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Planos Econômicos

APRESENTAÇÃO

A aceleração inflacionária se constitui em um dos principais motivos de preocupação nas


economias, pois possui diversos impactos negativos tanto sobre a população quanto no
desenvolvimento econômico. O ambiente de incertezas que se instala pode levar a economia à
recessão, como aconteceu durante a década de 1980 no Brasil, em que foram realizadas
diferentes tentativas para controlar a hiperinflação. Nesta Unidade de Aprendizagem, você irá
estudar os diferentes planos econômicos adotados pelos governos no Brasil ao longo dos anos
1980, a década perdida.

Bons estudos.

Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

• Reconhecer os conceitos de inflação, hiperinflação e deflação.


• Diferenciar os diferentes custos da inflação de uma sociedade e sua economia.
• Identificar os tipos de políticas econômicas contra a inflação que dividiram a década de
1980 no Brasil.

DESAFIO

Sabe-se que o controle da inflação é um dos principais objetivos dos governos. Entretanto,
quando ocorre deflação, também representa uma situação de preocupação, como aconteceu no
início do ano de 2015 na China.

Se você fosse um economista do governo responsável pela condução de políticas econômicas,


quais seriam suas atitudes perante uma situação de deflação no seu país? Explique o porquê da
sua decisão.

INFOGRÁFICO
A inflação é um dos indicadores mais importantes em uma economia. Observe no Infográfico.

CONTEÚDO DO LIVRO

Quando a inflação está instável, além de corroer a renda da população, revela um ambiente
econômico volúvel, prejudicial ao desenvolvimento do país. O controle desse indicador foi uma
das maiores preocupações ao longo da década de 1980.

Acompanhe um trecho da obra Economia: Teoria e Política, que apresenta os principais regimes
cambiais existentes e seus impactos sobre a economia. Inicie sua leitura pelo tópico Os efeitos
da inflação e finalize no tópico A indexação.
ECONOMIA
TEORIA E POLÍTICA
Tradução da 5a Edição Espanhola

Francisco MOCHÓN MORCILLO


Catedrático de Teoria Econômica
Facultad de Ciencias Económicas
Universidad Nacional de Educación a Distancia

Tradução
Fátima Conceição Murad
Leila de Barros
Sheila Clara Dystyler Ladeira

Revisão Técnica e Adaptação


Carlos Roberto Martins Passos
Economista com graduação e pós-graduação pela
Universidade de São Paulo – USP
Lecionou nos cursos de graduação da PUC/SP, FMU e UNIP,
na pós-graduação da FASP e da Faculdade São Luís, e no MBA
em Finanças do Ibmec e no IbmesLaw, do Ibmec Educacional

Bangcoc Beijing Bogotá Caracas Cidade do México


Cingapura Londres Madri Milão Montreal Nova Delhi Nova York
Santiago São Paulo Seul Sydney Taipé Toronto
472 - CAPÍTULO 20 - AS POLÍTICAS MACROECONÔMICAS NOS MODELOS CLÁSSICO, KEYNESIANO E DA SÍNTESE

Alguns esclarecimentos à explicação monetarista


Embora a quase totalidade dos economistas aceite a re-
lação entre inflação e quantidade de moeda e tome como
referência a teoria quantitativa para explicar os determi-
nantes no longo prazo do nível de preços e da taxa de
inflação, vale assinalar que não é apenas para fazer fren-
te às transações que se demanda moeda, mas a moeda é
demandada também como ativo (ver Capítulos 15 e 16).
Nesse caso, a demanda de moeda, em certas circunstân-
cias, pode absorver os aumentos da oferta monetária sem
que se produzam necessariamente alterações de preços.
Considere-se também que a velocidade de circulação da
moeda não é constante (ver Capítulo 16), de forma que a
relação entre oferta monetária e nível de preços no curto
prazo não é tão direta como defendem os monetaristas,
rechaçando, portanto, a neutralidade clássica do dinhei-
ro. A validade da hipótese monetarista limita-se ao longo
prazo e somente sob certas suposições.

