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1ª edição neste formato


Versão 1.2
2016

Coordenação Editorial: Vanderlei Dorneles


Editoração: Wellington Barbosa e Neila D. Oliveira
Design Developer: Fernando Lima e Cristiano Soares Vieira
Revisão: Adriana Seratto
Projeto Gráfico: Cleusa Santos
Capa: William Lobo
Imagens da Capa: William Lobo

Os textos bíblicos citados neste livro foram extraídos da versão Almeida Revista e Atualizada, salvo outra
indicação.

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio,
sem prévia autorização escrita do autor e da Editora.
15713/34123

Apresentação

uando um bebê nasce, os pais e amigos o acham fofo, lindo, uma gracinha. No

Q entanto, ele não tem capacidade para entender e fazer as coisas do mundo dos
adultos. É perfeito para aquele estágio, mas não pode permanecer assim.
Imagine se continuasse sempre do mesmo tamanho e agindo como um bebê! Alguma
coisa estaria errada, não é? Toda pessoa que nasce para o reino de Deus também
precisa crescer, amadurecer e dar fruto. O estágio da justificação é apenas o começo.
Por isso, Depois do Perdão apresenta os passos seguintes na experiência cristã: o
caminhar com Deus, o viver em obediência, o aperfeiçoamento do caráter, a
santidade, o delicioso fruto do Espírito.
Este livro o ajudará a compreender melhor o plano de Deus para sua vida e os
recursos que o Céu coloca à sua disposição para que você seja mais do que vencedor.
Experimente as virtudes do Espírito e deixe Cristo transformar sua vida.

Emilson dos Reis é pastor, professor de teologia e autor de livros. Foi pastor de
diversas igrejas nas regiões central e sul do Brasil. É doutor em Teologia Pastoral e
diretor da Faculdade de Teologia do Unasp, em Engenheiro Coelho, interior de São
Paulo.

Introdução

s igrejas cristãs costumam planejar momentos em que seus membros tenham

A a oportunidade de dar testemunho público sobre o que Deus tem realizado


em sua vida. Quando um testemunho se refere à experiência de conversão, ele
costuma seguir uma determinada sequência. Num primeiro momento é dito algo
sobre a vida anterior, quando a pessoa estava longe de Deus. Suas palavras devem ser
poucas e não detalhar o pecado, porque a intenção não é propagar o mal. Então é
explicado como a pessoa encontrou o evangelho e o aceitou. Isso mostra o poder de
Deus, a eficácia de Sua Palavra e serve de incentivo missionário para quem ouve o
relato. Finalmente, vem o depoimento de como é sua vida no presente, seu andar
com Deus, o que evidencia um grande contraste com o estilo de vida anterior.
O livro que você tem em mãos apresenta esses passos e vai além. Ele descreve a
vida de uma pessoa não convertida e o porquê de ser assim. Mostra de onde vem
nosso coração pecador, bem como a força que o pecado exerce sobre nós. Demonstra
como esse domínio pode ser quebrado, como se dá a conversão e o início do processo
da salvação e como Deus nos perdoa. Esses elementos são mencionados como
fundamentos necessários para o que ocorre depois do perdão: a experiência cristã, o
caminhar com Deus, a vida vitoriosa que o Criador planejou para nós. O destaque se
concentra no aperfeiçoamento do caráter, no viver dia a dia em obediência, santidade
e pureza, algo possível porque o Espírito de Deus passa a habitar em nós. Sua missão é
formar o caráter, o que Ele faz por meio do desenvolvimento das preciosas virtudes
cristãs.
Depois do Perdão foi escrito para você que já é cristão, a fim de ajudá-lo a
compreender melhor o que o Céu tem realizado em favor de sua salvação. Apresenta
o plano de Deus para sua vida e os recursos que Ele colocou à sua disposição para que
você seja mais do que vencedor. Pretende assisti-lo em sua busca pelas virtudes do
Espírito de modo que façam parte de seu caráter, sejam um deleite para você,
representem uma grande bênção para aqueles com os quais você se relaciona e
resultem em glória para Deus. Depois do Perdão pode fazer a diferença em sua vida.
PARTE 1
As Virtudes Cristãs no Plano de Deus

o momento em que, arrependido, confesso meus pecados e reclamo o

N sacrifício de Cristo em meu favor, Deus me perdoa totalmente. Assim, da


parte de Deus não há mais nenhuma condenação sobre mim. Fico em paz
1
com Ele. Isso é chamado na Bíblia de justificação (Rm 8:1; 5:1). Contudo, por
maravilhosa que seja tal experiência, ela é apenas o início do processo da salvação. Há
muito mais. Depois do perdão, a vida continua, e, se continuo a ser a mesma pessoa
que fui, acabarei repetindo os mesmos pecados. O que eu preciso é de santificação
(Hb 12:14), que é o crescimento na graça, o desenvolvimento do caráter. Desse modo,
2
justificação e santificação são aspectos integrantes da experiência da salvação.
Ninguém pode ser santificado sem primeiro haver sido justificado, e ninguém pode
ser justificado sem imediatamente entrar no processo da santificação. Se na
justificação eu sou completamente perdoado quanto ao meu passado, na santificação
eu recebo ajuda para viver o presente como Deus espera.
Um erro comum é pensar que a justificação é obra de Deus e a santificação, obra
do homem. Alguns chegam a orar: “Senhor, eu pequei, mas estou arrependido e creio
em Cristo para perdão de meus pecados. Se me perdoares, prometo ser obediente.”
Semelhantemente a Israel no Sinai, dizem: “Tudo o que falou o Senhor faremos” (Êx
24:3). O problema é que confiam na própria capacidade para obedecer. Todavia, a
Bíblia ensina que a santificação também é resultado da ação de Deus (Ez 20:12; 1Ts
5:23). Na realidade, a salvação, do início ao fim, e em todos os seus aspectos, é obra de
Deus. O mesmo Deus que nos perdoou é o que nos santifica. Contudo, assim como
para sermos perdoados tivemos que aceitar pela fé o perdão, do mesmo modo a
santificação depende de nossa atitude.
Quando alguém recebe a Jesus e crê em Seu nome, Deus o justifica e com o
perdão lhe concede poder a fim de que viva, dali em diante, uma vida obediente (Ef
3:16, 20). Esse poder não brota espontaneamente de nosso íntimo. Ele vem de fora, é
poder de Deus. Com ele podemos viver no dia a dia uma vida de obediência,
santidade e pureza. Esse poder nos tornará vitoriosos sobre as más tendências
hereditárias e cultivadas, sobre o mundo, o diabo e suas tentações. A mudança é tão
radical que somos considerados novas criaturas (2Co 5:17). Cristo passa a viver em
nós (Gl 2:20) e é justamente essa presença que santifica nossos pensamentos,
emoções, palavras e atos. Desse modo, cessamos de viver continuamente em pecado
(1Jo 3:4, 6, 9). Este perde o seu domínio sobre a nossa vida (Rm 6:14). Isso não
significa que nunca mais haveremos de pecar, mas que o pecado não nos domina
como antes. Tal domínio foi quebrado por Cristo. Agora passamos a ter uma vida
vitoriosa e, mesmo quando falhamos por um momento, voltamos para Deus, que
prontamente nos perdoa outra vez (1Jo 2:1; 1:8, 9). Haverá grande diferença com a
vida anterior. Quanto pior o passado, maior o contraste (2Co 5:17; Ef 4:22-5:21; Cl 3:1-
17; Tt 3:3-8). Sim, Deus não nos perdoa para que continuemos na mesma vida infeliz,
inútil e pecaminosa que levávamos. Ele nos restaura, eleva-nos a uma posição onde
tenhamos todas as condições para viver de maneira bem-aventurada, proveitosa e
santificada. Isso Ele faz colocando em nós o Seu Espírito, o qual desenvolverá o que é
chamado de “fruto do Espírito”.

1 Ellen G. White, Fé e Obras (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 93; Mateo Leliévre, João
Wesley: Sua Vida e Sua Obra (São Paulo: Vida, 1997), p. 363.
2 White, Fé e Obras, p. 15.
1
O Espírito de Deus

uem é o Espírito Santo? Os cristãos têm buscado responder a essa pergunta

Q desde os dias em que Cristo andou entre nós. Basicamente, há dois pontos de
vista divergentes. Alguns entendem que o Espírito é apenas uma energia ou
força de Deus, enquanto outros creem que Ele é uma pessoa divina. Vamos pensar
sobre isso. O que é necessário para ser uma pessoa? Seria o fato de ter mãos, pés,
cabeça, olhos, ouvidos e os demais membros que temos no corpo? É claro que não.
Um macaco tem tudo isso e não é pessoa. Uma pessoa é constituída de três aspectos:
intelecto, emoção e vontade. Intelecto se refere à faculdade de julgar, avaliar,
conhecer, compreender, raciocinar. Emoção diz respeito aos ânimos e afetos, à
capacidade de sentir alegria, tristeza, amor e ira, entre outras coisas. Vontade é a
aptidão para efetuar escolhas, tomar decisões. Não há na Bíblia uma frase que diga: “O
Espírito Santo é uma pessoa.” Também não há uma declaração dizendo: “O Espírito
Santo não é uma pessoa.” Todavia, se reunirmos as informações que ela apresenta
sobre o Espírito, encontraremos a resposta. Então mãos à obra! Vamos conferir.
As Escrituras afirmam que o Espírito tem compreensão, sabedoria e
entendimento (Is 40:13, 14). Ele perscruta (1Co 2:10), conhece (1Co 2:11), ensina (Jo
14:26; 1Co 2:13), orienta (At 8:29; 10:19, 20; Rm 8:14), dá entendimento (Hb 9:8) e
plena convicção (1Ts 1:5). É capaz de compreender nossas fraquezas e limitações e,
por isso, interceder por nós (Rm 8:26). Portanto, o Espírito é um ser inteligente.
O Espírito também é mencionado em conexão com a alegria (Rm 14:17; 1Ts 1:6),
o amor (Rm 5:5; 15:30) e a esperança (Rm 15:13). É dito que Ele sente ciúme por nós
(Tg 4:5) e que pode ficar triste (Ef 4:30). Portanto, o Espírito possui emoção.
O Espírito ainda é apresentado como Alguém que toma decisões. Isto pode ser
visto ao conceder dons espirituais aos filhos de Deus, dando a cada um o dom que
Lhe apraz (1Co 12:4-11); ao escolher e separar para uma missão especial aqueles que
Lhe convém (At 13:1, 2); e ao definir quais eram as coisas essenciais que os gentios
convertidos deveriam seguir (At 15:28, 29). Portanto, o Espírito possui vontade.
Por outro lado, podemos perguntar: “Pode uma energia ou uma força raciocinar,
decidir e expressar sentimentos?” Aí bem perto de você é provável que haja uma rede
com energia elétrica. Quem sabe ela esteja sendo utilizada para manter acesa uma
lâmpada, fazer funcionar um aparelho de ar-condicionado, ou para ligar uma
televisão. Agora, pergunte a si mesmo: “Essa energia possui sentimentos? Ela pode
amar ou ficar triste? É possível que ela faça escolhas ou seja capaz de entender e
avaliar o que está acontecendo à sua volta?” Certamente não! Isto é verdade não
apenas sobre a energia elétrica, mas sobre qualquer outra força. Uma energia não
pensa, não sente nem decide. Sendo assim, como o Espírito Santo possui razão,
emoção e vontade, concluímos que Ele, embora seja forte e poderoso, não é apenas
uma força ou energia. Ele é uma pessoa.
Alguém talvez questione: Como o Espírito seria uma pessoa, se é dito que Ele
pode ser apagado (1Ts 5:19), derramado (Is 32:15; 44:3; Jl 2:28, 29) e que devemos nos
encher dEle (Ef 5:18)? Acontece que são apenas figuras de linguagem, formas de
expressão, um jeito de dizer que não deve ser compreendido literalmente, e que estão
presentes em qualquer idioma. Observe, por exemplo, que um modo semelhante é
aplicado em relação a Cristo. Paulo escreveu: “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo”
(Rm 13:14). Acaso, alguém, baseado nesse verso, teria coragem de dizer que Cristo
não é uma pessoa, porque é impossível nos vestirmos de uma pessoa? Certamente
não! O verso está apenas nos estimulando a viver apegados a Cristo. O mesmo
argumento é válido em relação ao Espírito.
Em certo sentido, há diferentes tipos de pessoa: o homem é uma pessoa humana,
um anjo é uma pessoa angélica e Deus Pai é uma pessoa divina. Igualmente, podemos
afirmar que o Espírito é uma pessoa divina. Afinal, atributos que pertencem
exclusivamente à divindade são atribuídos ao Espírito. A Palavra diz que Ele conhece
tudo a respeito de Deus (1Co 2:10, 11), o que não seria possível a não ser que Ele
mesmo fosse Deus. Ele é eterno (Hb 9:14), é o doador da vida (Jó 33:4) e o pecado
cometido contra Ele é maior que o pecado cometido contra Cristo (Mt 12:32), e esse
pecado é o único para o qual não há perdão (Mt 12:31). Além disso, o autor do livro
de Hebreus se refere ao Espírito como Ser divino ao declarar que o Senhor (Deus)
que prometeu inscrever Sua lei em nosso coração e nos perdoar (Jr 31:33, 34) é o
próprio Espírito Santo (Hb 10:15-17).
A Bíblia fala repetidamente sobre o Espírito de Deus. Assim como você e eu, Ele
possui vários nomes e títulos. Para ilustrar, permita-me usar o meu exemplo. As
pessoas costumam me chamar por meu primeiro nome. No entanto, há uma cidade
onde os membros da igreja preferiram me chamar por meu sobrenome. Outras
pessoas usam diferentes expressões quando se referem a mim. Minha esposa me
chama de “bem”. Meu filho me chama de “pai”. Também posso ser chamado de
irmão, cunhado, tio, vovô, pastor, professor, diretor, mestre, doutor ou amigo. A
circunstância do momento é que determina a expressão mais apropriada.
O mesmo ocorre em relação ao Espírito de Deus. Os escritores da Bíblia se
referem a Ele usando termos como: Espírito, Espírito de Deus, Espírito de Cristo,
Espírito da verdade e Consolador (Jo 14:16, 17; Rm 8:9). Apesar disso, o Espírito é um
só. Ele tem uma grande missão neste mundo, no qual está presente desde a criação
(Gn 1:2). Ele é o doador do fôlego da vida de cada criatura vivente (Sl 104:24-30).
Esteve com os juízes de Israel e os capacitou a libertar o povo daqueles que os
oprimiam (Jz 3:9, 10; 6:34; 11:29; 14:5, 6, 19; 15:14). Inspirou os profetas comunicando-
lhes as mensagens do Céu e guiando-os na transmissão da Palavra de Deus (2Cr
20:14; 24:20; Ez 2:2; 11:5; 1Pe 1:10, 11; 2Pe 1:21).
Depois da morte e ressurreição de Cristo, a obra do Espírito foi intensificada. Ele é
o verdadeiro representante de Cristo entre nós. Foi enviado para estar sempre
conosco e, mais do que isso, para habitar em nós (Jo 14:16, 17). Lembra-nos dos
ensinos de Cristo e nos guia em toda a verdade (Jo 14:26; 16:13). Os dons espirituais
são concedidos segundo Sua vontade (1Co 12:4, 7-11) para que com eles abençoemos
nossos irmãos de fé e evangelizemos o mundo. Enquanto isso, Ele mesmo trabalha
com todas as pessoas procurando convencê-las de que são pecadoras, de que Cristo
tem justiça para cobrir os seus pecados e de que podem ficar livres do mal porque na
cruz Satanás já foi julgado e condenado (Jo 16:7-11).
Ademais, é o Espírito que nos concede as preciosas virtudes cristãs, chamadas de
“fruto do Espírito” em Gálatas 5:22 e 23. O tema dessa carta de Paulo é a justificação
pela fé e, entre sua introdução e conclusão, há três seções. Na primeira, a justificação
pela fé é defendida e nela o autor ressalta sua autoridade como apóstolo de Cristo
(1:11-2:21). Na segunda, a justificação pela fé é explicada e nela vemos o evangelho
anunciado por Paulo (3:1-4:31). Finalmente, a justificação pela fé é aplicada, onde a
1
ênfase repousa sobre a ética ensinada por Paulo (5:1-6:10). É nesta terceira seção
que encontramos a orientação sobre o fruto do Espírito. Em seu argumento, o
apóstolo apresenta o constante conflito que há em nosso íntimo entre a carne e o
Espírito, e o que ocorre quando um deles é vitorioso.

1 Charles C. Ryrie, A Bíblia Anotada: Edição Expandida (São Paulo: Mundo Cristão; Barueri, SP: Sociedade
Bíblica do Brasil, 2007), p. 1.140.
2
O Vírus do Pecado

C arne é uma referência à nossa natureza pecaminosa, o que somos por nascimento
e hereditariedade. É nossa condição caída. Refere-se ao inimigo dentro de nós que
nos leva para longe de Deus (Tg 1:13-16; Sl 51:5). O próprio Jesus ensinou que nossos
atos de pecado (mentir, roubar, adulterar, matar, entre outros) e atitudes de pecado
(ódio, cobiça, inveja, assim por diante) procedem de nossa natureza pecaminosa, que
Ele chamou de “coração” (Mc 7:21-23) e que Paulo, em seus escritos, costuma chamar
de “carne” (Rm 7:5; 8:3-5).
De onde vem nosso coração pecador, essa natureza pecaminosa? Para
entendermos a questão, precisamos nos reportar ao Jardim do Éden, onde o homem
desobedeceu a Deus pela primeira vez. O ato de Adão mudou a natureza humana
fazendo com que o homem perdesse o desejo e a capacidade de servir e amar a
1
Deus. Quando Adão transgrediu a lei de Deus pela primeira vez, foi implantado um
vírus na humanidade: o pecado. Um vírus poderoso, que corrompe, degrada,
enfraquece e escraviza. Por isso, cada parte de nosso ser está infectada: o intelecto, as
emoções, os desejos, o coração e o corpo. O pecado de Adão trouxe degradação e
morte (Rm 5:12, 17a, 18a, 19a). A partir de então, o homem se tornou escravo do
pecado (Rm 6:17, 20), o que pode ser claramente percebido nas narrativas bíblicas. O
pecado manda e o homem obedece.
O pecado ordenou a Caim: “Mate seu irmão.” Caim obedeceu, tornando-se o
primeiro homicida. O pecado disse a Acã: “Tome para você aquela bonita capa
babilônica e aquela barra de ouro.” Assim ele fez, trazendo uma grande desgraça ao
povo de Israel. O pecado domina os homens fortes. Ele disse a Sansão: “Desobedeça a
seus pais e case com uma moça pagã”, e assim aconteceu. Sansão teve uma vida
conjugal curta e infeliz. O pecado domina os homens sábios. Ele ordenou a Salomão:
“Pratique a poligamia e em excesso.” Salomão teve muitas esposas e concubinas. O
pecado escraviza até os reis. Ele disse a Saul: “Consulte uma feiticeira.” Lá foi ele visitar
a médium de En-Dor e perder para sempre a atuação do Espírito de Deus em sua
vida. O pecado ordenou a Davi: “Mande chamar Bate-Seba e deite-se com ela.” Davi a
convocou para ir ao palácio e teve intimidade com ela. Depois, isso trouxe a ele
mesmo e a outros muita tristeza e graves consequências. O pecado disse a Acabe:
“Implante a idolatria em Israel.” Acabe mandou construir templos e altares pagãos por
toda a nação, afastando o povo para longe dos caminhos de Deus. Sim, nos membros
de nosso corpo há uma lei, uma força chamada pecado, que nos escraviza (Rm 7:23).
Mais do que isso: ele habita em nós (Rm 7:17, 20) e nos conduz à morte (8:5-8). Isso é
verdade em relação a todos os homens, a ponto de as Escrituras declararem que não
há um só justo (Rm 3:9-12, 23; 1Jo 1:8, 10).
Num dia ensolarado, um fazendeiro, montado em seu cavalo, observava suas
terras e a beleza do lugar. Lá no alto uma grande águia sobrevoava o vale em busca de
caça. De repente, ela mirou alguma coisa no solo e dirigiu-se velozmente em sua
direção. Apanhou-a com as poderosas garras e tornou a subir. Depois de alguns
instantes, ela fechou as asas e caiu verticalmente por vários metros. Então tentou
subir mais um pouco. Novamente suas asas se fecharam e ela tornou a cair. Outra vez
ela se recuperou e tentou subir. Finalmente, tombou no solo. O fazendeiro, intrigado,
dirigiu-se rapidamente ao local, e chegou a tempo de ver uma serpente afastando-se
da águia. Então entendeu o que havia acontecido. A águia vira a serpente e a agarrara.
Todavia, a serpente conseguira picar uma de suas garras. A águia tentara subir, voltar
ao alto que era seu lugar, esforçara-se ao máximo, mas o poderoso veneno que atuava
em seu corpo não permitiu. Isso é muito parecido com o que ocorre conosco.
Queremos ir para cima, estar mais perto de Deus, ser mais puros, obedientes,
bondosos, mas o veneno do pecado, com o qual nascemos e que habita em nós, nos
impede.

1
Ellen G. White, Educação (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 28.
3
O Antivírus de Deus

recisamos desesperadamente de um antivírus. Deus sabe disso e o providenciou.

P Tiago escreveu: “Acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é


poderosa para salvar a vossa alma” (Tg 1:21; cf. 1Pe 1:23, 25). Qual poderoso
antivírus, a Palavra de Deus é introduzida em nós. Ela é poderosa para nos salvar
porque contém um componente especial: Cristo. Ela testifica de Cristo (Jo 5:39).
Conta-nos que o Pai enviou o Filho como Salvador (1Jo 4:14) e que este recebeu o
nome de “Jesus” porque salvaria o povo do pecado (Mt 1:21). Para tanto, Ele precisava
ser sem pecado, fato comprovado no Novo Testamento (Lc 1:35; Jo 8:46; 2Co 5:21;
Hb 4:15; 1Pe 2:22, 24; 1Jo 3:5). Ele é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do
mundo” (Jo 1:29) “e não há salvação em nenhum outro [...] nome” (At 4:12).
Quando cremos nEle somos libertados do poder do pecado (Rm 6:14, 17),
recebemos o direito de nos tornar filhos de Deus, de ter um novo começo e ser parte
da Sua família (Jo 1:12). O Espírito de Deus passa a habitar em nós e nos fortalece para
sermos obedientes (Ef 3:16, 20). Ele produz em nós o novo nascimento (Jo 3:3-8) e dá
o desejo e a capacidade para servirmos a Deus. Além de nos tornarmos novas
criaturas (2Co 5:17), mudamos de reino. Somos retirados do império das trevas e
transportados para o reino de Cristo (Cl 1:13). Somos justificados e temos paz com
Deus (Rm 5:1), passamos a ser servos da justiça (Rm 6:18).
Imagine isto: você tem um livro em sua mão. Se ele for solto, cairá. Por quê? Há
uma força que o puxa para baixo, a força da gravidade. Você não pode vê-la, mas sabe
que ela está agindo. Agora, mova o livro para cima. O que aconteceu? Por que em vez
de cair ele subiu? Por acaso, a força que puxa para baixo deixou de atuar? Não! O livro
foi puxado para baixo, mas uma força maior o pegou e o fez subir. Assim é com sua
vida. Esse livro representa você. Sem Cristo, sua vida é como um livro solto em queda
livre. Com Ele, você está seguro em Suas mãos, por isso, você sobe. Esse é o segredo
para não cair (Sl 18:16; Is 59:1; Jo 10:28).
O cristão vive um conflito por ter duas naturezas: uma carnal, com a qual nasceu,
e outra, espiritual, que recebeu por ocasião de sua conversão (Jo 3:3-7). É verdade que
a carne foi crucificada (Rm 6:6; Gl 5:24), no entanto, a crucifixão produzia morte
gradual, não súbita. Aquele que era colocado na cruz estava legalmente morto. Mas,
na realidade, ainda permanecia vivo por algum tempo, durante o qual experimentava
as sensações de seu corpo. Nós, ainda que experimentemos os desejos também da
carne, não os satisfazemos; antes, mantemos nossa natureza carnal na cruz, não
permitindo que ela volte a nos dominar.
Hoje, embora convertidos, continuamos infectados pelo vírus do pecado.
Todavia, temos o antivírus de Deus operando de um modo eficaz em nós, enquanto
aguardamos o retorno de Cristo quando, enfim, Deus o removerá definitivamente.
Então seremos glorificados e nosso corpo será como o de Adão, antes de ele haver
pecado (1Co 15:51-58; Fp 3:20, 21).
Você já pensou em quantos de seus familiares, amigos e vizinhos estão infectados
pelo vírus do pecado, andando pela vida sem conhecer o antivírus? Você precisa levar
a eles o remédio oferecido por Deus.
4
Os Códigos Morais

os dias de Paulo eram comuns os códigos morais que diziam o que fazer ou

N não. Consistiam em listas com os vícios a evitar e as virtudes a ser


desenvolvidas. Elas eram usadas por famílias judaicas e gentias para a
1
educação dos filhos. Com base nesse costume, escritores do Novo Testamento
também incluíram nas cartas apostólicas algumas listas. A finalidade era ajudar seus
leitores a entender a espécie de caráter e comportamento que deveriam ter como
filhos de Deus. Os textos geralmente apresentam duas listas que contrapõem
claramente o caráter do cristão e do ímpio, e os feitos de cada um. Temos um
exemplo no capítulo 5 da carta aos Gálatas. A primeira lista, dos defeitos, é chamada
de “obras da carne” (Gl 5:19-21). A segunda, das virtudes, é chamada de “fruto do
Espírito” (Gl 5:22, 23). A carne produz obras e elas abrangem quatro áreas:
1. Sexo: prostituição, impureza (comportamento anormal) e lascívia (atrevido
desprezo pelo decoro). Essas três palavras abrangem todo tipo de comportamento
sexual ilegal, de casados e solteiros, públicos ou particulares. Esses pecados eram
praticados abertamente e tinham grande destaque no ambiente e adoração pagãos.
2. Religião: idolatrias e feitiçarias, envolvendo bruxaria e o uso de remédios ou
drogas com propósitos mágicos.
3. Social: inimizades, discórdias, dissensões, facções, porfia, ciúme e inveja (v. 26).
Esses são males sociais e retratam o colapso nos relacionamentos pessoais.
4. Alimentação: bebedices e glutonarias, pecados que predominavam no mundo
pagão e eram sancionados por suas religiões.
O apóstolo afirmou que aquele que pratica as obras da carne será excluído do
reino de Deus. Todavia, o Senhor envia o Seu Espírito ao pecador. Quando este,
consentindo com Sua obra, recebe a Cristo como seu Salvador, crucifica a carne com
suas paixões e concupiscências (Gl 5:24), passando a andar segundo os ditames do
Espírito (v. 16, 25). Essa mudança é tão grande que é comparada a uma nova criação.
Na linguagem de Paulo: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas
antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2Co 5:17). Agora, contrastando com as
obras da carne, produz-se no homem o fruto do Espírito: “amor, alegria, paz,
longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl
5:22, 23). Assim, enquanto a carne produz más obras, o Espírito produz bom fruto.
Essas más obras provêm de nosso eu pecaminoso, mas o bom fruto é resultado da
ação do Espírito em nós.

