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Mini–Curso

Campos de Gauge Clássicos: Maxwell, Chern–Simons

Maria Teresa Thomaz†

Instituto de Fı́sica
Universidade Federal Fluminense
R. Gal. Milton Tavares de Souza s/n.o
Campus da Praia Vermelha
Niterói, R.J., 24210–340 BRASIL

Índice

1. Princı́pio de Mı́nima Ação 1


2. Campos Eletromagnéticos: Equações de Maxwell 7
3. Espaço de Minkowski 13
4. Lagrangeana de Campos de Gauge Clássicos 22
4.1. Campos Eletromagnéticos: Campos de Maxwell 23
4.2. Campos de Gauge de Maxwell–Chern–Simons 37
5. Figuras 53
Apêndice A: Revisão de Análise Vetorial e Teoremas de Gauss e Stokes 55
Apêndice B: Princı́pio de Hamilton para Campos Clássicos 57
Referências 62


E-mail: MTT@IF.UFF.BR

0
1. Princı́pio de Mı́nima Ação.

Todos nós aprendemos a descrever quantitativamente o movimento dos corpos que nos
cercam através da aplicação das três Leis de Newton[1] :

1. Um corpo se mantém em repouso ou em movimento retilı́neo uniforme a menos que


uma força atue sobre êle.
2. Um corpo sobre o qual atua uma força se move de tal forma que a taxa de variação
do momento é igual a essa força.
3. Se dois corpos exercem força um sobre o outro, essas forças são iguais em intensidade
e direção, mas têm sentidos opostos.

A 2.a Lei de Newton dá a dinâmica do movimento de uma partı́cula pontual:

d~p ~
= F(t), (1.1)
dt
~
onde ~p(t) é o momento linear da partı́cula no instante t e F(t) a força que age sobre a partı́cula
neste instante. Na descrição do movimento dos corpos, a 2.a Lei de Newton relaciona a causa
( a força que age sobre a partı́cula) com a consequência ( o movimento induzido no corpo).
Portanto, se conhecemos a expressão da força que age sobre a partı́cula em todos os instantes
e os valores iniciais da posição e velocidade da partı́cula, a partir da solução da 2.a Lei de
Newton determinamos a sua trajetória: ~x(t). Em alguns casos é possı́vel obter a expressão
algébrica para essa trajetória, mas na maioria das vezes o que se obtém é a solução numérica.
A equação que dá a dinâmica de uma partı́cula de massa constante é:

d2~x(t) ~
m = F(t). (1.2)
dt2
Vocês já estudaram várias aplicações[1] da 2.a Lei de Newton; dentre elas destacamos:

Exemplo 1. Partı́cula sujeita a uma força conservativa: neste caso definimos a função
potencial V (~x) cuja relação com a força que atua sobre a partı́cula é:

~ x) = −∇V
F(~ ~ (~x). (1.3)

Para partı́culas sujeitas a forças conservativas a equação de movimento é:

1
d2~x(t) ~ (~x).
m = −∇V (1.4)
dt2

Exemplo 2. Partı́cula sujeita a uma força conservativa descrita pela função potencial
~
V (~x) e uma força F(t) dependente do tempo. Neste caso a equação de movimento fica:

d2~x(t) ~
~ (~x) + F(t).
m = −∇V (1.5)
dt2

Será que é possı́vel obter através de um outro conjunto de postulados a


equação (1.2) que descreve a dinâmica de partı́cula pontual?

Vamos então começar a discutir o Princı́pio de Hamilton[2] em 1 dimensão espacial. A


sua extensão para 2 e 3 dimensões espaciais é direta.
O princı́pio de Hamilton não vai dar nenhuma equação de movimento nova para a
partı́cula não–relativı́stica1 . No entanto, o Princı́pio de Hamilton é geral, de maneira que a
partir dele podemos obter as equações que governam a evolução dinâmica tanto de partı́culas
quanto de campos, como por exemplo os campos eletromagnéticos.

Enunciado do Princı́pio de Hamilton:

Dentre todos os caminhos em que um sistema dinâmico poderia se mover de um ponto a


outro dentro de um intervalo de tempo fixo (consistente com todos os vı́nculos que o sistema
deve satisfazer), o caminho escolhido por ele é aquele que minimiza a integral no tempo da
função lagrangeana L:
Z tf
S[x(t); t0 , tf ] = dtL(x(t), ẋ(t); t), (1.6)
t0

onde S é a ação. A cada trajetória x(t) entre os pontos fixos x(t0 ) e x(tf ) associamos um
número que é o valor da ação. A ação é uma quantidade dimensional, e sua dimensão igual
à dimensão do momento angular.
Se xcl (t) é a trajetória que a partı́cula clássica segue para ir da posição x(t0 ) à posição
x(tf ) no intervalo de tempo (tf − t0 ), então qualquer trajetória que passe nestas mesmas
posições nestes mesmos instantes e que corresponda uma pequena modificação na trajetória
clássica podem ser escritas como:
1
Partı́cula não–relativı́stica é aquela cuja velocidade é muito menor que a velocidade da
luz.

2
x(t; α) = xcl (t) + αη(t), (1.7a)

onde α é uma constante e η(t) uma função arbitrária que corresponde a uma pequena
deformação da trajetória clássica mas com os extremos fixos ( veja a Figura 1.1):

η(t0 ) = η(tf ) = 0. (1.7b)

A expressão matemática correspondente ao Princı́pio de Hamilton para trajetórias que


difiram pouco da trajetória clássica é:

δS[x(t)] = S[x(t; α)] − S[xcl (t)]


= S[xcl (t) + αη(t)] − S[xcl (t)] = 0. (1.8)

Para entendermos porque o Princı́pio de Hamilton é dado pela eq.(1.8) (δS[x(t)] = 0),
notemos que para t0 e tf fixos, a ação S[x(t); t0 , tf ] é uma função de α:
Z tf
G(α) = dtL(xcl + αη, ẋcl + αη̇; t). (1.9)
t0

Dizer que a trajetória xcl (t) minimiza a ação é equivalente a dizer que a função G(α)
tem um mı́nimo em α = 0. O que caracteriza o mı́nimo de uma função é que a sua derivada
no ponto é zero. Portanto,
¯ ¯
∂G(α) ¯¯ ∂S ¯¯
⇒ = 0. (1.10)
∂α ¯α=0 ∂α ¯α=0
Vejamos como obter a equação de Lagrange a partir da condição da ação ser um mı́nimo
quando expandimos as possı́veis trajetórias em torno da trajetória clássica.
A ação de qualquer trajetória representada pela eq. (1.7a) é:
Z tf
S[x(t; α)] == dt L(xcl + αη, ẋcl + αη̇; t). (1.11)
t0

Da condição de extremo (1.10), obtemos que:

¯ Z tf
∂S ¯¯ © ∂L ∂x ∂L ∂ ẋ ª
¯ = dt +
∂α α=0 t0 ∂x ∂α ∂ ẋ ∂α
Z tf
© ∂L ∂L ª
= dt η(t) + η̇(t) . (1.12)
t0 ∂x ∂ ẋ

3
Ao se escolher a função η(t) estamos também escolhendo a função η̇(t), de forma que os
dois termos do lado direito (l.d.) da equação (1.12) não são independentes entre si. Usamos
então integração por partes2 para reescrever o termo em η̇(t) no l.d. da eq.(1.12):

Z ¯t=t Z tf
tf
∂L ∂L ¯¯ f d ³ ∂L ´
dt η̇(t) = η(t) − dt η(t)
t0 ∂ ẋ ∂ ẋ ¯t=t0 t0 dt ∂ ẋ
Z tf
d ³ ∂L ´
=− dt η(t), (1.13)
t0 dt ∂ ẋ

uma vez que o valor da função η(t) para t = t0 e t = tf é zero.


Finalmente, a condição de extremo da ação é escrita como:
¯ Z tf ½ µ ¶¾
∂S ¯¯ ∂L d ∂L
= dt − η(t) = 0. (1.14)
∂α ¯α=0 t0 ∂x dt ∂ ẋ
Para que a igualdade (1.14) seja válida para qualquer pequena deformação η(t), cujo
valor em t = t0 e t = tf é nula, é necessário que o integrando seja identicamente nulo:
µ ¶
∂L d ∂L
− = 0, (1.15)
∂x dt ∂ ẋ
onde, para o cálculo das derivadas parciais, as variáveis x(t) e ẋ(t) da lagrangeana L são
tratadas como independentes.
A equação (1.15) é chamada de equação de Lagrange.
Para que a equação de Lagrange faça algum sentido para nós e possamos ver se ela re–
obtém, no caso das partı́culas pontuais, a eq.(1.2), precisamos definir a lagrangeana em termos
das quantidades cinemáticas (x(t), ẋ(t)), que caracterizam de forma unı́voca o movimento da
partı́cula.
De uma maneira geral, a forma que se escolhe para a lagrangeana depende do sistema
que estamos tratando: partı́culas não–relativı́sticas, partı́culas relativı́sticas, campos eletro–
magnéticos, ...
Nesta seção vamos nos restringir a postular as lagrangeanas de partı́culas não–relativı́s-
ticas que correspondem aos dois exemplos que apresentamos no inı́cio da seção.
A lagrangeana associada a um certo sistema é escolhida como função das quantidades
cinemáticas que caracterizam o sistema, de tal forma que a eq.(1.15) nos dê a equação de
movimento clássica (1.2) para partı́culas não–relativı́sticas.
2
Integração por partes:
Z Z
udv = uv − vdu.

∂L
Escolhemos no nosso caso: u = ∂ ẋ e dv = dt η̇.

4
Exemplo 1. Partı́cula sujeita a uma força conservativa em 1 dimensão: a relação entre a
força F (x) que atua na partı́cula e a função potencial V (x) é:

dV (x)
F (x) = − . (1.16)
dx
A lagrangeana de partı́culas sujeitas a forças conservativas é:

1
L(x(t), ẋ(t); t) = mẋ(t)2 − V (x), (1.17a)
2
pois,

∂L
= mẋ, (1.17b)
∂ ẋ
∂L dV (x)
=− . (1.17c)
∂x dx
e, substituindo as eqs.(1.17b–c) na equação de Lagrange (1.15), obtemos

dV (x) d(mẋ) d2 x(t) dV (x)


− − =0 ⇒ m 2
=− . (1.18).
dx dt dt dx

Exemplo 2. Partı́cula sujeita a uma força conservativa descrita pela função potencial
V (x) e uma força F (t) dependente do tempo.
A lagrangeana que descreve este sistema é:

1
L(x(t), ẋ(t); t) = mẋ(t)2 − V (x) + F (t)x(t), (1.19a)
2
pois,

∂L
= mẋ, (1.19b)
∂ ẋ
∂L dV (x)
=− + F (t). (1.19c)
∂x dx
e substituindo as eqs. (1.19b–c) na equação de Lagrange (1.15) obtemos

dV (x) d(mẋ) d2 x(t) dV (x)


− + F (t) − =0 ⇒ m 2
=− + F (t), (1.20)
dx dt dt dx
que é idêntica a eq.(1.5) em 1–dimensão.

Uma propriedade importante que se obtém a partir do Princı́pio de Hamilton é que, se


duas lagrangeanas diferem entre si por uma derivada total, ou seja

5
dG(x(t), ẋ(t); t)
L1 (x(t), ẋ(t); t) = L(x(t), ẋ(t); t) + , (1.21)
dt
então as duas lagrangeanas darão origem as mesmas equações de movimento.
Para vermos isso, relacionemos as ações obtidas a partir das lagrangeanas L e L1 :

Z tf
S[x(t); t0 , tf ] = dtL(x(t), ẋ(t); t) (1.22a)
t0
e
Z tf
dG(x(t), ẋ(t); t)
S1 [x(t); t0 , tf ] = dt{L(x(t), ẋ(t); t) + }
t0 dt
Ztf
= dtL(x(t), ẋ(t); t)+
t0
+ G(x(tf ), ẋ(tf ); tf ) − G(x(t0 ), ẋ(t0 ); t0 ). (1.22b)

Como as pequenas deformações η(t) são realizadas com as extremidades fixas, η(t0 ) =
η(tf ) = 0, então a diferença S1 − S é constante e independente do parâmetro α (eq.(1.7a))
uma vez que a contribuição da função G(x(t), ẋ(t); t) para S1 em t = t0 e t = tf não depende
de α. Portanto,

∂S ∂S1
= . (1.22c)
∂α ∂α
Como a equação de Lagrange é obtida a partir da condição de mı́nimo da ação e como
as ações S e S1 têm o mesmo mı́nimo, então ambas as ações darão a mesma equação de
Lagrange.
As lagrangeanas dos Exemplos 1 e 2 foram escolhidas de forma a recuperar as equações de
movimento clássicas que já conhecı́amos. Portanto, o Princı́pio de Hamilton não traz nenhuma
Fı́sica nova para a Mecânica Clássica. A primeira vista, tudo o que fizemos foi complicar o
estudo de sistemas de partı́culas clássicas. No entanto, são os formalismos lagrangeano e
hamiltoniano[3] que indicam como estender a teoria de forma a descrever sistemas quânticos.
A reinterpretação dos formalismos lagrangeano e hamiltoniano nos permite formular a
Mecânica Quântica[4] , que é a teoria através da qual descrevemos a Fı́sica do mundo mi-
croscópico (átomo, núcleo, nucleon, etc ...).

6
2. Campos Eletromagnéticos: Equações de Maxwell.

Na presença de campos elétricos e magnéticos, partı́culas carregadas sofrem a ação da


força de Lorentz[5] , de maneira que sua equação de movimento é3 :

d2~x(t) ~ x, t) + e ~v(t) × B(~


~ x, t),
m 2
= eE(~ (2.1)
dt c
onde m é a massa da partı́cula, e a sua carga elétrica e ~v(t) a sua velocidade no instante t.
~ x, t) é o vetor campo elétrico, B(~
E(~ ~ x, t) o vetor campo magnético e c a velocidade da luz4 .

Estes campos também são chamados de campos eletromagnéticos.


