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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................... 11
2 O CIBERNÉTICO COMO SUBSTRATO DA CULTURA DE MASSA ... 14
2.1 PREMISSAS DA CIBERCULTURA ........................................................ 16
2.1.1 Ciberespaço Baseado na Interface ........................................................ 19
2.1.2 Hipermídia e Realidade Virtual ............................................................... 21
2.1.3 Ciberespaço e Comunidades Virtuais .................................................... 23
2.2 INTERAÇÃO MEDIADA E COMUNICAÇÃO NA REDE ......................... 25
3 O JORNALISMO NA CIBERCIDADE .................................................... 27
3.1 O FENÔMENO DA INTERAÇÃO HIPERTEXTUAL ............................... 28
3.1.1 Variações Hipertextuais ......................................................................... 31
3.1.2 Leitor Interagente ................................................................................... 32
3.2 REPRESENTATIVIDADE DA WEB ....................................................... 34
3.3 TÉCNICAS PARA O ONLINE ................................................................ 37
3.4 RELAÇÃO JORNALISMO/CIBERCIDADE............................................. 41
3.4.1 Cibercidade como Fonte de Produção ................................................... 42
4 O JORNALISMO OPEN SOURCE NA WEB ......................................... 47
4.1 COLABORAÇÃO: UM PASSO NO TEMPO ........................................... 48
4.2 SOFTWARE LIVRE E O TERMO OPEN SOURCE ............................... 48
4.3 CARTOGRAFIA DA INFORMAÇÃO E A CULTURA OPEN SOURCE .. 50
4.3.1 Reorganização de Papéis Entre os Interagentes ................................... 51
4.3.2 Todos “são” Repórteres.......................................................................... 53
4.4 ALGUMAS PRÁTICAS COLABORATIVAS ............................................ 55
4.4.1 Checagem do Material Colaborativo ...................................................... 56
4.4.2 OhMyNews International ........................................................................ 57
5 CONCLUSÃO ........................................................................................ 59
REFERÊNCIAS ................................................................................................... 62
ANEXOS ............................................................................................................. 66
11

1 INTRODUÇÃO

“O poder dos fluxos é mais importante


que os fluxos do poder.”
(John Thompson)

As funções e os processos das estruturas sociais dominantes estão cada


vez mais organizados em rede. Redes compreendem a nova morfologia social
(THOMPSON, 2007, p. 563) de nossas sociedades e a sua consequente difusão
tornou-se um fator que modifica substancialmente operações e resultados nos
processos de poder e cultura. Ainda que a forma organizacional em rede tenha
existido em outras épocas, esse novo paradigma é base para sua penetração e
expansão em toda estrutura social.
O jornalismo, como produto social, está vinculado às alterações do seu
meio, numa simbiose que produz variações de estilo e técnicas de produção.
Essa metamorfose acelerada pela qual o jornalismo de web passa e experimenta
produz rumores de uma crise concernente aos seus princípios básicos de
composição.
Como aconteceu diversas vezes no passado, a mescla de características
de outros meios a uma nova mídia não faz extinguir aquele que lha deu origem.
Como no caso do telefone para o telégrafo, ou da televisão para o rádio, ou da
televisão para a internet.
Discute-se neste trabalho as possibilidades do novo modelo de
jornalismo para a web na conjuntura do modelo open source. Trata-se de uma
tentativa de condensar os fatores de sua aplicabilidade e justificar a demanda
por este novo produto. Para tanto, partiremos da análise isolada das
circunstâncias que fizeram emergir o Jornalismo Colaborativo e suas variáveis –
Participatory Journalism, Citizen Journalism, Jornalismo Open Source1 – como
elementos de um todo que também passa por mudanças profundas – a
sociedade.

1
Nossa tradução (literal): Jornalismo Participativo, Jornalismo Cidadão, Jornalismo de Fonte
Aberta respectivamente.
12

Não são vãs as discussões teóricas, visto que sites mais


contemporâneos como R7 e o G1 demonstram práticas de jornalismo
colaborativo e canais para interação com leitores/autores. Além de outros sites
que, especificamente, aludem ao jornalismo colaborativo como ferramenta de
composição das matérias.
Este estudo pretende ainda dizer como as relações dentro de uma
cibercidade e a construção de novos canais de interação social compelem o
jornalismo de web para dentro deste novo modelo, sendo alterado en passant
pelas profundas transformações pelas quais passa a sociedade moderna. Não
só de forma oportunista, mas as encarando como transformações necessárias e
significativas na construção de formas de poder e conhecimento.
Em um primeiro instante, serão analisadas as premissas do ambiente de
eclosão destas transformações no âmbito cultural/social. Depois partiremos para
uma abordagem técnica do que já existia anteriormente ao novo modelo open
source, ou seja, relativo ao pioneirismo do Jornalismo Online com relação ao
open source, a fim de oferecer ao leitor uma linha de interpretação na qual seja
possível detectar os estágios iniciais que culminaram no surgimento do novo
modelo.
As elucidações têm caráter questionador e qualitativo, objetivando a
preparação de dados bibliográficos para pesquisas posteriores e mesmo a
criação de pontos de discussões sobre a temática que sejam perceptíveis no
decorrer da leitura.
Na última etapa da pesquisa constará a análise dos parâmetros
tecnológicos e práticos de produção, organização, publicação e acesso à
informação no terreno do Jornalismo Colaborativo. Nossa principal função será a
de colaborar para a compreensão do papel do webjornalista neste novo sistema
interacional que, aliás, é o papel de uma espécie de cartógrafo da informação2 –
esta é a principal demanda de produção dentro do sistema colaborativo e das
comunicações interpessoais.
As nomenclaturas trabalhadas para o jornalismo open source serão
adotadas conforme o contexto em que foram encontradas. Sendo possível ao
leitor deparar-se com expressões como Webjornalismo Participativo, Jornalismo

2
Utilizamos este termo aqui para nos referirmos àquele que garimpa a web em busca de fatos e
informações.
13

Colaborativo ou Jornalismo Cidadão. Demos prioridade ao termo “Jornalismo


Colaborativo” por ser o mais usado entre os autores da língua portuguesa.
O foco pretendido, no entanto, serão as práticas webjornalísticas em
ambientes digitais colaborativos direcionadas para as especificidades das ações
interacionais proporcionadas pelas novas estruturas transmissionistas da web.
A partir dessa ideia de que “produtores” e “consumidores” de informação
podem trabalhar em conjunto para o desenvolvimento de conteúdos, mesmo que
seja apenas uma participação transitória no momento de preparação da pauta,
produção do texto ou complementação posterior do mesmo, abordaremos o
conceito de Jornalismo Colaborativo – de um lado o conceito não-massivo e de
outro o interacional ou dos social networks.
Dentro da importância e profundidade das mudanças deflagradas na
revolução digital, “o jornalismo open source visa a um processo interativo das
mensagens que nutrem imaginários e contribuem para o envolvimento de cada
pessoa com seu entorno sócio-cultural” (BRAMBILLA, 2005, p.12) e é na
elucidação deste aspecto que esperamos colaborar com essa pesquisa.
14

2 O CIBERNÉTICO COMO SUBSTRATO DA CULTURA DE MASSA

"Jornalismo: a capacidade de vencer o


desafio de encher o espaço."
(Rebecca West)

Herbert Marcuse (1941 s/p apud SAVAZONI & COHN, 2009, p. 19) já
havia definido tecnologia como um braço de dominação e transformação das
relações sociais. Tais relações se configuram e reconfiguram hoje, não
diferentemente da previsão de Marcuse em 1941, dentro de um espaço
cibernético que contempla relações entre agentes e co-agentes da imensa rede
que é a internet. Indiferentemente, as mediações se reproduzem, se mesclam e
transformam-se ocasionando novos tipos de interação e novas demandas por
interfaces que, cada vez mais, aproximam os corpos, os avatares3 e, por que
não, os espaços geográficos.

A tecnologia [deve ser] vista como um processo no qual a técnica


propriamente dita não passa de um fator parcial. Não estamos tratando
da influência ou do efeito da tecnologia sobre os indivíduos, pois são
em si uma parte integral e um fator da tecnologia, não apenas como
indivíduos que inventam ou mantém a maquinaria, mas também como
grupos sociais que direcionam sua aplicação e utilização. A tecnologia,
como modo de produção, como a totalidade dos instrumentos,
dispositivos e invenções que caracterizam essa era, é assim, ao
mesmo tempo, uma forma de organizar e perpetuar (ou modificar) as
relações sociais, uma manifestação do pensamento e dos padrões de
comportamento dominantes, um instrumento de controle e dominação.
A técnica por si só pode promover tanto o autoritarismo quanto a
liberdade, tanto a escassez quanto a abundância, tanto o aumento
quanto a abolição do trabalho árduo. (MARCUSE, 1941, s/p apud
SAVAZONI & COHN, 2009, p. 19)

A troca deste modus operandi do jornalismo online, ou melhor, sua


justaposição ao novo modelo open source devido à sua tecnologia específica,
não representa, como visto, o domínio de uma técnica sobre a outra, mas a
abertura de um sistema ao outro. Em suma, o jornalismo sempre se deparou

3
Neste contexto, refere-se a uma forma de identidade variável que pode ser assumida por um
usuário da internet e difundida por um profile – perfil de cadastro em uma rede de
relacionamento.
15

com princípios antagônicos no que diz respeito à interação com o público:


manter uma posição consistente diante do cotidiano das cidades e o princípio de
imparcialidade e ao mesmo tempo participar ativamente dos fatos que constroem
e delineiam as atividades sociais. Sendo assim, seria impossível participar e ao
mesmo tempo portar-se num local à parte das influências e afluências dos fatos
na vida em sociedade.
Não é de se estranhar, portanto, que são tantas as definições adotadas
hoje para as peculiaridades do jornalismo para web concernente à interação com
o público. Público qual demanda novos canais e vias de construção da
informação, totalmente de forma colaborativa.
Twitter, Facebook, Orkut e Youtube4 são exemplos de canais virtuais de
promoção da interação entre seus usuários. Mais do que nunca, um vídeo
caseiro pode assumir diferentes papeis dentro da rede, configurando as
chamadas “celebridades instantâneas”. E não só neste aspecto, mas no tocante
às formas de produção do próprio jornalismo.
Para Lèvy (1995, s/p apud SAVAZONI & COHN, 2009, p. 19), essa é a
era da convergência, da quebra de barreiras e criação de outras, da “confusão”
de limites e papeis, fundamentalmente dentro das ações do jornalismo.

Uma coisa é certa: vivemos hoje em uma dessas épocas limítrofes na


qual toda a antiga ordem das representações e dos saberes oscila para
dar lugar a imaginários, modos de conhecimento e estilos de regulação
social ainda pouco estabilizados. Vivemos um destes raros momentos,
em que, a partir de uma nova configuração técnica, quer dizer, de uma
nova relação com o cosmos, um novo estilo de humanidade é
inventado. (LÈVY, 1995, s/p apud SAVAZONI & COHN, 2009, p. 19)

Portanto, as mudanças irrefreáveis pelas quais passam as antigas


formas de interação e mediação são fruto de uma mudança que já vem
ocorrendo no seio de toda sociedade. Não silenciosa, essa revolução digital leva
consigo ao limiar do desenvolvimento todas as formas de mediação do
jornalismo. Dentro dele estão a linguagem, os métodos, as técnicas de produção
e divulgação da informação e principalmente da criação de códigos que atendam
ou que se enquadrem nessa nova perspectiva. “É a linguagem que está a
4
Cf. Sites citados encontram-se disponíveis nos endereços seguintes: <http://twitter.com>;
<http://www.facebook.com>; <http://www.orkut.com>; <http://www.youtube.com>
respectivamente.
16

serviço da vida não a vida a serviço da linguagem” (LEMINSKI, 1977, s/p apud
SAVAZONI & COHN, 2009, p. 19).

