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DEQUEISMO E PARAQUEISMO NO PORTUGUÊS MOÇAMBICANO

Helfas Samuel Cumbane –Estudou Curso Básico de Formação de Professores Primários


(ADPP-EPF Gaza); Licenciado em Ensino Básico com habilitações em Supervisão e Inspecção
Escolar. Docente no SDEJT-Chibuto.
Endereços: helfas16cumbane@gmail.com;
Facebook: Helfas Samuel

0.INTRODUÇÃO

O fenômeno dequeísta ou queísta nada mais é do que o estudo da preposição de diante de um


pronome relativizador que em uma relação de complementização. Esse fenômeno é encontrado na
construção de orações subordinadas, completivas nominais ou objetivas indiretas, em virtude do uso
do nexo preposicional.

O trabalho tem como objectivo geral Compreender Dequeismo e Paraqueismo no Português


Moçambicano

E como objectivos específicos visa: conceituar dequeismo e paraqueismo; explicar os contrastes


entre subordinadas completivas e subordinadas adverbiais finais e relativas infinitivas; identificar
as carcaterísticas do dequeismo e paraqueismo no português moçambicano; e descrever as
semelhanças e contrastes temporais entre os três tipos de subordinadas analisadas

Em termos estruturais, o nosso trabalho apresenta: Introdução, Desenvolvimento, Conclusão, e


Bibliografia. Não obstante, para a elaboração deste trabalho, em termos metodológicos,
recorremos a leitura de diversos manuais e outras fontes bibliográficas, onde fizemos uma leitura
sintética a volta do tema em estudo.
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1.FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

1.1.Conceitos

a) Dequeismo
 Segundo Magalhães (2016) dequeísmo é uma inconsistência dentro da língua ao
observarmos a não transitividade dos verbos e as preposições com eles utilizadas.
b) Paraqueismo
 No entender do Magalhães (2016) Paraqueísmo é um conceito que se usa na gramática
para evocar a utilização incorrecta da expressão “de que”. A noção, por conseguinte,
refere-se a uma maneira indevida de usar “de” (uma preposição) junto a “que”
(conjunção) numa mesma oração. O autor em apreço, acrescenta ainda que é possível
encontrar o paraqueismo dentro dos anacolutos, que se produzem quando um
determinado elemento gera uma inconsistência dentro de uma expressão.

1.2.Contrastes entre subordinadas completivas e subordinadas adverbiais finais e relativas


infinitivas

Na perspectiva de Magalhaes (2016) as orações subordinadas completivas são sempre


selecionadas por um nome, adjetivo ou verbo, e desempenham uma função sintática na oração
matriz, sendo que as infinitivas introduzidas por para e selecionadas por verbos diretivos que
designam atos de fala desempenham sempre a função de Objeto Direto na oração subordinante.
Já as orações subordinadas adverbiais infinitivas e as relativas infinitivas obedecem a outro tipo
de estrutura: as primeiras são adjuntos a SV (quando integradas), enquanto as segundas são
adjuntos ao SN antecedente que modificam.

Por conseguinte, as orações completivas (Comprei peixe para grelhar ao jantar.), sendo
argumentais, não podem ser eliminadas da frase sem que esta fique agramatical ou pouco
aceitável (O Luís pediu à mãe), o que não acontece com os outros dois tipos de subordinadas
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adverbiais (Abri a janela para arejar o quarto), (Abri a janela) e relativas (Comprei peixe para
grelhar ao jantar) e (Comprei peixe).

As orações completivas, infinitivas ou não, só podem ocorrer com alguns predicados (verbos,
nomes ou adjetivos) que as selecionam (*é rápido para chegar aí; *é fácil para fazermos as
pazes), enquanto as relativas, quer na forma finita quer na forma infinitiva, podem modificar
praticamente todos os nomes.

Outra diferença importante entre orações completivas, por um lado, e adverbiais infinitivas finais
e relativas infinitas, por outro, relaciona-se com a possibilidade de extração de um constituinte
do interior das completivas sem violar a condição de Subjacência.

Conforme Magalhães (2016) baseado em Ross (1967) observou, a extração de certos


constituintes obedece a restrições. Assim, na oração interrogativa (O que é que o João pediu à
Ana para lhe comprar), que contém uma oração completiva,verifica-se um movimento cíclico de
Comp a Comp, pelo que o resultado é gramatical. No caso das orações adverbiais finais (O João
comeu a sopa [para poder comer um bolo) há quebra do Princípio de Subjacência, pois o
constituinte o que atravessa uma fronteira de adjunção a SV, o que, e conforme Raposo (1992),
viola a Subjacência, visto uma oração adjunta constituir uma ilha forte ao movimento.

No caso da oração relativa (O que é que a Júlia procura uma faca para cortar) há também
violação da Subjacência, uma vez que o movimento do constituinte o que não pode atravessar
mais do que um nó fronteira. Sendo que em PE, SN e SComp são nós fronteira, o movimento
resulta numa frase agramatical com violação da condição do SN complexo (isto é, a extração de
um elemento de dentro da oração relativa resulta numa frase agramatical (O que é que a Júlia
procura uma faca para cortar).

c) Observações

1) O conector para nas orações relativas infinitivas, para além do seu carácter modalizador, terá,
tal como nas orações adverbiais finais, um sentido de finalidade?
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À partida poder-se-á afirmar que sim. Como já se viu atrás, há ambiguidade na classificação
destas orações porque há uma leitura de finalidade comum, havendo mesmo, em alguns casos,
ambiguidade estrutural entre os dois tipos de orações.

2) Haverá algum traço comum entre para complementador e para preposição introdutória das
orações subordinadas infinitivas adverbiais finais e das orações relativas infinitivas?

