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W. R.

BION

Experiências com
grupos
Os Fundamentos da Psicoterapia de Grupo
Segunda Edição

Coleção Psicologia Psicna1ítica

Direção de

JAYME SALOMÃO

Membro-Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Membro da Associação Psiquiátrica do Rio
de Janeiro. Membro da Sociedade de Psicoterapia Analítica de Grupo ao
Rio de Janeiro.

Tradução e Prefácio

WALDEREDO ISMAEL DE OLIVEIRA

Presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia Analítica de


Grupo. Analista-Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise do
Rio de Janeiro. Professor Adjunto de Psiquiatria da Universidade
Federal do Rio de Janeiro.

IMAGO EDITORA LTDA.


EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
INTRODUÇÃO

Os artigos aqui impressos despertaram mais interesse do que eu esperava; em conseqüência disso,
houve pedidos de reimpressão que foram impossíveis de atender com o estoque disponível.

A solução, como agora compreendo, teria sido republicá-los de saída, mas relutava em fazê-lo sem
efetuar alterações que incorporassem experiências posteriores. Contudo, reescrever algo raramente é
bem sucedido e ‘muito se pode perder pela exclusão de teorias experimentais que mostram como as
idéias se desenvolveram. Dessa maneira, os artigos são reinpressos sem alteração. Ver-se-á que dois
deles não pertencem à série que originalmente apareceu em Human Relations; o primeiro é
reimpresso porque lança luz sobre as origens de minha convicção de que essa abordagem merecia
uma nova prova e o segundo porque sintetiza conclusões que eu gostaria de haver tirado depois e
que outros poderiam desejar desenvolver. Tenho também uma razão puramente pessoal para querer
agradecer a colaboração com John Rickman e a inspiração que sua generosidade e entusiasmo
sempre geraram.,
Lameiio não haver discutido a soberania e o poder. Em grupos pequenos como os aqui utilizados, o
poder e a soberania não chegam a atingir a maturidade. A forma amadurecida é extrínseca e incide
sobre o grupo apenas sob a forma de invasão por outro grupo. Discutirei esses assuntos num volume
futuro, se tiver tempo, e então tratarei das fontes extra-econômicas do valor do dinheiro, que não
apenas são importantes em si próprias, mas também contribuem significativamente, atra

vês de sua influência sobre a economia, para a dinâmica da soberania e do poder.


Em minha prática como psicanalista, fico impressionado pelo fato de a abordagem psicanalítica,
feita através do individuo, e a abordagem que estes trabalhos descrevem, efetuada através do grupo,
tratarem de diferentes facetas do mesmo fenômeno. Os dois métodos fornecem ao profissional uma
visão binocular rudimentar. As observações tendem a se enquadrar em duas categorias, cuja
afinidade é demonstrada por fenômenos que, quando examinados por um dos métodos, centralizam-
se na situação edipiana, relacionada com o grupo de acasalamento (pairing group) e, quando
examinados pelo outro, centram-se na esfinge, relacionada com os problemas de conhecimento e
método científico.
Minha obra atual, que espero publicar, convence- me da importância central das teorias kleinianas
da identificação projetiva e da ação recíproca existente entre as posições esquizo-paranóide e
depressiva.
Sem a ajuda destes dois conjuntos de teorias, tenho dúvidas sobre a possibilidade de qualquer
progresso no estudo dos fenômenos de grupo. O papel desempenhado pelos mecanismos com que
estas teorias se relacionam é sugerido no último capítulo, para o qual recomendo a atenção do leÍtor.

W. R. Bion
PREFÁCIO A EDIÇÃO BRASILEIRA
Não sendo esta a primeira obra de W. R. Bion a ser publicada no Brasil, dispensa qualquer apiesentação,
levando-se em conta a hierarquia do Autor, como clínico, pesquisador e pensador, no campo da psicanáUse.
Este livro, no entanto, fez com que o nome de Bion se projetasse mais além dos domínios da psicanálise, pois
os ensaios aqui reunidos constituem matéria de estudo e de consulta para todos os que se preocupam com a
psicologia dos grupos e o comportamento do homem como ser social. É minha convicção que todo estudioso
das disciplinas que hoje se voltam para a investigação da natureza humana psicanálise, psiquiatria,

psicologia social, sociologia ou antropologia ao concluir a leitura desta obra sentir-se-á enriquecido em seus

conhecimentos, fortemente estimulado pela originalidade dos conceitos do Autor, bem como impressionado
por seu extraordinário acervo cultural.
Devo limitar-me a considerações breves acerca do valor destes estudos de Bion sobre os grupos, reportando-
me a dois aspectos que aqui me parecem mais relevantes: a posição que ocupam no conjunto das importantes
constribuições que Bion vem trazendo para as teorias da psicanálise, e a aplicação de suas idéias originais
sobre a dinâmica dos grupos para o desenvolvimento de uma técnica de análise-de-grupo.
No que diz respeito à posição que ocupam esses ensaios sobre grupos, no conjunto da obra de Bion, penso
condensar uma apreciação válida, afirmando: as experiências com os grupos e a elaboração posterior de
conceitos teóricos delas derivados parecem constituir o pon

to de partida de uma fonte de conhecimentos que forneceu ao Autor vários elementos para o
exercício de uma atividade criadora, que o situa como o psicanalista mais discutido da atualidade.
Um estudo judicioso dêste livro permite-nos encontrar, em estado nascente, conceitos que hoje já
nos são familiares e que utilizamos em nossa prática psicanalítica, e encerram o que há de mais
Importante e original entre as contribuições de Bion: os conceitos sobre a gênese dos pensamentos e
o “aparelho para pensar os pensamentos”, a “teoria das funções”, a ampliação da teoria kleiniana da
identificação projetiva em termos de “continente-conteúdo”, o conceito da “perspectiva reversível”
e vários outros. Todos esses conceitos são ainda discutíveis, e só o tempo dirá o que permanecerá
definitivamente incorporado ao acervo científico da psicanálise.
Não me cabe fazer um estudo crítico deste livro. Cada leitor avaliará o peso das contribuições e
idéias verdadeiramente novas que Bion nos apresenta, a partir de suas experiências com os
“pequenos grupos terapêuticos”. Conceitos sobre dinâmica dos grupos tais como “grupo-de-

trabalho”, “suposições básicas”, “valência”, “cultura do grupo” etc. abriram caminho para uma

compreensão nova e científica da “microssociedade” que são os pequenos grupos. Essas idéias
devem ser apreendidas e meditadas durante a leitura, e, depois, utilizadas no campo particular a que
cada um se dedica. O que me parece importante é considerar esta interpretação dinâmica do grupo
como um “todo”, para a psicanálise e suas aplicações.
Estes ensaios sobre os grupos foram elaborados a partir das experiências do Autor nos períodos de
guerra e após-guerra, e, conseqüentemente, representam uma contribuição para o estudo do homem
e seus grupos num momento de grave crise e de grandes transforma.ções (tecnológicas, sócio-
econômicas e políticas). A psicanálise, como ciência do homem, experimenta o impacto da vida
moderna, e não ignora as transformações que sofrem as outras ciências, seja reformulando suas
teorias, seja buscando novos métodos. As solicitações que o

mundo moderno faz à psicanálise, no sentido de recorrer aos seus conhecimentos para a solução de
problemas urgentes e vitais, fazem com que muitos analistas inclinem-se para o estudo e utilização
de técnicas que possibilitem o atendimento de grupos maiores de indivíduos, sem abrir mão, no
entanto, dos elementos fundamentais da teoria psicanalítica. Parece claro não existir a possibilidade
de substituir-se a técnica de tratamento individual desde que se pretenda fazê-lo à base da

investigação do inconsciente pois as tentativas até agora ensaiadas levaram a processos que se

afastam do que entendemos por psicanálise. s psicanalistas que, em diferentes países, vêm
trabalhando com grupos, no entanto, inclinam-se mais e mais no sentido de desenvolver uma
técnica grupal paralela, que atenderia a duas exigências: as demandas de terapia por parte da
comunidade, e a preservação dos pontos de vista científicos da psicanálise.
A procura de uma técnica de análise-de-grupo constitui o desenvolvimento natural de uma linha de
pensamento dentro da psicanálise, sendo este um desenvolvimento histórico. Se acompanharmos a
evolução do pensamento científico de Freud, verificaremos que o homem preocupou seu espírito
como um ser social. Sua formação médica e os estudos primeiros de neuropatologia nunca se
sobrepuseram à sua curiosidade e à sua irresistível inclinação para o estudo das origens da
sociedade humana, dos ritos e das religiões, da atividade artística e criadora, e, finalmente, do
comportamento agressivo e autodestrutivo da civilização moderna. As teorias que elaborou a partir
da convencional relação médico-paciente e do estudo da neurose no indivíduo
—teoria da libido, teoria estrutural, teoria edípica, teoria do superego reportam-se, sempre, ao

indivíduo relacionado com objetos, construindo, assim, uma psicologia multipessoal. O que não se
pode deixar de especular são as conseqüências que resultariam no campo terapêLticO caso Freud

não sofres limitação que é contingência da vida individual, ou fosse ele um coevo de nossa
sociedade de abundância e autodestrui 1

ção. Parece que Bion pensa assim, ou, pelo menos, assim podemos interpretá-lo, quando afirma,
neste livro, que “Freud falhou, em certo sentido, em compreender, na sua discussão dos grupos, a
natureza da revolução que provocou, quando tentou uma explanação dos sintomas neuróticos, não
no indivíduo, porém nas relações do indivíduo com seus objetos”. Não é difícil inferir aplicações
terapêuticas para os grupos, quando meditamos sobre idéias expressadas por Freud em diversas
partes de sua obra. Em Group Psychology and the Analysis of the Ego (1921), por exemplo, Freud
afirmou claramente que a psicologia individual e a de grupo não podem ser absolutamente
diferenciadas, pois a psicologia do indivíduo permanece em função das relações do indivíduo com
outras pessoas. Conceitos assim esboçados e esparsamente encontrados na obra de Freud, quando se
referiam a outros aspectos da teoria, serviram como ponto de partida para os “desenvolvimentos” da
psicanálise. Assim sucedeu com o “complexo de Édipo”, “teoria do superego”, “ansiedade” etc.
Não se pode aduzir razões científicas “para que outros “desenvolvimentos” não sejam tentados,
desde que se investigue, a partir de conceitos analíticos básicos, e que se os amplie à medida que as
observações o permitam. Para o estabelecimento de uma técnica de “análise-de-grupo”, o que se
modifica é o setting, conservando-se os elementos que são fundamentais na relação bipessoal:
interpretação da fantasia inconsciente, teoria da identificação projetiva, análise da transferência. O
settíng multipessoal se constitui, no entanto, como a réplica da realidade interna, visto que os
desenvolvimentos da psicanálise, surgidos com os trabalhos de Melanie Klein, vieram, na verdade,
demonstrar que o mundo interno do indivíduo se constitui como uma comunidade ou “grupo” de
objetos. Estes elementos da psicanálise, juntamente com os conceitos de Bion acerca da dinâmica
dos grupos, fornecem as bases para o trabalho analítico com os grupos de pacientes.
Para concluir, penso esclarecer uma questão importante, que, provavelmente, aparecerá ao leitor
após a

leitura deste livro. Bion não chama o trabalho que fez com os grupos de “psicanálise”. Mais ainda:
empolgado pelos estudos que o levaram a especulações científicas sobre as teorias básicas da
psicanálise, não retomou em sua prática clínica o trabalho terapêutico com os grupos. Darei agora
duas razões que me fazem supor que a alteração na sua linha de interesses e de pésquisa não implica
abandonar suas experiências com grupos, ponto de partida para sua extraordinária aventura
científica. A primeira está contida no próprio livro, quando indica para outros analistas a
importância da investigação e trabalho com os grupos: “Penso que ainda não chegou o momento de
dar uma opinião definitiva, e creio que há lugar para analistas completamente qualificados
empreenderem pesquisas acêrca de seu valor, possivelmente com grupos compostos de indivíduos
que estão tendo ou tiveram psicanálise”. A segunda razão consiste em um informe de. natureza
pessoal. Como membro da Asoclación Psicoanalítica Argentiia, tive o privilégio de ser incluído no
grupo de analistas que participaram dos trabalhos (conferências, seminários, supervisões) que Bion
realizou em Buenos Alres, em agosto de 1968. Num encontro não científico quando em sua

companhia, e na de Edgard Roila e Arnaldo Rascovsky, viajei para a casa de Leon Grinberg, em
Escobar tivemos a oportunidade de conversar sobre o trabalho com grupos, sobre sua opinião

acerca da técnica grupal e sobre as perspectivas para o futuro. Mostrou-se interessado e realmente
curioso quanto ao desenvolvimento dessas tentativas, referindo-se, naturalmente, ao trabalho de
analistas com formação completa, conhecimentos das teorias da psicanálise e com longa
experiência em análise individual.
Walderedo Ismael de Oliveira
Rio de Janeiro, 1970

APRESENTAÇÃO
r
SUMÁRIO
Introdução XI
Prefácio à Edição Brasileira XIII
Apresentação
Tensões Intragrupais na Terapêutica 3
Experiências com Grupos 21
Revisão
Grupos Dinâmicos 129
Indice Analítico e Remissivo 179
Tensões Intragrupais na Terapêutica
Seu estudo como tarefa do grupo

A expressão ‘terapêutica de grupo’ pode ter dois significados. Ela pode referir-se ao tratamento de
um certo número de indivíduos reunidos para sessões terapêuticas especiais, ou pode relacionar-se a
um esforço planejado para desenvolver num grupo s forças que conduzem a uma atividade
cooperativa de funcionamento livre.
A terapêutica de indivíduos reunidos em grupos é geralmente da natureza de uma explicação do
problema neurótico, com reasseguramento da confiança e, às vezes, gira principalmente em torno da
catarse da confissão pública. A terapêutica de grupos tem possibilidade de versar sobre a aquisição
de conhecimentos e experiências dos fatores que contribuem para um bom espírito de grupo.
UM ESQUEMA DE REABILITAÇÃO (W. R. B.)
No tratamento do indivíduo, a peurose é apresentada como um problema do indivíduo. No
tratamento de um grupo, ela tem de ser apresentada como um problema do grupo. Foi este o
objetivo que estabeleci a mim mesmo quando fui encarregado da ala de reabilitação de um hospital
psiquiátrico militar. Minha pri1 Escrito em colaboração com John Rickman, M.D.

meira missão, assim, foi descobrir o que a busca desse objetivo significaria em função de
horário e organização.
Não pude trabalhar nessa tarefa numa atmosfera de calma claustral. Mal me sentava à
escrivaninha, com meus papéis, e já era assediado por urgentes problemas apresentados por
pacientes importunos e outras pessoas. Poderia ir ver os praças graduados encarregados da
ala de reabilitação e explicar-lhes quais eram os seus deveres? Poderia receber o soldado A,
que tinha urgente necessidade de uma licença de 48 horas para ir encontrar um velho amigo
que acabara de regressar do Oriente Médio? O soldado B, por outro lado, pedia conselhos,
porque um infeliz atraso ferroviário deixara-o exposto à má interpretação de haver
ultrapassado o prazo de sua licença, e assim por diante.
Pouco mais de uma hora desta espécie de coisas convenceu-me que era de disciplina que se
precisava. Exasperado pelo que considerava um adiamento de meu trabalho, voltei-me para
a consideração deste problema.
DISCIPLINA PARA O NEURÓTICO
Sob um só teto achavam-se reunidos 300 a 400 homens que, em suas unidades, já tinham
tido o benefício do valor terapêutico que reside na disciplina militar, na boa alimentação e
na assistência regular; evidentemente, isto não fora suficiente para impedí-los de encontrar
o caminho de um hospital psiquiátrico. Num hospital psiquiátrico, tais tipos fornecem a
população total e, na ocasião em que chegam à ala de reabilitação, não se acham mais
sujeitos nem mesmo à ligeira coerção que é proporcionada pelo confinamento ao leito.
Fiquei convencido de que o que se exigia era o tipo de disciplina conseguido num teatro de
guerra por um oficial experimentado no comando de um batalhão bastante velhaco. Mas
que tipo de disciplina era esse? Frente à urgente necessidade de ação, procurei e encontrei
uma hipótese de trabalho. Era ela a seguinte: a disciplina exigida depende de dois fatores
principais: (1) a
presença do inimigo, que fornece um perigo comum e um objetivo comum; (II) a presença
de um oficial que, sendo experimentado, conhece algumas de suas próprias deficiências,
respeita a integridade de seus homens e não tem medo de sua boa vontade nem de sua
Iostilidade.
Um oficial que aspire a ser psiquiatra encarregado de uma ala de reabilitação tem de saber o
que é estar numa posição de responsabilidade, numa ocasião em que a responsabilidade
significa ter de enfrentar questões de vida e morte. Tem de saber o que é exercer autoridade
em circunstâncias que tornam seus companheiros incapazes de aceitar sua autoridade,
exceto na medida em que ele parece ser capaz de sustentá-la. Tem de saber o que é viver
em estreita relação emocional com seus semelhantes. Em resumo, tem de conhecer a
espécie de vida que é levada por um oficial combatente. Ao psiquiatra que conheça isso
será pelo menos poupado o odioso e crasso erro de achar que seus pacientes são carne para
canhão em potencial, a serem devolvidos como tal a suas unidades. Compreenderá que é
tarefa sua produzir homens que se respeitem a si mesmos, socialmente ajustados à
comunidade e, dessa maneira, desejosos de aceitar suas responsabilidades tanto na paz
quanto na guerra. Somente assim ficará ele livre de profundos sentimentos de culpa que
frustram redondamente quaisquer esforços que, doutra maneira, possa fazer para o
tratamento.
Qual o perigo comum que é partilhado pelos soldados da ala de reabilitação? Que objetivo
poderia uni-los?
Não houve dificuldade em descobrir um perigo comum; extravagâncIas neuróticas de um
tipo ou de outro colocam perpetuamente em perigo o trabalho do psiquiatra ou de qualquer
instituição criada para o tratamento das perturbações neuróticas. O perigo comum na ala de
treinamento era a existência da neurose como uma incapacidade da comunidade. Achava-
me agora de volta a meu ponto de partida: a necessidade, no tratamento de um grupo, de
apresentar a neurose como um problema do grupo. Entretanto, graças à minha excursão
pelo problema da disciplina, retornara com dois

acréscimos. A neurose precisa ser apresentada como um perigo para o grupo e sua apresentação
deve, de alguma maneira, ser tornada o objetivo comum do grupo.
Mas como poderia o grupo ser persuadido a enfrentar a incapacidade neurótica como um problema
comum?
O paciente neurótico nem sempre deseja o tratamen-. to e quando, afinal, sua aflição o leva a ele,
não o deseja irrestritamente. Esta relutância foi identificada na discussão da resistência e fenômenos
correlatos, mas a existência de fenômenos comparáveis nas sociedades, não foi reconhecida.
A sociedade ainda não foi impulsionada a buscar tratamento para suas perturbações psicológicas
através de meios psicológicos porque ainda não atingiu uiia compreensão interna (insight) suficiente
para apreciar a natureza de sua aflição. A organização da ala de reabilitação tinha de ser tal que o
desenvolvimento da côni preensão interna (insight) pelo menos não fosse obstado. Melhor ainda
seria se ela pudesse ser projetada para dar realce à maneira pela qual o comportamento neurótico se
soma às dificuldades da comunidade, destruindo a felicidade e a eficiência. Se se pudesse
demonstrar que a aflição comunal era um subproduto neurótico, então a própria neurose seria
encarada como digna de um estudo e de um ataque comunais e se teria dado um passo no caminho
da vitória sobre a resistência na sociedade.
Dois requisitos militares de menor monta, mas rigorosamente práticos, tinham de ser atendidos pela
ala de reabilitação. A organização deveria, se possível, fornecer um meio através do qual o
progresso dos pacientes pudesse ser indicado, de maneira a permitir ao psiquiatra informar se um
soldado achava-se apto para receber alta. Também seria útil possuir uma indicação da inclinação do
paciente, de sua motivação efetiva,’ de maneira a se poder formar uma opinião sobre o tipo de
trabalho para o qual ele deveria ser encaminhado.
Achei útil visualizar a organização projetada da ala de treinamento como se se tratasse de uma
estrutura encerrada dentro de paredes transparentes. Dentro des6

se espaço, o paciente seria admitido em determinado ponto e as atividades no interior do mesmo seriam
organizadas de maneira a poder ele movimentar-se livremente em qualquer direção, de acordo com a
resultante de seus impulsos conflitantes. Seus movimentos, até onde possível, não seriam deformados por
interferência externa. Em resultado disso, poder-se-ia confiar que seu comportamento proporcionasse uma
indicação correta de sua vontade e objetivos efetivos, em oposição aos objetivos por ele próprio proclamados
ou àqueles que o psiquiatra desejaria que ele tivesse.
Era de esperar que algumas das atividades organizadas dentro do ‘espaço’ fossem claramente bélicas; outras,
igualmente, claramente civis e outras, ainda, simples expressões de importância neurótica. À medida que se
visse o progresso do paciente avançar ao longo de um ou de outro desses caminhos, assim também seu ‘ativo
e passivo’ para utilizar uma expressão empregada na esfera da seleção de oficiais pelo Major Eric Wittkower

—poderiam ser avaliados com razoável objetividade. A medida que seu progresso se mostrasse ef etuar na
direção de uma ou outra das saídas possíveis dêsse espaço imaginário, também seu verdadeiro objetivo
poderia ser julgado.
Ao mesmo tempo, a organização poderia ser utilizada para ampliar o objetivo principal da ala de reabilitação:
a educação e o treinamento da comunidade nos problemas das relações interpessoais. Se ele pudesse
aproximar-se dessa construção teórica, permitiria aos membros da ala de reabilitação colocar-se (por assim
dizer) fora da estrutura e observar com isenção de ânimo e uma compreensão crescente os problemas de seu
funcionamento.
A EXPERIÊNCIA
A ala de reabilitação, consistente nalgumas centenas de homens, foi posta em forma e se lhes disse que, no
futuro, aplicar-se-iam a ela os seguintes regulamentos:
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1. Todos os homens teriam de fazer uma hora diária de treinamento físico, a menos que um
certificado médico os isentasse disso.
2. Todos os homens teriam de ser nembros de um ou mais grupos, sendo os grupos projetados para
o estudo de artes manuais, cursos de correspondência do Exército, carpintaria, leitura de mapas,
mesas de tipografia, etc.
3. Qualquer homem poderia formar um novo grupo, se assim desejasse fazê-lo, fosse por não existir
nenhum grupo para a sua atividade específica, fosse porque, por uma razão ou outra, não estivesse
apto a unir-se a um grupo similar já existente.
4. O homem que se sentisse incapaz de freqüentar seu grupo teria de ir para a sala de repouso.
5. A sala de repouso ficaria a cargo de um enfermeiro e deveria ser mantida tranqüila para a leitura,
a escrita ou jogos do tipo damas. Falar em tom baixo era permitido, com a autorização do
enfermeiro, mas os outros pacientes não deveriam ser perturbados; eram fornecidos sofás, de
maneira que qualquer homem que se sentisse inapto para qualquer atividade pudesse repousar neles.
O enfermeiro tomaria o nome de todos aqueles que se encontrassem na sala de repouso, como
questão de rotina.
Foi também anunciado que uma formatura seria efetuada todos os dias, às 12,10 horas, para a
divulgação de comunicados e orientação de outros assuntos da ala de reabilitação. Não sabido pelos
pacientes, pretendia-se que essa reunião, estritamente limitada a 30 minutos, ensejasse uma ocasião
para os homens saírem de sua estrutura e examinarem o funcionamento dela com o desligamento de
espectadores. Em resumo, estava ela projetada para ser o primeiro passo no sentido da elaboração
de seminários terapêuticas.
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Durante os primeiros dias, pouca c!oisa aconteceu, mas era evidente que, entre os pacientes,
realizavam-se grandes debates e reflexões. As primeiras reuniões das 12,10 foram pouco mais que
tentativas para auferir a sinceridade dos propósitos; depois, os grupos começaram a se formar a
sério. Entre as atividades mais aparentes, havia um grupo de planejamento, destinado a elaborar
gráficos das horas de funcionamento dos grupos e de sua localização, emitir comunicados e reservar
entradas para concertos gratuitos e coisas semelhantes. Em muito pouco tempo a sala de
planejamento, que apresentava por meio de bandeiras aplicadas sobre um gráfico de trabalho as
atividades de todos os homens da ala de reabilitação, crescendo então rapidamente de tamanho,
tornou-se qqase primaveril em sua mostra de bandeiras multicoloridas, de padrões sugeridos pela
ingenuidade dos pacientes. Graças a uma lembrança feliz, um suprimento de bandeiras a apresentar
a caveira e os ossos cruzados foi preparado, prontas para o uso por parte daqueles cavalheiros que
se sentissem compelidos a permanecer ausentes sem permissão.
A existênCia dessa esplêndida mostra ocasionou aquilo que foi provavelmente a primeira tentativa
importante de cooperação terapêutica, numa das reuniões das 12,10. Ficara sendo meu hábito, ao
fazer a ronda dos grupos, separar um ou dois homens de seu trabalho imediato e levá-los comigo,
‘apenas para ver como o resto do mundo vive’. Pude assim comunicar nessa reunião um fato
interessante que fora observado por mim e pelos outros que haviam feito a ronda comigo, ou seja,
que, embora houvesse muitos grupos e uma liberdade quase integral para cada homem seguir suas
próprias inclinações, desde que apresentasse um objetivo prático, muito pouco, contudo, estava
acontecendo. A oficina de carpinteiro teria um ou dois homens no máximo; a manutenção de carros,
o mesmo; em resumo, segundo sugeri, quase parecia que a ala de reabilitação era uma fachada sem
nada por trás. Isso, disse eu, parecia estranho, porque me fazia lembrar quão amargamente os
pacientes da ala de treinamento haviam anteriormente se
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queixado a mim de que uma de suas objeções ao Exército era o ‘engodo’. A presença dele
na ala de reabilitação, assim, parecia realmente ser um ponto digno de estudo e debate.
Este comunicado deixou a audiência parecendo sentir-se como se houvesse sido
‘apanhada’. Voltei à discussão, nesse ponto, para um assunto de responsabilidade comunal
e não mais algo que concernia a mim, como oficial, sozinho.
Com surpreendente rapidez a ala de reabilitação tornou-se autocrítica. A liberdade de
movimentos concedida pela organização original permitiu que as características .de uma
comunidade neurótica se mostrassem com uma penosa clareza: dentro de poucos dias os
homens se queixavam de que as enfermarias (que até então eram apresentadas como
impecáveis) estavam sujas e não podiam ser mantidas limpas sob o presente sistema de uma
hora de rotina para faxina da enfermaria. Pediram e foi-lhes concedida permissão para
organizar, sob o grupo de planejamento, um ‘grupo de serventes’, cuja função seria manter
as enfermarias limpas durante todo o dia, O resultado disso foi que, numa subseqüente
inspeção semanal, o oficial comandante do hospital fez uma observação sobre a grande
mudança em lilripeza que se verificara.
ALGUNS RESULTADOS
É impossível entrar em pormenores sobre o funcionamento de todos os aspectos
terapêuticos da organização, mas dois exemplos de método e resultado podem ser dados.
Pouco após o início das novas providências, os homens começaram a me apresentar queixa
de que pacientes estavam tirando vantagem da complacência da organização: ‘Apenas 20%
dos homens’, disseram eles, ‘estão tomando parte e realmente trabalhando duro; os outros
80% são apenas uma cambada de aproveitadores’. Queixaram-se de que não apenas a sala
de repouso achalo

va-se amiúde cheia de gente simplesmente a vadiar, mas que alguns homens haviam até
mesmo fugido a isso. Já me achava ciente do fato, mas recusei, pelo menos exteriormente,
fazer da cura deles uma responsabilidade minha. Em vez disso, indiquei que, numa reunião
de um Bureau de Assuntos Correntes do Exército, realizada algumas semanas antes, o
debate, em determinado ponto, havia-se centralizado exatamente nessa questão, isto é, a
existência em comunidades (e a comunidade então em discussão era a União Soviética) de
tais indivíduos refratários à cooperação como os mencionados e o problema apresentado à
sociedade pela sua existência. Por que, então, pareciam eles tão surpresos e afrontados ao
descobrir que exatamente o mesmo problema afligia a ala de reabilitação?
Esta resposta fria não satisfez aos queixosos: queriam que tais homens fossem punidos ou
que se desse um jeito neles. A isto respondi que, sem dúvida, os próprios queixosos tinham
sinlomas neuróticos ou não estariam no hospital; porque deveriam suas incapacidades
serem tratadas de uma maneira e as incapacidades dos 80% tratadas de outra? Afinal de
contas, o problema dos ‘80%’ não era novo; na vida civil, magistrados, funcionários
encarregados de fiscalizar o bom comportamento de indivíduos, assistentes sociais, a Igreja
e políticos haviam todos tentado enfrentá-lo, alguns dê- les através da disciplina e da
punição. Os ‘80%’, contudo, ainda se achavam conosco; não seria possível que a natureza
do problema ainda não tivesse sido completamente elucidada e que eles (os queixosos)
estivessem tentando precipitar uma cura, antes de a doença ter sido diagnosticada? O
problema, disse eu, parecia ser um daqueles que interessava não apenas à ala de reabilitação
ou mesmo apenas ao Exército, mas possuía as mais amplas implicações possíveis para a
sociedade em geral. Sugeri que o estudassem e voltassem com novas propostas, quando
achassem que estavam começando a ver a luz.
Vale a pena observar, neste ponto, que minha determinação de não tentar a solução de
qualquer proble11
‘0

ma até que seus limites se houvessem definido claramente ajudou a produzir, após vívida e saudável
impaciência, uma crença real de que a unidade estava decidida a enfrentar a tarefa com seriedade
científica. Um crítico advertiu que, certamente, tal sistema de observação de pacientes seria
excepcionalmente lento em produzir resultados, se é que, na verdade, produzisse algum.
Respondeu-se-lhe lembrando-o de que apenas poucos dias antes o próprio crítico havia
espontaneamente observado que a disciplina militar e o comportamento da ala de reabilitáção
haviam melhorado além de qualquer identificação, dentro do curto período de um mês.
O segundo exemplo ilustra o desenvolvimento de uma idéia, da fase de impulsos neuróticos
bastante selvagens para uma atividade prática de bom senso.
Por grande diferença, o maior grupo de homens propôs a formação de um curso de dança. A
despeito da aparência de ser um desejo de testar minha sinceridade na promessa de facilidades para
a atividade grupal, a patética sensação de inferioridade em relação às. mulheres quà se ocultava sob
esta proposta, partida de homens que não estavam tomando pare na luta, era óbvia demais. Foi-lhes
dito que apresentassem proposições concretas. Não precisamos deter-nos nas etapas pelas quais isto
foi feito; ao fim, o curso foi efetuado durante horas geralmente ocupadas por um divertimento
noturno; foi confinado, pela vontade dos próprios homens, apenas àqueles que não possuíam
conhecimento nenhum de dança e a instrução foi efetuada pela equipe do ATS.* Em resumo, uma
proposta que havia começado como uma idéia inteiramente impraticável, completamente contrária a
qualquer objetivo militar aparentemente sério ou a um sentido de responsabilidade social para com
a nação em guerra, terminou por ser um estudo inofensivo e sério, realizado ao fim de uma jornada
de trabalho. Além disso, os homens interessados tiveram de se aproximar do oficial comandante,
dos of i A.T.S. Auxiliary Territorial Service (Serviço Territorial Auxiliar); o seu quadro era composto de

mulheres (N. do T).