2.1 PREMISSAS DA CIBERCULTURA

Cultura, em todos os sentidos que podem ser concebidos, seja social,


intelectual ou artístico, é um termo derivado da palavra latina cultura, e significa o
ato de cultivar o solo. Os sentidos conotativos que se observa hoje não tardaram
a aparecer, pois tudo o que pode ser entendido como cultural se prolifera
substancialmente e se alastra com o decorrer do tempo. Não nos prenderemos
às várias definições de cultura, mas é fato que de forma alusiva, ela é aprendida,
envolve o ser humano em sua adaptação ao ambiente natural e se manifesta em
padrões de pensamento, instituições e objetos materiais. Como observa
Santaella abreviando que a cultura é mais que um fenômeno biológico, ela “é
parte do ambiente que é feito pelo homem [...] com recursos apresentados pelo
mundo natural e formatados para as necessidades pessoais” (SANTAELLA,
2003, p. 53).
Os territórios delineados pelas formações sociais estão inter-
relacionados em três setores: econômico, político e cultural. Segundo Santaella
(2003, p. 76), de um lado estão as concepções humanistas e de outro as
antropológicas. As humanistas seletivamente denominam como cultura certos
segmentos da produção humana e as antropológicas a trama total da vida, o
legado histórico e a herança social com tudo o que foi adicionado à mesma. No
entanto, nenhuma dessas concepções é válida para definir ou redefinir a rede
hipercomplexa de interconexões da cultura no mundo de hoje, tanto mais com a
presença e deflagração da internet e dos espaços virtuais online.
Com o surgimento da comunicação de massa, especialmente da
circulação massiva de jornais no início do século XIX e a emergente difusão em
ondas no século posterior proporcionados pela explosão dos meios de
reprodução técnico-industriais, as interações que antes eram divididas em
eruditas e populares foram profundamente impactadas atingindo nossa forma de
17

conceber os fatos e criar o conhecimento do nosso meio social. A mediação da


comunicação em massa passou a ser fator fundamental na construção do
conhecimento à cerca dos cenários políticos nacionais e internacionais.
Diante de suma importância, o impacto interacional dos meios técnicos
definido por Thompson (2007, p. 286) e proporcionado pelo desenvolvimento
tecnológico/industrial, altera a organização social da vida cotidiana. Isto é,
desencadeia uma reorganização potencial das próprias relações sociais
preexistentes no sentido de que esses novos meios criam novas formas de ação
e interação no mundo social.
O ciberespaço, como filho da era digital, é consequência das novas
tecnologias para a comunicação e a cultura, o que nos insere numa revolução da
informação sem precedentes, chamada de revolução digital. Seu aspecto mais
espetacular é o da linguagem dos dígitos, capaz de transformar toda informação,
som, imagem, vídeo, texto e programas informáticos num mesmo código, como
uma espécie de esperanto5 das máquinas.
O ciberespaço funciona, assim, como um catalisador de multimídia e
hipermídia6 no seio do qual emerge a internet, rede das redes de computadores
interconectados espontaneamente e superabundantemente.
Esse grande salto dos meios cria novos tipos de interação, pensamento
e trabalho. Sua evolução continua em ritmo exponencial na criação de mídias
híbridas de internet/TV, TV/celular, computador/celular/TV. As variáveis são
muitas, mesmo que nem todas venham a se efetivarem. Para Santaella (2003, p.
76),

o ciberespaço é um fenômeno remarcavelmente complexo que não


pode ser categorizado a partir do ponto de vista de qualquer mídia
prévia. Nele a comunicação é interativa, ela usa o código digital
universal, ela é convergente, global, planetária e até hoje não está
muito claro como esse espaço poderá vir a ser regulamentado. Além
disso, a www transforma-se com uma velocidade nunca vista antes.
Quaisquer tentativas de predição em tempos tão tumultuados beiram o
impossível. [...] De todo modo, conforme exemplifica McChensey (2000:
6), o que já aconteceu e vem acontecendo no ciberespaço nos permite
perceber uma certa trajetória e pressentir seu próximo devir
(SANTAELLA, 2003, p. 76).

5
Cf. SANTAELLA, 2003, p. 75.
6
As diferenças e semelhanças entre Multimídia e Hipermídia serão abordadas em outro
momento.
18

As implicações dessa revolução não beiram somente o tecnológico, pois


ela dará suporte a novas matrizes de forças políticas e culturais suportadas pelo
novo meio, estabelecendo condições para novas possibilidades organizacionais
e burocráticas mais complexas e de larga escala do que as atuais. Não é
possível minimizar o potencial das infovias7 no meio cibernético, pois
visivelmente, elas deram um salto significativo e qualitativo rumo à interação
comunicativa hipermidiática e a novos sistemas ambientais implementados com
todos os aparatos tecnológicos disponíveis (Hayward, 1993 apud Santaella,
2003, p. 76). Impossível também a ocupação desse espaço pelos meios de
massa tradicionais, os pioneiros da era da industrialização.
Com o ciberespaço acontece o inverso do que aconteceu com as mídias
anteriores, ele está pronto a gerar todos os dias brechas para a comunicação,
informação, conhecimento, educação e criação de comunidades virtuais
estratégicas que deveriam urgentemente ser explorados antes que o capital
tentasse colonizar o infinito numa guerra comercial e virtual.
Na medida em que o usuário aprende a falar através das teclas do
computador, e isso geralmente significa reaprender outra forma de utilizar o
próprio idioma, tanto por causa das abreviações contumazes como do uso do
hipertexto8, ele também obtém maior variedade e liberdade de escolhas. Dentro
das hiper-redes multimídia há a possibilidade de que cada um seja seu próprio
produtor, criador, compositor, montador, apresentador e difusor de seus próprios
produtos.
A cibercultura está intimamente ligada à expressão “convergência de
mídias”, pois a digitalização9 deflagrada pelos novos meios criados permite
reunir em um único código binário10, o texto, o áudio-visual, as telecomunicações
e a informática. Estes são os quatro pilares midiáticos do ciberespaço.

7
Canais de navegação ilimitada por fontes diversas de informação através da rede de
computadores mundial, mais conhecida como World Wide Web.
8
Texto agregado a imagens, sons e vídeos com ramificações complexas e responsivas.
9
Conversão do formato analógico para um código binário de linguagem universal acessível a
todos os computadores e passível de execução em todos eles.
10
No caso dos computadores, linguagem universal baseada em lotes dos algarismos 0 e 1.
19

2.1.1 Ciberespaço Baseado na Interface

A cultura da interface

surgiu com os adaptadores de plugue usados para conectar circuitos


eletrônicos [...] e para o equipamento de vídeo [...] para examinar o
sistema. Finalmente, refere-se à interação humana com as máquinas e
até mesmo à entrada humana em um ciberespaço que se autocontém.
De um lado, interface indica os periféricos de computador e telas dos
monitores; de outro, indica a atividade humana conectada aos dados
através da tela. Mas os sentidos em uso vão além disso, e abrangem
desde cabos de computadores até encontros pessoais e a fusão de
corporações financeiras. (HEIM, 1993, p. 74-80 apud SANTAELLA,
2003, p. 91)

Isso, segundo a autora, sugere o encontro de duas ou mais fontes de


informação face a face num campo tão extenso quanto inimaginável, mesmo que
se trate de uma conexão da face de uma pessoa com a de outra. O computador
passa a ser, nesse encontro, mais interativo através da conexão a um todo. Eis a
diferença entre ferramenta e programa11 (software): As ferramentas são
simplesmente os instrumentos usados para estabelecer amplitude aos
programas que, por sua vez, interpretarão a vontade do usuário e o colocará em
sintonia com a vontade dos demais usuários do sistema. A recíproca é
verdadeira quando, a partir da interatividade, as respostas do software podem
interferir na nossa capacidade de poder de pensamento (THOMPSON, 2007).
Logo, a interface, num conceito mais dinâmico, significa a membrana
que separa e conecta o humano e o maquínico. Estes alheios um ao outro, mas
dependentes em sua co-existência. A interface, por sua vez, adotará
características mais humanas ou mais mecânicas de acordo com as opções do
usuário, ou chegará ao equilíbrio entre ambas (SANTAELLA, 2003).
A proeza da interface constitui-se em eliminar supostas diferenças entre
os dois mundos: newtoniano12 e o ciberespaço13; transformando-se em um elo

11
O Dicionário Aurélio (FERREIRA, 2001, p.643) define Software, “em um sistema
computacional, o conjunto dos componentes informacionais, que não faz parte do equipamento
físico e inclui os programas e os dados a eles associados”.
12
SANTAELLA, 2003: 92.
13
Id., op. cit., p. 92.
20

que permite uma linguagem interativa homem-máquina. A rede, veículo dessa


linguagem, é formada de nós e conexões chamadas de hipertexto ou hipermídia.
Para Canavilhas (2006) a incorporação de elementos não textuais na
ação de comunicação deve obedecer a uma sintaxe própria para a continuação
da interatividade.

(...) Basically we are talking about system syntax, about the creation of
interfaces that must be sufficiently intuitive/instinctive so that the user
can reach his/her goals without interruption.14 (CANAVILHAS, 2006, p.
6)

De acordo com Dondis (2000, p. 25, apud CANAVILHAS, 2006, p. 7), a


construção dessa interface obedece a elementos pré-existentes baseados em
modelos de uma iconografia qualitativa. “The image summoned by the
pictograms may be static or in movement and assume different functions in
relation to the written text, and, as such, demand new reading efforts”15, ou seja,
existem diferentes caminhos para a decodificação desse grupo de signos e que
podem ser tomados a qualquer momento de acordo com a vontade do receptor.
Para o autor, surge daí uma visão profunda do desempenho individual e da
natureza de toda interface midiática. Para analisar essa nova interface é
necessário se concentrar na estrutura da linguagem visual e seus elementos, um
por um, só assim podemos ter a melhor compreensão dos aspectos qualitativos.
Portanto, quais são esses elementos visuais? Dondis (ibid.) diz que
esses elementos são os pontos, linhas, formas, alinhamentos, sombreamento,
cores, texturas, tamanhos, dimensões e movimentos presentes numa interface
de web. Estes elementos são a base do desenvolvimento da linguagem visual na
interface e resultam de uma organização especial que não será abordada por
hora.

14
Nossa tradução: “Basicamente, estamos falando de um sistema de sintaxe novo e sobre a
criação de interfaces que devem ser suficientemente intuitivas/instintivas para que o usuário
possa atingir seu objetivo sem interrupções.”
15
Nossa tradução: “A imagem soma-se a ícones que podem ser estáticos ou estar em
movimento assumindo assim funções diferentes na relação com o texto escrito e demanda novos
esforços de leitura.”
21

2.1.2 Hipermídia e Realidade Virtual

A própria realidade, como a percebemos hoje, pode ser caracterizada


como virtual, desde que sua percepção derive-se de símbolos formadores da
prática, os quais escapam a definições semânticas. Partindo do pressuposto
defendido por Thompson (2007, p. 459) de que toda realidade é comunicada
através de símbolos e que na interação humana, independente do meio, todos
os símbolos são, de certa forma, deslocados com relação ao sentido semântico
que lhes são atribuídos, pode-se dizer que toda realidade é percebida como
virtual.
Um meio tão abrangente e sofisticado como a hipermídia na internet,
permite a captação extremada da experiência simbólica/material das pessoas
num texto multimídia (neste contexto, abordaremos estes termos conforme a
visão de Santaella para o leitor virtual, encarando a multimídia como suporte e a
hipermídia como linguagem”) (SANTAELLA, 2003, p. 12-32) que se torna capaz
de incluir e abranger todas as expressões culturais. No entanto, isso não
significa que exista homogeneização das expressões culturais e domínio
completo dos códigos por alguns emissores centrais nessa captação universal.
A importância dessa inclusão de expressões culturais no sistema de
comunicação integrado, baseado na auto-interação de sinais eletrônicos digitais,
traz consequências para as formas e processos sociais tradicionais (idem, p.
461), entre eles: religião, moralidade, autoridade, valores comuns e ideologia
política. Tais processos podem se enfraquecer ou se multiplicar dependendo de
sua adaptação ao novo sistema, desde que agreguem características para a
materialização eletrônica dos hábitos transmitidos espiritualmente16. Neste
contexto as redes online interativas têm se revelado mais eficazes que o contato
direto com a autoridade carismática. Thompson (idem, p. 462) observa nesse
caso, a co-existência de mensagens transcendentais como pornografia e linhas
de bate-papo dentro do mesmo sistema. Daí o desencanto das sociedades, pois
todos os milagres do mundo estão online e podem se tornar imagens auto-
constituídas.