20.4 Os efeitos da inflação


A inflação tem custos reais que dependem de dois fato-
res: de que a inflação seja esperada ou não, e de que a
economia tenha ajustado suas instituições para enfren-

19 Na realidade, a velocidade de circulação da moeda não é constante. A rela-


ção PIB/moeda depende, em primeiro lugar, das taxas de juros e da dispo-
nibilidade de alternativas à manutenção de moeda. Assim, quando as taxas
de juros são elevadas e as economias domésticas podem ter bons substitutos
da moeda, a velocidade tenderá a ser maior que em uma economia em que
não há substitutos próximos da moeda. A velocidade de circulação também
depende do nível de preços. Dessa forma, a velocidade de circulação é alta
nas situações em que o público tem pouca moeda em relação à sua renda.
Isso ocorre quando o custo de oportunidade de ter moeda é elevado, como
ocorre em um país com alta taxa de inflação. Um terceiro fator que influi na
velocidade de circulação da moeda é a renda real. Quando aumenta a renda
real, a velocidade de circulação tende a subir.
ECONOMIA: TEORIA E POLÍTICA - 473

tá-la (incorporando a inflação aos contratos de trabalho e A inflação esperada e os impostos


arrendamento de capital e revendo os efeitos do sistema
Com a inflação, há uma mudança das faixas tributárias na
fiscal diante de uma situação inflacionária).
medida em que aumenta a proporção de impostos que se pa-
gam por uma quantia dada de renda real. Essa mudança não
20.4.1 A inflação esperada afetaria os contribuintes se os impostos representassem uma
No contexto de uma economia fechada, quando a infla- proporção constante da renda nominal, pois, nesse caso, eles
ção é esperada e as instituições passaram por adaptações pagariam em impostos a mesma proporção de sua renda.
para compensar seus efeitos, os custos da inflação são de Porém, visto que a proporção dos impostos tende a aumentar
apenas dois tipos. Os primeiros, denominados custos de com o nível de renda nominal, a inflação, ao elevar a renda
“sola de sapatos”, decorrem do incômodo de precisar ir nominal, mas não a renda real, faz que os impostos aumen-
com muita freqüência às instituições financeiras para sacar tem. É o que se conhece como o imposto da inflação.
dinheiro e poder ajustar os saldos reais desejados à per-
O imposto da inflação é como um imposto sobre todas as
da de poder aquisitivo da moeda provocada pela alta de
pessoas que têm dinheiro.
preços. O outro tipo de custos decorre da necessidade de
mudar os preços constantemente, o que implica alterar as Os impostos sobre a renda procedente do capital tam-
listas de preços e os menus e, por isso, são conhecidos ge- bém são uma fonte de problemas, já que parte dos ganhos
nericamente como custos de “menu”. de capital — isto é, a apreciação dos ativos — se deve à
inflação e não são realmente ganhos de capital.
Os custos de sola de sapatos são os recursos
desperdiçados quando a inflação estimula os indivíduos a reduzir A inflação esperada e as taxas de juros
a manutenção em mãos de moeda. Os custos de menu são os
custos de modificar os preços. Durante os períodos inflacionários, os prestamistas exi-
gem uma compensação pela depreciação do poder aqui-
Quando as instituições não conseguem ajustar seu com- sitivo da moeda que emprestam. Portanto, a taxa de juros
portamento à inflação, surgem custos adicionais, mesmo nominal ou taxa de mercado tende a levar consigo uma
que a inflação seja esperada, e eles decorrem fundamental- quantidade extra de moeda de modo a compensar a perda
mente das distorções fiscais. de poder aquisitivo da quantia emprestada. Essa quantia

Nota Complementar 20.3 - O papel da moeda na economia segundo os monetaristas e os keynesianos


