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O mal como escândalo: Paul Ricoeur e a dimensão trágica

da existência1

Fernanda Henriques

Eu quereria, em primeiro lugar, avaliar o que constitui


verdadeiramente escândalo para o pensamento e desafio para a fé,
isto é, precisamente o mal que não se deixa encerrar no mal moral.
Paul RICOEUR2

A questão do mal – a par com a da temporalidade – é central


na filosofia de Paul Ricoeur e determinadora do conjunto do seu
pensamento. Ambas as questões revelam o carácter inescrutável da
realidade, mostrando a sua constitutiva resistência às mediações
perfeitas. A questão do mal tem, para além disso, uma ligação
especial com a simbologia hermenêutica do trágico, trágico que,
aliás, no meu entender, tem um papel fundamental em toda a
tematização riceuriana.
Não “[…] um trágico do ser, mas um trágico da existência, ou
melhor, na existência, sobre o fundo da imago Dei.”3 Trágico porque”
[…] a tragédia reencontrada, pela virtude própria da palavra poética e
da representação, tem a virtude de recarregar a filosofia das tensões
primordiais que ela tende a evacuar em proveito do discurso

1
Texto publicado em : Fernanda HENRIQUES (coord), Paul Ricoeur e a Simbólica do Mal, Porto,
Afrontamento, 2005.
2
“Le scandale du mal“, Esprit , 140-141 (1988), pp. 57-63, p. 57.
3
Paul RICOEUR, “Sur le tragique“, in Lectures 3, Paris, Seuil, 1994, pp. 187-209, p. 193.

1
coerente: a tensão entre o ser e a finitude, entre a cólera de Deus e a
culpabilidade, entre o sofrimento e o conhecimento.”4
Nesta medida, a intencionalidade do labor filosófico de Ricoeur
quer manter viva a tensão entre o trágico e o lógico no
desenvolvimento sucessivo e progressivo das mediações imperfeitas
que integram esse labor.

Num comentário ao livro de Jean Hyppolite sobre o pensamento


de Hegel Logique et existence5, Paul Ricoeur explicitava claramente
aquilo que foi sempre a sua posição perante a figura hegeliana do
Saber Absoluto, dizendo:
“Mas é mesmo esse o problema? A alternativa é entre o não-saber e o
saber absoluto ? Na verdade nós nunca estamos perante esse género de
alternativa; a nossa vida passa-se muito mais no âmbito dos discursos
imperfeitos, aproximativos; (...).”6

Ou seja, parece relevar das suas palavras que o discurso


humano está, constitutivamente, remetido à imperfeição não apenas
por ser aproximativo, como o texto refere, mas também pela sua
intrínseca incompletude apontando, assim, para a dimensão
ensaística de todo o discurso, sempre em busca da sua própria
perfeição. Assim sendo, pode-se evocar o carácter trágico do pensar
ricoeuriano, retomando a sua expressão ao querer caracterizar o
pensamento de Husserl: “[…] um pensador para quem a
racionalidade permanece uma tarefa que não pode ser historicamente
efectuada”7.
Por esta razão, a hermenêutica de Paul Ricoeur procurará
sempre explicar mais para compreender melhor, mas nunca para
decifrar a intriga suprema, mantendo, assim, a pesquisa da verdade

4
Ibidem, p. 194.
5
Jean HYPPOLITE, Logique et existence. Essai sur la logique de Hegel, Paris, PUF, 1953.
6
P. RICOEUR, “Retour à Hegel”, in Lectures 2, Paris, Seuil, 1992, pp. 173-187, p. 177.
7
P.RICOEUR, “Conclusions “, in H L VAN BREDA (ed) Vérité et vérification. Actes du quatrième colloque
international de phénoménologie (1969), La Haye, Martinus Nijhof, 1974, pp. 190-209, p. 204. P.
Ricoeur explica que classifica assim o pensamento de Husserl no mesmo sentido que Lucien Goldmann
se refere a Kant.

2
no horizonte de uma tensão essencial entre o singular em que
emerge e o universal que visa intencionalmente:
“A pesquisa da verdade (...) é ela própria desenvolvida entre dois pólos:
por um lado, uma situação pessoal, por outro, uma intencionalidade
sobre o ser. Por um lado, eu tenho algo muito próprio a descobrir, algo
que mais ninguém a não ser eu tem a tarefa de descobrir; eu tenho uma
posição no ser que representa um convite a pôr uma questão que
ninguém pode colocar em meu lugar; (...). E, contudo, por outro lado,
procurar a verdade quer dizer que aspiro a dizer uma palavra válida
para todos, que se destaca do fundo da minha situação, como um
universal; (...).”8

