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Plano Collor e a modernização

APRESENTAÇÃO

A hiperinflação foi um dos maiores desafios ao crescimento econômico do Brasil na década de


1980 e no início dos anos 90. Fernando Collor de Melo foi eleito em 1990, por meio do voto
direto, e seu mandato foi marcado por medidas polêmicas que marcaram a vida da população
brasileira e a história econômica do país. Porém, a abertura comercial promovida por Collor
trouxe benefícios econômicos ao país e à população nos anos que sucederam o seu governo. A
reprovação dos brasileiros à condução da política econômica, assim como uma série de
acusações graves de corrupção fizeram com que o presidente sofresse um impeachment em
1992. Nesta Unidade de Aprendizagem, você irá estudar a entrada da economia brasileira no
processo de integração comercial mundial promovida por Collor de Melo.

Bons estudos.

Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

• Reconhecer o significado de globalização.


• Diferenciar as ondas de globalização da história.
• Identificar os impactos da globalização sobre as economias.

DESAFIO

Sabe-se que a integração comercial de um país com o resto do mundo permite uma aceleração
do seu desenvolvimento econômico por causa da troca de tecnologias, de informações, de
técnicas de produção, entre outros. Porém, uma economia que abre o seu mercado após muitos
anos de barreiras protecionistas sente impactos negativos em curto prazo. Imagine que você
tenha sido o proprietário de uma indústria calçadista na época em que Fernando Collor de Melo
tomou medidas que permitiram maior abertura comercial do Brasil com o mercado externo.
Quais os impactos positivos e negativos desse processo sobre o seu negócio em curto e em
longo prazo? E sobre a economia e sociedade como um todo? Explique os motivos desses
impactos.
INFOGRÁFICO

O comércio internacional e os fluxos internacionais de capital contribuem para incrementar a


produtividade dos fatores. A globalização costuma ser identificada com a abertura ao comércio
internacional. Observe o infográfico a seguir:

CONTEÚDO DO LIVRO

Apesar das medidas econômicas polêmicas adotadas pelo governo Collor, algumas trouxeram
benefícios para o desenvolvimento econômico do Brasil no médio e no longo prazo. A abertura
comercial realizada pelo então presidente, permitiu maior integração da economia brasileira ao
comércio internacional.

Acompanhe um trecho da obra Economia: Teoria e Política, que apresenta os principais


conceitos relacionados a globalização e a sua importância para as economias que participam
desse processo. Inicie sua leitura pelo tópico "O conceito de globalização" e finalize no tópico
"O aumento da cota de participação do comércio internacional no PIB".
ECONOMIA
POLÍTICA

Filipe Prado
Macedo da Silva
Plano Collor e modernização
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

 Reconhecer o significado de globalização.


 Diferenciar as ondas de globalização da história.
 Identificar os impactos da globalização sobre as economias.

Introdução
Neste capítulo, você vai estudar o significado da globalização como o fim
ou a redução das fronteiras nacionais e a integração cada vez maior dos
mercados, dos meios de comunicação e dos transportes. Esse movimento
globalizante atingiu a partir dos anos 1990 todo os continentes, inclusive
o Brasil, com o Plano Collor. Diferentemente das duas outras ondas histó-
ricas da globalização, a terceira e atual onda foi marcada por uma maior
inclusão e influência dos países em desenvolvimento – os chamados
novos globalizadores –, como o Brasil, a China, a Índia e a África do Sul.
Com o acirramento dos efeitos da globalização econômica, diferentes
impactos foram produzidos sobre os mais diferentes países, resultando
em ganhadores da globalização e em perdedores da globalização.

O significado de globalização
A globalização – em qualquer momento histórico – significa o fim ou a re-
dução das fronteiras nacionais e a integração cada vez maior dos mercados,
dos meios de comunicação e dos transportes (SANDRONI, 2005). Logo,
a ideia de globalização não se restringe à dimensão econômica (fluxos de
bens, serviços, moedas e fatores de produção), mas compreende também a
livre-mobilidade dos elementos sociais e culturais e dos interesses políticos
(FIORI, 1997; SANTOS JÚNIOR, 2001).
Existe um relativo consenso, entre diferentes intelectuais, que, nas dé-
cadas de 1970-1980, condensaram-se acontecimentos e decisões nos planos
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econômico e político internacionais responsáveis por uma inflexão histórica


