Você está na página 1de 335

Crosta T^cntko

■k

ü
HERMENÊUTICA
DIGITALIZADO POR:
PRESBÍTERO
(TEÓLOGO APOLOGISTA)
PROJETO SEMEADORES DA PALAVRA
VISITE O FÓRUM
http://semeadoresdapalavra.forumeiros.com/forum
£ .sd tã s (Zosta fèentho

HERMENÊUTICA
FÁCIL E DESCOMPLICADA

<3 0 m 0 i n t e i p u t a i a T^íbtia
de inAneiiá p iá tic n e e ficaz

C 90
T o d o s os direitos reservados. C o p v n g h r © 2 0 0 3 pa ra a língu a p o rtu g u e s a da C asa P u b lica d o ra
das A ssem bléias de D e u s. A p ro v a d o pe lo C o n s e lh o de D o u tr in a .

P r e p a ra ç ã o de originais: A lexandre C o e lh o
Revisão: Joel D u t r a d o N a s c im e n to e Isael de A raujo
C apa, p ro je to g ráfico e ed ito ra ç ão : E d u a r d o S o u z a

C D D : 2 2 0 — I n te rp r e ta ç ã o Bíblica
IS B N : 8 5 - 2 6 3 - 0 5 4 4 - 1

Para m aiores in fo rm a çõ e s sobre livros, revistas, p e rió d ic o s e os ú ltim o s la n ç a m e n to s d a C PAD.


visite n o s s o site: h t t p / / w w w .c p a d .c o m .b r

As citações bíb licas fo r a m extraídas da versão A lm e id a e C o rrig id a , edição de 1 9 9 5 , da


S o c ie d a d e Bíblica d o Brasil, salvo indic a çã o em contrá rio .

Casa P u b licad ora das Assem bléias de D eus


C aixa P o s ta l 3 3 1
2 0 0 0 1 - 9 7 0 , R io de Janeiro, R J, Brasil

I a e d içao /2 0 0 3
T ^ edlcatóü a

A minha esposa Ana Paula, ao meu filho Esdras Júnior e


ao pastor Joel M ontanha com carinho.
S u m á tlo

A B R E V IA T U R A S ...........................................................................................9

IN T R O D U Ç Ã O ..........................................................................................I I

C A P ÍT U L O I
F u n d a m e n t o s d a H e r m e n ê u t i c a ...................................................... 15

C A P ÍT U L O 2
In s p ir a ç ã o e R e v e la ç ã o ..........................................................................3 7

C A P ÍT U L O 3
H e r m e n ê u t i c a B í b li c a ............................................................................. 5 5

C A P ÍT U L O 4
H e r m e n ê u t i c a M a t e r i a l ..........................................................................9 3

C A P ÍT U L O 5
E s c o la s T e n d e n c io s a s de I n t e r p r e t a ç ã o ...................................... 1 2 5

C A P ÍT U L O 6
H e r m e n ê u t i c a C o n t e x t u a l ..................................................................1 3 9

C A P ÍT U L O 7
H e b r a í s m o s .............................................................................................. 2 0 9

C A P ÍT U L O 8
P o é tic a H e b r a i c a ................................................................................... 2 6 1

C A P ÍT U L O 9
F ig u ra s de L i n g u a g e m .........................................................................3 0 7

G L O S S Á R IO ............................................................................................. 3 3 7

B IB L IO G R A T IA ...................................................................................... 3 3 9
a. C. - Antes de Cristo
ACF - Almeida Corrigida Fiel
ARA - Almeida Revista e Atualizada
ARC - Almeida Revista e Corrigida
AT - Antigo Testamento
BKJ - Bíblia King James
CB - Concordância Bíblica
cap. - Capítulo
cf. - compare-se (confira)
d. C. - Depois de Cristo
DITAT - D icionário Internacional de Teologia do Antigo
Testamento
ECA - Edição Contemporânea de Almeida
IBB - Im p rensa Bíblica Brasileira
LXX - Septuagmta
MC - M undo Cristão (editora)
Mss. - Manuscritos
N A -26 - Nestlé Aland 2 6 a edição
N D B - Novo Dicionário Bíblico
N D IT N T ‫ ־‬Novo Dicionário Internacional de Teologia do
Novo Testamento
N T - Novo Testamento
N V I - Nova Versão Internacional
SB - Sociedade Bíblica
SBB - Sociedade Bíblica Brasileira
ss. - sucessivos ou seguidos
TC - Texto Crítico
tr. - Traduzido ou tradução
T R - Textus Receptus (Texto Recebido)
v. - versículo
w . - versículos
vss. - Versões
Vulg. - Vulgata
jh tto d u ç ã o

A H ermenêutica é a ciência tanto bíblica quanto secular,


que se ocupa dos métodos e técnicas da interpretação. E, basi-
camente, o estudo da compreensão de textos.
A H ermenêutica tem sido considerada por muitos estu-
dantes sérios da Bíblia uma ciência tanto necessária quanto
hermética.
Uns conferem às regras uma autonomia, e chegam a sepa-
rar o texto e o contexto do pensamento do seu autor, como se o
texto tivesse vida independente de quem o produziu. Por outro
lado, há quem não creia na existência de qualquer regra válida
de interpretação, ou que “interpretação boa é aquela que o Es-
pírito revela no púlpito”; “a letra mata, mas o Espírito vivifica”,
dizem eles. Acreditamos que o Espírito Santo é o agente funci-
onal de toda interpretação bíblica genuína. Entretanto, não acei-
tamos o argumento de que se o Espírito revela o que está no
texto, não é necessária uma metodologia para a interpretação e
compreensão das Escrituras. Esta obra não valoriza qualquer
um dos dois segmentos. Ao contrário, critica-os.
Devo frisar, entretanto, que esta obra é resultado de mi-
nha experiência como professor de H ermenêutica na Faculda-
de Teológica Refidim, Escola Preparatória de Obreiros Siloé e
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

nos diversos cursos e seminários promovidos pela M issão de


Edificação Cristã (M E C R I). Conseqüentemente, pretende
ser mais prático do que teórico. Para isto, adotam os o mo-
derno m étodo de ensino integrado. Ao mesmo tem po em
que procuram os adaptarm o-nos às condições do m oderno
conhecimento sobre a hermenêutica, colocamos ao alcance
dos alunos blocos organizados de conceitos e afirmativas,
capazes de m ostrar a unidade do estudo teológico e secular,
e a unidade do conhecimento interpretativo na m ultiplici-
dade de suas abordagens.
Para que essa metodologia cumpra o fim pretendido, o
currículo adotado não espera o encerramento de um bloco de
assuntos para somente iniciar outro; ao contrário, integra-os
na m edida em que se faz necessário para a compreensão
multifocal do tema tratado. N a prática, usa a linha traçada
pela natureza própria do texto considerado.
O que define o m étodo empregado não é diretamente a
técnica para dentro do texto, mas o texto sugerindo as princi-
pais vias in te rp re ta tiv a s . C o m isto prevalece a visão
cosmogônica, centrada na direção que o texto concebe, sobre
a visão microscópica centrada na técnica externa do intérpre-
te. O texto conduz a técnica ou m étodo a ser empregado, em
vez de o intérprete conduzir o texto por meio de sua perícia.
O uso deste m étodo em sala de aula, para o primeiro ano do
curso teológico propiciou novo dinamismo e interesse por parte
dos estudantes.
Ja que em sala de aula há mais versatilidade e muitas ou-
tras técnicas didáticas envolvidas no ensmo-aprendizagem do
que no “autonom ism o” que adquire o aluno autodidata atra-
vés de um livro texto, esperamos que esta obra, se não atingir

12
In t r o d u ç ã o

os modestos objetivos delineados, ao menos desperte no lei-


tor o interesse e comprometimento pela interpretação séria
das Escrituras.
Este livro não pretende substituir qualquer outro manual
de hermenêutica cristã, senão, remetê-los.
Este manual foi elaborado a partir de um contexto espe-
cífico em nosso seminário. Inicialmente definimos o termo
teologia e seus principais conceitos e ramos. Esta forma hete-
rodoxa de iniciar uma obra de hermenêutica prende-se às cir-
cunstâncias que geraram a obra — muitos alunos em nossas
aulas não conheciam os fundamentos básicos da teologia, sua
história, ênfase e divisões. Portanto, caso esta obra seja usada
na preparação formal, sem que o contexto acadêmico exija a
explicitação introdutória, é só remeter-se para o capítulo se-
guinte. O assunto de inspiração e revelação não se objetiva a
discorrer sobre as teorias a respeito do tema, mas apenas reca-
pitular aquilo que o aluno já conhece. N a hermenêutica mate-
rial nossa mtenção é propiciar ao estudante obras de referên-
cia acadêm ica, d ic io n á rio s , e n cic lo p é d ia s e o b ras de
hermenêutica bíblica e filosófica. Consideramos um pouco
extensas essas referências bibliográficas, mas em nossa expen-
ência, constatamos que muitos alunos não realizam um sério
trabalho exegético por não saber usar fontes apropriadas. O
m étodo mostrou-se útil em sala de aula. Ao tratarmos das
escolas tendenciosas de interpretação, estamos cônscios de que
deveríamos incluir outras correntes; porém, a análise apenas
da alegórica e literal justifica-se pelo fato de serem as mais
usadas em nossas comunidades. N o capítulo de hermenêutica
contextual procuramos fornecer ao estudante bases contextuais
para uma interpretação séria da Bíblia, tratando dos princi­
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

pais tipos de contextos e de suas regras principais. Os hebraís-


mos são tratados nesta obra por serem necessários ao conhe-
cimento de todos aqueles que lidam com a exegese do texto
bíblico. N a poética hebraica procuramos destacar os aspectos
estruturais da poesia e as formas básicas de interpretação dos
livros poéticos. N a seqüência, ao tratar-se das figuras de lin-
guagem, consideramos apenas as mais comuns.
A guisa de epílogo, precisamos ressaltar que não tratamos
sobre os aspectos teóricos da hermenêutica. A razão disto é
que no currículo de nossa faculdade teológica temos a disci-
plina H ermenêutica Filosófica, onde consideramos os aspec-
tos teóricos da hermenêutica.
A transliteração dos termos hebraicos, sempre que possí-
vel, segue a do Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testa-
mento. Os léxicos gregos usados foram o de Bauer e de Gingrich;
a transliteração das palavras segue o da Gramática Coinê, de Fran-
cisco L. Schalkwijk, e a pronuncia é a erasmiana.
Q ue o divino Espírito, em sua santa providência, dirija
seu coração e mente no aprendizado da Palavra de Deus.
M inha oração é que você seja ricamente abençoado atra-
vés deste manual.

14
C A P ÍT U L O I

fundamentos
dá é‫־‬ietn\cníutica

A hermenêutica e a teologia são


um a para a outra, 0 que 0 ouro é para
0 ourives, e 0 sol para 0 dia.
Inexistem separadas.

Étim o de Teologia

O term o teologia, tal qual conhecemos na língua portu-


guesa, não se encontra nas Escrituras. Procede originalmente
de dois substantivos gregos, o genitivo1θεοί) ( theou = Deus)2
e do acusativo3 λόγια (Jogia), que significa “tratado, fala”
(I Pe 4 .1 1). Em Lucas 4.32 λόγος é traduzido como palavra,
ensino (Jo 4.41). Assim, Θεολογία é o ensino, discurso, tra-
tado ou ciência sobre Deus e dos assuntos relacionados com a
divindade.
Apesar de não encontrarmos o vocábulo nas Escrituras,
não deixa, contudo, de ser correlativo a elas: τα λόγια τοΟ
θεοΟ (fa logia tou Theou = oráculos de Deus — R m 3.2),
H e r m e n ê u t i c a fácil e ·descomplicada

ώς λόγια θ€0ύ (hõs logía Theou — os oráculos de Deus —


I Pe 4. I I ) . 4 Isto posto, ο θεολόγος é tanto o que fala a
Palavra de Deus quanto aquele a quem Deus fala. Sua função
confunde-se, neste aspecto, com a dos profetas veterotesta-
mentários: p o r meio da revelação divina recebe a palavra dire-
tamente de Deus e a transmite aos homens. Daí, a razão por-
que aquilo que se diz acerca de Deus e dos fatos a Ele relacio-
nados é chamado de theologoumenon.
U m estudo diacrônico do termo revelará que o vocábulo
Θ€0λ0γία não constitui um monopólio dos cristãos. N o grego
clássico, os poetas eram chamados de θεολόγος e, através de
suas narrações mitológicas, criaram uma “teologia do m ito”.
Mais tarde, Platão contribui com a teologia do logos filosófico.
N a época da escolástica medieval, a teologia era entendida de
duas maneiras: em sentido literal, isto é, doutrina de Deus
(λ ό για του θεοΟ), e co m o a a firm a ç ão da verdade
concernente a todos os ensinamentos sagrados da Igreja (sacra
doctrina); deste modo, a Θεολογία tratava desde a teologia pró-
pria até os assuntos pertinentes a fé e a moral da Igreja.5

r ___
Acepções do Etim o Teologia

O term o Θεολογία a p artir do conceito escolástico me-


dieval e das rupturas surgidas p o r meio das principais con-
trovérsias cristãs, tornou-se term o elástico e inclusivo para
reconhecer o expoente pragmático de um sistema teológico,
com binando o nom e do indivíduo ao vocábulo Θεολογία.
Assim temos: Teologia Agostiniana, Teologia A rm iniana,
Teologia Wesleiana, Teologia Paulina, Teologia Joanma, e
muitas outras.

16
F undam en tos da H e rm en êutica

O term o pode ser classificado também pelo local de ori-


gem, por exemplo: Teologia Alexandrina, Teologia da Antiga
Princeton, Teologia de Mercersburg, Teologia de N ew Haven.
Entretanto, a forma mais comum à I g r e j a e aos estudos inici-
ais de Θεολογία é o uso pelo qual se empregam: Teologia
Exegética, Teologia Histórica, Teologia Bíblica, Teologia Sis-
temática e Teologia Prática.
Q uando se deseja diferençar a Θεολογία dos conteúdos
da Antiga e Nova Aliança, chama-se de Teologia do Antigo
Testamento e Teologia do Novo Testamento.

Classificação Básica da Teologia


A Teologia pode ser comparada a um edifício de cinco
andares, cada um desses com suas respectivas salas e funções.
Estas, por sua vez, dependem uma das outras numa correspon-
dência recíproca, formando todas o mesmo edifício. De m odo
análogo a um edifício de cinco andares, a Teologia em sentido
restrito, pode ser agrupada e classificada em cinco formas usais.
Assim, na medida em que se conhece uma disciplina teológica,
esta obsequiará a compreensão da disciplina seguinte.

Teologia Exegética
A Teologia Exegética enfatiza o emprego dos métodos
hermenêuticos a fim de poder auscultar corretamente a men-
sagem dos textos sacros. Preocupa-se com o sentido primário
e literal do texto sagrado. Inclui os seguintes estudos:

Filologia Sacra
Hebraico
O hebraico é a língua em que Deus falou! Quase todos os
textos do Antigo Testamento foram redigidos em hebraico. O

17
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

adjetivo “hebraico” deriva-se provavelmente, do nome do pa-


triarca H eber (Ebher ou Ibhr), um dos pósteros de Sem, filho
de N oé (G n 10.24,25). Foi de H eber que o povo oriundo de
Abraão tom ou nome — o povo “hebreu”, cuja língua mater-
na tradicional é o hebraico (G n 14.13).
O hebraico constitui uma das línguas do ramo semítico
falado no período veterotestamentário. D urante o período da
independência dos israelitas, o hebraico foi a língua oficial da
civilização hebréia. Entretanto, após várias escaramuças sofri-
das pelo povo judeu, em função da miscigenação das raças, a
língua patrícia dos mesmos começou a arrefecer. Em 7 22 a.C.,
o hebraico era usado apenas pelos círculos sacerdotais e pro-
féticos de Israel, e não como língua nacional. E possível que a
famosa tradução Septuaginta (L X X ) tenha sido traduzida dos
originais hebraicos para o grego devido a dificuldade que os
judeus helenistas possuíam com o idioma pátrio.
O alfabeto hebraico é constituído de 2 2 letras ou conso-
antes, e possui três consoantes que não fazem parte do alfabe-
to e que servem como vogais. Seu form ato é quadrático e lê-se
ou escreve-se como outras línguas semíticas, da direita para a
esquerda. N ão há letras maiúsculas e minúsculas, e quando
não podemos escrever parte de uma palavra numa linha se-
guinte, não podemos usar hífen como no português. N o caso
de não haver espaço, escreve-se a palavra toda na linha seguin-
te. Também é chamada nas Escrituras de “língua de Canaã”
ou “língua judaica” (Is 19.18; 2 Rs 18.26-28; Is 36.13).

Gênesis - ‫בראעזית‬
1 ‫בראשית ברא אלוזים את השמ;ם ואת הארץ‬:
18
F u n d a m e n t o s d a F íe rm e n ê u tic a

Aramaico
Entre os descendentes de Sem, conta-se ainda Arão ou
Aram, do qual tom ou nome a nação araméia (no hebraico) ou
Síria (no grego), residente na Síria e na M esopotamia. Era
uma língua dotada de semelhanças e distinções do hebraico
(2 Rs 18.26). As porções bíblicas escritas em aramaico geral-
mente são mensagens de gentios a judeus ou de gentios a gen-
tios, jamais de judeus a judeus. O aramaico influenciou pro-
fundamente o hebraico por causa do cativeiro do reino de
Israel em 722 a.C. na Assíria, e 587 a.C. em Babilônia. E por
essa razão que, no tempo de Esdras, ao serem lidas as Escritu-
ras em hebraico, era preciso interpretá-las (N e 8.5-8). O
aramaico propagou-se tanto entre os judeus (N e 13.24) que
no tempo de Cristo tornara-se a língua popular dos judeus
(M t 5.18; M c 14.36). São trechos significativos, pronuncia-
dos nesse idioma no Antigo Testamento:
a) Carta de um gentio a outro (E d 4.8-23; 5.6-17; 6.3-
18; D n 2.4-7.28);
b) Carta de um gentio a um judeu: (E d 7 .1 1-26c).
O aramaico possui o mesmo alfabeto que o hebraico,
diferindo nos sons e na estrutura de certas partes gramati-
cais. D o mesmo m odo que o hebraico, não possui vogal e,
em 8 0 0 a.C., é que os sinais vocálicos lhe foram introduzi-
dos. Os idiomas hebraico e aramaico pertencem ao grupo
das línguas semíticas, e este foi tornando-se cada vez mais
com um entre os povos do O riente, principalm ente em suas
relações diplomáticas (conform e 2 Rs 18.26, de m odo que
veio a ser, no século IV a.C., a língua usual do próprio povo
de Abraão — N e 13.24), ficando o hebraico reservado para
o culto sagrado.

19
H e r m e n ê u t i c a fácil e ciescomplicada

Grego
A terceira língua que compõe as Escrituras Sagradas é o
grego. O Novo Testamento foi todo escrito na língua grega,
com exceção do original do Evangelho de Mateus, escrito em
aramaico que, por sua vez, foi traduzido para o grego comê.
O grego do Novo Testamento é denominado grego helenístico
ou coinê, isto é, comum. Depois das conquistas de Alexandre
M agno (3 3 0 a.C.), a língua grega ao redor do M editerrâneo
tornou-se um grego simplificado, comum. O Antigo Testa-
m ento foi traduzido do hebraico para o grego coinê em
Alexandria (2 8 0 a.C.), por um grupo de eruditos judeus-
helenísticos — a famosa Septuaginta (LX X ). O grego tor-
nou-se uma língua universal, tanto que, quando Paulo escreve
à igreja em Roma, não o faz em latim, mas em grego!
O alfabeto grego consta de vinte e quatro letras: a primei-
ra é “alfa” (A) e a última “ômega” (Ω ) (Ap 1.8). Segundo
LaSor, o grego escrito pelo evangelista Lucas e pelo escritor
aos Hebreus é o “mais literário”, o grego do Apocalipse mais
“com um ” e Paulo é classificado como um helêmco educado.6

,Εν άρχη ήν ó λόγος, και ó λόγος ήν προς τον


θεόν, και θεός ήν ό λόγος (Jo Ι.Ι ).

LXX NT
1300 700 300 0 500 1500 d.C.
a.C * d.C.
minóico clássico Comê Comê Bizantino M oderno

20
F undam en tos da H e rm en êutica

“N o período antigo da língua helênica, quatro dialetos


eram identificados: o minóico, um alfabeto silábico; o clássico
ou ático (falado por Platão, Hom ero, H eródoto); o Coinê
falado no Novo Testamento; bizantino e o m oderno, que é o
grego dem otiki”/
Toda a Escritura Sagrada foi escrita nessas três línguas
por cerca de quarenta escritores, abrangendo um período apro-
ximado de 1.600 anos. Os autores foram os mais variegados.
As relações entre esses escritores e a cultura do seu tempo
deixaram impressões extraordinárias nas Sagradas Escrituras.

Isagoge Bíblica ou Introdução Bíblica

A Teologia Exegética alcança também os assuntos que


preparam os estudantes para melhor compreenderem as Es-
crituras. Isagoge é a designação técnica para descrever os estu-
dos que fornecem informações gerais e preliminares sobre os
assuntos cujo conhecimento seja necessário a uma melhor com-
p reensão das E sc ritu ra s. Isagoge é derivado do grego
ε ϊσ + ά γ ω γ ή (eis+agõgê)8, que significa conduzir para den-
tro, introdução, introduzir. Para fins didáticos designa-se como
Introdução Bíblica.
O objetivo da Isagoge Bíblica é preparar o estudante para
compreender melhor as Escrituras. Visa determ inar a exten-
são e o caráter original dos autógrafos sagrados, bem como
conhecer as vicissitudes que eles enfrentaram para atmgir sua
presente forma, unidade e valor. A Isagoge prepara o estudan-
te para compreender melhor a Exegese, a H erm enêutica e a
Teologia Bíblica. Tornando-se então não o edifício, mas o con-
junto dos cálculos e estimativas necessárias à construção.9

21
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

A Isagoge Bíblica divide-se em dois pólos principais: Isagoge


Especial ou Restrita, e Isagoge Geral. A Isagoge Especial estuda
as questões que dizem respeito aos livros que compõem as Sa-
gradas Escrituras, tais como: sua origem divina, transmissão do
texto e interpretação. Divide-se em cinco partes:
a) O Tratado da Inspiração: Discute os critérios pelos
quais se distinguem os livros inspirados dos que não o são;
b) O Tratado do Canon: Discute as questões relaciona-
f das com a formação dos escritos sacros, quais são concreta-
mente esses livros inspirados e como distinguí-los dos não
inspirados;
c) Critica Textual: Também chamada de Baixa Crítica, es-
tuda o texto dos manuscritos com o fim de descobrir e corri-
gir possíveis erros que neles podem ocorrer e restaurá-los, até
onde possível, às condições originais, procurando determinar
os textos originais mais exatos;
d) Crítica Histórica: Também chamada de Alta Crítica. -
Interessa-se por problemas relacionados a idade, autoria, fon-
tes, valor histórico, composição, publicação de cada livro, cir-
cunstâncias (de tempo e lugar) em que foi escrito, conteúdo
da obra, os textos mais significativos e os dados característicos
de sua mensagem divina, verificando os relacionamentos his-
tóricos e a validade das asserções feita pelos documentos;
e) O Tratado da Hermenêutica: Utiliza-se dos resultados
dos assuntos tratados nas disciplinas anteriores, a fim de mos-
trar o melhor caminho a ser percorrido pelo exegeta na sua
extração da verdade.
A Isagoge Geral ou Ampla, além de incluir as matérias da
Especial, inclui: Arqueologia, H istória N atural e Geografia
da Palestina.

22
F u n d a m e n t o s da F íe rm e n ê u tic a

Teologia H istórica
A Teologia Histórica é o segundo andar do “edifício teo-
lógico”. Trata do desenvolvimento histórico da doutrina e se
preocupa com as variações sectárias e afastamentos heréticos
da verdade bíblica que apareceram durante a era cristã. Con-
tém duas divisões principais:
a) O estudo do desenvolvimento progressivo das doutri-
nas da Bíblia. Os que seguem este método, tam bém chamado
de “horizontal”, consideram a história do desenvolvimento
doutrinário como um todo, em períodos, e traçam a gênese de
todos os vários dogmas em cada período específico, deixan-
do-os no estágio em que são encontrados no fim do período,
e então os retomam nesse ponto a fim de seguir seu posterior
desenvolvimento. Assim, a teologia própria é estudada até o
início da Idade Média; daí abandonada, sendo seguida pelo
estudo de outras doutrinas até este período.10
b) O exame do desenvolvimento histórico das doutrinas
da Igreja desde a era apostólica. Os que seguem este método,
também chamado de “vertical”, consideram o estudo das dou-
trinas separadas na ordem em que se tornam o centro da aten-
ção da Igreja, seguindo seu desenvolvimento até atingirem sua
forma final. Seguindo este método, o estudo da teologia pró-
pria segue das discussões apostólicas, até a sua formulação
final nos credos histórico posterior a reforma.11
A Teologia Histórica destaca a importância da história se-
cular, bíblica e eclesiástica devido à contribuição que podem ofe-
recer à compreensão do desenvolvimento doutrinário. Abrange:
a) H istória da Igreja;
b) H istória das Missões;

23
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

c) H istória dos Credos e Confissões;


d) H istória das Doutrinas.

Teologia Bíblica

O objetivo da Teologia Bíblica é traçar o progresso da


verdade nos diversos livros da Bíblia, e descrever a forma de
cada escritor apresentar as doutrinas fundamentais. A Teolo-
gia Bíblica, então, preocupa-se com a doutrina em um livro,
quer no Antigo Testamento, quer nas páginas do Novo Testa-
m ento em particular. Seguindo este m étodo teológico, o
biblista, por exemplo, pode ocupar-se do estudo da doutrina
de Deus apenas em Gênesis, ou da cristologia na epístola de
Paulo aos Romanos, e assim sucessivamente.
A Teologia Bíblica não enfatiza o arranjo sistemático da
doutrina em categorias específicas; ao contrário: o alvo é iso-
lar os ensinamentos em determinados contextos, usjaalmente
livro por livro, autor por autor, ou em agrupamentos históri-
cos. Portanto, a Teologia Bíblica auxilia a Teologia Exegética
procurando identificar a única verdade que cada locução,
cláusula e frase pretende transmitir ao perfazer o pensamento
dos parágrafos, seções e, em última análise, de livros intei-
ros.12 As duas principais divisões da Teologia Bíblica são:

I) Teologia do Antigo Testamento:


A Teologia do Antigo Testamento é a ciência que trata da
natureza de Deus e da sua relação com o universo. Propõe-se
a expor, do m odo mais ordenado possível, as grandes declara-
ções da verdade divina e o propósito das atividades de Deus
na história e na vida do povo de Israel, de acordo com a dou-
trina da revelação divina nos livros sagrados deste povo. Nesta
24
F u n d a m e n t o s da H e r m e n ê u t i c a

disciplina discute-se a problemática geral do AT com objetivo


de auscultar os temas teológicos que são chave para a interpre-
tação do AT, tanto de form a diacrônica como sincrônica.
Q uatro tipos de métodos têm surgido, a saber:
a) O M étodo Estrutural seguido por Eichrodt, Vriezen e
van Imschoot, que descreve o esboço básico do pensamento e
da crença no AT em unidades tiradas por empréstimo da Te-
ologia Sistemática, da sociologia ou de princípios teológicos
seletos, e depois traça seu relacionamento para conceitos se-
cundários.
b) O M étodo Diacrônico seguido por von Rad, que ex-
põe a teologia dos sucessivos períodos de tem p o e das
estratificações da história de Israel. Infelizmente, a ênfase re-
caía sobre as tradições sucessivas da fé e da experiência da
comunidade religiosa.
c) O M étodo Lexicográfico seguido especialmente por
Gerhard Kittel, limita seu escopo de investigação a um grupo
de homens bíblicos e seu vocabulário especial, por exemplo,
os sábios, o eloísta, o vocabulário sacerdotal.
d) O M étodo dos Temas Bíblicos seguido por John Bright
e Paul e Elizabeth Achtemeier, leva sua busca além do vocabu-
lário do único term o chave para abranger toda constelação de
palavras ao der redor de um tema chave.13

2) Teologia do Novo Testamento:


A Teologia do Novo Testamento é o ramo da Teologia
Bíblica que segue determinados temas através de todos os au-
tores do N T, e que depois funde esses quadros individuais
num só conjunto abrangente. Estuda, portanto, a revelação
progressiva de Deus em termos da situação vivencial na oca­

25
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

sião da escrita, e depois delineia o fio subjacente que une to-


dos os dados. Essa disciplina enfoca o significado mais do
que a aplicação, isto é, a mensagem do texto para seus própri-
os dias mais do que para as necessidades modernas, além de
discutir a problemática geral do N T .14 Objetiva-se a auscultar
os temas teológicos que são necessários para a compreensão
do N T, levando em consideração a diversidade dos testemu-
nhos dos escritores (teologia paulina, joanina, etc.) e da Igreja
em geral no período do N T. Os métodos empregados para a
Teologia do N ovo Testamento são:
a) O M étodo Sintético segue os temas teológicos básicos
por todas as partes das Escrituras a fim de notar seu desenvol-
vimento através do período bíblico. Sua fortaleza é a ênfase
que dá à unidade das Escrituras. Sua fraqueza é a tendência
para a subjetividade: é possível enquadrar a matéria do N T
dentro de um padrão artificial.
b) O M étodo Analítico estuda a teologia distintiva de
seções individuais e nota a mensagem específica de cada uma
delas. Sua virtude é a ênfase no significado do autor individu-
al. Sua fraqueza é a diversidade radical, que resulta numa
colagem de quadros sem coesão.
c) O M étodo Histórico estuda o desenvolvimento de idéi-
as religiosas na vida do povo de Deus. Seu valor é a tentativa
de entender a comunidade dos crentes por trás da Bíblia. Seu
problema é a subjetividade da maioria das construções, nas
quais o texto bíblico está à mercê do pesquisador.
d ) O M é to d o C risto ló g ic o faz de C risto a chave
hermenêutica do AT e N T. Sua virtude é o reconhecimento
do verdadeiro centro da Bíblia. Sua fraqueza é a sua tendência
de espiritualizar passagens e forçar interpretações que lhe são
e stra n h a s, p rin c ip a lm e n te em te rm o s da e x p eriên cia
26
F u n d a m e n t o s da H e r m e n ê u t i c a

veterotestamentárias de Israel. N ão se deve considerar que tudo


no AT ou no N T seja um “tipo de C risto”.
e) O M étodo M ultíplice combina o m elhor dentre os
métodos e passa hermeneuticamente do texto para a teoria.
Começa com a análise gramatical e histórica do texto, e pro-
cura desvendar o significado de vários textos dentro dos seus
contextos vivenciais. Aqui, uma análise social também é útil,
posto que estuda aqueles contextos vivenciais em termos de
matriz social das comunidades da fé. N a medida em que os
dados são coletados por meio dessa tarefa exegética, são orga-
nizados pelos padrões básicos de cada livro individual e de-
pois, pelos de cada autor. A ênfase que Paulo dá à justificação
pela fé será unida ao uso que João faz da linguagem do novo
nascimento. Finalmente, esses temas são compilados em se-
ções principais e subseções, seguindo um m étodo descritivo
(bíblico), ao invés de uma reconstrução artificial.13
Percebe-se então que a Teologia Bíblica é a disciplina que
estrutura a mensagem dos livros da Bíblia em seu ambiente
formativo histórico, sendo mais descritiva do que aplicativa.

Teologia Sistem ática


A Teologia Sistemática é uma ciência teológica que se
encarrega do material das disciplinas anteriores com o fim de
arranjá-los de forma lógica e metódica, para facilitar a com-
preensão e promover aplicação prática do mesmo. Por isso,
tem sido considerada como uma disciplina que segue um es-
quema ou uma ordem humana de desenvolvimento doutriná-
rio e que tem o propósito de incorporar no seu sistema toda a
verdade sobre Deus e o seu universo, a partir de toda e qual-
quer fonte: Teologia Natural, Bíblica, Histórica, etc.

27
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Por tratar de temas específicos e desenvolvendo-os atra-


vés de toda Bíblia, pode ser chamada de Teologia Temática;
porém, quando se preocupa com as formas confessionais
( magisterium da Igreja) pode ser chamada de Teologia Dogmática;
tanto um quanto o outro podem ser classificados como méto-
dos no fazer teologia sistemática. Apesar das disciplinas da
Teologia Sistemática, abarcarem todos os “fatos de toda e
qualquer fonte referentes a Deus e às suas obras” 16, entretan-
to, as disciplinas comuns aTeologia Sistemática são: Bibliologia
(Escrituras), Teontologia1' (Deus, seu ser, suas obras, seus
decretos), Angelologia (Anjos, Satanalogia e Demonologia),
Antropologia Teológica (H om em ), H am artiologia (Pecado),
C ristolo g ia (C risto ), S oteriologia (Salvação), Expiação,
Pneum agiologia (E spírito Santo), Eclesiologia (Igreja) e
Escatologia (Ultimas Coisas).

D ivisões da Teologia Sistemática


I) Teologia Dogmática ou Confessional:
Estuda os ensinos contidos nos credos e confissões ex-
pressos nos símbolos da Igreja. E estritamente a sistematiza-
ção e defesa das doutrinas como nos apresentam os credos e
confissões eclesiásticas. Umas das dificuldades do m étodo
confessional na Teologia Sistemática é que são dadas poucas
razões pelas quais certos pontos de vista confessional devam
ser aceitos como norma, em contraste com todos os demais.
Deve ser chamada de dogmática, principalmente porque se
deriva de δοκεω, “pensar, crer, supor, considerar” (M t 3.9; Lc
24.37; I Co 3.18), a expressão δοκ6ι μοι (dokei m oi) signi-
fica não só “parece-me ou agrada-me”, mas também “deter-
minei definitivamente algo de m odo que para mim é fato esta­

28
F u n d a m e n t o s da H e r m e n ê u t i c a

belecido”.18 Assim, cada sentença confessional deve ser testa-


da pelos critérios da consistência lógica e da coerência com os
fatos da revelação. U m exemplo de confissões dogmáticas é a
Confissão de W estminster (Presbiterianos).19

2) Teologia Apologética:
C om o subdivisão da Teologia Sistemática, a Teologia
Apologética é tanto bíblica quanto filosófica. E um discurso
sistemático e argumentative na defesa da origem divina e da
autoridade da fé cristã. Desenvolve uma defesa das pressuposi-
ções básicas dos cristãos a respeito de Deus, de Cristo e da
Bíblia contra as pressuposições conflitantes. O sentido de
apologética procede de απολογία (apologia), que é traduzido
como defesa, respQnder ou replicar (At 25.16; Fp 1.7,16; 2 T m
4.16; I Pe 3.15; I Co 9.3), e απο λο γεο μ αι (apologéomai) sig-
nifica falar em autodefesa, ou defender-se (Lc 21.14; R m 2.15).
N o período neotestamentário uma apologia era a defesa de al-
guma coisa feita formalmente no tribunal (2 T m 4.16).

Teologia Prática

A Teologia Prática relaciona-se com a aplicação prática


dos resultados da investigação teológica, particularmente no
que concerne à obra do ministério cristão, procurando aplicar
à vida prática aquilo que outros departamentos da teologia
contribuíram.
E uma disciplina terminantemente prática, pois viabiliza
a capacitação ministerial e eclesiológica da liderança e da igre-
ja, a fim de que todos sejam perfeitamente habilitados para a
obra do ministério. Abrange:

29
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

a) Homilética;
b) Organização e Administração Eclesiástica;
c) Liturgia;
d) Educação Cristã;
e) outros.

SIN O P SE
Θ εολογία a é o ensino, discurso, tratado, ou ciência so-
bre Deus e fatos a Ele relacionados. Procede originalmente de
dois substantivos gregos, o genitivo Θεου (T h e o s ) e do
acusativo λ ό για (logia) que significa tratado, fala .
Apesar de não encontrarmos o vocábulo nas Escrituras, não
deixa contudo, de ser correlativo a elas: τα λ ό για ToO θεου (ta
logia to u T h e o u = o rácu lo s de D eu s — R m 3 .2 );
ώς λ ό γ ια θεο υ (hõs logia Theou = os oráculos de Deus — I
Pe 4 .1 1).
Ο θ ε ο λ ό γ ο ς é tanto o que fala a palavra de Deus, quan-
to aquele a quem Deus fala.
A Teologia Exegética enfatiza o emprego dos métodos
hermenêuticos a fim de auscultar corretamente a mensagem
dos textos sacros.
A Teologia H istórica trata do desenvolvimento histórico
da doutrina, e se preocupa com as variações sectárias e afasta-
mentos heréticos da verdade bíblica que apareceram durante a
era cristã.
O objetivo da Teologia Bíblica é traçar o progresso da
verdade nos diversos livros da Bíblia, e descrever a forma de
cada escritor apresentar as doutrinas fundamentais.
A Teologia Sistemática é uma ciência teológica que se
encarrega do material de outras disciplinas com o fim de arran-

30
F u n d a m e n t o s d a H e r m e n ê u t ic a

já-los de forma lógica e metódica para facilitar a compreensão


e promover aplicação prática do mesmo.
A Teologia Dogmática estuda os ensinos contidos nos
credos e confissões expressos nos símbolos da Igreja. E estri-
tamente a sistematização e defesa das doutrinas como nos
apresentam os credos e confissões eclesiásticas.
Teologia Apologética, como subdivisão da Teologia Sis-
temática, é tanto bíblica quanto filosófica. E um discurso sis-
temático e argumentative na defesa da origem divina e da au-
toridade da fé cristã.
A Teologia do Novo Testamento é o ramo da Teologia
Bíblica que segue determinados temas através de todos os au-
tores do N T, e que depois funde esses quadros individuais
num só conjunto abrangente.
A Teologia do Antigo Testamento é a ciência que trata da
natureza de Deus e da sua relação com o Universo. Propõe-se
a expor, do m odo mais ordenado possível, as grandes declara-
ções da verdade divina e o propósito das atividades de Deus
na história e na vida do povo de Israel, de acordo com a dou-
trina da revelação divina nos livros sagrados deste povo.
A Teologia Prática relaciona-se com a aplicação prática
dos resultados da investigação teológica, particularmente no
que concerne à obra do ministério cristão, procurando aplicar
à vida prática aquilo que outros departamentos da teologia
contribuíram.

TRABALHANDO COM TEX TO

ISAGOGE BÍBLICA
Admite-se geralmente ter sido Adriano, monge grego que
viveu provavelmente no século V, o primeiro estudioso a usar

31
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

o vocábulo ISAGOGE ou i n t r o d u ç ã o para designar os estudos


que auxiliavam o mais correto conhecimento da Bíblia. Com
este objetivo escreveu um pequeno tratado destinado a ajudar
o estudante a familiarizar-se com a fraseologia bíblica e suas
expressões peculiares, cujo título era “ A d r i a n o u I s a g o g e T É s
g r a f e s ” (εισαγωγή τής γραφής) apareceu em latim em
1602 editado por Davi Hoeschel.
Contribuição mais ampla e significativa foi oferecida por
Marcus Aurelius Cassiodorus que, em 550, escreveu uma obra
na qual se refere a cinco estudiosos que se empenharam na
tarefa de investigar a Bíblia. A obra se intitula “Introcuciones
Divinae Scripturae”; assim surgiu e foi consagrada a expressão
“Introdução à Escritura Sagrada”, para designar a disciplina
que inclui todos os assuntos preliminares e necessários ao es-
tudo da Bíblia.
O fu n d a d o r da ciência m o d e rn a da Isagoge é J.G.
Eichhorn, que publicou em 1780-83 alentada obra em três
volumes sobre o assunto. Com o parte da Introdução comen-
tou sobre a origem do Canon, a história do texto e a origem
dos diferentes livros.
Os críticos hoje admitem que a Isagoge compreende certas
matérias que preparam o estudante para compreender melhor
as Escrituras e alcançar conhecimento mais sólido delas. Porém,
não há unanimidade entre os críticos dos assuntos a ser tratado,
p or isso, a divisão entre Isagoge Estrita e Isagoge Ampla.
RIBEIRO, Américo J. Isagoge do Velho Testamento, Seminário
Presbiteriano de Campinas, 1970 (p. 1,2).

EXERCÍCIO S
I . Defina e conceitue o term o teologia.

32
F u n d a m e n t o s da H e r m e n ê u t i c a

2. Quais são as principais disciplinas da Teologia Exegética


e Sistemática?
3. Faça uma dissertação sobre a função da teologia e do
teólogo na igreja.
4. Como a Teologia do AT e N T pode ser útil a comuni-
dade cristã?

Bibli-Holmes
Ajude nosso detetive Bibli-Holmes a investigar as diver-
sas acepções do term o “teologia” e sua correspondência com
os diversos sistemas teológicos.

L E IT U R A S E LIV R O S PARA A P R O F U N D A M E N T O
ELW ELL, Walter A., editor. Enciclopédia Histórico-Teológica
da Igreja Cristã, Vida Nova, v.3 (p. 452 -5 2 0 ).
C H A M P L IN , R. N. & BEN TES, J. M . Enciclopédia de Bí~
blia, Eeologia e Filosojia, Candeia, v. 6 (p. 465-4 9 5 ).
H O R T O N , Stanley M., editor. Teologia Sistemática, CPAD
(p. 50-62).

NOTAS
1 Declmação do substantivo grego que indica possessão.
2 N o grego Θ6ός, “D eus” ou “deus”. O grego do Novo
Testamento não difere pelo uso da letra theta maiúscula (Θ ) ou
minúscula (Θ) a que divindade o texto se refere, usando ο “Θ”
minúsculo para referir-se tanto ao verdadeiro Deus quanto
aos deuses falsos. Os tradutores da Bíblia, subsidiados pelo
contexto é que traduzem [interpretam] as referências a qual-
quer uma das pessoas da Santíssima Trindade com ο Θ maiús-
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

culo (At 7.32, “Deus de A braão”), enquanto em minúsculo,


refere-se a uma divindade falsa ou pagã, como em Atos 7.43
[deus Renfã]. D a raiz do term o θβός (theós), muitas outras
palavras são formadas: theodidaktos (ensinado por Deus — I Ts
4.9); theomakbeo (lutar contra Deus —At 23.9); theópneustos (ms-
pirada por Deus —2 T m 3.16); theosébeia (reverência a Deus —
IT m 2 .I0 ).
3 Declinação do substantivo grego que corresponde à fun-
ção de objeto direto.
4 Lewis S. Chafer, Teologia Sistemática} 1986, p. 26.
‫ נ‬Im portantes contribuições históricas sobre o conceito
de teologia podem ser encontradas em Roque Frangiotti, H is-
tória da Teologia —Período Patrístico, SP: Edições Paulinas, 1992;
Claude Geffré, Como Tazer Teologia Hoje —Hermenêutica Teológica!
SP: Edições Paulinas, 1989. Cf. Alberto F. Roldán, Para que
Serve a Teologia? Curitiba: Editora Descoberta, 2000.
6 W illiam S. LaSor, Gramática Sintática do Grego do N T
1986, p. 4.
7 Francisco L. Schalkwijk, Coinê-Pequena Gramática do Grego
Neotestamentário, 1992, p. 4.
8 Esse estilo de análise remonta ao monge do século V,
membro da escola de Antioquia, conhecido por Adrianos, es-
creveu Eisagõgê eis tas theiasgrapbas, “Introdução às Sagradas Es-
crituras” aproximadamente em 4 4 0 (d.C.). Em latim Eisagõgê
tornou-se Introductio, e daí por diante, o termo técnico Introdu-
ção, como apresentado nas ciências teológicas.
9 Américo J. Ribeiro, Isagoge do V T ~ Iparte: Canônica, Semi-
n á rio P r e s b ite r ia n o de C a m p in a s , 1 9 7 0 , A p o s tila
mimeografada, p. 2.

34
F un dam entos da H e rm enêutica

10 Louis Berkhof, A História das Doutrinas Cristãs, 1992, p. 27.


11 Id.Ibidem, 1 9 9 2 , p. 27.
12 C f, por exemplo, G .Eldon Ladd, Teologia do Novo Testa-
mento, 1997, p.24-32.
13 C f Walter C. Kaiser Jr., Teologia do AntigoTestamento, 1980,
p. IO-I I.
14 G. Eldon Ladd, 1997, Id. Ibidem, p. 25.
1‫ ה‬G. R. Osborne, Teologia do Novo Testamento, In: Enciclopédia
Histórico-Teológica da Igreja Cristã, W alter A. Elwell (ed.), vl.III
p. 504. Foi omitido propositalmente o m étodo confessional e
o do Corte Transversal.
16 Considere as proposições sobre o tema em Chafer, 1986,
op.cit., p. 5.
1‫ ׳‬Chamado também de Teologia Própria.
18 O utras considerações sobre o term o e sua ênfase nos
escritores judeus, latinos e gregos pode ser conferida In: Walter
Bauer’s, A Greek-English Lexicon o f the N ew Testament and Other Early
Christian Literature, 1958, p. 201-2.
Ig A Igreja Assembléia de Deus possui seu credo dogmático
exposto nos periódicos da denominação.

35
C A P ÍT U L O 2

3n9pítação e *Revelação

Se cremos na bondade de D e u s , é p r e s u m ív e l que E le


não d e ix a ria 0 hom em na escuridão da ignorância
sobre a sua pessoa, seus atos e seu incom en su rável
amor. Para com preendê-lo, a razão h u m a n a
é incom pleta e ab solutam ente ineficaz. O s gran des
pensadores têm f o r m u l a d o m ilhares de labirintos para
entender e d efin ir 0 E tern o , porém , sem qu a lq u er
proveito. A fa sta d o s da revelação do Logos E n ca rn a d o
e da Palavra E scrita, os pensadores céticos só
encontraram percalços na compreensão do In sondável.

Revelação, Inspiração e Escritura

E tim o de Revelação
O term o hebraico para revelação é gcW que conota o
mesmo significado que a expressão neotestamentária apokalipsis
(άποκαλυψ ις ) 2: desvendar, revelar ou tirar o véu. E assim
que em Romanos 16.25 Paulo refere-se a “revelação do mis-
téno que desde os tempos antigos esteve oculto”. O termo
revelação e mistério são associações comuns nas epístolas
paulmas. Paulo emprega, por exemplo, o termo mistério seis
vezes na epístola aos Efésios. Para compreender adequada­
H e r m e n ê u t i c a fácil e de sc o m p lic a d a

mente este termo é necessário uma comparação formal com a


epístola aos Colossenses, pois esta também usa o termo várias
vezes (1.26,27; 2.2; 4.3). O termo também pode ser encon-
trado em Romanos (duas), I Coríntios (seis vezes), I Tim ó-
teo (duas), 2 T im ó teo (duas). O s usos do term o grego
m ystêrion (μυστήριον) nestas epístolas possuem particular
afinidade com o contexto já encontrado em Efésios e Colos-
senses. N otadam ente em Colossenses, mistério é especificado
pelo genitivo “mistério de D eus” (2.2) e “mistério de C risto”
(4.3). N os outros dois casos (1.26,27), o contexto define o
mistério em relação a Deus e a Cristo: “Deus quis fazer co-
nhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os
gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória”. Em Colos-
senses 2.2, este mistério é o próprio Cristo: “para conheci-
mento do mistério de Deus —C risto”.
Esse conjunto de taracterísticas se encontra também nos
textos de Efésios. Em três casos o m ystêrion é determinado
por um genitivo que o põe em relação com a iniciativa gratuita
e eficaz de Deus, a sua “vontade” (1.9), com o Cristo (3.4) ou
com o Evangelho (6.19). Em dois casos o term o é usado de
forma absoluta, “o mistério” (3.3,9), mas o contexto permite
referi-lo, sem dúvida, a Deus ou ao Cristo. Exclui-se dessa
perspectiva o caso de 5.32, onde designa uma interpretação
“profética” de um texto bíblico, precisamente, de Gênesis 2.24,
relido à luz da ligação salvífica entre Cristo e a Igreja3. Veja-
mos os textos relativos ao termo na Epístola ao Efésios:
“descobrindo-nos o mistério da sua vontade” (1.9);
“este mistério manifestado pela revelação” (3.3);
“compreensão do mistério de C risto” (3.4);
“dispensação do mistério... oculto em D eus” (3.9);

38
In s p ira ç ã o e Revelação

“Grande é este mistério” (5.32);


“fazer notório o mistério do evangelho” (6.19).
N ão somos escusados de frisar que Paulo dá-nos a chave
sobre o seu entendimento do “mistério”: “como me foi este
mistério manifestado pela revelação, como acima, em pouco,
vos escrevi” (3.3). O mistério de que o doutor dos gentios
trata não é nada oculto ou enigmático, mas antes algo “revela-
d o ”, pois relaciona-se com a revelação que Deus faz de si e de
seus projetos salvíficos. Ele chama os seguintes temas dos de-
eretos divinos como um mistério revelado:
a) as bênçãos espirituais em Cristo nas regiões celestes (1.3);
b )a eleição em Cristo (1.4);
c) a predestinação (1.5);
d) a adoção (1.5);
e) a redenção pelo sangue (1.7);
f) Congregar em Cristo todas as coisas (I.IO );
g) o selo do Espírito ( L I 3);
h )o poder de Deus no crente ( I . 1 9);
1) Cristo acima de todo principado ( I .2 I ) ;

j) Cristo a cabeça da Igreja (L 2 2 );


1) a Igreja, corpo de Cristo (1.23).
Isto posto, revelação, no sentido escriturístico, é a mam-
festação que Deus faz de si mesmo e de sua vontade aos ho-
mens. Essa revelação, de acordo com a origem e desenvolvi-
mento do Canon Sagrado, é a comunicação sobrenatural des-
conhecida do hagiógrafo. Por meio da revelação, verdades an-
teriormente ignoradas pelos hagiógrafos foram descortinadas,
como Zacarias 12.10, Miquéias 5.2 e Isaías 50.4-10. Certa-
mente os autores sagrados não adquiriram essas informações
por estudo ou vias meramente humanas.

39
H e r m e n ê u t i c a tacil e de sc o m p li c a d a

T ip os de Revelação
Revelação Ativa
E uma revelação imediata da parte de Deus, sem qual-
quer permeio humano. E Deus revelando-se diretamente ao
homem. A revelação de Deus a Moisés no monte Sinai é um
exemplo direto dessa revelação. A revelação ativa ou direta pres-
supõe a comunicação especial de Deus ao homem. A fimtude
humana não é capaz de penetrar no mcognoscível universo
divino. Seus modos de percepção naturais apenas o possibili-
tam a discernir as bases físicas e temporais da existência. Atra-
vés de sua mente, o homem especula o lógico, perceptível e
natural. A revelação de Deus aos homens então não é somente
plausível, mas também necessária, por dois fatores:
a) O fator implícito: Que diz respeito ao que Deus é em
sua natureza infinita, sendo por isso, Deus inacessível aos ho-
mens ( I T m 6.16; Jo 4.23,24);
b) O fator explícito: Que é a vulnerabilidade humana para
conhecer a Deus em sua natureza incomensurável. N ão parte
de Deus, mas da natureza finita do homem. Daí, a necessidade
de uma comunicação direta de Deus aos homens. Neste aspec-
to é notável o modo teofânico como Deus se revela: teofanias
visíveis (G n 16.11 cf. 16.13; Êx 3.2-6; 19.18-20; D n 7.9-14)
e, teofanias audíveis (Gn 3.8; I Rs 19.12,13; M t 3.17). Através
desses textos percebemos que a teofânia, como veículo da reve-
lação de Deus, pode ser humana (G n 18.1,2,13,14), angélica
(Jz 2.1; 6.11,14) e não humana (Gn 15.17; Êx 19.18-20). Al-
gumas dessas revelações teofânicas são cristofanias (Jo 12.40,41).
N a teofania é Deus quem toma a iniciativa. Ele nunca se revela
completamente, e usualmente o faz apenas de modo temporá­

40
In s p ira ç ã o e Revelação

rio, ao invés de se manifestar de forma permanente. A manifes-


tação permanente foi a encarnação de Cristo (Jo I.I 4 -I8 ).

Revelação Passiva
E uma revelação mediativa, isto é, Deus não se revela di-
retamente ao homem como o fez com Moisés, porém, é o
conhecimento de Deus que é comunicado aos homens ou
mesmo aquele que é observado através da revelação geral
(G n I; SI 119; 148; R m I.20ss).4 Revelação Geral é uma
expressão teológica para definir uma forma de teologia natu-
ral (SI 8; I9 .I; R m 1.8 -2 1).‫ ב‬Essa revelação acha-se impressa
na criação. Apesar de não ser uma revelação pontifícia, como a
Revelação Especial, o Logos E ncarnado ( Logos Theau) e a
epistemológica ( Rhetna Theou — que é o registro dessas revela-
ções através das Escrituras a todas as gerações), contudo, pos-
sui predicativo suficiente para que o homem conheça a Deus e
o adore.6
A Revelação Geral ocorre de dois modos distintos:
a) U m a revelação externa na criação — a qual proclama
o poder, a sabedoria e a bondade de Deus, e;
b) Revelação interna da razão e da consciência em cada
indivíduo (R m 12.16; Jo 1.9).
O cristianismo reconhece tanto a Revelação Geral quan-
to a Especial, como modos progressivos da auto-revelação de
Deus. Entretanto, o clímax revelador manifesta-se em dois
meios específicos: o Verbo Vivo e a Palavra Escrita. A Revela-
cão Especial é coroada pela encarnação do Verbo Vivo (Jo
1.1,14,17,18; 14.8,9; H b I.I-3 ), e pelo registro da Palavra
nas Escrituras (I Co 14.37; 2 T m 3.16), sendo essas revela-
ções o desvendamento que Deus faz de si mesmo de m odo

41
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p h c a d a

imediato e sobrenatural. O Logos Encarnado revelou o Pai.


A Palavra escrita registrou essa revelação e o seu progresso
(H b L I -3; 2 Pe 1.20,21; G1 I .I 2 ) .7

Inspiração do AT e do N T
O sentido teológico de inspiração divina é derivado da
expressão paulina de 2 Tim óteo 3.16: “Toda a Escritura é
inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão,
para a correção e para a educação na justiça” (N V I).
A expressão “divinamente inspirada”, no grego theópneustos
(θεόπνευστος), constitui-se um hapax legoumenon, isto é, ter-
mo que aparece apenas uma vez nas Escrituras, e é form ada
p o r d o is v o cáb u lo s, T h e ó s (θεός = D e u s ) e p n e u sto s
(πνευστός =inspiração, influxo). O apóstolo Pedro afirma
que os profetas eram literalm ente levados (φερόμενοί -
pherófnenot) pelo Espírito Santo (2 Pe 1 .2 1; cf. A t 2 7 .15,17).
A Vulgata traduz pherómenoi por iivírtítus inspírata. Isto posto,
2 T im óteo 3.16 quer dizer que as Escrituras são produtos
do sopro criador de Deus. Paulo exorta seu discípulo a per-
severar na autêntica doutrina que aprendeu desde a tenra
idade no Antigo Testamento, a qual é capaz de guiá-lo à
salvação exatamente porque se origina de Deus.
O apóstolo assevera que to d a Escritura é inspirada
(πάσα γραφή - pãsa graphê), isto é, cada parte, pois o adjeti-
vo acusativo πάσα, faltando o artigo, deve de preferência en-
tender-se em sentido distributivo (cada Escritura), mas tam-
bém em sentido coletivo (toda Escritura), o que vem a ser
substancialmente o mesmo, pois se as Escrituras são assim em
cada uma de suas partes, logo também o é no seu conjunto.

42
I n s p ira ç ã o e Revelação

Por meio da inspiração divina, o conteúdo das Escrituras


não é proveniente da sabedoria e aferimento humano, não sendo
produto pessoal da mente do escritor (2 Pe L I 9-21). Assim
sendo, o uso litúrgico do AT na Igreja militante é útil para
ensinar, repreender, corrigir e instruir na justiça, para que o
homem de Deus (θεοΟ άνθρωπος, cf.’is hã É lnhim — D t
33.1) +seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.
Dessa forma, inspiração é a influência sobrenatural exercida
pelo Espírito Santo sobre os hagiógrafos, em virtude do qual
seus escritos são produtos da vontade divina, constituindo-se
cânon de regra, fé e prática ( I Co 2.13; c f I Co 14.34;
G1 I.6 -I2 ).

A Abrangência da Inspiração
Todo o Antigo Testamento
E significativo o argumento de Cristo em Lucas 11.51.
Ao citar de Abel até o sangue de Zacarias, Jesus está referin-
do-se ao Cânon Judaico da Tanak. Abel encontra-se no livro de
Bereshith (Gênesis), que é o primeiro livro da primeira divisão
conhecida com oTorá ou Lei; “até... Zacarias” encontra-se no
livro de D rive Hayamim (I e 2 Crônicas) e corresponde ao últi-
mo livro da terceira divisão da Tanak, conhecidos como Kethuvim
ou Escritos. Em Lucas 24.45, Cristo refere-se à tríplice divi-
são da Tanak, referindo-se à Lei de Moisés (Torá — I a divi-
são), Profetas (2 a divisão) e Salmos (o primeiro livro da 3a
terceira divisão). Assim, Cristo confirma toda a inspiração
bíblica do Antigo Testamento. N ão somente isto, mas os ju-
deus tecnicamente designavam a coleção dos escritos da Anti-
ga Aliança como h ê graphê (a Escritura, R m 9.17), ou tais
graphais (as Escrituras, Lc 24.27).

43
H e r m e n ê u t i c a tácil e de sc o m p li c a d a

O Testimonium de Cristo
Caminhando um degrau acima em nossa investigação, é
sempre de praxe assinalar o testimonium de Cristo acerca das
Escrituras. Os ditos de Jesus sempre costeavam as profecias
do Antigo Testamento. Q uando uma controvérsia enrubescia,
citava um dos textos das Escrituras a fim de encerrar a polê-
mica e atestar o valor profético da mesma, senão vejamos:
• “N unca lestes nas Escrituras...” (M t 21.42; cf. R m 4.3);
• “Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito” (M t 4.4);
• “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem
que assim convém que aconteça?” (M t 26.54);
O s eixos im p líc ito s da a u to rid a d e das E sc ritu ra s
veterotestamentárias brotam nas páginas do NovoTestamen-
to como uma nascente límpida e fresca. O m odo como Cristo
interpreta as Escrituras distingue-se do uso rabínico de inter-
pretação da Torá, seja dos textos estritam ente legalistas
(halakah) ou todas as seções não jurídicas (haggadah). Cristo
interpreta o Antigo Testamento a partir de si mesmo. N o con-
texto de seu sofrimento vicário explica e reinterpreta o Antigo
Testamento colocando-o no contexto de sua situação vivencial
(Sitz im Lebem).
Esse novo método hermenêutico foi posteriormente ado-
tado pelos apóstolos. Estes, por sua vez, tanto atestavam a
a u to r id a d e e in fa lib ilid a d e das E s c ritu ra s q u a n to a
reinterpretavam a partir da tradição cristológica inaugurada e
exemplificada pelo próprio Mestre. Em seus discursos, ao afir-
marem a autoridade e procedência divina das Escrituras, esta-
vam de conluio com a tradição existente entre os judeus, mas
quanto ao método interpretativo, diferenciavam-se do uso pro-
saico dos rabinos: “... porque assim está escrito pelo profeta...”
44
In s p ira ç ã o e Revelação

(M t 2.5 cf. Jo 10.35); “... irmãos, convinha que se cumprisse


a Escritura que o Espirito Santo predisse pela boca de Davi”
(At I.I 6 ) . A pregação dos apóstolos era lustrada pela convic-
ção de que as Escrituras da Antiga Aliança eram a expressão
de autoridade da vontade de Deus para a história das nações,
de Israel e da Igreja (A t 3.18).
Deste recomeço interpretativo é que o Antigo Testamen-
to foi redescoberto e remterpretado na historiologia da salva-
ção cristã (I Co 15.3,4). Para tanto, seguiu-se um padrão
normativo quase sacramental no escopo do Novo Testamen-
to, isto é, o uso de uma frase-programa para referir-se às cita-
ções e remterpretações veterotestamentárias. Este novo padrão
in tro d u tó rio é usado pelo n a rra d o r com o discurso que
semaforiza uma redescoberta do sentido do texto. A fraseologia
padrão é “para que se cumprisse” e o uso combinado de duas
preposições gregas “pelo” (υπό, hypo) e “por m eio”, “p or in-
term édio” (δ ιά , dia).6 Conectivos estes, expressos em fórmu-
las quase que sacramentais no escopo do N T, o que sugere ser
o próprio Deus quem fala por meio do hagiógrafo:
• “... foi dito da parte do Senhor pelo profeta” (M t 1.22);
• “O próprio Davi disse pelo Espírito Santo” (M c 12.36);
• “O Espírito Santo predisse pela boca de Davi” (At 1.16);
• “... é o que foi dito pelo profeta Joel” (A t 2.16).
• “... e também o Espírito Santo no-lo testifica, depois de
haver d ito ” (H b 10.15);
• “(...) para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta
Isaías” (M t 4 .I4 ;8 .I7 ; M c 1.2);
• “... porque está escrito” (M t 4.10);
• “... é este de quem está escrito” (M t I LIO);
• “Está escrito nos profetas” (Jo 6.45);
45
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p h c a d a

• “... para que se cumpra a Escritura” (Jo 13.18);


• “Porque isso aconteceu para que se cumprisse a Escritu-
ra” (Jo 19.36,37).
A razão pela qual os escritores neotestamentários atribuem
as Escrituras veterotestamentárias uma autoridade mcontestá-
vel é porque estas se originam de Deus, através de um hagiógrafo.
Chamam-se Escrituras porque não foram comunicadas oral-
mente às sucessivas gerações, mas através de escritos.
Por fim, Cristo faz duas asseverações cruciais: quem qui-
ser acreditar n’Ele faça-o segundo as autênticas afirmações das
Escrituras da Antiga Aliança: “Q uem crê em mim, como diz a
Escritura” (Jo 7.38); “(...) a Escritura não pode ser anulada”
(kai ou dunatai luthênai h ê graphê — Jo 10.35).

As Aduções Internas dos H agiógrafos

Se não bastassem as apologias dos eixos internos do N T


para a ratificação da inspiração do AT, bastaria citar as aduções
testemunhais do próprio hagiógrafo, tais como:

Moisés:
“E chamou o Senhor a Moisés...” (Lv I.I );

Josué:
“Falou o Senhor a Josué, dizendo...” (Js 4.1);

Isaías:
“Porque assim o Senhor me disse, com uma forte mão
sobre mim...” (Is 8 .1 1); “Assim diz o Senhor” (Is 43.14);

Jeremias:
“Porque assim me disse o Senhor, o Deus de Israel” (Jr
25.15; 34.8).

46
In s p ir a ç ão e Revelação

Ezequiel:
“Caiu, pois, sobre mim o Espírito do Senhor e disse-me”
(Ez 1 1.5);

Todo o N ovo Testamento


N o próprio texto dos livros do Novo Testamento há nu-
merosos indícios de sua autoridade e inspiração divina. Os
apóstolos estavam cônscios de que seus escritos não eram pro-
dutos especulativos de sua mente, mas que procediam direta-
mente do Espírito Santo: “... não em palavras ensinadas pela
sabedoria humana, mas com palavras ensinadas pelo Espírito
Santo” [didaktoispeneumatos 1 (I Co 2 13; 14.34; c f G1 I.6 -I2 ).
Sua vocação ao apostolado era por iniciativa divina (R m I .I -
3). Por isso, o que escrevia era mandamento divino ( I Co
14.37) e, quando escrevia ou falava, estava credenciado por
Deus, tendo recebido por revelação: “... porque não o recebi,
nem o aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus
C n sto ” (G 1 1.12 c f E f 3.2; Cl 4 .16;I Ts 2 .13 ;I T m 4 .11,13).
P edro e q u ip ara os escritos p a u lin o s às E scritu ras
veterotestamentárias. Deturpá-las é torcer a palavra de Deus
(2 Pe 3.15.16).
As profecias jamais foram produzidas por vontade hu-
mana: “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia
da Escritura é de particular interpretação; porque a profecia
nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os
homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito San-
to ” (2 Pe 1.20,21).
A ex p ressão “ n e n h u m a p ro fe c ia d a E s c r i t u r a ”
(πάσα π ρ ο φ η τε ία γ ρ α φ ή ς ) é um caso d e pars pro tota, isto é,
uma parte da Escritura representando a totalidade desta. As
H e r m e n ê u t i c a fácil c de sc o m p li c a d a

mesmas evidências podem ser encontradas nos Evangelhos e


nos Atos dos Apóstolos (M t I.2 2 ;2 .I5 ,I7 ; M c 1.2; Lc 1.1,2;
Jo 20.31; At I.I ). O Novo Testamento reivindica a autonda-
de que inspira e revela.
Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento são comple-
tamente inspirados por Deus. A inspiração é proporcional a
tudo que está registrado. Tudo é igualmente inspirado porque
é o efeito da cooperação de Deus com o homem. Portanto,
cada livro da Escritura é igualmente inspirado, e em cada livro
são inspirados todos os elementos que o compõe. Deus é tan-
to a causa quanto o autor da Escritura, ainda que não tenha
sido o autógrafo direto da mesma. Deve-se, porém, evitar a
visão simplista de que cada enunciado bíblico são afirmações
divinas. Assim, a narrativa histórica (não folclórica) do preci-
pitado voto de Jefté não está incluída como modelo a ser se-
guido, e sim, a ser estudado e evitado; entretanto, de forma
alguma quer dizer que não seja inspirado.

SIN O P SE
O term o hebraico para revelação é gvlâ, que conota o mes-
mo significado que a expressão neotestamentária apokalipsis:
desvendar, revelar ou tirar o véu.
Revelação, no sentido escriturístico, é a manifestação que
Deus faz de si mesmo e de sua vontade aos homens.
Revelação Ativa é uma revelação imediata da parte de Deus,
sem qualquer interferência humana. E Deus revelando-se di-
retamente ao homem.
Revelação Passiva é uma revelação mediativa, isto é, Deus
não se revela diretamente ao homem, como o fez com Moisés,
mas o conhecimento de Deus é comunicado aos homens.