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ciais do ATS e do próprio ATS, como questão de disciplina, em primeiro lugar, e de


cortesia social, em segundo.
Entrementes, as formaturas das 12,10 haviam evoluído muito rapidamente pata reuniões
animadas e construtivas, semelhantes às de negócios, e isso apesar do fato de a ala estar
recebendo agora pesados reforços de pacientes novos à organização, bem como perdendo
outros que haviam recebido alta do hospital, muitas vezes quando se haviam tornado úteis.
Dentro de um mês do início do esquema, grandes alterações se haviam processado. Onde
quer que, a princípio, se afigurara difícil descobrir maneiras de utilizar os homens, ao fim
do mês era difícil encontrar tempo para o trabalho que desejavam realizar. Os grupos já
haviam começado a funcionar bem fora daquilo que era comumente considerado horas de
formatura; o afastamento sem permissão foi, durante um considerável período, inexistente
e, em todo o período, houve apenas um caso dele; os pacientes que não pertenciam à ala de
reabilitação ficaram ansiosos para passar para ela e, a despeito da população flutuante, a ala
possuía um indiscutível esprit de corps, que se mostrava em pormenores tais como a
correção com que os homens entravam em posição de sentido quando os oficiais
ingressavam na sala, nas reuniões das 12,10. A relação dos soldados com os oficiais era
amistosa e cooperativa; mostravam-se ávidos em angariar a simpatia dos oficiais para
concertos e outras atividades que estavam arranjando. Havia uma sensação sutil mas
inequívoca de que tanto os oficiais como os praças achavam-se empenhados numa tarefa
importante e valiosa, mesmo quando os homens não haviam ainda ãpreendido inteiramente
a natureza da missão em que estavam engajados. A atmosfera não era diferente da que é
vista numa unidade de exército sob o comando de um general em que os soldados têm
confiança, mesmo que não possam conhe cer-lh

os planos.

‘3

COMENTÁRIO
Não é possível tirar muitas conclusões de uma experiência que durou, ao todo, sejs semanas. Alguns
problemas que surgiram não puderam ser inteiramente explorados e outros não puderam ser
abertamente discutidos enquanto a guerra ainda continuava.
Foi evidente que as reuniões das 12,10 ficaram cada vez mais relacionadas com a expressão, por
parte dos homens, de sua capacidade de manter contato com a realidade e regular eficientemente
suas relações com os outros e com suas tarefas. A necessidade da organização de seminários para
terapêutica de grupo tornou-se clara e a base de seu começo pareceu achar-se firmemente lançada.
Todo o conceito da ‘ocupação’ da ala de reabilitação como um estudo e um treinamento do
— —

manejo das relações interpessoais dentro de um grupo pareceu justificar-se plenamente como
abordagem terapêutica. Qualquer pessoa que possua um conhecimento de bons regimentos de
combate num teatro de guerra teria ficado impressionada por certas similaridades em aparência
entre os soldados de tais unidades e os homens da ala de reabilitação. Sob estes aspectos, a tentativa
pôde ser encarada como útil, mas houve também lições a serem aprendidas.
Algumas delas suscitaram sérias dúvidas sobre a conveniência de um ambiente hospitalar para a
psicoterapia. Era possível imaginar uma organização que pudesse ser mais adequadamente descrita
como unidade de recuperação psiquiátrica e, na verdade, efetuou-se um certo trabalho na elaboração
de um estabelecimento e do modus operandi de tal unidade. Também em rélação ao psiquiatra
houve campo para um certo reajustamento de aparência. Se é que a terapêutica de grupo quer ser
bem sucedida, parece necessário que ele deva ter a aparência e o tipo de aptidão intuitiva simpática
de um bom comandante de unidade. Doutra maneira, pairará sempre a suspeita de que alguns
oficiais combatentes -são melhores psiquiatras e alcançam melhores
14

resultados do que aqueles que se devotaram aos estreitos caminhos da entrevista individual.
Finalmente, deve-se novamente chamar a atenção para o fato de que a sociedade, tal como o
indivídUO, pode não querer tratar de suas aflições por meios psicológicos até que seja levada a
fazê-lo pela compreensão de que, pelo menos, alguns de seus sofrimentos são psicológicos na
origem. A comunidade representada pela ala de reabilitação teve de aprender este fato antes que a
força plena de sua energia pudesse ser liberada na cura de si própria. O que se aplicou à pequena
comunidade da ala de reabilitação bem pode ser aplicado à comunidade em geral e uma nova
compreensão interna (insigkt) poderá ser necessária antes que um apoio irrestrito possa ser obtido
para aqueles que tentam, desta maneirã, tratar com as fontes profundamente situadas no moral
nacional,

APLICAÇÃO DA TERAPÊUTICA DE GRUPO NUMA ENFERMARIA PEQUENA

(J. R.)

Uma experiência na aplicação da terapêutica de grupo, no sentido mais recente, a pacientes de uma
enfermaria de 14 a 16 leitos foi feita na divisão hospitalar da mesma instituição. Cada paciente teve
uma entrevista inicial com o psiquiatra, entrevista na qual a história pessoal foi tomada da maüeira
costumeir após, houve discussões em grupo cada manhã, antes da hora da ‘marcha de estrada’, e,
depois, quando os pacientes retornavam para a enfermaria, podiam chegar à sala do psiquiatra, a fim
de discutir privadamente o assunto da discussão de grupo, que havia sido geralmente o assunto de
conversa na marcha de estrada, e as suas impressões pessoais sobre ela.
As conversas terapêuticas centralizaram-se nas suas dificuldades pessoais em colocar o bem-estar
do grupo em primeiro lugar, durante sua afiliação a ele. Os tópicos da discussão no grupo incluíam
o seguinte:
15
•1
a) Uma vez que a residência nesta enfermaria é temporária, com alguns indo para a ala de
reabilitação e outros chegando da enfermaria de admissão, para ocupar seu lugar, como
pode ser enfrentada esta situação flutuante? Deveríamos nós (a distinção entre médico e
paciente, oficiais e outros postos, era um outro tópico especial) ter de acomodar-nos às
pessoas que ingressavam em nosso grupo, para quem nossa atitude para com nossa
enfermaria (que era sempre referida como sendo a ‘nossa enfermaria’) não significava
absolutamente nada; seriam encarados como estranhos ou gente de dentro imperfeitamente
adaptada? Assim também com aqueles que ‘saíam’ para a ala de reabilitação:
eles não poderiam esperar manter a atitude do grupo da enfermaria indefinidamente, nem
tampouco ter esperanças de incluir a ala de reabilitação, muito maior, em seu grupo de
enfermaria; teriam de encontrar seu lugar nos novos agrupamentos e deixar que sua
experiência de enfermaria fosse apenas uma lembrança, mas esperava-se que fosse uma
lembrança útil. Havia ainda outro ponto; se os da ala de reabilitação deveriam retornar para
os debates diários de grupo, não sendo a questão o que se conseguiria deles (parecia haver
pouca dúvida de que se achavam entre as experiências mais interessantes que já havíamos
tido) mas sim se, vindos de outra formação grupal ou havendo perdido seu contato com a
enfermaria, não poderiam mostrar ser uma distração para aqueles que estavam tomando pé
no grupo da enfermaria.
b) Até onde as diferenças de graduação adquiridas ‘fora’ deveriam determinar o
comportamento dos membros do grupo, um para com o outro, enquanto na enfermaria?
Uma tentativa de igualização funcionaria? Ou seria melhor, sem esquecer o posto adquirido
fora, considerar quais os equivalentes de posto que surgem na enfermaria, e se assim fosse,
qual a base desses equivalentes?
c) O que provoca descontentamento na enfermaria? Ë algo peculiar à guerra, a qualquer
enfermaria ou a qualquer associação de pessoas?
16

d) O que provoca contentamento e felicidade na enfermaria? Seria o exercício da iniciativa


individual tendo por único critério a livre expressão das próprias iniciativas privadas da pessoa ou
aquelas só surgiriam após o reconhecimento daquilo que a enfermaria pede do indivíduo? Existiria
uma incompatibilidade fundamental entre esses dois pontos de vista e, se assim fosse, aplicar-se-ia
ela a todos ou apenas a alguns dos membros? Se apenas a alguns, o que faria com que ela
aparecesse neles e tratar-se-ia de uma característica que levavam em suas vidas todo o tempo ou
seria mais forte em certas ocasiões do que em outras? Se variasse, poderia a enfermaria diminuí-la
sem se tornar opressiva aos indivíduos assim dotados?
O efeito desta abordagem do problema da neurose foi considerável. Houve uma disposição e, às
vezes, uma avidez de discutir tanto em público como em particular as implicações sociais dos
problemas de personalidade. O neurótico é geralmente encarado como egocêntrico e averso aos
esforços de cooperação, nias talvez isto aconteça porque raramente é ele colocado num ambiente
em que todos os membros se acham na mesma posição, no que concerne às relações interpessoais.
A experiência foi interrompida pela designação do pessoal, de maneira que não posso fornecer
resultados clínicos ou estatísticos, mas ela pareceu mostrar que é possível, para um clínico, voltar a
atenção para a estrutura de um grupo e para as forças que atuam nessa estrutura sem perder contato
com seus pacientes e, além disso, que a ansiedade pode surgir dentro óu fora do grupo, se
forêfetuada esta abordagem.
CONCLUSÕES
Achamo-nos agora em melhor posição para definir o ‘bom espírito de grupo’, que foi o nosso
objetivo.
Ele é tão difícil de definir quanto o conceito de boa saúde num indivíduo, mas algumas de suas
qualidades parecem achar-se associadas com:
17

J
a) Um propá6ito comum, seja ele vencer um mi- migo ou defender e nutrir um ideal ou uma
construção criativa no campo das relações sociais ou das comunidades físicas.
b) Um reconhecimento comum, por parte dos membros do grupo, dos ‘limites’ deste e sua
posição e
função em relação às de unidades ou grupos maiores.
c) A capacidade de absorver novos membros e perder outros sem medo de perder a
individualidade grupai, isto é, o ‘caráter do grupo’ deve ser flexível.
d) A liberdade dos subgrupos internos de terem limites rígidos (isto é, exclusivos). Se um
subgrupo achar- se presente, ele não deve ser centrado em nenhum de seus membros nem
em si próprio, tratando os outros membros do grupo principal como se eles não fizessem
parte da principal barreira grupal; o valor do subgrupo para o funcionamento do grupo
principal deve ser geralmente reconhecido.

e) Cada membro individual é valorizado por sua contribuição ao grupo e possui liberdade
de movimentos dentro dele, com sua liberdade de locomoção sendo limitada apenas pelas
condições geralmente aceitas, esperadas e impostas pelo grupo.
f) O grupo deve ter a capacidade de enfrentar o descontentamento dentro de si e possuir
meios de tratar com ele.

g) O tamanho mínimo do grupo é três. Dois membros têm relações pessoais; com três ou
mais, há uma
mudança de qualidade (relação interpessoal).
Estas experiências na ala de reabilitação de um hospital militar psiquiátrico de neuroses
sugerem a necessidade de um exame mais aprofundado da estrutura dos grupos e da ação
recíproca das forças dentro deles. A psicologia e a psicopatologia focalizaram a atenção
sobre o indivíduo, muitas vezes com a exclusão do campo social de que ele faz parte. Há
um futuro útil no estudo da ação recíproca das psicologias individual e social, encaradas
como elementos interatuantes igualmente importantes.

18
EXPERIÊNCIAS COM GRUPOS
1
No início de 1948, a Comissão Profissional da Clínica Tavistock pediu-me para aceitar grupos
terapêuticos, empregando minha própria técnica. Ora, não tinha meios de saber o que a Comissão
queria dizer com aquilo, mas era evidente que, em sua opinião, eu hava ‘aceito’ grupos terapêuticos
antes. Tivera, era verdsde, experiência em tentar persuadir grupos compo.tos de pacientes a fazer do
estudo de suas tensões uma tarefa grupal e presumi que a Comissão queria dizer que desejavam que
eu fizesse isso novamente. Era desconcertante descobrir que a Comissão parecia acreditar que
pacientes pudessem ser curados em grupos como esses. Fez-me pensar, de início, que suas
expectativas do que acontecia em grupos de que eu próprio era membro eram muito diferentes das
minhas. Na verdade, a única cura de que eu podia falar com certeza achava-se relacionada com um
sintoma relativamente de menor im portância

meu próprio a crença de que os grupos pudessem aceitar gentilmente meus esforços. Apesar de tudo,

concordei e, assim, no devido tempo, encontrei-me sentado numa sala com mais oito ou nove pessoas às—

vezes mais, às vezes menos, às vezes pacientes, às vezes não. Quando os membros do grupo não eram
pacientes, freqüentemente encontrei-me numa perplexidade peculiar. Descreverei o que acontece.

Na hora marcada, os membros do grupo começam a chegar; os indivíduos entabolam conversa por
um certo tempo e depois, quando um certo número deles já se reuniu, cai um silêncio sobre o
grupo. Após certo tem-

21

po, uma conversa desconexa inicia-se novamente e tomba um outro silêncio. Torna-se claro para mim que sou,
num certo sentido, o foco da atenção do grupo. Além disso, dou-me conta de sentir desconfortavelmente que
se espera que eu faça alguma coisa. Neste ponto, confio minhas ansiedades ao grupo, observando que, por
mais equivocada que minha atitude possa ser, sinto exatamente isso.
Logo descubro que minha confidência não é muito bem recebida. Na verdade, há uma certa indignação por eu
expressar tais sentimentos sem parecer apreciar o fato de que o grupo tem direito a esperar algo de mim. Não
discuto isso, mas contento-me em apontar que, evidentemente, o grupo não pode tirar de mim o que sentem
ter direito a esperar. Fico pensando quais são essas expectativas e o que as despertou.
A amistosidade do grupo, embora doloridamente testada, permite-lhes fornecer-me algumas informações.
Disseram à maior parte dos membros que eu ‘aceitaria’ o grupo; alguns dizem que tenho a reputação de saber
um bocado a respeito de grupos; outros acham que eu deveria explicar o que iremos fazer, e outros, ainda,
pensam que seria uma espécie de seminário ou, talvez, uma conferência. Quando chamo a atenção para o fato
de que essas idéias me parecem ser baseadas em boatos, parece haver a impressão de que estou tentando negar
minha eminência como ‘aceitador’ de grupos. Sinto e digo que é evidente que o grupo tem certas boas
expectativas e crenças sobre mim e que estão tristemente desapontados por descobrirem que elas não são
verdadeiras. O grupo acha-se persuadido de que as expectativas são verdadeiras e que meu comportamento é
provocador e deliberadamente desapontaclor, a ponto de dizer que eu poderia comportar-me diferentemente,
se assim o quisesse, e que estou apenas conduzindo-me desse modo por despeito. Aponto que é difícil para o
grupo admitir que esta poderia ser minha maneira de aceitar grupos ou mesmo que me deveria ser permitido
aceitá-los de tal modo.
22

Neste ponto, a conversa parece-me indicar que o grupo mudou de intenção.


Enquanto espero que o grupo se firme em seu novo curso, pode ser útil tentar oferecer ao leitor
alguma explicação de meu comportamento, que pode, a esta altura, intrigá-lo tanto quanto intriga ao
grupo. Naturalmente, eu não sonharia em fazer isto num grupo, mas o leitor acha-se numa posição
diferente da do homem ou da mulher que tem muito mais provas por que gúiar-se que a palavra
escrita. Diversas perguntas podem ter ocorrido ao leitor. Poderá pensar que minha atitude para com
o grupo é artificialmente ingênua e certamente egoísta. Por que deveria um grupo se incomodar em
discutir assuntos irrçlevantes tais como a personalidade, história, carreira, etc., de um só indivíduo?
Não posso ter esperanças de fornecer qualquer tipo de resposta integral a tais questões, mas direi,
provisoriamente, que não considero ter forçado o grupo a me discutir, embora concorde que ele foi
forçado a proceder assim. Por mais irrelevante que se afigure ser para o propósito da reunião, a
preocupação com minha personalidade certamente pareceu-me intrometer-se, por indesejável que
isso possa ser ao grupo ou a mim próprio. Estava simplesmente declarando o que pensava estar
acontecendo. Naturalmente, pode-se discutir que provoquei essa situação e se tem de admitir que
isso é inteiramente possível, embora não pense assim. Mas mesmo supondo que minhas
observações sejam corretas, pode-se ficar pensando a que propósito se serve fazendo-as. Aqui posso
apenas dizer que não sei se alguma intenção útil é servida ao fazê-las, nem tampouco me acho
muito seguro sobre a natureza deste tipo de observação. Seria tentador, por analogia com a
psicanálise, chamá-las de interpretações de transferência de grupo, mas penso que qualquer
psicanalista concordaria comigo no sentido de que, antes de que tal descrição possa ser justificada,
uma grande quantidade de provas oriundas de grupos teria de ser avaliada. Entretanto, pelo menos,
posso alegar que observações dessa espécie são feitas espontânea e naturalmente na vida cotidiana,
que não podemos evitar fazê23

II

las, inconsciente senão conscientemente, e que seria muito útil se pudéssemos saber que,
quando fazemos observações desse tipo, elas correspondem a fatos. Somos constantemente
influenciados por aquilo que achamos ser a atitude de um grupo para conosco e consciente
ou inconscientemente governados por nossa idéia dela. Ver-se-á em seguida que não se
depreende disso que devamos deixá-lo escapar da maneira em que até agora me descrevi
como fazendo no grupo. Isto, confesso, deve ser encarado como peculiar, embora, se
precedentes fossem exigidos, todos nós estaríamos familiarizados com certos tipos de
pessoas, particularmente aquelas que tendem a se sentir perseguidas, que se comportam
dessa maneira. Não é um precedente feliz, pensará o leitor, e não demorará muito até ser
evidente que o grupo pensa isso também. Mas é necessário agora retornar ao grupo, a quem
deixamos no processo de mudar de curso.
A primeira coisa a nos impressionar é a melhoria que se realizou na atmosfera. O Sr. X.,
que tem uma personalidade simpática, tomou conta do grupo e já está adotando medidas
para reparar a deplorável situação criada por mim. Mas dei uma impressão equivocada se
pareci sugerir que podemos olhar este grupo com isenção, porque o Sr. X., que está ansioso
pelo bem-estar do grupo, muito corretamente volta ‘sua atenção para a fonte da dificuldade,
que, segundo seu ponto de vista, sou eu mesmo. Pode-se ver que ele tem uma idéia muito
boa de enfrentar de saída aqueles elementos de seu grupo que são destrutivos do estado de
ânimo e da boa camaradagem. Dessa maneira, pergunta-me diretamente qual o meu
objetivo e porque não posso dar uma explicação franca de meu comportamento. Posso
apenas desculpar-me e dizer que, além de achar que a declaração de que desejo estudar
tensões de grupo seja provavelmente uma descrição muito inadequada de meus motivos,
não posso lançar qualquer luz sobre o problema. Ele recebe uma grande simpatia do grupo
quando deixa de lado esta resposta muito insatisfatória para questionar um ou dois dos
outros, que parecem ser mais cooperativos e francos do que eu. Posso detectar, contudo,

uma certa má vontade por parte do grupo em seguir irrestritamente sua liderança. Os
dissidentes parecem haver-se tranqüilizado, dizendo-se a si mesmos que a Comissão da
Clínica Tavistock deve ter tido algum bom propósito em afirmar que eu deveria aceitar o
grupo; dão a impressão de que se acham determinados a acreditar que a experiência de um
grupo aceito por mim é valiosa, a despeito de suas observações até o presente.
Sem embargo, o Sr. X. está obtendo algum sucesso.
O Sr. Y. diz-lhe que é um funcionário encarregado da conduta daqueles que tiveram alta e
veio a ter um conhecimento científico de grupos, que achou seria de valor para ele. O Sr.
R., embora não interessado profissionalmente, sempre teve interesse no estudo científico de
grupos. O Sr. X., o Sr. Y. e o Sr. R. fornecem também alguns pormenores de seus
antecedentes e explicam porque acham que um estudo científico os ajudaria.
Mas, agora, parecem estar surgindo dificuldades. Outros membros do grupo não são tão
acessíveis como o Sr. Y. ou o Sr. R. Além disso, parece haver certa irritação com o Sr. X.,
por haver assumido a liderança. As respostas se tornam evasivas e parece como se mesmo
as informações que foram obtidas não fossem, realmente, as informações que eram
desejadas. Começo a sentir, à medida que a conversa se torna mais desconexa, que sou
novamente o foco do descontentamento. Sem saber inteiramente por que, sugiro que o que
o grupo realmente deseja conhecer são os meus motivos para estar presente e, uma vez que
estes não foram revelados, eles não se acham satisfeitos com nenhum sucedâneo.
É claro que a minha interpretação não é bem-vinda Um ou dois membros desejam saber por
que eu deveria atrair a curiosidade, que pareceria válida sem qualquer outra explicação,
sobre mim mesmo. A impressão que recebo é que muito pouca importância é dada à
opinião que expresso, como uma possível explicação do que está acontecendo. Ela me
parece ser ignorada ou, então, tomada como prova de uma aparência deformada em mim.
Para tornar as coisas piores, não me é de modo algum claro que minha observação, embora
correta, seja real-

24

25

mente a mais útil a fazer na ocasião. Mas eu a fiz e preparo-me para ver o que dela decorre.
Devo explicar que esta descrição despojada não faz justiça ao estado emocional do grupo
neste ponto. O Sr. X. parece mortificado por ter visto sua iniciativa mal recebida e o resto
do grupo parece encontrar-se em estágios variados de constrangimento. De minha parte,
tenho de confessar que se trata de uma reação com que me acho familiarizado em todos os
grupos de que fui membro. Não posso, dessa maneira, simplesmente pô-la de lado como
uma peculiaridade deste grupo. Para mim, é claro que, seja o que for que o grupo possa
pensar a respeito do Sr. X., ele tem suspeitas muito mais sérias sobre mim. Em particular,
desconfio que minha personalidade e, especialmente, minha capacidade de relações sociais
e, dessa maneira, minha aptidão para o papel que se espera que eu preencha, acha-se em
questão. No grupo ora objeto de nossas considerações, descontente com o que está
acontecendo e, particularmente, com o meu papel em seu ocasionamento, o
descontentamento subiu a um tom tão alto que mesmo a existência continuada do grupo se
torna matéria de dúvida para mim. Por alguns inconfortáveis momentos penso que tudo
terminará por eu tendo de explicar à Comissão Profissional que seu projeto foi águas abaixo
pela incapacidade do grupo em tolerar meu comportamento. Suspeito, pelo seu proceder,
que sombrios pensamentos semelhantes, diferentemente orientados, estão passando pelas
mentes do resto do grupo.
Na tensa atmosfera que prevalece, meus próprios pensamentos não são inteiramente
tranqüillzadores. Para não dizer mais nada, tenho recentes lembranças de um grupo em que
minha exclusão foi abertamente defendida, e, além disso, é-me bastante comum
experimentar uma situação em que o grupo, embora não dizendo nada, simplesmente ignora
minha presença e me exclui da discussão, tão efetivamente como se eu não estivesse lá. Em
algumas ocasiões desta espécie de crise, a reação assumiu a forma mais suave de sugestões
de que eu já me havia excluído do grupo e que tornava
26

as coisas mais difíceis por não participar. Uma reação tão suave como esta última é bastante
tranqüiizadora, mas não posso esquecer que quando pela primeira vez tentei colocar tais
métodos em funcionamento, a experiência foi terminada por minha remoção, de fato, do
meu posto. Préferiria acrlitar que, nessa ocasião, a dispensa foi devida a circunstâncias
coincidentes, mas recordo-me que, mesmo assim, os pacientes com quem estava lidando
constantemente advertiram-me, baseados em quê não sei, que sérias tentativas estavam
sendo feitas para sabotar o esquema. Tenho, por conseguinte, numa situação como a que
estou descrevendo, toda razão para acreditar que o descontentamento é real e pode
facilmente conduzir à ruptura do grupo.
Nesta ocasião, porém, minhas ansiedades foram aliviadas por uma nova virada dos
acontecimentos. O Sr. Q. sugere que, neste ponto, dificilmente os argumentos lógicos
poderiam obter a informação desejada e, na verdade, era possível que eu preferisse não
explicar porque fizera tal interpretação, porque ela seria contrária a qualquer idéia de deixar
o grupo experimentar a natureza dos fenômenos de grupo por si próprio. Argumenta que,
afinal de contas, devo ter boas razões para seguir a linha que sigo. A tensão do grupo é
imediatamente relaxada e uma atitude muito mais amistosa para comigo se toma aparente.
É claro que o grupo tem, afinal de contas, uma alta opinião de mim e começo a sentir que
talvez tenha estado tratando-o injustamente, por não ser mais conitinicativo. Por um
momento, sou impelido a dar uma satisfação, reagindo àquela mudança amistosa com
alguma explicação de meu comportamento. Mas me contenho ao compreender que o grupo
simplesmente retornou ao seu estado de espírito anterior de insistir que boato é fato; dessa
maneira, em vez disso, aponto que agora o grupo parece estar-me adulando para corrigir
meus modos e coincidir com seu desejo de que meu comportamento se conforme mais ao
que é esperado ou lhes é familiar em outros campos. Observo também, que, em essência, o
grupo ignorou o que foi dito pelo Sr. Q. A ênfase foi deslocada daquilo que o Sr. Q. pre27

tendia dizer para apenas uma parte do que dissera, ou seja, que, afinal de contas, era provável que
eu soubesse o que estava fazendo. Noutras palavras, fora difícil a um membro individual transmitir
ao grupo significados diferentes daqueles que o grupo desejava manter.
Desta vez, o grupo fica realmente irritado e é necessário explicar que eles têm todo o direito de
assim estar. É perfeitamente claro que ninguém nunca lhes explicou o que significava estar num
grupo em que eu me achava presente. A propósito, nunca ninguém me explicara como era estar num
grupo em que todos os membros individuais deste grupo estivessem presentes. Mas tenho de
compreender que a única pessoa cuja presença até agora foi achada desagradável sou eu mesmo, de
maneira que quaisquer queixas que eu possa ter não possuem a mesma validade que as dos outros
membros. Para mim, é mais do que nunca claro que há uma contradição bastante surpreendente na
situação em que me encontro. Também ouvi boatos sobre o valor de minha contribuição a grupos;
dei o .melhor de mim para descobrir exatamente sob que aspecto minha contribuição era tão
notável, mas nãà consegui obter nenhuma informação. Posso, dessa maneira, simpatizar facilmente
com. o grupo, que sente que tem direito a esperar algo diferente do que, na realidade, está obtendo.
Posso ver que minhas declarações devem parecer ao grupo tão inexatas como o são geralmente as
opiniões de nossa própria posição numa determinada sociedade, e além disso, possuírem pouca
relevância ou importância para qualquer pessoa, à exceção de mim mesmo. Sinto, dessa maneira,
que devo tentar apresentar da situação uma visão mais geral do que o fiz até agora.
Com isto em vista, digo que penso que minhas interpretações estão perturbando o grupo. Além
disso, que o grupo as interpreta como uma revelação da natureza de minha personalidade. Não há
dúvida de que estão sendo feitas tentativas de considerar que são, de alguma maneira, descritivas da
vida mental do grupo, mas tais tentativas são obscutecidas pela suspeita de que minhas
interpretações, quando interpretadas, arrojam mais luz

sobre mim mesmo que sobre qualquer outra coisa, e que o que é então revelado acha-se em acentuado
contraste com as expectativas que os membros do grupo tinham, antes de chegar aqui. Isso, penso, deve ser
muito perturbador, mas, inteiramente à parte de qualquer questão deste tipo, temos de reconhecer que talvez
os membros do grupo presumam muito facilmente que o rótulo deuma caixa é uma boa desqrição de seu
conteúdo.
Temos de reconhecer agora que uma crise foi atingida, crise na qual os membros bem podem haver
descoberto que a filiação a um grupo de que sou membro acontece ser uma experiência que eles não
gostariam de ter. Dessa maneira, temos de enfrentar francamente o fato de que membros de nosso grupo
podem precisar abandoná-lo, exatamente da mesma maneira que uma pessoa pode necessitar abandonar uma
sala em que entrou baseado numa impressão enganada. Eu próprio não acredito que isto seja uma descrição
inteiramente correta, porque, lembro ao grupo, foi bastante evidente, de inicio, que eles estavam com muita
má vontade em entreter qualquer idéia de que não se haviam satisfeito corretamente da precisão de boatos
ouvidos a meu respeito. Em minha opinião, dessa maneira, aqueles que achassem que haviam sido mal
encaminhados por outros, e, agora quisessem retirar-se, deveriam considerar seriamente porque resistiam tão
intensamente a quaisquer declarações que parecessem questionar a validade de sua crença no valor de minhas
contribuições a um grupo.
Neste ponto, é necessário que eu diga considerar as forças emocionais subjacentes a esta situação como muito
poderosas. Não acredito, por um só momento, que o fato objetivo ou seja, que sou simplesmente um dos

membros de um grupo que possui um certo grau de conhecimento especializado e, a esse respeito, não
diferente de qualquer outro membro do grupo tenha probabilidades de ser aceito. As forças opostas a isso

são muito mais fortes. Um grupo externo isto é, a Clínica responsável por dizer que eu devo aceitar um

grupo
—aplicou o selo de sua autoridade a um mito de di-

28

29

mensões desconhecidas; afora isso, no entanto, estou certo de que o grupo é bastante
incapaz de enfrentar as tensões emocionais dentro dele, sem acreditar que possui alguma
espécie de Deus que é inteiramente responsável por tudo o que acontece. Assim, tem-se de
enfrentar o fato de que, sejam quais forem as interpretações que possam ser dadas, por eu
mesmo ou por alguém mais, a probabilidade é que o grupo as reinterpretará para ajustá-las
aos seus próprios desejos, exatamente com& há pouco vimo-lo proceder com a
contribuição do Sr. Q. Dessa maneira, torna-se importante apontar que os meios de
comunicação dentro do grupo são extremamente tênues e bastante incertos em sua ação. Na
verdade, poder-se-ia quase pensar que seria menos desorientador se cada membro
individual do grupo falasse uma linguagem desconhecida pelos restantes, pois haveria então
menos risco de presumir que entendemos o que qualquer indivíduo determinado disse.
O grupo agora voltou-se, um tanto ressentidamente mas com mais ansiedade que
ressentimento, para outro membro do grupo. Tenho a impressão de que o estão examinando
para ser líder, mas sem nenhuma convicção real de que ele possa sê-lo. Esta impressão é
fortalecida porque o homem em questão mostra todo desejo de se apagar. A conversa torna-
se cada vez mais desconexa e sinto que, para a maioria do grupo, a experiência está-se
tornando penosa e desinteressante. Ocorre- me um pensamento, de maneira que o
transmito.
Digo ao grupo que me parece que estamos determinados a ter um líder e que o líder que
desejamos parece possuir certas características contra as quais comparamos as
características dos diferentes indivíduos que experimentamos. A julgar por, nossas
rejeições, parecemos saber perfeitamente o que queremos. Ao mesmo tempo, seria muito
difícil dizer, por nossa experiência até agora, o que são essas características desejáveis.
Tampouco é óbvio porque exigiríamos um líder. O tempo de reunião do grupo foi
estabelecido e, realmente, não parece haver outras decisões que o grupo tenha de fazer.
Poder-se-ia pensar que era preciso um líder a fim de dar ordens

efetivas para o grupo, para executar decisões tomadas momento a momento, mas, se assim é, o que
existe em nossa atual situação que nos faça pensar ser preciso um líder desse tipo? Não pode ser a
situação externa, porque nossas necessidades materiais e nossas relações com os grupos externos
são estáveis e não parecem indicar que quaisquer decisões serão necessárias em futuro próximo. Ou
o desejo de um líder é alguma sobrevivência emocional, funcionando inutilmente no grupo como
arcaísmo, ou então há uma certa consciência de uma situação, ainda não definida, que exige a
presença de uma pessoa assim.
Se minha descrição do que é estar num grupo de que sou membro foi adequada, o leitor terá
experimentado alguns receios, acolhido algumas objeções e reservado muitas questões para
discussão futura. No presente estágio, desejo isolar apenas dois aspectos da experiência de grupo,
para inspeção; um deles é a futilidade da conversa no grupo. Julgado pelos padrões comuns de
intercâmbio social, o desempenho do grupo é quase despido de conteúdo intelectual. Além disso, se
observarmos como suposições passam, incontestadas, como declarações de fatos, e são aceitas
como tal, parece claro que o juízo crítico acha-se quase inteiramente ausente. Para apreciar este
ponto, o leitor deve lembrar-se de que pode ler este relato com tranqüilidade, com o livre uso de seu
julgamento. Não é esta a situação no grupo. Seja o que for que ela pareça ser na superfície, essa
situação está carregada de emoções que exercem uma influência poderosa e freqüentemente
inobservada sobre o indivíduo. Em resultado, suas emoções são estimuladas, em detrimento de seu
julgamento. De acordo com isso, o grupo amiúde lutará com problemas intelectuais que, poder-se-ia
acreditar, o indivíduo resolveria sem dificuldade em outra situação crença que mais tarde se verá

ser ilusória. Um dos principais objetos de nosso estudo bem poderá mostrar ser, precisamente, os
fénômenos que produzem estas perturbações do comportamento racional do grupo, fenômenos cuja
existência apenas pude indicar por descrições de fatos que apre31

30

1)

sentam menos relação com o objeto de nosso estudo que as linhas de uma gravura monocrômica
com as cores de uma pintura em que a cor é a qualidade mais importante.
O segundo aspecto ao qual tenho de aludir é a natureza de minha própria contribuição. Seria satisfatório se eu
pudesse agora fornecer uma descrição lógica de minha técnica a técnica que a Comissão Profissional, como

devem lembrar-se, desejou que eu empregasse mas acho-me persuadido que isso seria também muito

impreciso e enganador. No decorrer dos capítulos seguintes, fornecerei uma descrição tão exata quanto puder
do que falo e faço, mas me proponho também a indicar o que os grupos pensam que digo e faço e isto não
apenas para ilustrar o funcionamento mental de um grupo, mas para suprir tanto material quanto possível para
o leitor utilizar no alcance de suas próprias conclusões. Enfatizarei, contudo, um dos aspectos de minhas
interpretações de comportamento grupal que parece ao grupo e, provavelmente, ao leitor ser meramente
— —

incidental à minha personalidade, mas que é, na verdade, inteiramente deliberado: o fato de as interpretações
parecerem se achar relacionadas com assuntos de nenhuma importância para qualquer pessoa, à exceção de
mim mesmo.

