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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Psicóticos X Psicopatas

Serial murders – Psicóticos VersuS Psicopatas

Os criminosos psicóticos em série não têm uma consciência precisa da


dimensão dos seus actos, agem em consequência de delírios e alucinações,
sem percepção crítica das acções que cometem. Normalmente, estes
indivíduos são dados como inimputáveis em tribunal.

O assassino em série psicopata difere do psicótico porque possui uma


consciência precisa do que faz, ou seja, consegue distinguir, perfeitamente,
o certo do errado e não apresenta sintomatologia alucinatória. Estes
indivíduos são, na maioria das vezes, considerados imputáveis pelas
instâncias judiciais e condenados a penas bastante pesadas.

Michel Benezech (1998) propõe uma classificação para estes dois tipos de
criminosos. Segundo este autor, o homicida psicopata tanto pode provir de
famílias desestruturadas ou banais. O pai é uma figura ausente, delinquente
ou violenta e a mãe comporta-se, muitas vezes, de forma peculiar. A sua
conduta caracteriza-se, essencialmente, por uma incoerência reactiva
oscilando entre a passividade, a submissão, a agressividade e a rejeição, do
transbordo de afecto à frieza indiferente, do rigor moral extremo ao laxismo
ou á cumplicidade. Esta ambivalência de sentimentos é, constantemente,
posta em acção, provocando na criança estados de insegurança e
indefinição de atitudes.

Enquanto que o ambiente familiar do psicótico é monopolizado pela figura


materna, quase sempre uma mãe simbiótica e controladora.

Em termos psicanalíticos a mãe pode representar o centro do amor e do


perigo, enquanto o pai simboliza a lei e a ordem que, de certa forma, se
interpõe entre a mãe e a criança. O pai auxilia o bebé a criar um espaço
psíquico de segurança. No qual, a criança consegue não só ver-se a si
própria como separada da mãe, mas pode, também, perceber que a mãe
possui um relacionamento com o pai. Isto representa para a criança a
possibilidade de conter o seu impulso para a união indissolúvel com o
objecto de amor (frequentemente a mãe), com o pai a apresentar-se como a
protecção para fugir dessa imersão, “o que a protege ao mesmo tempo do
medo de ser aniquilada e engolfada” (Fonagy, 1995).

No contexto aqui apreciado, este fenómeno, que acontece durante o


complexo de Édipo, não se processa normalmente. A mãe incorpora e
domina toda a dinâmica familiar relegando o pai para segundo plano. Desta
forma, a criança não consegue atingir a sua integridade e funde-se com a
mãe. Facto, este, que acarreta consequências para toda a vida. É de
extrema importância para o desenvolvimento psíquico de um indivíduo a
presença das figuras parentais de forma consistente. Os pais têm que
possuir limites e saber impô-los, de maneira, a serem interiorizados pelas
crianças.

O psicopata não possui antecedentes psiquiátricos, mas, na maioria das


vezes, já tem cadastro criminal, ao contrário, do psicótico que não possui
antecedentes criminais, mas já esteve, por diversas vezes, hospitalizado em
instituições psiquiátricas.

O consumo de álcool ou de estupefacientes é comum nos delinquentes


psicopatas, enquanto que no psicótico é raro este tipo de consumos.
Geralmente, as drogas que estes sujeitos tomam são prescritas pelos
médicos ou resultantes de tratamentos psiquiátricos como quimioterapias
psicotrópicas.

O estilo de vida do criminoso psicopata é bastante movimentado,


normalmente, vive acompanhado; tem mulher e filhos. Possui uma vida
social que, à primeira vista, é perfeitamente adequada, sendo, no entanto,
um indivíduo bastante superficial e desprovido de sentimentos
imprescindíveis a um bom relacionamento interpessoal, como, por exemplo,
a empatia. Estes indivíduos são frios e manipuladores. Desta forma,
conseguem fingir emoções e apresentarem-se ao outro como
extremamente sociáveis e sedutores, o que lhe permite sempre enganar as
vítimas.

O seu narcisismo é, bastante, elevado o que aumenta a sua predisposição


para comportamentos vingativos. À vingança está inerente a uma sede para
destruir e infligir sofrimento. Um vingador obtém prazer no sofrimento do
outro. Ele não vai só matar, mas violar, torturar, pilhar e queimar o que
restar. Isto tudo deve-se à satisfação que consegue obter do sofrimento da
vítima. A ausência de empatia e sentimentos de que o mundo roda à sua
volta são o centro de todos os acontecimentos, e um sentido de que tudo
lhe é devido e que nada lhe pode ser negado contribuem para que se sinta
de tal forma grandioso que nenhuma ofensa ou injúria possa ser feita contra
ele, o que de certa forma diminui as restrições ou constrangimentos sociais
e éticos que poderiam possuir. A sua ética está virada somente para si
próprios.