1 George R. Knight, Mitos na Educação Adventista: Um Estudo Interpretativo da Educação nos Escritos de Ellen
G. White (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2010), p. 169.
5
O Fruto do Espírito

o instante em que cremos em Cristo como Filho de Deus e nosso Salvador, o

N Espírito Santo entra no coração e faz morada em nós. Sua missão é formar um
caráter cristão, o que Ele realiza por meio do desenvolvimento das virtudes
chamadas de “fruto do Espírito” (Gl 5:22, 23). O termo “fruto” denota algumas ideias:
1. O fruto é um resultado. Primeiro houve um caule com suas raízes e ramos,
depois surgiu a flor e, finalmente, o fruto. Assim, antes do fruto do Espírito aparecer
em nossa vida, houve um desdobramento de ações da parte de Deus e Sua Palavra, e a
resposta positiva de nosso coração.
2. O fruto passa por um processo de crescimento e amadurecimento. Os frutos de
qualquer planta não surgem prontos e maduros; antes, vão crescendo e maturando
aos poucos. Do mesmo modo, as virtudes devem crescer e maturar gradualmente em
nossa vida. Assim, é de se esperar que aqueles cristãos que são novos na fé tenham
um fruto pequeno e verde, sem muita formosura e gosto; e que, os mais experientes
na vida cristã, manifestem um fruto vistoso, maior, mais belo e apetitoso. Todos
podem crescer mais e mais na busca de um caráter semelhante ao de Cristo. O
segredo é andar segundo a orientação do Espírito.
3. O fruto consiste em um conjunto de qualidades. Gálatas 5:22 e 23 relaciona
várias virtudes, mas as chama de “fruto”, e não “frutos”, o que sugere que cada virtude
mencionada compõe o mesmo fruto. Assim como os gomos de uma laranja são
distintos uns dos outros, mas ao mesmo tempo estão interligados, essas qualidades
estão conectadas entre si e vão se desenvolvendo juntas. Algumas delas dizem
respeito às atitudes do cristão e se referem a ele mesmo. Outras são práticas que ele
manifesta no trato com os outros. Ainda há aquelas que ele expõe em sua relação
com Deus. Desse modo, há virtudes que nos fazem olhar para dentro, para fora e para
o lado, e outras que nos impelem a olhar para cima – abrangendo assim, todos os
1
relacionamentos da vida.
O fruto e os dons do Espírito
Uma pessoa não convertida possui dons naturais. O dom natural é a capacidade
dada por Deus para fazer bem alguma coisa: ser um pedreiro, uma costureira, tocar
um instrumento musical, cantar, ser um bom orador, um médico, um engenheiro,
entre outras atividades. O ser humano pode nascer com um dom potencial ou pode
adquiri-lo em meio às circunstâncias e necessidades da vida. O converso, porém, além
dos dons naturais, possui um ou mais dons espirituais. O dom espiritual é a
capacidade dada por Deus para que se realize bem uma tarefa que tenha significado
espiritual e que, necessariamente, auxilie a igreja a cumprir sua missão. Os dons
espirituais são concedidos somente àqueles que, tendo ouvido o evangelho, creram
2
em Cristo e O receberam como Salvador e Senhor.
Embora tanto o fruto como o dom derivem da obra do Espírito Santo na vida do
crente (Gl 5:22, 23; 1Co 12:4), eles são distintos. Enquanto o dom enfatiza o fazer, o
fruto destaca o ser. A respeito dos dons está escrito: “Porque a um é dada, mediante o
Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do
conhecimento; a outro, no mesmo Espírito, a fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons
de curar; a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de
espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las” (1Co
12:8-10). O verso 11 acrescenta que o recebimento de qualquer dom ocorre de modo
individual: “Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as,
como Lhe apraz, a cada um, individualmente.”
Apenas no início da era cristã, para cumprir uma promessa específica de Jesus
(Mc 16:17), é que os crentes receberam o mesmo dom de uma só vez (At 2:1-4). Isso
aconteceu para atender à necessidade imediata de pregar o evangelho a outros povos,
segundo o idioma que cada qual falava. Conforme o relato do livro de Atos, o dom de
línguas foi manifestado dessa maneira em poucas ocasiões e em circunstâncias
específicas.
Portanto, ao passo que cada cristão possui um número limitado de dons e esses
possam ser diferentes dos dons de outros, todos os cristãos devem exibir as
qualidades do Espírito em sua vida. Embora os convertidos tenham ambos, frutos e
dons, a clara evidência de que alguém é um cristão maduro não é possuir este ou
aquele dom, porém manifestar em seu caráter a abundância do fruto do Espírito. Ou
seja, quanto mais formos dominados pelo Espírito de Deus, mais bondosos, fiéis,
mansos e autocontrolados seremos.
O fruto e o ensino de Cristo
O Senhor Jesus usou a ilustração do fruto em Seus ensinos (Jo 15). Comparou-Se
a uma videira e a nós, como Seus ramos. Ele disse: “Permanecei em Mim, e Eu
permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não
permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em Mim.
[...] Porque sem Mim nada podeis fazer. [...] Nisto é glorificado Meu Pai, em que deis
muito fruto” (v. 4, 5, 8). De uma análise desse capítulo surgem algumas verdades:
1. A produção de bom fruto em nossa vida depende da relação com Jesus. Se
recebermos constantemente de Sua seiva, Sua vida, daremos muito fruto. Como Ele
disse: “Sem Mim nada podeis fazer” (v. 5). Comparando este texto: “Tudo posso
nAquele que me fortalece” (Fp 4:13), concluímos que, sem Jesus, nada é possível na
vida espiritual; mas, com Ele, tudo é possível.
2. A produção de fruto em nossa vida deve resultar na glorificação do nome de
Deus (v. 8). No Sermão da Montanha, Ele havia ensinado: “Assim brilhe também a
vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a
vosso Pai que está nos Céus” (Mt 5:16). Aquilo que somos reflete no que fazemos, e
tanto um como outro devem promover a glória de Deus. As pessoas que observam
nosso falar, proceder, trabalho e nossos relacionamentos devem dar glórias a Deus.
Foi assim com Jesus. Certa vez, Ele curou um cego diante de uma multidão. Qual foi o
resultado? Tanto o que recebeu a bênção como a multidão que testemunhou o fato
glorificaram a Deus. O texto declara: “Imediatamente, tornou a ver e seguia-O
glorificando a Deus. Também todo o povo, vendo isto, dava louvores a Deus” (Lc
18:43).
3. A produção de fruto deve ser seguida de uma poda, para que produza ainda
mais fruto. A podadeira de Deus, mediante a qual Ele nos limpa, é Sua Palavra (v. 2, 3).
Ela nos ensina, repreende, corrige, educa, aperfeiçoa e habilita (2Tm 3:16, 17). Quão
importante, então, é termos, regularmente, tempo para o estudo das Escrituras
Sagradas e disposição de coração para seguir seus ensinos.
4. A produção de fruto ou sua falta é um indicativo de qual será o nosso destino.
Aquele que produz abundante fruto revela que está unido a Cristo, a videira, e
desfrutará a vida eterna. Ao contrário, a falta de fruto evidenciará que o ramo está
separado de Cristo e que, por essa razão, finalmente será destruído pelo fogo (Jo 15:6).
1 J. Sidlow Baxter, Examinai as Escrituras: Atos a Apocalipse (São Paulo: Vida Nova, 1995), vol. 6, p. 163.
2 Emilson dos Reis, “Dons Espirituais”, Revista Adventista, janeiro de 2004, p. 12, 13.
6
A Troca de Roupa

aulo usou outra figura para relacionar o tema das virtudes ao vestuário (Cl 3:5-

P 17; cf. Ef 4:17-5:21). Uma pessoa está vestida com roupas velhas, sujas, rotas e
malcheirosas, mas alguém se aproxima e lhe oferece condições para efetuar uma
mudança. Ele, então, percebe sua situação e decide mudar. Despe-se das vestes que
está usando. Tira-as. Joga-as fora. Livra-se delas. Depois, começa a vestir as roupas
novas, limpas e belas que recebeu.
O apóstolo disse: “vos despistes do velho homem” (Cl 3:9). Quais eram suas
vestes? Prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno, avareza, ira, indignação,
maldade, maledicência, linguagem obscena e mentira (v. 5, 8, 9). E acrescentou: “vos
revestistes do novo homem” (v. 10). Que vestes são essas? “Revesti-vos, pois, como
eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de
humildade, de mansidão, de longanimidade. Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos
mutuamente, [...] acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da
perfeição. Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes
chamados em um só corpo; e sede agradecidos” (v. 12-15).
Portanto, a vida cristã, que é uma vida de santificação, requer que abandonemos
algumas coisas e adquiramos outras. Devemos nos despir daqueles hábitos e
procedimentos pecaminosos e, então, nos vestir das qualidades que o Céu aprova.
Precisamos não apenas nos despir das vestes do mal. É necessário também nos
vestirmos com as roupas do bem. Santificação significa não só vencer o pecado, os
vícios, os maus hábitos, mas também desenvolver as virtudes cristãs.
7
A Necessidade de Esforço

mbora leve apenas um momento para sermos perdoados e aceitos por Deus

E como justos, o mesmo não ocorre para nos tornarmos bondosos, mansos, fiéis e
temperantes. Isso requer tempo e esforço. Esforço? Não somos salvos pela
graça? Sim! Entretanto, é o merecimento que se opõe à graça, não o esforço. Isso
mesmo. O escritor bíblico que mais enalteceu a graça de Deus – o apóstolo Paulo –
também foi o que mais argumentou sobre o esforço cristão. Observe algumas
declarações em que ele aplica o verbo esforçar a si mesmo:
• “Para isso é que eu também me afadigo, esforçando-me o mais possível, segundo
a Sua eficácia que opera eficientemente em mim” (Cl 1:29; ver 1Co 9:27);
• “Desde Jerusalém e circunvizinhanças até o Ilírico, tenho divulgado o evangelho
de Cristo, esforçando-me deste modo, por pregar o evangelho” (Rm 15:19, 20);
• “É por isso que também nos esforçamos, quer presentes, quer ausentes, para Lhe
sermos agradáveis” (2Co 5:9);
• “Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a
Barnabé, a destra de comunhão, [...] recomendando-nos somente que nos
lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer” (Gl 2:9, 10);
• “Ora, é para esse fim que labutamos e nos esforçamos sobremodo, porquanto
temos posto a nossa esperança no Deus vivo” (1Tm 4:10; ver Fp 2:16; 4:2, 3; Cl 4:12).
Ele não apenas se esforçava, como também recomendou aos cristãos que se
esforçassem, dizendo: “Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de
modo digno da vocação a que fostes chamados, [...] esforçando-vos diligentemente
por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4:1, 3); “esforçai-vos por
fazer o bem perante todos os homens” (Rm 12:17); “esforcemo-nos, pois, por entrar
naquele descanso” (Hb 4:11). Igualmente Pedro (2Pe 1:15) e João (2Jo 8) declararam
ter se esforçado, e o próprio Cristo incentivou: “Esforçai-vos por entrar pela porta
estreita” (Lc 13:24).
Isso pode ser ilustrado com o que ocorre na agricultura. Embora uma semente
tenha em si mesma um princípio de vida dado por Deus e seja Ele quem realize a obra
de crescimento, frutificação e maturação, o homem tem sua parte a desempenhar.
Assim, se você colocar uma semente sobre o asfalto, nada vai acontecer. É
indispensável semear em lugar favorável. Precisa limpar o terreno e adubar e,
dependendo da espécie, podar de tempos em tempos. Semelhantemente, o cultivo
das virtudes requer a nossa cooperação. Deus age, e nós agimos com Ele.
O apóstolo Paulo aconselhou: “Desenvolvei a vossa salvação [...]; porque Deus é
quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade” (Fp
2:12, 13). Pedro, ao incentivar-nos a obter as preciosas virtudes, o fez com a expressão
“reunindo toda a vossa diligência” (2Pe 1:5), o que transmite a “ideia de empregar todo
o esforço possível. Devemos trazer a este relacionamento, ao lado do que Deus já fez,
1
cada grama de determinação que podemos carregar” e esse esforço não pode ser
apenas momentâneo e esporádico, precisa ser contínuo. Para tanto é necessário
perseverança (2Pe 1:6). Conforme Jesus ensinou, aqueles que recebem o evangelho e
o guardam no coração “frutificam com perseverança” (Lc 8:15) e quem “perseverar
até o fim, esse será salvo” (Mt 24:13). Segundo as palavras de Paulo, Deus dará a vida
eterna aos que perseveram em fazer o bem (Rm 2:7). Portanto, a vitória vem para
aquele que persevera.
Como isso é possível? Como podemos nos despir do mal e nos revestir do bem?
Como podemos ser bondosos, verdadeiros, fiéis, pessoas amáveis, cheias de
compaixão? Como podemos ser esforçados e perseverantes? O segredo é revelado
por meio dos apóstolos quando abordaram o tema em suas cartas. Paulo
recomendou: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo” (Cl 3:16). Quando
buscamos conhecer e nos apegar à Palavra de Deus, quando ela se torna abundante
na vida da igreja e em nossa vida pessoal, essa transformação é possível. Pedro, ao
tratar das virtudes que devem ser encontradas na vida de um cristão autêntico (2Pe
1:5-8), declarou que essas qualidades são possíveis porque somos “coparticipantes da
natureza divina” (v. 4). Estamos unidos a Cristo e, como um bebê compartilha da
natureza de seus pais, nós, os que nascemos de novo, compartilhamos da natureza de
Deus. Assim, temos à nossa disposição “Seu divino poder” e “Suas preciosas e mui
2
grandes promessas” (v. 3, 4), recursos divinos oferecidos para que nos livremos “da
corrupção das paixões que há no mundo” (v. 4). Pedro também acrescentou que
nossa fé, nossa resposta positiva ao amor de Deus, é o fundamento sobre o qual estão
edificadas as qualidades cristãs, nas quais nos aperfeiçoamos gradualmente por meio
3
da prática.

1 Fritz Rienecker e Cleon Rogers, Chave Linguística do Novo Testamento Grego (São Paulo: Vida Nova,
reimpressão 1988), p. 570, 571.
2 Michael Green, II Pedro: Introdução e Comentário (São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1983), p. 61-63.
3 Ibid., p. 63.
PARTE 2
As Virtudes Cristãs em Minha Vida

perdão marca o início da vida cristã e é muito relevante, mas depois deve vir

O nossa caminhada com Cristo. Nela ocorre nossa formação espiritual


fundamentada nas virtudes, de modo que somos mudados e moldados, a
partir do interior. Abandonamos um caminho para avançar em outro (Rm 8:4; Ef 2:3,
10). O Espírito nos guia (Rm 8:14), mas nós temos que andar (Rm 6:4; Gl 5:16). Esse
andar não é uma ação involuntária, ou seja, requer disciplina (Ef 4:1-3).
Enquanto o perdão ocorreu unicamente pela misericórdia de Deus, sem o esforço
humano (Rm 9:16), a santificação, o crescimento em Cristo, envolve a cooperação
1
entre Deus e Seus filhos (1Jo 3:3; Fp 2:12, 13). Aquele que não se esforça, mas fica
apenas orando, pensando e desejando, não desenvolverá as virtudes; vale dizer, não
será santificado. É Deus quem nos santifica, mas Ele faz isso nos concedendo Seu
2
poder para que, desse modo, vençamos o mal e nos desenvolvamos no bem. Esse é
um processo intencional (Tg 1:4) e, ao trilharmos por esse caminho, podemos fazê-lo
com plena confiança na bênção de Deus, exclamando como Paulo: “Tudo posso
nAquele que me fortalece” (Fp 4:13). É aqui que entra o fruto do Espírito.

1
Gary L. Thomas, As Virtudes Cristãs (Rio de Janeiro: Textus, 2003), p. 26, 29.
2 Ibid., p. 26, 27, 50.
1
Amor

s gregos possuíam quatro palavras para denotar a ação de amar, mas o Novo

O Testamento emprega apenas duas. A primeira é fileo e se refere a uma afeição


emocional (Jo 11:36). A outra é agapaō (o substantivo é agape) e significa um
amor racional e voluntário que se baseia numa escolha deliberada, onde o
componente emocional se encontra subordinado à verdade e santidade (Mt 5:44;
19:19). Essa é a palavra que se emprega no Novo Testamento para indicar o amor de
1
Deus (Jo 3:16). Embora o termo agape já existisse, raramente era usado. Então os
cristãos se apoderaram desse termo e fizeram dele a sua nova palavra característica
2
para amor. Uma palavra nova para uma nova ideia.
Antes do Novo Testamento, o mais perfeito conceito de amor era o de amor
pelos melhores. Entretanto, os cristãos pensavam no amor como aquela qualidade
demonstrada na cruz, o amor pelos totalmente indignos. Amor despendido a outros
sem que se condicione sua dignidade de recebê-lo ou não. Antes, provém da natureza
daquele que ama, em vez de qualquer mérito do ser amado. O cristão que foi alvo
desse amor vê os homens como Deus os vê: como aqueles por quem Cristo morreu.
Assim, pratica o amor capaz de nada buscar para si, mas somente o bem da pessoa
amada, ou seja, vive de maneira altruísta.

O amor de Deus
As Escrituras dizem que “Deus é amor” (1Jo 4:8), mas isso não significa que Ele
aprove tudo o que o objeto de Seu amor faça. A aprovação não é necessária ao amor.
À vista disso, Deus nos amou quando ainda éramos Seus inimigos (Rm 5:8; Ef 2:3-5).
Por isso, uma mãe ama seu filho rebelde embora não aprove seus atos. Há o amor que
inclui aprovação, é o amor que se compraz, cujo objeto amado é amável e traz alegria.
Esse é o amor que Deus tem por Jesus, que em tudo Lhe era obediente (Mt 3:17;
12:18; 17:5 cf. Jo 5:20; 15:9, 10). Esse é o amor de Deus para com aqueles que O amam
e Lhe obedecem (ver Dn 9:23; 10:11, 19; Ef 4:25-5:1). No entanto, há o amor que não
se regozija no objeto amado, é o amor que se compadece. Esse é o amor de Deus para
com os ingratos e maus. Não que haja dois amores, mas dois objetos amados
3
diferentes. Dessa maneira é o amor de Deus para com o crente e o descrente.

O capítulo do amor
O texto de 1 Coríntios 13 é conhecido como o capítulo do amor. Algumas
traduções mais antigas trazem a palavra “caridade”. Ocorre que “caridade”, hoje,
significa “dar esmolas”, por isso essa tradução é inadequada. O termo para amor nessa
porção é agape.
Depois de ensinar a respeito dos dons espirituais em 1 Coríntios 12, Paulo
declarou: “E eu passo a mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente” (v. 31).
Essa é uma sentença de transição. Embora os dons espirituais sejam absolutamente
essenciais à igreja, o caminho sobremodo excelente para sua utilização é o amor.
Assim, o amor é apresentado, nesse texto, não como um dom, mas como um
caminho. Alguns cristãos de Corinto achavam que os possuidores de certos dons
eram pessoas extremamente importantes. Todavia, Paulo afirma que, mesmo que eles
tivessem os mais altos dons, se lhes faltasse amor, não seriam só insignificantes; na
verdade, nada seriam (1Co 13:1, 2). Podemos ter sucesso, obter bons resultados, ser
admirados, apreciados e aplaudidos; mas, sob o ponto de vista de Deus e da
eternidade, se nos faltar amor, nada seremos. Nada além de uma versão moderna do
profeta Jonas. Jamais um pregador teve sucesso imediato tão amplo como ele. Toda
uma grande cidade se converteu. Contudo, Jonas não amava a nenhuma daquelas
pessoas. Sua aparente obediência e sucesso não brotaram do amor (Jn 3:4-4:3). Essa é
a razão do capítulo 4 desse pequeno livro, no qual se percebe claramente o contraste
entre o coração amoroso e compassivo de Deus e o coração insensível do profeta.
Paulo ainda disse: “E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e
ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada
disso me aproveitará” (1Co 13:3). Esses dois atos de sacrifício pessoal parecem se
aproximar muito do amor prático mais puro e altruísta. No entanto, “é possível fazer
coisas boas para os outros sem os amar, fazer o bem movido por outro motivo que
4
não seja o amor”. Autodoação sem amor, em busca de louvor, é autopromoção. A
pessoa pode dar mais do que as suas propriedades: pode dar a própria vida. Podemos
nos entregar completamente a um ideal, sem, contudo, fazê-lo por amor. “Dar o
próprio corpo por amor é um ato heroico. Mas dar o próprio corpo por amor-
5
próprio, é um ato de egoísmo.” Tais sacrifícios sem amor, se perdem. Se o amor é
tão necessário, precisamos saber o que ele é. Os versos 4-7 retratam o que o amor é, o
que o amor não é, e o que o amor é capaz de realizar. Paulo usou verbos que estão
todos no presente contínuo, indicando ações e atitudes que se tornam habituais,
gradualmente incorporadas por meio de repetição.
O amor é paciente, tolerante, tardio em irar-se, longânimo. É benigno – trata com
cortesia, gentileza e doçura de temperamento. O amor não arde em ciúmes ou inveja.
6
“O amor não se aborrece com o sucesso dos outros.” Não se ufana. Não se vangloria.
Não se gaba de suas virtudes, conhecimento e realizações. Não se ensoberbece. “Há
muitas maneiras de se mostrar orgulho, e o amor é incompatível com todas elas. O
7
amor se preocupa em dar-se, e não em afirmar-se”, não procura os seus interesses,
antes emprega a renúncia própria. “Insiste no bem-estar dos outros e não na
8
afirmação de interesses próprios” (ver 1Co 10:24). O amor é humilde, mas não
confunda humildade com pobreza, ignorância ou timidez. Aprenda a ser humilde
com Jesus. Ele disse: “Vinde [...] e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de
coração” (Mt 11:28, 29). O amor não se conduz inconvenientemente, com arrogância
ou soberba. Não se porta de modo vergonhoso, desonroso, indecente. O amor não é
rude porque isso fere os outros. Não se porta com grosseria.
O amor tem uma delicadeza que não deseja ferir. Quando percebemos que o
nosso comportamento ou as nossas atitudes estão prejudicando ou magoando
alguém, o amor nos impele a eliminar essas trevas internas por meio da graça do
Senhor. O amor não se exaspera, não é mesquinho. Não é difícil conviver com ele.
Não irrita nem provoca os outros. “Não torna miserável a vida dos que o rodeiam, por
9
ter um temperamento nervoso.” Não tem má vontade, não é explosivo nem brigão;
não se ressente do mal. O amor não resulta em mal. Não acumula ódio dos outros
nem guarda queixas. Quem ama não guarda mágoas. Se realmente amarmos alguém
com o amor do Senhor, veremos muito mais a sua força e o seu potencial, em lugar de
seus defeitos e fraquezas. Quando ele fizer alguma coisa, irritando-nos, seremos
capazes de tratá-lo dentro do contexto do que ele é em Cristo. A palavra “ressentir-se”
significa manter sob registro. Assim, o amor não mantém o registro das coisas ditas
ou feitas contra nós; ele perdoa.
O amor não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. “O amor
10
não se alegra com o mal de nenhuma espécie.” Não apoia a injustiça fora ou dentro
da igreja. Nem é indiferente quanto a ela. Não chama o errado de correto. Quando
você for tentado a ser omisso diante de uma injustiça, por medo de “ser queimado”,
lembre-se de que “um barco está a salvo em um cais, mas não foi para isso que os
11
barcos foram feitos”. Tome posição contra a injustiça, da maneira certa, no
momento e lugar certos, diante da pessoa certa. Também há o perigo de nos
alegrarmos, não com o que é bom e verdadeiro, mas com o que é obscuro e sórdido.
Alguns encontram um falso alívio quando veem os outros fracassando e caindo.
Entretanto, o amor anseia ver os outros em pé, crescendo, e se entristece quando
outra pessoa é derrotada. Alegra-se com os que se alegram e chora com os que
choram. Não se entrega a fofocas e cobre uma multidão de pecados. O amor tudo
sofre, tudo suporta. Como disse Madre Tereza de Calcutá: “O amor dói.” “O amor não
12
recua facilmente; aguenta.” Não com paciência resignada, mas com fortaleza
positiva. Não se deixa vencer. Ele sobrevive à tristeza, à decepção, à crueldade, à
indiferença. Continua avançando. Jamais vacila. Não desiste.
O amor tudo crê, tudo espera. “Tem uma atitude de confiança para com os
outros. [...] Ele prefere crer nas boas intenções dos outros [...], prefere ser generoso
13
demais do que desconfiado demais.” Leva em conta as circunstâncias e vê nos
outros o melhor. O amor retém a sua fé. “Está sempre disposto a conceder o benefício
14
da dúvida.”
15
Recusa-se a aceitar o fracasso como o fim, pois sabe que todo fracasso é apenas
uma derrota temporária. Com confiança, olha para a vitória final pela graça de Deus.
No meio de toda a maldade, ele sabe esperar, por causa das promessas do Senhor. O
amor, esse amor acima descrito, jamais acaba. Aconteça o que acontecer, suportamos
firmes porque em tudo há um propósito: Deus está esculpindo em nós a imagem de
Seu Filho.
Alguém sugeriu que lêssemos 1 Coríntios 13:4-7 substituindo a palavra amor pelo
nome de Jesus. Ficaria assim: “Jesus é paciente, é benigno; Jesus não arde em ciúmes,
não Se ufana, não Se ensoberbece, não Se conduz inconvenientemente, não procura
os Seus interesses, não Se exaspera, não Se ressente do mal; não Se alegra com a
injustiça, mas regozija-Se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo
suporta.” O que você acha? Perfeito! Jesus é a personificação do amor. Agora, leia de
novo o mesmo texto e coloque nele o seu nome. E então? Esse é o sonho de Jesus para
a sua vida. Se você consentir, Ele agirá de tal modo em seu coração que um dia você
poderá ler esse texto sozinho, e dizer para si mesmo: “Como eu era tão diferente do
que aqui está retratado; mas agora, já estou bem parecido”.
Ao introduzir o tema do amor, Paulo o chamara de caminho excelente (1Co
12:31). Agora, ao encerrar, ele faz o apelo para seguirmos nesse caminho: “Segui o
amor” (1Co 14:1). A ideia é a de ir após, com persistência. Indica uma ação que nunca
termina. Seguir o caminho do amor é seguir a natureza do próprio Deus. Nunca
devemos cessar de fazer do amor a obra de nossa vida. Também devemos nos
lembrar de que esse amor precisa ser recebido, e que ele só é dado aos que se
16
entregam a Deus. É por intermédio de Seu Espírito (Rm 5:5) que Ele ajuda o
homem a demonstrar pelo próximo o mesmo tipo de amor que Ele demonstrou a
todos.

O amor para com os inimigos


Certo dia, Jesus ensinou:
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu,
porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para
que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque Ele faz nascer o Seu sol
sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os
que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o
mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não
fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como
perfeito é o vosso Pai celeste (Mt 5:43-48).
Jesus não está contradizendo a Lei e os Profetas, isto é, o Antigo Testamento. Ele
está contestando a tradição dos judeus. Quando Cristo se referia à Bíblia Hebraica, Ele
usava a fórmula: “está escrito” (Mt 4:4, 7, 10; 11:10; 21:13; Jo 12:14). Todavia, no
Sermão do Monte, por seis vezes empregou a expressão “foi dito” (Mt 5:21, 27, 31, 33,
38, 43). Essa era uma referência à tradição, ao ensino oral que haviam recebido e que
pretendia ser um comentário correto da orientação dada no Antigo Testamento, mas
17
que estava equivocado em muitos aspectos. Jesus nos manda amar os inimigos com
o amor agape e não com aquele que se refere a uma afeição emocional. Ele não nos
manda gostar do inimigo como gostamos de um familiar ou de um amigo, mas
ordena que o tratemos com humanidade e com bondade, sem revidar o mal que ele
nos fez. Em nossas relações com o inimigo, devemos considerá-lo alguém por quem
Cristo morreu e, como nós mesmos, um candidato ao reino de Deus.
A expressão “sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5:48),
nesta seção, não é a melhor tradução. O assunto que Jesus vinha tratando não se
referia à perfeição, mas ao amor. A melhor tradução seria “sede vós inclusivos como
18
inclusivo é o vosso Pai celeste”. Então, o apelo é para incluirmos em nosso amor
não apenas os bons, mas também os maus, como Deus, nosso Pai, faz.