32
2
Terminei a parte anterior, dizendo que minha interpretação do comportamento do grupo, em termos
da atitude grupal para comigo mesmo, deve parecer uma contribuição tão impertinente quanto é
provável que seja inexata. As críticas deste aspecto de meu comportamento num grupo exigem uma
investigação cuidadosa e a seqüência mostrará que, a essas críticas, fornecerei respostas, não
refutações. Consideremos primeiramente algumas situações grupais.
Enquanto estamos sentados aproximadamente em círculo, com a sala suavemente iluminada por
uma única lâmpada comum, uma paciente feminina do grupo queixa-se iradamente:

Vocês (isto é, o grupo) sempre dizem que estou monopolizando, mas, se não falar, vocês ficam
apenas sentados aí, como idiotas. Estou cheia de

todos vocês. E você (apontando para um homem de vinte e seis anos, que levanta as sobrancelhas
numa eficiente afetação de surpresa) é o pior de todos! Por que fica sempre sentado aí, como um
rapazinho bonzinho, nunca dizendo nada, mas perturbando o grupo? O Dr. Bion é o único que é
sempre escutado aqui e ele núnca diz nada de útil. Pois bem, então: calarei a boca. Vamos ver o que
vocês fazem a respeito, se eu não monopolizar.

Outra agora: a sala é a mesma, mas há uma tarde ensolarada de verão; um homem está falando:

33

Ë pôr isso que eu me queixo daqui. Fiz uma pergunta perfeitamente simples. Disse o que eu
pensava que estava acontecendo, porque não concordo com o Dr. Bion. Disse que seria interessante
saber o que outras pessoas pensam, mas algum de vocês responde? Nem um só. E vocês, mulheres,
são as piores de todas, com exceção da Srta. X. Como é que podemos chegar a algum resultado se as
pessoas não nos respondem? Vocês sorriem quando eu falo, à exceção da Srta. X., e eu sei o que
estão pensando, mas vocês estão errados.
Aqui está outra; uma paciente fala:
Todos parecem concordar inteiramente com ,o que o Dr. Bion acabou de dizer, mas eu disse a
mêsma coisa há cinco minutos atrás e, só porque era apenas eu, ninguém me deu a menor atenção.
E ainda outra; uma mulher diz:
Bem, uma vez que ninguém está falando náda, posso então contar meu sonho. Sonhei que estava à
beira-mar e ia banhar-me. Havia uma porção de gaivotas por ali... Havia ainda um monte de coisas
como essa.
Um membro do g.rupo: Você quer dizer que isso é tudo que pode lembrar-se?

Mulher: Oh, não, não. Mas, realmente, é tudo bastante ridículo.


O grupo fica sentado taciturnamente e cada indivíduo parece achar-se absorto em seus pensamentos.
Todo contato entre os membros do grupo parece haver sido rompido.
Eu: O que fez você parar de falar sobre seu sonho?

Mulher: Bem, ninguém parecia estar muito interessado e eu só o contei para iniciar um assunto.

Chamarei a atenção para um aspecto apenas destes episódios. A primeira paciente disse: ‘Vocês (o
grupo) sempre dizem que estou monopolizando...’ Na realidade, apenas uma pessoa havia dito isso
e somente em uma ocasião, mas sua referência foi feita para o grupo inteiro e indicava claramente
que ela pensava que todo o grupo sempre sentia isso a respeito dela. O homem do segundo exemplo
falou: ‘Vocês sorriem quando eu falo, à exceção da Srta. X., e eu sei o que estão pensando. No
. .‘.

terceiro exemplo, a mulher disse: só porque era apenas eu, ninguém me deu a menor atenção.’ No
‘. ..

quarto exemplo, a mulher pensou que o grupo não estava interessado e achou melhor abandonar sua
iniciativa. Já indiquei acima que qualquer pessoa que tenha qualquer contato com a realidade está
sempre consciente ou inconscientemente formando uma estimativa da atitude do grupo para com ela
própria. Estes exemplos tirados de grupos de pacientes mostram, se houvesse realmente alguma
necessidade de demonstração, que o mesmo tipo de coisas acontece no grupo de pacientes. Por
enquanto, estou ignorando fatos óbvios, como o de que há algo naquele que fala que cobre sua
avaliação da situação em que se encontra. Ora, mesmo que ainda seja mantido que a opinião do
indivíduo sobre a atitude do grupo para com ele próprio não tem importância para ninguém, a não
ser ele mesmo, espero que fique claro que esta espécie de julgamento faz tanta parte da vida mental
do indivíduo quanto a sua avaliação, digamos, das informações que lhe são trazidas pelo sentido do
tato. Dessa maneira, o modo pelo qual um homem avalia a atitude do grupo para com ele próprio é,
de fato, um importante objeto de estudo, mesmo que não nos conduza a nada mais.
Mas meu último exemplo, de ocorrência muito comum, mostra que, na realidade, a maneira pela
qual homens e mulheres de um grupo fazem essas estimativas é um assunto de grande importância
para o grupo, porque dos juízos que os indivíduos fazem depende o florescimento ou a decadência
da vida social daquele.

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35

O que acontecerá se eu usar esta idéia da atitude grupal para com o indivíduo, como base para
interpretação? Já vimos algumas das reações na primeira parte. Nos exemplos que dei, podiam ser
vistos, embora eu não os tivesse acentuado, alguns resultados deste tipo de interpretação, mas
mencionarei agora uma reação comum. O grupo tenderá a expressar ainda mais sua preocupação
comigo e, depois, parece ter atingido um ponto em que, por algum tempo, a sua curiosidade é
satisfeita. Isto pode levar duas ou três sessões. Depois, o grupo começa a coisa toda de novo, mas,
desta vez, com algum outro membro do grupo. O que acontece é que outro membro torna-se o
objeto das forças que estavam anteriormente concentradas sobre mim. Quando penso que já se
acumularam provas suficientes para convencer o grupo, digo que penso que isso aconteceu. Uma
das dificuldades para fazê-lo é que a transição de uma preocupação comigo para uma preocupação
com outro membro do grupo é assinalada por um período durante o qual a preocupação com o outro
membro mostra sinais inequívocos de conter uma preocupação continuada comigo. Já descrevi esta
situação na primeira parte (pág. 25), onde me descrevo como fornecendo uma interpretação em que,
ao questionar outros, o grupo se encontra realmente preocupado comigo. Penso que, nessa ocasião,
teria sido mais exato se houvesse interpretado a situação emocional como uma transição do tipo que
acabei de descrever.
Muitas pessoas discutem a exatidão dessas interpretações. Mesmo quando a maioria dos membros
do grupo teve provas inequívocas de que seu comportamento está sendo influenciado por uma
avaliação consciente ou inconsciente da atitude do grupo para com eles, dirão que não sabem o que
o resto do grupo pensa a seu respeito e que não acreditam que alguém mais tampouco o saiba. Esta
objeção à exatidão das interpretações deve ser aceita, mesmo se a modificarmos alegando que a
exatidão é uma questão de grau, porque é um sinal de consciêneia que um dos elementos na
avaliação automática do indivíduo quanto à atitude do grupo para com ele seja

a dúvida. Se um indivíduo alega que não tem dúvida alguma, gostar-se-ia realmente de saber porque não.
Existem ocasiões em que a atitude do grupo é completamente inequívoca? Ou é o indivíduo incapaz de tolerar
a ignorância sobre um assunto em que é essencial ser exato, se é que seu comportamento numa sociedade
deve ser judicioso? Num certo sentido, eu diria que um indivíduo de um grupo está aproveitando sua
experiência, se, num só e mesmo tempo, ele se torna mais exato na apreciação que faz de sua posição no
campo emocional e mais capaz de aceitar como um fato que mesmo sua exatidão aumentada acha-se
lamentavelmente muito abaixo de suas necessidades.
Poder-se-ia pensar que minha admissão destrói as bases de qualquer técnica que se apoie neste tipo de
interpretação, mas ela não o faz. A natureza da experiência emocional da interpretação é clarificada, mas sua
inevitabilidade como parte da vida mental humana permanece inalterada e, assim, também o seu primado
como método. Isso só pode ser atacado quando se puder demonstrar que alguma outra atividade mental trata
com mais exatidão de assuntos de maior relevância para o estudo do grupo.
Apresentamos, a seguir, um exemplo de uma reação em que a exatidão da interpretação é questionada;
o leitor poderá desejar ter as passagens anteriores em
mente quando considerar as conclusões que tiro disto
e dos exemplos correlatos.
Por algum tempo, eu estivera dando interpretações que haviam sido escutadas com civilidade, mas a conversa
havia-se tornado cada vez mais desencontrada, comecei a sentir que minhas intervenções não eram desejadas
e assim o disse, nos seguintes termos: Durante a última meia hora o grupo esteve discutindo a situação

internacional, mas estive alegando que a conversa mostrava alguma coisa sobre nós mesmos. Cada vez que fiz
isso, senti que minha contribuição era destoante e mal recebida. Agora, acho-me certo de ser o objeto da
hostilidade de vocês, por persistir neste tipo de contribuição.

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37

Por um momento ou dois após haver eu falado, houve um silêncio e, então, um membro masculino
do grupo disse muito cortesmente que ele não havia sentido hostilidade alguma por minhas
interpretações e que• não havia observado que alguém tampouco a houvesse sentido. Dois ou três
outros membros do grupo concordaram com ele. Além disso, as afirmativas foram feitas com
moderação. e de uma maneira perfeitamente amistosa, exceto, possivelmente, pelo fato de se poder
pensar que era um incômodo desculpável ter-se de dar uma tranqüilização que deveria ser
desnecessária. Sob alguns aspectos, poderia novamente dizer que me senti tratado como uma
criança a quem se trata paciente- mente, a despeito de ser cansativa. Contudo, não me propus a
considerar esse ponto justamente então, mas antes tomar perfeitamente a sério a declaração feita por
aqueles membros do grupo que me pareciam representar o grupo inteiro muito bem, ao negar
qualquer sentimento de hostilidade. Senti que uma avaliação correta da situação exigia que eu
aceitasse como um fato que todos os indivíduos do grupo eram perfeitamente sinceros e exatos
quando diziam não sentir qualquer hostilidade para comigo.
Lembro-me de outro episódio, de tipo semelhante. Além de mim, três homens e quatro mulheres
achavam-se presentes no grupo; um homem e uma mulher encontravam-se ausentes. Um dos
homens disse a uma das mulheres:
—Como é que foi o seu negócio da semana passada?
A mulher: Você quer dizer a minha festa? Oh, foi tudo bem. Muito bem, na verdade. Por quê?

O homem: Bem, estava só pensando. Você estava bastante preocupada com ela, se é que se lembra.

A mulher (bastante indiferente): Oh, sim, estava mesmo.


Após uma curta pausa, o homem enceta novamente:


O homem: Você não parece querer falar muito sobre isso.

A mulher: Oh, não, quero sim, mas não aconteceu nada de mais. Foi tudo realmente muito bem.

Outra mulher então se junta e tenta levar a conversa avante, como se se desse conta de que estava
vacilante, mas, em um minuto ou dois, ela também desiste. Há uma pausa e então outra mulher se
apresenta com uma experiência que tivera durante a semana. Cômeça muito animada e depois se
interrompe. Um ou dois membros tentam incentivá-la com suas perguntas, mas sinto que mesmo os
perguntadores parecem oprimidos por alguma preocupação. A atmosfera do grupo acha- se prenhe
de esforço infrutífero. Nada podia ser mais claro para mim que a determinação dos indivíduos em
tornar a sessão naquilo que considerariam como um sucesso. Se apenas não fosse pelos dois
ausentes, penso, acredito que este grupo estaria indo muito bem. Começo a sentir-me frustrado e
lembro-me de quanto as duas ou três últimas sessões foram perdidas porque um ou mais membros
do grupo se achavam ausentes. Três das pessoas presentes a esta sessão estiveram, ausentes em uma
ou outra das últimas sessões. Parece muito ruim que o grupo seja desperdiçado deste modo, quando
todos estão preparados para dar o melhor de si. Começo a pensar se a abordagem de grupo aos
problemas vale realmente a pena quando fornece tanta oportunidade para a apatia e a obstrução,
sobre as quais não se pode fazer nada. A despeito do esforço que está sendo envidado, não posso
ver a conversação como outra coisa a não ser uma perda de tempo. Gostaria de poder pensar’ em
alguma interpretação iluminadora, mas o material é tão pobre que nãp há nada que se possa dele
colher. Diversas pessoas do grupo estão começando a me olhar de uma maneira desesperançada,
como se a dizer que fi39

38
1

-‘

zeram tudo o que puderam, que agora compete a mim e, na realidade, acho que estão absolutamente certas.
Penso se haveria alguma vantagem em dizer que eles se sentem assim a meu respeito, mas afasto a idéia,
porque não parece haver sentido em lhes dizer o que já devem saber.
As pausas estão ficando mais longas, os comentários cada vez mais fúteis, quando me ocorre que os
sentimentos que eu próprio estou experimentando em particular, uma opressão pela apatia do grupo e uma

premência de dizer algo útil e iluminador são precisamente aqueles que os outros presentes devem ter. Um

grupo cujos membros não podem freqüentá-lo regularmente tem de ser apático e indiferente aos sofrimentos
do paciente individual.
Quando começo a pensar o que posso dizer à guisa de interpretação, defronto-me com uma dificuldade que já
terá ocorrido ao leitor: o que é este grupo que é antipático e hostil ao nosso trabalho? Tenho de presumir que
ele consiste nas mesmas pessoas que vejo esforçando-se arduamente para efetuar o trabalho, mas, até onde me
concerne, pelo menos, ele também inclui os dois ausentes. Lembro-me de haver um dia olhado ao
microscópio uma secção demasiadamente espessa; com um dos focos eu via, não muito claramente talvez,
mas com bastante nitidez, uma imagem. Se alterava o foco muito ligeiramente, via outra. Usando isto como
analogia para o que estou fazendo mentalmente, lançarei agora outro olhar sobre este grupo e descreverei a
configuração que vejo com o foco alterado.
O quadro de indivíduos muito trabalhadores, esforçando-se para solucionar seus problemas psicológicos, é
substituído pela imagem de um grupo mobilizado para expressar sua hostilidade e desdém pelos pacientes
neuróticos e por todos aqueles que desejam abordar os problemas neuróticos seriamente. Este grupo, no
momento, parece-me ser liderado pelos dois ausentes, que estão indicando que existem melhores maneiras de
passar o tempo que se empenhar no tipo de experiência com que o grupo está familiarizado quando sou
membro dele.
40

Numa sessão anterior, este grupo foi liderado por um dos membros hoje ausentes. Como dizia, estou inclinado
a pensar que os atuais líderes deste grupo não se encontram na sala; são eles os dois faltosos, que são sentidos
como não apenas desdenhando do grupo, mas também expressando esse desdém em ações. Os membros do
grupo que estão presentes são seguidores. Fico pensansando, enquanto escuto o debate, se posso tornar mais
precisos os fatos que me dão essa impressão.
A princípio, tenho de confessar, vejo pouca coisa que me confirme minhas suspeitas, mas então observo que
um dos homens que está fazendo as perguntas emprega um tom particularmente arrogante. Sua reação às
respostas que recebe me parece, se mantenho meu microscópio mental no mesmo foco, expressar uma polida
incredulidade. Uma mulher a um canto examina as unhas com um ar de leve desgosto. Quando um silêncio
ocorre, é quebrado por uma mulher (que, sob o foco anterior, parecia estar dando o melhor de si para manter
em funcionamento o trabalho do grupo) através de uma interjeição que expressa claramente sua dissociação
de participar num jogo essencialmente estúpido.
Não penso que me tenha saído muito bem em dar precisão às minhas impressões, mas acho que encontrei o
caminho para resolver a dificuldade em que me encontrei no primeiro exemplo. Naquela ocasião, como deve
ser lembrado, senti muito positivamente que o grupo estava hostil a mim e às minhas interpretações, mas não
possuía nem uma migalha de prova para respaldar persuasivamente minha interpretação. Para falar a verdade,
achei as duas experiências muito desconcertantes; parecia que meu método escolhido de investigação se havia
desmoronado, e da maneira mais evidente. Qualquer pessoa acostumada à terapêutica individual poderia ter
predito que um grupo de pacientes negaria uma interpretação e qualquer pessoa poderia haver predito que o
grupo apresentaria uma oportunidade enviada pelos céus para negá-la efetivamente. Ocorre-me, contudo, que
se um grupo se permite esplêndidas oportunidades para evasão e negação, deveria também permitir
41

ir.

oportunidades igualmente esplêndidas para a observação da maneira pela qual estas evasões
e negações são efetuadas. Antes de investigar isto, examinarei os dois exemplos que
forneci, com vistas à formulação de alguma hipótese que dê forma à investigação.
Pode-se ver que aquilo que um indivíduo diz ou faz num grupo Ilumina tanto sua própria
personalidade quanto a sua opinião do grupo; s vezes, sua contribuição ilumina uma mais
que a outra. Ele está preparado para efetuar algumas contribuições como provindas
mequivocamente de si mesmo, mas existem outras que gostaria de fazer anonimamente. Se
o grupo pode fornecer meios pelos quais as contribuições possam ser feitas anônimamente,
acham-se então lançadas as bases para um sistema bem sucedido de evasão e negação e,
nos primeiros exemplos que dei, era possivelmente porque a hostilidade dos indivíduos
estava sendo colocada anonimamente no grupo, de modo que cada membro dele podia, com
toda a sinceridade, negar que estivesse se sentindo hostil. Teremos de examinar
intimamente a vida mental do grupo para descobrir como este fornece meios para a
efetivação destas contribuições anônimas. Postularei uma mentalidade de grupo como o
fundo comum ao qual as contribuições anônimas são efetuadas e através do qual os
impulsos e desejos implícitos nestas contribuições são satisfeitos. Qualquer contribuição a
esta mentalidade de grupo tem de angariar o apoio das outras contribuições anônimas dele
ou achar-se em conformidade com elas. Deveria esperar que a mentalidade de grupo se
distinguisse por uma uniformidade contrastante com a diversidade de pensamento existente
na mentalidade dos indivíduos que contribuíram para a sua formação. Deveria esperar que a
mentalidade de grupo, tal como a postulei, se opusesse aos objetivos confessados dos
membros individuais do grupo. Se a experiência demonstrar que esta hipótese preenche
uma função útil, outras características da mentalidade de grupo podem ser-lhe
acrescentadas, a partir da observação clínica.

A seguir, algumas experiências que me parecem estar correlacionadas com o assunto.


O grupo consiste em quatro mulheres e quatro homens, inclusive eu. As idades dos pacientes
acham-se entre 35 e 40 anos. A atmosfera prevalecente é de boa disposição e prestimosidade. A sala
acha-se alegremente iluminada pela luz da tarde.
Sra. X.: Tive uma experiência maçante na semana passada. Estava parada numa fila, esperando

minha vez de entrar no cinema, quando me senti muito esquisita. Na realidade, pensei que ia
desmaiar ou coisa assim.
Sra. Y.: A senhora é feliz por estar indo ao cinema. Se eu pensasse que poderia ir a um cinema,

acharia que não tenho absolutamente nada para me queixar.


Sra. Z.: Eu sei o que a Sra. X. quer dizer. Já me senti exatamente assim, apenas que eu tive de

abandonar a fila.
Sr. A.: Não experimentou inclinar-se? Isso faz o sangue voltar à cabeça. Acho que a senhora estava

sentindo que ia desmaiar.


Sra. X.: Não era realmente um desmaio.

Sra. Y.: Eu sempre acho que faz muito bem tentar exercícios. Não sei se é isso o que o Sr. A. quer

dizer.
Sra. Z.: Eu acho que se tem de usar a força de vontade. Ë exatamente isso o que me preocupa:

eu não tenho nenhuma.


Sr. B.: Uma coisa parecida me aconteceu na semana passada; somente eu não estava nem mesmo

de pé numa fila. Estava apenas sentado tranqüilamente em casa quando...


Sr. C: Você tem sorte em poder ficar sentado em casa tranqüilamente. Se eu pudesse fazer isso,

acharia que não tenho nada sobre o que me queixar.

42

43

Sra. Z.: Eu posso ficar sentada em casa perfeitamente, mas é nunca ser capaz de sair para parte

alguma que me incomoda. Se não pode ficar sentado em casa, por que não não vai a um cinema ou
coisa assim?
Após escutar por algum tempo este tipo de conversa, torna-se claro para mim que qualquer pessoa
deste grupo, que sofra de uma queixa neurótica, vai ser aconselhada a fazer algo que aquele que
aconselha sabe, por sua própria experiência, ser inteiramente fútil. Ademais, é claro que ninguém
tem a menor paciência com qualquer sintoma neurótico. Uma suspeita cresce em minha mente, até
se tornar uma certeza, que é inútil esperar-se cooperação deste grupo. Sou levado a me perguntar o
que mais esperava, de minha experiência como terapeuta individual. Sempre estive familiarizado
com a idéia do paciente como sendo uma pessoa cuja capacidade de cooperação é muito leve. Por
que, então, devo sentir-me desconcertado ou ofendido quando um grupo de pacientes demonstra
exatamente essa qualidade? Ocorre-me que talvez este mesmo fato forneça-me uma oportunidade
de conseguir ser ouvido para uma abordagem mais analítica. Reflito que, pela maneira que o grupo
está indo, seu lema poderia ser: ‘Vendedores de panacéias, uni-vos.’ Apenas disse isso a mim
mesmo e compreendo que estou expressando minha impressão, não da desarmonia do grupo, mas
de sua unidade. Além disso, logo em seguida dou-me conta que não é por acaso que atribuí esse
siogan ao grupo, porque toda tentativa que fiz para conseguir uma audiência mostrou que tenho um
grupo unido contra mim. A idéia de que os neuróticos não podem cooperar tem de ser modificada.
Não multiplicarei exemplos de trabalho de equipe como característica da mentalidade grupal,
principalmente porque não posso, atualmente, achar nenhum método de descrevê-la. Basear-me-ei
em exemplos fortuitos, à medida em que eles ocorrerem no decorrer destes trabalhos, para dar ao
leitor uma idéia melhor do que quero dizer, mas desconfio que nenhuma idéia real
44
1

pode ser obtida fora de um grupo propriamente dito. De momento, observarei que na mentalidade
de grupo o indivíduo encontra um meio de expressar contribuições que ele deseja fazer
anonimamente e, ao mesmo tempo, o maior obstáculo à consecução dos objetivos que deseja atingir
pela filiação ao grupo.
Poder-se-á pensar que existem muitos outros obstáculos à consecução dos objetivos do indivíduo
num grupo. Não desejo prejulgar o assunto, mas, por enquanto, não concederei muita importância a
eles. É claro que quando um grupo se forma, os indivíduos que o formam esperam obter alguma
satisfação dele. É claro, também, que a primeira coisa de que se dão conta é um sentimento de
frustração produzido pela presença do grupó de que são membros. Pode-se argumentar que é
inteiramente inevitável que um grupo satisfaça alguns desejos e frustre outros, mas me sinto
inclinado a pensar que as dificuldades inerentes a uma situação de grupo, tais como, por exemplo, a
perda de intimidade (privacy) que deve decorrer do fato de que um grupo fornece companhia,
produzem um tipo de problema diferente da espécie de problema produzido pela mentalidade de
grupo.
Freqüentemente mencionei o indivíduo no decurso de minhas discussões do grupo, mas avançando
o conceito de uma mentalidade de grupo. Descrevi o indivíduo, especialmente no episódio em que
os dois ausentes desempenharam um grande papel na orientação emocional do grupo, como sendo,
de certa maneira, oposto à mentalidade do grupo, embora contribuindo para êle. Já é tempo de nos
voltarmos para a discussão do indivíduo e, assim fazendo, proponho-me a abandonar o neurótico e
seus problemas.
Aristóteles disse que o homem é um animal político e, na medida em que compreendo a sua
Política, depreendo que o que ele quis dizer com isso é que para um homem levar uma vida plena o
grupo é essencial. Não pretendo defender o que sempre me pareceu ser uma obra extremamente
árida, mas penso que esta afirmação é uma daquelas que os psiquiatras não podem
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esquecer sem risco de chegar a uma visão desequilibrada de seu tema. A proposição que desejo
demonstrar é a de que o grupo é essencial para a realização da vida mental de um homem tão —

essencial para isto quanto para as atividades mais evidentes da economia e da guerra. No primeiro
grupo acima descrito (págs. 21 e segs.), pude dizer que o grupo era essencial para mim mesmo
porque desejava ter um grupo para estudar; presumivelmente, os outros membros podiam dizer o
mesmo, mas, mesmo havendo admitido isto como o objetivo dos membros individuais, inclusive eu
próprio (e deverá ser lembrado que não fiz tal coisa), considero que a vida mental de grupo é
essencial para a vida integral do indivíduo inteiramente à parte de qualquer necessidade temporária
ou específica, e que a satisfação dessa necessidade tem de ser buscada através da filiação a um
grupo. Ora, aquilo que emerge de todos os grupos de que estive tirando exemplos é que o
sentimento mais proeminente experimentado pelo grupo é um sentimento de frustração uma —

surpresa muito desagradável para o indivíduo que chega buscando gratificação. O ressentimento
causado por isto pode, naturalmente, ser devido a uma incapacidade ingênua de compreender o
argumento que acima demonstrei, de que é da natureza dos grupos negar certos desejos satisfazendo
outros, mas suspeito que a maior parte do ressentimento é cansada pela expressão num grupo de
impulsos que os individuos desejam satisfazer anonimamente e a frustração produzida no individuo
pelas conseqüências que para si mesmo decorrem dessa satisfação. Noutras palavras, é nesta área,
que temporariamente demarquei como mentalidade de grupo, que proponho procurar as causas do
fracasso do grupo em conceder ao indivíduo uma vida plena. A situação será percebida como
paradoxal e contraditária, mas não me proponho fazer nenhuma tentativa para resolver estas
contradições exatamente agora. Presumirei que o grupo é potencialmente capaz de suprir o
individuo com a satisfação de um certo número de necessidades de sua vida mental que só podem
ser fornecidas por um grupo. Estou excluindo, evidentemen te

as satisfações de sua vida mental que podem ser obtiàas na Solidão e, menos evidentemente, as
satisfações que podem ser obtidas dentro de sua família. O poder que tem o grupo de satisfazer as
necessidades do indivíduo é, sugiro eu, desafiado pela mentalidade de grupo. O grupo enfrenta esse
desafio pela elaboração de uma cultura característica sua. Emprego a expressão ‘cultura de grupo’
de uma maneira extremamente vaga; incluo nela a estrutura que o grupo atinge em qualquer
momento determinado, as ocupações que persegue e a organização que adota. Referir-me-ei agora
às minhas especulações (pág. 31) sobre os motivos subjacentes à insistência do grupo num líder.
Disse então que parecia ser, na situação que estava decrevendo, uma sobrevivência emocional
funcionando inutilmente ou então a reação a alguma exigência criada pela consciência de uma
situação que não havíamos então definido. Naquela ocasião, a tentativa de construir o grupo de
maneira a este consistir num líder e seus seguidores, acima dos quais se salientava de modo
supremo, é um exemplo muito bom da espécie de coisas que incluo na palavra ‘cultura’. Se
presumirmos que a situação indefinida é a mentalidade de grupo de que estive falando e penso que

houve boas razões para presumir isso então o grupo estava tentando enfrentar o desafio

apresentado à sua capacidade de atender à necessidade do indivíduo por esta simples cultura de
líder e seguidores. Ver-se-á que, no esquema que estou agora apresentando, o grupo pode ser
encarado como uma ação recíproca entre as necessidades individuais, a mentalidade de grupo e a
cultura. Para ilustrar o que desejo significar por esta tríade, apresento a seguir outro episódio tirado
de um grupo.
Por um período de três ou quatro semanas, eu estivera muito mal visto num grupo de pacientes:
minhas contribuições eram ignoradas, com a reação costumeira sendo um polido silêncio e, depois,
uma continuação da conversa que, até onde podia ver, não mostrava sinais de ter-se desviado por
quaisquer comentários de ninha parte. Então, subitamente, um paciente come-

46

47

çou a apresentar o que o grupo sentiu serem sintomas de loucura, fazendo afirmações que pareciam ser
produto de alucinações. Instantaneamente, descobri que fora readmitido no grupo. Eu era o líder bom, senhor
da situação, inteiramente capaz de tratar com uma crise daquela natureza,OU seja, em resumo, tão
excepcionalmente o homem certo para aquela missão, que seria presunção de qualquer outro membro do
grupo tentar tomar qualquer iniciativa útil. A rapidez com que a consternação se transformou em amena
complacência tinha de ser vista para ser acreditada. Antes do paciente começar a alarmar o grupo, minhas
interpretações poderiam ter sido pronunciamentOs oraculareS pelo cerimonioso silêncio com que eram
recebidas, mas eram os pronunciamentoS de um oráculo em decadência ninguém sonharia em considerar seu

conteúdo como digno de nota. Após o grupo ter ficado alarmado, fui o centro de um culto em seu pleno poder.
Encarada do ponto de vista de um homem comum tentando fazer um trabalho sério, nenhuma das situações
era satisfatória. Uma estrutura grupal em que um dos membros é um deus, seja estabelecido ou desacreditado,
possui uma utilidade muito limitada. A cultura de grupo neste exemplo quase poderia ser descrita como uma
teocracia em miniatura. Não dou importância a esta frase como uma descrição, exceto na medida em que
ajuda a definir o que, naquela ocasião, eu teria querido dizer por cultura. Havendo feito isso, o emprego
adequado de minha hipótese de indivíduo, mentalidade de grupo e cultura exige uma tentativa de definir as
qualidades das outras duas componentes da tríade. Antes do ponto crucial, a mentalidade grupal tinha sido de
natureza tal que as necessidades do indivíduo estavam sendo exitosamente denegadas pelo fornecimento de
uma boa relação amistosa entre os pacientes e de uma atitude hostil e cética para comigo. A mentalidade de
grupo funcionou muito duramente sobre esse paciente em especial, por motivos em que é desnecessário
entrar. Foi possível nessa ocasião, pela exibição de algo da cultura do grupo, efetuar uma alteração nele sem
elucidar a mentalidade de gru48

p0 ou o efeito que ela estava tendo sobre o indivíduo. O grupo modificou-se e tornou-se, em sua
aparência e comportamento, muito semelhante a crianças de escola no período de latência. O
paciente, seriamente perturbado, exteriormente pelo menos, deixou de ser perturbado. Os indivíduos
tentaram então novamente enunciar seus casos, mas apresentaram apenas problemas que eram de
natureza trivial ou indolor. Pude então sugerir que o grupo havia adotado um padrão cultural
análogo ao do pátio de recreio e que, embora tivesse de se presumir que isso atendesse de modo
bastante adequado a algumas das dificuldades do grupo (queria significar atender à mentalidade de
grupo, mas não o disse) era essa uma cultura que permitia apenas mencionar o tipo de problema que
se poderia esperar uma criança de escola resolvesse. O grupo modificou-se novamente e se tornou
um grupo em que todos os membros, inclusive eu próprio, pareciam estar mais ou menos no mesmo
níveL Na mesma ocasião, uma mulher mencionou, pela primeira vez em seis meses, dificuldades
conjugais bastante sérias que a estavam perturbando.
Espero que estes exemplos dêem alguma idéia do que desejo significar por cultura e também uma
certa idéia do que considero ser a necessidade de tentar elucidar, se possível, duas das três
componentes da tríade.
Minha tentativa de simplificar, através dos conceitos que esbocei, mostrará ser muito enganadora, a
me— nos que o leitor mantenha em mente que a situação grupal é, na maior parte das vezes,
desorientadora e desconcertante. Funcionamentos daquilo que chamei de mentalidade de grupo ou
de cultura de grupo apenas ocasionalmente emergem de maneira excepcionalmente clara. Além
disso, o fato de nos acharmos envolvidos na situação emocional torna a lucidez difícil. Há ocasiões,
tal como a que descrevi, quando dois membros do grupo estavam ausentes, em que é claro que os
indivíduos estão lutando contra a apatia do grupo. Nessa ocasião, atribuí comportamento ao grupo
baseado na intensidade do comportamento de um ou dois de seus indivíduos. Não há nada fora do
comum nisto: diz-se à uma criança
49
I

que ele ou ela está trazendo desonra para a escola, porque se espera que o comportamênto
de um seja interpretado como o comportamento de todos. Diz-se aos alemães que eles são
responsáveis pelo comportamento do governo nazista; quem cala, diz-se, consente. Não traz
muito felicidade insistir sobre a responsabilidade coletiva desta maneira, mas presumirei,
não obstante, que a menos que um grupo desautorize ativamente seu líder, ele estará, de
fato, seguindo-o. Resumindo, direi que tenho plenas justificativas para dizer que o grupo se
sente assim ou assado, quando, na realidade, apenas uma ou duas pessoas pareceriam
fornecer, através de seu comportamento, justificativa para tal afirmação, se, na ocasião de
assim comportar-se, o grupo não mostrar sinais exteriores de repudiar a liderança que
recebe. Atrevo-me a dizer que será possível basear a crença na cumplicidade do grupo em
algo mais convincente que provas negativas, mas, por enquanto, encaro a prova negativa
como suficientemente boa.

