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Table of Contents

Introdução
Uma orientação importante para a leitura
Meu irmão e minha irmã em Cristo Jesus
A fé faz toda a diferença!
Características da família de fé
1. A família de fé rompe com a visão mundana
2. A família cristã vê a vida com os óculos da fé
3. A família cristã dá passos na fé
Família é vocação
Para os que querem formar uma família
Dez coisas importantes para os que querem se casar e formar uma família1
Deveres dos cônjuges entre si
As sete prioridades do casal
Deveres dos pais para com os filhos
1. Amor conjugal fecundo
2. Os filhos de um casal são filhos de Deus
3. Educar os filhos no cumprimento da Lei de Deus
4. Criação de um lar
5. Educar para virtudes
6. Ensinar a subordinar as dimensões físicas e instintivas às dimensões interiores e
espirituais
7. Dar bons exemplos
Deveres dos filhos para com os pais
Como viver o IV Mandamento
Palavras que não podemos perder de vista
Mãe e pai
Corpo
Casa-família
Reflexões que geram conversão no lar
A centralidade da experiência de fé
A centralidade da pessoa de Cristo
A centralidade da Igreja
A pertença à Igreja – comunidade de fé
Uma família vulnerável ao inimigo
Dez sinais de vulnerabilidade da família no mundo em que vivemos
Fortalecendo as muralhas da família
Dez atitudes para fortalecer a família
Um projeto familiar: a santidade de vida

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Três certezas na vida de um santo
As bem-aventuranças: um programa de vida de santidade
O que Deus uniu o homem não separe! (Mc 10,9)
O que era desde o princípio...
Jesus, o Emanuel, encarna no seio de uma família
Para evitar o divórcio
Para cura interior
Família: primeira educadora2
Dez regras fáceis de como criar um delinquente
Conclusão

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“Não diminuir em nada a doutrina salutar de Cristo é eminente forma de caridade
para com as almas.”
Paulo VI, Humane Vitae, 29
João Paulo II, Familiaris Consortio, 33

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Jesus, Maria e José,
nossa família vossa é!

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Dedico à minha família, graça maravilhosa recebida de Deus!

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Introdução

Por que a família?


Entre as memórias que guardo com grande gratidão de minha infância, a maior delas
é sem dúvida a da família. No meu tempo de criança, fui ensinado que família também
dizia respeito aos avós, tios, primos e mesmo parentes distantes.
Lembro-me, com saudade, dos almoços de domingo na casa dos meus avós – o que
até hoje se mantém. Lembro-me das festas de aniversário dos primos; das visitas que
chegavam de longe e eram acolhidas; das rodas de conversa e histórias; do cheiro do
café, do bolo e do pão... Como não sentir saudade dessas coisas, não por si mesmas, mas
pelo que representam: carinho, aconchego, referencial... Sustento nos caminhos pela vida
afora.
Mesmo em meio às dificuldades que também existiam: as discussões, brigas, crises e
desentendimentos, a chegada da enfermidade, a dor da perda das pessoas queridas...
Minha família também teve e tem problemas e dificuldades. Gente que vai à Igreja, e
gente que não faz isso há muito tempo. Minha família é como qualquer outra família.
Dentro de minha casa me foram transmitidos os valores humanos e a fé –
maravilhosos e inestimáveis dons que recebi. Isso não me faltou. Repito, não obstante
tantas dificuldades... Mas o tempo foi passando, e as coisas iam também se ajeitando.
Resolvidas umas dificuldades, outras, porém, iam chegando, e nunca, um só instante, se
deixou de caminhar, de ter fé. Já no seminário, tudo o que eu vivera em casa, em família,
me servia de referencial, de motivação, de segurança, e até hoje não existe coisa melhor
que este aconchego do lar. Repito, não é uma família perfeita, para ninguém pensar que
na vida do padre tudo é bem resolvido, mas é a família que Deus me deu. E o que eu sou
vem dali. E por isso sou muito grato!
Em nossos dias a ideia de família resumiu-se muito ao núcleo pai, mãe e filho –
quando não, em lugar dos filhos, o cachorro. Nada contra o animal de estimação, mas
uma coisa não pode substituir a outra. A impressão que temos é que se enfraqueceu
aquela que fora a força de inúmeras gerações e de grandes homens e mulheres da
história. Parece que o caminho mais fácil não é seguir o curso da vida familiar, mas, na
tentativa de felicidade, a todo custo buscar atalhos, e não mais comprometer-se com um
projeto para toda a vida.
Já não se fala mais com tanta frequência que construir um lar é trabalho de artista,

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que é preciso vocação, que é exigente, que os frutos vão se colhendo no decurso da vida,
e que esses frutos não são efêmeros, nem se esvaem com o tempo, mas são duradouros,
sólidos, estáveis e oferecem aconchego, segurança e conforto, sobretudo nos momentos
mais difíceis. Com a tentativa de justificar a todo custo o que é mal e nocivo para a
família e apoiar e incitar aquilo que a enfraquece e corrói, na verdade estão tirando o
chão de sob os próprios pés. Como, ao fim de uma vida, olhar para trás e constatar que
nos faltou uma família?
Estão, de propósito, investindo na dissolução desta instituição tão humana quanto
divina. Por isso urge que falemos sobre ela, que a defendamos, que a promovamos, que a
transmitamos às futuras gerações tal e qual nos foi dada do coração de Deus. Hoje mais
do que nunca.

***

Este livro, portanto, não pretende ser um manual de teologia da família, de teologia
moral ou bíblica, embora esteja embasado fortemente nesses princípios. Nossa intenção
é falar de família, das coisas de família, a fim de promovê-la e mostrar que não é algo
surreal como muitos têm dito e trabalhado arduamente para introjetar nas futuras
gerações. Não podemos deixar que nos roubem a família, grande dom de Deus a nós.
Tudo isso nos assegura os ensinamentos da Igreja, que sempre sustentou e sustenta a
família como projeto de Deus para nós.
Tentaremos também, não obstante toda fundamentação teológica, usar uma
linguagem de fácil compreensão e trazer situações oriundas da prática pastoral de nossos
tempos. Não pretendemos ser exaustivos em cada uma das questões tratadas, mas apenas
propor reflexões, ajudar a iluminar as consciências e, assim, poder despertá-las para a
família quanto a dom e responsabilidade.
Por isso, poderá fazer bom uso deste livro desde um casal de jovens que pretende se
casar até casais que já estão casados há vários anos, e até mesmo casais que passam por
um momento de crise. O texto servirá para líderes de pastoral familiar, para sacerdotes e
religiosos. Enfim, para qualquer pessoa de boa vontade que queira entrar por completo
na defesa e na promoção da família.
Trata-se, sem dúvida, de um livro escrito pensando nas famílias católicas; sobretudo
quando toca questões relacionadas às práticas de fé, como a participação na Missa aos
domingos, a catequese e o cultivo das devoções no lar. Todavia, sabemos bem que a
doutrina católica – e o próprio nome já diz – é universal, ou seja, destinada a todo
homem e mulher que abre seu coração para acolhê-la.
Para a fé cristã, o modelo original de família, porque também fundamentado na lei
natural, é único: homem e mulher, unidos pelo sacramento do matrimônio, numa só

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carne, darão origem ao lar familiar, fazendo-o florescer em vida com os filhos que Deus
lhes conceder. Por isso mesmo, muito do que aqui se falar e propor, sobretudo os
exemplos tirados do cotidiano das famílias, diz respeito a todos – católicos ou não.
Em se tratando de defender e promover a família, não deve haver limites ou reservas,
ainda que doutrinais ou teológicos, visto se tratar de algo fundamentalmente divino e não
meramente humano. Embora a família se realize entre seres humanos, excede nossas
competências, de tal modo que devemos nos colocar apenas como receptores e guardiões
zelosos deste dom. Na verdade, aí se encontra a felicidade e a vida plena: guardar o que
vem de Deus.
Desejo-lhe boa leitura, e que ao final, mesmo que você já ame a família enquanto
projeto de Deus, possa amá-la ainda mais e tornar-se seu defensor nestes dias em que ela
tanto necessita! Seja um apóstolo da família! E que também, a partir desta leitura, você
perceba, ainda mais, que a fé faz toda a diferença.
Deus abençoe sua leitura!
A família agradece!

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Uma orientação importante para a leitura

Meu irmão e minha irmã em Cristo Jesus

Pode ser que, dependendo da situação em que você se encontre consigo mesmo ou
em relação à sua família, em um ou outro momento da leitura você venha a se sentir
incomodado ou mesmo com raiva de algumas palavras aqui escritas e queira interromper
a leitura, ou até mesmo deixar este livro de lado.
Acredite: este será um sinal forte de que a Palavra de Deus esteja pedindo entrada na
sua vida e, por meio de você, na sua família. Por isso, caso venha a ter um sentimento
que possa levá-lo a parar com a leitura, meu conselho para você é este: pare um pouco,
respire fundo e pense com honestidade na verdade de tudo, no sentido que as palavras
que o incomodaram têm para sua vida.
Logo em seguida, faça uma oração sincera ao Espírito Santo de Deus para que o
ajude a compreender essas palavras de modo correto. E saiba: o modo correto é a sua
salvação e a da sua família. Depois disso, dê uma chance para essa reflexão e para si
mesmo. Prossiga até o fim, sempre com o Espírito Santo ao seu lado, como amigo e
companheiro, como luz que ilumina.
Talvez ao fim você não seja mais a mesma pessoa. Talvez as coisas mudem para
melhor. Eu acredito que Deus tem o melhor para você e sua família, jamais sem ela.
Acredite você também. Tenha fé! Pois a fé faz toda a diferença!
Coragem! Deus está com você!

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A fé faz toda a diferença!

Sobre a fé, a carta aos Hebreus nos dá a seguinte definição: “A fé é a certeza daquilo
que ainda se espera a demonstração de realidades que não se veem” (Hb 11,1). Nos dias
de hoje, há quem facilmente busque e peça provas sobre a existência de Deus e ainda
mais sobre a necessidade da fé. Já para uma pessoa de fé pode soar muito estranho e, por
vezes, até incompreensível o fato de que há pessoas que não creem, que decidiram não
acreditar em Deus.
Porém, estes tempos revelam, de um lado, a necessidade de provas que muitos
trazem consigo. Alguns grupos cristãos, inclusive, vivem sua fé como se os milagres
fossem um fim em si mesmos, ou seja, acabam por tratar Deus como uma espécie de
gênio da lâmpada mágica, capaz de realizar todos os desejos. De outro lado, há pessoas
que se recusam a crer porque, dizem elas, não encontram provas materiais e objetivas a
respeito daquilo que não se vê, do que não passa pelos sentidos.
Trazendo essas constatações para o ambiente familiar, de fato, só poderemos
perceber a diferença que faz a fé por meio do que ela realiza nessas pessoas de fé. Em
outras palavras, a fé como realidade em si mesma independe do que fazem ou vivem as
pessoas de fé, mas o que elas fazem ou vivem pode determinar a respeito da diferença
que faz ter fé. Vamos procurar exemplificar o que dissemos até aqui.
Nós, padres, temos a oportunidade de lidar muito de perto com as diversas etapas na
história das famílias: celebrações de matrimônio, o nascimento e o batizado dos filhos, o
acompanhamento na catequese e nos demais sacramentos da iniciação, aconselhamentos
e confissões, momentos de enfermidade e momentos de dor, como a perda dos entes
queridos. Resumindo, podemos tocar tanto momentos de alegria quanto momentos de
profunda dor.
De modo especial, os chamados momentos de dor nos mostram, de uma forma muito
clara, a diferença que faz a fé. É algo muito complicado, por exemplo, ir à beira da cama
de um enfermo que, embora tivesse o nome de católico, não vivera a sua fé durante a
vida. Pior ainda quando participamos de um funeral de um integrante de uma família que
claramente se vê não ter fé, embora se diga católica.
Os comportamentos são os mais adversos possíveis: desde doentes que fecham o
coração e blasfemam abertamente até funerais realizados aos gritos, em meio a atitudes
desesperadas, como se pairasse um profundo remorso em relação ao falecido. Há casos

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em que as pessoas estão ali como se nada estivesse acontecendo – bebendo, contando
casos, dando altas gargalhadas –, comportamento impróprio para um funeral.
Ao visitar um enfermo à beira da morte, percebemos alguns arranjos entre os
parentes e até mesmo desentendimentos por causa de herança. Não nos cabe o
julgamento, mas também não podemos ignorar a constatação de algo um tanto quanto
alheio à vida de fé de que tanto a Igreja, na sua sabedoria, nos fala pela Palavra de Deus.
Por outro lado, já visitei também inúmeros enfermos em situações bastante
dolorosas, um verdadeiro sofrimento, e que ainda encontravam palavras para agradecer a
Deus por tudo. Humanamente falando, seria uma contradição. Geralmente, em torno a
estes enfermos, não é difícil encontrar pessoas que, embora também transpareçam o
sofrimento, trazem o semblante sereno, confiante em algo que vai além da própria
situação. E mesmo em velórios, onde se chora, se reza, se canta. Nota-se visivelmente a
dor que a morte pode causar, mas também se percebe nitidamente que há algo a mais que
dá forças e sustento aos enlutados. Nessas horas também podemos ver irmãos
consolando-se e confortando-se diante da perda iminente do pai ou da mãe.
Em momentos como esses podemos ver claramente a diferença que faz a fé na
família. A fé não isenta de sofrimentos, mas é capaz de dar sentido à vida mesmo nos
momentos dolorosos e dramáticos da nossa existência, como é o caso da enfermidade e
da morte.
Poderia, sem dúvida, citar outros momentos dramáticos da vida familiar, como o
desemprego, a traição de um cônjuge, um filho no vício das drogas. Nos momentos de
paz, saúde e prosperidade, muitas famílias testemunham a fidelidade a Deus ou são
capazes de renegar a fé, deixando Deus para último plano.
A vida fala. E é através dos acontecimentos que vão costurando a nossa história que
podemos perceber a diferença que faz a fé. Uma família de fé vive problemas e
dificuldades como outra família qualquer. Ter fé não é sinônimo de ter vida fácil. Uma
família cristã, além de todos os privilégios oriundos da vivência da fé, vive como
qualquer outra família deste mundo e pode passar por diversas situações, como
problemas de relacionamento, dificuldades econômicas, desafios profissionais, crises na
vida familiar e conjugal, insucessos, turbulências, enfermidades, falecimento. Se a sua
família é assim, bem-vindo à Terra! Bem-vindo à vida neste mundo! Você não está fora
do lugar. Você está vivo. Dê glória a Deus por isso!
Se mesmo assim você ainda não se achar merecedor de tantas lutas e dificuldades na
vida familiar, sobretudo na vida conjugal, há um versículo bíblico que resolverá todos os
seus problemas em relação a isso. Ele é infalível para resolver principalmente os
problemas conjugais: “Penso que, em razão das angústias presentes, é vantajoso não se
casar, é bom para o homem ficar assim, sem se casar” (1Cor 7,26). Se casar, prepare-se

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para enfrentar, um a um, os desafios e dificuldades próprios deste estado – como
qualquer outro da vida humana. Ser padre também é desafiador. Portanto, para tudo
nesta vida é preciso ter coragem. Se desejar viver em família, não há outro modo de
viver senão abraçando tudo, inclusive as provas do dia a dia.
Guarde bem isto com você: uma família que não tem fé vive do jeito que acha que
deve viver. Uma família que tem fé vive de acordo com a Palavra de Deus. A diferença
começa a mostrar-se aí. Para uma família de fé as regras são outras, o estilo de vida é
outro, as decisões são outras, logicamente as consequências serão outras. E jamais se
ouviu de alguém que se propusesse a viver autenticamente a Palavra de Deus em família
que, ao fim, fosse infeliz ou derrotado. Não, ao contrário, incontáveis testemunhos ao
longo da história mostram que não há ambiente mais saudável, inclusive para formação
das futuras gerações, que um lar autenticamente cristão. Basta se debruçar na história dos
santos.
Perceba ainda, olhando para seu dia a dia, dentro e fora de casa. Uma pessoa que não
tem fé pode facilmente dar sinais de desespero e acabar contaminando os que estão a sua
volta. Já aquele que tem fé e a vive de modo autêntico é capaz de tranquilizar, confortar,
consolar, apaziguar, reconciliar, pois leva consigo a paz. Tenho certeza de que, se parar
para olhar ao seu redor, poderá encontrar vários outros testemunhos a esse respeito.
E a mesma Palavra de Deus dará a cartada final a respeito da fé: “Sem a fé é
impossível agradar a Deus” (Hb 11,6). Portanto, ter fé não se trata apenas de palavras ou
ideias, e muito menos títulos e rótulos. Em outras palavras, apenas dizer-se católico não
é garantia de verdadeiramente ser uma pessoa de fé. Há pessoas que se dizem católicas,
mas vivem conforme as próprias convicções, muitas vezes frontalmente contrárias à
verdadeira fé. A fé para ser autêntica precisa se traduzir na vida de modo que o
testemunho confirme aquilo em que se crê. Resumindo: a fé mostra-se na vida, no dia a
dia.

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Características da família de fé

Sem dúvida nenhuma, muitas são as características de uma família que vive a fé.
Porém, a capacidade que a fé tem de penetrar as realidades e o fato de as realidades
poderem ser transformadas a partir disto apontam para determinadas características que
se destacam em relação a outras. Gostaria de elencar aqui apenas três das que considero
muito pertinentes para as famílias dos nossos tempos.

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1. A família de fé rompe com a visão mundana

É importante deixar claro que visão mundana é tudo aquilo que está em total
desacordo com os valores do Reino de Deus, é tudo aquilo que se contrapõe com
veemência àquilo que Nosso Senhor revelou através de Sua vida, palavras e obras aos
discípulos e ao que eles transmitiram sob a inspiração do Espírito Santo.
Quando falamos de visão, queremos expressar um modo de enxergar a vida e, a
partir disso, delinear as próprias decisões e o próprio comportamento. Nesse caso, a
visão mundana está em desacordo com o Evangelho da Salvação. O Evangelho é que
proporciona a visão cristã da vida. Uma e outra visão, mundana ou cristã, trarão as
consequências pertinentes ao modo pelo qual se escolhe enxergar a vida.
Em se tratando da família, diversos poderiam ser os exemplos de visão mundana.
Diante da crise conjugal, uma visão mundana certamente não traria consigo o esforço de
salvar o casamento, mas sim a busca da felicidade individual – embora os dois últimos
termos se excluam. A visão cristã escolherá salvar o casamento e a família, porque sabe
bem que a felicidade autêntica passa pelo próximo, pela renúncia e também pela
capacidade de administrar os sofrimentos. Em uma palavra: sacrifício. A felicidade é
uma construção exigente e não uma busca desvairada de prazer. Com um simples
exemplo podemos perceber como o modo pelo qual nos dispomos a enxergar a vida
determina os rumos da própria vida.
Estabelecendo as duas realidades e suas consequências, ou seja, a visão mundana e a
visão cristã, é necessário que a pessoa de fé e a família de fé renovem cotidianamente
sua opção pela visão cristã das coisas e saibam romper com a visão mundana.
Quando falamos de visão mundana, estamos tocando, sem dúvida alguma, em
mentalidades, no modo como se escolhe olhar as coisas, mas também no modo de
pensar. Vamos ver mais alguns exemplos muito frequentes em ambientes familiares e,
por vezes, em lares cristãos nos dias de hoje.
Há pessoas que acabam condicionando seu estado psicológico a partir do ambiente
em que vivem. O marido chega mal-humorado do trabalho e acaba tratando mal a
esposa, que teve um dia intenso cuidando do lar e indo à Igreja, e que diante do mau
humor do marido, acaba também respondendo no mesmo nível.
Dependendo da situação no lar, pode ser que determinados comportamentos acabem
se tornando frequentes. Continuemos com o exemplo do mau humor dos cônjuges. Pode
ser que o marido mal-humorado esteja passando por um momento difícil
profissionalmente ou consigo mesmo e acabe encontrando ou fazendo do lar uma espécie
de para-raios – o que não se justifica. Pode ser também que isso se torne algo que se

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repita com certa frequência. Podemos ainda acrescentar alguns agravantes, como a
própria personalidade do cônjuge e a ausência de diálogo. Aqui vale observar que a
responsabilidade no diálogo é dividida entre as duas partes, e não obrigação apenas de
uma. Em tal caso, com o passar do tempo, pode-se supor que não há mais remédio, pois
o marido não muda. Vamos também colocar situações mais graves, como, por exemplo,
o vício da bebida, a desonestidade, as infidelidades, entre outras. Pode-se facilmente
chegar à conclusão de que as pessoas não podem mudar. O mesmo, depois de tantas
lutas e dores, pode acabar valendo para os filhos nas drogas, no álcool, na malandragem.
Assim sendo, numa situação dramática como a do sofrimento no ambiente familiar,
segundo este tipo de visão ou de mentalidade, só há duas opções: a resignação,
aceitando-se assim uma vida infeliz, ou a rejeição completa desse tipo de vida. É nesse
momento que muitos matrimônios acabam se desfazendo, ou um dos cônjuges acaba
caindo na infidelidade e consumando uma relação extraconjugal.
Mais dramática ainda é a situação de pais que acabam por colocar seus filhos para
fora de casa, ou mesmo de filhos que chegam a agredir seus pais, que estão presos nos
vícios. Não se trata de julgar – até porque cada caso é um caso, vem de uma realidade e
de uma história específica –, mas de perceber que atitudes como essas acabam sendo
influenciadas também por um modo de enxergar a vida.
No final das contas, a melhor saída, segundo a visão mundana, é esta: há situações
que não têm jeito. Há pessoas que chegam a essa dura conclusão após muita luta e
insistência, como também existem os que, não estando mais dispostos a arcar com as
exigências da vida familiar, acabam também recorrendo a essa alternativa.
Aqui vale a pena fazer uma ressalva. Parece que o amor materno em relação ao amor
conjugal possui maior resistência para lidar com certos dramas familiares. Em situações
extremas, por exemplo, uma mãe é muito mais disposta a sofrer pelo filho do que um
cônjuge pelo outro cônjuge. Um basta pode ser dado com muito mais rapidez e
frequência nos matrimônios do que na relação entre pais e filhos, sobretudo na relação
maternal.
Até aqui podemos perceber, de um modo bastante simples, porém não alheio à
realidade familiar de nossos tempos, o quanto um modo de enxergar a realidade pode ser
determinante sobre uma história de vida e sobre uma família.

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2. A família cristã vê a vida com os óculos da fé

Vamos experimentar agora percorrer um caminho oposto. Vamos observar uma


família que usa os óculos da fé. Ela se dispõe, com todas as consequências, a levar para a
prática aquilo que confessa com os lábios e o coração. A fé também gera um modo de
pensar a vida, porém com um diferencial significativo: o resultado ao fim de tudo.
O rompimento com a visão mundana passa, portanto, por algumas constatações.
Antes de tudo, a de que eu sempre tenho responsabilidade sobre minhas atitudes. Para
isso são necessárias duas coisas: muita reflexão e capacidade de exercer o autocontrole.
Retomemos o exemplo de antes. Se diante do mau humor do cônjuge se decide
conservar o ânimo sereno, muito certamente as ações ou reações serão outras. Ou seja,
em vez de rebater com mau humor e assim azedar-se igualmente, se fará a escolha por
conservar o bom humor. Não se trata de rir e fazer piadinhas, mas conservar a leveza do
semblante e do próprio coração. Certamente as reações que se desencadearão, a começar
por quem toma essa atitude, serão diferentes das que já falamos quando se tem uma
visão mundana. Quem planta limões colherá limões; quem planta uvas colherá uvas.
Entre o tempo da semeadura e o da colheita, precisamos estar atentos, existem o
cultivo e a espera. Próximo passo: não se pode mudar os outros à força, mas se pode
influenciá-los, sobretudo por meio do testemunho, ou seja, da postura que se escolhe ter
diante dos fatos. Muito mais que os impulsos e emoções, nossa capacidade de pensar e
refletir é que deve nos orientar.
Aqui entra uma compreensão chave, sobretudo para a vida matrimonial: o amor
verdadeiro não é somente sentimento, paixão e muito menos sexo. É decisão que se
renova todos os dias. A pessoa que decide amar está disposta a enfrentar as
consequências dessa decisão.
Em vez de jogar o jarro da sala na cabeça do marido mal-humorado e também
destilar azedumes pelo ambiente familiar, a esposa de fé escolhe o outro caminho: do
cuidado, da alegria de viver, de honrar com a vocação de esposa e mãe, de não se deixar
levar por pressões externas a si mesma. Essa esposa, não obstante o sofrimento interior
por causa do cônjuge, não perderá de vista aquilo que lhe diz respeito e procurará, ainda
mais, agir de modo diferente, ou melhor, ainda mais de acordo com aquilo que o projeto
de Deus diz sobre a mulher de fé na família. O mesmo se diga do marido e dos filhos,
como também dos demais membros de uma grande família. A família cristã possui, sem
dúvida alguma, maiores recursos para ir além dos fatos em si mesmos, por mais duros e
dolorosos que sejam. Esta é a riqueza da experiência de fé.

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3. A família cristã dá passos na fé

Até aqui não fizemos nada mais que refletir acerca dos acontecimentos da vida a
partir da experiência da fé. A fé forma o interior, a fé forma a inteligência. A fé abre para
a Verdade da mesma forma que inevitavelmente põe regras interiores, a partir das quais
pautamos nossa vida. Aqui não estamos falando de outra coisa que não seja a regra do
Evangelho, tudo o que diz a bendita Palavra de Deus.
A fé precede o rompimento com a mentalidade mundana e procede a ele. Precede a
partir do momento que proporciona a graça de discernir o que é bom do que não é, o que
vem de Deus do que não vem. E não falamos de um discernimento relativo e vazio, mas
iluminado pela Verdade que é o próprio Deus. Procede porque proporciona uma visão
acerca da própria história e da própria vida a partir de então.
Dar passos na fé, portanto, significa nada mais que a capacidade de traduzir a fé na
vida. Os dois pontos anteriores referem-se à parte reflexiva, ou seja, à possibilidade que
se tem, mediante a fé, de iluminar as diversas realidades da vida, como também
determinar sobre elas. Agora vamos tentar exemplificar como esses passos podem ser
dados na vida familiar.
Em primeiro lugar, o modo mais genuíno de expressar o interior é através das
palavras. Claro que há diversos outros modos, porém a palavra é o ápice da
comunicação. Assim sendo, dar passos na fé no ambiente familiar, sobretudo nos mais
dificultosos, é começar optando por palavras de afirmação. As palavras muitas vezes
acabam determinando as situações, além de poderem trazer consigo verdadeiras
maldições ou votos íntimos, portanto é preciso saber usá-las de modo positivo, com
sabedoria, prudência e discernimento. Tudo que sair dos nossos lábios deve edificar e
não destruir.
Vejamos. Uma pessoa que sofre com o marido com a infidelidade conjugal. A dor da
traição é tão grande que ela acaba dizendo: “Meu casamento está perdido”. Ou ainda
uma mãe que sofre com o filho nas drogas e acaba dizendo: “Meu filho não tem mais
jeito”. Ou ainda diante de um drama familiar: “Nunca mais perdoo tal pessoa”. E, em
outras situações, não é difícil encontrar quem diga: “Esta casa é um inferno. Maldito seja
o dia em que eu casei”. Poderíamos mencionar inúmeros outros exemplos.
Há palavras claramente negativas, como “perdido”, “não tem jeito”; há votos
íntimos, como “nunca mais perdoo...”. Da mesma forma, há palavras claramente
amaldiçoadoras, como “inferno” e “maldito”. São palavras que não deveriam ser usadas
em momento algum da vida, e muito menos nos momentos de irritação.
Pois bem, ainda que a realidade seja difícil e aparentemente sem solução, é muito

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melhor dizer: “Vou vencer este combate”; “vou superar esta prova”; “vou lutar pelo meu
casamento”; “não vou desistir do meu filho”, e assim por diante. Não se trata, em
hipótese alguma, de negar o sofrimento e a dor, mas administrá-los de um modo
diferente a partir da fé. Um bom começo é mudar significativamente o uso das palavras.
Faz parte da mudança das palavras também que os cônjuges, sobretudo nos
casamentos em crise, saibam expressar verbalmente as coisas boas um do outro, sem
esperar reconhecimento algum em troca. Nessa hora é bom ir ao álbum de família e
repassar as fotos para poder trazer à lembrança recordações que acabaram ficando de
lado. É importante fixar um número de vezes por dia, por exemplo, no mínimo três, para
se dizer as coisas boas uns dos outros. Isto é estabelecer uma prática.
Após a mudança das palavras, vem o tempo vivido com qualidade. Numa relação
conjugal, sobretudo, é primordial que haja oportunidade para dar atenção completa ao
cônjuge. No cotidiano, ainda que por poucos minutos, mas é preciso intensificar essa
prática aos fins de semana, folgas e tempos de férias.
É preciso falar dos filhos, da escola dos filhos, do que preocupa nos filhos, do que
faz gosto nos filhos, mas também falar dos dois, das dificuldades, das conquistas e do
próprio relacionamento. Trata-se de tempo para se dedicar ao cultivo das relações
autenticamente familiares. É importante observar que essa qualidade do tempo refere-se
primordialmente àquelas pequenas falas e trocas de olhares do dia a dia, o que são gestos
muito significativos. A começar, é claro, pelas primeiras palavras ao acordar e no café da
manhã, e por fim naquelas, após o cansaço do dia, trocadas já no leito, antes do sono.
Atualmente, devido ao ritmo frenético da vida, quando todos em uma casa acabam
tendo que ir trabalhar para o sustento da família, acaba-se por entrar numa espécie de
mentalidade de falta de tempo. Muitos vão perceber o desastre após anos corridos, sem
se dar conta de que tinham tempo para tudo, sobretudo para o trabalho, mas não tinham
tempo para cultivar as relações familiares. Percebendo isto, é importante começar a dar
esses passos propostos aqui. Perceba que a resposta numa família que não tem fé poderá
ser, muito facilmente, aceitar a derrota e acabar logo com tudo pela infidelidade, o
adultério e uma nova relação, e consequentemente o sofrimento e a dispersão dos filhos.
Acrescente a troca de pequenos mimos ao tempo vivido com qualidade. Trata-se
daqueles presentes significativos e no momento oportuno. Há casais que perdem essa
prática já nos tempos de namoro. Os homens não sabem mais dar flores e joias para suas
esposas ou, pelo menos, coisas que elas gostariam de receber. As esposas desaprenderam
a cuidar da boa aparência dos maridos; prova disso é que quando resolvem presenteá-los
escolhem meias e cuecas, quando não uma caixa de ferramentas para realizar aquele
conserto do telhado que há muito tempo precisa ser feito.
É claro que a intenção do presente não está e nunca poderá estar no valor material,

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mas no valor simbólico, sobretudo na intenção. É quando se diz: “Comprei ou fiz
pensando em você...”. E o mesmo se diga dos pais em relação aos filhos e dos filhos em
relação aos pais; inclusive depois que os filhos se tornam adultos em relação aos pais.
Repito, trata-se de coisas simples, porém que trazem significado consigo.
O amor verdadeiro não é só sentimento e afeto, é também decisão e serviço. O amor
de um casal precisa ser renovado todos os dias; pode acontecer que, num tempo de crise
do casal, não haja motivos sentimentais ou afetivos por conta da aridez e frieza. Então é
hora de fazer a opção, de decidir amar. Essa decisão expressa-se na consciência das
exigências do amor, mas também no serviço do amor. Em poucas palavras, trata-se de
procurar expressar nas pequenas coisas o amor pelo outro.
É importante que marido e mulher não percam de vista fazer aquilo de que o outro
gosta, não por mero capricho ou agrado, mas por amor. Para isso é necessário que se
saiba o gosto do outro. Em alguns casos, essa acaba sendo uma hora problemática, pois
há cônjuges que não sabem do que o outro gosta. Sobretudo em casais novos, que
durante o namoro se preocuparam com tudo, principalmente com as coisas de ordem
material e com o sexo antes do casamento, mas descuidaram de saber de coisas simples e
importantes para a vida matrimonial, como os gostos do outro.
Fazer aquilo de que o outro gosta pode ser desde um passeio pelo parque, um convite
para o cinema, para um almoço num belo lugar. Pode ser também a preparação de um
jantar romântico em casa mesmo, roupas limpas, bem passadas e perfumadas, ir à Igreja
juntos, ajudar na limpeza da casa e do carro, entre tantas outras coisas. Repito: simples,
porém revestidas de muito significado.
Nesse quesito há também filhos que desconhecem os gostos dos pais e são incapazes,
para não dizer egoístas, de fazer algo de que os pais gostem como testemunho do seu
amor filial e gratidão a eles por tudo que já fizeram. Na vida adulta, muitos filhos
deixam cair no vazio a relação com os pais. Dos pais é bem menos complicado falar
sobre isso, porque é natural que passem a vida toda realizando essas ações em favor dos
filhos. Por isso merecem todo amor e reconhecimento.
Assim chegamos ao fim com o último e, infelizmente, muito descuidado passo: o
toque físico. Numa escala inversa do que falamos até aqui, este é o primeiro que se perde
num casal ou numa família que começa a descuidar-se de si mesma. Por exemplo, alguns
acabam se descuidando das bênçãos, ou seja, quando os filhos chegam para os pais,
pegam suas mãos, recebem um abraço ou um beijo e dizem “bênção, pai”, “bênção,
mãe”, e os pais, por sua vez, respondem “Deus te abençoe, meu filho”, e daí por diante.
Para marido e mulher, quando se perde esta dimensão, a do toque físico, é sinal de
que o casamento está indo ladeira abaixo. O casal cristão, independentemente do tempo
de casamento e da idade dos cônjuges, não pode perder a dimensão do toque físico,

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como também não pode ceder ao outro extremo e levar as impurezas sexuais para o
quarto.
Quando sai cedo para o trabalho, o marido precisa dar um beijo na esposa. E a
esposa não pode deixá-lo esquecer-se disso – principalmente se os dias têm sido difíceis
e se houve um desentendimento no dia anterior. Os pais precisam, com o devido pudor,
evidentemente, saber abraçar-se e beijar-se diante dos filhos, cujo coração se alegra com
o amor dos pais expresso de forma pura e concreta. O marido precisa, como nos tempos
do namoro, segurar as mãos da esposa quando os dois conversam, e igualmente a esposa.
E assim por diante.
Basta olhar com sinceridade para os deveres e a beleza da vida conjugal e familiar.
Basta manter acesa aquela chama do primeiro amor. E se diga do primeiro amor na
família em suas duas vertentes: primeiro em relação a Deus, segundo em relação ao
próximo, isto é, ao cônjuge, aos filhos, aos pais.
Por isso é extremamente importante que, como os antigos faziam, as famílias não
percam o hábito de expor em uma parede de destaque da casa ou numa bancada as fotos
dos momentos significativos da própria história, sobretudo do dia do casamento. Assim,
os cônjuges não perdem de vista seu primeiro amor e encontram sempre motivos para
dar glória a Deus e renovar a decisão de amar. E amar sem esperar nada em troca.
Uma família que guarda a fé tem muito mais condições para dar esses passos, e
precisa ser assim, pois a fé faz a diferença. Enxerga isso quem se propõe a traduzi-la na
vida. Porque Jesus disse aos seus discípulos: “Se tivésseis fé, mesmo pequena como um
grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’,
e ela vos obedeceria” (Lc 17,6). É a força e a beleza da fé que não se podem perder na
família.

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Família é vocação

Dizer que a família é vocação consiste, antes de tudo, em perceber a própria vocação
de dois pontos de vista, distintos e complementares. Antes de tudo, a família é vocação
porque não se pode conceber o ser humano isoladamente da família humana. Ainda que
possamos nos deparar com situações de pessoas que nunca vieram a conhecer a própria
família, ainda sim cada ser humano possui intrinsecamente o chamado a ser família tanto
do ponto de vista biológico quanto existencial.
A família nasce do Matrimônio. Por isso mesmo, para ser família é preciso vocação.
Em se tratando da vocação mais específica de se constituir um lar, o homem e a mulher
que decidem constituir uma união estável e duradoura, fiel e fecunda necessitam, antes
de tudo, ter a consciência esclarecida e, ao menos minimamente, formada para tal
empresa. É a responsabilidade da vocação.
Assim como construir uma casa de alvenaria leva tempo e preparo, desde extrair a
planta do pensamento até executá-la em obra, desde os fundamentos até os detalhes do
acabamento, formar uma família deveria ser uma empreitada ainda mais responsável e
delicada, pois trata-se de vida. Por isso aqui cabe dizer que família é vocação.
Nas duas dimensões de se conceber a família, tanto universal – a família humana –
quanto o matrimônio entre o homem e a mulher – a instituição familiar propriamente dita
–, a vocação para a família ressoa genuinamente como chamado. É Deus quem chama o
homem e a mulher. Fundamentalmente esse chamado está inscrito na própria condição
humana. O ser humano está inserido na grande família chamada humanidade. No
chamado primordial à vida está intrínseco o chamado a viver em comunidade, já pelo
próprio fato de que a vida humana passa a existir da união natural entre um homem e
uma mulher.
E na dimensão da vocação familiar como vocação ao matrimônio podemos ser ainda
mais específicos. Para ser marido e mulher e, consequentemente, pai e mãe, é preciso ser
vocacionado, assim como nascerão outras vocações a partir de um lar edificado sobre a
rocha firme da fé, da responsabilidade e da beleza de cada vocação bem vivida. Vamos
exemplificar. Uma família autenticamente cristã terá condições de dar ao mundo tanto
bons pais de família quanto bons religiosos; e de modo mais abrangente, também bons
profissionais e cidadãos. Sendo assim, ser família é vocação e gera vocações.
A família cristã não pode perder de vista suas referências. Primariamente a família

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original, Adão e Eva, que representam a humanidade criada por Deus. As razões são
fundamentais: nessa família original está testemunhado o projeto de Deus. O Senhor
criou o homem para ser família. Esta afirmação toca a mais alta vocação do homem: a
santidade. Deus é família no sentido mais profundo da palavra e cria o homem não para
o isolamento e o fechamento em si mesmo, mas para a comunhão divina, isto é, a
santidade.
Ainda nas primeiras páginas da Escritura, também são expostas as fraquezas da
primeira família humana: o pecado e as suas consequências. Isso não interfere, de modo
algum, no projeto de Deus, mesmo a fragilidade humana marcada pelo pecado. É
possível ver beleza se uma realidade é unida à outra: a criação não se encerra no pecado,
mas na misericórdia e na graça. Isso já diz de antemão que, diante das exigências da vida
familiar, mesmo em meio às fraquezas humanas e ao pecado, há graça de Deus para
ajudar o homem a responder com bom êxito ao chamado a ser família. Ninguém pode
dizer, assim, que o projeto de Deus é impossível de ser vivido tal e qual se apresenta
diante de nós através da Divina Revelação e mesmo diante de sua constituição natural.
Com a Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, a família e o matrimônio que a
constitui sob as graças de Deus são elevados a uma dignidade altíssima. Antes de tudo
com a Sagrada Família de Nazaré. A segunda pessoa da Santíssima Trindade, ao assumir
a natureza humana, assume-a em todas as suas fragilidades – exceto o pecado (cf. Hb
4,15) – e belezas. Jesus Cristo nasce no seio de uma família. Há um homem, esposo e pai
adotivo, guarda e protetor da Sagrada Família, São José. Há uma mulher, esposa e mãe,
Nossa Senhora. Há um filho, o Filho de Deus e Filho do Homem, Jesus de Nazaré. Em
seu coração, imagine o Filho de Deus chamando Nossa Senhora de mãe e São José de
pai. É esse mesmo Jesus que nos ensinará a chamar o Seu Pai do Céu de Pai Nosso,
atestando de uma vez por todas que somos uma família, a família de Deus, que é a
Igreja, que reúne no seu seio a família humana.
A família cristã é justamente chamada a ser reflexo desta união de Deus com a
humanidade, Deus que se faz fiel na Aliança, e da união entre Cristo e a Igreja, Sua
esposa. O matrimônio é elevado a uma alta dignidade também nas Bodas de Caná,
quando Jesus antecipa sua hora e livra aquele casal da vergonha da falta do vinho bom
com o beneplácito da Sua presença e do Seu milagre. O primeiro milagre público de
Nosso Senhor, longe de encerrar-se na transformação da água em vinho, vem marcar a
celebração das núpcias entre a natureza divina e a natureza humana, Nele mesmo, entre
Deus e toda a humanidade.
O matrimônio, enfim, será revestido do seu sentido mais profundo no mistério da
cruz, quando Cristo se faz fiel até o fim e se entrega pela Sua esposa, a Igreja,
purificando-a pelo Seu precioso sangue, adornando-a pelas joias da Sua virtude e

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fortalecendo-a pela Sua própria fidelidade.