A pesquisa da verdade que alimenta o filosofar é, pois, trabalho


e risco. Trabalho resultante da participação e do compromisso
pessoal na dinâmica da realidade. Risco por querer entrar na
comunicação intersubjectiva, visando um viver em comum.
A filosofia é, assim, simultaneamente, comprometimento com a
humanidade e com a realidade, estando, por tal especificidade, muito
longe do respaldo de Hegel como protagonizador da figura do Saber
Absoluto ou da ideia de que a verdade se encontra no sistema do
saber. No capítulo, altamente simbólico, de Temps et récit intitulado
Renoncer à Hegel9, Ricoeur confronta-se com o cerne do pensamento
hegeliano, afirmando:
“Uma crítica digna de Hegel tem de se medir com a afirmação central
segundo a qual o filósofo pode aceder não apenas a um presente que,
ao resumir o passado conhecido, contém em embrião o futuro
antecipado, mas a um eterno presente, que assegura a unidade
profunda superada e as manifestações da vida que já se anunciam
através das que nós compreendemos porque acabam de envelhecer.”10

Tal afirmação mostra distintamente que Ricoeur recusa a


possibilidade da concretização racional de uma Aufhebung e,
consequentemente, não aceita a correspondência absoluta entre

8
P.RICOEUR, Histoire et vérité, Paris, Seuil, 1955. Segunda edição aumentada, Paris, Seuil, 1964, pp.
54-55.
9
P. RICOEUR, Temps et récit t. III, Paris, Seuil, 1985, pp. 280-299.
10
Ibidem, p. 294.

3
racionalidade e realidade. Ao invés, vai reconhecer a importância da
consciência histórica que introduz a interpretação como a mediação
necessária no processo do saber e da constituição da verdade,
colocando no seu interior a tensão insuperável entre opacidade e
transparência ou entre saber e não-saber.

O mal e a dimensão trágica da existência

O caso específico da questão do mal representa, por


antonomásia, a dimensão trágica da existência, na medida em que,
como reitera incansavelmente Ricoeur, o mal demonstra não apenas
que a resposta racional teórica é sempre incompleta e aproximativa,
mas, mais do que isso, o mal obriga a encontrar outros modos de
relação que não somente os estritamente teóricos, exigindo um
compromisso com a acção efectiva.
É a este nível que fica marcada a grande diferença entre a
inescrutabilidade do mal e a da temporalidade – embora ambas as
questões remetam para o horizonte misterioso e insondável da
realidade –, porque o tempo é apenas enigmático, mas o mal é um
escândalo. O mal é o labéu dos humanos e dos deuses, sendo sempre
um factor destruidor mesmo quando, pela destruição, purifica. O mal
é, por isso, uma marca de fraqueza e impotência: até o sinal redentor
de Cristo na Cruz é um símbolo da impotência do amor de Deus.
Tal não acontece com o tempo que é, constitutivamente,
condição de possibilidade do ser e do acontecer – é ele que permite o
desenvolvimento e a vida e, inclusivamente, o mal. Há, pois, uma
assimetria entre o tempo e o mal e uma maior profundidade abissal
neste; por isso, embora ambos resistam à explicação conceptual
unitária, a resistência do mal arrasta consigo a mancha e a
inquietude do negativo e, por isso, obriga a sair dos quadros da mera
teorização. Para Ricoeur, o mal é a razão última que impede a

4
apropriação discursiva da realidade em termos integrais. No final da
sua obra sobre Freud11, ao defrontar-se com a perspectiva freudiana
acerca do valor puramente regressivo dos símbolos, Paul Ricoeur
declara que os símbolos do mal não têm equivalência com nenhuns
outros, mostrando, de uma maneira singular, o seu excesso em
relação a qualquer filosofia e, por isso, evidenciando, de forma
paradigmática, o carácter insuperável da simbólica.12

A tragédia como paradigma da dimensão escandalosa do mal

Do que antes ficou exposto pode compreender-se, facilmente,


que a primeira coisa que preocupa Paul Ricoeur na abordagem da
questão do mal seja retirar-lhe o carácter de substância, porque
aceitar o mal como substância equivaleria a considerá-lo inteligível,
pensável, “porque pensar “ser” é pensar “inteligível”, pensar “uno”,
pensar “bem””13, porque pensar, afinal, é, exactamente, realizar a
unificação e dar sentido. Dessa maneira, os símbolos do mal, como
paradigmas da resistência e da irresolução do ser ao pensar, são, a
um tempo, a condição do próprio pensamento e aquilo que excede
toda a capacidade racional, obrigando a entretecer com o mal outras
formas de relação. Sendo irredutivelmente impensável a questão do
mal exige mediações que o tornem comensurável com o viver uma
existência em que existe o mal.
É nesse caminho de busca que se pode integrar a primeira obra
em que Paul Ricoeur se mede com o tema do mal: La symbolique du
mal14.