16
Espiritualmente, nesta situação, refere-se aos valores éticos padrões transcendentais.
22

O espaço e o tempo são substancialmente alterados juntamente com as


dimensões fundamentais do cotidiano por este “milagre17” do online. Localidades
ficam despojadas de sentido histórico ao serem reproduzidas em redes
funcionais ou colagens de imagens e ocasionam um espaço de fluxos que
substitui o espaço de lugares. Ou seja, o físico passa a ser coadjuvante do virtual
ao ponto que este se incrementa através de interfaces cada vez mais próximas
do contato humano. A relação temporal entra no mesmo processo, sendo que
passado, presente e futuro passam a ser programados para interagirem entre si
numa mesma mensagem.
A diversidade dos sistemas de representação historicamente
transmitidos é agora parte de um espaço de fluxos e um tempo intemporal da
nova cultura: o da virtualidade, “onde o faz de conta torna-se realidade”
(THOMPSON, 2007, p. 459).
Canavilhas (2006) descreve que uma característica sintética da realidade
virtual

[...] is the possibility to create and/or predict virtually certain situations


such as meteorological phenomena or buildings under construction.
Synthesis/summary images allow the reconstruction of historical events
or accidents for which there is no record, as, more than ever, these are
the cases in which „an image is worth more than a thousand words‟.18
(CANAVILHAS, 2006, p. 6)

Mas não é apenas de elementos imagéticos que se constitui a interface


da realidade virtual, mas de toda a gama de associações e dissociações entre os
diversos meios citados por Santaella (2003) anteriormente como princípios da
convergência de mídias. Essa capacidade da hipermídia em se fragmentar e se
reconstituir em uma multiplicidade de partes permite que o receptor seja ao
mesmo tempo, co-criador e co-autor das versões virtuais. “Isso só é possível
devido à estrutura de caráter hiper e multidimensional que dá suporte às infinitas
opções de um leitor imersivo” (Santaella, 2003, p. 74).

17
Termo utilizado por Thompson para discriminar uma situação de fascínio despertada pelo
avanço e desenvolvimento das tecnologias online.
18
Nossa tradução: “[...] é a possibilidade de criar ou prever certas situações virtuais como
fenômenos metereológicos ou edifícios em construção. Sumariamente, imagens podem
reconstruir eventos históricos ou acidentes que não foram filmados, como em, mais do que
nunca, no caso de que „uma imagem vale mais que mil palavras‟”.
23

2.1.3 Ciberespaço e Comunidades Virtuais

O conceito de comunidade virtual sugere novas formas de interações


entre as pessoas online e está ligado também à Comunicação Mediada por
Computador (CMC) como veículo das mais variadas modificações da estrutura
da sociedade. O direcionamento da ação social, desde que voltado para algum
tipo de transação emocional, afetiva ou tradicional, é em seu âmago o ideal de
comunidade, conforme afirma Weber:

Chamamos de comunidade a uma relação social na medida em que a


orientação da ação social, na média ou no tipo ideal, baseia-se em um
sentido de solidariedade: o resultado de ligações emocionais ou
tradicionais dos participantes. (WEBER, 1987, p. 77, apud RECUERO,
2001, s/p)

Para muitos, a maior parte das relações sociais tem, de certa forma, o
caráter de comunidade e sociedade. Mas as observações consoantes a estas
características são as de que comunidade integra um grupo maior de conjuntos
humanos através do tempo. É neste cenário que surgem as comunidades do
ciberespaço, que nada mais são que um “espaço virtual, não oposto ao real, mas
que o complexifica, é público, imaterial, e constituído através da circulação de
informações” (Lévy, 1999, p. 94 apud Recuero, 2001, s/p).
As relações sociais que se mantêm no ciberespaço são oriundas dos
agregados de grupos de pessoas vindas da rede (Internet) e compostos de
suficientes sentimentos humanos que possibilitem essas relações no espaço
cibernético. Para Reinghold (apud Recuero, 2001, s/p), os elementos que
formariam a comunidade virtual estão presentes nos canais de discussões
públicas (chats, blogs, etc.), entre pessoas que se encontram e reencontram
mantendo contato através da internet, no tempo e no sentimento. Tais elementos
destoam-se da noção básica de comunidade que antes era restritiva a uma
determinada base territorial, ou seja, não há um locus específico para sua
concentração. Nesse sentido, a comunidade virtual se distingue pelo local que
ela ocupa no ciberespaço (virtual settlement). Esse virtual settlement é um ciber-
24

lugar simbolicamente delineado por um tópico de interesse, e onde uma porção


significativa de interatividade ocorre.
Para tanto, segundo Jones (1997, apud Recuero, 2001), é necessária a
existência de vários fatores: (1) uma interatividade mínima, (2) uma troca de
mensagens em sequência que permita a correspondência comunicativa, (3) uma
variedade de comunicadores necessários à interatividade, (4) um espaço público
onde está a comunidade e por último (5) um fluxo de usuários contínuo para que
a interatividade seja propícia. Esses espaços cibernéticos possuem em seu
conceito um locus para a atividade de comunidades virtuais, ainda que todas as
fronteiras sejam simbólicas e não concretas.
Em conformidade com Recuero (2001), a existência de “comunidade
pressupõe relações entre os seus membros: a interatividade”. Essa
interatividade, nesse caso, não é uma característica do meio, mas “a extensão
em que as mensagens em uma sequência relacionam-se umas com as outras,
de anteriores a posteriores” (Jones, 1997 apud idem).
Não há, nestes casos, somente uma ação do humano que seja apenas
disparadora de programas no computador. A interação no ciberespaço é mútua e
reativa. Na interação mútua (p. ex. chat) existe uma ponte de negociação entre
agentes com ações independentes e com fluxos dinâmicos cuja construção se
dá através da negociação. Já o lado reativo envolve um sistema fechado com
fluxo linear de estímulo-resposta determinado e baseado no objetivismo. Sendo
assim são previsíveis todas as respostas, pois estão pré-determinadas a
existirem (p. ex. programa de mensagens instantâneas).
Entretanto, a estabilidade e presença de membros, a manutenção das
relações através do tempo, a permanência e principalmente o sentimento de
pertencimento são condições necessárias para a corroboração da existência de
comunidades no ciberespaço. Esse sentimento não está ligado ao território, mas
sim à comunidade em si. Conforme Palácios, “[...] o indivíduo só pertence se,
quando e por quanto tempo estiver, efetivamente, interessado em fazê-lo” e
“CMC é apenas uma das muitas tecnologias utilizadas pelas pessoas através
das quais as redes de comunidades existentes se comunicam” (1998, online
apud idem). O que segundo a autora, permite que grandes comunidades virtuais
sobrevivam e com o tempo tragam os laços virtuais do plano do ciberespaço
para o plano concreto promovendo encontros entre seus membros.
25

Acreditamos, pela nossa experiência no estudo do assunto, que muito


provavelmente, grande parte dos laços sociais forjados no ciberespaço
sejam transpostos para a vida offline [fora da rede/internet] das pessoas
(...), por enquanto estes laços continuam sendo mantidos
prioritariamente no local onde foram forjados: na comunidade virtual.
(RECUERO, 2001)

O interessante aqui é analisar como se constituem esses laços online e


como eles interferem na vida offline das pessoas. A comunidade virtual pode ser
estendida ao concreto, mas continuará tendo seu virtual settlement que
continuará aberto como local público propiciador de novos laços sociais.
Alguns críticos e autores poderão defender que, como a comunidade
virtual não tem um espaço definido, ou seja, um território físico, stricto senso ela
não poderá existir (Weinrech, citado por Jones, 1997, online apud Recuero,
2001). Porém, de qualquer forma, a comunidade virtual é um elemento do
ciberespaço e existe apenas na troca interativa de laços sociais.

2.2 INTERAÇÃO MEDIADA E COMUNICAÇÃO NA REDE

A definição de mediação, segundo Sodré (apud JARDIM, 2005, p. 2),


gira em torno do

significado da ação de fazer ponte ou fazer comunicarem-se duas


partes (...), mas isso é na verdade em decorrência de um poder
originário de discriminar, de fazer distinções, portanto de um lugar
simbólico, fundador de todo conhecimento.

Portanto, a mediação na rede diz respeito à relação dialógica


desempenhada pelos emissores, mensagens e receptores entre si de forma
aleatória, bilateral e pluridirecional.
Existem três estágios principais que antecedem a interação mediada por
computador em rede, as quais, segundo Thompson (2007), remontam ao
período do final do século XIX e da Revolução Industrial. Para o autor, a
comunicação mediada passou a complementar a do tipo face a face. A partir daí,
26

os contextos foram separados e estendidos de forma temporal e espacial. Mas


perdeu-se um tanto da multiplicidade disponível de “deixas” simbólicas pela
limitação própria do veículo utilizado, caso do telefone, do telégrafo e das cartas.
Porém, as mensagens ainda continuaram orientadas a um receptor determinado
e a relação entre emissor e receptor ainda era dialógica.
Tão logo surge essa interação mediada, as possibilidades de “deixas”
simbólicas, a orientação da atividade e a relação dialógica sofreram
transformações expressivas. Apesar das limitações já constatadas no veículo de
mediação da atividade que afeta a possibilidade de “deixas”, a multiplicidade de
signos aumenta com a simulação visão/audição encontrada nos veículos mais
desenvolvidos tecnologicamente. A mensagem pode ser assim orientada para
um número indefinido de receptores potenciais, porém não mais dialógica e sim,
monológica, conforme defende Moraes (2009).
A relação espaço/tempo muda mais uma vez com a interação
cibermediada dando lugar a existência de uma co-presença virtual composta de
múltiplas identidades separadas contextualmente. Daí a perda do referencial
espaço/tempo se constitui em oposição à disponibilidade estendida em
velocidade/luz. As possibilidades de “deixas” ainda são limitadas, porém é
possível a sua simulação presencial e o feedback a partir do receptor – que pode
constituir-se em relação dialógica. A orientação da mensagem está para um
público específico, mas atinge um número indefinido de receptores que, como foi
dito, podem estabelecer relações múltiplas ou não no modelo dialógico,
monológico ou dialógico/monológico (MORAES, 2009, p. 14).
27

3 O JORNALISMO NA CIBERCIDADE

It‟s free because it‟s yours19.


(Diggers, 1968)

Da mesma forma que nos demais meios, o surgimento de novas formas


do jornalismo depara-se com um crescente desenvolvimento emergente neste
entre-tempos de fim/começo de século com características qualitativas
diferenciadas e bem detectáveis que saltam aos olhos (THOMPSON, 2007). Ele
é fronteiriço, fluído e desterritorializado. Isso significa que começa a mudar a
relação receptiva de mão única do televisor para outra bidirecional exigida pelos
computadores, como no caso da CMC20.
Não é fácil, por enquanto, prever qual o papel da internet no futuro do
jornalismo ou quais as evoluções do jornalismo online. Parte-se da ideia de que
o jornalismo apenas utilizará um novo meio para sua propagação e terá práticas
parecidas com as atuais, por outro lado estudiosos defendem que a internet
culminará com o fim do jornalismo.
Os lados extremos desta situação com certeza não é o que parece
prevalecer, mas as implicações de um jornalismo para o universo online vão
modificar as práticas dentro de muitas redações. Conforme Barbosa (2001), a
“deontologia e profissionalismo do jornalista continuarão a ter o mesmo papel”,
mas sua formatação exigirá maior esforço de adaptação aos novos tipos de
interação.
Segundo Gonçalves (2000, p. 19 apud PINHO, 2003, p. 58) o jornalismo
dentro da cibercidade configura-se como “produto discursivo que constrói a
realidade por meio da singularidade dos eventos” e que se utiliza de uma
tecnologia capaz de transmitir sinais numéricos e promover a interação com os
usuários.
O primeiro passo para o discernimento das características de um
jornalismo online é examinar com maior profundidade suas possibilidades e

19
“Isso é de graça porque isso é de vocês” – Diggers se referindo à gratuidade do Software livre.
20
Cf. subitem 1.1.3.
28

recursos através das aplicações da web que dão suporte e são veículos da
informação e conteúdos jornalísticos.

3.1 O FENÔMENO DA INTERAÇÃO HIPERTEXTUAL

Hipertexto, o que vem a ser? Barthes (1970, apud CASALENGO, 1999,


p. 287) o define como a textualidade em sua forma ideal, somente mais tarde o
termo passaria a ser chamado na literatura com o nome de hipertexto.

Trata-se de um texto composto de blocos de palavras, ou de imagens,


conectados eletronicamente, conforme múltiplos percursos, numa
textualidade sempre aberta e infinita. (...) As redes são múltiplas e
interagem sem que uma possa englobar as outras: o texto é uma
galáxia de significantes e não uma estrutura de significados (!). Não há
começo, mas reversibilidade, com vários acessos possíveis.
(CASALENGO, 1999, p. 287).

