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INTRODUÇÃO

“A teoria é importante como guia de ação (não diz como agir, mas diz o que
acontecerá atuando-se de uma certa maneira), um guia para coleta de fatos, um guia
na busca de novos conhecimentos e que explica a natureza da ciência”.¹
Os escritos de Horta oportunizaram o desenvolvimento da enfermagem e a
difusão das Teorias de Enfermagem. É importante ressaltar que, “as teorias de
enfermagem selecionam, definem e inter-relacionam conceitos representativos de
fenômenos que estão em domínio de interesse da profissão”.²
A Teoria das Necessidades Humanas Básicas (NHB) de Wanda Horta- que é o
modelo teórico mais conhecido em nosso país-, foi desenvolvida com preocupação
com a prática não reflexiva e dicotomizada da enfermagem , bem como uma tentativa
de unificar o conhecimento científico da enfermagem para proporcionar-lhe autonomia
e independência.
Além de desenvolver a teoria acima mencionada, Horta foi responsável pela
difusão do Processo de Enfermagem no Brasil a partir da publicação de seu livro que
levou o nome de “Processo de Enfermagem” (1979).
Dessa forma, o presente trabalho tem como objetivos descrever o que são as
necessidades humanas básicas, quais fatores podem alterar sua manifestação, e
como deve ocorrer o processo de enfermagem.
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1. Wanda de Aguiar Horta

Nasceu em 11 de agosto de 1926 em Belém do Pará. Seus pais eram


descendentes de portugueses e tiveram 8 filhos. Wanda era poliglota, falava
fluentemente francês, inglês e espanhol.
Graduou-se em 1948 pela Escola de Enfermagem da USP e em 1959, retornou
a USP e deu inicio ao desenvolvimento da fundamentação teórica que culminou na
elaboração de sua teoria- que foi influenciada pela teoria da motivação humana de
Maslow-, através da qual, explica a natureza da enfermagem, define seu campo de
ação específica e sua metodologia científica. Sua obra é considerada uma marco na
história da enfermagem brasileira.
Fez seu doutorado na Escola de Enfermagem Ana Neri da Universidade Federal
do Rio de Janeiro com a tese intitulada "A observação sistematizada na identificação
dos problemas de enfermagem em seus aspectos físicos", apresentada à cadeira de
Fundamentos de Enfermagem, Rio de Janeiro, em 31 de outubro de 1968.
Horta buscou ao longo de sua trajetória criar e transmitir um conceito de
enfermagem que englobasse os aspectos, muitas vezes conflitantes, de arte
humanitária, ciência e profissão.
Wanda de Aguiar Horta faleceu em 1981, vítima de uma doença degenerativa.

2. Teoria das Necessidades Humanas Básicas (NHB)

Wanda Horta desenvolveu sua teoria tomando como base a teoria da motivação
humana de Maslow, que se fundamenta nas necessidades humanas básicas.
De acordo com seu livro “Processo de Enfermagem” (1979), Horta expõe os
seguintes pontos:
 O ser humano como parte integrante do universo está sujeito a estados de
equilíbrio e desequilíbrio no tempo e no espaço;
 O ser humano, como agente de mudanças, é também a causa de desequilíbrio
e equilíbrio em seu próprio dinamismo;
 Quando as necessidades não são atendidas ou não são totalmente supridas,
estas geram desconforto e, se este se prolonga é causa de doença.
Ainda, Horta afirma que os desequilíbrios geram, no ser humano, necessidades
que se caracterizam por estados de tensão conscientes ou inconscientes que o levam
a buscar satisfação de tais necessidades para manter seu equilíbrio dinâmico no
tempo e no espaço.
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A enfermagem, como parte integrante da equipe de saúde, é responsável por


