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Índice
Introdução
Linguagem tradicional
(no universo católico e evangélico)
1. Introdução
2. Natureza teológica de tal linguagem
3. Toques específicos para o caso de Jesus
4. Aspectos positivos e originais da linguagem
5. Aspectos deficientes da linguagem
6. Conclusão
7. Dinâmica
8. Bibliografia
Linguagens neotradicional pós-moderna, carismática e espírita
1. Linguagem neotradicional
2. Linguagem carismática
Caráter carismático do seguimento de Jesus
3. Linguagem espírita
4. Aspectos positivos e originais
5. Aspectos deficientes
6. Conclusão
7. Dinâmica
8. Bibliografia
A linguagem neopentecostal
1. Introdução
2. Eixos históricos do neopentecostalismo
3. Eixos teológicos do neopentecostalismo
4. A linguagem sobre Jesus Cristo no neopentecostalismo
5. Aspectos críticos
6. Conclusão
7. Dinâmica
8. Bibliografia
CONCLUSÃO

3
INTRODUÇÃO

N a literatura mundial, nenhum personagem ocupa tanto espaço como Jesus. Em


todos os tempos, desde as testemunhas do Novo Testamento até hoje, a sua
pessoa, mensagem e vida atraíram a atenção de escritores. Para além de todas as
crenças, sua figura tem significado universal no tempo e nas geografias, despertando
o imaginário religioso das pessoas. Os escritos sobre ele e as mensagens em seu nome
invadem, quais ondas indômitas, praias do conhecimento nunca antes tocadas.
Os ateísmos, o combate ao Cristianismo não conseguiram silenciá-lo. E de todos
os rincões surgem obras maravilhosas que nos enchem os olhos de beleza. Ora em
tom de romance, como A sombra do Galileu, de Gerd Theissen, ora com a perícia de
investigador bíblico, como Jesus, aproximação histórica de J. Pagola. Os discursos
abstratos, de teologia difícil, cedem espaço para a vida do homem Jesus na crueza de
sua história de andarilho, como no texto de Crossan.
Vivemos verdadeiro paradoxo. A pessoa de Jesus ultrapassa todas as fronteiras e
culturas. Quando os Beatles ousaram dizer que eram mais famosos que Jesus Cristo,
houve celeuma mundial. No entanto, cresce na Europa e em vários países de maioria
muçulmana real perseguição aos cristãos, a ponto de ter-se criado a expressão
“cristianofobia”. Sem se restringir ao mundo católico, mas falando de todos os
cristãos, Bento XVI, na Mensagem para a celebração do XLIV Dia Mundial da Paz,
em 1º de janeiro de 2011, alude a tal realidade:

Os cristãos são, atualmente, o grupo religioso que padece o maior número de perseguições decorrentes
da própria fé. Muitos suportam diariamente ofensas e vivem frequentemente em sobressalto por causa
da sua procura da verdade, da sua fé em Jesus Cristo e do seu apelo sincero para que seja reconhecida
a liberdade religiosa. Não se pode aceitar nada disso, porque constitui uma ofensa a Deus e à
dignidade humana; além disso, é uma ameaça à segurança e à paz, e impede a realização de um
desenvolvimento humano autêntico e integral.1

Deter-nos não no estudo sobre Jesus Cristo, como tal, nem nas cristologias, mas
nas diferentes linguagens sobre Jesus, permite-nos entender a variedade da literatura
sobre ele. Ele carrega tal vitalidade de existência e de mensagem que produziu, ao
longo da história, comentários bem diversos. E as épocas e pessoas projetam também
nele, num círculo de interpretação e criação, desejos e sonhos. Já no início do século
XX, o famoso médico Albert Schweitzer (1875-1965), que também se tornou exímio
exegeta e estudioso dos inícios do Cristianismo, comentava:

Cada época seguinte da Teologia encontrava, assim, as suas próprias ideias em Jesus, e é só desse
modo que conseguia inspirar-lhe a vida. Nem eram só as épocas que se viam espelhadas nele: cada um
em particular criava-o à imagem de sua própria personalidade. Não há outra empresa histórica mais
pessoal que escrever uma Vida de Jesus.2

4
Outro teólogo protestante comparava, na ausência das certezas históricas das
pesquisas sobre a vida de Jesus, o nome de Jesus com taça vazia em que cada teólogo
verte o conteúdo das próprias ideias.3
Sem chegar ao extremo dessas posições, a vida de Jesus permite o aflorar de muita
imaginação e tem gerado diversas linguagens. No presente livro, trataremos de cinco
linguagens assaz trabalhadas e lidas nas Igrejas católica e evangélicas, e na religião
espírita, a saber: as linguagens tradicional, neotradicional pós-moderna, carismática,
espírita e neopentecostal.
Cada linguagem entende-se no contexto cultural em que se elabora, em relação a
que tipo de destinatário se dirige e a que interesses visa. Caracteriza as culturas a
dinamicidade. Continuamente transformam-se por jogo sutil e difícil de ser analisado
entre o impacto que ela produz sobre as pessoas e como estas, por causa da
capacidade criativa humana, a modificam em perene círculo dialético. O ser humano
constrói o mundo simbólico no qual vive, projetando algo de si, mas também
assimilando o que existe.

Sendo a sociedade uma realidade ao mesmo tempo objetiva e subjetiva, qualquer adequada
compreensão teórica relativa a ela deve abranger ambos estes aspectos [...] Estes aspectos recebem
correto reconhecimento se a sociedade for entendida em termos de um processo dialético em curso,
composto de três momentos, exteriorização, objetivação e interiorização. No que diz respeito ao
fenômeno social, estes momentos não devem ser pensados como ocorrendo em uma sequência
temporal [...] Estar em sociedade significa participar da dialética da sociedade.4

Quem estuda a língua portuguesa no Brasil se dá conta de como a sua índole nos
influenciou e influencia até hoje. Ela goza de certa suavidade fonética que nos marca
o comportamento, enquanto outras línguas duras e ásperas moldam pessoas rudes.
Somem-se o clima, o temperamento, a geografia, a história, as tradições nativas, o
peso da influência negra e indígena para nos moldar. E por que tal digressão? Porque
as linguagens sobre Jesus elaboradas no Brasil refletem tal clima diferente, mesmo
que remontem a matrizes bíblicas comuns. Desde o português brasileiro, captamos
facetas novas de Jesus.
A figura universal de Jesus se expressa na particularidade de nossa língua.
Enriquece-a com a maravilha da sua pessoa. Mas também ela reverbera à luz de
criações literárias que alcançam leitores alheios ao âmbito especificamente cristão. Lá
no fundo, porém, encontramos o Evangelho a provocar reações as mais diversas.

Após vinte séculos, o espetáculo não mudou. O Evangelho é sempre o “pomo de discórdia”, caído do
céu na terra. Uns beijam-lhe as páginas com respeito de adoração e de ternura de amor; para outros,
cada palavra é sagrada como palavra de Deus e de verdade. Outros o perseguem com raiva e desprezo.
Rasgar-lhe as folhas e lançá-las ao vento seria, segundo sua opinião, o maior serviço prestado à
humanidade. Seus dogmas absurdos, sua moral egoísta ou sobre-humana são o maior obstáculo para o
voo do espírito humano em direção à luz e à liberdade. Outros reconhecem nele parcelas de verdade e
de bem, belos adereços de ouro, mas envolvidos numa ganga espessa de erros e infantilismos. A luta
continua e, no meio dos ataques e das contradições, hoje como ontem, o Evangelho não cessa de

5
reinar.5

Toda produção humana, plantada em determinado contexto histórico, padece três


tipos de limite. Capta o passado com o viés restritivo do presente. Com isso, produz
amnésias de elementos importantes que permanecem então à espera de que outra
linguagem os recupere e redescubra. Ao voltar-se para o presente, sofre os confins de
seu horizonte. Todo presente permite e impede de entender certas realidades, quer já
passaram, quer ainda a serem vislumbradas. Os filósofos nos falam de consciência
possível.6 E, em relação ao futuro, o presente só capta vislumbres e sinais
anunciadores. Só mais tarde, quando ele se desvela em presente, damo-nos conta do
que existia e não tínhamos ainda percebido bem.
A linguagem sobre Jesus não se isenta de tais limitações. Dois extremos a evitar.
Os escritores antes de nós já disseram tudo. Então, silêncio. Ou agora, sim,
descobrimos a verdadeira e perfeita maneira de falar de Jesus. Tudo o que se disse
antes de nós já está superado. Pretensão que desconhece a condição humana de
intérprete incompleto de realidade maior.
Sondemos, então, as linguagens e interpretações passadas para verificar se não
estamos a perder pérola preciosa e conquista realmente definitiva. O afã do presente,
não raro, nos conduz a esquecer que os antigos também conheceram, amaram,
estudaram e perceberam elementos maravilhosos da vida de Jesus. A veste antiga não
desmerece a beleza do corpo. A vida de Jesus se compara a palácio, que existe há
muito tempo e que nunca cansaremos de conhecer.

A história é um palácio do qual não descobriremos toda a extensão (não sabemos quanto nos resta de
não factual a historicizar) e do qual não podemos ver todas as alas ao mesmo tempo, assim não nos
aborrecemos nunca nesse palácio em que estamos encerrados. Um espírito absoluto, que conhecesse
seu geometral e que não tivesse nada mais para descobrir ou para descrever, se aborreceria nesse
lugar. Esse palácio é, para nós, um verdadeiro labirinto; a ciência dá-nos fórmulas bem construídas
que nos permitem encontrar saídas, mas que não nos fornecem a planta do prédio.7

Bem assentados no presente, custa-nos imaginar que outras vozes surgirão e,


quem sabe, emudecerão muito do nosso linguajar. O futuro permanece aberto,
imprevisível. E assim ele derrota, muitas vezes, as linguagens presunçosas da
atualidade.
O Jesus histórico da modernidade, que irrompeu dentro da linguagem tradicional,
não conseguirá, sem mais, anular-lhe as riquezas. Nem também esgota o que ainda
virá.
No caso de Jesus, tal fato se faz evidente por ser ele o Transcendente feito história,
o Absoluto pousando nas formas relativas do linguajar humano. Goza de excesso
inabarcável que nenhuma nova linguagem esgota. A Escritura, onde se leem os
relatos fontais sobre Jesus, cai sob a denominação de texto clássico. Este revela
claramente o jogo de permanência e mudança no sentido. C. Geffré cita a D. Tracy,
“bom representante da atitude hermenêutica em teologia, quando ele reflete sobre a

6
noção de clássico, a propósito dos textos clássicos”:

[Clássico] é um texto que manifesta sempre uma pluralidade de sentidos e que resiste assim a uma
interpretação definitiva, uma interpretação que o declara encerrado, uma interpretação que põe fim à
pluralidade de interpretações. O que também constitui o privilégio de um texto clássico é o fato de
que, seja qual for a origem particular deste texto, por conseguinte que provenha desta ou daquela
cultura, este texto tem, apesar de tudo, um alcance universal para a comunidade humana. Portanto,
assim como dispomos dos “clássicos” na literatura universal, temos também a ver com textos
religiosos que se tornaram clássicos para cada tradição religiosa.8

Mais: no referente a Jesus, determinada linguagem, quando se pensa exclusivista,


gesta falsa intelecção de sua pessoa, mensagem e prática, ao omitir ou deturpar
elementos fundamentais. Nesse momento, recorremos à tradição bíblica e eclesial
para sinalizar-lhe os limites.
Paradoxo intrigante das linguagens sobre Jesus. De um lado, está a Escritura, a
norma normans, que já se encerrou. Não se lhe acrescentará nenhum outro livro.
Número fechado! As Igrejas cristãs não reconheceram outros escritores da revelação
cristã depois dos livros do Novo Testamento.9
Por outro lado, nenhum texto está concluído. Ele circunscreve sentidos com as
palavras, mas estas escapam da couraça fundamentalista. O leitor se move em um
mundo de significados, de interpretações sempre em mudança. O texto proíbe
interpretações arbitrárias, porque cristaliza um sentido com as palavras escritas. Não
se pode entender qualquer coisa de um texto. No entanto, ele permite certa
flexibilidade de interpretações. Entre a fixidez e a arbitrariedade, passeiam as
diferentes linguagens sobre Jesus, trazendo cada uma alguma novidade sobre ele. Eis
a imprescindibilidade da hermenêutica.

Não existe saber direto na realidade fora da linguagem e a linguagem é sempre uma interpretação.
Mas, paradoxalmente, esta generalização da instância hermenêutica em todos os domínios do saber,
na época contemporânea, nos permite reivindicar um estatuto científico para teologia [...] Pode-se
dizer que não somente no caso das ciências humanas, mas até no caso das ciências naturais, todo
conhecimento científico hoje é um conhecimento interpretativo. Não há apreensão ou acesso imediato
à realidade fora da linguagem, e a linguagem já é necessariamente uma certa interpretação. Por
conseguinte, há uma concordância em reconhecer que todas as ciências são ciências interpretativas.10

A linguagem tradicional se estruturou fora do contexto da descoberta da


hermenêutica. No entanto, ela não deixa de ser determinada interpretação. Hoje, todo
estudo sério pressupõe a virada hermenêutica, mesmo que seja para criticar-lhe
algumas consequências ou exageros. Ela já se impôs como irreversível. Constitui o
pressuposto teórico para entender as linguagens que nascem e se interpretam
situadamente. Não existe uma linguagem que supere todos os tempos e se mostre
definitiva. Nela coexistem elementos perenes e transitórios.
Ao tratar das linguagens sobre Jesus, buscamos a fidelidade à sua natureza, mas,
ao criticá-la, partimos da posição da cristologia moderna que interpreta Jesus de

7
maneira bem próxima da realidade histórica de seu tempo. Assumimos com seriedade
a posição de São Paulo, que nos fala que Jesus poderia ter andado de maneira divina
entre nós, mas não o quis. Preferiu escolher a forma de servo, renunciando a toda
condição divina de proceder, aparecendo como qualquer homem (Fl 2,6-7). E sob
essa perspectiva bem humana, humilde e pobre de Jesus, entendida na tradição cristã
continuada até os tempos modernos, nos defrontaremos com as diversas linguagens
sobre ele.

Ainda que, em sua natureza humana, Cristo fosse idêntico aos demais homens, de fato diferia deles
porque não tinha necessidade de ser reconciliado com Deus, coisa que os demais, sim, necessitavam.
Entretanto, humilhou-se a si mesmo em obediência e aceitou a morte.11

1 BENTO XVI. Mensagem para a celebração do XLIV Dia Mundial da Paz, em 1º de janeiro de 2011, n. 1.
2 SCHWEITZER, Albert. Geschichte der Leben-Jesu-Forschung. Munique: Siebenstern Taschenbuch, 1966, p. 48 (1ª ed. 1906).
3 KALTHOFF, Albert. Das Christus-Problem. Grundlinien zu einer Sozialtheologie. Leipzig, 1902.
4 BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. Tratado de sociologia do conhecimento. Petrópolis: Vozes, 1985, p.
173.
5 LEROY, Hippolyte. Jésus-Christ. Sa vie, son Temps. 5ª ed. Paris: Beauchesne, 1910, p. VI.
6 Ver GOLDMANN, Lucien. Conscience réelle et conscience possible, conscience adéquate et fausse conscience. Marxisme et Sciences humaines.
Paris: Gallimard, 1970, p. 121-129. Refere-se ao fato de toda consciência estar limitada ao horizonte do próprio tempo e espaço. Ela, como diz a própria
palavra, possibilita chegar a uma consciência real a respeito de uma realidade. É-lhe o fundamento. É o máximo grau de adequação à realidade que uma
consciência consegue alcançar, sem por isso provocar mudança de sua natureza. A consciência real é a adequação objetiva à realidade. A consciência
possível indica a forma-limite: o máximo de conhecimento ou compreensão que um indivíduo, um grupo, uma classe social ou toda uma época podem
alcançar sobre um problema, dados os condicionamentos que limitam sua visão. É o horizonte de conhecimento que não se consegue ultrapassar em dado
momento cultural.
7 VEYNE, Paul. Como se escreve a história. 3ª ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995, p. 133.
8 GEFFRÉ, Claude. Crer e interpretar. A virada hermenêutica da teologia. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 34.
9 Existem evangelhos apócrifos que, embora não assumidos oficialmente pela Igreja, vêm sendo, ultimamente, estudados com seriedade. Neles se
descobrem elementos válidos para conhecer melhor o contexto vital de Jesus.
10 GEFFRÉ, Claude. Crer e interpretar..., p. 33.
11 MURPHY-O´CONNOR, Jerome. Antropologia cristológica de Flp 2, 6-11. Selecciones de Teologia 17 (1978), n. 68, p. 305.

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CAPÍTULO I

LINGUAGEM TRADICIONAL
(NO UNIVERSO CATÓLICO E EVANGÉLICO)

1. Introdução

D urante séculos, a literatura tradicional sobre Jesus Cristo alimentou a piedade


cristã. Partia da evidência de que os Evangelhos narravam biograficamente a
vida de Jesus. Não havia por que afastar-se da literalidade dos textos. Mais: para os
períodos da infância e da adolescência, em que rareiam os relatos dos Evangelhos, os
escritores se permitiam fantasiar-lhe a vida. Sabiam que ele era Deus e, portanto,
nenhum milagre nem fato extraordinário do Menino e Adolescente Jesus se excluiria
por si mesmo.
E apoiavam-se especialmente na leitura do Evangelho de São João, como relato
histórico descritivo do poder ilimitado de Jesus.

Jesus, com efeito, recebeu de seu Pai, pela geração divina, o poder infinito, capaz de todos os
milagres, sem exceção, e, ao mesmo tempo, os decretos pelos quais, desde toda eternidade, Deus
determinou a escolha dos milagres que o Messias deveria realizar durante sua vida neste mundo. O
Pai é, portanto, a fonte do poder milagroso que possui Jesus enquanto Deus.1

Em não poucos casos, essa literatura recorreu aos evangelhos apócrifos que
abundam em dados e fatos mirabolantes de Jesus.2 Só mais tarde, sobretudo a partir
dos inícios do século XX, modificou-se o cenário. Principiando no mundo
protestante, os estudos exegéticos, as contribuições da linguística, as descobertas
arqueológicas e inúmeros instrumentos teóricos interpretativos de textos
questionaram, em profundidade, a leitura ingênua e literal da vida de Jesus. A
linguagem tradicional sobre Jesus, seja a antiga como alguma atualmente
remanescente, desconhece tal universo linguístico, exegético. E isso acontece mais
fortemente no mundo católico, que reagiu com lentidão e desconfiança em face da
exegese moderna, trabalhada por protestantes criticados como racionalistas.
A. Schweitzer testemunha essa luta com respeito à linguagem tradicional que
ingenuamente assumia os textos na sua literalidade. Confessa a dificuldade da
metodologia histórica quando se trata da vida de Jesus, enquanto a posição tradicional
nem se dava conta dessa complexidade.

A pesquisa da Vida de Jesus foi para a teologia a escola da veracidade. Uma luta tão dolorosa e cheia
de resignação em torno da verdade, como se travou nos últimos 100 anos nas vidas de Jesus, o mundo
nunca viu e não a verá mais [...]. O problema da vida de Jesus não encontra análogo na ciência da
história. Nunca uma escola histórica atuou como na pesquisa desse problema, nunca um historiador
especialista exigiu conhecimento teológico nela necessário. Qualquer método da pesquisa histórica

9
falha na complexidade dessa problemática. Os critérios da ciência histórica comum não alcançam
aqui, e seu processo não se aplica sem mais à vida de Jesus. A pesquisa da vida de Jesus tem de criar
seu próprio método.3

As vidas de Jesus de cunho tradicional oscilam entre redações sóbrias e altamente


fantasiosas. Analisá-las-emos ao longo deste capítulo.

2. Natureza teológica de tal linguagem

O catecismo tradicional formou a visão de mundo dos fiéis, sobretudo católicos, a


partir de elementos doutrinários expressos em perguntas e respostas. Estas resumiam
os ensinamentos escolásticos da teologia clássica. O contato direto com a Escritura se
fazia por intermédio das pregações do clero. Este, por sua vez, projetava sobre os
textos bíblicos a teologia dogmática e essencialista aprendidas nos cursos
acadêmicos.
A figura de Jesus se formava a partir das definições dogmáticas cristológicas que
tiveram ponto alto no Concílio de Calcedônia (451) e foram matizadas e
aprofundadas nos concílios posteriores. Firmava-se, de maneira definitiva, o essencial
e universal da fé em Jesus Cristo. Os outros aspectos de sua vida e pessoa não
passavam de traços simplesmente acidentais, não lhe afetando o cerne da verdade.
Isso faz recordar-nos de um pregador de retiro que repetia: “as verdades que anuncio
de Jesus valem para todos os tempos e espaços porque são eternas!”. Por causa dos
nossos vícios, pecados, ignorância, não as compreendemos nem aceitamos.

Durante vinte séculos, sem nunca comprar o sucesso por um compromisso, o Evangelho sempre
combateu com as armas da razão, sempre submeteu a suas leis e a seu ensinamento uma larga parte, a
melhor parte do gênero humano, a mais esclarecida, a mais moral, a mais civilizada. Tal vitória é
suficiente para provar que ele contém a verdade; o erro, ele sozinho, não tem esse poder.4

Cl. Geffré chama tal linguagem de dogmatista, ao distingui-la do termo


dogmático. Este simplesmente busca ser fiel ao dogma da Igreja, mas não economiza
o esforço de interpretá-lo para cada momento da história da fé. O dogmatista, porém,
acentua o aspecto de fidelidade ao ensinamento do magistério da Igreja (católica) ou
da Escritura ensinada pelos pastores (protestantismo), entendendo o dogma sem
perspectiva histórica, mas nele mesmo, de valor definitivo. Apela para a expressão
“definição dogmática”. Preocupa-se com a verdade nela mesma, com a ortodoxia,
identificando a forma de expressão com a própria verdade. Desconhece, portanto, a
hermenêutica e a linguística modernas.

