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A Guerra de Classes (1870)

Excetuando-se Proudhon e o Sr. Louis Blanc quase todos os historiadores da revolução de 1848 e do
golpe de Estado de Dezembro, 1851, assim como os maiores escritores do radicalismo burguês, os Victor
Hugos, os Quinots, etc. comentaram muito sobre o crime e os criminosos de Dezembro; mas eles nunca se
dignaram a mencionar o crime e os criminosos de Junho. Ainda sendo muito evidente que Dezembro não
foi nada além da fatal consequência de Junho e sua repetição em larga escala.

Por que este silêncio sobre Junho? É porque os criminosos de Junho são republicanos burgueses de
quem os escritores citados acima são, moralmente, mais ou menos cúmplices? Cúmplices em seus
princípios e, portanto, indiretamente cúmplices em seus atos. Esta razão é provável, mas há ainda outra
com a qual esta se relaciona. O crime de Junho golpeou apenas trabalhadores, socialistas revolucionários,
consequentemente estranhos à classe e inimigos naturais do princípio que todos estes honoráveis
escritores representam. O crime de Dezembro atacou e deportou milhares de republicanos burgueses, os
irmãos sociais destes honoráveis escritores e seus correligionários políticos. Paralelamente, eles mesmos
foram vitimados. Daí sua extrema sensibilidade ao crime de Dezembro, e sua indiferença àquele de Junho.

Uma regra geral: Um burguês, por mais vermelho e republicano que seja, ficará muito mais intensamente
afetado, tocado e indignado por uma desgraça referente a um outro burguês, mesmo que este burguês
seja um louco imperialista, do que pelo infortúnio de um trabalhador, de um homem do povo. Há
indubitavelmente uma grande injustiça nesta diferença, mas a injustiça não é premeditada. Ela é instintiva.
Ela surge a partir das condições e hábitos de vida que exercem uma muito maior influência sobre os
homens que suas idéias e convicções políticas. Condições e hábitos, sua maneira especial de existir,
desenvolver-se, pensar e agir; todos os seus variados relacionamentos sociais, tão regularmente
convergentes para o mesmo fim; toda esta diversidade de interesses expressando uma ambição social
comum e constituindo a vida do mundo burguês, estabelece entre os que pertencem a este mundo uma
solidariedade infinitamente mais real, profunda e inquestionavelmente mais sincera que qualquer uma que
possa surgir entre uma seção qualquer da burguesia e os trabalhadores. Nenhuma diferença de opiniões
políticas é suficiente para superar a comunidade burguesa de interesses. Nenhum aparente acordo de
opiniões políticas é suficiente para superar o antagonismo de interesses que divide a burguesia e os
trabalhadores. Comunidade de convicções e idéias são e devem ser subsidiárias de uma comunidade de
interesses e predisposições de classe.

A vida domina o pensamento e determina a vontade. Esta é uma verdade que nunca se deve perder de
vista quando queremos compreender qualquer fenômeno político e social. Se nós desejamos estabelecer
uma sincera e completa comunidade de pensamento e vontade entre os homens, nós devemos fundá-la
sobre condições similares de vida, ou, sobre uma comunidade de interesses. E, como há, pelas suas
respectivas condições de existência, um abismo entre o mundo burguês e o mundo dos trabalhadores, o
primeiro sendo o mundo explorador, e o outro, o mundo dos vitimizados e explorados, eu concluo que se
um homem nascido e criado no ambiente burguês deseja se tornar sincera e profundamente o amigo e
irmão dos trabalhadores, ele deve renunciar a todas as condições de sua existência passada e suprimir
todos os seus hábitos burgueses. Ele deve romper suas relações de sentimento com o mundo burguês,
sua vaidade e ambição. Ele deve virar as costas a este mundo e tornar-se seu inimigo; proclamar-lhe
guerra irreconciliável; e lançar-se de corpo e alma no mundo e na causa dos trabalhadores.

Se a sua paixão pela justiça é insuficiente para inspirá-lo a tal resolução e audácia, não deve enganar a si
mesmo e não deve enganar os trabalhadores. Ele não pode nunca se tornar seu amigo e em qualquer crise
deve provar ser seu inimigo. Seus pensamentos abstratos, seus sonhos de justiça o influenciarão
facilmente nas horas de reflexão calma, quando nada se move no mundo dos explorados. Mas basta que o
momento da luta venha, quando a paz armada dá lugar ao conflito irreconciliável, seus interesses o
compelirão a servir no campo dos exploradores. Isto aconteceu com os nossos falsos amigos no passado,
e acontecerá novamente a muitos bons republicanos e socialistas que não perderam seus vínculos com o
mundo burguês.

Ódios sociais são como ódios religiosos. Eles são intensos e profundos. Eles não são superficiais como os
ódios políticos. Este fato explica a indulgência demonstrada pelos democratas burgueses com relação aos
Bonapartistas. Ele explica também sua severidade excessiva contra os revolucionários socialistas. Eles
(democratas burgueses) detestam os primeiros muito menos que os últimos devido a pressão dos
interesses econômicos. Conseqüentemente eles se uniram com os Bonapartistas para formar uma reação
comum contra as massas oprimidas.

MIKHAIL BAKUNIN, 1970