Nesse caso, ler não significa apenas ser um consumidor passivo de


informações, mas produtor de hipertextos, pois o leitor pode construir pontes
ainda não imaginadas entre um e outro texto pelo simples fato de escolher
dentre os links da web qual deles será sua opção de pesquisa. Neste sistema
hipertextual, a possibilidade de uma leitura de informações complementares só é
possível devido aos percursos específicos entre os blocos de texto utilizados por
quem escreve. A possibilidade de navegar entre textos conectados
metodologicamente, mas não sequencialmente, pressupõe a existência de um
leitor ativo capaz de fazer ligação entre os diferentes materiais disponíveis. Tem-
se daí a possibilidade de escolher o caminho que se deseja para a interpretação
da mensagem, e por outro lado, a oportunidade de fomentar o texto, seja com
comentários ou mensagens referentes ao material, criando uma cadeia
crescente de produção hipertextual.
Barthes (apud ibid.) afirma que a inteligência da narração bem como a
dinâmica entre a forma de escrever e a sociedade se relacionam: “Entre
29

romance e história existe sinergia” (CASALENGO, 1999, p. 293). Neste caso, o


autor ainda defende que o hipertexto é “a imagem refletida de uma sociedade
fragmentada em tribos, policêntrica e em rede (...), complexa e sem ideologias
hermetizantes” (ibid.).
Xavier sugere ainda que o hipertexto “possui uma forma híbrida,
dinâmica e flexível de linguagem que dialoga com outras interfaces semióticas,
adiciona e acondiciona à superfície formas outras de textualidade” (XAVIER,
2005, p. 171 apud STORCH, [2008], p. 4).
Existem outras formas hipertextuais que não são do universo digital,
conforme elucida Storch: as marcações no texto impresso (p. ex. notas de
rodapé e sumário). Mas aqui optamos por utilizar a expressão hipertexto sob
uma perspectiva mais técnica para designar um “sistema de organização de
informações digitais, um sistema de marcação, que permite a formatação de
diferentes tipos de conteúdos e dados na Web” (STORCH, [2008], p. 4)
O hipertexto torna-se assim, dentro do universo digital, tanto uma
estrutura textual quanto uma linguagem codificada para computadores.
Essa visão de código remete ao sentido de uma nova forma de ler e
escrever que nunca antes teriam a possibilidade de ter ocorrido conforme Storch
relata ao comentar Chartier (2002). Ou seja, os basilares desta mudança estão
no novo modelo de transmissão da web a qual demanda requisitos específicos
de formatação e leitura.
Alguns pontos fundamentais vem se alterando ou até mesmo se
rompendo no tocante aos processos de escrita e leitura devido às modificações
impostas pelo suporte eletrônico. Questões como a propriedade intelectual das
obras online, a colaboração e a autoria são algumas das principais discussões
que giram em torno dessas mudanças. Pensando essas modificações mais a
fundo, notamos que

(...) o leitor não é mais obrigado a atribuir sua confiança ao autor; pode,
por sua vez, por gosto ou por lazer, refazer a totalidade ou parte do
percurso da investigação. Há uma mutação epistemológica fundamental
que transforma profundamente as técnicas de prova e as modalidades
de construção e validação dos discursos do saber (CHARTIER, 2007,
p. 206 apud STORCH, [2008], p. 4).
30

Essa leitura não-linear desencadeada pelo hipertexto na web, permite ao


navegador seguir sua própria estrutura de leitura dentre uma infinidade de links,
co-criando um universo novo de significação e participando ativamente do
processo de criação do discurso.
A escrita hipertextual, por conseguinte, materializa a ideia de escrita em
conjunto. Essa capacidade de produção coletiva é sugerida não a partir da
existência dos conteúdos e suas ferramentas de democratização (acesso
dinâmico), mas sim da capacidade de participação aberta dos leitores/autores.
Mais uma vez

(...) considerando que a leitura multidirecional confere maiores poderes


àqueles que navegam pelo documento digital, é preciso lembrar que o
programador do hipertexto ainda mantinha consigo [no hipertexto de
segunda geração21] o poder da escrita (...). De fato, ele [o leitor] poderia
decidir quais links gostaria de seguir, mas não se pode deixar de
apontar que esses apontadores foram pré-determinados por um
programador, que decide ele mesmo quais caminhos alternativos
seriam propostos na página (PRIMO e RECUERO, 2006, p. 84 apud
STORCH, [2008], p. 6).

Essa escrita coletiva, por exemplo, acontece nos chats22 e nos weblogs23
gerando uma simbiose de elementos hipertextuais e textuais que compõe uma
estrutura ao mesmo tempo organizada e caótica. Outro exemplo é o complexo
sistema wiki24, ou colaborativo.

21
Primo e Recuero abordam uma primeira e segunda geração do hipertexto, de forma que a
primeira está vinculada ao meio impresso (marcas textuais) enquanto a segunda geração teria se
organizado a partir das tecnologias da informática e isso inclui os tradicionais links. Já a terceira
geração hipertextual remete à abertura à participação coletiva, ou seja, à colaboração. Neste
caso, a Wikipédia – enciclopédia digital composta de conteúdos produzidos por usuários de todo
o mundo – seria um exemplo.
22
Neste contexto, referimo-nos à estrutura onde a troca de informações instantâneas constitui-se
o alicerce da mensagem.
23
Sistema de conversação orientada por ferramentas de comentários, na qual os leitores
interferem no texto modificando o conteúdo.
24
“Muitos sistemas se utilizam do conceito de colaboração [abordado neste trabalho em capítulo
próprio] para o desenvolvimento de seu conteúdo: é o caso, por exemplo, da enciclopédia
colaborativa „Wikipédia‟ e de sites de jornalismo participativo, como o „Wikinews‟. Também é o
caso de editores de texto compartilhados, como o da empresa „Google‟, que permitem a
intervenção simultânea de mais de um editor no mesmo texto.” (STORCH, [2008], p. 6)
31

3.1.1 Variações Hipertextuais

É válida uma rápida abordagem à organização da escrita dentro deste


sistema do hipertexto. Conforme Storch ([2008]) nos incita a pensar, há
diferenças entre Hipertexto Potencial, Hipertexto Cooperativo e Hipertexto
Colagem. No primeiro caso, “os caminhos possíveis do internauta se encontram
previstos” (PRIMO e RECUERO, 2003, p. 55 apud STORCH, [2008], p. 6.), de
forma que é o internauta quem se adapta, o conteúdo hipertextual, porém,
mantém-se em sua composição original. Já no caso do Hipertexto de Colagem
(p. ex. weblogs), mesmo se tratando de uma criação do processo coletivo,
“demanda mais um trabalho de administração e reunião das partes criadas em
separado do que um processo de debate e invenção cooperada” (ibid.). Este
processo demanda a presença de ferramentas de comentários.
Já o Hipertexto Cooperativo, ou referente ao sistema wiki, diz que “todos
os envolvidos compartilham a invenção do texto comum, à medida que exercem
e recebem impacto do grupo (...) e do produto criativo em andamento” (ibid.).
Dessa forma, esse produto final seria um texto com múltiplos autores – todos os
que em maior ou menor grau interferiram na composição do conteúdo.
Assim, analisada pela dupla perspectiva do texto/código e relacionada às
variações do hipertexto digital, a linguagem hipertextual permite a materialização
da escrita coletiva na grande rede (internet)

(...) através de ferramentas e processos complexos de negociação de


sentido, é fonte [a escrita coletiva] não apenas para a organização de
novas formas de enunciação, mas também de novas articulações com
as informações. Todas essas movimentações de linguagem em torno
de um novo suporte irão alterar, enfim, as formas de comunicabilidade
entre os sujeitos, os interagentes (STORCH, [2008], p. 7)
32

3.1.2 Leitor Interagente

Conseguinte às alterações dos modelos e sistemas de informação vistos


anteriormente, conceitos como leitura/leitor e escrita/escritor se desfiguram de
seus significados próprios para abranger uma nova gama de possibilidades de
forma a dar vazão à diversidade de experiências do discurso no ambiente virtual.
Desse modo, o perfil cognitivo do leitor no ciberespaço tem merecidas
elucidações, como as propostas por Santaella (2004, apud id.), que classifica os
leitores em três tipos diversos: o contemplativo, o movente e o virtual.
As interpretações destas características, segundo Storch (ibid.), seriam
de que o “leitor contemplativo” seria aquele que lê sozinho, em silêncio, e
assimila o conteúdo que está à sua frente de forma ponderada. Já o “leitor
movente”, “é o leitor do mundo em movimento, dinâmico, do mundo híbrido, de
misturas sígnicas”. Ou seja, trata-se do leitor que “compreende os textos das
cidades que começam a surgir”, que enquanto vai dirigindo para o trabalho lê as
mensagens publicitárias e dos órgãos públicos. Por último, aquele leitor virtual é
“o que surge com novos ambientes de virtualidade tem „na multimídia seu
suporte e na hipermídia, sua linguagem” (SANTAELLA, 2004, p. 14-32 apud ibid.
passim).
Sem dúvida, concordamos com a autora ao darmos conta de que todo
universo hipertextual demanda novas exigências cognitivas para o leitor:

O leitor imersivo é obrigatoriamente mais livre na medida em que, sem


a liberdade de escolha entre os nexos e sem a iniciativa de busca de
direções e rotas, a leitura imersiva não se realiza. É um tipo de leitor
que navega numa tela, programando leituras, num universo de signos
evanescentes e eternamente disponíveis (...) um leitor em estado de
prontidão, conectando-se entre nós e nexos, num roteiro multilinear,
multisequencial e labiríntico que ele próprio ajudou a construir ao
interagir com os nós entre as palavras, imagens, documentação,
música, vídeo, etc. (SANTAELLA, 2004, p.33 apud id.)

Desse modo, a hipertextualidade oferece aos processos de leitura e


escrita rupturas sem precedentes e que envolvem não apenas diferentes rotas
de leitura, mas também uma relação dialógica mútua e interativa. Ou seja, os
33

interagentes são os integrantes diretos dos movimentos de participação,


colaboração e intervenção hipertextuais na web.
Isso traduz o leitor hipertextual como um interagente que, enquanto
navega, também participa da construção desse campo de interações, seja se
inscrevendo em relações mútuas, como nos comentários em um blog, ou quando
difunde informações em um domínio personalizado ou participativo. Mesmo que
essas interações mútuas sejam limitadas pelos programadores sua existência é
responsável pela uniformização – pelo menos potencial – do acesso e até
mesmo das interações entre os colaboradores.
Ademais, o interagente está sujeito a uma pré-seleção, escolha ou
manipulação de conteúdo. Pois diferentes colaboradores podem aplicar sobre os
conteúdos publicados as mesmas eventuais intervenções. Tal é possível devido
ao suporte hipertextual permitir que o sujeito do processo, predispostamente,
“intervenha nos conteúdos através do acesso ao template25 de edição, ou
mesmo que defina, por votações e seleções coletivas, o que será mantido ou
modificado nas estruturas do ambiente de interação” (ibid.).
De outro modo, no caso dos blogs e de alguns webjornais, essa
perspectiva não se confirma: o leitor não tem o poder-agir de definir o que será
capa, qual a manchete mais importante, o que irá ou não ser publicado. O
interagente pode, em todo caso, continuar a construção do discurso numa
narrativa, sugerida no Hipertexto Colagem – que não está ligado à total liberdade
de interação do leitor em um ambiente virtual.
Diante das qualidades descritas do poder-agir do leitor, podemos discutir
as diferentes posições do interagente num ambiente virtual ao conectar a
expressão “leitor” ao processo de leitura labiríntica (leitura dentro de um campo
hipertextual não linear com diversas raízes entre produções de um e outro autor),
realizada através das seleções de links conforme esclarece Storch. Em outro
nível, está a expressão “leitor-escritor” co-relacionada ao hipertexto-colagem –
existente em um ambiente de relativo poder-agir interacional. Por último, existe o
“leitor-editor”, definição aplicada a ambientes com maior liberdade de poder-agir
interacional – ligados ao hipertexto cooperativo.
Sendo assim, pode-se preservar

25
Os Templates são tabelas de organização de conteúdos em um site da Web.
34

(...) a característica de interagentes a todos os envolvidos nos


diferentes movimentos de participação, essa categorização facilita a
descrição dos diferentes ambientes de interação oferecidos, por
exemplo, pelos webjornais e permite a discussão sobre formas de
interação dos leitores-escritores em conteúdos noticiosos, a partir de
sua liberdade de ação (STORCH, [2008], p.10).

Este tema é largamente debatido, mas ao mesmo tempo possui enorme


complexidade de aplicação à prática jornalística dentro dos limites da
participação coletiva no webjornalismo.