manter então o equilíbrio dinâmico, busca prevenir desequilíbrios e reverter
desequilíbrios em equilíbrio do ser humano. Tal atuação é fundamental para que toda
a assistência prestada ao cliente (indivíduo, família e comunidade) alcance eficácia e
eficiência.
A satisfação é “ação ou efeito de realizar-se; prazer, contentamento;
corresponder às expectativas, corresponder ao que se deseja”.³
O ser humano, como está sempre buscando satisfação, quando experimenta
alguma satisfação em um dado nível, logo se desloca para o próximo e assim
sucessivamente. Na sua teoria, Maslow classifica, hierarquicamente, as necessidades
em cinco níveis, a saber:
1- Necessidades básicas ou fisiológicas: aquelas diretamente relacionadas à
existência e a sobrevivência do ser humano, estando neste grupo as necessidades de
alimento, água, vestuário, sexo e saneamento. Para Maslow, as necessidades
fisiológicas são o ponto de partida para a teoria, pois elas são primordiais. As
necessidades fisiológicas se referem às necessidades biológicas do indivíduo;
2- Necessidades de segurança: estão nesse grupo as necessidades
relacionadas à proteção individual contra perigos e ameaças como, por exemplo, a
necessidade de saúde, trabalho, seguro, previdência social e ordem social;
3- Necessidades sociais: relacionadas à vida em sociedade, englobando
necessidades de convívio, amizade, respeito, amor, lazer e participação. Estas são as
necessidades de convívio social referindo as necessidades de afeto das pessoas que
convivemos tais como: amigos, noiva, esposa e filhos. O ser humano tenderá a
construir relacionamentos afetivos com o intuito de se sentir integrado, parte de um
grupo em sociedade;
4- Necessidades do ego (estima): guardam relação com a autossatisfação,
caracterizando-se como necessidades de independência, apreciação, dignidade,
reconhecimento, igualdade subjetiva, respeito e oportunidades. Elas expressam as
necessidades ou desejos das pessoas de alcançarem uma auto-avaliação estável,
bem como uma autoestima firmemente baseada em sua personalidade;
5- Necessidades de auto-realização: expressam o mais alto nível das
necessidades estando diretamente relacionadas à realização integral do indivíduo.
Neste grupo estão as necessidades de utilização plena das potencialidades, de
capacidade e da existência de ideologias. São necessidades de crescimento
revelando uma tendência de todo ser humano para realizar plenamente o seu
potencial.
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Wanda expõe que no momento em que uma necessidade se manifesta, o faz


por sinais e sintomas que em enfermagem, por enquanto, denominam-se problemas
de enfermagem.
Assim, problemas de enfermagem “são situações ou condições decorrentes
dos desequilíbrios das necessidades básicas do indivíduo, família e comunidade, e
que exigem do(a) enfermeiro(a) sua assistência profissional”. (Horta,1979).
Um conceito fundamental de Maslow é de que nunca há satisfação completa ou
permanente de uma necessidade, pois se houvesse, conforme sua teoria estabelece,
não haveria mais motivação individual.
Na enfermagem, prefere-se então, utilizar a denominação de João Mohana:
necessidades de nível psicobiológico, psicossocial e psicoespiritual. Para Mohana,
os dois primeiros níveis, ou seja, as necessidades psicobiológicas e as
psicossociais são comuns a todos os seres vivos, porém, as psicoespirituais, é
característica exclusiva dos seres humanos.
Todas as necessidades acima mencionadas estão inter-relacionadas, uma vez
que fazem parte de um todo, o ser humano. Wanda Horta sempre procurou enfatizar
que o profissional enfermeiro deve enxergar o cliente de forma holística, indivisível, e
não vê-lo como soma de suas partes.

3. Wanda Horta e o Processo de Enfermagem

“O processo de enfermagem é a dinâmica das ações sistematizadas e inter-


relacionadas, visando a assistência ao ser humano. Caracteriza-se pelo inter-
relacionamento e dinamismo de suas fazes ou passos”.(Horta, 1979).
Como Wanda Horta foi a enfermeira pioneira brasileira que procurou construir
uma enfermagem científica, foi responsável pela divisão do Processo de Enfermagem
em seis fases ou passos que devem ser atendidos de acordo com as necessidades do
indivíduo-família-comunidade:
Histórico de Enfermagem: é o roteiro sistematizado para a coleta de dados do
ser humano, compõe-se de Entrevista e Exame Físico. É responsabilidade apenas do
profissional enfermeiro e então, é uma atividade que não pode ser delegada.
 Características: Concisão – deve ser conciso, sem repetições, claro e preciso;
Informações que permitam dar um cuidado imediato; individualização e não deve
constar informações duplicadas.
 Fatores que interferem: relacionados ao cliente – a condição ou estado geral
deste, idade, cultura, escolaridade, tempo de permanência no hospital, padrões de
comunicação; relacionados ao profissional – preparo e treino e tempo disponível;
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relacionados à instituição – quantidade e qualidade do pessoal e filosofia do serviço de