50
3
Em capítulos anteriores expliquei a contribuição que dou a grupos. Disse que a situação emocional
é quase sempre tensa e desorientadora, de maneira que não é fácil para o psiquiatra, que deve
necessariamente ser uma parte do grupo, dizer o que está acontecendo. Sentimentos de frustração
são comuns, o tédio é agudo é amiúde o alívio só é oferecido por explosões de exasperação entre os
membros do grupo. Quando uma interpretação que dou esclarece uma situação que esteve obscura
durante semanas, segue-se, imediatamente, um novo período de obscuridade que dura, novamente,
tanto quanto antes.
Sondo essa situação confusa considerando que posição nas emoções do grupo eu próprio ocupo em
determinado momento, e gosto de observar, pelo menos para minha própria satisfação, o tipo de
liderança que está sendo exercido por outros membros do grupo. Sugeri que ajuda a elucidar as
tensões de grupo supor a existência de uma mentalidade de grupo. Utilizo este termo para descrever
o que acredito ser a expressão unânime da vontade do grupo, uma expressão de vontade para a qual
os indivíduos contribuem anonimamente. Disse pensar que este fenômeno da vida mental do grupo
causava dificuldades para o indivíduo, na perseguição de seus objetivos. Meu terceiro e último
postulado foi o de uma cultura de grupo, expressão que empreguei para descrever aqueles aspectos
do comportamento do grupo que pareciam nascer do conflito entre a mentalidade de grupo e os
desejos do indivíduo. Forneci alguns
51

-a

exemplos, como ilustração em termos concretos do que queria dizer, das experiências que me levaram a
desenvolver esses conceitos.
Fazendo interpretações ao grupo evito empregar termos tais como mentalidade de grupo: os termos utilizados
devem ser tão simples e precisos quanto possível. Dessa maneira, posso dizer, falando do que chamo de
mentalidade de grupo: Penso que o grupo se uniu durante os. últimos cinco minutos com o fito de deixar

constrangido quem quer que diz ou faz algo para me ajudar a fornecer novas interpretações. Descrevo então
fatos que mostram como o grupo fez tais e tais coisas que me fizeram pensar que ele estava atuando junto,
como uma equipe, mesmo quando possa não ter sido capaz de detectar a maneira pela qual esse trabalho de
equipe se efetuou. Se achasse ter alguma prova do modo pelo qual ele se realisou, eu a daria.
Ou posso dizer, falando do que chamo de cultura de grupo, que estamos agora nos comportando como se
fôssemos iguais, homens e mulheres crescidos, discutindo livremente e juntos o problema, com tolerância por
diferenças de opinião e sem preocupação com um ‘direito’ de expressar um ponto de vista.
Ou, falando para o indivíduo, posso dizer: O Sr. X está tendo dificuldade porque quer que um problema seu

seja tratado, mas acha que vai criar problemas com o resto do grupo, se perseverar em sua tentativa.
Dei este último exemplo para demonstrar que a situação podia igualmente ter sido descrita em termos de
mentalidade de grupo, como no primeiro exemplo. Isto não é algo importante em si próprio, mas o psiquiatra
tem de decidir qual a descrição que melhor lhe esclarece a situação e, depois, em que termos deverá ele
descrevê-la para o grupo.
Não perderei mais tempo com a maneira pela qual as interpretações devem ser enunciadas; é importante, mas
não acho que possa ser facilmente transmitida num livro. Presumirei, dessa maneira, que o leitor compreende
que a situação deve ser descrita em termos concretos e as informações fornecidas tão plena e precisámente
52

quanto possível, sem mencionar conceitos teóricos em que as próprias opiniões do psiquiatra se basearam.
Como é que o emprego desses três conceitos mentalidade de grupo, cultura de grupo e indivíduo —,como

fenômenos interdependentes, opera na prática? Não muito bem: descobri que o grupo reagia de uma maneira
cansativamente errática. Pude dar interpretações do tipo que descrevi e, de vez em quando, a reação que se
seguia podia ser explicMa como um desenvolvimento lógico da interpretação que havia dado, mas havia
exceções desorientadoras. O grupo alterava-se de maneiras que me deixavam em dificuldade e incapaz de
aplicar minhas teorias de qualquer modo que me convencesse. Ou, então, sentia que elas eram inaplicáveis ou,
alternativamente, que iluminavam um aspecto da situação que não possuía significação.
Gostaria de poder dar exemplos concret’s, mas não posso registrar o que foi realmente dito e, íe qualquer
modo, aquilo que abria buracos em minhas teorias não eram as palavras utilizadas, mas sim a emoção que as
acompanhava. Dessa maneira, valer-me-ei de um relato confessadamente subjetivo.
Disse que o efeito da interpretação era errático; entretanto, após certo tempo, pensei que alguns padrões de
comportamento estavam aparecendo de novo e, em particular, um padrão que era mais ou menos assim:
dois membros do grupo envolviam-se numa discussão; às vezes, as trocas de palavras entre os dois mal
podiam ser descritas, mas era evidente que estavam envolvidos um com o outro e que o grupo, como um todo,
assim pensava também. Nessas ocasiões, o grupo ficava sentado em silêncio atento, comportamento bastante
surpreendente, tendo em vista a impaciência do neurótico com qualquer atividade que
não se centralize em seu próprio problema. Sempre que duas pessoas começam a
manter este tipo de relação no grupo sejam elas um homem e uma mulher, dois homens ou duas

mulheres
—,parece ser uma suposição básica, sustentada tanto pelo grupo como pelo par interessado, que a relação é uma
relação sexual. É como se não pudesse haver uma
53

.1

razão possível para duas pessoas se reunirem, a não ser o sexo. O grupo tolera esta situação
e, embora sorrisos de cumplicidade sejam trocados, parece preparado para permitir que o
par continue indefinidamente seu intercâmbio. Há exceções, mas não são tão numerosas
quanto se poderia imaginar, considerando que os outros indivíduos do grupo possuem uma
boa quantidade de coisas que gostariam de dizer.
Ora, é claro que duas pessoas de um grupo podem estar-se reunindo para qualquer número
de propósitos que não sejam sexuais; assim, deve existir um considerável conflito entre o
desejo que tem o par de perseguir o objetivo que mantém conscientemente na mente e as
emoções derivadas da suposição básica de que duas pessoas só se podem reunir para um
único propósito, e que esse propósito é sexual.
No devido curso do tempo, o par cai em silêncio e, se é perguntado porque, pode encontrar
facilmente à mão muitas boas razões para responder: que eles não desejam monopolizar a
conversa, que já disseram tudo o que tinham a dizer. Não nego a validade destas
explicações, mas acrescentaria outra, que é a consciência de que seu contato não se
conforma à suposição básica. do grupo ou, alternativamente, a ela se conforma, mas não a
outras opiniões do que seja um comportamento adequado em público.
Qualquer pessoa que já tenha empregado uma técnica de investigação que dependa da
presença de duas pessoas, e a psicanálise é uma técnica assim, pode ser encarada como não
apenas tomando parte na investigação de uma mente por outra, mas também como
investigando a mentalidade, não de um grupo, mas de um par. Se minha observação sobre a
suposição básica do grupo é correta, não é de surpreendér que tal investigação pareça
mostrar o sexo a ocupar uma posição central, com as outras emoções em posição mais ou
menos secundária.
Se a suposição básica sobre o par é que eles se reúnem para propósitos sexuais, qual é a
suposição básica de um grupo sobre pessoas que se reúnem num grupo?

A suposição básica é que as pessoas se reúnem em grupo para fins de preservação do


grupo. É comum as discussões tornarem-se cansativas pela preocupação com membros
ausentes como sendo um perigo para a coerência do grupo, e com membros presentes como
sendo virtuosos por estarem ali Qualquer pessoa que não esteja acostumada a este tipo de
grupo ficaria surpresa em descobrir quanto tempo um grupo de pessoas supostamente
inteligentes pode ficar conversando, dando voltas em torno deste campo muito limitado,
como se tal discussão fosse emocionalmente satisfatória. Não há interesse em tornar o
grupd digno de ser preservado e, na verdade, protestos a respeito da maneira pela qual ele
emprega o seu tempo ou qualquer mudança proposta de ocupação são encarados como
despropositados à discussão da temida desintegração do grupo. Fora do grupo, e às vezes
nele, os indivíduos acreditam que a maneira pela qual o grupo gasta seu tempo regula a
intensidade com que as pessoas desejam ser membros dele, mas, no grupo, demora algum
tempo até que os indivíduos deixem de ser dominados pela sensação de que a adesão ao
grupo é um fim em si mesmo.
Meu segundo argumento é o de que o grupo parece conhecer apenas duas técnicas de
autopreservação, a luta ou a fuga. A freqüência com que um grupo, quando está
funcionando como um grupo, vale-se de um ou de outro desses dois procedimentos, e
apenas dos dois, para tratar de todos os problemas, fez-me primeiramente suspeitar da
possibilidade de existir uma suposição básica a respeito da formação de um grupo. A
observação clínica fornece muitas razões para dizer que a suposição básica é que o grupo se
reuniu para a luta- fuga, como se se dissesse que se encontrou para preservar o grupo. A
última é uma hipótese conveniente para explicar porque o grupo, que se mostra intolerante
com atividades que não são formas de luta-fuga, tolera, não obstante, a formação de pares.
A reprodução é reconhecida como igual à luta-fuga na preservação de um grupo.
A preocupação com a luta-fuga leva o grupo a ignorar outras atividades ou, se não puder
fazê-lo, a supri-

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55

mí-las ou a fugir delas. Num grupo, a suposição básica sobre um grupo conflita tão agudamente
com outras opiniões sobre o que ele pode fazer quanto a suposição básica sobre os pares conflita
com as outras opiniões sobre quais são as atividades adequadas aos pares.
Da suposição básica sobre grupos origina-se um certo número de suposições subsidiárias, algumas
de importância imedita. O indivíduo sente que, num grupo, o bem-estar daquele é um assunto de
consideração secundária: o grupo vem em primeiro lugar; na fuga, o indivíduo é abandonado; para o
grupo, a necessidade suprema é a de sobreviver; não o indivíduo.
A suposição básica do grupo entra em conflito muito agudo com a idéia de um grupo reunido para
efetuar um trabalho criativo, especialmente com a idéia de um grupo reunido para tratar das
dificuldades psicológicas de seus membros. Haverá o sentimento de que o bem-estar do indivíduo
não importa, desde que o grupo continue, e haverá também a impressão de que qualquer método de
tratar uma neurose que não seja combatê-la ou fugir de seu portador é inexistente ou, então,
diretamente oposto ao. bem do grupo; um método como o meu não é reconhecido como apropriado
para qualquer das técnicas básicas do grupo.
Todos nós vivemos em grupos, e temos muita experiência, por inconsciente que seja, do que isso
representa. Dessa maneira, não é de surpreender que os críticos de minhas tentativas de utilizar
grupos achem que elas têm de ser cruéis para com o indivíduo ou, então, um método de fuga de
seus problemas. Presume-se que se o ser humano, como animal gregário, escolhe um grupo, ele
assim o faz para combater algo ou disso fugir.
A existência de tal suposição básica ajuda a explicar porque os grupos mostram que eu, que sou
sentido como proeminente, como líder do grupo, sou também sentido como esquivando-me à
missão. O tipo de liderança que é reconhecido como apropriado é a liderança do homem que
mobiliza o grupo para atacar alguém, ou, alternativamente, para liderá-lo na fuga. A respeito
disso, posso mencionar que quando, com o Dr. Rickman,1 tentei uma experiência no tratamento de tropas no
Hospital Militar de Northfield, presumiu-se que estávamos tentando conseguir tropas para o combate, ou,
alternativamente, que nos achávamos interessados em ajudar uma cambada de cábulas a continuar cabulando.
A idéia de que se pretendia um tratamento foi encarada como um ardil habilidoso, mas facilmente
desvendável. Aprendemos que líderes que não lutam nem fogem não são facilmente compreendidos.
Chegamos agora ao seguinte ponto: reações a interpretações baseadas em conceitos de mentalidade de grupo,
cultura de grupo e indivíduo sugeriram que minhas teorias eram inapropriadas. O reexame expôs a existência
de suposições básicas sobre o objeto das relações de pares e relações de grupos. A luz destas suposições
básicas, proponho modificar os conceitos da mentalidade grupal, da seguinte maneira:
A mentalidade de grupo é a expressão unânime da vontade do grupo, à qual o indivíduo contribui por
maneiras de que não se dá conta, influenciando-o desagradavelmente sempre que ele pensa ou se comporta de
um modo que varie de acordo com as suposições básicas. Assim, trata-se de uma maquinaria de
intercomunica ção que é construída para garantir que a vida de grupo se acha de acordo com as suposições
básicas.
A cultura de grupo é uma função do conflito existente entre os desejos do indivíduo e a mentalidade de grupo.
Seguir-se-á disso que a cultura de grupo apresentará sempre sinais das suposições básicas subjacentes. As
duas suposições básicas que já descrevi, é necessário acrecentar mais uma. Trata-se da suposição básica de
que o grupo se reúne para obter segurança de um indivíduo de quem depende.
O relato anteriormente apresentado (págs. 21-32) mostrou um grupo perplexo pela diferença existente entre o
que de mim esperavam e o que realmente encon1 Ver ‘Apresentação’, págs: 3-18.

56

57

traram. Houve ansiedade para o grupo avançar ao longo de linhas bem estabelecidas, como,
por exemplo, de um seminário ou de uma conferência. Embora fosse compreendido por
cada indivíduo que nos reuníramos para- estudar grupos e suas tensões, no próprio grupo tal
atividade de minha parte não parecia ser compreensível. Quando um líder alternativo
surgiu, foi ele posto de lado antes que muito tempo decorresse e o grupo retornou à sua
lealdade a mim, embora tão contrafeito quanto antes em reconhecer ou aceitar o tipo de
liderança que eu fornecia. Descrevi o desejo do grupo de me excluir dentre seus membros.
Noutra ocasião, não muito semelhante, membros do grupo disseram-me que estavam sendo
feitas tentativas para sabotá-lo. Naquele capítulo, disse que o grupo exigia um líder para
preencher uma função que não apresentava objetivo ou, pelo menos, uma função para a
qual eu não havia observado nenhum escopo.
A revisão de minhas teorias permitiu-me compreender a situação melhor do que antes;
minhas explicações e interpretações teriam apresentado maior coesão se eu tivesse podido
relacioná-las aos conceitos que acabei de descrever.
Em primeiro lugar, a tentativa de utilizar o grupo como um seminário destinava-se a mantê-
lo fixado a um nível refinado e racional de comportamento, apropriado à realização dos
objetivos que os indivíduos queriam perseguir; era como se o grupo se desse conta de que
sem alguma tentativa desse tipo, meu procedimento conduziria à imposição de um tipo de
grupo que seria mais um entrave que uma ajuda à consumação dos desejos conscientes do
indivíduo.
Fracassada esta tentativa, começou a emergir o grupo que é, segundo minha teoria,
dominado pelas suposições básicas de unidade para fins de luta ou fuga.
Com o surgimento desse grupo, a liderança que eu estava exercendo não ficou mais
reconhecível como liderança. Por ocasião da advertência contra sabotagem, houvesse eu
sido o líder que o grupo esperava, teria compreendido o convite para reconhecer a
existência de um

inimigo o primeiro requisito deste tipo de grupo. Se só se pode lutar ou fugir, tem-se de se

encontrar algo com que lutar ou de que fugir.


O líder substituto falhou, mas, a este respeito, o grupo comportou-se de modo peculiar. Segundo
minha experiência, a maior parte dos grupos e não apenas grupos de pacientes encontra um
— —

substituto que os satisfaz inteiramente. Trata-se geralmente de um homem ou de uma mulher com
acentuadas tendências paranóides; se a presença de um inimigo não for, talvez, de imediato evidente
ao grupo, a melhor coisa que pode fazer é escolher um líder para quem ela o é.
Uma revisão de minhas experiências passadas com grupos indica que elas não eram incompatíveis
com meus conceitos revisados. Passarei agora à aplicação dessas teorias na prática.
Foi o seguinte o que aconteceu com um grupo em que eu havia dado interpretações, mostrando
como o tratamento havia produzido sentimentos desagradáveis em seus membros. O efeito das
interpretações foi fazer os membros sentirem que eu ameaçava o grupo ‘bom’. Em certo ponto,
aconteceu minha interpretação basear-se em observações feitas pela Srta Y. Ela escutou o que eu
disse e continuou muito serena, como se eu não houvesse falado nada. Poucos minutos mais tarde,
quando dava outra interpretação da mesma espécie, coisa igual aconteceu e, alguns instantes depois,
a mesma coisa. O grupo caiu em silêncio. No momento em que a Srta. Y. ignorara a minha
interpretação, dei-me conta de que o grupo se havia reunido como um grupo; não tinha qualquer
dúvida sobre isso. Ao final de minha terceira interpretação, estava certo não apenas de que o grupo
se havia reunido, mas que assim o fizera para pôr fim às minhas intervenções. Fiquei certo de que
esta determinação recebera sua corporificação na pessoa do Sr. X., que não dissera uma só palavra
em nenhuma das vezes.
O Sr. X. era um homem com intensos sentimentos de ódio e um acentuado medo de sua
agressividade. Falava apenas quando o grupo era um grupo de acasalamento ou, então, um grupo
reunido para satisfazer a ne 58

59

cessidade de dependência. Em ambos os tipos de grupo, embora falasse, falava com


acanhamento, pelo menos até ele próprio haver-se desenvolvido. Mas, no grupo reunido
como um grupo, ele ficou sentado em silêncio e deu-me a impressão de se achar
profundamente satisfeito emocionalmente. Foi essa a impressão que êle deu neste ponto de
minha história.
Durante o silêncio, dei-me conta de que outro paciente do grupo estava experimentando
uma intensa satisfação emocional. Sob alguns aspectos, parecia ser de menor importância
que o Sr. X. e, na verdade, subordinado a ele. O Sr. M., pois assim o chamarei, ficou
sentado com o olhar fixo no Sr. X. De tempos em tempos, seus olhos vagueavam
pensativamente pelos outros membros do grupo, como se estivesse cuidando para ver se
algum deles desejava encontrar seu olhar. O Sr. M. raramente fala de suas próprias
dificuldades e, quando o faz, fala como se desejasse incentivar o grupo, mostrando-lhes que
não há mal nenhum em ser cândido; apesar disso, se tal é o seu objetivo, deve fracassar
nele, porque, sem dúvida, os mais perceptivos tiram outras conclusões da amostra que sua
contribuição apresenta de uma seleção polida e cuidadosa. Nesta ocasião, em que seu olhar
repousava sobre todos os indivíduos, como se fosse um convite a falar, o seu convite
passou despercebido.
A Srta. J. começou a relatar um mal-estar que havia sofrido em seu trabalho. Ao terminar,
interpôs animadamente uma tentativa de interpretação de seu comportamento. Descreveu
depois ainda alguns episódios, mas, finalmente, abandonou a tentativa de ignorar a
hostilidade pétrea do grupo e caiu em silêncio, observando que supunha estar
demasiadamente embaraçada para prosseguir.
A Srta. H., que avançou no hiato seguinte, só conseguiu pronunciar algumas frases antes de
sucumbir.
Após o silêncio haver continuado por algum tempo, observei que alguns indivíduos, como a
Srta. J. e a Srta. H. em particular, haviam tentado prosseguir com o tratamento, como
achavam que ele deveria ser, falan60

do de suas dificuldades, em parte porque sentiam que me ajudar era uma coisa útil a fazer e em
parte porque desejavam romper o sentimento hostil no grupo. O silêncio, pensei, podia ser encarado
tanto como uma expressão de hostilidade do grupo, quanto como uma expressão da consciência dos
indivíduos de que no grupo, tal como se achava, nenhum trabalho criativo podia ser feito.
A situação que descrevi foi uma situação emocional e ela não é facilmente transmissível pelo relato
das palavras empregadas. É deste tipo de episódio de que estou falando quando falo do grupo se
reunindo como um grupo. Quando o grupo se reuniu desta maneira, tornou-se algo tão real e tão
parte da vida humana como uma família, mas ele não é, de maneira alguma, a mesma coisa que uma
família. O lícer de um grupo assim acha-se muito distante de ser o pai de uma família: Em certos
estados emocionais especiais, que mais tarde descreverei, o líder aproxima-se de um pai, mas, nesta
espécie de grupo, qualquer membro seu que apresente qualidades paternas cedo descobre que não
possui nada do status, das obrigações ou dos privilégios geralmente associados a um pai ou a uma
mãe. Na verdade, na medida em que, como psiquiatra, se espera de mim que apresente qualidades
paternas, minha própria posição no grupo se torna anômala neste ponto e a expectativa funciona
como uma razão adicional para a minha exclusão dele adicional ao fato de que meu

comportamento já fizera o grupo reunir-se contra mim como sendo o inimigo do grupo. É
necessária a autoridade conferida pela minha posição de psiquiatra para poder manter-me no
quadro, quando a suposição básica implica que uma pessoa cuja preocupação primária é com o
bem-estar do indivíduo está fora de lugar nele.
O Sr. X. não teve necessidade de falar neste grupo; estava unido com ele, pois o sentimento sobre o
qual se sente mais culpado, o seu ódio destrutivo, é um sentimento permitido pela suposição básica
dç que o grupo se reuniu para lutar ou fugir.
61
-j

O Sr. M. desempenhou um papel interessante; acho necessário dedicar-lhe uma atenção


cuidadosa. Antes que eu pudesse dar uma interpretação que fosse compreendida pelo grupo,
tinha de observar a expressão do rosto dele e a ordem em que convocava os membros do
grupo a participar. Era como sè estivesse vendo um filme mudo de um homem a reger uma
orquestra: que espécie de música desèjaria evocar? A função do Sr. M. era manter a
hostilidade viva, de maneira que ninguém pudesse deixar de notar a minha impotência em
efetuar qualquer mudança na situação.
Continuei a chamar a atenção, pormenorizadamente, para as peculiaridades emocionais
desta situação. Pude indicar que indivíduos que apresentavam dificuldades suas para pedir
ajuda eram ignorados ou repelidos, que as tentativas de ser cõnstrutivo eram similar- mente
tratadas, que parecia haver uma sutil compreensão entre todos os membros do grupo e que
trabalháramos juntos como uma equipe em tudo o que fizéramos. Pude mostrar que
diversos membros do grupo, como, por exemplo, o Sr. M., estavam-se comunicando por
um sistema de gestos,, amiúde de grande sutilezá, com o resto do grupo. Acrescentei que
poderia haver outros meios de comunicação ainda não identificados, talvez porque nossos
poderes de observação eram ainda muito limitados.
Não é inteiramente correto dizer que minhas interpretações estavam sendo ignoradas. Havia
em andamento algo que me fez sentir que alguma coisa do que dissera estava sendo
recebida, mas, até onde concernia à aparência exterior, ou poderia ter sido isolado do resto
do grupo por uma chapa de vidro à prova de som. Çertamente, minhas interpretações não
causaram diferença alguma no comportamento do grupo, que continuou sem reagir por uns
bons trinta minutos, até o tempo haver-se esgotado. Como o leitor pode imaginar, tive de
perguntar a mim mesmo porque não houvera reação. As teorias poderiam achar-se
novamente erradas ou, alternativamente, incorreta a minha interpretação. Na realidade,
sentia que estaya tratando com uma situação si-

milar àquela que se obtem numa psicanálise, quando a falta de reação do paciente revela-se,
numa sessão subseqüente, ter sido muito parcial.
Fora isso, de fato, o que acontecera. Na sessão seguinte, o grupo foi aquilo que descrevi
como o grupo reunido para fins de formação de acasalamento. Preferiria, contudo, não
prosseguir mais com a descrição deste grupo, mas, em seu lugar, descrever uma ocasião em
outro que servirá melhor para esclarecer a mudança de uma cultura de grupo para outra. No
exemplo que dei, as interpretações pareceram operar seus efeitos no intervalo entre as
reuniões. Desejo descrever agora uma sessão em que a mudança estava, na realidade, em
vias de se realizar. Escolherei uma ocasião em que a mudança proveio do grupo de luta-
fuga.
O grupo estivera freqüentemente no estado de luta- fuga. Nesta ocasião, a cultura de grupo
estava-se mostrando extremamente enfadonha para um certo número de indivíduos e, nesse
ponto, um homem começou a conversar comigo. Não seria justo dizer que a conversa era
sem sentido, porque possuía substância suficiente para exigir uma resposta. Após algumas
frases, ele se interrompeu, como se se desse conta de que estava no fim de seus recursos na
arte de falar sem dizer nada e não quisesse perseverar até chegar a um ponto em que isso se
tornasse óbvio demais. Foi seguido por uma mulher a fazer quase a mesma coisa. Ambos se
comportavam como se estivessem satisfeitos com o sucesso de seu empreendimento. Cada
um deles, por sua vez, repetiu o procedimento com dois outros membros do grupo. Neste
ponto, outros tentaram conversar mais ou menos da mesma maneira que os pioneiros, mas
se podia notar que as conversas não eram mais sem sentido.
Houvesse observado este comportamento numa psicanálise, ficaria inclinado a pensar quê o
paciente desejava obter um reassegurameito de confiança pelo estabelecimento daquilo que
podia achar ser um contato amistoso comigo, sem de maneira nenhuma divulgar a natureza
da ansiedade sobre a qual desejava ser tranqüilizado.

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63

Na situação de grupo, quae a mesma interpretação poderia ter sido feita, mas, se este
comportamento tivesse de ser acuradamente afinado às emoções daquela ocasião e daquele
lugar, então a interpretação necessito.ria ser uma interpretação que desse o devido peso às
funções sociais que os indivíduos estavam desempenhando. Por conseguinte, interpretei seu
comportamento como uma manipulação do grupo; eles estavam tentando romper a cultura
de luta-fuga pelo estabelecimento de relações de pares. Como primeira medida desse
procedimento, entraram em contato comigo, porque a experiência havia-lhes mostrado que
era menos provável que eu estivesse tão envol’ido emocionalmente na situação do grupo, a
ponto de ser incapaz de reagir. Daí, era apenas um passo fazer a mesma coisa com outros
membros do grupo e, desse ponto em diante, apenas questão de minutos para o grupo se
transformar no grupo reunido para fins de acasalamento. Uma vez houvesse isso
acontecido, a discussão dos problemas individuais tornar-se-ia novamente possível.
Disse que desejava fornecer este exemplo para ilustrar a mudança realmente a se efetuar,
mas gostaria de continuar com o episódio para mostrar o que acontece aos indivíduos
quando o grupo passa de uma cultura de grupo para outra e retorna à primeira.
Como disse, este grupo estivera sofrendo a frustração de tentar viver numa cultura de luta-
fuga. Por algum tempo, o grupo de acasalamento pareceu permitir um alívio bem-vindo,
mas, antes que muito tempo se passasse, tornau-se evidente que essa espécie de grupo tinha
as suas desvantagens também. Para só mencionar isto, meu próprio papel não podia ser
desempenhado muito satisfatoriamente. No grupo de luta-fuga, a suposição básica do grupo
tornava difícil aos indivíduos prestar muita atenção ao que eu fazia ou dizia. No grupo de
acasalamento, a suposição básica tornava difícil a qualquer indivíduo sustentar uma
conversa comigo. Ela tornava a conversa difícil para qualquer par, mas a posição peculiar
ocupada pelo terapeuta exacerbava a dificuldade. As pessoas familiarizadas com a teoria
psi canalític

compreenderão o tipo de dificuldades que se apresentam quando a conversa continua.