3.2 REPRESENTATIVIDADE DA WEB

A maioria dos autores que discute hoje quais as principais linhas de


pensamento a serem seguidas pelo jornalismo na cibercidade, parece concordar
pelo menos em um item: o de que o desenvolvimento do jornalismo online está
umbilicalmente ligado aos processos de aperfeiçoamento de sua difusão. Nesse
contexto, o jornalismo digital adota especificidades particulares conforme
defende Palácios (2002 apud AMARAL, 2006, p. 135): a da
“multimídia/convergência, interatividade, hipertextualidade, personalização,
memória e atualização contínua”. Esses elementos são basicamente o que
compõe a linguagem da Internet e as potencialidades das ferramentas digitais.
Apesar das diferenças de penetração geográfica da www, o Internet
World Stats26, órgão ligado a fontes de dados do Internet Coaching Library dos
Estados Unidos e que monitora o tráfego na rede, demonstra que nas quatro
maiores regiões do globo – Ásia, Europa, Américas do Norte e Latina, (Cf.
Ilustração 1) – o crescimento conjunto do número de usuários da grande rede
supera 1.000% entre 2000 e 2009, atingindo a marca de um bilhão e meio de
pessoas. No mesmo período, o crescimento mundial de acessos à rede foi de
362%. Ou seja, atualmente 24,7% da população mundial têm acesso à rede, isso

26
Cf. <http://www.internetworldstats.com/> Acessado em 28 de setembro de 2009.
35

significa algo em torno de dois bilhões de pessoas acessando a internet. Em


dezembro de 2000, as pesquisas apontavam 360 milhões de usuários.

ILUSTRAÇÃO 1: Gráfico de usuários da internet por Regiões Geográficas (em milhões de


usuários). Fonte: Internet World Stats. Disponível em:
<http://www.internetworldstats.com/stats.htm - Acesso em: 12 out 2009.

No caso do Brasil, o número de acessos tem aumentado


exponencialmente desde dezembro de 2000 chegando à casa dos 1.250% de
crescimento até 2009. Isso significa 34% (Cf. Ilustração 2) da população
brasileira acessando a web – mais de 67,5 milhões de usuários, o equivalente a
cinco vezes toda população do estado de São Paulo.
36

ILUSTRAÇÃO 2: Gráfico dos dez maiores países da América Latina em número de acessos à
internet (em milhões de usuários). Fonte: Internet World Stats. Disponível em:
<http://www.internetworldstats.com/stats.htm - Acesso em: 12 out 2009.

Embora o crescimento da internet de maneira geral e em banda larga


tenha sido expressivo, as publicações online apostaram nas notícias baseadas
em texto verbal escrito, pois naturalmente o download é mais rápido, mesmo em
se tratando de conexões discadas27. Talvez seja devido a isso que o texto
continua a ser o elemento mais usado no jornalismo que se faz na web, embora
não seja o único motivo. Com o advento do online no jornalismo, as publicações
– que já tinham se informatizado com relação aos processos de editoração –
apenas lançaram seu conteúdo textual no ambiente online.

27
Aquelas conexões que ocupam a linha telefônica e que são usadas onde não existem os cabos
dualband, ou seja, aqueles com dupla bandagem (uma para voz e outra para dados) que
possibilitam acessos até 20 vezes mais rápido à internet sem ocupar a linha.
37

Desta forma, foi com alguma naturalidade que o jornalismo na web se


desenvolveu num modelo muito semelhante ao do jornalismo escrito,
adoptando [?] as mesmas técnicas de redação usadas na imprensa
escrita (CANAVILHAS, 2006, p. 4).

3.3 TÉCNICAS PARA O ONLINE

De uma maneira geral, as técnicas de redação referem-se a uma


introdução teórico/prática da linguagem, estilo, gênero e matérias como um todo,
nas quais a pirâmide invertida é referenciada como fundamental no texto
jornalístico. A técnica da pirâmide invertida consiste basicamente em uma
redação da notícia começando pelos dados mais importantes – a resposta às
perguntas “o quê”, “quem”, “onde”, “como” e “por quê” – seguidos das
informações secundárias (Cf. ilustração 3).

ILUSTRAÇÃO 3: Esquematização da construção da notícia com relação à ordem das


informações no texto.28

Essa arquitetura do texto noticioso tem sua herança nos telégrafos e


remonta ao período da Guerra de Secessão nos Estados Unidos, época em que
o telégrafo surge como grande inovação tecnológica. Conforme cita Fontcuberta
(1999, passim apud CANAVILHAS, 2006, p. 6), os operadores telegráficos,
visando melhorar a eficiência de suas transmissões, condensavam os fatos
importantes no primeiro parágrafo da notícia e os esclarecimentos nos demais.
28
Cf. CANAVILHAS, 2006, p. 5-14.
38

Em lugar da redação cronológica dos fatos, passou-se a adotar o modelo


da pirâmide invertida desde então, “técnica batizada por Edwin L. Shuman no
seu livro Pratical Journalism” (SALAVERRIA, 2005, p. 109 apud id.).
Apesar da grande aplicabilidade desse modelo, a tendência atual do
online é desfrutar das várias ferramentas do hipertexto, o que significa não ficar
preso a uma técnica específica. Pois, diferentemente do que acontece com o
texto impresso, no qual existem limitações de espaços sujeitos a alterações do
editor, o espaço online é tendencialmente infinito, o que não implica cortes no
texto por razões de espaço.
Para Canavilhas (2006), no webjornalismo, a quantidade e variedade de
informações disponíveis tornam possível a construção de uma “pirâmide
deitada29”, na qual os dados seguiriam uma linha de aprofundamento exaustivo
dos temas e itens tratados a partir de um assunto em comum.
Como visto, a possibilidade de interligações (links) dentro do hipertexto,
ou propriamente, dentro de uma página da web, sugere a construção de formas
diversas de leitura, sendo possível, entretanto, materializar o modelo da pirâmide
invertida conforme pode-se notar na Ilustração 430.

29
O termo “pirâmide deitada” também é referenciado por “pirâmide convergente” devido ao fato
da existência de uma multitextualidade como princípio de sua formatação, ou seja, essa pirâmide
convergente é composta de uma rede de hiperligações de elementos multimídia e textuais. Ainda
na mesma linha de pensamento, Marcos (2003, apud AMARAL, 2006, p. 136) defende
características elementares do ciberjornalismo, tais como: multimídia, hipertextualidade,
instantaneidade, interatividade e universalidade. A interpretação básica sugerida a partir do termo
é a de uma leitura personalizada com possibilidade de escolha do percurso tornando o leitor um
produtor de significação, devido ao fato de as redes de hiperligações incentivarem a construção
de um discurso coeso, ou de significações.
30
Numa primeira etapa da pirâmide encontra-se a parte básica do texto, correspondente aos
termos principais do lead, no qual são respondidas as questões fundamentais. Sua
representação prática dentro do jornalismo pode ser uma chamada com foto em um site ou uma
matéria curta. O segundo quadrante contem explanações específicas comparadas a matérias
maiores e naturalmente explicativas. No próximo nível deparamos com uma desmembração do
fato em diversas subcategorias, todas permeadas de recursos multimídia: som, vídeo,
infográficos, etc. Por último os últimos quadros são ligações a arquivos externos, armazenados
arbitrariamente na grande rede e que fazem menção direto-indireta ao fato.
39

ILUSTRAÇÃO 4: Modelo de construção da notícia em um ambiente virtual com hipertextos.31

Essa construção é a mais familiar do internauta, sendo assim, o risco de


perda de leitores em decorrência de uma notícia nos padrões da pirâmide
invertida diminui dentro do ambiente online.
“Embora, estejam claramente definidos os níveis de informação, não há
uma organização dos textos em função da sua importância informativa, mas uma
tentativa de assinalar pistas de leitura” (CANAVILHAS, 2006, p. 14) através do
hipertexto, e para tanto, valendo-se dos links.

31
Cf. CANAVILHAS, 2006, p. 5-14.
40

Este modelo sugere uma pirâmide deitada, sendo assim, o leitor conta
com a possibilidade de navegar livremente dentro da notícia, escolhendo os
eixos que mais lhe interessem.
Conforme notado na Ilustração 4, existem quatro níveis de leitura. O
primeiro assinala a unidade básica do texto, – o lead – que responderá ao
essencial: O quê, Quando, Quem e Onde. Este início de texto pode ser uma
notícia curta de última hora que, dependendo do desenrolar das discussões,
pode evoluir ou não para um formato mais elaborado (CANAVILHAS, 2006).
O segundo nível é de explicação, local também onde constará as
respostas ao “Por quê” e ao “Como” e serve de argumento ou suporte para
completar os dados sobre o acontecimento.
No terceiro nível, encontram-se mais informações nos formatos de texto,
vídeo, som ou infográficos animados relacionados a cada uma das perguntas do
lead. Canavilhas (ibid.) o define como nível de contextualização, justamente por
situar o fato dentro de um contexto maior e com mais variáveis.
O quinto e último nível liga a notícia a arquivos externos

[...] da mesma forma que a “quebra de limites físicos” na web possibilita


a utilização de um espaço praticamente ilimitado para disponibilização
de material noticioso, sob os mais variados formatos (multi)mediáticos,
abre-se a possibilidade de disponibilização online de todas as
informações anteriormente produzida e armazenada, através de
arquivos digitais, com sistemas sofisticados de indexação e
recuperação de informação (PALÁCIOS, 2003, p. 25 apud
CANAVILHAS, 2006, p. 16)

Dessa forma, as configurações do jornalismo online tendem cada vez


mais se intensificarem dentro da teia de relações de interação do leitor e do uso
do hipertexto como ferramenta e meio de formatação da notícia.
41

3.4 RELAÇÃO JORNALISMO/CIBERCIDADE

Diferentemente do jornalismo na cidade32 (centro urbano), o jornalismo


online identifica-se com espaços simbólicos constituídos através de formas
compartilhadas por grupos, corporações, instituições etc.: a Cibercidade. Esse
território deve ser interpretado dentro da lógica da descentralização espaço-
tempo das redes digitais, ainda que o território clássico continue na sua função
de condicionamento, “devido justamente a aspectos de centralidade estratégica
no trânsito de dados na rede mundial” (SILVA JUNIOR, 2002, p. 11).
As implicações deste fato são obviamente a descontinuidade do território
mais evidente, ampliando os braços de penetração do conteúdo online,
principalmente devido à facilidade – comparada aos veículos tradicionais – de se
produzir, distribuir e alcançar novos mercados de leitores. Essa é uma das
razões pela qual o espaço do jornalismo na cibercidade é reconfigurado:
expansão de mercado.
O jornalismo online, longe de atuar somente de forma monolítica, é mais
que uma transposição dos meios clássicos. “O jornal online também atua de
forma a absorver características de outros meios e suportes” (ibid.). Trata-se de
uma meta-mídia quando se refere a padrões de construção e circulação de
modelos pré-existentes.

Assim, mesmo se orientando na sua produção dentro do campo


simbólico do “jornal”, as versões online reposicionam dinâmicas
presentes na operação do jornal tradicional em função da sua relação
com a cidade. Com a internet, por exemplo, a angústia do fechamento
da edição de um jornal foi superada graças a possibilidade de
atualização iminente (ibid. p. 13).

Com isso, o sistema de fechamento de notícias deixa de ser consecutivo


– de um dia para o outro – para se tornar imediato.
No caso do comportamento do leitor online existe uma diferenciação com
relação aos leitores do jornal impresso: ele passa a ser menos fidelizado, mais

32
O termo “cidade” neste capítulo refere-se ao campo sócio-cultural e, consequentemente,
comunicacional que se verifica nas esferas pública e privada da sociedade e que é fator
impactante na forma como percebemos o mundo.
42

multifacetado no ato da busca jornalística pela web. Daí a dificuldade de um


leitor contentar-se apenas com uma versão dos fatos presente em um site. Parte
desse princípio o contexto de “pirâmide invertida” ao avaliar que o leitor – ao
escanear a rede em busca de versões mais complexas – envolve-se num
processo de contextualização que o insere num pólo de liberdade ilimitada indo
em direção a um estado de “pluralidade informativa” (SILVA JR, 2002, s/p).
Uma das interseções mais centrais entre as cibercidades e o jornalismo
seria a apropriação desta infinidade de links para a massa de informações como
recurso de produção de conteúdo hipermidiático.

3.4.1 Cibercidade como Fonte de Produção

A ideia desta relação é a de que o casamento de banco de dados e


computadores afeta diretamente a forma narrativa das notícias e o contexto do
jornalismo diário e semanal (Cf. ibid.). Isso significa que as relações entre redator
e fontes de informação são alteradas (KOCH, 1991, p. XIII apud ibid.).

Evidentemente, esses recursos encontram barreira na cultura interna


dos jornais, por vezes viciada em desovar informação com níveis de
apuração primários. O acesso e uso de bases de dados, segundo Koch,
se daria no sentido de aprofundar as noções e contextos que geram
notícias, a princípio isoladas e invisíveis dentro da problemática
contemporânea (ibid.).

