου (de João) {B}

O nom e 'Ιω νά (de Jonas), que aparece n a m aio ria dos testem u n h o s m ais recen-
tes e que foi ad otado por Seg, é, m uito provavelm ente, um a alteração que copistas
in tro d u z ira m por influência do nom e B arjonas (Mt 16.17). A leitu ra ’Ιωαν(ν)ά re-
flete o u tra confusão dos copistas, desta vez com o nom e de um a m u lh er m encio-
n a d a u n icam en te por Lucas (Lc 8.3; 24.10). Veja tam b ém os com entários sobre Jo
21.15,16,17.
É possível que ‘Ιω ά ννου e ‘Itovâ sejam duas form as gregas do m esm o nom e
hebraico. Caso a trad u ção a d o ta r o princípio da consistência, ou seja, decidir g rafa r
os d iferen tes nom es da m esm a pessoa sem pre da m esm a form a, en tão o nom e que
168 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

ap arece aqui e em Mt 16.17 será g rafado de form a idêntica, pouco im p o rtan d o que
leitu ra for aceita com o texto. Por exem plo, TEV e NTLH trad u z em p or “Sim ão, filho
de Jo ã o ”, ta n to aqui com o em Mt 16.17.

2.12 καί ή μήτηρ αυτού m i 0*1 αδελφ οί [α υτοί1] και οι μ αθηταί α υ το ί' (e a m ãe
dele e os irm ãos [dele] e os discípulos dele) {C}

Nos m anuscritos, h á m uitas diferenças na ordem das palavras, bem com o a


om issão de u m a ou m ais palavras. A leitu ra que m elhor explica a origem das de-
m ais é aquela que foi escolhida com o texto. No en tan to , devido ao peso dos teste-
m u n h o s que om item o pronom e αυτού (dele) após o substantivo ά όελφ οί (irm ãos),
o pronom e ap arece e n tre colchetes, p a ra in d icar que não se tem certeza q u an to ao
tex to original.

2.15 φ ρ α γέλλ ιο ν (chicote) {B}

Vários testem u n h o s, incluindo os dois m ais antigos, in serem ώ ς (como) d ian te


de φ ραγέλλιον. Se essa p a la v rin h a tivesse constado no texto original, não h á com o
explicar p or que teria sido om itida de outros testem u n h o s ao longo do processo de
tran sm issão do texto. Por o utro lado, é provável que copistas te n h a m intro d u zid o
essa p alav ra com o objetivo de a b ra n d a r um pouco a afirm ação de que Jesus fez um
chicote de cordas: “ele fez u m a espécie de (ώς) chicote de co rd as”.

2.24 ovk έπίστευεν α υτόν α ύ το ΐς (não se confiava a eles) {C}

M uitos testem u n h o s aclaram o sentido do texto, colocando εαυτόν (a si m esm o)


em lu g ar do pronom e αυτόν. E m bora α υ τόν te n h a sido om itido (provavelm ente de
form a acidental) p o r alguns copistas, é suficientem ente forte o apoio de m anus-
critos favoráveis à sua inclusão. As v aria n te s não têm m aior im p o rtân cia p a ra a
trad u ç ão do texto. As diferenças e n tre α υτόν e εαυτόν não a lteram o significado. E,
m esm o que a leitu ra sem o pronom e fosse original, em m uitas línguas, na ho ra de
trad u zir, seria necessário incluí-lo no texto.

3.13 α νθ ρ ώ π ο υ (do hom em ) {B}

Ao final deste versículo, a m aioria dos testem u n h o s traz a locução ό ώ ν εν τώ


ο ύ ρ α νώ (que está no céu). Tudo indica que este seja um co m entário in terp retativ o
que alg u m copista, in fluenciado por discussões cristológicas daquele tem po, inse-
riu no texto. Por o utro lado, a leitu ra m ais longa pode m uito bem ser original, pois
o apoio p a ra a leitu ra m ais breve vem quase que exclusivam ente de testem u n h o s
O EVANGELHO SEGUNDO JOÃO 169

egípcios. A diversidade de leitu ras v a ria n te s p o d ería in d icar que copistas tiveram
dificuldade com a expressão ó υιό ς του ά νθ ρ ώ π ο υ ó ώ ν έν τω ού ρ α νω e tra ta ra m
de a lte ra r o texto, om itindo a locução p articipial, ou, então, m odificando o texto
p a ra que o m esm o não desse a e n te n d e r que, naquele m om ento, o Filho do H om em
estava no céu. A m aio ria das trad u çõ es m o d ern as prefere a leitu ra m ais breve (por
exem plo, NRSV, ARA e NBJ), ao passo que algum as o p tam pelo texto m ais longo
(REB, Seg).

3.13 Segmentação

Jesus com eçou a sua resp o sta à p e rg u n ta de N icodem os no v. 10, m as não fica
claro onde ex atam en te te rm in a m as suas palavras. A lgum as traduções, com o a
TEV, en ten d em que a citação te rm in a no final do v. 13, en q u an to o u tras colocam
asp as no fin a l do v. 15 (RSV, CNBB). A m aio ria , p o rém , coloca asp as no fin al do
v. 21 (TEB, NBJ, BN, NVI). Beasley-M urray (John, p. 46) en ce rra a citação ao final
do v. 12, e com enta que “as p alavras que Jesus dirige ao seu in terlo cu to r n a seg u n d a
pessoa te rm in a m no final do v. 12; elas dão lugar, nos vs. 1 3 2 1 ‫־‬, a um a m editação
sobre a subida do Filho do H om em .

3.15 εν α ύ τφ (nele) {B}

Aqui, p a ra se to m a r um a decisão e n tre as d iferentes a ltern ativ as de texto, en-


tra m em consideração problem as de ordem exegética e tex tu al. Exceção feita a
esta passagem , depois do verbo πισ τευειν (crer) o autor do E vangelho sem pre usa
a preposição εις (34 vezes), n unca έν. Por outro lado, se, n esta passagem , έν αΰτω
for original, o significado p o d eria ser “p a ra que todo o que crê te n h a nele [isto é,
apoiado nele como elem ento causador] vida e te rn a ”. Essa in terp retaç ã o e n co n tra
apoio no fato de que João coloca u m a locução adverbial com έν antes do verbo (nes-
te caso, έχτίλ sem pre que essa locução é enfática ou m etafórica (veja 5.39; 16.33; e
vários exem plos em 1João). A leitu ra έν αύτώ é am bígua, e por isso parece ser a que
m elhor explica 0 surgim ento das dem ais leituras.
Traduções m o d ern as refletem as diferentes in terp retaçõ es de έν αύτω: (1) “p a ra
que todo o que nele crê te n h a a vida e te rn a ” (NRSV, ARA, NVI, CNBB, TEV, FC,
Seg); e (2) “a fim de que todo aquele que crer te n h a nele vida e te rn a ” (NBJ, TEB,
e tam b ém REB).

3.15 Segmentação

Veja os com entários sobre o v. 13. P ara um a arg u m e n ta çã o no sentido de que as


p alav ras de Jesus term in a m aqui, veja C arson, The Gospel According to John, p. 203.
170 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

3.21 Segm entação

Veja os co m en tários sobre o v. 13. P ara u m a a rg u m e n ta çã o que defende o final


d a citação das p alav ras de Jesus neste lugar, veja Brown, The Gospel According to
John (i—xii), p. 149.

3.25 μετά 'Ιο υ δ α ίο υ (com um judeu) {B}

Tanto ’Ιο υ δα ίο υ q u an to 'Iouóaítov (judeus) são leitu ras antigas, e a evidência


e x te rn a está m ais ou m enos dividida. De m odo geral, no e n tan to , é m ais provável
que o sin g u lar (que, em João, ocorre som ente aqui) te n h a sido tro cad o pelo plural,
que é m uito m ais com um em João, do que im a g in ar o processo inverso. A REB (bem
com o a trad u ção esp an h o la Reina-Valera) ad o ta o plural: “com alg u n s ju d e u s”.

3.30 Segm entação

João B atista com eçou a falar no v. 27, m as não está claro onde te rm in a o dis-
curso dele. A lgum as trad u çõ es colocam as aspas ao final do v. 30 (NRSV, CNBB);
outras, ao final do v. 36 (NBJ, BN, NVI).

3.31-32 ερχόμενος [επάνω π ά ντω ν έστίν·] ο έώρακεν καί ήκουσεν τούτο μαρτυρεί
(vem [acima de todos está;] aquilo que ele viu e ouviu disso dá testem unho) {C}

Aqui estão envolvidas diferentes variações. No inicio do v. 32, a p alav ra καί não
é original, pois é om itida pelos m ais respeitados m anuscritos. Além disso, copistas
de vários docum entos o m itiram τούτο por en ten d erem que se tratav a de repetição
desnecessária. A questão principal — a inclusão ou exclusão de έπάνιο π ά ντω ν έστίν
— é m ais difícil de resolver. E possível que copistas ten h a m om itido essas palavras,
por en ten d erem tratar-se de algo supérfluo, um a sim ples repetição das palavras que
aparecem no com eço do v. 31. Tam bém é possível que um copista m enos atento
te n h a acrescentado essas palavras após a segunda ocorrência de ερχόμενος (vin-
do). A leitu ra m ais breve é trad u zid a por “Aquele que vem do céu te s te m u n h a ...”
P ara m o strar que não se tem certeza a respeito do texto original, as palavras επά νω
π ά ν τω ν έστίν foram colocadas en tre colchetes. A leitu ra sem έπά νω π ά ν τω ν έστίν
foi a d o ta d a por REB, NBJ, e TEB.

3.34 δ ίδω σ ιν τό πνεύ μ α (dá o Espírito) {B}

Por algum lapso, o copista do m an u scrito B havia om itido, o rig in alm en te, as
p alav ras το πνεύ μ α . No en tan to , o m esm o copista m ais ta rd e an o to u essas pala-
O EVANGELHO SEGUNDO JOÃO 171

v ras à m argem do m anuscrito. P ara ter certeza de que o leitor e n te n d ería que 0
θεός (Deus), m encionado an te rio rm en te no versículo, é tam b ém o sujeito do verbo
δ ίδω σ ιν (dá), vários testem u n h o s rep etem ό θεός d ian te de δίδω σιν. Q uanto a o
θεός, B easley-M urray (John, p. 45, n. k) co n stata que parece tratar-se de um acrés-
cim o, m as que “serve p a ra c la rea r (com acerto) quem é que, nesse contexto, dá o
Espírito: Deus ou ‘aquele que Deus en v io u ’”.
A evidência e x tern a, isto é, o peso dos m anuscritos, favorece a adoção do texto
m ais breve, sem as p alav ras ό θεός. Essa leitu ra m ais breve pode significar “Aquele
que Deus enviou diz as p alavras de Deus, pois aquele que Deus enviou dá o Espírito
sem m ed id a”. Pode, tam bém , significar “Aquele que Deus enviou diz as p alav ras de
Deus, pois Deus lhe dá o Espírito sem m ed id a”. Em o u tras palavras, aquele que d á o
Espírito pode ser ta n to Jesus com o Deus. Se a seg u n d a in te rp retaç ã o do texto m ais
breve estiver co rreta (tendo Deus com o sujeito), a v a ria n te te x tu a l que tra z as pala-
v ras ό θεός não terá m aior im p o rtân cia p a ra o trad u to r, pois o significado do texto
não m uda, pouco im p o rtan d o se a p alav ra “D eus” está explícita no texto ou não.

3.36 Segmentação

Veja os com entários sobre o v. 30.

4.1 εγνω ό 'Ιησούς (Jesus veio a saber) {C}

Se κύριος (Senhor) fosse original, é pouco provável que algum copista teria
tro cad o essa p alav ra por 'Ιησούς, que ocorre duas vezes na sequência do texto. Por
o u tro lado, d ian te de um uso cada vez m ais frequente do título κύριος em referên-
cia a Jesus (na Igreja antiga), e p a ra m elh o rar o estilo (evitar a repetição do nom e
Jesus no m esm o contexto), é possível que m ais de um copista te n h a tro cad o ,Ιησούς
por κύριος. A lguns eruditos cheg aram a sugerir que, orig in alm en te, o verbo εγνω
(soube/veio a saber) aparecia sem sujeito expresso e que, m ais tard e, alguns copis-
tas ten h a m inserido 'Ιησούς, e outros, κύριος. A m aioria das traduções tem “Je su s”,
m as algum as (por exem plo, RSV e Seg) trazem “o S en h o r”.

4.3 π ά λ ιν (outra vez) {A}

A leitu ra que aparece no texto tem sólido apoio de m anuscritos. A om issão de


π ά λιν em boa p arte dos m anuscritos pode ter ocorrido de form a acidental. Ou é pos-
sível que copistas ten h a m om itido essa palavra intencionalm ente, um a vez que Jesus
só chega à Galileia dois dias m ais tard e (v. 43), depois de um a p ara d a na S am aria, e
porque um leitor pode ter se equivocado, p ensando que π ά λιν significava que Jesus
teria voltado um a segunda vez p a ra a Galileia, depois de ter saído da Judeia.
172 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

4.5 Σ υχάρ (Sicar) {A}

Tudo indica que Sicar seja a m o d ern a localidade de Asear, que fica m ais ou me-
nos dois quilôm etros ao n orte do poço de Jacó. D eixando de lado os problem as de
identificação de Sicar, é preciso dizer que é bem m ais provável que o texto origin al
seja m esm o Sicar, e não Siquém (Συχέμ), que é u m a leitu ra que tem apoio bem
restrito de m anuscritos. (O poço de Jacó ficava bem p erto da cidade de Siquém.) A
leitu ra Σιχάρ, que aparece no m anuscrito 69, é um a form a altern a tiv a de g rafar a
p alav ra Συχάρ, que se originou no grego m ais recente.

4.9 ού γάρ σ υ γχρ ώ ντα ι ’Ιου δα ίοι Σ α μ α ρ ίτα ις (pois judeus não usam
[utensílios p a ra com ida e bebida] em com um com sam aritanos) {A}

Vários testem u n h o s om item esse com entário explicativo. Já se pensou que es-
sas p alav ras seriam um co m entário que um copista dos tem pos antigos inseriu
na m argem de um m an u scrito e que acabou e n tra n d o no texto da m aioria dos
testem u nh os. No en tan to , esse tipo de co m entário p aren tético c aracteriza o estilo
do evangelista. A om issão pode ser resu ltad o de um erro involuntário. T am bém é
possível que copistas te n h a m om itido essa oração porque, no e n te n d er deles, não
era literalm en te exata. O significado do verbo σ υ γχ ρ ώ ντα ι é assunto controverso.
A lguns acham que significa arelacio n ar‫־‬se com ”. E ntre as trad u çõ es que seguem
nessa lin h a estão “não se relacionam com ” (CNBB), “não se dão com ” (ARA, NTLH,
NBJ, FC, e Seg), “não se dão bem com ” (NVI, BN), e “não querem te r n ad a em co-
m um com ” (TEB). O utros en ten d em que o verbo significa “u sa r em com um ”, fican-
do im plícito que se tra ta de “utensílios p a ra com ida e b eb id a”. Esse e n ten d im en to
está po r trás de trad u çõ es como “ju d eu s não usam os m esm os copos e potes que os
sa m arita n o s u sa m ” (TEV) e “ju d eu s não co m p a rtilh am dos m esm os copos que os
sam aritan o s u sa m ” (REB).

4.11 λέγει αύτώ [ή γυνή] (diz a ele [a m ulher]) {C}

Em m u itas lín g u as, essa v a ria n te não te rá m aio r im p o rtâ n c ia p a ra a trad u ç ão ,


pois será n e cessário ex p licitar o sujeito do verbo. Será que copistas acrescen-
ta ra m ή γυνή p a ra d e ix a r claro quem é o sujeito de λέγει (assim com o εκείνη
[aquela (m ulher)] foi a cresce n tad o pelo copista o rig in a l do Códice S inaítico [‫?)] א‬
Ou será que copistas o m itiram o sujeito po r e n te n d e re m que e ra su p érflu o , com o
aco n tece em dois m an u scrito s a le x a n d rin o s e duas versões antigas? P ara re fle tir
o e q u ilíb rio e n tre essas possib ilid ad es, as p a la v ra s ή γυνή foram colocadas no
tex to , só que e n tre colchetes, p a ra in d ic a r que não se tem c e rtez a q u a n to ao tex to
o rig in al.
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO 173

4.35-36 θερισμόν, ήόη ó θ ερ ίςω ν (colheita. Já aquele que colhe) {B}

A p a la v ra ήόη (já) p o d e se r lid a com o que vem a n te s, no se n tid o de “os


cam p o s ... já b ra n q u e ja m p a ra a c eifa ” (ARA; ta m b é m RSV, REB, TEV, NTLH,
BN). Ou, ήδη p o d e ser c o n e c ta d o com o que seg u e, no v. 36, sig n ific a n d o “Já o
ceifeiro rec eb e o seu s a lá rio ” (TEB, CNBB, Seg, FC, NBJ, NVI). A se g u n d a opção
(ήόη c o m e ça n d o a oração) é a que m e lh o r se e n c a ix a no estilo de João. No en-
ta n to , p a ra e x clu ir essa p o ssib ilid ad e , ou seja, p a ra im p e d ir que ήόη fosse lido
com o que seg u e, os co p istas de a lg u n s m a n u sc rito s in s e rira m καί (e) no início
do v. 36.

4.48 Segmentação

As p a la v ra s de Jesu s n esse versícu lo p o d e m ser e n te n d id a s com o a firm aç ão


e n fá tic a (é o caso da m a io ria das trad u ç õ es), ou p o d em ser lidas com o u m a per-
g u n ta (assim n a REB), o que a te n u a um pouco a c e n su ra im p lícita no texto.

4.51 π α ΐς α υτοί' (seu filho) {B}

Em lu g ar de “seu filh o ”, o u tro s m an u scrito s tra z e m “seu m e n in o ”, “teu filh o ”,


e “teu m e n in o ”. E m bora M ateus e Lucas u sem π α ΐς com freq u ên cia, essa p a la v ra
n ão a p arece em n e n h u m a o u tra p assag em em João, que p refe re o term o υ ιό ς.
A p aren tem e n te , p or in flu ê n cia do contex to im ed iato , copistas tro c a ra m o inu sita-
do π α ΐς p o r υ ιό ς, que o corre nos vs. 46,47,50,53. A fo rm a σου (teu) su rg iu q u an d o
copistas e n te n d e ra m que õ n e ra u m a fo rm a de in tro d u z ir d iscu rso d ireto , ou seja,
u m a citação das p a la v ras dos servos. N esta p assag em , a d ifere n ça e n tre π α ΐς e
υ ιό ς não tem m aio r im p o rtâ n c ia p a ra a trad u ç ão , pois os versículos a n te rio re s
id en tificam aquele filho (ou aq u ela crian ça) com o um “m e n in o ”.

5.1 έορτή (um a festa) {A}

A ev id ência e x te rn a em peso favorece a form a do tex to em que εορτή a p are-


ce sem artig o . A te n d ê n c ia n a tu ra l dos copistas seria d a r a essa festa sem nom e
u m a id en tificação m ais precisa, in se rin d o o a rtig o ή (com provável refe rê n c ia à
Páscoa). Essa m esm a ten d ê n c ia explica o acréscim o, em dois m an u scrito s (não
m en cio n ad os no a p a ra to de O Novo Testamento Grego), das p a la v ras “dos a sm o s/
sem fe rm e n to ” e “te n d a s ” (ou seja, “P e n tec o stés” ou “T a b e rn ác u lo s”). Os estu d io -
sos a in d a não c h eg a ra m a um co nsenso q u an to a que festa se tem em v ista. E n tre
as sugestões estão Páscoa, T abernáculos, P entecostés, P urim , e Ano Novo (veja
H aen ch en , A C om m entary on the Gospel o f John, vol. 1, p. 243).
174 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

5.2 Β ηθζαθά (B etzatá) {C}

Das v árias leituras, Β ηθσαϊδά (B etsaida) tem sólido apoio de m anuscritos, m as


tu d o indica que não seja original, pois p arece u m a alteração feita à luz de Jo 1.44,
que m enciona a cidade de B etsaida ju n to ao m ar da Galileia. Βηθεσόά (Betesda)
tem am plo apoio, m as tam b ém p arece ser u m a m odificação in tro d u zid a por causa
do significado do nom e (‫ ב י ת ח סזי א‬, “Casa da M isericordia [D ivina]”). O Rolo de
Cobre (3Q15 11.12), descoberto em Q um ran, traz u m a referência a um tan q u e em
B e t h e s h d a t h a y i m , o que p o d e ría d a r suporte à leitu ra “B etesda” (Brown, The G o sp el
A c c o r d in g to J o h n [i —x ii] , pp. 2 0 6 2 0 7 ‫ ;־‬e Carson, The G o sp el A c c o r d in g to J o h n , p.
241). A leitu ra Β ηθζαθά (B etezata) é um texto difícil, m as é m elhor do que qual-
quer das o u tras opções. Tanto Βηζαθά quanto, talvez, Βελξεθά podem ser form as
altern ativ as de g rafa r a m esm a palavra. T raduções m o d ern as refletem a in certeza
q u an to ao texto original: “B etzatá” (TEB, TEV, FC), “B ezata” (CNBB), “B eth zata”
(NBJ, RSV, NRSV), “B etezata” (NTLH), e “B etesda” (ARA, NVI, BN, REB, Seg). P ara
u m a discussão a respeito das v a ria n te s tex tu ais e da evidência arqueológica, veja
Strange, “B eth-Z atha”.

5.3 ξη ρώ ν (ressecados) {A}

Depois de ξηρώ ν, o texto o cidental acrescen ta π α ρ α λ υ τικ ώ ν (paralíticos), u m a


leitu ra que, todavia, não e n tro u em n en h u m texto m ais recente que se conheça.
Esse acréscim o se deve ao fato de que o hom em cu rad o por Jesus p arece te r sido um
p aralítico (um a p alav ra que não ocorre em n en h u m outro lugar, em João). Talvez
p a ra explicar a referência, no v. 7, ao fato de a água ser agitada, u m a série de teste-
m u nhos acrescenta έκδεχομένω ν την του ϋ όα τος κίνησιν (esperando ο m ovim ento
da água). E n tretan to , essas p alavras não se en co n tram nos m ais antigos e m elho-
res testem u n h o s. Além disso, nesse texto ap arecem duas palav ras (εκδέχεσθαι e
κίνησις) que não aparecem em n en h u m o utro contexto, no E vangelho de João.

5.4 o m is s ã o d o versícu lo {A}

O v. 4 é um acréscim o ao texto original. Isto fica claro pelo seguinte: (1) É um


texto que não aparece nos m ais antigos e m elhores testem u n h o s. (2) Em m ais de 20
testem u n h o s gregos ap arecem asteriscos ou obelos, p a ra sin alizar que essas pala-
v ras não são originais. (3) Nesse texto ap arecem palav ras e expressões que não são
típicas de João (κατά καιρόν, έμβαίνω [para falar da e n tra d a na água], έκόέχομαι,
κατεχομαι, κίνησις, ταραχή, δήποτε, e νόσημα — as ú ltim as q u atro ap arecem ape-
nas aqui, em todo o NT). (4) O versículo foi tran sm itid o n u m a g ran d e diversidade
de form as v arian tes.
O EVANGELHO SEGUNDO JO AO 175

ARA e NTLH incluem esse texto e n tre colchetes. FC faz o m esm o, com u m a n o ta
explicativa: aA passagem colocada en tre colchetes (final do v. 3 e v. 4) não aparece
em m uitos m anuscritos a n tig o s”. A m aioria das trad u çõ es m o d ern as não inclui esse
acréscim o no texto da tradução, p referindo colocá-lo n u m a n o ta de rodapé, com a
explicação de que se en co n tra em “outros testem u n h o s a n tig o s” ou “alguns m anus-
critos a n tig o s”.

5.17 δε [‘Ιησούς] (M as [Jesus]) {C}

P ara efeitos de trad u ção , não faz d iferen ça se o nom e “Je su s” é orig in al ou não,
pois o significado é o m esm o. É difícil decidir se copistas acresce n tara m a p alav ra
’Ιησούς, p a ra su p rir de sujeito o verbo ά πεκρίνα το (respondeu), ou se, por razões
estilísticas, ela foi om itida em m an uscritos do tipo de texto alex an d rin o . ’Ιησούς
aparece e n tre colchetes p a ra m o strar in certeza q u an to ao tex to original. As leitu ras
com κύριος (Senhor) não têm chance de serem originais.

5.32 o ió a (sei) {A}

A leitu ra o cidental οϊόατε (sabeis) é fruto da intenção de copistas de refo rçar


o arg u m en to , levando os ju d eu s a ad m itir que eles sabem que a evidência do tes-
tem u n h o (μ αρτυρία) de Jesus é v e rd ad eira (com o d e ta lh e de que a alteração do
texto e n tra em choque com o que está im plícito na seg u n d a p a rte do v. 37). O utros
copistas, talvez influenciados pela ocorrência frequente de οΐόαμ εν (sabem os) em
João (3.2; 4.42; 7.27; 9.20,24,29,31; 16.30; 21.24), tro c a ra m o iõ a por οϊδαμεν.

5.44 θεού (Deus) {B}

P ara a trad ução, a v arian te, que om ite θεού, não tem m aior im p o rtân cia, pois o
significado não m uda. Por m ais que im p o rtan tes testem u n h o s antigos o m itam θεού,
esta p alav ra p arece ser exigida pelo contexto. Tudo indica que um copista, aciden-
talm en te, om itiu as letras θ γ (a a b re v iatu ra usual p a ra θεού) ao copiar a sequência
τογΜ Ο Ν ογθγογ.

6.1 τής Γ αλιλα ία ς (da Galileia) {A}

A e stra n h e z a da construção em que dois genitivos aparecem um após o outro,


iden tifican d o o m esm o m ar (τής Γ αλιλα ία ς τής Τ ιβ ερ ιά δο ς), levou alguns copistas
a a lte ra r o texto. A lguns o m itiram τής Γ αλιλαίας, en q u an to outros a crescen taram
καί (e) ou εις τά μέρη (para as regiões) após τής Γ αλιλαίας. Esta ú ltim a leitura, que
é a m ais elegante de todas, significa “atravessou o m ar da G alileia p a ra as regiões
176 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

de T ib eríad es”. Se essa leitu ra fosse original, seria difícil de explicar o surgim en to
das v arian tes. A leitu ra que aparece como texto em O Novo Testamento Grego se
tra d u z por “atrav essou o lago da Galileia, que tam b ém é cham ado de T ib eríad es”
(NTLH e NRSV). O u tra possibilidade é: “p a rtiu p a ra a o u tra m argem do m ar da
G alileia (ou seja, do m ar de T iberíades)” (NVI).

6.14 õ έποιησεν σημεΐον (o sinal que ele havia feito) {B}

Im pressiona a com binação de m anuscritos que apoia o plural a ... σημεία (os
sinais), m as essa leitu ra parece ter surgido sob in fluência do plural em 2.23; 6.2.
C opistas acresce n tara m ó Ιη σ ο ύ ς (Jesus) p a ra d eix ar claro quem é o sujeito do
verbo έποιησεν. V árias trad u çõ es trazem , neste lugar, o nom e “Je su s”, m as não fica
claro se isso se deve a u m a p referência pela v a ria n te ou se o nom e foi inserido por
causa dos princípios de trad u ção adotados.

6.15 άνεχώ ρησεν (retirou-se) {A}

É possível que copistas te n h a m colocado άνεχώ ρησεν (um a p alav ra que aparece
com freq uência em M ateus, m as que, em João, ocorre som ente n esta passagem ) em
lug ar de φ εύγει (foge), porque fuga lhes p arecia algo indigno de Jesus. No en tan to ,
a leitu ra άνεχώ ρησεν tem apoio de m anuscritos antigos e de diferen tes tipos de
texto. O verbo φ εύγει (que ap arece na NBJ, “Jesus ... refugiou-se”) tem todas as
características de ser u m a leitu ra tipicam ente ocidental, in tro d u z id a no texto de
vários testem u n h o s com a fin alid ad e de d a r vivacidade à n arrativ a.

6.22 έν (um) {A}

A fim de a c la ra r a afirm ação do au to r a respeito do barco, copistas acrescenta-


ram , em d iferen tes form as, a explicação de que era o barco “no qual os seus discípu-
los [os discípulos de Jesus] h aviam e n tra d o ”. A v aried ad e de form ulações, no caso
desse acréscim o, m o stra que ele tem c a rá te r secundário, assim com o a a n tig u id ad e
e a v aried ad e dos testem u n h o s que apoiam a leitu ra m ais breve confirm am que este
é o tex to original.