48
In s p ira ç ã o c Revelação

O clímax da revelação manifesta-se por dois meios espe-


cíficos: o Verbo Vivo e a Palavra Escrita. A Revelação Especial
é coroada pela encarnação do Verbo Vivo (Jo 1.1,14,17,18;
14.8,9; H b I .I - 3 ) e pelo registro da Palavra nas Escrituras
( I Co 14.37; 2 T m 3.16).
O sentido teológico de inspiração divina é derivado da
expressão paulma de 2 Tim óteo 3.16.
A expressão “divinamente inspirado”, no grego theopneustos,
constitui-se um hapax legoumenon, isto é, term o que aparece ape-
nas uma vez nas Escrituras, e é formada por dois vocábulos
Tkeós ((θ εό ς = Deus) e pneustos (πνευστός = inspiração, in-
fluxo ‫ ן‬.
O apóstolo Pedro afirma que os profetas eram literal-
mente levados (φερόμενοι - pherómenot) pelo Espírito Santo
(2 Pe 1.21; c f At 27.15,17). A Vulgata traduz pherómenoi por
tlivinitus inspirata.
Inspiração é a influência sobrenatural exercida pelo Espí-
rito Santo sobre os hagiógrafos, em virtude do qual seus escri-
tos são produtos da vontade divina, constituindo-se cânon de
regra, fé e prática.
A conclusão apostólica sobre a inspiração e autoridade
bíblica é que as predições proféticas do AT cumpnram-se in-
falivelmente no ministério terreno de Cristo, e o núcleo dessa
ratificação é a certeza inviolável de que foi Deus quem anun-
ciou por boca de todos os profetas (A t 3.18).
A Inspiração garante infalibilidade e veracidade ao ensi-
no exposto pelas Escrituras, enquanto a Revelação acrescenta
o tesouro de conhecimento do hagiógrafo.
N ão devemos ignorar as idiossincrasias dos hagiógrafos,
onde traços marcantes de suas personalidades são aviltados

4^
H e r m e n ê u t i c a f á a í e d e sc o m p íic a d a

nas Escrituras. Através de seu estilo aparece sua psicologia e


cultura, por vezes consultando outros manuais quando neces-
sáno (2 Cr 9.29; 12.15).

TRABALHANDO COM TEX TO


Infalibilidade e inerrância
Ambos conceitos, aplicados às Escrituras, são amplamente
corretos quando entendidos os seus matizes principais. Am-
bos se depreendem da doutrina da Inspiração das Escrituras.
São termos mais teológicos do que bíblicos. Por esse motivo,
temos que ser prudentes em toda formulação dogmática a
respeito dessas características da Bíblia. A etimologia de “infa-
libilidade” nos ajuda a determinar seu significado. Falibilida-
de se deriva do latim “fallere”, que quer dizer enganar, induzir
ao erro, ser infiel, não cumprir, trair. Neste sentido pode-se
dizer que a Bíblia é infalível, que não induz ao erro e que não
trai ao propósito com o qual Deus a inspirou. Se assim não
fosse, a Escritura, como instrumento de comunicação da reve-
lação de Deus, careceria de valor. A “inerrância”, neologismo
teológico, indica a ausência de erro nos livros da Bíblia. Po-
rém, que amplitude deve dar a estes conceitos? A tendência
mais generalizada nos credos e confissões de fé tem sido a de
aceitar a infalibilidade das Escrituras em tudo o que concerne
a questões de fé e conduta, enquanto que na inerrância se tem
aplicado especialmente aos textos históricos em sua relação
com a obra redentora. Além dessas posições, há aqueles que
têm defendido a inerrância levando-a a extremos desnecessá-
rios, afirmando com veemência que na Bíblia não existe ne-
nhuma classe de erro, nem sequer os derivados de equívocos

50
I n s p ira ç ã o e Revelação

dos copistas, solapando qualquer problema que o texto possa


apresentar e sugerindo soluções pouco convincentes. Em sen-
tido oposto, não têm faltado aqueles que só reconhecem a
fidedigmdade das Escrituras no tocante a assuntos doutrinais
e éticos, negando a inerrância nos fatos históricos. As duas
posturas, contudo, estão presas a inconvenientes. A primeira,
de uma falta de objetividade; a segunda, de um excesso de
subjetividade.
M A R T ÍN E Z , José M . Hermenêutica Bíblica, CLIE, p. 55.

EXERCÍCIO S

1. O que é inspiração?
2. Diferencie revelação de inspiração?
3. Com o podemos provar a inspiração do AT e do N T ?
4. Quais são as expressões bíblicas que comprovam a ins-
piração das Escrituras?

Bibli-Holmes
Ajude nosso detetive Bibli-Holmes a investigar as princi-
pais teorias sobre a inspiração bíblica: inspiração verbal e ple-
nána, ditado divino na inspiração, orientação dinâmica na ins-
piração e outros.

LEITURAS E LIVROS PARA APROFUNDAM ENTO


R O D O R , Amin A. A Bíblia e a Inerrância — Revista Teoló-
gica do Salt-Iaene, v. 2 (p. I -22);
V IE R T EL, Weldow E. A Interpretação da Bíblia, Juerp (p.
13,14,21,22);

51
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

BOICE, James M ontgomery. O Alicerce da Autoridade Bíblica,


Vida Nova (p. 71-94);
GEISLER, N orm an; N IX , William. Introdução Bíblica,Y i d a,
(p .I5 -5 9 ).

NOTAS
1N o hebraico ‫ גלא‬, “revelar”, “desvendar”, “retirar o véu”.
T

2 E a transliteração do vocábulo grego ά τ το κ ώ λ υ ψ ίς,


que significa “revelação”, “desvendamento”. Procede de “apo”
(άττό) (a partir de / / da parte de) e de “kalüpto” ( κ α λ ύ π τ ω )
(cobrir / / ocultar / / esconder).
3 Cf. Rinaldo Fabris, A s Cartas de Paulo) vl. III, Edições
Loyola, p. 1 14-8.
4 Cf. J. I. Packer, Revelação e Inspiração, In; O Novo Comentário
da Bíblia, Dr. Russell P. Shedd (ed.) 1995, p. 25.
* C f■ H . O rto n Willey & Paul T. Culbertsos, Introdução à
Teologia Cristã, 1990, p. 45. A Revelação Geral algumas vezes é
designada como N atural ou Externa, enquanto a Revelação
Especial, de Sobrenatural e Interna. A Revelação Geral mani-
festa-se através da Natureza, da Constituição do H om em e na
História. U m excelente artigo que reflete o sentido de Revela-
ção Geral e especial pode ser observado em B. A. DEM AREST,
Revelação Especial e Revelação Geral, In; Enciclopédia Histórico~Teológica
da Igreja Cristã, Walter A. Elwell (ed.), vl. III (N -Z ),I9 9 0 , p.
29 9-305.
6 Cf. W eldon E. Viertel, A Interpretação da Bíblia, p. 32-39.
Para uma análise filosófica da revelação veja Paul Tillich, Teolo-
gia Sistemática, p .7 7 -I3 7 .
7 A Revelação Especial é manifestada no propósito re­

52
dentor de Deus manifesto em Jesus Cristo, em oposição à re-
velação mais geral do seu poder e da sua deidade no universo
criado, na constituição da natureza humana e na história. Cf.
Wilev & Paul T. Culbertson, op. c i t p. 48.
8 P. M . Beaude, De acordo com as Escrituras, Cadernos Bíbli-
cos, p.39. Cf. também C. H . D odd, Segundo as Escrituras - Estru -
tura Fundamental do Novo Testamento, Biblioteca de Estudos Bíbli-
co —7. Para um estudo das preposições hypo e dia, consulte o
D IT N , VL. III, p. 657. Veja Esdras Costa Bentho, Hermenêutica
Contextual, 2000, p. 135,6.
C A P ÍT U L O 3

^Hetmeneutlca lS>ibtic<\

A hermenêutica não é apenas a arte ou a ciência da


interpretação de qualquer texto; antes de tudo, é um a
ciência que procura também 0 significado da palavra
como evento histórico) social e de vida. O que
representa um fó ssil para 0 arqueólogo e paleontólogo,
tal é a palavra fossilizada através dos séculos nas
Escrituras para 0 intérprete,

Introdução

Hermenêutica Bíblica é a disciplina da Teologia Exegética


que ensina as regras para interpretar as Escrituras e a maneira
de aplicá-las corretamente. Seu objetivo primário é estabele-
cer regras gerais e específicas de interpretação, a fim de enten-
der o verdadeiro sentido do autor ao redigir as Escrituras. E a
ciência da compreensão de textos bíblicos.
A Hermenêutica como Ciência é:
• Objetiva, pois está fundada em fatos concretos, isto é,
na verdade bíblica.
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

• Racional, pois é constituída de conceitos, juízos e raci-


ocínios, e não por sensações e imagens.
• Analítica, pois em virtude de abordar um fato, processo,
ou situação de interpretação, ela decompõe o todo em partes
componentes e relacionadas entre si. Isto quer dizer que a
hermenêutica, ao analisar um texto, disseca-os em partes a fim
de que o todo seja compreendido.
• Explicativa, em virtude de ter como finalidade explicar
os fatos em termos de leis, e as leis em termos de princípios.
Ora, qualquer pregador ou estudante precisa justificar sua m-
terpretação, isto é, mostrar as leis ou princípios que o cond^i-
ziram na interpretação de qualquer texto bíblico, Como ele-
m ento explicativo^ a hermenêutica é tanto descritiva quanto
prescritiva. Como descritiva explica o que é o texto (seu signi-
ficado), enquanto prescritiva, determina qual deve ser o nosso
com portam ento mediante a interpretação fornecida - o que
deve ser feito.
A herm enêutica como teoria que postula M étod o s e
Regras:
M éto d o 1 é todo processo racional usado para se chegar a
determinadas conclusões válidas. Em hermenêutica, refere-se
às regras ou técnicas usadas para chegar ao conhecimento do
significado original do texto. Para que o m étodo seja útil e
aconselhável, não basta que indique qualquer caminho; é pre-
ciso que indique aquele que melhor e mais satisfatoriamente
conduza ao fim que se tem em vista. M étodo, então, é a ma-
neira de proceder.
Metodologia, entretanto, é uma indicação do método.
M etodologia exegética é o conjunto de procedimentos cientí-
ficos colocados em ação para explicar os textos. Diferencia-se

56
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

das “abordagens”, que são pesquisas orientadas segundo um


ponto de vista particular.
Q uando fazemos exegese, usamos sempre um m étodo que
orienta a pesquisa e o m odo de proceder. Estudaremos alguns
métodos e técnicas a fim de descobrir o verdadeiro sentido de
um texto. O método empregado dirige o resultado da pesqui-
sa ou análise. D ependendo da metodologia empregada, pode-
se chegar a conclusões conflitantes. Entre os principais méto-
dos hermenêuticos ou exegéticos encontram-se o histórico-
crítico, o estruturalista e o fundamentalista. Além destes mé-
todos encontramos abordagens distintas aplicadas às Escritu-
ras: sociológicas, antropológicas, psicológicas e psicanalíticas.2
A hermenêutica, como disciplina geral do conhecimento,
é uma ciência que se ocupa do estudo da compreensão, sendo
essencialmente a ciência da compreensão de textos. Mas não
se aplica somente a estes, pois transcende as formas lmgüísti-
cas de interpretação. Os seus princípios se aplicam não so-
m ente a textos literários, teológicos, bíblicos, filosóficos,
lingüísticos ou jurídicos, mas também a obras de arte e ao
viver cotidiano. Atualmente possuímos, segundo o Dr. Richard
E. P alm er , seis definições modernas de hermenêutica, das
quais destacamos quatro:
a) Hermenêutica como teoria da Exegese Bíblica:
b^ Hermenêutica como M etodologia Filológica;
c) Hermenêutica como Ciência da Compreensão Lingüística;
d^; H e rm e n ê u tic a com o base m e to d o ló g ic a p ara as
Geisteswissenschaften.4
Deste modo, a hermenêutica propõe-se a postular méto-
dos válidos de interpretação. U m m étodo é todo processo ra-
cional usado para se chegar a determinadas conclusões váli­
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

das. Em hermenêutica, refere-se às regras ou técnicas usadas


para chegar ao conhecimento do significado original do texto.
O primeiro registro do termo como título de um livro foi
obra de J. C. Danhauer, publicada em 1654 sob o título
Hermeneutica sacre sirve metbodus exponenàarum sacrarum litterarum.
Após a obra de Danhauer, o termo como metodologia da m-
terpretação foi usado freqüentemente para distmguir-se do
comentário real do texto bíblico (exegese), principalmente entre
os teólogos alemães.3 N o que concerne aos seus períodos his-
tóricos, pode-se afirmar que a hermenêutica bíblica passou
p o r sete períodos distintos:
1) Pré-Cristão;
2) Cristão Primitivo;
3) Patrística;
4) Medieval;
5) Reforma e ortodoxo;
6) M oderno;
7) Contemporâneo.6

Term inologia
O te rm o “h e rm e n ê u tic a ” p ro ced e do verbo grego
hermeneueín, usualmente traduzido por “interpretar”, e do subs-
tantivo hermeneia (έρμενεΐα), que significa “interpretação”.
Tanto o verbo quanto o substantivo podem significar “tradu-
zir, tradução”, ou “explicar, explicação”.
N a filologia do Antigo Testamento acham-se termos cor-
respondentes ao grego hermeneuein; entre eles: tirgen, cujo signi-
ficado é “interpretar ou traduzir” (Ed 4.7), pesher, pcshar, tradu-
zido por “solução ou interpretação em geral”, e o vocábulo
hawâ, isto é, “interpretar, informar, contar”.' U m hermeneuta,

58
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

segundo o étimo, é um intérprete ou tradutor de qualquer


porção literária, quer sacra, quer profana.
Derivação do Termo
O termo grego bermeios referia-se, originalmente ao sacer-
dote do oráculo de Delfos, que era responsável pela interpreta-
ção dos desejos dos deuses aos seus consulentes. N a cultura
pagã, os romanos possuíam o áugure da salvação, que era um
especialista oficial encarregado da interpretação dos sinais ce-
lestes, como por exemplo, o vôo das aves, e os arúspices, adivi-
nhos que estudavam as entranhas das vítimas sacrificadas e pro-
curavam assim, interpretar presságios favoráveis ou contrários.8
O étimo do verbo kermêneueiu e do substantivo herrneneia, no
entanto, remetem para o deus mensageiro-alado Hermes, de
cujo nome as palavras aparentemente derivam, ou vice-versa.
Hermes, segundo a mitologia greco-romana, era filho de
Zeus e de Maia, sendo o arauto e mensageiro dos deuses. Era
também considerado o deus da ciência, da interpretação e elo-
qüência. Nas escrituras neotestamentárias a cultura pagã ro-
mana o chamava de Mercúrio (At 14.12). Porém, no texto
original grego, aparece o substantivo próprio Hermes em vez
de Mercúrio.
N o texto grego de Atos 14.12, H ermes (Ε ρ μ ή ν ) aparece
com a oração explicativa, “porque era este o principal porta-
dor da palavra” (ARA).
Os gregos atribuíam a Hermes a descoberta da língua-
gem e da escrita — as ferramentas que a compreensão huma-
na utiliza para chegar ao significado das coisas e para transmi-
tir aos outros.
Hermes se associa a uma função de transmutação — trans-
formar tudo aquilo que ultrapassa a compreensão humana em

59
H e r m e n ê u t i c a fácil e de sc o m p lic a d a

algo que essa inteligência consiga compreender.L)As várias for-


mas da palavra sugerem o processo de trazer uma situação ou
uma coisa, da ininteligibilidade à compreensão.
Q uando Filipe (A t 8.26-40) foi conduzido pelo Espirito
Santo ao encontro do oficial etíope perguntou-lhe: “Compre-
endes o que vens lendo?” (ARA). Seu objetivo era levar ao
etíope a compreensão do texto, decodificar o incógnito signi-
ficado ao seu leitor. Se considerarmos o fato à luz do diálogo
platônico Ion, Sócrates afirma que os poetas são “eisin ho
herm êneus tõ n th e õ ” ( e lo ív ό 6ρ μ η νεύ ς τ ω ν θ ε ώ ) ou
seja, “são os intérpretes de deus”. A função de Filipe, sob a
ótica helênica, confunde-se com a de um mensageiro divino
incumbido de ser portador de uma mensagem divina e torná-
la compreensível, tanto narrando quanto explicando.

O Termo e suas Vertentes no N T


As várias aparições do termo hermeneuein e hermeneia ou um
dos cognatos no Novo Testamento subjazem duas orienta-
ções significativas do seu uso clássico e também do seu signi-
ficado moderno. Entre eles destacamos:
a) diermenéusen (δίερμήνευσεν), “explicar ou interpretar”
A interpretação como explicação enfatiza os aspectos
discursivos da compreensão, em vez da sua dimensão expres-
siva. Em Lucas 24.25-27, Jesus ressuscitado aparece aos discí-
pulos: “E começando por Moisés e por todos os profetas,
explicava-lhes (diermêneusen) o que dele se achava em todas
as Escrituras”.
Jesus estava trazendo à compreensão dos discípulos o sig-
nificado oculto do texto. Em vez de apenas discorrer sobre o
texto, explicou-o e explicou-se a si mesmo em função deles.10
60
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

Isto sugere que o significado tem a ver com o contexto; o


processo explicativo fornece o palco da compreensão. Marcos
(4.34) afirma que Cristo falava em parábolas, e muitas delas
ficavam incógnitas aos seus ouvintes, mas Ele “explicava em
particular aos seus próprios discípulos” (ARA). O texto não
usa o termo diermêneusen, mas epilyõ (επιλύω), explicar, inter-
pretar. N ota-se que o sentido prático de hermenêutica é ex-
plicar, decodificar um significado, proporcionando a compre-
ensão exata do seu sentido. Sem explicação não há atividade
hermenêutica.
b) methermêneuõ (μεθερμηνεύω) “traduzir, tradução, dar
significado”.
A tradução é uma forma especial do processo básico
mterpretativo de tornar algo compreensível. Tornamos com-
preensíveis o que é estrangeiro, estranho ou ininteligível. Tal
como Hermes, o tradutor é um mediador entre um m undo e
outro. A tradução torna-nos conscientes do fato de que a pró-
pria língua contém uma visão que abarca o mundo, à qual o
tradutor tem que ser sensível, mesmo quando traduz expres-
sões individuais.
Os evangelistas por diversas vezes foram tradutores das
expressões estranhas aos seus destinatários. A transliteração
aramaica Talitka, K cum significa (quer dizer ou traduz-se) “M e-
nina, levanta” (M c 5.41). Emanuel significa “Deus Conosco”
(M t 1.23), Gólgcta, “Caveira” (M t 15.22), Messias, “Cristo”
(Jo 1.41) ou Rabi, “M estre” (v. 38), e assim por diante.
A tradução da Bíblia pode servir de ilustração aos proble-
mas da tradução em geral. A Bíblia chega-nos de um mundo
distante no tempo, espaço e língua. As variegadas traduções e
toda sua terminologia técnica (versão, versão revista, versão

61
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s e o m p iic a d a

atualizada, revisão, transliteração, recensão, tradução idiomá-


tica, tradução literal modificada, tradução dinâmica, paráfra-
se) mostram a tentativa de mediar o hiato existente entre a
língua receptora e o contexto histórico e social diferenciado
entre os dois mundos.

C O R RELA ÇÃO E N T R E H E R M E N Ê U T IC A
E O U T R A S C IÊN C IA S BÍBLICAS

As hermenêuticas bíblica e teológica valem-se dos resul-


tados do estudo das seguintes disciplinas exegéticas:

Tratado da Inspiração
Discute os critérios pelos quais se distinguem os livros
inspirados dos que não o são. E o meio pelo qual podemos
precisar com certeza quais são realmente os livros inspirados e
como distingui-los dos que não o são. O Tratado da Inspira-
ção procura responder as seguintes perguntas:
a) O que é inspiração divina:
b) Existem livros inspirados:
c) Quais exatamente são os livros inspirados:
d) Q ue reivindicações contêm o AT e o N T sobre sua
inspiração divina?
e) Quais são os critérios para que um livro seja conside-
rado inspirado?
f) Qual a relação entre merrância, infalibilidade e veraci-
dade das Escrituras?

Canônico
Canônico é o estudo que trata do reconhecimento, com-
pilação, fixação e história do Cânon. N o estudo da canoni-

62
H e r m e n ê u r i c a Bíblica

cidade, estão também incluídos os conhecimentos sobre o


processo de canonização. A canônica procura responder as
seguintes perguntas, indispensáveis a um a herm enêutica
escnturística e responsável:
a) Quais são verdadeiramente os livros possuídos de au-
toridade normativa para a fé cristã, que possuem a inspiração
divina?
b) Quais os critérios para distinguir entre um livro inspi-
rado do não 1‫־‬nspirado?
c) Com o o presente Canon veio a ser fixado?

Crítica Textual
Também chamada de Baixa Crítica, estuda o texto dos
manuscritos com o fim de descobrir e corrigir erros que neles
ocorrem e restaurá-lo, até onde possível, às condições origi-
nais, procurando determinar os textos originais mais exatos.
A Crítica Textual, exclusivamente bíblica, ocupa-se mais preci-
samente do estudo, história, e restauração dos manuscritos
bíblicos. Graças a esta ciência podemos afirmar que algumas
das atuais edições e traduções das Escrituras estão de acordo
com os originais, ainda que estes tenham sido perdidos pouco
depois de sua circulação. E uma ferramenta indispensável a
todo exegeta. A Crítica Textual busca responder às seguintes
perguntas:
a' Quais são os manuscritos que hoje possuímos em con-
formidade com os autógrafos originais?
b'' Quais os erros que existem nos manuscritos bíblicos
que hoje possuímos?
c) Como determinar os textos originais mais exatos?

63
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

d) Quais os tipos de vicissitudes enfrentadas pelos textos


bíblicos?

Crítica H istórica

Crítica Histórica ou Alta Crítica se interessa por proble-


mas relacionados à idade, autoria, fontes, valor histórico, com-
posição, publicação de cada livro, circunstâncias (de tempo e
lugar) em que foi escrito, conteúdo da obra, os textos mais
significativos e os dados característicos de sua mensagem divi-
na. Também verifica os relacionamentos históricos e a valida-
de das asserções feitas pelos documentos. Essa disciplina tem
sido usada principalmente por racionalistas germânicos, na
tentativa de desmitologizar as Sagradas Escrituras. Porém,
quando corretamente entendida, consiste no escrutínio cui-
dadoso, à base de princípios aplicados a toda forma de litera-
tura, dos fenômenos reais das Escrituras, objetivando deduzir
dali as considerações escudadas nos fatos relativos à antigüi-
dade, autoria, etc. Com o ferramenta hermenêutica, a Crítica
Histórica, procura responder as seguintes perguntas:
a) Q uem foi o autor?
b) Quais são as fontes, valor histórico, composição e pu-
blicação de cada livro sagrado?
c) Quais as circunstâncias de tempo e lugar em que foi
escrito?
d) Qual o conteúdo da obra, os textos mais significativos
e os dados característicos de sua mensagem divina?
e) Quais os relacionamentos históricos e a validade das
asserções feitas pelos documentos?

64
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

Divisão da H erm enêutica Sacra

A hermenêutica bíblica subdivide-se em geral e específi-


ca. A geral estuda as regras que regem a interpretação do texto
bíblico inteiro: análise histórico-cultural, léxico-sintática,
contextual e teológica. A especial estuda as regras que se apli-
cam a gêneros literários específicos, tais como figuras de lin-
guagem, tipos, símbolos, numerologia, profecia e poesia.
A exegese católica costuma dividir a hermenêutica bíblica em:
a) Noemática:
L ite ra lm e n te sig n ifica “p e rc e p ç ã o ” . A fu n ç ã o da
hermenêutica noemática é analisar os vários sentidos das Es-
crituras. Pela noemática compreende-se que existe uma lacuna
filosófica entre o autor e o tradutor atual, e que para transmi-
tir validamente uma mensagem o tradutor precisa estar ciente
tanto das similaridades como dos contrastes das cosmovisões.
U m a das disciplinas da noemática é a fenomenologia, isto é,
opiniões acerca da existência, vida, circunstância e da natureza
do Universo.
b) Heurístico:
Literalmente significa “achar”. A função da hermenêutica
heurística é ensinar as regras para encontrar os sentidos trata-
dos pela noemática. Através de métodos analíticos procura
descobrir as verdades expostas cientificamente. Atua também
como disciplina auxiliar da História, estudando as “Pesquisas
das Fontes”.
c) Proforística:
Literalmente significa “expor”. Ensina a maneira de ex-
por o sentido encontrado.11

6‫כ‬
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Propósito da H erm enêutica

A hermenêutica propõe-se a auxiliar o obreiro e a qual-


quer estudante da Bíblia, a usar métodos de interpretações
confiáveis, além de estabelecer os princípios fundamentais da
exegese bíblica, como base para o estudo do texto na sua di-
versidade lingüística, cultural e histórica.
A lém disso, p o d e m o s acrescentar, que p o r fim, a
hermenêutica auxilia o estudante a analisar criticamente, com
critérios objetivos, os métodos e resultados de um estudo ou
exegese de qualquer texto da Bíblia.

Correlação entre H erm enêutica, Exegese e Eisegese

A hermenêutica precede a exegese. Esta, por sua vez, vale-


se dos princípios, regras e métodos hermenêuticos em suas
conclusões e investigações. O sentido literal do termo con-
funde-se com o vocábulo hermenêutica, de sorte que, às ve-
zes, se usa os dois termos simultaneamente. Exegese é a apli-
cação dos princípios hermenêuticos para chegar a um enten-
dimento correto sobre o texto. E o estudo do sentido literal
do texto. Refere-se a idéia de que o intérprete está derivando
o seu entendimento do texto, em vez de incutir no texto o seu
entendimento. Enquanto a hermenêutica é a teoria da inter-
pretação, a exegese é a prática. Teologicamente, a exegese é o
capítulo da Teologia que estuda a interpretação, utilizando-se
Se modos formais de explicação, que podem ser aplicados a
alguma passagem das Escrituras a fim de compreender o seu
sentido. Já a Eisegese, consiste em manipular o texto para di-
zer o que ele não diz.
66
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

D efinição Etim ológica de Exegese

A palavra exegese, do grego eksêgêsis (έξήγησις de έξηγέομαι


eksêgeomaí, “explicar, interpretar, contar, descrever, relatar”]
Lc 24.35; At 10.8; 15.12,14; 21.19), significa, segundo o con-
texto, narrativa, explicação, interpretação. E a ciência da inter-
pretação. O termo é formado pela aposição do final “sis” (σ ίς),
expressivo de ação, ao tema verbal composto, ek+bêgeomai (έκ+
ήγέομαι), “tiro, extraio, conduzo fora”. A exegese é, pois, a
extração dos pensamentos que assistiam ao escritor ao redigir
determinado documento.12
Em João I .1 8, exegese é traduzido por “revelou”. O ter-
mo έξηγήσατο ('eksegêsato) traduzido por “revelou” é um hapax
legoumenon. A expressão eksegêsato, usada por João, é term o de
cunho técnico para indicar um expositor. N a A RA é traduzi-
do por “revelou”, na ARC por “o fez conhecer”, na Vulgata
ípse enarravit, “aquele que expõe em porm enor”. Ao que parece,
esse termo designa não o indivíduo, mas a função exercida por
ele — arauto, proclamador, revelador. O eksegêsato confunde-
se com o hermenêutes, arauto ou proclamador oficial. Dessa
forma, o Logos aparece como o principal e oficial intérprete
de Deus Pai, pois para os gregos, os eksegêtai eram os intér-
pretes e expositores oficiais.
João descreveu no versículo dezessete dois expositores:
Moisés, expositor da Lei no monte Smai, e Jesus, eksegêsato da
graça e da verdade. Assim é descrita a superioridade do expo-
sitor “da graça e da verdade” sobre o da “Lei”. Através do
intérprete do Smai, a “graça e a verdade” ficaram obscuras,
mas através de Cristo a *graça e a verdade” se manifestaram
aos homens, pois Ele é “a verdadeira luz que, vinda ao mun-
do, ilumina a todo hom em ” (v.9).
67
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

O term o sugere que a finalidade da hermenêutica é muito


mais do que interpretação. Sua finalidade é guiar-nos a uma
compreensão adequada de Deus através de Cristo, a Palavra
Encarnada. As interpretações dos textos do Antigo e Novo
Testamentos devem ser o efeito de uma preocupação evange-
lística e pastoral, mais do que técnica e docum ental. A
hermenêutica deve ser um instrumento que conduza o ho-
mem a Deus.
Segundo o Dr. George A. Barton, as cinco regras comuns
à exegese são:
a) Interpretação Lexical;
b) Interpretação Sintática;
c) Interpretação Contextual;
d) Interpretação Histórica;
e) Interpretação Analógica.13

Exegese e Eisegese

Enquanto a exegese consiste em extrair o significado de


um texto qualquer, mediante legítimos métodos de interpre-
tação; a eisegese consiste em injetar em um texto, alguma coisa
que o intérprete quer que esteja ali, mas que na verdade não
faz parte do mesmo. Em última instância, quem usa a eisegese
força o texto mediante várias manipulações, fazendo com que
uma passagem diga o que na verdade não se acha lá. Contudo,
J. Severino Croatto diverge do sentido protestante de eisegese.
Segundo Croatto:
“Existe uma práxis, do crítico ou do seu contexto sócio-
histórico, que indica o parâmetro da leitura. N ão se ‘sai’ do
texto (ex-egese, do grego ago, ‘conduzir/guiar’), trazendo um
sentido puro nele recolhido, como um mergulhador traz um
68
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

coral à superfície do mar ou como se tira um objeto do cofre.


Antes, a partir de um horizonte vivencial novo que repercute
significativamente na produção de sentido que é a leitura, ‘en-
tra-se no texto (eis-egese(! com perguntas que nem sempre são
as de seu autor’.14
N a hermenêutica do dr. Croatto, o autor é banido. O
significado do texto não se encontra impingido no próprio
texto, isto é, na intenção autoral, no contexto histórico, na
audiência original e nem mesmo no texto, ao contrário, está
na experiência existencial do intérprete — o leitor é quem
determina o significado. Eisegese, segundo Croatto, substitui
a exegese tradicional, onde o autor, suas idiossincrasias e o
panorama social em que viveu são levados em consideração,
constituindo-se bases para uma interpretação viável.

Função da H erm enêutica e da Exegese Bíblica


·T raduzir o texto original tornando-o compreensível em
língua vernácula, sem sangrar o sentido primário.
• Compreender o sentido do texto dentro de seu ambien-
te histórico-cultural e léxico-smtático;
• Explicar o verdadeiro sentido do texto, em todas as di-
mensões possíveis (autor, audiência, condições sociais, religi-
osas, etc.).
·T ornar a mensagem das Escrituras inteligível ao homem
moderno.
• Conduzir-nos a Cristo.

Formas pelas quais o Intérprete Pratica a Eisegese


I ) Q uando força o texto a dizer o que não diz:
O intérprete está cônscio de que a interpretação por ele
asseverada não está condizente com o texto, ou então está
69
H e r m e n ê u t i c a fá c il e d e s c o m p líc a d a

inconsciente quanto ao objetivo do autor ou propósito da obra.


Entretanto, voluntária ou involuntariamente, manipula o tex-
to a fim de que sua loquacidade possa ser aceita como princí-
pio escriturístico.
Geralmente tal interpretação não possui qualquer justifi-
cativa lexical, cultural, histórica ou teológica, pois se baseiam
em pressupostos ou premissas previamente estabelecidos pelo
intérprete.
O utro problema neste caso é o individualismo que embe-
be alguns na leitura da Bíblia. O que se busca como interpre-
tação “é o que as Escrituras significam para mim agora”, e
não “o que elas significam em seu contexto”.
2) Q uando ignora o contexto, sob pretexto ideológico:
Poucas atividades hermenêuticas têm sangrado tanto o
texto como o banimento do contexto. Ignorar o contexto é
rejeitar deliberadamente o processo histórico que deu mar-
gem ao texto. O intérprete, neste caso, não examina com a
devida atenção os parágrafos pré e pós-texto, e não vincula
um versículo ou passagem a um contexto remoto ou imediato.
U m a interpretação que ignora e contraria o contexto não
deve ser admitida como exegese confiável. Existem pessoas
que são capazes de banir conscientemente o contexto e o sen-
tido do texto, simplesmente para forçar as Escrituras a con-
formarem-se com suas ideologias.
3) Q uando ignora a mensagem e o propósito principal
do livro:
U m livro pode ser mais facilmente entendido quando se
sabe qual é o propósito do autor e qual a mensagem que ele
procura afirmar para seus contemporâneos. A mensagem do
livro e o propósito do autor são “almas gêmeas” da interpre-
tação bíblica.
70
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

O s assuntos genéricos tratados pelo autor precisam ser


observados a partir dos propósitos e da mensagem do autó-
grafo. Q uando ignoramos a mensagem principal e o propósi-
to do livro, somos dispersivos na aplicação coerente do texto.
Os livros de Lucas ( L I -4), João (20.30, 31; 21.24,25),
Atos (I), I Coríntios (5.1; 6 .I ;7 .I ;8 .I ,I 2 .I ;I 6 .I ) e muitos
outros são melhor compreendidos quando conhecemos a in-
tenção do autor, expresso no próprio autógrafo.
4) Q uando não esclarece um texto à luz de outro:
Os textos obscuros devem ser entendidos à luz de outros
e segundo o propósito e a mensagem do livro. Recorrer a ou-
tro texto é reconhecer a unidade das Escrituras na correlação
de idéias. Por vezes, pratica-se eisegese por ignorar a capaci-
dade que as Escrituras têm de interpretar a si mesmo.
5) Quando põe a “revelação” acima da mensagem revelada:
Por vezes, aparecem indivíduos sangrando o texto sagra-
do sob o pretexto de que “... Deus revelou”, ou “... essa veio
do céu”. Estes colocam a pseudo-revelação acima da mensa-
gem revelada. Q uando assim asseveram, procuram afirmar in-
falibilidade à sua interpretação, pois Deus, que “revelou”, au-
tor principal da Escrituras, não pode errar. Devemos ter o
cuidado de não associar o nome de Deus a mentira, pois Ele
não pode contradizer o que anteriormente, pelas Escrituras,
havia afirmado.
6λ Quando está comprometido com um sistema ou ideologia:
N ão são poucos os obstáculos que o exegeta encontra
quando a interpretação das Escrituras afeta os cânones do sis-
tema e as tradições de sua denominação. Por outro lado, até as
ímpias religiões encontram justificativas bíblicas para ratificar
as suas heresias. Kardec citava a Bíblia para defender a reen-
H e r m e n ê u t i c a tácil e cic scom plicada

camação! M uitos outros movimentos sectários torcem as Es-


crituras. Utilizar as Escrituras para apologizar um sistema ou
ideologia pode passar de uma eisegese para uma heresia aplica-
da.
Pelo menos três razões podem ser apresentadas para ex-
plicar essa atitude imprudente do intérprete.

Atitude Defensiva
Provavelmente, a atitude defensiva do intérprete em rela-
ção às suas ideologias seja responsável pela prática da eisegese.
C om o doutrinismo, usa o Livro Sagrado para ratificar suas
doutrinas, em vez de confrontá-las com a Palavra de Deus.
Ignora o caráter histórico e contextual da Bíblia e sobrepõe à
ela a “revelação espiritual” das entrelinhas do texto. A inter-
pretação histórica e contextual para esses não é suficiente, por
isso, é necessária a espiritualização do texto.

Preconceito
H á muitos conceitos, costumes, interpretações e ensinos
que procedem mais do preconceito, ignorância, e atitudes pré-
concebidas do intérprete do que de um a exegese bíblica
confiável.

Preferência ao M étodo Alegórico

O m étodo alegórico de interpretação é um dos mais usa-


dos p o r esses intérpretes. D esprezam o significado com um e
ordinário das palavras e especulam sobre o sentido místico
ou simbólico de cada um a delas, além, é claro, de ignorar a
intenção autoral, inserindo no texto to d o tipo de extravagân-
cia ou fantasia.

72
H e r m e n ê u t i c a Bbíblica

O intérprete que usa métodos como o alegórico tende a


rejeitar os demais métodos válidos de interpretação, e a única
base mterpretativa que concebe é aquela que procede de sua
própria imaginação folclórica.
“Se alguém ensina alguma outra doutrina e se não con-
forma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com
a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo e nada sabe...”
(I T m 6.3,4a).

Bloqueios a Interpretação das Escrituras


A tarefa da hermenêutica e da exegese não é nada fácil.
Q uando alguém se propõe a interpretar as Escrituras, encon-
tra diversos bloqueios a uma compreensão espontânea do sig-
nificado primitivo da mensagem. Pede a boa ordem do racio-
cimo que voltemos ao tópico anterior, movendo-nos nas im-
plicações funcionais da hermenêutica e da exegese. Q uando o
intérprete inicia a empresa de “traduzir” o texto bíblico, ele
inevitavelmente está lidando com uma língua e cultura distin-
ta da sua; como agravante, há muitas cópias manuscritas dos
textos originais que reverberam autenticidade, apesar de não
concordarem com um outro manuscrito mais recente ou mais
antigo do que este. Entre os tipos de bloqueios, destacaremos
os mais comuns.
Podemos dividi-los em bloqueios internos e externos. Os
bloqueios internos são os que deduzem do próprio objeto em
si; os externos deduzem dos agentes em resposta a esse objeto.

Bloqueios Internos

Bloqueios Histórico-Culturais
As Escrituras foram escritas não para a nossa realidade e
cultura, mas para uma outra eqüidistante da nossa a mais de
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

três milênios. O s conjuntos de fatos e mensagens expostos nas


Sagradas Escrituras são produtos de uma evolução histórico-
cultural vivenciados pelo hagiógrafo e seus contemporâneos.
N ós não fomos os destinatários originais. A cosmovisão, com-
preensão dos fenômenos físicos e naturais, existência e filoso-
fia de vida dos hagiógrafos e de seus contemporâneos eram
distintas da atual. Imagine se você voltasse alguns milênios de
anos através de uma máquina do tempo e aparecesse na corte
do rei Salomão, e no diálogo com ele, você falasse sobre
internet, e-mail, luz elétrica, telefone, televisão, avião, viagens
espaciais... Acredito que ele se surpreenderia com tanta cultu-
ra e conhecimento, ainda que não compreendesse totalmente
aquilo que está sendo dito. A recíproca é verdadeira em rela-
ção à cultura dos povos bíblicos. Para compreendermos per-
feitamente essa cultura, expressa principalmente através da lm-
guagem, são necessárias introspecção e empatia com ela. As-
sim como Salomão teria que se esforçar para compreender a
tecnologia moderna, nós temos que depreender esforços para
entender a cultura semita.
Os povos próximos à época dos autógrafos assimilaram
mais rapidamente o conteúdo das Escrituras por viverem na
mesma cultura, ou próximos a ela, do que os intérpretes afas-
tados por milênios de anos. Por vezes, os escritores da Antiga
Aliança tiveram de explicar os costumes que p o r tempos
imemoriais já haviam caído em desuso em Israel (R t 4.7). Os
exegetas atuais precisam também transpor a barreira históri-
co-cultural.
Bloqueios Lingüísticos
Nossas Bíblias não foram originalmente escritas em nosso
idioma. Isto é um fato. Tanto a grafia hebraica quanto a grega

74
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

são distintas da nossa. A Bíblia foi escrita nos idiomas hebraico,


aramaico e grego, além de possuir diversos vocábulos derivados
de outros idiomas do ramo semita. Quando os hagiógrafos se
comunicaram, fizeram-no pela palavra falada e escrita. Para que
suas mensagens fossem entendidas, eles precisaram, no mínimo,
coordenar sua fala e escrita de acordo com a gramática vigente.
Por sua vez, essa gramática e a língua pelas quais as Escrituras
foram produzidas possuem sintaxe, morfologia, fonemas, en-
fim, estruturas diferentes da nossa. E quase impossível, àqueles
que não possuem conhecimento das línguas originais, entende-
rem as Escrituras no seu idioma de origem.

Bloqueios Textuais
N ão perceptivas a qualquer intérprete, as diferenças de
cópias e versões tornaram necessária a árdua atividade dos crí-
ticos textuais.
N enhum dos autógrafos dos escritores sagrados chegou
até nós; o que possuímos são cópias manuscritas. Apesar da
meticulosidade dos escribas, o texto sagrado sofreu algumas
alterações ao ser repetidamente copiado, porém não invali-
dam o conjunto.

Versões --------- abismo textual ------- N T ----- AT


Diversas traduções seguindo Autógrafos originais perdidos,
manuscritos distintos: Cópias manuscritas: textos
textus receptus; texto crítico massorético, bizantino,
ocidental e alexandrino

Crítica Textual
O propósito fundamental da Crítica Textual é reconstruir
com toda perfeição possível o texto bíblico, expurgando-o de

75
H e r m e n ê u t i c a tácil e d e sc o m p lic a d a

qualquer alteração introduzida por erro do escriba, seja um equi-


voco de d1tografial\ fu sã o 16, ou outro qualquer que costumam
achar-se na transmissão de obras manuscritas plunsseculares.
Tal texto, reconstruído à base dos critérios da crítica textual,
chama-se texto crítico. A ARA é baseada em tais textos.
Entre os vários exemplos dessa ciência, podemos citar
como exemplo o texto de Mateus 6.13 (ARA), onde aparece
a expressão entre colchetes: “ (pois teu é o reino, o poder e a
glória para sempre. Am ém ]”. N a ARC os colchetes são omiti-
dos e na N V I aparecem no rodapé. Já em Marcos 16.9,20,
tanto a A RA quanto a ARC, não trazem qualquer referência à
omissão dos textos (vv.9-20), enquanto a N V I, no rodapé,
afirma que “alguns manuscritos antigos omitem os versículos
9-20; outros manuscritos apresentam finais diferentes do evan-
gelho de M arcos”.17 Estes e muitos outros postos em colche-
tes não se encontram nos melhores manuscritos segundo vári-
os críticos textuais, mas foram adotados por Almeida (1 6 8 1).
N a ARC encontramos diversas palavras em itálico que não se
encontram no texto hebraico ou grego, mas que foram adotados
pelos tradutores para que o texto tivesse sentido.18
U m outro exemplo pode ser encontrado em Mateus 12.40.
N a ARC diz que “como Jonas esteve três dias e três noites no
ventre da baleia...”, enquanto a A RA traduz por “ no ventre
do grande peixe”. As duas traduções comparadas parecem
contradizer-se. Jonas esteve no ventre de um mamífero ou no
ventre de um grande peixe? O texto original hebraico em
Jonas I .1 7, é “dâggâdhôl”, literalmente “peixe enorme”. Quan-
do Almeida traduziu o termo por “baleia”, fez provavelmente
fundam entado no aspecto fenomenológico ou natural das
coisas, mas do que na consistência científica ou lingüística,

76
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

visto que para o tradutor, um “peixe grande ou enorme”, en-


quadrava-se melhor na descrição de uma baleia do que em
outro ser marinho qualquer. O próprio termo, no grego k‘tous,
significa “grande peixe” e não “baleia”. Pelo que a tradução
da ARA é mais correta.19

Texto Hebraico Texto Grego ARC ARA

“w av'm am ΎHW H “...en lonas em ..pois, como “Porque assim


Jonas esteve como esteve
dâg gâdhôl libhlô'” te koilia tou
"'eth-Yômah waig'hi três dias e três Jonas três dias
kêtous e três noites
bim 'ey hãddâg noites no ventre
treis hêmera kai da baleia.!’ no ventre do
shdôshâh treis núnktas...” grande p eix e .’. ’
vâmím ushclôshâh
leylôth”

O termo grego agápe, que é traduzido pela ARC como


“caridade”, é um outro exemplo de como a crítica textual pode
ajudar ao intérprete a transpor os abismos comuns à exegese.
Em I Coríntios 13 0 term o aparece nove vezes, sempre tradu-
zido pela ARC como “caridade”, não representando o senti-
do do vocábulo original, enquanto a ARA, neste caso, conci-
11a-se com o sentido comum ao termo, traduzm do-o por amor.

Espero que o leitor compreenda tratar-se de três breves e


fáceis exemplos, à guisa de ilustração de alguns aspectos do
labor da crítica textual. N ão desejamos, ser simplistas quanto
as implicações conflituosas dos problemas elencados, mas a
complexidade do tema, não nos permite argüi-los acurada-
mente nesse breve esboco.
Em bora redundante, creio ser necessário sublinhar que
cada tradução ou versão das Escrituras, protestante ou não,
dão à estampa de que usam os manuscritos mais antigos e
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

mais corretos ( “vetustussimis simul et emendatissimis”'), apesar de


diferirem em muitos aspectos textuais um dos outros por se-
guirem manuscritos distintos. O exegeta, cônscio desta bar-
reira fará uso das diversas versões, além de se exercitar por
adquirir cada vez mais perícia tanto nas línguas bíblicas quan-
to nos cânones que regem a crítica textual.

Frontispício de Algumas Versões Bíblicas


Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil
Edição Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original

Imprensa Bíblica Brasileira


Versão Revisada da Tradução de João Ferreira de Almeida de acordo
com os Melhores Textos em Hebraico e Grego

Edições Paulinas e Edições Loyola


A Bíblia TEB com o Antigo e o Novo Testamento traduzidos dos
textos originais hebraico e grego com introduções, notas essenciais e
glossários nova edição revista e corrigida

Sociedade Bíblica do Brasil


Bíblia Sagrada Traduzida em português por João Ferreira de Almeida
com referências e algumas variantes
Edição Revista e Corrigida Edição de 1995

Temos diversas cópias e versões das Escrituras Sagradas20,


e por meio do exercício dos críticos textuais, podemos assegu-
rar com toda clareza a confiabilidade das Escrituras vetero e
neotestamentárias, e afirmar que são exatamente idênticas aos
autógrafos originais.
Por mais de dois mil anos as cópias manuscritas dos ori-
ginais foram transmitidas com a máxima exatidão. Antes da
descoberta dos rolos do mar M o rto, discutia-se m uito a

78
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

confiabilidade dos textos sagrados, se as sucessivas cópias ha-


viam alterado profundamente o sentido original. Porém, ao
ser descoberto o rolo de Isaías, escrito em 125 a.C., desco-
briu-se que esse texto corresponde ao mesmo texto massorético
de Isaías que data de 9 16 (A.D.). O texto preparado quase mil
anos antes era idêntico ao texto que hoje possuímos, deixando
dúvidas apenas sobre dezessete letras que em nada alteram o
sentido primário.
Isto posto, infiro que as relações da crítica textual com a
exegese e a hermenêutica fundem-se grandemente, tornando a
empresa de interpretar não só desafiante e exaustiva, mas tam-
b ém c o m p e n s a d o ra , pois através dessas três ciências
indissociáveis, o sentido primário do texto sagrado é entregue
na ação evangelística e pastoral, tal qual pretendido pelo Espí-
rito da inspiração escriturística.
Casos conflitantes pelo uso de fontes manuscritas distin-
tas tal qual Marcos 9.24, não devem diminuir a credibilidade
na autenticidade das Escrituras. Os que seguem o Texto M a-
joritário (T M aj), por exemplo, criticam os que usam o Texto
Crítico, simplesmente porque este não inclui o vocativo “Se-
n h o r” no texto.
Simplifiquemos este exemplo citando especificamente os
textos.
ARC
“E logo o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse:
Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade.”
ARA
“E imediatamente o pai do menino exclamou [com lágri-
mas]: Eu creio! Ajuda na minha falta de fé!”
79
H e r m e n ê u t i c a tácil e d e sc o m p lic a d a

NVI
“Imediatamente o pai do menino exclamou: Creio, ajuda-
me a vencer a minha incredulidade.”
TEB
“Logo o pai do menino exclamou: Eu Creio! Vem em
auxílio da minha falta de fé!”

Verificando cada uma das traduções assinaladas observa-


mos uma distinção e correspondência:
A ARC, seguindo oTextus Receptus, inclui o vocativo “Se-
nhor”, com a variante de tratar-se de “senhor” no sentido de
divindade, e não de respeito comum. Isso salienta que o pai
tinha conhecimento da divindade de Cristo, o que é discutível.
A ARA, N V I e a TEB omitem o vocativo “Senhor”.
Almeida Revista e Atualizada acrescenta, entre colchetes, a
nota explicativa de que o pai do menino exclamou21, “com
lágrimas”: term o que corresponde aos manuscritos A (2)
C (3), D E F G H K M N S U V X , Gamma, Delta e Fam Pi, mas
também é omitida pelos manuscritos mais antigos do evange-
lho de Marcos: P (45), Aleph, A (I), BC (I)D L W , 28,700.
O que sugere que o texto de Marcos não continha essas pala-
vras, que foram acrescidas por algum escriba a fim de aumen-
tar o efeito dramático.22

Bloqueios Externos
A Atividade Maligna no Mundo
Segundo as Escrituras “o deus deste século cegou o en-
tendimento dos incrédulos para que lhes não resplandeça a
luz do evangelho” (2 Co 4.4). Percebe-se uma atividade ma­

80
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

ligna com intuito de que o Evangelho não floresça na mente e


no coração dos incrédulos. Além de procurar obscurecer a
mensagem do evangelho, envia seus ministros malévolos para
perverter a sã doutrina (2 T m 4.1), quando não, falsos minis-
tros atestando infalibilidade procuram distorcer o evangelho
de Cristo, “por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a
tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e
não segundo C risto” (Cl 2.8,22; E f 4.14).

A Depravação Mental a que os Homens Ficaram Sujeitos


após a Queda
Em decorrência da queda, o homem não perdeu a facul-
dade intelectual; entretanto, o pecado a dilacerou terrivelmen-
te, e através do pecado, os homens adquiriram uma mente
depravada em relação a Deus, a moral e a si mesmo (R m 1.28ss;
T t L I 5). Pela corrupção de suas mentes não têm capacidade,
por mais eruditos que sejam, de divisar os assuntos espiritu-
ais, por parecerem irracionais e loucura ( I Co 2.14). Por ou-
tro lado, após a regeneração, o homem recebe profunda trans-
formação em sua mente ( I Co 2.14-16), que é operado pelo
Espírito Santo (Jo 16.8-10) através da Palavra pregada ou
ensinada (R m 10.13-21).

Atitudes e Qualidades do Intérprete


Maturidade Espiritual
Deve o hermeneuta possuir qualidades espirituais, prin-
cipalmente o tem or e a reverência ao Espírito Santo (Pv 1.7).
O “homem espiritual”, segundo Paulo, é o crente que tem
capacidade de julgar, de discernir, de compreender todas as
verdades espirituais. O escritor aos Hebreus assevera que o
homem espiritual é “adulto, o qual tem, pela prática, a fa­

81
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

culdade exercitada para discernir tanto o bem como o mal”


(H b 5.12-14; c f I Co 3.1-3). Assim como o homem espiri-
tual contrasta com o “homem natural”, o homem maduro é a
antítese do cristão menino. Enquanto o cristão tem suas fa-
culdades exercitadas pela prática e alimenta-se de alimentos
sólidos, os “m eninos” “ainda necessitais de que se vos torne a
ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de
D eus”. Sua dieta é a base de leite e não de alimentos sólidos.
O hermeneuta possui suas faculdades “dilatadas” por Cristo
(Lc 24.44), para compreender “as coisas do Espírito de D eus”
( I Co 2.14).

Comunhão com o Espírito Santo


O homem natural, por conhecimentos de filologia (estu-
do das línguas, idiomas), pode extrair significados dos mais
aplicáveis aos vernáculos bíblicos, mas entender as realidades
espirituais é facultado apenas àqueles que têm a mente de Cris-
to. Daí a necessidade do hermeneuta cristão ser, acima de tudo,
nascido de novo (Jo 3.5,6).
O intérprete deve estar cheio do Espírito Santo e guiado
por Ele. Somente o crente pode sondar o verdadeiro significa-
do das Escrituras, porque o mesmo Espírito que a inspirou
realiza no intérprete uma obra de iluminação que lhe permite
chegar, através do texto, ao pensamento de Deus ( I Co 2.10).
A carência de sensibilidade com o Espírito Santo incapacita o
exegeta para captar com profundidade o significado das pas-
sagens bíblicas. O crente precisa de uma congenialidade espi-
ritual ÇGeisteverwandschaft) com o Espírito Santo.

82
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

A mente, os sentimentos e a vontade do hermeneuta de-


vem estar abertos para a ação espiritual do Espírito Santo.

Oração
T o d o trabalho exegético deve ser acompanhado com ora-
ção. N o campo da hermenêutica tem perfeita aplicação o
aforismo bene est bene stuiuisse (orar bem e estudar bem). O
exegeta, mais que qualquer leitor da Bíblia, deveria fazer a
mesma súplica do salmista: “Desvenda os meus olhos para
que veja as maravilhas de tua lei” (SI 1 19.18).
U m dos nossos irmãos em Cristo, quando ainda era um
novo convertido, leu a epístola de Paulo a Timóteo (4.2) e não
compreendeu o texto da ARC que diz: “tendo cauterizado a
sua própria consciência”. Já passava das 24:00 horas, quando
ele, cansado (pois às 4:00 horas da manhã levantaria para o
trabalho diário), disse: “Espírito Santo eu não entendo o que é
‘consciência cauterizada’. Ensina-me”. Ao acordar ouviu o Es-
pírito Santo falando mansamente ao seu ouvido: “Consciência
cauterizada é o estado insensível da alma que não aceita mais o
meu apelo em sua consciência”. Passado alguns anos, quando
ele terminava o seminário, compreendeu que se tratava de uma
figura de linguagem, e que o texto pode ser interpretado literal-
mente como “cuja consciência foi marcada com ferro em bra-
sa”, isto é cicatrizada, o que eqüivale a dizer que está insensível.
Tal qual a mensagem do Espírito Santo para ele.

É Inimigo da Ociosidade Bíblica


Em Hebreus 5 .1 1 e 6.12 o escritor chama os cristãos
hebreus de “tardios em ouvir” e “indolentes”. Essas duas ex-
pressões são a tradução de um termo grego ( notbrói) usado

83
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

somente nestas duas passagens no Novo Testamento. O vocá-


bulo literalmente significa “preguiçosos”. Por serem indolen-
tes, deixaram de receber profundas instruções espirituais (v.I I).
Pois devido ao tempo de fé que possuíam (cerca de trinta
anos), nunca se preocuparam com o estudo sério da Palavra
de Deus. A preguiça era tanta que até o que sabiam haviam
esquecido. Em vez de haver progresso: “Q uando devíeis ser
mestres” (v. 12), houve regressão: “Tendes, novamente, neces-
sidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os prmcípi-
os elementares dos oráculos de D eus”; a estagnação seria mais
aceitável. A inanição era tão crônica que o escritor desabafa:
“Vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento
sólido” (5.12). Eles não tinham condições de seguir uma ex-
planação profunda das Escrituras porque o raciocínio deles
era semelhante ao de uma criança. O mais notável é que eles
não eram preguiçosos, mas tornaram-se ( v 05 tornastes).

Mente Sã e Equilibrada
O hermeneuta deve evitar o raciocínio defeituoso e a ex-
travagância da imaginação, a perversão do raciocínio e as idéi-
as vagas. O intérprete deve ser capaz de perceber rapidamente
o que uma passagem ensina e não ensina, assim como obser-
var sua verdadeira tendência. O intérprete deve gozar do po-
der de observar o pensamento do autor e notar, de uma só
vez, toda força e significado. Essa rapidez de percepção deve
ser unida a um entendimento, não somente do sentido das
palavras, como também do propósito do argumento.
Ao tratar de explicar a Epístola aos Gálatas, com uma
percepção rápida, se observará o caráter apologético dos pri­

84
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

meiros capítulos, e a veemente audácia de Paulo ao afirmar


sua autoridade divina e seu apostolado e as conseqüências de
sua pretensão na epístola. N otará, também, com quanta força
os incidentes pessoais da vida e do ministério de Paulo entram
em seu argumento.23

É Apreciador das Línguas Originais


O hermeneuta reconhece o valor das línguas sagradas.
Sabe que uma consistente extração da verdade depende, a cer-
to ponto, do conhecimento das línguas bíblicas, sua gramáti-
ca e ídiotismos. N ão somente isto, mas sabe que uma intuição
verdadeira com a cultura e o gênio característicos da lingua-
gem do hagiógrafo propiciará riquezas que somente o conhe-
cimento da língua original não favorece. Pio X II em D ivino
ajflante Spiritu, deixou uma recomendação aos exegetas católi-
cos que deveria ser observada pelos estudiosos das Sagradas
Escrituras.
“Hoje são tantos os meios para aprender as línguas bíblicas
que o intérprete das Escrituras não pode fechar-se ao acesso
aos textos originais, não pode atualmente evitar a tacha de
mconsideração e indolência. Por isso trabalhe por adquirir
uma perícia cada vez maior das línguas bíblicas e também dos
outros idiomas orientais, e apóie a sua interpretação em todos
os recursos submimstrados por toda espécie de filologia.”24

Possui Cultura Geral


N ão som ente o conhecim ento da gram ática e do ver-
náculo de sua língua pátria, mas tam bém da história dos
povos bíblicos, da geografia palestina, arqueologia do O ri-
ente M édio, etc...

à5
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p h c a d a

SIN O P SE

O te rm o “ h e rm e n ê u tic a ” procede do verbo grego


hermeneuein, usualmente traduzido por interpretar, e do subs-
tantivo hermenda, que significa interpretação. Tanto o verbo
quanto o substantivo podem significar “traduzir”, “tradução”,
ou “explicar”, “explicação”.
Hermenêutica é a ciência que se objetiva a formular regras
gerais e específicas de interpretação de qualquer texto literário.
Exegese, do grego eksêgêsis, significa, segundo o contexto,
narrativa, explicação, interpretação. E a ciência da interpretação.
Enquanto a exegese consiste em extrair o significado de
um texto qualquer, mediante legítimos métodos de mterpre-
tação, a eisegese consiste em injetar em um texto alguma coisa
que o intérprete quer que esteja ali, mas que na verdade não
faz parte do mesmo.
As formas pelas quais o intérprete pratica a eisegese são:
quando força o texto a dizer o que não diz; quando ignora o
contexto sob pretexto ideológico; quando não esclarece um
texto à luz de outro; quando está comprometido com um sis-
tema ou ideologia.
Os principais bloqueios à interpretação das Escrituras são:
histórico-culturais; lingüísticos; textuais; a atividade maligna
no mundo; a depravação mental a que os homens ficaram su-
jeitos após a queda.
As atitudes e qualidade apreciáveis no intérprete das Es-
crituras são: maturidade espiritual, comunhão com o Espírito
Santo, oração, inimigo da ociosidade bíblica, mente sã e equi-
librada, apreciador das línguas originais, cultura geral.
O propósito fundamental da Crítica Textual é recons-
truir com toda perfeição possível o texto bíblico, expurgando-
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

o de qualquer alteração introduzida por erro do escriba, seja


um equívoco de ditografia, fusão, ou outro qualquer que cos-
tu m a m achar-se na transm issão de obras m anuscritas
plurisseculares.
Pelos menos três razões podem ser apresentadas para ex-
plicar a atitude imprudente de se ignorar o contexto: atitude
defensiva, preconceito, preferência ao m étodo alegórico.
As principais funções da hermenêutica e da exegese bíbli-
ca são: traduzir o texto original tornando-o compreensível em
lín gua vernácula; compreender o sentido do texto dentro de
seu ambiente histórico-cultural e léxico-sintático; explicar o
verdadeiro sentido do texto em todas as dimensões possíveis;
tornar a mensagem das Escrituras inteligível ao hom em mo-
derno; conduzir-nos a Cristo.

TRABALHANDO COM TE X TO
H erm enêutica Fundamental

A hermenêutica presta-se a formular regras gerais de in-


terpretação de textos bíblicos. Deve-se observar, entretanto,
que tipos diferentes de literatura bíblica requerem metodologias
específicas para cada um deles. Isto sugere que os métodos
que se empregam na interpretação das parábolas serão dife-
rentes daqueles que se empregam na interpretação da poesia
hebraica ou numa parte das epístolas de Paulo. Os poucos
princípios gerais que podem ser universalmente aplicados a
todos os tipos de literatura bíblica tendem a ser tão básicos
que ficam óbvios, por exemplo: a necessidade de prestar aten-
ção ao contexto lingüístico, à situação histórica, ao gênero
literário e ao propósito do autor.

87
H e r m e n ê u t i c a tácil e d e sc o m p lic a d a

Por causa do caráter multifacetado da Bíblia, sua inter-


pretação adota uma variedade de formas. Os documentos bí-
blicos são antigos, escritos em hebraico, aramaico e grego, em
vários períodos entre 1200 a.C. (ou antes) e 100 d.C., refle-
tindo vários contextos históricos e culturais. U m a exigência
básica para a compreensão destes documentos é sua mterpre-
tação histórico-gramatical, ou exegese — ressaltando aquilo
que os escritores pretendiam transmitir e aquilo que se espe-
rava que os leitores entendessem.
ELW ELL, Walter A., editor, Enciclopédia Historico-Teológica
da Igreja Cristã, Vida Nova; v.2, p. 338-342.

EXERCÍCIO S
1. Defina e conceitue hermenêutica.
2. Diferencie hermenêutica, exegese e eisegese.
3. Quais são os principais bloqueios à interpretação cor-
reta das Escrituras?
4. De que forma o intérprete pratica a eisegese?
5. Quais as principais qualidades do intérprete?

Bibli-Holmes
Ajude nosso detetive Bibli-Holmes a investigar as princi-
pais práticas eisegéticas aplicadas em nossas reuniões de pre-
gaçao e ensino das Escrituras.
LEITURAS E LIVROS PARA APROFUNDAM ENTO
M A R TÍN EZ, José M. Hermenêutica Bíblica, CLIE (p. 15-21);
B LEICH ER, Josef. Hermenêutica Contemporânea, Edições 70
(p. 13-18, 23-30);
B RO W N , Colin, editor, Dicionário Internacional de Teologia do
Novo Testamento, Vida Nova, v.2 (p. 180-191);
PALM ER, Richard, Hermenêutica, Edições 70 (p. 45-50).

88
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

NOTAS
1D o grego μετα + όδός literalmente “caminho a seguir”.
‫ ־‬Sobre os diversos métodos e abordagens confira a obra
da Pontifícia Comissão Bíblica, A Interpretação da Bíblia na Igreja,
Paulinas, 1994. Sobre o m étodo histórico-crítico, O dete
Mamville, A Bíblia à L u z da História —guia de exegese histórico-crítica,
Paulinas, 1999; Cássio M. Dias da Silva, Metodologia de Exegese
Bíblica, Paulinas, 2000. U we W E G N E R , Exegese do Novo Testa-
mento, M anual de Metodologia, Smodal, Paulus, 1998. Para o mé-
todo estruturalista, Vários autores, Iniciação à Análise Estrutural,
C ad ern os Bíblicos —23, Paulinas, 1 9 8 3 ; Paul R icoeur,
Hermenêutica y Estructuralísmo, Ediciones M egápolis, 1975;
Horácio Simian-Yofre (Coord.), Metodologia do Antigo Testamento,
Bíblica Loyola, 28, p. 109-122.
‫ '־‬Richard E. Palmer, Hermenêutica, O Saber da Filosofia,
1969, p. 44. Palmer foi orientado pelos três maiores teóricos
hermenêuticos de nosso tempo: Professor Gerhard Ebeling
no Institut f i i r Hermeneutik, na Universidade de Zurique, por
H ans - Georg Gadamer em Heidelberg, e M artin Heidegger.
’ Richard E. Palmer, Hermenêutica, O Saber da Filosofia,
1969, p. 43. As outras duas definições são: Uma Fenomenologia
da Existência e da Compreensão Existencial e Hermenêutica como um
Sistema de Interpretação; Recuperação de Sentido Versus Iconoclasmo.

' Id. Ibidem, 1969, p. 44.


6 Op.cit., p. 45. Palmer cita a divisão apresentada por
Gerhard Ebeling. Palmer foi orientado pelos três maiores teó-
ricos herm enêuticos de nosso tempo: Professor G erhard
Ebeling no Institut für Hermeneutik, na Universidade de Z u ­

89
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p h c a d a

rique, por H ans - Georg Gadamer em Heidelberg, e M artin


Heidegger.
' R. Laird Harris (et alii(), Dicionário Internacional de Teologia
do Antigo Testamento, 1998, p. 1248. Os termos gregos para her-
menêutica são: èpp.€V‫׳‬e ía , “tradução” ou “interpretação”;
έρμηνεύω, “explicar, interpretar” ;Ερμηνευτής, “trad u to r”.
Os termos são encontrados nos textos de I Co 12.10; Lc
24.27 e I Co I . I I .
8 Cf. J. Comby; P. Lemonon, Vida e Religiões no Império Roma -
no, Docum entos do M undo da Bíblia-4,1988, p. 8-27. Para
informações sobre a situação religiosa e social do m undo do
N T, Eduardo Arens, Asia Menor nos Tempos de Paulo; Lucas e João,
Paulus, 1997.
9 Palmer, id.Ibidem, 1969, p. 34.
10 Id. Ibidem, 1969, p. 34.
11 Teodorico Ballarine, Introdução à Bíblia, 1968, p. 209
12W. D. Chamberlain, Gramática Lxegética do Grego Neo-Tes-
tamento, 1989, p. 25.
13 Citado por Chamberlain, op.cit., p. 25.
14 Cf. Hermenêutica Bíblica — Para uma teoria da leitura como
produção de significado - Estudos Bíblicos Teológicos A T e N T 5,
1985, p. 59.
15 Escrever duas vezes o que se deveria ser escrito apenas
uma vez.
16 Combinação da última letra da palavra anterior com a
primeira do termo seguinte.
17 Informações detalhadas sobre o problema textual dos
doze últimos versículos de Marcos o leitor deve consultar
Russel N o rm an Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo
por Versículo, VI I, 1995, p. 800-2. Sobre Crítica Textual, W il-

90
H e r m e n ê u t i c a Bíblica

son Paroschi, Crítica Textual do Novo Testamento, SP, V ida Nova,


1993, ou ainda, B. P. Bittencourt, O Novo Testamento: metodologia
da pesquisa textual, RJ, Juerp, 1993. Ver também Champlin, op.
cit., p. 86-130.
18 Cf. o Prefácio da ARC [1995], p. 5.
19 B. P. Bittencourt, O Novo Testamento: metodologia da pesquisa
textual, 1993, p. 190.
20 Acrescentando os manuscritos unciais, minúsculos,
lecionários, papiros e outros, temos apenas para o N T, mais
de 5.000 manuscritos, acrescentando os da Vulgata e outras
versões, perfazem mais de 2 4 .0 0 0 manuscritos. Comparado a
Ilíada de Homero, que possui apenas 643 manuscritos, as Es-
crituras são mais confiáveis pelo testemunho textual do que
qualquer outro manuscrito antigo.
21 Literalmente gritou: κραζας particípio aoristo de κράζω ,
gritar, clamar (em alguns casos clamar ininteligivelmente). Confi-
ra, por exemplo, www.sbibrasil.org.br/nvi2.htm.
22 Cf. Champlm, 1995, op. cit. p. 737; os textos de The Greek
Text VnderlyingTke English Authorised Version of 1 6 1 1 daTrinitarian
Bible Society e The Greek N ew Testament, Kurt Aland (et alii),
U nited Bible Societies, The Greek N ew Testament According to the
Majority Text, Zane C. Hodges & A rthur L. Farstad, Thom as
Nelson Publishers. Consulte Esdras Costa Bentho, Hermenêutica
Contextual, 1999, p. 37.
2‫ '־־‬Confira José M. M artinez, Hermenêutica Bíblica, 1987,
p. 27-36.
24 Citado por P. Teodorico Ballarini, Introdução à Bíblia,
1969, p. 201.