de dimensões universais: a globalização contemporânea (FIORI, 1997). As
diferenças acerca desse “novo movimento de globalização contemporânea” são
justamente as dimensões universais com que o fim ou a redução das fronteiras
alcançou: todos os continentes geográficos passaram a sofrer os efeitos.
Segundo Fiori (1997), as transformações das ordens econômica e geopolítica
mundiais movimentaram quatro grandes processos: (1) no plano econômico;
(2) no plano ideológico; (3) no plano político; e (4) no plano geopolítico. Assim,
entre 1989 e 1991, a globalização contemporânea gerou nesses quatro pro-
cessos uma convergência a um otimismo universal consagrado pelo anúncio
do fim da história. Finalmente, os movimentos globais eram um consenso
transcontinental.
No plano econômico, a globalização contemporânea avançou não somente
no intercâmbio dos bens e/ou serviços em nível mundial, mas igualmente
na revolução e na explosão financeira internacional. Em outras palavras, a
globalização financeira alcançou dimensões universais – passando a repre-
sentar cada vez mais “pedaços” importantes do mundo econômico. Tudo isso
ocorreu sob a hegemonia do “ciclo de acumulação norte-americano”, que, após
o fim do bloco socialista (com a queda da União Soviética), estabeleceu um
consenso (de Washington) para a desregulamentação dos mercados financeiros
avançados e da periferia do capitalismo (ou seja, dos países mais pobres, como
o Brasil) (FIORI, 1997).
Já, no plano ideológico, a globalização contemporânea consolidou a nova
onda liberal, difundindo uma reestruturação neoclássica sustentada por forças
políticas conservadoras e pró-mercado. O que isso quer dizer? Quer dizer que
a globalização contemporânea vem acompanhada de um pacote doutrinário
com recomendações para um programa comum de políticas e reformas ins-
titucionais que devem ser adotadas progressivamente por todos os governos
que desejam aproveitar os efeitos positivos da integração global e da economia
de mercado (FIORI, 1997; SANTOS JÚNIOR, 2001).
Por sua vez, no plano político, a globalização contemporânea requer que
os países participantes dos seus processos de integração fortaleçam a adoção
do sistema liberal-democrático. Assim, os Estados e os seus governos devem
se alinhar em torno dessa nova agenda – cada vez mais repleta de demandas e
orientações internacionais (ou externas) sobre como conduzir políticas públicas
e programas domésticos. Ou seja, existe a tentativa de se homogeneizar poli-
ticamente os países e seu campo político. Por fim, no plano geopolítico, cabe
destacar que a globalização contemporânea herdou a possibilidade de uma “paz
universal”, com o fim da Guerra Fria no final dos anos 1980. Vale destacar
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que “o mundo considerado economicamente relevante agora caminha dentro


do mesmo plano geopolítico” e no mesmo sentido ideológico (FIORI, 1997).
Além disso, falar de globalização, atualmente, é falar ainda sobre os avanços
dos meios de comunicação e dos transportes, que abriram um novo horizonte
para os processos de integração dos mercados (de bens e/ou serviços, trabalho,
moedas estrangeiras e investimentos). Em outras palavras, esses avanços
logísticos e de informações fizeram o mundo ficar aparentemente menor.
No caso dos meios de comunicação, é fundamental destacar os avanços
produzidos pela internet, e suas revoluções de (baixo) custo relativas à trans-
missão de informações/dados em todos os aspectos. Em termos práticos,
isso possibilitou a comunicação estratégica diária (de longa distância) intra
(dentro) e extra (fora) governos, empresas e cidadãos. Além do mais, os meios
de comunicação mais tradicionais – como o telefone, a televisão, o rádio e a
mídia impressa – se aprimoraram estrategicamente e/ou operacionalmente,
aliando os novos paradigmas contemporâneos, como baixo custo e velocidade
na transmissão. Em suma, é cada vez mais rápido e mais barato se comunicar
dentro e fora dos continentes.
Já no caso dos meios de transportes, é fundamental comentar os avanços
produzidos pela aviação civil e pelo transporte de cargas marítimas. As ino-
vações nesses dois modais logísticos levaram a outro patamar – muito supe-
rior – os deslocamentos de pessoas e de mercadorias. Atualmente, é possível
realizar viagens a negócio (ou a lazer) transcontinentais em algumas horas,
ou o transporte de mercadorias, que, 30 anos atrás, eram inimagináveis, seja
por conta da distância linguística, e/ou seja pelas especificidades logísticas
(como é o caso da perecibilidade de produtos agropecuários).
Sintetizando, a globalização dos dias atuais significa atender a um con-
junto de elementos econômicos e não econômicos de dimensão universal, a
saber: a integração financeira, o pacote de reformas políticas ou doutrinárias
de cunho neoliberal, o alinhamento geopolítico com os países avançados do
ocidente (o que inclui a participação em acordos e convenções internacionais),
o aprimoramento dos meios de comunicação e a instalação dos novos meios
de transporte. Tudo isso são peças da nova globalização contemporânea, seja
do ponto de vista econômico, cultural, político ou social.