6.23 ά λλα ηλθεν π λ ο ιά [ρ ια ] έκ Τ ιβ ερ ιά δο ς


(outros barcos ch eg aram de T iberíades) {C}

Aqui, existe u m a série de v arian tes, a m aioria consistindo em retoques esti-


lísticos. A leitu ra aceita com o tex to é apoiada por 1*p75 e vários testem u n h o s que
rep re se n ta m d iferentes tipos de texto. Além disso, é a leitu ra que m elhor expli-
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO 177
ca o su rg im en to das dem ais. Q uanto à variação e n tre π λ ο ία (barcos) e π λ ο ιά ρ ια
(barquinhos), a evidência está dividida, de sorte que as letras p ia ap arecem en tre
colchetes, p a ra indicar in certeza quanto ao texto original.

6.23 Segmentação

O n eu tro plural άλλα (outros) qualifica “b arco s”. O significado é “outros barcos
de T ib eríad es”. Mas se a p alav ra for ace n tu a d a com o a conjunção άλλα, o sentido
p assa a ser “m as barcos de T ib eríad es”.

6.23 ενχα ρ ισ τή α α ντο ς το ν κύριον (o Senhor ten d o dado graças) {B}

Essas p alavras se en co n tram na m aioria dos tipos de texto e são, provavelm ente,
originais. Não se encontram , todavia, em alguns testem u n h o s ocidentais (seguidos
pela NBJ). Este dado, aliado ao fato de que, na n a rra tiv a de João, ra ra m e n te κύριος
se refere a Jesus, parece sugerir que essa frase seja um com entário que alg u m co-
pista an o to u à m argem de um m an u scrito e que acabou sendo inserido nos dem ais
textos.

6.27 νμιν òcóoei (vos dará) {A}

O verbo no tem po futuro, que aparece com o texto em O Novo Testamento Gre-
go, tem sólido apoio de m anuscritos. Vários testem u n h o s traz em o tem po presen-
te, um a alteração que a p aren te m e n te foi influ en ciad a por ôíócooiv ύμΐν, no v. 32.
Q uanto ao tem po futuro, M oloney (The Gospel o f John, p. 209) constata: “C hegará
um m om ento, m ais ad ian te na n a rra tiv a , quando a revelação de Deus no levanta-
m ento do Filho do H om em to rn a rá disponível um a com ida que vai d u ra r p a ra a
vida e te rn a ... Não há como q u estio n ar essa prom essa, p or m ais velado que esteja
seu significado final neste estágio da n a rra tiv a , pois Deus, o Pai, pôs o seu selo so-
bre o Filho do H om em (v. 27c)".

6.36 [με] ([me]) {C}

Alguns testem u n h o s (seguidos pela TEB e pela REB) não têm o pronom e με.
É possível que este seja o texto original, e que με acabou e n tra n d o nos outro s tes-
tem u n h o s a p a rtir do contexto. Nesse caso, a afirm ação de Jesus, “vós vistes e no
en ta n to não acreditais", claram en te se refere aos sinais que as pessoas h aviam visto
(v. 26). No en tan to , d iante da im pressionante a n tig u id ad e e da d istribuição geográ-
fica dos testem u n h o s que apoiam με, o pronom e foi colocado en tre colchetes, p a ra
in d icar in certeza quanto ao texto original. B easley-M urray CJohn, p. 85, n. n) tem
178 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

razão ao a firm ar que “neste contexto, a inclusão de με não a c a rre ta ria um a subs-
tan cial alteração de significado”.

6.47 ο πιστεύεον (quem crê) {A}

O acréscim o de εις εμέ (em m im ) com o objeto do verbo “c re r” era n a tu ra l e


inevitável. O que su rp re en d e é que um g ran d e n ú m ero de copistas não acrescen to u
essas p alav ras. Se essas p a lav ras tivessem constado no texto original, não há com o
ex p licar de form a convincente por que teria m sido om itidas. A Siríaca A ntiga (“crê
em D eus”) tra to u de h a rm o n iz a r o texto com 14.1. Em algum as línguas, talvez se
te n h a que exp licitar o objeto do p articip io πιστευω ν. Nesse caso, a m elh o r opção é
seg u ir o exem plo dos copistas que a cresc e n ta ra m “em m im ”.

6.52 [αύτοΰ] ([su a/d ele]) {C}

Existe g ran d e equilíb rio e n tre a evidência e x te rn a que apoia a inclusão de


α ύτου e a evidência e x te rn a que depõe c o n tra a p resen ça desse pronom e no texto.
T am bém existe eq u ilíb rio nos a rg u m e n to s derivados da evidência in te rn a , ou seja,
n a co n sid eração daquilo que o au to r ou os copistas provavelm ente te ria m escrito.
Por essas razões, o pronom e ap arece e n tre colchetes, p a ra in d ic ar in ce rte za q u an to
ao tex to o riginal. Em alg u m as línguas será necessário u sa r o pronom e “su a ” inde-
p e n d e n te m e n te da le itu ra aceita com o original.

6.58 οι πα τέρ ες (os pais) {A}

Por causa da afirm ação “vossos pais com eram o m an á no d eserto e m o rre ra m ”,
no v. 49, vários copistas in tro d u z ira m o pronom e ύμ ώ ν (vossos), ou, po r iotacism o,
o p ro n o m e ήμώ ν (nossos) no texto do v. 58. Q uanto à leitu ra το μ άννα (o m an á),
que ap arece em te ste m u n h o s m ais recentes, trata-se, com certeza, de um acrésci-
m o p o ste rio r ao texto.
As trad u çõ es m o d ern a s não são u n ân im es. A lgum as têm “os p a is” (RSV) ou “os
a n tig o s” (BN); o u tras, “n o sso s” pais (NJB [em inglês] e REB), m as a m aio ria pre-
fere “vossos p a is” (NRSV, ARA, NTLH, NIV, CNBB, FC, TEB). Segundo N ew m an e
N ida (A Translator’s H andbook on the Gospel o f John, p. 210),

[e]m m uitas línguas não se pode sim plesm ente falar a respeito dos “p a is”,
pois todos os term os de p aren tesco ocorrem com o assim cham ado “posses-
sivo o brig ató rio ”. Isto significa que é preciso haver algum a referência nom i-
n al ou p ro n o m in al que identifique cada relação de parentesco. No en tan to ,
até m esm o em línguas que não exigem a presença de um possessivo ju n to
O EVANGELHO SEGUNDO JO ÃO 179

a term os de paren tesco existe u m a ten d ên cia de especificar as relações de


p arentesco. Nesse contexto, ao se tra d u z ir o term o “p a is”, a escolha en tre
“vossos” ou “nossos” vai depender, acim a de tudo, de com o se in te rp re ta o
nivel em ocional do discurso. A trad u ção por “nossos p a is” sugere um clim a
m ais am istoso, nessa d isp u ta que Jesus teve com os líderes judeus. Por sua
vez, a trad u ção por “vossos an tep assa d o s” sugere um tipo de diálogo m ais
hostil, em que Jesus se d istan cia de qu alq u er identificação com os líderes
religiosos de sua nação.

6.64 τίνες είσίν oi μή η ισ τεύ ο ντες καί (quais são os que não creem e) {B}

Essas p a la v ra s, que não a p a re c e m em v á rio s te s te m u n h o s , c e rta m e n te fo ram


o m itid as p o r a lg u m co p ista d e sc u id a d o que, d evido à se m e lh a n ç a e n tre o início
d as p a la v ra s (algo que se c h a m a de “h o m e o a rc to n ”), sa lto u um tre c h o , p a ssa n d o
de τίν ες p a ra τις e o m itin d o o te x to que ficava e n tre essas d u as p a la v ra s. M ais
d ifícil de e x p lic a r é a om issão do ad v érb io de n eg ação μή que se n o ta em a lg u n s
te s te m u n h o s . No e n ta n to , isso p od e ser re s u lta d o do desejo de a lg u m co p ista
de m o s tra r que Je su s co n h ec ia os seus, em vez de a firm a r que Je su s c o n h ec ia
os que n ão c ria m nele. O p a ra le lism o que ex iste com a p rim e ira p a rte do v. 64
(“M as h á a lg u n s de vós que n ão c re e m ”) p a re c e ex ig ir a p re s e n ç a do a d v érb io
de n eg ação.

6.69 ό ά γιο ς του θεού (o Santo de Deus) {A}

A leitu ra aceita com o texto, que tem sólido apoio de m an u scrito s, foi am p liad a
de d iferen tes m an eiras por copistas, talvez em a n alo g ia a form ulações que se en-
c o n tram em 1.49; 11.27; e Mt 16.16. E ntre as leitu ra s m ais longas estão as seguin-
tes: “o Cristo, o S anto de D eus” (assim em Seg) e “aquele Cristo, o Filho do Deus
vivo” (KJV).

6.70 S e g m e n ta ç ã o

A seg u n d a frase deste versículo pode ser e n te n d id a com o afirm ação: “C ontudo,
um de vós é d iab o ”. T am bém pode ser e n te n d id a com o p e rg u n ta : “C ontudo, não
é assim que um de vós é d iab o ?” (NAB e tam b ém RSV, que tra n sfo rm a as duas
frases n u m a so.) Se urna das frases (ou até m esm o am bas) for tra d u z id a p o r u m a
p e rg u n ta , d everia ser e n te n d id a com o p e rg u n ta retó rica. Em alg u m as lín g u as tal-
vez seja m elh o r tra d u z ir as duas frases p or declaraçõ es afirm ativ as. Do co n trário ,
isto é, tra d u z in d o p or p e rg u n ta s, p o d e ría ficar a im pressão de que Jesus não tin h a
c erteza a respeito disso.
180 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

7.1 ήθελεν (ele queria) {A}

A ev idência e x te rn a em peso dá su sten tação à leitu ra ήθελεν. A lguns testem u-


nh o s tra z e m a leitu ra m ais difícil ε ί/ε ν εξο υ σ ία ν (p o d ia /tin h a p o d e r p ara), um a
ex p ressão id iom ática que o corre duas vezes em 10.18 (confira tam b ém 19.10). A
leitu ra aceita com o tex to pode ser tra d u z id a p or “Ele não q u eria a n d a r pela Ju d e ia ”
(NTLH), “m an ten d o -se d e lib era d am e n te longe da Ju d e ia ” (NVI), ou “ele decidiu
e v ita r a J u d e ia ” (REB). A le itu ra v a ria n te pode ser tra d u z id a p or “não p o d en d o
c irc u la r pela Ju d e ia ” (NBJ).

7.8 ovk (não) {C}

A le itu ra ο ΰ π ω (ainda não) foi in tro d u z id a em d a ta bem an tig a p a ra e lim in a r a


in co n sistência e n tre o v. 8, em que Jesu s diz que não vai à festa na Ju d eia, e o v. 10,
onde se diz que ele acabou indo à festa. A NVI (bem com o Seg) a d o ta a v a ria n te e
tra d u z p o r “eu a in d a não subirei a esta festa”.

7.9 α υ τό ς (ele) {B}

As v a ria n te s, neste caso, não têm m aio r im p o rtân c ia p a ra a trad u ção . Do p onto
de v ista g ram atical, o pronom e α υ τός é dispensável, pois o verbo se e n co n tra na
te rc eira p esso a do singular. No e n tan to , a inclusão do pronom e tem considerável
apoio de m an u scrito s, além de con co rd ar com o estilo do au to r do Evangelho.
M esm o assim , p arece que copistas c o n sid era ra m esse pronom e d esn ecessário e
o a lte ra ra m p a ra α ύ το ΐς (a eles/lh e s), ou seja, “havendo dito essas coisas a eles"
(Seg). O utros copistas su b stitu íra m o pronom e p or ó ‘Ιησούς (Jesus), ou, então,
o m itiram -n o por com pleto.

7.10 άλλα [ώς] (m as [como]) {C}

Por u m lado, a e v id ê n c ia e x te rn a dá su s te n ta ç ã o à le itu ra com ο ώ ς. De o u tro


lad o , é possível que co p ista s te n h a m a c re s c e n ta d o essa p a la v ra p a ra a te n u a r
u m p o u co a fo rça d a lo cu ção εν κ ρ ύ π τω (em seg red o ). Ou seja, ώ ς p o d e te r sido
a c re s c e n ta d o “p a ra d im in u ir a im p re ssão de c o n tra d iç ã o e a stú c ia p a ra e n g a n a r
os o u tro s ” (M oloney, The Gospel o f John, p. 2 4 0 ). P a ra in d ic a r que e x iste equi-
líb rio q u a n to à e v id ê n cia, ώ ς a p a re c e , no te x to , e n tre c o lch etes. A le itu ra m ais
lo n g a foi a d o ta d a n a NRSV (“n ão em público, m as com o que em se g re d o ”) e
ta m b é m n a TEB (“q u a se que s e c re ta m e n te ”) e p o r Seg (“com o que em se g re d o ”).
A le itu ra m ais brev e p o d e se r tra d u z id a p o r “n ão p u b lic a m e n te , m as em o c u lto ”
(ARA).
0 EVANGELHO SEGUNDO JOAO 181
7.21 S e g m e n ta ç ã o

Caso se fizer um corte ou urna pausa ao final do v. 21, a locução διά τούτο (por
causa disso), no v. 22, m an tém conexão com o que segue no v. 22, e a trad u ç ão
será “Por isso, Moisés vos deu a circuncisão . . Mas, conform e co n stata H aenchen
(A C o m m e n t a r y on th e G o sp el o f J o h n , vol. 2, p. 15), “isso não faz n en h u m se n tid o ”
(confira ARA: “pelo m otivo de q u e”). Assim, ele sugere que, ao se trad u zir, é preciso
su p lem en tar o texto: “Por isso, p a ra m ostrar-vos que a vossa ad m iração não tem
razão de ser, eu vos digo que M oisés . . Caso, porém , se colocar o ponto depois do
δ ιά τούτο, esse τούτο será equivalente a εν εργον (um feito /u m m ilagre) e o senti-
do p assa a ser “21b Eu realizei um a obra e todos vos ad m irais 22 por causa d ela”
(NAB). A m aio ria das trad u çõ es m o d ern as conecta a locução διά τούτο com o final
do v. 21 e a deixa sem tradução. O utras, com o a NTLH, trad u z em assim : “Eu fiz
um m ilagre, e todos vocês estão ad m irad o s por causa disso”. A RSV trad u z p or “Eu
realizei um feito, e todos vocês estão m arav ilh ad o s por causa dele”.

7.28 S e g m e n ta ç ã o

As p alav ras de Jesus Κάμέ οΐδατε m i οϊδατε πόθεν είμί (Ε m e conheceis e sa-
beis de onde eu sou) podem ser en ten d id as com o um a afirm ação, u m a exclam ação
(TEB: “Vós decerto m e conheceis!”), ou u m a p e rg u n ta (NTLH: “Será que vocês m e
conhecem m esm o ...”?). Se forem p o n tu ad a s como um a p e rg u n ta , pode ficar implí-
cito que eles não sabem , de fato, quem é Jesus (assim na NTLH).

7.36

O m an u scrito 225 (copiado em 1192 d. C.) acrescen ta a h istó ria da m u lh er adúl-


te ra ao final deste versículo (veja o com entário sobre 7.53— 8.11).

7.37 π ρ ο ς με (a m im ) {B}

Vários testem u n h o s om item as p alav ras π ρ ό ς με, provavelm ente devido a erro s
com etidos pelos copistas.

7.37 S e g m e n ta ç ã o

D ependendo de com o se p o n tu a o final do v. 37 e o com eço do v. 38, a fonte de


ág u a viva pode ser ta n to Jesus como a pessoa que crê (veja a d e ta lh a d a discussão
dessa dificuldade em C arson, The G o sp el A c c o r d in g to J o h n , pp. 323-328). Caso se
fizer um a pausa m aior (um ponto) no final do v. 37, rios de água viva vão jo rra r “de
182 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

quem crê em m im ”. Essa in terp retaç ã o se reflete em ARA (tam bém RSV e REB), que
diz “37b Se alguém tem sede, v en h a a m im e beba. 38 Q uem crer em m im , como
diz a E scritura, do seu interio r fluirão rios de água viva”. A NTLH é ain d a m ais
explícita: “37b Se alguém tem sede, v en h a a m im e beba. 38 Como dizem as Es-
c ritu ras Sagradas: ‘Rios de água viva vão jo rra r do coração de quem crê em m im ’”.
Caso, p o rém , “quem crê em m im ” for co n ec ta d o com o que vem a n tes, a cita-
ção bíb lica se refere a Jesu s. C onfira a TEB (b em com o a TEV): 37b “Se alg u ém
tem sede, v e n h a a m im e beb a 38 aquele que crê em m im . Como disse a E scritu-
ra: ‘Do seu seio jo rra rã o rios de ág u a v iv a ’”. S egundo e sta tra d u ç ã o , Je su s diz que
ele é a fonte da á g u a viva. Com o o b serv a C arson (p. 323), é possível p o n tu a r esse
tex to de ta l fo rm a que as p a la v ra s “Com o disse a E sc ritu ra ...” não te n h a m sido
fa la d a s p o r Jesu s, m as sejam um c o m e n tá rio que o e v a n g e lista faz a re sp eito de
Jesu s. N esse caso, o p ro n o m e “se u ” (“do seu in te rio r”) se refere a Jesus.

7.39 οι πισ τεΰ σ α ντες (os que creram ) {B}

A ten d ên cia dos copistas teria sido su b stitu ir o participio aoristo πισ τεΰ σ α ντες
(creram ) pelo p articipio p resen te π ισ τευ ο ντες (creem ). Segundo B row n (The Gos-
pel According to John (i—xii), p. 324), que coloca todo o conteúdo do v. 39 en tre
parên teses, p a ra indicar que se tra ta de in te rp retaç ã o que o evangelista faz das pa-
lavras de Jesus nos vs. 3 7 3 8 ‫־‬, caso o aoristo for aceito com o original, “o com en tário
p aren tético c laram en te reflete um ponto de v ista p o sterio r [isto é, do ev an g elista]”.

7.39 π νεύ μ α (Espírito) {A}

As v a ria n te s p o d e m não te r m aio r im p o rtâ n c ia p a ra tra d u to re s . A le itu ra que


m e lh o r ex p lica a orig em das o u tra s é π ν εύ μ α , que tem bom apoio de m an u scri-
tos. A te n d ê n c ia de a c re s c e n ta r ά γ ιο ν (santo) e ra n a tu ra l e com um e n tre copistas
cristã o s. Se tivesse feito p a rte do te x to o rig in a l, se ria difícil e x p lica r sua om is-
são. A lém disso, co p istas in tro d u z ira m u m a série de a lte ra ç õ e s p a ra que o leito r
m en o s av isad o n ão p e n sa sse que Jo ão q u e ria d ize r que o E spírito a in d a não
e x istia a n te s da glo rificação de Jesus: (1) “o E spírito (Santo) a in d a não h a v ia sido
d a d o ”; (2) “o E spírito S anto a in d a não e stav a sobre eles”; e (3) “a in d a não veio o
E spírito S a n to ”.
Em algu m as línguas, q u alquer que seja o texto grego adotado, será necessário
d izer “Espírito S anto” ou “Espírito de D eus” (veja N. A. M undhenk, “T ranslating
‘Holy S pirit’,” The Bible Translator 48 [April 1997], 2 0 1 2 0 7 ‫)־‬. REB, TEV, FC, e a NVI
tra z e m “o Espírito ain d a não tin h a sido d a d o ”. Não está claro se essas trad u çõ es
o p ta ra m p o r u m a das v a ria n te s tex tu ais ou se estão apenas, a exem plo dos copistas
antigos, esclarecendo o sentido do texto.
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO 183

7.46 έλάλησεν ού τω ς ά ν θ ρ ω π ο ς (falou assim um hom em ) {B}

A leitu ra que aparece com o texto é bem breve: “N unca n in g u ém falou assim !”
(NRSV). N atu ralm ente, os copistas fizeram diferentes acréscim os ao texto. Contu-
do, se qualquer um a das leituras m ais longas fosse original, seria difícil de explicar
o surgim ento das dem ais. Não está claro se traduções com o “Jam ais alguém falou
com o este hom em ” (ARA) e “Jam ais hom em algum falou com o este hom em ” (TEB)
se baseiam em v arian tes tex tu ais ou sim plesm ente acrescen taram as palavras como
este hom em (fala) por razões de estilo em p o rtuguês.

7.52 έκ τής Γ α λιλα ίος πρ ο φ ή τη ς (da G alileia um profeta) {B}

A evidência externa está dividida ao meio entre as leituras έκ τής Γαλιλαίος


προφ ήτης e προφ ήτης έκ τής Γαλιλαίος. A leitura que aparece como texto é apoiada
por 75‫ לץ‬e B. É possível que copistas ten ham alterado a ordem das palavras para ante-
cipar a referência a “profeta”. Não há, de fato, nenhum a diferença de significado entre
essas duas leituras, pois am bas afirm am que nenhum profeta jam ais viria da Galileia.
A leitu ra original de ^p66 e, possivelm ente, de ^p75, tem um artigo definido dian-
te do substantivo προφ ή τη ς. Esta é a base tex tu al p a ra a trad u ção da REB (e u m a
trad u ção altern ativ a sem elhante a esta que aparece em n o ta de rodapé n a TEV) “e
verás que o Profeta [ό προφ ή τη ς] não vem da G alileia”. Caso se a d o ta r esta v arian te,
o texto reflete a tradição bíblica de que Deus, nos tem pos do fim, suscitaria ao seu
povo um profeta sem elhante a Moisés (Dt 1 8 .1 5 1 8 ‫)־‬.

7.53—8.11 A perícope da m ulher adúltera {A}

É im pressionante a evidência que aponta p a ra a origem não jo a n in a da perícope


da m u lh er adúltera. Ela não aparece em m anuscritos antigos e que rep resen tam
diferentes tipos de texto. Os códices A e C não trazem esta p a rte de João (existem
lacunas, isto é, algum as páginas estão faltando), m as existe um a gran d e probabili-
dade de que n en h u m desses dois m anuscritos con tin h a essa perícope, pois cálculos
e m edições cuidadosas indicam que não teria havido espaço suficiente nas folhas
faltan tes p a ra incluir esse trecho com o restan te do texto. No O riente, a passagem
não faz p arte da form a m ais antiga da versão siríaca e tam b ém não consta nas ver-
sões saídica e subacm ím ica, nem nos m anuscritos m ais antigos da versão boaírica.
Alguns m anuscritos arm ênios e as antigas versões georgianas om item essa perícope.
No O cidente, a passagem não aparece na versão gótica e em vários m anuscritos da
A ntiga Latina. N enhum dos Pais da Igreja grega an terio r a Eutím io Zigabeno (século
12) com enta ou explica esse texto, e o próprio Eutím io declara que as cópias corretas
do Evangelho de João não trazem esse texto.
184 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Caso se a c resce n tar a essa im pressionante e diversificada lista de testem u n h o s


— que com põe a assim ch am ad a evidência e x te rn a — a constatação de que o estilo
e o vocab ulário da perícope diferem em m uito daquilo que aparece no re stan te do
Evangelho de João (como os com entários exegéticos indicam ), sem falar que a pe-
rícope in terro m p e a sequência en tre Jo 7.52 e 8.12 e seguintes, parece claro que o
tex to não foi escrito por João.
Ao m esm o tem po, o relato tem todos os indícios de ser um acontecim ento his-
tórico. É óbvio que se tra ta de um a p a rte da trad ição oral que era conhecida em
alg u n s setores da igreja ocidental e que, p o sterio rm en te, foi in co rp o rad a em vários
m anuscritos, nem sem pre no m esm o lugar. Ao que parece, a m aioria dos copistas
p en sav a que esse texto seria m enos incôm odo caso fosse inserido após Jo 7.52. Ou-
tros copistas o in se rira m após Jo 7.36 ou após Jo 7.44 ou após Jo 21.25 ou, ainda,
após Lc 21.38. T am bém é significativo que, em m uitos testem u n h o s que contêm
essa passagem , a m esm a vem m arcad a com asteriscos ou obelos, p a ra in d icar que,
m esm o incluindo o relato no texto, os copistas estavam conscientes de que não fazia
p a rte do original.
Às vezes se afirm a que a perícope foi p ro p o sitalm en te excluída do E vangelho
de João, porque as p alavras de Jesus que ap arecem ao final da m esm a p o d iam ser
en ten d id as num sentido m uito lib eral ou pouco rígido em relação ao adultério. No
en tan to , não existe n e n h u m outro caso em que copistas excluíram um trech o m ais
longo por razõ es de ordem m oral. Além disso, essa teo ria “não explica por que os
três versículos p relim in ares (7.53; 8 .1 2 ‫)־‬, tão im p o rtan tes por ap aren te m e n te des-
creverem o lu g ar e a ocasião em que foram proferidos os discursos do capítulo oito,
te riam sido om itidos com o re stan te do te x to ” (H ort, “N otes on Select R eadings”,
pp. 8 6 8 7 ‫)־‬.
Por m ais que a perícope o rig in alm en te não te n h a feito p a rte do Evangelho de
João, devido à sua a n tig u id ad e ela foi incluída no texto, e n tre colchetes duplos, no
lu g ar trad icio n al, ou seja, após Jo 7.52. E m bora a m aioria dos exegetas e com en-
ta rista s bíblicos reconheça que a perícope não faz p a rte do texto original de João,
m esm o assim eles a com entam ou explicam . Por exem plo, M oloney (The Gospel o f
John, p. 259) escreve: “No e n tan to , por causa do valor de Jo 7.53— 8.11 com o texto
que a p o n ta p a ra Jesus de N azaré, e p or causa de seu papel na trad ição bíblica cor-
ren te e na vida, litu rg ia e im aginação dos cristãos, faz-se necessário c o m en tar essa
passagem , ain d a que b rev em en te”.
Visto que essa p assag em não a p arece nos m an u scrito s m ais an tig o s e de m e-
lh o r q u a lid ad e que n o rm a lm e n te são u sados p a ra id e n tific a r tipos de tex to , nem
sem p re é fácil d e cid ir e n tre le itu ra s a lte rn a tiv a s que o co rrem d e n tro d essa perí-
cope. Em to d o o caso, é preciso e n te n d e r que o g rau de certez a ({A}) se e n c o n tra
d e n tro da m o ld u ra da decisão in icial no que diz resp eito à p assag em com o um
todo.
0 EVANGELHO SEGUNDO JOAO 185

8.6 τούτο δέ ... αύτού (Isto ... a ele) {A}


A lguns poucos m anuscritos om item as prim eiras nove p alav ras deste versículo,
p referin d o in serir essa afirm ação após o v. 4 ou após o v. 11.

8.7 α υτό ν ... α ύ το ίς (a ele ... lhes) {A}

A lguns poucos testem u n h o s om item α υτόν por julgá-lo desnecessário, en q u an to


o utros su b stitu em α ύ το ις pela locução preposicional π ρ ο ς α ύ του ς (p ara eles).

8.9 oi όέ άκουσαντες έςή ρ χο ντο εις καθ‘ εις


(m as aqueles que ouviram foram em bora um por um ) {A}

Copistas c o n tin u aram a fazer acréscim os ao texto básico da h istó ria da m u lh er


ad ú ltera. O textus receptus acrescenta a afirm ação de que aqueles que a cu sa ram a
m u lh er foram “acusados pela p rópria consciência”.

8.9 πρεσβυτέριον (m ais velhos) {A}

A leitu ra πρεσβυτερίου foi am pliada pelo acréscim o de locuções e frases com o


“até aos ú ltim o s” e “assim que todos sa íra m ”, p a ra indicar que todos aqueles que
a cu saram a m u lh er foram em bora.

8.10 ‘Ιησούς (Jesus) {A}

O texto foi expandido pelo acréscim o de várias frases que se referem a Jesus
o lh an d o p a ra a m ulher, tais com o “e não vendo a n in g u ém senão a m u lh e r”.

8.10 που είσιν (onde estão) {A}

O textus receptus, em concordância com alguns poucos m anuscritos, acrescen ta


εκείνοι oi κατήγοροί σου (aqueles teus acusadores).

8.16 πα τή ρ (Pai) {A}

A idade, ab rangência geográfica e diversidade da evidência que apoia a leitu ra


π α τή ρ sugerem que este é 0 texto original e que essa p alav ra foi om itida acidental-
m ente nos q u atro ou cinco m anuscritos em que ela não aparece. A hipótese de que
copistas a crescen taram πα τή ρ por influência do v. 18 é pouco provável. M esm o que
se adote a leitu ra m ais breve por razões tex tu ais (como é o caso, por exem plo, na
186 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

RSV, REB, e TEB), é possível que, p a ra efeitos de tradução, se te n h a que in serir as


p alav ras “o P ai” ou “m eu P ai”.