91
C A P ÍT U L O 4

cHzttneheutica /Kateilaí

A Hermenêutica como disciplina teológica contínua


árdua e espinhosa. Todos os docentes e alunos que
se prestam a essa íngreme e escarpa trilha precisam
a todo tempo de auxílios exegétícos dos mais
substanciais\ e que perfilem sohre a moderna
e clássica literatura au xilia r a interpretação bíblica.
N a fa lta de saber qual é 0 caminho, caminhar
por trilhas seguras ainda continua sendo a melhor
fo r m a de se seguir à frente.

Chaves e Concordâncias Bíblicas

Concordância bíblica é uma compilação em ordem alfabé-


tica, de termos bíblicos ou de conceitos (matérias) bíblicos, que
remete às passagens da Bíblia onde ocorre o respectivo termo
ou conceito. Chama-se Concordância porque as passagens
bíblicas que contém a mesma palavra ou a mesma idéia são “con-
cordantes” entre si, e porque a concordância ajuda a encontra-
las, e mesmo as aduz já reunidas. O primeiro a idealizar uma
obra deste gênero foi o cardeal dominicano H ugo de S. Caro,
que em 1230, compilou uma concordância verbal da Vulgata.
H e r m e n ê u t i c a fá c il e d e sc o m p lic a d a

As concordâncias são muito úteis para a exegese, pois fornecem


as passagens paralelas, cujo conhecimento ajuda a interpretar o
sagrado texto; são úteis também para a pregação.

Objetivos das Concordâncias Bíblicas

Os principais objetivos das Concordâncias Bíblicas são:


a) Localizar passagens. Suponhamos que alguém se re-
corde de que a Bíblia em certo lugar fala do “encontrar-se
com D eus”. M as onde? Basta procurar o verbete “encontrar”
e, passando os olhos sobre a lista de passagens sob este verbe-
te, logo notará Amós 4.12 e lerá “Israel, para te encontrares
com”. Consultando o texto da Bíblia, terá a oração: “Prepara-
te, ó Israel, para te encontrares com o teu D eus”. Esta passa-
gem por exemplo, aparece quatro vezes na Concordância (CB-
ARA-SB) caso o leitor prefira Israel, preparar e Deus. Se houver
interesse em saber se em outros lugares a Bíblia menciona “en-
contro com D eus” , a Concordância imediatamente cita I
Tessalonicenses 4 .1 7 .1
b) Auxiliar o leitor da Bíblia no estudo de assuntos ou
tópicos bíblicos. Tomemos como exemplo o verbo “salvar”
tão freqüente na Bíblia, e estudemos os seus usos e sua signifi-
cação. O leitor terá, imediatamente, a surpresa de grande lista
de passagens citadas; e, juntando a este verbete Salvação e Salva-
dor, terá diante de si várias páginas, todas referentes a “salvar”.
Logo em seguida notará o leitor que em toda Bíblia, quando
se trata do sentido passivo do verbo “salvar”, foi usada, quase
sem exceção, a forma “ser salvo” e não “salvar-se”, pois esta,
ainda que expressão popular, é ambígua, tendo também o sen-
tido reflexivo, salvar-se a si mesmo (cf. E f 2.8).2

94
H e r m e n ê u t i c a M a te ri a l

T ip os de Concordâncias Bíblicas

H á dois tipos de concordâncias:


a) As verbais: relacionam palavras ( verbum ), são chamadas
também de Chaves Bíblicas; algumas são encontradas nas par-
tes finais de algumas Bíblias. Podemos afirmar que as referên-
cias encontradas nos rodapés ou dispostas em colunas em al-
gumas Bíblias são formas abreviadas de chaves bíblicas. A im-
portância dessas chaves é que elas são correlativas à versão
bíblica da qual compõem.
b) Concordâncias reais:
Estas, ao contrário de somente palavras arrolam também
idéias, são em sentido estrito, listas de idéias ou assuntos que
remetem aos textos bíblicos. Atualmente, existem quatro con-
cordâncias bíblicas evangélicas no Brasil, representando as ver-
sões bíblicas mais divulgadas:
1) A Concordância Bíblica baseada na A RA da Sociedade
Bíblica do Brasil, que compreende cerca de 7.000 verbetes,
com mais de 45.000 referências a passagens bíblicas e 51 bio-
grafias de personagens bíblicos.
2) A Chave Bíblica baseada na ARC da Sociedade Bíblica
do Brasil.
3) A Concordância Bíblica Abreviada da Im prensa Bíblica
Brasileira.
4) A Concordância Bíblica Abreviada baseada na Edição Con-
temporânea da Editora Vida.
Deve-se dar devida consideração às Concordâncias Gre-
gas, geralmente bilíngües entre elas:
" Concordância Fiel do Novo Festamento (Editora Fiel).

95
H e r m e n ê u t i c a tácil e d e sc o m p lic a d a

A obra foi editada em dois volumes Grego-Português e


Português-Grego, tendo como base para a tradução a Bíblia
Revista e Atualizada (A R A ) da Sociedade Bíblica do Brasil.
Esta concordância investiga as palavras no grego e mostra, em
português, como os tradutores interpretaram cada uma delas
em todas as passagens em que aparecem.
ψ Concordância Analítica Greco-Espanola del Nuevo Testamento de
A. E. Tugg e J. Stegenga (CLIE).
Tem como propósito ajudar os leitores a entender perfei-
tamente a língua helenista. E uma concordância analítica: ana-
lisa cada palavra do N T grego exaustivamente, além de ser um
auxílio aos missionários e lingüistas que trabalham entre os
índios hispânicos, pois nela encontram-se todas as formas de
uma palavra grega traduzida para a língua espanhola dentro
de seus vários contextos.
ψ Concordância Greco-Espanola dei Nuevo Testamento de H ugo
Petter (CLIE).
Inclui um índice espanhol de todas as palavras do NT,
indicando debaixo de cada uma, como se encontram no texto
original grego e quantas vezes ocorrem na mesma forma, ofe-
recendo a transliteração em caracteres latinos. O leitor pode,
mediante o número de referências, consultar a passagem onde
se encontram os termos, comparando-a com outras passagens
e distinguindo suas possibilidades de tradução.
* Concordância Completa da Santa Bíblia, de W illiam H . Sloan
(CLIE).
Abrange de forma completa todos os vocábulos bíblicos,
contendo todos os verbos castelhanos no infinitivo, como em
outras concordâncias, e também em todos os tempos verbais.
Oferece também o sinônimo da palavra que se busca, permi-

96
H e r m e n ê u t i c a M ate ria l

tm do assim encontrar paralelos; inclusive os dos nomes pró-


prios e de lugares, e é compatível com todas versões de Reina-
Valera: 1909, I 9 6 0 e 1977.
^ Enciclopédia de Tópicos) Concordâncias, de Samuel Vila (CLIE).
E uma Concordância Temática completa e exaustiva de
toda a Bíblia. Contém 702 temas, classificados em 14 secções
principais, que permitem em pouco tempo saber o que a Bí-
blia diz sobre uma idéia ou conceito determinado.

D icionários e Enciclopédias

N ão devemos confundir dicionário com concordância, e


estas com enciclopédias ou vice-versa. Os dicionários bíblicos
não se propõem, como as concordâncias, a reproduzir os tex-
tos, e sim oferecer a cada assunto uma exposição mais ampla.
Dicionário, tal como é seu étimo latino ditionariu, é um conjunto
de vocábulos e termos de uma língua dispostos em ordem
alfabética com seus respectivos significados. As enciclopédias
bíblicas, entretanto, não se prestam a verificar o significado
dos termos, ainda que muitos se achem nela, mas abranger
todos os ramos do conhecimento bíblico e teológico.
Dicionários
* O Novo Dicionário da Bíblia, editado por J. D. Douglas
("Vida N o v a \
“Os assuntos tratados incluem tanto pessoas, lugares,
geografia, história, cultura e costumes das terras e tempos bí-
bli cos como apresentações extensas e claras das grandes dou-
tnnas da Fé cristã. E um tesouro de conhecimento bíblico,
reunindo os resultados especializados de uma equipe de 139
eruditos entre os maiores do atual mundo evangélico.”

9‫־‬
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p lic a d a

* O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,


editado por Colin Brown (Vida Nova).
“Baseia-se no Teologisches Begriffslexihon zun Neuen Testament,
que originalmente foi publicado em alemão em 1965. Os ver-
betes dispostos em ordem alfabética discorrem sobre o signi-
ficado helenístico clássico, seu correlato veterotestamentário
com base na S e p tu a g in ta (L X X ) e seu uso no grego
neotestamentário. O dicionário é expressamente teológico em
sua intenção. Informações históricas, geográficas e arqueoló-
gicas, que são apropriadas num dicionário geral da Bíblia, nele
se incluem à medida que são teologicamente relevantes. Faz
parte essencial do propósito de O Novo Dicionário Internacional
de Teologia do Novo Testamento, capacitar o leitor a explorar por si
mesmo as novas avenidas de descoberta que têm sido abertas,
e avaliar por si mesmo os pontos-de-vista dos estudiosos que
têm contribuído ao m oderno estudo da Bíblia.”
‫ *י‬O Léxico do Novo Testamento Grego/ Português, de F. W.
Gingrich e F. W. Danker (Vida Nova).
“O léxico é uma versão condensada da obra publicada
para o inglês em 1957. O alvo da versão em português é
fornecer os significados dos vocábulos gregos sem entrar em
discussões de hermenêutica e teologia”.
* Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, de R.
L. Harris, G. L. Archer Jr e B. K.Waltke (Vida Nova).
“Quarenta e seis especialistas em hebraico bíblico contri-
buíram com artigos valiosos para essa obra. As principais pa-
lavras do texto hebraico são examinadas sob os seguintes as-
pectos: significado teológico, usos bíblicos, antecedentes
etimológicos, comparação com línguas cognatas, traduções em

98
H e r m e n ê u t i c a M a te ri a l

versões antigas, sinônimos e antônimos. As palavras-chave em


textos de difícil interpretação recebem atenção especial”.
‫ *״‬Dicionário Enciclopédico da Bíblia, redigido por A. Van D en
Born (Vozes).
“O bra holandesa e belga com cooperação de biblistas de
outras nacionalidades. O bra de farto material arqueológico,
sobretudo os documentos. Os verbetes são eruditamente ex-
postos, trazendo o significado lexical de cada palavra, bem
como, o significado simbólico de alguns termos.”
^ hnagens Verbais do Novo Testamento, de Archibald T hom as
Robertson (C LIE)
“E uma obra editada em seis volumes. Estuda e expõe as
expressões mais importantes do N T, dando uma análise gra-
matical do texto, por ordem do livro, capítulo e versículo tal
como se apresenta no N T. Para uma melhor compreensão do
assunto, faz observações sobre os costumes da época.”
* Dicionário de Figuras de Dicção Usadas na Bíblia> de E. W.
Bullmger (CLIE).
“O objetivo da obra é apresentar em sua própria ordem e
lugar cada uma das 2 1 4 figuras literárias usadas na filologia
sacra, fornecendo a pronúncia de cada uma, facilitando a sua
etimologia através das razões pelas quais se disse certo nome
e seu significado. Apresenta ainda os textos bíblicos em que se
usa tal figura.”
* Vocabulário Teológico do Evangelho de São João, de Juan Mateos
e Juan Barreto (Edições Paulinas).
“Juan Mateos e Juan Barreto produziram em parceria um
excelente comentário bíblico e exegético ao Evangelho de João.
J. Mateos e J. Barreto partem de princípios hermenêuticos
claros e peculiares, tão peculiares que talvez signifiquem uma

99
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

mudança inédita na exegese bíblica: a interpretação do texto


pelo próprio texto. O Vocabulário é um apêndice e índice do
vernáculo ao comentário do mesmo evangelho. Os vocábulos
teológicos estão classificados em ordem alfabética e de forma
orgânica, os conceitos fundamentais de João, aqueles que pul-
sam ao longo de to d o escrito e lhe conferem peculiar
fisionomia”.
* Dicionário Teológico, de Claudionor Corrêa de Andrade
(CPAD).
O Dicionário Teológico traz as definições dos principais
termos usados no círculo teológico e nas obras de referência
teológica. Possui definições etimológicas e a tradução das prm-
cípais locuções latinas usada pelos pais latmos.
* Dicionário de Figuras e Símbolos Bíblicos, de Manfred Lurker
(Paulus).
Esta obra foi traduzida do original alemão. Propõe-se a
interpretar o m undo das figuras e dos símbolos do Antigo e
Novo Testamento. Possui índice de cada um dos verbetes usa-
dos e instruções de como os artigos da obra estão estruturados.
A Pequena Enciclopédia Bíblica; de O. S. Boyer (CPAD)
Combina em uma só obra dicionário, chave bíblica, m-
trodução aos 66 livros da Bíblia, um atlas bíblico, e uma mini-
enciclopédia bíblica.
1:1M anual Bíblico, por H enry H . Halley (Vida Nova)
“Começou em 1924, como um panfleto de 16 páginas...
e, agora com 850. Seu desígnio não é servir de livro texto;
destina-se a ser um breve manual para aqueles que dispõem de
poucos comentários sobre a Bíblia. O conteúdo destina-se a
fornecer uma vista geral da Bíblia, seus pensamentos centrais,
descobertas arqueológicas, nota sobre cada livro da Bíblia, in-

100
H e r m e n ê u t i c a M a te ri a l

formações bíblicas diversas, notas sobre passagens obscuras,


dados históricos relacionados, epitome da história da Igreja e
sugestões sobre a leitura da Bíblia”.
* Enciclopédia Histónco-Teológica da Igreja da Igreja Cristã , edita-
do por Walter A. Elwell (Vida Nova).
Ό professor Walter Elwell, deão do W heaton College
Graduate School o f Theology, compilou os 1.200 tópicos da
Enciclopédia. Escolheu cerca de duzentos eruditos entre os
evangélicos mais reconhecidos no mundo, para que fossem
escritos os artigos sobre pessoas, movimentos e doutrinas que
mais influenciaram as correntes do Cristianismo em seus dois
milênios de história.”
* Enciclopédia de Dificuldades Bíblicas, de Gleason Archer (Vida).
“O Dr. Archer escreveu esta enciclopédia para mostrar que
nada existe na Bíblia de incoerente com a afirmação de ser ela a
Palavra merrante de Deus. Dr. Archer durante muitos anos foi
responsável pela área de apologética da revista Decision, produ-
zida pela Associação Evangelística Billy Graham.”

Versões bíblicas
São diversas as traduções
‫ג‬ da Bíblia existentes em circula-
cão no Brasil — todas com base na tradução de João Ferreira
de Almeida, trazida para o Brasil no século X V II pela Socie-
dade Bíblica Britânica e Estrangeira. N esta ocasião a tradução
de Almeida foi entregue a uma comissão de tradutores brasi-
leiros. a fim de tirar os lusitanismos do texto e dar uma carac-
terística lingüística mais brasileira. Apesar do labor desempe-
nhado, alguns lusitanismos ainda persistem (por exemplo, lume,
Ez 24.3). Essa revisão, publicada em 1898, recebeu o nome
de "Revista e Corrigida”; a partir de então “Almeida” vem
101
H e r m e n ê u t i c a fácií e d e s c o m p h c a d a

sendo constantemente revisada. A tradução de J. Ferreira de


Almeida em português (1681), a tradução do Novo Testa-
mento em Alemão por Lutero (1 5 2 2 ) e da Bíblia Kmg James,
em inglês ( 1 6 1 1), tom ou como base o Textus Receptus (Texto
Recebido) em grego, publicado pelo holandês Erasmo de
Roterdã, em 1516. U m dos principais percalços do Textus
Receptus, apesar de ser um dos melhores que existiam naqueles
dias, é que ele continha palavras, frases e às vezes versículos
inteiros que tinham sido incluídos pelos copistas, mas que
não faziam parte do texto original. Os manuscritos usados
não eram os mais antigos e confiáveis. Após o lançamento do
Textus Receptus, muitos outros manuscritos foram achados, até
mesmo mais antigo que o usado por Erasmo. Esses novos
manuscritos são conhecidos como Textos Críticos. N osso estu-
do não com porta mmudências sobre as diferentes traduções,
pois ainda há problemáticas relacionadas com algumas ver-
sões que seguiam o vocabulário da Vulgata Latina. Citamos
um vago exemplo: na versão de Almeida, Revista e Atualizada,
João 7.53-8.12 e Atos 8.37 trazem versículos entre colchetes,
enquanto o mesmo não ocorre na Revista e Corrigida. Isto
porque na Revista e Atualizada, tomou-se como base à 1
edição do N ovo Testamento de Nestle, baseado nos Textos
Críticos.3 Os colchetes, no caso, destacam textos que não se
encontram nos manuscritos usados na versão Revista e Atua-
lizada, enquanto eles são omitidos na Revista e Corrigida pois
esta segue o Textus Receptus.
Para auxiliar o estudante sugerimos familiarizar-se com a
seguinte terminologia:
Tradução4
D o latim traductione, é o ato de transpor uma composição
literária de uma língua para outra. Através da tradução, as Escri­

102
H e r m e n ê u t i c a M a te ri a l

turas foram vertidas dos originais gregos e hebraicos para as


línguas afins. Sem a tradução, a Palavra de Deus seria como uma
espada embamhada — não cortaria, pois não a entenderíamos.
A Tradução pode ser:
a) Tradução Literal Modificada: E uma tradução que pro-
cura expressar com toda fidelidade e o máximo de exatidão o
sentido das palavras originais do texto que está sendo traduzi-
do. E uma transcrição textual palavra por palavra.
b) Tradução Idiomática: E uma tradução “popular” que
procura a forma mais natural de expressão do idioma na qual
será traduzida. Procura expressar a mensagem em linguagem
corrente, em vez da forma das línguas originais, como naTra-
dução Literal.
c) Tradução Dinâmica: Dentro desse princípio todo esfor-
ço é feito para que, de um lado, a tradução seja completamente
fiel ao sentido do texto original e, de outro, seja claramente
compreendida pelo público atual. A Bíblia na Linguagem de
Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil, é um exemplo de tradução
dinâmica, ainda que outros a considerem como paráfrase.

Transliteração
D o latim trans + littera, é o ato de reduzir um sistema de
escrita a outro, letra por letra. E a versão das letras de um
texto em certa língua para as letras correspondentes de outra
língua. Palavras como “batizar” e “anjo” foram transliteradas
do grego para o português.

Versão
D o latim versíone, é uma tradução da língua original para
outra língua. Geralmente o termo “versão” é usado, simulta-
neamente, com o vocábulo “tradução”. .

103
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Revisão ou Versão Revista


D o latim revisione, é o ato ou efeito de rever através de um
novo exame do texto, com vistas a corrigir erros ou introduzir
emendas ou substituições. E uma “versão” já aceita sendo “re-
vista” e atualizada.
Recensões
D o latim recensione, é o ato de comparar o texto de edições
anteriores com os manuscritos. Através das recensões são con-
frontados entre si os diversos manuscritos, códice, versões e
citações, agrupando-os de acordo com suas coincidências e
semelhanças em grupos ou famílias. Por meio desses agrupa-
mentos os estudiosos chegam a descobrir as diversas recensões
das quais os códices descendem. Assim reconstroem, ao me-
nos nas linhas gerais, a história primitiva do texto e as revisões
a que ele foi submetido, com o fim de purificá-lo das altera-
ções devidas aos amanuenses (copistas).
Paráfrase
D o grego paraphrases é uma tradução “livre e solta” de um
texto, procurando expressar a idéia ou mensagem do texto e
não as palavras.
E mais uma interpretação do que uma tradução literal do
texto. U m dos problemas da paráfrase é que, às vezes, o tradu-
tor inclui explicações desnecessárias ou informações que não
estão implícitas no texto original, o que pode levar a acrésci-
mos, omissões ou até distorções no texto bíblico. Dr. W erner
Kaschel cita, como por exemplo, Romanos 4.9, na Bíblia Viva.
A passagem traz:
“Agora, então, a pergunta: Será que a bênção só é dada àque-
les que têm fé em Cristo mas também guardam leis judaicas,

104
H e r m e n ê u t i c a M ate ria l

ou a bênção é dada também àqueles que não guardam as leis


judaicas, mas tão somente confiam em Cristo? Dizemos que
ele recebeu essas bênçãos por meio da sua fé. Foi pela fé mes-
mo? O u porque também guardou as leis judaicas? ”
Segundo o Dr. Werner, há dois sérios deslizes nesse texto
parafraseado. “Em primeiro lugar, Paulo não está falando das
‘leis judaicas’ em geral, mas especificamente do costume da
circuncisão, que já existia no tempo de Abraão. E há, também,
um anacronismo, ao falar-se de Abraão como guardando as
leis judaicas — as quais só vieram uns 700 anos mais tarde.”5
As Cartas para H oje (Vida Nova) e a Bíblia Viva (M C ) são
alguns exemplos de paráfrases.
Edição
D o latim editione, é um empreendimento editorial com vista
à publicação.
U m a edição pode ser:
a) Edição Atualizada — quando o texto sofreu acresci-
mos ou modificações em relação a edição anterior;
b) Edição Anotada — quando o texto se faz acompanhar
de notas destinadas a esclarecê-lo, completá-lo ou atualizá-lo;
c) Edição Crítica — (é uma edição exegética), quando se
procura estabelecer o texto original de uma obra, mediante
colação com o manuscrito, correção de erros tipográficos,
modernização na maneira de com por e, tanto quanto possí-
vel, de particularidades ortográficas e gramaticais acrescen-
tando variantes de passagens, notas e comentários que consti-
tuem o aparato crítico;
d) Edição Abreviada — quando o texto foi parcialmente
suprimido, ou resumido em trechos ou passagens supostamente
não essenciais à sua compreensão;

105
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

e) Edição de Bibliófilo — quando se destina a coleciona-


dores, de tiragens reduzidas e exemplares numerados;
f) Edição Fac-similar — quando reproduz outra por pro-
cesso fotomecâmco;
g) Edição Corrente — é uma edição comum, de baixo
custo, feita para o grande público, e que contém o texto puro
e simples da obra;
h) Edição de Luxo — quando editada em papel de alto
preço, em formato quase sempre grande e com margens am-
pias, às vezes composta com tipos especiais, ornadas de ílus-
trações e, não raro, suntuosamente encadernadas,
i) Edição Comemorativa — quando procura celebrar um
acontecimento. A R A e ARC receberam edições comemorati-
vas no jubileu da SBB.
j) Edição de Afinidade — quando procura personalizar
certas edições para grupos especiais.
Entre as versões mais conhecidas temos:

Traduções Protestantes6
l j Edição R evista e A tu a liza d a no Brasil, 2 a edição daTradu-
ção de João Ferreira de Almeida, Sociedade Bíblica do Brasil.
Tradução de equivalência formal em linguagem erudita.
Seu form ato é prosa em parágrafos e poesia em versos. Os
parágrafos são apresentados com a letra inicial em negrito.
Foram atualizadas a linguagem, pesos e medidas. Acrescenta
colchetes aos termos que não se encontram em diversos ma-
nuscritos, além de incluir no Novo Testamento as citações do
AT de forma edentada. Inclui referências bíblicas, e o vocábu-
lo Senhor quando se refere ao nome de Deus (Iavé) é grafado

106
H e r m e n ê u t i c a M a te ri a l

com letras maiúsculas. Possui ainda mapas, cronologia, plano


anual de leituras bíblicas e palavras de orientação.
2 ) Edição Revista e Corrigida edição de 1 9 9 5 da Tradução de
João Ferreira de Almeida, Sociedade Bíblica do Brasil.
Tradução de equivalência formal em linguagem erudita.
Seu formato traz tanto o texto em prosa quanto a poesia em
parágrafos. O s termos que não fazem parte do texto original,
mas que foram incluídos a fim de que o texto fosse compreen-
dido, aparece em itálico. A ARC conserva essa inserção desde
a primeira edição do Novo Testamento em 16 8 1. Possui refe-
rências, indicação de parágrafos de conteúdo em negrito,
translitera o tetragrama (Y H W H ) pelo nome “J e o v á ”, e pos-
sui notas variantes de termos.
3 ) Edição Revisada da Tradução de João Ferreira de Almeida,
também chamada de “Melhores Textos”, 3a impressão 1 9 9 1,
RJ. Juerp & Imprensa Bíblica Brasileira. A primeira (1 9 6 7 )
foi chamada de Versão da Imprensa Bíblica Brasileira.
Tradução de equivalência formal em linguagem erudita e
arcaica. Seu formato é prosa em parágrafos e poesia em ver-
sos. Os textos referentes ao AT que aparecem no N T estão
edentados. Possui notas de rodapé que fazem referências aos
termos originais. Consta textos em colchetes, com notas de
que não fazem parte dos manuscritos mais aceitos, possui
mapas e referências.
4 ) Edição Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original, Socie-
dade Bíblica Trinitanana do Brasil, 1994.
Tradução de equivalência formal em linguagem erudita e
arcaica. Seu formato é prosa e poesia em parágrafo. Possui
vocábulos e preposições em itálico que não constam nos ori-
ginais, mas que foram acrescidos ao texto a fim de facilitar a
leitura. As referências ao AT no N T aparecem edentados. N ão
107
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

possui referências textuais, notas ou qualquer outro tipo de


comentário. Inclui um plano de leitura da Bíblia.
5 j Nova Versão Internacional (N V I). O bra feita por um
colegiado de especialistas patrocinados pela International Bible
Society.
E um a tradução baseada nos melhores textos gregos e
hebraicos disponíveis. Seu estilo é a equivalência form al
com uso do português m oderno em linguagem corrente. A
prosa está em parágrafos e a poesia em versos. Possui notas
de rodapé, além de preservar os term os teológicos (peca-
do, graça, expiação).

Traduções Católicas
I j Tradução de Antônio Pereira de Figueiredo.
E uma tradução da Vulgata Latina e seu estilo é corres-
pondência formal literal, utilizando linguagem arcaica. Possui
pouquíssimas notas explicativas e seu formato é prosa em pa-
rágrafos e poesia em versos.

2 ) Tradução do Padre Matos Soares.


E uma tradução da Vulgata Latina e seu estilo é corres-
pondência formal literal. Possui poucas notas explicativas e
seu formato é prosa e poesia em parágrafos.
3 ) Bíblia de Jerusalém.
Foi traduzida dos originais por um grupo de exegetas
interconfessionais, respeitando as opções da tradução france-
sa feita pela Ecole Biblique de Jerusalém, seu estilo é a equiva-
lência dinâmica. A prosa encontra-se em parágrafos e a poesia
em versos. H á abundantes notas textuais e explicativas, com
introduções, mapas, quadro cronológicos e outros aparatos.
108
H e r m e n ê u t i c a M a te ri a l

4 j Ave Maria.
Foi traduzida dos originais mediante a versão francesa
dos monges de Maredsous, pelo Centro Bíblico Católico. Usa
como estilo a correspondência formal; prosa em parágrafos e
a poesia em versos. Poucas notas textuais e explicativas.
5'j Santuário.
R e p ro d u ç ã o e a d a p ta ç ã o da tra d u ç ã o feita pelo s
capuchinhos de Portugal a partir dos originais. Possui corres-
pondência formal e os textos em prosa estão em parágrafos e
a poesia em versos.

6 ) TEB — Tradução Ecumênica Brasileira} Edições Paulinas e


Edições Loyola
Baseia-se nos textos originais e reproduz fielmente o mo-
delo da Traduction oecuménique de la Bible. Procura cuidadosa
fidelidade semântica, isto é, expressar-se em língua moderna,
levando em consideração a cultura atual, a realidade comunicada
pelas palavras antigas. Correspondência formal literal.
Com tantas versões circulando, não é apenas necessário
como também plausível que o leitor se familiarize com essas
terminologias e procure adquirir conhecimento de cada uma
das versões aqui apresentadas e das que foram omitidas.

C o m e n t á r io s B íb l ic o s 7

Os comentários bíblicos são classificados de acordo com


o seu planejamento:
a) Sermonário;
b) Exegéticos;
c) Devocionais.

109
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Entre os comentários básicos de auxílio exegético pode-


mos citar:
* A Série Cultura Bíblica, da Sociedade Religiosa Edições
Vida Nova e Associação Religiosa Editora M undo Cristão.
Esses comentários são mais exegéticos do que devocionais.
Todos os livros do AT e do N T são comentados com grande
erudição, perfazendo um total de 33 volumes. Destaca-se nes-
sa obra o uso do m étodo histórico-gramatical.
* Comentário Bíblico Moody, da Imprensa Batista Regular.
São cinco volumes comentando cada capítulo dos 66 11-
vros da Bíblia.
* O Novo Comentário da Bíblia das Edições Vida Nova.
Anteriormente o comentário foi publicado em língua por-
tuguesa em três volumes. Atualmente foi editado em apenas
um. A atenção do comentário foi orientada principalmente para
o entendimento do texto conforme existente em versões co-
muns. N ão se encontra nele qualquer extensão considerável de
espaço à análise de fontes, ao criticismo arbitrário e às teorias
especulativas e nem extensivas notas devocionais e homilétícas.
Devida atenção deve ser dada também aos comentários
individuais.
* O Comentário Bíblico de Broadman, editado pela Juerp; e
* O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, editado
pela Candeia.
Esta obra possui seis volumes e demorou oitos anos de
trabalho árduo para ser produzida. O texto usado foi a terceira
edição do N ovo Testamento Grego, da U nited Bible Societies,
bem como os comentários textuais dessa mesma obra. São
discutidas cerca de duas mil variantes importantes do texto do
N T . Cada versículo é discutido minuciosamente, além de con-
ter esboços temáticos e filosóficos de diversos temas.
1 10
H e r m e n ê u t i c a M ate ria l

* Comentário Bíblico de Matthew H enry (CPAD).


Deste comentário Spurgeon afirmou: “Todo ministro de
Deus deveria ler M atthew H enry com plena atenção pelo
menos uma vez”.

T ítu los H istórico-C ulturais8

São livros que auxiliam o estudante no conhecimento da


cultura, história, antropologia e sociologia do m undo bíblico
constituindo-se excelente pano de fundo para a interpretação
histórico-cultural.
* Usos e Costumes dos Tempos Bíblicos, R alph Gower (CPAD)
* O Mundo do Antigo Testamento, J. I. Packer et alli, (Vida)
* Vida Cotidiana nos Tempos Bíblicos, J. I. Packer et alli, (Vida)
* Vida e Religiões no Império Romano, J. Comby e J. P. Lemonon
(Paulinas).
* Roma em Face a Jerusalém, J. Com by e J. P. Lem onon
(Paulinas).
* Vida Cotidiana nos Tempos de Jesus (Vida Nova);
* Para Entender 0 Antigo Testamento, Estêvan B ittencourt
(Santuário).
Estes livros procuram combinar pesquisas seculares com a
narrativa bíblica. Costumes, rituais e crenças que governaram a
vida diária dos tempos bíblicos são examinados em pormenores
nessas obras, bem como uma compreensão geral dos povos, reis,
impérios e períodos do Antigo e do Novo Testamento.

M A N U A IS D E H E R M E N Ê U T IC A
E T E O R IA H E R M E N Ê U T IC A
* Hermenêutica Avançada: Princípios e Processos de Interpretação
Bíblica, H enry A. Virkler (Vida);

III
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

* Hermenêutica Bíblica, ]. Severino C ro atto (S inodal e


Paulinas);
* A Arte de Interpretar e Comunicar a Palavra Escrita — Técnicas
de Tradução da Bíblia, John Beekman e John Callow (Vida Nova);
* Como Interpretar a Bíblia - Introdução à Hermenêutica, Pedro
Gilhuis (Editora Cristã Unida);
* Hermenêutica de E. Lund e P. C. N elson (Vida);
* Entendes 0 que Lês? G. D. Fee e D. Stuart (Vida Nova);
* Princípios de Interpretação Bíblica de W A . Hendrichsen (M un-
do Cristão);
* Hermenêutica Bíblica de José M . M artinez (CLIE);
* Hermenêutica de M . S. Terry (CLIE);
* A Interpretação da Bíblia na Igreja, Pontifícia Comissão Bí-
blica (Paulinas);
* A Palavra Inspirada: A Bíblia à lu z da Ciência da Linguagem, de
L. Alonso Schõkel (Loyola);
* A Interpretação da Bíblia na Igreja de J.M.Terra (Loyola);
* Iniciação à Análise Estrutural de vários autores - Cadernos
Bíblicos (Paulinas);
* Princípios de Interpretação Bíblica de Louis Berkhof (JUERP);
* A Interpretação Bíblica: Meio de Descobrir a Verdade de Roy B.
Zuck (Vida Nova);
* Hermenêutica Contextual (edição do autor) Esdras Costa
Bentho;
* A Bíblia à L u z da História de O dette Maínvílle (Paulinas)
* Metodologia de Exegese Bíblica de Cássio M urilo Dias da
Silva (Paulinas);
* Exegese do Novo Testamento - M anual de Metodologia, Uwe
Wegner (Sinodal e Paulus);

112
H e r m e n ê u t i c a M a te ri a l

H erm enêutica Filosófica

* Hermenêutica , de Richard E. Palmer (Edições 70);


* Hermenêutica Contemporânea, de Josef Bleicher (Edições 70);
*Hermenêutica e Sociologia do Conhecimento, de Susan J. Hekm an
(Edições 70);
* Hermeneutica y Estructuralismo, de Paul Ricoeur (Ediciones
megápolis);
* Ser e Tempo, de M artin Heidegger (Vozes);
* Verdade e Método, de Hans-G eorg Gadamer (Vozes).

SIN O P SE

Concordância Bíblica é um a compilação em ordem alfa-


bética, de termos bíblicos ou de conceitos (matérias) bíblicos,
que remete às passagens da Bíblia onde ocorre o respectivo
termo ou conceito.
O primeiro a idealizar uma obra deste gênero foi o carde-
al dominicano H ugo de S. Caro, que em 1230 compilou uma
concordância verbal da Vulgata.
Os principais objetivos da Concordância Bíblica são lo-
calizar passagens e auxiliar o leitor da Bíblia no estudo de
assuntos ou tópicos bíblicos.
H á dois tipos de concordâncias: as verbais — chamadas
também de Chaves Bíblicas, e as concordâncias reais.
A tradução de J. Ferreira de Almeida em português ( 16 8 1),
a tradução do Novo Testamento em alemão por Lutero (1522)
e da Bíblia King James, em inglês ( 16 11), tom ou como base o
Textus Receptus (Texto Recebido), em grego, put^licado pelo
holandês Erasmo de Roterdã, em 15 16.

113
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

T r a d u ç ã o , do latim traiuctione, é o ato de tran sp o r um a


com posição literária de u m a língua para outra.
T r a n s l i t e r a ç ã O , do latim trans+littera, é o ato de reduzir
u m sistem a de escrita a outro, letra p o r letra.
V e r s ã o , do latim versione é um a tradução da língua origi-
nal para ou tra língua.
R e v isã o o u V e r s ã o R e v is ta , do latim revisione, é o ato
ou efeito de rever através de u m novo exame do texto, com
vistas a corrigir erros ou in tro du zir emendas ou substituições.
RECENSÃO, do latim recensione, é o ato de com parar o tex-
to de edições anteriores ou com os m anuscritos.
PARÁFRASE, do grego paraphrases é um a tradução “livre e
so lta” de u m texto, p rocu rand o expressar a idéia ou m ensa-
gem do texto e não as palavras.
E d iç ã o , do latim editione, é u m em preendim ento editorial
com vista a publicação. U m a edição p o d e ser:
* Edição Atualizada, qu ando o texto sofreu acréscimos ou
m odificações em relação à edição anterior;
* Edição Anotada, q u an d o o texto se faz acom panhar de
notas destinada a esclarecê-lo, com pletá-lo ou atualizá-lo;
ψ Edição Crítica, é um a edição exegética, q u an d o se procura
estabelecer o texto original de um a obra;
* Edição Abreviada, q u an do o texto foi parcialm ente supri-
m ido;
ψ Edição de Bibliófilo, q u ando se destina a colecionadores, de
tiragens reduzidas e exemplares num erados;
φ Edição Fac-similar, quando rep ro d u z ou tra p o r processo
fotom ecânico;
ψ Edição Corrente, é uma edição comum, de baixo custo, feita
para o grande público, e que contém o texto puro e simples da obra.

114
H e r m e n ê u t i c a M ate ria l

TRABALHANDO COM TEX TO S


SINOPSE HISTÓRICA DAS CONCORDÂNCIAS
C om o term o “concordância” costuma-se chamar um re-
gistro alfabético de todas as palavras na Bíblia, indicando os
lugares onde se encontram. E evidente a utilidade de tais obras,
tanto para o exegeta (estudo de linguagem e idéias da Santa
Escritura) como para o pregador (ajuda para encontrar textos
bíblicos sobre determinados assuntos).
A primeira concordância nesse sentido foi feita sobre o
texto da Vulgata por H ugo de S. Caro. Depois o rabino Isaac
N athan trabalhou por dez anos, de 1438 a 1448, produzindo
sua obra sobre a Bíblia Hebraica. Essa concordância foi poste-
riormente aprimorada pelo hebraísta John Buxtorf, em sua
Concordantia Bibliorum Ebraicae, publicada em Basel, em
1632. Houve concordâncias no período medieval, da Vulgata
Latina. Em 1896, M endelkern, de Leipzig, publicou uma
concordância hebraica que se tornou uma espécie de trabalho
padrão, a qual foi m uito usada.
A melhor concordância da Septuaginta é a de H atch e
Repath, publicada em Oxford, na Inglaterra, em 1897-1900.
Q u a n to ao N ovo Testam ento, tem os a concordância de
M outon e Geden, publicada em 1897. N o idioma inglês, o
começo dessa atividade foi a concordância do Novo Testa-
mento, de autoria de Thom as Bybson, publicada em 1540. A
primeira concordância da Bíblia inteira em inglês foi a de John
Marbeck, publicada em 1550. Por motivo desse esforço ele
quase foi executado pelo estado!
B O R N , A. Van Den, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, p. 285
& C H A M P L IN , R. N orm an, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filo~
sofia, v. I p. 835-6.
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p h c a d a

EXERCÍCIO S

Exercício de Tradução, Revisão e Estilística


Confira cada um dos textos destacados nas diferentes versões
bíblicas.
Isaías 27.8a
A RA : “C om xô! xô! e exílio o trataste”.
A R C : ________________________________________________
T R I : _________________________________________________
V R : _________________________________________________
B L H : ________________________________________________
T E B :_________________________________________________
J E R : _________________________________________________
N V I : ________________________________________________

O que significa a expressão: “xô! xô!‫_________________ ? ״‬

Qual a tradução/versão mais clara?_______________________

Jeremias 48.1 Ia
A R A : “M oabe esteve descansado desde a sua mocidade, e as
suas fezes repousaram”.
A R C : ________________________________________________
T R I : _________________________________________________
V R : _________________________________________________
B L H : _________________________________________________
T E B : ________________________________________________
J E R : _________________________________________________
N V I : ________________________________________________
116
H e r m e n ê u t i c a M ate rial

O que s ig n ific a a e x p ressão “ suas fezes re p o u s a -


ram’’?__________________________________________________

Qual a tradução/versão mais clara?________________________

Zacarias 9. 15
A RA : “...eles devorarão os fundibulários e os pisarão” .
A R C : ________________________________________________
T R I : _________________________________________________
V R : _________________________________________________
BLH : ________________________________________________
T E B : ________________________________________________
J E R : _________________________________________________
N V I : ________________________________________________

O que significa a expressão “devorar os fundibulários” ?

Qual a tradução/versão mais clara?.

Jó 15.27
ARA : “ Porquanto cobriu o rosto com a sua gordura e criou
enxúndia nas ilhargas”.
A RC: _____________________________________
T R I : _________________________________________________
V R : _________________________________________________
B L H : ________________________________________________

117
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

T E B : ________________________________________________
J E R : _________________________________________________
N V I : ________________________________________________

O que significa a expressão “ en x ú n d ia nas ilh a rg a s” ?

Qual a tradução/versão mais clara?________________________

Êxodo 12.4
A RA : “ ...então tome um só com seu vizmho perto de sua
casa, e... conforme o comer de cada u m ”.
A R C : ________________________________________________
T R I : _________________________________________________
V R : _________________________________________________
B L H : ________________________________________________
T E B : ________________________________________________
J E R : _________________________________________________
N V I : ________________________________________________
O que significa as expressões “tome um só com seu vizinho”
e “comer de cada u m ”?:________________________________
Q ual a tradução/versão mais clara?_______________________

Jeremias 31.22
A RA : “ ... a mulher infiel virá a requestar um hom em ”.
A R C : ________________________________________________
T R I : _________________________________________________
V R : _________________________________________________
B L H : ______________________ __________________________
T E B : ________________________________________________

118
H e r m e n ê u t i c a M a te ri a l

J E R : _________________________________________________
N V I : ________________________________________________

O que significa a expressão “requestar um hom em ”; _______

Qual a tradução/versão mais clara?________________________

Sofonias I .I 2 b
V R : “...e castigarei os homens que se embrutecem com as
fezes do vinho”.
A R C : ________________________________________________
T R I : _________________________________________________
A R A : ________________________________________________
B L H : ________________________________________________
T E B : ________________________________________________
J E R : _________________________________________________
N V I : ________________________________________________
O que significa a expressão: “embrutecer com as fezes do vi-
n ho”?_________________________________________________
Qual a tradução/versão mais clara?_______________________

Provérbios 28.25b
ARC : “...mas o que confia no Senhor engordará”.
A R A : ________________________________________________
T R I : _________________________________________________
V R : _________________________________________________
B H L : ________________________________________________
T E B : ________________________________________________
J E R : _________________________________________________
N V I : ________________________________________________

119
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Bibli-Holmes
Ajude nosso detetive Bibli-Holmes a investigar as pnnci-
pais técnicas e métodos de tradução da Bíblia, para que possa
justificar as diferentes versões de um mesmo texto.

LEITURAS E LIVROS PARA APROFUNDAM ENTO


B O R N , A. Van Den, editor, Dicionário Enciclopédico da Bíblia,
Vozes (p. 285).
C H A M P L IN , R. N o rm an & BEN TES, J. M. Enciclopédia
de Bíblia Teologia e Filosofia, Candeia v. I (p. 835-6).
BALLARINI, Teodorico, editor, Introdução à Bíblia, Vozes
(p. I9I-I92).

NOTAS
1 Paul W Schelp. Concordância Bíblica. In: Apresentação, Soei-
edade Bíblica do Brasil.
2 Id. Ibidem.
3As diferenças encontradas na ARC e A R A são devido ao
uso de fontes distintas. O N T da ARA foi revisado com base
na 16a edição do Novo Testamento de Nestlé (Textos Críti-
cos), e por isso acrescenta os colchetes ou omite algumas ex-
pressões. Já a ARC segue o Textus Receptus, onde as variações
salientadas na A RA não possuem notas.
4 Confira N o rm an Geisler e W illiam Nix, Introdução Bíbli-
ca, Como a Bíblia chegou até nós, p. 184; John Beekman e John
Callow, A Arte de Interpretar e Comunicar a Palavra Escrita —Técnicas
de Tradução da Bíblia, p. 17-28.
5 Consulte A BÍBLIA N O BRASIL, n° 174, abril a ju-
n h o /9 6 , in Fiel, Clara e Confiável, p. 17-22.

120
H e r m e n ê u t i c a M a te ri a l

6Esta lista de versões ou traduções não é exaustiva, foi


feita à guisa de exemplo. Estamos cônscios de que deixamos
de m encionar outras traduções im portantes. Por se tratar de
uma citação breve, recomendamos a leitura de Bittencourt,
O Novo Testamento: metodologia da pesquisa textual p .15 7-195 ;
Elizabeth M uriel Ekdahl Versões da Bíblia: Por que tantas diferen~
fas'!, Edições V ida Nova. W ilson Paroschi, Crítica Textual do
Novo Testamento, V ida Nova. S O C IE D A D E BÍBLICA D O
BRASIL, Curso de Cultura Bíblica Çlradufão, Lingüística e C om u-
nicafão), Rev. Oswaldo Alves. Cf. Luiz Sayão, N V I —A Bíblia
do Século 2 1, Editora Vida. Além de que o leitor deve sempre
ler as notas e prefaciais das versões que adquire a fim de com-
preender as notas e variações desta comparadas com outras.
' Será de bom alvitre o leitor consultar G ordon D. Fee &
Douglas Stuart, Entendes 0 que lês?, p. 223-5; principalmente o
apêndice I, que faz um a avaliação do uso dos comentários
por parte dos estudantes. E uma sinopse m uito apropriada
para quem está começando, e para aqueles que esqueceram o
assunto. Cf. p. 223-5.
8Estas referências são à guisa de exemplo. Os manuais
sobre este assunto e afins são tantos que um livro não seria
suficiente para arrolar tantas obras.
9Abreviações: ARC- Almeida Revista e Corrigida; ARA -
Almeida Revista e Atualizada; TR I - Trmitariana; V R - Ver-
são Revisada; BLH - Bíblia na Linguagem de Hoje; TEB -
Tradução Ecumênica Brasileira; JER - Bíblia de Jerusalém; N V I
‫ ־‬Nova Versão Internacional.

121
CAPÍTULO 5

E scolas ^tendenciosas
de ôntetpietaçao

Todas as interpretações das Sagradas Escrituras


devem estarfirm a d a s em pilares críticos
interpretativos confiáveis. D evem -se ju s t fic á -la
através de métodos e técnicas hermenêuticas livres
de quaisquer premissas dogmáticas ou pressupostos
individuais. O texto pelo texto ainda continua
sendo um dos melhores métodos para
se interpretar as Escrituras.

Escolas Tendenciosas de Interpretação

Em todo labor de investigação bíblica, os resultados de-


pendem em grande parte dos sistemas ou métodos de traba-
lhos que se empregam. A Hermenêutica Bíblica não é uma
exceção, pois o modo de inquirir o significado dos textos de-
termina consideravelmente as conclusões do trabalho exegético.
Isto explica a grande disparidade de interpretações dadas aos
mesmos textos da Escritura. Isto significa que nem todas as
escolas e métodos são confiáveis. Entre elas destacamos duas:
alegorista e literalista.
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Vejamos a posição mterpretativa dessas duas escolas ten-


denciosas de interpretação bíblica e os principais métodos por
elas empregados.

Alegórica
O term o alegoria procede da combinação de dois termos
gregos, allos, isto é, “outro”, e agoreyo, “falar”, ou “proclamar”.
Literalmente significa “d iz e r uma coisa que significa outra”.
O vocábulo aparece em Gálatas 4.24, a fim de indicar a expli-
cação ou expressão de alguma coisa por meio do nome ou
imagem de outra. Q uem alegoriza fala ou escreve sobre algu-
ma coisa por intermédio de outra, procurando desvendar sen-
tidos simbólicos, espirituais ou ocultos.
Em Lucas 13.32, Cristo usa a alegoria quando diz: “Ide
dizer a essa raposa...” referindo-se à natureza ardilosa e má de
Herodes, principalmente a sua agudez. C om o figura literária,
a alegoria é uma metáfora estendida e um recurso literário
válido e útil; porém, como sistema de interpretação, mutila os
textos bíblicos. A Escritura está repleta de alegorias que são
usadas como recurso retórico e didático.
D e acordo com o m étodo alegórico, o sentido literal e
histórico das Escrituras é completamente desprezado, e cada
palavra e acontecimento são transformados em alegoria de al-
gum tipo, a fim de escapar de dificuldades teológicas ou para
sustentar certas crenças estranhas e alheias ao texto bíblico.
Assim, não interpreta o texto bíblico, mas perverte o verda-
deiro sentido deles, embora sob o pretexto de buscar um sen-
tido mais profundo ou mais espiritual.1
Bultmann chama esse tipo de interpretação de alegorese,
e não alegoria.
124
E scolas T e n d e n c io sa s de In te rp r e t a ç ã o

“...Pois se o texto apresenta uma alegoria, ela naturalmen-


te precisa ser explicada como alegoria. Essa explicação, entre-
tanto, não é alegorese, uma vez que pergunta pelo sentido ten-
cionado pelo texto.” 2
M. S. Terry assim se expressa acerca do método alegórico:
“O m étodo alegórico de interpretação se baseia em uma
profunda reverência pelas Escrituras e um desejo de exibir suas
múltiplas profundidades de sabedoria. Porém, se notará ime-
diatamente que seu costume é desatender o significado co-
mum das palavras e dar a elas toda classe de idéias fantásticas.
N ão se extrai o significado legítimo da linguagem do autor,
mas sim, introduz toda fantasia e capricho do intérprete.”3

O s Perigos do M étodo A legórico


O método alegórico, como sistema de interpretação, é
repleto de perigos que o tornam inaceitável ao intérprete da
Escritura, a saber:
a) Ele despreza o significado comum e ordinário das pala-
vras, especulando sobre o sentido místico de cada uma delas;
b) Ele ignora a intenção do autor, inserindo no texto todo
tipo de extravagância ou fantasias que um intérprete possa
desejar;
c) O intérprete que usa o presente m étodo rejeita os mé-
todos válidos de interpretação, e a única base de interpretação
encontra-se na arte que sua própria mente concebe;
d) A autoridade básica da interpretação deixa de ser a
Bíblia, e passa a ser a m ente engenhosa do in térp rete.4
D. Pentecost assevera que “a interpretação pode então ser
distorcida pelas posições doutrinárias do intérprete, pela au-
toridade da igreja à qual o intérprete pertence, por seu am-
125
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

biente social e por sua formação ou por uma enormidade de


fatores” .3
e) Q uem usa o m étodo alegórico não possui meios de
provar as suas conclusões, afirma o teólogo Ramm:
“Ele não pode estar seguro de coisa alguma, exceto do
que lhe foi ditado pela igreja, e em todas as eras a autoridade
da ‘igreja’ tem sido falsamente reivindicada pela presunçosa
tirania das falsas opiniões dominantes... afirmar que o princi-
pal significado da Bíblia é um sentido secundário e que o prm-
cipal método de interpretação é a ‘espiritualização’, é abrir a
p orta à imaginação e especulação praticamente desenfreadas.
Por essa razão, insistimos que o controle na interpretação se
encontra no método literal”.6

Sinopse H istórica

O método alegórico foi usado pelas escolas filosóficas


gregas no afã de interpretar os poemas de H om ero e Hesíodo,
e reduzir os problemas teóricos e religiosos entre a tradição
religiosa e a herança filosófica.
N o tempo de Cristo, estava entre os quatro tipos princi-
pais de exegese: mídráshica, alegórica, literal e pcsber. Filo, pro-
vavelmente, foi o maior defensor do m étodo alegórico. Acre-
ditava que o m étodo literal era uma forma imatura de com-
preensão, que deveria ser superado pelo alegórico. H enrv A.
Virkler colaciona dez regras instituídas por Filo. O método
deveria ser usado:
a) Se o significado literal repugna a santidade de Deus;
b) Se contraria outra declaração das Escrituras;
c) Se o registro alega tratar-se de uma alegoria;

126
Escolas T e n d e n c io sa s de I n te rp r e ta ç ã o

d) Se as expressões são dúplices ou se há emprego de


palavras supérfluas;
e) Se há repetição de algo já conhecido;
f) Se uma expressão é variada;
g) Se empregam sinônimos;
h) Se for possível um jogo de palavras;
i) Se houver algo anormal em número ou tempo (verbal);
j) Se há presença de símbolos.8
Filo, comentando sobre a peregrinação de Abrão, afirma:
“A viagem de Abrão para a Palestina é realmente a histó-
n a de um filósofo estóico que deixa a Caldéia (entendimento
sensual) e se detém em Harã, que quer dizer “buracos”, e
significa o vazio de conhecer as coisas pelos buracos, isto é, os
sentidos. Ao tornar-se Abraão, ele se torna um filósofo verda-
deiramente esclarecido. Casar-se com Sara é casar-se com a
sabedoria abstrata”.9
N a exegese patrística, Clemente de Alexandria e Orígenes
adotaram com devida ênfase o m étodo alegórico. Clemente
desenvolveu a teoria de que cinco sentidos estão relaciona-
dos à Escritura: histórico, doutrinai, profético, filosófico e
místico, este por sua vez, suas riquezas são disponíveis so-
m ente aos que entendem os sentidos mais p ro fu n d o s.10
Orígenes, discípulo de Clemente, cria ser a Escritura uma
vasta alegoria na qual cada detalhe é simbólico, e dava gran-
de im portância a I Coríntios 2.6,7, principalmente à ex-
pressão “falamos a sabedoria Deus em m istério”. Orígenes
cria que assim como o hom em constitui de três partes: cor-
po, alma e espírito, da mesma form a a Escritura possui três
sentidos: o corpo é o sentido literal, a alma o sentido moral,

127
H e r m e n ê u t i c a tácil e d e sc o m p lic a d a

e o espírito o sentido alegórico ou místico, do qual usou


amplamente ignorando os restantes.11
Posteriorm ente, Agostinho concebeu várias regras para
interpretar as Escrituras. N a prática, contudo, m enospre-
zou todas as suas regras, exceto o m étodo alegórico. Agos-
tin h o justificou suas interpretações alegóricas em 2 C orín-
tios 3.6, “porque a letra mata, mas o espírito vivifica” ,
querendo com isto dizer que um a interpretação literal da
Bíblia mata, mas a alegórica ou espiritual vivifica. Para ele
as E scrituras possuía um sentido q u ád rup lo: histórico,
etiológico, analógico e alegórico.12
N a exegese medieval (60 0 -1 50 0 ), o sentido quádruplo
elaborado por Agostinho era a norm a para a interpretação da
Bíblia. Segundo a exegese medieval, as quatro regras de Agos-
tinho existiam em toda passagem bíblica. Virkler assevera que
neste período:
“a letra mostra-nos o que Deus e nossos pais fizeram; a
alegoria mostra-nos onde está oculta a nossa fé; o significado
moral dá-nos as regras da vida diária e a anagogia mostra-nos
onde terminamos nossa luta13.‫״‬
Durante essa época os místicos ou cabalístas judaicos acre-
ditavam que cada letra possuía um significado sobrenatural.
O m étodo era substituir uma palavra bíblica por outra que
tinha o mesmo valor numérico, acrescentar ao texto por con-
siderar cada letra de uma palavra como a letra inicial de ou-
tras; substituir novas palavras num texto por algumas letras
das palavras primitivas.14
O intérprete deve, a to d o custo, evitar o uso do m éto-
do alegórico com o princípio válido de interpretação das
Escrituras.
128
Escolas T e n d e n c io sa s de In te rp r e t a ç ã o

M étodo Literalista

A princípio não devemos confundir o m étodo literalista,


híperliteralista ou letrista com o m étodo literal ou lingüístico-gra-
matical. O m étodo literal reconhece princípios de tradução e
interpretação não reconhecidos pelo seu oposto. O literalismo
é o extremo da escola gramatical. O m étodo literal considera
o valor das palavras no texto, mas não ignora os matizes da
linguagem figurada, e o sensus plenior - próprio da linguagem
escntvirística. Ocupa-se tanto da lexicografia, isto é, do signifi-
cado das palavras e de sua relação com a oração (sintaxe),
quanto do valor retórico da linguagem conotativa, quando
assim intencionada pelo autor. N a escola literalista ignoram-se
esses valores e interpreta-se tudo “ao pé da letra”.

As fraquezas do literalism o

a) Al guns textos são observados, em detrimento a outros.


Textos como D euteronômio 22.5, I Coríntios I I . 13 ou
2 Coríntios 13.12 são interpretados literalmente, ignorando
as finuras da cultura do m undo de então. Porém, quando se
trata de textos como os de Deuteronômio 2 1.18-21, 22.8,
5.12 e I Tim óteo 2.11,12, dificilmente alguém os interpreta
literalmente.‘3 Mas vejamos qual é o sentido de Deuteronômio
22.5. O texto afirma que:
“N ão haverá trajo de homem na mulher, e não vestirá o
homem veste de mulher; porque qualquer que faz isto abomi-
nação é ao Senhor, teu D eus”.
Ao que parece a exegese de D euteronômio 22.5 não é
tarefa fácil; entretanto, admitir que o texto prova que a mulher
não deve usar calças compridas (o que é um anacronismo se­

129
H e r m e n ê u t ic a fácil e d e sc o m p lic a d a

mântico, visto não existir essa indumentária naqueles dias)


carece de autenticidade exegéttca, senão vejamos.
O texto está envolto em vários aspectos culturais
eqüidistantes de nossa contemporaneidade, porém, o espírito
legal da proibição atravessa qualquer temporalidade cultural.
Dois termos são inclusivos para a exegese de Deuteronômio
22.5: a palavra hebraica klí, que se traduz por “que é pertinen-
te a”, mas que se refere contextualmente a qualquer tipo de
produtos manufaturados, embora também possa relacionar-
se a adornos e jóias; e o vocábulo sinlab, traduzido por “roupa,
veste ou m anta”.16
Sínlah é um entre vários termos hebraicos para designar a
palavra portuguesa roupa ou veste. A princípio era feita de lã, e
mais tarde utilizou-se pêlo de camelo. Tratava-se de uma
vestimenta exterior semelhante a um lençol grande com capuz,
e os judeus a usavam como roupa de frio. Os pobres a usavam
como vestido básico de dia e como capa de noite (Ex 22.26,27).
Sem e Jafé tomaram esta vestimenta para cobrir a nudez
de seu pai (G n 9.23). O utros termos são: beged (G n 27.15)
que era considerado pelos israelitas como um distintivo de
dignidade do usuário; o addereth que indicava que o usuário era
um cidadão respeitável (Js 7.21); e o labesb (C t 5.3), termo
genérico para roupa, vestimenta, ou estar vestido.1'
N o contexto bíblico, o uso que se faz desses vocábulos
poderia variar um do outro. As vezes, fala de vestimentas em
sentido próprio, outras como sinal de nível social ou hierár-
quico, ou ain d a com o recurso p o é tic o para c o m p arar
vestimentas com qualidades abstratas. E assim que se diz de
“vestes de justiça” (Jó 29.14), de “salvação” (2 Cr 6.41), de
“força” (Is 52.1), e assim por diante.

130
Escolas T e n d e n c io sa s de I n te rp r e ta ç ã o

N o trato com o texto de Deuteronôm io 22.5, deve-se


verificar que sendo os judeus um povo nômade no período de
sua formação, as modas dos homens israelitas permaneceram
quase inalteradas, geração após geração, sofrendo alguma in-
fluência, no início, da indumentária dos egípcios durante o
tempo em que lá foi cativo. Havia pouquíssimas diferenças
entre o vestuário feminino e o masculino. A veste interior que
se assemelhava a uma camisa justa e apertada chamada de
kethoneth, era feita de lã, linho ou algodão, e geralmente a pessoa
que usava apenas esta vestimenta interior, dizia-se que estava
nu (I Sm 19.24; Is 2 0.2 -4 ).18 N ão havia qualquer diferença
entre a ketbonet masculina e feminina. A vestimenta exterior dos
homens consistia numa faixa de pano quadrada ou oblonga,
de 2 a 3 metros de largura que em hebraico se chamava meyil,
e é traduzida por “capa, manto, túnica ou vestimenta”. Era
enrolada no corpo como uma coberta protetora, com dois
cantos do material na frente unido ao corpo com um cinto
(um a faixa de couro, com 10 cm de largura ou m ais).19
Os homens judeus usavam franjas com fitas azuis na orla (N m
15.38). A vestimenta exterior da mulher hebréia era parecida
com as do homem, todavia, as diferenças eram suficientemen-
te observáveis (D t 22.5). Era mais comprida, com borda e
franja suficientes para cobrir os pés (Is 47.22), um material
mais fino e mais colorido. Prendia-se à cintura por um cinto.
Com o no caso dos homens, a vestimenta da mulher podia ser
feita de materiais diferentes, de acordo com a condição social
de cada pessoa. U m a outra peça de destaque no vestuário fe-
mimno era o véu e um ornato para a cabeça.20
D o que acima foi descrito fica claro que a diferença entre
a indumentária feminina e masculina era ínfima. Daí, conside­

131
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

rarmos que a proibição e a rotulação de “coisa abominável”


revestia-se de um caráter muito mais moral e sacramental do
que de usos e costumes. A proibição como tal era uma refe-
rência às perversões sexuais e homossexuais relacionadas ao
culto pagão em Canaã. T h o m p son assinala que Luciano de
Samosata e Eusébio mencionam a prática do travesti no culto
à deusa da fertilidade Astarte. As mulheres apareciam com
roupas masculinas e os homens com roupas femininas nesses
cultos, e invertiam a posição sexual e relacionai característica
de cada sexo.21 Essa inversão da ordem natural era ofensiva e
repugnava a distinção criada por Deus entre macho e fêmea.
Todas as leviandades praticadas nos cultos pagãos são severa-
mente rejeitadas por Deus nesse versículo, pois que, como afir-
ma M atthew Henry: ‫״‬A adoção das vestimentas de um sexo
por outro é um ultraje à decência, mancha as distinções da
natureza, produzindo efeminação no homem, indecoro e falsa
modéstia na mulher, como também leviandade e hipocrisia
para ambos”.22 Fica claro que a condenação divina é contra o
travestismo, ao indecoro e a hipocrisia característica a quem
assim procede. Em bora esta lei em seu contexto original não
tenha implicações diretas para com a nossa vida moderna, há
algumas implicações indiretas: "... porque qualquer que faz
tais cousas é abominável ao Senhor teu D eus”. Portanto, é
bastante questionável se essa provisão especial da lei mosaica
deve ser relegada ao nível de mero rito inconseqüente, que se
pode ou deve eliminar mediante a emancipação dos crentes
neotestamentários, os quais devem estar livres do jugo lega-
lístico do Antigo Testamento.
O N ovo Testamento enfatiza o vestuário adequado, mo-
desto, como elemento im portante do testem unho cristão

132
Es colas T e n d e n c io sa s de In te rp r e ta ç ã o

( I T m 2.9), pelo que o crente dedicado deve vestir-se de manei-


ra a honrar ao Senhor. Em Gálatas 3.28 a afirmação de Paulo
de que não há macho e fêmea não se aplica a coisas como rou-
pas ou costumes, mas à nossa posição espiritual perante Deus.
O reconhecimento das diferenças relativas entre os sexos, den-
tro de sua unidade comum à humanidade, é um princípio digno
de ser preservado, mas facilmente mal interpretado.23
b) Ignora-se a situação histórica.
A situação histórica do texto também é ignorada no mé-
todo literalista. As orientações bíblicas nem sempre são as
mesmas em todas as circunstâncias; por exemplo, em Esdras
10.2,3, ele obriga os judeus a despedirem suas esposas. Po-
rém, o apóstolo Paulo aconselha aos casados com cônjuges
incrédulos a não se apartarem um do outro ( I Co 7 .I2 ,I 3 ).24
c) Usa textos de prova isolados para provar certas doutri-
nas e tradição eclesiástica com sentidos diferentes do propósi-
to do texto.
A maneira como o D iabo usou o texto bíblico compro-
va esta prática inverossímil do texto. Em M ateus 4.6, Sata-
nás cita literalmente o Salmo 91.11,12, não para consolar, e
sim para tentar. U sou literalmente, mas sangrou o propósito
principal do texto. U m outro exemplo disto é Isaías 55.2
para condenar qualquer uso do dinheiro que não seja para
com prar pão. C om entando o primeiro verso do Salmo 130,
tão carregado de dramatismo espiritual e rico ao ser exami-
nado à luz da totalidade contextual do Salmo, o intérprete
literahsta judeu, sempre inclinado ao legalismo, só observa-
va uma forma correta de orar “das profundezas”, significan-
do, segundo eles, que a oração devia ser praticada na posição
mais baixa possível.2:)

133
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p h c a d a

d) Aceitam a inspiração mecanicista das Escrituras Sa-


gradas. N este caso os hagiógrafos eram extremamente passi-
vos no ato da inspiração, onde suas idiossincrasias foram
ignoradas.

