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Christopher McDougall

Nascido para correr


A experiência de descobrir uma nova vida
Tradução: Rosemarie Ziegelmaier
Copyright © da tradução 2010 by Editora Globo
Copyright © 2009 by Christopher McDougall

Esta tradução foi publicada conforme acordo com Alfred A. Knopf, um selo de The Knopf Doubleday Group, uma divisão de Random House, Inc.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida – em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, por fotocópia, gravação etc. –
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Texto fixado conforme as regras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto Legislativo nº 54, de 1995).

Título original: Born to run – A hidden tribe, superathletes, and the greatest race the world has never seen
Preparação: Vivien Hermes
Revisão: Ana Tereza Clemente
Design de capa: epizzo
Foto de capa: © 2002 Stephanie Hager
Diagramação: Crayon Editorial
Foto do autor: Michael Lionstar 1a edição, 2010

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVRO, RJ

M429n

McDougall, Christopher, 1952

Nascido para correr : a experiência de descobrir uma nova vida / Christopher McDougall ; tradução de Rosemarie Ziegelmaier. – São Paulo : Globo, 2010.

Tradução de: Born to run : a hidden tribe, superathletes, and greatest race the world has never seen

ISBN 978-85-250-6379-3

1. Corridas – Cooper Canyon, Região (México). 2. Indios Tarahumara Cooper Canyon, Region (México). 3. Corridas de longa distância – Cooper Canyon, Região (México). 4.
Corredores de longa distância Cooper Canyon, Região (México). I. Título.

1a edição, 2010
6a reimpressão, 2016

Direitos da edição em língua portuguesa adquiridos por


Editora Globo S.A.
Av. Nove de Julho, 5229 – 01407-907 – São Paulo – SP
www.globolivros.com.br
Sumário
Capa
Folha de rosto
Créditos
Dedicatória
Epígrafe
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Agradecimentos
Notas
Para John e Jean McDougall, meus pais, que me deram tudo (e me dão até
hoje).
“O melhor corredor não deixa rastros.”
Tao te ching, o livro do caminho e da virtude
Capítulo 1
“Para viver com fantasmas, é preciso estar só.”
Anne Michaels, Peças em fuga

Por vários dias vasculhei a Sierra Madre, no México, em busca de um


“fantasma” conhecido como Caballo Blanco. Finalmente cheguei ao fim da
trilha, no último local em que esperava encontrá-lo – não nas profundezas
dos rincões onde diziam que ele costumava se esconder, mas no lúgubre
saguão de um velho hotel, situado nos arredores de uma cidade poeirenta e
árida.
“Sí, El Caballo está”, informou a recepcionista, movendo a cabeça.
“Sério?” Depois de quase encontrar Caballo Blanco diversas vezes e
em lugares bastante estranhos, comecei a achar que estava perseguindo uma
lenda, uma versão local do monstro do Lago Ness concebida para assustar as
crianças e zombar dos estrangeiros ingênuos.
“Ele costuma voltar lá pelas cinco horas”, acrescentou a atendente. “É
como um ritual.”
Fiquei na dúvida se deveria abraçar a moça ou cumprimentá-la com um
high-five, aquela batida das palmas das mãos, para comemorar. Consultei o
relógio. Queria saber quanto tempo teria de
esperar até finalmente encontrar o fantasma...
“Mas já passa das seis horas.”
A recepcionista olhou com indiferença. “Pode ser que ele tenha ido
embora.”
Joguei-me num velho sofá. Eu me sentia acabado, faminto e derrotado.
Estava exaurido, assim como a minha determinação.
Algumas pessoas diziam que Caballo Blanco era um fugitivo, outros
afirmavam que era um boxeador que saía sem rumo para se punir por ter
batido em um adversário até matá-lo em pleno ringue. Ninguém sabia o seu
nome, a sua idade ou de onde era. Parecia um daqueles pistoleiros do Velho
Oeste, que deixavam como únicas marcas as muitas façanhas e uma aragem
de fumaça de cigarrilha. Não faltavam descrições e aparições em todos os
lugares do mapa: moradores que viviam em locais separados por distâncias
imensas afirmavam tê-lo visto no mesmo dia e o descreviam com imagens
que variavam de “divertido e simpático” a “estranho e enorme”.
Mas todas as versões da lenda do Caballo Blanco apresentavam um
aspecto em comum: ele havia chegado no México muitos anos antes e se
refugiado nas selvagens e impenetráveis Barrancas del Cobre para se juntar
aos tarahumaras, mítica tribo formada por superatletas e que remonta à Idade
da Pedra. Os tarahumaras podem ser considerados o povo mais saudável e
calmo do planeta, além dos maiores corredores de todos os tempos.
Quando o assunto são distâncias enormes, ninguém consegue derrotar
um corredor tarahumara – nem um guepardo, nem um cavalo de corrida,
nem um maratonista olímpico. Poucas pessoas de fora da tribo já viram um
desses corredores em ação, porém curiosas histórias sobre sua resistência
sobre-humana e sua tranquilidade se disseminam há séculos do desfiladeiro.
Um explorador jurava ter visto um tarahumara capturar um cervo usando
apenas as mãos, perseguindo o animal até fazê-lo cair morto pelo cansaço,
“com os cascos em frangalhos”. Outro aventureiro gastou dez horas para
subir uma das montanhas do desfiladeiro no lombo de uma mula, enquanto
um corredor tarahumara fez o mesmo trajeto em uma hora e meia.
“Beba isto”, disse certa vez uma mulher da tribo para um explorador
exausto, que havia desmaiado aos pés do cânion. Era uma cuia com um
líquido escuro. O homem tomou uns goles e sentiu uma nova energia se
espalhar em suas veias. Conseguiu se erguer e subir a montanha como um
xerpa turbinado com cafeína. Conforme ele relatou posteriormente, os
tarahumaras tinham a receita de um alimento energético especial, capaz de
deixá-los em forma, vigorosos e imbatíveis: bastavam algumas porções para
obter o estímulo nutricional suficiente para correr um dia inteiro sem
descansar.
No entanto, sejam quais forem os segredos dos tarahumaras, eles estão
bem guardados. Até hoje, a tribo vive nas encostas de rochedos mais altos do
que os que abrigam ninhos de falcões, em um lugar que poucos conheceram.
As Barrancas del Cobre constituem um mundo perdido nos confins remotos
da América do Norte, uma espécie de Triângulo das Bermudas longe do mar,
famosas por engolir eventuais aventureiros ou perdidos que ousarem entrar
em suas profundezas. Muitas complicações podem (e costumam) acontecer
por ali: quem sobreviver às onças-pintadas, que adoram carne humana, às
cobras venenosas e ao calor inclemente, ainda está exposto à “febre do
desfiladeiro”, uma perturbação (normalmente fatal) provocada pelo aspecto
sinistro do ambiente. Quanto mais fundo o visitante entra, maior a sensação
de que uma porta se fecha às costas dele para sempre. A distância entre as
encostas do desfiladeiro diminui, surgem sombras e sons que lembram
espectros, qualquer caminho parece conduzir a um paredão de rocha. Quem
se perde fica tomado pela loucura e pelo desespero e, não raro, corta a
própria garganta ou se joga de um penhasco. Por isso, não é de estranhar que
tão poucos tenham visto a terra onde vivem os tarahumaras, com exceção
dos integrantes da tribo.
Ninguém sabe como Caballo Blanco conseguiu atravessar as
profundezas do desfiladeiro. Dizem que foi adotado pelos tarahumaras, que
o acolheram como um amigo de espírito semelhante, um fantasma entre os
fantasmas. O visitante adquiriu as duas habilidades da tribo – a invisibilidade
e a incrível resistência –, porque, apesar de ser visto em vários lugares da
região, ninguém parece saber onde vive nem onde pode ser encontrado.
Porém dizem que, se existe alguém capaz de traduzir os antigos segredos dos
tarahumaras, só pode ser esse errante solitário das Sierras Altas.
Minha obsessão por conhecer Caballo Blanco chegou a tal ponto que,
jogado sobre o sofá do hotel, eu conseguia até imaginar a voz dele.
Provavelmente como o Zé Colmeia pedindo uns burritos num restaurante
mexicano, arrisquei. Um sujeito assim, um viajante que havia ido a todos os
lugares mas não pertencia a nenhum, deve viver voltado para si mesmo e
raramente ouvir a própria voz. Talvez tivesse uma risada retumbante e
falasse um espanhol terrível. Devia falar alto, bastante e...
Mas espere. Eu estava ouvindo a voz dele. Meus olhos saltaram para
ver um cadáver empoeirado embaixo de um chapéu de palha bem gasto,
brincando com a recepcionista. A poeira riscava o seu rosto desolado como
se imitasse uma pintura de guerra, e o emaranhado de cabelos clareados pelo
sol que escapava do chapéu poderia ser aparado com um facão. Parecia um
náufrago numa ilha deserta – bastava ver o modo como insistia em conversar
com a entediada recepcionista.
“Caballo?”, perguntei.
O “cadáver” se virou, sorrindo, e eu me senti um idiota. Ele não parecia
desconfiado, mas se mostrou confuso – como qualquer turista abordado por
um homem entregue sobre um sofá e que, de repente, o chama de “cavalo!”.
Não era Caballo Blanco, não existia nenhum Caballo Blanco. Tudo não
passava de uma brincadeira e eu tinha caído direitinho.
Aí o “cadáver” falou: “Você me conhece?”.
“Cara!”, eu explodi, tremendo sobre os meus pés. “Estou muito feliz
por vê-lo!”
O sorriso dele desapareceu. Os olhos do “cadáver” se voltaram para a
porta, sinalizando o que pretendia fazer no segundo seguinte.
Capítulo 2
Tudo começou com uma pergunta simples, mas que ninguém conseguia
responder.
Era um enigma de seis palavras, que acabou me levando a uma foto de
um homem muito veloz vestido com uma saia bastante curta – dali em
diante, tudo foi ficando ainda mais estranho. Pouco depois, eu lidava com
um assassinato, guerrilheiros a serviço do tráfico de drogas e um homem
com um braço só que corria numa esteira com um pote de cream cheese
amarrado na cabeça. Acabei conhecendo uma linda guarda-florestal loira,
que abandonou suas roupas e conseguiu se salvar correndo nua pelas
florestas de Idaho, e uma jovem surfista com um rabo de cavalo, que correu
até quase morrer no deserto. Um corredor talentoso iria morrer, dois outros
escapariam da morte por pouco.
Continuei procurando e aí topei com o Batman Descalço... O corredor
que ficou conhecido como Naked Guy [cara pelado]... Os bosquímanos do
Kalahari... O sujeito que extraía as unhas dos pés para correr melhor... Uma
seita que difundia corridas de longa distância e festas eróticas... O Homem
Selvagem das montanhas Blue Ridge... E, finalmente, a antiga tribo dos
tarahumaras e seu vago seguidor, Caballo Blanco.
Sim, eu consegui achar a resposta, mas só depois de me envolver na
maior corrida do mundo: a Ultimate Fighting Competition das corridas, uma
demonstração extraoficial com alguns dos melhores corredores de longas
distâncias do nosso tempo contra os melhores corredores de todos os tempos,
numa ultramaratona de mais de oitenta quilômetros por trilhas
desconhecidas, pisadas apenas por pés tarahumaras. Fiquei abismado ao
descobrir que o antigo conselho dado pelo Tao te ching, o livro do caminho e
da virtude (“o melhor corredor não deixa rastros”) não era um frágil koan,
porém uma real e eficiente orientação para treinamento.
E tudo isso aconteceu porque, em janeiro de 2001, perguntei ao meu
médico: “Por que os meus pés doem?”.

Eu tinha procurado um dos mais conceituados especialistas em medicina


esportiva do país porque parecia que uma lasca de gelo invisível estava
encravada na sola do meu pé. Na semana anterior, eu participava de uma
competição de quase cinco quilômetros por uma estrada rural coberta de
neve, quando de repente fui tomado pela dor. Agarrei firme o meu pé direito
e comecei a gritar enquanto caía sobre a neve. Quando consegui me
recuperar, chequei a gravidade do ferimento. Estava certo de que havia
pisado numa pedra pontiaguda ou em algum prego encravado no gelo, mas
não havia nenhuma gota de sangue, nem sequer um furo no meu tênis.
“Seu problema é correr”, confirmou o doutor Joe Torg quando fui a seu
consultório, na Filadélfia, dias depois. Ele deveria saber das coisas: além de
ter ajudado a criar todo o campo da medicina esportiva, era o coautor do
estudo The running athlete [O atleta que corre], análise radiográfica
definitiva de todos os ferimentos possíveis decorrentes das corridas. O
especialista me submeteu a um raio X e observou enquanto eu mancava.
Depois, disse que eu tinha machucado o cuboide, um conjunto de ossos
paralelos à curvatura do pé que eu nem sabia que existia até ele se manifestar
na forma de uma arma de eletrochoque.
“Mas eu quase não estou correndo”, expliquei. “Tenho corrido três,
quatro quilômetros, nem todos os dias e nunca no asfalto. Em geral, corro
em estradas de terra.”
Não importava. “O corpo humano não foi projetado para esse tipo de
exagero”, respondeu o doutor Torg. “Especialmente o seu corpo.”
Eu sabia exatamente o que ele queria dizer: com 1,93 metro de altura e
104 quilos, já tinha ouvido várias vezes que caras do meu tamanho deveriam
jogar basquete ou arrumar emprego como guarda-costas em vez de sair
correndo por aí. Ao completar quarenta anos, passei a entender melhor esses
conselhos, pois, nos cinco anos em que abandonei as quadras e tentei me
transformar em maratonista, em duas ocasiões rompi os ligamentos, várias
vezes machuquei o tendão de Aquiles, torci os dois tornozelos, tive várias
dores na curvatura do pé e precisei descer escadas na ponta dos pés porque
os calcanhares estavam arrebentados. E agora, aparentemente, o último
ponto amigável dos meus pés tinha resolvido aderir à revolta.
Por mais incrível que pareça, até então eu parecia indestrutível. Como
escrevia para a revista Men’s Health e era um dos colunistas restless man [os
incansáveis] da revista Esquire, parte do meu trabalho consistia em
participar de práticas esportivas semirradicais. Desci corredeiras classe iv
numa prancha de boogie, atravessei dunas gigantescas com uma prancha de
snowboarding e percorri a região de Badlands, na Dakota do Norte, de
mountain bike. Também trabalhei como repórter em três regiões de guerra
para a Associated Press e passei meses em algumas das regiões africanas em
maior ebulição – tudo sem um arranhão. Mas correr alguns quilômetros foi o
suficiente para rolar no chão de dor, como se tivesse sido atingido por um
ataque surpresa.
Se estivéssemos falando de qualquer outro esporte, um grau de
ferimento como o meu bastaria para me classificar como um inapto. Mas, em
se tratando de corridas, é normal. As exceções, no caso, são os seres
humanos que correm e não se machucam. Em cada dez corredores, pelo
menos oito se ferem todos os anos. Não importa se você é magro ou gordo,
veloz ou moderado, campeão de maratona ou corredor de final de semana,
você está sujeito aos mesmos riscos de comprometer joelhos, canelas,
tendões, quadris ou calcanhares. Na próxima vez em que se inscrever para
uma Turkey Trot, tradicional corrida realizada nos eua perto do Dia de Ação
de Graças, observe os corredores ao seu lado: pelas estatísticas, apenas um
de vocês três irá chegar para a comemoração do final da prova.
Até agora, nenhuma invenção mudou esse massacre. Você pode
comprar tênis próprios para corridas, com solados recheados de “estrados de
mola”, ou Adidas capazes de ajustar o grau de amortecimento do pé por
meio de um microchip – a porcentagem de ferimentos não caiu um décimo
nos últimos trinta anos. Na verdade, as estatísticas apontam para um
crescimento: os problemas no tendão de Aquiles tiveram um aumento de
10%. Parece que correr virou o correspondente fitness de dirigir alcoolizado:
você pode se sair bem algumas vezes, pode até mesmo se divertir, porém um
dia a catástrofe acontece.
“Mas que novidade”, zomba a literatura especializada em medicina
esportiva – não exatamente desse jeito, e sim com frases como: “Adeptos de
esportes que envolvem corrida exigem demais das pernas”. Essa foi a
declaração do Sports Injury Bulletin. “Cada queda impacta uma das pernas
com uma força superior ao dobro do peso do corpo. Da mesma forma como
o martelar constante sobre uma rocha aparentemente inquebrável acaba por
reduzi-la a pó, o impacto associado à corrida pode fragmentar ossos,
cartilagens, músculos, tendões e ligamentos.” Um relatório da Associação
Norte-Americana de Cirurgiões Ortopédicos concluiu que as cor-ridas de
longa distância constituem “uma incrível ameaça à integridade do joelho”.
E, em vez de uma “rocha inquebrável”, o desgaste se dá sobre uma das
partes mais delicadas do corpo humano. Você tem uma ideia de como são os
nervos dos pés? Eles são do mesmo tipo daqueles que formam a rede da
região genital. Os pés humanos podem ser comparados a um pequeno
terminal repleto de nervos sensoriais, todos dedicados a captar sensações.
Basta estimular um pouco esses nervos e o impulso atinge todo o sistema
nervoso, e é por isso que cócegas nos pés provocam reações que refletem no
corpo inteiro.
Não é de estranhar que alguns ditadores sul-americanos cultuavam um
fetiche por pés quando precisavam pesar a mão. A bastonada, uma técnica de
tortura que consiste em amarrar a vítima e bater na sola dos pés com um
bastão, foi desenvolvida pela Inquisição espanhola e rapidamente adotada
pelos piores sádicos do mundo todo. O Khmer Vermelho e Uday Hussein,
temido filho do ex-ditador iraquiano, defendiam a técnica porque entendiam
de anatomia: apenas o rosto e as mãos têm a mesma capacidade dos pés de
enviar mensagens instantâneas ao cérebro. Quando se trata de sentir a carícia
mais suave ou um minúsculo grão de areia, os dedos dos pés revelam a
mesma habilidade que os lábios e as pontas dos dedos das mãos.
“Mas não há nada que eu possa fazer?”, perguntei ao doutor Torg.
Ele disse que não. “Você pode continuar correndo, porém a situação vai
piorar”, explicou, estalando a ponta da injeção de cortisona que ele se
preparava para aplicar no meu pé. Também precisei de palmilhas especiais
(quatrocentos dólares) para conseguir calçar meus tênis de corrida (150
dólares, mas, como eu precisava usar dois pares alternadamente, trezentos
dólares). Tudo isso apenas postergava a grande questão: quando seria meu
retorno à sala de espera daquele consultório?
“Sabe o que eu recomendaria a você?”, continuou o doutor Torg.
“Compre uma bicicleta.”
Agradeci, prometi seguir as orientações e decidi procurar uma segunda
opinião. O doutor Torg já estava havia bastante tempo na profissão – talvez
tivesse ficado conservador demais no diagnóstico e apelado para a cortisona
com muita pressa. Um amigo médico recomendou um especialista em pés de
esportistas que também era maratonista e resolvi marcar uma consulta para a
semana seguinte.
O podologista fez outro raio X e examinou meu pé. “Parece síndrome
do cuboide”, sentenciou. “Dá para conter a inflamação com cortisona, mas
você vai precisar de equipamentos especiais.”
“Droga. O mesmo que o doutor Torg disse.”
Quando se preparava para deixar a sala e procurar a seringa, o
especialista parou e perguntou: “Você já consultou o doutor Joe Torg?”.
“Já.”
“E já aplicou uma dose de cortisona?”
“Sim.”
“Então o que você está fazendo aqui?”, perguntou, olhando impaciente
e com certa desconfiança, como se perguntasse se eu gostava de injeções na
parte mais sensível do pé. Talvez suspeitasse que eu era um sadomasoquista
viciado em dor e medicamentos.
“Você não sabe que o doutor Torg é o papa da medicina esportiva? Os
diagnósticos dele geralmente são respeitados.”
“Eu sei disso. Queria apenas ter certeza.”
“Não vou aplicar mais uma dose, mas posso orientar quanto aos
aparelhos médicos. E você deveria mesmo pensar em achar outra atividade.”
“Parece uma boa ideia”, concordei. Ele era um corredor melhor do que
eu jamais poderia ser e acabou de confirmar o veredito de um especialista
que ele mesmo reconheceu como autoridade no assunto. Não havia razão
para tentar derrubar o diagnóstico, por isso comecei a procurar outro
profissional.
Não costumo agir com tanta teimosia assim nem sou tão fanático por
corridas. Se eu somar todos os quilômetros que percorri até hoje, a metade
teve o gosto de trabalho forçado. Mas deve significar algo o fato de, apesar
de não ter terminado a leitura de O mundo segundo Garp em vinte anos, eu
nunca ter esquecido uma passagem secundária (e não é a que você deve estar
imaginando): sempre me lembro de como Garp costumava abandonar a
rotina de trabalho para fazer uma corrida de oito quilômetros. Existe algo
muito universal nessa sensação, no modo como o ato de correr combina dois
de nossos impulsos primais: sentir medo e sentir prazer. Corremos quando
estamos assustados, quando estamos em êxtase, quando queremos fugir dos
problemas e para curtir momentos de felicidade.
E, quando as coisas pioram, corremos mais ainda. Em três ocasiões, os
Estados Unidos testemunharam o aumento da prática de corridas – e sempre
em meio a crises. A primeira “explosão” foi durante a Grande Depressão,
quando duas centenas de corredores se propuseram a percorrer mais de 64
quilômetros por dia e atravessar o país, de Los Angeles a Nova York, na The
Great American Footrace, prova que durou 84 dias, de uma costa a outra. A
atividade caiu no esquecimento e somente voltou a mover multidões no
início dos anos 1970, quando o país lutava para se recuperar da Guerra do
Vietnã, da Guerra Fria, dos conflitos raciais, de um presidente envolvido em
crimes e do assassinato de três líderes queridos. E quando aconteceu o
terceiro apogeu? Um ano depois dos ataques do 11 de Setembro, a corrida se
revelou o esporte a céu aberto que mais crescia no país. Pode ser tudo uma
coincidência, mas pode ser que exista algo na psiquê humana, uma reação
instintiva que ativa nossa primeira e maior “arma” de sobrevivência sempre
que nos sentimos ameaçados. No que se refere a livrar-se do estresse e sentir
prazer sensual, correr é o recurso do qual dispomos antes de iniciar a vida
sexual. O “instrumental” e a disposição nos acompanham desde o
nascimento – tudo o que temos de fazer é deixar esse impulso se manifestar
e nos preparar para correr.
Era isso o que eu procurava. Não queria caros acessórios de plástico
que me permitissem calçar o tênis, nem um abastecimento mensal de
analgésicos: eu queria deixar meu impulso se manifestar sem ficar com o
corpo em frangalhos. Não era um louco por corridas, porém queria correr. E
foi essa vontade que me levou até o consultório da terceira médica: a doutora
Irene Davis, especialista em biomecânica e responsável pela Clínica de
Lesões da Corrida da Universidade de Delaware.
A doutora começou o exame, primeiro avaliando meu pé descalço e,
depois, acomodado em três tipos diferentes de tênis para corridas. Pediu que
eu andasse, corresse e puxasse a perna. Então me instalou sobre uma
plataforma, para medir o impacto da minha pisada. Quando ela mostrou as
imagens gravadas em vídeo, fiquei horrorizado.
Na minha imaginação, eu me vejo leve e rápido, como um índio navajo
na hora da caça. Mas o cara mostrado na tela parecia mais um Frankenstein
dançando tango. Eu sacudia tanto que a minha cabeça desaparecia da tela.
Meus braços pendiam para a frente e para trás como um técnico de beisebol
gritando com o time, sem falar que meu corpo tamanho G caía com tanta
sonoridade que suspeitei que o vídeo escondesse um bongô.
Como se isso não bastasse, a doutora Davis passou as imagens em
ritmo lento para que pudéssemos ver como torci o pé direito, machuquei o
joelho esquerdo e comprometi minhas costas daquele modo. Como eu podia
pensar em seguir em movimento com aquela postura desengonçada e
desequilibrada?
“Está bem”, concordei. “Então qual é o jeito certo de correr?”
“Essa é a pergunta eterna”, respondeu a doutora Davis.
No que se refere à resposta eterna... Bem, era controverso. Eu poderia
ter fortalecido meus passos e conseguido maior absorção de choques se
apoiasse a planta do pé, em vez de pisar sobre o osso do calcanhar, mas...
Talvez estivesse apenas trocando um problema por outro. Pisar com uma
nova marcha pode forçar o calcanhar e o tendão de Aquiles ao exigir um
esforço inédito e, assim, causar outros ferimentos.
“Para correr é preciso forçar as pernas”, explicou a doutora. Ela falava
com gentileza e suavidade, porém eu aposto que o seu pensamento era:
Sobretudo no seu caso, meu amigo.
Voltei à estaca zero. Depois de meses de consultas com especialistas e
pesquisas de estudos fisiológicos disponíveis na internet, tudo o que eu tinha
conseguido levantar eram as respostas para as minhas perguntas iniciais:
Por que os meus pés doem?
Porque correr faz mal.
Por que correr faz mal para mim?
Porque força os seus pés.
Mas qual era a explicação essencial? Antílopes não têm problemas nos
tornozelos, lobos não lesionam os joelhos, e duvido que 80% dos cavalos
selvagens sofram de males decorrentes do impacto nas corridas. Lembrei-me
de um ditado atribuído a Roger Bannister, que, além de estudar medicina,
fazer pesquisas clínicas e colecionar parábolas espirituosas, conseguiu
romper a marca dos quatro minutos para percorrer uma milha: “Todas as
manhãs na África, uma gazela acorda. Ela sabe que precisa ser mais rápida
do que o leão mais veloz ou será morta. Todas as manhãs, um leão também
desperta, e ele sabe que precisa correr mais do que a gazela mais lenta para
não morrer de fome. Não importa se você é um leão ou uma gazela, o
melhor a fazer é correr”.
Por que todos os outros mamíferos do planeta dependiam tanto das
pernas, menos nós? Como um cara como Bannister conseguia deixar o
laboratório, percorrer uma pista rude e dura calçando chinelos de couro e,
além de bater recordes de velocidade, não se machucar nunca? Como alguns
poderiam seguir o conselho dele e despertar todas as manhãs para correr
como leões, enquanto o resto da humanidade precisaria recorrer a uma dose
de anti-inflamatório para conseguir colocar os pés no chão?
Essas eram perguntas muito boas. Mas, como eu estava prestes a
descobrir, as únicas pessoas que sabiam as respostas (ou melhor, que viviam
essas respostas) não diziam nada. Especialmente para um cara como eu.

No inverno de 2003, eu estava trabalhando no México quando folheei uma


revista de viagem em espanhol. De repente, meus olhos se fixaram numa
foto que mostrava Jesus correndo na encosta de uma montanha.
Uma olhada mais atenta revelou que talvez não fosse Jesus Cristo, mas
um homem com túnica e sandálias descendo velozmente uma montanha.
Comecei a traduzir a legenda, sem entender por que os verbos estavam no
presente – parecia algo como um atlante lendário, pertencente a um império
extinto formado por supercriaturas iluminadas. Aos poucos, entendi que
estava certo em quase tudo, menos no que se referia aos termos “extinto” e
“lendário”.
Eu estava no México atrás de uma celebridade e tentando descobrir
algo sobre seu culto, que envolvia lavagem cerebral e outras polêmicas,
porém o artigo que deveria escrever para a The New York Times Magazine
pareceu uma bobagem na comparação com o que eu tinha nas mãos. Afinal,
pop stars excêntricos e fugindo da mídia surgem e somem o tempo todo,
mas a tribo dos tarahumaras parecia viver para sempre. Isolado em seu
misterioso desfiladeiro, esse pequeno grupo de reclusos tinha conseguido
solucionar quase todos os problemas que assolam a humanidade. Pense em
qualquer aspecto (corpo, mente ou alma) e os tarahumaras podem mostrar o
que é a perfeição. Era como se, em segredo, eles tivessem transformado suas
cavernas em incubadoras de vencedores do Prêmio Nobel, todos se
esforçando para derrotar o ódio, as doenças cardíacas, os estiramentos na
canela e os gases que formam o efeito estufa.
Na terra dos tarahumaras não existem crimes, guerras ou roubos.
Também ninguém sabe o que é a corrupção, a obesidade, a dependência
química, a cobiça, a violência contra as mulheres, o abuso de crianças, as
doenças do coração ou as emissões de carbono. Ninguém tem diabetes,
depressão ou sofre com a velhice: os cinquentões têm saúde de adolescentes,
e bisavôs de oitenta e tantos anos participam de maratonas montanha acima.
Os casos de câncer são raros. Os gênios tarahumaras chegaram até a
economia e criaram um sistema financeiro ímpar, baseado em atitudes
solidárias: em vez de dinheiro, a moeda de troca são os favores e as
generosas cubas de uma cerveja feita de milho.
Poderia se esperar que uma economia movida a bebida alcoólica e
baseada na generosidade resultasse em uma casa da mãe joana etílica, com
cada um tentando se dar melhor do que o outro, como jogadores à beira da
falência dentro de um cassino. Entretanto, com os tarahumaras, essa
realidade funciona. Talvez isso aconteça porque essa tribo é laboriosa e
incrivelmente honesta. Um pesquisador chegou ao ponto de suspeitar que,
depois de tantas gerações formadas com base na confiança, o cérebro dos
tarahumaras tenha se tornado quimicamente incapaz de formular mentiras.
E, como se não bastasse ser o povo mais feliz e gentil do planeta, os
tarahumaras se destacam também como os mais resistentes: parece que as
únicas coisas capazes de rivalizar com a serenidade sobre-humana deles são
a incrível tolerância à dor e a lechuguilla, espécie de tequila caseira
preparada com cadáver de cascavel e seiva de cacto. De acordo com um dos
poucos forasteiros que presenciaram uma legítima festa da tribo, os
participantes ficavam tão alterados que as mulheres começavam a arrancar
as roupas umas das outras, em uma espécie de luta de livre de topless,
enquanto um homem velho e barulhento andava em círculos, tentando
atingir os bumbuns das lutadoras com uma espiga de milho. Os maridos
contemplavam tudo em absoluta paralisia. Cancún na chegada na primavera
não se compara com o que acontece nas Barrancas del Cobre nas luas das
colheitas.
Os tarahumaras festejam durante toda a noite, depois se animam para,
na manhã seguinte, dar início a uma corrida que não percorre três
quilômetros nem dura duas horas, e sim dois dias inteiros. Segundo o
historiador mexicano Francisco Almada, um campeão tarahumara percorreu
setecentos quilômetros, o que equivale a partir de Nova York e correr sem
parar até chegar em Detroit. Outros integrantes da tribo correram 482
quilômetros sem descanso. Isso equivale a quase doze maratonas completas
(uma maratona tem 42,195 quilômetros), sem paradas, enquanto o sol nasce,
se põe e volta a nascer.
Vale lembrar que os tarahumaras não atravessam estradas macias e
pavimentadas, mas percorrem trilhas íngremes no desfiladeiro equipados
apenas com os pés. Lance Armstrong, um dos atletas mais resistentes de
todos os tempos, mal conseguiu terminar sua primeira maratona, apesar de
consumir um gel energético a cada milha do percurso. (Depois da Maratona
da Cidade de Nova York, Lance deixou a seguinte mensagem para a ex-
mulher: “Oh, meu Deus. Ai, horrível”.) E como esses caras faziam isso com
a maior facilidade?
Em 1971, um fisiologista norte-americano foi até as Barrancas del
Cobre e ficou tão impressionado com a capacidade dos tarahumaras que
precisou retroceder 2.800 anos para encontrar um padrão de comparação.
“Provavelmente, só na antiga Esparta os atletas atingiram esse grau de
condicionamento físico”, concluiu o doutor Dale Groom ao publicar seus
estudos no American Heart Journal. Ao contrário dos espartanos, porém, os
tarahumaras são pacíficos como bodisatvas: não usam a incrível resistência
para agredir o outro, e sim para viver em paz. “Como cultura, eles são um
dos maiores mistérios”, conta Daniel Noveck, antropólogo da Universidade
de Chicago especializado na etnia.
Trata-se de um povo tão enigmático que tem até um apelido. O nome
verdadeiro é rarámuris, que significa “povo corredor”. O termo tarahumara
surgiu com os conquistadores espanhóis, que não conseguiam pronunciar a
língua da tribo. O nome equivocado permaneceu porque os rarámuris
seguiram suas origens e saíram de cena em vez de brigar por causa disso.
Aliás, reagir a uma agressão com uma retirada sempre foi uma tática do
grupo: desde a invasão de suas terras pelos homens de Hernán Cortez,
passando pelas posteriores investidas dos peões de Pancho Villa e dos
capangas dos barões da droga, os tarahumaras responderam aos ataques
correndo mais rápido e para o mais longe possível, refugiando-se cada vez
mais nas profundezas das Barrancas del Cobre.
Meu Deus, eles devem ser incrivelmente disciplinados. Dedicação e
concentração total. O equivalente aos monges de Shaolin das corridas,
pensei.
Bem, nem tanto. Quando se trata de corrida de resistência, a abordagem
dos tarahumaras está mais para o clima de carnaval e, no que se refere a
dieta, estilo de vida e gasto de energias, eles são o que um treinador
esportivo definiria como pesadelo. Costumam beber sem medida todas as
semanas, consumindo, em um ano, uma quantidade de cerveja de milho a
ponto de gastar cada terceiro dia da vida adulta embriagados ou em
recuperação. Ao contrário de Lance Armstrong, não recompõem o corpo
com bebidas ricas em substâncias revigorantes, nem recorrem a barras
energéticas. Na verdade, os integrantes da tribo consomem pouca proteína:
sua dieta é baseada no milho, cultivado por eles mesmos, acompanhado de
um prato bastante apreciado – camundongo assado. Para as corridas, não
treinam nem se preparam, não fazem alongamentos nem aquecimentos.
Apenas caminham até o ponto de largada, rindo e fazendo brincadeiras... E
correm como loucos por 48 horas seguidas.
Como eles conseguem?, eu me perguntava. Parecia um erro nas
estatísticas: nós, que contamos com tênis ultramodernos e acessórios
especiais de corrida, deveríamos apresentar índice zero no quesito
ferimentos, enquanto os tarahumaras – que percorrem terrenos nada
propícios e com calçados que mal podem receber esse nome – terminariam
as provas em macas.
As pernas deles são mais resistentes, já que passam a vida correndo,
pensei, antes mesmo de eu perceber o meu erro. Mas isso significa que eles
deveriam se machucar mais, e não menos. Se correr prejudica as pernas,
então correr muito deve ser muito pior.
Larguei o artigo, sentindo-me ao mesmo tempo intrigado e
incomodado. Tudo isso sobre os tarahumaras me parecia tão distante, ideal e
irritantemente inatingível quanto os mistérios de um mestre zen. Os sujeitos
mais resistentes eram também os mais bondosos; as pernas menos cuidadas
eram as mais hábeis; o povo mais saudável era dono da dieta menos
recomendada; a tribo sem idioma escrito era a mais sábia; os que mais se
esforçavam eram os que mais se divertiam...
E o que a corrida tinha a ver com tudo isso? Seria uma coincidência que
o povo mais iluminado do planeta também reunia os melhores corredores?
Algumas pessoas costumavam subir o Himalaia para encontrar esse tipo de
conhecimento – mas percebi que ele estava logo ali, na região da fronteira
entre o México e o Texas.
Capítulo 3
No entanto, eu precisava saber em que local da região de fronteira, e isso não
ia ser fácil.
A revista Runner’s World me incumbiu dessa tarefa: eu deveria me
embrenhar nas Barrancas del Cobre em busca dos tarahumaras. Mas, antes
que eu pudesse começar a procurar a “tribo invisível”, precisava encontrar
uma espécie de caçador de fantasmas. Foi quando me disseram que Salvador
Holguín era o homem ideal para isso.
Durante o dia, Salvador, então com 39 anos, trabalhava como
administrador municipal em Guachochi, uma cidade fronteiriça perto do
cânion. À noite, atuava como cantor de uma orquestra de mariachis, e era
talhado para isso: com uma barriga de cerveja, olhos negros e boa pinta
latina, era a imagem exata do cara que divide a vida entre o trabalho
burocrático e os bares da região. O irmão de Salvador, porém, podia ser
chamado de Indiana Jones do sistema educacional mexicano: todos os anos,
carregava um burro com um suprimento de lápis, cadernos e livros e partia
para as barrancas, com a intenção de abastecer as escolas situadas no
desfiladeiro. E, como Salvador topava quase qualquer parada, várias vezes
se ausentava do trabalho para acompanhar o irmão na empreitada.
“Hombre, está tudo certo”, ele me falou logo que consegui localizá-lo.
“Podemos procurar Arnulfo Quimare...”
Se ele parasse por aqui, eu já ficaria bem contente. Enquanto procurava
um guia, fiquei sabendo que Arnulfo Quimare era o maior corredor
tarahumara vivo, pertencente a um clã que incluía primos, irmãos, cunhados
e sobrinhos igualmente hábeis. A possibilidade de conseguir chegar nas
ocultas moradas da dinastia dos Quimare era melhor do que eu poderia
esperar. O único problema era que Salvador não parava de falar.
“...Tenho certeza de que encontro o caminho”, explicou. “Na verdade,
nunca estive lá... Pues, lo que sea. No final, a gente acha o lugar.”
Em outra situação, tudo isso pareceria um pouco vago, porém, na
comparação com outras pessoas com as quais conversei, Salvador esbanjava
otimismo. Desde que partiram para os confins do desfiladeiro há quatro
séculos, os tarahumaras se dedicaram a aperfeiçoar a arte da invisibilidade.
Muitos ainda vivem em cavernas encravadas nos rochedos, acessíveis apenas
com a ajuda de longas varas para escaladas. Quando chegam na entrada das
cavernas, puxam os varões e desaparecem dentro da rocha. Outros vivem em
cabanas tão camufladas que o etnógrafo norueguês Carl Lumholtz uma vez
ficou estupefato ao descobrir que havia passado por uma aldeia tarahumara
inteira sem notar o mínimo sinal de casas ou de presença humana.
Lumholtz foi um temperamental desbravador de regiões isoladas. Ele
viveu vários anos entre os canibais de Bornéu antes de partir para a terra dos
tarahumaras, no final da década de 1890. Mas dá para imaginar a decepção
do explorador quando, depois de atravessar desertos e enfrentar penhascos
perigosíssimos, finalmente chegou no coração da terra dos tarahumaras e...
não encontrou ninguém?
“Observar essas montanhas é algo que inspira a alma, porém percorrê-
las exige músculos e paciência”, escreveu Lumholtz em seu livro Unknown
Mexico: a record of five years’ explorations among the tribes of the Western
Sierra Madre [México desconhecido: o registro de cinco anos de exploração
entre tribos da parte ocidental da Sierra Madre]. “Só quem percorreu as
montanhas mexicanas consegue entender e apreciar as dificuldades e
ansiedades que caracterizam essa aventura.”
E isso falando apenas das montanhas. “À primeira vista, a região dos
tarahumaras parece inacessível”, declarou o dramaturgo francês Antonin
Artaud, que, na década de 1930, se aventurou pelas Barrancas del Cobre em
busca de sabedoria xamânica. “Quando muito, existem algumas trilhas
discretas que, a cada cinco metros, desaparecem sem mais nem menos.”
Quando Artaud e seus guias finalmente acharam o caminho, tiveram de
pensar bem antes de seguir adiante: fiéis à crença de que a melhor maneira
de manter os perseguidores afastados era partir para lugares onde só um
maluco iria querer chegar, os tarahumaras fizeram suas sinuosas trilhas em
encostas incrivelmente íngremes.
“Basta um passo em falso para uma queda de sessenta a novecentos
metros até o fundo do desfiladeiro, onde o corpo chega totalmente
despedaçado”, anotou em seu caderno de viagens o explorador Frederick
Schwatka, durante uma expedição às Barrancas del Cobre, em 1888.
E Schwatka não era um distante poeta parisiense, e sim um tenente do
Exército norte-americano que havia lutado em guerras e vivido entre os
índios sioux, numa experiência como antropólogo amador. Ou seja, entendia
bem de “corpos despedaçados”. Também havia estado em algumas das áreas
mais desafiadoras de sua época, como durante uma expedição de dois anos
pelo Ártico. No entanto, ao chegar no descomunal cânion, Schwatka
precisou atualizar suas convicções. Ao observar a imensidão selvagem que o
cercava, foi tomado por uma imensa admiração – “O coração dos Andes ou
os picos do Himalaia não oferecem tanta beleza como as extensões
desconhecidas e ermas da Sierra Madre mexicana” –, antes de voltar à
mórbida reflexão: “Como eles conseguem levar crianças montanha acima
sem matá-las é um dos maiores mistérios desse povo singular”.
Ainda hoje, época em que a internet fez o mundo encolher até virar uma
aldeia global e os satélites do Google permitem espiar até o quintal de quem
mora em outro canto do país, os tarahumaras tradicionais permanecem tão
misteriosos como há quatro séculos. Em meados da década de 1990, um
grupo de exploradores entrou nas profundezas do cânion e teve a estranha
sensação de ser observado por olhos invisíveis: “Nosso grupo andou horas
pelas Barrancas del Cobre sem encontrar o menor sinal de presença
humana”, escreveu um dos integrantes. “Agora, bem no meio de um
desfiladeiro ainda mais profundo do que o Grand Canyon, ouvimos os ecos
dos tambores dos tarahumaras. No início, o som era tímido, mas ganhou
força súbita. Com o eco ampliado pelas paredes de pedra, era impossível
dizer quantos eram ou onde estavam. Perguntamos à nossa guia de onde
vinha o barulho e ela respondeu: ‘¿Quién sabe?’. Só dá para ver os
tarahumaras quando eles querem ser vistos.”

A lua ainda brilhava no céu quando partimos a bordo da picape 4×4 de


Salvador. Quando o sol surgiu, deixamos o asfalto para trás e entramos em
uma trilha rude, que parecia mais uma beira de rio do que uma estrada,
andando a uma velocidade baixíssima e chacoalhando como navio antigo
embaixo de tempestade.
Tentei identificar nossa localização usando a bússola e o mapa, mas,
para falar a verdade, nem sequer sabia se Salvador estava dando voltas
intencionais ou se tentava desviar de alguma barreira. Não importava – onde
quer que estivéssemos, não fazia parte do mundo conhecido. Ainda
estávamos serpenteando por um caminho estreito, cercado de árvores,
enquanto o mapa apenas indicava uma floresta densa.
“Mucha mota por aquí”, disse Salvador, apontando para as encostas
que nos cercavam, onde havia plantação de marijuana.
Como a região das barrancas é impossível de ser policiada, virou uma
área disputada por dois cartéis de drogas rivais, os Zetas e os New Bloods.
Ambos reuniam ex-integrantes das Forças Especiais do Exército mexicano e
agiam sem nenhum controle. Os Zetas, por exemplo, eram famosos por
mergulhar os colegas “pouco dispostos a cooperar” em um barril de óleo
diesel em chamas, além de usar os inimigos capturados para alimentar o
mascote do grupo: um tigre de bengala. Depois que a “comida” parasse de
gritar, as cabeças retalhadas pela fera serviam como “troféus” – os cartéis
gostavam de demonstrar força com façanhas, como instalar diante de prédios
oficiais postes “enfeitados” com cabeças de policiais mortos, acompanhados
de uma placa com a recomendação: “Aprendam a nos respeitar”. No mesmo
mês em que isso aconteceu, cinco “cabeças troféus” foram despejadas na
pista de dança de um animado clube noturno. Ali nas proximidades do
desfiladeiro, não raro apareciam seis cadáveres em uma semana.
Mas Salvador parecia nem se incomodar. Dirigia a picape pela floresta,
cantarolando uma canção que falava algo sobre uma mulher chamada Maria.
De repente, sua voz sumiu. Ele desligou rapidamente o toca-fitas, com os
olhos fixos numa picape Dodge vermelha de vidros escuros que acabava de
surgir da poeira bem na nossa frente.
“Narcotraficantes”, murmurou.
Salvador levou o carro o máximo que podia para o lado direito da pista,
perto da encosta, e reduziu ainda mais a velocidade, baixando mais nosso
ritmo médio até então, de cerca de quinze quilômetros por hora, até quase
parar o carro e deixando a estrada livre para a passagem do enorme Dodge
vermelho.
Ele tentava passar a mensagem de que não estávamos ali por causa da
droga. Não podíamos parar... O que iríamos dizer se eles nos abordassem e,
sob a mira de seus rifles, perguntassem que diabos estávamos fazendo ali,
em plena área de cultivo de maconha?
Nem sequer poderíamos contar a verdade, porque, se eles acreditassem,
estaríamos mortos. Se há algo que os cartéis mexicanos odeiam tanto quanto
os policiais, são os cantores e os jornalistas. Não se trata de “cantores” no
sentido figurado, sinônimo de delatores ou de informantes da polícia, mas
cantores mesmo, daqueles que acompanham conjuntos musicais. Em um ano
e meio, as gangues da droga executaram quinze cantores, entre eles a vistosa
Zayda Peña, com 28 anos de idade e vocalista do grupo Zayda y Los
Culpables. A artista foi atingida quando saía de um show, sobreviveu ao
ataque, porém foi novamente baleada dentro do hospital, quando se
recuperava de uma cirurgia. O jovem ídolo Valentín Elizalde foi morto por
uma rajada de fuzil do tipo ak-47 no município de Reynosa, em Tamaulipas,
perto da cidade texana de McAllen. Sergio Gómez foi assassinado logo
depois de receber uma indicação para o Grammy – com os órgãos genitais
queimados, ele foi estrangulado e seu corpo jogado na rua. A causa da morte
das três vítimas, ao que se sabe, era o fato de serem famosos, bonitos e
talentosos – de certa forma, esses astros desafiavam a importância que os
senhores da droga atribuíam para si e, por isso, tinham de morrer.
Essa bizarra fatwa sobre os ídolos pop era controversa e imprevisível,
mas ninguém duvidava do ódio dos cartéis pelos jornalistas. A toda hora
saíam matérias sobre o narcotráfico em jornais norte-americanos, o que
constrangia os políticos, que, por sua vez, pressionavam o Departamento de
Controle de Drogas dos Estados Unidos a tomar alguma atitude. Furiosos, os
Zetas chegaram a jogar granadas em redações de jornal e até a encomendar a
assassinos profissionais a morte de alguns jornalistas intrometidos. Depois
da execução de trinta repórteres em seis anos, o editor de um jornal de
Villahermosa foi presenteado com a cabeça de um soldado da força de
combate ao narcotráfico com o aviso: “Você é o próximo”. A escalada da
morte assumiu tamanha proporção que o México só perde para o Iraque em
número de sequestro e assassinato de jornalistas.
E ali estávamos nós, oferecendo aos narcotraficantes um alvo duplo:
um cantor e um jornalista no mesmo carro, em pleno “quintal” deles.
Escondi o bloco de anotações na minha calça e procurei mais coisas para
ocultar no banco da frente. Mas não tinha muito
o que fazer, com as fitas do grupo de Salvador espalhadas por toda
parte, uma vistosa identificação de imprensa na minha carteira e, bem nos
meus pés, um pacote com gravadores, canetas e uma máquina fotográfica.
O Dodge vermelho passou ao nosso lado. Era um dia lindo e
ensolarado, com uma brisa fresca perfumada pelo aroma dos pinheiros,
porém, mesmo assim, as janelas do veículo estavam bem fechadas e os
misteriosos passageiros permaneciam atrás daqueles vidros fumê. A
velocidade deles diminuiu ainda mais.
Vamos em frente, eu dizia para mim mesmo. Não vamos parar, não
vamos parar...
Mas a picape vermelha parou. Olhei para o lado e vi que Salvador não
desviava os olhos, com as mãos congeladas pousadas no volante. Tirei meus
olhos dele sem mover um músculo.
Nós paramos, eles também. Nós em silêncio, eles também.
Seis assassinatos em uma semana, eu lembrava. Gente com os
testículos queimados. Já dava para imaginar minha cabeça rolando no meio
de uma pista de dança em Chihuahua.
De repente, ouviu-se um som. Meus olhos voltaram a se mover para o
lado. O enorme Dodge vermelho retornava à vida e seguia seu caminho.
Salvador olhou pelo retrovisor até ver o “carro da morte” desaparecer
no meio da poeira. Em seguida, engatou a primeira e ligou outra vez a
música barulhenta.
“¡Bueno! Ándale pues, a más aventuras”, exclamou.
Partes do meu corpo que tinham ficado rígidas a ponto de conseguir
martelar uma noz começaram a voltar ao normal, mas não por muito tempo.
Algumas horas depois, Salvador freou o carro subitamente. Deu ré, achou
uma trilha que saía da estrada e começou a andar no meio das árvores.
Fomos entrando cada vez mais na floresta, esmagando folhas e atravessando
riachos tão fundos que eu precisava fazer força para não bater a cabeça no
painel.
Conforme o cenário se tornava mais escuro, menos Salvador falava.
Pela primeira vez desde o nosso encontro com o “carro da morte”, ele
desligou o som. Pensei que talvez estivesse contemplando a tranquilidade e o
isolamento do lugar e achei melhor me acomodar e fazer o mesmo. Mas,
quando finalmente interrompi o silêncio para perguntar o que estava
acontecendo, ele mal resmungou. Comecei a suspeitar que Salvador estava
perdido e não queria admitir. Olhei bem para ele e percebi que reduzia a
velocidade para observar os troncos das árvores, como se aquelas cascas
ocultassem um tipo de mapa enigmático.
“Estamos ferrados”, concluí. Havia mais três possibilidades: dar a volta
e retornar ao território dos Zetas, seguir pelo desfiladeiro em plena noite ou
vagar por aquela região erma até que as barras de cereais acabassem e um de
nós devorasse o outro.
Então, assim que o sol se pôs, saímos do planeta.
Deixamos para trás as florestas para encontrar uma imensidão vazia –
uma abertura na terra tão grande que talvez a extremidade tivesse até fuso
horário diferente. Abaixo de nós, o cenário parecia uma explosão de fim de
mundo congelada na pedra, como se um deus furioso tivesse resolvido
destruir o planeta, mas tivesse mudado de ideia no meio do apocalipse.
Estávamos diante de uma imensidão de cerca de 30 mil metros quadrados,
que exibia aqui e ali alguns desfiladeiros mais sinuosos e profundos do que o
Grand Canyon.
Fui até a beira do rochedo e meu coração começou a palpitar. Lá
embaixo, alguns pássaros voavam em círculos. Mal dava para ver o
caudaloso rio que corria no fundo do vale, comparável a uma discreta veia
azul nos braços de um homem velho. Meu estômago se contraiu. Que lugar
seria aquele?
“A gente vai descobrir”, garantiu Salvador. “Os rarámuris fazem isso o
tempo todo.”
Diante da minha preocupação, Salvador tentou me consolar: “Ei, é
melhor assim. É fundo demais para os traficantes virem atrás da gente”.
Fiquei sem saber se ele realmente achava isso ou se queria me acalmar,
porém concluí que deveríamos ter pensado nisso antes.
Capítulo 4
Dois dias depois, Salvador largou a mochila, limpou o suor do rosto e
declarou: “Chegamos”.
Olhei ao redor e só vi rochas e cactos.
“É aqui?”
“Aquí mismo”, garantiu Salvador. “Aqui vive o clã Quimare.”
Não entendi o que ele queria dizer. Até onde a vista alcançava, tudo
parecia o lado escuro do planeta perdido pelo qual vagávamos havia dias.
Deixamos a picape na beira do desfiladeiro e percorremos as trilhas que
levavam até o vale. Foi um alívio voltar a pisar em terreno plano, mas aquilo
não durou muito: depois de andar rio acima na manhã seguinte, nos vimos
cercados por paredões de rochas cada vez mais próximos. Seguimos em
frente, com as mochilas na cabeça para atravessar a água que batia no peito.
O sol perdia força por causa da altura dos paredões de rocha e tínhamos de
achar nosso caminho passo a passo no escuro, com a sensação de andar no
fundo do mar.
Finalmente, Salvador viu uma abertura numa rocha e voltamos a subir,
deixando o rio para trás. Ao meio-dia, eu ansiava pela escuridão da noite,
porque o sol escaldante assava nossas cabeças e, à nossa volta, só víamos
rochas áridas. Subir as encostas era como escalar uma pista de aço
escorregadio. Finalmente, Salvador parou e eu me acomodei junto a uma
rocha para descansar.
Incrível como ele aguenta, pensei. O suor corria pelo rosto queimado de
Salvador, porém ele estava firme. Exibia apenas uma estranha expressão de
expectativa.
“¿Qué pasa?”, perguntei.
“Eles estão bem ali”, disse Salvador, apontando para uma pequena
colina.
Tive de fazer esforço para conseguir me levantar. Fui atrás dele por uma
abertura entre as rochas e, quando vi, estávamos diante de uma “porta”
escura. Na verdade, a colina era uma cabana, feita de barro, camuflada na
rocha de tal maneira que somente dava para vê-la quando se estava
literalmente em cima dela.
Olhei ao redor para observar se havia passado por outras moradias
como aquela, mas não vi nenhum sinal de gente em direção nenhuma. Os
tarahumaras preferem viver isolados, até entre os integrantes da tribo. Os
membros de uma mesma aldeia mantêm distância dos próprios vizinhos.
Abri a boca para chamar alguém, porém mudei de ideia. Tinha uma
pessoa ali, parada no meio do escuro, nos observando. Arnulfo Quimare, o
mais respeitado dos corredores tarahumaras, saiu da toca.
“Kuira-bá”, disse Salvador, usando as únicas palavras que conhecia do
idioma da tribo. “Estamos sozinhos.”
Arnulfo olhou para mim.
“Kuira-bá”, repeti.
“Kuira”, sussurrou Arnulfo, com uma voz tão suave que pare-cia um
suspiro. Estendeu as mãos para o cumprimento usado pelos tarahumaras, que
consiste em um leve contato das pontas dos dedos. Em seguida, entrou na
cabana e desapareceu. Ficamos esperando um tempão. O que estaria
acontecendo? Não se ouvia o menor ruído lá dentro, nem o mínimo sinal de
que Arnulfo iria voltar. Fui até o lado para verificar se ele havia saído por
outra parte e vi outro tarahumara tirando uma soneca, protegido pela sombra
da parede dos fundos. Nenhum sinal de Arnulfo.
“Será que ele vai voltar?”, perguntei a Salvador.
“No sé”, ele respondeu, dando de ombros. “Pode ser que ele tenha
ficado ofendido.”
“Mas já? E por quê?”
“A gente não deveria chegar desse jeito”, culpava-se Salvador.
Tomados pela animação, tínhamos desrespeitado uma regra básica da
etiqueta tarahumara. Antes de se aproximar de uma moradia da tribo, o que
se deve fazer é achar um lugar a alguns metros de distância, sentar e esperar.
Em seguida, o forasteiro deve olhar para o outro lado, como se estivesse ali
sem nenhuma intenção. Se aparecer alguém e convidá-lo para entrar na
caverna, ótimo. Se isso não acontecer, ele deve levantar e ir embora.
Ninguém chega e se dirige direto à entrada, como Salvador e eu havíamos
feito. Os tarahumaras gostam de ser vistos apenas quando querem – olhar
para eles sem essa permissão era como entrar sem cuidado e surpreender
uma pessoa no banheiro.
Felizmente, Arnulfo parecia ser do tipo disposto a desculpar. Voltou
depois de alguns instantes, com um cesto de laranjas. Explicou que
havíamos chegado em um momento ruim, porque toda a família estava se
recuperando de uma gripe. Aquele homem atrás da cabana era seu irmão
Pedro, que, de tanta febre, não conseguia se levantar. Ainda assim, Arnulfo
nos convidou para descansar.
“Assag”, disse ele. Sentem-se.
Nós nos acomodamos na primeira sombra que encontramos e
começamos a descascar as frutas. Enquanto comíamos e jogávamos as
sementes no chão, Arnulfo nos olhava em silêncio. De vez em quando, ele
virava e olhava para mim, como se me examinasse. Não perguntou quem
éramos nem o que queríamos, como se quisesse descobrir sozinho.
Tentei não ficar observando, mas é difícil manter o olhar afastado de
um homem com a aparência de Arnulfo. Ele tinha a pele morena, bonita, e
vistosos olhos escuros, que brilhavam com autoconfiança sob o cabelo preto,
cortado no estilo tigela. Eu pensei nos Beatles, em todos eles lá do começo,
envolvidos em uma divertida, sagaz e bela combinação de força pura.
Arnulfo usava uma veste típica tarahumara: uma saia longa e uma túnica
vermelha tão enfeitada como uma roupa de pirata. Sempre que ele se mexia,
os músculos da perna se moviam como metal derretido.
“Você sabe, conseguimos chegar aqui”, falou Salvador em espanhol.
Arnulfo concordou.
Por três anos seguidos, Arnulfo havia caminhado vários dias para
chegar em Guachochi e participar de uma corrida de noventa quilômetros
pelo desfiladeiro. Trata-se de uma competição anual aberta que atrai os
tarahumaras que vivem por toda a Sierra, além de alguns poucos corredores
não indígenas dispostos a testar as pernas e a sorte diante de rivais tão
capacitados. Por três anos, Arnulfo venceu a competição. Tirou o título que
pertencia a seu irmão Pedro e subiu ao pódio acompanhado de um primo,
Avelado, que ficou em segundo lugar, e do cunhado Silvino, terceiro
colocado na prova.
Silvino era um caso raro, um tarahumara que esticou o limite entre o
mundo antigo e o novo. Anos antes, um religioso cristão que comandava
uma pequena escola da tribo levou Silvino para participar de uma maratona
em algum lugar da Califórnia. Ele venceu a competição e voltou para casa
com dinheiro suficiente para comprar uma picape usada e uma calça jeans,
além de poder construir uma nova ala na escola. Deixava o carro no alto do
desfiladeiro, e lá o pegava para ir até Guachochi. Mas, apesar de ter
encontrado nas corridas uma forma certa de ganhar dinheiro, jamais voltou a
competir.
Quando se pensa no restante do planeta, os tarahumaras vivem uma
séria contradição: evitam os forasteiros, porém sentem fascínio pelo mundo
fora de suas terras. De certa maneira, faz todo sentido: quando se gosta de
correr por longas distâncias, deve ser tentador ir até o fim e ver até onde as
pernas conseguem chegar. Um tarahumara uma vez apareceu na Sibéria,
depois de entrar como clandestino em um navio e vagar pelas estepes russas
até alguém mandá-lo de volta ao México. Em 1983, uma mulher da tribo,
vestida com as tradicionais saias, foi encontrada vagando pelas ruas de uma
cidade do Kansas. Passou doze anos em uma instituição para loucos até uma
assistente social descobrir que ela falava um idioma perdido, e não frases
sem sentido.
“Você correria nos Estados Unidos?”, perguntei a Arnulfo.
Sem parar de chupar as laranjas e cuspir as sementes, ele deu de
ombros.
“Pretende correr novamente em Guachochi?”
Mais indiferença.
Agora eu entendia o que Carl Lumholtz queria dizer ao afirmar que os
tarahumaras eram tão retraídos que, se não existisse a cerveja, a tribo já
estaria extinta. “Por mais incrível que pareça, chego a acreditar que, durante
a vida cotidiana, os tarahumaras sem contato com a civilização sejam
tímidos e contidos demais para reivindicar seus direitos conjugais, e que a
etnia se mantém e aumenta porque existe o tesvino”, impressionou-se
Lumholtz. Isso significa que os homens da tribo não teriam coragem de se
aproximar das próprias mulheres se não recorressem a boas quantidades da
cerveja que produzem.
Somente mais tarde fiquei sabendo que estava metendo os pés pelas
mãos e incorria no segundo erro mais grave que poderia cometer: interrogar
um tarahumara como se fosse um policial. O silêncio de Arnulfo não
significava animosidade, mas minhas perguntas eram impertinentes. Para
essa tribo, fazer perguntas diretas é uma manifestação de força, uma forma
de buscar a posse do que está na cabeça do outro. Era claro que eles não se
abririam nem revelariam segredos a um estranho – esse era, afinal, o motivo
pelo qual a etnia tinha optado por se esconder ali. Na última vez em que os
tarahumaras se abriram para o mundo, foram colocados em correntes, e suas
cabeças, transformadas em “adorno” de postes com quase três metros de
altura. Os caçadores de prata espanhóis quiseram se apossar da terra dos
tarahumaras (e garantir o trabalho escravo) – para isso, decapitaram os
líderes.
“Os homens rarámuris eram amarrados como animais selvagens e
levados para o trabalho forçado nas minas de extração de prata”, escreveu
um estudioso. Quem resistisse estava sujeito aos maiores horrores. A tortura
para obter informação fazia parte do “tratamento” que antecipava a morte.
Isso era tudo o que os sobreviventes precisavam saber sobre o que acontece
quando forasteiros chamam à porta.
Depois disso, o relacionamento dos tarahumaras com o restante do
mundo só piorou. Caçadores do Velho Oeste recebiam cem dólares por um
crânio de apache que abatessem, e não precisaram de muito tempo para
descobrir um jeito eficiente de garantir a recompensa sem correr muitos
riscos: em vez de perseguir uma tribo que se destacava por resistir,
simplesmente passaram a massacrar os pacíficos tarahumaras e a levar suas
cabeças (o cabelo era parecido) para cobrar a fatura.
Para piorar, os mocinhos eram ainda piores do que os vilões. Os
missionários jesuítas chegaram com a Bíblia nas mãos e com vírus nos
pulmões, prometendo a vida eterna, mas promovendo a morte imediata. Sem
anticorpos naturais para combater a doença, que se disseminou como um
incêndio, aldeias inteiras desapareceram em poucos dias. Há relatos de um
caçador tarahumara que se ausentou de casa por uma semana para encontrar
presas e, ao voltar, encontrou apenas cadáveres e moscas.
Não era de espantar que a desconfiança em relação aos estrangeiros
tenha durado quatro séculos e os empurrado até ali, o último refúgio nos
confins do mundo. Outra consequência foi um vocabulário preciso para
definir as pessoas. No idioma da tribo, existem dois grupos de seres
humanos: os rarámuris, que fogem dos problemas, e o chabochis, que
causam os problemas. É uma visão dura do mundo, mas, com seis cadáveres
por semana pendurados no desfiladeiro que os cerca, é difícil tirar-lhes a
razão.
No que se referia a Arnulfo, ele havia cumprido sua obrigação social ao
oferecer laranjas. Certificou-se de que os visitantes tinham descansado e
estavam bem, então sumiu da mesma forma que a sua tribo desaparecia na
paisagem. Eu poderia ficar ali, importunando Arnulfo com todas as
perguntas que tentasse imaginar. No entanto, não conseguiria encontrá-lo.
Capítulo 5
“Sim, o certo é ficar quieto por um tempo até que eles se sintam à vontade
com a sua presença”, explicou naquela mesma noite Ángel Nava López,
professor de uma escola para crianças tarahumaras situada em Muñerachi, a
poucos quilômetros rio abaixo da casa dos Quimare. “Años y años, como o
Caballo Blanco.”
“Espere, do que você está falando?”
Ángel explicou que o Caballo Blanco era um homem magro e alto, de
pele bastante clara, que falava um idioma próprio e surgia das montanhas de
repente, correndo por uma das trilhas até o povoado. Apareceu pela primeira
vez dez anos antes, logo depois do meio-dia de um domingo muito quente.
Os tarahumaras não têm língua escrita, quanto menos registros escritos de
“visões” de criaturas estranhas, porém Ángel tinha certeza quanto a dia, ano
e detalhes do acontecimento, porque havia testemunhado a aparição.
O professor estava do lado de fora da escola, de olho nos paredões de
pedra para conferir a segurança dos alunos. As crianças passavam a semana
na escola e às sextas-feiras subiam as montanhas para voltar para suas casas.
Aos domingos, retornavam à escola. Como gostava de acompanhar a volta
dos garotos, estava sob o calor do sol naquele dia quando dois alunos
começaram a descer a montanha apavorados.
Os garotos alcançaram o rio a toda velocidade, correndo para dentro da
água como se fugissem do demônio. Ao chegarem à escola, contaram a
Ángel o que tinham acabado de ver.
Eles estavam pastoreando cabras na montanha, quando uma criatura
estranha disparou no meio das árvores. Parecia um homem, mas era o ser
humano mais alto que eles já tinham visto. Era incrivelmente branco e
magro como um cadáver, com cabelos cor de fogo saindo da cabeça. Não
vestia roupas. Para ser um cadáver nu e gigante, a criatura conseguia se
deslocar com grande velocidade, e acabou desaparecendo no meio da mata
antes que os meninos conseguissem vê-lo melhor.
Entretanto, os garotos não insistiram em olhar novamente. Saíram em
disparada em direção à aldeia, sem saber quem (ou o que) tinham acabado de
ver. Quando chegaram à escola, conseguiram recuperar a calma e normalizar
a respiração. Então descobriram do que se tratava.
“Foi o primeiro chuhuí que vi na vida”, disse um dos meninos.
“Um fantasma?”, perguntou Ángel. “Por que você acha que era um
fantasma?”
Nesse momento, vários rarámuris mais velhos se aproximaram para
saber o que havia acontecido. Os meninos repetiram a história, descreveram
a criatura esquelética, com cabelos selvagens e alta velocidade ao correr pela
trilha. Os mais velhos ouviram tudo com muita atenção. As sombras do
desfiladeiro podem causar impressões e não era de espantar que a
imaginação dos garotos lhes tivesse pregado uma peça. No entanto, os mais
velhos não podiam assustar as crianças menores com histórias desse tipo.
“Quantas pernas ele tinha?”, perguntaram.
“Duas.”
“Ele cuspiu em vocês?”
“Não.”
Bem, então o mistério estava solucionado. “Não era um fantasma”,
afirmaram os mais velhos. “Era apenas um ariwará.”
Uma alma dos mortos. Sim, isso podia ser. Os fantasmas eram espíritos
maus, que vagavam à noite e andavam sobre quatro patas, matando ovelhas e
cuspindo no rosto das pessoas. Já as almas dos mortos não faziam mal a
ninguém e estavam ali para resolver questões pendentes. Mesmo quando o
assunto era morte, os tarahumaras falavam de forma indireta. Quando
alguém morre, a alma faz uma busca para ver se encontra alguma pegada ou
algum fio de cabelo deixado pelo corpo. A técnica tarahumara para aparar os
cabelos consiste em esticar a cabeleira no tronco de uma árvore e cortar com
uma faca, para, em seguida, recolher os fios cortados. Apenas quando uma
alma morta consegue apagar todos os vestígios da passagem pela terra, ela
está apta a partir para outra vida.
“A viagem leva três dias; quatro, se for uma mulher”, explicaram os
mais velhos aos garotos. Portanto, seria natural que o ariwará parecesse um
pouco cabeludo, com aquele monte de mechas ao redor da cabeça. A pressa
também era natural, porque o espírito tinha pouco tempo para solucionar
tantas tarefas. A parte difícil de explicar era como os meninos tinham
conseguido ver o ariwará, porque, em geral, as almas tarahumaras correm
tão velozmente que tudo o que se percebe é um movimento de poeira no
meio da paisa-gem. Mesmo depois da morte, a tribo ainda constituía um
povo de grandes corredores.
“Vocês estão vivos porque seu pai consegue correr mais do que um
cervo. Seu pai está vivo porque o avô de vocês conseguia correr mais do que
um cavalo de guerra apache. E isso é o que fazemos quando estamos
recobertos de nossa sapá, nossa carne humana. Imaginem a velocidade
depois que a carne não existe mais.”
Ángel escutou, pensando se deveria sugerir outra explicação. Ele se
diferenciava dos demais moradores de Muñerachi: era mesti-ço e havia
frequentado uma escola mexicana na cidade. Ainda calçava as tradicionais
sandálias tarahumaras e usava uma faixa na cabeça, a koyera, mas, ao
contrário dos aldeões mais velhos, vestia calças compridas. Também havia
mudado por dentro e, embora ainda adorasse os deuses tarahumaras, tinha
dúvidas se aquela aparição no meio do nada era apenas um chabochi
vagando pelo mundo.
Talvez fosse algo bem diferente de um espírito perdido na trilha. Toda
criatura que chegava naquelas distâncias tinha um motivo para isso. E se
fosse um fugitivo em busca de um esconderijo, um místico procurando a
iluminação ou ainda um garimpeiro que enlouqueceu por causa do calor?
Ángel refletiu. Um chabochi solitário podia ser qualquer uma dessas
três pessoas e, ainda assim, não seria a primeira a aparecer em território
tarahumara. Existe uma lei natural (ou sobrenatural, se você preferir)
segundo a qual estranhas aparições se manifestam em lugares onde as
pessoas tendem a desaparecer. As selvas africanas, as ilhas do Pacífico, as
imensidões do Himalaia, isto é, todos os lugares em que expedições inteiras
somem – é ali que seres raros, figuras ao estilo de Stonehenge, rápidas
sombras do abominável homem das neves e até antigos soldados japoneses
costumam dar as caras.
As Barrancas del Cobre não eram diferentes e, sob certos aspectos,
eram até piores. A Sierra Madre mexicana fica no meio de uma cordilheira
que se estende quase sem interrupção do Alasca até a Patagônia. Um
aventureiro com queda por locais ermos poderia roubar um banco no
Colorado e se enfiar com segurança no desfiladeiro, atravessando uma área
de paredões desoladores e extensões desérticas, sem encontrar um único ser
humano por, pelo menos, dezesseis quilômetros.
Na condição de melhor esconderijo a céu aberto do planeta, as
barrancas criam e atraem, ao mesmo tempo, criaturas estranhas. Nos últimos
cem anos, a região abrigou todo tipo de desajustados: bandidos, místicos,
assassinos, onças-pintadas famintas, guerreiros comanches, saqueadores
apaches, caçadores malucos e até gente do bando de Pancho Villa buscaram
refúgio nas profundezas do desfiladeiro.
Até Gerônimo costumava se meter nas Barrancas del Cobre para fugir
da cavalaria norte-americana, mesma estratégia adotada por seu pupilo, o
Apache Kid, “que se deslocava como um fantasma no deserto”, de acordo
com um cronista. “Ele não seguia nenhuma lógica. Ninguém sabia onde ele
ia aparecer. Era terrível pastorear o gado ou fazer outra tarefa, sendo que
qualquer sombra ou mínimo ruído podia ser o Apache Kid se aproximando
para atacar. Um colono definiu bem: ‘Em geral, quando alguém consegue
ver o Apache Kid já é tarde demais’.”
Perseguir alguém naquele labirinto significava correr o risco de nunca
mais achar o caminho de volta. “Apreciar esta paisagem é magnífico; andar
por ela é um inferno”, definiu o capitão da cavalaria norte-americana John
Bourke, que participou de uma malsucedida perseguição a Gerônimo pelas
Barrancas del Cobre. O som da queda de uma pedrinha causava um eco
enorme, que ia ficando cada vez mais alto em vez de diminuir, até parecer
imenso. O movimento de dois galhos de zimbro bastaria para fazer todo um
destacamento de cavalaria sacar as pistolas, assustado pelas próprias
sombras (que parecem monstros na parede de pedra), enquanto procuravam
atônitos em todas as direções.
No entanto, não eram apenas os ecos sinistros e as percepções
exageradas que davam às barrancas a fama de mal-assombradas. Como um
problema poderia desencadear outro muito rápido, não era difícil acreditar
que o lugar estava protegido por algum espírito maligno com um senso de
humor bastante sádico. Depois de dias fustigados pelo sol impiedoso, os
soldados ficaram aliviados quando viram nuvens escuras no céu. Em poucos
minutos, estavam no meio de um fluxo de água com mais força que uma
mangueira de bombeiros, lutando desesperadamente para chegar nas
paredes, agora escorregadias. Foi assim que um rebelde apache chamado
Massai conseguiu ludibriar uma cavalaria inteira: “Bastou atrair os soldados
até um desfiladeiro estreito quando uma nuvem de chuva estava prestes a
cair”.
As barrancas eram tão ardilosas que, às vezes, a falta de água também
provocava mortes. O chefe apache Victorio costumava fugir das tropas
norte-americanas e atraí-las até as profundezas do cânion. Depois se
escondia. Os soldados sabiam que o fugitivo estava por ali, mas não sabiam
onde. Perdidos e castigados pelo calor, muitos preferiam uma rápida bala na
cabeça a uma lenta e cruel morte por desidratação.
Nem os dois homens mais durões da história militar norte-americana
conseguiram vencer as Barrancas del Cobre. Quando o grupo de Pancho
Villa atacava uma cidade no Novo México, em 1916, o próprio presidente
norte-americano Woodrow Wilson mandou John Joseph “Black Jack”
Pershing e George Patton caçarem os invasores nas entranhas do
desfiladeiro. Dez anos depois, a presa continuava solta. Mesmo contando
com o apoio do poderoso Exército norte-americano, Patton e Pershing foram
derrotados por 16 mil quilômetros de terras selvagens, sendo que as únicas
fontes de informação possível, os índios tarahumaras, desapareciam ao ouvir
o menor ruído. Resultado: os dois heróis militares podem ter derrotado os
alemães em duas guerras mundiais, mas se renderam às barrancas.
Com o tempo, os federales mexicanos aprenderam a adotar uma
estratégia mais prudente. Descobriram que aquilo que se caracterizava como
um inferno para um perseguidor também não era muito favorável para quem
precisasse escapar. Qualquer que fosse o destino de quem se metesse no
desfiladeiro (fome, ataque de onça, loucura ou isolamento perpétuo),
provavelmente era mais cruel que qualquer condenação prevista pela
legislação mexicana. Por isso, várias vezes os policiais mexicanos desistiam
de perseguir os fugitivos que chegavam na entrada do cânion, deixando-os à
própria sorte na “prisão” em que eles mesmos quiseram entrar.
Muitos aventureiros que se meteram nas barrancas nunca mais saíram
de lá, o que atribui à toda a região uma fama similar à do Triângulo das
Bermudas. O Apache Kid e o guerreiro apache Massai entraram na Skeleton
Pass rumo ao desfiladeiro pela última vez e nunca mais foram vistos. Em
1914, o jornalista e escritor Ambrose Bierce, autor do curioso Dicionário do
diabo, partiu para um suposto encontro com Pancho Villa e, depois de entrar
na área das barrancas, desapareceu para sempre. Imagine como seria se um
profissional como Anderson Cooper sumisse em meio a uma matéria para a
CNN – agora você tem uma ideia do esforço das buscas para resgatar Bierce,
e sem que ninguém encontrasse uma reles pista.
Será que as almas perdidas do cânion enfrentavam uma maldição
terrível ou se vingavam passando essa maldição para os outros? Ninguém
sabe. E, se no passado quem se perdesse ali estava sujeito a morrer atacado
por suçuaranas, picado por escorpiões ou por uma cobra-coral, vítima de
sede, fome, frio ou da febre do desfiladeiro, agora havia um perigo
adicional: balas de fuzis. Desde que os cartéis da droga se instalaram nas
Barrancas del Cobre, suas milícias vigiam as plantações de maconha com
telescópios poderosos o bastante para perceber o movimento de folhas à
distância.
Tudo isso fazia Ángel duvidar de que um dia encontraria a tal criatura.
Muitos fatores podiam causar a morte de um forasteiro ali. Se essa criatura
não estivesse informada sobre a conveniência de se manter bem longe das
plantações de marijuana, dificilmente teria tempo de ouvir o tiro que
arrancaria sua cabeça.
“¡Hoooolaaaaaaa, amigooooooos!”
Mas o mistério do desbravador solitário foi resolvido antes que Ángel
esperasse. Ele ainda estava protegendo a vista do sol enquanto observava as
crianças voltarem para a escola quando escutou um forte ruído e viu
rapidamente um homem nu correndo pela trilha que levava até o rio.
Ao reparar melhor, percebeu que a criatura não estava totalmente
despida. Não usava roupas, pelo menos não de acordo com as vestimentas
dos tarahumaras. Para uma tribo que faz de tudo para não ser vista, os
tarahumaras estão sempre bem ajeitados. Os homens usam um tipo de blusa
vistosa sobre uma espécie de saia, em geral branca, que se estende na parte
da frente e de trás da cintura. Prendem tudo com uma faixa colorida e usam
outra para enfeitar a cabeça. As mulheres da tribo impressionam ainda mais,
com saias de cores lindas e blusas combinando, além de colares e pulseiras
que acentuam a bela pele cor de coral. Mesmo que um visitante apareça por
lá com os trajes de caminhada mais modernos, certamente se sentirá
malvestido.
Até para o que se espera dos aventureiros que perderam o juízo
embaixo do sol, a criatura parecia bastante maltrapilha. Vestia apenas um
encardido short chabochi, umas sandálias e um velho boné de beisebol. Só
isso. Não levava mochila, roupas, nem alimentos, porque, assim que se
aproximou de Ángel, pediu água num espanhol terrível e fez gestos levando
as mãos à boca para perguntar se havia algo para comer.
“Assag”, respondeu Ángel no idioma rarámuri, sugerindo que o
forasteiro se acomodasse. Alguém tinha levado um pouco de pinole, comida
típica dos tarahumaras preparada com milho. O estranho engoliu a porção,
faminto. Enquanto devorava a comida, tentava se comunicar. Movia os
braços e mantinha a língua para fora como um cachorro ofegante.
“¿Corriendo?”, perguntou o professor.
A criatura concordou. “Todo día”, respondeu em um espanhol básico.
“¿Por qué?”, quis saber Ángel. “¿Y a dónde?”
O homem começou a fazer um longo relato, que Ángel considerou
bastante interessante como performance, porém quase incompreensível
como narrativa. Pelo que conseguiu entender, o louco solitário não era nem
maluco nem tão solitário assim, porque dizia contar com um companheiro
ainda mais misterioso, um guerreiro apache que ele chamava de Ramón
Chingón – “Ramón, o Fodão”.
“¿Y tú?”, perguntou Ángel. “Qual o seu nome?”
“Caballo Blanco”, respondeu.
“Pues, bueno”, concordou o professor, solucionando o mistério.
O “Cavalo Branco” não se demorou. Quando terminou de beber um
pouco de água e comer mais um pouco de pinole, despediu-se com um aceno
e voltou a correr pela trilha. Ele imitou os movimentos e os relinchos de um
cavalo selvagem, divertindo as crianças, que deram risadas e tentaram segui-
lo, até que ele desapareceu novamente no meio da paisagem.