8.25 ο τι {B}

As p alavras de Jesus, Την άρχήν ο τι καί λαλώ ύμιν, não form am um a oração
com pleta. Já foram descritas como “a sentença m ais obscura em todo o Evangelho
de João e a que m ais se caracteriza por incertezas quanto à sua trad u ç ão ” (Beasley-
-Murray, John, p. 125, n. c; veja tam bém o estudo desse texto em Carson, The Gospel
According to John, pp. 345-346). A m aioria das traduções acrescenta um a ou m ais
p alav ras p a ra que resulte um a trad u ção m enos rude e m ais significativa. D iante do
fato de que os m anuscritos gregos m ais antigos não trazem sinais de p ontuação e fo-
ram copiados sem divisão en tre as palavras, Την αρχήν õ τι καί λαλώ ύμΐν pode ser
in te rp retad o de diferentes m aneiras. Pode ser entendido como um a p erg u n ta, u m a
exclam ação, ou u m a afirm ação. Além disso, as palavras õ τι podem ser lidas como
um a palav ra só, ou seja, δτι, que pode ser trad u zid a por “por quê?”, “que”, ou “por-
qu ê”. Tam bém podem ser lidas como duas palavras, a exem plo do texto de O Novo
Testamento Grego, com o sentido de “aquilo q u e”. Por fim, as palavras Την άρχήν
p odem ser vistas com o um substantivo no caso acusativo, significando “o princípio”,
ou, então, como um advérbio, significando “p rim e ira m en te ” ou “acim a de tu d o ”.
(1) Como um a pergunta, com ότι = por quê? (“Por que ainda estou falando
convosco?”). A NRSV traduz assim: “Por que [ότι] ainda [την άρχήν]
estou falando convosco?” ARA vai na m esm a direção: “Que é que desde o
princípio vos tenho dito”?
(2) Como um a exclamação (alguns Pais da Igreja antiga), com õ τι no sentido
do hebraico ‫“( מ ה‬E eu ainda estou falando convosco!”). Assim como no caso
da interpretação anterior, tam bém aqui fica implícito um tom de censura.
(3) Como um a afirm ação (a m aioria das traduções), com õ τι, e inserindo
m entalm ente εγώ είμι (“[eu sou] desde o princípio [την άρχήν] ο que [õ
τι] vos estou dizendo” ou “Acima de tudo [τήν άρχήν] [eu sou] o que vos
estou dizendo” ou “[Eu sou] o que vos tenho dito desde o começo [τήν
άρχήν]”). Confira a NBJ: “O que vos digo, desde o começo [τήν άρχήν]”.
Tam bém a ARC: “Isso m esm o que já desde o princípio vos disse”; a NVI:
“E xatam ente o que tenho dito o tem po todo”, e a NTLH: “Desde o começo
eu disse quem sou”.

8.28 Segm entação

E possível fazer um a pausa m aior depois de έγώ είμι, assim como, por exem plo,
n a REB: “sabereis que eu sou quem eu sou. N ada faço por m in h a própria autoridade”.
O EVANGELHO SEGUNDO JOÃO 187

E ntretanto, caso não se fizer n en h u m a pausa naquele lugar, καί ά π ’ έμαυτου π ο ιώ


ούδέν (e por m im m esm o n ada faço) será algo m ais que as pessoas vão saber. A NTLH
trad u z assim: “saberão que Έυ Sou Q uem Sou’. E saberão tam bém que não faço nada
por m in h a conta”.

8.34 τής ά μ α ρ τία ς (do pecado) {A}

A locução τής ά μ α ρ τία ς está ausente em vários testem u n h o s do texto ocidental.


E possível que se tra te de um retoque estilístico feito por copistas influenciados
p ela presen ça de την ά μ α ρ τία ν no contexto im ed iatam en te anterior, isto é, poucas
p alav ras antes, no m esm o versículo, ou, então, por copistas desejosos de estabelecer
um vínculo m ais estreito en tre o final do v. 34 e a expressão genérica ό δέ δούλος
(o escravo), que aparece no com eço do v. 35. A leitu ra m ais breve ap arece em tra-
duções como a REB e a NBJ: “quem com ete o pecado, é escravo”.

8.38 π α ρ ά τώ π α τρ ί (junto do Pai) {B}

A inserção do pronom e μου (meu) após π α τρ ί e /o u o acréscim o de τα ΰτα (essas


coisas), que corresponde ao a (as coisas que) do início do versículo, p arecem acrés-
cim os n a tu ra is que os copistas fizeram p a ra to rn a r o texto m ais com preensível. Se
q u alq u er um desses acréscim os ou até m esm o am bos fossem originais, ficaria difícil
de explicar por que não aparecem nos testem u n h o s m ais antigos (veja tam b ém o
co m en tário sobre a v aria n te seguinte).
O acréscim o de τα ΰτα não a ltera o significado. Trata-se de um retoque estilís-
tico, ou seja, “as coisas que [a] vi ju n to do Pai, dessas [ταΰτα] eu falo”. Em m uitas
línguas, não se pode sim plesm ente dizer “o Pai”, pois todos os term os de paren tesco
são usados com o assim cham ado “possessivo obrig ató rio ” (veja o com entário sobre
6.58). Isso significa que se faz necessário um a referência n o m in al ou pro n o m in al
p a ra id en tificar cada relação de parentesco. No e n tan to , m esm o em línguas que não
conhecem esse fenôm eno do possessivo obrigatório no caso de term os de p aren tes-
co, existe a ten d ên cia de se especificar as relações de parentesco. Assim sendo, não
fica claro se a trad u ção por “m eu Pai” (NBJ, REB, ARA, TEV, NTLH, TEB, FC, Seg)
se baseia na adoção da v a rian te te x tu al ou deriva sim plesm ente dos princípios de
trad u ção que foram seguidos.

8.38 ήκούσατε π α ρ ά του π α τρ ό ς ποιείτε (ouvistes ju n to ao Pai fazeis) {B}

E m bora έεοράκατε (vistes) seja um a leitu ra an tig a e d issem in ad a (isto é, en-


co n trad a em d iferentes tipos de texto), é provável que te n h a sido in tro d u zid a por
copistas com o objetivo de estabelecer um paralelo com έεορακα (vi), que aparece
188 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

n a fra se a n te rio r. De o u tro lad o , caso έευράκατε fosse o rig in a l, n ã o h a v e ría


m o tiv o q u e p o d e ría te r lev ad o c o p ista s a tr o c a r esse te x to p o r ήκουσ ατε (ou-
v istes). C o p istas in s e rira m o p ro n o m e p lu ra l υ μ ώ ν (vosso) ap ó s το ν π α τ ρ ό ς
(ou τω π α τ ρ ί; essa fo rm a do d a tiv o su rg iu p a ra que o te x to fica sse ig u a l ao d a
fra s e a n te rio r) b e m com o τ α ν τ α (essas coisas), n u m a te n ta tiv a de m e lh o ra r o
te x to . O a c ré sc im o do p ro n o m e υ μ ώ ν foi u m a te n ta tiv a de e s c la re c e r o que foi
e n te n d id o com o u m c o n tra s te e n tre D eus e o d ia b o (ou seja, “m eu Pai ... vosso
p a i”), m as esse c o n tra s te p a re c e que é in tro d u z id o a p e n a s no v. 41.
Sem os p ro n o m es possessivos (veja o co m e n tá rio sobre a u n id a d e de v a ria çã o
a n te rio r, neste m esm o versículo), as duas o co rrên cias da p a la v ra “p a i”, no v. 38,
p a re c e m se re fe rir a D eus, e π ο ιείτε é, p ro v a v e lm e n te , um im p e rativ o . E sta in-
te rp re ta ç ã o tra n s p a re c e na tra d u ç ã o : “Eu falo do que o Pai m e m o stro u , e vocês
d ev em faz er aq u ilo que o u v ira m sobre o P a i” (BN e ta m b é m NRSV e NAB).
E n tre ta n to , o u tra s tra d u ç õ e s p a re c e m o p ta r p o r u m a das v a ria n te s , e e n te n d e m
que o “p a i” dos ju d e u s é o diabo: “Eu falo das coisas que vi ju n to de m eu Pai;
vós, p o rém , fazeis o que v istes em vosso p a i” (ARA e a m a io ria das tra d u ç õ e s).

8.39 έποιεΐτε (farieis) {B}

Em g reg o , o ra ç õ e s c o n d ic io n a is p o d e m se r fo rm u la d a s de ta l fo rm a qu e fi-
q u e c la ro se a c o n d iç ão é v e rd a d e ira ou se é irre a l ou c o n trá ria aos fato s. P are-
ce q u e o te x to o rig in a l d e sse v e rsíc u lo tra z u m a o ra ç ã o c o n d ic io n a l m is ta , com
a p rim e ira p a rte (εί ... έστε) in d ic a n d o que a c o n d iç ã o é c o n s id e ra d a v e rd a d e i-
ra (“Se sois filh o s de A b ra ã o ”) e a s e g u n d a (έπ ο ιεΐτε) in d ic a n d o que a c o n d iç ão
n ã o é re a l ou v e rd a d e ira (“fa rie is — e m b o ra isso n ã o e ste ja a co n te c e n d o ! — as
o b ra s de A b ra ã o ”). A v a ria n te te x tu a l re s u lto u de u m a te n ta tiv a de fo rm u la r
u m a o ra ç ã o c o n d ic io n a l m ais “c o rr e ta ” do p o n to de v is ta g ra m a tic a l. A ssim ,
em vez de έστε, a v a ria n te tra z ήτε, q u e, em c o n ju n to com έ π ο ιε ΐτ ε , re s u lta
n u m a c o n d iç ão irre a l ou c o n trá ria aos fato s. O u tro s te s te m u n h o s a c re s c e n ta m
av, p o r m ais que no g reg o co in é n ão seja n e c e s s á rio a c re s c e n ta r e ssa p a rtíc u la .
Dois im p o rta n te s m a n u s c rito s g reg o s e v á rio s P ais da Ig re ja tê m u m a fo rm a de
im p e ra tiv o (π ο ιείτε) ao fin a l d e ssa o ra ç ã o c o n d ic io n a l.
A v a rie d a d e de tra d u ç õ e s r e f le te as d ife re n te s o p ç õ e s te x tu a is . Ao q u e
p a re c e , a N B J (ta m b é m NTLH, NVI, CNBB, REB, TEV, BN, FC) se g u e o te x to
de O N ovo T esta m en to G rego: “Se fô sseis filh o s de A b ra ã o , p r a tic a r ie is as
o b ra s de A b ra ã o ”. Em a lg u m a s lín g u a s , ta lv e z seja n e c e s s á rio e x p re s s a r isso
d a s e g u in te fo rm a : “Se v o cês fo ssem filh o s de A b ra ã o — m as e s tá c la ro q ue
e s te n ã o é o c aso — v o c ês fa ria m o q u e A b ra ã o fe z ”. ARA (ta m b é m TEB e
Seg) tr a d u z u m a d a s v a r ia n te s te x tu a is : “Se sois filh o s de A b ra ã o , p r a tic a i
[π ο ιείτε ] as o b ra s de A b ra ã o ”.
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO 189
8 .4 4 ovk εσ τηκεν (ele n ã o e sta v a firm a d o /e s ta b e le c id o ) {C}

A fo rm a εσ τη κ εν (im p e rfe ito de στήκω ) te m só lid o a p o io de m a n u s c rito s .


A lém d isso , v in d o a p ó s ήν (ele e ra ), fo rm a u m a s e q u ê n c ia m a is n a tu r a l do
q u e o te m p o p e rfe ito εσ τη κ εν (n ão p e rm a n e c e u ). O im p e rfe ito d e sc re v e “u m a
c o n d iç ã o p e r p é t u a ” (B e a sle y -M u rray , J o h n , p. 126, n. h). C o n fira a NTLH:
“ele n u n c a e ste v e do la d o d a v e r d a d e ”.

8 .5 4 θ εό ς η μ ώ ν (nosso D eus) {B}

O p ro n o m e p lu ra l η μ ώ ν faz com q u e as p a la v ra s q u e se g u e m ό τ ι se ja m
d is c u rs o d ire to . N e ste c aso , õ n n ã o é tr a d u z id o , a sa b e r, “de q u e m v o c ês di-
zem : ‘Ele é o n o sso D e u s’”. A le itu r a υ μ ώ ν (vosso) im p lic a em d is c u rs o in d ire -
to , ou se ja, “de q u e m v o cês d iz e m q u e [ότι] é o v o sso D e u s ”. As d u a s le itu ra s
tê m b o m a p o io de m a n u s c rito s , m as p a re c e m a is p ro v á v e l q u e a m o d ific a ç ã o
te n h a sid o fe ita de d is c u rs o d ire to p a ra in d ire to . Em o u tra s p a la v ra s , é m a is
p ro v á v e l q u e o te x to com η μ ώ ν (n o sso ) seja o rig in a l. C aso se d e c id a tr a d u z ir
o te x to n a fo rm a de d is c u rs o d ire to , em a lg u m a s lín g u a s ta lv e z se ja n e c e ssá -
rio d e c id ir se “n o s s o ” in c lu i J e s u s , ou n ã o .

8 .5 7 Α β ρ α ά μ έ ώ ρ α κ α ς (viste A braão) {B}

A le itu ra a d o ta d a com o te x to te m a p o io de m a n u s c rito s m a is e x p re ss iv o


do qu e a v a r ia n te Α β ρ α ά μ έ ώ ρ α κ έ ν σε (A b raão te v iu ?). A v a r ia n te p a re c e te r
s u rg id o q u a n d o um c o p is ta a lte r o u o te x to p a ra fa z e r com q u e a p e r g u n ta dos
ju d e u s c o rre s p o n d e s s e à q u ilo que J e s u s h a v ia d ito a n te r io r m e n te (“A b ra ã o ...
[viu] o m eu d ia ”, v. 5 6). A le itu r a no te x to é m ais a p ro p ria d a , no c a so dos
ju d e u s , p o is, p re s s u p o n d o a s u p e r io rid a d e de A b ra ã o (v. 5 3), p e r g u n ta r ia m
se J e s u s viu A b ra ão , e d ific ilm e n te p e r g u n ta r ia m se A b ra ã o v iu J e s u s .

8 .5 9 έξή λ θ εν έκ το ν ιε ρ ό ν (saiu do tem plo) {A}

Os m e lh o re s m a n u s c rito s in d ic a m que o te x to te r m in a , de fa to , com a


p a la v r a Ι ε ρ ο ί’. P a ra d a r a im p re s s ã o de q u e J e s u s e s c a p o u d e v id o a a lg u m
p o d e r m ila g ro s o , c o p is ta s a c r e s c e n ta r a m ao te x to u m m a te r ia l tir a d o de
Lc 4 .3 0 ( “p a s s a n d o p e lo m eio d e le s ”) e a d ic io n a ra m a in d a a fra s e “e a ssim
p a s s a v a ”, em p r e p a r a ç ã o ao que s e rá d ito em 9.1. Se q u a lq u e r u m a d e s s a s
fo rm u la ç õ e s m ais lo n g a s fo sse o r ig in a l, n ã o h á co m o e x p lic a r p o r q u e os
m e lh o re s r e p r e s e n ta n te s dos tip o s de te x to m a is a n tig o s te r ia m o m itid o es-
sas p a la v r a s .
190 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

9 .4 ήμάς ό εΐ... πέμψ αντός με (Precisam os... o que me enviou) {C}

A evidência externa favorece, ainda que de leve, a leitura que aparece como tex-
to em O N o v o T e sta m e n to G rego . Além disso, é mais provável que copistas tenham
alterado ήμάς δει (precisamos) para έμέ δει (preciso), do que im aginar o processo
inverso. Quanto à leitura πέμψ αντός ήμάς (ο que nos enviou), que não aparece
em nenhum outro lugar no texto de João, parece que a m esm a foi introduzida em
vários testem unhos para fazer o texto concordar com ο ημάς δει (precisamos) que
aparece no início do versículo.

9 .3 5 άνθρώ που (do Homem) {A}

A evidência externa que dá sustentação à leitura άνθρώ που é bastante sólida.


Além disso, se θεού (de Deus) fosse original, é pouco provável que copistas teriam
trocado essa palavra por άνθρώ που.

9 . 3 8 3 9 ‫ ־‬ό δέ εφη ... και εΐπεν ό ,Ιησούς (Ε ele disse ... e disse Jesus){B}

Vários testem unhos não trazem as palavras ό δέ ε'φη, Πιστεύω, κύριε* καί
προσεκύνησεν αύτω. και εΐπεν ό ,Ιησούς (Ε ele disse: Creio, Senhor. E o adorou. Ε
Jesus disse). A leitura mais longa tem a seu favor o sólido apoio de manuscritos. No
entanto, έφη (disse) é uma palavra rara no Evangelho de João (ocorre som ente em
1.23 e, em alguns testem unhos, em 9.36), e προσκυνέω (adorar) não aparece em
nenhum outro contexto de João em referência a Jesus. Brown (T h e G ospel Accor-
d in g to J o h n (i — x ii) 9 p. 375) apresentou a sugestão de que essas palavras “são um
acréscim o resultante da associação de Jo 9 com a liturgia batism al e a catequese”
No entanto, é questionável se tal influência litúrgica teria existido numa data tão
rem ota quanto a de Çp75. A om issão pode ter sido tanto acidental quanto intencional
para criar um vínculo maior entre o ensino de Jesus no v. 37 e no v. 39.

1 0 .8 ήλθον [προ έμού] (vieram [antes de mim]) {C}

É difícil decidir se copistas acrescentaram π ρ ο έμού (antes de mim), tanto antes


quanto depois de ήλθον, para que um texto difícil fizesse m ais sentido, ou se omi-
tiram essas palavras para reduzir a possibilidade de se tomar essa afirmação como
uma condenação de todos os líderes do período do AT. É notável a evidência exter-
na que dá sustentação ao texto mais breve. Além disso, o fato de προ έμού ocorrer
em diferentes lugares nos manuscritos norm alm ente apoiaria a sugestão de que
se trata de um acréscim o feito por copistas. Mas em vários manuscritos, copistas
omitiram πάντες (todos) para diminuir um pouco o alcance e a intensidade daquela
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO 191

afirmação, e isso parece sugerir que outros copistas possam ter om itido a locução
π ρ ο έμοΰ. Para mostrar que não se tem certeza quanto ao texto original, π ρ ο εμού
aparece, no texto, entre colchetes.

10.11 τίθησιν (põe/entrega) {B}

Em lugar da expressão “pôr ou entregar a sua vida [την ψ υχήν]”, que é bem
joanina (10.15,17; 13.37,38; 15.13; lJ o 3.16 d u a s v e zes), vários testem unhos tra-
zem a expressão “dar a sua vida”, que aparece nos Evangelhos sinóticos (Mt 20.28;
Mc 10.45). Em algum as línguas, a tradução literal do texto pode não ser a melhor
opção. Confira “está pronto a morrer pelas suas ovelhas” (BN) e “dá a vida pelas
ovelhas” (ARA e NTLH).

10.15 τίθημι (ponho/entrego) {B}

Veja o comentário sobre o v. 11.

10.16 γενήσονται (se tornarão) {C}

Essa variante textual não tem maior significado para a tradução do texto. Tanto
o plural γενήσονται com o o singular γενήσεται (haverá) têm considerável apoio
de m anuscritos, embora esse apoio favoreça, ainda que de leve, a forma do plural.
Além disso, o singular parece ser uma correção de ordem estilística.

1 0 .1 8 αίρει (tira) {B}

O aoristo ήρεν (“Ninguém tir o u [a m inha vida] de m im ”) tem apoio que é antigo
e de boa qualidade. Além disso, por ser a leitura mais difícil, poderia ter prefe-
rência na hora de definir o texto original. No entanto, o apoio dos manuscritos é
dem asiadam ente lim itado, ou seja, vem de um só tipo de texto (o egípcio). Mesmo
assim, eruditos que aceitam o aoristo como original explicam essa leitura como
um a referência a tentativas anteriores de matar Jesus e que não tiveram êxito (5.18;
7.25; 8.59) ou, então, com o uma referência à crucificação, vista da perspectiva do
evangelista como um acontecim ento do passado.

10.19 πάλιν (outra vez) {B}

A evidência externa a favor e contra a presença de ο ΰ ν (portanto) no texto


apresenta um considerável equilíbrio, embora pareça mais provável que copistas
tenham acrescentado essa palavra, e não que a tenham omitido.
192 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

10.22 τότε (então) {B}

Tanto τότε como δε têm sólido apoio de manuscritos. N esse contexto, a diferen-
ça de significado entre τότε e δε pode não ter maior influência sobre a tradução.
Tendo em vista a palavra precedente, que é έγένετο, qualquer uma dessas duas
formas (εγενετοτοτε ou εγενετοδε) pode ter surgido por causa de um erro de cópia
(ditografia ou haplografia), seguido de confusão entre δέ e τε, que é um fenôm eno
até frequente em alguns manuscritos gregos. A forma τότε é a que parece se encai-
xar melhor no contexto. Quanto às duas outras leituras, δέ τότε é uma combinação
de duas leituras anteriores (δέ e τότε), e o fato de, em alguns testem unhos, não
aparecer nem uma nem outra das partículas pode ser explicado como um erro de
cópia ou, então, uma om issão intencional no com eço de uma perícope litúrgica
(uma seção do texto que era lida no culto).

10.26 έμών (minhas) {B}

Ao final desse versículo, muitos testem unhos trazem καθώς ειπον ύμΐν (como eu
vos disse). A evidência externa a favor e contra essa leitura mais longa, que parece
um acréscimo feito por copista, está dividida ao meio. E até possível que essas pa-
lavras sejam originais e que copistas as tenham omitido intencionalm ente, por não
terem encontrado no relato anterior nenhuma declaração de Jesus no sentido de que
os judeus não eram das suas ovelhas. No entanto, esta hipótese é pouco provável.

10.29 ó δέδωκέν μοι πάντω ν μεΐζόν έστιν


(ο que deu a mim do que tudo maior é) {D}

A leitura que aparece como texto em O N o v o T e sta m e n to Grego é a que melhor


explica o surgim ento das variantes. Em m eio a um grande número de variantes, a
questão mais importante é se o pronome relativo é m asculino (ος) ou neutro (õ), e
se o adjetivo comparativo é m asculino (μείζων) ou neutro (μεΐζον). Se as palavras
ό πατήρ μου ος fossem originais, é quase certo que não teriam sido alteradas para
formar um texto estranho, com um pronome relativo neutro vindo após “meu Pai”.
Geralmente se argum enta que a leitura em que o pronome neutro õ aparece com o
adjetivo m asculino μείζω ν resulta num texto que, em grego, não é gramatical e que,
portanto, não pode ser original.
O texto que aparece em O N o v o T e sta m e n to Grego resulta na seguinte tradução:
“Aquilo que [ó] meu Pai me deu é maior do que [μεΐζον] tudo” (ARA, NRSV, e tam-
bém TEV, FC). A variante com o pronome e o adjetivo no plural foi adotada pela
NVI (bem como pela REB, TEB e CNBB): “Meu Pai, que [ος] as deu para mim, é
maior do que [μείζων] todos”. A variante com o pronome neutro e o adjetivo mas-
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO 193

culino poderia ser traduzida assim: “O Pai, pelo que [o] ele me deu, é maior do que
[μείζων] todos (ou, qualquer outro)”.

1 0 .3 8 καί γινώσκητε (e possais compreender) {B}

Pelo que parece, copistas entenderam que a leitura και γινώσκητε, que tem o apoio
de testemunhos antigos e de diferentes tipos de texto, era redundante após γνώτε
(para que possais saber) e, em razão disso, fizeram a substituição do verbo γινώσκητε
pelo verbo πιστεΰσητε (e possais crer) ou, então, omitiram o texto por completo.

1 0 .3 9 εζήτουν [οΰν] (procuravam [pois]) {C}

O conectivo οΰν aparece com frequência no Evangelho de João. Logo, sua omissão
pode ser explicada como um caso de haplografia (εζήτουν). No entanto, visto que
outros testemunhos substituíram οΰν por δέ ou καί, é possível que essa palavra não
seja original. Para indicar que não se tem certeza quanto ao texto original, οΰ ν foi
colocada entre colchetes.

1 1 .2 1 κύριε (Senhor) {A}

Dois testem unhos antigos (B e sir5), que representam tipos de texto diferentes,
não trazem a palavra κύριε, mas essa om issão é, provavelm ente, resultado de um
erro de cópia.

1 1 .2 5 καί ή ζωή (e a vida) {A}

Surpreende o fato de και ή ζωή não aparecer em vários testemunhos. Teria sido
acrescentado na grande maioria dos testemunhos, antecipando aquilo que é expresso
na continuação do texto, ou seja, ζήσεται (viverá), no v. 25b, e ό ζώ ν (o que vive),
no v. 26? Ou teria sido omitido, talvez por acidente ou, então, de forma deliberada,
porque o v. 2 4 menciona apenas a ressurreição? Prefere-se a leitura mais longa, que
também é adotada na maioria das traduções modernas (exceção feita à NBJ), por
causa de sua antiguidade, seu valor, e pela diversidade dos testemunhos que incluem
essas palavras.

1 1 .2 8 S e g m e n ta ç ã o

Caso se fizer um corte antes de λάθρςι (em particular/em segredo), o sentido é


que Marta disse algo a Maria em particular (ou em segredo). NTLH, por exemplo,
traduz assim: “Marta foi, cham ou Maria, a sua irmã, e lhe disse em particular”.
194 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Caso, porém, se fizer um corte depois de λάθρα, o sentido passa a ser que Marta
cham ou Maria em segredo. ARC (bem com o a TEV) traduz assim: “partiu e chamou
em segredo a Maria, sua irmã, dizendo ..

11.31 δόξαντες ([os judeus] pensando/supondo) {B}

A leitura δόξαντες tem o apoio de manuscritos que são ao m esmo tempo antigos
e revelam ampla distribuição geográfica. A leitura δοξά ζοντες (louvando) é, com
certeza, fruto de um erro, pois não faz sentido no presente contexto. Entretanto,
ela dá sustentação à leitura δόξαντες, pois δ οξά ζοντες é resultado de uma leitura
equivocada do participio δόξαντες. A leitura λέγοντες (dizendo) pode ter surgido
quando copistas com eçaram a se perguntar como o escritor do Evangelho podería
ter tido acesso àquilo que se passava na m ente dos judeus.

11.50 ύμΐν (a vós/vos) {B}

O pronome da segunda pessoa do plural tem sólido apoio de manuscritos e con-


corda com o tom de desprezo que transparece nas palavras de Caifás ao final do v. 49.
A leitura ήμΐν (a nós/nos) não encontra apoio significativo em testem unhos antigos.
É possível que a om issão do pronome, em alguns testem unhos, tenha ocorrido de
forma acidental; ou então se deu por influência de Jo 18.14.

12.1 Λ άζαρος (Lázaro) {A}

As palavras ό τεθνηκώς (o que falecera/que estivera morto) não aparecem numa


variedade de bons testem unhos. E provável que tenham sido acrescentadas por um
copista em data bem antiga (o texto já aparece em <p66). E possível, embora m enos
provável, que essas palavras sejam originais, tendo sido om itidas por um copista
que as considerou desnecessárias à luz das palavras que seguem , ou seja, “a quem
ele tinha ressuscitado dentre os m ortos”.

12.8 in c lu sã o do versícu lo {A}

É difícil de explicar a ausência do v. 8 em vários testem unhos do tipo de texto


ocidental. Por um lado, a evidência dos manuscritos é quase que unânim e a favor
da inclusão desse versículo. Por outro lado, é possível argumentar que essas pa-
lavras foram acrescentadas ao texto em data bem remota por um copista que se
lembrou de uma afirmação sem elhante em Mt 26.11 e Mc 14.7. A om issão de μεθ’
έαυτών εμέ δέ ού πάντοτε έχετε (convosco, mas a mim nem sempre tendes) em
dois manuscritos é, claram ente, resultado do equívoco de um copista, que saltou
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO 195

do primeiro εχετε para o segundo εχετε e omitiu o texto que ficava entre os dois.
A om issão dos vs. 7 8 ‫ ־‬no manuscrito 0250 também parece ser um lapso de cópia,
sendo que o copista, sem se dar conta, passou de β ιπ β Ν ο γ Ν , no com eço do v. 7, a
β Γ Ν ο ο ο γ Ν , no início do v. 9.