Os desdobramentos da globalização no Período Collor


Foi no início dos anos 1990 que Fernando Collor de Melo – eleito o primeiro
Presidente pelo voto direto, após a redemocratização – abriu o país para a mo-
dernização globalizante (CASTRO, 2011). Naquele momento, isso significava
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uma ruptura com o modelo brasileiro de crescimento econômico com elevada


participação do Estado e proteção comercial tarifária.
Assim sendo, o Brasil passou a dar os primeiros passos em torno dos des-
dobramentos da globalização contemporânea. A gestão política de Collor deu
início à modernização – mas foi no governo de Fernando Henrique Cardoso
que o processo se aprofundou –, em especial, a abertura comercial do Brasil
para o mundo dito avançado (fundamentalmente a tríade comercial formada
por Estados Unidos, Europa e Japão).
O período Collor herdou a crise financeira do Estado brasileiro, marcada
pelo esgotamento do modelo de gestão da economia liderado pelo Estado.
Além disso, o mundo naquele momento – final dos anos 1980 e início dos
1990 – estava mudando radicalmente, aliando novos paradigmas e um modelo
homogêneo de desenvolvimento econômico (ou seja, o capitalismo global).
Consequentemente, o período Collor foi caracterizado pela adoção, por
parte do Estado brasileiro, das recomendações do chamado Consenso de
Washington. Esse documento, elaborado pelo economista John Williamson,
listou uma série de reformas políticas e estruturais que os países – em especial
os países ditos em desenvolvimento – deveriam adotar na área da economia
para que se alinhassem a um movimento global e entrassem em uma trajetória
de crescimento ascendente e autossustentado (CASTRO, 2011).
Em poucas palavras, o Consenso de Washington era uma cartilha da glo-
balização contemporânea. Logo, o que isso incluía? Incluía fundamentalmente
os elementos econômicos e não econômicos descritos na seção anterior: a
integração financeira, o pacote de reformas de ideologia neoliberal, o ali-
nhamento geopolítico com os países avançados do ocidente (o que inclui a
participação em acordos e convenções internacionais), o aprimoramento dos
meios de comunicação e a instalação dos novos meios de transporte.
No Brasil, o governo Collor iniciou as alterações em torno da disciplina
fiscal, da liberalização comercial e financeira, além da forte redução do papel
do Estado na economia. Soma-se a isso duas ações econômicas de considerável
relevância: as privatizações e os planos de estabilização econômica. Com
a crise fiscal do Estado brasileiro, as privatizações eram “uma alternativa
globalizante para incorporar serviços ou capitais estrangeiros – liberando,
assim, os déficits públicos para o setor privado.
No que diz respeito aos planos de estabilização econômica, o governo Collor
buscou intensamente reduzir a inflação e gerar um certo controle monetário, a
fim de dar estabilidade e competitividade para o país. Nesse caso, as ações do
governo Collor não surtiram muito efeito, mesmo com os Planos Econômicos
Collor I e II. Somente a partir de 1994, com o Plano Real, no governo Fernando
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Henrique Cardoso, é que o país gerou estabilidade econômica, financeira,


monetária e cambial (CASTRO, 2011; GIAMBIAGI, 2011).
Em suma, o Plano Collor – em níveis político, econômico e social – era
modernizar o país em torno das principais recomendações da globalização
contemporânea. Ainda que críticas sejam feitas – com razão –, é importante
frisar que naquele momento ocorreram relevantes quebras de paradigmas em
torno de um país que mantinham um Estado desenvolvimentista e fortemente
interventor. As novas bases globais eram de liberdade, financeirização e
mercantilização das relações sociais, em prol de uma economia de mercado.

No campo econômico e produtivo, um dos processos mais revolucionários foi o global


sourcing. Essa expressão em inglês designa o moderno processo de abastecimento
de uma empresa, em que seus fornecedores de matérias-primas e suas estruturas
produtivas estão em várias partes do mundo, cada um produzindo e oferecendo as
melhores condições de preço e qualidade. Esse processo de fragmentação da produção
em escala global tem sido facilitado pelo enorme avanço das comunicações e novas
tecnologias de transporte associado ao intenso “barateamento” de ambos os processos.
Ou seja, hoje, mais do que nunca, é possível explorar as vantagens ditas comparativas
entre países, empresas e cidadãos (SANDRONI, 2005).