No entanto, a presença e o movimento de cargas elétricas (correntes) geram campos
elétricos e magnéticos. As equações de Maxwell descrevem a evolução no tempo dos campos
eletromagnéticos na presença de cargas elétricas e correntes.
As equações de Maxwell[5] na sua forma global e local são:

I
~ x, t) · n̂ds = 4πQ(t)
E(~ ⇐⇒ ∇ ~ x, t) = 4πρ(~x, t)
~ · E(~ (2.2a)
S
I
~ x, t) · n̂ds = 0
B(~ ⇐⇒ ∇ ~ x, t) = 0
~ · B(~ (2.2b)
S
I ·Z ¸ ~
~ x, t) · d~l = − 1 d ~ x, t) · n̂ds ~ x, t) = − 1 ∂ B(~x, t) (2.2c)
~ × E(~
E(~ B(~ ⇐⇒ ∇
Γ c dt S c ∂t
I ·Z ¸ ~
~ x, t) · d~l = 1 d ~ x, t) · n̂ds + ~ x, t) = 1 ∂ E(~x, t) + (2.2d)
~ × B(~
B(~ E(~ ⇐⇒ ∇
Γ c dt S c ∂t
Z
4π 4π
+ ~(~x, t) · n̂ds + ~(~x, t)
c S c

sendo ρ(~x, t) a densidade de carga elétrica na posição ~x e no instante t, e ~(~x, t) a densidade de


corrente. Q(t) é a carga elétrica total contida dentro do volume V delimitado pela superfı́cie
fechada S:

Z
Q(t) = d3~x ρ(~x, t). (2.3)
V

3
Estamos usando o sistema de unidades CGS para escrever as equações envolvendo os
campos eletromagnéticos[5] .
4
A velocidade da luz é: c= 299.792.456,2 ± 1,1 m/seg.

7
R
~ x, t) · n̂ds é o fluxo de campo magnético que atravessa a superfı́cie S no instante
B(~
S
R
te ~ x, t) · n̂ds o fluxo de campo elétrico que atravessa a superfı́cie S no instante t. n̂ é
E(~
S

o vetor unitário normal à superfı́cie S em cada ponto, ds é a área infinitesimal e d~l o vetor
infinitesimal tangente a curva Γ. A curva Γ é a fronteira da superfı́cie S.
Para obtermos as equações de Maxwell na sua forma local a partir de sua formulação
global bastar aplicar os Teoremas de Gauss e Stokes, que estão enunciados no Apêndice A.
Para resolver exatamente o problema do movimento da carga elétrica na presença de cam-
pos eletromagnéticos e sua influência sobre eles, terı́amos de resolver simultaneamente as eqs.
(2.1) e (2.2a–d). Entretanto, não sabemos resolver esse conjunto de equações acopladas. O que
faremos é estudar situações fı́sicas em que o efeito da variação dos campos eletromagnéticos
é pequeno sobre o movimento das partı́culas com carga elétrica. Neste caso, vamos supor
que conhecemos a distribuição de cargas e correntes em todos os pontos do espaço em cada
instante, e que estas distribuições não são afetadas pelos campos eletromagnéticos.
Durante o mini–curso iremos trabalhar com as equações de Maxwell na sua forma local.
Até agora temos chamado de campo aos vetores elétrico e magnético. A razão de usarmos
essa nomenclatura para esses vetores é que no caso de uma partı́cula pontual, ~x(t) corresponde
a posição que a partı́cula ocupa no instante t. Portanto ~x(t) representa uma única posição
do espaço no instante t e é toda a informação que você precisa para localizar a partı́cula
neste instante. No entanto, dizer que você conhece os campos eletromagnéticos no instante
~ x, t) e B(~
t implica que você sabe os valores dos vetores E(~ ~ x, t) em cada ponto ~x do espaço

neste instante. Neste contexto o vetor ~x é um parâmetro da mesma forma que o tempo, e
representa um ı́ndice utilizado para localizar os diferentes pontos do espaço.
Na posição do espaço que uma partı́cula carregada eletricamente ocupa no instante t, a
força de Lorentz que ela sente é:

F ~ x, t) + e ~v(t) × B(~
~ L (~x, t) = eE(~ ~ x, t), (2.4)
c
~ x, t) e B(~
sendo E(~ ~ x, t) os campos elétrico e magnético, respectivamente, na posição da

partı́cula, e a sua carga elétrica e ~v(t) a sua velocidade.


Em resumo, temos que as componentes dos vetores eletromagnéticos são funções definidas
em todos os pontos do espaço; daı́ se dizer que são campos.

8
Para termos a força de Lorentz (eq.(2.4)) que age sobre partı́culas carregadas precisamos
~ x, t) e B(~
conhecer: E(~ ~ x, t), sendo que cada um desses vetores tem três componentes. Logo,

para descrevermos a força de Lorentz necessitamos de seis funções. Entretanto, essas seis
funções não são independentes entre si, uma vez que as equações de Maxwell (2.2a–d) acoplam
os campos elétrico e magnético. A partir da eq. (2.2c) vemos que a variação do fluxo do campo
magnético através da superfı́cie aberta S depende da integral de linha do campo elétrico ao
longo da fronteira Γ da área S. Por outro lado, a variação do fluxo do campo elétrico através
da superfı́cie aberta S depende da integral de linha do campo magnético ao longo da fronteira
Γ que delimita a área S e o fluxo da densidade de corrente que atravessa a mesma área S. Em
resumo, temos que a evolução no tempo dos campos elétrico e magnético é inter–relacionada.
Vamos introduzir campos auxiliares em que temos um número menor de funções a serem
~ x, t) e B(~
determinadas e a partir das quais podemos determinar os campos E(~ ~ x, t). Para isso,

usaremos as equações de Maxwell na sua forma local e as propriedades de Análise Vetorial


que estão apresentadas no Apêndice A.
Da equação (2.2b), temos que

∇ ~ x, t) = 0,
~ · B(~ (2.5a)

que pela propriedade (A.5) da divergência de um vetor implica em que

~ x, t) = ∇
B(~ ~ x, t).
~ × A(~ (2.5b)

~ x, t) é denominado de potencial vetor. Substituindo a eq.(2.5b) na eq. (2.2c) obtemos que


A(~

µ ~ ¶
∇ ~ x, t) + 1 ∂ A(~x, t)
~ × E(~ = 0. (2.5c)
c ∂t

Pela propriedade (A.6) do rotacional concluimos que

~
~ x, t) + 1 ∂ A(~x, t) = −∇A
E(~ ~ 0 (~x, t), (2.5d)
c ∂t

onde A0 (~x, t) é denominado de potencial escalar.

9
~ x, t) e B(~
Em resumo, temos que os campos fı́sicos E(~ ~ x, t) que aparecem na força de
~ x, t) através
Lorentz (eq.(2.4)) podem ser obtidos a partir dos campos auxiliares A0 (~x, t) e A(~
das relações:

~ x, t) = ∇
B(~ ~ x, t)
~ × A(~ (2.6a)

e
~
E(~ ~ 0 (~x, t) − 1 ∂ A(~x, t) .
~ x, t) = −∇A (2.6b)
c ∂t
Vamos mostrar agora que as quatro funções: A0 , Ax , Ay e Az não são independentes
~ x, t) através
entre si. Para vermos isso usaremos o fato de que, dadas as funções A0 (~x, t) e A(~
~ x, t) e um único vetor B(~
das relações (2.6a–b), obtemos um único vetor E(~ ~ x, t); no entanto,
~ x, t) e B(~
a operação inversa não é verdadeira, ou seja, dados os campos E(~ ~ x, t) temos um
~ x, t)) que podem dar origem a esses campos
conjunto infinito de pares de funções (A0 (~x, t), A(~
fı́sicos.
Vamos mostrar então que não é possı́vel inverter as relações (2.6a–b). Para explorarmos
essa ambiguidade, lembremos que pela propriedade (A.6), temos que

~ × (∇G(~
∇ ~ x, t)) = 0, (2.7)

onde G(~x, t) é uma função qualquer que não possui singularidades. Então, o potencial vetor
~ 0 (~x, t) definido como:
A

~ 0 (~x, t) = A(~
A ~ x, t) + ∇G(~
~ x, t) (2.8a)

~ x, t), ou seja
dá o mesmo campo magnético que o obtido pelo potencial vetor A(~

∇ ~ 0 (~x, t) = ∇
~ ×A ~ x, t) + ∇
~ × A(~ ~ × (∇G(~
~ x, t))

=∇ ~ x, t).
~ × A(~ (2.8b)

~ 0 (~x, t) não gera o mesmo campo


Entretanto, pela eq.(2.6b), temos que o potencial A
~ x, t), a menos que, simultaneamente, o potencial escalar seja
elétrico que o potencial vetor A(~
modificado para:

10
0 1 ∂G(~x, t)
A0 (~x, t) = A0 (~x, t) − . (2.8c)
c ∂t
Neste caso,

~ 0 (~x, t)
1 ∂A ~
−∇A
0
~ 0 (~x, t) − ~ 0 (~x, t) − 1 ∂ A(~x, t) .
= −∇A (2.8d)
c ∂t c ∂t
0
~ 0 (~x, t) geram os mesmos campos eletromagnéticos
As funções potenciais A0 (~x, t) e A
~ x, t) e B(~
E(~ ~ x, t) que os potenciais A0 (~x, t) e A(~
~ x, t). Concluimos que os campos fı́sicos
~ x, t) e B(~
E(~ ~ x, t) são invariantes sob a transformação simultânea (2.8a) e (2.8c). As trans-

formações (2.8a) e (2.8c) são as chamadas transformações de gauge:

0 1 ∂G(~x, t)
A0 (~x, t) = A0 (~x, t) − (2.9a)
c ∂t
e
~ 0 (~x, t) = A(~
A ~ x, t) + ∇G(~
~ x, t), (2.9b)

onde G(~x, t) é uma função qualquer cujas derivadas espaciais e temporal estão definidas em
todos os pontos do espaço e em qualquer instante.
Para podermos trabalhar com os potenciais escalar e vetorial precisamos impor uma
condição arbitrária adicional sobre estes campos. Esta condição adicional é chamada de
fixação de gauge. Como exemplo de condições de gauge usualmente utilizadas temos:
i. Gauge de Coulomb:

∇ ~ x, t) = 0.
~ · A(~ (2.10a)

ii. Gauge de Lorentz:

0
∇ ~ x, t) + 1 ∂A (~x, t) = 0.
~ · A(~ (2.10b)
c ∂t
iii. Gauge de Weyl:

A0 (~x, t) = 0. (2.10c)

11
Os potenciais escalar e vetorial têm que satisfazer as equações de Maxwell e uma escolha
~ x, t) dependem da escolha
arbitrária de gauge. As expressões obtidas para A0 (~x, t) e A(~
~ x, t) e B(~
do gauge; no entanto, os campos fı́sicos E(~ ~ x, t) não dependem da particular

escolha de gauge que se faça. Daı́ dizermos que as quantidade fı́sicas são independentes da
particular escolha que se faz para fixar o gauge e sermos então capazes de calcular as funções
~ x, t).
potenciais: A0 (~x, t) e A(~
~ x, t) não serem fı́sicos, êles são importantes para a
Apesar dos campos A0 (~x, t) e A(~
descrição da teoria, uma vez que a lagrangeana que descreve campos eletromagnéticos inter-
agindo com partı́culas carregadas eletricamente é escrita através desses campos auxiliares,
como veremos mais adiante.

12
3. Espaço de Minkowski.

Estamos interessados em estudar neste mini–curso a lagrangeana dos campos de gauge de


Maxwell (campos eletromagnéticos), e os campos de gauge de Maxwell–Chern–Simons. Em
particular, os campos eletromagnéticos (luz) possuem velocidade c em qualquer referencial,
de maneira que este é um sistema relativı́stico.
Na Mecânica Não–Relativı́stica o tempo é um parâmetro que é o mesmo em qualquer
referencial, o que não é verdade com o vetor posição da partı́cula medido a partir de diferentes
referenciais inerciais.
Na Mecânica Relativı́stica cada referencial inercial tem o seu conjunto de réguas e relógios
com os quais realiza as medidas dos fenômenos fı́sicos. Num sistema relativı́stico o instante
em que a partı́cula ocupa uma certa posição do espaço depende do referencial a partir do qual
o movimento da partı́cula está sendo observado. Em cada referencial inercial o movimento
de uma partı́cula é descrito como um evento que contém quatro informações: ~x(t), t. Desta
forma para sistemas relativı́sticos não podemos dissociar o conceito de espaço do conceito de
tempo, daı́ usarmos a nomenclatura de espaço–tempo para representar o quadri–vetor (ct, ~x).
O quadri–vetor (ct, ~x) representa o instante t em que a partı́cula ocupa a posição ~x. Todas
as componentes de um quadri–vetor têm que ter a mesma dimensão, daı́ multiplicarmos o
tempo t pela velocidade da luz c no quadri–vetor (ct, ~x). Lembrando que a velocidade da luz
é a mesma em qualquer referencial.
Não discutiremos a Relatividade Especial neste mini–curso; para aqueles que estejam
interessados numa introdução ao assunto sugerimos a leitura da referência 6.
Em 1908 H. Minkowski propôs um formalismo matemático em que o espaço e o tempo
formam um espaço com 4 dimensões. No espaço 4–dimensional o eixo do tempo é perpendicu-
lar aos eixos das coordenadas espaciais. Na linguagem de espaço–tempo fica simples descrever
as transformações de Lorentz na Relatividade Especial.

Da Análise Vetorial temos que o vetor não depende de eixos coordenados para ser definido.
Qualquer que seja o conjunto de eixos coordenados que escolhemos para decompor o vetor em
termos de suas componentes, o módulo do vetor tem sempre o mesmo valor. Este resultado
é um caso particular da invariância do produto escalar entre dois vetores ~u e ~v quaisquer. O

13
ângulo relativo entre esses vetores é independente dos eixos coordenados que utilizamos. Seja
α o ângulo relativo entre os vetores ~u e ~v, o produto escalar entre esses dois vetores é

~u · ~v =| ~u | | ~v | cos α, (3.1)

que escrito em termos das componentes num conjunto de eixos coordenados cartesianos
(x, y, z) fica:

~u · ~v = ux vx + uy vy + uz vz . (3.2)

Apesar da soma dos termos do l.d. da eq.(3.2) ser independente dos eixos coordenados
escolhidos, cada termo do l.d. da eq.(3.2) depende da escolha feita para estes eixos.
Apenas para simplificar, exemplificaremos o que se segue com vetores no plano (vetores
bi–dimensionais).
Vejamos como as componentes de um vetor bi–dimensional variam ao serem escritas em
relação a dois conjuntos de eixos coordenados cujas origens coincidem mas cujos eixos estão
girados de um ângulo θ.
Considere o vetor ~v na Figura 3.1.
Os vetores unitários nas direções x e y são ı̂ e ̂ respectivamente. Os vetores unitários nas
direções x0 e y 0 são ı̂0 e ̂0 respectivamente. O resultado do produto escalar entre os vetores
unitários é:

ı̂ · ı̂0 = cos θ e ı̂ · ̂0 = − sin θ, (3.3a)

̂ · ı̂0 = sin θ e ̂ · ̂0 = cos θ, (3.3b)

O vetor ~v escrito em termos das componentes nos dois conjuntos de eixos coordenados:

~v = vx ı̂ + vy ̂ (3.4a)

= vx0 ı̂0 + vy0 ̂0 . (3.4b)

Para obtermos as componentes vx0 e vy0 em termos das componentes vx e vy , usamos que

14
vx0 = ~v · ı̂0 e vy0 = ~v · ̂0 , (3.4c)

e os resultados (3.3a–b) dos produtos escalares dos vetores unitários, de maneira que, final-
mente, escrevemos a transformação das coordenadas numa forma matricial:

µ ¶ µ ¶µ ¶
vx0 cos θ sin θ vx
= . (3.4d)
vy0 − sin θ cos θ vy

Todos os vetores satisfazem a lei de transformação (3.4d) sob uma mudança de eixos
coordenados que corresponda a uma rotação rı́gida dos eixos de um ângulo θ.