O conceito de ferramenta de trabalho visto aqui é de que estas passam a


uma etapa de ampliação em uma direção mais complexa, a do uso instrumental,
dessa forma, a prática como um todo é reconfigurada para adaptar-se a uma
nova ferramenta.
Silva (ibid.) direciona a crítica para o fato de que nem sempre todos os
recursos são aproveitados, estagnando a produção em uma etapa primária. A
ausência de domínio dessas possibilidades e do entendimento de amplitude do
horizonte que se descortina com os bancos de dados consequentemente limitam
a redação e construção das matérias.
43

Um ponto interessante dessa discussão diz respeito aos bancos de


dados. Uma declaração vale mais como forma de atestar um fato do que como
geradora de um terreno de confiabilidade oriundo das pesquisas
complementares oferecidas pelo armazenamento contínuo de dados na internet.
É neste ponto em que se pode perceber, dentro da complexa rede das
sociedades urbanas, a importância e o papel dos bancos de dados eletrônicos.
Conforme Amaral (2006) afirma em artigo do 4º SOPCOM do Instituto
Superior Miguel Torga de Portugal,

A nova esfera tecnossocial remete para uma virtualização da


comunicação. A internet é um espaço de espaços, onde coabitam o
público e o privado, o local e o global, o material e o virtual. Em termos
geográficos são diluídas as fronteiras, mas são também promovidos
novos espaços de sociabilidade, novos territórios, novas identidades e
práticas sociais [...]. O ciberespaço – potencializado pelas
comunicações mediadas por computador – criou os “netcitizens33”
(AMARAL, 2006, p. 141).

Isso significa que o jornalismo tornou-se um veículo dos fluxos de dados


da cidade informacional.
O fator chave que confirma toda essa esquematização do sistema de
fluxos online dentro do jornalismo é a existência de processos de gestão
informacional, baseado em tecnologias da computação, engendrados em todos
os setores da cadeia de produção da notícia. Partindo da administração dos
espaços publicitários ao gerenciamento dos conteúdos editoriais da publicação
passando pelo surgimento de um novo produto – o jornalismo online –, esse
processo de agregação de novas ferramentas está inserido no mesmo
movimento de reconfiguração das estratégias do capitalismo global.
O que frisamos aqui é o fato de que “se a cibercidade é a cidade de
sempre, recoberta de uma camada de dados em fluxos, o webjornalismo

33
Silva (1999, apud MORAES, 2006) define a expressão “netcitzen” como cidadão do mundo
digital e que se encontra à deriva na teia da Internet. O conceito mais tarde evoluiria para “self-
media”, o equivalente aos media individuais – interagentes que trabalham tornando as
mensagens pessoais acessíveis a um vasto público. Alguns autores como Jean Cloutier ([-70],
apud ibid.) atribuem a consequência do fato ao paradigma da “Era de Emerec” (Cf. CLOUTIER,
Jean. A era de EMEREC. Ministério da Educação e Investigação Científica - Instituto de
Tecnologia Educativa, Portugal, 1975.), na qual é possível que o homem seja receptor e emissor
em simultâneo.
44

obedece à mesma lógica” com relação aos impressos. Ambos são identificados
em suas características, porém não são os mesmos (SILVA JR, 2002, passim).
Conforme afirma Castells (1992, apud ibid.), é da “nossa circunstância
de cidade informacional” que emerge o jornalismo digital. Neste contexto,
desdobra-se a questão da continuidade: práticas jornalísticas condicionadas
tanto ao avanço da tecnologia quanto ao desenvolvimento urbano.
Para Silva Júnior (2002, p. 32), a possibilidade de afirmarmos que existe
uma constante está no sentido de que o mesmo movimento de base tecnológica
que reconfigura as relações do espaço urbano, está sempre presente no
jornalismo. Aliás, essa é uma relação que se reconfigura de acordo com os
recursos de cada tempo.
Correntes pessimistas sugerem que essa incontinência de fronteiras em
um mundo virtual – a cibercidade – culminaria no fim da geografia, o que se
torna falso a partir do instante em que vislumbramos o digital como uma camada
de dados da geografia, ou seja, das relações de território. Essas relações, por si
só, não estão encerradas na geografia. A dinâmica seguida, nesse caso, é a de
que justamente essa implementação de infra-estruturas tecnológicas nos
espaços físicos e geográficos adquire importância central no desenvolvimento e
elaboração de melhores condições de igualdade nos espaços urbanos.

De fato, as redes tem uma geografia própria, uma geografia feita de


redes e nós que processam fluxos de informação gerados e controlados
de determinados lugares. A unidade é a rede, por que a arquitetura e a
dinâmica de várias redes constituem as fontes e significado e função de
cada lugar. O espaço de fluxos resultante é uma nova forma de espaço,
característico da era da informação, porém não está deslocalizado:
estabelece conexões entre lugares mediante redes informáticas
telecomunicadas e sistemas de transporte informatizados. Redefine a
distância mas não suprime a geografia. Dos processos simultâneos de
concentração espacial, descentralização e conexão, continuamente
reelaborados pela geometria variável dos fluxos globais de informação,
sugerem novas configurações territoriais (CASTELLS, 2001, p. 235,
apud SILVA JR, 2002, p. 32).

Este desafio do jornalismo dentro do conceito da relação


jornalismo/cibercidade é justamente caber-se a essa nova proposição espacial –
que não é apenas mais um espaço de circulação, mas de construção simbólica
do veículo.
45

A deflagração do jornalismo digital como subtipo do veículo tradicional


fortalece a visão do jornalismo como “instituição mediadora da complexidade
contemporânea”34. Ou seja, o jornalismo é mais que simplesmente imprensa,
mais do que imprensa escrita – a qual continuará a existir, mas será pautada a
partir das alterações no processo produtivo dos jornais em papel agenciadas
pelas redes telemáticas.

O que é visível e real no mundo é apenas aquilo que foi transferido para
o papel, ou que foi mais eternizado ainda num microfilme ou fita
magnética. Os mexericos essenciais da metrópole não são mais os
mexericos da gente que se encontra face-a-face nas encruzilhadas, à
mesa de jantar, no mercado; algumas dúzias de pessoas escrevem nos
jornais, uma dúzia mais a transmitir pelo rádio e televisão,
proporcionam a interpretação dos acontecimentos e movimentos
cotidianos com despreocupada correção profissional. Assim, até as
mais espontâneas atividades humanas passam a ter uma supervisão
profissional e um controle centralizado (MUMFORD, 1998, p. 589, apud
SILVA JR, 2002, p. 34).

Conforme Mumford afirma nesta citação de Silva Júnior, com um tom


crítico-construtivo, é preferível acreditar nos caminhos da pluralidade e
diversidades de alternativas tecnológicas oferecidas para o campo das práticas
jornalísticas tendendo a acompanhar o modo de operação da cidade de acordo
com suas contradições, desafios, ameaças e esperanças.

Cidadezinha Qualquer35
(Carlos Drummond de Andrade)

Casas entre bananeiras


mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.


Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.


(ANDRADE, C. D., 1930, online)

34
Cf. SILVA JR, 2002, p. 34.
35
Cf. <http://www.horizonte.unam.mx/brasil/drumm6.html> Acessado em 30 de setembro de
2009.
46

Drummond demonstrava já uma tentativa de resgatar as “saudades” da


vida “besta” e devagar da primeira metade do século passado num gesto
saudosista expresso pelo poema. Referimo-nos a ele de forma a criar uma
meditação sobre o outro extremo que vivemos hoje – de efusividade e
imbricações de pólos da cidade digital – e o desenrolar da expressa revolução
tecnológica de nosso tempo.
47

4 O JORNALISMO OPEN SOURCE NA WEB

"Certamente a glória do jornalismo é a


sua transitoriedade."
(Malcolm Muggeridge)

A libertação deflagrada neste fim/começo de século de diversas práticas


sociais arraigadas, entre elas a configuração do jornalismo, faz com que a
produção de conhecimento seja proporcional à força agregativa dos povos
(BRAMBILLA, 2005, p. 12). As atividades no ambiente digital, as quais
referenciamos em capítulos anteriores, passaram a ser balizadas por códigos
abertos, com os quais essa liberalização de interferência já chega ao noticiário
online. Dessas interferências surge o paradigma do jornalismo open source36.
Denominado também como Jornalismo Cidadão, Jornalismo Colaborativo ou
Jornalismo Participativo por vários autores.
A lógica do jornalismo open source, ao contrário do jornalismo de
massa37, baseia-se na interatividade comunicacional que no ambiente online, por
sua vez, estabelece relações entre interfaces. Essa interatividade, como visto, é
nada mais nada menos que a “interlocução de emissores e receptores na
construção das mensagens” (ibid.).
As diferentes nomenclaturas do jornalismo open source existem devido
justamente à grande emergência e hibridização dos códigos e linguagens
adotadas.
O foco no jornalismo de fonte aberta38, no entanto, passa a ser a
colaboração e não a produção, confrontado com diferenças mínimas no que diz
respeito à liberdade de interação do usuário e no grau de mediação dos
processos de redação, editoração e publicação da notícia dos outros tipos de
jornalismo para este.

36
O termo inglês open source significa, literalmente, “de fonte ampla”, ou seja, de origem
independente, para além das barreiras ou fronteiras comuns, de código livre.
37
Baseado no modelo de mensagens unidirecionais (um para todos).
38
Variação utilizada para nos referenciarmos ao jornalismo open source.
48

A construção do conteúdo noticioso se dá, não de forma centralizada,


mas em parceria, dentro do conceito de jornalismo colaborativo. A interatividade
é o quesito principal para a existência deste gênero.
É praticamente impossível falar de jornalismo open source desvinculado
da web, e não abordaremos essa variante neste capítulo.

4.1 COLABORAÇÃO: UM PASSO NO TEMPO

O jornalismo colaborativo, termo que adotaremos sempre que nos


referirmos ao modelo open source, surgiu no seio do webjornalismo. Mielniczuk
(2004, apud JARDIM, 2005, p. 66) divide essa fase de emergência em três
pontos principais: o primeiro surgiu com a transposição do material impresso
para a internet em sua forma bruta, sem demanda de formatação específica para
o meio; o segundo aparece com a criação de websites com enfoque puramente
jornalísticos e com o lançamento de produtos ainda não vistos no impresso,
apesar de possuírem algumas semelhanças sutis entre os dois modelos somente
no tocante à disposição gráfica e utilização destes recursos – este segundo
ponto marca o início da utilização do hipertexto.
A partir da terceira fase, vigente desde 2001 de acordo com Dalmonte
(2005, apud JARDIM, 2005, p. 66), acontece um aprimoramento concernente à
utilização das potencialidades da linguagem do meio: hipertextualidade, memória
virtual, multimidialidade, etc.

4.2 SOFTWARE LIVRE E O TERMO OPEN SOURCE

Os pontos que caracterizam “software livre” e “open source” são


próximos, mas não idênticos. Bruce Perens39, norte-americano ativista do

39
Cf. <http://www.ansol.org/filosofia/softwarelivre.pt.html> Acesso em 29 de out de 2009.
49

software livre e fundador do Open Source Initiative – OSI40 – é líder co-criador do


primeiro projeto LSB – Linux Standart Base41 – e um dos que sugerem uma
definição para o termo open source que também foi usada no OSM – Open
Source Movement. Seu diferencial é ser uma estratégia de marketing do
software livre através do OSM enfatizando a comercialização dos produtos
trabalhados de modo colaborativo (BRAMBILLA, 2005, p.12).
O OSM defende basicamente que a terminologia “open source” refira-se
ao acesso ao código-fonte de um programa, requisito de liberdade de um
software. Conforme Stenborg (2004 apud ibid.) afirma, as frentes que adotaram
os termos passaram a trabalhar com as siglas F/OSS – Free/Open Source
Software – e FLOSS – Free-Libre/Open Source Software – para designar a
aplicação dos dois modelos de trabalho, produção e distribuição de programas.
A aplicabilidade ao jornalismo surgiu consoante a estas primeiras
definições propostas.
Raymond (2002 apud ibid.) denomina de modelo “bazar” a estrutura de
trabalho onde o desenvolvimento é feito simultaneamente por vários
interessados distintos e localizados em pontos geográficos diferentes. É o que
Brambilla (ibid.) chama de estrutura rizomática de produção, um modelo
horizontal com pontos de ascensão intercalados, ou seja, sujeito a variações de
um todo previamente pensado e projetado. O que, obviamente, se opõe ao
padrão verticalizado e fechado à contribuição do público.
Deste princípio, a concepção de contribuição está ligada à troca massiva
de arquivos e conteúdos inerente à navegabilidade da internet, como numa
inversão dos sistemas de copyright. “Toda tecnologia da rede é baseada em
intercâmbios de pequenos pedaços de informações enviados de um computador
para outro” (SIMON, 2000, s/p apud ibid.). Tecnicamente estas trocas foram
viabilizadas pelo protocolo http (hipertext transfer protocol) e pode tornar-se, com
a emergência da produção coletiva de conteúdo, como numa “enciclopédia”
escrita por milhões de leitores/autores.