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Para os que querem formar uma família

Pois bem, até aqui procuramos aprofundar o sentido da família como vocação,
lançando luzes sobre seu significado. Nesta parte vamos dirigir palavras mais específicas
para os que desejam constituir uma família, mas também para os que já assumiram a
vocação pelo sacramento do matrimônio, de modo que também possam usar tais
reflexões para fazer um exame de consciência da própria história matrimonial e sua
situação atual.
Vamos dar por descontado que a família cristã se constitui pelo vínculo do sagrado
matrimônio ou, como se diz popularmente, o casamento na Igreja. E aqui não se trata de
emitir pura e simplesmente um julgamento moral geral, mas expor a verdade da fé da
Igreja. Do contrário, esvaziaríamos a verdade do próprio sacramento do matrimônio
como vontade de Nosso Senhor.
A primeira pergunta que alguém que pretende casar deveria se fazer com toda
sinceridade é esta: “Eu sou chamado para o casamento?”. E aqui não se trata de colocar
uma dúvida, mas propor uma reflexão séria e responsável. E será isto mesmo: ter a
clareza da própria vocação. Porque quando falamos de vocação como chamado, não
pensamos em uma intervenção divina mediante revelações de anjos, nuvens, trovões e
vozes apocalípticas – o que raramente acontece. O caminho normal da descoberta do
projeto de Deus ressoa mediante a própria existência. Trata-se do encontro entre duas
liberdades, a soberana de Deus e a nossa.
Ao colocar diante de si com seriedade e responsabilidade a pergunta sobre o
matrimônio e a família, aquele que deseja se casar nada mais faz que buscar as razões
para escolher esse caminho e não outro. E isso é importantíssimo, porque ajuda a pensar,
de modo abrangente e maduro, como será dito no dia do casamento: “Na alegria e na
tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe”. É importante dar condições
para que, sobretudo, os jovens pensem nisso, para que não haja casamentos por mera
convenção social, tradição ou imposição familiar e, menos ainda, como ato irresponsável
e imaturo de quem quer que seja.
A doutrina da Igreja afirma que nem todos são chamados a ir pela via do casamento,
e nem por isso deixam de ser chamados a dar seu contributo à grande família humana:
“Há quem não se case para cuidar dos pais ou dos irmãos e irmãs; ou para se dedicar
mais exclusivamente a uma profissão; ou ainda por outros motivos válidos. Esses podem
contribuir muitíssimo para o bem da família humana” (Catecismo da Igreja Católica,
2231). Sendo assim, se alguém chegar à conclusão de que deve viver a responsabilidade
da vida solteira, por nada deve inquietar-se, mas vivê-la igualmente como uma vocação,

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inclusive com suas responsabilidades e belezas.
Se pararmos para pensar com honestidade, às vezes é melhor ficar solteiro do que
não levar a sério a vocação de constituir uma família e cuidar dela. Nos inícios da Igreja,
São Paulo abordou o tema do casamento sob este prisma: os que não sabem viver como
solteiros é melhor que se casem (cf. 1Cor 7,9). Hoje, precisamos falar também às avessas
e talvez com maior ousadia: quem não é capaz de constituir uma família e cuidar dela
não deve se casar. Trata-se de integrar o próprio estado de vida, pois ao solteiro, de igual
modo, não resta uma vida libertina, mas a obrigação da castidade que se exige de quem
não é casado.
Uma vez decidindo pela vida conjugal, a reflexão seguinte deve girar em torno da
própria decisão. Trata-se do sacramento do matrimônio. E aqui deve ficar bem clara a
dimensão sacramental do que muitos dizem, num jeito popular, “casamento na Igreja” ou
no “religioso”. Para um cristão, essa não é uma possibilidade dentre outras, como o
casamento civil ou simplesmente “morar junto”. O sacramento do matrimônio é
incondicional para quem deseja formar uma família autenticamente cristã.
A família necessita das bênçãos de Deus. E o caminho que a Divina Providência
escolheu para que essas bênçãos cheguem ao mais profundo da união conjugal chama-se
sacramento do matrimônio. O amor conjugal entre cristãos é sacramento, pois se torna
sinal da fidelidade de Cristo para com a Igreja (Ef 5,25; 28-29; 32-33). Note-se bem o
jogo das palavras sacramento e sinal.
É preciso uma verdadeira empreitada por parte de todos os cristãos para que as
futuras gerações sejam formadas para o matrimônio, de modo que dele adquiram uma
consciência sacramental a partir do conhecimento tanto das exigências quanto das
belezas desta instituição tão humana e tão divina.
O papa Paulo VI, na Encíclica Humanae Vitae, elenca de modo bastante conciso e
profundo as características do amor conjugal, acerca das quais, diz ele, é de máxima
importância ter uma ideia exata (n. 9-10). Vejamos quais são: é um amor plenamente
humano, ou seja, ao mesmo tempo espiritual e sensível; um amor total e sem reservas;
um amor fiel e exclusivo até a morte; um amor fecundo, que não se esgota na comunhão
entre os cônjuges, mas se abre à vida; é também de onde deriva a consciência da
paternidade responsável, que se realiza na custódia incondicional da vida e na educação
dos filhos.
A partir disso, é preciso também saber que família, assim como a felicidade, se
constrói. Há quem protele ou mesmo rejeite a celebração do matrimônio por julgar muito
difícil ou impossível viver as responsabilidades da vida familiar. Isso não é correto e
acaba reduzindo o vínculo entre o casal ao mero sentimentalismo e usufruto sexual do
outro, fio que a qualquer momento, dado o alto nível de fragilidade dessas condições,

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pode vir a arrebentar-se, deixando suas consequências para ambos.
Não é possível reduzir o vínculo conjugal ao prazer e, muito menos, ao prazer
sexual. A verdadeira felicidade se constrói também em meio às exigências e fadigas da
vida familiar: fidelidade num mundo que parece perder as rédeas da moral e dos bons
costumes; estabilidade econômica e provisão dos membros da casa; testemunho de
unidade do casal diante dos filhos; e assim por diante.
Um casal que sabe de tudo isso que falamos até agora não se desespera e, muito
menos, se desmotiva pela celebração do sacramento do matrimônio. Antes de tudo
porque sabe que, como todos os outros casais, inclusive como seus pais – caso tenha
recebido esse testemunho –, deverá aprender e aprenderá no decorrer da vida, no sim de
cada dia; porque sabe que pode confiar incondicionalmente na graça de Deus, que o
acompanhará pela força do sacramento.
Aqui cabe também uma palavra às famílias já constituídas, principalmente aos casais
de filhos jovens, para não se esquecerem nunca destes três aspectos sobre os quais
acabamos de refletir: casar-se e ser família é vocação; por ser vocação, ou seja, projeto
de Deus, necessita da graça de Deus; e como a mesma graça pressupõe a natureza
humana, já nos disse São Tomás de Aquino (Suma Teológica, I, 2, 2 ad 1), “a felicidade
conjugal e familiar é uma construção diária, um esforço humano mediante graça e
misericórdia divina”.

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Dez coisas importantes para os que querem se casar e formar uma família1

Após refletir sobre alguns aspectos imprescindíveis da vocação à vida familiar,


gostaríamos de propor também aqui alguns pontos muito práticos para reflexão de quem
deseja se casar ou já está em vias de matrimônio.
Para aqueles que já se encontram nos sagrados vínculos do matrimônio, vale a pena
repassar as questões numa atitude de exame de consciência atual e tomada de atitude de
conversão, se preciso for. É importante também deixar claro que para os casados o
exame de consciência deve ser frequente, pois todo o esforço deve centrar-se em
salvaguardar a família e redescobrir a cada dia, mesmo em meio às exigências e provas,
a beleza do matrimônio e, é claro, do próprio cônjuge. Vamos a algumas breves, mas
significativas reflexões.

1. Conhecimento do coração
O papa Paulo VI, ainda na Encíclica Humanae Vitae número 9, entre outras coisas,
dirá que o amor conjugal é um amor total, quer dizer, uma forma muito especial de
amizade pessoal. Sem dúvida alguma ele está falando da relação entre os cônjuges, ou
seja, entre aqueles que já receberam o sacramento do matrimônio. Porém qualquer um há
de concordar que amizade não acontece do dia pra noite e, muito menos, a partir da
celebração do matrimônio. Isso já deve ser, portanto, um pressuposto ao próprio
casamento.
O tempo do namoro é o tempo de se cultivar essa verdadeira amizade. É o tempo do
conhecimento do coração do outro em vez do corpo e dos órgãos sexuais. Por isso a
Igreja é incisiva ao propor a castidade, pois será por meio desta e de outras virtudes que
se solidificará a verdadeira amizade. Em outras palavras, a verdadeira união espiritual,
da qual a relação sexual, com muito mais sentido, será consequência, e somente após a
celebração do matrimônio.

2. Compatibilidade de objetivos
Não há dúvidas de que é a partir do conhecimento do coração do outro que se poderá
compartilhar projetos de vida e objetivos. Isso é natural, sobretudo nos jovens. É o
tempo também da descoberta e consolidação da vida profissional, bem como dos rumos
que se pretende dar à própria vida. A compatibilidade de objetivos é saber se os planos
pessoais de cada um são capazes de se adequarem à vida familiar do casal, sem sobrepor
um em detrimento do outro.

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Vamos exemplificar. Talvez, no plano de carreira e no sonho profissional do rapaz,
esteja ser promovido e trabalhar no exterior. A questão deve ser a seguinte: a moça
estaria disposta a isso? Outro exemplo, e este é determinante, inclusive para a validade
do matrimônio: a moça deseja se casar para ter filhos, e o rapaz de modo algum quer ser
pai.
São muitas as situações. A jovem deseja continuar trabalhando caso venha a se casar,
já o rapaz gostaria que ela cuidasse da casa e dos filhos. Podem parecer situações banais
ou não, mas, se não forem muito bem pensadas, podem se tornar verdadeiros fardos para
um ou ambos os cônjuges no decorrer da futura vida cotidiana do casal.
Deve ficar claro também que esta compatibilidade é diferente de uniformidade no
sentido de que ambos, numa relação conjugal, precisam ser absolutamente iguais, ou
ainda uma resignação do tipo aniquilamento, como se nenhum dos dois pudesse mais
cultivar determinados projetos pessoais de vida por causa do outro. Tudo é questão de
discernimento e maturidade. Aqui deve também se salvaguardar a dimensão pessoal de
cada um, porém sempre aberta ao outro. A instituição familiar, sobretudo, deverá ter a
prioridade que lhe é própria.

3. Estabilidade de vida
Outra coisa que muitos na geração atual têm perdido de vista é a estabilidade de vida
para poder constituir uma família. Quem deseja se casar precisa ter o mínimo de
estabilidade: profissional e econômica, emocional e psicológica, sem jamais descartar a
maturidade própria da vida adulta e para os compromissos que se deseja assumir.
Aqui podemos nos lembrar da passagem do Evangelho das duas casas (Mt 7,24-27),
uma construída sobre a rocha; e outra, sobre a areia. Logo, com as tempestades e
vendavais próprios da vida, a casa construída sobre a areia cai, e a casa cravada na rocha
fica de pé. É evidente que o Evangelho propõe a fé e o próprio Cristo como rocha firme
que não se abala. Mas porque no contexto está presente a palavra casa, podemos
permitir-nos uma reflexão acerca da estabilidade da família em todos os sentidos.
É claro que a família cristã deverá aprender a apoiar-se na Providência Divina, disso
não pode haver dúvidas. Porém o casal que deseja constituir família deve pensar, antes
de tudo, na formação profissional adequada, nos estudos e, em seguida, no trabalho
estável, a fim de corresponder às responsabilidades da vida familiar. Repetimos que
pressupõe essa estabilidade de vida a maturidade pessoal de cada uma das partes, tanto
do rapaz quanto da moça que desejam se casar. Os dois juntos devem ser capazes de
reorganizar a rotina de vida a partir da nova realidade de casados. É impossível querer
conciliar determinadas liberdades de solteiro após o matrimônio.

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4. Real desejo de formar uma família
Como dizíamos, não dá para levar uma vida de solteiro depois de assumidas as
responsabilidades da vida matrimonial. Como passagem, deve ser acompanhada de uma
mudança substancial e significativa, que ficará evidente no modo como serão assumidos
certos comportamentos daí por diante. Nesta hora contam muito a maturidade e a
consciência do casal em relação ao matrimônio. E esse processo deveria ocorrer de
forma natural.
O real desejo de formar uma família precisa estar impresso no coração do casal
desde cedo. Formar família significa saber viver para o outro, em se tratando dos
cônjuges entre si, mas também para os filhos que virão. Significa fazer a opção
fundamental de colocar no topo da escala de valores a família. Em outras palavras, tanto
o rapaz quanto a moça, já no tempo do namoro, devem sondar as intenções um do outro
de forma bastante tranquila quanto à capacidade de viver em família. As visitas às
famílias ajudam muito nessa percepção e o modo como um e outro se relacionam com os
pais, irmãos, demais membros da família e amigos. Isso não quer dizer que o fato de
contrair o matrimônio extirpará o círculo de amizades e determinados convívios sociais,
mas determinará a escala de valores dessas relações a partir dos compromissos com a
família.
Exemplificando. Um rapaz que não está disposto a abandonar determinados
caprichos, como ir para as baladas com os amigos; que não é capaz de colaborar nos
cuidados da casa, esperando que como a mãe, a esposa faça tudo, enquanto ele cuida
apenas dos próprios gostos, já deveria fazer qualquer moça parar e pensar se estaria
disposta a encarar essa postura vida afora. Igualmente a moça que troca tudo pela balada
com as amigas ou pelas compras caras. Comportamentos do tipo jamais deveriam ocupar
o topo das prioridades para quem deseja formar uma família. Eles devem ser deixados
em relação às prioridades próprias da família que surgirão. Há sem dúvida outras
prioridades, tão exigentes, é verdade, mas também encantadoras: o tempo do descanso
após a semana de trabalho; a atenção dispensada ao cônjuge ou aos filhos, mesmo após
uma jornada cansativa; o ter que escolher ficar em casa ou ir à Igreja em relação a outro
compromisso etc.

5. Abertura aos filhos


Assunto fundamental a respeito das disposições de quem deseja se casar é a abertura
aos filhos; se negativa por uma ou ambas as partes, pode tornar inválido um casamento.
De modo claro: se casa, é para ter filhos.
“O matrimônio e o amor conjugal estão por si mesmos ordenados para procriação e

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educação dos filhos. Sem dúvida, os filhos são o dom mais excelente do matrimônio e
contribuem grandemente para o bem dos pais” (Humanae Vitae, 9). Fundamentalmente
quem deseja se casar deve desejar ter filhos.
Num segundo momento, é claro, vem a preparação para se fazer o planejamento
familiar. Nesse momento a Igreja, como mãe e mestra, partindo do princípio do amor
mútuo do casal, ensina a perceber o ato conjugal não somente como fonte de prazer, mas
como testemunho da unidade do casal e fonte geradora de vida. A relação sexual do
casal não é fim em si mesma, mas deve sempre conservar-se aberta à vida. E sobretudo a
mulher, como sacrário da vida, deve ser respeitada, para que não se torne mero objeto de
prazer por parte do homem.
Nessa altura o casal, além da consciência da abertura aos filhos, deve instruir-se
acerca do planejamento familiar orientado por princípios naturais e não artificiais. A
intenção da Igreja ao propor um e não outro é salvaguardar a natureza, a finalidade e a
dignidade do ato sexual do casal. Sem dúvida alguma entrará nesse contexto a
importância da virtude da castidade matrimonial, que será fonte de outras virtudes e,
sobretudo, da fidelidade e da pureza. Quem cultivou a virtude da castidade no tempo do
namoro certamente terá mais suporte para o planejamento natural da família.
E por fim, mas não menos importante, o planejamento familiar natural jamais deve
se reger pelo medo ou insegurança de ter muitos filhos, ou mais que o costume adquirido
pelos tempos modernos (um, dois ou três). O casal deve ter fé acima de tudo. Fé que os
filhos são bênção de Deus, fé na Providência de Deus, fé na graça de Deus, que não o
desamparará no cuidado e na educação dos filhos.

6. Compatibilidade religiosa
No mundo de hoje, onde o que conta é ser politicamente correto, pode parecer
estranho aconselhar aqueles que pretendem se casar a fazerem atenção ao fato religioso.
A verdade é que a intensidade da escolha religiosa contará muito, tanto positivamente
quanto negativamente, caso não seja bem vivida, na futura vida matrimonial.
A Igreja sempre deu por certo que católicos se casassem com católicos – vejam-se as
dispensas matrimoniais por disparidade de culto e mista religião que precisam ser dadas
pelo bispo diocesano. E isso não por segregação ou visão sectarista, mas simplesmente
pela facilitação da boa convivência, da comunhão de princípios e principalmente
pensando na educação dos filhos. Desse modo, sobretudo nos dias de hoje, a regra
principal não é pura e simplesmente que católicos se casem somente com católicos, mas
que a paz de espírito seja, antes de tudo, garantida pelo bem da futura família.
Em minha curta, porém significativa, experiência acompanhando casais, por várias

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vezes tenho me confrontado com dificuldades, humanamente falando, intransponíveis
pelo fato de os cônjuges professarem credos diferentes. E geralmente a parte católica
acaba sofrendo, principalmente por querer educar os filhos nos princípios da fé católica,
conforme acordado no processo matrimonial e durante a celebração do sacramento (cf.
Ritual do Matrimônio, Diálogo antes do consentimento). Mas mesmo assim essa fé vem
a ser dificultada, sobretudo se a outra parte provém de uma seita cristã geralmente
ofensiva em confronto aos católicos. No final das contas, o que era doce acaba por se
tornar uma amargurada tormenta. Talvez porque faltou refletir um pouco melhor antes
do casamento acerca da compatibilidade religiosa.
É fato que existem cônjuges que comungam de fé diferente um do outro e que são
capazes de viver em harmonia nesse aspecto, mas por outro lado é verdade que há casais
nessas condições que não vivem em paz, gerando sofrimento para todos, inclusive para
os filhos, que muitas vezes acabam crescendo com a prática religiosa relegada para
segundo ou último plano, ou, o que é bem pior, são impedidos de uma autêntica
formação religiosa católica. Isso também deveria ser pensado com muita sinceridade no
tempo do namoro por aqueles que estão decididos a se casar, sobretudo pela parte
católica.

7. Capacidade para perdão, diálogo e sacrifício


O casal nunca deverá perder de vista essa capacidade, que deve ser treinada e
comprovada já no tempo do namoro. Isso faz parte também do processo de maturidade
humana. O perdão exige, antes de tudo, abertura de coração, humildade e misericórdia
para com o outro. A humildade deve anteceder a misericórdia para que ninguém se ache
melhor do que o outro. Na relação entre um casal, ninguém é melhor que ninguém,
embora cada qual tenha as responsabilidades que lhe são próprias. Por exemplo, um
namorado birrento deve ser chamado a um amadurecimento. Um comportamento como
esse não deve se arrastar matrimônio adentro.
O perdão, que é uma alta exigência cristã e um testemunho eloquente de amor, abrirá
caminho para o diálogo familiar. No tempo do namoro, ficar dias sem se falar por conta
de situações mal resolvidas ou incompreensões deve se tornar ocasião para
amadurecimento, para que não se arraste vida afora. Se situações como essas chegam ao
matrimônio e continuam, certamente não terão boas consequências. É difícil pensar num
casal que deve dormir na mesma cama e que consegue ficar dias sem se falar por uma
situação que deveria ter sido resolvida no máximo na noite do mesmo dia em que
aconteceu.
O perdão e o diálogo são um treino constante na vida familiar. E deve ser assim.

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Perdão e diálogo exigem outra capacidade: o sacrifício. E aqui não se trata de grandes
sacrifícios, mas dos pequenos sacrifícios de cada dia, sem os quais ninguém em grau de
maturidade vive. O sacrifício do silêncio, da escuta, da serenidade na fala em meio a
uma acusação ou gritaria, o sacrifício de cumprir com perfeição as responsabilidades
matrimoniais, ainda que sem o devido reconhecimento, entre tantas outras realidades.
Essas capacidades devem ser cultivadas e esclarecidas já no tempo do namoro.

8. Não querer ser “dono” da situação


Trata-se da capacidade de resignação, cujo bem maior é construir a felicidade
conjugal e familiar. Numa discussão calorosa há sempre um vencedor e outro perdedor.
Há quem vença por força e coação. Há quem perca por consequência da imposição da
força ou da coação. Há quem escolha perder por um bem maior: o próximo. Não se trata
de causa perdida, mas de enxergar além da própria discussão. É uma questão
psicológica: quem é seguro de si, das próprias convicções, num bate-boca sem causa e
sem finalidade jamais quererá se impor, pois o mais correto é vencer o descontrole do
outro que esbraveja.
Trazendo a mesma situação para a vida conjugal, é muito fácil acontecer que numa
discussão acirrada tanto um quanto outro queiram se impor. E não só numa discussão,
mas no próprio dia a dia, por causa da cor da parede, do tipo de roupa do outro, do corte
de cabelo etc. Coisas que se percebem já no tempo do namoro. Permanecer ao lado de
alguém que sempre quer ter razão, vencer e controlar tudo certamente não se dará sem
grandes sofrimentos. Portanto, ambos os lados, e não só um, precisam saber o que é
resignar, ou seja, renunciar às próprias vontades por causa do amor pelo outro e pela
família.

9. Estar na graça de Deus


O papa Paulo VI, ao afirmar o modelo de família cristã, encerra suas palavras
incentivando as famílias à participação assídua à Eucaristia e à confissão para que não se
desencorajem, principalmente a partir das fraquezas, que também fazem parte da
existência humana (Humanae Vitae, 25). Assim sendo, já deveria ser um critério
decisivo tanto para a moça quanto para o rapaz cristãos que durante o namoro se
demonstre essa busca de vida na graça, sem fingimentos, sobretudo a partir da Eucaristia
e da confissão.
Não pense a jovem que o namorado irá se converter após o casamento sem ter no
mínimo se demonstrado propenso a acompanhá-la na vivência de fé já no namoro. O
casamento por si só não muda substancialmente esse tipo de decisão negativa pela

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vivência de fé. Um casal de namorados que desde cedo faz a opção fundamental pela
vida da graça certamente terá, não obstante os desafios dos dias atuais, muito mais
condições de construir a futura felicidade conjugal com êxito. Lembre-se sempre de que
a construção de uma casa começa pelos fundamentos, e estes devem ser sólidos.

10. Ter o coração aberto para ir se formando ao longo do tempo


Ninguém vem ao mundo com um manual de instruções a respeito da própria
vocação. Ninguém nasce sabendo ser marido e mulher, ser pai e mãe, ser padre etc.
Aprende-se à medida que o sim fundamental ressoa como sim de cada dia.
Lembro-me bem de que nos meus primeiros meses de padre fui convidado para
celebrar o casamento de um primo que eu vi crescer. Minha preocupação de jovem
sacerdote, apenas saído de uma das melhores faculdades de teologia de Roma, era se de
fato aquele jovem casal teria condições mesmo de assumir aquele compromisso; afinal,
eu vi meu primo ainda criança de colo e a sua noiva também como criança ainda nos
tempos da catequese. Marquei uma conversa pessoal com cada um, e depois com os dois
juntos. E muito do que escrevi até aqui certamente falei com eles. O casamento já estava
marcado, eu era apenas o padre convidado para celebrar – pois todo acompanhamento e
processo foram feitos na paróquia deles.
No fim daquele mesmo dia, à mesa de casa com meu pai, eu de um lado, e ele de
outro, comecei a expor um pouco da minha preocupação com aquele casamento. Para
minha grande surpresa e aprendizado, naquela tarde, depois que terminei de falar, meu
pai tomou a palavra e começou a contar do seu tempo de namoro com a minha mãe, da
decisão dos dois de se casarem e dos primeiros anos do casamento. Eu ouvia
atentamente, pois gosto muito quando meus pais começam a falar sobre nossa família.
Ao fim de sua fala, meu pai, olhando bem nos meus olhos, disse-me: “E veja só! Eu e
sua mãe, quando nos casamos, éramos muito jovens e não sabíamos de muitas coisas que
iríamos passar. Hoje temos mais de trinta anos de casados, temos você e seu irmão,
nossa casa...”. Isso me bastou para entender que também se aprende a ser família. E que
todos os casais têm esse direito e esse dever. Naquele instante meu coração se aquietou
quanto ao matrimônio daqueles jovens, pois entendi também o outro lado da moeda: na
construção da família, o casal jamais segue só, Deus acompanha cada momento com Sua
graça. Esta é a importância do sacramento do matrimônio, em que Cristo abençoa com
generosidade o amor conjugal (cf. Ritual do Matrimônio, Introdução).

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Deveres dos cônjuges entre si

“Família, torna-te aquilo que és!” foi um dos apelos do papa João Paulo II ainda no
início da década de 1980, após o Sínodo dos Bispos, que ofereceu a toda a Igreja e ao
mundo um documento do magistério imprescindível para ajudar na compreensão da
família, suas exigências e belezas. O apelo da Exortação Apostólica Familiaris
Consortio, de 1981, é que a família cristã não perca sua identidade, mas que a aprofunde
e testemunhe cada vez mais, sobretudo nos tempos atuais, quando a instituição familiar
passa por inúmeras perseguições e provas. Vale a pena observar a avaliação que a Igreja
fazia da família já naquela década.
Foram destacados, entre outros, alguns sinais de degradação da família, como “uma
errada concepção teórica e prática da independência dos cônjuges entre si; as graves
ambiguidades acerca da relação de autoridade entre pais e filhos; as dificuldades
concretas que a família muitas vezes experimenta na transmissão dos valores; o número
crescente dos divórcios; a praga do aborto; o recurso cada vez mais frequente à
esterilização; a instauração de uma verdadeira e própria mentalidade contraceptiva.
Na raiz desses fenômenos negativos está muitas vezes uma corrupção da ideia e da
experiência de liberdade, concebida não como capacidade de realizar a verdade do
projeto de Deus sobre o matrimônio e a família, mas como força autônoma de afirmação,
não raramente contra os outros, para o próprio bem-estar egoístico” (n. 6).
O texto continua abordando o influxo de uma ideologia antifamília e antivida
promovida, sobretudo, pelos meios de comunicação social, que acabam por influenciar
as consciências. Entre outros, estão estes sinais: “o difundir-se do divórcio e do recurso a
uma nova união por parte dos mesmos fiéis; a aceitação do matrimônio meramente civil,
em contradição com a vocação dos batizados ‘a casarem-se no Senhor’; a celebração do
sacramento do matrimônio sem uma fé viva, mas por outros motivos; a recusa das
normas morais que guiam e promovem o exercício humano e cristão da sexualidade no
matrimônio” (n. 7).
A nós, cristãos, cabe, a partir de tais constatações, um esforço para resgatar e
reafirmar o valor da família enquanto aquela que o mesmo Magistério da Igreja define
como “célula primeira e vital da sociedade” (n. 42). Este capítulo, portanto, não trará
nada de novo, mas, partindo dos ensinamentos da Igreja, discutirá o que deveria ser
prioridade no relacionamento entre marido e mulher, sem dúvida alguma os primeiros

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tutores e responsáveis por esta célula fundamental que é a família. Aplicando esse
ensinamento concretamente à realidade pastoral, vamos propor, fazendo uso de uma
pedagogia catequética, as sete prioridades do casal entre si e diante da instituição
familiar.

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As sete prioridades do casal

1. Chamados a crescer na comunhão


Já falamos que nas bases da comunhão entre o casal deve estar uma verdadeira
amizade. Essa amizade é a semente que, ao cair na terra, será abençoada pelo sagrado
matrimônio, germinará e crescerá como planta frondosa. Como toda planta, o
matrimônio carece de cuidados no ritmo da vida, de tal modo que os laços matrimoniais
tendem a aperfeiçoar-se ainda mais com o passar do tempo.
Uma coisa, porém, deve ficar muito clara: o matrimônio não se resume apenas ao
vínculo afetivo. Vai além. É um compromisso que empenha toda a existência dos
cônjuges, de modo que o vínculo afetivo é também expressão da união indissolúvel do
casal perante Cristo, a Igreja e eles mesmos, a fim de que a comunhão se realize por
meio da fidelidade cotidiana à promessa matrimonial do dom total e recíproco.
A fidelidade não será reduzida, portanto, somente aos momentos de felicidade,
prosperidade e saúde; em outras palavras, quando tudo está indo muito bem e a paz
reina. Ao contrário, a fidelidade se comprova nos momentos de dificuldade, de tristeza,
de necessidade material ou física, de doença. Nessa hora o vínculo afetivo, reduzido à
superficialidade, como tem acontecido em nossos dias, pode se tornar, em vez de um
ponto de apoio, um risco para a comunhão do casal. Por isso o rito católico do
matrimônio é bastante claro: “... e lhe prometes ser fiel, amá-la(lo) e respeitá-la(lo), na
alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da tua vida?” (Rito do
Matrimônio, Consentimento). É a pergunta que se faz a cada um dos noivos, solicitando
o livre e consciente consentimento de cada um.
Em outras palavras, significa que a celebração do matrimônio em si é um marco
divisor e ao mesmo tempo um ponto de partida. Após o brilho da festa e dos flashes
fotográficos, começará a belíssima aventura do comprometimento familiar. A comunhão
entre os cônjuges comporta respeito e compreensão, e isso é uma construção cotidiana.

2. Fidelidade inviolável
É preciso também ter bem claro que a razão mais profunda da fidelidade matrimonial
se encontra na fidelidade de Deus à sua aliança e na fidelidade de Cristo à Igreja. Deus é
sempre fiel com Seu povo. Cristo deu a vida pela Igreja, Sua esposa. Assim sendo, a
fidelidade do casal consiste em ter olhos somente para a própria mulher, no caso do
marido; e somente para o marido, no caso da esposa.
Aqui deve ficar bastante claro também que o sacramento não anula a atração sexual

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natural do homem pela mulher e da mulher pelo homem. Aliás, continua tudo do mesmo
jeito, tanto para um quanto para outro. Por isso, é importante que os casais de namorados
– e a própria juventude de modo geral – sejam formados para a castidade. Uma
sexualidade mal vivida antes do matrimônio, caso não seja amadurecida e curada, pode
arrastar problemas e dificuldades no casamento, sobretudo em relação à fidelidade.
A castidade, portanto, é a virtude que dá segurança para administrar de modo correto
este grande dom de Deus para a humanidade que se chama sexualidade. Como toda força
intrínseca, a sexualidade humana também precisa ser formada, amadurecida e
controlada. Sim, controlada, pois o homem, ao contrário dos outros animais que são
regidos pelo impulso sexual, possui a capacidade de deliberar sobre os próprios impulsos
e a própria vontade. Isso para todas as coisas da vida, mas principalmente para a
sexualidade.
Jesus, no Evangelho, ao ser perguntado sobre o adultério, leva toda a questão para
dentro do coração do homem. Do mesmo modo, em sentido positivo, a fidelidade
também começa e é cultivada no interior deliberadamente. Assim, mesmo que um
homem casado venha a sentir atração sexual por outras mulheres, e a mulher por outros
homens, a razão, o compromisso, a clareza da beleza e das exigências do dom do
matrimônio os chamarão para dentro de si de modo que sejam capazes de sobrepor a
fidelidade ao impulso da carne. Esta é a condição do homem novo e da mulher nova,
sustentada pela graça de cada sacramento.

3. Abertura aos filhos


O matrimônio e o amor dos esposos estão, por sua índole natural, ordenados à
procriação e à educação dos filhos. Como já dissemos, quem casa, casa para ter filhos.
Hoje em dia vários jovens casais pensam em muitas coisas: carreira profissional,
casa própria, aproveitar a vida, adquirir bens, e acabam relegando a realidade dos filhos
para segundo ou último plano. Em muitos casos há casais que até negam essa
possibilidade. Para o casal cristão, no entanto, os filhos são uma prioridade, no sentido
de que o matrimônio possui como finalidades específicas a unidade indissolúvel do casal
e a abertura aos filhos, ambas expressões do amor autêntico e complementares. O amor
conjugal não é fechado e nem pode fechar-se numa espécie de bilateralismo, mas abre-se
para gerar a vida. E precisa ser assim porque o amor gera vida.
Tão intimamente ligada à capacidade e ao dom de gerar vida vem a responsabilidade
pelo sustento e a educação dos filhos. É importante ainda salientar que, para muitos
casais, os filhos ocupam lugar entre as prioridades, como carreira profissional,
construção de patrimônio, realização dos projetos pessoais. Porém, ainda não é

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suficiente, pois, após a geração da vida, há o cuidado paterno e materno pela própria vida
dos filhos.
Assim, um casal, salvo real necessidade, e isso deve ser encarado com muita
seriedade, não deveria relegar por completo o cuidado dos filhos para creches ou outras
instituições, e mesmo para os parentes, pois os filhos precisam dos pais por perto,
sobretudo nos primeiros anos de vida. Por isso a Igreja chama a abertura aos filhos de
uma fecundidade da caridade, acolhimento e sacrifício (cf. Catecismo da Igreja Católica,
1654). Isto é, a abertura aos filhos consiste na doação por eles como dom,
responsabilidade e, por isso mesmo, vocação de ser pai e de ser mãe.
Aqui também é importante dizer algo em relação à possível realidade da esterilidade
física. Deixamos as consoladoras e animadoras palavras do Magistério: “Não deve,
todavia, esquecer-se de que, mesmo quando a procriação não é possível, nem por isso a
vida conjugal perde o seu valor. A esterilidade física, de fato, pode ser para os esposos
ocasião de outros serviços importantes à vida da pessoa humana, como por exemplo a
adoção, as várias formas de obras educativas, a ajuda a outras famílias, às crianças
pobres ou deficientes” (Familiaris Consortio, 14).

4. Capacidade para o sacrifício


Não há amor autêntico sem sacrifício. Muitos casamentos acabam terminando em
separação por uma concepção reduzida e errônea do matrimônio e da família. São
concepções que reduzem o matrimônio ao mero afeto, ao puro sentimento de bem-estar e
ao prazer sexual. É como se essas sensações fossem determinantes para a estabilidade do
casal. E ao primeiro sinal de que uma delas deixou de existir, muitos já veem motivo
suficiente para desfazer o compromisso assumido e, como dizem vulgarmente, “partir
para outra” – o que infelizmente acaba sendo conselho de muitos profissionais, e mesmo
pessoas que se dizem religiosas, quando aconselham casais em crise. Um erro tremendo.
Por que não aconselham: Vamos esperar mais um pouco? Vamos tentar resgatar as
motivações do casamento? Vamos pegar o álbum de fotos do casamento e da história da
família? E assim por diante. Por que não defender o casamento em vez do
individualismo da felicidade? Que contradição! Se voltarmos às palavras que os noivos
dirigem um ao outro durante a celebração do matrimônio, já desmentimos tal
mentalidade, pois ali eles prometem fidelidade “na alegria e na tristeza, na saúde e na
doença, por todos os dias da vida” – isto é, até a morte. Sendo assim, mais que sensação
ou sentimentalismo, o amor autêntico radica-se numa decisão a ser renovada a cada dia.
O amor matrimonial é mais profundo que aquilo que os sentidos acusam. Por isso
mesmo faz parte da vivência do amor a capacidade para o sacrifício. Sacrifício que é

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testemunhado desde as pequenas coisas do dia a dia – e isso é um treinamento – até
experiências mais dramáticas de sofrimento, como o tempo da enfermidade que, em vez
de esvaziar o amor conjugal, tende a aumentar ainda mais sua beleza. Afinal, o que seria
das relações humanas, de modo geral, se o amor se reduzisse apenas ao sensível, ao
emocional e ao afetivo? O amor conjugal se comprova e se eleva na capacidade de
doação e sacrifício dos cônjuges, pois é ali que se renova a decisão de amar, como
também o amor com todas as suas forças.

5. Saber ouvir e saber quando falar


Um dos requisitos para qualquer relação humana equilibrada e, principalmente, uma
relação conjugal e familiar é a capacidade de dialogar. E todo diálogo se realiza entre um
que fala e outro que escuta, e vice-versa. Não há diálogo se uma só parte fala o tempo
todo, sem deixar espaço para que a outra se manifeste. Da mesma forma não há diálogo
se não há fala sincera e escuta atenta e honesta. Também não há diálogo se as duas partes
decidem falar ou calar-se ao mesmo tempo.
Muitas discussões poderiam ser evitadas se os cônjuges fossem formados para um
autêntico diálogo. É necessário sabedoria antes de tudo. Sabedoria para discernir quando
e como é possível a melhor fala e a melhor possibilidade de escuta. Assim como há
tempo para tudo, também para o diálogo frutuoso há momento certo. Por exemplo, se um
dos cônjuges se encontra exausto após o dia de trabalho, talvez não seja hora de tocar em
assuntos sérios que exigem maior esforço e atenção. Se um cônjuge está com o ânimo
irritadiço, não é hora para falar de problemas que precisam ser resolvidos. É sempre
melhor aguardar pelo momento certo do que comprometer ainda mais a situação. Mas
para isso é importante o conhecimento profundo dos cônjuges entre si.
Como dizíamos, os casais de namorados e mesmo os noivos que já se decidiram pelo
casamento devem saber aproveitar o tempo de conhecimento e preparação para, de fato,
saber quem é o outro, suas qualidades, suas limitações, suas possibilidades e aberturas.
Isso, sem dúvida alguma, ajudará muito na busca e na vivência do diálogo em família,
haja vista que é o tipo de coisa que se passa também posteriormente para os filhos. Em
um lar onde os pais têm facilidade em conversar de modo equilibrado, certamente os
filhos também herdarão essa capacidade, a começar pelas características, como a calma e
a serenidade em relação ao próximo.

6. Investir tempo com qualidade um para com o outro


Infelizmente, em nossos dias, também devido a determinadas necessidades atuais,
muitos casais colocam no topo de suas prioridades o trabalho. Por motivos

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compreensíveis ou não, mesmo assim o trabalho precisa ser compreendido no seu
autêntico significado e real necessidade. Vejamos alguma coisa.
Quanto ao trabalho no contexto familiar, e objetivamente falando, a prioridade é que
ao homem cabe ser o tutor e o provedor das necessidades do lar. E isso não deveria em
momento algum desmerecer o papel da mulher, haja vista que o cuidado do lar e a
educação mais próxima dos filhos são um verdadeiro trabalho, e mais, um verdadeiro
apostolado, para o qual a mulher traz consigo características únicas, a começar pelo
clima de afeto maternal, protetor e zeloso. Desse modo podemos dizer que se o homem é
a cabeça da casa, a mulher é o coração. Veja que ambos, cabeça e coração, são
indispensáveis, tanto um quanto outro, no funcionamento de um corpo.
Voltando às necessidades dos tempos, é verdade que nos dias atuais a mulher
também tem se tornado grande parceira do marido no sustento do lar quando sai em
busca do trabalho profissional – não vem ao caso discutir aqui as capacidades ou direitos
da mulher no mercado de trabalho, é igualmente óbvia a capacidade da mulher para tal,
dentro das condições que lhe são próprias.
O fato é que, por causa do trabalho, muito pouco tempo acaba restando para o
cultivo das relações familiares. Basta observar inúmeros casais se perdendo em meio às
responsabilidades econômicas do lar e ao trabalho. Assim, é verdade também que muitos
acabam se deixando levar por estereótipos mundanos em detrimento do fundamental
quando, por exemplo, trabalham para manter uma espécie de status social ou, pior ainda,
para não ter que fazer diferente dos outros, sobretudo do círculo de amizades.
Muitos desses casais acabam dizendo não ter tempo, por exemplo, para a Missa
dominical ou para algum encontro de pastoral por causa do trabalho ou de outros
compromissos assumidos em função deste, como, por exemplo, os almoços, coquetéis,
churrascos e viagens de trabalho. Mesmo sendo momentos de lazer, esses compromissos
não visam especificamente cultivar os laços familiares. Igualmente, muitos alegam não
ter tempo para se dedicar ao cônjuge e aos filhos quando deveriam fazê-lo. A
justificativa é quase sempre a mesma: muito trabalho e pouco tempo.
Por isso os casais de namorados e noivos que se preparam para o casamento devem
pensar neste aspecto do relacionamento: o tempo de qualidade que deve ser dedicado um
ao outro. E ainda mais durante o matrimônio. É imprescindível! E mesmo aqueles que
têm grande parte do tempo durante a semana ocupado pelo trabalho ou ainda com os
estudos devem criar um modo de aproveitar ao máximo o tempo com a família.
Não é um mau conselho também dizer que precisam equilibrar o tempo dedicado a
uma coisa e outra, levando sempre em conta que a família é o valor maior. Vale a pena
lembrar que, entre coisas que um homem perde durante a sua vida, o tempo não se
recupera. Tempo perdido não volta mais. A partir dessa afirmação devemos pensar em

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todas as nossas relações e projetos, com prioridade para a família.

7. Rezar juntos
Por fim, mas não menos importante, vem a vida de oração em família. A oração dá
sustento e comunhão à família. Já ouvimos dizer diversas vezes esta sabedoria: família
que reza unida permanece unida. Que bom seria se nossos jovens, já no tempo do
namoro, soubessem dedicar tempo ao cultivo da vida de oração – pessoal, que é um
dever de todo cristão, mas também em comum, ou seja, de ambos e futuramente mais os
filhos.
Feliz da família que tem como referencial a vida de oração. Ela certamente terá
provações e dificuldades como qualquer família, mas haverá uma grande diferença com
o que se fará diante das provações e dificuldades, no modo pelo qual administrará tudo
isso. E quem reza tem mais força, mais discernimento, mais sabedoria. Tudo isso é fruto
de uma comunhão intensa com Deus e com a família. Comunhão essa que se constrói
igualmente pela vida de oração.
Por isso deve estar incluído, por exemplo, nas atividades dos dias de lazer e mesmo
no tempo de férias, ir à Igreja para participar da Missa, sobretudo aos domingos, ler a
Bíblia em família e rezar o terço, entre outras atividades. Aqui faz bem ressaltar a
importância de uma referência concreta de oração, além da própria Igreja paroquial, o
oratório da família dentro de casa. Um local preparado com a cruz, imagem de Nossa
Senhora, dos santos de devoção, com a Bíblia, água benta, flores, de modo que a família
tenha para onde se voltar nos momentos de oração.
Particularmente penso que, entre os critérios para um bom namoro, o jovem que
pretende namorar deveria colocar entre os mais importantes uma jovem que goste de
rezar, e vice-versa. Tenho certeza de que em muitos namoros entre jovens cristãos este
critério não tem sido uma prioridade. Mas faz toda diferença alguém que reze e se
disponha não só a dizer que tem fé, mas que testemunhe que vive a própria fé. E um dos
modos mais simples, porém fundamental, é a vida de oração.
Para os casados que até então não entenderam a oração como uma necessidade é
bom que comecem a fazer a experiência e sintam a diferença de quando rezam juntos e
mais intensamente. É bom escolher um horário pela manhã ou mesmo pela noite, antes
de dormir, para um tempo de oração.