A matriz

µ ¶
cos θ sin θ
R(t) = , (3.4e)
− sin θ cos θ

é a matriz de rotação que liga as componentes de um mesmo vetor escrito em dois conjuntos
de eixos coordenados girados entre si de um ângulo θ. Para qualquer ângulo θ temos que

det(R(θ)) = 1. (3.4f )

Para vermos porque as transformações de Lorentz das coordenadas espaço–temporais


entre dois referenciais inerciais podem ser escritas como uma rotação no espaço–tempo, consi-
deremos as transformações de Lorentz para a posição da partı́cula e para o instante em que
a medida de posição é feita. Por simplicidade, vamos supor que o movimento da partı́cula é
ao longo da direção x que coincide com a direção do movimento relativo entre os referenciais
inerciais (veja Figura 3.2).

15
~ = V ı̂ é a velocidade do referencial inercial S 0 medida por um observador
Na Figura 3.2, V
em repouso no referencial inercial S.
Assumindo que no instante t = 0 as origens dos dois conjuntos de eixos coordenados
(x, y) e (x0 , y 0 ) coincidem, a transformação de Lorentz é[6,7] :

0
x0 = γ(x0 − βx1 ), (3.5a)
1
x0 = γ(−βx0 + x1 ), (3.5b)
0 1
onde x0 = ct e x1 = x, x0 = ct e x0 = x0 ,e c é a velocidade da luz. As constantes β e γ são
definidas como sendo

V 1
β= e γ=p . (3.5c)
c 1 − β2
Das relações (3.5c) temos que −1 ≤ β ≤ 1 e 1 ≤ γ ≤ ∞.
As transformações de Lorentz escritas na forma matricial ficam:

µ 0 ¶ µ ¶µ ¶
x0 γ −βγ x0
1 = , (3.6)
x0 −βγ γ x1
e possuem uma forma similar a rotação de vetores num plano5 também representada pela
transformação (3.4d).
Os elementos da matriz que aparecem do l.d. da expressão (3.6) não podem ser escritos
como funções trigométricas, pois o produto βγ assume valores no intervalo [0, ∞), e os valores
de γ estão no intervalo [1, ∞).
Como os valores que a constante β pode assumir estão no intervalo [−1, 1], podemos usar
a parametrização:

β = tanh ζ, (3.7a)

de maneira que
5
Girar os eixos coordenados (x0 , y 0 ) de um ângulo θ em relação aos eixos (x, y) é equivalente
do ponto de vista de transformação de coordenadas a manter os eixos coordenados (x, y) fixos
e rodar de −θ o vetor ~v em relação a origem desses eixos.

16
1 1
γ=p =p ⇒
1− β2 1 − tanh2 ζ
⇒ γ = cosh ζ, (3.7b)

βγ = tanh ζ · cosh ζ ⇒

⇒ βγ = sinh ζ. (3.7c)

Portanto, as transformações de Lorentz (3.5) do espaço–tempo são finalmente escritas


como

µ 0 ¶ µ ¶µ ¶
x0 cosh ζ − sinh ζ x0
1 = . (3.8)
x0 − sinh ζ cosh ζ x1
De forma análoga ao produto escalar de vetores bi–dimensionais, no espaço de Minkowski
é possı́vel definir uma operação de produto escalar que obtenha como resultado um número que
seja o mesmo em todos os referenciais inerciais6 . Podemos tentar obter a expressão de escalares
de Lorentz através de várias tentativas de funções das coordenadas e usar a transformação
(3.8) para verificar se o resultado é independente do referencial inercial escolhido.
Mas ao invés de procedermos dessa maneira, utilizamos o postulado da Mecânica Rela-
tivı́stica que afirma que a velocidade da luz é a mesma em qualquer referencial. A equação de
uma frente de onda luminosa em qualquer instante, vista de dois referenciais inerciais distintos
é:

0 = −x2 + c2 t2 (3.9a)
2 2
= −x0 + c2 t0 , (3.9b)

de forma que o resultado da combinação (x0 )2 − (x1 )2 é o mesmo em qualquer referencial


inercial. Logo, esta particular combinação das 4–coordenadas forma um escalar de Lorentz.
Definimos um 4–vetor de Lorentz como aquele cujas componentes, sob uma transformação
de Lorentz (3.5), satisfaçam a relação (3.8) . Então, para qualquer 4–vetor de Lorentz a
combinação acima é também um escalar de Lorentz.
6
Um número que é o mesmo em todos os referenciais inerciais cujas quadri-coordenadas
estão relacionadas através das transformadas de Lorentz é denominado de escalar de Lorentz.

17
O produto escalar (3.9) não pode ser escrito diretamente na forma (3.2). No entanto, se
definimos os vetores contra–variantes xµ , µ = 0, 1, como[7]

xµ = (x0 , x1 ) ≡ (x0 , x), (3.10a)

e os vetores covariantes xµ , µ = 0, 1, como

xµ = (x0 , x1 ) ≡ (x0 , −x), (3.10b)

sendo x0 = ct e x a coordenada x usual, então o produto escalar no espaço de Minkowski é


definido como:

−x2 + c2 t2 = x0 x0 + x1 x1
X1
= xµ xµ . (3.10c)
µ=0

Definimos a regra da soma implı́cita dizendo que somamos sobre ı́ndices repetidos num
mesmo termo, ou seja,

1
X
xµ xµ ≡ xµ xµ . (3.10d)
µ=0

Os ı́ndices somados (contraı́dos) estão ao longo da diagonal, ou seja, cada parcela da


soma (3.10d) é o produto da componente do vetor covariante pela componente do vetor
contra–variante.
A extensão do que fizemos em d=2 (1+1) (uma dimensão espacial e uma dimensão
temporal) para d=4 (3+1) ( três dimensões espaciais e uma dimensão temporal) está contida
nas Referências 6 e 7.
De agora em diante trataremos o caso em d=4 (3+1) e utilizaremos a regra da soma
implı́cita.
Em quatro dimensões espaço–temporal o 4–vetor posição é

xµ = (x0 , ~x) (3.11a)

xµ = (x0 , −~x). (3.11b)

18
O produto escalar é então

3
X
xµ xµ = xµ xµ (3.11c)
µ=0

= −~x · ~x + c2 t2 .

Como relacionar os vetores covariantes e os vetores contra–variantes? A partir das


definições (3.11a) e (3.11b), vemos que a relação entre êsses vetores é linear homogênea,
de maneira que podemos escrevê–la como:

xµ = gµν xν , (3.12a)

onde estamos somando sobre o ı́ndice ν, ν = 0, 1, 2, 3. A matriz gµν , também chamada de


métrica, em d=4 (3+1) é representada por

 
1 0 0 0
0 −1 0 0 
gµν = g µν = . (3.12b)
0 0 −1 0
0 0 0 −1
A matriz gµν é simétrica (par) pela troca dos ı́ndices ( gµν = gνµ ) e

 
1 0 0 0
0 1 0 0
gµν g ντ = δµτ = . (3.12c)
0 0 1 0
0 0 0 1
~ um 4–vetor qualquer. A relação entre a forma covariante e contra–
Seja B µ = (B 0 , B)
variante de qualquer 4–vetor é dada pela eq. (3.12a),

Bµ = gµν B ν ⇒ ~
Bµ = (B 0 , −B). (3.12d)

Como exemplo de 4–vetores de Lorentz temos:

i. 4–posição: xµ = (ct, ~x) (3.13a)


¡ ¢
ii. 4–momento7 pµ = Ec , ~p , (3.13b)

7
A expressão da energia relativı́stica total da partı́cula livre é:

19
onde E é a energia relativı́stica total da partı́cula.
~ x, t)),
iii. 4–potencial vetor: Aµ (~x, t) = (A0 (~x, t), A(~ (3.13c)
0 ~
onde A (~x, t) é o potencial escalar e A(~x, t) o potencial vetor associados aos campos eletro-
magnéticos.
iv. 4–densidade de corrente: j µ (~x, t) = (cρ(~x, t), ~(~x, t)) (3.13d)
onde ρ(~x, t) é a densidade de carga elétrica na posição ~x no instante t e ~(~x, t) é a densidade
de corrente elétrica na posição ~x no instante t.

Os operadores diferenciais possuem uma definição diferente da apresentada em (3.12d):

µ ¶
∂ ∂ ~
∂µ ≡ = ,∇ (3.14a)
∂xµ ∂x0
e
µ ¶
µ ∂ ∂ ~
∂ ≡ = , −∇ . (3.14b)
∂xµ ∂x0

Comparando as expressões (3.14a) e (3.14b) vemos que a relação entre os operadores


diferenciais covariante e contra–variante ainda é dada pela relação (3.12a),

∂ µ = g µν ∂ν , (3.14c)

onde estamos somando sobre o ı́ndice ν, ν = 0, 1, 2, 3.


O operador diferencial d’Alambertiano,

µ ¶
2 1 ∂2
u
t = −∇ + 2 2 , (3.15a)
c ∂t
∂2 ∂2 ∂2
onde ∇2 = ∂x2 + ∂y 2 + ∂z 2 , pode ser escrito na forma

u = ∂µ ∂ µ .
t (3.15b)

O operador diferencial d’Alambertiano u


t aparece na equação de ondas eletromagnéticas
como veremos na seção 4.1.

E2
E 2 =| ~p |2 c2 + m2 c4 ⇒ − | ~p |2 = m2 c2 = const.
c
E
Portanto, a quantidade c é a componente zero do 4–vetor momento.

20
A relação entre tensores covariantes e contra–variantes de qualquer ordem é:

i. 4–vetor:

B µ = g µν Bν , (3.16a)

ii. tensor de ordem 2:

B µ1 µ2 = g µ1 ν1 g µ2 ν2 Bν1 ν2 (3.16b)

iii. tensor de ordem n:

B µ1 µ2 ...µn = g µ1 ν1 g µ2 ν2 . . . g µn νn Bν1 ν2 ...νn . (3.16c)

Para concluirmos esta seção, notemos que as transformações de gauge (2.9a–b), ou seja

0 1 ∂G(~x, t)
A0 (~x, t) = A0 (~x, t) − (3.17a)
c ∂t
e
~ 0 (~x, t) = A(~
A ~ x, t) + ∇G(~
~ x, t), (3.17b)

pode ser escrita na forma covariante

A0 µ = Aµ − ∂ µ G(~x, t). (3.18)

A condição de gauge de Lorentz (eq. (2.10b)) é escrita como um escalar de Lorentz:

0
∇ ~ x, t) + 1 ∂A (~x, t) = 0
~ · A(~ ⇒ ∂µ Aµ = 0. (3.19)
c ∂t

21
4. Lagrangeana de Campos de Gauge Clássicos.

Nesta seção aplicaremos o Princı́pio de Hamilton a campos clássicos. Exemplificaremos


essa aplicação considerando campos de gauge de Maxwell e de Maxwell–Chern–Simons. Os
campos de Maxwell são aqueles que até este momento temos chamado de campos eletro-
magnéticos (luz), enquanto os campos de gauge de Maxwell–Chern–Simons só existem (se
existirem) quando estamos em dimensão espaço–temporal ı́mpar.
Para uma partı́cula, associamos a cada trajetória um número através da definição da
ação (eq. (1.6)):

Z tf
S[x(t); t0 , tf ] = dt L(x(t), ẋ(t); t). (4.1)
t0

No caso de partı́cula, o único parâmetro da trajetória é o tempo. Entretanto, no caso


de campos, como por exemplo os campos eletromagnéticos que discutimos na seção 2, as
coordenadas espaciais são parâmetros assim como o tempo. De forma análoga ao sistema de
uma partı́cula, queremos associar a cada configuração do campo que evolui num intervalo de
tempo fixo um número a que chamamos de ação.
Para simplificar a discussão vamos supor um único campo que denotaremos por Φ(~x, t).
A ação associada a cada configuração é definida como:

Z tf Z
S[Φ; t0 , tf ] = dt d3~x L(Φ(~x, t), ∂µ Φ(~x, t); ~x, t), (4.2)
t0 V∞

onde L é a densidade de lagrangeana associada ao campo. Em (4.2) integramos sobre todos os


pontos do espaço uma vez que os campos têm uma dependência espacial. Além da dependência
na derivada temporal, L em geral depende também das derivadas espaciais.
No Apêndice B mostramos como derivar a equação de Euler–Lagrange para campos
clássicos. Aqui nesta seção, apresentaremos apenas as traduções dos termos que aparecem
na equação de Lagrange, que descreve o movimento de uma partı́cula, para os termos que
aparecem na equação de Euler–Lagrange, que dão a equação dinâmica para campos clássicos.
Um ponto importante a ser discutido é que a ação de sistemas relativı́sticos é um escalar
de Lorentz. Isto por que a trajetória que uma partı́cula percorre, vista de um dado referencial
inercial, é o mı́nimo da ação neste referencial. A trajetória da mesma partı́cula vista de outro

22
referencial inercial tem que ser aquela que é obtida da primeira por uma transformação de
Lorentz, e portanto tem que também ser um mı́nimo da ação. Logo, o valor da ação associada
a trajetória que a partı́cula percorre num dado referencial inercial tem que ser um escalar de
Lorentz de maneira a independer da particular forma que a trajetória (ou configuração) tem
em cada referencial inercial. Como o produto dtd~x é um escalar de Lorentz, a densidade de
lagrangeana L também tem que ser um escalar de Lorentz.
Obtemos a equação de Euler–Lagrange a partir da equação de Lagrange fazendo as
seguintes substituições:

∂L ∂L
−→ (4.3a)
∂x ∂Φ(~x, t)
3
d ∂L ∂ ¡ ∂L ¢ X ∂ ¡ ∂L ¢
−→ ¡ ∂Φ ¢ + i
¡ ∂Φ ¢ =
dt ∂ ẋ ∂t ∂ ∂t i=1
∂x ∂ ∂xi
∂L
= ∂µ (4.3b)
∂(∂µ Φ)

