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Five Nights at Freddy’s:

Os Olhos Prateados

Esta é uma tradução gratuita, elaborada e disponibilizada pela equipe da


Phantasie Translate. Se você pagou por ela, você foi enganado.
CONTEÚDOS

CAPA

PARTE 1: Os Olhos Prateados


CAPÍTULO UM
CAPÍTULO DOIS
CAPÍTULO TRÊS
CAPÍTULO QUATRO
CAPÍTULO CINCO
CAPÍTULO SEIS
CAPÍTULO SETE
CAPÍTULO OITO
CAPÍTULO NOVE
CAPÍTULO DEZ
CAPÍTULO ONZE
CAPÍTULO DOZE
CAPÍTULO TREZE
PARTE 1
Os Olhos Prateados
tradução por:
Phantasie
CAPÍTULO UM

Ele pode me ver.


Charlie se jogou sobre suas mãos e joelhos. Estava acocorada atrás
de uma fileira de jogos de fliperama, apertada no minúsculo espaço entre as
máquinas e a parede, fios elétricos enrolados e plugues inúteis jogados
embaixo dela. Estava encurralada: a única saída era passando pela coisa e
ela não era rápida o suficiente para fazê-lo. Ela o via espreitando de um
lado para o outro, fitando vislumbres de movimentos conforme ele passava
diante do vão entre as máquinas. Mal havia espaço o suficiente para se
mexer, mas tentou engatinhar para trás. Seu pé ficou preso em um fio e ela
parou, contorcendo-se para desalojá-lo dali com todo o cuidado.
Ouviu o som de metal contra metal e a máquina mais distante bateu
contra a parede. Ele a golpeou novamente, quebrando a tela, e então atacou
a seguinte, destruindo-as quase que de forma rítmica, dilacerando todo o
maquinário, chegando cada vez mais perto.
Eu preciso sair daqui, preciso! O pensamento aterrorizante não
ajudava; não havia escapatória. Seu braço doía e ela queria cair em prantos.
O sangue ensopava a atadura esfarrapada e ela parecia sentir sua perda.
Uma máquina há apenas alguns metros de distância foi atirada contra
a parede e Charlie hesitou. Ele estava se aproximando; podia ouvir o ranger
das engrenagens e os estalos dos servomecanismos, cada vez mais alto. De
olhos fechados, ainda via a forma como ele olhava para ela, o pelo
desbotado e o metal exposto sob a pele sintética.
De repente, a máquina diante dela foi esmagada e atirada pelos ares,
jogada como um brinquedo. Os fios de energia sob suas mãos e joelhos
foram arrancados e Charlie escorregou e tropeçou, quase caindo. Ela se
encolheu e ergueu o olhar, a tempo de ver o balançar descendente de um
gancho...

Seja bem-vindo à Hurricane, Utah.


Charlie sorriu ironicamente diante da placa e continuou a dirigir. O
mundo não parecia nada diferente de um lado da placa para o outro,
mas sentiu uma expectativa tensa ao passar por ela. Não reconhecia nada. E
também não esperava reconhecer, não tão longe da fronteira da cidade,
onde tudo não passava de uma estrada e espaço vazio.
Imaginava como estariam ou outros, quem seriam agora. Dez anos
atrás, eram melhores amigos. E então aquilo aconteceu e tudo acabou, pelo
menos para Charlie. Não via nenhum deles desde os sete anos de idade.
Costumavam se escrever o tempo todo quando eram crianças,
especialmente Marla, que escrevia assim como falava: de forma rápida e
incoerente. Mas conforme foram ficando mais velhos, foram também se
afastando e as cartas se tornaram menos numerosas, com espaços de tempo
cada vez maiores entre elas, e as conversas a respeito desta viagem
acabaram sendo superficiais e cheias de pausas esquisitas. Charlie repetia
seus nomes como se para se assegurar de que ainda se lembrava
deles. Marla. Jessica. Lamar. Carlton. John. E Michael... E no fim das
contas, essa era a razão da viagem. Michael.
Fazia dez anos desde sua morte, dez anos desde que aquilo
aconteceu, e agora seus pais queriam que todos se juntassem para uma
cerimônia em sua homenagem, que todos os seus velhos amigos estivessem
lá quando anunciassem a bolsa de estudos que estava sendo criada em seu
nome. Charlie sabia que isso era uma coisa boa a ser feita, mas a reunião
ainda parecia um tanto macabra. Ela se arrepiou e desligou o ar
condicionado, mesmo sabendo que não estava frio.
Conforme dirigia em direção ao centro da cidade, Charlie começou a
reconhecer as coisas: algumas lojas e o cinema, que agora anunciava o mais
novo sucesso do verão. Sentiu um breve momento de surpresa, e então
sorriu consigo mesma. O que esperava, que o lugar não teria mudado
nada? Um monumento do momento de sua partida, eternamente congelado
em julho de 1985? Bem, era exatamente isso o que esperava. Olhou seu
relógio. Ainda havia algumas horas a matar antes de todos se encontrarem.
Pensou em ir ao cinema, mas sabia o que realmente queria fazer. Charlie
virou a esquerda e saiu da cidade.
Dez minutos mais tarde, puxou o freio de mão e saiu do carro.
A casa se erguia diante dela, seu contorno escuro como uma ferida
no belo céu azul. Charlie se apoiou em seu carro, ligeiramente estonteada.
Parou por um instante para se recompor, respirando profundamente. Sabia
que estaria ali. Uma passada de olhos ilícita pelas fichas bancárias de sua
tia alguns anos antes lhe contou que a hipoteca havia sido quitada e tia Jen
ainda pagava o IPTU. Só fazia dez anos; não havia razão para estar
diferente. Charlie subiu pelos degraus lentamente, observando a tinta
descascada. O terceiro degrau ainda tinha uma tábua solta e as roseiras
haviam tomado um dos lados da entrada, seus espinhos ponteando
vorazmente a madeira. A porta estava trancada, mas Charlie ainda tinha sua
chave. Na verdade, nunca a havia usado. Enquanto a deslizava fechadura a
dentro, lembrou-se do pai prendendo-a numa corrente em volta de seu
pescoço. Caso algum dia precise. Bem, ela precisava agora.
A porta se abriu com facilidade e Charlie olhou ao redor. Não se
lembrava muito de seus primeiros anos ali. Tinha apenas três anos e todas
as memórias se foram junto à confusão do pesar e perda de uma criança,
sem entender por que sua mãe tivera que partir, agarrando-se a seu pai a
todo momento, sem confiar no mundo a sua volta a menos que ele estivesse
lá, a menos que ela estivesse fortemente agarrada a ele, enterrando-se em
suas camisas de flanela e no cheiro de graxa, de metal quente, dele.
Diante dela, as escadas levavam ao andar de cima, mas não foi
subindo. Ao invés disso, seguiu para a sala de estar, onde toda a mobília
continuava no lugar. Nunca havia notado quando criança, mas a casa era
um pouco grande demais para a mobília que eles tinham e, por isso, as
coisas ficavam bem espalhadas para preencher o espaço: a mesinha de
centro ficava fora do alcance do sofá, a poltrona muito longe do resto da
sala para se poder conversar enquanto sentado nela. Havia uma mancha
escura nas tábuas de madeira do chão, perto do centro da sala, e Charlie
deu a volta por ela rapidamente, indo então para a cozinha, onde as
cristaleiras guardavam apenas alguns potes e panelas, além de alguns
pratos.
Charlie jamais havia sentido falta de nada quando criança, mas agora
lhe parecia que a desnecessária enormidade da casa era um tipo de pedido
de desculpas, a tentativa de um homem que havia perdido muito para poder
dar o que pudesse a sua filha. Ele sempre exagerava no que quer que
fizesse.
Da última vez que esteve ali, a casa estava escura e tudo parecia
errado. Estava sendo carregada para seu quarto no andar de cima, apesar de
ter sete anos e poder ir bem mais rápido com os próprios pés. Mas tia Jen a
pegou no colo quando pararam na entrada da frente e a carregou,
protegendo seu rosto como se fosse um bebê sob o sol reluzente.
Em seu quarto, tia Jen a colocou no chão e fechou a porta atrás delas,
dizendo para ela arrumar sua mala, e Charlie chorou porque todas as suas
coisas jamais caberiam naquela malinha pequena.
— A gente volta para buscar o resto depois — dissera tia Jen, sua
impaciência já notória, enquanto Charlie pairava indecisa diante de seu
guarda-roupa, tentando decidir quais camisetas levar. Elas nunca voltaram
para buscar o resto.
Charlie subiu as escadas, indo para o seu velho quarto. A porta
estava destrancada e ela, quando a abriu, sentiu-se vertiginosamente
deslocada, como se o seu eu mais jovem ainda estivesse sentado ali dentre
seus brinquedos, erguesse o olhar e perguntasse a Charlie: “Quem é
você?” Charlie entrou.
Como o resto da casa, seu quarto estava intacto. As paredes eram de
um rosa pálido e o teto, que inclinava-se dramaticamente de um dos lados,
seguindo a linha do telhado, tinha a mesma cor. Sua velha cama continuava
encostada a parede, sob uma grande janela, o colchão ainda intacto, apesar
de sem as cobertas. Havia uma pequena brecha aberta na janela e as
cortinas de renda apodrecidas balançavam com a suave brisa do lado de
fora. Havia uma mancha de água negra na tinta sob a janela, escorrendo em
direção ao colchão, por onde as intempéries haviam entrado com o passar
dos anos, traindo a negligência da casa. Charlie subiu na cama e fechou a
janela. Dentre um chiado, ela obedeceu, e Charlie desceu novamente,
voltando sua atenção para o resto do quarto, para as criações de seu pai.
Na primeira noite que passaram na casa, Charlie estava com medo de
dormir sozinha. Não se lembrava da noite, mas seu pai a contava sobre ela
o suficiente para que a história houvesse se tornado um tipo de memória.
Ela se sentou e começou a chorar, até seu pai vir para acudi-la, até que a
acolhesse e abraçasse, e a prometesse que ele garantiria que ela jamais
ficaria sozinha novamente. Na manhã seguinte, ele a pegou pela mão e a
levou até a garagem, onde se sentou para cumprir com sua promessa.
A primeira de suas invenções foi um coelhinho roxo, agora
acinzentado com os anos que passou sentado sob a luz do sol. Seu pai lhe
dera o nome de Theodore. Era do tamanho de uma criança de três anos, do
tamanho dela na época, e tinha pelos de pelúcia, olhos brilhantes e uma
elegante gravata borboleta vermelha. Não fazia muita coisa, apenas
acenava com a mão, inclinava a cabeça para o lado e dizia com a voz de
seu pai: “Eu te amo, Charlie.” Mas era o bastante dar a ela um vigia
noturno, alguém que a fizesse companhia quando não conseguisse dormir.
Agora, Theodore estava sentado em uma cadeira de vime branca no canto
do quarto. Charlie acenou para ele, mas, desativado, ele não acenou de
volta.
Depois de Theodore, os brinquedos foram ficando mais complexos;
alguns funcionavam, outros não, alguns tinham defeitos permanentes e
outros simplesmente não cativavam a imaginação infantil de Charlie. Sabia
que seu pai levava esses de volta a sua oficina e os reciclava para
reaproveitar suas peças, mas ela não gostava de vê-los desmantelados. Mas
os que ficavam, esses ela amava, e lá estavam eles agora, olhando para ela
com olhos cheios de esperança. Sorrindo, Charlie apertou o botão ao lado
de sua cama. Ele cedeu com dificuldade, mas nada aconteceu. Ela o apertou
novamente, pressionando por mais tempo, e dessa vez, do outro lado do
quarto, com o cansado ranger de metal contra metal, o unicórnio começou a
se mexer.
O unicórnio (que Charlie chamava de Stanley por alguma razão da
qual não conseguia se lembrar) era feito de metal e havia sido pintado de
branco brilhoso, e começou a girar pelo quarto em um trilho circular,
balançando sua cabeça rigidamente para cima e para baixo. O trilho agora
guinchava enquanto ele dava a volta no canto e parava ao lado de Charlie,
sentada na cama. Ela desceu e se ajoelhou no chão a seu lado, acariciando
suas costas. Sua tinta brilhosa estava quebradiça e descascava, e seu rosto
já havia cedido ao mofo, com um olhar vívido em meio a ferrugem.
— Você precisa de uma nova demão de tinta, Stanley — disse
Charlie em voz alta. O unicórnio continuava olhando para frente,
indiferente.
No pé da cama, havia uma timão. Feito de metal retorcido, ele
sempre a lembrava de algo que pudesse ser encontrado em um submarino.
Charlie o virou. Ele travou por um momento, mas então cedeu, girando
como sempre fizera. Do outro lado do quarto, uma pequena porta no
armário se abriu, e de lá veio Ella, uma boneca do tamanho de uma criança,
seguindo por seu trilho com uma xícara de chá e um pires em suas
mãozinhas, como se pronta para servi-la. Seu vestido pálido continuava
bem passado e seus sapatos de couro característicos ainda brilhavam; talvez
no armário, ela estivesse protegida dos danos causados pela umidade.
Charlie costumava ter uma roupa idêntica quando era da mesma altura que
Ella.
— Oi, Ella — disse, com uma voz suave. Conforme o timão ia
girando de volta ao ponto original, Ella recuou de volta para o armário, a
porta se fechando com ela lá dentro. Charlie a seguiu até a parede do
armário. Os armários haviam sido projetados para se alinhar ao declive do
teto, e eram três deles. Ella morava no menorzinho, que tinha cerca de um
metro de altura. Ao lado havia outro com cerca de um metro e meio, e o
terceiro, mais próximo da porta do quarto, era da mesma altura do resto do
cômodo. Ela sorriu, dentre suas memórias.
— Por que você tem três armários? — questionara John em sua
primeira visita. Sem entender, ela olhou para ele, confusa com a pergunta.
— Porque são quantos eu tenho — disse ela, enfim. Então, na
defensiva, apontou para o menor deles. — Na verdade, aquele ali é da
Ella, — acrescentou. John assentiu, satisfeito.Charlie balançou a cabeça e
abriu a porta do armário do meio — ou pelo menos tentou. A maçaneta
travou num solavanco: estava trancada. Bateu na porta algumas vezes, mas
desistiu sem muita convicção. Ficou encolhida no chão e ergueu o olhar
para o armário maior, seu armário de “mocinha crescida”, que passaria a
usar quando crescesse. “Não vai precisar dele até ficar maiorzinha”, seu
pai costumava dizer, mas esse dia nunca chegou. Ele agora tinha uma
pequena fresta aberta, mas Charlie não quis perturbá-lo. Não havia se
aberto para ela, havia apenas cedido ao tempo.
Antes de se levantar, notou um objeto brilhante, meio escondido sob
a beira da porta trancada do meio. Inclinou-se para pegá-lo: parecia uma
peça quebrada de um circuito eletrônico. Abriu um pequeno sorriso.
Houvera uma época em que aquele lugar estivera revirado de porcas e
parafusos, peças e sucata por toda parte. Seu pai sempre tinha peças
perdidas em seus bolsos. Sempre pegava algo com que estivesse
trabalhando, ia para algum lugar, largava lá e acabava esquecendo onde
havia deixado, ou pior, deixava em algum lugar “para guardar” e nunca
mais encontrava. Também havia um fio de seu cabelo preso à peça; ela o
soltou com cuidado do pequeno lábio de metal ao qual estava preso.
Finalmente, apesar de ter protelado o máximo que pôde, Charlie
atravessou o quarto e pegou Theodore. Suas costas não haviam desbotado
com o sol como a parte da frente de seu corpo e continuava com o mesmo
tom de roxo escuro e vivo do qual ela se lembrava. Apertou o botão na base
de seu pescoço, mas ele continuou inanimado. Seu pelo estava esfarrapado,
uma orelha pendurada por um único fio apodrecido e, pelo buraco, era
possível ver o plástico verde de seu circuito eletrônico. De repente, Charlie
segurou o fôlego, ouvindo algo que a assustou.
— E... mo... lie... — disse o coelho dentre um barulho hesitante
quase inaudível, e Charlie o pôs sentado novamente, seu rosto quente e um
forte aperto em seu peito. Ela realmente não esperava ouvir a voz de seu
pai novamente. Também te amo.
Charlie voltou a olhar ao redor do quarto. Quando criança, aquele era
o seu mundo mágico particular e ela era possessiva com ele. Apenas alguns
amigos selecionados tinham permissão para entrar. Foi até sua cama e
colocou Stanley para andar em seus trilhos novamente. E então saiu,
fechando a porta atrás de si antes que o pequeno unicórnio voltasse a parar.
Saiu pela porta dos fundos e seguiu pelo acesso de veículos, parando
diante da garagem que havia se tornado a oficina de seu pai. Parcialmente
enterrado nos cascalhos a alguns metros de distância, havia uma peça de
metal, e Charlie foi pegá-la. Ela possuía uma articulação no meio e,
erguendo-a em suas mãos, começou a sorrir enquanto a curvava para frente
e para trás. Uma junta de cotovelo, pensou. De quem teria sido isso?
Estivera naquele exato mesmo lugar muitas vezes antes. Fechou os
olhos e a memória a tomou. Era apenas uma menininha novamente, sentada
no chão da oficina de seu pai, brincando com pedaços de madeira e metal
sucateado como se fossem blocos de brinquedo, tentando construir uma
torre de peças irregulares. A loja estava quente e ela estava suada, a sujeira
impregnando suas pernas quando ela se sentava só com seus shorts e tênis.
Quase podia sentir o cheiro do odor metálico e profundo do ferro de solda.
Seu pai estava por perto, nunca fora de vista, trabalhando no unicórnio
Stanley.
O rosto de Stanley ainda não estava finalizado: um lado era branco,
brilhante e amigável, com um olho marrom reluzente que quase parecia
ver. A outra metade do rosto do brinquedo era um emaranhado de circuitos
expostos e peças de metal. O pai de Charlie olhou para ela e sorriu, e ela
sorriu de volta, cheia de afeto. Atrás de seu pai, em um canto escuro, bem
pouco visível, pairava um amontoado de membros metálicos, um esqueleto
deformado com ardentes olhos prateados. Vez ou outra, se retorcia de
forma sinistra. Charlie tentava nunca olhar para aquilo, mas conforme seu
pai ia trabalhando, e conforme ela brincava com seus brinquedos
provisórios, seus olhos acabavam atraídos de volta para aquela coisa de
novo e de novo. Os membros, contorcidos, quase pareciam zombar dela, a
coisa era como um bobo da corte macabro e, ainda assim, havia algo nela
que sugeria uma tremenda dor.
— Papai? — disse Charlie, mas seu pai não desviou o olhar do
trabalho. — Papai? — voltou a dizer, agora com mais urgência, e dessa vez
ele se voltou lentamente para ela, como se não estivesse totalmente
presente no mundo.
— Do que precisa, querida?
Ela apontou para o esqueleto de metal. Ele está sentindo dor? Queria
lhe fazer essa pergunta, mas ao olhar nos olhos de seu pai, não conseguiu.
Balançou a cabeça.
— Nada.
Ele assentiu para ela com um sorriso distante e voltou então ao
trabalho. Atrás dele, a criatura voltou a se debater de forma aterradora, seus
olhos ainda ardentes.
Charlie teve um calafrio e se puxou de volta para o presente. Olhou
para trás, sentindo-se exposta. Olhou então para baixo e seu olhar se fixou
em algo: três fendas bem separadas no chão. Ela se ajoelhou, pensativa, e
passou o dedo por uma delas. Os cascalhos estavam afastados, as marcas
fortemente desgastadas em meio à poeira. Algum tipo de tripé de
câmera? Era a primeira coisa diferente que havia visto. A porta da oficina
tinha uma fresta aberta, convidativa, mas não teve vontade de entrar.
Tratou de voltar logo para o carro. Ajeitando-se no banco do motorista, ela
parou. Suas chaves haviam sumido, provavelmente caíram de seu bolso
enquanto estava em algum lugar da casa.
Refez seus passos, apenas dando uma olhada na sala de estar e na
cozinha antes de subir para o quarto. As chaves estavam na cadeira de
vime, ao lado do coelho Theodore. Ela as recolheu e então as balançou por
um momento, ainda não se sentindo pronta para deixar o quarto. Sentou-se
na cama. O unicórnio Stanley havia dado a volta até a cama antes de parar,
como sempre fizera, e ela acariciou sua cabeça distraidamente. Havia
ficado escuro enquanto estava do lado de fora e o quarto estava agora
tomado pelas sombras.
De alguma forma, sem o brilho da luz do sol, as falhas dos
brinquedos, sua deterioração, se tornaram mais evidentes. Os olhos de
Theodore não brilhavam mais e seus parcos pelos e orelha pendurada o
faziam parecer uma criatura doentia. Quando olhou para Stanley, a
ferrugem ao redor de seus olhos os faziam parecer buracos negros, e seus
dentes expostos, que ela sempre vira como um sorriso, se tornou um
terrível e astucioso riso de uma caveira. Charlie se levantou, cuidando para
não tocar nele, e correu em direção a porta, mas tropeçou nos trilhos e caiu
estendida no chão, seu pé acertando o timão ao lado da cama no processo.
Um zunido de metal girando soou e, quando ergueu a cabeça, um pequeno
par de pés apareceu sob seu nariz, cobertos por sapatos de couro brilhantes.
Ergueu o olhar.
Parada diante de si estava Ella, observando-a, silenciosa e sem ser
convidada, seus olhos de vidro quase pareciam enxergar. Segurava a xícara
de chá e o pires diante de si com uma rigidez militar, e Charlie se levantou
com toda cautela, tomando cuidado para não perturbar a boneca. Saiu do
quarto, andando com cuidado para evitar que outro brinquedo fosse
acidentalmente ativado, e conforme avançava, Ella se mexia quase que no
mesmo passo, voltando para seu armário.
Charlie desceu as escadas, tomada por uma ânsia de ir embora. No
carro, ela tentou encaixar a chave três vezes antes de finalmente acertar o
lugar. Voltou de ré a toda velocidade pelo acesso de veículos, acelerando
imprudentemente pelo gramado do jardim, e saiu em disparada. Após cerca
de um quilômetro e meio, Charlie parou o carro no acostamento e o
desligou, olhando em frente pelo para-brisa, seus olhos focados no vazio.
Forçou-se a desacelerar a respiração. Ergueu a mão e ajustou o espelho
retrovisor para que pudesse se ver.
Sempre esperava ver dor, raiva e sofrimento estampados em seu
rosto, mas nunca estavam. Suas bochechas estavam rosadas e seu rosto
arredondado quase parecia contente, como sempre. Nas primeiras semanas
morando com tia Jen, quando era apresentada aos amigos dela, sempre
ouvia as mesmas coisas: “Que menininha bonita. Parece ser uma criança
tão felizinha.” Charlie sempre parecia estar a ponto de sorrir, seus olhos
castanhos grandes e brilhantes, sua pequena boca pronta para se curvar para
cima, mesmo quando queria chorar, a incongruência uma doce traição.
Passou os dedos pelos cabelos castanhos claros, como se aquilo fosse
acabar magicamente com o seu leve encaracolado, e colocou o espelho de
volta em sua posição original.
Voltou a ligar o carro e começou a procurar por uma estação de
rádio, esperando que a música pudesse trazê-la por completo de volta a
realidade. Foi passando de estação em estação, sem de fato prestar atenção
ao que estava tocando em nenhuma delas, até que finalmente sintonizou em
uma transmissão AM com um apresentador que parecia gritar de forma
condescendente com sua audiência. Não fazia ideia de sobre o que ele
estava falando, mas o som impetuoso e irritante era o suficiente para
chacoalhá-la de volta ao presente. O relógio do carro sempre estava errado,
então checou o seu próprio. Já estava quase na hora do encontro com seus
amigos na lanchonete que haviam escolhido, próximo ao centro da cidade.
Charlie voltou a estrada e dirigiu, deixando o som da voz irritada do
apresentador do rádio acalmar sua mente.
Quando chegou à lanchonete, Charlie encostou o carro e parou, mas
não estacionou. A fachada da lanchonete tinha uma enorme janela
panorâmica que ia de um lado ao outro, o que a permitia ver o lado de
dentro. Apesar de não vê-los há anos, levou apenas um momento para
encontrar seus amigos do outro lado da janela.
Jessica era a mais fácil de reconhecer no grupo. Sempre mandava
fotos com suas cartas e ela agora estava exatamente como na última foto
que mandara. Mesmo sentada, era claramente mais alta que qualquer um
dos meninos, e muito magra. Apesar de Charlie não conseguir ver seu
visual completo, ela vestia uma camisa branca soltinha com uma blusa
bordada por cima, e tinha um chapéu de abas largas sobre seus brilhantes
cabelos castanhos que batiam na altura dos ombros, uma enorme flor
ameaçando tirá-lo de sua cabeça. Estava conversando, gesticulando toda
animada com alguma coisa enquanto falava.
Os dois garotos estavam sentados um ao lado do outro, olhando para
ela. Carlton parecia uma versão mais velha do garotinho ruivo que era na
infância. Ainda meio que tinha um rostinho de bebê, mas seus traços se
refinaram, e seu cabelo estava cuidadosamente desordenado, fixado por
algum tipo produto capilar alquímico. Quase era bonito, para um garoto, e
vestia uma camiseta de malhação, apesar de ela duvidar que ele já tivesse
malhado algum dia sequer na vida. Estava esparramado sobre a mesa, com
o queixo pousado sobre as mãos.
Ao seu lado estava John, sentado mais perto da janela. John
costumava ser o tipo de criança que se sujava mesmo antes de sair de casa:
antes do professor entregar as guaches, já teria uma mancha de tinta em sua
camisa, marcas de grama em seu joelho antes que eles sequer se
aproximassem de um parquinho, e sujeira embaixo das unhas logo depois
de ele lavar as mãos. Charlie sabia que era ele porque só podia ser, mas ele
estava completamente diferente. O desleixo da infância havia dado lugar a
algo engomado e limpo. Estava vestindo uma camisa social verde clara
impecavelmente passada, as mangas dobradas e o colarinho desabotoado, o
que evitava que ele parecesse muito tenso, e estava reclinado em seu lugar,
cheio de confiança, enquanto assentia com entusiasmo, aparentemente
absorvido no que quer que Jessica estivesse falando. A única evidência do
seu antigo eu era seu cabelo, arrepiado sobre sua cabeça, e sua barba de fim
de tarde, uma versão adulta e presunçosa da sujeira que sempre o cobria
quando criança.
Charlie sorriu consigo mesma. John costumava ser algo como a sua
quedinha de infância, antes de qualquer um deles sequer entender o que
isso significava. Ele lhe dava biscoitos de sua lancheira dos Transformers e,
já no jardim de infância, assumiu a culpa quando ela quebrou o pote de
vidro cheio de missangas coloridas que seriam usadas na aula de artes.
Lembrava-se do momento em que o pote escapuliu de suas mãos e ela o viu
cair. Jamais teria conseguido se mover rápido o suficiente para pegá-lo,
mas nem sequer tentou. Ela queria vê-lo se quebrar. O vidro batendo no
chão e se partindo em milhares de pedaços, e as missangas se espalhando,
todas aquelas cores dentre as lascas, e ela achou lindo, e então começou a
chorar. John teve que levar um bilhete para seus pais assinarem e quando
ela lhe disse “obrigada”, ele piscou para ela com uma ironia que ia além de
sua idade e simplesmente disse “pelo quê?”.
Depois disso, ela permitiu que John entrasse em seu quarto. O deixou
brincar com Stanley e Theodore, observando inquieta enquanto ele, pela
primeira vez, aprendia a apertar os botões para fazer com que se mexessem.
Teria ficado arrasada se ele não gostasse deles, sabendo instintivamente
que, se não gostasse, ela passaria a ter uma impressão ruim sobre ele.
Aquela era a sua família. Mas John ficou fascinado no instante em que os
viu; adorou seus brinquedos mecânicos, e com isso, ela se apaixonou por
ele. Dois anos depois, atrás de uma árvore nos fundos da oficina de seu pai,
ela quase o deixou beijá-la. E então aquilo aconteceu e tudo acabou, pelo
menos para Charlie.
Charlie sacudiu a cabeça, forçando sua mente a voltar ao presente.
Observando novamente o visual refinado de Jessica, olhou para si mesma.
Camiseta roxa, jaqueta de brim, calça jeans preta e coturnos. Parecia uma
boa escolha pela manhã, mas ela agora desejava ter escolhido algo
diferente. Você só sabe vestir isso, lembrou a si mesma. Encontrou uma
vaga para estacionar, trancou o carro atrás de si, apesar de todos em
Hurricane, Utah, não costumarem trancar os seus, e entrou na lanchonete
para se encontrar com seus amigos pela primeira vez em dez anos.
Quando entrou, o calor, o barulho e a luz da lanchonete a atingiram
como uma onda e, por um momento, ela se sentiu deslumbrada, mas Jessica
a viu parar na entrada e gritou seu nome. Com um sorriso no rosto, Charlie
foi até lá.
— Oi — disse, sem jeito, passando os olhos por cada um deles sem
de fato fazer contato visual. Jessica abriu espaço no banco de vinil
vermelho e deu um tapinha no lugar ao seu lado.
— Aqui, senta — disse ela. — Estava contando ao John e ao Carlton
sobre a minha vida de glamour — revirou os olhos enquanto falava,
conseguindo transmitir tanto uma imagem de autodepreciação quanto que,
na verdade, sua vida de fato era um tanto interessante.
— Você sabia que a Jessica mora em Nova York? — disse Carlton.
Havia certa cautela em sua forma de falar, como se estivesse pensando em
suas palavras antes de formá-las. John estava em silencio, mas sorriu para
Charlie, um pouco inquieto.
Jessica revirou os olhos novamente e, com uma sensação de déjà
vu, Charlie de repente se lembrou que esse era um hábito seu de desde
quando eram crianças.
— Oito milhões de pessoas moram em Nova York, Carlton, isso não
chega a ser uma conquista — disse Jessica. Carlton deu de ombros.
— Nunca fui pra lugar nenhum — disse.
— Não sabia que você ainda morava na cidade — disse Charlie.
— Onde mais eu iria morar? — disse Carlton. — Minha família
mora aqui desde 1896 — disse, aprofundando sua voz para imitar seu pai.
— E isso é mesmo verdade? — perguntou Charlie.
— Sei lá — disse Carlton, do seu próprio jeito. — Talvez seja. Meu
pai concorreu a prefeito dois anos atrás. Digo, ele perdeu, mas ainda assim,
quem se candidata a prefeito? — Fez uma careta. — Juro pra você, quando
eu fizer dezoito anos, vou vazar daqui.
— E pra onde você iria? — disse John, olhando sério para Carlton.
Carlton fitou seus olhos, tão sério quanto ele por um instante.
Abruptamente, ele se virou e apontou para a janela, fechando um dos olhos
como se para ajeitar sua mira. John ergueu uma sobrancelha e então olhou
pela janela, tentando seguir a direção apontada por Carlton. Charlie
também olhou: Carlton não estava apontando para nada. John abriu a boca
para dizer alguma coisa, mas Carlton o interrompeu:
— Ou então... — disse, apontando suavemente para a direção oposta.
— Certo. — John coçou a cabeça, parecendo um pouco
envergonhado. — Pra qualquer lugar, né? — concluiu com uma risada.
— Onde estão os outros? — disse Carlton, espiando pela janela e
procurando por recém-chegados no estacionamento.
— Amanhã — disse John, e Jessica se intrometeu para esclarecer.
— Eles vão vir amanhã de manhã. A Marla vai trazer seu irmão mais
novo, dá pra acreditar?
— O Jason? — Charlie sorriu. Ela se lembrava de Jason como um
pequeno embrulho de cobertores com um rostinho vermelho brotando de
dentro.
— Digo, quem é que quer sair junto com um bebê? — Jessica ajeitou
seu chapéu recatadamente.
— Tenho certeza que ele já não é mais um bebê — disse Charlie,
contendo uma risada.
— Praticamente um bebê — disse Jessica. — Enfim, eu reservei um
quarto pra gente no motel na beira da estrada, foi só o que consegui
encontrar. Os garotos vão ficar com o Carlton.
— Tá bom — disse Charlie.
Estava vagamente impressionada com a organização de Jessica, mas
não muito feliz com o plano. Jessica havia se tornado o tipo de garota que a
intimidava: refinada e imaculada, falando como se já houvesse previsto
tudo em sua vida. Por um momento, Charlie considerou voltar a sua velha
casa para passar a noite, mas assim que pensou a respeito, a ideia a enojou.
Aquela casa, à noite, já não era território dos vivos. Não seja
dramática, repreendeu a si mesma, mas John começou a falar. Tinha a
habilidade de prender a atenção de todos com sua voz, provavelmente
porque falava com menos frequência que os outros. Passava a maior parte
do tempo ouvindo, mas não omisso. Juntava informações, falando apenas
quando tivesse sabedoria ou sarcasmo para compartilhar. Normalmente, os
dois ao mesmo tempo.
— Alguém aí sabe o que vai acontecer amanhã?
Todos ficaram em silêncio por um momento, e a garçonete
aproveitou para ir até a mesa para anotar seus pedidos. Charlie folheou
rapidamente o cardápio, sem de fato focar os olhos nas palavras. A vez de
Charlie fazer seu pedido chegou bem mais rápido do que estava esperando,
e ela congelou.
— Hm, ovos — disse, enfim. A expressão rude da mulher continuava
fixa nela, fazendo-a perceber que ainda não havia terminado o pedido. —
Mexidos. Com torradas — concluiu, e a mulher foi embora. Charlie voltou
a olhar para o cardápio. Odiava isso em si. Quando a pegavam de guarda
baixa, ela parecia perder toda a capacidade de reação, de processar o que
acontecia ao redor. Pessoas se tornavam indecifráveis, suas exigências
extraterrestres. Fazer um pedido não devia ser tão difícil, pensou. Os
outros começaram a conversar de novo e ela logo voltou sua atenção a eles,
sentindo que havia ficado para trás novamente.
— O que a gente deve falar pros pais dele? — dizia Jessica.
— Carlton, você costuma vê-los? — perguntou Charlie.
— Na verdade, não — disse. — Só às vezes, eu acho. Por aí.
— Fico surpresa por eles terem ficado em Hurricane — disse Jessica,
com um tom de desaprovação terrena em sua voz. Charlie nada disse, mas
pensou: Como não teriam ficado?
Seu corpo nunca fora encontrado. Como poderiam não ter guardado
em segredo a esperança de que um dia ele poderia voltar para casa, ainda
que soubessem o quão impossível isso seria? Como poderiam abandonar o
único lugar que Michael chamou de lar? Teria significado que eles
finalmente, definitivamente, desistiram dele. Talvez isso fosse o que essa
bolsa realmente era, uma admissão de que ele nunca mais voltaria para
casa.
Charlie tinha total consciência de que eles estavam em um local
público, e falar sobre Michael lhe parecia inapropriado. Eles eram, de certa
forma, tanto nativos quanto forasteiros. Provavelmente foram mais
próximos a Michael do que qualquer outra pessoa naquela lanchonete, mas,
com exceção de Carlton, já não eram mais de Hurricane, como se aquele
não fosse mais o seu lugar.
Ela viu antes de sequer sentir, lágrimas caindo em seu jogo
americano de papel, e logo tratou de enxugar os olhos, abaixando o rosto,
esperando que ninguém houvesse notado. Quando ergueu o olhar, John
parecia estar estudando seus talheres, mas sabia que ele tinha visto, e se
sentia grata por não ter tentado confortá-la.
— John, você ainda escreve? — perguntou Charlie.
John se declarava “um autor” quando tinham cerca de seis anos,
tendo aprendido a ler e escrever quando tinha quatro, um ano antes dos
demais. Aos sete anos, completou seu primeiro “livro” e apresentou sua
criação porcamente escrita e inescrutavelmente ilustrada para seus amigos e
família, exigindo análises críticas. Charlie se lembrava de ter dado a ele
apenas duas estrelas. John riu da pergunta.
— Na verdade, eu agora estou fazendo a letra E virada pro lado certo
— disse. — Nem acredito que você ainda se lembra disso. Mas sim, ainda
escrevo sim. — parou, claramente querendo dizer mais.
— O que você escreve? — Carlton o forçou com a pergunta, e John
baixou o olhar para seu jogo americano, como se falasse com a mesa.
— Hm, no geral eu escrevo curtas. Na verdade, publiquei um no ano
passado. Digo, foi só uma revista, nada demais.
Todos obviamente soaram como se estivessem impressionados e ele
ergueu o olhar novamente, envergonhado mas contente.
— Sobre o que era a história? — disse Charlie, e ele hesitou.
Antes que John pudesse falar, ou decidisse não falar, a garçonete
voltou com a comida. Todos haviam pedido coisas do cardápio de café-da-
manhã, café, ovos com bacon, panquecas de mirtilo para Carlton. Toda
aquela comida bem colorida parecia trazer-lhes esperança, como o
recomeço de um novo dia. Charlie deu uma mordida em sua torrada e todos
comeram em silêncio por um momento.
— Ei, Carlton — disse John, de repente. — O que aconteceu com a
Freddy’s, afinal?
Um breve momento de silêncio se sucedeu. Carlton, tenso, olhou
para Charlie, e Jessica desviou o olhar para o teto. John corou
intensamente, e Charlie logo começou a falar.
— Tudo bem, Carlton. Eu também quero saber.
Carlton deu de ombros, agitado, espetando o garfo em sua panqueca.
— Estão construindo alguma coisa no lugar — disse.
— Construindo o quê? — disse Jessica.
— Então tem outra coisa lá agora? Mas usaram o mesmo lugar, ou
demoliram? — perguntou John, e Carlton deu de ombros novamente, tão
rápido quanto um tique nervoso.
— Como eu disse, eu não sei. Fica muito afastado da estrada para ver
e eu também não investiguei de verdade. Talvez alguém tenha alugado,
mas não sei o que fizeram por lá. O lugar está todo bloqueado há anos, em
construção. Não dá nem pra saber se o prédio ainda está de pé.
— Mas poderia estar? — disse Jessica, uma faísca de animação se
acendendo em sua voz.
— Como eu disse, eu não sei — disse Carlton.
Charlie sentiu as lâmpadas fluorescentes da lanchonete a ofuscarem,
como se de repente houvessem ficado brilhantes demais. Sentia-se exposta.
Mal havia comido, mas quando deu por si, estava se levantando do assento,
tirando algumas notas amassadas do bolso e jogando-as na mesa.
— Vou lá fora um pouquinho — disse. — Preciso fumar — concluiu
com pressa. Você não fuma. Repreendeu-se pela desculpa esfarrapada
enquanto seguia em direção à porta, esbarrando em uma família de quatro
pessoas pelo caminho sem sequer dizer “com licença”, e saiu rumo à noite
gelada. Foi até seu carro e se sentou no capô, o metal levemente
pressionado sob seu peso. Serviu-se de tragadas de ar gelado como se fosse
água e fechou os olhos. Você sabia que o assunto surgiria, você sabia que
teria que falar sobre isso, ela se recordou. Tinha praticado na viagem até
lá, se forçado a relembrar das memórias felizes, a sorrir e dizer “lembra
daquele tempo?” Achava que estava pronta. Mas obviamente estava errada,
ou então por que teria fugido da lanchonete como uma criança?
— Charlie?
Ela abriu os olhos e viu John parado ao lado do carro, segurando sua
jaqueta diante de si, oferecendo-a de volta.
— Você esqueceu sua jaqueta — disse, e ela se forçou a lhe abrir um
sorriso.
— Obrigada — respondeu. Ela a pegou e jogou sobre seus ombros,
chegando para o lado no capô do carro para que ele pudesse se sentar.
— Me desculpa por aquilo — disse ela e, dentre a luz turva do
estacionamento, pôde vê-lo corar como uma abóbora. Ele se juntou a ela no
capô do carro, deixando um espaço proposital entre os dois.
— Não aprendi a pensar antes de falar. Desculpa. — John observava
um avião que passava pelo céu.
Charlie sorriu, dessa vez sem forçar.
— Tudo bem. Eu sabia que o assunto surgiria, já era certeza. É que...
pode parecer besteira, mas eu nunca penso sobre aquilo. Não me permito
pensar. Ninguém sabe sobre o que aconteceu, exceto a minha tia, e nós
nunca falamos sobre isso. Então eu vim pra cá e de repente está por toda
parte. Fiquei surpresa, só isso.
— Ah, olha. — John apontou, e Charlie viu Jessica e Carlton
hesitando na porta da lanchonete. Acenou para eles, que se aproximaram.
— Lembram daquela vez na Freddy’s, quando o carrossel travou e a
Marla e aquele chato do Billy tiveram que ficar cavalgando até seus pais os
tirarem de lá? — disse Charlie.
John deu uma risada, e um sorriso se formou no rosto de Charlie.
— Eles ficaram com os rostos bem vermelhos, chorando que nem
bebês. — Ela cobriu o rosto, sentindo-se culpada por achar aquilo tão
engraçado.
Após um breve e surpreendente momento de silêncio, Carlton
começou a rir.
— E aí a Marla vomitou em cima dele!
— Doce justiça! — disse Charlie.
— E ainda acho que eram nachos — acrescentou John.
Jessica torceu o nariz.
— Que nojo. Eu nunca mais subi naquilo, não depois disso.
— Ah, já acabou, Jessica? Você sabe que eles limparam — disse
Carlton. — Tenho certeza que as crianças sempre vomitavam naquele lugar
inteiro; aquelas placas de piso molhado não estavam lá à toa. Não é,
Charlie?
— Não olhe pra mim — disse ela. — Eu nunca vomitava.
— A gente passava tanto tempo lá, privilégios de conhecer a filha do
dono — disse Jessica, olhando para Charlie enquanto fingia uma acusação.
— Não dava pra eu escolher quem era o meu pai! — disse Charlie,
rindo.
Jessica pareceu pensativa por um momento, e então continuou.
— Digo, como você poderia ter tido uma infância melhor do que
passar o dia inteiro na Freddy Fazbear’s Pizza? — disse ela.
— Sei lá — disse Carlton. — Aquela música grudou que nem
chiclete na minha cabeça de lá pra cá. — Ele cantarolou algumas notas da
canção familiar e Charlie mergulhou de cabeça nela, relembrando a
melodia.
— Eu amava tanto aqueles animaizinhos — disse Jessica, de repente.
— Eu costumava ficar falando com o coelhinho, como era o nome dele?
— Bonnie — disse Charlie.
— Isso — disse Jessica. — Eu costumava reclamar dos meus pais
para ele. Sempre pensei que ele tinha um olhar compreensivo.
Carlton riu.
— Terapia animatrônica! Recomendada por seis de cada sete
malucos.
— Fica quieto — devolveu Jessica. — Eu sabia que ele não era real,
só gostava de falar com ele.
— Eu me lembro disso — disse Charlie, sorrindo. Jessica, com seus
vestidinhos caretas, seus cabelos castanhos amarrados em duas tranças bem
apertadas, como uma criança tirada de um livro antigo, subindo no palco
quando o show terminava, sussurrando ardentemente para o coelho
animatrônico do tamanho de uma pessoa. Se alguém se aproximasse, ela
logo ficava imóvel e quieta, esperando que fossem embora antes que
pudesse voltar a suas conversas unilaterais. Charlie nunca havia conversado
com os animais do restaurante de seu pai, nem se sentia próxima a eles
como algumas crianças pareciam se sentir; apesar de gostar deles, eles
pertenciam ao público. Ela tinha os seus próprios brinquedos, amigos
mecânicos que eram só dela, e a aguardavam em casa.
— Eu gostava do Freddy — disse John. — Ele era o mais fácil de se
identificar.
— Sabem, tem muita coisa da minha infância que eu não consigo me
lembrar, muita mesmo, — disse Carlton, — mas juro que se eu fechar os
olhos, consigo ver cada um dos detalhes daquele lugar. Até os chicletes que
eu grudava embaixo das mesas.
— Chiclete? Aham, sei, aquilo era meleca. — Jessica se afastou um
pouquinho de Carlton.
Ele forçou uma risada.
— Eu tinha sete anos, o que você queria? Vocês todos pegavam no
meu pé naquela época, lembram que a Marla escreveu “Carlton tem cheiro
de pé” na parede dos fundos?
— Você tinha mesmo cheiro de pé — Jessica teve um repentino
acesso de riso.
Carlton deu de ombros, tranquilo.
— Eu tentava ficar escondido lá dentro quando era hora de ir pra
casa. Queria passar a noite preso lá, ficar com o lugar inteiro só pra mim.
— É, você sempre deixava todo mundo esperando, — disse John, —
e sempre se escondia embaixo da mesma mesa.
Charlie começou a falar lentamente e, com isso, todos se voltaram
para ela, como se fosse só o que esperavam:
— Às vezes, eu sinto que me lembro de cada metro quadrado
daquele lugar, como o Carlton — ela disse. — Mas às vezes, é como se eu
mal conseguisse me lembrar de nada. Está tudo fragmentado. Tipo, eu me
lembro do carrossel, e da vez que ele travou. Me lembro de desenhar nos
jogos americanos. Me lembro de pequenos detalhes: comer aquelas pizzas
cheias de gordura, abraçar o Freddy no verão, e seu pelo amarelo ficando
preso por toda a minha roupa. Mas muitas dessas coisas são como fotos,
como se tivessem acontecido com outra pessoa.
Todos olhavam para ela de forma estranha.
— O Freddy era marrom, não? — Jessica olhou para os outros,
buscando confirmação.
— Acho que você não se lembra muito bem mesmo. — Carlton
provocou Charlie, e ela deu uma breve risada.
— Isso, quis dizer marrom — disse. Marrom, o Freddy era
marrom. É claro que era, ela agora podia ver em sua mente. Mas em algum
lugar no fundo de suas memórias, havia um vislumbre de algo diferente.
Carlton começou com outra história e Charlie tentou voltar sua
atenção para ele, mas havia algo preocupante, inquietante, nesse seu lapso
de memória. Já faz dez anos, não é como se você tivesse demência aos 17
anos, disse a si mesma, mas era um detalhe tão básico para se lembrar
incorretamente. Com o canto dos olhos, viu que John a observava, uma
expressão pensativa em seu rosto, como se ela houvesse dito algo
importante.
— Você não sabe mesmo o que aconteceu com o lugar? —
perguntou a Carlton com mais urgência na voz do que queria, e ele parou
de falar, surpreso. — Desculpa — disse. — Desculpa, não quis te
interromper.
— Tudo bem — disse ele. — Mas, sim... digo, não, eu não sei o que
aconteceu.
— Como pode não saber? Você mora aqui.
— Charlie, calma — disse John.
— É que eu não costumo ir muito para aquela parte da cidade. As
coisas estão diferentes, a cidade cresceu. — Carlton disse suavemente, a
perda de cabeça dela não o afetou. — E pra ser sincero, eu também não
tenho porque ir pra lá, sabe? Por que iria? Não há motivos, não mais.
— A gente bem que podia ir — disse John, de repente, e o coração
de Charlie pulou uma batida.
Carlton olhou inquieto para Charlie.
— O quê? Sério, o lugar está uma bagunça. Acho que não dá nem
pra chegar lá.
Quando notou, Charlie estava assentindo. Sentia como se houvesse
passado o dia inteiro sendo sobrecarregada por suas memórias, vendo a
todos por um filtro de anos, e agora, de repente, se sentia alerta, sua mente
completamente presente. Ela queria ir.
— Vamos lá — disse. — Ainda que não tenha mais nada. Eu quero
ver.
Todos ficaram em silêncio, até que John sorriu com uma confiança
impulsiva.
— Sim. Vamos lá.
CAPÍTULO DOIS

Charlie estacionou, sentindo o ceder da poeira sob seus pneus, e


desligou o carro. Saiu e inspecionou os arredores. O céu estava colorido de
um azul escuro e profundo, os últimos rastros do pôr-do-sol desaparecendo
a oeste. O estacionamento não era pavimentado, e diante deles se assomava
uma construção gigantesca e monstruosa, uma enorme área que se erguia
dentre vidro e concreto. Postes de luz que nunca haviam sido usados
estavam espalhados pelo estacionamento; e não havia nenhuma luz para
iluminá-lo. A construção em si parecia um santuário abandonado, sepultada
por árvores negras dentre o distante ruído da civilização. Olhou para
Jessica, no banco do carona, que estava com a cabeça esticada para fora da
janela.
— Esse é o lugar certo? — perguntou Jessica.
Charlie balançou a cabeça devagar, não muito certa do que estava
vendo.
— Não sei — sussurrou.
Jessica desceu do carro em silêncio, enquanto John e Carlton se
ajeitavam ao lado.
— O que é isso? — John saiu do carro com cuidado, observando o
monumento inexpressivamente. — Alguém tem uma lanterna? — disse,
olhando para os outros.
Carlton pegou seu chaveiro e, por um momento, balançou a fraca luz
de uma caneta com lanterna embutida.
— Ótimo — murmurou John, andando sem resignação.
— Espera aí — disse Charlie, e deu a volta até o porta-malas. —
Minha tia me faz carregar um bocado de coisas para emergências.
Tia Jen, amorosa porém severa, havia ensinado a Charlie
autossuficiência acima de qualquer coisa. Antes de deixar que Charlie
ficasse com o seu velho Honda azul, insistiu que Charlie aprendesse a
trocar o pneu, checar o óleo, e soubesse os mecanismos básicos do motor.
No porta-malas, em uma caixa preta enfiada dentre o macaco, o estepe e
um pequeno pé-de-cabra, ela tinha uma coberta, uma pesada lanterna tática,
água potável, barras de cereal, fósforos e sinalizadores de emergência.
Charlie pegou a lanterna, Carlton pegou uma barra de cereal.
Quase como se tivessem feito um acordo silencioso, começaram a
andar pelo perímetro da construção, Charlie segurando a lanterna para
formar um estável feixe de luz adiante. A construção em si parecia
praticamente finalizada, mas o chão era só poeira e pedras, irregular e
arenoso. Charlie passou a luz pelo chão, onde a grama crescia aqui e ali
pelo terreno, com centímetros de altura.
— Ninguém capina esse lugar faz tempo — disse Charlie.
O local era enorme, e levou um bom tempo para dar a volta. Não
demorou muito até o azul escuro da noite ser tomado por um lençol de
estrelas e nuvens prateadas e dispersas. As paredes da construção eram
todas cobertas por um mesmo concreto liso e bege, com janelas
posicionadas alto demais para que pudessem ver o lado de dentro.
— Construíram mesmo essa coisa toda e simplesmente foram
embora? — disse Jessica.
— Carlton, — disse John, — você não sabe mesmo o que aconteceu?
Carlton contraiu os ombros.
— Já disse, eu fiquei sabendo da construção, mas não sei de mais
nada.
— Por que fariam isso? — John quase parecia paranoico,
vasculhando as árvores como se olhos o pudessem estar observando de
volta. — Essa coisa é enorme — disse, olhando de relance para a parede da
construção que parecia continuar avançando infinitamente rumo ao
horizonte. Voltou a olhar para as árvores, como se para ter certeza de que
não haviam deixado passar alguma outra construção nas redondezas. —
Não, esse era o lugar. — Pôs a mão na enfadonha superfície de concreto.
— E agora se foi.
Após um momento, gesticulou para os outros e começou a voltar por
onde tinham vindo. Relutantemente, Charlie deu a volta, seguindo o grupo.
Foram andando até encontrarem seus carros na escuridão adiante.
— Desculpa, pessoal. Esperava que ainda houvesse pelo menos algo
familiar — disse Carlton, esgotado, voltando a olhar para trás para se
certificar de que não haviam deixado nada passar.
— É — disse Charlie. Ela sabia que isso aconteceria, mas ver que a
Freddy’s havia sido demolida ainda lhe era um choque. Às vezes, aquelas
memórias tomavam conta de sua cabeça de tal forma que tudo o que queria
era se livrar delas, apagá-las, tanto as boas quanto as ruins, de sua mente,
como se nunca tivessem existido. Agora, alguém havia apagado o lugar da
face da Terra, e ela sentia aquilo como uma violação. A decisão deveria ser
dela. Claro, pensou, porque você com certeza tinha todo o dinheiro para
comprar e preservar o lugar, como a tia Jen fez com a casa.
— Charlie? — John disse seu nome, e parecia que já não era a
primeira vez.
— Desculpa — disse ela. — O que estava falando?
— Você quer entrar? — disse Jessica.
Charlie ficou surpresa por só estarem considerando isso agora,
embora nenhum deles costumasse ter tendência a cometer atividades
criminosas. O pensamento lhe foi como uma libertação e ela respirou
fundo, falando ao expirar:
— Por que não? — disse, quase rindo. Ergueu a lanterna. Seus
braços estavam ficando cansados. — Alguém quer assumir aqui? — Ela a
balançou de um lado para o outro, como um pêndulo.
Carlton a pegou por um momento para avaliar seu peso.
— Por que é tão pesada assim? — disse, passando-a para John. —
Pega.
— É uma lanterna tática — disse Charlie, distraída. — Dá pra bater
nos outros com ela.
Jessica torceu o nariz.
— Sua tia não tava mesmo de brincadeira, hein? Já chegou a fazer
isso?
— Ainda não. — Charlie piscou, lançando um olhar meio ameaçador
para John, que devolveu um meio-sorriso, incerto sobre como reagir.
A grande entrada estava selada por portas de ferro batido, certamente
idealizadas para ser algo temporário, até que a construção estivesse
finalizada. Ainda assim, não foi difícil encontrar uma entrada, já que havia
pilhas de pedras e areia amontadas contra a parede, levando diretamente até
a beira das janelas enormes e escancaradas.
— Não estão tentando muito impedir que entrem — disse John.
— O que haveria para alguém roubar? — disse Charlie, olhando para
as enormes paredes vazias.
Eles escalaram os montes devagar, as pedras se deslocando e
deslizando sob seus pés no processo. Carlton foi o primeiro a chegar à
janela, e espiou o outro lado. Jessica olhou por cima de seu ombro.
— Dá pra pular lá pra baixo? — disse John.
— Sim — disse Carlton.
— Não — disse Jessica, exatamente ao mesmo tempo.
— Eu pulo — disse Charlie. Sentia-se imprudente. Sem olhar para
ver o tamanho da queda, passou os pés pela abertura e se jogou. Aterrissou
de joelhos dobrados, o impacto chacoalhando-a, mas não se machucou.
Ergueu o olhar para seus amigos, que a observavam do alto.
— Ah, esperem um pouco! — gritou Charlie, puxando uma pequena
escada de mão de uma parede próxima e posicionando-a sob a janela.
— Beleza — disse. — Podem descer!
Desceram um por um e então olharam ao redor. Dentro havia um
saguão, ou talvez fosse se tornar uma praça de alimentação, com bancos de
metal e mesas de plástico espalhados pelo local, alguns aparafusados no
chão. O teto era bem alto, feito de vidro, e podiam ver as estrelas os
observando.
— Bem pós-apocalíptico — brincou Charlie, sua voz ecoando pelo
espaço vazio.
De repente, Jessica cantarolou uma melodia sem letra, assustando a
todos dentre aquele silêncio. Sua voz soava pura e clara, algo lindo em
meio ao vazio.
— Muito bom, mas vamos tentar não chamar muita atenção — disse
John.
— Certo — disse Jessica, ainda muito feliz consigo mesma.
Conforme avançavam, Carlton se aproximou e cutucou seu braço.
— Sua voz é incrível — disse.
— A acústica daqui que é boa — disse Jessica, tentando ser humilde,
mas falando da boca para fora.
Seguiram pelos corredores vazios, espiando cada um dos enormes
espaços vazios onde uma loja de departamentos deveria ser construída.
Algumas partes do que parecia ser um shopping estavam quase terminadas,
enquanto outras estavam em ruínas. Alguns corredores entulhados com
pilhas de tijolos de concreto empoeirados e vigas de madeira, outros
alinhados com painéis de vidro que formavam a fachada das lojas, as
lâmpadas posicionadas em fileiras perfeitas sobre suas cabeças.
— É como uma cidade perdida — disse John.
— Como Pompéia, — disse Jessica, — só que sem o vulcão.
— Não, — disse Charlie, — não tem nada aqui.
O lugar inteiro passava uma impressão de esterilidade — não é que
estivesse abandonado, ele nunca havia sustentado vida. Olhou pela vitrine
de uma loja ao lado, uma das poucas com vidro, perguntando-se o que seria
colocado ali. Imaginou manequins vestidos com roupas coloridas, mas
quando tentou projetá-los em sua cabeça, tudo o que pôde ver eram rostos
vazios, escondendo alguma coisa. De repente, se sentiu deslocada, como se
não fosse bem-vinda pelo próprio edifício. Charlie começou a se sentir
tensa, a aventura perdia parte do brilho. Haviam ido até lá, mas a Freddy’s
se fora, assim como o santuário que ela guardava em seus pensamentos,
onde ainda conseguia encontrar Michael brincando no último lugar onde o
havia visto.
John parou de repente, apagando a lanterna com todo o cuidado
possível. Pôs um dedo nos lábios, sugerindo silêncio. Gesticulou para que
voltassem de onde haviam vindo. Ao longe, viram uma pequena luz,
surgindo da escuridão como um navio dentre a névoa.
— Tem alguém aqui — disse em voz baixa.
— Um guarda noturno, talvez? — sussurrou Carlton.
— Por que um edifício abandonado precisaria de um guarda? —
indagou Charlie.
— A pirralhada deve vir aqui para fazer suas festinhas — disse
Carlton, sorrindo. — Eu teria dado uma festa aqui se soubesse do lugar, ou
se costumasse fazer festas.
— Certo, então vamos dar a volta, devagar — disse John. —
Jessica... — John se voltou para ela, passando os dedos pelos lábios num
gesto que dizia “passa o zíper na boca”.
Voltaram pelo corredor, dessa vez apenas com a fraca luz do
chaveiro de Carlton.
— Espera. — Jessica parou, dentre um sussurrou, observando
atentamente as paredes que os cercavam. — Algo não está certo.
— É, não vendem pretzels gigantes, eu sei — disse Carlton, a voz
cheia de sinceridade. Jessica balançou a mão para ele impacientemente.
— Não, algo não está certo com a arquitetura daqui.
Deu vários passos para trás, tentando ver o lugar inteiro.
— Algo definitivamente não está certo — repetiu. — É maior por
fora.
— Maior por fora? — repetiu Charlie, parecendo confusa.
— Quero dizer que tem uma grande diferença entre o ponto onde fica
a parede de dentro e onde fica a parede de fora. Vejam. — Jessica correu
até uma porção de parede que fechava uma grande área, bem no meio de
duas lojas que ainda estavam sendo construídas.
— Eles iam fazer uma loja desse lado e outra daquele. — John
apontou o óbvio, sem entender qual era o problema.
— Mas tem alguma coisa no meio! — exclamou Jessica, batendo
com as mãos contra aquela porção de parede vazia. — Essa área dá no
estacionamento, assim como as lojas de cada lado, mas não tem entrada.
— Tem razão. — Charlie começou a andar atrás de Jessica,
estudando as paredes. — Devia ter outra entrada aqui.
— E... — Jessica abaixou a voz para que apenas Charlie pudesse
ouvir. — A área parece ter o mesmo tamanho que a Freddy’s, não acha? —
Os olhos de Charlie se arregalaram e ela se afastou um passo de Jessica.
— Sobre o que as duas estão cochichando aí? — Carlton se
aproximou.
— Estamos falando de você — disse Jessica, a língua afiada, e elas
seguiram rumo a uma das lojas de departamento vazias que pareciam fazer
um sanduíche com o espaço selado no meio. — Venham — disse. —
Vamos dar uma olhada.
Começaram a vasculhar a parede juntos, agrupados sob uma pequena
luz. Charlie não sabia o que esperar. Tia Jen a havia advertido sobre voltar
ali. Não encorajara Charlie a faltar ao memorial, não diretamente, mas não
estava feliz com o fato de ela voltar à Hurricane.
“Apenas tome cuidado”, havia dito. “Existem coisas, memórias, que
é melhor não perturbar.”
Por isso você ficou com a casa do papai? Charlie pensava agora. Por
isso continuou pagando por ela, a deixou intacta, como um tipo de
santuário, mas nunca foi visitar?
— Ei — John gesticulava desenfreadamente, correndo para alcançar
o resto deles do lado de dentro. — Escondam-se! — A luz balançava
novamente pelos corredores, para cima e para baixo, aproximando-se cada
vez mais. Charlie olhou em volta. Já estavam bem no fundo da imensa loja
para sair a tempo e parecia não haver onde se esconderem.
— Aqui, aqui! — sussurrou Jessica. Havia um buraco na parede
junto a um andaime e correram até ele, se espremendo dentre pilhas de
caixas abertas e lonas de plástico penduradas no teto.
Desceram pelo que parecia ser um corredor provisório, do outro lado
da parede da loja de departamentos. Na verdade, mais parecia um beco —
era úmido e mofado, diferente do resto do shopping, que era todo reluzente
e novo. Uma das paredes era feita do mesmo concreto do lado de fora do
edifício, apesar de rudimentar e inacabado, e a outra era feita de tijolos
expostos, desbotados e polidos com o tempo, o cimento esfarelando,
deixando buracos e rachaduras. Pesadas estantes de madeira com
equipamentos de limpeza estavam encostadas à parede, catalogadas ao
lado, suas tábuas afundando sob o peso das velhas latas de tinta e baldes
misteriosos. Algo gotejava de canos expostos no teto, formando poças
pelas quais eles cuidadosamente davam a volta. Um rato passou correndo,
quase como se fugisse do pé de Carlton, que fez um som abafado, cobrindo
a boca com a mão.
Agacharam-se atrás de uma das estantes de madeira, espremidos
contra a parede. Charlie apagou a luz e esperou.
Charlie respirava de leve, perfeitamente inerte, observando e
desejando ter parado em uma posição um pouco melhor. Após alguns
minutos, suas pernas começaram a ficar dormentes, e Carlton estava tão
perto que conseguia sentir o suave e agradável aroma de seu shampoo.
— Que gostoso — sussurrou.
— Obrigado — disse Carlton, entendendo imediatamente do que ela
estava falando. — Eu uso o Ocean Breeze e o Tropical Paradise. Prefiro
o Ocean Breeze, mas ele resseca o couro cabeludo.
— Quietos! — chiou John.
Charlie não sabia por que se preocupava tanto. Era só um guarda
noturno, e na pior das hipóteses, os mandaria ir embora, talvez gritaria um
pouco com eles. Ela tinha uma aversão exagerada a se meter em encrenca.
A luz balançante se aproximou. No mesmo instante, Charlie retomou
o total controle de seu corpo, deixando todos os músculos imóveis. De
repente, notou uma silhueta esguia entrando pelo buraco que dava na
grande loja inacabada do outro lado. Iluminou o corredor com um grande
feixe de luz, passando-o pelas paredes de cima a baixo. Ele nos
pegou, pensou Charlie, mas, inexplicavelmente, ele virou as costas e foi
embora, aparentemente satisfeito.
Esperaram mais alguns minutos, mas nada mais aconteceu. Ele se
fora. Todos saíram devagar de onde estavam agachados, esticando os
membros que ficaram dormentes. Carlton balançou um pé energeticamente
até conseguir pisar com ele. Charlie olhou para Jessica, que continuava
abaixada, como se parada no tempo.
— Jessica, você tá bem? — sussurrou.
Jessica se levantou com um sorriso no rosto.
— Você não vai acreditar.
Estava apontando para a parede, e Charlie se inclinou para ver. Ali,
em um tijolo desgastado, estavam entalhadas letras mal feitas, quase
ilegíveis, escritas por uma criança:
Carlton tem cheiro de pé.
— Só pode estar de brincadeira — sussurrou John, assombrado,
voltando o rosto para a parede e pondo ambas as mãos sobre ela. — Eu
reconheço esses tijolos. — Deu uma risada. — São os mesmos tijolos! —
Seu sorriso murchou. — Eles não demoliram... construíram por cima.
— Mas ainda está aqui! — Jessica tentava, sem sucesso, manter a
voz baixa. — Tem que haver uma entrada — acrescentou, seus olhos
arregalados com uma animação quase digna de uma criança.
Charlie acendeu a lanterna e vasculhou o corredor de cima a baixo,
passando a luz por cada uma das paredes, mas não havia nenhuma abertura,
nenhuma porta.
— A Freddy’s tinha uma porta dos fundos — disse John. — A Marla
tinha escrito isso bem do lado da porta dos fundos, não é?
— Por que não simplesmente derrubaram o lugar? — ponderou
Charlie.
— Esse corredor é um beco sem saída? — disse Jessica, confusa.
— A história da minha vida — disse Carlton levianamente.
— Espera... — Charlie passou os dedos pela beira de uma estante,
espiando o que havia do outro lado das quinquilharias amontoadas sobre
ela. A parede atrás da estante parecia ser diferente; era de metal, não de
tijolo. — Aqui. — Deu um passo para trás e olhou para os outros. — Me
ajudem a tirar isso daqui — disse. John e Jessica se juntaram para fazer
força de um lado, enquanto ela e Carlton puxaram do outro.
A estante era imensamente pesada, carregada de materiais de limpeza
e enormes baldes com pregos e ferramentas, mas deslizou pelo corredor
com certa facilidade, sem maiores problemas. Jessica deu um passo para
trás, ofegante.
— John, me devolve a lanterna grande. — Ele a entregou e ela
voltou a ligá-la, apontando-a para onde a estante estivera. — É aqui —
disse.
Era de metal enferrujado, salpicado com tinta, contrastando
completamente com as paredes ao seu redor. Havia apenas um buraco no
lugar da maçaneta — alguém a devia ter removido para que a estante
pudesse ficar rente à porta.
Em silêncio, Charlie devolveu a lanterna a John, e ele a segurou
sobre sua cabeça, para que ela pudesse enxergar. Ela se espremeu entre os
outros e tentou enfiar os dedos pelo buraco onde a maçaneta costumava
ficar, tentando puxar a porta sem sucesso.
— Não vai abrir — disse. John estava atrás dela, espiando por cima
de seu ombro.
— Espera aí. — Esgueirou-se no espaço ao lado dela e se ajoelhou
com cuidado. — Não acho que esteja trancada nem nada — disse. — Acho
que é só a ferrugem. Olha bem pra ela.
A porta chegava a encostar no chão, sua base irregular e inacabada.
As dobradiças ficavam do outro lado e as bordas estavam cobertas de
ferrugem. Parecia não ser aberta há anos. John e Charlie a puxaram juntos e
a moveram uma fração de centímetros.
— Isso! — exclamou Jessica, quase gritando, e então cobriu a boca.
— Desculpem — disse, num sussurro. — Vou conter a animação.
Foram puxando a porta em turnos, reclinando-se um por cima do
outro, o metal raspando seus dedos. Ela ficou travada por um tempo, mas
então cedeu sob o peso deles, abrindo-se lentamente, dentre um chiado
fantasmagórico. Charlie olhou por cima do ombro, tensa, mas o guarda não
apareceu. O espaço aberto era de apenas cerca de trinta centímetros, e eles
foram passando um por um, até que os quatro entrassem.
No lado de dentro, o ar mudou e todos pararam de súbito. Diante
deles, havia um corredor familiar a todos.
— É aqui...? — sussurrou Jessica, sem tirar os olhos do espaço
escuro.
É aqui, pensou Charlie. Ergueu a mão para pegar a lanterna e John a
entregou para ela, sem palavras. Acendeu a luz diante deles, vasculhando
as paredes. Estavam cobertas por desenhos de crianças, traços coloridos em
papéis contorcidos e amarelados. Ela foi a primeira a avançar e os outros
logo a seguiram, arrastando os pés pelos velhos ladrilhos.
Parecia levar uma eternidade para atravessar o corredor, ou talvez
eles que estivessem se mexendo devagar, com passos metódicos e
ponderados. Eventualmente, o corredor deu lugar a um espaço maior: a sala
de jantar. Continuava exatamente da forma como eles se lembravam,
completamente intacta. A luz da grande lanterna refletia em diversas
coisas, brilhantes, reluzentes, ou cobertas por papel alumínio.
As mesas continuavam no lugar, cobertas pelo característico tecido
quadriculado prateado e branco — as cadeiras estavam espalhadas
aleatoriamente; algumas mesas tinham várias, outras tinham menos.
Parecia que a sala havia sido abandonada durante a hora do almoço: todos
haviam se levantado esperando retornar, mas nunca o fizeram.
Prosseguiram com cautela, respirando o velho ar gelado que ficara preso lá
dentro por uma década. Todo o restaurante passava uma impressão de
abandono; ninguém mais voltaria.
Havia um pequeno carrossel visível em um canto distante, com
quatro pôneis de tamanho infantil ainda descansando depois de sua última
canção. Após um instante, Charlie congelou no lugar, assim como os
outros. Lá estavam eles. Olhos os encaravam em meio à escuridão, grandes
e inconscientes. Um pânico ilógico a atravessou — era como se o tempo
tivesse parado. Ninguém falava; ninguém respirava, como se um predador
estivesse à espreita. Mas conforme os momentos foram passando, o medo
diminuiu, até que ela estivesse de volta, como quando criança, e junto a
seus velhos amigos, de quem havia sido separada por tempo até demais.
Charlie seguiu em direção aos olhos numa linha reta. Atrás dela, os
outros continuavam imóveis: os únicos passos eram os dela. Enquanto
caminhava, Charlie esbarrou nas costas geladas de uma cadeira de festa e,
sem olhar, a tirou do caminho. Deu um último passo e os olhos no escuro
se tornaram nítidos. Eram eles. Charlie sorriu.
— Oi — sussurrou, baixo demais para que os outros ouvissem.
Diante dela, estavam três animais animatrônicos: um urso, um coelho
e uma galinha, todos tão altos quanto um adulto, se não maiores. Seus
corpos eram divididos como manequins artísticos articulados, cada membro
feito de peças distintas, de formato puxado para o quadrado, separadas nas
juntas. Eles pertenciam ao restaurante, ou talvez o restaurante pertencesse a
eles, e houve uma época em que todos os conheciam pelos nomes.
Lá estava Bonnie, o coelho. Seu pelo era de um azul brilhante, seu
focinho retangular exibia um sorriso permanente, e seus enormes olhos cor-
de-rosa lascados tinham pálpebras compridas que lhe davam uma expressão
de cansaço perpétuo. Suas orelhas se salientavam sobre a cabeça, dobradas
nas pontas, e seus grandes pés se abriam como um leque para lhe dar
equilíbrio. Carregava um baixo vermelho, suas patas azuis posicionadas
para tocar, e ao redor de seu pescoço havia uma gravata borboleta que
combinava com a cor ardente do instrumento.
Chica, a galinha, era mais volumosa e tinha um olhar apreensivo,
grandes sobrancelhas pretas arqueadas sobre os olhos roxos, além de seu
bico estar parcialmente aberto, revelando seus dentes, enquanto ela
carregava um cupcake em uma bandeja. O cupcake em si já era um tanto
perturbador, com olhos colocados sobre a cobertura cor-de-rosa e dentes
pendurados ao longo do bolo, uma única vela posicionada ao topo.
— Eu sempre imaginava que o cupcake ia pular do prato. — Carlton
deu uma breve risada e se aproximou cuidadosamente, ficando ao lado de
Charlie. — Eles parecem mais altos do que eu me lembro — acrescentou
num sussurro.
— Porque você nunca chegava perto assim quando criança. —
Charlie sorriu, à vontade, e se aproximou.
— Estava ocupado demais se escondendo embaixo das mesas —
disse Jessica, atrás deles, ainda mantendo alguma distância.
Chica usava um babador ao redor do pescoço com os dizeres “Let’s
Eat!” — “Vamos Comer!” — escritos em roxo e amarelo sobre um fundo
branco coberto de confetes, e um tufo de penas se salientava no meio de
sua cabeça.
Entre Bonnie e Chica estava o próprio Freddy Fazbear, que dava
nome ao restaurante. Tinha a aparência mais simpática dentre os três, de
forma que ninguém jamais diria que ele preferiria estar em outro lugar. Um
urso pardo robusto, porém esguio, ele sorria para a audiência e, segurando
um microfone com a pata, ostentava uma gravata borboleta preta e uma
cartola sobre a cabeça. A única incongruência em suas feições era a cor dos
olhos, um azul brilhante que certamente nenhum outro urso antes dele
jamais tivera. Sua boca estava aberta e seus olhos parcialmente fechados,
como se estivesse congelado no meio de uma canção.
Carlton foi se aproximando do palco, até seus joelhos baterem na
borda.
— Oi, Freddy — sussurrou. — Há quanto tempo.
Ergueu as mãos e segurou o microfone, balançando para ver se
conseguia desprendê-lo.
— Não! — exclamou Charlie, sem pensar, voltando os olhos para o
olhar fixo de Freddy, como se para se certificar de que ele não havia
notado.
Carlton puxou a mão de volta como se tivesse tocado em algo
quente.
— Desculpa.
— Vamos — disse John, estampando um sorriso no rosto. — Não
querem ver o resto do lugar?
Espalharam-se pela sala, vasculhando os cantos, e tentando abrir as
portas com todo o cuidado, agindo como se tudo pudesse quebrar ao toque.
John foi até o pequeno carrossel enquanto Carlton desaparecia em meio ao
fliperama escuro que ficava ao lado da sala principal.
— Eu me lembro desse lugar muito mais claro e barulhento. —
Carlton sorriu, como se estivesse em casa novamente, passando as mãos
pelas alavancas envelhecidas e pelos botões de plástico achatados. — Será
que as minhas pontuações mais altas ainda estão aqui? — sussurrou
consigo mesmo.
À esquerda do palco, havia um pequeno corredor. Meio que
esperando que ninguém notasse aonde estava indo, Charlie o fitou em
silêncio enquanto os outros se ocupavam com suas próprias curiosidades.
Ao final daquele simples e pequeno corredor ficava o escritório de seu pai.
Costumava ser o lugar preferido de Charlie no restaurante; ela gostava de
brincar com os amigos na área principal, mas amava o privilégio singular
que era poder ir ali quando seu pai trabalhava com as papeladas. Parou
diante da porta fechada, sua mão posicionada sobre a maçaneta,
relembrando. A maior parte da sala era ocupada por sua mesa, seus
armários de arquivo e pequenas caixas de coisas desinteressantes.
Em um canto, havia um armário de arquivo menor, pintado na cor
salmão, que Charlie sempre insistira que era cor-de-rosa. Este era de
Charlie. A gaveta de baixo guardava brinquedos e lápis de cor, e na de
cima ficava o que ela gostava de chamar de “minha papelada”. No geral,
eram apenas livros de colorir e desenhos, mas ela ocasionalmente ia até a
mesa do pai e tentava copiar, com uma caligrafia infantil, o que quer que
ele estivesse escrevendo, usando seus lápis de cor. Charlie tentou abrir a
porta, mas estava trancada. Melhor assim, pensou. O escritório era pessoal
e não queria de fato abri-lo naquela noite.
Voltou à sala de jantar principal e encontrou John olhando para o
carrossel, pensativo. Ele voltou o olhar para ela com curiosidade, mas não
perguntou aonde havia ido.
— Eu amava essa coisa. — Charlie sorriu, aproximando-se
calorosamente. Apesar de que as figuras pintadas agora lhe parecessem
estranhas e cadavéricas.
John fez uma careta, como se soubesse o que ela estava pensando.
— Não é como antes — disse. Esfregou a mão por cima de um pônei
polido, como se para coçar atrás de sua orelha. — Simplesmente não é
como antes — repetiu, tirando a mão e olhando para outro lugar.
Charlie desviou o olhar para ver onde estavam os outros — no
fliperama, pôde ver Jessica e Carlton vagando por entre as máquinas.
Estáticos e apagados, os consoles pareciam túmulos, suas telas
completamente vazias.
— Eu nunca gostei de jogar esses jogos — disse Jessica, sorrindo. —
Eram rápidos demais e quando eu começava a entender o que tinha que
fazer, eu morria e era a vez de outra pessoa — disse, balançando uma
alavanca que chiava por conta da negligência que sofrera.
— Nem esquente, eles eram todos armados. Puro caça-níquel —
disse Carlton, dando uma piscada.
— Quando foi a última vez que jogou um desses? — disse Jessica,
olhando para uma das telas bem de perto para tentar enxergar qual imagem
estava gravada na tela devido aos muitos anos de uso. Carlton estava
ocupado chacoalhando uma máquina de pinball de um lado para o outro, na
tentativa de soltar uma bola para jogar.
— Uh, tem uma pizzaria que eu vou de vez em quando. — Ele
cuidadosamente deixou a mesa de volta em seu lugar e olhou para Jessica.
— Mas não é que nem a Freddy’s — acrescentou.
John vagava pela sala de jantar novamente, andando por entre as
mesas, batendo de leve nas estrelas e espirais penduradas no teto. Puxou
um chapéu de festa vermelho de cima de uma mesa, esticou o elástico
preso folgadamente à base, e o colocou sobre a cabeça, as fitas vermelhas e
brancas penduradas ao redor do chapéu cobrindo seu rosto.
— Tá, vamos dar uma olhada na cozinha — disse. Charlie o seguiu
enquanto ele rumava até lá.
Apesar de na época seus amigos não terem permissão para entrar na
cozinha, Charlie passava bastante tempo por lá, tanto que os cozinheiros a
chamavam pelo nome, ou pelo menos o nome que ouviam seu pai chamá-
la: Charlotte. John havia ouvido alguém chamá-la de Charlotte uma vez
quando ainda estavam no jardim de infância e a ficava provocando com
isso constantemente. Sempre conseguia tirá-la do sério com isso. Não é que
Charlie não gostasse de seu nome completo, mas “Charlie” era quem ela
era para o mundo. Apenas seu pai a chamava de Charlotte, era como um
segredo deles, algo que ninguém mais deveria compartilhar. No dia em que
deixou Hurricane para trás, no dia em que disseram adeus, John hesitou.
“Tchau, Charlie”, dissera. Em suas cartas e cartões, ou mesmo nas
ligações, ele jamais voltou a chamá-la de Charlotte. Ela nunca perguntou
por que, e ele nunca contou.
A cozinha continuava cheia de potes e panelas, mas era pouco
interessante para Charlie em meio a suas memórias. Ela voltou ao espaço
aberto da sala de jantar e John a seguiu. Ao mesmo tempo, Jessica e
Carlton cambalearam para fora do fliperama, tropeçando um no outro
enquanto cruzavam a soleira entre as salas no escuro.
— Algo interessante? — perguntou John.
— Uh, um embrulho de chiclete, trinta centavos e a Jessica, então
não, na verdade não — disse Carlton. Jessica lhe deu um soco de
brincadeira no ombro.
— Oh, todos nos esquecemos? — Jessica abriu um sorriso
maquiavélico, apontando para outro corredor no lado oposto da sala de
jantar. Seguiu até lá rapidamente, antes que qualquer um pudesse
responder, e eles a seguiram. O corredor era comprido e estreito, e quanto
mais avançavam por ele, menos a lanterna parecia iluminar. A passagem
finalmente deu lugar a um pequeno salão de festas privadas, montado com
suas próprias mesas e cadeiras. Quando entraram, se sucedeu um silêncio
coletivo. Diante deles, havia um pequeno palco, as cortinas fechadas. Havia
uma placa posicionada diante delas: “Out of Order”, — “Com Defeito” —
diziam as belas letras escritas à mão. Ficaram imóveis por um minuto, e
então Jessica subiu até lá, cutucando a placa.
— Dez anos depois e continua com defeito — disse.
Não toque, pensou Charlie.
— Eu comemorei um aniversário aqui atrás — disse John. —
Também estava com defeito na época. — Pegou a ponta da cortina
esfregou o tecido brilhoso entre os dedos.
Não, Charlie quis dizer novamente, mas se deteve. Está sendo
boba, repreendeu-se.
— Acham que ele ainda está lá atrás? — disse Jessica com um ar
brincalhão, ameaçando fazer a revelação com um enorme abrir das
cortinas.
— Certeza que está. — John abriu um sorriso falso, parecendo
desconfortável pela primeira vez.
Sim, ele ainda está aqui, pensou Charlie. Ela cautelosamente deu um
passo para trás, notando de repente os desenhos e pôsteres nas paredes que
os cercavam como aranhas. Charlie passou a lanterna cuidadosamente de
imagem em imagem, todas retratando diferentes variações do mesmo
personagem: uma grande e energética raposa pirata com um tapa-olho e um
gancho no lugar de uma das mãos, normalmente indo toda serelepe
entregar uma pizza a uma criança faminta.
— Nessa sala, era você que se escondia embaixo das mesas — disse
Jessica à Charlie, tentando rir. — Mas agora já é uma mocinha, né? —
Jessica subiu no palco desengonçadamente, quase perdendo o equilíbrio.
John lhe deu a mão para que retomasse a postura enquanto se ajeitava. Ela
deu uma risada nervosa, olhando para os outros como se buscasse
orientação, e então agarrou as pontas franzidas da cortina. Isso fez com que
começasse a cair poeira do tecido, e ela balançou a outra mão na frente do
rosto.
— Será que não é uma boa ideia? — Deu uma risada, mas havia algo
em sua voz que sugeria que era sério, e ela baixou o olhar de volta para o
palco por um momento, como se estivesse a ponto de descer novamente.
Mas não se mexeu, voltando a pegar a ponta da cortina.
— Espera — disse John. — Estão ouvindo isso?
Todos estavam quietos como um túmulo e, no silêncio, Charlie podia
ouvir todos respirando. A respiração de John era ponderada e tranquila, a
de Jessica rápida e nervosa. Conforme pensava sobre isso, sua própria
respiração começou a parecer estranha, como se tivesse esquecido como
respirar. De toda forma, não estava ouvindo nada.
— Não ouço nada — disse.
— Nem eu. — A voz de Jessica ecoou. — O que é?
— Música, e está vindo... — Ele apontou para o caminho de onde
tinham vindo.
— Do palco? — Charlie inclinou a cabeça para o lado. — Não estou
ouvindo.
— É como uma caixa de música — disse. Charlie e Jessica tentaram
ouvir com toda a atenção, mas suas expressões vazias não mudaram. —
Parou, eu acho. — John voltou a olhar para frente.
— Talvez fosse um caminhão do sorvete — sussurrou Jessica.
— Olha, até que cairia muito bem agora. — John apreciava
futilidades.
Jessica voltou sua atenção para a cortina novamente, mas John
começou a cantarolar uma melodia consigo mesmo.
— Aquilo me lembrou alguma coisa... — murmurou.
— Certo, aqui vou eu! — anunciou Jessica. Ela não se mexeu.
Charlie notou seus olhos sendo atraídos pelas mãos de Jessica na cortina,
suas unhas bem feitas e pintadas de cor-de-rosa pálidas diante do tecido
escuro e brilhoso. Era quase como o momento de silêncio que o público faz
no teatro quando as luzes se apagam, mas as cortinas ainda não se abriram.
Todos estavam imóveis, na expectativa, mas não estavam assistindo uma
peça, aquilo já não era mais de brincadeira. Todo regozijo já havia se
esvaído do rosto de Jessica; as maçãs de seu rosto se destacavam por
completo nas sombras e seus olhos passavam uma impressão macabra,
como se o que estava a ponto de fazer, por mais simples que fosse, pudesse
levar a terríveis consequências. Enquanto Jessica hesitava, Charlie notou
que sua mão estava ferida; estava apertando tanto os punhos que suas unhas
cortaram a pele, mas não conseguia afrouxar.
Um estrondo soou vindo de algum ponto atrás deles, um ruído
progressivo e estridente que envolvia e preenchia todo o lugar. John e
Charlie congelaram, seus olhos se encontrando em um pânico repentino.
Jessica largou a cortina e pulou do palco, se chocando contra Charlie e
fazendo-a derrubar a lanterna.
— Onde é a saída?! — exclamou, e John correu para ajudá-la.
Procuraram apressadamente pelas paredes e Charlie perseguiu o feixe de
luz que rodopiava pelo chão. Quando todos conseguiram retomar o
equilíbrio, Carlton entrou correndo na sala.
— Eu derrubei uma panelas na cozinha! — exclamou Carlton, um
pedido de desculpas em meio ao pânico.
— Achei que estava com a gente — disse Charlie.
— Queria ver se ainda tinha alguma comida por aqui — disse
Carlton, sem deixar claro se havia encontrado algo ou não.
— Sério isso? — John riu.
— Aquele guarda pode ter ouvido — disse Jessica, tensa. — Temos
que sair daqui.
Seguiram rumo à porta e Jessica começou a correr. O resto disparou
atrás dela, ganhando velocidade conforme alcançavam o corredor, correndo
como se algo os estivesse perseguindo.
— Vamos, vamos! — exclamou John e todos começaram a dar
risadinhas, o pânico acobertado, mas a urgência real.
Passaram espremidos pela porta, um por um, e a empurraram dentre
o mesmo ruído doloroso de antes, Carlton e John se apoiando contra ela até
que estivesse fechada. Todos pegaram a estante, erguendo-a para colocar
de volta no lugar e ajeitando as ferramentas para que parecesse que
ninguém mexera em nada.
— Assim tá bom? — disse Jessica, e John a puxou pelo braço para
que fossem embora.
Voltaram às pressas, porém com toda cautela, pelo caminho por onde
haviam vindo, usando apenas a lanterna da caneta de Carlton enquanto
voltavam pelos corredores vazios e pelo grande saguão que dava no
estacionamento. A luz do guarda não voltou a aparecer.
— Um pouco frustrante — disse Carlton, desapontado, olhando para
trás mais uma vez, na expectativa de que estivessem sendo seguidos.
— Tá de brincadeira? — disse Charlie enquanto ia para o carro, já
tirando as chaves do bolso. Sentia como se algo trancado dentro de si, bem
lá no fundo, tivesse sido perturbado, e não sabia se era algo bom ou ruim.
— Foi divertido! — exclamou John, e Jessica riu.
— Foi aterrorizante! — gritou a menina.
— Pode ter sido ambos — disse Carlton, com um grande sorriso.
Charlie começou a rir e John se juntou a ela.
— O que foi? — disse Jessica. Charlie balançou a cabeça, ainda
rindo um pouco.
— É que nós somos exatamente como costumávamos ser. Digo,
estamos totalmente diferentes e mais velhos e tudo mais. Mas continuamos
iguais. Você e o Carlton falam exatamente como quando tinham seis anos.
— Certo — disse Jessica, revirando os olhos novamente, mas John
assentiu.
— Entendo o que quer dizer — disse ele. — E a Jessica também, ela
só não gosta de admitir. — Olhou de volta para o shopping. — Será mesmo
que aquele guarda não nos viu? — disse, enfim.
— Podemos deixá-lo para trás agora — disse Carlton, sensato, sua
mão pousada sobre o carro.
— Acho que sim — disse John, mas não parecia convencido.
— Você também não mudou, sabia? — disse Jessica, com certa
satisfação. — Pare de procurar problemas onde não existe nenhum.
— Ainda assim, — disse John, olhando para trás mais uma vez, — é
melhor darmos o fora daqui, não quero abusar da sorte.
— Nos vemos todos amanhã, então? — disse Jessica, enquanto todos
iam se separando. Carlton deu um breve aceno por cima do ombro.
O coração de Charlie afundou um pouco quando Jessica se
acomodou no banco do carona, afivelando o cinto bem apertado. Não
estava esperando por isso. Não é que não gostasse de Jessica, é que ficar
sozinha com ela era desconfortável. Ainda era quase como uma estranha.
Entretanto, Charlie continuava animada por conta da aventura da noite e a
adrenalina persistente lhe deu uma segurança renovada. Sorriu para Jessica.
Daquela noite em diante, elas de repente passaram a ter algo muito em
comum.
— Você sabe o caminho para o motel? — perguntou, e Jessica
assentiu, pegando a bolsa jogada junto a seus pés. Era pequena e preta, com
uma alça comprida, e no caminho até a construção, Charlie a havia visto
tirando dela um brilho labial, um espelho, um pacote de balas de menta, um
kit de costura e uma pequena escova de cabelo. Ela agora tirou uma
pequena agenda e uma caneta. Charlie sorriu.
— Desculpa, mas quanta coisa você carrega aí? — disse, e Jessica a
olhou com um sorriso.
— Os segredos da Bolseta não devem ser desvendados — disse ela,
brincalhona, e ambas riram. Jessica começou a ler o caminho para Charlie,
que a ia acatando, virando para a esquerda e para a direita sem prestar
muita atenção nos arredores.