Mencionei que na cultura de luta-fuga, as reações do grupo colocam em posição saliente o
indivíduo com tendências paranóides. Efeitos semelhantes são obtidos quando o grupo
passa a outras culturas. Desde que nos demos conta das mudanças de uma cultura de grupo
com uma determinada suposiço básica para uma cultura de grupo com outra suposição
básica, torna-se possível utilizar essas mudanças para o benefício de nossa observação
clínica, de maneira muito semelhante a que os cientistas de outros campos empregam
quando utilizam mudanças de comprimento de onda para obter diferentes aparências
fotográficas do objeto que desejam estudar.
Nas culturas de grupo que mencionei até agora, criam-se dificuldades para o psiquiatra,
porque sua tarefa não se ajusta facilmente àquilo que é exigido pela suposição básica de um
líder de grupo. Isto torna o grupo despreparado para receber a contribuição que o terapeuta
efetua. O terapeuta que experimente uma falta de reação de grupo deve, penso eu, manter
isto em mente como sendo um fator que contribui com sua cota para os outros fatores que
favorecem a rejeição dele. Se o terapeuta suspeitar que sua alta opinião de si próprio é
partilhada pelo grupo, deverá perguntar-se se sua liderança começou a corresponder àquilo
que é pedido pela suposição básica do grupo.
Quero agora considerar o estado que descrevi como cultura de grupo ‘dependente’.
A suposição básica desta cultura de grupo parece ser a de que existe um objeto externo cuja
função é fornecer segurança para o organismo imaturo. Isto significa que uma pessoa é
sempre sentida ci se achando em posição de suprir as necessidades ao grupo e, o resto,
numa posição de serem supridas as suas necessidades. Quando o grupo ingressa nesta cu
tura e a estabelece como alternativa para qualquer uma das outras duas culturas que vem
experimentando, acha-se em evidência quase a mesma espécie de alívio que já des E

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65

crevi na mudança do grupo de luta-fuga para o grupo reunido em pares. A medida que a
cultura se estabelece, os individuos, novamente, começam a mostrar seu desconforto. Um
fenômeno muito freqÜente é o surgimento de sentimentos de culpa sobre a voracidade.
Basta um só momento de reflexão para mostrar que isto bem poderia ser esperado. A
cultura de luta-fuga ou a cultura do grupo que se reiine para a formação de pares não
representam, no que concerne ao individuo, sobre- vivências de uma atitude além de seu
pI’azo adequado, embora se possa considerá-las como formas primitivas de grupo. Mas o
grupo constituído para perpetuar o estado de dependência significa, para o individuo, que
ele está sendo ávido em exigir mais que sua parte justa de atenção paterna. Há, desta
maneira, neste grupo, um embate bastante nítido entre a suposição básica e as necessidades
do indivíduo como adulto. Nas outras duas culturas, o embate se dá entre a suposição
básica do que é exigido do individuo como adulto e aquilo que este, como adulto, sente-se
preparado para dar. Nesta cultura, o sentimento de que o psiquiatra é um tipo de figura
parental acha-se multo mais em evidência e, com isto, vêm as complicações e dificuldades
que se poderia esperar. O ressentimento por estar numa posição dependente acha-se tão em
evidência quanto o alívio. Os constrangimentos sexuais são diferentes daqueles
apresentados no grupo de acasalamento. A ira e o ciúme são mais facilmente expressos,
mas não possuem a qualidade maciça e não despertam o medo que possuem e despertam no
grupo de luta-fuga. Isto, naturalmente, é devido à suposição básica de que existe um ser que
lá se encontra para providenciar que nenhum acontecimento desagradável decorra das
irresponsabilidades do indivíduo. No grupo de luta-fuga, o ódio não se acha acompanhado
por tais garantias, pois sente-se que o líder existe para expressar isso e outras emoções
afins. Embora exista alívio pelo fato de os sentimentos poderem ser expressos com maior
liberdade, há conflito entre o desejo de fazer isso e o desejo de ser maduro.
66

Quando falei do grupo que desejava encarar a sessão como um seminário, disse que uma
das razões para isso era um medo inconsciente de que, a menos que o grupo fosse fixado a
uma estrutura madura, a intrusão dos tipos de grupo que descrevi seria facilitada e os
objetivos ostensivos dos indivíduos para se juntar ao grupo seriam frustrados, em vez de
promovidos, pelo fato de se reunirem em grupo. Este impulso acha-se expresso no grupo
terapêutico pelo próprio fato de o chamarmos um grupo terapêutico. Parece tão racional que
pensemos nele como grupo terapêutico, que presumamos que o psiquiatra é o líder e que
falemos apenas sobre moléstias neuróticas, que pode não ser observado que, pensando desta
maneira e comportando-nos de acordo, estamos tentando fixar o grupo a um modo de
comportamento que impeça a intrusão dos tipos de grupo que são temidos.
67

4
4
Na seªo anterior, disse que os pacientes chegavam com uma preconcepªo que serve
muito bem como base para uma estrutura destinada a auxiliar o grupo a manter seu
comportamento preso a um nvel refinado. A preconce pªo Ø que o grupo consiste num
mØdico e em pacientes.
Quando homens se reœnem numa comissªo, por exemplo, regras de procedimento sªo
estabelecidas e hÆ geralmente uma agenda, variandode acordo com os grupos a
formalidade com que o trabalho Ø feito. Nos gruposem que sou psiquiatra, sou, em virtude
de minha posiªo, a pessoa mais bvia em quem inves tir o direito de estabelecer regras de
procedimento. Tiro vantagem desta posiªo para nªo estabelecer nenhuma regra de
procedimento e nªo adiantar qualquer agenda.
A partir do momento em que se torna claro que estou fazendo isso, o grupo se pıe a
remediar minhas omissıes e a intensidade com que as sim procede mostra que se acha em
jogo mais do que uma paixªo pela eficiŒncia. O fen meno contra o qual o grupo se estÆ
resguardando nªo Ø mais que as manifestaıes de gru po que descrevi no œltimo captulo: o
grupo de luta-fuga, o grupo de acasalamento e o grupo de dependŒncia. como se o
grupo estivesse ciente de quªo fÆcil e espontaneamente ele se estrutura de maneira
adequada a agir sobre essas suposiıes bÆsicas, a m enos que medidas sejam tomadas para
impedi-lo; assim como um grupo de estudantes pode utilizar a IdØia de um seminÆrio ou de
uma conferŒncia para sobre ela fundar uma es68

trutura refinada, assim o grupo de pacientes tem mªo uma base para se estruturar na convenªo
geralmente aceita que vΠa incapacidade neurtica como uma doena e os terapeutas como
mØdicos.
O GRUPO DE DEPEND˚NCIA
O grupo concentra-se primeiramente em estabelecer esta idØia de mØdico e pacientes tªo
firmemente quanto pode; conforma-se a uma estrita disciplina, imposta ad hoc, tomando cuidado
em limitar severamente as conversas e tpicos que n ªo sªo importantes, exceto pelo fato de
apoiarem a visªo de que sªo pacientes falando a um mØdico; dessa maneira, cria ele uma sensaªo
de que a situaªo Ø familiar e imutÆvel.
¸ comum, neste ponto, ver o grupo insistir que o mØdico Ø a œnica pessoa ser considerada e ao
mesmo tempo mostrar, pelo seu comportamento, que nª o acredita que ele, como mØdico, conhea o
seu trabalho. Se o prprio psiquiatra sente-se impe lido a audar a restaurar a estrutura refinada,
alegando sua autoridade como psiquiatra, isso mostra que nªo Ø apenas o paciente que sente a
necessidade de uma situaªo familiar. A manutenªo de uma estrutura refinada acha-se associada ao
sentimento de que a estrutura existe apenas precariamente e que pode ser facilmente derrubada.
Quando assisto a um grupo enfrentar este problema, lembro-me das advertŒncias, freqentes nos
œltimos anos, de que a prpria civilizaªo encontra -se em perigo. O problema do lder parece ser
sempre a maneira de mobilizar emoıes associadas co m as suposiıes bÆsicas, sem colocar em
perigo a estrutura refinada que parece assegurar ao indivduo sua liberdade de ser um indivduo, ao
mesmo tempo em que permanece como membro do grupo. Foi este equilbrio de tensıes que eu
anteriormente descrevi em termos de equilbrio entr e a mentalidade de grupo, a cultura de grupo e o
indivduo.
Como disse, a base mØdico-paciente para uma estrutura refinada cedo mostra sua impropriedade, e
uma
69

das razıes disso Ø que ela nªo passa de um tŒnue disfarce para o grupo de dependŒncia, de maneira
que as reaıes emocionais prprias a este tipo de g rupo sªo imediatamente evocadas e a estrutura
do refinamento fraqueja seriamente.
Porque deveria isto ter importncia? No captulo an terior, chamei atenªo para alguns dos
desconfortos da situaªo e podemos agora examinar m ais alguns. O grupo de dependŒncia, com sua
caracterstica exaltaªo de uma pessoa, cria dificu ldades para o ambicioso ou, na verdade, para
qualquer um que queira obter uma oportunidade de ser ouvido, porque isso significa que, aos olhos
do grupo e de si prprios, tais pessoas encontram-s e numa posiªo de rivalidade com o lder. O
benefcio nªo Ø mais sentido como oriundo do grupo, mas somente do seu lder, com o resultado de
que os indivduos s acham que estªo sendo tratados quando falam com o lder do grupo. Isto
conduz a uma sensaªo a mais desagradÆvel, uma vez que se acha associadacom a sensaªo de
pedir demais e receber muito pouco
de que estªo sendo enganados ou. deixados definhar. O alvio obtido pela idØia de que o psiquiatra
cuida de cada indivduo Ø inconvincente num grupo que jÆestÆ em existŒncia hÆ algum tempo e
sabe que a cura difere de uma experiŒncia presumivelmente passageira de sensaıes agradÆveis.
Como cada indivduo acha que estÆ sendo tratado apenas quando estÆ falando com o psiquiatra, a
sessªo parece a todos os membros progredir num ritm o muito pouco econmico. Esta impressªo Ø
apenas parcialmente aliviada por elucidaıes pormen orizadas da maneira pela qual a estrutura
dependente do grupo acha-se unida, a despeito de seus desconfortos.
O aspecto essencial dos desconfortos nesta espØciede grupo Ø que eles se originam precisamente da
natureza do prprio grupo e este ponto deve ser sem pre demonstrado.
Quando uma estrutura dependente Ø manifesta, Ø muit o comum a um indivduo chegar com uma
experiŒncia mental desagradÆvel, sobre a qual desej a falar. A atitude do grupo torna difcil qualquer
consideraªo
70

do seu problema e a frustraªo dos objetivos do pac iente que isto envolve pode parecer um sØrio
defeito nesta tØcnica de grupo, mas, ainda uma vez,deve ficar estabelecido o fato de que nªo
estamos interessados em fornecer tratamento individual em pœblico, mas sim em chamar a atenªo
para as experiŒncias reais do grupo e, neste caso,a maneira pela qual o grupo e o indivduo tratam
com o indivduo. HÆ ainda outro pohto: os pacientes de grupo freqentemente chegam com
declaraıes cuidadosamente preparadas e falam apena s quando pensam que podem participar de
uma maneira escolhida por eles prprios. Se o psiqu iatra reagir como se estivesse efetuando. um
tratamento individual em pœblico, cedo dar-se-Æ con ta de que se acha trabalhando contra o grupo e
que o paciente estÆ funcionando com este. Se possuir a fora de esprito necessÆria para evitar esta
armadilha, observarÆ que a exasperaªo, primeira vista tªo razoÆvel, do paciente cujas prementes
dificuldades pessoais estªo sendo igno1adas Ø ditada, nªo tanto pela frustraªo de um objetivo
legtimo, como pela exposiªo de dificuldades que o paciente ndo veio discutir e, em particular,
suas caractersticas como membro do grupo, as carac tersticas da filiaªo ao grupo, as suposiıes
bÆsicas e o resto disso. Desse modo, uma mulher quecomece com uma dificuldade pessoal que
acha que o psiquiatra poderia aliviar se respondesse pela anÆlise de suas associaıes, descobre, se
ele nªo fizer isso, que uma situaªo totalmente ine sperada se desenvolveu e serÆ de surpreender se o
psiquiatra nªo for, entªo, capaz de demonstrar difi culdades do grupo, que incluirªo dificuldades da
paciente em questªo, que ela poderÆ achar muito semimportncia, mas que, ao final, mostram nªo
ser assim. Isto, naturalmente, Ø muito comum em psicanÆlise, isto Ø, o fato de os tpicos discutidos
nªo serem aqueles que o paciente chegou para discut ir. Sem embargo, Ø importante compreender
que o psicanalista pode facilmente cometer num grupo um erro que nunca cometeria numa
psicanÆlise, tratando daquele como se o procedimento fosse uma psicanÆlise em pœblico, O
psiquiatra deverÆ ficar desconfiado se sentir que setÆ
71

-A
tratando do problema que o paciente ou o grupo acham que ele deveria tratar. Esse ponto Ø decisivo: seo
psiquiatra puder conseguir audaciosamente utilizar o grupo, em vez de gastar seu tempo desculpando-se mais
ou menos inconscientemente por sua presena, descob rirÆ que as dificuldades imediatas acarretadas sªomais
do que neutralizadas pelas vantagens de um emprego correto de seu meio (medium).
No grupo de dependŒncia, a fuga fica confinada ao grupo; a luta, ao psiquiatra. O impulso do grupo Ø afastar-
se do objeto hostil; do psiquiatra, aproximar-se dele. parte isso, as emoıes grupais parecem achar- se
associadas apenas com transiıes do estado de espr ito de grupo-dependente para um dos outros dois grupos
bÆsicos. As caractersticas deste grupo sªo imaturidade nas relaıes individuais e ineficiŒncia (excet o no
grupo bÆsico) nas relaıes de grupo sendo ambas as condiıes contrariadas atØ o mÆximo da capacidade do
indivduo por uma laboriosa comunicaªo consciente. Para apreender toda a significaªo destas proposi ıes,
seria necessÆrio comparar este estado de coisas comas condiıes correspondentes nas outras espØcies d e
grupo.
Exceto no lder, a temerosidade torna-se a virtude suprema do indivduo neste tipo de grupo. A partici paªo
neste campo emocional significa uma elevaªo da cap acidade de fuga instantnea, assim que qualquer
membro do grupo experimente medo. Tal estado de coisas Ø muito desagradÆvel para o indivduo, que, afinal
de contas, retØm plena consciŒncia de seus desejoscomo adulto plenamente desenvolvido.
O grupo, freqentemente, estrutura-se como um grupo de dependŒncia a fim de evitar expDriŒncias
emocionais peculiares aos grupos de acasalamento e de luta-fuga. Sob alguns aspectos o grupo de
dependŒncia presta-se muito bem para isso, porque,como sugeri, ele pode restringir-se experiŒncia da fuga,
deixando o analista experimentar, se quiser, o que significa dirigir-se aos problemas de que o grupo estÆ
fugindo. Esta relaªo simbitica entre o grupo e eu mesmo o psiquiatra serve para proteger os membros do
grupo da ex-

periŒncia de certos aspectos da vida de grupo paraos quais nªo se sentem preparados. Sªo, assim,
deixados livres para efetuar exerccios no desenvol vimento de relaıes refinadas comigo. Digo
comigo porque as primeiras experiŒncias do grupo de dependŒncia de qualquer modo indicam que
existe uma acentuada incapacidade por parte dos indivduos no grupo em acreditar que tenham
possibilidade de prender algo de valor uns dos outros.
Do que disse, deveria ficar claro que os membros de um grupo num estado de esprito dependente
acham que suas experiŒncias sªo insatisfatrias. De qualquer modo, seu estado de nimo contrasta
com aquele que experimentam quando, havendo jogado todas as suas preocupaıes sobre o lder,
sentam-se e ficam esperando que Œle solucione todosos seus problemas. Graas s interpretaıes
que pude dar, eles nªo podem atribuir sua desilusªo imediata simplesmente ao meu fracasso em
efetuar aquilo que se supıe que um lder deste tipo de grupo deva fazer. De fato, se o grupo
abrigava alguma idØia desse tipo, s poderia ser po rque eu estava falhando completamente em
elucidar o que se estava passando. O ponto Ø que esta suposiªo bÆsica e o campo emocional que
lhe Ø concomitante produzem suas frustraıes caract ersticas, algumas mais aparentes para um dos
pacientes, outras para outro.
Quando a investigaªo do grupo de dependŒncia se de senvolve, torna-se possvel observar o
emergir de certas caractersticas que agora exigem atenªo. O grupo sempre torna claro que espera
que eu atue com autoridade como lder do grupo e eu aceito essa responabilidade, embora nªo da
maneira que o grupo espera. Nas primeiras fases, parece mais sensato pensar que essa autoridade
baseia-se na idØia de que sou mØdico e eles sªo pacientes, mas hÆ aspectos no comportamento do
grupo cujo emergir no decorrer do tempo mostra que a situaªo Ø mais complexa. A insistŒncia do
grupo em que ninguØm, a nªo ser eu prprio, tem qua lquer direito a exigir atenªo Ø igualada por
uma firme sensaªo de desapontamento pelo que fao; uma inabalÆvel

72

73

crena de que estªo justificados em pensar que me a cho qualificado pelo treinamento e pela experiŒnciaa
conduzir o grupo Ø igualada por uma indiferena qua se igualmente inabalÆvel por tudo o que digo.1
Se eu levar em conta a atmosfera emocional do grupo e seria preciso urna considerÆvel capacidade de
negaªo para nªo fazŒ-lo Ø claro que o grupo nªo estÆ interessado em compree nder o que tem importncia no
que digo, mas sim em utilizar apenas aquelas partes de minha contribuiªo que possa convenientemente
transformar naquilo que parece ser um corpo de crena jÆbem estabelecido. Gestos, tom de voz, maneiras,
aparŒncia e, em certas ocasiıes, atØ mesmo o assunt o do que falo: nada disso Ø perdido, se puder ser
encaixado naquele sistema. O grupo estÆ combinando-se para estabelecer um firme retrato do objeto de que
podØ depender.
A princpio, nªo Ø fÆcil identificar os traos dess e retrato, mas, mesmo assim, Ø claro que nªo sªo os traos de
um mØdico. A mesma sorte recai sobre qualquer outromembro do grupo que seja exaltado em meu lugar,
com o resultado de que os indivduos do grupo, sem exceªo, descobrem influenciar o grupo de uma manei ra
caprichosa e apenas obscuramente relacionada com os pensamento que estªo lutando para expressar. O
esforo que eu prprio fao Ø iluminar as obscurida des da situaªo no grupo por um pensamento claro,
nitidamente expresso; isso Ø, na melhor das vezes,uma ambiªo considerÆvel, mas, com o tempo, torna-s e
ntido que entre outros fatores que contribuem para tornar isso
1 Tem sido erroneamente dito que minha tØcnica se baseia na tØcnica de grupo sem lder, utilizada na seleªo,
em tempo de guerra, dos candidatos a oficiais do ExØrcito Britnico. Nªo Ø assim: um memorando que escrevi
em 1940 foi o estmulo para uma experiŒncia (efetuada pelo Dr. John Rickman no Hospital de EmergŒnciade
Wharncliffe) que se tornou posteriormente conhecida como a ExperiŒncia de Wharncliffe. A experiŒnciaue q
lÆ obteve foi utilizada por ele e por eu mesmo comoponto de partida para uma outra experiŒncia no Hospital
Militar de Northfield. A fama ou notoriedade conseguida por esta œltima tornou moeda corrente o nome
ExperiŒncia de Northfield. Esta denominaªo, desd e entªo, anhou respeitabilidade, ao destinar-se a
atividades mais de acordo com as sbrias tradiıes de disciplina e patriotismo pelas quais o ExØrcito
Britnico Ø justamente famoso.

uma meta difcil de alcanar acha-se a hostilidade do grupo a ela, como meta. A natureza desta
hostilidade pode ser melhor apreendida se for considerada como uma hostilidade a todo mØtodo
cientfico e, assim, como uma hostilidade a qualque r atividade que possa parecer estar-se
aproximando desse ideal. Serªo ouvidas queixas de q ue minhas observaıes sªo tericas; que nªo
passam de intelectualizaıes; que falta calor aos m eus modos; que sou abstrato demais. O estudo do
grupo durante um certo perodo mostrarÆ que, embora nªo haja necessidade de duvidar da
capacidade dos indivduos no grupo em trabalhar ard uamente, o grupo, como grupo, opıe-se
inteiramente idØia de que se reuniram para o fim de trabalhar e, na verdade, reagem como se
algum importante princpio seria infringido, se tiv essem de fazŒ-lo. Nªo entrarei em mais
pormenores sobre este assunto, mas, talvez, se o leitor quiser retornar a algumas de minhas
descriıes anteriores do comportamento no grupo, re conhecerÆ nelas alguns dos traos que estou
descrevendo (em particular, pÆg. 31 e pÆgs, 43-4). Sugerirei agora que todas as facetas de
comportamento no grupo de dependŒncia podem ser identificadas como relacionadas, se
supusermos que, neste grupo, acredita-se que o poder decorre nªo da ciŒncia, mas da magia. Uma
das caractersticas exigidas do lder do grupo, ent ªo, Ø que ele seja um mÆgico ou se comporte como
um. Os silŒncios num grupo de dependŒncia sªo, porconseguinte, expressıes da determinaªo em
negar ao lder o material que ele necessita para a investigaªo cientfica e, atravØs disso, impedir
desenvolvimentos que paream solapar a ilusªo de se gurana derivada de serem cuidados por um
mÆgico ou expressıes de devoªo adoradora-pelo lder, como mÆgico uma interpretaªo muitas
vezes serÆ seguida por um silŒncio que Ø muito mais um tributo de temor reverencial que uma pausa
para pensar.
Quando o grupo atinge esta fase de desenvolvimento, o psiquiatra poderÆ pensar que estÆ tratando
com resistŒncias no sentido comum dessa palavra, mas acredito que Ø mais frutfero considerar o
grupo como uma

74

75
comunidade que sente estar sendo feito um ataque hostil s suas crenas religiosas. Na verdade, Ø
muito comum descobrir que, neste estÆgio, as referŒ ncias religiªo sªo freqentes. s vezes o
indivduo identifica-se com o investigador e, outra s vezes, com o investigado. Se identificar-se com
o investigador, pode-se notar que ele assume um ar de auto-segurana um tanto artificial, como a
indicar que estÆ investigando uma interessante sobrevivŒncia do passado ou uma das religiıes bem
conhecidas do mundo, tais como o budismo ou o cristianismo. Este ar Ø assumido a fim de evitar ter
de compreender que estÆ investigandoin 1oco uma religiªo emocionalmente vital, cujos devotos
o circundam e estªo espera para cair-lhe em cima. Se o psiquiatra pressionar vigorosamente esta
investigaªo, deverÆ obter uma sensaªo vivida da h ostilidade do grupo e uma compreensªo
emocional da vitalidade dos fenmenos com que tem d e tratar. DeverÆ dar-se conta, tambØm, de que
terÆ de considerar nªo apenas osdogmas do culto, mas todos os fenmenos relacionados, tais como
as exigŒncias que o culto faz s vidas de seus fiØis. Algumas delas podem ser assistidas no prprio
grupo: a repressªo ao pensamento independente, a ca a s heresias, a rebeliªo que isto por sua vez
produz, as tentativas para justificar as limitaıes impostas por apelos razªo, ou, pelo menos,
racionalizaªo, e assim por diante. Outras manifest aıes, contudo, tornam-se claras no relato que os
indivduos dªo de sua vida cotidiana. Porque os de votos do grupo religiªo, rebeldes ou nªo,
permanecem devotos tambØm em sua vida de todos os dias, e Ø possvel demonstrar que alguns de
seus conflitos diÆrios originam-se- da tentativa dereconciliar as exigŒncias do pensamento
cotidiano e as demandas de sua filiaªo ao grupo co mo comunidade religiosa. As implicaıes
desta visªo do grupo sªo grandes e quanto mais vejo deste aspecto do grupo de dependŒncia, mais
convencido fico de que os pacientes produzem material num ritmo contnuo para sustentar a opiniªo
de que sua filiaªo ao grupo de dependŒncia, como s eita religiosa, exerce uma influŒncia ampla
sobre suas vidas mentais, tanto quan76

do o grupo se dispersa, quanto no curto perodo em que se encontram como um grupo.

Passarei agora a outro problema.

O DIO A APRENDER PELA EXPERI˚NCIA

Se o grupo tem de trabalhar constantemente para manter uma estrutura refinada, tem de
haver um impulso na direªo oposta, no sentido de u ma das trŒs estruturas bÆsicas, e Ø
importante encarar o grupo desse ngulo. Antes de f azŒ-lo, referir-me-ei sucintamente
necessidade de emprego de uma tØcnica de pontos devista constantemente cambiantes. O
psiquiatra deve ver, se puder, tanto o verso quanto o reverso de todas as situaıes. Tem de
empregar uma espØcie de deslocamento psicolgico qu e Ø melhor ilustrado pela analogia
com o seguinte e bem conhecido diagrama:

c
O observador pode olhar para Œle de maneira a ver uma caixa com a aresta AB mais
prxima de si ou pode encarÆ-lo como uma caixa cuja aresta mais prxima Ø CD. O total,
das linhas observadas permanece o mesmo, mas se obtØm uma visªo inteiramente diferente
da caixa. Similarmente, num grupo, o total do que estÆ acontecendo permanece o mesmo,
mas uma mudana de perspectiva pode ocasionar fenm enos inteiramente diferentes. O
psiquiatra nªo deve sempre esperar por mu77
a
A

danas no grupo antes de descrever o que vŒ. HÆ muitas ocasiıes em que ele precisa indicar
que aquilo que acabou de descrever jÆfoi experimentado pelo grupo em alguma ocasiªo
anterior, mas foi entªo mais facilmente observado e m outros termos, quando, por exemplo
(para tomar o caso de um indivduo), um paciente se queixou de uma considerÆvel
ansiedade sobre desmaiar. Outras vezes, descreveu o mesmo fenmeno como ficar
inconsciente. Num grupo posterior, dizia, um tanto gabolamente, que quando aconteciam
no grupo coisas de que ele nªo gostava, simplesment e ignorava-as. Seria possvel mostrar-
lhe que estava descrevendo exatamente a mesma situaªo, desta vez num estado de nimo
confiante, como noutra vez a descrevera, com ansiedade, como desmaiar. Sua atitude para
com os acontecimentos no grupo alterara-se com a alteraªo da suposiªo bÆsica do grupo.
Nem a analogia do verso e reverso, nem tampouco a da mudana de perspectiva, serve
realmente para abranger a tØcnica que um psiquatradeve empregar, de maneira que, para
tornar claro o que quero dizer, utilizarei a analogia fornecida pelos princpios da dualidade
na matemÆtica. Segundo estes, um teorema que provaa relaªo espacial de pontos, linhas e
planos parece igualmente provar a relaªo de seu du al em termos de planos, linhas e
pontos. No grupo, o psiquiatra deve considerar, de tempos em tempos, qual Ø o dual de
qualquer determinada situaªo emocional que tenha o bservado. DeverÆ considerar tambØm
se o dual da situaªo que acabou de descrever jÆnªo foi experimentado e descrito em
alguma sessªo anterior.
Apliquemos isto agora observaªo do grupo. O leit or deverÆ lembrar-se de que relatei,
que aps os grupos se reunirem, mas antes de sØ aco stumarem tØcnica, hÆ uma pausa
enquanto todos esperam que o grupo comece. muit o comum alguØm perguntar quando
comea o grupo. Ora, de um certo ponto de vista, a resposta perfeitamente simples Ø dizer
que o grupo comea s 10,30, ou seja qual for a hor a que foi estabelecida para a reuniªo,
mas uma deslocaªo de ponto de vista

(admito de uma certa magnitude) de minha parte, significa que estou assistindo a
fenmenos de grupo que nªo comeam; os assuntos e m que estou interessado continuam e
evoluem mas nªo comeam. No trabalho que realizo no grupo, dessa maneira, a questªo
nªo Ørespondida, embora se possa ver que, se o grupo se interessa em investir em mim
uma liderana de tipo diferente daquela que me prop onho exercer, pode-se facilmente
presumir que Ø assunto meu saber quando o grupo comea ou, a propsito, quando termina.
Nªo hÆ razªo por que nªo se deva dar a resposta que Ø esperada, desde que se esteja ciente
que o assunto Ø de uma certa importncia e envolve uma considerÆvel mudana de papel,
embora esse ponto possa nªo parecer evidente no mom ento atual.
Se, num grupo, tive sucesso em demonstrar a luta para manter a estrutura refinada, devo
tambØm ter obtido sucesso em demonstrar o seu dual. O que se segue Ø uma descriªo do
dual, embora, primeira vista, possa ser difcil compreender a sua afinidade com a
tentativa de preservar uma estrutura refinada.
Em todos os grupos serÆ comum, numa ocasiªo ou noutra, encontrar pacientes a queixar-se
de que o tratamento Ø longo, que eles sempre se esquecem do que aconteceu na sessªo
anterior; que nªo paream haver aprendido nada e qu e nªo percebam, nªo apenas o que as
interpretaıes tem a ver com seu caso, mas tambØm o que as experiŒncias emocionais para
as quais estou tentando atrair a atenªo possam imp ortar-lhes. Mostram tambØm, como na
psicanÆlise, que nªo possuem muita fØ em sua capaci dade de aprender pela experiŒncia: O
que aprendemos da Histria Ø que nªo aprendemos nad a da Histria.
Ora, tudo isto e muitas outras coisas semelhantes, na realidade, vem a resultar no dio a um
processo de desenvolvimento. Mesmo as queixas sobre o tempo, que parecem bastante
razoÆveis, destinam-se apenas a se lamentar um dosfatores essenciais do processo de
desenvolvimento. HÆ uma aversªo total a ter de aprender pela experiŒncia e uma falta de fØ
no valor de tal tipo

78

79

de aprendizagem. Uma pequena experiŒncia de gruposlogo mostrarÆ que isto nªo Ø simplesmente
uma atitude negativa; o processo de desenvolvimento estÆ sendo realmente comparado com algum
outro estado, cuja natureza nªo Ø imediatamente aparente. A crena neste outro estado amiœde se
mostra na vida cotidiana, talvez mais claramente na crena do escolar no heri que nunca faz
qualquer trabalho e, apesar disso, encontra-se sempre no auge da forma o oposto do caxias, na
verdade.
No grupo, torna-se muito claro que esta alternativa sonhada para o procedimento do grupo Ø, na
realidade, algo como chegar a ficar inteiramente preparado, como um adulto apto por instinto a
saber exatamente, sem treinamento ou desenvolvimento, como viver, movimentar-se e levar sua
existŒncia num grupo.
Existe apenas um espØcie de grupo e uma espØcie dehomem que se aproximam deste sonho, e sªo o
grupo bÆsico o grupo dominado por uma das trŒs suposiıes bÆsicas: dependŒncia, acasalamento e
fuga ou luta e o homem que Ø capaz de perder sua identidade no rebanho.
Nªo sugiro, por um s momento, que este ideal corre sponda realidade, porque, naturalmente, toda
a experiŒncia terapŒutica de grupo demonstra que grupoo e os indivduos nele acham-se
desesperanadamente dedicados a um processo de dese nvolvimento, seja o que for que tenha
acontecido a nossos ancestrais remotos.
Minha experiŒncia de grupos, na verdade, indica queo homem estÆ desesperanadamente
comprometido com ambos estados de coisas. Em qualquer grupo pode-se ver o homem que tenta
identificar-se irrestritamente com a suposiªo bÆsi ca ou com a aparŒncia refinada. Se ele se
identificar irrestritamente com a suposiªo bÆsica com o rebanho, por assim dizer sentir-se-Æ
perseguido por aquilo que sente ser o Ærido intelectualismo do grupo e, em particular, das
interpretaıes. Se se identificar, atØ onde tem pos sibilidade de fazŒ-lo, com a aparŒncia puramente
intelectual, descobrir-se-Æ perseguido por objetosinternos, que, suspeito

Øu, sªo realmente uma forma de consciŒncia das intimaıes dos moviments emocionais do
grupo de que Ø membro; certamente, alguma explicaª o deste tipo ajudaria a lanar luz
sobre o sentimento que tem o indivduo de estar sen do perseguido pelo grupo, tanto interna
quanto externamente.
No grupo, o paciente sente que deve tentar cooperar. Descobre que sua capacidade de
cooperaªo Ø emacionalmente mais vital no grupo bÆsico e que, na perseguiªo a objetivos
que nªo se prestam facilmente s tØcnicas do grupo bÆsico, sua capacidade de cooperar
depende de uma espØcie de toma lÆ dÆ cÆ que Ø conse guida com grande dificuldade,
comparada com a rÆpida reaªo emocional que provØm da aquiescŒncia s emoıes do
grupo bÆsico.
No grupo, o indivduo dÆ-se conta de capacidades que sªo apenas potenciais enquanto se
REVISÃO
1
DINAMICA DE GRUPO

Utilizando sua experiência psicanalítica, Freudt tentou iluminar algumas das obscuridades
reveladas por Le Bon, McDougall e outros em seus estudos do grupo humano. Proponho
discutir o procedimento dos modernos desenvolvimentos da psicanálise, particularmente os
associados com a obra de Melanle Klein, sobre os mesmos problemas; sua obra mostra que
no próprio início da vida o indivíduo se encontra em contato com o seio e, por rápida extensão
da consciência primitiva, com o grupo familiar. Além disso, demonstrou que a natureza deste
contato apresenta qualidades peculiares a ela própria, as quais são de profunda significação,
tanto no desenvolvimento do indivíduo, quanto para uma compreensão mais plena dos
mecanismos já demonstrados pelo gênio intuitivo de Freud.
Espero demonstrar que, em seu contato com as complexidades da vida num grupo, o adulto
lança mão, no que pode ser urna regressão maciça, de mecanismos descritos por Melanie
Kiein (1931, 1946) como típicos das primeiras fases da vida mental. O adulto tem de
estabelecer contato com a vida emocional do grupo em que vive; esta tarefa pareceria ao
adulto tão formidável quanto a relação com o seio parece ser à criança, e o fracasso em
atender às exigências dessa tarefa é revelado em sua regressão. A crença de que existe um
grupo, distinto de urna reunião de indivíduos, faz parte essencial dessa regressão, bem como
as características com
1 Principalmente em Totem e Tabu (1913) e Psicologia de Grupo e a Análise do Ego (1921).