O amor exemplificado
Nos dias de Cristo, os judeus, com a mente obscurecida por tantos anos de
distanciamento de Deus, não tinham muita certeza de quem era o seu próximo.
Excluíam dessa categoria os gentios e os samaritanos, por serem estrangeiros e
19
inimigos. No entanto, entre o próprio povo, quem era o próximo? Foi para
responder a essa indagação que Jesus contou a parábola do bom samaritano. Nela (Lc
10:30-37), um viajante solitário fora assaltado e quase morto. Alguns que passaram
pelo local apenas se desviaram, mas um samaritano se aproximou. Chegou bem perto
do homem ferido. Logo reparou que era um judeu, alguém que odiava sua raça, de
outra religião e que provavelmente jamais o ajudaria se as posições estivessem
invertidas. Entretanto, isso não importava. Quem estava ali precisando
desesperadamente de ajuda era um ser humano. Para ele, era motivo suficiente para
prestar auxílio. Diz a Bíblia: “vendo-o, compadeceu-se dele” (v.33). Ele primeiro teve
compaixão em seu coração, e tudo o mais que ele fez daí em diante foi apenas o
resultado do amor que habitava em sua alma.
Meditando nessa parábola, nós podemos perceber outras preciosas lições
espirituais. As pessoas que se relacionaram com o homem ferido podem ser
classificadas em três grupos, cada um demonstrando uma atitude e filosofia de vida.
O primeiro grupo é representado pelos assaltantes. Sua atitude foi a cobiça.
Milhões vivem uma vida de egoísmo e ganância, procurando preservar ao máximo
tudo quanto possuem e se empenhando em ganhar tudo quanto puderem. Essa classe
aumenta à medida que o fim se aproxima. O apóstolo Paulo escreveu: “Sabe, porém,
isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas,
avarentos, [...] implacáveis, [...] cruéis” (2Tm 3:1-3).
A segunda classe é retratada pelos religiosos: o sacerdote e o levita. Sua atitude
diante do infortúnio alheio foi de indiferença. Pode ser que não pertençamos ao
primeiro grupo, o dos cobiçosos; mas, não é verdade que muitos de nós que somos
cristãos nos identificamos com a classe dos que são indiferentes para com a dor,
tristeza e infelicidade dos outros? Quantas vezes, mesmo empenhados na obra de
Deus, nos entusiasmamos com novos projetos, métodos e alvos, e, contudo, somos
indiferentes para com as pessoas. Esquecemos que nenhuma obra ou atividade, por
mais sagrada que seja, vale mais que um ser humano.
Ellen G. White afirmou que essa parábola era uma história real, bem conhecida
daqueles que a escutavam. Além disso, mencionou que o sacerdote e o levita que
participaram do acontecimento estavam escutando a narrativa fiel dos lábios do
20
Mestre. No momento em que se depararam com o moribundo, pensaram que
estavam sozinhos, que ninguém os havia visto. Agora, para espanto seu, o papel que
haviam desempenhado no episódio é contado como se o fosse por uma testemunha
ocular. Na verdade, ao encontrarem o homem semimorto, “todo o Céu observava,
para ver se o coração desses homens seria tocado de piedade pela desgraça
21
humana”. Que decepção! Eles passaram de lado! O Céu nos observa. Não estamos
nós, muitas vezes, passando de largo uns pelos outros?
A terceira classe é representada pelo bom samaritano. A força motivadora de sua
vida é o amor que “procede de Deus” (1Jo 4:7) e que cumpre a lei (Rm 13:8-10; Gl
5:14). Aquele que vive sem considerar esse amor busca apenas os próprios interesses,
ou, quando muito, também os de sua família. Aquele que deseja agradar a Deus,
estende o seu raio de ação para além de si e dos seus, e está disposto a ajudar a quem
se encontra em necessidade.
Essa qualidade de amor é de origem celeste e só é encontrada no coração daqueles
que são realmente convertidos (1Jo 3:14; 4:7). “Quando o eu está imerso em Cristo, o
amor brota espontaneamente. A perfeição de caráter do cristão é alcançada quando o
impulso de auxiliar e abençoar a outros brotar constantemente do íntimo – quando a
22
luz do Céu encher o coração e for revelada no semblante.”
Faz muitos anos, fui visitar um enfermo na Santa Casa de Misericórdia, na cidade
de Cuiabá, capital do Mato Grosso. Depois da visita, ao andar por um dos corredores,
deparei-me com uma capela. Por sobre a porta, do lado de fora, estava escrito: “Aqui
entramos para amar a Deus.” Depois, na saída, do lado de dentro, sobre a mesma
porta, havia outra inscrição: “Daqui saímos para amar ao próximo.” Que verdade!
Devemos ir à igreja para adorar e amar a Deus, e devemos sair da igreja para amar e
servir ao próximo.
Qual é a sua filosofia de vida? A dos assaltantes, dos religiosos ou a do bom
samaritano? Que força o impulsiona no relacionamento com o próximo? A cobiça, a
indiferença ou o amor? Deus está mais que desejoso de repartir com você Seu amor.
Você pode amar mais e mais. Vá a Ele, apresente-Lhe sua necessidade, peça-Lhe com
fé e veja o que acontece.

1 G. H. Lacy, Introducción a la Teologia Sistemática, 2ª ed. (s. l.: Casa Bautista de Publicaciones, 1976), p. 82;
Lewis Sperry Chafer, Teologia Sistemática (São Paulo: Hagnos, 2003), vol. 2, p. 394, 395.
2 Raymond Bryan Brown, “I Coríntios”, Comentário Bíblico Broadman (Rio de Janeiro: JUERP, 1984), vol. 10, p.
431.
3 A. B. Langston, Esboço de Teologia Sistemática, 4ª ed. (Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1959), p. 65, 66;
Chafer, vol. 2, p. 432, 433.
4 Brown, vol. 10, p. 432.
5 Ibid., p. 433.
6 Leon Morris, I Coríntios: Introdução e Comentário, 3ª ed. (São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1986), p.
148.
7 Ibid.
8 Brown, v. 10, p. 435.
9 Ibid.
10 Morris, p. 148.
11 John A. Shedd, citado em Emilson dos Reis, Eles Disseram e Eu Gostei: Seleção de Pensamentos (Artur
Nogueira, SP: Paradigma, 2010), p. 95.
12 Ibid., p. 149.
13 13 Brown, vol. 10, p. 435.
14 Morris, p. 149.
15 Ibid.
16
Brown, vol. 10, p. 431.
17 John R. W. Stott, A Mensagem do Sermão do Monte: Contracultura Cristã, 3ª ed. (São Paulo: ABU, 2001), p.
71.
18
Ibid., p. 122, 123; R. V. G. Tasker, Mateus: Introdução e Comentário (São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão,
1985), p. 56. Ver o texto paralelo de Lucas 6:36. No próprio Sermão do Monte, Jesus não ensinou que seremos
perfeitos, sem pecado, mas que continuaremos tendo fome e sede de justiça, a qual será plenamente satisfeita
apenas quando estivermos em Seu reino de glória (Mt 5:6). É para esse reino que apontam as recompensas das
bem-aventuranças (Mt 5:3-12). Ele também nos ensinou a orar enquanto estivermos neste mundo: “Perdoa-nos as
nossas dívidas” (Mt 6:12).
19
Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p.
498.
20 Ibid., p. 499.
21 Ibid., p. 500.
22 White, Parábolas de Jesus (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 384.
2
Alegria

ucas 15 é um dos capítulos mais conhecidos e amados de toda a Bíblia. Nele

L encontramos três parábolas que formam uma série. Embora possam ser
estudadas isoladamente, algumas de suas lições e verdades só podem ser
compreendidas quando temos uma visão do conjunto e fazemos uma comparação
entre elas. As três histórias destacam o amor de Deus. As duas primeiras apresentam
o amor que sai à procura, e a terceira estabelece o amor perdoador. A parábola da
ovelha ilustra o amor de Jesus, deixando os Céus e vindo a este mundo, arriscando a
própria vida para salvar o homem; a da dracma retrata a obra amorosa do Espírito
Santo que, iluminando e buscando com diligência, procura reconquistar o pecador; e
1
a do filho pródigo destaca o amor perdoador do Pai.
Elas salientam o valor do indivíduo, de uma só pessoa para Deus. O pastor
arriscou a vida para salvar apenas uma ovelha; a mulher se empenhou ao máximo e
fez tudo quanto pôde para achar só uma dracma; e o pai recebeu da melhor maneira e
fez uma grande festa para o único filho que havia partido e que retornara. Isso nos
deve lembrar que “se houvesse apenas uma alma perdida, Cristo por ela teria
2
morrido”.
Esse texto bíblico é conhecido como o “capítulo dos perdidos”, porque as três
histórias falam de algo perdido. A primeira conta de um animal perdido; a segunda,
de um objeto perdido; e a terceira, de um homem perdido. Podemos chamá-lo
também de capítulo da alegria, uma vez que as três narrativas terminam com alegria.
Assim, o pastor, ao achar a ovelha perdida, retorna cheio de júbilo; a mulher, após
encontrar sua moeda, convida suas amigas e vizinhas para se alegrarem com ela; e o
pai, porque o filho pródigo voltou, ordena que se faça uma festa onde todos possam
comemorar. Se você já passou pela experiência de recuperar algo de valor que tenha
perdido, então pode compreender a alegria dos personagens dessas histórias. Essa
nota de felicidade do pastor, da mulher e do pai, reflete a satisfação que há no coração
de Deus quando um pecador se arrepende.
Os três relatos terminam com um final feliz e com vitória: a ovelha foi posta no
curral; a dracma, no seu devido lugar; e o filho pródigo voltou ao lar. Assim também
no que respeita ao plano da redenção. A humanidade será restaurada à imagem do
Criador e o próprio Universo retornará à sua perfeição original. Do mesmo modo
como valeu a pena o pastor ter procurado a ovelha, a mulher ter varrido a casa em
busca da moeda, e o pai ter esperado o retorno do filho, assim valia a pena Jesus dar
atenção e socorrer mesmo os párias da sociedade, porque diversos deles
corresponderiam ao Seu amor.
Essa parábola é apenas uma amostra do que ocorre ao longo do texto sagrado,
onde as palavras “alegria”, “gozo”, “regozijo”, “bem-aventurados” e outras do mesmo
teor são bastante frequentes. Deus Se alegra e nós podemos nos alegrar também.
Embora vivamos em um mundo onde impera o pecado e o mal, ainda assim, por
causa de tudo o que Deus fez, faz e fará, podemos ter a verdadeira alegria.

Alegria: bem-aventurança ou felicidade?


A primeira parte do Sermão do Monte trata das bem-aventuranças (Mt 5:3-12).
Cada uma delas se inicia com a expressão grega makarios, cuja tradução é “bem-
aventurados”. Algumas Bíblias que empregam linguagem mais popular, como a Nova
Tradução na Linguagem de Hoje, traduzem por “felizes”. Contudo, essa expressão
pode não ser a mais adequada, pois “felizes” indica como as pessoas se sentem. Por sua
vez, Jesus estava ensinando outra coisa: como Deus as considera e o que são. Elas
podem estar tristes e chorosas (v. 4), ser perseguidas, injuriadas e caluniadas (v. 11);
todavia, Deus as está abençoando, mesmo naquele momento. O que elas são, de fato,
é “bem-aventuradas”, abençoadas. Por isso, é melhor traduzir por “bem-aventurados”
3
do que por “felizes”.

Alegria que provém de nossa reconciliação com Deus


A carta de Paulo aos Romanos contém uma das mais claras e profundas
mensagens de toda a Bíblia sobre como se processa nossa salvação. No capítulo 5, o
apóstolo emprega três vezes a expressão “nos gloriamos”, indicando que temos bons
motivos pelos quais nos alegrar.
Primeiramente, devemos nos alegrar em Deus. Por quê? Porque fomos
reconciliados com Ele por meio de Cristo. “Também nos gloriamos em Deus por
nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem recebemos, agora, a
reconciliação” (Rm 5:11). Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança; por isso,
o homem estava em harmonia com Ele e era Seu amigo. Entretanto, pelo pecado,
desconfiando, duvidando e desobedecendo, o homem tornou-se Seu inimigo.
Afastou-se dEle. Então Deus tomou a iniciativa de reatar a amizade. Por meio de Seu
Filho, Ele Se estendeu após o pecador e, para alcançá-lo, persuadi-lo e capacitá-lo a
voltar, tornou-Se homem. Assim, viveu e morreu em seu lugar e em seu favor. Ora,
isso deve ser para nós um grande motivo de alegria.
O tema fica evidente num episódio do ministério de Cristo. Certa feita, Ele enviou
um grupo de seguidores para que fosse evangelizar as aldeias de determinada região
(Lc 10:1-9). Feito o trabalho, “regressaram os setenta, possuídos de alegria, dizendo:
Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo Teu nome! Mas Ele lhes disse:
[...] Não obstante, alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e sim porque
o vosso nome está arrolado nos Céus” (Lc 10:17, 20). Para entender o que Cristo
queria dizer, consideremos que há vários modos de classificar os homens quanto à
sua salvação. Um deles é apresentado no Apocalipse e se refere a dois grupos, tendo
como base o Livro da Vida. Na linguagem do apóstolo João, aqueles que aceitaram a
Cristo, o Cordeiro (Ap 5:6, 8, 13; 7:10, 14; 12:11; 14:4), têm o seu nome inscrito no
Livro (Ap 3:5) e, no fim, habitarão com Deus na cidade santa por toda a eternidade
(Ap 21:1, 2, 27). Ao contrário, aqueles que rejeitaram a Cristo não têm seu nome
escrito nesse Livro, uniram-se às forças do mal (Ap 13:8; 17:8) e serão destruídos (Ap
20:15). Portanto, ter o nome arrolado no Céu é um grande privilégio e deve ser
motivo de grande alegria, porque indica que pertencemos a Deus e que estaremos
entre os salvos.
Neste mundo, frequentemente as coisas não vão bem. Mesmo buscando ser fiéis a
Deus, nós sofremos. Há momentos em que tudo parece dar errado. No entanto, Deus
quer que sempre nos lembremos de que aconteça o que acontecer, por pior que seja,
nosso nome está escrito em Seu Livro, e se decidirmos ficar ao Seu lado, ninguém
poderá apagá-lo (Rm 8:38, 39). Assim, alegremo-nos!
Consideremos também que parte dessa alegria se deve ao fato de que, agora
reconciliados com Deus, temos nossas orações atendidas. Jesus disse a Seus
discípulos: “Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa” (Jo 16:24). Outra
parte resulta do privilégio de manter comunhão tanto com Deus como com nossos
irmãos. Nas palavras do apóstolo João: “O que temos visto e ouvido anunciamos
também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora,
a nossa comunhão é com o Pai e com Seu Filho, Jesus Cristo. Estas coisas, pois, vos
escrevemos para que a nossa alegria seja completa” (1Jo 1:3, 4).
Portanto, devemos nos alegrar porque por meio de Cristo fomos reconciliados
com Deus. Voltamos a ser Seus amigos, o que se tornou possível por causa de Sua
graça. “Deus prova o Seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido
por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8).

Alegria em meio às tribulações


É fácil entender que uma pessoa se alegre quando seus sonhos se realizam e tudo
dá certo; a vida flui fácil. No entanto, a Bíblia declara que o cristão deve se alegrar
mesmo em meio às tribulações: “Também nos gloriamos nas próprias tribulações”
(Rm 5:3). A aflição é uma experiência normal do cristão. Os apóstolos ensinavam que
“através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (At 14:22). Jesus
nos advertiu, dizendo: “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; Eu
venci o mundo” (Jo 16:33). Por que devemos nos alegrar nas aflições? “Também nos
gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a
perseverança, experiência; e a experiência, esperança” (Rm 5:3, 4). As dificuldades e os
obstáculos ajudam a cultivar um caráter paciente e constante, além de desenvolver a
maturidade cristã.
A vida é disciplinante. Enquanto no mundo, encontrará o cristão influências
adversas. Haverá provocações para provar o temperamento; e é enfrentando
essas provas no devido espírito que se desenvolvem as graças cristãs. Se
suportamos as injúrias com espírito de mansidão, se reagimos a palavras
insultuosas com palavras brandas e a atos opressivos com bondade, isso é
prova de que o Espírito de Cristo habita em nosso coração [...]; e no dia do
final ajuste de contas, veremos que todos os obstáculos que encontramos,
todas as vicissitudes e contrariedades que somos chamados a suportar, são
lições práticas na aplicação de princípios da vida cristã. Quando bem sofridos,
desenvolvem semelhança com Cristo no caráter, e distinguem o cristão do
4
mundano.
No capítulo anterior foi dito que Deus nos poda usando Sua Palavra. Agora,
estamos diante de outra podadeira de Deus: as dificuldades da vida.
Há uma elevada norma a que devemos atingir, caso queiramos ser filhos de
Deus, nobres, puros, santos e incontaminados; e é necessário um processo de
poda, se queremos alcançar essa norma. Como seria efetuada essa poda, se
não houvesse dificuldades a enfrentar, obstáculos a transpor, coisa alguma a
exigir paciência e capacidade de resistir? Essas provações não são as menores
bênçãos em nossa experiência. Têm como objetivo fixar nossa determinação
de vencer. Cumpre-nos usá-las como os divinos meios de obter decididas
vitórias sobre o próprio eu, em vez de permitir que elas nos entravem,
5
oprimam e destruam.
Além disso, as contrariedades de hoje nos impelem a olhar para o futuro onde as
dores não mais existirão. “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do
tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm
8:18).

Alegria que provém da esperança


Porque todos somos pecadores, carecemos da glória de Deus (Rm 3:23). Todavia,
por causa do que Cristo realizou, a esperança de participarmos dessa glória deve ser
motivo para alegria e exultação no Senhor. “Justificados, pois, mediante a fé, [...]
estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus” (Rm 5:1, 2). Devemos
nos alegrar porque vamos participar dela, o que inclui as bênçãos que Ele preparou
para aqueles que O amam e que serão concedidas a partir da vinda de Jesus. Então
ficaremos para sempre livres da dor, do sofrimento e das enfermidades. Teremos um
corpo perfeito, saudável e imortal; viveremos com nossos queridos e estaremos para
sempre com Ele (Ap 21:3, 4; Fp 3:20, 21; 1Ts 4:16, 17). Enquanto Jesus não vem, isso
continuará a ser uma esperança, mas é uma esperança segura porque a presença do
Espírito Santo e do amor de Deus em nosso coração é garantia de que ela se cumprirá.
“Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso
coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado” (Rm 5:5).
Olhando para o passado, devemos nos alegrar porque Deus nos amou e nos
reconciliou por meio de Seu Filho. No tempo presente, podemos ser alegres mesmo
em meio às aflições, porque Deus as usa para nos transformar à Sua imagem.
Olhando para o futuro, devemos exultar porque certamente participaremos de Sua
glória.
Alegria que provém da obediência
Às vésperas de Sua morte, Jesus falou da imprescindível necessidade de
permanecermos nEle a fim de darmos bons frutos e recebermos a aprovação de Deus
(Jo 15). Ele ensinou que, para que isso seja uma realidade em nossa vida, precisamos
guardar os Seus mandamentos (v. 10). Fazendo assim, o Seu gozo estará em nós e
nossa alegria será completa (v. 11). Desse modo, percebe-se que a obediência
proporciona muita alegria.
Como exemplo disso, tente imaginar a situação daqueles dois homens,
mencionados por Jesus no fim do Sermão do Monte. Cada qual construiu a própria
casa, mas a de um permaneceu, enquanto a do outro foi levada pela correnteza.
Somente um estava alegre e este representa aqueles que não apenas conhecem o
evangelho, mas o colocam em prática. Esse sermão encerra-se com uma dupla
advertência: (1) a profissão de fé em Cristo que é apenas verbal (Mt 7:21-23) e (2) o
conhecimento do evangelho que é somente intelectual (Mt 7:24-27),
desacompanhados da correspondente obediência, são, na verdade, um disfarce da
desobediência. Quem procede assim sofrerá grande ruína e não permanecerá com
6
Cristo durante a eternidade.

Alegria que provém do trabalho


O primeiro capítulo da Bíblia nos conta sobre como Deus criou todas as coisas.
Poderia ter criado tudo num piscar de olhos; todavia, com o propósito de estabelecer
o tempo para nós, Ele o fez aos poucos, em períodos diários, que totalizaram uma
semana. No fim de cada dia, Deus contemplava o que havia criado e fazia uma
avaliação. Diz o relato: “E viu Deus que isso era bom” (Gn 1:12). Ao término da
Criação, Ele fez uma avaliação final que abrangia todas as Suas obras: “Viu Deus tudo
quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn 1:31). Você consegue perceber nas
entrelinhas a alegria de Deus com o trabalho que acabara de realizar?
Nós também precisamos, de tempos em tempos, efetuar uma avaliação de nossas
realizações, o que pode redundar em uma das maiores alegrias desta vida: a satisfação
que provém de nosso trabalho. Ao comentar sobre a bênção que é o trabalho, Ellen
White escreveu: “A verdadeira alegria da vida é encontrada apenas pelos homens e
7
mulheres do trabalho.” É necessário reservar um tempo para saborear resultados,
alegrar-se com eles. Você varreu uma calçada? Contemple-a limpa. Você pintou uma
parede? Veja como ficou bonita. Você preparou o alimento? Veja como todos o
comem com gosto. Você limpou uma sala de aulas? Ou um banheiro? Você
consertou algo que havia se quebrado? Você fez um canteiro de flores ou uma horta?
Lavou a louça suja? Deu uma boa aula, escreveu um artigo ou um livro? Sinta-se
realizado! Alegre-se! Infelizmente algumas pessoas não percebem a importância desse
procedimento e partem logo para outro trabalho. Estão em constante atividade; mas,
ao fazerem assim, perdem parte de uma das grandes bênçãos da vida, a satisfação que
o trabalho pode lhes dar.

Alegria dos salvos no Céu


Todas as alegrias que podemos ter nesta vida são apenas uma amostra do júbilo
que teremos quando estivermos para sempre no reino de Deus. Por ocasião de Seu
retorno, Cristo dirá a cada um dos salvos: “Muito bem, servo bom e fiel; [...] entra no
gozo do teu Senhor” (Mt 25:21). Jesus terá alegria, e a promessa é que participaremos
dela. A satisfação dEle será contemplar os remidos em Seu glorioso reino. Conforme
as palavras do profeta Isaías: “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará
8
satisfeito” (Is 53:11). A oração que fez a Seu Pai na véspera de Sua morte será
atendida: “Pai, a Minha vontade é que onde Eu estou, estejam também comigo os que
Me deste” (Jo 17:24). Foi por antever essa alegria que Ele Se dispôs a suportar a cruz
9
(Hb 12:2).
Algo semelhante ocorrerá com os remidos na eternidade. Parte de sua alegria será
10
contemplar pessoas salvas como resultado de seus interesses e esforços . Como
ocorreu com Jesus, esse conhecimento deveria servir como forte motivação para nos
empenharmos pela salvação de nossos semelhantes, pregando, orando, aconselhando,
admoestando, enfim, fazendo o que nos é possível para conduzirmos pessoas ao reino
dos Céus. Que essas palavras nos animem nessa caminhada a um maior compromisso
com Sua causa.

1
Herbert Lockyer, Todas as Parábolas da Bíblia (São Paulo: Vida, 1999), p. 325.
2 Ellen G.White, Parábolas de Jesus (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 187.
3
John Stott, A Mensagem do Sermão do Monte: Contracultura Cristã, 3ª ed. (São Paulo: ABU, 2001), p. 22.
4 White, Testemunhos Para a Igreja, 1ª ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004), vol. 5, p. 344.
5
Ibid., p. 344, 345. Ver também p. 312, 314, 316.
6 Stott, p. 216.
7
White, Patriarcas e Profetas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 50.
8 8 White, Conselhos Sobre Mordomia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 213.
9 White, Obreiros Evangélicos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 28, 29.
10 Ellen G. White, O Cuidado de Deus [MM 1995] (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p.
340. Minha Consagração Hoje [MM 1989/1953] (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [(CD-Rom]), p. 349.
3
Paz

Senhor Jesus possuía paz. Os fariseus não se mostravam entusiasmados com

O Seu ministério. Todavia, no conflito com eles, Ele possuía a liberdade e a


convicção para dizer: “Aquele que Me enviou está comigo; não Me deixou só,
porque Eu faço sempre o que Lhe agrada” (Jo 8:29). Às vésperas de Sua morte,
reunido com Seus discípulos, Ele lhes disse: “Estas coisas vos tenho dito para que
tenhais paz em Mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; Eu venci
o mundo” (Jo 16:33).
O Senhor Jesus nunca esteve preso à opinião dos homens a respeito dEle.
Embora Se importasse com o que pensavam sobre Ele, por saber que o destino
eterno deles dependia disso, Suas ações nunca eram calculadas para ganhar a
aprovação humana. A vontade do Pai era sempre o mais importante. Se o Pai
estava satisfeito, o Filho também estava. Por isso, Se sentia contente tanto ao
1
lavar os pés dos discípulos quanto ao pregar o Sermão do Monte.