É verdade que, desde o Concílio de Trento, a teologia católica foi dominada por um modelo que
chamo dogmático ou dogmatista. O ponto de partida desta teologia é sempre o ensinamento do
magistério e a tradição ulterior. A Escritura e a tradição interpretativa dos textos intervêm apenas a
título de provas em relação a este ensinamento que é comunicado diretamente pelo magistério oficial
da Igreja. Nesta perspectiva, o discurso teológico [no caso seria a linguagem sobre Jesus] que é, no

10
fundo, um reflexo da Igreja institucional, tende a tornar-se um sistema irrefutável no sentido de
Popper, correndo, além disso, o risco de degradar-se em ideologia, isto é, um ensinamento oficial que
justifica as decisões do magistério seja qual for a resistência dos textos escriturísticos e das tradições
interpretativas destes textos.5

No universo católico, a neoescolástica refletia na filosofia e na teologia tal


perspectiva dogmatista subjacente. Esse movimento, que vinha desde o século XVI
com a renovação dos estudos de Santo Tomás, assumiu novo vigor depois da
Encíclica Aeterni Patris de Leão XIII (1879). No espaço católico, a Encíclica insistiu
na adoção obrigatória da filosofia e teologia de Santo Tomás por parte das
instituições acadêmicas, como filosofia e teologia insuperáveis.
Sem naturalmente o rigor dos estudos sobre Santo Tomás, criou-se uma
mentalidade vulgarizada de pensar e expor o pensamento de maneira rígida,
fundamentalista, abstrata. Preocupava-se antes com a formulação rigorosa dos
termos, sem perguntar-se pela sua inteligibilidade no momento atual.
Além disso, somou-se austera fidelidade ao magistério da Igreja, gerando visão
essencialista e dogmatista da verdade. O magistério católico se arrogava o direito de
dirimir a questão da verdade pela força do carisma próprio da sua autoridade.6 E no
mundo protestante, com frequência, o pastor se arvorava no fiel e inquestionável
intérprete das palavras da Escritura.
Essa linguagem sobre Jesus se referia a tais ensinamentos. Ela lia a Escritura como
revelação literal de Deus, beirando o fundamentalismo bíblico. Punha-se a finalidade
principal de alimentar a vida espiritual, a piedade popular e a prática sacramental, ao
se dirigir preferentemente ao comum dos fieis que não se punham problemas teóricos,
intelectuais.
Assim entende-se que a uma passagem tão alheia a qualquer compreensão
sacramental, como a cura do surdo-mudo (Mc 7,31-37), M. Meschler termine com
uma alusão direta à prática sacramental que a Igreja iria instituir mais tarde. Ao
observar os gestos de Jesus, comenta:

Quanto aos diversos gestos exteriores, sua finalidade primeira e imediata é de preparar o surdo-mudo
para sua cura. Sua enfermidade não lhe permitia ouvir falar do Salvador: ignora com que finalidade o
conduziram a Jesus. O Salvador deve, portanto, recorrer a certos gestos que façam compreender ao
surdo-mudo de que se trata. E, de fato, escolheu precisamente gestos que dão a entender a esse
homem que se trata de curá-lo da enfermidade e que lhe inspiram desejo de cura e o pensamento de
colaborar nela. Esse surdo-mundo é talvez um pagão. Esses gestos têm além disso um sentido místico.
Várias curas relatadas pelo Evangelho são evidentemente uma figura e uma profecia dos sacramentos
que serão instituídos pela Igreja.7

No universo protestante, surgiu, em reação à teologia liberal e ao pensamento


moderno, teologia militante, em geral chamada de fundamentalismo. Embora
procurasse preservar a teologia protestante clássica e impedir a acomodação liberal ao
pensamento moderno, o fundamentalismo desenvolveu nova forma de teologia
protestante racionalista, separatista e absolutista. Isto é, a teologia fundamentalista

11
produziu sistemas absolutos de proposições doutrinárias que devem ser aceitas na
íntegra, sem questionamento, ou totalmente rejeitadas. Qualquer pessoa que
questionasse um único ponto do sistema doutrinário protestante fundamentalista seria
acusada de heresia ou mesmo de apostasia.

Deus não pode mentir (Hb 6,18); sua Palavra é a verdade (Jo 17,17). Por isso, seja qual for o assunto
sobre o qual a Bíblia diga alguma coisa, ela só dirá a verdade. Não existem erros históricos nem
científicos nos ensinos das Escrituras. Tudo quanto a Bíblia ensina vem de Deus e, por isso, não tem a
mácula do erro.8

No âmago da postura e abordagem fundamentalista está a ambição de defender a


inspiração verbal e a infalibilidade (inerrância) absoluta da Bíblia, bem como todas as
doutrinas tradicionais da teologia ortodoxa protestante que se consideravam sob
ataque do pensamento moderno e da teologia liberal.
A marca da ortodoxia protestante foi o retorno e a prática do método escolástico
de teologia em seu pensamento e a forte ênfase nas Escrituras como verbalmente
inspiradas, infalíveis e inerrantes.
Em resumo, estamos diante de linguagem de dupla face. Uma face piedosa,
fantasiosa e simples, tocando as raias da ingenuidade, que descrevia um Jesus a partir
da interpretação literal da Escritura. Mais: e o que os textos não diziam, fantasiava-se.
Outra tendência defrontava-se com exigências da razão. Mas não da razão
moderna. Apelava-se para as verdades racionais das definições dogmáticas. Estas
alimentavam a linguagem cristológica.

Na consciência de Jesus não evoluiu o conhecimento da sua missão divina, mas já era completo e
certo desde o início, como de fato podemos constatar de vários textos evangélicos [...]. No batismo de
Jesus [...] nas tentações do deserto [...] o testemunho de João Batista [...] A quem percorre os
Evangelhos, a “consciência messiânica” de Jesus aparece, desde o primeiro momento, como formada
e perfeita. Nunca deixam suspeitar sequer uma dúvida em Jesus, um conflito interno acerca da sua real
e verdadeira messianidade. [...]. Afirmou Cristo ser o Filho de Deus no sentido próprio e natural. [...]
Atribuiu-se Direitos estritamente divinos. Atribuiu-se Poderes estritamente divinos. Afirma sua
Igualdade e Identidade com Deus, atribuindo-se origem e processão divina, a eternidade de Deus,
Tudo o que o Pai tem, a mesma e idêntica operação do Pai, o mesmo poder legislativo que o de Deus,
a identidade de natureza com o Pai.9

3. Toques específicos para o caso de Jesus

A linguagem tradicional se alimentou da convicção de que em Jesus primeiro


estava o ser divino. Portanto, onipotente, onisciente. Ele, desde pequenino, sabia
tudo, podia tudo. Fazia, de certo modo, o jogo humano. Mas, no fundo, era todo
Deus. A humanidade assumia a forma de veste da divindade que ele punha e trocava
a seu bel prazer.
Um primeiro passo consistia em fazer-se uma ideia de Deus e depois aplicá-la a
Jesus. A imagem de Deus para os escritores tinha duas origens diferentes que se

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entrecruzavam. O Antigo Testamento oferecia-lhes as revelações do único verdadeiro
Deus, feitas a Abraão, a Moisés e aos profetas de Israel. Esse Deus está presente em
Jesus. Tudo o que ele pôde fazer e sabia Jesus também o podia e sabia. Jesus e Javé
são um só Deus.

Provou Cristo a verdade do seu testemunho pelos milagres físicos que operou durante sua vida
pública. Não pode Deus confirmar com milagres uma afirmação falsa. Ora Jesus Cristo: a) realizou
realmente fatos maravilhosos (verdade histórica); b) que são extraordinários e preternaturais (verdade
filosófica); c) e divinos (verdade teológica); d) para com eles confirmar o seu testemunho (verdade
relativa). – Logo o testemunho de Cristo não pode ser falso. – Por conseguinte, Jesus é realmente o
Messias, o Filho de Deus; e sua religião é realmente de origem divina.10

Para completar a ideia de Deus, bebia-se também na fonte filosófica aristotélico-


tomista. Na teologia, antecedia tanto ao estudo da Trindade como ao de Jesus o
famoso tratado de De Deo Uno (Sobre o Deus Uno). De novo, tudo o que ali se
ensinava, aplicava-se também a Jesus de maneira bem literal. E nele se estudava a
essência e a natureza divina, comuns às três pessoas.
Na perspectiva da natureza divina de Jesus, captada pela revelação do Antigo
Testamento e pela filosofia escolástica, traçava-se-lhe a vida terrestre. Frisava-se a
ideia de que Jesus sabia tudo de antemão e que tudo se explicava a partir de sua
divindade.
E os fatos que pareciam contradizer tal figura de Jesus eram interpretados como
concessões humanas que ele fazia a nossa ignorância e fragilidade. Tal leitura
corroborava especialmente com algumas passagens do Evangelho de São João, que
parecem confirmar essa compreensão de Jesus. Interpretava-se São João como pura
descrição do Jesus histórico. E para suprir as lacunas dos Evangelhos, o comentarista
criava pormenores verossímeis como descrição histórica. Vejamos o exemplo da
ressurreição da filha de Jairo. O texto bíblico disse somente que comunicaram a Jesus
antes de chegar à casa que a menina morrera (Mc 5,35). E o comentarista
complementa essa frase lacônica do Evangelho:

A criança de doze anos estava deitada sobre uma esteira, a cabeça levantada por travesseiros. Nesse
quarto, apenas iluminado, este corpo tão frágil, reduzido pela morte, parecia, através da fumaça
aromática a subir das brasas da concha de barro, toda uma pequena coisa branca, perdida nas rendas e
nas flores. Jesus se aproxima dela. Docemente toma uma das mãos da menina, e também
simplesmente como fazia a mãe da morta, quando ela a acordava cada manhã: “Menina, diz ele,
levanta-te”. Pedro reteve toda a vida as duas palavras que Nosso Senhor pronunciou em aramaico, sua
língua usual. Ele as transmitiu a Marcos. Graças a ele nós as conhecemos. –Talitha cumi, diz ele.
Talitha, isto é, menina em vias de crescer. – Cumi, levanta-te. A criança estava de pé, indo e vindo no
quarto.11

Tal concepção tradicional se estendia também a Maria. Assim a mística Sóror


Maria de Jesus, ao narrar as aparições do anjo Gabriel, já vê Maria grávida de Jesus a
discorrer sobre o que padeceria o Filho de suas entranhas e oferecia-se para padecer

13
no lugar dele.12 Os anjos a consolavam com a “conveniência da morte de Cristo,
Senhor nosso, para resgate da linhagem humana, e com o fim de vencer o demônio,
livrando-a de sua tirania, e também para a glória do eterno Pai, e exaltação do
santíssimo e altíssimo Senhor, Filho seu”.13
A vida terrestre de Jesus não tinha limites. Tudo o que lhe aconteceu durante a
vida, depois da morte, na Igreja nascente e no decorrer da história podia ser
antecipado a qualquer momento. Jesus tinha toda a história, como Deus que era,
diante de si com toda a clareza. Não lhe resultava novidade ou surpresa. Tudo
pertencia ao plano do Pai, que ele aceitara livre, consciente e sabidamente.
Tal teologia implícita justificava a prática da Igreja, já que ele mesmo instituíra a
sua estrutura, a hierarquia, pastores, sacramentos. A mesma mística Sóror Maria de
Jesus escreveu sobre Jesus:

Conheceu que a antiga lei da dura circuncisão haveria de sepultar-se com honra, substituída pelo
suavíssimo e admirável sacramento do Batismo. Conheceu, com plenitude, os demais Sacramentos
[...] com inteiro conhecimento, igualmente da matéria, forma, efeito, ministro do sacramento, e caráter
de cada um.

As pregações, as vidas de Jesus, as meditações dos retiros refletiam essa


linguagem. Prolongavam com boa dose de fantasia as narrações do Evangelho,
tomadas naturalmente como descrições literais. Visava-se falar a parte emocional e
afetiva do leitor ou ouvinte. Completava-se com boa dose de imaginação espiritual o
que os textos não narravam. Desconhecia-se evidentemente tudo o que mais tarde se
chamará de gênero literário, histórias das formas, da redação, da tradição.
Essa linguagem acentuava a lição moral a ser tirada da prática das virtudes de
Jesus. Funcionava o esquema da imitação de Cristo, que se consagrou com o livro de
T. Kempis (1379-1471), Imitação de Cristo. Assim esse autor medieval começa o
livro:

Quem me segue não anda em trevas (João 8,12), diz o Senhor. Com estas palavras Cristo admoesta-
nos a que lhe imitemos os costumes e a vida se realmente queremos ser iluminados e libertos de toda
cegueira do coração. A nossa maior preocupação seja, portanto, meditar na vida de Jesus Cristo. [...]
Quem quiser, porém, entender plena e proveitosamente as palavras de Cristo, é necessário que se
esforce para nele moldar toda a sua vida.14

Sem dúvida, esse livro consta entre os textos de espiritualidade mais editados e
lidos na tradição cristã a partir do século XV até a segunda metade do século passado,
quando entra a linguagem do seguimento de Jesus já na perspectiva histórico--crítica
dos Evangelhos.
Ele apresentava Jesus como fundamento e modelo concreto da vida consagrada,
iluminando-a com seu exemplo. Os súditos, especialmente os mais jovens, deviam
espelhar-se em Jesus, na atitude de obediência aos seus pais terrestres, em vida
simples, pobre, sacrificada. O tema da vida em Nazaré adquiriu enorme importância
espiritual para os religiosos, mormente para os não sacerdotes.

14
Estendia-se também tal modelo para as famílias cristãs, de maneira que as mães se
espelhavam em Maria, os pais em José e os filhos, no Menino Jesus. Refletem tal
linguagem muitos cânticos. Dentre os mais belos e mais cantados está o do Pe.
Zezinho:

Estou Pensando em Deus


Tudo seria bem melhor
Se o Natal não fosse um dia
E se as mães fossem Maria
E se os pais fossem José
E se os filhos parecessem
Com Jesus de Nazaré.

Essa linguagem estabeleceu nítida circularidade com o dogma. Nascia da fé


explicitada pela Igreja através dos Concílios e da teologia. Mas também vinha
reforçá-la. Predominou especialmente no campo dos exercícios espirituais, como
material para meditação da vida de Jesus. À guisa de exemplo, está o famoso jesuíta
alemão M. Meschler, que alimentou a oração de tantos durante décadas.
A meditação seguia esquema bem simples. Partia-se do texto evangélico. Em
seguida, o autor situava-o na trama narrativa do Evangelho de maneira bem literal. E
depois ele fazia considerações espirituais sobre o texto com consequências práticas
para o leitor.
Tomemos a cena do jovem rico (Lc 18,18-23//) e vejamos como M. Meschler a
desenvolve. Começa vendo nele um jovem de muitas virtudes, talvez o chefe de uma
sinagoga. Ele chama Jesus de Bom Mestre. Mostra ter temperamento impressionável,
impulsivo, emotivo, algo precipitado, com falta de energia, decisão e constância por
ter chamado de chofre Jesus de Bom Mestre e por não ter aceitado a proposta. A
resposta de Jesus, com cautela sobre o elogio, revela o outro lado da medalha. Jesus
modera o ardor juvenil. Salienta-lhe a sabedoria, a prudência, a inteireza e a
franqueza. O texto tira as conclusões morais da rejeição do jovem à proposta de
Jesus.

A importância desse mistério vem, de imediato, porque o Salvador estabeleceu aqui e anuncia os dois
estados que dividirão a sua Igreja e seu reino na terra: o estado secular e o estado religioso, com suas
diferenças claramente marcadas. A essência do estado secular consiste na observância dos
mandamentos de Deus, e a esta fidelidade aos mandamentos o céu é prometido por recompensa. A
vocação religiosa é deixada à liberdade de cada um: “Se tu queres”, diz o Salvador (Mt 19, 21),
porque a essência da vida religiosa consiste na observância dos conselhos que não são outra coisa que
meios particulares de chegar à perfeição; e esses meios, Jesus Cristo não os impõe absolutamente, não
faz deles um preceito: ele nos diz que são muito agradáveis a Deus, e os deixa à nossa liberdade. Os
conselhos são expostos aqui nos seus pontos essenciais. Antes de tudo, a pobreza é recomendada
muito expressamente, a castidade e a obediência, mas supondo o celibato e a união estreita com o
Salvador.15

Essa literatura enriqueceu-se com obras de renomado valor já na tentativa de

15
valorizar o Jesus histórico, sem, contudo, recorrer sistematicamente aos estudos
bíblicos científicos. Muitos dados já eram conhecidos e, portanto, utilizados. Situa-se
no campo intermédio entre as vidas de Jesus fantasiosas e os recentes estudos
baseados nos dados exegéticos. Elas nutriram grandemente a espiritualidade da
imitação com alguns toques do seguimento. Cabe então captar-lhes os aspectos
positivos e originais na sua contribuição para o conhecimento de Jesus.

4. Aspectos positivos e originais da linguagem

Durante séculos, a espiritualidade em relação a Jesus, a prática de oração e de


intimidade com ele, a contemplação da sua pessoa se alimentaram dos escritos e das
pregações tradicionais.
O desejo de preencher a linguagem lacunosa dos Evangelhos sobre Jesus brotava
do afeto e do amor a sua pessoa. Os leitores não se contentavam em saber tão pouco
de alguém que veio realizar a missão grandiosa e sublime da salvação da
humanidade. Impunha-se-lhes tentar de todos os modos conhecer-lhe os pormenores
de vida.
Esse esforço criativo e imaginativo visava conduzir-nos a imitação séria de Jesus
com proveito espiritual. Fazia-se de sua vida manancial acessível a qualquer leitor.
Pedro, na casa de Cornélio, resumiu bem o que essa linguagem pretende comunicar:
“Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Por toda a
parte, ele andou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo
diabo; pois Deus estava com ele” (At 10,38). Esse Jesus que andou fazendo o bem
precisa ser bem conhecido em todos os pormenores possíveis para que o imitemos.
Assim também andaremos fazendo o bem.

Senhor, porque fostes paciente em vossa vida, cumprindo nisto com plenitude o preceito de vosso Pai
celeste, justo é que eu, mísero pecador, suporte pacientemente a mim mesmo, segundo a vossa
vontade e leve, até quando quiserdes, o ônus desta vida passageira. Embora a vida presente seja
pesada, por vossa graça tornou-se fonte abundante de merecimentos e o vosso exemplo e os de vossos
santos tornaram-na mais suportável às almas fracas.16

Articulavam-se na imagem de Jesus dois polos antitéticos. De um lado, ele


aparecia todo-poderoso, milagroso, divino com gestos e obras surpreendentes.
Andava sobre as águas, fazia curas mirabolantes, ressuscitava mortos. Doutro lado,
estava bem perto de nós na humanidade. Sentia fome, sede. Carecia de consolo.
Sofria as ingratidões. Queixava-se das traições e fuga dos discípulos. Enfim,
extremamente humano. As virtudes o faziam atrativo, modelo para todos. Oscilava-se
de um polo ao outro. Nas horas de desânimo, apelava-se para o lado poderoso de
Jesus. Nas carências, apresentavam-no junto a nós a consolar-nos.
Essa linguagem apresenta, porém, elementos que deturpam ou, ao menos,
encurtam a figura de Jesus, com consequências negativas para a vida cristã.

16
5. Aspectos deficientes da linguagem

A geração que viveu com Jesus e a imediatamente seguinte conheceram e


vivenciaram até o extremo o lado humano de Jesus. A sua humanidade impunha-se
pela evidência dos fatos. Viram-no ou ouviram testemunhas imediatas do terrível da
Paixão e morte, em que nada aparecia da face divina. Antes, pelo contrário, Jesus se
mostra um largado e abandonado de Deus e do próprio poder que, em alguns
momentos, manifestara. As provocações junto à cruz revelam essa tremenda tensão:
“Os que passavam por ali o insultavam, balançando a cabeça e dizendo: “Ah! Tu que
destróis o Templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo, descendo da cruz
(Mc 15,29-30)”, e pela boca dos sumos sacerdotes: “A outros salvou, a si mesmo não
pode salvar. O Messias, o rei de Israel, desça agora da cruz, para que vejamos e
acreditemos (Mc 15,31s)!”. E ele mesmo revela, no Horto das Oliveiras, pavor,
angústia, tristeza mortal, suor de sangue, necessidade da presença dos apóstolos,
desejo de que o Pai lhe afaste o cálice (Mc 14,33-36; Lc 22,43), e na hora da morte,
enorme abandono por parte de Deus (Mc 15,34). Que prova se necessitava para
afirmar a extrema humanidade de Jesus até as raias da fraqueza? Paulo, retomando
um hino anterior, expressa tal evidência dizendo que ele renunciara a maneira divina
de andar entre nós e assumira a forma de escravo, tornando-se igual ao ser humano
(Fl 2,6-7).