SIN O P SE

O termo “alegoria” procede da combinação de dois ter-


mos gregos, allos, isto é, “outro”, e agoreyo, “falar ou proclamar
Literalmente significa “dizer uma coisa que significa outra”.
O vocábulo “alegoria” aparece em Gálatas 4.24, a fim de
indicar a explicação ou expressão de alguma coisa por meio
do nome ou imagem de outra.
Com o figura literária, a alegoria é uma metáfora estendi-
da e um recurso literário válido e útil, porém, como sistema
de interpretação mutila o texto bíblico.
De acordo com o m étodo alegórico, o sentido literal e
histórico das Escrituras é completamente desprezado, e cada
palavra e acontecimento são transformados em alegoria de al-
gum tipo.
Bultmann chama os tipos de interpretações alegonstas de
alegorese, e não alegoria.
O m étodo alegórico despreza o significado comum e or-
dinário das palavras, especulando sobre o sentido místico de
cada uma delas;
O m étodo alegórico ignora a intenção do autor, inserm-
do no texto todo tipo de extravagância ou fantasias que um
intérprete possa desejar;
O intérprete que usa o m étodo alegórico rejeita os méto-
dos válidos de interpretação.

134
Escolas T e n d e n c io sa s de In te rp r e ta ç ã o

A autoridade básica da interpretação deixa de ser a Bi-


blia e passa a ser a mente engenhosa do intérprete.
O método alegórico foi usado pelas escolas filosóficas
gregas no afã de interpretar os poemas de H om ero e Hesíodo,
e reduzir os problemas teóricos e religiosos entre a tradição
religiosa e a herança filosófica.
Filo provavelmente foi o maior defensor do m étodo ale-
górico. Acreditava que o m étodo literal era uma forma imatu-
ra de compreensão que deveria ser superado pelo alegórico.
N ão devemos confundir o método literalista, hiperlite-
ralista ou letrxsta com o m étodo literal ou lingüístico-grama-
tical. O m étodo literal reconhece princípios de tradução e m-
terpretação não reconhecidos pelo seu oposto.
As fraquezas do literalismo são que alguns textos são ob-
servados, em detrimento a outros; ignora-se a situação históri-
ca; usa textos de prova isolados para provar certas doutrinas e
tradição eclesiástica com sentidos diferentes do propósito do
texto; aceitam a inspiração mecanicista das Escrituras Sagradas.

TRABALHANDO COM TEX TO S

É POSSÍVEL A EXEGESE LIVRE DE PREMISSAS?


“E preciso responder ‘sim’ a esta pergunta se ‘livre de pre-
missas’ significar: sem pressupor os resultados da exegese. Neste
sentido, a exegese livre de premissas não só é possível, mas até
constitui uma exigência. Em outro sentido nenhuma exegese
naturalmente está livre de premissas, uma vez que o exegeta
não é nenhuma t a b u l a r a s a , mas aborda o texto trazendo
consigo certas perguntas, isto é, abordando-o com certo
enfoque, além de ter certa noção do assunto de que trata o

135
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

texto. Expliquemos em rápidos traços a exigência de que a


exegese seja isenta de premissa no sentido de ela não pressu-
por seus resultados; ou também poderíamos dizer: de ela ser
livre de preconceitos. Esta exigência significa em primeiro lu-
gar a rejeição do m étodo da alegorese. Q uando Filão vê a idéia
estóica de sábio livre de afetos representada no preceito da lei
de que o animal de sacrifício seja imaculado (Spec. Leg. I, p.
270), ou quando Paulo interpreta D euteronômio 25.4 como
prescrição de que o pregador do Evangelho seja sustentado
pela comunidade (I Co 9.9), ou quando na carta de Barnabé
os 318 servos de Abraão (G n 14.14) são interpretados como
profecia da cruz de Cristo (9.7s), está claro que nestes casos o
exegeta não ouve o que o texto diz, e sim fá-lo dizer aquilo
que ele, o exegeta, já sabe de antemão.
B U L T M A N N , R u d o lf. C rer e Compreender, S in od al
(p. 2 2 3 ).

EXERCÍCIO S

1. Qual a diferença entre alegoria e escola alegorista?


2. Faça um resumo da história do m étodo alegórico
3. Q ual a diferença entre o hiperletrismo e o m étodo
literal?
4. Quais são as fraquezas do m étodo literalista:

Bibli-Holmes
Ajude nosso detetive Bibli-Holmes a investigar as princi-
pais diferenças entre o m étodo literalista e o m étodo literal-
gramatical.

136
Escolas T e n d e nc io sa s de In te rp r e ta ç ã o

LEITURAS E LIVROS PARA APROFUNDAM ENTO


B U L T M A N N , R udolf. C rer e Compreender, Sinodal
(p. 223-229).
ZABATIERO, Júlio Paulo Tavares, A Bíblia e 0 Pensamento
Teológico na América Latina - Boletim T eológico/ftl -B (p. 7-13).
P E N T E C O S T , J. D w ight, M anual de Escatologia, V ida
(p. 2 9 -4 3 ).
V IR K L E R , H e n ry A., H erm enêutica Avançada, V id a
(p. 3 6 -3 9 ).

NOTAS
1 Confira a definição de Joseph Angus & Samuel G. Green,
m Manual de Escatologia, citado por J. D. Pentecost, p. 32.
2 Confira, Crer e Compreender, R udolf Bultmann, Artigos
Selecionados, Editado por Walter Altmann, 1987, p. 223-229.
3 Cf. Hermenêutica, Barcelona, 1990, p. 22.
4 Pentecost, op.cit., p. 33.
‫ כ‬Id. Ibidem.
6 Id. Ibidem, p. 32
Cf. Louis Berkhof, Princípios de Interpretação Bíblica, 19 8 1,
p. 15-19.
8 Cf. Hermêutica, Princípios e Processos de Interpretação Bíblica,
1992, p. 38.
9 Id.Ibidem, 1992, p. 39.
10 Op.cit., p. 45.
11 Op.cit., p. 44.
12 Ibidem.
Op.cit., p. 46.
14 Op.cit., p. 47.
1‫ נ‬Cf. Pedro Gilhuis, Como Interpretar a Bíblia —Introdução à
Hermenêutica, 1980, p. 17.

137
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

16
16 Gleason Archer, Enciclopédia deDificuldades Bélicas, 1997, p. 16 1.
17 M erril C. Tenney (et alli), Vida Cotidiana nos Tempos Bíhli-
r05,I988, p. 1 15-133.
18 Id.Ibidem , 1988, p. 115.
19 Id.Ibidem, 1988, p. 115.
20Id.Ibidem, 1988, p. 116.
21 J. A. T hom pson, Deuteronômio: Introdução e Comentário,
1982, p. 224.
22 Comentário Exegético Devoeiocional de toda la Biblia, VI.
I Pentateuco, 1982, p. 172.
23 Archer, 1997, op.cit., p. 162.
24 Gilhuis, 1997, op.cit., p. 21.
25 Id.Ibidem, 1997, p. 25.

138
C A P ÍT U L O 6

cH^^ncneutlca (Contextual

A lei do contexto é um a das primeiras leis


que regem a interpretação. M uitas interpretações
errôneas têm sua origem na desconsideração
desta norma tão óbvia.

CONTEXTO

O próprio conceito do termo nos mostra a conveniência


de seu estudo. O étimo do termo contexto significa “tecido
com’’. N o latim, cun é preposição do ablativo que denota união,
associação ou companhia, e textum significa “tecido”; por ex-
tensão, “contextura, trama”. Aplicados a documentos escritos,
expressa a conexão de pensamento que existe entre diferentes
partes para fazer dela um todo coerente. Assim, contexto é o
nexo recíproco dos vários elementos duma oração, sejam pró-
ximos (contexto imediato), sejam distantes (contexto remoto).
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

N u m texto, ou uma seqüência de textos, o contexto é


constituído pela seqüência de parágrafos ou blocos que prece-
dem e seguem imediatamente o texto, e que podem, de uma
forma ou de outra, fazer pesar sobre o texto certas coerções.1

A Im portância do Contexto
U m dos reconhecidos problemas hermenêuticos são os
chamados textos de “prova”. São textos isolados do contexto
usados por determinados intérpretes para aquilatar certas as-
severações teológicas, dogmáticas ou culturais. Textos de pro-
va, segundo a hermenêutica contextual, são secundários para a
validação de uma interpretação, simplesmente porque erram
ao desconsiderar o contexto.

Im portância de se Conhecer o Contexto


O exame do contexto é extremamente im portante por
três razões:
a) As palavras, as locuções e as frases podem assumir sen-
tidos múltiplos.
O contexto neste caso vai determinar qual o sentido exa-
to do term o usado, como veremos adiante. N ão somos escu-
sados de frisar que não basta apenas decompor o term o con-
siderado em seus aspectos etimológicos, é necessário com-
preendê-lo em relação ao conjunto geral da frase.
O significado de um term o nem sempre se projeta basea-
do em sua raiz. E necessário que se analise o signo lingüístico
com a luz refletida pela frase e pelo contexto a que pertence.
N o entanto, verdade é que um vocábulo espelha o significado
de sua raiz e de sua composição.
O estudo etimológico é útil e necessário em vários casos,
mas não significa que em todos os textos essas análises sejam

140
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

extremamente necessárias, ou que os termos significarão aqui-


lo que a raiz determina, daí a necessidade do estudo diacrônico
da 11 nguagem (isto é, histórico, as mudanças ocorridas aos
vocábulos em certos períodos).
b) Os pensamentos normalmente são expressos por se-
qüência de palavras ou de frases.
Os sentidos de uma palavra (unidade) podem ser capta-
dos de acordo com a frase (conjunto), pois o termo e a frase
estão associados dando entendimento um ao outro, da pala-
vra à frase (várias unidades formando um conjunto) e da frase
à palavra (o conjunto limitando, aí o sentido da palavra).
Deve-se lembrar que o sentido de um termo qualquer em
uma frase geralmente é determinado pelos artigos, verbos,
adjetivos, etc., que o precedem e sucedem (tal como veremos
no contexto gramatical).
O vocábulo manga (fruta) e manga (camisa) são termos
com o mesmo som e grafia, porém de significado distinto
(homônimos homógrafos perfeitos). Somente afrase (geral) é
que determinará se a palavra (unidade) deve ser interpretada
como uma fruta, ou tratar-se de parte de vestuário onde se
enfia o braço (camisa).
c) Desconsiderar o contexto acarreta interpretações fal-
sas, além de se constituir numa eisegese.
Certo pregador, ao explanar Efésios 6.12 sobre o significa-
do da expressão “regiões celestiais”, deu uma pausa retórica,
interrogou a congregação sobre o significado da expressão e
sorriu, como se algo sobrenatural e enigmático fosse revelado.
Interrogou a platéia pela segunda vez dizendo: “O que você
tem de mais celestial?” Ninguém ousou responder. U m silêncio
sepulcral tomou conta da audiência. Ele mesmo respondeu: ‘Ό

141
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p h c a d a

seu coração”. Difícil foi para ele explicar como as potestades do


mal viviam no coração do crente regenerado! A solução para ele
foi muito simples: “Espiritualmente falando...”
Efésios é o único livro do Novo Testamento que trata
especificamente do tema “regiões celestiais”. Se nosso prega-
dor das “regiões celestiais” apenas conferisse a mensagem da
epístola nos versículos 1.3, 21-22; 2.6; 3.10 compreenderia o
significado de regiões celestiais.

T IP O S D E C O N T E X T O

A interpretação da Bíblia deve levar em consideração os


diversos tipos de contexto.

Contexto Inicial
E a própria frase ou versículo em que o termo foi usado.
Antes mesmo de recorrer ao contexto imediato e remoto,
é extremamente necessário entender o texto (frase) onde o
term o aparece em seu conjunto.
Esta regra é muito viável, principalmente na interpreta-
ção dos Provérbios, onde um a sucessão de conselhos é
fornecida, e algumas vezes sem qualquer relação com o texto
precedente e o subseqüente. Exclusivamente neste caso, o co-
nhecimento de como as palavras se formam, raízes, prefixos,
sufixos e uma intuição com a linguagem das Escrituras é m-
dispensável. Desse modo, a análise do contexto inicial não
deve ser da palavra pela palavra apenas, mas da palavra como
intermediária entre o intérprete e um conteúdo de idéias, sen-
timentos e emoções que nela se coagulam.
N os termos principais cujos textos são irregulares em seu
contexto, deve-se atentar para:

142
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

• o gênero literário que o caracteriza;


• o propósito da obra;
• a totalidade da mensagem do autógrafo.
Cada um desses itens serve de parâmetro para identificar
o significado pretendido pelo hagiógrafo. Em razão de as Es-
crituras serem tanto descritivas quanto prescritivas, ocorre a repe-
tição quase que proposital de certos vocábulos. Assim sendo,
se o vocábulo já apareceu em contextos anteriores ligado a um
fato histórico ou código legal, leis cerimoniais, etc., pode ser
que o autor pretenda ao repeti-lo:
• dar o mesmo significado;
• esclarecer o sentido anterior;
• remterpretar o termo original aplicando um novo con-
texto social, moral, religioso ou vivencial.
Correndo o risco de perturbar a clareza deste livro, levan-
do-o fora dos limítrofes aqui perlustrados, é necessário
determo-nos por um instante nesse pormenor.
N ão se deve dar prosseguimento a uma interpretação en-
quanto os termos principais não forem devidamente compre-
endidos, isto é, determinado os seus significados. U m bom
dicionário do hebraico e grego bíblicos, uma análise diacrônica
do termo, o uso de uma concordância e a observação do con-
texto remoto são necessários a fim de que se compreenda o
uso dos vocábulos em contextos distintos.
Assim sendo, mesmo que o contexto seja irregular, ele não
é independente da frase que o forma, mas uma unidade relacio-
nada com todos os elementos semânticos que o compõem.
N a análise contextual decompõe-se o texto em suas par-
tes fundamentais. A postura do intérprete é primariamente
analítica, e só depois crítica.

143
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

N a análise das unidades que estruturam o texto, preten-


de-se conhecer sua estrutura a fim de absorver sua mensagem
com todo colorido pincelado pelo autor. Analisar o texto é
entrar em diálogo com o seu autor.
Essa comunicação é ampliada desmesuradamente no cam-
po da perquirição dos conteúdos textuais quando se lhes co-
nhecem as relações com o meio exterior em que foram gera-
dos. E o caso de Provérbios 22.28: “N ão removas os marcos
antigos que puseram teus pais” (ARA). N ão são poucos os
“doutrinadores” que usam este texto para falar dos usos e cos-
tumes que não são mais observados pelos adeptos de determi-
nadas denominações, afirmando que “antigamente não era
assim... mas a Bíblia diz: “N ão removas os marcos antigos
que fizeram teus pais”. N a verdade entendemos o zelo, mas
que este seja com entendimento!
U m “marco” era uma pedra ou um poste inscrito, onde
eram definidos os limites do terreno ou propriedade. Quan-
do Canaã foi dividida entre as tribos israelitas, e a cada família
foi dada uma porção da terra, os limites da terra foram deter-
minados através de um marco. A remoção de um marco im-
plicava falsificação do levantamento topográfico e constituía
um roubo de terra, além de violar o nono mandamento.
A recomendação já tinha sido prescrita antes mesmo da
possessão da terra de Canaã pelos israelitas (D t 19.14), e todo
aquele que removesse o marco era considerado maldito: “Mal-
dito aquele que m udar os marcos do seu próximo. E todo o
povo dirá: Amém!” (27.17). A violação do marco deve ser
entendido no âmbito da herança divina (Lv 25.23,24). A por-
ção de terra que o israelita possuía era uma dádiva divina (I
Rs 21.3) e alterar os limites dessas propriedades era uma ofensa
àquEle que as outorgou.
144
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

A remoção do marco ou limite aparece mais uma vez em


Provérbios 23.10, como uma ação de roubo, opressão e injusti-
ça contra a herdade do órfão. Fica patente que este versículo
não ensina a veneração de costumes históricos, mas o respeito
pela propriedade alheia, pela prática da justiça. O que adianta
venerar costumes históricos se não praticamos atos de justiça?
Atente-se para o fato de que o verso identificado possui
estreita relação com a sabedoria egípcia, conhecida como Sa-
bedoria de Amen-em-opet, esse paralelo inicia em 2 7.17 e
culmina em 23.12. O texto paralelo afirma: “N ão retires os
marcos das fronteiras da terra cultivável... nem ultrapasses as
fronteiras da viúva”.2
Antes de recorrer ao contexto remoto ou imediato é ím-
portante entender o term o ou toda a frase, porque nem sem-
pre uma mesma palavra quer significar a mesma coisa em tex-
tos distintos, e somente o texto, em seu contexto original, é
que projetará luz sobre o significado exato do termo.
E o caso de alguém descuidadamente tentar inserir o sen-
tido de marco, tal qual apresentamos acima, com o marco
registrado em Jeremias 31.21: “Ergue para ti marcos, levanta
para ti pirâmides, aplica o teu coração à vereda, ao caminho
em que andaste; regressa, ó virgem de Israel, regressa, a estas
tuas cidades” (Jr 31.21). Neste caso temos um marco que traz
também o sentido de sinal, mas com aplicação distinta. En-
quanto em Provérbios trata-se de um marco que funciona
como um “documento de delimitação topográfica”, o marco
de Jeremias 31.21 designa um sinal feito com um montão de
pedras para assinalar uma vereda, ou seja, servir de orientação
para que não se perca o caminho certo. Isto fica claro quando
lemos o versículo 22 que interroga: “Até quando andarás er-
rante, ó filha rebelde?”, “errante” quer dizer “sem definição”.
145
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Já os textos de Ezequiel 39.15 e 2 Reis 23.17, o termo


significa m onum ento ou pilha de pedras usados para assinalar
o local do sepultamento dos mortos.
Q uando qualquer um dos sentidos do vocábulo marco é
inserido em textos distintos de m odo que se altere o sentido
do referido texto, temos um caso de pseudoconcordância. E a
ocorrência repetida da mesma palavra em um ou mais textos
com sentidos diferentes. Assim, não podemos transferir o sig-
nificado de marco de Ezequiel 39.15 para o texto de Jeremias
31.21 ou vice-versa.
N o contexto inicial, os vários sentidos de uma mesma
palavra podem relacionar-se através de um significado tênue,
mas comum.
Todas as palavras naqueles textos têm um significado co-
mum, que é “sinal”.
O mesmo ocorre com o termo grego glossa (γλώσσα):
a) Tem o sentido primário de “língua” como órgão mus-
cular situado na cavidade bucal, responsável principalmente
pela fala, como no texto de Marcos 7.33,35: “... e lhe tocou a
língua com saliva... e soltou o empecilho da língua” (ARA).
Nesse texto o sentido de língua é verbal, literal ou próprio.
b) O sentido de^/055« não se limita apenas à língua, como
órgão do corpo, mais também por “idiom a”, como em Mar-
cos 16.17: “Falarão novas línguas”, ou ainda como em Atos
2.4 e 2 .1 1: “... e passaram a falar em outras línguas..”, “...
ouvimos falar em nossas próprias línguas...” (cf. Ap 7.9; 13.7).
Nesses textos há uma relação entre causa e efeito. Sendo
a língua (órgão) responsável pela fala (idioma, linguagem),
busca-se a contigüidade, preferindo usar a m etoním ia a fim
146
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

de reforçar a causa, em vez do efeito. E o que pretende Paulo


ao afirmar: “... toda língua dará louvores a Deus...‫( ״‬R m
1 4 .1 1; Fp 2 .1 1).
c) O sentido de glossa não se limita apenas a esses dois
exemplos. Em Tiago 1.26, a metáfora “refrear a sua língua”
quer dizer literalmente “guiar a língua com arreios” e significa
“exercer controle ou domínio sobre o conteúdo do que se
fala”. E o oposto daquele a quem chamamos de linguarudo,
ou seja, o que possui “língua solta”, “fofoqueiro” ou “maldi-
zente”. U m exemplo semelhante encontramos em I Pedro 3.10:
“... refreie a sua língua do mal”.
E m I Jo 3.18, onde se lê: “... não amemos de palavra,
nem de língua, mas de fato e de verdade”, a expressão “não
amemos de palavra, nem de língua” faz parte do mesmo cam-
po semântico, isto é, possui significado com os textos anteri-
ores através de uma relação associativa. As implicações dessa
proposição joanina é dicotômica: literal e figurada. Literal-
mente refere-se ao conteúdo do que se fala, a um amor or-
questrado por palavras formosas, enquanto figuradamente, a
um amor efêmero, sem qualquer ação, exalando hipocrisia.
Daí, João concluir o texto usando uma adversativa: “ Mas por
obra e em verdade”.
N o contexto inicial, saber se o vocábulo está sendo usado
em sentido literal (denotativo) ou figurado (conotativo) é
imprescindível.
Foi publicado no jornal do Telecurso 2° Grau um texto
intitulado “Eles vivem fazendo arte”. Lendo esta manchete,
poderá vir-nos à mente a idéia de que “fazer arte” é igual a fazer
estripulias, molecagens ou bagunça. N o entanto, ao lermos o
texto do artigo, constatamos que o significado é outro, ou seja,

147
H e r m e n ê u t ic a híoil e d e sc o m p lic a d a

que todos os visitantes do museu Lasar Segall em São Paulo,


podem, ao visitar o museu, desenvolver sua capacidade de criar.
A palavra arte, no dicionário, é um dos principais meios
de comunicação usados pelo homem para a expressão de suas
idéias, valores, emoções, crenças, sentimentos e revoltas. As-
sim, o significado do term o arte tem um sentido atribuído
pelo dicionário que nos permite uma só interpretação. E o
significado literal, isto é, denotativo.
Denotação é o uso do signo lingüístico (palavra/repre-
sentação gráfica) com seu significado próprio, que não per-
mite mais de uma interpretação.
Mas o significante arte pode receber um outro significa-
do, não contido no dicionário: arte é o mesmo que fazer ba-
gunça. E um significado criado pelo contexto inicial, e ao qual
chamamos de significado conotativo ou figurado.
Conotação é o uso do signo lingüístico com novos sig-
nificados e com novas interpretações oferecidas pelo contex-
to ou não.3
a) Ao lerm os M ateus 10.34, onde Jesus diz: “Vim
trazer...espada”, veremos que Ele não se referia ao objeto em
si, mas ao que esse objeto representa: dissensões, contendas.
Assim, “vim causar dissensões, contendas” seria a interpreta-
ção correta.
b) Em Mateus 16.17, Jesus diz a Pedro: “ ... porque não
foi carne e sangue quem to revelou”. N outras palavras: “N ão
foi nenhum ser humano quem to revelou”.
c) E m Mateus 27.24, Pilatos declara: “Estou inocente
do sangue deste justo”, o que quer dizer: “Estou inocente da
m orte (ou de causar a m orte) deste homem justo”.4

148
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

Nesses textos o sentido literal de espada, carne e sangue,


e sangue deste justo, é, à princípio, alterado por uma relação
associativa. E o dinamismo característico da língua/língua-
gem ausente nos léxicos.
A palavra oú o significante, com seu sentido denotativo
ou seu sentido próprio, é muito comum nos textos mformati-
vos, narrativos e históricos, amda que estes textos não excluam
o uso do sentido conotativo.
O significado denotativo dificilmente permite ambigüi-
dade na interpretação ou leitura do texto. Já a palavra
(significante), com seu sentido figurado (conotativo), renova
o sentido da palavra.
O significado conotativo permite ambigüidade na inter-
pretação ou leitura do texto, por isso, no estudo do contexto
inicial, é necessário conhecer as mutações semânticas que um
mesmo vocábulo pode possuir no texto.
Em 2 Samuel 7, o substantivo hebraico bayt ( ‫)ב ית‬, que é
traduzido por “casa”, possui conotações distintas no capítulo.
a) no versículo I trata-se de casa no sentido de residência;
b) nos versículos 5 e 6 casa é entendida por “tem plo”;
c'l/ nos versículos 16 e 18 trata-se de “descendência”;7
d) no 19 com sentido tanto de reino quanto de descendência
(v. 16), que sem dúvida refere-se ao remado do Messias.0
U m outro exemplo bastante comum entre os estudantes
das Escrituras são os diversos sentidos do termo “m u nd o ”.
a) em João 3.16 o term o (κόσμος) representa a hum a-
m dade;
b) em I João 2.15-18 somos admoestados a não amar ao
mundo; neste caso, o sistema rebelado e organizado contra
Deus (T g 4.4);

149
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

c) em João 1.9,10 é dito que Jesus criou o mundo, no


sentido m undo habitado ou Universo.
Fica claro que os te rm o s são os m esm os códigos
lingüísticos (palavras), mas com significados distintos, este
que é determinado pelo contexto.
Nas páginas do Novo Testamento grego, o substantivo casa
possui dois significantes, oikos [οίκος] e oikia [οικία]. Tanto um
quanto o outro são usados em sentido intercambiáveis para:
a) referir-se a casa/moradia : “Entrando na casa” (M t 2 .1 1
{eis tê n o ik ia n /εις τ ή ν ο ικ ία ν } , cf. 7.24-27); “partiu para
sua casa” (M t 9.7 {eis ton oikon / εις τ ο ν ο ικ ο ν });
b) referir-se a casa /família: “se uma casa estiver dividida”
{oikia/ ο ϊ κ ί α } (M c 3.25; M t 12.25 cf.Lc 19.9; At 16.5,31);
c) o term o também pode significar nação ou descenden-
tes: “ovelhas perdidas da casa de Israel” (M t 10.6; 15.24 {oikou
Israel / ο ί κ ο ο ’Ισ ρ α ή λ });
d) em sentido figurado o corpo físico: “casa terrestre”
(2 Co 5.1 {oikia tou skênous/ ο ι κ ί α του σκήνους});
e) a habitação de D eus-Pai: “N a casa de meu Pai”
(Jo 14.2 {oikia tou patros / ο ι κ ί α το υ π α τρ ό ς} ).
O sentido conotativo pode apresentar-se também como
um símbolo, figura, tipo, ou até mesmo abrangendo termos
característicos da cultura semita, e geralmente os termos não
correspondem àqueles registrados nos dicionários.
A palavra adquire sentido figurado dentro do texto, à
medida que é relacionada a outras palavras.
Deve-se cuidar principalmente quando o autor usa uma
figura de estilo, tais como o símile, a metáfora, o eufemismo
ou outra qualquer.
150
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

N o texto de I Samuel 15.26-28 lemos: “N ão tornarei


contigo; porquanto rejeitaste a palavra do Senhor, já ele te
rejeitou a ti, para que não sejas rei sobre Israel. Virando-se
Samuel para se ir, Saul o segurou pela orla do manto, e este se
rasgou. Então, Samuel lhe disse: O Senhor rasgou hoje de ti o
reino de Israel, e o deu ao teu próximo, que é melhor do que
tu ” (grifo nosso).
Neste texto, o termo manto, no versículo 27, refere-se a
túnica ou capa usada por Samuel. N o versículo 28, contudo,
o significado da palavra é trasladado, figurado, tom ando um
novo sentido, isto é, remo ou reinado.
N o episódio de I Reis I I . 19-32, o mesmo sentido figu-
rado de manto é expresso de m odo mais eloqüente. O manto
rasgado representa o reino dividido, em doze pedaços, as doze
tribos de Israel: “... toma para ti os dez pedaços, porque assim
diz o Senhor, Deus de Israel: Eis que rasgarei o reino da mão
de Salomão, e a ti darei as dez tribos” (v.3I).
O sentido de manto, representando reino encontra para-
leio nas escrituras neotestamentárias. N o evangelho de João,
ele usa o sentido figurado do manto (reino), embora dando-
lhe cunho particular. O manto de Jesus, Rei dos judeus (Jo
19.19), é figura do seu reinado. O manto sorteado entre os
gentios é figura de que o antigo reinado sobre os judeus se
realizará agora sobre os gentios: estes tiram dos judeus seu Rei
para fazê-lo rei deles (Jo I .I 2 ) .6
O significante manto, em sentido figurado, pode repre-
sentar também pessoas. Em 2 Reis 9.12,13 lemos: “... Disse
Jeú: Assim e assim me falou, dizendo: Assim diz o Senhor:
Ungi-te rei sobre Israel. Então se apressaram e, tomando cada um
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

0 seu manto, os puseram debaixo dele, sobre os degraus, toca-


ram a trombeta, e disseram: Jeú é rei” (grifo nosso).
O manto neste texto representa o seu possuidor, as pes-
soas que se submetem a Jeú, pondo à sua disposição a própria
vida. Semelhante cena ocorre na entrada triunfal de Jesus em
Jerusalém: “E muitos estendiam as suas vestes pelo caminho, e
outros cortavam ramo das árvores, e os espalhavam pelo cami-
n h o ” (M c 1 1.8). O ato concreto de estenderem seus mantos
pelo caminho, indicava a submissão daquele povo a Jesus, pois
o consideravam como sucessor de Davi: “Bendito o remo do
nosso pai Davi” (v. 10).' N ão podemos considerar estes fatos
apenas como acidentais, principalmente quando verificamos
no AT tal prática entre os judeus; é de se esperar que o mesmo
ocorresse com os judeus neotestamentários ao proclamarem
Jesus como rei, tal como ocorreu com Jeú.
Q uando observamos que “... apresentavam os enfermos
nas praças e rogavam-lhe que os deixasse tocar, ao menos na
orla de sua veste; e todos os que tocavam saravam” (M c 6.56),
devemos compreender que o fato de os enfermos sararem quan-
do tocavam no manto de Jesus é figura (representada pelo
manto), da vida que emana da pessoa de Cristo (ver M c 5.25-
32). Neste caso, o manto é literal, ao mesmo tempo em que a
cura através dele, representa o poder vivificador que emanava
da pessoa que o usava, Cristo.8
O sentido denotativo, que é o significado comum e usual
da palavra, é encontrado nos dicionários. Sobre essa designa-
ção denotativa da palavra, deve-se prestar atenção nos termos:
Sinônimos:
Palavras de significantes (letras) diferentes e significados
(conceitos) semelhantes. Ex: luminária — candeeiro/ candeia/
lâmpada (H b 9.2; M c 4.21; SI 1 19.105; Pv 20.20);
152
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

Antônimos:
Palavras de significantes (letras) diferentes e significados
(conceito) opostos. Ex: justo — ímpio (Pv 21.12); prudente
— simples (Pv 22.3), rico — pobre (Pv 22.2);
Homônimos:
Palavras de significantes iguais e significados diferentes:
a) canto, do verbo c an ta r), e c an to com o âng ulo
(S1I00.2;98.5; Pv 21.9; A t 26.26);
b) lança (arma), lança (do verbo lançar) (Jo 19.34; Ec I I.I).
Homônimos Homófonos:
M esmo som, mas grafias (letras) diferentes:
a) cega — tornar cego; sega — colheita, ceifa (Ex 23.8,16;
D t 16.19; Jr 5.17:51.33);
b) expiar — purificar; espiar — observar secretamente
(D n 9. 24; Ez 43.20; G1 2.4; Jz 18.2).
Homônimos Perfeitos:
Os que são homógrafos e hom ófonos ao mesmo tempo
(tem escrita e pronúncia idênticos mas significados distintos),
como: pêlo — do corpo de um animal; pelo — preposição
(M t 3.4; 21.8).
N o contexto inicial, o im portante não é o estudo isolado
de uma palavra (interpretação léxica) com seu significado
etimológico e diacrônico (o estudo histórico da palavra), e
sim, ao sentido particular em que ela ocorre no texto.
O intérprete deve determinar se as palavras são usadas
em sentido geral ou particular; se empregadas em sentido lite-
ral ou figurado. Deve levar em conta também o aspecto dinâ-
mico de muitos textos.
O sentido dos Salmos reais, por exemplo 72, não deve
estar limitado estritamente às circunstâncias históricas da

153
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p lic a d a

produção deles. Falando do rei, o salmista evocava ao mesmo


tempo uma instituição verdadeira e uma visão ideal da realeza,
conforme ao plano de Deus, de maneira que seu texto ultra-
passava a instituição real tal qual como ela tinha se manifesta-
do na história. O mesmo ocorre com os Salmos messiânicos.
Particularmente certos textos que poderiam ser considerados
como hipérboles (exagero), como p o r exemplo, 2 Samuel
7.12,13 e I Crônicas I 7 . I I - I 4 , onde Deus, falando de um
filho de Davi, prometia firmar “para sempre” seu trono, de-
vem ser tomados literalmente, porque diz a palavra: “Haven-
do Cristo ressuscitado dos mortos, já não m orre” (R m 6.9).
Os hermeneutas e exegetas que possuem uma visão limi-
tada, isto é, apenas histórica, do sentido literal, ou apenas do
contexto inicial, não levando em consideração o restante das
Escrituras, julgarão que aqui há heterogeneidade. Aqueles que
são abertos aos aspectos dinâmicos dos textos reconhecerão
uma continuidade profunda, ao mesmo tempo em que uma
passagem é elevada a um nível diferente: Cristo rema para sem-
pre, mas não sobre o trono terrestre de Davi, ainda que profe-
ticamente isto virá a ocorrer (SI 2.7-8; 110.1,4; Fp 2.9-11;
Ap I 9 .I 6 ) .9
Deve-se levar em conta a variedade de significados
(polissemia) que uma palavra pode ter em uma mesma época,
inclusos nos escritos de um mesmo autor.
N esta altura podemos deduzir do uso sinonimico e vari-
ante de um vocábulo qualquer. M esmo um termo possuindo
outras palavras sinônimas ou variantes do mesmo sentido, o
autor por vezes, insiste no uso repetitivo de uma mesma pala-
vra, não sabemos se por pobreza vocabular, por gênio peculiar

154
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

do literato, ou ainda para levar o leitor a raciocinar sobre o


sentido pretendido pelo autor.
O term o kosmos (mundo, ordem, sistema), em cada uma
das ocasiões em que aparece nos Evangelhos e nas Epístolas
de João, é usado com sentido distinto, e somente o contexto
imediato esclarecerá o sentido; às vezes, mesmo recorrendo ao
contexto, permanece um dúbio sentido. Vejamos:
Em João 3.16 o termo kosmos representa a humanidade
como objeto do amor de Deus. O versículo 17 descreve o
mesmo sentido (m undo-hum anidade) mas com ênfase na
missão de Cristo (cf. 10.36). Enquanto estes três textos pro-
jetam luz sobre o relacionamento entre Deus, a humanidade e
a missão de Cristo, em outros textos, como 1.10, é dito que
Jesus “estava no m un d o ” (m undo — a terra habitada? m undo
— a humanidade?). Tanto um sentido quanto o outro se en-
caixam perfeitamente no contexto. Em sentido explícito, “es-
tava no m u n d o ” (en tõ kosmo ê n ) designa “a terra habitada
pelo hom em ”, mas em sentido implícito, “todos os homens
que habitam na terra”. Ele não apenas estava no mundo, mas
também entre a humanidade, sendo ele próprio, homem. Con-
siderando João I.IO como poesia, e não prosa, teremos como
estrutura, um trístico (estrofe com três versos) e, quanto ao
paralelismo, trata-se do climático, pois retoma do membro
precedente um termo (kosmos) acrescentado-lhe um comple-
mento até levá-lo ao clímax.

εν τω κοσμώ ήν,
(en tõ kosmõ ên )
estava no mundo

155
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

και ó κόσμος δι’ αυτού έγένετο,


(kai hô kosmos di autú egêneto)
e 0 mundo fo i feito por meio dele

και ó κόσμος αυτόν ουκ εγνω


(kai hô kosmos autôn ouk egnõ)
e 0 mundo não 0 conheceu

N o limítrofe de nossas inquirições, o verso 9 fulge como


texto de tradução controversa, mas que não se interpõe ao
significado do vocábulo kosmos. O disparate não é resultado
dos textos gregos mais comuns aos seminaristas, todos eles
— N estle-Aland ( N T G — N ovum Testam entum Graece),
Majority Text (Texto Majoritário, mais conhecida como VA —
Versão Autorizada ou Versão King James), The Greek N ew
Testament ( G N T - ed. Kurt Aland) e o Textus Receptus ( T R —
Texto Recebido) — trazem o mesmo texto sem qualquer va-
riação que comprometa a tradução; apenas, como atesta o
aparato crítico da G N T, uma pequena interrupção no micio
do versículo, caracterizada comumente por uma vírgula. A vír-
gula, por exemplo, aparece no T R (uma vez), G N T (duas
vezes), mas é omitida na VA. Agora, a tradução é outra histó-
ria. Cada uma das versões (ARA, ECA, N V I, V R , TEB ) con-
cordam que o Verbo “estava vindo ao m u nd o ” para iluminar
todos os homens, enquanto a ARC e a KJ (Kmg James), que
essa iluminação é sobre “todo homem que vem ao m u n do ”.
O texto grego possibilita mais de uma tradução.

A RA A saber, a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina


a todo homem

156
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

ECA A luz verdadeira que ilumina a todos os homens estava


vindo ao mundo

NVI Estava chegando ao mundo a verdadeira luz, que ilumina a


todos os homens

VR Pois a verdadeira luz, que alumia a todo homem, estava


chegando ao mundo

TEB 0 Verbo era a verdadeira luz que, vindo ao mundo,


ilumina todo homem

ARC Ali estava a luz verdadeira, que alumia a todo homem


que vem ao mundo

Mas, parece-nos mais correto entender o acusativo (objeto


direto) vindo ao mundo como se referindo ao nominativo (subs-
tantivo) luz. Somos inclinados a entender “vindo ao m undo”
como aposto do substantivo; assim sendo, o texto declara: “era
a verdadeira luz, (que) vindo ao mundo, ilumina todo (o)
hom em ”. Em cada um dos casos, porém, o sentido de kosmos é
claro — trata-se da terra habitada pelo homem.
Deixando as controvérsias para os peritos, vejamos a
urdidura do texto. Neste verso, sentimos a pulsação, o ritmo, a
cadência da própria poesia, e até mesmo a sonoridade ao final
de cada linha poética:

H vtò φως τό α λ η θ ιν ή ν ,
(en tô fõs tô alêthinôn)
Era a verdadeira luz
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

ο φοτίζει πάντα άνθρωπον,


(hô fotízei panta ânthrõpon)
que ilumina todo 0 homem

ερχόμενον εις τον κόσμον


(erkhomenon êis tôn kosmon)
vindo ao mundo

Voltemos ao propósito principal desse tópico. Em I João


2.15-18, somos admoestados a não amar o mundo (&05mo5),
neste caso, o sistema organizado e rebelado contra Deus. O
mundo-ordem injusta é o mundo-humanidade alienado de Deus
pela rejeição das leis do Reino e do Messias Encarnado (Jo 8.7;
17.25). Em João o mundo-ordem injusta possui seus próprios
valores, sistemas e governo (Jo 8.44; 12.31; 14.30; 16.11).
Em João I.9 -I0 , como analisamos anteriormente, é dito
que Jesus criou o m undo ( kosmos), significando a terra ou
mundo habitado (v.9) — o sentido é logo explicado pelo apos-
to: “ilumina a todo hom em ”. Nas duas primeiras frases do
versículo 10, o evangelista, seguindo a trama do texto, fala de
m undo ( kosmos-universo) como a terra habitada pelo homem:
“Estava no mundo, e o m undo foi feito por ele”, mas na últi-
ma parte do verso trata do m undo não em seu aspecto físico,
a terra, mas a humanidade — aqueles que nela habitam, “mas
o m undo não o conheceu”.
Já no capítulo 17.5, o evangelista usa o termo kosmos tan-
to em sentido particular quanto geral. Particularmente prefe-
re o uso do termo para dar ênfase à preexistência de Cristo.
Em geral, antes que houvesse m undo físico e m undo humani-
dade, mas o uso distinto do significado de kosmos permanece.

158
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

N o versículo 4, ocorre o uso do term o “terra” como smôni-


m o de “m undo habitado pelos hom ens”.
Cremos não ser necessário repisar o quanto é necessário
considerar os diversos sentidos de um mesmo vocábulo usado
pelo mesmo autor. Esse fenômeno literário não se explica fa-
cilmente, pois o rapsodo, possivelmente conhecendo outros
termos que se enquadravam perfeitamente no contexto de sua
obra, prefere o uso repetitivo e prolongado de um mesmo vo-
cábulo em vez de usar:
a) gês/ γ η ς (terra, solo, chão, no sentido de território,
terra em distinção ao firmamento);
b) oikoum ené/οΤ κουμένη (habitado; a terra habitada:
Lc 4.5; o mundo: M t 24.14; Lc 4.5; m undo no sentido de
humanidade: Lc 2.1; A t 7.31);
c) ou mesmo a iõ n /α ιώ ν (era; século; presente século;
eternidade; o povo do m undo em Lc 16.8).
Apesar de todos os textos em que o termo kosmos é usado
em sentido positivo no evangelho joamno, prevalece o sentido
de “m undo hostil a Deus”, ou “sistema de idéias e ideais que
se opõe a Deus e ao Messias” representado principalmente
pelas classes do judaísmo (fariseus, saduceus, etc.), e pelos
opositores de Cristo em geral. N ão obstante, o sentido positi-
vo também é largamente usado por João.
A guisa de epílogo, deve-se frisar acerca do contexto ini-
cial que:
1 ) 0 significado de uma palavra deve ser determinado,
levando em conta o marco cultural e costumes que impera-
vam d u ra n te a co m p o sição do texto, o cham ado usus
loquendi. Por exemplo, “M oabe é a m inha bacia de lavar/
sobre E don lançarei as minhas sandálias” (SI 108.9); “D i­

159
H e r m e n ê u t i c a hicil e J e s c o m p lic a d a

zendo, pois, o rem idor a Boaz: C om pra-a para ti, descalçou


o sapato” (R t 4.8).
2) Deve-se examinar cuidadosam ente os sinônim os,
parônimos e homônimos; se o sentido pretendido pelo autor
é denotativo ou conotativo.
3) Deve-se dar devida atenção aos termos principais, às
palavras com aspectos litúrgicos ou que expressam a teologia
do seu tempo, por exemplo: sacrifícios, holocaustos, ofertas,
luas novas, estender as mãos, purificar (Is I .I I - I 7 ) , tradições
de homens, Corbã (M c 7.8,11), jurar pelo santuário e pelo
altar (M t 23.16-18).
4) Deve-se levar em conta a variedade de significados
(polissemia) que uma palavra possa ter numa mesma época -
no autógrafo só haverá um significado (monossemia) e inclu-
so nos escritos de um mesmo autor. U m autor bíblico não
escreve uma coisa pensando noutra.10 O termo kosmos (mun-
do), por exemplo, em cada um dos textos analisados, possui
sentidos distintos, e somente o contexto imediato esclarece o
conceito pretendido pelo autor.

C O N T E X T O IM E D IA T O
O contexto imediato, conseqüente, microcontexto ou sub-
seqüente é aquele que procede imediatamente ao texto. Quan-
do o texto está numa seqüência ordenada, é um termo ou
texto que sucede imediatamente o outro de m odo racional,
lógico e coerente.
Em lingüística chama-se microcontexto, o contexto ime-
diato da palavra considerada, isto é, a palavra que precede e a
palavra que segue, em oposição ao macrocontexto, que desig-
na um contexto maior.
160
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

O contexto imediato de um versículo ou texto é forma-


do pelos textos que vêm antes e depois do versículo considerado.
Deve-se:
1) verificar a situação histórica do texto;
2) saber quem foi o autor;
3) a quem o autor destinou o escrito;
4) e qual foi o propósito do autor.
Assim sendo:
• o contexto imediato de um versículo é o parágrafo pelo
qual é formado;
• o contexto de um parágrafo é o capítulo que o forma;
• o contexto do capítulo é todo o livro.

Livro
capítulo_______________________________________________

parágrafo______________________________________________
versículo_______________________________________________
parágrafo______________________________________________

Isaías I .I I afirma que: “De que me serve a m im a multi-


dão de vossos sacrifícios diz o SENHOR? Já estou farto dos
holocaustos de carneiros, e da gordura de animais nédios, e
não folgo com o sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem
de bodes”.
Sem tomar conhecimento do contexto de Isaías L I I con-
cluiremos, como fazem alguns intérpretes, que Deus está em
contradição com toda legislação do Antigo Testamento, pois
condena aquilo mesmo que Ele instituiu: os sacrifícios.11 Mas
verificando o contexto do versículo I I , veremos que tanto na

161
H e r m e n ê u n c a fácil e de sc o m p lic a d a

A R A como na ARC o capítulo é formado por sete parágrafos


( I . I ; 2,3; 4-9; 10-17; 18-20; 21-26; 27-31).
O versículo em apreço ( I I ) , está no quarto parágrafo,
então, o versículo 1 1 tem como contexto os parágrafos: 4-9 e
18-20, e estes parágrafos todo o capítulo I.
Muitos intérpretes têm argumentado que Deus, através do
versículo I I , rejeita a validade dos sacrifícios. Se admitirmos
essa interpretação como correta, teremos que aceitar, com base
na mesma seqüência lógica de textos, que Deus também está
invalidando as orações no versículo 15 (mesmo parágrafo!). Deus,
de fato, está invalidando os sacrifícios oferecidos por um povo
injusto e impuro. Estes textos esclarecem que até mesmo as for-
mas corretas e próprias de culto são inteiramente ofensivas ao
Senhor quando prestado por crentes não arrependidos que ten-
tam suborná-lo, a fim de que os poupe do castigo que mere-
cem.12 O sentido do texto, de acordo com o contexto subse-
qüente, é que Deus não aceita e não pode aceitar mesmo as
ofertas mais pródigas e mais dispendiosas que os não
arrependidos lhe possam colocar no altar.13Neste exemplo, Deus
está condenando em todo o capítulo a prática litúrgica destitu-
ida de piedade e justiça. Ao descobrir o título principal do capí-
tulo I, estamos prontos para saber como cada parágrafo ou
bloco se inter-relacionam com a temática geral do capítulo.
Disposição dos parágrafos de Isaías I
( I .! ) :T ítu lo e descrição do período do ministério profé-
tico de Isaías.
(2,3): A queixa do S enh o r con tra Israel que não o
conhece.
(4-9): A descrição do estado espiritual de Israel devido
ao formalismo.

!62
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

(10-17): A condenação do culto hipócrita.


(18-20): U m convite ao arrependimento.
(21-26): Jerusalém é julgada e purificada de suas mazelas.
(27-31): Os transgressores são julgados e condenados
juntamente com as árvores sagradas.
Deve-se observar que nem sempre os parágrafos ou blo-
cos, tal como se encontram nas atuais edições das Escrituras,
estão coerentemente divididos. As vezes bipartem as idéias
centrais do texto como se fossem unidades distintas. Em mi-
nha própria observação dos blocos que compõem o capítulo
I, o versículo 2 7 deveria fazer parte do sexto parágrafo, en-
quanto o sétimo deveria iniciar no versículo 28. Visto que os
versículos 2 5 -2 7 tratam do reavivamento da cidade rebelde.
N unca é demais insistir que:
• a exata extensão da delimitação do texto é conditio sine qua
nonN para uma compreensão perspicaz das unidades que ο
acompanham;
• determinar essas mtegridades lógicas subjaz uma com-
preensão dos movimentos sucessivos do texto, no decurso dos
quais produz, abandona e ultrapassa teses ligadas umas às ou-
tras numa ordem racional;13
• a delimitação dos textos auxilia na determinação do
conteúdo, de forma que o analista é capaz de saber se as uni-
dades são congruentes e perfeitamente unidas, ou se verifica
eli são de idéias e conceitos cuja estrutura dificulta a claridade
do texto, o chamado contexto irregular.
Deve-se por fim registrar que uma das formas caligráficas
comuns aos autógrafos, que perdurou até o século X d.C., foi
a escrita uncial, que, além de ser em letra maiúscula (daí uncial),
não possuía qualquer divisão entre as palavras, isto é, eram
16 3
H e r m e n ê u t i c a tácil e d e sc o m p lic a d a

redigidos em escrita contínua, sem espaço entre as palavras,


sem subdivisões de versículos, parágrafos ou capítulos, além
de não possuírem acentuações. Importantes manuscritos como
o Códice Sinaítico16, Alexandrino1' e o Vaticano16 foram re-
digidos em escrita uncial.
Correndo o risco de perturbar a clareza de nossa assertiva,
vejamos alguns p orm enores das divisões de capítulos e
versículos das Escrituras:
A Vulgata Latina foi a primeira versão dividida em capí-
tulos, obra de Estêvão Langton, que a introduziu pela primei-
ra vez na edição parisiense da Vulgata no século XIII. As divi-
sões de capítulos feitas por Langton eram extensas por toda
obra, possuindo textos relativamente curtos em cada capítulo.
Contudo, foi necessário subdividir ainda os capítulos, e foi o
que fez o abade dominicano H ugo de Samt Cher em 1250,
ao compilar a sua Concordância, subdividindo cada capítulo
em outros sete pequenos trechos designados pelas primeiras
sete letras do alfabeto (a-g)19, totalizando 929 capítulos para
o Antigo e 2 6 0 para o Novo Testamento. Mais tarde, o rabino
M ardoqueo N athan (1445), de m odo análogo, divide o Anti-
2 0 Testamento em versículos, cerca de 23.214, ficando a res-
O
ponsabilidade da divisão em versículos do Novo Testamento a
R obert Stevens (ou Roberto Estéfano), que em 1551, na ci-
dade de Genebra, dividiu o N ovo Testam ento em 7.959
versículos. Stevens também dividiu o Antigo Testamento em
versículos, introduzindo essa divisão numa edição latina da
Bíblia em 1555. A divisão feita por Stevens foi para substituir
a introduzida por Santes Pagnini, que introduziu em sua ver-
são latina dos originais, os versículos, porém, estes eram lon-
gos demais vindo a ser substituída pelo labor de Stevens. U m a

164
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

das razões pelas quais a divisão do texto bíblico apresenta cer-


ta subjetividade pode ser atribuída a ocasião em que Stevens
lançou-se a essa titânica tarefa. Segundo W ilson Paroschi20 a
divisão do texto bíblico foi feita quando Stevens viajava de
Paris a Lião, e que este foi confundido pelo balanço do animal
ao fazer tal divisão. A padronização da pontuação e a divisão
em parágrafos do texto foi feita por Johann A. Bengel (1 6 87 -
1752).
A guisa de epílogo, o leitor deve atentar para as constan-
tes revisões das principais versões bíblicas. Com o dizem os
revisores da ARA, na apresentação de maio de 1975:
“E certo que toda tradução, ou revisão, da Bíblia Sagrada,
ainda que levada a termo por íntegros peritos bíblicos, é sem-
pre trabalho humano, e como tal, sujeito a falhas; por outro
lado, no entanto, suscetível de melhoria” .21
Os parágrafos ou blocos já se encontram dispostos nas
atuais edições da Bíblia Sagrada.
1) N a ARA / RA, aparece com uma palavra cuja primei-
ra letra está em negrito (G n I.I );
2) N a ARC, a partir da edição de 1995, exibe a indica-
ção de parágrafos de conteúdo, seguindo o m odelo da A RA
(G n L I );
3) N a ECA (Edição Contemporânea de Almeida) e na Νλ/Ί
não aparecem em negrito, ao contrário, os inícios de parágrafos
aparecem edentados, enquanto os versículos que correspondem
ao mesmo seguem nas linhas contínuas (G n 1.9-13).
4) A Bíblia Viva divide os parágrafos em blocos distintos.
Cada parágrafo é antecedido pelos números dos versículos
que o correspondem.

165
H e r m e n ê u t i c a fác il e d e s c o m p lic a d a

5) A Trimtariana, não divide em parágrafos. Separa os


capítulos apenas em epígrafes.
E assim que na A RA (1956):
O Salmo 2 apresenta cinco estrofes (1-4; 4-7; 7-10; 10-
I2b; I2b), porém na 2 a edição da mesma (1 9 9 3 ) apresenta
apenas quatro (1-4; 4-10; I0 -I2 b ; I2b);
N a A RA (1 9 5 6 e 1993) I Coríntios 12 o versículo 31 é
bipartido (2 7 -3 Ia; 3 1b), formando um novo parágrafo, en-
quanto na ARC (1 9 9 5 ) o texto compõem-se do mesmo pará-
grafo (27-31). Os exemplos seguiriam ininterruptos por toda
a Bíblia. Q uando comparamos Bíblias de edição católica com
as protestantes, encontramos também disparidades entre ambas.
Os poéticos seguem o mesmo princípio divisório, exceto
que nestes, os blocos não são chamados de parágrafos, mas
estrofes e os versículos de versos.
O Salmo 139 surpreende não somente pela excelência
literária, mas também pela sublimidade de sua mensagem es-
piritual. Possui 24 versos, divididos em 4 estrofes (quaternário),
contendo cada uma 6 versos (sextilha). Vejamos a estrutura
deste maravilhoso poema:
I a estrofe: 1-6: A onisciência divina
2 a estrofe: 7-12: A onipresença divina
3a estrofe: 13-18: A onipotência divina
4 a estrofe: 19-24: O problema do mal
N a primeira estrofe (1-6): trata-se da onisciência divina.
O salmista afirma que Deus conhece:
a) o seu coração (I),
b) os seus pensamentos (2),
c) os seus caminhos (2),
d) as suas palavras (4).
166
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

Isso indica o homem moral por inteiro, toda nossa vida


interior e exterior. A omsciência é vista como uma realidade
controladora, que influencia toda nossa vida e nosso ser, e não
como uma simples abstração teológica ou filosófica.
N a segunda estrofe (7-12): trata-se da onipresença divi-
na. Esta, por sua vez, é expressa em cinco extremos:
a) altura (v.8a),
b) profundidade (8b),
c) leste (9a),
d) oeste (9b),
e) trevas ( I I ) .
N o verso 9: “Se tom o as asas da alva...”. E uma referência
poética ao nascer do sol e, portanto, ao leste: “e se habitar nas
extremidades dos mares”, referência ao mar M editerrâneo e,
portanto, ao oeste. N em altura, profundidade, leste e oeste,
luz, e ainda as trevas, podem ocultar-nos da presença de Deus
através de seu Santo Espírito (v s.7 ,II).
N a terceira estrofe (13-18): trata-se da onipotência divi-
na, claramente evidenciada na repetição do verbo formar (vs.
13, 14, 15). N esta terceira estrofe o salmista relaciona a oni-
potência à presciência divina: “Os teus olhos viram o meu
corpo ainda informe” (16, cf. 17, 18). Deveríamos terminar
de ler estes versos com a mesma admiração do salmista: “Que
preciosos para mim, ó Deus, são os teus pensamentos! E como
é grande a soma deles!” (v. 17).
N a quarta estrofe (19-24): trata-se do problema do mal.
Depois do salmista divisar todos os excelentes atributos divi-
nos, considera que uma visão clara como essa, só pode levar o
homem a abandonar o pecado e aborrecer o mal. Esta é a
razão porque condena os pecados dos outros (vs. 19-22) e o
dele próprio (v.23-24). Ao contemplarmos a Deus, à seme-
167
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

lhança do salmista e de Isaías (6), só nos resta ajoelharmos em


oração, tem or e confissão! 22
A estrutura do Salmo 139 sugere o título “Deus é louva-
do pelos seus atributos”, ou ainda “Deus deve ser adorado
pelo que é”.
Em cada um desses títulos verifica-se o relacionamento
com os blocos ou estrofes que o formam. O aluno deve ter o
cuidado de compreender satisfatoriamente a mensagem de cada
parágrafo ou estrofe, a fim de dar-lhe o tema correspondente,
de acordo com o título ou vice-versa.
H á salmos que possuem uma estrutura interna bastante
simples, sendo formados por poucas estrofes.
O Salmo I possui apenas duas estrofes, que além de se-
rem facilmente detectadas, são de uma coesão interna simples,
p o r tratarem apenas de dois temas: o justo e o ímpio:
I o) A bem-aventurança do justo ( I .I - 3 ) ;
2°) A brevidade dos ímpios (vs.4-6).
O mesmo exemplo pode ser verificado no Salmo 23:
I o) O Senhor é o nosso anfitrião (vv.I-3);
2 o) Deus está com os peregrinos (v.4);
3 o) Deus é o nosso acolhedor (vv.5,6).
N unca é demais repisar que o autor, quando termina a
seção de um parágrafo, usa certos termos que indicam este
término e outros vocábulos que sinalizam o início de outro.23
Deve-se atentar para:
• As alterações de gênero;
• As alterações temporais;
• As alterações regionais;

168
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

• As alterações de personagens;
• As alterações de conectivos lógicos.

C O N TEX TO REMOTO
O macrocontexto, também chamado amplo, imediato ou
remoto de uma palavra ou de um versículo, é um contexto
maior que a palavra ou o versículo que precede ou segue o
versículo considerado.
O contexto remoto é formado pelas passagens que não
vêm imediatamente antes ou depois do texto, mas que se refe-
rem ao assunto do texto.
Além de o exegeta contar com o esclarecimento do texto,
derivado do contexto imediato, ele também é auxiliado pelo
contexto remoto. Pois este é formado por todas as passagens
que se referem ao assunto do texto.
Já sabemos qual é o título do capítulo I de Isaías, agora é
necessário saber o que o restante do livro tem a dizer sobre o
assunto.
N o capítulo 29.13 de Isaías, o Senhor condena o culto
hipócrita e a cegueira espiritual do povo:
“O Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim,
e com a boca e com os lábios, me honra, mas o seu coração se
afasta para longe de mim, e o seu tem or para comigo consiste
só de mandamentos de homens, em que foi instruído”.
E interessante verificar que o livro de Isaías possui duas
principais divisões:
• A primeira, formada pelos 39 capítulos iniciais, cuja
temática é a “Denúncia dos pecados de Judá”;
• A segunda, formada pelos capítulos 40-60, cujo tema é
a “Consolação de Judá”.

169
H e r m e n ê u t i c a fácii e d e sc o m p lic a d a

Todo o capítulo I está inserido na primeira seção (1-39),


que é uma denúncia dos pecados de Judá. Assim, o capítulo é
o primeiro de um composto de 39.
N o contexto amplo, o im portante é verificar o tema ex-
posto pelo versículo, parágrafo e capítulo e como ele se relaci-
ona com o esboço geral do livro, e com temas semelhantes em
outros livros.
Já observamos como o versículo 1 1 de Isaías I está rela-
cionado à primeira divisão do livro. Agora veremos a rela-
ção entre a temática do capítulo I com os demais livros das
Escrituras.
R ecorrendo a temas semelhantes ao de Isaías I, em ou-
tros livros das Escrituras, estaremos aptos para entender o
que as Escrituras afirmam sobre o formalismo, o ativismo
religioso, e as práticas cúlticas destituídas de justiça e sensi-
bilidade espiritual.
Temos várias personagens que servem como exemplos:
a) os filhos de Eli ( I Sm 2.12-36);
b) o estado de Israel e dos seus sacerdotes em Malaquias
(M q I;2;3;4). Ao ler Malaquias I.6 -I4 , parece que estamos
ouvindo Isaías em I . I I .
Ao que parece, o contexto remoto de um texto nas pági-
nas do Novo Testamento se encontra aduzido nas próprias
citações que p re n d e m um a situação h istó ric a presente
(sincrônica) a um fato ou profecia pretérita.
Por diversas vezes, os escritores do Novo Testamento uti-
lizaram-se das profecias do Antigo Pacto — quanto a isso
nada novo] O que muitos ignoram, todavia, é que essas cita-
ções tanto acentuavam o cumprimento da profecia na histó-
ria, quanto ligavam o fato a um contexto remoto.

170
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

Verifica-se esse p ro ced im en to , com o p o r exemplo,


M arcos 7.6:
“Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hi-
pócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios,
mas o seu coração está longe de mim. Em vão, porém, me hon-
ram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens”.
Ao fazer referência a Isaías 29.13, Jesus cita a Escritura
respeitando o contexto em que foi pronunciado, enquanto ao
Diabo, condena-o por usar textualmente as Escrituras igno-
rando, porém, o contexto (SI 91. I I cf. M t 4.6).
Creio não ser necessário insistir no contexto da primeira
seção de Isaías (1-39), que condena os pecados de Judá, para
verificarmos como é idêntica a situação denunciada por Cris-
to aos seus contemporâneos.
Ao lermos o texto de Mateus 12.18-21:
“Eis aqui o meu servo que escolhi, o meu amado, em
quem minha alma se compraz. Porei sobre ele o meu Espírito,
e anunciará aos gentios o juízo. N ão contenderá, nem clama-
rá, nem alguém ouvirá pelas ruas a sua voz. N ão esmagará a
cana quebrada, e não apagará o morrão que fumega, até que
faça triunfar o juízo. E, no seu nome, os gentios esperarão”.
Q uanto mais estudamos sobre o contexto, mas impressi-
onado ficamos pelo respeito dos escritores sacros a esta nor-
ma. Mateus, ao citar Isaías, fê-lo dentro do contexto primiti-
vo. A referência é ao capítulo 42 de Isaías, precisamente na
segunda seção do livro que trata da “restauração ou consola-
ção de Judá”.
Os exemplos continuam: confira a denúncia de Mateus
I 3 . I 4 ,I 5 24 e compare com Isaías 6.9,10 ( I a seção), ou ainda
a citação de Cristo em Lucas 4.18,19 com Isaías 61.1,2.

171
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Se o próprio Cristo e os escritores sacros respeitaram o


contexto das Escrituras, não devemos fazer o mesmo?
O uso do contexto remoto por Cristo, e mais tarde pelos
apóstolos, inaugurou uma nova fase mterpretativa das Sagra-
das Escrituras: A interpretação cristológica, tendo as profeci-
as do Antigo Testamento como pilar, mas sendo explorada de
seu contexto maior e geral para um particular e especial.

C O N T E X T O G RAM ATICAL E LÓ G ICO

Contexto gramatical e lógico regem-se simultaneamente


pelas leis da gramática e da lógica. O contexto gramatical e
lógico confundem-se de m odo que é impossível falar de um
sem penetrar na esfera de ação do outro.
O contexto gramatical estuda as regras para a construção
e coordenação das frases, exclusivamente através da sintaxe, a
disposição das palavras na oração e das orações no período.
Entende-se por lógica a ciência do raciocínio correto. O
contexto lógico ocupa-se do estudo da coerência interna do pen-
sarnento e o m odo como são aplicados. O objeto do contexto
lógico é verificar a relação existente entre os termos de uma mes-
ma frase, e daí determinar sua viabilidade ou incoerência.
O propósito do contexto gramatical é verificar o nexo
dos termos com outros termos na mesma frase, e a relação da
oração com outras orações do mesmo período. N o contexto
lógico, entretanto, a conexão das idéias de uma determinada
sentença, oração ou frase, relativas a outras orações do mesmo
parágrafo, capítulo ou livro do mesmo autor.
O contexto lógico apresenta-se unido ao gramatical, prm-
cipalmente através do uso de palavras que estabelecem liga-
ções entre dois te rm o s ou duas orações, os cham ados

172
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

conectivos. Os conectivos podem apresentar-se como prepo-


sições, conjunções 2‫ נ‬, etc.
Os conectivos são palavras que ligam orações subordina-
das e coordenadas à anterior. Os conectivos são de duas espé-
cies: co o rd en an tes, pois ligam orações co o rden adas, e
subordinantes, que ligam orações subordinadas. Há, ainda,
outros conectivos: os pronomes relativos (que, quanto, quem,
o qual, onde, cujo — depois de substantivo), que ligam ora-
ções subordinadas adjetivas.

C onectivos Lógicos:

Causais
São conjunções subordmativas que ligam uma oração prin-
cipal a uma subordinada na relação de causa e efeito.
I ) Podem designar a razão pela qual algo acontece:
a) porque: Em I João 2.8-16, encontramos nove vezes a
conjunção causai “porque”. Q uando João afirma que aquele
que odeia a seu irmão “está em trevas, anda em trevas, e não
sabe para onde deva 1r;” a causa disto é “porque as trevas lhe
cegaram os olhos”.
b) por causa: Paulo afirma aos coríntios que o motivo
pelo qual muitos nas igrejas estavam fracos e enfermos, era
porque não discerniam o corpo de Cristo (v. 29): “Por causa
disto há entre vós muitos fracos e enfermos, e muitos que
dorm em ” (I Co 11.30). Enquanto o versículo 29 aborda a
causa, o versículo 30 aborda o efeito.
c) porquanto: O uso do conectivo causai “p o rq u an to ”
refere-se ao julgamento sobre àqueles que não crêem no
umgênito Filho de Deus: “Q uem crê nele não é condenado;
mas quem não crê já está condenado; porquanto não crê no
173
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p h c a d a

nom e do unigênito Filho de D eus” (Jo 3.18). A causa deste


julgam ento-m orte não é porque foram predestinados a isso,
mais sim, por uma decisão voluntária de não crer no Filho
de Deus.
N o u tra ocasião, Paulo ordena aos efésios que usem pru-
dentemente as oportunidades, “porquanto os dias são maus”
(E f 5.16).