12.9 ,Έ γνω οΰν [ό] όχλος πολύς εκ των Ιο υ δ α ίω ν (soube pois [a] grande multi-
dão dos judeus) {C}

É natural considerar όχλος πολύς e ό όχλος ό πολύς como melhorias gramaticais


feitas por copistas. Mas a locução ò όχλος πολύς fazendo a vez de sujeito de um ver-
bo é tão inusitada em grego (com πολύς em posição predicativa) que parece muito
pouco provável que o evangelista tenha escrito isso. Para indicar incerteza quanto ao
texto original, o artigo definido aparece entre colchetes. Quanto a usar ou não um
artigo na tradução, isso vai depender das características da língua alvo, pois esta é
a primeira vez que se menciona a multidão, que, ao que parece, é mencionada outra
vez no v. 17. (A “multidão” dos vs. 12,18 refere-se a outro grupo de pessoas.)

12.17 ότε (quando) {B}

A leitura ότε é preferível a ότι por ter o apoio de uma evidência externa que, em
geral, é de qualidade superior. Segundo a leitura aceita como texto, essa multidão
m encionada no v. 17 é a m esm a que estava com Jesus “quando” ele ressuscitou
Lázaro (v. 9). O v. 18, por sua vez, faz referência a uma outra multidão, pessoas
que vinham de Jerusalém (v. 12) por terem ouvido o que a multidão do v. 17 estava
anunciando. A leitura que está no texto pode ser traduzida por “Assim, a multidão
que havia estado com ele quando (ότε) ele chamou Lázaro para fora do túm ulo e o
ressuscitou dentre os mortos continuava a dar testem unho”.
É possível que copistas trocaram ότε por ότι, para deixar o relato mais claro, fa-
zendo com que os vs. 17-18 se refiram à m esma multidão, que é a mesma que havia
sido m encionada no v. 12. Segundo a variante textual, a multidão que acompanha-
va Jesus (v. 12) havia anunciado que (ότι) ele chamou Lázaro para fora do túm ulo
e o ressuscitou dentre os mortos, e esta parece ser a m esma multidão m encionada
no v. 18. A variante textual pode ser traduzida por “Assim, a multidão que estava
com ele continuava a dar testem unho de que (ότι) ele cham ou Lázaro para fora do
túm ulo e o ressuscitou dentre os m ortos”.

12.19 S e g m e n ta ç ã o

A primeira parte do comentário feito pelos fariseus é escrita como declaração


afirmativa tanto no texto como na maioria das traduções modernas. A NBJ, por
196 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

exem plo, diz: “Vede, nada conseguis”. Por outro lado, no te x tu s re c e p tu s, o m esm o
texto é pontuado com o pergunta. Afirmação ou pergunta, o significado é basica-
m ente o mesmo.

12.28 σ ο υ το όνομα (o teu nome) {A}

Todos os testem unhos mais antigos e a maioria dos testem unhos mais recentes
trazem “glorifica o teu nom e”. Vários testem unhos mais recentes trazem “glorifica
o teu Filho”, por influência das palavras iniciais da oração de Jesus em Jo 17.1. O
copista do Códice de Beza (D) preservou as palavras “o nom e” e acrescentou pala-
vras que lembram Jo 17.5, que, naquele manuscrito, diz “ ... na glória que eu tive
contigo antes que o mundo existisse”.

12.32 πάντας έλκΰσω (todas as pessoas atrairei) {B}

O acusativo m asculino plural πάντας tem sólido apoio de manuscritos e parece


concordar com a teologia de João. O neutro plural πάντα igualm ente tem sólido
apoio de manuscritos. Por ser ambíguo (“todos”, “todas as coisas” “tudo”), é possí-
vel que tenha sofrido, da parte de copistas, o acréscim o de um sigm a (πάντας), fa-
zendo com que o termo se refira claram ente a pessoas. A leitura πάντα, que sugere
a noção de uma redenção cósm ica, pode ter surgido por influência de Cl 1.16-17 e /
ou especulações gnósticas, isto é, especulações encontradas em vários m ovim entos
religiosos que existiram durante os primeiros séculos da era cristã. Mesmo sendo
m asculino plural, πά ντα ς pode se referir tanto a hom ens como a mulheres. Algu-
m as traduções dizem “todos os hom ens” (por exem plo, TEB e RSV), mas, neste
caso, seria preferível traduzir por “todas as pessoas” (NTLH e NRSV) ou “todos”
(ARA, TEV, REB, NBJ, CNBB, NVI, e BN).

12.40 έπώ ρω σεν (endureceu) {C}

As variantes textuais não têm maior im portância para a tradução do texto. A


leitura έπήρω σεν (m utilou/incapacitou) parece ter surgido numa tentativa de colo-
car ao lado de την καρόίαν (o coração) um verbo m ais adequado do que έπώ ρω σεν
ou πεπώρω κεν. A forma verbal do perfeito πεπώ ρω κεν surgiu por influência do
perfeito τετΰφλώ κεν, que aparece no con texto anterior. Beasley-M urray (John,
p. 205, n. p) constata: “πω ρόω equivale a ‘endurecer, petrificar’; usado com
ra p ô ía , que no pensam ento judaico indica a m ente, significa ‘tornar insensível
ou obtuso, cegar’; πηρόω é igual a ‘aleijar’ ou ‘m utilar’; no entanto, usado com
ícapòía resulta em ‘cegar’ ... ou seja, o significado é o m esm o, independentem ente
do verbo escolhido”.
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO ‫ ו‬97

12.41 õxi (porque) {B}

O peso e a idade dos manuscritos favorecem δτι em detrimento de δτε (quando;


leitura adotada por Seg). Além disso, por parecer à primeira vista uma leitura que não
se encaixa tão bem naquele contexto quanto δτε ou έπεί, é mais provável que δτι seja
original e que tenha sido modificado pelos copistas. A leitura impressa como texto se
traduz por “Isaías disse isso porque viu . . Por outro lado, a variante textual pode ser
traduzida por “Isaías disse isso quando viu ...” Brown (T he G ospel A c c o rd in g to J o h n
(i — x ii), p. 484) afirma: “Neste caso, não havería grande diferença de significado”.

13.2 γινομένου (acontecendo/existindo) {B}

É mais provável que o texto original seja o participio presente γινομένου, pois
o apoio dos manuscritos favorece essa forma em detrimento do participio aoristo
γενομένου. Geralmente se afirma que o participio presente significa “durante [a ceia]”,
e isso se enquadra bem no contexto, pois os vs. 4,26 mostram que a refeição ainda es-
tava em andamento. O participio aoristo, que geralmente é interpretado no sentido de
“[a ceia] tendo chegado ao fim”, é, nesse contexto, a leitura mais difícil. Caso, porém,
a forma do aoristo seja original, pode ser traduzida por “[a ceia] estando servida”.

13.2 ,Ιούδας Σίμω νος ,Ισκαριώτου (Judas de Simão Iscariotes) {C}

Aqui existem diferentes variantes: (1) a opção entre o caso nominativo (,Ιούδας)
e o genitivo (,Ιούδα) de “Judas”; (2) a colocação do nome dentro da frase; e (3) o caso
gramatical de “Iscariotes”. O caso genitivo ,Ιούδα, que aparece, na maioria dos teste-
munhos, imediatamente após καρδίαν (coração), é, com certeza, a leitura mais fácil
(“o coração de Judas Iscariotes, filho de Simão”). Se esse fosse, todavia, o texto origi-
nal, não teria sido alterado para uma construção mais complicada (,Ιούδας seguindo
ΐνα παραδοΐ αυτόν). Visto que, segundo os melhores testemunhos, em outras passa-
gens (6.71; 13.26) João agrega ao nome “Iscariotes” o nome de “Simão”, que é o pai
de Judas, parece que a melhor opção é adotar o nome ,Ισκαριώτου (no caso genitivo),
e não o nome ,Ισκαριώτης (no caso nominativo). Não há dúvida de que ,Ισκαριώτης
(no caso nominativo) concorda com ,Ιούδας (no caso nominativo). É claro que a leitu-
ra ,Ιούδα Σίμωνος ,Ισκαριώτου, que se encontra na maioria dos testemunhos, pode
também ser traduzida por “[o coração] de Judas, o filho de Simão Iscariotes”.
A ARA, a NBJ e a TEB (bem como a RSV e a NVI) preferem a variante textual e
traduzem assim: “... de Judas Iscariotes, filho de Simão”. Deixando de lado a questão
se “Iscariotes” vai com “Judas” ou com “Simão”, é preciso notar que, provavelmen-
te, “Iscariotes” não era um nome de pessoa. Não se sabe ao certo o que significa
“Iscariotes”, mas existem as seguintes possibilidades: (1) “homem [da aldeia] de
198 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Queriote”, e alguns testem unhos trazem “de Queriote” (άπο Καρυώτου); (2) “porta-
dor de punhal”; (3) “enganador/m entiroso”; e (4) “traidor/entregador”. Entretanto,
praticamente todas as traduções simplesmente transliteram Iscariotes como se fosse
um nom e. A NAB, por sua vez, optando pela primeira interpretação do nome acima,
traduz por “Judas, filho de Simão, o Iscariotes”.
A leitura aceita como texto é difícil porque as palavras ,Ιούδας Σίμω νος
Ίσκαριώτου são separadas da locução εις την καρδίαν (“no coração”) pelas pala-
vras iva παρα δοΐ αυτόν (“para que o traísse”). A maioria das traduções relaciona
“no coração” com Judas. A ARA, por exem plo, traz “tendo já o diabo posto no
coração de Judas ... que traísse a Jesus”. No entanto, gramaticalm ente tam bém é
possível relacionar εις την καρδίαν com o diabo e traduzir assim: “O diabo já havia
posto na cabeça (εις την καρδιαν) [isto é, decidido] que Judas havería de traí-lo”
(Moloney, T h e G ospel o f J o h n , p. 78).

1 3 .1 0 ovk εχει χρείαν εί μη τούς πόδας νίψασθαι


(não tem necessidade exceto de os pés lavar) {B}

Neste versículo existem diversas variantes textuais, sendo que algum as delas
têm pouca im portância do ponto de vista do significado. Por exem plo, alguns ma-
nuscritos têm a ordem de palavras ού χρείαν εχει, numa alteração que parece ter
sido feita em função de como as palavras soam em conjunto. Outros testem unhos
colocam a partícula ή em lugar de εί μη, e alguns, influenciados pelo versículo an-
terior, inserem a palavra μ όνον (somente).
De maior importância para o tradutor é decidir se as palavras εί μη τούς πόδας
(exceto os pés) fazem parte do texto original ou não. Tudo indica que sejam parte
do original, mas que foram om itidas sem querer ou, até mesmo, de forma inten-
cional, por causa da dificuldade de reconciliá-las com a declaração seguinte, άλλ’
εστιν καθαρός ολος (mas está inteiram ente limpo). O texto m ais breve (adotado em
REB, NBJ e TEB) tem o apoio do Códice Sinaítico (‫)א‬, alguns manuscritos da Antiga
Latina e da Vulgata, bem com o de alguns importantes Pais da Igreja. A maioria dos
eruditos de hoje entende que o contexto exige a leitura mais breve (veja a discussão
desse assunto em Beasley-Murray, J o h n , p. 229, n. f; e Carson, T h e G ospel A c c o rd in g
to J o h n , pp. 4 6 4 -4 6 6 ), mas a sólida evidência dos manuscritos que registram o texto
m ais longo favorece a tese de que o texto m ais longo é, de fato, original.

1 3 .1 2 S e g m e n ta ç ã o

Caso se fizer uma pausa após ο πάλιν (outra vez), a exem plo do que ocorre no
texto de O N o v o T e sta m e n to Grego, o texto pode ser traduzido assim: “Depois de lavar
os pés deles, ele vestiu a sua capa e sentou-se outra vez à mesa. E perguntou: ‘Com-
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO 199

preendeis o que eu vos fiz’?” (REB; tam bém ARA, NTLH, NRSV, NBJ, e a maioria das
outras traduções). Caso, porém, se fizer um corte antes de πάλιν, o sentido passa a
ser: “Depois que ele tinha lavado os pés deles, vestido a roupa e voltado ao seu lugar,
disse-lhes outra vez: ‘Compreendeis o que eu vos estou fazendo’?7’ (Goodspeed).

13.18 μου (meu) {C}

O peso dos manuscritos favorece a adoção de μετ’ εμού (comigo), que é tradu-
zido em REB, TEB, NTLH, BN e Seg, com o texto original. No entanto, m esm o que
essa locução tenha a seu favor a evidência externa, tudo indica que o pronome μου
foi substituído por μετ’ έμοΰ por influência de Mc 14.18. Na Septuaginta, o texto de
SI 40.10 (=S1 41.10 no texto m assorético), que está sendo citado aqui, tam bém tem
o pronome μου. A leitura que aparece com o texto em O N o v o T e sta m e n to Grego será
traduzida por “come do meu pão”; a variante será traduzida por “come pão com igo”.

13.26 βάψω τό ψ ω μίον και δώσω αύτω


(passarei no m olho ο pedaço [de pão] e darei a ele) {C}

As diferentes variantes não têm maior importância para a tradução, pois se trata
de diferenças estilísticas e não de significado. É mais provável que copistas tenham
trocado a forma simples do verbo δώσω pelo verbo composto έπιδώσω, que não
aparece em nenhuma outra passagem de João, do que imaginar o processo inverso.
Além disso, João se caracteriza por um estilo sem ítico em que aparecem dois verbos
finitos (βάψω e δώσω) conectados por “e ” (και), que copistas trataram de alterar
para uma construção envolvendo um participio (βάψας) e a om issão da conjunção
(βάψας τό ψ ω μίον έπιδώσω). Ao m esm o tempo, a construção ω ... αύτω (a quem ...
a ele), tão característica de um estilo sem ítico primitivo (‫ לו‬... ‫) ר ש א‬, foi, quase com
certeza, alterada por copistas que omitiram o pronome αύτω, por entenderem que
o m esm o era desnecessário. Veja também o comentário sobre a variante seguinte.

13.26 βάψας ού ν το ψω μίον [λαμβάνει καί] δίδωσιν


(tendo, pois, m olhado ο pedaço de pão [ele (o) pega e] dá) {C}

E difícil decidir se copistas acrescentaram as palavras λαμβάνει καί (ele pega e),
para fazer conexão com aquilo que Jesus fez durante a últim a ceia, quando p e g o u o
pão (Mt 26.26; Mc 14.22; Lc 22.19; ICo 11.23), ou se omitiram essas palavras, por
entenderem que eram redundantes e desnecessárias. Para caracterizar o equilíbrio
que existe entre evidência externa e probabilidades no processo de transmissão
do texto (o que um copista teria ou não teria feito), essas palavras aparecem, no
texto, entre colchetes, para indicar que não se tem certeza quanto ao texto original.
200 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Algum as traduções m odernas, ao que parece, optaram pelo texto mais breve (por
exem plo, RSV, NRSV, NVI, CNBB, Seg).

1 3 .3 2 [εί ό θεός έόοξάσθη εν αύτώ] ([se Deus foi glorificado nele]) {C}

Norm almente, a antiguidade e distribuição geográfica dos testem unhos que


apoiam o texto mais breve levariam à conclusão de que a frase εί ό θεός έόοξάσθη
εν αύτώ é um acréscim o posterior, feito por copistas. Por outro lado, existe a possi-
bilidade de que essas palavras tenham sido omitidas por um descuido de um copista
(έν αύτώ ... έν αύτώ) ou, então, que tenham sido omitidas de propósito, porque um
copista julgou que se tratava de uma repetição desnecessária. Entretanto, existe
um a conexão lógica declarada entre a glorificação anterior e a posterior, e o para-
lelism o em degrau é urna característica de estilo em João. Uma vez que a evidén-
cia externa apoia o texto mais breve (adotado em TEB), ao passo que a evidência
interna favorece a leitura mais longa, essa frase foi colocada entre colchetes, para
indicar que não se tem certeza quanto ao texto original.

1 3 .3 2 ό θεός δοξάσει αύτόν έν αύτώ (Deus o glorificará nele mesmo) {Β}

Esta variante não tem importância para a tradução, pois, nesse contexto, o prono-
me αύτώ tem o mesmo significado do pronome reflexivo έαυτώ, que aparece na maio-
ria dos testemunhos. O pronome αύτώ se refere a Deus, e não ao Filho do Homem.

1 3 .3 7 Κύριε (Senhor) {A}

A palavra κύριε tem o apoio de manuscritos antigos e que representam dife-


rentes tipos de texto. Tudo indica que seja original, e que tenha sido omitida por
acidente (muitas vezes se abreviava κύριε como Re) ou, então, de forma intencional
(porque parecia desnecessário repetir a palavra após ο Κύριε do v. 36). Por outro
lado, visto que Κύριε não aparece numa boa combinação de testem unhos (razão
pela qual não aparece na tradução da NBJ), alguns entendem que se trata de uma
palavra que foi inserida em outros testem unhos por influência do v. 36.

1 4 .1 S e g m e n ta ç ã o

Neste versículo, os verbos πιστεύετε podem ser interpretados como formas do


indicativo (vocês creem) ou como formas do imperativo (creiam). Na edição de
W estcott e Hort existe uma nota m arginal, sugerindo uma pontuação alternativa,
com um a vírgula após o primeiro verbo. A tradução resultante seria: “Vocês creem.
Creiam em Deus e (creiam) em mim”. Para uma discussão mais aprofundada a
O EVANGELHO SEGUN D O JO Ã O 201

respeito das diferentes maneiras de se interpretar este versículo, veja Carson, The
G ospel A c c o rd in g to J o h n , p. 4 8 7 4 8 8 ‫־‬.

1 4 .2 δτι (que/porque) {B}

A palavra δτι pode introduzir uma oração substantiva, a exem plo do texto de
O N o vo T e sta m e n to Grego (e também da NRSV: “Se não fosse assim, teria eu dito
para vocês que [δτι] vou preparar um lugar para vocês?”). Neste caso, não existe
nenhum corte ou nenhuma pausa após o pronome “vocês”. Aqui fica implícito que,
anteriormente, Jesus já havia dito aos discípulos que estava indo preparar-lhes um
lugar. A palavra δτι pode também significar “porque” ou “pois” (assim a ARA: “Se
assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois [δτι] vou preparar-vos lugar”). Quem toma
δτι no sentido de “porque”, entende que a segunda parte do v. 2 é “uma maneira de
chamar a atenção para a importância das palavras de Jesus” (Moloney, T h e G ospel o f
J o h n , p. 397). O fato de δτι estar faltando em alguns testem unhos pode ser explica-
do, provavelmente, como uma simplificação feita por copistas que interpretaram δτι
como um marcador de discurso direto (equivalente a dois pontos) e, por julgarem
desnecessária sua presença, acabaram por omiti-lo.

1 4 .2 S e g m e n ta ç ã o

A segunda metade desse versículo pode ser pontuada como uma pergunta, a
exemplo do que acontece no texto de O N o vo T esta m en to Grego (veja a tradução do
texto na nota anterior). Também pode ser interpretada como uma afirmação (veja a
tradução de ARA, citada na nota anterior). Para uma discussão mais aprofundada,
veja Carson, The G ospel A c co rd in g to J o h n , p. 490.

1 4 .4 την οδ όν (ο caminho) {B}

A leitura mais breve, οπού εγώ υπάγω οϊδατε την οδόν (aonde eu vou vocês conhe-
cem o caminho), apresenta uma sintaxe um tanto quanto rude e, em função disso, foi
alterada por copistas. Uma vez que, no v. 5, Tomé faz distinção entre “aonde” e “o cami-
nho”, copistas tentaram melhorar o texto do v. 4, ampliando-o para οπού εγώ υπάγω
οϊδατε και τήν οδόν οϊδατε (aonde eu vou vós sabeis e o caminho vós conheceis).

1 4 .7 έγνώκατέ με (tendes conhecido a mim) {C}

As leituras que aparecem como texto deste versículo (veja a nota seguinte) apre-
sentam uma promessa: “Se tendes conhecido a mim [o que, de fato, é o caso], co-
nhecereis também o meu Pai”. Apesar da harmonia entre esta afirmação e o restante
202 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

do v. 7, outra interpretação das palavras de Jesus, em tom de censura, passou a ser


amplamente disseminada: “Se me tivésseis conhecido [o que não é o caso], conhece-
ríeis tam bém o m eu Pai [o que também não é o caso]”. Esta última construção (uma
condição irreal ou contrária aos fatos) parece ter surgido porque os copistas lembra-
ram as palavras com que Jesus censurou os judeus descrentes em Jo 8.19 ou, então,
porque a pergunta de Filipe (v. 8) e a resposta de Jesus (v. 9) davam a entender que
os discípulos não conheciam nem a Jesus nem o Pai.

14.11 πιστεύετε (crede) {B}

Uma variedade de testemunhos, incluindo alguns dos mais antigos, conseguiu


resistir à tentação de acrescentar um pronome para fazer o texto concordar com a for-
mulação anterior πιστεύετε μοι (crede-me). Entretanto, em algumas línguas, talvez
se tenha que suprir um objeto para o verbo “crer”. Algumas traduções inglesas (RSV e
NRSV) e também a BN traduzem por “acreditem em mim”, provavelmente por causa
dos princípios de tradução que foram adotados e não tanto por uma opção quanto ao
texto original. A NBJ acrescenta o pronome “o”: “Crede-me: eu estou no Pai e o Pai
em mim. Crede-o, ao menos, por causa dessas obras”.

14.14 in c lu sã o do versícu lo {A}

O v. 14 é omitido por uma série de testemunhos, incluindo algumas das impor-


tantes versões antigas. Além disso, alguns manuscritos omitem o v. 14 e as sete últi-
mas palavras do v. 13, porque um copista, sem se dar conta, passou do ποιήσω que
aparece na metade do v. 13 ao ποιήσω do final do v. 14 e acabou omitindo a segunda
metade do v. 13 e todo o v. 14. A omissão do v. 14 tem diferentes explicações. Pode
ser resultado de um erro de cópia, em que o copista, traído pela sequência de palavras
idênticas, passou do 6 an que aparece no começo do v. 14 ao gan do final do v. 15.
Outra explicação é que a sem elhança de conteúdo e até mesmo de formulação entre a
primeira metade do v. 13 e o v. 14 levou copistas que queriam produzir um texto mais
enxuto a omitir o v. 14. Ou, ainda, é possível que o versículo tenha sido omitido para
evitar uma contradição com 16.23.

14.14 με (me) {B}

Em vários testemunhos, με foi omitido ou, então, substituído por τον πατέρα (o
Pai). Isso pode ter acontecido por causa da estranha combinação de palavras, “me
pedirdes em m e u nom e” ou, então, por um desejo de evitar que este texto entrasse
em contradição com Jo 16.23. A palavrinha με tem suficiente apoio de manuscritos
e parece apropriada em vista de sua correlação com εγώ (eu) mais adiante no versí-
O EVANGELHO SEGUNDO JOÃO 203

culo. Mesmo que se adote o texto mais breve como original (como parece ser o caso
em REB, CNBB, NVI e Seg), em algumas línguas o pronome “me” pode ser incluído
por razões de tradução. Uma vez que é Jesus quem vai responder a oração, é melhor
entender que a mesma se dirige a Jesus, e não ao Pai.

14.15 τηρήσετε (guardareis) {C}

A forma de futuro τηρήσετε, que tem razoável apoio de manuscritos, recebe, ao


que parece, também o apoio indireto de testemunhos que trazem o aoristo subjuntivo
τηρήσητε. O imperativo τηρήσατε (guardai [os meus mandamentos]), que tem bom
apoio de manuscritos, não combina muito bem com έρωτήσω (pedirei), no v. 16. O
aoristo subjuntivo foi seguido na primeira edição da NAB: “15 Se me amais e guar-
dais [τηρήσητε] o mandamento que eu vos dou, 16 pedirei ao P a i...”

14.17 μένει ... έσται (habita ... estará) {C}

O tempo futuro έσται, que tem bom apoio de manuscritos, parece se encaixar no
texto de forma mais adequada do que o presente έστιν (está). As traduções modernas
estão divididas; algumas preferem o tempo futuro (RSV, ARA, NTLH, NVI, NRSV, REB,
Seg), ao passo que outras preferem o tempo presente (NBJ, TEV, TEB, CNBB, BN, FC).

14.22 ,Ιούδας, ού χ ό Ίσκαριώτης (Judas, não o Iscariotes) {A}

As leituras que aparecem unicam ente em algum as versões antigas são interes-
santes do ponto de vista das tradições da Igreja do período posterior ao Novo Tes-
tam ento. Várias versões coptas trazem “Judas, o cananeu”, e na Antiga Siríaca se
lê “[Judas ] Tomé”. O Códice de Beza (D) registra “Judas, não o de Q ueriote” [uma
aldeia ao Sul da Judeia] — veja tam bém 13.2.

14.28 S e g m e n ta ç ã o

Caso se entender que οτι indica o motivo da alegria, o significado é o seguinte:


“teríeis ficado alegres, porque [οτι] eu vou para o Pai” (RSV). Entretanto, a maioria
das traduções modernas entende que οτι indica o conteúdo da alegria. ARA, por
exemplo, traduz assim: “alegrar-vos-íeis de que [ότι] eu vá para o Pai”.

15.8 γένησθε (vos torneis/sejais) {C}

A variante textual tem pouca ou nenhum a im portância para a tradução do tex-


to. É muito difícil decidir entre o subjuntivo γένησθε, que depende de iva (para q u e/
204 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

em que) e aparece em coordenação com o verbo φέρητε (produzais), e o futuro do


indicativo γενήσεσθε (vos tornareis). De vez em quando o futuro do indicativo apa-
rece com iva [normalmente, apenas formas do subjuntivo], mas é mais provável que
γενήσεσθε tenha que ser tomado como urna frase ou oração independente. Barrett
( T h e G o sp el A c c o r d in g to S t. J o h n , p. 396) constata: “A diferença de significado é
praticamente im perceptível”.

16.4 ώρα αυτών μνημονεΰητε αυτών (a hora delas que vos recordeis delas) {B}

Deve-se preferir o texto com o duplo αυτών, por dois motivos: (1) O peso da
evidencia externa, isto é, os manuscritos que apoiam essa leitura; e (2) É mais pro-
vável que o αυτών depois de ώρα tenha sido elim inado por copistas que o julgaram
desnecessário do que imaginar o processo inverso, ou seja, sua posterior inclusão
no texto. A tradução da NRSV se baseia na leitura que aparece como texto em O
N o v o T e s ta m e n to G re g o : “Mas eu vos tenho dito essas coisas para que quando chegar
a hora delas [αυτών] vos lembreis de que eu vos falei a respeito delas [αυτών]”. Ou-
tras traduções são m enos literais: “Eu vos disse tudo isso para que, quando chegar a
hora em que isso vai acontecer, vos lembreis da m inha advertência “ (REB) e “Mas
eu disse isso a vocês, para que, quando chegar a hora em que eles vão fazer essas
coisas, vocês se lembrem do que eu lhes disse” (TEV).

16.13 οδηγήσει υμάς έν τη άληθεία πάση (ele vos guiará em toda a verdade) {B}

Aparentem ente, a form ulação em que a preposição εις aparece seguida por um
acusativo (πάσαν τήν άλήθειαν) foi criada por copistas que a consideraram m ais
idiom ática ou natural após o verbo οδηγήσει do que o texto com a preposição έν
seguida por dativo (τή άληθεία πάση). Se houver algum a diferença de significado,
será esta: εις com o acusativo se refere ao alvo da ação do Parácleto, ao passo
que έν com o dativo se refere à esfera ou área de ação do Parácleto. Ou, segundo
Carson ( T h e G o sp e l A c c o r d in g to J o h n , p. 539), “se houver algum a diferença entre
‘em toda a verdade’ e ‘a toda a verdade’, seria esta: ‘a toda a verdade’ alude a um a
verdade que os discípulos ainda não com preenderam de m aneira algum a, enquan-
to ‘em toda a verdade’ sugere uma exploração da verdade que já foi, ao m enos em
princípio, revelada”. Brown ( T h e G o sp e l A c c o r d in g to J o h n ( x iü -x x i), p. 707), por
sua vez, afirma, em relação a esse texto: “Provavelm ente se está querendo extrair
dem ais de pequenas diferenças de significado entre preposições, que naquele tem-
po eram usadas de forma um tanto quanto vaga”. Beasley-Murray (J o h n , p. 268,
n. n) diz algo sem elhante: “em grego helenístico, muitas vezes se fazia confusão
entre έν e εις, o que mostra que não se via muita diferença de significado entre
essas preposições”.
0 EVANGELHO SEGUNDO JOÃO 205

16.16 οψεσθέ με (me vereis) {A}

Na intenção de preparar o terreno para a pergunta dos discípulos a respeito


da ida de Jesus para o Pai, no v. 17, alguns copistas (desconsiderando a afirmação
de Jesus no v. 10) acrescentaram, com pequenas variações, oi l υπάγω π ρ ος τον
πατέρα (porque eu vou para o Pai), depois de οψεσθέ με.