Esta quenose ou aniquilamento não implica que Jesus cesse de ser igual a Deus ou de ser a imagem de
Deus: é em seu rebaixamento mesmo que ele revela o ser e o amor de Deus [...]. Se a encarnação é um
primeiro aspecto da quenose, eis o segundo: “ele se rebaixou, tornando-se obediente até a morte e
morte numa cruz” (v.8) [...]. É o escândalo da cruz, um dos pontos fundamentais da pregação de
Paulo (1Cor 1,18-25; 2,1-2; Gl 6,14).17

A catequese inicial precisava frisar o lado divino e transcendente de Jesus para


compensar-lhe o aspecto extremamente frágil e humano. Daí a relevância do anúncio
de que Jesus ressuscitara, estava vivo. Os milagres da vida pública não pareciam
suficientes. Fatos semelhantes fizeram os profetas no Antigo Testamento e até magos
do Egito (Ex 7,11).
À medida que afastamo-nos das primeiras gerações, sobretudo depois das
definições conciliares do IV século e seguintes, inverte-se o processo. A divindade de
Jesus ocupa tal relevância que se encurta a humanidade. Insinua-se a heresia
monofisita, doceta, a saber, que Jesus, no fundo, tinha uma única natureza, a divina.
A humanidade servia de mera aparência. Todo o humano nele não passava de mera
condescendência, mas ele realmente já na terra tinha o poder e o saber divinos.
Nessa esteira, construiu-se grande parte da literatura tradicional. Pagou-se o alto
preço da diminuição até o anulamento da humanidade de Jesus. Um Jesus só Deus
torna-se, sim, alguém sujeito de nosso culto, adoração. Ele nos socorre, nos salva, nos
prodigaliza graças. Infinitamente distante de nós, perde-
-se a dimensão de seguimento, de proximidade com nossa vida. Os aspectos
históricos reais se esfumam. Abre-se espaço para o mítico, o fantasioso. Tudo em

17
Jesus é divino. Desde a mais tenra infância, a sua vida se veste de narrações míticas e
fantasiosas.

Para vestir a túnica do Menino-Deus, e calçar-lhe as sandálias, pôs-se a prudentíssima Senhora de


joelhos, e pediu-lhe licença. Admitiu o infante Jesus, e logo ela o vestiu, calçou, e o pôs de pé. A
túnica caiu-lhe na medida, até cobrir-lhe os pés, sem arrastar, e as mangas caíam-lhe até metade das
mãos. E, coisa admirável, de nada tomou medida, antes, a Mãe santíssima. E mais para admirar,
apesar de o colo da túnica ser redondo, e ajustado quase à altura da garganta, ela a enfiou pela cabeça,
e sem rompê-la, porque a túnica obedeceu à vontade de Maria para acomodar-se graciosamente. E
jamais Jesus tirou aquela túnica, até que os algozes o desnudaram, para açoitá-lo, e depois, para
crucificá-lo, porque sempre foi crescendo com o sagrado corpo o tanto que era necessário. O mesmo
sucedeu com as sandálias e panos interiores que lhe pôs a advertida Mãe. E nada se gastou nem
envelheceu, em 32 anos, nem a túnica perdeu a cor e lustre, e muito menos se manchou, ou sujou. As
vestes que despiu o Redentor para lavar os pés dos Apóstolos consistiam num manto ou capa, que
levava sobre os ombros, também feito pela Virgem santíssima, depois que voltaram para Nazaré.
Como a túnica, foi também crescendo, sendo da mesma cor, algo mais escuro. Ficou de pé o Infante e
Senhor das eternidades, ele que, desde o nascimento, havia estado envolto em fraldas, e quase sempre
acolhido nos braços da Mãe santíssima. Em comparação com os filhos dos homens, pareceu
formosíssimo. E os Anjos admiraram-se da escolha de tão humilde e pobre traje que fez o que veste os
céus de luz, e os campos de formosura. Andou logo por seus pezinhos, e perfeitamente, na presença
dos pais. Foi incomparável o júbilo da divina Senhora, e de S. José, vendo o seu Infante andar, e pela
sua rara formosura. Maria santíssima deu-lhe o peito até completar ano e meio. E no restante de sua
vida, comeu sempre pouco, na quantidade e na qualidade. Sua comida consistia, no princípio, de
sopinhas de azeite, frutas, ou pescado.18

Na base da interpretação literal de muitas passagens da Escritura, subjazia a


concepção mecânica da inspiração, como se o Espírito Santo tivesse ditado
verbalmente o texto sagrado, refugando qualquer hermenêutica histórica ou
linguística.
O máximo que se permitia consistia em prolongar com a fantasia os textos, mas no
mesmo sentido do descritivo e factual. A dimensão teológica cedia espaço para o
estritamente narrativo. Atribuía-se ao orgulho da razão moderna, do racionalismo, o
fato de querer dar outras explicações aos milagres e aos fatos históricos para além do
sentido literal.
A imitação material de Jesus, por ser tudo divino fora de qualquer interpretação,
alimentou livros de espiritualidade. A figura de Jesus se impunha como vinda de
cima, do céu, sobrepondo-se a todo humano. Com isso, a própria realidade humana se
desvalorizava. Não raro ouvia-se afirmação como esta: “humanamente agiria assim,
mas sobrenaturalmente, por força do exemplo de Jesus divino, devo fazer de outra
maneira”. Provocava-se um dualismo existencial em face da sua pessoa.
Forjou-se linguagem apologética no sentido de reafirmar- -lhe com insistência a
divindade. Para tal, os milagres ocupavam cada vez mais importância, fazendo-o
pairar sobre a fragilidade humana. O seu lado estritamente humano causava
problemas que se contornavam com a ideia da aparência de debilidade e de
humildade, tornando-se exemplo para nós. E, sobretudo, os seus sofrimentos e

18
humilhações eram considerados em vista de nossa salvação, redenção. Assim, uma
mística do século XVIII, a respeito da Encarnação do Verbo no seio de Maria,
escreve como recebendo de Jesus a revelação:

Saiba, filha, que tinha tanto mérito e tanto valor uma só daquelas respirações angustiadas que eu tinha
no útero virginal, que bastava para satisfazer pelas culpas, defeitos e faltas de todas as criaturas. E
saiba que meu padecimento naquela estreiteza era tão grande que um só momento seria suficiente para
resgatar mundos infinitos. Você pode compreendê-lo, em parte, pensando que, sendo eu o Verbo
eterno e Deus verdadeiro, não posso ser compreendido, nem abrangido; e sendo os próprios céus
estreitos para habitação minha, reduzi-me a habitar, enquanto Deus e enquanto homem, em carne
passível, no pequeno tugúrio de um ventre virginal, com toda a plenitude de conhecimento próprio de
um Deus imortal e de um homem passível e mortal.19

Em resumo, essa linguagem delineia um Jesus em tudo divino, que na infinita


benevolência assumiu traços humanos provisórios até a ressurreição, em que o divino
eclodiria e brilharia definitivamente. Até lá, ele suportou alguns limites da sua
humanidade, sem nunca, porém, perder o poder e o saber infinitos. Tinha-os, mas não
os ostentava sempre. Por isso não gozava de nenhuma importância o contexto social,
político e religioso em que Jesus viveu. Interessava, sim, o projeto salvador que
trouxera pronto já desde toda a eternidade. Ele veio simplesmente realizá-lo. A sua
morte não se relacionava em nada com a dominação romana em Israel. Veio redimir-
nos do pecado. Cabe unicamente a interpretação religiosa. As circunstâncias políticas
não passaram de conjunturas que Deus usou para realizar a redenção da humanidade.
A infidelidade do povo judeu cede lugar para a criação do novo povo de Deus. E,
nessa perspectiva, insinuou-se certo antissemitismo, deslocando para os judeus,
fariseus, sumo sacerdote toda a responsabilidade pela morte de Jesus.
A linguagem tradicional enfrentou difícil paradoxo. De um lado, insistia na
transcendência, na divindade de Jesus. Doutro, valorizava, ao máximo, os
sofrimentos de Jesus para provocar em nós a repulsa do pecado e a conversão. O fato
de ele ser Deus e sofrer tanto tornava o pecado humano ainda mais hediondo. Por
isso, os textos perdiam-se em pormenores no referente aos padecimentos de Jesus na
Paixão. A descrição da flagelação, feita pela mística espanhola já citada, denota a
medida de realismo de tal linguagem.

Para executar este ato [flagelação] tão injusto, foram destacados seis ministros de justiça robustos.
Eram homens vis, réprobos e impiedosos, e como tais, admitiram com gosto o ofício de verdugos [...]
Lá [no local do suplício] o amarraram a uma coluna, mas, antes, tiraram-lhe as vestes brancas não
com menos ignomínia com que, em casa de Herodes, o haviam vestido [...] Ficou Sua Majestade
coberto apenas pelos panos de honestidade que trazia debaixo da túnica. Tentaram ainda aqueles
ministros da maldade tirar-lhe tais panos, mas não o puderam conseguir, porque, ao chegar a tocá-los,
ficavam-lhes os braços como hirtos e gelados.20

O texto fala de três tipos de açoites e acrescenta em seguida:

O número exato de açoites aplicados em nosso Salvador foi de 5.115, desde a cabeça até as plantas

19
dos pés.21

O papel da Virgem e do mirabolante completa cena tão realista.

Executada a sentença dos açoites, e desatando nosso Salvador da coluna, mandaram-no, entre
blasfêmias, vestir a túnica. Mas um dos malvados, incitado do demônio, enquanto açoitavam Jesus,
havia escondido sua túnica, para que permanecesse desnudo, para maior irrisão e afronta à sua divina
Pessoa. Este mau intento do demônio, conheceu-o a Mãe do Senhor, e usando da potestade de Rainha,
mandou que Lúcifer e seus sequazes se retirassem daquele lugar, o que logo se cumpriu. Em seguida,
mandou que seus santos Anjos colocassem a túnica em lugar que seu Filho santíssimo pudesse tomá-
la, para vestir seu sagrado e lastimoso corpo. Tudo assim se executou, e mais uma vez os sacrílegos
ministros atribuíram o sucedido à feitiçaria.22

Além do papel de provocar sentimento de compaixão e conversão dos pecados, tal


linguagem serviu também para reforçar a estrutura institucional da Igreja, já que
Jesus a tinha em mente e a implantou desde o início tal qual a conhecemos hoje.
Assim, nas bodas de Caná, Jesus institui o sacramento do matrimônio e, de certa
maneira, ele e Maria inauguram o curso de noivos.

Jesus, que ordenara tudo, aceitou o convite [de ir às bodas]. Foi às bodas para santificar o matrimônio
e acreditá-lo, dando também princípio à confirmação de sua doutrina, com o milagre que sucedeu, ao
declarar-se autor dele [...]. Entrando fez logo uma exortação de vida eterna ao noivo, ensinando-lhe as
condições de seu estado, para ser perfeito e santo, nele. O mesmo fez a Rainha do céu com a noiva, a
quem com razões dulcíssimas e eficazes, advertiu quanto às suas obrigações. Depois de exortar o
noivo, nosso Salvador fez logo fervorosa oração e petição ao Pai eterno, suplicando-lhe que, na nova
lei da graça, lançasse sua bênção sobre a propagação humana, dando, desde então, virtude ao
matrimônio para santificar os que, na santa Igreja, o recebessem, e também para que fosse um de seus
sacramentos.23

Nessa linguagem não cabe nenhum diálogo ecumênico ou inter-religioso, pois


Jesus já previra exatamente como devia ser a Igreja e só ela unicamente correspondia
a sua vontade em tudo o que realizou historicamente.

6. Conclusão

Toda linguagem só se entende em determinado contexto histórico e geográfico. A


linguagem tradicional sobre Jesus cumpriu papel durante o tempo em que as pessoas
necessitavam da segurança e da certeza absoluta da fé. A cultura do Ocidente se
forjava em torno do Cristianismo. E este, naturalmente, só se entende a partir de
Cristo. E Cristo significa o Jesus vitorioso sobre a fragilidade humana. Daí a
importância de acentuar o lado divino de Cristo.
Mais urgente se fez tal necessidade quando o racionalismo moderno se pôs a
desfazer a figura de Jesus, traçada pela literatura tradicional, questionando a
inspiração, os milagres, a infalibilidade do texto bíblico e recorrendo a fontes

20
históricas, arqueológicas, literárias para interpretar os textos bíblicos.
Tal postura racionalista manteve acesa a preocupação apologética de defender a
divindade de Jesus já manifestada na vida palestinense, pelos milagres, pelas palavras
e pelas práticas.
À medida, porém, que as exegeses católica e protestante aceitam várias das
críticas vindas das pesquisas científicas, essa linguagem perde relevância. Mesmo
assim, ela alimentou e alimenta ainda pregações, leituras espirituais, meditações,
retiros, especialmente das camadas simples de fiéis.
Pastoralmente importa lenta e cautelosamente ir passando para os fiéis elementos
seguros e consensuais da exegese moderna que matizam e até mesmo corrigem
exageros e equívocos da linguagem tradicional, evitando, naturalmente, produzir
choques e escandalizar as almas simples.
Ao ler as obras redigidas nessa linguagem, cabe distinguir os elementos que
permanecem verazes. Nunca uma linguagem caduca totalmente. Ela mantém
elementos válidos. Por trás de certa aparente ingenuidade e não cientificidade de
afirmações, escondem-se importantes elementos da fé em Jesus que valem até hoje.
No entanto, não tem sentido retomá-la e incuti-la atualmente sem criticidade, não
levando em conta as pesquisas científicas fundadas e geralmente aceitas pelo
consenso de teólogos e exegetas. Certos repiques conservadores e até reacionários
geram confusão e preparam crises para amanhã. O risco de repisar tal linguagem,
sobretudo no meio da geração jovem, advém de que amanhã, ao entrar em contato
com os dados da ciência, ela lance fora a água suja e a criança.

7. Dinâmica

1. Que elementos fundamentais caracterizam a linguagem tradicional sobre Jesus?


2. Em que ela alimentou e alimenta a sua experiência pessoal de Jesus e em que
pontos ela falseia a figura de Jesus em sua vida?
3. Pastoralmente, como proceder nas pregações e retiros em face de tal
linguagem?

8. Bibliografia

ÁGREDA, Maria de Jesus. Mística cidade de Deus. 7ª ed. Rio de Janeiro: Edições Louva-a-Deus, 2001.
LEROY, Hippolyte. Jésus-Christ. Sa vie, son Temps. 5ª ed. Paris: Beauchesne, 1910.
MESCHLER, Maurice. Méditations sur la vie de N. S. J. C. Tome II. Vie Temporelle de Jésus (suite). La Vie
publique depuis la troisième Pâque jusqu´à la Passion. Paris: P. Lethielleux, 1927.
PERROY, Henry. Récits Évangéliques: vie publique. Paris: Emmanuel Vitte, 1933.

1 LEROY, Hippolyte. Jésus-Christ. Sa vie, son Temps…, p. 16.


2 MORALDI, Luigi. Evangelhos apócrifos. São Paulo: Paulus, 1999.
3 SCHWEITZER, Albert. Geschichte der Leben-Jesu-Forschung ..., p. 49.
4 LEROY, Hippolyte. Jésus-Christ. Sa vie, son Temps…, Préface, p. VIII.
5 GEFFRÉ, Claude. Crer e interpretar..., p. 35s.
6 Posição ainda presente, naturalmente matizada, em: CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Instrução sobre a vocação eclesial do

21
teólogo. São Paulo: Paulinas, 1990.
7 MESCHLER, Maurice. Méditations sur la vie de N. S. J. C. Paris: Lethielleux, 1928, v. 2, pt. 2, p. 15s.
8 GEISLER, Norman; NIX, William. Introdução bíblica: como a Bíblia chegou até nós. São Paulo: Vida, 1997, p. 24.
9 CERRUTI, Pedro. O cristianismo em sua origem histórica e divina. Rio de Janeiro: Universidade Católica, 1963, v. 2, p. 326-327; 339-342.
10 CERRUTI, Pedro. O cristianismo em sua origem histórica e divina..., p. 371s.
11 PERROY, Henry. Récits Évangéliques: vie publique. Paris: Emmanuel Vitte, 1933, 378 p., v. 3, p. 161.
12 Sóror Maria de Jesus, mística espanhola, abadessa do convento da Imaculada Conceição de Ágreda, Espanha, nasceu em 1602 e morreu em 1665,
em Ágreda, a Velha Castela, na divisa com Aragão. Entrou no convento com a idade de 17 anos, e aos 25 anos já a fizeram abadessa com dispensa
pontifícia. Exceto por curto intervalo de 3 anos, foi superiora toda a sua vida, retirando o convento de período de decadência para esplendor material e
fervor espiritual. Morreu com fama de santidade. Foi dotada de dons extraordinários de revelações de Deus, tornando-se célebre pelo livro: Mística cidade
de Deus, história divina da Virgem, Mãe de Deus. A obra passou por inúmeras peripécias e controvérsias, até tendo sido posta no Índex. Ver: MARIA DE
ÁGREDA, in: Catholic Encyclopedia, disponível em: <www.newadvent.org/cathen/01229a.htm>, acesso em 24 jan. 2011.
13 ÁGREDA, Maria de Jesus. Mística cidade de Deus. 7ª ed. Rio de Janeiro: Edições Louva--a-Deus, 2001, p. 102s.
14 KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. Porto Alegre: Paulinas, 1957, p. 7.
15 MESCHLER, Maurice. Méditations sur la vie de N. S. J. C., tome II, Vie Temporelle de Jésus (suite). La Vie publique depuis la troisième Pâque
jusqu´à la Passion. Paris: P. Lethielleux, 1927, p. 377-383.
16 KEMPIS, Tomás de. Imitação de Cristo. Porto Alegre: Paulinas, 1957, p. 164s.
17 Ver notas da Bíblia. Tradução ecumênica. São Paulo: Loyola, 1994, no texto Fl 2,7-8, p. 2282.
18 ÁGREDA, Maria de Jesus. Mística cidade de Deus..., p. 157-158.
19 BAJI, Maria Cecília, abadessa. A vida íntima de Nosso Senhor Jesus Cristo. São Paulo: Acrópole, 1984, p. 19. A abadessa Baji, mística, nasceu em
Montefiascone, Itália, em 4 de janeiro de 1694, e morreu em 6 de janeiro de 1766, tendo sido abadessa durante 19 anos.
20 ÁGREDA, Maria de Jesus. Mística cidade de Deus..., p. 254s.
21 Ibid., p. 255.
22 Ibid., p. 256.
23 Ibid., p. 206.

22
CAPÍTULO II

LINGUAGENS NEOTRADICIONAL PÓS-MODERNA,


CARISMÁTICA E ESPÍRITA

1. Linguagem neotradicional
1.1 Introdução

A linguagem tradicional, sob certa forma rude e extrema, tende a desaparecer. Ela
manifestava uma pureza e inocência que já não há hoje facilmente. O nível de
criticidade tem avançado em todos os setores da cultura, gerando sensibilidade
diferente. A pós-modernidade tem produzido algo de original, ao mesclar elementos
arcaicos com aspectos bem avançados, gerando, portanto, o paradoxo de linguagem
neotradicional pós-moderna.
1.2 Natureza teológica de tal linguagem
Ela difere da linguagem simplesmente tradicional em que o peso da autoridade
garantia a fidelidade à tradição. Agora não. Interessa que os elementos tradicionais
venham responder à situação existencial das pessoas. O contexto crítico, que se
instalou na modernidade a partir do exercício agudo da razão científica, dos métodos
de pesquisa, aplicados aos textos bíblicos, às configurações religiosas piedosas, a
práticas espirituais, avançou grandemente. Gerou, porém, certo desgaste existencial
em muitas pessoas que começam a reagir contra. Elas julgam os resultados das
pesquisas científicas como problema dos especialistas, não lhes atribuindo
importância. Mais: tais estudos científicos lhes produzem perda de devoção e até de
fé. Então, entende-se a reação contra eles.
De fato, não raro os exegetas e outros discutem entre si e encontram resistência
por parte das pessoas envolvidas na pastoral, quer por desconhecerem tais pesquisas,
quer para defenderem o fiel simples da ameaça à sua fé. Em longa entrevista, o então
cardeal J. Ratzinger aludia a essa tarefa de responsabilidade da pastoral em face do
mal à fé do fiel comum produzido por afirmações de teólogos e exegetas.

Do meu lugar, tão incômodo (mas que, pelo menos, permite ter um quadro geral), compreendi que
certa “contestação” de alguns teólogos é marcada pela mentalidade típica da burguesia opulenta do
Ocidente. A realidade da Igreja concreta, do humilde povo de Deus, é bem diversa de como a
representam em certos laboratórios onde se destila a utopia [...] Não se esqueça que, para a Igreja, a fé
é um “bem comum”, uma riqueza de todos, a começar pelos pobres, os mais indefesos perante os
desvios. Portanto, defender a ortodoxia é, para a Igreja, obra social em favor de todos os pobres. Nesta
perspectiva, quando se está diante do erro, é preciso não esquecer que não só se devem respeitar os
direitos do teólogo individual, mas se devem também proteger os direitos da comunidade.1

A linguagem neotradicional não assume propositadamente a exegese crítica em


relação aos escritos neotestamentários para falar de Jesus. Reage negativamente em

23
face dos estudos que se desenvolveram, sobretudo, depois da conhecida
desmitologização de R. Bultmann. Rejeita que a hermenêutica moderna controle as
afirmações sobre Jesus.
Desloca fundamentalmente o acento da interpretação dos Evangelhos. Interessa
não a cientificidade do texto, mas a proximidade afetiva com o leitor, ao responder-
lhe os anseios existenciais, as angústias, a busca religiosa. Oferece-lhe consolo,
conforto. Vários dos autores dessa linguagem posicionam-se como mestres
espirituais, gurus que apresentam Jesus como o maior deles. Embarcam na onda atual
de busca de gurus, já que as pessoas se sentem desorientadas no entrecruzar-se de
tantas ofertas religiosas, de seduções publicitárias, de propagandas dos mais diversos
produtos materiais e espirituais. Nesse sentido, apresentam Jesus como o homem das
relações, e não tanto como alguém que entulhava as pessoas de conhecimento. Pela
via da confiança as atingia.

Jesus sabia que as pessoas jamais poderiam entender completamente a vida se usassem apenas o
intelecto. Ele não dizia: “Vou ensinar a vocês o que é verdade”. Ele dizia: “Eu sou a verdade”. Ele
sabia que a mais elevada forma de conhecimento decorre dos relacionamentos em que existe
confiança mútua, e não de grandes quantidades de informação. Jesus respondia às perguntas diretas
com metáforas para atrair as pessoas para um diálogo e um relacionamento com ele [...]. Aprendemos
as verdades mais profundas através dos nossos relacionamentos.2

A pós-modernidade se define pelo fim da grande narrativa, que oferecia ampla


orientação para a vida, para a cultura, e pelo surgimento de pequenas narrativas
existenciais, diversificadas para as pessoas individualizadas. E essa linguagem sobre
Jesus Cristo vai ao encontro de tal tendência. Explora aspectos psicológicos e não
faltam, às vezes, toques de fantasia científica. Entra no registro da literatura de
autoajuda.
Causou sucesso apresentar a figura de Jesus como o maior psicólogo que jamais
existiu.3 A sua pessoa e ensinamentos são submetidos então a estudos psicológicos
na sua literalidade, sem nenhum interesse realmente exegético moderno. São lidos a
partir de psicologia vulgarizada. O fato de Jesus pregar em forma de parábola
desperta reflexões psicológicas.