Conclusivas
São conjunções coordenativas que ligam orações coorde-
nadas conclusivas.
2) Designam a conclusão da primeira oração:
a) portanto: Essa conjunção, como as demais que se se-
guem, ligam à oração anterior uma oração conseqüente que
exprime conclusão.
“Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mun-
do, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a
todos os homens, por isso que todos pecaram.” (R m 5.12).
N o parágrafo anterior (6 -1 1), Paulo refere-se ao homem
em sua condição de pecador: ímpios (v. 6), ninguém morreria
por um pecador (v. 7), Cristo morreu pelos pecadores (v. 8),
pecadores justificados pelo sangue (v. 9), os pecadores são mi-
migos de Deus (v. 10), os pecadores são reconciliados (v. I I ) .
Paulo conclui seu argumento anterior, “p o rta n to ”, e mi-
cia uma segunda oração usando um conectivo de subordina-
ção “assim com o”, ao mesmo tempo que conclui o período
explicando a razão porque todos os homens morrem, “por-
quanto”. O encadeamento lógico das proposições que-com-
põem este versículo, leva ao seguinte silogismo:
Pelo pecado entrou a m orte no mundo
Todos os homens pecam

174
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

Logo, todos os homens morrem


Confira os outros “p ortanto ” de Paulo aos Romanos: 2.1;
5.18; 8.1,12; 14.13; 15.2,7.
b) assim: U m a outra conjunção muito freqüente nas ora-
ções seguidas por conjunções coordenativas conclusivas é o
conectivo “assim”. Vejamos:
“Pois, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão
o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém
sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de D eus” ( I Co 2 .1 1).
N o versículo 10, Paulo já atestara que o Espírito Santo é
a q u E le que “ e sq u a d rin h a to d a s as coisas, m esm o as
profundezas de D eus”. A demonstração que ele ainda não
interrompeu o seu argumento é o uso do conectivo conclusivo
“pois”. Esse conectivo não apenas relaciona-se ao aspecto
discursivo da linguagem, mas cria naquele que lê ou ouve, uma
expectativa para o que sucede imediatamente. Assim como
somente o espírito do homem entende as coisas do homem
por causa da relação íntima existente entre ambos, Paulo con-
clui, afirmando que somente o Espírito de Deus compreende
as coisas de Deus, devido a sua relação íntima, ou seja,
indissociável com Deus. Neste exemplo, Paulo parte de uma
dedução primária, física e inferior, para uma outra, superior e
metafísica. Mas a surpresa que espera o leitor está no argu-
mento que sucede:
“Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o
Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer
o que nos é dado gratuitamente por D eus” (v. 12).
A conjunção explicativa “ora” prossegue o argumento
antecedente designando a relação lógica entre ambos. Se o
Espírito de Deus, que nEle está, conhece os mistérios de

175

,
H e r m e n ê u t i c a tácil e d e sc o m p lic a d a

Deus, este mesmo Espírito que também habita em nós, proce-


dente de Deus, revela-nos gratuitam ente o conhecimento de
D eus (v. 10).
O utros conectivos correspondentes:
* P o r isso: “P or isso, Deus entregou tais hom ens a
imundícia”(R m 1.24).
ψ Pois: “Se, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti
mesmo?” (R m 2.26; 3.28)

Adversativas
São conjunções coordenativas que ligam orações coorde-
nadas que expressam adversidade.
3) Designam adversidade:
a) mas: Essa conjunção e as da mesma classe ligam dois
termos ou duas orações de igual função, acrescentando-lhes,
porém, uma idéia de contraste.
“Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores,
por aquele que nos am ou” (R m 8.37).
Paulo alista dez inimigos contra o soldado cristão:
opositores (v.3I), acusadores (v.33), condenadores (v.34), tri-
bulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada
(v.35), porém, através da adversativa “mas”, acrescenta que
“em todas estas coisas somos mais que vencedores, por aquele
que nos am ou”.
N os textos de Romanos 7.19-25, Paulo usa quatro vezes o
conectivo “mas”, sempre contrastando uma sentença com a outra:
“N ão faço o bem... mas o mal que não quero, esse faço”
“Mas, se eu faço o que não quero”
“Mas vejo nos meus membros, outra lei...”
“Sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne”.

176
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

“M as” é o tipo de conjunção adversativa que nitidamente


indica adversidade de pensamentos ou idéias. Dentre esses
conectivos, é este o mais ácido.
b) contudo: “Por isso, não desanimamos; pelo contrário,
mesmo que o nosso hom em exterior se corrompa, contudo, o
nosso hom em interior se renova de dia em dia” (R m 4.16).
As idéias de adversidade e contraste nesse versículo fi-
cam evidenciadas pela oposição: hom em exterior/hom em
interior, corrom per/renovar, ânim o/desânim o, estagnação/
renovo (dia a dia).
Vejamos a adversidade demonstrada pelo texto paulino
de 2 Coríntios 13.4, onde “contudo” e “mas” se intercalam:
“Porque, ainda que tenha sido crucificado por fraqueza,
vive, contudo, pelo poder de Deus. Porque nós também somos
fracos nele, mas viveremos com ele pelo poder de Deus em vós”.
A primeira sentença, “crucificado em fraqueza”, é con-
trastada (contudo) com a sentença de oposição “vive pelo
poder de D eus”, enquanto por meio da adversativa “mas”, o
contraste ocorre entre somos fracos/m as viveremos, com ele.
O utros conectivos:
* porém: “uns, para honra; outros, porém, para desonra”
(2 T m 2.20)
~ entretanto: “E, entretanto, os seus discípulos lhe roga-
ram, dizendo: Rabi, come” (Jo 4.31)
* ainda: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e
dos anjos” (I Co I 3 .I )
" senão: “Q uem pode perdoar pecados, senão Deus?”
(M c 2.7)
Deve-se distinguir entre o “senão” de Marcos 2.7 do “se
não” de I Coríntios 13.1. Enquanto o primeiro pode ser tra­
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

duzido por “mas sim”, o segundo contudo, o “não” é advér-


bio de negação e o “se” conjunção, que pode ser substituído
por “e”, tal qual encontramos na ARC.
ψ aliás: “..para serdes vistos por eles; aliás [‫־‬A RA — “dou-
tro m o d o ”], não tereis galardão junto de vosso Pai, que está
nos céus” (M t 6.1)

Comparativas
São conjunções subordmativas que ligam orações subor-
dinadas comparativas.
4 ) Designam comparação:
a) assim, (assim) como, assim também: Assim, como e
assim também são conectivos subordinativos de comparação.
Estes geralmente, iniciam uma oração adverbial que encerra
uma comparação.
“[Assim] Como se dissipa a fumaça, assim tu os disper-
sas; como se derrete a cera ante o fogo, assim à presença de
Deus perecem os iníquos” (SI 68.2 ARA).
“[Assim] C om o suspira a corça pelas correntes das águas,
assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma” (SI 42.1 ARA)
Nesse dístico, a segunda linha poética desenvolve a pri-
meira elevando-a a um nível superior através do uso de um
conectivo de comparação “assim”. Como figura literária, é
claro estar se tratando de um símile, ou seja, uma comparação
entre dois objetos ou ações, normalmente precedido por uma
conjunção de comparação, a fim de impressionar o ouvinte
com algo semelhante. Tomamos a liberdade de decompor esse
dístico como se segue:
“[Assim] Com o suspira a corça pelas correntes das águas,
assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma” (SI 42.1).

178
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

Além da símile, a beleza poética desse canto está na su-


gestão verbal do suspiro da corça. O salmista evoca uma ima-
gem auditiva que projeta sentimentos de ansiedade, expectati-
va e necessidade. Esse recurso poético chamado de onomatopéia
também é usado no Salmo 93.3,4:
“Os rios levantam, ó Senhor, os rios levantam o seu ruí-
do, os rios levantam as suas ondas. Mas o Senhor nas alturas é
mais poderoso do que o ruído das grandes águas e do que as
grandes ondas do m ar”.
Em Eclesiastes 7.6 pode-se ouvir o riso tolo:
“Porque qual o crepitar dos espinhos debaixo de uma
panela, tal é o riso do tolo; também isso é vaidade”.
A imagem, típica do cenário palestino nos períodos de
seca e praga, foi usada como palco profético por Joel ( L I 7-
20), especificamente no verso 20:
“Também todos os animais do campo bramam a ti; porque
os rios se secaram, e o fogo consumiu os pastos do deserto”.
Qual uma solitária corça suspira audivelmente por água,
não escondendo sua sede e necessidade, assim o salmista não
consegue disfarçar sua paixão e sede pela “fonte de águas vi-
vas” (Jr 2.13):
“A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando
entrarei e me apresentarei ante a face de Deus? (SI 42.2)
O anelo pela presença de Deus é comparado ao suspiro
audível da corça, tal qual o salmista se expressa.
b) qual, (tal) qual, (tanto) quanto: Esses conectivos de
comparação são usados em diversas ocasiões. N o Cântico dos
Cânticos, é usado principalmente para exaltar a graça e a be-
leza do cônjuge. Vejamos:

179
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p h c a d a

“Qual o lírio entre os espinhos, tal é a minha amiga entre


as filhas. (Tal) Q ual a macieira entre as árvores do bosque, tal
é o meu amado entre os filhos” (C t 2.2,3).
Nesse epitalâmio, o esposo e a amada exaltam mutua-
mente as qualidades um do outro. Em 2.1, ela se expressa
afirmando ser “a rosa de Sarom”. Sarom era a planície costei-
ra do M editerrâneo entre Jope e Cesaréia. Era uma planície
fértil com muita água e vegetação rica. Ao afirmar que era a
“rosa de Sarom”, provavelmente esteja falando de algum tipo
de rosa que se destacava das demais pela sua singeleza e bele-
za. O esposo responde à amada, afirmando que assim como o
lírio se destaca entre os espinhos, tal é a amada entre as demais
virgens. Ela responde declarando que assim como, uma maci-
eira se destaca entre as árvores da floresta, assim o amado
entre os demais jovens.
Cada uma dessas comparações evoca uma imagem de con-
traste, a fim de dignificar e exaltar as qualidades do cônjuge. A
amada, ao escolher floresta em vez do pomar, o faz para que o
contraste mais se acentue. O valor de uma macieira numa fio-
resta é muito superior aquela encontrada no pomar.

Condicionais
São conjunções subordinativas adverbiais que ligam ora-
ções subordinadas condicionais.
5) Designam condição:
a) exceto·, excetua: As conjunções condicionais ligam duas ora-
ções, principal e subordinada, pondo a subordinada em relação
de condição em que se indica uma hipótese ou uma condição
necessária para que seja realizado ou não o fato principal.
“... e todos foram dispersos pelas terras da Judéia e da
Samaria, exceto os apóstolos” (A t 8.1c).

180
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

exceto Calebe, filho de Jefoné, o quenezeu, e Josué,


filho de N um , porquanto perseveraram em seguir ao Senhor”
(N m 32.12).
“Exceto”, em cada um desses textos, pode ser substituído
por “salvo”. O versículo de Números 32.12 biparte o versículo
I I , e não deve ser considerado distinto deste, ao contrário,
segue a linha lógica da narrativa.
Em I Coríntios 15.27, Paulo, tratando da subordina-
ção de todos e tud o à Cristo, condiciona esse dom ínio nes-
tes termos:
“Porque todas as coisas sujeitou debaixo de seus pés.
Mas, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, claro
está que se excetua aquele que sujeitou todas as coisas.”
Vej am os as trê s d iv isõ es ló g icas d e ste d is c u rso ,
exemplificado pelos uso dos conectivos:
1) Explicativo: P o r q u e todas as coisas sujeitou debaixo
de seus pés.
2) Adversativo: M as, quando diz que todas as coisas lhe
estão sujeitas,
3) Condicional: claro está que se EXCETUA aquele que su-
jeitou todas as coisas
b) contanto que: “A mulher casada, está ligada pela lei todo
o tempo em que o seu marido vive; mas, se falecer o seu mari-
do, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no
Senhor” (1 \ C o 7.39).
y
“M as em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto
que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que
recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da
graça de D eus” (A t 20.24).

181
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Em cada um dos dois textos, “contanto que” pode ser


substituído por “desde que”. N o primeiro texto, a viúva, é
livre para casar-se. N o entanto, Paulo admoesta que ela não
seja precipitada, condicionando a nova união “no Senhor”.
“C ontanto”, inicia a oração subordinada estabelecendo uma
condição necessária para o novo matrimônio: “no Senhor”.
Texto célebre, usado por diversos missionários e pastores,
o versículo 24 de Atos 20, o doutor dos gentios, estabelece uma
condição para expor-se ao martírio: “contanto que cumpra com
alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor
Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus”.
Paulo não era um cavaleiro errante a procura de redemo-
inhos para a batalha, e dispõe sua própria vida sob a condição
de cumprir alegremente a carreira e o ministério recebido da
parte do Senhor, não de outro modo.
Registre-se por fim que as conjunções coordenativas e as
subordmativas, que mtroduzem orações, não têm, isoladamente
nenhuma função sintática. Todavia, semelha acrescentar às
observações anteriormente expendidas, que o conectivo pode
também exercer função sintática de sujeito de objeto direto, de
objeto indireto, de complemento-nominal, de adjunto adnominal, de ad-
junto adverbial, preduativo e agente da passiva - os pronomes relati-
vos. Mas isto foge dos limítrofes de nosso manual.

QUADRO DE ALGUNS CONECTIVOS LÓGICOS

R azão : porque
1 por causa
I porquanto

182
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

C onclusão : portanto
assim
por isso
pois

A dversidade : mas
contudo
porém
entretanto
ainda
senão
aliás

C omparação : assim, assim como,


assim também
como, qual, tal qual
tanto quanto, tanto

C on d içã o : exceto
excetua
contanto que
desde que

Pelo que se depreende do que atrás foi dito, é que o con-


texto gramatical e lógico unem-se naturalmente no discurso
literário, cada um emprestando ao outro suas normas.
N o contexto gramatical, o hagiógrafo respeita as regras
gramaticais; no lógico, as regras do raciocínio correto.
Com o a pouco perlustramos, o sentido de um texto, se-
gundo a gramática, não é o resultado de cada uma de suas
partes, mas é um todo relacionado de forma específica com
183
H e r m e n ê u t i c a fácil e de sc o m p li c a d a

suas partes. Daí, o cuidado que o hermeneuta deve ter para


não dar devida ênfase a expressões menos importantes. O m-
té rp re te deve estar aten to entre a relação da e stru tu ra
(morfologia) e da função (partes do discurso) com a mterpre-
tação das Escrituras.
Os substantivos são as palavras com que se nomeia algo.
N a Bíblia temos vários exemplos deles, como por exemplo:
a) de pessoa (Pedro, Paulo);
b) de lugar (Betânea, Egito);
c) de coisa (pedra, porta);
d) de conceito ou idéia (justificação, pecado, graça);
e) de ação (ascensão, crucificação), etc.26
N o contexto gramatical, não é apenas necessário como
também plausível, que o intérprete faça um esquema das divi-
sões das orações do texto, a fim de que a seqüência lógica do
pensamento do autor fique mais patente, além, é claro, do
período e sua estrutura.
Ú til ao estudante é o emprego do método lingüístico-
gramatical também chamado de léxico-smtática. Esse método
combina o estudo etimológico dos vocábulos e a relação deste
term o com as partes frasais que o acompanha.
Enquanto na análise léxica ou lingüística a ênfase está no
sentido etimológico, sua origem (étimo), desenvolvimento
(diacrônia), e o sentido deste termo empregado pelo autor
(sincronia), a gramatical ou sintática verifica as relações funci-
onais de cada uma das partes integrantes da frase.2‫־‬

Análise Etimológica
O termo etimologia procede da língua de Homero. E
formado por dois termos: etyrnos, que é traduzido por “verda­

184
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

de” e, logos, “tratado, palavra, discurso ou relato”. Chama-se


de etimologia o ramo da lingüística que se ocupa da origem,
derivação e desenvolvimento dos vocábulos. O alvo do estudo
etimológico é proporcionar um entendimento claro do vocá-
bulo em análise, a fim de que o leitor hodierno compreenda
os matizes lexicais, culturais e semânticos que circundam o
lexema em apreço.
A análise etimológica precede a gramatical. N ão em im-
portância, pois as duas são igualmente necessárias, mas por
razões metodológicas. N o s variegados exemplos apresentados
nesta obra provamos o quanto é útil esse recurso hermenêutico.
Acreditamos porém, ser mais fácil apresentar os perigos e fa-
lácias deste método, quando usado inabilmente pelo intérpre-
te, do que as regras seguras de análise, composição e interpre-
tação. As vezes, o interpretante é encantado pela semelhança
epidérmica do seu achado e não acura, contrasta ou testa sua
conclusão acumulando prejuízos estratosféricos à intenção
autoral. N a verdade, esse método de análise textual se movi-
menta em busca do enlace e do divórcio, do falso e do verda-
deiro, do real e do imaginário, e por isso as aparências fugidias
e ambíguas devem ser rejeitadas. A guisa de remate deste tópi-
co, vejamos como opera o método:
Ler o parágrafo várias vezes até compreender-lhe a tessitura,
o sentido; a mensagem que o literato deseja comunicar. Ler não
é pouco, se entendermos bem o que significa o termo.
Selecionar o termo-chave ou central do texto. Os vocá-
bulos que se repetem propositalmente, os termos teológicos,
litúrgicos ou cerimoniais que estão carregados de sentido pneu-
mático (graça, expiação, purificação, redenção, etc.).

185
H e r m e n ê u t i c a fácil e de sc o m p li c a d a

Exclusivamente este último, a terminologia usada para


referir-se a redenção abrange diversos verbos e substantivos
que participam do mesmo campo semântico.
Os verbos:
agorazõ (αγοράζω = comprar, adquirir, I Co 6.20);
exagorazõ (εξαγοράζω = redimir, com prar de volta,
G1 3.13);
lytrôõ (λυτρόω = libertar ao pagar um resgate, redimir,
resgatar, I Pe I.I8 ).
E os substantivos:
lytron (λυτρον = preço de libertação, resgate, M t 20.28);
antilytron (αντί λυτρον = resgate, preço pago para liber-
tar um escravo, I Tm 2.6), e muitos outros, são termos que
merecem atenção do exegeta quando encontrados no texto.
O estudo etimológico de um vocábulo conduzirá o exegeta
ao estudo e a compreensão da estrutura e formação da palavra
em apreço. Para tanto, o expositor terá que se imiscuir ao fas-
cmante estudo dos sufixos formadores de substantivos, de
adjetivos, de verbos, além é claro, de imergir na análise das
palavras compostas.28
C om ajuda de uma concordância bíblica verificar o uso
do term o em contextos anteriores e posteriores ao escrito e ao
autor em análise, a fim de compreender o uso diacrônico e
sincrônico do vocábulo.
Isto deve ser feito para que o hermeneuta evite a atribuição
de um sentido recente de uma palavra ao vernáculo fossilizado
das Escrituras, o chamado anacronismo semântico29, ou senti-
do anacrônico. Para evitar esta e muitas outras falácias o exegeta
deve conhecer as significações que o termo adquiriu no decor-
rer do tempo, e o sentido corrente ou específico usado pelo

186
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

autor naquele contexto específico. Beekman e Callow, na opus


magnum A Arte de Interpretar e Comunicar a Palavra Escrita ~ Técnicas de
Tradução da Bíblia} tratando sobre a equivalência léxica entre as línguas —
quando coisas ou eventos são desconhecidos na língua receptora,
assinalam que no caso da tradução:
“... não existe uma distinção clara entre o que é anacrôni-
co e o que não é. Contudo, há uma gradação que vai do mais
anacrônico até 0 menos anacrônico... Provavelmente, não há hoje ne-
nhuma versão do Novo Testamento que não inclua certo grau
de anacronismo. N o entanto, casos sérios de anacronismo podem e
devem ser evitados” 30 (grifos nossos).
Entre os vários exemplos apresentados na obra, citam
quatro substitutos culturais que representam a gradação de
anacronismos aceitáveis e inaceitáveis na tradução dinâmica
da Bíblia, destes citamos apenas dois: “Ninguém costura re-
mendo de pano novo em veste velha” (M c 2.21). Ao traduzir
o texto para algumas tribos aborígines da Austrália, que não
conhecem o pano, e daí não existe sentido textual para eles,
Beekman e Callow consideram aceitável na tradução dinâmica
a substituição da imagem “pano” por “pele de gambá”, visto
ser essa pele o artefato usado para remendar um tapete nessas
tribos. De certa forma este substituto cultural possui um cer-
to grau de anacronismo semântico, entretanto, “deixar de usar
um substituto cultural pode diminuir a fidelidade dinâmica, e
provavelmente alguma parte da mensagem original não será
entendida”.1'‫ ־‬Já o texto de Lc 12.3: “... será proclamado dos
eirados” ( “dos telhados”, na BLH), um substituto por demais
anacrônico, diminuindo a fidelidade histórica seria “será anun-
ciado pelo rádio”.''2 Recomendamos aos interessados a leitura
de Carson, Beekman e Callow, para aqueles que desejam co-
nhecer todas as nuanças desta ciência.
187
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

• Consultar a palavra assinalada na língua original. Tra-


duzi-la. Procurar o significado da mesma em um dicionário
hebraico ou grego. Observar se o autor empregou o termo em
sentido próprio ou conotativo.
• C o n s u lta r o te r m o no s d ic io n á rio s te o ló g ic o s
especializados para apreender o sentido original, desenvolvi-
mento histórico, campo semântico e sentido usado por diver-
sos hagiógrafos.
• Ser cuidadoso com os termos chamados de hapax legomenon
(isto é, termos que aparecem apenas uma vez na Escritura).
Neste caso é im portante reconhecer as diferenças apre-
sentadas por Louis Berkhof, que divide estes em duas espéci-
es: absolutos e relativos.33 O primeiro, quando um termo apa-
rece uma única vez em todo acervo de literatura conhecida. O
segundo, quando há apenas um exemplo nas Escrituras, josé
M . M artinez assevera que na ocorrência de um hapax legomenon,
o te rm o só p o d e ser “ d e te rm in a d o ou sim p le sm e n te
conjecturado pelo contexto ou pela comparação de palavras
análogas de outras línguas”.34 Q uanto a isto, o expositor deve
tranqüilizar-se, pois os bons dicionários e com entários
exegéticos sempre assinalam estes termos raros.
Recorrer sempre ao contexto, seja ele inicial, imediato ou
remoto. Pois mesmo que uma palavra seja polissêmica, o con-
texto em que foi usada indicará o sentido pretendido pelo
autor. Deve-se, portanto, atribuir prioridade não ao versículo
isolado, mas a estrutura geral do texto — ao bloco que com-
põe cada um dos versículos.

C O N T E X T O H IS T Ó R IC O

Os contextos subseqüentes e remotos são muito úteis para


a interpretação de qualquer texto bíblico. N ão podemos igno­

188
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

rar, entretanto, os matizes histórico-culturais e literários que


enriquecem e adornam a mensagem de determinados versículos.
Esta realidade parte da premissa de que o hagiógrafo não é
uma tabula rasa33, isto é, um indivíduo alheio à cultura de seu
tempo e desprovido de qualquer saber que o habilite a ter um
pré-conhecimento da realidade.36
A inspiração divma sobre os sacros escritores não elimi-
nou suas idiossincrasias e, portanto, valeu-se do registro ope-
rado pelos órgãos dos sentidos e da cultura do tempo de cada
um. As vezes, nos escritos sacros, vazam essa cultura dando
beleza e fortalecendo a mensagem. Q uando não há uma cita-
ção literal de algum texto literário, escreve-se condenando
muitos dos costumes licenciosos e pagãos da época.
Muitos leitores se surpreendem com a ironia, explosão de
ira, eufemismo e desabrido usado por Paulo em Gálatas 5.12:
“Tomara até se mutilassem os que vos incitam à rebeldia”.
O pom o da discórdia nesse texto é a circuncisão. Esse
texto é polimorfo em seu contexto. Se valermo-nos do con-
texto histórico, pode ser que seja uma referência aos ritos de
castração dos sacerdotes, próprios do culto à deusa Cibele, na
Galácia.
O culto a Cibele foi introduzido em Roma na época da
segunda guerra púmca. A deusa era representada com os tra-
ços e a aparência de uma mulher robusta que trazia uma coroa
de carvalho, torres sobre a cabeça e uma chave que levava nas
mãos indicando os tesouros que a terra guarda no inverno e
concede no verão. Segundo a mitologia greco-romana, Cibele
enamorou-se perdidamente pelo formoso jovem frígio Atis, a
quem confiou o cuidado de seu culto, com a condição de que
não violaria seu voto de castidade. Atis violou o juramento,

189
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

casando-se com a ninfa Sangárida, sendo esta m orta por Cibele.


Atis, em um acesso de frenesi e torturado pela m orte de sua
amada, se mutilou. Cibele, para evitar o suicídio de Atis, o
transforma em pinheiro.
Ao som de oboés e címbalos, nos cultos à deusa, todo
tipo de licenciosidade era cometido — o som da música con-
trastava-se com os uivos dos sacrificadores.
U m a porca, uma cabra ou um touro, era oferecido em sa-
crifício a Cibele para lembrar a fertilidade da deusa. Eram-lhe
consagrado o buxo e o pinheiro em memória do desafortunado
Atis. Seus sacerdotes eram os Cabiros, os Conbantes, os Curetes,
os Dáctilos do monte Ida, os Semíviros e os Telquinos, quase
todos eunucos, trazendo à memória a sorte de Atis.
Estes sacerdotes, chamados também de Gálos, se castra-
vam ou emasculavam-se, retirando os testículos com um pe-
daço de cerâmica. Neste caso seria como se o apóstolo afir-
masse: “Se para ser salvo e consagrar-se à Divindade é neces-
sário circuncidar‫־‬se, porque não fazem eles como os sacerdo-
tes de Cibele?”.
N o contexto veterotestamentário, a castração era um impedi-
m en to à participação das assembléias santas ( D t 2 3 .1 ).
A invectiva de Paulo à luz destes contextos torna-se mais veemente.
“Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos con-
duz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a
fragrância do seu conhecimento” (2 Co 2 .I4 - A R A \
Paulo, na função de mestre e pedagogo, exacerba no uso
de imagens visuais para interiorizar o seu ensino nos discípu-
los. Apela aos estímulos de seus ouvintes, projetando uma
imagem dos conquistadores romanos sobre um ensino parti-
cular das Escrituras.

190
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

O texto, sem dúvida, refere-se à exposição dos vencidos


ao escárnio por parte da soldadesca romana e do populacho,
que concorriam para essas cerimônias. Socorramo-nos com
um fato histórico, que provavelmente lançará luz ao contexto
histórico do texto.
N o ano 51 d.C., q u a n d o os ro m an o s d e rro ta ra m
Caratacus, eles bem que poderiam tê-lo matado imediatamente
e contar a história do massacre depois. Porém, não o fizeram.
Levaram o líder subjugado e o arrastaram pelas ruas de Roma,
fazendo uma exibição nacional de que os romanos mais uma
vez haviam triunfado sobre seus inimigos.
A marcha triunfal exibia publicamente Caratacus e su-
bordmados ao escárnio; quanto mais humilhado era o cativo,
mais aumentava a glória dos conquistadores. Estes, arrastados
pelos calcanhares atrás das carruagens, contrastavam com a
fumaça adocicada do incenso que se seguia adiante deles.
Os templos com suas portas escancaradas, adornados de
perfumadas flores; sobre os altares era queimado incenso à
divindade. A fragrância dos conquistadores inebriava os pul-
mões dos vencidos.
N ão havia necessidade de posicionar-se em praça públi-
ca e, à vista de todos, proclamar como foi a vitória sobre os
vencidos. Caratacus, como um troféu, estava lá para que to-
dos o vissem.
N ossas traduções assinalam que Deus é o agente da vi-
tória do crente, “Ele nos faz triunfar através de C risto”. O
texto não se refere só à vitória do crente, mas antes, à vitória
de Deus sobre o crente — onde uma aporia é demonstrada:
vencendo Deus ao crente, este se to rn a vitorioso por sua
submissão a Deus, Jacó é um exemplo dessa verdade. Assim,

191
H e r m e n ê u t i c a fácil e descompliccida

o crente cativo é exibido p o r C risto. P or em préstim o,


C ham plín comenta:
“Portanto, o sentido dessas palavras é que os próprios
apóstolos sejam vistos aqui como os cativos de Deus, aqueles
sobre quem o Senhor obtivera total vitória, e a quem exibia
como troféus de sua missão remidora, em Cristo Jesus. Essa
exibição, pois, seria feita para benefício do resto do mundo,
perante quem os apóstolos passariam em marcha, a fim de que
outros pudessem unir-se à parada triunfal, deixando-se sujei-
tar ao mesmo poder divino. Porém, ceder ao poder divino é
uma vitória humana. Dessa forma é que os homens verdadei-
ramente triunfam ”.37

C O N T E X T O L IT E R Á R IO
Os escritores estavam familiarizados não somente com a
cultura contemporânea à sua época, mas também com a lite-
ratura poética e filosófica.
Chama-se de contexto literário (no âmbito bíblico) o con-
texto que é próprio à literatura e publicações correntes no perí-
odo vetero ou neotestamentário, e que servem como fundo lite-
rário para a compreensão dos matizes literários das Escrituras.
Segundo Tenney:
“N o tempo de Augusto, Roma acomodou um grande
avivamento literário, do qual o poeta Virgílio era um dos prin-
cipais. Sua opus mais conhecida, Eneida, glorifica a Roma de
Augusto. A época de Augusto foi o período áureo da poesia e
literatura latina. Foi adornada por Horácio, que escrevia suas
poesias nos moldes gregos, e por Ovídio, cujas histórias da
mitologia grega e romana revelam as atitudes morais contem-
porâneas do povo romano — moralidade esta capaz de es­
1 92
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

pantar qualquer habitante de Sodoma! Mais tarde, Sêneca, o


estóico, e tutor de Nero, produziu ensaios filosóficos e tragé-
dias dramáticas. Petrônio compôs uma novela, que ainda hoje
é uma das melhores fontes de conhecimentos da vida comum
dos seus tempos. N ão muito depois destes, surgiram Plínio, o
Velho, com sua H istória Natural, os historiadores Tácito e
Suetômo e, depois destes, o satirista Juvenal ”.38
Ao contexto literário alia-se o estudo das formas literári-
as. Esse m étodo combina a crítica dos gêneros literários com a
investigação de sua história. A crítica dos gêneros literários
investiga-os com base em determinados critérios. A história
dos gêneros é a história de seu uso no quadro da história do
Oriente Médio, do Oriente Próximo e da Europa.39
Qualquer um desses autores sempre apresenta, em suas
literaturas, várias fontes de pensamentos que se encontram
relacionadas com a composição e coerção literária de vários
textos neotestamentários.
O apóstolo Paulo foi o escritor sacro que mais se utilizou
do contexto literário e cultural de sua época, provavelmente
d e v id o sua c id a d a n ia ta m b é m ro m a n a e a sua vasta
intelectualidade, usando aqui e acolá vários recursos oratórios,
tais como o “traductio” e a “diatribe”.
• traductio era uma técnica retórica usada pelos escritores
latinos em que o escritor repetia insistentemente um vocábulo.
• Em 2 Coríntios 3, por exemplo, Paulo repete o termo
kanoi (capazes) por três vezes ( ikanoi, ikanotes e ikanosem, vs.5,6);
• gramma (letra) por seis vezes Çengegrammene — 2 vezes;
grammatos, gramma c grammasin, vv. 2, 3, 6 (2 vezes);
• diakonetheisa (ministrada), diakonous, diakonia (3, 6-9), e doksa
por oito vezes (7,8,9,10,11).

193
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

• Em Efésios 1.3, eulogetos (bendito), eulogesas (abençoou),


eulogia (bênçãos).
O Novo Testamento mostra que este era um recurso usa-
do por outros escritores.
Tiago, no capítulo 1.22-26 repete poietai (fazer) por qua-
tro vezes, e nos versículos 26, 2 7 repete threskeia (religião) por
três vezes.
O propósito do traductío era reforçar o sentido imediato
do texto através da repetição.
O principal propósito da d i a t r i b e grega é fazer com que
o escritor entre logo em contato com os seus leitores, como
um orador com seus ouvintes, daí, o termo significar coló-
quio, sendo definido como uma forma literária com elemen-
tos de tratado e de diálogo.
Paulo usando o recurso da diatribe aos seus leitores:
• apostrofa-os, faz perguntas (R m 3.13; G1 3.19),
• introduz um adversário fictício (R m 9.19; I I . 19)
. faz objeções (R m 2.1,3; 9.20; 14.4,20,22)
• e gosta de contrastes (D eu s/m u n d o ; justiça/pecado;
e sp írito /c a rn e /; espírito/letra; fé/lei; velho hom em /novo
homem; lon g e/p erto ).41
N o s escritos paulmos ocorrem certas alusões aos poetas
e escritores gregos e latinos com o Píndaro, Aristófanes,
Epimênedes, Sêneca e muitos outros.
Em Atos dos Apóstolos (17.28), Paulo faz citação de um
texto poético familiar aos atenienses: “... como também alguns
dos vossos poetas disseram: Pois dele também somos geração”.
O uso do pronome na segunda pessoa plural mdica que
mais de um poeta havia se expressado nesses termos. Nesse
texto, Paulo cita a poesia “F e n ô m en o s/P h a in ó tn e n a ” de Arato

194
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

(3 1 5 -2 4 0 a.C.), poeta, astrônomo e filósofo estóico, origina-


rio da Cilícia, onde o apóstolo nascera, e também, a poesia
“H ino a Zeus”, de Cleantos (3 3 1 -2 3 2 a.C.), filósofo, disci-
pulo e sucessor de Zenão, o fundador da escola estóica.
“Enche ele (Zeus) também o mar, todo o ribeiro e baía;
E todos, em tudo, precisamos da ajuda de Zeus,
Pois também somos sua geração”
(Fenômenos, 1-5).42
O contexto histórico e o literário, às vezes, convergem si-
multaneamente esclarecendo o sentido de determinados textos.
E o que ocorre em Romanos 7.24: “Miserável homem
que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?”
O sentido literal é que o corpo, por meio da alma pecami-
nosa, é controlado pelo princípio do pecado-morte. Mas o sen-
tido histórico pode também facilitar o entendimento da mensa-
gem. N o mundo antigo, costumava-se castigar um assassino por
seu crime, amarrando-o membro a membro com a sua vítima.
N a medida em que o cadáver se decompunha, o criminoso sen-
tia todo o horror sufocante desse estado. E provável que o
versículo 24 seja o próprio grito do condenado: “talaiporos ego
anthropos! tis me husetai ek tou thanatos toutou”.
O contexto literário também pode auxiliar a interpretação
desse versículo. Virgílio ( Eneida) escreve sobre essa prática tam-
bém como uma forma bárbara de tratar prisioneiros de guerra:
“Q ue língua pode descrever tais barbaridades,
O u enumerar os massacres da espada implacável dele.
N ão foi bastante que os bons, os inocentes sangrassem;
Ainda pior, ele amarrou os m ortos aos vivos;
Estes, membro a membro, rosto a rosto, ele fixou;
O crime monstruoso! crime sem precedente.

195
H e r m e n ê u t i c a fácil e de$compl1c<i*H;i

Os vivos, sufocados com fedor, miseráveis deitado lá;


E, neste abraço repugnante, aos poucos, morreram!” 4‫'׳‬
Em I Coríntios 15.32, “comamos e bebamos, porque
amanhã morreremos” é a mesma expressão que se encontra em
Isaías 22.13. Escavações arqueológicas descobriram numa al-
deia vizinha aTarso, Anquiale, uma estátua de Sardanapalo Tun-
dador da cidade de Tarso) com a seguinte inscrição: “Come,
bebe, desfruta a vida. O resto nada significa”. E bem provável
que além da citação de Isaías, Paulo tivesse consciência dessa
declaração, tendo visto a estátua por mais de uma vez.44
Devemos considerar que Paulo, ao fazer citação de um
trecho de qualquer fonte literária, está usando um recurso
retórico comum em seus dias. O filósofo e escritor Sêneca fez
largo uso deste método, e em Cartas a Lucilío faz citação de
Virgílio quando diz:
“N o coração de cada homem de bem ‘habita um deus’.
Qual é ele' N ão sabemos; mas é um deus” (grifo nosso).4:1
Ainda na mesma obra, Sêneca orienta ao seu aluno para
que depure a sua idéia da divindade. Segundo o filósofo, Deus
desce entre os homens. Escreve:
“Os deuses não têm por nós nem desprezo, nem inveja;
eles nos querem junto de si e nos estendem a mão para nos
ajudar em nossa ascensão. Admiraste que um homem possa
chegar junto dos deuses: E Deus que vem entre os homens.
Além disso, ele se faz próximo, desce neles. Sem Deus, não
existe alma sábia”.46
Ao lermos este texto, somos capazes de estatuir que o
m undo do Novo Testamento anelava pela presença real de Deus
entre eles. Qual não foi o impacto da mensagem de João I .I -
14,16-18 e Marcos I .I O - I I no m undo de então?

196
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

Em T ito 1.12, o apóstolo afirma: “U m deles, seu pró-


prio profeta, disse: Os cretenses são sempre mentirosos, bes-
tas ruins, ventres preguiçosos”.
O apóstolo Paulo faz citação, nesse texto, de um precon-
ceito já existente no ambiente helenista contra os cretenses.
Esse hexâmetro é atribuído a Epimênides de Cnossos, poeta
do século V I a.C., escritor dos poemas Minos, Teogonia e
uma coleção de oráculos. A tradição grega chamava-o de pro-
feta, outros consideravam-no poeta, e até mesmo reformador
religioso. Champlin afirma que alguns o tem como um dos
sete homens mais sábios da cultura grega. E a citação de que
os cretenses são mentirosos é porque, veja só, eles gabavam-se
de guardar a tumba de Zeus! O apóstolo Paulo conhecia tanto
a cultura e caráter dos habitantes de Creta que confirmou o
poema no versículo 13: “Esse testemunho é verdadeiro”.
Os escritores sagrados usaram vez por outra, não somen-
te a poesia e filosofia do seu tempo, mais também provérbios
e textos apócrifos.
Em 2 Pedro 2.22, o apóstolo cita provérbios 26.1 Ia e
complementa: “e a porca lavada volta a revolver-se no lama-
çal”. A segunda parte desse provérbio combinado é de fonte
não bíblica e desconhecida. Entretanto, os dois animais (cão
e porco) já haviam sido usados por Cristo em M ateus 7.6, e
devido aos seus hábitos imundos, serviram para os filósofos
e poetas ilustrarem os vícios morais — um indivíduo era
chamado de cão por causa do desregramento moral vivido
por essa pessoa. E o caso por exemplo, do pai da filosofia
cínica (cinismo), Diógenes de Smope, que foi chamado de
kúmkos, isto é, “parecido com um cão” (daí cinismo), por
satisfazer seus desejos publicamente. Certa ocasião m astur­

197
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p lic a d a

bou-se em público a fim de m ostrar como é fácil axpessoa


satisfazer seus desejos libidinosos.
O texto de Judas 9, desde Origenes, é considerado cita-
ção do livro pseudepígrafo chamado “Assunção de M oisés”.
N este livro consta que “o Diabo não queria perm itir que
Miguel sepultasse a Moisés porque o corpo de Moisés per-
tencia à ordem material, acusando-o de homicida e, por isso,
não merecia um sepultamento digno. Miguel retruca, afirman-
do que o Senhor é o criador e governador do mundo material,
pelo que Satanás não possuía qualquer direito de se declarar
sobre o assunto...”.4'
Sem mencionar as diversas figuras apocalípticas usadas
no livro das Revelações que eram comuns a livros congêneres.
M uitas dessas declarações literárias e outras semelhantes eram
ouvidas com freqüência entre os filósofos estóicos, poetas la-
tinos e do conhecimento do povo.
Esses conceitos refletem o panteísmo estóico e os ensi-
nos das religiões de mistérios, pois derivavam de autores pa-
gãos, honrando deuses pagãos. Entretanto, Paulo empregou
trechos dos poemas destes, direcionando certas verdades
distorcidas para a adoração do único Deus.
N o Antigo Testamento, a combinação entre cultura e 11-
teratura não deixa de ser menos interessante. Existia forte m-
fluência egípcia na terra de Canaã antes da chegada dos hebreus.
Isto quer dizer que os hebreus foram atingidos não somente
pela cultura canamta, mas também pela influência que a cul-
tura egípcia mantinha em Canaã. Semelhantemente ocorre no
dom ínio literário; basta observar a influência do hino de
Akhenáton (Amenófis IV ) com o Salmo 104, ou ainda o pa-
rentesco de Provérbios 22.17-23 com algumas passagens do

198
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

Ensinamento de Amen-em-opet. O mesmo ocorre quando


comparamos o “Cântico dos Cânticos” e alguns cânticos de
amor egípcio.40

SIN O P SE
O contexto é o nexo recíproco dos vários elementos duma
oração, sejam próximos (contexto imediato), sejam distantes
(contexto remoto).
O exame do contexto é extremamente im portante por-
que as palavras, as locuções e as frases podem assumir senti-
dos múltiplos, os pensamentos normalmente são expressos
por seqüência de palavras ou de frases, e desconsiderar o con-
texto acarreta interpretações falsas.
Contexto inicial é a própria frase ou versículo em que o
termo foi usado. Antes mesmo de recorrer ao contexto imedi-
ato e remoto, é extremamente necessário entender o texto (frase)
onde o termo aparece em seu conjunto.
N o contexto inicial, saber se o vocábulo está sendo usado
em sentido denotativo ou conotativo é imprescindível.
O contexto conseqüente é aquele que procede imediata-
mente ao texto.
O macrocontexto de uma palavra ou de um versículo é
um contexto maior que a palavra ou o versículo que precede
ou segue o versículo considerado.
N o contexto amplo, o im portante é verificar o tema ex-
posto pelo versículo, parágrafo e capítulo e como ele se relaci-
ona com o esboço geral do livro, e com temas semelhantes em
outros livros.
Chama-se contexto literário (no sentido bíblico) ao con-
texto que é próprio a literatura e publicações correntes no
199
H e r m e n ê u t i c a lacil e d e sc o m p li c a d a

período vetero ou neotestamentário, e que serverfi como fun-


do literário para se compreender os matizes literários das Es-
crituras.
Ao que parece, o contexto remoto de um texto nas pági-
nas do Novo Testamento, se encontra aduzido nas próprias
citações que p re n d e m um a situação h istó rica presente
(sincrônica) a um fato ou profecia pretérita.
O contexto gramatical e lógico unem-se naturalmente no
discurso literário, cada um emprestando ao outro suas normas.
U til ao estudante é o emprego do método lingüístico-
gramatical também chamado de léxico-smtático. Esse método
combina o estudo etimológico do vocábulo e a relação desse
termo com as partes frasais que o acompanha.
O uso do contexto remoto por Cristo e mais tarde pelos
apóstolos, inaugurou uma nova fase mterpretativa das Sagra-
das Escrituras: A interpretação cristológica, tendo as profeci-
as do Antigo Testamento como pilar, mas sendo explorada de
seu contexto maior e geral para um particular e especial.

TRABALHANDO COM TEX TO S

ESCRITURAS E CRÍTICAS
“(...) como as traduções são remodeladas à medida que
são ultrapassadas, depois de algum tempo poderemos estar
afastados da palavra de Deus, mas ainda assim insistindo em
que todas nossas opiniões teológicas são bíblicas e, portanto,
verdadeiras. Q uando isso acontece, se estudarmos a Bíblia de
uma forma que não seja crítica, é mais do que provável que
iremos simplesmente reforçar nossos erros. Se a Bíblia deve
cumprir sua obra de reforma contínua — reforma de nossas
200
H e r m e n ê u r i c a C o n te x tu a l

vidas e de nossas doutrina — devemos fazer tudo o que pu-


dermos para ouvi-la novamente e utilizar os melhores recur-
sos que se encontram à nossa disposição. A importância desse
tipo de estudo não pode ser superestimada se pretendermos
alcançar unanimidade nas questões de interpretação que ain-
da nos dividem. Dirijo-me àqueles que têm uma visão das
Escrituras: é muito angustiante perceber quantas diferenças
existem entre nós com relação ao que a Bíblia realmente diz.
As verdades supremas e unificadoras logicamente não devem
ser minimizada, mas o fato é que, em meio aos que crêem que
os sessenta e seis livros canônicos são nada menos que a Pala-
vra de Deus escrita, há uma incômoda lista de opiniões teoló-
gica mutuamente incompatíveis. [O fato de] os evangélicos,
todos reivindicando uma norm a bíblica, chegarem a formula-
ções teológicas contraditórias em muitas questões abordadas,
sugere a natureza problemática de sua atual concepção de in-
terpretação teológica. Argumentar que a Bíblia tem autorida-
de, mas ser incapaz de chegar algum tipo de acordo sobre o
que ela diz (mesmo com aqueles que compartilham do mes-
mo compromisso evangélico) é autofrustrante.
Por que será que, entre aqueles que têm conceitos eleva-
dos acerca da autoridade das Escrituras, há alguns que acham
que as línguas são o sinal definitivo do batismo do Espírito,
outros que acreditam que o dom de línguas é opcional e ou-
tros ainda que pensam que isso não existe mais como dom
genuíno? O u por que existe tal superabundância de opiniões
com relação à escatologia? Por um lado, claro, os motivos nem
sempre sao racionais ou podem ser corrigidos apenas com
maior rigor exegético. M uitos professores e pregadores bíbli-

201
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p h c a d a

cos locais foram obrigados a confrontar de maneira profunda


as interpretações alternativas.
D. A. C A R S O N - A Exegese e Suas Falácias.

EX ERCÍCIO S

1. Quais são os tipos comuns de contexto?


2. O que é contexto imediato?
3. Qual a importância do contexto para a interpretação
bíblica?
4. Escolha um capítulo da Bíblia, divida-o em parágrafos
e dê um tema para cada parágrafo de acordo com o assunto.

Bibli-Holmes
Ajude nosso detetive a investigar as diferenças estruturais
dos parágrafos em cada versão bíblica conhecida.

LIVROS E LEITURAS PARA APROFUNDAM ENTO


V IR K L E R . Η . A. Hermenêutica Avançada — Principio e Proces-
sos de Interpretação Bíblica, Vida (p. 59-67).

BEEKM AN, J. & C A L L O W , J. A Arte de Interpretar e C o-


municar a Palavra Escrita —Técnicas de Tradução da Bíblia, Vida Nova
(p. 43-59).
W E G N E R , Uwe, Exegese do Novo Testamento — M anual de
Metodologia, Paulos e Sinodal (p. 84-89).

E G G E R , Wilhelm, Metodologia do Novo Testamento, Bíblica


Loyola 12, 1994, p. 71-142; 155-179;
S IM IA N -Y O F R E , H orácio (coord.) Metodologia do Antigo
Testamento, Bíblica Loyola 28, 2000, p. 73s.; 123-144.

202
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

NOTAS
1Sobre a conexão entre vocábulos e frases e sobre os fato-
res de coesão e falta de coesão, ver W ilhelm Egger, Metodologia
do Novo Testamento, Bíblica Loyola 12, 1994, p. 7681.

2 Cf. Charles F. Pfeiffer & Everett F. Harrison, Comentário


Bíblico Moody, V1.2: Josué a Cantares, 1995, p. 473. Ver também
Documents fro m Old Testament Times (Docum entos dos Tempos
do Antigo Testamento), D. W. Thom as (ed.), 1958, p. 179.
Veja Também, A. Barucq, et alii. Escritos do Oriente Antigo e Tontes
Bíblicas, Biblioteca de Ciências Bíblicas, Edições Paulinas, 1992.
3 Paschoalm & Spadoto, Literatura,Gramática e Redação,
1986, p. 15.
4 John Beekman & John Callow, A Arte de Interpretar e Comu-
nicar a Palavra Escrita: Técnicas de Tradução da Bíblia, 1992, p. 97.
‫ נ‬Este exemplo, com ligeiras modificações, devo ao Dr.
Estevan F. Kirschner, quando cursava H erm enêutica Avança-
da no C E T E O L .
6 Juan M ateos & Fernando Camacho, Evangelho Figuras &
Símbolos, p. 15-17.
‫ ־‬lindem.
ô Ibidem.
9 Pontifícia Comissão Bíblica, A Interpretação da Bíblia na
Igreja, p. 96.
10 W ittenstein, Op.cit., p. 188, considera: ‫ ״‬Digo uma fra-
se: O tempo está b o nito ”; mas as palavras de fato são signos
arbitrários — em seu lugar coloquemos esses: ‘a b c d ’. Mas
agora se os leio, não posso sem mais vmcular-lhes o sentido
acima. —Eu diria que não estou habituado a dizer “a” ao invés
de ‘o’, ‘b ’ no lugar de ‘tem po’, etc. ( ‫ ״‬.)”.
203
H e r m e n ê u t i c a facil e d e s c o m p l i c a d a

11 A partir de um exemplo apresentado por Pedro Gilhuis


é que desenvolvemos o assunto. Ver Gilhuis, In: Como Interpre-
tar a Bíblia: Introdução à Hermenêutica, p. 109.
12 Charles F. Pfeiffer & Everett F. Harrison, Comentário
Bíblico Moody, Isaías a Malaquias, vl. 3, p. 8. Consulte também
Epsztem, A Justiça Social no Antigo Oriente Médio e 0 Povo da Bíblia,
Edições Paulinas, p. 53; Barucq Çet alii), Escritos do Oriente Antigo
e Fontes Bíblicas, Edições Paulinas.
13 Ibid.
14 Isto é, uma condição ou exigência que não se pode
dispensar.
13 Cf. Victor Goldshimit, Tempo Histórico e Tempo Lógico na
Interpretação dos Sistemas Tilosóficos, In: A Religião de Platão, p. 140.
16 Escrito em pergaminho fino de excelente qualidade,
contém em 347 folhas boa parte do Antigo Testamento e todo
o Novo Testamento arranjados em cadernos de oito folhas.
17 Escrito em duas colunas por página, num pergaminho
muito fino, consiste em 773 folhas de praticamente todo o
Antigo e N ovo Testamento, mais as duas epístolas de Cie-
mente de Roma.
18 Escrito em pergaminho de excelente qualidade, consis-
te em 759 folhas de um códice que continha originalmente
cerca de 820.
19 Ballarme, op.cit., p. 184.
20 Crítica Textual do Novo Testamento, p. 112.
21 A Bíblia Sagrada, traduzida em Português por João Ferreira
de Almeida, Edição Revista e Atualizada no Brasil, Sociedade
Bíblica do Brasil, 1969, Brasília, p. 5.
22 J. Sidlow Baxter, Exam inai as Escrituras, p. I3 0 - I .
204
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

2‫ '־‬Sobre a delimitação e constituição do texto confira


Horácio Simian-Yofre (coord.), Metodologia do Antigo Testamento,
Bíblica Loyola 28, 2000, p. 79-84. Ver ainda W ilhelm Egger,
Metodologia do Novo Testamento, Bíblica Loyola 12, 1994, p. 52-58.
24 P. M . Beaude, D e acordo com as Escrituras, Cadernos Bíbli-
cos, p. 39, pensa de m odo distinto. Para ele, M ateus não se
interessa pelo contexto dos oráculos que cita; p o d en d o
transplantá-los e misturá-los, cita por exemplo, o uso combi-
nado de M q 5.1 com 2 Sm 5.2 citado em M t 2.6.
2' Para uma visão geral das preposições, conjunções e in-
terjeições importantes no NT, f . Carlos Osvaldo Pinto & Bruce
M . Metzger, Estudos do Vocabulário do Novo Eestamento, 1996, SP,
Vida Nova, p. 27-31. Veja Barbara Friberg & Tim othy Friberg
(ed.), Novo Eestamento Grego Analítico, 1987, SP, Vida Nova, p.
833-40. Cf. D IT N T .
Os casos apresentados não são exaustivos. Dependendo
da tradução adotada pelo leitor, um conectivo pode ser muda-
do por outro. Por isso, caso o estudante deseje um estudo
mais adiantado deve ler as bibliografias recomendadas.
‫ י) ־‬Consulte, por exemplo, Roy B. Zuck, A Interpretação B í-
blica. p. 129-41. Ver também, Augusto Gotardelo, Português para
Pregadores Evangélicos, SP, Vida Nova.
2 Sobre a diacronia e sincronia ver W ilhelm Egger,
Metodologia do Novo Testamento, Bíblica Loyola 12, 1994, p. 71-
142; 155-179; cf. Florácio Simian-Yofre (Coord.), Metodologia
do Antigo Testamento, Bíblica Lovola28, 2000, p. 73s.; 123-144;
20 C f C. O. Cardoso Pinto & Bruce M . Metzger, op.cit,
p.107-136.
~9 D. A. Carson, A Exegese e Suas Falácias - Perigos na Interpre-
tação da Bíblia.

205
H e r m e n ê u t ic a fá cil e descomplicâda.

30 Cf. p. 180-98.
31 Op.cit., p. 194.
32 Ibidem.
33 Princípios de Interpretação Bíblica, p. 75.
34 Hermenêutica Bíblica, p. 142.
3‫ ב‬Literalmente “folha em branco”.
36 Prócoro V E L A SQ U E S FIL H O , In: O nascimento do
“Racismo” confessional: raízes do conservadorismo protes-
tante e do fundamentalismo, Introdução ao Protestantismo
no Brasil, p. 115.
3/ Champlin, O Novo Testamento Versículo por Versículo, 1995,
vl. IV, p. 308.
38 M erril C. Tenney, O Novo Testamento, Sua Origem e Análise,
p. 81.
39 Para uma compreensão adequada das formas literárias
do Novo Testamento recomendamos a obra de Klaus Berger,
A s Formas literá ria s do Novo Testamento, São Paulo, Edições
Loyola: 1998.
40 Diatribe (δ ια τ ρ ιβ ή ), é um colóquio - uma forma lite-
rária com elementos de diálogo. Cf. A. Van D en Bom, Dicio-
nário Enciclopédico da Bíblia)l 9 8 5 , p.397.
41 Cf. A . Van D en Bom, Dicionário Enciclopédico da Bíblia,
p. 397. O autor faz uma sinopse histórica do uso da diatribe
a partir de Sócrates, passando pelos círculos dos sofistas e sua
sistematização pela filosofia cínico-estóica. M enciona ainda,
os mais antigos fragmentos que constam esse recurso retórico.
Divide a diatribe em dois pólos principais: uma forma popu-
lar e outra erudita ou literária. Cita entre outras obras de refe-
rência a tese de Bultmann quando este encerrava o curso de
Licenciatura em Teologia em 1910: D er Stil der paulinischen Predigt

206
H e r m e n ê u t i c a C o n te x tu a l

und kunischstoische Diatribe. C f também Klaus Berger, A s Formas


Literárias do Novo Testamento, 1998, p. 104-5.
42 Champlin, 1995, op.cit., vl. Ill, Atos a Romanos, p. 377.
43 Op. cit., p. 698.
44 Op.cit., vl IV, p. 258.
4~‫ י‬J. Comby, J., P. Lemonon, Vida e Religiões no Império Roma-
no, p. 30.
46 Ibid., p . 29
4' Champlin, 1995, op.cit., vl. VI, p. 336. U m resumo cri-
tico do livro pseudepígrafo “Assunção de M oisés” e referênci-
as bibliográficas (não disponíveis em português) pode ser en-
contrado em L. Rost, Introdução aos Livros Apócrifos e Pseudepígrafos
do Antigo Testamento e aos Manuscritos de Qumran, p . 149-152, Edi-
ções Paulinas.
48 Cf. A. Barucq (et ahi), Escritos do Oriente Antigo e Fontes
Bíblicas, São Paulo, Edições Paulinas: 1992.
CAPÍTULO 7

<f‫[־‬e()taísn\o$

U m dos percalços extremamente sérios com que se tem


defrontado a H ermenêutica Bíblica, desde a
antigü1dade} é ofato da variabilidade da língua e da
cultura hebraica. Sua formação, composição gramatical
e histórico cultural cobrem períodos abissais que,
não raras vezes, só épossível um a correta interpretação,
através do estudo sincrônico da linguagem.

Para que haja uma compreensão adequada das Escrituras,


é necessário uma compenetração e empatia com a cultura
hebraica. Os hagiógrafos deixaram registrados nas Escrituras
os matizes culturais e formas próprias de expressão semita
que nos causam estranheza à primeira vista. São frases rechea-
das de figuras selváticas e campestres, todas retiradas da ob-
servação do ambiente que cercava os escritores sacros.
Se na cultura ocidental hodierna, chamar a outros de
jumento ou de gazela ofende ao gosto estético, e por vezes
moral, não era o mesmo na cultura hebréia daqueles dias.
Issacar foi chamado de jumento de fortes ossos; Naftali, de
H e r m e n ê u t i c a írácil e d e sc o m p lic a d a

uma gazela solta; Benjamim, lobo que despedaça; Dã, ser-


pente junto ao caminho, sem que eles se sentissem ofendi-
dos pela metáfora (G n 49).
Pouco adianta ao intérprete o conhecimento da filologia
sacra, se não for acompanhado da compenetração com o gê-
nio característico da cultura hebraica. O conhecim ento
filológico e sintático é extremamente essencial; mesmo assim,
a interpretação pode continuar cálida, estática, sem qualquer
dinamismo. O que cria mobilização na interpretação do texto
é justamente essa congenialidade com a cultura e a dicção
semita. Daí a necessidade de se estudar smcrônicamente as
Escrituras, isto é, mergulhar no ambiente histórico-cultural
do hagiógrafo. N ão podemos divorciar a análise sintática da
análise cultural.
O que pretendemos, neste caso, é verificar smcrônicamente
a linguagem dos hagiógrafos. Sincronia é o estudo da língua-
gem, sem levar em consideração sua evolução histórica
(diacronia), considerando, portanto, o mecanismo pelo qual
uma língua funciona num dado momento. E evidente que não
visamos fazer tais análises técnicas, mas lembrar que o méto-
do é científico.

Principais Características de Pensam entos


e Linguagem dos H agiógrafos

Hebraísmos
Hebraísmos são determinadas expressões idiomáticas en-
contradas nas Escrituras, que registram a forma de comunica-
ção específica dos judeus. São idiotismos familiares à cultura
hebraica de então, desconhecida do exegeta e que não podem

210
H ebraísm os

ser determinadas a priori, mas somente através de um estudo


consciencioso.
Q uando estudamos os hebraísmos, estamos analisando
as Escrituras smcromcamente. Geralmente as estruturas lin-
güísticas chamadas de hebraísmos são aplicadas a um com-
portam ento social, que por suas características culturais não
são perceptíveis ao leitor hodierno. Estabelecida tal premissa,
busquemos socorro em C. Charlier:
“O conhecimento mesmo das línguas originais se torna
inútil, se não é vivificado por uma comunhão simpática e in-
tuitiva com o gênio próprio da civilização à qual pertencia o
escritor. E preciso aprender a ler entre as linhas e procurar
penetrar aos poucos no ambiente de vida em que se movia o
autor sagrado, ambiente que transparece no texto bíblico”.1
As atuais traduções vernáculas preocupam-se em não ex-
pressar alguns idiomatismos da língua hebraica, tal qual se
encontram nos originais, pois apresentaria grande dificuldade
de interpretação, embora ainda conste inúmeros deles em nossas
Bíblias, que, por vezes, trai ao leitor desatento. O utro nome
pelo qual os hebraísmos são conhecidos é semitismos.
Analisemos alguns dos hebraísmos ou semitismos mais
comuns, que transparecem através do gênio semita nas Escri-
turas (Lc 24.27). A guisa de exemplo, citaremos alguns hebra-
ísmos e suas peculiaridades.

I) Hebraísmo de Posse e Poder:


“Sobre Edom lançarei a minha sandália, sobre a terra dos
filisteus cantarei o meu triunfo” (SI 108.9; 60.8, cf. G n 14.23).
Nesse texto, “lançar a sandália” refere-se ao ato de tomar
posse de alguma coisa ou dommar sobre algo. A luz de Rute

211
H e r m e n ê u t i c a ta ci l e d e s c o m p l i c a d a

4.7,8, compreendemos que o ato de descalçar os sapatos fazia


parte das transações comerciais da época, indicando o direito
legal sobre alguma coisa. Q uando o remidor não desejava ad-
quirir aquilo que estivesse em permuta, dava o direito ao pa-
rente que estivesse na vez, após ele. O ato era oficializado quan-
do o remidor tirava o sapato e entregava ao parente mais
próximo. Isto era símbolo de que ele estava passando a ou-
trem o direito sobre aquela propriedade (veja D t 2 5 .5 -1 1 so-
bre a lei do levirato).
Além disso, devemos acrescentar que o pé, para os anti-
gos hebreus, era símbolo de poder (SI 3 6 .1 1). O símbolo de-
riva-se do ato de o vencedor colocar o pé na nuca do vencido:
“Chegai, ponde os vossos pés sobre o pescoço destes reis. E
chegaram e puseram os seus pés sobre os pescoços deles” (Js
10.24; SI IIO .I). Em Mateus 18.29 o súdito prostra-se aos
pés de seu senhor, demonstrando a sua dependência e auton-
dade do senhor sobre ele (M c 5.22). Desde então, para o ju-
deu, “colocar alguma coisa aos pés de alguém” significa
submetê-la ao seu poder: “Deste-lhe domínio sobre as obras
da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste” (SI 8.6 ARA).
E com essa compenetração cultural que devemos enten-
der os hebraísmos cristológicos de I Coríntios 15.25-27,
Efésios 1.22, Hebreus 2.8 e a promessa cristã de Romanos
16.20. Além disso, o pé também representava a posse: “Todo
o lugar que pisar a planta do vosso pé será vosso” (D t 1 1.24).
Daí, “lançar a sandália” é uma extensão do hebraísmo “pé”,
que conotava o poder e domínio sobre alguma coisa.

2) Hebraísmo de Felicidade e Suficiência:


“A minha alma se farta, como de tutano e de gordura; e a
minha boca te louva com alegres lábios” (SI 63.5).

212
Hebraísm os

A escolha desse texto, justifica-se porque ele descreve dois


aspectos do mesmo hebraísmo: suficiência e sentimento. Já
em Gênesis 41 aprendemos que as vacas gordas representam
prosperidade, suficiência, abundância e, conseqüentemente, a
felicidade (vv.26,29), enquanto as magras, necessidade, escas-
sez, fome e tristeza (vv.27,30).
Imagens como essas eram freqüentes no Crescente Fértil.
N os períodos áureos, o gado sempre gordo refletia a prosper!-
dade da terra, trazendo alegria a seus donos, enquanto o reba-
nho magro refletia a miséria e infortúnio. Desde então, os ju-
deus, nada afeitos a termos abstratos, preferiam referir-se sobre
a suficiência e prosperidade, utilizando-se de imagens como gor-
dura, vacas gordas e tutanos (gordura do interior dos ossos).
A bênção de Isaque sobre seu filho incluía a “gordura da
terra”, conotativamente representando as “riquezas e prospe-
ridades advindas da produtividade agrícola”:
“Assim, pois, Deus te dê do orvalho do céu, da gordura da
terra, e da abundância de trigo e de m osto” (Gn 27.28 ECA).
N a tradução, a A RA omite o hebraísmo “da gordura da
terra”, traduzindo por “exuberância da terra”. Ao seu outro
filho, Isaque diz:
“Longe dos lugares férteis da terra será a tua habitação, e
sem orvalho que cai do alto” (v.39).
A ARA traduz por “longe dos lugares férteis da terra
será a tua habitação”.
A prosperidade sobre Israel restaurado incluía a prospen-
dade e riqueza dos sacerdotes: “Saciarei de gordura a alma dos
sacerdotes” (Jr 31.14 ECA), o que quer dizer que os sacerdo-
tes terão uma vida próspera e afortunada.

213
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

N o que diz respeito ao aspecto sentimental, é que a gor-


dura era considerada pelos judeus de então, a sede dos senti-
mentos por estar mtrinsecamente relacionada com as entra-
nhas, enquanto o sangue, com a sede da vida. Daí, usar-se
quase sempre no cenmomalismo levítico a junção entre san-
gue e gordura. Enquanto o sangue representa a expiação, a
gordura representa uma celebração pelas riquezas ministradas
ao ofertante.
Em Gênesis 4.4, a gordura é separada para ser oferecida
para a divindade. A gordura por certo, representava os mo-
mentos festivos e alegres vividos pelo ofertante (Ex 23.18).
N ão sabemos ao certo se a gordura passou a representar
os sentimentos devido a prescrição de Levíticos 3.3, ou vice-
versa. Certo é, que o texto de Levítico 3.3 projeta luz sobre o
sentido de “gordura” representando os sentimentos, pois, a
restrição é que se ofereça nos sacrifícios pacíficos “a gordura
que esta sobre (ou cobre) as entranhas” — ARA (adendo
nosso). As entranhas (vísceras contidas no abdômen), por se-
rem internas e ocultas, muitas vezes pela gordura, representa-
vam os sentimentos. E assim que é dito que a ternura, o afeto
e a compaixão brotam das entranhas, o que significa da alma,
do íntimo (Is 63.15; 2 Co 7.15; Fp 1.8; 2.1).
Portanto, é provável que a gordura, ao representar os “sen-
tim entos”, seja uma metonímia de uma figura já considerada.
Conseqüentemente, a gordura representava a felicidade, a
alegria. Daí, os hagiógrafos, substituírem o substantivo abstrato
“alegria” pela expressão gordura, porque esta representava a far-
tura e a suficiência, é por isso que o salmista assim se expressa:
“Eles se fartarão da gordura da tua casa, e os farás beber
da corrente das tuas delícias” (SI 36.8).

214
H ebraísm os

“Tu coroas o ano da tua bondade, e as tuas veredas desti-


lam gordura” (SI 65.11)
Entendemos, pois, que os escritores sagrados procura-
vam expressar-se utilizando-se do dinamismo de sua língua-
cultura, em vez de confinar no sentido dos termos aos valores
estáticos da língua. Por isso, os substantivos abstratos alegria,
felicidade, poder e domínio eram substituídos por termos
concretos tais como gordura, tutano, sandália e pé.

