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O presente artigo analisa e põe em This article analyzes an empirical case
discussão o caso real de um adolescente of a teenager who was placed under the
privado de liberdade no sistema custody of the socio-educational
socioeducativo do Estado do Rio de correctional system of the state of Rio de
Janeiro. Fica evidenciado a violação dos Janeiro, Brazil. It becomes evident that the
direitos fundamentais dos adolescentes fundamental rights of teenagers under the
tutelados pelo Estado e a inexistência de tutelage of the State are violated and that
projeto pedagógico nas unidades de a pedagogical project in the correctional
internação. O artigo aponta para a units is missing. This case points to the
necessidade de implementação de uma need to implement a socio-educational
política socioeducativa para jovens em policy to juvenile offenders. This policy
conflito com a lei, tendo como referencial should be based on Paulo Freire’s theory
a teoria de Educação Popular de Paulo of Popular Education and on the doctrine
Freire e a doutrina da proteção integral of integral protection that is already in
do Estatuto da Criança e do Adolescente. the Brazilian Statute of Children and
Adolescents.
Palavras-chave: jovens em conflito com
a lei; política socioeducativa; educação
popular; Estatuto da Criança e do Key words: juvenile offenders; socio-
Adolescente. educational policy; popular education;     
Brazilian Statute of Children and
Adolescents.
Mestre em Educação.

Conselheira Estadual de Defesa da


Criança e do Adolescente do Rio de
Janeiro, Associada ao Programa de
Formação em Direitos da Infância e
Juventude/Pró-adolescente, da
Universidade Estadual do rio de Janeiro-
UERJ.
 $ %&' ( )

A única coisa que aprendi O Estatuto da criança e do de privação de liberdade. 1


aqui, e que achei que não adolescente, como qualquer O Estatuto da Criança e do Ado-
seria possível, foi a não outro documento normativo, lescente criou um sistema legal de
sonhar. é um produto do seu tempo. responsabilização e de socialização do
Hoje aprendi a viver aqui, me Está inserido no pensar e no adolescente (pessoa entre 12 a 18 anos,
sinto outro, talvez mais forte, agir de sue a época e de sua para efeito da lei) autor de ato
até seguro. cultura; atrelado à história, infracional, diferenciado do sistema pe-
Repeti com os outros novatos à política e aos múltiplos in- nal de adultos, baseado na peculiar con-
tudo o que fizeram comigo, e teresses em jogo, no âmbito dição de pessoa em desenvolvimento.
mais interessante é que passei a mundial. Como qualquer ou- Na verdade, reconhecer que, ain-
sentir prazer quando pratico. tra lei, apresenta contradi- da que tenha violado direitos de ou-
Acho que agora consegui me ções, avanços, retrocessos. E trem, o adolescente permanece sen-
educar! nunca irá satisfazer a todos do sujeito de direitos, não podendo
os interesses. É algo vivo, em ser privado de nenhum outro direito a
(depoimento de adolescen-
movimento – sempre sujeito não ser aquele(s) que foi (foram) ob-
te interno)
às pressões para constantes jeto de decisão judicial, é um ponto
reformulações, em todos os crucial quando se evoca a legislação,
  !   tempos. conforme o art.124 do Estatuto da
Criança e do Adolescente:
"   #$ O reconhecimento legal de que a
   criança e o adolescente são sujeitos Art. 124. São direitos do ado-
de direitos vai gerar necessariamen- lescente privado de liberda-

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Estatuto da Criança e te deveres e responsabilidades por de, entre outros, os seguintes:
do Adolescente – ECA, partes de agentes (o Estado, a famí-
I –entrevistar-se pessoalmen-
lei federal 8.069 de 13 lia, a sociedade) que devem garantir
te com o representante do Mi-
de julho de l990, é um importante a concretização destes na vida de
cada criança e de cada adolescente nistério Público;II –
marco na história da infância brasilei- peticionar diretamente a qual-
ra. Em vigor há pouco mais de uma que tenham seus direitos ameaçados
ou violados. É, portanto, agindo sobre quer autoridade;III– avistar-
década, estabeleceu parâmetros e li-
casos concretos que podemos con- se reservadamente com seu
mites à ação do Estado brasileiro em
tribuir com a implementação dos prin- defensor;IV– ser informado
relação a crianças e adolescentes,
hoje elevados à condição legal de cípios constitucionais e legais, que por de sua situação processual,
sujeitos de direitos e considerados sua vez refletem a luta social por trans- sempre que solicitada; V– ser
como prioridade absoluta nos progra- formação e por justiça. Assim, em tratado com respeito e digni-
mas e políticas públicas. paralelo ao necessário e permanente dade; VI– permanecer inter-
debate político, é preciso construir nado na mesma localidade ou
Observa-se, contudo, que o mar- pontes que viabilizem a concretização naquela mais próxima ao do-
co legal em que se constitui o ECA, dos direitos das crianças e dos ado- micílio de seus pais ou respon-
não garante de per si as profundas lescentes brasileiros.
mudanças programáticas necessárias sável; VII – receber visitas ao
à universalização dos direitos de ci- Dada a amplitude dos aspectos menos, semanalmente; VIII –
dadania de crianças e adolescentes . contemplados no ECA, faremos um corresponder-se com seus fa-
Está posto desta forma o desafio de recorte temático, para fins de análise miliares e amigos; IX– ter
conseguirmos implementar o sistema do presente artigo, problematizando acesso aos objetos necessá-
de garantia de direitos necessário em especial a situação dos jovens em rios à higiene e asseio pesso-
para o cumprimento do texto legal. conflito com a lei, tendo em vista que al; X – habitar alojamento
a polêmica sobre a legislação está con- em condições adequadas de
O debate e o interesse desperta- centrada nos artigos que se referem
dos pela lei federal de proteção à higiene e salubridade; XI –
à prática de atos infracionais. Procu-
infância não devem ficar restritos a receber escolarização e
raremos no decorrer do texto, tecer
uma discussão no campo jurídico. profissionalização; XII – re-
alguns argumentos contrários à
Rizzini (2000, p.43) argumenta sobre alizar atividades culturais, es-
criminalização de adolescentes pobres
o caráter dinâmico da sociedade, que e negros, que são aqueles que serão portivas e de lazer; XIII– ter
permanece discutindo seus caminhos: “clientes preferenciais” das unidades acesso aos meios de comuni-