A paz deriva de um correto relacionamento com Cristo


Dentre os muitos ensinos de Cristo, um dos mais conhecidos é chamado de “o
convite de Jesus”. Ele disse: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e
sobrecarregados, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o Meu jugo e aprendei de Mim,
porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma.
Porque o Meu jugo é suave, e o Meu fardo é leve” (Mt 11:28-30). Jesus não faz este
convite a pessoas boas e obedientes, mas àqueles que são pecadores e que estão
“cansados e sobrecarregados”. Devemos ir a Cristo assim como estamos, não
importando quantos nem quais sejam nossos pecados. Além de nos perdoar, Ele
promete nos transformar. A promessa é “vinde a Mim, [...] e Eu vos aliviarei”. Quando
aceitamos o Seu jugo – Sua vontade para nós –, e nos dispomos a andar com Ele,
aprendendo dEle, temos o alívio, o descanso, enfim, a paz que Ele quer nos dar.
Superação da inveja
Existem algumas emoções negativas que, ao serem abrigadas no coração,
impedem que tenhamos paz. Uma delas é a inveja. Ela destrói a fé (Jo 5:44) e produz
2
isolamento. Com os olhos postos uns nos outros, não conseguimos olhar para Deus.
A inveja “é uma rebelião contra a direção providencial de Deus na vida dos Seus
filhos. Uma pessoa invejosa está dizendo que Deus não tem direito de abençoar
3
alguém mais do que a ela” . Em contrapartida, “não se pode destruir um homem que
se alegra com o sucesso dos outros. Ele tem uma perspectiva correta de si mesmo e de
4
Deus. Pode se alegrar nos mais bem-sucedidos”.
As Escrituras nos ensinam que a igreja é o corpo de Cristo e que individualmente
somos membros desse corpo. Como os membros do corpo têm tamanho, formato e
funções diferentes, assim também ocorre entre nós. Um cristão é boca; outro, ouvido;
outro, olho; outro, pé; outro, mão, e assim por diante. Aquilo que um faz, o outro não
pode fazer. O pé não pode ouvir e a mão não pode ver. O ouvido não pode mastigar e
o olho não pode caminhar. Alguns membros do corpo, por sua localização, função e
aparência são mais vistos que outros. Eles chamam mais a atenção. Por isso, os olhos
azuis, os lábios sorridentes, as covinhas no rosto e o cabelo bem cuidado se destacam,
enquanto o cotovelo e o menor dos artelhos do pé esquerdo nem são notados.
Assim ocorre com os membros da igreja. Enquanto alguns estão sempre em
evidência, outros passam despercebidos. Essa percepção depende dos dons,
ministérios e grau de poder que Deus nos deu. Isso não deveria nos incomodar, pois
não é de nossa competência. “Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no
corpo, como Lhe aprouve” (1Co 12:18). Nossa posição e função no corpo de Cristo
não dependem de nossa escolha, mas da soberania de Deus. Aceitemos isso como um
fato. Não há sentido em a mão invejar o ouvido porque não pode ouvir; nem o pé
invejar o olho por não poder enxergar.
Em vez de ansiarmos por desempenhar outra função para a qual não fomos
qualificados, usemos da melhor forma o dom que recebemos. Lembremo-nos de que
mesmo aqueles que possuem os melhores dons não podem fazer tudo e, portanto,
precisam de nossa ajuda. Haja cooperação, de modo que os membros trabalhem lado
a lado combinando os dons uns dos outros, para a execução das tarefas.

Superação sobre o desejo de ser considerado grande


Outro elemento nocivo para a paz é a fixação por sucesso pessoal baseada no
padrão secular. A Bíblia nos ensina que Deus e Sua causa serão bem-sucedidos.
Orienta também que todos os Seus servos terão êxito nas batalhas espirituais, mas
não necessariamente em suas tarefas individuais.
Há pelo menos dois tipos de fracassos. O primeiro é o fracasso aos olhos dos
homens. Isso fere nosso “eu”. Deve-se, porém, avaliar que, na história humana,
diversos personagens que hoje são lembrados e bem estimados nas áreas das ciências,
das artes, da política entre outras, foram em seus dias tidos como fracassados.
Somente tempos depois de sua morte é que seus feitos foram reavaliados e, então,
reconhecidos. O mesmo ocorreu com alguns personagens bíblicos por quem temos
elevada consideração. Por exemplo, se analisássemos somente os resultados que os
profetas tiveram em vida, diríamos que eles fracassaram. A grandeza de sua obra,
entretanto, só foi reconhecida muito depois.
Em segundo lugar, podemos ser fracassados aos olhos de Deus, mesmo sendo
5
vitoriosos aos olhos dos homens. Deus não chamou você para ter sucesso segundo
o padrão humano. Ele o chamou para ser fiel. Ele sabe tudo a seu respeito e o que Ele
pensa é o que realmente conta. Foi Isaías, o fracassado segundo o modelo de avaliação
do mundo, quem escreveu: “Tu, Senhor, conservarás em perfeita paz aquele cujo
propósito é firme; porque ele confia em Ti” (Is 26:3).

Superação do medo
Uma forte emoção que atenta contra a paz é o medo. Medo é uma inquietação,
um receio de que algo de mau aconteça a nós ou àqueles a quem amamos. Ele é
universal. Todos o possuem em maior ou menor grau. Da leitura da Bíblia, podemos
presumir que o medo não existia antes da entrada do pecado no mundo e que,
quando Deus restaurar todas as coisas, ele será extinto. O medo é uma das muitas
consequências que a queda de Adão nos acarretou. Ele frequentemente é negativo,
maléfico e se apresenta com muitas faces: ansiedade, dúvidas, timidez, indecisão,
superstição, retraimento, solidão, hostilidade excessiva, inferioridade, covardia,
6
suspeita, hesitação, depressão e acanhamento social. Tudo isso atenta contra a paz.
Observando o comportamento humano, podemos perceber que frequentemente
as pessoas têm medo não apenas do presente, mas também do passado ou do futuro.
O medo do passado costuma estar relacionado aos erros cometidos. Algum pecado
que está constantemente invadindo o presente, martirizando com a culpa, o remorso
e a vergonha, e, consequentemente, com o medo de que seja descoberto, lembrado,
punido, ou que não seja perdoado.
Um homem procurou o pastor e abriu o coração a ele, contando um grave pecado
que cometera havia muitos anos e que ainda o atormentava. O pastor lhe perguntou
se ele já o havia confessado a Deus e pedido Seu perdão, ao que ele respondeu: “Já o fiz
mil vezes.” O pastor, então, lhe disse: “O irmão deveria ter confessado e pedido
7
perdão uma vez, e agradecido pelo perdão 999 vezes.” Aquele homem não recebera
o perdão; por isso, ainda estava angustiado. A paz com Deus, fruto do perdão (Rm
5:1), não lhe pertencia. Por que não fora perdoado se pedira perdão “mil vezes”? O
que aconteceu? Na verdade, ele confessou o pecado, pediu e recebeu o perdão;
porém, não se apropriou dele. Faltou-lhe a fé que se apodera do que Deus oferece. O
Senhor está concedendo Seu perdão, mas precisamos estender a mão e agarrá-lo. Essa
é a obra da fé. Quando cremos, o perdão se torna nossa propriedade.
O perdão de Deus é instantâneo e completo. Isso significa que no momento em
que, arrependidos e confiantes em Seu amor e nos merecimentos de Cristo,
confessamos nossos pecados, somos perdoados. Podemos, na mesma oração,
8
agradecer pelo perdão. Significa também que basta pedir perdão uma única vez.
Somente se o pecado for repetido é que precisamos novamente confessar e suplicar
por Seu perdão.
Assim, a solução para nos livrarmos do medo do passado e dos pecados
cometidos é confiarmos no perdão de Deus. Sua promessa é: “Se confessarmos os
nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda
injustiça” (1Jo 1:9). A partir de então, Deus nos considera como se não houvéssemos
pecado (Mq 7:18, 19). Nossos pecados não são mais levados em conta. Se Deus que é
tão puro e santo faz assim, porque nós não adotamos também essa postura?
Precisamos perdoar a nós mesmos. Depois do perdão, há paz (Rm 5:1).
Do mesmo modo, são muitos os que têm medo do futuro, e das dificuldades que
poderão surgir como problemas de saúde, de ordem familiar ou financeiros. Em um
de Seus discursos, Jesus disse: “Não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o
amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal” (Mt 6:34). Por causa do
pecado no mundo, nos defrontamos a cada dia com o mal e, uma vez que possuímos
dificuldades diárias, em nada seremos ajudados se acrescentarmos os problemas de
amanhã aos de hoje. Aliás, essa é uma maneira segura de tornar insuportável este dia.
Quando ficamos preocupados com o futuro, deixamos de desfrutar as bênçãos de
Deus no presente. Devemos considerar que o Senhor nos dá um dia de cada vez e
com ele o auxílio que nos é necessário. Precisamos crer que, assim como hoje Deus
supre as nossas necessidades e nos ajuda, quando chegar o amanhã Ele nos guiará e
abençoará também.
O remédio para não termos medo do futuro é a confiança no poder de Deus e em
Seu amor para conosco. O salmista nos aconselha dizendo: “Entrega o teu caminho ao
Senhor, confia nEle, e o mais Ele fará. [...] Descansa no Senhor e espera nEle” (Sl 37:5,
7). Somos convidados a entregar, confiar, descansar e esperar. O que isso significa?
Precisamos dar mais espaço para Deus atuar em nossa vida. Precisamos deixar Deus
ser Deus! Quando você for tentado a temer o amanhã, vá a Ele! Ore! Entregue ao
Senhor os seus medos e as suas preocupações. Entregue e descanse. Confie. Aprenda
a esperar.
Em outro salmo, Davi descreveu sua experiência ao dizer: “Ainda que eu ande
pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque Tu estás comigo; o
Teu bordão e o Teu cajado me consolam” (Sl 23:4). Medite nessas palavras. O teste
mais sombrio pelo qual podemos passar neste mundo é a morte. É pressentirmos a
sua aproximação de nós ou das pessoas a quem amamos, ou constatarmos que ela se
apoderou de um de nossos queridos. Contudo, para o cristão, mesmo essa
circunstância extrema não causa medo. Qual é o segredo? A presença de Deus e o
consolo que somente Ele pode dar. Se é verdade que a morte não pode nos
assombrar, é verdade também que as demais situações que surjam não o poderão
fazê-lo. Peçamos a Deus essa paz e sigamos a orientação que Ele nos dá para que ela
nos pertença.

A paz vem da confiança em Deus


O apóstolo Paulo aconselhou os cristãos de Filipos: “Não andeis ansiosos de coisa
alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela
oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o
entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus” (Fp 4:6, 7).
Ele disse que, não importa qual o nosso problema, somos convidados a apresentá-lo
ao Senhor. Em lugar de ficarmos ansiosos, devemos orar.
É significativo notar que Paulo não apenas ensinava, mas vivia desse modo. Cerca
de onze anos antes, ele estivera pela primeira vez em Filipos. O apóstolo,
acompanhado por Silas, permanecera na cidade alguns dias. O relato menciona a
conversão apenas da família de Lídia. Expõe também que a multidão voltou-se contra
eles, motivando as autoridades a detê-los. No cárcere, foram açoitados com varas e
tiveram os pés presos a um tronco (At 16:11-24). Imagine a situação deles. O trabalho,
segundo as aparências, não ia bem: havia muita oposição e quase nenhum resultado
positivo. Talvez estivessem famintos e com frio. O corpo se encontrava
ensanguentado e dolorido, numa posição extremamente desconfortável. Nenhum ser
humano parecia se importar com eles, ninguém para confortá-los ou animá-los.
Ainda assim, à meia-noite, cantavam louvores a Deus (At 16:25-40). Enquanto tudo à
sua volta parecia negro e desesperador, no fundo da alma havia paz.
Esse episódio ilustra a diferença entre a paz oferecida por Deus daquela disponível
no mundo (Jo 14:27). Aqueles que não são convertidos também podem ter
momentos de paz. Todavia, ela depende das circunstâncias. Quando a vida flui bem,
então podem ter alguma paz; mas, se há dificuldade, a calma desaparece. Entretanto, a
paz que Deus nos dá é diferente. Ela não procede do que se passa à nossa volta. Ela é
sobrenatural, uma dádiva divina, concedida àquele que crê. Não é ausência de
problemas, mas um estado de repouso em Deus, mesmo em meio às turbulências da
vida.
No dia 26 de dezembro de 2006, um tsunami ocorreu no Oceano Índico. Ondas
de até 15 metros de altura atingiram 13 países da Ásia e da África, deixando um rastro
9
de 235 mil pessoas mortas . Um casal de turistas estava mergulhando naquela região,
rente ao fundo do mar, encantados com as belezas do lugar. Foi somente quando
retornaram da aventura que souberam que um tsunami assolara o local. Em volta
deles tudo era destruição; porém, nas profundezas havia calma. O mesmo pode se dar
conosco se estivermos com Deus. Pode haver muita confusão à nossa volta; contudo,
no íntimo do coração, haverá paz.
Paulo disse o que vai acontecer se aprendermos a levar constantemente tudo a
Deus em oração. Ele não declarou que receberemos o que pedimos, mas que teremos
algo melhor, porque é o que nós mais necessitamos: paz. A paz que excede todo o
entendimento e que atinge profundamente o coração e a mente. Paz que vem de
Deus por meio de Cristo Jesus. Ele declarou: “Deixo-vos a paz, a Minha paz vos dou”
(Jo 14:27). Vamos recebê-la?
1 White, O Cuidado de Deus [MM 1995] (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 340.
Minha Consagração Hoje [MM 1989/1953] (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p.349
2
Erwin Lutzer, De Pastor Para Pastor: Respostas Concretas Para os Problemas e Desafios do Ministério (São
Paulo: Vida, 2000), p. 21, 22.
3 Ibid., p. 73.
4 Ibid., p. 74,76
5 Ibid., p. 74, 76.
6 Ibid., p. 138.
7 Tim LaHaye, Temperamento Controlado Pelo Espírito, 8ª ed. (São Paulo: Loyola, 1983), p. 108, 109.
8 Ibid., p. 121.
9 Ver Jornal do Brasil, 26/06/2006; O Globo 26/06/2006.
4
Longanimidade

1
longanimidade é outra virtude que precisamos desenvolver. Essa é uma

A palavra que não costuma fazer parte do nosso vocabulário. A expressão mais
empregada é “paciência”. Ela é encontrada no próprio Deus e Seu Espírito
deseja implantá-la em nós. Longanimidade é o aspecto do amor de Deus que tolera o
pecador, apesar de sua demora no mau caminho. Manifesta-se quando Deus adia,
provisoriamente, o merecido julgamento e continua a oferecer salvação e graça por
longos períodos de tempo, dando espaço para arrependimento e conversão (1Tm
1:16; Ap 2:21). Esse procedimento pode ser visto em Seu trato com a humanidade nos
dias de Noé (1Pe 3:20), com Israel (Nm 14:18; Sl 103:8, 9) e, na atualidade, com o
2
mundo antes do retorno de Seu Filho (2Pe 3:9).
Todavia, há perigo de o homem abusar da paciência de Deus. Isso ocorre quando
há manifesto desprezo por essa oportunidade de arrependimento e reforma de vida.
Aqueles que assim procedem imaginam que Deus não cumprirá as ameaças que fez,
ou que, por alguma razão, estão excluídos da Sua punição judicial. Esse foi o caso dos
judeus que confiavam que sairiam ilesos por serem o povo da aliança e parentes de
3
Abraão (Mt 3:7-9; Lc 13:28, 29; Rm 9:6-8; cf. Gl 3:7). Precisamos considerar que,
embora Deus seja longânimo para com a humanidade pecadora, essa paciência tem
4
um limite temporal, além do qual Sua ira permanece. Se for desprezada ou abusada
(1Pe 3:20), resultará em maior severidade no juízo, como ocorreu com Faraó.

A longanimidade de Jesus
Em nossos relacionamentos, quanto mais tempo passarmos com uma pessoa,
maior será a possibilidade de atrito e, também, a necessidade de exercermos
paciência. Quando Jesus esteve na Terra, isso foi percebido no Seu trato com os
discípulos. Eles desfrutaram Sua companhia por cerca de três anos: caminhavam,
tomavam refeições juntos e dormiam no mesmo lugar. Eles ouviam Seus ensinos e
viam Seus milagres. Tinham amplas evidências de que Ele era o prometido Messias, o
Filho de Deus. Todavia, quão lentos eram para perceber, crer, obedecer e agradecer.
Mesmo assim, Cristo pacientemente os perdoava e tornava a repetir suas lições e a
incentivá-los no caminho do bem.
Entretanto, embora Jesus fosse muito longânimo, o evangelho revela que Sua
paciência também tinha limites. Ele manifestava Sua indignação, seja em palavras ou
em ações, diante de forças e poderes que se estabeleciam contra Deus. Ele Se
indignou contra Satanás (Mt 4:10; 16:23), os demônios (Mc 1:25; 9:25; Lc 4:41) e por
causa da natureza demoníaca dos homens (Jo 8:44). Aborreceu-Se notadamente com
os fariseus (Mt 12:34; Mt 15:7; Mt 23:33) por causa da “dureza do seu coração” (Mc
3:5, 6; cf. Lc 6:6, 7). Ele irou-Se contra as cidades que recusaram Seus apelos para
conversão (Mt 11:20-24); os vendedores do templo que, por sua profanação,
desrespeitavam o Senhor (Mt 21:12, 13; Jo 2:13-17); e os discípulos, por sua falta de fé
(Mt 17:17).
Em Seus ensinos, o esgotamento da paciência é visto mesclado com Sua
compaixão. Desse modo, o senhor da festa cansou de ser paciente quando seu convite
foi desprezado pelos convidados (Lc 14:21). O mesmo ocorreu quando o mau servo
não correspondeu à grande misericórdia que lhe fora demonstrada a ele (Mt 18:34,
35). Ainda, nos eventos finais a serem cumpridos, Ele é o Senhor que repudia toda
ligação com aqueles contra os quais está irado (Mt 7:23; 25:12; Lc 13:27) e que destrói
Seus inimigos (Lc 12:46; Mt 22:7; 25:30). Na linguagem apocalíptica, Cristo é o “Rei
dos reis e Senhor dos senhores” que “pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus
Todo-Poderoso” (Ap 19:16, 15), no grande dia “da ira do Cordeiro” (Ap 6:15, 16). Sua
ira é particularmente contra os que desprezam Seu sacrifício vicário que tira o pecado
do mundo.

A longanimidade do cristão
O Novo Testamento repetidamente nos orienta a sermos pacientes com aqueles
que estão à nossa volta. Isso apenas será possível se o Espírito de Deus habitar em nós.
Somente Ele pode nos tornar pacientes para com os outros.
Precisamos ser pacientes com os fracos. No fim de sua carta aos Romanos, Paulo
tratou da ética cristã e mencionou como deve ser a relação entre cristãos fortes e
fracos. Ele acreditava que os fortes estavam corretos, então escreveu e colocou-se
como um deles (Rm 14:14, 20; 15:1). A diferença entre eles dizia respeito a assuntos
não essenciais sobre os quais as Escrituras não se pronunciam com clareza. Nesses
casos, cada um tem a liberdade de seguir sua consciência, mas isso pode vir a causar
divisão entre os crentes. Os fortes são pessoas maduras em sua experiência cristã. Os
fracos são imaturos em suas convicções, incultos e até equivocados; no entanto, não
devem ser ignorados ou censurados. A comunidade cristã deve acolhê-los sem
discussões, debates ou julgamentos, respeitando suas opiniões (Rm 14:1). Eles devem
ser aceitos porque: (1) o próprio Deus os acolheu (Rm 14:2, 3); (2) Cristo morreu e
ressuscitou para ser o Senhor (Rm 14:4-9); (3) eles são nossos irmãos (Rm 14:10); e (4)
todos nós compareceremos diante do tribunal de Deus (Rm 14:10-13).
Outro princípio que Paulo apresentou é o de que não devemos agradar a nós
mesmos (Rm 15:1-13). As razões para isso são: (1) Cristo não agradou a Si mesmo (v.
3, 4); (2) Deus está disposto a unir fortes e fracos para que tenham o mesmo
sentimento de uns para com outros e em Sua adoração (v. 5, 6); (3) Cristo os acolheu
(v. 7); (4) Cristo Se tornou servo. Como foi dito: “No essencial, unidade; em coisas não
5
essenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade.”
Precisamos ser pacientes quando anunciamos o evangelho. Revendo as narrativas
bíblicas, percebemos que a proclamação do evangelho pode causar três possíveis
resultados: (1) Rejeição. Quem ouve definitivamente não aceita. O moço rico se
6
enquadra nessa categoria (Mt 19:16-22). (2) Procrastinação. A pessoa não aceita no
momento. Entretanto, algum tempo depois, diz “sim” a Cristo. Foi o que ocorreu com
7
Nicodemos (Jo 3:1-21). (3) Aceitação. O evangelho é imediatamente aceito. Esse foi
8
o caso da mulher samaritana (Jo 4:1-43). Portanto, nem todos os que ouvem o
evangelho se decidem a seu favor, e aqueles que o fazem nem sempre o farão de
imediato. O recebimento ou não do evangelho e a rapidez ou demora para que isso
ocorra não dependem apenas de Deus ou do mensageiro. Dependem, em boa
medida, da disposição do coração daquele que o recebe.
Devemos considerar que as pessoas costumam filtrar os conhecimentos que
recebem. Cada informação que nos chega precisa passar por alguns crivos antes de
concordarmos com ela. Esses filtros são formados por nossas experiências e por
dados que recebemos e acatamos. Sendo assim, podemos imaginar que, se dermos
estudos bíblicos a um jovem que nunca teve uma experiência religiosa ou nada leu a
respeito, encontraremos alguém com poucos filtros, e a mensagem que lhe
transmitirmos será absorvida com certa facilidade. Por outro lado, se levarmos nossa
mensagem a uma pessoa mais experiente, que já pertenceu a várias denominações
religiosas e já leu milhares de páginas sobre as mais diferentes doutrinas, é certo que
encontraremos alguém com muitos filtros.
Nesse caso, cada aspecto da verdade apresentada se depara com pensamentos
diferentes e contrários, alguns deles bastante enraizados e que se constituem numa
barreira que impede ou dificulta a aceitação da nova informação. É de se esperar que a
conversão do jovem seja mais fácil e rápida do que a do mais experiente. Você pode
perceber isso em sua igreja local. Relembre as cerimônias batismais às quais você tem
assistido. Quantas crianças, adolescentes e jovens foram batizados? Quantos foram os
de meia-idade ou idosos?
De qualquer modo, não nos esqueçamos de que o evangelho “é o poder de Deus
para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1:16). Devemos fazer a nossa parte da
melhor maneira possível, orando com fervor para que Deus atue poderosamente por
meio de Sua Palavra e de Seu Espírito na vida daqueles a quem buscamos evangelizar,
a fim de que reconheçam a verdade, creiam em Deus e cheguem à salvação.
Precisamos desenvolver a paciência. Nessa tarefa podemos contar com a ajuda de
Deus. Aliás, essa é uma das razões pelas quais Ele nos permite passar por provas e
dificuldades. Elas nos ajudam a cultivar um caráter paciente, constante e a
desenvolver a maturidade cristã. Como Paulo disse: “Também nos gloriamos nas
próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança,
experiência; e a experiência, esperança” (Rm 5:3, 4).
Precisamos saber que a paciência tem seus limites. Há pessoas que precisam lidar
com explosivos, como é o caso daqueles que trabalham na abertura de rodovias em
nosso país. Uma banana de dinamite geralmente possui um pavio comprido. Isso se
dá para que, depois de aceso, decorra um longo tempo até a detonação, permitindo
que as pessoas próximas se protejam e não sejam atingidas pela explosão. Se o pavio
fosse muito curto, a deflagração ocorreria de imediato e não haveria tempo para se
proteger.
Todos ouvimos falar em pessoas com “pavio curto”, que não têm paciência e
explodem mesmo por motivos triviais. Deus, ao contrário, tem um “pavio longo”, é
longânimo, tem longo ânimo ou longa paciência. Ele nos convida a sermos pacientes
e longânimes nos relacionamentos com nossos semelhantes. Assim, se por um lado
não é correto ter “pavio curto”, explodir rapidamente; por outro, é parte do fruto do
Espírito ser longânimo.
Devemos recordar que há o momento em que mesmo o pavio longo é consumido
pelo fogo, e a dinamite explode. De igual maneira, embora Deus seja longânimo,
chega o momento em que a Sua paciência se esgota. Assim pode acontecer conosco.
Existem situações em que é correto não termos paciência. Isso pode ser ilustrado pelo
procedimento adotado nas escolas. Quando um aluno é rebelde, indisciplinado,
briguento, desrespeitoso com colegas e professores ou viciado em drogas, o que é
feito? Os colégios costumam ter uma política para lidar com esses casos. Primeiro, o
garoto recebe uma repreensão oral. Quando ele repete o mau comportamento,
recebe uma advertência escrita. Na próxima ocasião, os pais são notificados. Dessa
forma, com paciência, tratam do caso. Contudo, se ele persistir no erro, acabará sendo
convidado a se retirar da escola. Isso será absolutamente necessário para o bem dos
demais alunos. Sua permanência seria um grave erro por desconsiderar os direitos e o
bem- estar de todos os outros.
Portanto, Deus é longânimo para com os homens e para conosco,
individualmente. Por essa razão, Ele nos concede tempo suficiente para o
arrependimento e a mudança de vida; para formarmos um caráter como o de Cristo.
Aproveitemos a oportunidade e permitamos que o Seu Espírito nos faça pacientes em
nossos relacionamentos.

1 A longanimidade de Deus é expressa no Antigo Testamento pela expressão erekh ’appayim (Êx 34:6; Nm
14:18; Sl 86:15; 103:8; Is 48:9; Na 1:3) que transmite a ideia de lentidão para a ira e para punir o erro. No Novo
Testamento, a expressão é makrothumía (Rm 2:4; 9:22; 2Pe 3:15), literalmente, “grandeza de ânimo” – para amar e
esperar, perdoar e esquecer. Também ocorre a palavra anochē, empregada apenas em Romanos 2:4 e 3:25,
traduzida geralmente como tolerância e referindo-se à longanimidade de Deus, sem qualquer distinção nítida de
makrothumía. Significa conter, fazendo referência ao juízo. É empregada na literatura grega, às vezes, para referir-
se a uma trégua, a qual implica na cessação das hostilidades das partes em conflito. De igual maneira, a
longanimidade de Deus com a humanidade é uma espécie de trégua divina temporária que Ele tem proclamado
em Sua graça. – Everett F. Harrison, “Romans”, The Expositor’s Bible Commentary (Grand Rapids, MI:
Zondervan, 1984), vol. 10, p. 29.
2
U. Falkenroth e Colin Brown, “Paciência, Firmeza, Perseverança”, Dicionário Internacional de Teologia do
Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 1985), vol. 3, p. 372.
3 J. Barmby e J. Radford Thomson, “The Epistle of Paul to the Romans”, The Pulpit Commentary (Grand Rapids,
MI: Eerdmans, reimpressão 1977), vol. 18, p. 58, 59. Discorrendo sobre esse tópico, Ellen White declarou que
“passado o período de nossa prova, se formos achados transgressores da lei de Deus, encontraremos no Deus de
amor um ministro de vingança. Deus não Se compromete com o pecado. Os desobedientes serão punidos. [...] O
amor de Deus agora se expande para incluir o mais baixo e vil pecador que, contrito, venha a Cristo. Estende-se
para transformar o pecador num obediente e fiel filho de Deus; mas nenhuma alma pode ser salva se continuar em
pecado. O pecado é a transgressão da lei, e o braço que é agora poderoso para salvar, será forte para punir quando
o transgressor ultrapassar as fronteiras que limitam a paciência divina (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas
(Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), vol. 1, p. 313).
4 Ellen G. White, Profetas e Reis (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 276, 417;
Testemunhos Seletos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), vol. 2, p. 62, 63; O Grande Conflito
(Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 36.
5 John R. W. Stott, Romanos (São Paulo: ABU, 2000), p. 432-454.
6 O jovem rico “recusou o oferecimento da vida eterna, e foi embora, e haveria o mundo, daí em diante, de
receber sempre o seu culto”. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 522, 523.
7 7 “Durante algum tempo, Nicodemos não reconheceu publicamente a Cristo [...]. Quando, afinal, Jesus foi
erguido na cruz, [...] Nicodemos viu em Jesus o Redentor do mundo. [...] Depois da ascensão do Senhor, quando os
discípulos foram dispersos pela perseguição, Nicodemos tomou ousadamente a dianteira. Empregou sua fortuna
na manutenção da igreja infante [...]. Tornou-se pobre em bens deste mundo; todavia, não vacilou na fé que tivera
seu início naquela conferência noturna com Jesus” (ibid., p. 176, 177).
8 Ao estar a samaritana conversando com Jesus, junto ao poço de Jacó, “nela se começou a formar a convicção
acerca de Seu caráter. Surgiu-lhe no espírito a indagação: ‘Não poderia Este ser o tão longamente esperado
Messias?’ Disse-Lhe: ‘Eu sei que o Messias (que Se chama o Cristo) vem; quando Ele vier, nos anunciará tudo’.
Jesus respondeu: ‘Eu O sou, Eu que falo contigo’ (Jo 4:25, 26). Ao ouvir a mulher estas palavras, a fé brotou-lhe no
coração. Aceitou a maravilhosa comunicação dos lábios do divino Mestre” (ibid., p. 189, 190).
5
Amabilidade

palavra “benignidade” quase não é usada nas falas ou escritos da atualidade. A

A linguagem contemporânea equivalente é “amabilidade” ou “delicadeza”.