Jessica já havia feito a reserva, então foram direto para o quarto, um


pequeno cubículo bege com duas camas de casal cobertas com colchas
marrons brilhantes. Charlie deixou as malas sobre a cama mais próxima à
porta, e Jessica foi até a janela.
— Como pode ver, ostentei um pouquinho e arranjei um quarto com
vista — disse, abrindo as cortinas dramaticamente para revelar duas
caçambas de lixo e uma cerca viva ressecada. — Quero que o meu
casamento seja aqui.
— Claro — disse Charlie, entretida. Seu jeito careta e seus visuais
dignos de uma modelo de moda a faziam esquecer que ela também era
esperta. Lembrava que, quando criança, se sentia um pouco intimidada toda
vez que brincavam juntas, e também lembrava o quanto passava a gostar
dela alguns minutos depois. Ficava imaginando se ela havia tido
dificuldade para fazer amigos com aquela sua aparência, mas era o tipo de
pergunta que não se podia fazer aos outros.
Jessica se jogou na cama, ajeitando-se para olhar para Charlie.
— Então, conte-me sobre você — disse aos sussurros, se fazendo
passar por um apresentador daqueles programas de fofocas ou pela mãe
intrometida de alguém.
Charlie deu de ombros, sem jeito, parada no lugar.
— O que quer dizer? — disse.
Jessica riu.
— Sei lá! Que coisa horrível de se perguntar, né? Digo, como você
poderia responder? Hm, que tal a escola? Algum boy magia?
Charlie se deitou na cama, imitando a pose de Jessica.
— Boy magia? A gente tem o quê, doze anos?
— Mas e aí? — disse Jessica, impaciente.
— Sei lá — respondeu. — Acho que não. — Sua turma era muito
pequena. Ela conhecia praticamente todo mundo lá desde que fora morar
com a tia Jen e namorar alguém, gostar de alguém “daquele jeito” pareceria
forçado, e inapropriado também. Contou sobre isso para Jessica. — A
maioria das garotas, quando querem namorar, pegam caras mais velhos —
disse.
— E você não tem um cara mais velho? — disse Jessica,
provocando.
— Nah — disse Charlie. — Acho que eu queria esperar que o nosso
grupo crescesse.
— Sei! — Jessica caiu na gargalhada antes de pensar rapidamente
em algo para compartilhar. — Ano passado, tinha um cara, o Donnie —
disse. — Eu estava louca por ele, tipo, de verdade. Ele era um doce com
todo mundo. Só vestia preto o tempo todo e deixava aqueles cabelos pretos
cacheados tão cheios que, quando eu sentava atrás dele, só conseguia
pensar em enfiar o rosto ali. Ficava tão distraída que tirei um A- em
trigonometria. Ele era um verdadeiro artista, um poeta, e carregava um
daqueles cadernos de anotações com capa de couro preto, estava sempre
escrevendo alguma coisa nele, mas nunca mostrava a ninguém — suspirou,
como se estivesse sonhando. — Eu ficava imaginando que, se conseguisse
fazer com que ele me mostrasse suas poesias, poderia entender sua alma,
sabe?
— E ele mostrou? — disse Charlie.
— Ah, sim — disse, assentindo com força. — Eu finalmente o
chamei para sair, sabe, porque ele era tímido e nunca ia me chamar. Nós
fomos ao cinema e nos pegamos um pouco, e daí ele me levou à cobertura
do seu prédio e eu contei que queria estudar sobre civilizações antigas,
participar de escavações arqueológicas e tudo mais. E ele me mostrou seus
poemas.
— E você conseguiu entender a alma dele? — disse Charlie. Queria
levar Jessica a sério, mas sentia que seu Q.I. diminua a cada minuto que
continuava com essa conversa. Jessica se inclinou na cama para sussurrar.
— Os poemas eram terríveis. Eu não sabia que alguém podia ser
melodramático e entediante ao mesmo tempo. Quer dizer, tipo, só ler
aquilo já me fez sentir vergonha alheia por ele. — Cobriu o rosto com as
mãos. Charlie riu.
— O que você fez?
— O que podia ter feito? Disse a ele que não ia dar certo e fui pra
casa.
— Espera, logo depois de ler os poemas?
— Ainda com o caderno em mãos.
— Ah, não, Jessica, que maldade! Deve ter partido o coração dele!
— Eu sei! Me senti muito mal, mas era como se as palavras
simplesmente pulassem da minha boca, não consegui me conter.
— Ele voltou a falar com você?
— Ah, sim, ele é muito bonzinho. Mas agora ele faz aulas de
estatística e economia e usa uns coletes de lã.
— Você acabou com o cara! — Charlie jogou um travesseiro em
Jessica, que se sentou e o agarrou.
— Eu sei! Ele provavelmente vai ser um agente comercial milionário
ao invés de um artista falido e é tudo culpa minha. — Deu uma risada. —
Qual é, ele vai me agradecer algum dia.
Charlie balançou a cabeça.
— Você quer mesmo ser arqueóloga?
— Sim — disse Jessica.
— Hm — disse Charlie. — Desculpa, é que eu achava... — Balançou
a cabeça outra vez. — Desculpa, isso é muito legal.
— Você achava que eu queria fazer algo relacionado à moda — disse
Jessica.
— Bom, sim.
— Tudo bem — disse Jessica. — Eu também achava, digo, ainda
gostaria de fazer, eu amo moda, mas arqueologia é tão fascinante, sabe? É
incrível pensar sobre como as pessoas viviam há mil, dois mil, ou até dez
mil anos. Eles eram iguaizinhos a nós, mas também tão diferentes. Gosto
de imaginar como viviam em outras eras, outros lugares, de imaginar quem
eu teria sido. Enfim, e quanto a você?
Charlie rolou até ficar com as costas para baixo, olhando para o teto.
Os ladrilhos eram feitos de poliestireno extrudado manchado e frouxo, e
havia um logo acima de sua cabeça que estava torto. Espero que não tenha
nenhum inseto ali em cima, pensou.
— Sei lá — disse, devagar. — Acho bem legal que você já saiba
quem quer ser, mas é que eu nunca bolei um plano assim.
— Bom, não é como se você precisasse se decidir pra ontem — disse
Jessica.
— Talvez — disse Charlie. — Mas sei lá, você já sabe o que quer
fazer, o John sabe desde que pegou um lápis pela primeira vez que queria
ser escritor e já tem até algo sendo publicado, até o Carlton... Não sei o que
ele tem planejado, mas dá pra ver que existe um plano sendo fermentado
por trás de todas aquelas brincadeirinhas. Mas eu ainda não tenho um rumo
para seguir.
— Mas não é importante — disse Jessica. — A maioria das pessoas
na nossa idade também não devem ter essa noção. Além do mais, eu posso
acabar mudando de ideia ou nem ir pra faculdade nem nada. Nunca se sabe
o que vai acontecer. Olha, eu vou me trocar, quero dormir um pouco.
Ela foi para o banheiro e Charlie continuou onde estava, olhando
para aquele teto deplorável. Achava que estava se tornando um defeito,
rejeitar tão ardentemente o seu passado ou futuro, sem jamais levá-los em
consideração. Viva o momento presente, sua tia Jen costumava dizer com
frequência, e Charlie levava isso consigo em seu coração. Não viva no
passado, não se preocupe com coisas que podem nunca acontecer. Na
oitava série, havia feito um curso técnico, vagamente esperando que o
trabalho mecânico pudesse incitar algo do talento de seu pai, pudesse
despertar uma paixão hereditária latente dentro de si, mas não aconteceu.
Fizera uma casa de pássaros de aparência tosca para o quintal. Nunca
voltou a fazer outro curso técnico e a casa de pássaros atraiu apenas um
esquilo que logo a derrubou.
Jessica saiu do banheiro vestindo um pijama cor-de-rosa listrado e
Charlie entrou para se preparar para ir dormir, trocando de roupa e
escovando os dentes rapidamente. Quando voltou do banheiro, Jessica já
estava embaixo das cobertas com a luz ao lado de sua cama apagada.
Charlie também apagou a sua, mas a luz do estacionamento ainda
iluminava o quarto pela janela, de alguma forma passando por entre as
caçambas de lixo.
Charlie olhou para o teto novamente, suas mãos atrás da cabeça.
— Sabe o que vai acontecer amanhã? — perguntou.
— Na verdade, não — disse Jessica. — Só sei que é uma cerimônia
na escola.
— É, disso eu sei — disse Charlie. — Mas vamos ter que fazer
alguma coisa? Tipo, vão querer que a gente discurse?
— Acho que não — disse Jessica. — Por que, você queria dizer
alguma coisa?
— Não, só queria saber.
— Você costuma pensar nele? — disse Jessica.
— Às vezes, tento não pensar — disse Charlie, sem ser totalmente
honesta. Havia selado o assunto de Michael no fundo de sua mente;
trancado à sete chaves por trás de uma parede mental na qual ela nunca
mexia. Evitar o assunto não lhe era um esforço, na verdade o esforço era
pensar nele agora. — E você? — perguntou à Jessica.
— Na verdade, não — disse. — Estranho, né? Acontece alguma
coisa, a pior coisa que você pode imaginar, e aquilo fica gravado em você
de tal forma que parece que será para sempre. Mas então os anos se
passaram, e não foi bem assim que aconteceu. Não é que não seja
importante, ou terrível, mas ficou no passado, assim como todo o resto.
Sabe como é?
— Acho que sim — disse Charlie. Mas não sabia. — Eu só tento não
pensar nessas coisas.
— Eu também. Sabia que eu fui a um funeral na semana passada?
— Sinto muito — disse Charlie, sentando-se na cama. — E você tá
legal?
— Sim, estou bem — disse Jessica. — Eu nem o conhecia
direito. Era só um parente mais velho que morava em outro estado, lá
longe. Acho que o tinha visto uma vez, mas nem me lembro direito. Fomos
mais por causa da minha mãe. Mas era em um daqueles salões de funeral
das antigas, que nem nos filmes, com um caixão aberto. Fomos todos até o
caixão e, quando chegou a minha vez, eu olhei para ele e até parecia que
ele podia estar dormindo, sabe? Tão calmo e sossegado, como sempre
dizem que são os mortos. Não havia nada que eu pudesse apontar que me
fizesse pensar que ele estava morto, se alguém perguntasse; todas as suas
feições pareciam as mesmas de quando estava vivo. Sua pele era a mesma;
seu cabelo era o mesmo de quando estava vivo. Mas ele não estava vivo, e
posso garantir; eu teria percebido imediatamente, ainda que não estivesse,
você sabe, em um caixão.
— Sei o que quer dizer. Simplesmente parece que tem alguma coisa
neles quando estão... — disse Charlie, suavemente.
— Parece besteira quando eu digo. Mas quando o vi, ele parecia tão
vivo... E mesmo assim, eu sabia, simplesmente sabia que não estava.
— Não tem nada pior, né? — disse Charlie. — Algo que age como
se estivesse vivo, mas não está.
— Como é? — disse Jessica.
— Digo, algo que parece estar vivo, mas não está — disse Charlie,
depressa. — É melhor dormirmos um pouco — disse. — Já ajustou o
alarme?
— Já — disse Jessica. — Boa noite.
— Boa noite.
Charlie apagou sua luz, sabendo que o sono ainda estava bem longe
de chegar. Sabia o que Jessica queria dizer, provavelmente até melhor que
a própria Jessica. O brilho artificial de olhos que a seguiam a cada
movimento, assim como fariam os de uma pessoa de verdade. O leve
balançar dos animais realísticos que não se moviam como faria algo vivo.
Os erros de programação ocasionais que faziam um robô parecer ter feito
algo novo, criativo. Sua infância havia sido cheia deles — ela crescera em
um estranho vão entre a vida e a não-vida. Aquele tinha sido o seu mundo.
O mundo de seu pai. Charlie fechou os olhos. O que esse mundo fez com
ele?
CAPÍTULO TRÊS

Toc. Toc. Toc.


Charlie acordou assustada, desnorteada. Algo batia em sua porta,
tentando forçar a entrada.
— Ah, tá de sacanagem com a minha cara — disse Jessica, irritada, e
Charlie se sentou na cama, piscando.
É mesmo. O motel. Hurricane. Alguém estava batendo na porta.
Enquanto Jessica atendia a porta, Charlie se levantou e checou o relógio.
Eram 10 da manhã. Olhou pela janela e se deparou com um belo e novo
dia. Tivera uma noite pior do que o normal, sem pesadelos, mas com
sonhos obscuros dos quais não conseguia se lembrar muito bem, coisas
presas a ela, bem no fundo de sua mente, imagens que não conseguia
alcançar.
— Charlieeeee! — Alguém chiou. Charlie seguiu até a porta e foi
imediatamente envolvida por um abraço, os braços rechonchudos de Marla
a apertando como um torno. Charlie a abraçou de volta, com mais força do
que pretendia. Quando Marla a soltou, ela deu um passo para trás, sorrindo.
O humor de Marla sempre foi tão intenso que chegava a ser contagioso,
tomava conta de quem quer que estivesse em seu caminho. Quando ficava
triste, uma sombra pairava sobre todos os seus amigos, o céu ficava mais
escuro. Quando ficava feliz, como agora, era impossível evitar seu estímulo
de alegria. Estava sempre sem fôlego, sempre um pouco desligada, sempre
passando a impressão de que estava atrasada, apesar de quase nunca estar.
Marla vestia uma blusa vermelha escura soltinha que lhe caía muito bem,
realçando sua pele clara e seu cabelo castanho escuro.
Charlie havia mantido um melhor contato com Marla do que com os
outros. Marla era do tipo de pessoa com quem era fácil de se manter a
amizade, mesmo à distância. Mesmo quando criança, ela mandava cartas e
cartões postais, sem perder o ânimo ainda que Charlie não respondesse à
todas. Era decididamente positiva, assumindo que todos gostavam dela a
menos que lhe dissessem o contrário com todas as palavras. Charlie
admirava isso nela — ela mesma, apesar de não ser tímida, estava sempre
calculando: será que essa pessoa gosta de mim? Ou só está sendo educada?
Como as pessoas sabem a diferença? Marla a havia visitado uma vez
quando tinham doze anos. Encantou a tia de Charlie e logo fez amizade
com seus amigos da escola, deixando explicitamente claro que era amiga
da Charlie, e que estava ali apenas para vê-la.
O gigantesco sorriso de Marla ficou mais sério quando estudou
Charlie, olhando para ela como se tentasse encontrar as diferenças desde o
seu último encontro.
— Você está pálida como sempre. — Ela pegou as mãos de Charlie
com as suas. — E está toda gelada, você não se aquece não? — Soltou as
mãos de Charlie e começou a estudar o quarto do motel de forma céptica,
como se não soubesse ao certo o que era.
— É a suíte de luxo — disse Jessica, inexpressiva, enquanto
procurava algo em sua bolsa. Seu cabelo bagunçado apontava para todas as
direções e Charlie segurou um sorriso. Era bom ver Jessica desajeitada,
para variar. Jessica encontrou sua escova de cabelo e a ergueu, triunfante.
— Ha! Toma essa, frisado matinal!
— Entra aí — disse Charlie, notando que ela e Marla continuavam
na entrada, a porta ainda aberta. Marla assentiu.
— Só um pouquinho. JASON! — gritou pela porta. Ninguém
apareceu. — JASON!
Um garotinho veio correndo devagar da estrada. Era baixo e magro,
com a pele mais morena que a de sua meia-irmã. Sua camiseta do Batman e
sua bermuda preta eram feitas para alguém duas vezes maior que ele. Seu
cabelo era cortado rente à cabeça, e seus braços e pernas estavam cobertos
de sujeira.
— Você estava brincando na estrada? — indagou Marla.
— Não? — disse ele.
— Sim, estava. Não faça isso. Se acabar se matando, a mãe vai me
culpar. Já pra dentro. — Marla empurrou seu irmãozinho para dentro e
balançou a cabeça.
— Você está com quantos anos agora? — Charlie perguntou.
— Onze — disse Jason. Ele foi até a TV e começou a mexer nos
botões.
— Jason, pare — disse Marla. — Vá brincar com os seus bonecos.
— Eu não sou mais criança — disse. — De toda forma, eles tão no
carro. — Mas ele se afastou da televisão e foi olhar pela janela.
Marla esfregou os olhos.
— Acabamos de chegar. Tivemos que sair às seis da manhã,
e alguém — disse, enfaticamente, olhando para Jason por cima do ombro,
— não parava de mexer no rádio. Estou exausta.
Ela não parecia estar cansada, embora nunca parecesse estar. Charlie
lembrava que, quando crianças, sempre que dormiam fora, ela pulava de
um lado para o outro como uma maníaca, enquanto o resto deles já estava
indo deitar — e então caía no sono de repente, como um personagem de
desenho animado que fora atingido na cabeça com um rolo de massa.
— Também temos que levantar — disse Jessica. — É para nos
encontrarmos com o pessoal na lanchonete em uma hora.
— Depressa! — disse Marla. — Também temos que nos trocar, não
queria que a gente sujasse nossas roupas no caminho para cá.
— Jason, pode assistir um pouco de TV — disse Charlie, e ele olhou
para Marla. Ela assentiu e, num sorriso, ele a ligou, passando de canal em
canal.
— Por favor, escolha logo um canal — disse Marla. Charlie seguiu
para o banheiro para se arrumar enquanto Jessica brigava com o cabelo.

Pouco menos que uma hora depois, eles chegaram ao


estacionamento. Os outros já estavam lá, na mesma mesa da noite anterior.
Quando entraram, Marla começou uma segunda rodada de berros e
abraços, apenas um pouco mais quieta agora que estavam em público.
Ofuscado por seu entusiasmo, Lamar apenas acenou para Jessica e Charlie,
esperando que Marla se sentasse.
— Oi, pessoal — disse, enfim. Estava vestindo um terno cinza
escuro, acompanhado de uma gravata também escura. Era alto e magro,
negro, seu cabelo raspado rente à cabeça; seus traços eram firmes e
atraentes e ele parecia apenas um pouco mais velho que os demais. Talvez
fosse o terno, mas Charlie acreditava que havia algo em sua postura que
passava a impressão de que ele se sentiria confortável em qualquer lugar.
Todos haviam se vestido bem para a ocasião. Marla se trocara no
motel, e tanto ela quanto Jessica estavam agora usando vestidos. O de
Jessica ia até o joelho e era coberto por flores de tons pastéis, um tecido
leve que se movia conforme ela andava. O de Marla era simples; branco
com grandes girassóis estampados pelo tecido. Charlie não havia pensado
em trazer um vestido e esperava não parecer deslocada com calças pretas e
uma camisa de botão branca. John estava vestindo uma camisa lilás hoje,
mas adicionou uma gravata combinando, apenas um pouco mais escura, e
Carlton parecia estar usando uma roupa idêntica à de antes, ainda todo de
preto. Todos se sentaram.
— Olha só, como estamos bonitos — disse Marla, contente.
— Cadê o Jason? — Jessica ergueu a cabeça, olhando de um lado
para o outro.
Marla resmungou.
— Já volto.
Ela deixou a mesa e correu até a porta.
— Lamar, o que você tem feito? — disse Charlie. Ele sorriu.
— Ele é da Ivy League[1] agora — disse Carlton, provocando. Lamar
baixou brevemente o olhar para a mesa, mas continuava sorrindo.
— Fui aceito cedo. — Foi só o que disse.
— Em qual faculdade? — disse Jessica.
— Cornell.
— Espera, como é que você já prestou o vestibular? — disse Charlie.
— Era pra ser só no ano que vem. Ainda nem sei para onde quero ir.
— Ele pulou a sexta série — disse John. Seu olhar cintilou
brevemente, e Charlie sabia por quê. John gostava de ser o inteligente, o
prodígio. Lamar era meio que o patetão quando eram crianças, e agora
estava um passo à frente. John forçou um sorriso, e um momento se passou.
— Meus parabéns — disse, sem deixar transparecer que não estava sendo
totalmente sincero.
Marla entrou com tudo novamente, dessa vez rebocando Jason atrás
de si, puxando-o pelo braço. Também o havia feito trocar de roupas no
motel, e ele agora vestia um blazer e calças de cor cáqui, apesar de
continuar calçando seus Nikes.
— Tô indo, para — choramingou o garoto.
— Esse é o Jason? — disse Carlton.
— Sim — disse Jason.
— Se lembra de mim? — disse Carlton.
— Não me lembro de nenhum de vocês — disse Jason, sem nenhum
constrangimento.
— Senta aí — disse Marla, apontando para a mesa ao lado.
— Tanto faz — respondeu.
— Marla, ele pode sentar com a gente — disse Jessica. — Jason,
vem pra cá.
— Eu quero sentar aqui — disse, sentando-se de costas para eles.
Tirou um videogame do bolso e se distraiu do mundo.
A garçonete foi até a mesa e eles fizeram seus pedidos — Marla a
disse para colocar o café da manhã de Jason na conta deles. Quando a
comida chegou, Charlie checou o relógio.
— Não temos muito tempo — disse.
— A gente chega à tempo — disse Carlton. — Não é longe. — Um
pequeno pedaço de comida caiu de sua boca enquanto apontava para a
estrada.
— Você chegou a voltar na escola? — disse Lamar, e Carlton deu de
ombros.
— Eu passo na frente de vez em quando. Sei que é uma viagem cheia
de nostalgia para vocês, mas eu moro aqui. Não costumo sair por aí
relembrando o jardim de infância o tempo todo.
Todos ficaram quietos por um momento, os beeps e pings do
videogame de Jason preenchendo o silêncio.
— Ei, você sabia que o Lamar vai para Cornell ano que vem? —
Jessica disse para Marla.
— Sério? Olha só, tá na frente de todo mundo — respondeu a
menina. Ele baixou o olhar para seu prato. Quando ergueu o rosto
novamente, estava um pouco vermelho.
— Tudo parte do plano de cinco anos — disse. Todos riram, e ele
ruboresceu ainda mais. — É meio estranho voltar aqui — disse, tentando
mudar logo de assunto.
— Eu acho que o estranho é eu ser o único que ainda mora aqui —
disse Carlton. — Ninguém nunca sai de Hurricane.
— Mas é estranho, não é mesmo? — disse Jessica, pensativa. — Os
meus pais... não sei se lembram, a minha mãe veio de Nova York e ficava
sempre fazendo piadinhas sobre voltar. Quando eu voltar pra Nova
York, mas era no mesmo tom que quando eu ganhar na loteria, ela não
falava sério. E então, depois que o Michael... logo depois, ela parou de
fazer piadas sobre isso e, três meses depois, estávamos todos num avião
para visitar sua irmã no Queens, e nunca mais voltamos. Meu avô paterno
morreu quando eu tinha nove anos, e eles vieram à Hurricane para o funeral
sem mim. Não queriam que eu voltasse aqui, e eu honestamente também
não queria vir. Fiquei meio ansiosa o tempo todo enquanto eles estavam
fora. Ficava olhando pela janela, esperando que voltassem mais cedo, como
se algo ruim fosse acontecer com eles se ficassem por aqui.
Todos trocaram olhares, levando as palavras em consideração.
Charlie sabia que todos haviam se mudado, exceto Carlton, mas nunca
parou para pensar a respeito — pessoas sempre se mudavam. Mas Carlton
estava certo. Não era comum que pessoas deixassem Hurricane.
— Nós nos mudamos porque o meu pai conseguiu um emprego novo
no verão depois da terceira série — disse John. — Não chega a ser algo
misterioso. Lamar, você foi embora no meio do semestre daquele ano.
— É — respondeu. — Mas foi porque, quando meus pais se
divorciaram, eu fui com a minha mãe para Indianapolis. — Ele franziu as
sobrancelhas. — Se bem que o meu pai também se mudou, ele mora em
Chicago agora.
— Meus pais se mudaram por causa do Michael — disse Marla.
Todos se voltaram para ela. — Depois do que aconteceu, minha mãe não
conseguia mais dormir. Dizia que os espíritos vagavam pela cidade,
inquietos. Meu pai disse a ela que estava sendo ridícula, mas nos mudamos
assim que pudemos. — Marla olhou de volta para os amigos. — O quê? —
disse, na defensiva. — Eu não acredito em fantasmas.
— Eu acredito — disse Charlie. Sentiu como se sua voz viesse de
longe, como se percorresse uma enorme distância, e o fato de que a podiam
ouvir quase a surpreendeu. — Digo, não fantasmas, mas... memórias.
Acredito que elas perdurem, quer ainda haja alguém no lugar ou não.
A casa, sua velha casa, estava tão cheia de memórias, de perda, de
anseio. Tudo isso pairava no ar, como a umidade — as paredes estavam
saturadas, como se a madeira houvesse sido mergulhada nessas coisas. Já
estavam lá antes de ela chegar, estavam lá agora, ficariam lá para sempre.
Tinha certeza disso. Era tanta coisa, um peso tão grande e vasto, que
Charlie não poderia ter trazido consigo.
— Isso não faz sentido — disse Jessica. — Memórias ficam em
nossos cérebros. Tipo, literalmente guardadas no cérebro, é possível vê-las
com uma tomografia. Não podem existir fora da mente de alguém.
— Sei lá — disse John. — Pense em todos os lugares que tem uma...
atmosfera diferente. Casas antigas, às vezes, lugares onde você entra e se
sente triste, ou nostálgico, mesmo nunca tendo estado lá antes.
— Mas nesse caso não são memórias de outras pessoas — disse
Lamar. — São deixas do nosso subconsciente, coisas que não percebemos
que estamos notando, que nos dizem que devíamos sentir alguma coisa.
Pintura descascada, móveis velhos, cortinas de renda, detalhes que nos
dizem para sentir a nostalgia, no geral coisas que vemos em filmes,
provavelmente. Me perdi em um parque de diversões quando tinha quatro
anos; nunca fiquei com tanto medo na vida, mas não acho que alguém se
sinta repentinamente desesperado pela mãe quando passa por aquela roda
gigante.
— Ou talvez sim — disse Marla. — Sei lá, às vezes tem alguns
momentos em que eu sinto que me esqueci de alguma coisa, ou que me
arrependo de alguma coisa, ou que estou feliz com alguma coisa, ou que há
alguma coisa querendo me fazer chorar, mas é só por uma fração de
segundos, e então passa. Talvez todos nós projetemos nossos medos,
arrependimentos e esperanças por onde quer que passemos, e acabamos
captando traços de pessoas que nunca conhecemos. Talvez aconteça em
todo lugar.
— Como isso é diferente de acreditar em fantasmas? — disse Lamar.
— É totalmente diferente — disse Marla. — Não é sobrenatural e
não são, tipo, as almas de gente morta, são só... pessoas deixando sua
marca no mundo.
— Então são os fantasmas de pessoas vivas? — disse Lamar.
— Não.
— Você está falando sobre pessoas terem algum tipo de essência que
pode permanecer em um lugar específico depois que a pessoa vai embora
— disse Lamar. — Isso seria um fantasma.
— Não, não seria! Não tô conseguindo explicar direito — disse
Marla. Fechou os olhos por um minuto, pensando. — Tá — disse, enfim.
— Vocês se lembram da minha avó?
— Eu lembro — disse Jason. — Ela também era minha avó.
— Era a mãe do meu pai, não de seu — disse Marla. — Enfim, você
só tinha um ano quando ela morreu.
— Mas eu me lembro dela — disse Jason, baixinho.
— Certo — disse Marla. — Então, ela colecionava bonecas da época
em que era menina. Ela e o meu avô costumavam viajar bastante depois
que ele se aposentou, e ela sempre trazia uma boneca de todo canto do
mundo; tinha uma da França, uma do Egito, uma da Itália, uma do Brasil,
uma da China, de toda parte. Ela as guardava em um quarto especial deles,
e era cheio delas, prateleiras e prateleiras de bonecas, algumas pequenas e
outras tão grandes quanto eu, na época. Eu adorava; uma das minhas
primeiras memórias é brincando naquele quarto com as bonecas. Lembro
que o meu pai sempre me avisava para tomar cuidado e minha avó ria,
dizendo que “brinquedos são para brincar”. Eu tinha uma favorita, uma
ruiva de 50 centímetros com um vestido curto branco que parecia a Shirley
Temple; eu a chamava de Maggie. Era dos anos 40, e eu adorava aquela
boneca; contava tudo para ela e, quando me sentia sozinha, me imaginava
naquele quarto, brincando com a Maggie. Minha avó morreu quando eu
tinha seis anos e, quando meu pai e eu fomos ver meu avô depois do
funeral, ele me disse para escolher uma boneca da coleção para mim. Fui
ao quarto para pegar a Maggie e, assim que passei pela porta, senti que algo
estava errado. Era como se a luz houvesse mudado, ficado mais escura,
mais inóspita que antes. Olhei ao redor e as poses vívidas e alegres das
bonecas agora pareciam artificiais, deslocadas. Era como se todas
estivessem olhando para mim. Não sabia o que elas queriam. A Maggie
estava no canto e eu dei um passo em sua direção, mas então parei. Me
deparei com seus olhos e, ao invés de vidro pintado, era o olhar de um
estranho. Virei as costas e corri. Desci em direção à sala como se algo
estivesse me perseguindo, sem ousar olhar para trás até chegar ao lado de
meu pai. Ele me perguntou se eu havia escolhido uma boneca e eu apenas
balancei a cabeça. Nunca mais voltei naquele quarto.
Todos ficaram em silêncio. Charlie estava atônita, ainda vendo a
pequena Marla correndo por sua vida.
— O que aconteceu com as bonecas? — disse Carlton, quebrando
apenas uma parte do feitiço.
— Não sei, acho que minha mãe as vendeu para outro colecionador
quando meu avô morreu — disse Marla.
— Sinto muito, Marla — disse Lamar. — Ainda são apenas truques
da mente. Você sentia falta da sua avó, estava com medo da morte e
bonecas são naturalmente horripilantes.
Charlie se intrometeu, querendo cessar o assunto:
— Todo mundo já acabou de comer? — disse. — Temos que ir logo.
— Ainda temos bastante tempo — disse Carlton, olhando para o
relógio. — O lugar fica à, tipo, cinco minutos daqui. — Mais alguma coisa
caiu de sua boca, pousando ao lado do primeiro pedaço de comida
derrubado.
John olhou ao redor da mesa, pessoa por pessoa, como se estivesse
esperando alguma coisa.
— Temos que contar pra eles — disse, olhando para Charlie.
— Ah, sim, com toda certeza! — disse Jessica.
— Nos contar o quê? — Jason elevou a voz, espiando por trás do
assento de Marla.
— Shh — disse Marla, irresoluta. Ela olhava para John. — Nos
contar o quê?
John abaixou a voz, forçando todo mundo a se inclinar mais para
perto. Charlie também o fez, ávida para ouvir, mesmo que já soubesse
exatamente o que ele estava para dizer.
— Nós fomos à Freddy’s ontem à noite — disse ele.
— A Freddy’s ainda existe? — exclamou Marla, bem alto.
— Shhh! — disse Jessica, fazendo movimentos frenéticos com as
mãos.
— Desculpa — sussurrou Marla. — Só não consigo acreditar que o
lugar continua lá.
— Não continua — disse Carlton, erguendo as sobrancelhas e
sorrindo enigmaticamente para Lamar.
— Está escondido — explicou John. — Era para terem demolido o
lugar para construir um shopping, mas não o fizeram. Apenas...
construíram por cima.
— Sepultaram o lugar — corrigiu John.
— E vocês entraram? — disse Lamar. Charlie assentiu em resposta.
— Não creio — continuou.
— Como estava o lugar? — perguntou Marla.
— Exatamente igual — disse John. — Era como...
— Era como se todo mundo tivesse desaparecido — disse Charlie,
suavemente.
— Também quero ir; vocês tem que nos levar lá — disse Marla.
Jessica pigarreou, hesitante, e todos olharam para ela.
— Não sei não — disse, devagar. — Digo, hoje? Será que devemos?
— A gente tem que ver — disse Lamar. — Vocês não podem nos
contar isso e não nos deixar ver.
— Eu quero ver — Jason se intrometeu. — O que é essa Freddy’s?
— Eles o ignoraram. Seus olhos estavam arregalados e ele estava atento à
cada palavra.
— Talvez a Jessica tenha razão — disse John, relutante. — Talvez
seja desrespeitoso ir lá esta noite. — Houve uma pausa momentânea e
Charlie sabia que estavam esperando que ela dissesse alguma coisa. Na
verdade, ela era a única que eles temiam ofender; precisavam de sua
permissão.
— Acho que devíamos ir — disse. — Não acho que seja
desrespeitoso. É quase uma forma de honrar... o que aconteceu. — Olhou
ao redor da mesa. Jessica assentia. Charlie não tinha certeza se aquilo
estava aberto à discussão, mas eles não precisavam ser convencidos. Só
queriam uma desculpa.
Marla se virou para olhar o prato de Jason.
— Já terminou de comer? — disse.
— Sim — respondeu o garoto. Marla apontou para o jogo em suas
mãos.
— Sabe que não pode jogar isso aí durante a cerimônia — disse.
— Sim.
— É sério, Jason. Vou deixar trancado no carro.
— Por que você não me deixa trancado no carro? — murmurou.
— Eu adoraria — disse Marla, baixinho, enquanto se virava de volta
para o grupo. — Tá, podemos ir.
Eles seguiram para a escola em uma caravana — os garotos no carro
de Carlton, Marla logo atrás e Charlie na traseira.
— Devíamos ter feito carona solidária[2] — disse Jessica, a voz baixa,
enquanto olhava pela janela. Isso não havia ocorrido à Charlie.
— Pois é — disse.
— Se bem que eu não sei se iria querer ir junto com a Marla e o
Jason — disse Jessica, franca.
— Eles têm bastante energia — concordou Charlie.
Quando chegaram, o estacionamento já estava lotado. Charlie
estacionou em uma rua ao lado, que esperava não ser um lugar proibido, e
caminharam em direção à escola por aquela calçada tão familiar. Jessica se
arrepiou.
— Que calafrio.
— É estranho estar aqui — disse Charlie. A escola parecia a mesma
pelo lado de fora, mas a cerca era nova, feita de arame e coberta por um
plástico preto polido. A cidade inteira era assim, uma mistura do velho e do
novo, do que era familiar e o que não era. As coisas que mudaram pareciam
deslocadas. As coisas que continuavam iguais faziam Charlie se sentir
deslocada. Deve ser estranho para o Carlton morar aqui, pensou. “É uma
viagem cheia de nostalgia para vocês, mas eu moro aqui,” ele havia dito.
De alguma forma, Charlie não estava certa se acreditava mesmo nisso.
Quando chegaram no campo de esportes atrás da escola, as
arquibancadas já estavam cheias. Fileiras de cadeiras dobráveis haviam
sido colocadas na frente delas para dispor mais lugares e Charlie localizou
Marla e os garotos na frente.
— Ah, que ótimo — disse. — Não quero sentar na primeira fileira.
— Eu não me importo — disse Jessica. Charlie olhou para ela.
É claro que não, quis dizer. Você... é você.
— É, — disse, no lugar do que pensara, — não é nada demais.
Metade da cidade deve estar aqui — observou, enquanto seguiam em
direção ao grupo, onde dois lugares estavam guardados. Havia um na
fileira da frente, ao lado de Carlton, e um logo atrás, ao lado de Marla.
Jessica piscou para Charlie e se sentou junto a Carlton. Inclinou-se em
direção a ele e os dois começaram a cochichar. Charlie repetiu o que havia
dito para Marla. — Tem bastante gente aqui — disse.
— Tem — disse Marla. — Quer dizer, é uma cidade pequena, né? O
Michael... é algo importante. Além do mais, os pais dele ainda moram aqui.
As pessoas se lembram.
— As pessoas se lembram — repetiu Charlie, a voz suave. Havia um
pequeno palco erguido diante deles, com um palanque e quatro cadeiras.
Atrás das cadeiras, havia uma tela suspensa com uma gigantesca projeção
de uma foto de Michael. Era um close-up, apenas seu rosto. Não era a mais
linda das fotos: sua cabeça estava jogada para trás em um ângulo esquisito,
sua boca aberta em uma gargalhada, mas era perfeita. Um momento de
alegria espontâneo que fora imortalizado, não orquestrado. Ele parecia
feliz.
— Droga — disse Marla, suavemente. Charlie olhou para ela. Estava
passando um lenço nos olhos. Charlie pôs um braço ao seu redor.
— Eu sei — disse.
O sistema de som ligou de repente, com um chiado que logo se
esvaiu. Quatro pessoas subiram no palco: um homem corpulento de terno,
que seguiu diretamente rumo ao microfone, uma mulher mais velha, e um
casal, um homem e uma mulher. O homem de terno subiu no palanque e a
mulher mais velha se sentou em uma das quatro cadeiras. O casal ficou
para trás, mas não se sentou. Charlie sabia que só podiam ser os pais de
Michael, mas não os reconheceu. Quando era criança, eles eram apenas
pais, uma espécie que no geral não possuía qualquer destaque. Notou, de
repente, que nem ao menos sabia quais eram seus nomes; os pais de
Michael não costumavam parar o que estavam fazendo para interagir com
os amigos de seu filho e Charlie literalmente falava com eles chamando-os
de “mãe do Michael” e “pai do Michael”, como se fosse a forma mais
adequada de se dirigir a eles.
O homem no palanque se apresentou como o diretor da escola. Disse
algumas coisas sobre perda, comunidade e a preciosidade passageira da
infância. Falou um pouco sobre a doçura de Michael, seus talentos atléticos
e a impressão que passava, mesmo quando criança, a todos que conhecia.
Era verdade, Charlie refletiu. Michael costumava ser uma criança
extraordinariamente carismática. Não era exatamente um líder, mas todos
queriam agradá-lo, fazê-lo sorrir e, de tal forma, costumavam fazer o que
sabiam que ele queria fazer sempre que podiam, só para deixá-lo feliz.
O diretor terminou e apresentou os pais de Michael: Joan e Donald
Brooks.
Eles subiram ao palanque, sem jeito, ambos olhando para cada um
dos rostos dentre a plateia, como se não soubessem como haviam ido parar
ali. Por fim, Joan deu um passo em frente.
— É estranho estar aqui em cima — foi a primeira coisa que disse, e
o que parecia ser um murmuro de consentimento se estendeu quietamente
pela plateia. — Somos tão gratos por todos terem vindo, especialmente
pelos que vieram de fora da cidade. — Ela olhava diretamente para a
primeira fileira, falando com Charlie e os outros. — Alguns dos amigos de
Michael vieram de toda parte e acredito que essa seja a prova de quem ele
era, mesmo dez anos depois, com suas vidas seguindo novos rumos,
seguindo em direção a uma nova fase... — Tão próxima ao palco, Charlie
podia ver que ela estava a ponto de chorar, as lágrimas se formando em
seus olhos, mas sua voz continuava firme. — Somos gratos por estarem
aqui. Queríamos dar a Michael um legado com essa bolsa, mas está claro
que ele já deixou um por si só.
Marla agarrou a mão de Charlie, que a apertou de volta.
— Quero dizer — continuou Joan, — algo sobre as famílias que não
estão aqui. Como todos sabemos, Michael não foi a única criança perdida
durante aqueles terríveis meses. — Ela leu outros quatro nomes, duas
meninas e dois meninos.
Charlie olhou para Marla. Todos sabiam que houveram outras
crianças, mas a morte de Michael afetara tanto suas vidas que nunca
haviam sequer conversado sobre as outras vítimas. Agora, Charlie sentia
uma pontada de culpa. Para alguém, aqueles pequenos meninos e meninas
haviam sido tão vitais quanto Michael. Para alguém, suas perdas foram
como o fim do mundo. Fechou os olhos por um instante. Não posso ficar
de luto por todo mundo, pensou. Ninguém pode.
Joan continuava falando:
— Suas famílias podem ter se mudado para outros lugares, mas esses
jovens meninos e meninas sempre terão um lugar em nossos corações.
Agora, gostaria de chamar para discursar um rapaz que era particularmente
próximo do meu filho. Carlton, por favor?
Todos olharam surpresos para Carlton, que se levantou e subiu em
direção ao palanque. Joan o abraçou com força e se manteve próxima, mais
para trás, enquanto ele tirava um pedaço de papel dobrado do bolso.
Pigarreou, limpando a garganta enquanto passava os olhos pelas cabeças na
plateia, e então voltou a dobrar o papel e o guardou no bolso outra vez.
— Não me lembro do Michael tão bem quanto deveria — disse,
enfim. — Muito daqueles anos é um borrão; sei que nos conhecemos
quando ainda usávamos fraldas, mas ainda bem que disso eu não me
lembro. — Uma leve risada se espalhou pela plateia. — Só sei que, mesmo
nas minhas memórias mais antigas, o Michael estava lá. Me lembro que
brincávamos de super-heróis, desenhávamos, e nisso ele era muito melhor
do que eu, e conforme fomos ficando mais velhos, lembro que... bem,
continuamos brincando de super-heróis e desenhando. Mas o que eu
realmente me lembro é que meus dias eram sempre mais empolgantes
quando ele estava lá. Ele era mais inteligente do que eu; era sempre ele que
tinha novas ideias, que encontrava novas formas de nos meter em encrenca.
Aliás, sinto muito por aquelas lâmpadas, senhora Brooks. Se tivesse pulado
da forma como o Michael havia me dito, eu provavelmente só teria
quebrado uma. — Donald riu, um som abafado e desesperado, e começou a
chorar em silêncio.
Charlie desviou o olhar, sentindo-se desconfortável, e largou a mão
de Marla com um meio sorriso apologético. A aflição nua e crua era demais
para que pudesse assistir. Era doloroso, uma ferida aberta, e ela não
conseguia olhar.
Carlton voltou e se sentou com os amigos. A avó de Michael
discursou, e então seu pai, que se lembrava o bastante para compartilhar a
memória de ter levado o filho para sua primeira aula de artes. Contou à
plateia sobre a bolsa, destinada aos graduandos que que demonstrassem
excelência e paixão pela arte, e anunciou a vencedora do primeiro ano,
Anne Park, uma delicada garota vietnamita que logo subiu ao palco para
receber sua placa comemorativa e abraços dos pais de Michael. Deve ser
estranho para Anne, pensou Charlie, sua honra sendo ofuscada pela
origem da mesma. Mas então lhe passou pela cabeça que Anne também
devia ter conhecido Michael, ainda que por alto.
Após a cerimônia, foram dar um oi aos pais de Michael, abraçando-
os e prestando-lhes suas condolências. O que se diz para alguém que
perdeu um filho? Será que algum dia fica mais fácil? Dez anos fazem
diferença ou será que eles acordam toda manhã com aquele mesmo
sofrimento que sentiram no dia em que ele morreu? Numa grande mesa de
refeitório ao lado do palco, fotos e cartas eram coletadas aos poucos —
pessoas traziam flores, bilhetes para os pais de Michael, ou mesmo para o
próprio. Coisas das quais se lembravam, coisas que desejavam terem dito.
Charlie se aproximou e deu uma olhada no que havia ali. Havia foto dela e
dos outros, assim como de Michael. Aquilo não a devia surpreender —
estavam sempre todos juntos, fosse num grupo inteiro ou em grupos
menores de dois e três. Ela se viu no meio de uma foto onde o grupo estava
todo sorridente; ela, Michael e John, todos cobertos de lama, com Jessica
ao lado, ainda perfeitamente limpa, recusando-se a se aproximar deles.
Charlie sorriu. Era assim mesmo. Em outra, uma Marla de cinco anos
lutava para aguentar o peso de seu irmãozinho recém-nascido, com Lamar
espiando suspeitosamente aquela coisinha por cima do ombro dela. Alguns
dos desenhos de Michael também estavam lá, rabiscos de lápis de cor
emoldurados de uma forma absurdamente profissional.
Charlie pegou um deles, um desenho do que deveria ser um
tiranossauro pisoteando uma cidade. Na verdade, e só agora ela percebia,
era quase incrível o quanto ele era talentoso. Enquanto ela e os outros
faziam bonequinhos de palito, os desenhos de Michael eram um tanto
quanto realísticos.
— Esse aí ficou muito bom — disse John, por cima de seu ombro.
Charlie se sobressaltou.
— Você me assustou — disse ela.
— Desculpa.
Charlie voltou a olhar para o desenho. O que quer que fosse, era
melhor do que ela poderia desenhar mesmo agora. De repente, sentiu um
aperto no peito, uma pontada de perda e raiva. Não era só o fato de que
Michael havia morrido jovem, era pelo que aquilo realmente significava:
tivera que parar no meio do caminho, anos, décadas de sua vida arrancados
de si, violentamente despedaçados. Sentiu seus olhos marejarem com uma
indignação infantil, como se fosse criança outra vez, apenas esperando para
queixar-se: Não é justo!
Respirando fundo, Charlie pôs o desenho de volta à mesa e virou as
costas. A reunião continuava acontecendo, mas ela precisava ir embora.
Encontrou os olhos de Marla que, assustadoramente intuitiva como sempre,
assentiu e puxou Lamar pela manga. Dos vários pontos onde se
encontravam, todos seguiram rumo ao estacionamento. Ninguém pareceu
notar sua partida, o que fazia sentido. Exceto por Carlton, eram todos
estranhos ali.
No estacionamento, todos pararam junto ao carro de Marla. Por
algum milagre, ela havia conseguido encontrar uma vaga bem perto da
escola.
— Posso jogar agora? — disse Jason, imediatamente, e Marla pegou
as chaves na bolsa e as entregou para ele.
— Não vá embora com o carro — advertiu, e ele deu uma risada. De
repente, Marla agarrou seu irmão e o puxou para perto, abraçando-o
consigo por um enorme momento.
— Calma, Marla, eu só vou no carro — murmurou quando ela o
soltou.
— É, talvez eu devesse deixar você ir embora — disse, dando-lhe um
pequeno empurrão. Pigarreou. — E aí, a gente vai na Freddy’s? —
perguntou. Todos se entreolharam.
— Sim, — disse Charlie, — acho que devíamos ir. — De alguma
forma, depois de tudo aquilo, voltar à Freddy’s parecia mais que um jogo.
Parecia o certo a se fazer. — Nos encontramos lá às dez — disse. — Ei,
Jessica, pode pegar carona com os garotos ou algo assim? Quero dar uma
volta.
— Pode vir conosco — disse Marla. — Prometi ao Jason que o
levaria ao cinema.
Charlie seguiu pela estrada sem esperar para ouvir o resto da
discussão. Já a metros do estacionamento, notou que estava sendo seguida.
Ela se virou.
— John?
— Se importa se eu for junto? Você vai para a sua velha casa, né?
— Como sabia disso?
— É a única coisa interessante seguindo por esse caminho. Enfim, eu
também fui ver a minha velha casa. Era azul e tinha um jardim no quintal.
Foi estranho. Sei que ela não era azul quando eu morava aqui, mas não
consigo me lembrar de qual cor era. Está tudo tão diferente.
Charlie não disse nada. Não sabia se queria que John viesse junto.
Sua casa, a casa de seu pai, era algo privado. Lembrou-se da primeira vez
que John viu os brinquedos, de sua fascinação, um interesse que era
exclusivamente dele, que nada tinha a ver com agradá-la. Ela cedeu.
— Tá, pode vir.
— Ela... — Ele hesitou. — Ela está diferente?
— Na verdade, não — disse Charlie. Não era bem verdade, mas ela
não sabia bem como explicar o que havia mudado.
Caminharam juntos ao longo dos quase cinco quilômetros, longe da
área urbana e seguindo por velhas estradas, primeiro pavimentadas e depois
de cascalho. Conforme foram se aproximando do lugar, deixaram as
estradas, subindo pelo íngreme aclive de uma colina tomada por arbustos e
árvores que deveriam ter sido podados ou arrancados anos atrás. Os
telhados das casas tocavam as folhas, espalhadas aqui e ali ao longo da
colina, mas ninguém morava nelas há muito tempo.
Finalmente chegaram ao acesso de veículos e John ficou
completamente imóvel, encarando a casa.
— Achava que era menos intimidadora — disse, suavemente.
Impaciente, Charlie o agarrou pelo braço e o puxou, dando a volta pelo
lado da casa. Uma coisa era ele ir até lá com ela, mas ainda não estava
pronta para deixar mais alguém entrar. Na verdade, não tinha certeza nem
de que ela mesma queria voltar a entrar lá. Ele a seguiu sem protestar,
como se estivesse ciente de que estavam no território dela e que ela
decidiria aonde iriam.
A propriedade era enorme, e ia além do gramado. Havia um bosque
que cercava a grande área do quintal e, quando criança, Charlie costumava
sentir que aquele era o seu pequeno reino e ela era a governante de tudo a
sua volta. A grama havia atingido um nível selvagem, ervas daninhas
cresciam selvagemente, alcançando seus joelhos. Avançaram pelo
perímetro. John espiou o bosque e Charlie se sentiu paralisada por seu
velho medo de infância, como algo tirado de um conto de fadas: Não entre
no bosque sozinha, Charlotte, seu pai a advertira. Não era algo sinistro,
apenas a prevenção de um pai, não se perca, como quando a dizia para não
atravessar a rua sem dar a mão a alguém ou para não se aproximar muito do
fogão quando estivesse com o fogo aceso, mas Charlie levara mais à sério.
Sabia graças aos livros infantis, assim como toda criança, que bosques
tinham lobos e outras coisas mais perigosas. Segurou John pela manga.
— Não — disse, e ele deu as costas para o bosque, sem perguntar por
quê. Ao invés disso, seguiu em direção à árvore no meio do quintal,
tocando-a com a mão.
— Lembra dessa árvore? — Abriu um sorriso, um tom travesso em
sua voz.
— É claro — disse Charlie, aproximando-se. — Ela já estava aqui
antes que eu. — Mas ele continuava a fitá-la, esperando por mais, e de
repente ela se lembrou.

Era um dia ensolarado de primavera; eles tinham uns seis anos,


talvez. John estava de visita e eles brincavam de pique-esconde, sob
supervisão parcial do pai de Charlie, que estava em sua oficina na garagem,
absorto em suas invenções. A porta estava aberta e ele notaria se alguém
gritasse, mas fora isso, o lado de fora era só deles. John contou até dez,
seus olhos cobertos, o rosto contra a árvore que seria o ponto de partida. O
quintal era amplo e aberto, não havia muitos lugares onde se esconder, e
por isso Charlie, tomada por todo o entusiasmo da brincadeira, ousou se
esconder além do limite proibido do bosque, entrando apenas um pouco na
área das primeiras árvores. John procurou primeiro nos outros lugares —
atrás do carro de seu pai, no canto onde uma parte da garagem se projetava
além da casa, no espaço embaixo do alpendre, onde uma criança poderia se
enfiar com algum esforço. Ele se deu conta de onde ela devia estar e
Charlie se segurou para não correr quando começou a se aproximar pela
beira do quintal, indo e voltando do bosque, olhando atrás das árvores.
Quando finalmente a encontrou, ela saiu correndo, cortando pelo gramado
em direção ao ponto de partida. Ele estava logo atrás, chocando-se contra
ela um segundo depois, rápido demais para parar. Ambos riam de forma
histérica, e então pararam no mesmo momento, ainda ofegantes, tentando
retomar o fôlego.
— Ei, Charlotte — dissera John, enfatizando o nome com aquele
mesmo tom provocante que sempre usava.
— Não me chame assim — disse Charlie, imediatamente.
— Você já viu adultos se beijando? — Ele pegou um graveto e
começou a pontear a casca da árvore, como se estivesse mais interessado
nisso do que na resposta. Charlie deu de ombros.
— Sim, acho que sim.
— Quer tentar? — Não a olhou nos olhos; seu rosto estava todo sujo,
como sempre, e seu cabelo desajeitado apontava para todas as direções, um
ramo preso numa mecha que caía sobre sua testa.
— Que nojo — disse Charlie, torcendo o nariz. Mas então, após um
instante, continuou: — Tá, vamos.
John largou o galho e se inclinou em sua direção com as mãos nas
costas. Charlie fechou os olhos, esperando, sem muita certeza do que
deveria fazer.
— Charlotte! — Era seu pai. Charlie deu um pulo. O rosto de John
estava tão perto que ela acabou batendo com a testa nele.
— Ai! — gritou o garoto, levando uma mão ao nariz.
O pai de Charlie veio pelo outro lado da árvore.
— O que estão aprontando? John? — Afastou os dedos de John de
seu nariz. — Não está sangrando, vai ficar tudo bem — disse. — Charlotte,
mais perto da casa, por favor. — Apontou com o dedo para onde deveriam
ir. — Aliás, John, parece que sua mãe já chegou — disse, caminhando na
frente deles, e seguiu em direção ao carro que havia acabado de estacionar
no acesso de veículos.
— Sim, tá bem. — John seguiu rumo ao acesso de veículos, virando-
se uma vez para acenar para Charlie. Sorria como se algo maravilhoso
houvesse acontecido, mas Charlie não tinha certeza do porquê.

