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Analise do Filme Ilha das Flores

A partir do documentário, utilize um critério de classe ou estratificação social para


definição dos personagens. A partir dos textos e das aulas, escolha um personagem e
discuta em que medida sua ação pode ser definida como social.

Ao analisar o curta-metragem Ilha das Flores em que não é uma ilha com flores. É, na
verdade, um lugar em Porto Alegre-RS para depósito de lixo. Ao longo da história se
acompanha a trajetória de um tomate desde a sua colheita, compra e descarte, que vai parar na
Ilha das Flores, junto com outros alimentos que foram descartados por milhares de pessoas na
cidade. Esses alimentos são selecionados pelo dono do terreno para que possam servir de
alimento para os porcos. Após a seleção dos alimentos, as sobras são deixadas
aos moradores da Ilha das Flores para que possam recolher o que puderem em um
determinado tempo.
O mais interessante é a afirmação que o curta-metragem faz em relação aos moradores
da Ilha das Flores que apesar de não serem cotados como cidadãos e por comerem a comida
que nem porcos comem, essas pessoas são humanas com um tele encéfalo desenvolvido e
polegar opositor. Dessa forma, o filme de apenas treze minutos retrata o desperdício oriundo
dos processos de produção, o consumo atual e como o capitalismo geram as desigualdades
sociais que produz a estratificação social, interferindo na liberdade do ser humano. Como
também, a desumanização que é tão real em nossa sociedade, pois o indivíduo é qualificado
pelos bens materiais que possui e pela sua capacidade de produzir para o capital.
Dessa maneira, de acordo com Weber, a estratificação é a maneira pela qual os
indivíduos se reproduzem socialmente e toda a discussão relativa à estratificação social
requer, inicialmente, atenção ao conceito de poder. Entende-se “por poder a possibilidade de
que um homem, ou um grupo de homens, realize sua vontade própria numa ação comunitária
até mesmo contra a resistência se outros que participam da ação” (WEBER, 1974, P.211).
Portanto, o modo de estruturação de qualquer ordem social influencia a distribuição de poder,
econômico ou outro, dentro dos limites de cada sociedade.
No entanto, a estrutura social não se organiza apenas ao nível econômico, mas também
em termos do poder. Logo, não é somente o poder advindo de fatores econômicos que
determina o tipo de estratificação social encontrado nas diversas sociedades, pois a luta pelo
poder também é orientada pelas honras e prestígios sociais trazidas por ele. Existem contextos
nos quais a honra é que está na base do poder político ou mesmo econômico. Assim, a
estruturação do poder e a produção econômica possibilitam a classificação das sociedades e a
avaliação do grau de mobilidade social encontrado nelas. Dessa forma, conclui-se que
“classes, estamentos e partidos são fenômenos da distribuição de poder dentro de uma
comunidade” (WEBER, 1974, P.212).
Segundo Weber, a classe é definida por um número de pessoas que comungam em
suas oportunidades de vida, um mesmo componente causal específico. Esse componente é
exclusivamente representado por interesses de cunho econômico da posse de bens, das
oportunidades de renda, das condições do mercado de produtos e do mercado de trabalho.
Dessa maneira, a situação de classe é, então, definida pelo tipo de propriedade utilizada para a
obtenção do lucro e pelos tipos de serviços oferecidos no mercado. Logo, as categorias
básicas que a orientam são proprietários e não-proprietários. Como o fator que cria a classe é
um interesse econômico claro vinculado à existência no mercado, a “situação de classe, nesse
sentido, é, em última análise, situação no mercado” (WEBER, 1974, P.214).
Diante disso, podemos citar como exemplo os personagens do curta-metragem, em
que é descrito como o capital produz a estratificação social a partir do conceito de “quem
vende e de quem pode comprar”. Esse “quem” são todos os cidadãos constituintes da
sociedade, incluindo: (I) o pequeno agricultor, o Sr. Suzuki, em que planta, colhe e vende seus
tomates para um supermercado, onde estaria à disposição dos clientes; (II) a consumidora, a
Dona Anete, que vai ao mercado comprar porco e tomate para o almoço da família. Ela pode
comprá-los graças ao dinheiro obtido com a revenda de perfumes, produto feito a partir de
flores; (III) o dono dos porcos que trocou uma pequena parte do seu dinheiro por um terreno
na Ilha das Flores, tornando-se assim, o dono do terreno. Neste terreno é depositado o lixo na
qual seus empregados separam do lixo aquilo que é de origem orgânica daquilo que não é de
origem orgânica para dar de alimentos aos porcos; e (IV) as famílias pobres, os moradores da
Ilha das Flores, que disputam comidas que sequer servia de alimento para os porcos. Esses
moradores são excluídos da sociedade por estarem totalmente fora desse ciclo de “quem
vende e de quem pode comprar”. Ou seja, por não serem proprietários e não terem poder
aquisitivo, os moradores acabam sendo excluídos pela sociedade.
Outro tipo de classificação social que se tem é os estamentos, de acordo com Weber,
os estamentos não são definidos somente ao nível da apropriação econômica do poder.
Categorias sócio-culturais como tradição, linhagem, vassalagem, honra e prestígio estão
presentes na orientação das relações e das classificações de seus membros. Sendo assim,
considerar os elementos citados é fundamental para a conceituação típico-ideal do estamento.
A sociedade estamental se efetiva pelos grupos de status, os quais são determinados por uma
estimativa específica da honra e se estratificam pela usurpação dessa honraria, ditando regras
quanto ao estilo/tom de vida aos pertencentes de um mesmo círculo. Como também, a
estratificação dos estamentos relaciona-se com o monopólio de bens ou oportunidades
materiais e ideais, ou seja, a propriedade torna-se uma regularidade que influencia as
qualificações estamentais, garantindo restrições ao relacionamento social. “Essas restrições
podem limitar os casamentos normais ao círculo de status e podem levar a um completo
fechamento endogâmico” (WEBER, 1974, P.220).
Desse modo, podemos citar um exemplo de estamento à personagem Dona Anete, mãe
de família que compra os tomates graças ao dinheiro obtido com a revenda de perfumes,
produto feito a partir de flores. Pretende servi-los, os tomates, para o marido e os filhos.
Enquanto ela prepara o molho de tomate para a carne de porco, percebe que um dos tomates
comprados não está em condições de ser aproveitado como alimento e o joga no lixo. Diante
desse fato percebe-se que a Dona Anete é uma representação da família tradicional brasileira,
classe média que possui privilégios sociais e a capacidade de consumo. Ela está inserida em
um círculo social, composto por regras e um modo de vida específico.
Ao analisar todo o contexto do curta-metragem, nota-se como os indivíduos se
reproduzem socialmente na qual não se organiza apenas ao nível econômico, mas também em
termos do poder. No curta-metragem a renda se evidencia como o principal fator para
definição de uma situação de pobreza. Contudo, não é somente a renda que determina a
situação de pobreza de um determinado grupo de indivíduos. Mas também, o acesso, ou falta
dele, a outras “garantias constitucionais” como educação, saúde, segurança, habitação e
cultura. Em Ilha das Flores, as mulheres, homens e crianças não só vivem em condições de
completa falta de potencial financeiro, mas também de condições mínimas de qualidade de
vida. 

Referência: WEBER, M. Classe, Status e Partido. In: VELHO, O; PALMEIRA, M. e


BERTELLI, A. (Orgs.). Estrutura de Classe e Estratificação Social. 9ª. Ed., Rio de Janeiro:
Zahar, 1981.

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