“Caballo blanco es muy amable”, contou Ángel, terminando seu


depoimento. “Pero un poco raro.” Um cara legal, mas meio pirado.
“E você acha que ele ainda está por aqui?”, perguntei.
“Hombre, claro”, confirmou Ángel. “Esteve aqui ontem e ofereci a ele
uma bebida neste copo.”
Dei uma olhada em volta e não vi copo nenhum.
“O copo estava bem aí”, insistiu Ángel.
Pelo que o professor tinha conseguido descobrir, Caballo vivia numa
cabana que ele mesmo havia erguido, em algum lugar das montanhas
Batopilas. Sempre que aparecia na escola, calçava apenas um par de
sandálias, uma peça cobrindo as costas (quando a vestia) e uma bolsa com
pinole seco presa na cintura, como faziam os tarahumaras. Parecia
sobreviver da terra e depender da korima, da caridade, base da cultura dos
tarahumaras.
A korima parece um carma e funciona de forma similar, exceto pelo
que significa. É obrigação das pessoas partilharem o que têm, de maneira
instantânea e sem que isso represente uma “dívida de favor”: quando a oferta
deixa as mãos de alguém, é porque não era daquela pessoa mesmo. Os índios
tarahumaras não contam com sistema monetário e a korima equivale à forma
de “fazer negócios”, já que a economia se baseia na troca de auxílio e de
alguns caldeirões de cerveja de milho.
Caballo Blanco não parecia nem se vestia como os tarahumaras, mas,
de certo modo, era um deles. Ángel tinha ouvido falar que alguns corredores
da tribo usavam a casa de Caballo para pernoitar durante os longos trajetos
pelo desfiladeiro. O forasteiro, por outro lado, era sempre bem-vindo para
comer um prato de comida ou descansar um pouco quando aparecia na
aldeia do professor.
Ángel estendeu o braço, num movimento brusco para mostrar um lugar
– depois do rio e do alto do cânion, na direção da área que não pertencia aos
tarahumaras e da qual ninguém costumava vir.
“Ali tem uma aldeia chamada Mesa de la Yerbabuena”, falou. “Você
conhece, Salvador?”
“A-hã”, murmurou o guia.
“Você sabe o que aconteceu por lá?”
“A-hã...”, respondeu o homem, desta vez querendo dizer algo como
“claro que sim”.
“Muitos dos melhores corredores eram de Yerbabuena”, contou Ángel.
“Eles tinham uma ótima trilha, que permitia cortar longas distâncias em um
dia e chegar bem mais longe que qualquer outro caminho.”
Infelizmente, a trilha era tão boa que o governo mexicano decidiu
cobri-la de asfalto e transformá-la em estrada. Começaram a aparecer uns
caminhões em Yerbabuena, trazendo alimentos desconhecidos aos
moradores, como refrigerantes, chocolate, arroz, açúcar, manteiga e farinha.
As pessoas dali passaram a gostar de consumir amido e essas gostosuras,
mas precisavam de dinheiro para comprá-los. Pararam de cuidar de suas
lavouras e partiram para Guachochi, onde trabalhavam como lavadores de
pratos, faziam tarefas braçais ou vendiam artesanato na estação ferroviária
de Divisadero.
“Isso foi há vinte anos. Hoje, não existem mais corredores em
Yerbabuena”, concluiu Ángel.
A experiência da cidade apavorava o professor, preocupado com os
rumores de que o governo pretendia abrir uma estrada pelo vale do fundo do
desfiladeiro, que deve chegar até a sua aldeia natal. Ele não tinha a menor
ideia do motivo para a construção de uma via ali. Apenas os barões da droga
e os desmatadores usam as estradas das Barrancas del Cobre, o que torna a
obsessão das autoridades em pavimentar rodovias pelo país afora algo
totalmente sem sentido. Ou, a se pensar na relação de muitos políticos e
militares com o tráfico, talvez nem tanto.
Era esse o maior medo de Lumholtz, pensei. Um século atrás, o sagaz
explorador já alertava para os perigos da extinção dos tarahumaras.
“As futuras gerações não irão conhecer nenhum outro registro dos
tarahumaras, a não ser o que os cientistas de hoje conseguirem extrair da
boca das pessoas ou dos estudos de sua forma de vida e de seus costumes”,
previu. “Eles permanecem como uma curiosa relíquia de um tempo passado.
São representantes de uma das etapas mais importantes do desenvolvimento
da raça humana, além de uma dessas maravilhosas tri-bos primitivas que
atuaram como fundadoras e criadoras da história da humanidade.”
“Existem vários rarámuris que não respeitam nossas tradições como
Caballo Blanco respeita”, lamentou Ángel. “El Caballo sabe.”
Encostei na parede da escola de Ángel com as pernas bambas e a
cabeça latejando de fadiga. Já havia me cansado bastante até agora, porém
sentia que a caçada estava apenas começando.
Capítulo 6
“Que exercício de convencimento.”
Salvador e eu partimos cedo na manhã seguinte, apostando corrida com
o sol até as bordas do desfiladeiro. Ele seguia num ritmo firme, muitas vezes
ignorando as curvas da trilha e usando as mãos para escalar um paredão de
rocha com a determinação de um presidiário que tenta transpor os muros da
prisão. Fiz o que pude para acompanhá-lo, apesar da minha crescente
suspeita de que tínhamos sido enganados.
Quanto mais nos afastávamos da escola de Ángel, mais forte se tornava
a teoria de que a estranha história de Caballo Blanco não passava de uma
defesa contra eventuais forasteiros abelhudos interessados nos segredos dos
tarahumaras. O depoimento sobre um viajante solitário que vivia nas Sierras
Altas tinha elementos perfeitos, mas também improváveis – a notícia de que
havia um discípulo do mundo moderno absorvendo a antiga arte dos
tarahumaras era melhor do que eu poderia esperar, e parecia bom demais
para ser verdade. Caballo Blanco estava mais para mito do que para ser
humano. Começava a achar que eu havia cansado Ángel com minhas
perguntas e que ele havia inventado aquela história toda, depois apontado
para o horizonte sabendo que só perceberíamos o engodo quando
estivéssemos a quilômetros de distância.
Não era uma questão de paranoia. Não seria a primeira vez que alguém
recorria a uma inverdade para proteger a tribo de corredores. É quase certo
que Carlos Castaneda, autor de vários livros que viraram febre nos anos
1960, referia-se aos tarahumaras quando descreveu xamãs mexicanos com
incrível precisão e consistência. Entretanto, tomado por uma aparente
pontada de compaixão, o autor preferiu identificar a tribo como sendo de
índios yaquis. Talvez Castaneda tenha imaginado que, caso a publicação de
seus livros causasse uma invasão de hippies em busca de peyote, os
briguentos yaquis teriam mais condições de se defender do que os cordiais
tarahumaras.
Mas, apesar da minha desconfiança de que havíamos sido despistados,
um incidente peculiar me levou a permanecer na busca. Ángel nos
acomodou para dormir no único espaço livre do qual dispunha: uma
minúscula sala com paredes de barro que funcionava como enfermaria. Na
manhã seguinte, antes da partida, o professor nos convidou para um café da
manhã que incluía feijões e tortilhas de milho caseiras. Fazia frio e, quando
nos acomodamos na parte de fora, aquecendo as mãos no vapor das panelas,
um grupo de crianças passou por nós a caminho da sala de aula. Em vez de
deixar os garotos passarem frio em suas carteiras, Ángel preferiu aquecê-los
ao estilo tarahumara, ou seja, por meio de uma competição chamada
rarájipari, a que eu tive o privilégio de assistir.
O professor dividiu as crianças em dois times, formados por meninos e
meninas. Em seguida, trouxe duas bolas de madeira, do tamanho
aproximado de uma bola de beisebol, e as arremessou para um jogador de
cada time. Ángel ergueu seis dedos, o que significava que os garotos
deveriam fazer seis trajetos da escola até o rio, numa distância aproximada
de seis quilômetros. Os dois meninos soltaram as bolas no chão e as
capturaram com os pés, equilibrando-as sobre os dedões. Devagar, eles se
juntaram e se agacharam até ouvirem... “¡vayan!”
As bolas passavam de um pé a outro como se tivessem sido atiradas de
uma bazuca, enquanto os garotos corriam atrás delas pela trilha. As equipes
pareciam equilibradas, mas eu apostava minhas fichas no time liderado por
Marcelino, um garoto de doze anos que parecia o Tocha Humana. Sua
camisa vermelha e vistosa lembrava uma chama, e a espécie de saia que ele
usava, de cor branca, um rastro de fumaça. O garoto conseguia pegar a bola
em movimento, passando-a com habilidade de um pé a outro, enquanto
corria sem que nada atrapalhasse seu trajeto.
O ritmo de Marcelino era tão impressionante que ficava difícil até
acompanhar seu deslocamento. Seus pés se moviam com agilidade em meio
às pedras, porém a parte acima da cintura parecia não se mexer (a impressão
era de que ele estava sobre um skate). Com o queixo altivo e o cabelo escuro
saltando da testa, dava para imaginar que ele tinha saído de um pôster do
corredor norte-americano Steve Prefontaine, daqueles colados nas paredes
do quarto de todo adolescente aspirante a astro das pistas. Tive a impressão
de ter descoberto o futuro campeão norte-americano de corridas, vivendo
cinco séculos antes de nós. De tão bonito e talentoso, o garoto parecia
destinado a ter seu rosto estampado em caixas de cereais.
“Sí, de acuerdo”, disse Ángel. “É de família. O pai dele é um grande
campeão.”
Manuel Luna, pai de Marcelino, conseguia derrotar quase todo mundo
nos rarájipari que duravam a noite inteira, uma versão adulta da competição
a que eu havia acabado de assistir. Conforme Ángel explicou, os verdadeiros
rarájipari eram o coração e a alma da cultura tarahumara, e tudo o que
tornava peculiar o universo daquele povo podia ser identificado nesse
evento.
Para começar, os moradores de duas aldeias se juntavam e passavam a
noite apostando e tomando tesgüino, uma bebida preparada com milho e que
causa embriaguez. Ao amanhecer, as duas equipes se enfrentavam, cada uma
com três a oito corredores. Os participantes iam e voltavam por um trecho
determinado da trilha, levando a bola nos pés como jogadores de futebol. A
partida podia durar 24 horas, ou até 48 horas, dependendo do combinado na
noite anterior, mas os competidores não podiam perder o ritmo nem
desanimar. Com a bola saltando de lá para cá no meio de até 32 pernas
velozes, os jogadores tinham de se manter sempre hábeis conforme surgiam,
viravam e corriam em ziguezague.
“Costumamos dizer que o rarájipari é o jogo da vida”, falou Ángel.
“Nunca se sabe qual a dificuldade da partida, nem quando irá terminar. Não
dá para controlar, só é possível fazer acertos.”
E, além disso, ninguém vence uma partida sozinho. Mesmo um astro
como Manuel Luna não consegue ganhar se não tiver o apoio de sua
comunidade. Os familiares e os amigos abastecem os corredores com potes
de pinole e, quando a noite cai, acendem galhos de acate, um pinheiro rico
em seiva, para iluminar o trajeto dos competidores. Para encarar um desafio
como esse, é preciso contar com as maiores virtudes dos tarahumaras: vigor,
paciência, cooperação, dedicação e persistência. E, acima de tudo, é preciso
gostar de correr.
“Ele tem tudo para ser tão bom quanto o pai”, afirmou Ángel, olhando
para Marcelino. “Se eu deixasse, ele ficaria jogando o dia inteiro.”
Quando Marcelino chegou ao rio, fez a volta e mandou a bola para um
garoto de seis anos, que havia perdido um pé da sandália e tentava ajeitar o
cinto. Por alguns poucos momentos de glória, o pequeno de “um calçado só”
comandava a equipe e adorava tudo aquilo, prosseguindo com um pé
descalço enquanto tentava evitar que a roupa caísse. Foi quando entendi o
verdadeiro espírito do rarájipari. Por causa das trilhas sinuosas e dos trajetos
com idas e vindas, a partida não tinha fim e dava chances para todos. A bola
rolava de uma maneira que até as crianças mais lentas tinham oportunidade
de pegá-la sempre que Marcelino a tirasse de algum buraco. O próprio
ambiente do jogo permitia que todos participassem, sem que ninguém
ficasse excluído.
Meninos e meninas corriam de um lado a outro da trilha, e não
pareciam preocupados em saber quem ganharia. Não havia brigas,
exibicionismo, nem (o que era o mais incrível) nada parecido com um
treinador. Ángel e o outro professor assistiam à partida contentes e com
grande interesse, porém sem falar nada. Nem sequer havia torcida. As
crianças corriam mais quando se sentiam aptas, reduziam o ritmo quando
precisavam e paravam um pouco para descansar sob uma árvore quando se
esforçavam demais e tinham de recuperar o fôlego.
No entanto, ao contrário da maioria dos outros jogadores, Marcelino
não reduzia o ritmo nunca. Ele não se cansava: subia a trilha com a mesma
velocidade com que a descia, com as pernas se movendo em um passo curto
e hábil, que parecia bastante suave. Era alto para os padrões tarahumaras e
exibia o mesmo sorriso confiante comum no rosto de Michael Jordan quando
o jogo estava prestes a acabar. Na última trajetória de seu time, Marcelino
mirou uma grande rocha situada à esquerda, calculou a força e se posicionou
para receber de volta o próprio passe. Capturou a bola no ar e percorreu
quase cinquenta metros em poucos segundos, correndo sobre uma área tão
pedregosa quanto a beira de um rio.
Com uma machadinha, Ángel bateu em uma barra de ferro para avisar
que o jogo havia acabado. As crianças se encaminharam para a sala de aula,
os maiores levando lenha para a lareira da escola. Poucos responderam ao
nosso aceno de despedida – muitos haviam começado a ouvir palavras em
espanhol apenas quando passaram a frequentar a escola. Mas Marcelino se
aproximou e o professor contou a ele o que pretendíamos fazer.
“Que vayan bien”, desejou o menino. “Caballo Blanco es muy norawa
de mi papá.”
Norawa? Eu nunca tinha ouvido essa palavra antes.
“O que ele quer dizer?”, perguntei a Salvador. “Caballo aparece nas
histórias que o pai dele conta? É um tipo de lenda?”
“Não”, respondeu Salvador. “Norawa significa ‘amigo’.”
“Caballo Blanco é amigo do seu pai?”, indaguei.
“Sí”, Marcelino confirmou, antes de desaparecer na sala de aula. “Ele é
um cara legal.”

Muito bem, pensei mais tarde. Talvez Ángel quisesse nos afastar, mas no
Tocha Humana eu preciso confiar. O professor falou que talvez Caballo
tivesse ido para a cidade de Creel, porém era preciso seguilo rápido: se não
conseguíssemos encontrá-lo lá, não dava para saber para onde iria em
seguida. Algumas vezes, ele sumia por vários meses – e ninguém sabia para
onde ele irá ou quando voltará. Perdê-lo podia estragar nossa preciosa
chance.
E Ángel não havia mentido quanto a uma coisa, como pude descobrir
com a surpreendente força de minhas pernas: antes de começarmos nossa
longa caminhada pelo desfiladeiro, ele me deu um pote com algo que,
segundo disse, seria bastante útil.
“Você vai gostar”, garantiu.
Dei uma olhada. O pote estava cheio de um visgo pegajoso, que parecia
um pudim de arroz sem o arroz, repleto de bolhas escuras que lembravam
ovos de sapo em processo de eclosão. Se eu estivesse em qualquer outro
lugar, ia achar que era uma brincadeira de mau gosto – parecia que um
garoto havia feito limpeza em seu aquário e tentava ver se eu ia provar
aquela gororoba. Era um tipo de raiz fermentada misturada com água de rio
(o que significava que, se eu não morresse vítima do gosto daquilo, podia ser
exterminado pela ação das bactérias).
“Ótimo”, falei, olhando em volta para ver se achava um cacto no qual
jogar aquela coisa. “O que é isto?”
“Iskiate.”
O nome parecia familiar. Depois, lembrei que o ousado Lumholtz uma
vez bateu em uma casa tarahumara pedindo comida no meio de uma
expedição terrível. Estava diante da montanha que teria de escalar no dia
seguinte. Exausto e desanimado, não encontrava forças para encarar a
subida.
“Cheguei no final da tarde em uma caverna onde uma mulher preparava
essa bebida”, escreveu mais tarde o explorador. “Eu estava muito cansado e
sem saber como fazer para transpor a encosta da montanha para chegar ao
meu acampamento, cerca de seiscentos metros acima. Porém, depois de
aplacar minha fome e minha sede com um pouco de iskiate”, continuou,
“senti minhas forças voltarem e, para o meu espanto, escalei aquela altura
toda sem fazer muito esforço. Depois disso, passei a considerar a bebida uma
aliada nos momentos de dificuldade, tão fortalecedora e refrescante que
quase daria para chamá-la de descoberta.”
Red Bull feito em casa! Eu tinha de provar aquilo. “Vou deixar para
mais tarde”, expliquei a Ángel. Coloquei a bebida em um cantil com um
pouco de água que eu tinha purificado com pílulas de iodo e acrescentei
umas pílulas extras para garantir. Eu me sentia cansado, mas, ao contrário de
Lumholtz, não estava desesperado a ponto de correr o risco de sofrer de uma
diarreia crônica causada por bactérias que vivem na água.
Alguns meses depois, vim a saber que o iskiate também é chamado de
chia fresca. O preparo consiste em dissolver sementes de chia (Salvia
hispanica) em água, com um pouco de açúcar e sumo de lima. No que se
refere às propriedades nutricionais, uma colher de sopa de chia pode ser
comparada a uma vitamina preparada com salmão, espinafre e hormônios
humanos para o crescimento. Apesar de minúsculas, as sementes são ricas
em ômega 3, ômega 6, proteínas, cálcio, ferro, zinco, fibras e antioxidantes.
Se você tivesse de escolher apenas um alimento para levar a uma ilha
deserta, a melhor opção seria a chia – pelo menos se a sua preocupação fosse
fortalecer os músculos e reduzir o colesterol e os riscos de problemas
cardíacos. Depois de alguns meses de dieta à base dessa semente, talvez
conseguisse voltar para casa a nado. A chia já foi tão valorizada que os
astecas a reservavam para homenagear os deuses. Os líderes astecas
costumavam mastigar sementes quando se dirigiam ao campo de batalha, e
os índios norte-americanos hopis se abasteciam do recurso durante as épicas
corridas do Arizona até o oceano Pacífico. O estado mexicano de Chiapas
deve seu nome à semente, que já foi, ao lado do milho e do feijão, uma das
principais culturas comerciais da região. Apesar de sua condição de
supersemente, a chia é ridiculamente fácil de ser cultivada: se você quiser
mantê-la em um Cuca Verde, aqueles bonequinhos em que a planta cresce
como cabelo, está muito perto de poder preparar você mesmo a sua dose da
superbebida.
E que gosto danado tinha aquilo, conforme pude descobrir depois que
as pílulas de iodo dissolveram e eu consegui arriscar uns goles. Mesmo com
o gosto de remédio deixado pelo iodo, o iskiate desceu como um ponche de
frutas, com um agradável sabor cítrico. Talvez o entusiasmo daquela caçada
tenha contribuído também, mas, depois de alguns minutos, eu já me sentia
ótimo. Até a dor de cabeça massacrante que eu sentira a manhã inteira por
ter passado a noite sobre o chão gelado e sujo desapareceu.
Salvador continuava mantendo o ritmo intenso, caminhando até a borda
do cânion. Nós quase conseguimos, porém, quando ainda faltavam duas
horas de escalada, o sol havia sumido e o desfiladeiro mergulhado em
tamanha escuridão que tudo o que eu conseguia identificar eram vários tons
de preto. Pensamos em abrir os sacos de dormir e pernoitar ali mesmo, mas a
água e a comida haviam acabado e a temperatura caía brutalmente. Ou
podíamos tentar andar uns dois quilômetros mais, procurando captar a luz
que vinha da parte de cima do cânion para achar o caminho. Optamos por
seguir em frente – eu detestava a ideia de passar a noite numa trilha à beira
de um penhasco.
Estava tão escuro que eu precisava seguir Salvador e me orientar pelo
ruído de seus passos. Não tenho ideia de como ele conseguia achar o rumo
naquelas picadas íngremes sem cair morro abaixo. Porém, como ele havia
demonstrado que sabia se localizar quando achei que estávamos perdidos na
floresta, achei melhor ficar quieto, prestar atenção nos movimentos dele e...
Espere. Mas o que aconteceu com os ruídos dos passos dele?
“Salvador?”
Silêncio. Merda.
“Salvador!”
“¡No pases por aquí!”, avisou de algum lugar à minha frente.
“Mas qual o proble...”
“Calla.”
Eu silenciei e fiquei parado no escuro, tentando imaginar que diabos
estava acontecendo. Passaram-se alguns minutos e nenhum sinal de
Salvador. “Ele vai voltar”, eu disse para mim mesmo. “Se ele tivesse caído,
teria gritado. Eu teria ouvido algo, um barulho, alguma coisa. Mas que
droga, esse silêncio...”
“Bueno.” O som veio de algum lugar acima de mim, para a direita.
“Por aqui, mas venha devagar!” Virei lentamente para o lugar de onde vinha
a voz e me movi sem pressa. À minha esquerda, senti que o chão
simplesmente acabava. Não quero saber o quanto Salvador esteve perto de
despencar por aquele desfiladeiro.

Por volta das dez da noite, conseguimos chegar na borda do desfiladeiro,


quase rastejando embaixo de nossas mochilas, cansados até os ossos.
Totalmente esgotados. Na manhã seguinte, levantamos antes do nascer do
sol e caminhamos até o carro. Quando a luz do dia chegou, já estávamos
percorrendo a estrada acidentada e sinuosa no encalço de Caballo Blanco.
Sempre que passávamos por uma fazenda ou por uma aldeia,
parávamos para perguntar se alguém conhecia o nosso homem. Em todos os
lugares – no vilarejo de Samachique, na escola de Huisichi – ouvimos a
mesma resposta: “¡Sí, é claro!”. Ele passou por aqui na semana passada...
Há alguns dias... Ontem... Ele acabou de ir embora!
Chegamos a um pequeno ajuntamento de choupanas caindo aos
pedaços e paramos para comprar comida. “Ah, ten cuidado con ese”,
alertou-me a senhora que estava na barraca à beira da estrada, ao me entregar
com as mãos trêmulas o pacote de batatas coberto de poeira e a Coca-Cola
quente. “Ouvi dizer que Caballo era um lutador que ficou loco. Um homem
morreu e ele ficou loco. Ele consegue matá-lo só com as mãos. E...”, ela fez
questão de reforçar, só para eu não esquecer, “ele é loco.”
O último lugar em que fora visto era a antiga cidade dedicada à
extração de minérios chamada Creel, onde uma vendedora de tacos disse tê-
lo visto pela manhã, andando nos trilhos de trem rumo à saída da cidade.
Seguimos os trilhos até o fim da linha, perguntando o tempo todo, até chegar
na última construção que havia ali: o hotel Casa Pérez. Eu fiquei nervoso e
assustado quando soube que Caballo Blanco deveria estar bem ali naquele
momento.
Talvez tenha sido bom ter caído de sono no sofá. Pelo menos eu
permaneceria escondido na sombra e conseguiria ver bem o aventureiro
solitário – antes que ele me visse e voltasse a sumir no meio do nada.
Capítulo 7
Felizmente, eu estava mais perto da porta que ele.
“Ei, você conhece Ángel?”, perguntei, enquanto me posicionava entre
Caballo Blanco e a única saída do hotel. “O professor da escola dos
tarahumaras? E Esidro, de Huisichi? E Luna, Miguel Luna?...” Continuei
disparando nomes, na esperança de que ele reconhecesse algum deles antes
de escorregar junto à parede e fugir para as colinas atrás do hotel. “Ah, é
Manuel, e não Miguel Luna. É Manuel. O filho dele disse que vocês são
amigos. Marcelino? Você conhece Marcelino?”
Quanto mais eu falava, mais ele fechava a cara – até o olhar parecer
realmente ameaçador. Preferi me calar. Essa lição eu havia aprendido quando
meti os pés pelas mãos na casa dos Quimare: talvez ele se acalmasse se eu
ficasse quieto e permitisse que ele fizesse uma avaliação por conta própria.
Permaneci em silêncio enquanto ele espiava, com desconfiança e certo
desprezo, por baixo da aba de seu chapéu de palha ao estilo campesino.
“Sim”, resmungou. “Manuel é meu amigo. E você, quem é?”
Como eu não tinha ideia do que o tornava tão arisco, achei melhor
explicar primeiro quem eu não era. Deixei claro que não era um policial
nem um agente do serviço norte-americano de combate às drogas. Eu era
apenas um escritor e corredor contundido que queria aprender os segredos
dos tarahumaras. Se ele era um fugitivo, eu não tinha nada com isso e, de
toda forma, ele era digno de credibilidade: qualquer um que conseguisse
driblar a lei por tantos anos sem usar nenhum veículo de fuga, a não ser as
próprias pernas, merecia ser reconhecido como um potencial rarámuri. Eu
seria bem capaz de deixar de lado as minhas obrigações com a Justiça pelo
tempo necessário para ouvir o relato dessa vida de aventuras.
A expressão do rosto de Caballo não suavizou, mas pelo menos ele não
tentou fugir. Só depois eu descobri que havia contado com uma sorte
extraordinária e conseguido encontrar com ele em um momento raro de sua
peculiar existência. De certa maneira, Caballo Blanco também estava à
minha procura.
“Está bem”, falou. “Mas eu preciso comer algo.”
Saí com ele do hotel e fomos até uma viela empoeirada, onde entramos
por uma porta pequena, sem placa nenhuma. Passamos por cima de um
garoto que brincava com um gatinho na soleira até chegar a uma minúscula
sala. Uma senhora, que estava perto do antigo fogão a gás no cômodo ao
lado, olhou para nós. Ela preparava um cheiroso prato de feijão.
“Hola, Caballo”, saudou-o a senhora.
“¿Cómo estás, Mamá?”, perguntou Caballo. Nós nos acomodamos em
uma mesa de madeira que ficava na sala. Ele me contou que tinha “mamás”
por toda a região do desfiladeiro, velhas senhoras sempre prontas a lhe servir
feijões e tortilhas por apenas alguns centavos durante suas idas e vindas sem
rumo.
Apesar da tranquilidade de Mamá, pude entender por que os
tarahumaras ficaram assustados quando viram Caballo em suas terras pela
primeira vez. A incrível prova de sobrevivência debaixo do sol forte acabou
dando àquele homem um aspecto meio selvagem. Com mais de 1,80 m de
altura, tinha uma pele naturalmente clara, mas desgastada a ponto de
apresentar tonalidades que varia-vam do rosa na ponta do nariz a quase
castanho na região do pescoço. Era tão longilíneo e musculoso que lembrava
o endoesqueleto de um animal mais robusto – algo como se o Exterminador
do Futuro tivesse acabado de sair de um caldeirão de ácido.
A luz intensa dos ambientes a céu aberto havia deixado nele um olhar
semicerrado permanente, o que dava a impressão de que seu rosto só exibia
duas expressões: desconfiança ou aprovação. Não importa o que eu falasse o
resto da noite, não tinha como saber se ele estava achando a coisa mais
engraçada do mundo ou a maior besteira que tinha ouvido na vida. Quando
Caballo voltava a atenção para alguém, olhava de forma direta. Ouvia com a
atenção de um caçador procurando a presa e parecia extrair tantas
informações do tom da voz quanto do significado das palavras. No entanto,
por incrível que pareça, tinha uma fala dominada pelo sotaque – depois de
mais de uma década no México, seu espanhol era tão ruim que se
assemelhava ao som produzido por aparelhos eletrônicos.
“O que me assustou”, começou a falar, porém logo parou, com um
olhar faminto, assim que Mamá acomodou o prato à nossa frente e o cobriu
com jalapeños, coentro picado e gotas de limão.
O olhar ameaçador que me lançou no hotel não foi porque eu impedia a
passagem, mas porque havia me colocado entre ele e a sua comida. Caballo
Blanco tinha saído pela manhã para ir até uma piscina natural de águas
termais situada na floresta. No entanto, quando avistou uma trilha que não
conhecia, quase apagada entre as árvores, desistiu do plano original e dos
banhos quentes. Seguiu pelo caminho e correu por várias horas. Chegou a
uma montanha e, em vez de dar meia-volta, resolveu escalá-la, subindo mais
de novecentos metros (o equivalente a subir e descer o Empire State
Building duas vezes). Aí encontrou uma trilha que levava de volta a Creel.
Então, o que deveria ser um passeio de relaxamento tornou-se uma incrível
maratona. Quando o encontrei no hotel, Caballo estava sem comer nada
desde o amanhecer e parecia prestes a delirar de fome.
“Estou sempre me perdendo e tendo de enfrentar uma escalada com
uma garrafa de água entre os dentes e os falcões voando sobre a minha
cabeça”, explicou. “É uma coisa linda.” Uma das primeiras e mais
importantes lições que ele havia aprendido com os tarahumaras foi a
capacidade de sair correndo a qualquer momento, como fazem os lobos
quando percebem a proximidade de uma lebre. Para Caballo, correr se
tornou a principal forma de locomoção, como o carro para quem vive nas
cidades. Para qualquer lugar que quisesse ir, ele partia correndo, seguindo o
exemplo dos caçadores do período neolítico: sem carregar montes de
equipamentos nem se preocupar com a hora de chegar ou a distância a ser
percorrida.
“Veja”, ele falou, apontando para o velho short de corrida e o par de
sandálias Teva, prontas para irem para o lixo. “É isso o que eu visto, o tempo
todo.”
Fez uma pausa para levar à boca umas colheradas de feijão apimentado,
regadas a longos e apreciados goles de cerveja Tecate. Caballo devorou o
que havia no prato, e Mamá colocou mais comida tão rapidamente que ele
nem precisou descansar o talher. O movimento das mãos que ele fazia do
prato até a boca e a garrafa de cerveja era tão eficiente e coordenado que não
parecia o final de um dia de esforço, mas o começo de uma nova etapa. Os
sons que chegavam ao outro lado da mesa pareciam saídos de um carro:
hum, nhom, gop, hum, nhom...
De vez em quando, ele erguia a cabeça e começava a contar algo,
depois se concentrava de novo no prato de comida. “É, eu já fui um lutador,
o quinto melhor do mundo.” Sua atenção voltava para as colheradas. “O que
me assustou foi que você começou a falar comigo depois de sair não sei de
onde. Aqui acontecem sequestros e mortes, problemas causados pela droga.
Um sujeito foi sequestrado, a mulher pagou a maior grana e o mataram do
mesmo jeito. Muito ruim. Eu não tenho nada, isso é bom. Sou apenas um
índio gringo, correndo com humildade ao lado dos rarámuris.”
“Desculpe-me”, falei, mas ele já tinha voltado a atenção para os feijões.
Eu não queria incomodá-lo com perguntas logo de cara, porém ouvi-lo
falar era como assistir a um filme “cabeça” sem uma sequência lógica:
cenas, fantasias, piadas, lembranças, tramas, envolvidos nas tramas,
fragmentos soltos de uma sabedoria antiga – tudo ia surgindo como
pinceladas e numa velocidade difícil de juntar os pedaços. Ele começava um
relato, passava para outra história, ia para um terceiro assunto, voltava ao
que estava falando antes e corrigia um detalhe do primeiro caso. Depois se
desculpava pela con-versa entrecortada, mas, sabe como é, tinha passado a
vida tentando controlar a raiva... Só que isso já era outra história.
Contou que seu nome verdadeiro era Micah True e havia nascido no
Colorado. Bem, na Califórnia, para falar a verdade. E, se eu realmente
quisesse entender os rarámuris, deveria ter visto quando um homem de 95
anos correu quarenta quilômetros pela montanha. Sabe por que ele
conseguiu fazer isso? Porque ninguém disse a ele que não conseguiria.
Ninguém nunca disse que seu destino era morrer de velho em algum asilo.
As pessoas vivem de acordo com suas expectativas. Como o que aconteceu
quando ele próprio adotou o nome de seu cão. Esta era a origem de seu
sobrenome: True era como se chamava um cachorro que tivera. Ele nem
sempre esteve à altura do grande True, mas isso também era outra história.
Esperei, arrancando com as unhas o rótulo da minha garrafa de cerveja
e me perguntando se ele já havia se acalmado o bastante para que eu
conseguisse entender do que estava falando. Aos poucos, o ritmo de chegada
das colheradas à boca diminuiu, até que parou totalmente. Ele tomou a
segunda garrafa de Tecate e se ajeitou na cadeira, satisfeito.
“¡Guadajuko!”, falou com uma expressão contente. “Essa é uma boa
palavra para aprender. Significa ‘muito bom’ em rarámuri.”
Passei a ele a terceira cerveja e ele me encarou com aquele olhar
desconfiado e curtido pelo sol. “Não sei, cara, sem comer o dia todo... Não
tenho a resistência dos rarámuris”, explicou.
Porém ele aceitou a oferta: encheu o copo e bebeu um demorado e
barulhento gole. Então se acomodou na cadeira, esticando as pernas para a
frente e passando os dedos sobre a barriga lisa. Algo havia mudado dentro
dele, eu havia percebido antes que ele pronunciasse uma palavra. Talvez ele
precisasse desses últimos goles de cerveja para relaxar ou tinha a
necessidade de explodir primeiro antes de ficar à vontade e passar a contar a
sua trajetória.
Quando Caballo começou o seu relato, fiquei fascinado. Ele falou noite
adentro, contando uma divertida história sobre os dez anos que se passaram
desde que ele sumiu do mundo civilizado, com personagens engraçados,
aventuras ousadas e lutas violentas. Ao final, tinha um plano, um plano
bastante audacioso.
E, como eu percebi aos poucos, aquele plano começava a me envolver.
Capítulo 8
Para entender o que Caballo dizia, era preciso voltar no tempo, ao início da
década de 1990, quando o aventureiro e fotógrafo Rick Fisher, nascido no
Arizona, fez uma pergunta óbvia: se os tarahumaras eram os corredores mais
resistentes do mundo, por que não participavam das principais competições?
Talvez estivesse na hora de eles conhecerem o Pescador.
Era tiro certo, acreditava Fisher. Um pouco de atenção para aquelas
corridas e ele viria a se tornar o caçador de crocodilos das tribos perdidas.
Resultado: os tarahumaras ganhariam um relações-públicas de primeira e
ainda virariam os queridinhos da mídia. Tudo bem que essa etnia reúne os
indivíduos mais tímidos do planeta, e eles dedicaram os últimos séculos a
fugir de qualquer contato com o público, mas...
Bem, Fisher iria pensar nisso tudo depois, porque tinha problemas
suficientes para solucionar em um primeiro momento. Ele não entendia nada
de corridas, por exemplo, nem falava uma palavra em espanhol (quanto mais
no idioma rarámuri). Não tinha a menor ideia de onde encontrar os
corredores tarahumaras nem o mínimo plano de como convencê-los a
abandonar a segurança de suas cavernas e acompanhar os “demônios
barbados” para a civilização. E esses eram apenas ínfimos detalhes: se ele
porventura conseguisse formar um time de supercorredores, como faria para
tirar os tarahumaras do desfiladeiro e levá-los aos Estados Unidos sem
carros e passaportes?
Felizmente, Fisher podia contar com alguns talentos. O primeiro da lista
era uma espécie de “gps natural”: ele era como um desses gatos que acham a
casa dos donos em Wichita, no Kansas, depois de se perder da família em
férias no Alasca. Talvez não exista habilidade como a dele igual no planeta,
e o pior é que tudo parecia mesmo um raro instinto natural. Sem nunca ter
visto nada mais profundo do que um fosso antes de deixar o Meio-Oeste
norte-americano para ir à Universidade do Arizona, bastou chegar ali para
começar a explorar lugares em que ninguém queria pisar. Ainda era
estudante quando se embrenhou na labiríntica cadeia montanhosa de
Mogollon, no Arizona, e isso logo depois da morte do líder da organização
ambiental Sierra Club de Phoenix, vítima das inundações súbitas que
costumam ocorrer no lugar. Fisher, sem nenhuma experiência nessas
expedições e munido de equipamentos pouco melhores do que usados por
escoteiros, conseguiu sobreviver e ainda voltar com fotos magníficas de uma
região repleta de maravilhas.
Até Jon Krakauer, aventureiro reconhecido e autor do livro No ar
rarefeito, ficou impressionado. “Rick Fisher pode seguramente se declarar o
maior conhecedor dos desfiladeiros de Mogollon e dos muitos segredos que
existem ali”, sentenciou Krakauer quando o explorador e fotógrafo
começava sua carreira, depois de acompanhá-lo até um “encantador buraco
do mundo, diferente de tudo o que havia visto” – um universo ao estilo Willy
Wonka, com piscinas de águas verdes e torres de cristal rosado, entremeadas
por quedas d’água subterrâneas.
E as habilidades de Fisher continuavam: quando se trata de chamar a
atenção e convencer as pessoas a fazer coisas realmente incomuns, ele era do
tipo capaz de conseguir que um apresenta-dor de programas religiosos
ficasse com vergonha (bem, se isso fosse possível).
Um exemplo é o caso clássico que Krakauer conta sobre um rafting que
Fisher fez em meados da década de 1980 pelas Barrancas del Cobre. Sem
saber para onde estava indo, sua intenção era “percorrer de caiaque um
trecho equivalente a uma grande exploração no Himalaia”. Conseguiu
convencer dois amigos (um rapaz e sua namorada) a acompanhá-lo na
aventura. Tudo ia muito bem até que Fisher chegou sem querer numa região
de plantio de maconha, o que ele percebeu somente quando um dos guardas
apontou uma arma. Mas isso não o apavorou. Sem hesitar, o aventureiro
mostrou-lhe um maço de recortes de jornal com matérias que falavam dele,
papelada que costumava levar para todo canto (mesmo quando enfrentava
corredeiras por áreas perigosas do México, onde ninguém entendia sequer
uma palavra em inglês). Olha só! Você não vai querer arranjar problemas
comigo, né? Sou, bem... Como dizer? Um cara famoso! Muy importante!
O espantado sentinela os deixou passar, e logo Fisher e seus amigos
estavam em outra região controlada pelo tráfico. Mas, dessa vez, a coisa
realmente esquentou. O trio foi cercado por um bando de embriagados, que,
enfiados no meio do nada e sem nenhuma mulher por perto, estavam
perigosamente agressivos. Um deles agarrou a namorada do amigo, que, ao
tentar defendê-la, sentiu o cano de revólver apontado contra o peito. Aquilo
foi o bastante para Fisher. Ele não recorreu à coleção de artigos de jornal –
em vez disso, ficou furioso. “Você são muy malos hombres!”, gritava em seu
espanhol capenga, num acesso de raiva. Segundo Krakauer, o explorador
continuou berrando, até que os homens do tráfico resolveram dar meia-volta
e sair dali. Fisher tinha acabado de enfrentar a sua própria sentença de morte
e, naturalmente, deu um jeito de que o acontecimento chegasse aos ouvidos
do jornalista Jon Krakauer.
Não há dúvida de que Fisher adorava a própria ousadia, e ele sempre
arrumava uma maneira de testá-la. Enquanto a maioria dos aventureiros em
atividade na década de 1980 olhava para o alto, competindo com Reinhold
Messner para ver quem conseguia escalar os catorze maiores picos do
Himalaia, Rick Fisher estava de olho em lugares mais exóticos, situados
abaixo do nível dos pés. Com base em anotações feitas por Frederick Bailey,
um agente secreto britânico que na década de 1930 deu de cara com um vale
desconhecido no Tibete enquanto procurava grupos rebeldes na Ásia, Fisher
ajudou a identificar as faladas cataratas de Kintup, uma imensa queda d’água
que protege a entrada do maior desfiladeiro do planeta. Dali, ele seguiu
desbravando mundos perdidos nos cinco continentes, passando por regiões
de guerra ou controladas por milícias, em lugares como Bósnia, Etiópia,
Namíbia, Bolívia e China.
Agentes secretos, armas em riste, reinos pré-históricos... Até Ernest
Hemingway ficaria calado e ouviria com reverência caso se encontrasse com
Fisher. No entanto, não importa por onde andasse, o explorador voltava
sempre à origem de sua maior paixão: as sedutoras Barrancas del Cobre,
logo ali ao lado.
Em uma das viagens ao cânion, Fisher e sua namorada, Kitty Williams,
conheceram Patrocinio López, um jovem tarahumara que havia estado no
mundo moderno até que uma nova estrada o levou de volta a sua terra natal.
Patrocinio era bonito e tinha talento para a música: tocava muito bem a
chabareke, instrumento tarahumara de duas cordas, e era tão hábil no contato
com os homens brancos que o Departamento de Turismo do Estado de
Chihuahua o contratou para trabalhar na Copper Canyon Express, uma linha
de trens retrôs que fazia paradas barulhentas em pontos do desfiladeiro e na
qual os turistas, acomodados em vagões com ar-condicionado e atendidos
por garçons engravatados, podiam apreciar de longe as belezas selvagens da
região. O trabalho de Patrocinio con-sistia em posar para fotos com um
violino que ele mesmo havia feito (técnica herdada da época em que a tribo
foi escravizada pelos espanhóis) e dar a impressão de que a vida dos
distantes tarahumaras podia ser resumida a uma combinação de gente
contente e som de cordas.
Rick e Kitty pediram a Patrocinio que os levasse a uma partida de
rarájipari, o antigo jogo tarahumara. O rapaz respondeu que poderia fazer
isso e, demonstrando que havia aprendido como as coisas funcionam no
mundo dos homens brancos, completou: “Se vocês pagarem”. A proposta era
simples: ele apresentaria Rick e Kitty aos jogadores, e os visitantes
ofereceriam alimentos para toda a sua aldeia.
Negócio fechado. A dupla entregou a comida e Patrocinio mostrou a ela
uma bela partida. Quando chegaram na aldeia, não encontraram a agitação
pré-jogo à sua espera, e sim 34 tarahumaras de sandálias e com as habituais
saias, recebendo massagens preparatórias e sorvendo os últimos goles de
iskiate. Ao sinal dos aldeões mais velhos, os competidores dispararam,
correndo pela trilha íngreme e dando início a uma corrida que duraria do
amanhecer ao cair da noite. Passaram por Rick e Kitty com a velocidade e
precisão quase telepática que se observa em aves migratórias.
Puxa, isso é que é corrida! Kitty, hábil corredora, ficou impressionada.
Ela havia crescido vendo o pai, Ed Williams, destacar-se como ousado
corredor nas montanhas, apesar de morar nas planícies do Mississippi. Uma
das provas da dedicação de Ed era o fato de que, de todas as competições do
mundo, sua favorita era uma das mais assustadoras: a famosa Leadville Trail
100, uma ultramaratona de cem milhas, que corresponde a mais de 160
quilômetros, realizada no Colorado. O pai de Kitty havia terminado o
percurso doze vezes e, aos setenta anos de idade, ainda participava da prova.
Na cabeça de Rick, ele estava diante de um magnífico casamento:
Patrocinio podia lhe apresentar os corredores, enquanto o futuro sogro faria
os contatos no mundo das corridas. Tudo o que ele teria de fazer seria
arrumar alguns artigos de doação para convencer os tarahumaras, talvez
conseguir que um fabricante de tênis colaborasse com algo melhor do que
aquelas sandálias, e...
Fisher planejou tudo, sem imaginar que o resultado seria um tremendo
fracasso.
Capítulo 9
“Faça amigos na dor e você nunca estará sozinho.”
Ken Chlouber, minerador do Colorado e criador da prova Leadville Trail 100