— Céus — disse Charlie agora, e cobriu o rosto, com absoluta


certeza de que estava completamente corada. Quando voltou a olhar para
ele, John estava sorrindo, aquele mesmo sorriso satisfeito de quando tinha
apenas seis anos.
— Sabe, meu nariz ainda dói quando chove — disse, tocando-o com
um dedo.
— Dói nada — disse Charlie. Apoiou-se contra a árvore. — Não
acredito que você tentou me beijar. Tínhamos seis anos! — Charlie olhava
para ele acusatoriamente.
— Mesmos os mais jovens dos corações sabem o que querem —
disse John com uma voz romântica provocante, mas havia uma pontada de
verdade ali, algo que ele não escondia muito bem. Charlie notou, de
repente, que ele estava bem perto dela, e começou a respirar mais rápido.
— Vamos dar uma olhada na oficina do seu pai — disse John,
abruptamente, um pouco alto demais, e Charlie assentiu.
— Vamos. — Ela se arrependeu assim que disse isso. Não queria
abrir a porta da oficina. Fechou os olhos, ainda apoiada contra a árvore.
Ainda o via; era tudo o que podia ver quando pensava naquele lugar. O
esqueleto de metal deformado, retorcendo-se em seu canto escuro, com
seus espasmos violentos e temíveis olhos prateados. A imagem preencheu
sua mente até tomá-la por completo. A memória irradiava uma aflição
incisiva, mas não sabia a quem pertencia: à coisa, a seu pai, ou a si própria.
Charlie sentiu uma mão em seu ombro e abriu os olhos. Era John, franzindo
as sobrancelhas para ela, preocupado.
— Charlie, você está bem?
Não.
— Sim — disse. — Vem, vamos ver o que tem na oficina.
Não estava trancada e nem havia razão para estar, pensou Charlie. O
primeiro lugar para onde seus olhos se voltaram foi o canto escuro. A
criatura não estava lá. Havia um avental velho em seu lugar, o que seu pai
costumava usar para soldar, e seus óculos de proteção estavam logo ao
lado, mas não havia sinal da presença sinistra. Charlie devia ter sentido
alívio, mas não sentiu; apenas um vago desconforto. Olhou ao redor.
Parecia não haver mais quase nada na oficina: as bancadas continuavam lá,
onde seu pai reunia e ajustava suas invenções, mas os materiais, os projetos
e os robôs ainda não finalizados que certa vez se amontoavam sobre toda
superfície haviam desaparecido.
Onde estarão? Haveria sua tia os descartado em algum ferro velho
para enferrujarem e se desfazerem dentre outros objetos descartados e
inúteis? Ou teria seu próprio pai feito isso, para que ninguém mais tivesse
que fazer? O chão de concreto estava cheio de entulho espalhado aqui e ali:
quem quer que houvesse feito a limpa não havia terminado. Charlie se
ajoelhou e pegou um pedaço de madeira de formato curioso e então uma
placa de circuito eletrônico. Ela a virou. Você era o cérebro de
quem?, pensou consigo mesma, mas aquilo não importava de fato. A placa
estava surrada e desgastada, o cobre entalhado danificado demais para que
se pudesse consertar, ainda que alguém quisesse fazê-lo.
— Charlie — disse John, do outro lado da oficina. Estava no canto
escuro; se o esqueleto estivesse lá, poderia facilmente alcançá-lo com um
toque.
Mas não está.
— O quê?
— Veja só o que eu encontrei.
Charlie foi. John estava ao lado da caixa de ferramentas de seu pai e
se afastou para que ela pudesse se aproximar, dando-lhe espaço. Charlie se
ajoelhou diante dela. Parecia que acabara de ser polida. Era feita de
madeira, com uma tintura escura e um brilho envernizado. Ela a abriu
delicadamente. Charlie pegou uma sovela ao topo da caixa e a segurou por
um momento, o cabo arredondado de madeira encaixando-se na palma de
sua mão como se houvesse sido feito para que ela usasse. Não que ela
soubesse como. Na última vez que tocara naquilo, mal conseguia encaixar
os dedos ao redor da base.
Foi pegando as ferramentas uma atrás da outra, tirando-as de seus
lugares. A caixa de ferramentas tinha espaços de madeira esculpidos na
forma exata para que cada objeto fosse encaixado. Todas as ferramentas
estavam polidas e limpas, seus cabos de madeira lisos e o metal sem
qualquer marca de ferrugem. Parecia que as haviam usado ainda naquela
manhã e, após serem limpas, haviam sido meticulosamente guardadas.
Como se alguém ainda cuidasse delas. Ela as olhou com uma alegria
inexplicável e voraz, como se lhe houvessem devolvido algo pelo que tanto
havia lutado. Mas sentia que essa alegria era algo errado, inapropriado:
olhar para as coisas de seu pai a desestabilizava. Algo naquele mundo não
era como deveria ser. Carregada repentinamente por um medo sem
fundamento, jogou a sovela de volta em seu lugar na caixa, soltando-a
como se a estivesse queimando. Fechou a tampa, mas não se levantou.
Suas memórias a tomaram e ela fechou os olhos, sem combatê-las.
Seus pés estavam arqueados em meio à terra, e duas grandes mãos
calejadas cobriam seus olhos. De repente, uma forte luz surgiu e Charlie
tentou forçar a visão, contorcendo-se impacientemente para enxergar o que
havia diante de si. Três figuras completas e brilhantes pairavam em sua
frente, imóveis, o sol refletindo em cada borda e contorno: olhar para elas
chegava a ser ofuscante.
— O que acha? — Ela ouviu a pergunta, mas não sabia como
responder: seus olhos ainda não haviam se ajustado. As três massas de
metal paradas adiante pareciam todas similares em estrutura, mas Charlie
se acostumara a sempre ver mais do que havia lá, a imaginar o resultado
final. Já há algum tempo, havia três trajes vazios pendurados como
carcaças em uma viga no sótão. Charlie sabia que tinham um propósito
especial e agora entendia qual era.
Duas grandes barras se projetavam ao topo da cabeça de uma das
volumosas massas. A cabeça em si era sólida e parecia um crânio — as
barras pareciam ter sido violentamente impelidas contra ela.
— Esse é o coelho — exclamou Charlie, orgulhosa de si mesma.
— Não está com medo dele? — perguntou a voz.
— É claro que não. Parece o Theodore!
— Theodore. Isso mesmo.
A figura do meio tinha uma forma mais evidente — seu rosto tinha
traços mais bem definidos, suas feições distintas. Era claramente um urso,
com uma única barra de metal também projetada ao topo de sua cabeça.
Charlie ficou intrigada por um momento, mas então sorriu:
— É para a cartola dele — disse, confiante.
O último era talvez o mais aterrorizante: uma grande pinça de metal
se projetava de seu rosto vazio, no lugar onde deveria ser sua boca.
Segurava alguma coisa em uma bandeja, uma estrutura metálica que
parecia um maxilar, fios que pareciam espaguete espalhados para cima e
para baixo ao redor do molde, com plugues por onde eles entravam e
saiam.
— Esse é assustador — admitiu, hesitante.
— Bom, essa parte vai parecer um cupcake! — Seu pai pressionou a
parte de cima do maxilar, que se fechou, fazendo Charlie dar um pulinho
seguido de uma risada.
De repente, sua risada cessou. Estivera tão distraída que havia se
esquecido. Não posso ficar aqui, eu nunca fico aqui! Suas mãos tremiam.
Como podia ter se esquecido? O canto. Olhou para o chão, incapaz de
erguer o olhar, incapaz de se mexer. Um de seus sapatos estava
desamarrado. Havia um parafuso ao lado de seu pé e um velho pedaço de
fita, opaco com a poeira. Havia algo atrás dela.
— Charlie?
Era John.
— Charlie!
Ela olhou para ele.
— Desculpa. Fiquei perdida. Esse lugar... — Levantou-se e deu um
passo em frente, posicionando-se no lugar que havia lembrado. Olhou para
trás, como se a memória pudesse se manifestar. O canto estava vazio; não
havia nada lá. Ajoelhou-se novamente e pôs a mão no chão, procurando
alguma coisa até que encontrou um parafuso em meio à poeira. Ela o tocou
e então olhou mais de perto: havia pequenos buracos no chão, que se
tornaram expostos quando afastou a poeira. Charlie passou os dedos por
eles, pensativa.
— Charlie, tenho que te contar uma coisa. — Havia certa urgência na
voz de John. Charlie deu mais uma olhada na oficina e se levantou.
— Podemos ir lá fora? — disse. — Não consigo respirar aqui.
— Sim, claro — respondeu. Ele a seguiu até o quintal e os dois
foram para a árvore de pique-esconde. Ela estava cansada, uma exaustão
que lhe esgotava por dentro. Ficaria bem num instante, mas queria um
lugar que guardasse apenas memórias bobinhas de sua infância. Sentou-se
na grama, se apoiou no tronco e esperou que John começasse a falar. Ele se
posicionou de pernas cruzadas diante dela e, um pouco rígido, passou a
mão pelas calças. Ela riu.
— Você tá preocupado se vai se sujar?
— Os tempos mudam — disse, com um sorriso torto.
— O que você tem que me contar? — perguntou ela, e o rosto dele
ficou sério.
— Eu devia ter dito alguma coisa há muito tempo — disse. — É
que... quando algo assim acontece, você não confia na sua memória, não
confia na sua própria mente.
— Do que você tá falando? — disse Charlie.
— Desculpa. — Ele respirou fundo. — Eu vi alguém naquela noite,
na noite em que o Michael desapareceu.
— O que quer dizer com isso?
— Lembra de quando estávamos sentados na mesa junto ao palco, e
começou a dar a louca nos animais?
— Lembro — disse Charlie. Havia sido bizarro, seus movimentos
desconcertantes. Estavam se mexendo rápido demais, girando e se
contorcendo, realizando ciclicamente, sem cessar, todos os seus
movimentos limitados e programados. Pareciam frenéticos, aterrorizados.
Charlie estava mesmerizada. Devia estar com medo deles, mas não estava;
ela viu, em seus movimentos vibrantes, um tipo de desespero. Havia se
lembrado, por um momento, de sonhos de fuga, sonhos onde o mundo
dependia que ela desse dez passos em frente, mas seu corpo só podia se
mexer em câmera lenta. Algo estava errado, terrivelmente errado.
Caoticamente, violentamente, os animais animatrônicos no palco atiravam
membros robóticos para todas as direções, seus olhos girando dentro de
suas cavidades.
— O que você viu? — Charlie disse para John agora, balançando a
cabeça como se isso pudesse livrar-lhe da imagem.
— Havia outra mascote — disse. — Um urso.
— O Freddy. — Charlie o interrompeu sem pensar.
— Não, não era o Freddy. — John a segurou pelas mãos, tentando
acalmar a ambos antes de voltar a falar. — Estava parado ao nosso lado,
perto da nossa mesa, mas não estava olhando para o palco como todos os
outros. O técnico apareceu, lembra, e mesmo ele ficou apenas olhando para
os animatrônicos, acho que tentando entender o que estava acontecendo. Eu
olhei para a mascote e ela olhou de volta para mim... — Ele parou.
— John, e aí? — disse Charlie, impaciente.
— Aí os animatrônicos no palco pararam de se mexer, eu dei uma
olhada neles, e quando todos nos viramos novamente, o Michael havia
sumido. E a mascote também.
Charlie olhou para ele, sem conseguir acreditar.
— Você viu o sequestrador — disse.
— Não sei o que eu vi — disse John. — Era um caos só; nem pensei
direito nisso, não fiz a conexão. Era só outro animal na Freddy’s, nem
pensei quem poderia estar dentro dele. Eu era... era só uma criança, sabe?
A gente sempre acha que os adultos já sabem de tudo que a gente sabe.
— Sim — disse Charlie. — Sei como é. Mas você lembra de alguma
coisa? Como era a pessoa? — John olhava para o céu, como se visse algo
que Charlie não podia ver.
— Sim — disse. Sua voz estava firme, ponderada. — Os olhos. Foi
tudo o que consegui ver, mas ainda os vejo às vezes, como se estivessem
bem na minha frente. Estavam mortos.
— O quê?
— Estavam mortos, com um olhar ofuscado e opaco. Era como se
ainda se mexessem, piscassem, vissem, mas o que quer que houvesse atrás
deles já havia morrido há muito tempo. — Ele se calou.
Estava ficando escuro. Havia uma linha cor de rosa brilhante, quase
sobrenatural, cruzando o céu seguindo a oeste, e Charlie tremeu.
— É melhor pegarmos o carro — disse. — Já está quase na hora de
encontrar com o pessoal.
— Sim — disse John, mas continuou olhando para o longe, sem se
mexer imediatamente.
— John? Temos que ir — disse Charlie. Ele pareceu voltar a si
lentamente.
— Sim — disse. — É melhor irmos. — Ele se levantou, passou a
mão pelas calças e sorriu para Charlie.
— Corrida? — disse, e então saiu correndo. Charlie correu atrás dele,
seus pés batendo contra o asfalto e seus braços balançando livremente.

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[1] A Ivy League (em tradução literal: Liga de Hera) é um grupo de oito universidades

privadas do nordeste dos Estados Unidos. Originalmente, a denominação designava


uma liga desportiva formada por essas universidades, algumas das mais antigas do país.
O grupo, também conhecido como as oito antigas, é constituído pelas instituições de
maior prestígio científico nos Estados Unidos e no mundo e, assim, atualmente a
denominação tem conotação sobretudo de excelência académica, também associada a
um certo elitismo.
[2] A carona solidária consiste em viajar junto a um determinado número de pessoas

em um único carro particular para o local de trabalho ou estudo. É uma medida de


gestão da demanda de tráfego altamente incentivada nos Estados Unidos, no Canadá e
em vários países da União Europeia para aliviar problemas de congestionamento.
Nesses países, por exemplo, se reservam faixas exclusivas para que esses veículos
possam ultrapassar os que ficam quase parados no congestionamento das outras pistas.
CAPÍTULO QUATRO

Charlie e John foram os últimos a chegar no shopping; quando


estacionaram, os outros estavam reunidos em um círculo fechado em frente
ao carro de Marla, como se conspirassem alguma coisa.
— Venham — disse Marla, antes que pudessem alcançar o grupo.
Ela pulava sobre as pontas dos pés como se estivesse pronta para correr
rumo a porta do prédio abandonado. Todos, com exceção de Charlie e
John, haviam trocado de roupa, vestindo jeans e camisetas, trajes mais
adequados para exploração e, por um instante, ela se sentiu deslocada. Pelo
menos não estou de vestido, pensou Charlie.
— Vamos lá — disse ela. A impaciência de Marla parecia ser
contagiosa, ou talvez apenas desse a Charlie uma desculpa para deixar os
seus verdadeiros sentimentos emergirem. Ela queria mostrar a Freddy’s aos
outros.
— Calma — disse John. Olhou para Jessica. — Você explicou tudo?
— Contei para eles sobre o guarda noturno — disse ela. — Tem mais
alguma coisa?
Ele pareceu pensativo por um momento.
— Acho que não — disse.
— Eu trouxe mais lanternas — disse Carlton, carregando três
lanternas de tamanhos diferentes. Jogou uma para Jason, uma menor, presa
a uma tiara elástica. Jason a ligou e posicionou ao redor de sua cabeça, e
começou a andar todo entusiasmado de um lado para o outro, fazendo a luz
sacudir e dançar.
— Shh — disse Charlie, apesar de ele não ter feito som algum.
— Jason, — sussurrou Marla, — desliga isso, não podemos chamar
atenção, lembra?
Jason as ignorou alegremente, girando pelo estacionamento como um
pião.
— Eu tinha dito a ele que, se não se comportasse, teria que esperar
no carro — Marla disse a Charlie, mantendo a voz baixa. — Mas agora que
estamos aqui, não sei onde é mais assustador. — Lançou um olhar para os
galhos desnudos que balançavam com o vento sobre suas cabeças,
ameaçando se lançar contra eles e agarrá-los.
— Ou podemos dar ele para o Foxy comer. — Charlie deu uma
piscadela. Foi até o porta-malas e pegou a lanterna tática, mas não a
acendeu. Ao invés disso, Carlton ligou duas de suas lanternas menores e
deu uma para Jessica.
Entraram no shopping. Sabendo para onde ir e o que os aguardava lá,
Charlie, John, Jessica e Carlton avançavam pelos espaços vazios com um
senso de propósito, mas os outros iam parando para olhar os arredores.
— Vamos — dizia Jessica, impaciente, enquanto Lamar olhava para
o domo do saguão.
— Dá para ver a lua — disse, apontando. Ao seu lado, Marla
assentiu, imitando sua postura.
— É linda — disse ela, apesar de não conseguir enxergá-la.
Ao longe, ouviram passos ecoarem pelo vazio.
— Ei, ei, por aqui! — assobiou John, e eles se apressaram em sua
direção o mais silenciosamente possível; não podiam correr, com medo de
fazer barulho, então foram andando, rápida mas cuidadosamente, agarrados
às paredes. Entraram no vazio negro da loja de departamentos, rastejando
pelas sombras até alcançarem o buraco na parede. John ergueu o plástico
pendurado que obscurecia a abertura enquanto os outros manobravam ao
redor do andaime. Jason era lento e Charlie pôs a mão em seu ombro para
apressá-lo. Enquanto ela o dirigia para a abertura, um forte raio de luz
tomou a sala, vasculhando as paredes de cima a baixo. Eles mergulharam
para o outro lado e correram pelo beco para onde os outros estavam
encolhidos contra a parede.
— Ele nos viu! — sussurrou Jason, alarmado, correndo diretamente
para sua irmã.
— Shh — disse Marla.
Ficaram esperando. Charlie estava ao lado de John dessa vez, e
depois daquele momento na árvore, seja lá o que tenha sido, estava se
sentindo muito, quase desconfortavelmente, sensível a ele. Não estavam
exatamente tocando um no outro, mas ela parecia saber exatamente onde
ele estava, uma espécie de sexto sentido esquisito. Olhou para ele, mas seus
olhos estavam fixos na abertura do corredor. Conseguiam agora ouvir os
passos do guarda, claros no espaço vazio, todos muito distintos. Estava
deliberadamente andando a passos lentos. Charlie fechou os olhos, atenta.
Podia dizer onde ele estava através do som, pensou, se aproximando,
depois se afastando, circulando a sala aberta como se caçasse alguma coisa.
Os passos chegaram ao lado da entrada do corredor e então pararam,
enquanto todos seguravam o fôlego.
Ele sabe, Charlie pensou. Mas os passos começaram novamente e ela
abriu os olhos para se deparar com a luz recuando. Ele estava indo embora.
Continuaram esperando, ainda imóveis, até não ouvirem mais o bater
de seus sapatos de sola dura, e então se levantaram. Ela e John acabaram se
esbarrando de leve enquanto se levantavam e ela se deu conta de que
estavam se apoiando um contra o outro sem nem perceberem. Não olhou
para ele; ao invés disso, começou a tirar as coisas mais pesadas da estante
de madeira.
— Vou precisar disso? — disse Lamar, enquanto Charlie lhe
entregava um balde com uma serra que se erguia pela abertura.
— Temos que empurrar a estante — disse Jessica. — Vamos.
Jessica, Charlie, Carlton e John se reposicionaram novamente e
empurraram a estante. Lamar tentou encontrar um lugar para ajudar, mas
não havia espaço. Marla apenas esperou.
— Sou melhor como supervisora — disse, quando Charlie olhou
para ela com um ar de deboche.
Dessa vez, o chiado da porta de metal não foi tão alto, como se ela
não mais protestasse contra a entrada deles com tanto vigor. Ainda assim,
Marla e Jason cobriram os ouvidos.
— Acham que isso não vai chamar a atenção do guarda? — vaiou
Marla. Charlie deu de ombros.
— Não chamou da última vez.
— Tenho certeza que ele viu a gente — disse Jason novamente. Os
outros o ignoraram. — A lanterna dele passou por cima de mim — insistiu.
— Tá tudo bem, Jason — disse Jessica. — Também achamos que ele
tinha nos visto ontem, mas deu tudo certo. — Jason parecia cético, mas
Lamar se abaixou na altura de seus olhos.
— Ei, Jason — disse. — O que você acha que o guarda faria se nos
visse?
— Atiraria na gente? — choramingou Jason, olhando para Lamar
cautelosamente.
— Pior — disse Lamar, com a voz mais grave. — Serviço
comunitário.
Jason não sabia bem o que isso queria dizer, mas ficou de olhos
esbugalhados, como se fosse algo terrível.
— Quer largar do pé dele? — sussurrou Marla, claramente entretida.
— Ele não viu a gente — disse Jason, tentando acalmar a si mesmo,
apesar de claramente não ter se convencido disso. Charlie ligou a lanterna
grande e iluminou o corredor.
— Caramba! — disse Marla, ofegante, quando o primeiro feixe de
luz cruzou o interior da pizzaria. De repente era real, e seu rosto corou
dentre assombro e medo.
Eles entraram, um por um. A temperatura pareceu cair assim que
puseram o pé no salão, e Charlie sentiu um calafrio, apesar de não se sentir
desconfortável. Agora ela sabia onde eles estavam e sabia o que
encontrariam. Quando chegaram à sala de jantar, Carlton abriu os braços
largamente e girou.
— Sejam bem-vindos... à Freddy Fazbear’s Pizza! — disse com uma
voz retumbante de apresentador. Jessica deu uma risadinha, mas o
melodrama não parecia tão deslocado assim. Marla e Lamar vagavam pela
sala, boquiabertos. Ela posicionou a lanterna grande no chão, com a luz
voltada para cima, e a mesma iluminou a sala principal sob uma luz turva e
fantasmagórica.
— Legal — disse Jason. Seus olhos brilharam quando viu o
carrossel, e correu em sua direção, pulando nas costas de um pônei antes
que alguém pudesse detê-lo. Ele era grande demais para o brinquedo, seus
tênis alcançando o chão abaixo. Charlie sorriu. — Como faz pra ligar? —
gritou o garoto.
— Foi mal, amigão — disse John, e Jason desceu, desapontado.
— Ei, o fliperama ainda está aqui! — disse Carlton, gesticulando
para quem quisesse segui-lo, e Marla foi com ele, enquanto Jason
esperançosamente mexia no painel de controle do carrossel. Lamar havia
seguido rumo ao palco, e olhava atônito para os animais ali parados.
Charlie foi até ele.
— Não acredito que eles continuam aqui — disse, quando ela se
aproximou.
— Pois é — disse ela.
— Tinha me esquecido que esse lugar era de verdade. — Lamar
sorriu, lembrando Charlie pela primeira vez do garotinho que conhecera um
dia.
Charlie devolveu o sorriso. Havia algo surreal naquele lugar; ela
certamente jamais contaria a nenhum de seus amigos da escola sobre ele.
Não saberia nem por onde começar. Pior, não saberia onde parar. Jessica
colocou a cabeça para fora da cortina retraída do lado do palco principal, e
os dois se assustaram.
— O que está fazendo? — disse Lamar.
— Explorando! — disse ela. — Mas não tem nada aqui atrás além de
um bando de fios. — Voltou a desaparecer por entre as camadas de tecido.
Depois de um momento, ouviram um baque quando ela pulou de volta no
chão e saiu andando.
— Eles funcionam? — disse Lamar, apontando para os animais.
— Não sei — disse Charlie. Na verdade, ela não fazia ideia de como
eles funcionavam. Eles sempre simplesmente estavam lá, ajustados para
alternar entre a vida e a não vida através de qualquer tipo de alquimia que
seu pai fazia em sua oficina. — Não parece estar faltando nada — sugeriu.
— Devem funcionar — acrescentou, relutante, apesar de questionar a ideia
de tentar ligá-los em sua cabeça.
— Ei! — exclamou Jessica. Estava ajoelhada na escadaria do palco.
— Galera, venham aqui, agora!
— O que foi? — disse Charlie.
— Olha — disse Jessica, apontando sua pequena luz. Apesar de bem
escondida dentre as fendas da madeira, havia uma porta em meio à parede
do palco.
— Como é que não vimos isso? — disse Charlie.
— Não estávamos procurando — disse John, olhando atentamente
para a pequena porta. Todo o grupo havia se reunido, e agora Jessica
olhava para eles com um grande sorriso no rosto, enquanto colocava a mão
na pequena maçaneta e puxava.
Magicamente, ela se abriu. A porta dava em uma pequena sala
subterrânea. Jessica a iluminou com sua lanterna — estava cheia de
equipamentos. Uma das paredes estava coberta de telas de TV.
— Deve ser o circuito interno de televisão — disse Lamar.
— Vamos. — Jessica entregou sua lanterna para Charlie, e balançou
as pernas porta adentro. Havia um grande degrau que levava até a sala lá
embaixo, não muito maior que um grande refrigerador caído de lado.
— É um pouco apertado demais para mim. Vou continuar dando uma
olhada por aqui — John bateu continência, e então virou as costas como se
estivesse montando guarda.
— Parece um carro de palhaço — observou Marla, tropeçando contra
Charlie. O espaço era apertado demais para todos eles, mas foram se
apertando lá dentro. Jason se sentou no degrau, sentindo-se mais
confortável junto à saída. Havia oito telas de televisão dispostas ao longo
da parede, cada uma com o seu próprio pequeno painel de botões e
alavancas e, estendido sob elas, havia um painel, quase uma mesa, coberta
de botões. Eram grandes e pretos, sem rótulos, e espaçados em intervalos
irregulares. A outra parede estava vazia, exceto por um único interruptor ao
lado da porta.
— O que isso faz? — disse Jason, posicionando a mão sobre o
interruptor. Hesitou, apenas o suficiente para que alguém tentasse detê-lo, e
então o apertou.
As luzes se acenderam.
— O quê? — Carlton olhou para os outros, frenético.
Todos se encararam silenciosamente, confusos. Jason subiu e
colocou a cabeça para fora, olhando para o salão principal.
— As luzes também acenderam aqui fora. Ou pelo menos algumas
delas — disse, um pouco alto demais.
— Por que tem energia aqui? — sussurrou Jessica, puxando Jason
para fechar a porta outra vez.
— Como é possível? — disse Charlie. — Esse lugar não é aberto há
dez anos.
— Legal. — Marla se inclinou, estudando os monitores como se
esperasse que algum tipo de resposta se revelasse.
— Liga as TVs — disse Jason, de repente. — Eu não alcanço.
Jessica ligou a primeira TV, e uma onda de estática tomou a tela,
crepitando.
— Nada? — disse Charlie, impaciente.
— Espera um pouco. — Ela girou um dial, virando-o de um lado
para o outro até que uma imagem surgiu: era do palco, centrada em Bonnie.
Os outros animais não estavam visíveis. Jessica ligou o resto das TVs,
ajustando-as até que as imagens ficassem claras, apesar de a maioria
continuar porcamente iluminada.
— Ainda funcionam — disse Charlie, quase sem fôlego.
— Talvez — disse Jessica. — Ei, vai alguém lá fora para vermos se a
gravação é ao vivo.
— Certo — disse Marla, após uma breve hesitação, ziguezagueando
pela saída e passando atabalhoadamente por cima de Jason. Um momento
depois, apareceu na câmera, no palco, ao lado de Bonnie. Marla acenou.
Ela apareceu multicolorida, com as luzes do palco a banhando de vários
ângulos diferentes, em tons de roxo, verde e amarelo.
— Conseguem me ver? — disse ela.
— Sim — gritou Carlton. Lamar olhava para os botões.
— O que esses fazem? — disse, dentre um sorriso malicioso, e
apertou um.
Marla gritou.
— Marla, você tá bem? — berrou Charlie. — O que houve? —
Marla estava paralisada no palco, mas havia se afastado de Bonnie e o
encarava como se ele pudesse mordê-la.
— Ele se mexeu — gritou Marla. — Bonnie se mexeu, o que vocês
fizeram?
— Marla! — exclamou Jessica. — Tá tudo bem! Só apertamos um
botão! — Lamar apertou o botão novamente, e dessa vez todos olharam
para a tela. Bonnie claramente se voltou rigidamente para o lado. Ele o
apertou outra vez, e o coelho se virou para encarar a audiência ausente.
— Tenta outro — disse Carlton.
— Vai — disse Lamar, subindo para sair da pequena sala e se juntar
a Marla no palco. Ele se agachou para inspecionar os pés de Bonnie. —
Estão presos a um painel de rotação — explicou.
— Ah, é? — respondeu Jessica, sem prestar atenção.
Carlton começou a apertar botões, enquanto os demais observavam
as câmeras. Após um momento, Charlie também deixou a sala.
— Tá muito apertado aqui — disse. O perfume de Jessica e o gel de
cabelo de Carlton, ambos com um cheiro bastante decente em espaços
abertos, começavam a formar um odor enjoativo.
Saiu rumo à área aberta, para observá-los testando os animais no
palco. A maior parte da sala de jantar continuava no escuro. Havia três
refletores coloridos suspensos no teto, apontando feixes de roxo, amarelo e
verde para o palco. Os animais agora estavam cobertos de cores artificiais,
e a poeira dentre os feixes de luz brilhava como pequenas estrelas, tantas
que era difícil enxergar além delas. O chão sob a grande mesa estava
coberto de brilho que caíra dos chapéus de festa e, conforme olhava ao
redor, ela notou novamente os desenhos alinhados nas paredes do local,
todos na altura dos olhos das crianças.
Eles sempre estiveram ali, e Charlie agora se perguntava onde seu
pai conseguira os primeiros, quando o restaurante abriu. Teria ele usado os
rabiscos dos próprios filhos, ou desenhado ele mesmo e depois colado na
parede, uma fraude para encorajar crianças de verdade a exibirem suas
artes? O pensamento de seu pai encurvado sobre sua bancada de trabalho,
pegando um giz de cera quebradiço com mãos acostumadas a manipular
microchips lhe deu vontade de rir. Ela notou a lanterna ainda no centro da
sala e foi apagá-la. Não gaste bateria à toa, disse em sua cabeça, em coro
com a tia Jen.
Voltou sua atenção para o palco. Parecia que estavam fazendo com
que Chica e Bonnie realizassem uma série de movimentos, mas todos
pequenos e específicos; cada um deles podia girar todo o corpo para frente
e para trás, e suas mãos, pés e cabeças podiam ser movidas para várias
direções, mas os movimentos em si pareciam desconexos.
Charlie voltou para a sala de controle e enfiou a cabeça lá dentro.
— Consegue fazê-los dançar? — perguntou.
— Não sei como faz — disse Carlton, afastando-se dos monitores.
— Isso tudo devia ser usado para programar as danças. Não acho que
alguém ficava aqui controlando tudo manualmente durante os espetáculos.
— Ele balançou a cabeça com certeza. — Seria impossível.
— Hm — respondeu Charlie.
— Pessoal, fiquem quietos — gritou Marla, e todos ficaram em
silêncio. Por um grande momento, não houve nenhum som, até que Lamar
disse:
— Que foi?
Marla franziu o cenho, inclinando a cabeça para o lado, como se
tentasse escutar alguma coisa.
— Pensei ter ouvido alguma coisa — disse, por fim. — Parecia... o
toque de uma caixa de música? — Sua boca mal se movia enquanto falava.
— Agora parou.
— Por que o Freddy não tá se mexendo? — disse Charlie.
— Não sei — disse Carlton. — Não consigo encontrar os controles
dele.
— Hm — disse Jessica, batendo de leve nos monitores. — Essas
câmeras não mostram o lugar inteiro.
Charlie os observou, mas estavam todos misturados, fora de uma
ordem lógica. Não conseguia idealizar uma imagem de todo o restaurante.
— Tem três câmeras no palco, uma virada para cada animal, mas
devia haver uma que pegasse tudo — dizia Jessica. — Tem a entrada da
cozinha, mas não a cozinha em si, e não dá para ver o corredor e nem o
salão com o palco menor aonde fomos ontem.
— Será que as câmeras ficam só no salão principal? — disse Carlton.
— Não — disse Jessica. — Tem câmeras por toda parte aqui.
— Então? — disse Carlton.
— Então, deve haver outra sala de controle! — disse Jessica,
triunfante. — Talvez depois do corredor, perto do outro palco.
Charlie voltou para o salão principal outra vez. Sentia-se inquieta,
menos animada com as descobertas que os demais, apesar de não saber
bem o porquê. Observou o palco. Carlton brincava com os botões, Bonnie e
Chica sacudindo em movimentos pequenos e desconexos, enquanto Freddy
permanecia imóvel, seus olhos parcialmente fechados e sua boca frouxa,
levemente aberta.
— Ei — disse Lamar, de repente. — Marla. A música. Estou
ouvindo agora. — Todos ficaram em silêncio novamente, e então Marla
inclinou a cabeça.
— Bizarro — disse, mais animada dessa vez, esfregando as mãos
uma na outra, como se estivessem compartilhando histórias de
acampamento. Lamar olhou para Freddy, pensativo.
— Vamos procurar a outra sala de controle — disse Jessica, com um
olhar determinado no rosto.
— Beleza! — Marla saltou do palco para se juntar a eles, e todos
começaram a examinar o resto do palco, procurando uma segunda porta.
— Vou ficar por aqui — disse Jason, da primeira sala. — Isso é
demais! — Chica girava rapidamente para frente e para trás no palco
conforme ele apertava os botões repetidas vezes.
Lamar se juntou a Jason.
— Tá, minha vez — disse, inclinando-se na porta. Ele entrou, sem
esperar uma resposta de Jason.
Charlie ficou onde estava, ainda olhando para Freddy, congelado no
meio de sua apresentação. John se aproximou, e ela sentiu uma pontada de
irritação: não queria ser coagida a se juntar à busca. Ele ficou ali parado por
um momento, olhando para Freddy, e então se aproximou dela para
sussurrar:
— Vou contar até 100. É melhor se esconder.
Despertando surpresa de seus pensamentos, ela o fitou por um
momento, sua irritação quebrada. Ele piscou para ela e então cobriu os
olhos, começando uma contagem silenciosa. Era absurdo, era infantil e,
naquele momento, era a única coisa que ela queria fazer. Levemente
eufórica, Charlie saiu correndo, procurando um lugar para se esconder.
Jason apertou novamente uma série de botões, sua frustação
aumentando.
— Agora estou entediado — anunciou.
— Como pode estar entediado? — disse Lamar, os olhos
esbugalhados.
— Eles não estão mais funcionando. — Jason continuava a apertar os
botões, sem mais olhar para os monitores.
Lamar estudou o monitor. A cabeça de Bonnie estava erguida e
virada para o lado, seus olhos parecendo observar a câmera.
— Bem, vá procurar a sua irmã — disse à Jason.
— Não preciso da permissão dela para ficar entediado! —
Impaciente, Jason subiu e deixou a sala de controle.
— Todo mundo é tão sensível — murmurou Lamar, notando de
súbito que estava sozinho na sala de controle. Ele subiu, mas Jason já não
estava mais lá.
Jessica liderava a equipe de exploração, seguindo em direção ao
palco pequeno que haviam descoberto na noite anterior. Marla olhou para
trás e viu Jason pulando para alcançá-los pouco antes de desaparecerem no
grande salão.
— Ei, toma cuidado! — gritou por cima do ombro quando Jason se
desviou para outra direção.
Lamar alcançou o grupo e os seguiu em direção ao salão. A sala de
jantar principal agora estava vazia, mas Jason conseguia ouvir os gritos
alegres de Charlie e John ecoando dos salões de festas que se estendiam
pelo prédio principal.
Sozinho, Jason seguiu diretamente para o fliperama. A iluminação ali
era mais turva que no resto do lugar e, sem energia, as máquinas de
fliperama pareciam enormes monumentos negros em um cemitério
esquecido; o ar era rançoso e fino. Parecia o tipo de lugar onde você
poderia se perder em um jogo, jogando “só mais uma vez”, até voltar ao
mundo real e descobrir que horas se passaram, tombando em meio à luz do
sol, piscando, desorientado, mas agora estava vazio, sem qualquer outro
som lá fora. Jason se aproximou da máquina mais próxima e apertou os
botões, alguns presos devido ao tempo, mas nada aconteceu.
Liga na tomada, duh. Abaixou-se atrás das máquinas para verificar,
mas embora os montes de cabos parecessem enrolados de um jeito
impossível, pareciam estar ligados. Será que tem um interruptor pra sala
inteira? Começou a procurar junto às paredes.
Não havia um interruptor óbvio, mas conforme Jason observava as
paredes, se distraiu com os desenhos infantis grudados juntos por toda ela.
Jason era muito novo para ter quaisquer memórias próprias sobre estar na
Freddy’s: até mesmo Hurricane não passava de uma série de impressões
nebulosas. Mas algo nos desenhos lhe causou uma certa nostalgia. Eram
todos iguais, de verdade, o mesmo tipo de desenho que ele e toda criança
costumavam fazer — figuras com corpos circulares e traços no lugar dos
braços, dentre um tumulto de cores. Apenas alguns detalhes mostravam
quais figuras eram os animais: Chica com seu bico e Bonnie com suas
orelhas. Os desenhos de Freddy Fazbear pareciam ter recebido um pouco
mais de atenção; eram um pouco melhores, as crianças haviam tomado um
pouco mais de cuidado para fazer os detalhes certos. Jason se pegou
olhando para um desenho em particular. Era igual aos outros, talvez um
pouco melhor: Bonnie, o coelho, abraçando uma criança. Não havia nome
assinado embaixo. Jason tirou o desenho da parede, sem entender ao certo
por que aquele em particular o havia interessado tanto.
John colocou a cabeça para dentro da sala, com um enorme sorriso
estampado no rosto e a respiração ofegante, mas quando viu que era apenas
Jason lá dentro, logo retomou sua atitude estoica.
— E aí?
Ele assentiu com a cabeça, disfarçando, e então se afastou
casualmente antes de voltar a correr silenciosamente. Brincando de pique-
esconde que nem criancinhas, pensou Jason, espero que eu nunca me
apaixone.
Voltou a observar o desenho e apertou os olhos, como se não
estivesse vendo corretamente.
A criança agora estava de costas para Bonnie. Jason ficou olhando
por um longo momento. Ele não estava abraçando o Bonnie? Voltou
o olhar para o salão principal, mas Marla estava fora de vista, procurando
pela sala de controle. Jason dobrou o desenho cuidadosamente e o guardou
em seu bolso. De repente, tornou-se aparente como tudo ficara quieto do
lado de fora. Jason saiu timidamente e espiou a sala de jantar.
— Pessoal? — sussurrou, olhando para trás uma vez, antes de se
aventurar atrás do grupo.

Jessica, Lamar, Carlton e Marla continuavam se arrastando


lentamente pela outra metade do prédio. Os refletores da sala de jantar não
chegavam tão longe, apenas acentuando beiras e cantos, ou partículas de
brilho. Jessica examinou a parede com sua lanterna, procurando por frestas
no gesso, e propôs que Marla fizesse o mesmo.
— Temos que procurar uma porta escondida — disse.
— A última não estava exatamente escondida — apontou Carlton.
— É — concordou Jessica, mas continuou apontando a lanterna para
a parede, claramente sem qualquer intenção de desistir da caçada.
Passaram por dois banheiros que não haviam notado na noite
anterior.
— Será que os encanamentos ainda funcionam? — disse Carlton. —
Preciso muito mijar.
— Você tem o quê, cinco anos? Não quero ouvir isso. — Jessica
revirou os olhos e andou mais rápido.
Quando chegaram no salão com o palco pequeno, todos pararam.
Marla e Lamar se aproximaram do palco, um chegando levemente mais
para perto do outro, como se não percebessem o que estavam fazendo.
Ainda que Carlton e Jessica tivessem estado lá na noite anterior, era como
se estivessem vendo o lugar pela primeira vez, pelos olhos de Marla e
Lamar. Ainda não haviam visto o que havia atrás da cortina, notou Carlton
de repente.
— Eu me lembro desses pôsteres — disse Lamar.
— Também me lembro disso — disse Marla, apontando para a placa
que dizia “Out of Order”, pendurada diante do palco. — A minha vida
toda, eu sempre me senti desconfortável quando via essa frase, mesmo que
fosse só numa máquina de vendas. — Deu uma risada, sem sinceridade.
— Sei o que quer dizer — disse Lamar, em voz baixa, mas antes que
pudesse continuar, Carlton o interrompeu.
— Encontramos.
— Talvez — corrigiu Jessica. Havia uma porta fechada em meio à
parede, como a do palco de baixo, não exatamente escondida, mas feita de
forma a não ser notada. Era pintada de preto, como as paredes do salão.
Jessica girou a maçaneta e puxou, mas estava travada.
— Trancada? — disse Lamar.
— Acho que não.
— Me deixa tentar — disse Marla. Agarrou a maçaneta, puxou com
toda a força, e a porta se abriu, fazendo-a cambalear para trás.
— Impressionante! – disse Lamar.
— Pois é, cuidar do Jason me deixa durona. — Marla sorriu
enquanto se ajoelhava para passar espremida pela pequena porta.
Era quase igual à primeira sala — um conjunto de oito telas de TV e
um grande painel com botões pretos não rotulados. Carlton tateou em busca
do interruptor mestre, levando a mão a um canto escuro. Então, com
um click, a energia foi restaurada e um leve zunido preencheu a sala. Azuis
e vermelhos fortes e bizarros começaram a adentrar o ambiente por debaixo
da porta, vindos das luzes do palco lá fora. Jessica e Carlton começaram a
ligar as televisões; foram mexendo nos botões até que mostrassem imagens,
apesar de a maioria estar muito escura.
Dali, podiam ver uma filmagem ampla do palco principal, assim
como na outra sala, mas o resto das câmeras mostrava outros lugares e
ângulos. Enquanto a primeira sala de controle tinha gravações apenas da
sala de jantar principal, ali eles podiam ver outras áreas do restaurante —
os salões de festas privadas, arrumadas com decorações cheias de brilho
para eventos que nunca aconteceriam; corredores; um escritório; e até o que
parecia um depósito. O salão atrás deles também era visível, a câmera
focada na placa de “Out of Order”, agora iluminada com tons
sobrenaturais, e a cortina atrás dela. Na tela, podiam ver Jason, trotando de
volta para o fliperama.
— Talvez seja melhor eu ir buscá-lo — disse Marla, mas ninguém
respondeu.
Carlton começou a apertar botões. Refletores se acendiam e
apagavam no palco conforme o fazia, iluminando primeiro um animal e
depois outro, além de espaços vazios onde um dia alguém devia ter ficado.
Ligou um interruptor e, por um momento, pareceu que nada havia
acontecido, mas então Lamar começou a rir, apontando para uma das telas.
As pizzas decorativas alinhadas nas paredes giravam loucamente, como se
a qualquer momento pudessem se soltar e sair rolando.
— Tinha esquecido que elas faziam isso — disse Lamar, enquanto
Carlton lentamente fazia com que elas parassem.
Havia um grande botão giratório preto ao lado dos demais e Carlton
o girou, mas não pareceu acontecer nada.
— Me deixa tentar – disse Lamar. Empurrou Carlton para o lado
com o cotovelo e apertou outro botão. Um chiado estridente tomou a sala;
todos deram um pulo, e ele logo se esvaiu até tornar-se um zunido estático.
Lamar apertou o botão outra vez e o som cessou.
— Acho que já sabemos o que liga os alto-falantes — disse Carlton.
— Aposto que podíamos descobrir como tocar a música — disse
Jessica. Aproximou-se e apertou mais alguma coisa, intensificando as luzes
do palco enquanto as luzes principais diminuíam. De repente, as figuras no
palco principal entraram em foco, exigindo atenção. Apertou novamente e
as luzes voltaram ao normal.
— Amei isso — disse Carlton.
— O quê? — disse Marla.
— As luzes do palco — respondeu. — Basta um botão e ali em cima
fica parecendo outro mundo.
Outro botão fez com que as luzes no salão atrás deles tremeluzissem,
acendendo e apagando, enquanto outro ligava e desligava o carrossel, sua
música tilintante se arrastando lentamente, como se o próprio brinquedo
estivesse tentando se lembrar como devia tocá-la. Conseguiram ligar os
alto-falantes novamente sem o chiado de retorno, mas ainda assim havia
apenas estática.
— Tenho uma ideia — disse Jessica, metendo-se na frente do grupo.
Ligou a estática outra vez e começou a girar o botão para frente e para trás.
O zunido se tornou um chiado baixo, depois um chiado mais alto,
respondendo a seus ajustes.
— Progresso — disse Carlton.
— Continua sendo só estática — disse Marla, não impressionada.
Jessica abaixou o som novamente — e arrancou a mão do botão
giratório como se tivesse levado uma mordida, e então bateu nele com
tudo, desligando os alto-falantes.
— O que foi? — disse Marla.
Jessica permaneceu imóvel, suas mãos ainda suspensas no ar.
— O que houve? Tomou um choque? — disse Carlton.
— Parecia uma voz — disse Jessica.
— E o que disse? — disse Marla, aparentemente interessada outra
vez.
— Não sei. Deixa eu tentar de novo.
Ligou o alto-falante novamente, retomando a estática, e baixou o
chiado enquanto todos ouviam, atentos ao som. Conforme se tornava um
registro mais baixo, pouco abaixo da extensão de uma voz humana, todos
ouviram — palavras quebradas e entrecortadas, quase lentas e destorcidas
demais para serem consideradas uma frase. Trocaram olhares.
— Mas que diabos? — disse Marla.
— Nah, é só estática aleatória — disse Lamar. Foi até os controles e
voltou a aumentar o chiado devagar. Por outro breve momento, todos
ouviram outro som notório.
— Parecia alguém cantando — disse Carlton.
— Não — disse Lamar, mas parecia inseguro dessa vez.
— Faz de novo — disse Marla. Lamar fez, mas dessa vez a estática
soou vazia. De repente, Marla notou uma figura indistinta se movendo pelo
salão escuro na direção deles, deslizando junto à parede como se tentasse
permanecer despercebida. — Aquela é a Charlie?

Charlie estava correndo, quase pulando, tentando encontrar outro


lugar onde se esconder. Olhou para trás, suspeitando vagamente de que
John poderia estar trapaceando. Avançou pela escuridão, seguindo em
direção ao brilho colorido da cortina do palco pequeno, que lançava
vermelhos e azuis sinistros sobre as mesas e os chapéus de festa. Seguir por
aquele caminho sempre lhe pareceu uma jornada perigosa, uma que não
deveria ser feita sozinha. Olhou fixamente para trás, deixando a parede ao
seu lado guiá-la. Sabia que John estava perto, provavelmente à espreita no
escuro. De repente, bateu em alguma coisa, parando abruptamente. Estava
andando mais rápido do que imaginara, ou talvez o corredor não fosse tão
cumprido quanto se lembrava.
Viu a sombra dele no final do salão — se virasse a cabeça, poderia
vê-la. Sem pensar, Charlie subiu na plataforma em que havia esbarrado e
mergulhou por debaixo da cortina, enfiando-se entre a parede e uma coluna
grande e volumosa, tentando não respirar.
— Charlie? — disse ele, ainda longe. — Charlie! — Charlie sentiu
os batimentos acelerarem. Já havia gostado de alguns garotos aqui e ali,
mas aquilo era diferente. Queria que ele a encontrasse, mas não ainda.
Enquanto esperava, seus olhos se ajustaram à escuridão, e conseguiu
distinguir a forma da cortina e o canto do palco. Observou o objeto diante
de si.
Não. Seu corpo estremeceu, e então congelou.
A coisa estava diante dela. A coisa da oficina de seu pai, a coisa
disforme que ficava no canto, retorcendo-se em convulsões aleatórias
enquanto seus olhos prateados brilhavam. Ele está sentindo dor? Agora
estava parado, os olhos vazios e foscos. Olhava para frente, sem emoção, e
o braço com o ganho pendia inútil a seu lado. Ela reconheceu seus olhos,
mas, de alguma forma, parecia pior agora, envolto em peças de corpo ocas
e coberto de pelo vermelho, dentre um forte odor de óleo e cola. Ele tinha
um nome agora: o chamavam de Foxy. Mas ela não era boba.
Charlie se afastou, encolhendo-se contra a parede. Seu coração batia
mais rápido e sua respiração era parca, rápida demais. Seu braço estivera
tocando a perna dele, e agora estava sentindo uma certa coceira ali, como
se tivesse sido contaminada. Limpou a mão violentamente em sua blusa,
começando a entrar em pânico.
Corra.
Pulou para longe dele, tomando impulso junto à parede para escapar,
para se mover antes que ele a visse, mas prendeu o pé na beira do palco.
Tropeçou, caindo para frente, momentaneamente enrolada na cortina.
Estava lutando para se soltar quando, de repente, o braço da coisa se ergueu
e o gancho se lançou contra seu braço. Desviou tarde demais e ele a cortou,
a dor lancinante, como água gelada. Caiu de costas e se sentiu despencar
por longos segundos — e então foi pega.
— Charlie? Você tá bem?
Era John. Ele a havia pegado. Tentou assentir, mas estava tremendo.
Olhou para o braço — lá estava o corte, acima do cotovelo, quase dez
centímetros de comprimento. Sangrava bastante, e ela o cobriu com a mão,
os espaços entre seus dedos encharcados com o sangue que vazava por ali.
— O que houve? — Era Marla, correndo em sua direção. — Charlie,
sinto muito, devo ter apertado um botão que fez ele se mexer. Você tá
legal?
Charlie assentiu, um pouco menos abalada.
— Estou bem — disse. — Não é tão ruim. — Tentou mexer o braço.
— Viram? Não pegou nenhum nervo. Vou ficar legal.
Carlton, Jessica e Lamar vieram correndo da sala de controle.
— Devíamos levá-la ao pronto socorro — disse Carlton.
— Eu tô bem — insistiu Charlie. Ela se levantou, recusando a ajuda
de John, e se segurou no palco por um momento. Ouvia a voz da tia Jen em
sua cabeça. Quanto sangue você perdeu? Não precisa ir pro
hospital. Conseguia mexer o braço muito bem e não iria sangrar até a morte
por causa daquilo. No entanto, se sentia zonza.
— Charlie, você tá parecendo um fantasma — disse John. — Temos
que tirá-la daqui.
— Certo — disse ela.
Seus pensamentos estavam dispersos, e a ferida doía menos do que
deveria. Ela respirava profundamente conforme seguiam para a saída,
pisando com força. John lhe deu um pedaço de pano e ela o pôs sobre o
corte para conter o sangramento.
— Obrigada — disse, e olhou para ele. Havia algo faltando. — Era a
sua gravata? — perguntou, e ele deu de ombros.
— E eu lá pareço do tipo que usa gravata?
— Jason! — gritou Marla, quando passaram pelo fliperama. —
Vamos logo ou vou te deixar pra trás!
Jason correu para alcançá-los.
— A Charlie tá bem? — perguntou, ansioso. Marla suspirou e pôs o
braço ao redor dele.
— Ela tá legal — disse, tentando tranquilizá-lo.
Voltaram rapidamente pelo corredor pelo qual haviam entrado. Jason
olhou para trás, deixando-se levar pelos demais, e estudou os desenhos na
parede mais uma vez antes de perdê-los de vista. As luzes coloridas do
palco estavam se apagando e a lanterna lançava formas e sombras sobre
tudo ao redor, o que dificultava a visão dos desenhos, mas Jason podia jurar
que vira as figuras se movendo nas pinturas.
Todos passaram correndo pelo prédio vazio e saíram rumo ao
estacionamento, sem ficar atentos ao guarda. Quando chegaram no carro,
Lamar, que havia pegado a lanterna grande, a acendeu e iluminou o braço
de Charlie. Ela olhou para o corte.
— Vai precisar de pontos? — disse Marla. — Eu sinto muito,
Charlie.
— Fomos todos descuidados, não foi culpa sua — disse Charlie.
Ela sabia que parecia aborrecida, mas não era sua intenção — sua
voz estava tensa e entrecortada pela dor. O choque havia passado, mas isso
significava que a ferida havia começado a doer.
— Tá tudo bem — disse Charlie e, depois de um longo momento, os
outros cederam relutantemente.
— Devíamos pelo menos conseguir alguma coisa pra limpar e
enfaixar isso aí — disse Marla, querendo fazer alguma coisa para se
redimir, por menor que fosse.
— Tem uma farmácia 24 horas na estrada principal — sugeriu
Carlton.
— Charlie, por que você não vai com a Marla e eu levo o seu carro
até o motel? — disse Jessica.
— Eu tô bem — protestou Charlie, irresoluta, mas entregou as
chaves para Jessica. — Você dirige bem, né?
Jessica revirou os olhos.
— Gente de Nova York sabe dirigir, Charlie.
John hesitou por um momento enquanto Charlie entrava no carro de
Marla. Ela lhe abriu um sorriso.
— Eu tô bem — disse. — Te vejo amanhã. — Ele olhou para ela
como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas apenas assentiu e foi
embora.
— Certo — disse Marla. — Para a farmácia!
Charlie se virou no banco para olhar para Jason.
— Se divertiu? — perguntou.
— Os jogos não funcionavam — disse, obviamente preocupado.
A farmácia ficava apenas a alguns minutos de distância.
— Você fica no carro — mandou Marla, assim que pararam.
— Não me deixa aqui fora — implorou Jason.
— Eu disse para ficar — repetiu, um pouco confusa pelo medo em
sua voz. Ele não respondeu, então Marla e Charlie seguiram adiante.
Assim que se afastaram, Jason tirou o desenho do bolso. Ele o ergueu
sob as fracas luzes do estacionamento para que pudesse examiná-lo. Não
havia voltado ao normal: Bonnie, o coelho, tentava alcançar uma criança
que estava de costas para ele. Curioso, Jason arranhou as linhas de giz de
cera com as unhas; a cera saiu com facilidade, deixando sua marca no
papel.

Assim que entrou na farmácia refrigerada e de luz fluorescente,


Marla suspirou e levou as mãos às têmporas.
— Nossa, mas que molequinho — disse.
— Eu gosto dele — disse Charlie, honestamente. Ainda usava a
gravata de John para estancar o sangramento e agora, sob a luz mais clara,
a afastou para ver o corte. O sangramento já havia quase parado; não era
tão ruim quanto parecia a princípio, mas a gravata estava completamente
arruinada. — Ei, — disse, — por que você trouxe o Jason, afinal?
Marla não respondeu imediatamente, seus olhos se voltando para o
corredor de primeiros socorros, e ela seguiu em sua direção.
— Aqui estamos — disse. — O que me diz, gaze?
— Claro, mas não me chame de Gaze — Charlie se inclinou sobre
Marla, mas foi ignorada. — Antisséptico. — Marla avançou, pegando os
produtos.
— Bom — disse. — Acontece que o pai do Jason e a nossa mãe
eram casados desde antes de ele nascer. Quer dizer, é óbvio. E eles
provavelmente estão para se divorciar. Eu sei a respeito disso, mas o Jason
não.
— Essa não — disse Charlie.
— Eles brigam o tempo todo — prosseguiu Marla. — E isso assusta
ele, sabe? Quer dizer, meu pai foi embora quando eu ainda era criança,
então eu cresci com isso, me acostumei. Além do mais, acabei tendo um
ótimo padrasto. Mas para ele, vai ser como o fim do mundo. E eles não
estão fazendo absolutamente nada para facilitar as coisas; ficam brigando
na nossa frente. Então, não quis deixar ele sozinho com isso por uma
semana.
— Sinto muito, Marla — disse Charlie.
— Ah, tudo bem — disse Marla. — Eu vou embora ano que vem, de
qualquer jeito. Só fico preocupada com o molequinho lá fora.
— Ele não é um moleque — disse Charlie, e Marla riu.
— Eu sei, ele é bem gente boa, né? Eu até que gosto de tê-lo por
perto.
Elas pagaram pelos produtos. O caixa, um adolescente, nem sequer
reparou na aparência moderadamente sanguinolenta de Charlie. Lá fora, as
duas se sentaram no capô do carro. Marla abriu a garrafa de antisséptico,
mas Charlie ergueu a mão em sua direção.
— Pode deixar que eu mesma faço — disse. Marla parecia prestes a
discutir, mas engoliu o que quer que estivesse prestes a dizer e entregou a
garrafa para Charlie, junto com um pedaço de gaze. Enquanto Charlie
limpava o braço de forma desengonçada, Marla abriu um sorriso travesso.
— Falando de pessoas que gostamos de ter por perto, você tá se
divertindo com o John?
— Ai! Isso dói. E não sei do que você tá falando — disse Charlie,
recatada, voltando de repente toda a atenção para sua tarefa.
— Claro que sabe. Ele fica te seguindo pra lá e pra cá que nem um
cachorrinho, e você tá adorando isso — Charlie conteve um sorriso.
— E quanto a você e o Lamar? — retrucou.
— Eu e quem? — disse Marla. — Aqui. — Ergueu a mão para pegar
a gaze ensanguentada e, entregando-a, Charlie pegou uma tira limpa. —
Vai ter que me deixar prender pra você — disse. Charlie assentiu e segurou
a gaze no lugar enquanto Marla pegava a fita adesiva.
— Qual é — prosseguiu Charlie. — Eu vi a forma como você olha
pra ele.
— Que nada! — Marla colou o último pedaço de fita e guardou tudo
de volta na sacola.
— É sério — disse Charlie, enquanto voltavam para o carro. —
Vocês são um amor juntos. E seus nomes são anagramas um do outro.
Marla e Lamar! É o destino!
Rindo, as duas voltaram para o motel.
CAPÍTULO CINCO

Quando chegaram ao motel, Jessica já estava lá — e John também.


Ele se levantou quando Charlie entrou.
— Estava preocupado com você. Será que você me deixa dormir no
chão? — Esperou, inquieto, por uma reação dela, como se houvesse notado
apenas ao vê-la que podia ter ido longe demais.
Num outro dia, num outro lugar, Charlie poderia ter se irritado com
essa preocupação exagerada. Mas ali, em Hurricane, sentia-se feliz com
isso. Devíamos ficar todos juntos, pensava, é mais seguro. Não estava de
fato com medo, mas a ansiedade ainda grudava nela como teia de aranha, e
a presença de John lhe fora um calmante desde que chegaram. Ele ainda a
fitava, esperando uma resposta, e Charlie sorriu.
— Contanto que não se importe de dividir o chão com o Jason —
disse.
Ele deu uma risada.
— É só me dar um travesseiro que eu fico de boa.
Marla jogou um para ele, que se alongou exageradamente, sentou no
chão e se deitou.
Todos foram dormir quase que imediatamente. Charlie estava
exausta — agora que seu ferimento estava limpo e coberto, a adrenalina da
noite deixou seu corpo de uma vez só, deixando-a esgotada e um pouco
abalada. Nem ao menos se deu ao trabalho de colocar pijamas, apenas se
jogou na cama ao lado de Jessica e adormeceu dentro de segundos.

Charlie acordou pouco depois da alvorada, quando o céu ainda


estava pálido e um pouco rosado. Deu uma olhada no quarto. Os outros não
levantariam por horas, suspeitava, mas estava alerta demais para tentar
voltar a dormir. Pegou os sapatos e, passando por cima dos corpos
adormecidos de Jason e John, saiu do quarto. O motel ficava um pouco
afastado da estrada, com um amontoado denso de árvores espalhadas por
todo lado. Charlie se sentou no parapeito para colocar os sapatos,
imaginando se conseguiria dar uma volta pela floresta sem perder. O ar era
fresco e ela se sentia renovada depois da breve soneca, energizada.
Seu braço doía — uma dor chata e pulsante continuava a chamar sua
atenção, mas não havia passado sangue pelas faixas e Charlie
costumava achar fácil de ignorar a dor quando sabia que ela não lhe
representava um risco. A floresta era convidativa, e decidiu correr o risco
de se perder.
Quando estava prestes a se levantar, John se sentou a seu lado.
— Bom dia — disse ele. Suas roupas estavam amarrotadas devido à
noite no chão do motel, e seu cabelo estava embaraçado. Charlie conteve
uma risada. — O quê? — perguntou. Ela balançou a cabeça.
— Você tá parecendo o seu velho eu hoje — disse. Ele olhou para si
mesmo e deu de ombros.
— As roupas não fazem o homem. O que está fazendo de pé tão
cedo?
— Sei lá, não conseguia dormir. E você?
— Alguém pisou em mim.
Charlie estremeceu.
— Desculpa — disse, e ele riu.
— Tô só brincando. Eu já tava acordado.
— Estava saindo pra dar uma volta — disse ela, apontando para as
árvores adiante. — Em algum lugar por ali. Quer vir?
— Claro, com certeza.
Os dois seguiram em direção à floresta e John diminuiu o passo por
um instante, passando as mãos pela roupa furtivamente, na tentativa de
desamassá-la. Charlie fingiu não ter notado.
Não havia uma trilha, então foram passando pelas árvores
aleatoriamente, olhando para trás de vez em quando para garantir que ainda
conseguiriam voltar para o estacionamento do motel. Foi quando John
tropeçou em um galho caído e Charlie se lançou contra ele com seu braço
bom, segurando-o antes que caísse.
— Obrigado — disse ele. — E que braço forte.
Ela sorriu.
— Bom, você me segurou ontem, então é justo que eu também te
segure. Agora estamos quites — respondeu, olhando em volta. Mal dava
para ver o motel, e ela se sentiu oculta, segura em meio à floresta. Ali,
podia dizer qualquer coisa e estaria tudo bem. Apoiou as costas contra uma
árvore, tocando a casca atrás de si sem nenhum motivo em particular. —
Sabia que a Freddy’s não foi o primeiro restaurante? — Fez o comentário
abruptamente, surpreendendo a si mesma, e John olhou para ela com uma
expressão de dúvida, como se não houvesse escutado direito. Não queria
dizer aquilo de novo, mas se forçou a fazê-lo: — A Freddy’s. Não foi o
primeiro restaurante do meu pai. Havia uma lanchonete, uma bem pequena.
Isso foi antes da minha mãe ir embora.
— Eu não fazia ideia — disse John, devagar. — Onde era?
— Não sei. É uma daquelas memórias de quando você era só uma
criancinha, sabe? Só dá pra lembrar das coisas que estavam ao seu
redor. Me lembro do linóleo no chão da cozinha, tinha uma estampa de
diamantes pretos e brancos, mas não me lembro onde ficava o restaurante,
ou qual era o nome.
— Sei — disse John. — Nós viajamos nas férias pra ir a um parque
temático quando eu tinha, tipo, três anos, e tudo o que eu me lembro é do
banco traseiro do carro. Mas e aí, eles estavam lá? — Sua voz diminuiu um
pouco quando disse isso, quase que reflexivamente. Charlie assentiu.
— Sim. Tinha um urso... e um coelho. Eu acho. Às vezes os detalhes
se misturam na minha cabeça. Não são como memórias normais — disse,
precisando que ele compreendesse as falhas da história antes de lhe contar
o resto. — É como quando você tem um sonho realista e, pela manhã, não
tem certeza se aconteceu mesmo ou não. São só impressões, pequenos
fragmentos de tempo. São... — Ela se interrompeu. Não estava explicando
direito; sentia que estava escolhendo as palavras erradas.
Tentava ir muito longe dentro de sua memória, para um tempo em que
ainda não falava. Era uma época em que não tinha palavras para chamar as
coisas que via, e agora, quando tentava se lembrar delas, as palavras nunca
pareciam certas.
Olhou para John. Ele a observava pacientemente, esperando que
continuasse. Queria lhe contar essa história de sua vida que nunca havia
contado. Na verdade, nem sequer era uma história, apenas algo preso no
fundo de sua mente, algo que lampejava aleatoriamente no canto do olho.
Não tinha absoluta certeza se era real, então nunca contou a ninguém.
Queria contar a John, porque queria conversar sobre isso com outra pessoa,
e porque ele olhava para ela com olhos cheios de confiança, e sabia que ele
a ouviria e acreditaria nela. Porque ele sempre se importou com ela, porque
ele a segurou quando ela caiu, e fora até lá para dormir e ficar de guarda a
noite toda. E, pensava uma parte sua levemente cruel e pragmática, porque
ele não fazia parte de sua vida real. Poderia lhe contar isso, poderia lhe
contar qualquer coisa, e quando voltasse para casa, seria como se nunca
tivesse acontecido.
De repente, ela quis tocá-lo, confirmar que ele realmente estava lá,
que aquilo não era outro sonho. Ergueu uma mão em sua direção e,
surpresa, porém contente, ele a segurou. Ficou ali, parado, como se temesse
que se aproximar poderia assustá-la. Ficaram assim por um momento, e
então ela soltou e lhe contou a história da forma que havia falado em sua
cabeça, as memórias de uma criança pequena misturadas às coisas que
começara a entender conforme crescia.
Havia outro restaurante, rústico e pequeno, com panos quadriculados
vermelhos sobre as mesas, e uma cozinha que era visível da área de jantar,
e estavam todos lá, juntos. Seu pai, sua mãe e nós. Quando Charlie era
muito, muito pequena, ela nunca estava sozinha. Havia Charlie e também
um menininho, um menininho tão próximo de Charlie que se lembrar dele
era como se lembrar de uma parte de si mesma. Estavam sempre juntos: ela
aprendera a dizer nós antes de aprender a dizer eu.
Eles brincavam juntos no chão da cozinha, às vezes desenhando
escondidos sob uma mesa de madeira dura. Lembrava-se do arrastar de pés
e das sombras dos clientes que passavam andando. Da luz que era quebrada
pelo giro arrastado de um ventilador e atirada pelo chão em tiras.
Lembrava-se do cheiro de um cinzeiro e da risada sincera de adultos
perdidos numa boa história enquanto suas crianças brincavam.
Costumava ouvir com bastante frequência a risada de seu pai
ecoando de um canto distante, enquanto ele conversava com os clientes.
Quando Charlie o imaginava rindo desse jeito agora, era com certo pesar,
um terrível sentimento no meio de seu peito, porque seus olhos eram
brilhantes e seu sorriso era confortável, e ele queria que todos fizessem
parte do restaurante, que compartilhassem livremente de seu trabalho.
Porque não tinha medo de deixar suas crianças andarem para lá e para cá,
explorando. Ainda não tinha sido tentado pela ganância e, embora ainda se
parecesse um pouco com o pai do qual ela realmente se lembrava, eles não
eram o mesmo homem.
Charlie olhava para o chão enquanto falava, para a poeira, as pedras
e os restos ressecados de folhas, e suas mãos estavam nas costas,
arrancando a casca da árvore. Isso machuca a árvore?, pensou, e forçou
suas mãos a se afastarem, entrelaçando-as diante de si.
O restaurante ficava aberto até tarde da noite, então quando
começavam a ficar sonolentos, Charlie e o menininho engatinhavam para a
despensa com cobertores e pelúcias para dormirem até que fosse hora de
fechar. Lembrava-se de usar sacos de farinha quase tão grandes quanto eles
como travesseiros. Eles se aninhavam juntos e sussurravam tolices que
significavam coisas profundas apenas para os dois, e Charlie caía no sono,
ouvindo de relance os sons calorosos do restaurante, o tinir dos pratos, o
murmurinho dos adultos conversando e o som do urso e do coelho,
enquanto dançavam suas músicas tilintantes.
Eles amavam os animais. O urso castanho-amarelado e o coelho
combinando, ambos andando por todo o restaurante, dançando e cantando
para os clientes, e às vezes apenas para Charlie e o menininho. Algumas
vezes, seus movimentos eram travados e mecânicos; em outras, eram
movimentos fluidos e humanos. E enquanto o menino preferia quando eles
agiam como pessoas, Charlie gostava mais do contrário. Os movimentos
forçados, os olhos sem vida e suas falhas ocasionais a fascinavam: eles
agiam como se estivessem vivos, embora não estivessem. O abismo que
havia entre essas duas coisas, o vivo e o não vivo, era estreito, porém
infindável, e isso a encantava, embora nunca tenha conseguido explicar por
quê.
— Acho que eram fantasias — disse Charlie, agora, ainda olhando
para o chão. — Os animais nem sempre foram robôs. O urso e o coelho
eram fantasias, e tinha vezes que alguém as vestia e vezes que meu pai as
colocava em um de seus robôs, e sempre dava para saber quem estava
vestindo, pela forma como dançavam.
Charlie parou. Havia mais, mas não conseguia colocar as palavras
para fora. Aconteceu outra coisa que a fez trancar sua mente e afastar a
memória, a parte que lhe tirou a vontade de pedir respostas para a tia Jen,
porque tinha medo do que poderiam ser essas respostas. Charlie não ousou
olhar para tia Jen durante todo o tempo em que ela estava falando, apenas
olhou para o chão, para as mãos, para os tênis. Mas agora olhava para ele, e
ele estava extasiado, parecendo quase segurar a respiração. Ele esperou,
não querendo falar até que tivesse certeza de que ela havia terminado.
— Isso é tudo o que eu me lembro — disse, por fim, ainda que fosse
mentira.
— Espera, quem era o menininho?
Charlie balançou a cabeça, frustrada por ele não ter entendido.
— Ele era meu — disse ela. — Digo, era meu irmão. Éramos iguais.
— Ela falava de forma infantil, como se a memória houvesse tomado conta
dela, forçando-a a regredir. Limpou a garganta. — Desculpa — disse,
falando mais devagar, tentando escolher as palavras com mais cuidado. —
Acho que ele era meu irmão gêmeo.
Viu John abrir a boca, prestes a perguntar: o que aconteceu com
ele? Mas devia haver algo em seu rosto, algum tipo de aviso, porque ele se
conteve e, ao invés disso, disse:
— Será que esse lugar era por aqui? Digo, podia ficar em qualquer
lugar. Em outro estado, até.
— Não sei — disse Charlie, devagar, levando o olhar por cima dos
ombros e então para o alto das árvores. — A sensação é sempre igual. Sinto
como se pudesse dobrar qualquer esquina e ele estará lá... — Sua voz
começou a vacilar. — Eu quero encontrá-lo — acrescentou de súbito, e
assim que disse isso, tornou-se de fato o que queria fazer.
— Bem, e o que você se lembra sobre o lugar? — disse John,
entusiasmado, lançando-se para frente como um cão de caça seguindo uma
pista. Devia ter ficado morrendo de vontade de procurar pelo lugar desde o
momento em que ela o mencionou. Charlie sorriu, mas balançou a cabeça.
— Não me lembro mesmo de muita coisa — disse. — Não sei se
posso ajudar muito. Como eu disse, as coisas das quais me lembro são só
fragmentos, não informações. É como um álbum de fotos. — Ela fechou os
olhos, tentando enxergar o lugar pelos olhos da sua mente. — O chão
costumava tremer — Ergueu a cabeça, como se as ideias houvessem
clareado. — Um trem? — perguntou, como se John pudesse saber. — Me
lembro de um som trovejante que se repetia todos os dias. Era o maior som
que eu já tinha ouvido. Não que fosse alto, mas dava pra sentir no corpo
todo, como se retumbasse através do seu peito.
— Então devia ser perto dos trilhos, certo? — disse John.
— É — disse Charlie, com uma fagulha de esperança. — Tinha uma
árvore na frente do lugar — prosseguiu. — Parecia um monstro velho e
raivoso, arcado e murcho, com dois galhos gigantes e retorcidos que se
erguiam como braços. Sempre que íamos embora à noite, eu escondia
o rosto na camisa do meu pai para que não tivesse que vê-la quando
passássemos por ela.
— O que mais? — disse John — Tinha alguma loja, ou outros
restaurantes por perto?
— Não. Quer dizer, acho que não. Desculpa. — Coçou a cabeça. —
Não consigo lembrar.
— Não é o suficiente — disse John, um pouco frustrado. — Podia
ser em qualquer lugar, um trem e uma árvore. Deve ter mais alguma coisa
que você se lembre. Nadinha?
— Não — disse Charlie. Quanto mais se forçava a lembrar, mais
difícil ficava: estava se agarrando às cegas, e era como tentar segurar uma
criatura viva, como se as memórias a vissem chegando e escapassem.
Jogou os fragmentos no ar à medida que ia conseguindo pegá-los: as
toalhas de mesa, de xadrez vermelho e branco, eram feitas de tecido de
verdade, não de plástico. Lembrava-se de ter puxado uma delas, vacilante
sobre seus pés, e tudo o que estava posto sobre a mesa despencou por cima
dela, pratos e copos se estilhaçando ao sua volta enquanto ela cobria a
cabeça. “Charlotte, você está bem?”, dizia seu pai, sua voz parecendo mais
clara que nunca.
Havia uma tábua barulhenta no chão de um dos cantos da lanchonete,
e Charlie gostava de empurrá-la, fazendo-a chiar como estivesse
produzindo música. Havia uma mesa de piquenique nos fundos, onde
costumavam se sentar ao sol, uma das pernas afundada no solo macio.
Havia a canção que seus pais costumavam cantar no carro sempre que
voltavam para casa de uma viagem — começavam a cantar toda vez que se
afastavam um pouco de casa, e então davam risada, como se tivessem feito
algo muito esperto.
— Não ajuda muito — disse Charlie. — É só coisa de criança... —
Sentiu-se um pouco tonta. Havia passado tantos anos evitando essas
memórias; sua mente se protegia delas como se fossem serpentes. Tendo
finalmente falado a respeito, se sentia estranha, e um pouco culpada, como
se tivesse feito algo errado. Mas também sentiu algo que podia ser
satisfação, com as coisas sobre as quais nunca se permitira pensar. As
memórias daquela época eram perigosas, havia armadilhas e emboscadas
forjadas em sua própria essência, mas havia também coisas preciosas entre
elas. — Desculpa — concluiu. — Não consigo me lembrar de mais.
— Não, isso já é impressionante por si só. Não acredito que
consegue se lembrar de coisas que aconteceram há tanto tempo assim —
disse ele. — Não quis te pressionar — acrescentou, um pouco encabulado,
e então pareceu ficar pensativo. — Qual era a música?
— Acho que era a mesma que eles dançavam na Freddy’s — disse
Charlie.
— Não, a que seus pais cantavam no carro.
— Ah — disse ela. — Não sei se me lembro. Não era uma música
propriamente dita, sabe? Tinha só um verso. — Fechou os olhos,
imaginando o carro, tentando enxergar as costas das cabeças de seus pais,
como se estivesse sentada no banco traseiro. Esperou, confiando que sua
mente cederia e, após um momento, cedeu. Ela cantarolou, apenas seis
notas:
— “We’re back in harmony”[1] — cantou. — E eles, sabe,
confraternizavam — acrescentou, com vergonha dos pais mesmo agora. A
expressão no rosto de John ficou vazia por um instante, uma vez que, a
princípio, as palavras não pareciam significar nada, mas seus olhos se
iluminaram, cheios de expectativa.
— Charlie, tem uma cidade ao norte daqui que se chama New
Harmony.
— Hm. — Foi tudo o que ela disse por um momento. Ouvia as
palavras em sua cabeça, querendo que elas a inspirassem, que a fizessem
viajar na memória, mas não o fizeram.
— Sinto que isso devia me fazer lembrar de alguma coisa, mas não
fez — disse. — Desculpa. Digo, não parece estar errado, mas também não
parece estar certo. — Ela estava decepcionada, mas John ainda tinha aquele
olhar pensativo no rosto.
— Vamos — disse, estendendo a mão para ela. Charlie esfregou a
bochecha e suspirou, hesitante, mas então olhou para ele. Assentindo com
um sorriso cansado, seguiu atrás dele.