Benignidade é mencionada junto à bondade (Gl 5:22). A semelhança entre elas
é tamanha que alguns tradutores empregam a palavra “bondade” quando traduzem o
que na língua original está como “benignidade”. Ambas são modalidades do amor, e a
diferença é que benignidade se refere à disposição do coração, enquanto bondade é a
exteriorização dessa disposição por meio de ações ou palavras. A benignidade diz
respeito ao sentir e ao ser; mas, para ser notada, precisa se manifestar mediante a
bondade, que é o fazer. Assim, é impossível estudar e entender a benignidade sem, ao
mesmo tempo, relacioná- la com a bondade.

O modelo de amabilidade
A benignidade de Deus é Sua disposição favorável para com toda a criação.
Lemos nos Salmos: “Cantai ao Senhor com ações de graças; entoai louvores, ao som
da harpa, ao nosso Deus, que cobre de nuvens os céus, prepara a chuva para a terra,
faz brotar nos montes a erva e dá o alimento aos animais e aos filhos dos corvos,
quando clamam” (Sl 147:7-9). “Em Ti esperam os olhos de todos, e Tu, a seu tempo,
lhes dás o alimento. Abres a mão e satisfazes de benevolência a todo vivente. Justo é o
Senhor em todos os Seus caminhos, benigno em todas as Suas obras” (Sl 145:15-17).
Quando Sua benignidade se manifesta aos Seus filhos é para comunicarlhes vida e
bênção.
Em uma oração, Davi exclamou: “Como é grande a Tua bondade, que reservaste
aos que Te temem, da qual usas, perante os filhos dos homens, para com os que em Ti
se refugiam!” (Sl 31:19). Isso foi exemplificado na vida de José. Depois de haver sido
fiel a Deus, ele foi caluniado e preso. Entretanto, a Bíblia diz: “O Senhor, porém, era
com José, e lhe foi benigno [...]. O Senhor era com ele, e tudo o que ele fazia o Senhor
prosperava” (Gn 39:21, 23).
Deus também “é benigno até para com os ingratos e maus” (Lc 6:35), aqueles que
vivem longe dEle, e busca trazê-los ao arrependimento a fim de que não recebam Sua
ira no dia do juízo (Rm 2:4, 5). Desse modo, somos todos convidados a considerar “a
bondade e a severidade de Deus” (Rm 11:22). Enquanto Sua benignidade contempla
aqueles que têm fé e nela permanecem, Seus juízos são direcionados àqueles que se
mantêm na incredulidade. Todavia, mesmo estes, se retornarem para o Senhor,
1
voltarão a ser alvos da benignidade que Ele manifesta aos Seus filhos.

Amabilidade por meio de ações


Benigno é alguém amável, delicado, cortês e gentil. O oposto de um indivíduo
desagradável, descortês, rude ou grosseiro. Há nas Escrituras diversos exemplos de
pessoas que, por meio de suas ações, manifestaram a amabilidade que havia em seu
coração. Examinemos dois deles, um do Antigo e outro do Novo Testamento. Em 1
Samuel 25, encontramos a narrativa acerca de um casal com as características acima
descritas. Um dos cônjuges gentil e o outro intratável. O homem chamava-se Nabal, e
a mulher Abigail. Nabal, cujo nome significa “insensato”, é descrito como alguém
muito rico, possuidor de rebanhos e de servos, mas também “duro e maligno em todo
o seu trato” (v. 3). Na visão de seus servos e da esposa, ele era um “filho de Belial” ou
“homem de Belial” (v. 17, 25), isto é, alguém desprezível.
Antes de Davi ser rei, quando era apenas um fugitivo, acampou com seus homens
durante várias semanas nas proximidades da fazenda dessa família. Naqueles dias, eles
ajudaram a proteger os rebanhos de Nabal de animais ferozes, dos ladrões, e
respeitaram a sua propriedade não tocando em nada daquele patrimônio. Em um
tempo de necessidade solicitaram sua ajuda, mas ele, além de se recusar a prestar
socorro, insultou Davi e seus homens. Quando o futuro rei soube do fato, reuniu seu
grupo e dirigiu-se à casa de Nabal com a intenção de exterminá-lo com seus servos.
Entretanto, um deles anunciou a Abigail o que acontecera. Ela rapidamente
providenciou o alimento de que Davi e seus homens precisavam. Também
encarregou alguns de levarem, adiante dela, aquele presente. Pouco depois, Abigail se
encontrou com Davi e, com cortesia, conseguiu impedir um grande massacre. O
relato a descreve como uma mulher “sensata” (v. 3), que agiu com prudência (v. 33).
De fato, ela foi humilde, assumiu a culpa e, com amabilidade, desviou a ira de Davi,
salvando muita gente.
O segundo exemplo de amabilidade pode ser visto na conhecida parábola do bom
samaritano (Lc 10:30-37). Depois que o sacerdote e o levita se negaram a ajudar
aquela desfalecida vítima de assalto, felizmente alguém se compadeceu. Era um
estrangeiro, um odiado samaritano, que poderia ter razão para não prestar socorro.
No entanto, ele não fez assim. Chegou bem perto do homem aflito. “Com carinho e
2
amabilidade tratou do ferido”, utilizando os recursos disponíveis. Como parte do
alimento que levava consigo, havia azeite e vinho, que também eram comumente
usados para tratar de ferimentos. Usou o vinho para limpar as feridas e o azeite para
3
suavizar a dor. Depois, colocou-o sobre sua cavalgadura, e ele próprio foi a pé,
conduzindo o animal vagarosamente para não sacudir o moribundo, aumentando
4
assim os seus sofrimentos. Chegando a uma hospedaria, cuidou dele durante a
noite, velando-o cuidadosamente.
Pela manhã, como o doente estava melhor, o samaritano resolveu continuar
viagem; antes, porém, fez os devidos acertos com o hospedeiro, para que este cuidasse
do enfermo. Ademais, deu-lhe algum dinheiro e assumiu o compromisso de cobrir
qualquer despesa extra, quando voltasse por aquele caminho no retorno de sua
viagem. Agindo assim, o samaritano se mostrou um homem com um coração
benigno. No espírito e nas ações, provou estar em harmonia com Deus e Sua lei.

Amabilidade na comunicação
O termo comunicação deriva da palavra comum e isso indica que ela envolve
elementos compartilhados por aqueles que estão se relacionando. Há inúmeras
possibilidades de contato como: ser membro de uma família, frequentar a mesma
igreja, escola ou local de trabalho, praticar um hobby, entre outros. Quanto maior o
número de pontos em comum, maior será a probabilidade de ocorrer a comunicação
5
e entendimento. Jesus foi o comunicador por excelência. Ele Se aproximava das
pessoas para falar-lhes das boas-novas da salvação, por meio de pontos comuns. Além
de Sua própria encarnação, que nos identificou com Ele, os Evangelhos trazem alguns
episódios em Sua vida que nos servem de exemplo. Um deles sucedeu junto ao poço
de Jacó, quando Jesus alcançou o coração da mulher samaritana, usando uma
necessidade em comum: a sede (Jo 4:1-30). Outro, pode ser percebido no dia de sua
morte, quando o ladrão que estava ao Seu lado aceitou a salvação. Nesse caso, o ponto
em comum aos dois foi a cruz (Lc 23:39-43).
A comunicação pode ser verbal ou não verbal. A comunicação verbal ocorre
quando utilizamos o verbo, a palavra. A comunicação não verbal se expressa sem o
uso de palavras e pode incluir a inflexão da voz, o modo de olhar e a posição, e os
gestos corporais.
Como filhos de Deus, possuidores do fruto do Espírito, precisamos ser amáveis
em todas as formas de comunicação. Desse modo, a amabilidade ficará evidente não
só no conteúdo de nossa mensagem, nas palavras que são proferidas por nossos
lábios, mas também no tom de nossa voz, na expressão de nosso olhar e em nossa
linguagem corporal.

1
Dale Moody, “Romanos”, Comentário Bíblico Broadman, ed. Clifton J. Allen, traduzido por Adiel Almeida de
Oliveira (Rio de Janeiro: JUERP, 1984), vol. 10, p. 286.
2 Ellen G.White, Parábolas de Jesus, (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]) p. 379.
3 R. Jamieson, A. R. Fausset e D. Brown, Comentario Exegetico y Explicativo de la Biblia (Buenos Aires: Casa
Bautista de Publicaciones, 1981), vol. 2, p. 149.
4
White, O Desejado de Todas as Nações (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 503.
5
Howard Hendricks, Ensinando Para Transformar Vidas (Venda Nova, MG: Betânia, 1991), p. 74.
6
Bondade

ntes de requerer que sejamos bondosos, as Escrituras declaram a bondade de

A Deus. Ela pode ser vista desde o princípio, nos muitos preparativos que Ele fez
para o surgimento do homem, a obra coroadora da Criação. A luz, o
firmamento, a vegetação, os animais; tudo era belo, puro e perfeito. A avaliação divina
feita a cada dia daquela primeira semana constatava que tudo o que foi criado era
bom. Ao término da Criação, ao fazer uma avaliação final, que abrangia todas as Suas
obras, “viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn 1:31). Essa bondade
1
pode ser percebida ao longo de todo o Antigo Testamento, onde Deus é
apresentado como o único que é exclusivamente bom (1Cr 16:34; 2 Cr 5:13; Sl 118:1).
O conceito ecoa no Novo Testamento nas palavras de Jesus: “Ninguém é bom senão
um, que é Deus” (Mc 10:18; Lc 18:19; Mt 19:17). Todavia, o fato de somente Deus ser
absolutamente bom, não implica que esse predicado não possa ser empregado para
expressar as diferenças morais entre os homens, isto é, distinguir os bons dos maus
2
(Mt 12:35; 25:21; Lc 6:45; 19:17).
Quando Deus disse que tudo quanto criara era “muito bom”, isso também se
referia ao homem. No entanto, como visto anteriormente, o pecado alterou
drasticamente a condição humana. Em suma, desobedecendo à orientação divina, o
homem escolheu conhecer o mal e, por isso, deixou de ser bom. Deus, porém,
planejou mudar nossa condição e restaurar-nos. Isso foi possível mediante Seu plano
de redenção. Ao crermos em Cristo e recebermos o Seu Espírito, começa a ser
produzido em nós o fruto do Espírito, que inclui a bondade (Gl 5:22).
A bondade é um aspecto do amor e se apresenta por meio de ações que se
harmonizam com a lei de Deus. A lei é uma expressão do Seu caráter. Podemos
considerar que a lei expressa quem Deus é. Se Ele fosse mentiroso, egoísta, cruel e
vingativo, então os mandamentos seriam: serás mentiroso, serás egoísta, serás cruel e
serás vingativo. A Bíblia afirma que Deus é imutável (Ml 3:6) e nEle “não pode existir
variação ou sombra de mudança” (Tg 1:17); então, os princípios de Sua lei também
3
não podem mudar. Felizmente, Deus é santo, justo, e bom; por isso, Sua lei é santa,
justa e boa (Rm 7:12).
Ao criar o homem, Deus o fez à Sua imagem e semelhança (Gn 1:26, 27),
gravando em sua consciência moral as exigências da lei (Rm 2:11-16). Assim, o
homem também era santo, justo e bom. A intenção divina era de que fosse sempre
assim. Entretanto, com o surgimento do pecado, a lei que mostrara ao homem
perfeito o padrão de Deus não podia salvar o homem pecador. Poderia apenas revelar
sua imperfeição para que ele a reconhecesse e buscasse a solução apontada no
evangelho, Cristo (Gl 3:24). Portanto, “no que se refere à salvação, o evangelho nunca
4
substitui a lei porque a lei nunca foi um meio de salvação”.
Quando Jesus disse que não veio abolir a lei ou os profetas (Mt 5:17), Ele não
falava apenas de Sua vida sem pecados, mas também de Sua morte, quando suportou
todo o pecado do mundo. Em realidade, o sacrifício na cruz estabelece ou confirma a
lei em três sentidos: (1) ao ser o pagamento, a morte, exigida pela lei quando a justiça
não é realizada; (2) ao corroborar com ela para cumprir seu propósito de levar os
homens à fé em Cristo (Gl 3:24); e (3) ao prover aos crentes o potencial para cumpri-
5
la (Rm 8:3-4).
Paulo nos ensinou que a obediência à lei e a prática de boas obras não são
requisitos para sermos justificados, perdoados (Rm 3:28). Ao justificar alguém, Deus
não considera suas boas obras, não importa quantas sejam. Deus olha para a fé.
Entretanto, como o apóstolo afirmou (v. 31), o fato de as obras não entrarem na
justificação, não significa que o cristão não será obediente aos mandamentos de Deus
(Rm 3:31). Antes, sua fé estabelecerá a lei de Deus por meio da obediência. A fé em
Cristo para perdão de pecados não anula a obediência, mas a produz.
Em Tito 3:3-8, Paulo informou que somos salvos por causa da benignidade e do
amor de Deus; justificados por graça e não por obras de justiça praticadas por nós.
Contudo, acrescentou que, embora as obras não justifiquem, nem salvem, elas se
fazem presentes na vida de quem creu. “Os que têm crido” devem ser “solícitos
[cuidadosos, diligentes, ativos] na prática de boas obras” (v. 8). De fato, as boas obras
não são opcionais na vida cristã. Elas estão incluídas no plano de Deus para nós “pois,
somos feitura dEle, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão
preparou para que andássemos nelas” (Ef 2:10). Para aquele que não passou pela
experiência da conversão, os mandamentos são um grande fardo. No entanto, para
aquele que creu em Cristo e tem consigo o Espírito, “os Seus mandamentos não são
penosos” (1Jo 5:3). Pode dizer: “Terei prazer nos Teus mandamentos, os quais eu
amo” (Sl 119:47).
Aqueles que são bondosos pensam nos outros e buscam formas de abençoá-los.
Eles não apenas sentem compaixão. Vão à luta e fazem o que podem para ajudar
aquele que está em necessidade. Por isso, vemos o profeta Elias provendo
mantimento para uma viúva e seu filho em um tempo de grande escassez (1Rs 17:13-
16); Eliseu fazendo um machado flutuar, socorrendo o rapaz que o deixara cair na
água (2Rs 6:5-7); Jesus tocando e curando um homem coberto pela lepra (Mt 8:2, 3); e
Pedro restaurando a saúde do coxo, que pedia esmola à porta do templo (At 3:6).
Foi por causa da bondade de seu coração que Abraão era hospitaleiro até para
com pessoas desconhecidas (Gn 18:2-8) e que José se interessou por seus
companheiros na prisão, interpretando o sonho de cada um (Gn 40:1-19). Motivado
por esse sentimento, o rei Davi convidou Mefibosete, o aleijado, o filho de seu amigo
Jônatas, para ir morar com ele no palácio (2Sm 9:1-13), e quatro leprosos salvaram a
vida dos habitantes de Samaria durante um cerco, ao indicarem o local com
alimentos em abundância (2Rs 6:24, 25; 7:3-16).
Ao encerrar a carta aos Gálatas, depois de apresentar a preciosa verdade sobre o
fruto do Espírito (Gl 5:22, 23), Paulo fez um apelo àqueles primeiros leitores, o qual
repercute em nossos dias e é relevante também para nós: “E não nos cansemos de
fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos” (Gl 6:9). Portanto,
permitamos que Deus nos torne bons e busquemos sempre fazer o bem.

1
No Antigo Testamento, a bondade é expressa pelo substantivo hesed, que possui um aspecto fortemente
relacional. Ocorre 246 vezes no Antigo Testamento, sendo a metade nos Salmos. Embora seja empregado para
descrever atitudes e comportamentos dos homens em seus relacionamentos, mais frequentemente descreve a
disposição e as ações beneficentes de Deus para com aqueles que lhe são fiéis (Êx 34:6, 7; Nm 14:18, 19; Ne 9:17; Sl
86:15; Jn 4:2; etc.). D. A. Baer, e Robert P. Gordon, “hesed”, New International Dictionary of Old Testament
Theology and Exegesis, ed. Willem A. VanGemeren (Carlisle, UK: Paternoster Press, 1997), v. 2, p. 211. A
expressão “hesed de Deus” é um modo de o Antigo Testamento dizer que “Deus é amor”. R. Lair Harris, “hesed”,
Theological Wordbook of the Old Testament, ed. R. Lair Harris (Chicago: Moody Press, reimpressão, 1981), vol. 1,
p. 306, 307.
2 E. Beyreuther, “Bom, Belo, Bondoso”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, ed. Colin
Brown (São Paulo: Vida Nova, 1985), vol. 1, p. 321.
3
Ver Alfredo Borges Teixeira, Dogmática Evangélica (São Paulo: Atena, 1958), p. 92, 205, 217; Louis Berkhof,
Teologia Sistemática, 2ª ed. (Campinas: Luz Para o Caminho Publicações, 1992), p. 371.
4 J. F. MacArthur, Comentario MacArthur del Nuevo Testamento: Romanos 1-8 (Grand Rapids, MI: Editorial
Portavoz, 2001), p. 265.
5
Ibid.
7
Fidelidade

e você examinar um exemplar do Novo Testamento na língua em que foi escrito

S originalmente, isto é, o grego, vai encontrar que a próxima virtude a ser


mencionada como parte do fruto do Espírito é designada pela palavra pistis (Gl
5:22). Esse é um dos vocábulos mais importantes da teologia cristã, e embora seja
traduzido por “fé” na maioria das ocorrências, no texto que estamos considerando a
1
melhor tradução parece ser “fidelidade”. Enquanto a fé salvadora se manifesta desde
antes da experiência do novo nascimento e apresenta-se como um requisito
indispensável para que este ocorra, o fruto do Espírito somente desponta depois dessa
2
experiência.

A fidelidade de Deus
Do mesmo modo como as Escrituras declaram que Deus é santo, que “Deus é
amor”, elas também asseveram que “Deus é fiel” (1Co 10:13; 2Co 1:18). Isso indica
que: “Ele nunca esquece, nunca falha, nunca vacila, nunca deixa de cumprir a Sua
palavra. O Senhor Se mantém estritamente apegado a cada declaração de promessa
3
ou profecia, faz valer cada compromisso de aliança ou de ameaça”. Como diz o
texto sagrado: “Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se
arrependa. Porventura, tendo Ele prometido, não o fará? Ou, tendo falado, não o
cumprirá?” (Nm 23:19).
Frequentemente, as Escrituras citam a fidelidade vinculada a algum outro
atributo, indicando a proximidade de significado ou a harmonia que há entre eles.
Destacam-se: a misericórdia (Sl 57:3), a justiça (Sl 40:10), a integridade (Js 24:14), a
benignidade (Sl 36:5), a graça (Sl 40:10), a verdade (Sl 40:10), a bondade (Sl 61:7), a
fidelidade (Sl 89:2) e a retidão (Sl 111:8).
As muitas narrativas de Sua Palavra demonstram ser Ele fiel em cumprir tanto
Suas promessas como Suas ameaças, tanto em proteger das dificuldades como em
castigar aqueles que se afastam de Seus caminhos. Por isso, quando Jerusalém foi
destruída pelos babilônios e os judeus foram levados cativos, o profeta Jeremias
reconheceu que o povo de Deus não fora inteiramente consumido por causa das
misericórdias e da grande fidelidade do Senhor (Lm 3:22, 23). O salmista escreveu:
“Bem sei, ó Senhor, que os Teus juízos são justos e que com fidelidade me afligiste” (Sl
119:75). Tratando da descendência davídica, Deus declarou: “Se violarem os Meus
preceitos e não guardarem os Meus mandamentos, então, punirei com vara as suas
transgressões e com açoites, a sua iniquidade. Mas jamais retirarei dele a Minha
bondade, nem desmentirei a Minha fidelidade” (Sl 89:31-33). Em um momento de
muita aflição, Davi orou por livramento de seus inimigos, dizendo: “Eis que Deus é o
meu ajudador, o Senhor é quem me sustenta a vida. Ele retribuirá o mal aos meus
opressores; por Tua fidelidade dá cabo deles” (Sl 54:4, 5).
A fidelidade de Deus é muito importante para nós porquanto resulta em
preciosas bênçãos para Seus filhos:
1. Porque Deus é fiel, Ele não permite que sejamos tentados além das nossas
forças. Sempre que uma tentação vier a nós, mesmo a mais difícil, haverá uma saída,
um modo de escapar ileso, sem compactuar com o mal. Deus proverá livramento
(1Co 10:13). Em algumas situações será necessário fugir, como José na casa de Potifar
(Gn 39:7-12); em outras, apenas aguardar a intervenção de Deus, como ocorreu com
os três amigos de Daniel (Dn 3). Diante da estátua, do rei e dos muitos oficiais, eles
simplesmente fizeram o melhor que podiam: não se curvaram em adoração e
aguardaram o desenrolar dos acontecimentos, descansando no Senhor. Nos
exemplos acima, os filhos de Deus não pecaram. Eles venceram a tentação. No
primeiro caso, José aparentemente foi prejudicado; pois, em resultado de sua
obediência a Deus, ele foi lançado na prisão. Mais tarde, Deus empregou essas
circunstâncias para conduzi-lo à elevada posição de governador do Egito e, dessa
forma, proteger Seu povo numa época de grande fome. No segundo caso, os três
hebreus foram exaltados e prosperaram. Assim, mais cedo ou mais tarde, a fidelidade
de Deus é nitidamente percebida e a fidelidade de Seus servos claramente
recompensada.
2. Porque Deus é fiel, Ele opera em nós a santificação, preparando todo o nosso
ser para a vinda de Cristo (1Ts 5:23, 24). As palavras exatas desse texto são: “O
mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam
conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o
que vos chama, o qual também o fará.” A partir do momento em que somos
perdoados por Deus, passamos a andar na estrada da santificação. O Espírito atua em
nós poderosamente e somos “transformados, de glória em glória”, ou seja, de um
estágio a outro, refletindo cada vez mais perfeitamente a imagem de Cristo (2Co
3:18). Essa transformação atinge nosso ser em todas as suas dimensões: “espírito, alma
e corpo” (1Ts 5:23). O espírito diz respeito à capacidade que temos de nos relacionar
com Deus. A alma, nesse contexto, refere-se ao intelecto, ao sentimento e à vontade;
aquilo que os escritores bíblicos costumavam chamar de “coração” e que hoje
chamamos de “mente”. O corpo é a substância física que cada um de nós possui.
As três dimensões do homem estão de tal modo interligadas que qualquer coisa
que afete a uma delas também afetará as outras. Por essa razão, Deus está interessado
não apenas em nosso espírito, mas também em nosso corpo e em nossa mente; o
mesmo deve acontecer conosco. Devemos conhecer as leis que regem a saúde do
corpo e da mente e obedecer-lhes, certos da ajuda divina. Um claro exemplo dessa
verdade é encontrado na experiência do jovem Daniel. Quando, depois de cativo, foi
selecionado para estudar na “universidade da Babilônia”, ele tomou a firme decisão de
não se contaminar com os alimentos impróprios que lhe serviam. Então Deus
cooperou com seus esforços e o abençoou grandemente com saúde, força, boa
aparência, sabedoria e, como um bônus, com a capacidade de conhecer os Seus
mistérios (Dn 1:1-20).
3. Porque Deus é fiel, Ele nos confirma em Seus caminhos e nos guarda do
Maligno (2Ts 3:3). Se continuarmos a segurar a mão de Cristo, Deus será fiel em nos
guardar. Satanás poderá nos tentar, poderá até tirar nossa vida, como fez com João
Batista, Tiago, Paulo e tantos milhões de cristãos; todavia, uma coisa ele não poderá
fazer: vencer-nos espiritualmente. De fato, não há nada ou ninguém que poderá nos
separar do amor de Deus (Rm 8:31-39). Embora Ele tenha muitas vezes preservado a
vida física de Seus filhos (como fez com Daniel na cova dos leões e com seus amigos
na fornalha ardente) e tenha poder para fazer o mesmo sempre que desejar, Suas
promessas de proteção geralmente se referem à nossa vida espiritual. Como diz a
Escritura: Ele “é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com
exultação, imaculados diante da Sua glória” (Jd 24). Somos ovelhas do rebanho de
Cristo, estamos em Sua mão, e dessa mão ninguém poderá nos arrebatar (Jo 10:27-
30).
4. Porque Deus é fiel, podemos confiar plenamente em Suas promessas (Hb
10:23). Por Ele ser “fiel em todas as Suas palavras” (Sl 145:13) e em “todo o Seu
proceder” (Sl 33:4), se O conhecermos como Ele é e tivermos convicção pessoal de
Sua fidelidade, poderemos confiar plenamente nEle e dizer como Paulo: eu “sei em
quem tenho crido” (2Tm 1:12). Há numerosos relatos que atestam essa verdade.
Enquanto Israel estava acampado junto ao Monte Sinai, depois de lhes entregar Suas
leis, Deus prometeu lhes dar como possessão a terra de Canaã. Ele disse: “Porei os teus
limites desde o Mar Vermelho até o mar dos filisteus e desde o deserto até o Eufrates;
porque darei nas tuas mãos os moradores da terra, para que os lances de diante de ti”
(Êx 23:31). Essa promessa foi repetida nos anos que se seguiram (Dt 7:17-24) e,
finalmente, tornou-se realidade. Eles conquistaram a terra da promessa e a avaliação
de Josué foi: “O Senhor lhes deu repouso em redor, segundo tudo quanto jurara a seus
pais; nenhum de todos os seus inimigos resistiu diante deles; a todos eles o Senhor
lhes entregou nas mãos. Nenhuma promessa falhou de todas as boas palavras que o
Senhor falara à casa de Israel; tudo se cumpriu” (Js 21:44, 45; cf. 23:14).

A fidelidade do homem
A fidelidade do homem é possível quando o Espírito de Deus habita nele.
Ninguém pode ser manso, bondoso e fiel à parte do Santo Espírito. É por essa razão
que tais coisas são denominadas de fruto do Espírito. Somente quando Ele age em nós
é que o fruto nasce.
São nas pequenas coisas da vida que se vê a fidelidade do homem. Jesus ensinou:
“Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é
injusto no muito” (Lc 16:10). Aquele que é descuidado com as mínimas coisas ou
injusto nas pequenas questões fará o mesmo com as grandes, embora, numa escala
maior. Quem se porta corretamente em relação àquilo que parece pequeno, dá
indícios de que terá o mesmo procedimento em assuntos de maior importância. Em
realidade, é com base nesse princípio que as empresas costumam promover ou não os
seus funcionários a postos que exigem mais e são mais valorizados. Algo semelhante
sucede nas igrejas e em quase qualquer empreendimento humano onde são
necessárias muitas pessoas e talentos. O que ocorreu com José na casa de Potifar é um
exemplo disso (Gn 39:2-6).
A fidelidade do homem o capacita a realizar grandes coisas para Deus. A Bíblia
repetidamente ilustra essa realidade ao discorrer sobre a vida de homens e mulheres
que foram fiéis ao Senhor. Noé, Jó, Abraão, José, Moisés, Ester, Daniel e Paulo são
apenas alguns deles. Eles foram uma grande bênção em seus dias e continuam a servir
de exemplos para nós. Essa mesma verdade tem sido observada ao longo da história
da igreja e ainda hoje.
Deus recompensará o homem fiel. Na parábola dos talentos, o Senhor disse ao
servo obediente: “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te
colocarei; entra no gozo do teu Senhor” (Mt 25:21). No Apocalipse, depois da
descrição das belezas e bênçãos que haverá na Nova Terra, o Senhor Jesus declara: “E
eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada
um segundo as suas obras” (Ap 22:12).
Portanto, vivamos uma vida de plena confiança em Deus, que é fiel em todas as
circunstâncias, em todos os momentos e em todos os lugares. Além disso,
cooperemos com Seu Espírito, para que Seu fruto se desenvolva em nós, sabendo que
nossa fidelidade será amplamente recompensada.