16.18 [ο λέγει] ([que ele diz]) {C}

O texto é um tanto repetitivo, mas não é fácil decidir se copistas omitiram as pa-
lavras δ λέγει, por entenderem que não eram absolutam ente necessárias ao sentido
do texto, ou se as m esm as foram acrescentadas para clarear o sentido. Além disso,
existe equilíbrio entre manuscritos que apoiam a leitura mais longa e manuscritos
que depõem contra ela. Para mostrar que existe incerteza quanto ao texto original,
as palavras õ λέγει foram colocadas entre colchetes.

16.22 έχετε (tendes) {B}

A forma verbal do presente, έχετε, tem bom apoio de manuscritos. A forma do


futuro, έξετε, parece ter sido criada por copistas para fazer o texto combinar com
λυπηθήσεσθε (ficareis tristes), no v. 20.

16.22 αίρει (tira) {B}

A evidência externa que apoia a forma do presente αίρει é tanto antiga quanto
am plam ente diversificada. Embora o futuro άρει (tirará) tenha apoio razoável de
manuscritos, é mais provável que copistas tenham colocado a forma verbal do fu-
turo no lugar do presente do que im aginar que tenha ocorrido o processo inverso.
Por mais que o texto grego diga “ninguém a tira de vós‫״‬, a palavra “pode” está
implícita, e pode ser explicitada na tradução. Confira a BN (também a TEV): “vão
encher-se duma alegria tão grande que ninguém a pode tirar de vossos corações”.
Brown ( T h e G ospel A c c o rd in g to J o h n (x iii-x x Q , p. 722) afirma que “o presente... é,
provavelm ente, original, e é usado para expressar a certeza do futuro”. Tradutores
terão que avaliar se o tem po presente pode ser usado dessa forma nas línguas para
as quais estão traduzindo.

16.23 αν τι (tudo quanto) {Β}

As variantes textuais não têm maior importância para a tradução, pois a ideia da
frase é expressa com praticamente o mesmo sentido em quatro leituras ligeiramente
206 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

diferentes entre si. A combinação de testem unhos que apoiam αν τι tem bastante
peso, e sugere que essa leitura é a que mais de perto representa o texto original.

16.23 εν τώ όνόματί μου δώσει ύμΐν (em m eu nom e dará a vós) {C}

A leitura que aparece como texto em O N o v o T e sta m e n to Grego coloca “em meu
nom e” entre os verbos “pedirdes” e “dará”. Deve-se preferir essa leitura porque
tem o apoio de uma evidência externa diversificada, e porque o contexto trata da
oração, que, em outras passagens, o evangelista liga ao nom e de Jesus (14.13,14;
16.15,24,26). Esse texto “pressupõe a m enção de seu nom e como Redentor-Senhor e
a apresentação de pedidos para a honra e glória dele” (Beasley-Murray, John, p. 285).
Essa leitura pode ser traduzida assim: “se vocês pedirem ao Pai algum a coisa em
m eu nom e, ele lhes dará” (NTLH).
A variante textual tem uma outra ordem das palavras: δώσει ύμΐν εν τω όνόματί
μου (dará a vós em m eu nome). O apoio a essa leitura se restringe praticamente a
testem unhos egípcios, mas se trata do texto mais difícil. Em nenhum outro texto de
João ou do NT se afirma que algo é “dado” em nom e de Jesus. Esse texto “significa
que Deus dá em virtude da redenção alcançada por Jesus e pelo relacionam ento
que aqueles que pedem têm com Jesus” (Beasley-Murray, p. 285). A variante textual
fundam enta a tradução que aparece em ARA (bem como em NBJ, RSV e Seg): “se
pedirdes algum a coisa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nom e”.

16.27 [τού] Θεού ([do/de] Deus) {C}

A leitura τού πατρός (do Pai) tem bom apoio de manuscritos, mas é, provável-
mente, uma alteração feita por influência das palavras έξήλθον παρά τού πατρός
(vim do Pai), que aparecem no versículo seguinte. Quanto ao artigo definido τού,
existe equilíbrio entre a evidência que apoia sua inclusão e aquela que depõe contra
ela. Por não se ter certeza quanto ao texto original, o artigo aparece, no texto, entre
colchetes. Em muitas línguas, a presença ou ausência do artigo definido no grego não
terá maior importância, pois, para efeitos de tradução, o fator determinante será a
forma como o artigo definido é usado na língua para a qual o texto está sendo tra-
duzido.

16.28 έξήλθον παρά τού πατρός (vim do Pai) {C}

Estas palavras foram omitidas em alguns testem unhos, e isso parece ter ocorrido
de forma acidental. A leitura variante será traduzida por “visto que me tendes ama-
do e tendes crido que eu vim da parte de Deus 28 e entrei no mundo ...” Ou seja, os
discípulos creram em duas coisas: que Jesus veio do Pai e que ele entrou no mundo.
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO 207

Em lugar da preposição παρά, alguns manuscritos têm εκ. Entretanto, nesse


contexto, não existe efetiva diferença de significado entre essas duas preposições
(Brown, T h e G ospel A c c o rd in g to J o h n (x iii — x x i ) , p. 725). Contudo, o peso dos ma-
nuscritos favorece de leve a preposição παρά, e εκ parece ter surgido devido ao uso
do verbo composto έξήλθον nesse m esm o contexto.

16.31 S e g m e n ta ç ã o

As palavras de Jesus podem ser entendidas com o pergunta, a exem plo do texto
de O N o v o T e sta m e n to Grego. Por exem plo, a NTLH diz: “E Jesus respondeu: — En-
tão agora vocês creem?” Em forma de pergunta, as palavras de Jesus questionam o
vigor da fé dos discípulos. Entretanto, essas palavras podem também ser entendidas
com o afirmação ou exclam ação, a exem plo da NVI: “Jesus respondeu: — Até que
enfim vocês acreditam”!

17.1 ό υιός (o Filho) {B}

Em muitas línguas, a variante textual, que inclui o pronom e σου (teu), não terá
maior importância, pois, qualquer que seja o texto adotado, a tradução incluirá
um pronome para modificar a palavra “Filho”. A leitura m ais breve tem a seu favor
um apoio mais consistente de manuscritos. No entanto, é difícil decidir se copis-
tas omitiram o pronome σου porque o julgavam desnecessário, ou se o m esm o foi
acrescentado para conferir ao texto um estilo mais sério.

17.11 ω όέδωκάς μοι (que me deste) {B}

A leitura que aparece como texto é a que melhor explica a origem das dem ais
leituras, além de ter a seu favor o peso dos manuscritos. O pronome relativo neutro
φ (que se refere a “o nom e”) é o objeto direto do verbo όέόωκας (deste), e normal-
m ente seria de se esperar que esse objeto estivesse no caso acusativo (o), como de
fato acontece em alguns testem unhos. No entanto, aqui o pronome relativo está
no caso dativo, por ter sido atraído ao caso dativo do antecedente τω όνόματι (“o
nom e”), que é substituído pelo pronome relativo. Outros copistas trocaram o dativo
singular pelo pronome m asculino plural οΰς (referindo-se aos “discípulos”), talvez
por influência do v. 6 (“M anifestei o teu nom e aos que m e deste”) ou, então, da
afirmação em 18.9 (“Não perdí nenhum dos que me deste”). A om issão de uma ou
mais frases em diversos testem unhos antigos pode ser resultado da dificuldade re-
lacionada com o texto original ou, então, aconteceu de forma acidental.
A maioria das traduções prefere a leitura que aparece com o texto. E o caso, por
exem plo, da NTLH: “pelo poder do teu nom e, o nom e que me deste, guarda-os ...”
208 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

A variante com o pronome m asculino plural aparece numa nota de rodapé na TEB:
“Guarda em teu nom e os que me deste”.

17-12 ω όέδωκάς μοι, καί (que me deste, e) {B}

Veja o com entário sobre a variante do v. 11.

17.14 καθώς εγώ ... κόσμου (como eu ... do mundo) {A}

Por acidente, copistas saltaram das palavras εκ του κόσμου, que aparecem na meta-
de do versículo, para as mesmas palavras, no final do versículo. Por causa disso, em vá-
rias tradições textuais não aparecem as palavras “como também eu não sou do mundo”.

17.21 εν ήμΐν ώσιν (em nós possam estar) {B}

O peso dos manuscritos favorece a leitura que foi escolhida para ser texto em
detrimento da variante textual. A inserção de εν (um) antes de ώσιν na maioria dos
manuscritos se deve à presença de εν ώσιν, um pouco antes, no mesmo versículo. NBJ
traduz o texto: “Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós”. A
tradução da variante textual aparece numa nota de rodapé na NRSV: “Como tu, Pai,
estás em mim e eu em ti, que eles também sejam um em nós”. Quanto ao significado,
Brown ( T he G ospel A c co rd in g to J o h n (xiii-χ χ ΐ), p. 770) constata: “Com ou sem aquele
‘um’, a segunda frase com h iñ a (para que], no v. 21, apresenta um desenvolvimento
em relação à primeira, pois, além de pedir unidade (como na primeira frase com
bina), pede também que Deus habite neles”.

17.23 ήγάπησας αύτοΰς (tu os amaste) {A}

A leitura ocidental ήγάπησα (eu am ei) pode ter surgido por descuido de algum
copista ou, então, porque um copista tratou de harmonizar o texto com Jo 15.9.

17.24 ó όέδωκάς μοι (o que me deste) {B}

O pronome neutro singular ó, que aparece em bons representantes de vários


tipos de texto, se configura numa leitura difícil. Em razão disso, foi substituido, na
maioria dos testem unhos, pela forma mais fácil do pronome m asculino plural οΰς,
que prepara para o uso de κάκεινοι (também aqueles), logo a seguir. João usa o
neutro singular para enfatizar a unidade das pessoas no grupo, mas está claramente
fazendo referência a pessoas. Qualquer que seja o texto grego escolhido, tradutores
terão que usar as formas apropriadas na língua para a qual estão traduzindo.
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO 209

18.5 ,Εγώ είμι. (Sou eu.) {C}

Ao se considerar as variantes desse versículo, é preciso lembrar que, normal-


m ente, copistas escreviam o nome ,Ιησούς (Jesus) de forma abreviada (Ic). Por um
lado, é possível que, se ό ,Ιησούς constava originalm ente no texto após o pronome
αύτοΐς (a eles), as palavras tenham sido om itidas sem querer, por causa de um
descuido na hora de copiar (λγτοιοοϊϋ); ou, se, originalm ente, ,Ιησούς aparecia
antes de είστήκει (que, em muitos manuscritos, se escreve ίστήκει), é possível que
tenha sido om itido acidentalm ente no processo de cópia (!ciCTHKei)· Por outro lado,
se o texto original é εγώ είμι sem o nom e Jesus, é provável que copistas tenham
inserido o nom e próprio para identificar a pessoa que estava falando. A variação na
colocação de (ό) ,Ιησούς, que aparece tanto antes como depois de εγώ είμι, ajuda a
confirmar a tese de que a leitura mais longa não é original. Por mais que tenham
seguido a leitura que aparece com o texto em O N o v o T e s ta m e n to G reg o , várias tra-
duções modernas explicitam o sujeito do verbo λέγει (ele disse), inserindo o nome
Jesus (ARA, RSV, NRSV, NTLH, REB, NVI, entre outras).

1 8 .1 3 2 7 ‫ ־‬o r d e m d o s v e r s íc u lo s {A}

A ordem dos acontecim entos nesses versículos é incom um . No v. 13, Jesus


é conduzido prim eiram ente a Anás, e o que se segue, nos vs. 14-23, acontece,
aparentem ente, na presença de Anás. Entretanto, os Evangelhos Sinóticos nada
dizem a respeito do papel de Anás nessa história. O v. 24, na posição em que se
encontra no texto, leva o leitor a se perguntar o que aconteceu no julgam ento
diante de Caifás. O v. 13 inform a que Caifás era o sum o sacerdote; mas, visto que
o sum o sacerdote (Caifás?) interrogou Jesus no v. 19, por que foi Jesus m andado
para Caifás, no v. 24? Vários testem unhos tentam facilitar a com preensão, rear-
ranjando o texto, colocando, por exem plo, o v. 2 4 logo após o v. 13. No entanto, a
ordem dos versículos que aparece no texto de O N o v o T e s ta m e n to G reg o faz senti-
do se for levado em conta que o sum o sacerdote citado nos vs. 15,16,19,22 é Anás,
e não Caifás (veja Chilton, “Annas,” pp. 257-258; e Carson, T h e G o sp e l A c c o r d in g
to J o h n , p. 580-581).

18.30 κακόν ποιω ν (mal fazendo) {B}

As leituras variantes não têm maior importância para o tradutor; são tentativas
de aperfeiçoar o estilo, mas o significado não muda. A construção gramatical ην ...
κακόν π οιω ν (uma construção perifrástica feita do verbo “ser” e de um participio
presente com um substantivo) foi alterada por copistas que introduziram, talvez a
partir de lP e 2.12; 4.15, o substantivo κακοποιός (m alfeitor/criminoso).
210 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

18.37 S e g m e n ta ç ã o

A resposta que Jesus deu a Pilatos aparece com o uma afirmação, tanto no texto
de O N o vo T e sta m e n to Grego quanto na maioria das traduções m odernas (ARA:
“Respondeu Jesus: Tu dizes que sou rei”), mas tam bém poderia se pontuada como
um a pergunta.

19.16 Π αρέλαβον ... ,Ιησοΰν (Tomaram ... Jesus) {B}

A leitura que aparece como texto é a que m elhor explica o surgimento das de-
mais leituras. O sujeito do verbo παρέλαβον é ambíguo. No v. 15, “eles” são os prin-
cipais sacerdotes, mas no v. 18, “eles” se refere, com certeza, aos soldados romanos.
Trata-se de um a descrição bem sucinta, que levou copistas a fazerem acréscim os.
Alguns inseriram καί ήγαγον (e [o] levaram) depois de ,Ιησοΰν; outros acrescen-
taram άπήγαγον (levaram embora), que é o texto em Mt 27.31 e Lc 23.36; outros,
por sua vez, aumentaram o relato m ais ainda, continuando com εις τό πραιτώ ριον
(para o pretório/palácio do governador), ou com καί επέθηκαν αύτω τον σταυρόν
(e puseram sobre ele a cruz).

19.24 [ή λέγουσα] ([que diz]) {C}

A variante não tem maior importância para a tradução, pois o sentido é prati-
cam ente o mesmo. A NTLH traduz a leitura que aparece no texto: “Isso aconteceu
para que se cumprisse o que as Escrituras Sagradas dizem ”. ARA, por sua vez,
traduz a leitura mais breve: “para se cumprir a Escritura”. Não é fácil decidir se ή
λέγουσα faz parte do original ou não. É possível que se trate de uma frase explica-
tiva acrescentada ao texto, na maioria dos testem unhos, para avisar o leitor que na
sequência aparece uma citação bíblica (por mais que um acréscim o desses não apa-
reça nas passagens sem elhantes de 13.18; 19.36). Também é possível que ή λέγουσα
tenha sido omitido, por acidente, em dois testem unhos gregos antigos e numa série
de versões antigas. Para indicar incerteza quanto ao texto original, as palavras ή
λέγουσα foram colocadas entre colchetes.

19.28 S e g m e n ta ç ã o

As palavras ΐνα τελειωθή ή γραφή (para se cumprir a Escritura) podem ser co-
nectadas com o que segue, ou seja, o que Jesus diz é o cumprimento da Escritura.
A maioria das traduções m odernas reflete esta segm entação. Veja, por exem plo, a
BN: “Depois disto, como Jesus sabia que a sua obra agora tinha chegado ao fim, ex-
clam ou para se cumprir o que diz a Sagrada Escritura: ‘Tenho sede’”. O texto do AT
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO 211

que se tem em vista é, mui provavelm ente, SI 69.21 (“... na m inha sede me deram
a beber vinagre”). Caso, porém, as palavras iva τελειωθή ή γραφή forem ligadas
ao que vem antes, o sentido passa a ser: “Depois disso, com o Jesus sabia que tudo
estava completado para cumprir a Escritura, disse: T enh o sede”’. Ou seja, quando
Jesus confiou a sua mãe ao discípulo amado, nos vs. 26-27, isso fazia parte do cum-
primento da Escritura.

19.29 ύσσώπψ (hissopo) {A}

Um m anuscrito do século onze (476*) traz ύσσω (uma lança; confira p e r tic a e ,
um poste ou um a haste comprida, que é um texto que aparece em vários manus-
critos da Antiga Latina). Essa leitura faz mais sentido dentro d esse contexto do
que ύσσώ πψ, mas parece ter surgido acidentalm ente, quando yccoonepieeNTec
foi copiado em lugar de yccconounepieeNTec. Por influência de Mt 27.34, vários
testem unhos acrescentam μετά χολής καί ύσσώ που (com fel e hissopo). Um tes-
tem unho da Am iga Latina om ite “hissopo” e traz sim plesm ente “m isturado com
fel”.
O hissopo é um pequeno arbusto folhudo que cresce em lugares secos, e as suas
folhas cheias de penugem podem absorver líquidos. Não se tem a identificação exa-
ta dessa planta, e a palavra grega pode se referir a várias plantas diferentes. Uma
vez que o tronco do hissopo não parece suficientem ente rijo para poder suportar
uma esponja molhada, algum as traduções aceitaram a leitura ύσσω (“uma lança”,
NEB, Moffatt e Goodspeed; a NBJ registra essa possibilidade em nota de rodapé:
“num dardo”).

19.39 μίγμα (mistura) {B}

A palavra ελιγμα é a leitura m ais difícil, pois essa palavra norm alm ente significa
“uma dobra (como numa roupa), uma capa (como de um livro)”, e não “um rolo, um
pacote”, que seria de se esperar no presente contexto. No entanto, a palavra μίγμα
é apoiada por testem unhos antigos e que representam diferentes tipos de texto;
tudo indica, portanto, que seja original. Não se sabe ao certo se σμίγμα e σμήγμα
(ungüento) se desenvolveram a partir de ελιγμα ou, então, de μίγμα.

20.13 S e g m e n ta ç ã o

A palavra οτι pode introduzir discurso direto, como no texto (assim na NTLH:
“Ela respondeu: Levaram embora o meu Senhor”). Pode também significar “por-
que” (assim em ARA: “Ela lhes respondeu: Porque [ou] levaram o m eu Senhor”).
Nos dois casos, o significado é o mesmo.
212 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

2 0 .1 9 μαθηταί (discípulos) {A}

Em concordância com bom número de manuscritos, o te x tu s re c e p tu s traz, entre


as palavras μαθηταί e διά, a forma συνηγμένοι (reunidos). Trata-se de um comple-
m ento natural que, talvez, tenha surgido por influência de Mt 18.20. ARA adota a
leitura mais breve: “trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos” [ησαν
οί μαθηταί], m as em muitas línguas talvez seja natural dizer algo como “quando
os discípulos estavam juntos” (REB) ou “os discípulos de Jesus estavam reunidos”
(NTLH). A variante textual συνηγμένοι sim plesm ente torna explícito o que está
implícito no texto original.

2 0 .2 1 αύτοΐς ó ,Ιησούς πάλιν (a eles Jesus outra vez) {C}

A variante textual que om ite ό ,Ιησούς não tem maior importância para a tra-
dução, pois o sentido continua sendo o mesmo. É difícil decidir se ό ,Ιησούς (escri-
to com o um nom e sagrado: oíc) foi acrescentado, acidentalm ente, após λγτο ιο (a
eles/lh es), pela repetição das três últimas letras (ditografia), ou se estava no texto
e foi om itido por causa da sem elhança entre as letras (haplografia). A leitura mais
longa parece ser apoiada pelos m elhores manuscritos.

2 0 .2 3 άφέω νται (são perdoados) {B}

Os m elhores manuscritos apoiam a leitura άφέω νται, que é uma forma verbal
do perfeito. As formas do presente (άφίενται) e do futuro (άφεθήσεται) são simplifi-
cações introduzidas por copistas, que enfraquecem o sentido do texto. As variantes
textuais não têm maior importância para a tradução do texto. Brown ( T he G ospel
A c c o rd in g to J o h n (,x iii-x x i), p. 1024) escreve: “Uma forma do perfeito que aparece
na apódose [oração principal] de uma condição geral não faz necessariam ente refe-
rência a uma ação anterior à prótase [oração subordinada condicional]; ao contrá-
rio, um perfeito desses pode ter referência futura... Assim, as variantes textuais...
têm exatam ente o m esm o sentido do texto com o tem po perfeito, com exceção do
fato de que o tem po perfeito ajuda a chamar a atenção para a natureza contínua da
ação: os pecados estão perdoados e assim perm anecem ” (veja tam bém a discussão
desse assunto em Beasley-Murray, J o h n , pp. 366-367, n. j).

2 0 .2 9 S e g m e n ta ç ã o

As palavras que Jesus dirige a Tomé podem ser pontuadas como pergunta, a
exem plo do que é feito em O N o v o T e sta m e n to Grego. Nesse caso, uma pergunta
que traz implícito um tom de censura. (Confira a NTLH: “Você creu porque me
O EVANGELHO SEGUNDO JOAO 213

viu”?). Por outro lado, essas palavras podem ser entendidas como uma afirmação, a
exem plo do que ocorre em NBJ (e também na REB): “Porque viste, creste” Caso se
optar pela pergunta, a forma do texto não deveria sugerir que a resposta esperada
seria “não”.

20.30 μαθητών [αύτοΰ] (discípulos [dele]) {C}

Em muitas línguas, a variante textual não tem maior significado, pois, qualquer
que seja o texto adotado, será natural ou necessário incluir o pronome. Quanto aos
manuscritos, existe equilíbrio entre os que incluem o pronome αύτοΰ (seguidos por
NRSV, REB, NBJ e a maioria das traduções) e os que om item esse pronome (segui-
dos por RSV, ARA, NTLH). Por esta razão, o pronome foi incluído no texto, mas
entre colchetes, para indicar incerteza quanto ao texto original.

20.31 πιστεύ[σ]ητε (para que possais vir a crer) {C}

As duas formas, a do presente (πιστεύητε) e a do aoristo (πιστεύσητε), têm notá-


vel apoio de testem unhos antigos. Uma interpretação rígida do aoristo dá a enten-
der que o Evangelho de João foi escrito para não cristãos, para que estes viessem
a crer que Jesus é o Messias. O tempo presente sugere que o objetivo do escritor é
fortalecer a fé daqueles que já creem (“para que continueis a crer”). Uma vez que
é difícil escolher uma das leituras a partir de um suposto propósito do escritor, o
sigma foi colocado entre colchetes, para permitir as duas leituras: com o sigma,
tem -se um aoristo; sem o sigma, um presente. E assunto controverso se, neste caso,
é possível manter a distinção entre presente do subjuntivo e aoristo do subjuntivo.
Carson ( T h e G ospel A c c o rd in g to John, p. 662), por exem plo, escreve que “é fácil
demonstrar que, em outras passagens de seu Evangelho, João usa q u a lq u e r u m dos
tem pos para fazer referência às d u a s coisas: vir à fé e continuar crendo”.
É possível, todavia, que tradutores tenham que optar entre uma das leituras.
Por exem plo, a NRSV (bem com o BN e NVI) escolheu o tem po aoristo: “para que
possais vir a crer” e, em nota de rodapé, explica que “outros testem unhos antigos
trazem p a r a q u e c o n tin u e m a crer”. Em muitos casos (como em REB, ARA, NTLH),
não fica claro se a tradução se baseia no presente ou no aoristo: “para que creiais
que Jesus é o Cristo” (ARA).

21.15,16,17 Ίω ά ννου (de João) {B}

Em lugar de Τω άννου, o te x tu s re c e p tu s , em concordância com grande número


de manuscritos, traz ,Ιωνά. Essa alteração foi feita por influência do nom e “Bar-
-Jonas”, em Mt 16.17. Veja, também, o com entário sobre Jo 1.42.
214 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

21.23 έρχομαι [, τί πρ ος σέ;] (eu venha, [que é isso para ti?/que te importa?]) {C}

Vários testem unhos om item as palavras τί π ρ ος σέ. Alguns eruditos entendem


que a leitura mais breve é original, pois o escritor muitas vezes varia a formulação
ou escolha de palavras no caso de sentenças repetidas. NBJ prefere o texto mais
breve: “Jesus, porém, não disse que ele não morrería, mas: ‘Se quero que ele perma-
neça até que eu venha”’. No entanto, também existe a possibilidade de que copistas
tenham om itido essa frase, para chamar a atenção para aquilo que foi considerado
a parte mais importante da resposta de Jesus: “Se for de m inha vontade que ele
perm aneça até que eu venha”. Para mostrar que não se tem certeza quanto à forma
do texto original, essas palavras foram colocadas entre colchetes.

OBRAS CITADAS

Barrett, C. K. The Gospel A c co rd in g to St. J o h n . Londres: SPCK, 1955.