As ondas de globalização da história


Segundo os historiadores, a globalização existe há muito tempo. A Revolução
Industrial e as transformações tecnológicas – como a invenção do navio a vapor
e da ferrovia, que produziu meios mais baratos de levar e comercializar dentro
e fora dos continentes – estimularam um período de globalização primitiva
no final no século XVIII e ao longo do século XIX.
De maneira semelhante, novas invenções – como os aviões e a internet
– ajudaram a encorajar períodos posteriores de integração e movimentos trans-
fronteiriços de bens e serviços, trabalho, tecnologia, capital fixo e financeiro,
entre outros. Assim, a globalização como movimento foi se aprimorando,
ganhando mais dinamismo e incorporando diferentes fluxos transfronteiriços,
como os fluxos de ideias, valores políticos e sociais, linguagens e diferentes
outros componentes da cultura. Como vimos na seção anterior, hoje em dia,
a globalização é frequentemente associada ao fluxo de crenças e instituições
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econômicas, políticas e sociais ocidentais para outras regiões do mundo (IN-


TERNATIONAL MONETARY FUND, 2008).
Como qualquer outro movimento da humanidade, a globalização ao longo da
história teve auges (picos) e teve também declínios (vales). É comum, segundo
diferentes historiadores, analisar a globalização como um movimento de três
grandes ondas: de 1870 até 1913 (sendo a primeira onda), de 1950 até 1973 (sendo
a segunda onda) e de 1974 até 2007 (sendo a terceira onda) (THREE..., 2008).
Durante a primeira onda, o comércio internacional e o investimento estran-
geiro aumentaram à medida que algumas barreiras comerciais foram derruba-
das, além do surgimento de novas tecnologias de transporte e comunicações.
Historicamente, foi durante essa onda que os navios a vapor se somaram às
locomotivas a vapor para acelerar o transporte de mercadorias e pessoas,
enquanto o telégrafo e o telefone aumentaram a conveniência da comunicação
global. Esses avanços tecnológicos, juntamente com novas oportunidades
econômicas, também provocaram ondas migratórias de regiões densamente
povoadas – como a Europa e a China – para regiões menos povoadas, como a
América do Norte. É importante destacar que foi o Reino Unido que liderou
essa primeira onda de globalização, de 1970 até a Primeira Guerra Mundial.
Entre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial, o mundo
viveu um período de medo e de isolacionismo. O protecionismo comercial
foi a prática comum entre os países do hemisfério norte. Naquele momento,
busca-se atingir um crescimento econômico a partir das riquezas endógenas,
recorrendo muito pouco aos acordos comerciais internacionais. Esse período
de “esfriamento” da globalização durou até o fim da Segunda Guerra Mundial.
A segunda onda de globalização surgiu das “cinzas” deixadas pela Segunda
Guerra Mundial, estendendo-se de 1950 até 1973. Essa segunda onda também
se beneficiou de acordos internacionais e das mais novas tecnologias. Contudo,
é importante frisar que o comércio e o investimento global foram apoiados
por novas organizações – criadas após a Segunda Guerra Mundial – como o
Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Agora, a globalização tinha o amparo institucional de organizações multila-
terais. Diferentes regras para a competição internacional foram forjadas, a partir
das chamadas “rodadas comerciais”, conduzindo a um importante documento,
que foi o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT). Somam-se a isso
todos os artefatos tecnológicos do pós-guerra no que tange aos transportes
e às comunicações. Tudo isso gerou e fortaleceu novos negócios globais e
vínculos financeiros até então insonháveis.
Isso inclui algumas “revoluções” operacionais, com a inclusão de ferrovias de
alta velocidade, aeronaves supersônicas, superpetroleiros, supercargueiros marí-
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timos e/ou veículos motorizados que ampliaram a nova conectividade econômica