A evolução no tempo dos campos clássicos é dada pela equação de Euler–Lagrange (eq.
(B.16))

∂L ∂L
− ∂µ = 0. (4.3c)
∂Φ ∂(∂µ Φ)

4.1. Campos Eletromagnéticos: Campos de Maxwell

Antes de começarmos a discutir a densidade de lagrangeana L a partir da qual obtemos as


equações de Maxwell (2.2a–d), discutiremos o tensor covariante de ordem 2 definido como[8] :

Fµν (~x, t) = ∂µ Aν (~x, t) − ∂ν Aµ (~x, t), µ, ν = 0, 1, 2, 3, (4.1.1)

∂ ~
onde ∂µ = ( 1c ∂t ~ x, t)). Note que Fµν é um tensor anti–
, ∇) e Aµ (~x, t) = (A0 (~x, t), −A(~
simétrico pela troca dos ı́ndices (Fµν = −Fνµ ). Portanto, dos 16 elementos do tensor8 Fµν ,

8
Usamos a convenção de que os ı́ndices gregos: α, µ, τ, ... assumem os valores 0,1,2,3,

23
temos 4 elementos nulos (os elementos da diagonal são nulos) e apenas 6 elementos podem
ser distintos entre si. Relacionaremos esses 6 elementos distintos com as componentes dos
~ x, t) e B(~
campos eletromagnéticos E(~ ~ x, t),

1 ∂Ai ∂A0 £ ~ ¤
F0i = − − = − ~ 0 (~x, t) − 1 ∂ A(~x, t)
∇A
c ∂t ∂xi c ∂t i

= E i (~x, t), i = 1, 2, 3, (4.1.2a)

∂Ai (~x, t) ∂Aj (~x, t)


Fij = − .
∂xj ∂xi

Comparando a expressão acima para Fij , com a expressão (2.5b) para o campo magnético,
~ x, t))k = εkij ∂i Aj , k = 1, 2, 3, obtemos que
~ × A(~
B k (~x, t) = (∇

F12 = −Bz (~x, t), F13 = By (~x, t), F23 = −Bx (~x, t). (4.1.2b)

Portanto, o tensor Fµν escrito em termos das componentes dos campos elétrico e magné-
tico fica,

 
0 Ex Ey Ez
 −Ex 0 −Bz By 
Fµν = . (4.1.4)
−Ey Bz 0 −Bx
−Ez −By Bx 0

O tensor de Levi–Civita, εkij , está definido no Apêndice A.

Exercı́cio:
Determine os elementos do tensor F µν . Utilize a eq.(3.16b) para obter as componentes
do tensor F µν a partir da expressão (4.1.4).

enquanto os ı́ndices arábicos: i, j, k, ... assumem os valores 1,2,3, ou seja

µ, ν, τ, . . . = 0, 1, 2, 3 e i, j, k, . . . = 1, 2, 3.

24
A densidade de lagrangeana dos campos eletromagnéticos tem que ser um escalar de
Lorentz. Queremos representar através da densidade de lagrangeana, os campos eletro-
magnéticos e sua interação com partı́culas que possuem carga elétrica, de maneira que as
equações de Euler–Lagrange nos dê as equações de Maxwell.
Seja j µ a 4–densidade de corrente elétrica, j µ (~x, t) = (cρ(~x, t), ~(~x, t)), onde ρ(~x, t) é
a densidade de carga elétrica e ~(~x, t) a densidade de corrente elétrica. A densidade de
lagrangeana para campos eletromagnéticos (campos de Maxwell) interagindo com matéria
carregada eletricamente é[9] :

1 1
L(Aµ , ∂ν Aµ ) = − Fµν F µν − jµ Aµ (4.1.5a)
16π c
~ | −|B
|E 2 ~ | 2
~ · A~
= − ρA0 + . (4.1.5b)
8π c

Exercı́cio:
Usando o tensor Fµν na forma (4.1.4) mostre que:

~ |2 − | E
Fµν F µν = 2(| B ~ |2 ).

Verifiquemos se a densidade de lagrangeana L (eq.(4.1.5a)) substituı́da na equação de


Euler–Lagrange (eq.(4.3c)) dá as equações de Maxwell (2.2a–d). A equação de Euler–Lagrange
no caso dos campos de Maxwell fica,

∂L ∂L
− ∂τ = 0. (4.1.6)
∂Aα ∂(∂τ Aα )
Calculemos os termos que aparecem no l.e. da eq.(4.1.6).
O primeiro termo do l.e. da eq.(4.1.6) fica,

∂L ∂ £ 1 1 ¤
= − Fµν F µν − jµ Aµ
∂Aα ∂Aα 16π c
£
1 ∂Fµν µν ∂F µν ¤ 1 ∂ £ ¤
=− F + Fµν − jµ Aµ . (4.1.7a)
16π ∂Aα ∂Aα c ∂Aα

25
Como

∂Fµν ∂F µν
Fµν = ∂µ Aν − ∂ν Aµ ⇒ = = 0. (4.1.7b)
∂Aα ∂Aα
Além disso9

1 ∂ £ ¤ 1 ∂Aµ 1
− jµ Aµ = − j µ = − j µ δµ α
c ∂Aα c ∂Aα c
1 ∂ £ ¤ 1
⇒ − jµ Aµ = − j α . (4.1.7c)
c ∂Aα c

Portanto, temos que

∂L 1
= − jα. (4.1.7d)
∂Aα c
Calculando as derivadas de L em relação a ∂τ Aα

∂L ∂ £ 1 1 ¤
= − Fµν F µν − jµ Aµ
∂(∂τ Aα ) ∂(∂τ Aα ) 16π c
1 £ ∂Fµν ∂F µν ¤ 1 ∂ £ ¤
=− F µν + Fµν − jµ Aµ
16π ∂(∂τ Aα ) ∂(∂τ Aα ) c ∂(∂τ Aα )
µ
1 ∂Fµν 1 ∂A
= − F µν − jµ . (4.1.8a)
8π ∂(∂τ Aα ) c ∂(∂τ Aα )

Entretanto, como

∂Fµν ∂(∂µ Aν ) ∂(∂ν Aµ )


Fµν = ∂µ Aν − ∂ν Aµ ⇒ = −
∂(∂τ Aα ) ∂(∂τ Aα ) ∂(∂τ Aα )
∂Fµν
⇒ = δµ τ δν α − δν τ δµ α . (4.1.8b)
∂(∂τ Aα )
9
Devemos notar que pela relação (3.16a), temos que:

jµ Aµ = gµα j α g µτ Aτ = gµα g µτ j α Aτ = δατ j α Aτ = j α Aα .

A troca da posição dos ı́ndices que estão sendo contraı́dos não altera o resul-
tado.

26
Consequentemente temos que

1 µν ∂Fµν 1
− F = − F µν (δµ τ δν α − δν τ δµ α )
8π ∂(∂τ Aα ) 8π
1 1
= − (F τ α − F ατ ) = − F τ α , (4.1.8c)
8π 4π

uma vez que F τ α é um tensor anti–simétrico.


Além disso temos que

1 ∂Aµ
− jµ = 0. (4.1.8d)
c ∂(∂τ Aα )

Substituindo os resultados (4.1.8c–d) em (4.1.8a) decorre que

∂L 1 1 ατ
= − F τα = F . (4.1.8e)
∂(∂τ Aα ) 4π 4π

Usando os resultados (4.1.7d) e (4.1.8e) a equação de Euler–Lagrange para os campos


eletromagnéticos obtida é:

4π α
∂τ F τ α = j , α = 0, 1, 2, 3. (4.1.9)
c

Observando atentamente a eq.(4.1.9) notamos que ela representa apenas 4 equações,


enquanto que as equações de Maxwell (2.2a–d) são 8 equações!!!
Vejamos quais das equações de Maxwell são descritas pela eq.(4.1.9). Na verdade como
do l.d. da eq.(4.19) temos j µ , então são as equações inomogêneas de Maxwell (2.2a) e (2.2d)
que são reproduzidas pelas suas componentes. Para vermos isto, reescrevemos a eq.(4.1.9) em
termos das componentes do tensor Fµν :
i. α = 0

∂j F j0 (~x, t) = 4πρ(~x, t), (4.1.10a)

onde o ı́ndice j, sobre o qual estamos somando implicitamente, assume os valores: j = 1, 2, 3.


Mas,

27
∂Ex (~x, t) ∂Ey (~x, t) ∂Ez (~x, t)
∂j F j0 (~x, t) = + +
∂x ∂y ∂z
=∇ ~ x, t).
~ · E(~ (4.1.10b)

A componente α = 0 da eq.(4.1.9) nos dá a lei de Gauss:

∇ ~ x, t) = 4πρ(~x, t).
~ · E(~ (4.1.10c)

ii. α = 1

1 ∂F 01 ∂F 21 ∂F 31 4π
+ + = jx . (4.1.11a)
c ∂t ∂y ∂z c
Reescrevendo os elementos de F µν em termos dos campos eletromagnéticos, a eq.(4.1.11a)
passa a ser

1 ∂Ex (~x, t) ∂Bz (~x, t) ∂By (~x, t) 4π


− + − = jx (~x, t) ⇒
c ∂t ∂y ∂z c

⇒ (∇ ~ x, t))x = 4π jx (~x, t) + 1 ∂Ex (~x, t) .


~ × B(~ (4.1.11b)
c c ∂t

Procedendo de forma análoga, para α = 2 e α = 3 encontramos que


iii. α = 2

(∇ ~ x, t))y = 4π jy (~x, t) + 1 ∂Ey (~x, t) ,


~ × B(~ (4.1.11c)
c c ∂t
iv. α = 3

(∇ ~ x, t))z = 4π jz (~x, t) + 1 ∂Ez (~x, t) .


~ × B(~ (4.1.11d)
c c ∂t
As componentes espaciais (α = 1, 2, 3) da eq.(4.1.9) nos dão a lei Ampère corrigida10 :

10
A lei de Ampère original é: ∇ ~ =
~ ×B 4π
c ~
. Entretanto, Maxwell adicionou a esta relação
~
1 ∂E
o termo de corrente de deslocamento c ∂t de forma a fechar de forma auto–consistente as que
hoje são conhecidas como as leis de Maxwell[10] .

28
~
∇ ~ x, t) = 4π ~(~x, t) + 1 ∂ E(~x, t) ,
~ × B(~ (4.1.11e)
c c ∂t

Como obter as equações homogêneas de Maxwell (2.2b) e (2.2c)?


Na verdade as equações homogêneas de Maxwell decorrem da definição do tensor Fµν em
termos do 4–potencial vetor Aµ , ou seja,

Fµν = ∂µ Aν − ∂ν Aµ , (4.1.12)

que satisfaz a seguinte identidade:

∂α Fµν + ∂µ Fνα + ∂ν Fαµ = 0, (4.1.13)

válida para qualquer configuração Aµ (~x, t).


A identidade (4.1.13) é conhecida como a identidade de Bianchi.

Exercı́cio:
Usando a expressão (4.1.12) para o tensor Fµν mostre a identidade de Bianchi (4.1.13).

Para obtermos as equações de Maxwell (2.2b) e (2.2c) a partir das componentes da


eq.(4.1.13), calcule–mo–la explicitamente para conjuntos distintos de valores de (α, µ, ν):
i. α = 0, µ = 1, ν = 2

1 ∂Bz ∂Ey ∂Ex


∂0 F12 + ∂1 F20 + ∂2 F01 = 0 ⇒ − − + =0
c ∂t ∂x ∂y
⇒ (∇ ~ x, t))z = − 1 ∂Bz .
~ × E(~ (4.1.14a)
c ∂t

ii. α = 0, µ = 1, ν = 3

1 ∂By ∂Ez ∂Ex


∂0 F13 + ∂1 F30 + ∂3 F01 = 0 ⇒ − + =0
c ∂t ∂x ∂z
⇒ (∇ ~ x, t))y = − 1 ∂By .
~ × E(~ (4.1.14b)
c ∂t
29
iii. α = 0, µ = 2, ν = 3

1 ∂Bx ∂Ez ∂Ey


∂0 F23 + ∂2 F30 + ∂3 F02 = 0 ⇒ − − + =0
c ∂t ∂y ∂z
⇒ (∇ ~ x, t))x = − 1 ∂Bx .
~ × E(~ (4.1.14c)
c ∂t

iv. α = 1, µ = 2, ν = 3

∂Bx ∂By ∂Bz


∂1 F23 + ∂2 F31 + ∂3 F12 = 0 ⇒ − − − =0
∂x ∂y ∂z
⇒ ∇ ~ x, t) = 0.
~ · B(~ (4.1.14d)

Em resumo, as eqs.(4.1.14a–c) nos dão a lei de Faraday

~
∇ ~ x, t) = − 1 ∂ B(~x, t)
~ × E(~ (4.1.15),
c ∂t
e, a eq.(4.1.14d) nos dá a equação de Gauss para o campo magnético,

∇ ~ x, t) = 0.
~ · B(~ (4.1.16)

A eq.(4.1.16) representa a ausência de monopólos magnéticos nas equações de Maxwell.


Portanto, a partir da densidade de lagrangeana (4.1.5) e da definição do tensor Fµν
obtemos todas as equações de Maxwell (2.2a–d).
Todos nós já ouvimos falar na conservação da carga elétrica. Vamos mostrar que essa lei
de conservação é uma consequência das equações de Maxwell (eqs. (2.2a–d) ou (4.1.9)).
Usando as equações de Maxwell escrita na forma covariante (eq.(4.19)),

4π α
∂τ F τ α = j , α = 0, 1, 2, 3, (4.1.17)
c
calculamos a sua derivada em relação a xα , e somamos sobre α, de forma que


∂α ∂τ F τ α = ∂α j α . (4.1.18a)
c
30
Como os ı́ndices α e τ no l.e. da eq.(4.1.18a) são ı́ndices mudos (ı́ndices sobre os quais
estamos somando), então podemos mudar o nome dessas variáveis, de maneira que se fazemos
a mudança de variáveis: α *
) τ , o l.e. da eq.(4.1.18a) não se modifica, ou seja,

∂α ∂τ F τ α = ∂τ ∂α F ατ = −∂τ ∂α F τ α = −∂α ∂τ F τ α

⇒ ∂α ∂τ F τ α = 0, (4.1.18b)

onde usamos que ∂α ∂τ = ∂τ ∂α mas que F τ α = −F ατ .