40
Nossa tradução (literal): “Iniciativa do Código Aberto”. Tradicionalmente refere-se à quebra de
proteção do código nos softwares livres.
41
Sistema operacional livre para computadores, inicialmente batizado de Linux. Cf. <
http://colab.interlegis.gov.br/attachment/wiki/Trabalhos/Ativistas%20Software%20Livre.pdf?format
=txt> Acesso em 29 de out de 2009.
50

A produção neste caso é simples e conveniente: vai desde a pura


navegação pelos conteúdos já existentes até ao download de arquivos e
programas prontos.
Conforme a autora, pode-se dizer que o advento da participação na
produção ou co-produção de conteúdos remonta à construção de uma outra
cultura, assim como a da linguagem e do folclore – “criações coletivas e
compartilhadas de bens de informação” (BRAMBILLA, 2005, p.12).

Maybe it shouldn‟t have a been such a surprise. Sociologists years ago


discovered that the aearaged opinion of a mass of equally expert (or
equally ignorant) observers is quits a bit more reliable a predictor than
the opinion of a single randomly-chosen one of the observers […]
(BRAMBILLA, 2005, p.12).42

O que a autora sugere é que o fator entendimento/ignorância quando


separados em seus extremos numa massa de observadores, são capazes de
oferecer uma interpretação muito mais fiel de um fato do que o contrário.

4.3 CARTOGRAFIA DA INFORMAÇÃO E A CULTURA OPEN SOURCE

“Duas cabeças pensam melhor do que


uma.” (Anônimo)

Considerando a estrutura em rede da comunidade virtual dentro dos


fatores de partilha de recursos e serviços entre usuários, trazemos o intercâmbio
existente no OSM para a base jornalística de produção da informação.
A informação nesse caso constitui-se em matéria-prima para a troca
direta entre internautas, computadores e interfaces. Obviamente, como trata a
autora, softwares, músicas, livros, infográficos são, basicamente, informação. No

42
Nossa tradução: “Talvez isso não devesse ser uma surpresa. Há anos sociologistas
descobriram que a média da opinião de uma massa de observadores igualmente entendidos (ou
igualmente ignorantes) é um prognóstico um pouco mais confiável do que a opinião de uma
simples escolha randômica [ao acaso] de observadores”.
51

tocante à informação estritamente jornalística, Moura (2002 apud BRAMBILLA,


2005, p.12) sugere a composição e troca de notícias através de redes de
cooperação, o que inaugura este novo modelo de Jornalismo: “jornalismo open
source”, deve-se, assim

[...] permitir que várias pessoas (não apenas os jornalistas) escrevam e,


sem a castração da imparcialidade, dêem a sua opinião, impedindo
assim a proliferação de um pensamento único, como o pode ser aquele
difundido pela maioria dos jornais, cuja objectividade [sic] e
imparcialidade são muitas vezes máscaras de um qualquer ponto de
vista que serve de interesses mais particulares que apenas o de
informar com honestidade e isenção o público que os lê (MOURA,
2002, s/p apud BRAMBILLA, 2005, p.12).

Conforme a autora, as premissas da imprensa tradicional não mais se


aplicam ao jornalismo online, pois este possui sua experiência própria e as
prerrogativas capazes de orientar seu foco de produção. Não mais uma simples
cópia dos meios impressos, o jornalismo online tende a ser legitimado no
decorrer da superação de pontos negativos como o medo do anonimato das
fontes ou sua situação de leigo.
Poderia surgir daí uma inversão de papeis do jornalista, decorrente de
sua perda de autenticidade, ele passaria a ocupar lugar de cartógrafo da
informação, já que todos têm a possibilidade de publicar. Isto é, o profissional
qualificaria as informações, checaria suas origens, compararia uma e outra
versão, ligaria fatos diferentes entre si e criaria daí a base para a publicação
compartilhada.

4.3.1 Reorganização de Papeis Entre os Interagentes

Na esfera da colaboração, a experiência obtida pelo jornalista é a de que


sua autenticidade é colocada em evidência. Nem todos podem ser jornalistas, e
é baseada nessa premissa que Brambilla sugere uma estruturação do cenário
open source.
52

Segundo a autora, os jornalistas podem participar do processo


colaborativo desempenhando a função de reescrever os artigos, adaptando as
informações principais enviadas por um internauta anônimo aos padrões de
imparcialidade e objetividade do texto jornalístico. O resultado, entretanto, seria a
subtração de qualquer traço de comentários pessoais ou de opiniões inseridas
no texto pretensamente tido como noticioso.
Em contrapartida, o interesse dos leitores poderia cair embalado pelo
baixo teor de envolvimento pessoal nos temas e a homogeneidade com que as
informações fossem tratadas.
O que não se pode negar, é que existe a necessidade de extração, a
partir dessa matéria bruta informacional que circula no fluxo global, dos temas e
assuntos que interessam especificamente a uma comunidade.
Outro ponto interessante, e que também provoca certa discussão quanto
a ser oportuno ou não, trata da abertura da notícia a comentários variáveis
escritos por leitores e postados junto à matéria – até mesmo aqueles contrários
entre si e que oferecem diferentes tipos de interpretação.

O restabelecimento de uma conexão entre público e mídia vem


estimulando iniciativas como o Participatory Journalism, o Citizen
Journalism e o Grassroots Journalism que, apesar das nomenclaturas,
são apresentados por Gillmor (2004), como sinônimos no que toca à
ideia de que o Jornalismo é uma prática comunitária, feita para as
pessoas e pelas pessoas; de que os povos, organizados em
comunidades, são os dispositivos ideais para coleta e difusão de
informações que dizem respeito aos seus entornos, aos seus contextos
culturais, aos seus cotidianos, às suas realidades particulares
(BRAMBILLA, 2005, p.12).

Não é apenas a tecnologia a responsável pela deflagração dessa


recente liberdade para publicação; existem quatro principais fatores sociais que
permeiam o ambiente digital. Conforme Brambilla (ibid.), tais diferenciais neste
relacionamento do público com a informação noticiosa e essa liberdade para
publicá-la giram em torno da ubiquidade43 da notícia, depois a velocidade de
processamento da informação, seguidos de outro fator que é a interação, ou
seja, a possibilidade de diferentes atores participarem efetivamente na troca
imediata de dados e opiniões em distintos cenários sociais. Por último, a

43
“Isto é, a presença constante e simultânea da informação em diferentes pontos” (ibid).
53

indexação das notícias com seus desdobramentos e/ou antecedentes que


possibilitam “um panorama tão amplo quanto o interesse do internauta” (ibid).
Dessa forma, as demandas atendidas pelo jornalismo open source em
sua prática em rede marcaram profundamente a forma tradicional de se fazer
jornalismo, que, tradicionalmente era

Limitado aos profissionais de imprensa cujo poder de publicação lhes


era exclusivo e o campo das notícias estava subordinado às dimensões
espaço-temporais de projetos gráficos ou grades de programação,
notoriamente articulados por anunciantes (BAMBRILLA, 2005, p. 12).

Notoriamente, o que o jornalismo open source provoca é uma


instabilidade no modelo restritivo das mídias tradicionais, a começar pela
interação entre dois pólos até então opostos no processo comunicacional: o
jornalista e o leitor/ouvinte/espectador. No open source “aquele que lê é o
mesmo que escreve as notícias, compartilhando responsabilidades e tendo no
envolvimento pessoal sua principal moeda de troca” (ibid).
Esta tendência é mais pretensiosa do que se pode supor, pois o espaço
aos leitores/ouvintes/espectadores, que antes era restrito às sessões de cartas,
hoje avança sobre o território editorial com a premissa de se tornar um noticiário
informativo padrão.

4.3.2 Todos “são” Repórteres

As notícias, assim como os softwares,

eram exclusivamente produzidas e publicadas por uma empresa que as


transforma em produtos comercializáveis, no jornalismo open source
elas passam a ser produto de domínio público, tanto sua elaboração
quanto sua fruição (BRAMBILLA, 2005, p. 10).

Então, assim como os softwares, as notícias, ao passarem por um


processo de sucessivos testes de autenticidade, passam também por um
54

aprimoramento contínuo com diferentes manifestações críticas igualmente


diferentes em seu teor.
“Duas cabeças pensam melhor do que uma”, já dizia o antigo ditado
popular, certamente se referindo ao fato da colaboração de diferentes pontos de
vista seja em qual projeto for.
As notícias deixam de estar sujeitas a uma hierarquia institucional para
comprometerem-se unicamente com o interesse pessoal de voluntários44. Esses
voluntários são, essencialmente, interagentes que assumem a posição de
quebrar valores impostos pela mídia tradicional, até então eles eram
impossibilitados de interferirem imediatamente na mensagem midiática.
Essa comparação entre softwares e notícias é delicada obviamente, visto
que os dois, apesar de serem produtos intelectuais, possuem papeis diferentes
na sociedade. O foco que damos aqui é voltado às suas relações de processos
de produção e não do produto final em si. Ainda mais no concernente à
interpretação equivocada de que colaboração é sinônimo de gratuidade, pois a
notícias, mesmo sob o ângulo do open source são passíveis de comercialização,
conforme declara Lessig (apud BRAMBILLA, 2005).
Neste caso, a liberdade entendida no modelo da colaboração deve dar à
notícia a usabilidade para quaisquer propósitos, além da possibilidade de ser lida
e distribuída abertamente. Mais ainda, deve dar à notícia também a possibilidade
de ser aperfeiçoada ou comentada de acordo com visões particulares que
possam enriquecer os relatos, além de poder ser produzida de modo irrestrito
por diferentes pessoas, com diferentes objetivos. O motivo último de todas essas
etapas é a de auxiliar a compreensão de um fato pela sociedade.

44
Gilmor (apud BRAMBILLA, 2005, p. 10) identifica a pessoa que pretende melhorar o que
compra como um hacker. O papel que este indivíduo desempenha é direcionado pelas suas
investigações sobre o funcionamento das coisas para, a partir daí, transformá-las
completamente. Ao interferir sobre os produtos, os progressos obtidos são divulgados de forma a
estimular outras pessoas a agirem de tal forma, seja na solução de bugs ou problemas que
atinjam a comunidade de maneira geral.
55

4.4 ALGUMAS PRÁTICAS COLABORATIVAS

Uma moradora de Gaza, Eman Mohammed de 21 anos, entrevistada


pelo Grupo Abril de Jornalismo, retratou o conflito da faixa de Gaza de uma
forma testemunhal. Ela usou a sensibilidade adquirida no curso de Jornalismo da
Universidade de Gaza para demonstrar aos leitores um fato pelo lado de dentro
dando uma proximidade e um tato às matérias impossível de ser atingindo por
um jornalista do outro lado do planeta.
Em dezembro de 2008, ao irromper o conflito entre israelenses e
militantes do grupo Hamas, a entrada de jornalistas na região da faixa de Gaza
foi proibida. E Eman Mohammed era a única mulher a retratar a situação, o que
rendeu uma perspectiva diferente a partir da lente de sua câmera fotográfica.
Citamos Eman como exemplo, pois além de sua formação em
jornalismo, o foco defendido por ela era o impacto da guerra sobre as crianças.
Através do site Demotix45, as imagens postadas46 pela nossa personagem foram
divulgadas no diário inglês The Guardian47 e em uma emissora de televisão do
Líbano (VEJA, 2135, p. 55).
Outro exemplo de colaboração é o de Niv Calderon, 28 anos, blogueiro e
usuário de redes, que em uma tentativa de registrar o outro lado do front do
conflito em Israel, emprestou aparelhos celulares, que filmam e tiram fotos, para
os moradores da região do conflito registrarem a guerra que viam. Mais tarde,
este conteúdo era postado no Youtube e repentinamente já era utilizado pelo site
Help Us Win48, também criado por Calderon para discutir a posição de seu país
dentro da guerra.
Existem casos como o do site norte-americano Spot.Us49, no ar desde
novembro de 2008, possibilita ferramentas em que o jornalista transfere sua
pauta diretamente para internautas. Os jornalistas aparecem na forma de perfis

45
Site fundado no segundo semestre de 2008 e que reúne mais de 10 mil fotos e 5.600
colaboradores em 120 países (Cf. ANEXO A).
46
“Postadas” é uma variação da palavra inglesa post e se refere neste contexto ao ato de
publicar conteúdos em blogs ou sites afins.
47
The Guardian é um periódico tradicional da Inglaterra e que pertence ao Guardian Media
Group (Cf. <http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Guardian>).
48
Cf. <http://www.helpuswin.org/> em Anexos.
49
Cf. <http://spot.us/> em Anexos.
56

visíveis para outras pessoas que visitam o site e desejam colaborar na


construção das matérias. Existe um financiamento da matéria por parte dos
interessados. Este subsídio é repassado em parte para os colaboradores no final
do processo de publicação.
Além de funcionar como um modelo de crowd-founding50 do jornalismo
trata-se de uma iniciativa um tanto inovadora para as mídias. É dessa forma que
o Spot.Us atende a região metropolitana de São Francisco e planeja atuar em
mais cidades dos Estados Unidos e na América do Sul (PLUG, Especial Digital
2009, p. 36).