Jesus compreendia a forma de pensar das pessoas. Ele foi um dos maiores professores da história,
porque sabia que cada pessoa só pode compreender as coisas a partir de sua perspectiva pessoal. Por
isso ele ensinava por meio de parábolas. A parábola é uma história que nos ajuda a compreender a
rea- lidade. Podemos extrair dela as verdades que formos capazes de entender e aplicá-las em nossas
vidas. À medida que crescemos e evoluímos, podemos rever as parábolas para descobrir novos
significados que nos guiem em nossos caminhos.4

1.3 Em relação a Jesus Cristo


Mais diretamente em referência a Jesus, a curiosidade do escritor e do leitor
concentra-se em penetrar-lhe a singular personalidade. Deseja-se entrar no
funcionamento de sua inteligência e arte de pensar, nos meandros da construção dos

24
seus pensamentos.
A inteligência do carpinteiro de Nazaré era tão impressionante que ele discursava
sobre temas que só seriam abordados pela ciência dezenove séculos depois, com o
surgimento da psiquiatria e da psicologia. Ele se adiantou no tempo e discorreu sobre
a mais insidiosa das doenças psíquicas, a ansiedade.5
Cita-se para comprovar essa inteligência de Jesus, antecipadora dos avanços
psicológicos, a passagem do Sermão da Montanha em que Jesus oferece sábios
conselhos para evitar a angústia existencial.

Por isso, eu vos digo: não vivais preocupados com o que comer ou beber, quanto à vossa vida; nem
com o que vestir, quanto ao vosso corpo. Afinal, a vida não é mais que o alimento, e o corpo, mais
que a roupa? Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não colhem, nem guardam em celeiros. No
entanto, o vosso Pai celeste os alimenta. Será que vós não valeis mais do que eles? Quem de vós pode,
com sua preocupação, acrescentar um só minuto à duração de sua vida? E por que ficar tão
preocupados com a roupa? Olhai como crescem os lírios do campo. Não trabalham, nem fiam. No
entanto, eu vos digo, nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um só dentre eles.
Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje está aí e amanhã é lançada ao forno, não fará ele
muito mais por vós, gente fraca de fé? Portanto, não vivais preocupados, dizendo: “Que vamos
comer? Que vamos beber? Como nos vamos vestir?” Os pagãos é que vivem procurando todas essas
coisas. Vosso Pai que está nos céus sabe que precisais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino
de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo. Portanto, não vos
preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá sua própria preocupação! A cada dia basta
o seu mal (Mt 6,25-34).

Jesus tem reações intelectuais e emocionais surpreendentes. Vira-se para o povo e


exclama:

mas quem beber da água que eu darei, nunca mais terá sede, porque a água que eu darei se tornará
nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna (Jo 6,14).

Se alguém seguisse o tipo de vida que ele propõe, “do seu interior jorraria um
prazer inesgotável, fluiria um rio de satisfação plena, capaz de irrigar toda a sua
trajetória de vida”.6
Jesus ultrapassa os limites da investigação científica, ao colocar-se como “o
Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6), identifica-se e se propõe “como a própria
verdade essencial, como a própria essência da vida”; ele diz que “era o caminho que
conduz à fonte da verdade essencial, o caminho que atinge a própria essência da
vida”. E tratava-se da “vida eterna, infindável e inesgotável, que ele expressava
possuir”.7 Ele mostrava--se como fonte de vida pela via do amor, cuja essência está
na gratuidade e não na conquista, nem na obrigação.
Jesus não veio ficar entre nós porque “Deus amava tanto o mundo”. Ele nunca se
aproximou das pessoas transmitindo--lhes a ideia de que elas precisavam mudar para
serem dignas de amor. Ninguém precisava fazer nada para conquistar o seu amor,
pois ele amava as pessoas por serem quem eram, com todas as imperfeições que

25
pudessem ter. Jesus era poderoso porque era solidário com as pessoas.8
Enfrenta a rigidez intelectual de seu tempo pela arte da dúvida, de contar
parábolas, de fazer pergunta. Assim perturbava os pensamentos dos ouvintes.9 No
universo judaico, usava o método socrático. Haja vista o caso da indagação que os
sumos sacerdotes e os anciãos do povo fizeram a Jesus sobre a origem de sua
autoridade. Ele retrucou que responderia se eles respondessem à pergunta que lhes
iria fazer: “de onde era o batismo de João, do céu ou dos homens?”. Os interlocutores
não o fizeram, por estarem diante de difícil dilema. Se respondessem: “Do céu”, Jesus
lhes diria então: “Por que não acreditastes nele?”. Se respondessem: “Dos homens”,
ficariam com medo do povo, pois todos tinham a João em conta de profeta. Então
responderam-lhe: “Não sabemos”. Ao que Jesus retrucou: “Pois eu também não vos
digo com que autoridade faço essas coisas” (Mt 21,23-27).
Cristo possuía uma inteligência instigante capaz de provocar a inteligência de
todos os que passavam por ele. Desejava continuamente romper-lhes a ditadura do
preconceito e o cárcere intelectual.10 Expressava-se com elegância e coerência.11
Ensinava as pessoas a serem honestas consigo mesmas, como no caso de Pedro, da
samaritana.12 Tinha comportamentos incomuns. Fazia o que menos se esperava,
ultrapassando os conceitos comuns, os estereótipos, os paradigmas.13

Cristo, em alguns momentos, revelava claramente seus pensamentos, mas em seguida se ocultava nas
entrelinhas das suas reações e das suas parábolas, o que o tornava difícil de ser compreendido. Ele se
revelava e se ocultava continuamente. Por que tinha tal comportamento? Sua história nos revela que
não era somente porque não procurava o brilho social, mas porque tinha um grande propósito: queria
produzir uma revolução no interior do homem, uma revolução transformadora, difícil de ser analisada.
Queria produzir uma transformação nas entranhas do espírito e da mente humana, capaz de gerar
tolerância, humildade, justiça, solidariedade, contemplação do belo, cooperação mútua, consideração
pela angústia do outro.14

Jesus cura, consola, mostra proximidade existencial. Merece relevo o olhar de


Cristo para Pedro depois da negação.

Lucas era médico e, como tal, aprendeu a investigar os fatos detalhadamente. Ele tinha um “olho
clínico” acurado, devia detectar fatos que ninguém observava ou dava importância. Quando, muitos
anos após a morte de Cristo, interrogou Pedro e colheu os detalhes daquela cena, captou um gesto de
Cristo que passou despercebido pelos outros autores dos evangelhos. Captou que Cristo, mesmo sendo
espancado e injuriado, ainda assim esqueceu-se da sua própria dor e se preocupou com Pedro. Pedro
comentou com Lucas que no instante em que ele o negava pela terceira vez, Cristo virou-se para ele e
o fitou profundamente.
O olhar de Cristo esconde nas entrelinhas complexos fenômenos intelectuais e uma delicadeza
emocional. Mesmo no extremo da sua dor ele se preocupava com a angústia dos outros, sendo capaz
de romper o instinto de preservação da vida e acolher as pessoas, ainda que fosse com um olhar[...]15

Admiramos a capacidade de Jesus de pensar na dor do outro, quando ele mesmo

26
se encontrava imerso em profunda dor, como aconteceu no caso do encontro com as
mulheres na subida para o calvário: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, mas
chorai por vós mesmas e por vossos filhos (Lc 23,28)”. Pede que não se preocupem
com ele, mas consigo mesmas.16
Jesus, na Paixão, excele como maravilhoso mestre de humanidade. A. Cury dedica
todo um livro para desentranhar-lhe as qualidades humanas extraordinárias.17
Salienta o nível de controle das emoções, a doçura em face dos algozes, a serenidade
diante dos sofrimentos.

À exceção da profunda angústia que o mestre dos mestres teve no jardim do Getsêmani, gerada
porque ele reproduziu o cálice da cruz no palco de sua mente e se preparou para tomá-lo, nada o
abalava. O mestre de Nazaré gerenciava sua inteligência nas mais turbulentas situações, navegava nas
águas mais agitadas da emoção. Sabia se refazer rapidamente, mesmo profundamente frustrado [...].
[Jesus] conseguia perceber os sentimentos das pessoas, mesmo nas situações turbulentas. Conseguia
pensar no bem-estar delas, mesmo sabendo que estava para morrer lentamente nas mãos dos seus
inimigos. Se tivéssemos um pouco de sua estrutura emocional, as relações humanas deixariam de ser
um deserto para ser um jardim [...] O mestre do perdão foi tratado sem nenhuma tolerância. Nunca
alguém que se preocupou tanto com a dor humana foi tratado de maneira tão impiedosa. Dessa
história de dor vivida pelo mestre da vida poderemos extrair profundas lições para reescrever alguns
capítulos fundamentais de nossa própria história.18

Séculos antes de D. Goleman,19 Jesus educava os discípulos para serem livres em


face das turbulências emocionais, não se prendendo a elas. Várias vezes repetiu: “Não
temais!” porque “bem mais valeis vós do que muitos pardais” (Mt 10,31). Noutro
momento, exclama a mesma recomendação de não ter medo, porque era ele que lhes
vinha ao encontro andando sobre as águas (Mt 14,27). Na Transfiguração, desperta os
apóstolos, caídos de bruços, com a mesma admoestação: “Erguei-vos e não temais!”
(Mt 17,7). Às mulheres junto ao túmulo, Jesus ressuscitado simplesmente diz: “Não
temais! Ide avisar a meus irmãos que se dirijam à Galileia e lá me verão” (Mt 28,10).
Queria que seus discípulos fossem livres. Livres no território em que todo ser
humano facilmente se aprisiona, seja um psiquiatra, seja um paciente, livres no
território da emoção.20 A pretensão de Jesus ia além de simples ajuda ao ser humano.

O mestre da vida [Jesus] queria atingir um alvo que os tranquilizantes e os antidepressivos mais
modernos não conseguem atingir.
Ele não veio reformar o homem, dar um manual de conduta ou produzir uma paz temporária. Ele veio
produzir um novo ser humano. Nunca alguém teve uma ambição tão grande. Jamais alguém apostou
tanto em nós.21

Jesus conjugava a dimensão extremamente humana com extraordinário poder.


Sabia articular bem o silêncio e a palavra, estimulando os incultos discípulos à
reflexão, ao pensar e, mais tarde, a serem mensageiros de sua doutrina.22 Provocava
reações contraditórias, gerando tanto frustração como exultação. Primeiro, porque

27
não se mostrou como nenhum super-herói; segundo, por nunca alguém ter feito o que
ele fez e ter dito o que ele falou.23 O lado humano, a doçura do olhar, a singeleza
escondiam-se na pele de um carpinteiro, de um lado, e, de outro, estavam destinados
a mudar o rumo da humanidade. Jesus encantava por tal paradoxo.24 Numa palavra,
em Jesus o poder vestiu-se de doçura:25 olhar penetrante e inconfundível. “Seu olhar
transformou os anos de deserto de João num oásis.”26
Essa linguagem delicia-se em esboçar o quadro humano de Jesus de maneira
atraente, de modo que quem não o acolhe se sente rude e pouco humano. Vejam este
exemplo:

Jesus de Nazaré entendia de madeiras e pregos. Não parecia ter sabedoria para envolver as pessoas.
Mas quando abriu a sua boca, todos ficaram perplexos. João, um brilhante orador, ficou pequeno
diante da profundidade de sua eloquência. Ele foi um dos maiores oradores de todos os tempos. A
coragem e a gentileza entrelaçavam na sua oratória. Raramente alguém foi tão sensível e destemido na
terra da censura. Falar contra o sistema político e o sinédrio judaico gerava tantas consequências
quanto falar de Saddam ou Stalin na época em que estavam no poder. Sua inteligência era
assombrosa. Ele falava com os olhos e com as palavras. Suas aulas encantavam. Ninguém resistia ao
fascínio dos seus discursos. Ele encantava prostitutas e intelectuais, moribundos e abatidos. Suas
palavras incomodavam tanto que geravam ódio por parte dos fariseus. Depois que o mestre dos
mestres apareceu, os intelectuais da época desapareceram de cena.27

Vivemos numa cultura fortemente batida pelo desejo mágico. Essa literatura
explora então o lado milagroso de Jesus, que consegue antecipar o pensamento e
desejo das pessoas a modo de grande mago. Em mundo funcionalizado, tecnicizado,
ocupado em tarefas, sem tempo, a figura de Jesus seduz pela capacidade de acolhida,
de escuta. Ele valoriza a liberdade em face das regras de comportamento, do
moralismo. Mostra coragem de falar da necessidade de o homem ter prazer,
satisfação no seu mais pleno sentido, um êxtase emocional, que poderia resolver-lhe a
angústia existencial, como uma água que flui de seu interior.28

O teólogo Juan Luis Segundo alertava que, em condições extremas de luta pela sobrevivência, resta
pouca energia para empreender projetos libertadores. Quando as pessoas estão em pedaços, as forças
libertadoras são canalizadas mais em processos terapêuticos, de cura interior, do que em movimentos
de transformação social.29

O lado revolucionário de Jesus afeta o interior do homem. A mudança se inicia no


espírito humano, se expande por toda a psique, renovando a mente, expandindo a
inteligência, transformando a maneira de o ser humano compreender a si mesmo e ao
mundo. Garante-lhe mudança psíquica e social estável.30 A figura de Jesus se veste
da roupagem dos conhecimentos psicológicos que hoje temos, como se ele
antecipasse a psicologia moderna.
Essa linguagem se mostra altamente criativa. Toma pequeno pormenor do
Evangelho e tece ampla consideração fantasiosa. Os sinóticos nos narram a vocação

28
dos irmãos Pedro e André, Tiago e João. Noutro momento, a mãe de Tiago e João
pede a Jesus que eles ocupem um lugar à direita e à esquerda dele. A partir daí, A.
Cury cria belo discurso sobre essa mulher.

Zebedeu (o pai dos discípulos) era um judeu próspero. Mas, ao que tudo indica, a base da educação
deles (João e Tiago) vinha de sua mãe. Era uma mulher de fibra, daquelas que colocam combustível
nas ambições legítimas desta vida. Era uma judia fascinante que honrava a tradição que permanece
viva até hoje: “um homem só é judeu se sua mãe for judia”. A força de uma mãe é imbatível. Com
uma mão ela afaga o rosto dos seus filhos, com a outra dirige seus corações e move o mundo.31

Semelhante à linguagem tradicional, essa linguagem explora a subjetividade de


Jesus para criar ambiente afetivo propício a fim de tocar as pessoas. Nos retiros, nas
celebrações, nos encontros de oração, visa-se levar os participantes à relação pessoal
com Jesus. Não interessa a objetividade histórica da vida de Jesus, mas o impacto que
a reflexão causa no leitor ou ouvinte.
Toca-se, às vezes, a raia da magia, buscando frases literais de Jesus para resolver
algum problema afetivo, angustioso do fiel. Projetam-se sobre o texto bíblico os
próprios problemas subjetivos. A vida de Jesus traz-nos solução para situações
existenciais que estamos vivendo.

Ao analisar a história de Cristo, fica visível que os invernos existenciais pelos quais ele passava não o
destruíam, pelo contrário, geravam nele uma bela primavera existencial, expressa por sua sabedoria,
amabilidade, tranquilidade, tolerância, capacidade de compreender e superar os conflitos humanos.32

A leitura tradicional usava categorias da religiosidade popular para interpretar a


Jesus. Aqui se recorre, sobretudo, às categorias atuais da psicologia. Com elas se
entende o impacto que Jesus causava sobre os discípulos.

A memória sofre um registro automático por meio do fenômeno RAM (registro automático da
memória) [...] O registro é mais privilegiado quando as experiências contêm mais emoção, mais
tensão, seja ela positiva ou negativa. Cristo utilizava com destreza o fenômeno RAM. Seus gestos
marcaram para sempre a memória dos discípulos e atravessaram gerações. Ele usava a arte de pensar
com uma habilidade incrível. Preferia utilizar gestos surpreendentes para educar, transformar, ampliar
a visão dos seus discípulos. Seus gestos produziam impactos inesquecíveis na memória dos seus
íntimos e eram mais eficientes que milhares de palavras.33

A personalidade de Jesus o faz a pessoa mais famosa da terra, embora a mais


desconhecida. A ciência falhou em não estudá-lo. Aliás, ela se mostra pequena
demais para tal estudo. A. Cury dedicou uma série de livros para tal. Elenca vários
elementos que ele aprendeu de Jesus em seus estudos: a arte de pensar, pensar antes
de reagir, expor e não impor as ideias, entender que cada ser humano é único, navegar
nas águas da emoção, não ter medo da dor, procurar sentido profundo para a vida,
perceber os segredos da felicidade escondidos nas coisas simples, viver como
experiência única e belíssima, mas brevíssima, aprender das próprias limitações,
aproveitar cada oportunidade para crescer, saber que a vida sem amor é vazia e que o

29
amor acalma, tranquiliza, motiva, vence os obstáculos e torna a vida aventura
agradável. Por tudo isso, Jesus se tornou para ele mestre inesquecível.34
À medida que os meios de comunicação social avançam, cresce a importância do
jornalismo, tanto escrito como oral. Assim, a linguagem pós-moderna lança mão de
tal recurso.

Este livro pretende ser, antes de mais nada, um ensaio jornalístico que explique ao grande público
algumas das hipóteses – das mais sérias às mais extravagantes – sobre o judeu da Palestina, Jesus de
Nazaré, para alguns o Messias anunciado a Israel pelos profetas, para outros o Filho de Deus, para
outros, ainda, apenas um agitador ou até um impostor, não faltando quem duvide de sua própria
existência. Procurei recordar o que dele se sabe historicamente e também o que dele se ignora, que é
muito mais.35

2. Linguagem carismática

Cresce o interesse por linguagem e fala carismática. Esclareçamos o conceito de


carisma para entender de que linguagem se trata. Há dois sentidos importantes para o
termo “carismático”, enquanto linguagem sobre Jesus. Um responde ao sentido
profundo e primigênio de carisma. Outro se refere ao clima atual.
Carisma tem longa tradição na teologia cristã. O termo grego carisma vem de
charis, graça. Portanto, remete-nos ao mundo da gratuidade, da liberdade, da
espontaneidade, em oposição ao do dever, da obrigação, da lei, da norma.
Quando falamos que alguém tem carisma no mundo religioso, pensamos na força
divina que lhe é concedida para realizar alguma missão. Portanto, carisma implica
duas dimensões inseparáveis: dom pessoal e finalidade social. São Paulo reforça--lhe
a dimensão de serviço à comunidade.

Destarte, todos nós temos dons diferentes segundo a graça que nos foi dada, seja a profecia, segundo a
proporção da fé, seja o ministério para servir. Se for o dom de ensinar, que ensine, se for o dom de
exortar, que exorte. Se o de distribuir esmolas, faça-o com simplicidade. Se o de presidir, presida com
zelo. Se o de exercer misericórdia, que o faça com afabilidade (Rm 16,6-8).

E ainda mais claramente, Paulo insiste na diversidade dos carismas, mas na única
finalidade social.

Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o


mesmo. Há diferentes atividades, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. A cada um é dada a
manifestação do Espírito, em vista do bem de todos (1Cor 12,4-7).

No contraponto do carisma, brota sutil suspeita com respeito à instituição, à


norma, à regra, à disciplina. Assim, quando nos referimos a um político como
carismático, tomamos distância diante do político tradicional, comum, profissional,
sem qualidade especial. Em resumo, encontramo-nos em face de força renovadora, de
algo extraordinário, entusiástico, extático, em contraste com o comum, normal,

30
rotineiro.
Se descemos ao nível psicológico, o carismático busca autenticidade consigo
mesmo, com algo interior nele que fala mais alto em vez de submeter-se aos rituais da
sociedade ou da organização. E sociologicamente toma distância da instituição.
Nesse sentido, a linguagem carismática sobre Jesus busca captar-lhe a
originalidade em confronto com a religião judaica, com os grupos sociais e políticos
de sua época. Jesus não se enquadrava no ritualismo judaico fariseu, nem cabia
dentro dos saduceus e sacerdotes, nem se inscreveu no grupo espiritualista essênio,
nem se vestiu do espírito combativo zelota. Tinha um pouco de todos, mas não se
prendia a nenhum deles. Eis o seu verdadeiro carisma, originalidade, singularidade.
Essa linguagem carismática sobre Jesus se desenvolverá, sobretudo pela teologia
da libertação, pelos estudos exegéticos históricos, pela linguagem profética.