Consequentemente podemos escrever a eq.(4.1.18a) como sendo

∂ρ(~x, t) ~
∂α j α (~x, t) = 0 ⇒ + ∇ · ~(~x, t) = 0, (4.1.18c)
∂t

que nos dá a lei de conservação da carga elétrica. A partir da equação de conservação da
carga elétrica temos que a variação da densidade de carga elétrica na posição ~x no instante t é
igual a menos o fluxo da densidade de corrente elétrica que no instante t atravessa um volume
~ · ~ > 0 temos um fluxo positivo atravessando
infinitesimal que contém o ponto ~x. Para ∇
o volume infinitesimal. Essa relação descreve a situação em que temos mais corrente saindo
do volume infinitesimal, que contém o ponto ~x, do que entrando. Essa quantidade maior de
corrente que sai, se dá as custas da diminuição da densidade de cargas elétricas dentro do
volume infinitesimal que contém o ponto ~x. No processo inverso, fluxo negativo, temos um
aumento de carga elétrica em ~x, que corresponde a um acúmulo de carga elétrica neste ponto.

A densidade de lagrangeana L (4.1.5) não é invariante sob transformações de gauge (eq.-


(3.18)) uma vez que é proporcional a Aµ . Apesar disso as equações de movimento para os
campos são invariantes sob essas transformações. Qual o mecanismo da teoria que garante a
invariância das equações de movimento?
Vejamos como a densidade de lagrangeana l(4.1.5a) se modifica sob transformações de
gauge

A0 µ (~x, t) = Aµ (~x, t) − ∂ µ G(~x, t). (4.1.19)

31
Note que a transformação de gauge (4.1.19) corresponde a dizer que todas as con-
figurações Aµ (~x, t) são modificadas, sendo que a cada uma delas é subtraı́do o 4–gradiente da
mesma função G(~x, t).
A densidade de lagrangeana (4.1.5a) sob a transformação (4.1.19) fica:

1 0 0 µν 1 µ
L(A0µ , ∂ν A0µ ) = − Fµν F − jµ A0
16π c
1 1 1
=− Fµν F µν − jµ Aµ + jµ ∂ µ G. (4.1.20a)
16π c c

Exercı́cio:
~ x, t)
Os elementos do tensor Fµν (eq.(4.1.4)), são as componentes dos campos fı́sicos E(~
~ x, t). Os campos fı́sicos são invariantes sob a transformação de gauge (4.1.19).
e B(~
0 0 µν
Prove que Fµν = Fµν e, portanto, que Fµν F0 = Fµν F µν .

Usando a conservação da carga elétrica, eq.(4.1.18c), temos que

1 1 1
jµ (~x, t)∂ µ G(~x, t) = ∂ µ (jµ (~x, t)G(~x, t)) − G(~x, t)∂ µ jµ (~x, t)
c c c
1
= ∂ µ (jµ (~x, t)G(~x, t)). (4.1.20b)
c

Usando o resultado (4.1.20b) em (4.1.20a), obtemos que a densidade de lagrangeana dos


campos de Maxwell se transforma sob transformação de gauge como

1
L(A0µ , ∂ν A0µ ) = L(Aµ , ∂ν Aµ ) + ∂ µ (jµ (~x, t)G(~x, t)). (4.1.20c)
c
Vemos que a densidade de lagrangeana dos campos eletromagnéticos só é invariante sob
transformação de gauge na ausência de partı́culas com carga elétrica. No entanto, na presença
de cargas e correntes elétricas, a densidade de lagrangeana sob uma transformação de gauge
se modifica por uma derivada total. O fato da densidade de lagrangeana se modificar, sob
uma transformação de gauge, por uma derivada total, é consequência da lei de conservação
da carga elétrica.
Da eq.(4.2) temos que a ação associada a configuração do 4–potencial vetor é,

32
Z tf Z
S[Aµ ; t0 , tf ] = dt d3~x L(Aµ , ∂ν Aµ ; ~x, t). (4.1.21a)
t0 V∞

A ação associada aos campos A0µ obtidos de Aµ a partir da transformação de gauge


(4.1.19) é

Z tf Z
0
S [A0µ ; t0 , tf ] = dt d3~x L(A0µ , ∂ν A0µ ; ~x, t). (4.1.21b)
t0 V∞

Utilizando–se o resultado (4.1.20c), relacionamos S 0 [A0µ ] e S[Aµ ]

Z tf Z Z Z
0 1 tf
S [A0µ ; t0 , tf ] = dt 3
d ~x L(Aµ , ∂ν Aµ ; ~x, t) + dt d3~x ∂ µ (jµ (~x, t)G(~x, t))
t0 V∞ c t0 V∞
Z tf Z
1
= S[Aµ ; t0 , tf ] + dt d3~x ∂ µ (jµ (~x, t)G(~x, t)). (4.1.21c)
c t0 V∞

Entretanto,

Z tf Z Z Z tf
1 3 µ 3 ∂
dt d ~x ∂ (jµ (~x, t)G(~x, t)) = d ~x dt (ρ(~x, t)G(~x, t))+
c t0 V∞ V∞ t0 ∂t
Z tf Z
1 ~ · (~j(~x, t)G(~x, t))
+ dt d3~x ∇
c t0 V∞
Z Z tf I
1
= 3
d ~x [ρ(~x, tf )G(~x, tf ) − ρ(~x, t0 )G(~x, t0 )] + dt G(~x, t)~j(~x, t) · d~s
V c t0 S∞
Z ∞
= d3~x [ρ(~x, tf )G(~x, tf ) − ρ(~x, t0 )G(~x, t0 )]. (4.1.21d)
V∞

Para passarmos da primeira linha para a segunda linha da expressão anterior utilizamos
o Teorema de Gauss (eq.(A.9)). Para escrevermos o resultado final (4.1.21d) utilizamos a
hipótese de sistema fechado e portanto ~(~x, t) = 0, em qualquer ponto da superfı́cie S∞ que
delimita o volume V∞ .
Finalmente, podemos escrever que

Z
0
S [A0µ ; t0 , tf ] = S[Aµ ; t0 , tf ] + d3~x [ρ(~x, tf )G(~x, tf ) − ρ(~x, t0 )G(~x, t0 )]. (4.1.22)
V∞

33
A segunda integral que aparece do l.d. da expressão (4.1.22) é a mesma para qual-
quer configuração de Aµ (~x, t). Portanto, as configurações que correspondem ao mı́nimo de
S 0 [A0µ ] são aquelas que foram obtidas de Aµ por uma transformação de gauge e que são as
configurações que dão os mı́nimos de S[Aµ ]. Como Aµ e A0µ estão ligadas por uma trans-
formação de gauge, então ambas as configurações geram os mesmos campos eletromagnéticos.
Como consequência da ação variar da mesma quantidade para todas as configurações, os
4–potenciais vetores que minimizam cada uma das ações, apesar de diferentes, representam
os mesmos campos fı́sicos. Por tudo isso, as equações de movimento obtidas pela aplicação do
Princı́pio de Hamilton à densidade de lagrangeana (4.1.5) são invariantes sob transformações
de gauge.
Cabe ressaltar mais uma vez que foi fundamental para demonstrar a invariância da
equação de movimento dos campos eletromagnéticos sob transformações de gauge a lei de
conservação da carga elétrica.

Para concluir esta seção, consideraremos as equações de Maxwell numa região distante
da região onde estão as cargas e correntes elétricas que geraram os campos eletromagnéticos.
Na região em que estamos interessados em estudar a evolução no tempo dos campos eletro-
magnéticos, as equações de Maxwell são:

∇ ~ x, t) = 0,
~ · E(~ (4.1.23a)

∇ ~ x, t) = 0,
~ · B(~ (4.1.23b)
~
∇ ~ x, t) = − 1 ∂ B(~x, t) ,
~ × E(~ (4.1.23c)
c ∂t
~
∇ ~ x, t) = 1 ∂ E(~x, t) .
~ × B(~ (4.1.23d)
c ∂t

~ x, t) cal-
Para obtermos a equação de movimento das componentes do campo elétrico E(~
culamos o rotacional da eq.(4.1.23c),

~ × (∇
∇ ~ x, t)) + 1 ∂ (∇
~ × E(~ ~ x, t)) = 0.
~ × B(~ (4.1.24a)
c ∂t
Usando a relação (A.7) e substituindo a eq.(4.1.23d) na expressão anterior, obtemos que

34
2~
~ ∇
∇( ~ · E(~ ~ x, t) = − 1 ∂ E(~x, t)
~ x, t)) − ∇2 E(~ ⇒
c2 ∂t2
¡ 2 1 ∂2 ¢~
∇ − 2 2 E(~ x, t) = 0. (4.1.24b)
c ∂t
~ x, t) = 0 para escrevermos (4.1.24b) na sua forma final. A eq.
~ · E(~
Utilizamos que ∇
(4.1.24b) é válida para cada componente do campo elétrico:

¡ 2 1 ∂2 ¢
∇ − 2 2 E i (~x, t) = 0, i = 1, 2, 3. (4.1.24c)
c ∂t
1 ∂2
Usamos a notação: E 1 = Ex , E 2 = Ey e E 3 = Ez . O operador (∇2 − c2 ∂t2 ) é o operador
d’Alambertiano (t
u) que definimos na eq.(3.15a). Usando a notação covariante do operador
d’Alambertiano (eq.(3.15b)), a equação de movimento das componentes do campo elétrico
livre fica:

∂µ ∂ µ E i (~x, t) = 0. (4.1.24d)

Procedendo de forma análoga, mas agora usando as eqs.(4.1.23d) e (4.1.23c) obtemos as


mesmas equações para as componentes do campo magnético livre,

¡ 2 1 ∂2 ¢
∇ − 2 2 B i (~x, t) = 0 ⇒
c ∂t
⇒ ∂µ ∂ µ B i (~x, t) = 0. (4.1.25)

Estudemos agora as soluções de onda plana da eq.(4.1.24c), ou equivalentemente, da


eq.(4.1.25). Supomos que essas equações têm solução da forma

~
E i (~x, t) = E i ei(k·~x−ωt) , (4.1.26a)

onde E i é uma constante que dá a amplitude do campo elétrico, ~k é o vetor de onda que
determina a direção e o sentido em que a onda plana se propaga e ω sua frequência angular.
No entanto, não é para qualquer valor de | ~k | e ω que a solução tentativa (4.1.26a) é solução da
equação diferencial (4.1.24c). Substituimos a solução (4.1.26a) em (4.1.24c) para encontrarmos
que relação | ~k | e ω devem satisfazer para que (4.1.26a) seja sua solução. Assim,

35
¡ 1 ∂2 ¢ i i i(~ ω 2
2
∇ − 2 2 E (~x, t) = 0 ⇒ E e k·~
x−ωt)
(| ~k |2 − 2 ) = 0. (4.1.26b)
c ∂t c
Como a igualdade (4.1.26b) tem que ser verdadeira em todos os pontos do espaço e em
todos os instantes, então a única forma de garantirmos isto é impondo que

ω2
=| ~k |2 . (4.1.26c)
c2
A relação de dispersão (4.1.26c) é satisfeita por partı́culas de massa zero[4] .
Podemos nos perguntar: como a densidade de lagrangeana (4.1.5a) deve ser modificada
para que a luz possua massa?
Em 1936, A. Proca foi o primeiro a propor uma modificação na densidade de lagrangeana
[7]
(4.1.5a) para que a luz tivesse massa. A densidade de lagrangeana

1 1 µ
LP roca (Aτ , ∂ν Aτ ) = − Fτ ν F τ ν − jα Aα + Aα Aα , (4.1.27a)
16π c 8π
é conhecida como a densidade de lagrangeana de Proca.
A equação de movimento obtida a partir de (4.1.27a) é,

4π α
∂τ F τ α + µ2 Aα = j , α = 0, 1, 2, 3 (4.1.27b)
c
A eq.(4.1.27b) escrita em termos dos 4–potenciais Aα , no gauge de Lorentz (∂α Aα ) e na
ausência de 4–correntes externas, fica

1 ∂2 ¢
(∇2 − Aα (~x, t) − µ2 Aα (~x, t) = 0, α = 0, 1, 2, 3. (4.1.28a)
c2 ∂t2
A solução tipo onda plana (eq.(4.1.26a)),

~
Aα (~x, t) = Aα ei(k·~x−ωt) , (4.1.28b)

substituida na eq.(4.1.28a), leva a relação de dispersão:

ω2
=| ~k |2 +µ2 . (4.1.28c)
c2
36
A relação (4.1.28c) é igual a relação de dispersão satisfeita por partı́culas livres rela-
tivı́sticas de massa |µ|.
A partir da eq.(4.1.27b), vemos que a equação de movimento obtida do modelo de Proca
depende explicitamente dos campos Aα (~x, t), de maneira que ela não é mais invariante sob a
transformação de gauge (4.1.19). Com a perda da invariância de gauge, os campos Aα (~x, t)
perdem o seu carater auxiliar e passam a ser campos fı́sicos, o que vai contra o fato de
serem os campos elétrico e magnético os campos fı́sicos, enquanto que os 4-potencias veto-
rias foram introduzidos apenas para levar em conta que campos eletromagnéticos possuem
interdependência.
Portanto, é preciso procurar outro mechanismo que a Natureza possa ter lançado mão
para dar massa a luz, mas sem abrir mão da invariância de gauge da teoria.

A densidade de lagrangeana dos campos de Maxwell (campos eletromagnéticos)

1 1
L(Aµ , ∂ν Aµ ) = − Fµν F µν − jµ Aµ , (4.1.29)
16π c
pode ser escrita em qualquer dimensão espaço–temporal. Na seção 4.1 apresentamos os
cálculos em d=4(3+1). Entretanto, a forma da equação de movimento não muda se con-
sideramos dimensões de espaço–tempo iguais a: d=2 (1+1), d=3 (2+1).

4.2. Campos de Gauge de Maxwell-Chern–Simons.

Os fı́sicos teóricos nunca estão satisfeitos com a densidade de lagrangeana que êles têm a
mão. É parte de sua natureza especular como seria o universo se a densidade de lagrangeana
tivesse outros termos. Que novos fenômenos a Natureza lhe revela nestes novos termos de sua
tão amada densidade de lagrangeana?
A Teoria Eletromagnética não foge à regra de provocar esta incansável curiosidade que
os teóricos possuem. A regra que temos que seguir para tentar adicionar novos termos à
densidade de lagrangeana dos campos eletromagnéticos (eq. (4.1.29)) é de que ela tem que
continuar a ser um escalar de Lorentz. Além disso, na ausência de partı́culas que possuam
carga elétrica, a densidade de lagrangeana é invariante sob transformações de gauge. Portanto

37
uma idéia possı́vel que se tem para estender a densidade de lagrangeana (4.1.29), na ausência
de partı́culas carregadas eletricamente, é adicionar–lhe o escalar de Lorentz

εγναβ Fγν Fαβ . (4.2.1a)

A lagrangeana estendida dos campos eletromagnéticos passaria a ser

1 1
Lest (Aγ , ∂ν Aγ ) == − Fγν F γν − jγ Aγ + gεγναβ Fγν Fαβ , (4.2.1b)
16π c
onde g é uma constante e εγναβ é o tensor de Levi–Civita em 4 dimensões1 1.
Entretanto, o termo εγναβ Fγν Fαβ é igual a uma derivada total, ou seja,

εγναβ Fγν Fαβ = ∂ν Ων . (4.2.1c)

Exercı́cio:
Mostre que:

εγναβ Fγν Fαβ = ∂ν Ων ,

onde

Ων = 2ενγαβ Aγ Fαβ .