4.4.1 Checagem do Material Colaborativo

“Em três de outubro de 2008, o valor das ações da Apple na Bolsa de


Nova York caiu 5,4% em menos de 20 minutos após a informação de que Steve
Jobs teria sofrido um ataque cardíaco” (ibid.). Essa informação foi veiculada de
forma colaborativa e teve repercussões em praticamente o mundo todo.
Todo o estardalhaço causado pela notícia falsa começou com a
veiculação do fato no iReport.com51 da rede CNN. O iReport.com agrega mais
de 240 mil colaboradores, mas questionaram a informação e com a checagem foi
constatada a mentira, cujo autor foi excluído do site.
A checagem deste tipo de informação inclui desde entrar em contato
com o autor do texto – daí a importância de se cadastrar dados pessoais nos
sites antes de se ter acesso à plataforma da colaboração, como p. ex. CPF e
telefones pessoais – e consultar especialistas do tema.
A culpa neste caso, da publicação de uma informação errada, varia de
acordo com a legislação vigente em cada país. A CNN ficou isenta de
condenação, pois a lei nos Estados Unidos define que a responsabilidade é
inteiramente da pessoa que publicou o fato. Já no Brasil, devido à inexistência de
uma regra específica, a decisão dependeria de um juiz.

50
Modelo de financiamento coletivo via internet (Cf. PLUG, Especial Digital, p. 36).
51
Canal colaborativo da rede CNN nos Estados Unidos (idem, p. 37).
57

4.4.2 OhMyNews International

A interatividade, como princípio para o Jornalismo Open Source, é


encontrada no site OhMyNews International – OMNI52 – enquadrada nas
constantes enquetes, no contato possibilitado aos autores das notícias, nos
comentários, nos fóruns e na indicação da qualidade da notícia através de
votações (número de cliques em um símbolo de positivo e outro de negativo).
O site sul coreano OhMyNews International, originalmente denominado
Oh Yeon Ho, foi criado em 22 de fevereiro de 2004 com o princípio de que “every
citizen in the world is a reporter”53. Atualmente o site conta com seis mil
colaboradores em mais de 110 países (Disponível em <
http://en.wikipedia.org/wiki/OhmyNews_International>. Acesso em: 3 de nov de
2009).
A colaboração, no caso do OMNI, se limita ao envio de notícias
jornalísticas com o total acesso do usuário à produção da notícia. A notícia fica
disponibilizada e sujeita a comentários e críticas que a sucedem. No entanto,
antes da publicação, a equipe mediadora do website faz a edição e checagem
dos dados. Apenas o autor da notícia possui credencial para alterar o texto, o
que pode não acontecer em outros sites diferentes.
Segundo Jardim (2005, p. 67), o site do OMNI é um exemplo híbrido de
jornalismo profissional e jornalismo cidadão, pois nem todo o processo de
produção fica nas mãos dos internautas. Existe uma fila de votação que irá
definir se a notícia entrará ou não para determinado caderno ou se ela é
concreta e passível de publicação. A equipe que faz essa triagem, portanto, tem
o papel de mediadora, mas não de forma centralizada como a de um pólo
emissor. A diferença do site para os demais meios de massa é que quem faz a
notícia é o cidadão ou o internauta, mesmo que a notícia esteja sujeita à edição
destes mediadores.
Esse processo de seleção realizado pelo OhMyNews conta com uma
equipe de aproximadamente 50 jornalistas. Vem daí a premissa de que uma das

52
Cf. ANEXO D.
53
Nossa tradução: “Cada cidadão do mundo é um repórter.”
58

etapas do processo do jornalismo open source é a triagem, ou seja, um filtro


imposto pelas equipes de jornalismo.
Nota-se a presença de tipos de interatividade produtiva em sites como o
citado. Ao mesmo tempo em que o usuário se envolve de forma a publicar uma
notícia ou enviar um comentário ele pode votar a favor do veto de outra notícia
de outros usuários.
Com relação à multimidialidade de sites como o OMNI, podemos dizer
que ela existe enquanto se constrói o hipertexto. Ferramentas de integração de
vídeos, imagens e podcasts para ilustrar a matéria são invariavelmente
disponibilizadas aos usuários. Estes recursos de linguagem são hibridizados aos
conceitos de formatação da notícia, modelos de narrativas multimídia e ao
armazenamento dos conteúdos publicados, que ficam disponíveis para pesquisa
(JARDIM, 2005, p. 73). Dessa hibridização surgem modelos narrativos
webjornalísticos: linear, hipertextual básico e avançado, vistos no capítulo três.
59

5 CONCLUSÃO

O aparato tecnológico que impregna a vida de cada internauta lhe dando


poder para cada vez mais adicionar fotos, podcasts54, vídeos e textos a blogs e
redes sociais está agora invadindo a esfera do jornalismo open source. De
acordo com a revista Plug Especial Digital da Editora Abril, em “2008, os
geradores de conteúdo eram 42,8% do total de pessoas que navegam na web
nos Estados Unidos” (PLUG – Especial Digital, 2009, p.33). Ainda de acordo com
a revista, eles serão maioria em cinco anos.
É como se uma nova imprensa estivesse prestes a surgir: amadores já
têm a tecnologia e a estrutura necessárias para “furar” os jornalistas no relato
das notícias. Celulares que tiram fotos e gravam vídeos são as principais
ferramentas para a maioria dos vídeos amadores postados no Youtube,
conforme uma análise a primeira vista pode constatar.
De maneira geral, a deflagração deste fato vem impelir veículos
tradicionais a investirem em jornalismo open source. O que nada mais é que
estabelecer uma relação de interação com o internauta que, por sua vez, envia o
relato de algum fato, este será checado por profissionais antes da publicação e
disponibilizado com os créditos daquele que enviou a matéria, caso existam.
Dos 100 maiores jornais norte-americanos 58% tinham ferramentas para
o envio de algum tipo de conteúdo em 2008 contra apenas 27% no ano anterior
(ibid.). “O público está deixando de ser apenas consumidor de conteúdo
jornalístico para adquirir relevância informativa” (ibid.). Esse fato parece ser
tendência em praticamente todos os portais da internet que ultimamente abrem
espaços como “vc repórter” do G1.
Esse tipo de relato colaborativo adquire ainda mais importância quando
ajuda aos profissionais de jornalismo a romperem barreiras como a distância ou
quando um país é totalmente fechado à imprensa exterior. No caso das
ofensivas recentes de Israel contra Gaza no início de 2009, estudantes como
Eman Mohammed tornaram-se correspondentes de guerra e tiveram seus
trabalhos disseminados pelo mundo (ibid.).
54
Narrações de áudio que vão desde a remixagem de músicas e entrevistas a relatos pessoais
sobre uma viagem ou experiência no exterior ou com culturas diferentes.
60

Em primeira instância, esperamos ter cumprido nosso objetivo de avultar


as características gerais do universo colaborativo dentro do jornalismo online e
preparar o terreno para outras discussões a respeito do assunto, cuja
emergência e hibridização culminam em diferentes nomenclaturas apesar de que
as diferenças entre elas sejam apenas dos graus de colaboração permitido pelos
websites.
Outra face da discussão pode remontar outros aspectos do ambiente
online: a crescente receptividade dos brasileiros às redes sociais, que hoje
congregam 29 milhões de pessoas só no território nacional, ou seja, oito em
cada dez brasileiros ascendem às redes sociais mensalmente (VEJA, 2009, ed.
2120, p. 95).
As ramificações das interações com o contribuinte e suas funções
imediatas possuem faces distintas: ou a de levar informações a lugarejos não
atendidos pelas coberturas das grandes mídias; ou a da perspectiva pessoal que
visa à manifestação de pontos de vista não retratados no jornalismo tradicional;
ou a da mediação social para a produção de conteúdo; ou mesmo, da
inexistência da mediação para a livre criação.
Dentro deste contexto, a interação cibermediada é a responsável
primeira pelas consequências de implantação do modelo open source ao
jornalismo de web, tornando muito difícil a separação do jornalismo das práticas
sociais e seus desdobramentos como citado no primeiro capítulo desta pesquisa.
Como produto de “um para todos”, a informação sempre sofrerá as
inferências do produto pessoal, das críticas pessoais, da carga cultural, do modo
de leitura de mundo individualizada. Destacamos, neste caso, que o acúmulo de
“credibilidade” de um veículo no decorrer de sua existência vem da facilidade ou
não de se ajustar a um menor ou maior grau de envolvimento pessoal com o
fato, entre outros fatores.
A partir da criação de um modelo de colaboração, o jornalismo sofre não
uma mutação de valores e paradigmas de seu processamento, mas sim a
adaptação tão necessária de um veículo ao seu ambiente e ao seu contexto
temporal, como aconteceu tantas vezes no passado. Admitimos que houvesse
muito a ser comentado a despeito deste tema, mas devido aos prazos justos por
extensão, optamos por esclarecer qual é essa tendência e porque ela se fez tão
necessária. Esperamos ter concluído nossas deduções no sentido de abrir
61

caminho para outras pesquisas e posteriormente aplicá-las ao contexto prático e


de vivência dos jornalistas.
A observação de tendências do jornalismo online segue a discussão
teórica acerca do jornalismo open source. Sendo assim, é possível notar o quão
relevante é o papel da descentralização da mediação social para a configuração
deste novo formato. De acordo com a diversidade de mediações implementadas
é que os formatos adjacentes da tradicional forma de se fazer jornalismo para a
web se moldam, somando ou não as características do jornalismo de massa. O
processo comunicacional da colaboração eclode em graus distintos de mediação
social e interlocução, visto que a comunicação entre usuários também tem sido
desenvolvida.
As variações entre os sites jornalísticos baseados no modelo open
source no que tange a intensidade/grau de colaboração são muito tênues entre
si, podendo atingir níveis quase homogêneos.
Como visto, a diversidade das mediações sociais nestes formatos
emergentes de jornalismo open source vem da descentralização da mediação
social. Esta, por sua vez, está ligada à lógica hipermidiática de comunicação. As
mediações podem ser vistas como desdobramentos do jornalismo de massa
dentro do jornalismo colaborativo, configurando tensões que persistem diante do
surgimento de formatos.
Já existem discussões sobre como tornar o jornalismo colaborativo um
modelo sustentável de negócio, pois a web, enquanto plataforma, permite esta
exploração.
As tensões entre um e outro modelo emergente são as responsáveis
pelo surgimento de rupturas no modo tradicional que se constitui o jornalismo de
massa. Esta pesquisa segue a linha de tendências do jornalismo open source
para saber até que ponto é possível considerar as informações oriundas dos
formatos emergentes de jornalismo colaborativo como jornalísticas.
62

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ANEXOS
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ANEXO A – Reprodução visual do site http://www.demotix.com.

Fonte: Reprodução do site http://www.demotix.com – (Disponível em:


<http://www.demotix.com/>. Acesso em: 3 de nov de 2009).

ANEXO B – Reprodução visual do site http://www.helpuswin.org/.

Fonte: Reprodução do site http://www.helpuswin.org/ - (Disponível em:


<http://www.helpuswin.org/>. Acesso em: 3 de nov de 2009).
68

ANEXO C – Reprodução do site http://spot.us/.

Fonte: Reprodução do site http://spot.us/ (Disponível em: http://spot.us/. Acesso


em: 3 de nov de 2009).

ANEXO D – Reprodução do site <http://english.ohmynews.com/>.

Fonte: Reprodução do site http://english.ohmynews.com/ (Disponível em:


http://english.ohmynews.com/. Acesso em: 3 de nov de 2009).