Caráter carismático do seguimento de Jesus

O seguimento ao qual Jesus chamou tinha um caráter inteiramente carismático. Sim, carismático, no
sentido de que não estava rigidamente estruturado nem tinha um planejamento exageradamente
“estratégico”. A abertura aos outros era também uma abertura às moções do Espírito e àquilo que cada
ocasião exigia. Os primeiros discípulos deixaram tudo para seguir Jesus; mas outros continuaram
desempenhando suas tarefas e trabalhos costumeiros, dispostos a oferecer sustento a quem vivia
literalmente o seguimento de Jesus. A crítica de Jesus aos fariseus era, sobretudo, sobre sua maneira
de agir que estava atada em primeiro lugar às normas e só depois se preocupava pelos necessitados. A
missão exigia estar dispostos tanto a permanecer quanto a sair, dependendo da maneira como era
acolhida a mensagem e o chamado. Essa crítica aos fariseus pode ser bem a crítica a nossa época e a
nossa maneira de viver: preocupados por nós mesmos antes que pelos que estão em situação de perigo
de morte. Essa pode ser a crítica às sociedades contemporâneas opulentas ou às sociedades onde
convivem ao mesmo tempo ricos e pobres, sempre achando justificativas formais e legais para não
agir e terminar justificando uma demora a responder ao chamado de seguimento. Devemos ser
conscientes e reconhecer que agora tudo pode ser pretexto para não seguir aquele que nos chama sem
cessar de tantas maneiras.36

Há outra linguagem carismática, que explicitaremos. Ela responde ao clima


carismático dominante na cultura pós-moderna e com incidência crescente em várias
Igrejas.
Mantém do sentido primigênio a conotação da espontaneidade, da liberdade, da
independência e da autonomia em face da instituição, do jurídico, do normativo.
No entanto, não aprofunda a origem carismática de Jesus, mas procura acomodá-
lo ao clima atual. Não se lhe debruça sobre o lado profético, mas sobre as exigências
carismáticas e reativas do momento cultural presente, fortemente materialista,
hedonista, produtivista. Quando ela se aproxima de Jesus, dá-
-lhe toque especial. Privilegia o Espírito Santo à figura de Jesus ou o Espírito Santo
agindo na pessoa de Jesus. A historicidade de Jesus cede lugar ao instante, vivido
como experiência do Espírito. Mesmo quando se toma o texto na literalidade das
palavras, não se lhe atribui o sentido imediato, mas aquele que se percebe na leitura.

31
E tal intelecção se atribui ao Espírito Santo. Eis um breve comentário de Jo 14,12-14:

Esta é a vontade de Jesus: que façamos Suas obras. Porque nós mesmos não somos capazes de fazê-
las. Mas aí está o segredo: pelo Espírito Santo que mora em você, você pode fazer as obras de Jesus.
Ele colocou Sua humanidade a serviço do Espírito Santo, ensinando-nos com Seu exemplo como
devemos fazer. Jesus se deixava guiar pelo Espírito Santo em tudo e por tudo. Ele era Filho de Deus,
era Deus com o Pai e o Espírito Santo; mas, por vontade do Pai, Ele era obediente e não fazia nada
por Si mesmo, mas tudo movido pelo Espírito. Jesus poderia falar por Si só. Mas não: falava aquilo
que o Espírito O movia a falar. Por essa razão, Ele falava com poder, com autoridade. Sua palavra era
eficaz e realizava o que dizia.37

O carismático primigênio visava ao social, à construção da comunidade, ao


serviço. Aqui, pelo contrário, ele encerra certa centração no sujeito. Constrói-se uma
figura de Jesus que nos satisfaça, console, nos cause prazer. Privilegia-se o Jesus
amigo em vez daquele que nos chama ao seguimento, a conviver com ele na pobreza
e no caminho para a cruz. Na linguagem neopentecostal, que veremos mais à frente,
com frequência o Jesus-amigo dá lugar ao Jesus-empresário, empreendedor, líder,
pessoa bem-sucedida. Ambas as figuras se distanciam do Jesus de Nazaré, que chama
os discípulos para segui-lo na vida de andarilho.
Liberta-lhe a imagem do lado pesado, duro, exigente, para fazer dele o “doce Jesus
de Nazaré”, que nos enxuga as lágrimas, que nos cura. Situamo-nos diante dele, como
os enfermos em seu tempo, à espera de toque milagroso. Com efeito, o milagre, os
dons do Espírito ocupam o lugar das exigências do seguimento.
Inverte o olhar sobre a pessoa de Jesus. Em vez de ver nele alguém que com sua
vida nos interpela, projetamos sobre ele os desejos, os anseios e as angústias. Ele se
torna antes um espelho, no qual nos vemos na nossa realidade presente à espera de
alívio a um apelo para segui-lo no realismo duro de sua existência. Soa nessa
linguagem algo da clássica acusação de L. Feuerbach ao discurso sobre Deus, a saber,
a projeção das carências radicais do ser humano.

Jesus é a luz da vida. Você precisa dessa luz. Por isso diga: Jesus, penetra em meu interior. Sei
quantas dificuldades existem em mim para que Tua luz penetre. Sei quantas resistências existem em
mim. Mas neste dia estou dizendo que quero que entres, que me ilumines. Quero que penetres todas as
áreas do meu ser. Não quero que nada fique escondido. [...] Preciso de toda cura, Jesus. Tu sabes
quantas coisas amarradas, quantas coisas presas existem em mim. Jesus, Tu és Libertador! Tu és
Salvação! Quebra todas as amarras. Rompe todas as portas, todas as muralhas que me prendem.
Desvencilha-me, Jesus, de todas as cadeias. Tu és Luz. Tu és Perdão. Tu és Salvação. Tu és
libertação. Jesus, quero conhecer a verdade porque a verdade me libertará. Amém.38

Interessa a tal linguagem valorizar as experiências espirituais, pessoais e grupais.


O aspecto doutrinal entra de viés. Há tensão entre a liberdade carismática e certo
toque doutrinal, de respeito e obediência às autoridades eclesiásticas. No entanto,
nem sempre se seguem as normas traçadas por elas, postando- -se antes do lado
afetivo. Oscila-se entre um moralismo religioso e um espiritualismo emocional. A
força, porém, se põe no braço do carisma.

32
A linguagem carismática pós-moderna acontece na sociedade moderna que
avançou muito no campo da ciência e da tecnologia. Nisso, distancia-se grandemente
do discurso tradicional. No entanto, facilmente se entrega à visão meio mágica de
Jesus. Interpretam-lhe os milagres como ações praticadas por ele em nome do poder
divino, longe de qualquer exegese moderna. Por isso, facilmente se cria a imagem de
um Jesus que está a operar milagres, curas físicas e espirituais até o dia de hoje. Pede-
se-lhe, continuamente e sem receio, a intervenção miraculosa para situações concretas
do momento.

Todos precisam estar cheios do Espírito Santo. Jesus o convida a ser instrumento do Espírito. Os pais
precisam do Espírito Santo para educar os filhos. Você precisa do Espírito Santo para agir com as
pessoas com que vive, com quem trabalha. Marido e mulher precisam ser cheios do Espírito Santo
para se tratarem como cristãos. As coisas extraordinárias virão depois. Também o poder dos milagres
vai acontecer. Mas até nas coisas normais do dia a dia você precisa ser uma pessoa cheia do Espírito
Santo.39

Em contraste com a cultura científica, usa-se linguagem fortemente mítica. Cria-se


clara dicotomia. No mundo secular, vive-se a episteme científica. No universo
religioso, recua-se ao mito. Ambos convivem sem que se choquem, como se na
atualidade só nos interessássemos pelo que existe, remetendo ao anacronismo
filosófico o mundo das essências.
A linguagem carismática retira Jesus da história. Faz dele um ser poderoso, ontem
e hoje. Ontem, pelo que ele operou pelos milagres e, sobretudo, pela ressurreição.
Hoje, por intervenções tópicas sem relação com o passado nem sem exigência alguma
de compromisso com o futuro.
Sob certo aspecto, a dimensão ética se esvazia. O máximo que a ação poderosa de
Jesus produz de exigência resume-se à obrigação de mandar celebrar uma missa por
graça alcançada. Com efeito, nas intenções pedidas para as celebrações comunitárias,
nunca falta o agradecimento “por graça alcançada”. Se aprofundamos tal costume,
deparamos com o imaginário religioso de um Jesus disponível para atender-nos os
pedidos. Existem várias afirmações do Evangelho para secundar tal concepção. “Pedi
e vos será dado! Procurai e encontrareis! Batei e a porta vos será aberta! Pois todo
aquele que pede recebe, quem procura encontra, e a quem bate, a porta será aberta”
(Mt 7,7-8). “Tudo o que, na oração, pedirdes com fé, vós o recebereis” (Mt 21,22). A
linguagem carismática explora altamente tal veio. E se não se alcança realmente o
que se pediu, a culpa se deve à falta de fé de quem pediu.

Deixe-se tomar por Jesus, o Bom Pastor. Deixe que Ele o tome em Seus braços e o carregue
carinhosamente junto a Seu peito e o leve de volta para Sua casa. Na hora em que você deixar Jesus
fazer isso, já começará a ser uma nova criatura. “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura”. Na
hora em que Jesus pegar você nos braços, ou melhor, quando você permitir que Ele o pegue nos
braços, você já começará a ser uma nova criatura. Ele vai começar então a gerar em você o Homem
Novo: a criatura nova que você precisa ser.40

33
As palavras de João vêm ainda reforçar mais a ideia de que por Jesus tudo
alcançamos de Deus Pai. “Assim, tudo o que pedirdes ao Pai, em meu nome, ele vos
dará” (Jo 15,16). Jesus glorifica o Pai que realiza tudo o que pedirmos em nome dele.
“E o que pedirdes em meu nome, eu o farei, a fim de que o Pai seja glorificado no
Filho. Se pedirdes algo em meu nome, eu o farei” (Jo 14,13-14). A linguagem
carismática alimenta-se muito dessas passagens interpretadas ao pé da letra.
Associam-se então facilmente ditos de Jesus à possibilidade do milagre hoje.
Assim, em uma homilia, em contexto de cura, um pregador repisou a frase de Jesus
quando soube da doença de Lázaro. “Esta doença não leva à morte, mas é para a
glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” (Jo 11,4). E com
ela criou o clima da cura, interpretando a doença de pessoas presentes como um sinal
para confiar em Deus. Pois a doença não leva à morte, mas servirá para a glória de
Deus. E o pregador lançou para a imensa multidão o desafio: “Há uma senhora com
câncer nos órgãos femininos. Ela está curada”. E então uma senhora se apresenta.
Segue-se cena comovente. Aí está confirmada a frase do Evangelho de João. A
história continuou, infelizmente. A senhora voltou aparentemente curada. Depois o
câncer teve violento repique, e ela morreu. E as filhas, em dado momento, ficaram
chocadas com tal “teatro”.

Os milagres de Jesus eram feitos pela ação do Espírito Santo. Muitas vezes Ele demonstrou isso. Jesus
curou cegos, leprosos, aleijados, a mulher com fluxo de sangue, curou o servo do Centurião a
distância, expulsou demônios. Jesus fez tudo isso por obra do Espírito Santo. Ele era o Filho de Deus,
mas por vontade do Pai Ele não fazia nada por Si mesmo, fazia tudo movido pelo Espírito [...]. Você,
por isso mesmo, não poderá fazer tais obras, mas o Pai quer que você seja o continuador de Jesus [...].
Mas isso só vai acontecer se você estiver cheio do Espírito Santo e se se deixar ser movido por ele
[...]. Quando agimos assim, prodígios começam a acontecer: as pessoas são curadas, libertas,
convertidas, transformadas; deixam os vícios, a vida errada [...]. Você pode atingir seus irmãos com
cura física, do corpo; ou com cura da alma, das decepções, dos ressentimentos, das marcas do
passado, dos medos, das inseguranças... O Pai quer que você leve toda essa cura a seus irmãos; que
leve a libertação de Jesus, que seja o comunicador do Espírito Santo para eles. [...] Basta você se
deixar mover pelo Espírito Santo.41

Outra prática comum suscitada por essa linguagem consiste em considerar as


frases de Jesus como manancial de conselhos e indicações que respondem às mais
diversas situações humanas. Ao mesmo tempo, porém, atribui-se ao Espírito Santo a
função de pôr o leitor em contato com o dito de Jesus. Assim, abre-se a esmo o
Evangelho e lê-se a primeira frase que caia sob os olhos, recebendo-a como
mensagem especial de Jesus sob a ação do Espírito Santo. Subjaz a tal prática certo
toque mágico que se manifesta na compreensão do agir do Espírito Santo de maneira
quase mecânica, prescindindo da liberdade das pessoas.
Destarte, modifica-se o sentido tradicional da prática de fé. Em vez de colocá-la
como rocha inquebrantável de apoio para os momentos de alegria e de tristeza, de
prazer e de dor, de saúde e de doença, pela acolhida na fé da Palavra revelada, tal
linguagem desloca-a para momentos pontuais de prazer, de experiência subjetivista,

34
de emoção, de satisfação interna.

3. Linguagem espírita

À guisa de breve excurso, aludimos, nesse contexto interpretativo à margem das


regras atuais da exegese, à leitura espírita de Jesus. No Brasil, a tradição espírita
adquire especial relevância por várias razões. Subjaz à cultura brasileira clara camada
espírita, tanto por influência das tradições afro-ameríndias como pela literatura e
mídia espírita. Além disso, existe a forma explícita daqueles que praticam o
espiritualismo sob alegação de dado científico ou sob a ótica religiosa, especialmente
nos centros espíritas.
A imagem de Jesus, que essa literatura projeta, aproxima-
-se da de um Mestre sábio que revela para nós a comunhão entre céu e terra. Vê-se
nele alguém que gera harmonia, mantém relações e manifestações admiráveis. Ele
nos ilumina nessa terra.

Mas o papel de Jesus não foi simplesmente de um legislador moralista, sem outra autoridade que a sua
palavra. Ele veio cumprir as profecias que haviam anunciado o seu advento. Sua autoridade decorria
da natureza excepcional do seu Espírito e da natureza divina da sua missão.42

Salienta-se a importância das máximas morais de Jesus. Pois ele veio ensinar-nos
a Lei de Deus, cumpri-la, desenvolvê-la e dar-lhe o verdadeiro sentido e apropriá-la
ao grau de adiantamento dos homens.43 Nela encontramos o princípio dos deveres
para com Deus e para com o próximo.
Ensinou a verdadeira vida do Reino dos Céus e o caminho que conduz até lá.
Indicou os meios para reconciliar as pessoas com Deus, advertindo-as sobre a marcha
das coisas futuras, para o cumprimento dos destinos humanos.44
Ele sabia que não estávamos maduros para entender tudo o que ele ensinava. O
amadurecimento do espírito humano carecia do avanço das ciências. O Espiritismo é
a nova ciência que revela a existência e a natureza do mundo espiritual e suas
relações com o mundo material.45
Moisés personificou a Lei do Antigo Testamento, Jesus a do Novo Testamento e o
Espiritismo traz a terceira revelação da lei de Deus.46 Não está personificado em
ninguém, porque surge do produto do ensinamento dado não por um homem, mas
pelos Espíritos, vozes do céu, em todas as partes da terra e por inúmera multidão de
intermediários. Trata-se de um ser coletivo, conjunto dos seres do mundo espiritual,
cada qual trazendo aos homens o tributo e a sorte que nele os espera.

[O Espiritismo] nada ensina contrário ao ensinamento do Cristo, mas o desenvolve, completa e


explica, em termos claros para todos, o que foi dito sob forma alegórica. Ele vem cumprir, na época
predita, o que o Cristo anunciou, e preparar o cumprimento das coisas futuras. Ele é, portanto, obra do
Cristo, que o preside, assim como preside ao que igualmente anunciou: a regeneração que se opera e

35
que prepara o Reino de Deus sobre a terra.47

A linguagem espírita sobre Jesus valoriza-lhe, sobretudo, os ensinamentos e os


exemplos e menos a sua pessoa e o significado salvífico de sua obra. Pois a salvação
consiste em seguir o que ele ensinou e espelhar-se em seu exemplo de extrema
caridade.
Ela acentua máxime a dimensão da prática da caridade. Por essa razão, frisa
especialmente o que Jesus fez nesse sentido. Ensina que temos a ocasião de prolongar
as práticas da caridade em outra vida, pela via da reencarnação, já que não
conseguimos fazê-lo numa só vida. Abre, assim, maior espaço para a salvação de
mais pessoas, se tivéssemos uma só vida. Mais: a salvação é universal, não só no
anúncio, mas na realização concreta. Articula então a reencarnação com os
ensinamentos de salvação universal, pregada por Jesus. A teoria
antirreencarnacionista rejeita o progresso.

Quanto ao futuro, segundo os dogmas fundamentais que decorrem do princípio antirreencarnacionista,


a sorte das almas está irrevogavelmente fixada após uma única existência. Essa fixação definitiva da
sorte implica a negação de todo o progresso, pois se há algum progresso, não pode haver fixação
definitiva da sorte. [...] Com a reencarnação, e o progresso que lhe é consequente, todos os que se
amam se encontram na terra e no espaço, e juntos gravitam para Deus. Se há os que fracassam no
caminho, retardam o seu adiantamento e a sua felicidade. Mas nem por isso as esperanças estão
perdidas.48

A teoria da reencarnação ou da pluralidade das existências está no centro da


doutrina espírita, e a pessoa, a vida e o ensinamento de Jesus se entendem nessa
perspectiva. A reencarnação significa a volta da alma à vida corpórea, em outro
corpo, especialmente formado para ela, mas que não tem nada de comum com o
antigo. Os amigos de Allan Kardec resumiram numa frase o núcleo de sua doutrina e
gravaram no seu monumental túmulo em Paris: “Nascer, morrer, renascer ainda e
progredir sem cessar: tal é a lei”.49 A reencarnação brota da exigência da justiça de
Deus.

Se o homem só tivesse uma existência, e se após essa a sua sorte fosse fixada para a eternidade, qual
seria o merecimento da metade da espécie humana, que morre em tenra idade, para gozar sem esforço
da felicidade eterna? E com que direito seria ela libertada das condições, quase sempre duras,
impostas à outra metade? Uma tal ordem de coisas não poderia estar de acordo com a justiça de Deus.
Pela reencarnação faz-se a igualdade para todos: o futuro pertence a todos, sem exceção e sem
favoritismo, e os que chegarem por último só poderão queixar-se de si mesmos. O homem deve ter o
mérito das suas ações, como tem a sua responsabilidade.50

Jesus apresenta-se como Guia, como Mestre. Insiste na afirmação de Mateus:


“Não deixeis que vos chamem de ‘guia’, pois um só é o vosso Guia, o Cristo” (Mt
23,10) e sobretudo de João: “Vós me chamais de Mestre e Senhor; e dizeis bem,
porque sou” (Jo 13,13). E a partir de outras afirmações de Jesus que parecem rejeitar

36
ser Deus, ao afirmar que o Pai é maior do que ele (Jo 14,28) e outras semelhantes (Jo
5,19.30), a linguagem espírita o faz também. O fato de Jesus se nomear “filho do
homem” está a indicar-lhe a natureza humana. E o título de Filho de Deus não indica
mais do que todos somos, pois ele mesmo nos ensinou a chamar a Deus de Pai, como
o fez no Sermão da Montanha (Mt 5,16.45.48 et plurimi) e na oração do Pai-Nosso
(Lc 11,2-4).
Jesus é o tipo mais perfeito que Deus nos deu como modelo, segundo Allan
Kardec. A insistência dessa linguagem se volta para imitar Jesus no amor a Deus e ao
próximo. No Evangelho, interessa descobrir o que Jesus fez de bem às pessoas, tanto
pelos ensinamentos como pelos gestos. Estes indicavam por onde andava seu
pensamento.

O Cristo vos disse: “Querer para os outros o que quereis para vós mesmos”. Deus pôs no coração do
homem a regra de toda a verdadeira justiça, pelo desejo que tem cada um de ver os seus direitos
respeitados. Na incerteza do que deve fazer para o semelhante, em dada circunstância, que o homem
pergunte a si mesmo como desejaria que agissem com ele. Deus não lhe poderia dar um guia mais
seguro que a sua própria consciência.51

A relação entre Jesus e João tem importância. Assim, ao ser batizado por ele,
Jesus mostrou afinidade com esse profeta da condenação e salvação de Israel em
momento muito difícil da vida do povo. As suas ameaças visavam à conversão do
povo, incitando-o à caridade. João propõe coisas bem concretas: dar uma túnica se
tiver duas, dar de comer a quem tiver comida, não cobrar nada mais do que o
estabelecido, não maltratar ninguém, nem extorquir dinheiro, nem denunciar
falsamente, e sim contentar-se com o justo salário (Lc 3,3.10-14). Essa moral social
de João atraiu Jesus e serve de modelo para nós hoje. Aí estava uma orientação básica
do pensamento de Jesus.52
Jesus anuncia um Reino que não é deste mundo. Na terra, ele é rei, não pelo
exercício do poder de realeza terrena, mas por mérito pessoal, por qualidade genial,
reconhecida por consenso unânime.53

A realeza terrena acaba com a vida, mas a realeza moral continua a imperar, sobretudo, depois da
morte. Sob esse aspecto, Jesus não é um rei muito mais poderoso que muitos potentados? Foi com
razão, portanto, que ele disse a Pilatos: “Eu sou rei, mas meu reino não é deste mundo”.54

Outra direção do pensamento e das intenções de Jesus consistia em procurar,


ajudar e servir às ovelhas perdidas do Pai. Ele nos dá exemplo de perdoar, de amar os
inimigos, de fazer o bem aos que nos odeiam, que nos fazem o mal. Aí aparece que a
essência da perfeição consiste na caridade, na sua mais ampla acepção. Implica a
prática de todas as outras virtudes.55 O Espiritismo confirma os ensinamentos de
Jesus. Assim, os grandes no mundo dos Espíritos são precisamente aqueles que Jesus
disse serem os pobres, os menores, a criança, os humildes, os simples. A estes Deus
revela os segredos do céu. E, por sua vez, os pequenos são os que foram grandes e

37
poderosos. A inversão que Jesus pregou realiza-se no mundo dos Espíritos.56

Pode parecer estranho que Jesus renda graças a Deus por haver revelado essas coisas aos simples e
pequeninos, que são os pobres de espírito, ocultando-as aos sábios e prudentes, mais aptos,
aparentemente, a compreendê-las [...]. Isso porque na antiguidade, sábio era sinônimo de sabichão.
Assim, Deus lhes deixa a busca dos segredos da Terra, e revela os do Céu aos humildes, que se
inclinam perante Ele. O mesmo acontece hoje com as grandes verdades reveladas pelo Espiritismo.
Certos incrédulos se admiram de que os Espíritos se esforcem tão pouco para os convencer. É que eles
se ocupam dos que buscam a luz com boa-fé e humildade, de preferência aos que julgam possuir toda
a luz e parecem pensar que Deus deveria ficar muito feliz de os conduzir a Ele, provando-lhes a sua
existência.57

O Evangelho do Espírito insiste no Sermão da Montanha e trabalha as parábolas


de Jesus como lições de moral para a vida, segundo o Espiritismo. Nisso coincide
com a leitura bem moralista da linguagem tradicional, com a diferença de que esta
não invoca nenhuma influência dos Espíritos, mas se baseia na graça de Deus,
alcançada pela oração e pela via sacramental, e na prática de atos religiosos, de
virtudes, da imitação de Jesus.
Prescindindo das incursões sobre o Espiritismo, reencarnação, diversas vidas
terrenas, um cristão tradicional encontra no Evangelho segundo o Espiritismo
ensinamentos muito semelhantes sobre a maneira de viver sua fé. Quando as palavras
de Jesus não se explicam com o que vemos aqui na terra, o discurso se transfere para
o desvendamento do mistério pela ação dos Espíritos. E isso vale muito da vida
futura.