      
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cação social; XIV – receber tivando o jornalismo amigo da criança Foi assim que no passado, no
assistência religiosa, segundo conclui que: “a onda crescente de vio- Brasil Colônia, se consentiu
a sua crença, e desde que as- lência produzida pelos adolescentes é na escravização de povos
sim o deseje; XV – manter a uma imagem que resulta mais do indígenas e africanos. É as-
posse de seus objetos pesso- desequilíbrio do noticiário do que de sim que hoje, em um proces-
ais e dispor de local seguro uma análise mais rigorosa dos dados”.
so que podemos entender
para guardá-los, recebendo como de recolonização do
comprovante daqueles Brasil, se consente no exter-
porventura depositados em %     & mínio de jovens, negros e
poder da entidade; XVI – re-  %    pobres.
ceber, quando de sua
desinternação, os documen-
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Considerar o processo histórico é
tos pessoais indispensáveis à indispensável ao tratarmos de políti-
vida em sociedade.§ 1º. Em mas presos são quase todos cas públicas para a infância e juven-
nenhum caso haverá pretos tude, para evitarmos as armadilhas de
incomunicabilidade. § 2º A propostas simplistas, que acabam
ou quase pretos, ou quase
autoridade judiciária poderá sempre se mostrando ineficazes, ge-
brancos rando o desperdício de recursos pú-
suspender temporariamente a
visita, inclusive de pais ou res- quase pretos de tão pobres blicos, tantas vezes alocados em pro-
ponsável, se existirem motivos pobres são como podres jetos repressivos ou puramente
sérios e fundados de sua assistencialistas, que só reforçam as
e todos sabem como se
prejudicialidade aos interes- injustiças contra as classes populares.
tratam os pretos
ses do adolescente. Contudo, nem todas as mazelas
HAITI, Caetano Veloso e ainda presentes nas instituições onde
Indicadores do Fundo das Nações Gilberto Gil adolescentes autores de atos
Unidas para a Infância-UNICEF aju- infracionais cumprem medidas
dam a esclarecer que não é grave A história da assistência e das
socioeducativas decorrem tão-somen-
como se alardeia a questão da políticas sociais dirigidas à infân-
te de fatores macroestruturais.
criminalidade juvenil no Brasil: en- cia pobre no Brasil confunde-se
quanto há 3,5 adolescentes em pri- com um projeto político marcado Há um claro esforço na socieda-
vação de liberdade por 100 mil habi- pelo patrimonialismo – entendido de brasileira em superar estas estru-
tantes, há 80 presos adultos (maiores como um sistema em que uma elite turas injustas e anacrônicas (não só
de 18 anos) para cada cem mil habi- social concebe e se utiliza do Es- de jovens privados de liberdade, mas
tantes (VOLPI e SARAIVA,1998); tado como sendo uma extensão de também do sistema penal de adultos)
90% dos crimes no Brasil são come- suas prerrogativas de classe como o próprio movimento em prol
tidos por pessoas com mais de 18 (FAORO,1995) – gerando a indi- da efetiva implantação do Estatuto da
anos; 73,8 das infrações cometidas por ferença do Estado quanto ao desti- Criança e do Adolescente, da refor-
adolescentes atentam contra o no das classes populares. ma do código penal, do movimento
patrimônio e, destes, 50% são furtos. antimanicomial, entre outras iniciati-
Pesquisas documentais e empíricas vas, vêm demonstrando.
Apenas 8,46% dessas infrações aten-
fartamente analisam o longo e com-
tam contra a vida (FONA- É relevante a análise de Rufino
plexo fenômeno de apartação social
CRIAD2 ,1998). É crescente a vio- (2001, p. 10) sobre a injustiça que o
brasileiro, que “desenha” o quadro
lência contra adolescentes: 75% das Estado comete ao encarcerar ado-
atual de criminalização crescente da
mortes de adolescentes entre 15 e 19 lescentes acusados de delitos, em
juventude e a existência de crianças
anos são por causas violentas estruturas degradadas e aviltantes:
(UNICEF,1997). nas ruas, em trabalhos pesados e in-
salubres, fora do alcance das políti- O Estado, enquanto tal, tem
A Agência de Notícias dos Direi- cas sociais que a elas deveriam em por primeira função manter a
tos da Infância-ANDI, organização não primeiro lugar proteger.
governamental criada com o objetivo ordem social: que os ricos con-
de acompanhar a tendência da mídia Arantes (2000, p. 65) entende tinuem ricos e os pobres con-
impressa sobre a infância e juventude como um processo de recolonização formados. Em seguida, o Es-
brasileiras, criando pautas que refor- do Brasil, o controle social imposto à tado é uma pá: tira renda de
cem os direitos constitucionais e incen- classe empobrecida e despossuída: baixo para concentrar em