Monetaristas Keynesianos
1. A função demanda de moeda é muito estável. As mudanças na 1. A demanda de moeda não é muito estável (pelo motivo espe-
quantidade de moeda são o fator-chave para explicar a evolu- culação). Por essa razão, a velocidade de circulação não pode
ção da demanda agregada. ser considerada constante, e a incidência da quantidade de
moeda sobre a demanda não é direta.
2. No longo prazo, o produto nacional tende ao nível potencial,
de forma que uma alteração na quantidade de moeda recairá 2. A economia no curto prazo normalmente não tende a situar-
sobre os preços e não sobre o produto real. O crescimento da se em uma posição próxima ao pleno emprego. Isso justifica
quantidade de moeda determina a taxa de inflação no longo apelar à política fiscal para intervir na atividade econômica.
prazo.
3. A dicotomia clássica entre variáveis reais e variáveis nomi-
3. A dicotomia entre as variáveis reais e nominais é algo cer- nais nem sempre se cumpre. A moeda não é neutra no curto
to, pois mudanças na quantidade de moeda não afetam as prazo.
variáveis reais. A moeda é neutra.
4. A quantidade de moeda é endógena: depende do comporta-
4. A oferta de moeda é exógena: as mudanças na quantidade de mento das demais variáveis econômicas, e as autoridades aco-
moeda influem principalmente nos preços e estes são pouco modam seu crescimento à atividade econômica. A quantidade
influenciados por outras variáveis. de moeda influi em outras variáveis e estas, por sua vez, na
quantidade de moeda. Por isso, a moeda não é neutra.
5. Toda política fiscal que não seja acompanhada de uma mu-
dança na quantidade de moeda somente deslocará a iniciativa 5. Dada a instabilidade da velocidade de circulação da moeda,
privada, mas não terá efeitos apreciáveis sobre a atividade a política monetária não é um instrumentos útil, sobretudo
econômica real. quando se pretende tirar a economia de uma depressão. Já a
política fiscal terá um efeito líquido sobre a atividade, pois o
efeito-deslocamento não é apreciável.
474 - CAPÍTULO 20 - AS POLÍTICAS MACROECONÔMICAS NOS MODELOS CLÁSSICO, KEYNESIANO E DA SÍNTESE

extra é igual à taxa de inflação esperada. Esta é a chamada inflacionária, o valor dessa soma decresce. Dado que
equação de Fisher. os contratos de empréstimos costumam ser negociados
para um período de vários anos, se o credor não conse-
Taxa de juros Taxa de juros Taxa de guir elevar a taxa de juros monetária, seu rendimento
= – [20.2]
nominal real inflação real se reduzirá.
Além disso, como já salientamos, a inflação beneficia
A equação de Fisher estabelece que um aumento da inflação o Estado, de um lado, porque as distorções fiscais fazem
se reflete de forma total nas taxas de juros nominais. que aumentem os impostos e, de outro, porque boa parte
de seus gastos em termos reais costuma decrescer. Isso se
Com a renda gerada pelos juros ocorre o mesmo pro- deve a que uma parte dos juros e a amortização dos títulos
blema já apontado para a renda procedente do capital. da dívida pública vêm especificadas em termos monetá-
Assim, suponhamos que, ao longo de um ano, os preços rios, e o resultado é que o custo da dívida em termos reais
aumentem 10% e que a taxa de juros nominal se eleve na se reduz à custa das receitas reais dos detentores desses
mesma porcentagem, de modo que a taxa de juros real títulos. Desse modo, o setor público é claramente benefi-
(taxa de juros real = taxa de juros nominal – taxa de in- ciado pela inflação.
flação) não varia. Se o governo tribute a renda procedente
dos juros nominais, digamos, por exemplo, com um taxa Vale ainda comentar os efeitos da inflação sobre a ri-
de 30%, leva-se em impostos 3% (0,30 . 10%) da prime queza e sua distribuição. Dado que a inflação supõe uma
de inflação. Em outras palavras, a taxa de juros real rece- redução no valor da moeda, isso significará uma redução
bida pelas prestamistas, depois de deduzidos os impostos, do valor real das poupanças e afetará os agentes econômi-
se reduz em 3%, e com isso, mais uma vez, as receitas do cos em função da proporção da riqueza que estes mante-
Estado aumentam graças à inflação, nesse caso, à custa nham em moeda e em ativos de valor nominal fixo.
dos prestamistas. Efeitos sobre a atividade econômica
A inflação também terá efeitos perturbadores sobre a
20.4.2 A inflação não-esperada atividade econômica ao alterar a estrutura de preços re-
Os efeitos da inflação não-esperada sobre o sistema eco- lativos, pois, como é lógico, nem todos os preços abso-
nômico podem ser classificados em dois grandes grupos: lutos aumentam por igual. Dado que os preços relativos
efeitos sobre a distribuição da renda e sobre a riqueza e são os sinais que orientam o funcionamento do mercado,
efeitos sobre a alocação dos recursos produtivos. Além uma alteração de sua estrutura implica uma perturbação
disso, vamos tratar dos efeitos da inflação sobre a produ- na alocação de recursos na medida em que a informação
ção e o emprego. é dificultada.
Efeitos sobre a distribuição da renda A inflação, ao alterar a estrutura dos preços relativos, tem
efeitos perturbadores sobre a atividade econômica.
Os efeitos da inflação sobre a distribuição da renda
e sobre a riqueza são os mais visíveis e os que mais se
destacam. A origem do problema costuma residir em que certos
responsáveis por atividades que não encontram demanda
A inflação prejudica os indivíduos que recebem ren-
suficiente para seus produtos pressionam para que os pre-
das fixas em termos nominais e, em geral, os que recebem
ços sejam superiores aos custos de produção, pois só as-
rendas que crescem menos que a inflação. Um exemplo
sim poderão cobrir seus custos reais e continuar produzin-
típico desses grupos costumam ser os aposentados e os
do. Essa pressão ocorrerá independentemente das pressões
pensionistas.
inflacionárias. É comum que, no contexto de um processo
É comum também se afirmar que a inflação favore- inflacionário, os preços de certos bens e serviços tenham
ce os devedores nominais e prejudica os credores em aumentos que não respondem a tensões pelo lado da de-
termos monetários. Os credores acertam empréstimos manda, mas sim à capacidade de determinadas empresas
em termos monetários, no sentido de que o devedor se para fixar os preços, em razão da existência de situações
compromete a devolver uma quantidade fixa de moe- não competitivas. Nesses casos, a inflação será, na verda-
da por período. Se o pagamento é feito mediante uma de, a desculpa que permite ao empresário encobrir sua ine-
quantidade fixa em termos monetários em uma situação ficiência ou a falta de demanda para seu produto.
ECONOMIA: TEORIA E POLÍTICA - 475