O grande furo no plano de Rick Fisher era o fato de que a corrida de


Leadville é realizada... na cidade de mesmo nome.
Situada em um vale das Montanhas Rochosas no Colorado, Leadville é
a cidade de maior altitude nos Estados Unidos e, em vários dias, a mais fria
(no inverno, o corpo de bombeiros não podia acionar a sirene dos carros,
com medo de que ela quebrasse). Bastava encarar aqueles picos para que os
colonizadores da região tremessem sob seus chapéus, feitos de pele de
guaxinim. “Ali, diante de seus olhos incrédulos, erguia-se o mais incrível e
inacessível fenômeno geológico que tinham visto até então”, relatou
Christian Buys, historiador da região. “Talvez eles estivessem em outro
planeta. Tratava-se de algo distante e ameaçador para todos, menos para os
realmente ousados.”
É claro que as coisas melhoraram muito dessa época para cá, e hoje os
bombeiros usam a buzina. No que se refere ao resto, bem... “Leadville é uma
cidade que reúne mineradores, pessoas bem rudes e alguns maus-caracteres”,
apresenta Ken Chlouber, ele também um ex-minerador, ex-domador de
cavalos e ex-adepto das motos Harley-Davidson quando criou a Leadville
Trail 100, em 1982. “Quem vive a 3 mil metros de altura é feito de um
material bem mais resistente.”
Mesmo sem duvidar da resistência humana, o principal médico de
Leadville ficou furioso ao saber das intenções de Ken. “Você não pode fazer
as pessoas correrem a uma altitude dessas!”, alertou o doutor Robert
Woodward. O médico estava tão alterado que ousou erguer o dedo diante do
rosto de Ken, o que era, no mínimo, uma atitude arriscada. Quem vê Ken,
com suas botas tamanho 46 com ponteira de aço e aquela carranca tão áspera
quanto as rochas que teve de golpear para ganhar a vida, percebe logo que
ninguém ergue a voz para ele, a não ser que esteja bastante bêbado ou
falando muito sério. Todavia, o doutor Woodward estava sóbrio.
“Você vai matar os malucos que comprarem essa ideia!”
“Besteira!”, garantiu Ken. “E talvez, se alguém morrer, nossa cidade
volte a aparecer no mapa.”
Pouco antes da discussão entre o médico e o ex-minerador naquele frio
outono de 1982, a mina de molibdênio situada em Climax, perto de
Leadville, tinha sido fechada, o que representou o fim da atividade
econômica da cidade. O molibdênio, mineral presente na composição do
aço, é usado na construção de navios e tanques de guerra. Mas, com o final
da Guerra Fria, a demanda do material despencou. Quase da noite para o dia,
Leadville deixou de ser uma cidade animada, com uma antiga sorveteria na
rua principal, para se transformar no núcleo de desempregados mais
desolador dos Estados Unidos. Em cada dez trabalhadores do município, oito
dependiam da mina de molibdênio de Climax, e os dois restantes dependiam
desses oito mineradores. No passado dona da maior renda per capita do
Colorado, Leadville se tornou candidata ao título de uma das cidades mais
pobres do estado.
Quando parecia que nada tornaria a situação pior, as coisas se
complicaram ainda mais. Muitos moradores da cidade de Ken passaram a
beber demais e a agredir suas mulheres, entraram em depressão ou foram
morar em outro lugar. Uma espécie de psicose coletiva envolvia o lugar, um
estágio inicial de morte cívica: primeiro, perdiam o ganha-pão; em seguida,
depois das lutas de faca, prisões e notificações de execução de dívidas,
abandonavam também o entusiasmo.
“As pessoas arrumavam as coisas e iam embora aos montes”, lembra o
doutor John Perna, responsável pelo atendimento de emergência de
Leadville. O pronto-socorro tinha tanto movimento quanto uma enfermaria
de guerra, porém as causas eram novas: em vez de tratar de estiramentos nos
tornozelos e fraturas nos dedos, o doutor Perna agora amputava dedos de
mineradores que bebiam até cair no meio da neve e chamava a polícia para
socorrer mulheres que apareciam no meio da noite com o rosto inchado e
crianças apavoradas.
“Estávamos entrando num desânimo mortal e assistindo à desintegração
da cidade”, explicou o doutor Perna. Tantos trabalhadores das minas já
tinham partido que os moradores que permaneceram não conseguiriam
encher as arquibancadas de um estádio.
A única esperança de Leadville era o turismo, que não parecia nada
promissor. Quem seria maluco a ponto de passar férias num lugar com
temperaturas congelantes durante quase o ano todo, sem declives adequados
para esquiar e com ar tão rarefeito que até respirar era uma prova para o
coração? E os arredores eram tão inóspitos que o batalhão de elite da 10ª
Divisão de Montanhas se acomodava ali para treinar técnicas de combate em
altitudes elevadas.
Como se não bastasse, a fama de Leadville assustava tanto quanto a sua
geografia. Durante décadas, ostentou o título de cidade mais violenta do
Velho Oeste – ou, como definiu um cronista, “uma armadilha mortal, um
lugar que parecia se orgulhar da própria corrupção”. Doc Holliday, o dentista
bom de pôquer que virou pistoleiro, costumava frequentar os salões de
Leadville com seu amigo, o lendário xerife Wyatt Earp (a dupla participou
de um dos principais acontecimentos do Velho Oeste, o duelo do Curral
O.K.). Jesse James também aparecia, atraído pelos carregamentos de ouro e
pelos excelentes esconderijos nas montanhas. Já na década de 1940, os
destacamentos da 10ª Divisão de Montanha foram proibidos de colocar os
pés na área central da cidade: podiam ser durões na luta contra os nazistas,
mas não para encarar os violentos donos das casas de jogos e de prostituição
que tomavam conta da State Street.
Sim, Leadville era um lugar duro, e Ken sabia disso. Ali viviam caras
durões, mulheres mais duronas ainda... Ei, espere! Era isso!
Se tudo o que Leadville tinha para oferecer era “dureza”, então por que
não apostar nisso? Ken tinha ouvido falar de um cara na Califórnia, um
cabeludo chamado Gordy Ainsleigh, dono de uma égua que se feriu pouco
antes de uma importante corrida, a Western States Trail Ride. Gordy
resolveu competir mesmo assim: apresentou-se na linha de largada calçando
tênis e partiu a pé para o trajeto de cem milhas, cerca de 160 quilômetros,
pela Sierra Nevada. Precisou atravessar riachos, teve sua saúde monitorada
por veterinários nas paradas da prova e terminou o percurso antes das 24
horas previstas para os cavalos. Claro que Gordy não era o único maluco da
Califórnia e, no ano seguinte, outro corredor resolveu participar também sem
cavalo, e mais outro no ano seguinte... Em 1977, os animais foram excluídos
da prova e a Western States se tornou a primeira corrida do mundo com cem
milhas de extensão.
Ken nunca havia participado de uma maratona. Mas, se uns hippies da
Califórnia conseguiam correr 160 quilômetros, por que ele não? Além disso,
uma corrida convencional não resolveria o problema da cidade: se Leadville
quisesse sobreviver, precisava de um evento realmente desafiador, com algo
que o diferenciasse do amplo calendário de corridas iguais e previsíveis.
Assim, em vez de uma prova, Ken havia criado um monstro.
Para ter uma ideia da proposta, tente correr a Maratona de Boston duas
vezes seguidas, mas com uma meia na boca, e depois escalar até o alto do
Pikes Peak. Conseguiu? Ótimo. Agora repita a façanha, porém com os olhos
vendados. Essa experiência dá uma amostra do que seria a Leadville Trail
100: o equivalente a quase quatro maratonas, metade do trajeto feito no
escuro, com duas subidas de quase oitenta metros no meio do caminho. A
linha de largada fica duas vezes acima da altitude na qual os aviões
pressurizam as cabines, e dali em diante é só subida.
“O hospital hoje ganha bastante dinheiro graças a nós”, con-firma Ken
Chlouber contente, 25 anos depois da primeira corrida e de seu
desentendimento com o doutor Woodward. “É o único final de semana no
qual todas as camas dos hotéis e os leitos das enfermarias lotam ao mesmo
tempo.”
Ken sabe o que diz, já que participou de todas as provas de Leadville –
mesmo depois de ficar internado por hipotermia na primeira tentativa. Não
raro, os participantes apresentam esgotamento, fratura nos tornozelos,
queimadura, arritmia cardíaca ou algum distúrbio provocado pela altitude.
Felizmente, até hoje ninguém morreu, provavelmente porque os
corredores se rendem antes do colapso. Mesmo Dean Karnazes, atleta
conhecido como “o homem da ultramaratona”, não conseguiu terminar a
competição nas duas vezes em que tentou. Depois de vê-lo desistir, a
população de Leadville o apelidou de Ofer (“O fer one, O fer two...”, uma
expressão que, em inglês, designa tentativas malsucedidas de se atingir um
objetivo).
Todos os anos, menos da metade dos concorrentes consegue botar o pé
na linha de chegada.
Como se pode imaginar, uma competição com mais gente na partida do
que na chegada tende a atrair um tipo raro de corredores. Durante cinco
anos, o campeão da prova foi Steve Peterson, integrante do Clube de Corrida
Loucura Divina (Divine Madness), seita originária no Colorado que prega a
busca do nirvana por meio do amor livre, de provas extremas de atletismo e
da dedicada limpeza da casa. Outra lenda de Leadville é Marshall Ulrich,
gentil magnata do setor de alimentos para cães que anima suas corridas
extraindo primeiro as unhas dos pés por meio de cirurgias. “Elas acabam
caindo mesmo”, garante.
Quando Ken se encontrou com Aron Ralston, alpinista que amputou a
mão com um canivete depois que o seu braço ficou preso no meio de rochas,
fez a ele uma oferta inusitada: se Aron quisesse participar da corrida de
Leadville, não precisaria pagar a inscrição. O convite intrigou a todos, já que
os campeões da prova precisavam pagar, o grande Ed Williams também, e
até o próprio Ken. Por que Aron estava isento da taxa?
“Porque ele representa o espírito de Leadville”, explicou Ken. “Temos
uma crença aqui: acreditamos que somos mais resistentes do que pensamos e
podemos fazer mais do que achamos possível. Um cara como Aron mostra
do que somos capazes em situações de limite.”
Talvez alguém achasse que o pobre Aron já havia sofrido o suficiente,
mas, pouco mais de um ano depois do incidente, ele aceitou a oferta de Ken.
Com uma prótese instalada no lugar do antebraço, Aron conseguiu terminar
o percurso antes das trinta horas. Também definiu com precisão (mais do
que o próprio Ken) o que realmente conta em Leadville: não é preciso ser o
mais rápido, e sim o mais durão.
Capítulo 10
Perfeito! Leadville era exatamente o tipo de lugar estranho e com gostinho
de “matar ou morrer” que Rick estava procurando. Como sempre, sua
intenção era criar um grande evento, e um ambiente como Leadville era
apenas o começo. Você acha que ele não pen-sou nos jornalistas da espn
aparecendo por lá, para cobrir a maratona de belos competidores vestidos de
saias esmagando os recordes? Mas claro que pensou.
Em agosto de 1992, Fisher voltou à aldeia de Patrocinio a bordo de sua
velha e grande Chevy Suburban. Levava as autorizações do Departamento
de Turismo Mexicano e prometeu pagar os participantes com milho.
Patrocinio havia convencido cinco corredores da aldeia a confiarem no
forasteiro, aquele chabochi animado que tinha um nome de pronúncia
impossível para os índios. O idioma espanhol não tem o som “ch”, e Fisher
sentiu o gosto do humor nativo quando passou a ser chamado de Pescador –
em inglês, fisherman. Além de mais fácil de pronunciar, também era uma
referência a seu complexo de Ahab, com a imensa ânsia de “fisgar” uma
presa capaz de promovê-lo pela façanha.
Mas aquilo não tinha importância. No que se referia a Fisher, poderiam
até chamá-lo de Doutor Maluco que tudo bem, desde que se dedicassem a
fazer o melhor quando a corrida começasse. O Pescador colocou a equipe na
Chevy e rumou para o Colorado.
Em Leadville, pouco antes das quatro da manhã do dia da competição,
as pessoas que estavam perto da linha de largada tentaram não ficar
encarando os cinco concorrentes vestidos de saias e enfiados em tênis de
basquete de lona preta, itens nada familiares que o Pescador havia arrumado
para cada um. Os tarahumaras deram as últimas tragadas num cigarro de
tabaco escuro e seguiram timidamente para o fundo enquanto os outros 290
megacorredores contavam: “Três... Dois...”.
bum! O prefeito de Leadville disparou um antigo bacamarte e os
corredores tarahumaras começaram o seu trajeto.
Mas durou pouco. Antes da metade da prova, os cinco haviam
desistido. Fisher maldizia aos ouvidos de quem encontrasse. Nunca deveria
ter metido os índios dentro de tênis, e ninguém contou que eles poderiam
comer nos pontos de parada. Droga. Os tarahumaras nunca haviam visto
holofotes até então e estavam impressionados com aquelas “lanternas”.
Bem, talvez não fosse nenhuma surpresa, e sim o mesmo
desapontamento e as desculpas de sempre. Apenas os historiadores
especializados e mais obsessivos sabiam que o México tinha tentado incluir
dois corredores tarahumaras nas maratonas olímpicas de 1928, em
Amsterdã, e de 1968, na Cidade do México. Nas duas ocasiões, os
corredores índios passaram longe das medalhas. Na época, a explicação foi
que 42 quilômetros era uma distância muito curta, e a prova sem graça
terminou antes que os tarahumaras tivessem a oportunidade de engatar a
segunda marcha.
Talvez. Mas, se eles eram realmente corredores com capacidade sobre-
humana, por que nunca derrotavam ninguém? Ninguém quer saber do
atirador que faz maravilhas no quintal de casa, mas do que o fulano
consegue acertar em um dia de competição. E, durante um século, os
tarahumaras nunca competiram para valer fora de seu ambiente.
Fisher pensava em tudo isso durante a longa viagem de volta ao México
quando a ficha caiu. Era óbvio! Pela lógica, não dava para pegar cinco
moleques numa escola de Chicago e esperar que eles derrotassem o Chicago
Bulls: ser um corredor tarahumara não era sinônimo de ser um grande
corredor tarahumara. Patrocinio havia tentado facilitar as coisas recrutando
os que viviam perto da nova estrada, imaginando que se dariam melhor com
os forasteiros e que seriam convencidos com mais facilidade. No entanto,
como o Comitê Olímpico do México já devia ter percebido alguns anos
antes, os índios mais fáceis de recrutar talvez não fossem os que valesse a
pena incluir na equipe.
“Vamos tentar de novo”, sugeriu Patrocinio. Os patrocinadores que
Fisher havia contatado enviaram a provisão de milho para a aldeia, e ele
odiava ter perdido a chance. Desta vez, iria levar a oferta para corredores de
outras aldeias. A ideia era entrar nas profundezas do desfiladeiro e voltar no
tempo. Queria encontrar corredores ao estilo antigo.

Talvez o segredo estivesse na palavra “antigo”.


Ken ficou impressionado com o novo time de tarahumaras que apareceu
para competir na maratona seguinte. O capitão pare-cia um duende que havia
se aposentado antes do tempo: um avô de 55 anos e baixa estatura, que usava
uma capa azul com flores rosadas, um cachecol cor-de-rosa e um gorro de lã
cobrindo as orelhas e tinha uma expressão de “vamos em frente”. Outro
parecia ter uns quarenta e poucos anos, e havia ainda dois jovens assustados,
que podiam ser filhos dos outros. A operação parecia menos preparada que a
do ano anterior e, assim que a equipe chegou, os tarahumaras desapareceram
no depósito de lixo da cidade, de onde trouxeram pedaços de pneus velhos,
transformados em sandálias. Agora, não haveria tênis de basquete para
atrapalhar.
Poucos segundos antes do início da competição, os tarahumaras
sumiram. Mesma estratégia do ano passado, pensou Ken, crítico. Como
antes, os tímidos índios se esconderam no meio dos corredores que estavam
no final da aglomeração. Ao som do tiro de partida, saíram sem pressa. E
continuaram no mesmo ritmo, sem preocupação ou ansiedade...
...Até a milha de número 40 (quilômetro 64), quando Victoriano Churro
(aquele que parecia um duende) e Cerrildo Chacarito (o criador de cabras
quarentão), devagar e sem desespero, despontaram na trilha, ultrapassando
alguns corredores conforme começava a subida de cinco quilômetros para o
Hope Pass. Manuel Luna se juntou a eles e formaram um grupo, com os três
mais velhos conduzindo os mais jovens, como uma alcateia no meio da
caçada.
Ei! Ken gritou e urrou como um domador de touros quando viu os
tarahumaras se aproximando depois da marca das cinquenta milhas
(quilômetro 80). Algo estranho estava acontecendo e dava para notar
somente pela expressão daqueles corredores. Ken havia assistido a todas as
provas realizadas em Leadville na última década e, em nenhuma delas, os
participantes pareciam assim tão... normais. Dez horas de corrida pelas
montanhas derrubam um competidor ou estampam o cansaço em seu rosto,
sem exceção. Até os melhores ultracorredores, naquele momento da
competição, demonstram esforço, concentrados na tarefa quase impossível
de fazer um pé seguir o movimento do outro. Mas e Victoriano? Totalmente
tranquilo. Parecia ter acabado de acordar de uma soneca, esticado o corpo e
decidido mostrar aos outros rapazes como se faziam as coisas.
Por volta da milha de número 60 (quilômetro 96), os tarahumaras
pareciam voar. A prova de Leadville tem paradas de apoio mais ou menos a
cada 24 quilômetros e, em cada uma, os auxiliares ofereciam alimentos e
meias secas aos corredores (além de fazerem algumas fotos), mas os
tarahumaras eram tão rápidos que Rick e Kitty mal conseguiam se deslocar
pela montanha para acompanhá-los.
“Parecia que eles andavam junto com o chão”, contou um espectador,
impressionado. “Algo como uma nuvem se movendo pelas montanhas.”
Desta vez, os tarahumaras não eram dois índios à deriva no oceano de
uma competição olímpica. Não eram cinco aldeões confusos, enfiados em
tênis de lona, sem colocar o pé no chão desde que uma estrada chegou às
portas da aldeia. Agora estavam organizados em uma formação que
conheciam desde a infância, com determinados veteranos correndo à frente e
jovens animados vindo atrás. Tinham confiança em si e em seus
movimentos. Afinal, eles eram da tribo dos corredores.
Enquanto isso, uma prova bem diferente acontecia a poucas quadras da
linha de chegada. Todos os anos, os baladeiros da Sixth Street de Leadville
se juntavam e tentavam resistir mais do que os corredores. Começavam o
agito com o tiro de largada da competição e não paravam até o término
oficial da corrida, trinta horas depois. Também tinham uma função
importante: cabia a eles dar o aviso assim que vissem o primeiro maratonista
surgir na escuridão. Entretanto, naquele ano quase dormiram no ponto,
porque, às duas da manhã, Victoriano e Cerrildo se aproximaram tão rápida e
serenamente (“uma nuvem se movendo pelas montanhas”) que quase
ninguém percebeu.
Victoriano rasgou a fita de chegada e Cerrildo ficou em segundo lugar.
Manuel Luna, que teve de correr com os pés descalços (e feridos) depois que
suas sandálias novas rasgaram na milha 83 (quilômetro 133), conseguiu
surgir na trilha rochosa próxima ao lago Turquoise para terminar a prova em
quinto lugar. O primeiro não tarahumara a chegar o fez com cerca de uma
hora de atraso em relação a Victoriano, o que representava uma distância
aproximada de nove quilômetros.
Os tarahumaras tinham saído no final para chegar primeiro e acabaram
com qualquer recorde apresentado pela prova. Victoriano era o vencedor
mais velho da história da corrida; Felipe Torres, rapaz de dezoito anos, era o
mais jovem a chegar ao fim do percurso, e a equipe deles foi a única a
conseguir ficar com três das primeiras cinco colocações – sem falar que,
somando as idades do primeiro e segundo colocados, o resultado era quase
cem.
“Foi divertido”, contou um incrédulo participante chamado Harry
Dupree ao The New York Times. Depois de participar da corrida de Leadville
doze vezes, Dupree não esperava se surpreender com mais nada – mas isso
foi até assistir à vitória de Victoriano e Cerrildo.
“Ali estavam aqueles caras calçados com sandálias, que nunca haviam
treinado para uma maratona. E deixaram para trás alguns dos maiores
corredores de longa distância do planeta.”
Capítulo 11
“Eu sabia!”, comemorou Rick Fisher.
E ele também estava certo sobre outro aspecto: de repente, todo mundo
passou a se interessar pela tribo dos corredores. Fisher prometeu que a
equipe dos tarahumaras voltaria à competição no ano seguinte, e aquele foi o
passe de mágica que fez da prova de Leadville, até então um evento pouco
conhecido, um grande acontecimento para a mídia. A espn comprou os
direitos de transmissão, o programa Wide World of Sports gravou um
especial e a cerveja Molson começou a patrocinar a prova. A Rockport
Shoes, famosa marca de calçados, tornou-se o apoio oficial da única equipe
de corrida do mundo que detestava tênis de corrida.
Os repórteres de publicações como The New York Times, Sports
Illustrated, Le Monde e Runner’s World, entre outras, não paravam de fazer a
mesma pergunta a Ken: “Existe alguém que pode vencer os tarahumaras?”.
“Sim, tem sim. A Annie consegue”, era a resposta de Ken.

Ann Trason, 33 anos, professora de ciências de uma faculdade em uma


pequena cidade da Califórnia. Se alguém disser que consegue identificá-la
no meio da multidão, ou é o marido dela ou está mentindo. Ann é o tipo de
mulher baixa, magra, discreta e quase invisível embaixo dos cabelos
castanhos – bem como se poderia esperar de uma professora de ciências.
Mas isso só até alguém disparar um tiro de largada.
Quem vê Ann sair correndo quando uma competição começa tem a
impressão de assistir a um moderado repórter arrancar seus óculos e aparecer
com uma capa de super-herói. Ela ergue o queixo, cerra os punhos, e os
cabelos invadem o rosto como um jato, para depois voarem de novo e
revelarem os brilhantes olhos castanhos. Com roupas normais, Ann é uma
mulher comum, com pouco mais de um metro e meio de altura. Mas, vestida
com os trajes de corrida, ela assume as proporções de uma modelo brasileira,
com pernas esguias, costas perfeitas e uma barriga queimada de sol, lisa
como uma tábua.
Ann começou a correr no colegial, porém cansou de se exercitar feito
um hamster em circuito, segundo suas próprias palavras, e desistiu da
carreira atlética para estudar bioquímica (o que dá uma dimensão de como
era tedioso o treinamento que ela fazia, considerando o que existe de emoção
em se dedicar à tabela periódica). Durante anos, Ann correu apenas para
desestressar: quando estudava demais e precisava relaxar ou quando
terminou a faculdade e começou a se dedicar a um sério trabalho de pesquisa
em San Francisco, a saída que ela encontrava era dar umas corridas no
Golden Gate Park.
“Gosto de correr só para sentir o vento em meu rosto”, diz. Ann ligava
pouco para as competições, porque gostava mesmo do gosto de liberdade.
Não demorou para começar a combater o estresse antes de ir para o trabalho
e, para isso, corria quase quinze quilômetros até chegar no laboratório, todas
as manhãs. E, quando percebeu que as pernas aguentavam mais uma
esticada, passou a voltar para casa correndo no final do dia. Para quem corria
praticamente trinta quilômetros durante os dias de semana, uma boa ideia era
aproveitar um sábado preguiçoso para correr 32, talvez quarenta, ou, quem
sabe, até cinquenta quilômetros...
E foi num sábado que Ann levantou cedo e percorreu 32 quilômetros.
Descansou um pouco no café da manhã e depois encarou outro trajeto com a
mesma extensão. Como tinha algumas tarefas domésticas para fazer
(consertar o encanamento), depois da segunda corrida, ela pegou a caixa de
ferramentas e foi resolver o problema. No fim do dia, sentia-se satisfeita com
ela mesma: tinha corrido quase 65 quilômetros e ainda dado conta sozinha
de um conserto muito chato. Para comemorar, resolveu correr mais 25
quilômetros.
No total, praticamente noventa quilômetros em um dia. Os amigos
começaram a se espantar e a se preocupar também. Será que Ann estava com
algum problema alimentar? Algum tipo de obsessão por exercícios? Será que
havia decidido fugir de algum demônio inconsciente, correndo dele
literalmente? “Alguns amigos me alertavam para os riscos de ficar viciada
em endorfinas, em vez de crack”, lembra. E a explicação da corredora não
acalmava ninguém: Ann afirmava que corria porque percorrer muitos
quilômetros pelas montanhas era “muito romântico”.
Era isto: a corrida difícil, acidentada, desconfortável, dolorosa e
solitária pelas trilhas podia propiciar as mesmas sensações de uma noite de
luar e champanhe.
Mas Ann insistia que era uma atividade romântica mesmo e que seus
amigos só não concordavam com ela porque não haviam vivido a
experiência. Para eles, correr era superar no máximo míseros três
quilômetros, motivados apenas pelo desejo de entrar em roupas de um
manequim menor: tudo se resumia a começar a correr, achar tudo muito
chato, ligar os fones de ouvido e parar de correr. Porém, com esse espírito,
ninguém con-segue enfrentar uma corrida de cinco horas de duração – era
preciso relaxar com a experiência, como dentro de uma banheira de água
quente, até que o corpo não resistisse mais ao choque e começasse a
aproveitar.
Devidamente relaxado, o corpo se sente tão familiar com o ritmo que o
corredor quase esquece que está se locomovendo. Ao chegar a esse estágio
de suavidade e quase levitação, surgem o gosto do champanhe e a sensação
de apreciar a lua cheia. “É preciso estar sintonizado com o corpo, saber
quando é hora de apertar
o passo ou de diminuir o ritmo”, explica Ann. Também é preciso estar
atento ao som da respiração, à quantidade de suor que escorre pelas costas,
não se esquecer de hidratar o corpo e comer algo salgado, além de se
perguntar, de maneira honesta e frequente, como você está se sentindo de
fato. E o que pode ser mais sensual do que prestar atenção especial ao
próprio corpo? Sensualidade e romantismo estão interligados, certo?

Sem grandes pretensões, Ann corria mais quilômetros por dia do que vários
maratonistas “sérios”. Assim, em 1985, ela achou que era hora de se colocar
à prova ao lado de corredores “de verdade”. Uma opção era a Maratona de
Los Angeles, mas a corrida parecia muito tediosa (algo como reviver o
circuito de hamster da época da escola), já que o trajeto de três horas se
resumia a uma paisagem urbana. Ann queria uma corrida divertida e
inusitada, na qual pudesse se perder como fazia em suas excursões pelas
montanhas.
Mas isto parece ser bem interessante, pensou, enquanto folheava uma
revista de esportes. Como a Western States, a American River 50-Mile
Endurance Run era uma corrida de cavalos que não incluía mais os cavalos,
uma travessia perambulante sobre uma trilha de cerca de oitenta
quilômetros, usada no passado pelos desbravadores dos rincões perdidos do
país. O trajeto era quente, acidentado e perigoso – “Existem até plantas
venenosas na beira da trilha”, dizia
o alerta dado aos participantes, “sem falar nos cavalos soltos e nas
cascavéis. O melhor a fazer é dar passagem a ambos”. Deixando de lado as
picadas peçonhentas e os cascos selvagens, antes da chegada era preciso
enfrentar um desafio: depois de 75 quilômetros pelas trilhas, o corredor tinha
de encarar uma subida de trezentos metros antes dos cinco quilômetros
finais.
Só para lembrar: a primeira competição de Ann seria uma maratona
dupla, com risco de picadas de cobra e erupção de bolhas provocadas pelo
sol de rachar. No entanto, com certeza não haveria nenhum risco de tédio.
Como se podia esperar, a ultramaratona de Ann começou mal. O
termômetro apontava temperaturas compatíveis com as de uma sauna, e ela
era iniciante demais para achar que seria uma boa ideia levar uma garrafa de
água para enfrentar o calor de 42 graus. Ann sabia muito pouco sobre ritmo
de corrida (quanto tempo iria levar: sete horas? Dez? Treze?) e menos ainda
sobre táticas (como aqueles que pegavam leve montanha acima e depois
passavam por ela como se tivessem asas).
Apesar disso, conforme o nervosismo diminuiu, ela relaxou e retomou o
seu ritmo habitual. Ergueu a cabeça, sentiu o ar bater no rosto e começou a
recuperar a confiança de um gato selvagem. Por volta da milha de número
30 (quilômetro 48), dezenas de corredores se rendiam ao calor, sentindo-se
como o recheio de um bolo levado ao forno para assar. Apesar de
desidratada, Ann se sentia forte – a ponto de derrotar todas as outras
competidoras e de bater o recorde feminino, concluindo as duas maratonas
de ida e volta em sete horas e nove minutos.
Aquela vitória inesperada foi o início de uma carreira impressionante.
Ann foi a campeã feminina da Western States 100 (o equivalente das
corridas ao campeonato de futebol americano Super Bowl) catorze vezes, um
recorde que se estendeu por três décadas e faz de Lance Armstrong, com sete
vitórias na Volta da França, mera promessa bem intencionada. Isso porque
Lance nunca deu uma pedalada sem contar com uma equipe de especialistas
ao seu lado, monitorando o consumo calórico e soprando instruções em seu
ouvido, enquanto Ann tinha apenas o seu marido, Carl, que a esperava no
meio da trilha com um lenço umedecido e meio sanduíche de peru.
Ao contrário de Lance, que treinava arduamente para cada prova, Ann
não era uma “rata de competições”. De uma hora para outra, ela fez os
tempos de uma ultramaratonista mês sim, mês não durante quatro anos. Um
esforço desse tamanho deveria ter acabado com ela, porém Ann tinha a
capacidade de recuperação de um super-herói mutante – parecia se recuperar
enquanto corria, ficando mais resistente no decorrer da prova. Ganhava
velocidade a cada mês e acumulava recordes: venceu vinte corridas nesses
quatro anos, chegando em segundo lugar somente uma vez, quando
participou de uma competição de quase 97 quilômetros em meio a uma
daquelas gripes de derrubar.
Mas claro que havia um ponto fraco nessa fortaleza – tinha de haver! –,
embora ninguém soubesse qual era. Ann era como o homem forte do circo,
que enfrenta o mais valente de qualquer cidade em que chega: vencia as
provas em estradas e trilhas, em caminhos planos ou em montanhas
acidentadas, nos Estados Unidos, na Europa e na África. Quebrou recordes
mundias em competições de oitenta, cem e 160 quilômetros, e ainda
acumulou mais dez recordes em estradas e trilhas. Foi classificada para a
Olympic Marathon Trials, fez cem quilômetros em seis horas e 44 minutos e
venceu o World Ultra Title, antes de brilhar na Western States e na Leadville
Trail 100 no mesmo mês.
No entanto, um prêmio lhe escapava das mãos: durante anos, Ann
nunca conseguiu vencer uma corrida importante e com grande exposição.
Havia derrotado todos os homens e todas as mulheres quando competia em
provas menores, porém, quando se tratava das maiores demonstrações, pelo
menos um homem sempre a vencia por alguns minutos.
Mas isso foi até 1994, quando ela sentiu que a sua hora estava para
chegar.
Capítulo 12
O espanto geral começou assim que a poeirenta Chevy de Rick Fisher parou
diante da sede da corrida de Leadville e dois sujeitos envoltos em capas
brancas saíram do carro.
“Olá”, cumprimentou-os Ken Chlouber. “Os magos da velocidade
chegaram.” Ken esticou a mão e tentou lembrar como se dizia bem-vindo em
espanhol, saudação que o professor do colegial havia ensinado.
“Bien... Ben...”, tentou.
Um dos homens de capa sorriu e estendeu o braço. De repente, Fisher
se meteu no meio: “Não, assim não! Você não deve cumprimentar como se
quisesse controlá-los, ou terá problemas. Na cultura deles, esse é um erro
grave”.
Mas que droga, pensou Ken, sentindo o sangue subir. Você quer que eu
mostre o que é um erro grave? É só tentar encostar em meu braço de novo.
Com certeza, Fisher não havia tido problemas com saudações quando pediu
a Ken que arrumasse alojamento gratuito para aqueles homens. E agora, só
porque havia encontrado uns campeões e estava com o bolso cheio da grana
do patrocínio da Rockport, achava que tinha de ser tratado como rei? Ken já
estava quase engrossando a conversa quando se lembrou de algo que o fez
respirar, relaxar e recuperar a calma.
A Annie deve jogar duro, matutou Ken, ainda mais pelo jeito como a
imprensa está tratando tudo isso.
O tom das notícias havia mudado bastante desde que Ann confirmou a
sua presença na prova de Leadville. Em vez de perguntar se os tarahumaras
iriam ganhar, a mídia especulava se a equipe de Rick Fisher iria sofrer nova
humilhação. “Os tarahumaras consideram uma vergonha perder para uma
mulher”, repetiam as matérias sobre o assunto. Era um caso irresistível: a
tímida professora de ciências correndo pelas Montanhas Rochosas para
enfrentar índios mexicanos e mais alguns corredores, tanto homens como
mulheres, na tentativa de cruzar primeiro a linha de chegada.
No entanto, havia uma maneira de Fisher reduzir a pressão da mídia
sobre a equipe tarahumara: mantendo a boca fechada. Ninguém havia
mencionado o machismo da tribo até o próprio Fisher falar disso com os
repórteres. “Eles não perdem para mulheres”, contou. “E não querem que
isso comece a acontecer agora.” Era uma revelação fascinante, sobretudo
para os rarámuris, que não tinham ideia do que aquelas pessoas estavam
falando.
Na verdade a sociedade tarahumara é bastante igualitária: os homens
agem com cordialidade e respeito em relação às mulheres e muitas vezes são
vistos carregando crianças nas costas, como fazem suas companheiras. É
fato que as competições masculinas são separadas das femininas, porém isso
ocorre sobretudo por questões de logística: as jovens mães com filhos
pequenos não têm disponibilidade para passar dois dias correndo pelo
desfiladeiro. Precisam ficar perto de casa e, por isso, os trajetos são mais
curtos (para os padrões deles, um “trajeto curto” tem entre 65 e 95
quilômetros). As mulheres são respeitadas como excelentes corredoras e
diversas vezes atuam como cho’ kéame (mistura de capitão de equipe com
responsável pelas apostas) nas provas masculinas. Na comparação com os
norte-americanos fanáticos pelo campeonato nacional de futebol americano,
os homens tarahumaras estão mais para fãs do Lilith Fair, festival de música
que teve três edições no fim da década de 1990 e no qual apenas mulheres se
apresentavam.
Fisher já tinha passado vergonha quando toda a sua equipe debandou.
Agora, graças aos próprios erros, ele se via no meio de uma guerra dos sexos
transmitida pela televisão – e, pelo que tudo indicava, ele iria perder. O
melhor tempo de Ann em Leadville, dois anos antes, tinha sido apenas de
meia hora a mais em relação ao tempo de Victoriano e, desde então, a
corredora tinha melhorado muito. Bastava ver a prova Western States: de um
ano para o outro, seu tempo caiu em uma hora e meia. Ninguém duvidava do
que ela era capaz de fazer quando chegasse a Leadville disposta a ganhar.
Além disso, Ann parecia ter a sorte a seu favor: Victoriano e Cerrildo
não iriam participar desta vez (precisavam plantar milho e não tinham tempo
para uma corrida de pura diversão). Assim, Fisher havia perdido seus dois
melhores corredores. Ann já havia vencido a prova de Leadville duas vezes
e, ao contrário dos recém-chegados de Fisher, tinha a imensa vantagem de
conhecer cada canto do caminho. Naquela competição, bastava pegar uma
saída errada para vagar quilômetros no escuro antes de conseguir voltar à
trilha certa.
Ann também corria sem esforço em altas altitudes e sabia melhor do
que ninguém como avaliar e solucionar problemas logísticos num trajeto de
mais de 160 quilômetros de extensão. Na essência, uma ultramaratona pode
ser comparada a uma equação binária composta de centenas de perguntas
com respostas do tipo “sim ou não”: comer agora ou esperar? Apertar o
ritmo nesta subida ou ir devagar e economizar os quadris para as partes
planas? Parar para ver o que está incomodando dentro da meia ou seguir em
frente? Largas distâncias ampliam o problema (uma bolha pode virar uma
ferida, uma barra de cereais deixada para mais tarde pode comprometer a
capacidade de achar o caminho), o que significa que uma resposta errada
pode arruinar a corrida. Porém não para a dedicada Ann: quando se tratava
de escolhas difíceis, ela sempre acertava as respostas.
Em resumo, tudo bem que os tarahumaras fossem corredores amadores
peculiares, mas eles iriam enfrentar a maior autoridade do negócio desta vez
(literalmente falando, já que agora Ann contava com o patrocínio da Nike).
Os rarámuris haviam tido seus breves e aclamados momentos como
campeões da prova de Leadville, mas agora estavam na segunda classe.
E isso explicava os sujeitos com as capas de mago.
Desesperado para substituir os dois veteranos campeões, Fisher
acompanhou Patrocinio em uma escalada de mais de 2.700 metros até chegar
na cidade de Choguita. Ali, encontraram Martimano Cervantes, um mestre
do jogo de bola com 42 anos, e seu pupilo, Juan Herrera, de 25 anos.
Choguita se destaca pelo frio durante a noite e pelo sol massacrante durante
o dia e, por isso, os tarahumaras daquele lugar se protegem com ponchos de
lã que chegam até os pés
– mesmo durante as corridas. Conforme se deslocam pelas trilhas, as
capas voam e dão a impressão de que são magos surgindo de uma nuvem de
fumaça.
Martimano e Juan ficaram em dúvida. Nunca haviam saído da aldeia e
o tempo proposto parecia longo demais em meio aos homens brancos. Fisher
soube driblar cada argumento, tinha dinheiro no bolso e estava disposto a
negociar. O inverno havia sido muito seco e a primavera fora a pior da
região – os estoques de alimentos estavam bem baixos. “Venham participar
da corrida e eu darei à cidade uma tonelada de milho e meia tonelada de
feijão”, propôs Fisher.
Pensando bem, cinquenta sacos de milho não eram tanto assim para
uma aldeia inteira, mas era alimento garantido. Talvez com a presença de
outros, desse para encarar. Eles haviam contado a Fisher que tinham outros
corredores bastante rápidos, será que
eles também poderiam ir?
“Desta vez não”, respondeu Fisher. “Só vocês dois.”
Em segredo, o Pescador trabalhava em um pequeno projeto de
engenharia social: ao recrutar índios de aldeias diferentes, esperava acender
a competitividade entre eles. Quando começarem a competir entre si,
pensou, vão vencer a prova de Leadville naturalmente. Era um plano astuto,
porém totalmente errado. Se Fisher tivesse estudado melhor a cultura dos
tarahumaras, entenderia que as corridas não dividiam as aldeias, mas
funcionavam como um fator de unidade. Era uma forma de fazer os nativos
que viviam afastados estreitarem os laços de afinidade e camaradagem, além
de garantir que todos os moradores do desfiladeiro estavam em condições de
se defender em caso de emergência. É claro que se tratava de uma
competição, mas com o espírito de uma pelada de futebol disputada numa
manhã de sábado, antes do churrasco. Onde os tarahumaras viam um festival
da amizade, Fisher identificava um campo de batalha.
Homens contra mulheres, aldeia contra aldeia, organizador da corrida
contra capitão do time – poucos minutos depois de sua chegada a Leadville,
Fisher via tempestades se formando em três frentes. E ele resolveu tratar
tudo como um homem de negócios.
“Olá! Posso tirar uma foto com vocês?”, pediu um corredor da cidade
assim que viu os tarahumaras chegando.
“Claro que pode. Você tem vinte paus?”
“Para quê?”, perguntava o atônito participante.
Para compensar os crimes contra a humanidade e o fato de os homens
brancos terem explorado os tarahumaras e outras tribos indígenas durante
séculos, explicava Fisher. E, se a pessoa não concordasse, problema dela.
“Não estou nem aí para o pessoal do mundo das supermaratonas”, afirmava
Fisher. “Nem ligo para os ‘civilizados’. Quero mais é que os tarahumaras
chutem os traseiros brancos deles.”
Traseiro branco? Provavelmente passaram alguns segundos até que
Fisher se lembrasse da cor do próprio traseiro. E, afinal, para que ele tinha
vindo: uma corrida ou uma batalha?
Ninguém conseguia conversar com os corredores tarahumaras nem se
aproximar para desejar boa sorte sem que o Pescador se metesse no meio.
Até Ann Trason encontrou uma muralha de hostilidade quando chegou.
“Rick manteve os sujeitos isolados sem nenhuma necessidade”, queixou-se a
atleta mais tarde. “A gente não podia nem falar com eles.”
Os executivos da Rockport estavam perplexos. Tinham acabado de
lançar um tênis para corridas em lugares acidentados e toda a campanha de
marketing estava baseada na prova de Leadville (o modelo do tênis se
chamava Leadville Racer). Quando Rick entrou em contato para pedir
patrocínio (“Lembre-se de que foi ele quem nos procurou”, contou-me o
vice-presidente da Rockport, Tony Post), a empresa deixou claro que os
tarahumaras seriam parte importante da promoção. A Rockport abriria os
cofres e, em troca, os corredores rarámuris calçariam os sapatos amarelo-
ouro, agradariam as pessoas e apareceriam em algumas propagandas.
Combinado? “Combinadíssimo”, garantiu Fisher.
“Mas eu cheguei em Leadville e encontrei aquele sujeito estranho”,
continuou Tony Post. “Parecia genioso e sem controle, e essa era a
contradição. De um lado, aquelas pessoas realmente gentis, conduzidas pelo
que a cultura norte-americana tem de pior. Era como...” Post parou para
refletir e, no silêncio, dava quase para escutar o pensamento se formando em
sua cabeça. “Como se ele sentisse ciúme pela atenção dedicada aos
corredores tarahumaras.”
E assim, com disputas por todo lado, os tarahumaras tragavam seus
cigarros e ficavam afastados dos outros corredores, em frente ao tribunal da
cidade, local em que os ladrões de cavalos eram enforcados no passado. Em
meio a abraços, apertos de mão e clima de “que vença o melhor” partilhados
entre os demais integrantes da prova no período que antecedeu a corrida, os
tarahumaras pareciam sozinhos e alheios.
O belo sorriso de Manuel Luna desapareceu e seu rosto adquiriu a
dureza de uma rocha. Juan Herrera ajeitou o boné da Rockport e enfiou os
pés no tênis amarelo berrante novinho em folha, que custava 110 dólares e
tinha solado grosso. Martimano Cervantes envolveu-se em sua capa para
enfrentar a gelada noite das Montanhas Rochosas. Ann Trason apareceu na
frente de todos, soltou o corpo e observou a escuridão que os esperava.
Capítulo 13
“Quem ama mais seu corpo do que o controle do império pode ser dado
como custódia do império.”
Lao-tsé, Tao te ching, o livro do caminho e da virtude

O doutor Joe Vigil, um “exército de um homem só” com seus 65 anos,


aqueceu as mãos sobre a xícara de café enquanto esperava os primeiros raios
de luz surgirem no meio do bosque.
Nenhum outro treinador de elite podia ser encontrado nas proximidades
de Leadville, porque nenhum outro levava a sério o que estava acontecendo
naquela arena de loucos em plenas Montanhas Rochosas. Fossem eles
adeptos da automutilação, gozadores ou qualquer outra denominação, o que
aquilo tudo tinha a ver com corrida? Com corrida olímpica, pelo menos? No
que se referia ao aspecto esportivo, a maioria dos treinadores de corridas
considerava as ultramaratonas como algo entre a destruição competitiva e o
sadomasoquismo divertido.
Muito bem, pensou Vigil, enquanto batia os pés para espantar o frio.
Vão adiante e durmam um pouco. Podem deixar os malucos comigo –
porque tinha certeza de que os malucos sabiam de coisas interessantes.
O segredo do sucesso de Vigil estava em seu nome: nenhum outro
treinador era mais vigilante na hora de detectar os mais ínfimos e
importantes detalhes que os demais deixariam passar. Ele havia sido assim
durante toda a vida, desde quando era apenas um fraco garoto de origem
latina tentando jogar futebol americano num ambiente pouco povoado por
latinos. Joe Vigil não conseguiria conter as montanhas de músculos do time
opositor, então precisaria evitá-las de alguma maneira. Com esse objetivo,
estudou as técnicas de impulso, propulsão e ritmo, descobrindo a melhor
forma de posicionar o pé para conseguir um “efeito mola”. Quando concluiu
a faculdade, o latino franzino jogava no time principal da instituição. Voltou-
se, então, para as pistas e usou seu incansável faro para se tornar o maior
estrategista de corridas em distância do país.
Apesar do título de Ph.D. e de dois mestrados, o desejo de conhecer a
perdida arte da corrida em distância levou Vigil a mergulhar nos confins da
Rússia, a escalar as altas montanhas do Peru e a percorrer o Rift Valley, no
Quênia. Ele queria saber por que os corredores russos são proibidos de dar
um único passo antes de conseguir saltar descalços um obstáculo de seis
metros de altura, como os pastores de cabras de Machu Picchu são capazes
de escalar os Andes mantendo uma dieta restrita à base de iogurte e ervas e
como os corredores japoneses treinados por Hideo Suzuki e Yoshio Koide
conseguem misteriosamente se transformar de caminhantes ritmados em
rápidos maratonistas. Vigil procurou os antigos mestres e tentou descobrir
seus segredos antes que morressem e levassem o conhecimento com eles. A
cabeça do estudioso funcionava como uma espécie de biblioteca,
preservando dados que já haviam desaparecido de outros cantos do planeta.
Todo esse esforço de pesquisa valeu a pena. Na faculdade em que se
formou, a Adams State College, em Alamosa, no Colorado, Vigil assumiu o
comando da moribunda equipe de corrida cross-country e fez dela o terror
dos campeonatos. Os corredores da Adams State conquistaram 26 títulos
nacionais em 33 anos, incluindo a mais incrível demonstração de força já
vista em uma corrida do campeonato nacional: em 1992, a equipe de Vigil
ocupou os cinco primeiros lugares no campeonato ncaa Division ii, única
façanha do tipo ocorrida em um evento nacional. Ele também treinou Pat
Porter em oito títulos do cross-country norte-americano (o dobro do
maratonista olímpico e medalhista de ouro Frank Shorter e quatro vezes
mais do que o medalhista de prata Meb Keflezighi), além de receber o título
de melhor treinador de universidades por catorze vezes. Em 1988, foi
indicado para preparar a equipe de corredores norte-americanos que
representaria o país nas Olimpíadas de Seul.
E isso explica por que, naquele momento, Joe Vigil era o único
treinador dos Estados Unidos a congelar no meio do mato às quatro da
manhã, esperando o menor sinal da professora de ciências e de sete sujeitos
vestidos com saias. Nada parecia fazer sentido quando
o assunto era ultramaratonas, e quando Vigil não conseguia entender
algo, sabia que estava deixando passar alguma coisa importante.
Vejamos: por que a maioria das mulheres chegava ao final da prova de
Leadville e menos da metade dos homens conseguia fazer
o mesmo? Todos os anos, mais de 90% das corredoras inscritas
concluíam o percurso, enquanto 50% dos homens vinham com alguma
desculpa. Nem Ken Chlouber consegue explicar a primazia dos resultados
femininos, mas ainda assim dava um jeito de explorar o fato: “Todas as
minhas pacers são mulheres e dão conta do trabalho”.
Mais um mistério: fora os corredores tarahumaras que participaram da
maratona do ano passado, o que resta? Resposta: uma mulher correndo para
romper a fita de chegada.
Com todo o estardalhaço ao redor dos tarahumaras, poucos além de
Vigil prestaram atenção no incrível fato de Christine Gibbons estar farejando
o terceiro lugar. Se o carro de Rick Fisher tivesse tido uma pane enquanto
cruzava o Arizona, uma mulher ficaria a 31 segundos de dominar o
espetáculo.
Como era possível? Nenhuma mulher aparecia entre os cinquenta
melhores do mundo quando o critério era a velocidade por milha (o recorde
mundial feminino, quatro horas e doze minutos, havia sido atingido por um
homem um século antes e, hoje, é uma marca rotineira para meninos de
escolas secundárias). Uma mulher poderia até estar entre os vinte melhores
maratonistas (em 2003, o melhor tempo de Paula Radcliffe, 2:15:25, ficou
apenas dez minutos acima do recorde masculino batido por Paul Tergat, que
foi de 2:04:55). Entretanto, nas competições extremas, as mulheres estavam
se destacando. Vigil se perguntava o motivo pelo qual a diferença de
rendimento entre homens e mulheres diminuía conforme a duração da prova
aumentava – o lógico não seria o contrário?
As corridas radicais pareciam ser um universo alternativo, no qual
nenhuma regra do planeta valia: as mulheres eram mais resistentes do que os
homens; os mais velhos se saíam melhor do que os mais jovens; sujeitos da
Idade da Pedra calçados com sandálias derrotavam todo mundo. Sem falar
na duração! O que se exigia das pernas nessas competições estava fora de
comparação. Correr 160 quilômetros em uma semana já era uma temeridade
para eventuais ferimentos, e aqueles malucos percorriam aquela distância em
um único dia! Alguns faziam o dobro nos treinamentos semanais e também
não saíam mancando. Vigil se perguntava se aquela seria uma atividade
seletiva, que atraía somente os donos de corpos indestrutíveis, ou se os
ultracorredores haviam descoberto o segredo da megarresistência.
Em razão de tudo isso, Joe Vigil despencou da cama, jogou uma garrafa
térmica com café dentro do carro e dirigiu a noite toda para observar os
gênios das corridas encararem o desafio. Sua sus-peita era que os melhores
ultracorredores do mundo estavam prestes a redescobrir os segredos que os
tarahumaras nunca haviam esquecido. Sua teoria o havia conduzido à beira
de uma decisão muito importante, capaz de mudar a vida dele e, ele
esperava, de milhões de pessoas também. O especialista só precisava ver de
perto os tarahumaras para ter certeza de uma coisa. Não era a velocidade –
provavelmente Vigil conhecia mais sobre as pernas dos índios mexicanos do
que eles próprios. O que ele queria mesmo saber estava dentro da cabeça
daqueles sujeitos.
De repente, Vigil prendeu a respiração. Alguma coisa parecia flutuar no
meio das árvores... Algo que lembrava um fantasma ou um mágico saindo de
uma nuvem de fumaça.

Assim que o tiro de partida foi disparado, a equipe tarahumara surpreendeu


todo mundo. Em vez de se ocultarem no fundo como haviam feito nos anos
anteriores, eles surgiram em grupo, subindo na calçada da Sixth Street para
contornar a multidão e ocupar os primeiros lugares.
Eles se moviam com velocidade – “com velocidade demais”, julgou
Don Kardong, maratonista olímpico de 1976 e colaborador veterano da
revista Runner’s World, de olho nos detalhes. No ano anterior, Victoriano
havia demonstrado um comedimento incrível ao passar dos últimos lugares
para o primeiro, aumentando a velocidade conforme se aproximava da linha
de chegada. É assim que alguém chega ao final de uma prova de mais de 160
quilômetros.
Mas Manuel Luna havia tido um ano para refletir sobre as
características da corrida dos gringos e fez um bom trabalho na hora de
orientar os novos colegas de equipe. Contou aos outros que a trilha era
totalmente aberta perto das ruas, porém, quando se entrava no mato, ela
afunilava e virava uma pista escura e estreita. Se os participantes não
estivessem na frente, iriam encontrar uma sólida parede de corpos conforme
os corredores se aglomeravam e se misturavam às luzes dos flashes, para se
organizar numa fila indiana e então seguir em frente. Melhor partir
rapidamente e evitar a multidão, orientou Luna, e reduzir a velocidade mais
adiante.
Apesar do ritmo ousado, Johnny Sandoval, natural de Gypsum, no
Colorado, aproximou-se de Martimano Cervantes e Juan Herrera. Melhor
deixar todo mundo enlouquecer com a história da Ann e dos tarahumaras,
enquanto eu abro o meu caminho para o troféu, pensou. Depois de terminar
em nono lugar no ano anterior, com um tempo de 21 horas e 45 minutos,
Sandoval teve o melhor ano de treinos de sua vida. Sem alarde, havia ido
para Leadville no verão, percorrido trechos da prova até memorizar cada
detalhe, perigo e sutileza do caminho. Ele estimou que dezenove horas
bastariam para vencer a corrida, e estava se preparando para isso.
Ann Trason era esperada na frente da prova, mas o tempo de oito
minutos por milha logo na saída era loucura. Ela preferiu permanecer a uma
distância que permitisse ver a equipe dos tarahumaras fugindo dos flashes
conforme entravam no bosque próximo ao lago Turquoise, confiante com a
possibilidade de alcançá-los em pouco tempo. O caminho à frente era escuro
e repleto de pedras e raízes, o que podia ser resolvido com um dos maiores
talentos de Ann: ela adorava correr à noite. Mesmo na época da faculdade, a
meia-noite era o horário favorito para arrumar uma lanterna, chamar um
amigo e percorrer o silencioso campus, vendo o mundo reduzido a brilhos e
faíscas de um minúsculo universo de luzes. Se havia alguém treinado para
correr às cegas por um caminho ardiloso, esse alguém era Ann.
Na primeira parada de apoio, Sandoval e os tarahumaras haviam aberto
uma vantagem de quase oitocentos metros. Sandoval conferiu o seu tempo (1
hora e 55 minutos para 21,7 quilômetros) e voltou para a trilha. Já os
tarahumaras correram para o estaciona-mento em busca do carro de Rick
Fisher. Sem demora, arrancaram os tênis Rockport amarelos como se
espantassem formigas dos pés. Rick e Kitty, conforme combinado, os
esperavam com os seus huaraches. Já haviam corrido calçados com aqueles
tênis o suficiente para promover o produto.
Os corredores tarahumaras se ajoelharam e ajustaram as tiras de couro
ao redor dos tornozelos, com o cuidado de quem afina um violão. Tratava-se
de uma arte: prender uma tira de borracha na base dos pés com uma única
correia de couro, firme o bastante para não sair do lugar depois de percorrer
140 quilômetros de terreno rochoso e acidentado. Quando se aprontaram e
partiram, estavam nos calcanhares de Johnny Sandoval. Quando Ann Trason
chegou na parada, já não dava mais para ver Martimano Cervantes e Juan
Herrera.
Mas que ritmo alucinado!, pensou Sandoval, ao olhar para trás sobre os
próprios ombros. Alguém contou a esses sujeitos que choveu nas últimas
duas semanas? Sandoval sabia que estavam a caminho de um mar de lama
nos pântanos próximos aos Twin Lakes e também no lamacento trecho final
do Hope Pass. O rio Arkansas provavelmente estaria complicado, e eles
teriam de passar segurando em uma corda esticada, antes de começar a
subida de seiscentos metros até o alto do Hope Pass. E tudo isso antes de dar
a volta e fazer o mesmo caminho até a cidade.
Ok, isto é suicídio, decidiu Sandoval depois de atingir a milha número
23,5 (quilômetro 38) em três horas e vinte minutos. Vou economizar minhas
energias e superar esses caras quando eles estiverem caindo. Deixou que
Martimano Cervantes e Juan Herrera passassem – para, logo em seguida, ser
ultrapassado também por Ann Trason. Mas de onde ela apareceu? A
corredora deveria saber muito bem, já que passou a uma velocidade
impressionante.

Na milha de número 30 (quilômetro 48), no acampamento Half Moon,


Martimano e Juan estavam prontos para o café da manhã. Kitty Williams
serviu a eles burritos e feijão. Ambos come-ram satisfeitos e logo
desapareceram no meio da espessa floresta que cerca o monte Elbert.
Ann apareceu alguns minutos depois, ficou uma fera e começou a
gritar: “Onde está o Carl?! Em que droga de lugar ele se meteu?”. Eram oito
e vinte da manhã e ela estava pronta para se livrar de um pouco de peso,
arrancando a lâmpada que levava na cabeça e o casaco. Mas ela estava tão
adiantada que o marido ainda não havia chegado à estação de apoio.
Bem, paciência. Ann continuou com o equipamento noturno e seguiu
atrás dos invisíveis tarahumaras.
Na milha de número 40 (quilômetro 64), vários espectadores se
reuniram perto do antigo posto de bombeiros, na minúscula região de Twin
Lakes, de olho nos relógios. Provavelmente nenhum corredor chegaria nos
próximos...
“Ei, olhem ela lá!”
Era Ann que aparecia no alto da colina. No ano anterior, Victoriano
precisou de sete horas e doze minutos para chegar ali, porém a professora de
ciências repetia a façanha em menos de seis horas. “Nenhuma mulher fez
isso até hoje”, afirmou incrédulo Scott Tinley, triatleta e bicampeão do
Ironman, que fazia comentários sobre a prova para o programa Wide World
of Sports, da rede abc. “Estamos diante da mais incrível demonstração de
ousadia no atual cenário esportivo.”
Menos de um minuto depois, Martimano e Juan surgiram da floresta e
apontaram na colina atrás de Ann. Tony Post, da Rockport, estava tão
envolvido que nem ligou para o fato de seus corredores estarem perdendo,
além de terem abandonado os tênis que, teoricamente, eram pagos para
calçar. “Foi muito emocionante. Estávamos vendo tudo sem acreditar, aquela
mulher assumindo o controle”, disse Tony, ele também um maratonista de
atuação nacional no passado, com um tempo de até 2:20.
Felizmente, o marido de Ann estava no lugar certo desta vez. Ele deu
uma banana para a corredora e a acompanhou até a pequena construção que
pertencia aos bombeiros para a avaliação médica. Todos os participantes da
prova de Leadville tinham de aferir a pressão arterial e o peso na milha de
número 40, porque a perda de muitos quilos poderia indicar um quadro sério
de desidratação. Somente depois da aprovação do doutor Perna, eles
poderiam voltar à competição para enfrentar, além da área de pântano, a
subida de oitenta metros até o alto do Hope Pass.
Ann devorou a banana enquanto uma enfermeira chamada Cindy
Corbin ajustou a balança. No momento seguinte, Martimano se instalou ao
lado de Ann.
“¿Cómo estás?”, perguntou Kitty Williams a Martimano, repousando a
mão em suas costas, em sinal de apoio. Como ele se sentiria depois de seis
horas de corrida a uma altitude elevada e uma velocidade quase impossível?
“Pergunte como ele se sente por estar perdendo para uma mulher”,
sugeriu Ann. Risadas nervosas ecoaram pela sala, mas Ann não estava
achando graça – ela olhava para Martimano como se fosse faixa preta em
caratê e ele não passasse de uma pilha de tijolos. Kitty direcionou à
corredora um olhar de espanto, porém Ann ignorou a iniciativa e continuou
encarando Martimano. Este se voltou para Kitty procurando entender o que
se passava; ela achou melhor não explicar. Depois de tantos anos
participando de ultramaratonas e servindo de apoio para o pai, pela primeira
vez Kitty via um corredor provocar outro.
Apesar do que a maioria das pessoas naquele ambiente ouviu, um vídeo
sobre o incidente sugeriria que a pergunta de Ann fosse: “Pergunte como ele
se sente por estar competindo com uma mulher”. Embora as palavras exatas
sejam motivo de discussão, a atitude da corredora não deixava dúvidas: Ann
não vencia por correr para valer, e sim por competir para valer. Tudo aquilo
era uma questão de matar ou morrer.
Enquanto Martimano se submetia ao exame, Ann passou por ele e se
apressou em direção à porta. Agarrou sua mochila (recém-abastecida com
gel de carboidrato, luvas e uma capa, para enfrentar o frio e os ventos no alto
da montanha) e retomou a corrida pela estrada rumo ao pico coberto de neve.
Partiu com tanta velocidade que Martimano e Juan ainda mordiam pedaços
de uma laranja quando ela virou a esquina e sumiu de vista.
O que tinha acontecido com ela? A conversa rude, a saída súbita – ela
nem sequer vestiu uma camiseta ou meias secas nem comeu outra coisa. E
por que estava liderando a prova? A milha número 40 (quilômetro 64) era
apenas o primeiro round de uma luta demorada. Quem sai na frente fica
vulnerável: pode ter de enfrentar elementos surpresa e se tornar escravo do
próprio ritmo. Até corredores amadores sabem que a melhor tática é
acompanhar
o ritmo do líder, acelerar somente o que for preciso e economizar as
energias para o final da competição.
Um exemplo clássico é o caso de Steve Prefontaine. Nos Jogos
Olímpicos de Munique, em 1972, ele disparou na frente em alta velocidade
por duas vezes na mesma prova e, em ambas ocasiões, foi ultrapassado. Por
se desgastar muito no início, não tinha mais forças e acabou ultrapassado por
três corredores. Essa derrota deixou uma lição séria: ninguém abandona a
posição de perseguir o líder, a não ser que seja obrigado. Exceto no caso de
pessoas sem juízo, sem responsabilidade – ou de Garry Kasparov.
No Campeonato Mundial de Xadrez de 1990, Kasparov cometeu um
erro tremendo e perdeu sua rainha logo no início de uma partida decisiva. Os
mestres do esporte de todo o mundo se apavo-raram, achando que o terrível
garoto dos tabuleiros estava perdido (um observador menos elegante do The
New York Times chegou a fazer zombaria). A não ser que não fosse um erro
– Kasparov teria sacrificado intencionalmente a sua peça mais valiosa para
conseguir uma vantagem psicológica mais valiosa ainda. Ele chegou a um
ponto em que teve de atacar, esforçar-se e dar um jeito de se safar. Anatoly
Karpov, seu tradicional rival, era conservador demais para pressioná-lo logo
no começo do jogo, por isso Kasparov puxou a pressão para si mesmo com
um gambito de rainha – e ganhou a partida.
Essa era a lógica de Ann. Em vez de caçar os tarahumaras, ela preferiu
a arriscada estratégia de fazer com que a perseguissem. Quem está mais
comprometido com a vitória: o predador ou a presa? O leão pode perder a
parada e tentar outro dia, mas o antílope erra uma só vez. Para derrotar os
rarámuris, Ann sabia que precisava mais do que força de vontade: precisava
recorrer ao medo. Enquanto estivesse na dianteira, cada galho ultrapassado
seria um impulso para romper a linha de chegada.
“Correr na liderança exige determinação e confiança”, alertou Roger
Bannister. “Mas o medo deve fazer parte... Não existe descontração e toda a
prudência é jogada fora.”
Ann tinha determinação e confiança de sobra. O que estava fazendo era
se livrar da cautela e deixar o medo fazer a sua parte. O mundo das
ultracorridas estava prestes a assistir ao primeiro gambito de rainha da
modalidade.
Capítulo 14
Ela é maluca! Ela é... incrível!
O treinador Vigil era um fanático por dados exatos, mas, ao observar
Ann percorrer as Montanhas Rochosas com seu ousado plano de matar ou
morrer, ele agradeceu ao fato de as ultramaratonas não terem nenhuma
precisão científica, nenhum script, nenhum manual de treinamento e
nenhuma sabedoria convencional. Esse tipo de autoinvenção libertadora
constitui a fonte das grandes rupturas, como bem sabia Joe Vigil (Cristóvão
Colombo, os Beatles e Bill Gates provavelmente concordariam com ele).
Ann Trason e seus compadres podiam ser comparados a cientistas malucos,
que lidam com tubos de ensaio no meio de um laboratório, ignoram o
restante dos esportes e são livres para desafiar até os princípios mais básicos
da alimentação, dos trajes esportivos, da biomecânica, da intensidade dos
treinamentos... De tudo.
E quais fossem as rupturas que atingissem, elas seriam legítimas. No
caso dos ultracorredores, Vigil tinha a apaziguadora impressão de lidar com
puras espécies de laboratório. Ele não estava se iludindo com uma falsa
superperformance, como as “milagrosas” conquistas dos ciclistas na Volta da
França, ou a hercúlea força de batedores de beisebol, ou ainda a
inacreditável velocidade de corredoras que conquistam cinco medalhas em
uma olimpíada antes de irem aos tribunais por mentir sobre o uso de doping.
Sobre a ex-Mulher Maravilha caída em desgraça Marion Jones, alguém
comentou que “até o mais belo sorriso pode esconder uma mentira”.
Mas em qual sorriso você poderia confiar? Fácil: nos sorrisos dos
esquisitões que corriam pelo mato.
Os ultracorredores não tinham motivos para trapacear, porque nada
ganhariam: nem fama, nem dinheiro, nem medalhas. Ninguém sabia quem
eles eram, nem estava preocupado em saber quem chegou primeiro naquela
estranha prova no meio da floresta. Não havia prêmio em dinheiro: tudo o
que o vencedor de uma ultramaratona recebia era o mesmo pedaço de metal
que o sujeito que chegou em último lugar. Por isso, na condição de cientista,
Vigil podia confiar nos dados de uma ultramaratona e, como fã, dava para
apreciar o espetáculo sem ceticismo ou desprezo. Não havia sinal do
hormônio sintético eritropoetina (epo) no sangue de Ann Trason, nem
sangue contrabandeado em sua geladeira, nem ampolas de anabolizantes
vindos do Leste Europeu via FedEx.
Vigil sabia que, se conseguisse entender Ann Trason, captaria
o que uma pessoa excepcional é capaz de fazer. Entretanto, se
conseguisse compreender os tarahumaras, saberia o que todo mundo pode
fazer.