— Devemos esperar os outros acordarem? — disse John, enquanto


emergiam no estacionamento após uma breve caminhada de volta.
— Não — disse Charlie, com uma veemência inesperada. — Não
quero todo mundo lá pra isso — acrescentou, num tom mais delicado. Só
pensar em ter o grupo todo indo junto a deixava ansiosa. Era muito
arriscado, muito particular; não fazia ideia do que poderiam encontrar ou o
que poderia acontecer com ela, e não aguentaria fazer essas descobertas
com uma audiência.
— Certo – disse John. — Só nós, então.
— Só nós.
Charlie entrou e pegou as chaves, movendo-se lentamente para não
perturbar os outros. Quando estava voltando para a porta, Jason se mexeu e
abriu os olhos, olhando para ela como se não tivesse certeza de quem se
tratava. Ela levou um dedo aos lábios.
Ele assentiu, sonolento, fechando os olhos outra vez, e então saiu
pela porta, apressada. Jogando as chaves para John, entrou pelo lado do
passageiro.
— Tem um mapa aqui — disse, abrindo o porta-luvas. O mapa caiu
dentre uma pilha de aquecedores portáteis e rações de emergência.
— Sua tia ataca de novo — John sorriu.
— Charlie ergueu o mapa a alguns centímetros do rosto. New
Harmony ficava perto, a menos de uma hora de distância.
— Acha que consegue me guiar? — perguntou John.
— Aye, capitão! — disse Charlie. — Vire à esquerda e saia do
estacionamento.
— Obrigado — disse, irônico.
Dirigiram de volta pela cidade, saindo pelo outro lado, as casas
ficando cada vez mais distantes entre si conforme avançavam. Cada uma
delas era solitária, conectada apenas pelos fios de luz oscilantes. Charlie
observava os postes de telefone e seus fios infindáveis, que se repetiam
hipnoticamente, como se fossem continuar para sempre, mas então piscou,
quebrando o encanto. Diante deles, montanhas se assomavam, antigas e
escuras, contra o céu azul claro — pareciam mais sólidas que todo o resto
ao redor deles, mais reais, e talvez fossem. Sempre haviam estado lá,
observando, muito antes das casas, muito antes das estradas, e continuariam
lá depois que todo o resto se fosse.
— Belo dia — disse John, e ela olhou para ele, afastando o olhar da
vista.
— Sim — disse Charlie. — Meio que tinha me esquecido como é
bonito por aqui.
— Sim — respondeu. Ficou quieto por um momento, então olhou
para ela de canto de olho, e Charlie não sabia dizer se estava sendo tímido
ou apenas tentava ficar de olho na estrada. — É estranho — disse ele,
enfim. — Quando eu era pequeno, as montanhas meio que me davam
medo, principalmente quando viajávamos no escuro, pareciam feras
monstruosas à nossa espreita.
Ele deu uma risada, mas Charlie não.
— Sei o que quer dizer — disse ela, e depois abriu um sorriso para
ele. — Mas acho que são só montanhas mesmo. Ei — acrescentou, de
súbito. — Você nunca me disse sobre o que era a sua história.
— Minha história? — Voltou os olhos para ela novamente, um
pouco nervoso.
— É, você disse que tinha publicado uma história, sobre o que ela
era?
— Bom, foi só uma revista regional, nada demais — respondeu,
ainda relutante. Charlie esperou, até que ele finalmente continuou: — Se
chama A Casinha Amarela. É sobre um menino — disse. — Ele tem dez
anos. Seus pais brigam o tempo todo e ele teme que possam acabar se
divorciando. Durante uma briga, ele os escuta dizendo coisas terríveis um
para o outro, então se esconde em seu quarto, com a porta fechada, mas
ainda consegue ouvi-los. Então começa a olhar pela janela para a casa do
outro lado da rua. Eles meio que deixavam as cortinas abertas apenas o
suficiente para que conseguisse espiar o lado de dentro, e ele passa a
observá-los entrar e sair da casa, essa família, e começa a inventar histórias
sobre eles, imaginando quem eram e o que faziam e, depois de um tempo,
eles começaram a parecer mais reais para ele que sua própria família.
Olhou para Charlie novamente, como se tentasse avaliar sua reação,
e Charlie sorriu. Ele continuou:
— Então, o verão chega e sua família viaja por uma semana que é
detestável para ele, e quando voltam, a família da casa do outro lado da rua
tinha se mudado. Não restava mais nada lá, só uma placa de “À Venda”
cravada na frente.
Charlie assentiu, esperando que ele continuasse, mas ele olhou para
ela um pouco encabulado.
— Esse é o fim.
— Ah — disse ela. — Que triste.
Ele deu de ombros.
— Acho que sim. Mas estou trabalhando em algo mais felizinho
agora.
— E do que se trata?
Ele lhe abriu um sorriso.
— É um segredo.
Charlie sorriu de volta. Era bom estar lá fora, era bom sair dirigindo
rumo ao horizonte. Abaixou a janela e pôs o braço para fora, gozando da
sensação do vento forte que vinha em sua direção. Não é o vento, somos
nós, pensou.
— E você? — disse John.
— O que tem eu? — disse Charlie, ainda brincando toda feliz com o
vento.
— Vai, como é a vida da Charlie hoje em dia?
Charlie sorriu para ele e puxou o braço de volta para o carro.
— Sei lá — disse. — Bem tediosa. — Havia uma parte dela que não
queria lhe contar, pela mesma razão pela qual ela o queria ao seu lado
agora: não queria que sua nova vida se misturasse com a antiga. Mas John
lhe contara algo real, algo pessoal, e ela sentia que lhe devia o mesmo em
troca. — É boa, até — disse, por fim. — Minha tia é legal, ainda que de
vez em quando olhe pra mim como se não tivesse certeza de onde eu vim.
A escola é boa, tenho amigos e tal, mas parece tão temporário. Tenho mais
um ano lá, mas sinto como se já tivesse ido embora.
— Embora pra onde? — perguntou John, e Charlie deu de ombros.
— Queria eu saber. Faculdade, acho. Não sei bem o que vai
acontecer depois.
— Acho que ninguém nunca sabe o que vai acontecer depois —
disse. — Você...? — Ele se deteve, mas ela o incitou.
— Eu o quê? — disse ela, de modo provocante. — Quer saber se eu
penso em você? — Ele corou, e ela imediatamente se arrependeu do que
disse.
— Ia perguntar se você costuma ver a sua mãe — disse ele, baixinho.
— Ah — disse ela. — Não, não costumo. — Charlie se sentia
exausta só de pensar em sua mãe, e achava que sua mãe sentia o mesmo.
Havia muito atrito entre elas; não se tratava exatamente de culpa, porque
nenhuma das duas era culpada pelo que havia acontecido, mas era algo
próximo. Suas dores individuais radiavam delas como auras, afastando uma
da outra como ímãs com os polos invertidos.
— Charlie? — John dizia seu nome, então ela olhou para ele.
— Desculpa — disse. — Me desliguei por um segundo.
— Tem alguma música nesse carro? — perguntou, e ela assentiu
com euforia, aproveitando-se da distração. Ela se inclinou, pegou algumas
fitas espalhadas pelo chão e começou a ler as etiquetas. Ele tirou sarro das
fitas, ela reclamou e, depois de uma discussão brincalhona, ela pôs uma fita
no tocador e se sentou para olhar pela janela outra vez.
— Acho que é aqui que o mapa deixa de ser útil — John indicou a
estrada adiante. — Essa área toda está praticamente em branco. Acho que o
que estamos vendo não estará nesse mapa. — Dobrou o mapa e o guardou
de forma bastante organizada ao lado do assento, esticando o pescoço para
fora da janela para ver por onde estavam passando.
— Pois é — disse ela. Pareciam ter voltado à civilização. Casas
solitárias preenchiam os campos aqui e ali, e estradas sujas se ramificavam
rumo a todas as direções. A paisagem era formada principalmente por
arbustos e árvores pequenas, a área inteira aninhada entre fileiras de
montanhas baixas.
John olhou para Charlie, esperando que ela notasse algo que pudesse
apontá-los na direção certa.
— Nada? — disse ele, embora seu olhar vazio já lhe dessa a
resposta.
— Não — respondeu. Não queria se estender na resposta.
As casas foram se tornando parcas e mais dispersas, e os campos
secos e escovados pareciam mais amplos, dando à toda a área um aspecto
desértico. John se pegou olhando para Charlie dentro de intervalos curtos,
esperando por um sinal, meio que na expectativa de que ela lhe dissesse
para parar e dar a volta, mas Charlie apenas observava o horizonte, seus
olhos fixos no nada, a bochecha pousada sobre sua mão.
— Vamos voltar — disse, por fim, soando conformada.
— Talvez a gente tenha deixado algo passar — disse John.
Desacelerou o carro, procurando um lugar para dar a volta. — Deixamos
passar um monte de coisa lá atrás, talvez seja numa daquelas estradas de
terra.
Charlie riu.
— Sério? Você acha que deixamos passar um monte de coisa? — Ela
parecia pensativa. — Não, nada disso parece estar certo. Não consigo
lembrar de nada.
Sentiu uma lágrima descer pela bochecha, mas a secou antes que
John pudesse notar.
— Tá, fica tranquilo – disse Charlie, abruptamente, despertando de
seus devaneios. — Vamos comer alguma coisa, só nós dois.
John sorriu, ainda procurando, através dos espelhos, um lugar para
fazer a volta. Então, Charlie estremeceu, algo chamando sua atenção, e
quase pulou no banco, ficando completamente ereta.
— PARA! — gritou. John pisou com tudo nos freios e o carro
derrapou, fazendo subir poeira por todo o seu redor. Quando pararam,
Charlie ficou sentada em silêncio enquanto John checava o retrovisor
novamente, seu coração acelerado.
— Você tá legal? — disse, mas Charlie já estava fora do carro. —
Ei! — gritou para ela, se soltando do cinto aos tropeços para trancar o carro
atrás de si. Charlie estava correndo em direção à cidade, mas seus olhos
estavam focados no campo ao lado da estrada. Ele logo a alcançou,
trotando ao lado dela sem fazer perguntas. Depois de alguns minutos,
Charlie desacelerou o passo e começou a arrastar os pés no chão, baixando
o olhar como se tivesse perdido algo pequeno e valioso em meio à poeira.
— Charlie? — disse John. Até então, não havia parado para pensar
no que estavam fazendo. Era uma aventura, uma chance de estar a sós com
Charlie, de correr atrás de uma pista, mas agora ela estava começando a
deixá-lo preocupado. Tirou o cabelo de cima do rosto. — Charlie? — disse
novamente, sua voz cheia de apreensão, mas Charlie não olhou para ele;
estava atenta no que quer que fosse o que havia encontrado.
— Bem aqui — disse ela. Fez uma curva acentuada em direção à
beira da estrada, onde algo saliente e comprido se estendia pelo chão. John
se abaixou cuidadosamente, tirando um pouco da poeira solta com a mão e
expondo uma estrutura de metal uniforme. Prosseguiu, descobrindo um
trilho que avançava por cima da estrada e seguia pelo campo em ambas as
direções.
Demorou um momento para falar — era como se a própria terra
estivesse tentando escondê-lo deles. Cuidado, pensou, sentindo uma leve
pontada de alarme, mas tratou de deixar o sentimento de lado.
— Acho que encontramos seus trilhos — disse, voltando o olhar para
Charlie, mas ela não estava mais à vista. — Charlie? — Olhou rapidamente
para os dois lados da estrada, mas não havia carros por perto. — Charlie!
— chamou novamente, limpando a poeira do rosto e correndo para alcançá-
la. Quando chegou até ela, manteve-se um pouco afastado, temendo
perturbar seu foco intenso.
Havia um aglomerado de árvores adiante, reunidas como se ao redor
de uma fogueira, algumas altas e outras baixas, algumas robustas e outras
desgrenhadas. Charlie arrastava os pés pelos trilhos conforme caminhava,
como se ele pudesse desaparecer se parasse de tocá-lo.
— O que é isso, uma velha estação? — perguntou John, piscando e
bloqueando o sol com a mão. Havia um grande edifício aninhado entre as
árvores, suas cores se misturando com as do pequeno arvoredo, o que
dificultava sua localização.
Os trilhos começavam a se distanciar, seguindo em direção às
montanhas, e Charlie parou de arrastar os pés por eles, libertando-os. John
finalmente a alcançou e os dois caminharam juntos pela grama seca rumo
ao arvoredo, não muito longe agora.
— Tem que ter uma estrada — disse Charlie, quase aleatoriamente,
afastando-se do edifício. John hesitou.
— Mas... — Ele apontou em direção ao edifício, mas então a seguiu,
olhando para trás para garantir que ainda se lembrava do caminho de volta
ao carro. Logo, o terreno se nivelou sob seus pés. Calçamento antigo,
quebrado, cheio de ervas daninhas e montes de pedras soltas espalhados
pelo campo, dentre uma trilha estreita, quase escondida, que levava
novamente em direção ao pequeno edifício.
— É aqui — disse Charlie, a voz suave. John se aproximou
cuidadosamente e então parou ao seu lado. Seguiram pela trilha juntos,
dando volta nos pilares de grama que se erguiam de rachaduras e buracos.
A árvore estava lá, aquela com braços compridos e um olhar sinistro, mas
não era mais aterrorizante, não era mais como Charlie se lembrava. Já
devia estar morta quando Charlie era criança, ela se deu conta. Seus galhos
haviam caído, deixando buracos dentados em seus lugares, e permaneciam
no chão, apodrecendo no ponto onde estavam. A árvore parecia uma versão
fraca e frágil do seu velho eu, reconhecível apenas devido aos cepos e
protuberâncias no tronco, que formavam seu rosto. Agora até o rosto
parecia cansado.
O próprio prédio era comprido e estava caindo aos pedaços. Era uma
única loja, de teto escuro e paredes castigadas pelo tempo. Certa vez, o
lugar fora pintado de vermelho, mas o tempo, o sol e a chuva venceram a
tinta; largas tiras descascadas e encaracoladas, deixando enormes vãos de
madeira à mostra, escura como se já estivesse apodrecida. A fundação
estava coberta de grama alta, e Charlie pensou que parecia estar afundando,
como se toda a estrutura estivesse sendo lentamente engolida pela terra.
Charlie segurou o braço de John conforme se aproximavam, então o soltou
e ajeitou a postura. Sentia como se estivesse se preparando para uma luta,
como se o próprio prédio pudesse atacá-la se sentisse sua fraqueza.
Charlie subiu cautelosamente os poucos degraus até a porta,
mantendo-se nas beiradas e testando a madeira antes de soltar todo o seu
peso. Os degraus a aguentavam, mas havia remendos no meio caindo aos
pedaços, os quais ela não gostaria de testar. John não a seguiu
imediatamente, sua atenção desviada por alguma coisa quase oculta pela
grama.
— Charlie.
Mostrou a ela: uma placa de metal bastante desgastada, com as
palavras “Fredbear’s Family Diner” escritas em vermelho.
Charlie abriu um sorriso suave. É claro que é aqui. Estou em casa.
John subiu as escadas atrás dela depressa e, pousando a placa
cuidadosamente ao lado da porta, os dois entraram. A porta se abriu com
facilidade. A luz invadia o ambiente pelas janelas por todos os lados,
revelando o vazio e a decadência. Diferente da Freddy’s, aquele lugar havia
sido esvaziado. O piso de madeira parecia intacto, mas estava empenado
devido ao tempo. Não havia barreiras para impedir a entrada da luz do sol
que banhava o lugar, seguindo para onde quisesse, sem mobilha ou pessoas
bloqueando seu caminho. Charlie ergueu o olhar para o ventilador de
teto — continuava lá, mas uma das hélices estava faltando.
Havia portas duplas à direita deles, com janelas circulares. Diferente
da sala de jantar, que fora invadido pela luz do sol e barulhos provindos do
lado de fora, o cômodo atrás das portas duplas continuava um breu. John
parecia mais interessado nele que Charlie, e espiou cautelosamente por uma
das janelas, obviamente tentado a abri-la para ver o que havia dentro.
Charlie o deixou sozinho com sua curiosidade e avançou pela sala de
jantar, que só sabia ser a sala de jantar graças à sua memória. Agora era
apenas um salão vazio e solitário, longo e estreito: tinha pelo menos quinze
metros e, conforme avançava, ficava cada vez mais escuro. Havia um palco
não muito alto aos fundos e, olhando ao redor, Charlie se deu conta de que
o lugar provavelmente havia sido um salão de dança um dia, e que o grande
balcão perto da entrada, que seus pais usavam como caixa registradora,
provavelmente costumava ser um bar.
Foi até lá e viu que estava certa — havia até ranhuras e riscos no
assoalho, onde as banquetas do bar certa vez se posicionavam. Tentou
visualizar o ambiente, um bar escuro com uma banda country estrangeira
tocando no palco, mas não conseguiu.
Quando Charlie olhava para o palco, ainda podia ver dois animais
animatrônicos nas sombras, dentre seus movimentos mecânicos nada
naturais. Ouvia ecos de música de parques de diversão itinerantes e risadas
distantes. Ainda sentia o cheiro da fumaça de cigarro no ar. Hesitou antes
de avançar, como se os fantasmas de suas memórias ainda pudessem
assombrar o palco. Tentou espiar para ver onde John estava. Ele finalmente
havia conseguido abrir uma fresta na porta que levava à cozinha e estava
com a cabeça para dentro.
Charlie voltou sua atenção para o palco e caminhou até ele, o piso
rangendo sob seus pés. Mesmo o menor dos sons era ensurdecedor,
acompanhado pelo leve assovio do vento que passava pelas rachaduras nas
janelas e paredes. Faixas de papel de parede haviam caído e ainda pendiam,
inertes, contra a parede, e assim permaneciam até que uma brisa as
erguesse, e então se agitavam como dedos finos apontando para Charlie,
conforme caminhava.
Charlie parou ao pé do palco, estudando o piso cuidadosamente, em
busca de indícios do que já poderia ter estado ali. Tudo o que restava eram
buracos nos quais parafusos haviam sido fincados. Os cantos pareciam
escurecidos, com as formas de molas e fios gravadas na terra e na madeira.
Tudo se foi.
Voltou sua cabeça abruptamente para a direita — havia outra porta
lá. Claro que tem outra porta. É por isso que você está aqui. Ficou parada,
olhando para a porta, mas ainda não estava pronta para tocá-la. Fora
tomada por um medo estranho e ilógico, como se aranhas e o bicho-papão
pudessem sair correndo lá de dentro.
A porta estava entreaberta. Charlie olhou de volta para John,
hesitante em avançar sem ele. Como se a houvesse escutado chamando por
ele, o garoto deixou a porta da cozinha de lado, os olhos arregalados.
— Isso é bem medonho. — Ele obviamente estava se divertindo,
como uma criança em uma casa mal-assombrada.
— Pode vir comigo? — O pedido de Charlie foi uma surpresa para
John, que pareceu feliz mas ao mesmo tempo irritado, pois estava gostando
de sua própria aventura do outro lado do prédio.
— Dois segundos — prometeu, e então voltou a desaparecer.
Ela revirou os olhos, desapontada mas não surpresa que a
curiosidade infantil fosse sua prioridade. Pousou as costas das mãos na
madeira envelhecida e a empurrou gentilmente, preparando-se para o que
quer que pudesse haver lá dentro. A porta se abriu.
O que quer que estivesse esperando, não foi o que encontrou. Era um
depósito, seu interior se estendendo para a esquerda, pouco mais do que
dois metros para dentro da escuridão. Havia barras horizontais ao longo das
paredes, onde certa vez cabides estiveram pendurados. Formas quadradas
destacadas na poeira preenchiam sua mente com a imagem de caixas,
talvez alto-falantes.
Quando colocou o pé para dentro, escancarou a porta, tentando
deixar entrar o máximo de luz possível. Conforme seguia em frente,
deslizou a mão pela parede. Embora não houvesse nada ali agora, podia
sentir tecidos pesados, casacos e suéteres pendurados.
Não. Eram fantasias.
Havia fantasias guardadas ali, no escuro, escondendo suas cores, mas
permitindo que fossem sentidas por cada bochecha e mãozinha que
passassem. Palmas e dedos revestidos de borracha balançavam de um lado
para o outro. A fraca luz refletia em olhos falsos sobre sua cabeça.
Charlie chegou ao fundo e se virou para olhar para trás. Abaixando-
se, observou o espaço vazio. Ele não parecia vazio. Ainda podia sentir a
textura das fantasias, como se ainda estivessem ali penduradas. Havia mais
alguém no depósito com ela, ajoelhado na altura dela. Era seu amigo, o
menininho.
Meu irmãozinho.
Estavam os dois brincando e se escondendo juntos, como sempre
faziam. Dessa vez foi diferente. O menininho olhou para a porta de repente,
como se tivessem sido pegos fazendo algo que não deveriam. Charlie
também ergueu o olhar. Havia uma figura à porta. Parecia que uma das
fantasias estava de pé sozinha, mas estava imóvel, tão imóvel que Charlie
não tinha certeza do que estava vendo.
Era o coelho, o mesmo coelho castanho-amarelado que eles amavam,
mas não estava dançando ou cantando, estava apenas parado, olhando para
as crianças, sem piscar. Começaram a se encolher sob seu olhar vidrado, e
o menininho fez uma careta de choro. Charlie beliscou seu braço, tomada
por uma sensação instintiva de que não podiam chorar.
O coelho olhava de um para o outro com aqueles olhos humanos
demais, meditativo, como se os pesasse e medisse de uma forma que
Charlie era incapaz de compreender, como se precisasse tomar uma decisão
de importância primordial. Charlie podia ver seus olhos, olhos humanos, e
ficou gelada de terror. Também sentiu o medo em seu irmão, a sensação
ecoando entre eles, reverberando e crescendo, pois a compartilhavam. Não
conseguiam se mexer, não conseguiam gritar, e a criatura dentro daquela
fantasia maltrapilha, retalhada, de coelho amarelo finalmente estendeu a
mão na direção do menino.
Houve um momento, um único momento, em que as crianças se
agarraram uma à outra, as mãos entrelaçadas, mas o coelho tomou o
menino em seu colo, separando-os à força, e então fugiu. Daquele
momento em diante, toda a memória se estilhaçou dentre gritos estridentes
e implacáveis, não de seu irmão, mas dela própria. Pessoas corriam para
ajudar, seu pai a pegou no colo e a abraçou, mas nada podia consolá-la; ela
gritava sem parar, cada vez mais alto.
Charlie despertou de seu sonho, o som ainda alto e doloroso em seus
ouvidos. Estava agachada em silêncio — parado à porta, John nem ousava
interrompê-la. Não se lembrava muito bem do que acontecera depois,
estava tudo escuro, apenas um borrão de imagens e fatos que ela veio a
encaixar mais tarde, coisas das quais talvez se lembrasse e outras que talvez
fossem apenas sua imaginação. Nunca mais voltara ao restaurante. Sabia
que seus pais haviam fechado as portas imediatamente.
Mudaram-se então para a nova casa e, pouco depois, a mãe de
Charlie foi embora. Charlie não se lembrava de ter se despedido, embora
soubesse que devia tê-lo feito. Sua mãe não teria partido sem dizer adeus, o
fato devia apenas estar perdido na névoa de tempo e pesar, como tantas
outras coisas. Ela se lembrava da primeira vez em que esteve junto à porta
da oficina de seu pai, do primeiro dia que passaram totalmente sozinhos.
Foi no dia em que ele começara a lhe construir um brinquedo mecânico,
um cachorrinho que virava a cabeça de um lado para o outro.
Ela sorriu quando o viu pronto, e seu pai a olhou da mesma forma
que olharia pelo resto de sua vida — como se a amasse mais que a própria
vida, e como se seu amor o deixasse insuportavelmente triste. Mesmo
naquela época, ela sabia que algo vital havia se quebrado dentro dele, algo
que jamais poderia ser reparado. Às vezes, parecia olhar através dela, como
se conseguisse enxergá-la ainda que estivesse bem à sua frente.
Seu pai nunca mais mencionou o nome de seu irmão, por isso
Charlie aprendeu a também não mencioná-lo, como se as meras palavras
pudessem enviá-los de volta àquela época e destruí-los. Ela acordava pelas
manhãs e procurava pelo menininho, tendo esquecido durante os sonhos
que ele se fora. Quando se virava para onde ele deveria estar e via apenas
seus bichinhos de pelúcia, começava a chorar, mas não dizia seu nome.
Tinha medo de sequer pensar no nome, e treinou sua mente para se reprimir
sempre que pensasse nele, até que de fato se esquecesse, mas, no fundo,
ainda sabia: Sammy.
Um ronco alto e reverberante soou, como um trem passando, e
Charlie se assustou.
— Um trem? — Olhou ao redor, os olhos arregalados; estava
desorientada, sem saber se estava no passado ou no presente.
— Tá tudo bem. Acho que não foi aqui perto. Deve ser só um
caminhão daqueles grandes — John segurou o braço de Charlie e a puxou
para que se levantasse. — Se lembrou de alguma coisa? — sussurrou.
Tentava fazer contato visual, mas a atenção dela estava focada em outro
lugar.
— Bastante coisa. — Charlie pôs a mão na boca, ainda fitando a
escuridão como se pudesse ver a cena. A mão de John em seu braço era
uma âncora, à qual ela logo se agarrou. Isso é real. Isso é agora, pensou,
virando-se para ele, tomada por uma intensa gratidão por ele estar ali ao
seu lado.
Enterrou o rosto em seu peito, como se seu corpo pudesse protegê-la
do que havia visto, e se permitiu chorar. John a abraçou com força, uma
mão em sua cabeça, acariciando seus cabelos com cuidado. Ficaram assim
por um longo momento, e ela finalmente se acalmou, a respiração profunda
e estabilizada novamente. John a soltou um pouco e, assim que o fez,
Charlie se afastou, subitamente tomando consciência do quão próximos
estavam.
As mãos de John continuaram erguidas no ar, no ponto em que
Charlie estivera. Após um momento de choque, ele abaixou uma delas e,
com a outra, coçou a cabeça.
— Então... — Desejou que uma resposta dela preenchesse o
silêncio.
— Um coelho — disse Charlie, com calma, olhando para a porta. —
Um coelho amarelo. — Sua voz se tornou mais grave, a imagem ainda
fresca em sua mente.
— Aquele que eu vi na noite em que o Michael desapareceu, o urso,
tenho quase certeza de que ele também era amarelo.
— Pensei que você tinha dito que ele era igual aos outros — disse
Charlie.
— Achei que fosse. Quando todo mundo disse que o Freddy era
marrom, naquela noite em que nos reencontramos, achei que estava
lembrando errado. Quer dizer, minha memória daquela época não é lá
grande coisa, sabe? Não me consegui me lembrar nem qual era a cor da
minha antiga casa. Mas você também achava que ele era amarelo.
— Sim, eles eram amarelos. — Assentiu. Era a resposta que ele
esperava.
— Acho que está tudo conectado, os animais daqui e o que eu vi na
Freddy’s.
E o que levou o meu irmão, pensou Charlie. Deu uma última olhada
no lugar.
— Vamos voltar — disse. — Quero ir embora daqui.
— Beleza — disse John.
À caminho da porta, um pequeno objeto chamou a atenção de
Charlie, e ela o pegou do chão. Era um pedaço de metal espiralado e,
enquanto John o observava de perto, Charlie o esticou e então soltou, e a
mola se moveu dentre um estalo alto, como o som de um chicote. John deu
um pulo.
— O que é isso? — disse ele, recompondo-se.
— Não tenho certeza — respondeu, mas o guardou consigo no bolso.
John olhava para ela como se tivesse algo que queria dizer. — Vamos —
disse Charlie.
Começaram a jornada de volta ao carro. Sammy e, anos depois,
Michael e as outras crianças — é claro que está tudo conectado, pensou
Charlie. Um trovão pode cair duas vezes num mesmo lugar, por
coincidência, mas um assassinato não.
— Pode dirigir outra vez? — pediu após um longo período de
silêncio. Os únicos sons até então haviam sido de seus sapatos esmagando a
grama seca.
— Sim, claro — disse ele.
John conseguiu dar a volta com o carro mesmo no espaço apertado, e
Charlie se apoiou contra a janela, seus olhos já quase fechados. Observou
as árvores passando rapidamente do lado de fora da janela, e sentiu que
estava começando a pegar no sono. O objeto de metal em seu bolso estava
pinicando em sua perna, mantendo-a acordada, e mexeu nele para mudar de
posição, pensando, sonolenta, na primeira vez que vira uma daquelas
coisas.
Estava sentada com Sammy no restaurante, antes de abrirem as
portas — estavam sob uma janela, banhados por um raio de luz em meio à
poeira, brincando de algum joguinho inventado do qual não conseguia mais
se lembrar, e seu pai se aproximou, sorrindo: tinha algo para lhes mostrar.
Ele estendeu o pedaço de metal retorcido, mostrando-lhes como se
fazia para abrir o mecanismo, e então o soltou, fazendo-o voltar à posição
inicial em sua mão. Ambos deram um grito de surpresa, e então começaram
a rir e bateram palmas.
Seu pai repetiu o procedimento. “Eu poderia arrancar o nariz de
vocês com isso!”, disse, e eles voltaram a dar risadas, mas o rosto dele logo
assumiu uma expressão mais séria.
“É sério”, ele disse. “Isso é uma trava de mola, e quero que saibam
como funciona, porque é muito perigosa. Também quero que jamais
toquem numa dessas. É por isso que jamais se coloca as mãos dentro das
fantasias de animais; é muito fácil acioná-las se você não souber o que
está fazendo, e pode acabar se machucando. É como mexer no fogão —
devemos mexer no fogão?”
Eles balançaram a cabeça com solenidade até demais para suas
idades.
“Bom. Porque quero que vocês dois cresçam com seus narizes
inteirinhos!”, exclamou, pegando-os no colo, um em cada braço, e
começou a balançá-los dentre suas gargalhadas. De súbito, um estalo alto
ressoou.
Charlie acordou com um susto.
— O que foi isso?
— O que foi o quê? — disse John. O carro estava desligado. Charlie
olhou ao redor; estavam de volta ao motel.
Charlie levou um momento para se reorientar e então abriu um
sorriso relutante.
— Obrigada por dirigir.
— Com o que estava sonhando? — disse John. — Você parecia feliz.
Charlie balançou a cabeça.
— Não me lembro.

----------
[1]
“Estamos de volta em harmony (harmonia)”, em tradução livre.
CAPÍTULO SEIS

O outro carro não estava no estacionamento e, quando entraram no


quarto, havia um bilhete no travesseiro de Charlie, escrito com a letra
grande e redonda de Marla.
“Combinamos de jantar às 18:30h, e depois vamos pra você-sabe-
onde!”, ela havia escrito. “Nos vemos mais tarde; não se esqueçam do
resto de nós! Beijos, Marla.”
Ela havia desenhado uma carinha sorridente e um coração abaixo de
seu nome. Charlie sorriu consigo mesma, dobrando o bilhete e guardando-o
no bolso sem mostrar a John.
— O que estava escrito? — perguntou.
— Temos que encontrá-los lá na lanchonete dentro de... — Ela
checou o relógio. — ...uma hora. – John assentiu. Ainda estava parado
junto à porta, esperando alguma coisa. — O que foi? — disse Charlie.
— Preciso me trocar — disse ele, indicando as roupas amarrotadas
que estava vestindo. — Posso pegar o seu carro? — Ergueu as chaves e as
balançou.
— Ah, sim, claro. Só venha me buscar depois — disse Charlie,
dentre um sorriso.
Ele sorriu.
— Claro — acrescentou com uma piscadela.
Quando a porta se fechou atrás dele, Charlie deixou escapar um
suspiro. Sozinha afinal. Não estava acostumada com tanta companhia; ela e
a tia Jen viviam em suas próprias órbitas, com alguns poucos encontros
agradáveis ao longo do dia, mas ela acreditava que Charlie conseguia dar
conta do que precisasse fazer, ou então que a chamaria caso não
conseguisse. Charlie jamais a chamou. Conseguia se alimentar sozinha, ir e
voltar da escola e manter as notas altas e algumas amizades casuais. O que
tia Jen poderia fazer a respeito de seus pesadelos? A respeito das perguntas
para as quais não queria de fato as respostas? O que tia Jen poderia lhe
dizer que não fosse ainda mais terrível do que o que ela já sabia? Dessa
forma, não se habituou à presença contínua de outras pessoas, e aquilo era
um pouco cansativo.
Tomou um banho rápido e vestiu roupas limpas, um jeans e uma
camiseta preta, e então se deitou na cama, fitando o teto. Tinha a vaga
sensação de que sua mente deveria estar acelerada, tomada de empolgação,
ou mesmo horror, diante de suas descobertas, repassando de novo e de
novo as memórias que despertara, em busca de algo novo. Ao invés disso,
sentia-se apenas vazia. Queria ficar sozinha, afastar as memórias para o
fundo da mente, aonde pertenciam.
Depois do que pareceram apenas alguns poucos minutos, alguém
bateu à porta, e Charlie se sentou, checando o relógio. Já havia se passado
mais tempo do que imaginara — estava na hora de ir. Ela deixou John
entrar.
— Tenho que calçar os sapatos — disse. Ela o observou enquanto
amarrava os cadarços. Ele havia trocado de roupa, dessa vez estava com
um jeans e uma camiseta, um contraste com aquelas roupas formais com as
quais ela havia se acostumado. Seu cabelo ainda estava molhado e havia
algo de fresco e radiante nele. Ela abriu um pequeno sorriso.
— O que foi? — disse ele, assim que notou.
— Nada — respondeu. — Você ainda parece sujo — brincou,
passando por ele. Entraram no carro. Dessa vez, ela dirigiu e, quando
chegaram à lanchonete, Charlie desligou o motor e hesitou, sem fazer
menção de sair do carro.
— John — disse. — Não quero contar a ninguém sobre
o Fredbear’s.
— Mas... — Ele se deteve. — Tá certo — disse, por fim. — Acho
que às vezes a gente esquece que essa é a sua vida, não apenas uma
aventura qualquer. Tudo bem. Eu sei guardar segredo.
— É a nossa vida — disse ela. — Estávamos todos lá. Podemos
contar pra eles depois; só quero poder assimilar um pouco disso tudo
primeiro.
— Pode deixar — respondeu, parecendo um pouco contente. Charlie
sabia por quê: era um segredo entre os dois, algo que confiara apenas a ele.
Quando entraram, todos já estavam quase terminando o jantar.
Charlie notou, dentre uma enorme pontada no estômago, que não havia
comido o dia inteiro e, de repente, estava morrendo de fome. A garçonete
viu os dois se sentando e foi atendê-los de imediato. Começaram todos a
conversar intermitentemente: Lamar, Jason e Marla tinham ido ao cinema,
enquanto que Carlton e Jessica passaram o dia jogando videogame na casa
dele. Mas toda aquela conversa era superficial, apenas para preencher o
silêncio enquanto comiam. Charlie mal escutava, e tinha a impressão que
mesmo quem estava falando prestava pouca atenção às próprias palavras.
Havia uma aura de agitação sobre o grupo — estavam todos apenas
esperando, suas mentes já focadas na Freddy’s.
— E vocês dois? — perguntou Jessica, olhando para Charlie e John.
— É mesmo, e vocês dois? — repetiu Marla, com um brilho nos
olhos.
— Só demos uma volta de carro — disse John, rapidamente. —
Acabamos nos perdendo um pouco.
— Aposto que sim — murmurou Carlton por trás de seu
hambúrguer, abrindo um sorriso malicioso mesmo com a boca cheia.

Depois do jantar, o grupo atravessou o shopping depressa em direção


ao restaurante, avançando com passos ligeiros e cautelosos. Conforme
passavam pelo pátio, o único som vinha de seus passos suaves no chão
brilhoso — ninguém falava nada. Charlie deixara a lanterna grande no
carro. A essa altura, já conheciam o caminho bem o suficiente, e o guarda
quase os vira na noite anterior; não havia porque arriscar que chamassem
mais atenção. Foram até o final do salão, e Lamar, que estava na frente do
grupo, parou de forma abrupta. Charlie esbarrou em Marla antes de
perceber o que estava acontecendo e murmurou um pedido de desculpas...
mas então congelou.
O guarda noturno estava bloqueando o beco atrás da Freddy’s, os
braços cruzados diante do peito. Sua lanterna estava apagada, e por isso
tornara-se invisível, oculto pela escuridão até que estivessem quase em
cima dele.
— Imaginei que não parariam de vir aqui — disse, dentre um
estranho sorriso torto.
Marla resmungou um palavrão entredentes.
— Eu podia prendê-los por invasão de propriedade privada —
continuou. — Vi vocês por aqui ontem à noite, mas não consegui ver onde
tinham se metido. Acho que agora eu sei — concluiu com outro sorriso.
Havia algo naquele sujeito capaz de deixar qualquer um quase que
imediatamente desconcertado. Era alto e magro demais para o uniforme,
que ficava folgado nos ombros e na cintura, como se já tivesse sido mais
robusto um dia, mas emagreceu demais depois de enfrentar alguma doença
ou alguma tragédia; seu crachá, onde se podia ler o nome “Dave”, estava
pendurado no peito, torto. A pele era amarelada e ele tinha olheiras
profundas, o que só reforçava a impressão de que sofria já há algum tempo
de algum problema de saúde.
— E o que estão todos fazendo aqui, afinal? — questionou. —
Vieram farrear? Usar drogas? Eu podia prendê-los agora mesmo, sabiam?
Charlie e John trocaram olhares.
— Sentimos muito — disse Lamar, depressa. — Já vamos embora. A
gente não usa drogas.
— E eu devo acreditar no que você diz? — O guarda tinha uma
expressão estranha e falava de forma rápida e irritada; não parecia reagir ao
que diziam. Parecia irritado, mas os cantos da boca volta e meia se erguiam
de forma involuntária, como se tentasse conter um sorriso.
— O que a gente faz? — sussurrou Jessica.
— Esse deve ser o momento de maior ação que ele já teve por aqui
— disse Carlton com um leve desdém na voz, e Charlie se lembrou de
súbito que seu pai era policial. Lembrava-se dele vestido em seu uniforme,
fitando-os por cima dos óculos escuros com uma expressão carrancuda,
mas sorrindo logo depois, mostrando que era brincadeira. O guarda, no
entanto, parecia sério.
— Já vamos embora — disse Lamar novamente. — Pedimos
desculpas.
Charlie olhou para o sujeito, avaliando-o — o uniforme largo, sua
expressão fraca, quase exausta. Ele realmente podia expulsá-los da
propriedade ou até mesmo prendê-los por invasão, mas ela não conseguia
temê-lo. Parecia tão inadequado para o cargo que passava uma aura de
inferioridade. Era do tipo que sempre ficaria para trás dentre uma multidão;
sempre perderia em uma discussão; sempre seria o último a ser escolhido,
esquecido, ignorado diante daqueles que simplesmente pareciam ter mais
vitalidade, mais ânimo de viver. Charlie franziu a testa. Era uma linha de
pensamento incomum para ela — não costumava tentar desvendar a vida de
estranhos através das linhas de suas expressões. Mas isso lhe deu uma
ideia.
— Por que não vem conosco? — disse ela. — Só queremos explorar
mais um pouco, depois vamos embora. Você conhece esse lugar melhor
que qualquer um de nós — acrescentou, esperando que a bajulação
funcionasse.
— E depois a gente nunca mais volta aqui — disse Carlton. O guarda
não pareceu imediatamente contrário à ideia, e os outros logo trataram de
reafirmar a promessa. O guarda os encarou, fixando seu olhar em cada um
deles antes de passar para o seguinte. Quando olhou para Charlie, ela
desviou o olhar, sem querer contato visual, como se pudesse revelar alguma
coisa se o permitisse olhar muito a fundo. Depois de inspecioná-los até
ficar satisfeito, ele assentiu.
— Certo — disse ele. — Mas só porque eu também sempre quis dar
uma volta lá dentro. — Apontou para o lugar atrás de si com o polegar e,
notando a surpresa que devia estar estampada no rosto deles, acrescentou:
— Não sou idiota. Trabalho aqui há anos, ando pelo prédio inteiro, por
dentro e por fora, todas as noites. Acham que eu não sei o que tem aí? —
Charlie se sentiu corar. Achara que, de alguma forma, sua descoberta era
algo único. De repente, o guarda baixou o olhar para o crachá em seu peito,
indicando-o com o dedo. — O nome é Dave — disse.
— Eu sou o Jason — disse Jason e, ainda um pouco desconfiados, os
outros foram se apresentando na sequência. Ficaram parados ali por um
momento, olhando uns para os outros, desconfortáveis, como se ninguém
quisesse dar o primeiro passo, até que Jessica deu de ombros.
— Vamos — disse. Seguiu rapidamente em direção ao andaime que
escondia o beco que levava à Freddy’s e puxou o plástico, revelando a
entrada na parede, e todos passaram em fila, se espremendo por entre as
caixas empilhadas. Dave se manteve para trás, educadamente, deixando
que todos passassem primeiro. Gesticulou para que Charlie fosse na frente.
Não quero você atrás de mim, Charlie pensou. Ela olhou para
Jessica, que também não tinha se mexido.
— Por favor, pode ir na frente — disse Charlie, com certa tensão na
voz, e Dave timidamente abaixou a cabeça e entrou. Charlie o seguiu e
Jessica recolocou o plástico no lugar com todo o cuidado, ocultando a
passagem, ainda que não houvesse mais ninguém para pegá-los ali.
Conforme avançavam pelo beco úmido, Charlie tocou a parede de tijolos
com os dedos, deslizando a mão como se para guiá-la. As lanternas
pareciam um pouco mais turvas agora, embora soubesse que devia ser
apenas sua imaginação.
Levaram o guarda até a pesada estante de madeira que escondia a
entrada, e então Lamar, John e Jessica arrastaram-na para fora do caminho,
revelando a porta. Charlie esperava que o novo companheiro fosse parecer
impressionado, mas ele apenas assentiu, como se já suspeitasse de que
aquilo aconteceria desde o princípio.
Um por um, eles entraram no salão do restaurante, e Charlie mais
uma vez ficou para trás. Puxou Carlton pelo braço quando ele passou por
ela.
— Carlton — sussurrou. — Você já viu esse cara antes?
Carlton balançou a cabeça.
— A cidade não é tão pequena assim; não conheço todo mundo.
Charlie assentiu, distraída, seus olhos ainda voltados ao recém-
chegado conforme avançavam pelo grande corredor rumo à sala de jantar
principal da Freddy’s. Havia convidado o guarda porque lhe parecera ser a
única forma de voltarem a entrar, mas agora estava começando a se
arrepender. Deixar um estranho entrar na Freddy’s era como deixá-lo entrar
em sua casa, como se estivesse abrindo mão de alguma coisa.
— O que aconteceu com o restaurante? — disse Lamar, sua voz
cuidadosamente neutra, forçando um tom amigável que não tinha como ser
genuíno. — Por que está isolado desse jeito? E por que o shopping foi
abandonado, afinal? — Sua voz soava baixa no corredor estreito, um tanto
quanto abafada.
— Vocês não sabem? — disse Dave. — Essa cidade precisa de
dinheiro, empregos, receita, coisa assim, e uma coisa que tínhamos de
sobra era espaço. Então decidiram construir um grande shopping, tentar
atrair novos negócios, talvez até turistas. Construíram tudo ao redor de
onde ficava a Freddy Fazbear’s, mas no fim das contas ninguém queria o
restaurante, sabem? Por causa do que aconteceu. Então alguém teve a
brilhante ideia de selar o lugar inteiro, intacto; provavelmente alguém com
algum apego sentimental ao estabelecimento, creio eu. Acho que nem
tentaram tirar as coisas lá de dentro. Mas não foi o suficiente. Esse lugar
tem alguma coisa que se espalhou pelo resto da construção, talvez tenha
impregnado até a terra. Ninguém queria trazer os negócios para cá. Às
vezes alguns executivos, donos de franquias de fora da cidade, vinham para
dar uma olhada, mas nunca assinavam os papéis. Alegavam que sentiam
alguma coisa errada. Acho que o lugar tem uma aura, uma espécie de
energia mística, se é que acreditam nesse tipo de coisa. — Dave balançou
os dedos no ar como se estivesse lançando um feitiço.
— Não acredito nesse tipo de coisa — disse Lamar, curto e grosso,
mas o guarda não pareceu notar seu tom.
— Vai de cada um — disse. — Só sei que ninguém nunca quis abrir
uma loja aqui, então abandonaram a construção antes de sequer terminarem
o prédio. Agora ninguém mais vem aqui além de crianças querendo farrear.
E eu — acrescentou, dentre uma pontada do que parecia ser orgulho. Devia
ser possessivo com aquele lugar, pensou Charlie, afinal, era o único que ia
lá há tantos e tantos anos. Devia ser como se o lugar fosse seu, aquela
estranha construção inacabada. Para ele, eles deviam ser os invasores.
Chegaram ao fim do corredor, e o espaço se abriu diante deles.
Jessica correu em direção à sala de controle sob o palco, a luz da lanterna
quicando alegremente à sua frente. Ela desapareceu por um momento,
então acionou o interruptor e, de súbito, todo o salão ficou quente e
iluminado. Charlie parou, piscando diante da iluminação repentina. Dave
passou por ela e, conforme avançava, algo chamou sua atenção: havia uma
cicatriz em seu pescoço, curvada e feia, uma meia-lua quase perfeita. O
tecido estava alto e esbranquiçado — o corte que causou o ferimento devia
ter sido profundo. Apenas alguns passos à frente, Dave girou no mesmo
lugar, admirando o restaurante, deslumbrado, e enquanto o fazia, Charlie
pôde notar que a cicatriz tinha uma irmã gêmea; a mesma meia-lua, no
mesmo lugar, do outro lado do pescoço. Arrepiou-se um pouco. As marcas
eram tão bem feitas, tão perfeitamente posicionadas — quase pareciam
intencionais.
O grupo se separou. Carlton, por algum motivo, foi em direção à
cozinha, e Jason seguiu novamente para o fliperama.
— Toma cuidado! — Marla gritou para ele, mas já estava seguindo
Lamar para a sala de controle, atrás de Jessica.
Charlie ficou para trás, e John ficou com ela. Havia algo diferente no
ar, Charlie pensou. Parecia mais fino, como se precisasse respirar mais
fundo para conseguir oxigênio o suficiente. É só um cara qualquer, disse a
si mesma, mas esse era o problema. Haviam levado um estranho com eles,
e agora o restaurante parecia menos seguro, não estava mais escondido. A
Freddy’s tinha sido violada. Os animatrônicos, então, começaram a se
mexer, dentre seus movimentos rijos e descompassados. Charlie olhou para
Dave, mas ele não parecia surpreso. Ele já esteve aqui antes, pensou.
Então: é claro que já esteve. A cidade inteira costumava vir aqui
antigamente.
John gesticulou para chamá-la e, relutantemente, ela o acompanhou
até a sala de controle, enquanto Dave os seguia como um vira-latas.
Jessica estava debruçada sobre o painel, apertando botões, e Lamar
parecia estudar o painel de controle, tentando entender a lógica por trás
dele. Dave espiava atentamente por cima de seus ombros, observando.
Assentia brevemente consigo mesmo, perdido em algum tipo de cálculo
interno, e quando Jessica recuou para se espreguiçar, ele pigarreou.
— Hm... — disse. — Posso tentar? — Ele se empertigou um pouco,
estendendo o braço graciosamente.
Jessica e Lamar trocaram olhares, então deram de ombros.
— Por que não? — disse Jessica. Trocaram de posição, para que o
sujeito pudesse alcançar o painel, e ele o encarou por um longo instante,
imóvel, até que começou a pressionar uma série de botões. Um zumbido
ecoou dos alto-falantes, um tom baixo e incessante que não variava.
— Uou — disse Jessica, apontando para os monitores. Charlie notou
um movimento na tela e saiu da sala de controle para ver por si mesma. No
palco, os animais estavam dançando. Era uma dança crua, desajeitada, sem
a graça ou complexidade de que Charlie se lembrava, mas estavam de fato
se movendo em uma sequência clara, não um único movimento súbito de
cada vez.
Charlie voltou à sala de controle, mas não passou pela porta.
— Como fez isso? — perguntou, sem se importar se estava sendo
rude. Dave ergueu as mãos no ar.
— Sorte de principiante — disse. — Só apertei alguns botões.
— Sei — disse Charlie. Massageou as têmporas. — Alguém pode
desligar esses alto-falantes, por favor?
Lamar deu um passo à frente, acionou um interruptor e o som cessou.
Apesar do silêncio, Charlie sentia como se ainda pudesse escutar aquele
zumbido deprimente ecoando em sua cabeça. Fechou os olhos por um
momento e, quando os abriu, Jessica e Lamar haviam voltado a operar os
controles, mas havia certa cautela em seus movimentos, e eles trocavam
olhares a cada poucos segundos, como se buscassem o apoio um do outro.
Charlie olhou para John. Seus braços estavam cruzados sobre o peito e seus
olhos estavam cravados na nuca de Dave.

No fliperama, Carlton apertava alguns botões aleatórios em uma das


máquinas, sabendo que nada aconteceria, então deu a volta, e viu que
estava sob o olhar atento de um menino de onze anos que parecia
ressentido.
— O quê? — disse.
— Eu não sou um bebê — disse Jason. — Você não tem que ficar de
olho em mim.
— Quê? Jason, não estou de olho em você, só estava te fazendo
companhia. Não sou a Marla. Pode até enfiar a língua numa tomada, se
quiser, eu não ligo. — Ele ergueu as sobrancelhas de um jeito cômico e
Jason riu.
— Então tá, talvez eu faça isso mesmo — disse. Ficou olhando para
os rodapés, à procura de uma tomada, imaginando como Carlton reagiria ao
blefe, mas, quando olhou para trás, Carlton já havia saído da sala. Jason
mordeu o lábio e se equilibrou em seus calcanhares, sentindo-se um bobo.
Após um momento, ele se voltou aos desenhos na parede. Havia muitos
desenhos para olhar um de cada vez, mas Jason suspeitava que não
precisaria fazê-lo. Como haviam feito na noite anterior, os desenhos viriam
até ele. Eles queriam ser encontrados. Tudo o que Jason precisava fazer era
manter os olhos abertos.
Os desenhos na parede do fliperama não revelaram nada — eram
apenas rabiscos infantis borrados e sujos, desbotados pelo tempo, e por isso
ele voltou à sala de jantar, ainda se arrastando pelas paredes e examinando-
as, em busca de algo além de giz de cera.
— O que está aprontando, Jason? — Lamar apareceu atrás dele de
repente. Jason se virou e o fitou por um momento, pensativo. Gostava de
Lamar, ainda que pudesse estar sendo amigável apenas porque estava
interessado em Marla. Lamar havia se abaixado para que ficasse cara a cara
com Jason, que se inclinou para ele e sussurrou:
— Os desenhos estão se mexendo.
Lamar recuou e, por um momento, um olhar alarmado cruzou seu
rosto, mas logo passou. Jason mordeu o lábio, esperando, e Lamar abriu um
sorriso para ele, dando-lhe tapinhas na cabeça.
— Certo, Jason. Vamos conseguir a ajuda certa pra você — brincou,
achando graça, e Jason começou a rir, afastando a mão de Lamar.
— Cala a boca, é sério — disse Jason, deixando transparecer uma
pontinha de vergonha, e Lamar voltou a dar tapinhas em sua cabeça, até
que finalmente foi embora. Quando Lamar já estava longe o suficiente,
Jason revirou os olhos. Você acha que eu sou o quê, seu cachorrinho?
Bagunçou o cabelo com violência, como se pudesse desfazer o que quer
que Lamar tivesse feito consigo, e então voltou para a parede,
concentrando-se.
Havia percorrido toda uma parede e estava prestes a passar para a
próxima quando aconteceu: um lampejo, bem no canto de sua visão, quase
uma centelha. Ele parou. Qual foi? Observou os desenhos novamente,
passando os olhos pela parede cuidadosamente, de cima a baixo, na área
onde pensou ter visto o movimento, mas não havia nada lá. Recomeçou o
processo, parando para examinar cada rabisco de giz de cera, até que
aconteceu de novo.
Dessa vez, ele viu, seus olhos passando pelo desenho no momento
em que o lampejo de movimento parou, e assim que o fez, viu outro, tão
breve que, se não estivesse procurando, poderia tê-lo ignorado, confundido
com uma mera ilusão da luz e da sombra. Estava logo acima do primeiro,
cerca de sessenta centímetros para a esquerda — seus olhos foram de um
lado para o outro, tentando ver ambos ao mesmo tempo.
De repente, houve uma terceira movimentação em um desenho entre
os dois, dessa vez mais evidente. Dessa vez ele quase, quase viu o desenho
mudar antes que congelasse de novo. Sentando em seus calcanhares, Jason
olhou para os três desenhos, um de cada vez. Os traços eram de giz de cera
preto, e todos pareciam ter sido desenhados pela mesma criança, sempre
com duas figuras em primeiro plano: uma criança e um coelho.
Jason olhou ao redor do salão. Sua irmã e os outros ainda pareciam
estar entretidos pelo palco — Lamar tinha ido se juntar a eles. Jason tirou
do bolso o desenho que havia encontrado na noite anterior. Ele o alisou,
pressionando-o contra a superfície do chão, e então, bem devagar, ajeitou o
pedaço de fita adesiva cheia de fiapos para colar o papel de volta na parede,
na altura dos olhos. Fitou a parede, esperando.
Nada aconteceu.
Jason franziu a testa. Tinha tanta certeza de que eles o diriam alguma
coisa, mas eram apenas desenhos — a criança e o coelho continuavam no
meio do papel, juntinhas em um deles, afastadas no outro. Mas não havia
nada ali que pudesse ser considerada uma história. Enfim. Começou a olhar
para os outros novamente — e o que estava mais no alto começou a se
mover.
Dessa vez, ele viu a mudança: as linhas de giz de cera se retorceram
e deslizaram pela página, movendo-se por vontade própria, rápidas demais
para acompanhar. Quando o primeiro desenho parou de se mexer, outro
começou, e continuaram assim, um após o outro, até o que o último, aquele
que ele havia acabado de colar de volta, tivesse terminado. As figuras
estavam fixas no lugar e, agora sim, contavam uma história. Na primeira, a
criança estava sentada sozinha. Na segunda, Bonnie apareceu atrás dela. Na
seguinte, Bonnie havia agarrado a criança, erguendo-a do chão.
Na última, a criança estava gritando.
De olhos arregalados e coração acelerado, Jason deu um passo para
trás. Estava estupefato: de repente, sentiu que seu corpo era feito de
chumbo, pesado demais para que saísse correndo. Um barulho tomou o
lugar, como vento agitando as folhas na parede, embora elas continuassem
imóveis diante dele. O ruído aumentou, acelerando, ficando cada vez mais
alto, até que o vento desse lugar a gritos. Jason cobriu os ouvidos com as
mãos quando as folhas começaram a cair das paredes, pousando no chão
com baques altos, como se fossem feitas de algo muito mais pesado que
papel.
Diante de seus olhos, as folhas caídas assumiram uma coloração
vermelho-escura, mergulhando na cor conforme tocavam o chão. Jason se
virou para correr, mas o caminho estava bloqueado pelas páginas que
tombavam do teto em uma torrente. Uma pousou em seu ombro, outra em
suas costas, e então mais uma, e elas se colavam a ele, embrulhando-o
como se fossem sufocá-lo. Jason sentiu as pernas cederem sob aquele peso
e finalmente caiu com um dos joelhos no chão.
Enquanto se protegia da tempestade de papeis, a sala começou a
tremer violentamente. Jason trincou os dentes, encurralado — e, de repente,
tudo parou. Os papéis mergulhados em vermelho haviam desaparecido, não
havia nada em suas costas, e Marla o segurava pelo ombro, olhando para
ele de olhos arregalados.
— Jason, qual é o problema?
Jason se ergueu com dificuldade, batendo nas roupas como se
estivessem cobertas de insetos invisíveis.
— Os desenhos estavam caindo em cima de mim — disse com
urgência na voz, ainda em pânico, mas quando olhou de volta para a
parede, notou que o salão continuava silencioso e imóvel. Um único
desenho havia caído de seu lugar. Marla olhou para ele, então de volta para
o irmão, e balançou a cabeça. Aproximando-se, sussurrou em seu ouvido:
— Você me mata de vergonha. — Após um momento, ela soltou seu
ombro, o rosto quase inexpressivo, e então se afastou. Jason se levantou aos
tropeços, mas a seguiu o mais rápido que pôde, mantendo os olhos
cravados nas paredes conforme avançavam.
Na sala de controle, Dave estava com as mãos nos botões, seus dedos
vagando por cima deles com toques leves, mas não pressionava nenhum. O
movimento parecia impensado, instintivo, como um hábito. Charlie
inclinou-se para perto de John, sussurrando:
— Ele já esteve aqui antes — disse. — Olha como mexe nos
controles.
— Vai ver só é bom com computadores — sugeriu John, sem muita
convicção.
— Pode fazê-los dançar outra vez? — perguntou Jessica. Dave mal
pareceu tê-la ouvido. Sua boca estava entreaberta e ele parecia encarar
alguma coisa que nenhum deles podia ver. Sob as luzes brilhantes, todos
podiam notar que seu uniforme estava sujo e um pouco rasgado, que ele
estava com a barba por fazer e que seu olhar era ligeiramente perdido. Mais
parecia um mendigo do que um guarda, e olhava para eles como se já
estivesse ali há anos e eles fossem os recém-chegados. Demorou um
momento até que ele processasse a pergunta.
— Claro, vejamos o que podemos fazer — disse.
Sorriu para ela, a boca torta. Seus olhos estavam meio vidrados
demais no rosto dela, encarando-a por um pouco mais de tempo que o
normal. Jessica engoliu em seco, tomada por um repúdio instintivo, mas
sorriu educadamente de volta para ele.
— Certo — disse Dave. — Já estive aqui algumas vezes antes, acho
que consigo dar um jeito com um toque de mágica.
Charlie e John trocaram olhares.
— Você já esteve aqui antes? — disse John, cuidando para manter o
tom neutro, mas Dave o ignorou, ou não o ouviu.
Havia um teclado no canto esquerdo do painel que ainda não havia
sido tocado por ninguém, já que não parecia estar conectado a nada. Então,
Dave foi até ele e começou a pressionar os botões rapidamente, como se já
o tivesse feito centenas de vezes antes. Lançou à Jessica um olhar
conspiratório:
— Em ocasiões especiais, pode-se pedir uma dança. — Sorriu para
ela novamente, aquele mesmo sorriso torto e enorme.
— Que ótimo — disse Jéssica, soltando um suspiro aliviado.
Qualquer coisa para acabar com aquela proximidade forçada àquele
homem. Ela olhou para Lamar. — Vou dar uma olhada, você assume por
aqui?
— Sim, claro — disse, avançando para preencher o lugar de Jessica e
Dave, que seguiram para o salão de shows.
No palco, as luzes piscavam em sequência, acompanhando a música
que já não tocava mais, e a boca de Bonnie se mexia como se estivesse
cantando. Suas pálpebras se fechavam em longas piscadas, então se abriam
novamente dentre cliques ruidosos, seus olhos de vidro se movendo de um
lado para o outro. Uma grande mão azul subia e descia, dedilhando
exageradamente o baixo vermelho que já não tinha mais cordas.
— Lamar, é você que tá fazendo tudo isso? — disse Carlton,
devidamente admirado.
— Tudo não! — respondeu Lamar. — A maior parte parece ser pré-
programada.
Bonnie se voltou para eles e Jessica se assustou quando ele pareceu
olhar diretamente para ela. Mas então, sem demora, ele se virou para
encarar as fileiras de cadeiras vazias, levantando a cabeça para cantar.
— É estranho vê-los desse jeito — disse Jessica, recuando um passo
para enxergar melhor. Bonnie batia com o pé no chão, acompanhando o
ritmo, e sua boca abria e fechava diante da música. Mas não havia voz; não
havia música. Havia apenas um zunido estranho saindo dos alto-falantes, e
uma orquestra de estalos e guinchos mecânicos. De repente, Bonnie
acelerou, dedilhando e batendo o pé mais depressa. Seus olhos pareciam
fora de sincronia, olhando para a esquerda enquanto virava a cabeça para a
direita, depois girando nas órbitas.
Dave se aproximou do palco a passos largos.
— Mas que rapazinho nervoso você é, não é mesmo? — Ele sorriu,
não parecendo incomodado com os movimentos cada vez mais rápidos do
coelho.
— Ei, Lamar, será que você consegue desacelerar isso aí um
pouquinho? — gritou Jessica.
Os braços de Bonnie começaram a convulsionar violentamente, a
boca aberta, tremendo como estivesse gaguejando, os olhos lançando
olhares aleatoriamente para todas as direções.
— Lamar! Tem alguma coisa errada! — berrou Jessica.
O pé de Bonnie se ergueu de súbito com o que parecia o som de um
tiro, soltando-se do parafuso que o prendia ao palco.
— Lamar! — Carlton subiu no palco e correu até Bonnie, tentando
procurar no coelho um botão de desligar enquanto desviava dos golpes
erráticos.
— Carlton, desse daí, seu idiota! — Jessica correu até o palco.
Bonnie se movia rápido demais, fora de controle, como se sua
programação estivesse em pane. Não seguia mais a sequência de dança da
qual eles se lembravam tão bem. Começou a convulsionar e a se debater.
Carlton tentou se afastar, um pouco atrapalhado, mas o braço de Bonnie se
soltou do baixo, girando e atingindo Carlton no peito, arremessando-o para
fora do palco; ele caiu de costas e ficou no chão, ofegante.
— Lamar! — gritou Jessica. — Lamar, desliga isso!
— Eu não sei como! — Ele gritou de volta.
Jessica se ajoelhou ao lado de Carlton, olhando para ele sem saber o
que fazer. Cutucava seu ombro insistentemente.
— Carlton, você tá bem? Carlton? Olha pra mim!
Carlton deu uma risada, que mais parecia uma tosse, e então segurou
sua mão, puxando-se para que pudesse se sentar.
— Tá tudo bem — disse. — Só fiquei sem ar. — Jessica ainda
parecia preocupada. — Só preciso de um minuto — garantiu, as palavras
ainda saindo entrecortadas.
Na sala de controle, Lamar apertava botão atrás de botão,
desesperado, mas ainda podia ver na tela que Bonnie continuava se
movendo violenta e aleatoriamente, sem responder a nada que ele fizesse.
Charlie entrou correndo, empurrando-o para fora do caminho, mas
demorou ainda alguns segundos para notar que os botões eram inúteis.
Voltou os olhos para Lamar por um momento. Não estamos no
controle, pensou. Como um só, os dois correram da sala de controle para
ajudar os outros.
Jessica gritou, um berro curto e estridente, e Marla e John correram
até ela, Charlie e Lamar chegando alguns segundos depois. Todos os
animais estavam se movendo agora, daquela mesma maneira espasmódica,
avançando de forma aleatória pela sequência de movimentos pré-
programada, mas aparentando certo pânico e desespero.
As luzes começaram a pulsar, tremeluzindo rapidamente, acendendo
e apagando. As luzes do palco fizeram o mesmo, as cores aparecendo e
desaparecendo, fazendo com todo o lugar fosse banhado primeiramente por
uma luz dourada ofuscante, depois por um verde enjoativo, e então por um
roxo ameaçador e que lembrava um hematoma. Tudo piscava como luzes
estroboscópicas, e o efeito era nauseante.
Os alto-falantes ribombavam com explosões curtas de estática, indo e
vindo, assim como as luzes, e, por trás da estática, podiam ouvir o mesmo
som que ouviram na noite anterior, o rosnado de uma voz baixa demais
para ser humana, indistinta demais para serem de fato palavras.
O grupo começou a se reunir cuidadosamente, sem confiar nos
próprios sentidos: as luzes piscavam de forma selvagem, e conforme se
aproximava de seus amigos, Charlie não conseguia precisar exatamente à
que distância estavam, ou sequer o que havia a sua frente. Agruparam-se no
meio do salão, encarando os animais que se balançavam e debatiam com
violência, como se tivessem algum propósito com aquilo. Carlton se
levantou, e Jessica lhe lançou um olhar preocupado, mas ele balançou a
mão para ela.
— Já te falei, eu tô legal — disse, gritando para ser ouvido por cima
do barulho intermitente.
Charlie estava congelada no lugar, incapaz de tirar os olhos dos
animais. Estão tentando se soltar, pensou. Era uma ideia infantil, e tentou
deixá-la de lado, mas não conseguia evitar de pensar naquilo enquanto os
observava, mal notando o pulsar irregular de luz e som. As criaturas
animatrônicas não pareciam estar em curto — seus movimentos não
pareciam mecânicos, e sim histéricos, como se precisassem fazer alguma
coisa desesperadamente, mas, para seu horror, não tinham como fazê-lo.
— Cadê o Dave? — disse John, de repente. Charlie voltou seus olhos
para os deles com um temor crescente. Essa não. Todos olharam em volta,
mas o guarda não estava à vista.
— Temos que encontrá-lo — disse Charlie.
— Ele provavelmente já foi embora, quem liga? — disse Marla, sua
voz alta e aterrorizada.
— Não é com ele que estou preocupada — respondeu, com um tom
sombrio. Ela se voltou para John. — Vem comigo — disse, avançando em
direção ao corredor à direita do palco. Ele olhou para o restante do grupo
por cima do ombro e então foi atrás de Charlie com um passo apressado.
— Devíamos encontrar a outra sala de controle e ver se conseguimos
parar tudo isso de lá — disse Jessica, decidida, assumindo a liderança. —
Você e o Jason têm que procurar o Dave — disse à Marla.
— Eu vou com eles — disse Lamar, rapidamente.
— Sala de controle? — disse Carlton, olhando para Jessica.
— Sala de controle — ela confirmou.
Todos partiram, movendo-se lentamente. As luzes estroboscópicas
distorciam o espaço diante deles, parecendo criar obstáculos que não
estavam lá e ocultando os que realmente estavam. O efeito era
desnorteante, um labirinto de luz e som em constante mudança.
— Ai! — gritou Marla, e todos pararam.
— Tá tudo bem aí? — berrou Carlton.
— Sim, só esbarrei nesse carrossel idiota — berrou de volta. Os alto-
falantes ficaram mudos por um momento, mas eles gritavam um para o
outro ao longo da pequena distância como se houvesse um grande cânion
os separando.

Em outro corredor, Dave avançava rumo a um objetivo próprio. Sem


os outros ali para vigiá-lo, se movia rápido, correndo quase que de lado e
volta e meia lançando olhares para trás, por cima dos ombros curvados,
para ver se não estava sendo seguido. Havia um grande chaveiro pendurado
ao cinto de seu uniforme, mas não tinha muitas chaves. Pegou uma, abriu
uma porta e entrou no escritório do restaurante.
Fechou a porta atrás de si com certa urgência, mas com cuidado para
fazer o mínimo de barulho possível, ainda que o grupo jamais pudesse
ouvi-lo a essa distância, ou notar qualquer coisa em meio a seus próprios
berros e ao escândalo dos alto-falantes. Acendeu a luz do teto, e ela
permaneceu estável, iluminando o cômodo sem um único tremeluzir. Havia
um armário alto encostado na parede oposta, e ele usou outra chave de seu
chaveiro para abri-lo.
Dave ficou parado diante da porta aberta, completamente imóvel por
algum tempo, respirando profundamente. Enquanto o fazia, endireitou suas
costas e o peito oco pareceu se expandir, como se o que vira ali dentro o
enchesse de uma confiança atípica. Com um pequeno e estranho sorriso nos
lábios, Dave estendeu a mão, saboreando o momento, passando a ponta dos
dedos no pelo amarelo.

Jessica e Carlton dispararam pelo corredor em direção à segunda sala


de controle, mas Marla e os outros dois meninos avançavam mais
lentamente, olhando dentro dos salões de festa e do fliperama. As salas
pareciam vazias, mas com a constante mudança de luz, pensou Jason
enquanto avançavam, seria fácil deixar passar alguma coisa. Depois de
checar toda a área, Marla e Lamar voltaram ao salão principal.
— Cadê a Jessica e o Carlton? — gritou Lamar, por cima de mais
ruídos distorcidos. Jason parou e olhou para trás e, num instante fugaz, ele
o viu: um coelho, sua silhueta iluminada no corredor apenas por uma fração
de segundo, conforme as luzes piscavam sobre ele, até que desapareceu e
reapareceu novamente, saindo de vista enquanto seguia de volta ao salão
principal de onde o grupo acabara de sair.
— Marla! — gritou Jason. — MARLA! — sua voz era estridente,
desesperada.
Ela se virou para ele.
— O que foi? Tá tudo bem?
— Eu vi o Bonnie, estava bem ali!
— O quê? — Os olhos de Marla automaticamente se voltaram ao
palco. Bonnie continuava lá, balançando de um lado para o outro com os
mesmos movimentos estranhos e espasmódicos. – Jason, olha, ele está lá
em cima. Ele não consegue sair do palco.
Jason olhou. Bonnie estava lá. Mas eu o vi, pensou, olhando de volta
para o corredor, mas estava vazio.
Foi quando Jessica chegou correndo, sem fôlego.
— Tá todo mundo bem? Escutei gritos.
— Estamos bem — disse Lamar. — Jason pensou ter visto alguma
coisa.
— Cadê o Carlton? — disse Marla, esfregando as têmporas. — Ugh,
essa luz está me dando uma dor de cabeça daquelas.
— Ainda está brincando com os controles — disse Jessica. —
Vamos procurar a Charlie e o John. Acho que é melhor darmos o fora
daqui.
— Acho que eles foram por ali — disse Lamar, apontando para o
corredor nos fundos do cômodo, logo atrás do palco.
— Vamos — disse Jessica. Jason seguiu o grupo, cruzando
novamente a sala de jantar e manobrando cuidadosamente ao redor das
mesas e cadeiras. Quando chegaram ao corredor, ele olhou para trás: de
repente, Bonnie apareceu novamente, saindo correndo do fliperama e
entrando no corredor que levava à Baía Pirata. Jason observou sua irmã e
os outros passarem em fila pela porta adiante e escapuliu antes que o
flagrassem. Saiu correndo pelo salão, determinado a seguir o coelho, até
que diminuiu a velocidade quando chegou ao corredor escuro.
As luzes no pequeno salão estavam completamente apagadas e,
embora não pudesse enxergar nada, sentiu-se um pouco aliviado por sair
das luzes piscantes. Jason se apoio à parede conforme avançava, tentando
examinar o espaço à frente em busca de sinais de movimento, mas estava
escuro demais — seus olhos ainda não haviam se ajustado. Depois do que
pareceu uma eternidade, finalmente chegou à Baía Pirata. Ao longe,
conseguia ouvir sua irmã chamando seu nome. Olha quem notou que eu
sumi, pensou, irônico, e ignorou o chamado. Ele cruzou a sala e espiou o
corredor adiante, que levava a mais salões de festa, mas também estava
escuro demais, e mal conseguia ver um palmo à sua frente.
Dando a volta, ele se aproximou do palco menor, a placa de “Out of
Order” ainda pendurada. Como se alguma coisa aqui funcionasse. De
repente, a cortina se mexeu, e Jason congelou. A cortina começou a ser
puxada. Jason não conseguiu se forçar a correr. Tudo ficou escuro, até que
as luzes se acenderam de súbito, revelando Carlton parado diante dele,
saindo de trás da cortina.
— O que está fazendo aqui sozinho? — disse Carlton,
cumprimentando-o com um sorriso. — Anda, vamos.
Sentindo uma onda de alívio, Jason deu um passo à frente, abrindo a
boca para dizer alguma coisa — mas ficou paralisado, tomado pelo medo.
Bonnie surgiu de repente do meio da escuridão, surgindo em meio às
luzes do palco diante deles. Mas aquele não era Bonnie — os pelos
amarelos daquele coelho eram quase ofuscantes sob a luz. Ele correu na
direção deles, e antes que Jason pudesse gritar, o coelho gigante agarrou
Carlton por trás, abafando seu rosto com uma pata gigante e peluda
enquanto usava o outro braço forte para envolver seu peito, segurando-o
com firmeza. Carlton se debateu em silêncio, batendo e chutando, mas a
criatura mal parecia notar. Tentava gritar sob a pata do coelho, mas o som
era completamente abafado. Enquanto o menino lutava, o coelho voltou
pelo caminho por onde havia vindo, carregando Carlton consigo como o
espólio de sua caçada.
Jason os assistiu irem embora boquiaberto. Seu coração estava
acelerado e a respiração, fraca; estava tonto, o ar ao seu redor sufocante.
Ouviu um barulho atrás de si, o chiado de metal enferrujado começando a
se mover, então se virou e deu um pulo para frente, bem a tempo de evitar
o gancho de Foxy, lançado contra ele em um golpe. Os olhos de Foxy
brilhavam em sincronia com as luzes acima e, atordoado por um momento,
pareceu para Jason que aqueles olhos eram a força que controlava aquilo
tudo, que se Foxy fechasse os olhos, todas as luzes se apagariam. O animal
não se mexia como os outros. Ele se levantou lenta e deliberadamente,
saindo pela fresta entre as cortinas, os olhos brilhantes fitando o menino de
uma altura absurda.
— Jason! — Era a voz de Charlie, ele sabia, mas continuou olhando
de um lado para o outro, primeiro para Foxy, depois para onde Carlton
havia sido levado. — Jason! — Ela gritou novamente, e então apareceu ao
lado dele, junto a John, tocando-o no ombro, sacudindo-o para arrancá-lo
de seu devaneio sinistro. John segurou sua mão e o puxou depressa; no
salão principal, os outros já estavam na metade do corredor da saída, exceto
Marla, que estava esperando, ansiosa, no começo da passagem, seu rosto
transbordando alívio quando viu o rosto de Jason.
— Marla, o Bonnie, ele levou o Carlton! — Jason berrou, mas ela
apenas pôs as mãos em suas costas e o empurrou pela porta, em direção ao
corredor.
— Vai, Jason!
— Mas eu vi o Bonnie levar o Carlton! — insistiu, mas continuou
correndo, com medo de parar.
Eles dispararam pelo corredor rumo à saída, todos correndo
aterrorizados e impacientes, enquanto faziam fila para desembocar no beco,
um por um — não havia como sair mais rápido. Quando todos haviam
passado, Charlie olhou de volta para o corredor por um longo momento,
mas não havia ninguém vindo. Ela fechou a porta e se afastou enquanto
Lamar e John empurravam a estante de volta ao lugar, bloqueando a saída.
— Ninguém viu o Dave — disse Charlie. Não era uma pergunta.
Todos balançaram a cabeça.
— Deve ter se mandado quando as luzes começaram a ficar doidas
— sugeriu Lamar, mas não parecia convencido disso.
— Carlton! — gritou Jason, mais uma vez. — O Carlton ainda tá lá
dentro! O Bonnie o levou!
Todos olharam em volta: Carlton não estava com eles.
— Essa não — disse Jessica. — Ele ainda tá lá dentro.
— O Bonnie o levou! — disse Jason, lançando as palavras uma de
cada vez, a voz falhando. — Eu vi, o Bonnie estava lá, estava na Baía
Pirata. Ele agarrou o Carlton e o levou embora, e eu não pude detê-lo. —
Esfregou os olhos com a manga, secando as lágrimas.
— Ah, meu amor — Marla o abraçou e ele se agarrou a ela,
escondendo o rosto em sua camiseta. — Foi só uma ilusão, um truque de
luz. O Bonnie não tem como fazer isso, ele é só um robô. Estava lá no
palco quando a gente saiu.
Jason fechou os olhos. Só havia olhado para o palco principal por um
segundo quando estavam saindo, mas era verdade — Bonnie estava lá, se
sacudindo em movimentos estranhos e desajeitados, mas ainda parado no
mesmo lugar. Afastou-se dos braços de sua irmã.
— Eu vi — insistiu, a voz mais fraca. – O Bonnie o levou.
Os outros trocaram olhares sobre sua cabeça. Charlie olhou para
Marla, que deu de ombros.
— Temos que voltar lá pra dentro — disse Charlie. — Temos que
tirá-lo de lá. — Jessica assentia, mas John pigarreou.
— Acho que vamos precisar de ajuda — disse. — Não é seguro lá
dentro.
— Vamos chamar o pai do Carlton — disse Marla. — Não vou levar
o Jason lá dentro de novo.
Charlie quis protestar, mas se conteve. Eles tinham razão, é claro que
tinham. O que quer que fosse o que acabara de acontecer, estava além
deles — precisavam de ajuda.
CAPÍTULO SETE

Seguiram de volta pelos corredores do shopping abandonado, sem se


preocupar com o som de seus passos ou com a luz das lanternas.
— Isso que é ser sorrateiro — disse Charlie com um tom sombrio,
mas ninguém respondeu. Num consenso silencioso, todos trataram de
acelerar o passo; quando chegaram ao estacionamento, já estavam quase
correndo. Avistando seu carro ao sair pela porta da frente, Charlie sentiu
um alívio quase físico, como se estivesse vendo um velho amigo.
— Alguém devia ficar — disse, parando com a mão na maçaneta. —
Não podemos abandonar o Carlton.
— Não — disse Marla com firmeza. — A gente vai embora agora.
— Todos olharam para ela, surpresos, por um momento. De repente, estava
falando com eles como costumava falar com Jason. A maninha sabe o que
é melhor. Lamar e Jason trocaram olhares, mas ninguém disse nada. —
Vamos voltar para a cidade. Todos nós — acrescentou, lançando um olhar
de advertência à Charlie. — E lá a gente encontra ajuda.
Voltaram correndo aos carros. Enquanto Charlie assumia o volante,
John se sentou no banco do carona, e ela lhe deu um sorriso tenso. Jessica
subiu na traseira no instante seguinte, o que a fez sentir-se um pouco
desapontada — Charlie queria conversar com ele a sós. Estamos indo atrás
de ajuda, não é um encontro, repreendeu-se, mas não era aquela a questão.
Ele a fazia sentir-se segura, era como um ponto de referência em meio a
todas as coisas estranhas que vinham acontecendo ao redor deles. Virou-se
para fitá-lo, mas ele estava olhando pela janela. Saíram do estacionamento
seguindo o carro de Marla à toda, conforme ela acelerava pela escuridão.