entre países, empresas e cidadãos. Na prática, tudo isso achatou a lógica entre o
tempo e o espaço, fazendo as longas distâncias abrandarem (GIDDENS, 2006).
Naquele período – entre 1950 e 1973 –, a nova conectividade da economia
global mostrou-se, sobretudo, proveitosa para as economias avançadas, como os
Estados Unidos, o Japão e os países da Europa ocidental. A maioria dos países
em desenvolvimento, por outro lado, tendeu a ficar para trás, principalmente,
como fornecedores de produtos primários de baixo custo – em geral, produtos
agrícolas in natura, minerais e/ou serviços de baixa qualificação e tecnificação.
Por fim, a terceira onda de globalização durou de 1974 até 2007, com
alguns picos e vales durante esse período, em função das novas volatilidades
financeiras da economia internacional. Nesta terceira onda, se expandiram
ainda os esforços em liberalizar o comércio internacional e os investimentos.
Além do mais, essa terceira onda continuou a aproveitar novas tecnologias
como meio de integrar a atividade econômica global (INTERNATIONAL
MONETARY FUND, 2008; THREE..., 2008).
Durante a terceira onda da globalização, a Organização Mundial do Co-
mércio (OMC) foi fundada para fortalecer as regras do sistema internacional
de comércio. Nesse período, cabe destacar os avanços rápidos em tecnologias
de informação e comunicação (TICs), como internet, telefones móveis e outras
tecnologias sem fio, que aceleraram a conectividade global.
Além disso, a terceira onda da globalização foi marcada por uma maior
inclusão e influência dos países em desenvolvimento – os chamados, por
alguns autores, de novos globalizadores –, como o Brasil, a China, a Índia e
a África do Sul. Ou seja, esses países relativamente gigantes economicamente
e muito populosos passam a adquirir também protagonismo na globalização,
fazendo frente aos tradicionais países europeus, aos Estados Unidos e ao
Japão (GIDDENS, 2006).
O resultado dessas três ondas globalizantes é bastante antagônico em todo
o mundo – e fruto de várias discussões no campo político, acadêmico e social.
Isso porque existem aqueles que defendem os benefícios do processo histórico
de globalização enquanto que outros revelam o lado perverso do processo.
Ambos estão corretos, a depender do espaço geográfico ao qual nos referirmos,
revelando que a globalização não é e nunca será homogênea – produzindo
consequentemente resultados variados nos países e regiões.
Assim, a globalização foi (e é) responsável pelo crescente PIB global e
pela redução de pessoas vivendo em extrema pobreza. Ou seja, revelam o lado
da prosperidade da globalização. Entretanto, os oponentes da globalização
acreditam que a globalização não é desejável nem inevitável.
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As principais preocupações do movimento antiglobalização incluem o


impacto negativo da globalização sobre os direitos trabalhistas, a crescente
desigualdade de renda entre países globalmente conectados e desconectados,
a fragilidade da atual “arquitetura financeira” global e os impactos ambientais
negativos do crescimento econômico desenfreado. Em suma, novos picos e
vales podem surgir no processo de integração global, com novas grandes
ondas globalizantes.

Os impactos da globalização
sobre as economias
A globalização econômica – ou seja, a globalização do ponto de vista da
atividade econômica – refere-se à expansão (ao máximo) do mercado interna-
cional. Isso envolve as dinâmicas de integração entre os países, as empresas,
os trabalhadores e os mercados nacionais e/ou regionais de maneira coletiva
(mediante acordo ou tratado internacional) e/ou individual (via negócios e
contratos exclusivamente privados).
Nesse sentido, a globalização econômica pode ser compreendida como a
ocorrência simultânea de, pelo menos, três processos: (1) o aumento dos fluxos
internacionais de bens, serviços e capitais; (2) o aumento da concorrência
internacional, em todos os mercados; e (3) a crescente interdependência entre
os agentes econômicos em nível internacional.
Segundo Ianni (2007), a fábrica global instala-se além de toda e qualquer
fronteira, articulando capital, tecnologia, força de trabalho, divisão do trabalho
social e outras forças produtivas. Porém, isso não acontece isoladamente. A
globalização produz sobre as economias “um efeito a reboque”, acompanhada
pela mídia impressa e eletrônica, a indústria cultural, misturadas em jornais,
revistas, livros, rádio, televisão, redes de computadores e outros meios de
comunicação e informação.
Isso tudo dissolve as fronteiras nacionais. Em outras palavras, a globalização
econômica pode produzir impactos de “territorialização, desterritorialização
e reterritorialização” das coisas, dos espaços, das gentes e das ideias (IANNI,
2007). Logo, isso promove o redimensionamento de espaços e tempos, alterando
todo o processo de reprodução do capital.
Assim, de acordo com Silva (2012), tem-se o fato de que as expressões
globalização e economia global passaram a fazer parte do vocabulário dos
especialistas, dos agentes econômicos e políticos, que normalmente são
utilizados para caracterizar o processo atual de integração econômica em
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escala planetária e a perda de importância das economias nacionais – afir-