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Deveres dos pais para com os filhos

1. Amor conjugal fecundo

Um casamento verdadeiramente cristão tem como fruto mais original os filhos.


Assim diz a Palavra de Deus: “Os filhos são herança do Senhor, é graça sua o fruto do
ventre. Como flechas na mão de um guerreiro são os filhos gerados na juventude. Feliz o
homem que tem uma aljava cheia deles” (Sl 127,3-5).
Num primeiro momento, duas realidades devem ficar bem claras e distintas para um
casal cristão: de um lado, o controle da natalidade, fomentado e regido por interesses
particulares, os mais diversos possíveis, como que a coagir a família em relação ao
número de filhos que deve ter e desligando o ato sexual do casal da sua finalidade de
gerar a vida; de outro lado, a possibilidade do planejamento familiar, sempre orientado
pelas leis naturais e pelo amor conjugal autenticamente cristão sob as graças do
sacramento do matrimônio, que jamais se fecha à realidade dos filhos.
A doutrina católica rejeita a primeira realidade: o controle da natalidade,
principalmente apoiado na prerrogativa do crescimento desmedido da população
mundial e orientado sob a artificialidade dos métodos anticoncepcionais e o aborto, não
condiz com a verdade da família. As razões principais são pelo menos três, entre outras:
primeira, pelo esvaziamento do amor conjugal e sua redução exclusivamente ao prazer
sexual, que, por vontade divina, expressa objetivamente pela lei natural, tende à
fecundidade da vida e não ao oposto; segunda, principalmente pela maldade intrínseca
dos métodos abortivos e a desvalorização e o desrespeito pela vida humana desde o
embrião; e, por fim, a instrumentalização da mulher, a grande vítima, junto aos
abortados, de toda essa mentalidade – basta pensar nas consequências psicológicas de
um aborto. Sem contar que o sexo virou objeto de mercado; por detrás do controle da
natalidade há também todo um aparato de interesse comercial e lucrativo.
A primeira realidade precisa ser evitada e rejeitada. A segunda realidade, por sua
vez, a do planejamento familiar, porque também toca substancialmente na questão dos
filhos e no amor conjugal, precisa ser compreendida para ser bem vivida.
É verdade que o planejamento pode também se referir às questões econômicas da
família, mas entre o planejamento econômico, como administração dos bens materiais, e
os filhos, estes últimos assumem a maior importância no planejamento familiar como um

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todo, não há dúvida! Muitos casais acabam usando a carreira profissional e os interesses
meramente materiais para adiar por demais a vinda dos filhos, e até mesmo como
desculpa para não tê-los. Em outras palavras, para não assumir a responsabilidade
bendita da maternidade e da paternidade.
Pois bem, quanto ao planejamento dos filhos, de modo bastante concreto, quantos e
quando tê-los, a Igreja orienta – sobretudo levando em conta as condições dos pais – ao
planejamento natural, ou seja, considerando os ritmos do aparelho reprodutor, sobretudo
o feminino. Para isso é indispensável o conhecimento dos cônjuges de si mesmos e do
outro. E aqui entra, além do conhecimento profundo de si mesmo e do outro, a virtude da
castidade não só como pureza, mas também continência, pois no chamado período
fecundo da mulher deve-se saber que a relação conjugal levará inevitavelmente à
geração da vida, e se o casal, por uma razão justa, não planejar para aquele momento
específico a nova vida, o melhor instrumento para tal planejamento na visão da Igreja é a
continência, deixando assim a relação sexual para os chamados períodos infecundos da
mulher. É importante destacar que tal planejamento nunca deve partir do medo de ter
filhos ou da quantidade deles.
A visão de libertinagem sexual e desagregação dos valores morais que impera em
muitos lares e consciências, e por vezes até de pessoas de Igreja, certamente não
compreende a doutrina católica e a rejeita. De fato, falamos de contradições
fundamentais: o que é baixo não compreende o que está no alto. Mas podemos, sem
dúvida alguma, demonstrar o valor e a força do ensinamento católico de sempre com
base, por exemplo, num casal que deve se confrontar com a enfermidade de um dos
cônjuges num determinado momento da vida. Nessa hora se percebe, da forma mais
dura, que não é só de sexo que se tece a relação conjugal e familiar, mas de presença e
cuidado. E quem foi treinado pela castidade saberá colher o valor e a profundidade desse
tempo. Isso é fruto de uma percepção muito mais profunda do valor de cada pessoa e da
própria dimensão sexual humana.
Junto à bênção da nova vida concebida no seio familiar, está o cuidado para que ela
cresça e se desenvolva. Isso prevê a educação moral e a formação espiritual dos filhos.
Os pais são os primeiros responsáveis pela transmissão dos valores autenticamente
humanos e pela fé. Aliás, aqui está a maior e a melhor de todas as heranças que os pais
podem deixar para os filhos: os valores da fé e os valores morais.
No cumprimento dessa missão, dirá a Igreja, os pais são quase insubstituíveis.
Quase, porque diante de uma fatalidade ou qualquer outra situação de força maior, outra
pessoa idônea deve assumir a educação dos filhos. Até nisso a Igreja pensa, quando
prevê para o batismo a figura dos padrinhos. Uma questão que não deveria ser
descuidada, mas antes pensada com muita seriedade pelos pais em relação aos seus

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filhos.
Portanto, os pais devem evitar o máximo possível relegar a outros a educação e a
formação dos filhos. E muito menos ceder à pressão de que seus filhos, em matéria de
valores humanos e de fé, sejam relegados a terceiros, como a escola e o Estado. Isso
compete primeiramente aos pais, e os filhos têm a obrigação de lhes ser obedientes, da
mesma forma que a escola e o Estado devem tutelar esse direito.
De igual modo, os pais, sobretudo aqueles que realmente ambos precisam trabalhar,
e por isso passar um longo período do dia distante dos filhos, devem pensar na real
necessidade de entregar os filhos para as creches, as chamadas “escolinhas” ou mesmo
outras pessoas da família para lhes tomar conta. Como sempre temos dito, há casos e
casos. Há situações em que é necessário que os pais assim o façam. Outras, nem tanto.
Os pais que assim precisam fazer devem usar de critérios bastante claros e definidos
sobre para quem entregar o cuidado dos filhos, sobretudo os pequenos. E os que o
podem evitar devem evitar. É muito importante para a formação dos filhos, sobretudo
das crianças, a presença dos pais, ou seja, da figura materna e da figura paterna.
É verdade que em nossos dias as realidades são as mais diversas possíveis, sobretudo
de mães que acabam necessitando – por diversas causas que não vêm ao caso elencar –
educar sozinhas os filhos. Essa e outras realidades precisam ser vistas a partir de dentro e
orientadas com grande respeito e responsabilidade por parte, seja dos pastores e agentes
de pastoral, seja dos profissionais qualificados para a família.
De modo geral, e mais ainda em se tratando dos filhos, todo casal deve fazer atenção
ao planejamento que deriva, seja do amor conjugal, seja do grande dom e
responsabilidade, que é a nova vida. Toda vida deve ser acolhida como dom, como
bênção, mesmo que a gravidez, como também costuma acontecer por vezes, não tenha
sido planejada pelo casal para aquele momento. Ali também está uma vida, uma bênção
a ser acolhida e por isso mesmo amada.

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2. Os filhos de um casal são filhos de Deus

Todo filho é dom. A vida é, antes de tudo, dom de Deus e colocada sob a custódia da
família. A família é receptora, tutora, promotora e defensora da vida. A família é o lugar
por excelência da vida. E não pode fugir dessa tarefa tão sublime, nem delegá-la a
terceiros, mas pode e deve ser apoiada por estes.
Certa vez, num debate de tipo filosófico sobre a triste realidade do aborto, alguém
tomou a palavra e disse, contrariando a tese de que o embrião ainda não representa a
vida humana – sem dúvida uma tese berrante –, que desde a fecundação do óvulo pelo
espermatozoide, quando acontece a concepção, o processo que se inicia ali,
ininterruptamente, não pode levar a outra realidade que não à vida de um ser humano.
Portanto essa vida precisa ser respeitada desde os mais tenros inícios e,
consequentemente, até seu fim natural – levando em conta outra triste realidade contra a
vida que é a eutanásia.
Pois bem, os filhos devem ser acolhidos e respeitados como toda pessoa humana. E a
Bíblia dá o testemunho de que a vida humana procede de Deus: Ele é o Criador, o Autor
da Vida. O casal, cooperando e participando da obra da criação, se torna responsável
imediato por toda vida que surge em seu seio.
Aqui entra algo fundamental e inegociável no lar católico: o batismo dos filhos. A
Igreja sempre ensinou que o batismo, entre tantas graças que concede, torna-nos filhos
de Deus. Sem Deus a pessoa perde sua referência mais profunda. Portanto, um casal
verdadeiramente católico não prorroga por demais e muito menos negligencia o batismo
dos filhos. Ao contrário, procura fazê-lo o quanto antes, pois sabe que os filhos não são
obras de suas mãos, mas verdadeiro dom de Deus, e por isso mesmo, filhos de Deus.
Sendo assim, o primeiro e grande reconhecimento dos pais de que seus filhos são filhos
de Deus é o sacramento do batismo. São as duas gerações: a biológica e a espiritual; para
a vida e para Deus.

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3. Educar os filhos no cumprimento da Lei de Deus

O batismo é uma realidade de fé e produz estado e graça. Imprime caráter, ou seja, a


criança se torna de fato cristã, filha de Deus. Um caráter que não pode ser apagado; é
indelével (Catecismo da Igreja Católica, 1304).
Esse dom é também como uma semente lançada na terra. Todos nós sabemos que a
semente precisa de cuidados na terra para que cumpra com sua finalidade: tornar-se uma
planta ou uma árvore. Do mesmo modo age a graça do batismo. Por isso a Igreja pede o
mínimo de preparação para o batismo, pois os pais são os primeiros responsáveis por
esta semente lançada na terra, que é o coração de seus filhos. E a segunda orientação,
ainda mais exigente, diz respeito aos padrinhos de batismo, pois estes serão
colaboradores próximos dos pais – e na falta destes, os padrinhos são chamados
inclusive a assumir tal cuidado pelos afilhados.
Os pais têm responsabilidade de conduzir os filhos no cumprimento da Lei de Deus,
sobretudo pelo testemunho de vida. Eis, portanto, um critério decisivo também para a
escolha dos padrinhos de batismo: devem ser pessoas de testemunho cristão,
verdadeiramente católicas e de vida sacramental. Não dá para burlar essa regra – o que
muitos pais, por conveniência, ignorância ou negligência, acabam fazendo, e por isso se
descuidam da responsabilidade que têm sobre si de educar os filhos na Lei de Deus.
Certamente disso prestarão contas um dia. Pai e mãe que amam verdadeiramente os
filhos procuram escolher muito bem os padrinhos de batismo.
Alguém disse, certa vez, que o melhor mestre é aquele que fala sem usar palavras, ou
seja, pelo testemunho. Claro que, na educação dos filhos, principalmente em
determinadas etapas da vida, o que os pais mais precisarão fazer é falar. Não tenham
dúvida. Mas igualmente não tenham dúvida de que essa palavra deverá estar carregada
de sentido pelo testemunho do lar, ou certamente perderá força. Não funciona o “faça o
que eu digo, não faça o que eu faço”.
Pais que vão à Igreja aos domingos, que rezam em casa, que procuram cultivar um
ambiente de serenidade e diálogo e que se esforçam por vivenciar dia a dia os valores
morais e da fé já pelo próprio testemunho de vida mostram para os filhos a importância
de tudo isso. E os filhos certamente levarão isso para toda a vida. Diga-se o mesmo dos
pais que se dizem católicos, mas sequer vão à Missa dominical; os filhos poderão
assimilar, por tal comportamento, que a vivência da fé não é tão importante.
É verdade que pode suceder o contrário para uma e outra situação das quais
acabamos de falar. Pais que vivem a fé e os valores e que num dado momento veem os
filhos se rebelarem contra tudo que cresceram vendo e ouvindo. Aqui não vem ao caso

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emitir um julgamento, pois cada situação é quase única e carece ser realmente
compreendida. A verdade é que, mesmo que na adolescência ou na idade adulta os filhos
de pais católicos venham a se afastar por outros caminhos, inclusive religiosos, o que
causa um grande sofrimento para os pais, a semente da qual falávamos continua lá
presente. Esses pais não devem se esquecer jamais disso. Tão logo a semente encontrar
possibilidade de germinar, ela brotará. Estamos falando também da ação da graça de
Deus, e Deus é mestre em trabalhar com as brechas humanas.
Isso vale do mesmo modo para aqueles filhos que tiveram, por parte dos pais, a
formação moral e religiosa negligenciada. Não estamos falando de um caminho
irreversível. Estamos tocando de igual modo o campo da graça que, por outras vias, que
não a familiar, pode também alcançar uma situação de afastamento de Deus. Tenho
presenciado ambas as realidades: de filhos de pais verdadeiramente católicos que, depois
de longo tempo afastados ou até embrenhados por outros caminhos religiosos, decidem
fazer o caminho de retorno, porque se lembraram do que receberam dos pais ainda na
infância. Do mesmo modo, filhos que tiveram sua formação negligenciada no lar
puderam fazer uma experiência incrível de fé e valores na comunidade cristã ou mesmo
através de amigos. É a mesma semente para um e outro caso, que ao fim germinou e
brotou.
Esses exemplos que acabei de narrar, para consolo de uns e de outros, pais e filhos,
não devem fazer com que os pais relaxem, sobretudo nos dias de hoje, na transmissão da
fé e dos valores. Basta pensar na consequência da ausência da fé e dos valores na vida de
qualquer pessoa. Esta consciência adquire, não sem duras penas, as pessoas que fazem o
caminho de retorno após longo tempo afastadas da graça de Deus, da fé e dos valores.

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4. Criação de um lar

Certamente que, quando falamos no lar, vêm à nossa mente algumas palavras, como
aconchego, proteção, calor humano, segurança, entre outras. Podemos dizer que estas
realidades que se sintetizam no lar são tão enraizadas em nossa constituição humana que
já as percebemos ainda no ventre materno: lugar de segurança, aconchego, proteção e
calor humano, enfim, amor, sobretudo o amor mais entranhado, que é o amor materno.
É tão certo que não falamos de um lar ideal, mas real, que abarca em si
evidentemente também os desafios próprios do dia a dia de uma família: trabalho,
cansaço, desajustes, enfermidades, entre outras exigências e dificuldades. Mas é bem
verdade que são essas exigências e dificuldades que determinam ainda mais a tessitura
do lar. Em que outra hora da vida temos mais necessidade de aconchego, segurança,
proteção e calor humano senão diante dos desafios e dificuldades, quando precisamos
sair da zona de conforto e passar para uma realidade nova? Isso nos faz trazer em mente
os momentos de um parto, quando é hora de sair do aconchego do ventre materno, em
uma ruptura que tão logo carece dos braços da mãe e do carinho do pai.
Eu lembro bem, nos momentos de dificuldade que já enfrentei, o quanto fez a
diferença olhar para minha família e sentir ali, no lar, tudo de que mais precisava
naqueles momentos. Uma vez, já integrado à comunidade religiosa do seminário e
vivendo muito bem minha vocação no tempo da formação, deparei-me com a
necessidade de passar por um processo cirúrgico. Não obstante a acolhida de minha
comunidade religiosa, a oportunidade do aconchego do lar, sem dúvida alguma, fez toda
diferença para mim naquele momento, inclusive para minha recuperação.
Mais que falar de lar como dependências da casa onde habita a família, sem dúvida
estamos nos referindo a relações familiares. Há quem tenha uma bela e confortável casa,
mas careça de aconchego e calor humano. Do mesmo modo, também tive a oportunidade
de colher testemunhos de pessoas hospitalizadas por conta de enfermidade e que, ao
receber junto aos cuidados médicos a presença e os cuidados dos pais e dos irmãos,
tiveram uma reação de melhora significativa. Eis a importância do lar familiar.
No arco de toda a vida, mas principalmente nos anos mais formativos, é importante
que os pais se esforcem por edificar o lar com os tijolos da ternura, do respeito, do
perdão, da fidelidade, do serviço desinteressado. Todas essas são características do lar
cristão. Muitos se preocupam em construir o patrimônio material e acabam se
descuidando de criar um verdadeiro lar. O primeiro perde total sentido sem o segundo.
Construir o lar é mais importante.

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5. Educar para virtudes

O Catecismo da Igreja orienta a educação para as virtudes pela aprendizagem da


abnegação, reto juízo, domínio de si e condições de toda liberdade verdadeira (cf.
Catecismo da Igreja Católica, 2223). Na verdade, trata-se de condições prévias à
realização das virtudes. As virtudes são uma conquista e por isso precisam ser
facilitadas.
Assim como poderíamos definir o vício, oposto da virtude, como a repetição de um
mau hábito que acabou por tornar-se, de certo modo, irresistível, da mesma forma
poderíamos definir a virtude como uma repetição de um bom hábito, ao ponto de
também este tornar-se inteiramente assimilável ao comportamento. Enquanto para o
vício nos referimos a uma espécie de fraqueza, a aquisição da virtude denota força e
firmeza. Logo, os maus hábitos deveriam ser evitados; enquanto os bons hábitos,
conhecidos e incentivados, de modo a contribuir para as virtudes.
Educar para as virtudes parte do testemunho familiar ainda dentro do próprio lar e
encontra ressonância na diversidade das relações sociais fora dele. A educação para as
virtudes deve ser, primeiramente, reflexo das virtudes dos pais. Por isso, os pais devem
ser de comprovada virtude, de modo a contribuir eficazmente para que os filhos também
se tornem homens e mulheres de virtude.
Enquanto refletia justamente a respeito do que escrever aqui, deparei-me com a
queixa de uma mãe diante do uniforme oferecido pela escola de sua filha. Segundo
aquela mãe, e depois a própria filha, uma menina de onze anos, a saia era demasiado
curta, o que se pode chamar uma minissaia. Felizmente, mãe e filha concordaram a
respeito. Desse fato podemos perceber que a educação para as virtudes deve começar em
casa: o pudor e a modéstia nas roupas são adquiridos pela consciência da dignidade da
pessoa e do corpo humano, templo onde habita o Espírito de Deus.

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6. Ensinar a subordinar as dimensões físicas e instintivas às dimensões interiores e
espirituais

Daqui se vê o quão elevada é a educação cristã. Um animal, porque não possui


capacidade racional como o homem, se move a partir de instintos. O ser humano,
embora também traga consigo instintos naturais, sobretudo relacionados à vida e à sua
conservação, não se deve deixar arrastar instintivamente por causa da sua igual
capacidade de refletir e pensar antes de decidir.
É verdade que os instintos são uma força que, como toda força, precisa ser bem
direcionada, sob pena de no contrário trazer más consequências. A correnteza da água
sem controle, por exemplo, pode levar tragédia por onde passar. Pense numa grande
inundação. Por outro lado, a mesma força da correnteza bem direcionada pode produzir
energia elétrica, como no caso das barragens. Não deixa de ser uma grande força, que
porém é direcionada, bem empregada.
Para a fé cristã, as dimensões interiores e espirituais sempre tiveram precedência em
relação às dimensões físicas e instintivas. E precedência quer dizer prioridade, não
negação. O que de fato enobrece a humanidade é sua capacidade intelectiva e reflexiva,
em outra palavras, espiritual. Um homem que perde o foco interior e espiritual arrisca
tornar-se idêntico a um cavalo selvagem que sai da baia se debatendo e soltando coices
para todos os lados.
Portanto, a subordinação do físico ao interior e do instinto ao espírito é justamente
fazer com que o homem seja autenticamente homem e viva conforme essa dignidade.
Podemos exemplificar de diversos modos.
Num domingo são importantes para a família o descanso e o lazer, mas mais
importante é a Missa. Do mesmo modo, para o pai é coisa boa manter no dia de lazer
uma partida de futebol com os amigos, porém não em detrimento da Missa e do tempo
dedicado à própria família. Digamos que o físico se refere ao esporte; enquanto o interior
e espiritual, ao culto a Deus, mas também ao cultivo do convívio familiar.
Podemos levar o exemplo para a parte feminina. É normal que a mulher queira se
embelezar, tanto nas roupas quanto na própria aparência, e muitas passam horas no salão
de beleza e nas lojas de vestuário, além de fazer um exemplar trabalho no cuidado da
casa, mas não têm tempo para ler um bom livro, convidar a família para a oração e
catequizar os filhos, conversar com o marido durante o dia e quem sabe ir à Missa. Para
os dois casos usamos exemplos muito corriqueiros e que podem ou não expressar a
primazia do espiritual sobre o físico, do interior sobre o instinto.
Que dizer então das faculdades instintivas em relação às espirituais? Hoje em dia

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urge falar da concepção cristã acerca da sexualidade humana. A doutrina cristã reveste a
dimensão sexual de profundidade, caso contrário o homem se reduziria à natureza
animal. Porém, acabamos presenciando muitas situações em que o instinto não é
submetido à razão, ao sentido interior, ao espírito. As consequências são nefastas, seja
para a vida, seja para a família, seja para as futuras gerações.
Ao ser banalizado, o sexo se torna brinquedo perigoso nas mãos do homem que julga
poder fazer o que quiser sem maiores danos ou consequências. No entanto, as
consequências dessa insubordinação da carne ao espírito, do instinto à inteligência
produzem frutos amargos: prostituição, coisificação da pessoa, aumento das doenças
sexualmente transmissíveis, entre tantos outros.
O homem para ser homem e a mulher para ser mulher precisam se dar conta dessa
subordinação da carne ao espírito. E tanto mais as futuras gerações terão condições para
isso se tudo começar dentro de casa pelo ensinamento e o testemunho dos pais.

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7. Dar bons exemplos

Muito mais vale um sólido testemunho do que mil palavras que carecem dele. O lar é
a primeira, a mais fundamental e insubstituível escola de formação humana para os
filhos. “O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do
que os mestres, ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas” (Paulo
VI, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, 41). O testemunho na família é um
instrumento poderoso na formação dos filhos.
De diversos modos pode acontecer esse testemunho, inclusive no reconhecimento
dos próprios erros. Aliás, é o reconhecimento dos próprios erros que abre o caminho de
conversão pessoal e familiar. Uma família cristã não deveria se desmotivar nem mesmo
diante dos erros. Antes de tudo, deve-se evitar cometê-los, mas, se acontecerem, que
sirvam para uma revisão de vida, uma retomada de resoluções e uma virada de página.
Um pai ou uma mãe que sabe reconhecer seu erro diante do filho não pode entender
isso como demonstração de fraqueza ou mau exemplo, mas daí procurar extrair
testemunho de humildade, conversão e amizade. Isso certamente voltará para os pais em
atitudes futuras dos filhos, que certamente serão inspirados em confiança a também não
terem medo de reconhecer seus erros para seus pais.
É evidente que nesse contexto não incluímos aqueles pais que, num intuito de se
tornarem amigos de seus filhos a todo custo, acabam confundindo tudo. A mãe é sempre
a mãe, e o pai é sempre o pai. A mãe não pode querer assumir atitudes de mocinha,
tampouco o pai um comportamento adolescente. Muitos acabam incorporando de tal
modo esses papéis que até se vestem, se penteiam e se maquiam como os filhos. E
acham que assim podem mais facilmente conformar-se à necessidade de formação deles,
o que é um erro. Os filhos precisam de referencial paterno e materno sempre.
Outro caminho pelo qual se realiza o testemunho dos pais é a capacidade de iniciar-
se na solidariedade e na responsabilidade comunitárias. Veja que isso não começa na
associação de bairros e nem num voluntariado, um e outro são consequências do que já
foi realizado dentro de casa. Solidariedade significa a capacidade de se colocar no lugar
do outro e poder fazer algo, colocar-se a serviço. Nesse caso os filhos podem e devem
começar por aprender a colaborar cada qual ao seu modo, por exemplo, com as tarefas
do lar. E mais tarde, quando tiverem o primeiro emprego, ajudar no sustento da casa.
Caso os pais possam realizar algum tipo de trabalho voluntário na comunidade ou em
alguma instituição de caridade, é igualmente importante o acompanhamento dos filhos,
para que nunca cresçam fechados em si mesmos.
Igualmente aqui entra a vivência da fé, sobretudo por meio da primeira catequese, ou

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seja, aquela que acontece dentro de casa. Há pais que dizem mandar seus filhos para a
catequese para aprender a rezar. Um equívoco. Isso se aprende dentro de casa e com os
pais. É responsabilidade dos pais ensinar as primeiras orações e passos no conhecimento
da Igreja e da Bíblia. É inclusive nessa catequese basilar que também se inclui o germe
da vocação como descoberta e realização do sentido da vida.
Em se tratando da vocação pessoal, sobretudo, os pais não podem constranger os
filhos nem na escolha da profissão, nem na de um consorte. Os pais têm o dever da
discrição, ou seja, ajudar com conselhos prudentes e com a realização da própria
vocação, tanto matrimonial quanto profissional.
Por último, e não menos importante, os pais devem ter e proporcionar desde cedo um
vínculo com a paróquia, que é a representação concreta da comunhão com a Igreja. A
paróquia é a segunda casa; o próprio significado da palavra já diz: habitar junto. Não
obstante todos os desafios e dificuldades próprias do convívio humano, a paróquia é
também uma escola de vida e de amadurecimento integral.
Lembremos que tudo isso visa, de fato, prover, do melhor modo, às necessidades
físicas, bem como às espirituais dos filhos, assim como promover simultaneamente o
reto uso da razão e da liberdade humana. Não basta apenas estar provido de tudo,
sobretudo do ponto de vista material, e acabar por cultivar uma escala de valores caduca
que se utilize da razão para fins egoístas, do mesmo modo que da liberdade para o mal.
Mais do que nunca os pais católicos precisam tomar cada vez mais consciência da
sua missão perante si mesmos, mas também perante os filhos. Há no mundo de hoje,
estrategicamente articulada, uma engenharia que visa expropriar sutilmente a educação
dos filhos dos pais e submetê-la ao Estado, que por sua vez acaba submetido a uma rede
de ideologias interesseiras e intelectualmente desonestas com o próprio ser humano e a
reta razão. Essas ideologias são um ataque frontal à família, que segundo eles deve ser
desconstruída, sobretudo para que reinem práticas nefastas e terríveis, como o aborto e a
chamada “liberdade sexual”. A resposta cristã deve ser esta: reforçar cada vez mais as
muralhas da família, e os pais não abrirem mão de modo algum da formação de seus
filhos, sobretudo aquela primeira formação que segue acontecendo mediante cada um
dos pontos que apresentamos nesta parte. Coragem, pai! Coragem, mãe! Deus não
abandona a obra de suas mãos (cf. Fl 1,6).

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Deveres dos filhos para com os pais

O primeiro mandamento da segunda Tábua da Lei se refere diretamente ao ambiente


familiar: “Honra teu pai e tua mãe” (Ex 20,12). Esse mandamento indica a ordem da
caridade. Na verdade, o princípio da sociedade nova começa na família, e homens novos
são gerados no calor do lar e da honra devida aos pais. Prova disso é a afirmação do
Catecismo de que o quarto mandamento constitui um dos fundamentos da doutrina social
da Igreja (Catecismo da Igreja Católica, 2197).
O quarto mandamento é específico por trazer consigo também uma promessa:
“...para que vivas longos anos na terra que o Senhor teu Deus te dará” (Ex 20,12; Ef 6,1-
3). Ele é associado à plenitude da vida através dos anos, como também ao cumprimento
da promessa da terra. Sabemos bem que a promessa da terra se refere tanto às bênçãos de
provisão nesta vida como também à eternidade. A terra prometida prefigura do Reino
dos Céus. Por aí vemos o quanto é importante a relação entre pais e filhos tanto em
relação ao sentido e plenitude desta vida como também em relação à salvação, à vida
eterna.
Na plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4), o Filho de Deus assume a nossa natureza
humana em tudo, menos no pecado. Assume a família! Nosso Senhor Jesus Cristo
chamou São José de pai e Nossa Senhora de mãe. Disso não há dúvidas, mesmo que a
Sagrada Escritura não diga literalmente. Ele também nasce sujeito à Lei, dirá São Paulo,
portanto é claro que Jesus é um judeu devoto e, como Autor da mesma Lei, pois Ele é a
Palavra que se fez carne e veio para dar pleno cumprimento à Lei, vive juntamente aos
primeiros mandamentos que se referem à relação com Deus, a segunda tábua, a começar
pelo mandamento da família. E assim eleva ainda mais as relações familiares –
sobretudo a dos filhos em relação aos pais.
Jesus de Nazaré, o Filho de Deus e Filho do Homem, deu testemunho do quarto
mandamento. Assim se dirá Dele na sua adolescência: “Era obediente a eles” (Lc 2,51).
E acrescenta o versículo: “Sua mãe guardava todas estas coisas no coração.” É
certamente devido a essa memória materna da Santíssima Virgem que tomamos
conhecimento desse testemunho do Filho de Deus do quarto mandamento.
Depois de adulto, durante o ministério público, Jesus ainda demonstrará essa
honradez pela Sua mãe, a Virgem Santíssima. Nas bodas de Caná, Ele obedece a ela e,
por causa dela, antecipa Sua hora (cf. Jo 2,1-12). Diante da dureza de coração dos

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fariseus e escribas, corrige duramente uma interpretação errônea e, por isso mesmo,
morta do quarto mandamento (cf. Mc 7,8-13), e com isso confirma o seu valor pleno. De
Sua família e principalmente de Sua mãe, dirá: “São os que ouvem a Palavra de Deus e a
põem em prática” (Lc 8,21). De fato, ela pertence ao pequeno resto de Israel; ela, a
Virgem Maria, é a filha de Sião que permaneceu fiel – e de São José, a mesma Palavra
dirá: “Justo” (cf. Mt 1,19).
Por fim, no auge de Sua entrega a Deus pela salvação dos homens, enquanto estava
pregado na cruz, e a Virgem Maria, de certo modo, crucificada na alma diante da cruz,
Jesus a entrega aos cuidados do discípulo amado para que a recebesse e cuidasse dela
(cf. Jo 19,25-27). Mais uma vez o cuidado e o carinho do Filho pela Mãe, que não
poderia ser entregue à própria sorte após a morte do Filho único.
Se o Filho de Deus honrou Sua Mãe nesta terra, quanto mais não a honraria no Céu
após Sua ressurreição gloriosa. O dogma da Assunção da Santíssima Virgem Maria e a
sua coroação no Céu, entre outras coisas, é também o cumprimento na glória do quarto
mandamento, uma vez que Jesus Cristo é o autor e o consumador da Lei. Este é o
testemunho eloquente do Filho de Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade do
quarto mandamento.
A fé apostólica nunca traiu a palavra e o testemunho de Cristo a esse respeito. Antes,
o aprofundou. Numa espécie de compêndio sobre a vida familiar cristã, São Paulo
escreverá: “Filhos, obedecei a vossos pais, no Senhor, pois isto é de justiça. ‘Honra teu
pai e tua mãe’ – este é o primeiro mandamento que vem acompanhado de uma promessa
– ‘a fim de que sejas feliz e tenhas longa vida sobre a terra’” (Ef 6,1-3). O apóstolo
reitera o mandamento pelo imperativo “obedecei”, coloca Jesus Cristo como modelo e
referencial e, por fim, afirma categoricamente que isso é o correto para os cristãos que
foram justificados em Cristo.
O mandamento novo aprofunda e aumenta ainda mais o valor e a dignidade dos pais
e o sagrado vínculo do matrimônio, que os confirma na vocação e dota de graças de
estado para bem cumprirem sua missão. Em outras palavras, pai e mãe, e igualmente
paternidade e maternidade, são realidades plenamente humanas e elevadas a uma
dignidade altíssima. Pai e mãe são sagrados e precisam ser tratados como tal. Para os
filhos que foram formados no temor de Deus, essa sacralidade dos pais tem grande peso.
A honra devida aos pais, portanto, encontra suas raízes na Santíssima Trindade. A
paternidade humana encontra sua razão mais profunda na paternidade divina, e o dever
de honrar pai e mãe é corroborado pelo testemunho do próprio Salvador na Sagrada
Família de Nazaré. Por isso temos o dever de amar e respeitar aqueles que Deus revestiu
de graça e autoridade para o nosso bem.

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Como viver o IV Mandamento

Sabemos bem que aplicar um mandamento no dia a dia exige, antes de tudo, esforço,
porém esse mesmo empenho deve ser iluminado por uma consciência esclarecida a
respeito desse mandamento. Aqui, mais uma vez apoiando-nos no ensinamento da Igreja,
vamos elencar de modo bastante catequético pontos importantes na vivência do quarto
mandamento. Através de palavras-chave, vamos olhar para a relação entre pais e filhos e
propor algumas reflexões para a prática. Vamos perceber inclusive que o mandamento da
honra aos pais se abre num leque de relações dentro e fora do próprio ambiente familiar
– relembremos que por isso a Igreja diz que a doutrina social funda-se sobre o quarto
mandamento.

1. A piedade filial
É fruto do reconhecimento pelo dom da vida, pelo amor e trabalho dos pais que
sustentaram e permitiram o desenvolvimento dos filhos. Os pais são colaboradores
queridos no dom e na custódia da vida. E, se pararmos para fazer uma sincera reflexão,
os pais de certo modo também são associados ao mistério da salvação, pois também eles
entregam suas vidas por amor aos filhos.
Há filhos que não se dão conta disso, por causa do tamanho egoísmo que trazem
dentro de si. São incapazes de perceber o quanto sua vida custou e custa a vida dos pais.
E muitos desses acabam tratando a figura materna, sobretudo, como empregada. Mas ali
no serviço da casa, mesmo em meio à ingratidão dos filhos, está presente o mistério do
amor que se consome para dar a vida. Isso já é razão suficiente para uma profunda
reverência. Pensemos também no pai que passa horas do dia fora de casa no trabalho em
busca da provisão para o lar. É vida que se consome pelos filhos.

2. Obediência verdadeira e docilidade


A sabedoria popular israelita elevada pela inspiração do Espírito de Deus diz a
respeito da obediência dos filhos aos pais: “Meu filho, guarda os preceitos de teu pai e
não rejeites a instrução de tua mãe. Leva-os sempre atados ao teu coração, e pendurados
ao teu pescoço. Quando caminhares, te guiarão; quando dormires, te guardarão e, quando
acordares, falarão contigo. Pois o mandamento é uma lâmpada e a Lei uma luz” (Pr 6,20-
22). E mais: “Filho sábio aceita a disciplina paterna; o insolente não ouve quando é
advertido” (Pr 13,1).
A Sagrada Escritura é unânime em dizer que os filhos devem obedecer aos pais, que
têm o dever de atender a toda solicitação que serve ao bem da família. Por isso, desde

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pequenas, as crianças devem ser formadas nesta via de obediência, que se trata de acatar
com docilidade as palavras dos pais e procurar colocá-las em prática.
Há, todavia, uma possibilidade de objeção de consciência em relação ao quarto
mandamento (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2217). Trata-se da precedência do
primeiro mandamento em relação ao quarto. Um filho que sente o chamado de Deus para
a vida religiosa ou sacerdotal torna-se livre para contrariar a obediência aos pais, caso
esses ou apenas um deles se oponha a tal vocação. O filho deve ter muito claro diante de
si a maior importância do primeiro mandamento, que ordena amar a Deus sobre todas as
coisas, inclusive, nesse caso, em relação à família. Disso dirá o próprio Jesus: “Quem
ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Lc 10,37). Isso para lembrar
aos filhos e aos pais a seriedade com que deve ser levada a dimensão vocacional num lar
cristão, sobretudo em relação a uma vida consagrada inteiramente a Deus.

3. Antecipar-se aos seus desejos


Para isso é necessário estar muito próximo do coração dos pais. A verdadeira
obediência não é mero cumprimento de ordens e solicitações. É proximidade do coração.
Um filho que reduz a prática do quarto mandamento apenas a esperar que lhe peçam
algo, do contrário mantém-se passivo e inerte, não foi formado para viver o quarto
mandamento como convém que seja vivido.
Adiantar-se aos desejos dos pais significa conhecê-los, sabendo bem o que lhes
agrada e o que lhes desagrada. Assim, evita-se o que desagrada e procura-se fazer, com
máximo zelo e prontidão, o que agrada – se o que agrada não consistir em pecado. Para
formar os filhos nessa obediência, os pais também precisam dar a conhecer o próprio
coração, bem como os filhos precisam estar atentos às necessidades e desejos dos pais.
Um filho que está próximo dos pais, por exemplo, não espera que a mãe lhe peça
para fazer algo pela casa, como arrumar o próprio quarto ou ajudá-la com as compras do
mês; ele se adianta, chama para si a responsabilidade.
Precisamos falar também de uma dura realidade, a de filhos distantes dos pais, ainda
que morando sob o mesmo teto e passando várias horas juntos. É como se o filho criasse
para si uma ilha dentro da própria casa, tornando-se indiferente aos pais. Muitos filhos só
se dão conta disso com o golpe da morte dos pais. Aí já é tarde.

4. Solicitar de bom grado seus conselhos


Há pelo menos duas razões para a importância do conselho dos pais: a mais
fundamental de todas é o amor único pelos filhos, entranhado na própria natureza e
vocação dos pais; e também a sabedoria adquirida pela experiência de vida.

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Infelizmente muitos filhos acabam antepondo a palavra de amigos aos conselhos dos
pais. Isso é um erro, principalmente porque o amigo pode não ser tão experimentado pela
vida em certas questões quanto os pais e, mais ainda, devemos repetir: o amor paterno e
materno em relação aos filhos é único.
Ainda hoje, como padre, gosto de me aconselhar com meus pais. Vejam que eles não
fizeram nenhum curso acadêmico de teologia, mas possuem sem dúvida alguma a
“teologia do coração”, que acaba sendo adquirida pela vida de fé e valores. É verdade,
me lembro bem, que houve um tempo em minha vida, durante a adolescência, em que
carecia dessa consciência em relação aos meus pais. Tive que amadurecer. E tal
consciência chegou com o tempo. Mas nós, filhos, devemos adquiri-la o quanto antes,
tamanha importância e necessidade temos do direcionamento dos pais para a vida. Não
se trata de dependência total que alguns arrastam até a vida adulta, trata-se de auxílio
eficaz para o discernimento.

5. Aceitar as justas admoestações


Faz parte da missão dos pais corrigir os filhos. E assim eles devem proceder,
sobretudo em relação à vivência da fé e dos valores. Os pais não podem deixar para
depois e nem esperar que outros façam. Muito menos dar por descontada essa
responsabilidade, da qual terão de prestar contas ainda no curso da própria vida dos
filhos – e também diante de Deus.
Aos filhos cabe, como diz a linguagem popular, “abaixar as orelhas e ouvir”.
Sobretudo no período da adolescência, em que a rebeldia em relação aos pais pode
chegar ao pico, é necessário que o adolescente seja ajudado com muita sabedoria da
parte dos pais a abaixar a própria altivez para escutar e refletir, e com isso amadurecer de
forma oportuna e sadia a partir das correções paternas e maternas.
O fato de se dizer “justas admoestações” significa que os pais, mesmo desejando o
bem, podem acabar errando. De acordo com a maturidade própria de cada idade, os
filhos podem também fazer o discernimento da correção. Não se trata de subestimar ou
desmerecer a correção dos pais, mas aproveitá-la sempre, de qualquer modo, lembrando
que as razões paternas e maternas naturalmente seguem a lógica do amor que lhes é
inerente.
Não pretendemos em nenhum momento entrar nos méritos de determinados
acidentes nas relações paterno-filiais, como os mostrados nos noticiários
sensacionalistas, com pais que não amam seus filhos e vice-versa, dando a parecer que
esta é a regra geral. De acordo com a visão cristã da família e a própria ordem natural
das coisas, esses casos são sempre, ainda que a proporção pareça escandalosa, uma

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exceção e não regra. A regra, ou seja, a via natural, é a do amor, do afeto, da comunhão,
do vínculo familiar.
Ainda em relação aos filhos adultos, dirá a Igreja que a obediência cessa com a
emancipação deles, embora o respeito deva se conservar por toda a vida. A verdade é
que, já adultos, os filhos não podem continuar a ser tratados como na infância. A respeito
da emancipação, trata-se da idade adulta, mas não só isso, pode-se entender aqui a
emancipação psicológica e econômica, no sentido de se ter condições de dirigir e
sustentar autonomamente a própria vida, tanto de um ponto de vista quanto de outro.
E, mais ainda, a emancipação dos filhos se dá também pela formação da nova
família. Porque há casos em que, mesmo atingindo a idade adulta, há filhos que
continuam a ser sustentados pelos pais; nesse caso é importante, sim, fazer atenção à
obediência relacionada ao que falamos até aqui.

