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BOLETIM ENERGÉTICO JANEIRO • 2017

Os desafios do Diferentemente de outras utilities, como água e gás,


os sistemas de geração, transmissão e distribuição
armazenamento de energia elétrica devem ter capacidade, a qualquer
de energia no tempo, para suprir a máxima demanda agregada
provável, o que se traduz na necessidade de sistemas
setor elétrico robustos o bastante para atender à demanda quando
todos os escritórios ligam o ar condicionado ao
mesmo tempo, ou quando a maioria das residências
usa o chuveiro elétrico simultaneamente. A diferença
em relação ao sistema de abastecimento de água,
Por Nelson Leite, Marco Delgado e Fabio Hage por exemplo, é que quando os usuários, todos, dão
Presidente, diretor e consultor da ABRADEE, descarga sanitária ao mesmo tempo, o sistema de
respectivamente. abastecimento não precisa ter vazão agregada igual
à soma das vazões instantâneas de cada residência,
Desde que, no século XIX, a eletricidade foi controlada mas muito menor. Isso ocorre simplesmente porque as
para uso em iluminação, tração e movimento, instalações consumidores contam com um dispositivo
aquecimento e outros fins, os sistemas de geração, inexistente no sistema elétrico: a caixa d’água.
transmissão e distribuição de energia elétrica trabalham
“on line”, ou seja, equilibrando demanda e oferta em Desde que a eletricidade se tornou um bem essencial
tempo real, sem espaço para superávits ou déficits de à sociedade, não foi possível à engenharia desenvolver
energia. Os apagões ocorrem justamente quando há um dispositivo de armazenamento de energia que fosse
dificuldade em manter o equilíbrio entre consumo e tão eficaz e barato como uma simples caixa d’água. Na
produção de eletricidade, obrigando os sistemas de verdade, este é o motivo pelo qual os veículos elétricos
proteção a atuarem para que vidas e equipamentos têm demorado tanto a se tornar uma alternativa aos
sejam poupados. tradicionais modelos à combustão. Em um vídeo famoso

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disponível no Youtube, Bill Gates estima que, colocadas Supercapacitores, indutores feitos de supercondutores,
em conjunto, todas as baterias existentes do mundo Flywheels, água bombeada, ar comprimido,
poderiam suprir a demanda global por eletricidade armazenamento de energia potencial gravitacional por
por apenas 10 minutos. Esse número faz com que elevação de pesos são algumas das muitas possibilidades
apreendamos a dimensão do desafio de armazenar tecnológicas alternativas para o armazenamento de
energia elétrica. energia, mas ainda em fase experimental, exigindo
investimentos vultosos em pesquisa e desenvolvimento
Com o crescimento vertiginoso das fontes de geração para seu amadurecimento, bem como para testes de
renováveis, como solar e eólica, o armazenamento de aplicação em diversos arranjos técnicos e econômicos.
energia ganha um ímpeto ainda maior no Brasil e no Em visita recente ao Reino Unido, uma delegação
mundo. Segundo o Global World Energy Council, o brasileira patrocinada pela Embaixada Britânica, com
Brasil já ocupa a décima posição no ranking mundial apoio do MCTI e do Instituto ABRADEE da Energia,
de capacidade instalada de geração eólica. Segundo constatou tanto os esforços daquele país em superar
dados do Balanço Energético Nacional, “o crescimento desafios para a acomodação das tecnologias de
da oferta de energia eólica e solar entre 2014 e 2015 armazenamento, quanto a incipiência das soluções
foi de 78% e 97%, respectivamente”. O problema do experimentais, embora alguns projetos já tenham
crescimento das fontes alternativas é que elas são maturidade notável.
também intermitentes, ou seja, produzem energia
não necessariamente quando há demanda, mas Em agosto último, a Agência Nacional de Energia
principalmente, podem estar indisponíveis quando a elétrica – ANEEL publicou a Chamada Pública para
demanda é alta. Por conta disso, o armazenamento de projetos de P&D estratégicos nº 21, intitulada “Arranjos
energia passa a ser crucial para a segurança energética Técnicos e Comerciais para a Inserção de Sistemas de
do sistema, além de constituir elemento de legitimação Armazenamento de Energia no Setor Elétrico Brasileiro”,
da própria expansão das fontes renováveis. a partir da qual 96 agentes de geração, transmissão
e distribuição nacionais demonstraram interesse em
Apesar de ainda ser um dos maiores desafios tecnológicos executar ou financiar projetos de pesquisa no tema. De
do século XXI, o armazenamento de energia passa a ter fato oportuna, a chamada ANEEL abre caminho para a
um horizonte menos incerto com a retomada da corrida inserção de novas tecnologias de armazenamento no
tecnológica pelos veículos elétricos. A Tesla Motors, por setor elétrico brasileiro, com especial atenção às soluções
exemplo, está construindo a maior fábrica de baterias do de grande capacidade, que podem ser usadas nos três
mundo no estado de Nevada, EUA, a Gigafactory, com segmentos do setor.
capacidade anual para produzir baterias que, juntas,
somam 35 GWh, energia suficiente para abastecer toda a Com efeito, existem de antemão aplicações
cidade de São Paulo por dois dias. dramaticamente nacionais para o armazenamento
de energia, como por exemplo, na substituição dos
Outras tecnologias também têm se mostrado geradores a óleo diesel de nossos sistemas isolados no
promissoras, como a de armazenamento de energia por ar norte do país. A Conta de Consumo de Combustíveis
liquefeito. Segundo a empresa HighView Power Storage, – CCC, encargo pago por todos os consumidores
sediada no Reino Unido, já é realidade conceber plantas em suas contas de luz, consome cerca de 6 bilhões
armazenadoras com capacidade de potência de 200 de reais por ano, dentre custos com combustível e
MW e com 600 MWh de energia armazenada, suficiente transporte em regiões de difícil acesso. Em sistemas
para abastecer um bairro inteiro no Rio de Janeiro por isolados, a associação de geração solar ou eólica a
três horas. Embora pareça nova, a tecnologia é do final tecnologias de armazenamento de energia pode reduzir
do século XIX, baseado no ciclo de Claude, e usada há consideravelmente os altíssimos custos variáveis dos
bastante tempo na indústria para liquefazer oxigênio geradores diesel, além de reduzir a praticamente zero
para uso hospitalar, por exemplo. os impactos ambientais.