      
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cima. Os jovens pobres que direitos humanos, dentre eles o UNICEF Deixai aqui toda a esperan-
não se conformam são puni- e o Instituto Latino Americano para a ça, ó vós que entrais [...]
dos com o cemitério, o hospí- Prevenção do Delito-ILANUD soma-
A Divina Comédia, Dante
cio e a internação (prisão) ju- ram-se ao esforço de setores governa-
mentais brasileiros, tendo à frente o Alighieri
dicial. Para isso, difunde um
“engana trouxa”: devemos Ministério da Justiça, com o objetivo de
Introduzirei os comentários sobre
todos cumprir a lei – quando promover mudanças consideradas
um possível projeto pedagógico, com
a lei não passa do código de inadiáveis no tratamento aos jovens em
o resumo de um relato de um jovem
conflito com a lei.
defesa da ordem que produziu internado no DEGASE. Este relato foi
os inconformados. O DEGA- No Estado do Rio de Janeiro foi objeto de discussão de um grupo de
SE3 está repleto de crianças criado o Departamento de Ações pedagogos da instituição, durante o Pri-
pobres que não se conformam Socioeducativas/ DEGASE em l994 meiro Ciclo de Palestras da Coorde-
com a pobreza. para cumprir a política de nadoria de Recursos Integrados do
estadualização de atendimento a ado- DEGASE, realizado em abril de 2000.
Na tentativa de corrigir as enor- lescentes infratores. Sua gestão ficou
O depoimento é rico em detalhes
mes distorções do que poderia se en- a cargo da Secretaria de Justiça e In-
e traz uma contundente e inesperada
tender como Justiça4 , o Estado brasi- terior, tendo migrado, de acordo com a
análise do processo socioeducativo. O
leiro, criou ele mesmo – pressionado compreensão dos diversos governos
jovem em questão, de acordo com os
por forças democráticas – algumas estaduais, para Secretaria de Direi-
dados do relato, viveu num abrigo
possibilidades para a reversão das con- tos Humanos, de Segurança Pública,
para crianças abandonadas entre os
dições físicas e “pedagógicas” do sis- da Criança e do Adolescente. Destarte
três e os dez anos de idade, quando
tema socioeducativo destinado a ado- as melhores intenções, o DEGASE5
foi adotado por uma família estran-
lescentes em conflito com a lei penal. nasceu novo apenas no nome, pois
geira. Quando ele completou dez anos
herdou os prédios, a estrutura, o corpo
O reordenamento institucional das a família adotou uma menina. A par-
de funcionários e, em grande parte, a
unidades de infratores é uma questão tir daí, de acordo com seu relato, o
ideologia de seus antecessores
posta em primeiro lugar ao poder pú- adolescente passou a sentir ciúmes e
institucionais, como o CBIA, a
blico, através de políticas públicas ra- mesmo ódio da irmã adotiva, vindo,
FUNABEM, o SAM 6 , conforme,
cionalmente estruturadas, sem prescin- tempos depois, a manter relações se-
Rizzini (l993); Bazílio (1985); Arantes
dir, contudo, da participação regular xuais forçadas com ela. A família
(l995) e Costa (1992), entre outros.
da sociedade para a consecução des- “devolveu” o filho ao Brasil, direta-
tes objetivos. No caso de crianças e Um exemplo de iniciativa voltada mente para a justiça da Infância e
adolescentes, o próprio Estatuto prevê para a concretização do novo Juventude, que o encaminhou para o
esta participação na formulação, paradigma foi o Programa de Coope- DEGASE, para cumprimento de me-
acompanhamento e avaliação destas ração Técnica entre a Universidade do dida de internação.
políticas por intermédio dos Conselhos Estado do Rio de Janeiro e a Secreta-
de Direitos, que estão em funciona- ria de Justiça, com fomento do Ministé- O juiz falou que eu iria
mento na maioria dos municípios e em rio da Justiça, através do Departamen- para um lugar onde não iria
todos os estados brasileiros. to da Criança e do Adolescente. Esse cumprir pena, iria me reedu-
programa desenvolveu-se entre os anos car, para que eu pudesse me
As instituições de acautelamento de
de 1998 e 2000, através de uma série tratar.
adolescentes infratores seguem perfi-
de subprogramas, entre pesquisas,
lando-se ao aparato repressivo do Es-
capacitação de recursos humanos; Mas logo ele percebeu que seria
tado. No entanto urge incorporar à sua
consultorias, atividades culturais e de diferente, pois os próprios agentes que
prática os princípios democráticos que
garantia de direitos de jovens privados o recepcionaram, aterrorizaram-no di-
o texto legal ditou. Estas unidades pre-
de liberdade, tendo produzido vasto zendo que o melhor lugar para ele não
cisam transformar-se num instrumen-
material sobre as práticas institucionais seria ali, e sim numa vala. Em seguida
to de correção das próprias mazelas
que concretamente se traduzem na po- o rapaz foi submetido a uma sessão de
que o Estado (e a sociedade, como
lítica de atendimento ao adolescente tortura, em que deveria apanhar rindo,
Estado ampliado) reserva aos segmen-
infrator.7 A partir desses subsídios é que caso parasse de rir, apanharia muito
tos marginalizados da população.
comentarei alguns tópicos sobre a pos- mais. Após essa surra:
Durante a primeira década de vigên- sibilidade de um trabalho educativo nas
cia do Estatuto da Criança e do Ado- unidades de internação para adolescen- um deles me levou para um
lescente, organismos internacionais de tes infratores. cubículo onde já se encon-