6. Os adultos e o quarto mandamento


A este respeito o conselho é que, enquanto puderem, prestem ajuda material (cf. Mc
7,10-12) e moral aos pais, sobretudo nos anos da velhice, durante o tempo da doença,
solidão e angústia. Nesse caso é desumano e antinatural o corte dos laços e a fuga das
responsabilidades para com os pais por parte dos filhos, principalmente se se trata da
enfermidade ou da idade avançada.
Trata-se, antes de tudo, da presença física e afetuosa para com os pais. Com relação a
isso, há adultos que pecam gravemente contra o quarto mandamento e, dependendo,
também contra o quinto, que é a defesa da vida, mais gravemente ainda quando se trata
da vida dos próprios pais.
Não precisamos ir muito longe para constatar essa triste realidade. Basta olhar para
determinados asilos de pessoas idosas. Aqui não se trata de julgar essas instituições, que
acabam prestando uma verdadeira obra de caridade, e sim determinadas atitudes dos
filhos em relação ao cuidado e carinho para com os pais. Estes filhos encerram os pais
idosos nestas casas e sequer fazem visita frequente.
Há quem precise de alguém para cuidar dos pais por motivos de força maior, mas se
esforce por não faltar com a presença física e o afeto. Ao contrário, há filhos que não
pensam em outra coisa senão em tirar de sobre si um pesado fardo. Eu mesmo já
presenciei inúmeros casos em que, no tempo da saúde, a casa de pais de famílias
numerosas estava sempre cheia, sobretudo no famoso almoço de domingo e nas festas.
Com a chegada da doença dos pais, cada filho simplesmente foi para seu canto. Num
cenário de briga em cima de briga, restou sobre um irmão ou outro o peso de toda
responsabilidade, ou os pais foram colocados em um asilo. São faltas graves, mesmo

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depois de adultos, de filhos em relação ao quarto mandamento.

7. Estende-se a honra, afeição e reconhecimento pelos avós e pelos


antepassados
Interessante poder perceber que o quarto mandamento alcança, por meio dos filhos,
as gerações passadas. Sobretudo em relação aos avós, a quem a honra, a afeição e o
reconhecimento também devem ser prestados.
Aqui, antes de tudo, convém ressaltar o vínculo entre netos e avós, que deve ser
estabelecido e formado também pelos pais. Há casais que acabam tecendo essa relação
somente a partir dos interesses, ou seja, de que os avós cuidem dos filhos mais novos. É
verdade que os avós entendem bem disso, afinal são experimentados no cuidado dos
filhos. Porém, não deve ser assim. Deve-se nutrir pelos avós uma verdadeira afeição e
comunhão familiar por meio das visitas desinteressadas, como também nos momentos
fortes da vida familiar, a exemplo dos aniversários e outras datas importantes.
É bom falar também de outro ponto importante, que se tem chamado de cura entre
gerações. Trata-se de uma espécie de reconciliação com a própria árvore genealógica.
Não podemos negar as raízes familiares, por mais dolorosas que sejam. Da mesma
forma, precisamos da cura onde há feridas e de romper com o que precisa ser rompido.
Nesse caso é muito importante que os filhos assumam um caminho de conversão em
relação aos antepassados, que talvez não tenham sido tão fiéis à fé e aos valores morais,
bem como se proponham a orar por eles, principalmente pelos já falecidos. O sacrifício
da Santa Missa é eficaz quanto a isso. As heranças negativas precisam ser
descontinuadas, ao passo que as positivas, como no caso da transmissão da fé, precisam
ser cultivadas ainda mais.

8. Estende-se às relações entre irmãos e irmãs


Como dissemos anteriormente, a família é o ponto de referência para todos os
demais relacionamentos humanos. E o respeito pelos pais ilumina todo o ambiente
familiar (Catecismo da Igreja Católica, 2219). Desse modo, toca também o
relacionamento entre irmãos, em que todos têm a obrigação de respeitar-se mutuamente.
Não obstante a precedência por questões de idade do irmão mais velho, o qual deve
ser uma referência para os demais irmãos, o respeito e a estima entre os irmãos são
iguais para todos. É muito triste uma casa onde os irmãos não se respeitam, não se falam,
não sentem saudade um do outro, não se querem bem. Há irmãos que ficam anos sem se
falar. É desolador, no tempo da necessidade, não ter na família com quem contar por
causa do vínculo fraterno que não foi cultivado quando deveria.

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É igualmente triste que irmãos que passaram a infância e a juventude brincando
juntos, comendo juntos e às vezes até dormindo juntos, pelo fato de na simplicidade do
lar precisarem dividir até mesmo a cama e as roupas, ao casarem-se, por conta de
caprichos das esposas (ou dos maridos), simplesmente vivam como se os outros irmãos
não mais existissem, incapazes mesmo de fazer uma visita, uma ligação telefônica ou
ainda escrever um e-mail.
Certamente a trajetória da existência humana não terá tanta delicadeza em lhes
chamar à correção. Muitos acabam se dando conta disso durante o velório dos próprios
pais, quando terão de se confrontar face a face novamente, e desta vez de modo muito
mais dramático com a própria história familiar. É hora de, diante do maior corte de laços
familiares, que é a morte, perceber que por causa de tão pouca coisa os mesmos laços
acabaram sendo igualmente cortados.

9. Estende-se para com as autoridades constituídas


“Não existe autoridade que não venha de Deus” (cf. Rm 13,1), no sentido de que é
dada por Ele, fundamentada Nele, que é a maior de todas as autoridades, e por isso
mesmo prestaremos contas a Ele. A autoridade, antes que um status, é uma
responsabilidade tremenda. Nesse caso incluem-se professores, patrões e chefes, pátria e
governantes. Aqui vemos de modo bem mais claro como a família é fundamental para as
demais relações sociais.
Num tempo em que são menosprezados por quem deveria obedecer e
instrumentalizados por quem deveria governar com retidão, os princípios da autoridade
acabam por desgastar-se e comprometer-se. Muitos dão essas justificativas para a
rebelião contra a autoridade constituída. A verdade principal em relação a quem exerce
alguma autoridade, por menor que seja, é que essa autoridade não pode ser arbitrária,
pois ao fim de tudo haverá a prestação de contas. Desse modo, não é a autoridade que é
algo mau em si mesma, mas o desserviço que prestam através dela. Em outras palavras, a
autoridade deixa de ser um instrumento de serviço ao próximo e passa a ser um fim em
si mesma.
Falando de família estamos transitando sobre o fundamento para os demais
relacionamentos, inclusive aqueles que têm a autoridade por princípio. Não podemos ter
dúvida de que, quanto melhor vivido o quarto mandamento, precedido sem dúvida do
primeiro de todos, teremos muito melhores condições de lidar com o princípio da
autoridade, tanto quem será chamado a exercê-la quanto quem será governado por ela.
Tudo na vida humana precisa de um ordenamento, por menor e mais corriqueiro que
seja, como hora para acordar, hora para ir para o trabalho, hora para as refeições, para o

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descanso etc. Desse modo, não podemos ver a autoridade como algo supérfluo, ou
mesmo como um tipo de mal necessário. A própria relação entre pais e filhos a
pressupõe, e de um modo muito natural; basta olhar a importância da disciplina dos
filhos.
Adquire-se desde casa o respeito basilar pelas pessoas que exercem algum tipo de
autoridade na sociedade, começando pelos professores e estendendo-se até as demais
autoridades constituídas. Por isso dizemos que o princípio das relações de autoridade é
uma extensão do modo como se vive o quarto mandamento. Quem aprendeu a respeitar
os pais aprendeu a respeitar os irmãos e a conviver bem com as pessoas. Será uma
consequência.
Devemos ponderar que estamos no campo das relações, toda relação é um
intercâmbio, uma troca. Portanto, o diálogo é parte substancial dessa relação. O respeito
pela autoridade constituída não quer dizer anulação de si próprio, mas antes uma
capacidade de saber colocar-se no próprio lugar perante ela, reconhecendo o devido
respeito, demonstrando as razões da obediência e estando disposto a procurar pelo
diálogo a qualquer momento.
Certa vez, um jovem casal entrou atrasado para a Missa, que já estava na homilia,
trazendo consigo o filho, que tinha cerca de cinco ou seis anos de idade. A criança seguia
os pais, com um saco de pipocas na mão, e os três decidiram se sentar no primeiro
banco, diante do púlpito. O padre, ao ver aquela cena, parou sua reflexão e pediu aos
pais que não deixassem a criança comer pipocas ali durante a Missa, pois o momento
não era apropriado. Os pais, por sua vez, deram-se o direito de ofender-se com tal
solicitação da autoridade eclesiástica e naquela hora, envergonhados (engraçado que
antes não!), levantaram-se, e um deles disse ao padre: “O filho é meu, ele come onde eu
quiser” – ou coisa do tipo. E aquela família saiu batendo os pés e inconformada com o
pedido do sacerdote.
Podemos pensar o que será daquela criança caso não haja uma intervenção formativa
que provoque uma mudança em relação ao princípio da autoridade. Enquanto depende
dos pais, pode fazer tudo que eles quiserem, inclusive ferir certas normas de convívio
social. Todos hão de convir que pipoca se leva para o cinema, para o parque, para o
filme na televisão, e não para a Missa! Aquela criança, vendo tal comportamento dos
pais, quando crescer e tornar-se “dona do próprio nariz”, certamente terá o princípio da
“autoridade” e da “regra” como ela mesma, as próprias vontades e caprichos. Eis a
receita perfeita para um delinquente em potencial. Isso nos prova, embora às avessas, o
quanto é importante o respeito pela autoridade constituída.

10. Gratidão pelo dom da fé, a graça do batismo e a vida na Igreja

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Por fim, e não menos importante, está este sublime reconhecimento: a melhor
herança familiar é a fé. E aqui incluem-se os demais familiares, padrinhos, pastores,
catequistas e amigos.
Que tristeza os pais que deixam uma conta bancária gorda e inúmeras propriedades e
bens para seus filhos, mas não deixam a fé como herança. Por outro lado, é uma
verdadeira bem-aventurança quando os pais sabem transmitir às futuras gerações a fé
que receberam dos antepassados e fazem disso uma prioridade na edificação do lar.
Benditos os filhos que, antes de todas as heranças, sabem reconhecer e ser gratos por
esta herança: a fé. É uma pena, e já temos repetido bastante essa afirmação, que muitos
deixem para reconhecer isso na hora da morte somente. E mesmo porque a dor e o
remorso acabam sendo tão grandes que a pessoa não tem nem mais onde se apoiar, senão
na fé que transpareceu durante a vida no rosto do pai e da mãe e que ficara marcada
durante a infância, embora esquecida e perdida durante a juventude e a vida adulta.
É importante conservar consigo, o máximo possível, o testemunho dos pais,
padrinhos, pastores, catequistas e amigos. E sempre agir com gratidão em relação a eles.
No expediente paroquial temos de lidar com diversas realidades. E acontece que
algumas pessoas dizem não se lembrar do dia da primeira comunhão e da crisma. Eu
complemento: quanto mais do catequista, do padre, da comunidade de fé... Isso também
remete à ingratidão de muitos filhos já dentro do lar. Eles têm memória fraca, têm
dificuldade de lembrar ou trazer diante de si todo bem que receberam dos pais. Da
mesma forma em relação à comunidade de fé. Não deve ser assim.
Temos de lembrar com gratidão, sobretudo na oração, aqueles que nos transmitiram
a fé, ou a segunda geração, como diziam os padres da Igreja. Assim como nascemos para
esta vida, a primeira geração, também nascemos para a fé, a segunda geração. Por isso,
devemos grande estima e gratidão por aqueles que nos transmitiram esta vida nova, e ter
sempre conosco o nome dos nossos padrinhos, catequistas, padres, entre outros.Às vezes
é muito comum recebermos pessoas nos confessionários que não sabem se confessar,
talvez porque não tenham mais a consciência esclarecida em relação ao pecado e mais
ainda a uma profunda interpretação dos mandamentos na própria vida. São pessoas que
acabam dizendo: “Não matei, não roubei, não cometi adultério, então não tenho pecado”.
A esse respeito Jesus ensinará que é preciso ir às profundezas do coração, de maneira
que até mesmo aquele que chama o irmão de “patife” ou “tolo” será réu em juízo (cf. Mt
5,20-26).
O que vimos aqui, com base no ensinamento da própria Igreja, nos ajuda a entender
um pouco melhor que, assim como todos os demais mandamentos, o quarto se abre num
leque de relações diante de nós, às quais devemos prestar muita atenção, sob pena de
transgredi-lo. Também percebemos que qualquer descumprimento do mandamento traz

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consequências em vários níveis. Nesse caso, de modo abrangente, mas sempre realista, o
caos já na relação familiar é princípio de caos para a sociedade. O que se vive dentro de
casa certamente ressoará também fora. O contrário é igualmente verdade: o princípio de
toda boa relação começa dentro de casa.

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Palavras que não podemos perder de vista

Lembro bem o meu tempo de infância em que eu dizia (e até hoje digo!) aos meus
pais e avós: “bênção, mãe... bênção, pai... benção, vô... benção, vó...”. O valor da bênção
é, sem dúvida, indiscutível, mas ali também está infuso o valor das palavras pai e mãe.
Nos dias de hoje é claramente perceptível uma inversão dos valores. O bom se torna
alheio, estranho, ultrapassado, rejeitável com muita facilidade. Da mesma forma, o mau
se torna atrativo e praticável sem encargo de consciência. Com o sentido das palavras
não tem acontecido diferente. Pense, por exemplo, na palavra amor, cujo campo
semântico na sociedade atual é vastíssimo e, por vezes, acolhe significados totalmente
opostos ao verdadeiro significado do amor.
O mesmo se diga da palavra liberdade: é livre quem faz o que quer, diz a
mentalidade mundana atual. Mas nós, cristãos, sabemos que é livre quem decide sobre o
que fazer ou não. É, portanto, livre quem sabe dizer não ao mal, à corrupção, ao pecado.
E poderíamos falar sobre tantas outras palavras, inclusive da palavra família e o que
estão pretendendo fazer com seu valor e significado.
Não se trata apenas de evolução histórica das palavras, que, na visão de “ideólogos”,
com o passar do tempo acabam mudando de significado. Por detrás de pensamentos
como esses se encontra uma engenharia muito bem pensada e que vem sendo
estrategicamente articulada para jogar com o significado de determinadas palavras e
assim interferir sobre as mentalidades e as relações sociais; destas, a mais fundamental é
a família. Basta pensar na família enquanto tal e o que hoje tentam definir como novas
formas de família. Além da falta de referências, há uma contradição fortíssima com a
família natural como homem e mulher, que, ao unirem-se pelo matrimônio fazem da
relação conjugal lugar de geração da vida.
A intenção deste capítulo é, portanto, refletir sobre algumas palavras e logicamente
seus autênticos significados, que não podemos perder de vista, mas trazê-los sempre
presentes, sobretudo para as futuras gerações. Vamos usar a Bíblia como temos feito até
aqui, pois ela lança luzes e enobrece ainda mais o que já está contido na própria natureza
humana. É uma questão de honestidade intelectual, coisa que os inimigos da vida e da
família não têm, sobretudo quando se rebelam contra as leis naturais inerentes ao
relacionamento entre homem e mulher, a procriação e a dignidade do corpo humano.

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Mãe e pai

Toda revelação bíblica mostra que – perdoem a falta de elegância com o português –
Deus tem cara de família. Isso para que todos entendam claramente que, muito além de
ser algo inscrito na natureza humana, a família encontra suas raízes e razão mais
profunda de ser na Santíssima Trindade.
A palavra pai aparece cerca de 1089 vezes em toda Bíblia, enquanto a palavra mãe
aparece cerca de 215. Em nada perde o valor a palavra mãe em relação à palavra pai se
compreendemos que a Divina Revelação acontece em uma cultura patriarcal, ou seja,
onde o homem, mais especificamente o pai, é o grande responsável pela família.
Ambas as palavras, pai e mãe, ora se referem à vida familiar humana, ora são usadas
para expressar o mistério de Deus, que trata Seus filhos como um pai. Um Pai que age
com sentimento entranhado de uma mãe. Trata-se do uso da analogia bíblica, onde se
recorre a realidades da vida humana para falar de mistérios que por si só excedem nossa
capacidade de total compreensão em relação a Deus. Assim, a analogia expressa, por
meio de figuras, a realidade à qual se refere; no caso de Deus, principalmente, sem
jamais abarcá-la completamente.
O Novo Testamento, com a Encarnação do Filho de Deus, definitivamente escancara
a Revelação de Deus como Pai, como nosso Pai do Céu, mas não perde de vista a
analogia ao amor materno para expressar o amor desse Pai por Seus filhos. Aqui deve
ficar claro de uma vez por todas que, com a Revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao
chamar Deus de Pai, não se trata mais de pura analogia, mas de realidade. Jesus é o Filho
de Deus, e Deus é Seu Pai.
É importante fazer aqui uma crítica. Não se trata de aderir a uma visão teológica
simplória e que fere a visão original da Bíblia quando se pretende dirigir-se a Deus como
pai e mãe ao mesmo tempo. Em nenhum momento a mensagem bíblica, e mesmo a
Tradição milenar da Igreja Católica, permite tal confusão. Jesus anunciou Deus como
Seu Pai e nosso Pai. Ainda que tenha aberto diante da humanidade a revelação da
grandeza do Amor de Deus, é estranho a Jesus, aos lábios de Jesus de Nazaré, e por isso
aos lábios dos cristãos, dirigir-se a Deus chamando-o de mãe. Deus é Pai.
É claro que a questão psicológica da complementaridade entre o masculino e o
feminino fica resolvida quando o próprio Jesus entrega a Seus discípulos Sua Mãe como
Nossa Mãe. Portanto, de certo modo, não somos órfãos de mãe, também temos uma Mãe
na ordem da graça: Nossa Senhora. Aprouve à bondade providente de Deus nos concedê-
la. Devemos ter muita clareza de que na ordem da graça está tudo muito bem definido e
claro.

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Assim como no Mistério da Santíssima Trindade não podemos confundir as pessoas
divinas, ou seja, o Pai não é Jesus, o Espírito Santo não é o Pai, assim também não
podemos perder de vista a ordem que a divina revelação colocou diante de nós: Deus é
nosso Pai. Assim, a paternidade humana deriva da paternidade divina e encontra nessa
todo seu sentido.
De outro lado, podemos compreender que Deus é nosso Pai também a partir da
relação familiar natural, que tem como cabeça da família a figura paterna. Não deixa de
ser um modo daquela analogia para se referir a Deus, mas uma analogia sempre revestida
de profunda raiz teológica, porque Deus revelou-se a nós como Pai, o Pai de Jesus e o
nosso Pai.
Ao afirmar o homem como cabeça da família, por motivo algum podemos entender
colocar a mulher em condição inferior. Não é isso. É apenas constatar que cada um tem
seu papel e missão na família. As primeiras páginas da Bíblia nos dão testemunho disso.
A percepção da maternidade é igualmente idônea na família a partir do momento em que
a mulher é colocada em igual condição ao homem ainda no Paraíso original, e ali mesmo
é chamada de Eva, que quer dizer “mãe de todos os viventes” (cf. Gn 3,20).
No entanto, mesmo a grandiosa revelação de Deus como Pai é gradativa. O grande
Deus de Israel segue se revelando aos Seus pequeninos filhos de acordo com Sua
capacidade de acolher tal revelação. Primeiro revela Seu poder, libertando os hebreus da
escravidão do Egito, depois revela Sua glória, como o Criador do universo. Em tudo isso
se delineia a Sua Unicidade, de modo que os outros deuses dos pagãos, diante do Deus
de Israel, nada são. Deus, em Sua revelação, não violenta as capacidades humanas. Ele
espera e prepara tudo com paciência. É um perfeito pedagogo. De modo que, somente
“quando se completou o tempo previsto, Deus enviou seu Filho” (Gl 4,4). E é dos lábios
de Jesus, pela força da Sua graça, que aprendemos o que significa e podemos chamar
Deus, também nós, como Nosso Abbá (Mc 14,36; cf. Gl 4,6; Rm 8,15).
Nesse caminho, não é estranho também para a Bíblia falar de Deus utilizando as
expressões tipicamente maternas. Se pegarmos, por exemplo, um trecho do profeta
Isaías, podemos perceber isso claramente.
Alegrai-vos com Jerusalém, fazei festa com ela, todos os que a amam! Participai de sua imensa alegria,
vós todos os que por ela chorastes! Assim podereis sugar o leite de seus seios acolhedores até a plena
satisfação. Podereis sugar e vos deliciar em seus peitos generosos. Pois assim diz o Senhor: “Levo a ela
uma torrente de felicidade, um rio transbordante, as riquezas das nações. Podereis mamar, carregados ao
colo, e sobre os joelhos sereis acariciados. Qual mãe que acaricia os filhos assim vou dar-vos meu
carinho, em Jerusalém é que sereis acariciados” (Is 66,10-13).

Estas são palavras do próprio Deus falando ao Seu povo através do profeta. Assim
podemos perceber expressões tipicamente maternas, como “sugar e vos deliciar em seus

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peitos generosos... ”. Isto traz à mente claramente o neném se amamentando ao seio de
sua mãe. Depois deixa claro os cuidados como os de uma mãe: “Podereis mamar,
carregados ao colo, e sobre os joelhos sereis acariciados. Qual mãe que acaricia os filhos
assim vou dar-vos meu carinho, em Jerusalém é que sereis acariciados”.
Se por um lado tal passagem da Bíblia mostra, pela imagem da mãe que amamenta,
Deus como provedor do Seu povo, por outro, com a imagem da criança ao colo e
acariciada sobre os joelhos da mãe, mostra Deus como o zeloso cuidador do Seu povo.
Há ainda outra passagem determinante em relação ao amor entranhado de Deus.
Mesmo que faltasse o referencial materno, Seu amor e Seu cuidado nunca faltarão:
“Acaso uma mulher esquece o seu neném, ou o amor ao filho de suas entranhas? Mesmo
que alguma se esqueça, eu de ti jamais me esquecerei” (Is 49,15).
Assim como Deus é o referencial substancial para o Seu povo, e para isso é
apresentada Sua imagem com analogias familiares, assim também o pai e a mãe são
referenciais substanciais na família. E isso podemos ver também nas primeiras páginas
da Bíblia:
Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher ele os criou. E
Deus os abençoou e lhes disse: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” [...] Por
isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne (Gn 1,27; 2,24).

O pai e a mãe são fundamentais na família. E sendo a família a célula fundamental


da sociedade, tolher-lhe o referencial paterno e materno como feminino e masculino, tal
e qual disposto pela própria ordem natural, seria tornar essa célula doente. E aqui não
cabe julgar, de modo geral e grosseiro, as diversas realidades, inclusive as mais
dramáticas, em que por qualquer motivo venha a faltar um dos dois, pai ou mãe. Mas
rejeitar uma concepção da família, alheia a esta constituição fundamental: homem e
mulher, que se tornarão pai e mãe e os filhos, frutos de tal amor e relação conjugal.
Os filhos precisam dos dois referenciais complementares, do pai e da mãe, do
masculino e feminino, que vivam equilibradamente o matrimônio e as relações que lhes
são inerentes.
Sobretudo nos primeiros anos dos filhos, é importante para sua formação tal
referencial; e, consequentemente, para o tecido social, que deve compor-se, sobretudo,
de bons e equilibrados relacionamentos. É primordialmente da família que devem se
delinear determinados estados psicológicos, como a segurança, os valores, os
referenciais que serão levados por toda a vida. Agora, pensemos se tirarmos
radicalmente essas figuras essenciais ou as distorcermos.
O Inimigo de Deus e da humanidade sabe bem que a família é projeto original de
Deus e que ela muito tem de Deus consigo, e por isso mesmo também sabe do estrago

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que pode fazer a toda a humanidade se começar por arruiná-la. Assim como o câncer é
um conglomerado de células defeituosas, que por isso já não se multiplicam mais de
modo correto, produzindo assim outras células cancerígenas, o processo de destruição ou
desconstrução da família não fará outra coisa com a sociedade. Assim como as células
de um câncer fazem perecer um corpo inteiro, assim também, se a família ficar doente,
será a humanidade inteira que perecerá.
Assim, a pesada engenharia que tem por objetivo implementar uma nova ordem
social começa por atacar a família e a religião cristã. A família por ser substancial na
formação das novas gerações, e a religião cristã por ser o baluarte da família.
Por isso mesmo, faz-se necessário que nos lares cristãos não se abdique jamais
daqueles pequenos, mas significativos, gestos que ressaltam sempre o valor da família e
sobretudo do pai e da mãe. Ensinar as crianças, tão logo aprendam as primeiras palavras
pai e mãe, que lhes peçam a bênção, e que a partir disso sejam ensinadas a respeitá-los.
E que os pais, por sua vez, não desanimem de dar testemunho de seu amor mútuo e pela
família.
A família cristã deve fazer uma sadia e firme resistência a certos projetos que visam
implementar uma ideologia antifamília em determinados ambientes, como é o caso de
algumas escolas. Lugares em que há tentativa de suprimir datas civis, como “dia das
mães” e “dia dos pais”, por conta de sua referência profundamente familiar, bem como
introduzir já no vocabulário escolar a ideologia do gênero, que nada mais é que uma
tentativa de negar as diferenças complementares entre masculino e feminino, alegando
assim que os outros “gêneros” seriam uma espécie de escolha livre de cada um a respeito
da própria sexualidade, a fim de sobrepor de modo generalizado a ordem da própria
natureza.
Por isso a catequese fundamental deve ser realizada ainda dentro de casa e,
sobretudo, nos primeiros anos, para que as crianças sejam formadas nos valores naturais
e do Evangelho, que nada mais fazem que enobrecer aquilo que é humano e natural, ou
seja, o que foi criado por Deus e não o que está distorcido violentamente por conta do
pecado e das ideologias.

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Corpo

São Paulo, na carta aos Gálatas, faz uma belíssima afirmação: “O que conta é ser
nova criatura, pois eu trago em meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6,15.17). É verdade
que o apóstolo está se referindo a seus sofrimentos, à semelhança dos sofrimentos de
Cristo. Mas, como ele fala também profundamente da vida nova em Cristo, em virtude
do batismo e do Espírito Santo, podemos igualmente considerar essas marcas como
marcas existenciais, no sentido de revelarem algo mais profundo que o próprio
sofrimento que manifestam consigo.
Mais uma vez as primeiras páginas da Bíblia, mostrando que a ordem relacionada à
família é natural e vem de Deus, nos ajudam a refletir melhor sobre a dignidade do corpo
humano. O livro do Gênesis diz que Deus “formou o ser humano com o pó do solo,
soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e ele se tornou um ser vivente” (Gn 2,7). E ainda:
“Deus disse: ‘Façamos o ser humano à nossa imagem e segundo a nossa semelhança’”
(Gn 1,26).
Desse modo, não é incorreto concluir que, como disse São Paulo, “trazemos as
marcas de Jesus em nós” não só em virtude dos sofrimentos, mas porque Jesus é a
“imagem do Deus invisível” (Cl 3,15). Deus quis manifestar sua face vestindo a nossa
humanidade. O divino tornou-se humano, para que o humano se tornasse divino. Essa é a
salvação que vem de Deus. E Deus salva o homem por completo: corpo e alma.
Os pais cristãos devem trazer consigo a consciência de fé, que é o sacramento do
batismo, a realizar – mediante a ação do Espírito Santo, no qual os filhos são batizados –
a santificação do corpo humano. É pelo batismo que os filhos se tornam templos vivos
do Espírito Santo, santuário de Deus.
Acaso não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o
templo de Deus, Deus o destruirá, pois o templo de Deus é santo, e esse templo sois vós (1Cor 3,16-17).

Mais uma vez a fé desponta como a maior herança dos pais aos filhos. Pela fé, o
batismo marcará, com um sinal indelével, a identidade dos filhos: são cristãos. Aqui
mais uma vez é importante falar dos padrinhos como apoiadores dos pais e guardiões da
fé dos seus afilhados.
A escolha do nome dos filhos também é importante: os pais cristãos devem pensar
em dar nomes de santos para seus filhos, e não de artistas e celebridades que pouco ou
nada contam para o bom testemunho da fé; antes, alguns são inclusive escândalos para a
fé.
O corpo humano é a nossa grande “carteira de identidade”. Falamos das categorias
de alma e corpo, mas o que se apresenta antes de tudo é o corpo. E mais, é o corpo que

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identifica a sexualidade humana como masculino ou feminino. Ordinariamente, pela
sexualidade, o homem será chamado a ser pai; e a mulher, a ser mãe. Essa realidade está
totalmente impressa na natureza humana tanto física quanto psíquica.
É importante lembrar que o batismo, ao tornar o ser humano templo do Espírito
Santo, eleva-o a uma dignidade altíssima no seu todo. Por isso o corpo é sagrado e
precisa ser tratado como tal.
Assim sendo, deve ser firmada já na catequese familiar a concepção de profundo
respeito pelo corpo humano criado pelas mãos de Deus, salvo pelo sangue de Jesus,
habitado pelo Espírito Santo e destinado à ressurreição final.
A catequese sobre a dignidade do corpo humano deve acontecer de modo simples,
mas bastante concreto. Os pais devem ensinar seus filhos a se vestir e se comportar
decentemente, sobretudo as meninas. As mulheres, no processo de violação do corpo
humano, têm sido as mais estereotipadas: desde a sua exposição por roupas indecentes
até operações plásticas com fins meramente estético-erotizantes – basta observar com
mais atenção determinadas veiculações midiáticas.
Os pais podem e devem intervir no vestuário dos filhos, mas é melhor formar desde
cedo a consciência deles, principalmente a partir do próprio testemunho, para não ter de
se confrontar mais tarde com o fato em si. Certamente será muito mais difícil e doloroso,
principalmente na adolescência. Por isso, é importante associar a essa tarefa educativa a
formação do próprio comportamento.
São os pais que desde cedo devem ensinar os filhos a se guardarem para o
casamento. E essa responsabilidade toca diretamente o mal da banalização da
sexualidade humana, infelizmente já aceita em lares que se dizem cristãos. Com a
banalização do sexo, é o corpo que está sendo violado, e a pessoa tem sua integridade
desrespeitada. Ao reforçar a catequese sobre a dignidade do corpo humano, os pais estão
preservando desde já os filhos dos efeitos da banalização da sexualidade. E atitudes
concretas nessa área, repito, começam no modo de se vestir, levando em conta o pudor e
a modéstia, enfim, o respeito pelo templo do Espírito Santo.
Certa vez eu estava num ambiente público com várias outras pessoas esperando
minha vez para ser atendido. Enquanto isso, havia um grande aparelho de televisão que
naquele momento transmitia o noticiário. Como sempre, o assunto era uma tragédia: um
crime sexual cometido, havia pouco, por um jovem rapaz a uma moça. É evidente que,
principalmente dada a frieza do crime, a notícia despertou uma reação geral na sala na
qual aguardávamos. As reações foram diversas, desde palavras de reprovação e
condenação fortíssimas até o semblante indicando um misto de indignação, nojo e
rejeição. Mas não pude deixar de perceber outra coisa. Assim que acabou a notícia, não
demorou muito para passar uma mulher seminua fazendo gestos sensuais naquela mesma

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TV e, diga-se de passagem, em horário nobre. Acostumadas com aquilo, as pessoas se
mostraram indiferentes, com exceção de homens que pararam boquiabertos até terminar
o comercial.
Não mais me esqueci do que presenciei naquele dia, pois me provocou uma reflexão
preocupante. Estamos numa sociedade que fica horrorizada diante de um crime de ordem
sexual, o que não é para menos, mas que não se horroriza mais com a exposição da
mulher, que vira facilmente material de propaganda, instrumento de consumo e objeto
sexual. E diga-se mais: numa sociedade que banaliza o corpo da mulher e o sexo, não é
para menos que aumente o número de atentados sexuais, sobretudo contra as mesmas
mulheres. Isso não é uma justificativa para nenhum crime. Jamais. Mas uma chamada à
reflexão mais responsável a respeito de determinadas posturas.
Se queremos defender a dignidade da mulher, precisamos fortalecer ainda mais a
catequese familiar sobre a dignidade do corpo humano. Esse corpo que não é só uma
coisa, um objeto ou pura matéria, mas muito mais, pois é identidade da pessoa humana, é
morada de Deus.
Na catequese familiar sobre a dignidade do corpo, os pais devem incluir a integração
da própria sexualidade dos filhos, partindo sempre do próprio testemunho. Um marido
que respeita a esposa; uma esposa que preza pela modéstia junto à beleza feminina; um
lar que não se deixa erotizar, principalmente pela televisão e pela internet; pais que não
falam palavrões nem tecem piadas indecentes diante dos filhos pequeninos e não
permitem que outros o façam; enfim, pais que sabem formar a consciência dos filhos
para a alta dignidade e respeito que o corpo humano e a pessoa no seu todo merecem.
São famílias que vivem sua vocação cristã e contribuem para frear a decadência dos
tempos atuais.

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Casa-família

Com frequência, na Bíblia, a palavra casa é usada tanto no sentido de construção de


pedra, lugar onde habita a família, como também para designar o lar e a própria família
(Gn 30,25; Ex 20,17; Pr 14,1; 27,8; Eclo 29,21; Sl 127,1; Jo 8,35; At 16,15). A casa é a
habitação, a proteção, o abrigo seguro, mas é também o lar, lugar da própria história e
dos laços familiares.
Nenhuma casa é bem edificada se o Senhor não é o construtor (cf. Sl 127). O
salmista é emblemático ao afirmar que Deus deve fazer parte da família e, inclusive, dar
sentido a todas as relações.
Jesus, ao enviar seus discípulos dois a dois, orienta-os a saudar com a paz em
qualquer casa em que entrassem. “Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A
paz esteja nesta casa’” (Lc 10,5). A paz começa em casa, na família, e a família é
indispensável na construção da paz.
Ao contar para os seus discípulos a parábola das duas casas, Jesus mostra a
importância dos alicerces seguros e perenes. A casa construída sobre a rocha passa pelas
mesmas intempéries que a outra casa; a diferença para permanecer de pé, ao contrário da
outra, que não resistiu e desabou, é a escolha do solo para lançar fundamentos (Mt 7,24).
A Bíblia deixa sempre muito claro que a rocha é uma metáfora do Cristo Vivo e
vencedor (cf. Sl 118,22; At 4,11; 1Pd 2,7). Por isso a família cristã não pode nunca
perder de vista seus referenciais mais profundos. Aqui se confirmam as palavras do
salmista de que “se o Senhor não construir a casa, é inútil o cansaço dos pedreiros” (Sl
127,1).
Portanto, o primeiro modo de se cultivar a paz na família e assim edificar a própria
família, resguardando-a das intempéries dos nossos tempos, é permanecer firme nos
valores, é ter bem claro diante de si o próprio referencial. Ao convocar a família a se
voltar para sua própria identidade e assim não perder de vista a própria missão, João
Paulo II conclamou na Exortação Apostólica Familiaris Consortio: “Família, torna-te
aquilo que és!” e complementa: “comunidade de vida e de amor” (n. 17). Penso que isso
sintetiza o significado e a força da família como casa e lar.
Já temos percebido claramente que há em nosso tempo uma ardilosa estratégia sendo
posta em prática para destruição da família. Não é difícil perceber os meios de
comunicação, sobretudo a televisão, mostrando a família como nada mais que uma
instituição falida. Pensemos em alguns exemplos disso.
Certa vez assistia a um programa de televisão em que entrevistavam casais que já
estão há bastante tempo casados. Entre as tantas perguntas que iam sendo feitas, não

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poderia faltar aquela: “E aí, já rolou traição alguma vez?” E diante da negação de ambos
os cônjuges – até porque se trata de uma pergunta, além de indelicada, constrangedora –
insistiam: “Mas nem um olharzinho de desejo de traição?” Como se a traição fosse algo
absolutamente normal; enquanto a fidelidade, coisa de outro mundo. Basta observar com
atenção muitos programas de televisão e determinar ali qual o padrão de família: uma
instituição falida.
Às vezes a concepção mundana de família pode ser tudo, menos o marido e a mulher
fiéis um ao outro, com seus filhos e um lar feliz, não obstante as lutas do dia a dia. A
família cristã deve ter a certeza de que não está só e muito menos pensar que o
Evangelho é algo impossível e ideal. Ao contrário, a família é revestida de graças de
estado para levar a bom termo a própria vocação e missão. É possível ser fiel por toda a
vida sob os vínculos do matrimônio, ainda que em tempos de grandes ataques contra a
dignidade da família. Não podemos perder isso de vista.
Como se não bastasse um preconceito e até mesmo rejeição da fidelidade conjugal, o
que fere frontalmente a relação entre marido e mulher, há ainda outra desgraça, que por
sua vez fere a relação entre pais e filhos: é o caso do aborto. É importante percebermos
um outro lado dessa tragédia.
Cada ser humano traz consigo um projeto de Deus a ser cumprido. O aborto, sendo
um grande destrutor da vida humana, é igualmente uma forte oposição ao projeto de
Deus. Pensemos nos futuros médicos, cientistas, padres, pais e mães de família. Pessoas
que, de certo modo, poderiam trazer consigo inúmeros benefícios para a humanidade, e,
no entanto, estão sendo dizimadas antes mesmo do nascimento. Por isso é imprescindível
que os pais, na edificação do lar, falem incisivamente sobre o maravilhoso dom da vida,
criando assim, desde cedo, uma mentalidade inegociavelmente pró-vida ainda dentro de
casa.
Não podemos perder nunca o significado de casa como habitação e lar, pois se trata
de referencial. E quem tem referencial não caminha perdido e nem deixa com que outros
se percam.
Há quem, após essa reflexão, possa dizer: Mas na minha vida nada disso aconteceu
até hoje... tenho sido um pai distante... um marido ausente de casa... tenho sido um filho
que só trouxe dores aos meus pais... sempre vivi distante da fé e da Igreja, e minha
família também... tenho andado nos vícios e no erro... Enfim, diversas podem ser as
feridas ocasionadas à família, ao lar.
Aqui é importante perceber que, embora a passagem do Evangelho com a qual
iniciamos esta reflexão, sobre o envio dos discípulos, não seja exclusivamente
relacionada à família, ela traz ao fim uma palavra de consolo e ânimo para muitos, que
inclusive não andam em dia com a própria missão em casa: “Jesus respondeu: ‘Eu vi

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Satanás cair do céu, como um relâmpago. Eu vos dei o poder de pisar em cobras e
escorpiões, e sobre toda a força do inimigo. Nada vos poderá fazer mal’” (Lc 10,18-19).
É verdade que esse versículo se refere à totalidade da missão apostólica dos
discípulos e à segurança da assistência da graça de Deus. Porém, a família está incluída
na totalidade da missão apostólica. Aliás, a família consiste em uma verdadeira missão
apostólica, sobretudo para o marido e a esposa, ou seja, os pais, a edificação do lar.
Desse modo, deve brotar em nós uma certeza: quando levantamos a bandeira da família,
Deus é o maior interessado. Ele caminha com a família até o fim.
Mesmo aqueles que tiveram uma vida errante até então, sejam os esposos entre si, os
pais ou os filhos, podem recomeçar se se arrependerem. É possível, todavia, que esse
recomeço se dê com o dissabor do que fora plantado anteriormente. Faz parte do
processo de conversão saber administrar as consequências do pecado na própria vida,
primeiro conscientizando-se dessas consequências (elas existem!), depois não querendo
evitá-las ou mesmo resolvê-las do dia para a noite. É preciso tempo, paciência e
maestria.
Muita gente que se dá conta de que andou em falta com a família acaba errando mais
ainda quando não tem paciência de esperar e mesmo, como dizíamos, administrar as
consequências da vida anterior de pecado e distância do lar e decide, a todo custo,
conquistar a felicidade de uma hora para outra. Como se construir ou reformar uma casa
fosse tão fácil assim... É preciso saber que Deus nos ajuda sempre, sobretudo em se
tratando da família, porém é preciso também se ajustar ao modo de Deus, muito mais
perfeito, consistente e autêntico que o nosso.
O ditado popular diz que “Deus escreve certo por linhas tortas”. É um modo de dizer
que Ele está no controle de tudo, e que até do mal Ele pode tirar um bem maior. É um
modo de nos fazer lembrar as primeiras páginas da Bíblia, que nos falam que Deus sabe
trabalhar muito bem com o barro da nossa existência. É isso que Ele faz quando cria o
ser humano do nada. E isso deve nos abrir para a esperança mesmo diante das próprias
fragilidades, limitações e erros.
As palavras que não podemos perder de vista, como propomos no início desta parte,
nos remetem ao significado mais autêntico que elas devem expressar. E falar de
significado mais autêntico significa saber ir por meio do que elas expressam – mãe e pai,
corpo, casa e família – às origens da própria existência humana. Quando o homem e a
família encontram tais referenciais diante de Deus e de si mesmos, eles não se perdem,
mas sabem por onde caminhar e aonde chegar, ou seja, dirigir a própria história na mais
profunda razão de ser.