3) Hebraísmo de Contraste ou Antítese


Os judeus usaram constantemente a antítese para desig-
nar a virtude em contraste com a fraqueza, a sabedoria em
oposição à loucura, a prudência contrapondo-se à ingenuida-
de, o amor ao ódio, e assim respectivamente. Esses contrastes
ilustram uma realidade através da enunciação do oposto, es-
pecificamente quando se trata de questões de conduta, seja ela
moral, ou religiosa. N a poética hebraica chama-se “paralelismo
antitético”, pois a primeira linha poética entra em franca opo-
sição com a segunda. O segundo verso faz agudo contraste
com o primeiro.
“O filho sábio alegrará a seu pai, mas o homem insensato
despreza a sua mãe” (Pv 15.20).
“Ao anoitecer pode vir o choro, mas a alegria vem pela
m anhã” (Sl 30.5).
Em cada um desses dísticos (estrofes com dois versos)
verifica-se o uso proposital da antítese: pai/m ãe; filho sá b io /
homem insensato; alegra/despreza; anoitecer/manhã; c h o ro /
alegria.
I) Amar e Odiar: N outras ocasiões usava-se o contraste
para designar a preferência entre duas pessoas, com o contras-

215
H e r m e n ê u t i c a tácil e de sc o m p li c a d a

te dos termos amar e aborrecer ou odiar. Q uando se amava


mais um indivíduo do que a outro costumava-se usar esse
paralelismo antitético a fim de que evidenciasse claramente a
distinção ou preferência de um pelo outro.
“Amei a Jacó e aborreci a Esaú” (M l 1.2,3; Rrn 9.13).
O u seja: “Preferi Jacó a Esaú”.
“Se alguém vier a mim e não aborrecer a seu pai, e mãe, e
mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua pró-
pria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.26; cf M t 10.37).
Isto é: “Se alguém ama ou prefere os seus, em vez de
mim, não pode ser meu discípulo”.
“Q uem ama a sua vida, perdê-la-á; e quem neste mundo
odeia a sua vida, guarda-la-á para a vida eterna” (Jo 12.25).
Bettencourt assinala que essa antítese: “amar-odiar” sig-
nifica satisfazer desregradamente e coibir devidamente as ten-
dências da alma, podendo a coibição ou renúncia levar até à
m orte de m artírio”.2
M uitos outros hebraísmos poderiam ser acrescentados:
misericórdia/sacrifício; ju s to / ímpio; entrar/sair; assentar/
levantar, etc.
Observe, por exemplo, 2 Coríntios 5.1:
“Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo
se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita
p or mãos, eterna, nos céus”.
O grau de contraste desse versículo é um dos mais elevados
de todo o Novo Testamento. A transitonedade da matéria orgâ-
nica, especificamente do corpo, é contrastada com a eternidade
que o aguarda. Se por um lado o apóstolo usou imagens transi-
tórias como a do tabernáculo, por outro contrastou essa ima-
gem com a figura do edifício, que reflete a estabilidade e perma­

216
H ebraísm os

nência. O corpo mortal contrastado com o glorioso. Paulo dei-


xa subentendido (sentido implícito) de que recebemos da parte
de nossos pais terrestres um corpo corruptível, enquanto do
nosso Celestial um incorruptível. Para tanto, o apóstolo não
economizou paralelos antitéticos, vejamos:

Corpo M ortal Corpo Glorioso


casa (feita por mãos) casa (não feita por mãos)
terrestre céus
tabernáculo edifício
desfizer eterna
parte dos genitores parte de Deus

4 ) Hebraísmo de Poder e Força


U m dos fatos interessantes no gênio semita que dão azo
a diversas proposições poéticas é a equivalência de significa-
dos que um objeto concreto empresta a um termo ou expres-
são abstrativa. O hagiógrafo, ao contemplar a multicolorida
criação divina, se inebriava com a variedade das obras de Deus:
“Ó S E N H O R , quão variadas são as tuas obras!” (SI 104.24 a).
Esta visão cosmogônica da criação adubava a criatividade poéti-
ca do escritor sacro, servindo de fulcro para o seu estilo literário
e apoio para a comunicação da mensagem: ‫)״‬.‫ )״‬a minha língua
é a pena de um destro escritor” (SI 45b). Assim, usaram cons-
tantemente exemplos extraídos dos hábitos dos animais, da
praticidade da vida cotidiana e assim por diante. E sob esta
ótica que devemos entender os hebraísmos que conotavam for-
ça e poder. Estes conceitos eram expressos pelos termos roche-
do, lugar forte, fortaleza, escudo, chifre.

217
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

O S E N H O R é o meu rochedo, e o meu lugar forte, e o


meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem con-
fio; meu escudo, a força (literalmente chifre) da minha salva-
ção e o meu alto refúgio” (SI 18.2).
Interessante é a expressão do Salmo 75.10:
Έ quebrantarei todas as forças (lit. “todos os chifres”)
dos ímpios, mas as forças dos justos serão exaltadas”.
Bettencourt assinala que:
“Os israelitas usavam freqüentes comparações e imagens,
visando também, por esta via, impressionar mais profunda-
mente os ouvintes, já que os hebreus tendiam a considerar o
aspecto dinâmico e vital de cada ser. Sabiam aproveitar-se lar-
gamente dos objetos materiais que os cercavam para ilustrar
verdades abstratas ou sobrenaturais. Isto justifica o constante
uso de símbolos nas Escrituras. Estes constituem, sem dúvida,
um artifício muito apto a traduzir o sentido concreto e o va-
lor que para a vida têm as proposições religiosas”.3
E com este tipo de compenetração e empatia que nossos
olhos devem voltar-se para o texto sagrado. Conhecer as
nuanças culturais e a variedade de expressões retiradas do ce-
nário da criação, torna a empresa de interpretar não somente
austera e conscienciosa, mas também necessária e plausível. E
dentro desta perspectiva que devemos considerar os símbolos
e tipos das Escrituras.

Sím bolos e T ip o s

Símbolos e tipos fazem parte do mesmo contexto dos he-


braísmos. O símbolo é uma figura, objeto, número ou emble-
ma, cuja imagem representa, de modo sensível, uma verdade
moral, ou religiosa. Através do símbolo, uma certa coisa, objeto
218
Hebraísm os

ou verdade é substituído por um sinal. N o símbolo um concei-


to abstrato recebe uma correspondência material e concreta pela
relação existente entre o conceito e o objeto ou símbolo por ele
representado. Assim, o cajado do pastor, um bastão encurvado,
é símbolo de regência; o cetro, de senhorio, de poder, de domí-
mo; o casamento, da união entre Deus e Israel, e Cristo e a
Igreja, e assim conseqüentemente.
Os simbolismos usados pelos escritores sagrados eram
recursos literários contrários ao significado próprio ou verbal.
As realidades sobrenaturais da religião judaica eram expressas
através de objetos concretos. Também se compraziam em usar
símbolos para designarem as ações e o caráter dos homens.

Relação entre Sím bolos e T ip o s

D entro deste conceito é que devemos entender também


os tipos. Enquanto o símbolo e os recursos poéticos são prá-
ticas universais a todas as religiões e livros, quer sagrados ou
não, o tipo é um recurso puramente bíblico, pois é proposital-
mente intencionado por Deus nas Escrituras.
Os símbolos e os tipos respiram no mesmo campo de
atuação, de forma que podemos afirmar que todo tipo é um
símbolo, mas nem todo símbolo é um tipo. Isto porque, para
que um tipo seja mensurado, é necessário que este possua cer-
ta validação textual posterior, pois se trata de um ato, fato ou
objeto que tenciona uma mensagem profética, e até mesmo
enigmático. O símbolo, porém, não reclama a mesma valida-
ção, seja ela profética ou neotestamentária. Acrescente-se a
esta proposição o fato de que o tipo não é variável em sua
forma ou estrutura posterior, enquanto os símbolos podem

219
H e r m e n e u n c a tacil e descom rl ic .id .

receber diversos significados. G. R. O sborne faz a seguinte


distinção entre tipos, símbolos alegorias:
“E im portante fazer distinção entre tipos, símbolos e ale-
gonas. O símbolo tem seu significado à parte do seu campo
semântico normal, e vai além dele para representar um concei-
to abstrato, e.g., cruz = vida; fogo = julgamento. A alegoria é
uma série de metáforas em que cada uma destas acrescenta um
elemento para formar um quadro composto da mensagem,
e.g., na alegoria do Bom Pastor (Jo 10} cada parte transmite
algum significado. A tipologia, no entanto, lida com o princí-
pio do cumprimento análogo. U m a alegoria compara dois ele-
mentos distintos e envolve uma história ou um desenvolvi-
mento prolongado de expressões figuradas, ao passo que um
tipo é um paralelo entre duas entidades históricas; a alegoria é
indireta e implícita, o tipo é direto e explícito”.4

Interpretação dos Sím bolos


N ão somos escusados de frisar que tanto os símbolos
quanto os tipos devem ser interpretados dentro de seu con-
texto de origem, respeitando o sentido intencionado pelo au-
tor, além é claro, de respeitar as diversas significações que um
mesmo símbolo pode possuir em diferentes épocas, e inseri-
dos no escrito de um mesmo autor sacro (e.g., o fogo(.
Deve-se portanto:
I) Considerar os diversos contextos em que o símbolo é
usado, antes de afirmar que este ou aquele sentido é o preten-
dido pelo autor.
O fogo pode representar a presença do Senhor (Êx 3.2;
19.18; D t 5.24); o juízo de Deus (SI 50.3; H b 12.29;); a ira
de Deus (SI 79.5; 83.14,15); como também a purificação

220
Hebraísm os

(Is 6.6,7); o símbolo pode ainda representar o perigo (SI 66.12;


Is 43.2); a palavra de Deus que a tudo penetra (Jr 5.14; 20.9);
a força do ministério de Cristo (M t 3.1), etc. Vimos que o
fogo tanto representa o ser e agir da divindade, quanto sua
justiça e juízo sobre o que é injusto e perverso.
Por empréstimo, afirma Martinez:
“Outros fatores que devem ser considerados ao interpretar
um símbolo são a situação vivencial do escritor, sua perspectiva
histórica, o essencial de sua mensagem e o significado claro do
mesmo símbolo usados em outras passagens do livro...”.3
2) Considerar o símbolo focalizado com as utilidades
representadas pela própria coisa ou objeto, pelas significações
gerais do símbolo em contextos diferente, e limitá-lo ao senti-
do pretendido pelo autor.
O símbolo do fogo está relacionado às principais ativida-
des do fogo —iluminar, aquecer, purificar e destruir. O termo
grego pyr (fogo) e o latino purns provêm da mesma raiz lingüís-
tica; o fogo é puro e purificador.6 O intérprete deverá, entre os
vários sentidos que um símbolo possa possuir, aceitar apenas o
sentido pretendido pelo hagiógrafo. Como afirmou Martinez:
“(...) por, conseguinte a analogia entre o símbolo e o sim-
bolizado deve ser simples; não se deve buscar multíplice pon-
tos de semelhança ou correspondência entre ambos”.'
3) Será esclarecedor, ao mesmo tempo em que interes-
sante, fazer uma varredura no significado do símbolo em con-
textos diferentes do cenário judaico.8
Como o ambiente sócio-cultural bíblico não estava imu-
ne às crenças das civilizações e povos aos arredores de Israel,
deve-se entender o caráter pagão de alguns símbolos. Por exem-
pio, na mesopotâmia, Gibil, o deus sumério do fogo, era consi­

221
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p lic a d a

derado o portador da luz e, em virtude da força purificadora


da chama, os sumérios acreditavam que ele podia livrar a alma
da impureza. N a antiga Pérsia, parte importante do culto cons-
tituia na adoração ao fogo. O fogo era designado como o filho
de Aura Mazda, tido como sinal visível da presença de Deus.
N a antiga Roma, a chama que se movimenta indica o rumo
do céu, é símbolo da vida e da energia do sol. Esta chama
guardada pelas sacerdotisas vestais9, garantia a permanência
do estado romano.10

Q U A D R O B Á SIC O D O S S ÍM B O L O S B ÍB L IC O S 11

ELEMENTOS
r
Agua R e g e n e ra ç ã o , P alavra de D e u s (jo 3 .5 ;
4.10,11; E f 5.26).

Luz Verdade, sabedoria, gozo, glória e pureza de


Deus, felicidade (SI 104.2; Jo 12.35; I T m 6 .I 6 ;
2 Co 4.6;1 2 Pe I . I 9 /\

Trevas M e n tira , ig n o râ n c ia, cegueira e sp iritu a l


(M t 6.23; I Jo 1.6).

Montanha Grandeza e estabilidade ÍIs


V
2.2;‫ י‬D n 2.35 y\

Pó Fragilidade, fraqueza e fmitude dos homens (Gn


2.7; Jó 30.19; Ec 3.20).

Rocha F o rta le z a , abrigo, refúgio, D eu s, C ris to


(D t 3 2 .3 1;I Sm 2.2; SI 2.3; 61.2; M t 7.24;
R m 9.33; I Pe 2.8).

222
H ebraísm os

BOTÂNICA

Arvores Altas {governantes} Baixas {povo}


(Ez 31.5-9; Ap 7.1).
Espinhos e Abrolhos Más influências (M t 13.22; H b 6.7,8)
Frutos Manifestações das atividades do homem
(M t 7.16).
Frutos maduros de Verão: Aproximação do fim. Frutos
Bons: Atos piedosos, justos. Frutos
M aus: C o n d u ta in íq u a (Sl 7 2 .1 ;
Pv 11.30; 12.14; 18.20; Is 3.10;
M t 3.8; 7.17,18).
Vinha G ra n d e fe c u n d id a d e . V in d im a r:
Destruição (Jr 22-1 ;Os 14.7; Ap 14.18,19)
Sega, Messe.
Ceifa Tempo de destruição; M undo como
cam po de tra b a lh o p a ra a Igreja
(Is 17.5; M t 9.37; Ap 14.18).
Videira Cristo, Israel. Sentar-se sobre a própria
Videira: paz e prosperidade (Jo 15.1,2;
Sl 80.8; Is 5.2-7; I Rs 4.25; M q 4.4;
Zc 3.10) Ramos.
Rebentos Filhos, Descendentes. Ramo Frutífero:
os santos. Ramo Infrutífero: os maus
educadores, maus discípulos (Is I I .I ;
Jo 15.2,5) Palmeiras.
Palmas Realeza, vitória, prosperidade (Sl 92.12;
Ap 7.9).
H e r m e n ê u t i c a tácil e de sc o m p li c a d a

Figos Obras, atividades. Figos bons e maduros: as obras


dos santos. Figos maus e fora do tempo: ímpios
maduros para o julgamento de Deus :Jr 24.2-5,8;
Is 34.3).

METAIS E PEDRAS

Ferro Severidade, força, resistência (D t 4.20;


Jó 40.18; Sl 107.10; Ap 9.9).

Bronze F o rç a e firm e z a (Is 4 8 .4 ;J r 6 .2 8 ;


Sl 107.16).

Prata Resgate, redenção (Ex 26.21).

Ouro Glória de Deus, realeza e poder (Gn 4 1.42;


Êx 28.36; 2 5 .1 7 ,18;Ap 3.18) "

Pedras Preciosas Magnificência e formosura (Êx 28.17-21;


Ap 4.3; 2 1 .I I ) .

ANIMAIS
Boi Submissão, força, serviço. O ato de trilhar grão
sem ter atada a boca: o direito que tem o obreiro
do seu sustento (Is 30.24; I Co 9.9,10).

Bode Reis macedônios, especialmente Alexandre; ímpios


e falso s p a s to re s ( D n 8 .5 ,7 ,2 1 ; Z c I 0 . 3 ;
M t 25.32,33).

Cabras Os maus (M t 25.32,33).

224
H ebraísm os

Cão Impureza, apostasia, falsos mestres e ministros


infiéis (Pv 26.11; Fp 3.2; Ap 22.15).

Raposa E ngano, astúcia, falsos p ro feta s (E z 13.4;


Lc 13.32).

Lobo Satanás, egoísmo, avidez, ímpios e governantes


ímpios, falsos mestres (Ez 22.27; M t 7.15; M t
10.16; Lc 10.3; Jo 10.12).

Urso Inimigo feroz e temerário; governantes ímpios;


juízo de Deus contra os ímpios (Pv I7 .I2 ;2 8 .I5 ;
Lm 3.10; Os 13.8; Ap 13.2).

Dragão Reis cruéis; perseguidores; inimigos da Igreja; os


ímpios; o Diabo (Ez 29.3; Sl 44.19; Ap 13.2; 20.2).

Leão Majestade, força, ferocidade, poder enérgico e


dominador; realeza soberana do Messias (D n 7.4;
Am 3.8; Ap 5.5).

Touro Inimigo forte e furioso (Sl 22.12).

Cavalo Equipamento de Guerra e de conquista; rapidez;


domínio (J1 2.4; D t 32.13; Is 58.14).

Cordeiro Simplicidade e mansidão; pureza de Cristo; Cristo


como sacrifício; o povo do Senhor; crentes fracos
(Is 53.7; 5.17; 40.11; Jo 1.19; 21.15; Ap 5.6).

Besta Poder tirano e usurpador; poder temporal qualquer


(D n 7.3-17; Ez 34.28).

225
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Jumento Selvagem, os ismaelitas, a instabilidade


do homem natural, os ímpios em busca
do pecado; Israel e seu amor pelos ídolos;
Jumentinho simboliza paz: Cnsto entrando
em Jerusalém como Rei da Paz (Zc 9.9;
M t 21.5,7; Gn 16.12; Jó I I . 12).

Leopardo - Tigre Inimigo cruel e enganoso )Ir 5.6; D n 7.6;


H b 1.8; Ap 13.2).

Crocodilo-Dragão Egito e, em geral, o poder anticristão (Sl


4 4 .19; Is 2 7 .1; 51.9; Ez 29.3; Ap 12.13),

Carne, Poeira e Cinza Fraqueza humana, moral e física


(G n 18.27; Is 31.3).

Ouro, Mármore, Marfim


e Cedros do Líbano A beleza, o encanto (Ct 5.11,14 , 15).

TIPOS
O termo grego typos, da qual se deriva a palavra “tip o ”,
aparece com diversos significados nos vários textos do Novo
Testam ento12: smal (Jo 20.25), modelo (H b 8.5; At 7.44;
R m 5 .I4 ;I Pe 5.3), modelo (A t 7.44), nestes termos [deste
tipo] (A t 23.25), forma [t 1p o ](R m 6.17), exemplo | modelo]
( I Co 10.6; I Ts 1.7; I Pe 5.3), padrão ( I T m 4.12; T t 2.7).
Literalmente o term o significa uma marca visível deixada por
algum objeto. Daí a marca deixada na história ou natureza
pelo antítipo.13

226
H ebraísm os

A idéia comum em todos os casos é a de alguma coisa


que se assemelha ou corresponde a outra. O termo por si não
indica que haja uma relação formal entre coisas, seres, pessoas
ou objetos, mas ocorre sem qualquer matiz teológico. Entre-
tanto, Paulo ao escrever a epístola aos Romanos (5.14) refere-
se ao sentido profético do tipo: “N o entanto, a m orte reinou
desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não peca-
ram, à semelhança da transgressão de Adão, o qual é figura
daquele que havia de vir”. O term o typos é traduzido neste
versículo por figura na A R C /T E B , prefigurava na ARA, e por
tipo (tradução literal) na N V I. O sentido típico neste texto é
facilmente verificável na tradução da ARA, “prefigurava”, ou
seja, representação de coisa futura; representar antecipadamen-
te. Neste texto o tipo ou figura apontava para o futuro, mas a
relação entre Adão e Cristo, neste versículo, não é de seme-
lhança, e sim de contraste. A antítese é facilmente detectável
nas linhas mestras dos versículo 12 a 21. Os pontos seme-
lhantes entre Adão e Cristo estão associados na representação
de ambos numa nova raça —Adão cabeça federal da raça hu-
mana, e Cristo dos redimidos - mesmo assim, ao comparar o
efeito dessas duas representatividades, persiste a antítese.
O escritor aos Hebreus 8.5 usa o termo hypódeigma para
referir-se aos sacerdotes aarônicos, no sentido de que eles mi-
ms travam segundo a cópia ou imitação das coisas celestiais:
“os quais servem de exemplar (hypódeigma) e sombra ( skia) das
coisas celestiais, como Moisés divinamente foi avisado, estan-
do já para acabar o tabernáculo; porque foi dito: Olha, faze
tudo conforme o modelo ( typon) que, no monte, se te mos-
trou”. O tabernáculo era apenas uma representação ou figura
que não incluía a natureza real do santuário celestial, é o que

227
H e r m e n ê u t i c a íacil e d e s c o m r i i c a d a

se depreende quando o autor usa o vocábulo skia, ou seja, uma


sombra projetada por qualquer objeto. Esta cópia representa-
va com exatidão o arquétipo original, mas não deixava de ser
uma cópia. Os rabinos costumavam explorar estes fatos levan-
do a questão dos tipos e símbolos bíblicos ao absurdo. Procu-
ravam em cada utensílio, detalhe ou faceta do tabernáculo
terrenal, alguma característica espiritual do celestial1’ . Este
texto deixa claro que o tabernáculo e as cerimônias nele mi-
nistradas são um tipo ou modelo profético do que Cristo,
verdadeiro sacerdote, faria nas regiões celestiais, onde consta-
va o verdadeiro santuário (H b 8.1,2 cf. At 7.44(.
O doutor dos gentios faz uso de um termo sinônimo txpikôs,
traduzido pelo vocábulo “exemplo”: “Ora, tudo isto lhes acon-
tecia como exemplo lyp/X\V, e foi escrito para aviso nosso, para
quem já são chegados os fins dos séculos” (I Co I 0 . I I \ Este
advérbio aparece somente neste versículo em todo o NovoTes-
tamento, e pode ser traduzido por “tipologicamente”, “como
um exemplo ou advertência”13, tal como faz a maioria das ver-
sões. Entretanto, preferimos a tradução de Barbaglio, que não
apenas tra d u z , mas ta m b é m in te rp re ta o te rm o p o r
“prefiguração”, assim como faz a ARA em Romanos 5.14:
“Ora, esses acontecimentos ocorreram como prefiguração,
e foram colocados por escrito como advertência a nós: a nós
que nos encontramos no fim dos tem pos”.16
Segundo Barbaglio:
Paulo, após traçar a história do êxodo de Israel, esclarece
logo o seu significado para o presente da comunidade cristã
(vv. 6-13). Como fundamento, Paulo põe o princípio da in-
terpretação tipológica: a história de Israel prefigura a da Igreja
(vv.6-I I); os exemplos passados são um exemplo admoestador

228
H ebraísm os

para os fiéis (v .IIb ). Os termos typos e typihôs, traduzidos no


sentido de prefiguração, assumem um significado claramente
moral. Prova disso é o caráter exortativo do trecho e, mais
ainda, o paralelismo das duas proposições do v.I I: “Ora, es-
ses acontecimentos ocorreram como prefiguração / e foram
colocados por escrito como advertência a nós”. Todavia, no
conjunto parece que se pode dizer que a dimensão exemplar
do Êxodo se baseia na continuidade histórico-salvífica exis-
tente entre a proeza israelita e a experiência cristã (cj. sobretu-
do os vv. 1-5). Temos, pois, um duplo significado de typos:
história antecipadora e história-advertência (por isso preferi-
mos traduzi-lo por “prefiguração” e não por “exemplo”) . 17
Esses três trechos analisados, Romanos 5.14, Hebreus 8.5
e I Coríntios 10.I I , salientam dois aspectos importantes dos
tipos bíblicos: primeiro o da antítese, e depois da semelhança.
Tanto o contexto de Romanos 5.14 quanto o de Hebreus 8.5
usam o termo tipo com ênfase mais antitética do que seme-
lhante. O capítulo 8 de Hebreus pode ser subdividido em
duas seções: a primeira que é uma documentada declaração a
respeito da inadequação da liturgia terrena, exercida por sa-
cerdotes hebreus conforme as prescrições legais mosaicas (8.3-
6). Em seguida se destaca que essa insuficiência está ligada á
ineficácia ou esterilidade da “primeira” aliança, mediante uma
longa citação do profeta Jeremias (31.31-34). Essa estrutura
emerge literanamente do uso estratégico de dois vocábulos,
postos no mício e no fim das respectivas subseções: “Liturgia
(8.2 λειτουργός ; 8.6 λειτουργίας j) e “primeira aliança”
(8.7,13 πρώτη €Κ£ΐη). A ponte entre as duas subdivisões é
constituída pelo versículo 6, que retoma o tema da “mais ex-
celente liturgia” e do sumo sacerdote celeste, conectando-o

229
H e r m e n ê u t i c a fácii e d e sc o m p lic a d a

com a aliança melhor, já acenada em 7.22 e que será ampla-


mente ilustrada, primeiro de forma negativa (8.7-13} e depois
de forma positiva (9 .1 1 -2 3 ).10
O paralelo antitético entre Adão e Cristo é facilmente
observável na assertiva de Paulo (R m 5.12). O capítulo está
repleto de símile ou dos conectivos de comparação “assim
com o” nos versículos 12, 18, 19, 21, acrescente a estes o
conectivo de adversidade “mas” nos versículos 13, 16, 20.
Já no texto de I Coríntios 10.11, a relação está mais na
semelhança do que no contraste. Recorrendo à história do Exodo
de Israel, utiliza-se dos eventos pretéritos para admoestar a co-
munidade cristã de Corinto, afirmando que os fatos narrados
dos versículos I ao 5 foram “exemplos (jx p o í/ prefigurações)
para nós a fim de que não cobicemos as cousas más, como eles
cobiçaram”, segue-se então uma série de assertivas de caráter
prático-moral que se inicia no versículo 7 e culmina no versículo
10, completando com um intermezzo1g a partir do versículo I I ,
onde Paulo retoma o vocábulo estratégico desta seção Çtypíkôs'),
encerrando assim, com uma palavra exortativa, para retomar a
partir do versículo 14, as considerações acerca da idolatria ini-
ciada no capítulo 8 e versículo I. Sumariando, “a tipologia bí-
blica, portanto, envolve uma correspondência analógica em que
eventos, pessoas e lugares anteriores na história da salvação tor-
nam-se em padrões por meio dos quais eventos posteriores, pes-
soas, etc. são interpretados”.20

A L egitim idade dos T ip o s

A semelhança básica entre os dois Testamentos e o uso


que o segundo faz do primeiro explicam a validez da tipologia.
A tipologia expressa a forma básica de hermenêutica. O senti-
230
H ebraísm os

do típico contém traços de predição e de simbolismo, repre-


sentado pela palavra. Temos em Exodo 12.8, um claro exem-
pio. O pão da Páscoa devia ser sem levedura. Literalmente
designa aquele alimento sem fermento que acompanha a re-
feição da Páscoa. Em sentido típico, designa que a libertação
do crente em Cristo implica sua purificação moral, isto é, a
ausência de fermentos pecaminosos ( I Co 5.6-8). Por esta
razão, é chamado típico ou figurativo, porque aquela tal coisa
ou pessoa é figura de uma outra. O sentido típico pode ser:
a) Real: porque é expresso imediatamente por uma coisa.
b) Profético: porque pronuncia realidades futuras.
c) Espiritual: porque transmuta o sentido que a palavra
pode exprimir.
d) Enigmático: porque a realidade profética ou espiritual
está escondida sob realidade indicada pela palavra, ou ainda
porque sem a revelação do Novo Testamento, o hom em não
pode identificá-lo.21 Para termos uma idéia correta desta par-
te da hermenêutica e para fazer uso adequado da mesma, é
fundamental levar em conta suas características essenciais.
O utro termo característico no estudo do sentido típico é
o antitypo, que representa ou corresponde a um modelo. Em I
Pedro 3.21 diz que o batismo nas águas é um antítipo do
dilúvio. O dilúvio foi um tipo ou figura do batismo, no senti-
do de que nos dois casos a palavra simbolizava julgamento. O
dilúvio significou a m orte para os perversos, e o batismo nas
águas retrata a m orte de Cristo e a identificação do crente
com ela. Mais uma vez a idéia de semelhança está presente. O
termo “antítipo”, segundo o texto de Hebreus 9.24, também
significa literalmente “corresponder ao tip o” e sugere um cor-
respondente. Paulo, escrevendo acerca de Adão, afirma que ele

231
H e r m e n ê u t i c a tácii e de sc o m p li c a d a

é “figura {typos') daquele que havia de vir” (R m 5.4), e das


experiências de Israel no deserto afirma que “essas coisas fo-
ram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas
más, como eles cobiçaram” ( I Co 10.6). O sentido típico ou
a tipologia pode ser definido como o estabelecimento de co-
nexões históricas entre determinados atos, pessoas ou coisas
(tipos) do Antigo Testamento e pessoas ou objetos do Novo
Testamento (antítipos).
Vejamos as bases do sentido típico ou tipologia:
a) Tanto o tipo como o antítipo são realidades históricas
que se correspondem.
As personagens, os fatos ou elementos do Antigo Testa-
mento que são tipos de coisas nas páginas do NovoTestamen-
to possuem correspondência histórica. N ão se trata de uma
mera alegorização ou ilustração de uma passagem do Antigo
Testamento; isto já faz a escola alegonsta. N ão podemos acei-
tar como tipo a vitória de Davi sobre Golias, correspondendo
a vitória do cristianismo contra Satanás. N o entanto, se falta
elementos que ratifiquem a vitória de Davi sobre Golias como
um tipo, não falta à “serpente levantada” no deserto, como
tipo de Cristo (N m 21.9; Jo 3 .I4 ).22
b) Entre o tipo e o antítipo deve haver algum ponto ím-
portante de analogia.
A principal característica de um tipo é sua semelhança,
similaridade ou correspondência com o antítipo. N ão pense
que essa sem elhança é algo superficial; ao contrário, é
consubstanciai, autêntica. Por exemplo, Jonas é tipo de Cristo
mais pela semelhança dos três dias no ventre do peixe e sua
liberação deste, do que pelo seu ministério (M t 12.40). A
relação tipológica clara entre um e outro se estabelece unica­

232
H ebraísm os

mente pela permanência do profeta “três dias e três noites”,


seguida de sua liberação, e sepultura de Jesus seguida de sua
ressurreição. O tipo é perfeitamente válido, apesar de que em
tantos outros aspectos o rebelde, racista e irascível Jonas nada
teve em comum com aquEle que foi “manso e humilde de
coração” e “amigo de pecadores”.23
c) O tipo sempre apresenta um caráter preditivo e descritivo.
Especificamente os sacrifícios mosaicos, que são “som-
bra dos bens futuros” (H b IO.I; Cl 2.17). O tipo contém
traços de predição, descrição e simbolismo. Ele antevê e cha-
ma a atenção para o antítipo. O tipo é uma sombra que indica
outra realidade (Cl 2.17). Os tipos são uma forma de profe-
cia. A profecia consiste numa predição verbal, ao passo que a
tipologia é a predição feita pela correspondência entre duas
realidades — o tipo e o antítipo. Limitando-nos aos sacrifíci-
os mosaicos, observamos que estes não são somente o pre-
núncio dos sacrifícios mosaicos e o sacrifício de Cristo, mas
também ensinam algumas qualidades essenciais, como o seu
caráter purificador (H b 9.13,14) e sua eficácia para a remis-
são dos pecados (H b 9.15). O tipo é determinado também
pelo próprio Deus. Melquisedeque, o Cordeiro de Deus, e
muitos outros foram tipos preditivos (Sl I I 0 .4 ; H b 6.20).24
d) O tipo é determinado pelo próprio Deus.
O tipo não é fantasia humana; ao contrário, responde ao
programa da revelação estabelecida por Deus desde o princí-
pio, com visão global de toda história da salvação. Neste caso,
o sentido típico só pode ser tencionado por Deus. O elemen-
to ou coisa significadora (tipo) tem em si mesmo a sua plena
razão de ser, e ao mesmo tempo significa amda uma ulterior
re a lid ad e ( a n títip o ) o rd in a ria m e n te d e sc o n h e c id a do
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

hagiógrafo; por exemplo, Adão é tipo de Jesus Cristo (R m


5.12). Este sentido é exclusivamente próprio das Escrituras
porque está intimamente conexo à inspiração, de modo que,
sendo Deus o autor das Escrituras, só ela pode ter um sentido
intencionado pelo próprio Deus. E impossível que o hagiógrafo
conhecesse o sentido típico, a não ser que para isto tenha uma
revelação especial de Deus, revelação distinta da inspiração. O
tabernáculo, por exemplo, é riquíssimo do ponto de vista
tipológico, porque todo ele estava desenhado segundo o pia-
no divino (Êx 25.9; H b 8.5).2‫נ‬
e) U m verdadeiro tipo apresenta bases neotestamentárias26.
N o sentido típico destacam-se três elementos: os dois
termos contrapostos que se chamam de tipo (ou figura) o
primeiro termo, e o segundo antítipo (ou figurado), por exem-
pio, Melquisedeque e Cristo, e sua mútua relação (tipologia).
Essa relação é o elemento essencial do sentido típico, e é o
próprio Deus que a estabelece, enquanto Ele determina que o
primeiro signifique o segundo.2. Isto posto, como sabermos
que Deus através de um ato, personagem ou coisa prefigure,
outra personagem, acontecimento ou fato real? Sem qualquer
dúvida, o Novo Testamento deve ser o parâmetro para filtrar
qualquer tipo. O caráter tipológico de Melquisedeque e o da
Páscoa israelita é indiscutível como tipo (H b 7.1-3, 15-17;
Lc 22.14-20). N o entanto, verifica-se que muitos persona-
gens e coisas no Antigo Testamento são usados por certos
pregadores e professores como tipo, sem qualquer referência
neotestamentária. E o caso, por exemplo, de José e Moisés.
N o primeiro personagem, Habershon, segundo Roy Zuck, fez
uma relação de 131 comparações, uma das quais, curiosamen-
te, é que ambos (José e Cristo) foram até Siquém! Ela também

234
H ebraísm os

vê Moisés como uma prefiguração de Cristo, fundamentada


em 69 comparações.28 E necessário que se distinga o tipo inato
do tipo inferido. O inato é explicitamente declarado nas páginas
do N o vo T e stam en to e n q u a n to o tip o in ferid o não é
explicitado, mas estabelecido pelo tom geral do ensino do Novo
Testamento, como por exemplo, a Epístola aos Hebreus cuja
metodologia hermenêutica é o uso da tipologia. Entretanto,
muitos teólogos negam o tipo inferido por causa do perigo da
exegese fantasiosa que torce subjetivamente o texto.29 Se usar-
mos cada personagem, eventos ou coisas, como tipo de Cris-
to, apenas devido às comparações existentes entre ambos sem
qualquer base escriturística que a ratifique, como então dis-
tinguir o tipo verdadeiro da mera ilustração ou comparação
(elevada a um tipo verídico)? N em tudo que é semelhante
deve ser considerado um tipo. Deve ser apresentado como uma
ilustração, ao sermão e ao ensino, e não como um tipo válido,
pois deixaria de ser ilustrativo para ser alegorização.30

Interpretação dos T ip o s

1) Descobrir o sentido literal do tipo.


Aspecto fundamental na interpretação dos tipos é a apu-
ração do sentido literal do texto. A exegese, deve preceder qual-
quer afirmação dogmática ou heurística. Ao fazer o confronto
entre os dois termos do sentido típico, é necessário restringir-
se estritamente ao ponto intencionado por Deus, para evitar
que se entre em detalhes estranhos à tipologia, ainda que pare-
ça haver algum fundamento analógico.31
2) Reparar no ponto ou nos pontos de correspondência ou
semelhança entre o tipo e o antítipo, delimitando adequadamen-
te a fim de não atribuir ao tipo mais do que realmente prefigura.32
235
H e r m e n e u t i c .1 tÃc: 1 e aescon11?11cada

Por exemplo, Melquisedeque era rei e sacerdote, e era su-


perior a Aarão. Pelo menos nesses dois aspectos ele represen-
tava Cristo, pois Cristo é Rei e Sacerdote, e seu sacerdócio é
superior ao de Aarão. Deve-se procurar as semelhanças prin-
cipais, não as secundárias e insignificantes.
3) Reparar nos elementos de contraste ou de diferenças,
para evitar caracterizá-los como aspectos do tipo.
Melquisedeque era humano, mas Cristo era Deus e ho-
mem. Aarão tmha de oferecer sacrifícios por seus próprios
pecados, enquanto Cristo não precisava fazê-lo por causa da
natureza santa que possuía como Deus encarnado. N a Pás-
coa, os israelitas sacrificavam animais, mas Cristo, nossa Pás-
coa, sacrificou-se a si mesmo. Os sacrifícios que retratavam
vários aspectos de Cristo eram repetidos, ao passo que a mor-
te do Senhor na cruz foi um evento definitivo.
4) Atentar para as afirmações explícitas no Novo Testa-
mento que atestem a correspondência tipológica/‫'־‬
A Páscoa judaica no Antigo testamento possui diversas
referências tipológicas nas páginas do Novo Testamento, as
quais asseguram ser esta antiga festa judaica um perfeito exem-
pio de tipos válidos, isto é, confirmáveis pelas Escrituras
neotestamentánas.
5) O tipo deve possuir fundamento histórico.
Esta norm a possibilitará decidir nos casos aparentes e
duvidosos: se a relação que se acredita encontrar destrói o
sentido histórico, a tipologia certamente não existe; se o res-
peita, é possível que exista. “Tanto o tipo quanto o antítipo
devem basear-se em paralelos históricos genuínos ao invés de
paralelos m itológicos m tem porais. A tipologia não deve
redefinir o significado do texto nem sugerir uma correspon-
dência artificial, que não seja genuína.”34
236
H e b r a ís m o s

A ntropom orfism o
Etimologia
A palavra antropomorfismo é derivada de dois vocábulos
gregos: anthropos, que significa homem, e morphé, que significa
“forma”. Literalmente é a forma de homem ou forma humana.
N as Escrituras verifica-se que os escritores sacros não
hesitaram em conceber o m undo irracional com caracteristi-
cas humanas (prosopopéia), e nem de atribuir a Deus essas
características. E certo que essa forma, algumas vezes rústica,
não agrada a consciência estética do homem moderno, pois,
descrever a Deus com o nariz fumegando e com a boca rubra
pelas brasas ardentes que dela saem (Sl 18.8), talvez careça de
um retoque poético. Dificilmente em nossa época, alguém
descreveria o Eterno com esta linguagem. Entretanto, essas
imagens antropomórficas estão carregadas de significados con-
eretos e devem ser entendidos segundo os matizes e gênio
peculiar dos hagiógrafos. Subentendida esta realidade, deve-
mos concluir que os antropomorfismos são, na realidade, me-
táforas pelas quais os escritores sagrados procuraram descre-
ver os atributos da divindade, ou clarear, com o uso de signos
concretos, certas realidades espirituais.
Os antropomorfismos são recursos simbólicos, figurados
e poéticos, presentes em todas as religiões, pois são inevitáveis
à natureza humana, onde o conhecimento preliminar das coi-
sas processa-se através dos sentidos.

Razão do Uso de Antropomorfismo


Os israelitas, como já observamos, não gostavam da abs-
tração. Eram circunlóquios, e estavam mais interessados em
descrever as características essenciais de Deus através de lon­
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

gas descrições do que usar a síntese. Partiam do concreto para


o abstrato, isto é, preferiam descrever as coisas sensíveis e abs-
tratas através de atos ou gestos concretos. E assim que no
Salmo 18.8, o salmista poderia ter usado o conceito abstrato
de ira, indignação, mas preferiu exprimir esse sentido através
da expressão facial de quem se mostra irritado ou irado —
exalação nasal ofegante, além é claro de palavras mais agressi-
vas, firmes e intimidadoras. Tudo isto para descrever a indig-
nação de Deus quando o justo é perseguido (v. 16).
Apesar disto, não devemos imaginar que eles concebiam a
divindade como um ser mortal. Estavam cônscios de que o
Criador não era homem (N m 23.19; O s 1 1.7; M l 3.6; Jo
4.23-24; D t 4.1), mas percebiam que o fato de Deus ser Deus,
e não homem, implicava uma existência e inacessibilidade im-
possível à compreensão humana ( I T m 6.16). Daí, não se
omitiram em atribuir ao Criador características humanas.
N ão somos escusados de frisar que, em nossa experiência
cristã, encontramos muitos irmãos queridos que rejeitam a
realidade dos antropomorfismos, atribuindo mesmo a Deus,
as características corpóreas dos h o m e n s.33 C o n fu n d e m
corporeidade com personalidade, e espírito com a matéria.
Q uando afirmamos que Deus é espírito, dizemos que Ele é
real, apesar de ser invisível aos olhos humanos. N inguém ja-
mais viu a Deus em Sua glória (Cl I .1 5; IT m 6.16; Jo I.I 8 ; I
Jo 3.2). A afirmação de que Deus é espírito leva-nos a con-
cluir que Ele é incorpóreo, mas pessoal. U m espírito não pos-
sui carne e osso (Lc 24.39; N m 23.19; Os I I .9 ; Jo 5.37).
Contudo, consideramos ser necessário observar mais atenta-
mente a proposição de que Deus não possui corpo humano:
238
H ebraísm os

• Por não possuir partes corporais, Deus não está sujeito


às limitações a que estão sujeitos os seres humanos;
• Por ser mcorpóreo, não possui faculdades sensoriais como
um homem e, por isso, não está sujeito às paixões humanas;
• Por ser mcorpóreo, não se compõe de nenhum elemen-
to material, e não está sujeito às condições naturais;
• Por ser incorpóreo, subentende-se que Ele deve ser ado-
rado de m odo não corpóreo, e sim espiritual (Jo 4.24), pelas
faculdades da alma, vivificadas e iluminadas pelo Espírito Santo
(I Co 2.14; Cl 1.15-17).
Isto posto, Deus não pode ser visto com olhos naturais e
nem apreendido pelos sentidos físicos. C om essas declarações
não estamos afirmando que:
• Deus seja um hálito, vento ou algo amorfo, irreal, som-
brio, pois Jesus referiu-se a forma de Deus (Jo 5.37);
• Deus seja impessoal, desprovido de atributos de perso-
nalidade, pois entendemos que corporeidade não eqüivale à
personalidade.

Aplicações Escriturísticas dos Antropomorfismos


Os escritores sagrados não se intimidavam no m omento
de conceber as realidades abstratas e sensíveis do Criador e da
criação natural em termos puramente humanos. Para tanto,
aplicavam desmesuradamente os antropomorfismos a fim de
realçar certas características tanto afetuosas quanto metafísicas
que não poderiam ser facilmente perceptíveis Assim, aplica-
ram os antropomorfismos à natureza (G n 4 .1 0 ,1 1; Is 44.23;
55.12), e ao Criador. D o Criador é dito ter:
• Face (Êx 33.14)
.M ã o s (Sl 10.12; Êx 33.23)

239
H e r m e n ê u t i c a írácil e d e s c o m p h c a d a

. Ouvidos ( I Sm 8.21; Sl 17.6)


. Lábios (Jó I I . 5; Is 30.27)
• Língua (Is 30.27)
• Pálpebras (Sl 1 1.4)
.O lh o s (Sl 1 1.4; D t I I . 12; I Sm 15.19)
• Dedos (Êx 31.18)
.P é s (Sl 18.9; N a 1.3)
• Costas (Êx 33.23)
.V o z (G n 3.8; I Sm 15.19)
·N a rin a s (Êx 15.8; Sl 18.8-16)
. Asas e penas sob as quais protege os justos (Sl 91.4);
. U m belo manto, cujas orlas enchem o templo (Is 6.1).
Além dessas características antropomórficas, o Senhor:
. Ruge (Am 1.2);
. Assovia (Is 7.18);
. D orm e (Sl 44.23);
. Desperta-se como dum sono (Sl 78.65);
. Cavalga sobre um querubim (Sl 18.IO).''6

O Significado de Alguns Antropomorfismos


Estevão Bettencourt oferece uma clara explicação sobre
alguns antropomorfismos, vejamos a definição deste mestre:
O Senhor Tem Nariz e Narinas
O termo hebraico ‘af, que significa nariz, pode também
significar ira, cólera. Com objetivo fundamento: o furor cos-
tuma-se exprimir por respiração mais veemente, exalação na-
sal mais intensa. Facilmente, pois, se entende a menção do
nariz fumegante do Senhor nas Escrituras veterotestamentárias,
devendo ser interpretado como a expressão da justiça de Deus
que pune os homens maus (cf. Ex 15.8; Sl 18.9-6).

240
H e b r a ís m o s

O Senhor Tem Braços e Mãos


Com a idéia de braço se associa naturalmente a de força,
/

poder. E o que claramente dá a entender o texto de Jeremias 17.5:


“M aldito o varão que confia no homem, e faz da carne o
seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!”
A luz deste texto, torna-se claro o antropomorfismo cor-
respondente, usado por exemplo em Lucas 1.49-52:
“O Poderoso... com o seu braço agiu valorosamente; dis-
sipou os soberbos... depôs dos tronos os poderosos e elevou
os humildes” (cf. Ex 15.6).

O Senhor Tem Face ou Rosto


Sendo a face ou o rosto a sede dos órgãos que exprimem
o íntimo do indivíduo, significa freqüentemente na Bíblia, a
personalidade. Verifica-se a tendência espontânea de um indi-
víduo de ocultar ou recobrir o rosto, a fim de ocultar a cons-
ciência ou o seu íntimo... a sua personalidade.
Por conseguinte, nas páginas sagradas: ...ver a face, é não
raro, sinônimo de comparecer perante; ...fugir da face de, é
fu gir de tal pessoa ou ainda esquivar-se à influência de. As-
sim, por exemplo, fala Jacó:
“Aplacá-lo-ei com o presente que vai adiante de mim, e
depois verei a sua face; porventura aceitará a minha face” (G n
3 2.2 0 ( / ‫־‬
A luz destes dizeres hão de se entender os antropomorfismos:
“N ão me escondas, Senhor, a tua face” (Sl 27.9a).
Conforme Êxodo 3 3 .1 1, o Senhor falava face a face com
Moisés. Neste versículo o antropomorfismo é logo explicado
pelo aposto: “Como um amigo fala ao amigo”.38
241
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p lic a d a

Vejamos outros recursos da linguagem hebraica.

Antropopatism o
N a m e n ta lid a d e p rim itiv a dos h a g ió g ra fo s , os
antropopatismos registravam os afetos humanos que marcam
a figura do Senhor.
Etimologia
O term o “antropopatism o” é de origem grega, provem-
ente de dois verbetes antbropos, “hom em ” e pathos, que significa
“afeto” ou “paixão”. Literalmente é paixão ou afeto humano.

Principais Sentimentos Atribuídos a Deus:


• O desgosto (Lv 20.23);
. Aversão (SI 106.39-40);
.Z e l o (Êx 20.5; 34.14);
·Vingança (Êx 32.34; D t 32.35; Is 1.24);
.C ó le ra (Êx 15.7; Is 9.19);
• Complacência (Jr 9.23);
. Alegria (D t 28.63; SI 104.31; S f 3.17);
. Arrependimento (G n 6.6; I Sm 15.35; Jr 26.13).

N om e
N a concepção dos semitas o nome é nitidamente a essên-
cia e o destino do portador ( nomen este omen). N ão se tratava
apenas de algo que distinguia uma cousa ou pessoa da outra,
mas uma parte essencial da natureza e personalidade da pes-
soa. A leitura em p ro fu n d id ad e pressupõe que o nom e
corresponde, ou pelo menos, deveria corresponder, a uma
qualidade da pessoa. E isso que se subentende nas palavras da
sábia Abigail: “N ão se importe o meu senhor com este ho-
mem de Belial, a saber, com Nabal; porque o que significa o
242
H ebraísm os

seu nome ele é. N abal é o seu nome, e a loucura está com ele;
eu, porém, tua serva, não vi os moços de meu senhor, que
enviaste” (I Sm 25.25 A R A ) /9
Etimologia
O vocábulo “nom e” (do hebraico sem, e do grego onoma,
aparece mais de mil vezes nas Escrituras Sagradas. Literal-
mente significa, “nom e”, “chamar” . O próprio fato da pala-
vra aparecer 1770 vezes na Bíblia, na maioria das vezes desig-
nando o caráter do portador, a característica de uma cidade
ou povo, e a descrição de um evento, testifica a sua im portân-
cia hermenêutica e teológica.40 E não são poucos os pregado-
res que têm feito uso deste recurso hermenêutico. Certa vez,
ouvi uma mensagem baseada em dois nomes encontrados em
Gênesis 12.8, “Ai e Betei”, traduzidos pelo pregador por “Casa
de Deus e monte de lixo”. Bem, por isso, a metodologia que
norteia este manual apóia-se em bases bíblicas sólidas. Assim
sendo, tanto um estudo orientado segundo os textos bíblicos
como aquele de orientação histórica e sociológica convergem
para sistematizar e ordenar a análise.

Acepções
a) N o grego, língua em que foi escrito o NovoTestamen-
to, o termo onoma é traduzido corretamente como “pessoas”
em Ap 3.4.
b) Freqüentemente significa reputação (M c 6.14; Ap 3.1),
autoridade/poder (M t 7.22; At 4.7), caráter (M t 6.9).
c) N o Antigo Testamento é, repetidas vezes, achado em
paralelismo com memória, lembrança, renome: “... este é meu
nome eternamente,e este é meu memorial de geração em gera-
ção” (Êx 3.115; Jó 18.7; SI 135.13).

243
H e r m e n ê u t i c a fácil e desc om plic acU

A Filosofia por trás do Nome


Os israelitas tinham consciência clara da sigmficância dos
nomes pessoais e próprios. A maneira como os autores bíbli-
cos se referem ao nome, seja de Deus, seja das criaturas, chama
a atenção e só pode se explicar à luz do gênio semítico, que o
Espírito Santo houve por bem respeitar. Observemos os me-
andros dessa linguagem!

O Caráter Intrínseco do Nome


O nome não era apenas um apelativo, para distinguir uma
pessoa das outras, mas para mostrar o caráter e a índole do
indivíduo, designava neste caso, o íntimo do portador: “Rogo-
te meu senhor, que não faças caso deste homem de Belial, a
saber Nabal; porque tal é ele qual é o seu nome. N abal é o seu
nome, e a loucura está com ele...” ( I Sm 25.25); “Depois saiu
o seu irmão, agarrada sua mão ao calcanhar de Esaú; por isso
se chamou o seu nome Jacó (suplantado!‫)־‬...” (Gn 25.26).
A este contexto pertencem também as numerosas inter-
pretações etimológicas que se oferecem quando as pessoas e
os lugares recebem nomes: Eva: “A mãe de todos os seres hu-
m anos” (G n 3.20); Caim (gerei): “Alcancei do Senhor um
varão” (G n 4.1); Babel (confundir): “Porquanto ali confun-
diu o Senhor a língua de toda terra” (G n 1 1.9).41

Mudar o Nome
M udar o nome de alguém significa assinalar-lhe uma nova
função, um novo destino de vida. O caráter meritório do nome,
então, fica exposto pela mentalidade do hagiógrafo. Assim
sendo, o Senhor muda o nome de alguém quando a este dirige
novo futuro ou destino: Abrão “Pai elevado”, torna-se Abraão

244
H ebraísm os

“Pai de m ultidão” (G n 17.5); Jacó, “suplantador”, torna-se


Israel, “aquele que luta com D eus” (G n 32.28; 35.10); Benôni,
“Filho da minha tristeza”, torna-se Benjamim, “Filho da mi-
nha destra, ou direita” (G n 35.18); José torna-se “Tsaphnath-
Paneach” que significa “provedor da vida” (G n 4 I.4 5 ).42
O Nome E a Própria Pessoa
O nome é identificado com a própria pessoa e existência
do respectivo portador, istõ eqüivale para o hagiógrafo ao ca-
ráter pessoal do nome. E isto o que pretende afirmar o texto
de Apocalipse 3.4: “Mas também tens em Sardes algumas
pessoas (literalmente uns poucos nomes) que não contamina-
ram suas vestes e comigo andarão de branco, porquanto são
dignas disso”. Ter o nome apagado, riscado, é sinônimo de
morte, repúdio e desprezo, “Agora, pois, perdoa o seu pecado;
se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito”
(Ex 32.32); “Os meus inimigos falam mal de mim, dizendo:
quando morrerá ele e perecerá o seu nom e” (Sl 4 I.5 ).43 En-
quanto conhecer o nome de um indivíduo revela intimidade,
comunhão e conhecimento do caráter do tal. O nome neste
caso é como um sósia da pessoa. Jeremias I4 .9 b afirma: “(.‫)״‬
Mas tu estás em nosso meio, e somos chamados pelo teu nome;
não nos desampares”. E neste contexto que devemos entender
Mateus 18.20: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos
em meu nome, ali estou no meio deles” (cf. Jo 10.3-I I ) .
O Nome Eqüivale à Propriedade
Quando o nome de alguém é pronunciado sobre alguma
coisa, objeto ou cidade, então esse torna-se intimamente ligado
à pessoa nomeada, ou torna-se sua propriedade. E assim que
devemos entender o texto de 2 Samuel 12.28. Se Joabe pronun­

245
H e r m e n ê u t i c a fácil e de sc o m p li c a d a

ciasse o seu nome sobre a cidade de Rabá essa Lhe pertenceria.


Em Isaías 4.1 sete mulheres pedem que o nome de um homem
seja proclamado sobre elas, isto é, que sete delas pertençam a
um homem somente. Se há dúvidas concernentes a este tópico,
o texto de Isaías 44.5, esclarecerá o que se pretende afirmar:
“U m dirá: Eu sou do Senhor: outro se chamará do nome de
Jacó; outro ainda escreverá na própria mão: Eu sou do Senhor, e
por sobrenome tomará o nome de Israel (A R A )”.44 Em 2 Reis
23.34 e 24.17, o monarca vencedor muda o nome dos homens
subjugados, a fim de significar que a partir daquele ato estariam
sujeitos ao poder do novo soberano.
O Nom e Garante Proteção
É o que ocorre quando alguém pronuncia sobre outrem o
nome de um soberano, garantindo-lhe a proteção do monar-
ca. E assim que se compreende a bênção sacerdotal de N úm e-
ros 6.27: “Assim, porão o meu nome sobre os filhos de Israel,
e eu os abençoarei”. Ter o nome do Senhor sobre si, é obter a
segurança do próprio Deus: “... o nome do Deus de Jacó te
proteja” (Sl 20.1).
O Nom e da Divindade
N a mentalidade primitiva dos semitas conhecer o nome
de uma divindade, conferia ao adorador certa autoridade para
obrigar o divo a fazer a vontade do adorador. Isto torna-se
claro quando em 2 Reis 18.26-28, os adoradores de Baal evo-
cam o seu nome a fim de que esta divindade cananita se obri-
gue a realizar o desejo do ofertante. Em Gênesis 32.29 e Juizes
13.6,17-18, os nomes das personagens são ocultados, pois,
conforme a mentalidade vigente, a entrega do nome seria a
consignação do poder próprio. E neste contexto que devemos

246
H ebraísm os

en tend er tam b ém o ato de invocar o nom e do S enhor


(G n 4.26; 12.8).
Estas características culturais dos antigos semitas deram
origem a incontáveis expressões bíblicas. A priori, devemos
estudar cada destes textos segundo o contexto em particular.

N úm eros

Os números, tal como as características semíticas anterio-


res, estão arrolados no processo de desenvolvimento e transmis-
são do texto sagrado, constitumdo-se uma forma típica, idio-
mática e simbólica de transmitir a verdade por meio escrito.
N as Escrituras veterotestamentárias os números não são
representados por numerais ou letras, mas por expressões numé-
ricas escritas por extenso.

Os Usos dos Números


Quantidade
N o Antigo e Novo Testamento os números são usados
para expressar diversos conceitos relacionados com quantidade,
de maneira bem semelhante ao uso em outros livros, exemplo:
a) “medida” (Sl 39.5);
b) “soma” , “total” (N m 1.49);
c) “em números pequenos” (D t 26.5);
d) “incontável” (G n 41.49; Is 2.7);
e) “ser muitíssimo numeroso” (Sl 40.5).

Qualidades
Os números, muitas vezes, nas Escrituras, não figuram
como indicações de quantidade, mas como enunciação de
qualidades. Neste caso são a expressão de um juízo que o

247
H e r m e n ê u t i c a tacil e d e s c o m r l ic a à .

h ag ióg rafo fo rm u la a respeito de d e te rm in a d o sujeito


(Ap 13.17,18).
Números Bíblicos Significativos4‫י‬
1. Unidade e caráter ímpar
a) O Senhor Deus é o único Senhor (D t 6.4);
b) A raça humana provém de um único progenitor, don-
de se deriva a unidade da raça (At 17.25);
c) O pecado entrou no m undo por um homem, como
também a justiça (R m 5.12,15);
d) O sacrifício único de Cristo é suficiente para todos e
para todas as épocas (H b 7.27);
e) O Pai e o Filho são um (Jo 10.30);
f) O homem e a mulher dentro do casamento, tornam-se
uma só carne (M t 19.6).

2. Unidade e Divisão
a) Dois é a expressão mínima da pluralidade, e natural-
mente indica alternativas e contraste (M t 6.24; 21.28).
b) Dois também pode indicar alguma força separadora
(Jr 18.21), como duas opiniões que apresentam um dilema,
ou como duas maneiras diferentes de apresentar algo (M t
7.13,14).
c) H om em e mulher são um só (G n 1.27; M t 19.6);
d) Duas pessoas trabalham juntas em cooperação (Js 2.1);
e) Os apóstolos foram enviados de dois em dois (M c 6.7);
f) N o Sinai, foram dadas as duas tábuas da lei.

3. Unidade na Multiplicidade
Três é um número retórico muito comum e natural, e
ocorre freqüentemente a repetição ou agrupamento tríplice

248
Hebraísm os

onde não se menciona número propriamente dito. M uitos


conceitos básicos se formalizam através de um padrão tríplice:
começo, meio e fim; passado, presente e futuro; espírito, alma
e corpo. São numerosos os exemplos diferentes: há três dons
duradouros em I Coríntios 13.13; três testemunhas em I João
5.8; títulos tríplice de Cristo e Deus em Apocalipse 1.4 e 4.8.
a) Esse é o número da Trindade: três pessoas, mas uma só
substância (M t 28.19; Jo 14.26);
b) Três dias marcaram um ponto terminal;
c)Três discípulos especiais eram íntimos do Senhor Jesus
(M c 9.2);
d) A doxologia tríplice de Isaías 6.3 indica a perfeita san-
tidade de Deus;
e) Em Números 6.23-26, a bênção tríplice.

4. A Totalidade da Terra e do Universo


E indicativo de amplitude ilimitada no sentido de espaço
e tempo aplicado ao Universo visível.
a) O tetragrama divino Y aH W eH (Y H W H );
b) Q uatro nos fluíam do Edem (G n 2.10);
c) Os quatros cantos da terra (Ap 7.1);
d) Os quatros ventos (Jr 49.36; Ez 37).

5. Exprime Algo Incompleto


O número do homem, que fica aquém do número sete, o
número divino.
a) Deus criou o homem no sexto dia da criação (Gn 1.27);
b) O homem deve trabalhar por seis dias (Ex 20.9);
c) O Anticristo, o homem terrível, é representado por
um tríplice seis “6 6 6 ” (Ap 13.18). O uso das letras de uma
palavra para expressar através da combinação de seus valores
249
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

numéricos um nome ou uma frase engenhosa é chamado de


gematria. Esse é o m étodo usado principalmente pelos rabi-
nos judeus, e seus adeptos têm alcançado combinações ím-
prováveis. O livro O Código da Bíblia, de Michael Drosnm, é
baseado nessa técnica bastante heterodoxa.

6. Número da Perfeição e da Divindade, Integridade,


Intensidade
a) Sete maldições contra quem matar Caim (G n 4.15);
b) A palavra do Senhor é depurada sete vezes (Sl 12.6);
c) Sete vezes ao dia, o salm ista louvava ao Senhor
(Sl 1 19.164);
d) Sete estrelas, sete igrejas, sete anjos (Ap 1.10,12,20; 2.1);
e) A proeminência desse número se observa:
• Em ordenanças rituais (santificação do sétimo dia, as
festas dos pães sem fermento, a festa dos tabernáculos, o ano
sabático, as sete aspersões com sangue no dia da expiação;
Êx 34.18; Lv 23.24; Êx 21.2; Lv 16.14,19);
• E m atos históricos (sete anos de servidão de Jacó, sete
mergulhos de Naamã, sete subidas do servo de Elias ao Car-
melo; Gn 29.20,27; 2 Rs 5.10; I Rs 18.43,44);
• Em passagens didáticas (sete abommações que há no co-
ração de quem odeia, ou em o Novo Testamento concernentes
às ofensas e ao perdão; Pv 26.25; Lc 17.4; M t 18.21);
• E m textos apocalípticos (a visão de João sobre as sete
igrejas, as sete lâmpadas, os sete selos, os sete chifres, os sete
olhos do cordeiro, as sete pragas finais (Ap 1.4,16;4.5;5.1,6;15.1).
• Sobre os seus múltiplos:
14 - Catorze (Ex 12.6; N m 29.13,15) Chama a atenção
especialmente para a divisão das gerações de Abraão até Cristo em
três grupos de catorze cada um (M t I.1 7);

250
H ebraísm os

49 - Quarenta e nove — 7x7. Aparece em uma das prin-


cipais prescrições rituais: regulamento da festa das primícias
(Lv 23.15), os quarenta e nove anos de intervalo que deveria
haver entre um ano de jubileu e outro (Lv 25.8);
70 - Setenta. Os mais importantes são: descendentes de
Jacó (Êx 1.5; D t 10.22), os anciãos de Israel (Êx 24.1,9; N m
11.16,24), os filhos de Acabe (2 Rs 10.1), os anciãos idóla-
tras vistos por Ezequiel (Ez 8.1), as setenta semanas de Daniel
(D n 9.24), os anos da vida humana (Sl 90.10), os setenta
discípulos (Lc 10.1,17).

7. Todo Completo, Fechado em si


O número dez tornou-se im portante entre os semíticos
pelo fato de que o homem primitivo, ao contar, recorria aos
dedos de suas mãos; desta praxe se originou o sistema deci-
mal. Em tais circunstâncias, foi tido como símbolo de um
“todo completo, fechado em si”. E certamente esse o signifi-
cado que lhe compete nas genealogias dos setitas (G n 5.1-
32), e dos semitas (G n I I . 10-32).
a) Os dez servos (um grupo completo), as dez dracmas (nú-
mero redondo), as dez virgens (todos os cristãos) (Lc 19 .13; 15.8;
M t 25.1);
b) O catálogo taxativo de dez adversários que não conse-
guem arrebatar ao cristão o amor de Cristo (R m 8.38s);
c) Dez vícios taxativos, que excluem do remo de Deus
(I Co 6.9s);
d) Dez milagres narrados sucessivamente para compro-
var a autoridade de Jesus após o importantíssimo sermão so-
bre a m ontanha (M t 8s);
e) As dez prescrições dirigidas a quem queira subir a
m ontanha do Senhor (Sl 14).

251
H e r m e n ê u t i c a fácil e de sc o m p li c a d a

8. O Número Doze — 12
E um número básico para a história do povo de Deus em
sua totalidade, unidade, grandeza e glória a que está destina-
do. Era número predileto dos judeus. Estes constavam de doze
tribos, portadoras da fé e da esperança messiânicas; em conse-
qüência o remo messiânico é freqüentemente assinalado pelo
número doze.
a) Os doze filhos de Jacó — as doze tribos de Israel;
b )O s doze apóstolos (M t 10.12; I Co 15.5);
c) Os doze mil selados de cada tribo de Israel (Ap 7.4-8);
d) As doze estrelas sobre a cabeça da mulher vestida de
sol (Ap I2 .I);
e) A Nova Jerusalém tem doze portas, guardadas por doze
anjos (Ap 2 1.12), ornada cada qual com uma pérola e o nome
de uma das tribos de Israel; sobre cada qual das pedras da base
acha-se o nome de um dos apóstolos (Ap 21.14); suas dimen-
sões são múltiplos de doze (Ap 21.19,20), e os doze frutos da
árvore da vida (Ap 22.2). Tais indicações significam o caráter
de plenitude e consumação, que toca à Nova Jerusalém ou à
Igreja. Esta constitui o remo teocrático por excelência, em que
os bens outrora outorgados
O
às tribos de Israel se acham multi-
plicados e oferecidos a todos os homens.

9. O Número Quarenta — 40
a) Quarenta anos os judeus comeram o maná no deserto
(Êx 16.35);
b) Q uarenta dias Moisés esteve orando, jejuando e falan-
do com Deus (Êx 24.18);
c) Quarenta dias Elias \iajou alimentado pela comida que
o anjo trouxe ( I Rs 19.8);
d) Quarenta dias Jesus ficou no deserto jejuando e oran-
do (M t 4.2).

252
H ebraísm os

SIN O P SE
U m símbolo procura transmitir a idéia abstrata ou real,
utilizando-se de elementos concretos e experienciais.
A palavra “antropom orfism o” é derivada de dois vocá-
bulos gregos anthropos, que significa “hom em ”, e morphe, que
significa “form a”. Literalmente significa form a de hom em
ou forma humana.
As aplicações escriturísticas dos an tro p o m o rfism o s
objetivam personificar a natureza e referir-se ao Senhor
O termo “antropopatism o” é de origem grega, proveni-
ente de dois verbetes: anthropos, “hom em ” e pathos, que significa
“afeto” ou “paixão”. Literalmente é paixão ou afeto humano.
O termo “onom a” é traduzido corretamente como pes-
soas, frequentemente significa reputação, autoridade/poder,
caráter, memória, lembrança, renome.
O nome mostrava o caráter e a índole do indivíduo; desig-
nava, neste caso, o íntimo do portador. M udar o nome de al-
guém significa assinalar-lhe nova função, novo destino de vida.
Ter o nome apagado ou riscado era sinônimo de morte, repúdio
e desprezo, enquanto que conhecer o nome de um indivíduo
revela intimidade, comunhão e conhecimento do caráter do tal.
O termo “núm ero” é a tradução do grego arithmos e do
hebraico mispãr, que significam respectivamente “aquilo que
foi juntado, quantidade, medida, número, total, extensão”.

Trabalhando com Textos

Crítica Textual baseia-se no testemunho dos mais antigos


e melhores manuscritos, assim como dos papiros, das tradu-
ções antigas e da patrística, ela procura, segundo regras de­
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p lic a d a

terminadas, estabelecer um texto bíblico que seja tão próximo


quanto possível do texto original.
Os Gêneros procuram determinar os gêneros literários,
ambiente de origem, traços específicos e evolução desses tex-
tos. O texto é em seguida submetido a uma análise lingüística
(morfologia e sintaxe) e semântica, que utiliza os conheci-
mentos obtidos graças aos estudos de filologia histórica.
A Critica Literária esforça-se, então, em discernir o início
e o fim das unidades textuais, grandes e pequenas, e em verifi-
car a coerência interna dos textos.
A Crítica dos Gêneros procura determinar os gêneros 11-
terários, ambiente de origem, traços específicos e evolução
desses textos.
Enquanto as etapas precedentes procuraram explicar o
texto pela sua gênese, em uma perspectiva diacrônica, esta úl-
tima etapa termina com um estudo sincrônico: explica-se aqui
o texto em si, graças às relações mútuas de seus diversos ele-
m entos e considerando-o sob seu aspecto de mensagem
comunicada pelo autor a seus contemporâneos.
A Interpretação da Bíblia na Igreja (p. 41-42), Pontifícia
Comissão Bíblia —Paulinas.

EX ERCÍCIO S

L Conceitue o term o símbolo.


2. O que é antropomorfismo?
3. Com o devem ser interpretados os números bíblicos?
4. O que é Gematria?
5. O que representava o nome para os hebreus?

254
H ebraísm os

Bibli-Holmes
Ajude nosso detetive “Bibli-Holmes” a pesquisar o sig-
mficado simbólico e metafórico dos termos: cinto, chifre, co-
ração, fermento, fogo, O ola e Ooliba.