Beasley-Murray, George R. J o h n . WBC 36. Waco, Tex.: Word, 1987.
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Strange, James F. “Beth-Zatha.” Páginas 7 0 0 7 0 1 ‫ ־‬no volum e 1 de The A n c h o r
B ible D ictio n a ry. Editado por David Noel Freedman. 6 volum es. Nova Iorque:
Doubleday, 1992.
ATOS DOS APOSTOLOS
Na Igreja A ntiga, o texto do livro de Atos dos A póstolos era con h ecid o em
duas form as ligeiram en te d iferen tes, que, norm alm en te, são cham adas de texto
alexan drin o e texto ocid en tal. O texto alexan drin o, que trad icion alm en te tem
sido considerado com o o texto auténtico de A tos, é rep resen tado, em A tos, por
<p45 ‫צץ‬74 ‫ א‬A B C Ψ 33 104 3 2 6 e 1175. O texto ocid en tal é representado, acim a
de tudo, por D (05) e os fragm entários papiros <p29, <p38 e <p48, p elas leituras
m arcadas com asterisco ou colocad as na m argem da versão siríaca heracleana
(sirh com*, sirhmg), p elo m anuscrito africano h da A ntiga Latina (um m anuscrito
fragm entário do quinto ou sexto sécu lo, que foi apagado ou rescrito [trata-se
de um assim cham ado p alim psesto] e que preserva em torno de 2 0 3 dos 1007
versícu los de Atos) e, além d isso, p elas citações de A tos feitas pelos Pais da
Igreja Cipriano (terceiro sécu lo) e A gostin h o (quinto sécu lo).
T e s te m u n h o s de s e g u n d a c a te g o r ia q u e a te s ta m o te x to o c id e n ta l: A lém dos
testem u n h os do texto o cid en tal de prim eira lin h a m en cion ados no parágrafo
anterior, ex istem outros que têm um a m istura de diferen tes tipos de texto, mas
que têm um a grande proporção de leituras ocid en tais. Entre e sse s testem u nh os
o cid en ta is de segu n d a ordem estão a versão arm ênia do com entário aos Atos
escrito por Efraim Siró, a an tiga versão georgian a de A tos, vários m anuscritos
m istos da A ntiga Latina e da V ulgata, e uns pou cos m anuscritos gregos mi-
n ú sculos ou cursivos (383, 614 e 1739 [som ente em A tos]). Entre as descober-
tas m ais recen tes que têm con exão com o texto ocid en ta l estão um fragm ento
p a lestin o siríaco (sirmsK) do sexto sécu lo e um m anuscrito em copta, o Códice
Copta Glazier (copG67), escrito por volta do fin al do quarto ou in ício do quinto
sécu lo.
D ife re n ç a s e n tre o te x to o c id e n ta l e o te x to a le x a n d r in o : As duas formas do
texto diferem quanto à natureza e à extensão do texto. Comparado com o texto
alexandrino, o texto ocidental é m ais extenso, numa proporção de dez por cen-
to. Além disso, o texto ocidental traz geralm ente um maior núm ero de detalhes
pitorescos. Embora alguns desses detalhes possam ser historicam ente corretos,
eles não são de todo necessários para a devida com preensão da narrativa. O texto
alexandrino, que é m ais breve, é, de m odo geral, m enos expressivo e, em alguns
m om entos, m ais difícil de entender.
Em seu com entário sobre o livro de Atos na série A n c h o r B ib le (1998), Joseph
Fitzmyer faz, no início de cada seção, uma tradução do texto do N o v u m T esta-
m e n tu m G raece. Em seguida, em breves parágrafos, ele apresenta as principais
variantes do texto ocidental. Fitzmyer segue a forma do texto ocidental estabele-
cida por M arie-Émile Boismard e Arnaud Lam ouille no primeiro volum e de T exte
o c c id e n ta l des A c te s d es A p o tr e s: R e c o n s titu tio n e t r é h a b ilita tio n (Paris: Etudes et
Recherches sur les C ivilisations, 1 9 8 4 ).3
216 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

O r e la c io n a m e n to e n tre o te x to o c id e n ta l e o te x to a le x a n d r in o : O relacionam ento


entre as duas formas do texto de Atos tem sido assunto de acaloradas discussões. As
principais teorias que já foram propostas para explicar as diferenças entre os dois
tipos de texto são as seguintes:34
(1) As duas formas do texto provêm do m esm o autor, que fez duas edições de
sua obra. A primeira edição é sem elhante ao texto ocidental; a segunda, mais breve
e com estilo mais polido, é sem elhante ao texto alexandrino.
(2) As duas formas do texto provêm do m esmo autor, mas a primeira edição,
m ais breve, era o texto alexandrino. Esta edição foi ampliada pelo autor e resultou
numa forma de texto sem elhante ao texto ocidental.
(3) Lucas veio a falecer antes de concluir o manuscrito de Atos. O rascunho
inicial incluía notas que Lucas havia inserido nas margens e entre as linhas do
texto. Por volta da metade do segundo século, dois editores, de forma independen-
te, editaram o texto o partir daquele rascunho. Um editor incluiu aquelas notas e
acabou produzindo a forma ocidental do texto de Atos. Outro produziu o tipo de
texto alexandrino, deixando de fora as notas, mas clareando o texto em passagens
de sentido obscuro.
(4) Nos primeiros tem pos da Igreja, o texto do NT ainda não era considerado sa-
grado. Assim, os copistas se sentiam livres para mudar a forma do texto, bem como
para incluir todo o tipo de informação adicional que circulava na tradição oral. O
texto ocidental é resultado de um crescim ento ou expansão descontrolada do texto
durante os primeiros dois séculos da era cristã. Essa explicação geral da origem do
texto ocidental é am plam ente aceita hoje em dia.
(5) O texto ocidental de Atos foi criado a partir do texto alexandrino por alguém
que fez uma deliberada e cuidadosa revisão deste texto mais antigo.
(6) O texto ocidental era a forma original do texto de Atos. O texto alexandrino
foi criado por alguém que, deliberadam ente, introduziu alterações na forma oci-
dental, mais longa, do texto.
(7) O texto ocidental que aparece no texto grego do Códice de Beza (D) é uma
readequação de um texto anterior, feita para que o texto grego concordasse com a
versão latina de Atos.
(8) O texto do Códice de Beza resultou de alterações introduzidas no texto grego
para que o m esm o se aproximasse mais da forma do texto de Atos em siríaco.

3 Boismard e Lamouille não se limitam simplesmente a seguir o Códice de Beza; ao contrário, eles recons-
tituem o texto ocidental, num processo em que dão maior valor às versões antigas e às citações patrísticas
do que outros pesquisadores estariam dispostos a fazer. Veja um sucinto exame disso feito por Jerome
Murphy-O’Connor, The École Biblique and the New Testament; A Century of Scholarship (1890-1990) (Got-
tingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1990), 99-101.
4 O que segue é um resumo do estudo muito mais detalhado que se encontra em Metzger, A Textual Com-
mentary on the Greek New Testament, p. 223236‫־‬.
ATOS DOS APOSTOLOS 217

(9) Mais p a ra o final do p rim eiro século, surgiu u m a p a rá fra se ara m aica do tex-
to grego dos E vangelhos e de Atos. Essa p a rá fra se foi vista, de form a equivocada,
com o o o rig in al sem ítico desses livros. A lguém logo tra to u de tra d u z ir esses textos
o u tra vez p a ra o grego, co n su ltan d o sem pre de novo o tex to grego existente. Esse
processo resu lto u n a criação do texto o cid en tal de Atos.
Visto que n e n h u m a das teo rias p ro p o stas até hoje p a ra explicar a relação e n tre
o tex to o cid en tal e o tex to a le x a n d rin o de Atos conseguiu am pla aceitação e n tre
esp ecialistas em crítica tex tu al, os ed ito res do Novo T estam ento Grego das Socieda-
des Bíblicas U nidas decid iram não se a te r a u m a form a do texto apenas. Visto que
n e n h u m a das d uas form as do tex to parece p re se rv a r o tex to orig in al em todos os
casos, cada u n id ad e de v ariação (ou lu g ar onde existem v aria n te s textuais) foi estu-
d ad a com cuidado, p a ra se p o d e r decid ir o que o a u to r provavelm ente teria escrito
e que tipos de alterações os copistas provavelm ente teriam in troduzido. Em geral,
os ed ito res a ca b ara m o p tan d o m ais vezes pelo texto a lex an d rin o , que é o tex to m ais
breve, do que pelo tex to ocidental.
E ntre o u tros estudos a respeito do texto ocidental estão Bruce, T h e A c ts o f th e
A p o s tle s , pp. 4 0 4 9 ‫ ;־‬H aenchen, T he A c ts o f th e A p o stle s, pp. 50-60; B arrett, T h e A c ts
o f th e A p o stle s, volum e I, pp. 2 2 9 ‫ ־‬e volum e II, p. xix-xxiii; Fitzm yer, T h e A c ts o f th e
A p o stle s, pp. 6 6 7 9 ‫ ;־‬e Petzer, “T he H istory o f th e N ew T estam en t”, pp. 1 8 2 5 ‫־‬. P ara
um a p a n h a d o m ais d etalh ad o , veja P eter H ead, “Acts an d th e Problem o f Its T ext”,
pp. 4 1 5 4 4 4 ‫־‬.
Traduções m o d e rn a s e o te x to de A to s: Convém n o ta r que, no livro de Atos, a tra-
dução fran cesa B ible de J é ru sa le m (bem com o as edições dessa trad u ção em outras
línguas, en tre as quais está a B íb lia de J e ru sa lé m : N o va edição, re v ista e a m p lia d a
[NBJ, 2002]) optou por v arian tes tex tu ais apoiadas pelo texto ocidental com m aior
frequência do que ocorre em ou tras traduções. Os trad u to res da Bíblia de Jeru salém
acred itam que “d ian te do fato de que, diferen tem en te da recensão alex an d rin a, esse
texto o cidental não teve u m a edição crítica nos tem pos antigos, ele contém m uitas
leitu ras corrom pidas, m as várias m inúcias concretas e pitorescas, que não aparecem
em outros tipos de texto, podem ser autênticas. D entre essas leituras, as m ais im-
p o rtan tes são ou m encionadas na notas [da NBJ], ou ad o tad as no texto trad u z id o ”
(Intro d u ção a Atos, na B íb lia de J e r u sa lé m ). Isso até não su rp reen d e, caso se consi-
d e ra r que a escola francesa de estu d o do texto do NT tem o texto ocidental em m ais
alta conta do que os críticos de texto que tra b a lh a m em o u tras p a rte s do m u n d o .5

5 Em seu “Prefácio à Tradução Inglesa” de An Introduction to New Testament Textual Criticism, escrita por
Vaganay e Amphoux, J. K. Elliott observa que o grande apreço que se tem para com o texto ocidental
“encontrou muitos seguidores na tradição francesa” (p. xiv). Veja, também, a discussão a respeito das
teorias crítico-textuais de Marie-Emile Boismard em Jerome Murphy-O’Connor, The Ecole Bihlique and
the New Testament, p. 88-92.
218 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

1.2 ήμέρας... άνελήμφθη (d ia... foi elevado) {A}

Na Igreja A ntiga, e ra m conhecidas v árias form as d iferentes d esta oração de


a b e rtu ra do livro de Atos. O tex to n o rm al ou trad icio n al, que aparece em todos os
m an u scrito s gregos antigos de que se dispõe, exceção feita ao Códice de Beza (D),
pode ser trad u zid o assim :

No prim eiro livro, ó Teófilo, contei tu d o que Jesus com eçou a fazer e ensinar,
até o dia em que foi elevado, depois de h av er dado ordens, por in term éd io do
E spírito Santo, aos apóstolos que ele havia escolhido.

O tex to do Códice de Beza, p o r sua vez, diverge em dois pontos: (1) O verbo
άνελήμφθη (foi elevado) é antecipado, ou seja, em vez de a p arecer ao final do v.
2 , vem logo após a locução αχρι fjç ημέρας (até o dia em que); (2) depois do ver-

bo έξελέξατο (escolheu), o Códice de Beza acrescen ta o u tra frase, o que resu lta
no seg uinte texto: αχρι ης ήμέρας άνελήμφθη έντειλάμενος τοΐς άποστόλοις διά
πνεύματος αγίου οϋς έξελέξατο και έκέλευσε κηρύσσειν τό εύαγγέλιον (até ο dia
em que foi elevado, depois de haver dado ordens aos apóstolos, por in term éd io do
E spírito Santo, os quais [apóstolos] ele h avia escolhido e [aos quais havia] ord en ad o
que p ro clam assem o evangelho).
A p rim e ira v a ria n te , rela cio n ad a com a posição do verbo άνελήμφθη, é m era
q u estão de estilo que não a fe ta o significado. A se g u n d a v a ria n te , porém , pro-
duz u m sentid o d ifere n te . O acréscim o das p ala v ras και έκέλευσε κηρύσσειν το
εύαγγέλιον (e o rd en o u que p ro clam assem o evangelho) re su lta n u m a co n stru ção
g ram a tic al esq uisita, m as essas p ala v ras devem provavelm ente ser e n te n d id a s
com o fo rm an d o um p ara lelo com o verbo έξελέξατο (escolheu) e tra d u z id a s por
“os quais eles h av ia escolhido e [aos quais havia] o rd en a d o que p ro clam assem o
e v an g e lh o ”. Essas p ala v ras n ão fazem p a rte do tex to o rig in al, m as foram acrescen-
ta d a s p a ra to rn a r explícito o que e stá im plícito no verbo έντειλάμενος (o rd en ar ou
d a r ordens).
O u tra form a do texto o cidental, que não a p re se n ta as dificuldades que apare-
cem no texto do Códice de Beza, foi p re serv a d a em vários testem u n h o s d a A ntiga
L atina. Esse tex to pode ser trad u zid o assim :

No p rim eiro livro, ó Teófilo, contei tu d o que Jesu s com eçou a fazer e ensinar,
no dia em que ele escolheu os apóstolos p o r in term éd io do E spírito S anto e
lhes o rdenou que proclam assem o evangelho.

E sta form a de tex to difere do texto que ap arece em todos os o u tro s testem u n h o s
em dois aspectos: (1) Não se faz referência à ascensão de Jesus; e (2) o “d ia” em
q u estão é o m om ento, d u ra n te o m in istério público de Jesus, em que ele escolheu os
apóstolos, e não o dia em que foi levado p a ra o céu. Não fica claro p o r que a A ntiga
ATOS DOS APÓSTOLOS 219

Latina não m enciona a ascensão, mas o que se sabe é que, em muitos m om entos,
os tradutores da Antiga Latina fizeram uma tradução bastante livre ou perifrástica
do texto grego. E possível que a referência à ascensão tenha sido omitida porque,
segundo o texto ocidental de Lc 24.51 (veja a discussão naquele lugar), Jesus ainda
não havia subido ao céu. Uma vez que todos os manuscritos gregos incluem o verbo
άνελήμφθη (foi elevado), não há como seguir o texto da Antiga Latina. O texto do
Códice de Beza parece ser o resultado de uma combinação entre o texto que apare-
ce nos manuscritos gregos e o texto da Antiga Latina.

1.11 άφ’ υμώ ν εις τον ουρα νόν (dentre vós para o céu) {A}

Os testem unhos listados om item a terceira das quatro ocorrências da locução


εις τον ου ρ α νόν nos vs. 1 0 1 1 ‫־‬. Ε mais provável que essas palavras tenham sido
om itidas por acidente ou, então, de forma intencional, para evitar repetição. É m e‫־‬
nos provável que tenham sido deliberadam ente inseridas num contexto onde essa
locução já aparece três vezes.

1.17 S e g m e n ta ç ã o

O discurso de Pedro com eça no v. 16 e term ina ao final do v. 22. É estranho


que, no v. 19, Pedro diga “na língua d eles”, com o se aramaico não fosse a língua
dele tam bém . Fitzmyer (T h e A c ts o f th e A p o s tle s, p. 224) diz que “Lucas sem dúvida
herdou essa fórmula e deixou‫־‬a do jeito que estava para benefício de seus leitores
de fala grega”. Alguns intérpretes, todavia, consideram os vs. 1 8 1 9 ‫ ־‬uma afirmação
parentética inserida pelo autor de Atos no discurso de Pedro. Caso se optar por
esta interpretação, será necessário fechar aspas ao final do v. 17 e abrir aspas outra
vez no com eço do v. 20, para indicar que recom eça o discurso de Pedro. Esta in-
terpretação foi adotada em ARA e NTLH (também em NRSV e REB), que colocam
os vs. 1 8 1 9 ‫ ־‬entre parênteses. Tradutores que optam por esta alternativa fariam
bem em seguir o m odelo da NTLH, que insere as palavras “E Pedro continuou”, no
início do v. 20.

1.23 εοτησαν (propuseram) {A}

Em lugar de uma proposta dem ocrática feita pela comunidade de 120 seguido-
res (v. 15), implícita na leitura que tem o plural, a leitura ocidental εστησεν (ele
propôs) enfatiza o papel de Pedro na nom eação dos dois candidatos. Neste caso,
a exem plo de tantos outros, pode-se perceber claram ente, no texto ocidental, um
ponto de vista posterior ou mais recente, segundo o qual Pedro governa a Igreja
com a autoridade de bispo único.
220 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

1.25 τό π ον (lugar) {B}

Por influência de ιό ν κλήρον τής διακονίας ταύτης (a parte deste ministério),


no v. 17, o te x tu s re c e p tu s , em concordância com os testem unhos citados no rodapé
de O N o v o T e sta m e n to G rego , substitui o primeiro τόπ ον que ocorre neste versículo
por κλήρον (parte). Entretanto, a leitura τόπ ον tem sólido apoio de manuscritos.
As duas leituras têm praticamente o m esm o significado. No entanto, é possível
que o escritor tenha intencionado um jogo de palavras entre “tomar o seu lugar”
e as palavras que aparecem ao final desse versículo e que afirmam que Judas foi
“para o seu próprio lugar” (τον τόπ ον τον ίδιον).

1.26 αύτοΐς (para eles/sobre eles) {B}

O te x tu s re c e p tu s , em concordância com os manuscritos citados na nota de O


N o v o T e sta m e n to G rego , traz, em lugar do pronome αύτοΐς, que aparece em bons
testem unhos antigos, o pronome αυτών (deles). Alguns copistas devem ter concluí-
do que o pronome αύτοΐς era ambíguo, pois podia ser entendido como um objeto
indireto (“lançaram sortes p a r a eles”) ou, então, como um dativo ético ou dativo
de vantagem (“lançaram sortes a fa v o r deles”). Copistas substituíram esse pronome
am bíguo pela forma mais fácil αύτών, ou seja, “lançaram as suas sortes”.
Caso se optar pela leitura que aparece como texto, o pronome αύτοΐς pode ser
traduzido com o um dativo ético ou dativo de vantagem . Segundo esta interpreta-
ção, o pronome αύτοΐς se refere a José e Matías. Traduções como “e os lançaram em
sortes” (ARA) e “lançaram sortes sobre eles” parecem refletir tal interpretação. Se
αύτοΐς for visto como um objeto indireto, o pronome se refere às pessoas que lança-
ram as sortes. Traduções como “lançando-lhes sortes” (ARC) parecem refletir essa
com preensão do texto. Outras traduções (NTLH, BN, NVI, TEB) evitam o problema,
traduzindo de forma direta: “Fizeram um sorteio”.

2.5 κατοικούντες ,Ιουδαίοι, ανδρες εύλαβεΐς


(habitando judeus, hom ens piedosos) {B}

As conhecidas palavras, “Ora, estavam habitando em Jerusalém judeus, hom ens


piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu”, ocultam uma série de inte-
ressantes variantes textuais. A palavra Ιο υ δ α ίο ι (judeus) não aparece no Códice
Sinaítico (‫)א‬. Foi colocada depois de ανδρες (hom ens) no manuscrito C e antes do
participio κατοικούντες (habitando) no manuscrito E. Alguns especialistas chega-
ram a sugerir que a palavra ,Ιουδαίοι não fazia parte do texto original, sendo uma
variante bastante antiga que copistas inseriram em diferentes lugares desse texto.
A NJB (edição inglesa) omite a palavra “judeus”.
ATOS DOS APÓSTOLOS 221

Parece mais provável, porém, que ,Ιουδαίοι fazia parte do texto original, según-
do o testem unho da esmagadora maioria dos manuscritos. Talvez ,Ιουδαίοι tenha
sido om itido porque um copista entendeu que havia uma contradição em dizer “ju-
deus de todas as raças” (άπό π α ντός έθνους). Ou, quem sabe, foi deslocado para
outra posição dentro do texto por razões de estilo.
Por que teria Lucas julgado necessário dizer que judeus estavam habitando em
Jerusalém? Além disso, por que haveria necessidade de dizer que eram hom ens pie-
dosos? Não seria isso algo natural, em se tratando de judeus? Mais surpreendente é
a afirm ação de que esses judeus eram pessoas de todas as nações (έθνους) debaixo
do céu. Tivesse Lucas dito que esses judeus eram pessoas de todas as te rra s (ou
países) debaixo do céu, isso seria até compreensível. Mas, uma vez que os judeus já
eram uma έθνος (uma raça), dizer que esses vinham de outra έθνος era como dizer
que eram uma raça de outra raça.

2.16 προφήτου ,Ιωήλ (o profeta Joel) {B}

Provavelmente o nom e Ίωήλ (Joel) foi, sem querer, om itido no texto ocidental,
que aparece na NBJ, que tam bém om ite o nome do profeta. Mesmo que alguém ,
por razões de crítica textual, decidisse adotar o texto ocidental, ainda assim seria
defensável identificar o profeta pelo nom e, em traduções de equivalência funcional.

2.18 εν ταΐς ήμέραις έκείναις (naqueles dias) {A}

A esm agadora maioria dos manuscritos apoia a leitura do texto. As palavras έν


ταΐς ήμέραις εκείναις estão ausentes em alguns testem unhos ocidentais. É possível
que tenham sido om itidas de forma acidental. Também é possível que se trate de
uma om issão intencional, porque copistas entenderam que essas palavras estavam
sobrando, visto que o v. 17 já contém a locução εν ταΐς έσχάταις ήμέραις (nos úl-
tim os dias). A NBJ optou pelo texto mais breve e omitiu a locução “naqueles dias”,
por considerá-la um acréscim o feito por algum copista que queria harmonizar o
texto de Atos com o texto de Jl 3.2 na Septuaginta.

2.18 καί προφητεύσουσιν (e profetizarão) {A}

O texto ocidental, seguido pela NBJ, om ite και προφητεύσουσιν, harm onizando
essa passagem com o texto da Septuaginta (e com o texto hebraico), que não tem es-
sas palavras. Existe a possibilidade de o texto mais breve ser original e o texto mais
longo ser um acréscim o inserido em Atos antes da formação do texto do manuscrito
B. Mas o mais provável é que as palavras καί προφητεύσουσιν sejam originais e
tenham sido acidentalm ente omitidas por algum copista.
222 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

2.19 αΐμα και πύρ m i άτμίδα καπνού (sangue e fogo e vapor de fumaça) {A}

A leitura m ais longa tem bom apoio de m anuscritos. O texto ocidental, segui-
do pela NBJ, om ite as palavras αΐμα m i π ύ ρ και άτμίδα καπνού. Essa om issão
pode ter acontecido de forma acidental, quando um copista, traído pela sem e-
lhança entre palavras, passou da palavra anterior κάτω (em baixo) para a palavra
final καπνού. A NBJ pressupõe que αΐμα m i πύρ m i άτμίδα καπνού não fazem
parte do texto original, m as foram acrescentadas por algum copista para harmo-
nizar o texto de Atos com o texto de J1 3.3 na Septuaginta, onde constam essas
palavras.

2 .24 θανάτου (de morte) {A}

O texto ocidental coloca άδου (do Hades) em lugar de θανάτου, uma alteração
que parece ter resultado da presença do substantivo αδην (Hades) nos vs. 27,31. A
NBJ optou pela variante: “libertando-o das angústias do Hades”.

2 .30 καθίσαι (fazer assentar) {B}

O hebraísmo ou uso sem ítico da locução έκ καρπού (do fruto de) como um
substantivo na função de objeto do verbo καθίσαι (fazer assentar) resulta numa
construção grega bastante rude. No entanto, a leitura adotada como texto tem a seu
favor um expressivo apoio de manuscritos. Mesmo assim, na maioria das línguas,
talvez não seja um a boa ideia traduzir o texto ao pé da letra.
A dificuldade ligada à construção grega desse texto levou copistas a introdu-
zir diferentes acréscim os explicativos (tirados, talvez, de 2Sm 7.12). Assim, antes
de καθίσαι, alguns manuscritos inserem κατά σάρκα άναστήσαι τον Χ ριστόν καί
(segundo [a] carne ressuscitar o Cristo e). O te x tu s r e c e p tu s , por sua vez, em con-
cordância com os manuscritos listados na nota de rodapé de O N o v o T e sta m e n to
G rego , traz τό κατά σάρκα άναστήσειν τον Χ ριστόν (segundo a carne levantaria
Cristo). ARC, baseada no te x tu s r e c e p tu s , tem o seguinte texto: “que Deus lhe havia
prometido com juramento que do fruto de seus lombos, segundo a carne, levantaria
o Cristo, para o assentar sobre o seu trono”.

2.37 λοιπ ούς (outros/dem ais) {A}

O fato de λοιπ ούς não constar nos manuscritos listados na nota de rodapé de O
N o v o T e s ta m e n to G rego parece ser um erro involuntário, talvez causado pela sem e-
lhança entre o artigo definido τούς e o final da palavra λοιπ ούς, que fez com que o
copista esquecesse de copiar o termo λοιπούς.
ATOS DOS APÓSTOLOS 223

Caso se optasse pela variante, ou seja, a om issão de λοιπ ούς, ainda assim , em
algum as línguas, seria necessário dizer “os outros apóstolos”, e não simplesmente
“os apóstolos”, para evitar o m al-entendido de que o próprio Pedro não seria um
apóstolo.

2.38 S e g m e n ta ç ã o

Como se vê, no texto não há nenhum a pontuação entre as palavras την δωρεάν
(o dom) e as palavras seguintes no caso genitivo, τού άγιου πνεύματος (do Espírito
Santo). Neste contexto, as palavras τού άγιου πνεύματος são um aposto de την
δωρεάν, ou seja, esse dom não vem d o Espírito Santo, mas é o Espírito Santo. Na tra-
dução talvez seja necessário fazer uma separação entre as duas locuções, que pode
ser expressa assim: “o dom, a saber, o Espírito Santo”. A TEV traduziu por “vocês
receberão o dom de Deus, o Espírito Santo”.

2.43 διά τω ν ά π οσ τόλω ν έγίνετο


(por interm edio dos apóstolos eram feitos) {C}

É extrem am ente difícil determinar como terminava originalm ente este versí-
culo. Por um lado, as palavras έν ,Ιερουσαλήμ, φ όβος τε ήν μέγας επί πάντας
(em Jerusalém, e havia grande temor sobre todos), que aparecem depois do verbo
εγίνετο, podem ser um acréscimo, feito para criar um a transição para o v. 44. Por
outro lado, é possível argumentar que as palavras εν ,Ιερουσαλήμ, φ όβος τε ήν
μέγας επί πάντας foram omitidas pelos copistas, porque soam como uma repetição
da primeira parte do v. 43. A evidência externa favorece ligeiram ente a leitura mais
breve, em detrimento das leituras mais longas.

2 .44 ήσαν επί το αύτο και (estavam juntos e) {A}

Alguns manuscritos om item as palavras ήσαν e tcaí, trazendo apenas a locução


έπί το αυτό. Entretanto, isto parece ser um m elhoram ento estilístico através da eli-
m inação de ήσαν e καί, vistas como palavras desnecessárias. Essa variante textual
j
(“E todos os que creram em conjunto tinham tudo em comum ”) não traz grande
alteração de significado; faz apenas com que o foco recaia mais sobre o fato de que
tinham tudo em comum.
ARA traduz o texto mais longo: “Todos os que creram estavam juntos e tinham
tudo em com um ”. Quem adota a leitura mais breve precisa ligar a locução επί τό
αυτό ao participio πιστεύοντες (crendo/que creram). A N e w J e r u sa le m B ible traduz
a leitura mais breve: “E todos os que compartilhavam da fé tinham tudo em co-
224 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

2 .47— 3.1 έπί το αυτό. Πέτρος όέ (na comunidade. Ε Pedro) {Β}

O significado da locução επί τό αυτό não é de todo claro, e, em função disso,


copistas fizeram várias alterações no texto, com a intenção de clarear o significado.
Essa locução é bastante frequente no grego clássico e na Septuaginta, onde significa
“no m esm o lugar” ou “juntos”. Mas na Igreja antiga ela assumiu um sentido mais
técnico. Esse sentido técnico, exigido em At 1.15; 2.1,47; ICo 11.20; 14.23, significa
a união dos que creem em Cristo, e podería talvez ser traduzido por “em comunhão
eclesiástica”.
Por não se darem conta do uso especial dessa locução no v. 47, alguns copistas a
transferiram para o início do capítulo três. Isto explica a tradução de At 3.1 na ARC:
“Pedro e João subiam juntos (επί τό αυτό) ao tem plo”. Outros copistas substituíram
επί τό αυτό pelas palavras έν τή εκκλησία (na igreja) ou então acrescentaram έν τή
εκκλησία como uma explicação após επί τό αυτό.
Barrett (T h e A c ts o f th e A p o stle s, p. 173), reconhecendo o uso técnico dessa lo-
cução, afirma que “ela pode ser traduzida por uma locução como n a ig re ja ”. A tra-
dução que ele faz do texto (p. 158) diz assim: “E diariam ente o Senhor acrescentava
os salvos à com unidade”. Caso se der preferência à leitura que aparece no texto, o
sentido não será em nada diferente daquele das variantes textuais que acrescentam
as palavras έν τη εκκλησία.

3 .6 [έγειρε καί] περιπάτει ([levanta-te e] anda) {C}

É difícil saber se as palavras έγειρε καί (levanta-te e) são originais ou não. Por
um lado, é possível que tenham sido acrescentadas por copistas influenciados por
outras passagens bem conhecidas, como Mt 9.5; Mc 2.9; Lc 5.23; Jo 5.8. ARA (tam-
bém NBJ, TEB, NVI), seguindo o texto m ais breve, diz: “em nome de Jesus Cristo,
o Nazareno, anda!” Por outro lado, tam bém é possível que essas palavras sejam
originais, mas foram om itidas em vários manuscritos por copistas que as considera-
ram desnecessárias, uma vez que, segundo o v. 7, o próprio Pedro levanta o homem
coxo. Tudo indica que essas palavras, que aparecem em NTLH e CNBB, sejam origi-
nais e que tenham sido om itidas por copistas. No entanto, visto que a leitura mais
breve é apoiada por uma boa combinação de manuscritos, as palavras έγειρε καί
foram colocadas entre colchetes, para indicar incerteza quanto ao texto original.

3.14 ήρνήσασθε (negastes/rejeitastes) {A}

Para evitar a repetição do verbo ήρνήσασθε em duas frases consecutivas (veja v. 13),
o Códice de Beza (D) substituiu esse verbo por έβαρυνατε (sobrecarregastes/opri-
mistes). Entretanto, está muito claro que έβαρυνατε não se encaixa neste contexto; e
ATOS DOS APÓSTOLOS 225

muitos eruditos entendem que o verbo έ βαρύνατε não pode ser explicado como um
erro comum. Assim, já foram feitas várias tentativas de explicar essa variante. Há
quem afirme que o texto foi, originalmente, escrito em siríaco ou em hebraico e que
o verbo έβαρύνατε é fruto de uma leitura equivocada de uma palavra siríaca ou he-
braica. Outros sugerem que a variante se baseia numa retroversão do latim ao grego.