76
Reflexões que geram conversão no lar

Todos nós sabemos a importância de um regente numa orquestra. É ele quem


determina a execução harmoniosa da melodia de uma canção em cada nota, cada arranjo,
cada compasso. Numa organização, seja ela qual for, também a figura de um regente é
indispensável, como aquele que lidera, orienta e planeja a execução das tarefas principais
e cumprimento de metas.
Com a vida familiar não é diferente. Ela precisa ser regida não só do ponto de vista
material, ou seja, por meio da figura dos pais como primeiros educadores dos filhos, mas
também por princípios fundamentalmente católicos, no sentido pleno da palavra, por
serem universais e norteadores para todos. Sendo assim, podemos dizer que há três
princípios fundamentais que devem reger a família cristã. Antes de qualquer outro passo,
estes princípios devem ocupar realmente o lugar que lhes cabe.

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A centralidade da experiência de fé

A fé não é abstrata, é real. Se a sua experiência é verdadeira, certamente determinará


significativamente sobre todas as dimensões humanas, e sempre para melhor.
Hoje, inclusive em ambientes católicos, há quem se limite a dizer que a fé é apenas
uma dimensão da vida humana como todas as outras. E assim deve conservar-se dentro
dos seus limites. Basta ver que aqueles que se dispõem a viver com sinceridade a própria
fé católica e conseguem traduzi-la, por exemplo, na vida familiar – através da oração, da
conservação dos sadios costumes, desde o modo de se vestir até o de comportar-se –,
podem ser chamados com facilidade de radicais, fora da realidade, fanáticos.
Basta viver de um modo um pouco diferente do convencional hodierno para ser
taxado com diversos rótulos. Por conta disso, muitos, em vez de trazer a experiência de
fé para o centro, acabam relegando-a para os cantos. Numa família cristã, a fé será
sempre o centro, inegociavelmente.

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A centralidade da pessoa de Cristo

A partir do momento em que se considera a fé cristã não como encontro com um


conjunto de ideias, mas com uma pessoa, Jesus Cristo, não só a experiência de fé assume
a centralidade, mas o próprio Autor da fé deve ocupar o centro. Assim como no sistema
solar os planetas giram em torno do sol, na vida de uma pessoa de fé tudo deve girar em
torno de Cristo, todas as escolhas, decisões e atitudes.
Há uma canção que minha mãe colocava para que eu escutasse quando criança e que
ainda trago muito presente no meu coração até os dias de hoje. Muito conhecida, ela nos
mostra como deve se realizar a centralidade de Cristo e da fé na família: “Amar como
Jesus amou, pensar como Jesus pensou, sonhar como Jesus sonhou, viver como Jesus
viveu. Sentir o que Jesus sentia, sorrir como Jesus sorria”. O resultado de tudo, a mesma
canção diz, é este: “E ao chegar ao fim do dia eu sei que eu dormiria muito mais feliz”
(Pe. Zezinho).

79
A centralidade da Igreja

É graças à vida e à missão da Igreja que podemos nos apoiar no conhecimento de


Cristo. O que seria de nós e do mundo sem a Igreja Católica? Não há outro modo pelo
qual a mensagem da salvação tenha chegado até nós senão pelas mãos da Igreja.
Como não podemos separar a fé católica de Cristo, do mesmo modo não podemos
separar Cristo da Igreja. E porque a Igreja é obra de Cristo, ela também deve estar
incluída nesta centralidade: Cristo-Fé-Igreja.
Essa centralidade se expressa no acatamento do ensinamento da Igreja, mas também
se realiza de modo afetivo. Quando chamamos a Igreja de “Mãe”, não podemos fazer
uso vazio das palavras, mas sentir verdadeiramente a Igreja como nossa Mãe, aquela que
nos gerou para a vida na fonte batismal e aquela que nos educa e nos alimenta por meio
de pregação da Palavra e da Eucaristia.
É a Mãe a qual honramos, defendemos e a quem somos profundamente gratos por
todo bem que nos faz. O próprio fato de chamar Deus de Pai todas as vezes em que na
Missa rezamos a oração do Senhor e a Igreja de nossa mãe deixa claro ainda mais que a
fé tem as feições de família.

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A pertença à Igreja – comunidade de fé

Há quem pense que, para pertencer à comunidade de fé que é a Igreja, é necessário


um vínculo visível no sentido de pertencer a algum grupo ou pastoral e realizar algum
trabalho concreto dos tantos que existem em nossas comunidades.
Antes de tudo, é preciso entender que a pertença à Igreja se dá mediante o batismo,
portanto o vínculo é sobrenatural, invisível, espiritual. É obra da graça. Por isso,
ninguém numa família pode ser privado do santo batismo. A graça, porém, pressupõe a
colaboração humana; assim sendo, o mandamento prescreve o modo mais simples e
fundamental de realizar a pertença à Igreja: a Eucaristia. Em poucas palavras, a
participação na Missa, sobretudo a dominical e nos dias santos de guarda. Depois disso,
verifica-se a realização das exigências batismais: serviço do Reino e missão
evangelizadora, que cada um deverá procurar colocar em prática a partir das próprias
condições. Aqui cabe uma série de reflexões sobre a necessidade e o papel da Igreja para
o bem da família.

1. O drama das pessoas que querem ir à Igreja e não podem, enquanto há


pessoas que podem ir à Igreja, mas não vão.
Aqui estamos falando do templo, da Igreja paroquial ou capela, local onde se reúne a
comunidade de fé. Não é muito difícil constatar essa triste realidade.
Sempre que visito um doente nos leitos dos hospitais ou acamado em sua própria
casa presencio coisa do tipo. Aliás, a presença de um enfermo que é uma pessoa de fé no
seio de uma família é um testemunho vivo e edificante quando ele se propõe a viver os
sofrimentos da enfermidade com os olhos e o coração na cruz de Cristo.
Se o doente é uma pessoa de fé, uma das primeiras coisas que dirá é que seu desejo é
ir à Igreja para uma Missa ou para uma visita ao Santíssimo Sacramento. Muitos chegam
a verter lágrimas manifestando seu amor pela comunidade de fé. Certamente eram
pessoas que antes viviam realmente sua pertença à Igreja, e por isso, na enfermidade, um
dos maiores sofrimentos passa a ser não poder estar ali. Muitos dizem sentir saudades da
Igreja.
Por outro lado, basta voltar para casa para perceber, pelas ruas e praças, pelos
barzinhos, clubes e academias, tantas pessoas esbanjando saúde e disposição sem sequer
lembrar-se da fé, da Igreja e de Cristo. Se fosse o contrário, as Igrejas estariam sempre
cheias.
Por isso, todos devemos pensar nesta possibilidade de um dia desejarmos e não
podermos mais. E os pais precisam despertar para essa realidade, assim como mostrá-la

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aos filhos. Para que esperar se não sabemos do amanhã? Se só temos o hoje?

2. Talvez “quando a corda aperta”, pode ser tarde demais e se tenha de amargar
os frutos do que fora semeado.
Costumo sempre fazer uma comparação, um pouco óbvia, mas que nos coloca diante
da realidade da vida: quem planta maçãs, colherá maçãs; quem planta limões, limões
colherá. Isto para não esquecermos que também estamos sujeitos à lógica das coisas.
Felizmente há pessoas que vivem um caminho muito bonito e sincero de conversão.
Após longos anos afastadas da Igreja, refazem o caminho de volta como o filho mais
novo na parábola dos dois irmãos (cf. Lc 15). Em muitos casos, porém, retornam com
situações estabelecidas e estruturadas que pouco, ou quase nada, se pode fazer para
reverter, a não ser administrar as consequências a partir da maturidade cristã que se vai
adquirindo dali por diante.
Exemplificando. Há casos em que a primeira família foi desfeita por qualquer
motivo. Suponhamos que por imaturidade ou incapacidade de sacrifícios por uma das
partes. Ou ainda por ignorância do sacramento do matrimônio, ou infidelidade e traição.
Certamente causas como essas poderão levar as partes em questão à constituição de uma
segunda ou mesmo outras famílias já depois do matrimônio. E, mais uma vez, não se
trata de emitir julgamento, apenas de buscar um exemplo para o que estamos tratando –
sabemos bem que cada caso é um caso e precisa ser olhado na sua singularidade e
respeito pelos envolvidos.
Continuando com nosso exemplo. Suponhamos que uma das partes, após longos
anos, acabe redescobrindo a beleza da fé. Certamente, se o casamento na Igreja foi
válido, essa pessoa e o atual companheiro estarão objetivamente impedidos da comunhão
sacramental. Uma situação como essa precisa ser bem administrada, com sabedoria e
prudência, por ambos os lados: pelo pastor e a comunidade que acolhe, bem como pelo
casal que retorna para a vivência da fé. Aqui, não se trata necessariamente de amargar os
frutos, mas entender, conforme o ensinamento do Evangelho, a própria situação e
procurar viver segundo o estado atual.
Vejamos outro exemplo. Uma pessoa decide deixar os pais por conta de uma
aventura amorosa que mais tem a ver com uma paixão adolescente, com o agravante da
relação sexual fora do compromisso efetivo do casamento. Principalmente a moça,
quando vem a ficar grávida e abandonada, cai em si e percebe o que fez. Aqui a
amargura não está jamais na concepção do filho como tal, mas sim no abandono do par
de aventuras e na mudança substancial de planos para cumprir com a responsabilidade
de cuidar da nova vida.

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Da mesma forma há casos em cujo excesso de liberdade sexual acaba por
desembocar em doenças gravíssimas. Ou ainda o mesmo exagero na liberdade acaba
levando ao crime e, por consequência, à prisão. Em casos como os que citamos, por mais
diversos que sejam, se a conversão chega depois, ou, como se costuma dizer, “pela dor”,
é preciso saber arcar com as consequências. Mesmo aqui a experiência de fé é algo tão
maravilhoso e belo que dará suporte, ainda que no amargor dos frutos. Todavia é
importante refletir: Para que chorar o leite derramado se podemos evitar a tempo que ele
derrame? E se ele, por qualquer razão, derramou, é preciso assumir e recomeçar a partir
de tal.

3. O drama dos pais que sepultam filhos ainda jovens. De outro lado, filhos que
esperam os pais morrerem para reconhecer o seu valor.
Hoje em dia, os meios de comunicação sabem muito bem noticiar tragédias ao lado
de acontecimentos corriqueiros ou até mesmo ao lado de boas notícias – isso quando
trazem alguma boa notícia, no sentido pleno da palavra. Desse modo, a sociedade acaba,
mesmo que inconscientemente, aprendendo a tratar uma tragédia do mesmo jeito que
trata um acontecimento qualquer. Frieza e insensibilidade que alguns programas, de
televisão principalmente, conseguem gerar na vida de muitos.
Porém, quando somos nós que estamos do lado da notícia, ou seja, quando nós e
nossa família experimentamos na pele a dor de uma tragédia, não há como permanecer
insensível. Por isso deveríamos tentar ir além dos próprios fatos e notícias e ser mais
sensíveis ao que acontece ao nosso redor. Sem, porém, abaixar as defesas psicológicas.
Ficar vidrado várias horas do dia nos chamados noticiários e programas “sanguinários”
igualmente não faz bem. Trata-se daquele formato de programa que só despeja tragédia e
sangue dentro de nossas casas.
Vamos continuar esta reflexão, desta vez partindo de um acontecimento trágico que
chocou o país inteiro, senão o mundo. Ainda é de nossa lembrança a tragédia que
aconteceu com os jovens numa boate no sul do país. Uma tragédia marcante e sem
precedentes, como noticiara a mídia, que inclusive acendeu um pouco mais a chama da
responsabilidade pela segurança e a vida dos outros, principalmente em ambientes de
grande aglomeração de pessoas. Nada disso, porém, é capaz de amenizar a dor dos pais
que perderam seus filhos ainda jovens.
É natural, no sentido de que faz parte da ordem da vida humana, que um filho sepulte
os pais – ainda que seja doloroso, mas é uma realidade natural da qual não se pode
escapar. Não é natural, de acordo com o decurso da vida, que pais sepultem seus filhos –
embora isso também aconteça. Agora imagine pais que, numa devida noite, veem seus

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filhos saindo de casa, vão preocupados para cama, e de repente chega a notícia da
tragédia.
Quem sabe não houve oportunidade nem mesmo para uma despedida, uma
reconciliação, um “eu te amo, meu filho”. E a notícia chega repentinamente. O mundo
desmorona ao saber que um futuro cheio de vida e possibilidades não existe mais. É uma
dor existencial que só os pais sentem, e ninguém mais poderá compreender – a não ser
que esteja em igual condição. Sim, há vários pais que vivem esta dor existencial da perda
de seus filhos queridos.
Nada nesse mundo pode se comparar à dor de pais que perdem um filho, sobretudo à
dor da mãe, ainda mais numa tragédia. Diante de uma mãe que chora a perda do filho,
não há palavras, há silêncio, há dor humana, dor profunda na alma. Esse é o lado dos
pais que, também por natureza e vocação, sempre amarão seus filhos.
Do lado de muitos filhos, o que acabamos constatando nem sempre é recíproco. Há
filhos que só no velório dos pais se dão conta do valor deles. Aí já é tarde demais. Veja
que aqui podemos perceber o fruto amargo da escolha de não honrar os pais durante suas
vidas. Após a morte de um ente querido, se a consciência não está tranquila, só resta
amargar as lembranças do bem que poderia ter sido feito, e não foi. É uma espécie de
penitência existencial que passa a ser imposta.
Nós, padres, estamos presentes nos momentos fundamentais de uma família. No dia
do batismo, vemos a alegria da nova vida que chega; também estamos perto da dor da
morte do ente querido. Muitas vezes, é nessa hora derradeira que percebemos a
importância da fé como herança familiar, do mesmo modo que os tristes efeitos da sua
ausência.
Às vezes acontece de entrarmos em velórios onde se situam mais de uma capela
mortuária e onde se encontram vários falecidos. Como nossa presença é sempre
solicitada pela família cristã, geralmente percebemos a dor, mas ao mesmo tempo um
conforto invisível. Há dor, há choro, mas há também a fé. Por outro lado também já tive
a oportunidade de presenciar nos velórios próximos choro excessivo, alto, lamentações e
dizeres que fogem um pouco do controle, inclusive assustando quem está ao redor. É
uma dor, de certo modo, expressa diferentemente dos outros.
Não se trata de julgar e muito menos generalizar nossa fala neste momento. Como
temos dito, cada caso é um caso e merece atenção particular. Mas é igualmente verdade
que o remorso é capaz de desencadear reações de desespero. É o momento em que, por
um golpe da vida, olha-se para trás e percebe-se de modo latente o bem que poderia ter
sido feito e foi negligenciado, endurecido, negado. É hora de externar isso com gritos,
choros altos, crises nervosas, desmaios e os mais variados tipos de descontrole
emocional.

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Porém, isso pode acabar acontecendo em lares de tradição cristã também. É o caso
dos filhos que se negam a viver o mandamento que diz para honrar pai e mãe – e
também para os cônjuges que deixam de viver o mandamento da fidelidade e do amor
mútuo.
Talvez esta parte do livro seja um choque para você que acabou de ler. É essa a
intenção. Não espere a morte para ser melhor, para tratar os outros bem. Aliás, não
espere nem o amanhã, ele ainda não é seu. Comece a amar mais hoje, agora. Sobretudo
os da sua família.

4. Obediência X desobediência – A obediência salva.


Ainda lembrando a tragédia com os jovens no sul do país, quando muitos tiveram
suas vidas ceifadas subitamente. Na noite em que muitas famílias começaram a
experimentar dramaticamente a dor da perda, aconteceu um fato, pouco noticiado. Trata-
se do pai que insistiu para que o filho, naquela noite, ficasse em casa e não saísse.
Após ver o noticiário com essa notícia do jovem que escapara da tragédia pela
obediência ao pai, me veio logo ao coração: a obediência salva. E aqui não se trata, de
modo algum, de julgar os jovens que escolheram ir para a festa em vez de ficar em casa.
O jovem tem essa característica de festa, de sair com os amigos, de se descontrair,
principalmente se ele passou a semana inteira pegando firme com os estudos e o
trabalho.
Não é difícil, todavia, perceber que outras tragédias acontecem pela desobediência.
Não que a desobediência em si seja responsável direta pela tragédia, mas sim que a
obediência a poderia ter evitado. Tudo encontra raízes num processo muito natural ainda
na educação das crianças. Por exemplo, quando uma criança abusa de brincadeiras na
janela de casa, os pais mais que depressa devem dar a diretiva: não brinque aí porque
você pode cair e se machucar.
A diferença é que a criança ainda não tem capacidade de discernimento, por isso
precisa de firmeza na aplicação da obediência, pelo bem dela. Em se tratando de um
jovem adulto, este deveria apoiar-se na sabedoria e na certeza do amor paterno e
materno. É nesse sentido que a obediência na família salva. Basta ver quantas pessoas
poderiam viver melhor se, em determinado momento da vida, tivessem escutado os pais:
vamos à Igreja; estude mais pelo seu futuro; faça atenção às suas amizades; cuide bem
da sua família; e assim por diante. Pena que muitos se dão conta disso já um pouco tarde.
A verdade é que a obediência pressupõe algo para o qual, no mundo de hoje, não se
tem tanta preparação dentro de nossas casas: o sacrifício. Vivemos no mundo da busca
desenfreada de vida fácil, prazer e solução rápida para os problemas. A obediência

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verdadeira, por sua vez, passa pelo sacrifício: o sacrifício de viver iluminado pela
Verdade.
Esse sacrifício passa pela dura constatação do pecado. Primeiro os nossos, depois os
do mundo. E fazer a opção de caminhar sob a Verdade consiste, em determinados
momentos, ter de pagar o preço da renúncia, da resignação e até da perseguição.
Voltando a um dos exemplos que vimos anteriormente. Há casais que, após longos
anos afastados da Igreja, redescobrem a fé, mas estão em situação matrimonial irregular
ou vivendo uma segunda união; nesses casos, a polêmica se dá com relação à
participação na comunhão sacramental. É verdade que para muitos isso se torna uma dor,
sobretudo se um matrimônio foi desfeito de modo doloroso. Não se trata de entrar nos
méritos aqui, como temos dito. Pastoralmente, cada caso é um caso e precisa ser visto
com atenção e sabedoria. Porém, o eixo da discussão não deveria verter-se logo na
possibilidade ou não da comunhão, mas no olhar para a própria situação do casal a partir
da Verdade, que é Cristo, e que nos é concedida pelas mãos da Igreja.
Não culpo, de modo algum, esses casais quando por qualquer motivo acabam se
desligando novamente de nossas comunidades ao não compreenderem a própria situação
à luz do Evangelho, mas sim aqueles que deveriam formar suas consciências a partir da
verdade dos fatos e do sacrifício da obediência e não o fazem – e quando tentam fazer
algo em favor do casal, fazem-no contradizendo a Igreja.
Uma autêntica orientação espiritual e pastoral nesse caso não é outra que esta: é
preferível sofrer sem a comunhão sacramental, mas obedecendo, a ter o gosto de poder
“entrar na fila da comunhão” na desobediência. Poderíamos ir até mais fundo e indagar o
sentido de uma comunhão com Jesus na Eucaristia quando há desobediência
conscienciosa à Sua Igreja. E veja que essa norma é para todos os cristãos, em todos os
sentidos, e já não só para as situações matrimoniais irregulares.
Poderíamos continuar elencando inúmeras outras situações sobre o contraste entre
obediência e desobediência e as consequências de uma e de outra para toda a vida,
começando desde a formação das crianças pequenas e percebendo a ressonância pela
vida toda.
A obediência, por nos colocar diante da verdade, gera vida e corrobora o amor. Um
pai, quando, na sua missão paterna, exige dos filhos o sacrifício de uma verdadeira
obediência, que jamais pode ser confundida com autoritarismo, certamente está
propondo um caminho de salvação.
As famílias cristãs não devem perder nunca de vista o valor da obediência. Voltemos
ao caso dos jovens que perderam suas vidas naquela noite triste para todos nós. Em suas
casas, tinham a segurança do amor; fora, nem tanto ou nada. Do contrário a segurança de
cada um deles teria sido a primeira preocupação e, no entanto, como fora noticiado, não

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tenha sido bem assim.

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Uma família vulnerável
ao inimigo

Quando criança, sempre tive curiosidade para entender o significado da cerimônia de


entrega das chaves de uma cidade. Na minha cabeça, uma cidade não tinha portas ou
portões, por isso não fazia sentido algum a entrega das chaves. Precisou o tempo passar
para eu entender que tal tradição vem de muito antigamente.
Há muitos séculos, a fundação de uma cidade era, de certo modo, algo estratégico,
principalmente num tempo em que as guerras eram iminentes. Havia, dentre outras, duas
grandes preocupações: estar perto da água, bem como poder ter uma visão privilegiada
da região ao redor. Por isso, muitas cidades começavam e cresciam em cima de uma
montanha ou numa planície próxima a um rio. A cidade no alto da montanha, na falta
das nascentes, precisava de amplos reservatórios para coletar e armazenar a água das
chuvas.
Outro fator determinante era a construção de uma muralha ao redor da cidade. O
motivo é bem simples: impedir a entrada do inimigo ou de visitas indesejadas. Por isso a
muralha era sempre bem planejada e construída; precisava ser fortificada e contava com
portas em locais estratégicos. Também eram construídas torres no entorno da muralha
que, dia e noite, abrigavam sentinelas para avisar sobre qualquer ameaça externa ou
coisa parecida. Havia tempo certo para a abertura e o fechamento das portas e outras
possíveis entradas. No tempo das ameaças externas, era impossível que permanecesse
aberta qualquer porta, sob o risco de perder todo território e o que estava dentro dos
muros para o inimigo que chegasse e entrasse para conquistar a cidade.
Até aqui é possível ver então a importância da porta ou das portas da cidade. E é
possível ainda vê-las em muitas cidades antigas. A Bíblia, inúmeras vezes, falará das
portas da cidade (cf. Gn 19,1; Dt 22,24; Js 2,5; Ez 48,31; Lc 7,12; entre outros). Assim,
podemos entender também a importância das chaves da cidade, principalmente para um
estrangeiro de bem e de paz que pedia entrada e recebia a confiança das autoridades e
dos moradores daquele lugar.
Ao inimigo jamais era concedido o direito de entrar na cidade. As portas para essa
hora precisavam ser firmes e resistentes, e na guerra as muralhas deveriam ser
inexpugnáveis. Sob pena de, caso contrário, ter de ver a destruição pelo inimigo e sua

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conquista.
Gostaria de utilizar essa imagem da muralha, da defesa e da vigilância não mais em
relação à cidade, mas em relação à família. Hoje é bem verdade que os tempos são
outros, e não presenciamos em nosso meio conflitos entre uma cidade e outra, por isso as
cidades não são muradas, mas apenas têm geograficamente demarcado seu território. E a
honra das chaves é, portanto, um modo de reconhecer alguém que, embora não sendo
cidadão daquela localidade, ali é estimado.
A família também, não obstante a demarcação da propriedade particular, não é
envolta numa muralha material como o eram as cidades antigas, embora necessite de
segurança física e moral para todos os seus membros e bens, sobretudo diante dos riscos
de violência. Nos dias de hoje, porém, a família necessita estar cercada ainda mais por
uma muralha espiritual e de valores sólidos, de modo que não seja sitiada, invadida e
arruinada pelos seus inimigos, não mais os antigos exércitos das cidades vizinhas, mas
toda mentalidade antifamília que tem sido gerada e desencadeada na sociedade atual.
O pai de família, antes de todos, deve ser o grande responsável e defensor, aquele
que deve pensar e executar o levantamento dessa muralha para proteção da família e das
futuras gerações que dela virão. Temos visto até aqui que a fé é a grande força, a maior
herança e a maior defesa. O pai, juntamente com a mãe, devem ser os primeiros a
promover e proteger a fé no ambiente familiar, de modo que os filhos, de acordo com o
crescimento, tornem-se também eles grandes sentinelas da família, seus grandes
defensores e promotores.
Uma das responsabilidades da administração política das antigas cidades era
promover o cuidado e o fortalecimento contínuo das suas defesas, e entre o armamento e
exército estava também a manutenção e a reparação das muralhas, das portas e das
torres. As partes deterioradas, e por isso mesmo vulneráveis, precisavam ser refeitas com
urgência, cuidado e maestria, pois nunca se sabia quando poderia aparecer o inimigo.
Partindo sempre dessa analogia, vamos propor uma avaliação da segurança da
muralha de defesa da família para, alertando-a a partir daquilo que a pode tornar
vulnerável, despertá-la para a vigilância. No capítulo seguinte, surgirão propostas de
como fortalecer a muralha para resistir aos ataques do inimigo em tempo de combate.

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Dez sinais de vulnerabilidade da família no mundo em que vivemos

1. Não ensinar e não viver o amor a Deus sobre todas as coisas


Antes de tudo, deve ficar claro que a palavra dos pais só terá forças à medida que for
confirmada pelo testemunho cotidiano. Pais que deixam a referência de Deus no lar se
perder colocam a família em situação de risco. A relação com Deus deve ocupar o
centro, e tudo mais gravitar em torno. Jesus mesmo disse: “Buscai em primeiro lugar o
Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt
6,33).
Deveria ser impensável uma família cristã que tenha Deus ao centro e seja
desajustada, desordenada, bagunçada e infeliz – não obstante os desafios e sofrimentos
comuns a qualquer família. A família que opta por não colocar Deus ao centro de tudo,
de fato, viverá como se Deus fosse um apêndice ou mesmo não existisse, além de
inevitavelmente ceder o lugar de Deus a outros ídolos. É o princípio do caos familiar,
que se tornará o princípio do caos social. Lembre-se de que tudo começa na família.

2. Não viver o domingo como Dia do Senhor e dia da família


A evidência concreta e mais simples em uma família que coloca Deus ao centro de
todas as coisas é a vivência do Domingo como Dia do Senhor e da família. A família
cristã, mais que por pura obrigação, entende a necessidade dos sacramentos, das orações,
da comunidade, e sabe bem que as próprias relações familiares nos mais diversos graus
serão revestidas de maior significado e valor a partir disso. Basta observar, por exemplo,
a diferença que uma homilia dominical pode fazer para os que ali se encontram com o
coração aberto – isso pode, por exemplo, ajudar muito nas decisões da semana. E não só
isso, mas também a ação da própria graça nos sacramentos e na vida da Igreja. O
domingo bem vivido é um oásis no ritmo da vida.
A família que se permite, sem uma justa causa, o trabalho dominical em detrimento
da Santa Missa e do convívio familiar permite também que as relações se tornem
superficiais e vazias. Principalmente se o pouco tempo que sobra nos dias livres é
dedicado à faxina da casa, à televisão e ao sofá. Lembre-se de que o primeiro item acima
falou da vulnerabilidade causada pela ausência de Deus; este segundo, por sua vez, diz
respeito à falta de qualidade e profundidade nas relações entre os membros da família,
principalmente os cônjuges entre si, e em seguida em relação aos filhos. Não se esqueça
de que, em tempos de combate, o que garante a vitória é a união dos soldados. Família
que não é unida é facilmente vencida.

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3. Não rezar
Às vezes acontece de ouvirmos de alguns pais das crianças da catequese a seguinte
frase: “Padre, coloquei meu filho na catequese para ele aprender a rezar e a ler a Bíblia”.
Isso já demonstra de antemão uma dolorosa realidade: pais que não rezam, famílias que
não possuem referencial de oração. Vejam bem que a catequese e todas as atividades
direcionadas às crianças na comunidade cristã, embora sejam de suma importância,
deveriam ser complementares. Em poucas palavras: aprende-se a rezar em casa.
Trata-se do já conhecido ditado: faça o que eu digo, não faça o que eu faço. Pobres
catequistas que têm a árdua tarefa de “ensinar” a rezar filhos de pais que não rezam.
Pode ser que a criança, na sua ingênua esperteza, responda com boa razão: não vejo
meus pais rezando, por que eu tenho que rezar? Eles não vêm à Igreja, por que eu tenho
que vir?
Verdade é que não raramente vemos um processo inverso. Muitas crianças é que
estão atraindo seus pais para a Igreja e para a oração. Mas não é esse o percurso natural.
São os pais que devem dar testemunho aos filhos.
Aqui vale recordar a música que, na verdade, descreve uma realidade vivida em
muitas histórias familiares: “Ave Maria, Mãe de Jesus... tenho saudades daquele
tempo...”. Imagine só uma pessoa que, mais cedo ou mais tarde, nos caminhos da vida e
principalmente nas dificuldades, tiver condições para lembrar que pode recorrer à oração
como conforto e resposta, porque aprendeu em casa. Sábia a frase que diz: Família que
reza unida permanece unida.

4. Ter tempo para ler revistas, jornais, livros, ir ao cinema, ao shopping, estar a
par de tudo, mas não ter tempo para ler e meditar a Palavra de Deus
A diferença entre informação e formação é que a primeira pode ser esquecida, e a
segunda se leva por toda a vida. Aliás, é a formação que dará capacidade para a leitura e
o discernimento dos acontecimentos e da própria história.
É bem verdade que muitos não são dados à prática da leitura. Torna-se muito mais
irresistível a partida de futebol, a festa e o passeio no shopping que uma boa leitura. Por
outro lado, é verdade também que em muitos lares há o incentivo da leitura e de estar
informado sobre o que se passa pelo mundo. Tanto num caso quanto no outro, porém,
acaba se revelando a falta de costume de ler e estudar a Bíblia em família.
Independentemente de questões históricas a respeito de quando se tinha ou não acesso à
Bíblia, o fato é que hoje ela se encontra acessível a quem desejar.
A Bíblia, além de conter verdades eternas de onde brota a fé e os valores morais que
norteiam o comportamento humano, é alimento espiritual e suporte para toda a vida.

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Quem lê e medita a Sagrada Escritura com certeza é mais iluminado nas decisões e
atitudes do dia a dia. Independentemente se num lar se faz mais atenção ao lazer ou ao
acesso à informação, se esse é um lar cristão, deve-se privilegiar a Bíblia. Seja pela
leitura pessoal, seja pela leitura em família.
A Bíblia forma o homem de fé (cf. 2Tm 3,17). Desse modo, uma família que deseja
fortalecer suas muralhas deve primar pela excelência da Palavra em seu meio.
Certamente falta mais discernimento para uma pessoa que ignora a vontade de Deus
contida na Bíblia do que àquela que conhece os caminhos por onde devem ir, ela e toda
sua família. É muito fácil constatar o acúmulo de informações, mas não saber como lidar
com elas. Às vezes, o tempo excessivo de lazer, como anestésico, tolhe a capacidade de
olhar para os acontecimentos, já de dentro de casa, de maneira mais profunda e
responsável.

5. Trabalhar, trabalhar e cansar. E não ter tempo para a família


Outro elemento enfraquecedor da família é o nível desmedido de trabalho, que faz
sobrar pouco tempo ou quase nada para estar com a família. Vive-se por longos anos em
função do trabalho e nada mais. Pode parecer exagero, mas há pais que não acompanham
mais de perto o crescimento dos filhos unicamente por conta do trabalho, deixando-os
relegados aos avós, creches ou babás.
Não se trata, é claro, de sermos deterministas e simplesmente declararmos guerra,
por exemplo, ao trabalho em dia de domingo ou ao trabalho das mães, que têm de se
ausentar de casa. Não é isso. A reflexão deve ser mais profunda e transparente. Até onde
o excesso de trabalho é realmente necessário, a ponto de deixar a família para segundo
ou último plano? Essa deve ser a pergunta fundamental. Muitos dizem sobre a
necessidade de pagar as contas e arcar com o sustento da própria família, mas, sabemos
bem, como o próprio Jesus já disse: “Não se vive somente de pão, mas de toda palavra
que sai da boca de Deus” (Mt 4,4). E aqui poderíamos parafrasear: Não só de bens
materiais vive o homem. É isso que Jesus quis dizer.
É verdade que, nos dias de hoje, a figura materna, como coração do lar, acaba tendo
de ajudar o marido no sustento da casa, bem como os filhos ao atingir a juventude, em
alguns casos a adolescência, por exemplo com os estudos. O fato de a mãe trabalhar
torna-se uma real necessidade e não um capricho derivado das ideologias feministas que
dizem que a mulher deve ser igual ao homem, e muito menos por caprichos consumistas.
Na família cristã, isso não cabe, pois cada qual tem seu papel, sua missão. Que é
insubstituível.
O excesso de trabalho tira a qualidade da relação familiar. Lentamente pode se

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perder o afeto, a afinidade, a liberdade. Às vezes, é melhor diminuir o ritmo e moderar a
administração mensal da casa do que ter de tudo, do ponto de vista material, e ficar sem
o essencial: a família. Uma pessoa que trabalha de domingo a domingo, quando tem um
tempo de folga, certamente não vai pensar na família, senão em querer descansar. Todos
sabemos que o descanso é uma necessidade fisiológica, e naturalmente esta acabará
falando mais alto. São aqueles casos em que se passa o dia inteiro no sofá, dormindo,
menos cultivando os laços familiares e o que é próprio da família.

6. Dar tudo o que os filhos ou a esposa querem, na hora em que querem, e não
saber impor limites
Talvez essa constatação esteja ao fundo da constatação anterior. O trabalho do
homem como provedor do lar tira o foco da sua primeira finalidade, a de sustentar o lar,
para custear caprichos de uma mentalidade de consumo.
As coisas vão mais ou menos por este caminho: minha casa tem que ser a mais
bonita da rua; meu carro tem que ser o mais novo da rua. A esposa quer ter as melhores
roupas e frequentar o melhor salão de beleza da cidade. Os filhos querem usar roupas de
marca, ter o último lançamento em eletrônicos. E assim por diante. Desse modo, a
administração do lar, que deveria concentrar-se antes de tudo no essencial – como
alimentação, saúde, educação e uma reserva financeira para o futuro –, acaba por dividir
em muito a atenção com o supérfluo, que por fim se confunde com o necessário, o
indispensável.
Assim, é preciso ganhar cada vez mais, e como não se pode ganhar mais sem
trabalhar mais, acaba-se por aumentar demasiadamente o tempo do trabalho. E pior,
parece que uma família assim vai perdendo as rédeas, vai ficando insaciável. No início
do ano comprou, em várias prestações, a TV de 50 polegadas, no segundo semestre já
quer a de 60. Os filhos sempre trocando o celular. A esposa aumentando cada vez mais a
coleção de sapatos. E o marido, como não pode ficar fora, também precisa ter o carro
sempre melhor que o do vizinho.
Dois princípios aqui são importantes para a vida familiar estabelecer-se em
harmonia: limite e simplicidade. O limite dá segurança, a simplicidade dá sentido. E
ambos ensinam o verdadeiro valor das coisas. Uma família que não dá importância para
esses dois princípios corre, sem dúvida, o risco de perder o controle e tornar-se vazia de
afeto, vazia de sentido de família.

7. Passar horas e horas diante da TV, internet e demais eletrônicos


A televisão, há longos anos, tem tirado a qualidade e a profundidade das relações

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familiares. Atualmente, outra coisa cumpre esse papel: a internet cada vez mais tem
privado as famílias da convivência que lhes deveria ser própria.
Há pessoas dentro de uma casa que passam horas e horas diante da televisão, da
internet ou do celular nas redes sociais, e que já não se dão mais ao diálogo. Ou o
diálogo é quase inexistente, ou se dá por monossílabos: “han, sim, não, vou, já, oi,
tchau”. Em muitos casos, as pessoas nem se dão conta do que está acontecendo ao redor.
Há filhos, por exemplo, que reduziram as mães a meras empregadas domésticas,
enquanto são elas que lavam suas roupas, passam, limpam a casa e preparam as refeições
na hora certa. Enquanto isso eles estão diante da tela do computador, jogando, nas redes
sociais, assistindo a filmes ou ouvindo música. Mal conseguem trocar mais de 10
minutos de palavras com a mãe e com o pai, enquanto numa rede social, por exemplo,
são capazes de chegar a altas horas da madrugada desperdiçando linguajar eletrônico,
para não dizer superficial, com quem não está perto, às vezes não se conhece, e
certamente não tem o mesmo amor de mãe e de pai. A verdade é que muitos vão
perceber isso – e aqui peço perdão pela dureza das palavras – quando um ou outro, pai
ou mãe, já estarão dentro do caixão prontos para o funeral.
Ainda assim, há também cônjuges que, em vez de sentar-se ao fim do dia para
conversar amigavelmente, saber do outro, planejar o fim de semana, falar sobre os filhos,
sobre a casa, sobre as coisas do coração e selar tudo com a oração e uma leitura da Bíblia
antes mesmo da relação conjugal e do descanso, se esvaem horas diante da TV ou da
internet com coisas que muito pouco ou nada tem a contribuir com a vida familiar.

8. Deixar o computador com internet em local isolado na casa ou fora do


alcance da visão
Isso acontece principalmente quando se trata de crianças e adolescentes. Também há
casais que viveram a triste realidade do adultério a partir de bate-papos na internet,
sempre em local escondido na casa. A tentação pode se fazer presente em qualquer lugar
e situação, e certamente não pensará duas vezes para usar a internet nos recônditos de
uma casa. Lembre-se de que a internet é uma porta aberta para mundo dentro de casa. E
por essa porta pode entrar tanto o que é bom quanto o que é nocivo à família e a si
mesmo.
Como estamos falando de reforçar a defesa da família, um modo de fazê-la é entrar
num acordo – primeiro os cônjuges entre si e depois comunicar e explicar aos filhos – de
manter a internet sempre em local visível dos outros. É um modo de a família se
preservar e se defender. Outro modo é nunca esconder a senha do que quer que seja: do
e-mail, da rede social. Principalmente os filhos dos pais. Entre o casal, não é necessário

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falar que a confiança mútua é fundamental no casamento. Na família ninguém deveria
ter nada a esconder um do outro, até porque, quando as coisas apertam pela vida afora,
os primeiros de quem nos lembramos são nossos pais e irmãos. Isso é família.
Há que se estar atento para o fato de que a rede de pornografia cada vez mais cresce,
sobretudo a pornografia infantojuvenil. A pornografia é a grande responsável por
inúmeros desequilíbrios na vida sexual de uma pessoa e depois na vida do casal. Os
aliciadores usam de todas as estratégias existentes para arrebatar os jovens com as
propostas mais atraentes possíveis.
O que dizer de notícias a respeito de jovens desaparecidos e outros abusados
sexualmente depois de encontros marcados às escondidas através da internet? Sem
contar os que deixam suas casas iludidos pelas falsas amizades feitas na rede e depois
voltam humilhados e traumatizados.
Já falamos também das traições e adultérios que começaram por meio do uso
desmedido e escondido da internet – Jesus disse, vale recordar, que o adultério começa
dentro do coração (cf. Mt 5,28). Para fortalecer, portanto, as muralhas da família, é
preciso saber lidar, com firmeza e honestidade, com determinados meios de
comunicação, sobretudo televisão e internet. Repito, sobretudo em relação aos filhos e
ao casamento. E aqui não se trata de demonizá-los, mas evitar o mal uso, que pode
reverter em frutos amargos, seja para vida pessoal ou familiar.

9. Não ter tempo para conversar


A família precisa ter tempo para conversar sobre tudo que possa ser edificante para
todos. O casal precisa conservar a respeitosa liberdade entre si, oriunda sem dúvida da
amizade verdadeira cultivada no tempo do namoro. Mas também com os filhos e entre
eles. É importante que essa liberdade para conversar seja respeitosa. Por exemplo: sem
uso de palavrões, de piadas indecorosas, sem maledicência, principalmente em relação a
algum membro da própria família.
Pode parecer um pouco arbitrário, do ponto de vista da precedência, ter deixado o
diálogo em família para quase o fim da reflexão. A verdade é que, se não houver
primeiro uma conscientização e depois uma purificação de determinados vícios e
comodismos dos nossos tempos presentes em tantos lares cristãos, nunca haverá espaço
para um verdadeiro diálogo.
A prioridade no diálogo deve ser o outro e não as coisas ou situações. Esse outro
adquire a fisionomia do marido, da esposa, do filho, do pai, da mãe, da família. Se não
houver um voltar-se completo, verdadeiro e interessado de uns para com os outros, ficará
difícil acontecer qualquer diálogo. Se os membros da casa se sentem mais atraídos pelas

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coisas materiais, pela televisão, pela internet, pelo trabalho do que uns pelos outros, não
é possível que haja comunhão, conhecimento e compreensão. É preciso uma metanoia,
uma mudança de rumo, uma conversão sincera.