      
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travam dois meninos, que já para um alojamento, onde um grupo pesadelos, consegui não
sabiam quem eu era e o que maior de internos o conduziu para mais mais acordar assustado à
eu tinha feito. Meu Deus, fa- uma sessão de sevícia sexual. Ele ain- noite, consegui aprender
laram que era educação, mas da tentou evitar essa segunda com a rotina dos meus so-
percebi que era castigo pe- investida, chamando a atenção do nhos. Hoje aprendi a viver
sado. Foi a pior noite da mi- educador de plantão que, no entanto, aqui, me sinto outro, talvez
nha vida! Fui violentado pe- ignorou os sinais de socorro do rapaz: mais forte, até seguro. Re-
los dois adolescentes e o pior peti com os outros novatos
Após uns dez dias de tormen-
é que percebi que alguém do tudo o que fizeram comigo,
ta, eles me esqueceram um e mais interessante é que
lado de fora nos observava
pouco, pois havia chegado passei a sentir prazer quan-
e gargalhava alto!
outro candidato para o meu do pratico.
lugar, seguindo a rotina da
Quando amanheceu já não instituição...” Acho que agora consegui me
me sentia mais gente, o meu educar!
cheiro estava insuportável, Na continuidade do processo
minha roupa enfim... só saí “socioeducativo”, o rapaz conhe-
daquela calamidade inicial ceu um agente que o tratou com hu-
manidade, parecendo-lhe ser uma *  + 
após dois dias. Dois dias de
angústia, de violência, de tábua de salvação. Durante os plan-  ,  
desprezo... Tentei fingir para tões desse agente ele recebia con-
mim mesmo que aquilo era selhos e podia ter um fio de espe- Esse relato nos dá a possibilidade
rança, achando que alguém se inte- de apontar um sem-número de viola-
uma espécie de prova de so-
ressava por ele. Ele conta da ansi- ções de direitos, e confirma quão ar-
brevivência... de resistên-
edade em esperar o próximo plan- bitrária e excessiva tende a ser a ação
cia... ou então que eu deve-
tão do educador, a cada semana. do braço repressor do Estado. Quan-
ria enlouquecer para não Passado algum tempo o agente não
sentir mais nada. to mais caminha para um sistema fe-
lhe dava mais atenção, evitava-o, chado, cortando a comunicação com
Nesse dia fui levado até uma segundo a percepção do adolescen- outras instâncias da sociedade, (a fa-
mulher que falou ser minha te, que, desesperado, perguntou ao mília, a escola, os serviços de saúde,
técnica, pensei comigo ‘téc- funcionário o que havia acontecido, os conselhos) mais tende a se tornar
nica de quê?’ Mas continuei porque ele não conversava mais desumana e totalitária, perdendo trans-
com ele. Ao que foi informado que parência nas suas ações. A conexão
calado. Ela falou que faria
o agente fora proibido de conver- com a temática dos Direitos Huma-
a minha recepção. Acreditei
sar com os adolescentes, pelo coor- nos coloca-se como um imperioso ope-
que naquele momento eu
denador do plantão, que o chamara rador analítico dessas questões.
acharia a tal da educação de “mamãezada”.
que o juiz falou. Ela me per- O monitoramento externo das uni-
guntou se eu estava bem. Voltei ao alojamento nova- dades de privação e restrição de li-
Meu Deus! Soltei um leve sor- mente perdido e o pior, mais berdade, por grupos ligados à defesa
riso de ironia, e a encarei uma vez sem ninguém e so- de direitos humanos apresenta-se
novamente com um ar de es- zinho. A única coisa que como um procedimento necessário
panto: eu, todo sujo, fedo- para que se mantenha a atuação es-
aprendi aqui, e que achei
rento, com a cara roxa de tatal nos limites da lei.
que não seria possível, foi
pancada, sem nome, com um a não sonhar. Uma dessas Um princípio básico a ser seguido
número... Ela me pergunta se noite tive um pesadelo, na defesa de direitos humanos, é que
eu estou bem! Devo estar re- acordei assustado, gritan- esta precisa ser exercida na prática
almente louco ou ainda não de casos concretos. Não se pode fa-
do. Logo um educador en-
me adaptei a tal educação lar em direitos humanos “em tese” .
trou no alojamento e com
prometida...” É uma relação de compromisso pes-
um soco na cabeça determi-
soal, ético, cotidiano, em cada situa-
nou que eu calasse a ção real de injustiça, de violação, de
Após passar pelos trâmites admi-
nistrativos, entrevistas e diagnósticos, boca...Daquele dia em di- opressão, que atinge em especial
o rapaz conta que foi encaminhado ante consegui não mais ter pessoas e grupos que estejam em si-








      
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tuação de vulnerabilidade, constituin- depreciativo e desabonador, capaz de quase sem exceção, esses profissio-
do-se a privação de liberdade como proscrever da vida social o indivíduo nais possuem outra (ou outras)
uma dessas situações. ou o grupo que o incorpora. A “mar- atividade(s) laborativa(s), muitas vezes
ca” (nesse caso de infrator, estu- como seguranças e atividades simila-
No caso relatado, as omissões são
prador) pode mesmo levá-lo a uma res, onde a tônica é de repressão.
tantas: poderíamos começar supondo
condição de desumanidade.
os motivos pelos quais aquele adoles- A equipe técnica, por sua vez, é
cente esteve por tanto tempo abriga- formada por profissionais de nível su-
Por definição, é claro, acre-
do numa instituição (entre os três e perior, da área de psicologia, pedago-
ditamos que alguém com um
os dez anos). Não estão disponíveis gia e serviço social, que se responsa-
dados precisos sobre o caso – o que estigma, não seja completa- bilizam pelos “relatórios”, “diagnósti-
já pode ser apontado como uma fa- mente humano. Com base nis- cos” “perfis” e “avaliações”. Traba-
lha (omissão) institucional. Seria o jo- so fazemos vários tipos de lham em salas localizadas fora da
vem um órfão? Ou mais um dos “aban- discriminações, através das área de circulação dos internos, e os
donados“ por uma família pobre, quais efetivamente, e muitas atendimentos que prestam aos jovens
“desestruturada” como costumava o vezes sem pensar, reduzimos têm caráter pouco mais que burocrá-
Estado entender e a legislação legi- suas chances de vida. Cons- tico, objetivando em primeiro lugar
timar (durante o período de vigência truímos uma teoria do estig- desincumbirem-se do excessivo nú-
do Código de menores) a separação ma, uma ideologia para ex- mero de relatórios e formulários que
entre filhos e pais (ou mães, na maio- plicar sua inferioridade e lhes cabe enviar ao judiciário.
ria dos casos) por contingências pró- dar conta do perigo que ela Brito (2000, p. 123) entende que
prias de miséria material. representa, racionalizando
Em seguida há a menção a uma algumas vezes uma animosi- o foco utilizado nas avalia-
adoção internacional. Novamente não dade baseada em outras di- ções deve ser alterado: da
há dados precisos, mas revela-se in- ferenças, tais como as de procura exclusiva de patolo-
dícios de brechas na legislação, cri- classe social. gias – ou dificuldades pes-
ando a possibilidade de “devolução” soais que justifiquem o ato
de filhos adotados (ou legalmente tu- infracional – às necessida-
telados) ao país, ao cometerem deli- -      des – ou prioridades para a
tos na nova pátria. Os efeitos desta
destituição repentina de vínculos      garantia de pleno e saudá-
vel desenvolvimento 8
afetivos e culturais, materiais e sim-
bólicos na vida do acusado precisam A irônica e desesperada observa- Esta divisão de trabalho alienante
ser sem demora objeto de reflexão por ção que o interno faz sobre o com- é um dos fatores que permitem que a
especialistas na matéria. portamento da “técnica” durante a cena descrita pelo adolescente seja
Continuando o relato há a descri- entrevista faz-nos observar que existe uma rotina: “técnicos” que não enxer-
ção minuciosa de sessões de tortura, no sistema socioeducativo uma inde- gam situações de alto grau de
que embora dificilmente comprovada sejável separação entre “agentes” e despersonalização, inclusive com si-
(e ainda mais dificilmente punida) é “técnicos”. nais físicos evidentes de maus tratos,
prática rotineira, de conhecimento Os agentes (educacionais ou de dis- ou, quando enxergam, não se sentem
irrefutável de todos os níveis hierár- ciplina) são profissionais de nível mé- diretamente compromissados com a
quicos e de todas as instâncias de dio, sem obrigatoriedade de formação situação. 9
governo responsáveis pela instituição. específica na área, que interagem di- É interessante notar no relato do
Em menos de vinte e quatro horas retamente com os adolescentes na ro- jovem que ele, imediatamente após
após ter sido internado (certamente tina da instituição. São os “agentes” sofrer tantas violações da sua integri-
numa unidade de internação provisória, que monitoram cada momento do dia, dade física, cite como um exemplo
pois o jovem ainda nem havia se entre- como o horário de acordar, de dormir, que deveria ter sido notado pela “sua
vistado com a “técnica”) , ele declara das refeições e de higiene pessoal. São técnica” o fato de ele estar destituído
que “já não se sentia mais gente”. eles que controlam a disciplina dos in- de sua identidade “[...] sem nome,
ternos. Os “agentes” trabalham em com um número [...]”.
Sem conhecer teorias psicológicas, turnos de vinte e quatro por setenta e
o depoente se “utiliza” do conceito de duas horas, o que já é em si mesmo A prática de se despersonalizar o/
estigma, formulado por Goffman um fator evidente de estresse profissi- a adolescente tão logo cruze os mu-
(1988): um atributo profundamente onal, potencializado pelo fato de que, ros do DEGASE, substituindo o nome