LEITURAS E LIVROS PARA APROFUNDAM ENTO

B E T T E N C O U R T , Estêvão. Para Entender 0 Antigo Testa-


mento. Editora Santuário (p. 84-91).
M A R T IN E Z , José M . Hermenêutica Bíblica. Editorial Clie
(p. 181-91).
Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Vozes (p. 1050-53).
S C H O K E L , A lonso L. A Palavra Inspirada - Loyola
(p. 1 1 0 -I I 8).

NOTAS
1La lecture chretiène de la Bible, Mavedsores, 5° ed., p. 150, apud.,
Estêvão Bettencourt, Para Entender 0 Antigo Testamento, p. 48.
2 Bettencourt, op.cit., p. 51.
3 Op.cit., 52.
4 Tipo, Tipologia. In: Enciclopédia Histórico~Teológka da Igreja Cristã,
Walter A. Elwell (ed.), vl. Ill (N -Z ), p. 535.
‫ נ‬Hermenêutica Bíblica —Como interpretar las Sagradas Escrituras,
p. 182.
6 Manfred Lurker, Dicionário de Figuras e Símbolos Bíblicos, p. 105.
' Idem.
8 N enhum intérprete sério das Escrituras ignora o valor
paralelo dos escritos do Oriente Antigo e a cultura religiosa
destes povos. E assim que os textos e a cultura social e religio­

255
H e r m e n ê u t i c a fácil e descomplicacLí

sa destes povos projetaram luz em muitas passagens das Escri-


turas. Cf. A. Barucq, et. alli, Escritos do Oriente Antigo e Fontes Bíblicas,
Edições Paulinas, Klaus W E N G S T , Pax Romana — Pretensão e
realidade, Edições Paulinas; Leon Epsztem, A Justiça Social no Antigo
Oriente Médio e 0 Povo da Bíblia, Edições Paulinas; J. I. Packer,
et alii, O Mundo do Antigo Testamento, Vida; J. Comby & Lemonon,
Roma em face a Jerusalém, edições Paulinas; Santos Benetti, Sexu-
alidade e Erotismo na Bíblia, Paulinas.
9 Estas sacerdotisas eram encarregadas de manter o fogo
da cidade, personificado pela deusa Vesta. C f. C om bv &
Lemonon, op.cit., p. 10.
10 Lurker, op.cit., p. 105.
11 Além das observações pessoais as fontes para este grá-
fico foram: A. Van D E N B O R N , Dicionário Enciclopédico da B í-
blía, Vozes; Estevão Bettencourt, Para Entender 0 Antigo Testamento,
Editora Santuário; M anfred Lurker, Dicionário de Figuras e Sím -
bolos Bíblicos, Paulus; José M . Martinez, Hermenêutica Bíblica; CTTE;
Atônieto Grangeiro Sobrinho, Hermenêutica Bíblica, CPAD ; E.
Lund & P. C. Nelson; Hermenêutica, Vida.
12 C f. F. W. Gmgrich & F. W. Danker, T éxüo do Novo Testa-
mento Grego / Português, p. 210.
13 F. Rienecker & C. Rogers; Chave Lingüística do Novo Testa-
mento Grego, p. 264. Para uma visão completa do sentido do
termo e suas ênfases principais, confira o Dicionário Internacional
de Teologia do Novo Testamento, vl IV (R -Z ), p. 623-6.
14 Champlm, op.cit., vl V, p. 568.
1‫ נ‬Gingrich & Danker, op.cit., p. 210.
16 As Cartas de Paulo (I), p. 287.
17 Op.cit., p. 289.
18 Rinaldo Fabris, A s Cartas de Paulo (III), p. 441.

256
H ebraísm os

19 Pequeno trecho que liga as divisões principais do texto.


20 Osborn, op.cit., p. 535.
21 Teodorico Ballarini, Introdução à Bíblia, p. 210.
22 M artinez, p.cit., p. 176.
23 Ibidem.
24 Ibidem.
2‫ ג‬Ballarine, op.cit., p. 221. Confira também M artinez,
op.cit., p. 177.
26 M artinez, op.cit., p. 177.
2/ Ballarine, idem.
28 A Interpretação Bíblica —meios de descobrir a verdade da Bíblia,
p. 205.
29 Osborne, op.cit., p. 536.
30Seria melhor entender essas ilustrações como “acomo-
dação bíblica”. Acomodação bíblica é a aplicação de um texto
bíblico a pessoas ou coisas inteiramente diversas daquelas que
o autor mtencionou, por uma certa semelhança. E m princípio
é lícita: justifica-se pelo uso ilustrativo no sermão ou no ensi-
no, entretanto, não é lícito ensiná-la como Palavra de Deus ou
como um sentido intencionado por Deus ou pelo hagiógrafo.
Esta distinção temos feito constantemente em sala de aula.
Jl Ballarine, op.cit., p. 223.
32
32 M artinez, op.cit., p. 180.
‫ '־'־‬Ver as “bases neotestamentárias do tipo ”.
34
''4 Osborne, op.cit., p. 536.
Em boa parte das igrejas evangélicas no Brasil, os crentes
possuem um conceito e visão equivocada de Deus. Para alguns
deles crer que Deus possui forma corpórea, tal qual o homem, é
proposição de fé. Geralmente, essa forma de compreensão não
está baseada na má compreensão dos textos que atribuem a Deus

257
H e r m e n ê u t i c a fácil e de sc o m p li c a d a

certas características corpóreas, mas bem investigado, veremos


que se trata de uma suposta revelação divina. Reafirmamos que
Deus continua a revelar-se nos dias hodiernos, mas a pretensão
de afirmar que alguém viu a Deus, e que Ele possui esta ou
aquela forma corpórea, cheira ao politeísmo grego. Até as
teofanias visíveis no Antigo Testamento não foram similares (Ex
3.2-6; 19.18-20; D n 7.9-14). As vezes foram manifestações
angélicas (Jz 2 .I; 6.11,14), humanas (Gn 18.1-2,13,14), e não
humanas (Gn 15.17; Ex 19.18-20). Outras vezes apenas audí-
veis (I Rs 19.12-13; M t 3.17).
36 Bettencourt, op. cit., p. 62.
37 Op. cit., p. 62.
38 Op. cit., p. 68.
39 O texto d aT E B é mais contundente: “Que o meu se-
nhor não dê atenção a esse idiota, a Nabal, porque ele merece
o nome que tem: ele se chama Infame, e a infâmia gruda nele.
Eu, porém, tua serva, não tinha visto os moços que meu se-
nhor enviara”.
40 Cf. R. Youngblood, Nomes nos Tempos Bíblicos; significados
dos. In: Enciclopédia Histórtco-Teológica da Igreja Cristã,
vl. Ill (N -Z ), Walter A. Elwell, ed., p. 25.
41 C f Bettencourt, op.cit., p. 71-76.
42 Idem.
43 Idem.
44 C f A. Van D en Born, op.cit., p. 1048.
4i Cf. M artinez, op. cit., p. 186-189; Bettencourt, op.cit,
76-91, A. V D en Born, op.cit., p. 1050-3; Grangeiro Sobrinho,
op.cit., p. 75-8; Lurker, op.cit., p. 160-2. Enciclopédia Histórico-Teo~
lógica da Igreja Cristã,vl. Ill (N -Z ), p. 34-35. Dicionário Internaci-

258
H ebraísm os

onal de Teologia do Novo Testamento, vl.III (L -Q ), p. 29 0 -30 8 . Esses


manuais serviram de base para o desenvolvimento do tema, o
leitor deve consultá-los para uma apreciação melhor e mais
profunda. Consulte, John H . Stek, Aspectos da Poética do Antigo
Testamento e uma introdução a: Salmos, Provérbios e Tclesiastes, editora
Luz Para o Caminho, 1985, p. 22-5 — Apostila. Ver ainda
Christian Chen, 05 números na Bíblia — Moisés; os números e nós vl.I,
Editora Betânia.

259
C A P ÍT U L O 8

p o é tic a éi.^alccí

A poesia das Sagradas E scritu ra s não está lim ita d a


apenas aos cinco livros poéticos.
E n co n tra m o s no conteúdo dos livros históricos\
proféticos, evangelhos e das epístolas vá rio s fr a g m e n to s
da poesia hebraica Ç D t 3 2 ; I s 1 . 2 - 3 ) . O acervo
de literatura poética dos hebreus não se lim ita v a apenas
às contidas no A n tig o Testam ento; pois e x istia m outras
produções literárias-poéticas que eram po pulares
em Israel ( N m 2 1 . 1 4 ; Z S m 1 . 1 8 ) .

D efinições
Poeta
E aquele que tem faculdades poéticas e se consagra à po-
esia; aquele que faz versos.
N o grego, a palavra poeta é expressa pelo vocábulo poietés.
Logo, a definição etimológica de poeta seria “fazedor”, “rea-
lizador”, “ator”, “agente”. A palavra poeta aparece na Bíblia
em Atos 17.28, onde o apóstolo Paulo cita um trecho de Arato
de Mísia: “... como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque
dele também somos geração” (ARA). N ão obstante, o termo
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p lic a d a

grego aparece em Romanos 2.13 e Tiago 1.22, com o sentido


distinto daquele que faz poesia.
O poeta é um “realizador” ou “agente da poesia”. Poesia
é a realização do labor do poeta. Tanto um como o outro
pode ser distinguido, ao mesmo tempo em que são indivisíveis:
não existe poeta sem poesia e não existe poesia sem poeta. U m
é o criador, o outro a criatura. As Escrituras afirmam que
Deus é o poeta por excelência, e os salvos e a criação, a sua
maior poesia! Aleluia! “Porque somos feitura sua, criados em
Cristo Jesus para as boas obras...” (E f 2.10). O u ainda, como
afirma Paulo aos Romanos: “... desde a criação do mundo... se
entendem e claramente se vêem pelas coisas que foram cria-
das...” (1.20). O grego do Novo Testamento diferencia tanto
o poeta quanto a poesia, nos termos acima descritos.
N o sentido literário, um poeta é alguém que exprime suas
idéias mediante imagens verbais, metáforas e outros artifícios
literários.

A Poesia e os Livros Poéticos


A partir do m om ento que entendemos o que vem a ser
poesia e poeta, torna-se fácil a definição de livros poéticos.
Livros poéticos são aqueles nos quais o seu conteúdo é
escrito numa linguagem caracterizada pela emoção, ritmo e
linguagem metafórica.
Isto não significa que tais livros sejam mero fruto da ima-
ginação humana. Poesia é um discurso emotivo marcado pela
emoção, rima, ritmo e pelo uso da linguagem figurada. Dife-
re-se da prosa, pois enquanto esta é essencialmente descritiva
e dissertativa, a poesia, apesar de usar a descrição e a disserta-
ção em alguns casos, concentra-se peculiarmente no uso da
linguagem figurada.

262
P oé tic a H e b r a ic a

Texto em Prosa Texto Poético

“N o ano terceiro de Ciro, rei “O p a rd a l e n c o n tr o u


da Pérsia, foi revelada uma pa- casa, e a andorinha, ninho
lavra a Daniel, cujo nome é para si, onde acolha os
Beltessazar; e a palavra é ver- seus filhotes; eu, os teus
dadeira e trata de uma guerra altares, Senhor dos Exér-
prolongada; e ele entendeu citos, Rei m eu e D eus
essa palavra e teve entendimen- meu! ” (SI 84.3 ARA)
to da visão”. (D n IO .I)

O s C om pon en tes de um a Poesia

Linguagem Poética
Q ualquer poeta trabalha com uma matéria-prima chama-
da palavra. Porém, um termo em si não é suficiente para al-
cançar a excelência poética; é necessário que ele seja trabalha-
do num processo de seleção e arrumação vocabular, cuja ex-
ploração de significados irá caracterizá-lo como linguagem
poética, ou seja, o sentido conotativo das palavras (figuras de
linguagem). Facilmente encontramos esse elemento na poesia
bíblica.

Rima
A rima é um jogo sonoro cujas sílabas apresentam sons
semelhantes ou mesmo idênticos no final de seus versos. E a
uniformidade de sons no final de dois ou mais versos. Veja-
mos, por exemplo, alguns versos de “Rondó do C apitão”, de
Manuel Bandeira:

263
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

“Bão, balalão;
senhor capitão;
tirai esse peso do meu cora cão;
não é de tristeza, não é de aflição
é só de alegria, senhor capitão...”

Ao final de cada uma das linhas poéticas desse verso, nota-


se a repetição proposital de “ão”, a fim de rimar com a linha
anterior e posterior. A isto chamamos de “paralelismo sono-
ro ” ou rima.
U m outro exemplo na poética brasileira encontramos em
Vinícius de Morais em seu famoso “Soneto de fidelidade”:

De tudo, ao meu amor serei atento - A


Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto - B
Que mesmo em face do maior encanto - B
Dele se encante mais meu pensamento - A

Ainda que não seja comum nas traduções de nossas Bíbli-


as o uso de paralelismo sonoro, contudo, algumas formas de
assonância podem ser encontradas nos textos originais das
Escrituras, como por exemplo, Jo 1.9

Hv το φως τό άληθι-νον,
(en tô fõs tô alethi-nôn)
Era a verdadeira luz

ô φοτίζει πάντα άνθρω-πον,


(hô fotízei panta ânthõ-pon)
que ilumina todo 0 homem

ερχόμενον εις τον κόσ-μον‫׳‬


(erkhomenon êis tôn kos-mon)
vindo ao mundo

264
Poética H e b r a ic a

Métrica
M étrica é a ciência que ensina a medir os versos poéticos
ou sílabas poéticas. Isto quer dizer que a m edição ou
metrificação de um verso é feito a partir das sílabas, isto é, das
emissões sonoras. N ão devemos confundir sílaba poética com
sílaba gramatical. E que a sílaba gramatical é pronunciada numa
única emissão sonora, enquanto a sílaba poética, permite a
junção sonora, isto é, duas sílabas gramaticais pronunciadas
numa única emissão sonora. Esta forma estrutural da poesia
encontramos largamente nas Escrituras Sagradas. Vejamos:

Sílaba gramatical do SI 92.12


O / ju s / t o / f i o / re s / c e / r á / c o / m o / a / p a l/ m e i/ ra,
I- 2- 3- 4- 5- 6- 7- 8- 9- 10- I I - 12- 13

Sílaba Poética do SI 92.12


Leia atenta e corretamente, em voz alta. N o te a junção
sonora que ocorre:
O / ju s / t o / f i o / re s / c e / r á / c o / mo a / p a l/ m e i/ ra1

I- 2- 3- 4- 5- 6- 7- 8- 9- 10- I I
Além da junção sonora, as sílabas que aparecem depois
da última sílaba tônica do verso são pronunciadas m uito fra-
camente, o que faz com que sejam desprezadas na contagem
de sílabas poéticas:

pal / mei / ra

Ultim a sílaba A sílaba pós-tônica


tônica do verso. é desprezada.

265
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Fica claro que a contagem de sílabas poéticas obedece a


duas regras básicas:
• A junção sonora de algumas vogais no interior do verso.
• A contagem somente até a última sílaba tônica do verso.
Deve-se observar, contudo, que a estrutura dos versos po-
éticos obedecem padrões rítmicos variados, que se denomi-
nam como versos livres, muito comum nos poetas modernis-
tas, como M anuel Bandeira.
Estrofe
U m a estrofe é um conjunto de versos em que os poetas
dividem seus textos. Interessante é o m odo como o Salmo
139 está dividido. Possui 2 4 versos, divididos em 4 estrofes
(quaternário), contendo cada uma 6 versos (sextilha). Veja-
mos a estrutura deste maravilhoso poema:
I a estrofe: 1-6: A onisciência divina
2 a estrofe: 7-12: A onipresença divina
3a estrofe: 13-18: A onipotência divina
4 a estrofe: 19-24: O problema do mal
Ritmo Poético
Os dois elementos que contribuem para a obtenção do
ritmo poético são a rima e a métrica. Porém, o ritmo não
resulta apenas desses dois elementos, mas é elaborado através
do jogo das sílabas tô n icas, dos fonem as vocálicos e
consonantais, da pontuação, e outros recursos poéticos. O largo
uso da estrutura paralelística propicia ao verso hebraico o con-
trole do ritmo através das sílabas fortes.

Estrutura da Poesia Hebraica


Paralelismo
Enquanto grande parte de nossa poesia moderna apóia-
se na rima e no paralelismo sonoro, a hebraica enfatiza o rit­
266
Poé tic a H e b r a ic a

mo e o paralelismo de idéias ou pensamentos. E raro ou quase


impossível encontrar na poesia bíblica o paralelismo de sons
(rima) ao final de cada linha poética. Contudo, o paralelismo
de idéias abunda em toda a Bíblia. R obert Lowth foi o princi-
pal estudioso do paralelismo bíblico.
O paralelismo poético hebraico é um ritmo equilibrado do
pensamento e das idéias, mais do que das palavras e dos sons.
Vejamos:
“O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o
cedro do Líbano” (SI 92.12).
N esta parelha de versos não se verifica o paralelismo so-
noro, mas o paralelismo de idéias. Além disto, o ritm o acom-
panha esse paralelismo. Observe a cadência ou a regularidade
de repetição de sons, ou ainda a ordem que percebemos na
sucessão de elementos, tanto sonoros como significativos. Esta
forma de ritmo de idéias chama-se de ritmo de sentido ou
ritmo paralelístico:
“O - jus-to / flo-res-ce-rá / como a / pal-mei-ra, cres-ce-
rá / como o / cedro do / Lí-ba-no”.
A idéia da segunda linha poética coincide com a idéia da
primeira (florescer/crescer/palm eira/cedro), porém desenvol-
ve o pensamento até um ponto pretendido, passando-o a um
nível mais elevado. Essa forma de paralelismo é chamada de
paralelismo completivo. Vejamos apenas uns exemplos da es-
trutura da poesia do Salmo 92.12
Q uanto à estrutura poética, é:
a) U m dístico (verso com duas linhas poéticas);
b) U m paralelismo completivo;
c) Usa a figura de linguagem conhecida como símile.
Devemos observar que o uso figurado utilizado pelo p o ­

267
H e r m e n ê u t i c a tácil e d e sc o m p lic a d a

eta nas frases “florescer como a palmeira” e “crescer como o


cedro do Líbano”, refere-se ao justo. Se desejarmos então sa-
ber a m ensagem do p o e ta acerca do justo, precisam os
decodificar o significado oculto no símile, isto é, na língua-
gem figurada. Fica claro que o poeta, ao mesmo tempo em
que ensina através do poema, brinca de “esconde-esconde”
com o leitor.

Estrutura das Estrofes


A estrutura da estrofe hebraica é composta por:
• Dístico, Bicola ou Bimembre: Estrofe de dois versos.

“O justo florescerá como a palmeira, ( I a linha ρ ο έίκ 3 λ


crescerá como o cedro do Líbano.” (2 a linha poética)
(SI 92.12)

“Ensina-nos a contar os nossos dias,


de tal maneira que alcancemos coração sábio” (SI 90.12)

“A luz semeia-se para o justo,


e a alegria, para os retos de coração” (SI 9 7 .1 1)
• Trístico, tricola ou trimembre: Estrofe de três versos.
“Levantam os rios, ó Senhor, ( I a linha poética)
Levantam os rios o seu bramido (2 a linha poética)
Levantam os rios as suas ondas.” (3 a linha poética)
(SI 93.3)

“Ele é que cobre o céu de nuvens,


que prepara a chuva para a terra,
que faz produzir ervas sobre os m ontes” (SI 147.8)
268
PoériCci H e b r a i c a

“Levantam os rios, ó Senhor,


levantam os rios o seu bramido,
levantam os rios o seu fragor” (SI 93.3)

“Faze resplandecer o teu rosto


sobre o teu servo
e ensma-me os teus estatutos‫( ״‬SI 1 19.135)

• Quarteto: Estrofe de quatro versos.


“A lei do Senhor é perfeita, ( I a linha poética)
e refrigera a alma; (2 a linha poética)
O testemunho do Senhor é fiel (3 a linha poética)
e dá sabedoria aos simplices.” (4 a lmha poética)
(SI 19.7)

“Rios de águas
correm dos meus olhos,
porque os homens
não guardam a tua lei.” (SI 1 19.136)
“Ele faz cessar as guerras
até o fim da terra,
quebra o arco e corta a lança;
queima os carros no fogo.” (SI 46.9)

• Qumtilha: Estrofe de cinco versos.


“Mas eu,
sou como a oliveira verde,
na casa de Deus;
confio na misericórdia de Deus
para sempre, eternamente” (SI 52.8)

269
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

“Assim nós, teu povo


e ovelhas de teu pasto,
te louvaremos eternamente;
de geração em geração
cantaremos os teus louvores.” (SI 79.13)

• Sextilha: Estrofe com seis versos:


Estas sim plesm ente com binam alguns versos, sejam
dísticos ou trísticos, com os anteriores.
“... Eis que os meus servos comerão, ( I a lmha poética)
mas vós padecereis fome; (2 a linha poética)
Eis que os meus servos beberão, (3 a linha poética)
mas vós tereis sede; (4 a lmha poética)
Eis que os meus servos se alegrarão, (5a linha poética)
mas vós vos envergonhareis” ()6a linha poética)
(Is 65.13).

As estrofes, segundo a sua estrutura podem ser:2


• Alternadas ou cruzadas: o primeiro verso combma com o
terceiro, e o segundo com o quarto ( A B A B).
“ A lei do Senhor é perfeita - A
e restaura a alma - B
O testemunho do Senhor é fiel - A
e dá sabedoria aos símplices - B
(SI 19.7)

• Estruturas emparelhadas: elas sucedem-se duas a duas (AA BB).


“Pois quanto o céu está elevado acima da terra, - A
assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem. - A
Q uanto está longe o O riente do Ocidente, - B
assim afasta de nós as nossas transgressões. - B (Sl 103.11-I3)

270
Po ética H e b r a ic a

• Estrofes interpoladas ou opostas: o primeiro verso rima com


o quarto e o segundo com o terceiro (A B B A).
“N ão deis aos cães as coisas - A
nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, - B
para que não as pisem com os pés, - B
e, voltando-se, vos despedacem. - A (M t 7.6)3

Principais T ipos de Paralelismo Hebraico


Paralelismo Sinonímico ou Sinônimo:
O paralelismo sinonímico ou sinônimo consiste em re-
petir na segunda parte do verso, com algumas variações de
forma, o que fora enunciado na primeira.
“Por que se amotinam as nações ( I a linha poética)
e os povos imaginam coisas vãs?” (2 a linha poética)
(SI 2.1)

“Rompamos as suas ataduras


e sacudamos de nós as suas cordas” (SI 2.3)
“Agora, pois, ó reis, sede prudentes;
deixai-vos instruir, juizes da terra” (SI 2.10)

“E a sua terra está cheia de prata e ouro,


e não têm fim os seus tesouros.
Também está cheia de cavalos a sua terra,
e os seus carros não têm fim” (Is 2.7)

“Que é o hom em m ortal que te lembres dele?


e o filho do homem, para que o visites?” (SI 8.4)

“Em Deus louvarei a sua palavra,


no Senhor louvarei a sua palavra” (SI 56.10)

271
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

O paralelismo sinonímico, segundo John H . Wolton, elas-


sifica-se em quatro tipos:4

1) Sinonímicos Idênticos: em que cada elemento é sinônimo,


“D o Senhor é a terra
e toda a sua plenitude,
o m undo e aqueles que nele habitam ” (SI 24.1)

2 ) Sinoním icos Idênticos: em que cada elem ento é


semelhante:
“U m dia faz declaração a outro dia,
e uma noite mostra sabedoria a outra noite” (SI 19.2)

3) Sinonímicos Incompletos: em que o segundo elemen-


to da linha anterior é repetido:
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas,
e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17.9)

4) Sinonímicos Contínuos: em que o segundo elemento


é repetido e usado como alicerce:
“Este receberá a bênção do Senhor
e a justiça do Deus da sua salvação?” (SI 24.5)

Paralelism o A n titético ou C ontrastante


O paralelismo antitético ou contrastante tende a ilustrar uma
realidade ou qualidade mediante a evocação do seu oposto, espe-
cialmente no âmbito da conduta religiosa e moral. O segundo
verso faz agudo contraste com o primeiro. São os tipos mais
comuns de paralelismo, principalmente no livro de Provérbios.
“O filho sábio alegrará a seu pai,
mas o hom em insensato despreza a sua mãe” (Pv 15.20)

272
Poé tic a H e b ra ic a

Paralelismo Clim ático

O paralelismo climático é o que retoma do membro pre-


cedente um termo ou expressão, acrescentando-lhe algum ele-
mento complementar ou determinativo, que contribui para
sublinhar o sentido de realce que já está na própria repetição.
A segunda linha completa a primeira, levando o seu pensa-
mento ao clímax.
“O Senhor será também um alto REFÚGIO para o oprimido,
um alto r e f ú g i o em tempos de angústia” (SI 9.9 cf. 3.1,2;
10.8; 93.3; 29.1,2)

Paralelismo Q uiástico ou Cruzado

E um esquema bimembre (duas linhas poéticas) no qual


dois termos são invertidos, de tal sorte que o primeiro se tor-
ne segundo e o segundo primeiro. Pode ocorrer com mais de
dois versos. O nome provém da letra grega “chi” (c). Através
desse mecanismo retórico, duas partes de um texto são ima-
gens paralelas uma da outra.
“... Efraim não invejará Judá
e Judá não oprimirá a Efraim ” (Is 1 1.13b)

Nesse paralelismo bimembre, Efraim aparece no início


da primeira linha poética, mas torna-se o último na segunda
linha, enquanto Judá é último na primeira e primeiro na últi-
ma, fazendo ímagmariamente um “X ” .
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

(a ) “N ão deis aos cães as coisas santas,


(b ) nem deiteis aos porcos as vossas pérolas,
(bb ) para que não as pisem,
(a a ) e, voltando-se, vos despedacem” (M t 7.6)‫ץ‬

(A ) /( B B )
xf
(P) ^(A A )

As linhas fA^ e (va a ) fazem referência aos cães e as lmhas


vBj e (b b ) aos porcos.

Paralelismo Com pletivo ou Emblemático

Os assim chamados de paralelos completivos são aqueles


em que o segundo constituinte coincide com o primeiro e o
desenvolve até um ponto pretendido, elevando-o a um nível mais
alto ou usando uma símile (daí alguns chamarem de parabóli-
co). São introduzidos, quase sempre, por uma comparação.
Costuma-se confundi-lo com o paralelismo climático, no en-
tanto, preferimos distingui-lo pelo uso associado do símile.

“O justo florescerá como a palmeira,


crescerá como o cedro do Líbano” (SI 92.12).

“Com o o cervo brama pelas correntes das águas,


assim suspira a minha alma por ti, ó D eus” (SI 42.1).

“N ão são assim os ímpios;


mas são como a m omha
que o vento espalha”. (SI 1.4)

274
P o é tic a H e b ra ic a

“Pois quanto o céu está elevado acima da terra,


assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem.

Q uanto está longe o Oriente do Ocidente,


assim afasta de nós as nossas transgressões.

Com o um pai se compadece de seus filhos,


assim o Senhor se compadece daqueles que o tem em ”
(SI I 0 3 . I I - I 3 , ver M t 7.3-5, 7 - 1 1, 19-22).

Paralelismo Sintético ou Construtivo

O paralelismo sintético ou construtivo é aquele em que


sucessivos paralelos unem-se de forma estrutural até expressa-
rem conjuntamente uma idéia completa — é edificado sobre
um pensamento. O pensamento do(s) primeiro(s) verso(s)
serve(m) de base para o verso seguinte. A segunda linha com-
pleta a primeira, suplementando o pensamento original.

“O s olhos que zom bam do pai,


ou desprezam a obediência da mãe,
corvos no ribeiro os arrancarão
e os pmtãos da águia os comerão” (Pv 30.17)

Nesses quatro versos o tema central é “olhos”, e cada par


de versos faz-se necessário para expressar a idéia central: os
quatro versos apresentam-se em dois pares — dois paralelos
completivos.
(a ) “A lei do Senhor é perfeita,
(b ) e refrigera a alma;
(a a ) O testemunho do Senhor é fiel

275
H e r m e n ê u t i c a taci! e de>compl:c.adA

(bb ) e dá sabedoria aos símplices.


(a) O s preceitos do Senhor são retos,
(b ) alegram o coração;
(a a )o mandamento do Senhor é puro
(bb ) e ilumina os olhos”6 (SI 19.7,8(

Em todas essas parelhas de versos, vê-se imediatamente


que o sentido do segundo seguimento do paralelismo tem
estrita semelhança com o do primeiro.
E fácil constatar como em ambos os casos (a ) e (b ), (a a n
e (bb ) formam paralelismo sintético, e o conjunto (a ), (b ) e
(a a ), bb ) constituem paralelismo sinonímico.

D iversos Procedim entos Poéticos


Repetição:
São alguns expedientes baseados na repetição poética de
algumas palavras ou refrãos propositalmente:
Anáfora:
Repetição de uma palavra ou de um conjunto no início
de um ou mais versos ou membros, como no Salmo I3 .I,2 s
( “Até quando”):
“Até quando te esquecerás de mim, Senhor?
Até quando esconderás de mim o teu rosto?
Até quando consultarei com a minha alma...
Até quando se exaltará sobre m im o meu inimigo?”

O utros exemplos podem ser identificados:


1) N o Salmo 3.2s: “m uitos”;
2) N o Salmo 124.1,2: “N ão fora o Senhor”;

276
Poética H e b ra ic a

3) N o Salmo 118.2,3,4: “diga/digam ”;


4) N o Salmo 127.1: “Se o Senhor não”;
5) N o Salmo 129.1: “desde a minha” (ver Oséias 3.19,20).
Epífora:
Repetição do fim ou da segunda parte do verso. N o Salmo
1 18.1-4 (ARA) verificamos o uso da anáfora; entretanto, cons-
tata-se também o uso da epífora onde a expressão “misericódia
dura para sempre” é repetida (nos versos 8 -1 1, 15-16):

“Rendei graças ao Senhor,


porque ele é bom,
porque a sua misericórdia
dura para sempre.”

N os versos 8 e 9 (A R A ) dois paralelismos bimembres se


intercalam expressando uma epífora:

“M elhor é buscar refúgio no Senhor


do que confiar no homem.
“M elhor é buscar refúgio no Senhor
do que confiar em príncipes”

N o s versos 10,11,12 (A R A ) temos um paralelismo


completivo formado por uma bicola (v. 10), uma tricola ( I I )
e um quarteto (12) todos expressando uma epífora no final:
“em nome do Senhor as destruí”:

“Todas as nações me cercaram,


mas em nome do Senhor as destruí.
Cercaram-me,
cercaram-me de todos os lados;
mas em nome do Senhor as destruí.
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Com o abelhas me cercaram,


porém como fogo em espinhos
foram queimadas;
em nome do Senkor as destruí ’.

N o s versos 15 e 16 a epífora é repetida com a expressão


“a destra do Senhor faz proezas”.
D a combinação da anáfora e da epífora tem-se a símploce,
isto é, a combinação ou fusão destes. O Salmo II 8 .2 s apre-
senta essa fusão, isto é, entre a epífora, “sua misericórdia dura
para sempre” e a anáfora “diga/digam”.

Artifícios Sonoros:
São alguns expedientes poéticos baseados no som das
palavras, das letras ou das sílabas acentuadas.

Onomatopéia:
Ocorre geralmente na linguagem hebraica pela tendência a
sugerir, com as palavras, a imagem auditiva de um objeto e ação,
como por exemplo, o fragor das águas no Salmo 93.4 (ARA):
“Mas o Senhor nas alturas
é mais poderoso
do que o bramido das grandes águas,
do que os poderosos vagalhões do mar.”

O u ainda, o gemido da parturiente em Isaías 42.14:


“Por m uito tempo me calei,
estive em silêncio e me contive;
mas agora darei gritos como a parturiente,
e ao mesmo tempo ofegarei,
e estarei esbaforido”.
Poé tic a H e b ra ic a

E m Juizes 5.22 quase se ouve os cavalos galopando,


“Então, as unhas dos cavalos
tocavam pelo galopar,
galopar dos seus guerreiros”.

U m a onomatopéia bastante interessante é a de Eclesiastes


7.6, confira.

Paranomásia:
E um jogo de palavras para exprimir melhor uma adver-
tência ou máxima. Consiste em empregar palavras semelhan-
tes no som, mas diferentes no sentido (como Am 8.2):
“Q ue vês, Amós?
E eu respondi: U m cesto de frutos de verão.
Então, o Senhor me disse: Chegou o fim para o meu povo
de Israel; e jamais passarei por ele”.

O trocadilho encontra-se no term o qayis (traduzido lite-


ralmente como “cesto de frutas maduras” e qes, “fim” .

Em Isaías 5.7 (c), lemos:


“... este desejou que exercessem juízo,
e eis aí quebrantamento da lei;
justiça, e eis aí clamor” (ARA)

A paranomásia encontra-se no termo mishpat (juízo) e mispa


(opressão, lit. delito); tsedhaká (justiça) e tseaká (clamor, lit. grito
de oprimidos). O Dr. A. R. Crabtree traduz o texto assim:

Ele esperou o juízo - M ISH PA T


Eis o derramamento de sangue - MISPA

279
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Esperou a justiça - TSEDHAKÁ


Eis um clamor - TSEA K Á ‫׳‬

O utro exemplo pode ser identificado em Isaías 7.9b :


“... se o não crerdes, certamente não permanecereis”

Neste versículo, os vocábulos “crerdes” e “permanecereis”


possuem a mesma raiz 'm n (crer e estar firme). U m caso mte-
ressante de paranomásia encontra-se em Oséias 2.16 (BHS
2.18) que diz:

“Naquele dia, diz o Senhor,


ela me chamará: M eu marido
e já não me chamará: M eu Baal”

O trocadilho é entre os termos “M eu m a n d o ” e “M eu


Baal”. N o hebraico Baali (meu baal), sinônimo de ishi (meu
marido), contém o termo Baal (senhor — divindade cananita).
Ver ainda Mateus 16.18 — Π έτ ρ 0 + / πέτρα (Petros, subs-
tantivo nominativo masculino / nome próprio; petra, subs-
tantivo dativo fem inino / substantivo com um ). C onfira
Eclesiastes 7.1, entre os termos “shem” (nome) e “shemen”
(azeite; óleo perfumado).8

N úm eros no Paralelismo Hebreu


Os hagiógrafos utilizaram-se de vários recursos da cultu-
ra semítica para expressarem concretamente os sentimentos
que aturdiam no peito. Entre esses recursos estão os números.
John H . Stek9 apresenta alguns exemplos dos padrões numé-
ricos na poesia semítica:

280
Po ética H e b ra ic a

Ugaríticos 51 (III 17.18)


Dois tipos de sacrifícios Baal aborrece, / / três, o Cava-
leiro das Nuvens
Aramaicos Ahigar, col. vi, 92:
Duas coisas são agradáveis/ / e uma terceira é amada por SMS.

N úm eros no Paralelismo Poético (A R A )


Uma / Duas
U m a vez falou Deus / / duas vezes ouvi isto (SI 6 2 .1 1)
Deus fala de um m odo / / sim, de dois modos (Jó 33.14)
U m a vez falei... / / aliás, duas vezes (Jó 40.5)
Tomarei um de cada cidade / / e dois de cada família (Jr 3.14)

Três / Quatro
Por três transgressões de Damasco / / e por quatro (Am 1.3,4s)
H á três coisas que nunca se fa rta m // sim, quatro (Pv
30.15,18)

Seis / Sete
Seis coisas o S E N H O R aborrece / / e a sétima... abomi-
na (Pv 6.16)
De seis angústia te livrará / / e na sétima o mal (Jó 5.19)
Reparte com sete / / e ainda com oito (Ec I I .2 )

Sete / Setenta
Sete vezes se... / / Lameque... setenta vezes sete (G n 4.24)
Até sete vezes? / / . . . até setenta vezes sete (M t 18.21; Lc 17.4)

Setenta / Oitenta
A duração de nossa vida é de setenta anos
E se alguns, por sua robustez, chegam a oitenta (SI 90.10)

281
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

D istribuição dos nom es divinos com postos


na poética hebraica

YaHWeH Altíssimo Trovejou, então, o SEN HO R, nos céus;


o Altíssimo levantou a sua voz
(SI 18.13 ARA).

Altíssimo Shadday Aquele que habita no esconderijo


do Altíssimo, à sombra do Onipotente
descansará (SI 9 1.1).

Deus Altíssimo E dizem: Com o o sabe Deus?


Ou: H á conhecimento no Altíssimo?
(SI 73.11).

YaH WeH, Deus A voz do S E N H O R ouve-se sobre as


da Glória águas; o Deus da G lória troveja
_________ (SI 29.3)._______________________

YaH WeH, nosso Deus Vós que assistis na casa do SEN H O R,


nos átrios da Casa de nosso Deus
(SI 135.2).

Deus YaH WeH Deus subiu com júbilos, o S E N H O R


subiu ao som da trombeta (SI 47.5).10

Podemos citar o Salmo 23 como demonstrativo dos no-


mes divinos compostos. Ainda que não perfile sobre os no-
mes divinos especificamente, fornece indicações destes, apesar
de alguns nomes divinos compostos serem posteriores à com-
posição salmódica de Davi, como nos casos de Ezequiel 48.35
e Jeremias 23.6. N o verso I, Iavé Raah, o Senhor Pastor, é
combinado com Iavé Yireb, o Senhor que provê (G n 22.14),

282
Poé tic a H e b r a ic a

“nada faltará”. N o verso 2, lavé Shalom (Jz 6.24), conduz o


crente temente por “águas tranqüilas”. N o verso 3, lavéRoph’ekha,
o Senhor que é teu M édico (Ex 15.26) é o que “refrigera” a
alma do crente enfermo, a expressão é combinada com lavé
Tsidkenu, o Senhor, nossa justiça (Jr 23.6) na expressão “guia-
me pelas veredas da justiça”. N o verso 4 “tu estás comigo”
lembra-nos de lavé Eloheka, o Senhor teu Deus (D t I 6 .I ) e de
El Ro’i, Deus que vê (G n 16.13), e pode ser comparado a Eze-
quiel 48.35, lavé Shammah, o Senhor está ali. N o verso 5, lavé
Nissi, o Senhor que é minha bandeira (Ex 17.15), é a seguran-
ça do crente quando está na presença de seus inimigos. N o
verso 6 “a bondade e a misericórdia”, “habitarei na casa do
Senhor por longos dias” faz eco a E l Berít, o Deus da Aliança
ou do Pacto (G n 3 I.I 3 ;3 5 .I-3 ).

Classificação da literatura poética hebraica


e seus m étodos herm enêuticos
Drama Poético 11
O gênero dramático consiste na representação poética dum
fato por meio da palavra e da ação. Essas cenas são apresenta-
das principalmente em formato de versos:

O Livro de Jó
N ão falta qualquer elemento de efeito dramático, e Francis
I. Andersem12 atesta que o livro de Jó possui provérbios, emg-
mas, hinos, lamentações, maldições e poesias líricas da natureza.

Observações Hermenêuticas sobre o Livro de Jó


A exegese de Jó deve efetuar-se tendo presente algumas
observações especiais:
283
H e r m e n ê u t i c a facil e d e$ co m p l! cad a

I o) Analisar adequadamente a riqueza da linguagem figu-


rada. O livro está cheio de metáforas, símiles, antíteses e ironi-
as, dos quais citamos: “Pele dos meus dentes” )19.20':, “olhos
como raios da alva” (41.18), “ossos como tubo de bronze”
(40.18).
2°) Estudar as declarações de cada um dos personagens
que intervém nos diálogos à luz de sua própria teologia. De-
term inando até que ponto expressam uma verdade completa,
e não uma meia verdade, o que constitui um erro. U m exem-
pio disto é o m odo como os amigos de Jó diferiam acerca das
causas do sofrimento, senão vejamos:

• Os Amigos de Jó
O sofrimento é sempre conseqüência do pecado pessoal
(4.7-9;8.3-6;I L I 3-15). Assim sendo, se alguém está aflito, deve
concluir por certo, que haja pecado. A medida da aflição indica
o grau do pecado. Argumentam que sendo Jó o homem que
mais sofria, deve ser ele o maior dos pecadores. Aconselham Jó
a que se arrependa de seus pecados para que Deus lhe restitua a
felicidade e os bens e que, quanto mais procurar se justificar,
mais demorada será a sua restauração. Jó, porém, rejeita as opi-
niões de seus amigos, pois elas afirmam claramente que seu so-
frimento é fruto dos pecados que ele cometera e de que somen-
te Deus era testemunha. Jó nega calorosamente a inexatidão do
juízo de seus amigos, não porque se considera perfeito, mais
por estar cônscio de sua retidão e confiança em Deus.1''

·J ó
Para Jó o seu sofrimento não pode ser conseqüência de
seu pecado pessoal. Sugere aos seus amigos que mudem o rumo
de seus raciocínios e busquem outras explicações para suas
284
P o é tic a H e b r a ic a

angústias, além da pressuposição injusta de que era acusado


(6.29). Enquanto seus amigos sugerem que Deus é testemu-
nha dos seus pecados ocultos, Jó, por outro lado, advoga que
a sua verdadeira testemunha está nos céus (16.19). Para tanto,
Jó emprega uma metáfora para explicar a sua inocência (23.10)
e defender-se da acusação de pecados ocultos: “M as ele sabe o
meu cammho; se ele me provasse, sairia eu como o ouro”
(ARA). O versículo não se refere ao efeito depurador do so-
frimento, mas à inocência de Jó. Q uando o “aquilatador” o
pusesse à prova, não encontraria qualquer escória habilmente
escondida dos homens, ao contrário, ouro.14
3°) Evitar ver em determinadas passagens mais do que
realmente significam.
4 o) Limitar-se aos próprios limites das respostas que o
livro dá às perguntas que surgem em seu conteúdo. Isto não
quer dizer que não se deve usar os diversos tipos de paralelos,
mas sim, procurar limitar as respostas ao próprio conteúdo.
5 o) Fazer com que as figuras de linguagem digam mais do
que realmente quer expressar o autor ao usá-las.13

Versos Líricos Poéticos


O gênero lírico consisti na expressão poética dos pensa-
mentos e sentimentos pessoais do autor traduzidos em ritmos
análogos à sua emoção. O lirismo impregna a saga histórico-
religioso dos hebreus. Eram preparados para ser cantados ou
salmodiados.
O Livro de Salmos
Os salmos apresentam a maioria dos tipos de poesia lírica:
• Odes:
Composição poética em que se louva uma pessoa ou coisa,
dividida em estrofes semelhantes entre si (I Sm 18.7). Pode ser:

285
H e r m e n ê u t i c a fácil e descomplica-da

• Sacra: Que segundo as circunstâncias pode se chamar de:


• Salmo: louvores a Deus;
• H ino: Canção religiosa, canto em louvor a pátria, ou
poesia acompanhada de música, em honra a uma nação, de
um monarca, de uma causa. Davi costumava cantar hinos a
Deus, celebrando as obras da criação (SI 8.1 ;84; 122-126);
• Epódica: ocupa-se de m atéria filosófico-m oral (SI
53;62;73;77);
• Cânticos: distribuído por todos os salmos. Maria, exalta
ao Senhor com um belo canto genetlíaco (composição lírica que
celebra o nascimento ou aniversário de uma pessoa — Lc 1.46-
55).
• Elegias: pequeno poema consagrado ao luto e à tristeza
(SI 126; 13 7);
• Ecloga ou égloga: poesia pastoril. Diálogo poético em
cenário rural, entre pastores ou camponeses. N os salmos não
temos esse diálogo, mas são constantes as cenas pastoris e cam-
pestres (23);
• Intercessões: cântico oratório que se intervém a favor de
alguém (67;72;74).

Observações Hermenêuticas sobre os Salmos


A exegese de salmos deve efetuar-se tendo presente algu-
mas observações especiais:
I o) Ter em consideração o gênero do salmo. Se é um hino
de louvor, uma súplica, um cântico de ações de graças, lamentação
ou imprecação. Essas formas genéricas da composição salmódica
alteram por completo o método de interpretação.
2°) Levar em conta a conexão histórica do salmo. Neste
caso, precisa-se determinar a autoria do salmo, o que nem
sempre é possível, pois as epígrafes, apesar de fazerem parte

286
Poé tic a H e b r a ic a

do texto hebraico, são adendos dos editores, e não dos autó-


grafos originais. Isto não quer dizer que sejam sem funda-
mentos. U m dos casos de salmos com títulos discutíveis é o
34 (cf. I Sm 21.10-15). Os Salmos 3, 7, 18, 30, 34, 51, 52,
54, 56, 57, 59, 60, 63, 142, possuem indicação de autor e as
circunstâncias históricas do autor ajuda na interpretação.
3 o) Deve-se prestar atenção ao estado psicológico e senti-
mental do autor. N ão basta apenas conhecer as circunstâncias
em que a composição foi escrita, mas também o efeito psico-
lógico e sentimental que essas circunstâncias produziram no
salmista: abatimento, depressão, temor, reação fervorosa nas-
cida da fé, clamor amargo ou súplica de esperança, inseguran-
ça ou certeza, descrição de sua culpa ou de sua inocência.
4°) Analisar os conceitos teológicos do autor compa-
rando com a teologia de seu tempo, baseado na revelação de
que dispunha.
O u os conceitos dos salmistas se adequaram à verdade reve-
lada, ou são frutos de seus problemas existenciais, feridas de alma,
ou tribulação? As lamentações do Salmo 4 4 são bons exemplos.
Parece que o salmista repugna o caráter de Deus no verso 23.
O utro exemplo é o 77.9,10, o qual evidentemente era uma afir-
mação falsa, como o próprio salmista atesta no verso 1 1.
5 o) Deve-se interpretar os salmos imprecatórios segundo
sua natureza intrínseca e de acordo com o contexto teológico
da época.
Sidlow Baxter admite que os salmos imprecatórios são
“como espinhos agudos num ramo de rosas”. “N o Saltério”,
diz Baxter, “ocorrem aqui e ali certos salmos expressando ira
veemente e imprecações contra inimigos e malfeitores”16. N ão
são poucos os que atribuem aos salmos imprecatórios como

287
H e r m e n ê u t i c a f‫־‬ác11 e d e sc o m p lic a d a

sendo “um dos maiores problemas do Velho Testam ento1


(Clyde Francisco). Entretanto, as palavras e ditos austeros
não são implicações somente das Escrituras veterotestamen-
tárias. O Novo Testamento também inclui certas palavras ás-
peras (tais como M t 13.50;23.13-33; 25.46; Lc 18.7,8; 19.27;
A t 13 .8-11; II Ts 1.6-9; Ap 6.10; 18.4-6). Essas passagens
ensinam plenamente que todos colhem as conseqüências de
sua escolha (M t 7.22,23; 2 Co 5.10; G1 6.7). Percebe-se en-
tão, que as palavras rudes e austeras não são sintomáticas ape-
nas no Antigo Testamento, pois o Novo também exacerba ex-
pressões imprecatórias. Baxter afirma que a solução encontra-
se em um princípio básico hermenêutico: a primeira menção
de qualquer assunto fornece a chave de tudo o que for dito
sobre ele posteriormente. O primeiro versículo dos salmos
imprecatórios fornece a chave de todos os que se seguem:
“Declara-os culpados, ó Deus! Caiam por seus próprios pia-
nos. Rejeita-os por causa de suas muitas transgressões, pois se
rebelam contra ti” (Sl 5.10). Seguindo, a abordagem herme-
nêutica, compreendemos que:
a) Essa imprecação é contra transgressores rebeldes, e é
contra eles somente porque são o que são, como vemos na
última oração: “... pois se rebelaram contra ti”. Em outras
palavras, a imprecação é contra malfeitores ímpios como tais.
As palavras de Davi nesse versículo são as de um hom em que
vê o pecado em sua natureza real, como uma rebelião contra
Deus. Estas palavras são de um hom em que se identificou
com Deus contra o pecado, e que odeia o pecado pelo fato de
Deus também odiá-lo. E a disposição mental estabelecida no
Salmo 139: “N ão aborreço eu, Senhor, os que te aborrecem?
e não abomino os que contra ti se levantam? Aborrreço-os
com ódio consumado: para mim são inimigos de fato” (vv.
21,22 ARA).
288
Poé tic a H e b ra ic a

b) Com o observamos o primeiro versículo dos impreca-


tórios, sua análise contextual recai não sobre homens simples-
mente, mas sobre os malfeitores. U m exame cuidadoso de to-
das as passagens imprecatórias revela que dois terços delas são
especificamente contra os malfeitores; nas restantes, o mesmo
motivo fica subentendido. Em bora este não seja uma explica-
ção que resolva todos os conflitos teológicos da questão, en-
tretanto, apresenta justificativas hermenêuticas, pelo menos
quanto ao motivo das imprecações.
c) Corroborado com esta asseveração, não somos escusa-
dos de frisar que essas imprecações não são explosões de iras
pessoais e destituídas de justiça. Os salmistas não se coloca-
vam acima da lei teocrática, mas legislavam através dela. Urge
ser observado que cerca de dezesseis salmos imprecatórios são
de autoria do rei teocrático Davi.18

Didática Poética

São versos poéticos destinados a ensinar alguma verdade,


ajudados pelos encantos da imaginação, da vida prática e do
verso. D 1v1dem-se em:
- Poema didático próprio;
- A epístola;
- Apólogo ou fábula;
- Sátira;
- Didática prática;19
O Livro de Provérbios
O termo hebraico mashal procede de uma raiz que significa
ser como, e isto tem o significado de comparação ou similitude.
O vocábulo pode ser traduzido como provérbio, parábola, ale-

289
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

gona, dito satírico, mote]o, discurso ou tratado. Os provérbios


são ditos sapienciais breves; máximas e aforismos que procuram
instruções para a alma na realidade da vida prática.
Os Provérbios estão classificados como:
Provérbios históricos
Nessa classificação, um acontecimento do passado pas-
sou para o vulgo popular ( “Está Saul também entre os profe-
tas?”). Entretanto, não aparece haver qualquer exemplo desses
no livro de Provérbios.

Provérbios metafóricos
Estes são os que devemos realmente chamar de provérbi-
os. Usam a metáfora, a símile a fim de ensinar uma verdade
correspondente.

Provérbios parabólicos
Estes são os que apresentam verdades em forma alegórica.
O melhor exemplo desta classe são os que tratam da sabedoria.
Provérbios didáticos
São os que dão informações e instruções precisas quanto
à conduta (especialmente os capítulos 1-9).
Enigmas
Estes compreendem as adivinhações ou perguntas obscu-
ras (cap. 30).
O livro de Provérbios utiliza vários mecanismos literários
a fim de apresentar máximas práticas para a vida através de
figuras criativas, analogias surpreendentes e contrastes. As
unidades poéticas básicas empregadas são as seguintes:
Em pares
São provérbios com duas formas básicas:
290
Poé tic a H c b ra ic a

1) U m dístico em que a primeira linha expressa um pen-


samento e a segunda suplementa-o, a fim de desenvolvê-lo ou
interpretá-lo (11.30).
2 ) U m dístico em que ambas as linhas expressam o pen-
samento pelo uso do mesmo padrão de paralelismo (10.12).
Em grupos
São grupos de provérbios sobre um tema comum, tais
como os referentes ao rei (25.2-7), ao insensato ( 2 6 .I - I 2 ) e
ao preguiçoso (26.13-16).
Epigrama
E um provérbio ampliado que tem no seu âmago duas
linhas (não necessariamente consecutivas) que expressam o
pensamento aforístico, sendo que o restante é seu suplemento
ou expansão (1.8,9). Geralmente alcança o seu objetivo por
meio de afirmações sentenciosas, vigorosas ou satíricas.
Soneto
E uma composição poética de catorze versos. O soneto
hebraico não se fixa no exato número de versos. Começa com
um dístico expressando o tema e forma depois dois blocos ou
dois pensamentos; um desenvolve o primeiro verso do dístico,
e o outro o segundo verso. Isso dá um feitio poético ao poema
(1 .10-19).
Monólogo Dramático
Os objetos inanimados ou idéias abstratas são personifi-
cadas para admoestar ou enfatizar sua natureza ou objetivo
(1.20-33).
Acróstico
U m acróstico com o alfabeto hebraico termina o livro
■'31.10-3
\ IV
/ o
291
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p lic a d a

Observações Hermenêuticas sobre os Provérbios


A exegese de Provérbios deve efetuar-se tendo presente
algumas observações especiais:
I o) D eterm inar o tipo de linguagem usado no texto,
denotativo ou conotativo, um símile, metáfora, alegoria etc. e
buscar o significado correspondente.
2°) Fazer com que as figuras de linguagem digam mais do
que realmente quer expressar o autor ao usá-la.
3°) Estudá-los levando em conta o contexto social, moral
e religioso. Muitas comparações dos provérbios são extraídos
da vida prática e, portanto, um conhecimento da cultura e dos
valores morais da época auxiliam a exegese do texto.
4 o) Identificar os paralelismos antitéticos, sinonímicos ou
outros que possam ocorrer.21

D id ática F ilosófica

O Livro de Eclesiastes
N o hebraico chama-se Koheleth, um título extraído de sua
sentença inicial “Palavras de Koheleth, o filho de Davi, rei de
Jerusalém”. Jerônimo traduziu koheleth por Ekklesiastes, que é a
forma latina da palavra grega para pregador. Koheleth, vem de
uma raiz hebraica que significa “chamar, reunir”.22
Q uando Koheleth foi traduzido por Jerônimo, levou-se
em consideração o vocábulo latino calo e o grego kaleo, que
significa “congregar, reunir especialmente para fins religio-
sos”. Jerônimo explica dizendo que no grego chama-se assim
a pessoa que reúne a congregação ou ekkksia.
O tema dominante de Koheleth é a vaidade e futilidade da
vida sem Deus. Descreve dez tipos de vaidades:

292
Po é tic a H e b r a ic a

I o D a Sabedoria H u m a n a ................. 2.15,16;


2° D o Trabalho H u m a n o ..................2.19-21;
3 o D o Propósito H u m a n o .................2.26;
4 o D a Inveja H u m a n a ...................... 4.4;
5 o D a Avareza H u m a n a ..... ........ ..... 4.7;
6° D a Glória H um ana .......... .......... .4.16;
7 o D a Ambição H um ana ....................5.10;
8o D a Cobiça H u m a n a .................... ...6.9;
9° D a Frivolidade H u m a n a ............... 7.6;
10° Das Recompensas Humanas ....8 .I0 ,I4.23

Observações Hermenêuticas sobre Eclesiastes


A exegese de Eclesiastes deve efetuar-se tendo presente
algumas observações especiais:
1°) Considerar a natureza da estrutura do livro. Eclesiastes
é um monólogo dramático que apresenta as complicadas ex-
penências da vida. Nesse monólogo o autor conversa consigo
mesmo, comparando as experiências da vida uma com as ou-
tras. E um sermão didático-filosófico autobiográfico cercado
de especulações sobre o sentido da vida, da morte, do traba-
lho, do amor, da juventude da velhice, etc.
2°) Considerar as diversas expressões que se repetem como
indicativo do sentimento de koheleth sobre o sentido da vida.
Deve-se classificar entre elas hebel, que é traduzido p or vaidade.
Das 71 ocorrências de hebel no AT, cerca de 36 ocorrem so-
mente em Eclesiastes, onde aparece pelo menos uma vez em
cada um dos 12 capítulos, exceto o capítulo 10. O termo
geralmente significa vento, sopro, o que comunica a idéia de
vacuidade, temporal, abstrato, inutilidade, vaidade. Dessas
ocorrências o termo subjaz em várias aplicações:

293
H e r m e n ê u t i c a tácil e d e s c o m p lic a d a

a) Incapacidade de realização no trabalho, por não con-


seguir ser criativo e não conseguir controlar o livre uso e o
destino de suas posses; isso é hebel (2.11,19,21,23; 4.4,8;6.2);
b) a idéia de que a conexão entre pecado e juízo, justiça e
livramento, nem sempre é direta ou óbvia, sendo uma anoma-
lia da vida que é hebel (2 .1 5;6.7-9;8.10-14). Neste caso hebel
significa “sem sentido”;
c) para lamentar a brevidade da vida, o que também é hebel
(3.19;6.12;1 1.8,10). A vida, em sua qualidade, é vazia ou sofre
de vacuidade (msubstancial), e em sua quantidade é transitória.
O utras expressões repetidas são “debaixo do sol” (cerca
de 30 vezes), “correr atrás do vento” ( f ‘üt rü“h — “aflição de
espírito” na ARC), “então eu vi”, “então eu considerei” e
muitas outras.24

Idílios Poéticos
Idílios são poemetos líricos geralmente dialogados, em
que são exaltados os encantos da vida rural. São cenas cam-
pestres ou pastoris em forma de verso, e também pode ser
entendido como amor poético e suave.

Cantares de Salomão
O título Cântico dos Cânticos é a tradução literal do
hebraico Shir ha-shirim, que expressa de m odo superlativo o
Cântico que é sobre todos os cânticos de Salomão.
O livro está formado por um conjunto de poesias líricas,
em que são cantados os sentimentos e as experiências do amor,
suas esperanças, sua visão luminosa do mundo e da vida e seus
deleites; também suas inquietudes e seus temores. Pode ser
observado:
294
Poé tic a H e b ra ic a

O Idílio
Em Cantares 2.1-10, esposo e esposa, com o coração a
transbordar de ternura, entretêm em delicado idílio.

O Epitalâmio
E m 4 .8 - 1 1 o esposo solícito convida a esposa num
epitalâmio.

A Ecloga
Ainda no mesmo poema se encontra um exemplo de
écloga, na qual o esposo evoca aspectos da vida pastoril, va-
lendo-se de figuras bem românticas (4.1-5).

O Madrigal
Entre as amostras líricas que no poema se entrelaçam,
surge ainda algo do madrigal, em que o poeta decanta os atra-
tivos da amada (1.8,10,11). Q uanto a estrutura de Cantares,
tem díspares, suscitando as mais controversas opiniões a res-
peito do número de unidades poéticas e a extensão de cada
uma. Porém, a unidade do livro jamais poderá ser desafiada.
Refrões semelhantes aparecem em 2.7; 3.5; 8.4; as imagens
são as mesmas através de todo o livro; e os mesmos persona-
gens aparecem repetidas vezes.23

Observações Hermenêuticas sobre Cantares


Além do que já foi perlustrado, a exegese de Cantares
deve efetuar-se tendo presente outras observações especiais:
I o) Definir os principais objetivos da poesia de Cantares.
Com o interpretar um livro ignorando o seu propósito? São
dois os propósitos mais aceitos, divididos de acordo com as
escolas interpretativas mais disputadas:

295
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

a) Histórico: Celebrar o casamento de Salomão e expres-


sar as delícias do casamento como dádiva de Deus;
b) Religioso: Referir-se ao relacionamento de Israel e
Adonai e Cristo e a Igreja.
2°) Investigar o gênero literário empregado e o palco
histórico desenvolvido no livro.
3°) Avaliar os m étodos hermenêuticos adotados pelas
principais escolas de pensamento cristão. Para facilitar, deli-
neamos as principais correntes para que o hermeneuta avalie
amplamente os métodos adotados.26

Escola Alegórica
Descrição: Ignora o poema como fato histórico, preferm-
do um significado figurado, fictício e enigmático. O ponto
crucial é a exaltação poética do amor de Deus e o seu povo.
Seus representantes são:
Bernardo de Clairvaux: “A esposa é figura da alma mdivi-
dual, e não da igreja”.
Ambrósio de Milão: “A esposa é figura de M aria”.
Rabis: Rashi e Iben Ezra: (ref.: a 1.13): “A presença de
Deus no tabernáculo e entre os querubins”. Iben Ezra, apesar
de aceitar a alegorização do livro, prestava atenção ao sentido
simples do texto e sua explicação gramatical.
Lutero: “A esposa personifica o Reino, e o Cantares ceie-
bra a lealdade de seus súditos”.27

Escola N atu ralista/L iteral/L írica

Descrição: O livro não passa de uma coleção de canções


eróticas, ou idílios de amor, reunidos por causa de seu mérito
literário, sem qualquer significado alegórico ou tipológico.

296
Poé tic a H e b r a ic a

Seus representantes são:


Charles F. Pfeiffer e Everett F. H arrison: “O princípio
básico desta interpretação é que o hino é um poema que exalta
o amor hum ano”.
Teodoro de Mopsuestia: “U m a celebração do casamento
de Salomão com uma filha de Faraó”. A literalidade de Teodoro
sobre Cantares foi condenada no Concilio de Constantmopla.
Herder: N o final do século X V III esboçou a teoria de
que o livro é uma coleção de “cânticos eróticos independen-
tes, com objetivo de assinalar o processo gradual do verdadei-
ro amor em seus variados matizes e etapas, até chegar a consu-
mação no m atrim ônio”.

Escola Litúrgica

Descrição: Considera Cantares como uma derivação dos


ritos litúrgicos do culto a Tamuz, Osíris e Isis ou de Baal e
Astarote.

Escola Dramática

Descrição: O hino é um drama apresentando Salomão


apaixonado pela Sulamita, uma jovem inculta, a qual ele intro-
duz no palácio real em Jerusalém.
Seus representantes são:
Franz Delitzsh: “U m a jovem humilde de origem campo-
nesa que, por sua form osura e pureza de alma, encheu a
Salomão de um amor que lhe arrancou da luxúria e poligamia
levando-o a uma experiência pessoal”.
Ewald: O pinou três personagens: a sulamita, o pastor e
Salomão, que tenta seduzir a jovem. Percebendo a resistência

297
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p lic a d a

da sulamita, Salomão a permite regressar junto ao homem


que ama.

Escola T ípica
Descrição: O texto possui uma conotação histórica, mas
em harmonia com as Escrituras, possui também um propósito
religioso e um conteúdo espiritual. Os fatos são fundamental-
mente históricos, mas foram levados à esfera da poesia com um
objetivo religioso. Assim, a base de seu palco histórico possui
relação tipológica entre Israel e Adonai e Jesus e a Igreja.

Escola Folclórica ou Erótica


Descrição: A escola folclórica ou erótica deve sua origem
a Renan, que observou um certo paralelismo entre Cantares
de Salomão e a poesia epitalâmica da Síria. Por isto, a descn-
ção de Cantares é uma coleção de cânticos folclóricos destina-
dos a descrever a beleza física dos contraentes.
Seus representantes são Renan e J. G. Wetzstem.

Escola D idático-M oral

Descrição: Sustenta que Cantares exalta a pureza e a for-


mosura do verdadeiro amor na relação conjugal vivida confor-
me o santo propósito de Deus.
Seu representante é:
E. J. Young: “O Cântico é didático e moral em seu pro-
pósito... em minha opinião não temos base para dizer que o
livro é um tipo de Cristo. Isso não parece ser um ponto de
vista exegético defensável. Porém, o livro conduz os nossos
olhos a Cristo... pode ser considerado como uma parábola...”.

298
Poé tic a H e b r a ic a

4°) Observar as características lingüísticas peculiares a


Cantares. Essas particularidades referem-se tanto aos termos
literários quanto religiosos.
1) Literários:
O Dr. Lloyd Carr assinala que Cantares possui cerca de
47 0 palavras diferentes do hebraico; cerca de 4 7 ocorrem so-
mente em Cantares e nem uma outra vez no AT, 5 1 aparecem
cinco vezes ou menos, 45 entre 6 a 10 vezes, e outras 27,
entre onze e vinte vezes; sobram cerca de 300 palavras co-
muns em Cantares26.
2) Religiosos:
Segundo Carr, Cantares omite todas as palavras religio-
sas mais importantes do vocabulário do AT.
• N ão aparecem os nomes divinos do Senhor (Javé, ou
Adonai);
• Palavras associadas com a celebração cultuai de Israel
(arca da aliança, lugares altos, trono, misericórdia, templo, san-
tuário, etc.);
• Palavras de culto (cordeiro, boi, oferta, altar, sacrifício,
sangue, alçada, expiação, ungir, aspergir, etc.);
·T erm o s básicos teológicos (mal, fiel, bênção, estatu-
to, pecado, sabedoria, graça, limpo, im undo, glória, m an-
dam ento, etc.). C arr adm ite que a to tal ausência de ter-
mos teológicos e cúlticos do AT hebraico em Cantares é a
“mais forte razão para rejeitar-se a interpretação tipológica,
ou cúltica desse livro29.‫״‬
5°) Observar os termos comuns à cultura do hebreu, que
evidenciam padrões judaicos e semíticos, ou seja, uma filologia
comparada. Avaliar concretamente o pensamento judaico so-

299
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p lic a d a

bre a temática do amor, do vinho, das cerimônias matrimoni-


ais, do jardim e da aplicação de símbolos para descrever as
personagens do Cântico.30

S IN O P S E

Os versos poéticos hebraicos são compostos por uma 11-


nha poética (ou verso) composta comumente de: dísticos,
trísticos ou estrofes de quatro versos ou mais.
A composição poética das frases, em sua maior parte,
consta de uma igualdade e semelhança, ou seja, paralelismo,
dos membros de cada oração, de tal sorte que geralmente em
dois membros correspondem coisas a coisas, palavras a pala-
vras, como se fossem medidos e pares.
Paralelismo é um ritmo equilibrado do pensamento e das
idéias, mais do que das palavras e dos sons.
R obert Lowth foi o principal estudioso da era moderna
sobre o paralelismo na poesia hebraica.
O paralelismo antitético ou contrastante tende a ilustrar
uma realidade ou qualidade mediante a evocação do seu con-
trário, especialmente no âmbito da conduta religiosa e moral.
O paralelismo sinonímico ou sinônimo, consiste em re-
petir na segunda parte do verso, com algumas variações de
forma, o que fora enunciado na primeira.
Paralelismo Quiástico é um esquema no qual dois termos
são invertidos, de tal sorte que o primeiro se torne segundo e
o segundo primeiro.
Repetição: são alguns expedientes baseados na repetição
poética de algumas palavras ou refrãos propositalmente.