10. Não propor a fé como algo essencial para a vida


Se me perguntassem qual a maior herança que eu recebi da minha família, sem
hesitar eu responderia: a fé. A maior bênção que eu recebi de Deus por meio da minha
família é a de ser católico. Não há o que discutir. Todas as outras bênçãos entraram e
entram por esta porta: a porta da fé, da fé católica.
Um lar que propõe como valores a posição social, o dinheiro, o consumo, as festas, a
relativização da moral e por aí afora é um lar deficiente. E mesmo uma família que se
diga cristã, ainda que cultive valores, como o trabalho honesto, a educação como base
para a vida, os laços familiares, mas não põe a transmissão da fé entre suas prioridades, é
uma família manca, que corre o risco de viver pelas apalpadelas, sobretudo nos
momentos de prova.
E percebam que a prova pode vir tanto no momento da dor e do sofrimento como no
momento da bonança e da alegria. Pense, por exemplo, no tempo da enfermidade, ou
ainda na dureza da traição ou do desemprego. Da mesma forma faz muito bem pensar no
risco de se deixar Deus de lado quando tudo vai bem, como no tempo da prosperidade.
A fé como luz traz consigo uma capacidade de visão integral e integradora, dá
sentido e o devido valor a todas as dimensões da existência humana. Por exemplo, a fé
como luz da verdade faz de um jovem estudante um bom aluno, um estudioso
comprometido com a própria formação e com o ambiente onde convive. Não há dúvidas
de que no futuro esse mesmo jovem virá a ser um bom cidadão, um bom profissional, e
assim sucessivamente.
Alguém aqui poderia questionar, e com razão, que qualquer um, independentemente
da fé, pode seguir o mesmo caminho. É verdade. Mas, diante do mundo em que estamos
vivendo, onde se tenta a todo custo ruir com valores fundamentais da existência humana,
como a vida e a própria família, a fé é decisiva para uma postura firme e coerente com o
verdadeiro bem das pessoas e do mundo. A ausência da fé, por sua vez, pode facilitar o
enfraquecimento da razão e consequentemente das decisões.
Se quisermos fortalecer a família diante dos ataques do inimigo, precisaremos propor
e vivenciar o amor a Deus e a fé como uma unidade essencial e envolvente para toda a
vida.
Gostaria de terminar esta parte com um alento para aqueles que constataram, após
esta leitura, que suas famílias se encontram em situação vulnerável em vários dos pontos

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vistos acima. Principalmente se você é pai ou mãe e detém responsabilidade maior tanto
no casamento quanto na formação dos filhos. “Um erro na vida não pode ser sinônimo
de uma vida infeliz” (Pe. Zezinho). Recomece já a fortalecer as defesas da sua família.
Tenha coragem. Deus está com você.

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Fortalecendo as muralhas da família

Após constatarmos os principais pontos fracos na vida familiar e o que pode


contribuir para tal enfraquecimento, vamos ver algumas atitudes práticas que fortalecem
a família e as suas defesas diante dos constantes assaltos do mundo de hoje bem como
das exigências que são próprias do ambiente familiar – para não pôr a culpa só nos
inimigos da família, em detrimento da responsabilidade pessoal que cada um tem.
Para isso é preciso ter bem claras as bases da vida familiar. A Igreja nos ensina que
originalmente as bases são duas: a unidade do casal e sua fecundidade procriativa. Daí
derivam outras duas em relação aos filhos, futuras gerações: a custódia da vida e a
educação da prole. Perceba-se que a fidelidade conjugal e a indissolubilidade do
matrimônio estão não só subentendidas, mas são de fato o sustento e a responsabilidade
de toda edificação familiar.
Em poucas palavras, os que desejam formar uma família deverão ter clareza e
compreensão do que verdadeiramente significa formar uma família, suas alegrias e
exigências, bem como os pais, com palavras e com a própria vida, deverão ser capazes
de formar os filhos para o matrimônio e a vida familiar.
As atitudes que discutiremos a seguir são de ordem bastante prática e por isso
mesmo necessitam de fundamentação e compreensão por meio do que seja de fato a
família.
E, para nós, cristãos, são fundamentais para compreender a família, a Palavra de
Deus e a palavra da Igreja. Na verdade, a palavra da Igreja nos ajuda a aprofundar ainda
mais em nossas vidas a Palavra de Deus e nos mantermos no caminho da fé e da
verdade. Estamos falando de um apoio seguro. De um lado, conhecimento; de outro,
esforço de uma prática coerente com a fé. Jesus mesmo disse: “É pela vossa
perseverança que conseguireis salvar a vossa vida” (Lc 21,19). Poderíamos também
parafrasear: é permanecendo firme que a família será vitoriosa.

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Dez atitudes para fortalecer a família

1. Viver na graça de Deus


Aqui se encontra a síntese de tudo que falaremos a seguir. O estado de graça é a
amizade com Deus e a perseverança na Sua Palavra. Os sinais claros e evidentes da vida
na graça são os sacramentos da Igreja. Portanto, são essencialmente importantes para a
vida na graça do casal e depois de toda a família os sacramentos da iniciação completos
(batismo, eucaristia e crisma), além da prática da confissão sacramental e o próprio
sacramento do matrimônio.
Estar na graça significa colocar Deus ao centro de tudo. É impensável para um casal
de noivos cristãos que queira constituir um novo lar contentar-se com a união civil e,
muito menos, iniciar a coabitação conjugal. Para estar na graça de Deus, antes de tudo, o
casal cristão deve celebrar o matrimônio cristão.
Nos dias de hoje, principalmente por causa do apelo consumista da sociedade e da
mídia, que impõe a todo custo os seus modelos de família, muitos casais escolhem não
se casar na Igreja. Isso se deve também, em grande parte, à deficiência e mesmo à
ignorância a respeito do sacramento e da prática pastoral da Igreja. Por isso há casais que
resumem o matrimônio ao vestido da noiva, ao dia de beleza no salão, aos ornamentos
da Igreja, às músicas seculares na cerimônia, à viagem de núpcias, às pompas caríssimas
e desnecessárias, e o mais importante não é levado em conta: constituir-se família sob as
graças de Deus. É difícil falar em vida na graça para quem se recusa o essencial para a
família cristã, que é o sacramento do matrimônio.
Quem vive na graça de Deus não pode ser atingido pelo Mal. A graça torna-se uma
couraça, porque é um estado de vida. Por isso o ensinamento católico de sempre muito
usa o termo estado de graça; nossos avós falavam, sobretudo, em morrer em estado de
graça, mas as gerações atuais pouco falam desse modo, porque pouco sabem ou ignoram
que é meta do cristão esforçar-se por viver em estado de graça.
Ser preservado das investidas do inimigo não é o mesmo que ser poupado da prova.
Uma coisa é a ação direta do Maligno, ou seja, as ações diretas do demônio, como
feitiços, magias, maldições, pragas e tentações. Nada disso pode tocar uma alma em
estado de graça, e o mesmo se diga de uma inteira família em estado de graça de Deus.
Por outro lado, uma família cristã, como qualquer outra família, está sujeita ao
sofrimento e às dificuldades que fazem parte da existência humana, marcada pela própria
fragilidade e pelo pecado. Mesmo assim, o estado de graça proporciona que a prova
amadureça ainda mais a fé. É como dirá o apóstolo: “Sabemos que tudo contribui para o
bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28). Quem vive na graça resiste ao demônio e

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persevera no tempo da prova.

2. Viver a Eucaristia
“A Eucaristia é a fonte e o ápice da vida cristã” (SC 10). Por isso, não basta somente
ir à Missa, é preciso celebrá-la e vivê-la no cotidiano. A Missa é a maior de todas as
graças que Deus poderia nos conceder. Por isso, os pais devem desde cedo formar os
filhos para a Missa, sobretudo a Missa Dominical.
Desde a tenra idade, minha mãe me formou para a Missa. Lembro-me, como se fosse
hoje, do bonito costume da roupa de Missa. Era sempre a melhor roupa, a roupa nova, a
mais limpinha e bem passada, tratada com todo o cuidado, pois era para ir à Igreja. É
claro que por trás dessa simplicidade está escondido algo muito mais sublime, o fato de
que para Deus devemos oferecer sempre o melhor que temos. Nessa consciência eu fui
educado.
Hoje posso testemunhar o quanto isso me ajuda na vida de padre. Posso dizer que
faço do meu ministério este moto: para Deus o melhor. Que bom seria se os pais
continuassem esta prática tão eloquente na vida infantil: a roupa de Missa – porque se
vai à Missa. Porque o domingo é um dia diferente de todos os outros.
O próprio domingo e tudo que lhe concerne em toda semana são revestidos de
significado por meio da Missa. Não se trata somente do fator sensível – se a equipe de
liturgia preparou-se bem, se a homilia foi boa, se o ministério de música cantou bem, se
a Igreja estava cheia. Trata-se, antes de tudo, da ação misteriosa da graça de Deus, a qual
nos reveste de modo maravilhoso em cada Missa de que participamos. Precisamos só
estar lá com o coração aberto, com piedade e devoção.
Viver a Eucaristia significa também viver bem o domingo, Dia do Senhor. Para uma
família verdadeiramente católica, o domingo é por excelência o dia da Eucaristia.
Obviamente é também dia de descanso e dia da família. Desse modo, todas as demais
atividades oscilam em torno à Missa e ganham sentido a partir dessa experiência de fé.
Em outras palavras, existem três prioridades para a família organizar seu domingo:
primeiro, a adoração a Deus através da Santa Missa; segundo, fazer do próprio domingo
um dia de descanso, interrompendo o ritmo do trabalho para repor as forças; terceiro, e
não menos importante, incluído na dinâmica da Eucaristia dominical e do descanso, o
cultivo das relações autenticamente familiares.
É importante que a família saiba programar, unida, o seu domingo, assim como os
outros dias de descanso, como as férias, de modo que o ritmo do trabalho, embora
necessário, não diminua o Dia do Senhor e o dia de descanso, por isso mesmo dia
especial para a família. E deve ficar claro: não se deve sobrepor nem o trabalho, nem o

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próprio lazer ao culto a Deus. É importante que as crianças cresçam vivendo essa
realidade.
Dentro do programa da família podem constar muitos momentos, como passeios,
visitas aos parentes e amigos, encontros familiares, almoços, entre tantas outras
iniciativas. Que bom seria perceber nisso tudo, pela própria quebra do ritmo cotidiano
semanal, uma retomada do fôlego para prosseguir. Podemos aqui lembrar uma frase que
gira pelos adesivos de carros e redes sociais: “Domingo sem Missa, semana sem graça”.

3. Confissão
Se precisamos parar durante o ritmo semanal para retomar o fôlego, igualmente
precisamos ter o hábito de parar para fazer um exame de consciência para retomar o
caminho. Talvez muitas situações de desgaste e rupturas na vida familiar tenham origem
na falta de revisão de vida tanto individual quanto familiar.
O bom hábito da confissão é justamente a capacidade de rever a própria vida
constantemente para daí extrair a oportunidade de recomeçar, de refazer o caminho, de
converter-se, de se tornar melhor. E que bom seria se os cônjuges e os filhos, a partir do
testemunho dos pais, fossem formados nesse santo hábito.
O sacramento não proporciona somente a possibilidade de exame de consciência,
mas a eficácia da graça. Ou seja, é sempre possível um novo recomeço com o auxílio da
graça de Deus.

4. Romper com o pecado


A fraqueza humana e as tentações, sejam elas quais forem, sempre existirão. Ainda
mais se a pessoa já se encontra vulnerável e fraca. A diferença entre uma família que
conseguiu se refazer depois de uma crise e uma que se desfez numa crise talvez se
encontre aqui: na capacidade de romper com o pecado. Isso pode se dar de diferentes
modos.
Às vezes uma crise conjugal teve origem no pecado da falta de reconciliação e de
diálogo. E como uma tentação atrai outra tentação, e um pecado atrai outro pecado, é
bem provável que, com a suposta carência de um dos cônjuges, gerada pela ausência na
presença e falta de afeto, chegou a tentação da traição, da aventura extrafamiliar. Ou
ainda o vício do álcool, da droga, do jogo como mecanismos de fuga ou mesmo formas
de buscar respostas fáceis para situações exigentes. Aqui, é claro que levamos ao
extremo o que poderia ser resultado de uma crise não superada, mas é bem verdade que
situações semelhantes não são tão difíceis de se ver em nossos dias.
Toda crise, ainda mais familiar, não pode ser vista como o fim da linha. É preciso

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que todos, e principalmente os mais envolvidos, tenham a coragem de romper com o
pecado que está na raiz de tudo. E aqui romper com o pecado é identificá-lo pelo nome,
dar um basta com todos os demais excessos nocivos à família e, partindo disso, decidir
recomeçar.

5. Vida de oração
Junto ao diálogo e à capacidade de perdão, deve acontecer a vida de oração, pessoal
e familiar. O que é o combustível para o automóvel é a oração para a vida cristã e
especialmente para a vida familiar. Família que reza unida permanece unida. Tem mais
força e mais sabedoria perante os desafios da vida.
Com frequência, famílias cristãs acabam relegando para segundo ou mesmo para o
último plano a oração. E alguns ainda dizem que há coisas mais importantes a serem
cuidadas, e por isso não sobra tempo para a oração em família. É sem dúvida um
desastre, pois trata-se da perda de identidade da família. É no mínimo estranho uma
família que se diz católica, e não reza. É uma contradição.
O casal entre si e os filhos devem criar um espaço diário, ainda que curto, para as
orações em família. Por exemplo, pela manhã, durante o café da manhã, antes de sair
para as atividades diárias; durante as refeições, se houver possibilidade; ou ainda ao fim
do dia, quando todos se preparam para dormir, todos devem se reunir para rezar juntos.
Há costumes que, infelizmente, têm se perdido com o passar do tempo, mas que
precisamos retomar. Um exemplo é a oração antes das refeições. Principalmente quando
há ocasião para que toda a família se reúna em torno à mesa para o almoço, por exemplo,
aos domingos. Aí está uma ótima oportunidade para alguém conduzir uma oração de
agradecimento e de súplica pela família.
Há também a tradição do terço em família, presente em muitos lares cristãos, mas
que muitos outros acabaram deixando de lado. É importante que a família reze o terço
pelo menos uma vez por semana. Um terço bem rezado leva cerca de meia hora, no
máximo. Muito mais tempo se perde com a televisão. A diferença é que o terço faz bem
para a família.
E ainda os casais podem, ao pé da cama, recitar um salmo, ler o evangelho do dia,
fazer agradecimentos e pedidos juntos. Com certeza, esses pequenos momentos darão
nova força para os casais. São os pais os primeiros a cultivar a vida de oração na família.
Porém, mesmo se os pais perderam este hábito ou nunca o tiveram, os filhos podem e
devem cultivá-lo. Os efeitos certamente serão vistos.

6. Devoção à Santíssima Virgem Maria e aos santos

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Todos nós precisamos de referenciais. É um fato antropológico. Já nos primeiros
anos, para aprender a falar, e depois na escola, é bem claro que precisamos de alguém
que está à frente para ensinar e com quem possamos aprender. O que dizer então dos
valores que devem ser transmitidos já dentro do ambiente familiar. A verdade é que
muito contam os referenciais que temos.
Falar de devoção a Nossa Senhora e aos santos significa justamente isto: temos
referencial. A família tem referencial. Todo santo teve uma família. A Virgem
Santíssima foi mãe, esposa e dona de casa; uma mulher de fé. Depois dela, a multidão
dos santos consta de homens, mulheres, jovens, crianças, idosos. Todos provenientes de
uma família. Inúmeros pais e esposos, mães e esposas que viveram as mais diversas
situações e se santificaram. Mesmo a multidão dos santos que foram sacerdotes ou
religiosas receberam o dom da fé por meio da família. Sem entrar em pormenores, mas,
de modo geral, a família cristã é sempre referência e precisa de referência.
Os santos, entre os quais é destaque a Mãe de Jesus, são referenciais seguros,
modelos que podem e devem ser imitados pelo cristão. Como já nos fez cantar tantas
vezes Pe. Zezinho: “Tudo seria bem melhor se o Natal não fosse um dia, e se as mães
fossem Maria, e se os pais fossem José, e se a gente parecesse com Jesus de Nazaré”.
Tomar aqueles que foram canonizados pela Igreja por referencial seguro para se
chegar a Jesus, porque eles fizeram o mesmo caminho, nos ajuda a compreender e ter
uma fé madura em relação ao mistério da intercessão dos santos. Além de modelos, eles
são intercessores, companheiros na caminhada. Quanta inspiração a vida dos santos nos
oferece. Quanta graça podemos obter pela intercessão deles.
Na primeira catequese, aquela do lar, juntamente com as primeiras orações cristãs e
histórias da Bíblia, os pais devem também usar as histórias da vida dos santos para os
filhos, para que desde cedo cresçam na intimidade com esses amigos de Deus e se
tornem também eles, os filhos, amigos de Deus.

7. A intimidade com a Sagrada Escritura


A Bíblia, ainda que aberta como enfeite numa estante da casa ou entre outros livros,
pode não passar de um livro como outro qualquer para quem a deixa assim. Porém a
Bíblia aberta nas mãos e no coração de quem lê é Deus mesmo falando.
A Sagrada Escritura é o grande referencial para a vida cristã, pois é Deus falando aos
seus filhos como um Pai amoroso. Aliás, a Sagrada Escritura foi grande referencial para
a vida dos santos, e certamente o é para as famílias que sabem da sua importância.
Muitas pessoas se perdem diante das decisões importantes da vida e não sabem que
caminho seguir, isso quando não tomam uma atitude errada com sérias consequências.

103
Às vezes é por falta de conhecimento da Bíblia, pois ela é fonte de inspiração.
A família que consegue criar um ritmo de participação nas Missas e, mais ainda, uma
participação consciente, e por isso frutuosa, consegue criar um vínculo muito profundo
com a Bíblia. A Liturgia sempre foi o lugar vital das Sagradas Escrituras na Igreja. Além
disso, aproveitando-se da própria prática da Igreja por meio dos ciclos anuais das
leituras, no arco de três anos a família que ler e meditar entre si as leituras bíblicas da
Missa do dia, todos os dias, terá feito uma leitura praticamente integral de toda a
Escritura Sagrada. Imagine o quanto isso ressoará no dia a dia, por toda a vida.
Além disso, temos que dizer o excelente bom hábito que é a prática da leitura de
modo geral. Além da Bíblia, é bom incentivar a leitura de livros espirituais e que
complementam ainda mais os bons valores no ambiente familiar e para todas as
dimensões da vida. Mais que um bom presente para os filhos que alcançam o uso da
razão, ao lado da Bíblia, seria um catecismo da Igreja. Antigamente nossos pais e avós
os tinham, os chamados catecismos da primeira comunhão. Eram livrinhos que traziam,
por meio de breves perguntas e respostas, uma síntese da fé católica. Seria bom retomar
esse hábito dentro de nossos lares: saber de cor os fundamentos da fé católica – cor vem
de coração. Um lar onde a fé é enraizada dificilmente será vencido pela mentalidade
mundana de falsos valores e valores anticristãos e antifamília.

8. Ter um oratório em casa


Uma das coisas que sempre me chamava a atenção na casa dos meus avós quando
criança era o oratório. Eu não entendia muita coisa da vida ainda, mas me fascinava
olhar para dentro do oratório que minha bisavó paterna tinha em seu quarto. Um
crucifixo, muito antigo, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, com outros santos de
devoção familiar, a Bíblia, o terço, flores e velas. Era também uma referência dentro de
casa.
Aliás, a prática de montar o presépio no tempo do Natal, que existe na casa dos meus
pais até hoje, foi trazida dali. Eu era pequeno, talvez com 6 ou 7 anos, mas me lembro
bem do dia em que minha bisavó me chamou ao canto de sua cama e me deu parte das
imagens do seu presépio, também este muito antigo, e me disse para fazer o mesmo que
ela. Uma marca tão forte e cara que trago comigo até hoje, depois de padre.
Na casa dos meus avós, o clima religioso sempre foi muito forte. Desde o oratório
com as imagens religiosas, sinal mais concreto, até aquelas histórias de família, que
passavam de uma geração a outra, talvez até fantásticas, mas sem dúvida nenhuma
revestidas de um conteúdo de fé muito significativo.
E posso dizer que não precisei entrar na catequese para aprender o santo temor de

104
Deus. O clima religioso da minha infância foi suficiente para que ali mesmo fosse
impresso na minha alma o respeito pelas coisas da fé, bem como sua importância
fundamental para toda a minha vida.
As famílias católicas, pelo bem das futuras gerações diante dos tempos que vivemos,
não podem perder de vista a eloquência de um crucifixo em local de destaque da casa e
nem o brilho de uma imagem da Santíssima Virgem e dos santos de devoção. Mais do
que nunca precisamos dos sinais da nossa fé para nos lembrar que não estamos sós neste
mundo e que, mais do que nunca, a fé e tudo que dela brota é referencial seguro e certo
para as demandas do nosso tempo.
Por isso, sempre que posso, aconselho as famílias e os jovens que se preparam para o
casamento a retornarem a essa prática tão antiga e tão importante de dedicarem um
espaço significativo dentro de casa para o cultivo da fé, da piedade e da oração por meio
do sinal concreto do oratório.

9. Chamar a família para a oração


Os sinos nas torres das Igrejas são uma tradição antiquíssima para inserir as pessoas
no ritmo cotidiano da vida, como também para introduzir as próprias práticas religiosas
no ritmo dela. Basta recordar os diversos toques de sino – festivos, fúnebres etc. –, bem
como a Ave-Maria às 6h, às 12h e às 18h, e assim por diante. Ao ouvir o sino da Igreja, e
os mais velhos sabem bem disso, recordava-se do horário da Missa ou da oração, ou
mesmo despertava-se a atenção para algum acontecimento importante do lugar.
Pois bem, falávamos sobre a importância da vida de oração na família. Mas é
importante que, diante dos afazeres da própria vida, haja quem se disponha a fazer o
papel do sino dentro de casa, recordando, chamando e motivando para esta prática, tão
vital quanto todas as outras, que é a oração.
É algo simples, sem muito cortejo. Por exemplo, ao tomarem as refeições, alguém
proponha uma oração, simples e curta, porém significativa. Ao saírem os filhos de casa,
alguém lembre a bênção dos pais e aos filhos de pedi-la sempre. Antes de dormir,
alguém inicie a recitação de alguma oração de agradecimento e entrega. E assim por
diante, com a oração do terço, a leitura orante da Bíblia, entre outras práticas concretas.
É importante notar que, como propomos de inserir a oração no ritmo da vida, e assim
santificá-lo, não se trata de momentos prolongados por demais. É claro que quem tem
mais tempo e disponibilidade, assim o deve fazer. Mas, ainda que sejam momentos mais
ou menos curtos, devem ser profundos e marcantes para todos. Como já disse, um terço
em família, bem rezado, com piedade e devoção, se faz com meia hora tranquilamente.
Se há tempo para ler o Evangelho do dia, melhor ainda. Tudo deve ser feito de acordo

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com as condições de cada um. O que não pode é deixar de ser feito.

10. Procurar servir em alguma pastoral na Igreja


Cultivando-se o ambiente cristão dentro de casa, ou seja, o fervor da fé por meio das
práticas de piedade e dos valores evangélicos, acontecerá algo inevitável para o cristão
que se dispõe a viver a própria fé: uma atitude evangelizadora e missionária. É
característica da fé cristã não fechar-se em si mesma, mas ir ao encontro dos sinais e
necessidades dos tempos.
Nesse sentido, podemos dizer que a comunidade paroquial, onde se encontram outras
pessoas e famílias, é a segunda família, ou a família maior, que é a Igreja. Assim, cada
família cristã tem a tarefa de dar sua contribuição e participação na comunidade
paroquial. Primeiramente com a sua presença, na Missa e nos outros encontros que
puder. Juntamente a isso, com suas ofertas materiais e dízimos.
Podemos inclusive dizer que o dízimo é um princípio organizador da gestão
administrativa do lar. Antes de tudo, porque toca um mandamento e uma promessa
bíblica de provisão para o dizimista. Trata-se de uma prática de reconhecimento e
agradecimento a Deus, desprendimento do material e ajuda concreta às necessidades da
comunidade de onde se participa. O dízimo e as demais ofertas são, junto à presença
física, uma participação concreta na vida da Igreja.
Havendo possibilidade, é sempre bom também poder realizar, além da oferta
material, a oferta dos dons recebidos de Deus, servindo em algum apostolado ou obra de
caridade. O serviço na comunidade dá oportunidade de maior crescimento na fé, de
formar novas amizades, bem como faz com que deixemos de nos centrar exclusivamente
nos próprios problemas e nos de casa. Não se trata de fuga, mas oportunidade de
abertura e crescimento. A comunidade, por mais dificuldades e desafios que tenha, pode
ajudar na abertura da esperança e na formação do homem novo. É também um sinal de
que não se está só.

106
Um projeto familiar: a santidade de vida

Geralmente, quando falamos em santidade, a primeira ideia que surge na cabeça de


muitos católicos é a das Igrejas, sobretudo aquelas mais antigas, com uma infinidade de
imagens de santos. Umas mais bonitas que as outras, e principalmente com o perfil
angélico, algo quase alheio à nossa realidade. Em consequência disso outra ideia pode
facilmente vir ao pensamento: a de que a santidade é privilégio de poucos.
Desse modo, a palavra santidade pode soar como algo fora da realidade de vida da
maioria das pessoas e mesmo dos católicos, principalmente em nossos tempos. Não era
assim nos primeiros tempos da Igreja. Os cristãos se tratavam pelo título de santos.
Vejamos algumas passagens do Novo Testamento que nos comprovam isso.
Os Atos dos Apóstolos mostram Pedro em plena atividade missionária em visita aos
cristãos da região da Cesareia Marítima, os quais eram chamados de santos: “Enquanto
Pedro percorria todos os lugares, visitou também os santos que residiam em Lida” (At
9,32). Ali acontece o milagre de Eneias, que volta a andar; e mais tarde, em Jafa, o da
ressurreição de Talita, diante do qual Pedro manda chamar os santos e as viúvas ali
presentes para entregar a menina viva novamente (cf. v. 41). Ainda nos Atos dos
Apóstolos, Paulo, pouco tempo antes de seu martírio, ao narrar sua vida antes da
conversão, diz ter colocado muitos santos na cadeia (cf. 26,10).
Paulo, em diversas saudações nas suas cartas, utiliza a palavra santos para se dirigir
aos cristãos. Aos romanos, diz: “A vós todos que estais em Roma, amados de Deus e
santos por vocação: graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e de nosso Senhor, Jesus
Cristo” (Rm 1,7). Aos efésios: “Paulo, apóstolo do Cristo Jesus pela vontade de Deus,
aos santos que moram em Éfeso, fiéis a Cristo Jesus” (Ef 1,1). Aos filipenses: “Paulo e
Timóteo, servos do Cristo Jesus, a todos os santos no Cristo Jesus que estão em Filipos,
com os bispos e diáconos” (Fl 1,1). Aos colossenes: “Aos irmãos em Cristo, santos e
fiéis, que moram em Colossas: para vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai” (Cl 1,
2).
O termo santidade, todavia, é anterior ao Novo Testamento, e para entendermos de
que tipo de santidade estamos falando é necessário ir até suas raízes no Antigo
Testamento. É de lá que vem a exortação de Pedro: “Sereis santos porque eu sou santo”
(1Pd 1,16); bem como a proclamação de Jesus no sermão da montanha: “Sede, portanto,
perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Assim sendo, a razão mais

107
fundamental da santidade é Deus mesmo (cf. Lv 11,44; Ex 3,5). Porque só Deus é Santo,
Santo, Santo (cf. 1Sm 2,2; Sl 22,3; Is 6,3).
Se só Deus é santo, a santidade é, antes de tudo, participação na Sua glória. Para o
cristão, o fundamento da participação na glória é o batismo, que nos arranca das trevas e
da escravidão do pecado e da morte e nos introduz na luz da glória e da liberdade de
Cristo, que é a vida nova. Assim podemos concluir que todo batizado é chamado e
capacitado para a santidade.
Ajuda-nos a entender essa vocação suprema à santidade o papa Francisco, quando
diz em um de seus discursos: “Os santos não foram super-homens, e a santidade não é
privilégio de poucos” (Angelus, 1 de novembro de 2013). Partindo dessa concepção de
santidade, bem mais autêntica e próxima de nós, queremos sondar a vida dos santos e
extrair dali algumas reflexões acerca da nossa própria busca de santidade. E, por fim,
utilizar o programa de santidade que Jesus mesmo entregou aos seus discípulos, “as
bem-aventuranças”, voltado de modo especial para o horizonte da família.

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Três certezas na vida de um santo

1. Os santos foram homens e mulheres de carne e osso e lutaram para ser o que
são.
O livro do Apocalipse diz o seguinte: Então, um dos Anciãos falou comigo, perguntando: “Estes, que
estão vestidos com túnicas brancas, quem são e de onde vieram?” Eu respondi: “Tu é que sabes, meu
senhor”. Ele então me disse: “Estes são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e branquearam as
suas vestes no sangue do Cordeiro (Ap 7,13-14).

Na Igreja primitiva, a santidade que é inerente à identidade cristã é associada, de


modo especial, ao martírio, ou seja, ao testemunho, com a própria vida, da fidelidade a
Cristo. Essa fidelidade perfaz-se na imitação daquilo que Cristo realizou: a entrega de
Sua vida por fidelidade ao projeto de Deus e por amor aos homens. Na verdade o
significado da palavra mártir, traduzida do grego, é testemunha.
Dizer que os santos foram antes de tudo humanos significa que eles passaram por
provas e mesmo tentações, mas diante de uma e outra, renovavam sempre sua adesão fiel
a Cristo. O que não podemos dizer de Jesus e de Maria Santíssima a respeito de sua
participação no pecado da humanidade, podemos dizer dos santos, que inclusive foram
pecadores como qualquer pessoa. O diferencial é que lutaram até o fim contra o pecado e
venceram.

2. Os santos lutaram para conservar a pureza do coração: um coração todo


dedicado a Deus.
Deles dirá o salmista:
Quem vai subir o monte do Senhor, quem vai ficar no seu santuário? Quem tem mãos inocentes e
coração puro, quem não corre atrás de vaidades, quem não jura para enganar seu próximo. Este
alcançará do Senhor bênção, e justiça de Deus seu Salvador (Sl 23,3-5).

E o próprio Jesus: “Felizes os puros no coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8).
Diante da bênção e da visão beatífica em contraste com a tentação do pecado, os
santos não hesitaram em escolher contemplar a face de Deus. Toda luta tem seu troféu,
sua motivação, sua razão. Os santos não lutaram em vão. Eles compreenderam qual era o
prêmio, e não podiam por nada abrir mão do valor maior. E o prêmio era Deus mesmo.

3. Os santos foram autênticos filhos de Deus.


Se Deus, a quem ousamos chamar de Pai, é Santo, é natural que nós, Seus filhos,
tenhamos Suas feições. Todo filho se parece com seu Pai. Assim diz São João:

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Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Se o
mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai. Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas
nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos
semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é (1Jo 3,1-2).

Na família, é natural que os filhos nasçam com traços herdados de seus genitores. E
é igualmente normal que outras semelhanças sejam adquiridas e consolidadas no
decorrer da vida, como aquelas relacionadas à personalidade, como o caráter e o
temperamento.
As primeiras páginas da Bíblia dizem que fomos criados à imagem e semelhança de
Deus. Logo, nossa própria vida e existência já trazem consigo algo de santo. Porém, por
causa da natureza criatural e frágil, e ainda mais por conta da ferida do pecado, há algo
em nós que também precisa ser moldado, constantemente recriado, para que nos
pareçamos com o Pai do Céu. Isso nos faz entender que, se a santidade é participação na
glória de Deus, será o testemunho de vida por meio do esforço de santidade que colocará
em ato a nossa filiação divina no decurso de nossa vida.

110
As bem-aventuranças:
um programa de vida de santidade

Em se tratando de definir um programa de santidade – pessoal e para a família –,


nunca podemos perder de vista as bem-aventuranças. Elas trazem um roteiro dinâmico e
real para viver nossa mais alta vocação. De tempo em tempo, precisamos nos dedicar a
uma delas de modo mais intenso e especial. Por isso é importante saber escolher a bem-
aventurança que preciso cultivar em mim e em minha família a cada tempo e nunca
descuidar dela, se o que desejo é mesmo a santidade de vida.
As bem-aventuranças apontam para frente, elas devem mover as intenções dos
discípulos. Por isso, quando falamos em santidade, não deixamos de propor um exame
de consciência e abertura para conversão, mas esse caminho não nos prende ao passado
como fonte de acusação e desmotivação por qualquer que tenha sido o pecado, mas nos
abre uma perspectiva de futuro, de esperança, de confiança da misericórdia e na graça de
Deus. Vejamos cada uma das bem-aventuranças e sua aplicação no ambiente familiar.

1. “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3).
A pobreza espiritual assinala a dependência exclusiva de Deus. A quem e o que mais
o pobre tem senão a Deus? É verdade que essa pobreza diz respeito também a um estado
de simplicidade interior, mas essa simplicidade deve se abrir para a dependência de
Deus.
Dentro dessa bem-aventurança, seria um programa de santidade colocar menos
dependência nas pessoas e nas coisas para buscar e confiar mais em Deus, numa
vivência autêntica do primeiro e maior de todos os mandamentos, que é amar a Deus
sobre todas as coisas.
Por aqui se segue a importância de trabalhar em si o desapego desde o afetivo até o
material. Há pessoas, sobretudo os mais jovens, que fazem do apego afetivo algo tão
extremo que chegam a tocar o sentido da própria vida. Não vivem mais por si, entram
em depressão e desespero, e chegam a atentar contra a própria vida, caso não estejam
com quem gostariam de estar.
Há famílias que também colocam toda sua dependência nos bens materiais e no
dinheiro. Acabam trabalhando para sustento de determinados luxos e para engordar a
conta bancária. Veja que não estamos nos referindo ao sustento de uma certa
comodidade na vida e nem de se poupar uma reserva financeira para as necessidades.
Estamos nos referindo a situações de verdadeiros excessos e apegos em relação aos bens
materiais.

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Há ainda a dependência dos meios de comunicação, sobretudo a internet. Quantas
horas do dia, por exemplo, certas pessoas passam diante do computador ou com os
celulares nas redes sociais?
Ao fazer uma avaliação sincera de toda essa dependência excessiva de coisas e
mesmo pessoas, é preciso tomar a atitude de recolocar as coisas nos seus devidos
lugares. Os que fazem a opção da pobreza espiritual são os que decidem buscar, antes de
tudo, o Reino de Deus e confiar na Divina Providência.
A primeira atitude nesse caminho é devolver o centro da vida diária a Deus. A
família que deseja viver a bem-aventurança da pobreza de espírito precisa concretamente
ter o lugar da oração em casa, um oratório sempre bem disposto e ornado – como temos
enfatizado bastante até aqui. Sinal simples, mas eloquente da dependência de Deus antes
de todas as outras coisas. Às vezes se perde muito tempo jogando conversa fora, ficando
em frente da TV ou nas redes sociais, e não se volta o coração para Deus. O pobre em
espírito escolhe Deus acima de tudo para possuir tudo.
A pobreza espiritual começa com desprendimento e desapego de tudo que é excesso.
É uma verdadeira purificação interior e exterior, para ficar com o essencial e assim
recolocar todas as coisas nos seus respectivos lugares, inclusive as próprias relações
familiares.

2. “Felizes os que choram, porque serão consolados” (Mt 5,4).


As tristezas e dificuldades fazem parte da vida, e a família cristã, como qualquer
outra família, pode ter de lidar com elas. A bem-aventurança não se refere a uma espécie
de prazer no sofrimento e na dor, externalizados pelo choro, mas quer dizer que esse
choro pode se tornar ocasião para buscar consolo em Deus. E de fato Deus consola. O
consolo de Deus é o melhor de todos.
Portanto, o primeiro referencial para o consolo verdadeiro é Deus, e não os
chamados subterfúgios, que na verdade são enganadores, como a bebida, as drogas, o
consumismo, a internet, o trabalho, o salão de beleza, entre tantos outros. Aqui o mal
pode tomar as aparências de bem, quando, por exemplo, diante dos problemas se escolhe
ficar mais horas no trabalho ou no salão de beleza do que em casa.
Buscar consolo em Deus significa chorar diante Dele, recolher-se no silêncio,
mesmo na ausência de respostas, esperando que, assim como o sol volta a brilhar após o
tempo nublado, também a dor e o sofrimento encontrem o consolo e o conforto de que
necessitam.
Nessas alturas, mais uma vez vemos a importância do lugar de oração em casa, para
que ali se possa recolher. E mesmo a visita ao Santíssimo Sacramento, pleno de bênçãos

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de Nosso Senhor e da graça da consolação. Que bom, não obstante outros tantos meios
da graça, que a família comece diante do Santíssimo Sacramento a buscar o consolo e o
conforto de que necessitam. Tenho certeza de que muita coisa seria diferente.

3. “Felizes os mansos, porque receberão a terra em herança” (Mt 5,5).


Não se apaga um princípio de incêndio jogando pólvora sobre o fogo, mas tomando
as medidas cabíveis, como jogar água, por exemplo. Ser manso significa não se irritar
com facilidade, não se desconcertar nem mesmo diante das injúrias sofridas. Obviamente
não se trata de uma passividade cega, mas de uma segurança em relação ao melhor
caminho a se seguir. O manso tem essa condição.
Quem melhor que Nosso Senhor foi manso? Inclusive diante das ofensas e do
madeiro da cruz colocado sobre seus ombros com o peso dos nossos pecados e
infidelidades. Ele, que não tinha pecado, se fez pecado e, como cordeiro manso, foi
levado ao tosquiador (cf. Is 53,7). No entanto, a mansidão de Cristo é eloquente quando
Ele tem a segurança de cada um dos seus atos. Sua vontade era fazer a vontade do Pai.
Tudo, incondicionalmente, pela Sua obediência, levaria ao cumprimento daquela
vontade.
Para ser manso, é preciso saber onde se quer chegar e qual caminho é necessário
percorrer. No decurso da vida matrimonial, portanto, é preciso ter clareza do chamado à
vida matrimonial, bem como de suas exigências.
O manso é firme e sabe se posicionar. Ele sabe se calar diante da irritação do outro
sem permitir que isso o fira por dentro, mesmo tendo que fazer violência contra si
mesmo. Tudo para não aumentar os estragos do incêndio, lançando mais pólvora sobre
ele.
A vivência da mansidão na família significa não ferir os relacionamentos, mas cuidar
para que sejam sempre saudáveis. A bem-aventurança promete a terra em herança. Isso
significa que o manso é capaz de se manter nos propósitos, de esperar, de não se
desorientar, de respirar fundo quando necessário. Se pararmos para pensar em quantas
feridas no casamento e mesmo na relação entre pais e filhos poderiam ser evitadas
mediante atitudes como essas, certamente cultivaríamos mais intensamente a mansidão.

4. “Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6).
Muito facilmente confundimos justiça com vingança. Prova disso é que, por
exemplo, diante da dor da traição, o cônjuge traído, movido por um sentimento misto de
dor e revolta, decide pagar com a mesma moeda, deseja que o outro sinta a mesma dor. E
há quem diga que isso é justiça. Não é verdade.

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A justiça significa colocar as coisas nos seus respectivos lugares. A noção bíblica de
justiça de Deus passa pelo fato de que o homem pecou, e por isso não se encontrava mais
em condições de comunhão com Deus, seu Criador. Mas as primeiras páginas da Bíblia
são claras em mostrar que Deus criou o homem e o colocou no Paraíso, lugar da
comunhão. A justiça de Deus age, portanto, de dentro para fora, colocando o homem em
condições de restabelecer essa comunhão perdida, pois o homem por si mesmo nada
poderia fazer em próprio favor senão o Filho de Deus nascido na condição humana.
Embora o mesmo homem fosse merecedor de castigo, a justiça de Deus, no entanto, se
realiza abrindo um caminho perfeito para o acesso à glória.
A verdadeira justiça significa viver em tudo o mandamento do amor. Em outras
palavras, deixar Deus no comando de todas as coisas. A justiça humana é limitada e
pode tropeçar e vacilar, enfim, pagar com a mesma moeda, o que só tende a piorar as
coisas, ainda mais num casamento. Por isso é melhor deixar Deus no controle.
E deixar Deus no controle não significa uma inércia espiritual, como se tudo caísse
do céu. Significa basear todo comportamento a partir do projeto de Deus. A justiça do
Senhor realiza-se na cruz do calvário, em que Deus ama até o fim, e por esse amor todas
as coisas podem ser curadas e consertadas. Que maior e mais plena saciedade da alma
ver o outro curado e restabelecido, em vez de ferido ainda mais e destruído pelo erro? O
significado de justiça para a Bíblia, portanto, brota da obra de redenção e santificação
realizada pela própria Santíssima Trindade: o amor que cura e restaura, que dá nova
vida, eis a verdadeira justiça de Deus.

5. “Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7).


Certamente já ouvimos, diversas vezes, que agir com misericórdia é colocar-se no
lugar do outro. Mas, mesmo sabendo disso, muitas pessoas acabam ainda tendo
dificuldade de agir como tal.
Para ser misericordioso, são necessárias duas coisas, sem as quais realmente fica
difícil dar um tal testemunho. A primeira delas é ter feito um encontro pessoal com a
misericórdia de Deus, pois não se pode oferecer o que não se tem. E a segunda é
conhecer o outro. E não se trata de conhecimento superficial, mas profundo.
Muitos casamentos se desfazem por diversas razões, dentre as quais se encontra a
falta de conhecimento mútuo e verdadeiro um do outro. Hoje, com a erotização da
sociedade, muitos relacionamentos, já no princípio do namoro, se reservam à atividade
sexual. Mas conhecer as partes íntimas um do outro não é conhecer o coração, e muito
menos pode ser considerado prova de amor.
Pois bem, muitos casais levam o namoro e o noivado exatamente nessas condições,

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além de outros estereótipos, que não vêm ao caso abordar, e após o matrimônio, esses
casais se dão conta de que não se conhecem em profundidade; começam a se assustar um
com o outro em relação ao comportamento e determinadas atitudes até então
desconhecidas. Diante dessa constatação, vem uma pergunta: Como então ter condições
de agir com misericórdia e assim construir o lar sobre bases sólidas?
Há também muitos desajustes em família criados pelo fato de pais não conhecerem a
fundo os próprios filhos e vice-versa. Pais que não são capazes de perceber que os filhos
estão nas drogas, ou que se espantam quando estes decidem sair de casa num rompante.
E não se trata aqui de sair à caça dos culpados. Nessa hora é o que menos se deve
fazer. O importante é localizar as causas para poder intervir sobre elas. Há pais, por
exemplo, que ao descobrirem o envolvimento do filho com as drogas – o que se torna
sem dúvida alguma um calvário para a família –, acabam num determinado momento por
perder a cabeça e colocá-lo para fora de casa. O mesmo se diga de um cônjuge que
descobre a traição do outro e decide simplesmente expulsar o traidor de casa e da própria
vida.
Agir com misericórdia na família significa, antes de qualquer decisão, colocar-se no
lugar do outro e também dali buscar meios para lidar com a situação. Ser misericordioso
não é aceitar tudo passivamente, mas ter a capacidade de ir ao profundo do coração do
outro levando o remédio da caridade. Significa não tratar com superficialidade e rapidez
uma situação e, muito menos, uma pessoa, mas olhar para tudo a partir da própria
verdade, com profundidade, respeito e atenção. E muita oração.