O Espiritismo veio completar [...] o ensinamento de Cristo, quando os homens se mostraram maduros
para compreender a verdade. Com o Espiritismo, a vida futura não é mais simples artigo de fé, ou
simples hipótese. É uma realidade material, provada pelos fatos. Porque são as testemunhas oculares
que a vêm descrever em todas as suas fases e peripécias, de tal maneira que não somente a dúvida já
não é mais possível, como a inteligência mais vulgar pode fazer uma ideia de seus mais variados
aspectos, da mesma forma que imaginaria um país do qual se lê uma descrição detalhada.58

O Espiritismo interpreta algumas passagens da Escritura como se elas tratassem de


reencarnação. Considera-a parte dos dogmas dos judeus sob o termo de ressurreição.
João Batista é julgado como reencarnação de Elias. Herodes alude a Jesus como João
Batista ressuscitado (Mt 14,1). Jesus, no colóquio com Nicodemos (Jo 3,3), afirma
que quem não nascer de novo não pode entrar no Reino de Deus.59 Passagens do
Evangelho, como a Transfiguração, oferecem ocasião para apelar para a
reencarnação. Jesus conversa com Moisés e Elias.
A linguagem espírita intenta desvendar a dimensão secreta, cósmica de histórias
do Mestre Nazareno. Oculta o lado sociopolítico de libertação de Jesus. Ele se afigura
como consolador das multidões, elevando o espírito das pessoas. Orienta-as para a
transformação individual, liberando-lhes o espírito. Alguns textos veem o corpo
humano de Jesus de natureza etérea, perfeita, leve, com grandeza espiritual. Sobre tal

38
questão existe discussão em torno da posição de Allan Kardec.

Um dos principais motivos da publicação de Os Quatro Evangelhos60 é mostrar que Jesus possuía –
na terra – um corpo fluídico e não com a matéria igual à nossa. Revela que Maria – mãe de Jesus –
teve uma gravidez aparente, como também o parto. Ou seja: gravidez, parto, amamentação não
passaram de “ilusão”. Tanto quanto na gravidez, Maria teve a ilusão no parto, na medida do que era
necessário, a fim de que acreditasse, como devia acontecer, num nascimento real.61

O corpo de que Jesus se serviu, para manifestar-se em nosso planeta, foi uma materialização
ectoplasmática perfeita e de longo curso, ou seja, um “corpo fluídico” e não de carne e osso como o
nosso. Portanto, temos de ver Jesus também como um modelo biológico, e não apenas moral, como
declarou Kardec na nota explicativa da questão nº 625 de O livro dos Espíritos.62

O efeito póstumo de Jesus ultrapassou de muito o histórico, embora ele se tenha


preparado por 30 anos para a vida pública. Tinha especial capacidade de comunicar-
se com o mundo espiritual. Recebia instruções dos anjos com quem conversava e que
lhe inspiravam zelo e amor. (Conversava com os anjos, dos quais recebia. Seus
ensinamentos penetravam mais quando o corpo não era entrave.)
Jesus revelava a encarnação de Espírito superior, sublime, a fim de regenerar a
humanidade. Depois dele vieram outros espíritos superiores, purificados, etéreos.
A linguagem espírita trabalha muito a promessa de Jesus de enviar o Espírito de
verdade aos discípulos, que lhes ensinará todas as coisas, lhes recordará tudo o que
ele ensinou (Jo 14,26), porque eles não eram então capazes de compreendê-lo (Jo
16,12). O Espiritismo vem então cumprir tal promessa de Cristo, ao chamar os
homens para a observância da lei. Vem abrir-lhes os olhos e os corações.

O ensino de Jesus era frequentemente alegórico e em forma de parábolas, porque ele falava de acordo
com a época e lugares. Faz-se hoje necessário que a verdade seja inteligível para todos [...]. O
ensinamento dos Espíritos deve ser claro e sem equívocos, a fim de que ninguém possa pretextar
ignorância e cada um possa julgá-lo e apreciá-lo com sua própria razão. Estamos encarregados de
preparar o Reino de Deus anunciado por Jesus, e por isso é necessário que ninguém venha a
interpretar a lei de Deus ao sabor das suas paixões, nem falsear o sentido de uma lei que é toda amor e
caridade.63

Jesus promete o consolo para os aflitos. Como consolar-se sem saber a causa dos
sofrimentos? O Espiritismo realiza tal bem-aventurança, ao mostrar que a causa está
nas existências anteriores e na própria destinação da terra, onde o homem expia o seu
passado. Os sofrimentos são como crises salutares que levam à cura, à purificação
que assegura a felicidade nas existências futuras.64 Ele realiza o que Jesus disse do
Consolador prometido: conhecimento das coisas que faz o homem saber de onde
vem, para onde vai e por que está na terra, lembrando os verdadeiros princípios da lei
de Deus e oferecendo a consolação pela fé e esperança.65
A linguagem espírita, em última análise, relê a vida de Jesus no Espírito como se
fosse desvendada pela doutrina de Allan Kardec. Aquilo que Jesus deixou para que o

39
Espírito Santo completasse, chegou agora com o Espiritismo. Entra-se no profundo
do mistério de Jesus, desvendando os ensinamentos do Espírito Santo. O fascínio
dessa linguagem, portanto, vem do caráter revelador, consolador, prolongando a obra
de Jesus e valorizando-lhe a perfeição moral.

Jesus é para o homem o tipo de perfeição moral a que pode aspirar a Humanidade na Terra. Deus no-
lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a mais pura expressão de sua lei,
porque ele estava animado do Espírito divino e foi o ser mais puro que já apareceu na Terra.66

4. Aspectos positivos e originais

Esse conjunto de linguagens, que se têm imposto na pós--modernidade, esforça-se


por responder a justas demandas do momento atual. A gigantesca revolução cultural
se deu na virada de uma sociedade orientada pela ideia do bem para a do interesse. O
bem se impunha na sua objetividade, transmitido pela Tradição garantida pela
autoridade. O interesse se forja no interior da subjetividade das pessoas, das classes,
das instituições, das nações.
Então, a linguagem pós-moderna sobre Jesus visa apresentá-lo não como
necessária e real encarnação do Bem eterno, do Projeto divino, mas como aquele que
responde aos profundos desejos, sonhos, anseios do ser humano. No fundo, satisfaz-
lhe os desejos. Vale aquela frase tão profunda do psicanalista Eduardo Mascarenhas:
“O que o desejo deseja é ser desejado por aqueles que deseja”.

Jesus foi o maior vendedor de sonhos de que já se teve notícia. Parece estranho usar a expressão
“vendedor de sonhos”, pois sonhos não se vendem. Mas essa expressão é poética e objetiva retratar a
capacidade inigualável do mestre da vida em inspirar a emoção das pessoas e revolucionar a maneira
como elas veem a vida.67

Que faz algo desejável na cultura atual? Ser resposta adequada aos desejos. E que
desejamos? Nunca se trabalhou tanto na psicologia a estrutura desejante do ser
humano. E, em concreto, o sistema capitalista investe fortemente no jogo de despertar
o desejo e oferecer a mercadoria desejada, a fim de estabelecer o círculo fundamental:
oferta-demanda ou venda-compra para assim obter lucro, capitalizar e relançar o
mesmo movimento.
Ele veste então as mercadorias com a roupagem que desperta o apetite de compra.
Como ele não tem ética, explora com frequência desejos proibidos, lúbricos do ser
humano, instrumentalizando, sobretudo, o corpo da mulher.
Sem poder entrar na mesma jogada, a linguagem pós-moderna sobre Jesus toca
outra tecla da afetividade humana, que não o vilifica nem o animaliza, mas o sublima
e o eleva. Apela para a beleza, a afetividade, a presença e a ternura acolhedora de
Jesus. Segue, sob certo sentido, o clássico dito inaciano de entrar com a posição dos
outros e sair com a própria no anúncio do Evangelho. O risco de tomar literalmente
tal axioma consiste em terminar desfigurando o Evangelho e a pessoa de Jesus.
Numa sociedade secularizada com tendência ao secularismo e ateísmo, a figura

40
religiosa de Jesus responde por oposição. Traz alívio a certa aridez espiritual. Orvalha
corações ressequidos e neurotizados por tanta exigência de resultado e de
produtividade, pela competição desvairada, pelo sucesso sem possibilidade de
fracasso.
Insiste-se na tônica da proximidade de Jesus junto às pessoas, sobretudo no
sofrimento, quando cresce a solidão, quando se substitui a presença real pela virtual,
quando se impõe a concorrência em vez da solidariedade, quando o isolamento
restringe a companhia e quando o individualismo ocupa o lugar da partilha e da
relação pessoal.
A linguagem pós-moderna sobre Jesus carrega o tom da afetividade. Nisso ela
responde ao momento atual. E quanto mais apresentarmos um Jesus carregado de
cuidado por nós, tanto mais ele se nos tornará acessível e desejado.

5. Aspectos deficientes

Diante de um texto histórico, há a maneira pré-científica de interpretá-lo. Não se


levam em consideração as regras da redação nem as da interpretação. Toma-se o texto
na sua literalidade e a partir de interesse subjetivo específico, capta-se-lhe o
significado. Permite-se muita liberdade visando a fim bem determinado. Na leitura
pós-moderna, carismática, espírita, a pessoa de Jesus, suas ações e ensinamentos vêm
corroborar o interesse de falar ao coração afligido das pessoas, ou de reforçar a
atitude espiritualista carismática ou de secundar teses do espiritismo.
Negligenciam-se então os dados adquiridos pela exegese moderna, as pesquisas
arqueológicas, os estudos linguísticos. Considera-se essa parafernália científica como
empecilho para descobrir o sentido religioso, piedoso, conforme as necessidades
existenciais das pessoas.
O prisma dominante se caracteriza pela autoajuda. Jesus se transforma em alguém
que anima as pessoas na sua autorrealização. Perde toda força profética, de
conversão, de exigência. Isso o tornaria pesado e pouco atraente para a pós-
modernidade. Reforça-se-lhe o lado mítico, milagroso, que cura a intimidade das
pessoas. Ele vai ao encontro dos desejos dos humanos, supre-lhes as carências
afetivas. Exagera-se a dimensão de misericórdia de Jesus e esquecem-se todas as
interpelações que ele fez. Ele não passa de um consolador e tranquilizador,
frequentemente alimentado pela ideologia dominante. Adapta-se perfeitamente ao
sistema capitalista neoliberal. Feito à medida para ele.
Estamos muito distantes da linguagem libertadora que nascera na América Latina
e alimentara as comunidades eclesiais de base, a luta pela justiça, o enfrentamento
com os regimes militares opressores. Assume-se a linguagem de um Jesus “Paz e
amor”. Vem-lhe bem a crítica de L. Feuerbach, como já vimos anteriormente, quando
vê na religião mera projeção de desejos que não confessamos a nós mesmos e
projetamos em Deus. E, no caso, em Jesus Cristo.

6. Conclusão

41
Essa linguagem pós-moderna forja um Jesus bem palatável para o atual sistema
neoliberal. Mais: ajuda-o, diminuindo o grau de insatisfação das pessoas e assim
neutralizando movimentos de rebelião e protesto. A linguagem tradicional sobre
Jesus alienava, porque projetava, para depois dessa vida, a felicidade. Jesus se
mostrava como quem suportou a injustiça, o sofrimento com paciência, à espera do
gesto do Pai que o ressuscitou.
Na pós-modernidade, a alienação muda de cara. Ela deriva-
-se de um Jesus que nos consola já aqui, para que nos realizemos neste mundo pela
atitude interior de adaptação e realização dos sonhos e desejos. Não transfere para a
eternidade, nem pede transformação da realidade social, e sim adaptação psicoafetiva
a ela.
As instituições políticas e eclesiásticas apoiam tal linguagem que molda as
pessoas para conviverem pacificamente com elas. E para dar-lhe mais consistência e
poder persuasório, cobre-se-lhe com a veste do sagrado, da piedade. Por isso, não
aceitá-la denota certa impiedade e falta de religiosidade.
Ela adapta-se bem ao universo midiático, televisivo. Com ela, se preparam muitos
DVDs a serem difundidos nos meios de comunicação. Por isso, adquire força de
expansão e atinge ambientes bem diversificados.

7. Dinâmica

1. Que características comuns existem nos diversos tipos de linguagem sobre Jesus
na pós-modernidade?
2. Em nível pessoal, você tem frequentado tal linguagem? E que efeito ela produz
na sua compreensão e amor a Jesus?
3. Em termos pastorais, que atitudes e práticas desenvolver diante da difusão de tal
linguagem, sobretudo mediante o esquecimento da dimensão profética?

8. Bibliografia

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______. O Mestre inesquecível. Análise da Inteligência de Cristo. São Paulo: Academia de Inteligência, 2003.
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2 BAKER, Mark W. Jesus, o maior psicólogo que já existiu: como os ensinamentos de Cristo podem nos ajudar a resolver os problemas do cotidiano

42
e aumentar nossa saúde emocional. Rio de Janeiro: Sextante, 2005, p. 17.
3 Ibid.
4 Ibid., p. 14s.
5 CURY, Augusto. O Mestre dos Mestres. Análise da Inteligência de Cristo. 20ª ed. São Paulo: Academia de Inteligência, 1999, p. 16,50s.
6 Ibid., p. 17, 78.
7 Ibid., p. 18.109.
8 BAKER, Mark. Jesus, o maior psicólogo..., p. 170.
9 CURY, Augusto. O Mestre dos Mestres..., p. 19.
10 Ibid., p. 35s.
11 Ibid., p. 20.
12 Ibid., p. 25.
13 Ibid., p. 28s.
14 Ibid., p. 34s.
15 Ibid., p. 33.
16 Ibidem.
17 CURY, Augusto. O Mestre da vida. Análise da Inteligência de Cristo. São Paulo: Academia de Inteligência, 2001.
18 Ibid., p. 40s, 55, 63.
19 GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.
20 CURY, Augusto. O Mestre dos Mestres..., p. 61.
21 CURY, Augusto. O Mestre inesquecível. Análise da Inteligência de Cristo. São Paulo: Academia de Inteligência, 2003, p. 19.
22 CURY, Augusto. O Mestre dos Mestres..., p. 62.
23 CURY, Augusto. O Mestre inesquecível..., p. 21.
24 Ibid., p. 23.
25 Ibid., p. 24.
26 Ibid., p. 25.
27 Ibid., p. 27.
28 CURY, Augusto. O Mestre dos Mestres..., p. 75.
29 RIBEIRO, Súsie; GOMES, Paulo Roberto; MURAD, Afonso. A casa da teologia: introdução ecumênica à ciência da fé. São Paulo: Paulinas; São
Leopoldo: Sinodal, 2010, p. 179.
30 CURY, Augusto. O Mestre dos Mestres..., p. 83s.
31 CURY, Augusto. O Mestre inesquecível..., p. 38.
32 CURY, Augusto. O Mestre dos Mestres..., p. 149.
33 Ibid., p. 168.
34 CURY, Augusto. O Mestre inesquecível..., p. 9s.
35 ARIAS, Juan. Jesus, esse grande desconhecido. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 11.
36 HURTADO, Manuel. Quatro palavras-chave em cristologia: humanidade, reino, morte e seguimento, ad instar manuscripti.
37 ABIB, Jonas. O pão da palavra: crescimento para pessoas e grupos. v. 3. São Paulo: Loyola, 1999, p. 56.
38 Ibid., p. 12.
39 Ibid., v. 2, p. 54.
40 Ibid., v. 1, p. 21s.
41 Ibid., v. 3, p. 356ss.
42 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. J. Herculano Pires. 4ª ed. São Paulo: FEESP, 1972, p. 29.
43 Ibid., p. 28.
44 Ibid., p. 29.
45 Ibidem.
46 Ibid., p. 30.
47 Ibidem.
48 Ibid., p. 57.
49 KLOPPENBURG, Boaventura. Espiritismo. Orientação para os católicos. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 1989, p. 97s.
50 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos: filosofia espiritualista. Trad. J. Herculano Pires, revista e anotada pelo tradutor para esclarecimento e
atualização dos problemas do texto. 42ª ed. São Paulo: Lake, 1982, p. 133.
51 Ibid., n. 876, p. 352.
52 Jesus, o Filho do homem, in: Fórum Espírita, disponível em: <www.forumespirita.net/fe/o-evangelho-segundo-o-espiritismo/jesus-o-filho-do-
homem>, acesso em: 4 fev. 2011.
53 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo..., p. 37.
54 Ibidem.
55 Ibid., p. 201.
56 Ibid., p. 93s.
57 Ibid., p. 94.
58 Ibid., p. 36.
59 KLOPPENBURG, Boaventura. Espiritismo..., p. 102.
60 ROUSTAING, Jean-Baptiste. Les Quatre Évangiles – Spiritisme Chrétien ou Révélation de la Révélation. 3 vols. Bordeaux, França: Imprimerie
Lavertujon, 1866.
61 PORTO, Wilton. Allan Kardec x Roustaing: A hora da verdade, disponível em:
<www.oblogdosespiritas.blogspot.com>.
62 III CONGRESSO ROUSTAING. O Franco Paladino, disponível em: <www.ofrancopaladino.pro.br/mat651.htm>, acesso em: 4 jan. 2011.
63 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos..., n. 627, p. 271.
64 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo..., p. 87.
65 Ibid., p. 88.
66 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos..., n. 625, p. 271.
67 CURY, Augusto. O Mestre inesquecível..., p. 75.

43
CAPÍTULO III

A LINGUAGEM NEOPENTECOSTAL

1. Introdução

O s reformadores protestantes insistiram no valioso, porém arriscado, princípio do


“livre exame das Escrituras”, ou seja, de que todo cristão tem o direito e o dever
de ler e estudar por si mesmo a Palavra de Deus. Muitos viram na máxima da Sola
Scriptura uma licença para a livre interpretação das Escrituras, o que nunca esteve na
mente dos líderes da Reforma. Tanto reformadores da primeira geração, Martinho
Lutero, quanto da segunda, João Calvino, lutaram contra a abordagem individualista e
tendenciosa das Escrituras, insistindo na adoção de princípios equilibrados de
interpretação que levavam em conta o sentido histórico-gramatical.
A observação cuidadosa do contexto e da gramática, conforme Lutero, por
exemplo, expõe uma crítica aos intérpretes escolásticos da Idade Média, em seu
comentário aos Gálatas (Documento de 1535):

O que eles [os sofistas] deveriam fazer é vir ao texto vazios, derivar suas ideias da Escritura Sagrada,
e então prestar atenção cuidadosa às palavras, comparar o que precede com o que vem em seguida, e
se esforçar para agarrar o sentido autêntico de uma passagem em particular, em vez de ler as suas
próprias noções nas palavras e passagens da Escritura, que eles geralmente arrancam do seu
contexto.1

As Igrejas neopentecostais não levam nada disso em consideração. O


neopentecostalismo não conhece nenhum método de interpretação bíblica. A Bíblia
se torna joguete lançado de um lado para o outro, ao sabor das conveniências.
Tomam-se diferentes declarações, episódios e símbolos bíblicos e, sem esforço algum
de interpretação, passa-se diretamente para a aplicação, muitas vezes de uma maneira
que nada tem a ver com o próprio original do passado. O que é mais grave, usam-se
textos bíblicos de modo mágico, como se fossem amuletos, como se tivessem poder
imanente e intrínseco. Encara-se a Bíblia prioritariamente como livro de promessas,
de bênçãos e de fórmulas para soluções de problemas.
Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, vê a Bíblia como
livro de experiências:

Poder-se-ia dizer que vemos, no Antigo Testamento, a experiência religiosa de um povo, Israel; nos
evangelhos, a experiência religiosa de Jesus; nos Atos, a experiência religiosa dos apóstolos; e nas
Epístolas, a experiência religiosa da Igreja. O livro de Apocalipse seria, então, o último capítulo da
experiência religiosa da humanidade.2

Curiosamente, nas Igrejas neopentecostais, a Bíblia perde espaço para a


experiência de fé do fiel. Ela assume um papel secundário:

44
No neopentecostalismo – inclusive nos seus enclaves nas denominações históricas –, por mais que
seus integrantes se declarem defensores das Escrituras, a importância atribuída aos fenômenos,
maravilhas e novas relações os empurrará à incômoda consequência prática de terem na Bíblia sua
“fonte secundária” de conhecimento.3

É nesse ambiente de inúmeras experiências que o neopentecostalismo surge com


nova linguagem. Na releitura da Bíblia, sob o impacto da experiência, os
neopentecostais, por vezes, criam nova terminologia, muito diferente dos conceitos
bíblicos tradicionais. Privilegiam-se expressões como “eu determino”, “eu ordeno”,
“eu decreto”, “exijo meus direitos”, “reivindico a bênção”. Todas apontam para uma
pseudoespiritualidade antropocêntrica, voltada para as necessidades, desejos e
ambições dos seres humanos. Não mais se fala em pecado, reconciliação,
santificação, obediência. O Evangelho corre o risco de ficar diluído4 em uma nova
modalidade de autoajuda psicológica, deixando de ser “o poder de Deus para a
salvação de todo aquele que crê” (Rm 1,16).
O conceito de fé talvez sofra as maiores distorções. No discurso das Igrejas
neopentecostais, a fé se torna espécie de varinha de condão que os fiéis utilizam para
obter as bênçãos que desejam. Deus permanece essencialmente passivo até que seja
acionado pela fé do indivíduo. Coisificam-se as relações entre o ser humano e Deus, a
ponto de Deus assumir função instrumental nas mãos de indivíduos materialistas.
Os neopentecostais fazem falsa distinção entre duas palavras gregas – rhema e
logos –, no intuito de legitimarem as exigências feitas a Deus:

Rhema, dizem eles, é a “palavra” que os crentes usam para “decretar” ou “declarar” a fim de trazer
prosperidade ou cura para essa dimensão. É o “abracadabra”. Depois vem o logos, ou a “palavra da
revelação” que é a palavra mística, direta, que Deus fala aos iniciados. O termo pode-se referir
também à Bíblia, mas é geralmente empregado no contexto de sonhos, visões e comunicações
particulares entre Deus e seu “agente”. Assim, quando alguém lê uma referência na literatura do
pregador da fé à “Palavra de Deus” ou “agir sobre a Palavra” e outras, o autor não está mais se
referindo à Palavra de Deus escrita, a Bíblia, mas, sim, ao seu próprio “decreto” (rhema) ou uma
palavra pessoal de Deus para ele (logos).5

Na nova perspectiva teológica neopentecostal, a tese weberiana (Max Weber,


sociólogo alemão), segundo a qual os calvinistas buscavam no sucesso econômico a
evidência da sua eleição, recebeu nova versão: as coisas mais importantes que Deus
tem a oferecer são bom emprego, estabilidade financeira, vida confortável, felicidade
no amor e nas coisas do gênero. Além disso, enquanto aquela tese suscitava a ética
protestante, esta não tem ética alguma.
Mas qual é a origem do movimento neopentecostal? Quais são, em linhas gerais,
os eixos históricos do neopentecostalismo? Para entender a teologia neopentecostal
sobre Jesus, cabe conhecer a origem do movimento e os seus eixos históricos.