A validação desses pedidos, por meio de políticas artifi- salário nominal, mas também no salário real que espera
ciais de demanda e preços “administrados”, contribuiu para obter, o qual, logicamente, dependerá da taxa de inflação
causar sérias distorções no sistema produtivo, pois se pro- prevista. Se os trabalhadores aceitam determinado salário
duziram bens e serviços que não teriam sido viáveis econo- nominal e os preços aumentam, o poder aquisitivo se re-
micamente sem essa determinada porcentagem acima do duzirá. Porém, se os trabalhadores não padecem de ilusão
custo marginal. Ao contrário, outros bens e serviços, talvez monetária e prevêem que os preços vão subir, pressiona-
até mais necessários socialmente, não foram elaborados rão para elevar seu salário nominal, de modo que o poder
porque os fatores produtivos não tiveram motivação para aquisitivo deste não se reduza.
buscar novas colocações, fazendo que as defasagens entre
Nesse sentido, os aumentos salariais em termos nomi-
a oferta e a demanda sejam cada vez mais profundas.
nais são uma tentativa de defesa por parte dos trabalha-
De todo modo, os efeitos mais significativos da infla- dores diante da perda de poder aquisitivo provocada pela
ção em termos da atividade econômica, isto é, a produção inflação, e essa atitude defensiva constitui a base da espiral
e o emprego, ficam evidentes quando se adota uma pers- preço-salários analisada anteriormente. Do mesmo modo,
pectiva internacional. se as empresas souberem que os custos de produção se ele-
varão em decorrência dos aumentos salariais, vão procurar
Os países que apresentam taxas de inflação maiores
se defender, elevando novamente os preços.
verão seus produtos perderem competitividade, o que in-
cidirá negativamente sobre suas exportações. A inflação e o mercado financeiro
A incerteza Não só no mercado de trabalho se prevê a inflação e se
adotam medidas defensivas, como também no mercado
A incerteza gerada pelos processos inflacionários foi des-
financeiro. Assim, como já dissemos (Equação [20.2]), os
tacada como um elemento negativo que afeta a produção.
prestamistas não se preocupam apenas com a devolução
Em particular, tem-se assinalado que a incerteza decorrente
do principal acrescido dos juros, mas igualmente com o
da inflação dificulta os controles e os cálculos de retornos valor real das quantidades a receber. Por isso, tratarão de
dos investimentos. Dessa maneira, o investimento se res- impor uma taxa de juros real que seja igual à taxa de juros
sente, o que faz que a acumulação de capital e, paralela- nominal, menos a taxa de inflação esperada.
mente, a produtividade sejam seriamente afetadas.
Do mesmo modo, a inflação prevista induz o público a
A incerteza se manifesta nos cálculos de investimentos alterar a composição de sua disponibilidade tanto de moeda,
em termos de uma quantia extra de moeda para compensar quanto de títulos, obrigações e outros bens. Alguns des-
riscos mais altos, e impede que um pacote normal de proje- ses ativos protegem seus proprietários contra a inflação
tos de capital satisfaça os critérios financeiros aceitáveis. O e outros não. Por esse motivo, quando se esperam fortes
déficit em investimentos se concentrará em investimentos tensões inflacionárias, aumenta a demanda de ativos imu-
no longo prazo, já que esse tipo de investimento é mais nes à inflação e diminui a demanda dos que podem ser
sensível à incerteza e à instabilidade associada à inflação. afetados negativamente por ela.
Em termos mais gerais, devemos assinalar que em países
A incerteza ligada aos processos inflacionários incide
negativamente sobre a produção e sobre o crescimento ao elevar
com fortes e longos períodos de inflação, costuma haver
a quantia adicional de moeda para compensar o risco. um deslocamento de ativos financeiros para ativos físi-
cos. Os ativos físicos geralmente mantêm seu valor com
relação a outros bens. Por essa razão, é comum que em
20.4.3 Os agentes econômicos e a luta contra a épocas de inflação as poupanças sejam investidas em ati-
vos, tais como casas, terrenos ou metais preciosos, o que
inflação faz que a demanda desse tipo de ativos se eleve e, conse-
A persistência da inflação faz que esta seja prevista com qüentemente, seu preço aumente. Além disso, é comum
maior ou menor acerto pelos agentes econômicos, fazen- ter parte da liquidez em divisas de países com moedas
do que estes a incorporem ao seu comportamento para estáveis. Nesse sentido, o dólar, o euro e o iene costumam
defender-se de seus efeitos adversos. atuar como moedas-refúgio.