3 .2 1 α π ’ αίώ νος αυτοί) προφητώ ν (desde a antiguidade dele [os] profetas) {B}

A variação na formulação desse texto registrada nos manuscritos parece resul-


tar do fato de se entender as palavras των αγίω ν (santos) não como um adjetivo,
mas como um substantivo, sendo que, neste caso, προφητώ ν (profetas) funciona
com o um aposto (ou seja, “por boca dos seus santos desde a antiguidade, os profe-
tas”). A om issão de άπ' αίώ νος (desde a antiguidade/o principio) no texto ocidental
pode ser um erro involuntário ou, então, uma alteração deliberada que resultou do
fato de copistas se perguntarem se, de fato, houve profetas desde o principio. Todas
as leituras são difíceis, mas a m enos problemática é a que se encontra no texto.
Essa tem, também, bom apoio de manuscritos. NBJ segue o texto ocidental e omite
“desde os tem pos antigos”.

3 .2 2 εΐπεν (disse) {B}

Vários acréscimos foram feitos antes e depois do verbo εΐπεν. Entre eles, “aos pais”
e “aos nossos pais”. Parece que se trata de acréscimos naturais ao texto, feitos por
copistas que se lembraram da locução ό θεός τών πατέρων (o Deus dos pais), no v. 13.

3 .2 2 ό θεός υμώ ν (ο Deus vosso) {C}

A citação bíblica nos vs. 22-23 vem de Dt 18.15-16 e Lv 23.29. Parece que o texto
alexandrino, que sempre tende a usar apenas as palavras estritam ente necessárias,
elim inou o pronome plural após a palavra θεός. ARA, NTLH, BN, TEB, CNBB, REB
e NVI adotam a leitura “o Senhor Deus”, om itindo o pronome. No entanto, em algu-
mas línguas será necessário usar um pronome, qualquer que seja o texto original.
Visto que muitas vezes se fazia confusão entre os pronomes υμώ ν (vosso) e ημών
(nosso), por causa da sem elhança na pronúncia, é difícil decidir entre as leituras
que incluem um pronome. A evidência externa parece apoiar o pronome υμών.

3 .2 5 υμώ ν (vossos) {C}

Tudo indica que, em m uitos testem u nh os, o pronom e da segunda pessoa do


plural υμ ώ ν foi substituído pelo pronom e da prim eira pessoa ημών (nossos), para
226 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

am oldar o texto ao que norm alm ente acontece em Atos quando se faz referência
a “nossos pais”. A m aioria das traduções tem “v ossos”, m as a NBJ optou pela
variante “n o sso s”.

4-1 ιερείς (sacerdotes) {B}

A p alavra ιερ είς ocorre 31 v e z e s no NT, ao p asso que ά ρ χ ίε ρ ε ΰ ς (su m o


sa cerd o te) ocorre 122 v e z e s. É m ais p rovável que co p ista s ten h a m c o lo ca d o
a p alavra m ais c o n h e c id a (su m o sa cerd o te) em lugar da outra (sa cerd o tes)
do que im a g in a r que ten h a ocorrid o o con trário. Essa p rob ab ilid ad e au-
m en ta qu and o se lev a em co n ta que a a ltera çã o para ά ρ χ ιε ρ ε ύ ς con trib u iría
para rea lçar a serie d a d e da p e r seg u içã o . A REB op tou p ela v a ria n te te x tu a l
“os p rin cip a is sa c e r d o te s”, porque o c o n tex to p arece e x ig ir um a ação por
p arte de o fic ia is su p erio res ou m ais grad u ad os. No e n ta n to , é e x a ta m e n te
isso que teria lev a d o co p ista s a fazer o m esm o, ou seja, su b stitu ir ιερ είς por
ά ρ χ ιε ρ ε ΐς .

4.6 ,Ιωάννης (João) {A}

Afora e ste v e rsíc u lo , não se tem n en h u m a outra m en ção ou inform a-


ção a resp eito de João e A lexan d re. O C ódice de Beza (D) coloca Jôn atas
( ,Ιω νά θ α ς) em lugar de João. Isso con cord a com in fo rm a çõ es tirad as de Jo-
sefo , h isto riad or ju d eu do prim eiro sé cu lo , que afirm a que Jôn atas, filh o
de A nás, foi c o n stitu íd o su m o sacerd ote em lugar de C aifás no an o 3 6 d. C.
CA n t i g u i d a d e s X V III.iv.3). A leitu ra do C ódice de B eza é, p o ssiv e lm e n te , um a
correção de Lucas, em con cord ân cia com o que p od ería ser um fato h istórico.
É p o ssív el, em bora m en os p rovável, que a leitu ra ,Ιω νά θ α ς, ad otad a p ela
NBJ, seja o rig in a l e que co p ista s sim p lesm en te trocaram ,Ιω νά θ α ς, um nom e
m en o s c o n h e c id o , por ,Ιω ά ννη ς, que é um n om e m ais fam iliar. Parece m ais
p rovável, p orém , que o tex to de Lucas ten h a sid o alterad o para ,Ιω νά θα ς.
Tam bém a e v id ên cia ex tern a ten d e a apoiar a leitu ra ,Ιω ά ννη ς.

4.8 πρεσβύτεροι (anciãos) {B}

E provável que o acréscim o das palavras του ,Ισραήλ (de Israel) ten h a
ocorrid o com a fin a lid a d e de criar um p a ra lelism o en tre “an ciãos de Israel” e
a lo cu çã o “au torid ad es do p o v o ” (ά ρ χ ο ν τ ε ς του λ α ο ύ ) que aparece um p ou co
a n tes. F itzm yer (The A c ts o f th e A p o s t l e s , p. 3 0 0 ) afirm a que e ssa v a ria n te é
“um acréscim o sem m aior im p o rtâ n cia ”. A leitu ra m ais breve é ap oiad a por
m a n u scrito s de d ife re n te s tip o s de tex to .
ATOS DOS APOSTOLOS 227

4.10 υγιής (curado) {A}

Vários testem u n h os o cid en ta is acrescen tam και έν α λλω ο ύ δ ενι (e em ne-


nhum outro) após a palavra υγιής. Trata-se, com certeza , de um acréscim o
tirado de At 4 .1 2 . (Veja tam bém o com entário sobre o v. 12). N os vs. 10-12, a
NBJ se g u e o tex to ocid en tal.

4.12 καί ούκ εστιν έν αλλω ούόενί ή σωτηρία


(e não existe em nenhum outro salvação) {A}

A frase in icial d esse versícu lo, καί ούκ εστιν έν α λλω ο ύ δ ενι ή σω τηρία,
não aparece em algu n s testem u n h os da A ntiga Latina. Vários testem u n h o s
om item ή σω τηρία (salvação), p rovavelm en te porque essa palavra parecia des-
n ecessá ria an tes das palavras έν ω δει σω θήναι ημάς (p elo qual im porta que
sejam os salvos).
A lgu n s eru d itos d efen d em o tex to m ais b reve, a leg a n d o que as palavras
καί έν α λλω ο ύ δ ε ν ι (e em n en h u m outro) faziam p arte do tex to o rig in a l no
v. 10, m as que, d ep o is de terem sid o o m itid a s a c id en ta lm e n te no v. 10, foram
m ais tarde erro n ea m en te in serid a s no v. 12. A segu ir, teriam sid o acrescen -
tad as as palavras ούκ εσ τιν (não e x iste ), para com p letar o se n tid o do tex to .
F in a lm en te, teria sid o a crescen ta d o o su b sta n tiv o ή σ ω τηρία (sa lv açã o), re-
su lta n d o na leitu ra que aparece com o tex to em O N o v o T e s ta m e n to G reg o . Tal
p ro cesso de d e se n v o lv im en to do te x to é p o ssív el, m as p arece p ou co provável.

4 .2 4 σύ (tu) {B}

Parece que a form a de tex to m ais breve é a m ais an tig a. Foram feitos
v á rio s acréscim os: “Sob erano Senhor, tu és 0 D e u s que f iz e s te ‫ ״‬e “Sob erano
Senhor, S e n h o r D e u s , que fiz e s te ”. Com certeza , e sse s a créscim o s foram fei-
tos para dar m aior d estaq u e à a titu d e rev eren te dos a p ó sto lo s em sua oração.
Se qualquer um a das form as m ais lo n g a s fo sse o rig in a l, nen h u m co p ista teria
ou sa d o abreviar o tex to .

4.25 ό τού πατρός ημών διά πνεύματος άγιου στόματος Δαυίδ παιδός σου είπώ ν
(que disse por m eio de nosso pai por m eio do Espírito Santo
por boca de Davi, teu servo) {C}

O texto da prim eira m etade deste versículo se encontra num estado bas-
tante confuso. Fitzmyer (The A c ts o f th e A p o s tle s , p. 3 0 8 ) afirm a que, no tex-
to alexandrino, essa parte do versículo está “em baralhada”. Cita D ibelius, que
228 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

escreveu que esta é “um a das frases mais im possíveis de todo o livro de Atos”. A
ordem das palavras é incomum e não está claro como as diferentes locuções se
relacionam entre si. A leitura que aparece como texto em O N o v o T e s ta m e n to G rego
não é totalm ente satisfatória, mas parece estar mais próxima daquilo que o autor
originalm ente escreveu do que qualquer das outras formas existentes desse texto.
Estudiosos do texto já fizeram várias propostas de reconstrução do original. Uma
dessas explicações é que o texto original estava em língua aramaica e que esse texto
teria sido copiado de forma errada e então traduzido para o grego. Outro erudito
sugeriu que o próprio Lucas escreveu essas palavras de várias maneiras diferentes
e incluiu marcas no texto para indicar o que deveria ser om itido ou acrescentado.
Aconteceu, porém, que um dos primeiros copistas não entendeu essas marcas que
Lucas colocou no texto e acabou combinando palavras que, na verdade, eram ape-
nas formas alternativas do mesmo texto.
Além disso, outras explicações foram propostas, mas ainda não está claro como
surgiram as variantes textuais. Existe um amplo consenso de que dificilm ente as
leituras mais complicadas teriam surgido através de acréscim os ao texto mais sim-
pies que aparece na maioria dos manuscritos cursivos e no te x tu s r e c e p tu s (reprodu-
zido na ARC: “que disseste pela boca de Davi, teu servo”), pois não haveria motivo
que poderia levar um copista a fazer um acréscimo tão complicado. Também existe
um amplo consenso de que o texto m ais antigo a que se tem acesso parece ser o que
se encontra em <p74 e nos outros manuscritos listados no aparato crítico de O N o v o
T e s ta m e n to Grego.
Apesar das dificuldades relacionadas com a gram ática grega, a m aioria das
traduções que seguem o texto de O N o v o T e s ta m e n to G re g o concorda quanto ao
significado. Segundo Barrett (T h e A c ts o f th e A p o s tle s , p. 2 4 4 ), “Essas palavras
introduzem a citação de SI 2, afirm ando que o Salm o foi escrito por Davi, que
foi in spirad o p elo E spírito S an to”. Luke T. Joh n son (T h e A c ts o f th e A p o s t l e s ,
p. 82) faz um a tradução bem literal: “Tu és aquele que disse — por boca de Davi,
teu servo, nosso pai, por interm édio do Espírito Santo — T or que as nações são
arrogan tes...?”’

4 . 3 3 της άναστάσεως του κυρίου ,Ιησού (da ressurreição do Senhor Jesus) {C}

Aqui, existem diversas variantes textuais: “da ressurreição de Jesus Cristo”,


“da ressurreição de Jesus Cristo, o Senhor”, “da ressurreição do Senhor Jesus
Cristo”. A leitura que está no texto é a que m elhor explica a origem das dem ais.
No Códice Vaticano (B), a ordem das palavras é ά π εδ ίδ ο υ ν το μα ρτύριον oí
α π ό σ το λο ι του κυρίου ,Ιησού τής άναστάσεω ς, um texto que poderia ser tradu-
zido por “os apóstolos do Senhor Jesus davam [seu] testem unho da ressurreição
[dele]”. Entretanto, a ordem das palavras no Códice B provavelm ente não é ori­
ATOS DOS APÓSTOLOS 229

ginal, pois Lucas nunca qualifica o título “os ap óstolos” através de outro subs-
tantivo no caso genitivo, ou seja, nunca diz algo com o “os apóstolos d e ...” ou “os
apóstolos d o ...”

5.3 έπλήρωσεν (encheu) {B}

Uma vez que, na frase έπλήρωσεν ό Σατανάς την καρδίαν σου (Satanás encheu
teu coração), parece haver um uso inadequado do verbo “encher”, já se argumentou
que o texto original trazia έπήρωσεν (incapacitou, mutilou) ou, então, έπείρασεν
(tentou). Todavia, a leitura έπλήρωσεν é apoiada pelos m elhores manuscritos. Além
do mais, a locução “encher o coração” pode ser uma expressão idiomática hebraica
que significa “ousar (fazer algo)”.
E provável que a forma verbal έπήρωσεν tenha surgido quando um copista, aci-
dentalm ente, omitiu a letra λ ao copiar a palavra έπλήρωσεν. A partir de έπήρωσεν,
não demorou muito para que a vogal η fosse confundida com o ditongo ει, que tem
pronúncia sem elhante, criando-se, assim, a forma έπειρωσεν, que foi, então, “corri-
gida” para έπείρασεν (tentou).
Caso se preferir a leitura que aparece como texto, é possível que, em muitas
línguas, a tradução literal não seja a melhor opção. Aqui o verbo “encheu” provável-
mente não significa que Satanás pôs algo no coração dele. Ao contrário, o sentido
é que Satanás entrou no coração de Ananias e assum iu o controle do m esm o (veja
Lc 22.3, onde Satanás “entrou” em Judas). Uma vez que o coração é a sede dos
pensam entos e desejos, a melhor tradução para o português seria “a m ente”. A REB
traduz assim: “Ananias, como foi possível que Satanás de tal maneira tom asse con-
ta do teu coração que m en tiste...?” A NTLH segue na m esma linha: “Por que você
deixou Satanás dominar o seu coração?”
As palavras que Pedro dirige a Ananias parecem uma combinação de pergunta
(“Por que fizeste isso?”) e acusação (“Satanás encheu”). Em algum as línguas, é
melhor traduzir a pergunta de Pedro por uma afirmação. O m esm o se aplica à per-
gunta que aparece no início do v. 4.

5.16 ,Ιερουσαλήμ (Jerusalém) {B}

O advérbio πέριξ (ao redor/na circunvizinhança) se relaciona com ,Ιερουσαλήμ


(Jerusalém). A maioria dos copistas, porém, entendeu que esse advérbio se rela-
cionava com o substantivo πόλεω ν (cidades), ou seja, “as cidades circunvizinhas”,
e por isso inseriram as preposições εις ou έν (para) antes de ,Ιερουσαλήμ. Essas
variantes são simples questões de estilo grego e não alteram o significado do texto.
ARC, que traduz a variante textual, diz: “E até das cidades circunvizinhas con-
corria muita gente a J e r u sa lé m ...” O que está im plícito no texto é que as pessoas
230 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

das cidades que ficavam ao redor de Jerusalém v in h a m a J e r u s a lé m . A TEB traduz


assim: “A m ultidão acorria tam bém das localidades vizinhas de Jerusalém ...”

5.17 άναστάς δέ (Levantando-se, então) {A}

Lucas gosta de usar o verbo άνίστημι, que aparece 26 vezes no Evangelho e 45


vezes em Atos. Em At 5.17, o uso do participio άναστάς revela influência do grego
da Septuaginta, onde essa forma muitas vezes equivale ao verbo “ser”. Alguns ma-
nuscritos colocam o nom e próprio ,Α ννας (Anás) em lugar de άναστάς; entretanto,
Α ννα ς é, provavelm ente, fruto de uma leitura equivocada da palavra άναστάς que
um copista fez por influência de At 4.6, onde aparece o nom e de Anás.
Moffatt traduz a variante textual: “Isso fez com que o sumo sacerdote Anás e
seus aliados, do partido dos saduceus, ficassem com muita inveja” Tradutores que
seguem a leitura escolhida como texto não deveríam fazer tradução literal da forma
verbal άναστάς, pois, neste caso, não significa que o sumo sacerdote estava sentado
ou deitado, mas sim plesm ente que ele com eçou a agir ou tomar uma atitude. ARA
traduz de forma bem literal: “Levantando-se, porém, o sum o sacerdote”. A melhor
maneira de expressar o sentido do texto em português é dizer que o sumo sacerdote
e todos os seus companheiros “resolveram fazer algum a coisa” (NTLH).
Na verdade, Anás foi o sumo sacerdote de 6 a 15 A.D. Na época em que se pas-
saram os fatos relatados nesse texto, o sumo sacerdote era Caifás, o genro de Anás.
No entanto, uma vez que Lucas afirma, em 4.6, que Anás era o sumo sacerdote,
tudo indica que, tam bém neste caso, ao m encionar o sumo sacerdote, Lucas esteja
pensando em Anás.

5.28 [Ού] παραγγελία ([não] uma ordem) {C}

O uso da negação ού numa oração interrogativa indica que o falante espera


uma resposta afirmativa, ou seja, um “sim”. A primeira metade do versículo pode
ser traduzida por “Não vos ordenam os expressam ente que não ensinásseis nesse
nome?” O advérbio de negação ού não aparece em vários testem unhos, provável-
mente porque os copistas preferiram transformar a pergunta do sumo sacerdote
em repreensão. No entanto, uma vez que a evidência externa apoia a leitura mais
breve, o advérbio de negação foi colocado entre colchetes, para indicar que não se
tem certeza quanto ao texto original.
ARA (bem como NTLH) segue a variante textual e traduz por “Expressamente
vos ordenamos que não ensinásseis nesse nom e”. Caso se optar pela leitura com o
advérbio de negação, será necessário levar em conta que a pergunta do sumo sa-
cerdote é uma pergunta retórica, que precisa ser adequadamente traduzida para a
língua alvo.
ATOS DOS APÓSTOLOS 231

5.29 άποκριθείς όέ Πέτρος καί οί άπόστολοι είπαν


(Mas, respondendo, Pedro e os apóstolos disseram) {A}

O Códice de Beza (D) dá maior destaque ao papel de Pedro, om itindo a referén-


cia aos apóstolos e trocando a forma verbal pluralizada είπαν (disseram) por εΐπεν
(ele disse).

5.32 έσμεν μάρτυρες (somos testem unhas) {B}

A leitura que aparece como texto tem sólido apoio de manuscritos. E bem prová-
vel que copistas tenham acrescentado o pronome αύτοΰ (somos testem unhas dele),
porque se lembraram das palavras de Jesus em At 1.8: καί έσεσθέ μου μάρτυρες (e
sereis m inhas testem unhas).

5.33 εβουλοντο (queriam) {B}

A maioria dos manuscritos traz έβουλεύοντο (deliberavam), mas esse verbo,


que, em Atos, ocorre apenas em 27.39, parece ter entrado no texto de forma aci-
dental, por causa de um erro de copista. O verbo εβουλοντο (que ocorre outras
13 vezes em Atos) se encaixa melhor no contexto, pois os membros do Sinédrio,
enfurecidos, não estavam em condições de, com toda a calm a, deliberar quanto ao
que deveríam fazer.

5.37 λαόν (povo/gente) {A}

Este versículo é um belo exem plo de texto em expansão. Vários copistas não se
deram por satisfeitos com o relato simples de que Judas, o Galileu, “levou alguns do
povo consigo”. Assim, tentaram dar mais ênfase ao relato, acrescentando o adjetivo
“m uitos” (πολύν ou ικανόν), antes ou depois de λαόν. É significativo que o texto
latino do Códice de Beza concorda com o texto mais breve, que é tam bém o texto
mais antigo.

5.39 αύτους (os/a eles) {A}

O acréscimo de “nem vós, nem reis, nem tiranos; portanto, afastai-vos desses ho-
m ens”, que aparece no manuscrito D, quase com certeza revela a influência de uma
passagem em Sabedoria de Salomão, na qual o escritor trata do mesmo problema que
aparece aqui em Atos, a saber, se é uma boa ideia colocar-se contra Deus. A passagem
(Sb 12.13-14) é a seguinte: “Pois não há outro Deus além de ti... tampouco pode al-
gum rei ou tirano enfrentar-te, para defender os que tu castigaste”. No manuscrito E,
232 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

a palavra τύραννοι (tiranos) foi substituída por άρχοντες (autoridades), prejudican-


do o sentido do texto, pois agora Gamaliel parece mencionar o Sinédrio duas vezes
(“nem v ó s ... nem a u to rid a d e s ”). O acréscimo de άπέχεσθε οΰν άπό των άνθρώπων
τούτων (afastai-vos desses homens) é uma repetição, sem maior significado, do v. 38.

5.42 S e g m e n ta ç ã o

Se as palavras τον Χ ριστόν ,Ιησούν são vistas em conjunto, como um nome, o


final desse versículo pode ser traduzido por “anunciar a Boa Nova do Cristo Jesus”
(NBJ). Mas τον Χ ριστόν pode ser o sujeito implícito, e neste caso o sentido passa a
ser “anunciar a boa notícia de que o Cristo (ou Messias) é Jesus”.

6.1 S e g m e n ta ç ã o

A palavra δτι pode introduzir um a oração substantiva, ou seja, uma oração que
indica, em forma de citação indireta, o conteúdo daquilo que foi dito. Neste caso,
pode ser traduzida por um “que”, a exem plo do que ocorre na NTLH: “a queixa deles
era que [ότι] as viúvas do seu grupo estavam sendo esquecidas”. Por outro lado,
δτι pode introduzir um a oração causai. N este caso, a tradução é “porque”, com o se
pode ver em ARA: “houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque
[δτι] as viúvas deles estavam sendo esquecidas”.

6.3 δέ (mas) {B}

É bem provável que, neste caso, as variantes textuais não tenham maior impor-
tância para a tradução do texto. Embora δέ possa indicar contraste, em geral é uti-
lizada apenas como uma partícula de transição, sem qualquer noção de contraste.
A palavra ο ΰ ν (portanto) se encaixa tão bem no contexto que, se fosse original, não
havería como explicar o surgim ento das outras leituras variantes. O fato de o termo
δέ aparecer tanto no versículo anterior como no seguinte levou copistas a substituir
ο δέ do v. 3 por δή (de fato, portanto) ou οΰν, ou, então, a omiti-lo por inteiro. A lei-
tura δέ οΰν, que aparece no manuscrito 1175, é uma combinação das duas leituras
anteriores. Várias traduções (por exem plo, NRSV, REB, NTLH, BN) iniciam o v. 3
com “Por isso”. Entretanto, não se tem certeza se estão traduzindo a variante ou se
estão apenas traduzindo δέ de uma forma que o contexto parece exigir.

6.7 θεού (de Deus) {B}

Em Atos aparecem exem plos tanto de ό λόγος τού θεού (a palavra de Deus;
4.31; 6.2; 11.1; 13.5,7; 17.13; 18.11) com o de ό λόγος τού κυρίου (a palavra do
AtO S DOS APÓSTOLOS 233

Senhor; 8.25; 13.49; 15.35-36; 19.10,20; 20.35 [plural λόγοι]); existem dúvidas
quanto ao texto original em 12.24; 13.44; 16.32; 19.20.
Em At 6.7, parece que a leitura mais apropriada é ό λόγος του θεού, pois a
m esm a locução ocorre em At 6.2 e a evidência externa ou o peso dos manuscritos
favorece essa leitura.

7.16 έν Συχέμ (em Siquém) {C}

O autor de Atos combinou detalhes de duas narrativas do Antigo Testamento. Na


primeira, Abraão comprou de Efrom, o heteu, um terreno em Macpela, a leste de He-
brom (Gn 2 3 .3 2 0 ‫ ;)־‬ali foram sepultados Sara, o próprio Abraão, Isaque, Rebeca, Leia
e Jacó (Gn 49.31; 50.13). Na segunda, José foi sepultado num terreno em Siquém que
Jacó havia comprado dos filhos de Hamor, o pai de Siquém (Gn 33.19; Js 24.32). Por-
tanto, quem comprou terras dos filhos de Hamor foi Jacó e não Abraão. Com exceção
de Gn 33.19 e Js 24.32, no Antigo Testamento o nome Siquém sempre designa um lu-
gar e não uma pessoa. As variantes textuais em At 7.16 refletem as duas tradições re-
lativas ao nome Siquém, exceto que o texto ocidental e o texto antioqueno invertem a
relação de parentesco, fazendo de Siquém o pai de Hamor, quando deveria ser o filho.
Na tentativa de explicar a estranha formulação του Συχέμ (traduzido, na ARC,
por “0 p a i de S iq u é m ”), é preciso levar em conta que a versão siríaca heracleana traz
“que era de Siquém”, o que levanta a seguinte pergunta: Teria sido possível que a
preposição “de” (παρά ou από) tenha sido om itida num manuscrito mais antigo que
foi o antecessor do grupo ocidental de testem unhos textuais?
Olhando no conjunto, έν é a melhor leitura de todas elas, por mais que ainda
se tenha dúvidas quanto à forma do texto original. NBJ corrige o texto a partir de
Gn 33.19, dizendo: "... e depostos no sepulcro que Abraão comprara a dinheiro aos
filhos de Emor [Hamor], pai de Siquém”.

7 .1 7 ώ μολόγησεν (prometeu) {B}

Na Septuaginta, é frequente o uso do verbo όμνύειν (jurar) para traduzir o he-


braico ‫( ש ב ע‬sh a b a h ). Por outro lado, os verbos όμολογεΐν (confessar) e έπαγγέλειν
(prometer) são usados raramente na Septuaginta. Portanto, é provável que, em
At 7.17, copistas tenham colocado ώμοσεν (jurou) em lugar de um dos outros dois
verbos. Além disso, o fato de o verbo όμολογεΐν ter adquirido um sentido especiali-
zado na Igreja antiga (“fazer a minha confissão”) era um motivo adicional que teria
levado copistas a fazer a troca. O verbo επηγγείλατο pode ter surgido como uma
espécie de eco da formulação anterior τής επαγγελίας (da promessa). Uma vez que
ώμολόγησεν aparece, neste caso, com o significado de “prometeu”, em nada difere,
nesse contexto, do sentido de επηγγείλατο.
234 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

7.18 [επ’ Α ίγυπτον] ([sobre o Egito]) {C}

Essa v arian te não tem m aior im p ortân cia para a tradução, p ois, m esm o
que se prefira o tex to m ais breve, as palavras “sobre o Egito” pod em ser
a crescen tad a s na form a de e x p licita çã o de in form ação que está im p lícita. Por
um lado, se a leitu ra m ais breve é tid a por o rigin al, é fácil p erceber com o
o tex to de Ex 1.8 na S ep tu a g in ta , que tem a lo cu çã o ε π ’ Α ίγυ π τον, teria in-
flu en cia d o cop istas a in serirem a locu ção ε π ’ Α ίγ υ π τ ο ν no tex to de A tos. Por
outro lado, tam bém é p o ssív el que cop istas ten h am om itid o essa lo cu çã o por
en ten d erem que era d esn ecessá ria , um a vez que no versícu lo anterior de Atos
se inform a que o povo de Israel estava εν Α ίγύ π τψ (no Egito). D evido ao fato
de e x istirem bons argu m en tos para os dois lad os, ε π ’ Α ίγ υ π τ ο ν foi m antido
no tex to , porém en tre co lc h e tes, para ind icar in certeza quanto à form a do
tex to o rig in a l.

7.19 [ήμών] ([nossos]) {C}

A variante tem pouca ou nenh um a im portância para o tradutor, pois o signi-


ficado não m uda. Em algum as lín gu as, qualquer que seja o texto adotado, será
preciso dizer “n ossos an tep assad os” e não sim plesm ente “os an tep assad os”. Por
um lado, a evid ên cia extern a tende a favorecer a leitura que tem o pronom e
ημών. Por outro, o fato de ημώ ν aparecer um pouco antes no texto (em “nossa
raça”) pode ter levado copistas a om itir essa segun da ocorrência do pronom e,
porque julgavam que era d isp en sável. Para representar e sses dois conjuntos de
con sid erações, o pronom e foi incluído no texto, só que entre colch etes, para
indicar que não se tem certeza quanto ao texto original.