Lest difere da lagrangeana (4.1.29) por uma derivada total. Pelo que mostramos na
seção 1, densidades de lagrangeanas que difiram por uma derivada total geram o mesmo
conjunto de equações de movimento. Portanto, ao adicionarmos o termo (4.2.1a) a (4.1.29)

1
1 O tensor de Levi–Civita εγναβ é definido de forma análoga ao tensor de Levi–Civita em
3 dimensões ( Apêndice A); ε0123 = 1, assim como para todas as permutações pares dos ı́ndice
(0, 1, 2, 3) , -1 para todas as permutações ı́mpares dos ı́ndices (0, 1, 2, 3) e 0 se dois ou mais
ı́ndices forem iguais.

38
não estamos descrevendo nenhum fenômeno fı́sico novo. Por simplicidade, usamos a densidade
de lagrangeana (4.1.29 ) para descrever os campos eletromagnéticos.

Em dimensões espaço–temporal ı́mpar podemos definir os termos de Chern–Simons. Os


termos de Chern–Simons não são invariantes sob transformações de gauge (eq. (4.1.19));
entretanto, veremos que as equações de movimento dos campos obtidas, continuam invariantes
mesmo com a adição desses termos.
Neste mini–curso nos restringiremos a discutir o termo de Chern–Simons abeliano em
d=3(2+1). Em d=3(2+1) o movimento dos campos e partı́culas está restrito a um único
plano, que chamaremos de plano (x, y).
A densidade de lagrangeana do termo de Chern–Simons abeliano em d=3(2+1) é:

µ γνα
LC−S (Aγ , ∂ν Aγ ) = ε Fγν Aα , (4.2.2)
4
sendo εγνα o tensor de Levi–Civita (Apêndice A) em 3 dimensões12 .
A lagrangeana dos campos de gauge, incluindo o termo de Chern–Simons, fica sendo

1 µ
LG (Aγ , ∂ν Aγ ) = − Fγν F γν + εγνα Fγν Aα , (4.2.3)
16π 4
[11,12]
que é conhecida na literatura como a densidade de lagrangeana de Maxwell–Chern–
Simons. Os dois primeiros termos do l.d. de (4.2.3) são chamados de densidade de lagrangeana
de Maxwell.
A ação tem dimensão de momento angular:

M L2
[S] = , (4.2.4)
T
onde M representa a dimensão de massa, L a dimensão de comprimento e T a dimensão de
tempo. Como todos os termos de uma expressão têm que ter a mesma dimensão, então a
partir da ação podemos determinar em d=3(2+1) a dimensão do 4–potencial vetor Aν e da
constante de Chern–Simons µ.
Usando a expressão geral (4.2) da ação para campos clássicos, temos que em d=3(2+1)
a ação para os campos de Maxwell-Chern–Simons é,
12
Definimos ε012 = 1.

39
Z tf Z
S[Aγ ; t0 , tf ] = dt d2~x LG (Aγ (~x, t), ∂ν Aγ (~x, t); ~x, t). (4.2.5)
t0 V∞

A análise dimensional para se determinar a dimensão de Aµ e µ é a seguinte:


i. a partir da densidade de lagrangeana de Maxwell:

M L2 [Aγ ]2
[S] = = T L2 [Fγµ F γµ ] = T L2 2 ⇒
T L
1 1
M 2L [Aγ ] M2
⇒ [Aγ ] = ; [Fγν ] = = . (4.2.6a)
T L T
ii. as densidades de Maxwell e de Chern–Simons têm a mesma dimensão:

[Fγν ]2 = [µ][Aγ][Fγν ] ⇒ [µ] = L−1 . (4.2.6b)

A constante de Chern–Simons µ tem dimensão do inverso do comprimento. O modelo de


1
Maxwell–Chern–Simons tem uma constante que caracteriza um comprimento: µ, ao contrário
da teoria de Maxwell que na ausência de cargas e correntes elétricas não possui nenhuma
constante com dimensão.
O termo de Chern–Simons (4.2.2) não é invariante sob transformações de gauge (4.1.19)
uma vez que depende diretamente de Aγ ; porém, como a densidade de lagrangeana LC−S se
modifica sob transformações de gauge (4.1.19)?
Sob a transformação de gauge (4.1.19)

A0 µ (~x, t) = Aµ (~x, t) − ∂ µ G(~x, t). (4.2.7)

a densidade de lagrangeana de Chern–Simons passa a ser

µ γνα
LC−S (A0γ , ∂ν A0γ ) = ε Fγν (Aα − ∂α G)
4
µ
= LC−S (Aγ , ∂ν Aγ ) − εγνα Fγν ∂α G. (4.2.8)
4
Mas,

εγνα Fγν ∂α G = εγνα ∂α (GFγν ) − εγνα G∂α Fγν . (4.2.9a)

40
Porém, como Fµν = ∂µ Aν − ∂ν Aµ , então,

εγνα G∂α Fγν = G[εγνα ∂α ∂γ Aν − εγνα ∂α ∂ν Aγ ]

= 0, (4.2.9b)

uma vez que somamos sobre os ı́ndices (α, γ) no primeiro termo do l.d. de (4.2.9b) e sobre
(α, ν) no segundo termo da mesma expressão e εγνα é um tensor ı́mpar (εγνα = −εγαν ),
enquanto que ∂α ∂γ e ∂α ∂ν são tensores pares (∂α ∂γ = ∂γ ∂α , e, ∂α ∂ν = ∂ν ∂α ).
Logo,

εγνα Fγν ∂α G = ∂α (εγνα GFγν ). (4.2.9c)

Finamente, podemos afirmar que sob uma transformação de gauge a densidade de la-
grangeana de Maxwell–Chern–Simons se transforma como:

µ
LC−S (A0γ , ∂ν A0γ ) = LC−S (Aγ , ∂ν Aγ ) − ∂α (εγνα Fγν G). (4.2.10)
4
Como no caso dos campos de Maxwell a densidade de lagrangeana de Maxwell–Chern–
Simons se modifica por uma derivada total sob uma transformação de gauge (4.2.7). Mostra-
mos na seção 4.1 que neste caso a ação que descreve o sistema gera equações de movimento
invariantes sob transformações de gauge. A grande diferença entre as duas teorias é que a
densidade de lagrangeana de Chern–Simons não é invariante sob transformações de gauge
nem mesmo na ausência de interação com partı́culas. Entretanto o que é importante é que a
lagrangeana gera equações de movimento que são invariantes sob transformações de gauge.

Antes de discutirmos as equações de movimento decorrentes da densidade de lagrangeana


de Maxwell-Chern–Simons com os campos de gauge Aν acoplados a correntes e cargas elé-
tricas, vejamos as componentes do tensor Fγν em termos dos campos eletromagnéticos em
d=3(2+1).
Como o tensor Fγν tem a mesma definição em qualquer dimensão espaço–temporal,

Fγν (~x, t) = ∂γ Aν (~x, t) − ∂ν Aγ (~x, t), γ, ν = 0, 1, 2, (4.2.11)

41
em d=3(2+1) o tensor Fγν tem 3 componentes independentes de um total de 9 elementos.
Lembramos que os elementos da diagonal do tensor Fγν são nulos.
Os elementos independentes do tensor Fγν (~x, t) são:

1 ∂Ai ∂A0
F0i (~x, t) = − − = E i (~x, t), i = 1, 2, (4.2.12a)
c ∂t ∂xi
e
∂A2 ∂A1 ∂Ax ∂Ay
F12 (~x, t) = − + = − = −B(~x, t). (4.2.12b)
∂x1 ∂x2 ∂y ∂x

Das expressões (4.2.12a–b), vemos que em d=3(2+1) o campo elétrico é um vetor com
duas componentes contidas no plano (x, y) enquanto que o campo magnético é um escalar.
Note que F12 em d=4(3+1) corresponde a componente z do campo magnético; em d=3(2+1)
a componente z é perpendicular ao plano fixado de maneira que em d=3(2+1) o campo
magnético é um escalar.
O tensor Fγν escrito na sua forma matricial fica,

 
0 Ex Ey
Fγν 
= −Ex 0 −B  . (4.2.12c)
−Ey B 0

Em resumo, temos que

i 1 ∂Ai ∂A0
E (~x, t) = F0i (~x, t) = − − (4.2.13a)
c ∂t ∂xi
e

B(~x, t) = −F12 (~x, t) = εij ∂i Aj , (4.2.13b)

onde εij , i, j, = 1, 2, é o tensor de Levi–Civita em duas dimensões (ε12 = 1, ε21 = −1, ε11 =
ε22 = 0).

Iremos derivar agora as equações de movimento obtidas da densidade de lagrangeana


LG dos campos de Maxwell–Chern–Simons acoplados a corrente e carga elétricas. Neste caso
temos que a densidade de lagrangeana que descreve o sistema é:

42
1
L(Aγ , ∂ν Aγ ) = LG (Aγ , ∂ν Aγ ) − jγ Aγ
c
1 µ 1
=− Fγν F γν + εγνα Fγν Aα − jγ Aγ . (4.2.14)
16π 4 c

Substituindo a densidade de lagrangeana (4.2.14) na equação de Euler–Lagrange


(eq.(4.1.6)),

∂L ∂L
− ∂τ = 0, (4.2.15)
∂Aα ∂(∂τ Aα )
obtemos a equação de movimento dos campos de gauge de Maxwell–Chern–Simons na presença
de carga e corrente elétricas.
Dos resultados (4.1.7d) e (4.1.8e) temos que

∂ ¡ 1 1 ¢ 1
− Fγν F γν − jγ Aγ = − j α (4.2.16a)
∂Aα 16π c c
∂ ¡ 1 1 ¢ 1
− Fγν F γν − jγ Aγ = F ατ . (4.2.16b)
∂(∂τ Aα ) 16π c 4π

Além disso,

∂ ¡ µ λνγ ¢ µ µ
ε Fλν Aγ = ελνγ Fλν δγα = ελνα Fλν , (4.2.16c)
∂Aα 4 4 4
e

∂ ¡ µ λνγ ¢ µ ∂Fλν
ε Fλν Aγ = ελνγ Aγ
∂(∂τ Aα ) 4 4 ∂(∂τ Aα )
µ λνγ
= ε Aγ (δλ τ δν α − δν τ δλ α )
4
ν
= Aγ (ετ αγ − εατ γ )
4
µ τ αγ
= ε Aγ . (4.2.16d)
2

Usamos o resultado (4.1.8b) para escrevermos a segunda linha da expressão (4.2.16d).


Substituindo os resultados (4.2.16a–d) na eq.(4.2.15), obtemos que

43
µ γνα 1 ¡ 1 ατ µ τ αγ ¢
ε Fγν − j α − ∂τ F − ε Aγ = 0. (4.2.16e)
4 c 4π 2
Entretanto,

µ τ αγ µ¡ ¢
ε ∂τ Aγ = − εατ γ ∂τ Aγ + εαγτ ∂γ Aτ
2 4
µ ατ γ
= − ε (∂τ Aγ − ∂γ Aτ )
4
µ ατ γ µ
= − ε Fτ γ = − εαγν Fγν (4.2.16f )
4 4
Substituindo (4.2.16f) em (4.2.16e), encontramos que a equação de movimento dos cam-
pos de Maxwell–Chern–Simons é

1 µ 1
∂γ F γα + εαγν Fγν = j α , α = 0, 1, 2. (4.2.17)
4π 2 c
Note que as equações de movimento (4.2.17) só dependem do 4–potencial vetor através
do tensor Fγν ; logo elas são invariantes sob transformações de gauge (4.2.7).
~ x, t)
Reescrevendo as componentes da equação de movimento em termos dos campos E(~
e B(~x, t) temos:
i. Lei de Gauss : α = 0

1 µ ~ x, t) − 4πµB(~x, t) = 4πρ(~x, t).


~ · E(~
∂i F i0 + ε0ij Fij = ρ(~x, t) ⇒ ∇ (4.2.18a)
4π 2
ii. α = 1

1 µ 1 1 £ 1 ∂F 01 ∂F 21 ¤ 1
∂γ F γ1 + ε1γν Fγν = j 1 (~x, t) ⇒ + − µF02 = j 1 (~x, t)
4π 2 c 4π c ∂t ∂y c
∂B(~x, t) 4π 1 ∂Ex (~x, t)
⇒ − 4πµEy (~x, t) = jx (~x, t) + . (4.2.18b)
∂y c c ∂t
iii. α = 2

1 µ 1 1 £ 1 ∂F 02 ∂F 12 ¤ 1
∂γ F γ2 + ε2γν Fγν = j 2 (~x, t) ⇒ + + µF01 = j 2 (~x, t)
4π 2 c 4π c ∂t ∂x c
∂B(~x, t) 4π 1 ∂Ey (~x, t)
⇒ − + 4πµEx (~x, t) = jy (~x, t) + . (4.2.18c)
∂x c c ∂t
44
Seja k̂ um vetor unitário constante perpendicular ao plano (x, y). As eqs.(4.2.18b) e
(4.2.18c) podem ser reescritas como:

~
∇ ~ x, t) = 4π ~(~x, t) + 1 ∂ E(~x, t) ,
~ × (B(~x, t)k̂) + 4πµk̂ × E(~ (4.2.18d)
c c ∂t
Como a definição do tensor Fγν é a mesma que para os campos de gauge de Maxwell, a
eq.(4.1.13) (identidade de Bianchi) continua sendo válida,

∂α Fγν + ∂γ Fνα + ∂ν Fαγ = 0. (4.2.19a)

A única escolha que temos para os três ı́ndices α, γ, ν distintos é: α = 0, γ = 1 e ν = 2.