1 Esta palavra, pistis, aparece 239 vezes no Novo Testamento, onde é traduzida quase sempre por fé. Na verdade,
o contexto em que se encontra determinará o seu real significado, que pode ser: (1) a confiança em Deus que
conduz à salvação (ex.: Rm 3:22, 25; 1Co 13:13; Ef 2:8); (2) as convicções intelectuais ou crenças doutrinárias (Tg
2:17), que tanto homens como demônios podem ter (Tg 2:19), mas que não resultam em salvação; (3) o conjunto
de doutrinas ou crenças cristãs, ou seja, o conteúdo da mensagem do cristianismo (At 6:7; 13:8; Gl 1:23; 3:23); (4) a
faculdade psicológica da certeza, a convicção (Hb 1:1); e (5) fidelidade, integridade, lealdade, confiabilidade, ou
dignidade – uma qualidade que merece confiança (Mt 23:23). – William Carey Taylor, “Pistis”, Dicionário do
Novo Testamento Grego, 4ª ed. (Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1965), p. 174, 175. Ver também John
William MacGorman, “Gálatas”, Comentário Bíblico Broadman, ed. Clifton J. Allen (Rio de Janeiro: JUERP, 1985),
vol. 11, p. 150; John R. W. Stott, A Mensagem de Gálatas (São Paulo: ABU, reimpressão 2003), p. 135. Para um
estudo mais completo do termo, ver O. Michel, “Pistis”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo
Testamento, ed. Colin Brown (São Paulo: Vida Nova, 1985), vol. 2, p. 218-229. No Antigo Testamento, a ideia
correspondente é expressa pela raiz ’aman, que significa: “ser leal, digno de confiança, fiel” e pode ser aplicada em
relação a Deus e aos homens (Nm 12:7; 1Sm 22:14; Is 8:2; Dt 7:9), Michel, vol. 2, p. 220.
2 Ver Donald Guthrie, Gálatas: Introdução e Comentário (São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1984), p. 180.
3
A. W. Pink, Os Atributos de Deus (São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985), p. 54.
8
Mansidão

uando refletimos a respeito da mansidão, geralmente temos a ideia de uma

Q virtude que se manifesta no relacionamento com os nossos semelhantes.


Entretanto, nas Escrituras, ela é mais do que isso. É um componente
indispensável em nosso relacionamento com Deus (Sl 25:9; Sf 2:3; Tg 1:21).
Analisando os diversos textos bíblicos que tratam do assunto, bem como as narrativas
que evidenciam essa virtude na vida dos personagens bíblicos, podemos dizer que
mansidão é uma atitude que envolve humildade, submissão e confiança. O manso é
aquele que, reconhecendo sua pequenez e necessidade, entrega-se aos cuidados de
Deus. Ele permite que o Senhor o guie como melhor Lhe parecer, o que lhe permite
desfrutar cada vez mais do descanso e da paz que Ele prometeu para Seus filhos.
No texto bíblico, o conceito de mansidão e de humildade são tão próximos que,
algumas vezes, os tradutores preferem traduzir o que seria mansidão por humildade
(Pv 15:33; 18:12; 22:4) e, outras vezes, colocam os dois conceitos lado a lado (Sl 25:9;
1 2
Mt 11:29; Ef 4:2). Tendo isso em mente, observe alguns pensamentos que tratam
de humildade (e também de orgulho) e que, em poucas palavras, às vezes bem-
humoradas, nos ajudam a melhor compreender a questão:
• “Na próxima vez que formos tentados a nos tornar ‘inchados’ com nossa própria
importância, vamos simplesmente olhar para o buraco de onde fomos arrancados.
Isso acaba facilmente com nosso orgulho” (Charles Swindoll).
• “Um homem cheio de si é sempre vazio” (Edward Abbey).
• “O pavão de hoje é o espanador de amanhã” (autor desconhecido).
• Ele era tão orgulhoso que mal podia esperar para levantar-se de manhã a fim de
olhar-se no espelho (adaptado de Jere D. Patzer).
• “O orgulho não é grandeza e sim inchaço; e o que está inchado parece grande,
mas não é saudável” (Santo Agostinho).
• “Não confunda humildade com pobreza, ignorância ou timidez. Estas podem
favorecer àquela, mas não são idênticas. Pior que um rico orgulhoso, é um pobre
orgulhoso. Pior que um doutor orgulhoso, é um ignorante orgulhoso. Pior que um
sujeito extrovertido e carismático orgulhoso, é um tímido orgulhoso” (Emilson dos
Reis).
• “O poder só sobe à cabeça quando encontra o local vazio” (Ciro Pellicano).
• “Tudo que tenho recebi de Deus; de que queres que me envaideça?” (Zálkind
Piatigórsky).
É muito comum confundirmos humildade com pobreza, ignorância ou timidez e
pensarmos que o orgulho está sempre vinculado à prosperidade, à riqueza, ao
sucesso, às conquistas, à posição social, a um elevado grau de estudo e a uma
inquestionável beleza. No entanto, embora as condições adversas possam favorecer a
humildade, frequentemente encontramos pessoas que em nada se destacam e que,
todavia, são orgulhosas, ao passo que há pessoas vencedoras em todos os aspectos e
que são humildes. Também há aqueles que trabalham para Deus e que abençoam a
muitas pessoas, mas sucumbem ao orgulho. Infelizmente, aproveitam cada
oportunidade para chamar a atenção para si e para suas realizações. A mansidão,
contudo, nos manterá humildes enquanto realizamos a obra que o Senhor nos
designou. Como disse um escritor cristão:
Deus [...] me faz ver que o rio do seu Reino precisa correr livremente, sem
que cada cristão precise construir uma represa com seu nome, para que todos
saibam: ‘Esta obra de Deus passou primeiro pelas minhas mãos!’.
Se algo de bom foi produzido por Deus, que diferença faz por quais mãos
passou? [...]
A humildade se tornará nossa paixão quando percebermos que, quanto
mais tirarmos nosso ego do caminho, mais a vida, o poder e os propósitos de
Deus podem fluir através de nós. Quando isso ocorre, algo glorioso acontece:
começamos a experimentar a qualidade de vida eterna sem a corrupção de
3
nosso controle humano e das pequenas demandas de nosso ego.
A mansidão é aprendida de Jesus
É interessante notar que, embora outras virtudes cristãs também sejam apontadas
nas Escrituras como atributos de Deus, o mesmo não sucede com a mansidão e a
humildade. Encontramos declarações de que Deus é santo, justo, longânimo,
bondoso, benigno e fiel; todavia, nunca é dito ser Ele manso ou humilde. Isso ocorre
porque mansidão e humildade implicam necessidade e submissão e, portanto, não
são adequadas, de modo algum, para retratar Aquele que de nada necessita e que a
todos é superior. Foi somente quando Cristo voluntariamente tornou-Se um de nós,
submetendo-Se ao Pai e carecendo de Sua ajuda, que Ele pôde dizer: “sou manso e
humilde de coração”(Mt 11:29).
Dentre os muitos ensinos de Jesus, um dos mais conhecidos é: “Vinde a Mim,
todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o
Meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis
descanso para a vossa alma. Porque o Meu jugo é suave, e o Meu fardo é leve” (Mt
11:28-30). Essa passagem bíblica é conhecida como o convite de Jesus. Contudo, Jesus
está fazendo três convites, o que pode ser visto pelo uso dos verbos no imperativo
afirmativo. São eles: Vinde, tomai e aprendei. Eles nos indicam três passos que
precisamos dar e que nos mostram o que significa aceitar a Cristo em nosso coração.
O primeiro convite é: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e
sobrecarregados, e Eu vos aliviarei”. Nessas palavras Jesus Se dirige a todos os homens,
porque todos, saibam ou não, estão sobrecarregados, e o fardo mais pesado que têm
levado é o fardo do pecado. Estamos cansados de lutar com nossas forças contra o
nosso “eu”, contra as atrações do mundo e contra Satanás; fartos de lutar contra
vícios, maus hábitos e tentações demasiado fortes. “Vinde a Mim”. Podemos ir a Jesus
mediante a oração, e assim depositar diante dEle todos os nossos fardos. Aprecio
muito um conselho que o apóstolo Paulo deu aos cristãos de Filipos: “Não andeis
ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as
vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças” (Fp 4:6). Não importa
qual o nosso problema, somos convidados a apresentá-lo ao Senhor. Em vez de ficar
ansioso, ore!
O segundo convite é: “Tomai sobre vós o Meu jugo”. O jugo é um instrumento de
madeira colocado sobre o pescoço dos animais para que possam realizar determinada
tarefa. No Brasil é mais conhecido como “canga” e geralmente é colocado sobre o
pescoço de dois bois que estão em posição paralela, para que puxem um arado, uma
carreta ou outra carga qualquer. Quando um animal coloca o pescoço debaixo de um
jugo, torna-se submisso ao condutor ou carreiro. Daí em diante é comandado e faz o
que o seu dominador deseja. Jesus nos oferece o Seu jugo, que são os Seus ensinos,
Suas leis; enfim, Sua vontade para a nossa vida. Quando colocamos o pescoço debaixo
desse jugo, estamos entregando a Ele o comando de nossa existência e aceitando o
estilo de vida que Ele tem para nós. Desse modo, a expressão “tomai sobre vós o Meu
jugo” significa “aceitai a Minha vontade para a vossa vida”. É um ato de entrega total.
O terceiro convite é: “Aprendei de Mim”. Com frequência a Bíblia apresenta seres
e fenômenos da natureza para ilustrar verdades espirituais. O próprio Filho de Deus é
comparado com animais. Assim, no evangelho de João, Ele é chamado de “o Cordeiro
de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29), porque, apesar de inocente, morreria
sobre a cruz, como os cordeiros morriam sobre o altar. Já no Apocalipse, Ele é
retratado como “o Leão da tribo de Judá” (Ap 5:5), porque como leão lutou
bravamente contra o pecado e as forças do mal e foi vitorioso. Nesse texto do
evangelho de Mateus, embora não seja mencionado o nome de um animal, a
referência é ao boi, o animal que mais usa o jugo.
Naqueles tempos, quando queriam treinar um boi novo para o serviço, eles o
colocavam debaixo de um jugo e, ao seu lado, um boi mais velho e experiente.
Durante dias e semanas eles andavam juntos. O boi mais velho conhecia bem o
boieiro e suas vontades, sabia bem os caminhos, porque já passara por eles tantas
vezes, e, quando chegavam a um atoleiro ou a uma subida íngreme, era ele quem fazia
mais força e arcava com o maior peso. Assim, dia a dia, o novilho ia aprendendo com
o boi mais velho e era por ele ajudado.
Ao convidar: “aprendei de Mim”, Jesus está dizendo: “Eu sou o boi mais velho e
você é o boi novo; fique ao Meu lado e acompanhe-Me. Eu conheço o Senhor e Sua
vontade, Eu conheço o caminho, pois já vivi na Terra e passei por lutas e aflições, Eu
tenho todo o poder e vou lhe ajudar nos momentos difíceis” (Mt 11:27; Hb 4:14, 15;
2:17, 18). Depois de irmos a Jesus e aceitarmos a Sua vontade para a nossa vida, é
nosso privilégio desfrutar diariamente Sua companhia e dEle aprender. Isso ocorre
quando oramos, estudamos a Bíblia, participamos dos cultos e meditamos sobre Sua
atuação neste mundo.
“Aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração.” O mundo pertence
aos violentos e orgulhosos, mas Jesus nos convida a sermos mansos e humildes, como
Ele é. Se aceitarmos Seu convite e caminharmos continuamente ao Seu lado, Ele nos
transformará, e nosso caráter será semelhante ao Seu. Portanto, a mansidão que
Cristo deseja que aprendamos se encontra em um contexto de relacionamento com
Deus que envolve a humildade, o senso de nossa necessidade, a disposição de O
buscarmos e, em confiança, nos submetermos a Ele. Somente atendendo a esses três
4
convites desfrutaremos Seu descanso e fruiremos Sua paz.

A mansidão provém da santificação


Ellen White classificou a mansidão como o mais precioso fruto da santificação.
Considere suas belas palavras, que apresentam o significado, a origem e os efeitos
dessa virtude na vida do cristão:
O mais precioso fruto da santificação é a graça da mansidão. Quando esta
graça reina no coração, a disposição é moldada por sua influência. Há uma
contínua confiança em Deus e uma submissão da própria vontade à dEle. O
entendimento apodera-se de toda verdade divina, a vontade dobra-se diante
de todo preceito divino, sem duvidar nem murmurar. A verdadeira mansidão
abranda e subjuga o coração e prepara a mente para a palavra impressa. Leva
os pensamentos à obediência de Jesus Cristo. Abre o coração à Palavra de
Deus, como foi aberto o de Lídia. Coloca-nos com Maria, como aqueles que
aprendem, aos pés de Jesus. “Guiará os mansos retamente; e aos mansos
ensinará o Seu caminho” (Sl 25:9). [...]
A mansidão, na escola de Cristo, é um dos assinalados frutos do Espírito. É
uma graça produzida pelo Espírito Santo como agente santificador, e habilita
seu possuidor a controlar, em todo tempo, um temperamento impulsivo e
impetuoso. Quando a graça da mansidão é acariciada por aqueles que,
naturalmente, são de uma disposição irritadiça e colérica, eles hão de
empenhar os maiores esforços para subjugar seu infeliz temperamento. Cada
dia ganharão domínio próprio, até que aquilo que é rude e dessemelhante a
Jesus seja vencido. Eles se assemelharão ao Padrão divino, até o ponto de
poderem obedecer à inspirada imposição: “Pronto para ouvir, tardio para falar,
5
tardio para se irar” (Tg 1:19) .

A mansidão é o melhor adorno


Em sua primeira carta, o apóstolo Pedro dedicou um parágrafo com instrução
especialmente endereçada às mulheres (1Pe 3:1-6), mas que contém princípios para
todos. Ele tratou de algo muito importante no contexto feminino, a beleza, e a
palavra-chave foi “adorno” (kosmos, origem da palavra “cosmético”). Naqueles dias, já
havia uma tendência à supervalorização da aparência e do vestuário. Essa
preocupação exagerada com a beleza exterior despendia muito trabalho, tempo e
dinheiro.
A questão parecia ser: Qual é o melhor adorno? Em sua resposta, o apóstolo
contrastou os diferentes adornos externos com um adorno interno. Inspirado por
Deus, Pedro orientou que: (1) o melhor adorno não está relacionado ao cabelo e aos
penteados que se podem fazer, por mais caros, vistosos e apreciados que possam
parecer; (2) o melhor adorno não são os brilhantes e chamativos adereços
pendurados no corpo; (3) o melhor adorno não é o vestuário que cobre o corpo, por
mais belo, elegante ou luxuoso que seja (1Pe 3:3); (4) o melhor adorno, a verdadeira
beleza, está no interior da pessoa: o seu caráter, aquilo que ela realmente é, e que ele
chama de “incorruptível trajo” (v. 4).
Todas as coisas anteriormente mencionadas são corruptíveis, fadadas a
desaparecer (ver 1Pe 1:24; Pv 31:30); são de pouca duração, enquanto esse, que ele
recomenda, é permanente. O traje consiste em “um espírito manso e tranquilo” (1Pe
3:4). Na avaliação de Deus, esse é o melhor adorno, é a beleza que possui grande valor,
a qual permanece. Isso não significa que não devamos nos preocupar com nossa
aparência e vestuário. O condenável é o orgulho, a vaidade, a extravagância e a
inversão de valores.
Portanto, façamos da mansidão uma prioridade em nossa vida. Vamos pedi-la a
Deus e buscá-la, enquanto olhamos constantemente para Seu Filho, o Modelo a
quem devemos imitar.

1
Em Gálatas 5:23, a expressão utilizada é praútes, que aparece onze vezes no Novo Testamento (ex.: 1Co 4:21;
2Co 10:1). Também foi traduzida como brandura (Gl 6:1) e cortesia (Tt 3:2). O termo “manso” é praús, empregado
apenas quatro vezes (Mt 5:5; 11:29; 21:5; 1Pe 3:4). Ver Russell Norman Champlin e João Marques Bentes, eds.,
“Mansidão”, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, 3ª ed. (São Paulo: Candeia, 1995), vol. 4, p. 60. No
hebraico, a língua utilizada pelos escritores do Antigo Testamento, há três palavras relacionadas à mansidão: (1)
anaw, que aparece 20 vezes e é traduzida por “mansos” (Sl 25:9; 37:11), “humildes” (Sl 76:9; 147:6) e “pobres” (Jó
24:4). (2) Anavah, que aparece apenas quatro vezes, significando “gentileza”, “humildade” (Pv 15:33; 18:12; 22:4) e
“mansidão” (Sf 2:3). (3) Anvah, usada duas vezes, “mansidão”, “suavidade” e “brandura” (Sl 45:4; 18:35). Ver também
Leonard J. Coppes, “‘anâ”, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, R. Laird Harris (São Paulo:
Vida Nova, 1998), p. 1.143-1.146. Ao traduzir Anvah em Salmo 45:4; 18:35, a versão Almeida Revista e Atualizada,
2ª ed., traz, respectivamente, “verdade” e “clemência”.
2 Esses pensamentos foram extraídos de Emilson dos Reis, Eles Disseram e Eu Gostei: Seleção de Pensamentos
(Artur Nogueira, SP: Paradigma, 2010), p. 87, 88.
3 Gary L. Thomas, As Virtudes Cristãs (Rio de Janeiro: Textus, 2003), p. 71.
4 Emilson dos Reis, “O Convite de Jesus”, Revista Adventista, Março de 1999, p. 8-10.
5 Ellen G. White, Santificação (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 14-16.
9
Domínio Próprio

1
omínio próprio “descreve a força interior pela qual um homem se controla,

D 2
recusando-se a ser levado ao léu pelos desejos ou impulsos diversos”. Refere-
se à possibilidade de moldar a vida, não segundo os maus desejos de nossa
natureza pecaminosa, mas conforme os desejos de Deus, que sempre são puros,
3 4
benéficos e bons. Ter domínio próprio significa “ter poder sobre si mesmo”. Esse
autocontrole é produzido pelo Espírito Santo na vida do crente, capacitando-o a
5
refrear-se de vícios e excessos. Aparentemente, contrasta com as diversas obras da
carne anteriormente mencionadas (Gl 5:19-21) e que, claramente, demonstram a
6
autoindulgência, o deixar-se levar pelas paixões e desejos, que é seu antônimo.
Quando nos rendemos para ser totalmente dominados pelo Espírito de Deus somos
7
mais nós mesmos do que nunca.

Domínio próprio é poder


Em vez de pensarmos no cristão apenas como alguém que não pode (e não deve)
fazer isso ou aquilo, deveríamos saber que somente um discípulo de Cristo é capaz de
fazer algumas coisas. Somente ele é capaz de ser obediente à vontade de Deus,
unicamente ele pode ter a vitória sobre os desejos impuros do coração, apenas ele
pode amar de verdade e só ele tem a possibilidade de viver em paz e contentamento.
O cristão tem poder para não viver pecando. “Todo aquele que é nascido de Deus
não vive na prática de pecado; pois o que permanece nEle é a divina semente; ora,
esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3:9). Isso não significa
que ele nunca mais cometerá um ato pecaminoso, mas que ele não vive mais
habitualmente uma vida de pecado. Quando se rendeu a Cristo, houve uma
“transformação interior, profunda, radical”; recebeu uma nova natureza, que “exerce
8
uma forte pressão interna em direção à santidade”. “Deus armou Seus filhos para a
guerra contra Satanás, implantando [Sua] própria natureza neles [...]. Podemos dizer,
portanto, em terminologia moderna, que os genes de Deus permanecem em Seus
9
filhos, e que pecar é contrário à natureza deles.”
Ilustremos essa verdade comparando dois animais: o porco e o gato. O porco tem
prazer em chafurdar na lama. Faz parte de sua natureza. Entretanto, um gato jamais
fará isso. É um dos animais mais limpos que conhecemos: está sempre se lambendo,
se limpando. Um gato nunca terá prazer em se revolver na lama simplesmente
porque não faz parte de sua natureza. Assim, um filho de Deus não terá satisfação em
viver uma vida pecaminosa.
O cristão tem poder para praticar a justiça. “Se sabeis que Ele é justo, reconhecei
também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dEle” (1Jo 2:29). A justiça é
algo inerente ao caráter de Deus, por isso, tudo que Ele faz é justo. Uma vez que o
10
filho deve exibir o caráter do pai porque participa da natureza dele, aquele que
nasce de Deus também pratica a justiça. Quem foi regenerado pelo poder de Deus
não só abandona o mal, também se esmera em efetuar o que é reto. Antes, os
membros de seu corpo eram usados para realizar o pecado; mas, agora, os pés, as
mãos, os lábios, todo o ser, enfim, dedica-se a praticar o bem (Rm 6:13, 18-22).
O cristão tem poder para vencer o mundo. “Não ameis o mundo nem as coisas
que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque
tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a
soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa,
bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus
permanece eternamente” (1Jo 2:15-17). Na Bíblia a expressão “mundo”, dependendo
do contexto, pode significar “Universo”, “Terra”, “humanidade”, entre outros termos.
Nesse texto, refere-se ao sistema pecaminoso e mau, inaugurado e chefiado por
Satanás, com tentações e perversões das mais diversas. O inimigo incentiva uma vida
egoísta, carnal e ímpia, e exerce pressões psicológicas, intelectuais e até físicas para
nos alienar de Deus e Seus caminhos. É um estilo de vida que se opõe à vontade de
Deus. Aquele que o adota está preocupado apenas consigo, com seu prazer e não se
importa se suas decisões terão a aprovação do Céu.
O mundo deve ser olhado por nós não como amigo, mas como um inimigo que
precisa ser combatido e vencido. Contudo, isso só é possível àquele que nasce de
Deus. “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os Seus mandamentos; ora, os
Seus mandamentos não são penosos, porque todo que é nascido de Deus vence o
mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1Jo 5:3, 4). O filho de Deus é
um vitorioso. As atrações e propostas do mundo perderam o seu fascínio sobre ele.
Ele sabe que suas cores, seus sons, encantos e prazeres são ilusórios e passageiros.
Armado de sua fé ele segue avante, obediente aos mandamentos de Deus, a quem
11
devota o seu amor.

Domínio próprio e força de vontade


12
Domínio próprio também pode ser entendido como força de vontade.
“Vontade” é uma expressão com diversos significados, dos quais os mais usados são:
(1) Desejo, anseio, aspiração. Ex.: “Estou com vontade de comer um pedaço de bolo”.
E: (2) Capacidade de escolha, de decisão. Ex.: “O apóstolo Paulo tinha uma vontade de
ferro” (o que indica que possuía firmeza e energia nas decisões). É imprescindível não
trocar um significado pelo outro, isto é, não confundir vontade com desejo. “A
13
vontade não é gosto nem a inclinação, mas o poder que decide.” Assim, alguém
pode passar diante de uma confeitaria e, vendo os doces expostos na vitrine, ter o
desejo de comê-los. Contudo, embora tenha tempo e dinheiro, ele segue seu caminho
sem saboreá-los, pois, por alguma razão, sua vontade disse-lhe “não”.
Uma pessoa pode ter uma infinidade de desejos, mas a vontade é apenas uma. A
vontade pode combater os desejos ou aliar-se a eles. Ela está acima das emoções e da
razão, e é responsável pelas decisões e pelos caminhos do indivíduo. “A vontade é o
poder que rege a natureza do homem, pondo todas as outras faculdades sob seu
14
comando.” As “faculdades mentais” e “as paixões devem ser controladas pela
15
vontade”. A razão pode analisar com clareza tudo o que está envolvido e apontar o
rumo correto, mas é a vontade que detém o comando. Esta pode concordar com a
razão e decidir em harmonia com ela; pode se render à emoção; pode ir contra uma e
outra. É como uma máquina interna que toma decisões. A vontade é livre para
escolher e se constitui na grande capacidade que torna o homem senhor de si mesmo,
16
de seus atos, e, por esse motivo, ele é simultaneamente livre e responsável. A
17
vontade é a própria essência da personalidade. É a fonte de todas as ações.
Uma pessoa pode ter uma vontade saudável ou enferma. Os de vontade enferma
podem ser classificados em três grupos:
1. Os impulsivos. São os que não gastam tempo para pensar. São incapazes de
resistir a certos impulsos ou instintos. São impetuosos, rápidos demais em decidir e
agir.
2. Os indecisos. Ao contrário dos anteriores, pensam demais. Em sua mente, os
prós e contras assumem grandes proporções e eles não sabem o que decidir. A razão
realiza bem o seu papel, mas a vontade não assume o comando.
3. Os inconstantes. São os que raciocinam e decidem corretamente, mas não são
capazes de executar o que decidiram. Deixam-se dominar pelos acontecimentos, em
18
vez de dominá-los. Têm medo de agir.
Na Bíblia encontramos exemplos de indivíduos que, pelo menos em certos
momentos da vida, manifestaram uma vontade doentia. Assim, como exemplos de
impulsivos, vemos Ananias e Safira que decidiram doar para a igreja apostólica todos
os recursos adquiridos com a venda de um terreno, mas que, ao terem o dinheiro em
mãos, arrependeram-se da decisão precipitada que haviam tomado (At 5:1-11). Ló,
sendo avisado pelos anjos que Sodoma seria destruída, demorava-se em tomar a
decisão de partir (Gn 19:1, 12-16). Ele é o exemplo de alguém indeciso. Pilatos, por
sua vez, é apresentado como inconstante, pois, certo de que Jesus era inocente e
havendo decidido soltá-Lo, deixou-se dominar pelos acontecimentos e O entregou
para ser morto (At 3:13; Lc 23:13-25).
É por meio da vontade que o pecado conserva seu domínio sobre os homens. A
vontade que não foi rendida ao domínio de Cristo é governada por Satanás. Embora o
homem não possa por si mesmo controlar seus impulsos e emoções como gostaria,
tem a capacidade de tirá-la do domínio de Satanás e entregá-la a Cristo. Quando isso
é feito, “a graça de Cristo Se apresenta para cooperar com o agente humano”
transformando a mente e o coração, pela atuação do Espírito de Deus. Ao
entregarmos a Deus nossa vontade ela nos é devolvida “purificada e refinada” e tão em
19
harmonia com Ele que nos tornamos condutos de Seu “amor e poder”.