7.38 ήμιν (a nós/nos) {B}

Como de costum e, um a parte dos m anuscritos tem o pronom e p essoal na


prim eira p essoa do plural (“a n ó s”), e outra parte traz o m esm o pronom e na se-
gunda pessoa do plural (“a v ó s”). Essa confusão entre as duas form as do prono-
m e é frequente, por causa da pronúncia sem elh ante. A partir do contexto, o que
se espera é a forma ήμιν (“a n ó s”), pois Estêvão não quer se dissociar daqueles
que receberam a revelação de Deus no passado, e sim un icam ente daqueles que
interpretaram m al ou não deram ouvidos a essa revelação. Com o pronom e ήμιν,
E stêvão se associa aos jud eu s com os quais está falando. É possível que, queren-
do fazer separação entre Estêvão e os judeus, copistas ten ham in tencion alm ente
alterado o pronom e para ύμΐν (que, diga-se de passagem , tem sólido apoio de
m anuscritos e foi traduzido por Seg).
ATOS DOS APÓSTOLOS 235

7.46 οΐκω (para a casa) {B}

Entre as leituras οΐκω e θεω, deve-se preferir οΐκω, com base na evidência ex-
terna (é a leitura que tem o apoio de uma combinação de testem unhos alexandri-
nos e ocidentais) e na assim cham ada probabilidade de transcrição. Não existe ne-
nhum a razão suficiente que poderia ter levado copistas a substituir θεω por οΐκω.
No entanto, a evidente dificuldade ligada à expressão “um a morada para a casa de
Jaco”, bem como a tentação no sentido de harm onizar o texto com a formulação de
SI 132.5 [= 131.5, na LXX] no texto da Septuaginta, que fala de “urna morada para
o Deus de Jaco”, deve ter influenciado m uitos copistas a alterar o texto.
Alguns eruditos entendem que, nesse contexto, a leitura οΐκω é dem asiada-
m ente difícil para ser original. Entretanto, alguns d esses eruditos consideram
θεω um a correção de οΐκω, e partem do princípio de que a leitura original não
foi preservada em nenhum dos testem unhos de que dispom os. Várias tentativas
foram feitas no sentido de reconstruir o texto original. Entre elas, as seguintes:
(1) εύρεΐν σκήνωμα τω οΐκω τ ο ν θεοί) ,Ιακώβ (prover uma morada para a casa
do Deus de Jacó); e (2) εύρεΐν σκήνωμα τ ω κ ω ,Ιακώβ (prover uma morada para
o Senhor de Jacó), sendo que tcokcü (para o Senhor) foi, posteriorm ente, inter-
pretado de forma equivocada com o sendo τα>οικα> (para a casa).
Todavia, nem todos os eruditos concordam que a leitura οΐκω é tão difícil a
ponto de necessitar de correção. Um paralelo no M a n u a l de D is c ip lin a , um dos
docum entos encontrados em Qumran, dá sustentação à noção de um a casa den-
tro da casa de Israel com o um substituto para o Templo.
A leitura que aparece com o texto de O N o v o T e s ta m e n to G rego foi traduzida
na NBJ (bem com o na NRSV): “providenciar m orada para a casa de Jaco”. O
sentido pode ser “urna m orada (de Deus) para a casa de Jacó (poder adorá-lo)”
ou, então, “um a m orada para a din astia real do povo de Israel”. A variante tex-
tual foi traduzida na NTLH (tam bém em ARA, NVI, BN, TEB, CNBB): “pediu
licen ça para construir urna casa para o Deus de Jacó”.
Barrett (The Acts o f th e A p o s tle s , p. 372) escreve: “A diferença entre essas duas
leituras não é tão acentuada com o às v ezes se im agina: um a m orada para o Deus
de Jacó é, com certeza, um Templo em que possa habitar; e um a morada para a
casa de Jacó é um lugar que a casa de Jacó pode usar com o Templo. Em outras
palavras, significa uma morada (de Deus ou para Deus) que pode ser usada para
tal finalidade pela casa de Jacó”.

8.5 [τήν] ([a]) {C}

Não é fácil decidir a questão textu al envolvendo a presença ou não do artigo.


Visto que, no NT, Samaria designa a região e não a cidade com esse nom e, a frase
236 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

εις τήν π όλιν τής Σαμαρείας significa “à [principal] cidade de Sam aria”. Mas
qual era a cidade que Lucas tinha em vista? Seria Sebaste, o nom e que H erodes, o
Grande, havia dado à cidade anteriorm ente cham ada de Samaria? Ou seria Neá-
polis (Nablus), a antiga Siquém, que era a capital religiosa dos samaritanos? E por
que ele decidiu referir-se a essa cidade sem citar o nome? É pouco provável que ele
pensasse que em toda a região da Samaria havia apenas uma cidade.
Por outro lado, a leitura sem o artigo (“a uma cidade da Samaria”) se encaixa
perfeitam ente no contexto, e é o antecedente natural da referência no v. 8, onde o
autor afirma que “houve grande alegria naquela cidade”, sem dizer de que cidade
se trata.
A evidência externa favorece em muito a leitura com o artigo. No entanto, visto
que o contexto favorece a leitura m ais breve, sem o artigo, o m esm o foi colocado
entre colchetes, para indicar incerteza quanto ao texto original. As traduções mo-
dernas se dividem entre “à cidade de Samaria” (ARA e NRSV; tam bém FC, TEV,
CNBB, BN e NTLH: “a capital da Samaria”) e “uma cidade de Samaria” (NVI, REB,
TEB, NBJ).

8.10 καλούμενη (chamada) {A}

O texto bizantino mais recente om ite a palavra καλούμενη, que fica esquisita
nesse texto. Em vários manuscritos, ela é substituída por λεγομένη (chamada). ARC
traduz o texto bizantino: “Este é a grande virtude de Deus”. ARA (e NRSV) traduz
o texto por “Este hom em é o poder de Deus, chamado o Grande Poder”. REB traduz
assim: “Este hom em ”, diziam eles, “é aquele poder de Deus que é cham ado de Ό
Grande Poder”’.

8.18 πνεύμα (Espírito) {B}

Talvez essa variante não tenha maior significado para alguns tradutores, pois
será natural ou necessário dizer algo como “Espírito Santo” ou “Espírito de Deus”.
A leitura mais breve não tem um expressivo apoio de manuscritos, mas deve ter
preferência em relação à leitura τό πνεύμα τό ά γιον (ο Espírito Santo). Era normal
copistas inserirem as palavras το άγιον, mas é difícil explicar porque teriam omiti-
do as m esm as, caso estivessem originalm ente no texto.

8 .24 επ ’ εμέ ώ ν ειρήκατε (sobre mim daquilo que dissestes) {A}

O texto do Códice de Beza difere dos textos de outros testem unhos em vários
detalhes bem pitorescos: “E Simão respondeu e disse a eles: ‘E u vos p eço que orem a
D eu s por mim, para que nenhum desses m a le s de que m e falastes sobrevenha a m im ’
ATOS DOS APOSTOLOS 237

— q u e n ã o c e s s a v a d e c h o r a r c o p io s a m e n te ”. Este adendo sugere que as lágrimas de


Simão expressam tristeza e, talvez, até arrependimento. Nas H o m ilía s C le m e n tin a s
(xx.21) e nas R e m in is c é n c ia s C le m e n tin a s (x.63), que são textos cristãos escritos
provavelmente no terceiro ou quarto século, as lágrimas de Simão são lágrimas de
raiva e frustração.

8.26 S e g m e n ta ç ã o

As palavras αΰτη έστίν έρημος (este [caminho] está deserto) podem ser tomadas
com o a parte final do recado que o anjo deu a Filipe. E o que faz a NBJ (também
ARA): “O Anjo do Senhor disse a Filipe: 1Levanta-te e vai, por volta do m eio-dia,
pela estrada que desce de Jerusalém a Gaza. A estrada está deserta’‫״‬. Também é
possível que essas palavras sejam um com entário parentético que Lucas inseriu
para benefício de seus leitores. Algum as traduções, como NRSV, REB e NTLH, en-
cerram a citação depois da palavra Γάζαν (Gaza) e colocam as palavras “este é um
cam inho que passa pelo deserto” entre parênteses, para indicar que se trata de um
com entário de Lucas dirigido aos seus leitores.

8.37 o m is s ã o d o v e rsíc u lo {A}

O v. 37 é um acréscim o ocidental, que, diferentem ente da leitura mais breve,


carece de um apoio mais consistente da parte de manuscritos. Caso esse material
tivesse originalm ente constado no texto, não havería m otivo que justificasse sua
om issão. Convém notar que τόν ,Ιησοΰν Χ ριστόν não é uma formulação típica de
Lucas. NVI e BN incluem o v. 37 no corpo da tradução, com nota explicativa de que
o texto não se encontra em muitos manuscritos antigos. ARA, NTLH, FC e Seg co-
locam o v. 37 entre colchetes. Entretanto, na maioria das traduções, esse versículo
não faz parte do texto.
Tudo indica que a fórm ula π ισ τεύω ... Χ ρ ισ τόν era usada pela Igreja antiga
em cerim ônias de batism o, e é possível que a m esm a tenha sido inserida na
m argem de uma cópia do livro de Atos. Pelo que parece, foi inserida no texto
porque havia um sentim ento de que Filipe não teria batizado o eunuco sem antes
pedir dele um a confissão de fé, que precisava, então, ser expressa na narrativa.
Embora o m ais antigo m anuscrito do NT que traz essas palavras date do sexto
sécu lo (m anuscrito E), a tradição a respeito da confissão de fé do etíop e já era
conhecida na segunda m etade do segu n d o sécu lo, pois é citada por Irineu (Con-
tr a a s H e r e s ia s , III.xii.8).
O v. 37 não aparece no principal m anuscrito (manuscrito 2) que Erasmo usou
para a sua edição do texto grego, m anuscrito este copiado ao final da Idade Mé-
dia. No entanto, o texto desse versículo aparece na margem de outro manuscrito
238 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

(m anuscrito 4), e foi a partir deste que Erasmo o inseriu na edição impressa de
1516. Erasmo fez isso porque “entendeu que esse versículo havia sido om itido pela
desatenção de copistas”. (Veja a seção sobre “Edições Impressas do Novo Testa-
m ento Grego”, em “A Prática da Crítica Textual do Novo Testam ento”, o capítulo
introdutório deste livro.)

8.39 πνεύμα (Espírito) {A}

Em lugar de πνεύμα κυρίου (o Espírito do Senhor), vários testem unhos trazem


πνεύμ α ά γιον έπέπεσεν έπι τον ευνούχον, άγγελος όέ (ο Espírito S a n to c a iu so b re o
e u n u c o , e u m a n jo do Senhor [arrebatou a Filipe]). Alguns eruditos, que defendem
a originalidade do texto mais longo, apresentam duas explicações para a ausência
desse texto em outros testemunhos: uma om issão acidental ou, então, uma elim ina-
ção deliberada da parte de copistas que estranharam a diferença entre esse texto e
o relato nos vs. 15-18, que dá a entender que o Espírito Santo era concedido apenas
m ediante a im posição de mãos dos apóstolos.
Por outro lado, a maioria dos eruditos prefere o texto mais breve. Isto por causa
do peso dos manuscritos que apoiam essa leitura, e também por causa da proba-
bilidade de que essas palavras foram acrescentadas ao texto para explicitar que,
um a vez batizado, o etíope recebeu o dom do Espírito Santo; e para fazer com que
o relato da partida de Filipe concordasse com o relato de seu com issionam ento (por
um anjo do Senhor, v. 26).

9.12 avòpa [εν όράματι] (um hom em [numa visão]) {C}

As variantes têm pouca im portância para o tradutor do texto. A variação na


ordem das palavras não afeta o significado. E m esm o que se adote a leitura mais
breve, aquela sem a locução εν όράματι, ainda assim essa inform ação pode ser
explicitada na tradução. O fato de as palavras έν όράματι aparecerem em dife-
rentes lugares na frase em diferentes m anuscritos parece sugerir que copistas
acrescentaram essas palavras para completar o sentido do verbo ειόεν (viu). Por
outro lado, um a vez que εν όράματι acabara de ser usado no v. 10, é possível
que copistas tenham om itido a segunda ocorrência dessa locução por entenderem
que se tratava de um a repetição desnecessária. Além disso, copistas desatentos
estariam inclinados a fazer confusão entre όράματι e a palavra όνόμ α τι (nome),
que aparece na sequência e que tam bém não tem lugar fixo na frase. Devido ao
grande equilíbrio entre essas diferentes considerações, έν όράματι foi m antida no
texto, só que entre colchetes, para indicar incerteza quanto ao texto original. A
leitura m ais breve foi adotada em ARA, TEB e NBJ, ou seja, essas traduções omi-
tem as palavras “num a visão”.
ATOS DOS APOSTOLOS 239

9-29 Έλληνι,στάς (helenistas) {A}

O peso dos manuscritos dá apoio decisivo à leitura Ε λλη νιστή ς, que geralm ente
é traduzida por “helenistas” (NRSV, ARA, NBJ, TEB). Veja tam bém o comentário
sobre 11.20. A variante Έ λληνας significa gregos de raça e religião. Caso se optar
pela leitura que aparece como texto em O N o v o T e sta m e n to G rego , o sentido pode
ser expresso através de “judeus de fala grega” (NVI) ou “judeus de língua grega”
(CNBB).

9.31 ή ... εκκλησία... εΐχεν... οίκοόομουμένη και π ορ ευ ομ ένη ... έπληθυνετο


(a... igreja... tinh a... sendo edificada e andando/vivendo...
crescia em número) {A}

N esse versículo, os verbos e participios estão no singular. A distribuição geo-


gráfica e antiguidade dos testem u nh os que trazem o singular se sobrepõem
àquelas dos testem u nh os que têm o plural. É pouco provável que copistas te-
nham alterado form as de plural, colocand o-as no singular, para transm itir a
ideia de unidade da Igreja. Se isto fosse assim , seria de se esperar que eles
tivessem feito o m esm o em 15.41; 16.5, onde não há dúvida nenhum a de que o
núm ero plural, no caso de εκκλησιαι (igrejas), é o texto original. É m ais prová-
vel que tenha ocorrido o processo inverso, ou seja, as form as de singular foram
alteradas para form as de plural, para harm onizar o texto de 9.31 com as passa-
gens de 15.41; 16.5.
A NBJ preferiu traduzir a variante (“as Igrejas gozavam de paz em toda a
Judeia, Galileia e Samaria”); no entanto, a maioria das traduções tem o singular.
NTLH, por exem plo, traduz assim: “Em toda a região da Judeia, Galileia e Sarna-
ria, a Igreja estava em paz”. Lucas pode estar se referindo à igreja no sentido de
igreja universal e não às várias igrejas ou congregações vistas isoladam ente. Ou,
então, o singular pode se referir à igreja de Jerusalém , que, naquela altura, já
havia se espalhado por aquelas regiões citadas.

9.31 S e g m e n ta ç ã o

O relacionam ento entre as diferentes partes ou frases deste versículo pode


ser expresso de formas levem ente diferentes, com pequenas variações de sen-
tido, dependendo de cortes ou pausas depois de ειρήνην (paz), οίκοόομουμένη
(sendo edificada), e κυρίου (do Senhor). Comparar as seguintes traduções: (1)
“A Igreja... vivia então em paz, ela se edificava e procedia no tem or do Senhor,
crescendo, graças ao apoio do Espírito Santo” (TEB); (2) “Entrem entes, a igreja...
tinha paz e era edificada. Vivendo no tem or do Senhor e no consolo do Espírito
240 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Santo, crescia em núm ero” (NRSV); (3) “Entrementes, a igreja... era deixada em
paz para se fortalecer e viver no tem or do Senhor. Encorajada pelo Espírito Santo,
crescia em núm ero” (REB).

10.5 xtvá (certo) {B}

Quando Cornélio, que não conhece Pedro, diz que ele é um “certo Simão”, o
uso desse pronome indefinido (‫־‬u va) — que, no texto grego, vem depois do nom e
Σίμωνα (Simão) — cai muito bem. Por outro lado, porém, é possível que copistas
tenham julgado que a frase “certo Simão que se chama Pedro” era desrespeitosa
para com o líder dos apóstolos, levando-os a omitir aquele τινά.
TEB (e também NVI) traduz o texto, incluindo o pronome indefinido: “um cer-
to Simão, cognom inado Pedro”. Entretanto, as traduções preferem, em geral, algo
com o “Simão, que tem por sobrenome Pedro” (ARA), “Simão, conhecido como Pe-
dro” (CNBB), ou “o hom em cham ado Simão Pedro” (NTLH), mas não se sabe com
certeza se estão traduzindo a variante ou se estão sim plesm ente deixando de tra-
duzir ao pé da letra.

10.11 καί καταβαΐνον σκεύος τι ώς οθόνη ν μεγάλην τέσσαρσιν άρχαΐς


καθιέμενον (e descendo certo objeto como um grande lençol
pelas quarto pontas sendo baixado) {C}

Aparentemente, o texto ocidental não tinha o participio καταβαΐνον (deseen-


do) e descrevia aquele objeto como “amarrado (όεδεμένον) nas quatro pontas”. No
texto dos antigos manuscritos uncíais, que trazem o participio καταβαΐνον, diz-se
que o objeto era “baixado (καθιέμενον) pelas quatro pontas”. Alguns testem unhos
têm os três participios (καταβαΐνον, όεδεμένον e καθιέμενον), mas essa leitura mais
longa é, com certeza, uma formulação mais recente que resultou da combinação de
leituras anteriores, m ais breves. Parece que a leitura do texto é a que tem o mais
sólido apoio de manuscritos. CNBB segue o texto ocidental, deixando de traduzir o
participio καταβαΐνον: “Viu o céu aberto e algo como um grande pano ser baixado
(καθιέμενον) pelas quatro p on tas...”.

10.12 τετράποδα και ερπετά τής γης (quadrúpedes e répteis da terra) {B}

Copistas conheciam o relato de At 11.6, que é sem elhante, porém mais extenso,
e produziram uma série de leituras ampliadas. Por exem plo, a costum eira locução
[καί] τά θηρία ([e] as feras) foi inserida antes ou depois de τα έρπετά (os répteis),
ou depois de τής γής (da terra). A leitura do texto é a que melhor explica a origem
das dem ais, além de ter a seu favor o apoio dos m elhores manuscritos.
ATOS DOS APÓSTOLOS 241

10.16 ευθύς άνελήμφθη (logo foi recolhido) {B}

As leituras com πάλιν (de novo/outra vez) antes ou depois de άνελήμφθη refle-
tem alterações de copistas no sentido de harmonizar o texto com o relato paralelo
em 11.10. Das outras leituras, dá-se preferência a ευθύς άνελήμφθη porque tem a
seu favor os m elhores manuscritos. BN inclui o termo “de novo” (aquela toalha foi
retirada de novo para o céu), mas não está claro se isso traduz a variante ou é ape-
nas uma maneira de tornar explícito algo que está implícito.

10.19 τρεις (três) {B}

Existem três leituras principais, com argum entos a favor de cada uma delas.
(1) A leitura δύο (dois), que aparece no manuscrito B e que foi adotada na TEB,
é a mais difícil de todas (para os copistas), pois contradiz as afirm ações em At 10.7
e At 11.11 de que havia três hom ens. Porém, existe a possibilidade de que, para
Lucas, apenas os dois empregados (At 10.7) serviram de m ensageiros de Cornélio,
cabendo ao soldado unicam ente a tarefa da segurança.
(2) A leitura τρεις tem sólido apoio de manuscritos e testem unhos que repre-
sentam vários tipos de texto. Se essa leitura era o texto original, pode-se atribuir
a origem de δύο a um copista perspicaz que entendeu que esses hom ens eram os
dois empregados m encionados em At 10.7. O fato de a palavra τρεις não constar
em alguns manuscritos pode ser resultado de um erro involuntário, causado pela
sem elhança entre o final das palavras άνδρες (hom ens) e τρεις.
(3) Se, como geralm ente acontece em casos assim, a leitura mais breve for con-
siderada original, pode-se explicar a presença de um numeral no texto como acrés-
cim o que copistas fizeram por influência de At 10.7 ou At 11.11. Várias traduções
modernas optam por essá leitura mais breve. NBJ (e também REB) diz: “Alguns
hom ens estão aí, à tua procura”.

10.24 εισήλθεν (ele [Pedro] entrou) {C}

O texto original é provavelmente a forma da terceira pessoa do singular εισήλθεν,


que foi alterada por copistas para a terceira pessoa do plural por causa do verbo plu-
ral συνήλθον (foram com), no v. 23, e do pronome plural αύτούς (a eles), no v. 24.
Existe a possibilidade de que o texto original era o verbo no plural, que teria sido
mudado para o singular, em analogia ao verbo έξήλθεν (ele saiu), que aparece no
versículo anterior. Só que isso é pouco provável.
A leitura no texto, ou seja, o verbo no singular dá ênfase à pessoa de Pedro,
mas o verbo no plural não deixa de estar correto, pois expressa que os m ensageiros
que Cornélio havia enviado a Jope tam bém retornaram a Cesareia, acompanhando
242 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

Pedro. Diversas traduções modernas optam pelo plural. Por exem plo, “No outro
dia chegaram à cidade de Cesareia” (NTLH) e “No outro dia chegaram a Cesareia”
(NVI). Não fica claro, todavia, se essas traduções estão seguindo a variante textual
ou se preferiram o plural para deixar claro aos seus leitores que Pedro não foi sozi-
nho à cidade de Cesareia.

10.30 τήν ένάτην (a n ona) {B}

O t e x t u s r e c e p tu s , apoiado por um resp eitável e diversificado grupo de teste-


m unhos, inclui as palavras νη στεύω ν κ α ι τήν ένάτην ώ ρ α ν (jejuando e a nona
hora). Provavelm ente essas palavras a respeito do jejum não são originais, mas
foram acrescentadas ao texto por copistas que entendiam que antes de ser ba-
tizad a a p essoa precisava jejuar. Confira, n este sentido, At 9.9 e tam bém um
trecho de um texto cristão bem antigo, Didaquê 7.4, onde se lê κελεύσεις òè
νηστεϋσαι τον β α π τ ιζό μ ενο ν π ρ ο μιας ή δύο (Também instruirás aquele que
vai ser batizado a que jejue por um ou dois dias antes disso).
O significado do t e x t u s r e c e p tu s deve ser o seguinte: “D esde o quarto dia até
esta hora eu estava jejuando, e enquanto eu observava a hora nona de oração em
m inha casa”. A leitura ά π ό τής τρίτης ημέρας (desde ο terceiro dia), que aparece
no m anuscrito D, pode ter surgido quando um copista contou as três ocorrências
de επ α ύ ρ ιο ν (no dia seguinte) nos vs. 9,23-24.
No entanto, a prim eira im pressão que se tem , ou seja, de que C ornélio esta-
va jejuando sem cessar ao longo dos quatro dias anteriores até aquele m om ento
é claram ente falsa, pois C ornélio parou de jejuar quando um hom em vestid o
com roupas resp lan d ecen tes apareceu a ele e lhe d isse que m and asse m ensa-
geiros a Jope, etc. Portanto, em vez de som ar quatro dias (ou três, segu n d o D),
precisam os entender ά π ό τέταρτης ήμέρας no sen tid o de “quatro dias atrás”,
e não no sen tid o de “d esd e o quarto dia”. Em outras palavras, C ornélio está
dizendo: “Q uatro dias atrás, contand o a partir de hoje, nessa hora do dia, eu
estava orando”.
As palavras μέχρι ταύτης τής ώ ρας, que aparecem nesse m esm o versículo,
são de difícil tradução. O sentido deveria ser “até esta (m esm a) hora”. A variante
que aparece em D, μέχρι τής άρτι ώ ρας, tem basicam ente o m esm o significado.
Entretanto, visto que a palavra άπό, no início da fala de Cornélio, não pode sig-
nificar “d esd e”, μέχρι ταύτης τής ώ ρας tem que significar “nessa (m esm a) hora”
ou, então, “por volta desta (m esm a) hora”.
Todavia, visto que é bastante questionável que μέχρι possa significar “em ” ou
“por volta d e”, vários esp ecialistas já sugeriram que o texto deveria ser corrigido,
e que a palavra μέχρι ou tanto ά π ό quanto μέχρι deveríam ser tiradas do texto.
Tanto ά π ό com o μέχρι foram m antidos no texto de O N o v o T e s ta m e n to G rego, pois
ATOS DOS APÓSTOLOS 243

seu uso aqui pode, talvez, ser explicado com o sendo grego coloquial ou grego
com influências sem íticas.
Partindo do princípio de que os tradutores vão seguir o texto im presso em O
N o v o T e s ta m e n to G rego , será necessário dar atenção esp ecial à tradução da lo-
cução α π ό τέταρτης ήμέρας (quatro dias atrás). Em grego, o dia a partir do qual
se fazia a contagem era considerado o prim eiro dia. Em nossa língua, todavia,
o dia seguin te é contado com o o prim eiro dia. Em vista disso, várias traduções
(TEV, NBJ, NTLH, BN, CNBB, TEB) dizem “três dias atrás”, por m ais que estejam
baseadas na leitura τέταρτης (quarto), que está no texto, e não na variante τρίτης
(terceiro) que aparece no m anuscrito D.

10.32 θάλασσαν (mar) {B}

Ao final deste versículo, o texto ocidental tem o seguinte acréscimo: ος


π α ρ α γενό μ ενος λαλήσει σοι (traduzido na ARC por “e ele, vindo, te falará”). Pos-
teriorm ente, estas palavras foram inseridas tam bém no texto bizantino. E possível
que o texto mais longo seja original e que essas palavras tenham sido tiradas do
texto alexandrino por serem redundantes ou por apresentarem algum a dificul-
dade de ordem gram atical e sem ântica (elas parecem fazer referência a Simão, o
curtidor, e não a Simão Pedro). Porém é m ais provável que essas palavras tenham
sido acrescentadas ao texto para, a exem plo do que ocorre em At 11.14, dizer algo
mais a respeito de Simão Pedro.

10.33 του κυρίου (o Senhor) {C}

A evidência externa é altam ente favorável à leitura que aparece com o texto. Se
o original trazia o substantivo θεού (Deus), o que é pouco provável, ele pode ter
sido substituído por κυρίου, para evitar a repetição da palavra θεοΰ, que aparece
um pouco antes no m esm o versículo. Já houve quem argum entasse que o mais
provável é que um gentio usaria a palavra “D eus”, e não “o Senhor”. No entanto, é
possível que um copista tam bém tenha pensado assim , levando-o a trocar κυρίου
por θεού.

10.36 [õv] ([que]) {C}

Barrett (T h e A c ts o f th e A p o s tle s, p. 521) afirma que a linguagem desse versículo


“é tão difícil que resiste a qualquer tentativa de tradução”. Uma das m aiores difi-
culdades tem a ver com o pronome relativo õv. Caso for om itido, o texto flui nor-
malm ente: “Ele (Deus) enviou a palavra/m ensagem aos filhos de Israel, pregando
paz por m eio de Jesus Cristo”. Caso, porém, o pronome relativo for incluído, ele
244 VARIANTES TEXTUAIS DO NOVO TESTAMENTO

passa a ser o objeto direto do verbo άπέστειλεν (enviou), e as palavras τον λόγον
(a palavra) ficam como que soltas no ar, sem conexão gramatical precisa.
Pode-se explicar õv como um acréscimo ao texto que resultou de um acidente no
processo de cópia, ou seja, um copista teria escrito duas vezes as últim as letras da
palavra anterior, λό γο ν (palavra). Por outro lado, pode-se explicar a ausência desse
pronome em alguns manuscritos como resultado de um lapso de algum copista que
tenha saltado do final da palavra λό γο ν para o final de õv e, sem querer, tenha
om itido o pronome relativo. A leitura que aparece como texto de O N o v o T e sta m e n to
G rego é a leitura mais difícil. Nenhum a das explicações está isenta de problemas.
Assim, o pronome foi inserido no texto, só que entre colchetes, para mostrar que
não se tem certeza se é original ou não.
A NTLH segue o texto de O N o v o T e s ta m e n to G rego e traduz assim: “Vocês co-
nhecem a m ensagem que Deus mandou ao povo de Israel, anunciando a boa notícia
de paz por m eio de Jesus Cristo”. Esta tradução (bem como a RSV, NRSV e NVI),
para formar uma oração completa, antecipa o verbo οϊόατε (conheceis) do v. 37.
Barrett entende que o autor interrompeu a sentença, inserindo o comentário paren-
tético “este é o Senhor de todos”. Em seguida, esqueceu-se de como tinha iniciado a
sentença e nunca chegou a concluí-la. Barrett (p. 48