Neste caso a identidade de Bianchi fica,

∂Ey ∂Ex 1 ∂B
∂0 F12 + ∂1 F20 + ∂2 F01 = 0 ⇒ − =−
∂x ∂y c ∂t

⇒ ∇ ~ x, t) = − 1 ∂B(~x, t)k̂ .
~ × E(~ (4.2.19b)
c ∂t

Em resumo temos que as equações que governam os campos de gauge Maxwell–Chern–


Simons são:

∇ ~ x, t) − 4πµB(~x, t) = 4πρ(~x, t),


~ · E(~ (4.2.20a)
~
∇ ~ x, t) = 4π ~(~x, t) + 1 ∂ E(~x, t) ,
~ × (B(~x, t)k̂) + 4πµk̂ × E(~ (4.2.20b)
c c ∂t

∇ ~ x, t) = − 1 ∂B(~x, t)k̂ ,
~ × E(~ (4.2.20c)
c ∂t

onde k̂ é um vetor unitário constante perpendicular ao plano (x, y). Da lei de Gauss (eq.
(4.2.20a)) vemos que, para os campos de Maxwell–Chern–Simons, as cargas elétricas são
fontes tanto para o campo elétrico quanto para o campo magnético.
Para µ = 0 em (4.2.20a–c) re–obtemos as equações de Maxwell em d=3(2+1).
Mostraremos agora que a eq.(4.2.17) também leva a conservação da 4–densidade de cor-
rente elétrica.
A equação de movimento dos campos de Maxwell–Chern–Simons é (eq.(4.2.17))

45
1 µ 1
∂γ F γα + εαγν Fγν = j α , α = 0, 1, 2. (4.2.21)
4π 2 c
de forma, que calculando a derivada covariante ∂α de ambos os lados da expressão anterior
obtemos:

1 µ 1
∂α ∂γ F γα + εαγν ∂α Fγν = ∂α j α . α = 0, 1, 2. (4.2.22a)
4π 2 c
Em (4.1.18b) mostramos que o primeiro termo l.e. da expressão acima é zero. Analisemos
o segundo termo do l.e. da eq.(4.2.22a),

µ αγν µ
ε ∂α Fγν = εαγν (∂α ∂γ Aν − ∂α ∂ν Aγ )
2 2
= 0. (4.2.22b)

Portanto, das eqs.(4.1.18b) e (4.2.22b) decorre a conservação da 4–densidade de corrente


elétrica:

∂ρ(~x, t) ~
∂α j α (~x, t) = 0 ⇒ + ∇ · ~(~x, t) = 0. (4.2.22c)
∂t
As equações de Maxwell–Chern–Simons (4.2.20a–c) também acoplam os campos elétrico
e magnético. No caso de campos livres ( ausência de carga e corrente elétricas) as equações
desses campos podem ser desacopladas. O desacoplamento das equações dos campos fı́sicos
livres fica mais simples se definimos o dual do tensor Fαν ,

ναγ
fν (~x, t) ≡ ε
F Fαγ (~x, t). (4.2.23)
2

Exercı́cio:
Usando o fato de que o tensor εναγ é anti–simétrico pela troca de dois ı́ndices, εναγ =
−εανγ ,e que Fαγ = ∂α Aγ − ∂γ Aα , mostre que

fν (~x, t) = 0.
∂ν F

46
A relação (4.2.23) pode ser invertida usando a identidade:

εανβ εαγτ = δ ν γ δ β τ − δ ν τ δ β γ . (4.2.24)

Para isso basta multiplicar ambos os lados da eq.(4.2.23) por ενγλ e somar sobre o ı́ndice
ν que obtemos

fν (~x, t).
Fγλ (~x, t) = εγλν F (4.2.25)

Exercı́cio:
Mostre a igualdade:

εανβ εαγτ = δ ν γ δ β τ − δ ν τ δ β γ .

Usando a definição (4.2.23) escrevemos as componentes do vetor dual em termos das


componentes do campos elétrico e magnético,

£ ¤
f0 = 1 ε021 F12 + ε012 F21 = F12 ⇒ F
F f0 = −B (4.2.26a)
2
£ ¤
f1 = 1 ε102 F02 + ε120 F20 = F20 ⇒ F
F f1 = −Ey (4.2.26b)
2
f2 = 1 £ε201 F01 + ε210 F10 ¤ = F01 ⇒ F
F f2 = Ex . (4.2.26c)
2

Portanto, o vetor dual ao tensor Fγν tem componentes

fν (~x, t) = (−B(~x, t), −Ey (~x, t), Ex (~x, t)).


F (4.2.26d)

Para desacoplarmos as equações dos campos livres, consideremos a eq.(4.2.21) na ausência


de partı́culas carregadas (j α = 0),

47
1 µ 1
∂γ F γα + εαγν Fγν = 0 ⇒ ∂γ F γα + µFfα = 0. (4.2.27a)
4π 2 4π
Usando a eq.(4.2.25) para reescrever a equação dos campos (4.2.27a) em termos do vetor
dual Ffα , temos então que

1 γαλ f
ε ∂γ Fλ + µFfα = 0. (4.2.27b)

Multiplicando ambos os lados da eq.(4.3.27b) por εαντ , somando sobre o ı́ndice α e
usando a igualdade (4.2.24) obtemos que

1 fλ + µεαντ Ffα = 0
εαντ εγαλ ∂γ F ⇒

1 fν − ∂ν F
fτ ] + µFντ = 0.
⇒ [∂τ F (4.2.27c)

Derivando (4.2.27c) em relação a ∂ ν e somando sobre o ı́ndice ν, temos que

1 fν − ∂ν ∂ ν F
fτ ] + µ∂ ν Fντ = 0.
[∂τ ∂ ν F (4.2.27d)

fν = 0 e a eq.(4.2.27a), a equação anterior é reescrita como:
No entanto, usando que ∂ ν F

1 ν f fτ = 0 fτ (~x, t) = 0,
− ∂ ∂ν Fτ − 4πµ2 F ⇒ u +(4πµ)2 )F
(t (4.2.27e)

onde τ = 0, 1, 2.
~ x, t) e
fτ são os campos fı́sicos E(~
Devemos lembrar que as componentes do vetor dual F
B(~x, t).
A eq.(4.2.27e) é a equação dos campos fı́sicos livres de Maxwell–Chern–Simons.
A presença do termo de Chern–Simons na teoria acarreta algumas modificações em
relação a teoria de Maxwell pura. Para vermos isto, consideremos a equação de movimento
dos campos livres de Maxwell–Chern–Simons (eq.(4.2.27e)),

¡ 2 1 ∂2 ¢
u +(4πµ)2 )E i (~x, t) = 0
(t ⇒ ∇ − 2 2 − (4πµ)2 E i (~x, t) = 0. (4.2.28a)
c ∂t
48
Como no caso dos campos de Maxwell, vamos procurar soluções de ondas plana para a
eq.(4.2.28a), ou seja,

~
E i (~x, t) = E i ei(k·~x−ωt) , (4.2.28b)

onde E i é uma constante que dá a amplitude do campo elétrico, ~k é o vetor de onda que
determina a direção e o sentido em que a onda plana se propaga e ω a sua frequência angular.
Substituimos (4.2.28b) em (4.2.28a) para saber que relação | ~k | e ω devem satisfazer para que
a onda plana (4.2.28b) seja solução dos campos livres de Maxwell–Chern–Simons em todos
os pontos do espaço e em todos os instantes. Assim,

~ ω2
E i ei(k·~x−ωt) (− | ~k |2 + 2
− (4πµ)2 ) = 0. (4.2.28c)
c
Para que a igualdade anterior seja verdadeira para qualquer posição ~x e em qualquer
instante t, temos que ter

ω2
=| ~k |2 +(4πµ)2 . (4.2.28d)
c2
Esta relação de dispersão é satisfeita por partı́culas que possuem massa. A partir da
(4.2.28d) o valor da massa dos campos fı́sicos de Maxwell–Chern–Simons é:

4πh̄
mC−S = | µ |, (4.2.29)
c
h
sendo h̄ = 2π e h é a constante de Planck11 .
Os campos de Maxwell–Chern–Simons possuem massa, mas apesar disso, a teoria é in-
variante sob transformações de gauge (4.2.7).
Esse mecanismo de gerar massa para os campos de gauge sem abrir mão da invariância
de gauge da teoria, é certamente uma das caracterı́sticas mais apreciadas desse modelo.
A partir da eq.(4.2.22a), após algumas manipulações algébricas, mostra–se que na pre-
sença de carga elétrica pontual estática (ρ(~x, t) = ρδ(~x)), ~(~x, t) = 0) a equação do campo
magnético é:
11
Veja a Referência [4] para saber como relacionar a eq.(4.2.28d) e a massa da partı́cula.
O valor da constante de Planck é: h = 6, 626 × 10−34 Jseg.

49
¡ ¢
∇2 − (4πµ)2 B(~x) = (4π)2 µρδ(~x), (4.2.30)

sendo ρ uma constante que dá a intensidade da densidade de carga elétrica em ~x = 0.


A solução de (4.2.30) nos dá a função de Green[13] da equação do campo magnético e
permite determinar B(~x) para qualquer distribuição ρ(~x).
Usando a transformada de Fourier do campo é simples mostrar que a solução da equação
diferencial não–homogênea (4.2.30) é:

Z
2 d2~k ρ ~
B(~x) = −(4π) µ e−ik·~x
(2π) | ~k | +(4πµ)
2 2 2

¡ 2|µ| ¢ 12 −4π|µ|r 1
∼ 2πρ e , para rÀ , (4.2.31)
r 4π|µ|

sendo que r = |~x|.

Exercı́cio:
Seja B(e ~k) a transformada de Fourier de B(~x) definida como:

Z
1 ~
B(~x) = d2~k B(
e ~k)e−ik·~x .
(2π)2
A transformada de Fourier da função δ–Dirac em duas dimensões espaciais é
Z
1 ~
δ(~x) = d2~k e−ik·~x .
(2π)2
Mostre que a eq.(4.2.30) escrita no espaço dos ~k é

¡ ¢ ρ
| ~k |2 +(4πµ)2 B(
e ~k) = −(4π)2 µρ ⇒ e ~k) = −(4π)2 µ
B( .
| ~k |2 +(4πµ)2

A presença da massa 4πµ no denominador da eq.(4.2.31), faz com que o campo magnético
do modelo de Maxwell–Chern–Simons seja de curto alcance. No caso das componentes do
campo elétrico, elas também vão a zero para | ~x |→ ∞ mais rapidamente que na teoria de
Maxwell pura, uma vez que Ei ∼ e−4π|µ|r para | ~x |→ ∞.

50
Vejamos como o 4–potencial vetor Aν se comporta na fronteira do plano infinito (| ~x |→
∞). Para isso, consideremos a lei de Gauss (eq.(4.2.20a)) do modelo de Maxwell–Chern–
Simons,

∇ ~ x, t) − 4πµB(~x, t) = 4πρ(~x, t),


~ · E(~ (4.2.32a)

que integrando sobre todos os pontos do plano fica,

Z Z
2
d ~x ∇ ~ x, t) − 4πµ
~ · E(~ d2~x B(~x, t) = 4πQ(t), (4.2.32b)
S∞ S∞

sendo Q(t) a carga elétrica total contida no plano (x, y),

Z
Q(t) = d2~x ρ(~x, t). (4.2.32c)
S∞

Usando o Teorema de Gauss (eq.(A.9)) em duas dimensões espaciais, temos que

I Z
~ x, t) · d~l − 4πµ
E(~ d2~x B(~x, t) = 4πQ(t), (4.2.32d)
Γ∞ S∞

sendo Γ∞ o contôrno da que delimita a área S∞ .


Mostramos anteriormente que o campo elétrico vai a zero para | ~x |→ ∞, de maneira que
a integral de linha do campo elétrico ao longo de Γ∞ é nula. Assim, a lei de Gauss escrita na
forma global é,

Z
−4πµ d2~x B(~x, t) = 4πQ(t). (4.2.32e)
S∞

Entretanto, o campo magnético pode ser escrito como sendo

B(~x, t) = (∇ ~ x))z ,
~ × A(~ (4.2.32f )

sendo z a direção perpendicular ao plano (x, y). Substituindo (4.2.32f) em (4.2.32e) e apli-
cando o Teorema de Stokes (eq.(A.10)), obtemos finalmente que

I
−µ ~ x, t) · d~l = Q(t),
A(~ (4.2.32g)
Γ∞

51
que mostra que apesar dos campos fı́sicos serem de curto alcance, o 4–potencial vetor é de
longo alcance. A solução assintótica dos 4–potenciais vetores que satisfazem a (4.2.32g) é:

Q(t) ¡x¢
~ x, t)
A(~ −→ − arctan . (4.2.32h)
|~
x|→∞ 2
8π µ y
~ x, t) é localmente um campo de gauge puro. Êle possui o mesmo
O potencial vetor A(~
comportamento do efeito Aharanov–Bohm[14] .

52
5. Figuras.

x(t)

2
1
3

t0 tf t

Figura 1.1

Figura 1.1: A curva 1 representa a trajetória clássica, enquanto que as curvas 2 e 3 repre-
sentam curvas que diferem da trajetória clássica por pequenas deformações.

Figura 3.1: Os vetores i e j são os vetores unitários dos eixos coordenados(x, y), e, i’ e j’ são
os vetores unitários dos eixos coordenados(x0 , y 0 ). O vetor V é o mesmo nos dois conjuntos
de eixos coordenados, enquanto que as suas componentes dependem dos eixos coordenados
que utilizamos para obtê–las.

53
y S y’ S’

x’

Figura 3.2

Figura 3.2: O referencial inercial S’ se desloca com velocidade V= V i em relação ao refer-


encial S.

Agradecimentos:
Desejo agradcer a M.C. Batoni Abdalla e E. Abdalla por discussões sobre invariância
de gauge na Eletrodinâmica Clássica, a J.S. Sá Martins pela leitura do texto, correções e
sugestões, e, a A. T. Costa Jr. pela ajuda na colocação das figuras no texto. Tenho um
agradecimento especial ao International Center for Theoretical Physics, Trieste, Itália, onde
parte deste texto foi pensado e escrito.

54
Apêndice A: Revisão de Análise Vetorial e Teoremas de Gauss e Stokes

A.1) Revisão de Análise Vetorial[15] :


Seja ~v(~x) um vetor com componentes escritas em coordenadas cartesianas:

~v(~x) = vx (~x)ı̂ + vy (~x)̂ + vz (~x)k̂; (A.1)

ı̂, ̂ e k̂ são vetores unitários nas direções x, y e z respectivamente.


~ escrito em coordenadas cartesianas é:
O operador gradiente ∇

~ = ı̂ ∂ + ̂ ∂ + k̂ ∂ .
∇ (A.2)
∂x ∂y ∂z
i. Divergência de um vetor em coordenadas cartesianas:

~ · ~v(~x) = ∂vx (~x) + ∂vy (~x) + ∂vz (~x) .