Domínio próprio e os heróis da Bíblia


As narrativas bíblicas contêm exemplos de pessoas que exerceram grande
domínio próprio – mesmo com risco de grave perigo ou da perda da própria vida – e
também de indivíduos que falharam em exercer o autocontrole.
José possuía controle pessoal. Em certo período de sua vida, ele foi tentado todos
os dias pela senhora Potifar. Segundo todas as aparências, haveria vantagens em ceder
e sérios riscos em dizer “não”. Além disso, ele nem tinha uma família por perto nem
uma igreja para apoiá-lo. Estava sozinho. Contudo, tinha uma clara compreensão de
quem era Deus e do que era pecado. Ele decidiu recusar e recusou. Disse “não” e
fugiu. Ele não entregou o controle de sua vida a outra pessoa. Mesmo assim, ele se
deu mal. Sim, o resultado imediato não foi bom. Foi caluniado e lançado na prisão.
Todavia, Deus usou essas coisas para o seu bem e, alguns anos depois, ele saiu do
cárcere para ocupar o posto de governador do Egito, a maior potência daquele
período. Com isso, aprendemos também a avaliar os resultados de nossas escolhas a
longo prazo (Gn 39:7-41:44).
Sansão foi um homem fraco em força de vontade. Sua história ocupa quatro
capítulos da Bíblia (Jz 13-16). Ele tinha tudo para dar certo. Foi escolhido para um
trabalho especial mesmo antes de nascer. Seus pais eram tementes a Deus e fizeram o
que de melhor poderia ser feito para educá-lo em Seus caminhos e prepará-lo para
sua missão. Foi abençoado e frequentemente o Espírito do Senhor Se apoderava dele
e lhe concedia extraordinária força física. Apesar disso, ele não possuía domínio
próprio, especialmente no que se referia ao sexo. Contrariamente à vontade de Deus,
casou-se com uma filisteia; depois esteve com uma prostituta; e, mais tarde, juntou-se
a outra filisteia: Dalila. No relacionamento com esta, parecia estar enfeitiçado. Não
conseguia perceber que as palavras e ações dela claramente atentavam contra a vida
dele.
Dizem que “quem não se governa acaba sendo governado por outros”. Assim foi
com Sansão. Nos meses finais de sua existência, foi dominado por seus inimigos, os
filisteus. Felizmente, em sua hora final, teve um lampejo de lucidez. Percebeu seu erro
e decidiu cumprir sua missão, mesmo que morresse. Decidiu retirar o controle de sua
vida das mãos dos filisteus e assumi-lo. Pediu a Deus que o usasse mais uma vez, e Ele
o ouviu. Por isso, seu nome consta na galeria dos heróis da fé, em Hebreus 11.
Daniel é um brilhante exemplo de temperança e domínio próprio. Observe o
relato bíblico: “Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias
do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe
permitisse não contaminar-se” (Dn 1:8). Daniel não era um jovem de vontade doentia.
Não era impulsivo, indeciso ou inconstante. Tinha grande força de vontade.
Ele sabia dizer “não” ao mal, coisa que alguns têm dificuldade em fazer. Durante
sua vida ele teve que dizer “não” muitas vezes, inclusive para os homens mais
poderosos do mundo. Disse “não” ao chefe dos eunucos e ao cozinheiro-chefe
quando estes lhe disseram para comer da comida real (Dn 1:8-16). Disse “não” ao
chefe da guarda, quando este foi encarregado pelo rei de matar os conselheiros por
não conseguirem revelar o sonho e sua interpretação (Dn 2:12-16). Quando
Nabucodonosor imaginou que o reino da Babilônia duraria para sempre, Daniel lhe
disse “não”, acrescentando que outros reinos lhe sucederiam e que o reino de Deus
seria eterno (Dn 2:37-44). Quando Belsazar ofereceu a Daniel posições e riquezas
para que este interpretasse a escrita na parede, Daniel disse “não”; a interpretação
seria gratuita (Dn 5:16, 17). Quando Dario promulgou um decreto que proibia que se
fizesse petição a qualquer homem ou deus que não fosse o rei, Daniel disse “não”, e foi
orar ao Deus Eterno como sempre o fizera (Dn 6:6-10).
Qual era o segredo de Daniel? Ele recebera de Deus o dom do domínio próprio e
se apoderara dele. De fato, quando um homem aprende a dominar-se, faz-se capaz de
dominar o mundo exterior. Quando uma pessoa aprende a dizer “não” a si mesma,
saberá e terá força moral para dizer “não” a outros, quando necessário.
Paulo aprendeu a se dominar e ensinou que fizéssemos o mesmo. Cristo vivia nele
(Gl 2:20) e também o Espírito de Deus (Rm 8:4); contudo, ele tinha algo a fazer, e o
fazia na força do Senhor. Ele afirmou: “Esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão”
(1Co 9:27). Ao tratar dos pecados que os homens distantes de Deus costumam
praticar, ele disse aos que se converteram: “Fazei, pois, morrer a vossa natureza
terrena [...] despojai-vos [...] de tudo isto”, e acrescentou: “Revesti-vos, pois”, e então
relaciona as preciosas virtudes cristãs (Cl 3:5, 8, 12). Portanto, nós também temos algo
a fazer: despojar-nos dos vícios e fraquezas por um lado e, por outro, cultivar as
virtudes cristãs. Na sequência, ele indicou um procedimento indispensável para que
isso se tornasse possível: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo” (Cl 3:16). Na
Palavra encontramos a sabedoria e a força necessárias para termos o domínio próprio
e as demais virtudes.

O domínio próprio deve ser desenvolvido


Ao cultivarmos o domínio próprio, bem como outras qualidades, será muito
proveitoso efetuar, no fim de cada dia, uma breve revisão de nossos comportamentos,
atitudes e palavras. Desse modo, descobriremos os motivos que nos levaram a agir de
uma ou de outra maneira; perceberemos, com mais clareza, onde falhamos e
acertamos. Assim, nós nos conheceremos e melhoraremos nosso relacionamento
com Deus e com os homens. Se, por exemplo, falhamos em nos dominar em
determinado momento, devemos pensar em qual deveria ser o comportamento
correto; então, depois de confessarmos nosso pecado a Deus, pedirmos Seu perdão e
nos perdoarmos, podemos planejar agir do modo correto na próxima vez em que
20
passarmos por situação semelhante.
Em sua exposição sobre as várias virtudes que compõem o fruto do Espírito, o
apóstolo declarou: “Contra estas coisas não há lei” (Gl 5:23). Os mandamentos de
Deus não condenam nenhuma dessas qualidades, antes, são elas que capacitam o
homem a viver em acordo com a lei. Isso pode ser dito em relação às leis humanas. A
sociedade não necessita de nenhuma proteção contra os que amam, são bondosos,
mansos, têm domínio próprio e vivem em paz. Frequentemente, porém, necessita ser
protegida daqueles que manifestam as obras da carne: prostituição, lascívia,
21
inimizades, ciúmes, iras, invejas, bebedices, e coisas semelhantes.
Devemos, portanto, entregar a Deus o domínio de nossa vontade e pedir que Ele
nos conceda o poder sobre nós mesmos, o poder de dizer “não” ao pecado e ao mal.
Deixemos o Espírito de Deus operar em nossa vida. Apreciemos e cultivemos a
virtude do domínio próprio!

1 Enkrateia tem sido traduzida como “domínio próprio” ou “temperança”. Ela ocorre apenas em Gálatas 5:23,
Atos 24:25 e 2 Pedro 1:6, e deriva da raiz krat, que significa “poder” ou “controle”. Também há o adjetivo enkrates –
“continente” (que tem continência: a abstenção de prazeres) ou “que tenha domínio de si” (Tt 1:8) – e a forma
verbal enkrateuomai, “abster-se de algo”, vertida como “se dominem” (1Co 7:9) e “se domina” (1Co 9:25). – H.
Baltensweiler, “Domínio próprio, Sensatez, Prudência”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo
Testamento, ed. Colin Brown (São Paulo: Vida Nova, 1985), vol. 1, p. 682, 683; D. H. Tougue, “Domínio próprio,
Temperança”, O Novo Dicionário da Bíblia, ed. J. D. Douglas (São Paulo: Vida Nova, 1966), vol. 1, p. 443.
2
John William MacGorman, “Gálatas”, Comentário Bíblico Broadman, ed. Clifton J. Allen (Rio de Janeiro:
JUERP, 1985), vol. 11, p. 150.
3
Ver Baltensweiler, vol. 1, p. 683.
4 Ibid., p. 684.
5
Russell Norman Champlin e João Marques Bentes, eds., “Autocontrole”, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e
Filosofia, 3ª ed. (São Paulo: Candeia, 1995), vol. 1, p. 396.
6 Ver Baltensweiler, vol. 1, p. 683; Tougue, vol. 1, p. 443.
7
Gary L. Thomas, As Virtudes Cristãs (Rio de Janeiro: Textus, 2003), p. 15.
8 John R. W. Stott, As Epístolas de João: Introdução e Comentário (S. Paulo: Edições Vida Nova e Editora
Mundo Cristão, 1985), p. 110.
9 Edward A. McDowell, Comentário Bíblico Broadman, ed. Clifton J. Allen (Rio de Janeiro: JUERP, 1985), vol. 12,
p. 247.
10 Stott, p. 101.
11 Emilson dos Reis, “As Marcas de um Cristão”, Revista Adventista, fevereiro de 2000, p. 12.
12 Ver argumento completo em Emilson dos Reis, Como Preparar e Apresentar Sermões, 2ª ed. (Tatuí, SP: Casa
Publicadora Brasileira, 2004), p. 80-88.
13 Ellen G. White, Mente, Caráter e Personalidade (Tatuí, São Paulo: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-
Rom]), vol. 2, p. 685.
14
Ibid.
15
Ibid., vol. 1, p. 100; vol. 2, p. 406.
16
Alberto Montalvão, Psicologia (São Paulo: Novo Brasil Editora, 1982), vol. 2, p. 201.
17
White, Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, p. 685.
18
Montalvão, p. 193, 202.
19 White, Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, p. 693.
20 White, Obreiros Evangélicos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 275.
21 MacGorman, p. 150.
10
Justiça

1
o estudarmos sobre a justiça, precisamos começar com Deus. Além de ser

A perfeitamente justo (Ed 9:15; Ne 9:8; Sl 119:137; 145:17; Jr 12:1; Lm 1:18; Dn


9:14; Jo 17:25; 2Tm 4:8; 1Jo 2:29; 3:7; Ap 16:5), Ele é a fonte da qual derivam
2
todas as leis que são reputadas por justas e que são a norma pela qual se afere o
caráter de qualquer um. A justiça divina pode ser considerada de duas maneiras:
1. Justiça absoluta (ou essencial) – aquela inerente a Deus e que se refere à
perfeição moral, à excelência de Seu caráter e à retidão pela qual Ele Se sustenta a Si
mesmo contra as violações de Sua santidade (Dt 32:4; Sl 97:1, 2; cf. 89:14).
2. Justiça relativa – aquela que Ele manifesta em relação a Suas criaturas,
governando-as com retidão inflexível, dando a cada um conforme o seu merecimento
3
e agindo de modo que todos assim o vejam e o reconheçam.

Justiça e salvação
A Bíblia Sagrada descreve a salvação como uma experiência que inclui a
“justificação” e a “santificação”. Enquanto o termo “justificação” é uma referência ao
perdão que Deus concede ao pecador arrependido que aceita a Cristo, o Justo, como
4
seu único Salvador , a palavra “santificação” pode ser usada como sinônimo de
“crescimento na graça” ou “desenvolvimento do caráter”. Na justificação, a justiça de
Cristo é imputada. Imputar é uma expressão que deriva da área financeira e significa
“colocar na conta de alguém”.
Na comunidade onde vivo, uma família queria ajudar algum formando que
estivesse em dívida com a faculdade. Solicitei ao departamento financeiro uma
relação dos alunos que estavam nessas condições e apontei um nome. Então foi feito
o depósito, foi imputado na conta dele o valor suficiente para liquidar a dívida. Ele não
devia mais nada! Isso ilustra o que ocorreu na morte de Cristo. Na cruz do Calvário,
todos os nossos pecados foram imputados a Cristo, creditados em Sua conta. Ele os
assumiu, responsabilizou-Se por eles e, mediante Sua morte, pagou toda nossa dívida.
Além disso, Deus depositou a justiça de Cristo em nossa conta. “Deus estava em
Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas
transgressões” (2Co 5:19).
Assim, em certo sentido, a salvação é uma grande troca: Cristo recebeu sobre Si os
nossos pecados (Is 53:4-6) e, em contrapartida, nos oferece Sua perfeita justiça (2Co
5:21). Desse modo, quando Deus olhou para Cristo na cruz, O viu como pecador.
Quando aceitamos essa substituição, Deus olha para nós como justos. Por isso, Paulo
pôde escrever: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo
Jesus” (Rm 8:1).
Na santificação, por sua vez, a justiça de Cristo é comunicada à pessoa, o que
significa que ela recebe constantemente a ajuda do Céu para viver uma vida justa, de
5
obediência à vontade de Deus . No momento em que Deus justifica, tem início a
obra da santificação. Isso pode ser ilustrado com a definição geométrica de linha. O
que é linha? A linha é uma sequência de pontos. Em uma linha há o primeiro ponto,
muitos outros pontos e o ponto final. O ponto inicial, além de ser um ponto, é parte
da linha. Comparando, podemos dizer que o primeiro ponto é a justificação, que dá
início à linha inteira da santificação.
No mesmo instante em que Deus me justifica, além do perdão, eu recebo poder
(Ef 3:16), a fim de viver dali em diante uma vida obediente, diferente daquela que eu
vivia. Desse modo, se eu menti, Deus me perdoa, Ele me considera como se eu não
houvesse mentido e também me dá poder para não mentir mais. Se fui desonesto, Ele
me perdoa, considera-me como se nunca houvesse existido desonestidade em mim, e
me concede Seu poder para que eu não mais pratique a desonestidade. Assim ocorre
com os demais pecados.
Entretanto, Deus nunca oferece Sua Justiça, Seu perdão, sem oferecer Seu poder.
É como se Deus estendesse as mãos com dois presentes: o perdão em uma das mãos e
o poder na outra. Infelizmente, às vezes, estamos tão ávidos pelo perdão que nos
concentramos apenas nele, deixando de estender a mão para apanhar o poder.
Esquecemos que a vitória somente será nossa quando nos apropriarmos de ambos.
Isso também pode ser ilustrado com a experiência de uma família que se mudou
para uma nova residência. Assim que chegaram ao local, o pai proibiu o filho de
brincar nos fundos do quintal, pois havia um poço desativado que se encontrava
aberto. Enquanto ele providenciava a compra de alguns materiais para tapar o poço, o
menino desobedeceu, caiu e se machucou. Quando o pai voltou, encontrou-o lá
embaixo: triste, ferido, sem condições de sair sozinho dali. Que pensaríamos se o pai
apenas dissesse: “Está bem, meu filho, eu o perdoo!” e deixasse o menino lá?
Entretanto, o pai não somente o perdoou, mas tirou-o daquela situação e tratou de
suas feridas. Deus faz o mesmo por nós. Ele não só nos perdoa, como nos dá
condições de viver uma vida que dê satisfação a nós e a Ele.

Justiça e santificação
A Palavra de Deus apresenta a santificação como uma necessidade: sem ela,
“ninguém verá o Senhor” (Hb 12:14). Todos desejamos ver a Deus, e um dia O
veremos na cidade santa (Ap 22:4). Para que isso ocorra, precisamos receber
constantemente a justiça de Cristo, que se evidencia em nosso estilo de vida (1Jo 3:3).
O apóstolo João escreveu: “Se sabeis que Ele [Deus] é justo, reconhecei também que
todo aquele que pratica a justiça é nascido dEle” (1Jo 2:29). Como a justiça é inerente
ao caráter de Deus, tudo que Ele faz é justo. Uma vez que o filho deve exibir o caráter
6
do pai porque participa de sua natureza, aquele que nasce de Deus também pratica
a justiça. Quem foi regenerado pelo poder divino não só abandona o mal, também se
esmera em apegar-se ao bem. Anteriormente, os membros de seu corpo eram usados
para realizar o pecado; mas agora os pés, as mãos, os lábios e todos os demais
membros se dedicam a praticar a bondade (Rm 6:13, 18-22).
O Antigo Testamento aplica a palavra “santo” fundamentalmente a Deus – e,
portanto, às coisas e pessoas que se relacionam com Ele como o templo, o dízimo, o
sábado, a nação e os sacerdotes. No Novo Testamento, essa palavra está relacionada à
conduta cristã (Rm 12:1; 1Ts 4:3), e se refere à qualidade da pureza ou inocência que
se manifesta na vida santificada (1Jo 3:3). Precisamos ainda considerar que a
justificação é instantânea, mas a santificação é um processo que se prolongará por
toda a vida, até que, por ocasião do retorno de Cristo, os salvos recebam outro
presente de Deus: a glorificação (Fp 3:20, 21). Enquanto esse dia não chega, nossa
santificação progride. À medida que o tempo passa, não somente haveremos de
conhecer mais sobre o caráter e a vontade de Deus, mas também confiaremos nEle e
O amaremos mais. Então seremos cada vez mais puros e consagrados, mais
semelhantes a Cristo.
Justiça e fé
Entretanto, se Deus é quem nos justifica e santifica, qual é a nossa parte na
experiência da salvação? Em Hebreus 11 são apresentadas dezenas de homens e
mulheres que possuíam fé. Em Hebreus 12:2, Jesus é apresentado não apenas como
possuidor de fé, mas como o Autor ou Originador dela. Deus dá a todos os homens
uma medida de fé (Rm 12:3), que pode ser desenvolvida ou não, dependendo da
vontade do receptor. Se usarmos essa porção, ela aumentará.
Podemos comparar a fé com as mãos. Assim como Deus nos dá mãos, Ele nos dá
fé. No entanto, somos nós que decidimos o que fazer com elas. Decidimos usá-las ou
não. Temos um papel a desempenhar. Isso não é uma contribuição, mas o
preenchimento de uma condição. Algo que depende unicamente de nós. Depende de
nossa vontade e escolha. Porque Deus nos deu o poder de escolha, podemos decidir
usar a fé que Deus nos deu e crer em Suas promessas e em Sua Palavra, ou permitir
que esta fé se atrofie. Podemos decidir agarrar o perdão (justiça / justificação) que
Deus nos estende gratuitamente (At 5:30, 31; Mt 6:12; Is 55:7; Ef 4:32), ou podemos
desconfiar que isso é bom demais para ser verdade, e recusar a oferta divina,
procurando inutilmente alcançar a justiça mediante os próprios esforços pessoais.
Podemos abrir amplamente as portas de nosso coração e dizer: “Eu creio, Senhor”, e
assim recebermos gratuitamente a salvação (Ef 2:8, 9) e a vida eterna (Rm 6:23).

1 Os termos hebraicos que aparecem no Antigo Testamento para “justo” e “justiça” são tsaddiq, tsedheq,
tsedhâqâh, e os termos gregos correspondentes no Novo Testamento são dikaios e dikaiosyne, todos tendo a ideia
fundamental de conformidade a um padrão, de estrito apego à lei.
2 Louis Berkhof, Teologia Sistemática, 2ª ed. (Campinas, SP: Luz Para o Caminho Publicações, 1992), p. 77; ver
também G. H. Lacy, Introduccion a la Teologia Sistemática, 2ª ed. (s. l.: Casa Bautista de Publicaciones, 1976), p. 91,
92.
3 Heber Carlos de Campos, O Ser de Deus e os Seus Atributos, 2ª ed. (São Paulo: Cultura Cristã, 2002), p. 340,
341; B. L. Goodard, “Justice”, Evangelical Dictionary of Theology, editado por Walter A. Elwell (Grand Rapids, MI:
Baker, 1992), p. 593.
4 Ellen G. White, Fé e Obras (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 101,103.
5
Ibid, p.87.
6 John R. W. Stott, As Epístolas de João: Introdução e Comentário (São Paulo: Edições Vida Nova e Editora
Mundo Cristão, 1985), p. 101.
11
Verdade

1
udo o que se refere a Deus está vinculado à verdade. Por isso, Deus é

T verdadeiro como também Seu Filho, Seu Espírito e Sua Palavra. Por essa razão,
a verdade é parte do fruto que se manifesta na vida de quem ama a Deus e
procura agradá-Lo (Ef 5:8-10).

Deus é a verdade
O salmista se refere ao Senhor como o “Deus da verdade” (Sl 31:5). Isso significa
que Ele não vive oculto, mas Se revela e O vemos absolutamente fiel e digno de toda a
confiança. Em sua oração sacerdotal, às vésperas de Sua morte, Jesus Se referiu ao Pai
como o “Deus verdadeiro”. Ele disse: “E a vida eterna é esta: que Te conheçam a Ti, o
único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17:3). Essas palavras nos
ensinam que, quando conhecemos a Deus como Ele é, alcançamos a salvação, a vida
eterna. Na linguagem bíblica, “conhecer” alguém não é apenas uma atividade
intelectual. Não basta apenas tê-lo visto poucas ou muitas vezes, saber o seu nome, a
profissão ou o endereço. Conhecer implica em relacionamento. Conheço alguém
quando, de fato, eu me relaciono constantemente com a pessoa. É a mesma ideia
ensinada pelo conhecido adágio: “Para conhecer alguém precisamos comer um saco
de sal com ele.” Esse processo leva tempo. Precisamos estar ao seu lado em diferentes
situações, observando suas ações e reações. Precisamos ouvir a pessoa. Precisamos
conversar com ela.
O conhecimento de Deus é adquirido do mesmo modo. Leva tempo. Temos que
falar com Ele por meio da oração; temos que escutá-Lo, e isso ocorre quando
estudamos Sua Palavra, particularmente e coletivamente; precisamos observar e
meditar sobre como Ele tem agido na História, e como age atualmente na Igreja e no
mundo; precisamos andar em Sua companhia a cada dia, seguindo Suas orientações.
Isso nos leva a conhecê-Lo. O que ocorre quando conhecemos muito bem uma
pessoa de bom caráter? Quanto mais a conhecemos, mais confiamos nela; mais a
amamos; mais prazer temos em estar em sua companhia. Assim acontece em nosso
relacionamento com Deus. Porque Ele é verdadeiro, quanto mais O conhecemos,
mais confiamos nEle, mais O amamos, e maior prazer temos em desfrutar Sua
companhia. Esse conhecimento, ou melhor, relacionamento, produz em nós uma
vida transformada e uma fé renovada. Busquemos, pois, conhecê-Lo, confiando em
Sua promessa: “Buscar-Me-eis e Me achareis quando Me buscardes de todo o vosso
coração” (Jr 29:13).

A Bíblia é a verdade
A Palavra de Deus é a verdade. No Novo Testamento, na mais longa oração
registrada de Cristo, Ele disse a Seu Pai: “a Tua palavra é a verdade” (Jo 17:17). O
2
mesmo fora dito nos Salmos. Neles, a Palavra de Deus é chamada de “lei” e o maior
de seus capítulos, o 119, trata exclusivamente dela. Apresenta sua excelência e a
exalta. Nesse louvor ao Senhor, o salmista declarou: “a Tua lei é a própria verdade” (v.
142; cf. v. 151, 160). Por essa razão a Escritura nos ajuda a formar um caráter
verdadeiro, iluminando o nosso caminho (v. 105) e nos dando entendimento (v. 130).
Ela nos leva a buscar a Deus de todo o coração (v. 2), odiar e detestar a falsidade (v.
128), vencer o pecado (v. 11) e usufruir a paz (v. 165) e grande alegria (v. 162).

O Espírito Santo é a verdade


No último encontro com Seus discípulos, Jesus lhes garantiu que, enquanto Ele
não retornasse à Terra, eles não ficariam sozinhos. Antes, teriam a permanente
presença do Espírito Santo, o Espírito da verdade, que não estaria ao lado, próximo,
mas habitaria neles. “E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, a fim de que
esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber,
porque não O vê, nem O conhece; vós O conheceis, porque Ele habita convosco e
estará em vós. Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros” (Jo 14:16-18). Ainda
acrescentou: “o Espírito da verdade, Ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará
por Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de
vir” (Jo 16:13).
O Espírito Santo ensina a verdade. Ele é o mestre da verdade. Um conceito
teológico importante é o de “iluminação”, que é a ação do Espírito Santo sobre uma
pessoa capacitando-a a entender a mensagem (revelação) de Deus. Observe o que
disse Ellen White sobre os possíveis efeitos do estudo da Bíblia quando
desacompanhado dessa ação do Espírito.
Sem a direção do Espírito Santo, porém, estamos continuamente sujeitos a
torcer as Escrituras ou a interpretá-las mal. Muitas vezes a leitura da Bíblia fica
sem proveito, e em muitos casos é mesmo nociva. Quando se abre a Palavra
de Deus sem reverência nem oração; quando os pensamentos e as afeições
não se concentram em Deus, ou não se acham em harmonia com Sua
vontade, a mente fica obscurecida por dúvidas; e o ceticismo se robustece com
3
o próprio estudo da Bíblia.
A Palavra de Deus é a “espada do Espírito” (Ef 6:17) e para penetrar fundo no
coração humano (Hb 4:12) necessita ser manejada por Ele. É necessário que Aquele
que no passado inspirou Seus servos a escrever a Bíblia nos capacite hoje a entender o
significado dela. Como está escrito: “as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o
Espírito de Deus” (1Co 2:11) e “o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará
em Meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos
tenho dito” (Jo 14:26).
O Espírito Santo aplica a verdade. O Espírito de Deus que produziu as Escrituras e
a preservou ao longo dos séculos deve agora aplicá-las aos ouvintes. A aplicação de
um texto bíblico é a lição espiritual que a passagem contém para aquele que a está
estudando, em meio às suas lutas e necessidades. Conquanto os princípios bíblicos
não sejam alterados no decorrer do tempo, sua aplicação depende da época, cultura,
circunstâncias e necessidades dos ouvintes. A aplicação traz a verdade do mundo
bíblico para o mundo contemporâneo. Deve brotar naturalmente das ideias contidas
no texto e estar relacionada à vida dos leitores e ouvintes. Mostra como essa verdade
4
se relaciona à experiência deles, aos seus problemas pessoais. Profetas e apóstolos
fizeram aplicação da mensagem de Deus, e os pregadores da atualidade devem fazer o
mesmo; porém, todos esses são apenas instrumentos do Espírito Santo. Ele é o grande
aplicador da verdade. É Sua a obra de trazer algo à memória, revelar necessidades,
reforçar verdades, fazer sugestões, despertar a consciência, vivificar o coração, mover
5
a vontade, dar forças para mudar e restaurar o homem à imagem de Deus.