Quando chegaram à cidade, Marla puxou o carro para o lado da rua


principal e parou, Charlie fazendo o mesmo logo atrás. Antes que o carro
sequer parasse por completo, Jessica saiu num salto do assento traseiro e
começou a correr. Marla a seguiu de perto. Pararam na frente do cinema, e
foi só então que Charlie viu que havia um policial de uniforme sob a
marquise, encostado em seu carro preto e branco. Ele arregalou os olhos
diante das jovens que vinham correndo em sua direção, e involuntariamente
recuou um passo quando Marla começou a falar sem ao menos parar para
respirar:
— ...Por favor, você tem que vir — concluía Marla, conforme os
outros a alcançavam.
O policial parecia um tanto perplexo. Tinha um rosto rosado e oleoso
e os cabelos eram tão curtos que o chapéu cobria tudo. Era jovem, talvez na
casa dos vinte, Charlie notou, e os fitava com desconfiança.
— É mesmo uma emergência? — disse. — Talvez vocês não saibam,
mas podem acabar encrencados com esse tipo de pegadinha.
Jessica revirou os olhos, reduzindo a distância entre ela e o homem.
— Não é uma pegadinha — disse, ríspida, e Charlie de repente se
lembrou de como ela era alta. — O nosso amigo tá preso naquele shopping
abandonado e é seu dever ajudar a gente.
— No shopping? — Parecendo um tanto confuso, ele olhou na
direção de onde haviam vindo. — NAQUELE shopping? — Seus olhos se
arregalaram, e ele então franziu a testa de forma a censurá-los, parecendo
um verdadeiro pai decepcionado, apesar de tão jovem. — Pra começo de
conversa, o que estavam fazendo lá?
Charlie e Marla trocaram olhares, mas Jessica nem piscou.
— Se preocupa com a gente depois. Ele está em perigo, e você tem
que nos ajudar, policial... — Inclinou-se para frente e espiou o nome em
seu crachá. — Policial Dunn. Ou você prefere que eu peça ajuda ao corpo
de bombeiros?
Apesar do medo, Charlie quase riu. Jessica falava como se estivesse
em uma loja, ameaçando procurar a concorrência. Foi tão absurdo que tudo
o que ela deveria ter recebido era um olhar intrigado, mas Dunn saiu
correndo atrás do rádio.
— Não — disse ele. — Espera um pouco.
Apertou um botão e o rádio emitiu um rápido estalo de estática.
Charlie sentiu um breve calafrio ao ouvir o ruído e, olhando ao redor,
percebeu que John havia ficado tenso e que Jason se aproximara um passo
de Marla. Sem parecer notar suas reações, Dunn vociferou sons
incompreensíveis para o rádio, falando em código policial, e Charlie
subitamente teve um lampejo de uma velha memória, onde ela corria pelo
quintal, cochichando com Marla por um walkie-talkie. Elas nunca
conseguiam se entender através do brinquedo barato que seu pai havia
encontrado numa liquidação de farmácia, mas não se importavam — a
comunicação em si nunca fora o objetivo.
— Charlie, anda! — gritou Jessica, e Charlie voltou a si: todos
estavam voltando para seus respectivos carros, amontoando-se lá dentro.
Marla arrancou na frente e o policial foi logo atrás, enquanto Charlie o
seguia pela traseira.
— Por que ele não ligou a sirene? — disse Jessica. Sua voz estava
fraca e irritadiça, como se suas únicas opções fossem a língua afiada ou
lágrimas.
— Ele não acredita na gente — disse John, com a voz baixa.
— Ele devia ligar a sirene — disse Jessica, dessa vez quase num
sussurro. Charlie segurava o volante com tanta força que suas juntas já
estavam ficando brancas, seus olhos completamente focados nas lanternas
vermelhas da viatura policial.
Quando chegaram de volta ao shopping, Jessica saiu correndo na
frente, forçando o resto do grupo a correr atrás dela. Charlie não se
importava — era bom correr, lhe dava um propósito. Lamar falava com o
policial enquanto corriam, gritando por cima do barulho de seus pés
batendo no chão.
— O restaurante está completamente fechado com ripas de madeira,
mas tem uma porta que continua aberta — disse, as palavras interrompidas
por sua respiração irregular. — Atrás do plástico... é só puxar... beco
escuro... o Carlton tem cheiro de pé. — O policial Dunn hesitou por um
instante, mas logo retomou o ritmo. Quando chegaram ao beco,
desaceleraram, avançando cautelosamente pela passagem estreita até
alcançarem a porta.
— Ajuda a gente — disse John, e Dunn se aproximou para ajudar
com a estante. Eles a puxaram rápido demais, chacoalhando todo o seu
conteúdo numa barulheira só. A estante tombou para trás, e ferramentas,
cabos e latas de tinta cheias de pregos caíram no chão. — Ai! — gritou
John quando um martelo acertou seu pé; todos observaram os objetos se
espalharem, alguns rolando para longe e desaparecendo no corredor escuro.
— O quê?! — gemeu Jason, e todos ergueram o olhar da bagunça.
Ele estava apontando para a porta.
— O que é isso? — arfou Marla. Havia correntes trespassando a
porta de cima a baixo, com três enormes cadeados ligando uma à outra. Os
elos haviam sido pregados ao batente de metal da porta, e eram grossos,
grossos demais para serem cortados sem uma ferramenta específica. Estava
tudo enferrujado: era como se aquilo tudo estivesse pregado ali há anos.
Charlie se aproximou da porta e tocou uma das correntes, como se quisesse
confirmar se eram reais.
— Isso não estava aqui — disse ela, as palavras soando insanas
mesmo enquanto ainda deixavam sua boca.
— Temos que tirá-lo daí! — berrou Jason, hesitante, suas mãos
cobrindo os olhos. — Bonnie vai matar ele, e é tudo culpa minha!
— Do que ele está falando? — disse o policial, fitando-os com
suspeitas renovadas. — Quem é Bonnie, e por que ela vai machucar o seu
amigo?
— Ele... é um robô — disse Charlie, depressa. — Os robôs da
Freddy Fazbear’s continuam lá dentro, e ainda funcionam.
— Eu me lembro desse lugar — disse Dunn, e sua voz se suavizou
por um instante. — Eu vinha aqui quando era criança. — Fez uma pausa,
como se quisesse continuar, uma expressão de nostalgia tomando-lhe o
rosto por um breve momento. Então se recuperou depressa e pigarreou.
— Ele ganhou vida — insistiu Jason, já nem se esforçando mais para
esconder as lágrimas. Dunn se abaixou na altura dele, suavizando a voz.
— Qual é o seu nome? — perguntou.
— Temos que tirá-lo de lá — repetiu Jason.
— O nome dele é Jason — disse Marla, e Jason a encarou.
— Jason — disse o policial. Colocou a mão no ombro de Jason e
manteve-se abaixado em sua altura, olhando para os outros sem disfarçar a
desconfiança. Ele acha que nós o obrigamos a dizer isso, Charlie percebeu.
Jason se contorcia sob a mão de Dunn, mas o policial não o largou,
olhando-o nos olhos ao fazer a pergunta seguinte: — Jason, eles pediram
que você dissesse isso? O que está acontecendo aqui?
Irritado, Jason se desvencilhou do policial e deu um enorme passo
para trás.
— Eu já disse o que tá acontecendo — disse com firmeza.
O policial respirou fundo, frustrado, e depois se levantou, desistindo
daquele teatrinho do policial amigável.
— Quer dizer então que os robôs levaram o seu amigo —
concluiu. Sei o que vocês estão tramando, dizia seu tom.
— A gente estava lá dentro — afirmou Charlie, categoricamente,
mantendo a voz estável, como falar num tom calmo e equilibrado o
suficiente pudesse convencê-lo de que não estavam mentindo. — Nosso
amigo não conseguiu sair.
O policial olhou para as correntes mais uma vez.
— Veja bem — disse ele, aparentemente resolvendo dar a eles o
benefício da dúvida. — Para começo de conversa, eu não sei como vocês
conseguiram entrar aí, e agora também nem quero saber. Mas as máquinas
desse lugar são velhas, ninguém mexe nelas há uns dez anos. Imagino que
seja bem assustador. Porra, nem eu ia querer entrar aí. Então, embora não
possa culpá-los pelo desespero, posso garantir que esses robôs não estão se
mexendo sozinhos. Esse lugar está morto — disse, dentre uma risadinha
forçada. Jason trincou o maxilar, mas não disse nada. — Acho que vocês
precisam mesmo é ir para casa — finalizou, mais como uma ameaça do que
um conselho.
Eles se entreolharam.
Após um momento de silêncio desconfortável, Jessica se virou para
Charlie.
— Essas correntes não estavam aí antes. Certo? — Hesitou, olhando
de volta para os amigos esperando uma confirmação, como se começasse a
duvidar da própria memória.
— Não — disse Charlie no mesmo instante. — Não estavam.
Ninguém vai embora daqui, e a gente precisa da sua ajuda.
— Está bem — disse Dunn, sem rodeios. — Qual é o nome dele? —
perguntou, sacando um caderno de anotações que parecia ter vindo do meio
do nada.
— Carlton Burke — disse Jessica, e estava prestes a soletrar o nome
quando o policial largou a caneta de súbito e fechou os olhos, as narinas se
inflando.
O policial os encarou, já não parecendo mais tão jovem.
— Vou lhes dar mais uma chance. Contem-me exatamente o que
aconteceu. — Ele falava devagar, enfatizando os espaços entre as palavras.
Estava no controle novamente, se sentindo em casa, como se de repente
tivesse entendido tudo.
Todos tentaram explicar tudo ao mesmo tempo, falando um por cima
do outro. A voz de Jessica era a mais alta e calma, mas nem ela conseguia
esconder a ansiedade. Charlie se afastou, quieta. Contem-me exatamente o
que aconteceu. Por onde deveriam começar? Por aquela noite? Aquela
semana? Michael? A primeira vez que seu pai tocou em um circuito
impresso? Como se deve responder a algo como “contem-me o que
aconteceu”? O policial assentiu e pegou o rádio de novo, mas dessa vez
falou de forma compreensível.
— Norah, liga pro Burke. É o filho dele. Estou na área do velho
shopping desativado. — A resposta foi uma explosão de estática, e o
policial voltou sua atenção de volta para eles. — Venham — disse.
— Vir pra onde? — disse John.
— Pra fora da propriedade — disse o policial.
Marla tentou protestar, mas ele a interrompeu.
— Vou escoltá-los para fora da propriedade — disse. Puxou o
cassetete do cinto e o apontou para frente, como um comissário de bordo
dando instruções.
— Vamos — disse Lamar. Jason continuava olhando para baixo,
taciturno, e Lamar cutucou seu ombro de leve. — Jason, vem, a gente tem
que fazer o que ele está mandando agora, tá bem?
— Mas o Carlton! — gritou Jason, e Lamar balançou a cabeça.
— Eu sei. Tá tudo bem, a gente vai encontrar ele, mas temos que ir
embora agora. — Guiou Jason em direção à saída do beco, e os outros
foram logo depois. O policial ia atrás do grupo, seguindo Charlie um pouco
perto demais. Ela acelerou, mas ele fez o mesmo, e ela se forçou a aceitar a
situação.
Quando chegaram ao estacionamento, ele os instruiu a esperar perto
do carro e se afastou alguns passos, falando pelo rádio outra vez, longe
demais para que ouvissem.
— O que está acontecendo? — disse Jason. Estava quase começando
a chorar; quando notou o tom de sua voz, tentou engrossá-la um pouco. Eu
não sou uma criancinha, lembrou a si mesmo. Ninguém respondeu, mas
Marla acariciou suas costas, distraída, e ele não se afastou. Longos minutos
de silêncio se passaram. Jessica se sentou no capô do carro, sem encarar o
resto do grupo. Charlie queria ir até ela, mas não foi. Em meio à angústia,
Jessica estava se fechando, ficando tensa, fria e ríspida, e Charlie não
achava que conseguiria derrubar aquele muro que a protegia sem acabar
desmoronando também.
— Ele tava falando do pai do Carlton? — perguntou Charlie, mas
ninguém teve tempo de responder.
Faróis se projetaram adiante, e um carro parou ao lado deles. O
homem que deixou o mesmo era alto e magro, e os cabelos claros eram
algo entre o loiro e o grisalho.
— O pai do Carlton — sussurrou Marla, uma resposta tardia para a
pergunta de Charlie. O homem sorriu ao se aproximar.
— O pai do Carlton — confirmou ele. — Mas como vocês todos já
estão bem grandinhos agora, melhor me chamarem de Clay. — Todos
balbuciaram o nome, em parte para cumprimentá-lo, em parte apenas para
experimentar. Jason cobriu a boca, inibido, tocando o espaço invisível em
seus molares com a língua.
— Achei que nossos dias de estripulia já tinham ficado para trás,
não? — disse Clay, com uma expressão bem-humorada.
Jessica desceu do capô do carro de Charlie, o rosto abaixado.
— Sinto muito mesmo, ele sumiu — disse ela, séria. — Não sei o
que aconteceu, ele estava bem do nosso lado!
— O Bonnie raptou ele! — exclamou Jason. — Eu vi, foi o coelho
que pegou ele!
Clay começou a sorrir, mas parou ao ver a expressão do grupo.
— Ah, crianças, me desculpem. Vocês passaram muito tempo fora.
Receio que Carlton esteja pregando uma peça em vocês, em TODOS vocês.
— O quê? — disse Lamar.
— Ora, sejamos francos, com todos vocês de volta à cidade, ele não
conseguiria resistir — disse Clay. — Seja lá o que tenha acontecido, eu
garanto, foi ele que armou tudo. Ele provavelmente vai sair de trás de um
desses arbustos aí a qualquer minuto.
Houve um momento de silêncio e todos ficaram esperando, embora
aquilo fosse contra qualquer probabilidade. Nada aconteceu.
— Bom — disse Clay, enfim. — Seria demais esperar que fosse fácil
assim! Venham, por que não vão lá pra casa? Vou fazer um chocolate
quente, e quando o Carlton finalmente aparecer, vocês mesmos podem
dizer que ele está de castigo!
— Está bem — disse Charlie, sem esperar pelo aceite dos outros.
Queria acreditar em Clay, queria acreditar que Carlton estava bem e que
reapareceria rindo disso tudo. Mas, com a mesma intensidade, queria ir
para algum lugar onde houvesse um adulto no controle, alguém que fizesse
chocolate quente e garantisse que monstros não existem. Seu pai jamais lhe
dissera isso. Seu pai jamais teria lhe contado uma mentira dessas.
Ninguém fez objeções, então reorganizaram a caravana rumo à casa
de Clay. Todos se instalaram em seus lugares de praxe: Charlie, John e
Jessica no carro de Charlie, e Marla, Jason e Lamar no de Marla. Pelo
espelho retrovisor, Charlie viu o carro do policial Dunn, ainda em sua
cola. Ele está fazendo o mesmo caminho que nós ou só está conferindo se
estamos indo aonde nos mandaram ir?, ela se perguntou, mas não
importava. Não estavam planejando uma fuga.
Na casa de Carlton, todos entraram em fila pela porta da frente.
Charlie olhou para trás a tempo de ver a viatura indo embora. Estava nos
seguindo. Enquanto subiam os degraus, John se aproximou para sussurrar
em seu ouvido.
— Nunca tinha me tocado de como eles eram ricos quando era
criança! — disse ele, e Charlie sufocou uma risada. Era verdade, a casa era
enorme. Tinha três andares e avançava pela floresta ao redor, tão grande
que Charlie chegou a imaginar que deveria haver quartos onde tudo o que
se podia ver pelas janelas eram árvores. Clay os levou para a sala de estar,
que parecia ser usada com frequência, onde a mobília não combinava, e os
tapetes, escuros e resistentes, eram do tipo que era feito para ser a prova de
manchas.
— A mãe do Carlton, que agora vocês já podem chamar de Betty,
está dormindo — disse. — As paredes têm um bom isolamento acústico, é
só não gritar nem fazer muita algazarra.
Em coro, todos prometeram se comportar, e ele assentiu, satisfeito,
antes de desaparecer por uma porta adiante. Eles se dispersaram pela
mobilha, sentando-se em sofás e poltronas. Charlie ficou no tapete entre os
assentos de Jessica e Lamar. Queria que permanecessem todos juntos. John
se sentou ao lado dela e lhe deu um sorrisinho.
— A gente caiu mesmo numa pegadinha? — perguntou Marla.
— Talvez sim. Não tenho outra explicação para tudo isso — disse
Jessica, apática, olhando para a lareira vazia. — Quer dizer, ninguém aqui
realmente se conhece tão bem assim, não de verdade, pode muito bem ser
do estilo dele fazer uma coisa dessas. — Todos se mexeram, sentindo-se
desconfortáveis. Era verdade; vinham se comportando como se o período
que passaram separados tivesse sido apenas algo rápido, como se pudessem
simplesmente contar um para o outro que acontecera nesse meio tempo, e
então tudo voltaria a ser como antes. Como se o grupo jamais tivesse se
separado. Mas dez anos era muito tempo para que realmente fosse assim, e,
no fundo, todos sabiam disso. Charlie desviou o olhar para John. Estava um
pouco envergonhada, mas não saberia explicar por quê.
Clay voltou para a sala, carregando consigo uma bandeja com
canecas fumegantes e um saquinho com pequenos marshmallows.
— Aqui está! — exclamou, com jovialidade. — Tem chocolate
quente pra todo mundo, até pra mim. — Colocou a bandeja na mesinha de
centro e foi se sentar em uma poltrona verde puída que parecia servir tão
bem nele quanto um casaco, como se estivesse tão acostumado com seu
corpo quanto ele estava à sua forma. Eles se inclinaram para frente e
pegaram as canecas; apenas Jason pegou os marshmallows. Clay olhou em
volta, de rosto em rosto.
— Olha — disse. — Sei que vocês não acreditam em mim, mas o
Carlton faz esse tipo de coisa mesmo... Se bem que até eu tenho que
admitir que esta deve ter sido a mais estranha de todas. Não é certo fazer
vocês reviverem tudo aquilo que aconteceu quando eram crianças. — Ele
encarou a caneca por um grande momento. — Preciso ter outra conversa
com ele — disse, baixinho. — Acreditem, meu filho tem um senso de
humor estranho — continuou. — Sabe, nós o matriculamos em uma escola
fora daqui, na cidade vizinha, para ele cursar o ensino médio em outro
lugar, onde ninguém o conhecia. Ele conseguiu convencer os colegas e os
professores de que tinha um irmão gêmeo estudando lá também durante as
primeiras semanas de aula. Não faço ideia de como conseguiu uma coisa
dessas, mas só fui descobrir depois que ele se cansou do teatrinho e eu
comecei a receber telefonemas do colégio dizendo que um dos meus filhos
tinha desaparecido.
Charlie abriu um sorriso fraco, mas não estava convencida. Não era a
mesma coisa.
— Este caso é diferente — protestou Marla, como se tivesse lido os
pensamentos de Charlie. — Jason o viu desaparecer, ficou aterrorizado. Se
for mesmo uma brincadeira, é muita crueldade. — Marla balançou a cabeça
com raiva e arranhou a porcelana da caneca com as unhas. — Se for
mesmo uma brincadeira — repetiu, mais baixo. Olhou para Charlie, seu
rosto desconcertado, e Charlie soube que se Carlton tivesse mesmo tramado
aquilo tudo, Marla jamais voltaria a falar com ele. O feliz reencontro dos
amigos estava acabado.
— Sim — disse Clay. — Eu sei. Mas ele não vê as coisas desse jeito.
— Tomou um gole do chocolate, procurando as palavras. — Os gêmeos
tinham personalidades totalmente diferentes. O Shaun era extrovertido e
alegre. Estava na equipe de debate da escola. Até jogava futebol, meu Deus
do céu! Carlton só chegava perto de um ginásio esportivo se fosse
obrigado. Não faço ideia de como sustentou aquela farsa.
— Mesmo assim — disse Marla, parecendo ainda menos
convencida.
— O pior — prosseguiu Clay, falando mais consigo mesmo do que
com os adolescentes — é que o Shaun tinha até uma namorada. Ela gostava
muito dele, de verdade; mas ele só estava encenando. A pobrezinha estava
namorando um cara que nunca existiu. Acho que ele ainda se surpreendeu
quando percebeu como as pessoas tinham ficado chateadas. Ele se empolga
e perde a noção, achando que todo mundo está achando graça também.
Charlie e John se encararam com ansiedade. No fundo, a gente não
se conhece mesmo.
— Talvez tenha sido, sim, ele quem armou tudo isso — disse ela em
voz alta.
— Talvez — repetiu Jessica.
— Mas eu vi! — gritou Jason. Antes que alguém pudesse responder,
ele saiu da sala, determinado, desaparecendo por uma porta. Marla se
levantou no automático e fez menção de ir atrás dele, mas Clay levantou a
mão.
— Deixe-o ir — disse. — Ele precisa de um tempo sozinho. E
também quero falar com o resto de vocês. — Colocou a caneca de lado e se
inclinou para frente. — Sei que foram lá por diversão, mas não quero saber
de vocês levando na brincadeira o que aconteceu na Freddy Fazbear’s.
Sabe, eu não era delegado na época, ainda era um detetive, e estava
trabalhando naqueles casos de desaparecimento. Foi a pior coisa que tive
que ver até hoje. Não é algo com o que se deva brincar. — Desviou o olhar
para Charlie. Seus olhos cinzentos eram severos, e as linhas de expressão
do rosto, imóveis; não era mais a figura paterna amigável, e sim o
delegado, encarando-a como se pudesse enxergar através dela. Charlie
sentiu um desejo súbito de confessar algo, mas não tinha o que confessar.
— Estou especialmente surpreso com você, Charlie — disse Clay,
baixo.
Charlie corou, a vergonha se alastrando por seu rosto com o rubor
quente. Queria protestar, se explicar, dizer qualquer coisa que pudesse
suavizar aquele olhar que parecia perfurar seu crânio. Em vez disso,
abaixou a cabeça e murmurou um pedido de desculpas discreto.
Lamar quebrou o silêncio.
— Sr. Burke... Clay... Chegaram a descobrir quem fez aquilo? Achei
que alguém tinha sido preso.
Clay demorou um momento para responder. Ainda encarava Charlie,
e ela teve a sensação de que ele estava tentando lhe dizer alguma coisa, ou
então decifrar sua expressão.
— Clay? — disse Marla, e ele pareceu voltar a si. Olhou ao redor do
grupo, sua expressão sombria.
— Sim — respondeu, baixinho. — Uma pessoa foi presa. Fui eu
mesmo quem prendeu, na verdade, e ainda hoje tenho tanta certeza de que
ele foi o culpado quanto tinha na época.
— Então, o que aconteceu? — insistiu Lamar. Um silêncio se
instalou sobre o grupo, como se algo muito importante estivesse prestes a
acontecer.
— Não encontramos nenhum corpo — disse Clay Burke. —
Sabíamos que tinha sido ele; eu não tinha a menor dúvida. Mas as crianças
simplesmente desapareceram, nunca foram encontradas, e sem os corpos...
— Parou de falar, encarando o vazio ao longe como se mal estivesse
consciente da presença dos demais.
— Mas foi sequestro — disse Charlie. — Elas desapareceram! — De
repente, estava furiosa, horrorizada com aquela injustiça declarada. —
Como é que esse homem pode continuar solto por aí? E se ele fizer de
novo? — Sentiu a mão de Marla em seu braço e assentiu, se recostando
outra vez, tentando se acalmar. Mas a raiva continuava lá dentro,
fervilhando sob a superfície de sua pele. Clay olhava para ela com algo
semelhante a curiosidade em seus olhos.
— Charlie, — disse, — a justiça pune os culpados, mas também
precisa proteger os inocentes. Isso significa que às vezes os culpados
acabam se safando mesmo tendo cometido atos terríveis, mas esse é o
preço que pagamos. — Sua voz era grave, as palavras cheias de peso.
Charlie abriu a boca para argumentar. Mas foi o preço que eu tive
que pagar, quis dizer, mas antes de falar qualquer coisa, olhou para seu
rosto. Ele parecia ter a convicção profunda de um monge — as palavras do
pai de Carlton significavam muito para ele, e ele acreditava nelas como
verdade absoluta. É assim que você consegue dormir à noite, pensou ela
com amargura atípica. Seus olhares se cruzaram por um longo instante, e
então Charlie suspirou e assentiu, abrindo mão do desafio.
Intelectualmente, nem sequer discordava dele. Clay se empertigou na
poltrona de repente.
— Então — disse, alegre. — Acho que já está tarde para vocês,
meninas, voltarem para o motel sozinhas. Por que não passam a noite aqui?
Temos mais dois quartos de hóspedes. E aí vocês podem dar uma bronca
no Carlton por essa brincadeirinha amanhã de manhã — acrescentou, com
um sorriso.
Lamar e John levaram Charlie, Marla e Jessica a seus quartos, e
Jason reapareceu no instante em que estavam subindo as escadas, juntando-
se ao grupo como se jamais tivesse se separado dele.
— Então, Jason e eu ficamos com um, — disse Marla, — e Jessica,
você e a Charlie ficam com o outro.
— Quero ficar junto com o Lamar — disse Jason, no mesmo
instante, e Lamar abriu um sorriso enorme antes que pudesse se conter.
— Tá, tudo bem — disse. Ele olhou de relance para Marla, que
estava atrás do irmão, e ela deu de ombros.
— Leva ele — disse ela. — Pode ficar pra você, se quiser! Isso quer
dizer que alguém vai ficar sozinha no quarto, — continuou, — ou então
podemos ficar todas juntas. Sei que está tudo bem, mas tenho a sensação de
que seria melhor ficarmos juntas. — Suas palavras refletiam exatamente o
que Charlie pensara apenas minutos antes, mas naquele momento, Charlie a
interrompeu.
— Eu fico com o outro quarto — disse.
Marla lhe lançou um olhar suspeito, e até mesmo John pareceu um
pouco surpreso, mas Charlie apenas olhou de volta para eles, sem dizer
nada.
Ao entrar no quarto e fechar a porta atrás de si, Charlie soltou um
suspiro de alívio. Foi até a janela — era como tinha imaginado, nada além
de árvores à vista. Era como se a casa estivesse completamente isolada,
embora ela soubesse que a entrada e a estrada estavam bem ali. Do lado de
fora, podia ouvir pássaros noturnos e o ruído de outras criaturas maiores lá
embaixo. De repente, sentiu-se inquieta, sem sono. Olhando pela janela,
quase desejou sair, entrar na mata e descobrir o que ela escondia. Olhou
para o relógio. Já passava havia muito da meia-noite; e com relutância,
tirou os sapatos e se deitou na cama.
Como tudo mais na casa de Carlton, a cama era antiga, já bem usada,
o tipo de mobília que normalmente pertencia a pessoas de berço, cujos
ancestrais bancavam objetos de qualidade tão boa que duravam uma
centena de anos. Charlie fechou os olhos no que acreditava ser uma
tentativa fútil de descansar, mas quanto mais tempo ficava ali deitada,
escutando o barulho da floresta e Jessica e Marla fofocando e rindo no
quarto ao lado, mais começava a sentir como se estivesse afundando no
colchão. Sua respiração ficou pesada, e ela logo adormeceu.
Acordou de repente, assustada. Voltara a ser uma menininha, e seu
pai dormia no quarto ao lado. Era verão, e as janelas estavam
escancaradas; tinha começado a chover, e o vento entrava no quarto em
fortes rajadas, soprando as cortinas em uma dança frenética e trazendo
consigo uma bruma fina. Mas não foi por isso que ela despertou. Havia
algo no ar, algo inabalável que a segurava — algo estava muito errado.
Charlie se levantou da cama, colocando os pés no chão com
cuidado. Ao lado da cama estava Stanley, o unicórnio, paciente e
desativado, fitando-a com olhos sem vida. Ela lhe deu tapinhas no focinho,
como se ao confortá-lo pudesse acalmar também a si mesma. Em silêncio,
passou por ele e saiu rumo ao corredor, sem saber ao certo o que a
impulsionava. Seguiu pelo corredor sorrateiramente, passando pelo quarto
do pai até chegar às escadas, e se abaixou perto do corrimão como se as
barras de madeira pudessem protegê-la de qualquer coisa. Segurou firme
no corrimão ao descer, se pendurando para evitar as tábuas que rangiam
da escada. Um por um, foi vencendo os degraus; pareceu uma eternidade,
como se anos pudessem se passar antes que conseguisse chegar ao final e,
quando chegasse, era capaz que já estivesse velhinha, sua vida inteira
desperdiçada enquanto descia aquelas escadas.
Enfim, Charlie chegou ao final das escadas, e olhou para si mesma,
constatando que havia mudado: seu corpo já não era mais o de uma
menina pequenina, de camisola e descalça, e sim o seu corpo de
adolescente, alta, forte e com roupas adequadas. Quando se levantou,
abandonando aquela postura encolhida e amedrontada, estava mais alta
do que o corrimão, e olhou ao redor para a casa de sua infância,
assustada. Essa sou eu, pensou. Sim. Isso é agora.
Algo fez um estrondo diante dela: a porta da frente estava
escancarada e batendo em um ritmo irregular na parede por causa do
vento. A chuva respingava lá dentro, encharcando o piso e açoitando o
cabideiro que ficava logo ao lado, fazendo-o balançar para frente e para
trás como se não pesasse nada. Folhas e pequenos galhos de árvores
caíram lá dentro e estavam espalhados pelo chão, mas o olhar de Charlie
foi atraído até seus antigos sapatos, seu par favorito. De couro preto e com
tiras, haviam sido deixados com cuidado ao lado do capacho e ela podia
ver que poça que se formava pela chuva os estava arruinando. Charlie
ficou parada por um momento, hipnotizada, longe demais para a chuva
alcançá-la, mas perto o suficiente para que a bruma umedecesse seu rosto.
Precisava ir até lá para fechar a porta.
Em vez disso, Charlie recuou devagar, sem tirar os olhos da
tempestade. Deu um passo, depois outro — e suas costas bateram em algo
sólido. Ela se virou, sobressaltada, e a viu.
Era a coisa da oficina de seu pai, a coisa terrível e espasmódica.
Estava de pé por conta própria, encurvada e retorcida, com um rosto
avermelhado e canino, e um corpo quase humano. Suas vestimentas não
passavam de trapos, as juntas e os membros rígidos de metal expostos, mas
Charlie registrou apenas os olhos, os olhos prateados que a iluminavam
feito relâmpagos, acendendo e apagando sem parar, piscando como se
estivessem ora vivos, ora mortos. Charlie quis correr, mas seus pés não se
moveram; podia sentir a pulsação na garganta, sufocando-a, e lutou para
respirar. A coisa teve um espasmo, e, em um movimento lento e
sacolejante, ergueu a mão para tocar-lhe o rosto. Charlie inspirou,
trêmula, incapaz de se esquivar, mas então a coisa parou, a mão a apenas
centímetros de sua bochecha.
Charlie se preparou, a respiração curta e os olhos fechados com
força, mas não sentiu o toque de metal e farrapos. Abriu os olhos. A coisa
voltara a ficar imóvel, e a luz prateada em seus olhos tinha enfraquecido,
quase se apagado. Charlie se afastou, observando, desconfiada, mas a
coisa não se moveu, e ela começou a se perguntar se tinha sido desligada,
se a corrente elétrica que lhe dava vida havia se esgotado. Seus ombros
estavam curvados para frente, miseráveis, e a coisa encarava o vazio
adiante como se estivesse perdida. Charlie subitamente sentiu uma
pontada de tristeza por aquela criatura, aquela afinidade solitária que
sentira na oficina de seu pai tantos anos antes. Ele está sentindo dor?,
perguntara ela. Àquela altura já era grande o bastante para saber a
resposta.
De uma hora para outra, a coisa voltou à vida aos solavancos.
Charlie se sentiu tonta quando a criatura deu um passo em sua direção,
jogando o corpo para frente como se tivesse acabado de aprender a andar.
Sua cabeça se virava freneticamente de um lado para outro e seus braços
se balançavam para cima e para baixo com um desleixo perigoso.
Algo se quebrou: era um abajur, a coisa havia derrubado um abajur
de cerâmica, e o som do objeto se espatifando no piso de madeira
arrancou Charlie de seu estupor. Ela se virou e subiu as escadas correndo,
galgando os degraus com a rapidez que suas pernas lhe permitiam, até
chegar à porta do pai, assustada demais para sequer chamar por ele.
Enquanto subia, uma pequena parte dela percebeu que os degraus estavam
grandes demais, que ela estava quase engatinhando, tropeçando descalça
na bainha da camisola. Voltara a ser uma menininha, de repente se deu
conta, em uma explosão de consciência que passou muito rápido, e então
só conseguia se lembrar de que era uma menininha.
Tentou gritar pelo pai, mas ele já estava lá. Nem precisara chamá-
lo. Estava parado no corredor, e ela se agarrou à barra da camisa
enquanto se agachava atrás dele. Pôs a mão no ombro dela, mantendo-a
firme, e, pela primeira vez, o toque de seu pai não fez com que Charlie se
sentisse segura. Espiando por de trás dele, Charlie viu as orelhas da coisa,
depois o rosto, enquanto subia a escada com seus passos espasmódicos e
truculentos. Seu pai permanecia calmo, observando a criatura galgar o
último degrau, e então o pai de Charlie segurou sua mão e a abriu,
fazendo-a gentilmente largar sua blusa. Avançou a passos largos e
regulares em direção à coisa, mas ao levantar o braço na direção dela,
Charlie reparou que as mãos dele tremiam. Tocou a criatura, segurou seu
rosto com ambas as mãos por um momento, como se o estivesse
acariciando, e os membros dela pararam, a cabeça ainda se movendo de
um lado para outro suavemente. Parecia quase perplexa, como se também
tivesse despertado na presença de algo estranho e assustador. O pai de
Charlie fez algo que ela não conseguiu enxergar, e a coisa parou de se
mover — sua cabeça tombou, derrotada, e os braços desabaram. Charlie
voltou para o quarto, tateando a parede atrás dela para se guiar, sem se
atrever a desviar o olhar da criatura até estar segura atrás da porta. Ao
olhar uma última vez para o corredor, tudo o que conseguiu avistar
ligeiramente foi a luz dos olhos, vidrados no chão.
De repente, as pequenas luzes prateadas piscaram. A cabeça não se
moveu, mas em um movimento lento e calculado, seus olhos encontraram
os de Charlie. Charlie soltou um murmúrio, mas não desviou o olhar, e foi
então que a cabeça se levantou rápido com um estalo que parecia algo se
quebrando—
Charlie acordou assustada, um arrepio involuntário percorrendo seu
corpo. Levou a mão ao pescoço, sentindo a pulsação, acelerada e forte
demais. Passou os olhos pelo quarto, juntando as peças para se localizar
novamente. A cama. Não era a sua. O quarto. Escuro, estava sozinha. A
janela. A floresta lá fora. A casa do Carlton. Sua respiração se acalmou. O
processo levara meros segundos, mas a desorientação lhe deixou
perturbada. Piscou, mas a imagem daqueles olhos prateados continuava lá,
brilhando por trás de suas pálpebras, como se tivessem sido reais. Charlie
se levantou e foi até a janela, abriu-a e se debruçou no parapeito,
desesperada para respirar o ar noturno.
Aquilo tudo aconteceu? O sonho parecia uma memória, como se
fosse algo que ocorrera há apenas momentos, mas aquela era a natureza dos
sonhos, não era? Parecem reais até que você acorda. Fechou os olhos e
tentou puxar pela memória, mas era difícil demais distinguir o que fora
sonho ou não. Estremeceu com a brisa, embora não estivesse frio, e voltou
para dentro. Olhou o relógio. Apenas algumas horas tinham se passado, e
ainda havia muitas até o amanhecer, mas dormir parecia impossível.
Charlie calçou os sapatos e foi caminhando sem fazer barulho pelo
corredor, descendo as escadas na esperança de não acordar os amigos. Foi
até a varanda, se sentou nos degraus da entrada e se recostou para olhar o
céu. Havia vestígios de nuvens lá em cima, mas as estrelas ainda
brilhavam, salpicadas pelo infinito, incontáveis. Tentou se perder em meio
a elas como fazia quando criança, mas ao fitar os pontinhos de luz, só
conseguia enxergar olhos a encarando.
Algo fez barulho atrás dela, e ela deu um pulo, se virando para
encostar na balaustrada. John estava parado atrás dela com um olhar
assustado no rosto. Encararam-se por um instante, como se fossem
estranhos, e então Charlie recuperou a fala.
— Oi, desculpa, acordei você?
John balançou a cabeça e foi se sentar ao lado dela.
— Não, para falar a verdade não. Ouvi alguém sair e imaginei que
fosse você. Mas ainda estava acordado... o Jason ronca que nem um
homem do triplo do tamanho dele.
Charlie riu.
— Tive um sonho esquisito — disse. John assentiu, esperando que
ela continuasse, mas ela não o fez. — O que as pessoas achavam do meu
pai? — disse, no lugar. John se recostou e fitou as estrelas por um
momento, depois apontou com o dedo.
— Aquela constelação lá é Cassiopéia — comentou, e ela semicerrou
os olhos na direção apontada.
— É Órion — corrigiu ela. — John, é sério. O que as pessoas
pensavam dele?
Ele deu de ombros, desconfortável.
— Charlie, eu era criança, sabe? Ninguém nunca me contava nada.
— Eu também já fui criança — disse. — Ninguém conta nada para
as crianças, mas falam na frente delas como se não estivessem lá. Me
lembro de ouvir a sua mãe conversando com a do Lamar, apostando quanto
tempo o novo padrasto da Marla ia durar.
— Quais foram os palpites delas? — disse John, entretido.
— A sua mãe apostou em três meses; a do Lamar foi mais otimista
— disse Charlie, sorrindo, mas em seguida sua expressão tornou a ficar
séria. — Posso ver que você sabe de alguma coisa — disse, baixinho, e
depois de um momento, ele assentiu.
— Algumas pessoas achavam que tinha sido ele, sim — admitiu.
— O quê? — Charlie estava horrorizada. Ela o encarou, os olhos
arregalados, mal conseguindo respirar. — Eles achavam o quê? — John
olhou para ela, nervoso.
— Achei que era isso que você estava querendo saber — disse.
Charlie balançou a cabeça. Algumas pessoas achavam que tinha sido ele.
— Eu... não, eu queria saber o que elas pensavam dele como pessoa.
Se achavam que era estranho, gentil ou... Nem sei... — Deixou o
pensamento morrer, perdida na magnitude daquela nova verdade. Algumas
pessoas achavam que tinha sido ele. Claro que achavam. Era o
restaurante dele. A primeira criança desaparecida foi o filho dele. Na
ausência de uma confissão ou condenação, em quem mais pensariam?
Charlie balançou a cabeça outra vez.
— Charlie — disse John, hesitante. — Foi mal. Só achei que era
isso. Você também já devia saber que algumas pessoas iam pensar isso...
Se não naquela época, pelo menos agora.
— Bom, não sabia — explodiu ela, sentindo uma satisfação vazia
quando ele recuou, magoado. Ela inspirou fundo. — Sei que parece óbvio
— continuou, se recompondo. — Mas é que nunca, nunca me ocorreu que
alguém pudesse ter pensado que ele era o culpado. E aí depois, depois que
ele cometeu... — Mas isso só reforçaria as suspeitas, ela percebeu assim
que começou a falar.
— As pessoas acharam que tinha sido por culpa — disse John, quase
que para si mesmo.
— E foi. — Charlie sentiu a raiva borbulhar dentro de si, a represa
prestes a se romper, e se conteve, cuspindo as palavras com força. — Claro
que ele sentia culpa, aconteceu no restaurante dele. O trabalho de uma vida
inteira, a vida dele, as criações dele, e tudo virou um massacre. Você não
acha que foi o bastante? — Sua voz soava furiosa, até mesmo aos próprios
ouvidos. Peça desculpas, pensou ela, mas ignorou a ideia.
As pessoas achavam que tinha sido ele. Ele não faria isso, não pode
ter feito. Mas se tivesse feito, como ela poderia saber? Eu o
conhecia, pensou, com raiva. Mas será mesmo? Ela o amava, confiava nele
com a devoção cega de uma menininha de sete anos, mesmo agora. Ela o
compreendia com sua percepção de mundo infantil. Quando as pessoas
enxergam os pais como o centro do universo, como algo fundamental para
a sua sobrevivência, é só mais tarde que suas falhas, cicatrizes e fraquezas
são percebidas.
Charlie nunca havia parado para perceber, conforme crescia, que seu
pai era apenas um ser humano — nunca teve a oportunidade. Para ela, ele
continuava a ser uma entidade mítica, maior do que a própria vida, o
homem capaz de desativar monstros. E também era o homem que os
criava. Será que ela o conhecia bem mesmo?
A raiva tinha desaparecido, voltado para seu lugar de origem, e ela se
sentiu vazia, como se o fundo do peito estivesse seco e oco. Fechou os
olhos e levou a mão à testa.
— Desculpa — disse ela, e John tocou seu ombro por um instante.
— Não precisa se desculpar — disse. Charlie escondeu o rosto nas
mãos. Não ia chorar, só não queria que ele visse sua expressão. Estava
pensando coisas que eram novas demais, terríveis demais para pensar na
frente de outra pessoa. Como eu saberia se tivesse sido ele?
— Charlie? — John pigarreou, repetindo seu nome. — Charlie, você
sabe que não foi ele, certo? O Sr. Burke mesmo disse que descobriram o
culpado, mas tiveram que soltá-lo. O cara se safou. Lembra?
Charlie não se moveu, mas algo similar à esperança se acendeu
dentro dela.
— Não foi ele — repetiu John, e ela ergueu o olhar.
— Certo. Certo, é claro que não foi — sussurrou. — É claro que não
foi ele — disse, com seu tom normal.
— É claro que não — repetiu o garoto. Ela assentiu, balançando a
cabeça para cima e para baixo, como se estivesse recuperando seu
entusiasmo.
— Quero visitar a minha antiga casa mais uma vez — disse. —
Quero que você vá comigo.
— Claro — disse ele. Ela assentiu e depois voltou a olhar para o céu.
CAPÍTULO OITO

— Charlie! — Havia alguém à porta, batendo forte o suficiente para


sacudir as velhas dobradiças. Charlie foi acordando devagar, os olhos ainda
pesados de sono, mas pelo menos daquela vez sabia onde estava. Deixara a
janela aberta, e agora o ar que entrava tinha um cheiro fresco e denso: era o
cheiro de chuva chegando, musgoso e espesso. Ela se levantou e olhou pela
janela, respirando fundo. Diferente da maioria dos lugares no mundo, a
mata lá fora tinha era quase igual, tanto de manhã quanto no escuro.
Charlie e John tinham voltado a dormir pouco depois de terminarem de
conversar. John olhara para ela como se quisesse dizer mais alguma coisa,
mas ela fingiu não notar. Era grata a ele por estar lá, por lhe oferecer aquilo
o que precisava sem que ela tivesse que pedir, porque ela jamais pediria.
— Charlie! — As batidas recomeçaram, e ela finalmente cedeu.
— Já acordei, Marla — respondeu.
— Charlie! — Agora Jason tinha se juntado à brincadeira, batendo e
fazendo barulho, e Charlie grunhiu enquanto ia até a porta.
— Eu disse que já acordei — disse, olhando feio para os dois de
forma brincalhona.
— Charlie! — gritou Jason outra vez, e dessa vez Marla o mandou
ficar quieto. Ele abriu um sorriso para Charlie, que riu e balançou a cabeça.
— Pode acreditar, eu já acordei — disse. Marla estava
completamente vestida, os cabelos ainda um pouco úmidos do banho, os
olhos vivos e alertas. — Você é sempre assim? — disse Charlie, com um
mau humor que não era totalmente falso.
— Assim como?
— Toda animada às seis da manhã — disse, revirando os olhos para
Jason, que a imitou, feliz por ser incluído.
Marla abriu um sorriso radiante.
— Já são oito! Vem, ouvi falarem alguma coisa sobre café da manhã.
— E falaram alguma coisa sobre café?
Ela seguiu Marla e Jason escada abaixo até a cozinha, onde
encontrou Lamar e John já sentados a uma mesa de madeira alta e
moderna. O pai de Carlton estava ao fogão, preparando panquecas.
— Sinto cheiro de chuva — disse Charlie, e Lamar assentiu.
— Tem uma tempestade de raios vindo por aí — disse. — Parece
que tava passando no jornal mais cedo, pelo que ele nos contou. — Ele
apontou para Clay com o polegar.
— Vai ser uma daquelas! — exclamou Clay, em resposta.
— A gente tinha que ir embora hoje — disse Jason.
— Vamos ver — disse Marla.
— Charlie! — chamou Clay, sem tirar os olhos do que estava
fazendo. — Uma, duas ou três?
— Duas — disse Charlie. — Obrigada. Tem café?
— Pode se servir, tem canecas no armário — disse Clay, indicando
um bule cheio no balcão. Charlie se serviu, balançando a mão para indicar
que não queira seu café com leite, com creme, pingado, com açúcar e nem
com adoçante.
— Obrigada — murmurou a garota, se acomodando ao lado de
Lamar, trocando um rápido olhar com John. — O Carlton já voltou?
Lamar balançou a cabeça, tenso.
— Ele ainda não apareceu — disse Clay. — Provavelmente ainda
nem acordou, seja lá onde estiver. — Colocou o prato com as panquecas
diante de Charlie, que começou a comer, percebendo o quanto estava com
fome apenas quando já estava mastigando. Estava prestes a perguntar onde
Carlton devia estar quando Jessica apareceu, bocejando, suas roupas
completamente desamassadas, bem diferentes das de Charlie.
— Você está atrasada — provocou Marla, e Jessica se espreguiçou
lentamente.
— Não saio da cama enquanto as panquecas não estão prontas —
disse ela e, praticamente ao mesmo tempo, Clay colocou mais uma em um
prato, recém tirada da frigideira.
— Bem, então você chegou na hora — disse ele. De repente, sua
expressão mudou, oscilando entre apreensão e alívio. Charlie se virou na
cadeira. Havia uma mulher parada atrás dela, usando um terninho cinza, os
cabelos louros sem nenhum fio fora do lugar, como se fosse um brinquedo
de plástico.
— Viramos uma loja de waffles agora? — disse. Ela deu uma breve
passada de olhos pela cozinha.
— Panquecas — corrigiu Jessica, mas ninguém respondeu.
— Betty! — exclamou Clay. — Você se lembra dos meninos, e estas
aqui são Charlie, Jessica e Marla. E Jason. — Ele apontou para cada um
deles, e a mãe de Carlton foi apenas assentindo, como se os estivesse
avaliando.
— Clay, tenho que estar no tribunal em uma hora.
— Betty é a promotora do condado — prosseguiu Clay, como se não
a tivesse ouvido. — Eu pego os bandidos e ela os coloca de volta nas ruas!
— Verdade, nossa família faz o serviço completo — disse ela, seca,
se servindo de café e se sentando à mesa ao lado de Jessica. — Falando
nisso, por onde anda nosso futuro criminoso? — Clay hesitou.
— Mais uma daquelas pegadinhas — disse. — Ele volta mais tarde,
tenho certeza. — Seus olhos se encontraram, quase em uma conversa
particular. Betty desviou o olhar com uma risada um tanto forçada.
— Meu Deus, o que foi desta vez? — Houve um momento de
silêncio. À luz da manhã, a história parecia insana, e Charlie não fazia ideia
de por onde começar. Pigarreando, nervoso, Lamar começou a explicar.
— A gente, hm... A gente passou pela área daquele shopping
inacabado, queríamos ver o que restava da Freddy Fazbear’s...
Ao ouvir o nome, Betty ergueu a cabeça de repente, então assentiu
brevemente.
— Prossiga — disse, a voz subitamente baixa e fria.
Lamar foi explicando, desconfortável, e Marla e Jason
complementaram com os detalhes. Após alguns minutos, a mãe de Carlton
havia recebido uma versão bastante confusa da verdade. Conforme ia
ouvindo, seu rosto ficava cada vez mais sério, até que suas feições
pareceram engessadas — parecia uma estátua de si mesma. Ela balançou a
cabeça quando eles terminaram a história, movimentos breves e ligeiros, e
Charlie teve a impressão de que ela não parecia apenas estar tentando negar
o que eles disseram, mas tirar da cabeça toda a informação que acabara de
receber.
— Você precisa ir lá buscá-lo, Clay, agora mesmo — exigiu. —
Manda alguém! Como pôde esperar a noite inteira?
Ela deixou a xícara na mesa, batendo-a com mais força do que
pretendia, derramando um pouco do café, então foi até o telefone e
começou a discar.
— Está ligando para quem? — disse Clay, apreensivo.
— Para a polícia — explodiu ela.
— Eu sou a polícia!
— Então por que ainda está aqui, em vez de ir lá procurar o meu
filho?
Sem ação, Clay abriu e fechou a boca por um momento, tentando
encontrar alguma coisa para dizer, até que finalmente se recompôs.
— Betty, é só mais uma brincadeira, pra quê tudo isso? Não se
lembra dos sapos?
Ela colocou o fone de volta no gancho e se virou para encará-lo, os
olhos fumegantes. Charlie podia imaginá-la diante do júri, cheia de razão e
ímpeto, liberando a fúria da lei.
— Clay. — Sua voz era baixa e tranquila, uma calma desesperadora.
— Como pôde não me acordar? Como pôde não me contar tudo isso?
— Betty! Você estava dormindo, e é só o Carlton sendo o Carlton.
Não queria te perturbar.
— Você achou que eu não ficaria perturbada quando acordasse e
descobrisse que meu filho desapareceu?
— Achei que ele já estaria de volta a uma hora dessas — argumentou
Clay.
— Desta vez é diferente — disse ela, enfática. — É a Freddy’s.
— Acha que eu não entendo que é com a Freddy’s que estamos
tratando aqui? Eu sei o que aconteceu lá, o que aconteceu com aquelas
crianças — retrucou ele. — Acha que eu não entendo? Pelo amor de Deus,
Betty, eu vi o sangue do Michael, toda a trilha no chão por onde ele havia
sido arrastado... — Ele parou, percebendo um pouco tarde demais que
estava cercado por adolescentes. Olhou ao redor, quase em pânico, mas sua
esposa pareceu não notar, ou, pensou Charlie, talvez não desse a mínima.
— Bom, você não viu o estado do nosso filho — retrucou Betty. —
Lembra o que você disse ao Carlton? “Seja forte”? “Seja corajoso,
soldadinho”? E ele foi corajoso, foi o um soldadinho, por você. Mas ele
estava em arrasado, Clay, tinha perdido o melhor amigo, viu o Michael ser
levado bem diante dele. Deixa eu te dizer uma coisa, senhor delegado,
aquele garoto não passou um único dia sem pensar no Michael nos últimos
dez anos. Eu já o vi arquitetar brincadeiras tão elaboradas que mereciam ser
levadas ao teatro, mas não existe a menor possibilidade de Carlton profanar
a memória do Michael fazendo piada com a Freddy’s. Ligue para alguém,
agora mesmo.
Clay parecia um pouco chocado, mas se recompôs depressa e deixou
o local. Charlie ouviu uma porta bater atrás dele. Betty olhou para os
adolescentes, ofegante, como se tivesse corrido.
— Vai ficar tudo bem — disse, tensa. — Se ele realmente está preso
lá dentro, vamos tirá-lo de lá. O que vocês planejaram para hoje? — A
pergunta não fazia sentido, como se ela achasse que eles pretendiam ficar
de bobeira no parque ou ir ao cinema enquanto Carlton podia estar em
perigo.
— A gente ia embora hoje — disse Marla.
— Mas é claro que não vamos — acrescentou Lamar, depressa, mas
Betty nem pareceu ouvir.
— Tenho que ligar para o trabalho — comentou, distraída, e foi até o
telefone. Charlie olhou para John, que logo veio em seu resgate.
— A gente estava querendo ir à biblioteca — disse ele. — Tem uma
coisas que estávamos querendo investigar... digo, pesquisar! — Ele corou
um pouco quando disse isso, e Charlie sabia por quê: era absurdo falar
daquele jeito sobre casos policiais, desaparecimentos e assassinatos. Mas
Marla assentiu.
— É, todos nós vamos — disse, e Charlie sentiu o coração afundar.
Não havia motivo para não contar a eles que queria revisitar sua casa
antiga, apenas ela e John. Ninguém ficaria chateado. Mas não era esse o
problema: até compartilhar com eles essa questão lhe dava a sensação de
que estava se expondo demais. Terminando a ligação, a mãe de Carlton
desligou o telefone.
— Odeio isso — anunciou para todos na cozinha, a voz calma e
controlada quase falhando. — Odeio! — Charlie e os outros deram um
pulo, assustados com a explosão súbita. — E agora, como sempre, vou ter
que ficar aqui sentada, sozinha, esperando e rezando para que todos fiquem
bem.
Charlie olhou para Marla, que deu de ombros, impotente. Lamar
pigarreou, nervoso.
— Acho que a gente pode ficar mais um dia por aqui — disse.
Houve um momento de silêncio, então Marla e Jessica intervieram para
ajudar.
— É, o trânsito está uma loucura lá fora — disse Jessica, com a voz
aguda e forçada.
— É, e tem também aquela tempestade, sem contar que a gente não
conseguiria se divertir sabendo que ele sumiu — disse Marla.
— Acho que você tá presa com a gente. — Jessica abriu um sorriso
nervoso para a mãe de Carlton, que nem pareceu notar.
— Vamos — disse John, antes que mais alguém pudesse falar. Ele e
Charlie saíram depressa da casa e entraram no carro. Charlie soltou um
suspiro de alívio e ligou o motor.
— Aquilo foi horrível — disse ela.
— É. — Ele lançou um olhar preocupado para ela. — O que você
acha? Dessa história do Carlton? — Charlie não respondeu até que tivesse
saído com o carro em segurança para a rua.
— Acho que a mãe dele está certa — disse ela, trocando a marcha.
— Acho que ontem à noite todos nos deixamos acreditar no que queríamos
acreditar.

O policial Dunn parou no estacionamento do shopping, respondendo


à ordem do delegado Burke para retornar ao local. À luz do dia, não
passava de um canteiro de obras abandonado, uma mancha feia na
planície. Não tem nem como dizer se está sendo construído ou
demolido, pensou Dunn. De longe, não tem como distinguir criação de
destruição. Gostou da frase, e repassou-a mentalmente por um momento,
fitando o prédio. Em um impulso, mandou uma mensagem pelo rádio.
— Oi, Norah — disse.
— Dunn — respondeu ela, ríspida. — O que foi?
— Voltei ao shopping para dar mais uma olhada — explicou.
— Ah, traz um pretzel daí para mim — brincou ela, e ele riu,
finalizando a chamada.
Conforme avançava a passos rápidos pelo shopping, Dunn ficou
agradecido por pelo menos as crianças não estarem ali daquela vez. Como
o mais jovem do Departamento de Polícia de Hurricane, Dunn sempre
tomava o cuidado de pensar em adolescentes como crianças, mesmo ciente
de como a diferença de idade entre eles era pequena. Se conseguisse fazer
com que acreditassem que ele era um adulto responsável, talvez uma hora
também passasse a acreditar nisso.
Dunn acendeu a lanterna ao chegar à entrada do corredor estreito que
levava à Freddy Fazbear’s. Passou o facho de luz pelas paredes adiante de
cima a baixo, mas o beco estava completamente desprovido de vida, e ele
então respirou fundo e seguiu em frente. Dunn se manteve junto à parede, o
ombro roçando de leve os tijolos ásperos enquanto ele tentava desviar das
poças abaixo dos canos com vazamento. O forte facho de luz da lanterna
iluminava a passagem quase tão bem quanto lâmpadas de teto, mas, por
algum motivo, a claridade não era nada reconfortante — só deixava o lugar
com uma aparência desolada e lúgubre, as estantes cheias de ferramentas e
latas de tinta esquecidas agora expostas e claramente jogadas às traças.
Conforme se aproximava da porta do restaurante, alguma coisa fria e
minúscula aterrissou em sua cabeça, e ele se assustou, brandindo a lanterna
como se fosse uma arma e comprimindo as costas contra a parede para se
defender da ameaça. Outra gota de água fria pousou então em sua
bochecha, e ele respirou fundo.
Quando finalmente chegou à entrada do restaurante, a estante que
bloqueava a porta tinha sumido: as correntes, que haviam parecido tão
permanentemente firmes, estavam soltas, e a porta, entreaberta. O imenso
cadeado enferrujado estava caído no chão sujo, destrancado. Dunn o chutou
para longe da porta. Enfiou os dedos pela fresta da porta, espiando
enquanto procurava um ponto em que pudesse segurar com força, e então
puxou a porta com ambas as mãos, até o metal ranger e ele conseguir abrir
o suficiente para entrar. Foi se esgueirando pelo corredor interno com a
lanterna estendida, encolhido contra a parede. O ar pareceu mudar
conforme adentrava mais e mais o restaurante, e Dunn sentiu um calafrio
insistente penetrando seu uniforme e alimentando sua ansiedade crescente.
— Não vá surtar, Dunn — disse em voz alta, e na mesma hora se
sentiu um bobo.
Chegou à sala de jantar principal e parou, iluminando as paredes uma
de cada vez. A luz da lanterna parecia mais fraca lá dentro, engolida pelo
espaço amplo. O cômodo estava vazio, mas era exatamente igual a como se
lembrava de quando era criança. Tinha dez anos quando as tragédias
começaram, onze quando tudo acabou. Sua festa de aniversário seria na
Freddy’s, mas depois do primeiro desaparecimento, sua mãe a cancelou e
chamou seus amigos para uma festa em casa, com um palhaço contratado
que se revelou igualmente apavorante. Jogada esperta, mãe, pensou Dunn.
O facho de luz banhou o pequeno carrossel, no qual nunca nem sequer
subira, sempre dizendo que era velho demais para ele. Pouco antes de a luz
chegar ao palco, Dunn hesitou, engolindo em seco. Foi o coelho que pegou
ele, o menino havia dito. Dunn se recompôs e iluminou o palco.
Lá estavam as figuras, exatamente como ele recordava, e, ao
contrário do carrossel, não pareciam menores. Continuavam idênticos ao
que ele se lembrava e, por um momento, uma onda de nostalgia quase
dolorosa inundou seu peito. Quando os encarou, perdido em suas
memórias, notou que seus olhos estavam estranhamente vidrados em um
ponto adiante, como se assistissem alguma coisa no outro lado do cômodo.
Segurando a lanterna com firmeza, Dunn se aproximou do palco até estar a
poucos centímetros e examinou os animais um de cada vez. Bonnie
segurava o baixo, radiante, como se pudesse começar a tocar a qualquer
momento, assim que lhe desse na telha, enquanto Chica e seu cupcake
pareciam compartilhar algum segredo mágico. Freddy, com seu microfone,
fitava o vazio ao longe, sem piscar.
Algo se moveu atrás dele, e Dunn deu meia-volta, o coração
acelerado. Não encontrou nada com a lanterna e moveu o facho de luz de
um lado para outro, revelando apenas mesas vazias. Nervoso, olhou de
volta para Bonnie, mas o coelho permanecia congelado em seu devaneio
misterioso.
Com a respiração rápida e constante, Dunn se obrigou a ficar parado
e ouvir, os sentidos aguçados devido à adrenalina. Após um momento,
ouviu o barulho de novo, aquele mesmo ruído de movimento, dessa vez
vindo da direita. Direcionou o facho de luz para lá na mesma hora: havia
uma porta aberta e, do outro lado, um corredor. Agachando-se, Dunn
avançou pelo corredor, mantendo-se recostado à parede, como se algo
pudesse passar correndo por ali. Por que estou aqui sozinho? Ele sabia a
resposta. O sargento não levara a busca a sério — na verdade, nem o
próprio Dunn levara. Afinal, era só o filho do chefe arranjando mais
confusão. Deve ser só o Carlton, Dunn lembrou a si mesmo.
Chegou ao final do corredor, onde havia outra porta entreaberta.
Com uma das mãos, Dunn empurrou a porta para frente ao mesmo
tempo que se abaixava e jogava o corpo para o lado. A porta se abriu para
dentro, e nada aconteceu. Tirou o cassetete do cinto; seu peso lhe era pouco
familiar — nunca tivera muita necessidade de usá-lo em Hurricane. Mas,
naquele momento, segurava o cabo de borracha como se sua vida
dependesse disso.
O escritório não estava exatamente vazio: continha uma pequena
escrivaninha e uma cadeira de metal dobrável encostada a ela. Um grande
armário ocupava uma das paredes, com apenas uma fresta da porta aberta.
Não havia nenhuma outra saída além da que Dunn bloqueava. Iluminou o
armário de cima a baixo e respirou fundo. Balançou o cassetete de leve,
certificando-se de que estava seguro em sua mão, e examinou
cuidadosamente o pequeno espaço adiante. Com um passo para o lado,
usou o bastão para abrir a porta, usando apenas movimentos lentos. Ela se
abriu com facilidade e, novamente, tudo ali continuava imóvel. Aliviado,
Dunn examinou o interior — o armário estava vazio, exceto por uma
fantasia.
Era Bonnie, ou melhor, não era. O rosto era o mesmo, mas o pelo do
coelho era amarelo. Estava caído, sem vida, contra a parede dos fundos do
armário, os olhos escuros e vazios. Foi o coelho que pegou ele. Então o
garoto não estava mentindo; Carlton devia ter convencido alguém a usar
aquela fantasia para ajudá-lo com a pegadinha. Ainda assim, Dunn
continuou se sentindo inquieto — não queria tocar naquela coisa. Abaixou
a lanterna e prendeu o cassetete de volta no cinto, pensando em ir embora
dali.
Antes que pudesse se virar, a fantasia se jogou para frente,
aterrissando em cima dele com o peso morto de um cadáver. A coisa ficou
imóvel por um momento, até que, sem aviso, começou a se debater
violentamente, segurando o policial com mãos fortes, inumanas. Dunn deu
um gritou alto e desesperado, lutando contra o coelho que agarrava sua
camisa e seu braço. Sentiu uma dor súbita e intensa, e, em uma pequena
parte da mente alheia ao que acontecia, pensou: Quebrou. Ele quebrou o
meu braço. Mas o terror anestesiou a dor quando o coelho girou seu corpo
e o imprensou com facilidade na porta do armário, carregando Dunn como
se tivesse o peso de um criança. Dunn lutava para respirar — o braço do
coelho apertava seu pescoço com tanta força que todo e qualquer
movimento o sufocava. No instante em que pensou que estava prestes a
desmaiar, a pressão diminuiu, e Dunn respirou aliviado, segurando o
pescoço. Foi quando viu a faca.
O coelho segurava uma lâmina prateada fina. As grandes patas
peludas deviam ser difíceis de manipular, mas só de olhar Dunn percebeu
que a criatura já havia feito aquilo antes, e que não teria problemas em
fazer de novo. Dunn gritou novamente, um urro indistinto. Não tinha
esperanças de ser ouvido — era apenas um berro gutural de desespero.
Respirou fundo e gritou outra vez, aquele mesmo som bestial, o corpo
inteiro vibrando junto, como se com aquilo pudesse defende-lo do que
aconteceria a seguir.
A faca entrou. Dunn a sentiu perfurando sua pele, seus músculos,
rompendo partes que ele não saberia nomear, até que se enterrou no fundo
de seu coração. Enquanto se debatia de dor e terror, o coelho o puxou,
quase em um abraço. Dunn sentiu a cabeça leve; estava perdendo a
consciência e, quando olhou para cima, viu duas fileiras de dentes
horripilantes e amarelados arreganhados em um sorriso, a velha fantasia já
se desfazendo nos cantos da boca. As duas cavidades dos olhos o
encaravam. Eram escuras e vazias, mas a criatura tinha chegado perto o
suficiente para que Dunn pudesse enxergar olhos menores espiando de
dentro da máscara. Estava mantendo o contato visual com Dunn,
pacientemente. Dunn sentiu as pernas perderem sensibilidade, sua visão se
anuviando. Queria gritar outra vez, expressar sua indignação final de
alguma forma, mas não conseguia mover o rosto, não tinha fôlego. O
coelho o manteve de pé, suportando seu peso, e seus olhos foram a última
coisa que Dunn viu.

