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UFG

Módulo V – O Ensino de Literatura em Perspectiva Multicultural


Professor Responsável: Flávio Pereira Camargo

Goiânia - GO – Brasil
2021

Título: Análise de a mulher em construção: as relações históricas e socioculturais de gênero


Nome do autor: Graciane Cristina M. Celestino

Em seu livro de poemas Um Útero É do Tamanho de um Punho, Angélica Freitas,


mimetiza inúmeras figurações que se relacionam à condição feminina, seus poemas apresentam
variadas perspectivas, entre elas a da: mulher gorda; mulher de malandro; mulher de um único
homem; mulher dona de casa; mulher com ou sem útero. O presente ensaio buscará refletir
brevemente, por meio do poema “a mulher é uma construção”, de que maneira a poética
contemporânea de Freitas (2012) nos conduz à reflexão: que mulheres são essas? Quem as
adjetiva? A base para as breves ponderações aqui apresentadas serão os textos de Joan Scott
(1995) e o vídeo da youtuber Louie Ponto.
De tal modo, ao discutir os usos linguísticos e gramaticais do termo “gênero”, Scott
(1995), identifica como em dado momento histórico as feministas encetaram a utilização da
expressão, essa questão remonta à maneira como percebiam as relações de organização social
entre os sexos. O poema escolhido aponta essa noção de construção nos versos: / “a mulher
basicamente é pra ser/um conjunto habitacional/tudo igual/tudo rebocado/só muda a cor”/
quando o eu-lírico se refere à mulher enquanto um “conjunto habitacional”, no 5º verso, ele
indica uma metáfora da mulher enfatizando como o caráter social das distinções baseadas no
sexo podem indicar o ideário patriarcal em relação ao corpo feminino, visto que um conjunto
habitacional se refere a casas que tem em sua construção características físicas iguais, essa
reflexão remonta ao fato de que a opressão patriarcal desrespeita a identidade de cada mulher,
buscando padronizar sua constituição.
Do mesmo modo, os simbolismos sexuais relacionados ao corpo feminino são
estereotipados e se refletem em construções sociais e culturais que implicam em uma nova
construção histórica, pois nos versos 6º, 7º e 8º o eu-lírico intenciona refletir acerca de quem
realmente são e como se constituem essas mulheres. Reflexões estas que também são pontuadas
por Louie Ponto (2016), ao identificar as noções de gênero como construções socioculturais
que merecem ponderações mais aprofundadas sobre suas representações na sociedade
contemporânea. Em uma breve análise do poema escolhido percebemos a ausência de
pontuação, de letras maiúsculas, há alguns pontos de intertextualidade que se relacionam com
uma das figuras emblemáticas da tradição literária feminista inglesa, citada no verso 25º verso,
Virgínia Woolf, questionando a submissão feminina a padrões, em seu sentido simbólico.
Assim sendo, ao ponderar acerca das desigualdades e das experiências sociais
radicalmente diferentes e também pela diferença entre os trabalhos recentes de história das
mulheres e seu “status marginal”, podemos perceber nos versos: / “a mulher é uma
construção/maquiagem é camuflagem/toda mulher tem um amigo gay/como é bom ter
amigos/todos os amigos têm um amigo gay/que tem uma mulher/que o chama de fred Astaire”/
a conexão empreendida pelo eu-lírico que nos remete a estereotipias reproduzidas pela
sociedade, em que “toda mulher tem um amigo gay”, que “toda mulher usa maquiagem”,
repetições que na verdade servem a discursos permeados por relações de poder.
Deste modo, ao indicar as abordagens utilizadas por Scott (1995), a primeira como
descritiva, ou seja, se refere à existência de fenômenos da própria realidade, enquanto a segunda
é de ordem causal e teoriza sobre a natureza dos fenômenos, o poema demonstra de maneira
lírica como as relações de gênero se constituem enquanto construções históricas, perpassadas
por questões socioculturais que se estabelecem no bojo de um discurso patriarcal que tenta
silenciar a complexidade das relações de poder. As descrições do poema vão ganhando contorno
corporal e simbólico, no momento em que o eu-lírico informa que:/“neste ponto, já é tarde/as
psicólogas do café freud/se olham e sorriem/nada vai mudar -/nada nunca vai mudar -/a mulher
é uma construção.”/ o eu-lírico robustece o recado, pois reflete acerca do fato de que esta
mulher não é um objeto ou sujeito acabado, esta mulher tem sua subjetividade e se encontra em
construção.
Tanto em Scott (1995) quanto em Ponto (2016) percebemos que há duas perspectivas: 1a)
o gênero como elemento constitutivo de relações sociais que se embasam nas diferenças entre
os sexos. Há que se perceber a maneira como determinados símbolos são utilizados
culturalmente para estabelecer relações de poder; 1b) existem conceitos normativos que buscam
interpretar os significados dos símbolos, tentando conter a metaforização; 1c) a inclusão da
concepção de política bem como uma referência às instituições e à organização social; 1d)
gênero é a identidade subjetiva.
Em um segundo ponto temos: 2a) gênero como forma primária de significação das
relações de poder. Ao destacar a questão de ser a “mulher uma construção”, a poeta Angélica
Freitas conduz a reflexões acerca das referências recorrentes pelas quais o poder político tem
sido questionado, concebido e legitimado, referenciando e estabelecendo a oposição
homem/mulher. A provocação do eu-lírico “nada nunca vai mudar”, se constitui em um
leitmotiv para refletir acerca das formas de dominação, pois a alteração de quaisquer dos seus
aspectos, gera uma ameaça ao sistema e à posição conservadora patriarcal.
O poema condensa com brevidade analítica o exame de métodos de análise, que devem
clarear as hipóteses de reflexão e trabalho. Diante do exposto, esta realidade se aplica à
intervenção profissional do professor ao elencar as discussões pertinentes ao gênero, pois é
necessária a análise literária mais aprofundada para além da superficialidade das demandas
expostas pelo conteudismo na Educação Básica. A reflexão analítica doravante pontuada se
configura em um exame breve do poema, buscamos refletir as formas de dominação e como se
apresentam de forma histórica, social e cultural por meio de “a mulher é uma construção”, de
Angélica Freitas.

Referências

FREITAS, Angélica. A mulher é uma construção in: Um Útero É do Tamanho de um Punho.


– 1ª ed. – São Paulo: CosacNaify, 2012, p. 35-36.
PONTO, Louie. Vídeo: Qual é o meu gênero? Canal do You Tube Louie Ponto, 2008.
Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=LV7l13SZcw8> Acesso em: 12 de Ago,
2021.
SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, v.
15, n. 2, jul./dez. 1995.

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