Ann puxou o ar com um movimento profundo e trêmulo. A subida final até o


Hope Pass era uma agonia, mas ela lembrava que, desde que Carl a
acompanhava, nunca havia sido passada para trás numa subida íngreme.
Cerca de dois anos antes, os dois corriam num dia de chuva quando ela
começou a reclamar da grande colina que teriam de subir. Cansado de ouvir
o lamento, Carl reagiu com o nome mais obsceno que surgiu em sua mente.
“Covarde”, revelou Ann depois. “Ele me chamou de covarde. Naquele
momento, decidi que não pouparia esforços para ser melhor do que ele nas
subidas.” Não apenas melhor do que Carl, mas melhor do que qualquer outra
pessoa: Ann se tornou tão obstinada por pistas íngremes que as montanhas
foram o seu principal cenário para sair em disparada e deixar os
competidores vendo poeira.
Porém, agora, às vésperas de encarar o pico Hope Pass, ela podia olhar
para trás e ver Martimano e Juan se aproximando, parecendo tão suaves e
leves como as capas que os envolviam.
Meu Deus!, pensou a corredora. Ela estava tão cansada, quase
precisando das mãos para ajudar na subida. Não sei como eles conseguem
fazer isso.
Um pouco mais adiante na montanha, Manuel Luna e o restante da
equipe dos tarahumaras também surgiram. Eles haviam tido dificuldades nos
quilômetros iniciais em função do ritmo acelerado, mas agora – como um
protoplasma alienígena que se reconstitui e surge mais forte cada vez que
alguém chega perto dele – vinham em um compacto grupo logo depois de
Manuel Luna.
“Meu Deus!”, Ann agora exclamou.
Finalmente, a corredora chegou ao alto do pico. A vista era lindíssima.
Se Ann olhasse para trás, veria mais de setenta quilômetros de amplidão
verde, espaço que a separava da cidade de Leadville. Entretanto, ela não
parou nem sequer para tomar água: tinha um ás na mão e era o momento de
colocá-lo na mesa. Mesmo se sentindo tonta por causa do ar rarefeito e com
os tornozelos muito doloridos, Ann se posicionou bem no alto e começou a
descida da montanha.
Essa era outra especialidade de Ann Trason: usar o terreno para se
recuperar conforme se deslocava. Depois de um primeiro movimento
íngreme, a descida aos poucos se transformava em longos e moderados
ziguezagues; Ann podia se inclinar, acomodar as pernas e deixar a gravidade
fazer o seu trabalho. Passado um tempo, já dava para sentir os nós nas
panturrilhas começarem a se desfazer e as coxas recuperarem a força
original. Quando chegou na parte final, a cabeça estava erguida e o brilho
havia voltado a seus olhos de pantera.
Hora de passar sebo nas canelas. Ann atravessou a trilha lamacenta e
alcançou a estrada firme, com as pernas se movendo rápidas e soltas
conforme ela acelerava, rumo aos últimos cinco quilômetros até o ponto de
dar meia-volta.
Juan e Martimano, enquanto isso, haviam feito um pequeno desvio.
Logo que passaram a linha das árvores, ficaram espantados ao identificar um
grande bando de estranhas criaturas peludas – e, entre elas, alguns animais.
“Ei, aqui tem sopa!”, uma voz rouca chegou até os atônitos tarahumaras,
vinda de algum lugar do bando. Os rarámuris tinham acabado de fazer o
primeiro contato com outra tribo isolada: a Hopeless Crew.
Doze anos antes, Ken Chlouber havia organizado seus vizinhos para
montar uma meia dúzia de estações de apoio, porém se recusou a instalar
uma no alto do Hope Pass – até aquele minerador durão, que costumava se
orgulhar da alta taxa de procura pelos hospitais durante a sua corrida, achava
que seria demais. O voluntário que se instalasse no cume do Hope Pass teria
de levar para o alto os suprimentos de comida e água e atender um imenso
desfile de corredores, além de passar duas noites acampado naquele pico
nevado. Nada feito – se Ken mandasse alguém para lá, corria o risco de não
ver o voluntário voltar.
Felizmente, um grupo de criadores de lhamas da região se ofereceu para
a tarefa, achando tudo muito divertido. Eles podiam carregar os animais com
comidas e bebidas e montar suas barracas a quase 4 mil metros de altura.
Desde então, a Hopeless Crew havia aumentado e agora reunia cerca de
oitenta criadores de lhamas e seus amigos. Durante dois dias, eles
enfrentavam ventos fortes e dedos a ponto de congelar enquanto ofereciam
primeiros socorros e um pouco de sopa quente aos corredores, passando os
feridos para o lombo dos animais e se divertindo o tempo todo, como uma
tribo de simpáticos homens das neves. “O Hope Pass já é uma desgraça num
dia bom. Se não fossem as lhamas, vários participantes teriam morrido”,
garantiu Ken.
Juan e Martimano saudaram os voluntários timidamente conforme
passavam pelo improvisado abrigo dos Hopeless. Pararam para beber algo
ao ver aquele peculiar acampamento cigano (além de devorar pratos de uma
sopa de macarrão realmente saborosa, que alguém colocou nas mãos deles) e
depois começaram a descer a encosta da montanha. Não havia nem sinal de
Ann.
A corredora atingiu a marca dos oitenta quilômetros ao meio-dia e
cinco, quase duas horas mais cedo em relação ao tempo de Victoriano na
prova do ano anterior. Carl a supriu com bebidas e gel de carboidrato, depois
pegou a mochila e ajeitou os próprios tênis. De acordo com as regras da
competição de Leadville, nos últimos oitenta quilômetros, os participantes
podiam contar com uma “mula”, o que significava que, a partir de agora,
Ann teria a companhia de Carl até o final do trajeto.
Numa ultramaratona, contar com um bom pacer, um acompanhante nas
corridas, pode ser bastante útil: Carl, além de ser rápido o bastante para
“empurrá-la”, tinha experiência suficiente para assumir se o cérebro de Ann
começasse a apresentar falhas. Depois de vinte e tantas horas de corrida
ininterrupta, um ultramaratonista pode ficar confuso a ponto de se esquecer
de substituir as pilhas da lanterna, interpretar de forma equivocada as marcas
da trilha ou até, como aconteceu com um corredor da Ultramaratona de
Badwater em 2005, não identificar quando realmente é hora de parar para ir
ao banheiro.
Mas podem acontecer coisas piores. Existem corredores que têm
alucinações – certa vez, um ultramaratonista saiu correndo e saltando no
meio das árvores quando viu luzes de lanterna, convencido de que estava nos
trilhos de um trem. Outro resolveu acompanhar uma linda jovem que
patinava perto dele só de biquíni por vários quilômetros pelo Vale da Morte,
até que, para a sua decepção, ela sumiu como num passe de mágica. No caso
dos competidores da Ultramaratona de Badwater, seis entre vinte tiveram
alucinações naquele ano; um deles declarou ter visto corpos em
decomposição na beira da estrada e “monstruosos ratos mutantes” correndo
pelo asfalto. Uma pacer revelou que ficou realmente assustada quando o
corredor que ela acompanhava parou de repente no meio do nada e disse
para o vazio: “Eu sei que você não é de verdade”.
Um pacer confiável pode salvar a sua corrida, mas um acompanhante
esperto pode salvar a sua vida. Má notícia para Martimano
– naquele momento, o melhor que ele poderia esperar era que o
esquisitão que tinha encontrado na cidade na noite anterior realmente
aparecesse, e conseguisse correr.
Na noite anterior, Rick Fisher havia levado os tarahumaras para um
jantar na sede da Leadville vfw, na tentativa de recrutar alguns pacers para a
equipe. Não seria fácil, porque a tarefa é tão exigente e ingrata que em geral
apenas familiares, loucos ou amigos fiéis topam a parada. Fazia parte da
missão ficar plantado no meio do nada durante horas, esperando que o seu
corredor aparecesse, para daí acompanhá-lo noite adentro por um trajeto
montanhoso e cortado por ventos gelados. O pacer ganha marcas de sangue
na canela e vômitos nos sapatos, mas nem sequer uma camiseta como
prêmio por ter completado duas maratonas em uma única noite. Outras
atribuições possíveis são ter de ficar acordado enquanto o corredor tira uma
soneca no meio da lama, espremer bolhas de sangue nas nádegas do corredor
(sem luvas) e emprestar o casaco mesmo que os seus dentes estejam batendo
de frio, porque os lábios do corredor já ficaram azuis há tempos.
No jantar da noite anterior à corrida, Martimano olhou para um
morador cabeludo que, por algum motivo, começou a rir. Martimano riu
também, achando o cara esquisito, mas muito engraçado. “É comigo mesmo,
cara”, falou Shaggy. “Você entendeu? Tú y yo. Se você precisar de uma
‘mula’, pode contar comigo.”
“Bem, bem, olha aqui...”, interrompeu Fisher. “Você tem certeza de que
consegue acompanhar esses caras?”
“Ei, você não está me fazendo nenhum favor, viu?”, lembrou Shaggy.
“Quantas pessoas mais se ofereceram?”
“Tudo bem”, concordou Fisher.
E, como havia prometido, Shaggy estava lá, acenando no posto de
apoio na tarde seguinte, quando Juan e Martimano chegaram até a marca dos
oitenta quilômetros, o lugar de dar a meia-volta. Os dois beberam um
demorado gole de água e comeram pinole e finos burritos com feijão que
Kitty havia levado. Rick Fisher também havia encontrado outro pacer, um
ultracorredor de elite de San Diego que há tempos se interessava pelas
técnicas dos tarahumaras. Os quatro corredores trocaram saudações ao estilo
rarámuri – um rápido contato da ponta dos dedos – e voltaram rumo ao Hope
Pass. Ann já havia sumido no horizonte.
“Pé na tábua, rapazes. Vamos atrás da bruja”, falou Shaggy.
Juan e Martimano mal entendiam o que ele falava, porém
compreenderam que o rapaz se referia a Ann como “bruxa”. Olharam para
ver se era sério, concluíram que não era e começaram a rir. Esse cara
prometia ser um belo estímulo.
“Isso mesmo, ela é uma bruxa, mas é legal”, continuou Shaggy. “Só que
nós temos mais fibra. Vocês sabem o que é fibra? Não sabem? Tudo bem.
Vamos caçar a bruja como se persegue uma presa, como um venado. Isso
mesmo, um venado. Entenderam? Vamos correr atrás dela como se persegue
um venado. Poco a poco.”
Mas a “bruxa” não dava sinais de esmorecer. Ao ultrapassar o Hope
Pass pela segunda vez, Ann tinha ampliado a sua vantagem de quatro para
sete minutos. “Quando eu estava subindo para o Hope Pass, ela passou por
mim fazendo o trajeto inverso – vrummm!”, contou um corredor chamado
Glen Vaassen a Runner’s World. “Parecia que estava voando!”
Ann percorreu o caminho até o vale depois da montanha e entrou no rio
Arkansas, lutando para atravessá-lo com a água pela cintura. Eram 14h31
quando ela e Carl chegaram na estação de Twin Lakes, na milha de número
60 (quilômetro 96). A corredora passou pelo exame médico, recebeu
atendimento e rumou para o início da trilha, uma subida de seis metros.
Quando Shaggy e os tarahumaras apareceram, fazia doze minutos que Ann
havia partido.
Por coincidência, Ken Chlouber tinha acabado de atingir o posto de
apoio de Twin Lakes e encontrou Juan e Martimano no trecho de volta da
corrida. Todas as pessoas ali comentavam o incrível ritmo de Ann e a
crescente vantagem de tempo, porém, quando Ken viu Juan e Martimano
saindo da estação, algo chamou sua atenção: a dupla chegou na subida do
início da trilha dando risada.
Todo mundo caminha naquele trecho, pensou Ken, vendo como Juan e
Martimano venciam a encosta com a tranquilidade de crianças brincando
numa pilha de folhas. Todo mundo. E ninguém fica dando risada desse jeito.
Capítulo 15
“A carne do meu corpo parecia suave e descontraída, como um ensaio de
música experimental.”
Richard Brautigan, Pescar truta na América

“Mas que animação!”, impressionou-se o treinador Vigil, que também nunca


tinha visto nada parecido. “É inacreditável.” Em geral, leveza e
determinação são emoções antagônicas, porém os tarahumaras conseguiam
reuni-las sem problemas, como se a corrida para a morte os fizesse sentir
mais vivos.
Vigil havia tentado registrar mentalmente várias coisas: Olha só como
eles colocam os dedos dos pés no chão, como ginastas fazendo exercícios de
solo. E as costas?! Parecem capazes de levar baldes cheios de água na
cabeça sem derramar uma gota! Há quantos anos falo para os rapazes que
é preciso endireitar a coluna e correr com vontade, como estes caras fazem?
No entanto, foi o sorriso que realmente o encantou.
É isso!, pensou Vigil animado. Descobri!
Ele não sabia muito bem o que havia descoberto. A revelação que
ansiava encontrar certamente estava diante de seus olhos, contudo não
identificava onde. Apenas conseguia captar o brilho, como se tentasse achar
um livro raro numa biblioteca iluminada por velas. Mas, não importava o
que fosse, ele sabia que era exatamente isso o que andava procurando.
Nos últimos anos, Vigil tinha se convencido de que o próximo passo a
ser dado no que se refere à capacidade humana viria de uma dimensão que
ele já suspeitava: a postura. Não o tipo de postura que os outros técnicos
costumavam pregar em seus sermões – Vigil não estava falando de “arrojo”
e “sede de vencer”. Talvez fosse o oposto disso. A ideia que ele fazia de
postura não tinha a ver com dureza, mas com suavidade, delicadeza. Com
amor.
Isso mesmo: amor.
Vigil sabia que parecia um discurso “paz e amor” – e é bom lembrar
que ele era do tipo que preferiria mil vezes encontrar uma resposta com
dados concretos e quantificáveis, como vo2 máximo (volume máximo de
oxigênio que o corpo consegue capturar do ar dos pulmões e usar na
produção de energia) ou tabelas de treinamento. No entanto, depois de
dedicar quase cinquenta anos à dissecação do desempenho, ele havia
chegado à desconfortável conclusão de que todas as perguntas fáceis já
tinham sido respondidas – estava aprendendo mais sobre cada vez menos.
Vigil poderia dizer exatamente quanto de vantagem os adolescentes
quenianos tinham sobre os concorrentes norte-americanos (cerca de 29 mil
quilômetros de corrida nos treinos). Também havia descoberto por que os
corredores russos costumavam saltar obstáculos: além de fortalecer os
músculos laterais, o trauma “ensina” os nervos a reagirem com mais
velocidade, o que reduz as chances de ferimentos. Tinha decifrado o segredo
da dieta dos camponeses peruanos (as altitudes elevadas exercem um efeito
curioso no metabolismo) e era capaz de falar durante horas sobre o impacto
de um único ponto percentual na eficácia do consumo de oxigênio.
Vigil já havia esquadrinhado o corpo, agora precisava en-tender o
cérebro. De forma específica: como se faz uma pessoa realmente querer
fazer algo? Como mudar as programações internas capazes de nos levarem
de volta à condição de corredores naturais, como já fomos na origem? Não
só na história da humanidade, mas em nossas próprias vidas. Lembra?
Quando crianças, sempre algum adulto nos mandava ir mais devagar. Todos
os jogos e todas as brincadeiras ocorriam à velocidade máxima, com
largadas fenomenais para ver quem conseguia chutar uma lata primeiro ou
desbravar os perigos do quintal do vizinho. Quase a metade da graça das
coisas estava em fazer tudo rápido,
o que provavelmente tornava essas ocasiões a última vez que alguém
nos condenava pela alta velocidade.
Esse era o verdadeiro segredo dos tarahumaras: eles nunca esqueciam
como era gostar de correr. Tinham em mente o fato de que a corrida foi a
primeira arte que o ser humano dominou, o nosso ato original de criação
inspirada. Ao mesmo tempo que desenhávamos imagens em cavernas e
tirávamos sons de troncos ocos, também aperfeiçoávamos a técnica de
ajustar a respiração, a mente e os músculos, buscando uma ágil
autopropulsão sobre superfícies íngremes. E, quando os nossos ancestrais
finalmente fizeram os primeiros registros nas cavernas, o que eles
retratavam? Um rápido raio, um ataque vigoroso – veja só, o Homem
Corredor.
A corrida à distância tinha valor porque era indispensável. Era
o meio de sobreviver e manter a espécie no planeta. Era preciso correr
para comer e para não virar comida; para encontrar uma parceira,
impressioná-la e, ao lado dela, correr para formar uma nova vida juntos. Era
preciso amar a corrida, ou não daria para sobreviver para amar outra coisa.
E, como acontece com quase tudo o que amamos (tudo o que chamamos de
“paixões” e “desejos”), trata-se de uma necessidade ancestral herdada.
Nascemos para correr; nascemos porque corremos. Assim, somos todos uma
tribo de corredores, como os tarahumaras sempre souberam.
Mas a abordagem norte-americana, que horror. Falha já do ponto de
partida. Vigil a achava artificial e ambiciosa, relacionada demais com a
conquista (de preferência imediata) de uma recompensa: uma medalha, um
contrato com a Nike, um corpo perfeito. Não era arte, e sim negócio – uma
implacável troca. Não é de espantar que tantas pessoas detestem correr: se a
atividade é encarada apenas como um meio para atingir um fim (um
investimento para ganhar velocidade, dinheiro ou boa forma), por que se
dedicar se o que você tem a ganhar não compensa o esforço?
Nem sempre foi desse jeito – e, quando não era, os norte-americanos
eram incríveis. Na década de 1970, os maratonistas estado-unidenses podiam
ser comparados aos tarahumaras: formavam uma tribo isolada, correndo por
amor e dependendo apenas do instinto e de equipamentos básicos. Ao se
cortar a parte de cima de um tênis de corrida usado nessa época, sobra uma
sandália: o Adidas e o Onitsuka Tigers antigos eram compostos apenas de
uma sola lisa, sem controle de movimento, sem apoio para a curva do pé,
sem amortecedor para o calcanhar. Os caras que corriam nos anos 1970 não
sabiam o suficiente para se preocupar com pronação e supinação, porque o
incrível idioma “corridês” ainda não havia sido inventado.
A rotina de treinamento era tão primitiva quanto os tênis. O que eles
faziam era correr – e muito. “Corríamos duas vezes por dia, às vezes três”,
lembra Frank Shorter. “Tudo o que fazíamos era correr; correr, comer e
dormir.” Eles também corriam com intensidade: “O modus operandi
consistia em deixar um bando de sujeitos disputar corridas todos os dias,
sem muita regra”, explicou um observador. E eles eram companheiros
demais para serem chamados de concorrentes: “Gostávamos de correr
juntos”, ressalta Bill Rodgers, um dos destaques da turma que corria nos
anos 1970 e quatro vezes vencedor da Maratona de Boston. “A gente se
divertia. Não era algo opressivo.”
Os corredores da época eram tão ignorantes que nem sequer percebiam
estar expostos a ferimentos, desgastes e excessos. Mas também eram
rápidos, realmente rápidos. Frank Shorter venceu a medalha de ouro na
maratona das Olimpíadas de 1972 e a de prata em 1976. Bill Rodgers foi o
maratonista número 1 do mundo por três anos, e Alberto Salazar venceu as
competições de Boston e Nova York e a ultramaratona Comrades.
No início da década de 1980, o Greater Boston Track Club reunia meia
dúzia de sujeitos que conseguiam encarar uma maratona com tempo de duas
horas e doze minutos. Ou seja, seis homens, num clube amador, em uma
cidade. Vinte anos depois, não dava para encontrar um único maratonista
que tivesse o tempo de duas horas e doze minutos em todo o país. Nunca um
corredor norteamericano conseguiu atingir a marca de duas horas e catorze
minutos classificatória para as Olimpíadas – apenas Rod DeHaven
conseguiu participar de uma competição olímpica, mas com índice B (nas
seletivas, fez o tempo de duas horas e quinze minutos). Terminou a prova em
69º lugar.
O que aconteceu? Como passamos da posição de líderes do bando para
a “lanterna” das maratonas? É difícil identificar uma única causa para
qualquer acontecimento deste complexo mundo, claro, mas, se eu tivesse de
escolher um, a resposta poderia ser resumida a um símbolo:
$
Certo, a desculpa de muitas pessoas é que os quenianos teriam um tipo
de fibra muscular mutante. No entanto, a pergunta não é “por que os outros
correm com mais velocidade?”, e sim “por que nós corremos com menos
velocidade?”. Na verdade, a corrida em distância nos Estados Unidos entrou
em uma espiral mortal exatamente no momento em que o dinheiro apareceu
na equação. A partir de 1984, os Jogos Olímpicos foram abertos para
profissionais, o que significou que as empresas fabricantes de tênis poderiam
trazer incríveis corredores de distância que viviam em lugares isolados e
incluí-los em suas folhas de pagamento.
Vigil sentiu o problema se aproximar e fez o que pôde para alertar os
seus corredores: “Existem duas deusas em seus corações. A da sabedoria e a
da riqueza. Todo mundo acha que, se conseguir a riqueza, a sabedoria virá
depois, e acaba concentrando a atenção na busca de dinheiro. Mas isso tem
um custo. Se você dedicar seu coração à deusa da sabedoria e entregar a ela
todo o seu amor e a sua atenção, a deusa da riqueza sentirá ciúme e irá
persegui-lo”. Não espere nada em troca de sua dedicação à corrida e ganhará
mais do que jamais imaginou.
O especialista não estava fazendo uma apologia dos benefícios da
pobreza, nem promovendo uma ordem monástica formada por maratonistas
sem dinheiro. Ele nem tinha certeza se havia identificado o problema, quanto
mais chegado a alguma solução. Tudo o que queria era encontrar o “corredor
ancestral natural” – alguém que corria por prazer, como um artista tomado
por inspiração – e desvendar como esse atleta treinava, vivia e pensava.
Independentemente de qual fosse essa maneira de pensar, quem sabe Vigil
conseguisse transpô-la para a cultura norte-americana, como uma planta
transportada, e vê-la crescer naturalmente outra vez.
Ele já contava com o protótipo para esse estudo. Era um soldado
tcheco, franzino e com ar desajeitado, que corria de um jeito tão horroroso
que parecia “ter sido atingido no coração”, como descreveu um especialista
em esportes. Mas Emil Zatopek gostava tanto de correr que, mesmo quando
ainda era um soldado raso que participava de acampamentos do Exército, à
noite pegava a lanterna e saía para corridas de mais de trinta quilômetros
pelas florestas. Corria calçado com botas de soldado, em pleno inverno e
depois de um dia de treinamento militar.
Quando a neve estava alta demais, Zatopek corria no tonel, em cima da
roupa suja, tentando obter resistência ao mesmo tempo que limpava as
peças. Assim que se sentia aquecido o bastante para sair, corria como um
louco – atravessava quatrocentos metros com a máxima velocidade noventa
vezes, fazendo alguns “descansos” nos quais corria devagar por duzentos
metros. Quanto terminava o exercício, havia corrido mais de 53 quilômetros.
Se alguém lhe perguntasse sobre o tempo, ele não saberia responder, já que
nunca cronometrava as suas corridas.
Para fortalecer a capacidade de sair correndo, Emil e a sua esposa,
Dana, costumavam brincar com um dardo: eles o jogavam um para o outro
num campo de futebol como uma espécie letal e demorada de frisbee. Um
dos exercícios favoritos de Zatopek combinava todas as suas paixões:
gostava de correr pela floresta com botas de soldado, levando a sua amada
nas costas.
Mas as pretensões esportivas do soldado podiam ser consideradas mera
perda de tempo. Os tchecos estavam mais para uma equipe de esportes de
inverno do Zimbábue: não tinham tradição, não tinham treinador, não tinham
talento natural nem chances de ganhar. Por outro lado, ser tratado como uma
carta fora do baralho tinha suas vantagens, e não ter nada a perder deixava
Zatopek livre para achar uma forma de vencer. Vejamos o caso da primeira
maratona do atleta. Qualquer um sabe que a melhor maneira de se preparar
para correr 42 quilômetros é percorrer distâncias pequenas e a velocidades
moderadas. Qualquer um menos Zatopek, que, para se preparar, corria com
velocidade.
Eu já sabia como era correr devagar, pensou, e achei que precisava
treinar a velocidade. Seu modo de correr desajeitado e cheio de
caretas virou um prato cheio para quem escrevia sobre o assunto (“O
mais terrível show de horrores desde Frankenstein.” [...] “Quando ele corre,
o passo seguinte parece que também será o último” [...] “Lembra um homem
que luta contra um polvo numa esteira rolante”), porém Zatopek achava
divertido. “É que não tenho talento para correr e sorrir ao mesmo tempo”,
explicava. “Elegância não vence a prova. Os pontos são resultado da
velocidade, e não do estilo.”
E como gostava de falar! Para Zatopek, uma corrida era como um
encontro. No meio da competição, parava para bater papo com outros
corredores, arriscando o pouco que sabia em francês, alemão e inglês, o que
levou um britânico implicante a reclamar da “falação constante” do atleta
tcheco. Em provas distantes, era comum reunir tantos amigos no quarto de
hotel que ele desistia da própria cama e ia dormir na parte de fora, embaixo
de uma árvore. Uma vez, pouco antes de uma competição internacional, ele
fez amizade com um corredor australiano que queria quebrar o recorde de
seu país na prova de 5 mil metros. Como Zatopek ia disputar os 10 mil
metros, elaborou um plano. Sugeriu ao australiano que participasse da
mesma prova que ele e, dada a largada, passou a metade do trajeto
acompanhando o amigo até que este comprovasse o seu recorde. Em
seguida, apertou o passo e venceu a corrida.
Para Zatopek era assim: uma competição servia para juntar amigos.
Gostava tanto de competir que, em vez de selecionar os eventos disponíveis,
costumava se inscrever em todas as provas que apareciam. Durante uma
intensa fase no final da década de 1940, o tcheco competiu semana sim,
semana não durante três anos e nunca perdeu, chegando a 69–0. Mesmo com
uma programação assim, sua média de treinamento era de 265 quilômetros
por semana.
Quando chegou nas Olimpíadas de Helsinque em 1952, Zatopek era um
cara de trinta anos, calvo, e que treinava por conta própria, vindo do
decadente Leste Europeu. Como a delegação tcheca era reduzida, ele podia
escolher em quais distâncias gostaria de competir – e escolheu participar de
todas. Disputou a prova dos 5 mil metros, venceu e bateu o recorde
olímpico. Disputou a prova dos 10 mil metros, conquistou a sua segunda
medalha de ouro e bateu novo recorde. Nunca havia participado de uma
maratona até então, mas quem estava preocupado? Com duas medalhas de
ouro no pescoço, ele não tinha nada a perder, então por que não tentar?
A inexperiência de Zatopek logo ficou óbvia. Fazia calor naquele dia e
o corredor inglês Jim Peters, então detentor do recorde mundial, decidiu
aproveitar as altas temperaturas para fazer o tcheco sofrer. Na marca das 10
milhas (quilômetro 16), Peters já estava dez minutos abaixo de seu recorde e
corria na dianteira. Zatopek tinha dúvidas se alguém era capaz de manter
aquele ritmo acelerado.
“Desculpe-me”, falou, aproximando-se de Peters. “É a primeira vez que
participo de uma maratona. Estamos correndo rápido demais?”
“Não”, respondeu Peters. “Estamos devagar demais.” Se aquele
corredor era ingênuo o bastante para perguntar isso, merecia uma resposta
assim.
Zatopek ficou surpreso. “Devagar demais? Tem certeza?”
“Tenho”, assegurou Peters, antes de se assombrar com o que viria a
acontecer depois.
“Muito bem, obrigado.” Zatopek acelerou e partiu a toda velocidade à
frente do corredor inglês.
Quando o atleta tcheco entrou no estádio, foi recebido com imenso
entusiasmo, não apenas dos torcedores, mas de atletas de todos os países,
que se aglomeraram na pista para saudá-lo. Zatopek rompeu a fita com seu
terceiro recorde olímpico. Quando os colegas se aproximaram para
cumprimentá-lo, era tarde demais: a equipe jamaicana já havia colocado o
maratonista sobre os ombros e desfilava com ele pela pista. Mark Twain uma
vez disse que “devemos viver de tal forma que, quando morrermos, até o
agente funerário lamente”. Pois Emil Zatopek achou um jeito de correr que,
quando vencia, até os competidores ficavam impressionados.
Não há dinheiro que faça alguém correr com essa alegria, da mesma
maneira como também não é possível intimidar quem tem esse dom – como
Zatopek infelizmente teve de provar. Quando o Exército Vermelho invadiu a
República Tcheca em 1968, na Primavera de Praga, para esmagar um
movimento reformista, o admirado atleta teve de escolher entre juntar-se aos
comunistas e assumir o posto de embaixador esportivo ou passar o resto da
vida limpando latrinas numa mina de urânio. Zatopek escolheu as latrinas. E,
assim, um dos maiores atletas do mundo saiu de cena.
Por coincidência, na mesma época, o seu rival ao título de maior
corredor de longas distâncias também estava passando por maus pedaços.
Ron Clarke, um incrivelmente talentoso atleta australiano, dono de uma
beleza morena ao estilo de Johnny Depp, era exatamente o tipo de cara que
Zatopek tinha todo direito de odiar. Enquanto o tcheco teve de aprender
sozinho a correr na neve depois de um dia dando duro, o belo garotão
australiano praticava as suas corridas sob o sol das praias de Mornington
Peninsula, orientado por um treinador experiente. Tudo o que Zatopek podia
ansiar, Clarke tinha de sobra: liberdade, dinheiro, elegância e... cabelos.
Ron Clarke era um astro – mas, aos olhos de seu país, não passava de
um perdedor. Apesar de vencer dezenove recordes em todas as distâncias
entre a meia milha e as seis milhas, o belo corredor jamais havia conseguido
ganhar as grandes provas. No verão de 1968, apostou a última ficha: na
prova de 10 mil metros das Olimpíadas da Cidade do México, Clarke foi
derrotado pelo mal-estar provocado pelas elevadas altitudes. Na expectativa
de encontrar um mar de críticas quando voltasse a seu país, ele decidiu
prorrogar o retorno fazendo uma escala em Praga, para uma visita ao
campeão que nunca havia perdido nada. No final do encontro, Clarke viu
quando Zatopek sorrateiramente colocou algo em sua mala.
“Pensei que fosse alguma mensagem para o mundo, por isso só abri o
pacote quando o avião estava bem longe”, contou o australiano. Zatopek se
despediu do antigo rival com um forte abraço e disse: “Você merece”. Clarke
achou o gesto tocante e gentil, afinal o mestre enfrentava problemas bem
mais difíceis, mas estava ali, oferecendo um abraço de vitória para um jovem
que nunca chegaria a seus pés.
Só depois Clarke descobriu que o amigo não se referia ao abraço –
dentro da mala, encontrou a medalha de ouro dos 10 mil metros que Zatopek
havia conquistado nas Olimpíadas de Helsinque. Aquele gesto – dar a
medalha ao homem que tirou seu nome do livro dos recordes – era
incrivelmente nobre, mas dá-la no exato momento de sua vida em que perdia
todo o resto que tinha era um ato de incrível dedicação.
“Seu entusiasmo, sua amizade, seu amor pela vida brilhavam
o tempo todo”, declarou Ron Clarke mais tarde. “Não existe, e nunca
existiu, um homem mais nobre do que Emil Zatopek.”
Era isso o que Vigil estava tentando descobrir: seria Zatopek um grande
homem que virou corredor ou um grande homem porque corria? Não dava
para assegurar, porém seus instintos lhe diziam que havia uma conexão entre
a capacidade de amar e a capacidade de amar o ato de correr. A engenharia
deveria ser a mesma: os dois dependiam da capacidade de abdicar dos
próprios desejos, de colocar de lado o que se deseja e apreciar o que se tem,
ter paciência, saber perdoar e não exigir. Velocidade e sexo – será que foram
simbióticos durante a maior parte de nossa existência, tão entrelaçados como
os filamentos de nosso dna? Não estaríamos vivos sem amar, não teríamos
sobrevivido sem correr; então talvez não devêssemos nos surpreender se, ao
melhorarmos um aspecto, evoluíssemos também no outro.
Vigil era um cientista, não um guru. Não era de seu feitio esse negócio
de iluminação e concentração budista, contudo ele também não poderia
ignorar esses fatores. Havia calcado a sua trajetória encontrando conexões
onde todos os demais viam apenas coincidências e, quanto mais avaliava a
relação com a dedicação, mais intrigado ficava. Seria apenas um fato ao
acaso que o panteão dos corredores dedicados também incluía Abraham
Lincoln (“Ele conseguia vencer todos os outros garotos nas corridas”) e
Nelson Mandela (um destaque no cross-country na época da universidade
que, mesmo na prisão, continuou a correr quase doze quilômetros por dia,
sem sair de sua cela)? Ron Clarke pode não ter sido muito poético ao
descrever Zatopek, mas talvez o seu olho treinado tenha atingido uma
precisão clínica: seu amor pela vida brilhava o tempo todo.
Sim, amor pela vida! Exatamente isso! Era isso o que tinha feito
o coração de Vigil saltar quando ele viu Juan e Martimano subindo
aquele aclive com alegria – ele havia encontrado o Corredor Ancestral.
Havia encontrado toda uma tribo de corredores ancestrais e, pelo que tinha
visto até então, eles tinham tanta alegria e grandeza como esperava
encontrar.
Vigil, um senhor ali sozinho no meio do bosque, sentiu um lampejo de
imortalidade. Havia algo ali, algo imenso. Não se tratava apenas de como
correr, mas de como viver, a essência do que somos como espécie e do que
queremos ser. O treinador havia lido Lumholtz e, naquele momento, as
palavras do grande explorador revelavam um tesouro escondido – então era
isso o que Lumholtz queria dizer quando definiu os tarahumaras como
“fundadores e criadores da história da humanidade”. Talvez todos os nossos
problemas – violência, obesidade, doença, depressão e tristeza que não
conseguimos superar – tenham começado quando paramos de viver como o
povo corredor. Ao negar nossa natureza, ela irrompeu de outra forma, e não
tão bonita.
A missão de Vigil estava clara. Ele teria de retraçar o caminho entre o
que somos hoje e o que os tarahumaras sempre foram e descobrir o momento
em que nos desviamos da trilha. Todos os filmes retratam a destruição da
civilização como consequência de uma espécie de big bang, guerra nuclear,
choque de cometa ou uma revolta de robôs capazes de pensar. Mas o
verdadeiro cataclisma pode ocorrer bem debaixo de nossos olhos: por causa
da obesidade crescente – uma em cada três crianças nascidas nos Estados
Unidos corre o risco de se tornar diabética –, a atual geração de norte-
americanos pode ser a primeira a sobreviver aos próprios filhos. Talvez os
antigos hindus tenham sido melhores videntes do que Hollywood quando
alertaram que o fim do mundo aconteceria não em decorrência de uma
explosão, mas de um belo cruzar de braços. Shiva, o Destruidor, nos
eliminaria apenas... fazendo nada. Por omissão. Apenas retirando a sua força
quente de nossos corpos e deixando que nos exterminássemos por conta
própria.
De qualquer forma, o treinador também não era nenhum maluco. Ele
não esperava que todas as pessoas conseguissem correr pelo desfiladeiro
com os tarahumaras para morar em cavernas e comer camundongos. No
entanto, algumas daquelas habilidades tinham de ser transferíveis, não é?
Talvez os princípios básicos dos tarahumaras pudessem sobreviver e criar
raízes em solo norte-americano.
Isso tudo porque a recompensa seria muito positiva. Que tal se
conseguíssemos correr por várias décadas sem nos ferir? Ultrapassar
centenas de quilômetros a cada semana gostando da atividade? Além de ver
a taxa de batimentos cardíacos se estabilizar, o nível de estresse e de raiva
caírem conforme a nossa energia aumentasse?
Imagine o crime, o colesterol e a tristeza se dissipando ao mesmo
tempo que uma nação de corredores finalmente encontrasse a sua trilha.
Mais do que os corredores olímpicos, mais do que as vitórias e os recordes,
esse seria o legado de Joe Vigil.
Ele ainda não tinha respostas para tudo isso, mas ver os tarahumaras
correndo com as suas capas bastava para saber onde encontrá-las.
Capítulo 16
Era engraçado, porque Shaggy olhava para a mesma coisa e tudo o que via
era um sujeito de meia-idade com um joelho incrível.
Seus ouvidos foram os primeiros a captar o problema. Durante horas,
ele havia escutado o som abafado provocado pelas sandálias de Juan e
Martimano, similar ao da batida de um tambor. As solas não atingiam o chão
em cheio: mais pareciam acariciá-lo, voltando a se erguer num movimento
circular para iniciar o próximo passo. E isso horas a fio...
No entanto, quando desceram o monte Elbert pela trilha estreita que
levava até a milha de número 70 (quilômetro 113), Shaggy notou uma
alteração no som. Martimano parecia estar tentando poupar um dos pés,
apoiando-o com cuidado especial. Juan também percebeu e olhou para o
amigo com ar de preocupação.
“¿Qué pasa?”, perguntou Shaggy.
Martimano não respondeu de imediato, sobretudo porque estava
relembrando as últimas doze horas para ver se identificava a causa das dores:
teria sido naquele trecho percorrido com tênis de corrida – pela primeira vez
na vida? Ou naquela acidentada estrada em ziguezague, que atravessou
quando estava escuro? Talvez sobre as pedras lisas ao passar pelo rio? Ou
quem sabe...
“La bruja”, soltou Martimano, por fim. Todo o episódio na parada de
apoio começava a fazer sentido. O olhar de Ann, aquela confusão de coisas
que ela disse, a expressão perplexa das pessoas que estavam ali, a recusa de
Kitty em traduzir as frases para o espanhol, o comentário de Shaggy... Agora
tudo ficava claro: Ann havia jogado uma maldição. “Eu a ultrapassei”, falou
Martimano, “e por isso ela rogou uma praga para o meu joelho.”
Ele temia que algo do tipo acontecesse desde que o Pescador havia se
recusado a trazer o xamã do grupo. Na vida nas barrancas, os xamãs
protegem o iskiate e o pinole de toda feitiçaria e combatem qualquer
maldição jogada em quadris, joelhos e nádegas dos corredores lançando mão
de massagens com ervas medicinais. Mas os tarahumaras não contavam com
nenhum xamã ali em Leadville, e este foi o resultado: pela primeira vez em
42 anos, o joelho de Martimano começava a falhar.
Quando Shaggy percebeu o que estava acontecendo, sentiu uma súbita
pontada de afeto. Esses caras não são deuses, são apenas humanos,
concluiu. E, como qualquer ser humano, aquilo que mais amavam também
podia causar dor e confusão. Correr centenas de quilômetros não era fácil
nem para os tarahumaras: eles precisavam enfrentar as suas dúvidas e
também fazer calar o pequeno demônio que se acomodava em seus ombros
para cochichar excelentes motivos para abandonar a prova.
Shaggy olhou para Juan, que estava dividido entre seguir a corrida ou
ficar ao lado de seu mentor. “Sigam em frente”, Shaggy falou para Juan e
seu pacer. “Eu cuido do amigo de vocês. Vão em frente e persigam a bruja
como se ela fosse um venado!”
Juan concordou e desapareceu após a curva da trilha.
Shaggy piscou para Martimano e falou: “Somos tú y yo, amigo”.
“Guadajuko”, respondeu Martimano, concordando com o pacer.
Ann já parecia sentir o aroma da linha de chegada. Quando Juan pisou
na estação de apoio de Halfmoon, na milha de número 72 (quilômetro 115),
a corredora havia dobrado seu ritmo e tinha 22 minutos de vantagem, com
apenas 45 quilômetros pela frente.
Para reduzir a diferença, Juan teria de acelerar cerca de um minuto a
cada 1,6 quilômetro percorrido, e estava entrando no pior trecho para
começar a fazer isso: a parte de asfalto, que se estendia por onze
quilômetros. Ann, com sua experiência em estradas e calçada com um par de
tênis Nike com injeção de ar, conseguia passar pela mesma parte com
tranquilidade – ao contrário de Juan, que iria correr sobre a estranha pista
asfaltada pela primeira vez na vida e com sandálias caseiras nos pés.
“Os pés dele vão sofrer”, comentou o pacer do tarahumara para alguns
profissionais da televisão que estavam à beira da trilha. Assim que Juan saiu
do mato e pisou no asfalto, dobrou os joelhos e encurtou o passo, tentando
absorver ao máximo o choque e mandar força para as pernas. E se adaptou
tão bem que seu incrédulo acompanhante começou a ficar para trás, incapaz
de seguir o seu ritmo.
Juan começou a perseguir Ann sozinho. Conseguiu ultrapassar os onze
quilômetros até o Fish Hatchery quase no mesmo tempo que havia levado
para fazer o trajeto pela manhã. Depois, virou à esquerda e entrou na trilha
barrenta que levava ao Powerline Climb. Muitos corredores de Leadville
consideram o Powerline Climb tão difícil quanto o Hope Pass. “Já vi gente
sentada ao lado da trilha, em lágrimas”, conta um veterano da prova. Mas
Juan encarou o trajeto como se tivesse esperado por ele o dia todo, usando
suas passadas íngremes para superar o trecho no qual a maioria dos
corredores recorria às mãos para ajudar os joelhos.
Adiante, Ann se aproximava do pico, porém já com os olhos quase
fechados de exaustão, como se mal conseguisse olhar para o trecho final da
encosta. Naquela estrada sinuosa, Juan vinha em passos firmes – até que,
subitamente, ele começou a saltar em um pé só. O desastre havia acontecido:
a correia de uma das sandálias tinha soltado e não havia nada para colocar no
lugar. Conforme Ann subia a montanha, Juan se acomodava em uma pedra
para ver
o que havia sobrado do calçado. Ele tentou ajeitar a peça e achou que
aquilo que havia sobrado da correia bastaria para prender a sola ao seu pé.
Deu um nó com a tira e tentou uns passos para ver como havia ficado.
Concluiu que dava para seguir em frente.
Enquanto isso, Ann se aproximava do trecho final. Tudo o que tinha
pela frente eram dezesseis quilômetros de trilha de terra próxima ao lago
Turquoise, para então rumar em direção aos gritos das pessoas reunidas na
Sixth Street, que esperavam para saudar quem se aproximasse da linha de
chegada.
Eram pouco mais de oito da noite e os bosques ao redor da trilha
começavam a ficar escuros, quando algo saiu do meio das árvores bem atrás
da corredora. Tudo foi tão rápido que Ann nem sequer teve tempo de reagir:
congelou no lugar onde estava, espantada demais para seguir em frente –
Juan surgiu como um raio à sua esquerda, seguindo pela trilha com sua a
capa branca. Ele pas-sou por Ann e desapareceu.
E ele nem parecia cansado! Parecia que estava... se divertindo! Ann
ficou tão pasma que decidiu abandonar a prova. Ela estava a menos de uma
hora da linha de chegada, mas a alegria do tarahumara, que tanto havia
impressionado o treinador Joe Vigil, bastara para deixá-la desconcertada. Ali
estava ela, superando as suas forças para manter a liderança, e aquele sujeito
passava com um ar tão à vontade. Era humilhante: ela agora sabia que, assim
que havia começado o lance do gambito da rainha, Juan havia decidido
marcá-la. O marido da corredora finalmente conseguiu convencê-la a voltar,
e bem na hora: Martimano e o restante da equipe tarahumara se
aproximavam a passos rápidos.
Juan cruzou a linha de chegada com um tempo de dezessete horas e
meia e estabeleceu um novo recorde para a prova de Leadville com uma
vantagem de 25 minutos. (Ele também inovou ao passar timidamente
embaixo da linha em vez de cortá-la, já que nunca havia visto nada parecido
antes.) Ann terminou a prova cerca de meia hora depois, com um tempo de
dezoito horas e seis minutos. Em seguida, chegaram Martimano e seu joelho
enfeitiçado, Manuel Luna e os demais tarahumaras, ocupando quarta, quinta,
sétima, décima e 11a posições.
“Mas que corrida!”, comentou Scott Tinley para o público que assistia à
prova pela televisão, ao posicionar o microfone no rosto de Ann. Ela piscou
diante das luzes das câmeras. Parecia que ia desmaiar, porém conseguiu
reunir forças para a última descarga: “Algumas vezes, é preciso que uma
mulher faça os homens darem o melhor de si”, declarou.
E talvez o mesmo funcione ao contrário, poderiam ter respondido os
tarahumaras. Ann, movida pela tentativa heroica de derrotar toda uma equipe
de especialistas em corridas de longa distância, havia ultrapassado a própria
marca em Leadville em mais de duas horas, criando um recorde que não
seria quebrado.
No entanto, os tarahumaras não tinham liberdade para falar nada
naquele momento, mesmo se quisessem. Haviam saído de uma corrida para
entrar numa tempestade.
Era para ser um momento glorioso. Finalmente, depois de séculos de
horror e de medo, de serem perseguidos e mortos, transformados em
escravos e expulsos de suas terras, os tarahumaras eram alvo de respeito.
Eles haviam demonstrado, de forma inequívoca, que eram os melhores
ultracorredores do planeta. O mundo podia ver que eles guardavam uma
habilidade fantástica, que precisava ser estudada, além de um estilo de vida
que deveria ser preservado e uma terra que merecia proteção.
Joe Vigil estava tão animado que chegou a pensar em abandonar
o seu emprego e vender a sua casa. Agora que Leadville havia
construído a ponte entre as culturas tarahumara e norte-americana, ele
poderia se dedicar ao projeto que acalentava havia tanto tempo. Com 65
anos de idade, era hora de se aposentar da Adams State. Ele e sua mulher,
Caroline, se mudariam para a fronteira do Arizona com o México, local ideal
para estudar as habilidades dos tarahumaras. Poderia demorar alguns anos
ainda, mas, enquanto isso, ele voltaria a Leadville todos os verões e
estreitaria as relações com os corredores da etnia. Começaria a aprender o
idioma da tribo... Monitorar os batimentos cardíacos e os índices de
consumo de oxigênio dos corredores... Quem sabe até organizar um encontro
com maratonistas olímpicos! Havia uma excelente notícia em tudo isso: Ann
havia chegado muito perto do desempenho dos nativos, o que significava
que outras pessoas também poderiam atingir os índices dos tarahumaras.
Tudo era muito lindo, porém durou apenas um minuto.
“Se você está pensando em usar uma única imagem dos meus
tarahumaras”, avisou Rick Fisher quando Tony Post e outros executivos da
Rockport se aproximaram para saudar a equipe, “é melhor separar o
dinheiro.”
Tony Post não podia acreditar naquilo. “Ele realmente explodiu. Parecia
estar muito raivoso, como o tipo de cara que persegue alguém e é capaz de
matar, não literalmente. Era como aqueles que ficam de cabeça quente e não
param de discutir, sem jamais admitir que estão errados”, contou Post.
“Ele foi um mala sem alça”, definiu Ken Chlouber. “Não era assim
quando não tínhamos patrocinadores de peso e equipes de tevê. Tentou usar
o contrato com a Rockport para monopolizar a imagem dos índios. Fez de
tudo para infernizar a minha vida, já que eu era o presidente do evento. Foi
totalmente egoísta e não dava a mínima para os nativos.”
A reação de Fisher foi entrar num tipo de loucura, do jeito que
aconteceu quando ele estava cercado pelos traficantes nas Barrancas del
Cobre e sobreviveu apenas porque deu uma de maluco. “Era uma corrida de
cartas marcadas”, atacou. “Eles tinham a corredora loura e de olhos azuis
que queriam que vencesse, mas ela não conseguiu.” Fisher afirmou que os
jornalistas tinham sido “comprados” com uma farra de três dias de duração
bancada pelos diretores da prova de Leadville, organizada secretamente num
resort de luxo em Aspen. Um jornalista teria tentado comprá-lo, oferecendo
dinheiro para fazer com que Juan moderasse o passo e deixasse Ann vencer.
“Esse jornalista, que é um cara conhecido, disse que seria um desastre se
Juan vencesse e, de fato, do ponto de vista dos corredores brancos, era uma
desgraça mesmo ver um tarahumara ganhar a prova.” E por quê? “Por causa
dessa ideia norte-americana doente de que as mulheres podem competir com
os homens.” (Quando perguntaram o nome do jornalista, Fisher se recusou a
informar.)
A acusação contra Ken Chlouber e a “elite da mídia” de conspirar
contra a maior atração da prova não fazia sentido, mas Fisher tinha perdido
as estribeiras. Afirmou que alguém havia oferecido a um dos corredores
tarahumaras uma Coca-Cola com alguma substância que havia “provocado
sérios males” no corredor, enquanto outro havia sofrido assédio sexual de
um branco, que se apresentara para fazer uma massagem pós-corrida e
aproveitou para “tocar seu pênis e seu escroto”. No que se referia à
Rockport, Fisher definiu o patrocínio da empresa como “de má vontade” no
melhor dos casos e “criminoso” na pior das avaliações. “Eles prometeram
construir uma fábrica de calçados nas Barrancas del Cobre... Todo o acordo
envolveu corrupção... Quando a Rockport viu o que tinha sido feito,
descobriram o golpe e o presidente da empresa foi demitido...”
Os tarahumaras observavam os gritos dos chabochis. Ouviam palavras
raivosas e os braços irados apontados na direção deles.
Não entendiam uma palavra do que aquelas pessoas diziam, porém
captavam muito bem a mensagem. Diante de tanta raiva e hostilidade, os
maiores atletas do mundo reagiram da forma costumeira: voltaram para o
seu desfiladeiro, sumindo como um sonho e levando com eles os seus
segredos. Depois da vitória de 1994, os tarahumaras nunca mais
participaram da prova de Leadville.
Um homem os seguiu e também nunca mais foi visto em Leadville. Era
o estranho amigo recente dos tarahumaras, Shaggy, que logo ficaria
conhecido como Caballo Blanco, o errante solitário das Sierras Altas.
Capítulo 17
“E o que será de nós agora, sem os bárbaros? Esses caras eram um tipo de
solução.”
Constantine Cavafy, À espera dos bárbaros

“Isso foi há dez anos”, contou Caballo, concluindo o seu relato. “E, desde
então, estou aqui.”
Mamá tinha nos colocado para fora de seu “restaurante” algumas horas
antes para ir dormir. Caballo, falando sem parar, me levou pelas ruas
desertas de Creel até uma bodega instalada numa viela. Ficamos ali até
fechar também. Enquanto Caballo me contava o que havia acontecido de
1994 até aquele dia, já passavam das duas da manhã e a minha cabeça
girava. Ele havia falado mais do que eu podia esperar sobre a experiência
dos tarahumaras no universo norte-americano das ultramaratonas (e dado
boas dicas sobre como encontrar Rick Fisher, Joe Vigil e outros
personagens), mas, em todos esses relatos, não havia respondido à única
pergunta que eu havia feito.
“Quem é você?”
Era como se ele não tivesse feito nada na vida antes de correr pelos
bosques com Martimano – ou, pelo contrário, talvez tivesse realizado muitas
outras coisas sobre as quais não queria falar.
Sempre que eu tentava, ele desviava o assunto com uma piada ou uma
resposta evasiva ideal para encerrar a conversa (“Como eu me sustento?
Faço para os ricos o que eles não querem fazer”). E mudava de tema. A
opção era clara: eu podia bancar o chato e ficar insistindo ou deixar para lá e
ouvir ótimas histórias.
Fiquei sabendo que, depois da corrida de 1994, Rick Fisher adotou um
comportamento agressivo. Foram realizadas outras maratonas, em outros
lugares e com outros corredores tarahumaras, e não demorou para Fisher
reorganizar e passar de um distúrbio para outro, como um adolescente
encrenqueiro. Primeiro, a equipe dos tarahumaras foi afastada da Angeles
Crest 100-Mile Endurance Run, prova de mais de 160 quilômetros na
Califórnia, porque Fisher insistiu em se meter em partes da corrida
exclusivas para os atletas, e no meio da competição. “A última atitude que
eu queria tomar era desclassificar um corredor”, contou o diretor da prova,
“mas Rick não me deixou alternativa.”
Três corredores tarahumaras foram desclassificados depois de chegar
em primeiro, segundo e quarto lugar na prova Wasatch Front 100, em Utah,
porque Fisher tinha se recusado a pagar a taxa de inscrição. Em seguida,
veio a Western States, evento no qual Fisher causou confusão ao acusar os
voluntários da corrida de mudarem as marcas na trilha para confundir os
tarahumaras e (esse era o motivo real) roubar o sangue deles. Todos os
corredores da Western States tiravam uma amostra de sangue para um estudo
científico sobre resistência, porém Fisher (e apenas ele) achou que era um
“roubo” e explodiu. “O sangue dos tarahumaras é muito, muito raro”, teria
afirmado. “O mundo da medicina está louco para colocar as mãos nesse
sangue e usar para testes genéticos.”
Nesse momento, até os tarahumaras pareciam estar fartos do Pescador.
Não demoraram para notar que Fisher surgia sempre com uma cabine dupla
mais nova e mais moderna, enquanto tudo
o que eles ganhavam eram semanas solitárias longe de casa e alguns
sacos de milho em troca de centenas de quilômetros de corrida. Mais uma
vez, o contato com os chabochis rendia aos tarahumaras a sensação de que
tinham virado escravos. Era o fim da equipe. Eles abandonaram as provas –
e para sempre.
Micah True (ou qual fosse o seu nome verdadeiro) sentiu tamanha
afinidade com os índios e tanto desgosto com os colegas norte-americanos
que achou que deveria tentar ajeitar a situação. Depois de acompanhar
Martimano como pacer na corrida de Leadville de 1994, ele se dirigiu a uma
rádio na cidade de Boulder, no Colorado, e pediu doações de agasalhos.
Quando juntou um monte, arrumou as malas e partiu para as Barrancas del
Cobre.
Ele não tinha a menor ideia de para onde estava indo e apostava na
possibilidade de encontrar seu parceiro Martimano numa situação similar à
do explorador Ernest Shackleton ao voltar da Antártida. Percorreu desertos e
desfiladeiros, repetindo o nome de Martimano a todas as pessoas que
encontrava, até que, para o seu espanto – e o de Martimano –, finalmente
chegou ao alto da montanha de 3 mil metros de altura, bem no meio da
aldeia do amigo. Os tarahumaras acolheram o forasteiro com a sua
linguagem que dispensa palavras: mal falavam com ele, porém, quando
despertava a cada manhã, Caballo encontrava uma pilha de tortilhas
fresquinhas e pinole perto do local onde dormia.
“Os rarámuris não conhecem dinheiro, mas ninguém é pobre”, revelou
Caballo. “Nos Estados Unidos, se você pedir um copo d’água, é levado para
um abrigo de moradores de rua. Aqui, eles abrem a porta e oferecem comida.
Se perguntar se pode montar a sua barraca, eles concordam, porém
perguntam se você não prefere entrar e dormir lá dentro.”
Mas em Choguita fazia muito frio à noite, frio demais para um cara
magrelo vindo da Califórnia (ou de onde fosse). Por isso, depois de distribuir
todos os agasalhos recolhidos, Micah se despediu de Juan e Martimano e
seguiu o seu caminho, em busca de lugares mais quentes no meio das
profundezas do cânion. Andou sem rumo e sem prestar atenção nos grupos
de traficantes de drogas e foras da lei e escapou de doenças e da febre do
desfiladeiro até encontrar um canto de que gostou, bem na curva do rio.
Juntou algumas rochas para construir uma cabana e ergueu sua casa.
“Eu decidi que iria encontrar o melhor lugar do mundo para correr, e
esse lugar era ali”, me contou quando voltamos para o hotel naquela noite.
“A primeira vez que vi aquilo, fiquei de boca aberta. Sentia-me
entusiasmado, e não podia esperar para pegar a trilha. Estava tão
maravilhado, não sabia por onde começar. Mas o lugar era selvagem e eu
precisava ir com calma.”
Ele não tinha outra escolha, de toda maneira. O motivo pelo qual atuara
em Leadville como pacer, e não como corredor, era a fraqueza que suas
pernas começaram a manifestar depois que completara quarenta anos. “Eu
costumava ter problemas com machucados, sobretudo no calcanhar”, contou
Micah. Com os anos, recorreu a todos os recursos – faixas nos pés,
massagens e até calçados caros e confortáveis –, mas nada resolvia. Quando
chegou nas barrancas, decidiu abandonar a lógica e confiar no conhecimento
dos tarahumaras. Ele não estava ali para tentar descobrir os segredos da tribo
– tinha apenas ajustado o seu estilo e passado a desejar o melhor.
Abandonou os calçados de corrida e começou a usar sandálias. Adotou
pinole no café da manhã (tinha aprendido a preparar o alimento como se faz
mingau de aveia, com água e mel) e carregava uma pequena quantidade dele
em uma bolsa presa na cintura quando saía para percorrer o desfiladeiro.
Levou alguns tombos sérios e algumas vezes teve dificuldades para voltar
para a sua cabana andando com os dois pés. Era aí que apertava os dentes,
limpava os ferimentos com a água do rio gelado e enfrentava tudo com fibra.
“O sofrimento ajuda a dar humildade. A gente sabe o quanto dói apenas
quando sente na pele”, explicou. “Eu aprendi bem rápido que é preciso
respeitar a Sierra Madre, porque ela não tem dó da gente.”
Naquele terceiro ano, Caballo já percorria trilhas que somente os
tarahumaras conseguiam ver. Com dedicação, ele se lançava pelas encostas
mais longas, mais íngremes e mais sinuosas do que qualquer pista de esqui
destinada a profissionais do esporte. Corria por quilômetros em terrenos
acidentados, tentando manter o controle e confiando em seus reflexos já
adaptados ao ambiente local, porém ainda esperando ouvir aquele estalo
vindo de uma cartilagem no joelho, de um estiramento ou de uma lesão no
tendão de Aquiles, coisas que poderiam acontecer a qualquer momento.
Mas nunca aconteceram. Ele nunca se machucou. Depois de alguns
anos no desfiladeiro, Caballo estava mais forte, mais saudável e mais veloz
do que nunca. “Minha forma de encarar o ato de correr mudou desde que
cheguei aqui”, revelou. Para testar, resolveu encarar uma trilha pelas
montanhas que leva três dias para ser percorrida a cavalo – fez o percurso
em sete horas. Ele não sabia explicar muito bem como tudo aquilo havia
acontecido, qual a participação de fatores distintos, como as sandálias, o
pinole ea korima, mas...
“Ei, você pode me mostrar?”, pedi.
“Mostrar o quê?”
“Mostrar como é correr assim.”
Algo em seu sorriso fez com que eu me arrependesse daquele pedido.
Foi quando Caballo propôs: “Claro, vamos dar uma corrida. Você me
encontra aqui ao nascer do sol”.