Cristo é a verdade
Depois de Cristo falar aos discípulos sobre Seu retorno ao Pai e de como um dia
voltaria para buscá-los, Ele lhes disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida;
ninguém vem ao Pai senão por Mim”(Jo 14:6). Por que Cristo é a verdade? Porque (1)
Ele é divino; (2) Ele é a perfeita e completa revelação de Deus e de Sua verdade; (3) Ele
é o caminho pelo qual os homens podem retornar para Deus; (4) Ele combina em Sua
pessoa tudo quanto os homens precisam saber, crer e ser; (5) Ele Se contrapõe à falsa
6
religião e se constitui na concretização de toda a verdade de Deus.
Jesus Cristo era o mistério que estava oculto, mas que, no tempo desejado por
Deus, seria revelado (Ef 3:4, 5; Cl 1:26; Rm 16:26). Contudo, não era totalmente
desconhecido, porque já estava indicado nos escritos proféticos do Antigo
7
Testamento. Ele disse: “Examinai as Escrituras, porque [...] são elas mesmas que
testificam de Mim” (Jo 5:39). Sua vida e obra são o centro das Escrituras. Todos os
milagres e histórias, todas as profecias e parábolas giram em torno de Sua pessoa e de
Seu plano para salvar. As Escrituras declaram que “havendo Deus, outrora, falado
muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos
falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez
o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser” (Hb 1:1-3).
Assim, a revelação começada no Antigo Testamento, continua no Novo
Testamento e se concentra em Jesus Cristo, seu autor e seu objeto. Podemos percebê-
Lo desde o relato sobre a Criação, “pois, nEle, foram criadas todas as coisas, nos Céus
e sobre a Terra [...]. Tudo foi criado por meio dEle e para ele. Ele é antes de todas as
coisas. NEle, tudo subsiste” (Cl 1:16, 17); até a promessa final feita por Ele:
8
“Certamente, venho sem demora” (Ap 22:20).
Deus não apenas nos concedeu uma revelação especial escrita a Seu respeito, mas
também desejou que O conhecêssemos de modo mais visível e palpável e, para tanto,
enviou-nos Seu Filho. Por seu intermédio, Deus procura suprir a dupla necessidade
do homem em sua condição pecaminosa: sua ignorância de Deus (e, portanto, de si
mesmo) e sua culpa diante de Deus. Ao revelar-Se por meio de Seu Filho, Deus deseja
não somente nos tornar bem informados, mas também santos. Por essa razão, o
conhecimento de Deus, por intermédio de Jesus, opera a transformação no caráter,
9
recriando a alma à imagem de Deus.
Sem Cristo, a Palavra de Deus perderia sua razão de ser. O Antigo Testamento
apontava para o futuro, indicando Sua vida e missão quando aqui viesse; e o Novo
Testamento se reporta ao passado, revelando que Ele de fato veio e cumpriu tudo
quanto a Seu respeito estava escrito. Assim, Cristo é o fundamento e o centro das
Escrituras. De todas as formas de revelação pelas quais Deus Se mostrou a nós, aquela
que nos veio por meio de Cristo é a mais completa e perfeita. Ele próprio afirmou:
“Quem Me vê a Mim vê o Pai” (Jo 14:9) e “Eu e o Pai somos um” (Jo 10:30). Quando os
homens O viam demonstrar misericórdia, justiça, sabedoria e perdão, e O
observavam curar, ensinar, animar, fortalecer e consolar, estavam recebendo a mais
clara revelação do caráter de Deus. “Cada milagre, cada ação era sinal que transcendia
o seu significado imediato, para atingir um significado oculto que revelara o Pai ao
10
povo.” Todo ato humano de Cristo era uma palavra que Deus dirigia aos homens.
A revelação efetuada por Jesus inclui Sua pessoa, Seus atos e também Suas
palavras. “Sem dúvida a revelação pelos atos resultaria incompreensível se Jesus não
11
explicitara com Suas palavras o sentido de Seus atos e de Sua vida.” Como exemplo
disso, nós O vemos no cenáculo, ao comemorar a última páscoa, tornando claro o
significado daquilo que realizava (Jo 13:12-17). Concluímos que um dos principais
motivos pelos quais o Filho de Deus veio ao mundo foi para revelar o Pai; “ninguém
sabe quem é o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Lc
12
10:22), e isso Ele o fez de forma magistral. Se desejarmos conhecer a Deus, tudo que
13
temos a fazer é olhar para Jesus.

O cristão e a verdade
Ao passo que as Escrituras continham a teoria da verdade, Jesus veio demonstrar,
na prática, a espécie de vida que Deus esperava que vivêssemos. Logo depois de Se
apresentar como a “verdade” (Jo 14:6), Jesus chamou os discípulos a um
compromisso: “Se Me amais, guardareis os Meus mandamentos” e “se alguém Me
ama, guardará a Minha palavra” (Jo 14:15, 23). Você não pode obedecer à Palavra de
Deus e guardar os Seus mandamentos apenas mentalmente, apenas crendo,
concordando, ou falando. Você precisa demonstrar isso também em sua conduta.
“Aquele que diz que permanece nEle, esse deve também andar assim como Ele
andou” (1Jo 2:6).
O cristão é alguém que deve estar completamente identificado com a verdade.
Primeiro, porque ele foi gerado, em sua condição de filho de Deus, pela Palavra da
verdade (Tg 1:18). Ele tem fé na verdade (2Ts 2:13), ama a verdade (Zc 8:19), apega-se
à verdade (Hb 2:1) e anda na verdade (3Jo 4). Verdadeiras são suas ações (Ef 4:15-32)
bem como suas palavras (Zc 8:16; Ef 4:25). Verdadeiros são os seus motivos. No
Sermão do Monte, Jesus destacou a importância da motivação correta. Ele
mencionou o exemplo dos fariseus hipócritas. Como religiosos, oravam, jejuavam e
davam esmolas com a intenção de exibir sua pretensa espiritualidade e não para
glorificar a Deus ou abençoar os necessitados. Cristo ensinou que fazer o certo pelo
motivo errado está errado (Mt 6:1-18).
O cristão segue a verdade em amor e, desse modo, cresce em tudo o que Deus
planejou para ele (Ef 4:15). Ele se regozija com a verdade (1Co 13:13), orando para ser
sempre guiado por ela (Sl 25:5). Para ele, a verdade lhe serve de “escudo” (Sl 91:4) e o
capacita a permanecer firme em sua luta contra o mal (Ef 6:14). Portanto, aquele que
tem a verdade como fruto do Espírito relaciona-se positivamente com Deus e Seu
Filho; conhece a verdade e, ainda assim, busca sempre mais; está empenhado em
obedecer à Palavra e em ser transformado por ela.

1 Na língua bíblica original, o termo é alétheia, e ocorre 110 vezes no Novo Testamento. No Antigo Testamento,
o vocábulo correspondente mais empregado é emeth, que ocorre 92 vezes. Ele e seus cognatos (palavras com a
mesma raiz) transmitem a ideia de firmeza, estabilidade e fidelidade, e são aplicados tanto a Deus como aos
homens. Etimologicamente, alétheia sugere algo que foi revelado e que pode ser conhecido como realmente é, em
contraposição com aquilo que é apenas imaginário ou falso. Tanto alétheia como emeth podem transmitir a ideia
de verdade como conceito cognitivo (do conhecimento), mas sua ênfase é o aspecto moral, a integridade, o caráter
digno de confiança, a verdade como virtude. Russell Norman Champlin e João Marques Bentes, eds., “Verdade
(Na Bíblia e outras considerações)”, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, 3ª ed. (São Paulo: Candeia, 1995),
vol. 6; p. 731-733. Ver também A. C. Thiselton, “Verdade”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo
Testamento, ed. Colin Brown (São Paulo: Vida Nova, 1985), vol. 4, p. 708-737.
2 Derek Kidner, Salmos 1-72: Introdução e Comentário, 2ª ed. (São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1981), p.
63.
3 Ellen G. White, Caminho a Cristo, (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 110. Em outro
de seus escritos, ela declarou: “Quando o Espírito de Deus cessa de impressionar o coração humano com a
verdade, todo o ouvir é vão, assim como também é vã toda a pregação” (História da Redenção, p. 364).
4 Jerry Stanley Key, O Preparo e a Pregação do Sermão (Rio de janeiro: JUERP, 2001), p. 294.
5
James Braga, Como Preparar Mensagens Bíblicas (Deerfield, Florida: VIDA, 1986), p. 191; Key, p. 289.
6 Champlin, vol. 6, p. 735.
7
Dicionário Enciclopédico da Bíblia, editado por A. Van Den Born (Petrópolis: Vozes, 1971), p. 1.322.
8 White, Caminho a Cristo, p. 88.
9
White, A Ciência do Bom Viver (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 425
10 Pedro Gilberto Gomes, ... e Deus Rompeu o Silêncio! (São Paulo: Paulinas, 1980), p. 25.
11
Xavier León-Dufour, Vocabulário de Teologia Bíblica (Barcelona: Herder, 1967), p. 699.
12 “Por outro lado, o mistério de sua pessoa é inacessível ‘à carne e ao sangue’: Impossível de penetrá-lo sem uma
revelação do Pai (Mt 16:17), que se nega aos sábios e prudentes, mas se outorga aos pequeninos (Mt 11:25). Estas
relações íntimas do Filho e do Pai, de que não tinha conhecimento o Antigo Testamento, constituem o ponto
culminante da revelação que viera por Jesus” (ibid.).
13
Emilson dos Reis, Introdução Geral à Bíblia: Como a Bíblia Foi Escrita e Chegou até nós, 3ª ed. (Artur
Nogueira: Gráfica Nogueirense, 2007), p. 41-43.
12
Esperança

esperança parece ser uma marca da humanidade. É comum dizer que “a

A esperança é a última que morre”, e pessoas de todas as idades e classes sociais


parecem acalentá-la no coração. Embora, frequentemente ela diga respeito
apenas a interesses desta vida. A esperança do cristão é substancialmente diferente,
porque tem sólidos fundamentos: o caráter de Deus, os poderosos atos divinos e as
promessas do Senhor (At 24:15; 26:6; Rm 5:3-5; 1Ts 2:19). Ela se focaliza no retorno
de Cristo, acontecimento que é chamado de “a bendita esperança” (Tt 2:13). Sim, o
plano da salvação compreende muito mais do que perdão e completo livramento do
mal. Temos uma preciosa herança e somos herdeiros de Deus e co-herdeiros com
Cristo (Rm 8:17). Essa herança é preciosa, eterna e infinita e começará a ser nossa a
partir da volta de Jesus (Mt 25:34). A vida com Deus é rica de esperança, no poder do
Espírito Santo (Rm 15:13), pois estamos cientes de que teremos um glorioso futuro se
hoje formos fiéis ao Senhor (Cl 1:5; Ap 21:1-7).
Ao contrário, uma existência sem esperança em Deus e em Suas promessas
resulta na incerteza do amanhã, na certeza da morte e da transitoriedade da vida.
Assemelha-se à vida de Salomão quando se encontrava longe de Deus. A pessoa pode
ter tudo, mas isso não é o bastante, é pura canseira e vaidade, como correr atrás do
vento (Ec 1:8, 14; 2:1-11). A esperança cristã tem efeitos altamente positivos em nossa
vida e realmente faz diferença: possui uma influência transformadora; muda nossas
perspectivas e escolhas; traz alegria e paz em meio às lutas e decepções do presente,
remove o medo e o substitui pelo amor e a confiança e ainda nos torna operosos e
sobremodo esforçados na obra de Cristo (1Tm 4:10).
13
Sabedoria

or volta do 2º e 3º milênios a.C., existiu em todo o Oriente Médio uma literatura

P extensamente cultivada chamada de sapiencial. Havia uma classe de mestres e


escribas sábios que eram sustentados frequentemente pela família real, para
aconselhar o governo em momentos de crise e colecionar, compor e refinar
provérbios e discursos da sabedoria. Esse tipo de literatura se preocupava com os
grandes temas da existência humana e estava presente também entre o povo de Deus.
Desse modo, o livro de Jó trata do sofrimento; Eclesiastes, da morte; Cantares, do
amor; e Provérbios, dos relacionamentos. Este último mostra a importância de
receber a sabedoria de Deus para dirigir todos os aspectos de nossa vida. Apresenta os
dois lados da verdade de modo bem claro, a fim de que ninguém que seja sincero
vacile em sua decisão ou assuma compromisso com o mal. Para tanto, ele contrasta:
• o sábio com o tolo
• o bem com o mal
• o real com o falso
• a obediência com a rebelião
• o trabalho com a preguiça
• a prudência com a presunção
O livro apresenta várias amostras de comportamento e o leitor deve se perguntar:
É isto sabedoria ou tolice?
Nos provérbios de Salomão estão esboçados princípios de santo viver [...],
princípios oriundos do Céu e que conduzem à piedade; princípios que devem
reger cada ato da vida. Foi a ampla disseminação desses princípios [...] que fez
dos primeiros tempos do reinado de Salomão uma ocasião de reerguimento
1
moral bem como de prosperidade material.
Ao escrever essa obra, o público que Salomão tinha em vista era formado pelos
simples, os jovens e os sábios (Pv.1:4-6). Na verdade, a sabedoria é necessária e
acessível a todos (Pv.1:20-23; 8:1-5; 9:1, 5; Tg 1:5). Os que fazem parte do primeiro
grupo, os simples, são aquelas pessoas a quem erradamente qualificamos como “sem
malícia” (pois todos deveríamos ser pessoas assim). São os crédulos (acreditam em
qualquer coisa e em qualquer um), os simplórios, os ingênuos, os tolos. Se pensarem e
assimilarem os provérbios, estes os tornarão indivíduos prudentes e equilibrados.
Os jovens podem ter vigor e inteligência, mas falta-lhes a experiência,
simplesmente porque viveram pouco. Todavia, não precisam esperar passar um
longo tempo para crescerem com os próprios erros e acertos. Devem aprender de
outros, especialmente dos sábios, e o livro de Provérbios apresenta essa sabedoria que
lhes é tão necessária.
Finalmente, mesmo quem já é sábio pode se beneficiar com os provérbios, pois
quem é verdadeiramente sábio, reconhece que não sabe tudo. Mais do que os jovens
e os ingênuos, entende a necessidade de estar continuamente aprendendo, se
desenvolvendo e se aperfeiçoando.
A sabedoria é apresentada como um bem sumamente valioso: “Feliz o homem
que acha sabedoria, e o homem que adquire conhecimento; porque melhor é o lucro
que ela dá do que o da prata, e melhor a sua renda do que o ouro mais fino. Mais
preciosa é do que pérolas, e tudo o que podes desejar não é comparável a ela. O
alongar-se da vida está em sua mão direita, na sua esquerda, riquezas e honra. Os seus
caminhos são caminhos deliciosos, e todas as suas veredas, paz. É árvore de vida para
os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm” (Pv 3:13-18).

Bênçãos da sabedoria
A Bíblia classifica como sábios especialmente aqueles que conseguem descobrir a
resposta certa em momentos críticos e em questões práticas. Temos o exemplo de
José, que orientou o Faraó, ajudando-o a superar os anos de fome que viriam sobre o
Egito (Gn 41:33, 37-40, 54, 57), e o exemplo de Salomão (1Rs 3:5, 9, 12, 13; 4:29-34),
que, numa situação de julgamento, com muita facilidade e rapidez apontou
claramente qual era a verdadeira mãe do bebê que lhe fora apresentado (1Rs 3:16-28).
O próprio Jesus também é apresentado como sábio. Uma profecia escrita cerca de
700 anos antes de Seu nascimento dizia que Ele teria o Espírito de sabedoria (Is 11:1,
2). O Novo Testamento afirma que em Sua infância Ele crescia em sabedoria (Lc
2:52) e que esta era maior que a de Salomão (Lc 11:31). Isso pode ser percebido nas
situações em que Ele escapou das ciladas que Lhe eram armadas por Seus inimigos
(Mt 22:15-22; Jo 8:1-11). Entretanto, mais que isso, Ele é distinguido como a sabedoria
de Deus (1Co 1:24, 30; Cl 2:2, 3).
A sabedoria é também bastante proveitosa em nossos relacionamentos. Ela nos
capacita a conviver com sucesso, não só com Deus, mas com os homens. Tiago,
escrevendo sobre a verdadeira sabedoria, indagou: “Quem dentre vós é sábio e
inteligente?” A resposta que ele forneceu diz respeito aos relacionamentos. Sábio é
aquele que trata bem o seu semelhante: não têm inveja, não é ambicioso, não mente,
antes é manso e tem um procedimento digno. É imparcial, justo, sem fingimento,
pessoa pacífica, tratável, cheia de misericórdia (Tg 3:13-18).
A sabedoria incentiva a nos relacionarmos porque Deus nos criou como seres
sociais. Isso faz parte de nossa constituição. Temos necessidade de falar, ouvir,
observar, tocar e sermos tocados. Isso é imprescindível para nossa saúde emocional e
nos afeta integralmente. Segundo Harold S. Kusher: “‘Um só ser humano não é um ser
humano.’ Nenhum de nós consegue ser verdadeiramente humano em situação de
isolamento. As qualidades que nos fazem humanos só emergem através das maneiras
2
pelas quais nos relacionamos com os outros.” Embora seja bom e até necessário
reservar momentos para se estar sozinho e repensar a vida, não é sábio nos isolarmos
e vivermos distante dos demais. O texto de Provérbios declara: “O solitário busca o
seu próprio interesse e insurge-se contra a verdadeira sabedoria” (Pv 18:1). Em
contrapartida, não é qualquer relacionamento que serve. O mesmo livro afirma, por
exemplo: “O que adultera com uma mulher está fora si; só mesmo quem quer
arruinar-se é que pratica tal coisa (Pv 6:32). Assim, a sabedoria também nos livra de
atitudes e comportamentos prejudiciais.

Como obter sabedoria


Para obter sabedoria precisamos:
1. Pedir a Deus. O patriarca Jó, em um discurso sobre a sabedoria, indagou: “Mas
onde se achará a sabedoria? E onde está o lugar do entendimento?” Então se apressou
em declarar: “O homem não conhece o valor dela, nem se acha ela na terra dos
viventes. [...] [Mas] Deus lhe entende o caminho, e Ele é quem sabe o seu lugar” (Jó
28:12, 13, 23). Sim, a sabedoria é um atributo divino (Is 28:29) e Deus quer
compartilhá-la com Seus filhos. Tiago aconselhou: “Se, porém, algum de vós necessita
de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente [...] e ser-lhe-á concedida”
(Tg 1:5). Considere que o modo e o tempo de Deus responder a esse pedido e a
tantos outros, frequentemente não coincidem com o que julgamos ser apropriado. O
Senhor consegue perceber o que nós não conseguimos. Ele sabe tudo que está
envolvido em todas as coisas do presente e do futuro; por isso, Sua resposta sempre é
melhor que aquilo que possamos imaginar.
2. Abrigar o temor do Senhor em seu coração. Após declarar que Deus conhece a
sabedoria, Jó afirmou que Ele “disse ao homem: Eis que o temor do Senhor é a
sabedoria, e o apartar-se do mal é o entendimento” (Jó 28:28; cf. Pv 1:7; 9:10; Sl
111:10). Em toda a Bíblia, o temor do Senhor é apresentado como algo positivo,
benéfico e necessário à formação de um caráter cristão. Ele não deve ser confundido
com o medo de Deus que, por sua vez, é negativo, prejudicial e verdadeiro empecilho
para se manter um adequado e profundo relacionamento com Ele. Tal expressão é
usada como sinônimo de conhecer a Deus (Pv 2:5; 9:10) de forma íntima e se origina
por meio de Sua revelação (Pv 2:5, 6). Esse temor do Senhor abrigado em nosso
coração nos levará a reverenciá-Lo por Sua grandeza e Seu caráter; pelo que Ele é e
por tudo que tem feito (Sl 33:4-8). Nós confiaremos em Deus (Sl 115:11) e nos
submeteremos a Ele (Sl 112:1). Assim, a verdadeira sabedoria se inicia com o correto
relacionamento com Deus, esse é o fundamento da vida reta.
3. Ser amigo e companheiro de gente sábia e se dispor mais a ouvir que falar.
“Ouve o conselho e recebe a instrução, para que sejas sábio nos teus dias por vir” (Pv
19:20). Como aconselhou Howard Hendricks: “Sempre que estiver em companhia de
gente que sabe mais que você, procure aprender com eles o máximo que puder, e
aproveitar-se bem do conhecimento que possuem. Deixe que eles falem e lhe passem
3
tudo que sabem.”
4. Ler escritos de sabedoria e meditar neles. Confúcio dizia: “Há três métodos para
ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação,
4
que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo.” É preciso
destacar que a mais importante sabedoria é aquela que nos torna sábios para a
salvação pela fé em Cristo Jesus. Ela está à nossa disposição no maior livro de
sabedoria de todos os tempos, as Sagradas Escrituras (2Tm 3:14, 15).
5. Colocar em prática o que aprendeu de Deus. Aquele que conhece a Bíblia e vive
em harmonia com ela é considerado sábio. Cristo o comparou a um homem que
construiu sua casa sobre um sólido fundamento. Veio a chuva, transbordaram os rios,
sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, mas ela não caiu (Mt
7:24, 25). Aquele que abriga a Palavra em seu coração e procura viver de acordo com
a luz que recebeu também enfrenta lutas e dificuldades; porém, tem a aprovação e a
bênção de Deus, e consegue se tornar vencedor.
Portanto, para desenvolvermos sabedoria, precisamos primeiramente reconhecer
seu valor e desejá-la. Depois, é necessário pedi-la a Deus, mas também buscá-la,
procurando vivenciar tudo o que aprendermos.

1 Ellen G. White, Profetas e Reis (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 33, 34.
2 Emilson dos Reis, Eles Disseram e Eu Gostei: Seleção de Pensamentos (Artur Nogueira, SP: Editora Paradigma,
2010), p. 171.
3
Ibid, p. 189.
4
Ibid, p. 190.

Conclusão

uando alguém semeia, sua intenção é colher o respectivo fruto. Ele espera que

Q a semente germine, brote, cresça e resulte numa boa colheita. No entanto,


podem surgir obstáculos que impeçam isso de acontecer. Jesus nos alertou
sobre isso quando contou a parábola do semeador (Lc 8:5-15; cf. Mt 13:3-8, 18-23; Mc
4:3-20). A palavra de Deus, como semente, caiu em quatro tipos de solo, que
representam aqueles que são alcançados pelo evangelho. Uma semente caiu à beira
do caminho. O solo estava tão duro e batido que nem sequer acolheu a semente.
Logo vieram as aves e a comeram. É como se aquela semente nunca houvesse sido
lançada nele. Esse solo representa aqueles que têm contato com a Palavra, mas não a
entendem. Isso ocorre porque estão desatentos e desinteressados. São como doentes
que não sabem de sua condição e, por isso, não se interessam pelo remédio que lhes
trará cura. Pela ação do diabo, a Palavra logo sai de sua vida, sem lhes acrescentar
nada.
Outra semente caiu em terreno pedregoso, um solo rochoso onde a camada de
terra era muito fina. Ela chegou a germinar e brotar, mas quando precisava crescer,
não havia espaço para as raízes. O sol fez o seu trabalho, mas faltou umidade e os
demais ingredientes necessários ao crescimento. Essa é uma representação daqueles
que vivem uma religião superficial. Podem aceitar o evangelho imediatamente e fazê-
lo com muita alegria, mas são de pouca duração. Por baixo dos bons desejos há uma
sólida camada de egoísmo. Como esse solo conserva a semente e a pedra ao mesmo
tempo, eles tentam servir a si mesmos e ao evangelho, e isso não é possível. Quando
vêm as provações e as dificuldades próprias da vida cristã, eles logo desistem.
A terceira semente caiu em um solo cheio de espinhos. Ela germinou, cresceu e
deu frutos, mas esses não chegaram a amadurecer. Qual a razão? O solo quis
conservar simultaneamente a semente e os espinhos e, embora parecesse dar certo
por algum tempo, no fim, revelou-se um fracasso, pois seu fruto não tinha nenhuma
serventia. Os espinhos cresceram com a boa planta. Com o tempo, eles a sufocaram.
Que espinhos são estes? Jesus disse que são os cuidados do mundo, a fascinação
das riquezas e os deleites da vida. Todos temos os nossos cuidados e preocupações,
que podem ser legítimos e necessários. Podem nem ser pecaminosos em si mesmos.
Entretanto, tornam-se um entrave em nossa vida espiritual porque nós os
priorizamos. Isso acontece quando estamos tão atarefados que não temos tempo para
Deus: tempo para orar, estudar a Palavra, cultuar o Criador e testemunhar. Assim, a
semente do evangelho em nós fica sufocada. Nossa vida espiritual não prospera e o
fruto do Espírito, as virtudes cristãs, não se manifesta como Deus planejou.
Há também o espinho da fascinação das riquezas, que pode afetar a todos.
Algumas vezes atinge mais os pobres que os ricos. Os abastados já sabem que a
riqueza não proporciona tudo o que haviam imaginado. Por sua vez, os modestos, por
não terem passado por essa experiência, ainda não sabem disso e estão lutando
continuamente por mais posses. É uma “fascinação”, no grego, apatē, um “engano,
1
logro”. Queremos, sonhamos, trabalhamos e oramos por mais coisas. Assim temos
uma vida fascinante, mas de engano. Ao mesmo tempo, o mais importante, nossa
vida espiritual, permanece abafada.
Outro tipo de espinhos são os “deleites da vida” (Lc 8:14), aquelas diversões e
prazeres que “fazem guerra contra a alma” (1Pe 2:11) e minam nossa força espiritual.
2
Disso o mundo está cheio e cada vez mais.
Felizmente, ainda é tempo de modificar esses três tipos de solos, de modo que se
tornem em terra boa e produtiva. Desse modo, a terra dura pode ser revirada e
afofada, e as pedras e os espinhos podem ser retirados. Pela graça de Deus, podemos
ter um coração receptivo à Palavra, um coração que a retenha apesar de suas
exigências e que busque compreendê-la. Somente dessa maneira é que podemos
frutificar e amadurecer.
Ao encerramos esta série de reflexões, concluímos que a vida daquele que foi
justificado por Cristo e se encontra no processo da santificação não consiste apenas
em renegar o pecado, mas também em desenvolver um bom caráter. Precisamos nos
despir dos defeitos e vícios e nos vestir das virtudes. Devemos ser conhecidos não
3
somente por aquilo a que nos opomos, mas também por aquilo que propomos.
Dessa forma, pode ser dito que a essência do caráter de um discípulo consiste na
produção do fruto do Espírito. As preciosas virtudes cristãs não são desenvolvidas
automaticamente; antes resultam da ação do Espírito de Deus em nós e de nossa
cooperação com Ele, com muita determinação, disciplina e esforço. Que o Senhor o
abençoe ao continuar cooperando com o Espírito Santo na produção do bom fruto e
que isso seja para a glória de Deus!

1 Fritz Rienecker e Cleon Rogers, Chave Linguística do Novo Testamento Grego (São Paulo: Vida Nova,
reimpressão 1988), p. 72; W. Günther, “Enganar, lograr, desviar”, Dicionário Internacional de Teologia do Novo
Testamento, editado por Colin Brown, traduzido por Gordon Chown (São Paulo: Vida Nova, 1985), vol. 2, p. 38.
2 Ver Ellen G. White, Parábolas de Jesus (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001 [CD-Rom]), p. 33-61.
3 Warren W. Wiersbe, Comentário Bíblico Expositivo (Santo André: Geográfica Editora, 2006), vol. 6, p. 307.

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_________. Mensagens Escolhidas. 3 vols. 5ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001.
_________. Mente, Caráter e Personalidade. 6ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001.
_________. Minha Consagração Hoje, Meditações matinais. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1989.
_________. O Cuidado de Deus, Meditações Matinais. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1995.
_________. O Desejado de Todas as Nações, 22ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001.
_________. O Grande Conflito. 41ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001.
_________. Obreiros Evangélicos. 6ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001.
_________. Parábolas de Jesus. 14ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001.
_________. Patriarcas e Profetas. 16ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001.
_________. Profetas e Reis. 9ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001.
_________. Santificação, 10ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001.
_________. Testemunhos Para a Igreja. 9 vols. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001.
_________. Testemunhos Seletos. 3 vols. 6ª ed. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000-2006.
Wiersbe, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. 6 vols. Santo André, SP: Geográfica Editora, 2006.