      
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por um número, foi objeto constante Outra observação relevante para formulação vem criando na prá-
de questionamento durante as ofici- a reversão da situação atual, e que está tica problemas insuperáveis na
nas de direitos humanos realizadas no nas entrelinhas, é o fato de que não há rotina de trabalho. Vários depo-
processo de cooperação entre o sis- clareza por parte do corpo de funcio- imentos neste sentido atestam
tema socioeducativo e a universida- nários, nem dos cargos de direção e que o desconhecimento pela na-
de: ninguém pode obrigar que um fun- muitas vezes nem mesmo da hierar- tureza da instituição e da função
cionário – independente do cargo que quia mais alta, de que não cabe ao a ser exercida provocava “tanta
exerça – dirijir-se a um interno por Executivo punir o adolescente. O dor” nos primeiros dias de tra-
um número.... Isto faz uma grande caráter retributivo10 ao ato ilícito pra- balhos, que jovens universitários
diferença para quem tem compromis- ticado pelo jovem é objeto de decisão concursados e classificados nos
so com o exercício da cidadania. Mas do Poder Judiciário e está expresso primeiros lugares diziam ser ne-
este é um procedimento burocrático na medida socioeducativa.11 Ao exe- cessários tomar “vidros inteiros
tão enraizado na instituição, que mui- cutivo cabe a tutela do adolescente, ze- de novalgina” para suportar o
tos profissionais reclamam da lando por sua integridade física e mo- contato com a realidade prisional
impessoalidade desse procedimento, ral, e a execução da medida de adolescentes... ;
sem, contudo, tomar a iniciativa de socioeducativa, de acordo com a lei.
b) funcionários aprovados no proces-
mudar o próprio comportamento.
so seletivo deveriam ser capaci-
Ao ser abandonado pelo agente/ .    tados continuamente para o exer-
educador que o “enxergou” e lhe deu cício de suas funções. A capaci-
“esperanças”, o adolescente viu-se    /  ta-ção contínua, garantindo-se es-
“[...]perdido e o pior, mais uma vez paço de reflexão e troca entre pa-
sem ninguém e sozinho[...]”. Neste    0   res tem sido a tônica nas recomen-
momento a instituição interrompe de dações de organismos internacio-
modo intencional (através de ordem     nais e nacionais de atenção à ju-
expressa de um funcionário nomea- ventude;
do para um cargo diretivo) o proces- 0    c) imposição de regras claras aos
so socioeducativo que vinha se esta-
executores das medidas socioedu-
belecendo entre o educador e o in-   1 cativas, através de manuais e có-
terno. Esta atitude, analisada à luz dos
digos de conduta profissional, ins-
princípios da pedagogia de Paulo  $ pirados na legislação nacional e
Freire, denota que o educador (e a
com os tratados internacionais es-
instituição) demitiu-se de sua respon-        pecíficos sobre atendimento a jo-
sabilidade e abortou a relação peda-
vens privados de liberdade, dos
gógica entre educador e educando.     quais o Brasil é signatário12 , e nas
Em ocasião anterior, o interno em resoluções do Conselho Nacional
vão tentou escapar de uma segunda     2 dos Direitos da Criança e do Ado-
sessão de estupro coletivo, tentando lescente – CONANDA;
chamar a atenção do técnico de plan-
tão, que ignorou seus sinais. O poe- Essa falta de clareza institucional d) reorganização de turnos de traba-
ma da epígrafe de “Pedagogia da quanto à especificidade da ação lho e de divisão de trabalho entre
Presença” (COSTA, 2000) sugere a socioeducativa e quanto à natureza equipes de terceiro e segundo
forma acertada de participação do pedagógica da relação entre os pro- graus, harmonizando-o com a na-
educador nessa ocasião: fissionais e jovens acautelados, pre- tureza e objetivos do programa
judica a adoção de algumas medidas socioeducativo;
Acolher o conteúdo, em relação à administração de recur- e) afastamento imediato do sistema
sos humanos da instituição: socioeducativo de profissionais
até do discurso mudo
a) deveria ser estabelecido um pro- acusados de abusos, excessos e
de alguém que não quer fa- cesso seletivo que desde sua pri- tortura contra adolescentes sob
lar meira etapa informasse sobre a guarda do Estado, independente
Acolher o sentimento natureza da função a ser exercida de situação funcional. Há a neces-
pelo candidato. O formato de sidade de se estabelecer procedi-
Que ali, naquele momento, concurso público padronizado e mentos mais ágeis e rigorosos do
Busca poder se expressar. por demais genérico na sua que os atuais “inquéritos”.