enfermagem.
Diagnóstico de Enfermagem: é a identificação das necessidades do ser humano
que precisa de atendimento e a determinação pela enfermeira em primeiro grau de
dependência deste atendimento em natureza e extensão.
Quanto à natureza, o grau de dependência pode ser total ou parcial. Na
dependência total está implícita a extensão, e a natureza compreende tudo aquilo que
a enfermagem faz pelo ser humano quando este não tem condições de fazer por si,
seja qual for a causa. E em havendo dependência parcial, a assistência de
enfermagem pode situar-se em termos de ajuda, orientação, supervisão e
encaminhamento, havendo uma ordenação sequencial e inter-relacionada desta
assistência, isto é, quando a dependência é de ajuda esta implica necessariamente
em orientação, supervisão e o encaminhamento quando couber.
Plano de Assistência: é a determinação global da assistência de enfermagem
que o ser humano deve receber diante do diagnostico de enfermagem estabelecido. É
resultante da análise do diagnóstico de enfermagem, examinando-se os problemas de
enfermagem, as necessidades afetadas e o grau de dependência.
Plano de Cuidados ou Prescrição de Enfermagem: onde a implementação do
plano assistencial pelo roteiro diário vai coordenar a ação da equipe de enfermagem
na execução dos cuidados adequados ao atendimento das necessidades básicas. A
prescrição precisa ser precisa, clara e específica e deverão ser checadas quando
realizadas. O plano de cuidados é avaliado sempre, fornecendo dados para a quinta
fase;
Evolução de Enfermagem: é o relato diário das mudanças sucessivas que
ocorrem no ser humano enquanto estiver sob assistência profissional, sendo possível
avaliar a resposta do ser humano à assistência de enfermagem implementada. A
análise e avaliação dos passos ou fases anteriores leva-nos a sexta fase;
Prognostico de Enfermagem, onde se faz a estimativa da capacidade do ser
humano em atender suas necessidades básicas alteradas após a implementação do
plano assistencial e de acordo com os dados fornecidos pela evolução de
enfermagem, assim sendo, devido às características comentadas do processo de
enfermagem é possível corrigir erros em qualquer uma das fases.
A divisão da assistência em fases foi na visão de Horta, um marco importante e
norteador das ações de enfermagem individualizadas, surgindo desde então, várias
propostas de melhoria na qualidade da assistência prestada.
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É importante salientar que a Teoria das NHB fundamenta o Processo de


Enfermagem, que consiste em conjunto de etapas sistematizadas e inter-relacionadas,
orientadas para a organização e planejamento do cuidado ao ser humano.
Segundo Horta, o processo de enfermagem introduziu termos como assistência
e cuidado de enfermagem e afirmou que muitos profissionais os viam com sinônimos.
Assim, resolveu então distinguir tais conceitos para oferecer ainda mais embasamento
científico à prática da enfermagem:
Assistência de enfermagem: é a aplicação, pelo(a) enfermeiro(a), do processo
de enfermagem para prestar o conjunto de cuidados e medidas que visam atender as
necessidades básicas do ser humano.
Cuidado de Enfermagem: é a ação planejada, deliberada ou automática do(a)
enfermeiro(a), resultante de sua percepção, observação e análise do comportamento,
situação ou condição do ser humano.
Horta ainda acrescenta os instrumentos básicos indispensáveis ao profissional
enfermeiro para que este aplique o Processo de Enfermagem ou para que possa dar
uma assistência de enfermagem de qualidade. São eles: observação, comunicação,
aplicação do método científico, aplicação de princípios científicos, destreza manual,
planejamento, avaliação, criatividade, trabalho em equipe e utilização de recursos da
comunidade.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Wanda Horta, que se dedicou a construir uma enfermagem científica, marcou


de maneira extraordinária a Enfermagem através de sua teoria das Necessidades
Humanas Básicas e do aprimoramento que realizou no Processo de Enfermagem,
dividindo-o em fases, dando maior embasamento científico à profissão.
Ao longo de sua obra “Processo de Enfermagem”, observa-se que a autora
sempre buscou enfatizar a importância de o profissional enfermeiro ver o cliente em
sua totalidade, enxergá-lo como um ser biopsicossocial, além de considerar suas
necessidades espirituais. Para Horta, é dever do enfermeiro dar o seu máximo para
suprir as necessidades humanas básicas de seu cliente.
Desde sua publicação até os dias atuais, observa-se quão importante foi a visão
de Horta sobre o Processo de Enfermagem, ferramenta esta imprescindível na
atuação do enfermeiro; norteia todas as ações de enfermagem, mesmo que às vezes
os profissionais não percebam que estão utilizando este processo.
Assim, Horta colaborou para que a enfermagem fosse cada vez mais vista de
forma humanizada e científica, com metodologias e diretrizes próprias, e assim,
ressaltou a importância do profissional enfermeiro e ofereceu a este suporte para
desenvolver sua autonomia profissional e deixar de ser visto como dependente do
profissional médico.
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REFERÊNCIAS

1.HORTA, Wanda de Aguiar. Processo de Enfermagem. São Paulo: EPU, 1979.


2.GARCIA TR, Nóbrega MML. Da Contribuição das teorias de enfermagem para a
construção do conhecimento da área. Revista Brasileira de Enfermagem. 2004
mar./abr.; Brasília, v.57 p.228-232, mar./abr.2004.

3.LEMPEREUR A. Dicionário geral das ciências humanas. Lisboa, 1984.


4.VITÓRIA REGIS LFL, Porto IS. A equipe de enfermagem e Maslow:
(in)satisfações no trabalho. Rev Bras Enferm 2006, jul-ago; 59(4): 565-8.

5.CHINAIA C, Cunha ICKO. Processo de enfermagem: características da


prescrição e evolução de enfermagem. Rev Enferm UNISA 2000; 1: 19-23.

6.HORTA, WA. Fragmentos da trajetória pessoal e profissional de Wanda Horta:


Contribuições para a área da enfermagem. Memorial. São Paulo, 1973.

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