Seria tentador propor que sim; no entanto, conforme se tem vindo a apresentar, as orações
completivas são iniciadas por complementadores (que, se, para), são SCompletiva.

1.3.Carcaterísticas do Dequeismo e Paraqueismo no Português Moçambicano

Para Magalhães (2016) baseado em Gonçalves (2010: 50) é frequente, no Português Mocambicano,
o uso das preposições de e para a anteceder orações completivas finitas iniciadas por que, que
são os chamados fenómenos de dequeísmo e paraqueísmo. Quer dizer, no PM e em construções
do tipo a preposição de ou para, sem perda do seu estatuto de preposição, é integrada no
complementador.

 Ilustração:
1. Acho de que esses alunos não conhecem o paradeiro dos seus familiares. (dequeísmo)
2. Peço para que tirem esta dívida. (paraqueímo) (idem)

A escolha de cada uma destas duas preposições não parece ser aleatória, mas antes condicionada
pela semântica do verbo que seleciona a oração completiva. Assim, verifica-se uma utilização
mais frequente da preposição de quando há um traço de assertividade, com verbos declarativos e
de atividade mental e que requerem o verbo da oração completiva no indicativo (1), enquanto a
preposição para aparece com maior frequência quando há um valor modal, prospetivo, com
verbos epistémicos, declarativos de ordem e inquirição, querequerem o verbo da completiva no
conjuntivo (2) (Gonçalves, 2010: 50).

As alterações que se verificam em PM relativamente aos conetores das oraçõessubordinadas


completivas parecem indicar que os falantes de L1 língua Bantu que têm o Português como L2 se
apercebem das ambiguidades relativamente aos itens lexicais que podem ocupar a posição de
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núcleo de SComp, assim como relativamente à estrutura sintática que lhes corresponde
(Gonçalves, 2010).

Nas orações completivas em PM verificam-se fenómenos de adição das preposições para e de,
os chamados fenómenos de paraqueísmo e dequeísmo a anteceder estas orações, fenómenos estes
que parece serem justificados por uma necessidade de os falantes darem conteúdo semântico ao
complementador neutro que. Deste modo, de que e para que parecem estar a comportar-se como
conetores complexos, com valores semânticos distintos.

1.4.Semelhanças e contrastes temporais entre os três tipos de subordinadas analisadas

O requisito da recuperabilidade temporal é um factor comum entre os três tipos de orações


subordinadas até agora analisadas, isto se se admitir que o infinitivo carece de informação
temporal própria. No entanto, é diferente a forma como cada tipo de oração subordinada recupera
a sua referência temporal (Hernanz, 1999). Uma primeira diferença terá a ver com o facto de as
orações completivas serem selecionadas lexicalmente pelo verbo/nome/adjetivo da oração
matriz, enquanto as orações relativas e as adverbiais não.

Nas orações completivas só alguns verbos/nomes/adjetivos (dizer, insistir, pedir, rogar,solicitar;


conselho, indicação) permitem a construção com para + infinitivo. Os verbos referidos, com
exceção do verbo dizer (Eu disse ao meu pai que tinha chumbado no exame.), têm em comum o
facto de a ação que por eles é desencadeada ser sempre uma ação futura relativamente ao tempo
do verbo da oração matriz: Neste caso, até com o verbo dizer é desencadeada uma ação futura
relativamente ao tempo da oração matriz (ver exemplos (Eu disse-lhe para ler o decreto, mas ele
não leu.), (Eu disse-lhe para ter lido o decreto.), com valor modal, que se manifesta no uso do
conjuntivo nas ações finitas correspondentes (Eu disse-lhe que lesse o decreto.): alguém implora,
insiste ou pede algo que se irá passar no futuro, como se pode observar nos exemplos (Eu peço-te
que saias.), (Implorei-lhe que fosse comigo ao tribunal) e (Solicito que dêem despacho ao
decreto). Este traço é acentuado quando a oração completiva é regida por para (Eu peço-te para
saíres.), (Implorei-lhe para ir comigo ao tribunal.) e (Solicito para darem despacho ao decreto).
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3.CONCLUSÃO

Após realizar o trabalho, concluímos:

O dequeísmo é uma inconsistência dentro da língua ao observarmos a não transitividade dos verbos e
as preposições com eles utilizadas enquanto o paraqueísmo é um conceito que se usa na gramática
para evocar a utilização incorrecta da expressão “de que”.

Apoiando-se na visão de Magalhães, concluímos que é frequente, no Português Moçambicano, o


uso das preposições de e para a anteceder orações completivas finitas iniciadas por que, que são
os chamados fenómenos de dequeísmo e paraqueísmo

As principais diferenças encontradas situam-se ao nível da estrutura sintática, das funções que
desempenham relativamente à oração matriz, da movimentação ou supressão da oração
subordinada e das características gramaticais de para. Mas, não menos importante que as
diferenças encontradas, serão as semelhanças existentes entre as construções analisadas. Em
todas elas foi possível perceber-se o seu caráter prospetivo e, também de certo modo, de alguma
incerteza ou modalização, sendo para o elemento agente destas características.
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4.BIBLIOGRAFIA

 Cunha C.; Cintra, L. (2005). Nova Gramática do Português Contemporâneo. Lisboa:


João Sá da Costa.
 Cunha, C. F; CINTRA, L. F. L. (1995). Regência Verbal. In: Nova gramática do português
contemporâneo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
 Magalhães A.M.O. (2016) A preposição PARA e as Subordinadas Infinitivas
Completivas, Relativas Infinitivas e Adverbiais Finais – contrastes. Faculdade de Letras
da Universidade do Porto

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