      
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3 #    De acordo com os pressupostos que ele construa um projeto de vida
4     do método Paulo Freire, todo projeto fora da marginalidade, entendemos,
pedagógico tem um cunho político, que pois, que a necessária contrapartida do
) pode ser explícito ou não. No caso de Estado deva ser a oferta de possibilida-
sua Pedagogia do Oprimido, está cla- des concretas do exercício pleno da ci-
Esta é uma questão bastante com- ramente explicitado o caráter trans- dadania deste adolescente.
plexa, como viemos encaminhando até formador atribuído à prática educaci-
aqui, que comporta omissões históri- onal, concebendo o educando como
cas, ideologia autoritária e antipopular, sujeito do seu próprio aprendizado. " !
   
preconceitos e desinformação, in-
competência administrativa, entre ou-
Ao contrário, numa pedagogia con- 5!
  !
servadora – da qual o processo
tros obstáculos... socioeducativo desenvolvido nas uni-
dades de internação de adolescentes Alguns princípios dão base e sus-
No entanto, muitos destes fatores
em conflito com a lei é um exemplo tentação à teoria da Educação Po-
estão presentes em relação à infância
paradigmático – o educando é enca- pular: o respeito pelo educando, con-
pobre brasileira como um todo, não
rado como objeto da ação, seu papel siderando todo homem e toda mulher
afetando apenas os chamados adoles-
é absolutamente passivo. Os relatóri- como criadores de cultura e tomando
centes infratores: projetos educacionais
os das equipes técnicas, para ficar como base da ação pedagógica o
inadequados, formalistas e eivados de
apenas neste exemplo, trazem fra- universo cultural do aluno; a conquis-
preconceito contra as classes popula-
ses do tipo “o adolescente ainda não ta da autonomia de cada um como um
res são um lugar-comum na história da
internalizou as regras da instituição” horizonte do processo pedagógico e o
educação brasileira. Portanto, ao re-
(e da sociedade, certamente). Como caráter político da educação, buscan-
fletirmos sobre a possibilidade de um
não está explícito em nenhum lugar do através da ação pedagógica a su-
projeto (político) pedagógico para ado-
quais são as regras da instituição, nem peração de toda opressão.
lescentes privados de liberdade, deve-
mos ter presente que este insere-se o que se espera do jovem durante o A educação como prática da liber-
num processo filosófico mais período de internação, nem muito dade, título de uma das obras de Paulo
abrangente, que a nosso ver encontra menos lhe são propostas metas que Freire e pressuposto de toda a ação
o referencial teórico adequado na pe- ele deva alcançar para que venha a pedagógica por ele proposta, coloca-
dagogia de Paulo Freire, que cunhou merecer uma avaliação positiva da nos num aparente impasse quando fa-
os princípios da Educação Popular. equipe técnica e do juiz, o único as- lamos em “educação versus privação
pecto de fato mensurável nos “rela- de liberdade”. Muitos educadores re-
Paulo Freire marcou uma rup- tórios” é o grau de passividade do cusam-se mesmo a admitir a hipótese
tura na história pedagógica adolescente frente à rotina de se desenvolver qualquer ação
do seu país e da América La- institucional que lhe é imposta. Subjaz educativa, estando o jovem preso.
tina. Através da criação e aqui a visão do controle social puro e
simples como método educativo. Os art. 57 e 58 do ECA constitu-
concepção de educação po- em-se como parâmetros para a ação
pular ele consolidou um dos Outro pressuposto importante é de educativa de toda a infância e juven-
paradigmas mais ricos da pe- que não se tem a pretensão, ao refle- tude, inclusive no caso extremo de
dagogia contemporânea, tir sobre um programa socioeducativo jovens privados de liberdade:
rompendo radicalmente com a para adolescentes privados de liber-
educação elitista e comprome- dade, de eliminar por via administrati- Art57: O poder público esti-
tendo-se verdadeiramente va tantas contradições presentes no mulará pesquisas, experiên-
com homens e mulheres. Num processo histórico, mas caminhar no cias e novas propostas rela-
contexto de massificação, de sentido de democratizar a ação do tivas a calendário, seriação,
exclusão, de desarticulação Estado, garantindo a participação do currículo, metodologia, didá-
da escola com a sociedade, adolescente, de sua família e de sua tica e avaliação, com vistas
Freire dá sua efetiva contri- comunidade no processo de transfor- à inserção de crianças e ado-
buição para a formação de mação das condições que o levaram
lescentes excluídos do ensi-
uma sociedade democrática à prática de atos infracionais.
no fundamental obrigatório.
ao construir um projeto edu- Observamos que o próprio termo
Art. 58 – No processo educa-
cacional radicalmente demo- projeto pressupõe esperança, indica a
cional respeitar-se-ão os va-
crático e libertador. (FEI- idéia da construção de um futuro. Co-
bra-se do jovem em conflito com a lei lores culturais, artísticos e
TOSA, 1999, p. 9).