“Ufa! Cheguei!”
Eu queria gritar, porém só pude falar bem baixinho. “Caballo”,
consegui dizer, mas ele já havia desaparecido no alto da colina. Marcamos o
encontro nas colinas que ficam atrás de Creel, em uma trilha rochosa e
cercada de pinheiros que cortava os bosques. Corremos menos de dez
minutos e eu já me sentia sem ar. Não que Caballo corresse rápido demais –
ele apenas parecia tão leve que dava a impressão de se locomover movido
pela força do pensamento, e não dos músculos.
Ele se virou e voltou. “Muito bem, cara. Esta é a primeira lição. Fique
bem atrás de mim.” Ele começou a correr, agora mais devagar, e eu tentava
acompanhar tudo o que ele fazia. Meus braços flutuavam até que minhas
mãos chegassem na linha da cintura, meus passos pareciam patadas no chão,
e minhas costas se alongaram tanto que quase pude ouvir as vértebras se
partindo.
“Não tente brigar com o terreno”, Caballo falou por cima do ombro.
“Aceite o que lhe for dado. Se você pode escolher entre dar um passo ou
dois entre as rochas, dê três.” De tanto tempo que havia passado em meio
àquelas trilhas, Caballo já tinha até dado apelidos para as pedras do
caminho: algumas eram as ayudantes, que ajudavam a dar impulso para
frente; outras pareciam fazer o mesmo, mas não ofereciam firmeza e podiam
se revelar “traidoras”, e outras ainda eram chamadas de chingoncitos,
pequenas malditas que estavam ali só para atrapalhar.
“A lição número dois”, avisou Caballo, referindo-se ao modo de correr,
“é pensar: fácil, leve, suave e rápido. Você começa com o ‘fácil’, porque só
de conseguir isso já é alguma coisa. Depois se concentre na leveza. Faça
tudo sem esforço, como se não ligasse para a altura da montanha ou a
distância que tem pela frente. Quando souber fazer isso tão bem que nem
perceber mais, lembre-se do quanto é suaaaaave. Não se preocupe com o
último aspecto porque, quando dominar os três primeiros, você será rápido.”
Fixei meus olhos nos pés de Caballo, calçados com sandálias, tentando
imitar seus passos peculiares e leves. Andei tanto tempo com a cabeça
voltada para baixo que nem percebi que tínhamos saído da floresta.
“Uau!”, exclamei.
O sol estava surgindo sobre as sierras. O aroma dos pinheiros
perfumava o ar, vindo das chaminés dos casebres nos limites da cidade. À
distância, pedras gigantescas, parecidas com as estátuas da Ilha da Páscoa,
surgiam do chão, e ao fundo se destacavam montanhas com vestígios
brancos de neve. Mesmo que eu não tivesse tentado correr, estaria sem
fôlego com tanta beleza.
“Eu não disse?”, arrematou Micah.

Chegamos ao lugar da meia-volta e, por mais que eu soubesse que seria


loucura tentar correr mais do que treze quilômetros, odiei a ideia de
abandonar a trilha e voltar. Caballo sabia o que eu estava sentindo.
“Eu me senti assim durante dez anos”, afirmou. “E ainda estou
aprendendo a achar o meu caminho.” No entanto, ele tinha de se apressar:
naquele dia ele voltaria para a sua cabana e mal teria tempo de chegar antes
do anoitecer. E foi aí que ele explicou o que tinha vindo fazer em Creel.
“Você sabe”, começou, “aconteceu muita coisa depois da corrida de
Leadville.” No começo, a ultramaratona se resumia a um bando de
esquisitões que corriam nos bosques sob a luz de lanternas, porém, nos
últimos anos, virou uma reunião dos chamados Young Guns. Como Karl
Meltzer, que balançava ao ritmo de Strangelove no seu iPod enquanto vencia
a ultramaratona Hardrock 100 (foi o primeiro colocado em três edições da
prova), e a “Dirt Diva” Catra Corbett, linda e repleta de tatuagens, que, para
se divertir um pouco, percorreu os 340 quilômetros da trilha John Muir, que
corta o parque nacional de Yosemite, e depois fez
o mesmo trajeto de volta. Outros representantes do grupo eram Tony
“Naked Guy” Krupicka, que raramente veste algo mais do que um short
solto e passou um ano dormindo num canto da casa de um amigo para treinar
para a prova de Leadville, e os fabulosos “irmãos voadores” Eric e Kyle
Skaggs, que foram de carona até o Grand Canyon antes de estabelecerem um
novo recorde de velocidade na corrida entre as beiras do desfiladeiro.
Esses jovens destaques queriam algo novo, desafiador e diferente, e
começaram a migrar para a corrida em trilhas em tal quantidade que, por
volta de 2002, a atividade havia se tornado o esporte ao ar livre que mais
crescia no país. E não amavam apenas a corrida: gostavam igualmente do
desafio de explorar o admirável mundo novo que eram seus próprios corpos.
O papa das ultracorridas, Scott Jurek, resumiu o credo não oficial dos Young
Guns com uma citação de William James, que costumava incluir em todos os
e-mails enviados: “Além do cansaço e esgotamento extremos, podemos
encontrar reservas de energia e conforto que jamais imaginamos possuir;
fontes de força nunca invocadas porque nunca fomos ao limite”.
Conforme esses sujeitos chegaram às trilhas, trouxeram tudo o que
haviam aprendido sobre a ciência do esporte na década passada. Matt
Carpenter, corredor de montanhas em Colorado Springs, passava horas em
cima de uma esteira para medir as variações nas oscilações do corpo quando,
por exemplo, bebia um gole de água (o modo mais eficiente de fazer isso, do
ponto de vista biomecânico, é prender a garrafa nas axilas, e não segurá-la).
Carpenter usava uma lixadeira e uma navalha para “depilar” seus tênis de
corrida, que depois mergulhava na banheira para avaliar a retenção de água e
a velocidade de secagem. Em 2005, usou os seus obsessivos conhecimentos
para brilhar na prova de Leadville: terminou a corrida em incríveis quinze
horas e 42 minutos, quase duas horas menos do que o mais rápido dos
tarahumaras.
Mas o que os tarahumaras poderiam render se fossem perseguidos? Era
o que Caballo queria saber. Victoriano e Juan tinham corrido como
caçadores, da forma como haviam sido ensinados a correr: com a velocidade
suficiente para capturar a presa, e não mais do que isso. Quem sabia qual a
velocidade que eles atingiriam competindo com um cara como Carpenter? E
ninguém sabia do que eles eram capazes quando corriam em seu próprio
território. Na condição de vencedores da competição, não tinham o direito de
fazer uma prova correndo “em casa”?
Caballo achava que, se os tarahumaras não podiam voltar para os
Estados Unidos, os norte-americanos teriam de ir até eles. Só que ele sabia
que os tímidos moradores das barrancas iriam desaparecer nas fendas assim
que se vissem cercados de luzes de câmeras, enxurradas de perguntas e
corredores brancos.
E se alguém propusesse uma corrida ao estilo dos tarahumaras? Essa
era a questão colocada por Caballo. Seria como um antigo duelo de músicos
– uma semana de preparação, troca de segredos, estudo dos estilos e técnicas
dos outros. No último dia, todos os corredores fariam parte de um grupo de
campeões dos oitenta quilômetros.
Era uma ótima ideia – e uma grande piada, é claro. Nenhum corredor de
elite iria se colocar em risco: não seria apenas um suicídio profissional, mas
um suicídio propriamente dito. Para chegar na linha de largada teriam de
enfrentar bandidos, atravessar áreas inóspitas e tomar cuidado com cada gole
de água e cada alimento ingerido. Se alguém se ferisse, poderia ser
considerado morto – se não na hora, em questão de tempo. Estariam a vários
dias de distância de uma estrada e a várias horas afastados de uma fonte de
água potável, sem chances de contar com um resgate no meio daqueles
paredões de rocha.
Não importava: Caballo já tinha começado a pensar no projeto. Era o
único motivo que o levara a Creel. Ele havia saído de sua cabana no fundo
do desfiladeiro e caminhado até uma cidade da qual não gostava porque
tinha ouvido falar que ali, no canto de uma loja, havia um computador com
conexão à internet. Ele entendia um pouco de computadores, tinha um e-
mail e sabia mandar mensagens para o mundo lá fora. E foi ali que eu entrei:
o único motivo pelo qual o “índio gringo” se interessou por mim quando o
abordei naquele hotel foi porque falei que era escritor. Talvez uma matéria
sobre a corrida que ele queria organizar ajudasse a atrair alguns corredores.
“E quem você está convidando?”, perguntei.
“Até agora, só convidei uma pessoa”, respondeu. “Quero apenas
corredores com o espírito certo, verdadeiros campeões. Por isso mandei um
e-mail para Scott Jurek.”
Scott Jurek?! O cara que venceu sete vezes a Western States e recebeu
três vezes o título de ultracorredor do ano? Caballo deveria ter perdido o
juízo se achava que Scott Jurek viria até ali para competir com um bando de
desconhecidos no meio do nada. Ele era apenas o maior ultracorredor do
país, talvez do mundo, e de todos os tempos. Quando Scott não corria, estava
assessorando a Brooks, marca especializada em tênis de corrida, no
desenvolvimento do modelo para trilhas que levava seu nome, o Cascadia,
ou decidindo de qual grande evento ele iria participar em países como Japão,
Suíça, Grécia ou França. Scott Jurek era uma “empresa”, movida apenas
por... Scott Jurek. Isso significava que a última coisa que o principal
“recurso” da companhia precisava fazer era se arriscar a ficar doente, morrer
ou se ferir em uma corrida mal planejada e montada numa terra de ninguém
nos confins do México.
Apesar disso, Caballo havia lido em algum lugar uma entrevista com
Jurek e sentido uma afinidade instantânea. A seu modo, Scott era tão
misterioso quanto ele. Enquanto outros astros do mundo “ultra”, como Dean
Karnazes e Pam Reed, viviam aparecendo na televisão, escrevendo
autobiografias e, no caso de Dean, fazendo propaganda de uma bebida
enquanto corria sem camisa numa esteira com vista para a Times Square, o
maior ultracorredor dos Estados Unidos quase não aparecia. Ele era um
verdadeiro “animal de corrida”, o que explicava dois de seus peculiares
hábitos: no início de toda prova, ele solta um grito alarmante e, depois que
vence, rola no chão como um cachorro hiperativo. Então se levanta, limpa o
corpo e desaparece rumo a Seattle, até chegar a hora de bradar o seu grito de
guerra novamente.
Esse era o tipo de campeão que Caballo procurava – não qualquer
exibicionista interessado em usar os tarahumaras para se promover, mas um
verdadeiro interessado em aprender a arte e os esforços presentes até na
performance de seu corredor mais lento. Caballo não precisava de mais
nenhum argumento em favor de Scott Jurek, porém conseguiu ainda outro:
numa entrevista, quando perguntaram ao ultracorredor quem era seu ídolo,
ele respondeu que eram os tarahumaras. E a matéria acrescentava que “para
se inspirar, Jurek repete um ditado da tribo: ‘Quando alguém corre sobre a
terra e com a terra, pode correr para sempre’”.
“Viu?”, insistiu Caballo. “Ele tem o espírito rarámuri.”
Mas espere um pouco... “Mesmo que Scott Jurek concordasse em vir,
como ficariam os tarahumaras? Ele topariam?”, perguntei.
“Talvez”, arriscou Caballo. “O cara que eu quero é Arnulfo Quimare.”
Bem, isso era definitivamente impossível. Eu sabia por experiência
própria que Arnulfo dificilmente concordaria em falar com um forasteiro,
quanto mais em receber toda uma gangue por uma semana e ainda mostrar-
lhe as trilhas de sua terra natal. Fiquei impressionado com a preferência e a
ambição de Caballo, mas duvidei de sua conexão com a realidade. Nenhum
corredor norte-americano sabia quem Micah era, e a maioria dos
tarahumaras sequer tinha certeza do que ele era. E ele ainda achava que todo
mundo iria confiar nele?
“Tenho certeza de que Manuel Luna virá”, continuou Caballo. “E talvez
também seu filho.”
“Marcelino?”, perguntei.
“É”, responde. “Ele é bom.”
“Ele é incrível!”
Eu tinha na memória a imagem do jovem Tocha Humana surgindo pela
trilha com uma velocidade inacreditável. Realmente, neste caso, quem se
importaria com a presença de Scott Jurek ou de algum outro astro? Só a
oportunidade de correr ao lado de Manuel, Marcelino e Caballo valeria a
pena. O modo como Marcelino e Caballo corriam era o que havia de mais
próximo de um “voo humano”. Eu havia tido uma pequena amostra nas
trilhas de Creel e queria mais: era como bater os braços com força e sentir o
corpo sair do chão – depois dessa experiência, como pensar em outra coisa
que não fosse tentar de novo?
“Eu posso fazer isso”, disse para mim mesmo. Quando chegou aqui,
Caballo estava na mesma situação que eu – era um quarentão com as pernas
comprometidas e, em menos de um ano, corria com perfeição pelo alto das
montanhas. Se eu o ajudasse, também não conseguiria? Se eu aplicasse as
técnicas que ele havia ensinado, ficaria forte o bastante para correr oitenta
quilômetros pelas Barrancas del Cobre? As chances de aquela maratona de
fato acontecer eram mínimas, se é que existiam. Mas se, por algum milagre,
ele conseguisse organizar uma competição com os principais tarahumaras
daquela geração, eu queria estar lá.
Quando voltamos a Creel, trocamos um aperto de mãos.
“Obrigado pelas aulas”, falei. “Você me ensinou muito.”
“Hasta luego, norawa”, respondeu Caballo. Até a próxima, meu chapa.
E sumiu.
Eu o vi se afastar. Havia algo de terrivelmente triste, mas também
terrivelmente inspirador, em ver aquele profeta da antiga arte da corrida de
longa distância virar as costas para tudo, menos para o seu sonho, e dirigir-se
para “o melhor lugar do mundo para correr”. Sozinho.
Capítulo 18
“Você já ouviu falar do Caballo Blanco?”
Quando voltei do México, telefonei para Don Allison, que há tempos
era o editor da revista UltraRunning. Caballo havia dado duas pistas sobre a
sua vida passada que valiam a pena investigar: tinha sido profissional de
algum tipo de luta e vencido algumas ultramaratonas. A informação sobre a
vida de lutador era absurdamente difícil de ser checada com rapidez, dada a
profusão de organizações e modalidades, mas, para se informar sobre
ultracorridas, não havia melhor fonte do que Don Allison, em Weymouth,
Massachusetts. Verdadeira instituição quando o assunto era confirmar algum
rumor ou avaliar novos talentos, Don Allison conhecia todo mundo, e por
isso desanimei ao ouvir a resposta em forma de pergunta.
“Se eu conheço quem?”
“Acho que ele se chama Micah True”, respondi. “Mas não sei se é o
nome verdadeiro dele ou do cachorro dele.”
Silêncio.
“Alô?”, insisti.
“Espere um pouco”, disse Allison finalmente. “Eu estou procurando
uma coisa. Então ele é real?”
“Você está perguntando se dá para levá-lo a sério?”
“Não, quero saber se ele existe mesmo.”
“Existe, sim. Encontrei com ele no México.”
“Certo”, completou Allison. “E ele é maluco?”
“Não, ele é...” Era a minha vez de fazer uma pausa. “Quer dizer, não
acho que seja maluco, não.”
“Recebi uns artigos de um cara com esse nome, era isso o que eu estava
procurando. Vou falar para você, eram textos impublicáveis.”
Agora fazia sentido. A UltraRunning parecia menos com uma revista e
mais com uma coletânea de cartas informais que as pessoas mandam no
lugar de cartões de Natal. Talvez 80% de cada edição fosse ocupada por
listas de nomes e os tempos feitos pelos corredores, além dos resultados de
provas realizadas em locais que só um ultramaratonista conseguiria achar. A
publicação trazia também artigos assinados por colaboradores voluntários
dispostos a compartilhar suas obsessões mais recentes, como “o uso da
balança para determinar as necessidades de hidratação” ou “a combinação
ideal de lanterna com luz de capacete”. Assim, não preciso nem explicar que
era muito difícil ter um artigo recusado na revista, o que me fez tremer só de
imaginar o que Caballo, isolado em sua cabana como o Unabomber, poderia
ter escrito. “Ele ameaçou alguém ou algo parecido?” “Não”, garantiu
Allison. “Mas não tinha nada a ver com corrida...
Parecia um sermão sobre fraternidade, carma e gringos insaciáveis.”
“Ele falou sobre a corrida que está planejando?”
“Falou, sim. Algo sobre uma competição com os tarahumaras. Porém,
pelo que entendi, ele é o único que acha isso possível. Ele e uns três ou
quatro índios.”
Joe Vigil também nunca tinha ouvido falar de Caballo. Pensei que
talvez os dois tivessem se encontrado naquele histórico dia em Leadville, ou
quem sabe depois, nas Barrancas del Cobre. Entretanto, logo depois daquela
corrida, a vida do dedicado treinador havia mu-dado bastante. Tudo
começou com um telefonema: era uma jovem perguntando se Vigil poderia
ajudá-la a se classificar para as Olimpíadas. Ela havia conseguido algum
destaque na universidade, porém tinha se cansado de tudo e estava pensando
em abrir um café. A não ser que Joe Vigil achasse que ela deveria continuar
tentando...
Vigil era um grande motivador e sabia muito bem o que falar: melhor
desistir e ir preparar capuccinos. Deena Kastor (na época, Deena Drossin)
parecia uma jovem bacana, mas sem nenhuma ideia do que era treinar com
Joe Vigil. Ela era uma garota de praia da Califórnia, acostumada a correr
pelas areias de Santa Monica, sob o quente sol do Pacífico. O que Vigil
propunha era quase um treinamento espartano: um programa do tipo “que
sobreviva o mais preparado” combinado com uma quantidade quase
homicida de treinos nas frias montanhas do Colorado.
“Tentei dissuadi-la porque Alamosa não é uma cidade californiana”,
diria Vigil depois. “É um lugar isolado, no meio das montanhas, e faz muito
frio – às vezes chega a trinta graus abaixo de zero. Só quem é muito
resistente sobrevive a corridas ali.” Quando Deena insistiu, o treinador foi
gentil o bastante a ponto de recompensar a persistência da moça com uma
avaliação de suas condições básicas e de seu potencial. Os resultados não
mudaram o julgamento do especialista: ela era medíocre.
No entanto, quanto mais ele a dispensava, mais aumentava a
curiosidade de Deena. Nas paredes do escritório de Vigil liam-se “fórmulas
mágicas” para o preparo dos corredores que, no entender dela, nada tinham a
ver com esporte: eram frases do tipo: “Pratique a abundância compartilhando
o que ganha”, “Invista nos relacionamentos pessoais” ou “Faça da
integridade uma marca do seu con-junto de valores”. As orientações
nutricionais do treinador também estavam longe de ser esportivas ou
científicas: “Coma como se você fosse uma pessoa pobre”.
Vigil estava montando o seu próprio universo tarahumara em miniatura.
Até conseguir se livrar de seus compromissos e se mudar para as Barrancas
del Cobre, ele faria o máximo para recriar aqueles desfiladeiros no Colorado.
Se Deena ainda tivesse a intenção de treinar com ele, teria de fazer como um
tarahumara: “treinar” a alma tanto quanto a resistência física.
Deena captou a mensagem e não via a hora de começar. Vigil
acreditava que, para ser um corredor resistente, era preciso antes ser uma
pessoa forte. Ela não poderia perder aquilo! Contrariado, o treinador decidiu
dar uma chance à moça. Em 1996, ela começou a rotina de treinos baseados
no sistema tarahumara. Dentro de um ano, a aspirante a dona de café já
preparava seu caminho para se tornar uma das maiores corredoras de longas
distâncias dos Estados Unidos.
Deena venceu o campeonato nacional cross-country e quebrou
o recorde norte-americano em distâncias de cinco quilômetros para a
maratona. Nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, ela competiu com a então
recordista mundial Paula Radcliffe e conquistou a medalha de bronze, a
primeira medalha olímpica ganha por um maratonista norte-americano em
vinte anos. Mas, se alguém perguntar a Joe Vigil sobre as conquistas de
Deena, ele irá apontar em primeiro lugar o Prêmio de Atleta Humanitária do
Ano, que ela conquistou em 2002.
Aos poucos, Vigil estava se envolvendo cada vez mais com as corridas
em distância nos Estados Unidos e se afastando dos seus planos de se mudar
para as Barrancas del Cobre. Antes dos Jogos de 2004, ele havia recebido a
proposta de comandar um centro de treinamento para aspirantes às
Olimpíadas no meio das montanhas da Califórnia, em Mammoth Lakes. Era
muito trabalho para um sujeito de 75 anos, e Vigil precisou enfrentar as
consequências: um ano antes dos Jogos de Atenas, sofreu um infarto e
precisou fazer uma ponte de safena tripla. Sua última chance para aprender
com os tarahumaras, descobriu ele, tinha passado.
Assim, apenas um pesquisador ainda estava decidido a desbravar os
segredos das corridas guardados pelo índios mexicanos: Caballo Blanco,
cuja “ficha” só existia em sua própria memória.
Quando o meu artigo foi publicado na Runner’s World, houve um grande
interesse pelos tarahumaras, porém não serviu para comover os corredores
de elite a abraçar a ideia da corrida de Caballo. Para ser exato, ninguém se
animou.
Pode ter sido em parte por culpa minha, já que tive dificuldade em
descrevê-lo de forma honesta sem usar adjetivos como “cadavérico” ou falar
que até os índios o achavam “esquisitão”. Por mais que a ideia da maratona
parecesse interessante, qualquer um pensaria duas vezes antes de arriscar a
vida nas mãos de um aventureiro solitário com um nome fantasioso, cujos
amigos mais próximos viviam em cavernas, comiam ratos e também o
consideravam meio fora da normalidade.
Também não ajudava o fato de a corrida não ter lugar nem data para
acontecer. Caballo havia colocado um site na internet, mas trocar e-mails
com ele era como esperar uma mensagem numa garrafa. Para verificar se
havia recebido algum e-mail, Caballo tinha de correr mais de 48 quilômetros
pelas montanhas e atravessar um rio até chegar na minúscula cidade de
Urique, onde conseguiu que um professor o deixasse usar o pc caindo aos
pedaços da escola. E só era possível fazer esse deslocamento de cento e
tantos quilômetros de ida e volta se o tempo estivesse bom, porque, embaixo
de chuva, ele corria o risco de morrer sob algum deslizamento ou ficar preso
entre as rochas.
Além disso, as linhas telefônicas, que haviam chegado a Urique apenas
em 2002, tinham uma manutenção precária. Assim, acontecia de Caballo
correr até a cidade, para só aí ficar sabendo que a linha estava muda havia
dias. Uma vez, ele teve de desviar o itinerário depois de um ataque de cães
selvagens e, em vez de checar os e-mails, foi procurar um local onde
houvesse vacina antirrábica.
A simples visão do nome “Caballo Blanco” na caixa de entrada do meu
e-mail era motivo para um alívio imenso. Por mais que se mostrasse
despreocupado com os riscos, Caballo estava exposto a muitos perigos. Cada
vez que se preparava para sair, aquela podia ser a última partida e, embora
achasse que os traficantes da região o consideravam apenas um “gringo
índio” inofensivo, não era possível ter certeza do que aqueles caras
pensavam.
Sem contar que ele sofria de desmaios súbitos – sem mais nem menos,
perdia a consciência. Esse tipo de acidente já é bastante arriscado para
alguém que mora em um prédio cheio de vizinhos, mas, no caso do
isolamento nas barrancas, um homem solitário que caísse inconsciente não
seria encontrado – se alguém chegasse a sentir a falta dele. Uma vez, ele
contou que desmaiou depois de chegar num povoado. Quando acordou,
encontrou uma faixa espessa ao redor de sua cabeça e muito sangue no
cabelo. Se tudo tivesse acontecido meia hora antes, ele ficaria largado em
algum lugar das lonjuras com uma fratura no crânio.
Ainda que sobrevivesse aos bandidos da droga e à própria pressão
sanguínea, a morte ainda assim o estaria rondando: bastaria tropeçar em uma
das muitas pedras que ele chamava de chingoncitos, perigosamente
espalhadas pelas sinuosas trilhas dos tarahumaras, e tudo o que restaria seria
o eco dos gritos depois que Caballo desaparecesse nas profundezas do
desfiladeiro.
Mas nada o detia. Correr parecia ser o único prazer de sua vida e, por
isso, ele aproveitava como um gourmet diante de um bom prato. Mesmo
quando uma avalanche quase destruiu a sua cabana, Caballo achou melhor
dar uma corrida antes de consertar o teto.
Então um desastre aconteceu. Recebi o seguinte e-mail:
Olá, amigo! Estou em Urique depois de uma corrida agitada – agora estou mancando.
Machuquei o meu tornozelo esquerdo pela primeira vez em muitos anos! Não estou mais
acostumado a correr com esses solados grossos. E tudo isso porque eu resolvi calçar sapatos e
deixar as sandálias leves para as corridas mais rápidas. Isso aconteceu a dezesseis quilômetros
de Urique, em La Sierra, e tive de me arrastar com muita dor até aqui, porque não havia outra
alternativa. Quem vê o meu pé esquerdo acha que estou com elefantíase!

Droga! Eu tinha um palpite de que aquele acidente tinha sido por minha
culpa. Pouco antes de me despedir de Caballo em Creel, percebi que nossos
pés tinham tamanhos parecidos e resolvi lhe dar um par de tênis Nike
novinho que estava na mochila, em agradecimento. Ele fez um nó nos
cadarços e jogou sobre os ombros, achando que o presente seria oportuno se
as suas sandálias rasgassem. Ao contar sobre o acidente, ele foi educado
demais para apontar a causa, mas eu tinha certeza de que ele se referia aos
meus tênis quando falou que corria sobre um solado grosso quando se
machucou.
Nesse momento, eu me senti bastante culpado. Eu não estava ajudando
em nada. Primeiro, sem querer, tinha montado uma bomba-relógio ao
presenteá-lo com aqueles calçados e, depois, publiquei um artigo que serviu
para divulgar demais suas esquisitices, o que era ruim em termos de
relações-públicas. Caballo estava se matando para fazer as coisas
acontecerem e agora, depois de meses de esforço, o único que parecia
embarcar na proposta era eu: um corredor barato e desprezível, que estava
lhe causando problemas.
Caballo havia conseguido fugir da verdade apelando para o prazer de
suas corridas, contudo, quando se encontrou ferido e desolado em Urique, a
situação ficou clara. Não era possível viver do jeito que ele vivia sem
parecer um maluco, e ele agora pagava o preço por ter essa imagem:
ninguém o levava a sério. Ele nem sequer tinha certeza de que conseguiria
convencer os tarahumaras a confiar nele, e eles eram as pessoas que mais o
conheciam no mundo. Mas qual era o mistério? Por que ele perseguia um
sonho que todo mundo considerava uma piada?
Se ele não tivesse lesionado o tornozelo, eu teria esperado um longo
tempo pela resposta. No entanto, ele ainda estava se recuperando em Urique
quando recebeu uma mensagem de Deus. Pelo menos, do único deus ao qual
ele direcionava as suas orações.
Capítulo 19
“Sempre começo as corridas com objetivos ambiciosos, como se me
preparasse para fazer algo especial. Depois de certo ponto de deterioração
física, as metas são redimensionadas para basicamente minha posição atual
– o melhor que eu posso desejar é não vomitar sobre os meus próprios pés.”
Ephraim Romesberg, engenheiro nuclear e ultracorredor, na milha de
número 65 (quilômetro 105) da Ultramaratona de Badwater

Alguns dias antes, no minúsculo apartamento em Seattle em que vivia com


sua esposa e um monte de troféus, o maior ultracorredor norte-americano
também se debatia com os limites do próprio corpo.
Aquele corpo ainda estava com ótima aparência, bonito o bastante a
ponto de fazer as mulheres se virarem para olhá-lo sempre que Scott Jurek e
a sua loura esposa, Leah, saíam para pedalar pela região de Capitol Hill,
parando em livrarias e cafés ou no restaurante tailandês vegetariano
preferido da dupla. Era um lindo casal alternativo, que, em vez de carro, se
deslocava de bicicleta. Scott era alto e bastante musculoso, com olhos
castanhos vívidos e um belo sorriso. Não cortava o cabelo desde que Leah
havia feito um corte especial pouco antes da primeira vitória na Western
States. Seis anos haviam se passado e ele exibia cachos dignos de um deus
grego, que esvoaçavam conforme ele corria.
Como aquele sujeito estranho conhecido como “Jerker” havia se
tornado um astro do universo das ultracorridas ainda intrigava as pessoas
que o tinham visto crescer em Proctor, Minnesota. “Ninguém botava fé
nele”, contou Dusty Olson, principal esportista da cidade quando os dois
eram adolescentes. Durante as corridas cross-country, Dusty e seus amigos
saíam na frente e deixavam Scott comendo poeira. “Ele nunca conseguia nos
alcançar”, afirma Dusty. “E ninguém entendia por que ele era tão lento, já
que treinava mais que todo mundo.”
E não que Scott tivesse tanto tempo assim para treinar, porque, quando
ainda estava na escola fundamental, sua mãe começou a sofrer de esclerose
múltipla. Mais velho de três irmãos, coube a ele cuidar da mãe depois das
aulas, limpar a casa e arrumar lenha para o fogão enquanto o pai estava
trabalhando. Anos depois, veteranos das ultramaratonas torciam o nariz para
os gritos de Scott na linha de largada ou para os movimentos inspirados no
kung fu que ele fazia quando parava nos postos de ajuda. Mas, para quem
passou a infância trabalhando duro e vendo a sua mãe mergulhar num
pesadelo de dor, talvez não houvesse alegria maior do que deixar tudo para
trás e correr pelas montanhas.
Depois da transferência da mãe para um hospital, Scott se viu ocioso
com as tardes vazias e ficou com o coração agitado. Felizmente, quando
precisou de um amigo, Dusty precisou de uma companhia. A dupla parecia
estranha, mas combinava bem: Dusty queria aventuras e Scott queria fugir.
O gosto de Dusty pelas competições não tinha fim: logo depois de vencer o
campeonato júnior de esqui e a prova regional de cross-country, convenceu
Scott a participar com ele da corrida de oitenta quilômetros Minnesota
Voyageur Trail Ultra 50-Mile. “Eu o convenci a ir”, garantiu Dusty. Scott
nunca tinha percorrido médias distâncias, porém gostava muito do amigo
para recusar o convite.
No meio da prova, o tênis de Dusty se soltou e caiu na lama. Antes que
conseguisse recuperá-lo, Scott passou. E atravessou os bosques para
terminar a sua primeira ultracorrida em segundo lugar, com cinco minutos a
menos do que o amigo. “Mas o que diabos está acontecendo?”, perguntou-se
Dusty. Naquela noite, seu telefone tocou sem parar: “Todos os caras estavam
zombando de mim por ter perdido para o ‘Jerker’!”.
Scott estava igualmente surpreso. Percebeu que toda aquela desgraça ia
dar em algum lugar, então. Toda a desesperança de cuidar de uma mãe que
não iria melhorar, toda a frustração por perseguir coisas que pareciam
escapar – subitamente, tudo havia se transformado na capacidade de resistir
mais e mais quando a situação parecia cada vez pior. Joe Vigil ficaria
emocionado, porque Scott não esperava ganhar nada com a corrida e havia
conseguido bem mais do que poderia imaginar.
Totalmente por acaso, Scott havia encontrado a mais avançada arma do
arsenal de um ultracorredor: em vez de se entregar ao cansaço, agarrar-se a
ele. Não tentar se livrar dele, mas conhecê-lo tão bem a ponto de não ter
mais nenhum medo. Lisa Smith-Batchen, a animada ultracorredora de Idaho
que treinou em meio à neve para vencer uma corrida de seis dias de duração
no Saara, fala da exaustão como se fosse um bichinho de estimação: “Eu
gosto da fera. Fico esperando ela aparecer, porque, sempre que surge, eu
aprendo a domá-la mais e ganho mais controle”. Quando “a fera” surge, Lisa
sabe o que tem de enfrentar para seguir em frente. E não é essa a razão pela
qual ela corre pelo deserto – justamente para aprimorar a técnica? Para ter
um encontro com “a fera” e mostrar quem é que manda? Você não pode
odiar esse “monstro” e querer derrotá-lo: a única forma de realmente
conquistar algo, como qualquer grande filósofo ou geneticista pode
confirmar, é por meio do amor.
Nunca mais Scott ficaria na sombra de Dusty ou de qualquer outro
corredor. “Qualquer um que o tenha visto correr pelos terrenos montanhosos
nas últimas partes de uma corrida de 160 quilômetros se torna uma pessoa
diferente”, declarou um impressionado treinador de corrida no Letsrun.com,
o mais importante portal de tudo o que se refere ao mundo das corridas,
depois de testemunhar Jurek bater o recorde na Western States.
Mas Scott foi um herói por um motivo bem diferente entre os
corredores que demoraram demais na prova para vê-lo em ação. Depois de
vencer uma competição daquelas, tudo o que ele poderia querer era um
banho quente e uma cama deliciosa. No entanto, em vez de ir embora, ele se
meteu no saco de dormir e permaneceu em vigília junto à linha de chegada.
Quando o dia nasceu, Scott estava ali, paciente, e até o último e mais
persistente dos corredores pôde ver que não estava sozinho.
Aos 31 anos, Scott era praticamente imbatível. Nos meses de junho,
outro bando de “matadores” aparecia na Western States disposto a lhe roubar
o título, porém todos sempre davam de cara com Scott enrolado em seu saco
de dormir quando conseguiam cruzar a linha de chegada.
“Mas e agora?”, perguntava-se Scott. Ele havia transformado seu corpo
numa espécie de Ferrari – o que mais poderia fazer? Continuar competindo
com os cronômetros e os “matadores” até que alguém finalmente o
ultrapassasse? Correr não se limitava a vencer provas, e disso ele sabia desde
os solitários dias em que era chamado de “Jerker”, quando ainda ficava bem
atrás do rastro de poeira deixado por Dusty. O verdadeiro encanto das
corridas era... Era...
Bem, Scott não tinha certeza. Entretanto, ao vencer a Western States
pela sétima vez em 2005, ele sabia onde começar a procurar.

Duas semanas depois da Western States, Scott saiu da região de montanhas e


cruzou o deserto de Mojave até a linha de partida da temida Ultramaratona
de Badwater. Quando Ann Trason participava de duas ultracorridas em um
mês, ela pelo menos permanecia no planeta Terra – já Scott iria encarar a
segunda em plena superfície solar.
O Vale da Morte é um perfeito “tostador humano”, algo como a chapa
de uma grelha criada pela Mãe Natureza. Trata-se de um grande mar de sal
cercado por montanhas que afunilam o calor e o despejam diretamente sobre
as cabeças das pessoas. A temperatura média do ar oscila ao redor dos
cinquenta graus, mas, depois que o sol surge e começa a assar o solo, o
terreno sob os pés do corredor chega facilmente aos noventa graus –
exatamente a temperatura recomendada para fritar um bom bife. Além disso,
o ar é tão seco que, quando alguém sente sede, pode ser tarde demais: o suor
desaparece do corpo e uma desidratação fatal pode tomar conta antes mesmo
de a garganta começar a reclamar.
No entanto, todo mês de julho, cerca de noventa corredores do mundo
inteiro dedicavam até sessenta horas correndo pelas pistas da Highway 190,
com cuidado para se deslocar sobre a linha branca, já que, do contrário, o
solado do tênis pode derreter. Na milha de número 17 (quilômetro 27),
passam pela Furnace Creek, ponto onde se registram as temperaturas mais
altas dos Estados Unidos (quase 57 graus). A partir dali, tudo piora: ainda é
preciso ultrapassar três montanhas, enfrentar alucinações, problemas com o
estômago rebelde e pelo menos uma noite correndo na escuridão antes de
chegar ao término da prova. Isto é, se conseguir chegar: Lisa Smith-Batchen
é a única norte-americana a vencer a Maratona das Areias, que se estende
por seis dias em pleno deserto do Saara, mas teve de sair às pressas da prova
de Badwater em 1999 e ser socorrida antes que a desidratação renal a
matasse.
“Esta é a paisagem da catástrofe”, escreveu um espectador do Vale da
Morte. É um tipo de experiência bizarra e “transilvânica”, uma corrida bem
no meio de um campo mortal, onde “um corredor perdido rasga a própria
língua antes de morrer de sede”, como definiu o doutor Ben Jones, com base
em sua experiência.
O doutor Jones participava da Badwater em 1991 quando foi recrutado
para examinar o corpo de um atleta enterrado na areia. “Sou o único cara que
eu conheço que já fez uma autópsia no meio de uma corrida”, assinala. Não
que ele tivesse dificuldades com a morbidez – o “Badwater Ben” também
ficou conhecido por fazer a sua equipe arrastar um caixão cheio de água
gelada pela rodovia para ajudá-lo a refrescar o corpo. Quando os corredores
mais lentos chegavam no local, ficavam chocados ao encontrar um atleta
mais experiente deitado ali, na beira da estrada, dentro de um caixão – com
os olhos fechados e os braços cruzados sobre o peito.
Mas qual era a ideia de Scott? Ele havia sido criado sob o céu de
Minnesota – o que saberia ele sobre pistas que derretem as solas dos tênis ou
caixões com água gelada? Até o diretor da competição de Badwater, Chris
Kostman, sabia que Scott estava fora do perfil: “A prova tinha 56
quilômetros a mais do que a corrida mais longa da qual ele havia participado
e o dobro da distância que havia corrido sobre o asfalto, sem falar que era o
lugar mais quente em que jamais tinha estado na vida”.
Isso porque Kostman não sabia nem da metade. Naquele ano, Scott
tinha se dedicado tanto a aperfeiçoar suas habilidades para a Western States
que o maior trecho que havia percorrido sobre asfalto não passava de
dezesseis quilômetros. E no que se refere ao calor... Bem, não chovia todos
os dias em Seattle, mas quase. E no Vale da Morte, fazia o verão mais quente
da história, com temperaturas atingindo 54 graus. O momento mais fresco do
dia mais brando ainda era mais quente do que todo o verão de Seattle.
Para um corredor, a única chance de sobreviver à prova de Badwater
era contar com uma equipe experiente para monitorar os sinais vitais e
fornecer calorias digeríveis e bebidas energéticas. Um dos maiores
concorrentes da competição naquele ano levou um nutricionista e quatro
vans completamente equipadas para acompanhá-lo durante o percurso. Scott,
por outro lado, tinha o apoio da esposa, de dois amigos de Seattle e de Dusty,
caso esse último conseguisse se recuperar da ressaca que o abatia quando
chegou, pouco antes do início da maratona.
Os concorrentes de Scott eram tão ferozes quanto o calor da região. Ele
iria competir com Mike Sweeney, bicampeão da desgastante prova hurt 100,
no Havaí, e Ferg Hawke, um canadense muito bem preparado que, no ano
anterior, havia chegado em segundo lugar na Ultramaratona de Badwater. A
bicampeã de Badwater Pam Reed também estaria na linha de largada, assim
como o próprio “Senhor Badwater”: Marshall Ulrich, o ultramaratonista que
mandava extrair as unhas dos pés. Além de vencer a Badwater quatro vezes,
ele havia feito o trajeto sem parar. Uma vez, atravessou o Vale da Morte
totalmente sozinho, levando seu suprimento de água e comida em um
carrinho. Além de resistente, Marshall também era ardiloso: uma de suas
estratégias preferidas consistia em mandar que a sua equipe cobrisse os
faróis da van de apoio depois de escurecer – assim, corredores que tentavam
segui-lo desistiam ao achar que o rival havia desaparecido bem à frente,
quando, na verdade, estava a oitocentos metros de distância.
Poucos segundos antes das dez da manhã, alguém ligou um aparelho de
som e todos levaram as mãos ao peito para ouvir o hino nacional. A simples
permanência ali, embaixo do sol inclemente da manhã, já era insuportável
para quem não fosse um veterano da prova, e estes mostravam sua condição
na escolha das roupas: Pam, Ferg e Mike Sweeney, com shorts finos e
camisetas tipo regata, não pareciam nem se incomodar com o sol que lhes
tostava a cabeça. Já Scott não podia parecer menos adequado: seu corpo
estava coberto, do queixo até os pés, com uma espécie de túnica branca,
parecendo um caipira de Minnesota. Os cabelos estavam presos e protegidos
por um chapéu que lembrava os usados pelos soldados da Legião
Estrangeira.
Já! Scott partiu como o guerreiro de Coração valente. Porém, naquela
vez, seu grito pareceu fraco e desanimado, e acabou engolido pela incrível
amplidão do deserto de Mojave como um eco no fundo de um poço. Mike
Sweeney também tinha seus planos: se por acaso o menino maravilha estava
pensando em correr lado a lado para disparar no final, sua estratégia seria
abrir uma vantagem enorme já desde a largada. Ele podia fazer isso: em um
esporte que não se destacava pelo ataque, Sweeney era um dos durões. Com
vinte e poucos anos, ele havia participado de mergulhos nos rochedos de
Acapulco e trabalhado como timoneiro na região de San Francisco,
comandando uma tripulação de navios de carga. Enquanto Jurek desfrutava
da fresca brisa com aroma de pinheiros nas montanhas durante o verão,
Sweeney tentava dominar o timão de um barco embaixo de um vento forte,
em um ambiente que mais parecia uma sauna, por pelo menos duas horas
todos os dias.
Mike Sweeney estava liderando a prova quando chegou em Furnace
Creek, pouco antes do meio-dia. Os termômetros chegaram a 52 graus, mas
o corredor parecia inabalável e mantinha o seu ritmo. Perto da milha de
número 72 (quilômetro 116), sua vantagem sobre o segundo colocado, Ferg
Hawke, era de dezesseis quilômetros.
A equipe de Sweeney trabalhava com destaque. Três ultracorredores de
elite atuavam como pacers, entre eles um colega que vencera a hurt 100,
Luis Escobar. Sua nutricionista era Sunny Blende, de nome bastante
adequado, linda especialista em esportes de resistência que, além de
monitorar as calorias do corredor, também erguia sua blusa e exibia
rapidamente os peitos quando achava que Sweeney precisava de uma energia
adicional.
Já a equipe de Scott não estava lá tão sintonizada. Um dos pacers
o abanava com uma camisa, sem perceber que o corredor estava tão
exausto que não conseguia reclamar que o zíper batia em suas costas. A
mulher e o amigo do atleta estavam quase saindo no tapa: Dusty se
incomodava com a iniciativa de Leah motivar Scott passando informações
incorretas sobre o seu ritmo, enquanto esta detestava ouvir os nomes
vulgares que Dusty usava para animar o amigo.
Por volta da milha 60 (quilômetro 96), Scott começou a vomitar e a
tremer. As mãos caíram sobre os joelhos, e estes sobre o chão. O corredor
caiu ao lado da pista, deitado sobre o próprio suor e a própria saliva. Leah e
seus amigos nem tentaram reanimá-lo, porque sabiam que não havia no
mundo voz mais poderosa do que a mente de Scott.
Ele ficou ali, pensando na própria falta de esperanças. Não havia
percorrido nem a metade da prova, e Sweeney estava tão longe que não dava
nem para ver. Ferg Hawke já estava na metade da subida até o mirante
Father Crowley, enquanto Scott nem sequer havia começado a subir. E ainda
tinha o vento! Era como correr contra a rajada de um motor a jato. Alguns
quilômetros antes, Scott havia tentado se refrescar enfiando a cabeça e o
tronco num recipiente cheio de gelo, permanecendo embaixo da água até que
os pulmões não aguentassem mais. Em seguida, voltou para a pista.
Não pode ser, disse a si mesmo. Você está fora. Só fazendo algo
completamente insano teria chances de vencer a prova agora. Mas que tipo
de insanidade? Algo como começar de novo, fingindo que acaba de acordar
de uma noite de sono e a corrida ainda vai começar. Você precisa correr os
próximos treze quilômetros com mais velocidade do que jamais fez na vida.
Sem chance, “Jerker”. Sim, eu sei.
Durante dez minutos, Scott ficou jogado como um cadáver. Depois se
ergueu e partiu para a insanidade, batendo o recorde de Badwater com um
tempo de 24 horas e 36 minutos.

Rei das trilhas, rei da estrada. Aquela “partida dupla” de 2005 tinha sido
uma das maiores performances da história das ultracorridas, e não poderia
ter vindo em melhor momento: bem quando Scott se tornava o maior astro
na modalidade, ela ganhava a condição de sexy. Tinha o Dean Karnazes, se
livrando da camisa para posar para capas de revista e contando a David
Letterman como ele pedia pizzas pelo celular no meio de uma prova de
quatrocentos quilômetros. Quanto a Pam Reed, quando Dean anunciou que
se preparava para correr 482 quilômetros, ela saiu na frente e correu 484,
aparecendo em seguida no programa de Letterman, isso sem falar no livro
que escreveu e em uma das melhores manchetes de revista (Outside
Magazine) já publicadas: “dona de casa desesperada ameaça supermodelo
masculino em evento esportivo radical”.
E onde estava Scott Jurek e toda a sua campanha de marketing? Algo
como um exercício na esteira, sem camisa, com vista para a Times Square –
ao estilo de Karnazes? “Quando o assunto são corridas de 160 quilômetros
ou mais sobre trilhas, ninguém na história chega perto dele. Se quiser
afirmar que ele é o maior ultracorredor de todos os tempos, não há nenhum
exagero”, garantiu o editor da UltraRunning, Don Allison. “Ele tem
condições de enfrentar qualquer um.”
Mas onde ele estava?
Bem longe. Em vez de promover sua imagem depois de um verão de
glórias, Scott e Leah sumiram no meio dos bosques para comemorar em paz.
Scott não ligava a mínima para programas de entrevista (o casal nem sequer
tinha tevê). O corredor havia lido os livros de Dean e Pam, além de todas as
matérias publicadas em revistas, que só lhe renderam enjoos. Aqueles
sujeitos estavam transformando aquele lindo esporte, uma grande
demonstração de talento, em um show de horrores.
Quando o casal finalmente voltou ao minúsculo apartamento, Scott
encontrou outro daqueles e-mails malucos que chegavam de vez em quando.
Ele recebia essas mensagens com certa frequência nos últimos dois anos,
mandadas por um homem que assinava com nomes variados: Caballo Loco,
Caballo Confuso, Caballo Blanco. Falavam sobre um convite, que bom se
ele pudesse ir, dar poder ao povo, blá-blá-blá... Normalmente, ele dava uma
lida rápida e deletava em seguida, mas desta vez um termo chamou-lhe a
atenção: Chingón.
Nossa, aquilo não era um palavrão em espanhol? Scott não entendia
muito do idioma, porém reconhecia as palavras feias só de ouvi-las. Será que
aquele “cavalo maluco” tinha resolvido começar a xingar? Scott releu a
mensagem, agora com mais atenção:
Falei para os rarámuris que meu amigo apache Ramón Chingón garante que derrota todo
mundo. Os tarahumaras são quase tão bons na corrida quanto os apaches, um pouco menos do
que os quimares. Mas a pergunta é: quem é mais chingón do que Ramón?

Não era fácil decifrar a mensagem de Caballo, mas, pelo que Scott
conseguiu entender, parecia que ele – Scott – era o próprio Ramón Chingón,
o maldito que chegaria para chutar o traseiro dos tarahumaras. Então, aquele
sujeito que ele nem conhecia estava tentando promover um embate entre os
tarahumaras e seus inimigos ancestrais, os apaches? E queria que Scott
fizesse o papel de vilão? Mas que loucura!
Scott apoiou o dedo na tecla para deletar, mas mudou de ideia. Por
outro lado... Não era bem isso o que estava determinado a fazer? Encontrar
os maiores corredores do mundo e derrotá-los? Algum dia, ninguém (nem
mesmo os ultracorredores) se lembraria dos nomes de Pam Reed ou Dean
Karnazes. Mas, se Scott fosse tão bom quanto achava que era (ou quanto
ousava ser), conseguiria correr como ninguém jamais havia corrido. Não
pensava no posto de melhor do mundo, mas de melhor de todos os tempos.
Porém, como todo campeão, ele estava diante de um dilema: podia
derrotar qualquer corredor vivo ou até os que já haviam morrido (ou que
estavam longe das corridas havia tempos). Todos os boxeadores de peso-
pesado escutam a mesma coisa: “Você é bom, mas jamais venceria Ali em
seus bons tempos”. Da mesma maneira, não importava quantos recordes
Scott batesse, sempre haveria uma pergunta sem resposta: o que teria
acontecido se ele tivesse participado de Leadville em 1994? Teria
conseguido derrotar Juan Herrera e a equipe tarahumara ou teria sido
perseguido como uma presa, como aconteceu com a bruja?
Os heróis do passado são intocáveis, eternamente protegidos pela sólida
porta do tempo – a não ser que algum forasteiro misterioso consiga, como
que por mágica, abrir a fechadura. Talvez Scott, graças a esse personagem
maluco, era o atleta que poderia fazer voltar o relógio do tempo e testar-se
contra os imortais.
E quem é mais chingón do que Ramón?
Capítulo 20
Nove meses depois, eu estava de volta à região da fronteira com
o México, correndo contra o tempo e sem nenhuma chance de errar. Era
uma tarde de sábado, 25 de fevereiro de 2006, e eu tinha 24 horas para
encontrar Caballo novamente.
Assim que recebeu a resposta de Scott Jurek, Caballo começou um
verdadeiro malabarismo de logística. Ele tinha uma única oportunidade
(minúscula), já que a corrida não poderia ser realizada durante a época da
colheita de outono, nem no chuvoso inverno e menos ainda sob o escaldante
calor do verão, quando muitos tarahumaras mudavam para cavernas mais
frias, situadas em locais mais altos do desfiladeiro. Caballo também não
podia marcar o evento para o Natal, a Semana Santa ou a época da Fiesta
Guadalupana, além de uma meia dúzia de finais de semana preferidos para a
realização de casamentos.
Finalmente, Caballo concluiu que uma data possível seria no domingo,
5 de março. Assim começavam as dificuldades: como ele não teria tempo
suficiente para ir de aldeia em aldeia anunciando a logística da corrida,
deveria determinar com precisão quando e onde os corredores tarahumaras
iriam se encontrar conosco antes da prova. Um erro de cálculo e tudo estaria
perdido – já era uma aposta acreditar que os tarahumaras iriam aparecer e, se
chegassem e não encontrassem mais ninguém, iriam embora sem hesitar.
Caballo se dedicou à programação e partiu desfiladeiro adentro para
avisar a todos, como me informou algumas semanas depois:
Hoje corri quase cinquenta quilômetros até a terra dos tarahumaras e depois voltei como um
mensageiro (é isso o que sou agora). A mensagem me alimentou mais do que o suprimento de
pinole que levo no bolso. Fiquei feliz ao encontrar Manuel Luna e Felipe Quimare no mesmo
dia. Quando conversei com eles, consegui ver entusiasmo até no rosto impassível (que lembra o
de Gerônimo) de Manuel.

Ao mesmo tempo que as coisas estavam encaminhadas para Caballo, de


minha parte tudo parecia muito difícil. Quando correu a notícia de que Jurek
poderia participar de uma competição com os tarahumaras, outros astros das
ultracorridas também manifestaram interesse. Mas não tinha como saber
quantos realmente iriam aparecer, e a dúvida valia também para o principal
astro do evento.
Bem ao estilo Jurek, Scott não contou para quase ninguém o que
planejava fazer, e por isso a notícia só começou a se espalhar pouco mais de
um mês antes da corrida. Até eu (que acabei funcionando como o seu ponta
de lança) fiquei sem ter certeza nenhuma – ele me mandou uma série de e-
mails com perguntas sobre a viagem, entretanto, quando a data final se
aproximava, simplesmente sumiu. Duas semanas antes da competição, fiquei
atônito ao ver o depoimento na Runner’s World de um corredor do Texas que
teve uma surpresa quando cruzou a linha de chegada da Maratona de Austin
e encontrou ali o maior astro das corridas dos Estados Unidos (e também o
mais discreto).
Austin?! Até onde eu sabia, Scott deveria estar a mais de 3 mil
quilômetros dali, atravessando a região da Baja Califórnia ao lado de sua
mulher para embarcar no trem Chihuahua-Pacific rumo a Creel. E por que
Scott estaria cruzando o país numa competição universitária quando deveria
se concentrar para o grande evento das trilhas? Ele planejava algo, isso era
certo – e, como sempre, qualquer que fosse a sua estratégia, permaneceria
exclusivamente em sua cabeça.
Assim, até o momento em que cheguei a El Paso, no Texas, naquele
sábado, não tinha a menor ideia se estaria diante de um batalhão ou se seria
um ataque solo. Hospedei-me no Hilton, arrumei os trâmites para partir para
a fronteira às cinco da manhã do dia seguinte e voltei ao aeroporto. Eu tinha
quase certeza de que estava perdendo tempo, mas havia uma possibilidade
de ver desembarcar Jenn “Mookie” Shelton e Billy “Bonehead” Barnett,
uma dupla de jovens de vinte e poucos anos que estava fazendo sucesso no
circuito “ultra” da Costa Leste, pelo menos quando não estavam ocupados
surfando, indo a festas ou respondendo a processos por agressão (Jenn),
comportamento inadequado (Billy) ou atentado ao pudor (os dois: quando os
namorados não resistiram a um acesso de paixão à beira da estrada, foram
presos e tiveram de prestar serviços à comunidade como pena).
Jenn e Billy haviam começado a correr dois anos antes, mas ele já havia
vencido algumas das provas mais duras da Costa Leste, enquanto a “jovem e
linda Jenn Shelton”, como o blogueiro especializado em ultracorridas Joey
Anderson a descreveu, tinha acabado de entrar para o universo das corridas
acima dos 160 quilômetros. “Se essa garota conseguisse mover uma raquete
de tênis da mesma forma como corre, seria uma das mulheres mais ricas do
mundo do esporte, de tantos patrocinadores que iria atrair”, escreveu
Anderson.
Uma vez conversei com ela por telefone e, por mais que ela e Billy
demonstrassem entusiasmo em participar da corrida nas Barrancas del
Cobre, eu não via grandes possibilidades. A dupla não tinha dinheiro, cartão
de crédito nem disponibilidade: os dois ainda estavam na faculdade e a
maratona de Caballo havia sido marcada em pleno período letivo, o que
significava que poderiam perder o semestre caso se ausentassem naquele
momento. Apesar disso, dois dias antes de pegar o avião, recebi o seguinte e-
mail: “Espere por nós! Chegaremos às oito e dez da noite. El Paso fica no
Texas, certo?”.
Depois disso, mais nenhuma palavra. Na minguada esperança de que a
dupla tivesse encontrado a cidade certa e um jeito de chegar até lá, fui ao
aeroporto e comecei a olhar por toda parte. Nunca tinha visto os dois, porém
a fama de arruaceiros havia criado em mim uma imagem mental bem clara.
Quando fui ao setor de bagagens, vi um casal que mais parecia dois
adolescentes pedindo carona para Lollapalooza.
“Jenn?”, perguntei.
“Isso mesmo!”
A garota vestia chinelos, short de surfe e camiseta tingida. Seu cabelo
claro estava preso em tranças, visual que lembrava a personagem Pippi
Meialonga. Era bonita e miúda e poderia passar por uma patinadora, imagem
que ela tentou afastar no passado ao raspar a cabeça e fazer uma vistosa
tatuagem de um morcego no braço direito – só veio a descobrir depois que
era igual a um antigo logotipo do rum Bacardi. “Bem, seja como for, pelo
menos é uma propaganda que fala a verdade”, revelou Jenn, com
indiferença.
Billy exibia a mesma aparência agradável e visual de beira de praia.
Tinha tatuagem tribal na nuca e suíças espessas, que se confundiam com os
cabelos queimados de sol. Com uma bermuda florida e um jeito de surfista,
ele parecia (ao menos para Jenn) “como um pequeno abominável homem
das neves que ataca a sua gaveta de roupa íntima”.
“Nem acredito que vocês conseguiram chegar!”, desabafei. “Mas houve
uma mudança nos planos e Scott Jurek não vai nos encontrar no México.”
“Droga!”, decepcionou-se Jenn. “Eu sabia que era bom demais para ser
verdade.”
“Ele veio direto para cá.” Na minha ida ao aeroporto, vi dois caras
correndo pelo estacionamento. Estavam longe demais para que eu
conseguisse ver os rostos, porém o jeito de correr os denunciava. Depois de
uma rápida apresentação, foram ao bar enquanto eu segui meu caminho para
o aeroporto.
“Scott está aqui?”
“Sim, o vi quando vinha para cá. Está no bar do hotel com Luis
Escobar.”
“Scott bebe?”
“Acho que sim.”
“Meu Deus!”
Jenn e Billy pegaram a bagagem – uma sacola da Nike com um bastão
de quiropraxia à mostra, além de uma mochila com um saco de dormir –, e
saímos para o estacionamento.
“Como é Scott?”, perguntou Jenn. O mundo das ultracorridas, assim
como o do rap, é determinado pela geografia. Nativos das praias da Costa
Leste, Jenn e Billy haviam se limitado a correr perto de sua terra natal e
ainda não tinham cruzado seu caminho (nem trocado palavras) com as elites
da Costa Oeste. Para eles (e para todos os ultracorredores), Scott era um
mito tão grande quanto os tarahumaras.
“Só vi de longe”, falei. “Difícil concluir qualquer coisa, eu acho.”
Eu deveria ter ficado de boca fechada. Mas quem pode adivinhar
quando algo simples pode se transformar em tragédia? Como eu podeira
saber que um gesto amável, como presentear Caballo Blanco com um par de
tênis, quase o levaria à morte? Da mesma forma, eu jamais iria imaginar que
a próxima frase que sairia da minha boca iria provocar um desastre.
“Talvez vocês consigam embriagá-lo e ajudá-lo a se soltar um pouco”,
sugeri.
Capítulo 21
“Preparem-se para encontrar o ídolo de vocês”, disse logo que entramos no
bar do hotel, “bebendo uma cerveja gelada.”
Scott estava sentado num banco, tomando uma Fat Tire Ale. Billy
colocou sua bagagem no chão enquanto Jenn ficou parada atrás de mim. Em
todo o percurso, ela mal tinha deixado Billy abrir a boca, porém agora,
diante de Scott, estava petrificada. Foi o que eu imaginei até prestar atenção
nos olhos dela: ela não parecia acanhada, e sim no meio de uma avaliação.
Scott podia muito bem estar decidido a perseguir os tarahumaras, mas faria
bem em prestar atenção em quem estava no encalço dele.
“O grupo está completo?”, perguntou Scott.
Olhei ao redor e fiz uma conta rápida. Jenn e Billy pediram cervejas.
Também estava ali Eric Orton, treinador de esportes de aventura do
Wyoming e antigo interessado pela cultura tarahumara, que me escolheu
para ser seu principal projeto fracassado. Nos nove meses anteriores,
havíamos conversado todas as semanas, às vezes diariamente, de acordo com
as pretensões dele de me transformar de corredor desajeitado em invencível
participante de ultramaratonas. Ele era o único sujeito que eu tinha certeza
de que iria aparecer: mesmo deixando em casa a mulher com a filha recém-
nascida em pleno inverno do Wyoming, não havia chance de ele ficar quieto
em seu canto, bem quando eu colocaria a sua arte à prova. Eu havia tentado
dizer que ele estava errado – não existia possibilidade nenhuma de eu
conseguir correr oitenta quilômetros
– e estava chegando a hora de ver quem estava certo.
Scott estava cercado por Luis Escobar e o pai dele, Joe Ramírez. Luis,
além de vencer a hurt 100 e participar da Ultramaratona de Badwater, era um
dos maiores fotógrafos de corridas: seu talento contava com a ajuda das
pernas – ele conseguia chegar onde nenhum outro fotógrafo havia chegado.
Por acaso, Luis havia telefonado para Scott para se certificar de que se
encontrariam na Coyote Fourplay, um evento pouco conhecido e de
participação restrita, definido como uma “maluquice que dura quatro dias e
envolve crânios de coiotes, lanches envenenados, calcinhas nas árvores e
uma centena de trilhas que você preferiria não encontrar”. A Fourplay ocorre
todos os anos, no final de fevereiro, nos confins de Oxnard, na Califórnia, e
foi criada para dar a um pequeno grupo de ultracorredores uma oportunidade
de chutar a bunda um do outro e colar seus traseiros nos vasos sanitários.
Todos os dias, os participantes correm de cinquenta a oitenta quilômetros por
trilhas marcadas com crânios de coiote e roupas íntimas femininas. Todas as
noites, encaram campeonatos de boliche e shows de talentos e pregam peças
uns nos outros, como substituir barrinhas de proteína por ração de gato. A
Fourplay era uma batalha ideal para amadores que gostavam de exercício
pesado e de brincadeiras idiotas, e não para profissionais que tinham de se
preocupar com as datas das corridas e os compromissos com os
patrocinadores. Naturalmente, Scott participou de todos os eventos.
Isso foi até 2006. “Desculpe, mas desta vez não vai dar”, Scott
respondeu ao amigo. Quando Luis soube do que se tratava, seu coração
saltou. Ninguém havia feito fotos dos corredores tarahumaras em atividade
em suas próprias terras, e por uma boa razão: os tarahumaras corriam para se
divertir, e a presença de demônios brancos por perto não era nada divertida.
As corridas aconteciam sem planejamento e totalmente longe dos olhos dos
forasteiros. No entanto, se Caballo conseguisse o que estava planejando,
alguns poucos demônios sortudos teriam a chance de correr ao lado da
famosa tribo. Pela primeira vez, o povo corredor estaria reunido.
Joe, pai de Luis, com um rosto que parece de madeira, rabo de cavalo
grisalho e anéis de turquesa típicos de um sábio indígena, era um trabalhador
imigrante que, em seus sessenta e poucos anos de vida, já havia trabalhado
como patrulheiro nas estradas da Califórnia, depois como cozinheiro e
finalmente artista, dedicado às cores e à cultura de seu México natal. Quando
ficou sabendo que o filho estava indo a seu país de origem para ver alguns
heróis ancestrais em ação, bateu o pé e disse que iria também. Somente o
trecho a pé bastaria para matá-lo, mas Joe não estava preocupado. Mais
ainda que todos os ultramachões que o cercavam, aquele filho dos campos
era um sobrevivente.
“E aquele cara que corre de pé descalço?”, perguntei. “Ele vai
aparecer?”
Alguns meses antes, alguém que assinava como Barefoot Ted [Ted
Descalço] começou a mandar uma enxurrada de mensagens para Caballo
Blanco. Parecia ser o correspondente do Bruce Wayne da corrida sem
calçados, um herdeiro de uma fortuna advinda de um parque de diversões na
Califórnia, que se dedicava ao combate ao maior crime já cometido contra a
saúde dos pés humanos: a invenção dos tênis de corrida. Barefoot Ted
acreditava que seria possível se livrar de todos os machucados nessa parte do
corpo jogando os Nikes no lixo, e queria comprovar a sua teoria. Descalço,
participou das competições de Los Angeles e de Santa Clarita, concluindo as
provas em tempo suficiente para se classificar para a prestigiada Maratona
de Boston. Ouviam-se relatos de que ele costumava correr sem nada nos pés
pelas montanhas San Gabriel, além de puxar mulher e filha pelas ruas de
Burbank num riquixá. Agora, ele iria ao México para se encontrar com os
tarahumaras e descobrir se o segredo da incrível resistência daquele grupo
estava no fato de correrem com os pés quase desprotegidos.
“Ele deixou uma mensagem falando que chegaria mais tarde”, disse
Luis.
“Espero que alguém venha, porque o Caballo está enlouquecido.”
“Mas qual é a desse tal de Caballo?”, perguntou Scott.
“Não sei muito bem, só encontrei com ele uma vez.”
Os olhos de Scott se apertaram. Billy e Jenn se viraram e ergueram o
olhar, subitamente mais interessados em mim do que nas cervejas que
haviam pedido. O clima do grupo mudou de repente. Alguns segundos antes,
todos conversavam e bebiam, mas agora o ambiente estava mudo e um
pouco tenso.
“O que foi?”, perguntei.
“Achei que vocês eram bem amigos”, disse Scott.
“Amigos? Não, mal conheço o sujeito. Ele é um mistério, não sei onde
vive nem qual o seu verdadeiro nome”, respondi.
“Então quer dizer que você não garante que dá para confiar no cara?”,
quis saber Joe Ramírez. “Droga, e se ele não conhecer tarahumara nenhum?”
“Eles o conhecem”, expliquei. “Tudo o que sei sobre ele é o que já
escrevi: do tipo esquisito, mas um corredor de primeira, e vive no meio dos
índios há um tempão. Isso foi tudo o que descobri.”
Todo mundo parou e tomou um gole de bebida, inclusive eu. Mas,
afinal, por que confiar em Caballo? Eu havia me envolvido tanto com o
preparo para a corrida que esqueci que o maior desafio era sobreviver à
viagem. Não tinha nenhuma certeza de quem realmente era o sujeito ou para
onde iria nos levar. Ele podia ser um maluco ou totalmente despreparado, e o
resultado seria o mesmo: iríamos morrer no meio do desfiladeiro.
“Ei”, interrompeu Jenn. “E o que temos para hoje à noite? Billy e eu
estamos pensando em encarar algumas margaritas.”
Se alguém do grupo havia ficado em dúvida, não demonstrou. Scott,
Luis, Eric e Joe concordaram em pegar a van do hotel e ir ao centro da
cidade tomar uns drinques. Mas não eu. Tínhamos muitos quilômetros pela
frente, e eu queria descansar o máximo que pudesse. Ao contrário dos
outros, eu já havia estado lá e sabia o que estava à nossa espera.

