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rod teh ades sat el ibvdle. = =] e ot PIERRE VERGER 6 indlogo, fotégrato @ histariadar, Autor de, entre autros, Fiuxo © reftuxa do triica de escravos entre 0 Gallo do. Benin @ a Bahia de Todos os Santos » ‘séoXVil 00 XIX [Editora Corrupia) & Orixds (Ed.Corrupio), ‘Tradugtio do MARIA DA GLORIA P. KOK, 32 REVISTA USP oi Roger Bastide quem me reve- lou a Africa no Brasil, ou, mais exatamente, a influéncia da Afri- ca na regio Nordeste desse pals. Meu primeira encontro com ele se deu em Siio Paulo, Ele se imeressou por minhas atividades de folografo itinerante voltado para a etnografia. le me aconsclhou vivamen- regifio sobre a qual © livro Jubiabd de Jorge Amide me havia dado uma primeira vi io. Bastide havia ido a essa regio c es- crevera uma excelente obra intitulada Imagens do Nordeste Mistico em Brancoe Preto que itty me servir de guia na te wif. Ele me confiou um certo némero de curtas de apresentagio para os scus amigos da Babi Isto se passou em 1946, Tive 0 privi- . doze anos mais tarde, de The mos- ms contrapartida, a influéncia do 1 no Duomé © na Nigéri ide ja havia estado diversas ve- zes na Africa participando de coléquios © congressos, mas Ii ele se encontrara com numerosos africanistas © poucos africanos. Ele nutria maior curiosidade por esses iltimos, mas as passagens de eariter cullural, demasiado ripidas, mio Ihe tinham permitido satisfizé-la, A estuda de Bastide no Daomé (atu- almente Reptiblica do Benin) e na Nigéria ‘ocorreu, sejamos precisos, entre 0 domin= 0, 13 de julho de 1958, fs 1030 © a se- gunds-feiri, 22 de setembro, as 17h, dias € horas da chegada e di partida dos avie 6cs que o transportaram, ou seja, 72 dias, a0 longo dos quais ele cumpriv um pro- grama dos mais intensos, muito repre- sentativo da multiplicidade das questées que atraiam sua atengio, A sorte quis que ele pudesse assistir a imimeras cerimd tanto africans, origens daquelas que ele pud var no Brasil, quanto brasile tadas no século precedente pelos antigos: escravos libertos que retornaram ao seu lugar de origem. Bastide infelizmente nio publicou livro dando o conjunto das impressdes ‘experimentadas por ele ao longo de sua estuda no Golfo do Benin, mas felizmen- te conservei a cpia dos textos de alguns artigos que, acompanhados de minhas fotos, tinham sido enviados & revista bra- sileira para a qual eu trabalhei muitos trar, B anos...€ que, iiélas, nao os publicou todos. Isso me permite ceder de vez em quando a palavra a Bastide para que conhegam © que ele tink # nos comuni- car. “A ‘Burrinha’ de Uidd (Roger Bastide) Aqueles que viveram no Brasil nio posiem esquecer o pais. Eles 0 procu- ram por toda parte. E esta vontade de encontrar o Brasil que me levou, nes- sas férias, para Uid’, Porto Novo ¢ Lagos, a ver esse Brasil importado para terra da Africa pelos deseenden- tes dos antigos escravos que retormaram ao pais ancestral, mas li retornaram com at religiio, a lingua os costumes do Brasil. No dia mesmo em que eu desci do aviio, sem ter tem po de arrumar minha mala, de me instalar, Verger me arrastou a Uidd para assistir a uma ‘Burrinha’ bem saborosamente brasileira. Qs brasileiros negros mantinham na Africa as grandes festas do Brasil, a *Burrinha’, a Festa do *Sr. do Bonfim', ‘os “Sambas', ao mesmo tempo que os. valores da cultura brasileira, A festa & qual cu assisti nao € outa, que o 'Bumbs Meu Boi', mas, no Daomé, cla se celebrava também ¢, talvez sobretudo, como na Bahia an- tigamente, durante 0 ciclo de Natal, particularmente no dia da Epifania. Ora, no Natal, 0 pequeno Jesus, que acabaya de nuscer no estibulo, dor- mia sobre @ palhay ao lado de um boi de umn burro. E por isso que em Uids, como em Porto Novo, o nome da fest sica que no Brasil, tambores e pandel- ros quadrados, que ritmam os cantos em Tingua portuguesa, Existem “Associagdes de Brasileiros* que preparam muito tempo antes a festa, confeccionam as médscaras, re~ petem as cangOes (marchas ou sam- bas), para dar a esta mascarada, que atrai tanta gente, o maior esplendor possivel. Admirivel fidelidade ao Brasil: desejo de que a populagio nativa admirasse o pais que foi a se~ gunda patria de scus pais ou de seus avés. Entretanto, um certo ndmero de transformagoes se operaram, Do