129
____________________ A’

que o suposto grupo é dotado pelo indivíduo. É dada substância à fantasia de que o grupo existe
pelo fato de a regressão envolver o indivíduo numa perda de sua ‘distintividade individual’ (Freud,
1921, pág. 9), indistinguível da despersonalização, e, dessa maneira, obscureçer a observação de
que a agregação é composta de indivíduos. Decorre dissó que se o observador julga um grupo como
em existência, os indivíduos que a compõem devem haver experimentado essa regressão.
Inversamente, se os indivíduos que compõem um ‘grupo’ (utilizando essa palavra para significar
uma agregação de indivíduos, todos no mesmo estado de regressão), por uma razão ou outra, ficam
ameaçados pela consciência de sua distintividade individual, então o grupo se encontra no estado
emocional conhecido como pânico. Isto não significa que o grupo éstá-se desintegrando, e ver-se-á
mais tarde que não concordo que, no pânico, o grupo perca o seu caráter coesivo.
Neste trabalho, resumirei certas teorias a que cheguei pela aplicação a grupos das intuições
desenvolvidas pelo treinamento psicanalítico atual. Estas teorias diferem de muitas outras, tanto em
méritos quanto em defeitos, por serem deduzidas nas situações de tensão emocional que elas
pretendem descrever. Introduzo alguns conceitos novos à psicanálise, em parte por tratar de um
assunto diferente e em parte porque desejo ver se um começo não perturbado por teorias anteriores
poderá conduzir a um ponto em que minhas opiniões sobre o grupo e as opiniões psicanalíticas
sobre o indivíduo poderão ser comparadas e, por isso, julgadas complementares ou divergentes.
Há ocasiões em que penso que o grupo tem uma atitude em relação a mim e que posso enunciar em
palavras qual seja essa atitude; há outras em que outro indivíduo atua como se ele também pensasse
que o grupo tem uma atitude a seu respeito e acredito que posso deduzir qual é a sua crença; há, por
fim, ocasiões em que penso que o grupo tem uma atitude em relação a um indivíduo e que posso
dizer qual seja ela. Estas ocasiões fornecem a matéria-prima sobre a qual as interpretações
130
se baseiam, mas a própria interpretação é uma tentativa de traduzir em termos precisos o
que suponho ser a atitude do grupo para comigo ou para com algum outro indivíduo ou do
indivíduo para com o grupo. Apenas algumas dessas ocasiões são utilizadas por mim;
considero a ocasião como madura para uma interpretação quando esta parece ser tanto
óbvia quanto inobservada.
Os grupos em que tenho tentado desempenhar esse papel atravessam uma série de
complexos episódios emocionais. que permitem a dedução de teorias de dinâmica de grupo
que achei úteis, tanto no esclarecimento do que está acontecendo, quanto na exposição dos
núcleos de novos desenvolvimentos. O que se segue é um resumo dessas teorias.
O GRUPO DE TRABALHO
Em qualquer grupo podem ser discernidas tendências de atividade mental. Todo grupo, por
casual que seja, encontra-se para ‘fazer’ algo; nesta atividade, de acordo com as
capacidades do indivíduo, eles cooperam. A cooperação é voluntária e depende, em certo
grau, da habilidade refinada do indivíduo. A participação nesta atividade só é possível a
indivíduos com anos de treinamento e uma capacidade de experiência que lhes permitiu
desenvolver-se mentalmente. Uma vez que esta atividade acha-se ligada a uma tarefa, ela se
encontra relacionada com a realidade, seus métodos são racionais e, dessa maneira, embora
em forma embriônica, é científica. Suas características são semelhantes àquelas atribuídas
por Freud (1911) ao ego. Chamei de Grupo de Trabalho esta faceta da atividade mental
num grupo. O termo abrange apenas a atividade mental de um tipo particular, não as
pessoas que se entregam a ela.
Quando os pacientes se encontram para uma sessão de terapêutica de grupo, pode-se
sempre observar que uma certa atividade mental é dirigida à solução dos problemas para os
quais os indivíduos buscam ajuda. A se131

4
guir, uni exemplo de uma fase passageira num grupo assim:
Seis pacientes e eu estamos sentados em volta de uma sala pequena. A Srta. A. sugere que seria
uma boa idéia os membros concordarem em chamar-se por seus nomes de batismo.’ Há um certo
alívio de que um tópico de conversa tenha sido mencionado, olhares são trocados e um esboço de
animação sintética torna-se momentaneamente visível. O Sr. B. arrisca que isso seria uma boa idéia
e o Sr. C. diz que ‘tornaria as coisas mais amistosas’. A Srta. A. é incentivada a divulgar seu nome,
mas a Srta. D. antecipa-se a ela, dizendo não gostar de seu primeiro nome e preferir que ele não seja
conhecido.
O Sr. E. sugere pseudônimos; a Srta. F. examina as unhas da mão. Passados alguns minutos da
sugestão da Srta. A., a discussão definhou e seu lugar foi ocupado por olhares furtivos, dos quais
um número crescente é dirigido na minha direção. O Sr. B. desperta para dizer que temos de
chamar-nos mutuamente de algo. O estado de espírito é agora um misto de ansiedade e frustração
crescentes. Muito antes de ser mencionado, é claro que meu nome tornou-se uma preocupação para
o grupo. Abandonado a seus próprios artifícios, o grupo promete passar à apatia e ao silêncio.
Para meus fins atuais, apresentarei os aspectos do episódio que ilustrem meu emprego da expressão
‘grupo de trabalho’. No próprio grupo, também poderia fazer o mesmo, mas isso dependeria de
minha avaliação da significação do episódio no contexto da vida mental do grupo, até onde ela
havia então surgido. Em primeiro lugar, é claro que se sete pessoas terão de conversar juntas, será
útil para o debate haver nomes disponíveis. Até onde a discussão surgiu através da consciência
desse fato, ela é um produto da atividade do grupo de trabalho. Mas o grupo foi mais longe que a
proposição de dar um passo que seria útil em qualquer grupo, qualquer que seja a sua tarefa. Fez-se
a proposta de os nomes de batismo serem usados porque isso contribuiria
1 Ver também a discussão do tabu sobre nomes em Totem e Tabu, de Freuci (1913), (Ed. Standard Bras.,

Vol. XIII, pág. 75, IMAGO Edi tora 1974).

para a amistosidade. No grupo de que estou falando, seria exato dizer que a produção de
amistosidade era encarada como estritamente pertinente às necessidades terapêuticas. No
ponto de sua história de que o exempio foi tirado, seria também verdadeiro dizer que tanto
a objeção da Srta. D., quanto a solução proposta pelo Sr. E., seriam encaradas como ditadas
pela necessidade terapêutica; e, de fato, indiquei que as sugestões ajustavam-se numa
teoria, ainda não explicitamente afirmada, de que nossas doenças seriam curadas se o grupo
pudesse ser conduzido de maneira que somente emoções agradáveis fossem
experimentadas. Ver-se-á que a demonstração da função do grupo de trabalho deve incluir:
o desenvolvimento de pensamento projetado para ser traduzido em ação; a teoria (neste
exemplo, a necessidade de amistosidade) em que se baseia; a crença na modificação
ambiental como em si própria suficiente para a cura, sem qualquer mudança correspondente
no indivíduo e, finalmente, uma demonstração do tipo de fato que se acredita ser ‘real’.
No exemplo que forneci, aconteceu que pude subseqüentemente demonstrar que a função
do grupo de trabalho, embora eu não o chamasse assim, baseada na idéia de que a cura
podia ser obtida de um grupo em que apenas sentimentos agradáveis fossem
experimentados, não parecia haver produzido a cura esperada e, na verdade, estava sendo
obstruída por um certo tipo de dificuldade em conseguir uma tradução limitada pelo ato
aparentemente simples de designar nomes. Antes de passar à discussão da natureza das
obstruções à atividade do grupo de trabalho, mencionarei aqui uma dificuldade que já deve
ser evidente na exposição de minhas teorias. Para mim, descrever um episódio de grupo, tal
como o que estive discutindo, e, depois, tentar dele a dedução de teorias, destina-se apenas
a dizer que possuo uma teoria de que aconteceu isso e aquilo e que só posso enunciá-la de
novo numa linguagem diferente. A única maneira pela qual o leitor pode livrar-se do
dilema é procurando lembrar-se de alguma comissão ou de outra reunião de que tenha
participado e considerar até
‘4

132

133

1
que ponto pode recordar-se de exemplos que possam apontar para a existência do que chamo função
do grupo de trabalho, sem esquecer a estrutura administrativa real, com presidente e tudo o mais,
como material a ser incluído em sua rememoração.
AS SUPOSIÇÕES BÁSICAS
As interpretações em termos de atividade de grupo de trabalho deixam muita coisa sem ser dita:
seria o uso sugerido de pseudônimos motivado apenas com a finalidade de atender às exigências da
realidade? Os olhares furtivos, a preocupação com o modo correto de dirigir-se ao analista, que se
tornam inteiramente claros subseqüentemente, não podem ser proveitosamente interpretados como
relacionados com a função do grupo
de trabalho.*
.A atividade do grupo de trabalho é obstruída, desviada e ocasionalmente ajudada por certas outras
atividades mentais que possuem em comum o atributo de poderosos impulsos emocionais. Estas
atividades, à primeira vista caóticas, recebem uma certa coesão se se presumir que se originam de
suposições básicas comuns a todo o grupo. No exemplo que dei, foi fácil reconhecer que uma das
suposições comuns a todo o grupo era a de que se haviam reunido para receber de mim alguma
forma de tratamento. Mas a exploração desta idéia como parte da função do grupo de trabalho
demonstrou que existem idéias investidas de realidade por força da emoção a elas ligada, as quais
não se acham em conformidade mesmo com a expectativa um tanto ingênua conscientemente
cultivada pelos membros menos refinados. Ademais, mesmo indivíduos refinados (um dos
membros, por exemplo, era formado em ciências) mostraram por seu comportamento que
partilhavam dessas idéias.
A primeira suposição é a de que o grupo se reúne a fim de ser sustenlado por um líder de quem
depende para nutrição, tanto material quanto espiritual, e proteção. Assim enunciada, a primeira
suposição básica

poderia ser encarada como uma repetição de minha observação acima, isto é, de que o
grupo supunha que ‘se haviam reunido para receber de mim alguma forma de tratamento’,
somente diferindo dela por se achar enunciada em termos metafóricos. Mas o ponto
essencial é que a suposição básica só pode ser compreendida Se as palavras em que a
enunciei são tomadas como literais e não metafóricas.
Temos aqui a descrição de um grupo terapêutico em que a suposição de dependência, como
a chamarei, acha-se em ação:
Três mulheres e dois homens estavam presentes. O grupo havia, numa ocasião anterior,
mostrado sinais de uma função de grupo de trabalho dirigida para a cura da incapacidade de
seus membros; nesta ocasião, poder-se-ia supor haverem eles reagido a isso com desespero,
colocando toda a sua confiança em mim para pôr em ordem suas dificuldades, ao mesmo
tempo em que se contentavam individualmente em fazer perguntas a que eu deveria
fornecer as respostas. Uma das mulheres havia trazido um pouco de chocolate, do qual
timidamente convidou sua vizinha da direita, outra mulher, a partilhar. Um dos homens
estava comendo um sanduíche. Um graduado em filosofia, que em sessões anteriores
dissera ao grupo não acreditar em Deus e não possuir religião, ficou sentado em silêncio,
como, na rerdade, freqüentemente fazia, até que uma das mulheres, com um toque de
aspereza no tom de voz, observou que ele não havia feito perguntas. Ele respondeu: ‘Não
preciso falar porque sei que tenho de vir aqui bastante tempo e todas as minhas perguntas
serão respondidas sem ter que fazer coisa alguma’.
Eu disse então que me havia tornado uma espécie de divindade do grupo; que as perguntas
me eram dirigidas como a alguém que soubesse as respostas sem necessidade de precisar
valer-se de trabalho, que o ato de comer fazia parte de uma manipulação do grupo destinada
a dar substância a uma crença que desejavam preservar a meu respeito e que a resposta do
filósofo indicava uma descrença na eficácia da oração, mas parecia,
1,

134

135

sob outros aspectos, desmentir afirmações anteriores que fizera, a respeito de sua falta de fé em
Deus. Quando comecei minha interpretação achava-me não apenas convicto de sua veracidade, mas
também não sentia dúvidas de poder convencer os outros pelo confronto com a massa de material
(da qual somente posso transmitir um pouco neste relato impresso). Na ocasião em que terminei de
falar, senti haver cometido algum tipo de gafe; achava-me cercado por olhares inexpressivos e a
evidência havia desaparecido. Após certo tempo, o homem, que havia terminado seu sanduíche e
colocado o papel cuidadosamente dobrado no bolso, olhou em volta da sala, as sobrancelhas
ligeiramente levantadas, com interrogação no olhar. Uma mulher olhou tensamente para mim,
enquanto que outra, com as mãos juntas, mirava meditativamente o chão. Começou a solidificar-se
em mim a convicção de que fora culpado de blasfêmia num grupo de verdadeiros fiéis. O segundo
homem, com o braço pendido sobre as costas de sua cadeira, brincava com os dedos. A mulher que
estava comendo engoliu apressadamente o resto de seu chocolate. Intrpretei então que me havia
tornado uma pessoa muito ruim, a lançar dúvidas sobre a divindade do grupo, mas que isto fora
seguido por um aumento de ansiedade e culpa quando o grupo fracassou em dissociar-se da
impiedade.
Neste relato, demorei-me sobre minhas próprias reações no grupo por uma razão que espero poder
tornar mais evidente posteriormente. Pode ser justamente argumentado que interpretações para as
quais as provas mais fortes residem, não nos fatos observados no grupo, mas nas reações subjetivas
do analista, têm mais probabilidades de encontrar sua explicação na psicopatologia do analista que
na dinâmica do grupo. É uma crítica justa, uma crítica que terá de ser enfrentada por anos de
trabalho cuidadoso, por mais de um analista, mas, exatamente por essa razão, deixá-la-ei de lado
agora e passarei a enunciar uma asserção que defenderei durante todo este trabalho. É ela a
seguinte: no tratamento de grupo, muitas interpretações e, entre elas, as mais importantes têm de
— —

ser feitas fiando-se nas


136

próprias reações emocionais do analista. Acredito que estas reações dependem do fato de o analista
no grupo encontrar-se na extremidade receptora daquilo que Melanie Klein (1946) chamou de
identificação projetiva e que esse mecanismo desempenha um papel muito importante nos grupos.
Ora, a experiência da contratransferência me parece possuir uma qualidade inteiramente distinta,
que permite ao analista diferenciar a ocasião em que é objeto de uma identificação projetiva daquela
em que não o é. O analista sente que está sendo manipulado de maneira a desempenhar um papel,
por difícil de ide,ntificar que este eja, na fantasia de outrem ou que o seria se não fosse por aquilo
que, rememorando, só posso chamar de uma perda temporária de compreensão interna (insight),
uma sensação de experimentar sentimentos intensos e, ao mesmo tempo, a crença de que a
existência destes é inteira e apropriadamente justificada pela situação objetiva, sem recorrer a
explicações recônciitas de sua causação. Do ponto de vista do analista, a experiência consiste em
duas fases estreita- mente relacionadas: na primeira, existe a impressão de que, seja o que for que se
tenha feito, não se deu certamente uma interpretação correta; na segunda, há uma sensação de ser-se
um tipo especial de pessoa, numa situação emocional especial. Acredito que a capacidade para
sacudir a paralisante sensação de realidade concomitante a este estado é o primeiro requisito para o
analista no grupo; se puder fazer isso, encontrar-se-á em posição para dar o que acredito ser a
interpretação correta e, assim, perceber a sua ligação com a interpretação anterior, de cuja validade
foi levado a duvidar.
Tenho de voltar para considerar a segunda suposição básica. Como a primeira, esta tafnbém se
refere ao propósito para o qual o grupo se reuniu. Minha atenção foi pela primeira vez despertada
por uma sessão em que a conversa era monopolizada por um homem e uma mulher que pareciam
mais ou menos ignorar o restante do grupo. A troca ocasional de olhares entre os outros parecia
sugerir a opinião, não muito seriamente sustentada, de que a relação era amorosa, embora
dificilmente
137
4

se pudesse dizer que o conteúdo manifesto da conversa fôsse muito diferente de outras
trocas de palavras efetuadas pelo grupo. Fiquei, no entanto, impressionado pelo fato de que
indivíduos que são geralmente sensíveis a qualquer exclusão de uma atividade
supostamente terapêutica e que, naquela ocasião, haviam vindo para falar e obter uma
‘interpretação’ de mim ou de algum outro membro do grupo, parecessem não se importar
em deixar o palco inteiramente àquele par. Posterior- mente, tornou-se claro que o sexo do
par não tinha conseqüências particulares para a suposição de que um acasalamento se
estava efetuando. Havia um ar especial de confiança e expectativa sobre essas sessões que
as tornava bastante diferentes do costumeiro passar de horas entediante e frustrante. Não se
deve supor que os elementos para os quais chamarei a atenção, sob o nome de grupo de
acasalamento, acham-se exclusiva ou mesmo predominantemente em evidência. Na
verdade, há muitas provas de estados de espírito do tipo com que estamos familiarizados na
psicanálise; seria na verdade extraordinário, para dar um exemplo, se não se visse nos
indivíduos mostras de reação a uma situação de grupo que poderia ser aproximada a uma
representação da cena primária. Entretanto, em minha opinião, permitir que nossa atenção
seja absorvida por essas reações é tornar difícil qualquer observação daquilo que é peculiar
ao grupo. Além disso, penso que tal concentração, na pior das hipóteses, pode conduzir
mais a uma psicanálise aviltada que a uma exploração das possibilidades terapêuticas do
grupo. O leitor deve pois presumir que nisto, como em outras situações, haverá sempre uma
pletora de material familiar a uma psicanálise, mas ainda aguardando sua avaliação na
situação do grupo. Proponho-me, de momento, ignorar esse material e voltar-me-ei agora
para a consideração do ar de expectativa prometedora que mencionei como característica do
grupo de acasalamento. Ele geralmente encontra expressão verbal em idéias de que o
casamento ponha fim às incapacidades neuróticas; que a terapêutica de grupo revolucionará
a sociedade quando se houver espalhado

suficientemente; que a estação vindoura primavera, verão, outono, inverno, segundo for o caso
— —

será mais agradável; que alguma nova espécie de comunidade um grupo melhorado deveria ser
— —

desenvolvida etc. Estas expressões tendem a distrair a atenção para algum acontecimento
supostamente futuro, mas, para o analista, o ponto crucial não é um acontecimento futuro, mas o
presente imediato o próprio sentimento de esperança. Este sentimento é característico do grupo de

acasalamento e deve em si próprio ser tomado como prova de que esse grupo se acha em existência,
mesmo quando parecem faltar outras provas. É, ele próprio, tanto um precursor da sexualidade
como uma parte dela. As idéias otimistas verbalmente expressas são racionalizações destinadas a
efetuar um deslocamento no tempo e uma transigência com os sertimentos de culpa o gozo do

sentimento é justificado pelo apelo à um resultado que se supõe moralmente irrepreensível. Os


sentimentos assim associados ao grupo de acasalamento encontram-se no pólo õpôsto aos
sentimentos de ódio, destrutividade e desespêro. Para que os sentimentos de esperança sejam
sustentados, é essencial.que o ‘líder’ do grupo, diferentemente dos líderes do grupo de dependência
e do grupo de luta-fuga, esteja por nascer. Será uma pessoa ou uma idéia que salvará o grupo na

realidade, dos sentimentos de ódio, destrutividade ou desespero de seu próprio grupo ou de outro —,

mas a fim de. realizar isso, evidentemente, a esperança messiânica nunca deve ser alcançada.
Apenas enquanto permanece sendo uma esperança, é que a esperança persiste. A dificuldade é que,
graças à racionalização da sexualidade inicial do grupo, a premonição do sexo que intervém como
esperança, há uma tendência para o grupo de trabalho ser influenciado na direção da criação de um
Messias, seja ele pessoa, idéia ou Utopia. Na medida em que isso acontece, a esperança é
enfraquecida, porque, obviamente, nada existe então a esperar e, uma vez que a destrutividade, o
ódio e o desespero não foram, de modo algum, radicalmente influenciados, sua existência de novo
se faz sentir. Isto, por sua vez, acelera um novo

138

139

enfraquecimento da esperança. Se, para fins de debate, aceitarmos a idéia de que o grupo deveria
ser manejado a fim de alcançar a esperança no grupo, então será necessário que aqueles que se
interessam por tal missão, seja na capacidade de membros de um grupo especializado de trabalho tal
como o que descrevi sucintamente, seja como indivíduos, possam providenciar para que as
esperanças messiânicas não se materializem. O perigo, naturalmente, é que tais grupos
especializados de trabalho padeçam de excesso de zelo e interfiram assim com funções do grupo de
trabalho criativas e inocentes ou, alternativamente, deixem-se ser antecipados e, assim, colocados
na aflitiva necessidade de liquidar com o Messias e, depois, recriar a esperança messiânica. No
grupo terapêutico, o problema é capacitar o grupo a se dar conscientemente conta dos sentimentos
de esperança e de suas filiações e, ao mesmo tempo, mostrar-se tolerante com eles. O fato de ser
tolerante com eles no grupo de acasalamento é uma função da suposição básica e não pode ser
encarado como sinal de desenvolvimento individual.
A terceira suposição básica é de que o grupo reuniu-se para lutar com alguma coisa ou dela fugir.
Ele está preparado para assumir qualquer das duas atitudes, indiferentemente. Chamo a este estado
de espírito de grupo de luta-fuga; o líder aceito de um grupo neste estado é aquele cujas exigências
sobre o grupo são sentidas como concedendo oportunidades para a fuga ou para a agressão e se fizer
exigências que não sejam essas, será ignorado. Num grupo terapêutico, o analista é o líder do grupo
de trabalho. O amparo emocional que ele pode comandar acha-se sujeito a variações acordes à
suposição básica ativa e até o ponto em que suas atividades são sentidas como ajustadas àquilo que
é exigido de um líder nesses diferentes estados de espírito. No grupo de fuga-luta, o analista
descobre que as tentativas de esclarecer o que está acontecendo são obstruídas pela facilidade com
que se obtém apoio emocional para tais propostas, segundo expressem ódio a qualquer dificuldade
psicológica ou, alternativamente, o meio pelo
140

qual se pode dela escapar. Neste contexto, observaria que a proposta de usar nomes de batismo, no
primeiro exemplo que dei, bem poderia ter sido interpretada como expressão do desejo de fuga num
grupo de luta-fuga, embora, na realidade, por razões ligadas à fase de desenvolvimento que o grupo
havia atingido, eu a tenha interpretado em termos de função do grupo de trabalho.
CARACTERÍSTICAS COMUNS A TODOS OS GRUPOS DE SUPOSIÇÃO BÁSICA
A participação na atividade da suposição básica não exige treinamento, experiência ou
desenvolvimento mental. Ela é instantânea, inevitável e instintiva: não senti a necessidade de
postular a existência de um instinto gregário para explicar os fenômenos a que assisti no grupo.1
Em contraste com a função do grupo de trabalho, a atividade de suposição básica não faz sobre o
indivíduo exigências de uma capacidade a cooperar, mas depende de possuir aquele o que chamo de
valência termo tomado de empréstimo à física para expressar a capacidade de combinação

instantânea e involuntária de um indivíduo com outro para partilhar e atuar segundo uma suposição
básica. A função do grupo de trabalho acha-se sempre à mostra com uma e apenas uma suposição
— —

básica. Embora a função do grupo de trabalho possa permanecer inalterada, a suposição básica
contemporânea que impregna suas atividades pode mudar com freqüência; pode haver duas ou três
modificações a cada hora ou ser a mesma suposição básica dominante por meses a fio. Para explicar
a sorte das suposições básicas inativas, postulei a existência de um sistema protomental em que a
atividade física e a atividade mental são indiferenciadas e que fica fora do campo comumente
considerado como aproveitável para as investigações psicológicas. Deve-se manter em mente
1 Em contraste com W. Trotter (1916), mas de acordo com Freud (1921, pág. 3).
141

¶1

que ser um campo apropriado à investigação psicológica depende de outros fatores, além da
natureza do campo a ser investigado, sendo um deles a potência da técnica psicológica de
investigação. A identificação de um campo de medicina psicossomática ilustra a
dificuldade que espera qualquer tentativa dê determinar a linha que separa os fenômenos
psicológicos dos fenômenos físicos. Dessa maneira, proponho deixar indeterminados os
limites que separam a suposição básica ativa daquelas que releguei ao hipotético sistema
protomental.
Muitas técnicas se acham em uso cotidiano para a investigação da função do grupo de
trabalho. Para a investigação dos fenômenos de suposição básica, considero a psicanálise,
ou alguma extensão técnica derivada diretamente dela, como essencial. Entretanto, como as
funções do grupo de trabalho são sempre impregnadas por fenômenos de suposição básica,
é claro que as técnicas que ignoram os últimos darão impressões enganadoras das
primeiras.
As emoções associadas com as suposições básicas podem ser descritas pelos termos
costumeiros de ansiedade, medo, ódio, amor e outros semelhantes. No entanto, as emoções
comuns a qualquer suposição básica são sutil e mutuamente afetadas, como se fossem
experimentadas numa combinação peculiar à suposição básica ativa, ou seja, a ansiedade no
grupo de dependência possui uma qualidade diferente da ansiedade que aparece no grupo
de acasalamento e o mesmo acontece com outros sentimentos.
Todas as suposições básicas incluem a existência de um líder, embora no grupo de
acasalamento, como já disse, o líder seja ‘inexistente’, isto é, futuro. Este líder não precisa
ser identificado com qualquer indivíduo do grupo; não necessita ser nem mesmo uma
pessoa, mas pode identificar-se com uma idéia ou um objeto inanimado. No grupo de
dependência, o lugar de líder pode ser preenchido pela história do grupo. Um grupo, a
queixar-se de uma incapacidade de lembrar o que acontecera numa ocasião anterior, põe-se
a fazer um registro de suas reuniões. Este registro torna-se então uma

‘bíblia’ à qual se apela se, por exemplo, o indivíduo em que o grupo investiu a liderança mostra ser
constituído de material refratário à moldagem na semelhança própria ao líder de dependênçia. O
grupo vale-se da elaboração da bíblia quando é ameaçado por uma idéia cuja aceitação acarretaria
desenvolvimento por parte dos indivíduos que compreendem o grupo. Tais idéias derivam força
emocional e excitam oposição emocional de sua associação com características apropriadas ao líder
do grupo de acasalamento. Quando o grupo de dependência ou o grupo de luta-fuga é ativo, efetua-
se um combate para suprimir a nova idéia, porque se sente que seu surgimento ameaça o status
quo. Na guerra, a idéia nova seja ela um carro de combate ou um novo método de seleção de

oficiais é sentida com simples ‘moda’, ou seja, oposta à bíblia militar. No grupo de dependência,

ela é sentida como ameaçando o líder dê dependência, seja esté ‘bíblia’ ou pessoa. Mas o mesmo
também é verdadeiro em relação ao grupo de acasalamento, porque aqui a nova idéia ou pessoa,
sendo equiparada ao gênio futuro ou Messias, deve, como disse antes, permanecer futura, se é que
se quer que ela preencha a função do grupo de acasalamento.
FORMAS ABERRANTES DE MUDANÇA DE UMA SUPOSIÇÃO BÁSICA PARA OUTRA
A mudança na mentalidade do grupo não precisa ser devida ao deslocamento de uma suposição
básica por outra e pode assumir certas formas aberrantes que dependem de qual seja a suposição
básica que se encontra ativa quando a tensão aumenta. Estas formas aberrantes sempre envolvem
um grupo estranho. Se o grupo ativo é o de dependência e é ameaçado por pressão do líder do grupo
de acasalamento, especialmente, talvez, sob a forma de uma idéia banhada de esperança messiânica,
então, se métodos tais como o apelo à elaboração bíblica mostrarem-se inapropriados, a ameaça é
enfrentada pela provocação do influxo de outro grupo. Se

142

143

o grupo ativo é o de luta-fuga, a tendência é absorver outro grupo. Se o grupo ativo é o de


acasalamento, a tendência é ao cisma. Esta última reação pode parecer anômala, a menos
que se recorde que no grupo de acasalamento a esperança messiânica, seja ela pessoa ou
idéia, tem de permanecer irrealizada. O ponto crucial da questão reside na ameaça da idéia
nova a exigir o desenvolvimento e na incapacidade dos grupos de suposição básica em
tolerá-lo. Desenvolverei posteriormente as razões para isso.
O GRUPO ESPECIALIZADO DE TRABALHO
Existem certos grupos especializados de trabalho, para os quais Freud chamou a atenção
(1921, págs. 41 e segs.) embora não sob este nome, e cuja tarefa tende especialmente a
estimular a atividade de uma determinada suposição básica. Grupos típicos desta natureza
são apresentados pela Igreja ou pelo Exército. A Igreja está sujeita à interferência de
fenômenos de grupo de dependência e o Exército sofre de uma sujeição semelhante a
fenômenos de. grupo de luta-fuga. Mas uma outra possibilidade tem de ser considerada, ou
seja, a de que esses grupos sejam germinados pelo grupo principal de que constituem uma
parte para o propósito específico de neutralizar, respectiva- mente, o grupo de dependência
e o grupo de luta-fuga, Impedindo, dessa maneira, sua obstrução da função do grupo de
trabalho do grupo principal. Se adotarmos a última hipótese, deve-se considerar um
fracasso do grupo especializado de trabalho se a atividade grupal dependente ou de luta-
fuga deixar de manifestar-se dentro dos grupos especializados de trabalho ou crescer com
uma intensidade esmagadora. Em qualquer dos casos, o resultado é o mesmo: o grupo
principal tem de assumir as funções próprias ao grupo especializado de trabalho e, ainda,
preencher suas funções de grupo de trabalho. Se o grupo especializado de trabalho não
pode enfrentar ou não enfrenta os fenômenos de suposição básica

que são de sua jurisdição, então as funções do grupo de trabalho do grupo principal ficam viciadas
pela pressão dessas suposições básicas. Como a função do grupo de trabalho consiste
essencialmente na tradução de pensamentos e sentimentos em comportamentos adaptados à
realidade, é má adaptação dar expressão às suposições básicas, porque estas tornam-se perigosas
proporcional- mente à tentativa que é feita de traduzi-las em ação. Na verdade, o grupo
especializado de trabalho tende a reconhecer isso e o demonstra pela tentativa de executar o
processo inverso, isto é, traduzir a ação nos termos da mentalidade de suposição básica—

procedimento muito mais seguro. Dessa maneira, uma Igreja, quando lhe é apresentada alguma
notável realização da função do grupo de trabalho, recomendará ao grupo que a agradeça à sua
divindade e não à sua capacidade de trabalho duro e realístico non nobis, Domine. A Igreja

próspera e bem sucedida, do ponto de vista do facilitamento da função do grupo de trabalho, deve
combinar o fortalecimento da crença religiosa com a insistência de que nunca se deve agir segundo
ela; o serviço de combate bem sucedido deve incentivar a crença de qualquer coisa poder ser feita
pela força, desde que ela nunca seja usada. Em ambos os casos, chegamos ao seguinte:
a mentalidade de suposição básica não se presta à tradução em ação, uma vez que a ação, para
manter contacto com a realidade, exige a função do grupo de trabalho.
No pequeno grupo terapêutico, quando o grupo de dependência acha-se ativo, a tendência é
produzir um subgrupo que assume então a função de interpretar o líder do grupo de dependência —

geralmente situado no analista para o grupo. No grupo de fuga-luta, um subgrupo semelhante


desempenha uma função similar. Se o analista provar um material resistente, estará sujeito a evocar
reações que já descrevi como associadas com a ameaça da idéia nova.
Mencionei acima (pág. 125) que uma aristocracia pode constituir o grupo especializado de trabalho
que desempenha para o grupo de acasalamento funções se-