Em algum momento no meio da noite, ouvi barulhos perto de meu quarto.


Vinham de bem perto e pareciam ser batidas na porta do banheiro.
“Billy, levante!”, alguém gritou.
“Me deixe, eu estou bem.”
“Você precisa levantar!”
Acendi a luz e vi Eric Orton, o treinador de esportes de aventura,
parado junto à porta. “Os moleques”, falou, agitando a cabeça. “Não sei,
não.”
“Aconteceu alguma coisa?”
“Não sei, cara.”
Sentei na cama, ainda meio aturdido, e fui até a porta do banheiro. Billy
estava jogado na banheira, com os olhos fechados. Havia vômito em sua
camisa, no chão, no vaso sanitário... Jenn havia perdido as roupas e estava só
de short e sutiã roxo, com um dos olhos fechados por causa de um inchaço.
Ela tentava segurar Billy e fazê-lo ficar em pé.
“Você pode me ajudar a erguê-lo?”, pediu ela.
“O que aconteceu com o seu olho?”
“O quê?”
“Me deixem aqui!”, berrou Billy raivoso antes de desmaiar.
Meu Deus. Eu me apoiei na banheira e tentei achar um lugar para
segurar. Peguei-o pelos braços, mas não achava um lugar de carne macia
para agarrar – Billy era tão musculoso que tentar erguê-lo era como capturar
um lado de um bife magro. Finalmente consegui tirá-lo da banheira e levá-lo
à pequena sala. Eric e eu havíamos combinado de dividir um quarto, porém,
quando Jenn e Billy chegaram sem reserva nem dinheiro para se hospedar,
permitimos que ficassem conosco.
E esse foi o resultado. Assim que Eric abriu o sofá-cama, Jenn se jogou
como um saco de batatas. Acomodei Billy ao lado dela, com a cabeça caindo
na beirada, e posicionei um cesto perto do rosto dele antes que outro jorro de
vômito invadisse o chão. Ele ainda ameaçava vomitar quando cheguei no
interruptor.
De volta ao quarto, que ficava ao lado da saleta, Eric me contou o que
havia acontecido. Eles foram ao restaurante de comida tex-mex e, enquanto
todos comiam algo, Jenn e Billy fizeram uma aposta para ver quem bebia
mais margaritas. Em certo momento, Billy saiu para ir ao banheiro e não
voltou mais. Enquanto isso, Jenn se divertia berrando perto do celular de
Scott (que falava com a mulher): “Socorro! Tem um monte de cacetes ao
meu redor!”.
Felizmente, Barefoot Ted apareceu bem nesse momento. Ele havia
chegado no hotel e, quando soube que os colegas de corrida haviam saído
para beber, pediu uma das vans e convenceu o motorista a levá-lo pelo
centro até achar a turma. Na primeira parada, o motorista viu Billy dormindo
no estacionamento. Arrastou o rapaz para o carro enquanto Ted chamava os
outros. A energia que faltava em Billy sobrava em Jenn e, no trajeto de volta
para o hotel, ela só deixou de pular no banco quando o motorista parou o
veículo e ameaçou abandoná-la na rua se ela não sentasse.
Entretanto, a autoridade do condutor valia apenas dentro do carro.
Quando pararam no hotel, Jenn saiu correndo feito louca, atravessou o
saguão e bateu de cara em uma fonte cheia de plantas. Seu olho foi direto
contra o mármore e ficou roxo na hora. Jenn emergiu toda molhada, tirando
folhagens da cabeça como uma deusa marinha.
“Moça, moça!”, chamava a atônita atendente, antes de lembrar que
pedidos não funcionam com bêbados que caem dentro de fontes. “Deem um
jeito nela ou vocês todos terão de sair daqui”, avisou a funcionária aos
demais.
Muito bem. Ted e Luis agarraram Jenn e a levaram para o elevador. A
moça se debateu, tentando se soltar, enquanto Scott e Eric arrastavam Billy.
“Me largueeem!”, berrava Jenn, enquanto as portas do elevador se fechavam.
“Prometo que vou me comportar...”
“Droga”, interrompi, ao olhar para o relógio. “E vamos ter de tirar esses
dois do quarto daqui a cinco horas...”
“Eu carrego Billy, você dá um jeito na Jenn”, falou Eric.
Por volta das três da manhã, o telefone tocou.
“Senhor McDougall?”
“Sim?”
“Aqui é a Terry, da recepção. Sua amiga precisa de ajuda para subir as
escadas – outra vez.”
“O quê? Não é a minha amiga”, disse, acendendo a luz. “Ok, você está
certa”, argumentei ao ver que Jenn havia sumido. “Obrigado, já vou descer.”
Quando cheguei no saguão, encontrei Jenn de short e sutiã. Ela sorriu
para mim, como se dissesse: “Mas que coincidência!”. Com ela estava um
sujeito com botas de caubói e cinto de rodeio. Ele deu uma espiada no olho
roxo de Jenn, depois virou-se para mim e voltou a examinar o olho da
garota, como se decidisse se devia ou não me dar um belo chute.
Pelo que entendi, Jenn levantou para ir ao banheiro, passou pela porta e
acabou no corredor. Depois de aliviar a bexiga perto da máquina de
refrigerantes, ouviu música e decidiu ver o que era. No salão do hotel estava
acontecendo uma festa de casamento.
“Ei!”, gritaram alguns quando Jenn colocou a cabeça para dentro.
“Ei vocês!”, respondeu ela, já pegando uma bebida. Ela se esfregou no
traseiro do noivo, engoliu umas cervejas e teve de espantar alguns caras que
tinham certeza de que aquela figura seminua que apareceu às três da manhã
tinha vindo para apimentar a festa. Jenn conseguiu escapar e voltar para o
saguão do hotel.
“Querida, seria melhor não beber desse jeito lá no lugar para onde você
vai amanhã”, alertou a recepcionista, enquanto Jenn tentava achar o
elevador. “Vão estuprá-la e abandoná-la à morte.” A moça sabia do que
estava falando – nossa primeira parada no caminho para o desfiladeiro era
Juárez, uma cidade de fronteira tão sem lei que centenas de garotas da idade
de Jenn haviam sido mortas e largadas no deserto nos últimos anos (e
centenas de vítimas de todas as idades apareciam sem vida em um único
ano). Todas as dúvidas sobre quem mandava no pedaço foram eliminadas
quando dezenas de policiais desapareceram dali ou foram mortos depois que
os senhores da droga pregaram em postes uma lista com os nomes dos
futuros alvos.
“Ok”, disse Jenn, “desculpe pelas plantas.”
Ajudei a garota a voltar para o sofá-cama e verifiquei se a porta estava
trancada, para evitar novas surpresas. Olhei o relógio: eram três e meia da
madrugada. Tínhamos de estar prontos para sair em uma hora e meia ou
perderíamos o encontro com Caballo. Naquele momento, ele percorria as
trilhas entre o desfiladeiro e a cidade de Creel, de onde nos levaria até as
barrancas. Dois dias depois, todos teríamos de estar em um determinado
ponto da trilha nas montanhas de Batopilas, onde também estariam os
tarahumaras. O maior problema era o horário do ônibus para Creel: se nos
atrasássemos, não conseguiríamos saber a que horas chegaríamos. E Caballo
não esperaria: se tivesse de escolher entre aguardar por nós ou honrar o
compromisso com os tarahumaras, ele não teria dúvidas.
“Vocês vão ter de ir na frente”, avisei Eric quando voltei para o quarto.
“O pai de Luis fala espanhol, ele conseguirá levá-los a Creel. Eu vou com
estes dois assim que eles conseguirem parar em pé.”
“Como vamos encontrar Caballo?”
“É fácil saber quem ele é. Ninguém parece com ele.”
Eric pensou na proposta. “Você não acha melhor tentar acordar os dois
com um balde de água gelada?”
“A ideia não é má, mas acho que prefiro os dois dormindo”, respondi.
Cerca de uma hora depois, ouvi ruídos no banheiro. Meu Deus, pensei,
levantando para checar qual dos dois estava vomitando. Quase não acreditei
no que vi: Billy estava embaixo do chuveiro e Jenn escovava os dentes.
“Bom dia”, falou a garota. “O que aconteceu com o meu olho?”
Meia hora depois, nós seis estávamos na van do hotel cruzando as ruas
úmidas de El Paso, rumo à fronteira mexicana. Iríamos a Juárez e depois de
ônibus em ônibus pelo deserto de Chihuahua até o início das barrancas. Com
muita sorte, teríamos de enfrentar pelo menos quinze horas chacoalhando
dentro dos ônibus mexicanos para chegar a Creel.
“Quem me arrumar um refrigerante Mountain Dew pode ficar com o
meu corpo – e o de Billy também”, propôs Jenn, com os olhos fechados e o
rosto apertado contra o fresco vidro da van.
“Se esses dois correm do jeito como se divertem, os tarahumaras não
terão a menor chance”, sentenciou Eric. “Onde você os achou?”
Capítulo 22
Jenn e Billy se conheceram no verão de 2002, depois que ele terminou o seu
primeiro ano como calouro da Universidade Virginia Commonwealth e
voltou para casa a fim de trabalhar como salva-vidas em Virginia Beach.
Numa manhã, ao chegar em seu posto, Billy concluiu que a sorte estava
sorrindo para ele. Parecia que a sua nova parceira tinha saído de uma
propaganda, uma belezinha que havia conseguido pontuação máxima em
todos os itens que interessavam a Billy: sabia surfar, gostava de ler (em
segredo) e adorava uma boa balada. Além disso, tinha um antigo Mitsubishi
com um desenho no capô do esquisito escritor Hunter S. Thompson
apontando uma Magnum .44.
Jenn começou a perturbá-lo quase de imediato. Ela havia gostado do
boné do time de beisebol da Universidade da Carolina do Norte de Billy e
queria o objeto para ela. “Preciso desse boné!”, pediu. Jenn tinha estudado
um ano naquela universidade antes de largar tudo e mudar para San
Francisco para escrever poesia. Por isso, se existisse justiça naquela praia,
era ela quem deveria ostentar aquele acessório, e não um surfista metido a
bonitão, que usava o boné apenas para manter longe dos olhos a franja ao
estilo garotão...
“Muito bem!”, concordou Billy. “Pode ficar com ele.”
“Legal!”
“Mas só se você correr pela praia – sem roupa!”
Jenn riu. “Você é esquisito. Eu topo, mas depois do trabalho.”
Billy negou. “Nada disso. Agora.”
Alguns instantes depois, aplausos e vaias foram ouvidos no passeio à
beira-mar quando Jenn saiu do banheiro público deixando
o maiô de salva-vidas jogado no chão. Vai lá, garota! Ela correu até
o próximo posto salva-vidas, uma quadra à frente, deu meia-volta e
retornou na direção da multidão de mães e crianças, que, em teoria, ela
deveria proteger, entre outras coisas, de exposições indecentes de algum
estudante maluco. Por incrível que pareça, Jenn não foi presa (isso aconteceu
depois, quando ela provocou um curto-circuito na caminhonete do chefe dos
salva-vidas ao colocar um caranguejo dentro do capô).
Nos momentos menos agitados, Jenn e Billy conversavam sobre surfe e
livros. Ela gostava dos poetas da geração beat a tal ponto que planejava
estudar escrita criativa na Jack Kerouac School of Disembodied Poetics
[Escola Jack Kerouac de Poesia Dispersa], mas, para isso, precisava voltar à
faculdade e terminar algum curso. Ela acabou lendo De volta à vida e se
apaixonou por um novo tipo de poeta guerreiro.
Jenn logo percebeu que Lance Armstrong não era apenas um sujeito
que pedalava. Era um filósofo, um poeta beat tardio, um “vagabundo
iluminado” que cortava os mares de asfalto em busca de inspiração e de
experiência pura. Ela sabia que Armstrong havia se recuperado de um
câncer, porém não fazia ideia do quanto ele se aproximara da morte. Na
época em que o atleta se submeteu às cirurgias, os médicos acharam tumores
em seu cérebro, pulmões e testículos. Depois da quimioterapia, a fraqueza
era tanta que ele mal conseguia andar, e Lance ainda tinha de tomar uma
decisão urgente: deveria cobrar o seguro de 1,5 milhão de dólares ou
esquecer essa possibilidade e tentar refazer a vida como um atleta de
resistência?
Com a grana da apólice, ele não teria mais preocupações pelo resto da
vida. Com a outra alternativa, ele não teria nenhum dinheiro e ainda contaria
com poucas chances de chegar aos trinta anos.
“Que surfe, que nada!”, desabafou Billy. Viver na adrenalina não tinha
a ver com o perigo, pensou. Tinha a ver com curiosidade, uma curiosidade
destemida, como a que moveu Lance quando ele deu uma de maluco e
decidiu transformar seu corpo danado em uma máquina de vitórias. Assim
como Kerouac, quando caiu na estrada, o atleta escreveu sobre a experiência
em meio a uma explosão livre e louca, sem jamais achar que um dia aquilo
viraria livro. Olhando assim, Jenn e Billy conseguiram determinar uma linha
direta que unia um escritor beatnik, um ciclista campeão e uma dupla de
salva-vidas da Virgínia apreciadores da cerveja Pabst Blue Ribbon. Como
não se esperava que eles fizessem nada, podiam arriscar tudo. Era o
chamado da ousadia.
“Você já ouviu falar da Mountain Masochist?”, Billy perguntou a Jenn.
“Não. Quem é?”
“Não é uma pessoa, é uma corrida, sua pirada. Oitenta quilômetros
pelas montanhas.”
Nenhum dos dois havia participado de uma maratona antes. Tinham
passado a vida como garotos de praia e visto as montanhas algumas poucas
vezes, quanto mais correr nelas. E nem teriam condições de treinar de forma
adequada, porque o que havia de mais alto nas proximidades de Virginia
Beach era uma duna de areia. Correr oitenta quilômetros pelas montanhas
era demais para eles.
“Cara, parece muito legal. Tô dentro!”, falou Jenn.
No entanto, eles precisavam de ajuda e a garota resolveu recorrer ao
apoio que sempre buscava quando queria orientação. Como sempre, seu
“guru consumidor de álcool e cigarros” favorito entrou em ação, e a dupla
mergulhou na leitura do livro Vagabundos iluminados, na tentativa de
memorizar a descrição que Jack Kerouac fez das caminhadas pelas
montanhas Cascadia.
“Tente a meditação das trilhas: apenas caminhe observando o solo sob
os seus pés, sem ligar para o que está ao redor, entrando numa espécie de
transe conforme o chão se move depressa”, escreveu o autor. “As trilhas são
assim: você flutua num paraíso shakespeariano, à espera de ninfas e faunos,
quando de repente se percebe embaixo de um sol feroz, no meio de um
inferno de poeira, urtigas e venenos... Como acontece na vida.”
“Toda a nossa estratégia de treinamento nas trilhas foi tirada desse
livro”, revelou Billy. No que se refere à fonte de inspiração, foi a vez de
Charles Bukowski: “Se você decidir tentar, vá até o fim”, escreveu o famoso
Barfly. “Não existe sensação parecida. / Você fica sozinho com os deuses / e
as noites se enchem de fogo... Você corre direto pela vida / alegria perfeita /
apenas lutas de boas causas.”
Em pouco tempo, os frequentadores da praia perceberam um estranho
movimento ao pôr do sol. Os sons que ecoavam pelas dunas – “Visõõõess!
Oooo, caras! Alucinaçõõõeees!” – precediam o surgimento de um tipo de
criatura de quatro patas, que uivava e andava a galope. Conforme se
aproximava, dava para ver que, na verdade, tratava-se de duas pessoas,
correndo ombro a ombro. Uma era uma garota magra, com uma bandana
com a inscrição “orgulho gay” e uma tatuagem de morcego no braço; o outro
pare-cia mais um lobisomem peso médio correndo sob a lua.
Antes de partirem para os treinos sob o pôr do sol, Jenn e Billy
colocavam no walkman uma fita com o poema “Howl”, de Allen Ginsberg.
O acordo era parar o treinamento quando a corrida parecesse menos
divertida do que surfar. Por isso, para sentir a mesma sensação de elevação e
distanciamento, eles corriam ouvindo poesia beat.
“Milagre! Êxtase! Vamos desaparecer no rio americano!”, gritavam,
correndo à beira-mar.
“Amores novos! Geração maluca! Abaixo as rochas do tempo!”
Alguns meses depois, na ultramaratona de mais de 160 quilômetros Old
Dominion 100, os voluntários da estação de apoio no meio do trajeto
ouviram gritos no meio do mato. Instantes depois, uma garota com o cabelo
preso em um rabo de cavalo surgiu no meio das árvores. Ela plantou
bananeira, voltou a ficar em pé e começou a imitar golpes de boxe.
“Então isso é tudo, Old Dominion?!”, gritou ela, dando socos no ar.
Billy, único integrante da equipe de apoio da corredora, a esperava com o
seu cardápio preferido para os intervalos das corridas: refrigerante Mountain
Dew e pizza de queijo. Jenn sossegou e devorou uma fatia.
Os voluntários que estavam ali não acreditavam. Um deles a alertou:
“Ei, é melhor ir com calma. Dá para comemorar quando faltarem apenas 32
quilômetros”.
“Está bem”, falou Jenn, limpando a boca na roupa e partindo em
seguida.
“Você vai ter de convencê-la a ir mais devagar”, um voluntário
aconselhou Billy. “Ela está três horas à frente do recordista da prova.” Correr
mais de 160 quilômetros pelas montanhas não pare-cia nada com os trajetos
das maratonas urbanas, porque bastava se confundir para se perder na
escuridão e só voltar a aparecer com muita sorte.
Billy deu de ombros. Depois de um ano de namoro, sabia que ela era
capaz de tudo, menos de agir com moderação. Mesmo quando queria se
controlar, fosse o que estivesse dentro dela (paixão, inspiração, intensidade,
euforia), sempre vinha com carga total. Afinal, era a garota que havia
entrado para o time de rúgbi da universidade com um resultado considerado
inalcançável nos 160 anos de história da modalidade: o título de maluca
demais para as festas do time. “Ela enlouquecia todo mundo. Os caras do
time a pegavam à força e a levavam para fora da festa”, contou Jessie Polini,
melhor amiga de Jenn na universidade. E Jenn sempre havia agido assim,
com velocidade e bravura diante dos obstáculos.
Desta vez, a maior dificuldade surgiria na milha de número 75
(quilômetro 120). Já eram seis da tarde e toda uma jornada havia se passado
desde que Jenn começara a correr, às cinco da manhã, e ela ainda tinha uma
maratona pela frente. Quando chegou na estação de apoio, não houve
nenhum soco no ar. Ela parou em frente à mesa de alimentos, cansada ao
extremo, esgotada demais para comer e confusa demais para decidir o que
fazer. Tudo o que sabia era que, se ousasse sentar, não seria capaz de voltar a
se erguer.
“Let’s go, Mook!”, ou seja, “Vai lá, garota!”, berrou alguém.
Billy havia acabado de chegar e estava tirando o casaco. Por baixo,
vestia bermuda de surfista e uma camiseta de banda de rock, com as mangas
desfiadas. Alguns maratonistas vibram quando um amigo vira pacer nos
quatro ou cinco quilômetros finais, mas Billy estava entrando para correr
toda uma maratona. Jenn se sentiu animada novamente ao lado de Billy
“Bonehead”. Que cara!
“Você quer mais pizza?”, perguntou.
“Não, nem pensar.”
“Ok. Está pronta?”
“Podemos ir.”
A dupla entrou na trilha. Jenn corria em silêncio, ainda se sentindo mal
e pensando na possibilidade de voltar para a estação de apoio e abandonar a
prova. Billy a convenceu a continuar apenas com a sua presença. Ela
precisou lutar para enfrentar um quilômetro, depois outro, e então algo
estranho aconteceu: seu desespero deu lugar ao entusiasmo, à sensação de
“meu Deus, como é legal percorrer esta lonjura absurda embaixo de um pôr
do sol escaldante, sentindo-me livre, despida e veloz, com a brisa da floresta
refrescando a pele suada!”.
Por volta das dez e meia da noite, Billy e Jenn haviam ultrapassado
todos os corredores da trilha, menos um. Jenn não se limitou a terminar a
prova: ela foi a segunda melhor colocada e a mulher a fazer o melhor tempo
da corrida, batendo o antigo recorde em três horas (até hoje, o tempo recorde
de dezessete horas e 34 segundos ainda é o dela).
Quando as classificações nacionais começaram a ser divulgadas alguns
meses depois, Jenn descobriu que estava entre as melhores no ranking de 3
mil corredoras norte-americanas. Em seguida, ela iria ainda mais longe: o
tempo que fez na Rocky Racoon 100 era (e ainda é) o melhor tempo em
mais de 160 quilômetros por trilhas íngremes já apresentado por uma mulher
em todo o mundo.
Naquele outono, a revista UltraRunning divulgou uma foto. A imagem
mostrava Jenn terminando uma prova de 48 quilômetros em algum fim de
mundo da Virgínia. Não havia nada demais em seu desempenho (ficou em
terceiro lugar), em seu visual (short preto básico, top esportivo preto básico),
nem no resultado final (a iluminação era reduzida, com recorte simples).
Jenn não aparecia ultrapassando um concorrente nos últimos instantes da
prova, nem correndo no alto de uma montanha com algum modelo de tênis
Nike chamativo, nem rumando para a glória com cara de quem transpira
determinação. Na foto, ela aparecia correndo – apenas correndo e sorrindo.
Mas era um sorriso estranhamente comovente. Daria para dizer que ela
tinha uma explosão absoluta, como se não houvesse nada que ela preferisse
fazer nem outro lugar onde preferisse estar em todo o planeta a não ser ali,
naquela trilha perdida no meio da cordilheira dos Apalaches. Mesmo tendo
corrido mais do que uma maratona, ela parecia despreocupada e leve, com os
olhos atentos, o rabo de cavalo se movendo como a camisa de um jogador de
futebol brasileiro jogada para a torcida depois de uma vitória. A clara
realização dela era visível, e o sorriso nos lábios, genuíno e livre, como se a
garota estivesse envolta em uma nuvem de inspiração artística.
E talvez fosse isso mesmo. Sempre que uma forma de arte perde sua
força, quando se enfraquece pela elaboração intelectual e os princípios
iniciais caem em tradições rançosas, uma onda radical pode surgir para
reacendê-la e fazê-la ressurgir do nada. Os ultracorredores chamados de
Young Guns podiam ser comparados aos escritores da geração perdida da
década de 1920, aos poetas beats dos anos 1950 e aos criadores do rock da
geração de 1960: eram pobres, sem sucesso e livres de qualquer expectativa.
Eram artistas do corpo, criando com a paleta da resistência humana.

“Mas por que não simples maratonas?, perguntei a Jenn quando a entrevistei
por telefone. “Você acha que consegue se classificar para os Jogos
Olímpicos?”
“Fala sério. O mínimo para a classificação é de duas horas e 48 minutos
– qualquer um faz esse tempo”, respondeu ela. Jenn era capaz de correr uma
maratona em menos de três horas usando biquíni e parando para uma cerveja
no quilômetro 37 – como veio a fazer apenas cinco dias depois de participar
da corrida de oitenta quilômetros pelas montanhas Blue Ridge.
“Mas e daí?”, ela continuou. “Eu odeio toda essa badalação em torno da
maratona. Qual é o mistério? Conheço uma garota que treina para as
classificatórias e está com todos os planos feitos para os próximos três anos!
Dia sim, dia não, ela treina velocidade. Se eu marcasse um treino às seis da
manhã, teria de ligar no meio da madrugada para falar que exagerei nas
margaritas e não tenho condições de ficar em pé.”
Jenn nunca teve um treinador nem seguiu um programa rígido. Jamais
usou um cronômetro. Ela apenas saía da cama todas as manhãs, comia um
hambúrguer vegetariano e corria na velocidade e pelo tempo que achasse
legal, o que em geral correspondia a 32 quilômetros. Em seguida, subia no
skate que havia comprado e seguia para as aulas na Universidade Old
Dominion, em que havia se matriculado pouco antes e tirava boas notas.
“Nunca falei sobre isso com ninguém para não parecer pretensiosa, mas
comecei a participar de ultramaratonas para me tornar uma pessoa melhor”,
contou Jenn. “Achei que, se conseguisse correr 160 quilômetros, chegaria a
um estado zen. Seria como o tal Buda trazendo paz e sorriso para o mundo...
Não foi o que aconteceu comigo, porque sou a mesma ‘tranqueira’ que
sempre fui, mas sempre fica aquela esperança de vir a ser a pessoa que você
quer ser, mais calma e melhor.”
E prosseguiu: “Quando saio para uma corrida longa, a única coisa que
me interessa é terminar a prova. É a única situação em que o meu cérebro
não fica zunindo o tempo todo... Tudo passa com tranquilidade. Naquele
momento, sou apenas eu e meu movimento. É isso o que adoro, me sentir
como um bárbaro correndo pelo mato”.
Ouvir o que ela dizia era ressoar as palavras de Caballo Blanco. “É
incrível como você parece com um cara que conheci no México”, falei. “Eu
vou encontrar com ele daqui a algumas semanas, para uma corrida que está
organizando com os tarahumaras.”
“Sério?”
“Pode ser que o Scott Jurek também apareça por lá.”
“Você está me zoando!”, duvidou a aspirante a Buda. “É sério? Meu
namorado e eu podemos ir? Ah, não, que droga... Vai ser na época das
provas... Vou tentar convencê-lo. Posso confirmar amanhã?”
Na manhã seguinte, recebi uma resposta de Jenn: “Minha mãe acha que
você é um serial killer que planeja nos assassinar no meio do deserto, ou
seja, vale totalmente a pena arriscar. Onde encontramos vocês?”.
Capítulo 23
Conseguimos chegar em Creel no final do dia, quando o ônibus parou num
ponto e, com certo alívio, ouvimos o barulho dos freios. Lá fora, pela janela,
vi o velho chapéu de palha de Caballo Blanco vindo em nossa direção no
meio da escuridão.
Eu não acreditava que havíamos atravessado o deserto de Chihuahua
com relativa suavidade. Em geral, as chances de cruzar a fronteira e pegar
quatro ônibus sem que nenhum deles quebre ou tenha atrasos de meio dia
equivaliam às possibilidades de vencer em alguma máquina de jogo em
Tijuana. Para qualquer trajeto por Chihuahua, é quase certo que o viajante
em algum momento ouviria o lema da região: “Nada funciona como o
planejado, mas no final dá certo”. E nossos planos, até então, pareciam
ocorrer sem acidentes, sem bebedeiras e sem ataques dos cartéis.
Bem, isso antes do encontro entre Caballo Blanco e Barefoot Ted.

“Você é o caballo blanco, não é?”


Antes que eu conseguisse descer do ônibus, escutei uma voz lá fora que
ressoava como um canhão. “Então você é o Caballo! Que legal! Pode me
chamar de Mono! Macaco! Sou eu mesmo, o macaco. É o meu animal
espiritual!”
Quando desci do veículo, vi Caballo olhando incrédulo para Barefoot
Ted. Como a maioria de nós havia descoberto durante a viagem de ônibus,
Barefoot falava do mesmo jeito como Charlie Parker tocava sax: pegava
uma abertura qualquer e saía na frente em meio a uma incrível onda de
improvisação, parecendo respirar pelo nariz enquanto a boca se mantinha
concentrada na produção de um interminável fluxo de som. Nos primeiros
trinta segundos que passamos em Creel, Caballo ouviu mais palavras do que
durante um ano inteiro. Eu senti uma gota de simpatia, mas só uma gota
mesmo. Nós tínhamos ouvido as inesgotáveis aventuras de Barefoot Ted nas
últimas quinze horas – agora havia chegado a vez de Caballo.
“...Os tarahumaras me deram uma grande inspiração. A primeira vez
que eu li que eles conseguiram correr mais de 160 quilômetros usando
sandálias foi algo tão incrível e desconcertante, tão inesperado perto do que
eu achava essencial para conseguir percorrer essa distância, que lembro ter
pensado: Mas será possível? Como pode? Foi a primeira pista, o primeiro
sinal de que talvez os modernos fabricantes de tênis não estivessem tão
certos assim...”
Não era preciso escutar Barefoot Ted falando para ver como a sua
mente funcionava – bastava olhar para ele. Sua aparência misturava o visual
de um monge guerreiro do Tibete com um skatista chique: calças jeans com
cintura de amarrar, uma camisa branca apertada, chinelos japoneses, um
amuleto metálico pendurado no peito e uma bandana vermelha amarrada ao
redor do pescoço. Com a cabeça raspada, a estrutura corporal sólida e os
olhos escuros sempre em movimento, em busca de atenção (tanto quanto a
sua fala), ele parecia o tio Fester em seus bons tempos.
“Sei. A-hã, cara”, murmurava Caballo, desviando de Ted para
cumprimentar os demais.
Pegamos nossas mochilas e seguimos Caballo pela rua principal de
Creel rumo à hospedaria que ele tinha reservado nos limites da cidade.
Estávamos com muita fome e bastante cansados depois da longa viagem, nos
acostumando ao clima local e desejando apenas uma cama aconchegante e
os frijoles de Mamá – todos menos Ted, que achava muito mais importante
ficar contando para Caballo a história que ele tinha começado no exato
momento em que colocou os pés para fora do ônibus.
Caballo já demonstrava sinais de irritação, porém decidiu não
interromper. Ele tinha algumas notícias desagradáveis e ainda não sabia
como contá-las sem que preferíssemos dar meia-volta e pegar o ônibus para
ir embora.

“Minha vida é uma explosão controlada”, Ted gostava de afirmar. Ele vive
em Burbank, num lugar que lembra o apartamento “parque de diversões” do
personagem de Tom Hanks no filme Quero ser grande – repleto de carros
esportivos Spyder cor de chiclete, cavalos de carrossel, bicicletas de roda
alta ao estilo vitoriano, jipes antigos, cartazes de circo, piscina de água
salgada e banheira que serve de casa para uma tartaruga terrestre. Em vez de
garagem, o que se veem são duas tendas de circo imensas. Soltos para lá e
para cá ao redor da construção de um único andar, vagam cães, gatos, um
ganso, um pardal, 36 pombas e inúmeras galinhas asiáticas, com os pés
curiosamente cobertos de penas.
“Esqueci aquela palavra de Heidegger, que quer dizer que eu sou a
expressão desse lugar”, conta Ted, embora nada ali seja dele. Tudo que está
naquele “paraíso” pertence a seu primo Dan, um gênio autodidata da
mecânica, que criou sozinho o principal negócio de restauração de carrosséis
do planeta. “Dita Von Teese fez striptease usando um de nossos cavalos”,
revela Ted. “E Christina Aguilera levou um deles numa viagem.” Quando
Dan enfrentou um divórcio complicado alguns anos antes, Ted decidiu que o
primo precisava de companhia e apareceu em sua casa acompanhado da
mulher, da filha e de sua turma – e nunca mais foi embora. “Dan passa o dia
enfrentando problemas mecânicos, difíceis, e no fim da jornada tem graxa
nas mãos, parece sangue saindo das garras de uma ave de rapina”, conta.
“Por isso, somos indispensáveis. Ele seria um sociopata se eu não estivesse
por perto para conversar com ele.”
Ted achou utilidade para si mesmo ao criar uma pequena loja on-line de
bugigangas, que ele gerencia com um computador Macintosh instalado em
um dos aposentos da casa de Dan. Não dava muito dinheiro, porém permitia
a Ted reservar bastante tempo para treinar para as corridas de oitenta
quilômetros sobre bicicletas vitorianas e reforçar o preparo físico puxando a
mulher e a filha em um riquixá.
Caballo havia tido uma impressão totalmente equivocada da fortuna de
Ted, basicamente porque os e-mails de Barefoot vinham cheios de gráficos,
mais adequados para um possível investidor da Microsoft. Enquanto todos
nós procurávamos voos mais baratos para El Paso, por exemplo, Ted
pesquisava se havia uma pista de pouso na região da fronteira mexicana para
acomodar um avião particular. Não que ele tivesse um avião, porque mal
tinha um carro (ele se deslocava a bordo de um Fusca 1966 em tal estado de
decadência que não dava para se afastar muito de casa), mas com Ted era
assim, tudo fazia parte de sua estratégia. “Com esse carro, nunca viajo para
longe. Sou pobre por opção e acho isso muito libertador”, explica.
Quando era estudante na Faculdade Central de Artes e Design de
Pasadena, Ted namorou uma colega, Jenny Shimizu. Um dia, no
apartamento da namorada, ele conheceu dois novos amigos dela: Chase
Chen, um jovem artista chinês, e sua irmã, Joan. Nenhum dos irmãos Chen
falava bem inglês, então Ted se ofereceu para ser “embaixador cultural
pessoal” da dupla. A amizade rendeu frutos para todos: Ted passou a contar
com uma plateia dedicada a ouvir seu fluxo sinfônico de palavras, os irmãos
chineses tiveram contato com um imenso vocabulário novo, e Jenny
conseguiu uma pausa para o palavrório incansável de Ted.
Dentro de poucos anos, três nomes do quarteto teriam fama
internacional. Joan Chen se tornou estrela de Hollywood, citada até pela
revista People entre “as cinquenta pessoas mais lindas do planeta”. Chase
conquistou espaço como um aclamado pintor e se transformou no artista
asiático mais bem pago de sua geração. E Jenny Shimizu virou modelo e
uma das lésbicas mais famosas do mundo depois de seus relacionamentos
com celebridades como Madonna e Angelina Jolie (Ted não havia se dado
conta disso, apesar da tatuagem no braço direito de Jenny: uma mulher
sensual montada numa chave de boca).
Já no que se refere a Ted, bem...
Ele conseguiu entrar na lista das trinta pessoas que conseguem ficar
mais tempo sem respirar. “Meu tempo foi de cinco minutos e quinze
segundos”, conta. “Basta passar o verão todo praticando na piscina.” Mas se
dedicar a prender a respiração, convenhamos, é como ter uma amante
inconstante, e não demorou muito para Ted voltar a sua atenção para os
rankings de outra competição dirigida à arte de fazer mais esforço do que os
reles mortais. Dá para imaginar o sujeito, borbulhando em sonhos de glória
no fundo da piscina da casa do primo, quando quase todas as pessoas que ele
conhecia estavam pintando obras de arte, dividindo a cama com celebridades
e posando para a câmera de Bernardo Bertolucci.
A pior parte? Quando prendia a respiração, Ted se destacava pelo que
sabia fazer de melhor. De certo modo, foi isso que atraiu Lisa, sua futura
mulher. Os dois dividiam a mesma república, mas, como ela trabalhava na
segurança de um bar heavy metal e só chegava em casa às três da manhã, seu
contato com Ted se limitava a uma versão seca do cara no fundo da piscina:
depois do trabalho, ela chegava e o encontrava sentado diante da mesa da
cozinha, comendo arroz e feijão e com o nariz enterrado em livros de
filosofia francesa. A perseverança e a inteligência de Ted eram lendárias
entre os colegas de república: ele conseguia passar a manhã inteira pintando,
andar de skate a tarde toda e dedicar a noite para decorar verbos em japonês.
Ele oferecia a Lisa um prato quente de feijão e, então, com o ritmo frenético
finalmente reduzido, ele parava de ser o centro das atenções e deixava a
moça falar. De repente, ele tinha um insight e a estimulava a seguir em
frente. Poucos viram esse Ted, o que era uma grande perda para todos –
inclusive para ele próprio.
Chase Chen foi outro privilegiado a ver esse Ted. Seu olhar de artista
captou os raros instantes de quietude daquele furacão. Afinal, a
especialidade do pintor era observar a “dramática dança entre a luz do sol e a
sombra”. O que fascinava Chase não era a ação, mas a antecipação; não o
salto da bailarina, mas o instante anterior ao salto, quando a força está
concentrada e tudo é possível. Ele conseguia ver as mesmas coisas nos
momentos de quietude de Ted, o mesmo poder luminoso e as possibilidades
ilimitadas, e era isso o que colocava em seus desenhos. Durante anos, Chase
usou Ted como modelo – algumas de suas melhores obras, na realidade, são
retratos de Ted, Lisa e da bela filha do casal, Ona. Chase ficou tão encantado
pelo mundo que via refletido em Ted que dedicou um livro inteiro a retratos
do amigo e de sua família: Ted e Ona dentro do antigo Fusca, Ona debruçada
sobre um livro, Lisa sobre o ombro de Ona, o produto vivo da luz e da
sombra de seu pai.
Quando se aproximava dos quarenta anos, suas quatro décadas de dança
incansável tinham lhe rendido nada mais que um registro nas obras de arte
de outro sujeito e um lugar para dormir na casa do primo. E bem quando
parecia que ele tinha cruzado a ponte entre o grande potencial e o talento
pouco útil, aconteceu algo maravilhoso: Ted sentiu dores nas costas.
Em 2003, ele decidiu comemorar seus quarenta anos com um evento de
resistência física que chamou de “ironman anacrônico”. Seria um triatlo do
tipo ironman, uma prova que incluía três quilômetros de nado no mar, 180
quilômetros de percurso de bicicleta e 42 quilômetros de corrida. A
diferença estava no fato de que, por motivos que só Ted conhecia, todo o
equipamento usado deveria ser anterior à década de 1890. Ele já se sentia
quase totalmente preparado para o desafio: conseguia nadar com os pesados
trajes de banho antigos e tinha adquirido grande habilidade na bicicleta de
rodas altas. Mas a parte da corrida ainda o incomodava.
“Sempre que eu corria por uma hora, sentia uma dor nas costas que
quase me matava”, conta. “Era desanimador, não dava para pensar em
encarar uma maratona assim.” Porém a pior parte ainda estava por vir: se
não conseguia suportar dez quilômetros calçando os confortáveis tênis
modernos, qual não seria o padecimento quando acomodasse os pés nos
antigos calçados vitorianos? Os tênis de corrida haviam surgido quase na
mesma época das viagens espaciais – antes disso, nossos pais usavam
calçados planos feitos de borracha, e nossos avós ostentavam algo similar a
uma sapatilha de balé. Durante milhões de anos, os seres humanos correram
sem nenhum apoio para a curvatura do pé, nada que evitasse a pronação dos
músculos ou amortecesse o contato do calcanhar com o chão. Como eles
conseguiam correr assim era algo que Ted nem sequer imaginava. Mas uma
coisa de cada vez. Faltavam menos de seis meses para o seu aniversário e,
agora, a prioridade máxima era encontrar uma maneira (qualquer uma) de
correr 42 quilômetros. Depois de superar essa parte, ele poderia se preocupar
em começar a usar os calçados assassinos feitos de couro.
Se eu me dedicar, acabo achando um jeito, pensou Ted. “Por isso
comecei a pesquisar”, conta. A primeira medida foi se consul-tar com um
quiroprático e um cirurgião ortopedista, e ambos garantiram que não havia
nada de errado com ele. Alegaram que correr era mesmo uma atividade
perigosa e um dos perigos era justamente a consequência dos impactos dos
pés nas pernas e nas costas do atleta. Todavia os médicos também tinham
boas notícias: se Ted quisesse mesmo correr, ele provavelmente aplacaria o
problema recorrendo a um cartão de crédito generoso. Os especialistas
garantiram que, se ele estivesse munido de tênis modernos e de um bom
apoio para os calcanhares, as pernas contariam com o amortecimento
necessário para enfrentar uma maratona.
Ted gastou a fortuna que realmente não tinha comprando os calçados
mais caros que encontrou e ficou arrasado quando descobriu que não
ajudavam em nada. Em vez de culpar os médicos, porém, ele pôs a culpa nos
tênis: talvez ele precisasse de ainda mais amortecimento do que o setor de
pesquisa e desenvolvimento em injeção de ar da Nike tinha conseguido
elaborar em trinta anos. Por isso, respirou fundo e mandou trezentos dólares
para a Suíça, para comprar um par de Kangoo Jumps, o tênis com maior
amortecimento do mundo. O calçado lembra um patim projetado para ser
usado pelo Coiote que persegue o Papa-Léguas no desenho animado, mas,
em vez de rodas, apoia-se em um sistema de suspensão, que permite o atleta
saltitar por aí como se estivesse vagando na Lua.
Quando a encomenda chegou, seis semanas depois, Ted quase não
suportava a própria ansiedade. Ele deu alguns passos com o incrível calçado
e... Fantástico! Estava caminhando com algo que parecia a boca do Mick
Jagger preso nas solas. Acho que encontrei a solução, pensou, enquanto
percorria as ruas com a novidade. Ao chegar na esquina, porém, voltou a
sentir o incômodo nas costas. Aí não parou mais de xingar. “Depois de uma
hora correndo com os tais Kangoo Jumps! Percebi logo que pisei no chão...”,
explicou Ted. “Minhas ilusões sobre o que eu precisava haviam acabado.”
Furioso e frustrado, arrancou o calçado dos pés. Mal podia esperar a
hora de enfiar aquele tênis ridículo de volta na caixa e mandar para a Suíça
com alguns impropérios. Voltou para casa descalço, tão raivoso e
desapontado que precisou percorrer um longo trajeto para perceber o que
estava acontecendo: finalmente, suas costas não doíam. Não doíam nadinha.
“Ei, talvez eu devesse tentar correr a maratona descalço!”, concluiu.
Afinal, pés descalços não deixavam de ser um “figurino” adequado para a
época de 1890.
Assim, todos os dias, Ted calçava seu tênis e corria até a Hanson Dam,
um oásis de vegetação e lagos que ele considera “o último refúgio natural de
Los Angeles”. Ali, ele se livrava do calçado e corria pelas trilhas sem nada
nos pés. “Fiquei impressionado ao ver como era bom”, lembra. “O tênis me
fazia sentir dores, porém, assim que o tirava, meus pés pareciam peixes
voltando para a água. Finalmente, comecei a largar o calçado em casa.”
Mas por que as costas dele deixaram de doer quando passou a correr
com menos amortecimento? Ted pesquisou uma possível resposta e o
resultado era como olhar entre os arbustos de uma selva tropical e dar de
cara com uma tribo desconhecida. Ted encontrou uma comunidade
internacional de corredores descalços, adeptos de uma antiga sabedoria
própria, que adotavam nomes tribais e seguiam um sábio barbudo, chamado
de “Barefoot Ken Bob” Saxton. Felizmente, era uma tribo que gostava de
escrever.
Ted se dedicou a examinar os arquivos de Ken Bob e descobriu que
Leonardo da Vinci considerava os pés humanos, com seu incrível sistema de
suspensão e formado por um quarto de todos os ossos do corpo humano,
“uma obra-prima da engenharia e também uma obra de arte”. Ficou sabendo
sobre Abebe Bikila, maratonista etíope que correu descalço sobre as ruas de
pedra de Roma e venceu a maratona nas Olimpíadas de 1960, e sobre
Charlie Robbins, uma voz solitária no mundo da medicina que corria
descalço e afirmava que as corridas não machucavam os atletas, mas que o
uso de tênis poderia matar.
Acima de tudo, o que mais impressionou Ted foi o texto de Barefoot
Ken Bob, chamado “manifesto do dedão de fora”. Ele ficou encantado,
porque a mensagem parecia direcionada a ele. “Muitos de vocês podem
sofrer de problemas físicos decorrentes do hábito de correr”, avisava Ken
Bob:
O tênis bloqueia a dor, e não o impacto!
A dor nos ensina a correr do jeito certo!
A partir do momento em que você começar a correr descalço, irá mudar a sua forma de correr.

“Para mim, foi um momento de iluminação”, lembra Ted. De repente,


tudo parecia fazer sentido. Era por isso que aqueles Kangoo Jumps fedidos
provocavam dores nas costas! Todo aquele amortecimento embaixo dos pés
permitia dar passadas maiores, o que refletia na parte inferior das costas.
Quando corria descalço, o corpo ajustava o passo, as costas se aprumavam e
as pernas permaneciam encaixadas na cintura.
“Não é de admirar que os pés sejam tão sensíveis: funcionam como um
sistema de autocorreção. Correr com essa parte do corpo almofadada é como
desligar o sistema de alarme de incêndio”, descobriu Ted.
Na primeira corrida que fez descalço, Ted percorreu oito quilômetros e
não sentiu nada. Nem uma dorzinha. Correu por uma hora, depois mais uma.
Durante meses, passara de um corredor cheio de dores e de medos para um
maratonista descalço tão veloz que conseguiu o que 99,9% dos corredores
nunca irão conseguir: se classificar para a Maratona de Boston.
Inebriado com o seu incrível novo talento, Ted foi além. Participou das
ultramaratonas Mother Road 100 (trecho de cerca de 160 quilômetros sobre
o asfalto da Rota 66 original), Leona Divide, um trajeto de oitenta
quilômetros, e Angeles Crest 100-Mile Endurance, que cortava as
montanhas San Gabriel em um percurso de 160 quilômetros.
Toda vez que pisava em algum cascalho pontiagudo ou num caco de
vidro, ele calçava uma sapatilha de borracha chamada Vibram FiveFingers e
seguia em frente. Ted não era apenas um corredor, mas um dos melhores
corredores descalços dos Estados Unidos e com respeitada autoridade
quando os assuntos eram técnicas de corrida e calçados antigos. Um jornal
chegou a publicar um artigo sobre a saúde dos pés com o seguinte título: “O
que Barefoot Ted faria?”.
A evolução de Ted tinha sido total. Ele saiu das profundezas da água,
aprendeu a correr e conquistou o único prêmio que desejava: apenas a fama,
e não a fortuna.

“Parem!”
Caballo estava falando com todos nós, e não apenas com Ted. Ele nos
fez parar de repente no meio de uma ponte precária, que cobria um canal de
esgotos.
“Preciso que todos vocês façam um juramento de sangue”, falou.
“Ergam a mão direita e repitam o que eu disser.”
Eric olhou para mim. “Mas o que é isso?”
“Não tenho ideia.”
“O juramento tem de ser feito aqui, antes de passarmos para o outro
lado”, insistiu Caballo. “Lá fica a saída, aqui é a entrada. Para entrar, é
preciso jurar antes.”
Nós nos olhamos, colocamos as mochilas no chão e erguemos as mãos.
“Se eu me machucar, me perder ou morrer”, começou Caballo.
“Se eu me machucar, me perder ou morrer”, repetimos.
“A culpa é toda minha.”
“A culpa é toda minha.”
“Ah... Amém.”
“Amém!”
Caballo nos levou até a minúscula casa onde ele e eu jantamos no dia
em que nos conhecemos. Nós nos esprememos na sala de estar de Mamá,
enquanto a filha dela juntava duas mesas. Luis e seu pai deram uma volta na
rua e apareceram com duas sacolas de cerveja. Jenn e Billy tomaram uns
goles de Tecate e começaram a se animar. Erguemos os copos e fizemos um
brinde com Caballo. Ele se virou para mim e retomou a conversa. Foi nesse
momento que o juramento feito na ponte começou a fazer sentido.
“Você se lembra do filho de Manuel Luna?”
“Marcelino?” É claro que eu me lembrava do Tocha Humana. Na minha
imaginação, eu antevia contratos entre a Nike e o garoto desde que o vira
correr na escola dos tarahumaras. “Ele vai participar?”
“Não”, respondeu Caballo. “Ele está morto. Bateram nele até matar. Foi
assassinado numa trilha. Ele estava com o pescoço aberto, machucado
embaixo do braço e a cabeça em frangalhos.”
“Mas, quem... O que aconteceu?!”, balbuciei.
“Esse negócio da droga que está rolando por aqui”, continuou Caballo.
“Talvez Marcelino tenha visto algo que não deveria ou, quem sabe, queriam
que ele levasse drogas para fora do desfiladeiro e ele se recusou. Ninguém
sabe direito. Manuel está arrasado. Ele ficou na minha casa quando veio
contar o que havia acontecido para os federales. Mas eles não vão fazer
nada, não existe lei por aqui.”
Eu me sentei, sem acreditar. Lembrei-me dos traficantes que tínhamos
visto naquele carro a caminho da escola tarahumara, um ano antes. Na minha
mente, veio a imagem dos índios jogando o carro na beira do desfiladeiro, os
traficantes procurando os cintos de segurança desesperados, enquanto o
veículo caía pela encosta e finalmente explodia numa imensa bola de fogo.
Eu não tinha ideia se os caras que vimos naquele dia estavam envolvidos na
morte de Marcelino, mas eu queria matar alguém.
Caballo continuava falando. Ele já havia se conformado com a morte de
Marcelino e retomava o assunto da corrida, animado. “Sei que Manuel Luna
não vai aparecer, porém acho que o Arnulfo pode vir. Talvez o Silvino
também.”
Durante o inverno, Caballo tinha se dedicado a arrumar al-guns prêmios
para os finalistas. Além de colocar dinheiro do próprio bolso, havia recebido
uma contribuição de Michael French, um triatleta do Texas que tinha ficado
rico com uma empresa de tecnologia da informação. French se interessara
pela corrida ao ler meu artigo na Runner’s World e, mesmo sem poder
participar, ofereceu dinheiro e milho para premiar os primeiros colocados.
“Desculpe”, soltei. “Você disse que o Arnulfo virá?”
“Sim”, confirmou Caballo.
Devia ser brincadeira. Arnulfo? Ele nem sequer quis falar comigo,
quanto mais participar da mesma corrida. Se ele nem saiu para um passeio
com um sujeito que tinha ido até a porta de sua casa, por que iria atravessar
montanhas para correr com um bando de gringos que nunca tinha visto na
vida? E Silvino, que eu havia conhecido na última vez em que estive ali?
Encontramos com ele por acaso em Creel, depois da minha corrida com
Caballo. Estava com a sua picape e usando calças jeans, compradas com o
prêmio que recebeu ao vencer uma maratona na Califórnia. De onde Caballo
havia tirado a ideia de que Silvino ia ligar para essa corrida? Eu havia
aprendido o bastante sobre os tarahumaras, e sobre aqueles dois corredores
em especial, para saber que não havia chance de que a família Quimare se
animasse a participar.
“Os atletas vitorianos eram fascinantes!” Sem ligar para a suspeita de
que talvez nenhum tarahumara aparecesse para a corrida, Ted continuava a
tagarelar. “Foi a primeira vez que alguém cruzou o Canal da Mancha. Vocês
já andaram numa bicicleta de rodas altas? O funcionamento é tão incrível
que...”
Meu Deus, que desastre. Caballo mexia a cabeça – era quase meia-noite
e o mero fato de estar cercado de gente lhe dava dor de cabeça. Jenn e Billy
haviam tomado várias cervejas Tecate e dormiam sobre a mesa. Eu me sentia
péssimo – seria capaz de apostar que Eric e Luis tinham percebido a tensão e
começavam a se preocupar. Mas esse não era o caso de Scott, que ficava ali
sentado com cara de quem se divertia. Ele tinha entendido tudo e não se
preocupava com nada.
“Bem, vou dormir”, avisou Caballo. Ele nos levou até um con-junto de
aposentos limpos e velhos nos arredores da cidade. Os quartos eram
pequenos como celas, porém muito limpos e decorados com galhos de
pinheiro em vasos. Caballo murmurou algo e sumiu. O restante do pessoal se
dividiu em duplas. Eric e eu ficamos com um quarto, Billy e Jenn foram para
outro.
“Beleza. Quem divide o quarto comigo?”, disse Ted, batendo as palmas
das mãos.
Silêncio.
“Muito bem”, falou Scott. “Mas você precisa me deixar dormir.”
Fechamos as portas e nos acomodamos embaixo das cobertas.
O silêncio caiu sobre Creel e a última coisa que Scott ouviu foi a voz de
Ted no meio do escuro: “Muito bem, cérebro”, cochichou. “Descanse. É
hora de ficar quieto.”
Capítulo 24
Toc, toc, toc.
O dia amanheceu com uma geada na janela e uma batida na porta.
“Ei”, falou alguém. “Vocês estão acordados?”
Levantei e me aproximei da porta, imaginando o que o casal da pesada
havia aprontado daquela vez. Luis e Scott estavam do lado de fora, soprando
as mãos fechadas em forma de concha. Era tão cedo que o céu ainda estava
mudando de cor.
“Vamos encarar uma corrida?”, perguntou Scott. “Caballo falou que
devemos pegar a estrada lá pelas oito horas, então é bom sairmos agora.”
“Ah, legal”, falei. “Da última vez, ele me levou por uma trilha bem
bacana. Vou ver se consigo achá-lo e...”
Uma janela se abriu ao lado e Jenn apareceu. “Ei, vocês estão se
preparando para correr? Tô dentro!” Na sequência, ela gritou para dentro do
quarto: “Billy, levanta a bunda da cama!”.
Tentei achar um short e um agasalho. Eric bocejou e saiu em busca do
tênis. “Cara, esse pessoal não está para brincadeira, hein?”, comentou. “E
onde está Caballo?”
“Não tenho ideia. Vou sair para procurar.”
Fui até o final das cabanas, achando que Caballo estaria o mais distante
possível dali. Olhei em todas as portas e nada. Havia apenas delas
entreaberta e, para ter certeza, dei um empurrão leve com a mão.
“O que foi?!”, grunhiu uma voz. Uma cortina se abriu e vi o rosto de
Caballo. Ele estava com os olhos vermelhos e cansados.
“Desculpe”, falei. “Você se resfriou ou algo do tipo?”
“Não, cara”, ele respondeu com dificuldade. “Estava apenas tentando
dormir.” Mal era o começo de toda a operação e ele estava tão estressado
que passou a noite toda se virando de um lado para outro, com dor de cabeça
provocada pela ansiedade. Para ele, bastava estar em Creel para se sentir
incomodado. Creel era um vilarejo simpático, que representava, porém, o
que ele mais detestava no mundo: as mentiras e a exploração.
O nome do local se devia a Enrique Creel, um figurão ladrão de terras
tão influente que a Revolução Mexicana praticamente foi esmagada por
causa dele. Além de arquitetar o projeto de reformulação agrária que
desalojou milhares de camponeses de Chihuahua de suas propriedades, ele
tinha o cuidado de se certificar pessoalmente de que qualquer aldeão ousado
fosse parar na prisão, atuando como líder de uma rede de espionagem a
serviço do ditador Porfírio Díaz.
Quando os rebeldes liderados por Pancho Villa chegaram na região
dispostos a capturá-lo, Creel partiu para o exílio em El Paso (e deixou para
trás seu filho, pelo qual os revolucionários cobraram um resgate de 1 milhão
de dólares). Quando o México voltou para sua “normalidade” de corrupção,
Enrique retornou e recuperou a glória de sempre. Triste homenagem a um
dos piores seres da região, a cidade dedicada a Enrique Creel agora
funcionava como base de operações para todas as desgraças que atingiam a
área das Barrancas del Cobre: mineração, desmatamento, cultivo de drogas e
circulação de ônibus cheios de turistas. Ficar ali levava Caballo à loucura –
para ele, era como se hospedar em uma pousada em meio a uma terra ainda
cultivada por escravos.
Acima de tudo, porém, ele não estava acostumado a se responsabilizar
por mais ninguém, a não ser ele mesmo. Agora que estávamos ali, seu peito
explodia de apreensão. Ele precisou de dez anos para ganhar a confiança dos
tarahumaras e tudo poderia ir por água abaixo em menos de dez minutos.
Caballo imaginava Barefoot Ted e Jenn falando nas orelhas dos atônitos
índios... Luis e seu pai apontando câmeras fotográficas para eles... Eric e eu
fazendo uma pergunta atrás da outra... Era um pesadelo.
“Não, cara. Não quero correr”, respondeu. E fechou a cortina.
Em seguida, nós sete – Scott, Luis, Eric, Jenn, Billy, Ted e eu –
partimos para a trilha cercada de árvores que Caballo tinha me mostrado da
outra vez. Saímos do aglomerado de árvores no momento em que o sol
aparecia ao fundo das imensas pedras, nos forçando a piscar conforme o dia
ganhava tons dourados. Havia resíduos de nevoeiro ao redor de nós.
“Que fantástico!”, exclamou Luis.
“Nunca tinha visto um lugar assim”, afirmou Billy. “Caballo está certo.
Eu adoraria morar aqui, vivendo com pouco e correndo pelas trilhas.”
“Ele já conseguiu fazer a sua cabeça?!”, alertou Luis. “Parece mais o
culto do Cavalo Branco.”
“Não foi ele, foi o lugar”, corrigiu Billy.
“Meu Querido Pônei”, zombou Jenn, “você parece um pouco com
Caballo.”
Em meio a essa brincadeira toda, Scott parecia sério observando
Barefoot Ted. A trilha sinuosa entrava numa parte de pedras, mas, mesmo
tendo de ir de pedra em pedra, Ted não reduzia o ritmo. “O que é isso em
seus pés?”, quis saber Jenn.
“Vibram FiveFingers”, respondeu Ted. “Não é demais? Sou o primeiro
atleta patrocinado pela marca!”
E era verdade. Ted era o primeiro corredor descalço profissional dos
Estados Unidos na era moderna. A sapatilha FiveFingers tinha sido projetada
como um calçado básico para uso de velejadores – o propósito era garantir
maior aderência em superfícies escorregadias, mas sem comprometer a
sensação de pés descalços. Era preciso olhar com atenção para enxergar o
calçado, que encaixava perfeitamente nas solas e ao redor de cada dedo,
tanto que mais parecia que Ted havia manchado partes dos pés com tinta
verde. Pouco antes da viagem para as Barrancas del Cobre, ele tinha visto
uma foto do produto na internet e encomendou um na hora. Não se sabe
como, ele trilhou um caminho que começou nas atendentes de telefone e
secretárias até conseguir cair na mesa do presidente da Vibram, que era
ninguém mais, ninguém menos que...
Tony Post! O ex-executivo da Rockport, que havia patrocinado a equipe
tarahumara em Leadville!
Tony ouviu o que Ted tinha a dizer, sem dar muito crédito. Não que ele
não apreciasse a ideia de confiar na força dos pés em vez de acessórios que
ofereciam um acolchoamento especial e controle de movimentos – uma vez,
o próprio Tony chegou a correr a Maratona de Boston com um par de tênis
Rockport para mostrar que bastava ter conforto e boa estrutura, sem nada
daquelas promessas de recursos antipronação e apoio de gel. Mas os tênis da
Rockport tinham pelo menos recorte para a curvatura e sola flexível,
enquanto a sapatilha FiveFingers não passava de uma sola de borracha com
uma tira de velcro. Mesmo assim, Tony ficou intrigado e resolveu tentar ele
mesmo. “Saí para um trajeto de menos de dois quilômetros”, conta, “e
acabei correndo onze. Nunca havia pensado na FiveFingers como um
calçado para corridas, porém, depois daquele dia, não imaginei outra
alternativa para correr.”
Quando chegou em casa, preparou um cheque para patrocinar a
participação de Barefoot Ted na Maratona de Boston.