Charlie destrancou a porta da frente da antiga casa e olhou para a


escadinha da entrada.
— Você vem?
John ainda estava parado no primeiro degrau, fitando a casa. Ele
estremeceu de leve antes de se adiantar atrás dela.
— Desculpa — disse, de um jeito meio tímido. — É que, por um
segundo, tive uma sensação estranha. — Charlie riu, mas sem muito
humor.
— Só por um segundo?
Eles entraram, e John parou outra vez, examinando aquela antessala
como se tivesse colocado os pés em um lugar sagrado, um ambiente que
merecia uma reverência. Charlie mordeu a língua, tentando não ser
impaciente. Também se sentira daquele jeito; talvez até tivesse sentido o
mesmo naquele momento, se não estivesse tomada por uma sensação de
urgência, uma sensação de que a resposta para tudo, inclusive para
recuperarem Carlton, estava escondida em algum lugar por ali. Onde mais
poderia estar?
— John — disse ela. — Tá tudo bem, vamos.
Ele assentiu e a seguiu escada acima até o segundo andar. Então, no
meio do caminho, parou novamente, hesitante, e Charlie viu seus olhos
vidrados na mancha escura que maculava o piso de madeira da sala de
estar.
— O... — começou a diz, mas então engoliu em seco e recomeçou:
— O Stanley ainda tá aqui?
Charlie fingiu não ter reparado no que tinha acontecido.
— Você lembra do nome dele! — exclamou, em vez disso, abrindo
um sorriso. John deu de ombros.
— Quem não amaria um unicórnio mecânico?
— É, ele ainda tá aqui. Todos os brinquedos ainda funcionam, vem
cá. — Seguiram depressa em direção ao quarto de Charlie.
John se ajoelhou ao lado do unicórnio e apertou o botão que o fazia
funcionar, assistindo atentamente enquanto ele avançava pelo quarto,
dentre seus barulhos mecânicos. Charlie escondeu um sorriso com a mão.
John observava o brinquedo atentamente, parecendo sério, como se algo
muito importante estivesse acontecendo. Por um momento, pareceu ser
exatamente aquele mesmo garoto de tantos anos antes, os cabelos caindo
no rosto, a atenção voltada para Stanley como se nada mais no mundo
importasse senão aquela criatura robótica.
De repente, voltou-se para algum ponto no teto e abriu um sorriso ao
apontar.
— Seu armário de mocinha crescida! Está aberto! — exclamou,
levantando-se para se aproximar do maior dos três armários no cômodo,
cuja porta estava entreaberta. Ele a abriu de uma só vez e se inclinou para
frente, constatando que estava vazio. — E então, o que tinha aí dentro esses
anos todos? — perguntou.
— Não tenho certeza. — Charlie deu de ombros. — Acho que me
lembro da tia Jen me trazendo de volta, em algum momento, mas posso
estar errada. Vai ver tinha um monte de roupa que finalmente caberia em
mim. A tia Jen sempre foi um pouco pão-dura... Por que gastar dinheiro
com roupa nova sendo que você não precisa, não é mesmo? — Ela sorriu.
John olhou brevemente para os armários menores, mas não mexeu
neles.
— Vou ver se encontro algum álbum de fotos ou documento — disse
Charlie, balançando a cabeça enquanto Stanley fazia o caminho barulhento
de volta ao ponto de partida. Quando saiu do quarto, pôde ouvi-lo
recomeçando o trajeto.
O quarto que costumava ser de seu pai ficava ao lado do de Charlie.
Era nos fundos da casa e tinha janelas demais — no verão era muito
quente, e no inverno o frio se infiltrava feito um vazamento persistente,
mas Charlie sabia, mesmo que nunca lhe houvessem explicado, por que ele
o usava. A vista dava para a garagem e, consequentemente, para sua
oficina. Sempre fizera muito sentido para Charlie: aquele era o canto dele,
como se uma parte sua vivesse ali, e ele não gostava de ficar muito longe
do seu porto seguro. Por um momento, Charlie foi tomada por uma onda
vinda de seus sonhos; não era sequer uma imagem, só a memória de um
gesto estranho, chamando-a, e ela franziu a testa, olhando pela janela para a
porta fechada da garagem silenciosa.
Ou talvez ele só quisesse ter certeza de que nada escaparia, pensou.
Afastou-se da janela, dando de ombros e sacudindo as mãos, tentando se
livrar daquela sensação. Examinou o quarto. Assim como o dela,
permanecia intocado — ela não abriu as gavetas da cômoda, mas, até onde
sabia, podiam muito bem ainda estar recheadas de camisas e meias limpas,
dobradas e prontas para serem usadas. A cama estava impecavelmente feita
com o cobertor xadrez que ele usava desde que a mãe de Charlie fora
embora, quando já não havia mais ninguém para insistir que usassem roupa
de cama branca. Havia uma grande estante encostada à parede, e estava
repleta de livros: Charlie foi até lá e começou a examinar as prateleiras.
Muitos eram manuais, livros didáticos, tomos de engenharia cujos títulos
nada significavam para Charlie, enquanto que o restante era não ficção,
uma coleção que teria parecido eclética para qualquer um que não tivesse
conhecido o dono.
Havia livros de biologia e anatomia, alguns voltados para seres
humanos e outros para animais; havia também livros sobre a história dos
circos e dos parques de diversão itinerantes. Livros sobre desenvolvimento
infantil, mitologia e até manuais de costura. Havia títulos que falavam
sobre deuses da trapaça, sobre antigos grupos de confecção de colchas e
sobre equipes de animadoras de torcida e mascotes de times de futebol.
Havia pilhas de pastas na prateleira mais alta, enquanto que na mais baixa
havia apenas um único volume: um álbum de fotos de capa de couro, tão
impecável quanto poderia, devido à ação do tempo e da poeira. Charlie o
puxou, e o livro ficou preso por um momento, quase grande demais para a
prateleira onde havia sido posto. Depois de um minuto, ele se soltou, e ela
voltou ao quarto, deixando a porta aberta diante da súbita sensação de que,
se a fechasse, talvez nunca mais conseguisse voltar.
John estava sentado na cama quando ela voltou, olhando para
Stanley com a cabeça meio inclinada.
— O que foi? — disse Charlie, e ele ergueu o olhar, ainda pensativo.
— Estava me perguntando se ele se sente sozinho — disse, dando de
ombros.
— Ele tem o Theodore — disse Charlie, apontando para o coelho de
pelúcia, e então abriu um sorriso. — É a Ella que fica sozinha, lá no
armário. Olha só. — Deixou o álbum ao lado de John e foi até o pé da cama
para girar o timão que fazia Ella se mexer. Sentou-se ao lado dele, e os dois
ficaram olhando juntos, tão encantados quanto antigamente, enquanto a
bonequinha surgia com seu vestidinho liso e limpo para lhes oferecer chá
com o rosto inexpressivo. Nenhum deles disse qualquer coisa até que a
porta do armário menor se fechasse outra vez atrás dela. John pigarreou.
— Bem, e o que tem nesse livro?
— Fotos — disse Charlie. — Mas ainda não olhei. — Ela pegou o
álbum e o abriu em uma página aleatória. A foto no topo da página era de
sua mãe segurando um bebê que talvez tivesse um ano. A mãe segurava o
bebê sobre sua cabeça, fingindo fazê-lo voar como um avião, a cabeça
jogada para trás em meio a uma risada, os longos cabelos castanhos
balançando atrás dela. Os olhos do bebê estavam arregalados em puro
deleite. John sorriu para ela.
— Você parece tão feliz nessa foto — disse, e ela assentiu.
— É — disse ela. — Acho que eu devia estar. — Se é que
realmente sou eu, pensou, sem dizer em voz alta. Abriu em outra página,
cuja única foto era um grande retrato de família, todos com poses muito
rígidas, posando em um estúdio. Seus trajes eram bastante formais: o pai
estava de terno, e sua mãe usava um vestido rosa-choque com ombreiras
que quase chegavam até as orelhas e os cabelos castanhos alisados, sem um
único fio fora do lugar. Cada um deles segurava um bebê, um com vestido
branco de babados e o outro com uniforme de marinheiro. Vendo aquilo,
Charlie sentiu o coração pular. Ao seu lado, ouviu John inspirar de repente,
surpreso. Olhou para ele com a sensação de que o chão estava se
desfazendo sob seus pés.
— Era verdade — disse. — Eu não tinha imaginado ele. — John não
disse nada em resposta, apenas assentiu. Tocou o ombro dela por um
instante, depois olhou outra vez para o álbum.
— Parecíamos todos tão felizes — murmurou Charlie.
— Acho que estavam mesmo — disse John. — Olha só esse seu
sorriso bobo. — Apontou, e Charlie riu.
O álbum todo era parecido, as primeiras memórias de uma família
feliz que esperava viver tantas outras. As fotos não estavam em ordem
cronológica, então Charlie e Sammy apareciam primeiro como crianças
pequenas, depois recém-nascidos, depois em momentos variados da vida.
Com exceção das ocasiões formais, quando colocavam Charlie de
vestidinhos, — que pareciam ser bem poucos — era impossível distinguir
um bebê do outro. Não havia nenhum vestígio do Fredbear’s Family Diner.
Já nas últimas páginas, Charlie encontrou uma Polaroid dela e de
Sammy juntos, os dois bebês com a pele vermelha e deitados de costas, aos
berros, só de fraldas e pulseirinhas do hospital. No espaço em branco
abaixo da foto, alguém havia escrito: “Filhinho da Mamãe e Filhinha do
Papai”.
As outras páginas estavam em branco. Charlie viu tudo outra vez,
abrindo em páginas aleatórias e encontrando uma tira de fotos de uma
cabine fotográfica automática, quatro retratos dos pais sozinhos. Eles
sorriam um para o outro, depois faziam caretas para a câmera, depois caíam
na gargalhada, perdendo a hora de posar e saindo com os rostos borrados.
Na última imagem, sorriam para a câmera. A mãe estava radiante, o
rosto corado e alegre, mas o pai fitava algo ao longe, com um sorriso que
parecia ter sido esquecido involuntariamente no rosto. Os olhos escuros
estavam intensos, distantes, e Charlie teve que resistir a um desejo súbito
de olhar para trás, como se talvez pudesse ver o que quer que o pai
estivesse vendo.
Descolou o plástico protetor da folha do álbum, pegou a tirinha e a
dobrou ao meio, prestando atenção para que a dobra ficasse no espaço entre
as fotografias, para que ficassem intactas. Guardou a tira no bolso e olhou
para John, que a observava novamente, como se ela fosse algum tipo de
criatura imprevisível com a qual precisava tomar muito cuidado.
— O que foi? — disse ela.
— Charlie, você sabe que eu não acho que tenha sido ele, certo?
— Você já disse.
— Estou falando sério, não é só pelo que o pai do Carlton disse. Eu
conhecia ele, tão bem quanto uma criança pode conhecer o pai da
amiguinha... Ele nunca faria isso. Eu jamais conseguiria acreditar em algo
assim. — Ele falava com uma certeza tranquila, como alguém que
acreditava que o mundo era feito de fatos e coisas tangíveis, que acreditava
no conceito de “verdade”. Charlie assentiu.
— Eu sei — disse ela. Inspirou devagar e profundamente,
escolhendo as palavras que diria a seguir. — Mas pode ser que eu consiga.
— Aturdido, John arregalou os olhos, e ela fitou o teto por um momento,
tentando lembrar se todas aquelas rachaduras já estavam lá quando era
criança. — Não é que eu ache que tenha sido ele, não é isso — prosseguiu.
— Eu só não acho nada, nunca penso sobre isso, não consigo pensar. Eu
tranquei e escondi tudo o que aconteceu em algum lugar da mente no dia
em que saí de Hurricane. Eu não penso na Freddy’s; não penso no que
aconteceu; e não penso nele.
John a encarava como se ela fosse um monstro, como se o que estava
dizendo fosse a pior coisa que ele já tinha ouvido.
— Eu não entendo como você consegue dizer uma coisa dessas —
disse, baixinho. — Você o amava, como pode sequer considerar a
possibilidade de ele ter feito algo tão terrível?
— Até as pessoas que fazem coisas terríveis são amadas por alguém.
— Charlie buscou as palavras certas. — Eu não acho que tenha sido ele,
não é isso que estou dizendo — disse novamente, e, mais uma vez, as
palavras lançadas ao ar eram frágeis como papel. — Mas lembro dele
usando aquela fantasia do Freddy amarelo pra gente, dançando e fingindo
que cantava as músicas, era como se aquilo fizesse parte dele. Ele era o
restaurante, não tinha mais ninguém tão envolvido. E estava sempre tão
distante, como naquela foto, sempre com alguma coisa na mente. Era como
se tivesse uma vida real e uma vida secreta, sabe?
John assentiu e parecia prestes a dizer alguma coisa, mas Charlie
continuou falando, depressa, antes que ele tivesse chance de se pronunciar:
— Nós éramos a vida secreta. A vida real era o trabalho dele; era o
que realmente importava. Nós éramos só um prazer secreto e cheio de
culpa, aquilo que ele aprendeu a amar, o refúgio para onde ia escondido
para passar o tempo, que mantinha escondido dos riscos do que fazia, do
seu mundo “real”. E quando estava com a gente, tinha sempre uma parte
ainda presa à realidade, seja lá o que a realidade fosse para ele.
Novamente, John abriu a boca para falar alguma coisa, mas Charlie
fechou o álbum com força, se levantou e saiu do quarto. John não a seguiu
imediatamente, e conforme atravessava o pequeno corredor até o quarto do
pai, ela quase podia ouvi-lo tentando decidir o que fazer. Sem hesitar, ela
foi até a estante, querendo se livrar logo do álbum em suas mãos, como se,
depois que estivesse fechado e guardado, sua mente também pudesse voltar
à normalidade. Mas o álbum não entrava na prateleira, e ela se ajoelhou
para conseguir um ângulo melhor, tentando enfiar aquela coisa de volta em
seu lugar e acabar de vez com aquilo. A prateleira parecia ter encolhido no
tempo que ela passou fora, de forma que ele nunca mais poderia ser
devolvido, nunca mais seria guardado como antes.
Com um grito de frustração, Charlie empurrou o álbum com toda a
força. A estante balançou, cuspindo uma enorme massa de papéis e pastas
por cima dela. Charlie começou a chorar enquanto folhas se espalhavam ao
seu redor, cobrindo o chão feito neve conforme as lágrimas iam escorrendo.
Rapidamente, John estava lá.
Ele se ajoelhou ao seu lado em meio àquele caos frágil, juntando
papéis tão rápido quanto podia sem rasgá-los. Tocou delicadamente o
ombro de Charlie, que não se afastou; ele a puxou para perto e a abraçou, e
ela o abraçou de volta com tanta força que sabia que devia estar
machucando, mas não conseguia soltar. Soluçou mais alto, como se a
segurança de um abraço fosse o que ela precisava para se soltar. Longos
minutos se passaram — John acariciava seus cabelos, e Charlie continuava
chorando, o corpo balançando de tanta emoção, como se estivesse
possuída. Não estava pensando no que havia acontecido, não revisitava
uma memória atrás da outra para lamentar cada uma delas — sua mente
estava em branco. Não tinha nada, não era nada, apenas soluços violentos.
Sentia o rosto dolorido por causa da tensão, o peito apertado como se toda a
dor estivesse saindo à força, e continuava chorando, como se fosse chorar
por toda a eternidade.
Mas a eternidade era uma ilusão. Aos poucos, suas lágrimas foram
diminuindo, sua respiração foi se acalmando, e Charlie voltou a si e se
afastou do ombro de John, exausta. Mais uma vez, John ficou com os
braços parcialmente suspensos no ar, pego de surpresa pelo vazio repentino
que eles envolviam e tentou sair da pose constrangedora sem chamar
atenção. Charlie se sentou, encostada na lateral da cama de seu pai,
escorando a cabeça. Sentia-se drenada, exaurida e frágil, mas estava um
pouco melhor. Abriu um sorrisinho para John e viu o alívio em seu rosto ao
primeiro sinal de que estava tudo bem.
— Eu tô bem — disse. — É culpa desse lugar, de tudo isso. —
Sentia-se boba tentando explicar, mas John se abaixou para se sentar a seu
lado.
— Charlie, você não precisa me explicar nada. Eu sei o que
aconteceu.
— Sabe? — Ela o encarou, intrigada, sem ter certeza de como
formular a pergunta. Dizer aquilo sem rodeios parecia indelicado demais.
— Você sabe como o meu pai morreu, John? — Ele pareceu nervoso,
hesitante.
— Eu sei que ele se matou — disse, hesitante.
— Não, quer dizer... Você sabe como?
— Ah. — John olhou para os pés, como se não conseguisse encará-
la. — Achei que ele tivesse se esfaqueado — murmurou. — Eu me lembro
de ouvir a minha mãe e o meu pai conversando... Ela disse alguma coisa
sobre uma faca, e todo o sangue.
— Teve mesmo uma faca — disse Charlie. — E sangue. — Fechou
os olhos e permaneceu assim enquanto falava; podia sentir o olhar de John
em seu rosto, observando cada movimento, mas sabia que se olhasse para
ele, não conseguiria terminar.
— Eu nunca cheguei a ver — disse. — Digo, não cheguei a ver o
corpo. Não sei se você lembra, mas a minha tia foi me buscar na escola no
meio do dia. — Ela parou, aguardando uma confirmação, os olhos bem
fechados.
— Lembro — disse a voz de John, em meio à escuridão. — Foi a
última vez que eu te vi.
— É. Ela foi me buscar, e eu sabia que tinha alguma coisa errada;
ninguém vai embora da escola no meio do dia porque está tudo bem. Ela
me levou lá fora, até o carro dela, mas não entramos na mesma hora. Ela
me pegou no colo, me colocou sentada no capô do carro, e aí disse que me
amava.
“Eu te amo, Charlie, e vai ficar tudo bem”, disse tia Jen, que então
destruiu o mundo inteiro com suas próximas palavras.
— Ela disse que o meu pai tinha morrido e perguntou se eu entendia
o que aquilo significava.
E Charlie assentiu, não só porque entendia mas também porque,
como se por um pressentimento terrível, não estava surpresa.
— Ela disse que eu ia passar uns dias com ela e que tínhamos que
pegar algumas roupas em casa. Quando chegamos, ela me segurou no colo
como se eu fosse uma criancinha, e quando passamos pela porta, cobriu
meu rosto para que eu não visse o que tinha na sala. Mas eu vi.
Era uma de suas criaturas, uma que ela nunca havia visto, e estava
virada para a escada; sua cabeça estava meio abaixada, então Charlie
pôde ver que a parte de trás do crânio estava aberta, com os circuitos
expostos. Os membros e as articulações estavam expostos, um esqueleto de
metal despido, trespassado por fios retorcidos que serviam para a
circulação de algo que não era sangue, e os braços estavam estendidos em
uma reprodução solitária de um abraço.
Estava parada no meio de uma poça escura de um líquido que,
embora devesse ter sido imperceptível, parecia se espalhar cada vez mais.
Ainda que a coisa estivesse com a cabeça abaixada, ela ainda conseguiu
ver seu rosto, se é que aquilo podia ser chamado de rosto — as feições mal
tinham forma, eram grosseiras e indistintas. Ainda assim, Charlie
percebeu que estavam contorcidas em um nível quase grotesco: a criatura
estaria chorando, se fosse capaz de chorar. Ela a encarou pelo que
pareceram anos, embora devessem ter sido apenas alguns segundos, ou
menos, pouco mais que um vislumbre enquanto tia Jen a carregava
depressa escada acima.
Mas já tinha visto aquela imagem tantas vezes, desde então; ao
dormir, ao acordar, ao fechar os olhos quando estava distraída, ele sempre
surgia diante dela, aquele rosto que invadia sua mente como invadira o
mundo. Seus olhos cegos não passavam de duas esferas, como os olhos de
uma estátua, enxergando apenas o próprio sofrimento. Em sua mão,
conforme ela só viria a perceber mais tarde, estava a faca. Quando
Charlie viu a faca, a cena inteira ficou mais nítida — ela sabia o que era
aquela coisa, e sabia para que tinha sido construída.
John a estava encarando, tentando conter a expressão horrorizada.
— Foi assim que ele...? — Ele se deteve. Charlie assentiu. — Claro
que foi. — Ele fez menção de tentar confortá-la outra vez, mas foi a
decisão errada; sem nem pensar, Charlie se afastou sutilmente, saindo do
seu alcance, e ele pareceu desapontado.
— Desculpa — disse ela, rápido. — É só que... desculpa.
John balançou a cabeça e olhou para a confusão de papéis no chão.
— A gente devia dar uma olhada nisso, ver se tem alguma coisa aí
— disse.
— Claro — disse ela, meio sem jeito, descartando as tentativas de
John de tranquilizá-la.
Eles começaram de forma aleatória — as coisas que caíram criaram
uma bagunça tão grande que não havia outra opção. A maioria dos papéis
eram diagramas de engenharia e páginas de equações incompreensíveis
para qualquer um dos dois. Havia documentos fiscais, que John foi
pegando, animado, na esperança de encontrar alguma informação sobre o
Fredbear’s Family Diner, mas depois de quinze minutos, desistiu, dentre
um suspiro, deixando as folhas de lado.
— Charlie, não consigo entender nada disso. Vamos dar uma olhada
no resto, mas eu não acho que ficar quebrando a cabeça aqui vá nos
transformar em matemáticos ou em contadores.
Charlie, por teimosia, continuou folheando a pilha, torcendo para
encontrar algo compreensível. Pegou um maço de papel, tentando alinhar
as folhas, e uma foto caiu do meio da pilha. John a pegou.
— Charlie, olha! — disse, repentinamente animado. Ela pegou a foto
de sua mão.
Era seu pai, na oficina. Estava vestido na fantasia amarela de Freddy
Fazbear; a cabeça do urso estava debaixo de seu braço, olhando cegamente
para a câmera, enquanto o pai de Charlie sorria, o rosto vermelho e suado
como se tivesse passado bastante tempo dentro daquela roupa. Ao lado dele
estava um Bonnie amarelo.
— O coelho amarelo — disse Charlie. — O Jason disse que tinha um
coelho amarelo.
— Mas o seu pai está usando a fantasia de urso.
— O coelho deve ser um robô — disse Charlie. — Repara só nos
olhos, são vermelhos. — Ela examinou mais de perto. Os olhos do coelho
eram de um vermelho reluzente, mas não estavam brilhando, e ela logo se
deu conta do porquê. — Os olhos não são vermelhos, é só efeito do flash!
Tem uma pessoa lá dentro!
— Mas quem...?
— ...quem estava usando a fantasia? — Charlie concluiu sua
pergunta.
— Temos que ir para a biblioteca — disse John, dando um pulo.
Charlie ficou ali, parada, olhando a foto. — Charlie?
— Sim — disse. Ele ofereceu a mão para ajudá-la a se levantar.
Quando estavam descendo as escadas, John ficou um pouco para
trás, e Charlie não se virou; sabia o que ele estava vendo em sua mente,
pois ela também estava — a mancha no chão, ainda mais escura do que
antes.

Charlie dirigiu depressa até a biblioteca, uma urgência sombria


tomando-a por inteiro. A tempestade prevista já estava pairando no ar, o
cheiro cada vez mais forte, como uma advertência. Estranhamente, a virada
no tempo em parte deixava Charlie um tanto satisfeita: tempestades por
dentro, tempestades por fora.
— Nunca fiquei tão ansioso para entrar numa biblioteca — brincou
John, e Charlie deu um sorriso tenso, sem humor.
A biblioteca de Hurricane ficava ao lado do colégio onde havia sido
realizada a cerimônia do memorial, e assim que desceram do carro, Charlie
olhou de relance para o parquinho, imaginando crianças gritando, rindo e
correndo em círculos, entretidas em suas brincadeira.
Éramos tão novinhos. Juntos, subiram depressa os poucos degraus da
entrada da biblioteca, um prédio moderno de tijolos, quadrado, que parecia
ter sido construído junto com a escola vizinha. Lembrava-se apenas
vagamente da biblioteca, dos tempos de infância — não iam ali com muita
frequência, e Charlie sempre passava o tempo sentada no chão da seção de
livros infantis. Era meio desconcertante notar que agora conseguia ver por
cima do balcão de informações.
A bibliotecária era jovem, pensou Charlie, uma mulher de porte
atlético que usava uma calça social e um suéter roxo e tinha cabelos cor-de-
rosa e um piercing na sobrancelha. Ela abriu um grande sorriso.
— Em que posso ajudá-los? — disse. Charlie hesitou. A mulher
devia estar na casa dos vinte; Charlie notou que, desde que voltara a
Hurricane, passara a prestar mais atenção à idade das pessoas que
encontrava, examinando cada rosto e calculando quantos anos deviam ter
quando aquilo aconteceu. Aquela mulher devia ser adolescente, na
época. Não importa, pensou. Você tem que perguntar mesmo assim. Ela
abriu a boca, querendo pedir informações sobre o Fredbear’s, mas o que
acabou saindo foi:
— Você é daqui de Hurricane?
A bibliotecária balançou a cabeça.
— Não, sou de Indiana, me mudei pra cá faz alguns anos; meu filho
Aiden estuda ali. — Apontou na direção do colégio ao lado, embora
estivessem do lado de dentro da biblioteca. Charlie sentiu o corpo
relaxar. Ela não estava aqui.
— Você tem alguma informação disponível sobre um lugar chamado
Fredbear’s Family Diner? — perguntou Charlie, e a mulher franziu a testa.
— Você quer dizer Freddy Fazbear’s Pizza? Acho que tinha uma
dessas aqui na cidade — disse ela, de forma vaga.
— Não, não é essa — disse Charlie, preparada para ser infinitamente
paciente com a mulher, que, graças a Deus, parecia ser provavelmente a
única pessoa na cidade que, de alguma forma, não sabia da história.
— Bom, os registros oficiais da cidade, coisas como constituição de
empresa e alvarás, ficam lá na prefeitura, mas já são... — Ela conferiu o
relógio. — Já passam das cinco, então só amanhã. Aqui tem jornais que
datam de 1880 em diante, se quiser dar uma olhada no microfilme — disse,
entusiasmada.
— É, pode ser — disse Charlie.
— Meu nome é Harriet — disse a mulher enquanto os conduzia até a
porta dos fundos do prédio. Os dois se apresentaram educadamente, e ela
continuou tagarelando feito uma criança prestes a mostrar seu brinquedo
favorito. — Então, vocês sabem o que é um microfilme, né? É que não dá
para armazenar pilhas de papel aqui dentro; não tem espaço, e os jornais
acabariam apodrecendo, então o microfilme é um jeito de preservá-los. É
só tirar foto dos documentos e guardar o filme. É quase igual a um rolo de
filme de cinema, sabe? Bem pequeno. Então temos que usar uma máquina
para ver a foto.
— Sabemos o que é — interrompeu John, no instante em que a
mulher fez uma pausa. — Só não sabemos usar.
— Bom, é para isso que estou aqui! — declarou Harriet, abrindo uma
porta adiante. A sala do outro lado tinha uma mesa e um monitor
empoleirado em uma caixinha com uma roda de cada lado. Duas manivelas
se projetavam para frente. Charlie e John encararam a engenhoca,
assombrados, e Harriet sorriu. — Vocês querem ver os jornais locais, não
é? De quais anos?
— Hm... — Charlie fez as contas. — De 1979 a 1982? — arriscou.
Harriet abriu um sorriso ainda maior e saiu da salinha. John se inclinou
para frente para examinar a máquina, mexendo de leve nas alavancas. —
Cuidado — advertiu Charlie, brincando. — Acho que ela não saberia o que
fazer sem essa máquina. — John ergueu as mãos e se afastou.
Harriet voltou carregando o que pareciam quatro pequenos rolos de
filme e os ergueu diante dos outros.
— Querem começar por qual ano? — disse. — 1979?
— Acho que pode ser — disse Charlie, e Harriet assentiu. Foi até a
máquina, inseriu o filme com bastante prática, apertou um botão, e a tela se
acendeu; uma folha de jornal surgiu adiante.
— Primeiro de janeiro de 1979 — anunciou John, se inclinando para
ler a manchete. — Política, alguém que ganhou alguma partida de alguma
coisa e um pouco sobre o clima. Além disso, uma padaria distribuiu
biscoitos de graça para celebrar o ano-novo. Até parece hoje em dia, só que
sem os biscoitos.
— É só mexer aqui para ver mais — disse Harriet, manipulando os
controles. — E me chamem se precisarem de ajuda para trocar os rolos.
Divirtam-se, vocês dois! — Ela deu uma piscadela conspiratória e fechou a
porta ao sair.
Charlie se posicionou diante da máquina, e John ficou atrás dela com
a mão apoiada no encosto de sua cadeira. Era bom tê-lo por perto — era
como se ele pudesse impedir qualquer coisa que tentasse atacá-la de
surpresa.
— Até que isso é bem legal — comentou ele, e Charlie assentiu,
passando os olhos pelo jornal em busca de respostas.
Duas horas mais tarde, John se alongou, suas costas estalando alto.
— Está ficando menos legal — disse. Charlie sequer se mexeu.
Estava com o queixo pousado na mão, passando pelos documentos de
forma constante. Já havia se acostumado com o processo, e o estava
fazendo de forma sistêmica; lia e passava adiante rapidamente, pausando
apenas o suficiente para identificar sobre o que era determinado artigo
antes de avançar.
— Shh — murmurou ela.
— Qual é, Charlie, seus olhos vão pular das órbitas. Vamos tirar uma
pausa.
— Estamos quase no final — disse. — Tem que ter pelo menos
alguma coisa. Já estamos terminando, estamos em... — Ela checou a data, e
soltou um gemido desanimado. — Sete de fevereiro de 1980. — Soltando
os controles, ela sacudiu os pulsos. — Ai — disse, suavemente, conforme
levantava para se alongar.
John suspirou alto e passou os dedos pelo cabelo, deixando-os
erguidos sobre sua cabeça.
— Tá, vamos diminuir as possibilidades de busca — disse, de forma
sombria. — O que é mais provável de aparecer no jornal?
— Eu estava procurando por um anuncio da inauguração — disse
Charlie.
— É, mas o que tem mais chance de aparecer nas manchetes?
Desculpa — acrescentou. — Eu não queria tocar no assunto, mas é
necessário.
— Sammy — disse Charlie. — Devíamos ter começado pelo
Sammy. A gente se mudou para a casa nova quando eu tinha três anos;
deve ter sido em 1982.
Com todo o cuidado, eles trocaram o rolo. Charlie desviou o olhar
para a porta, como se estivesse com medo de Harriet surpreendê-los
fazendo alguma coisa errada.
— Quando é o seu aniversário? — disse John, sentando-se na
cadeira.
— Você não sabe? — provocou ela. Ele franziu a testa, exagerando
uma expressão pensativa.
— ...treze de maio — disse ele, finalmente. Charlie riu, admirada.
— Sim, como é que sabe?
Ele abriu um sorriso.
— É que eu sei das coisas — disse.
— Mas pra que isso?
— Você lembra que já tinha três anos quando se mudou, mas só faz
aniversário em maio, então dá para eliminar cinco meses. E você se lembra
de mais alguma coisa sobre o restaurante, na noite em que o Sammy
desapareceu?
Charlie sentiu que se retraía tanto que quase doeu.
— Desculpa — disse. Seu rosto estava quente. — Desculpa, você me
pegou de surpresa. Me deixa pensar. — Ela fechou os olhos.
O restaurante. O depósito, cheio de fantasias penduradas. Ela e
Sammy, escondidos em segurança, no escuro, até a porta se abrir e o
coelho aparecer, se inclinando por cima deles com aquele rosto terrível, os
olhos humanos. Charlie sentia o coração acelerado — tentou acalmar a
respiração e estendeu a mão. John a segurou e ela apertou firme, como se
ele fosse uma âncora. O coelho estava inclinado sobre eles, os dentes
amarelos por baixo da máscara. E, atrás do coelho... o que tinha atrás do
coelho? O restaurante estava aberto, dava para ouvir vozes, pessoas.
Tinha mais gente fantasiada... Outros animadores? Robôs? Não... Estava
quase se lembrando.
Contendo a respiração, Charlie tentava persuadir o pensamento a sair
de seu esconderijo, com medo de acabar amedrontando-o. Vai com calma,
fala baixinho. Conseguiu agarrá-lo, arrancá-lo das profundezas da mente, e
o segurava firme enquanto ele se debatia entre seus dedos. Abriu os olhos.
— John, já sei quando foi. — disse.
Mais cedo naquela noite, quando os dois ainda estavam bem
acordados, a porta do depósito se abriu, e sua mãe espiou lá dentro. A luz
atrás dela criava um halo ao seu redor, e ela sorria para os gêmeos,
radiante em seu vestido longo, os cabelos cheios e ondulados, a tiara
reluzente. Mamãe é uma princesa, murmurou Charlie, sonolenta, e a mãe
se inclinou para beijá-la na bochecha. Só por hoje, sussurrou a mãe, e os
deixou ali, no escuro, para dormirem.
— Ela era uma princesa — disse, animada.
— O quê? Quem?
— A minha mãe — disse Charlie. — Ela estava fantasiada de
princesa. Era uma festa de Halloween. John, vá para o dia primeiro de
novembro.
John se atrapalhou um pouco com os controles, mas logo chegou à
página certa. A manchete era pequena, mas estava na primeira página do
jornal de segunda-feira, primeiro de novembro: CRIANÇA RAPTADA.
Charlie desviou o olhar. John começou a ler em voz alta, e Charlie o
interrompeu.
— Não — disse. — Só me conta se achar algo útil.
Ele ficou quieto, e ela ficou olhando a porta, ansiosa, esperando,
examinando os nós da madeira falsa com os olhos.
— Tem uma foto — disse ele, por fim. — Você precisa ver.
Charlie espiou por cima do ombro dele. A matéria continuava,
ocupando uma página inteira com imagens do restaurante, da família
reunida, e dela e de Sammy, embora os nomes dos gêmeos não tivessem
sido revelados no artigo. No canto inferior esquerdo havia uma fotografia
de seu pai ao lado de outro homem. Estavam com os braços pousados sobre
os ombros um do outro, ambos com um sorriso alegre no rosto.
— John — disse Charlie.
— Aí diz que eles eram sócios — disse John, a voz baixa.
— Não — disse Charlie, incapaz de tirar os olhos da foto, daquele
rosto que os dois conheciam.
De repente, a porta atrás dos dois irrompeu num enorme barulho de
batidas que vinham do lado de fora, e ambos deram um pulo.
— CHARLIE! JOHN! SÃO VOCÊS AÍ DENTRO?
— Marla — disseram os dois ao mesmo tempo, e Charlie foi
correndo abrir a porta.
— Marla! O que houve?
Ela estava vermelha e sem fôlego, e Harriet vinha atrás, nervosa.
Marla estava com os cabelos molhados e água escorrendo pelo rosto, mas
não tentou secar, ou sequer parecia notar. Acho que já começou a
chover, pensou Charlie, a reflexão mundana invadindo sua mente apesar do
susto.
— Ele sumiu! O Jason sumiu! — gritou Marla.
— O quê? — disse John.
— Ele voltou para a Freddy’s, tenho certeza — disse ela. — Não
parava de dizer que a gente tinha que voltar, que não podia passar o dia
inteiro de bobeira. Achei que ele só estava em outro quarto, mas já olhei
em tudo que é canto e sei muito bem onde ele está! — Ela disse tudo sem
parar para respirar e terminou ofegante, com um chiado fraco e lamurioso
ecoando sob sua respiração, um gemido que ela parecia incapaz de evitar.
— Ah, não! — exclamou Charlie.
— Vamos — apressou Marla. Estava tremendo de aflição, vibrando;
John levou a mão ao ombro dela para lhe oferecer algum conforto, mas ela
balançou a cabeça. — Não tenta me acalmar, só vem comigo — disse, mas
não havia raiva em sua voz, apenas desespero. Ela deu meia-volta, quase
correndo até a porta, e John e Charlie a seguiram, lançando um olhar de
desculpas ao deixarem para trás a bibliotecária, que parecia perplexa com a
situação.
CAPÍTULO NOVE

Carlton abriu os olhos, desorientado, a cabeça latejando com uma dor


massiva e pulsante. Estava sentado com o corpo torto e rijo, encostado
contra uma parede, e percebeu que não conseguia mover os braços. Estava
coberto de pequenas áreas aleatórias por todo o corpo, onde sentia pontadas
de dor e dormência; tentou mudar de posição para aliviar o desconforto,
mas estava preso de alguma forma, e os pequenos movimentos que era
capaz de fazer só faziam doer em ainda outros lugares. Olhou ao redor do
cômodo tentando se situar. Parecia uma espécie de depósito — havia pilhas
de caixas encostadas nas paredes e latas vazias de tinta e de produtos de
limpeza espalhadas no chão, mas não acabava por aí. Havia montes de
tecido felpudo por todos os cantos. Carlton olhou para eles, sonolento.
Sentia sua mente anuviada, como se bastasse fechar os olhos para pegar no
sono outra vez, tão fácil... Não. Balançou a cabeça com violência, tentando
clareá-la, e deu um grito.
— Droga — grunhiu, enquanto a dor latejante em sua cabeça minava
suas forças, e seu estômago se revirava. Trincou o maxilar e fechou os
olhos, esperando que a dor e a náusea diminuíssem.
Elas eventualmente foram passando, até se tornarem algo quase
suportável, e ele reabriu os olhos, recomeçando de onde havia parado.
Dessa vez, sua mente estava um pouco mais clara, e ele baixou o olhar,
para ver o que o prendia. Droga.
Estava dentro do torso cilíndrico e pesado de uma fantasia de
mascote, a metade superior de algum tipo de animal, mas sem a parte da
cabeça. Seus braços estavam presos no tronco da roupa, imobilizados em
uma posição desconfortável por alguma estrutura interna. Os braços da
fantasia pendiam, flácidos e vazios, ao lado do corpo. Suas pernas,
destoantes, saíam pela abertura na parte inferior do tronco, e pareciam
pequenas e finas em contraste com o resto. Podia sentir que também havia
outras coisas dentro do tronco da mascote, pedaços de metal que espetavam
suas costas. Sentia algumas feridas em sua pele, e não sabia se o líquido
que escorria era suor ou sangue.
Algo pressionava os dois lados de seu pescoço — quando virava a
cabeça, essas coisas, seja lá o que fossem, perfuravam ainda mais a pele. A
pelagem desbotada da fantasia estava suja e grudenta, com uma cor
apagada que poderia um dia ter sido azul-claro, mas que naquele momento
era quase um bege azulado. Podia ver uma cabeça da mesma cor a alguns
metros, pousada sobre uma caixa de papelão, e a examinou com
curiosidade, mas não conseguiu identificar qual era a mascote. A impressão
era que alguém havia recebido a ordem de “fazer um animal”, e foi
exatamente o que fez, cuidando para que não parecesse representar
nenhum tipo específico de animal.
Olhou em volta, começando a compreender. Sabia onde estava. Os
montes de tecido tinham rostos: eram fantasias vazias, mascotes do
restaurante, murchas, jogadas no chão, encarando-o com olhares ocos,
como se quisessem alguma coisa.
Voltou a sondar o cômodo, tentando fazer uma avaliação calma,
embora o coração estivesse vibrando de forma alarmante em seu peito. O
espaço era pequeno, uma única lâmpada iluminando-o do teto, fraca e
bruxuleante, dando ao lugar uma impressão perturbadora de movimento.
Um pequeno ventilador de mesa, marrom de tão enferrujado, balançava de
leve em um canto, mas o ar que soprava parecia pesado, impregnado de
suor seco — as fantasias não pareciam ser lavadas havia uma década.
Carlton sentia muito calor; o ar estava denso demais, como se não tivesse
tanto oxigênio quanto deveria. Tentou se levantar, mas não conseguia se
equilibrar sem a ajuda dos braços, e, quando se moveu, sentiu uma onda
violenta de náusea e uma súbita explosão de dor na cabeça.
— Eu não faria isso — murmurou uma voz rouca. Carlton olhou ao
redor, mas não viu ninguém, até que a porta foi se abrindo. Se movia
lentamente, e, em algum lugar sob a camada de terror, Carlton sentiu uma
pontada de impaciência.
— Quem está aí? Me tira daqui! — disse, dentre o pânico
desesperado.
A porta chiou feito um animal ferido, deslizando quase como se
tivesse vontade própria, sem ninguém no batente. Após um instante, um
coelho amarelo enfiou a cabeça pela porta, as orelhas pendendo
alegremente. Ficou imóvel por um momento, como se estivesse fazendo
pose, depois entrou saltitante, gracioso, sem nenhum vestígio dos
movimentos rijos e mecânicos do animal animatrônico. Fez uma dancinha,
girou e se curvou em uma mesura. Então se levantou e tirou sua cabeça
fora, revelando o homem por baixo da fantasia.
— Acho que eu não devia ficar surpreso — disse Carlton, o
nervosismo automaticamente reavivando seu lado sarcástico. — Nunca
confie num coelho, é o que sempre digo. — Não faziam sentido, não eram
engraçadas, mas as palavras saíam de sua boca sem que ele sequer as
processasse com o cérebro. Ainda sentia náusea e dor de cabeça, mas teve
um súbito momento de clareza visceral: Foi isso que aconteceu com o
Michael: foi você.
— Não fale — disse Dave. Carlton fez menção de responder, mas a
observação espertinha morreu em sua boca quando viu o rosto do guarda.
De algum modo, ele parecia um decrépito quando o conheceram, como se
estivesse esgotado, inútil. Mas agora, parado diante de Carlton com aquela
fantasia de coelho surreal, estava diferente. Tecnicamente, o rosto
continuava o mesmo: as feições macilentas e os olhos fundos, a pele que
parecia ter sido esticada até ficar fina demais, prestes a se rasgar; mas agora
havia uma força cruel e inegável nele, uma vitalidade típica de sujeitos sem
caráter que Carlton logo reconheceu.
Anos antes, ocorrera a Carlton que existiam dois tipos de pessoas
sórdidas. Havia as que eram óbvias, como sua professora de inglês da sexta
série, que berrava e atirava borrachas nos alunos, ou o garoto da quinta
série que batia nas crianças mais novas depois da aula. Esse tipo era fácil,
com ofensas públicas e brutais, mas incontestáveis. Mas havia, então, o
outro tipo de pequenos tiranos, aqueles que se tornam vingativos e
maldosos quando sentem um mero gostinho de poder, enquanto se sentem
mais agredidos e maltratados a cada ano que passa, seja pela família que
não demonstra afeto, por vizinhos que desdenham das formas mais
imperceptíveis, por um mundo que lhe vira as costas. De algum modo, são
carentes de algo essencial.
Diante de seus olhos estava alguém que passara tanto tempo da vida
lutando feito um rato encurralado que acabara adotando aquela manta de
sadismo amargo como parte integral de si mesmo. Atacaria os outros e se
deliciaria com sua dor, sentindo, como se estivesse cheio de razão, que o
universo lhe devia aqueles prazeres cruéis. O rosto do guarda, expressando
um deleite maligno com a dor e o medo de Carlton, era uma das coisas
mais aterrorizantes que ele já havia visto.
— Que tipo de serial killer se chama Dave? — disse. Sua voz saiu
trêmula e falhada, e não conseguiu passar a bravura que ele queria. Dave
não pareceu sequer ter escutado.
— Eu falei para não se mexer, Carlton — disse, sua voz calma.
Deixou a cabeça do coelho numa espécie de caixote de plástico e começou
a apertar os fechos atrás do pescoço. — Não é uma ordem, é um conselho
de amigo. Sabe o que é isso que você está vestindo?
— A sua namorada? — disse Carlton, e uma curva fina na boca de
Dave insinuou um sorriso.
— Você é engraçado — disse o homem, com repúdio. — Mas não.
Não é uma fantasia, Carlton, não exatamente. Sabe, essas roupas foram
projetadas com dois propósitos: para serem usadas por homens como eu, —
apontou para si mesmo, dentre algo que parecia ser orgulho, — e para
serem usadas como animatrônicos funcionais, como aqueles que você viu
no palco. Está entendendo?
Carlton assentiu, ou tentou, mas Dave ergueu as sobrancelhas, o que
o fez parar.
— Já falei para não se mexer — disse. O pescoço da fantasia se
abriu, e ele começou a mexer em outro fecho nas costas enquanto falava.
— Sabe, todas as partes animatrônicas da roupa continuam aí dentro; a
única coisa que as mantém no lugar é um mecanismo de travas de mola,
como esse.
Dave foi até o monte de fantasias e selecionou uma, levando o torso
verde e felpudo, sem a cabeça, até Carlton. Mostrou o traje vazio,
balançando dois pedaços de metal retorcidos posicionados nas laterais do
pescoço.
— Estas são as travas de mola — disse, aproximando tanto as partes
metálicas do rosto de Carlton que ele quase não conseguiu focar a visão. —
Veja. — Ele fez alguma coisa, tocou alguma parte do mecanismo de modo
tão imperceptível que Carlton não entendeu o que tinha acontecido, mas a
trava foi acionada e se fechou com um som semelhante a uma explosão de
escapamento de carro. Carlton se enrijeceu, subitamente levando a ordem
de não se mover completamente a sério, como se sua vida dependesse
disso.
— É muito, muito fácil acionar uma trava dessas — prosseguiu
Dave. Basta uma mexidinha de leve. Acontece que essa é uma fantasia
muito antiga, uma das primeiras que o Henry fez.
— Henry? — disse Carlton, tentando focar no que o homem estava
contando. O estalo ainda ecoava em seu ouvido e parecia ter grudado na
cabeça como uma música. Eu vou morrer, pensou pela primeira vez desde
que acordou. Esse homem vai me matar, eu vou morrer, mas e depois?
Alguém vai ao menos ficar sabendo? Trincou o maxilar e fez contato visual
com Dave. — Quem é Henry?
— O Henry — repetiu Dave. — Pai da sua amiga Charlie. — Ele
parecia surpreso. — Você não sabia que tinha sido ele quem fez esse lugar?
— Ah, verdade, é mesmo — disse Carlton, um pouco confuso. — É
que sempre pensei nele como “o pai da Charlie”.
— Mas é claro — disse Dave, o tipo de resposta educada que se dá
quando simplesmente não se está nem aí. — Enfim, esta é uma das
primeiras fantasias que ele criou — disse, gesticulando para Carlton. — E
se você ativar o mecanismo de molas, duas coisas vão acontecer: primeiro,
as travas vão ser acionadas, cobrindo o seu corpo de cortes profundos, e
uma fração de segundo depois, todas aquelas partes animatrônicas que elas
estavam segurando, todas as pecinhas de aço e plástico afiado, vão
atravessar seu corpo no mesmo instante. Você vai morrer, mas vai ser uma
morte lenta. Vai sentir seus órgãos sendo perfurados, seu sangue vai
encharcar a fantasia, e vai passar vários longos minutos ciente de que está
morrendo. Vai tentar gritar, mas não vai conseguir; suas cordas vocais vão
se romper, e seus pulmões vão ficar cheios de sangue até você sufocar. —
Seu olhar era distante, e Carlton soube com uma certeza gélida que Dave
não estava fazendo suposições. Estava se recordando.
— Como é que... — A voz de Carlton falhou, e ele tentou outra vez:
— Como você sabe disso? — disse, conseguindo entoar um sussurro rouco.
Dave encontrou seus olhos e abriu um largo sorriso.
— Como você acha? — Largou a fantasia que vinha segurando e
abriu o último fecho da que estava vestindo. Levou um tempo; Carlton
ficou observando por vários minutos enquanto Dave manuseava quaisquer
que fossem os mecanismos localizados sob a gola. Despiu-se do torso da
fantasia com um floreio, e Carlton deixou escapar um som involuntário, um
gemido impotente e temeroso.
Dave estava sem camisa sob a fantasia, e seu peito nu era visível com
clareza mesmo na luz fraca e bruxuleante. A pele estava repleta de
cicatrizes horríveis, com linhas brancas em alto-relevo que seguiam um
padrão simétrico, um lado do corpo espelhando o outro. Dave viu que ele
estava olhando e riu, um som repentino e alegre. Carlton sentiu um calafrio.
Dave levantou os braços e girou o corpo devagar, dando a Carlton tempo
suficiente para ver que tinha cicatrizes por toda parte, cobrindo as costas
como uma renda e se estendendo pela cintura, por dentro da calça de
coelho, como se continuassem até lá embaixo. Na parte de trás do pescoço,
onde eram maiores e mais visíveis, duas cicatrizes que pareciam linhas
paralelas se estendiam da nuca até o couro cabeludo, desaparecendo sob os
cabelos. Carlton tentou engolir. Sua boca estava tão seca que não poderia
ter falado, mesmo se houvesse algo a ser dito.
Dave abriu um sorriso desagradável.
— Não se mexa — disse novamente.

— Ele está aqui, tem que estar aqui! — berrou Marla, fitando em
completo desespero a porta da Freddy’s. Abria e fechava as mãos, os nós
dos dedos já ficando brancos. Charlie olhava para ela, impotente. Não
havia nada a dizer. A porta não estava mais coberta por correntes; ao invés
disso, simplesmente não havia mais uma porta. Tinha sido soldada: o metal
fora derretido junto ao batente, criando uma superfície única, sem
dobradiças, cobertas por um trabalho de soldagem malfeito e irregular.
Todos ficaram olhando embasbacados, sem conseguir compreender por
completo o que estavam vendo. Charlie balançou o pé. Tinha pisado em
uma poça ao sair correndo do carro, e agora seus sapatos e meias estavam
ensopados e gelados. Lhe parecia imperdoável concentrar-se no próprio
desconforto em um momento como aquele, mas não conseguia desviar sua
atenção.
— Isso é loucura — disse Marla, a boca entreaberta. — Quem faria
isso? — Levantou as mãos, frustrada. — Quem faria uma coisa dessas? —
Estava quase berrando. — Alguém fez isso! Alguém soldou a entrada. E se
o Jason estiver lá dentro?
Marla cobriu o rosto com as mãos, mas quando Jessica e Lamar se
aproximaram para confortá-la, ela os afastou.
— Estou bem — disse, tensa, mas não se moveu, ainda olhando para
o ponto na parede onde antes havia uma porta. Se sentia pequena, menor
que os outros; a energia do pânico que vinha motivando-a até então tinha
desaparecido, deixando-a vazia e sem propósito. Olhou para Charlie,
ignorando os demais, e Charlie devolveu o olhar, pouco à vontade.
— O que a gente faz? — disse Marla. Charlie balançou a cabeça.
— Não sei, Marla — disse, incapaz de ajudar. — Se ele estiver lá
dentro, temos que trazê-lo pra fora, tem que ter um jeito.
— Deve ter alguma outra entrada — concordou John, embora
parecesse mais convencido do que Charlie. — A Freddy’s tinha janelas,
uma entrada de serviço, não tinha? Deve ter saídas de emergência. Tem que
ter alguma coisa!
— Parem! — gritou Marla, e todos ficaram paralisados. Ela estava
apontando para o chão.
— O que foi? — disse Charlie, indo para o lado dela.
— É a pegada do Jason! — disse Marla. — Olha, dá para ver, é
daqueles sapatos idiotas que custaram um ano inteiro de mesada.
Charlie deu uma olhada. Marla tinha razão — havia uma pegada
enlameada e ainda fresca ali, mais ou menos do mesmo tamanho do pé de
Jason. A expressão de Marla se iluminou novamente, cheia de
determinação.
— Ele deve ter acabado de passar por aqui — disse Marla. — Olha,
dá para ver as pegadas dando a volta e indo embora novamente. A porta já
devia ter sido soldada quando ele chegou. Ele provavelmente ainda está por
aqui em algum lugar. Vamos!
As pegadas de Jason seguiam pelo beco, escuridão adentro, e o grupo
se agachou bem próximo ao chão, seguindo sua trilha. Charlie ficou para
trás, sem ajudar muito, mas de olho no facho de luz oscilante à frente.
Havia algo que estava esquecendo, algo que deveria saber. Algo sobre a
Freddy’s. Notando que ela tinha se afastado, John deixou que os outros
continuassem sem ele.
— Tudo bem? — perguntou ele, baixinho, e Charlie balançou a
cabeça.
— Tudo — disse ela. — Pode ir na frente. — Ele esperou que ela
dissesse algo mais, mas ela fitava a escuridão. Outra entrada.
— Achei! — A voz de Jessica atravessou a escuridão, e Charlie
voltou a si e saiu correndo para alcançar os outros. Lamar estava com a
lanterna outra vez e apontava para uma grade de
ventilação perto do chão.
Era antiga e enferrujada, e a grelha estava jogada no chão, em meio a
pegadas e lama.
— Jason, o que você está fazendo? — perguntou Marla com um
arquejo, se ajoelhando ao lado da abertura. — No que estava pensando? —
Havia um tom diferente em sua voz, algo oscilando entre o pânico e o
alívio. — Temos que ir atrás dele — disse, inclinando-se diante da entrada.
Charlie observava a cena, sem acreditar, mas não disse nada. Foi
John quem começou a falar:
— É muito pequena — disse. — Acho que ninguém aqui vai
conseguir entrar.
Marla olhou para si mesma, depois para os outros, um por um,
calculando.
— Jessica — disse ela, categórica — Vem cá.
— O quê? — Jessica olhou para o lado, como se pudesse haver outra
dela por ali. — Acho que não vou caber, Marla.
— Você é a mais magra — disse Marla, sem rodeios. — Só tenta,
beleza?
Jessica assentiu e foi até a passagem, ajoelhando-se no chão de
concreto enlameado do beco. Avaliou a abertura na parede por um
momento e, com as mãos e os joelhos no chão, tentou entrar, espremida,
mas os ombros quase não passaram, e alguns segundos depois ela
recuou, sem fôlego.
— Marla, eu não entro, desculpa — disse.
— Claro que entra! — disse Marla. — Por favor, Jessica.
Jessica olhou para os outros, e quando Charlie notou seu rosto,
estava quase branco, rigidamente inexpressivo. Ela é
claustrofóbica, pensou Charlie, mas antes que pudesse falar, Jessica já
tinha voltado a se ajoelhar diante da passagem, retorcendo o corpo,
tentando entrar.
— Por favor — repetiu Marla, e Jessica se levantou depressa como
se algo a tivesse mordido.
— Não dá, Marla — disse ela, a respiração curta e rápida, como se
estivesse em uma corrida. — Eu não caibo!
— Deve ter outra entrada — interrompeu Charlie, colocando o braço
entre Marla e Jessica como se estivesse separando uma briga.
Charlie fechou os olhos, tentando relembrar. Visualizou o
restaurante, tentando não imaginar sua aparência naqueles últimos dias,
mas vê-lo como costumava ser anos antes. As luzes eram fortes — estava
cheio de gente.
— Costumava ficar quente, abafado — disse. — No verão, tinha
cheiro de pizza, gordura velha de batata frita e crianças suadas, e meu pai
sempre dizia... — É isso. — Ele dizia: “Quem é que teve a ideia brilhante
de colocar uma claraboia dentro de um depósito?” — concluiu, triunfante e
aliviada. Podia ver, em sua cabeça, o quartinho com o teto aberto. Os dois
costumavam se esconder lá dentro por alguns minutos, curtindo a pequena
corrente de ar fresco que entrava.
— Então é isso, vamos subir no telhado — disse John,
interrompendo as lembranças de Charlie.
— Que telhado? — disse Marla, estudando o teto do corredor
fechado. Já não estava mais em pânico total, tranquilizada por ter
encontrado uma prova de que Jason ainda estava vivo, mas a ansiedade
continuava palpável. Ficava olhando constantemente para todos os lados,
como se o irmãozinho pudesse surgir de repente do meio das sombras.
— Foi coberto, como todo o resto — respondeu Lamar,
intrometendo-se.
— Talvez não — disse Charlie. — O telhado do shopping é bem
alto. Aposto que deve ter espaço o suficiente para passar engatinhando,
pelo menos.
— Engatinhando? — disse John, empolgado. — Tipo um espaço
entre o telhado da Freddy’s e o do shopping? Lá em cima? — Ficou
observando a escuridão por um momento. — Engatinhando... — repetiu, a
voz um pouco mais branda.
Charlie estava ocupada analisando o teto do corredor, medindo por
sua própria altura e comparando com o que vira fora da construção. Era
diferente, tinha certeza.
— Esse aqui não é o teto do shopping. Não é alto o suficiente —
disse, sentindo uma centelha de otimismo. Saiu apressada pelo corredor,
sem esperar pelos outros. Eles a seguiram, correndo logo atrás dela, e o
espaço sobre sua cabeça se iluminou quando Lamar a alcançou,
direcionando o facho de luz da lanterna para cima. Charlie andava de um
lado para outro, olhando da parede ao teto, do teto à parede, tentando
visualizar o espaço do lado de fora.
— O teto deste corredor deve ter sido nivelado com o da Freddy’s —
comentou Jessica, sua voz surgindo atrás de Charlie, que se assustou um
pouco; tinha se concentrado tanto na busca que esquecera que os amigos
estavam ali.
— A gente tem que subir lá — disse Charlie, se virando para o grupo
com grande expectativa. Eles ficaram olhando para ela por um segundo,
meio inexpressivos, até que Lamar fez um movimento automático com o
braço, como se estivesse prestes a levantar a mão. Conseguiu se conter a
tempo e pigarreou.
— Detesto ter que dizer o óbvio, mas... — disse Lamar,
gesticulando. Cerca de três metros adiante, havia uma escada de
manutenção encostada na parede de tijolo antigo. Charlie sorriu e correu
até ela, acenando para que John a seguisse. Eles a pegaram juntos; era
pesada, de metal, e estava coberta de respingos de tinta, mas era possível
carregá-la. Segurando firme pela lateral da escada, Charlie virou o rosto
para o teto outra vez, procurando.
— Deve ter um buraco, um alçapão, ou algo do tipo — disse ela.
— Um buraco, um alçapão, ou algo do tipo? — repetiu John com um
meio sorriso ao levantar a outra extremidade da escada.
— Tem uma ideia melhor? Anda, vamos. — Ela puxou a escada com
força, tanta que John tropeçou e quase caiu.
Foram avançando devagar. Com apenas uma lanterna, não
conseguiam ver aonde iam e examinar as paredes ao mesmo tempo, então
de poucos em poucos metros paravam para que Lamar iluminasse o ponto
onde a parede de tijolo encontrava o teto cheio de infiltrações do corredor
improvisado. Embora aquilo os atrasasse, Charlie agradecia as pausas — a
escada de metal industrial era pesada. Poderia ter pedido aos outros que
trocassem com ela, mas, de alguma forma, lhe parecia essencial fazer parte
do processo físico. Ela queria ajudar.
A agitação de Marla crescia à medida que prosseguiam, e após
alguns minutos de anda-e-procura, começou a chamar baixinho por Jason.
— Jason! Jason, está me ouvindo?
— Ele já entrou — disse John, curto e grosso. — Não vai conseguir
te ouvir.
Sua voz saía com certa dificuldade por conta do peso da escada, —
tinha ficado com a extremidade mais larga — e por isso o tom parecia
quase irritado. Marla o encarou.
— Você não tem como saber.
— Marla, para — disse Jessica. — A gente tá fazendo tudo o que
pode.
Marla não respondeu. Alguns minutos depois, chegaram ao fim da
passagem.
— E agora? — disse John.
— Não sei — disse Charlie, aturdida. — Eu tinha certeza absoluta de
que a gente ia achar alguma coisa aqui.
— É assim que a vida costuma funcionar pra você? — brincou John,
erguendo as sobrancelhas para ela.
Um pouco mais longe no corredor, Lamar gritou, triunfante:
— Achei!
Marla correu até ele, e Jessica a seguiu com um pouco mais de
cautela, atenta a obstáculos no escuro.
Charlie piscou para John e voltou a segurar a escada. Ele levantou
depressa seu lado, e os dois a arrastaram pelo caminho pelo qual tinham
vindo.
Quando Charlie e John alcançaram o restante do grupo, todos os três
olhavam para o teto. Charlie imitou o gesto — dito e feito, lá estava um
alçapão quadrado, grande o bastante para que um adulto passasse, as bordas
quase invisíveis na escuridão. Sem falar nada, colocaram a escada no lugar;
tinha cerca de três metros chegava perto o suficiente do teto para dar acesso
fácil à porta. Marla subiu primeiro, enquanto Lamar segurava a escada de
um lado e Jessica do outro.
John e Charlie observaram enquanto Marla subia.
— Então, esse alçapão... — John apontou para ele. — Esse alçapão
do corredor fica bem ao lado da Freddy’s. Por ele, vamos chegar ao teto da
Freddy’s, que fica embaixo do teto do shopping, em um espaço bem
apertado. E no teto da Freddy’s há uma claraboia, que vamos achar
enquanto estivermos engatinhando pelo espaço apertado. — Ele desenhou
com o dedo um diagrama no ar enquanto falava, e seu tom tinha um toque
de ceticismo.
Charlie não respondeu. Os passos de Marla na escada ressoavam
pelo corredor, pesados baques metálicos que produziam um eco regular ao
redor deles.
— Quando encontrarmos a claraboia nesse espaço apertado, —
continuou John, sem saber ao certo se Charlie sequer estava prestando
atenção, — vamos descer por ela e entrar na Freddy’s, possivelmente sem
nenhuma chance de sair novamente.
No topo da escada, Marla mexia em algo no teto que os amigos não
estavam vendo, conforme ia murmurando com frustração.
— Está trancado? — gritou Charlie.
— Certo, claro — disse John, já ciente de que estivera apenas
falando sozinho. — Faz todo o sentido.
— A tranca só tá emperrada — respondeu Marla. — Preciso... ha! —
Um estalo surdo ecoou pelo ambiente. — Consegui! — Exclamou. Ela
ergueu as mãos sobre a cabeça, fazendo pressão, e a porta foi se abrindo
devagar acima de si, até pender para o outro lado e cair com um baque.
— Isso é o que eu chamo de entrada discreta... — disse John, seco.
— Não importa — disse Charlie. — Ainda temos que ir. Além do
mais, você acha mesmo que quem quer que esteja lá dentro já não sabe que
estamos aqui?
Acima deles, Marla entrava pela portinhola. Firmou um braço de
cada lado da abertura e deu impulso para cima, deixando a escada para trás.
A mesma balançou perigosamente, e Lamar e Jessica a agarraram, tentando
estabilizá-la, mas não foi necessário. Marla já tinha subido e entrado, e
agora estava segura no teto. Esperaram que dissesse alguma coisa.
— Marla? — Chamou Jessica, enfim.
— É, eu tô legal — disse Marla.
— O que você está vendo? — gritou Charlie.
— Joga a lanterna para mim. — Marla enfiou o braço na passagem
do teto, balançando-o com impaciência. Lamar se aproximou e, com
cuidado, atirou a lanterna para cima. Marla a pegou no ar, e o facho de luz
se extinguiu de imediato: a luz se apagara.
No espaço apertado, Marla se sentou no escuro, tentando consertar a
lanterna. Ela a balançou, chacoalhando as pilhas e apertou o botão de ligar
e desligar inúmeras vezes, sem sucesso. Ao desenroscar o topo e soprar no
espaço das pilhas, sentiu um pânico crescente. Desde o instante em que se
dera conta de que Jason havia desaparecido, Marla focara todas as suas
energias nele. Era apenas agora, sozinha na escuridão, que começava a
pensar no perigo em que devia ter se metido. Colocou o topo da lanterna no
lugar, e ela voltou a ligar no mesmo instante. A luz atingiu seus olhos em
cheio, ofuscando sua visão por um instante. Ela a apontou para longe,
depois fez um movimento circular cuidadoso ao redor de si mesma,
revelando um vazio que se estendia por todas as direções. Era o teto da
Freddy Fazbear’s Pizza.
— O que você está vendo? — gritou Charlie outra vez.
— Você estava certa. Tem um espaço, mas é não muito grande. É
escuro e fede pra caramba aqui em cima. — Sua voz soava trêmula até
mesmo aos próprios ouvidos, e subitamente se sentiu desesperada para não
ficar sozinha lá em cima. — Rápido, não me deixem aqui sozinha!
— Estamos indo — gritou Jessica, tentando acalmá-la.
— Agora é a minha vez — disse Charlie, dando um passo à frente. A
escada estava enferrujada e rangeu quando a garota subiu, protestando
contra o peso conforme avançava de degrau em degrau. Mas parecia
resistente, e ela logo chegou ao alçapão e fez o mesmo que Marla: ficou de
pé no último degrau, com a cabeça e os ombros dentro da abertura,
segurou-se e deu impulso para cima, quase pulando, então aterrissou no
telhado da Freddy’s. Não havia espaço para ficar de pé, mal dava para
sentar; o vão entre o teto do restaurante e o do shopping tinha menos de um
metro. Algo fazia barulho acima delas, como se tivesse pedras caindo do
céu, e Charlie levou alguns segundos para perceber que era a chuva
batendo na superfície de latão sem isolamento. Água gotejou em sua
cabeça e, quando ergueu o olhar, ela viu um espaço aberto entre duas
lâminas de metal recurvadas que não haviam sido soldadas, uma
meramente alinhada ao lado da outra, formando a abertura por acaso.
Limpou as palmas das mãos na calça jeans: as telhas estavam molhadas e
as deixaram sujas de pedrinhas, poeira e algo pegajoso e mais
desagradável.
Olhou então para Marla, que estava a alguns centímetros de
distância.
— Aqui, vem. Abre caminho pra eles — disse Marla, gesticulando
para que ela se aproximasse, e Charlie se apressou, de joelhos, enquanto a
cabeça de Jessica surgia pelo alçapão, e, com cuidado, a garota subia rumo
ao espaço apertado. Já segura no telhado, Jessica olhou ao redor como se
avaliasse alguma coisa. Preocupada, Charlie se lembrou do medo que ela
sentira diante da grade de ventilação, mas Jessica respirou fundo
lentamente.
— Eu consigo — disse ela, embora não parecesse crer nas próprias
palavras.
Instantes depois, Lamar estava junto com elas. Ele rapidamente
recuperou a posse da lanterna e a direcionou de volta ao alçapão. Após um
momento, John subiu aos tropeços — e algo fez um estrondo lá embaixo, o
som ecoando sem parar. Todos, com a exceção de John, se assustaram com
o barulho.
— Desculpa — disse ele. — Foi a escada.
— Charlie, pra onde agora? — disse Marla.
— Oh. — Charlie fechou os olhos novamente e retraçou seus passos,
como havia feito enquanto procuravam por uma entrada. — Para frente até
o fim, eu acho — disse. — É só chegarmos ao lado mais afastado que
vamos acabar encontrando. — Sem esperar respostas, começou a
engatinhar na direção que acreditava ser a correta. Um segundo depois,
uma luz surgiu diante dela.
— Obrigada — disse baixinho para Lamar, que estabilizava a
lanterna, tentando adivinhar para onde Charlie iria.
— Não tenho mais nada para fazer — sussurrou.
O espaço adiante era extenso — devia dar a impressão de ser
espaçoso, mas havia vigas de suporte e canos jogados aleatoriamente pelo
caminho, criando interseções pelo caminho ou obstáculos pelo telhado sob
eles, o que lhes dava a impressão de estarem desbravando uma floresta
muito densa, desviando de cipós e pulando troncos caídos. O telhado da
Freddy’s formava um declive não muito íngreme — teriam que descer
outra vez ao chegarem à metade do caminho. As telhas embaixo deles
estavam tão úmidas e inchadas que pareciam não ter secado de verdade em
anos, e cheiravam a mofo. De vez em quando Charlie limpava as mãos na
calça, consciente de que só ficariam limpas por um momento. De tempos
em tempos, achava que tinha ouvido algo rastejar ali por perto, ruídos um
tanto distantes demais para terem sido produzidos pelo grupo, mas ela os
ignorava. Eles têm mais direito de estar aqui do que nós, pensou, embora
nem soubesse ao certo qual era a espécie em questão.
O teto sobre eles seguia um padrão bizarro, subindo e descendo, sem
qualquer preocupação de acompanhar o telhado abaixo, de forma que, em
certos pontos, tinha mais de um metro de espaço, enquanto que em outros
dava um mergulho tão profundo que quase chegava a roçar as costas dos
garotos, forçando-os a abaixar a cabeça e se arrastar desajeitadamente.
Jessica estava logo atrás de Charlie, que, de vez em quando, ouvia a amiga
fazer ruídos assustados baixinho, mas sempre que olhava para trás, Jessica
apenas assentia, o rosto duro feito pedra, e continuaram assim até chegarem
à parede que demarcava o fim do telhado.
— Certo — disse Charlie, meio que se virando para trás. — Deve ser
por aqui, vamos nos separar e procurar.
— Não, espera, o que é aquilo? — disse Marla, apontando. Charlie
não estava enxergando o que Marla avistara, mas seguiu naquela direção
até topar em alguma coisa.
A claraboia era uma vidraça plana no telhado — era emoldurada
como uma janela pequena, uma única lâmina de vidro sem puxador,
dobradiças ou trincos visíveis. Debruçaram-se sobre ela, tentando espiar o
cômodo lá embaixo, mas o vidro estava recoberto por uma camada grossa
demais de sujeira para que enxergassem qualquer coisa. John se aproximou
e tentou limpá-lo com a manga; o braço da camiseta voltou negro, e não
adiantou de nada — pelo menos metade da poeira estava do outro lado, e a
claraboia continuava opaca de imundície.
— É só um depósito, tá tudo bem — disse Charlie.
— Mas e se tiver alguém no depósito? — disse Lamar.
— Não importa — disse Marla. — Não temos escolha agora.
Todos olharam para Charlie, que estudava a claraboia,
contemplativa.
— Ela abre pra dentro — disse ela. — Tem que empurrar pra baixo
desse lado, — prosseguiu, apontando, — e ela abre. Tem um trinco no lado
de dentro, bem aqui. — Tocou a lateral da claraboia, pensando. — Talvez
se a gente... — Empurrou, e o vidro cedeu quase que no mesmo instante,
assustando-a com uma súbita e desesperadora sensação de queda, embora
continuasse segura no telhado.
— É um pouco estreito — disse John. A claraboia não havia sido
aberta por completo; a vidraça apenas se inclinara um pouco para dentro,
mal dando espaço para uma pessoa passar.
— Não fui eu quem construiu — disse Charlie, com leve irritação. —
É o que temos pra hoje, então se vai entrar, entra.
Sem esperar resposta, jogou as pernas para dentro da abertura e foi se
abaixando, ficando pendurada no escuro por um momento. Fechando os
olhos e torcendo para que o chão não ficasse tão afastado quanto se
lembrava, ela se soltou e caiu.
Aterrissou, e o choque do impacto percorreu suas pernas, mas passou
depressa.
— Dobrem os joelhos quando chegarem ao chão! — gritou, saindo
do caminho na sequência. Marla pousou, e Charlie foi até a porta, tentando
encontrar um interruptor. Os dedos toparam com ele, e ela o ligou. As
velhas lâmpadas fluorescentes estalaram e zumbiram, e logo depois,
devagar, um brilho fraco e pouco confiável preencheu o espaço.
— Beleza — sussurrou Charlie, com uma pontada de empolgação.
Virou-se, e quando algo tocou seu rosto, teve um vislumbre de grandes
olhos de plástico e dentes amarelos quebrados. Gritou e deu um pulo para
trás, se agarrando a estantes que balançaram diante de sua tentativa de
recuperar o equilibrar. A cabeça que tocara, uma estrutura de arames nua,
apenas com olhos e dentes de decoração, balançou precariamente na
prateleira ao lado de Charlie antes de cair no chão. Com o coração ainda
disparado, Charlie esfregou seu corpo alucinadamente, como se estivesse
coberta por teias de aranha, as pernas bambas e agitadas. A cabeça rolou
pelo chão e foi parar aos pés dela, olhando-a com seu sorriso alegre e
sinistro.
Charlie se afastou bruscamente do sorriso macabro, e algo a segurou
por trás. Tentou se soltar, mas estava presa, envolvida por um par de braços
de metal. Os membros sem corpo estavam agarrados à camiseta dela, as
articulações furando o tecido, e ao se debater para se soltar, seus cabelos
também ficaram presos, emaranhando-a ainda mais em meio ao arame até
que começou a sentir que seria consumida por ele. Charlie voltou a gritar, e
os braços a apertaram mais, quase parecendo crescer conforme lutava
contra eles. Batalhou com toda a sua força, movida pelo terror e por uma
fúria genuína pelo instinto assassino daquela coisa.
— Charlie, para! — berrou Marla. — Charlie!
Marla agarrou o braço da amiga, tentando parar seus movimentos
desesperados, usando uma das mãos para desembaraçar os cabelos de
Charlie do esqueleto de metal.
— Charlie, não é real, são só... Partes robóticas — disse ela, mas
Charlie se afastou de Marla, ainda em pânico, e bateu com a cabeça em
uma caixa de papelão. Deu um grito, assustada, quando a caixa caiu,
derrubando olhos do tamanho de punhos, que caíram como chuva e
cobriram todo o chão, dentre uma terrível barulheira. Charlie tropeçou e
pisou em um dos globos de plástico, perdendo o equilíbrio. Tentou se
segurar em uma das prateleiras e errou os cálculos, caindo de costas com
um baque que lhe tirou o fôlego. Atordoada e arquejando, ela olhou para
cima: havia olhos por todos os cantos, não apenas no chão, mas nas paredes
também.
Eles a encaravam da escuridão, olhos fundos e sombrios observando
das estantes que a cercavam. Ela os fitou, incapaz de desviar o olhar.
— Charlie, vamos — Marla estava junto dela, ajoelhada a seu lado,
angustiada. Puxou o braço da amiga mais uma vez para que ela ficasse de
pé. Charlie ainda não conseguira recuperar o fôlego e, em meio a suas
inspirações curtas, começou a chorar. Marla a abraçou com firmeza, e
Charlie deixou.
— Tudo bem, vai ficar tudo bem — sussurrou Marla enquanto
Charlie tentava se acalmar, olhando ao redor do depósito para se distrair.
Não é real, disse a si mesma. Estavam em uma pequena sala que
servia como depósito, e aquelas eram apenas peças avulsas. O ar era tão
espesso de poeira que irritava seu nariz e garganta conforme caía das
estantes, irredutível. O restante do grupo pulou pela claraboia, um por
um; John foi o último, aterrissando no meio da sala com um baque. Jessica
espirrou.
— Você tá bem? — disse John, assim que avistou Charlie.
— Sim, eu tô legal. — Charlie se soltou do abraço de Marla e cruzou
os braços, ainda se recompondo.
— Você sabe que vai ser impossível voltar por ali, né? — disse John,
olhando para a claraboia.
— Só precisamos achar alguma coisa em que dê para subir — disse
Charlie. — Ou então podemos escalar uma das estantes.
Jessica balançou a cabeça.
— Não, olha como o vidro tá aberto.
Charlie olhou. A claraboia se abria para baixo, e a vidraça se
inclinava em um ângulo sutil, apenas o suficiente para que passassem. Para
saírem, teriam que...
— Oh — disse ela. Não tinham como voltar. Não importava quão
perto chegassem da claraboia, o vidro estaria sempre no caminho,
obstruindo o espaço de que precisavam para passar. Se alguém tentasse se
segurar no telhado para dar impulso, teria que se inclinar muito por cima do
vidro, o que faria com que acabasse caindo da escada.
— A gente pode quebrar o vidro — ponderou John. — Mas vai ser
perigoso tentar escalar a esquadria, ainda mais se tiver pedaços de vidro
quebrado junto. — Parou de falar e refletiu por um momento, o rosto sério.
— Não importa — disse Charlie. — A gente encontra outra saída.
Vamos começar a procurar.
Espiaram, cautelosos, pela porta. Lamar havia desligado a lanterna,
mas era fácil ver os arredores com a luz do depósito invadindo o
corredor. Pelo menos não tem nada pingando do teto, pensou Charlie,
limpando as mãos na calça mais uma vez. O piso era de ladrilho preto e
branco, brilhando como se tivesse acabado de ser polido. Havia desenhos
de crianças nas paredes, agitando-se com a corrente de ar que entrava pela
claraboia aberta. Charlie permaneceu imóvel, mais que ciente do barulho
que havia feito. Ela sabe que estamos aqui?, pensou, e se deu conta de que,
com “ela”, se referia à própria construção. Era como se a Freddy’s tivesse
consciência da presença deles, como se reagisse a eles tal qual um ser vivo
e respirante. Roçou os dedos pela parede, tocando a superfície de leve,
como se a estivesse acariciando. O gesso era inerte e frio, inanimado, e
Charlie retirou a mão, perguntando-se o que a Freddy’s faria.
Viraram uma vez no corredor, depois outra, e pararam diante da
entrada da Baía Pirata, um pouco afastados da porta. A Baía Pirata, já
consegui me encontrar outra vez. Charlie olhou para o pequeno palco, não
mais aceso, e a cortina que escondia seu artista solitário.
Algumas lâmpadas pequenas nas laterais do palco tremeluziram e se
acenderam, iluminando o espaço com um brilho cinza-claro. Charlie olhou
ao redor e avistou Lamar perto da porta com a mão no interruptor, logo
após tê-lo ligado.
— Não temos escolha — disse ele, na defensiva, gesticulando para a
lanterna; a luz estava falhando. Charlie assentiu, resignada, e Lamar
desligou a lanterna moribunda.
— Quero dar uma olhada na sala de controle — disse Marla,
apontando para a pequena porta próxima de onde estavam. — Lamar, vem
comigo. Os outros podem tentar na outra. Se cada grupo ficar de olho em
um conjunto de câmeras, podemos ver o restaurante inteiro. Se o Jason
estiver nesse lugar, vamos encontrá-lo.
— Não acho uma boa ideia a gente se separar — disse Charlie.
— Espera — disse Lamar, passando a lanterna inútil para John, de
forma a liberar as mãos. Tirou dos bolsos dois walkie-talkies; eram objetos
grandes, pretos e retangulares, que Charlie só vira presos a cintos de
policiais.
— Onde você conseguiu isso? — indagou ela, e ele abriu um sorriso
misterioso.
— Receio que seja um segredo — disse.
— Ele roubou da casa do Carlton — respondeu Jessica, séria, tirando
um dos aparelhos da mão dele e o examinando.
— Não, eles estavam na garagem. Foi o Sr. Burke mesmo quem me
disse onde pegar. Funcionam, já testei.
O Sr. Burke sabia que estávamos planejando vir aqui?, pensou
Charlie. Marla apenas assentiu — talvez já estivesse sabendo, ou talvez
nada mais fosse capaz de surpreendê-la.
— Vamos — disse Marla, e começou a caminhar por entre as mesas
diante da Baía Pirata, cuidando para não mexer em nada. Lamar se
aproximou de Jessica para mostrar a ela como usar o walkie-talkie.
— É este botão aqui — disse ele, indicando-o, e depois foi depressa
atrás de Marla.
Após um momento de choque, o restante do grupo os seguiu. Algo
fez o estômago de Charlie embrulhar, a noção de que tanto Jason quando
Carlton podiam estar mesmo em perigo real a consumia. Não que tivesse se
esquecido, mas enquanto estavam do lado de fora, tentando resolver
quebra-cabeças, ainda era possível criar um distanciamento do que
acontecia. Charlie observou enquanto Marla ia até a sala de controle com
autoridade sombria.
Marla se agachou diante da porta pequenina antes de se voltar para
Charlie.
— Vão — disse ela, indicando com a cabeça o corredor que levava à
área de jantar. Todos partiram, Charlie assumindo a dianteira conforme
avançavam pelo corredor, rumo ao palco principal.