11
P. RICOEUR De l’interprétation. Essai sur Freud, Paris, Seuil 1965.
12
Cf. Ibidem, pp. 476-529. As suas palavras sobre a irredutibilidade da simbólica do mal são
contudentes: “En bref, le problème du mal nous force à revenir de Hegel a Kant, je veux dire d’une
dissolution du problème du mal dans la dialectique à la reconnaissance de la position du mal comme
inscrutable, irrécupérable par conséquent dans une spéculation, dans un savoir total et absolu.” (506-
507).
13
P.RICOEUR, Le Mal. Un défi à la philosophie et à la théologie, Genève, Labor et Fides, 1986, p. 23.
14
P. RICOEUR, Finitude et Culpabilité II, La symbolique du mal, Paris, Aubier-Montaigne, 1960.

5
Segundo Ricoeur, La symbolique du mal propõe-se repetir em
imaginação e simpatia a confissão do mal feita pela consciência
religiosa ao longo da história e depositada nas diferentes culturas,
através de textos de vários géneros literários, onde estão registados
uma multiplicidade de sentimentos e de perplexidades perante a
existência do mal.
Estará, por isso, em análise nesta obra, um vasto corpus
textual das culturas do Antigo Médio-Oriente, de Israel e da Grécia,
corpus esse pertencendo àquilo que Ricoeur designa por linguagem
plena, ou seja, a linguagem simbólica-poética que representa a
discursividade cuja aproximação da realidade se dá em termos de
maior abertura, nos quadros de uma atitude de escuta, mantendo,
por essa razão, com o real traços de ligação e de enraizamento
insuperáveis.
Apesar de o conjunto da obra em questão constituir um
percurso hermenêutico sistemático, mostrando que os símbolos do
mal se constituem por meio de um processo recapitulativo e
rememorador em que os designados símbolos primários do mal –
mancha, pecado e culpabilidade – são, sucessivamente reelaborados
a partir de um esquema primitivo15, no entanto, a figura da tragédia
emerge na totalidade da obra como o lugar por excelência da
abordagem do mal.
A tragédia com que La symbolique du mal se ocupa é a
tragédia grega, tomada como a expressão maior da visão trágica da
existência, sendo definida por Ricoeur como sendo” a manifestação
repentina e completa da essência do trágico”16 e protagonizando o

15
Esse esquema remete para três traços caracterizadores do mal: a positividade do mal, a exterioridade
do mal e a infecção.
1. A positividade do mal. A simbólica do mal constrói-se segundo o esquema que mostra o mal como
algo e não apenas como uma carência.
2. A exterioridade do mal. A simbólica do mal dá a ver que o mal vem ao ser humano de fora, como
um já dado, que atrai e seduz.
3. A infecção. É este esquema que denuncia a tragédia do humano como, simultaneamente, seduzido
pelo mal e responsável da sua emergência, mas, ao mesmo tempo, salva a natureza humana, que
apenas é infectada pelo mal, e não destruída por ele.
16
P. RICOEUR, La symbolique du mal, op. cit., p. 199.

6
carácter absolutamente insuperável da simbólica do mal. A tragédia
aparece aqui não como um género literário sem relevância específica
para o conteúdo, mas sim como a única forma literária que poderia
expressar o conteúdo que está em causa, pondo de manifesto a
impossibilidade intrínseca da especulação e da discursividade perante
a explicação do mal. Na verdade, enquanto simbólica do mal, a
tragédia evidencia o carácter constitutivamente aporético do mal ao
mesmo tempo que desoculta a incomensurabilidade entre a vocação
expressiva da linguagem e a intencionalidade ontológica que a habita.
A análise que La symbolique du mal efectua da significação
simbólica da tragédia mostra que ela é invencível como tragédia,
representando a vitória do teatro sobre a teoria17 ; isto quer dizer
18
que, segundo Ricoeur, não há superação do trágico mas no trágico ,
uma vez que, ao contrário dos outros símbolos do mal analisados na
obra que contêm uma vertente referindo-se à origem do mal e outra
ao seu fim, a tragédia não apresenta a saída salvífica. Em termos de
uma visão trágica da existência, apenas a participação no espectáculo
pode permitir a transformação dos sentimentos de temor pela
maldade dos deuses e de compaixão pela derrota dos heróis e,
através dessa catarse, possibilitar uma relação mais positiva com o
mal. Ou seja, a vivência e o reconhecimento do carácter escandaloso
do mal que o espectáculo trágico proporciona são os únicos caminhos
humanos de reconciliação com uma visão do mal ligada à maldade
dos deuses.
Algo desta perspectiva da dimensão paradigmática da tragédia
como simbólica do mal permanece no pensamento de Ricoeur
sustentando, de alguma maneira, a sua posição no seu texto de
referência sobre o tema: Le Mal. Un défi à la philosophie et à la
théologie. Neste texto, onde se faz uma recusa cerrada de todas as

17
Cf. P.RICOEUR, La symbolique du mal, op. cit., pp. 200-201.
18
Cf. Ibidem, pp. 213-217.

7
respostas explícita ou implicitamente gnósticas e, simultaneamente,
de todas as formas de teodiceia, defende-se, claramente, que a
abordagem da questão do mal tem de fazer-se operando uma
dinâmica entre as esferas do pensamento, da acção e do sentimento,
assumindo-se plenamente a incapacidade da razão especulativa para
se acercar do mal sem lhe retirar a sua raiz trágica.