      
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históricos próprios do contex- · a imposição de “aulas” (isto quan- zo, que devem ser rediscutidas e
to social da criança e do ado- do ocorre alguma atividade nos in- avaliadas periodicamente;
lescente, garantindo-se a es- ternatos...) no melhor estilo “ban- · Criar a figura do “orientador” (a
tes a liberdade de criação e o cário”: o professor deposita no alu- exemplo do que se prevê no caso
acesso às fontes de cultura. no um conteúdo que será sacado da liberdade assistida, adaptando
nas ocasiões de avaliação; além de para a situação de internação) que
O instituto do internamento não pri- considerar como prêmio ou como seria o educador de referência
va o adolescente destas possibilidades, castigo pelo bom ou mau compor- para um número limitado de inter-
ao contrário, constituindo-se como um tamento a freqüência às aulas; nos, possibilitando uma relação
período de crise – em que se supõe a próxima, onde dificuldades e avan-
· a proposição de atividades abso-
possibilidade de crescimento – deve- ços podem ser percebidas de for-
lutamente em desacordo com a si-
ria ser estimulada a crítica sobre, não ma imediata;
tuação de vida do educando (não
apenas o “ato infracional” cometido, mas
posso deixar de exemplificar com · Criar conselhos de avaliação, onde
especialmente sobre os aspectos soci-
uma atividade na época da Pás- além do orientador outros profis-
ais, históricos, jurídicos, políticos, cultu-
coa, em que os adolescentes esta- sionais possam opinar sobre o
rais que se fazem presentes na ação
vam colorindo um desenho progresso do programa socioe-
coercitiva do Estado sobre a vida da-
quele ser “em peculiar condição de de- xerocado de um coelhinho com ducativo.
senvolvimento”. A oportunidade de uma cenoura e ovinhos...), provocando
a infantilização, o desinteresse e a · Incluir a família no programa de
ampla reflexão crítica sobre esse pro- acompanhamento do jovem, esta-
cesso, nesse momento da vida do jo- recusa dos jovens a contribuir com
belecendo cronograma de reuniões
vem, abriria a perspectiva de uma nova a farsa chamada de “atividades es-
com as equipes.
consciência, já não mais uma consciên- colares”;
cia ingênua, emergindo potencialmente · Articular a participação de orga-
· o privilegiamento de aspectos de
uma ressignificação de sua história e da nismo independente que atue jun-
segurança em detrimento de
forma como ele percebe a relação en- to às unidades de internação, de
ações educativas, que chega ao
tre sua vida e as condições sociais em acordo com a normativa interna-
cúmulo de se proibir aos adoles-
que se insere. Liberdade de expressão cional, garantindo-se assim a
centes a leitura no interior dos alo-
é pressuposto da cidadania. transparência da ação estatal e a
jamentos, isto porque livros são
diminuição dos casos de tortura;
Partir do universo cultural do edu- feitos de papel, e portanto, podem
cando, para a pedagogia freireana, não servir de instrumento para incen- · Comprometer-se com o princípio
significa reificar a cultura primeira do diar o prédio; da incompletude institucional, mes-
aluno, isolando-o em seu próprio am- mo no cumprimento da medida de
· o não cumprimento legal de internação.
biente, pelo contrário, como ensina o certificação dos internos que te-
diretor do Instituto Paulo Freire: nham freqüentado aulas no regime No programa socioeducativo, de-
de privação de liberdade, assim verão estar expressas as responsabi-
educado é só aquele que do- como todas as omissões e exces- lidades tanto do adolescente quanto
mina, além de sua cultura, sos por parte do estado no trato com da instituição, sendo alguns exemplos,
uma outra cultura; aquele que o jovem privado de liberdade. os itens a seguir.
se torna um mestiço ( ) Adqui-
Algumas iniciativas poderiam Do adolescente: freqüentar as ati-
rir uma nova cultura não é
aproximar a rotina institucional das vidades, de acordo com o programa
negar a cultura primeira, mas inicial estabelecido; ter aproveitamen-
integrá-la no processo de de- unidades de privação de liberdade de
um projeto pedagógico: to mínimo nas atividades; demons-
senvolvimento humano e so- trar cooperação com o programa
cial (GADOTTI, 2000, p. 118). · Manter o interno informado de sua educativo; seguir as regras disciplina-
situação processual, respeitando-lhe res estabelecidas pela instituição;
A compreensão dos princípios des- todos os direitos previstos em lei; comportar-se com civilidade frente
sa educação transformadora e aos profissionais, entre outras.
· Estabelecer, em conjunto com o
participativa, exige posicionamento cla-
adolescente e tão logo o mesmo Da instituição: observar rigorosa-
ro, que se traduz na prática, pela re-
seja encaminhado para a unidade mente o cumprimento da legislação
pulsa a determinadas práticas e op-
onde vai cumprir a medida, um pla- referente à tutela de adolescentes in-
ção por outras. O que não faz sentido,
e por isso sempre há de fracassar, é no de trabalho individualizado, fi- fratores, garantindo a integridade físi-
xando metas claras e de curto pra- ca e psicológica do adolescente; pro-
entender por “projeto pedagógico”








      
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#1 $ %&' ( )

videnciar documentação civil para to- Recebido em 03.05.2002. Aprova- ______. Cartas a Cristina. Sã Paulo:
dos os adolescentes; regularizar a si- do em 13.03.2003. Cortez. 1994.
tuação escolar – documentação, ma-
GADOTTI, M. e ROMÃO, J. E.
trícula, históricos; garantir oferta de
(Orgs). Autonomia da escola:
ensino profisisionalizante; promover  , princípios e propostas. São Paulo:
atividades esportivas e culturais, con-
Cortez , 2000.
siderando os interesses dos educandos;
facilitar a assistência religiosa para os ARANTES, E. M. M. Psicologia e a GOFFMAN. E. Estigma: notas sobre
jovens que a solicitarem, garantindo- luta pelos direitos humanos. In: a manipulação da identidade
lhes a liberdade de crenças; conside- Psicologia, Direitos Humanos e deteriorada. Ed. Guanabara, Rio de
rar os avanços e os esforços de parti- Sofrimento Mental. SP: Casa do Janeiro, l988.
cipação nos relatórios técnicos que Psicólogo. Brasília: Conselho Federal
PILLOTI, F. e RIZZINI, I. (Org). A
subsidiam a avaliação periódica da de Psicologia, 2000.
arte de governar crianças: a história
medida socioe-ducativa.. ______. Rostos de crianças no das políticas sociais, da legislação e
Concluindo, nossa intenção é de Brasil. In: PILOTTI F e RIZZINI, I. da assistência à infância no Brasil. Rio
fazer um chamamento àqueles que li- (Orgs). A arte de governar crianças: de Janeiro. Instituto Interamericano
dam com a delicada equação de res- a história das políticas sociais, da Del Nino. Ed. Universitaria. Santa
ponsabilizar e assumir responsabilida- legislação e da assistência à infância Úrsula: AMAIS Liv e Ed. 1995.
des; educar para a transformação e no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto
OLIVEIRA, E. R. Dez anos do
transformar para educar. Interamericano del Niño/Ed. Santa
Estatuto da Criança e do Adolescente:
Úrsula/Amais Livraria e, 1995.
Não podemos nos omitir frente a contribuições para as políticas públicas
depoimentos como a deste jovem bra- BAZÍLIO, L. C. O menor e a do Estado do Rio de Janeiro. In:
sileiro, sob pena de sermos todos res- ideologia de segurança nacional. Belo BRITO, L. Jovens em conflito com a
ponsáveis pela destruição do nosso Horizonte: Vega. 1985. lei: a contribuição da Universidade ao
próprio futuro como sociedade. Preci- BRITO, L. M. T. (Coord). Jovens sistema socioeducativo. EdUERJ,
samos de um projeto que resgate o em conflito com a lei: a contribuição 2000.
sentido de dignidade para nossa juven- da Universidade ao sistema RIZZINI, I. Estatuto da Criança e do
tude. Para construí-lo precisamos acre- socioeducativo. Rio de Janeiro: Adolescente: uma década. Revista
ditar que ele seja possível e exercitar EdUerj, 2000. Transformação, ano XII, n.3, dez.
na prática seus preceitos teóricos, com 2000.
______ . Responsabilidades: ações
método e com perseverança.
socioeducativas e políticas públicas ______. A criança no Brasil hoje:
A ausência de uma política socioe- para a infância e juventude no estado desafio para o terceiro milênio. Rio
ducativa, racionalmente orientada pelo do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: de Janeiro: Ed. Santa Úrsula, 1993.
poder executivo, deixa margem a prá- EdUerj, 1999.
ticas repressivas e despersonaliza- RUFINO, J. Por um mundo melhor.
______. A presença da pedagogia: Jornal do Brasil , 25 jan. 2001, p. 10.
doras como o caso ora comentado.
teoria e prática da ação
VOLPI, M. (Org). O adolescente e o
socioeducativa. São Paulo: Ed. Global,
ato infracional. São Paulo: Cortez,
Instituto Ayrton Senna, 1999.
   1997.
BRASIL. Lei Federal n. 8.069/90.
%&   Estatuto da Criança e do Adolescente.
VOLPI, M.; SARAIVA, J. B.C. Os
adolescentes e a lei. Brasília,
CEDCA, Rio de Janeiro, 1994.
   !
  ILANUD, 1998
FAORO, R. Os donos do poder. Rio
 $ 0  5 de Janeiro: Globo, 1995.
WEBER, M. Ensaios de Sociologia.
Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
   FEITOSA, S. C. S. Método Paulo
Freire: princípios e práticas de uma
6 ,$ concepção em educação popular.
7
Dissertação de Mestrado. FE/USP,
6   1999.
1 Embora a nomenclatura referente
   2 FREIRE, P. Pedagogia da Esperança.
às unidades que se destinam ao
São Paulo: Paz e Terra, 1992.
cumprimento de medidas socioe-