A inflação e o mercado de trabalho As políticas de estabilização


Comecemos pelos trabalhadores. O trabalhador, ao aceitar À luz da análise das teorias explicativas da inflação e da
determinado salário, não pensa unicamente em termos de própria evidência empírica, a fórmula comumente ado-
476 - CAPÍTULO 20 - AS POLÍTICAS MACROECONÔMICAS NOS MODELOS CLÁSSICO, KEYNESIANO E DA SÍNTESE

tada para combater as tensões inflacionárias consiste em Na prática, a indexação traz problemas, pois há defa-
executar políticas contracionistas de demanda e de custo, sagens entre o momento em que os preços variam e o mo-
tanto monetaristas quanto fiscais. De todo modo, no lon- mento em que todos os pagamentos podem ser ajustados.
go prazo, a chave para combater a inflação está em con- Além disso, os desajustes fiscais, como já dissemos, são
trolar o crescimento da quantidade de moeda e vinculá-la difíceis de evitar.
às necessidades da atividade produtiva da economia. A indexação também apresenta o inconveniente de
Por sua vez, para tentar combater a inflação, os gover- que quando os agentes se habituam a conviver com a in-
nos às vezes utilizam políticas de rendas a fim de influir flação, sofre-se um viés inflacionário e se começa a acre-
diretamente nos salários e nos preços. Assim, o governo ditar que a taxa de inflação pode aumentar sem que isso
pode facilitar acordos com os sindicatos e com os em- traga maiores conseqüências. Contudo, dados os “custos
presários para moderar o crescimento dos salários e dos de sola de sapatos” e os “custos de menu”, e considerando
preços. que os ajustes da indexação são sempre imperfeitos, os
custos de uma inflação alta seriam elevados. Basta pensar
Às vezes, os governos aprovam medidas legislativas nos processos inflacionários experimentados no Brasil,
que procuram controlar os salários e os preços. Essas leis Argentina ou Israel. Além disso, há o perigo de se gerar
são chamadas controles de preços e salários; seu obje- um processo de inflação progressiva que conduza a um
tivo é regular e limitar os preços e os salários que as em- período de hiperinflação (ver Nota Complementar 20.4).
presas podem pagar.
Conseqüentemente, em algum momento será preciso
A incerteza ligada aos processos inflacionários incide lutar contra a inflação e, dessa perspectiva, argumenta-se
negativamente sobre a produção e sobre o crescimento ao elevar que vale mais lutar hoje que no futuro, quando a taxa de
a quantia adicional de moeda para compensar o risco. inflação e os custos que isso acarreta forem maiores.
Quando adotamos uma perspectiva internacional, a con-
A indexação veniência de combater a inflação para evitar as perdas de
A alternativa para enfrentar a inflação consiste em tentar competitividade (ou a necessidade de recorrer sistema-
aprender a conviver com ela, em particular, procurando ticamente à desvalorização da moeda nacional) torna-se
ajustar totalmente as instituições da economia à inflação. ainda mais evidente. Nesse sentido, a luta contra a in-
Nesse sentido, conviver com a inflação significa introdu- flação deve contemplar uma política monetária restritiva,
zir a indexação de forma generalizada, tanto nos contra- que contribua para quebrar as expectativas inflacionárias,
tos como na fixação dos preços. Mediante a indexação, acompanhada de uma política fiscal austera que reduza o
todos os pagamentos seriam ajustados automaticamente déficit público.
aos efeitos da inflação.