144

145

melhantes àquelas que Igreja e Exército desempenham para os grupos de dependência e de


fuga-luta, respectivamente. A função deste subgrupo é fornecer um escoadouro para
sentimentos centrados em idéias de procriação e nascimento, isto é, para a esperança
messiânica, que, como já sugeri, é uma precursora do desejo sexual, sem nunca despertar o
medo de que tais sentimentos dêem origem a um fato que exij a o desenvolvimento. A
aristocracia deve inspirar a esperança messiânica, mas, ao mesmo tempo, também a
confiança de que o líder do grupo de acasalamento, caso se materialize, nascerá num
palácio mas será exatamente igual a nós próprios, ‘democrático’ sendo provavelmente a
expressão corrente para designar a qualidade desejada. No grupo terapêutico, o subgrupo
‘aristocrático’ geralmente auxilia o grupo a compreender que a idéia nova é uma idéia com
que ele já se acha inteiramente familiarizado.
SUPOSIÇÕES BÁSICAS, TEMPO E
DESENVOLVIMENTO
Há duas características da mentalidade de suposição básica para as quais gostaria de
chamar a atenção. O tempo não desempenha parte alguma nela; trata-se de uma dimensão
da função mental que não é reconhecida e, conseqüentemente, todas as atividades que
exijam uma consciência de tempo são imperfeitamente compreendidas e tendem adespertar
sentimentos de perseguição. As interpretações da atividade no nível das suposições básicas
deixam a descoberto uma relação imperturbada com o tempo. A segunda característica, que
já mencionei antes, é a ausência de qualquer processo de desenvolvimento como parte da
mentalidade de suposição básica: os estímulos ao desenvolvimento defrontam-se com uma
reação hostil. Compreender-se-á que isto é um tema de importância para qualquer grupo
que pretenda, pelo estudo do grupo, promover um desenvolvimento terapêutico da
compreensão interna (ifl146

sight). A hostilidade assim engendrada tende a determinar que a reação ao surgimento da pessoa ou
idéia messiânica assumirá uma forma aberrante, em vez de dissipar-se na mudança cíclica de uma
suposição básica para outra porque, se um grupo desej a impedir o desenvolvimento, a maneira
mais simples de Í’azê-lo é permitir-se ser esmagado pela mentalidade de suposição básica e, assim,
aproximar-se da única espécie de vida mental em que uma capacidade de desenvolvimento não é
exigida. A compensação principal por tal deslocamento parece ser o aumento de uma sensação
agradável de vitalidade.
A defesa que o cisma concede contra a idéia ameaçadora de desenvolvimento pode ser vista no
funcionamento dos grupos cismáticos, ostensivamente opostos, mas, na realidade, promovendo o
mesmo fim. Um determinado grupo adere ao grupo de dependência, amiúde sob a forma de grupo
‘bíblia’. Este grupo populariza as idéias estabelecidas, despojando-as de qualquer qualidade que
possa exigir um esforço penoso e, por esse meio, assegura a adesão numerosa daqueles que se
opõem às dores do desenvolvimento. O pensamento fica assim estabilizado num nível que é cediço
e dogmático. O grupo recíproco, supostamente apoiando a idéia nova, torna-se tão rigoroso em suas
exigências que deixa de efetuar recrutamento. Dessa maneira, ambos os grupos evitam a penosa
reunião de primitivos e refinados que constitui a essência do conflito de desenvolvimento. Os
cismáticos superficiais mas numerosos são assim contraditados pelos cismáticos profundos mas
numericamente insignificantes. O resultado lembra-nos do temor algumas vezes expresso de que
uma sociedade reproduz copiosamente seus membros menos cultos enquanto que as pessoas
‘melhores’ permanecem teimosamente estéreis.
RELAÇÃO DE UMA SUPOSIÇÃO BÁSICA COM OUTRA
Podemos agora reconsiderar os três grupos de suposição básica e o grupo de trabalho, para ver se
eles não
147

4
são capazes de converter-se em algo de mais fundamental. Admitindo-se que o postulado das
suposições básicas ajuda a dar forma e significado ao complexo e caótico estado emocional que o
grupo põe à mostra para o investigador participante, não existe ainda uma explicação razoável da
razão pela qual tais suposições devam existir. É claro que nenhuma das três suposições básicas
sobre o grupo afasta satisfatoriamente o medo do grupo e suas emoções, pois, doutra maneira, não
haveria nenhum dos deslocamentos e mudanças de uma para outra, nem necessidade da formação
por mim delineada dos correspondentes grupos de trabalho especializados. Todas as três suposições
básicas contêm a idéia de um líder. O grupo de fuga-luta mostra uma total ausência de
reconhecimento da compreensão como técnica. Todas se opõem ao desenvolvimento que, em si,
depende da compreensão. O grupo de trabalho, por outro lado, reconhece a necessidade tanto da
compreensão quanto do desenvolvimento. Se considerarmos os grupos de trabalho especializados,
todos os três estão relacionados com assuntos que parecem residir fora da jurisdição das suposições
básicas com que parecem estar primariamente relacionados. Assim, o grupo de trabalho
especializado da suposição básica de dependência não se encontra livre de preocupações com idéias
messiânicas que parecem ser mais da esfera da atividade do grupo de acasalamento que do grupo de
dependência. Os esforços aqui parecem achar-se devotados a um Messias nascido fora dos laços do
casamento, num leito de palhas ou numa mangedoura, com um dos pais sendo excelso (filha do
faraó ou a Divindade) e o outro menos idealizado. No grupo de acasalamento, o subgrupo
aristocrático permite pais ilustres, matrimônio e um berço palacial, mas a criança é notável apenas
por ser igual ao resto de nós. Um exame dos fatos parece conduzir a uma dificuldade central em
reunir amor sexual, pais iguais, uma criança como nós, a esperança messiânica que considero um
componente essencial do amor sexual e uma compulsão a desenvolver-se que, em si, tem
necessidade de uma capacidade de com-
148

preensão. O grupo de fuga-luta expressa um sentimento de incapacidade para compreender e para o


amor sem o que a compreensão não pode existir. Mas o líder do grupo de luta-fuga traz de volta à
consideração um dos componentes temidos: uma aproximação com o pai temível ou com a criança.
Além disso, os três grupos de suposição básica parecem, por sua vez, reuniões de indivíduos a
partilhar entre si características de um caráter, a situação edípica, que depende daquela suposição
básica que se encontra ativa. O paralelo com os caracteres da situação edípica é, no entanto,
marcado por importantes divergências. A relação parece ser entre o individuo e o grupo, mas o
grupo é sentido como um indivíduo fragmentado, com outro, oculto, na espera. O indivíduo oculto é
o líder e, embora isto pareça contradizer a afirmação constantemente reiterada de que o analista é o
líder, a contradição se resolve se for lembrado que no grupo terapêutico o analista é o líder do grupo
de trabalho e se se prestar atenção às muitas indicações de que ele é suspeito de liderar, mas, na
aparência, apenas raramente é percebido como liderando. É muito comum, em minha experiência,
ser-me dito que não estou tomando parte alguma no grupo, nem mesmo dando ao grupo uma
possibilidade de saber quais são as minhas opiniões, embora a probabilidade seja a de que eu esteja
falando mais do que qualquer outro. O ponto essencial aqui, como sempre num grupo, é o
sentimento de que a idéia expressa se acompanha e o ponto que desejaria enfatizar de novo é que
sou imaginado como a liderar o grupo, mas não percebido como tal.
No plano emocional, em que as suposições básicas são dominantes, as figuras edípicas, como
indiquei, podem ser discernidas no material tal como o são numa psicanálise, mas elas incluem um
componente do mito de Ëdipo sobre o qual pouco foi dito; esse componente é a esfinge. Enquanto
sou sentido como líder da função do grupo de trabalho e o reconhecimento desse fato acha-se

raramente ausente eu e a função do grupo


149

-J

de trabalho com que estou identificado somos investidos de sentimentos que seriam inteiramente
apropriados à enigmática, meditativa e perguntadora esfinge de quem a catástrofe emana. Na
verdade, empregam-se às vezes têrmos, em ocasiões em que minha intervenção provocou mais que
a ansiedade costumeira, que mal precisam de interpretação para capacitar o grupo a apreender a
semelhança. Não sei de experiência que demonstre mais claramente que a experiência de grupo o
temor com que uma atitude questionante é encarada. Esta ansiedade não se dirige somente ao
questionador mas também ao objeto da inquirição e é, segundo suspeito, secundária ao último,
porque o grupo, sendo o objeto da inquirição, desperta ele próprio temores de um tipo
extremamenteprimitivo. Minha impressão é de que ele chega demasiadamente perto, nas mentes dos
indivíduos que o compõem, de fantasias muito primitivas sobre o conteúdo do corpo da mãe 1 A
tentativa de ofetuar uma investigação racional da dinâmica do grupo é assim perturbada por
temores, e por mecanismos de lidar com eles que são característicos da posição esquizo-paranóide.
A investivação não pode ser efetuada sem a estimulação e a ativação desses níveis.
Encontramo-nos agora em posição melhor para considerar se as suposições básicas são capazes de
converter-se em algo de mais fundamental. Já chamei a atenção para o fato de que estes três estados
de espírito possuem semelhanças mútuas que me conduziriam a supor que podem não ser
fenômenos fundamentais, mas antes expressões ou reações contra algum estado mais digno de ser
encarado como primário. De fato, embora tenha considerado a hipótese das suposições um auxílio
valioso para colocar ordem no caos do material de uma sessão de grupo, logo se torna claro que
nova investigação exige hipóteses novas. A necessidade (e o caminho para as hipóteses que
poderiam satisfazê-la) tornou-se aparente para mim ao considerar o que poderia precipitar a
mudança de uma suposição básica para
1 Melanie Klein.
150
outra. Incluo nesta discussão as formas aberrantes que já descrevi.
Em resumo, qualquer que seja a suposição básica ativa, a investigação revela que os elementos da
situação emocional acham-se tão intimamente associados a fantasias das ansiedades primitivas que
o grupo é compelido, sempre que a pressão da ansiedade torna-se grande demais, a empreender unta
ação defensiva. Abordadas deste nível primitivo, as suposições básicas assumem um aspecto
diferente do que apresentam nas descrições que já forneci. O impulso a acasalar-se pode agora ser
visto como possuindo um componente derivado da ansiedade psicótica associada com conflitos
edípicos primitivos a operar sobre uma base de relações de objetos parciais. Esta ansiedade compele
os indivíduos a buscar aliados. Tal deri4vação do impulso a acasalar-se é mascarada pela explicação
aparentemente racional de que, no grupo de acasalamento, o motivo é sexual e o objetivo, a
reprodução.
Mas se o grupo de acasalamento é ativo, descobrimos novamente que muitos de seus componentes
acham-se próximos demais a primitivos objetos parciais para fugir à identificação com eles, de
maneira que é apenas uma questão de tempo antes de a ansiedade psicótica ser despertada com uma
força tal que nova defesa tem de ser achada. Imaginemos que ela assume a forma do grupo de luta-
fuga, ou seja, a liberação de ódio que encontra um escoadouro em ataques destrutivos a um suposto
inimigo ou numa fuga ao objeto odiado. A indiferença do grupo para com o indivíduo e, mais ainda,
a sua incapacidade de fugir por este meio à primitiva cena primária, conduzem novamente à
liberação da ansiedade e à necessidade de outra mudança de suposição básica.
Ver-se-á por esta descrição que as suposições básicas surgem agora como formações secundárias a
uma cena primária extremamente antiga, representada num nível de objetos parciais e associada
com uma ansiedade psicótica e mecanismos de divisão e identificação projetiva tais como os que
Melanie Xlein descreveu como ca151

4
racterísticos das posições esqulzo-paranóide e depressiva. A introjeção e a projeção do grupo,2 que
é ora o investigador temido, ora o temido objeto de investigação, constituem uma parte essecial do
quadro e ajudam a acrescentar confusão à cena, a menos que sejam reconhecidos por serem muito
ativos.
A visão clássica da cena primária não vai suficientemente longe para tratar com a dinâmica do
grupo. Devo acentuar o ponto de que considero essencial elaborar muito completamente a cena
primária primitiva, tal como se revela no grupo. Esta última difere acentuadamente da cena primária
em sua descrição clássica pelo fato de ser muito mais bizarra e parecer assumir que uma parte de
um dos pais, o seio ou o corpo da mãe, contém, dentre outros objetos, uma parte do pai. Em seu
trabalho sobre as primeiras etapas do conflito edípico, Melanie Klein (1928 e também 1945)
fornece uma descrição destas fantasias tal como as descobriu no processo da análise individual (ver
Paula Heimann, 1952 b). A experiência de grupo parece-me fornecer amplo material para sustentar
a opinião de que estas fantasias são de importância primordial para o grupo. Quanto mais
perturbado é o grupo, mais facilmente discerníveis são estas fantasias e mecanism6s primitivos;
quanto mais estável é ele, mais corresponde à descrição freudiana do grupo como sendo uma
repetição de padrões dos grupos de família e mecanismos neuróticos. Contudo, mesmo no grupo
‘estável’ os níveis psicóticos profundos devem ser demonstrados, mesmo que isso envolva,
temporariamente, um aparente aumento na ‘doença’ do grupo.
2 A maneira pela qual isto aparece na psicanálise é descrita por Paula Heimann (1952 b).

3 Vale a pena observar que a descrição de Melanie Klein da reação psicótica aos objetos externos em

seu trabalho sobre as ‘Etapas Primitivas do Conflito Edipiano’ (1928) é acentuadamente semelhante
à reação do grupo às idéias. A elaboração de ‘bíblias’ é uma das formas de defesa contra elas.
RESUMO
Antes de passar a discutir pontos de vista psicanalíticos do grupo, penso ser necessário sumariar as
teorias que descrevi até agora. Deverá ser lembrado que tentei deliberadamente, até onde isso é
possível a um psicanalista que admite propor-se investigar o grupo através de intuições
psicanaliticamente desenvolvidas, despojar-me de quaisquer teorias psicanalíticas anteriores sobre o
grupo, a fim de atingir uma visão isenta de preconceitos. Em resultado, cheguei a uma teoria do
grupo como dando mostras de funções de grupo de trabalho juntamente com um comportamento,
muitas vezes de intenso colorido emocional, que sugeria que os grupos se achavam reagindo
emocionalmente à uma das três suposições básicas. A idéia de que tais suposições básicas são
efetuadas involuntária, automática e inevitavelmente pareceu útil para esclarecer o comportamento
do grupo. Não obstante, há muita coisa a sugerir que estas supostas ‘suposições básicas’ não podem
ser encaradas como estados de espírito distintos. Por isso não quero dizer que afirme serem
explicações ‘básicas’ que, entre elas, expliquem toda a conduta no grupo isso, na verdade, seria de

um absurdo extravagante mas que cada êstado, mesmo quando é possível diferenciá-lo com

razoável certeza dos outros dois, tem em si uma qualidade que sugere ser ele, de algum modo, o
dual ou recíproco de um dos outros dois, ou, talvez, simplesmente outra visão daquilo que se
pensou ser uma suposição básica diferente. Por exemplo; a esperança messiânica do grupo de
acasalamento possui certa semelhança com a divindade grupal do grupo de dependência. Pode ser
difícil perceber porque o tom emocional apresentado é tão diferente. Ansiedade, medo, ódio, amor,
todos, como disse, existem em cada grupo de suposição básica. A modificação que os sentimentos
sofrem em combinação no respectivo grupo de suposição básica pode surgir porque o ‘cimento’,
por assim dizer, que os une uns aos outros é a culpa e a depressão no grupo de dependência, a
esperança messiânica no grupo de acasala-

152

153

mento e a ira e o ódio no grupo de luta-fuga. Seja como for, o resultado é que o conteúdo ideativo
da discussão pode parecer um resultado enganadoramente diferente nos três grupos. É possível às
vezes sentir que o gênio por nascer do grupo de acasalamento é muito semelhante ao deus do grupo
de dependência e, certamente, naquelas ocasiões em que o grupo de dependência apela paraa
autoridade de um líder ‘passado’, o grupo se aproxima muito do grupo de acasalamento, que apela
para um líder ‘futuro’. Em ambos, o líder não existe; há uma diferença de tempo gramatical e unia
diferença na emoção.
Reitero estes pontos para mostrar que a hipótese das suposições básicas por mim apresentada não
pode ser encarada como sendo uma formulação rígida.
O PONTO DE VISTA PSICANALÍTICO
As teorias de Freud sobre o grupo derivam-se do seu estudo da transferência. Uma vez que a relação
de acasalamento da psicanálise pode ser encarada como parte da situação grupal maior, poder-se-ia
esperar, pelas razões que já forneci, que a relação de transferência fosse colorida pelas
características associadas com o grupo de acasalamento. Se a análise é considerada como parte da
situação grupal total, deveríamos esperar encontrar elementos sexuais salientes no material ali
apresentado, e as suspeitas e hostilidades da psicanálise como sendo uma atividade sexual ativa
naquela parte do grupo que é, de fato, excluída da análise.
De sua experiência da análise, Freud pode deduzir a significação de dois daqueles grupos que
chamamos de grupos de trabalho especializados, Exército e Igreja, mas não discutiu o grupo de
trabalho especializado que dá mais importância à procriação e, dessa maneira, tem mais
possibilidades de ter de lidar com os fenômenos de grupo de acasalamento, a saber, a aristocracia.
Se a aristocracia estivesse interessada simplesmente na realidade externa, sua atividalo assemelhar-
se-ia muito mais ao
154

trabalho de um departamento de genética de uma universidade do que na realidade se assemelha.


Mas o interesse mostrado pela procriação não possui a aura científica que associaríamos com a
atividade mental dirigida para a realidade externa: trata-se de um grupo de trabalho especializado
expelido (split 0ff) para tratar com os fenômenos de grupo de acasalamento aproximadamente da
mesma maneira que o Exército tem de tratar com os fenômenos de luta-fuga e a Igreja com os
fenômenos de grupo de dependência. Dessamaneira, a relação desse subgrupo com o grupo
principal não será determinada pelo grau de fidelidade aos estritos princípios genéticos com os
quais ele conduz seus assuntos, mas antes pela eficiência com que satisfaz a exigência do grupo
principal de que os fenômenos do grupo de ‘acasalamento sejam tratados de maneira que as funções
de grupo de trabalho do grupo total não sejam obstruídas por impulsos emocionais oriundos daquela
fonte. Embora houvesse expressamente desaprovado qualquer estudo do problema que não fosse
superficial (1913, págs. 75 e segs.) e efetuasse suas observações no decorrer de uma discussão das
opiniões de Le Bon, McDougall e Wilfred Trotter, Freud (1921, passim) de fato possuía ampla
experiência do grupo e do que significava ser um indivíduo apanhado em suas tensões emocionais —

como indiquei por minha descrição da posição que a psicanálise tem possibilidade de ocupar num
grupo em que ela estimula um grupo de acasalamento.
Freud (1930, págs. 44 e segs.) diz que a psicologia individual e a psicologia de grupo não podem ser
de modo algum diferenciadas, porque a psicologia do indivíduo é, ela própria, uma função da
relação existente entre uma pessoa e outra. Objeta ele que é difícil atribuir ao número uma
significação tão grande a ponto de torná-lo capaz de, por si próprio, despertar em nossa vida mental
um novo instinto que, doutra maneira, não seria colocado em jogo. Neste ponto, acho que Freud tem
razão: em ocasião alguma deparei-me com fenômenos que exigissem ser explicados pela postulação
de um instinto gregário. O indivíduo é e sempre foi um mem155
-j

bro de um grupo, mesmo se sua filiação a este consiste em comportar-se de maneira a dar
realidade a uma idéia de que ele não pertence absolutamente a um grupo. O indivíduo é um
animal de grupo em guerra tanto com o grupo como com aqueles aspectos de sua
personalidade que constituem sua ‘grupalidade’ (groupishness). Freud (1921, pág. 29)
limita esta guerra a uma luta com a ‘cultura’, mas espero demonstrar que isto exige
ampliação.
McDougall e Le Bon parecem falar como se a psicologia de grupo passasse a existir apenas
quando um certo número de pessoas se reúnem em um só lugar, a um só .tempo, e Freud
não desaprova isso. Por minha parte, não é necessário abrir exceções para tornar o estudo
possível: a reunião de indivíduos só é necessária do mesmo modo que é necessário ao
analista e ao analisando reunirem-se para que a relação de transferência seja demonstrável.
Somente pela reunião fornecem-se as condições apropriadas para a demonstração das
características do grupo; apenas se os indivíduos aproximam-se o suficiente uns dos outros
é que é possível dar uma interpretação sem gritar; igualmente, é necessário que todos os
membros do grupo possam testemunhar a evidência em que as interpretações se baseiam. É
por estas razões que o número dos participantes do grupo e o grau de dispérsão deve ser
limitado. A reunião do grupo num determinado lugar, numa hora determinada, é, por estas
razões mecânicas, importante, mas não possui significação para a produção dos fenômenos
de grupo; a idéia de que possui origina-se da impressão de que uma coisa deve começar no
momento em que sua existência torna-se demonstrável. Na verdade, nenhum indivíduo, por
mais isolado que esteja no tempo e no espaço, deve ser encarado como externo a um grupo
ou não possuidor de manifestações ativas de psicologia de grupo. Não obstante, a existência
do comportamento grupal é, como disse, claramente mais fácil de demonstrar e até mesmo
de observar se o grupo é reunido e penso ser este aumento de facilidade de observação e de
demonstração o responsável pela idéia de um instinto gregário, tal como

o que Trotter postula, ou das diversas outras teorias que já mencionei, as quais, em última análise,
equivalem à idéia de que um grupo é mais do que a soma de seus membros. Minha experiência,
segundo evidência, convence-me de que Freud estava certo em rejeitar qual- qual conceito desse
tipo como desnecessário. A aparente diferença entre a psicologia de grupo e a psicologia individual
é urna ilusão produzida pelo fato de que o grupo coloca em realce fenômenos que parecem
estranhos a um observador desacostumado a utilizar o grupo.1. 2
Atribuo grande força e influência ao grupo de trabalho, o qual através de sua preocupação com a
realidade, é compelido a empregar os métodos da ciência, de forma rudimentar que seja; a despeito
da influência das suposições básicas e, às vezes, em harmonia com elas, a longo prazo é o grupo de
trabalho que triunfa. Le Bon disse que o grupo nunca anseia pela verdade. Concordo com a opinião
de Freud dada particularmente ao discutir o papel desempenhado pelo grupo na produção da

linguagem,3 canções populares, folclore, etc. de que, ao dizer isso, Le Bon foi injusto para com o

grupo. Quando McDougall diz que as condições no grupo altamente organizado afastam ‘as
desvantagens psicológicas da formação do grupo’, ele aproxima-se de minha opinião de que a
função do grupo de trabalho especializado é manejar a suposição básica de maneira a impedir a
obstrução do grupo de trabalho Freud descreve o problema como sendo procurar para o grupo
‘precisamente aqueles aspectos que foram característicos do indivíduo e nele se extinguiram pela
formação do grupo’. Postula ele um indivíduo externo ao grupo primitivo que possuía sua própria
continuidade, sua autoconsciência,
1 Ver a discussão destes temas nas págs. 129 e segs.

2 Trata-se também de uma questão de desenvolvimento histórico: existem aspectos do

comportamento de grupo que parecem estranhos, a menos que haja uma certa compreensão da obra
de Melanie Klein sobre as psicoses. Ver particularmente os trabalhos sobre a formação de smbo1os
e mecanismos esquizóides. Desenvolverei este argumento mais tarde.
3 Posteriormente, neste trabalho, discutirei um dos aspectos do desenvolvimento da linguagem.

156

157

suas tradições e costumes, suas próprias funções e posições particulares. Diz que, devido ao seu
ingresso num grupo ‘não organizado’, o indivíduo perdeu sua distintividade por algum tempo.
Penso que a luta do indivíduo para preservar sua distintividade assume características diferentes de
acordo com o estado de espírito do grupo em qualquer momento dado. A organização grupal
fornece estabilidade e permanência ao grupo de trabalho, que é sentido como mais facilmente
submerso pelas suposições básicas se o grupo não for organizado. A distintividade individual não
faz parte da vida de um grupo que está agindo segundo as suposições básicas. A organização e a
estrutura são as armas do grupo de trabalho, são o produto da cooperação entre os membros do
grupo, e seu efeito, uma vez estabelecido naquele, é exigir ainda mais cooperação dos indivíduos
que lhes são pertencentes. A este respeito, o grupo oganizado de MeDougali é sempre um grupo de
trabalho e nunca um grupo de suposição básica. Um grupo a agir segundo a suposição básica não
precisaria de organização nem de capacidade de cooperação. A contraparte da cooperação no grupo
de suposição básica é a valência uma função espontânea e inconsciente da qualidade gregária na

personalidade do homem. É apenas quando um grupo começa a agir segundo uma suposição básica
que as dificuldades surgem. A ação inevitavelmente significa contato com a realidade e este
compele à consideração pela ver• dade; o método científico é imposto e segue-se a evocação do
grupo de trabalho. Le Bon descreveu o líder como alguém sob quem uma reunião de seres humanos
instintivamente se coloca, aceitando sua autoridade como chefe deles, O líder deve ajustar-se ao
grupo em suas qualidades pessoais e deve, ele próprio, ser sustentado por uma intensa fé, a fim de
despertar a fé do grupo. Sua visão do líder como alguém que deve ajustar-sD ao grupo em suas
qualidades pessoais é compatível com minha opinião de que qualquer líder é ignorado pelo grupo
quando seu comportamento ou característica caem fora dos limites estabelecidos pela suposição
básica prevalente. Ademais, o líder deve ser sustentado

pela mesma ‘fé’ que sustenta o grupo não a fim de despertar a fé do grupo, mas porque tanto a

atitude do grupo como a do líder são funções da suposição básica ativa.


A distinção de MeDougali (1920, pág. 45) entre o simples grupo ‘não organizado’ e o grupo
‘organizado’ parece-me aplicar-se não a dois grupos diferentes mas sim a dois estados de espírito
que podem ser observados coexistindo no mesmo grupo. O grupo ‘organizado’, por razões que já
forneci, tem possibilidades de apresentar os traços característicos do grupo de trabalho; o ‘não
organizado’, do grupo de suposição básica. Freud discute as opiniões de McDougall, citando sua
descrição do grupo ‘não organizado’. Com referência à sugestionabilidade do grupo, penso que ela
depende de qual seja a sugestão. Se esta se incidir dentro dos termos da suposição básica ativa, o
grupo a seguirá; se não, o grupo a ignofará. Esta característica parece-me surgir muito claramente
no pânico, ao qual me referirei posterior- mente.
McDougall, discutido por Freud na passagem acima mencionada, esboça certas cóndições
necessárias para elevar o nível da vida mental coletiva. ‘A primeira dessas condições’, diz ele
(1920, pág. 49), ‘que é a base de todo o resto, é um certo grau de continuidade de existência do
grupo.’ Isto me convence de que, com o grupo organizado, McDougall está descrevendo aquilo que
chamo de grupo de trabalho. Meyer Fortes (1949), debatendo as opiniões de Radcliffe Brown sobre
a estrutura social, particularmente a distinção entre ‘estrutura como uma realidade concreta
realmente existente’ e ‘forma estrutural’, diz que a distinção acha-se associada com a continuidade
da estrutura social através do tempo. Em minha opinião, a continuidade da estrutura social através
do tempo é uma função do grupo de trabalho. Meyer Fortes afirma que o fator tempo na estrutura
social não é de modo algum uniforme em sua incidência e acrescenta que todos os grupos de
corporações, por definição, devem possuir continuidade. Tal como com a discussão de McDougall
dos grupos organizados e não

158

159

organizados, assim como com a incidência do fator tempo, não acredito que estejamos
tratando de dois tipos diferentes de grupos, no sentido de duas reuniões dif e- rentes de
indivíduos, mas sim com duas categorias diferentes de atividade mental, a coexistirem no
mesmo grupo de indivíduos. Na atividade do grupo de trabalho o tempo é intrínseco; na
atividade da suposição básica, ele não encontra lugar. As funções do grupo de suposição
básica são ativas antes que o grupo se reúna numa sala e continuam após o grupo haver-se
dispersado. Não há desenvolvimento nem decadência nas funções de suposição básica e, a
este respeito, elas diferem totalmente das do grupo de trabalho. Dessa maneira, é de se
esperar que a observação da continuidade do grupo no tempo produzirá resultados
anômalos e contraditórios se não foi reconhecido que dois tipos diferentes de
funcionamento mental operam dentro do grupo ao mesmo tempo. O homem que pergunta
‘Quando é que o grupo se reúne de novo?’ está-se referindo, na medida em que fala sobre
fenômenos mentais, ao grupo de trabalho. O grupo de suposição básica não se dispersa nem
se reúne e referências ao tempo não possuem significado para ele. Conheci um grupo de
homens inteligentes, para os quais as horas das sessões eram perfeitamente conhecidas, que
expressou ira porque a sessão havia terminado e foi inteiramente incapaz, por um tempo
apreciável, de apreender um fato que não poderia ser matéria de dúvida na mentalidade do
grupo de trabalho. Aquilo que é ordinàriamente chamado de impaciência deve, portanto, no
grupo de suposição básica, ser considerado como uma expressão da ansiedade que é
despertada por fenômenos intrinsecamente combinados a uma dimensão que a mentalidade
de suposição básiëa nada conhece. É como se um cego se desse conta de fenômenos que só
poderiam ser compreendidos por alguém a quem as propriedades da luz fossem familiares.
Eu descreveria os princípios de McDougafl para elevar a vida mental coletiva a um nível
mais elevado como sendo uma expressão da tentativa de evitar a obstrução do grupo de
trabalho pelo grupo de suposição básica. Sua

segunda condição acentua a necessidade de possuir o indivíduo uma visão clara dos objetivos do
grupo de trabalho. Seu quarto ponto sente a falta da existencia de um corpo de tradições, costumes e
hábitos nas mentes dos membros do grupo que determine suas relações mútuas e com o grupo como
um todo; istb se aproxima da opinião platônica de que a harmonia do grupo deve basear-se na
função individual e na firmeza com que o indivíduo se restringe a ela. No entanto, possui também
afinidades com a opinião de Santo Agostinho, expressa no 19.0 Livro de A Cidade de Deus, de que
uma relação correta com os seus semelhantes só pode ser atingida por um homem que
primeiramente regulou sua relação com Deus. Isto parece contradizer minha afirmação de que
McDougall está interessado, em sua descrição do grupo organizado, principalmente em fenômenos
do grupo de trabalho. A diferença entre os dois escritores pareceria ser esta: McDougall está
interessado em enfrentar as suposições básicas pelo fortalecimento da capacidade que tem o grupo
de trabalho de manter contato com a realidade externa, enquanto que Santo Agostinho elabora uma
técnica pela qual um grupo de trabalho especializado se forma com a função específica de manter
contato com a suposição básica, em particular com a suposição básica dependente. Vale a pena
lembrar que ele estava interessado em defender o cristianismo contra a acusação de haver solapado
tanto o moral que Roma fora incapaz de resistir à arremetida de Alanco. Noutros termos, surgira um
corpo ou um grupo que se achava sob a suspeita de haver tratado com as suposições básicas de
maneira menos eficiente que a de seus predecessores pagãos. Santo Agostinho se acha
inconfortavelmente preocupado em refutar isso. Trata-se de uma entalada com a qual aqueles que
pretendem liderar o público ou o grupo encontram-se familiarizados: a estimulação e a manipulação
da suposição básica, especialmente quando feitas pois de alguma maneira sempre têm de ser feitas

—sem algo que se assemelha a um conhecimento apropriado ou mesmo uma consciência do que se
está fazendo, tem de condu 1