Marla olhou para Lamar, que assentiu. Ela segurou a maçaneta,


trincou os dentes e abriu a porta com força.
— Marla!
Ela deu um salto, mal sufocando um grito. Jason tinha se enfiado no
espaço sob os monitores, os olhos arregalados e aterrorizados, olhando para
a porta feito um camundongo assustado.
— Jason! — Marla se arrastou para dentro da sala de controle e o
acolheu em seus braços. Jason retribuiu o abraço, grato, para variar, e até
mesmo desesperado por todo o intenso afeto da irmã. Ela o agarrou com
força, esmagando-o contra seu corpo até começar a se dar conta de que
podia, de fato, acabar esmagando-o.
Longe do abraço avassalador de Marla, Jason ouviu um breve ruído
de estática. Olhou por cima do ombro de Marla e avistou Lamar encarando
o walkie-talkie, se preparando para falar.
— Jessica? Nós o encontramos, ele está bem — disse.
Mais estática e palavras que Jason não conseguiu entender saíram do
dispositivo. A primeira onda de alívio já tinha passado, e suas costelas
estavam começando a doer.
— Marla? — Deu-lhe tapinhas no ombro, primeiro de leve, depois
mais forte. — Marla!
Ela o soltou, mas então o segurou pelos ombros por um instante,
olhando no fundo de seus olhos como se quisesse ter certeza de que
realmente era ele, que não havia sido substituído ou irreversivelmente
ferido.
— Marla, relaxa — disse ele com tanta naturalidade quanto era
capaz, conseguindo evitar um tremor na voz. Marla soltou seus ombros,
dando-lhe um empurrãozinho de brincadeira, e começou a repreendê-lo
enquanto o puxava para fora do esconderijo sob o painel de controle.
— Jason, como pôde... — Marla foi interrompida por Lamar, que
descia os degraus para a pequena sala.
— Um duto de ventilação? Sério mesmo? — Lamar riu.
— Você podia ter morrido, passando por aquele duto sozinho! —
acrescentou Marla, voltando a segurar os ombros do menino.
Jason se debateu, agitando os braços até a irmã o soltar.
— Tá! — exclamou. — Todo mundo sentiu a minha falta, que bom,
legal saber que vocês se importam.
— É claro que a gente se importa — disse Marla, ríspida, e Jason
revirou os olhos dramaticamente.
A sala se iluminou quando Lamar ligou o interruptor, acendendo os
monitores. Marla olhou para Jason, contemplativa, depois voltou a atenção
para as câmeras de segurança.
— Certo, vejamos o que podemos descobrir por aqui. — Lamar
olhou de tela em tela.
A tela de cima, no meio, mostrava o sala de jantar e palco principal,
e eles viram Charlie, Jessica e John aparecerem na imagem, cruzando o
salão em formação triangular, Charlie à frente do grupo.
— Olha! — disse Marla, de repente, apontando para o monitor no
canto inferior direito. — Olha!
O guarda noturno estava lá — embora não conseguissem ver seu
rosto, o uniforme folgado e os ombros caídos indicavam que era o mesmo
homem. Estava no corredor perto da entrada do restaurante, passando pelos
salões de festa e pelo fliperama com passos lentos e objetivos.
— Lamar, avisa pra eles — disse Marla, com urgência na voz, e
Lamar voltou a falar pelo walkie-talkie:
— Jessica, o guarda está em algum lugar por aí, escondam-se!
Não houve resposta pelo rádio, mas na tela, o grupo parou. Em
seguida, sincronizados, seguiram para a sala de controle sob o palco,
espremendo-se e se ocultando no exato instante em que o homem surgia à
porta.

Vozes. Movimento.
Carlton não se permitiu um suspiro de alívio, um resgate não lhe
adiantaria de nada se seus órgãos fossem perfurados por uma centena de
pecinhas robóticas. Em vez disso, continuou com o que vinha fazendo: se
arrastando pelo chão, centímetro por centímetro, a fim de entrar no campo
de visão da câmera de segurança perto do teto, acima da porta. Cada
movimento era tão sutil que não parecia nada, mas já estava naquele
processo a mais de uma hora e estava quase, quase lá. Manteve a respiração
estável, usando as mãos confinadas para levantar o corpo um tantinho de
nada, se mover para o lado e se deitar outra vez, um pouco mais para a
direita. Os dedos já estavam dormentes, e a cabeça continuava latejando,
mas ele continuava, irredutível.
Embora ainda estivesse com medo, dolorosamente consciente de
como seria fácil causar a própria morte, em algum momento o pavor
recuara, ou talvez tivesse apenas se acostumado com ele. O pânico não
podia durar para sempre; eventualmente, o estoque de adrenalina teria que
chegar ao fim. Naquele momento, pelo menos, a necessidade de se
deslocar, com movimentos lentos e precisos, tinha se tornado prioridade à
frente de todo o resto. Era tudo o que importava. Carlton fez um último
movimento e parou, fechando os olhos por um momento, como uma
espécie de descanso. Tinha conseguido.
Não posso parar agora.
Os outros estavam lá, tinha que ser eles, e se estivessem procurando
por ele, checariam as câmeras. Olhou para a lente, desejando
desesperadamente ser visto. Não podia acenar, ou pular para cima e para
baixo. Tentou balançar um pouco para frente e para trás, mas por mais
rígido que mantivesse o corpo, podia sentir a pressão das travas, prestes a
ceder. Mordeu o lábio com frustração.
— Olhem para mim de uma vez! — sussurrou para ninguém, mas foi
como se tivesse sido ouvido, como se pudesse, inexplicavelmente, sentir a
presença de mais alguém no cômodo. Seu coração disparou novamente, a
adrenalina que tinha se esgotado encontrando novo gás.
Cuidadosa e vagarosamente, ele olhou ao redor, até que algo chamou
sua atenção.
Era apenas uma das fantasias, caída, vazia, oculta nas sombras, meio
escondida em um canto do cômodo. Embora imóvel, o rosto estava voltado
para ele, encarando-o. Ao encará-lo também, Carlton se deu conta de que,
bem no fundo das cavidades oculares da cabeça felpuda, havia dois
pontinhos mínimos de luz. Sentiu uma fisgada nos músculos, um calafrio
contido percorrendo o corpo, mas não o suficiente para causar sua morte.
Não desviou o olhar.
Enquanto mantinha contato visual, Carlton começou a se acalmar. O
martelar do coração diminuiu, a respiração se regularizou — era como se
estivesse seguro, embora soubesse que aquele esqueleto que vestia estava a
apenas uma contração, um movimento brusco, de matá-lo. Carlton
continuou encarando aqueles dois pontinhos de luz e, ao fazê-lo, ouviu uma
voz, e num instante tenso, todo o ar foi removido de seus pulmões.
Enquanto a voz falava, a voz que teria reconhecido em qualquer lugar, a
mesma que teria dado de tudo para ouvir novamente, Carlton começou a
chorar, se concentrando para não tremer. Os olhos no escuro perscrutavam
seu rosto enquanto a voz continuava, contando segredos a Carlton no
silêncio ecoante, narrando coisas que o garoto temia, coisas que alguém
tinha que escutar.
CAPÍTULO DEZ

Todas as telas se apagaram, exibindo apenas estática.


— Ei! — gritou Marla. Ela bateu na lateral de uma do monitor, que
por alguns segundos exibiu uma imagem distorcida, depois tremeluziu e se
apagou de vez. Bateu nele de novo e, com outro espasmo de estática, a
imagem lentamente clareou; conforme ia se estabilizando, o palco
apareceu.
— Tem algo errado — disse Lamar, e os três se inclinaram
para frente, tentando ver melhor.
— O Bonnie — disse Jason, muito sério.
— O Bonnie — disse Marla, olhando para Lamar, alarmada. — Cadê
o Bonnie? — Lamar apertou o botão do walkie-talkie.
— Charlie — disse, com um tom urgente. — Charlie, não sai da sala
de controle.

Na sala de controle embaixo do palco, Charlie e Jessica examinavam


os monitores em busca de algum sinal de vida.
— Está muito escuro, não consigo ver nada por aí — reclamou
Jessica.
— Ali! — disse Charlie, apontando. Jessica piscou.
— Não estou vendo nada — disse ela.
— É o Carlton, bem ali. Vou lá chamar ele. — Sem esperar resposta,
Charlie foi engatinhando para a saída.
— Charlie, espera — disse John, mas ela já tinha saído pela porta. A
mesma se fechou atrás dela, e os três ouviram o estalido metálico e oco do
trinco se encaixando no chão. — Charlie! — gritou John novamente, mas
ela já estava longe. — Está trancada — grunhiu, tentando abrir a porta. O
walkie-talkie soltou um chiado, e a voz de Lamar, picotada, saiu da
caixinha.
— Ch-lie, nã-sai- ala d-c-ole. — Jessica e John trocaram um olhar, e
John pegou o rádio.
— Tarde demais — disse, olhando para Jessica ao abaixar o walkie-
talkie.
Charlie avançou aos trancos em meio às cadeiras, mas depois de
apenas alguns momentos percebeu que tinha feito a volta completa. A
iluminação estava diferente — agora uma única lâmpada azul ofuscante
piscava, acendendo e apagando, acima do palco. De novo e de novo, o
salão se iluminava com um clarão lampejante e, logo em seguida,
mergulhava novamente em meio a escuridão. Charlie cobriu os olhos,
tentando se lembrar daquilo em que havia esbarrado. Cadeiras de metal e
chapéus de festa feitos de alumínio pulsavam como faróis no escuro a cada
estouro de luz, e a cabeça de Charlie começou a latejar.
Estreitou os olhos para tentar se orientar, mas atrás das mesas ao seu
redor, tudo o que conseguia ver eram as mil sombras já gravadas em suas
retinas. Não fazia ideia de em qual direção seguir para encontrar Carlton.
Apoiou-se numa cadeira próxima e apertou a testa, bem forte.
Uma mesa pareceu ser arrastada de leve pelo chão, e Charlie sabia
que não tinha sido ela. Deu meia-volta para ver, mas a luz havia se
apagado. Quando se acendeu novamente, estava olhando diretamente para
o palco — onde deveria haver três pares de olhos, viu apenas dois. Freddy
e Chica a encaravam, os olhos de plástico refletindo a luz, reluzindo com o
efeito estroboscópico. Suas cabeças pareciam acompanha-la conforme se
movia ao longo da mesa. O Bonnie sumiu.
De repente, ela se sentiu exposta, notando de uma só vez quantos
lugares haviam naquele salão enorme para que algo se escondesse, e como
ela estava visível e vulnerável para qualquer pessoa — ou qualquer coisa
— que estivesse observando. Pensou na pequena sala de controle de onde
acabara de sair e sentiu uma pontada de arrependimento. Talvez sair de lá
tenha sido uma ideia bem idiota...
Outro som agudo de algo arranhando o chão ecoou e ela se virou a
tempo de ver a mesa de trás se movendo bem devagar. Deu meia-volta para
sair correndo, mas esbarrou em alguma coisa antes que tivesse a chance de
fazê-lo. Ergueu as mãos em meio ao escuro, tentando se proteger, e acabou
tocando em algo peludo. As luzes, com seu efeito estroboscópico, piscaram
outra vez, e dessa vez havia som: um grunhido estridente gorgolejado pela
enorme boca escancarada diante de si. Bonnie. Bonnie estava a apenas
alguns centímetros dela, abrindo e fechando a boca bem depressa,
revirando os olhos enlouquecidamente.
Charlie se retraiu e recuou devagar; o coelho não tentou segui-la, só
continuou a proferir aquele encantamento bizarro e sem palavras, os olhos
ricocheteando em sua cabeça, sem focar em nada. Charlie enganchou o pé
em uma cadeira de metal dobrável e caiu de bunda no chão. Começou a
engatinhar, bem abaixada, desesperada para se afastar de Bonnie. Um dos
holofotes se acendeu em meio ao palco, claramente voltado para ela.
Charlie ergueu uma das mãos, protegendo os olhos para tentar ver quem
estava lá, mas a luz ofuscou sua visão, e tudo o que conseguia distinguir
eram dois pares de olhos que continuavam a segui-la.
Charlie gritou e ficou de pé aos trancos. Saiu correndo, sem olhar
para trás, e atravessou o salão e o corredor que levava à Baía Pirata, onde
se enfiou no banheiro junto à parede. A porta se fechou atrás de si com um
baque que ecoou pelo salão — o lugar estava vazio, com apenas suas três
pias e três cabines. Só uma das lâmpadas fluorescentes estava acesa e
emitia uma luz bem fraca, apenas o suficiente para banhar o lugar com um
cinza-escuro ao invés de preto.
As paredes de metal das cabines pareciam muito frágeis, e Charlie
logo imaginou Bonnie, aquele coelho imenso, agarrando a estrutura de
metal com as patas e levantando-a de uma vez, os parafusos arrancados à
força do chão. Expulsou o pensamento da cabeça e entrou correndo na
cabine mais distante da porta, fechando o trinco — tão pequeno que até
parecia delicado. Sentou-se no vaso, mantendo os pés em cima da tampa,
junto ao corpo, se encolhendo contra a parede de azulejos azuis do
banheiro. No banheiro vazio, Charlie podia ouvir a própria respiração
ecoando; se forçou a se acalmar e fechou os olhos, dizendo a si mesma para
ficar em silêncio, escondida.

— Charlie? — John continuava esmurrando a pequena porta da sala


de controle. — Charlie! O que está acontecendo?
Jessica estava sentada em silêncio, ainda abalada com todos os gritos
e barulhos de coisas caindo que vinham de fora.
— Ela consegue se cuidar — disse John, batendo com menos força
na porta.
— É — disse Jessica. Ele não se virou para olhar para ela.
— Temos que sair daqui — disse John. Continuou tentando abrir a
porta, e a parte de cima cedeu um pouco, mas a de baixo continuava
emperrada. Ele se abaixou ainda mais. Um trinco
cravado no chão impedia a abertura. A lingueta que era usada para puxá-lo
tinha quebrado há muito tempo, restando apenas uma lasca pontiaguda, tão
pequena que ele não conseguia nem segurar. Quando tentou puxá-la, o
metal cortou seus dedos, deixando finas linhas vermelhas. O trinco
continuava firme em seu lugar.
— Jessica, tenta você — disse, voltando-se para ela. Seus olhos
continuavam fixos na parede de monitores; todos exibiam apenas estática,
mas de tempos em tempos havia um lampejo de imagem. — Deixa pra lá
— disse John. — Continua de olho aí. — Ele abaixou a cabeça e voltou a
se dedicar à tranca.
No banheiro, Charlie estava em silêncio. Prestava atenção a cada
respiração que dava, inspirando e expirando em um processo calmo e
deliberado. Havia tentado aprender a meditar uma vez, e detestou, mas o
foco obstinado em sua respiração era tranquilizante. Acho que eu só
precisava da motivação certa, pensou. Sobreviver, por exemplo. As cabines
se sacudiram de leve, por um breve momento, e ela ouviu um barulho alto e
distante que durou vários segundos. Está caindo uma chuva daquelas lá
fora.
Manteve os olhos vidrados no chão. A luz ali no banheiro era tão
turva que quase não iluminava o interior da cabine. Prendeu a respiração. A
lâmpada tremeluziu e zumbiu de leve, depois parou. A privada na qual
estava sentada parecia bamba — para se equilibrar, ela deslizou para a
beirada e colocou os pés no chão sem fazer barulho. No instante em que a
ponta do sapato tocou o ladrilho, as portas do banheiro se abriram de uma
vez, com um estrondo.
Sem pensar, ela ergueu os pés novamente, esbarrando na caixa de
descarga, cuja tampa de porcelana fez um estampido tão alto quanto o
choque de duas panelas. Ela parou, perfeitamente imóvel, os pés suspensos,
e então, com todo o cuidado, pisou outra vez no assento da privada. Foi
alto demais, pensou. Cuidadosamente, ela se inclinou para frente nos
fundos da cabine, erguendo a mão para alcançar a parede divisória. Foi se
levantando bem devagar, a tampa da privada bamboleando sob seus pés.
Espiou por cima das duas cabines ao lado. Estava escuro demais para
ver algo além das paredes de metal — a fileira inteira balançou um pouco
com seu peso.
Ouviu som de movimento, um farfalhar que parecia se aproximar
cada vez mais; alguma coisa larga e pesada parecia deslizar pelo chão, sem
se preocupar nem um pouco em não fazer barulho. Continuou
observando — seus olhos iam da porta da cabine ao lado às portas do
banheiro. O barulho continuava, mas ela não conseguia identificar de onde
estava vindo; o som preenchia o ambiente.
De repente, o som nebuloso mudou: ficou mais nítido, mais próximo.
A parede na qual estava agarrada deu uma leve sacudida. Ela cruzou o
ambiente com os olhos, na esperança de que eles se ajustassem um pouco
melhor, e assim o fizeram: ela agora conseguia divisar uma lixeira perto da
entrada e o contorno das pias. Apreensiva, olhou outra vez para a porta da
cabine onde estava, examinando as beiradas até bater os olhos no pequeno
vão entre a porta e a parede. Um grande olho de plástico a encarava, seco,
sem piscar nem por um instante, completamente vidrado nela.
Tampou a boca com as mãos e se jogou ao chão o mais rápido que
pôde, deitando-se de bruços e se esgueirando em direção à segunda cabine.
Ouviu a criatura sacudir a porta da cabine de onde acabara de sair, mas os
pés farfalhantes não se moveram. Continuou rastejando até chegar à cabine
mais próxima da entrada. Dessa vez, acabou batendo com o pé na privada
atrás de si, e a tampa caiu com um baque.
Charlie congelou. A coisa farfalhante não se moveu. Charlie prendeu
o fôlego pelo que lhe pareceu uma eternidade. Ele ouviu, ele com certeza
ouviu! Mas a criatura continuava sem fazer o menor barulho. Charlie ficou
imóvel, atenta, aguardando mais som de movimento para mascarar os que
ela mesma fazia. Sua respiração parecia mais alta do que antes. Abaixou a
cabeça, tentando ver alguma coisa no chão.
O som farfalhante recomeçou, e agora, sem aviso, a coisa já parecia
estar diante dela. Prendeu o fôlego, desesperada, tentando ver algum
contorno na escuridão. Ali. Um pé grande e peludo estava parado bem ao
lado da porta, suspenso como se tivesse interrompido o movimento. Está
indo embora? Por favor, vá embora, suplicou Charlie. Ouviu um barulho
novo: um tecido bem grosso se dobrando. O que é isso? O pé ao lado da
porta não tinha se movido. O barulho ficou mais alto: o som de tecido e
pelagem se enroscando e esticando, rasgando, arrebentando. O que é
isso? Charlie fincou as unhas no chão, sufocando um berro. Ele está se
abaixando. Uma pata enorme tocou o chão vagarosamente bem diante dela,
dando lugar a outra forma: a cabeça da criatura. Era imensa, tomava todo o
vão sob a porta. Com movimentos graciosos, a coisa se abaixou até o chão
e virou o rosto para o lado até que seus olhos se encontrassem com os de
Charlie. A boca gigantesca estava bem aberta, em uma empolgação
diabólica, como se ele tivesse acabado de encontrar alguém com quem
estivesse brincando de esconde-esconde.
Uma lufada de ar quente entrou por baixo da porta da cabine.
Respiração? Charlie tampou o nariz e a boca com a mão — o fedor era
insuportável. Outra baforada a atingiu, ainda mais quente e mais pútrida.
Ela fechou os olhos, prestes a abandonar qualquer esperança de fuga.
Talvez, se mantivesse os olhos fechados por tempo o suficiente,
conseguiria acordar de tudo aquilo. Outra baforada a atingiu, e ela recuou
involuntariamente, batendo com a cabeça na privada. Encolhendo o corpo
com a dor, ela ergueu o braço diante do corpo, tentando se proteger de uma
investida. Mas não houve investida. Abriu um dos olhos. Cadê ele?
De repente, as paredes de metal se balançaram com um estrondo
avassalador. Charlie levou um susto e cobriu a cabeça no instante em que a
criatura golpeou novamente — a fileira de cabines sacudiu, os parafusos
rangeram e chiaram ao serem arrancados do piso, a estrutura inteira prestes
a desmoronar. Charlie se arrastou por baixo da última divisória e se
levantou a toda velocidade, agarrando a maçaneta da porta do banheiro
para fechá-la enquanto saía correndo.
Voltou para o salão principal, disparando em direção à sala de
controle. Seus olhos não conseguiram se adaptar à iluminação, e ela corria
com as mãos na frente do corpo, incapaz de ver nada que não estivesse
imediatamente à frente.
— John! — chamou, agarrando a maçaneta da porta da sala de
controle e sacudindo-a com força. Nada aconteceu.
— Charlie, a porta está emperrada — gritou John, lá de dentro.
Enquanto brigava com a porta, Charlie olhou de relance para o palco. Chica
tinha sumido.
— John! — berrou Charlie, desesperada. Sem esperar uma resposta,
Charlie saiu correndo novamente, disparando rumo ao corredor à esquerda,
tentando ficar o mais longe possível do banheiro.
O corredor estava quase que completamente escuro, e conforme
corria, as portas abertas lhe pareciam enormes bocas pretas escancaradas.
Charlie não se deteve para olhar dentro delas, apenas rezou para que nada
saísse de lá para atacá-la. Alcançou a última porta e parou por um instante,
torcendo para que estivesse destrancada. Levou a mão à maçaneta e a
virou. Por sorte, a porta se abriu tranquilamente.
Esgueirou-se porta adentro e a fechou depressa, tentando não fazer
barulho. Ficou parada, vigiando a porta por um longo momento, meio que
na expectativa de que a porta se abrisse de vez, mas então finalmente se
virou. Foi só nesse momento que ela o viu: Carlton estava ali. Seus olhos se
arregalaram de surpresa ao vê-la, mas ele não se moveu, e depois que sua
visão se ajustou à luz turva, ela entendeu por quê: ele estava preso, de
algum forma enclausurado na parte superior da estrutura de um dos
animatrônicos, a cabeça sendo a única parte para fora dos ombros largos da
fantasia. Seu rosto estava pálido e exausto, e Charlie sabia o motivo. As
travas de mola. Ouviu a voz do pai por um instante: Eu poderia arrancar o
nariz de vocês com isso!
— Carlton — disse Charlie, hesitante, como se mesmo a sua voz
pudesse ativar os mecanismos.
— Eu — disse ele, com a mesma hesitação.
— Essa roupa vai te matar se você se mexer — disse Charlie.
— Valeu — respondeu ele, baixinho, tentando fazer graça. Charlie
forçou um sorriso.
— Bom, hoje é o seu dia de sorte. Devo ser a única pessoa no mundo
que sabe como te tirar dessa coisa com vida.
Carlton soltou um suspiro longo e trêmulo.
— Sorte a minha — disse.
Charlie se ajoelhou ao lado do amigo, examinando a fantasia por um
tempo sem tocá-la.
— Essas duas travas no pescoço não estão segurando nada — disse
Charlie, por fim. — Ele só as armou para que se soltem e furem a sua
garganta se você tentar se mexer. Primeiro tenho que desarmar as duas, daí
a gente pode abrir a parte de trás da roupa para tirar você daí de dentro.
Mas você não pode se mexer, Carlton, é sério.
— É, nosso bom amigo serial killer já me explicou a parte do “não se
mexe” — disse. Charlie assentiu e voltou a examinar a estrutura da
fantasia, tentando decidir por onde começar.
— Você sabe de quem estou vestido? — perguntou Carlton, com um
tom quase casual.
— O quê?
— A fantasia, sabe dizer qual personagem é?
Charlie examinou o tecido, depois olhou em volta até encontrar a
cabeça do conjunto.
— Não — disse ela. — Nem tudo o que ele construía acabava indo
para o palco. — Seus dedos pararam de repente. — Carlton. — Charlie
examinou cuidadosamente a pilha de peças e fantasias perto da parede,
todas em estágios variados de finalização. — Carlton — repetiu. — Ele
está aqui?
Com um terror renovado, Carlton se esforçou para olhar para trás
sem se mexer muito.
— Não sei — sussurrou. — Acho que não, mas não consegui prestar
muita atenção.
— Tá, para de falar. Vou tentar trabalhar rápido — disse Charlie. Já
tinha se familiarizado com o mecanismo e entendido como ele funcionava,
ou pelo menos assim achava.
— Não tão rápido — lembrou Carlton.
Com cuidado, devagar, ela enfiou as mãos no pescoço da fantasia e
segurou a primeira trava, manuseando-a até os dedos ocuparem o espaço
entre as molas e o pescoço de Carlton.
— Cuidado com essa artéria aí. Tenho ela desde que era criança —
disse Carlton.
— Shh — disse Charlie novamente. Quando Carlton falava, ela
sentia os movimentos em seu pescoço; ele não ia acionar o mecanismo só
falando, mas a sensação dos tendões se deslocando sob suas mãos era
perturbadora.
— Tá — sussurrou. — Foi mal. Eu falo muito quando estou nervoso.
— Ele trincou o maxilar e comprimiu os lábios para mantê-los fechados.
Charlie afundou ainda mais as mãos pelo pescoço da fantasia e encontrou o
gatilho. Com um estalido, a trava foi ativada contra a palma de sua mão
com tanta força que seus dedos ficaram dormentes. Uma já foi, pensou,
puxando a mola inofensiva para fora da fantasia. Flexionou os dedos até
voltar a senti-los, então engatinhou até o outro lado de Carlton e recomeçou
o processo. Olhava para trás de vez em quando, por cima do ombro,
querendo se certificar de que todas as fantasias continuavam paradas em
seus lugares junto à parede.
Sua pele era quente ao toque, e, ainda que não dissesse nada, ela
ainda conseguia sentir o movimento, sentia vida dentro dele. Sentia sua
pulsação ao tocar-lhe com o pulso enquanto trabalhava, e teve que piscar
para conter lágrimas inesperadas. Engoliu em seco e se concentrou na
tarefa, tentando ignorar o fato de que estava com as mãos em uma pessoa
que morreria se ela falhasse.
Desarmou a segunda trava, absorvendo o impacto com a palma da
mão e tirando o mecanismo desativado da fantasia. Carlton inspirou fundo,
e ela levou um susto.
— Carlton, não relaxe!
Ele se enrijeceu todo e expirou bem devagar, os olhos arregalados e
aterrorizados.
— Certo — disse ele. — Isso continua sendo uma armadilha mortal.
— Para de falar — pediu Charlie, mais uma vez. Sabia muito bem
qual era o risco e não conseguiria suportar ouvir o amigo falar naquele
momento, prestes a morrer. — Muito bem — disse. — Estamos quase lá.
— Ela engatinhou até as costas de Carlton, onde uma série de dez fechos de
couro e metal mantinham a fantasia bem presa. Parou para pensar por um
instante: precisava manter a roupa imóvel, exatamente como estava, até o
último segundo. Sentou-se atrás dele e flexionou um dos joelhos,
posicionando-se de uma forma que pudesse segurar a fantasia no lugar
enquanto a abria.
— Não sabia que você se importava tanto comigo — murmurou
Carlton, como se estivesse tentando elaborar alguma piada, mas notou que
estava exausto e com medo demais para concluí-la. Charlie não respondeu.
Um a um, ela abriu os fechos. O couro era duro e o metal muito bem
encaixado, e ambos reagiam a seu esforço, se recusando a ceder. Quando
estava na metade das costas da fantasia, sentiu seu peso começar a se
deslocando e tratou de imprimir mais força aos joelhos, segurando-a no
lugar. Finalmente, desfez o último fecho, bem na altura da nuca. Inspirou
fundo. Tinha conseguido.
— Certo, Carlton — disse. — Estamos quase lá. Vou abrir isso aqui
e a jogarei para frente. Quando eu fizer isso, você sai daí de dentro o mais
rápido que puder, beleza? Um... dois... três!
Ela escancarou a fantasia e a lançou para longe com toda a força,
enquanto Carlton se jogava para trás e caía por cima dela. Charlie sentiu
uma dor aguda nas costas da mão ao libertá-lo, mas a fantasia tinha caído
no chão, do outro lado da sala, deixando-os em paz. Uma série de estalos
que lembravam fogos de artifício tomou o ambiente, e ambos berraram e
pularam para trás, batendo em uma pesada estante de metal. Juntos, ficaram
olhando a fantasia se debater e se retorcer no chão, as partes animatrônicas
acionadas com estalidos violentos. Quando tudo parou, Charlie continuou a
encará-la, hipnotizada. A coisa era só um torso, um mero objeto caído no
chão.
Ao lado dela, Carlton deixou escapar um gemido baixo, cheio de dor,
depois se virou para o lado e vomitou no chão ao seu lado, arfando e
tossindo com tanta força que parecia prestes a se virar do avesso. Charlie
ficou olhando, sem saber o que fazer. Pôs uma mão em seu ombros, e a
manteve lá até que ele tivesse terminado, limpando a boca e se sentando-se
outra vez, tentando recuperar o fôlego.
— Você tá legal? — disse ela, as palavras soando mesquinhas e
ridículas conforme deixavam sua boca.
Carlton assentiu, depois fez uma careta de dor.
— Sim, eu tô legal — disse. — Desculpa pelo chão. Acho que o
chão ainda é seu, em termos.
— Você deve ter sofrido uma concussão — disse Charlie, alarmada,
mas Carlton balançou a cabeça, movendo-se mais devagar dessa vez.
— Não, acho que não — disse. — Minha cabeça tá doendo como se
alguém tivesse batido forte nela com muita força, e o enjoo é por ter ficado
preso aqui neste quartinho pensando na morte durante horas, mas acho que
eu tô bem. Minha mente tá de boa.
— Certo — disse Charlie, cética. Foi então que se deu conta de algo
que ele dissera.
— Carlton, você disse que o “serial killer” explicou que você não
podia se mexer? Você viu quem fez isso com você?
Carlton se ajoelhou, hesitante, então se levantou, se apoiando em
uma caixa ali perto. Ele olhou para Charlie.
— Fiquei horas preso dentro daquilo. Meu corpo todo está
formigando. — Ele sacudiu o pé para ilustrar o que estava dizendo.
— Você viu quem foi? — repetiu Charlie.
— Dave, o guarda — disse Carlton. Ele parecia quase surpreso por
ela ainda não saber. Charlie assentiu. Já sabia.
— O que ele te disse?
— Nada de mais — disse Carlton. — Mas... — Ele arregalou os
olhos de repente, como se tivesse acabado de lembrar algo muito
importante. Sem olhar Charlie nos olhos, caiu lentamente por sobre os
joelhos.
— O que foi? — sussurrou Charlie.
— Quer mesmo saber? — disse. Ele repentinamente parecia calmo
demais para alguém que tinha acabado de escapar por um triz da morte.
— O que foi? — insistiu ela. Carlton a olhou por um instante,
nervoso, depois respirou fundo, quase branco de tão pálido.
— Charlie, as crianças, de tantos anos atrás...
Charlie ficou tensa, atenta a cada palavra.
— O que tem elas?
— Todas elas, o Michael e os outros, foram tiradas da sala de jantar
quando não tinha ninguém olhando e trazidas para cá. — De repente,
Carlton se encolheu e foi para a porta, vigiando as paredes como se
estivessem infestadas de criaturas invisíveis. — Ele... Dave, o guarda... Ele
as trouxe pra cá... — Carlton esfregou os braços, como se de repente
estivesse com frio, e fechou os olhos. — Enfiou todas elas nas fantasias,
Charlie — disse ele, o rosto contorcido com uma tristeza profunda ou nojo.
— Charlie. — Ele parou abruptamente, com um olhar distante no rosto. —
Elas continuam aqui.
— Como você sabe? — disse Charlie, dentre um sussurro quase
inaudível.
Carlton apontou para o canto mais distante do cômodo. Charlie
olhou — havia uma fantasia amarela de Freddy escorada na parede, toda
montada, como se estivesse prestes a subir ao palco para um show.
— É ele, esse é o urso que eu me lembro de ter visto no outro
restaurante — disse Charlie, sem pensar, então tampou a própria boca.
— Outro restaurante? — Carlton parecia confuso.
— Eu não compreendo. — Os olhos de Charlie continuavam
vidrados na fantasia amarela. — Carlton, eu não compreendo — repetiu,
seu tom mais urgente desta vez.
— Michael.
Charlie o encarou. Michael?
— Do que você tá falando? — disse ela, a voz nivelada e
inexpressiva.
— Sei que parece loucura — disse ele, a voz se tornando um
sussurro. — Charlie, acho que é o Michael dentro dessa roupa.

— Ainda não consigo abrir essa coisa! — John soltou um suspiro


frustrado e massageou a mão; o trinco tinha deixado marcas vermelhas em
seus dedos. Jessica murmurou em solidariedade, mas não tirou os olhos das
telas.
— Não consigo ver nada! — reclamou, após um momento.
O rádio soltou um guincho e em seguida veio a voz de Marla, da sala
de controle na Baía Pirata.
— Vocês dois, fiquem quietos e não se mexam. — Os dois
congelaram, agachando-se no ponto em que estavam. Jessica olhou para
John, uma pergunta em seu olhar, mas ele deu de ombros, tão perdido
quanto ela.
Ouviram uma pancada na porta, e John deu um pulo, quase caindo.
— Marla? — disse Jessica, com uma expressão pálida no rosto. —
Marla, é você aí fora, não é? — Outra pancada, mais forte que a primeira, e
a porta chacoalhou.
— O que é isso, uma marreta? — sussurrou John, rouco. Mais
pancadas, várias e várias vezes, e o metal, que antes parecera tão sólido,
começou a amassar. Eles se encolheram contra o painel de controle,
incapazes de fazer qualquer coisa além de observar. Jessica agarrou as
costas da camiseta de John, prendendo o tecido entre os dedos, e ele não se
afastou; outra batida na porta e, dessa vez, a dobradiça se envergou de leve,
expondo uma rachadura fina entre a porta e o batente. A porta continuava
de pé, mas não resistiria por muito mais tempo.
John sentiu os dedos de Jessica apertarem a camiseta com mais força,
e quis se virar para lhe oferecer algum tipo de conforto, mas estava
hipnotizado, incapaz de desviar o olhar da porta. Quase conseguia ver o
outro lado pelo pequeno vão, e ele inclinou a cabeça; outra pancada e a
fenda se alargou, e ele se deparou com um par de olhos que espiavam
dentro da sala, calmos e inexpressivos.

— Saiam daí, saiam daí! — gritou Marla, sacudindo as mãos diante


do monitor de segurança, como se John e Jessica pudessem vê-la, como se
fosse fazer diferença se pudessem. Lamar tinha tapado a boca com as duas
mãos, os olhos arregalados, e Jason estava sentado no chão, esperando,
nervoso, como se um ataque à própria sala fosse iminente. Os monitores
eram escuros, mas dava para ver uma coisa enorme à espreita diante do
palco principal, uma forma negra e estável se balançando para frente e para
trás, bloqueando toda a tela em alguns momentos.
— Marla — disse Lamar, sussurrando, e pôs a mão em seu ombro,
tentando fazê-la ficar quieta. — Marla, olha... — Ele apontou para o
monitor que mostrava a Baía Pirata, logo do lado de fora da porta deles.
Marla olhou para a outra tela por cima do ombro dele: a cortina estava
aberta, e o palco estava completamente vazio. A placa de “Out of Order”
continuava pendurada no mesmo lugar, a corda, intocada, atravessando a
plataforma de um canto a outro. — A tranca, nós não... — disse Marla, sem
forças, finalmente entendendo a magnitude do erro que haviam cometido.
Marla se virou para Jason e deixou escapar um gemido de pânico: a porta
atrás dele estava se abrindo lentamente.
— Shhh. — Lamar logo acionou um pequeno interruptor, apagando a
luz na sala de controle, e recuou até a parede ao lado da porta. Marla e
Jason fizeram o mesmo, se espremendo contra a parede oposta. Os
monitores ainda tremeluziam com estática, iluminando o espaço cinza
oscilante com um ocasional brilho branco.
A pequena porta rangeu ao se abrir com uma lentidão excruciante, o
abismo negro se expandindo até ela parasse, completamente aberta.
— Marla! — Uma voz distorcida por estática chamou de algum lugar
no chão. Lamar tateou com o pé pelo carpete estreito, tentando recuperar o
walkie-talkie.
— Shhh, shhh... — Marla fechou os olhos, suplicando mentalmente
para que Jessica parasse de falar.
— Marla, onde você está? — disse a voz de Jessica mais uma vez.
Lamar conseguiu virar o walkie-talkie de lado, e, com um clique, ficou
tudo quieto. Não sabia se havia tirado a bateria do lugar ou apertado o
botão que desligava por pura sorte, mas fato é agora estava tudo quieto.
Não havia onde se esconderem naquela salinha pequena. O teto era
baixo demais para que ficassem de pé, e, mesmo encostados na parede,
tinham que estender as pernas por baixo do batente. O degrau abaixo da
porta era alto o bastante para esconder suas pernas de qualquer coisa lá
fora, mas não de algo que conseguisse entrar.
De uma só vez, os três prenderam a respiração. A sala não estava
mais vazia: alguma coisa estava entrando. Conforme avançava pela porta
aberta, eles vislumbraram um focinho e o brilho de dois olhos arranhados
que não piscavam, ambos fitando o vazio à frente. A cabeça monstruosa
ameaçava ocupar a sala toda.
— Foxy — murmurou Jason, sem fazer barulho. Os olhos de plástico
iam de um lado para outro com cliques e movimentos inorgânicos;
procuravam, mas não viam. O maxilar tremelicou como se estivesse
querendo abrir, mas permaneceu fechado.
A luz turva dos monitores dava um brilho avermelhado a seu rosto,
deixando o resto do corpo envolvido pelas sombras. A cabeça foi se
movendo para trás bem devagar, as orelhas subindo e descendo
aleatoriamente, seus movimentos programados uma década antes, sem
muita atenção. À medida que Foxy recuava, seus olhos se agitavam de um
lado para outro, e Marla prendeu o fôlego, temendo o momento em que se
voltariam para ela. A cabeça estava quase para fora da porta quando os
olhos viraram para a direita e encontraram Marla. A cabeça parou onde
estava, o maxilar rígido, meio aberto. Os olhos de plástico permaneceram
focados em Marla, que continuou sentada, aterrorizada em meio ao
silêncio. Após um momento, a cabeça desapareceu pela porta, deixando um
espaço escuro e vazio no lugar.
Jason se jogou para frente, querendo fechar a porta, e Marla tentou
agarrá-lo, sem muito esforço, para detê-lo. Passou por ela, mas então parou,
ajoelhando-se diante da entrada. Espiou a escuridão, só então temendo o
que deveria estar do lado de fora da salinha. Engatinhou bem devagar, o
torso desaparecendo por um instante enquanto procurava a maçaneta,
depois voltou para dentro e fechou a porta delicadamente. Marla e Lamar
fecharam os olhos e soltaram um longo suspiro, os dois ao mesmo tempo.
Jason se virou para eles — estava quase sorrindo quando, de repente,
a porta se abriu novamente com violência e um terrível gancho de metal
afundou em sua perna. O menino soltou um berro de dor. Marla se jogou
para agarrá-lo, mas foi lenta demais; ficou olhando, impotente, enquanto o
irmão era arrastado porta afora.
— Marla! — gritou, tentando se agarrar ao chão, e ela urrou,
desesperada, enquanto o irmão era arrancado para longe dela outra vez,
sem ver nada da criatura além do brilho aterrador do gancho.
Marla se lançou na direção da porta atrás dele, caindo de joelhos e
engatinhando em direção à coisa, mas Lamar a agarrou pelo ombro e a
puxou para trás, segurando a porta. Antes que ele conseguisse fechá-la, ela
lhe foi arrancada de suas mãos com uma força inumana, e Foxy apareceu
diante deles, entrando na sala.
De súbito, havia ficado cheio de vida, parecia até uma criatura
diferente, e se virou para olhar para Marla, os olhos prateados parecendo
compreender. Seu rosto era todo um focinho canino, a pelagem laranja
escassa era insuficiente para cobrir todo o crânio. Ele olhou entre os dois,
exibindo seu sorriso monstruoso primeiro para Lamar, depois para Marla.
Os olhos reluziam e se apagavam, e ele abria e fechava a boca com um som
que lembrava algo se quebrando. Os dois o encaravam, encolhidos contra o
painel de controle, e foi então que Lamar repentinamente entendeu o que
ele estava olhando.
— Ele não consegue entrar aqui por inteiro — sussurrou. Marla
observou; era verdade, os ombros de Foxy estavam emperrados no vão da
porta, a cabeça era a única parte que ele conseguia pôr para dentro do
cômodo.
Lamar saltou para frente e chutou o animatrônico, apoiando-se na
parede e golpeando-o três vezes com o pé, até que Foxy soltou um gemido
baixo, uma lamúria mais maquinal do que animal, e se encolheu de volta
para o escuro. Lamar bateu a porta com força e fechou a tranca. Eles
olharam um para o outro por um longo momento, ofegantes.
— Jason! — gritou Marla.
Lamar pôs os braços ao seu redor, e ela o deixou abraçá-la, mas não
chorou, apenas fechou os olhos.

— Como assim é o Michael dentro daquela roupa? — disse Charlie,


baixinho, como se pudesse estar falando com alguém que havia
enlouquecido, mas ainda desesperada para escutar a resposta. Carlton fitou
o urso amarelo por um tempo, e, quando se virou para Charlie outra vez,
seu rosto estava calmo. Quando estava para falar alguma coisa, Charlie
levou um dos dedos aos lábios. Tinha alguma coisa vindo; podia ouvir os
passos ecoando pelo corredor, seguindo em sua direção. Passos pesados e
calculados, de alguém que não se importava em ser ouvido. Charlie olhou
em volta, desesperada, e viu um cano escondido em um canto. Ela o pegou
e correu para se posicionar atrás da porta, onde não seria vista por quem
quer que a abrisse. Carlton agarrou o torso mecânico, como se quisesse, de
alguma forma, usá-lo como arma. Parecia confuso, como se não estivesse
pensando com clareza.
— Não — alertou Charlie, a voz baixa, mas era tarde demais. Algo
estalou dentro da fantasia. Carlton a deixou cair e recuou um passo, um
filete de sangue escorrendo em sua mão.
— Tudo bem? — sussurrou Charlie. Ele assentiu e, no segundo
seguinte, a maçaneta girou.
Dave surgiu à porta, a cabeça erguida, uma expressão sombria no
rosto. Sua intenção era passar uma imagem imponente, mas ele parecia
apenas um homem normal entrando por uma porta.
— Olha só o que você fez — anunciou para a sala como um todo, e
então voltou os olhos para Carlton, já livre, e seu rosto escureceu. Antes
que ele pudesse se mover, Charlie ergueu o cano, deu um passo à frente e
golpeou sua cabeça com tudo.
Um baque terrível ecoou pela sala, e então ele se virou, uma
expressão de choque tomando-lhe o rosto. Charlie ergueu o cano, pronta
para atacar de novo, mas o homem recuou, trôpego, colidindo com a parede
e caindo sentado.
— Carlton! Anda! — disse Charlie, com urgência, mas ele
continuava olhando para a mão machucada. — Carlton? Você tá ferido?
— Não — disse, recompondo-se e limpando a mão na camiseta
preta.
— Vamos — disse Charlie, com firmeza, e agarrou pelo braço. —
Vem, temos que dar o fora daqui. Não sei por quanto tempo ele vai ficar
apagado. — Você está terrivelmente calma para alguém que acabou de
nocautear um cara friamente, pensou, irônica.
Eles se esgueiraram pelo corredor deserto, iluminado apenas pela luz
turva que vinha das outras salas, e Charlie os guiou depressa pelas portas
vaivém da cozinha, onde a escuridão era total. O ar parecia pesado,
consumido por um breu que era quase palpável — era como se tivessem
sido engolidos. Ela se virou para olhar para Carlton, mas apenas o ruído
fraco de respiração lhe garantia que ele continuava a seu lado. Alguma
coisa tocou seu braço, e Charlie
conteve um grito.
— Sou só eu — sibilou Carlton, e ela suspirou de alívio.
— Vamos nos certificar de que não estamos sendo seguidos, então
podemos encontrar os outros e dar o fora daqui — sussurrou ela. Charlie
olhou de volta para a porta e para os últimos vestígios de luz que passava
pelas frestas. Arrastou-se um pouco mais para perto e se levantou,
querendo espiar pela janela redonda, tomando o cuidado de não tocar nela.
— O que está vendo? — sussurrou Carlton.
— Nada. Acho que estamos seguros. — Assim que ela terminou de
falar, uma silhueta passou adiante, formando uma sombra na janela. Charlie
deu um pulo para trás, quase caindo em cima de Carlton.
Cambalearam para frente, desesperados para se afastar da entrada.
De repente, dois fachos de luz cortaram a escuridão, iluminando o
cômodo com uma forte luz amarela. Chica estava parada na frente da porta,
quase em cima deles. Ela se empertigou, ficando ainda maior. Devia estar
escondida aqui o tempo todo, pensou Charlie. Os recônditos escuros da
cozinha podiam ocultar qualquer coisa. Chica olhou para cada um deles, os
fachos de luz balançando perturbadoramente à medida que seus olhos se
deslocavam mecanicamente de um lado para o outro. Então ela parou, e
Charlie agarrou o braço de Carlton.
— Corre! — gritou, e os dois dispararam, contornando a mesa,
sacudindo o mobiliário de metal e fazendo barulho conforme passavam
desajeitadamente. Atrás deles, os passos de Chica os seguiam longa e
lentamente. Eles finalmente alcançaram a saída e irromperam corredor
adentro, disparando para a sala de jantar.

John e Jessica estavam em silêncio, escutando o alvoroço lá fora.


John apoiava uma das mãos na porta da sala de controle — o que quer que
fosse aquilo que estava do outro lado tinha ido embora, ou pelo menos
fingira ir. O ferrolho havia sido arrancado do chão, e ele tentou girar a
maçaneta, mas a porta deformada continuava emperrada.
— Você está doido? — indagou Jessica, alarmada.
— O que mais a gente pode fazer? — disse John, calmo. Jessica não
respondeu.
John recuou até o painel de controle e deu um chute calculado na
porta, aumentando a fresta em alguns centímetros.
— Aqui, me deixa tentar — disse Jessica, e antes que John pudesse
reagir, ela também chutou, abrindo ainda mais um pouco da fresta.
Por alguns minutos, os dois alternaram os chutes, sem falar, até que
finalmente John quebrou a dobradiça de cima. John logo começou a sacudir
o restante da porta, abrindo caminho para que pudessem passar para o outro
cômodo.
Eles saíram correndo e pararam de repente, expostos em meio à sala
de jantar. Jessica olhou para o palco principal, tensa: estava vazio.
— Não sei como aqui pode ser mais seguro — disse, mas John não
estava ouvindo.
— Charlie! — gritou ele, e então cobriu a boca com as mãos, tarde
demais. Charlie e Carlton vinham correndo do corredor negro a toda
velocidade.
— Vamos! — berrou Charlie, sem desacelerar ao passar pelos dois, e
John e Jessica saíram correndo atrás deles para fora do sala de jantar, rumo
ao corredor do outro lado, em direção ao depósito por onde haviam
entrado.
Charlie seguiu correndo pela passagem, determinada, parando diante
de uma porta fechada e logo tentou abri-la. Atrás deles, espreitava a porta
aberta de um salão de festas negro, um espaço amplo e deserto que poderia
ocultar qualquer coisa. John virou as costas para o grupo, de olho no
abismo.
— Está trancada? — disse Carlton, com pânico crescente na voz.
— Não, só emperrada — disse Charlie. Fez força, e a porta se abriu.
Todos correram para dentro, John esperando até o último segundo, os olhos
ainda vidrados na escuridão atrás deles.
Quando a porta se fechou, Charlie começou a procurar pelo
interruptor junto à porta, mas John pôs a mão sobre seu braço.
— Não acende a luz — disse, olhando para trás por um momento. —
Temos luz o suficiente, só precisamos acostumar os olhos.
No topo da porta havia uma janela de vidro grosso, fosco e áspero
que deixava entrar na sala um fiapo de luz do corredor turvo.
— Certo — disse Charlie. Acender uma lâmpada teria entregado sua
posição. Na penumbra, ela examinou a sala. Já havia sido um escritório,
embora não se lembrasse de visitá-lo com muita frequência; não tinha
muita certeza de quem trabalhava ali. Caixotes de papelão estavam
espalhados pelo chão, cheios de papéis até quase transbordar, as tampas
mal equilibradas por cima da bagunça lá dentro. Havia uma mesa antiga no
canto, feita de metal azul-acinzentado, com amassados bem visíveis na
superfície. Jessica se sentou sobre dela.
— Tranque a porta — disse Jessica, com um tom irritadiço, e Charlie
obedeceu. No centro da maçaneta, encontrou um botão que sabia que seria
inútil, além de um ferrolho precário preso à parede, do mesmo tipo que tem
nas cabines de banheiros públicos e em cercas de madeira.
— Acho que é melhor que nada — disse.
CAPÍTULO ONZE

Em meio ao pequeno escritório, ficaram todos sentados em silêncio


durante alguns minutos, olhando para a porta, esperando. É só mais um
lugar para ficarmos encurralados, pensou Charlie.
— A gente tem que sair daqui — disse Jessica, baixinho, ecoando os
pensamentos de Charlie. De repente, Carlton deixou escapar um ruído de
agonia. De forma espasmódica, ele agarrou uma das caixas de papelão,
virando-a para jogar fora parte do conteúdo, e vomitou dentro dela. Seu
estômago estava vazio; regurgitou, sem conseguir botar nada para fora,
suas entranhas se contraindo em vão. Enfim, se sentou, arfando; o rosto
estava vermelho, e havia lágrimas em seus olhos.
— Carlton? Você tá bem? — disse John, alarmado.
— Claro, nunca estive melhor — disse Carlton, a respiração
lentamente voltando ao normal.
— Você teve uma concussão — disse Charlie. — Olha pra mim. —
Ela se ajoelhou diante dele e fitou seus olhos, tentando lembrar como
deviam ficar as pupilas de alguém que sofreu uma concussão. Carlton
ergueu as sobrancelhas.
— Ah, ah, ai! — Trincou o maxilar e abaixou a cabeça, segurando-a
como se alguém pudesse tentar arrancá-la dele. — Desculpa — disse após
um momento, ainda recurvado de dor. — Acho que foi toda aquela
correria. Vou ficar bem.
— Mas... — Charlie começou a protestar, mas ele a interrompeu, se
ajeitando com esforço visível.
— Charlie, tá tudo bem. Dá pra me culpar por estar meio zoado? E
quanto a você? — Apontou para o braço dela, e ela baixou o olhar, confusa.
Havia uma pequena mancha de um vermelho vivo vazando do
curativo em seu braço — a ferida devia ter reaberto enquanto fugiam.
— Ah! — exclamou ela, sentindo-se também subitamente um pouco
enjoada. John se aproximou para ajudar, mas ela gesticulou para que ele se
afastasse. — Estou bem — disse. Mexeu o braço, experimentando a
sensação; sentiu a mesma dorzinha chata que a vinha incomodando nos
últimos dias, mas não parecia ter piorado, e o ponto de sangue não parecia
estar crescendo muito rápido. Ouviram outro ribombo de trovoada do lado
de fora, e as paredes tremeram.
— Temos que sair daqui. E não é da sala que estou falando, temos
que sair desse prédio! — exclamou Jessica.
— O Carlton precisa de um médico — acrescentou John.
A voz de Jessica ficou aguda, soando desesperada.
— Vai todo mundo acabar precisando de um médico se não formos
embora!
— Eu sei — disse Charlie. Sentiu a irritação crescer dentro de si
diante de uma constatação óbvia como aquela e tentou sufocá-la. Estavam
todos assustados e encurralados: explodir uns com os outros não ajudaria
em nada. — Beleza — disse. — Você está certa. A gente precisa sair daqui.
Podemos tentar a claraboia.
— Não acho que vamos conseguir sair por lá — disse John.
— Tem que ter uma escada em algum lugar por aqui — respondeu
Charlie, seu medo recuando enquanto considerava as opções. Sentou-se,
ajeitando a postura, tentando se recompor.
— Não vai adiantar — disse Jessica.
— As passagens de ventilação — disse John, depressa. — As que o
Jason usou para entrar eram pequenas demais, mas deve ter outras.
Janelas... a Freddy’s tem janelas, né? Devem dar em algum lugar.
— Acho que o mais provável é que tenham sido todas fechadas com
tijolos. — Charlie balançou a cabeça e encarou o chão por um momento,
depois voltou os olhos para os de John. — Este lugar foi sepultado.
O walkie-talkie crepitou, e todos deram um pulo. A voz de Lamar
surgiu no rádio.
— John?
John agarrou o rádio.
— Oi? Oi, eu tô aqui, e estou com a Charlie, a Jessica e o Carlton.
Estamos em um escritório.
— Que bom — disse Lamar. — Escuta... — Por um instante,
ouviram um barulho de movimento, e em seguida a voz de Marla foi
emitida.
— Que bom — disse ela. — Escuta, estou olhando os monitores, e
parece que todos os robôs voltaram para o palco principal.
— E a Baía Pirata? — intrometeu-se Charlie, se debruçando por
cima de John para falar no receptor. — O Foxy também está lá?
Houve uma breve pausa.
— A cortina está fechada — disse Marla.
— Marla, está tudo bem? — disse Charlie.
— Sim — respondeu ela, direta, e a estática de fundo cessou de
maneira abrupta. Tinha desligado o walkie-talkie.
Charlie e John trocaram um olhar.
— Tem algo errado — disse Carlton. — Fora o óbvio, quer dizer. —
Ele gesticulou em um movimento circular vago, indicando tudo ao redor.
— Do que é que você está falando? — Jessica estava perdendo a
paciência.
— Estou falando da Marla — disse. — Tem algo errado com ela.
Liga de volta.
John apertou o botão de comunicação outra vez.
— Marla, o que é que está acontecendo? — Não houve resposta por
um longo minuto, e em seguida Lamar respondeu:
— Não sabemos onde o Jason está. — Sua voz começou a falhar. —
Ele está em perigo.
Charlie sentiu o estômago revirar. Não. Ouviu John inspirar fundo.
Escutaram um som entrecortado do outro lado da linha: Marla estava
chorando. Começou a falar, parou e tentou novamente.
— Foxy — disse, a voz um pouco alta demais, uma vez que
precisava forçar para que saíssem. — O Foxy o levou.
— O Foxy? — disse Charlie, com cautela. A figura parada no
saguão, a chuva caindo atrás dela, os olhos prateados ardendo no
escuro. Pegou o walkie-talkie da mão de John; ele a entregou sem
protestar.
— Marla, escuta, a gente vai encontra-lo. Está me ouvindo? — Sua
fala ecoou, vazia, até mesmo em seus próprios ouvidos. O walkie-talkie
não emitiu nenhum som. Agitada, precisando se mover, fazer alguma
coisa, Charlie se virou para os outros.
— Vou dar mais uma olhada na claraboia — disse. — Jessica, vem
comigo, você é quem tem mais chance de conseguir passar.
— Certo — disse Jessica, relutante, mas ficou de pé.
— Vocês não deviam ir sozinhas — retrucou John, levantando-se
para ir com elas. Charlie balançou a cabeça.
— Alguém tem que ficar aqui com ele — disse, gesticulando para
Carlton.
— Ei, eu já sou bem grandinho, posso ficar sozinho — disse Carlton,
encarando uma das estantes.
— Ninguém vai ficar sozinho — disse Charlie, com firmeza. John
assentiu, um movimento breve e preciso, quase uma continência, e ela
respondeu da mesma forma. Voltou a olhar para Carlton, cujo rosto estava
contraído, tenso de dor. — Não deixa ele dormir — disse a John, a voz
baixa.
— Eu sei — murmurou ele.
— Dá para ouvir vocês dois, sabia? — disse Carlton, mas sua voz
soava vazia e fatigada.
— Vamos — disse Jessica. Charlie fechou a porta ao sair e ouviu
John trancá-la outra vez.
Charlie ia na frente; o depósito com a claraboia não ficava longe, e as
duas se esgueiraram pelo corredor e pelas portas sem quaisquer incidentes.
— A claraboia. Olha, não dá pra escalar por ali, nem mesmo eu
consigo. Para chegar ao telhado, teria que colocar todo o meu peso no
vidro; ia acabar quebrando. Ainda que tivéssemos uma escada, essa não é a
nossa saída.
— Podemos tirar a vidraça da claraboia — sugeriu Charlie, sem
muita animação.
— Acho que podíamos tentar quebrar o vidro — disse Jessica. —
Mas isso só nos traz de volta à questão da escada. Precisamos dar uma
procurada.

Uma batida repentina na porta chamou a atenção de John, e ele se


levantou num pulo, escutando atenciosamente o que vinha daquela direção.
Charlie bateu outra vez, se arrependendo de não terem combinado algum
tipo de sinal.
— Sou eu — disse, baixinho, e o trinco foi aberto. John parecia
preocupado. — O que foi? — disse Charlie, e ele voltou o olhar para
Carlton.
Carlton estava no chão, os joelhos apertados contra o peito e os
braços ao redor da cabeça em uma posição estranha. Charlie se ajoelhou ao
lado dele.
— Carlton? — disse, e ele soltou um gemido leve. Charlie colocou a
mão no ombro do amigo, que se inclinou um pouco mais para perto.
— Charlie? Desculpa por tudo isso — murmurou.
— Shhh. Me diz o que está acontecendo — disse ela. Estava tomada
por uma sensação nauseante de medo. Havia algo de muito errado, e ela
não sabia quanto daquilo era culpa dos ferimentos e quanto era apenas
devido à exaustão, dor e pânico. — Você vai ficar bem — disse,
acariciando suas costas e esperando que fosse verdade.
Após um longo momento, ele ergueu o braço para afastá-la, e ela
recuou, um pouco triste com sua atitude, até que o viu lançar-se para frente
por cima da caixa de papelão, regurgitando novamente. Ela ergueu o olhar
para John.
— Ele precisa de um médico — disse ele, baixinho, e ela assentiu.
Carlton voltou a se sentar e limpou o rosto com a manga.
— Não é nada de mais, só estou cansado.
— Você não pode dormir — disse Charlie.
— Eu sei, não vou. Mas não dormi noite passada e não como nada
desde ontem... isso só piora as coisas. Tive um momento ruim, mas eu tô
legal. — Charlie olhou para ele, duvidando de suas palavras, mas não
discutiu.
— E agora? — disse Jessica. Charlie não respondeu de imediato,
embora soubesse que a pergunta tinha sido feita para ela. Estava
imaginando o guarda, os olhos se revirando em sua cabeça enquanto
desmaiava, o rosto fino perdendo a tensão e ficando flácido durante a
queda. Precisavam de respostas, e era ele quem as tinha.
— Agora temos que torcer para que eu não tenha matado aquele
guarda por acidente — disse Charlie.
— Não quero voltar lá pra fora — disse Jessica.
— Temos que voltar pra onde eu encontrei o Carlton.
— Espera — disse John, pegando o rádio outra vez. — Ei, Marla,
está na escuta? — Ouviram um ruído de estática, depois a voz de Marla:
— Sim, estamos aqui.
— A gente precisa chegar ao depósito, fica perto do salão principal,
logo depois do palco. Consegue ver a área?
Houve uma pausa enquanto Marla sondava as telas.
— Dá pra ver a maior parte. Onde vocês estão? Não consigo vê-los.
— Estamos num escritório. É... — John olhou para Charlie, pedindo
ajuda, e ela pegou o rádio.
— Marla, consegue ver outro corredor saindo do salão principal?
Mais ou menos na mesma direção do depósito com a claraboia, só que do
lado?
— O quê? Tem um monte de corredores!
— Espera aí. Consegue ver isso? — Desconsiderando os protestos
dos outros, Charlie abriu a porta do escritório e colocou a cabeça para fora
cautelosamente. Quando concluiu que o espaço estava deserto, ou ao
menos tinha quase certeza disso, saiu em meio ao espaço aberto, olhou para
cima e acenou. Não houve sinal de nada além de uma estática baixa e
incessante saindo do walkie-talkie, mas então ouviram a voz de Marla,
empolgada.
— Estou vendo! Charlie, estou vendo você!
Charlie voltou para dentro da pequena sala, e Jessica agarrou a porta
e a fechou atrás dela, verificando a tranca duas, três vezes.
— Certo, Marla — disse Charlie. — Siga as câmeras. Você já viu o
corredor, consegue ver a sala de jantar?
— Sim — disse ela no mesmo instante — A maior parte dele.
Consigo ver o palco e a área ao redor dele, e também estou vendo um
segundo corredor, o que fica paralelo ao de vocês.
— Consegue ver a porta no fim dele?
— Sim, mas Charlie, não dá pra ver dentro do depósito.
— Vamos ter que nos arriscar com o que houver lá dentro —
respondeu Charlie. — Marla, — disse junto ao receptor, — o caminho até a
sala de jantar está livre?
— Sim — disse Marla, após um momento. — Acho que está.
Charlie assumiu a liderança, e os quatro foram seguindo devagar
pelo corredor — Jessica ficou um pouco para trás, junto a Carlton, tão
próxima que ele quase tropeçou nos pés dela.
— Jessica, eu tô bem — disse ele.
— Eu sei — respondeu ela, baixinho, mas não se afastou, e ele não
voltou a reclamar.
Quando chegaram ao fim do corredor, pararam.
— Marla — disse Charlie pelo rádio.
— Vão em frente... Não, parem! — gritou, e todos congelaram,
pressionando os corpos contra as paredes, como se aquilo pudesse torná-los
invisíveis. Marla sussurrou no walkie-talkie, o tom murmuroso distorcendo
ainda mais sua voz. — Tem alguma coisa... fiquem quietos... — Ela
pareceu dizer mais alguma coisa, mas foi ininteligível. Charlie esticou o
pescoço para ver dentro do cômodo e identificar o que poderia estar à
espreita, alguma espécie de forma nebulosa se arrastando pesadamente nas
sombras, pronta para atacar; foi quando ouviram um estrondo demorado do
lado de fora, e as tábuas no teto se sacudiram como se estivessem prestes a
cair.
— Marla, não estou vendo nada — disse Charlie pelo walkie-talkie.
Ela olhou para o palco, onde todos os animatrônicos continuavam em suas
posições, encarando o vazio ao longe, sem ver nada.
— Nem eu — sussurrou John.
— Desculpa — disse Marla. — Sem querer constatar o óbvio, mas
este lugar é macabro, parece que já é meia-noite há horas aqui dentro.
Alguém sabe que horas são?
Charlie checou o relógio, semicerrando os olhos para enxergar o
ponteiro das horas.
— Quase quatro — disse.
— Da manhã ou da tarde? — perguntou a outra. Não parecia estar
fazendo piada.
— Da tarde — a voz de Lamar surgiu do outro lado da linha, quase
inaudível, como se não estivesse próximo o suficiente do receptor. — Já
falei, Marla, ainda é de dia.
— Não parece — soluçou Marla, dando um berro quando toda a
construção sacudiu com um trovão.
— Eu sei — disse ele, baixinho, e o rádio voltou a ficar em silêncio.
Charlie olhou para o walkie-talkie por um momento, sentindo um vazio no
peito; era como desligar o telefone sabendo que a pessoa do outro lado da
linha continuava lá, mas ainda assim tendo uma sensação de perda, como
se jamais fosse vê-la outra vez.
— Charlie? — disse John, e ela olhou para o amigo. Ele assentiu
para Carlton, que estava apoiado na parede, os olhos fechados. Jessica
estava perto dele, preocupada, sem saber o que fazer. — Temos que tirar o
Carlton daqui — disse John.
— Eu sei — disse Charlie. — Vamos, aquele guarda é a nossa
melhor chance de sair daqui com vida. — Analisando mais uma vez o
espaço aberto diante deles, ela guiou o grupo para dentro do salão.
Cruzando o cômodo na frente do palco, notou que John e Jessica
haviam erguido o olhar, mas se recusou a olhar para os animais, como se
assim impedisse que eles também olhassem para ela. Não ajudou. Sentia
seus olhares, estudando-a, aguardando o momento certo — por fim, não
pôde mais suportar. Virou o rosto para espiar enquanto passavam, e viu
apenas robôs inanimados, os olhos vidrados em algo que ninguém
conseguia enxergar.
Pararam outra vez na entrada do corredor, esperando que Marla os
guiasse, e após um momento de ansiedade, sua voz ressurgiu no rádio,
calma outra vez.
— Vão em frente, o corredor está vazio.
Assim fizeram. Estavam quase lá, e Charlie sentiu uma tensão, um
nó no estômago, algo que parecia uma serpente lutando por sua liberdade.
Pensou em Carlton regurgitando no chão do escritório e, por um momento,
sentiu que faria o mesmo se o estômago não estivesse dolorosamente vazio.
Parou a alguns centímetros da porta, erguendo a mão.
— Não sei se ele está mesmo lá dentro — disse ela, baixinho. — E,
se estiver, não sei se está... acordado — concluiu. Agora temos que torcer
para que eu não tenha matado aquele guarda por acidente, dissera ela.
Estava só brincando, mas as palavras voltaram à sua mente, deixando-a
inquieta. Não tinha lhe ocorrido que ele realmente poderia estar morto até
que as palavras deixaram sua boca, e agora, parada no corredor, prestes a
descobrir a verdade, a ideia não saía da sua cabeça.
Como se soubesse no que ela estava pensando, John disse:
— Charlie, a gente tem que entrar.
Ela assentiu. John se adiantou para assumir a dianteira, mas Charlie
balançou a cabeça. O que quer que estivesse lá dentro, era problema dela.
Responsabilidade dela. Fechou os olhos por um breve momento, depois
girou a maçaneta.
Estava morto. Estirado no chão, de costas, os olhos fechados, o rosto
cinzento. Percebeu que havia coberto a boca com as mãos, mas era como se
alguém estivesse movendo seu corpo por ela — sentiu-se entorpecida, os
nós no estômago desapareceram. John passou por ela. Deu um tapa no
rosto do homem.
— John — disse ela, ouvindo um tom de pânico em sua voz. Ele
olhou para ela, surpreso.
— Ele não está morto — disse. — Só apagou. Não pode nos dizer
nada assim.
— Temos que amarrá-lo ou algo assim — disse Jessica. — Não sai
acordando ele desse jeito.
— É, sou obrigado a concordar — disse Carlton. Seus olhos
sondavam o cômodo à procura de aparelhos, ferramentas ou fantasias:
qualquer coisa que Dave pudesse, e provavelmente iria usar contra eles, se
tivesse a oportunidade.
Charlie ficou apenas olhando, ainda sentindo-se entorpecida. Ele não
está morto. Ela se sacudiu feito um cachorro, tentando se livrar dos efeitos
do choque, e pigarreou.
— Vamos procurar alguma coisa para prendê-lo — disse. — Parece
que tem de tudo por aqui. — Jessica seguiu para os fundos da sala, onde
partes de fantasias estavam amontoadas de maneira aleatória, cabeças de
mascotes vazias jogadas em ângulos estranhos, com olhos sinistros.
— Cuidado quando tocar nessas roupas — avisou Charlie a Jessica.
— A gente pode sempre enfiá-lo dentro de uma das fantasias, que
nem ele fez comigo — disse Carlton. Havia algo atípico em sua voz, algo
ríspido e doloroso. Charlie não acreditava que fosse por conta dos
ferimentos. Ele se sentou em uma caixa, o rosto tenso e os braços
envolvendo o corpo como se quisesse manter tudo no lugar.
De súbito, o rosto de Carlton se iluminou, alarmado.
— Não mexe aí! — gritou, empurrando Charlie para tirá-la do
caminho. Passou cambaleando por Jessica, que procurava alguma coisa em
meio à pilha, e começou a remexer aquela bagunça, levantando caixas e
tirando objetos do caminho, desesperado em sua busca.
— Charlie, onde ele está? — disse, seus olhos varrendo o cômodo
em vão. Charlie foi até ele, seguindo seu olhar, e se deu conta do que
estava faltando: a fantasia amarela de urso que estivera caída no canto.
— O quê? — disse John, confuso.
— Charlie, onde está? Onde está o Michael? — Ele se sentou com
um baque em uma caixa de papelão, que afundou um pouco sob seu peso,
mas conseguiu sustentá-lo. Olhava apenas para Charlie, como se fossem as
únicas pessoas na sala.
— Michael? — sussurrou John. Olhou para Charlie, mas ela apenas
o encarou de volta, em silêncio; não tinha respostas a oferecer.
— O Michael estava bem ali. — Carlton pressionou os lábios,
balançando para frente e para trás.
— Eu acredito em você — respondeu Charlie, tranquila, com uma
voz calma e baixa. John apoiou as mãos nos joelhos e suspirou.
— Vou lá ajudar a Jessica — murmurou e se levantou, resignado. —
Tem que ter um pedaço de corda por aqui em algum lugar.
— Já encontro vocês. — Charlie sorriu para Carlton, querendo
tranquilizá-lo, depois foi se juntar aos outros, seguindo em direção às
caixas ao lado da porta.
A primeira só guardava mais papelada, formulários oficiais com letra
miúda, mas embaixo havia outra caixa cheia de cabos emaranhados.
— Ei, encontrei alguma coisa — disse Charlie, mas foi interrompida
por um grito estridente como o de uma banshee.
Charlie se levantou instantaneamente, pronta para correr, mas todos
os outros permaneceram imóveis. Jessica apontava para algo em um canto,
quase tremendo. John estava atrás dela, os olhos arregalados.
— O que foi? — perguntou Charlie, e quando não responderam, foi
até lá depressa e olhou para a pilha de fantasias vazias para a qual Jessica
apontava.
Era difícil de identificar o que havia naquele amontoado de
mascotes. Ficou encarando aquela confusão, inexpressiva, sem enxergar
nada além de pelagem, olhos, bicos e patas, mas então todo o resto
começou a tomar forma diante de seus olhos, e ela finalmente viu.
Um homem morto.
Parecia jovem, pouco mais velho do que eles – e parecia familiar.
— É o policial, aquele de ontem — disse John, recuperando a voz.
— O quê? — disse Carlton, repentinamente atento. Aproximou-se
para olhar. — É o policial Dunn, conheço ele.
— O seu pai mandou ele para procurar por você — murmurou
Charlie.
— O que a gente faz? — disse Jessica. Estava recuando devagar, e
seu pé acabou topando com Dave, fazendo-a dar um salto e sufocar outro
grito. Aquilo desviou o olhar de Charlie de Dunn, e esse desvio foi o
suficiente para lembrá-la de sua tarefa.
— Não há nada que possamos fazer — disse, com firmeza. —
Vamos, não sabemos mais quanto tempo temos até ele acordar.
John e Jessica a seguiram até o outro lado do depósito, Jessica
apertando o passo e se mantendo próxima de Charlie, como se tivesse medo
de se afastar muito dela novamente. Charlie pegou um punhado de cabos e
os jogou para John.
Foi um processo longo e tedioso. Forçaram Dave a permanecer
sentado e encostado na parede, mas ele sempre acabava caindo para os
lados, até que John começou a segurá-lo pelos ombros. John o curvou
para frente enquanto Charlie atava suas mãos atrás das costas. Terminou o
trabalho e ergueu olhar, deparando-se com John, que agora tinha um
esboço de sorriso nos lábios.
— Os meus nós são engraçados pra você? — disse ela, no tom mais
leve que conseguiu encontrar. O toque da pele de Dave, que, embora vivo,
estava flácido e mais pesado do que deveria, era perturbador, e mesmo
depois de ter se afastado, ainda podia sentir vestígios do suor dele na palma
de suas mãos.
Ele deu de ombros.
— Parece que todas aquelas brincadeiras de polícia e ladrão vieram a
calhar.
Ela quase deu uma risada.
— Tinha me esquecido disso — admitiu. Ele assentiu, com ar de
sabedoria.
— E ainda tenho todas as cicatrizes das queimaduras que você
causou em mim me amarrando com corda. — John sorriu.
— E isso foi antes de eu virar escoteira — disse Charlie. — Agora
para de reclamar e segura os pés dele. Vamos torcer para as minhas
habilidades não terem atrofiado.
Terminou de amarrar Dave, fingindo uma confiança que na verdade
não tinha — os cabos eram grossos e duros; eram difíceis de se manipular,
e ela não sabia ao certo quanto tempo ficariam no lugar. Depois de fazer o
melhor que podia, se afastou.
John olhou ao redor, como se procurasse algo, e então saiu pela porta
sem dizer uma palavra.
Carlton estava de joelhos, e foi andando em direção a Dave sem se
levantar, arrastando os joelhos de modo desajeitado e instável – parecia
estar prestes a cair a qualquer momento.
— Bom dia, flor do dia — sussurrou.
— Pode deixar com a gente, Carlton; obrigada. Só senta e descansa.
— Ela virou o olhar para Jessica, depois voltou a atenção para Dave
novamente, batendo de leve em seu rosto, mas ele continuou inerte. — Ei,
babacão. Acorda. — Ela deu outro tapa.
— Aqui, tenta isso. — John reapareceu com uma lata cheia d’água.
— Bebedouro. — Foi a única explicação que ofereceu. — A lata estava
meio furada — acrescentou.
— Tudo bem — disse Charlie. Pegou o recipiente e o segurou sobre
a cabeça de Dave, deixando os filetes de água escorrendo dos buraquinhos
caírem em seu rosto. Mirou na boca,
e, após alguns momentos, ele engasgou e tossiu, abrindo os olhos.
— Ah, que bom, você acordou — disse Charlie, e derramou o resto
da água em sua cabeça.
Ele não disse nada, mas seus olhos permaneceram abertos em um
olhar rígido e pouco natural.
— Então, Dave — disse ela — Que tal contar pra a gente o que está
acontecendo?
Sua boca se abriu de leve, mas nenhuma palavra foi dita. Após um
momento, ele voltou a ficar imóvel, tão imóvel que Charlie, mesmo
relutante, pressionou os dedos em seu pescoço para sentir a pulsação.
— Ele está vivo? — disse John, assustado pelo que parecia um
cadáver animado que ora ligava, ora desligava. Aproximou-se do homem,
ajoelhando-se para ficar cara a cara, e o encarou sério, procurando alguma
coisa.
— A pulsação está normal — informou Charlie. Tirou a mão, mais
assustada com aquilo do que se ele estivesse de fato morto.
— Charlie, tem algo diferente nele — disse John, desesperado.
Segurou o rosto de Dave pelo queixo, virando sua cabeça de um lado para
outro. Dave não resistiu, apenas continuou fitando o vazio, inexpressivo,
como se o mundo ao seu redor não estivesse lá.
— Como assim? — disse Charlie, embora também houvesse notado.
Era como se o guarda, o homem que tinham conhecido, tivesse sido
esvaziado, e o que estava diante deles não passasse de um quadro em
branco.
John balançou a cabeça e soltou o queixo do guarda, limpando as
mãos nas calças. Levantou-se e recuou, tomando distância dele.
— Não sei — disse. — Mas tem alguma coisa diferente.
— Por que você não nos conta sobre as crianças? — Carlton estava
encostado na parede, encorajado pela situação, mas não completamente
estável. — As crianças que você matou e enfiou dentro daquelas fantasias.
— Carlton apontou para o palco lá fora.
— Carlton, cala a boca — disse John, com raiva. — Isso que você
está dizendo não faz sentido nenhum.
— Não, é verdade — murmurou Charlie. John olhou para ela,
intrigado, e depois se virou para os outros, que não tinham mais respostas
que Charlie. Olhou de volta para Dave com uma expressão de nojo
renovado. Vendo o rosto de John, Charlie sentiu um súbito peso da
memória. Michael, que um dia fora um menininho alegre, despreocupado.
Michael, que fazia desenhos de todos eles, entregando-os com orgulho
solene. Michael, que tinha sido assassinado, cujos últimos momentos
deveriam ter sido cheios de dor e terror. Michael, que fora morto pelo
homem diante deles. Ela olhou para os outros, e no rosto de cada um, viu o
mesmo pensamento: esse foi o homem que matou o Michael.
Sem aviso, John ergueu o braço e, com a rapidez de um trovão,
golpeou o maxilar de Dave, num estalo terrivelmente alto. Dave foi lançado
para trás e John tropeçou, quase tombando com o impacto da pancada. John
se recompôs e colocou o peso nos calcanhares, alerta, aguardando uma
reação, ou uma chance de atacar outra vez. O corpo de Dave se ergueu
novamente, ajeitando-se, mas o movimento foi suave demais: parecia não
ter feito qualquer esforço, não ter usado nenhum músculo, não ter gastado
nada de energia. Devagar, sua postura se corrigiu, voltando a ficar frouxo e
meio recurvado, a boca entreaberta.
Carlton cambaleou para frente.
— Toma essa, cuzão! — Ele golpeou o ar com o braço e cambaleou.
Jessica deu um pulo à frente a tempo de segurá-lo com os braços.
Dave continuava com o olhar vidrado, e foi apenas depois de um
tempo que Charlie começou a considerar a ideia de que ele realmente podia
estar fitando alguma coisa. Virou-se, seguindo seu olhar, e se retraiu de
súbito. Na mesa encostada na parede estava a cabeça de um coelho.
— É aquilo? Você quer aquilo? — Charlie se levantou e se
aproximou da máscara. — Você precisa disso? — acrescentou, em um
murmúrio. Pegou-a com cuidado, a luz refletindo nas beiradas das travas de
mola dentro da cabeça da mascote. Carregando-a consigo, a levou de forma
quase cerimoniosa até Dave, que inclinou a cabeça para baixo em um
movimento quase imperceptível.
Charlie a encaixou em sua cabeça, nem de longe tão cuidadosa
quanto fora com Carlton. Quando a cabeça da mascote já estava
posicionada sobre seus ombros, o grande focinho se levantou até estar
quase que completamente ereto. Os olhos de Dave se abriram, anuviados e
sem emoção, como os dos robôs no palco lá fora.
Gotas de suor começaram a escorrer de debaixo da máscara, uma
mancha escurecendo a gola da camisa de seu uniforme.
— O meu pai confiava em você — disse Charlie. Ela agora também
estava de joelhos, fitando o rosto do coelho, concentrada. — O que foi que
você fez com ele? — Sua voz falhou.
— Eu o ajudei a criar. — A voz vinha de dentro da máscara, mas não
era a de Dave, não era o tom patético e amargo de que se lembravam. A
voz do coelho era doce e rica, quase musical. Era confiante, de alguma
forma tranquilizadora: uma voz que poderia convencê-lo de quase qualquer
coisa. Dave deixou a cabeça pender para o lado, e a máscara se deslocou de
modo que apenas um dos olhos bulbosos pudesse espiar pela cavidade.
— Nós dois queríamos amar — disse em seu tom melodioso. — O
seu pai amou. E agora, eu amei.
— Você matou — disse Carlton, depois explodiu em algo que se
assemelhava a uma risada. Parecia mais lúcido, como se a ira estivesse
fazendo sua mente entrar em foco. Soltou-se das mãos de Jessica e se
ajoelhou no chão. — Você é um filho da puta doente — cuspiu. — E o que
criou foram monstros. As crianças que você matou continuam aqui. Você
as aprisionou!
— Elas estão em casa, comigo. — Conforme falava, a voz de Dave
saía rouca, e a grande cabeça do coelho escorregou para frente, oscilante.
— O dia mais feliz da vida delas.
— Como a gente sai daqui? — Charlie levou a mão à cabeça da
fantasia e a empurrou para trás, posicionando-a de volta sobre os ombros de
Dave. O pelo lhe pareceu úmido e pegajoso, como se a própria fantasia
estivesse suando.
— Não tem mais saída. Só resta família. — O olho redondo
reapareceu por trás de uma das cavidades, reluzindo diante da luz. Encarou
Charlie por um segundo, se esforçando para se inclinar para frente, mais
para perto. — Ah... — disse ele, arquejando, dentre o que parecia ser
surpresa. — Você é mesmo uma gracinha, não é?
Charlie se retraiu como se tivesse sido tocada por ele. O que ele quer
dizer com isso? Recuou mais um passo, lutando contra uma onda de
repulsa.
— Bom, então você também está preso aqui e não vai mais machucar
ninguém — disse John, respondendo à ameaça velada.
— E nem preciso — retrucou Dave. — Quando escurecer, eles vão
despertar; os espíritos das crianças vão acordar. Vão matar vocês. Vou
simplesmente ir embora pela manhã, passando por cima dos cadáveres de
vocês, um a um. — Olhou para os quatro, um de cada vez, como se
estivesse se deleitando com a ideia.
— Também vão matar você — disse Jessica.
— Não, estou bem confiante de que vou sobreviver.
— Ah é? — disse John, de súbito. — Tenho quase certeza de que
essas são as almas das crianças que você matou — falou como se estivesse
cuspindo as palavras no guarda. — Por que iam querer machucar a gente?
É de você que elas estão atrás.
— Elas não se lembram — disse Dave. — Esqueceram. Os mortos
esquecem. Tudo o que sabem é que vocês estão aqui, tentando tirar delas o
dia mais feliz que já tiveram. Vocês são intrusos. — Abaixou a voz para
um sussurro. — Vocês são adultos.
Olharam uns para os outros.
— A gente não é... — começou Jessica.
— Já estão quase lá. Especialmente aos olhos de crianças vingativas,
confusas e apavoradas. Nenhum de vocês vai sobreviver a esta noite.
— E o que faz você ter tanta certeza de que não vão matá-lo? —
repetiu John, e os olhos de Dave adquiriram uma espécie de brilho quase
beatífico.
— Porque eu sou um deles — disse.
CAPÍTULO DOZE

Permaneceram todos olhando para o sujeito no chão. Jessica recuou


involuntariamente. Charlie estava colada no lugar — não conseguia desviar
o olhar dele. Porque eu sou um deles. Como se pudesse ler seus
pensamentos, John se aproximou dela.
— Charlie, ele é maluco — murmurou, e foi o bastante para tirá-la
daquele estado temeroso e estático. Ela se voltou para John.
— Temos que sair daqui — disse ela. Ele assentiu, se virou para o
grupo e levou o walkie-talkie aos lábios.
— Vou voltar para a sala de controle — disse. — Essas coisas são
rádios da polícia, deve ter um jeito de se comunicar com alguém lá fora.
Talvez eu consiga usar os equipamentos de lá para conseguir um sinal de
alguma forma.
— Eu vou com você — disse Charlie, na mesma hora, mas ele
balançou a cabeça.
— Você precisa ficar com eles — disse, em um tom quase inaudível.
Charlie olhou para Jessica e Carlton. Ele estava certo. Carlton precisava de
alguém a seu lado, e Jessica... Jessica estava conseguindo se controlar, mas
não podia ser deixada sozinha encarregada da segurança dos dois. Charlie
assentiu.
— Toma cuidado — disse ela.
Ele não respondeu — ao invés disso, apenas prendeu o walkie-talkie
no cinto, deu uma piscadela e saiu.