mando a grande economia global de mercado.
Os impactos da globalização sobre as economias estão em movimento e
em permanente transformação, não existindo efeitos uniformes sobre os seus
desdobramentos. Assim sendo, há um reconhecimento de que a globalização
econômica gera tanto perdedores (econômicos e sociais) quanto ganhadores
(econômicos e sociais) (IANNI, 2007; SILVA, 2012).
Por exemplo, entre os perdedores da globalização estão os trabalhadores
não qualificados que observam o declínio nas oportunidades de emprego
com a mudança estrutural na economia, os esquemas de evasão fiscal e a
destruição ambiental em nível global, dada a ampliação do consumismo.
Já entre os ganhadores da globalização estão as firmas com vantagem
comparativa (como as firmas de alta tecnologia), os trabalhadores mais
qualificados, os cidadãos de alta renda que podem investir no exterior e
em “paraísos fiscais”, os agentes econômicos que trabalham diretamente
com o comércio exterior e os consumidores que se beneficiam de preços
internacionais mais baratos.
Em geral, os economistas neoliberais frisam a difusão crescente da riqueza
e da prosperidade em toda economia mundial: o efeito em cascata (SILVA,
2012). Apesar disso, a interdependência econômica entre os países e as regiões
produzem efeitos adversos, como a volatilidade econômica. Torna-se cada vez
mais difícil prever os movimentos de longo prazo, já que adversidades finan-
ceiras, econômicas e produtivas em um país/região muito distante produzem
efeitos locais contínuos. Isso quer dizer que uma crise na economia chinesa
pode produzir efeitos em tempo real na economia brasileira – como a redução
das compras de minério e/ou petróleo.
Observe que isso também ocorre contrariamente – uma crise na economia
brasileira pode afetar também o desempenho da economia chinesa ou argen-
tina – com a redução das importações desses países parceiros no comércio
internacional. Além dos efeitos adversos sobre a economia real – de bens,
serviços e trabalho – não restam dúvidas de que a globalização contemporânea
tem produzido fortes alterações operacionais no lado financeiro e monetário.
Igualmente, efeitos adversos em sistemas financeiros estrangeiros ou
perda de confiança em uma moeda internacional (decorrente, por exemplo, de
crise política e/ou inflação) geram efeitos em diferentes sistemas financeiros
nacionais/doméstico, e a volatilidade das moedas nacionais em relação às
moedas estrangeiras (a conhecida volatilidade cambial).
Em suma, até mesmo teoricamente, há preocupações crescentes de que a
globalização nem sempre leva a um ótimo de Pareto: alguns se beneficiam
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substancialmente do processo de globalização, mas um número crescente é


deixado para trás, pelo menos em momentos relativos.
No Brasil, os impactos da globalização sobre a economia também são
heterogêneos – dada a dimensão continental do país. Não restam dúvidas
de que na economia brasileira também existem os tais ganhadores e os tais
perdedores da globalização. O Sudeste, o Sul e o Centro-Oeste do Brasil são
os mais integrados com os mercados globais, exportando uma variedade de
riquezas nacionais para o exterior (LACERDA, 1998). Nessas três regiões
do país estão localizados os agentes socioeconômicos mais dinâmicos e os
que podem se beneficiar da competitividade internacional. Já no Nordeste e
no Norte do Brasil, mais pobres e menos conectado com os mercados mais
dinâmicos, restam os efeitos adversos da globalização.
É importante destacar que o Brasil passou a sentir mais fortemente os
impactos da globalização com a abertura comercial e financeira a partir dos
anos 1990, no Período Collor. Depois, no governo de Fernando Henrique
Cardoso, a abertura internacional foi mais intensa e, em alguns casos, sem
nenhuma preparação dos agentes econômicos nacionais para uma competição
global selvagem.
Em seguida, o mercado nacional se ajustou, em diferentes setores, a com-
petição internacional, adequando-se em termos tecnológicos, estratégicos,
comerciais e administrativos. Logo, setores industriais, de matéria-prima
mineral e o agronegócio adquiriram competências comparativas e tornaram-
-se referências nacionais e internacionais nos mercados. Porém, vários outros
setores foram destruídos e substituídos pelos bens e/ou serviços de países,
empresas e trabalhadores mais competentes e/ou com um custo mais baixo.