6. “Felizes os puros no coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8).


Uma das maiores necessidades dos nossos tempos: o cultivo da pureza desde dentro
de casa. A pureza se realiza num coração todo dedicado a Deus. A pureza da alma
purifica a visão que se tem do outro.
Em nossos dias, cada vez mais cedo a pureza tem cedido lugar à malícia, ao erotismo
e à maldade do coração. Não se cultiva mais a pureza por meio da modéstia das vestes,
do respeito pelo corpo, sobretudo da mulher. Por causa da pornografia, muitos casais têm
levado a imundície para seus corações, leitos e casas. Como ter a visão de Deus? Como
enxergar as coisas do jeito de Deus?
Toda bem-aventurança possui uma dupla extensão. Uma tensionada à eternidade,
outra já palpável nesta vida. Desse modo, a visão de Deus se refere, sem dúvida alguma,
à visão beatífica na eternidade, mas também à possibilidade de contemplá-lo também
aqui em nossa vida. A Criação reflete Seu Criador. E a Bíblia diz que o ser humano é
imagem e semelhança de Deus, de modo que olhar para o próximo é de certo modo

115
contemplar a Deus, ou melhor dizendo, Seu reflexo brilhante, pois Deus é a causa da
dignidade humana. E, mais ainda, é como se a glória de Deus presente em nossa vida
mediante a pureza fosse como as lentes são para os óculos.
Portanto, a pureza do coração significa compreender que cada ser humano, seja ele
quem for, se apresenta como sob um véu, um projeto de Deus.
No Antigo Testamento, Moisés precisava cobrir a fronte todas as vezes que se
apresentava diante de Deus (cf. Ex 34,33-35). Mais tarde, no Templo, o Santo dos santos
era reservado com uma cortina, sinalizando que aquele lugar era sagrado (cf. Ex
26,33ss). Hoje, em nossas Igrejas, também o Corpo de Cristo é coberto com um véu,
sinal do mistério, do sagrado. Tudo que é sagrado precisa ser profundamente respeitado.
Igualmente nós, cristãos, entendemos em relação ao corpo humano e à sexualidade
ali expressa do modo mais concreto possível. É mistério, é lugar sagrado. Precisa ser
respeitado. A bem-aventurança da pureza consiste em restabelecer essa visão de respeito
fundamental e inviolável, diante da qual todos os outros pecados contra a dignidade da
pessoa humana são freados.
Por isso os pais, desde cedo, devem cultivar a pureza tanto nos próprios corações
como também no coração dos filhos, lançando uns sobre os outros um olhar de Deus, e
assim estendendo essa relação aos outros fora do próprio lar. Isso significa olhar para o
outro com bondade.
Numa sociedade muitas vezes possessiva e maliciosa, que carece dessa bondade, o
simples fato de um cônjuge não atender uma chamada no celular pode se tornar suspeita
de traição da parte do outro. Pode parecer paranoia, mas também pode revelar a ausência
da pureza do coração. Veja de quantas besteiras a pureza do coração pode preservar um
relacionamento.

7. “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt
5,9).
Jesus Ressuscitado diz aos Seus discípulos por diversas vezes: “A paz esteja
convosco” (Jo 20,19.21.26). A paz, o Shalom, era o maior dom que o Messias
concederia ao Seu povo (cf. Is 11,6-9; Mq 4,3-4; Zc 9,9-10). E Jesus Ressuscitado, ao
comunicar a paz, mais uma vez é revelado como o Messias de Deus, mas também mostra
que a paz é dom e que se realiza de dentro para fora.
Promover a paz é construir a paz. Toda família é chamada a construir a paz. Para
isso, precisa do encontro com Jesus Vivo, que concede a paz em abundância a todos que
se abrem para recebê-la. Construir a paz significa trabalhar incansavelmente por ela e
não desistir. É dom, e todo dom traz consigo a graça para vivenciá-lo.

116
Promover a paz no ambiente familiar significa que, num momento de agitação, de
ânimos exaltados, alguém precisa se aquietar, silenciar e manter a serenidade.
Há sinais que podem dizer se uma família é ou não construtora da paz: a ausência de
gritarias, de som alto para a vizinhança inteira ouvir, de excesso de festas e bebedeiras
que geralmente acabam em confusão. E, sobretudo, quando diante de alguma dificuldade
de relacionamento, aquela família sabe escolher a via da reconciliação.

8. “Felizes os perseguidos por causa da justiça, [...] por causa de mim” (Mt
5,10.11).
A perseguição sempre fez parte da vida dos discípulos de Cristo. “O servo não é
maior do que o seu senhor” (Jo 15,20). Sobretudo, nos dias de hoje, diante de valores
inegociáveis, como a vida e a família, os que se dispõem a promovê-los e defendê-los
certamente serão perseguidos. “Num mundo onde a mentira é poderosa, paga-se a
verdade com o sofrimento” (Bento XVI, Homilia de abertura do Ano Paulino,
28.06.2008). Mas Jesus diz para não desanimarmos um só momento, pois tudo está nas
mãos de Deus: “Tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33).
Gostaria de terminar esta parte com uma reflexão que ouvi de um pregador televisivo
a respeito da perseguição, que muitas vezes pode se dar mesmo no ambiente familiar.
Que isso sirva de consolo para os cristãos que se sentem sozinhos dentro de suas
próprias casas, por causa do nome de Cristo e da fidelidade à Sua Palavra. A perseguição
vivida sob a ótica da fé e a clareza de consciência podem ser um sinal de que estamos no
caminho certo.
Dizia o pregador que há cinco fases na vida daquele que fez a experiência do
encontro pessoal com Cristo. A primeira delas: a zombaria. Há deboches, piadinhas e
perseguições. Em seguida, vem a fase do respeito: respeitam sua presença, param com as
piadinhas e palavrões quando você chega. A próxima fase é a da consideração: querem
ouvir sua palavra, sua opinião, o que você pensa, seu conselho. A quarta fase é uma
espécie de admiração: gostariam de ser como você ou ter alguém como você em casa. E
a quinta e definitiva fase: o cristão se torna referência. E onde há referência – dizia o
pregador – não há gente perdida.
Nosso Senhor não disse que não haveria dificuldades e perseguições, Ele pediu que
tivéssemos coragem, pois Ele iria permanecer conosco e nos ajudar. Quando se trata de
perseguições e incompreensões na família, parece que a dor é maior. Mas Jesus também
disse que, por causa do Seu nome, isso aconteceria nas famílias (cf. Mt 10,35).
É verdade que muitas famílias cristãs acabam vivendo como se não fossem. E muitos
acabam se vendo sozinhos quando se propõem a ser cristãos de verdade e viver a fé. Um

117
verdadeiro desafio. Quantos maridos, mulheres, filhos e até mesmo crianças
experimentam essa dor, de querer ver os seus amados no caminho de Deus, mais
próximos da fé, e no entanto eles se encontram afastados.
Mas, mesmo aí, não deve faltar esperança, e o desânimo deve ser evitado ainda mais
fortemente e a todo custo. É melhor estar sozinho do que não ter ninguém na família que
interceda junto de Deus. Independentemente do caminho de santificação que estamos
seguindo, não devemos nunca deixar de acreditar: “Crê no Senhor Jesus, e serás salvo,
como também todos os de tua casa” (At 16,31). Se fizermos nossa parte, devemos nos
tranquilizar. Deus fará a Dele!

118
O que Deus uniu o homem não separe! (Mc
10,9)

Hoje, a família passa por uma série de turbulências. Não obstante aquelas que fazem
parte de sua vida e dinâmica interna, ou seja, o convívio entre pessoas, as que vêm de
fora são as mais fortes e raivosas em direção desta instituição, tão tradicional quanto
natural, que é a família.
Em nossos dias, fala-se das novas formas de família – e aqui não vem ao caso julgá-
las –, e muito de tal discurso é uma oposição frontal àquilo que de fato seja a família:
homem e mulher, ou seja, marido e esposa e filhos. E as coisas tornam-se um pouco
mais desconcertantes quando o mesmo discurso que tenta justificar outros tipos de
relação como família, sob o pretexto de amor, ao mesmo tempo mina e esvazia o que de
fato é o fundamento de toda e qualquer relação humana: o amor que gera estabilidade e
vínculo definitivo e o mais importante de todos os dons: a vida.
Aqui estamos diante da pior de todas as turbulências e atentados contra a família,
hoje quase que aceito passivamente como algo comum: o divórcio. O divórcio é nada
mais nada menos que caracterizar o amor humano, que atrai homem e mulher para
formar uma família, como algo meramente efêmero, transitório e mesmo impossível.
Se pararmos para refletir com sinceridade, a possibilidade do divórcio corrobora a
transitoriedade e instabilidade do amor e do compromisso do homem em relação à
mulher e vice-versa. O casamento acaba se tornando um conto de fadas, algo surreal,
fora do alcance. É mais ou menos o que acabamos por ouvir de algumas pessoas
infelizes sobre o casamento: “Se não der certo, separe!”. E essas mesmas pessoas, sem se
dar conta, determinam também a sentença: não há possibilidade para a felicidade, é
inevitável a frustração. E em vez do “felizes para sempre”, “frustrados para sempre”.
Certamente, os defensores do divórcio levantarão a voz e dirão: “Mas não deu
certo... então a pessoa não é obrigada a viver o resto da vida infeliz!”. Mal sabem eles
que a felicidade é um valor que se constrói, e muitas vezes mediante o sacrifício. É
preciso que leiam mais a Bíblia e a vida dos santos e dos cristãos verdadeiros, gente que
viveu integralmente a sua fé, e vejam, de uma vez por todas, que a fidelidade por toda a
vida é possível.
Se, porém, formos mais honestos em relação à família e às próprias pessoas

119
envolvidas, temos de perceber que, justamente por causa dessas mentalidades confusas e
hipócritas, o problema é ainda mais profundo. Temos de reconhecer que muitos dos
casais jovens que vêm até as nossas Igrejas pedir o sacramento do matrimônio não estão
preparados para tal e muito menos conhecem o que de fato comporta este compromisso,
que é formar uma família.
A grande verdade é que hoje em dia o amor humano acaba, erroneamente, reduzido à
dimensão sexual, e mais especificamente ao prazer sexual. É o que percebemos quando
vemos a exaltação da relação sexual ainda na adolescência e fortemente corroborada,
seja pela larga promoção da distribuição de preservativos, seja pela forte veiculação
midiática de uma libertinagem sexual.
Aqui a pergunta que fazemos é a seguinte: Será que o amor de um homem pela
mulher em todas as suas instâncias, desde a atração física até o vínculo afetivo, se
resume somente ao aspecto físico e sexual? Extintos estes, bastaria procurar um novo
relacionamento? Será que ninguém pensa no tempo da velhice ou mesmo da
enfermidade, onde se comprova, de fato, o amor familiar, seja no cônjuge fiel e
dedicado, seja na companhia dos filhos? Será que ninguém pensa que o verdadeiro amor
passa pelo sacrifício da entrega e da fidelidade? Evidentemente que não, caso contrário
não estaríamos diante de tais turbulências em relação à instituição familiar, sobretudo à
fidelidade conjugal.
Certa vez interrogaram Jesus em relação ao divórcio, ou seja, à possibilidade da
ruptura entre o homem e a mulher que se uniram em matrimônio. Na verdade tratava-se
muito mais de uma armadilha para Jesus da parte daqueles que queriam encontrar
motivos para acusá-lo formalmente. E Jesus vê uma ocasião para dizer algo de
fundamental importância para os seus discípulos e sobre o projeto original de Deus.
“Moisés permitiu despedir a mulher, por causa da dureza do vosso coração. Mas não foi
assim desde o princípio” (Mt 19,8; cf. Mc 10,5).
Desse modo, Jesus nos aponta duas coisas: primeiro, é a dureza do coração humano
que desvirtua a ordem dos relacionamentos; segundo, é preciso compreender e abraçar o
projeto de Deus, e para isso é preciso olhar para as origens, ou seja, para a lei natural das
coisas impressa no coração do homem e para a Palavra de Deus. Uma não contradiz a
outra, pois dizem respeito igualmente aos fundamentos mais profundos da humanidade.

120
O que era desde o princípio...

O capítulo 19 do Evangelho de Mateus inicia-se com estas palavras: “Quando


terminou estas palavras, Jesus deixou a Galileia e foi para a região da Judia, pelo outro
lado do Jordão” (v. 1). Um jeito de mostrar não só a mudança geográfica, mas também
da mensagem que será transmitida dali por diante. O capítulo 19 toca diversas realidades
do contexto familiar, e começa justamente pela indissolubilidade do matrimônio (v. 1-9).
E como aqui nosso interesse é antes pastoral que exegético, podemos notar algo
muito particular já no versículo 2: “Grandes multidões o acompanhavam, e ali, ele
realizava curas”. É interessante perceber esse versículo como que abrindo passagem para
o tema da indissolubilidade do matrimônio, quase que a apontar que Jesus estava para
estancar por definitivo qualquer ferida naquela instituição primordial, como Ele mesmo
dirá do matrimônio. É como se Jesus tivesse se deslocado até aquela região para que as
Suas palavras, definitivas e decisórias, fossem a cura para as feridas no matrimônio
causadas pela dureza do coração humano. E mais, para mostrar a importância da cura
dos relacionamentos no seio da própria família, proporcionada, sobretudo, pela oração,
pelo perdão e pelo diálogo.
É verdade que Jesus é interrogado pelos fariseus que, mais que ouvir seus
ensinamentos, desejavam armar-lhe um laço. E perguntaram: “É permitido ao homem
despedir sua mulher por qualquer motivo?” (v. 3). Jesus, mesmo diante da prova, chama
a Palavra de Deus em questão e assim põe em evidência a dureza dos corações e o
distanciamento dos ensinamentos do Senhor por parte dos fariseus:
Nunca lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher (Gn 1,27) e disse: “Por isso, o
homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois formarão uma só carne?” De modo que eles
já não são dois, mas uma só carne (Gn 2,24). Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe (v. 4-7).

À resposta de Jesus segue-se imediatamente outra questão dos fariseus: “Como então
Moisés mandou dar atestado de divórcio e despedir a mulher?” (cf. Dt 24,1). E Jesus dá
a última palavra e determina a sentença:
Moisés permitiu despedir a mulher, por causa da dureza do vosso coração. Mas não foi assim desde o
princípio. Ora, eu vos digo: quem despede sua mulher – fora o caso de união ilícita – e se casa com
outra, comete adultério (v. 9).

O que Jesus faz aqui é recolocar as coisas nos seus devidos lugares. E se pararmos
para pensar bem, era o que Ele já tinha feito em outras ocasiões, como, por exemplo,
quando chama Seus discípulos e lhes impõe a radicalidade de renunciar a casa, pais e
irmãos por causa do Reino de Deus (cf. Lc 14,25-33). É a precedência do primeiro

121
mandamento em relação ao quarto. Trata-se da profundidade e do sentido mais autêntico
da Palavra de Deus. Desse modo, Jesus também mostrará que as raízes da infidelidade
conjugal encontram-se no coração humano (cf. Mt 5,27).
O Deuteronômio, por mais que contenha as prescrições da Torá, é substancialmente
posterior ao sentido da própria criação, pois é na Criação que está contido,
entranhadamente e indelevelmente, o projeto de Deus. E ainda que a Torá contenha os
mandamentos, e que também estes toquem a vontade de Deus, todavia, Jesus é o Verbo
de Deus feito carne, e Sua autoridade corrige de uma vez por todas a má interpretação
em relação àquele projeto original de Deus e redireciona as coisas para seu verdadeiro
sentido e significado.
O princípio que rege e sustenta o projeto de Deus em relação à criação do homem e
da mulher, e consequentemente da família, pois Deus é o criador da família, é o princípio
da comunhão: “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer-lhe uma auxiliar que lhe
corresponda” (Gn 2,18). O transbordamento da “imagem e semelhança” da Santíssima
Trindade na obra da criação do ser humano encontra sua plena realização na comunhão
entre o homem e a mulher, a família e, consequentemente, toda humanidade.
A afirmação “não é bom que o homem esteja só” deve ser pensada em toda linha da
existência humana e não só em nível sexual ou meramente afetivo, o que é melhor
explicado pela palavra “companheira”. E o sentido é este mesmo: de companhia,
acompanhante, de quem segue ao lado, junto, e não abandona, mas permanece. Sabe
muito bem disso o casal que passou por uma prova junto, ou mesmo quem já viveu uma
tribulação muito forte, uma enfermidade, ou chegou à idade avançada carecendo de
cuidado e companhia e tem ao seu lado alguém com quem pode sempre contar. Isso é
amor.
A radicalidade do Evangelho, e por isso mesmo a radicalidade de Jesus, tem em vista
a felicidade plena do homem e jamais sem a família. Tem em vista mostrar que a toda
colheita abundante precedeu o exigente arar da terra e a semeadura, para ninguém pensar
que o princípio da unidade do casal seja só prazer e afeto. Ao contrário, vai muito além
disso: é compromisso, é responsabilidade, é sacrifício, é doação, é, enfim, amor de
verdade. É a dureza do coração humano que não permite enxergar todas essas coisas.

122
Jesus, o Emanuel, encarna no seio de uma família

Jesus não só fala sobre a família, mas nasce e vive no seio de uma família. Sua
autoridade se dá porque Ele é o Filho de Deus, mas também porque muito viu e viveu
dentro de Seu próprio lar, seja por meio de Sua mãe, Maria Santíssima, seja de São José,
esposo de Maria. Podemos pensar com que fidelidade este casal viveu cada um de seus
compromissos matrimoniais. Podemos perceber que, desde as primeiras páginas dos
Evangelhos, valores, como a simplicidade, o trabalho e o serviço ao próximo, são
nitidamente presentes na vida da Sagrada Família de Nazaré. A base e o sustento daquela
família era Deus mesmo.
E mais, São José é justo, é o guarda e protetor da Sagrada Família. Ele honra com
seus deveres de pai adotivo de Nosso Senhor e de esposo de Maria. Certamente dele
Nosso Senhor muito herdou em Sua personalidade varonil.
E da mesma forma Maria Santíssima – ao partir em direção à casa de sua prima
Isabel, que estava grávida – dá provas de ser excelente dona de casa, esposa, mãe e
educadora. Basta olhar para o cuidado com que Maria e José terão com Nosso Senhor
nas poucas palavras dos Evangelhos da Infância. Jesus depois falará com docilidade de
Sua família, inclusive apontando-a como modelo de obediência à Palavra de Deus (cf.
Mt 12,5).
Além dos Seus ensinamentos, a própria vida de Jesus é um eloquente testemunho de
família, ladeado por São José e Maria Santíssima. Disto dirá o autor da carta aos
Hebreus: “Pois tanto o Santificador, quanto os santificados, todos procedem de um só.
Por esta razão, ele não se envergonha de chamá-los irmãos” (Hb 2,11).
Na Sagrada Família de Nazaré, Jesus Cristo assume a família humana e eleva sua
instituição celular – marido, mulher e filhos – a uma altíssima dignidade. Não nos
esqueçamos de que o primeiro milagre de Jesus é realizado numa festa de casamento, o
que assinala ainda mais a aliança entre Deus e a humanidade, confirmando, apoiando e
elevando a união entre os esposos.
Grande é o valor da família. Podemos perceber que, se a família vai bem, a
sociedade humana vai bem. Se a família vai mal, a sociedade também vai mal.
Pensemos ainda naquela festa de casamento em Caná da Galileia, já nos primeiros
instantes destinada ao fracasso e à vergonha pela falta do vinho bom. Imaginemos como
sairiam os convidados e como ficariam os noivos após tal episódio. Faltar vinho numa
festa de casamento judaica era o mesmo que faltar sal na comida. Pois bem, Jesus está lá,
e Maria Santíssima também. Está lá um modelo de família segundo o desígnio de Deus,
o que fez a diferença. O vinho bom não faltou, e aquele jovem casal que celebrava seu

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matrimônio pôde prosseguir seu caminho. E aqui se encontra mais uma vez o princípio
fundamental para o sucesso do matrimônio e da família: a presença de Deus.

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Para evitar o divórcio

1. Atitudes de reflexão
Primeiramente, é preciso romper com a ideia que impera na sociedade atual de que o
divórcio é resposta para uma crise conjugal. O divórcio não é a melhor resposta. Não
existe solução fácil para situação complexa. Desse modo, é preciso pensar com
sinceridade em cada uma das realidades mencionadas a seguir.
a) Deve-se pensar nos filhos – Os filhos são os que mais sofrem diante da
possibilidade de separação dos pais. Os filhos são frutos da unidade do casal que
se abriu à vida. Cada filho traz consigo muito do pai e muito da mãe, de modo que
não se pode separar o que se encontra substancialmente unido numa vida, a dos
filhos. Imaginem os pais, portanto, o sofrimento que provocariam nos filhos, ainda
mais sendo crianças ou adolescentes, ou seja, muito dependentes e vinculados
afetivamente aos pais, diante da rachadura do divórcio. É um bom caminho de
superação da crise, seja ela qual for, ou pelo menos um convite a uma reflexão
mais profunda, pensar antes nos filhos do que em si mesmos.
b) Deve-se pensar no começo de tudo – É preciso fazer uma autêntica retrospectiva
desde a primeira troca de olhares. Pensar em tudo que motivou para assumir o
compromisso do matrimônio, de querer passar a vida inteira um ao lado do outro.
Para isso é muito importante rever o álbum de fotografias de família, desde o dia
do casamento até os projetos que foram feitos no tempo do namoro e noivado e
logo após o casamento. É preciso guiar um exame de consciência da vida
individual de cada um a partir do que fora traçado e assumido em comum, para
assim verificar onde as coisas fugiram do controle ou onde as feridas se abriram,
para recolocar no lugar o que está fora e curar o que foi ferido.
c) Deve-se pensar no futuro vindouro – Cada cônjuge deve se perguntar a respeito do
futuro, do que deseja para a própria vida. É melhor tratar da ferida enquanto há
tempo do que levar sua dor e marca, caso ela se abra ainda mais, pelo resto da
vida. E de mais a mais é importante que os cônjuges – principalmente aqueles que
abrem mão da família por conta de uma aventura extraconjugal e da chamada
“busca da própria felicidade”, como muitos insistem em justificar o abandono do
lar – se perguntem: vale mesmo a pena correr o risco de ter a velhice relegada ao
descaso e ao isolamento, sem o aconchego do lar, dos filhos e netos? Sobretudo os
casais mais jovens se esquecem dessa possibilidade. A grande verdade é que
muitos, após a aventura que dura enquanto duram o sexo, o dinheiro e a
juventude, que não são eternos, acabam sendo abandonados num asilo para idosos,

125
ou mesmo são obrigados a voltar para o cuidado do cônjuge, quando este aceita o
retorno. A aventura é tão efêmera quanto o prazer da carne e do dinheiro. Um
homem que abandona um casamento de mais de 20 ou 30 anos para ficar com
uma mulher mais jovem que a esposa deve pensar o que está por detrás de tudo e
se de fato vale a pena arriscar um futuro acolhido no aconchego do lar e dos filhos
e netos. Isso é matéria séria para repensar e evitar a todo custo a ruptura da
família, e não ceder a tal tentação.
d) Deve-se saber, de uma vez por todas, que amor é uma decisão renovada a cada dia
– E aqui muitas pessoas se enganam reduzindo o amor ao puro afeto, ao
sentimentalismo e ao prazer sexual, e, o que é pior ainda, a ausência de desafios,
dificuldades e sofrimentos. Basta ver como a palavra amor é usada, por exemplo,
para falar de uma relação sexual sem compromisso: “Fiz amor com fulana...”.
Amor autêntico e verdadeiro é capaz da oblação da própria vida, é capaz do
sacrifício. Não é coincidência poética que a Igreja coloque nas palavras do
juramento de fidelidade do casal: “...na alegria e na tristeza, na saúde e na doença,
todos os dias de nossa vida” (Rito do Matrimônio, Consentimento). A cada dia,
cada cônjuge tem de estar disposto a decidir por amar e honrar com o
compromisso do casamento e da família. E isso deve acontecer sobretudo nos
momentos mais críticos da história familiar. Nenhuma provação dura para sempre;
uma hora ela vai cessar, e se a decisão de amar foi refeita a cada dia, apoiada
sobretudo na graça do sacramento, terá valido a pena. Essa luta nunca é em vão.
e) Nossas limitações sempre nos acompanham – Não é motivo para separação fazer
uma lista de acusações do cônjuge, principalmente em relação às limitações dele.
Isso deve ser visto antes do casamento e não depois. Aliás, o tempo do namoro
existe para isso, para ajudar na decisão de passar ou não a vida ao lado daquela
pessoa e com ela constituir uma família. As limitações devem ser compreendidas
e acompanhadas. E acima de tudo, se não podem ser mudadas, aceitas. Nesse caso
não entram, por exemplo, determinados vícios e comportamentos adquiridos ao
longo do tempo, como o alcoolismo ou alguma traição. Mesmo se não devem ser
aceitos, um cônjuge tem por obrigação ajudar o outro, ainda mais quando ele
precisa. É preciso que os cônjuges tomem consciência que, com o passar do
tempo, entre outras coisas, devem também adquirir a maestria de saber lidar com
as limitações um do outro e torná-las ocasião de amadurecimento recíproco e
fortalecimento dos vínculos familiares.
f) Ter muito cuidado com os “advogados do diabo” – São aquelas pessoas ou
ocasiões que contribuem ainda mais para a destruição do lar. Vejamos alguns
exemplos: determinadas telenovelas, filmes e revistas; determinados livros da

126
chamada corrente de autoajuda; determinadas amizades, daquelas que podem ser
encontradas na casa do outro lado da rua e no trabalho, no salão de beleza ou no
barzinho. Cônjuges em crise no casamento devem fugir de determinadas
“amizades” e “conselheiros”, do contrário arriscam jogar o casamento e a família
por ralo abaixo. Devem também saber reconhecer a tentação naquele ou naquela
que chega devagarzinho, sutilmente, oferecendo o chamado “ombro amigo”,
principalmente em se tratando da mulher de fora ao marido e do homem de fora à
esposa. Muitos caem nessa armadilha, que só acaba por agravar ainda mais as
coisas. É uma armadilha para o casamento, pois uma crise pode muito bem deixar
ambos os lados fragilizados e carentes, ocasião excelente para a tentação entrar em
cena. Portanto, os cônjuges devem aprender que, quando estão mais frágeis em
relação à unidade do casal, mais devem se resguardar dos afetos externos. Trata-se
de não expor a fraqueza para o inimigo e não dar brechas, pois ele é ardiloso em
usar as fraquezas do cônjuge contra ele mesmo e contra a família. E com isso está
também o dever de buscar acompanhamento e ajuda de quem de fato é preparado
para tal tarefa, de quem contribuirá para a reconstrução e cura do relacionamento
matrimonial. É essa a missão cristã mais urgente em se tratando da família: buscar
a ajuda certa.
g) O caminho mais fácil nem sempre é o melhor, pode tornar-se armadilha para a
própria vida – No tratamento de uma enfermidade, não basta intervir sobre os
sintomas, é preciso encontrar as causas. Analogicamente, em relação à família e a
relação do casal, não são suficientes as medidas paliativas, é preciso ir às raízes, e
isso custa tempo, dedicação e esforço. Tudo o que as pessoas de nosso tempo não
querem despender. A sociedade da rapidez e do instantâneo, do hedonismo, está
privando muitas pessoas da capacidade de lidar com as situações mais complexas.
Às vezes uma resposta de solução imediata seja a separação, mas deve-se
perguntar: o que virá depois disso? O que quero para minha vida? Foi isso que
sonhei? Essa é minha vocação? Às vezes o caminho da busca da unidade, da
salvação do casamento seja o mais exigente, um caminho de sofrimento e até de
dor, mas que ao fim oferecerá os melhores resultados. Ninguém colhe se antes não
trabalhou arduamente na semeadura; ninguém pode receber o salário, sem antes
ter trabalhado. Na luta pela família, é preciso olhar para a Cruz de Jesus. Para
levar Sua missão ao termo e realizar a vontade do Pai, que é a nossa salvação,
Jesus abraçou a Cruz. Não será diferente com a família. Sabemos, porém, que a
Cruz é certeza da vitória final.

2. Mudar determinadas mentalidades

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Aqui vamos tentar descrever um pouco do que se passa dentro de muitos lares, e que
alguns sabem superar com o passar do tempo. Outros, ao contrário, não o sabem e não o
fazem, deixando assim com que tudo vire uma bola de neve ou um círculo vicioso de
comportamentos que, ao fim, acaba por tornar o relacionamento do casal insuportável.
Certamente, nos dias de hoje, não falta quem, diante dos desafios da vida familiar e
principalmente conjugais, julgue ser impossível determinados esforços ou mudanças. E
como já temos falado muito nesse assunto, acabam dizendo que o caminho melhor é o
mais fácil, ou seja, abandonar tudo e procurar a própria felicidade.
Um dia, em visita à casa de uma família muito próxima de mim, num certo
momento, a mãe começou a corrigir o filho, muito arteiro por sinal, com palavras fortes.
Ela ficou nervosa, pois o filho não deixava ninguém na sala conversar por conta da
bagunça. Enquanto ela falava em tom alto e enérgico com o filho, de repente batem à
porta. Para minha surpresa, aquela mãe mudou completamente o comportamento, do tom
alto e enérgico passou tranquilamente para um tom mais suave e simpático para com a
visita que estava à porta. Isso em pouquíssimos segundos.
Depois de presenciar aquela cena, pensei se o mesmo não poderia ser feito, por
exemplo, quando um dos cônjuges chegasse irritado em casa, ou não estivesse bem num
determinado dia, e começasse a criar um clima tenso dentro de casa. Será que não há
mesmo como lidar com situações do tipo procurando pelo menos controlar o ânimo de
quem está mais em condições de fazê-lo? Em outras palavras, já dizia a sabedoria antiga,
não convém juntar pólvora com fogo, pois o desastre seria ainda maior.
Por isso, para salvar um relacionamento, talvez seja preciso antes interagir sobre a
própria mentalidade. Muitas vezes, é a mentalidade que acaba gerando comportamentos
perigosos e nocivos ao casamento. É mais ou menos assim: a lógica do “bateu-levou”...
A esposa que escuta algo que não lhe agrada, e busca um modo de retribuir com a
mesma moeda. E enquanto não o faz, não sossega. Há também a mentalidade machista,
em que o marido trata a mulher mais como empregada do que como esposa, e assim por
diante. São mentalidades que influenciam em muito certos comportamentos, colocando
em risco muitos matrimônios, seja no médio ou longo prazo.
Outra mentalidade muito sutil quanto venenosa fica evidente quando se condena no
outro o que não vai bem em si mesmo. Em outras palavras, uma pessoa que acusa o
outro para se justificar pode estar escondendo um problema em si mesma. É a história da
mulher que começa a criticar o marido pela vida simples e até mesmo pelo trabalho
honesto, porém com um salário baixo. Na verdade, o problema que pode estar escondido
atrás disso é a inveja que ela sente das outras mulheres, sobretudo na questão material. É
também o caso do marido que começa a criticar em tudo a esposa, a partir daquilo que
ele acha que sejam as mulheres dos amigos, ou para justificar a infidelidade do próprio

128
coração em relação às outras mulheres. Na verdade tudo não passa de uma tentativa de
disfarçar a culpa ou o problema em si mesmo.
Essa mentalidade é muito presente em nossas comunidades quando esta ou aquela
pessoa decide se afastar. Na maioria das vezes, a culpa é sempre dos outros. E aí
começam as críticas, muitas delas fortemente destrutivas.
Ainda num casamento pode se perceber essa mentalidade também quando um ou
outro não vai bem, e para não dar o braço a torcer começa a troca de farpas e ferroadas.
Não está certo ir por esse caminho. É preciso romper com essa mentalidade pela
capacidade de se conhecer e assumir as próprias limitações e dificuldades sem desviar o
foco para o outro por meio de críticas e depreciação da sua imagem.
Outra mentalidade é aquela presente quando um tenta dominar o outro. Família não é
dominação, mas serviço de comunhão, e as reações dizem muito sobre isso. Por
exemplo, há quem procure sempre dominar a conversa por meio da imposição do ponto
de vista pessoal e das vontades. E, ainda, quem numa discussão procure sempre falar
mais alto e se põe a humilhar o outro. Sem admitir os erros, quer sempre estar certo.
Essas são reações de uma mentalidade de dominação. Nesse sentido, há homens e
mulheres que não se dão conta e vivem exatamente assim. Observem um exemplo muito
corriqueiro, quando um quer ir para um lugar e o outro não quer, e os dois adultos são
incapazes de chegar a um acordo, preferindo ir à lugar nenhum.
Outra mentalidade se refere ao modo de encarar as situações da vida retendo somente
as coisas negativas. Há pessoas com facilidade de se ligar exclusivamente às coisas más,
ainda que sejam somente possibilidades. São aquelas que não conseguem enxergar o
melhor, mas apenas o pior. É uma espécie de pessimismo que torna pesada e difícil a
vida matrimonial e familiar. Essas pessoas se concentram mais nos erros que nos acertos,
mais nas más que nas boas notícias, mais nos retrocessos que nos progressos, mais em
qualquer risco de fracasso ou infidelidade do cônjuge do que nos anos de sucesso e
fidelidade.
Geralmente as pessoas que vivem assim não se dão conta facilmente, precisam de
ajuda. Ao mesmo tempo, viver deste modo pessimista e negativo torna também a vida
dos outros pesada. Essas pessoas negativas geram um mal-estar psicológico e colocam
por muito pouco a boa reputação das pessoas em dúvida. Não precisam de provas para
isso, basta criar alguma história ou deduzir algo por conta própria. Metaforicamente,
podem ser comparadas ao urubu ou outra espécie de animal que se alimenta
exclusivamente de coisa podre. Podem ter uma lasca de carne de primeiríssima
qualidade diante de si, mas vão atrás mesmo é da carne podre.
É interessante perceber que as pessoas que agem desse modo não só recolhem as
coisas ruins, mas também as distribuem gratuitamente a quem estiver por perto. Não é

129
difícil que, com o passar do tempo, principalmente se as lutas e dificuldades são grandes,
este tipo de mentalidade passe a fazer parte da vida de um casal que não toma cuidado, a
cada dia, em reavivar a chama do primeiro amor.
Um princípio de ruptura com essa mentalidade é saber colocar tudo na balança com
muita sinceridade e honestidade e perceber que, se temos coisas ruins diante de nós,
também temos coisas muito boas, e é nestas que temos de nos apegar, sobretudo no
tempo da prova. Há também um ditado que ajuda: “se a vida lhe oferece limões, não
reclame, faça com eles uma boa limonada”. Em síntese, é preciso sabedoria para
administrar o que a vida segue nos oferecendo. Ainda mais quando se trata de proteger a
família.
Às vezes a infelicidade na família é ocasionada porque há uma mentalidade de se
concentrar mais nos pontos negativos do que nos pontos positivos uns dos outros.
Sobretudo quando se soma às outras mentalidades de que falamos anteriormente, ou seja,
quando se quer acusar o outro para tirar o foco de si mesmo e quando se quer ter sempre
a razão e estar acima do outro.
Assim como o casamento e a família são uma construção, a sabedoria, ao longo
desse caminho, é também uma aquisição constante e dinâmica. É preciso, portanto,
vigiar as mentalidades e os comportamentos que entram em nossas casas e nos
relacionamentos conjugais, para assim desmascarar o inimigo, muitas vezes disfarçado
sutilmente, e continuar escolhendo a família, renovando cotidianamente o compromisso
e a missão assumidos no dia do casamento.

3. Cura do relacionamento
A dimensão em que todo ser humano mais precisa de cura é a dos relacionamentos.
Por causa do pecado, todos somos, de certo modo, vulneráveis tanto em nível
psicológico quanto físico, são as chamadas fraquezas humanas. E muitas vezes são elas a
causa de muitas feridas interiores, que podem surgir seja a partir de uma simples crítica,
dependendo de quem a recebe e do modo como recebe, seja a partir do golpe de uma
traição. É preciso saber lidar com essas feridas e buscar o jeito certo para tratá-las e curá-
las.
Vamos agora projetar uma situação de um casal em crise matrimonial e à beira da
separação, pois não cuidaram do relacionamento, e a situação foi se tornando
insustentável, até o ponto em que ambos começaram a pensar que já não mais poderiam
continuar vivendo juntos.
Uma das situações que mais se repetia era o ponto ao qual chegara o relacionamento
diário. Não obstante a monotonia, também aumentava a distância e a troca de espetadas

130
quando um se dirigia ao outro. Felizmente, antes de tomar uma decisão tão descabida
para essa situação, que é a separação, buscaram por alguém que lhes pudesse
acompanhar para ver se seria possível trilhar outro caminho.
Tudo começa mais ou menos assim: a mulher cuidava da casa e dos filhos o dia todo,
enquanto o marido trabalhava. Quando o marido chegava, a esposa queria conversar a
respeito das coisas da casa, dos filhos e do próprio dia, mas o marido, cansado, se
resumia a permanecer em silêncio, tomar um banho, jantar e, após a janta, estender-se no
sofá da sala até dormir aos roncos. Depois só passava para a cama quase sonâmbulo.
Por muito tempo essa cena foi se repetindo até se tornar uma rotina. Com a chegada
da internet na casa, o fosso entre um e outro aumentou ainda mais. A internet tornou-se
uma espécie de refúgio da esposa, que não tinha atenção desejada do marido, mas tinha a
das redes sociais – antigamente seriam as vizinhas ou mesmo as ligações telefônicas. E
assim tudo seguiu-se por mais um tempo, mais ou menos longo. Meses, quem sabe mais
de um ano.
Finalmente o marido se dá conta de que as coisas da casa já não estavam mais como
um tempo atrás: a louça por lavar, a casa por arrumar, as crianças correndo de um lado
para o outro aos gritos, e a esposa centrada na internet. O marido põe-se a reclamar. E
assim um dia após o outro. A esposa responde e, por vezes, remexe em situações de
tempos atrás. Enfim alguém resolve perguntar a respeito da situação dos filhos na
escola... Um dia após o outro, após curtas trocas de palavras superficiais, sempre surgia
uma ocasião de crítica e discussão. Por fim, já se passava longo tempo sem a relação
conjugal íntima, própria do casal. Além do impulso natural, que também já não estava lá
grande coisa um pelo outro, nada restava além de distância e constantes trocas de farpas.
O marido recorria à masturbação; e a mulher, às compras e umas boas horas no salão de
beleza. Oração...?! Talvez não rezassem desde a última vez que tinham ido à Missa, e
isso já fazia bastante tempo. Em poucas palavras, essa foi a constatação após um esforço
por fazer um exame de consciência em nível conjugal.
As trocas de críticas eram cada vez mais frequentes. O marido pelo descaso da
esposa naquele momento, a esposa pelo descaso de sempre do marido. Ambos
irredutíveis, cada qual do seu lado. Aqui vemos uma situação específica que pode
encontrar reflexos em certas situações nos lares. Os motivos de uma crise forte sempre
começam pequenos e, depois, por não terem sido cuidados a tempo, acabam crescendo e
comprometendo a vida do casal e da família.
Enfim, o casal é colocado de frente, um diante do outro, e é indagado a respeito do
que cada um poderia fazer de sua própria parte, após o exame de consciência, para salvar
a família. Sucessivamente, um após o outro foi dizendo, uma coisa por vez, o que
poderia fazer de sua parte para melhorar. O marido: dar mais atenção para a família após

131
o dia de trabalho; a mulher: aproveitar melhor o tempo, evitando a internet. O marido:
abraçar mais a esposa e os filhos; a mulher: estar bem consigo mesma. O marido: dizer
mais vezes que a esposa é bonita; a mulher para e, após um breve instante de silêncio,
lamenta-se: “Não ouvir elogios do meu marido é muito doído...”. O marido não perde o
fio da meada: “Preciso elogiar mais vezes minha mulher!”. E após algum tempo nesse
exercício, são finalmente liberados para que voltem para casa e vejam o que podem fazer
concretamente dali por diante.
Numa noite daquela semana, decidem ir para a cozinha preparar um jantar em
família. Chegaram à conclusão de que seria uma excelente ocasião para cultivarem os
relacionamentos, tanto entre si quanto para com as crianças. Todos se prepararam muito
bem em relação ao que vinham vivendo alguns dias atrás. Tanto o marido quanto a
esposa ajeitam melhor a aparência. A noite começa com elogios de um ao outro, e
inclusive dos próprios filhos – os quais, embora pequenos, não se continham de alegria
pelo clima diferente que vinham presenciando ultimamente.
Começam a ajeitar as coisas na cozinha. Preparam a mesa de jantar enquanto vão
cozinhando. A esposa pergunta o que o marido gostaria de comer... ele, naturalmente,
rebate com uma pergunta: Mas você não sabe? Nessas alturas as crianças estão no seu
jeito de expressar alegria aprontando algumas artes pela casa. Surge uma pequena tensão
e um tom um pouco alterado da esposa: “Vai ver o que está acontecendo que eu fico
aqui!”. O esposo rebate: “Já vai começar a gritaria?!”. A esposa se fecha, pois já ouvira
em outras ocasiões palavras num tom semelhante. A barreira está posta novamente e por
pouquíssima coisa. Se não for cuidada, poderá subir às alturas em que estava antes.
Os dois se dão conta de que o trabalho que tinham pela frente era árduo, pois, além
de precisarem romper com um círculo vicioso de comportamentos que foram se
estruturando com o passar do tempo, precisavam também curar as feridas que foram se
abrindo e ficando sem cuidado. Felizmente aquele casal se lembrara do padre da
paróquia e resolvera pedir ajuda. E o padre se propusera a acompanhá-los naquele
momento. Para alegria de todos, aquela família foi salva, além de reacender a chama da
fé e descobrir a importância da comunidade de fé em suas vidas.
Ninguém deve se envergonhar por chegar à conclusão de que precisa de cura nos
relacionamentos, de que precisa de ajuda. Principalmente se a salvação da família está
em jogo. No tempo da crise é preciso parar, repensar a vida, fazendo um bom exame de
consciência, e ter a coragem de recomeçar.
Na vida a dois é preciso saber voltar frequentemente ao primeiro amor, à primeira
troca de olhares, aos primeiros momentos juntos, aos gestos de afeto e demonstração de
carinho, aos projetos feitos juntos, ainda que não tenham sido executados. Tudo se trata
do que gerou ânimo, motivação, desejo de querer empenhar toda uma vida em

132
companhia do outro. Amar significa empenhar a própria vida sem reservas. Admitir tais
reservas significa esvaziar o sentido mais profundo do próprio amor.
Se por um lado a mentalidade gera comportamento, por outro, o comportamento gera
sentimentos, e o contrário disso nem sempre é verdade. Decidir-se pelo cônjuge significa
traduzir em atos concretos tal decisão, ainda que seja mediante o sofrimento e a
resignação. Não se pode dizer o contrário em relação ao puro sentimento, já não é tão
seguro quanto uma decisão interior consciente e acertada. O sentimento oscila, a decisão
o supera. Se uma pessoa abandona o lar por causa de puro sentimento, no futuro, outra e
outra vez ela poderá ter motivos para fazer o mesmo, pois não poderá esquivar-se de
momentos de desafio, dor e sofrimento, sobretudo em relação ao outro, pois isso faz
parte da vida de seres humanos.
Poderosa arma na salvaguarda da família cristã é o santo sacramento do matrimônio.
O casal nunca está só, relegado à própria sorte. Há unção espiritual. Para a cura das
feridas do relacionamento, há o bálsamo do Espírito Santo, ou seja, a ação própria da
graça eficaz mediante o sacramento.
Graça e esforço humano precisam caminhar juntos. Por isso se faz necessário buscar
a ajuda certa para o casal, alguém que de fato seja capaz de auxiliar em
acompanhamento, escuta, aconselhamento e oração. O casal precisa, em determinados
momentos mais que outros, lançar-se à cura de um diretor espiritual, ou seja, um cristão,
padre ou não, que saiba o valor da família e que esteja em condições de buscar em tudo o
bem da família. Nessas alturas vale dizer que se deve escapar daqueles lugares onde
certamente se ouvirão péssimos conselhos, e desligar a televisão nos horários em que
tudo está voltado para a dissolução da instituição familiar.
A família não é uma instituição decadente e ideal como muitos insistem em dizer,
sobretudo recorrendo às mazelas na natureza humana como justificativa. Numa crise,
seja ela qual for, a separação, embora mais tentadora e atrativa, não deve ser a resposta.
Deve-se lutar até o fim, lembrando ainda que, quando se chega ao limite das próprias
forças, é hora de deixar Deus agir, esperando e confiando em silêncio e oração. É hora de
experimentar que a fé faz toda diferença.