Crer em Deus, apesar do mal e fazer memória das vítimas

Duas ideias me parecem particularmente interessantes de


ressalvar nesta obsessão de Paul Ricoeur em querer evidenciar o mal
como escândalo: uma de dimensão religiosa, dizendo respeito à sua
preocupação em salvar a possibilidade do sentido da fé em Deus,
apesar do mal, e outra, de natureza histórica e cultural,
correspondendo à sua reafirmação do valor da palavra para fazer
memória do mal acontecido.
De um certo ponto de vista, aquilo que dá sentido à posição
global de Ricoeur sobre o mal, nomeadamente, à sua afirmação do
mal como escândalo e da dimensão paradigmática da tragédia, como
simbólica do mal, é o princípio de que não é possível pensar o mal
dentro de uma lógica da retribuição. A sua recusa de toda a gnose e
de toda a teodiceia é, no fundo, devedora da forma como se apropria
e aprofunda a significação da figura de Job como sofredor justo. O
Livro de Job, repete Paul Ricoeur em todos os textos onde trata a
questão do mal, destrói a legitimidade de se aceitar a ideia de que o
mal sofrido é consequência ou retribuição de um mal cometido, na
medida em que dá a ver um sofrimento absolutamente injusto,
exibindo uma vítima que não pode ser consolada ou, pelo manos, não
pode ser consolada através de razões explicativas, de justificações de
cariz sempre regressivo, por serem alimentadas pela interrogação
porquê?.

8
Tomar a sério o Livro de Job implica, pois, reconhecer o mal
como um dado opaco em si mesmo, o que significa, ao mesmo
tempo, confessar um irredutível não-saber acerca da origem do mal.
Nessa medida, a verdadeira atitude relevando da fé consiste em não
querer consolar as vítimas do mal com nenhum tipo de explicação
causal:
“Às pessoas que sofrem e que são tão prontas a acusar-se de qualquer
falta desconhecida, o verdadeiro pastor das almas dirá: Deus,
19
certamente, não quis isto; eu não sei porquê; eu não sei porquê…”

Abandonar pensar o mal dentro de uma lógica da retribuição


tem, assim, consequências fundamentais na configuração do tipo de
pensamento consentâneo com a temática do mal que, para Ricoeur,
significa a decisão pela renúncia à questão sobre a origem do mal –
aquilo que designa como atitude intelectual de retrospecção e de
explicação, própria do mito –, e a abertura a um pensamento virado
para o futuro e ligado ao envolvimento e ao compromisso com a
recusa do mal. Diz ele, sobre isto:
“[,,,] o que é, então, pensar para a frente, em direcção ao futuro, com o
preço do silêncio sobre o que está antes, sobre a origem? É, antes de
tudo, […] manter o mal na dimensão prática. O mal, ainda uma vez
mais, é aquilo contra o qual nós lutamos; nesse sentido, não temos
outra relação com o mal a não ser esta relação de “contra”. O mal é o
que não deveria ser, mas do qual não podemos dizer porque é que é. É o
não dever-ser.”20

Parece-me estar aqui em questão uma dupla realidade; por um


lado, a recusa de qualquer tipo de moralismo recriminador ou
legitimador do mal, porque, em verdade, “Nós não podemos dizer
nada aos outros sobre o seu sofrimento”21; por outro, e decorrendo
do anterior, a separação entre a existência do mal e a

19
Paul RICOEUR, “Le scandale du mal“, op. cit., p. 60.
20
Ibidem, p. 62.
21
Ibidem, p. 63.

9
responsabilidade divina, permitindo mesmo encontrar “[…] em Deus a
fonte de indignação contra o mal”22.
Mas se é verdade que não podemos, nem devemos dizer nada
aos outros sobre a causa do seu sofrimento, isso não implica que
perante o escândalo do mal só nos reste o silêncio. Pelo contrário,
cabe à linguagem o dever de fazer memória das vítimas do mal, de
as desocultar, de narrar o seu sofrimento e, por essa via, resgatá-las
de um mau silêncio: o silêncio que voltaria a fazê-las vítimas,
apagando o escândalo do seu sofrimento da memória das culturas.

22
Ibidem.

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