Para entender como o Brasil se relaciona com o exterior, seja do ponto de vista político,
cultural, social e econômico, consulte o site do Itamaraty ou do Ministério das Relações
Exteriores. Lá, estão informações de como o Brasil se relaciona com os demais países.
Essas relações são essenciais para garantir os benefícios da globalização e minimizar
os efeitos adversos dela. Acesse o link abaixo.

https://goo.gl/wAWBjr
Plano Collor e modernização 11

1. Com relação ao fenômeno da globa- os setores das economias, princi-


lização, assinale a alternativa correta. palmente as mais desenvolvidas.
a) A globalização garante o acesso a e) encerramento, em curto prazo,
bens e serviços a toda a popu- de indústrias despreparadas
lação dos países que participam tecnologicamente e tecnica-
desse processo. mente, devido ao aumento da
b) A globalização envolve aspectos concorrência.
econômicos, mas também 3. O confisco dos depósitos e das ca-
culturais. dernetas de poupança foi recebido
c) A globalização promove a inde- com indignação pela população
pendência econômica e finan- brasileira. Mesmo assim, a hiperin-
ceira dos países que participam flação foi das piores da história, e o
desse processo. crescimento econômico foi instável.
d) A globalização levou à perda da Porém, outras medidas fizeram parte
importância do Estado na regula- do governo, como corte no quadro
mentação dos mercados. de funcionários públicos e a abertura
e) Com a globalização, a coope- comercial, respectivamente:
ração entre os países é menor, a) Plano de Metas – mantado Juce-
pois há um acirramento da com- lino Kubitschek (JK).
petitividade na busca isolada por b) PAEG – mandato Castelo Branco.
maior crescimento econômico. c) I PND – mandato Emílio Médici.
2. A globalização envolve aspectos posi- d) Plano Cruzado – mandato José
tivos e negativos. Dentre os aspectos Sarney.
negativos, está: e) Plano Collor – mandato Fernando
a) o fluxo de mão de obra desqua- Collor de Melo.
lificada que prejudica as taxas de 4. Assinale a alternativa que contém
desemprego dos países aos quais um dos primeiros impactos da aber-
se inserem. tura comercial do Brasil na década
b) os países subdesenvolvidos ficam de 1990.
mais prejudicados devido ao a) Permitiu a entrada do país para a
desenvolvimento tecnológico era da globalização.
mais acelerado dos países desen- b) Crescimento das exportações em
volvidos. ritmo superior ao das importações.
c) a globalização reduz o ritmo de c) Redução da concorrência em
desenvolvimento econômico dos decorrência da falência de
países industrializados. empresas.
d) o progresso tecnológico, as- d) Atraso no desenvolvimento das
sociado com a globalização, empresas nacionais.
permitiu a modernização dos e) Perda na qualidade dos pro-
processos produtivos em todos dutos em decorrência da neces-
12 Plano Collor e modernização

sidade de redução dos custos c) Aumento de medidas prote-


para a prática de preços mais cionistas como modo de os
competitivos no mercado. países se protegerem da entrada
5. A inserção das economias no pro- de produtos concorrentes no
cesso de globalização envolve quais mercado.
aspectos? d) Atraso no comércio de países
a) Um processo de substituição de menos desenvolvidos devido ao
importações que permite maior aumento da concorrência por
elevação das exportações e produtos mais modernos no
inserção do mercado mundial. mercado externo.
b) A modernização da economia e) Países que integram o processo
por meio da liberalização co- de globalização sofrem retro-
mercial e a entrada de capitais cesso econômico.
estrangeiros sob a forma de
investimentos diretos.

CASTRO, L. B. Privatização, abertura e desindexação: a primeira metade dos anos 90.


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IANNI, O. A era do globalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
INTERNATIONAL MONETARY FUND. Globalization: a brief overview. IMF Issues Brief, n.
2, p. 1-8, maio 2008. Disponível em: <https://www.imf.org/external/np/exr/ib/2008/
pdf/053008.pdf>. Acesso em: 15 ago. 2018.
LACERDA, A. C. O impacto da globalização na economia brasileira. São Paulo: Contexto,
1998.
SANDRONI, P. Dicionário de economia do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2005.
SANTOS JÚNIOR, R. B. A globalização ou o mito do fim do Estado. 149 fls. 2001. Disser-
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Plano Collor e modernização 13

SILVA, D. F. Os efeitos causados pela globalização na economia brasileira. 2012. Trabalho


de Conclusão de Curso (Graduação em Administração)- Instituto Municipal de Ensino
Superior de Assis, Assis, 2012.
THREE waves of change: comparing three periods of globalization. The Economist, 17
jul. 2008. Disponível em: <https://www.economist.com/node/11751235>. Acesso em:
15 ago. 2018.