“O narcisismo pode, assim, ser descrito como um estado da experiência em


que só a própria pessoa, seu corpo, suas necessidades, seus sentimentos,
seus pensamentos, seus atributos, tudo e todos que lhe pertençam são
experimentados como plenamente reais, enquanto que tudo e todos que
não formam parte da sua pessoa ou não constituem objecto de suas
necessidades não são tidos como interessantes, não são plenamente reais,
são percebidos apenas por meio de um reconhecimento intelectual,
enquanto afectivamente sem peso e sem cor.” (Fromm, 1975).

O criminoso psicótico vive, geralmente, sozinho ou com os pais. Não


consegue, como o psicopata, enquadrar-se no mundo social e profissional,
ficando sempre limitado à vida familiar com os pais ou, em caso de morte
destes, fica sozinho na casa onde nasceu. Dito de outra maneira, é um
solitário que se mantém dentro do território onde foi criado viajando muito
raramente.

Quanto ao psicopata e no que diz respeito à passagem ao acto, este quase


sempre premedita os seus crimes, caso que só acontece nos criminosos
psicóticos quando estes são paranóicos.

A vítima é, na maioria das vezes, alguém que o psicopata conhece ou,


então, é alguém que possui as características que, de alguma forma,
excitam o predador.

A morte da vítima não ocorre de imediato; pode haver longos diálogos com
o agressor, possíveis torturas ante-mortem e sadismo sexual. Quando mata,
este indivíduo, tem como objectivo final humilhar a vítima. Para ele, o crime
é secundário, pois o que realmente lhe interessa é exercer poder sobre ela,
dominá-la, de forma a se sentir superior. O que o psicopata hedonista busca
é o seu próprio prazer.

O cadáver é escondido após o crime para que o assassino não seja


descoberto pela polícia. O predador pode voltar ao local onde escondeu o
corpo para reviver e experienciar todo o prazer e satisfação sexual, ou não,
que lhe causou assassinar a vítima.

O arrependimento e a culpa não se verificam nestes casos, o que


transforma a hipótese de suicídio, após o crime, um acontecimento muito
remoto.

No caso do assassino em série psicótico podemos encontrar algumas


diferenças de comportamento em relação à condução dos actos criminosos.

Este age sempre sozinho e o seu comportamento modifica-se pela altura do


crime, ou seja, torna-se perigoso anunciando o acto.

As suas vítimas são pessoas que ele conhece, muitas vezes, até bastante
próximas.

A passagem ao acto é feita de forma desorganizada e muito violenta com


enucleação e castração possíveis. Durante a agressão existe pouco ou
nenhum diálogo, é tudo muito rápido e, geralmente, a vítima é violada. A
arma que este utiliza para perpetrar os seus crimes é escolhida ao acaso, ou
seja, geralmente, é o que tiver à mão.

Todo o assassinato é vivenciado pelo psicótico com grande ansiedade e


angústia, podendo, muitas vezes, o indivíduo entrar em choque e ficar
prostrado junto ao corpo da vítima. O suicídio acontece, frequentemente,
após os crimes. Quando não acontece, o cadáver é abandonado sem que o
criminoso tome qualquer precaução para que o crime seja ocultado. Estes
indivíduos devido ao sentimento de culpa que sentem denunciam-se à
polícia ou deixam-se prender sem oferecer resistência.
Hoje em dia as abordagens mais interessantes e em constante evolução no
estudo da Psicopatia, para além da abordagem psico-neurofisiológica, são: o
estudo dos traços de psicopatia em pessoas ditas normais, e a abordagem
que encara o psicopata como possuidor de agressividade predatória.

Segundo Vicente Garrido (2003) há pais psicopatas, patrões psicopatas,


maridos psicopatas, políticos psicopatas, empresários psicopatas,
companheiros de trabalho psicopatas. A maioria deles jamais serão presos e
jamais cometerão algum crime. Mas geralmente enganam, manipulam e
arruínam as finanças e as vidas dos que têm a má sorte ou a imprudência
de se associar pessoal ou profissionalmente com eles. Na sociedade actual,
a psicopatia encontra um campo de cultivo favorável, na medida em que o
meio social inclui crenças e valores que contribuem para o desenvolvimento
de comportamentos não solidários e egocêntricos, a psicopatia aumentará e
afectará cada vez em mais sujeitos.

A agressividade pode ser classificada em dois tipos, como afetiva versus


predatória (Raine et al., 1998) ou reativa versus operativa (Blair, 2001). A
agressividade afetiva ou reativa manifesta-se em resposta a eventos ou
situações que provoquem sentimentos de frustração, raiva ou medo no
indivíduo. A agressividade operativa ou predatória, por outro lado é
planeada e executada de maneira calculada para atingir um objectivo
específico. A justificação para a diferenciação do comportamento agressivo
em duas categorias é a hipótese de que essas manifestações
comportamentais seriam processadas por substratos neuronais distintos
(Raine et al., 1998; Blair, 2001).