2. Eixos históricos do neopentecostalismo

45
Os estudos sobre o neopentecostalismo estão em fase incipiente. Dificulta-se a
compreensão detalhada do fenômeno neopentecostal em razão da carência de estudos
aprofundados sobre ele.
Para Paul Freston, o neopentecostalismo é uma vertente do pentecostalismo.
Freston compreende o pentecostalismo brasileiro como a história de três ondas de
implantação de Igrejas. A primeira onda data década de 1910, com a chegada da
Congregação Cristã (1910) e da Assembleia de Deus (1911). Enquanto aquela
permanece acanhada, esta se expande por todo o Brasil. A segunda onda irrompe nos
anos 1950 e início de 1960. O campo pentecostal se fragmenta, surgindo a Igreja do
Evangelho Quadrangular (1951), Brasil para Cristo (1955) e Deus é Amor (1962). A
terceira onda começa no final dos anos 1970 e ganha força nos anos 1980. A Igreja
Universal do Reino de Deus (1977) e a Igreja Internacional da Graça de Deus (1980)
constituem-se os seus maiores representantes.6
Para Robinson Cavalcanti,7 os sociólogos da religião cometem grande equívoco
de pôr, sob a mesma chancela de pentecostalismo, dois fenômenos distintos. De um
lado, o pentecostalismo propriamente dito, tipificado, no Brasil, pela Assembleia de
Deus e, do outro, o impropriamente denominado “neopentecostalismo”, mais bem
expresso pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Alguém já propôs
denominar esta última de pós-pentecostal: um fenômeno que se seguiu a outro, mas
que com ele não se conecta, enquanto “neo” se refere a manifestação nova de algo já
existente. Correntes de sociologia argentina já os denominaram de
“isopentecostalismo”: algo que parece, mas não é. E há também quem classifique o
movimento representado pela IURD de “pseudopentecostalismo”: algo que não é.8
Equivocam-se analistas ao considerar a IURD e congêneres evangélicas. Elas
próprias, por muito tempo, relutaram assumir-se como tais, pretendendo ser tidas
como fenômeno religioso distinto. Terminaram, porém, por aceitar a classificação
“evangélica” por estratégia política de hegemonizar um segmento religioso mais
amplo no cenário do Estado e da sociedade civil. Marca o evangelicalismo a ênfase
doutrinária reformada na doutrina da expiação dos pecados na cruz e na necessidade
de conversão, ou novo nascimento.
Mesmo apresentando elementos teológicos típicos do pentecostalismo – batismo
com o Espírito Santo, glossolalia, cura divina e prática de exorcismo –, as Igrejas
neopentecostais divergem do pentecostalismo na importância dada ao significado da
obra de Jesus Cristo. Martin Dreher cita como exemplo a IURD:

Anunciando em letras góticas que “Jesus Cristo é o Senhor”, a IURD não cansa de afirmar que é em
seu nome e mediante o poder do Espírito Santo que os demônios são expulsos. A relação de Jesus
com o ser humano, porém, não é a de redentor e de redimido, mas de libertador e de libertado. Essa
libertação não significa, como apresenta o protestantismo tradicional, salvação, libertação de pesada
carga de culpa, mas libertação de maldades espirituais, libertação de diversos tipos de demônios que
provocam sofrimentos. A graça perde seu significado, não há dádiva gratuita. Mesmo quando usa o
conceito “graça”, ela não tem o caráter de gratuidade, de algo que o ser humano não pode obter,
merecer, ganhar sponte suo. Essa diferença parece fundamental.9

46
Se o neopentecostalismo não é pentecostalismo, tampouco evangelicalismo,
também não é protestantismo. Que é então?
É um movimento de origem estadunidense também conhecido como “confissão
positiva”, “palavra da fé”, “movimento da fé” e “Evangelho da saúde e da
prosperidade”. Ao contrário do que muitos imaginam, as ideias básicas da confissão
positiva não surgiram no pentecostalismo, e sim em algumas seitas sincréticas da
Nova Inglaterra no início do século XX. Todavia, por causa de afinidades com a
cosmovisão pentecostal, como a crença em profecias, revelações e visões, foi em
círculos pentecostais e carismáticos que a confissão positiva teve maior acolhida,
tanto nos Estados Unidos como no Brasil.
No entanto, Leonildo Campos faz distinção entre o neopentecostalismo
estadunidense e o brasileiro:

Naquele país, atribuiu-se o termo “neopentecostalismo” a pessoas com mentalidade pentecostal, mas
que se consideram adeptas de uma “renovação espiritual” dentro dos próprios quadros
denominacionais a que pertencem. De uma maneira geral, esse “neopentecostalismo” enfatiza
exorcismos, cura divina, dons espirituais, continuidade da revelação divina através de líderes
carismáticos, e uma parte deles aceita a “teologia da prosperidade”. Esse “neopentecostalismo”
ganhou força no mundo religioso norte-americano nos anos 70, período em que também começou a
penetrar na América Latina, provocando o surgimento de novas igrejas, seitas e denominações
protestantes brasileiras, entre elas a metodista, a batista, a presbiteriana, a congregacional e outras.10

Tanto o neopentecostalismo estadunidense quanto o brasileiro têm raízes na


confissão positiva de Essek Willian Kenyon (1867-1948). Esse evangelista de origem
metodista sofreu influências durante os seus estudos no Emerson College, conhecido
por ser um centro do chamado movimento “transcendental” ou “metafísico”, que deu
origem a várias seitas de orientação duvidosa. Uma das influências recebidas e
reconhecidas por Kenyon nessa época foi a de Mary Baker Eddy, fundadora da
Ciência Cristã.
Que ensinava Kenyon? A verdadeira realidade está além do âmbito físico. A
esfera do espírito não só é superior ao mundo físico, mas também controla cada um
dos seus aspectos. Mais ainda, a mente humana controla a esfera espiritual. Portanto,
o ser humano tem a capacidade inata de controlar o mundo material por meio de sua
influência sobre o espiritual, principalmente no que diz respeito à cura de
enfermidade. Kenyon acreditava que essas ideias não somente eram compatíveis com
o cristianismo, mas também podiam aperfeiçoar a espiritualidade cristã tradicional.
Mediante o uso correto da mente, o fiel poderia reivindicar plenos benefícios da
salvação.
O grande divulgador dos ensinos de Kenyon, a ponto de ser considerado o pai do
movimento da fé, foi Kenneth Erwin Hagin (1917-2003). Hagin teve infância difícil
(doença, abandono do pai etc.) e, após três visitas ao inferno e ao céu, converteu-se a
Cristo. Refletindo sobre Mc 11,23-24, chegou à conclusão de que era necessário crer,
declarar verbalmente a fé e agir como se tivesse recebido a bênção (“creia no seu
coração, decrete com a boca e será seu”). Pouco depois, obteve a cura da

47
enfermidade. Hagin passou por várias igrejas no Texas até que, em 1962, sob
influência de pregadores independentes de cura divina, fundou o próprio ministério.
Em 1966, fez da cidade de Tulsa, em Oklahoma, a sede de suas atividades. Ao longo
dos anos, o Seminário Radiofônico da Fé, a Escola Bíblica por Correspondência
Rhema, o Centro de Treinamento Bíblico Rhema e a revista Palavra da Fé
alcançaram imenso número de pessoas.11
Hagin dizia ter recebido a unção divina para ser mestre e profeta. Em seu fascínio
pelo sobrenatural, alegou ter tido oito visões de Jesus Cristo nos anos 1950, bem
como diversas outras experiências fora do corpo. Segundo ele, seus ensinamentos lhe
foram transmitidos diretamente pelo próprio Deus, mediante revelações especiais.
Todavia, ficou comprovado posteriormente que Hagin plagiou os escritos de Kenyon.
Nos anos 1980, os ensinamentos da confissão positiva e do Evangelho da
prosperidade chegaram ao Brasil. Um dos primeiros a difundi-lo foi Rex Humbard;
Marilyn Hickey, John Avanzini e Benny Hinn participaram de conferências
promovidas pela Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno
(Adhonep).
Paulo Romeiro chama atenção para a formidável aceitação da confissão positiva
entre os brasileiros:

Diversos outros líderes, igrejas e organizações estão aderindo aos ensinos da confissão positiva sem
fazer uma avaliação bíblica adequada de sua proposta. Em muitos lugares, até mesmo pastores de
igrejas evangélicas tradicionais aconselham seus membros a ler os livros do movimento, que são
vendidos aos montes nas livrarias evangélicas. A confissão positiva já alcançou repercussão
significativa nos meios de comunicação, especialmente na televisão.12

Explanados os eixos históricos, cabe agora tratar dos grandes eixos teológicos do
movimento neopentecostal.

3. Eixos teológicos do neopentecostalismo

O neopentecostalismo não apresenta linha teológica própria. Muitas de suas


posições doutrinárias assemelham-se às do pentecostalismo da primeira (glossolalia)
e da segunda onda (cura divina) – usando a terminologia de Paul Freston.
O movimento reúne correntes e doutrinas teológicas diversas. Sob a liderança de
líderes carismáticos, cada grupo escolhe em que crer, dando ao movimento um perfil
fragmentado. Com isso, cada Igreja investe no que mais lhe interessa. Algumas
desenvolvem ministério de cura e libertação; outras, de batalha espiritual, cura
interior, espíritos territoriais, mapeamento espiritual e prosperidade financeira.
Uma das propostas principais da maioria de seus pregadores é banir da vida
humana a doença, a pobreza e todo tipo de sofrimento. Com isso, pretendem produzir
nova geração de fiéis – rica e fisicamente saudável.

Invertem a postura pentecostal tradicional de rejeição à busca da riqueza, ao livre gozo do dinheiro, de

48
status social e dos prazeres deste mundo. Em seu lugar, pregam a teologia da prosperidade, doutrina
que, grosso modo, defende que o crente está destinado a ser próspero, saudável e feliz neste mundo. E
com isso, em vez de rejeitar o mundo, os neopentecostais passaram a afirmá-lo. Além de possuir uma
fé inabalável e de observar as regras bíblicas de como tornar-se herdeiro das bênçãos divinas, o
principal sacrifício que Deus exige de seus servos, segundo esta teologia, é de natureza financeira: ser
fiel nos dízimos e dar generosas ofertas com alegria, amor e desprendimento.13

Segundo a teologia neopentecostal, o cristão abençoado deve ser livre de qualquer


problema. Ele deve ser proprietário de muitos bens, ter muito dinheiro e muita saúde.
Caso contrário, estará caracterizada a ausência de fé, a vida em pecado ou então o
domínio de Satanás. Em outras palavras, a característica do cristão fiel é a plena
saúde física e emocional, além da prosperidade material.
Paulo Romeiro sintetiza algumas das posições teológicas das Igrejas
neopentecostais:

1. A natureza humana é espírito, alma e corpo, porém, é mais fundamentalmente espírito; 2. Deus
criou o mundo pronunciando palavras de fé, e faz tudo o mais pela fé, e espera-se que exerçamos o
mesmo tipo de fé; 3. Na queda, os seres humanos receberam a natureza de Satanás e perderam para
ele o seu domínio divino, fazendo-o o Deus legal deste mundo; 4. Jesus morreu espiritualmente, como
também fisicamente, recebendo a natureza de Satanás, sofrendo no inferno para nos redimir, e assim
nasceu de novo; 5. Através da nossa confissão positiva com o tipo de fé de Deus, podemos vencer a
doença e a pobreza.14

Outra característica das Igrejas neopentecostais (INP) é a sua eclesiologia centrada


na figura do líder máximo. As INP são igrejas episcopais, de necessidades, de
mercado, igrejas hipermercado. Centralizadas em torno dos seus fundadores,15 as
INP interpretam e respondem às múltiplas necessidades do indivíduo, que tanto
podem ser religiosas quanto emocionais e sociais.
As INP constituem-se comunidades de mercado, em razão das transações
comerciais realizadas nelas. Isso se evidencia já na localização geográfica. Instaladas
em áreas estratégicas (avenidas, pontos de ônibus etc.), as INP têm transações
comerciais regidas pelo que é típico de todo comércio: a troca do “dou para que dês”.
Fomenta-se barganha também pelo apelo midiático. Ao contrário do que se vê como
igreja, uma profunda comunhão, as INP privilegiam o encontro breve, típico do
shopping center, “com clientela flutuante e móvel, convidada a comparecer por meio
da propaganda da televisão. O estilo desse hipermercado é, via de regra, festivo, com
muita música e diversão, tendo a finalidade de estimular e de aumentar o
comércio”.16
Segundo Martin Dreher, há mais semelhanças entre as INP e o sistema econômico
dos hipermercados:

Oferece-se um produto apetitoso por um preço adaptado à economia do momento. Simplifica-se a


filosofia mercantil, que é a de sempre vender mais, e adapta-se a mesma a uma cosmovisão: a criação
de Deus, no princípio muito boa, foi danificada por Lúcifer e pelos demônios; estes invadiram o

49
mundo e provocam todo tipo de males entre os seres humanos. Deus, porém, estabeleceu uma solução
através de seu filho Jesus Cristo e através do Espírito Santo para vencer os demônios: o exorcismo e
as curas divinas. Para que o exorcismo e a cura divina sejam realizados com êxito, deve existir aquela
relação entre Deus e o ser humano estabelecida em Malaquias 3,10: [...] Estabelecido esse convênio,
há reciprocidade de deveres e obrigações entre ambas as partes de cumprir e de exigir cada um o que
lhe interessa.17

Esse tipo de barganha afeta a relação de Jesus com o ser humano. Não mais
relação entre redentor-redimido, nem de libertador-libertado, mas de patrão-
empregado. E mais grave: quem assume o papel de patrão é o ser humano que
“exige”, “determina” e “ordena”! Não há mais espaço para a gratuidade. Todo
esforço em direção a Deus é movido por jogo de interesses, em prol da satisfação de
interesses individuais, como afirma Kenneth Hagin:

Se eu permanecer em Deus e junto dEle, meus direitos estarão plenamente assegurados. Ninguém
poderá oferecer-me nada melhor. Nem o próprio Senhor Jesus tem uma posição melhor diante de
Deus do que você e eu temos.18

Com essa postura de “supercrente”, cria-se outra questão fundamental em que há


divergência no tocante ao discurso protestante e pentecostal tradicional em relação a
Jesus: o sofrimento. No neopentecostalismo, não se permite que o fiel sofra. Caso
contrário, o crente está sob maldição. Não há a consciência de que o sofrimento de
Jesus tenha consequências na vida do cristão como parte integrante da catequese. Ao
acentuar: “Pare de sofrer!”, Edir Macedo traz um discurso estranho aos ouvidos
pentecostais e protestantes.
Cabe, agora, explanar sobre o tipo de linguagem sobre Jesus Cristo que emerge da
teologia neopentecostal. Quais são os seus acentos? Quais são os aspectos positivos e
negativos dessa linguagem para o seguimento de Jesus Cristo?

4. A linguagem sobre Jesus Cristo no neopentecostalismo

Jesus Cristo é conhecido e anunciado no neopentecostalismo por meio da análise


de alguns fragmentos discursivos dos adeptos da confissão positiva ou teologia da
prosperidade. Vejamos:
1. Sobre doença e saúde

Deus não é o autor da doença. Os homens só ficaram doentes depois que deram ouvidos ao diabo [...]
A doença e a enfermidade são do diabo. Deixe que a verdade dessa afirmação entre profundamente
em seu espírito. Então siga os passos de Jesus e trate com a doença da forma que Jesus tratou. Trate a
doença e a enfermidade como um inimigo, e nunca as tolere em sua vida.19

Não há espaço para doenças na pregação neopentecostal. Fundamentados em


Isaías 53,4-5: “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas
dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas

50
ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o
castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”; os
pregadores da confissão positiva pregam que o bem-estar físico é algo garantido na
morte expiatória de Cristo na cruz.
2. Sobre riqueza e pobreza

Prefiro que digam que eu prego o evangelho da prosperidade, pois, na verdade, esse é o evangelho
que eu propago. Sabemos que a palavra Evangelho significa “Boas novas”. Então, ensino as Boas
novas da prosperidade, saúde, santidade e do sucesso completo em Cristo Jesus [...] Eu não conheço
teologia da prosperidade. Eu conheço o verdadeiro Evangelho. Agora, eu prego a prosperidade.
Prefiro mil vezes pregar teologia chamada “da prosperidade” do que teologia do pecado, da mentira,
da derrota, do sofrimento. O cidadão fala que é de Deus e fica com o aluguel atrasado, com a barriga
vazia, mexendo com a mulher dos outros, sem santificação. Quando chega no fundo, aponta o dedo e
fala que os que pregam prosperidade são do diabo. A teologia, pelo que se fala por aí, eu bato palmas.
Não creio na miséria. Essa história é conversa de derrotados. São tudo (sic) um bando de fracassados,
cujas igrejas são um verdadeiro fracasso. Chega lá, tem meia dúzia de pessoas para ouvir. Não tem um
deles com vida santificada, ao pé do altar, que seja cheio do Espírito.20

No neopentecostalismo, o dinheiro afigura uma bênção a ser buscada. Vida


próspera financeiramente falando faz parte integrante dos adeptos da teologia da
prosperidade. Os arautos do neopentecostalismo transformaram as boas-novas de
Jesus em empreendimentos de grande sucesso. Os apelos incessantes por dinheiro,
dízimos e ofertas passaram a ocupar espaço considerável na liturgia neopentecostal.
3. Sobre prosperidade

Filho de Deus, Jesus não andou em pobreza. Leia cuidadosamente a alimentação dos cinco mil.
Quando eles viram os cinco mil, literalmente disseram isto. Agora, eu sei o que os teólogos farão com
isso, mas eu não estou tentando impressionar os teólogos. Estou tentando impressionar pessoas que
querem saber o que a Palavra de Deus diz. Estou tentando colocar alguma verdade em seu espírito. E
você lê a narrativa, e ela literalmente diz: “o discípulo disse: Compraremos comida e alimentaremos
todos estes? E eles disseram: duzentos dinheiros seriam necessários para alimentar a todos. Iremos
nós comprar a comida?” Eles tinham o dinheiro na bolsa para alimentar cinco mil, mais as mulheres e
crianças. Estou lhe dizendo, Jesus não liderou um ministério de pobreza.21
Jesus estava administrando muito dinheiro, pois o tesoureiro que ele tinha era um ladrão. Agora, você
não vai me dizer que um ministério com um tesoureiro ladrão pode operar apenas com poucos
centavos. Era necessário muito dinheiro para operar aquele ministério, pois Judas estava roubando da
bolsa.22

João 19 nos diz que Jesus usava roupas de grife. A túnica era sem costura, tecida de cima até embaixo.
Era o tipo de vestimenta que os reis e os mercadores ricos usavam.23

Os Evangelhos narram que Jesus, chegando à região de Cesareia de Felipe,


interrogou os seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?”.24
Com base nos fragmentos discursivos, os neopentecostais veem Jesus Cristo como

51
empreendedor. Sujeito com habilidades administrativas, bem-sucedido e rico. Além
disso, é o protótipo do super-homem. Não sofre, não fica doente, nunca perde, mas
sempre consegue o melhor de Deus. Tem o melhor de Deus, porque tem
exclusividade. É intimo do Altíssimo a ponto de gradativamente revelar aos simples
mortais os oráculos do Senhor. Tornam-se semelhantes a ele aqueles que tiverem uma
confissão positiva.
Paulo Romeiro resume o conhecimento do evento Jesus Cristo do
neopentecostalismo:

Ao morrer na cruz, Jesus recebeu uma natureza satânica, foi feito pecado, desceu ao inferno no lugar
do ser humano e lá foi atormentado três dias e três noites pelo diabo. Jesus teve que morrer
espiritualmente para pagar pelos pecados do homem no inferno, pois sua morte física e seu sangue
derramado na cruz foram insuficientes para fazer a expiação. Depois de três dias no inferno, Jesus
nasce de novo e derrota os poderes das trevas, completando no inferno a expiação que havia
começado na cruz. O Jesus nascido de novo ressuscita e é elevado à mão direita do Pai. Hoje ele tem
poder para devolver à Igreja tudo o que ela havia perdido para o diabo através da queda de Adão e
Eva.25

Fundamentada nesse tipo de doutrina, a linguagem neopentecostal dá


embasamento para um tipo bem peculiar do seguimento de Jesus.
Pode-se pensar na prática pastoral, dimensão da práxis, a partir das tendências
pregadas pelo neopentecostalismo. Eis a seguir algumas.
Primeiro, da ética para a estética. No âmbito neopentecostal, o belo é melhor do
que o certo. A beleza dos ritos e dos Templos oculta o desinteresse por uma ética
cristã.
Segundo, da Palavra pregada para a emoção anunciada. Nas igrejas
neopentecostais, o êxtase provocado por orações fervorosas ocupa o lugar de
destaque na liturgia. Não se preocupa com a exposição dos textos bíblicos. O culto é
para extravasar as emoções. A agitação da música e da dança não permite momento
de introspecção na vida do fiel.
Terceiro, do vocacional para o gerencial. Para ser um líder neopentecostal não são
necessários vocação religiosa e estudo filosófico-teológico. Aquele que busca o status
de líder neopentecostal precisa ter habilidades gerenciais e treinamento empresarial.
Além do que foi dito, o neopentecostalismo é marcado pelo consumismo de
experiências e produtos religiosos, busca pela riqueza a qualquer custo e o uso de
Deus e da fé com intuito de “comer o melhor desta terra”, como dizem em uma
alusão ao texto bíblico de Deuteronômio 24.
Perante as tendências citadas, percebe-se uma em especial que sintetiza o quanto a
linguagem sobre Jesus Cristo do neopentecostalismo é danosa à fé cristã: da
aproximação para a alienação.
Observe o sermão de um pastor neopentecostal.