Nota Complementar 20.4 - A hiperinflação e a deflação


A hiperinflação Uma hiperinflação desse tipo desorganiza a produção e os mer-
cados, e redistribui de forma considerável a renda e a riqueza.
Uma economia é afetada por um período de hiperinflação quan-
do os preços crescem a taxas superiores a 50% ao mês. Quando A deflação
isso ocorre, os indivíduos tratam de se livrar da moeda líquida de
A deflação ocorre quando a taxa de inflação é negativa. Nesse
que dispõem antes que os preços cresçam mais e façam que o di-
sentido, o contrário da inflação é a deflação e ela ocorre quando
nheiro perca mais valor ainda. Esse fenômeno é conhecido como
o nível geral de preços está caindo. Trata-se de um fenômeno
fuga da moeda, e consiste na redução dos saldos reais que os
relativamente pouco freqüente.
indivíduos possuem, pois a inflação encarece a posse de moeda.
As deflações prolongadas, nas quais os preços se reduzem
As hiperinflações são excepcionais e extremas. Comumente,
de forma ininterrupta durante vários anos, estão associadas a pe-
aparecem associadas a conflitos políticos, a guerras e suas seqüe-
ríodos de depressão, como a década de 1930 ou a de 1890. Mais
las ou a revoluções sociais.
recentemente, o Japão iniciou uma deflação em finais da década
Ao longo da história, surgiram diversos períodos de hiperin- de 1990, período em que sua economia sofreu uma recessão pro-
flação, e o caso mais conhecido é o da Alemanha no período longada, da qual ainda não saiu totalmente.
posterior à Primeira Guerra Mundial (1922–1923). Basta um
único dado para indicar a intensidade da hiperinflação: no mês
de outubro de 1923, os preços cresceram 29.720%.
DICA DO PROFESSOR

Além da interrupção da tendência de crescimento econômico brasileiro das últimas décadas, os


anos 1980 foram marcados por níveis inflacionários históricos.

Os diferentes planos econômicos adotados ao longo da década, não foram suficientes para
controlar esse problema. Acompanhe no vídeo a seguir uma breve abordagem sobre esse
período.

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EXERCÍCIOS

1) Com relação ao estudo da inflação, marque a alternativa CORRETA:

A) A inflação é o aumento dos preços de bens e serviços de todas as economias mundiais em


um determinado período de tempo.

B) A inflação possui somente dois tipos de custos, os custos de “sola de sapatos” e os “custos
de menu”.

C) A relação entre inflação esperada e impostos significa que quanto maior é a subida dos
preços de uma economia, maiores serão os impostos para conter a inflação.

D) Quando ocorre inflação no país, a moeda dessa economia perde valor.

E) A inflação não influencia no nível de poupança que os agentes realizam.

2) Os custos da inflação envolvem alguns fatores, dentre os quais a inflação esperada e a


inflação não esperada. Escolha a alternativa que se adeque a este assunto:
A) Quando os agentes econômicos realizam aplicações financeiras no mercado de títulos, ao
resgatarem seu dinheiro no final do período, o montante recebido perderá seu valor
estimado se a inflação for elevada durante o período da aplicação.