Corremos mais de nove quilômetros pelo alto da colina e começamos a


voltar para Creel quando, à distância, uma sombra escura e fina saiu das
árvores e veio em nossa direção.
“Será Caballo?”, perguntou Scott.
Jenn e Billy deram uma olhada e saíram correndo como um raio na
direção da sombra. Ted e Luis foram atrás. Scott ficou conosco, contudo
seus instintos de cavalo de corrida começavam a se manifestar. Ele olhou
para mim e para Eric como se pedisse desculpas.
“Vocês se importam se eu...?”
“Claro que não”, eu disse. “Vai fundo!”
“Beleza.” Antes de terminar a palavra, ele já estava a alguns metros de
distância, com os cabelos balançando ao vento.
“Merda!”, praguejei. Ao ver Scott saindo em disparada, me lembrei de
Marcelino. Scott certamente gostaria de apostar corrida com aquele
moleque. Jenn e Billy também, acho que adorariam fazer uma bagunça com
aqueles atletas adolescentes. Eu quase conseguia imaginar como Manuel
Luna estava se sentindo. Não, não era verdade – eu estava tentando não
imaginar nada. O mal havia perseguido os tarahumaras até ali, nos confins
da Terra, onde não havia mais lugar para escapar. Mesmo lamentando a
perda de seu magnífico garoto, Manuel talvez se perguntasse qual dos outros
filhos seria o próximo a morrer.
“Você quer fazer uma parada?”, perguntou Eric. “Como está se
sentindo?”
“Estou bem, tudo bem. Só pensando em umas coisas...”
Caballo estava chegando. Depois de encontrar os demais, continuou
correndo para se aproximar de Eric e de mim enquanto os outros
descansavam e posavam para a câmera de Luis. Foi muito bom que ele
mudou de ideia e decidiu nos encontrar, porque, pela primeira vez desde que
saímos do ônibus, ele estava sorrindo. Aquele amanhecer divino e a familiar
sensação de ter o corpo aquecido de dentro para fora pareciam ter aliviado
sua ansiedade. E era ótimo vê-lo em ação novamente! Bastava olhar para ele
para sentir as minhas costas no lugar e os meus pés mais velozes, como se
alguém tivesse acabado de colocar a trilha sonora de Carruagens de fogo ao
fundo.
Aparentemente, a admiração era recíproca. “Olhe para você!”, gritou
Caballo. “Está parecendo um urso.” Um pouco antes, ele havia achado um
animal espiritual para mim – enquanto ele era um elegante cavalo branco, eu
seria o oso, ou seja, um desajeitado urso. Bem, pelo menos ele via progessos
na minha aparência atual, um ano depois de ter demonstrado tanta
dificuldade para acompanhá-lo na corrida.
“Você não parece nada com o cara de um ano atrás”, afirmou Caballo.
“Isso graças a este cara aqui”, falei, apontando para Eric. Nove meses
de treinamento baseado no estilo tarahumara com Eric tinham feito
maravilhas em mim: eu pesava onze quilos a menos e conseguia correr com
facilidade em um terreno que antes era o suficiente para me matar. Apesar
dos quilômetros que eu percorria (cerca de 130 por semana), eu ainda me
sentia leve e queria mais. E, o que era o melhor de tudo, pela primeira vez
em uma década, eu não sentia nenhum tipo de dor.
“Este homem é um milagre do esforço”, disse Eric.
“Deve ser”, confirmou Caballo. “Eu vi o quanto ele precisava melhorar.
Qual foi o segredo?”
“É uma história curiosa...”, comecei, mas, quando nos aproximamos de
Scott e dos outros, era Ted quem dominava a palavra. “Depois conto para
você”, prometi a Caballo.
Ted havia tirado a FiveFingers e demonstrava sua passada descalça e
perfeita. “Correr descalço mexeu com minha percepção artística”, contava.
“Aquele conceito de bricolagem – de que menos é mais, a melhor solução é
a mais elegante. Por que acrescentar coisas, se nascemos com tudo que
precisamos?”
“Mas seria bom acrescentar alguma coisa nos pés na hora de atravessar
o desfiladeiro”, aconselhou Caballo. “Você trouxe algum calçado, não
trouxe?”
“Claro que sim. Eu trouxe um par de chinelos”, respondeu Ted.
Caballo sorriu, esperando um sorriso de Ted para confirmar que se
tratava de uma piada. Contido o outro não sorriu porque falava sério.
“Você não trouxe nenhum tênis?”, insistiu Caballo. “Pretende percorrer
as barrancas de chinelos?”
“Não se preocupe comigo. Corri as montanhas San Gabriel com os pés
descalços. As pessoas me olham assim, como se eu fosse maluco. Aí eu
digo...”
“Mas aqui não são as montanhas San Gabrrrielll!”, disparou Caballo,
desfazendo da cordilheira californiana com todo o sarcasmo que conseguiu
reunir. “Os espinhos dos cactos cortam como lâminas. Se você pisar num
deles, está perdido. Estas trilhas já são perigosas o bastante sem precisar
carregar você nas costas.”
“Ei, vocês dois”, interrompeu Scott, se metendo na conversa e
separando a dupla. “Caballo, provavelmente Ted já ouviu várias vezes
alguém mandá-lo colocar tênis. Se ele diz saber o que está fazendo, deve
saber mesmo.”
“Ele não sabe merda nenhuma sobre as barrancas.”
“Eu sei uma coisa”, respondeu Ted. “Se alguém ficar encrencado lá,
não serei eu.”
“Ah é?”, grunhiu Caballo. “Vamos ver, amigo.” E saiu andando pela
trilha.
“Mãe do céu!”, falou Jenn. “Quem está arrumando confusão agora,
Ted?”
Seguimos Caballo até os quartos, enquanto Ted insistia em defender sua
posição e a cidade de Creel começava a despertar. Dei uma olhada no relógio
– pensei em mandar Ted calar a boca e comprar um par de tênis barato só
para contentar Caballo, porém não havia tempo. Apenas um ônibus por dia
fazia o trajeto de dez horas rumo ao desfiladeiro, e ele saía antes de qualquer
loja abrir as portas.
De volta ao alojamento, começamos a arrumar as mochilas. Falei aos
outros onde poderiam encontrar um café da manhã e fui procurar Caballo.
Ele não estava no quarto, nem havia sinal de sua bagagem.
Vai ver ele foi esfriar a cabeça, pensei. Podia ser, mas também podia
ser que ele tivesse ficado farto de tudo e simplesmente caído fora. Depois de
uma noite toda pensando se havia cometido um erro imenso, acho que ele
havia encontrado a resposta.
Preferi não falar nada a ninguém e torci para que não fosse nada
daquilo. De um jeito ou de outro, em meia hora saberíamos se tudo estava
acabado ou apenas precisando de alguns remendos. Coloquei a mochila nas
costas e atravessei a ponte de madeira, onde havíamos feito o juramento na
noite anterior. Achei o restante do pessoal num pequeno restaurante a uma
quadra do ponto de ônibus, se fartando de feijões e burritos de frango. Comi
dois e embrulhei mais dois para levar de lanche. Quando chegamos ao
ônibus, ele estava pronto para partir. O motorista jogava as últimas bagagens
no teto do veículo e pediu as nossas.
“Espere!”, eu pedi. Espere um minuto. Não havia sinal de Caballo em
lugar nenhum. Enfiei a cabeça dentro do ônibus e olhei bem em cada fileira
de assentos. Nada dele. Droga. Eu teria de contar a boa nova para o pessoal,
mas eles haviam sumido. Dei a volta e vi Scott subindo no teto.
“Venha, Oso!” Caballo estava acomodado em cima do ônibus, pegando
as mochilas que o motorista jogava. Jenn e Billy haviam sentado ao lado
dele, sobre uma pilha de malas. “Você nunca mais vai fazer uma viagem
como esta.”
Não era de espantar que os tarahumaras achassem que Caballo era um
fantasma. Não dava para saber o que ele ia fazer nem quando ia aparecer.
“Nem pensar”, respondi. “Já andei nesta estrada. Vou entrar no ônibus e
achar um lugar entre as duas pessoas mais gordas que estiverem lá dentro.”
Ted seguiu Scott.
“Ei, por que você não vai lá dentro comigo?”, perguntei.
“Não, obrigado. Quero surfar no teto do ônibus.”
“Escuta, talvez fosse melhor dar um tempo a Caballo. Se a gente
exagerar, a corrida estará perdida.”
“Não se preocupe”, respondeu Ted. “Ele só precisa aprender a lidar
comigo.”
Sim, era só isso o que ele precisava. O motorista se acomodou em seu
lugar, Eric e eu entramos no ônibus e nos ajeitamos no último banco. O
veículo demorou para pegar, morreu e depois ligou. Logo começamos a
cortar a floresta, rumo à cidade mineradora de La Bufa e, de lá, até a última
cidade na estrada – uma aldeia à beira do desfiladeiro chamada Batopilas.
Dali para frente, todo o resto seria a pé.
“Só estou esperando o grito de Ted caindo do ônibus”, disse Eric.
“Não brinca.” As últimas palavras de Caballo ainda ressoavam em
meus ouvidos: “Vamos ver, amigo”.
Como viríamos a saber depois, Caballo havia decidido que Barefoot
Ted tinha colocado todo o grupo em risco e queria ensinar uma lição a ele.
Infelizmente, seria uma lição que exigiria que todos nós corrêssemos para
salvar as nossas vidas.
Capítulo 25
É claro que Barefoot Ted estava certo.
Perdido no meio do tiroteio entre Ted e Caballo, estava um aspecto
importante: os tênis de corrida talvez sejam a força mais destrutiva que já
atingiu os pés humanos. Ted, a seu modo peculiar, estava se tornando um
correspondente do astronauta Neil Armstrong no mundo da corrida de longas
distâncias no século xxi, um hábil “piloto de testes” cujo pequeno passo
poderia representar um grande avanço para a humanidade. Se isso parecer
responsabilidade demais para os ombros de Ted, vejamos o que diz o
professsor de antropologia biológica de Harvard, Daniel Lieberman:
Diversos machucados nos joelhos e nos pés que nos castigam são resultado do hábito de correr
com calçados que enfraquecem os pés, exigem uma pronação excessiva e forçam os joelhos.
Até 1972, quando a Nike inventou os tênis esportivos modernos, as pessoas corriam com
calçados de solado fino, tinham pés fortes e apresentavam um índice bem menor de ferimentos
nos joelhos.

E o custo desses machucados? Doenças fatais em proporções


epidêmicas. “A verdade é que as pessoas precisam fazer exercícios aeróbicos
para preservar a saúde, e acredito que isso tenha raízes profundas na história
evolucionária”, conta o doutor Lieberman.
“Se existe um toque de magia para garantir a saúde humana, esse toque
é a corrida.”
Toque de magia? A última vez em que um cientista com as credenciais
do doutor Lieberman usou esse termo havia acabado de descobrir a
penicilina. O especialista sabia disso e era exatamente o que queria dizer. Ele
afirmava que, se os tênis de corrida nunca tivessem sido inventados, haveria
mais gente correndo. Se mais gente corresse, menos morreria de doenças
cardíacas degenerativas, parada cardíaca súbita, hipertensão, obstrução das
artérias, diabetes e outros grandes males que afligem o mundo ocidental
moderno.
De fato, é uma culpa grande demais para se atribuir à Nike. Mas sabe
qual é o aspecto mais incrível? A Nike já sabia de tudo isso.

Em abril de 2001, dois representantes da Nike observavam um treino da


equipe de corrida da Universidade de Stanford. Parte do trabalho desses
profissionais consiste em recolher as impressões dos atletas patrocinados
pela marca no que se refere a calçados preferidos, mas essa pesquisa estava
difícil naquele momento porque os corredores preferiam calçar... nada.
“Vin, o que é isso de correr descalço?”, perguntaram a Vin Lananna,
treinador da equipe de Stanford. “Mandamos pares a menos?”
O treinador achou melhor esclarecer. “Não posso comprovar isso”,
disse. “Mas quando meus atletas correm descalços, atingem mais velocidade
e se machucam menos.”
Mais velocidade e menos ferimentos? Se qualquer outra pessoa dissesse
isso, os homens da Nike iriam desconsiderar a observação. No entanto,
tratava-se de um treinador respeitado, dono de opiniões que eles
consideravam muito valiosas. Como Joe Vigil, Lananna era raramente
descrito como “visionário” ou “inovador”. Depois de dez anos em Stanford,
as equipes de corrida e de cross-country treinadas por ele tinham vencido
cinco campeonatos da Associação Nacional Atlética Acadêmica (ncaa) e
ganhado 22 títulos individuais. Além disso, Lananna havia recebido o
prêmio de melhor treinador de cross-country do ano, atribuído pela mesma
ncaa. O especialista já havia mandado três corredores para os Jogos
Olímpicos e, no momento, se dedicava a preparar novos campeões em sua
equipe patrocinada pela Nike, um grupo da universidade que reunia apenas
os melhores nomes. Não é preciso acrescentar que os representantes da Nike
ficaram um pouco chateados ao ouvir que, para o técnico, os melhores tênis
que a empresa tinha a oferecer eram piores que não usar nada.
“Afastamos os nossos pés de sua posição natural ao proporcionar cada
vez mais apoio”, insistiu Lananna. Por isso, ele fazia questão que seus atletas
treinassem em parte sem nada nos pés. “Eu sei que, para uma empresa que
fabrica tênis, não é a melhor notícia ouvir que uma equipe patrocinada não
usa seus produtos, porém as pessoas correram descalças durante milhares de
anos. Acredito que, ao tentar criar essas correções no sapato, há um excesso.
Acabamos consertando o que não precisa de conserto. Ao fortalecer os pés
correndo descalço, os riscos de lesões no calcanhar e na fáscia plantar seriam
reduzidos.”
“Risco” não era o termo mais exato. Talvez a melhor expressão seja
“morte certa”. Todos os anos, algo entre 65% e 80% das pessoas que correm
se machucam. Estamos falando de um contingente muito numeroso, todos os
anos. Não importa quem você é e quanto corre: você tem as mesmas chances
de se ferir. Não importa se é homem ou mulher, rápido ou lento, desajeitado
ou hábil como um cavalo de corridas – seus pés correm perigo.
Talvez suas chances melhorassem se você se alongasse como um
swami? Nada disso. Em um estudo feito em 1993 com atletas holandeses,
publicado no The American Journal of Sports Medicine, uma equipe recebeu
orientações sobre aquecimento e alongamento, enquanto outra treinou sem
nenhuma precaução. Quais foram os índices de ferimentos? Idênticos nos
dois grupos. O alongamento se revelou ainda mais grave em uma pesquisa
realizada no ano seguinte na Universidade do Havaí: os corredores que se
alongavam corriam 33% mais riscos de se lesionar.
Para a nossa sorte, vivemos na era de ouro da tecnologia. As empresas
que produzem tênis contaram com um quarto de século para aperfeiçoar os
projetos – por isso, obviamente, faz sentido que hoje as chances de se
machucar tenham despencado. Afinal, a Adidas apresentou um tênis que
custa 250 dólares e vem com um microprocessador na sola, que serve para
ajustar o amortecimento a cada passo na hora. A Asics gastou 3 milhões de
dólares e oito anos (três anos a mais que o Projeto Manhattan precisou para
criar a primeira bomba atômica) para inventar o incrível Kinsei, um tênis
que inclui “um sistema de amortecimento e direcionamento de carga” e
“unidades de gel de dupla densidade”. É um valor alto para um par de
calçados que irá para a lixeira em três meses, mas pelo menos você nunca
mais irá mancar.
Certo?
Errado.
“Desde os primeiros estudos que fizemos no final da década de 1970,
os problemas no calcanhar aumentaram cerca de 10%, enquanto os casos de
fascite plantar continuaram no mesmo nível”, conta o doutor Stephen Pribut,
especialista em ferimentos e ex-presidente da Academia Norte-Americana de
Medicina Esportiva e Podologia. “Os avanços tecnológicos dos últimos
trinta anos foram incríveis”, acrescenta a doutora Irene Davis, diretora da
Clínica de Lesões da Corrida da Universidade de Delaware.
“Testemunhamos inovações fantásticas no que se refere ao controle de
movimentos e amortecimento, mas ainda assim os remédios parecem não
conseguir conter a doença.”
Não há provas de que os tênis de corrida de fato contribuam para evitar
machucados. Em uma pesquisa realizada em 2008 para o British Journal of
Sports Medicine, o doutor Craig Richards, pesquisador da Universidade de
Newcastle, na Austrália, revelou que não existem estudos conclusivos (nem
um sequer) que demonstre que os tênis de corrida reduzem as chances de
ferimentos.
Trata-se de uma revelação extraordinária, que permaneceu 35 anos
longe do conhecimento público. O doutor Richards ficou tão espantado com
aquele fato – todo um setor que movimenta 20 milhões de dólares parecia
apoiado em nada, a não ser em promessas vazias – que chegou a lançar um
desafio:
Existe algum fabricante de calçados preparado para assegurar que o uso de seus tênis para
corridas em distância reduz de fato os riscos de ferimentos musculares ou ósseos decorrentes da
atividade?
Existe algum fabricante de calçados em condições de provar que o uso dos seus tênis realmente
melhora o desempenho nas corridas em distância?
Se você está preparado para comprovar esses fatos, onde estão os dados que sustentam tudo
isso?
O doutor Richards esperou e até tentou entrar em contato com as
empresas fabricantes de tênis para pedir os dados. Em resposta, recebeu o
silêncio.
Então se os tênis de corrida não garantem velocidade maior nem
impedem ferimentos, por que pagamos tanto para ter um calçado desses?
Quais são os benefícios de todos esses microchips, “sistemas de
amortecimento” e “unidades de gel”, além dos acessórios para evitar
torções? Bem, se você tem um par do Kinsei no armário, prepare-se para
uma informação desagradável – que, como toda má notícia, nunca vem
sozinha.
Verdade dolorosa número 1:
Os melhores calçados são os piores.
Os corredores que usam calçados considerados topo de linha estão 123%
mais propensos a sofrer ferimentos do que quem corre com tênis baratos, de
acordo com um estudo de Bernard Marti, especialista em medicina
preventiva da Universidade de Berna, na Suíça. A equipe de pesquisa do
doutor Marti estudou 4.358 corredores do Grande Prêmio de Berna, uma
corrida com percurso de quinze quilômetros. Todos os atletas responderam
um extenso questionário, que detalhava os hábitos de treinamento e os
acessórios usados no ano anterior. Como se descobriu, 45% deles tinham se
machucado nesse período.
Mas o que surpreendeu o doutor Marti, conforme ele declarou ao The
American Journal of Sports Medicine em 1989, era o fato de que a variável
mais comum entre os ferimentos não era a superfície de treinamento, a
velocidade da corrida, o total de quilômetros percorridos por semana ou a
existência de ferimentos anteriores: era o preço do tênis. Quem calçava um
par que havia custado mais de 95 dólares estava duas vezes mais exposto a
se machucar do que quem usava um calçado pelo qual havia desembolsado
até quarenta dólares. Estudos e acompanhamentos chegaram a resultados
similares, como o relatório de 1991 na Medicine & Science in Sports &
Exercise, que revelou que “quem usa tênis caros, anunciados por suas
características adicionais capazes de proteger (por exemplo, maior
amortecimento, ‘correção da pronação’), se fere com bem mais frequência
do que os corredores que usam tênis baratos (que custam menos de quarenta
dólares)”.
Até parece piada: o dobro do preço, o dobro de problemas.
Atento como sempre, o treinador Vin Lananna já havia percebido o
fenômeno no início dos anos 1980. “Uma vez, encomendei tênis
supermodernos para a equipe e, em duas semanas, tínhamos mais casos de
fascite plantar e de problemas no calcanhar do que o registrado até então.
Por isso, devolvi os tênis e pedi que me mandassem modelos baratos”, conta
Lananna. “Desde então, sempre encomendo tênis simples. Não porque
custam menos, mas porque a minha intenção é manter os atletas velozes e,
sobretudo, inteiros.”
Verdade dolorosa número 2:
Tênis velhos são melhores do que tênis novos.
Por volta de 1988, o doutor Barry Bates, chefe do Laboratório de Medicina
Esportiva e Biomecânica da Universidade de Oregon, reuniu comprovações
que sugerem que os tênis de corrida usados são mais seguros que um par que
acabou de ser tirado da caixa. No Journal of Orthopaedic & Sports Physical
Therapy, o doutor Bates e seus colegas relatam que, com calçados
desgastados e com o amortecimento reduzido, os corredores conseguiam
controlar melhor os pés.
Mas como o controle dos pés e o uso de uma sola desgastada podem
evitar problemas nas pernas? Por causa de um ingrediente mágico: o medo.
Ao contrário do que se pode supor ao ouvir nomes sugestivos como Adidas
MegaBounce, todo aquele amortecimento não consegue nada no que se
refere à redução do impacto. É lógico que isso deveria ser óbvio: o impacto
sobre as pernas decorrente da corrida pode corresponder a doze vezes o peso
do corpo, por isso não faz sentido achar que alguns centímetros de borracha
possam fazer algo contra, no meu caso, cerca de 1.200 quilos de carne, ossos
e músculos. Você pode encapar um ovo com uma luva de borracha antes de
dar uma martelada nele, porém ele jamais sairá ileso do golpe.
Quando E. C. Frederick, então diretor do Laboratório de Pesquisas
Esportivas da Nike, chegou ao encontro da Sociedade Norte-Americana de
Biomecânica, em 1986, levava com ele uma bomba. “Nos testes que
avaliavam a eficiência de sapatos flexíveis em comparação com sapatos
duros, não foi encontrada nenhuma diferença no que se refere à força do
impacto”, contou. Nenhuma diferença! “E, curiosamente”, acrescentou, “o
segundo pico propulsivo na reação vertical ao solo era mais alto com
calçados flexíveis.”
Conclusão aterradora: quanto maior o amortecimento, menor a
proteção.
Pesquisadores do Laboratório de Medicina Esportiva e Biomecânica da
Universidade de Oregon estavam na mesma pista. Em um estudo de 1988
para o Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, os estudiosos
descreveram que, conforme os tênis de corrida se desgastavam e o sistema
de amortecimento reduzia, os pés dos corredores se estabilizavam e
ganhavam mais segurança. Foi preciso esperar uma década para que os
cientistas tivessem uma explicação para o fato de aqueles tênis velhos, que a
indústria esportiva aconselhava a jogar fora, serem melhores do que os
modelos novos que você era estimulado a comprar.
Na Universidade McGill, em Montreal, os pesquisadores Steven
Robbins e Edward Waked realizaram uma série de testes com ginastas.
Descobriram que quanto mais espessa fosse a superfície de “pouso”, mais
forte era o peso colocado pelos atletas na pisada. Instintivamente, os
corredores procuravam estabilidade. Quando sentiam uma superfície macia
embaixo dos pés, aumentavam o esforço para garantir o equilíbrio.
E os corredores fazem a mesma coisa. Foi isso o que descobriram
Robbins e Waked: da mesma forma como posicionamos os braços como se
fôssemos voar ao deslizar sobre o gelo, as pernas e os pés automaticamente
enrijecem quando sentem a presença de algo flexível na superfície em que
pisam. Quando se corre com tênis fofos, os pés procuram a plataforma de
estabilidade para além da sola.
“Concluímos que o equilíbrio e o impacto vertical estão bastante
relacionados”, escreveram os estudiosos da Universidade McGill. “De
acordo com nossas conclusões, os tênis esportivos oferecidos atualmente [...]
são macios e espessos demais e deveriam ser reprojetados se tiverem a
intenção de proteger a prática dos esportes de desempenho.”
Até eu ler esse estudo, estava intrigado com uma experiência que tive
na Clínica de Lesões da Corrida. Eu corri sobre uma superfície alternando o
uso de tênis superfinos, o bem amortecido Nike Pegasus e pés descalços.
Sempre que trocava o calçado, os níveis de impacto também mudavam,
porém não de acordo com minhas expectativas. Minhas forças de impacto
eram mais suaves quando eu corria descalço, e mais pesadas quando o
Pegasus estava nos meus pés. A forma de correr também mudava: quando eu
trocava de tênis, instintivamente alterava a pisada. “Você tende bem mais a
pisar com o calcanhar se usar um Pegasus”, concluiu a doutora Irene Davis.
David Smyntek decidiu testar a teoria do impacto com uma experiência
que ele mesmo fez. Na condição de corredor e de terapeuta físico
especializado em reabilitações graves, Smyntek sabia que as pessoas que
recomendavam a compra de tênis novos eram sempre as mesmas que
vendiam esses produtos. Ele havia sido orientado pela Runner’s World e pela
loja de artigos esportivos que costumava frequentar que era preciso trocar os
tênis de quinhentos a oitocentos quilômetros percorridos. Mas como Arthur
Newton, um dos maiores corredores de todos os tempos, não achava isso
necessário antes da marca dos 6.400 quilômetros? Newton venceu cinco
vezes a competição de Comrades (com 88 quilômetros de trajeto) na década
de 1930 e ainda contava com pernas fortes o bastante a ponto de quebrar o
recorde da corrida de 160 quilômetros entre Bath e Londres aos 51 anos.
Smyntek resolveu ir mais além de Newton. “Quando o tênis gasta de
um lado, será que posso usá-lo no outro pé?”, perguntava-se. Foi assim que
começou a “experiência do pé trocado”: quando a sola gastava na borda
externa, David trocava de pé e continuava correndo. “É preciso ressaltar que
Dave não é um sujeito qualquer”, lembra Ken Learman, um dos colegas de
Smyntek. “Ele é curioso, esperto, um sujeito difícil de convencer. É do tipo
que diz: ‘Se é para ser assim, por que não tentar de outro jeito?’”
Nos dez anos seguintes, David correu oito quilômetros todos os dias.
Quando concluiu que podia correr muito bem com os tênis trocados,
perguntou-se se realmente precisava deles. Afinal, se não estava usando o
produto da forma para a qual fora projetado, talvez o projeto não fosse tão
definitivo assim. A partir desse dia, só usou tênis baratos para correr.
“Aqui está ele, correndo mais do que a maioria das pessoas, com os
tênis trocados e sem nenhum problema”, avisa Ken Learman. “A experiência
nos diz algo: quando o assunto é tênis de corrida, nem tudo o que brilha é
ouro.”
Verdade dolorosa final: Até Alan Webb concorda que “os seres humanos
foram criados para correr descalços”.
Antes de se tornar o maior recordista norte-americano da milha, Alan Webb
era um calouro de faculdade, com pé chato e totalmente fora de forma. No
entanto, um treinador identificou seu potencial e começou a “montar” Alan
do zero, sem exageros.
“Eu tinha muitos problemas com machucados e comecei a achar que
era a minha biomecânica a responsável pelas lesões”, contou Webb. “Por
isso, começamos com exercícios para fortalecer os pés e algumas
caminhadas sem nenhum calçado.” Aos poucos, Webb viu seus pés se
transformarem embaixo de seus olhos.
“Eu calçava 44 e tinha pé chato, agora calço 42. Conforme os músculos
do pé se fortaleceram, a curvatura começou a se erguer.” Por causa dos
exercícios descalços, Webb também começou a se machucar menos,
permitindo que se dedicasse aos treinos que o levariam ao recorde norte-
americano da milha e ao melhor tempo nos 1.500 metros em 2007.
“A corrida descalço virou uma das minhas filosofias de treinamento há
alguns anos”, revela Gerard Hartmann, terapeuta físico irlandês procurado
pelos maiores corredores do mundo. Paula Radcliffe nunca corre uma
maratona sem antes passar por uma consulta com o doutor Hartmann, e titãs
como Haile Gebrselassie e Khalis Khannouchi também confiaram seus pés
às mãos do especialista. Durante décadas, Hartmann testemunhou atônito a
explosão dos equipamentos ortóticos e dos tênis de corrida com cada vez
mais capacidade de amortecimento.
“A musculatura sem condicionamento dos pés é o maior fator que
provoca ferimentos, e temos permitido um péssimo condicionamento dessa
região nos últimos 25 anos”, explica o terapeuta. “A pronação virou um
palavrão, mas é apenas o movimento natural dos pés. Nosso pé precisa fazer
esse movimento.”
Para ver como funciona a tal pronação, tire seus sapatos e corra pela
rua. Sobre uma superfície dura, seus pés vão esquecer rapidamente os
hábitos que adquiriu por causa do uso de calçados e mudar para o modo
“autodefesa”: você se percebe “pousando” sobre a parte externa do pé,
depois transferindo a força do dedo mínimo até o dedão até sentir o pé
totalmente plano. Isto é a pronação: uma “virada” suave e com capacidade
de absorver choques que permite “condensar” a curvatura do pé.
Voltando à década de 1970, a voz mais respeitada no mundo das
corridas começou a expressar algumas dúvidas sobre essa história de “virada
dos pés”. O doutor George Sheehan era um car-diologista que realizou
estudos sobre a qualidade das corridas e, por essa razão, se tornou o “rei
filósofo” do mundo das maratonas. Ele apresentou a teoria de que a
pronação excessiva poderia estar na origem das lesões nos joelhos dos
atletas. Ele estava certo e, ao mesmo tempo, bastante errado. É preciso
apoiar sobre o calcanhar para que a pronação ocorra em excesso, e só é
possível “pousar” ali se o local estiver protegido. No entanto, os fabricantes
de tênis reagiram rápido às teorias do doutor Sheehan e surgiram com uma
resposta nuclear: criaram calçados superequipados e incrivelmente
elaborados, desenvolvidos para eliminar o movimento de pronação.
“Quando se impede um movimento natural”, conta o doutor Hartmann,
“acaba-se afetando outros. Fizemos estudos que revelaram que apenas de 2 a
3% da população tem problemas biomecânicos. Então, para que toda essa
parafernália? Sempre que colocamos alguém em um acessório destinado à
correção, criamos problemas novos por enfrentar outros que não existem.”
Em 2008, em uma declaração que causou espanto, a Runner’s World
confessou que, sem querer, durante anos havia informado mal os leitores, ao
recomendar o uso de calçados corretivos para corredores que apresentavam
fascite plantar: “No entanto, pesquisas recentes mostram que os calçados
voltados a garantir estabilidade dificilmente reduzem o quadro de fascite
plantar e podem até agravar o problema” (o grifo é meu).
“Basta olhar a arquitetura”, explica o doutor Hartmann. Faça uma
impressão de seu pé e verá uma maravilha de funcionamento que age
perfeitamente há séculos. A parte central é a curvatura, o maior exemplo de
“suporte de peso” já criado. A beleza de qualquer arco está na forma como
se fortalece quando está sob pressão: quanto mais força exercida, maior a
intensidade da acomodação das partes. Nenhum construtor que honra o seu
ofício colocaria um apoio embaixo do arco – sua mera presença ali, de baixo
para cima, é o suficiente para enfraquecer toda a estrutura. Para sustentar o
arco do pé, existe uma rede muito bem afinada de 26 ossos, 33 articulações,
doze tendões flexíveis e dezoito músculos, todos capazes de alongar e se
adaptar como uma ponte suspensa projetada para resistir a um terremoto.
“Colocar os pés dentro de sapatos é o mesmo que engessá-los”, afirma
o doutor Hartmann. “Se você engessar a perna, a tendência é que de 40% a
60% da musculatura atrofie em seis semanas. Um processo parecido ocorre
assim que enfiamos os pés dentro de tênis.” Quando os sapatos fazem o
serviço ao qual se destinam, os tendões enrijecem e os músculos atrofiam.
Os pés foram projetados para promover esforço e sobreviver à pressão – se
forem deixados sem essa função, como Alan Webb descobriu, en-tram em
declínio. Basta exercitá-los para que se equilibrem.
“Eu estudei mais de cem dos melhores corredores quenianos e uma
coisa que eles têm em comum é a incrível elasticidade dos pés”, continua o
doutor Hartmann. “Isso se explica pelo fato de ninguém correr com tênis até
os dezessete anos.” O doutor Hartmann acredita que o melhor conselho que
já ouviu para quem quer evitar lesões foi de um treinador, que dizia a seus
atletas para “correrem descalços sobre um gramado úmido três vezes por
semana”.
Ele não é o único profissional que defende a doutrina dos pés descalços.
De acordo com o doutor Paul W. Brand, chefe do Setor de Reabilitação do
Hospital Norte-Americano de Saúde Pública de Carville, na Louisiana, e
professor de cirurgia na Faculdade de Medicina da Universidade de
Louisiana, seria possível eliminar os machucados mais comuns nos pés
apenas jogando os sapatos no lixo. Por volta de 1976, o doutor Brand
alertava que quase todos os pacientes que o aguardavam na sala de espera
apresentavam problemas (calos, joanete, deformação do segundo dedo do pé,
pés chatos ou problemas na curvatura) que não existiam em países onde a
maioria das pessoas andava descalça.
“Quem caminha descalço recebe um fluxo constante de informação
sobre o terreno e sobre a forma de se relacionar com ele”, garante o doutor
Brand, “enquanto um pé calçado se limita a dormir dentro de um ambiente
que não muda nunca.”

Os adeptos da vida sem sapatos cresciam sem parar. No entanto, em vez de


médicos saindo em defesa de pés mais musculosos, o que se viu foi uma
guerra entre os especialistas em pés e seus próprios pacientes. Defensores
dos pés descalços, como os doutores Brand e Hartmann, ainda eram raros e,
para a corrente especializada mais tradicional, os pés recebiam o tratamento
de “maior erro cometido pela natureza”, uma obra em construção que
sempre podia ser melhorada por meio de recursos externos ou de um acerto
na formatação.
Essa mentalidade capenga encontrou sua mais perfeita expressão na
obra The Runners’ Repair Manual. Escrito pelo doutor Murray Weisenfeld,
respeitado especialista em pés, é um dos livros mais vendidos sobre o
assunto em todos os tempos e começa com um ponto de partida terrível: “Os
pés humanos não foram projetados para caminhar, muito menos para correr
por longas distâncias”.
Então, segundo o tal manual, qual seria a finalidade dessa parte do
corpo? Bem, em primeiro lugar, eles serviriam para nadar (“o pé moderno
evoluiu das nadadeiras de algum peixe antigo, e elas eram voltadas para
trás”). A segunda finalidade seria a escalada (“os pés com garras permitiam
que a criatura se agarrasse em galhos de árvores sem cair”).
Além disso...?
Bem, de acordo com essa versão do processo evolutivo, paramos por aí.
Enquanto o resto de nosso corpo se adaptou muito bem à terra sólida, a única
parte que de fato tem contato efetivo com o solo ficou para trás.
Desenvolvemos cérebros e mãos hábeis o bastante para realizar uma cirurgia
minuciosa, porém nossos pés não saíram do Paleolítico. “Os pés humanos
não se adaptaram ao contato com o chão”, afirma o livro. “Apenas uma parte
da população conta com pés realmente adaptados.”
Mas quem são esses felizardos que contam com “pés adaptados”? Se
pensarmos bem, ninguém. “A natureza ainda não chegou ao ponto de
mostrar como é um pé adaptado às corridas”, escreve o doutor Weisenfeld.
“Até o surgimento do pé perfeito, minha experiência mostra que todos
estamos sujeitos a sofrer algum tipo de lesão.”
A natureza pode não ter concluído a sua obra, porém isso não impediu
alguns especialistas de tentarem eles mesmos se incumbir da tarefa. E foi
exatamente essa pretensão (a crença de que quatro anos de estudo específico
poderia “corrigir” 2 milhões de anos de seleção natural) que deu origem às
catastróficas cirurgias ocorridas na década de 1970. “Não faz muito tempo,
os joelhos dos corredores eram tratados em mesa cirúrgica”, reconhece o
doutor Weisenfeld. “Isso não funcionou muito bem, uma vez que era preciso
contar com amortecimento para conseguir correr.” Quando os pacientes
saíam da cirurgia, descobriam que a dor que os incomodava tinha sido
transformada em mutilação permanente – sem cartilagem nos joelhos, eles
jamais conseguiriam dar passadas novamente sem que houvesse sofrimento.
Apesar da história oscilante desse ramos da medicina em ten-tar domar
a natureza, o The Runners’ Repair Manual nunca recomendou o
fortalecimento dos pés. Em vez disso, a opção de tratamento sempre é
enfaixar, recorrer à ortótese ou fazer cirurgia.
Para a doutora Irene Davis, dona de credenciais e de uma abertura de
pensamento inquestionável, até 2007 foi difícil levar a sério a teoria dos pés
descalços, e isso só aconteceu porque um de seus pacientes a desafiou. Ele
estava tão frustrado com o quadro de fascite plantar crônica que havia
decidido usar apenas calçados de solado fino, similar a chinelos. A doutora
Davis disse que era loucura, mas ele seguiu em frente.
“Para surpresa da médica”, como contou a revista BioMechanics mais
tarde, “os sintomas de fascite plantar diminuíram e o paciente conseguiu
correr distâncias curtas com os calçados finos.”
“É assim que aprendemos muitas vezes: quando os pacientes não
seguem o que recomendamos”, contou a doutora Davis. “Acredito que o
grande número de casos de fascite plantar nos Estados Unidos decorra em
parte do fato de que não deixamos os músculos dos pés atuarem para aquilo
que foram criados.” Ela ficou tão impressionada com a recuperação do
paciente desobediente que começou a incluir trechos descalços em suas
próprias caminhadas.

Mas a Nike não ganharia 17 bilhões de dólares por ano se os


correspondentes a Barefoot Ted do mundo lançassem moda facilmente. Logo
depois que os dois representantes da empresa voltaram de Stanford com a
novidade de que a “rebelião descalça” já havia chegado nas pistas das
equipes de elite, a empresa começou a estudar uma maneira de ganhar
dinheiro com o problema que ela mesma havia criado.
Pode ser fácil demais colocar a culpa pela epidemia de lesões em
corridas na grande e terrível Nike, porém, em parte, a responsabilidade é
realmente dela. A empresa foi fundada por Phil Knight, um corredor da
Universidade do Oregon capaz de vender qualquer coisa, e Bill Bowerman,
técnico da mesma universidade que achava que sabia tudo. Antes que esses
dois homens se juntassem, o tênis de corrida moderno não existia. Nem a
maioria dos modernos machucados decorrentes do hábito de correr.
Para quem contou a tantas pessoas como elas deviam correr, Bowerman
não tinha tanto assim para mostrar. Ele começou a correr um pouco aos
cinquenta anos, depois de passar um tempo na Nova Zelândia com Arthur
Lydiard, o pai da corrida fitness e o técnico de corridas de longa distância
mais influente de todos os tempos. Lydiard começou a atuar no Clube de
Corredores de Auckland no final da década de 1950, com a missão de ajudar
na reabilitação de vítimas de infarto, numa iniciativa que causou grande
controvérsia na época, porque os médicos achavam que Lydiard estava
liderando uma espécie de suicídio em massa. No entanto, depois de ex-
doentes constatarem bem-estar algumas semanas pós-exercício,
incentivaram esposas, filhos e pais a fazer pequenas corridas de duas horas.
Quando Bill Bowerman fez a primeira visita em 1962, o grupo de
corrida de Lydiard que se reunia aos domingos pela manhã era
o maior evento de Auckland. Bowerman tentou fazer parte do grupo,
mas estava tão fora de forma que precisou da ajuda de um senhor de 73 anos
que havia sobrevivido a três tromboses. “Meu Deus, a única coisa que me
mantinha vivo era a esperança de que iria morrer”, confessou Bowerman.
Porém ele voltou para casa convertido, e logo redigiu o best-seller com
uma única palavra como título, que abriria um incrível mundo novo e viraria
obsessão para o público norte-americano: Jogging. Entre o processo de
escrever o livro e treinar atletas, Bowerman dedicava tempo a desafiar o seu
sistema nervoso e a prancha de fazer waffles de sua esposa, na tentativa de
achar uma base de borracha derretida ideal para o tipo de calçado que estava
prestes a inventar. Suas experiências acabaram com a sua paciência, mas
resultaram nos sapatos de corrida com mais amortecimento que se tinha
visto até então. Em um golpe de ironia, Bowerman deu ao invento o nome de
Cortez, em homenagem ao conquistador espanhol que san-grou o Novo
Mundo para extrair seu ouro e ainda espalhou uma terrível epidemia de
varíola.
Entretanto, a sua jogada mais hábil foi começar a defender uma nova
forma de correr, que seria possível somente com um novo tipo de calçado: o
dele. Cortez permitia que as pessoas corressem de maneira até então
impossível, ou seja, pousando sobre os calcanhares. Antes da invenção do
calçado com amortecimento, os corredores de todos os tempos tinham uma
forma idêntica: Jesse Owens, Roger Bannister, Frank Shorter e até Emil
Zatopek corriam com as pernas retas, joelhos curvados e pés tocando o chão
sempre embaixo da cintura. Não havia escolha: a única absorção de impacto
vinha da compressão das pernas e da espessa “almofada” que é a parte do
meio do pé. Fred Wilt descreveu tudo isso em 1959, em seu clássico texto
How they train [Como eles treinam], que detalhava as técnicas de mais de
oitenta corredores de elite do planeta. “O pé que vai na frente se move rumo
ao chão em um movimento para baixo e para trás num esforço para tocar (e
não bater, nem esmagar), e a parte externa da bola dos pés[1] faz o primeiro
contato com a superfície”, escreveu Wilt. “A progressão da corrida resulta
dessas forças que agem atrás do centro de gravidade do corpo...”
De fato, em 1984, quando o criador de aparelhos biomédicos Van
Phillips elaborou uma prótese de ponta para corredores que haviam sofrido
amputação, não se preocupou em incluir um salto. Ele mesmo era um
corredor que havia perdido a perna esquerda abaixo do joelho depois de um
acidente com esqui aquático. Assim, Phillips concluiu que o salto seria útil
apenas para ficar em pé, mas não para se movimentar. A prótese, em forma
de C e chamada de “pata de guepardo”, conseguiu reproduzir com tanta
habilidade uma perna natural que, graças a ela, o corredor sul-africano Oscar
Pistorius (que teve as duas pernas amputadas) pôde competir com alguns dos
maiores corredores do mundo.
Porém Bowerman tinha uma ideia: talvez desse para ganhar um pouco
mais de distância se o corredor estivesse à frente de seu centro de gravidade.
Com um pouco de borracha embaixo do calcanhar, seria possível fortalecer a
perna e ampliar a passada. No livro Jogging, ele compara os estilos: com a
passada “pés chatos”, reconhecia que “a área de superfície ampla serve de
travesseiro para a pisada e facilita o trabalho para o restante do corpo”. No
entanto, ele ainda acreditava que um movimento “do calcanhar para os
dedos” seria “a opção menos cansativa para longas distâncias”. Desde que o
corredor estivesse calçado com algo que permitisse isso.
O marketing de Bowerman foi brilhante. “O mesmo homem criou um
mercado para um produto e depois criou o produto”, avaliou um colunista
financeiro do Oregon. “É coisa de gênio, do tipo que os alunos de marketing
precisam estudar na faculdade.”
O sócio de Bowerman, um corredor que virou empreendedor chamado
Phil Knight, foi o responsável por um acordo de produção no Japão. Logo,
vendiam mais sapatos do que a linha de montagem conseguia produzir.
“Com o amortecimento do Cortez, estávamos em posição de monopólio para
o ano olímpico de 1972”, comemorava Knight. Enquanto outras empresas se
ajeitavam para copiar o novo calçado, a marca inconfundível da Nike
(chamada de Swoosh) era conhecida mundialmente.
Encantado com a reação a suas criações, Bowerman liberou a
criatividade. Imaginou até um tênis à prova d’água feito de pele de peixe,
porém esse projeto morreu na prancheta. Chegou ao ld-1000 Trainer, um
tênis com sola tão larga que dava ao atleta a impressão de correr sobre uma
travessa de bolo. Bowerman achou que conseguiria riscar a pronação do
mapa, passando por cima do fato de que, a não ser no caso de corredores
com pés perfeitamente retos, o cal-canhar alargado só forçaria a perna do
atleta. “Em vez de estabilizar, acelerava a pronação e prejudicava tanto os
pés como os tornozelos”, relatou o ex-corredor da equipe de Oregon Kenny
Moore, na biografia que escreveu sobre Bowerman. Em outras palavras, o
calçado que teoricamente propiciaria a pisada perfeita funcionava apenas
para quem tinha pisada perfeita. Quando Bowerman percebeu que estava
provocando mais machucados do que prevenindo-os, voltou atrás e, nas
versões posteriores, corrigiu o projeto.
Enquanto isso, na Nova Zelândia, um horrorizado Arthur Lydiard
observava as volumosas exportações que partiam do Oregon para o mundo e
se perguntava qual seriam os objetivos do amigo. Na comparação com
Bowerman, Lydiard tinha credenciais a mais – havia treinado bem mais
campeões olímpicos e detentores de recordes mundiais e criado um
programa de treinamento que ainda era bastante considerado. Lydiard
gostava de Bowerman e o respeitava como treinador, mas meu Deus! O que
era aquela coisa que ele estava vendendo?
Lydiard sabia que toda aquela história de pronação era marketing puro.
“Se você falar a uma pessoa comum de qualquer idade para tirar os calçados
e correr um pouco, na maioria dos casos verá que o movimento não revela
nenhum sinal de pronação ou supinação”, lamentou Lydiard. “Essas
movimentações laterais dos tornozelos só começam quando as pessoas
calçam esses tênis de corrida, porque a forma da maioria deles altera
imediatamente o movimento natural dos pés.”
“Nós corríamos com tênis de lona”, continuou Lydiard. “Não tínhamos
casos de fascite plantar, nem de supinação ou pronação. Podemos até ter
esfolado um pouco a pele na lona dura quando corríamos maratonas, mas, de
maneira geral, não tínhamos problemas nos pés. Pagar centenas de dólares
pelo último tênis com tecnologia mais moderna não é garantia de evitar essas
lesões. Pode querer dizer até que você terá esse tipo de problema de um jeito
ou de outro.”
Finalmente, Bowerman teve dúvidas. Enquanto a Nike ia de vento em
popa, lançando no mercado uma incrível variedade de tênis e mudando de
modelo todos os anos a não ser por desejo de colocar produtos novos nas
prateleiras, Bowerman concluiu que sua missão original de criar um sapato
honesto havia sido consumida por uma ideologia nova, que podia ser
resumida em duas palavras: “ganhar dinheiro”. Em uma carta a um colega,
Bowerman afirmou que a Nike “estava distribuindo um monte de lixo”.
Aparentemente, até para um dos fundadores da empresa as palavras do
crítico social Eric Hoffer soavam como verdadeiras: “Todas as grandes
causas começam como um movimento, viram negócio e se transformam em
enganação”.
Em 2002, Bowerman já havia morrido quando a onda da corrida sem
calçados começou a ganhar força e, por isso, a Nike voltou a procurar o
antigo mentor do fundador da casa para checar se toda essa história de correr
descalço fazia sentido. “Claro que sim!”, declarou Arthur Lydiard. “Se você
reforça o apoio a uma parte, ela enfraquece. Se você a força a trabalhar, ela
se fortalece... Basta correr descalço para não ter nenhum desses problemas.”
“Calçados que permitem que os pés funcionem como se estivessem
descalços seriam os ideais para mim”, concluiu Lydiard.
A Nike resolveu investigar por conta própria. Jeff Pisciotta, principal
pesquisador do Laboratório de Pesquisas Esportivas da Nike, reuniu vinte
corredores em um gramado e os filmou correndo descalços. Quando analisou
as imagens de perto, ficou impressionado com o que viu: em vez de
encontrar pés pouco à vontade (como era comum dentro dos sapatos), eles se
comportavam como animais correndo soltos, esticando, encolhendo,
procurando o chão com os dedos abertos, ajeitando-se para pousar como um
cisne selvagem.
“Era lindo ver aquilo”, contou-me depois Pisciotta, ainda estupefato.
“Aquilo nos levou a pensar que, assim que você calça um sapato, ele assume
o controle das coisas.” O pesquisador mandou que a sua equipe começasse a
procurar imagens de corredores de todas as culturas que corriam descalços.
“Encontramos grupos em todo o planeta que ainda correm sem nada nos pés,
e o que se vê é que, durante a propulsão e o pouso, esses indivíduos têm
mais variedade de movimento e envolvem mais os dedos. Os pés se movem,
esticam, abrem e se agarram à superfície, o que significa menor pronação e
maior distribuição da pressão.”
Diante da quase inevitável conclusão de que estava vendendo limões, a
Nike mudou de estratégia e passou a oferecer receitas de limonada. Jeff
Pisciotta foi indicado a assumir a condução de um projeto altamente secreto
e aparentemente impossível: ganhar dinheiro com os pés descalços.
Foi preciso dois anos para Pisciotta revelar a sua obra de arte. Levada
ao mundo por meio de anúncios de televisão, a campanha publicitária
mostrava tantos atletas descalços – maratonistas quenianos correndo por
uma trilha isolada, nadadores ajeitando os dedos sobre o trampolim, ginastas
e capoeiristas brasileiros, alpinistas, lutadores, caratecas e jogadores de
futebol na areia – que, depois de um tempo, ficou difícil lembrar qual deles
usava tênis ou por quê.
Junto com as imagens, vinham as mensagens motivacionais: “Seus pés
são a base de seu corpo. Acorde-os! Fortaleça-os! Ligue-os ao chão... A
tecnologia natural permite movimentos naturais... Dê força a seus pés”. Na
sola de um pé descalço aparece a frase: “A performance começa aqui”.
Depois, o grand finale: com a música “Tiptoe through the tulips” [Na ponta
dos pés entre as tulipas] ao fundo, outra vez surgiam aqueles corredores
quenianos, agora calçados com um tênis pequeno. É o novo Nike Free, um
modelo com a marca inconfundível e ainda mais fino que o antigo Cortez.
Seu slogan? “Corra descalço.”
Capítulo 26
“Garota, esta cidade corta os ossos de suas costas. É uma armadilha
mortal, um golpe suicida...”
Bruce Springsteen, “Born to run” [Nascido para correr]

O rosto de Caballo Blanco estava rosado de orgulho, e por isso tentei achar
algo legal para falar.
Tínhamos acabado de chegar a Batopilas, antiga cidade dedicada à
mineração, incrustada a quase 2.500 metros abaixo da boca do desfiladeiro.
Foi fundada há quatro séculos, quando os exploradores espanhóis
descobriram minério de prata em um rio de pedras, e desde então pouca
coisa mudou. Ainda se resume a uma minúscula fileira de casas próximas à
beira do rio, onde os burros são tão numerosos quanto os carros e o primeiro
telefone foi instalado quando o mundo já programava iPods.
Para chegar até a cidade, era preciso contar com um estômago bastante
resistente e uma incrível fé no ser humano que, no caso, dirigia aquele
ônibus. O único caminho para Batopilas é uma estrada ruim, que serpenteia
diante de um rochedo e desce mais de 2 mil metros em menos de dezesseis
quilômetros. Conforme o ônibus fazia as curvas fechadíssimas, segurávamos
a respiração e contemplávamos lá embaixo os restos dos veículos cujos
motoristas erraram
o cálculo em alguns centímetros. Dois anos depois de viver por lá,
Caballo também faria a sua contribuição para aquele cemitério de aço,
quando a picape que ele dirigia chegou até a borda da estrada e rolou morro
abaixo. Ele conseguiu escapar e ainda viu o carro explodir nas profundezas.
Mais tarde, alguns pedaços da carcaça foram levados para servir de amuletos
de boa sorte.
Quando o ônibus chegou nas imediações da cidade, nossos rostos
estavam recobertos com uma pintura feita de poeira e suor, como o de
Caballo na primeira vez em que o vi. “É ali!”, mostrou Caballo. “Aquela é a
minha casa.”
Olhamos em volta e a única coisa que vimos foram as ruínas de uma
antiga missão, do outro lado do rio. Não havia mais telhado e as paredes de
pedra caíam no desfiladeiro avermelhado de onde tinham vindo, parecendo
um castelo de areia que se dissolvia para virar areia novamente. Era perfeito:
Caballo tinha achado o lugar ideal para um fantasma. Eu só conseguia
imaginar como deveria ser assustador passar uma noite ali e ver a
monstruosa dança das sombras ao redor da barraca quando ele percorria as
ruínas, como Quasímodo.
“Realmente é um lugar... diferente”, falei.
“Não, cara”, respondeu ele. “É lá.” E apontou para atrás de nós, para
uma tímida trilha que sumia no meio dos cactos. Caballo começou a subir e
nós o seguimos, segurando em galhos para manter o equilíbrio conforme
abríamos caminho na trilha pedregosa.
“Droga, Caballo”, disse Luis. “Esta é a única estrada do mundo que
precisa de uma estação de apoio e de sinalização já no terceiro quilômetro.”
Depois de cerca de noventa metros, passamos por um matagal de
limeiras selvagens e achamos uma pequena cabana feita de barro. Caballo
havia construído o lugar com pedras tiradas do rio
– para isso, ele fez centenas de percursos de ida e volta por aquela trilha
traiçoeira, levando pedras nas mãos. Caballo achou aquele local mais
adequado para funcionar como moradia do que as ruínas da missão – dali de
sua fortaleza isolada e erguida à mão, ele conseguia observar todo o vale
sem ser visto.
Entramos na cabana e vimos que ali havia uma pequena cama de
campanha, uma pilha de sandálias em mau estado e três ou quatro livros
sobre Crazy Horse, ou Cavalo Louco, e outros nativos norte-americanos
numa estante perto de um lampião. Era isso mesmo: nada de eletricidade,
água encanada ou banheiro. Na parte de trás, Caballo havia tirado alguns
cactos e aberto uma pequena área para descansar depois de uma corrida,
fumar um pouco e ficar admirando aquela paisagem pré-histórica.
Independentemente de qual fosse a palavra de Heidegger que Barefoot Ted
tentava achar, ninguém no mundo expressava melhor o seu próprio lugar do
que Caballo e a sua cabana.
Ele, por sinal, estava ansioso para que todos comessem e o liberassem
para dormir um pouco. Nos próximos dias, iríamos consumir toda a energia
disponível, e ninguém havia descansado muito desde El Paso. Ele nos levou
pela trilha até uma estrada e depois a uma pequena venda que funcionava na
parte da frente de uma casa – bastava chamar pela janela e perguntar se o
dono do comércio, Mario, tinha o produto desejado. Na parte superior, Mario
alugou para nós alguns quartos pequenos, com um chuveiro no final do
corredor.
Caballo queria que deixássemos as bagagens e saíssemos em busca de
comida, porém Ted insistiu em tomar um banho rápido, para se livrar da
poeira da estrada.
Saiu berrando: “Meu Deus, o chuveiro tem fios soltos. Quase levei um
choque!”.
Eric olhou para mim. “Você acha que foi Caballo?”
“Homicídio justificável”, falei. “Nenhum júri condenaria ninguém.” A
tempestade entre Caballo Blanco e Barefoot Ted não havia diminuído nada
desde que tínhamos saído de Creel. Numa das paradas, Caballo desceu do
teto e abriu caminho até o fundo do ônibus, para escapar. “Aquele cara não
sabe o que é silêncio”, reclamou. “Ele é de Los Angeles, acha que todo
espaço precisa ser preenchido com barulho.”
Depois de nos acomodar na casa de Mario, Caballo nos levou a outra de
suas mamás. Nem foi preciso fazer o pedido: assim que chegamos, doña
Mila começou a servir tudo o que havia na geladeira. Não faltavam pratos de
guacamole, frijoles, fatias de cacto e to-mates temperados com um vinagre
estranho, arroz e uma cheirosa carne ensopada, preparada com fígado de
frango.
“Vamos levar”, falou Caballo. “Vamos precisar disto amanhã.” Avisou
que seria apenas uma pequena caminhada de aquecimento. Um passeio pela
montanha perto dali, para dar uma ideia do terreno que teríamos de enfrentar
na ida para a nossa pista de competição. Ele garantia que não era nada
demais e nos aconselhou a comer e ir dormir. Fiquei mais apreensivo com a
chegada de um velho norte-americano de cabelos brancos que se aproximou
de nós.
“Como vai a vida?”, perguntou para Caballo. Ele se chamava Bob
Francis. Tinha vindo a Batopilas pela primeira vez na década de 1960 e parte
dele sempre vivera ali. Mesmo com filhos e netos em San Diego, Bob ainda
passava a maior parte do ano vagando pelo desfiladeiro que cerca Batopilas,
às vezes guiando grupos de exploradores, outras vezes visitando Patricio
Luna, um amigo tarahumara, tio de Manuel Luna. Eles haviam se conhecido
trinta anos antes, quando Bob se perdeu no cânion. Patricio o encontrou,
deu-lhe comida e o levou para o abrigo de sua família para passar a noite.
Graças à longa amizade com Patricio, Bob era um dos poucos norte-
americanos que tinham visto uma tesgüinada – a animada festa dançante
realizada antes das corridas de bola. Nem Caballo contava com esse nível de
confiança com os tarahumaras e, depois de ouvir as histórias de Bob, não
estava certo de que queria participar.
“Sem mais nem menos, alguns tarahumaras dos quais eu era amigo
havia anos, homens que eu sabia serem tímidos mas bons amigos, estavam
ali na minha frente, batendo o peito contra mim, me insultando e chamando
para brigar”, contou Bob. “Enquanto isso, as mulheres deles iam para o mato
com outros sujeitos, enquanto as filhas crescidas eram derrubadas sem roupa
nenhuma. Eles mantêm as crianças longe de tudo isso – dá para entender o
porquê.”
Bob explicou que nessas festas tudo pode acontecer, porque depois se
coloca a culpa no peyote, na tequila e no tesgüino, a forte bebida feita de
milho. Por mais que essas festas exagerassem na animação, serviam para
uma função nobre e sábia: funcionavam como válvula de escape para as
emoções conflitivas. Como todos nós, os tarahumaras têm desejos secretos e
mágoas pessoais, mas, em uma sociedade na qual todos dependem da
confiança mútua e não existem formas de punição, é preciso haver uma
maneira de satisfazer vontades e acertar as contas. Há coisa melhor que uma
festa em que tudo é possível? Todo mundo se embriaga, perde o controle e,
depois de amargar uma ressaca violenta, esquece tudo e retoma a vida.
“Dava para ter casado ou sido assassinado umas vinte vezes antes do
final da noite”, contou Bob. “Mas eu fui esperto o bastante e despejei a cuia,
depois saí dali antes que o pior começasse.”
Se havia algum forasteiro que conhecia as barrancas tão bem quanto
Caballo era Bob – apesar da suave bebedeira dele e do humor um pouco
absurdo, achei melhor ficar de olho quando ele se aproximou de Ted.
“Amanhã não vai existir nem sinal desta droga”, disse, apontando para
a FiveFingers nos pés de Ted.
“Não vou calçar isto amanhã”, respondeu Ted.
“Agora você falou algo que faz sentido”, esclareceu Bob.
“Vou caminhar descalço mesmo”, acrescentou Ted.
Bob se voltou para Caballo e perguntou: “Ele só pode estar brincando,
né?”.
Caballo apenas sorriu.