160

161
zir a resultados adversos e, às vezes, até mesmo ao banco dos réus.
Considerarei agora aquela parte da discussão de Freud que gira em torno da afirmação de que, num
grupo, as emoções de um indivíduo se tornam extraordinariamente intensificadas, enquanto que sua
capacidade intelectual fica acentuadamente reduzida. A respeito disto, terei algo a dizer
posteriormente, quando considerar o grupo do ponto de vista do indivíduo, mas desejo, no
momento, abordar o assunto, como Freud (1921, pág. 33) faz, como um fenômeno de grupo. Nos
grupos que estudei foi natural para o grupo esperar que eu tomasse a liderança de organizar suas
atividades. Como tiro vantagem da posição que me é assim concedida para conduzir o grupo para a
demonstração da dinâmica grupal, a ‘organização’ do grupo nãp’ faz o que McDougali diz que a
organização do grupo deve fazer. O desejo de um grupo ‘organizado’, no sentido que lhe dá
McDougall, é frustrado. O temor à suposição básica, que não pode ser satisfatoriamente tratada pela
estrutura e pela organização, expressa-se assim pela supressão da emoção, sendo esta uma parte
essencial das suposições básicas. A tensão assim produzida aparece ao indivíduo como constituindo
uma intensificação da emoção: a falta de estrutura promove a intromissão do grupo de suposição
básica e, uma vez que em tal grupo, como já disse, a atividade intelectual é de um tipo
extremamente limitado, o indivíduo, conformando-se com o comportamento imposto pela
participação no grupo de suposição básica, sente como se sua capacidade intelectual estivesse sendo
reduzida. A crença de ‘que isto é realmente assim é reforçada porque o indivíduo tende a ignorar
toda atividade intelectual que não se ajuste à suposição básica. Na realidade., não creio de modo
algum que haja uma redução da capacidade intelectual no grupo, nem tampouco que ‘as grandes
decisões no campo do pensamento e das descobertas e soluções significativas só são possíveis a um
indivíduo que trabalhe na solidão’ (McDougall, 1920), embora a crença de tal acontecer seja
comumente expressa na discussão grupal
162

e todos os tipos de planos sejam elaborados para enganar a influência supostamente perniciosa das
emoções do grupo. Na verdade, forneço interpretações porque acredito ser possível num grupo uma
atividade intelectual de alta ordem, juntamente com uma consciência (e não uma evasão) das
emoções dos grupos de suposição básica. Se se achar que a terapêutica de grupo possui um valor,
acredito que ele reside na experiência consciente da atividade grupal deste tipo.
Freud volta-se para a discussão de algo que surge sob uma variedade de nomes, tal como ‘sugestão’,
‘imitação’, ‘prestígio dos líderes’, ‘contágio’. Utilizei ‘valência’, em parte porque assim evitaria os
significados que já aderem aos termos que relacionei e em parte porque o termo ‘valência’, tal
como usado em física para mostrar o poder de combinação dos átomos, traz consigo a maior aura de
sugestividade que é útil para meus fins. Por ele, significo a capacidade que tem o indivíduo de
combinar-se instantaneamente com outros indivíduos segundo um padrão estabelecido de
comportamento as suposições básicas. Posteriormente, considerarei com maiores pormenores qual

o significado que devemos atribuir a este termo, quando estiver tratando da opinião psicanalítica
sobre a contribuição do indivíduo.
Não seguirei a discussão de Freud em minúcias, mas passarei ao seu emprego do termo ‘libido’, o
qual retira de seu estudo das psiconeuroses (Freud, 1921). Aborda ele assim o grupo pela
psicanálise e esta, à luz de minha experiência de grupo, pode ser encarada como um grupo de
trabalho que tem possibilidades de estimular a suposição básica de acasalamento. Sendo assim, é
possível à investigação psicanalítica, como uma parte do grupo de acasalamento, revelar a
sexualidade numa posição central. Ademais, é possível que ela própria seja atacada como
constituindo uma atividade sexual, uma vez que, de acordo com minha visão do grupo de
acasalamento, se o grupo tem de presumir que duas pessoas se reunem, elas só podem fazê-lo para
fins sexuais. Dessa maneira, é natural que Freud tenha de enxergar a natureza da ligação entre os
indivíduos num grupo
163
L
como libidinosa. No grupo, o componente libidinoso da ligação é característico do grupo de
acasalamento, mas penso que ele possui uma compleição diferente no grupo de dependência e no
grupo de fuga-luta. Freud descreve o comandante-chefe da Igreja como sendo Cristo, mas eu diria
que ele é a Divindade. Cristo, ou o Messias, é o líder, não do grupo de dependência, mas do grupo
de acasalamento. Na psicanálise, encarada como parte do grupo de acasalamento, o Messias ou a
idéia messiânica ocupam uma posição central e a ligação entre os indivíduos é libidinosa. A própria
idéia messiânica se trai na suposição de que o paciente individual merece a devoção muito
considerável no analista, como também na opinião, às vezes abertamente expressa, que, em
resultado do trabalho psicanalítico, será aperfeiçoada uma técnica que, em última análise, salvará a
humanidade. Em resumo, encaro o emprego freudiano do termo libido como correto apenas para
uma fase, embora importante, e sinto a necessidade de um termo mais neutro para descrever a
ligação em todos os níveis de suposição básica. A ligação no grupo de trabalho, que encaro como
sendo de natureza refinada, é mais adequadamente descrita pela palavra cooperação.
A noção freudiana do líder como sendo aquele de quem o grupo depende e de cuja personalidade o
grupo deriva suas qualidades parece-me oriunda de sua visão da identificação a constituir quase
inteiramente um processo de introjeção pelo ego; para mim, o líder é tanto criação da suposição
básica como qualquer outro membro do grupo e isto, acho eu, é de esperar-se, se considerarmos a
identificação do indivíduo com o líder como dependente não apenas da introjeção, mas também de
um processo simultâneo de identificação projetiva (Melanie Klein, 1946). O líder, no nível da
suposição básica, não cria o grupo em virtude de sua adesão fanática a uma idéia, mas é antes um
indivíduo cuja personalidade o torna particularmente suscetível à obliteração da individualidade
pelos requisitos de liderança do grupo de suposição básica. A ‘perda da distintividade individual’
aplica-se ao líder do grupo tanto quanto a

qualquer outro fato que provàvelmente explica algumas das atitudes a que as figuras lideradoras são

propensas. Assim, o líder no grupo de fuga-luta, por exem-’ pio, parece possuir uma personalidade distintiva
porque sua personalidade é de um tipo que se presta à exploração pela exigência que faz o grupo de um líder
que exija dele apenas uma capacidade para a luta ou para a fuga; o líder não possui uma liberdade para ser êle
próprio maior do que qualquer outro membro do grupo. Notar- se-á que isto difere da idéia de Le Bon,
segundo a qual o líder deve possuir uma vontade forte e imponente, e da idéia de Freud segundo a qual ele
corresponde a um hipnotizador. O poder que tem deriva-se do fato de haver-se tornado, em comum com todos
os outros membros do grupo, aquilo que Le Bon descreve como ‘um autômato que deixou de ser guiado pela
sua vontade’. Em resumo, ele é líder em virtude de sua capacidade de combinação instantânea e involuntária
(talvez voluntária também) com qualquer outro membro do grupo e somente difere deles em que, seja qual for
a sua função no grupo de trabalho, ele é a incarnação do líder do grupo de suposição básica.
A opinião de Freud parece não tornar explícitas as perigosas possibilidades que existem no fenômeno da
liderança. Sua visão do líder e, na verdade, todas as outras visões de que estou ciente não se concilia
—. —

facilmente com a minha experiência da liderança, tal como surge na prática. O líder do grupo de trabalho,
pelo menos, tem o mérito de manter contato com a realidade externa, mas nenhuma qualificação assim é
exigida do líder do grupo da suposição básica. A descrição costumeira do líder parece ser uma mistura a
englobar diversos fenômenos grupais, com as características do líder do grupo de trabalho predominando.
Pelas razões que forneci, o líder do grupo de trabalho é inofensivo por falta de influência sobre o grupo ou
então é um homem cujo domínio da realidade é tal que ele carrega autoridade. Dessa maneira, é provável que
as discussões de liderança coloridas principalmente por opiniões acerca das qualidades do líder do grupo de
trabalho sejam

164

165
otimisticamente tingidas. Minha opinião do líder do grupo de suposição básica não exclui a
possibilidade de sua identidade com o líder do grupo de trabalho, mas permite a existência
de um líder que aparentemente evoca a adesão entusiástica do grupo, mas é destituído de
contato com qualquer realidade que nãó seja a realidade das exigências do grupo de
suposição básica. Quando se percebe que isto pode significar que o grupo está sendo
liderado por um indivíduo cuja qualificação para o cargo foi a obliteração de sua
personalidade, por um autômato, por ‘um indivíduo que perdeu a sua distintividade’, mas
que se acha ainda tão banhado pelas emoções do grupo de suposição básica que carrega
todo o prestígio que se gostaria de acreditar ser o pré-requisito especial do líder do grupo de
trabalho, torna-se possível explicar algumas das calamidades a que grupos foram levados
por líderes cujas qualificações para o pôsto, quando as emoções prevalentes em seu apogeu
feneceram, pareceram ser destituídas de substância.
Freud (1921, pág. 45) diz que o pânico é melhor estudado nos grupos militares.
Experimentei pânico com tropas em ação em duas ocasiões e, em diversas outras vezes,
com pequenos grupos civis, tive razões para pensar que a experiência emocional
apresentava uma semelhança suficientemente estreita com minha experiência militar para
merecer o nome de pânico. Acho que Freud está discutindo o mesmo fenômeno, embora
tais experiências não pareçam, em todos os aspectos, confirmar as teorias freudianas. A
descrição do pânico feita por McDougall refere-se a uma experiência que penso ser similar,
em seus aspectos essenciais, à minha e obtenho a confirmação disso quando ele diz: ‘Outras
emoções cruas e primárias podem espalhar-se por uma multidão de maneira muito
semelhante, embora o processo raramente seja tão rápido e intenso como no caso do medo’
(McDougall, 1920, pág. 24) e depois descreve numa nota de rodapé um exemplo por ele
assistido em Bornéu de disseminação quase instantânea da ira através de uma multidão
(ibid., pág. 26). McDougall, assim, aproximou muito, embora ser fazer a conexão, a ira e o
medo,

apoiando dessa maneira minha opinião de que o pânico é um aspecto do grupo de luta-fuga. É
afirmativa minha serem o pânico, a fuga e o ataque descontrolado realmente os mesmos. Não
conheço a paródia de Nestroy, citada por Freud (1921, pág. 49) mas, aceitando a história tal como
ele a relata, concordo que ela poderia ser considerada como tipificando o pânico, mas acrescentaria
o seguinte: não existe maneira mais absoluta de abandonar Puma batalha do que morrer. Não çxiste
nada na história da fuga pânica a seguir a morte do general que possamos encarar como
incompatível com a fidelidade ao líder da fuga-luta; ele é seguido mesmo quando morto, porque sua
morte é um ato de liderança.
O pânico não surge em qualquer situação, a menos que se trate daquela que poderia, do mesmo
modo fácil, ter dado origem à raiva. Não existem derivativos facilmente disponíveis para a raiva ou
para o medo: a frustração, que é assim inescapável, não pode ser tolerada porque a frustração exige
uma consciência da passagem do tempo e o tempo não é uma dimensão dos fenômenos de
suposição básica. A fuga oferece uma oportunidade imediatamente utilizável para a expressão da
emoção no grupo de fuga-luta e, assim, atende à exigência de satisfação instantânea: dessa maneira,
o grupo fugirá. Alternativamente, o ataque oferece um derivativo semelhantemente imediato e,
então, o grupo lutará. O grupo de fuga-luta seguirá qualquer líder (e, contrariamente às opiniões
expressas até aqui, mantém sua coerência em assim proceder) que dê ordens que autorizem a fuga
instantânea ou o ataque instafltâneo. Desde que um indivíduo do grupo se conforme às limitações
do líder da fuga-luta, não terá dificuldade em fazer um grupo passar da fuga precipitada para o
ataque e do ataque precipitado para o pânico.
O estímulo para o pânico ou para a raiva, que considero ser intercambiável deve ser sempre um
— —
acontecimento que caia fora das funções do grupo de trabalho do grupo envolvido. Isto quer dizer
que o grau de organização do grupo não é um fator no pânico, a menos que a organização (que,
como disse, é uma parte
167

166

da função do grupo de trabalho) tenha evoluído para enfrentar o acontecimento externo


específico responsável pelo pânico. No exemplo freudiano (1921, pág. 47) de incêndio num
teatro ou lugar de diversão, o grupo de trabalho está dedicado a assistir a peça, mas não a
testemunhar um incêndio e menos ainda a extingui-lo. O ponto essencial a respeito da
organização é que ela deve achar-se disponível tanto para o objetivo externo do grupo
quanto para a manipulação da suposição básica que tal objetivo é mais suposto de evocar, O
pânico num exército não é produzido por um perigo militar, embora este, pela natureza das
coisas, tenha muita probabilidade de achar-se presente. Não é provável que ele seja
produzido por qualquer situação em que o ataque ou a fuga são expressões apropriadas do
grupo de trabalho. Se parece surgir em tal situação, isso se dá porque a causa real não foi
observada.
É claro que entre as teorias apresentadas por Freud e aquelas que esbocei aqui há uma
grande diferença. Ele pode parecer ser mais considerável do que é por causa de meu uso
deliberado da nova terminologia com que vesti o aparelhamento dos mecanismos que penso
haver descoberto. Será necessário analisar estes últimos examinando o grupo mais do ponto
de vista do indivíduo. No entanto, antes de fazê-lo, resumirei dizendo que Freud vê o grupo
como uma repetição de relações de objeto parcial. Decorre disso que os grupos, na opinião
de Freud, deveriam aproximar-se dos padrões neuróticos de comportamento, enquanto que,
na minha, eles se aproximam dos padrões do comportamento psicótico.
A sociedade ou grupo que é saudável mostra sua semelhança com o grupo de família, tal
como Freud o descreve. Quanto mais perturbado é o grupo, menos provável é que ele seja
compreendido com base nos padrões familiais ou no comportamento neurótico, tais como
os conhecemos no indivíduo.
Isto não quer dizer considerar eu que minhas descrições se apliquem apenas aos grupos
enfermos. Pelo contrário, duvido muito que qualquer terapêutica real possa ter resultado, a
menos que esses modelos psicóti168

cos sejam descobertos em qualquer grupo. Em alguns deles, sua existência é discernível desde logo;
noutros, tem-se de trabalhar antes que se tornem manifestos. Esses grupos assemelham-se ao
paciente analítico que parece muito mais enfermci após muitos meses de análise do que parecia
antes de haver experimentado qualquer análise.
O indivídüo que vai a um grupo para tratar-Se tem direito a acreditar que está indo experimentar
algo que o conduzirá à cura. Quase sem exceção e as próprias exceções têm-se mostrado mais

aparentes que reais os pacientes acham-se convencidos de que o grupo não é bom e não pode curá-

los. É algo como um choque para eles descobrir, pelo menos quando sou um membro do grupo, que
o que acontece não é algo que afasta aquelas ãnsiedades, mas parece ser mais uma minuciosa e
dolorosa demonstração de que suas suspeitas e ressentimentos vagos e mal formulados sobre o
grupo se baseiam, freqüentemente não, apenas em atitudes grupais demasiadamente substanciais
para eles e suas perturbações. Suas suspeitas são bem fundadas; acham-se presos, por um lado pelo
menos, ao que parece ser uma indiferença perfeitamente genuína por eles ou, pior ainda, por um
ódio a eles. Exemplo: uma mulher está falando num grupo que consistia, nessa ocasião, em seis
pessoas e eu. Queixa-se de uma dificuldade a respeito de comida, de seu medo de engasgar-se se
comer num restaurante e de seu embaraço pela presença, durante uma refeição recente, de uma
atraente mulher em sua mesa. ‘Não me sinto assim’, diz o Sr. A., e sua observação é acolhida por
um som oriundo de um ou dois outros, som que poderia indicar acharem-se de acordo com ele.
Poderia indicar e o indica, mas, ao mesmo tempo, deixa-os livres para afirmar (porque este grupo
tornou-se agora astuto), se surgir a necessidade, que ‘não disseram nada’. O restante olha como se o
assunto não os interessasse ou preocupasse. Se um paciente falasse numa análise tal como a mulher
falou, é claro que, de acordo com o estado de sua análise, o analista não esperaria encontrar
qualquer dificuldade maior em perce169

-J

ber que um certo número de interpretações era possível. Não consigo compreender como qualquer
dessas interpretações, que se baseiam em anos de estudo psicanalítico do par, tem possibilidades de
serem encaradas como apropriadas ao grupo; ou então teremos de revisar nossas idéias do que
constitui a situação analítica. De fato, as interpretações que dei relacionavam-se quase inteiramente
com a indicação de que o material que se seguiu à confidência feita pela mulher ao grupo indicava a
ãnsiedade deste em negar que a dificuldade da mulher, por qualquer que ela fosse, lhes pertencesse
também e, ademais, que eram, a esse respeito, superiores à mulher. Pude então mostrar que a
recepção que o grupo havia dado à sinceridade da mulher tornara agora muito difícil a qualquer um
do restante do grupo falar, individualmente, daqueles outros assuntos em que eles, numa explosão
de franqueza, estariam preparados para admitir serem ‘inferiores’. Em resumo, não foi difícil
mostrar que se uma paciente avançou tanto, a ponto de vir ao grupo em busca de auxílio para uma
dificuldade, o que ela obteve foi um aumento dos sentimentos de inferioridade e um reforço dos
sentimentos de solidão e falta de valor.
Ora, esta situação não é semelhante àquela que se obtém numa análise, quando o analista conseguiu
tornar manifestos os medos e as ansiedades inconscientes. No exemplo que forneci, não foi feita
nenhuma interpretação que elucidasse à mulher a significação de suas ansiedades em comer na
presença de ‘uma mulher atraente’. A série de interpretações que dei, até onde obtivessem sucesso,
poderiam haver esclarecido para ela as emoções desagradáveis associadas com ser-se o receptor
num grupo que se está valendo amplamente da identificação projetiva. Poderia ter-lhe esclarecido
que sua ‘refeição’ na sessão estava causando o seu embaraço e, até certo ponto, isto se achava
implícito nas interpretações que estivera dando ao grupo como um todo. Mas parece justo dizer que,
de um ponto de vista analítico, a mulher não está obtendo com isso urna interpretação satisfatória e
sofre uma experiência cujo desconforto

não é intrínseco à sua incapacidade, mas inerente ao fato de ser o tratamento de grupo o tratamento
errado. Há, contudo, outra possibilidades que é: quando essa mulher estava falando, embora não
tivesse razão para supor e ainda não suponha que ela seja mais que um caso de psiconeurOSe, toda
a maneira pela qual se expressava fizeram-me lembrar intensamente da sinceridade e coerência da
expressão inconsciente que tão freqüentemente contrasta, no psicótico, com a confusão que
acompanha suas tentativas de comunicação raciona’. Posso tornar meu argumento claro dizendo
que acredito que se esta paciente houvesse falado, quando em análise comigo, tal como o fez no
grupo, sua entonação ë maneiras nunca me haveriam levado a duvidar que a interpretação correta
seria aquela apropriada a uma incapacidade neurótica; no grupo, senti que tanto a maneira quanto a
entonação indicavam que seu comportamento seria mais precisamente avaliado se fosse encarado
como aparentado às formulações do psicótico. Visto a esta luz, diria que ela sentia haver um objeto
único, chamado grupo, que fora dividido em pedaços (os membros individuais do grupo) pelo seu
ato de comer e que a crença que isso assim era reforçara sentimentos de culpa que as emoções
associadas com ser a receptora das identif icações projetivas constituíssem uma falhà de seu
comportamento. Estes sentimentos de culpa mais uma vez tornaram-lhe difícil compreender o papel
desempenhado em suas emoções pelas ações dos outros membros do grupo.
Até agora considerei a ‘maldade do grupo’ no que ela toca o paciente que está tentando conseguir
tratamento; podemos agora passar a considerá-la do ponto de vista dos membros do grupo que
estiveram tentando obter a ‘cura’ por mecanismos projetivos e de divisão descritos por Melanie
Klein (1946). Não apenas se despojam eles de qualquer dos problemas da paciente, mas, se se quer
que esse mecanismo seja eficaz, abrem-se eles próprios à necessidade de livrar-se de qualçuer
sentido de responsabilidade em relação à mulher. Fazem isso expelindo (splitting 0ff) as partes boas
de suas perso 1

170

171

nalidade e pela colocação delas no analista. Desta maneira, o ‘tratamento’ que estes indivíduos
recebem do grupo é, por um lado, a consecução de um estado de espírito reconhecivelmente
aparentado à ‘perda da distintividade individual’ mencionada por Freud e, por outro, à
despersonalização que encontramos nos psicóticos. Neste ponto, o grupo encontra-se no estado que
descrevi como tendo por dominante a suposição básica de dependência.
Não irei adiante com a descrição do desenvolvimento subseqüente deste grupo, exceto para
mencionar uma peculiaridade de seu comportamento posterior muito comum a todos os tipos de
situações de grupo; as comunicações subseqüentes fizeram-se em termos de breves interjeições,
longos silêncios, suspiros de tédio e movimentos de desconforto. Este estado de coisas num grupo
merece uma atenção cuidadosa. O grupo parece ser capaz de suportar períodos quase infindáveis de
tal conversa ou, então, conversa nenhuma. Há protestos, mas aturar essa monotonia parece ser um
mal menor que a ação destinada a findá-la. É impossível fornecer todas as minhas razões para
acreditar que esta fase do comportamento do grupo seja significativa. Contentar-me-ei em dizer que
ela se acha estreitamente ligada com a divisão e a despersonalização acima mencionadas. Acredito
também que se acha ligada com sentimentos de depressão, provavelmente da mesma maneira que a
manutenção da posição esquizóide serve para suprimir a posição depressiva (Klein, 1946).
A COMUNICAÇÃO VERBAL
Neste estado, quando se fazem interpretações, elas são desprezadas. Este desprezo pode ser, tal
como na psicanálise, mais aparente que real. Pode ser que as interpretações sejam imperfeitas e, por
causa disso, ineficazes, ou pode ser que as suposições básicas sejam tão dominantes que qualquer
liderança que não incida dentro das limitações desses estados seja ignorada. Mas

mesmo reconhecendo estas possibilidades, permanece um resíduo inexplicado. Fui forçado


a chegar à conclusão de que o intercâmbio verbal é uma função do grupo de trabalho.
Quanto mais o grupo corresponde ao grupo de suposição básica, menos eles fazem qualquer
uso racional da comunicação verbal. As palavras servem de veículo para a comunicação do
som. Melanie Klein (1930) acentuou a importância da formação simbólica no
desenvolvimento do indivíduo e sua discussão do colapso de uma capacidade de formação
de simbolos parece-me ser relevante ao estado grupal que estou descrevendo. O grupo de
trabalho compreende esse emprego particular dos simbolos que se acha envolvido na
comunicação; o grupo de suposição básica, não. Já ouvi sugerir que a ‘linguagem’ do grupo
de suposição básica é primitiva: Não acredito que isto seja vërdade: ela parece-me ser antes
aviltada do que primitiva. Em vez de desenvolver a linguagem como um método de
pensamento, o grupo utiliza uma linguagem existente como um modo de ação. Este modo
de comunicação ‘simplificado’ não possui nada da vitalidade da linguagem primitiva ou
antiga. Sua simplicidade é degenerada e aviltada. O contraste com este estado de coisas é
fornecido pelas ocasi6es em que um grupo, ciente das inadequações de seu vocabulário,
tenta debater e concordar sobre os termos que desejam utilizar no grupo. Neste exemplo,
poder-se-ia dizer que se vê a evolução de um método científico ‘primitivo’ como parte da
função do grupo de trabalho, mas não há nada de aviltado a respeito dele. Faltam à
‘linguagem’ do grupo de suposição básica a precisão e o escopo que são conferidos por
uma capacidade de formação e uso de símbolos: este auxiliar do desenvolvimento acha-se
portanto defeituoso e os estímulos que ordinariamente promoveriam o desenvolvimento não
têm efeito. Mas bem se poderia reivindicar para os métodos de comunicação que o grupo
emprega o título de Lingüística Universal, conferido por Croce à estética. Por diversas que
sejam suas culturas, línguas e tradições, qualquer grupo humano compreende instan r

1
172

173

taneamente todo outro grupo humano no nível das suposições básicas.


Como exercício de aplicação de algumas das teorias que estive apresentando, exemplifiquei com o
relato bíblico da construção da Torre de Babel.’ O mito reúne (muito à maneira pela qual as
associações de um paciente psicanalítico se reúnem) os seguintes componentes: uma linguagem
universal; a construção pelo grupo de uma torre que é sentida pela Divindade’ como uma ameaça à
sua posição; a confusão da linguagem universal e a dispersão dos povos pela face da terra. Que
espécie de acontecimento acha-se encerrado neste mito? Utilizarei minhas teorias para interpretá-lo
como corporificando um relato do desenvolvimento da linguagem num grupo com a dominância da
Suposição básica de dependência, O novo desenvolvimento vale a pena ]embrar que Freud escolhe

o desenvolvimento da linguagem como um exemplo de atividade grupal de elevada ordem mental —

em si próprio exige novos desenvolvimen1 os no grupo; tomo isto como implícito no simbolismo da
torre, cuja construçãà ameaça a supremacia da Divindade. A idéia de que a torre atingiria o Céu
introduz o elemento de esperança messiânica que encaro como intrínseco ao grupo de acasalamento.
Mas uma esperança messiânica que é preenchida viola o cânone na suposição básica de
acasalamento e o grupo se dispersa em cismas.
Melanie Klein (1930) demonstrou que a incapacidade de formar símbolos é característica de certos
indivíduos. Ampliaria isto para incluir todos os indivíduos em suas funções como membros do
grupo de suposição básica,
1 Gênesis, XI, 1-9. Este relato faz parte do chamado Código Javista e, dessa maneira, poderia ser

considerado corpo um exemplo de registro feito por um grupo com a suposição básica de
dependência em dominâncja, quando ameaçado pelo surgimento da suposição básica do
acasalamento.

RESUMO
A visão de Freud da dinâmica do grupo parece-me exigir mais uma suplementação que uma
correção. Há ocasiões em que a interpretação adequada é aquela que chama a atenção para
um comportamento do grupo que seria apropriado se fosse uma reação a uma situação
familial. Em outras pala.vras, há ampla evidência da idéia freudiana de que o grupo de
família fornece o padrão básico paratodos os grupos. Se não acentuei a evidência disto, é
que essa opinião não me parece ir suficientemente longe. Duvido que qualquer tentativa
para estabeleçer um comportamento terapêutico de grupo possa obter êxito se limitar-se a
uma investigação dos mecanismos derivados daquela fonte. Iria ainda mais longe:
penso que a posição central da dinâmica de grupo é ocupada pelos mecanismos mais
primitivos que Melanie Klein descreveu como peculiares às posições paranóideesquizóide e
depressivas. Noutras palavras, sinto, mas, com minha experiência limitada, não gostaria de
ser desafiado a provar, que não se trata simplesmente de um caso de deficiência da
iluminação fornecida pela descoberta freudiana do grupo de família como protótipo de
todos os grupos, mas o fato é que essa deficiência deixa de fora a fonte dos principais
impulsos emocionais no grupo.
Pode ser, naturalmente, que isto seja um artefato produzido p.ela frustração do desejo do
indivíduo de ficar sozinho comigo no grupo. Não desejo minimizar a importância disto,
mas, na verdade, não acredito que os fenômenos a que assisti sejam peculiares a um grupo
terapêutico. Todos os grupos estimulam e ao mesmo tempo frustram os indivíduos que os
compõem, porque o indivíduo é impelido a buscar a satisfação de suas necessidades em seu
grupo e, ao mesmo tempo, é obstado neste objetivo pelos medos primitivos que o grupo
desperta.
Recapitulando: qualquer grupo de indivíduos que se reúne para trabalhar mostra a atividade
do grupo de trabalho, isto é, um funcionamnto mental destinado.

1.74

175

a promover a tarefa em pauta. A investigação mostra que aqueles objetivos são às vezes entravados e
ocasionalmente promovidos por impulsos emocionais de origem obscura. É dada uma certa coesão a estas
atividades mentais anômalas se se presumir que, emocional- mente, o grupo atua como se possuísse certas
suposições básicas sobre os seus objetivos. Estas suposições básicas, que parecem ser bastante
apropriadamente esboçadas por três formulações dependência, acasalamento e luta ou fuga são,
— —

prosseguindo-se a investigação, vistas a deslocar-se mutuamente, como que em resposta a algum impulso
inexplicado. Elas parecem, ademais, possuir algum laço comum ou, talvez, serem mesmo diferentes aspectos
umas das outras. Investigações ulteriores demonstram que cada suposição básica contém aspectos que
correspondem tão estreitamente a objetos parciais (part-object) extremamente primitivos, que mais cedo ou
mais tarde a ansiedade psicótica pertencente a essas relações primitivas é liberada. Estas ansiedades e os
mecanismos que lhes são peculiares já foram apresentados na psicanálise por Melanie Klein e suas
descrições harmonizam-se bem com os estados emocionais que encontram um derivativo na ação de massa do
grupo num comportamento que parece ter coerência, se for considerado como o resultado de uma suposição
básica. Abordadas do ângulo da atividade do grupo de trabalho refinado, as suposições básicas parecem ser a
fonte de impulsos emocionais dirigidos a objetivos muito diferentes, tanto da tarefa manifesta do grupo,
quanto das tarefas que pareceriam ser apropriadas à visão freudiana do grupo como baseado no grupo
familial. Entretanto, abordados do ângulo da ansiedade psicótica associada com fantasias de primitivas
relações de objeto parcial (part-object) , descritas por Melanie Klein e seus colaboradores, os fenômenos de
suposição básica parecem muito mais possuírem as características de reações defensivas contra a ansiedade
psicótica e não se acharem tão em variância com as opiniões de Freud como serem suplementares a elas. Em
minha opinião, é necessário elaborar as tensões que pertencem a configurações fa miliai

quanto as ansiedades ainda mais primitivas das relações de objeto-parcial. Na verdade, acho que essas
ansiedades primitivas encerram as últimas fontes de todo o comportamento de grupo.
Se achar-se que a tentativa de estabelecer um comportamento terapêutico de grupo como método para tratar o
indivíduo vale a pena, os psicanalistas serão bem prudentes para encontrar um nome novo para ele. Não posso
ver qualquer justificação científica para descrever o trabalho do tipo que tentei como sendo psicanálise e já
dei minhas razões para tal (págs. 165-9). Soma-se a isso o fato (de que todos nos damos perfeita conta) de que
“a amarga experiência nos ensinou que a resistência contra o inconsciente pode ser tão sutil que chegue a
deformar as descobertas analíticas e reinterpretá-las em apoio de alguma justificativa pessoal” (Jones, 1952),
de maneira que o termo psicanálise deverá continuar a ser aplicado, até onde possamos controlar a situação,
aos princípios fundamentais da psicanálise. Resta a ques tão de que valor terapêutico deve ser atribuído ao
comportamento que tentei descrever. Não penso que tenha chegado a hora de dar uma opinião definitiva e
acredito que pode haver campo para psicanalistas plenamente qualificados prosseguirem as pesquisas sobre o
seu valor, possivelmente com grupos compostos de indivíduos que estejam fazendo ou já fizeram uma
psicanálise.
Como descrição da dinâmica de grupo, cada indivíduo encontra-se em posição de decidir por si próprio se as
teorias que esbocei fornecem significado aos fenômenos a que ele, no curso de sua vida diária como membro
de um grupo, pode testemunhar.
REFERÊNCIAS
FORTES, MEYER (1949), ‘Time and Social Structure: an Ashanti Case Study’, em Social Structure, Oxford,
Clarendon Press.
FREUD, 5. (1911), ‘Formulations on the two Principies of Mental Functioning’, Londres, Hogarth Press,
Collected Papers, vol. IV; The Complete Psychological Works of Sigmund Freud. vol. 12.

176

177

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