300
Po é tic a H e b r a ic a

Anáfora: Repetição de uma palavra ou de um conjunto


no mício de um ou mais versos ou membros.
Epífora: Repetição do fim ou da segunda parte do verso.
Artifícios Sonoros: São alguns expedientes baseados no
som das palavras, das letras ou das sílabas acentuadas.
Onomatopéia: O corre geralmente na linguagem hebraica
pela tendência a sugerir, com as palavras, a imagem auditiva de
um objeto e ação.
Paranomásia: E um jogo de palavras para exprimir me-
lhor uma advertência ou máxima. Consiste em empregar pala-
vras semelhantes no som, mas diferentes no sentido.
Alíteração: Consiste no emprego sucessivo de fonemas
consoantes idênticos numa frase, ou seja, a insistência sobre
uma ou mais letras.

TRABALHANDO COM TEXTO S


LÍNGUA LITERÁRIA
N a língua literária, as palavras têm importância absoluta,
sendo normalmente buscadas com grande exigência. U m pin-
tor dizia a seu amigo Mallarmé: “Também sou poeta, ocor-
rem-me muitas idéias, mas não encontro as palavras” . E
M allarmé lhe respondia: “A poesia é feita com palavras”. E,
segundo Valéry: “A significação não é para o poeta o elemento
essencial e único da linguagem; não é mais que um dos seus
constituintes... D o mesmo modo, a simples noção do sentido
das palavras não é suficiente para a poesia. Eu falo de resso-
nância...”. Por isso, a poesia é sempre parcialmente, e às vezes
totalmente, intraduzível. A poesia ama a multiplicidade, acei-
ta e chega a buscar a ambigüidade (Empson), usa imagens e

301
H e r m e n ê u t i c a f‫־‬ác!l e d e sc o m p lic a d a

símbolos, evita a lógica. A poesia funde o objetivo com o sub-


jetivo, e produz uma presença quase mágica.
Os autores sagrados trabalharam com uma língua literá-
ria preexistente e, sob a ação do Espírito, desenvolveram a sua
própria língua literária. Esse fato, que tem uma importância
relativa para a inspiração, é de enorme transcedência para a
hermenêutica.
Com o língua literária, a Escritura valoriza substancial-
mente as palavras, nelas subsistindo e por elas se atualizando...
Com o língua literária, exige que manejemos com sutileza a
distinção “o que o autor quis dizer”. U m literato costuma
dizer o que quer dizer. A distinção é legítima à medida que se
opõe à leitura superficial, ingênua, sem sensibilidade, desafi-
nada, fora de foco. A distinção é ilegítima se considera que o
autor diz o que não quer e não diz o que quer.
Alonso Shõkel: A palavra Inspirada (p. 110-2).

EX ERCÍCIO S

1. O que é paralelismo?
2. Quais são os tipos comuns de paralelismo na poética
hebraica?
3. O que é paralelismo sinonímico?
4. O que é paralelismo antitético?
5. O que é paralelismo quiástico? cite exemplos?

Bibli-Holmes
Ajude nosso detetive a investigar o ritm o na poesia
hebraica.

302
Poética H e b r a ic a

LEITURAS E LIVROS PARA APROFUNDAM ENTO


BEEKM AN, John & C A L L O W Jhon. A Arte de Interpretar
e Comunicar a Palavra Escrita — Vida Nova (p. 26, 211-3).

TERRY, M.S. Hermenêutica, C lie (p. 77-87).


BALLARINE, Teodorico. Poética Hebraica e os Salmos. Vozes.
S C H O K E L , A lonso L. A Palavra Inspirada - Loyola
(p. 105-118).

NOTAS
1Costuma-se chamar o verso com doze sílabas poéticas
de alexandrino. Foi a m étrica mais cultivada pelos poetas
parnasianos, como Olavo Bilac. Deve-se considerar, à guisa de
exemplo, a metrificação deste texto, pois pelo que se sabe, o
elemento regulador do ritmo hebraico é o acento de intensi-
dade e a ordem periódica dos acentos, e não a m enor ou maior
duração das sílabas. Registre-se por fim, que apesar de encon-
trarmos diversos exemplos de assonância na poesia hebraica,
não é esta assonância o seu principal característico, podendo
desaparecer na tradução dos Salmos sem qualquer prejuízo
para o efeito. Se os Salmos ou os textos poéticos tivessem sido
escritos segundo a metnficação m oderna ou clássica, sofreri-
am muito nas mãos dos tradutores. Mas pela forma como
estão compostos, podem ser traduzidos mantendo-se a con-
sistência original. N este aspecto, o verso hebraico em tradu-
ção vernacular foge ao padrão tradicional sendo chamado de
verso livre. A ausência de rima, chama-se de verso branco.
2Estas combinações servem também para traçar os diver-
sos tipos de rimas: emparelhadas, alternadas ou cruzadas,
interpoladas ou opostas, ou mesmo as mistas. N a poesia

303
H e r m e n ê u t i c a f í c i l e d e sc o m p lic a d a

hebraica, as estruturas dos versos assinalam mais o paralelismo


de idéias do que da rima ou dos sons.
3 Para uma visão sintética e eficaz das formas estruturais
da poesia moderna ver, Augusto Gotardelo, Português para Pre-
gadores Evangélicos, p. 256-266.
4Quadros Cronológicos do Velho Testamento, p. 75.
3Çf. O Novo Comentário da Bíblia, p. 42-44.
6 Ihidem.
' A Profecia de baías, vl.I Casa Publicadora Batista, 1967.
8 Consulte a excelente obra de Teodorico Ballarine (ed,y\
Poética Hebraica e os Salmos, Vozes, 1980.
9 O p.cit.,p.22. Sobre a tradição Cananéia ver, José M . G.
M artinez (org.), 05 Salmos, p. 59-61; obra m uito útil para a
compreensão da estrutura poética das Escrituras.
10 Op.cit., p. 21.
11 U m a relação sintética desta estrutura pode ser obser-
vado em Stanley A. Ellisen, Conheça Melhor 0 Antigo Testamento,
p. 145-6. U m a síntese dos gêneros poéticos encontra-se tam-
bém em Vittorio Bergo, A Bíblia Como Tonte Titerária, RJ, CPAD,
1985.
11 O Novo Comentário da Bíblia, vl. I, p. 482.
12 Jó - Introdução e Comentário, Série Cultura Bíblica, p. 30-8.
13 Ellisen, op.cit.,p.I57.
14 O Novo Comentário da Bíblia, vl.I, p. 482.
Is J. M . M artm ez, Hermenêutica Bíblica —Como interpretar las
Sagradas Escrituras, p. 334.
16 Exam inai as Escrituras, vl 3; passim.
17 Introdução ao Antigo Testamento, p. 229.
18 Op.cit., Confira M artinez, op.cit., p. 332.
19 Ellisen, op.cit., p. 146.

304
Poé tic a H e b ra ic a

20 Op.at., p. 184.
21 M artinez, op.cit, p. 345.
22 Cf. O Novo Comentário da Bíblia, vl.I, p. 657; Μ . A.
Eaton & G. L. Carr, Eclesiastes e Cantares —introdução e comentário,
Série Cultura Bíblica, p. 26-28; C. F. Pfeiffer & E. F. Harrison,
Comentário Bíblico Moody, vl. 2 —Josué a Cantares, p. 484.
23 H enrietta Mears, Estudo Panorâmico da Bíblia.
24 Eaton & Carr, op.cit., p. 62-4.
23 Cf. Bergo, op.cit., p. 49-52.
26 Este quadro representativo foi realizado como exerci-
cio no curso de Hermenêutica Avançada no Ceteol -S C - a biblio-
grafia básica para este quadro foram, Carr, op.cit., D. D.Tunner,
Introdução ao Antigo Testamento vl I f IB R ; Pfeiffer & Harrison,
Comentário Bíblico Moody‫ ג‬vl. 2 —Josué a Cantares} IB R ; Ellisen,
Baxter, op.cit.
op.cit.,
Z/ Descrição pormenorizada sobre o m étodo alegórico
pode ser observado sumariamente em Turner, op.cit.
28 Op.cit., p. 203-5 (veja p. 190).
29 Idem.
30 Além das excelentes descrições de Carr, disposta em
toda obra, o leitor deve consultar também, G. Ravasi, Cântico
dos Cânticos, Pequeno C om entário Bíblico AT, p. 15-38, Edi-
ções Paulmas.

305
C A P ÍT U L O 9

de Jllh^ua^em

Figuras de linguagem ou de retórica são recursos


lingüísticos empregados pelo literato para expressar
de modo concreto suas idéias, evocando algum tipo
de imagem real, comparação, ou de correspondência
entre as palavras e 0 pensamento.

FIG U R A S D E LIN G U A G EM O U R E T Ó R IC A

As figuras de linguagem podem ser assim classificadas:

De Comparação I ) ‫ ־‬Símile
2)- Metáfora

De Dicção I)- Pleonasmo


2)- Hipérbole

De Relação I)- Sinédoque


2V M etoním ia
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

D e Contraste 1)- Ironia


2)- Parábola
3)- Litote
4V Eufemismo

D e índole Pessoal 1)- Prosopopéia


2)- Apóstrofe

FIG U R A S C O M PO ST A S
1)- Alegoria
2)- Fábula
3)- Enigma

Torna-se necessário ressaltar que as figuras de linguagem


não se limitam apenas a estas que a pouco classificamos. A
estes exemplos poderíamos acrescentar a sinestesia1, catacrese2,
epizeuxe3, diácope4, anadiplose0, epimone6, e muitos outros.

Figuras de Comparação
Símile
O símile consiste em uma comparação formal entre dois
objetos ou ações, que não estão materialmente relacionados
entre si, normalmente precedido por uma conjunção de com-
paração, com vista a impressionar a mente com algo concreto,
parecido ou semelhante.
O s símiles apontam para um só objeto, que se compara
com outro (também único), o qual serve para clarear a ilustra-
ção, e não para buscar significados ocultos em todos os deta-
lhes da figura.

308
Figu ras de L in g u a g e m

Os símiles ocorrem com freqüência nas Escrituras, tendo


por objetivo ilustrar a idéia do autor. Deve-se evitar dois erros
na interpretação dos símiles:
1) A bandonar o conteúdo do texto, a causa da clareza e
riqueza da figura.
2) Fazer o símile dizer mais do que realmente quer ex-
pressar o autor ao usá-lo7.
“Com o o cervo brama pelas correntes das águas, assim
suspira a minha alma por ti, ó D eus” (Sl 42.1).
“N ão é a minha palavra como fogo, diz o Senhor, e como
martelo que esmiúça a penha?” (Jr 23.29). (grifos do autor)
“... quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a
galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quises-
te!” (M t 23.37). (grifo do autor)
“Sou como o pelicano no deserto, como a coruja entre as
ruínas. N ão durmo, e sou como o passarinho solitário nos te-
lhados” (Sl 102.6,7 ARA), (grifos do autor)
“Logo que saiu da água viu os céus abertos, e o Espírito,
que, como pomba, descia sobre ele” (M c I.IO; M t 3.16; Lc
3.22; Jo 1.32). (grifo do autor)
“Porque assim como em um só corpo temos muitos mem-
bros, e nem todos os membros têm a mesma operação, assim
nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas
individualmente somos membros uns dos outros” (R m 12.4;
I Co 12.12). (grifo do autor)
“Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras e as
pratica, assemelhá-lo-ei a um homem prudente, que edificou a
sua casa sobre a rocha. E aquele que ouve estas minhas palavras
mas não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que
edificou a sua casa sobre a areia” (M t 7.24,26; Ez I 3 .I I - I 5 ) .

309
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Metáfora
M etáfora8 é uma mudança, transferência, transposição;
mudança de sentido próprio para o figurado. E uma figura de
linguagem mediante a qual o sentido de uma palavra se trans-
fere à outra. E uma comparação implícita, onde o sujeito e a
coisa com a qual ele é comparado estão entrelaçados, ainda
que o autor não tencione que suas palavras sejam tomadas em
sentido literal (Jo 6.35; 8.12).
Diferencia-se do símile, por ser uma forma de expressão
breve, porém, mais contundente, em que transfere o significa-
do literal da palavra a outro novo e notável. São três as partes
estruturais da metáfora e do símile:
I o) o tópico, o item que a imagem ilustra;
2°) a imagem, a parte metafórica da figura;
3°) O ponto de semelhança, o aspecto específico em que
o tópico e a imagem são semelhantes.9
Deve-se evitar dois erros na interpretação das metáforas:
I o - A bandonar o conteúdo do texto, a causa da clareza e
riqueza da figura.
2° - Fazer a metáfora dizer mais do que realmente quer
expressar o autor ao usá-la.10
Assim sendo, o propósito fundamental da metáfora é
transpor a imagem para o vocábulo e, possivelmente, na análi-
se de um texto qualquer onde esta figura apareça, seja essa
figura a palavra chave da qual todas as outras funcionam, como
palavras secundárias ou satélites. Esses palavras dependentes
ou satélites resultam praticamente do desdobramento da me-
táfora. Isto posto, a análise de textos em que aparecem figuras
de retórica, a ênfase exegética deve convergir para as palavras

310
Fig u ras de L in g u a g e m

figuradas, e somente depois, para as secundárias. Socorramo-


nos nas palavras de M assaud Moisés:
“... a camada semântica das palavras que integram um
poema, conto... pode ser estudada estática e dinamicamente.
N o primeiro caso, por meio da consulta aos dicionários, a que
deve recorrer o analista a fim de conhecer a significação das
palavras uma a uma. E como o sentido dos vocábulos no dici-
onário recebe o nome de denotação, ou significado denotativo,
dir-se-ia que o analista examina o cociente denotativo de cada
termo, como indispensável tarefa prévia: é escusado passar à
frase seguinte da análise sem proceder à pesagem do cociente
denotativo das palavras fundamentais do texto”.11
Q uando a metáfora apresentar dificuldade, deve-se recor-
rer ao exame do contexto, passagens paralelas, hebraísmos,
análise gramatical, cultural, etc., pois, geralmente, as fontes
procedentes da ilustração são o cenário natural das terras
bíblicas, os costumes, as antiguidades do Oriente e o culto
ritualista dos judeus. Já falamos da necessidade do hermeneuta
familiarizar-se com a cultura semita, vejamos como essas re-
gras se aplicam na interpretação de textos em que diversas
metáforas sucedem uma a outra.

Metáforas Extraídas dos Hábitos dos Animais


“Issacar é jumento de fortes ossos, de repouso entre os
rebanhos de ovelhas” (G n 49.14 ARA).
“Naftali é uma gazela solta; ele profere palavras formo-
sas” (G n 49.21).
Essas duas expressões poéticas são ácidas e parecem não
possuir qualquer senso do belo e estético. Chamar alguém de
jumento ou gazela em nossa cultura ocidental talvez não seja

311
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p lic a d a

uma boa opção para qualquer hercúleo que deseja ter o seu
nariz inteiro! N o entanto, é um dos mais lindos poemas pro-
féticos do Gênesis (vv. 1,2).
Jacó, próximo à eternidade, convoca cada um de seus fi-
lhos e profere, de acordo com o caráter e disp o sição
personalógica de cada um, bênçãos, censuras ou maldições.

Issacar E Comparado a um Jumento (heb. hamôr)


Os hebreus conheciam pelo menos três tipos destas bes-
tas: o jumento selvagem ( ‘arôd - Jó 39.5), a fêmea do asno
Çatôn - G n 12.16) e o jumento (hamôr). O term o usado por
Jacó não se refere ao jumento selvagem ( ‘arôd^, que era veloz e
fo goso, mas, sim, hamôr, asno macho, apreciado para o serviço
agrícola por sua força e submissão.12
Esta metáfora é dicotômica — comparar e profetizar. N a
comparação, a profecia é vinculada e o caráter do indivíduo
serve como base para ambos. Issacar, então, é comparado a
um “jumento forte agachado entre duas cargas” (fardos, na
ARC, e “entre os rebanhos de ovelhas”, na ARA). Jacó estava
profetizando que os descendentes de Issacar se submeteriam
ao jugo cananita, preferindo viver na quietude da escravidão e
vergonha, do que nos conflitos da liberdade através da guerra.

Naftali E Ccomparado a uma Gazela Solta


Era filho de Jacó e Raquel através da escrava Bila. Seu
nome significa “lutar”, e é comparado a uma “gazela solta”.
A metáfora descreve um animal selvagem, rápido e gracioso
que se apraz com a liberdade das montanhas cobertas de bos-
ques e vales abertos.

312
Fig uras de Lin g u ag e m

N o Antigo Testamento, a velocidade e liberdade das


gazelas eram usadas como ditos proverbiais:
“Asael era ligeiro de pés, como gazela selvagem”(2 Sm
2.18; C t 3.5; 8.14).
Essa profecia, mais tarde, foi confirmada por Moisés, ao
descrever que Naftali gozava dos favores e das bênçãos de Deus,
e, por isso, desfrutaria da fertilidade e beleza da sua herança
nas partes Sul de Genezaré:
Έ de Naftali disse: Farta-te, ó Naftali, da benevolência,
e enche-te da bênção do Senhor, e possui o Ocidente e o Meio-
dia” (D t 33.23).
Segundo Jacó, N aftali (hb. luta) conquistaria grandes ex-
tensões de terra em Canãa, mas a permanência e liberdade
nesses campos, por vezes, haveria de expô-lo a muitas escara-
muças, o que não seria estranho a alguém cujo nascimento foi
palco de uma disputa (Jz 4.10; 5.18). A expressão “profere
palavras formosas” (G n 49.21) é uma alusão provável a ele-
gância retórica e poética de Naftali e a sua tribo epônima
(Tribo de Naftali).

Metáfora Extraída do Cenário Palestino


“O meu povo fez duas maldades: A m im me deixaram, o
manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas,
que não retêm as águas” (Jr 2.13).
Esse texto condena a demência e a ignorância do povo
em trocar a Deus por falsos deuses (v. I I ) . Nessa metáfora,
Deus é a fonte segura e viva deixada por Israel, que preferiu
uma fonte turva e insegura. A ingratidão e apostasia de Israel
estão notavelmente caracterizadas pela primeira figura, enquan-
to sua suficiência própria, pela segunda.

313
H e r m e n ê u t i c a tácil e d e sc o m p lic a d a

Culturalmente, uma fonte de águas vivas, principalmente


num país como a Palestina, é de um valor inestimável, muitís-
simo maior do que qualquer poço ou cisterna artificial feita
para reter a água da chuva, a qual estava exposta a romper-se e
perder seu conteúdo.
“E oro para que, estando arraigados e fundamentados em
amor...” (E f 3.17).
“E, quando se manifestar o Sumo Pastor, recebereis a
imarcescivel coroa de glória” ( I Pe 5.4).
Essas duas metáforas têm como palco o conhecimento
rural e agrícola dos judeus palestinos. Paulo, aos efésios, refe-
re-se ao crente como enraizados para designar a firmeza e segu-
rança do crente — uma figura bem conhecida dos judeus e
usada várias vezes pelos profetas:
“Serei para Israel como orvalho, ele florescerá como o lírio
e lançará as suas raízes como o cedro do Líbano” (Os 14.6).
Em Gálatas 1.4 Paulo usa a figura no sentido oposto, desar-
raigar. A ARC traduz desarraigar por “nos livrar”, e a N Y I por
“resgatar”. Ê a tradução do termo έ ξ έ λ η τ α ί ( ^ ^ / ) . O prefi-
xo ex (έ ξ ) significa “tirar, extrair ou redim ir”. O term o
έξαγοραζο Çeksagorázo') significa “comprar de volta” (G1 3.13)
de εξάγο Çeksago), “levar para fora, tirar” (Lc 24.50; Jo 10.3).
A preferência da A RA por desarraigar provavelmente seja
para manter o sentido ácido e metafórico de arrancar, como se
extraísse uma planta junto com suas raízes da terra, sentido
este afirmado naTEB. A tradução da N V I por “resgatar” traz
o sentido de “com pra”, que se refere ao costume de comprar
um escravo do ágora, que era o mercado de escravos ( I Pe
1.18,19). Assim, a figura arraigar/desarraigar é mais bem

314
Fig uras de L in g u a g e m

compreendida quando comparada uma com a outra — enrai-


zados em amor, mas desarraigado do presente século mau.
A metáfora de I Pedro 5.4 é firmada pelo termo imarcescível,
que é a tradução do grego άμαράντίνον ( amarantinon, do ad-
jetivo amarantos), que é traduzido por, “que não murcha”.
Literalm ente pode ser trad u zid o p o r feito de amaranto. O
amaranto era uma espécie de planta conhecida como planta
imortal, pois não murchava e não ressecava tão facilmente, ape-
sar da altíssima temperatura do Oriente. Pedro contrasta a
coroa perecível dos atletas vitoriosos, que representavam ape-
nas uma vitória temporal e exígua, com o galardão eterno con-
cedido ao crente pelo Pastor Pontifício.

Metáforas Reais-significativas
N os textos cujo estilo é a prosa, geralmente os termos
aparecem em seu sentido óbvio e original. N ão somos escusa-
dos de frisar que isto não significa que o autor deixará de usar
termos cujo sentido figurado seja captado através da aglutinação
de raízes, prefixos ou radicais, ou mesmo que um vocábulo
deixará de possuir suas imagens reais-significativas. E o caso
do texto de I Coríntios 6.9:
“...Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem
adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas”.
Os termos efeminados e sodomitas refletem muito bem o uso
prosaico de vocábulos que subjazemum significado conotativo
devido ao empréstimo destes a situações específicas. Paulo
declara que nenhum efeminado ou sodomita herdará o reino
de Deus. ARA e a ARC (v. 10) traduz malakoi por efeminado
e arsenokoites por sodomitas.

315
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

O termo malakoí (μαλακοί) descreve roupas e tecidos


macios, indicando que são finos, moles e suaves (M t 1 1.8; Lc
7.25). De fato, Paulo não usa o termo para referir-se a roupas,
mas empresta do termo o significado conotativo a fim de pro-
jetar sobre o termo “as pessoas que são macias, suaves ou
efeminadas”. O termo malakoí, apesar de referir-se a homos-
sexualidade, não descreve diretamente se a posição deste é ati-
va ou passiva.
Arsenokoites é um term o composto por dois vocábulos gre-
gos, “arsen” e “koites”. Almeida traduz o vocábulo pelo ter-
mo “sodomitas”. Arsen (άρσην), significa “m acho” ou “va-
rão”. O termo aparece em Mateus 19.4 e Romanos 1.27 para
designar o homem viril, com fortes conotações sexuais. Koite
(κοίτε), significa “cama ou leito” em geral, mas que também
é um eufemismo para relação sexual, tal qual aparece em
Hebreus 13.4:
“Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem
como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e
adúlteros”.
O sentido tanto de malakoí quanto de arsenokoites foi capta-
do magistralmente pela lente dos tradutores responsáveis pela
N V I. A Nova Versão Internacional traduz o termo efeminado,
no grego, malakoí (μαλακοί) e arsenokoites (άρσενοκοΤται) para
“homossexuais passivos e ativos”.
“ ... nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem ho-
mossexuais passivos ou ativos” (N V I).

Metáfora Extraída das Práticas Cúlticas


“Purifica-me com hissopo, e ficarei p uro” (SI 5I.7;L v
14.6-7,51;N m I 9.18-19),

316
Figu ras de Ling u ag e m

“Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova mas-


sa, como sois, de fato, sem fermento. Pois também Cristo,
nosso cordeiro pascal, foi imolado. Por isso, celebremos a fes-
ta não com o velho fermento, nem com o fermento da malda-
de e da malícia, mas com os asmos da sinceridade e da verda-
de" (I Co 5.7,8).
Aqui as metáforas são contínuas até formarem uma alegoria.
Metáfora Extraída das Práticas Comuns à Vida
“V ós sois o sal da terra... V ós sois a luz do mundo...” (M t
6.13,14).
“Eu sou o pão da vida” (Jo 6.35).
“Eu sou o bom pastor” (Jo 10.11; ver 2 Pe 2.3,17; Jd 12 ,13)

Metáfora Tipo Antropomórfica


“Eis que a mão do Senhor não está encolhida, para que
não possa salvar; nem o seu ouvido agravado, para que não
possa ouvir” (Is 59.1; Sl 34.15).
“... E contra os ribeiros a tua ira ou contra o mar o teu
furor, já que andas m ontado nos teus cavalos, nos teus carros
de vitória?” (H c 3.8)

Figuras de D icção
Pleonasmo
O pleonasmo (gr. pleonasmós, superabundância) é uma fi-
gura de dicção em que se emprega a redundância, vocábulos
desnecessários, à repetição elegante de certas frases ou de idéi-
as, a fim de dar maior vivacidade a linguagem.
Duas formas básicas de pleonasmo: o literário e o vicioso.
“O copeiro-mor, porém, não se lembrou de José; antes, se
esqueceu dele” (G n 40.23).
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p lic a d a

“M ulher virtuosa quem a achará” (Pv 31.10).


“Porque tenho para mim que Deus a nós, apóstolos, nos
pôs por últim os” )1 Co 4.9).
“Ao que vencer, lhe concederei que se assente comigo no
meu trono...” (Ap 3.21).
Hipérbole
A hipérbole consiste no emprego de palavra ou frase com
sentido exagerado para dar maior força, maior impressão, para
mais ou para menos, a fim de apresentá-la viva à imaginação.
“Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e, se
cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda 0 mundo
todo poderia conter os livros que se escrevessem” (Jo 21.25).
“Também vimos ali gigantes, filhos de Anaque, descen-
dentes dos gigantes; e éramos aos nossos olhos como gafanhotos,
e assim também éramos aos seus olhos” (N m 13.33).
“...as cidades são grandes e fortificadas até aos céus” (D t 1.28).
“... toda noit efaço nadar a minha cama, molho 0 meu leito com
as minhas lágrimas” (SI 6.6). (gnfos do autor)

Figuras de Relação
Sinédoque
Sinédoque (gr. synedochê, compreensão) é uma espécie de
metonímia mediante a qual se outorga uma significação parti-
cular a uma palavra que, em sentido próprio, tem uma sigmfi-
cação mais geral; ou, ao contrário, se dá uma significação geral
a uma palavra que em sentido próprio, só tem uma significa-
ção particular. Pode ser:

Particularizante
• Destaca o significado de uma parte em relação ao todo;
• Destaca uma espécie em relação ao gênero.

318
Fig u ras de Lin gu ag e m

Generalizante
• Destaca o todo em relação às partes (o todo pela parte);
• Destaca o gênero em relação às espécies (raro).
“ O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, a manje-
doura de seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu
povo não entende” (Is 1.3; Jr 8.7; SI 46.9).
“Estávamos no navio duzentas e setenta e seis pessoas aos
to d o ” (A t 27.37).
“... também a minha carne repousará segura” (SI 16.9).
“ ... converterão suas espadas em enxadas...” (M q 4.3; Is 2.4).
“Por isso, quem ... beber do cálice do Senhor...” ( I Co 11.27).

Metonímia
Chama-se M etoním ia (gr. met + onymia, ampliação do
nome) à ampliação de sentido que consiste em nomear um
objeto por meio de um termo que designa o outro objeto
unido ao primeiro, por uma relação constante de causa e efei-
to. N a metonímia o termo próprio de uma palavra é substitu-
ído por uma palavra diferente, sem que por isso a interpreta-
ção do texto resulte em interpretação distinta. U m exemplo
expressivo de metonímia encontramos nas palavras de Abraão
em Lucas 16.29:
“Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos”.
Obviamente faz referência aos seus escritos.
“Deus é um só, que justifica, pela fé, a circuncisão e, por
meio fé, a mcircuncisão” (R m 3.30).
O que eqüivale a declarar que Deus, pela fé, justificará
tanto a judeus quanto os gentios.
“ ... foi publicado um edito de César Augusto, mandando
recensear o m undo inteiro” (T EB ) (Lc 2.1)

319
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Neste texto, “mundo inteiro”, significa o Império Romano.

Figuras de Contraste

Ironia
Ironia é a figura de linguagem por meio da qual o que se
escreve (construção gramatical), ou fala (construção verbal),
expressa o contrário do que se deseja dizer, porém, sempre de
tal m odo que se faz ressaltar o sentido verdadeiro. N a ironia
uma declaração afirmativa deve ser entendida negativamente,
e uma declaração negativa deve ser entendida positivamente.
“Eis que o hom em é como um de nós, sabendo o bem e o
mal...” (G n 3.22).
“... porque ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou
que tenha alguma coisa que fazer, ou que intente alguma via-
gem; porventura, dorm e e despertará” ( I Rs 18.27).
“N a verdade, que só vós sois 0 povo, e convosco morrerá a
sabedoria” (Jó 12.2).
“Arroja isso ao oleiro, esse belo preço em que fui avaliado
por eles” (Z c I I.I3 ).
Torna-se difícil por vezes reconhecer a expressão irônica,
por ser ela uma figura muito mais sonora do que escrita, que
se presta mais ao discurso mdireto do que direto.
“Já estaisfartos, já estais ricos: chegastes a reinar sem nós...”
( I Co 4.8). (grifos do autor).
N o discurso direto eqüivale a: “Vocês pensam que estão
fartos, mas não estão; pensam que são ricos, mas não são.
Vocês não remaram verdadeiramente como reis sem nós”.
Facilmente se percebe que a ironia é uma declaração afir-
mativo-negativo ou vice-versa, que as vezes chega ao sarcasmo
( I Sm 26.15; I Rs 18.27; I Co 4.8).
320
E1 ‫־‬guras de Lin g u ag e m

Parábola
Parábola, do grego parabolé, significa “colocar ao lado de”,
e leva a idéia de colocar uma coisa ao lado de outra com o
objetivo de comparar. A parábola envolve uma contradição
aparente apresentada em forma de narração, relatando fatos
naturais ou acontecimentos possíveis, sempre com o objetivo
de declarar ou ilustrar uma ou várias verdades im portantes.13
Parábolas, Símiles, Enigmas e Alegorias
A parábola possui diferenças e semelhanças com outras
figuras de linguagem. Essas semelhanças, todavia, não devem
ser confundidas, pois pode ocorrer o erro de fundir duas figu-
ras distintas. As diferenças notam-se sutilmente. Essencialmen-
te, a parábola é um símile ampliado, ainda que o símile não
seja uma parábola. Vejamos:

Símile e Parábola
O símile pode apropriar-se de uma comparação de qual-
quer gênero ou classes de objetos, uns reais e outros imaginários.
A parábola está limitada em seu raio de ação e reduzida
às coisas reais. Suas imagens sempre incorporam uma narra-
ção que responde com verdade aos atos e experiências da
vida humana.
N a p a rá b o la tam b ém não se em prega a rtifício de
prosopopéia como na fábula; aves e árvores falantes, feras e
árvores reunidas em concilio, etc.
Como o enigma, a parábola pode servir para ocultar al-
guma verdade dos que não possuem penetração espiritual para
perceber sua forma figurada, porém, seu estilo narrativo e a
comparação formal sempre anunciam a suposta lição moral,
ética ou espiritual pretendida.
321
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

Entre a parábola e a alegoria existe maior analogia. As


parábolas têm sido definidas como “alegorias históricas” , po-
rém, diferem entre si, na mesma forma em que o símile difere
da metáfora.
“Havia numa cidade dois homens, um rico e outro po-
bre. O rico tinha muitíssimas ovelhas e vacas; mas o pobre nào
tinha cousa nenhuma, senão uma pequena cordeira que com-
prara e criara; e ela havia crescido com ele... E, vindo um via-
jante ao hom em rico... e tom ou a cordeira do homem pobre, e
a preparou para o homem que viera a ele. Então, o furor de
Davi se acendeu ...” (2 Sm 12.1-5 cf vs 6-14).
Essa parábola não possui mais que três símbolos:
• O rico simboliza o rei Davi;
• O pobre simboliza Urias;
• A ovelha simboliza Bate-Seba.
Segundo K. Bailey, essa parábola significa que:
• O rei está sob a lei, e não acima dela. Ela é a lei de Deus,
e não do rei. Deus foi ofendido;
• A lei especifica direitos especiais para o “estrangeiro
dentro das portas”. U nas é heteu. Davi negara a Urias esses
direitos.
• Diferente do que acontecia no Egito e na Babilônia, as
mulheres do reino não estão à disposição do rei como uvas em
uma vinha.
• Davi tem muitas esposas, Urias só uma. A justiça sim-
pies fora violada.14
As recomendações fornecidas a respeito dos símiles ca-
bem devidamente aqui:
I o N ão abandonar o conteúdo do texto, a causa da clare-
za e riqueza da figura.

322
Fig uras d e L in g uage m

2° Fazer a parábola dizer mais do que realmente quer


expressar o autor ao usá-la.
3° Os símbolos que devem ser identificados são aqueles
que o narrador original da estória coloca nesta com objetivo
de comunicar-se com o auditório original.

OITO PASSOS PARA INTERPRETAR AS PARÁBOLAS,


SEGUNDO BAILEY15
I o - Determine o auditório. Jesus está falando aos escribas
e fariseus, às multidões, ou aos discípulos?
2° - Examine cuidadosamente o contexto / interpretação
propiciados pelos evangelistas ou sua fonte.

3° - Identifique a “peça dentro da peça” e observe a pará-


bola nesses dois níveis.
4° - Procure discernir os pressupostos culturais da estória,
tendo em mente que os seus personagens são aldeões palestinos.

5° - Veja se a parábola se divide em várias cenas, e veja se


os temas constantes das diferentes cenas se repetem segundo
algum padrão discernível.
6° - Procure discernir quais os símbolos que o auditó-
rio original teria identificado imediatamente e instintivamente
na parábola.
7° - Determine que única decisão / reação o auditório ori-
ginal é levado a tomar quando ela originalmente foi contada.
8 o - Discirna o conglomerado de temas teológicos que a
parábola afirma e / ou pressupões, e determine o que a pará-
bola está dizendo a respeito desses temas.
323
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

TRÊS PASSOS PARA DETERM INAR O SEN TID O


DE UMA PARÁBOLA, SEG UND O M.S. TERRY1(
Io - Deve-se determinar a ocasião histórica e o propósito
da parábola.
2° - Deve-se fazer uma análise muito cuidadosa do assun-
to de que se trata e observar a natureza e propriedade das
coisas empregadas como imagens na similaridade.
3° - Devemos interpretar as várias partes com estrita refe-
rência ao objeto e desígnio geral do conjunto, de uma maneira
que se conserve uma harmonia de proporções, se mantenha a
unidade de todas as partes e se faça proeminente na verdade
central.

Litote
Litote, ou atenuação, consiste em não expressar direta-
mente o que se pensa, ou então negar o contrário daquilo que
se quer afirmar.
Em forma de litote expressa Jesus a promessa do Espírito
Santo:
“...vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito
depois destes dias” (At !.S').
Isto eqüivale a dizer: “dentro de poucos dias”. Paulo para
referir-se aos judeus afirma que:
“... e não agradam a Deus...” (I Ts 2.15).
N o sentido de afirmar que “desagradam ou ofendem gra-
vemente a D eus” como se depreende do contexto.
O utra forma de expressar a litote é diminuindo uma pes-
soa ou coisa a fim de exaltar outra:
“... me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza”
(G n 18.27).

324
Figu ras de Lin g u ag e m

Eufemismo
Eufem ism o é a figura de linguagem que sugere com
dissimulo e decoro idéias cuja expressão franca e literal soa
demasiadamente dura. N as Escrituras, os eufemismos são ge-
ralmente empregados para designar:

Morte
“Abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que
dormiam foram ressuscitados” (M t 27.52; A t 7.60).
“Eis aqui vos digo um mistério... nem todos dormiremos,
mas todos seremos transformados” ( I Co 15.51; IT s 4.13,14).
Nesses textos, “dorm ir” sugere a esperança cristã de uma
vida eterna pós-túmulo, visto que o que dorm e haverá de des-
pertar. D orm ir sugere apenas breve intervalo das atividades
físicas (I Rs 2.10), bem como (dorm ir-m orte) refere-se ao
estado consciente e passageiro até a vinda de Cristo. Em Sal-
mos 13.3a, a “m o rte” é comparada a um sono Jó 3.13 .
O utros eufemismos para m orte são:
a) “caminho de toda a terra” (Js 23.14 cf I Rs 2.2 : ou ainda
“indo para o seu próprio lugar” (At 1.25 ver ainda M t 26.24 ,·
b) “deitarei no p ó ” (Jó 7.21 cf. D n 12.2';
Nestes textos as origens dos homens são contrastadas com
seu final (G n 2.7), e a m orte é imposta como castigo.
c) “profundo abismo” — que se refere ao remo dos mor-
tos (SI 88.6);
d) “desce ao sepulcro” (Jó 5.26) — onde um símile é
usado para comparar a morte do indivíduo que não é repreen-
dido em vão por Deus;
e) “estar com C risto” (Fp 1.23);
f) “fizeram tudo o que quiseram” (M c 9.13). Este texto

325
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

descreve um tipo de m orte violenta. Atos 22.22 usa uma ex-


pressão semelhante para referir-se ao mesmo tipo violento de
morte: “Tira tal homem da terra”.

Moralidade Sexual
N a Bíblia, o sexo é mencionado através de eufemismo
como em muitas outras línguas. O eufemismo hebraico para
as relações sexuais é geralmente “conhecer”; mas também, en-
contram-se outros termos: “deitar, chegar-se, tocar, possuir,
conhecer; ajuntardes”. N as prescrições sobre a moralidade se-
xual em Levítico 18 encontramos várias expressões eufemísticas.
“... Eu já ontem à noite me deitei com meu pai...” (Gn 19.34).
“Mas Abimeleque ainda não se tinha chegado a ela...” (G n
20.4,6 c f M t 1.25; I Co 17.1,5).

Deus
Os eufemismos aplicados a Deus justificam-se pelo fato
de que os judeus evitavam usar o nome de Deus.
“N enhum a autoridade terias contra mim, se de cima não
fosse dado” (Jo 19. I I ) . (grifo do autor)

Gentios
O u os que “estão longe, Oriente e do O cidente”. Geral-
mente estes eufemismos eram usados para não provocar os
judeus à ira (A t 22.21-22). Os gentios são diversas vezes refe-
ridos pela expressão eufemística “todos os que ainda estão
longe”. A relação associativa neste texto é espacial — o lugar
de moradia indica o próprio povo.
“ ... a vossos filhos e a todos os que estão longe... (A t 2.39;
E f 2.13,17; cf. Lc 13.29).

326
Figu ras de Lin g u ag e m

Figuras de ín d o le Pessoal
Prosopopéia
A prosopopéia ou personificação consiste em atribuir
características ou ações próprias de pessoas a seres inanima-
dos. N os Salmos e em Isaías observamos vários exemplos de
personificação. Vejamos alguns casos em Isaías:
“Cantai alegres, vós, ó céus... exultai vós, as partes mais
baixas da terra; vós montes retumbai com júbilo; também vós,
bosques e todas as árvores em vós...” (Is 44.23).
“... os montes e os outeiros exclamarão de prazer perante
a vossa face, e todas as árvores do campo baterão palmas”
(Is 55.12 c f.H c 3.10).

Apóstrofe
Apóstrofe é a interrupção do discurso com o intuito de
dirigir-se a uma pessoa ou coisa personificada. Procede do
termo grego apostrophé e denota especialmente a interrupção de
um discurso, dirigindo-se a uma pessoa, ou coisa real ou fictí-
cia. N o Salmo 114, além de personificação, nos versos 5 e 6
temos também uma apóstrofe. Outras apóstrofes podem ser
observadas em outros textos (Is 14.8-20; Jz 5.3-4,31; 2 Sm
18.33; M t 11.21).

Figuras Compostas
A linguagem figurada não se limita a palavras ou frases
simples como nos tropos que acabamos de mencionar. Podem
ser mais extensas, relativamente claras em alguns casos e obs-
curas em outra. Possuir uma idéia correta de suas característi-
cas é essencial para sua interpretação.

327
H e r m e n ê u t i c a fácil e de sc o nip lic a d a

Alegoria
A alegoria é uma sucessão de metáforas ou uma metáfora
estendida, geralmente combinada em forma de narração. Sua
característica singular é a pluralidade de pontos de aplicação.
A alegoria contém dentro de si mesma a sua interpretação e a
coisa significada está identificada com a imagem apresentada:
“V ós sois o sal da terra” (M t 5.13).
“Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o lavrador”
(Jο I 5 .I ; Ec 12.3-7).
N ão existem regras separadas para a interpretação das
alegorias, os métodos estudados nas figuras anteriores tam-
bém se aplicam aos textos alegóricos.

Fábula
A fábula faz parte do gênero didático e pode ser definida
como uma narração imaginária, fictícia ou alegórica que se
propõe a encerrar uma lição moral. Costuma-se chamar de
apólogo quando se põe a falar a animais, e fábula quando se
refere a seres inanimados.
Já encontramos alguns alunos que, não compreendendo a
natureza da linguagem figuracja em apreço, chegaram a duvidar
da inspiração divina, acreditando que Deus não usaria no texto
sagrado, “certas histórias fictícias”, pois o fictício não é verda-
deiro, mas falso. Pura falácia de premissas contraditórias.
D evem os c o n s id e ra r que o uso de fábulas p elos
hagiógrafos não desmerece a credibilidade do texto bíblico.
A inspiração com porta qualquer gênero literário, desde que
não repugne a verdade e a santidade de Deus, e, por isso mes-
mo, qualquer interpretação do uso figurado das fábulas que
comprometa a verdade bíblica deve ser termmantemente re­

328
Fig uras de Lin g u ag e m

jeitada. Porém deve-se diferençar, no uso que os escritores sa-


cros fizeram da fábula, o que é fictício do que é falso. Jamais
os escritores bíblicos ensinam o que é falso, mas através do
fictício ensinam verdades morais aos seus ouvintes. O falso é
o que se opõe ao verdadeiro, enquanto o fictício ao real. Por
exemplo, certas historiografias áulicas que atribuem aos sobe-
ranos certos cometimentos que nunca realizaram de fato. Fic-
tícias são as parábolas, as fábulas e alegorias. A lenda, por
outro lado, quando apresentada como narrativa verídica, falsi-
fica a história, portanto mente e engana; a parábola, alegoria e
a fábula não mentem, e sim instruem e educam.17
U m dos exemplos clássicos de apólogo é Juizes 9.8-15 e
2 Reis 14.9.
Enigma
O enigma, como anteriormente tratamos, serve para ocul-
tar alguma verdade dos que não possuem penetração espiritu-
al para perceber sua forma figurada. Em certo sentido, difere
da fábula pois se objetiva a confundir e deixar perplexo aquele
que ouve. Faz-se obscuro, a fim de colocar a prova o gênio e a
inquirição daquele que se propõe resolvê-lo.
“Inclinarei os meus ouvidos a uma parábola; declararei o
meu enigma na harpa” (SI 49.4; 78.2; Jz 14.14; Ap 13.18;
G n 4.23-24; Jo 3 .I - I 3 ; Lc 22.36).

SIN O P SE

O símile consiste em uma comparação formal entre dois


objetos ou ações, que não estão materialmente relacionados
entre si, norm alm ente precedidos po r uma conjunção de
comparação, com vista a impressionar a mente com algo con-

329
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p h c a d a

ereto, parecido ou semelhante.


M etáfora é uma figura de linguagem mediante a qual o
sentido de uma palavra se transfere à outra. E uma compara-
ção implícita, onde o sujeito e a coisa com a qual ele é compa-
rado estão entrelaçados, ainda que o autor não tencione que
suas palavras sejam tomadas em sentido literal (Jo 6.35; 8.12).
Pode ser viva ou latente.
O pleonasmo (gr. pleonasmós, superabundance) é uma fi-
gura de dicção em que se emprega a redundância, vocábulos
desnecessários, à repetição elegante de certas frases ou de idéi-
as, a fim de dar maior vivacidade a linguagem.
A hipérbole consiste no emprego de palavra ou frase com
sentido exagerado para dar maior força, m aior impressão, para
mais ou para menos, a fim de apresentá-la viva à imaginação.
Sinédoque (gr. synedochê, compreensão) é uma espécie de
m etonímia mediante a qual se outorga uma significação parti-
cular a uma palavra que, em sentido próprio, tem uma sigmfi-
cação mais geral; ou, ao contrário, se dá uma significação geral
a uma palavra que em sentido próprio, só tem uma significa-
ção particular.
Chama-se metonímia (gr. met + onymia, ampliação do nome)
à ampliação de sentido que consiste em nomear um objeto por
meio de um termo que designa o outro objeto unido ao primei-
ro por uma relação constante de causa e efeito.
Ironia é a figura de linguagem por meio da qual o que se
escreve (construção gramatical), ou fala (construção verbal),
expressa o contrário do que se deseja dizer, porém, sempre de
tal m odo que se faz ressaltar o sentido verdadeiro.
Parábola, do grego parabolé, significa colocar ao lado de, e

330
Fig u ras de L in g u ag e m

leva a idéia de colocar uma coisa ao lado de outra com o obje-


tivo de comparar.
Litote, ou atenuação, consiste em não expressar direta-
mente o que se pensa, ou então negando o contrário daquilo
que se quer afirmar.
Eufem ism o é a figura de linguagem que sugere com
dissimulo e decoro idéias cuja expressão franca e literal soa
demasiadamente dura.
A prosopopéia ou personificação consiste em atribuir ca-
racterísticas ou ações próprias de pessoas a seres inanimados.
A alegoria é uma suscessão de metáforas ou uma metáfora
estendida, geralmente combinada em forma de narração. Sua
característica singular é a pluralidade de pontos de aplicação.
A fábula faz parte do gênero didático e pode ser definida
como uma narração imaginária, fictícia ou alegórica que se
propõe encerrar uma lição moral.
O enigma, como anteriormente tratamos, serve para ocul-
tar alguma verdade dos que não possuem penetração espiritu-
al para perceber sua forma figurada.

TRABALHANDO COM TE X TO

O estudo do bom emprego das palavras fica incompleto se


também não levarmos em conta que a cada passo as desviamos
do seu sentido próprio. E essa circunstância que não raro torna
fútil, quando não contraproducente, o escrúpulo de um acordo
rigoroso com as definições do dicionário, e torna inútil, quando
não falaz e desastroso, deduzir a significação em função do ra-
dical ou dos termos cognatos. Desviar uma palavra da sua sig-
nificação própria, o que tem em gramática o nome de lingua-
331
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

gem figurada, é um fenômeno norm al na comunicação lm-


güística... o alcance exato de uma palavra depende em grande
parte do alcance da frase em que ela se acha. E precisado e
delimitado pelas outras palavras em torno e já é completa-
mente sugerido pelo teor geral do que se diz. E, por exemplo,
um sentido figurado o de vapor ou de vela como equivalentes
de navio; mas nmguém entenderá o sentido próprio de corpo
gasoso numa asserção como —“o vapor encalhou”, da mesma
sorte que —“uma frota de cem velas” é logo interpretada como
de cem navios de vela, e não cem velas literalmente ditas nos
cem respectivos mastros, o que implicaria num número muito
m enor de embarcações. Analogicamente, um viajante pode
comunicar que — “já vai entrar no vapor”, sem a menor possi-
bilidade de sobressaltar seus amigos pelo tem or de vê-lo mor-
rer sufocado... Se a linguagem figurada está, como vimos, no
próprio cerne da expressão verbal, não é de admirar que a
encontremos, latente ou já francamente extinta, em quase todo
o vocabulário de uma língua. Assim, para nos limitarmos a
um exemplo, a comparação entre governar e dirigir um navio
apenas renova uma metáfora, que se esvaiu do primeiro desses
verbos, pois de gubernáre em latim (port, governar) a significa-
ção própria era a de pilotar. E o que podemos chamar a lm-
guagem figurada fossilizada, partindo de um trecho célebre
do ensaísta norte-americano Emerson: “A linguagem é poesia
fossilizada. Com o as rochas sedimentárias consistem de mas-
sas infinitas de conchas de animálculos, a linguagem é feita de
imagens ou tropos, que agora, no seu emprego secundário,
deixaram há muito de nos sugerir a sua origem poética” (Essavs
and Representative Men, ed. Collins, p. 231).
J. M attoso Câmara Jr.: Manual de Expressão O ral e Escrita
(p. 185-6,190-1).
332
Fig u ras de Lin gu ag e m

E X E R C ÍC IO S

1. Com o estão classificadas as figuras de linguagem?


2. Quais são as figuras de contraste?
3. Quais são as figuras compostas?
4. Diferencie o símile da metáfora.
5. Com o devemos interpretar as parábolas?

Bibli-Holmes
Ajude nosso detetive a investigar as figuras: meiose, zeugma,
braquiologia, elipse, epizêuxis, anacoluto.

LEITURAS E LIVROS PARA APROFUNDAM ENTO


FILIPAK, Francisco. Teoria da Metáfora, I a ed.,I983, H D V
D U BO IS, Jean, et aln. Dicionário de Lingüística, 9 a ed., 1993,
Editora Cultrix.
SC H O K E L , Alonso L. A Palavra Inspirada - Loyola.
BERK H O F, Louis, Princípios de Interpretação Bíblica, Juerp
(p. 92-100).

NOTAS
1 Figura que consiste em criar relações entre uma percep-
ção e outra que pertença ao domínio de um sentido diferente.
‫ ־‬Aplicação de um termo figurado por falta de termo pró-
pno.
‫ ־‬Consiste na repetição proposital de uma palavra ou ex-
pressão a fim de reafirmar uma verdade.
4 Consiste na repetição das mesmas palavras, ficando en-
tre elas uma expressão diferente.

333
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e s c o m p lic a d a

3E a repetição de uma palavra no fim de uma frase ou


verso e no começo da frase ou verso seguinte.
6Repetição enfática da mesma palavra.
7M artméz, op.cit., p. 165.
8 do grego, metá (trans), e phérein (levar).
9 Consulte Beekman & Callow, A Arte de Interpretar e Count-
nicar a Palavra Escrita — técnicas de tradução da Bíb lia,p .I 15-140.
U m a obra de caráter técnico, teórico e prático fora dos
limítrofes cristãos é o manual de Francisco Filipak, Teoria da
Metáfora, Curitiba, editora H D V 1983. Esta obra trata do con-
ceito filosófico da metáfora passando pela m ethaphorá gené-
rico-analógica de Aristóteles, o autor rasteja a evolução do
conceito de metáfora através dos tempos, dos antigos retóricos
(Gorgias, Platão, Aristóteles, Cícero, etc.), até os novos retóricos
da Universidade de Liège (Jacques Dubois), passando ainda
pelos maiores tratadistas da retórica clássica: Dumarsais,
Fontanier e Lausberg. Verifica a relação da metáfora com ou-
tras figuras retóricas tais como a sinédoque e a metonímia.
Segundo a nota do livro, é o primeiro livro teórico no Brasil
dedicado à metáfora. Caso o leitor nutra interesse pelo tema
enfocado ver tam bém o excelente tratado de Rui Gomes
DANTAS, Metáfora: Sentido e Referência — a poética do mythos-mimesis,
p. 49-80. In: Filosofia da Linguagem e Lógica, Temas Universitários
II, por Raul L A N D IM F IL H O & Guido A. de Almeida,
Edições Loyola e P U C —RJ.
10 M artinéz, op.cit., p. 166.
11 A Análise Literária, p. 42.
12 R . P. Shedd (ed.), O Novo Dicionário da Bíblia, Vida
Nova, p. 156.

334
Fig uras de Lin g u ag e m

13 Para um estudo das parábolas ver Georg Baudler, A


Figura de Jesus nas Parábolas, Editora Santuário; Kenneth Bailey,
As Parábolas de Lucas, V id a Nova. Para conhecer as regras princi-
pais de in te rp re ta ç ã o de P a rá b o la s ver M . S. T erry,
Herm enêutica,p.115-137, CLIE; Η . A. Virkler, Hermenêutica
Avançada, p .I2 5 -I3 3 , Vida.
14 As Parábolas de Lucas, p. 26-27.
1‫ ג‬Op.cit., p. 27-228.
16 Op.cit., passim.
I‫ ׳‬Consulte, p o r exemplo, Ballarine, Introdução à Bíblia,
p. 7 7 - 8 0 .

335
C jlossd üo

G L O S S Á R IO D E T E R M O S G R E G O S

άνθρωπος anthropõs = H om em , ser humano,


αντίτιπτος antitypos = Correspondente a; antítipo.
άττοκάλυψίς apokálypsis == Revelação, desvendamento.
tlç τήν OLKiaV eis t i n oikian = Para a (à) casa.
elç τον OÍKOV eis ton oikon (A) = Para a (à) casa.
ά σ ίν ό έρμηνεύς τών Θ^ώ eisin ho hermêneus ton
Theõ = São os intérpretes de Deus.
€K (έξ) ek (eks) = Para fora de; de.
Έρμήν H e rm ê n = Herm en.
4ξηνήσατ0 eksêgêsato = Guiou para fora, conduziu, revelou,
έξήγησίς ekségêsis = Narração, exposição, exegese.
έρ μ Λ ο ς hermeios = Sacerdote do oráculo de Delfos.
έρ μ η v e ia herm èneia = Tradução, interpretação.
φμην6υ€1ν herm êneuein = Explicar, interpretar,
ή γέο μ α ί hêgeomai = Guiar, considerar,
κ α λ ύ π τω kalüptõ = Cobrir, ocultar, esconder,
κατηχέω katekheo = Informar, ensinar, mstruir.
κόσμος kosmos = M undo; Universo.
H e r m e n ê u t i c a tácil e d e sc o m p lic a d a

μ6τα, μ^θ meta (m eth) = Além de.


0'ίκία oikia = Casa, habitação, moradia; lar.
οικία του σκήνους oikia tou skênous = M orada da
tenda (barraca),
οικία του πατρός oikia tou patros = A casa do pai.
οίκός oikos = Casa, moradia, habitação; lar.
ο’ίκου Ισ ρ α ή λ oikou Israel = D a casa de Israel,
ονομα, ονυμία onoma (onymia) = Nome.
ΊΤαθός pathos = Paixão; doença.
παραβολή parabolê = T ip o , figura; parábola; ilustração,
τταραφράσίς parafrásis = Ao lado da palavra, do
discurso; paráfrase,
‫׳‬ΐτλεονασμος pleonasmos = Excesso; pleonasmo.
προφητης profetês = Profeta; falar por.
σ ίς sis = Sis (expressivo de ação),
συνέδοχη synedokhê = Compreensão,
τυ π ικ ό ς typikos = T 1polog 1camente; modelo, padrão,
τύ π ο ς typos = Padrão, modelo.

G LO SSÁRIO D E T E R M O S H EBR A IC O S
‫איש האלוהים‬ ,ish ha’elohim = H om em de Deus.
‫אי כ ה‬ ’eykhah = Como.
‫בי ת‬ bayith = Casa, moradia, habitação.
‫בלל‬ bâlal = Confundir.
‫גלא‬, gflâ = Revelar, desvendar.
‫'הרה‬ Yahwêh = Jahweh; Javé; Senhor.
‫יהרה צ כ או ה‬ Yahwêh Tsebbaoth = Senhor dos Exércitos.
‫ר) נ ה‬ qânâh = Adquirir, comprar.
‫קינ ה‬ qinah = Canção fúnebre, lamentação fúnebre.
‫טם‬ shêm = N om e; reputação.

338
fèíUíoçwfU

A Tradução da Bíblia. Revista A Bíblia no Brasil, n° 174-


abril a ju n h o /9 6 - ano 48, p. 17- 22, SP.

ALM EIDA, João Ferreira. A Bíblia Sagrada Revista e Atuali-


zada no Brasil, 2 a ed. 1993, Sociedade Bíblica do Brasil, SP.

___________ A Bíblia Sagrada. Edição Corrigida e Revisada Fiel


ao Texto Original, Sociedade Bíblica Tnnitariana, SP.

ALM EIDA, N. M endes de. Gramática Metódica da Língua


Portuguesa, 3 7 a ed.,I992, Editora Saraiva.

A N D E R S E N , Francis I. Jó: Introdução e Comentário, I a ed.,


1984, SP, Vida Nova e M undo Cristão.

BAILEY, Kenneth. As Parábolas de Lucas, 3 a ed., 1995, SP.


Vida Nova.

B A L L A R IN I, T eodorico, ed., Introdução à Bíb lia, I a


ed.,I968, SP. Vozes.

________ Poética Hebraica e os Salmos 1980 , SP. Vozes,

BAXTER, J. Sidlow, Examinai as Escrituras, v. 3, I a ed., 1985,


SP. Vida Nova.
H e r m e n ê u t i c a hicil e d e sc o m p lic a d a

BEEKM AN, John & C A L L O W , John. A Arte de Interpre-


tar e Comunicar a Palavra Escrita: Técnicas de Tradução da Bíblia, Ia
ed., 1992, SP. Vida Nova.

BERGO, Vittorio. A Bíblia como Fonte Literária, I a ed.,I985,


RJ. CPAD.

BERKEíOF, Louis. Princípios de Interpretação Bíblica, 2 a


e d .,I9 8 I, RJ. JUERP.

B E T T E N C O U R T , Estêvão. Para Entender 0 Antigo Testa-

mento, 4 a ed.,I990, SP. Editora Santuário.

B IB L IA H E B R A IC A S E U E T G A R IE N S IA , Editio quarta
emendata, 1990, Deutsche Bibelgesellschaft, Stuttgart.

BLEICHER, Jose£ Hermenêutica Contemporânea, Lisboa, Edi-


ções 70 Lda.

B U L T M A N N , R., Será possível a exegese livre de premissas?


[1957], em Altmann.W . (ed.), Rudolf Bultmann. Crer e Com-
preender. Artigos Selecionados, Sinodal, 1986.

CA M A RA JU N IO R , Joaquim Mattosso, Estrutura da Lín-


gua Portuguesa, 19a ed., SP. Vozes.

___________ Manual de Expressão O ral e Escrita, 2 a ed., 1966,


RJ. O zon + Editor.

C A R S O N , D. A. A Exegese e Suas Falácias: Perigos na Interpre-


tação da Bíblia, I a ed.,I992, SP. Vida Nova.

C H A FE R , Lewis Sperry, Teologia Sistemática, v.I, I a ed., SP.


1986, IBR.
340
Bibliografia

C H A M B ER LA IN ,W. Douglas. Gramática Exegética do Grego


Neotestamentário, I a ed., 1989, SP. CEP.

C H A M P L IN , R. N. & B EN TES, J. M . Enciclopédia de Bí~


blia Teologia e Filosofia, 19 9 1, SP, Editora Candeia.

COMBY, J. & L E M O N O N , P. Vida e Religiões no Império


Romano no tempo das primeiras comunidades cristãs, SP, Edições
Paulinas, 1988.

B A R U C Q , A., et alii, Escritos do Oriente Antigo e Fontes Bíblica,


SP, Edições Paulinas, 1992.

B E N T O , Esdras Costa, Hermenêutica Contextual, SC, Fa-


culdade Teológica Refidim, 1999.

BRO W N , Colm, ed. Dicionário Internacional de Eeologia do Novo


Eestamento, I a ed., 1981, SP, Vida Nova.

CRYSTAL, David. Que é Lingüística},I a ed.,I974, SP. Ao


Livro Técnico S.A.

CRO A TTO , J. Severino. Hermenêutica Bíblica, I a ed.,I986,


SP. Edições Paulinas e Editora Sinodal.

D U BO IS, Jean, et alii. Dicionário de Lingüística, 9a ed.,I993,


Editora Cultrix.

EA T O N , A Michael & C A R R , G. Lloyd. Eclesiastes e Can -


tares, I a ed., 1984, Vida Nova e M undo Cristão.

E D IT O R IA L CLIE, Catalogo General, Barcelona.

ELLISEN , A. Stanley. Conheça Melhor 0 Antigo Testamento, 3 a


ed., 1995, SP. Vida.
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

ELW ELL, W alter A. ed. Enciclopédia Histónco-Teológica da


Igreja Cristã, I a ed., 1988, SP. Vida Nova.

FARACO, Carlos Alberto. Lingüística Histórica, I a ed .,I9 9 I,


SP. Ed. Ática.

FE R R E IR A , Aurélio Buarque de Fíolanda. Novo Dicioná-


rio da Língua Portuguesa, I a ed., SP. Editora Nova Fronteira.

FILIPAK, Francisco. Teoria da Metáfora, I a ed.,I983, PR.


HDV

GALACHE, Gabriel C. (ed. brasileiro). Tradução Ecumênica


Brasileira - T EB , 1995, SP. Edições Loyola e Paulinas.

GEISLER, N orm an & N IX , William. Introdução Bíblica, I a


ed.,I997, SP. Vida.

G IL H U IS, Pedro. Como Interpretar a Bíblia: Introdução à Her-


menêutica, 2 a ed.,I980, SP. Livraria Cistã Unida.

G IN G R IC H , F. W ilbur & D A N K ER , Frederick W. Léxi-


co do NovoTestamento Grego/Português, I a ed., 1986, SP. Vida Nova.

G O T A R D E L O , Augusto. Português para Pregadores Evangéli-


cos, I a ed., 1979, SP. Edições Vida Nova.

G O T T W A L D , N orm an K. Introdução Socioliterária à Bíblia


Hebraica, I a ed., 1998, SP. Edição Paulinas.

H A R R IS , R, Laird, et alii, Dicionário Internacional de Teologia


do Antigo Testamento, I a ed., 1998, SP. Vida Nova.

H A R R IS O N , R.K. Jeremias e Lamentações: Introdução e Co-


mentário‫י‬ I a ed.,I980, SP. Vida Nova e M undo Cristão.

342
B ibliografia

H E N D R IC H S E N , W.A. Princípios de Interpretação Bíblica,


1980, SP. M undo Cristão.

H O D G E S , Zane C. & FARSTAD, A rthur L. (eds.) The


Greek New Testament: According to the Majority Text, Second edition, 1985,
Ashville - Camben - N ew York. Thom as Nelson Publishers.

H O R T O N , Stanley M . ed. Teologia Sistemática, I a ed.,I996,


RJ. CPAD.

LA SOR, W. Sanford. Gramática Sintática do Grego do N T .,I*


ed., 1986, SP. Vida Nova.

L U N D , E. & N E L S O N , P. C. Hermenêutica, I a ed.,I968,


SP. Vida.

LUKER, M anfred, Dicionário de Figuras e Símbolos Bíblicos,


1993, SP. PAULUS.

M A R T IN E Z , José M . Hermenêutica Bíblica, I a ed.,I984,


Spain, CLIE.

M O IS É S , M assaud, A Análise Literária, 6a ed., 1981, SP.


Cultrix.

N IC O L A , Jose de & IN F A N T E , Ulisses. Análise e Inter-


pretação de Poesia, I a ed., 1995, SP. Editora Scipione.

PA L M E R , R ichard E. Hermenêutica, Lisboa, Edições


70 Lda.

P E N T E C O S T , J. D w ig h t. M an u al de Fscatologia, I a
e d .,I998 , SP. Vida.

343
H e r m e n ê u t i c a fácil e d e sc o m p lic a d a

P F E IF F E R , Charles F. & H A R R IS O N , Everett F., Co-


mentário Bíblico Moody, vl. 2, Josué a Cantares, I a ed., 1985,
SP. IBR.

P O N T IF ÍC IA C O M IS SÃ O BÍBLICA, A Interpretação da
Bíblia na Igreja, 2 a ed.,I994, SP. Paulinas.

RANSEY, John. Estudo Bíblico Exegético: Um guia para 0 estudo


do Novo Testamento, I a ed., 1993, RJ. JUERP.

R E IFL E R , H ans Ulrich, Pregação ao Alcance de Todos, I a ed.,


1993, SP. Vida Nova.

RIBEIRO, Américo J., Isagoge do Velho Testamento; I Parte:


Canônica. Seminário Teológico Presbiteriano de Campinas,
1970, SP.

SCHELP, PaulW. Concordância Bíblica —‘Apresentação”, 1975,


Sociedade Bíblica do Brasil, SP.

SC H O K EL, L. Alonso. A Palavra Inspirada: a Bíblia à luz da


ciência da linguagem, I a ed.,I992, SP. Edições Loyola.

S O B R IN H O , A. G rangeiro. Hermenêutica Bíblica, 3 a


ed.,1986, RJ. CPAD.
STEK, John H . Aspectos da Poética do Antigo Testamento e uma
Introdução a: Salmos, Provérbios e Eclesiastes, I a ed., 1985, SP. Luz
Para o Caminho.

TERRY, M. S. Hermenêutica, Spam, CLIE.

V IR K L E R , H enrv A. Hermenêutica: Princípios e Processos de


Interpretação Bíblica, I a ed.,I987, SP. Vida.

344
Disciplina obrigatória cm qualquer curso tcológico, a Hermenêutica é a arte
de interpretar texto? de forma correta, e neste caso, os textos bíblicas.
, Hla ajudi^-idcntitícapos pontos principais dos textos sagrados, como a época em que
‫ ׳‬foram estilo da escrita e do autor, para que grupo foi endereçado e os
>1^t™í<pclQ>»<‫ן‬ΐl·ãi^-íeram escritos e mrormações importantes acerca das línguas
ór1gmais^rom,sy3s figunjs.de linguagens e peculiaridades, dando condições ao leitor
/‫׳‬ sador para_melhor aproveitar ã mensagem da Bíblia. Mesmo sendo
^ / imprescindível ao estudo bíblicofíriuitos cristãos acham a Hermenêutica uma
/ - disciplin^liríciLda ser aprendida e seguida.
Hermenêutica FáciLe-Oescoirrfliffaaa aborda, de maneira clara, didática e objetiva,
faHermenêutica Bíblica, e entre outros assuntos:

Fundamentos da Hermenêutica
Inspiração e Revelação
Escolas Tendenciosas de Hermenêutica
Hermenêutica Bíblica
iguras de Linguagem nos Textos Bíblicos

Repleto de exemplos c exercícios, este livro e uma ferramenta indispensável


■ para seminaristas, mestres, pregadores pastores e demais membros
do corpo de Cristo, que terão melhores condições de interpretar corretamente
o texto sagrado e aplicá-lo às suas vidas.

O Autor
Esdras Costa Bentho,
é evangelista, professor
de Hermenêutica, Exegese,
Grego e Preleção Exegética
de Hebreus na Faculdade
Teológica Refidim, )oinvile,
SC, e mestrando em Exegese
do Novo Testamento. ‫־‬