Leituras recomendadas
RODRIK, D. A globalização foi longe demais?. São Paulo: Editora Unesp, 2011.
THE WORLD BANK. Globalization, growth and poverty: building an inclusive world eco-
nomy. World Bank Policy Research Report. Washington, DC: World Bank and Oxford
University Press, 2002.
Conteúdo:
DICA DO PROFESSOR

Em 1990 Fernando Collor de Melo foi eleito, por meio de voto direto, para a presidência do
Brasil. Contudo, imediatamente após a sua posse, o então presidente anunciou uma série de
medidas econômicas que foram recebidas com surpresa e indignação pela população brasileira, e
os seus resultados sobre a inflação e crescimento da economia foram drásticos. Seu mandato foi
relativamente curto, dada a insatisfação dos eleitores e as acusações de corrupção do presidente.
Porém, algumas medidas por ele tomadas foram importantes para a integração da economia do
país ao processo de globalização da época, como a abertura comercial. Acompanhe, no vídeo a
seguir, uma breve abordagem sobre esse período.

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EXERCÍCIOS

1) Com relação ao fenômeno da globalização, assinale a alternativa correta.

A) A globalização garante o acesso a bens e serviços a toda a população dos países que
participam desse processo.

B) A globalização envolve aspectos econômicos, mas também culturais.

C) A globalização promove a independência econômica e financeira dos países que


participam desse processo.

D) A globalização levou à perda da importância do Estado na regulamentação dos mercados.

E) Com a globalização, a cooperação entre os países é menor, pois há um acirramento da


competitividade na busca isolada por maior crescimento econômico.

2) A globalização envolve aspectos positivos e negativos. Dentre os aspectos negativos,


está:

A) O fluxo de mão de obra desqualificada que prejudica as taxas de desemprego dos países
aos quais se inserem.

B) Os países subdesenvolvidos ficam mais prejudicados devido ao desenvolvimento


tecnológico mais acelerado dos países desenvolvidos.

C) A globalização reduz o ritmo de desenvolvimento econômico dos países industrializados.

D) O progresso tecnológico, associado com a globalização, permitiu a modernização dos


processos produtivos em todos os setores das economias, principalmente as mais
desenvolvidas.

E) Encerramento, em curto prazo, de indústrias despreparadas tecnologicamente e


tecnicamente, devido ao aumento da concorrência.

3) O confisco dos depósitos e das cadernetas de poupança foi recebido com indignação
pela população brasileira. Mesmo assim, a hiperinflação foi das piores da história, e o
crescimento econômico foi instável. Porém, outras medidas fizeram parte do governo,
como corte no quadro de funcionários públicos e a abertura comercial,
respectivamente:

A) Plano de Metas – mantado Jucelino Kubitschek (JK).

B) PAEG – mandato Castelo Branco.

C) I PND – mandato Emílio Médici.

D) Plano Cruzado – mandato José Sarney.


E) Plano Collor – mandato Fernando Collor de Melo.

4) Assinale a alternativa que contém um dos primeiros impactos da abertura comercial


do Brasil na década de 1990.

A) Permitiu a entrada do país para a era da globalização.

B) Crescimento das exportações em ritmo superior ao das importações.

C) Redução da concorrência em decorrência da falência de empresas.

D) Atraso no desenvolvimento das empresas nacionais.

E) Perda na qualidade dos produtos em decorrência da necessidade de redução dos custos


para a prática de preços mais competitivos no mercado.

5) A inserção das economias no processo de globalização envolvem quais aspectos?

A) Um processo de substituição de importações que permite maior elevação das exportações e


inserção do mercado mundial.

B) A modernização da economia por meio da liberalização comercial e a entrada de capitais


estrangeiros sob a forma de investimentos diretos.

C) Aumento de medidas protecionistas como modo de os países se protegerem da entrada de


produtos concorrentes no mercado.

D) Atraso no comércio de países menos desenvolvidos devido ao aumento da concorrência


por produtos mais modernos no mercado externo.
E) Países que integram o processo de globalização sofrem retrocesso econômico.

NA PRÁTICA

O mandato do presidente Fernando Collor de Melo foi relativamente curto e polêmico. Porém,
algumas das suas políticas trouxeram benefícios à economia do país em médio e em longo
prazos, como a abertura do mercado brasileiro. O gráfico a seguir apresenta o impacto dessa
medida sobre as importações brasileiras, que chegaram a superar as exportações na segunda
metade da década de 1990. Esse fato permitiu maior integração comercial do Brasil com o resto
do mundo.

SAIBA MAIS

Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do
professor:

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