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Outra possível aplicação nacional imediata para o inclusive permitindo às distribuidoras, num arranjo
armazenamento de energia seria na sua utilização conjunta regulatório ainda inexistente, atender clientes com
aos parques eólicos do nordeste brasileiro. Ao mesmo exigências e necessidades específicas em relação aos
tempo em que a capacidade instalada dos geradores níveis de qualidade de suprimento, que podem ser muito
eólicos é grande, quando os ventos param de soprar maiores que os mínimos estabelecidos pela ANEEL.
de forma abrupta, o que não é incomum, complexas
manobras devem ser realizadas em poucos minutos para Por fim, em um momento de possíveis e desejáveis
que esse volume de potência seja substituído por outras restruturações no setor elétrico brasileiro, o
centrais geradoras, muitas vezes localizadas a milhares armazenamento de energia deve ser encarado como
de quilômetros de distância. uma grande oportunidade para a solução de problemas
técnicos seculares, assim como para a preparação do
Ainda, com o advento das redes inteligentes e do terreno com vistas à necessária mudança na expansão
aumento da geração distribuída em micro e pequena da matriz energética nacional, que contará com
escala, o armazenamento de energia pode constituir crescente presença de energias renováveis e muito maior
solução técnica otimizada para o funcionamento das intermitência. Não obstante, é hora de rediscutir o papel
redes de distribuição. Vistos como ativos que podem das distribuidoras de energia elétrica que, mundo afora,
concorrer com os tradicionais investimentos em estão sendo cada vez mais vistas como integradoras de
expansão de transformadores e linhas de distribuição, soluções energéticas, como é o caso do armazenamento
as instalações de armazenamento de energia poderiam de energia, em sistemas cada vez mais multidirecionais,
tornar o sistema de distribuição mais confiável e flexível, ou horizontais, e complexos.

Nelson Fonseca Leite é graduado em engenharia de Administração do Comitê


elétrica pela Universidade Federal de Minas Gerais. Brasileiro da CIER. Foi Diretor
Possui pós-graduação em Gestão de Negócios pelo de Assuntos Regulatórios e
IBMEC, em Administração - Setor Elétrico pela FGV Projetos Especiais e Diretor
e Electric Power Management pela JICA, no Japão. de Operação das Empresas
Trabalhou como engenheiro na Usina Nuclear de Distribuidoras da Eletrobrás.
Angra dos Reis e na CEMIG (Companhia Energética Atualmente, ocupa o cargo
de Minas Gerais), ocupando vários cargos de Gerente de Presidente da Associação
e Superintendente. Foi Coordenador Nacional de Brasileira de Distribuidores de
Distribuição e Comercialização da CIER (Comissão de Energia Elétrica – ABRADEE e Presidente do Conselho
Integração Energética Regional) e membro do Conselho Consultivo da EPE

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Marco Antonio de Paiva Fabio Sismotto El Hage.


Delgado. Engenheiro Eletricista Professor de engenharia
com mestrado e doutorado em do Insper e consultor da
Planejamento Energético pela ABRADEE, é mestre e doutor
COPPE/UFRJ. Foi consultor em engenharia pela Escola
do Instituto Nacional de Politécnica da Universidade
Tecnologia para projetos de São Paulo, pós-graduado
de eficiência energética na em economia pela Escola
industria. Trabalhou na Light de Economia de São Paulo
Serviços de Eletricidade na área de tarifas. Lecionou da Fundação Getúlio Vargas, com estágio pós
em cursos de pós-graduação na FGV/RJ. Autor de doutoral em políticas públicas pela Suffolk University,
diversos artigos e livros na área de eficiência energética, em Boston. Trabalhou na área de planejamento
planejamento energético e regulação econômica e da EDP Bandeirante, foi pesquisador do Centro
tarifária. Atualmente é diretor da Associação Brasileira de Regulação e Qualidade de Energia (ENERQ)
de Distribuidores de Energia Elétrica. da USP e sócio fundador da Daimon Engenharia
e Sistemas, tendo atuado como pesquisador e
coordenador em dezenas de projetos de P&D do ciclo
ANEEL desde 2001. É autor de artigos e livros sobre
modelos matemáticos aplicados ao setor elétrico,
estrutura tarifária e regulação de monopólios naturais.

A ABRADEE é formada por 51 distribuidoras de energia elétrica que representam aproximadamente 99% do
mercado brasileiro. A ABRADEE atua a mais de 40 anos para o desenvolvimento das distribuidoras por meio
de programas de benchmarking e de atuação representativa junto ao Governo e, em especial, junto ao órgão
regulador setorial (Agência Nacional de Energia Elétrica).

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