Chega de comer frango só aos domingos.


Chega de dormir com cobertor velho e rasgado.

52
Chega de usar dentadura colada com durepox.
Chega de usar roupas rasgadas e sapatos furados.
Chega de escova de dente estraçalhada.
Chega de carro fundindo o motor.
Chega de casa sem acabamento e com goteiras.
Chega de comprar quilinhos de mantimentos.
Chega de guardar o melhor para usar o pior.
Chega de comprar o pior.
Chega de ser analfabeto.
Chega de televisão preto e branco.
Chega de cheque sem fundo e nome protestado.
Chega de agiotas e gerentes de bancos.
Chega de geladeira e fogão velhos.
Chega de cama quebrada e colchão remendado.
Chega de dívidas e de passar necessidades.
Chega de telefone, água e luz cortados.
Chega de reformar coisas velhas.
Chega de comprar fiado e pagar aluguel.
Chega de receber salário mínimo.
Enfim, Deus! Nos livra do pior. É hora do melhor (sic).26

5. Aspectos críticos

Esse tipo de linguagem popular tem algo de emblemático. Ela toca a existência
humana por meio da empatia. O destinatário se identifica com o emissor, pois este
trata de algo comum no universo referencial. Esse ponto é positivo quando se trata de
criar pontos de contato entre emissor e receptor como esforço por comunicação
efetiva.
A perversidade dessa linguagem consiste em gerar terrível alienação. Ela não
conscientiza o ser humano para libertação. Ela, sim, afasta o ser humano das suas
relações fundamentais: espiritual (Deus), psíquica (consigo mesmo), social (próximo)
e ecológica (planeta).
O processo de alienação é mais acentuado quando o fiel se sente culpado por não
alcançar a bênção – cura, libertação, carro, casa etc. – de Deus.

O Deus que emerge das afirmações iurdianas é uma divindade escrava de suas promessas, dentro de
uma lógica implacável, assim argumenta o pastor: Deus promete saúde e prosperidade, exige que o
fiel faça a sua parte, contribuindo para a “casa de Deus”. Cumpridas todas as exigências, com muita fé
e nenhuma dúvida, o milagre só tem que acontecer. Basta exigir de Deus a realização de tais desejos.
Mas e se não der certo? Ainda dentro dessa lógica, a culpa é do fiel, que deve ter tido falta de fé em
algum momento do processo.27

Quando as pessoas estão em crise, as forças libertadoras são canalizadas mais em


processos terapêuticos, de cura interior, do que em movimentos de transformação
social.

53
A linguagem sobre Jesus no neopentecostalismo tem uma lógica do mercado.

Vendem-se experiências religiosas, simulam conversões, forçam curas e milagres, em busca de


resultados a todo custo. Uma Igreja é concorrente da outra. Cada fiel conquistado é um novo cliente a
ser fidelizado. Os resultados numéricos passam a ser considerados mais importantes do que a
qualidade da vida cristã. Importa ter muitos fiéis na sua Igreja e adaptar a mensagem cristã para
responder às carências do homem e da mulher de hoje. É a “Igreja do sucesso”. Ora, para quem visa
ao sucesso, não há lugar para o profetismo, nem para uma mensagem social do evangelho.28

É uma linguagem individualista, seduzida pelo poder de tomar o próprio destino


nas mãos. Por isso, faz uso frequente de palavras de ordem: “eu ordeno”, “eu
determino”, “eu reivindico” etc.
Além de linguagem individualista tomada por expressões ufanistas, o
neopentecostalismo tem aspecto fortemente neoliberal.

O individualismo neoliberal fomenta concorrência e competição em que vencem os mais fortes, os


mais preparados e competentes. Visa ao resultado. É necessário encontrar uma religião que reforce a
vitória, a prosperidade dos melhores. Recorre-se, então, à teologia da bênção de Deus para os ricos e
ao castigo para os pobres, porque preguiçosos e pecadores. É uma teologia feita sob medida para
alimentar igrejas que sustentam o sistema neoliberal. Evidentemente, nessa religião não cabem
práticas de solidariedade, de opção pelos pobres. É uma religião tipicamente materialista.29

Por ser neoliberal, a linguagem de Jesus no neopentecostalismo é marcada por


vícios capitalistas: é anti-humana, porque aliena o indivíduo, não lhe permitindo
realizar-se como ser humano; é irracional, porque reduz o trabalho humano a uma
mercadoria que se vende e se compra; é injusta, porque produz exclusão social.
Por outro lado, o que se constata, cada vez mais, é que o fenômeno neopentecostal
tem concorrido para maior aproximação entre os pentecostais (já tidos como
históricos, por sua antiguidade e mobilidade social e cultural) e as Igrejas históricas.
De um lado, os pentecostais redescobrem o valor da história, de uma
confessionalidade e de uma teologia sólida; de outro, os históricos vão ampliando a
sua pneumatologia, reconhecendo a contemporaneidade dos dons do Espírito. O fosso
entre pentecostais e neopentecostais tende a aumentar, não só pela aproximação entre
pentecostais e históricos, mas também pela crescente adesão dos neopentecostais a
ensinos e práticas sincréticas, com o catolicismo romano popular e os cultos afro-
ameríndios.

6. Conclusão

A linguagem sobre Jesus Cristo que emerge do neopentecostalismo é positiva e


libertadora quando promove empatia com o fiel. Ao identificar-se com o mundo dele,
a linguagem neopentecostal é capaz de apresentar Jesus Cristo como aquele que se
preocupa em mudar a sua situação de vida e fazê-lo prosperar.
Por outro lado, a linguagem se torna negativa quando essa aproximação é

54
canalizada em processos individualistas, terapêuticos, visando à prosperidade
financeira como fim em si mesmo. Sem nenhum apelo para ações sociais coletivas, a
linguagem neopentecostal prega um Cristo despojado da sua cruz e disponível aos
apelos materialistas dos fieis.
Além disso, a linguagem neopentecostal, que apresenta Jesus como empreendedor,
tem banalizado as instituições religiosas. Em outros tempos, igreja era o lugar mais
óbvio para tratar das questões de Deus e da alma. No âmbito neopentecostal não é
assim! A igreja passou a ser lugar de mercado que comercializa Deus como produto
em nome de Jesus.
Embora a mídia neopentecostal apresente o sucesso do seu projeto, o que se
percebe no meio evangélico brasileiro é a crescente frustração por parte dos fieis em
relação ao discurso de cura e prosperidade proferido pelos líderes neopentecostais. O
Jesus Cristo apresentado por eles é um engodo. A linguagem utilizada para atrair as
pessoas é sedutora, mas o rastro desse seguimento é marcado por decepções e um
número crescente de crentes sem senso de pertença.

7. Dinâmica

1. Qual lhe parece ser o ponto central da linguagem neopentecostal sobre Jesus?
2. Em que aspectos tal linguagem lhe tem provocado reações positivas ou
negativas?
3. Como você se situa na pastoral em face das pregações neopentecostais?

8. Bibliografia

CAMPOS, Leonildo. Templo, teatro e mercado. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Simpósio; São Bernardo do
Campo: Umesp, 1997.
DREHER, Martin. A igreja latino-americana no contexto mundial. v. 4. São Leopoldo: Sinodal, 1999.
HAGIN, Kenneth. Sermões clássicos. Rio de Janeiro: Graça, s.d.
______. Zoe: a própria vida de Deus. Rio de Janeiro: Graça Editorial, s.d.
LIBANIO, João Batista. A religião no início do milênio. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2011.
MACEDO, Edir. A libertação da teologia. Rio de Janeiro: Universal, 1997.
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola,
1999.
MATTOS, Alderi Souza de et al. Fé cristã e misticismo: uma avaliação bíblica de tendências doutrinárias
atuais. São Paulo: Cultura Cristã, 2000.
Revista Eclésia, nº 67, p. 26, jun. 2001.
Revista Ultimato, Viçosa, Ed. Ultimato, ano XLI, n. 314, p. 36-37, set.-out. 2008.
RIBEIRO, Súsie; GOMES, Paulo; MURAD, Afonso. A casa da teologia: introdução ecumênica à ciência da
fé. São Paulo: Paulinas; São Leopoldo: Sinodal, 2010.
ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a graça: esperança e frustrações no Brasil neopentecostal. São
Paulo: Mundo Cristão, 2005.
______. Super crente: o evangelho segundo Kenneth Hagin, Valnice Milhomens e os profetas da
prosperidade. 8ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999.
VVAA. Nem anjos, nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. 2ª ed. Petrópolis: Vozes,
1994.

1 Cf. Comentário aos Gálatas de Lutero na web.

55
2 MACEDO, Edir. A libertação da teologia. Rio de Janeiro: Universal, 1997, p. 69.
3 MATTOS, Alderi Souza de et al. Fé cristã e misticismo: uma avaliação bíblica de tendências doutrinárias atuais. São Paulo: Cultura Cristã, 2000, p.
58.
4 O teólogo alemão morto pelos nazistas, Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), já alertava sobre a “graça barata”, fruto de um evangelho diluído. Como
Cristo crucificado, o cristão é, sobretudo, o homem do sofrimento, da cruz, do martírio. É certo que o cristão possui a graça, mas esta não o exime do
sacrifício e das boas ações, porque a graça de Cristo é uma “graça que custa”, e não uma “graça barata” (billige Gnade). Cf. BONHOEFFER, Dietrich.
Sequela (1937). Bréscia: Queriniana, 1971, p. 13.
5 HORTON, Michael, apud ROMEIRO, Paulo. Super crente: o evangelho segundo Kenneth Hagin, Valnice Milhomens e os profetas da prosperidade.
8ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 28.
6 FRESTON, Paul. Breve história do pentecostalismo brasileiro, in: VVAA. Nem anjos, nem demônios: interpretações sociológicas do
pentecostalismo. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 70-71.
7 Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife.
8 Cf. CAVALCANTI, Robinson. Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem pentecostais. Revista Ultimato. Viçosa: Ed. Ultimato, Ano XLI, nº 314,
p. 36-37, set.-out. 2008.
9 DREHER, Martin. A igreja latino-americana no contexto mundial. v. 4. São Leopoldo: Sinodal, 1999, p. 235.
10 CAMPOS, Leonildo. Templo, teatro e mercado. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Simpósio; São Bernardo do Campo: Umesp, 1997, p. 50.
11 Edir Macedo e R. R. Soares são, no Brasil, os maiores propagadores das ideias de Kenneth Hagin.
12 ROMEIRO, Paulo. Super crente..., p.19.
13 MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999, p. 44.
14 ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a graça, esperanças e frustrações no Brasil neopentecostal. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p. 91.
15 Exemplos de algumas Igrejas neopentecostais do Brasil e seus respectivos líderes: Igreja Universal do Reino de Deus – Edir Macedo; Igreja
Internacional da Graça de Deus – R. R. Soares; Igreja Mundial do Poder de Deus – Valdomiro Santiago; Igreja Apostólica Renascer em Cristo – Estevam
e Sônia Hernandes; Comunidade Sara Nossa Terra – Robson Rodovalho; Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo – Valnice Millhomens; Igreja Bola de
Neve – Rinaldo Seixas.
16 cf. DREHER, Martin. A igreja latino-america no contexto mundial..., p. 234.
17 Ibidem.
18 HAGIN, Kenneth. Zoe: a própria vida de Deus. Rio de Janeiro: Graça, s.d.
19 HAGIN, Kenneth. Sermões clássicos. Rio de Janeiro: Graça, s.d., p. 222.
20 Revista Eclésia, nº 67, p. 26, jun. 2001.
21 AVANZINI, John, apud ROMEIRO, Paulo. Super crentes: o evangelho segundo Kenneth Hagin, Valnice Milhomens e os profetas da prosperidade.
7ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1998, p. 42-43.
22 Ibidem.
23 Ibidem.
24 Cf. Mt 16,13; Mc 8,27; Lc 9,18.
25 ROMEIRO, Paulo. Super crentes..., p. 58.
26 Sermão do pastor Jerônimo Onofre da Silveira, pastor titular da Igreja Templo dos Anjos, em Belo Horizonte. Citado por ROMEIRO, Paulo.
Decepcionados com a graça..., p. 109-110.
27 CAMPOS, Templo, teatro e mercado, p. 369.
28 RIBEIRO, Súsie; GOMES, Paulo; MURAD, Afonso. A casa da teologia..., p. 179.
29 LIBANIO, João Batista. A religião no início do milênio. São Paulo: Loyola, 2002, p. 155-156.

56
CONCLUSÃO

F ala-se e escreve-se muito sobre Jesus Cristo. Mas não da mesma maneira. Os
leitores cristãos e não cristãos sentem-se desnorteados. No caso de Jesus, há duas
razões importantes que explicam essa pluralidade de linguagens: a relevância da
pessoa de Jesus e os interesses dos que sobre ele escrevem.
No Ocidente, com o olhar meramente histórico, reconhecemos ser Jesus a pessoa
mais controvertida e sobre quem mais se escreve sob os ângulos mais diversos. Os
Beatles, em momento de glória e de supervalorização de si mesmos, ousaram dizer
sobrepujar a Jesus. Hoje já não existe o grupo. Dissolveu-se. Durou 10 anos. Um
morreu assassinado, outro, de câncer. Alguns restantes continuam com algum
sucesso, sobretudo no meio de saudosistas.
Jesus continua há 2000 anos a provocar sentimentos diversos e opostos, desde
místicos apaixonados por sua pessoa, testemunhas capazes de dar a vida por ele até
críticos ferozes na linha nietzschiana. Mesmo entre os que creem nele, as linguagens
variam ao extremo.
Este pequeno livro pretende iniciar o leitor nessa pluralidade de discursos, não de
maneira neutra e acadêmica, mas pastoral e crítica. Escolheram-se, por início de
conversa, quatro tipos de linguagens. Uma tradicional, que ainda circula
abundantemente em meios católicos e protestantes, ao prender-se literalmente aos
textos bíblicos. Surgiram outras linguagens novas. Quatro mereceram consideração.
Uma neotradicional, que articula elementos tradicionais da linguagem sobre Jesus,
com aspectos da atual modernidade e pós-modernidade cultural. Outra acentuou a
dimensão carismática. A linguagem espírita recebeu também rápida consideração. E
finalmente mergulhou-se no mundo pentecostal evangélico, com acento especial
sobre o neopentecostalismo.

57
Coleção TEMAS BÍBLICOS

• A antropologia pastoral de Paulo, J. M. O’Connor, op


• A Igreja doméstica nos escritos de Paulo, V. Branick
• Paulo para os conquistados: reimaginando a missão de Paulo, Davina C. Lopez
• Jesus, libertador da mulher, Emile Eddé
• Linguagens sobre Jesus (1) - As linguagens tradicional, neotradicional pós-moderna, carismática, espírita
e neopentecostal, J. B. Libanio, Carlos Cunha

58
Direção editorial: Claudiano Avelino dos Santos

Coordenação de desenvolvimento digital: Erivaldo Dantas

Assessoria bíblica: Paulo Bazaglia

Assistente editorial: Jacqueline Mendes Fontes

Revisão: Márcia Elisa Rodrigues


Tiago José Risi Leme

Capa: Marcelo Campanhã

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Libanio, J. B.
Linguagens sobre Jesus: as linguagens tradicional, neotradicional pós-moderna, carismática, espírita e neopentecostal / J. B. Libanio, Carlos Cunha. —
São Paulo: Paulus, 2011. — (Coleção Temas bíblicos; vol. 1)
ISBN 978-85-349-3282-0
1. Cristianismo 2. Jesus Cristo - Historicidade 3. Jesus Cristo - Pessoa e missão 4. Literatura sobre Jesus Cristo 5. Teologia cristã I. Cunha, Carlos. II.
Título. III. Série.
11-09912 CDD-232.901
Índices para catálogo sistemático:
1. Jesus Cristo: Vida: Linguagens e interpretações: Cristologia 232.901

© PAULUS – 2013
Rua Francisco Cruz, 229
04117-091 – São Paulo (Brasil)
Tel.: (11) 5087-3700
Fax: (11) 5579-3627
www.paulus.com.br
editorial@paulus.com.br
eISBN 978-85-349-3730-6

59
60
Scivias
de Bingen, Hildegarda
9788534946025
776 páginas

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Scivias, a obra religiosa mais importante da santa e doutora da Igreja Hildegarda de


Bingen, compõe-se de vinte e seis visões, que são primeiramente escritas de maneira
literal, tal como ela as teve, sendo, a seguir, explicadas exegeticamente. Alguns dos
tópicos presentes nas visões são a caridade de Cristo, a natureza do universo, o reino
de Deus, a queda do ser humano, a santifi cação e o fi m do mundo. Ênfase especial é
dada aos sacramentos do matrimônio e da eucaristia, em resposta à heresia cátara.
Como grupo, as visões formam uma summa teológica da doutrina cristã. No fi nal de
Scivias, encontram-se hinos de louvor e uma peça curta, provavelmente um rascunho
primitivo de Ordo virtutum, a primeira obra de moral conhecida. Hildegarda é notável
por ser capaz de unir "visão com doutrina, religião com ciência, júbilo carismático
com indignação profética, e anseio por ordem social com a busca por justiça social".
Este livro é especialmente significativo para historiadores e teólogas feministas.
Elucida a vida das mulheres medievais, e é um exemplo impressionante de certa
forma especial de espiritualidade cristã.

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Santa Gemma Galgani - Diário
Galgani, Gemma
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Primeiro, ao vê-la, causou-me um pouco de medo; fiz de tudo para me assegurar de


que era verdadeiramente a Mãe de Jesus: deu-me sinal para me orientar. Depois de
um momento, fiquei toda contente; mas foi tamanha a comoção que me senti muito
pequena diante dela, e tamanho o contentamento que não pude pronunciar palavra,
senão dizer, repetidamente, o nome de 'Mãe'. [...] Enquanto juntas conversávamos, e
me tinha sempre pela mão, deixou-me; eu não queria que fosse, estava quase
chorando, e então me disse: 'Minha filha, agora basta; Jesus pede-lhe este sacrifício,
por ora convém que a deixe'. A sua palavra deixou-me em paz; repousei
tranquilamente: 'Pois bem, o sacrifício foi feito'. Deixou-me. Quem poderia descrever
em detalhes quão bela, quão querida é a Mãe celeste? Não, certamente não existe
comparação. Quando terei a felicidade de vê-la novamente?

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Social da Igreja numa linguagem jovem. Esta obra conta ainda com prefácio do Papa
Francisco, que manifesta o sonho de ter um milhão de jovens leitores da Doutrina
Social da Igreja, convidando-os a ser Doutrina Social em movimento.

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Esta edição contém o Novo Testamento, com introdução para cada livro e notas
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cristã teve seu início, desenvolveu-se e por fim, se fixou. Lee Martin McDonald
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Índice
Introdução 4
Linguagem tradicional 9
(no universo católico e evangélico) 9
1. Introdução 9
2. Natureza teológica de tal linguagem 10
3. Toques específicos para o caso de Jesus 12
4. Aspectos positivos e originais da linguagem 16
5. Aspectos deficientes da linguagem 17
6. Conclusão 20
7. Dinâmica 21
8. Bibliografia 21
Linguagens neotradicional pós-moderna, carismática e espírita 23
1. Linguagem neotradicional 23
2. Linguagem carismática 30
Caráter carismático do seguimento de Jesus 31
3. Linguagem espírita 35
4. Aspectos positivos e originais 40
5. Aspectos deficientes 41
6. Conclusão 41
7. Dinâmica 42
8. Bibliografia 42
A linguagem neopentecostal 44
1. Introdução 44
2. Eixos históricos do neopentecostalismo 45
3. Eixos teológicos do neopentecostalismo 48
4. A linguagem sobre Jesus Cristo no neopentecostalismo 50
5. Aspectos críticos 53
6. Conclusão 54
7. Dinâmica 55
8. Bibliografia 55
CONCLUSÃO 57

70

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