4. Conselhos para a conversão do marido (ou da esposa)


Sabemos a dor de muitas mulheres em nossas comunidades que sonham com a
conversão de seus maridos, totalmente alheios à fé, como também de vários homens em
relação às suas esposas. Aqui gostaríamos de dizer algumas coisas simples, porém
importantes para os cônjuges que têm de lidar com essa situação.
Ter calma e paciência é imprescindível. Abraçar a fé é uma experiência de liberdade.

133
Portanto, é preciso saber esperar e não desanimar jamais. A mulher de fé e o homem de
fé sabem que tudo está nas mãos de Deus e escolhem confiar e seguir caminho adiante.
A pessoa de fé jamais cede à ansiedade e ao desespero.
Por isso mesmo, não devem, em hipótese alguma, brigar por causa de Deus ou da
Igreja, nem mesmo diante das blasfêmias da parte não convertida. Existem outros modos
de ser firme e falar sem ser pela discussão ou pela agressão verbal. Isso, aliás, é muito
mais um contratestemunho e contribui para que a outra parte se endureça ainda mais.
Portanto, é preciso esforçar-se por tratar bem e com afeto. Esse testemunho tem maior
probabilidade de fazer surtir efeito na obra da evangelização do lar.
Algo que não deve nunca faltar na busca de conversão de um cônjuge é a oração. E
há sempre quem, após longos anos sem alcançar os resultados esperados, se pergunte:
“Mas por quanto tempo ainda?” A resposta não pode ser outra: Sempre! E isso vem do
dia do casamento, quando um disse ao outro: “Até o fim de nossas vidas” (Ritual do
Matrimônio, Consentimento).
Por maior que seja a luta de um esposo cristão para com seu cônjuge, ele deve ter
sempre muito claro consigo: Deus lhe entregou seu cônjuge para que você o entregue
melhor para Deus! Essa é uma missão matrimonial. E aqui encerramos com uma palavra
de confiança que jamais deveria ser esquecida, pois é promessa bíblica: “Crê no Senhor
Jesus, e serás salvo, como também todos os de tua casa” (At 16,31). A missão é,
portanto, manter a chama da fé sempre acesa, ser um referencial dentro de casa, assim
como o é um farol em alto-mar ou uma estrela na noite escura.

134
Para cura interior

Toda cura interior é um processo. Como uma ferida no corpo precisa de cuidado
todos os dias, assim também são aquelas que se formam na alma. A cura não acontece de
uma hora para outra, sobretudo quando lidamos com histórias pessoais e familiares. É
preciso cuidado, carinho e atenção. E não se pode desanimar nunca. Os resultados são
sempre bons quando se entra nesse processo com decisão e vontade, e a graça de Deus
não falta nunca.
Para essa parte propomos alguns pontos de reflexão e oração, seja individualmente,
seja o casal junto. Trata-se, pois, da cura interior do casal, sobretudo o que passa por
uma provação muito grande no matrimônio, mas que deseja reconstruir a família, mas
não sabe por onde começar. Talvez o melhor início seja a busca da cura interior, para
poder dar passos significativos de conversão e reconquista.
Antes, gostaríamos de propor algumas orientações práticas. Busque ler item por item
abaixo calmamente e sempre em clima de oração. Para isso, procure um lugar silencioso,
que ajude a manter a calma e a compenetração, ou seja, a possibilidade de repaginar as
etapas da vida de casal, ou até mesmo, quem sabe, episódios anteriores, mas que acabam
por influenciar nessa etapa da vida. Bom será se essa parte puder ser feita num oratório
em casa ou até mesmo na Igreja, diante do Santíssimo Sacramento.
Se vier alguma lembrança de dor em relação ao cônjuge por ofensa ou mesmo
traição, não desfaleça, mas procure entregar a Deus e pedir ao bondoso Espírito Santo
que o ajude no perdão e na superação. Será melhor para você e para todos. Se em outro
momento vierem lágrimas de arrependimento, não as evite. Transforme-as em motivo de
oração por si, pelo cônjuge e pela família.
O importante é que você saiba usar de muita verdade para com sua história e para
com a graça de Deus, para que assim seja facilitado o processo de cura do
relacionamento conjugal. Detenha-se por alguns instantes em cada ponto e, se a
lembrança pedir tempo maior, não tenha pressa de chegar ao fim. Lembre-se de que a
cura é um processo, desse modo você poderá usar por vários dias este roteiro, cada dia
uma parte.
Primeiro, ore assim:
Meu Deus e meu Pai. Eu Te louvo e Te bendigo pelo dom da minha vida e do meu chamado para o
matrimônio. Te louvo pela minha história. Te louvo pela minha esposa/meu marido (diga o nome).
(Caso tenham filhos) Te louvo pelo(s) nosso(s) filhos, que são uma verdadeira bênção. Senhor, é
verdade que temos passado por momentos difíceis, tens nos acompanhado e estado conosco, nós
cremos. Por isso, neste momento quero Te pedir uma graça especial do Espírito Santo para que nos
ajude a percorrer através de nossa própria história o caminho da cura dos nossos relacionamentos.

135
Precisamos ser curados e restaurados para seguir adiante com nossa família, que é Tua, Senhor. Pai,
Te peço neste momento o Espírito Santo, em Nome de Jesus. Amém!

Recorde o primeiro olhar. Quem viu primeiro, como se sentiu, o coração bateu mais
forte, as pernas bambearam... Pode parecer coisa de adolescente, mas foi aí que tudo
começou.
Recorde o primeiro beijo. De quem foi a iniciativa, que meios usou para o primeiro
encontro. Quais as primeiras palavras ditas. O primeiro “eu te amo” ou qualquer outro
modo de demonstrar o amor que não necessariamente por essas palavras.
Dali por diante, quantos gestos de carinho houve entre vocês? Palavras, declarações
e provas concretas de amor de um para com o outro.
Recorde os sonhos de felicidade traçados juntos e que pretendiam realizar – ainda
que tenham sido coisas de jovens. Pense nas horas que passavam conversando e
conhecendo-se um ao outro, os gostos, as preferências, as vontades.
Pense nas dificuldades que foram sendo superadas juntos. Pense no amadurecimento
com o passar do tempo. Lembre-se também das horas de insônia pensando um no outro
por preocupação, mas também por carinho e afeto.
Quantos momentos lindos foram escrevendo a história da família. Quando decidiram
se casar, como tudo aconteceu. Lembre-se dos preparativos para o casamento, da
expectativa para aquele dia. Aqui seria bom, se possível, olhar o álbum de fotos ou
mesmo alguma gravação da celebração do sacramento.
Revisite em lembrança a primeira casa, como foi preparada. Reveja os primeiros dias
e semanas após o casamento. Olhe para as coisas boas, o cuidado da casa, do trabalho.
Recorde a notícia da primeira gravidez. Como foi a reação, de surpresa, de alegria,
de embaraço... O casal estava aprendendo a ser família. Reveja o processo da gravidez, a
preparação para acolher o bebê.
Chegando o dia do nascimento, revisite o hospital. Relembre o semblante do
esposo/da esposa. E quando juntos olharam para o primeiro filho. Repita o mesmo para
com os outros filhos – caso houver.
Reveja como mudou a vida de vocês após o nascimento do(s) filho(s), fruto do amor
do casal. Recorde o rostinho da(s) criança(s) e como a presença daquela nova vida trouxe
tanto alegria como também desafios. E os filhos foram crescendo... Até a etapa da vida
em que estão, faça uma revisão da história conjugal a partir dos filhos também.
Pense agora em quantas provas foram sendo superadas, como o lar foi sendo
construído e edificado. Não deixe de pensar nos próprios limites, mas também no quanto
você mudou e cresceu. Pense nos esforços contínuos que tem feito para continuar
edificando seu lar sobre bases sólidas.
Não deixe de pensar nas dificuldades de relacionamento que foram surgindo de um

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em relação ao outro. Talvez até nas dificuldades que vivam neste momento. Mas pense
na possibilidade de refazer o caminho, de reconstruir o que precisa ser reconstruído.
Família é construção e reconstrução.
Pense agora somente nas qualidades da sua esposa/do seu esposo. Desde quando se
conheceram. Se detenha um tempo nesta parte e, se puder, enumere-as uma a uma.
Será que você já disse alguma vez ao seu cônjuge que ele(a) é uma pessoa
maravilhosa e destacou alguma qualidade sua? E agora? O que você diz?
É importante que, diante de todas as recordações, agora ponha num dos pratos da
balança tudo de belo, lindo e maravilhoso que aconteceu entre vocês. No outro, coloque
as coisas ruins que, segundo vocês, vinham desgastando a relação conjugal e ameaçando
a família. Responda com honestidade: O que pesa mais?
Por que tudo agora, por causa de um momento de dificuldade, tem que ser
esquecido, enterrado debaixo das coisas ruins, como brigas, discussões, infidelidades e
traições? Por que você tem mesmo que ficar com a parte ruim? Por que não escolher
ficar com o que houve de bom e tentar banir o que há de ruim pelo perdão e pelo louvor?
Por que não continuar a bela experiência de ser família, de lutar pela família? Será que
ao fim de tudo não terá valido a pena?
Agora conduza um momento de louvor a Deus por tudo de bom que você foi
relembrando e vendo como num filme de sua vida e de sua família. Louve e agradeça a
Deus pela vida da sua família! Ofereça perdão. Peça forças para continuar fiel em sua
missão. Deus te ajudará. Tenha certeza! E faça o propósito de daqui por diante cultivar
três coisas importantíssimas no seu casamento: oração, perdão e diálogo.

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Família: primeira educadora2

A família é a primeira educadora (Vaticano II, Declaração Gravissimum Educationis,


3). É o primeiro lugar que deve favorecer principalmente a transmissão de valores. Já
toda literatura bíblica fala sobre a ação educativa e a sua primazia dentro da família.
Aliás, toda tradição israelita é muito clara ao mostrar que é no seio da família que os
valores, a começar por aqueles religiosos, são transmitidos (cf. Pr 22,6). O povo do
Antigo Testamento sabe muito bem disso, pois ele mesmo foi sendo educado e formado
pelo Senhor no decorrer dos séculos (cf. Os 5,2; Is 2,3; Mq 4,2; Sl 119,102). E a fonte de
toda essa ação educativa não é outra que a Palavra do Senhor contida na Lei (cf. Esd
7,25; Sl 119,1; Pr 4,2).
O caminho da Igreja não será diferente. O mestre é Jesus Cristo (cf. Jo 13,13; Jd
1,4), e seus ensinamentos e obras se tornam referência fundamental para a ação
educadora da Igreja. A Igreja mesmo se vê como uma casa (cf. At 12,12; Rm 16,23;
1Cor 16,19; Cl 4,15; 1Tm 3,15; Fm 1,2; 1Pd 4,7), uma família, mãe e mestra. Os
apóstolos, em suas cartas, falam abertamente sobre a educação dos filhos no seio da
família (cf. Ef 6,4; 1Tm 3,4).
A escola tal e qual conhecemos hoje é um produto de longo tempo de reflexão e
progressão histórica e encontra suas raízes na educação cristã que foi se consolidando no
interior das famílias, ainda que o que tenhamos hoje não corresponda ao ideal cristão de
uma educação integral e integradora (Gravissimum Educationis, 2). Os Padres da Igreja
muito falaram sobre esta questão, da necessidade e da prioridade de que os pais
assumam com afinco a educação dos filhos, pois eles são os primeiros responsáveis (cf.
Pastor de Ermas; Clemente Romano, Primeira Carta aos Coríntios; João Crisóstomo,
Sobre a vaidade e a educação dos filhos).
Nesse contexto, há de se destacar três elementos que forjaram a educação cristã: a
primazia da Bíblia na educação dos filhos, a oração em família e a capacidade de escuta,
sobretudo da Palavra de Deus, o que preparava o terreno para semear e fazer crescer
solidamente valores fundamentalmente humanos e religiosos.
Na Idade Média, foram se estabelecendo diversos tipos de escolas (nos monastérios,
nas catedrais e nos palácios) e, mais adiante, as universidades como fruto de um longo
período de transmissão de valores e conhecimentos no seio das famílias – não que os

138
tempos anteriores desconhecessam a figura de um educador que cuidasse da formação
intelectual e da transmissão de determinados valores aos filhos, sobretudo em famílias
ricas, todavia o ambiente será sempre aquele da casa e da família.
Entre tantos testemunhos deixados pelo período medieval, vale a pena ressaltar o de
três pais preocupados com a formação dos filhos. O primeiro de Dhuoda, mulher e mãe
de grande cultura, da alta nobreza carolíngia, que não renuncia a seu papel de educar o
filho adolescente, não obstante a distância que os separava. A mãe escreveu um pequeno
tratado ao filho Guilherme, como também o endereçou ao seu irmãozinho pequeno, que
o pai tinha tirado de junto dela antes mesmo do batismo.
O Liber Manualis, porque escrito pelas mãos da própria mãe, entre os anos 841-843,
contém o seu projeto formativo. É uma leiga, uma mãe, que propõe uma educação
autenticamente cristã aos filhos. Eis um trecho do escrito:
Sempre procurei estar próxima de ti, meu filho, para ensinar-te costumes de vida neste mundo, de modo
que, enquanto milite no serviço ativo, possas percorrer o teu caminho, confiante e tranquilo, sem que a
tua dignidade seja feita objeto de desprezo. Não cessarei de encorajar-te com a ajuda de Deus, a levar à
perfeição o serviço da tua alma, para que possas renascer a cada dia no Cristo, como se eu fosse para ti
mãe uma segunda vez, seja na alma que no corpo (Manual, VII, 1).

Pouco mais adiante, em 1245, o pai e juiz Albertano de Brescia também escreve um
projeto educativo endereçado ao seu filho Estêvão. O Liber de doctrina dicendi et
tacendi integra a tradição que é transmitida de pai para filho, de adulto para jovem, de
mestre para discípulo. Albertano, cristão e advogado que participa ativamente na vida da
cidade, deseja formar seu filho fundamentado em valores sólidos. Nesse projeto
educativo, a palavra é considerada o meio que deve honrar a verdade, um valor que
aproxima os homens de Deus. Rico em citações bíblicas, ele dirá: “Não podemos nada
fora da verdade, mas somente pela verdade” (Doctrina, II; cf. Mt 12,36).
Cerca de 30 anos depois de Albertano, outro pai de família, Raimundo Lulo, letrado
e filósofo da Ilha de Maiorca, escreve a Doctrina pueril (1275-1276) para educação do
seu filho Domingos. À luz da fé, ele interpreta a vida e as atividades humanas e o
empenho educativo como um serviço prestado a Deus:
Deus quer que trabalhemos e nos apressemos em servi-lo, porque a vida é breve, e a morte se aproxima
de nós a cada dia; por isso, perder tempo é coisa realmente detestável. Sendo assim, desde o princípio o
homem deve mostrar ao seu filho as coisas gerais no mundo, de modo que tenha condições de avaliar
aquelas particulares (Doctrina, prólogo).

O objetivo do projeto educativo de Raimundo é o conhecimento de Deus como


inteligência da fé e o conhecimento do mundo como objeto do Amor de Deus, o qual o
pequeno Domingos desde pequeno é chamado a acolher. Ao falar da importância das

139
atividades corporais, assim como aquelas da educação dos sentidos, Lulo escreve:
Habitua teu corpo a trabalhar para que tenha saúde e não seja pesado nem lento; habitua a tua alma a
recordar, para que não esqueças; habitua o teu intelecto a entender, para que não te enganem; e habitua a
tua vontade a amar, para seres agradável a Deus (Doctrina, XCIII).

No decorrer dos séculos, foram consolidando-se as escolas e universidades, as quais


encontram raízes profundas e inegáveis no projeto educativo cristão que, com o passar
do tempo, foi se firmando pela Igreja. Com a separação entre a Igreja e o Estado, e as
diversas revoluções que foram se sucedendo nos tempos modernos, a questão educativa
foi tornando-se algo bastante complexo. Muito se evoluiu em determinados aspectos,
inclusive nas áreas humanas e pedagógicas. Todavia, muito há que se questionar
também. Entre as diversas questões que devem ser discutidas, está a primazia da família
na educação dos filhos.
Uma família não pode delegar por completo a educação dos filhos à escola e ao
Estado. E nem o Estado e nem a escola podem chamar para si tal primazia. Os valores,
principalmente o da fé e da moral, devem ser transmitidos logo cedo no seio. E tanto a
escola quanto o Estado devem dar condições para que tais valores não se percam ou
sejam negados, mas que tenham condições de amadurecimento, de modo que o processo
educativo contribua em princípios inegociáveis à busca da verdade acima de tudo.
Os pais têm o direito – e pesa sobre eles o dever – de educar retamente seus filhos
(cf. Gravissimum Educationis, 6) na verdade e na justiça, na bondade e honestidade dos
costumes. E disso não devem abrir mão em hipótese alguma e nem mesmo, estando em
pleno exercício das faculdades que lhes são próprias para este ofício de educar, delegá-lo
a terceiros, seja por vontade própria, seja, o que é pior ainda, por coação externa, venha
de onde vier. O mundo melhor, que tanto se deseja, começa a ser construído e
transformado dentro de casa, no seio da família.
Em relação à necessidade da educação dos filhos por parte da família, é interessante
observar também o outro lado da moeda, caso venha a ser negligenciada mesmo no seio
da própria família, e suas consequências. Uma visão, compendiada de forma bastante
didática nas “10 regras fáceis de como criar um delinquente”, está presente no livro
Sereis uma só carne, de autoria do Prof. Felipe Aquino (editora Cléofas). Ainda que às
avessas, são situações bastante realistas e que mostram o dever à intervenção educativa
por parte da família na vida das jovens gerações.

140
Dez regras fáceis de como criar um delinquente

1. Na infância, dê tudo que ele quiser. Assim, quando ele crescer, acreditará que o
mundo tem a obrigação de lhe dar tudo o que ele deseja.
2. Quando ele disser palavrões, ache graça. Isso o fará considerar-se interessante.
3. Nunca lhe dê qualquer orientação religiosa. Deixe ele crescer para decidir por si
mesmo.
4. Apanhe tudo o que ele deixar jogado: livros, sapatos, roupas. Faça tudo para ele,
para que aprenda a jogar sobre os outros toda responsabilidade.
5. Discuta com frequência na presença dele. Assim não ficará chocado quando o lar
se desfizer mais tarde.
6. Dê-lhe todo dinheiro que quiser e quando quiser.
7. Satisfaça todos os seus desejos de comida, bebida e conforto. Negar pode acarretar
frustrações prejudiciais.
8. Tome partido dele contra vizinhos, professores e policiais. Na verdade são os
outros que têm má vontade para com seu filho.
9. Quando ele se meter em alguma encrenca séria, dê esta desculpa: “Nunca consegui
dominá-lo”.
10. Prepare-se para uma vida de desgosto.
“Corrige teu filho e ele te confortará, e te encherá de prazer” (Pr 29,17).

141
Conclusão

Acrescentar à palavra família o termo tradicional pode ser uma tentativa de reafirmar
a família num contexto tão conturbado como o que vivemos. Todavia, essa junção não se
dá sem alguns conflitos e incompreensões.
Há que se perguntar: o que entendemos por tradicional? Com isso não estaríamos
segregando outras situações em que a família se encontra incompleta? Levemos em
conta também como determinadas palavras foram sendo esvaziadas e estigmatizadas ao
longo dos anos por ideologias e movimentos que nos trouxeram aos tempos que hoje
vivemos. A palavra tradição é uma delas.
E não é difícil encontrar quem defina a palavra tradição ou tradicional como algo
negativo: radical, imutável, e por que não aprisionador, cansativo, velho e esclerosado,
que por isso deve ser posto de lado e até banido.
Mas é tudo o contrário. Tradição ou tradicional é aquilo que é transmitido, ou seja,
deixado de uma geração a outra, como um dom a ser cuidado, conservado e entregue.
Não é qualquer coisa que é transmitida, mas o que dá teor à própria existência. Nesse
sentido, “a tradição é aquilo que permanece depois da catástrofe, não aquilo que brilhava
antes da catástrofe e depois se apagou” (Lexicon, Pontifício Conselho para a Família, p.
438).
Não temos dúvida de que a família é projeto de Deus e que, não obstante toda
provação pela qual passa, permanecerá de pé. O que faz a diferença é a fé. A fé que
soergue, a fé que sustenta. Desse modo, torna-se um tanto quanto redundante, ainda que
tal reforço se faça necessário, falar em família tradicional, pois família é sempre família.
É preciso, portanto, não permitir que a família tenha seu significado expropriado, mas
antes que seja reforçado ainda mais. Em outras palavras, falar de tradição é falar de
referencial, e onde há referencial, não há gente perdida e desorientada.
Por ser projeto de Deus, a família contará sempre com a assistência da graça, ao
mesmo tempo que deverá fazer sua parte para que a mesma graça cresça e siga
consolidando-se. Todo esse trajeto até aqui foi justamente para isto, para mostrar a
beleza da família e o quanto ela pode estar unida a Deus, seu criador.
A família estaria fadada ao fracasso se Deus lhe fosse tirado do seu meio e banido
das suas mais profundas relações e aspirações. A chamada “reengenharia social” já se
deu conta disto: de que Deus e a fé católica tenham de ser postos de canto ou mesmo

142
banidos para que seus idealizadores tenham caminho aberto. Por isso, é importante
agora, mais do que nunca, falar de família como vocação que vem de Deus, e por isso
mesmo algo constitutivo à natureza humana, inserido no seu DNA.
Continuando por esse caminho, iremos inclusive devolver às palavras seus
respectivos significados, autênticos significados: família, amor, pai e mãe, casa, corpo, e
assim por diante. Não podemos deixar que tirem de nós algo que é constitutivamente
nosso e ficarmos calados, inertes, passivos, como se não fôssemos arcar com as
consequências.
É muito triste, em alguns momentos, ver até pessoas de Igreja dizendo que esta é
uma guerra que está perdida, que devemos simplesmente aceitar as coisas como estão. É
o tipo de conformismo que não está por nada alinhado com o Evangelho, é falacioso e
instrumentalizado: “No mundo tereis aflições. Mas tende coragem! Eu venci o mundo”
(Jo 16,33). Além do mais, Nosso Senhor nunca nos ensinou a desistir do projeto de Deus
e entregar os pontos, mas ir até o fim, persistir, perseverar, confiar Nele acima de tudo:
nos ensinou com palavras e, acima de tudo, no Calvário. Assim percebemos o quanto a
fé faz a diferença.
Ainda que hoje defender e promover a família possa adquirir traços de uma
verdadeira guerra cultural e um combate espiritual, todavia a essência de tal defesa e
promoção não é uma guerra nem um combate: é missão que brota do Evangelho!
Estava outro dia lendo um livro sobre a morte e deparei com estas palavras, as quais
cito na íntegra:
Geralmente a crise de um valor cristão tem duas causas: uma externa, proveniente dos ataques da cultura
secular; a outra interna, devida a um ofuscamento no modo de viver e de anunciar esse valor (R.
Cantalamessa, Morte, minha irmã, p. 33).

O pregador da casa pontifícia, já conhecido de muitos, nos coloca com muita


serenidade diante do último mal a ser vencido, a morte (cf. 1Cor 15,26), a qual, olhada a
partir da Ressurreição de Cristo, se torna Páscoa e jamais o fim da linha. Pensava eu:
Meu Deus do céu! Se nem a morte pode intimidar um cristão, por que entregar os pontos
e entrar na onda do mundo quando se trata de um projeto original de Deus, que é a
família?
Certamente a pessoa que considera esta missão nos dias de hoje como uma “guerra
vencida” não deve ter perdido só o juízo, mas também a fé. Precisa de conversão, voltar-
se para o Cristo Vivo e Ressuscitado o quanto antes, para que a força da Sua
Ressurreição reanime a própria fé e assim faça essa pessoa recobrar o juízo.
No decorrer desta leitura, vimos muito dos ataques da cultura secular à família, mas
também os vemos em nosso dia a dia – causa externa da presente crise pela qual passa a

143
instituição familiar em nossa sociedade. Eis a oportunidade para que os cristãos façam a
diferença, nadem contra a correnteza, e não entrem nesta dança de Salomé (cf. Mt 14,3-
11), uma dança de desagregação da família muito bem ensaiada. Lembremos sempre:
“Vós não sois do mundo” – disse o Senhor (cf. Jo 15,19).
Ao falarmos da causa interna dessa crise, ou seja, de dentro de nossa própria casa,
não podemos fazer vista grossa às ideologias que sorrateiramente vão entrando em
alguns ambientes pensantes e formadores de opinião dentro da Igreja, que embora se
arroguem o título de católicos, não têm comunhão com o ensinamento católico de
sempre. Aqui é preciso nos perguntar quando nos vemos diante de um ensinamento
estranho à fé de sempre: a serviço de que ou de quem está tal ensinamento ou novidade?
Se entrarmos na onda ideológica que procura sitiar a família e a Igreja, em vez de
ajudarmos a família servindo-a com o Evangelho, acabamos por empalidecer essa nobre
instituição e prestar a ela um grande desserviço, em lugar de enaltecê-la e levá-la ao bom
êxito de sua missão. Desse modo, em vez de ajudarmos a família, ou seja, a servirmos
com o Evangelho, seguindo aquela onda ideológica acabamos por empalidecer essa
nobre instituição e prestar a ela um grande desserviço. Não é esse o plano de Deus.
É bem verdade que pode parecer difícil estabelecer um ponto de partida para uma
estratégia de promoção e defesa da família. Por onde começar: pelas crianças, pelos
casais, pelos noivos? Antes mesmo de responder a essa pergunta, é certo que precisamos
começar, precisamos levar adiante, ser perseverantes.
Talvez um bom começo seja as futuras gerações: reforçar uma catequese elementar
ainda no próprio lar entre as crianças pequeninas, pelo testemunho das boas obras, pela
oração, pelas histórias bíblicas e dos santos, envolvendo-as num contexto afetuoso de
transmissão da fé católica que Nosso Senhor nos deixou.
É importante também reforçar a preparação dos jovens que sentem o desejo de casar-
se e formar uma família: voltar a falar, sem receios, da pureza do coração e do corpo, da
beleza da castidade, do respeito mútuo, da importância de cultivar os valores da fé, de se
pensar juntos no futuro, no que é a família, de propor valores, como o sacrifício e a
resignação, sem os quais não há amor verdadeiro.
Mas também saber acolher as famílias em crise, quebradas ou mesmo
desestruturadas, como o Bom Samaritano o faria. Ainda que despedaçadas, como
famílias, precisam do nosso apoio e encorajamento. Aqui penso na mãe que foi
abandonada pelo marido com seus filhos; ou da mãe que o pai não assumiu o filho; ou
ainda de filhos de pais irresponsáveis e distantes, e assim por diante.
E por que não pensar nos lares de segundas núpcias, que precisam compreender sua
pertença à Igreja de modo autêntico, verdadeiro, iluminada pela plenitude da Palavra de
Deus e da compreensão dos Sacramentos da fé, pois esse é o caminho para um encontro

144
sereno e sadio com a própria Misericórdia de Deus. São casais que precisam ser levados
à compreensão da fé de que a obediência à Igreja é também participação na comunhão
com o Corpo Místico de Cristo e uma fonte de autêntica educação cristã para os filhos
dessas uniões.
Todos, independentemente da própria situação, precisam ter bem claro a verdade que
nunca deveria se ofuscar na vida cristã: a santidade de vida. Esse é o caminho da família
cristã, porque é o caminho de cada cristão. E não só da família cristã, mas sabendo bem
que a família cristã deve ir à frente, ou melhor, subir à frente, elevar-se à frente, e assim
ir elevando consigo toda sociedade. É isto que não podemos perder de vista nem deixar
que nos tirem diante dos olhos: a beleza da fé.
Enquanto houver vida, haverá família. E enquanto quisermos falar da verdadeira
dignidade humana, precisamos falar da vida e da família – projeto de Deus. É verdade
que, do ponto de vista natural, aquele que busca a verdade pela retidão da razão e de uma
consciência bem formada, mais cedo ou mais tarde, chegará também a essa conclusão. E
isso já é pressuposto para abertura à fé. Porém, para não correr o risco de lutar no vazio e
nem se perder pelo caminho, a fé faz toda a diferença. Vemos de uma vez por todas a fé
não como algo absurdo, mas necessário e totalmente em conformidade com as
aspirações humanas.
Enfim, para que a família seja vivida como vocação, a fé faz toda a diferença. Para
que os cônjuges cumpram entre si com os deveres do matrimônio, a fé faz toda a
diferença. Para que os pais cumpram os deveres para com os filhos, a fé faz toda a
diferença. Para que os filhos cumpram seus deveres para com os pais, a fé faz toda a
diferença. Para não perdermos o sentido e o significado das palavras que dizem respeito
à família, a fé faz toda a diferença. Para que haja conversão no seio de nossas famílias, a
fé faz toda a diferença. Para que uma família não se torne presa vulnerável ao Inimigo, a
fé faz toda a diferença. Para que a família seja fortalecida, a fé faz toda a diferença. Para
que a santidade de vida se torne um projeto familiar, a fé faz toda a diferença. Para que
ninguém separe o que Deus uniu, a fé faz toda a diferença. Para que a família cumpra
com bom êxito com seu papel de primeira educadora, a fé faz toda a diferença. Enfim,
para que a família descubra e redescubra a cada dia a beleza do projeto de Deus: a fé faz
toda a diferença!

145
1 Este contexto foi inspirado no livro: CHAPMAN, Gary. Castelo de cartas: dez comportamentos que destroem os
melhores casamentos. São Paulo: Mundo Cristão, 2009.

146
2 tn.a. , de Giuseppina Battista, n, ee. , pn.

147
148
30 minutos para mudar o seu dia
Mendes, Márcio
9788576771494
87 páginas

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As orações neste livro são poderosas em Deus, capazes de derrubar as barreiras que nos
afastam Dele. Elas nos ajudarão muito naqueles dias difíceis em que nem sequer
sabemos por onde começar a rezar. Contudo, você verá que pouco a pouco o Espírito
Santo vai conduzir você a personalizar sempre mais cada uma delas. A oração é simples,
mas é poderosa para mudar qualquer vida. Coisas muito boas nascerão desse momento
diário com o Senhor. Tudo pode acontecer quando Deus é envolvido na causa, e você
mesmo constatará isso. O Espírito Santo quer lhe mostrar que existe uma maneira muito
mais cheia de amor e mais realizadora de se viver. Trata-se de um mergulho no amor de
Deus que nos cura e salva. Quanto mais você se entregar, mais experimentará a graça de
Deus purificar, libertar e curar seu coração. Você receberá fortalecimento e proteção.
Mas, o melhor de tudo é que Deus lhe dará uma efusão do Espírito Santo tão grande que
mudará toda a sua vida. Você sentirá crescer a cada dia em seu interior uma paz e uma
força que nunca havia imaginado ser possível.

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149
150
Jovem, o caminho se faz caminhando
Dunga
9788576775270
178 páginas

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"Caminhante, não há caminho; o caminho se faz caminhando - desde que caminhemos


com nosso Deus.” Ao ler este comentário na introdução do livro dos Números, na Bíblia,
o autor, Dunga, percebeu que a cada passo em nossa vida, a cada decisão, queda, vitória
ou derrota, escrevemos uma história que testemunhará, ou não, que Jesus Cristo vive. Os
fatos e as palavras que em Deus experimentamos serão setas indicando o caminho a ser
seguido. E o caminho é Jesus. Revisada, atualizada e com um capítulo inédito, esta nova
edição de Jovem, o caminho se faz caminhando nos mostra que a cura para nossa vida é
a alma saciada por Deus. Integre essa nova geração de jovens que acreditam na
infinitude do amor do Pai e que vivem, dia após dia, Seus ensinamentos e Seus projetos.
Pois a sede de Deus faz brotar em nós uma procura interior, que nos conduz,
invariavelmente, a Ele. E, para alcançá-Lo, basta caminhar, seguindo a rota que Jesus
Cristo lhe indicará.

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151
152
#minisermão
Almeida, João Carlos
9788588727991
166 páginas

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Uma palavra breve e certeira pode ser a chave para abrir a porta de uma situação difícil e
aparentemente insuperável. Cada #minisermão deste livro foi longamente refletido,
testado na vida, essencializado de longos discursos. É aquele remédio que esconde, na
fragilidade da pílula, um mar de pesquisa e tecnologia. Na verdade, complicar é muito
simples. O complicado é simplificar, mantendo escondida a complexidade. É como o
relógio. Você olha e simplesmente vê as horas, sem precisar mais do que uma fração de
segundo. Não precisa fazer longos cálculos, utilizando grandes computadores. Simples
assim é uma frase de no máximo 140 caracteres e que esconde um mar de sabedoria
fundamentado na Palavra de Deus. Isto é a Palavra certa... para as horas incertas.

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153
154
Olhar avesso
Ribas, Márcia
9788576775386
359 páginas

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Onde há significado não há impossibilidade! Márcia Ribas fez essa feliz descoberta em
meio ao processo de reeducação alimentar, através do qual realizou um dos seus maiores
sonhos ao emagrecer 40 kg. Ao enfrentar-se a si mesma teve a coragem de assumir suas
dores e limites, fato que a levou se permitir ser ajudada e perceber a presença das
pessoas em sua vida, além da existência de uma força maior que a acompanha desde
sempre. Constatou também a presença de um mecanismo que tem como objetivo
paralisar todo e qualquer sonho, do mais simples ao mais elaborado, antes mesmo de
começar a ser concretizado. De forma curiosa ela relata que o mesmo mecanismo insiste
em se manifestar ainda hoje, especialmente ao fazer escolhas a seu favor, independente
de que ordem seja, já que não tem mais problema com a balança. Acessar sua força
interior, e que até então lhe era desconhecida - e comum a todas as pessoas - permitiu dar
os passos necessários para a mudança de vida, vencendo esse mecanismo de maneira
simples, acessível, eficaz e possível a toda pessoa que realmente deseja dar uma guinada
na vida. De forma leve e bem humorada conta como conciliou tudo isso através dos
acontecimentos do dia a dia. O livro Olhar Avesso - Quando a vida é vista de dentro para
fora apresenta a realidade do autocontrole e seus desdobramentos na vida de cada
pessoa, tanto nos aspectos físicos como no campo emocional.

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155
156
Em busca do Reino de Uranôn
Marcon, Tiago
9788576775034
453 páginas

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E se de repente você descobrisse que tudo aquilo que é real não se limita apenas ao que é
visível e palpável? E se existisse um mundo "invisível" mas que é tão concreto quanto
este mundo que vivemos? Foram estas respostas que um jovem adolescente descobriu,
desbravando uma nova dimensão do existir. As monótonas férias na casa dos avós
tornou-se uma viagem inusitada e inesquecível que foi capaz de mudar a vida dele. Uma
obra de ficção e aventura que vai envolver você. Mais que uma viagem você poderá
fazer uma experiência que te marcará para sempre! Prepare sua mochila e embarque
nesta aventura. Boa viagem!

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Índice
Introdução 7
Uma orientação importante para a leitura 10
Meu irmão e minha irmã em Cristo Jesus 10
A fé faz toda a diferença! 11
Características da família de fé 14
1. A família de fé rompe com a visão mundana 15
2. A família cristã vê a vida com os óculos da fé 17
3. A família cristã dá passos na fé 18
Família é vocação 22
Para os que querem formar uma família 25
Dez coisas importantes para os que querem se casar e formar uma família1 28
Deveres dos cônjuges entre si 35
As sete prioridades do casal 37
Deveres dos pais para com os filhos 43
1. Amor conjugal fecundo 43
2. Os filhos de um casal são filhos de Deus 46
3. Educar os filhos no cumprimento da Lei de Deus 47
4. Criação de um lar 49
5. Educar para virtudes 50
6. Ensinar a subordinar as dimensões físicas e instintivas às dimensões interiores
51
e espirituais
7. Dar bons exemplos 53
Deveres dos filhos para com os pais 55
Como viver o IV Mandamento 57
Palavras que não podemos perder de vista 66
Mãe e pai 67
Corpo 71
Casa-família 74
Reflexões que geram conversão no lar 77
A centralidade da experiência de fé 78
A centralidade da pessoa de Cristo 79
A centralidade da Igreja 80

158
A pertença à Igreja – comunidade de fé 81
Uma família vulnerável ao inimigo 88
Dez sinais de vulnerabilidade da família no mundo em que vivemos 90
Fortalecendo as muralhas da família 98
Dez atitudes para fortalecer a família 99
Um projeto familiar: a santidade de vida 107
Três certezas na vida de um santo 109
As bem-aventuranças: um programa de vida de santidade 111
O que Deus uniu o homem não separe! (Mc 10,9) 119
O que era desde o princípio... 121
Jesus, o Emanuel, encarna no seio de uma família 123
Para evitar o divórcio 125
Para cura interior 135
Família: primeira educadora2 138
Dez regras fáceis de como criar um delinquente 141
Conclusão 142

159