Clay Burke estava em seu escritório, revisando os arquivos de casos


da semana. Não havia muita coisa: multas de trânsito, dois pequenos furtos
e uma confissão do assassinato de Abraham Lincoln. Clay folheou a
papelada e suspirou. Balançando a cabeça, abriu a última gaveta de sua
mesa e tirou o arquivo do caso que o perturbara a manhã toda.
Freddy’s. Fechou os olhos, e lá estava ele outra vez, o alegre
restaurante familiar, o chão manchado de sangue. Depois que Michael
desapareceu, passara a trabalhar catorze horas por dia, muitas vezes
dormindo na delegacia. Toda vez que voltava para casa, ia logo dar uma
olhada em Carlton, que normalmente já estava dormindo. Queria abraçar o
filho, mantê-lo bem perto e nunca mais soltar. Podia ter sido qualquer uma
das crianças que estavam lá aquele dia; fora por pura sorte, cega e estúpida,
que o assassino poupara seu filho.
Na época, havia sido o primeiro homicídio com que o departamento
tivera que lidar. Trabalhavam apenas dezesseis pessoas na delegacia, que
em geral cuidavam de furtos e queixas de baderna, e receber um caso de
assassinato tão horripilante fez com que todos se sentissem como
criancinhas cujas armas de brinquedo de repente viraram armas de verdade.
Clay abriu a pasta, já sabendo o que encontraria. Era apenas um
relatório parcial — o restante estava em um depósito no porão. Passou os
olhos por aquelas palavras tão familiares, a linguagem burocrática que
tentava, sem sucesso, obscurecer a verdade: nenhuma justiça fora feita. Às
vezes os culpados acabam se safando mesmo tendo cometido atos terríveis,
mas esse é o preço que pagamos, tinha dito a Charlie. Retraiu o rosto de
leve, pensando em como aquilo devia ter soado, ainda mais para ela, dentre
todas as pessoas.
Tirou o telefone do gancho, ligando para a recepção dentre uma
terrível sensação de urgência, em vez de andar seis metros até lá para fazer
a pergunta pessoalmente.
— O Dunn já deu notícias sobre a Freddy’s? — perguntou, antes
mesmo que a policial do outro lado da linha pudesse falar qualquer coisa.
— Não, senhor — disse ela. — Vou...
Desligou o telefone, sem esperar que ela terminasse. Clay ficou
olhando para a parede, inquieto, durante um longo momento, então pegou
sua caneca de café e foi para o porão da delegacia.
Não precisou procurar pela caixa de evidências dos
desaparecimentos na Freddy’s — já estivera lá antes. Não havia ninguém
por perto, então, em vez de levar tudo para o escritório lá em cima, Clay se
sentou no chão de concreto, espalhando à sua volta os papéis e as fotos.
Havia entrevistas, testemunhos; relatórios de policiais que estiveram na
cena do crime, inclusive do próprio Clay. Folheou tudo, sem saber muito
bem aonde queria chegar; não sabia o que estava procurando. Não havia
nada de novo ali.
Na verdade, não havia nada para encontrar. Já sabiam quem era o
culpado. A princípio, havia suspeitado de Henry, como tantos outros na
cidade. Era algo terrível de se pensar, mas tratava-se de um crime
terrível — não haveria uma solução que não fosse chocante. Não havia sido
ele o responsável pelo interrogatório do pai de Charlie, mas havia lido a
transcrição. O sujeito falava de uma forma quase que incoerente, estava tão
abalado que era incapaz de dar respostas diretas. Soava como se estivesse
mentindo, e, para a maioria das pessoas, aquilo era prova o suficiente. Mas
Clay não se convencera e atrasara a prisão, até que, por fim, chegaram a
William Afton, o sócio de Henry. Afton parecia ser a parte mais normal da
sociedade, o executivo. Henry era o artista — estava sempre no mundo da
lua, uma parte de sua mente sempre pensando em suas criaturas mecânicas,
mesmo enquanto conversava com alguém sobre o clima ou as partidas de
futebol das crianças. Henry era meio estranho, sempre um pouco aturdido;
parecia um milagre que tivesse gerado uma criança aparentemente tão
normal quanto Charlie.
Clay se lembrava de quando Henry chegou à cidade e começou a
construção do novo restaurante. Ouviu de alguém que o filho dele tinha
sido sequestrado alguns anos antes, mas não sabia mais detalhes. Parecia
um homem decente, embora claramente solitário, seu sofrimento visível
para qualquer um. E, quando a Freddy Fazbear’s Pizza foi inaugurada, a
cidade se encheu de vida. Foi na mesma época que Charlie apareceu. Até
aquele dia, Clay não sabia que Henry tinha uma filha.
William Afton, por sua parte, foi quem fez da Freddy’s um negócio,
assim como fizera com o restaurante anterior. Afton era tão robusto e
vigoroso quanto Henry era discreto e taciturno. Era um homem forte, com a
mesma face corada e a simpatia de um Papai Noel que sabia lidar com
finanças. E tinha matado aquelas crianças. Clay sabia — todo o
departamento de polícia sabia. Ele estivera presente durante todos os
sequestros, mas desaparecia misteriosamente, ainda que por pouco tempo,
quando as crianças sumiam. Em uma busca em sua casa, encontraram um
cômodo entulhado de caixas com peças mecânicas e uma fantasia de coelho
amarela mofada, pilhas de diários preenchidos com sua paranoia
desenfreada e trechos sobre Henry cheios de uma inveja insana que beirava
a idolatria.
Mas não havia provas, não havia corpos, então não poderia haver
uma acusação. William Afton deixou a cidade, e não havia nada que
pudesse impedi-lo. Nem mesmo sabiam aonde tinha ido. Clay pegou uma
foto da pilha; tinha sido retirada, com moldura e tudo, da parede do
escritório de Henry no restaurante. Uma foto dos dois juntos, Henry e
William, sorrindo para a câmera diante da recém-inaugurada Freddy
Fazbear’s. Ficou examinando a imagem — já havia feito isso muitas vezes
antes. Os olhos de Henry não eram alegres como seu sorriso; a expressão
parecia forçada. Mas era sempre assim; não havia nada de estranho ali, só
que um daqueles homens se revelara um assassino.
De repente, Clay notou um detalhe tão ínfimo, tão indistinto que
havia passado despercebido até então. Fechou os olhos, deixando a mente
vagar feito um cachorro sem coleira: vamos lá, pense. Havia algo a respeito
de William, algo familiar, algo recente. Clay abriu os olhos de repente.
Enfiou a papelada de volta na caixa às pressas, jogando tudo lá dentro sem
cuidado, ficando apenas com a foto. Segurando-a bem firme, subiu a
escada de dois em dois degraus, quase correndo quando chegou ao piso
principal da delegacia. Foi direto para um gaveteiro em particular,
ignorando os cumprimentos assustados dos outros policiais. Abriu a gaveta
do arquivo e foi passando as mãos pelas pastas até que... Lá estava: as
verificações de antecedentes para contratação solicitadas por empresas nos
últimos seis meses.
Puxou a pilha para fora, apenas cinco arquivos, e a folheou, em
busca de fotos. No terceiro arquivo, encontrou. Pegou uma das fotos e a
segurou ao lado da foto de Henry e William, se virando para que o corpo
não bloqueasse a luz.
É ele.
O formulário de antecedentes estava etiquetado com o nome “Dave
Miller”, mas era, sem sombra de dúvida, William Afton. Afton costumava
ser um sujeito gordo e amigável — o homem na imagem era amarelado e
magro demais, com a pele flácida e uma expressão desagradável, como se
tivesse se esquecido de como sorrir. Parecia uma cópia malfeita de si
mesmo. Ou talvez, ponderou Clay, parecia ter se desfeito do antigo
disfarce.
Clay virou a página para ver por que a verificação havia sido
solicitada e sentiu a cor se esvaindo do rosto, sua respiração parando por
um momento. Clay se levantou, pegando a jaqueta num só movimento, mas
então parou. Devagar, voltou a se sentar, deixando a jaqueta escapulir por
entre os dedos. Tirou o arquivo parcial da gaveta e, com toda a delicadeza,
pegou uma das fotos de dentro. Fora tirada logo depois do incidente,
quando o lugar não passava de uma cena de crime. Parou por um momento
e fechou os olhos, então voltou a olhar para a foto, se forçando a vê-la
como se fosse a primeira vez.
Havia um leve reflexo de luz que nunca houvera notado antes. Um
dos animatrônicos no palco, o urso, Freddy, olhava diretamente para o
fotógrafo, com um dos olhos acesos em meio a um borrão de luz.
Clay passou para a foto seguinte. Esta havia sido tirada de um ângulo
diferente, mas a lateral do palco continuava em foco. O corpo de Chica
estava virado para o outro lado, mas o rosto estava voltado diretamente
para a câmera, e outro borrão de luz parecia iluminar seu olho esquerdo.
Clay o esfregou com o dedo para se certificar de que não era defeito do
papel. A próxima foto mostrava Bonnie no escuro atrás das cadeiras. Um
pontinho de luminosidade, semelhante ao brilho de uma estrela, reluzia em
um dos olhos, como se estivesse refletindo um holofote que não existia.
O que é isso? Clay podia sentir que o rosto estava quente — não
havia notado que tinha prendido a respiração. Moveu as mãos pela mesa
como se fosse um feiticeiro conjurando a aparição de mais uma foto.
Funcionou. A última foto havia sido tirada na Baía Pirata. As mesas haviam
sido retiradas do lugar, recordou. A cena era caótica: mesas e cadeiras
bagunçadas, um monte de coisas espalhadas pelos corredores. Mas, ao
contrário das tantas outras vezes em que olhara para aquela imagem, ele
ignorou a confusão, concentrando-se apenas no palco.
A cortina estava aberta apenas por uma fresta, uma figura
parcamente visível em suas reentrâncias, um dos olhos iluminado pelo flash
da câmera. Clay examinou as outras fotos, procurando mais reflexos, mas
não encontrou nenhum. Não tinham sido tiradas com flash.

Jason abriu os olhos. Sua perna doía; era uma dorzinha chata e
contínua. Tentou flexionar os músculos e percebeu que conseguia movê-la
tranquilamente — não devia ser nada muito grave. Estava deitado numa
superfície irregular, e seu corpo inteiro parecia rígido e tenso, como se
tivesse adormecido sobre uma pilha de — ele parou para olhar onde estava
deitado — uma pilha de fios e extensões. Ele se sentou. Estava escuro, mas
dava para ver um pouco do que havia ao seu redor. Ele se debruçou para
examinar a perna: sua calça estava rasgada no ponto onde a garra de Foxy o
havia atingido, e o corte em sua perna estava feio, embora não estivesse
sangrando muito. O gancho tinha sido fincado mais no tecido do que na
carne. Jason se sentiu levemente aliviado.
Satisfeito, começou a examinar os arredores. Estava em um canto, e
havia uma cortina preta e pesada que ia de uma parede a outra, separando-o
por completo do salão lá fora. Ele foi engatinhando cuidadosamente por
cima dos cabos, procurando não fazer barulho. Chegou até a beira da
cortina, onde havia uma fresta iluminada entre o pano e a parede. Jason
parou por um instante para se acalmar e então espiou do outro lado,
consciente de cada movimento.
Estava no pequeno palco da Baía Pirata, atrás da cortina dos fundos.
Ouvia alguma coisa se movendo lá fora, algo grande, mas do ponto onde
estava, tudo o que conseguia ver era uma sala vazia. Colocou a cabeça um
pouco mais para fora, esticando o pescoço para ver melhor. Não conseguia
identificar de onde vinha o barulho, mas ia se sentindo mais destemido a
cada segundo, preparando-se para pular do palco e sair correndo. Uma luz
piscava na sala de jantar, iluminando o corredor de poucos em poucos
segundos. Não era muito, mas dava a Jason uma noção de onde ir.
Ficou olhando atentamente para seu destino até que tornasse a única
coisa a sua vista, e então a luz parou. O cômodo ficou escuro, mais escuro
do que antes — seus olhos tinham se adaptado à luz e agora ele estava
quase cego. O barulho de movimento persistia, e Jason puxou a cortina
para abri-la ainda mais. Dessa vez, puxou muito rápido, e os aros de metal
que a prendiam se chocaram com um tilintar.
A luz acima da Baía Pirata se acendeu.
Foxy estava lá, bem na frente dele, o rosto tão próximo ao de Jason
que os dois quase se tocaram. Jason cambaleou de volta para trás da cortina
e a fechou novamente, tentando fugir da pequena alcova, mas não havia
para onde ir. Engatinhou de costas até a parede e ficou ali, encolhido,
esperando que a cortina, de alguma forma, pudesse protegê-lo de Foxy.
De uma só vez, a cortina começou a se abrir, não à força, mas como
se um espetáculo estivesse prestes a começar. Luzes e cores cintilavam em
uma coreografia silenciosa, e as cortinas brilhantes se abriram com estilo
para revelar o palco e a fera aguardando pacientemente logo em frente.
Foxy inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse levando algo
em consideração, e então começou a se aproximar. Subiu as escadas do
palco, um degrau por vez, cada passo formado por uma série de
movimentos desconjuntados, como se cada peça do corpo de metal se
movesse individualmente. Jason apenas observava, completamente
horrorizado, embora uma pequena parte sua estivesse fascinada — nunca
tinha visto nada parecido. Foxy chegou ao palco e deu mais dois passos
largos, até estar parado bem na frente de Jason. Jason o encarou, apavorado
demais para se mexer, paralisado feito um camundongo à mercê de um
falcão mergulhando para capturá-lo. Sua respiração estava fraca, o coração
batia tão depressa que seu peito doía. Foxy ergueu o gancho novamente, e
Jason se jogou no chão, encolhido, protegendo a cabeça com os braços,
esperando pelo golpe.
Mas o golpe não veio.
Jason não se mexeu. Ficou esperando e esperando, perguntando-se se
o tempo havia desacelerado conforme se aproximava do momento de sua
morte, a mente tentando lhe dar refúgio ao prolongar seus últimos
momentos o máximo possível. Mas aquilo já era demais. Abriu os olhos e
virou um pouco a cabeça, mantendo os braços diante do rosto. Foxy
continuava lá, imóvel. Involuntariamente, Jason fitou os olhos da criatura.
Era como encarar o sol — o olhar ardente de Foxy fez com que os olhos de
Jason lacrimejassem, fez com que ele quisesse virar o rosto, mas não
conseguia. Foi o animatrônico que desviou o olhar. Enquanto Jason o
observava através de sua visão anuviada, Foxy virou o focinho para encarar
a plateia ausente. Deixou o gancho cair lentamente ao lado do corpo, a
cabeça inclinada para a frente, e ficou imóvel. Os zumbidos de motor e os
cliques mecânicos pararam, e as cortinas se fecharam outra vez.

— Pronta? — disse Lamar. Marla assentiu, seca.


— Pronta — disse ela. Abriu a porta de repente, os punhos cerrados,
e os dois saíram da sala, virados para direções opostas, prontos para o
ataque. Marla estava com a respiração pesada, o rosto furioso. A escuridão
era densa, quase tangível, e ela mal conseguia enxergar o que havia ao seu
redor. Conseguir enxergar Lamar, mas bastaria se afastarem um pouco para
se perderem um do outro. As lâmpadas acima piscaram, mas apenas por um
momento; a iluminação repentina arruinou o processo de adaptação da vista
deles, tornando a escuridão impenetrável.
— Tem alguma coisa do seu lado? — sussurrou Marla. Lamar olhou
na direção da voz dela, tenso.
— Não, alguma coisa do seu?
— Luz, por favor — murmurou ela. Lamar ergueu a lanterna como
se estivesse mirando uma arma e a acendeu. Acima de suas cabeças, as
lâmpadas tremeluziam.

Jason podia ver a lanterna indo de um lado para o outro, filtrada pela
cortina um tanto quanto transparente. Essa não. O facho de luz iluminou o
animatrônico, apenas por um momento, e um clique metálico ecoou pela
sala. Jason ergueu o olhar. Foxy não estava se mexendo. A luz passou por
ele outra vez, e mais cliques mecânicos foram emitidos, dessa vez
incontestáveis, embora a criatura continuasse parada. Jason se arrastou para
a frente, dando a volta nos pés de Foxy, e olhou para cima, para o rosto do
animatrônico, quando a luz o iluminou novamente. Mais uma vez, o clique
mecânico ecoou — algo dentro dele estava se preparando, mas os olhos
permaneciam apagados. Jason engatinhou para a frente o máximo que
conseguia arriscar, tentando não entrar no campo de visão de Foxy. Chegou
à beira da cortina e enfiou o braço para fora, tentando acenar para advertir
os outros.
— Jason! — Ouviu a voz da irmã, seguida de um rápido “shhh” que
supôs ser de Lamar. O facho de luz foi mais para cima, apontado para o
palco, e os olhos de Foxy se acenderam. A cabeça se virou na direção da
luz com precisão predatória, e Jason, em pânico, pegou um dos cabos na
pilha de fios ao seu redor. Foxy levantou o pé e Jason envolveu sua perna
mecânica com o cabo, puxando com toda a força. Foxy caiu para a frente,
agarrando a cortina com o gancho, que ficou preso ao tecido, segurando-o
no lugar, até que a criatura rasgou a cortina com um barulho terrivelmente
alto, caindo no chão em meio a uma confusão de pano e membros
metálicos. Jason saiu correndo para longe da criatura que se debatia, indo
em direção à luz.
Marla estendeu a mão para ele, mas ele passou direto.
— Corre — gritou, ofegante, e os três dispararam pelo corredor.
Viraram uma curva e, como se fossem um só, os três pararam, Jason
escorregando atrás de Lamar e se agarrando a ele para manter o equilíbrio.
No outro extremo do corredor escuro, outra figura se assomava diante
deles, grande demais para ser uma pessoa. A cartola era
inconfundível. Freddy Fazbear.
Seus olhos se iluminaram, o brilho intenso tomando o espaço a sua
volta. Podiam ouvir as frágeis notas de uma melodia mecânica e indistinta,
como a de uma caixa de música, vindas da direção de Freddy. Ficaram
olhando, hipnotizados, até que Jason se recompôs e puxou o braço de
Marla.
— Vamos — sibilou, e os outros o seguiram, correndo de volta por
onde tinham vindo. Quando chegaram à Baía Pirata, desaceleraram; Foxy
tinha se soltado da cortina e estava começando a se ajeitar. Os três trocaram
olhares e passaram correndo por ele; Jason segurou o fôlego enquanto até
chegarem ao próximo corredor, invocando uma velha superstição.
Lamar apontou para um dos salões de festa e todos mergulharam
porta adentro. Ele desligou a lanterna, e ficaram parados por um momento,
os olhos se adaptando. A sala tinha três mesas compridas, do tipo que se
usa em lanchonetes, todas ainda postas para uma festa: as cadeiras
dobráveis de metal estavam todas alinhadas ao seu redor, e para cada
assento havia um chapeuzinho, copo e prato descartáveis. Em um acordo
silencioso, cada um deles se escondeu debaixo de uma mesa diferente, o
que lhes garantia o máximo de espaço possível. Ficaram abaixados,
esperando que não fossem vistos entre os pés das cadeiras, e ficaram
juntos, olhando o corredor vazio e ouvindo atentamente.

— Alô? Alguém na escuta? — repetiu John pelo rádio, mas só


recebeu estática em resposta. Tinha conseguido conectar o walkie-talkie ao
sistema de som, mas captar sinal de fora parecia impossível: a Freddy’s
estava isolada do mundo. Olhou para os monitores novamente; em uma das
telas, viu três figuras escondidas debaixo das mesas. Marla, Lamar e
Jason, pensou. Eles encontraram o Jason, imaginou, profundamente
aliviado, soltando uma tensão que nem percebeu que estava sentindo. Tudo
nas telas estava iluminado em tons artificiais de cinza e branco.
— Devem ser câmeras de visão noturna — comentou consigo
mesmo, estreitando os olhos para enxergar através da estática. Viu as
figuras borradas engatinharem e pararem debaixo das longas mesas de
festa, e foi então que uma movimentação em outra tela lhe chamou a
atenção.
Havia uma figura no corredor, seguindo em passos firmes para a sala
onde eles estavam. John não conseguia identificar do que se tratava, mas a
forma como se movia não era humana. A coisa parou ao lado de uma porta,
e, com um choque de compreensão, John olhou outra vez para o salão de
festas no qual seus amigos estavam escondidos. Pegou o walkie-talkie e
mudou para o canal de comunicação com as caixas de som, aumentando o
volume ao máximo.
— Lamar — disse com toda a calma, tentando imprimir um tom de
comando, e ouviu a reverberação da própria voz pelas paredes da sala de
controle. — Lamar, não se mexa.

A voz de John explodiu nas caixas de som, distorcidas pela estática,


mas compreensível.
— Lamar, não se mexa.
Lamar, Marla e Jason trocaram olhares em meio ao espaço que
separava suas mesas. O salão se iluminou com um brilho azulado, e
ficaram olhando, tão imóveis quanto possível, enquanto Freddy Fazbear
entrava. Os movimentos eram mecânicos e rígidos, e ele avançou com
passos cautelosos até o centro da sala, parando entre duas mesas — Marla
de um lado, Jason do outro. Jason olhou para a irmã, que levou um dos
dedos aos lábios. Jason não havia reparado até então que as lágrimas
escorriam por suas bochechas.
Ficou olhando enquanto Freddy examinava o salão; sua cabeça, com
os olhos que mais pareciam holofotes, virava para um lado, parava em
meio a um clique mecânico, e então se voltava para o outro. Houve uma
longa pausa. Os dois pés peludos estavam imóveis, as pernas pareciam
árvores negras em uma floresta. Ouviram o ruído de pelo e tecido se
dobrando, e o pé começou a virar. Freddy deu meia-volta e seguiu em
direção à porta, cada passo fazendo o chão estremecer. Quando Freddy
passou por ele, Jason se encolheu instintivamente, seu pé atingindo uma
das cadeiras de metal. O impacto fez um estardalhaço. O coração de Jason
acelerou. Em pânico, ele olhou para Marla, que gesticulava para ele,
desesperada.
Freddy havia parado, mas eles ainda ouviam o barulho do tecido e da
pelagem. Freddy começou a se abaixar para olhar em baixo da mesa. Seus
movimentos eram lentos, e, naqueles segundos preciosos, Jason empurrou
duas das cadeiras na frente dele, abrindo espaço para escapar por trás de
Freddy e ir para debaixo da mesa de Marla. A luz dos olhos de Freddy
surgiu por baixo da mesa, iluminando o espaço ao lado de Jason, e ele
passou engatinhando por entre as cadeiras às pressas, sem fazer barulho,
avançando pelo espaço que Marla havia aberto para ele. Freddy se levantou
novamente, examinando o chão bem no instante em que Jason puxava o pé
para escondê-lo.
Freddy começou a dar meia-volta, na direção da mesa onde estavam
os dois irmãos. Marla tocou o braço de Jason com a mão, na tentativa de
tranquilizá-lo. Houve outra pausa. Lamar, embaixo da mesa mais adiante,
gesticulava para Marla e Jason, chamando-os para lá, para longe de Freddy.
Marla balançou a cabeça — não queria correr o risco de fazer mais
barulho. Talvez ele esteja saindo, disse a si mesma. Jason já estava
começando a respirar normalmente quando eles repararam: Freddy estava
se abaixando novamente, mas dessa vez em completo silêncio. Os olhos
tinham se apagado, mas assim que eles o viram, o olhar se acendeu outra
vez, iluminando o cômodo. Marla e Jason deram a volta nas cadeiras de
metal, aos tropeços, avançando o mais rápido possível sem encostar em
nenhuma. Foram engatinhando pelo carpete fino dentre as mesas até
alcançarem uma abertura em meio às cadeiras e rastejaram para debaixo da
mesa, ao lado de Lamar. Marla e Lamar olharam um para o outro, perdidos;
Freddy estava se erguendo novamente, e começou a dar a volta até a
terceira mesa.
— Temos que correr até a porta — sussurrou Marla. Lamar assentiu
e gesticulou para que os outros o seguissem. Ficou olhando, esperando que
Freddy começasse a se abaixar outra vez, e indicou a mesa do meio. Os três
prenderam a respiração, tentando não fazer barulho, e Lamar olhou para
porta: será que conseguiriam? Marla colocou a mão no ombro de Jason,
que começou a afastá-la, mas ela o segurou com firmeza, os dedos
afundando na carne. Ele se sacudiu para se soltar, mas então olhou para ela;
Marla estava aterrorizada, ainda mais do que ele. Jason deixou que ela o
segurasse enquanto mantinha os olhos vidrados em Freddy, esperando a
próxima oportunidade.
Não houve uma. Enquanto aguardavam, prontos para fugir, Freddy
deu meia-volta, seus passos deliberados guiando-o até a porta. O salão
ficou escuro, e Jason sentiu o coração pular, até entender o que havia
acontecido: as luz tinham ido embora pois Freddy tinha ido embora.
— Marla — sussurrou ele, a voz pouco mais que um suspiro. — Ele
se foi. — Marla olhou para ele e assentiu, mas não soltou seu ombro.
— Você está bem? — perguntou ela, no mesmo tom quase inaudível.
Ele assentiu, depois apontou para a perna e deu de ombros, em um
movimento exagerado. Ela abriu um sorriso e tirou a mão de seu ombro
para afagar seus cabelos.
De repente, Lamar cutucou o braço de Marla, chamando sua atenção.
Apontou para a própria orelha, e ela lhe lançou um olhar confuso. Jason
ficou tenso, entendendo o que Lamar estava querendo dizer, e, depois de
um segundo, Marla também compreendeu. Havia uma melodia na sala, o
som suave e artificial de uma caixa de música, as pausas entre as notas um
pouco longas demais. O cômodo se iluminou novamente e, antes que
pudessem se mexer, a mesa foi arrancada do chão, e Freddy estava de
volta, parado diante deles. Ele jogou a mesa para o lado, quase
arremessando-a. Os três gritaram, um urro primitivo e gutural — não era
um grito de socorro, e sim um último ato de desafio inútil. Jason se agarrou
à irmã, que o abraçou e aninhou sua cabeça contra si mesma, cobrindo seus
olhos para que ele não tivesse que ver o que estava prestes a acontecer.
De repente, Freddy se balançou, perdendo o equilíbrio e tombando
para o lado. Tentou se estabilizar, mas outro golpe por trás o lançou para a
frente, e o urso caiu de cara nas mesas. Marla, Lamar e Jason ergueram o
olhar e viram Charlie e John com os rostos corados pelo esforço.
— Anda — disse Charlie. — Vamos lá.

Dave conseguiu se livrar das amarras rapidamente; os nós estavam


firmes, mas os cabos eram muito folgados e acabaram cedendo — bastou
se contorcer um pouco e logo estava livre. Foi engatinhando até a porta
sobre as mãos e os joelhos e encostou a orelha na fresta, tomando cuidado
para não empurrar a porta e entregar sua posição. Podia ouvi-los
conversando e, embora as vozes estivessem abafada, conseguia entender
algumas das palavras.
— Não... seguros... ir embora...?
Assentiu consigo mesmo, pensando como se pudesse projetar seus
próprios desejos na menina. Ir embora. Sim, ir embora.
A caixa de som soltou um ruído estridente, seguido do barulho pelo
qual estivera aguardando: pessoas correndo.
Ele esperou até que o som de passos estivesse longe e se levantou,
preparado.

— Aonde a gente vai? — disse Marla, ofegante, enquanto corriam na


direção da sala de jantar.
— Para o escritório — respondeu Charlie. — Tem uma porta
decente; dá pra gente se trancar lá dentro. — Ela voltou o olhar para John,
que assentiu com um gesto curto e contido. O que fariam depois de barricar
a sala já era outra questão, mas podiam se preocupar com isso quando já
estivessem em segurança. Atravessaram o salão principal correndo. Charlie
olhou para o palco, que passou em um borrão, mas viu o que já imaginava:
estava vazio.
Chegaram ao corredor estreito que levava ao escritório, e Charlie
sentiu o coração mais leve quando viu a porta, a luz passando pela
janelinha como um farol.
Espera aí, luz?
Ela desacelerou o passo — estavam a poucos metros da porta.
Levantou a mão, sinalizando para que os outros parassem, e todos se
aproximaram da porta devagar. Criando coragem, Charlie segurou a
maçaneta e a girou. Estava trancada. Olhou para os amigos, desamparada.
— Tem alguém aí dentro — murmurou Jason, aproximando-se de
Marla.
— Não tem mais ninguém aqui — disse Marla, com a voz suave,
mas seu tom mais parecia o de uma pergunta. Charlie estava prestes a
tentar abrir a porta outra vez, mas parou. Não chama a atenção deles.
— Ele se soltou! — disse Jessica, a voz rouca, e Charlie sentiu um
calafrio. Ela está certa, pensou. Mas não disse nada.
— Temos que voltar — disse, por fim. Sem esperar resposta, deu
meia-volta e passou entre Lamar e John para assumir a dianteira. Deu dois
passos à frente e parou, congelada, quando ouviu os outros ofegarem,
surpresos.
Era Bonnie.
Estava parado na outra extremidade do corredor curto, bloqueando a
única saída. Seu corpo ocupava todo o espaço — não conseguiriam sequer
passar correndo pelos lados. Charlie olhou para trás, embora já soubesse
que não havia outra saída. Antes que ela pudesse reagir, John disparou em
direção ao animatrônico. Não tinha arma para atacar, mas saltou para cima
da criatura, tentando agarrar seu pescoço. Conseguiu se segurar por alguns
instantes, fazendo força enquanto Bonnie, sem conseguir enxergá-lo, se
debatia e sacudia a cabeça para frente e para trás. Bonnie se debruçou para
a frente e se virou para o lado, atirando John na parede, e John se soltou,
caindo no chão.
— John! — berrou Charlie, e lançou a lanterna para trás, para que
alguém a pegasse. Sentiu o peso deixar suas mãos, mas não olhou para trás
para ver quem havia pegado — ao invés disso, ergueu o olhar. Havia um
cabo elétrico solto balançando sobre suas cabeças, pendurado junto ao teto
baixo. Bonnie avançava devagar. Charlie deu um pulo, mas não conseguiu
chegar alto o suficiente para alcança-lo. Olhou para os lados. Será que é
estreito o bastante? Virou o rosto para Bonnie. Ele vinha se movendo
devagar, os passos muito bem calculados; estavam todos encurralados na
passagem, e a criatura não precisava ter pressa.
Charlie apoiou um pé na parede e esticou uma das pernas ao longo
do corredor estreito, fazendo o mesmo na parede do outro lado.
Equilibrando-se entre as paredes, começou então a escalar. Foi subindo aos
poucos, as pernas tremendo com o esforço; se esticou para cima, tentando
alcançar o fio com cuidado, incapaz de erguer o olhar sem perder o
equilíbrio. Seus dedos finalmente se fecharam ao redor do cabo, e ela se
jogou ao chão no mesmo instante em que Bonnie avançou contra eles.
Charlie deu um salto, brandindo o fio eletrificado diante do corpo, e
o enfiou no espaço entre a cabeça e o corpo de Bonnie. O coelho deu uma
guinada para trás, soltando faíscas, e, por um momento terrível, Charlie não
conseguiu se mexer. Sua mão pulsava com a corrente elétrica e ela ficou
paralisada, sem conseguir fazê-la soltar o fio. Olhou para os dedos,
suplicando para que se abrissem. É assim que eu vou morrer? Lamar a
agarrou e a puxou para longe, quebrando a corrente, e ele o fitou com olhos
arregalados por um instante. Os outros já estavam correndo; Bonnie estava
desativado, ou pelo menos parecia estar, tendo tombado para a frente com
os olhos apagados. Lamar deu um puxão em seu braço, e os dois saíram
correndo atrás dos outros.

Com um sorriso desgostoso, Dave assistiu ao confronto pela janela


na porta do escritório. É só uma questão de tempo, pensou. A garota fora
esperta, escalando as paredes, mas quase acabou se matando. Não
conseguiriam durar muito mais. Tudo o que precisava fazer era esperar.
De repente, a sala se iluminou com um brilho alaranjado. Ele
congelou, e então se virou devagar. Chica. O animatrônico estava de pé
diante dele, perto o bastante para tocá-lo. Dave caiu, batendo as costas na
porta, e gritou.

Ouviram um grito vindo da direção do escritório. O grupo parou por


um minuto e todos trocaram olhares nervosos.
— Não importa — disse Charlie. — Vamos.
Ela deu uma rápida olhada Bonnie; continuava caído de frente,
inerte. Charlie guiou os outros até a sala de jantar. Ao entrarem, se
depararam com um movimento brusco. Foxy estava lá.
Ele saltou para cima de uma mesa diante deles, examinando o grupo
até que seus olhos prateados iluminaram Jason. A criatura se agachou,
como se estivesse se preparando para pular no menino, mas Charlie pegou
um porta-guardanapos e o atirou com toda a força. A coisa atingiu Foxy na
cabeça e saiu quicando, sem fazer muito efeito, mas foi o suficiente para
desviar sua atenção. Ele se voltou para ela e deu o bote.
Charlie já estava correndo, tentando atraí-lo para longe dos outros. E
depois o quê?, pensou enquanto disparava para fora da sala de jantar,
avançando pelo corredor. O fliperama. Era um ambiente escuro; havia
várias coisas atrás das quais poderia se esconder.
Continuou correndo a toda velocidade até alcançar a porta, então se
virou tão depressa que quase caiu, torcendo para deixar Foxy
momentaneamente desorientado. Olhou ao redor, desesperada — viu uma
fileira de máquinas de fliperamas nos fundos da sala, só um pouco
afastadas da parede. Ouviu passos atrás de si e se enfiou ali atrás.
O espaço era tão apertado que ela mal conseguiu se esgueirar lá para
dentro. Sentia o corpo espremido entre as máquinas e a parede, e havia fios
grossos espiralados sob seus pés. Deu um passo para trás, entrando ainda
mais na abertura estreita, mas escorregou em um cabo e quase não
conseguiu evitar uma queda. Um movimento na sala chamou sua atenção, e
vislumbrou um lampejo de luz prateada.
Ele pode me ver.
Charlie se jogou sobre suas mãos e joelhos. Foi engatinhando para
trás, centímetro por centímetro. Seu pé ficou preso em um fio e ela parou,
contorcendo o corpo em uma posição impossível de para desalojá-lo dali
sem fazer barulho. Continuou recuando e, quando o pé topou com outra
parede, parou. Estava encurralada de três lados — quase se sentia segura.
Fechou os olhos por um momento. Nada aqui dentro é seguro.
Ouviu um barulho horrível, um clangor de metal contra metal, e a
última máquina mais distante foi arrancada do chão, batendo contra a
parede. Foxy se debruçou sobre ela e Charlie o viu esmagar a tela,
espalhando estilhaços de plástico por todo o chão. O gancho ficou preso em
alguma coisa dentro da máquina, e ele o puxou para se soltar novamente,
arrancando parte da fiação.
Ele se dirigiu para o próximo console, quebrando a tela e atirando a
máquina na parede com uma brutalidade casual. Charlie sentiu o impacto
reverberar pela parede conforme ele ia se aproximando.
Eu preciso sair daqui, preciso! Mas não havia escapatória. Agora
que estava sentada em um canto, notou como o braço estava dolorido, e só
então olhou para ele; o curativo estava encharcado de sangue — a parede
atrás dela estava manchada com uma trilha vermelha onde seu braço havia
encostado. Teve uma vontade súbita de chorar; o corpo inteiro doía: a
ferida no braço, a tensão constante daquele último ou últimos dias — quem
saberia quanto tempo havia se passado? – aquilo a estava drenando,
tomando-lhe tudo o que tinha.
A máquina seguinte foi atirada contra a parede, e Charlie hesitou:
restavam apenas duas. Ele estava se aproximando dela; podia ouvir as
engrenagens trabalhando, zumbindo, rangendo e às vezes até soltando um
chiado estridente. Ela fechou os olhos, embora ainda conseguisse vê-lo, sua
pelagem suja, os ossos de metal à mostra por baixo da pele, os olhos
prateados brilhando.
A máquina diante dela foi esmagada e atirada pelos ares, jogada
como se não pesasse nada. Os fios de energia sob as mãos e joelhos de
Charlie foram puxados com a máquina, e ela acabou escorregando, sem
conseguir se segurar para recuperar o equilíbrio. Ela se encolheu e ergueu o
olhar, a tempo de ver o balançar descendente de um gancho.
Seu corpo se moveu mais rápido que o cérebro: ela se jogou contra a
última máquina intacta com toda a força, fazendo-a balançar de forma
precária e cair, levando Foxy consigo e prendendo-o no chão. Charlie
começou a correu, mas o gancho a atingiu na perna, cortando a carne. Ela
deu um grito, caindo no chão. Usou o outro pé para chutar a criatura, mas o
gancho estava cravado em sua perna, então cada vez que o afastava com
um chute, podia sentir o impacto. Por fim, ela o chutou no rosto, e ele
acabou se soltando, rasgando completamente sua pele. Ela deu outro grito,
agarrando a ferida instintivamente, e Foxy partiu para cima dela, estalando
o maxilar e agarrando-a com força enquanto tentava livrar as pernas do
peso da máquina. Ela lutou contra a criatura, tentando se afastar. O gancho
a golpeou de novo e de novo, e enquanto tentava bloquear os ataques,
gritava por socorro.
De repente, John apareceu. Parou por cima de Foxy e pisou com
força no pescoço da criatura, mantendo o pé firme. Foxy se debatia, mas
não conseguia alcançá-lo.
— Charlie, levanta! — gritou para Charlie, que o encarou por um
instante, abalada demais para registrar o comando. Ele ergueu e afundou o
pé no pescoço de Foxy de novo e novo, e, com um movimento rápido,
agarrou a mão de Charlie, ajudou-a a se levantar e começou a correr,
puxando-a junto atrás de si. Chegaram à sala de jantar, onde o resto do
grupo se amontoava no centro. Aliviada, Charlie se juntou a eles depressa;
percebera que estava mancando, mas não sentia dor, o que uma parte
distante e enfraquecida de seu cérebro dizia que não era algo bom. Quando
alcançaram os outros, Charlie sentiu o coração afundar. Seus rostos
estavam terrivelmente sombrios. Lamar segurava a lanterna diante de si,
mas o facho de luz balançava em suas mãos trêmulas.
Marla apontou para as entradas: Freddy estava parado diante do
corredor que levava ao depósito, enquanto que Bonnie, reanimado,
bloqueava o caminho para o escritório. Chica estava parada sobre o palco,
ameaçadora. Charlie olhou para o caminho por onde tinham vindo.
Foxy estava se aproximando — havia conseguido se libertar. Parou
na soleira da porta como se aguardasse um sinal. Não havia escapatória. De
repente, muito consciente de tudo a seu redor, Charlie notou o som de uma
caixa de música, como se a tivesse ouvido aquele tempo todo, mas apenas
inconscientemente. Inspirou fundo. O momento pareceu se estender por
uma eternidade. Aquela era a realidade; estavam encurralados. Esperaram.
Era possível que os animatrônicos não tivessem a menos pressa. Charlie
passou os olhos pelo salão, em busca de algum tipo de arma, mas era fútil,
só o que encontrou foram chapéus de festa e pratinhos descartáveis.
Como se fossem um só, os animatrônicos começaram a avançar.
Charlie agarrou as costas de uma cadeira de metal, sem saber exatamente
como poderia usá-la. Os animais se moviam mais rápido agora,
caminhando em união, como se aquela batalha fosse uma dança
coreografada. Marla segurou a mão de Jason e sussurrou algo em seu
ouvido. Fosse o que fosse, ele balançou a cabeça, trincou o maxilar e
cerrou os punhos. Lamar olhou para ele por um momento, mas não disse
nada. As mãos de Jessica estavam rígidas ao lado do corpo, e ela parecia
murmurar algo incompreensível para si mesma. Os animais estavam quase
em cima deles: as notas da caixa de música vinham da direção de Freddy
— de dentro do Freddy, percebeu ela, por fim, conforme o urso se
aproximava com seu caminhar pesado e predatório. Chica pulou do palco e
foi se aproximando com pequenos passos saltitantes, como se estivesse
empolgada mas quisesse se conter. Os grandes pés em forma de pata de
Bonnie batiam no chão, desafiadores, e Foxy avançava com uma graça
malévola, o olhar vidrado em Charlie, como se ela fosse a única coisa que
visse. Ela fitou no fundo daqueles olhos prateados, e eles foram
preenchendo sua visão, sufocando todo o resto, até que o mundo inteiro se
tornasse prateado, até que o mundo se tornasse os olhos de Foxy, e não
restasse mais nada dela própria.
John apertou sua mão, o que quebrou o encanto — Charlie olhou
para ele, a visão ainda anuviada.
— Charlie... — disse ele, hesitante. — ... Charlotte...
— Shhh — disse ela. — Depois. — Ele assentiu, aceitando a mentira
de que haveria um “depois”. Foxy se agachou, e Charlie soltou a mão de
John, o coração martelando no peito enquanto ela se preparava para o
ataque. As juntas mecânicas de Foxy se deslocaram, se preparando para o
salto... e então ele parou. Charlie esperou. Não ouviu berros atrás de si,
nem qualquer som de conflito; até a caixa de música havia se silenciado.
Foxy estava imóvel, embora os olhos permanecessem acesos. Ela olhou ao
seu redor, então finalmente viu.
Era Freddy. Não o que todos conheciam, não o mesmo que esteve a
poucos centímetros de Marla, com a boca aberta pronta para morder. Era o
outro, aquele do qual ela se lembrava, o Freddy amarelo do primeiro
restaurante. A fantasia que seu pai costumava vestir. Estava olhando para
eles, parado no canto, e agora, ela conseguia ouvir. Era um barulho
indistinto, apenas sussurros dentro de sua cabeça, murmúrios delicados que
invadiam sua mente consciente mas não tomavam o controle. Olhou para
os outros e soube que eles também podiam ouvir; apesar de ser
indecifrável, o significado era claro.
Foi Carlton quem finalmente disse:
— Michael.
Os ruídos ficaram mais calorosos, uma confirmação tácita, e, juntos,
eles se aproximaram do urso dourado. Marla passou pelo Freddy marrom
como se ele não estivesse lá, e Charlie virou as costas para Foxy, sem
medo. Havia apenas um pensamento em sua mente: Michael. É você.
Estavam quase chegando até ele; tudo o que Charlie queria era
abraçá-lo, segurá-lo com força e voltar a ser a menininha que um dia fora,
tantos anos antes. Abraçá-lo novamente, aquela criança amada que tinha
sido arrancada de suas vidas em uma tarde tranquila; começar tudo de
novo, e dessa vez resgatá-lo, dessa vez salvar a sua vida.
— Michael — sussurrou.
O urso amarelo continuou parado. Ao contrário dos outros, não
parecia haver nada dentro dele — estava de pé por conta própria, por
vontade própria. Não havia nada que segurasse a boca da fantasia fechada,
e os olhos estavam vazios.
Repentinamente ciente de que tinham dado as costas para os outros
animais, Charlie se virou para trás, apreensiva. Freddy, Bonnie, Chica e
Foxy pareciam desligados, quase como se estivessem de volta a seus
respectivos lugares no palco. Os olhos estavam vidrados em Charlie, mas
tinham interrompido o ataque.
— São as crianças — sussurrou Carlton.
John avançou, hesitante, em direção ao centro da sala de jantar,
depois se aproximou com mais ousadia, olhando para cada um dos robôs,
um de cada vez.
— Todas elas — disse. Seus rostos não eram mais animalescos, não
eram mais inanimados.
— Foxy não estava atacando o Jason — disse Marla. — Estava
tentando protegê-lo!
De repente, ouviram um estrondo de onde estava a porta de saída
lacrada.
Levaram um susto, se virando ao mesmo tempo enquanto a parede
ligada à entrada soldada tremia com a força de uma dúzia de golpes.
O que é isso?, se perguntou Charlie.
Os tijolos se quebraram e desmoronaram, despedaçando-se por todo
o chão, a poeira enchendo o ar em nuvens cor de ferrugem. Uma figura
entrou pelo buraco brandindo uma marreta monumental, e, quando o ar foi
começando a clareou, aos poucos, eles viram de quem se tratava: Clay
Burke, o pai de Carlton.
Seus olhos se focaram em Carlton e ele largou o martelo para correr
até o filho, puxando-o para um abraço. Correu as mãos por seus cabelos,
segurando-o firme, como se jamais fosse soltá-lo outra vez. Charlie assistia
à cena de longe, o alívio atingido por uma pontada de inveja.
— Pai, vou vomitar — murmurou Carlton. Clay riu, mas se afastou
quando viu que ele não estava brincando. Carlton se curvou, as mãos nos
joelhos, lutando contra a ânsia, e a expressão no Clay tornou-se de alarme.
Carlton se ajeitou. — Tá de boa. Eu vou ficar bem.
Clay não estava mais escutando. Olhava ao redor da sala, para os
animais. Estavam parados no tempo, deslocados.
— Certo, crianças — disse Clay, a voz baixa e as palavras escolhidas
com cautela. — Acho que está na hora de ir. Vamos. — Ele foi em direção
à saída que abrira.
Eles trocaram olhares. Os murmúrios haviam cessado; o que quer
que fosse, o Freddy amarelo estava murcho outra vez, uma fantasia vazia,
embora ninguém houvesse visto qualquer sinal de movimento. Charlie
assentiu para Clay, e os demais foram se encaminhando para o buraco na
parede. Charlie ficou para trás; John permaneceu a seu lado, mas ela
gesticulou para que ele prosseguisse e a deixasse sozinha.
Mal teve tempo de dar um passo quando algo a agarrou pela
garganta.
Charlie tentou gritar, mas sua traqueia estava sendo esmagada — foi
virada como se não pesasse nada, e se viu cara a cara com o coelho
amarelo. Os olhos de Dave brilhavam lá dentro, triunfantes. Espremia sua
garganta com tanta pressão que ela não conseguia respirar. Estava
segurando-a tão de perto que quase chegava a ser um abraço; ela conseguia
sentir o cheiro da fantasia, da pelagem manchada e dos anos de suor,
sangue e crueldade pútridos.
Ele falou, ainda encarando Charlie:
— Você fica.
— De jeito nenhum — disse Clay, assumindo a autoridade do grupo.
Dave afundou ainda mais os dedos no pescoço de Charlie, que
deixou escapar um ruído estrangulado.
— Vou matá-la bem aqui, na frente de todos vocês, se não fizerem o
que eu mandar — disse, a voz quase agradável. Clay olhou para ele por um
longo momento, como se estivesse ponderando, então assentiu.
— Certo — disse, a voz calma. — Vamos fazer o que mandar. O que
você quer?
— Ótimo — disse Dave. Ele afrouxou o aperto no pescoço de
Charlie, que inspirou, trêmula. Os outros começaram a se aproximar deles,
afastando-se da porta. Charlie ergueu o olhar para o homem na fantasia de
coelho, e ele a encarou de volta. Foi você. Você matou o Michael. Matou o
Sammy. Tirou os dois de mim. Seus olhos deveriam conter algo feroz e
perigoso. Deveriam ser janelas para o núcleo podre lá dentro. Mas eram
apenas olhos, vazios e inexpressivos.
Charlie afundou as mãos no espaço sob a cabeça da fantasia. Dave
recuou, mas ela segurou firme.
— Se quer ser um deles, então seja um deles de uma vez! — gritou,
acionando as travas de mola. Os olhos de Dave se arregalaram, e ele
começou a gritar. Charlie puxou as mãos, escapando por pouco das travas
que se soltaram e se enterraram em seu pescoço. Deu um passo para trás,
assistindo a Dave desabar no chão, ainda gritando enquanto as peças por
dentro da fantasia eram liberadas. Peça por peça, as entranhas
animatrônicas perfuraram a carne, rompendo seus órgãos, dilacerando seu
corpo como se ele sequer estivesse ali. Em algum momento, ele parou de
gritar, mas continuou se contorcendo no chão pelo que pareceram longos
minutos, até finalmente ficar inerte.
Charlie ficou olhando, respirando com dificuldade, como se tivesse
corrido aquele tempo todo. A forma no chão parecia quase irreal. John foi o
primeiro a se mover; se aproximou dela, mas, ainda olhando para baixo, ela
o afastou antes que pudesse tocá-la. Não suportaria que o fizesse.
Jessica exclamou, surpresa, e todos olharam para cima como um só.
Os animatrônicos estavam se movendo. O grupo recuou, procurando ficar
junto, mas nenhum dos animais estava olhando para eles. Um a um, eles
seguraram o corpo destroçado no chão e começaram a arrastá-lo em direção
ao corredor da Baía Pirata. Conforme começavam a desaparecer corredor
adentro, Charlie notou que o Freddy amarelo também havia sumido.
— Vamos — disse Charlie, a voz baixa.
Clay Burke assentiu, e eles deixaram o restaurante, enfileirados, pela
última vez.
CAPÍTULO TREZE

O sol estava nascendo quando saíram a céu aberto.


Clay pôs o braço sobre os ombros de Carlton, e, pela primeira vez
em muito tempo, Carlton não o afastou com uma piada. Charlie assentiu,
distraída, piscando diante da luz do dia.
— Carlton e eu vamos para a emergência — continuou Clay. — Tem
mais alguém precisando de um médico?
— Estou bem — disse Charlie, em um reflexo.
— Jason, precisa ir ao hospital? — perguntou Marla.
— Não — disse ele.
— Vamos dar uma olhada na sua perna — insistiu ela. O grupo
parou enquanto Jason esticava a perna para que Clay examinasse. Charlie
sentiu uma onda estranha de alívio inundá-la. Havia um adulto no comando
agora. Após um momento, Clay olhou para Jason com uma expressão séria.
— Acho que não vamos precisar amputar — disse. — Ou pelo
menos não por enquanto — acrescentou. Jason sorriu, e Clay se virou para
Marla. — Pode deixar que eu cuido dele. Pode acabar ficando com uma
cicatriz, mas isso só vai fazer ele parecer durão.
Marla assentiu e deu uma piscadela para Jason, que riu.
— Preciso trocar de roupa — disse Charlie. Parecia uma
preocupação fútil, mas sua camiseta e sua calça estavam molhadas de
sangue em alguns pontos, secas e rígidas em outros. Estava começando a
incomodar.
— Você está um horror — comentou Carlton redundantemente. —
Será que vai receber uma multa se for dirigindo desse jeito?
— Charlie, tem certeza de que não precisa ir ao hospital? — disse
Marla, focando sua preocupação toda na amiga, agora que havia sido
declarado que o irmão estava são e salvo.
— Estou bem — disse Charlie novamente. — Só preciso trocar de
roupa. Vamos passar no motel.
Quando chegaram aos carros, dividiram-se que já se tornara seus
grupos habituais: Marla, Jason e Lamar no carro de Marla, e Charlie, John
e Jessica no de Charlie. Charlie abriu a porta do motorista e parou, se
virando para olhar o prédio. Não fora apenas ela — de canto de olho, podia
ver que todos também estavam olhando. O shopping vazio era uma sombra
escura contra o céu tingido de rosa, comprido e baixo, feito um animal
feroz adormecido. Como um só, viraram as costas para ele, entrando nos
carros sem falar. Charlie foi a única que não tirou os olhos da construção,
vigiando enquanto ligava o motor, esperando até o último segundo possível
para lhe dar as costas. Ela deixou o estacionamento e saiu dirigindo.
Em determinado ponto da estrada, os carros se separaram: Clay e
Carlton pegaram uma saída diferente do estacionamento, em direção ao
hospital, e Charlie seguiu para o hotel, enquanto Marla seguia rumo à casa
dos Burke.
— Primeira a tomar banho! — declarou Jessica ao saírem do carro,
mas depois, vendo o rosto de Charlie, acrescentou: — Para você, faço uma
exceção especial. Pode ir primeiro.
Charlie assentiu. No quarto, pegou a mala e a levou para o banheiro
consigo, deixando John e Jessica esperando. Trancou a porta atrás de si e se
despiu, propositalmente evitando olhar os arranhões no braço e na perna.
Não precisava ver o que estava ali, apenas limpá-los e fazer curativos.
Entrou no chuveiro e deixou escapar um gritinho baixo quando a água
atingiu as feridas abertas, mas ela trincou os dentes e se ensaboou, lavando
os cabelos várias e várias vezes até que estivesse completamente limpo.
Saiu e se secou com a toalha, depois se sentou à beirada da banheira,
escondeu o rosto nas mãos e fechou os olhos.
Ainda não estava pronta para sair, não estava pronta para encarar
quaisquer que fossem as repercussões dos acontecimentos, para quaisquer
discussões que fossem acontecer. Queria sair daquele banheiro e jamais
voltar a falar sobre o ocorrido. Massageou as têmporas. Não estava com
dor de cabeça, mas havia uma pressão lá dentro, algo que ainda estava para
emergir.
Você não pode ficar aqui para sempre.
Charlie ainda tinha a gaze e o esparadrapo que usara no primeiro
curativo, então os retirou da mala, secou os dois ferimentos com outra
toalha e enfaixou o braço e a perna, usando toda a gaze restante. Acho que
vou precisar levar pontos, pensou, mas foi apenas uma ideia vaga. Não
faria nada a respeito. Levantou-se e foi se olhar no espelho: havia um corte
na bochecha. Já havia parado de sangrar, mas estava feio. Não sabia como
poderia cobri-lo, mas também não queria de fato fazê-lo, pela mesma razão
pela qual não queria os pontos. Ela queria que os ferimentos curassem mal,
queria que se tornassem cicatrizes. Queria provas, para exibir no próprio
corpo: Isso aconteceu. Foi real. Foi assim que me marcou.
Vestiu depressa a calça jeans e sua última camiseta limpa, e ao sair
do banheiro encontrou Jessica e John levando as malas para o carro.
— Achei que não tinha por que deixar nada aqui — disse Jessica. —
Vamos todos embora amanhã de manhã, podemos muito bem aproveitar e
levar tudo para a casa do Carlton. — Charlie assentiu e pegou a mochila de
Jason, levando-a para o carro junto com a sua própria.
Carlton e seu pai já tinham retornado quando os três chegaram, e
entraram novamente na sala de estar de Carlton, agora quase familiar.
Carlton estava encolhido em uma poltrona perto da lareira, que alguém
havia acendido, e Marla e Lamar estavam no sofá. Jason estava sentado
diante da lareira, fitando as labaredas. Charlie se sentou ao lado de Jason,
acomodando-se, um pouco tensa; John se juntou a ela, fitando-a com
apreensão, mas ela o ignorou, e ele nada disse.
— Você tá bem? — disse Charlie, acariciando o braço de Carlton por
um instante, e ele olhou para ela, sonolento.
— Tô sim, foi só uma concussão leve — disse ele. — Vou ficar bem,
é só ninguém mais tentar me matar.
— Então... e agora? — disse Jessica, ocupando a cadeira ao lado de
Carlton. — Quer dizer... — hesitou, procurando as palavras. — O que vai
acontecer agora? — disse, por fim. Olharam uns para os outros; era a
pergunta que se passava pela cabeça de todos. O que se faz depois de uma
situação como aquela? Charlie encarou Clay, que estava parado à porta,
apenas parcialmente dentro da sala.
— Sr... Clay, o que vai acontecer agora? — disse ela, baixinho. Ele
fitou o vazio por um minuto antes de responder.
— Bem, Charlie, eu vou voltar à Freddy’s. Tenho que buscar o meu
policial — disse ele, sério. — Não vou sozinho. — Forçou um sorriso, mas
ninguém mais sorriu. — O que você acha que devia acontecer? — disse.
Estava olhando para Charlie, lhe fazendo aquela pergunta impossível como
se ela pudesse respondê-la. Ela assentiu, aceitando a responsabilidade.
— Nada — disse. — Está acabado; quero deixar tudo como está.
Clay assentiu, o rosto impassível. Não sabia se aquela era a resposta
que ele estava esperando, mas era a única que tinha. Os outros
permaneceram em silêncio; Marla e Lamar concordavam, mas a expressão
de Jessica era de quem queria protestar.
— Jessica, o que foi? — disse Charlie, a voz delicada, percebendo
com certo desconforto que a amiga queria sua permissão para discordar.
— Isso parece errado — disse. — E quanto a... tudo? Quer dizer, as
pessoas deviam saber, não deviam? É assim que funciona, aquele guarda,
ele assassinou todas aquelas crianças, e as pessoas deviam saber!
— Ninguém vai acreditar na gente — disse John, sem erguer o olhar.
— O policial Dunn — disse Jessica. — O policial Dunn,
ele morreu lá dentro, o que você vai dizer para a família dele? Vai contar a
verdade? — Ela olhou para Clay.
— O policial Dunn foi morto pelo mesmo homem que matou os seus
amigos. Posso provar isso agora. — Um silêncio tomou a sala. — Não vai
trazê-los de volta — disse ele, a voz delicada. — Mas talvez lhes dê um
pouco de paz.
Clay voltou o olhar para a lareira, e alguns minutos se passaram
antes de ele falar novamente.
— Vocês passaram todos esses anos carregando a Freddy’s consigo.
Está na hora de deixá-la para trás — disse. Estava sendo rígido, mas o tom
autoritário era reconfortante. — Vou garantir que o policial Dunn receba
um enterro adequado. — Ele hesitou, se recompondo, como se o que fosse
dizer a seguir exigisse esforço. — Os seus amigos também. — Franziu a
testa. — Vou ter que cobrar uns favores, mas posso fazer tudo isso
acontecer sem muito alarde. A última coisa que quero é perturbar aquele
lugar, ou profaná-lo. Aquelas crianças precisam descansar.

Na manhã seguinte, cada um seguiu seu próprio caminho. Marla se


ofereceu para levar Lamar e Jessica à rodoviária, e o grupo se despediu
com muitos abraços e promessas de que manteriam contato por cartas.
Charlie se perguntava se realmente estavam sendo sinceros. Marla, pelo
menos, provavelmente estava. Eles partiram pelo acesso de veículos da
casa dos Burke.
— Então, o meu ônibus só sai mais tarde — disse John enquanto os
outros desapareciam em uma curva na estrada.
— Não me importaria de passar mais umas horinhas em Hurricane
— respondeu Charlie. Para sua surpresa, percebeu que era verdade.
John lhe deu um sorriso rápido, quase nervoso.
— Está certo, então — disse.
— Vamos dar o fora daqui. Vamos pra algum lugar; qualquer lugar
— disse Charlie.
Uma vez sozinhos no carro, John lançou um olhar de soslaio para
ela.
— Então, — disse ele, — a gente vai se ver de novo depois disso? —
Tentou falar com um tom leve, mas era impossível fazê-lo. Charlie
encarava a estrada à frente.
— Talvez — disse. Não conseguia olhar para ele. Aquela não era a
resposta que ele estava esperando, sabia disso, mas não podia lhe oferecer o
que ele queria. Que explicação podia dar? Não é você, é o peso que nós
dois carregamos, é demais. Quando você aqui, eu não consigo
simplesmente ignorar. Ela não olhou para ele.
Mas havia algo em seus pensamentos que não parecia certo, algo
estava errado, como se estivesse falando mecanicamente, pensando a partir
de um roteiro. Era como proteger instintivamente um ferimento e só depois
lembrar que ele já estava curado. Enfim, olhou para John, sentado a seu
lado. Estava olhando pelo para-brisa, o maxilar trincado.
— Tem um lugar aonde eu preciso ir — disse, abruptamente, e fez
um retorno, devagar. Jamais havia visitado o local, mas agora, sem aviso
prévio, sua mente estava sendo consumida pela ideia. Tia Jen nunca havia
sugerido que fossem lá, e Charlie também nunca pedira. Mas sabia onde
ficava, e era para lá que estava indo agora, com determinação focada e
singular: Preciso ver.

Charlie parou em um pequeno estacionamento de cascalho ao lado de


uma cerca branca de estacas baixas, correntes balançando entre elas.
— Só preciso de um minuto — disse ela. John lhe lançou um olhar
preocupado.
— Tem certeza de que quer fazer isso agora? — disse ele, delicado, e
ela não respondeu; apenas saiu do carro e fechou a porta atrás de si.
O cemitério diante deles tinha quase cem anos de idade. Havia ali
colinas de grama exuberante e árvores frondosas; às vezes, algumas
pessoas passeavam por ali. Aquele canto ficava nos limites do cemitério —
havia uma casinha a apenas alguns metros da cerca. A grama tinha sido
aparada com esmero, mas era rala e já começava a amarelar em alguns
pontos; as árvores tinham sido podadas além do necessário, então os galhos
mais baixos estavam nus, expostos demais.
Havia um poste telefônico junto à cerca, mal fazendo parte do
terreno do cemitério, e ao lado dele havia duas lápides, simples e pequenas.
Charlie as fitou por um longo momento, sem se mover. Tentou evocar o
sentimento correto: dor e perda, para que pudesse sentir o luto. Para que
pudesse expurgar sua dor no local onde ele havia sido sepultado e, dessa
forma, livrar-se dela. Ao invés disso, tudo o que conseguiu sentir foi uma
sensação de vazio: os túmulos estavam ali, mas não a sensibilizaram.
Inspirou fundo e começou a se aproximar deles — mas então parou.
Era uma lembrança tão pequenina, um daqueles momentos que nada
significaram na época, só mais um dia em uma série de dias iguais a todos
os outros. Estavam juntos, apenas os dois, e deve ter sido antes de tudo,
antes de a Fredbear’s dar errado, antes de todas as mortes.
Estavam sentados nos fundos da Fredbear’s, apreciando as colinas,
e um corvo pousou e começou a bicar a poeira, procurando alguma coisa.
Havia algo em seus movimentos, tão precisos e ágeis, que pareceu para ela
a coisa mais engraçada e curiosa que já havia visto. Charlie começou a
rir, e seu pai olhou para ela. Ela apontou, e ele virou a cabeça, tentando
enxergar como ela, mas não conseguiu entender para o quê ela estava
apontando. Ela não conseguia explicar, não sabia usar as palavras, e
quando sua empolgação estava prestes a se transformar em frustração, ele
viu do que se tratava. De repente, começou a rir também, e apontou para o
corvo. Charlie assentiu e ele a fitou nos olhos, com uma expressão de
deleite puro e ilimitado, como se aquele sentimento pudesse preenche-lo a
ponto de transbordar.
— Oh, Charlotte — disse.