B) O custo “sola de sapatos” está relacionado à depreciação dos calçados utilizados pelos
agentes econômicos ao se deslocarem até as instituições financeiras para se protegerem
dos aumentos de preços da economia.

C) Sempre que ocorre inflação, as rendas são adaptadas na mesma proporção para que não se
perca poder de compra.

D) Se uma instituição financeira credora não conseguir embutir adequadamente a inflação


sobre as parcelas a serem cobradas pelos seus devedores, será prejudicada sobre uma
situação de aceleração inflacionária, pois o montante recebido das parcelas perderá o seu
valor.

E) A inflação esperada provoca efeitos significativos sobre a distribuição de renda dos


indivíduos, pois o “custo de menu” corrói o poder de compra dos agentes econômicos,
principalmente pensionistas e aposentados.

3) Sobre os efeitos da inflação e atividade econômica de um país, escolha a opção


verdadeira:

A) Tanto a inflação esperada quanto a não esperada impactam apenas sobre o poder de
compra da população, enquanto a economia se ajusta a esse efeito negativo por meio de
políticas fiscais.

B) Apenas a inflação não esperada apresenta efeitos negativos sobre a economia de um país e
sua população, pois são valores superiores ao que foi previsto.

C) A inflação que provoca grandes instabilidades econômicas, ocorre devido a pressões da


demanda sobre uma quantidade mais limitada de oferta de bens e serviços.
D) A confiança dos agentes econômicos na economia pode ser afetada por pressões
inflacionárias, pois estas provocam incertezas sobre o controle e cálculo da rentabilidade
dos investimentos, e os indivíduos se tornam mais cautelosos ao gastarem ou investirem na
economia.

E) Qualquer aplicação financeira protegerá os agentes econômicos com relação à inflação,


pois se isso não acontecesse, não haveria vantagem em poupar para gastar num futuro
próximo, uma vez que a inflação corroeria parte do rendimento sobre a aplicação
financeira realizada. Essa é uma exigência do mercado financeiro para proteger a
economia contra variações inflacionárias.

4) Considerando o papel da moeda na economia para os monetaristas e os Keynesianos,


qual a opção verdadeira?

A) O estudo de como o nível de preços é determinado e se altera a longo prazo está


relacionado à Teoria Quantitativa da Moeda.

B) Para os Keynesianos a causa direta da inflação é o aumento da disponibilidade de moeda


em uma economia.

C) Para os Keynesianos a velocidade da moeda é relativamente estável a longo prazo.

D) Os monetaristas defendem a não neutralidade da moeda.

E) Os Keynesianos defendem as políticas monetárias como o principal meio para recuperar a


economia de períodos de crise, recessão ou depressão.

5) A inflação é uma das maiores preocupações dos governos. Com relação às políticas de
estabilização, marque a opção CORRETA:

A) Para os monetaristas, quando o banco central aumenta rapidamente a oferta de moeda, o


resultado é o aumento da inflação.

B) As evidências empíricas revelam que apenas as políticas monetárias são utilizadas para o
controle da inflação, por apresentarem resultados imediatos e que persistem a longo prazo.

C) Na realidade, no combate à inflação, uma política fiscal pode ser expansionista, desde que
se utilize uma política monetária contracionista. Os efeitos sobre a inflação serão os
mesmos.

D) A inflação que ocorre quando a variação dos preços supera os 50% em um único mês,
deve ser controlada por políticas ortodoxas, como ocorreu no Brasil na primeira metade
dos anos 80.

E) A deflação é quando há uma redução no nível geral dos preços, ao contrário da inflação.
Neste sentido, economias que conquistam essa situação não devem adotar políticas
expansionistas, pois poderiam reverter essa situação econômica favorável à população.

NA PRÁTICA

Os desafios relacionados à estabilidade inflacionária foram históricos na década de 1980.


Abaixo está apresentada a evolução do índice oficial do governo para inflação, o Índice de
Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), salientando-se os períodos em que os planos econômicos
ortodoxos e os heterodoxos dividiram os anos 1980.
SAIBA MAIS

Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do
professor:

Inflação dos anos 80 e 90 mudou hábitos de consumo

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Fenômeno da deflação prejudica a economia do Japão

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