∇ (A.3)
∂x ∂y ∂z

ii. Rotacional de um vetor em coordenadas cartesianas:

µ ¶ µ ¶ µ ¶
~ × ~v(~x) = ı̂ ∂v z (~
y ) ∂v y (~
x ) ∂vx (~
x ) ∂vz (~
x ) ∂v y (~
x ) ∂v x (~
x )
∇ − + ̂ − + k̂ − )
∂y ∂z ∂z ∂x ∂x ∂y
= εijk ∂j v k , i, j, k = 1, 2, 3, (A.4)

onde estamos usando a regra da soma implı́cita e a notação: v 1 = vx , v 2 = vy e v 3 = vz .


εklm é o tensor de Levi–Civita, e é definido como:

ε123 = ε231 = ε312 = 1,

ε213 = ε132 = ε321 = −1,

εklm = 0 se dois ou mais ı́ndices f orem iguais.

55
iii. Propriedades gerais da divergência e rotacional:

~ · (∇
∇ ~ × ~v(~x)) = 0, (A.5)
~ × (∇g(~
∇ ~ x)) = 0, (A.6)
~ × (∇
∇ ~ × ~v(~x)) = ∇(
~ ∇~ · ~v(~x)) − ∇2 ~v(~x), (A.7)

onde g(~x) é uma função não–singular e

∂2 ∂2 ∂2
∇2 = + + (A.8)
∂x2 ∂y 2 ∂z 2

A.2) Teorema de Gauss[16] .


Seja ~f (~x) um vetor definido em todos os pontos dentro de um volume V e na área fechada
S que delimita este volume. O Teorema de Gauss nos dá que:

Z I
3 ~ · ~f (~x) =
d ~x ∇ ~f (~x) · n̂ds, (A.9)
V S

onde ds é uma área infinitesimal sobre a superfı́cie S e n̂ é um vetor unitário perpendicular


em cada ponto à superfı́cie S. O vetor n̂ aponta para fora do volume delimitado.

A.3) Teorema de Stokes[17] .


Seja Γ uma linha fechada e S qualquer superfı́cie delimitada pela linha Γ. Seja ~f (~x) um
vetor definido em todos os pontos da superfı́cie S inclusive ao longo da linha Γ. Pelo Teorema
de Stokes temos que:

Z I
~ × ~f (~x)) =
ds n̂ · (∇ ~f (~x) · d~l, (A.10)
S Γ

onde d~l é um vetor infinitesimal tangencial a linha Γ e n̂ é o vetor unitário perpendicular em


cada ponto à superfı́cie S. O sentido dos vetores n̂ e d~l é dado pela regra da mão direita.

56
Apêndice B: Princı́pio de Hamilton para Campos Clássicos[18] .

Ao discutirmos os campos eletromagnéticos na seção 2, vimos que, no caso em que estamos


descrevendo um campo, a posição ~x é um parâmetro para indexar os pontos do espaço da
mesma forma que o tempo t o é para representar a que instante você se refere. Portanto, ao
contrário do que temos no caso de partı́culas, as coordenadas ~x não são variáveis dinâmicas
do problema, mas sim parâmetros para indicar em que ponto do espaço você está medindo o
seu campo, este sim a sua variável dinâmica.
Apenas como simplificação, vamos supor que temos um único campo que denominaremos
por: Φ(~x, t). Φ(~x, t) representa a configuração do campo em todos os pontos ~x do espaço no
instante t.
Como no caso de partı́culas, queremos associar a cada configuração Φ(~x, t) um número
que chamamos de ação. Na definição da ação no caso de campos, precisamos integrar no
intervalo de tempo fixado e em todos os pontos do espaço, uma vez que os campos
também possuem uma dependência espacial:

Z tf Z
S[Φ; t0 , tf ] = dt d3~x L(Φ(~x, t), ∂µ Φ(~x, t); ~x, t), (B.1)
t0 V∞

onde L é a densidade de lagrangeana associada aos campos. Como os campos dependem das
coordenadas espaciais, em geral L depende não apenas das derivadas do campo em relação
ao tempo, mas também de suas derivadas espaciais, todas elas representadas pela derivada
covariante ∂µ Φ(~x, t), µ = 0, 1, 2, 3. Como no caso de partı́culas, a ação também tem a mesma
dimensão que o momento angular.
Para obter a equação de movimento para os campos Φ(~x, t), vamos proceder de forma
análoga ao que fizemos na seção 1 para derivar a equação de Lagrange para partı́culas.
Desejamos obter a equação satisfeita pelo campo clássico que parte da configuração inicial
Φ(~x, t0 ), e, que em t = tf tem a configuração Φ(~x, tf ), sendo que ambas são, por hipótese,
conhecidas.
Chamemos φ(~x, t) o campo clássico para o qual a ação é mı́nima. O campo φ(~x, t) satisfaz
as condições de contôrno:

57
φ(~x, t0 ) = Φ(~x, t0 ) (B.2a)

φ(~x, tf ) = Φ(~x, tf ). (B.2b)

As configurações que coincidem com Φ(~x, t0 ) e Φ(~x, tf ) em t = t0 e t = tf respectivamente


mas que tenham pequenas modificações em relação a φ(~x, t), podem ser escritas como,

Φ(~x, t; α) = φ(~x, t) + αη(~x, t), (B.3)

onde η(~x, t) é uma função infinitesimal qualquer da posição e que varia de instante para
instante. A função η(~x, t) satisfaz as condições de contôrno:

η(~x, t0 ) = η(~x, tf ) = 0. (B.4)

α é uma constante arbitrária.


O Princı́pio de Hamilton (seção 1) aplicado a trajetórias que diferem pouco da trajetória
clássica implica em que

δS[Φ] ≡ S[φ(~x, t) + αη(~x, t)] − S[φ(~x, t)] = 0. (B.5)

Como na discussão do Princı́pio de Hamilton para partı́culas (seção 1) definimos

Z tf Z
G(α) = dt d3~x L(φ + αη, ∂µ φ + α∂µ η; ~x, t; α), (B.6)
t0 V∞
que é uma função de α. Como φ(~x, t) minimiza a ação, isto corresponde a dizer que G(α) tem
um mı́nimo em α = 0. A condição de Hamilton (B.5) corresponde a esta condição de mı́nimo
de G(α) em α = 0:

¯ ¯
∂G(α) ¯¯ ∂S[Φ; α] ¯¯
=0 ⇒ = 0. (B.7)
∂α ¯α=0 ∂α ¯α=0
A diferença está em que, agora, a densidade de lagrangeana L depende não apenas do
campo e de sua derivada temporal, mas também das suas derivadas espaciais. A imple-
mentação da eq. (B.7) é:

58
Z Z ½ ¡ ¢ ¡ ∂Φ ¢
∂S[Φ; α] tf
3 ∂L ∂Φ ∂L ∂ ∂Φ ∂x ∂L ∂ ∂y
= dt d ~x + ¡ ∂Φ ¢ + ¡ ∂Φ ¢ +
∂α t0 V∞ ∂Φ ∂α ∂ ∂x ∂α ∂ ∂y ∂α
¡ ¢ ¡ ¢¾
∂L ∂ ∂Φ ∂z ∂L ∂ ∂Φ ∂t
+ ¡ ∂Φ ¢ + ¡ ∂Φ ¢ = 0. (B.8)
∂ ∂z ∂α ∂ ∂t ∂α

Como estamos considerando campos Φ(~x, t) que são representados pela eq. (B.3), então
substituindo–a na eq. (B.8), temos

Z tf Z ½
3 ∂L ∂L ∂η(~x, t) ∂L ∂η(~x, t)
dt d ~x η(~x, t) + ¡ ∂Φ ¢ + ¡ ∂Φ ¢ +
t0 V∞ ∂Φ ∂ ∂x ∂x ∂ ∂y ∂y
¾
∂L ∂η(~x, t) ∂L ∂η(~x, t)
+ ¡ ∂Φ ¢ + ¡ ∂Φ ¢ = 0. (B.9)
∂ ∂z ∂z ∂ ∂t ∂t

Não podemos fazer nenhuma afirmação geral sobre o integrando da eq. (B.9) uma vez
que as funções η(~x, t) e ∂µ η(~x, t) não são funções independentes. Vamos reescrever os termos
do lado esquerdo (l.e.) da eq. (B.9) e colocá–la de forma mais conveniente.
Vamos tratar apenas de um dos termos que envolve derivadas em relação as coordenadas
espaciais. Os outros dois termos que envolvem derivadas espaciais são tratados de forma
similar.
Consideremos o termo:

Z tf Z Z tf Z L Z L
∂L ∂η(~x, t)
3 ∂L ∂η(~x, t)
dt d ~x ¡ ∂Φ ¢ = dt dydz dx ¡ ∂Φ ¢ , (B.10)
t0 V∞ ∂ ∂x ∂x t0 −L −L ∂ ∂x ∂x

onde x, y, z = ±L correspondem aos pontos na superfı́cie que delimita o volume. No limite


de V∞ temos que L → ∞.
Para realizar a integração por partes a integral em x do l.d. da eq. (B.10), escolhemos

∂L ∂η
u = ¡ ∂Φ ¢ e dv = dx (B.11a)
∂ ∂x ∂x
de maneira que a integral passa a ser:

Z L ¯x=L Z L
∂L ∂η ∂L ¯ ∂ ¡ ∂L ¢
dx ¡ ∂Φ ¢ ¯
= ¡ ∂Φ ¢ η(~x, t)¯ − dx ¡ ¢ η(~x, t), (B.11b)
−L ∂ ∂x ∂x ∂ ∂x x=−L −L ∂x ∂ ∂Φ
∂x

59
¡ ¢
onde, ao calcularmos a derivada parcial ∂ ¡∂L ¢
∂x ∂ ∂Φ , estamos tomando y, z e t constantes.
∂x
Os termos η(±L, y, z; t) correspondem a valores da função η(~x, t) na superfı́cie que de-
limita o volume V dentro do qual os campos evoluem. Assumiremos a hipótese de sistema
fechado, que corresponde a supor que nenhum campo atravessa a superfı́cie que delimita o
volume V em que ocorre o fenômeno. Por essa hipótese temos então que

η(±L, y, z; t) = 0, (B.12)

pois o campo clássico e suas pequenas deformações são nulas na superfı́cie que delimita o
volume V .
Incluindo a hipótese de sistema fechado, a relação (B.11) passa a ser

Z L Z L
∂L ∂η ∂ ¡ ∂L ¢
dx ¡ ∂Φ ¢ =− dx ¡ ¢ η(~x, t). (B.13)
−L ∂ ∂x ∂x −L ∂x ∂ ∂Φ
∂x

Fazendo agora a integração por partes do termo com a derivada do campo em relação ao
tempo, onde escolhemos as variáveis u e v de forma similar a eq. (B.11a) obtemos que

Z tf ¯t=tf Z tf
∂L ∂η ∂L ¯ ∂ ¡ ∂L ¢
dt ¡ ∂Φ ¢ = ¡ ∂Φ ¢ η(~x, t)¯¯ − dt ¡ ¢ η(~x, t). (B.14a)
t0 ∂ ∂t ∂t ∂ ∂t t=t0 t0 ∂t ∂ ∂Φ
∂t

A função η(~x, t) no l.d. da eq. (B.14a) está definida nos instantes t = t0 e t = tf . Como a
função η(~x, t) satisfaz a condição (B.4), então a expressão (B.14a) pode ser finalmente escrita
como:

Z tf Z tf
∂L η ∂ ¡ ∂L ¢
dt ¡ ∂Φ ¢ =− dt ¡ ¢ η(~x, t). (B.14b)
t0 ∂ ∂t ∂t t0 ∂t ∂ ∂Φ
∂t

Substituindo os resultados (B.13) e (B.14b) na eq. (B.9), obtemos que

Z tf Z ½
3 ∂L ∂ ¡ ∂L ¢ ∂ ¡ ∂L ¢
dt d ~x − ¡ ∂Φ ¢ − ¡ ¢ −
t0 V∞ ∂Φ ∂x ∂ ∂x ∂y ∂ ∂Φ
∂y
¾
∂ ¡ ∂L ¢ ∂ ¡ ∂L ¢
− ¡ ¢ − ¡ ¢ η(~x, t) = 0. (B.15)
∂z ∂ ∂Φ
∂z
∂t ∂ ∂Φ
∂t

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A única forma da eq. (B.15) ser verdadeira para qualquer função infinitesimal η(~x, t) é
que o integrando seja identicamente nulo. Escrevendo o integrando na sua forma covariante
temos então a equação de Euler–Lagrange para campos clássicos:

∂L ∂L
− ∂µ = 0. (B.16)
∂Φ ∂(∂µ Φ)

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REFÊRENCIAS

1. H. Moysés Nussenzveig; Curso de Fı́sica Básica, 1–Mecânica, 2.a edição, Edgard Blücher
Ltda (1992), cap. 4.
2. Jerry B. Marrion; Classical Dynamics of Particles and System, 3rd edition, Academic
Press (1988), cap.6.
3. Herbert Goldstein; Classical Mechanics, 2nd edition, Addison–Wesley (1980), cap. 7.
4. Dentre as possı́veis referências para uma introdução a Mecânica Quântica, sugerimos:
A.P. French; An Introduction to Quantum Physics, W.W. Norton & Co (1978).
5. Edward Purcell; Electricity and Magnetism, Berkeley Physics Course–vol. 2, cap. 7 e
Apêndice, Mcgraw–Hill Co (1965).
6. A.P.French; Special Relativity, Thomas Nelson and Sons Ltd. (1968), cap.3.
7. John D. Jackson; Classical Electrodynamics, 2.nd edition, John Wiley & Sons(1975), seção
11.3.
8. Referência 7, seção 11.9.
9. Referência 7, seção 12.8,
Referência 3, pág. 366.
10. Referência 5, cap. 7.
11. J. Schonfeld; A Mass Term for Three–Dimensional Gauge Fields, Nucl. Phys. B185
(1981) 157.
12. S. Deser, R. Jackiw, S. Templeton; Topological Massive Gauge Theories, Ann. of Phys.
140 (1982) 372.
13. Referência 7, seções 1.7 e 1.10;
Referência 2, seção 3.10.
14. Y. Aharanov, D. Bohm; Significance of Electromagnetic Potencials in the Quantum
Theory, Phys. Rev. 115 (1959) 485;
R.P. Feynman, R.B. Leighton, M. Sands; The Feynman Lectures on Physics, vol. II,
Addison–Wesley Publ. Co. (1972), cap. 15.
15. Referência 5, cap. 2.
16. Referência 5, seções 1.9 e 1.10.
17. Referência 5, seções 2.15 e 2.16.
18. Referência 3, cap. 11.

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