      
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$+  , '-  .")+// 0& +).+ +)&).) 0.)  #!

ducativas de privação de liberdade 9 Aqui se faz mister ressaltar que Eliana Rocha Oliveira
varie em diferentes estados, elas existem profissionais (indepen- eliana@bemfam.org.br
permanecem mais conhecidas dente da função que exercem na
para o público em geral como instituição) que interferem com a
Departamento de Educação e comu-
FEBEMs (Fundação Estadual de maior determinação em situações
nicação/DEC
Bem-Estar do Menor), nome que como estas, impedindo o agrava-
refere-se diretamente à extinta mento da violação, inclusive Sociedade Civil Bem Estar Familiar
FUNABEM (Fundação Nacional expondo-se a retaliações e mesmo no Brasil/BEMFAM
do Bem-Estar do Menor) mas que a sanções administrativas pela Av. República do Chile, 230/17
foi mantido inalterado, como no ousadia de subverter a lógica
caso de São Paulo. dominante nas instituições totais. Centro
Infelizmente estes são ainda em Rio de Janeiro – RJ
2 FONACRIAD-Fórum de Diri-
número insuficiente para forçar a
gentes Governamentais de Enti- CEP: 20.031-170
reversão destas práticas.
dades Executoras de Políticas de
Promoção e Defesa de Defesa de 10 Segundo Volpi (1997), As medidas
Direitos da Criança e do Adoles- socioeducativas comportam
cente. Sua missão é a articulação aspectos de natureza coercitiva,
de esforços e garantia de inter- uma vez que são punitivas aos
câmbio de experiências entre os infratores, e aspectos educativos
dirigentes para qualificar a inter- no sentido da proteção integral e
venção dos respectivos órgãos. oportunização, e do acesso à
formação e informação. Sendo que
3 Departamento de Ações Socioe-
em cada medida esses elementos
ducativas.
apresentam graduação de acordo
4 Ver a este respeito Cunha, J.R. “A com a gravidade do delito cometido
Lanterna de Diógenes: Conside- e/ou sua reiteração.
rações sobre a justiça na Justiça”.
11 A atuação do Judiciário frente à
In BRITTO. Jovens em conflito
aplicação do ECA é bastante
com a lei; a contribuição da
diferenciadas nos estados brasi-
Universidade ao sistema socioe-
leiros e controversa em alguns
ducativo. RJ, EdUERJ, 2000.
deles. No Estado do Rio de Janeiro
5 No artigo “Dez anos do Estatuto da esse assunto tem sido objeto de
Criança e do Adolescente: obser- constante debate. Ver em especial
vações sobre a política de atendi- BRITTO, L.(Org). Responsabi-
mento a jovens em conflito com a lidades:ações socioeducativas e
lei no Estado do Rio de Janeiro”. In políticas públicas para a infância e
BRITTO: Jovens em Conflito com juventude no Estado do Rio de
a Lei. Rio de Janeiro, EDUERJ, Janeiro. RJ: EdUERJ, l999.
2000, procuro descre-ver o proces-
12 Ver Declaração Universal dos
so de implantação do DEGASE e
Direitos das Crianças (1959);
esboço uma análise de seu funcio-
Convenção das Nações Unidas
namento entre os anos de 95/98.
sobre os Direitos das Crianças
6 FUNABEM – Fundação Nacional (ONU, l989); Regras Mínimas das
do Bem Estar do Menor; CBIA – Nações Unidas para Adminis-
Centro Brasileiro para Infância e tração da Justiça da Infância e
Adolescência; SAM – Serviço de Juventude. Regras de Beijing
Atendimento ao Menor (ONU, l985); Diretrizes das
7 Ver nota anterior. Nações Unidas para a Prevenção
da Delinqüência Juvenil. Diretrizes
8 Esta temática é objeto de análise de RIAD.
do artigo “Avaliação dos adoles-
centes pelas equipes técnicas”
(BRITTO,2000).








      
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