Na manhã seguinte, Caballo nos chamou quando o dia começava a surgir no


desfiladeiro. “É para lá que vamos amanhã”, disse, apontando pela janela do
meu quarto uma montanha distante. Entre nós e a montanha havia um mar de
colinas tão cobertas de vegetação que não se via trilha nenhuma ali no meio.
“Hoje de manhã vamos pegar uma dessas montanhas menores mesmo.”
“Quanta água temos de levar?”, perguntou Scott.
“Eu levo só isto”, ele respondeu, mostrando uma garrafa plástica com
capacidade para meio litro. “Tem uma nascente de água fresca lá em cima.”
“E quanto à comida?”
“Ah, não se preocupe”, disse Caballo enquanto Scott saiu para ver onde
estavam os outros. “Voltamos antes do almoço.”
“Eu estou levando um bom suprimento”, falou Eric, colocando água
fresca na garrafa embutida na mochila, com capacidade para quase três
litros. “Acho que você deveria fazer o mesmo.”
“Você acha? Mas Caballo disse que vamos andar apenas uns dez
quilômetros.”
“Nunca é demais se precaver quando se vai para o mato”, continuou
Eric. “Mesmo que você leve mais do que precisa, é um treino para quando
tiver de levar quantidades maiores. E nunca se sabe – você pode ter de ficar
fora por mais tempo do que esperava...”
Tirei minha garrafa e procurei meus acessórios de hidratação. “Leve
algumas pílulas de iodo para purificar a água e também um pouco de gel”,
acrescentou meu treinador. “Em dia de corrida, você precisa de duzentas
calorias por hora. O segredo está em saber como consumir isso aos poucos, e
é preciso recorrer a um fluxo constante para não sobrecarregar o estômago.
Vai ser um bom treino.”
Caminhamos por Batopilas e vimos os donos de pequenos comércios
jogando água no chão para conter a poeira. Alunos da escola local, com
camisas brancas imaculadas e cabelos pretos alisados com água,
interrompiam a conversa para nos desejar “buenos días”.
“Vai fazer calor”, disse Caballo, quando paramos numa loja sem
nenhum letreiro.
“¿Hay teléfono?”, ele perguntou à mulher que nos cumprimentou.
“Todavía no”, respondeu ela balançando a cabeça, resignada. Ainda
não. Clarita tinha os dois únicos telefones públicos de Batopilas, mas as
linhas estavam mudas havia três dias e a única forma de comunicação era o
rádio de ondas curtas. Pela primeira vez percebi o quanto estávamos
isolados: não havia meio de saber notícias do restante do mundo nem de
contar o que estava acontecendo conosco. Depositamos uma confiança
insana em Caballo e, mais uma vez, eu me perguntava por que fazíamos isso
– por mais conhecedor que ele fosse, ainda assim parecia loucura colocar
nossas vidas nas mãos de um sujeito que não demonstrava se preocupar
muito nem com a própria vida.
Apesar de tudo, naquele instante, o ronco de meu estômago e
o cheiro do café da manhã de Clarita conseguiram deixar tudo isso de
lado. Ela nos serviu grandes pratos de huevos rancheros, ovos fritos com
molho caseiro e coentro picado, que vinham sobre espessas tortilhas. A
comida estava deliciosa demais para se comer de-pressa, então ficamos ali,
tomando várias xícaras de café antes de decidir levantar e partir. Eric e eu
seguimos o exemplo de Scott e embrulhamos uma tortilha para levar no
bolso e comer mais tarde.
Somente depois de terminado o café da manhã fui perceber que o casal
de garotos não havia dado as caras até então. Olhei para
o relógio e já eram quase dez da manhã. “Vamos deixar os dois aí”,
disse Caballo. “Vou ver se eles querem ir”, ofereceu-se Luis. “Não”,
respondeu Caballo. “Quem sabe eles ainda este
jam dormindo. Temos de ir agora se quisermos escapar do calor da
tarde.”
Talvez a opção de Jenn e Billy fosse a melhor: usar um dia para se
reidratar e economizar energia para a jornada seguinte. “Não importa o que
aconteça, não deixe que os dois venham atrás de nós”, Caballo instruiu o pai
de Luis, que iria ficar em Batopilas. “Eles vão se perder e nunca mais serão
vistos. Não estou brincando, cara!”
Eric e eu acomodamos bem nossos itens de reidratação e eu coloquei
uma bandana na cabeça. Estava pronto. Caballo passou pela abertura de um
muro de apoio e começou a pegar o caminho até a margem do rio. Barefoot
Ted se esforçava para ir junto dele, mostrando como conseguia passar de
uma pedra para a outra com seus pés descalços. Se Caballo estava
impressionado, não demonstrou.
“Ei, pessoal! Esperem por nós!” Jenn e Billy vinham correndo pela rua
atrás de nós. Billy levava a camiseta na mão e Jenn estava com os tênis
desamarrados.
“Vocês têm certeza de que querem ir?”, perguntou Scott quando os dois
apareceram. “Vocês não comeram nada.”
Jenn quebrou uma barra de cereais pela metade e dividiu com Billy.
Cada um levava um pequena garrafa de água, que dava no máximo para seis
goles. “Estamos bem”, afirmou Billy.
Seguimos pela margem cheia de pedras do rio por um quilômetro e
meio, e a superfície secou. Sem falar uma palavra, começamos a correr
devagar, de forma espontânea. A vala era ampla e coberta de areia, o que
permitia que Scott e Ted corressem ao lado de Caballo.
“Observe os pés deles”, alertou Eric. Scott calçava o tênis Brooks que
ele mesmo havia ajudado a projetar e Caballo corria de sandálias, mas os
dois pisavam na superfície do mesmo jeito que Ted fazia com os seus pés
desprotegidos, com as passadas dos três em perfeita sincronia. Era como
assistir a um espetáculo de cavalos treinados.
Depois de outro quilômetro e meio, Caballo entrou em um canal
rochoso que subia por uma montanha. Eric e eu voltamos a caminhar,
seguindo uma máxima adotada por ultracorredores: “Se você não consegue
ver o topo, prefira andar”. Quando se correm oitenta quilômetros, não há
nenhuma vantagem em correr morro acima e deixar a gravidade fazer a parte
dela morro abaixo. Quem caminha perde apenas alguns segundos e pode
compensar na descida. Eric acredita que um dos motivos pelos quais os
ultracorredores não se machucam e nunca parecem se esgotar é porque eles
“sabem treinar, e não se desgastar”.
Caminhando, alcançamos Barefoot Ted. Ele precisou reduzir o passo
para conseguir transpor as pedras acidentadas do tamanho de uma mão. Dei
uma olhada para a trilha à nossa frente: ainda teríamos pelo menos um
quilômetro e meio de rochas fragmentadas antes que a trilha se aplainasse e,
eu esperava, ficasse mais suave.
“Ted, onde está a FiveFingers?”, perguntei.
“Não preciso dela”, respondeu. “Combinei com Caballo que, se eu
conseguisse superar esta parte de pés descalços, ele não iria mais me
perturbar.”
“Ele dificultou a aposta”, falei. “Isto aqui é como correr sobre
cascalho.”
“Os humanos não inventam superfícies difíceis, Oso”, disse Ted. “Nós
inventamos as superfícies macias. O pé fica bem feliz se adaptando às
rochas. Tudo o que você tem de fazer é relaxar e deixar o pé solto. É como
uma massagem. Ei!...”, ele chamou depois que Eric e eu saímos na frente.
“Aqui vai uma dica ótima: na próxima vez em que machucarem os pés,
caminhem sobre pedras escorregadias de um riacho frio. É inacreditável!”
Eric e eu deixamos Ted falando sozinho conforme ele subia e acelerava.
O brilho das pedras incomodava e o calor só aumentava, dando a impressão
de que corríamos rumo ao sol. E, de certo modo, era isso mesmo: depois de
três quilômetros, olhei o altímetro de meu relógio e vi que tínhamos subido
mais de trezentos metros. Mas logo a trilha ficou plana e as pedras deram
lugar a um terreno pisado.
Os outros estavam alguns metros à frente e Eric e eu apertamos o passo
para reduzir a distância. Antes de chegar perto deles, porém, Ted anunciu
que era hora de beber água. Sacudiu a garrafa vazia e avisou: “Espero vocês
na fonte”.
De repente, a trilha se tornou íngreme mais uma vez, fazendo caminhos
sinuosos que lembravam o traçado de um relâmpago. Quatrocetros metros...
Seiscentos metros... Chegamos numa en-costa, com a sensação de que
subíamos apenas alguns centímetros em cada passo. Depois de três horas e
dez quilômetros de subida dura, ainda não tínhamos chegado na fonte; e não
havia sinal de sombra desde que nos afastamos da beira do rio.
“Viu?”, falou Eric, apontando para o próprio kit de hidratação. “Esses
caras vão secar.”
“E morrer de fome”, acrescentei, abrindo uma barra de cereais.
A mil metros de altura, encontramos Caballo e os outros esperando
embaixo de um pé de zimbro.
“Alguém precisa de pílulas de iodo?”, perguntei.
“Acho que não”, respondeu Luis. “Dê só uma olhada.”
Embaixo da árvore havia uma bacia natural entalhada pelo fluxo secular
de água fresca, mas sem uma única gota.
“Estamos na época da seca”, disse Caballo. “Eu me esqueci disso.”
Havia outra fonte alguns metros morro acima e talvez lá houvesse água.
Caballo se ofereceu para subir e verificar. Jenn, Billy e Luis estavam
sedentos demais e resolveram ir também. Ted deu sua garrafa para que Luis
enchesse para ele e sentou na sombra para esperar, como nós. Ofereci uns
goles de minha garrafa e Scott dividiu um pouco de pão sírio com homus.
“Você não come aquelas comidas de atleta?”
“Gosto de comida de verdade”, respondeu Scott. “Dá para levar e você
consome calorias de verdade, não apenas as que queimam rápido.” Na
condição de atleta de elite com patrocínio das grandes empresas, ele podia
escolher qual bufê nutricional preferiria divulgar, porém, depois de provar
tudo o que havia no mercado (de carne desidratada a barras de cereais
orgânicas), ele ficou com uma dieta parecida com a dos tarahumaras.
“Eu cresci em Minnesota e comia tudo o que era porcaria”, continuou.
“Meu almoço muitas vezes eram dois McChickens e uma batata frita
grande.” Na faculdade, quando treinava para ser um corredor de cross-
country, seus treinadores insistiam para que ele consumisse bastante carne
magra para reconstituir os músculos desgastados pelo esforço. Mas, quanto
mais ele se informava sobre os hábitos dos atletas de resistência, mais
vegetarianos encontrava.
Como os monges maratonistas japoneses sobre os quais ele acabara de
ler, que correram uma ultramaratona todos os dias durante sete anos,
atravessando cerca de 40 mil quilômetros com apenas missoshiro, tofu e
legumes no estômago. E quanto a Percy Cerutty, o gênio australiano maluco
que treinou alguns dos maiores corredores de todos os tempos? Cerutty
achava que não se devia jamais cozi-nhar os alimentos – quanto mais comer
carne! Seus atletas seguiam uma rígida dieta composta de cereais
desidratados, frutas, queijos e frutas secas. Até Cliff Young, o fazendeiro de
63 anos que espantou a Austrália em 1983 quando derrotou os melhores
ultramaratonistas do país em uma corrida de 816 quilômetros entre Sydney e
Melbourne, vivia apenas de feijão, cerveja e aveia (“Eu alimentava os
bezerros com as mãos e eles achavam que eu era a mãe deles”, disse Young.
“Não conseguia dormir à noite quando sabia que um deles seria abatido no
dia seguinte.” Mudou a dieta para grãos e batatas e passou a dormir bem
melhor – e a correr também).
Scott não sabia explicar por que uma dieta sem carnes funcionava para
os melhores corredores da história, porém achava melhor verificar os
resultados primeiro e descobrir o que a ciência dizia depois. A partir dessa
época, nenhum produto animal entrou em sua boca – nada de ovos, queijo ou
até sorvete –, e o açúcar e a farinha refinada também passaram a ser
limitados. Ele parou de levar salgadinhos e barras de cereais nas corridas:
preferia levar uma provisão de burritos de arroz, pão sírio com homus,
azeitonas e um pão caseiro feito com feijão-azuqui e quinoa. Quando
distendia
o tornozelo, dispensava o ibuprofeno e apelava para uma erva chamada
acônito, ou mata-cão, além de porções de gengibre e alho.
“É claro que fiquei em dúvida”, confessou Scott. “Todo mundo me
dizia que eu ia enfraquecer, que eu não conseguiria me recuperar dos
esforços, que poderia ter fraturas ou até anemia. Mas acho que realmente me
sinto melhor, porque como alimentos com nutrientes de mais qualidade. E,
depois de vencer a Western States, nunca mais voltei atrás.”
Ao basear a sua dieta em frutas, verduras e grãos integrais, Scott extrai
o máximo de nutrição do menor número possível de calorias, por isso o seu
corpo não é forçado a levar nem a processar quantidades inúteis. E, como os
carboidratos liberam o estômago com mais rapidez do que as proteínas, fica
mais fácil encarar um esforço grande de uma vez, já que não é preciso
reduzir o ritmo para esperar a digestão de uma refeição à base de carne.
Verduras, legumes e cereais contêm os aminoácidos necessários para
reconstituir a musculatura. Como um corredor tarahumara, ele está sempre
pronto para percorrer qualquer distância.
A não ser, é claro, que falte água.
“Não temos boas notícias, rapazes”, avisou Luis ao voltar. “Lá também
está sequinho.” Ele estava começando a se preocupar. Depois de quatro
horas suando embaixo de um calor de 35 graus, estávamos começando a
soltar fumaça como um café servido em loja de conveniência. “Acho que
devemos correr.”
Scott e Caballo concordaram. “Se corrermos bem, estaremos lá
embaixo em uma hora”, falou Caballo. “Oso, você está bem?”, perguntou
para mim.
“Sim, estou bem”, respondi. “E ainda temos um pouco de água.”
“Ótimo, então vamos”, disse Ted.
Começamos a correr trilha abaixo, Caballo e Scott na frente. Ted era
engraçado: tentava descer a encosta perto de Luis e Scott, dois sujeitos que
eram muito bons nisso. Com tantos talentos competindo, o ritmo se tornou
cada vez mais veloz. “Vaaaaaamos lááá, baby!”, Jenn e Billy gritavam.
“Vamos devagar”, orientou Eric. “Se tentarmos ir na deles, não vamos
aguentar.”
Seguimos por uma trilha mais suave e bem atrás dos outros, que
corriam lá na frente por caminhos sinuosos. Correr para baixo numa encosta
de montanha pode acabar com os quadris, sem falar nos riscos para os
tornozelos. Assim, o segredo está em fingir que você está subindo e manter
os pés sempre embaixo do corpo, controlando a velocidade com uma suave
inclinação para trás e encurtando a passada.
No meio da tarde, o calor que havia ficado retido nas paredes do
desfiladeiro passava dos 38 graus. Como tínhamos perdido os outros de
vista, Eric e eu resolvemos dar um tempo, correndo devagar e tomando uns
goles de água de nossas garrafas, que esvaziavam rapidamente. Tentávamos
achar nosso caminho com cuidado no meio de uma confusa teia de trilhas,
sem saber que, uma hora antes, Jenn e Billy haviam desaparecido.

“Sangue de cabra é bom”, insistia Billy. “A gente pode beber o sangue e


comer a carne. A carne de cabra também é boa.” Ele tinha lido um livro de
um sujeito que, para escapar da morte no deserto do Arizona, atirou pedras
no cavalo até matar o animal e depois sugou seu sangue. Gerônimo também
fazia isso, pensou Billy. Espere, talvez tenha sido Kit Carson...
Beber o sangue? Jenn, com a garganta tão seca que doía até para falar,
olhou para ele. Ele deve estar pirando, pensou ela. Mal conseguimos andar,
e o maluco está falando em matar uma cabra que não conseguimos pegar
nem com a faca que não temos. Ele está pior do que eu, sem dúvida.
De repente, o estômago da garota reclamou tão forte que ela mal
conseguia respirar. Ela entendeu tudo. Billy não estava falando maluquices
por causa do calor. Ele estava assim porque a única coisa razoável para falar
ali era justamente a única que eles não queriam admitir: estavam perdidos.
Em um bom dia, ninguém no planeta teria conseguido colocar Jenn e
Billy em uma simples corrida por trilhas com dez quilômetros de percurso, e
aquele parecia estar se tornando um dia nada bom. A combinação do calor,
da ressaca e dos estômagos vazios havia atacado a dupla antes que descesse
metade da encosta. Eles perderam Caballo de vista em uma das curvas e
depois chegaram a uma encruzilhada. A próxima coisa que perceberam foi
que estavam sozinhos.
Desorientados, Jenn e Billy vagaram pela montanha e por um labirinto
de pedras que levava a todas as direções. As muralhas de rocha refletiam o
calor com tanta intensidade que Jenn suspeitava que os dois escolhiam o
caminho que parecesse oferecer mais sombra. Ela sentiu tontura, como se a
mente se afastasse do corpo. O casal não tinha comido nada depois daquela
barra de cereais dividida ao meio seis horas antes e, desde o meio-dia, não
ingeriram nem sequer um gole de água. Jenn sabia que, mesmo que o calor
não acabasse com eles, ainda assim estariam condenados: a temperatura de
mais de 38 graus iria cair, mas cair para valer. Com o anoitecer, eles se
veriam no meio de uma escuridão gelada, vestidos com shorts de surfista e
camiseta, morrendo de sede e enfiados num dos cantos mais isolados do
México.
Mas que dupla de cadáveres estranhos iriam formar, pensava Jenn,
conforme caminhavam a esmo. Quem quer que os encontrasse iria se
perguntar como aqueles dois salva-vidas de vinte e poucos anos, com
acessórios de surfistas, tinham ido parar no fundo de um desfiladeiro
mexicano, como se tivessem sido jogados da Baixa Califórnia até ali por
uma onda brincalhona. Jenn nunca havia sentido tanta sede na vida – tinha
perdido cerca de cinco quilos durante uma competição de 160 quilômetros e,
mesmo assim, não tivera a mesma sensação de desespero que sentia agora.
“Olhe!”
“A sorte do maluco!”, Jenn se maravilhou.
Embaixo da saliência de um rochedo, Billy tinha visto água fresca.
Correram para lá, já tentando abrir a tampa de suas garrafas, e pararam.
A água não era água. Era uma lama escura misturada com uma espuma
verde, sobre a qual voavam moscas e se agitavam cabras selvagens e burros.
Jenn se abaixou para olhar mais de perto. Urgh! O cheiro era nojento. Eles
sabiam qual seria a consequência se dessem um único gole naquilo: ficariam
tão enfraquecidos com febre e diarreia que não conseguiriam mais andar, ou
talvez contraísssem cólera, giardíase ou verme-da-guiné, que não tem cura a
não ser puxar o próprio verme (que pode chegar a quase um metro de
comprimento) pelos abscessos que ele faz na pele ou nos olhos do infectado.
Mas também sabiam o que poderia acontecer se não bebessem nada.
Jenn havia acabado de ler sobre dois amigos que se perderam em um
desfiladeiro no Novo México e tomaram tanto sol em um único dia sem
beber água que um bateu no outro até matar. Ela também tinha visto fotos de
exploradores que foram encontrados no Vale da Morte com as bocas sujas,
porque nos últimos instantes de vida tentaram desesperadamente extrair
algumas gotas da areia seca. Ela e Billy podiam ficar longe daquela lama e
morrer de sede ou tomar uns goles e correr o risco de morrer de outra coisa.
“Vamos segurar a onda”, disse Billy. “Se não acharmos o caminho em
uma hora, voltamos aqui.”
“Está bem. É por aqui?”, perguntou ela, apontando para o lado oposto a
Batopilas, rumo a uma amplidão que se estendia por seis quilômetros até o
mar de Cortez.
Billy hesitou. Os dois haviam passado por ali naquela manhã
apressados demais para prestar atenção no caminho, o que talvez não
importasse: tudo parecia exatamente igual. Conforme andavam, Jenn
lembrava como havia desprezado os apelos de sua mãe na noite anterior à
partida com Billy para El Paso. Sua mãe implorou: “Jenn, você não conhece
essas pessoas. Como sabe que vão dar conta se algo sair errado?”.
Burra, pensou Jenn. Minha mãe tinha razão.
“Quanto tempo passou?”, perguntou a Billy.
“Cerca de dez minutos.”
“Não consigo aguentar mais. Vamos voltar lá.”
“Está bem.”
Quando encontraram a poça de lama novamente, Jenn estava disposta a
se ajoelhar ali e começar a sorver aquilo, mas Billy a segurou. Ele abriu a
camada superior da lama, cobriu a boca da garrafa com a mão e a encheu
com o líquido que pegou no fundo da poça, desejando que a água que estava
mais embaixo tivesse menos bactérias. Passou a garrafa dele para Jenn e
repetiu a operação com a garrafa dela.
“Eu sempre soube que você ia acabar me matando”, disse Jenn. Os dois
fizeram um brinde com as garrafas de água suja e beberam o líquido,
tentando não vomitar.
Esvaziaram as garrafas, encheram novamente e começaram a caminhar
para o oeste, rumo à amplidão. Antes que andassem muito, perceberam que
sombras imensas pareciam se estender sobre o desfiladeiro.
“Temos de levar mais água”, disse Billy. Ele odiava a ideia de voltar
para trás, porém a única chance que tinham de sobreviver por uma noite era
voltar à poça e reforçar a provisão. Talvez, se enchessem três garrafas de
água, conseguiriam se hidratar o suficiente para escalar a montanha até pelo
menos o início da noite.
Eles se viraram para um lado, depois para outro e se viram num
labirinto.
“Billy”, disse Jenn, “estamos realmente enrascados.”
Billy não respondeu. A cabeça o estava matando, e ele não conseguia se
livrar de uma linha do poema “Howl”, que toda hora voltava à sua mente:
...Que desapareceu nos vulcões do México sem deixar nada, a não ser a sombra dos jeans e a
lava e a cinza da poesia...

Desaparecidos no México, pensou Billy. Sem deixar nada.


“Billy”, repetia Jenn. Eles já haviam se metido em enrascadas antes,
porém sempre achavam uma maneira de parar de ferir o coração um do outro
e agir como amigos. Ela tinha colocado Billy naquilo e se sentia pior ainda
pelo que estava prestes a acontecer a ele, mais do que a ela.
“Isso é de verdade, Billy”, disse Jenn. Lágrimas começaram a cair em
seu rosto. “Nós vamos morrer aqui. Vamos morrer hoje.”
“Cale a boca!”, gritou Billy, tão raivoso ao ver as lágrimas de Jenn que
reagiu de forma totalmente anormal. “Apenas cale a boca!”
A explosão jogou a dupla no silêncio. E, naquele silêncio, eles ouviram
um ruído: eram pedras batendo em algum lugar atrás deles.
“Ei!”, gritaram Jenn e Billy juntos. “Ei! Ei! Ei!”
Começaram a correr sem pensar para onde iam. Caballo tinha avisado
que, se houvesse um perigo maior do que se perder, era ser achado.
Jenn e Billy congelaram, tentando entrar nas sombras abaixo da borda
do cânion. Seriam os tarahumaras? Um caçador tarahumara era invisível,
havia dito Caballo – ele olhava à distância e, se não gostasse do que via,
desaparecia na floresta novamente. E se fossem os caras da droga? Não
importava: era preciso arriscar.
“Ei!”, gritaram. “Quem está aí?”
Ficaram ouvindo até sumir o último vestígio do eco. Mas aí uma
sombra apareceu da parede do desfiladeiro e seguiu na direção deles.

“Você ouviu isso?”, perguntou Eric.


Nós precisamos de duas horas para descer a montanha. Perdemos a
trilha e tivemos de voltar atrás, vasculhando a memória em busca de pistas
para achar o caminho certo antes de continuar.
Cabras selvagens haviam criado uma rede de trilhas e, com o sol caindo
atrás da abertura do desfiladeiro, ficava difícil saber a direção para a qual
íamos.
Finalmente, vimos uma vala seca lá embaixo, que eu achava que daria
no rio. Bem na hora também: minha água havia acabado meia hora antes e
minha boca já reclamava. Comecei a correr, mas Eric me chamou. “Vamos
ter certeza”, disse. Ele recuou um pouco para confirmar as nossas
impressões.
“Parece que está certo”, disse. Eric começou a descer, e foi nesse
momento que ouviu vozes vindas de algum lugar do desfiladeiro. Ele me
chamou e resolvemos seguir os ecos. Alguns momentos depois, encontramos
Jenn e Billy. Ainda havia lágrimas no rosto dela. Eric deu a água que tinha
para os dois e eu lhes passei as últimas barras de cereais que tinha.
“Vocês beberam isto?”, perguntei ao olhar para aquela lama imunda,
desejando que eles tivessem confundido aquela poça com alguma outra.
“Bebemos, sim”, respondeu Jenn. “Estávamos voltando para pegar um
pouco mais.”
Peguei a minha máquina fotográfica, caso um especialista em doenças
infecciosas quisesse ver exatamente o que eles haviam bebido. Por mais
louco que pudesse parecer, porém, aquela poça havia salvado a vida deles: se
Jenn e Billy não tivessem voltado para pegar um pouco mais de água bem
naquela hora, teriam entrado cada vez mais nas profundezas das terras de
ninguém, com os paredões do desfiladeiro se fechando atrás deles.
“Você acha que aguenta correr um pouco ainda?”, perguntei a Jenn.
“Acho que não estamos muito longe da cidadezinha.”
“Acho que sim”, disse ela.
Começamos num ritmo suave, mas, como a água e a comida haviam
reanimado aqueles dois, eles foram num ritmo que eu mal acompanhava.
Mais uma vez, fiquei pasmo com a capacidade de eles se recuperarem da
morte. Eric nos levou até a vala e depois identificou uma marca no cânion
que achou familiar. Fomos nos esforçando e, mesmo com a luz cada vez
mais escassa, dava para ver que a poeira à nossa frente tinha sido pisada por
pés humanos. Quase dois quilômetros e meio depois, saímos do desfiladeiro
para encontrar Scott e Luis esperando ansiosos por nós na entrada de
Batopilas.
Compramos quatro litros de água numa pequena venda e misturamos a
ela um punhado de pílulas de iodo. “Não sei se vai funcionar”, alertou Eric,
“mas talvez vocês consigam se livrar das bactérias que contraíram.” Jenn e
Billy sentaram na calçada e beberam tudo. Enquanto engoliam, Scott
explicou que ninguém notou que a dupla não vinha junto até saírem da
montanha. Naquele momento, todos estavam tão necessitados de hidratação
que voltar para procurar os dois seria colocar o grupo em risco. Caballo
tomou uma garrafa de água e voltou sozinho, mandando que os demais
permanecessem onde estavam – a última coisa que queria para os gringos era
que ficassem presos no desfiladeiro depois da chegada da noite.
Cerca de meia hora depois, Caballo apareceu em Batopilas, com o rosto
vermelho e molhado de suor. Ele tinha nos perdido na entrada do cânion e,
quando percebeu que a busca solitária não resolveria, voltou à cidade para
procurar ajuda. Olhou para Eric e para mim – cansados, mas ainda em pé – e
depois para os dois ultracorredores, exaustos e confusos ali no meio-fio. Eu
adivinhei seus pensamentos antes que ele abrisse a boca.
“Qual o seu segredo?”, perguntou a Eric, apontando para mim. “Como
você conseguiu colocar este cara na linha?”
Capítulo 27
Eu havia conhecido Eric um ano antes, logo depois de jogar fora meu tênis
de tanto desgosto. Estava ali, na beira de um riacho – havia me machucado
novamente e pela última vez, achava na época.
Assim que cheguei em casa de volta das Barrancas del Cobre, comecei
a colocar em prática o que havia aprendido com Caballo. Mal conseguia
esperar para amarrar os cadarços dos tênis no final da tarde e tentar reviver a
sensação que havia tido nas colinas de Creel, naquela manhã em que corri
com ele com tanta facilidade, leveza, suavidade e velocidade que não tinha
vontade de parar mais. Enquanto corria, passava mentalmente um “filme”
que mostrava Caballo em ação. Lembrava como ele parecia flutuar sobre as
colinas de Creel como se tivesse sido abduzido por alienígenas, conseguindo
manter em relaxamento todas as partes do corpo (exceto os cotovelos
ossudos), que se moviam em busca de energia como uma espécie de robô.
Graças a esse jeito elegante, quando corria, Caballo me fazia pensar em
Muhammad Ali no ringue: solto como uma alga marinha agitada pelo mar,
mas com uma dose de ferocidade pronta a explodir.
Depois de dois meses, eu conseguia percorrer até dez quilômetros por
dia, chegando a dezesseis nos finais de semana. Eu ainda não havia atingido
o estágio da suavidade, mas já conseguia navegar bem entre os campos da
facilidade e da leveza. Ainda ficava um pouco ansioso porque, por mais
animado que eu tentasse me manter, minhas pernas já começavam a se
rebelar – aquele pequeno arqueiro que morava no meu pé direito passava a
soltar faíscas, e as duas panturrilhas também se manifestavam de vez em
quando, dando a impressão de que os tendões de Aquiles tinham sido
substituídos por cordas de piano. Comecei a colecionar livros sobre
alongamento e a dedicar fervorosamente meia hora para relaxar os músculos
antes de cada corrida, porém a longa sombra da agulha de cortisona do
doutor Torg havia voltado a me assombrar.
No final da primavera, chegou a hora da verdade. Graças a um amigo
que trabalhava como guarda-florestal, aproveitei uma oportunidade que
parecia perfeita: uma viagem de três dias que incluía uma corrida de oitenta
quilômetros por River of No Return, em Idaho, uma área de 10 mil metros
quadrados da natureza mais intocada do território continental norte-
americano. A estrutura era perfeita: nossos equipamentos seriam levados por
mulas e tudo o que eu e os outros quatro corredores teríamos de fazer era
correr 24 quilômetros por dia de um acampamento a outro.
“Eu realmente não sabia nada sobre a floresta até vir a Idaho”, revelou
Jenni Blake quando nos conduzia por uma trilha sinuosa e cercada de
árvores. Ao vê-la percorrer o caminho com aquela vitalidade adolescente,
ficava difícil acreditar que ela já estava ali havia quase vinte anos. Aos 38,
exibia mechas de cabelo louro, lindos olhos azuis e pernas firmes e
musculosas iguais às de uma garota em férias. E o mais incrível era que
estava mais feliz agora do que quando era a tal garota em férias.
“Na faculdade, eu sofria de bulimia e tinha péssima autoestima, mas me
encontrei aqui”, contou. Ela tinha vindo à região para atuar como voluntária
durante um verão e, assim que chegou, ganhou uma serra de lenhador e
comida para duas semanas. Mostraram para qual parte ela deveria se dirigir e
começar a abrir as trilhas. Ela quase sumiu embaixo do peso da mochila,
porém guardou as dúvidas para si mesma e partiu sozinha para o meio das
árvores.
Quando amanhecia, ela calçava seu tênis... e mais nada. Em seguida,
saía para longas caminhadas pelo bosque, com o calor do sol aquecendo o
seu corpo nu. “Eu passava várias semanas aqui, totalmente sozinha”, explica
Jenni. “Ninguém podia me ver, e por isso eu saía por aí. É a sensação mais
incrível que se pode ter.” Ela não precisava de relógio nem de roteiro
determinado – adivinhava o horário pelo movimento do vento e seguia
andando pelas trilhas fechadas por árvores até que as pernas e os pulmões
implorassem para voltar ao acampamento.
Desde essa época, Jenni sempre pegou pesado, correndo vários
quilômetros até a região ficar coberta de neve. Talvez ela estivesse se
automedicando contra problemas profundos, mas talvez (parafraseando Bill
Clinton) não houvesse nada de tão errado com Jenni que os aspectos
positivos não compensassem.

Quando eu terminei o último trecho de meu trajeto, três dias depois, mal
conseguia andar. Fui mancando até o riacho e fiquei ali, fervendo de raiva e
tentando descobrir o que havia de errado comigo. Precisei de três dias para
correr o mesmo percurso da corrida de Caballo, e tudo o que consegui foi
uma lesão (ou talvez duas) no tendão de Aquiles e uma dor no calcanhar que
me fez pensar no mais temido flagelo que atinge os corredores: fascite
plantar.
Quando a terrível enfermidade crava os dentes no calcanhar de alguém,
o risco é conviver com ela para o resto da vida. Quem consulta qualquer
sistema de mensagens frequentado por corredo-res certamente encontra uma
enxurrada de gente implorando por uma cura – e uma quantidade semelhante
de soluções. Todo mundo sugere os mesmos remédios: uso de talas, meias
elásticas, tratamento com ultrassom, eletrochoque, cortisona ou aparelhos
ortóticos –, mas o fluxo de mensagens continua porque nenhuma “solução”
parece dar resultado de verdade.
Como Caballo conseguia encarar descidas mais extensas que o Grand
Canyon calçando sandálias velhas, enquanto eu não era capaz de passar
alguns meses sem um ferimento sério? Wilt Chamberlain, com 2,16 metros
de altura e 125 quilos, não teve problemas para enfrentar uma ultracorrida de
oitenta quilômetros quando já estava com sessenta anos, e isso depois que os
seus joelhos sobreviveram a uma existência inteira dentro das quadras de
basquete. E o marinheiro norueguês Mensen Ernst? Ele mal se lembrava de
como era caminhar em terra firme quando voltou a pisar nela em 1832, mas
conseguia correr tão bem que foi de Paris a Moscou correndo só para vencer
uma aposta. Fez uma média diária de 210 quilômetros durante duas semanas,
usando Deus sabe lá qual tipo de calçado e se deslocando sobre estradas que
só Deus para dizer como eram.
E Mensen estava apenas se divertindo um pouco antes de voltar para a
vida séria: em seguida, correu de Constantinopla até Calcutá, trotando 145
quilômetros por dia durante dois meses seguidos. Mas é claro que ele sentiu
os efeitos e teve de descansar três dias inteiros antes de começar a jornada
de 8.690 quilômetros de volta para casa. Como nunca sofreu de fascite
plantar? Ele não teria o problema nunca, porque suas pernas estavam em
excelente forma um ano depois, quando a disenteria o matou enquanto ele
tentava correr até chegar na nascente do rio Nilo.
Para todos os lugares que eu olhava, via estrelas das supercorridas
esbanjando talento. Em Maryland, a pouca distância de onde eu estava, uma
garota de treze anos chamada Mackenzie Riford participava feliz da corrida
jfk, com oitenta quilômetros de trajeto, ao lado de sua mãe (“Foi
divertido!”), enquanto Jack Kirk, que ficaria conhecido como o “demônio da
Dipsea”, ainda participava da terrível Dipsea Trail Race aos 96 anos. A
prova começa com uma escalada em uma encosta íngreme, o que significa
que um cara com a metade da idade dos eua tinha de encarar 671 degraus (o
equivalente à escadaria de uma construção de cinquenta andares) antes de
começar a correr na floresta. “Ninguém para de correr porque envelheceu”,
afirmou Jack Kirk. “Apenas envelhece porque parou de correr.”
Mas o que faltava para mim? Minha forma física estava pior do que
quando comecei a correr. Além de não ter condições de participar de uma
corrida com os tarahumaras, duvidava que meu pé tomado pela fascite
plantar conseguisse me levar até a linha de largada.

“Você é como todo mundo”, disse Eric. “Não sabe o que está fazendo.”
Algumas semanas depois de meu fracasso em Idaho, fui conversar com
Eric sobre uma matéria para uma revista. Ele era um treinador de esportes de
aventura que vivia em Jackson Hole, no Wyoming, e havia atuado como
diretor de fitness do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do
Colorado. Eric era especialista em estudar os movimentos essenciais dos
esportes de resistência e encontrar as habilidades passíveis de serem
transferidas para outras atividades. Ele havia estudado o alpinismo para
descobrir técnicas de ombro úteis aos praticantes de caiaque e levado a suave
propulsão do esqui na neve para o mountain biking. O que ele realmente
procurava eram os princípios básicos da engenharia: Eric tem certeza de que
o próximo grande avanço em fitness não virá do treinamento nem da
tecnologia, mas da técnica – o atleta que evitar as lesões deixará os
competidores para trás.
Eric havia lido minha matéria sobre Caballo Blanco e os tarahumaras e
queria saber mais. “O que os tarahumaras fazem é a pura arte do corpo”,
disse. “Ninguém mais em todo o planeta conseguiu tanto no que se refere à
autopropulsão.” Eric havia ficado fascinado com a tribo desde que um atleta
treinado por ele para Leadville havia voltado com incríveis histórias sobre os
índios voadores, que pareciam flutuar em uma atmosfera druídica usando
sandálias e capas. Eric vasculhou bibliotecas em busca de livros sobre a tribo
mexicana, porém tudo o que achou foram textos antropológicos escritos nos
anos 1950 e um relato amador de um casal que viajou pelo México com seu
motorhome. Havia uma incrível lacuna na literatura esportiva: a corrida de
longa distância é um dos esportes com mais adeptos no mundo, mas
ninguém havia escrito nada sobre os maiores corredores do planeta.
“Todo mundo acha que sabe correr, mas é algo com tantos detalhes
como qualquer outra atividade”, explicou Eric. “Pergunte a maioria das
pessoas e elas vão dizer: ‘As pessoas correm cada uma do seu jeito’. Isso é
ridículo. Cada um nada do seu jeito, por acaso?” Para cada esporte é preciso
aprender os fundamentos – ninguém levanta e sai dando tacadas com o taco
de golfe, nem se aventura montanha abaixo sobre esquis sem antes ouvir
instruções de como deve fazer isso ou aquilo. Sem conhecimento, não dá
certo e os acidentes são inevitáveis.
“Com a corrida é a mesma coisa”, continuou. “Aprenda errado e nunca
saberá o quanto poderia ter sido bom nas pistas.” Ele me perguntou detalhes
sobre a corrida que eu havia visto na escola dos tarahumaras. (“A bolinha de
madeira”, ele refletiu. “O jeito como eles aprendem a correr jogando a
bolinha – aquilo não podia ser por acaso.”) E me fez uma proposta: ele me
prepararia para a corrida com os tarahumaras e eu o apresentaria a Caballo.
“Se a corrida acontecer, temos de estar lá”, afirmou. “Será a maior
ultramaratona de todos os tempos.”
“Mas eu não acredito que fui feito para correr oitenta quilômetros”,
argumentei.
“Todo mundo foi feito para correr”, corrigiu.
“Sempre que encaro uns quilômetros, saio todo quebrado.”
“Não vai acontecer dessa vez.”
“Você acha que devo recorrer à fisioterapia?”
“Esqueça isso.”
Eu tinha muitas dúvidas, mas a total confiança de Eric começava a me
contagiar. “Então é melhor perder alguns quilos para facilitar as coisas para
as minhas pernas.”
“Sua alimentação vai mudar por conta própria. Espere e você vai ver.”
“E quanto à ioga? Isso ajuda, não é?”
“Nada de ioga. Todos os corredores que resolvem fazer ioga saem
machucados.”
Estava ficando cada vez melhor. “Você realmente acha que eu
consigo?”
“Ouça bem. Sua margem de erro é zero, mas você consegue, sim”,
assegurou. Eu teria de esquecer tudo o que sabia sobre corridas e começar do
começo.
“Prepare-se para viajar no tempo”, ele continuou. “Você vai voltar às
origens.”

Algumas semanas depois, Eric prendeu uma corda em minha cintura e


segurou firme. Daí gritou: “Vai!”. Eu me curvei sobre a corda, agitando as
pernas conforme o arrastava. Ele soltou a corda e eu caí. “Muito bem”, disse.
“Sempre que correr, lembre-se do que sentiu ao tentar correr com a corda.
Isso irá manter os seus pés embaixo do corpo, os quadris retos e os
calcanhares no lugar.”
Eric havia sugerido que eu começasse o meu “treinamento tribal” indo
à Virgínia para me tornar aprendiz de Ken Mierke, fisiologista e campeão
mundial de triatletismo que sofria de distrofia muscular e por isso era
forçado a extrair toda a economia possível do estilo de correr. “Eu sou uma
prova viva do senso de humor de Deus”, Ken gosta de contar. “Eu era um
menino obeso com pé torto, que tinha um pai que vivia para o esporte. E,
como um desajeitado acima do peso, era o mais lento em todas as corridas
de que participava. Aprendi a olhar para tudo e achar sempre um jeito
melhor.”
No basquete, como Ken não sobressaía na velocidade, treinou os
passes. Como ele não conseguia escapar de um zagueiro ou fugir de um
atacante, estudou os ângulos do corpo e as linhas de ataque e se tornou um
hábil armador. “Se eu não podia superá-los na velocidade, tinha de vencê-los
no pensamento”, conta. “Ou seja, descobrir o seu ponto fraco e fazer dele a
minha vantagem.”
Por causa do problema muscular na perna direita, quando começou no
triatletismo, Ken corria calçando um tênis pesado, feito com uma bota de
patins e uma mola. Ele perdia vantagem no que se referia ao peso em
comparação aos amputados que competiam na divisão de atletas com
problemas físicos. Assim, toda a energia que conseguia poupar serviria para
compensar a carga extra de quase três quilos que vinha do calçado – e que
fazia grande diferença.
Ken reuniu diversos vídeos que mostravam os corredores quenianos e
estudou as imagens quadro a quadro. Depois de horas de avaliação, ficou
impressionado com uma descoberta: os maiores maratonistas do mundo
corriam como crianças do jardim de infância. “Olhe como as crianças
pequenas correm. Elas pousam os pés embaixo do corpo e depois dão
impulso”, observa Ken. “Os quenianos fazem igual. O jeito como eles
correm descalços enquanto crescem é incrivelmente parecido com a forma
como correm hoje, e bem diferente do jeito de correr dos norte-americanos.”
Com papel e caneta, Ken voltou aos vídeos e dissecou todos os componentes
de uma passada queniana. Depois disso, saiu atrás de cobaias.
Felizmente, Ken já havia começado a fazer testes com triatletas como
parte de seus estudos de cinesiologia na Escola Politécnica de Virgínia –
assim, não faltaram objetos para o seu estudo. Os corredores poderiam
resistir diante da tentativa de alguém consertar as suas passadas, mas os
ironmen encaram qualquer coisa. “Os triatletas são pessoas que pensam à
frente”, explica Ken. “Por ser um esporte jovem, o triatletismo não se baseia
na tradição. Por volta de 1988, os triatletas começaram a usar guidão
aerodinâmico nas bicicletas e os ciclistas riram da ideia – até Greg Lemond
adotar a novidade e vencer a Volta da França por oito segundos.”
Os primeiros testes de Ken foram com Alan Melvin, um triatleta da
classe máster com mais de sessenta anos. Primeiro, Ken criou um padrão
depois de fazer Melvin correr quatrocentos metros sem parar. E instalou um
pequeno metrônomo elétrico na camisa do atleta.
“Para que serve isto?”
“Ajuste o aparelho para 180 batidas por minuto e corra de acordo com o
ritmo.”
“Para quê?”
“Os quenianos têm uma troca de pés super-rápida”, esclareceu Ken.
“Contrações rápidas e suaves das pernas são mais econômicas do que
movimentos largos.”
“Não entendi”, falou Alan. “É para dar um passo menor, é isso?”
“Me diga uma coisa: você já viu um desses caras descalços numa
corrida de dez quilômetros?”
“Já vi, sim. Eles correm como se estivessem pisando sobre carvão em
brasa.”
“E você já conseguiu ganhar deles?”
Alan pensou um pouco. “Boa pergunta.”
Depois de cinco meses de treino, Alan voltou para outra bateria de
testes. Ele correu quatro trechos de 1,6 quilômetro, e os resultados
melhoravam sempre. “Era um homem que já corria há quarenta anos e
estava no grupo de elite de sua idade”, ressaltou Ken. “Não era o
desenvolvimento que se vê em um iniciante. Como era um atleta de 62 anos,
esperava-se que o seu desempenho piorasse.”
Ken também cuidava do próprio desempenho. Ele tinha sido um
corredor tão fraco que, no melhor triatlo até então, saiu da prova de bicicleta
com uma vantagem de dez minutos, e ainda assim perdeu. Depois de um ano
da criação de sua nova técnica em 1977, Ken se tornou imbatível, vencendo
o campeonato de atletas com problemas físicos nos dois anos seguintes.
Quando se espalhou a notícia de que Ken havia achado um jeito de correr
que, além de mais veloz, também forçava menos as pernas, outros triatletas
começaram a procurá-lo. Ele chegou a preparar onze campeões nacionais e
montou uma equipe de mais de uma centena de atletas.
Convencido de que havia descoberto uma arte antiga, Ken deu a sua
descoberta o nome de “corrida evolucionária.” Por coincidência, ao mesmo
tempo surgiam dois outros métodos baseados na corrida descalço. A “corrida
chi”, inspirada no equilíbrio e no minimalismo do tai chi, começou a ganhar
adeptos em San Francisco, enquanto o doutor Nicholas Romanov,
fisiologista russo que vivia na Flórida, ensinava o método pose. O
surgimento de uma corrente minimalista não ocorreu por cópia ou por
contaminação. Em vez disso, parecia ser o testamento de uma necessidade
urgente de respostas para a epidemia de machucados decorrentes das
corridas e da pura lógica mecânica, como Barefoot Ted definiria – “da
bricolagem do pé descalço”, a elegância de uma cura baseada no “menos é
mais”.
No entanto, um sistema simples não é necessariamente fácil de ser
aprendido, como eu descobri quando Ken Mierke me filmou correndo.
Minha mente registrava tudo dentro das orientações de “fácil, leve e suave”,
porém o vídeo mostrou que eu corria como se fugisse de um furacão. Minha
identificação com o estilo de Caballo havia sido o meu erro, avisou Ken.
“Quando eu ensino esta técnica, pergunto como a pessoa se sente. Se
ela responde ‘Muito bem!’, eu digo ‘Droga!’. Isso significa que nada mudou.
A mudança tem de ser incômoda. É preciso haver um período no qual você
não é mais tão bom em fazer errado, mas ainda não está hábil em fazer do
jeito certo. Além de adaptar as suas habilidades, você altera os seus tecidos,
ativando músculos que passaram a maior parte de sua vida adormecidos.”
Eric tinha um sistema à prova de erros para ensinar o mesmo estilo.
“Imagine que o seu filho sai correndo na rua e você precisa alcançá-lo
correndo descalço”, disse Eric quando fui treinar com ele depois de um
estágio com Ken. “Você automaticamente irá adotar a forma perfeita: apoiar
na parte da frente, com as costas retas, a cabeça firme, os cotovelos no lugar
e os pés tocando o chão rapidamente na parte dianteira, depois voltando para
trás no sentido das nádegas.”
Para registrar essa passada suave na memória de meu músculo, Eric
começou a programar treinos com várias repetições em colinas. “Não é
possível subir colinas com velocidade se a biomecânica estiver errada”,
garantiu. “Simplesmente não funciona. Se você tentar pousar sobre o
calcanhar com a perna reta, irá se inclinar para trás.”
Eric também me deu um controlador de batimentos cardíacos para que
eu pudesse corrigir o segundo erro mais comum entre os corredores: o ritmo.
A maioria de nós tem a mesma deficiência de informação tanto sobre
velocidade como sobre a forma. “Quase todos os corredores fazem o ritmo
lento acelerado demais, e o que devia ser rápido, lento demais”, acredita Ken
Mierke. “Assim, estão treinando o corpo para queimar energia, a última
coisa que um corredor de distâncias quer. Você tem gordura armazenada
sufi-ciente para correr até a Califórnia. Por isso, quanto mais você ensinar o
seu corpo a consumir gordura em vez de energia, mais o seu limitado
estoque de açúcar irá durar.”
O modo de ativar o mecanismo de queima de gordura é mantendo o
corpo abaixo de seu limite aeróbico (momento em que se torna difícil
respirar) durante as corridas de resistência. Respeitar esse limite era bem
mais fácil antes do surgimento dos tênis com amortecimento e das estradas
asfaltadas: tente encarar uma trilha acidentada com sandálias nos pés –
rapidinho o seu impulso de sair em disparada vai sumir. Quando os pés não
contam com uma proteção artificial, você é obrigado a variar o ritmo e a
controlar a velocidade, porque, se começar a exagerar, a dor irá lembrá-lo de
seu limite.
Fiquei tentado a ir até uma loja e trocar o meu tênis por um par de
sandálias, porém Eric me alertou que eu me candidataria a uma fratura por
estresse se começasse a correr sem proteção depois de manter o meu pé
imobilizado durante quatro décadas. Como a minha prioridade era me
preparar para os oitenta quilômetros na montanha, não tinha tempo para
fortalecer os pés aos poucos antes de começar a treinar pesado. Eu precisaria
de alguma proteção. Então tentei alguns modelos mais duros antes de
recorrer a um clássico, que comprei no eBay: um par de tênis fora de linha, o
Nike Pegasus[2] de 2000, que dava uma sensação de sola plana similar à
proporcionada pelo antigo Cortez.
Na segunda semana, Eric me mandava correr por duas horas seguidas,
com a única recomendação de me concentrar na forma, e manter o ritmo
suave o bastante para respirar com a boca fechada. (Cinquenta anos antes,
Arthur Lydiard também deu sua dica para controlar o ritmo cardíaco e de
corrida: “Apenas corra na velocidade em que consegue conversar”.) Na
quarta semana, Eric me orientava: “Quanto mais rápido você correr com
conforto, menos energia irá demandar. A velocidade significa menos tempo
sobre os pés”. Cerca de dois meses seguindo o seu programa de treinamento
e eu já corria mais quilômetros por semana (a um ritmo bem mais rápido) do
que em toda a minha vida.

Foi quando eu decidi trapacear. Eric havia prometido que a minha


alimentação se autorregularia assim que a quilometragem começasse a subir,
porém eu desconfiava demais disso para esperar para ver. Tenho um amigo
ciclista que joga fora as garrafas de água quando precisa subir uma colina –
se trezentos gramas o atrapalhavam, imagine o que o peso de um “pneu
reserva” faria comigo? Mas, se eu quisesse regrar minha alimentação alguns
meses antes da corrida de oitenta quilômetros, teria de ser ao estilo
tarahumara: era preciso ganhar força sem acumular gordura.
Fui atrás de Tony Ramirez, um horticultor de Laredo, cidade na
fronteira com o México, que tinha visitado a região dos índios durante trinta
anos e estava cultivando o milho plantado pelos tarahumaras e produzia seu
próprio pinole. “Sou fã de pinole, adoro isso!”, disse Tony. “É uma proteína
incompleta, mas, combinada com feijão, fica mais nutritiva do que um filé.
Eles costumam misturar com água e beber, porém eu gosto mais de consumir
seco. Parece pipoca picada.”
“Você entende de fenóis?”, perguntou-me Tony. “São substâncias
químicas naturais que combatem doenças. Basicamente, for-talecem o
sistema imunológico.” Quando os pequisadores da Universidade de Cornell
compararam trigo, aveia, milho e arroz para ver qual grão tinha maiores
teores de fenol, o milho ganhou de longe. Como é um alimento integral e
com pouca gordura, o pinole ajuda a reduzir os riscos de diabetes e de uma
série de cânceres no aparelho digestivo – na verdade, todo tipo de câncer. De
acordo com o doutor Robert Weinberg, professor de pesquisa do câncer do
Instituto de Tecnologia de Massachusetts (mit) e responsável pela descoberta
do primeiro gene supressor de tumores, uma em sete mortes por câncer
decorre do excesso de gordura no corpo. A fórmula é simples: reduza a
gordura e suas chances de ter essa doença irão cair também.
O milagre dos tarahumaras não é nenhum mistério, portanto. “Mude seu
estilo de vida e os riscos de ter câncer cairão em 70%”, afirma o doutor
Weinberg. O especialista lembra que os cânceres de cólon, de próstata e de
mama eram quase desconhecidos no Japão, até que os japoneses começaram
a comer como se fossem norte-americanos. Em poucas décadas, a taxa de
mortalidade decorrente dessas três doenças explodiu. Em 2003, quando a
Sociedade Norte-Americana do Câncer comparou indivíduos magros e
gordos, os resultados foram mais chocantes do que o esperado: homens e
mulheres acima do peso tinham bem mais chances de morrer vítimas de pelo
menos dez tipos diferentes de câncer.
O primeiro passo para se proteger da doença seguindo o estilo dos
tarahumaras é bastante simples: comer menos. O segundo é igualmente
simples no papel, porém mais difícil de colocar na prática: comer melhor. O
doutor Weinberg explica que, além de fazermos mais exercícios, a base de
nossa dieta deve ser o consumo de frutas e verduras, em vez de carne
vermelha e alimentos processados. A comprovação mais contundente vem
da observação de como as células cancerosas lutam pela sobrevivência:
quando se extrai um tumor cancerígeno por meio de cirurgia, há 300% mais
riscos de que ele volte a surgir em pacientes com alimentação tradicional do
que entre quem se alimenta basicamente de frutas e vegetais, de acordo com
um estudo de 2007 da The Journal of the American Medical Association. E
por quê? Porque as células que restaram depois da cirurgia parecem receber
estímulos das proteínas animais. Elimine essa comida de sua dieta e talvez
esses tumores jamais reapareçam. Coma como uma pessoa pobre, orientava
o treinador Joe Vigil, e irá dar de cara com o seu médico apenas no campo
de golfe.
“É fácil encontrar tudo o que os tarahumaras comem”, assegurou Tony.
“É basicamente feijão-rajado, pimenta do tipo chili, verduras, pinole e muita
chia. E o pinole é mais fácil de achar do que você pensa.” O site
Nativeseeds.org vende o preparo pronto pela internet, mas também envia as
sementes para quem quiser cultivar o próprio milho e improvisar o pinole
caseiro num moedor de café. A proteína não é problema: de acordo com um
estudo de 1979 publicado no The American Journal of Clinical Nutrition, a
tradicional dieta dos tarahumaras excede o consumo diário recomendado
pela Organização das Nações Unidas (onu) em mais de 50%. No que se
refere ao cálcio para o fortalecimento dos ossos, tudo se resolve com a
técnica de moagem do milho usado no preparo das tortilhas e do pinole: as
mulheres usam pedra calcária.
“E a cerveja?”, perguntei. “Existe algum benefício em beber como os
tarahumaras?”
“Sim e não”, respondeu Tony. “Como o tesgüino é pouco fermentado,
ele apresenta baixo teor de álcool e bastantes nutrientes.” Assim, a cerveja
dos tarahumaras é um alimento rico (algo como uma batida de grãos
integrais), enquanto a que nós consumimos tem água adoçada. Eu poderia
tentar fazer em casa a minha própria cerveja de milho, porém Tony deu uma
ideia melhor: “Plante gerânios selvagens ou compre a essência pela
internet”. O Geranium niveum é uma substância incrível: de acordo com o
Journal of Agricultural and Food Chemistry, ele tem as mesmas
propriedades que o vinho tinto para neutralizar as doenças causadas pelos
radicais livres. Como um autor escreveu, essa planta “é um ‘antitudo’: anti-
inflamatório, antiviral, antibacteriano, antioxidante”.
Fiz um estoque de pinole e chia e cheguei a encomendar algumas
sementes do milho dos tarahumaras para plantar no quintal: cocopah, mayo
amarelo e milho para pinole. No entanto, eu sabia que seria apenas uma
questão de tempo até eu me fartar de comer sementes e voltar a consumir
hambúrgueres duplos novamente. Ainda bem que conversei com a doutora
Ruth Heidrich antes.
“Você já tentou comer salada no café da manhã?”, perguntou a médica.
A doutora Ruth é uma triatleta que participou seis vezes do Ironman e, de
acordo com a revista Living Fit, está entre as mulheres mais em forma dos
Estados Unidos. Ela me contou que só se tornou uma atleta e Ph.D. em
educação para a saúde depois que recebeu o diagnóstico de que tinha câncer
de mama, 24 anos atrás. Sabe-se que a prática de exercícios reduz o risco de
ressurgimento do câncer em 50% e, por isso, ainda com as cicatrizes no
peito decorrentes da mastectomia, a doutora Ruth começou a treinar para o
primeiro triatlo. Também pesquisou dietas de culturas em que a doença não
existe e se convenceu de que precisava abandonar imediatamente a
alimentação típica norte-americana para adotar uma dieta mais similar à dos
tarahumaras.
“Eu estava com uma arma apontada para a minha cabeça”, lembra a
doutora Ruth. “Fiquei tão apavorada que teria negociado com o diabo. Na
comparação, deixar de comer carne parecia bem menos grave.” Ela adotou
uma regra simples: se o alimento tivesse origem vegetal, ela comeria; se
viesse de animais, nem pensar. A especialista tinha bem mais a perder do
que eu se a escolha estivesse errada, mas quase imediatamente sentiu suas
forças voltarem.
Sua resistência cresceu tanto que, dentro de um ano, ela pas-sou das
maratonas de dez quilômetros para a competição conhecida como Ironman.
“Até a minha taxa de colesterol caiu de 230 para 160 em 21 dias”,
acrescenta. Com um programa de alimentação baseado na dieta dos índios
mexicanos, o almoço e o jantar se resumiam a frutas, feijões, inhame, grãos
integrais e verduras. No café da manhã, apenas salada.
“Se você começa o dia ingerindo folhas verdes, perde bastante peso”,
ela explicou. Como a salada é rica em nutrientes e tem pouca gordura, a
pessoa se sente alimentada e sem fome (nem enjoada) na hora de gastar a
energia. Além disso, as verduras são ricas em água, o que ajuda na
reidratação depois de uma noite de sono. E qual a melhor maneira de
consumir as cinco verduras que devem ser comidas por dia senão ingerindo-
as de uma só vez?
Na manhã seguinte, resolvi mudar tudo. Vasculhei a cozinha com uma
tigela na mão, na qual joguei a maçã que minha filha mordeu e resolveu
parar de comer, alguns feijões que estavam ali há alguns dias, um punhado
de folhas de espinafre cru e um pouco de brócolis, grosseiramente fatiado, na
esperança de fazê-lo parecer com o repolho da típica receita da salada
coleslaw. A doutora Ruth enriquece suas saladas com melado orgânico, mas
achei que já havia açúcar e gordura o bastante e preferi sofisticar e temperar
a minha com um molho à base de sementes de papoula.
Depois de duas garfadas, eu estava convertido. Descobri que comer
salada no café da manhã é uma combinação excelente, assim como
panquecas com geleia. Além de bem mais refrescante do que waffles
congelados, havia a enorme vantagem de que eu poderia comer até me
empanturrar e sair para me exercitar logo em seguida.

“Os tarahumaras não são grandes corredores”, disse Eric quando começamos
o nosso segundo mês de treinamentos. “Eles são gran-des atletas, o que é
bem diferente.” Os corredores são como operários de uma linha de
produção: especializam-se em uma tarefa – como correr a uma velocidade
constante – e repetem a operação até que o uso excessivo desgaste o
equipamento. Os atletas são como Tarzan: ele nada, luta, salta e percorre a
selva pendurado em cipós. É forte e cheio de energia. Ninguém sabe o que
Tarzan vai fazer em seguida, e é por isso que ele nunca se machuca.
“O corpo humano precisa de choques para ganhar resiliência”, explicou
Eric. Siga a mesma rotina todos os dia e seu sistema músculo-esquelético
rapidamente irá descobrir como se adaptar, entrando numa espécie de piloto
automático. Mas, se você o surpreender com novos desafios, como saltar
sobre um riacho, rastejar no chão ou correr até os pulmões quase
explodirem, diversos nervos e músculos terão de entrar em ação.
No caso dos tarahumaras, a vida cotidiana é assim. Eles pisam no
desconhecido cada vez que saem das cavernas, porque nunca sabem qual
velocidade terão de atingir para capturar um coelho, quanto peso terão de
carregar para levar lenha para casa, qual a dificuldade de escalar pedras
embaixo de uma tempestade de inverno. O primeiro desafio que encaram
quando crianças é sobreviver morando à beira do abismo: sua primeira e
duradoura diversão é o jogo com bola, que nada mais é do que um exercício
de incertezas. Não dá para jogar uma bola de madeira sobre um terreno
rochoso se você não souber parar, pular, correr e saltar obstáculos.
Antes de correr por longas distâncias, os tarahumaras ganham força. E
Eric me avisou que, se eu quisesse uma vida saudável, era melhor imitá-los.
Assim, em vez de alongar o corpo antes de uma corrida, eu tinha de fazer a
minha parte, o que incluía flexões e exercícios de cócoras. Dia sim, dia não,
Eric me orientava durante meia hora de atividades voltadas para o
fortalecimento, quase todas usando uma bola destinada a melhorar o meu
equilíbrio e ativar os músculos inativos. Quando eu terminava, era hora de ir
para as colinas. “Não há como enfrentar uma colina sem se esforçar”,
defendia o treinador. As subidas eram um exercício de choque e espanto, o
que me obrigava a concentrar na forma e a acertar a “embreagem” como um
ciclista na Volta da França. “As colinas são treinos de velocidade
disfarçados”, costumava dizer Frank Shorter.

Isso tudo aconteceu no ano em que a minha cidade na Pensilvânia foi


surpreendida por uma onda de temperaturas amenas no Natal. No dia de ano-
novo, vesti um short e um blusão térmico e saí para uma corrida de oito
quilômetros, como um corredor diletante em um dia de descanso. Percorri os
bosques por meia hora, entrei num campo de feno e segui na direção de casa.
O sol morno e o aroma da grama aquecida por ele eram tão deliciosos que
continuei em ritmo lento, percorrendo os últimos oitocentos metros ao ritmo
de minha capacidade.
Quando estava a poucos metros de casa, parei, tirei o agasalho térmico
e dei meia-volta para um último trajeto pelo campo. Terminei aquele e
comecei outro, agora arrancando também a camiseta. Na quarta volta, meias
e tênis também estavam jogados na pilha de acessórios, e meus pés pisavam
a grama seca e a terra morna. Na sexta volta, meus dedos dançavam na
cintura, mas decidi manter o calção em consideração à minha vizinha de 82
anos. Finalmente recuperei aquele gosto que sentira no dia em que corri com
Caballo – aquela sensação de facilidade, leveza, suavidade e velocidade, que
me permitiria continuar depois que o sol se fosse e voltar a encontrá-lo na
manhã seguinte.
Como para Caballo, o segredo dos tarahumaras havia começado a fazer
sentido para mim antes que eu o compreendesse. Como eu comia alimentos
mais leves e não havia mais me machucado, conseguia correr mais e, por
isso, dormia muito bem, sentia-me relaxado e via o meu ritmo cardíaco cair.
Até a minha personalidade mudou: a rabugice e o gênio forte, que eu
considerava parte do meu dna ítalo-irlandês, melhoraram tanto que a minha
esposa comentou: “Se você ficou assim por causa das corridas, vou ajudá-lo
a amarrar os cadarços do tênis”. Eu sabia que exercícios aeróbicos tinham
um forte poder antidepressivo, porém não havia percebido como poderiam
ajudar a estabilizar o humor e (odeio usar a palavra) propiciar a meditação.
Se você não chegar a uma resposta para os seus problemas depois de uma
corrida de quatro horas, é porque o seu problema não tem solução.
Continuei esperando que todos os fantasmas do passado voltassem a me
assombrar – tendão de Aquiles desesperado, tendões gritando, fascite plantar
aos berros. Comecei a levar meu celular nas corridas de maior distância,
certo de que, mais dia menos dia, eu acabaria mancando na beira de alguma
estrada. Sempre que eu sentia uma pontada, fazia uma autoavaliação.
Puxão nas costas? Ok.
Joelhos curvados e puxando para a frente? Ok.
Calcanhar “pesado”?... Sim, é esse o problema. Então bastava que eu
fizesse o ajuste para os eventuais problemas diminuírem e sumirem. Quando
Eric começou a me mandar correr cinco horas no último mês antes da
corrida, os fantasmas e o telefone celular estavam esquecidos.
Pela primeira vez na minha vida, eu queria enfrentar uma corrida com
animação, e não com medo. Como Barefoot Ted tinha definido mesmo?
“Como um peixe voltando para a água.” Era isso. Eu me sentia como se
tivesse nascido para correr.
E, segundo três cientistas bastante especiais, eu tinha mesmo.
Capítulo 28
Vinte anos antes, num minúsculo laboratório instalado num sub-solo, um
jovem cientista dissecou um animal e viu o seu próprio destino diante dos
olhos.
Naquela época, David Carrier era estudante na Universidade de Utah.
Ele estava analisando o corpo de um coelho, tentando descobrir para que
serviam as formações ósseas perto do traseiro. Aquelas formações o
intrigavam porque não eram para estar ali. David era o aluno mais brilhante
das aulas de biologia evolucionária do professor Dennis Bramble e sabia
exatamente o que deveria encontrar ao abrir o abdome de um mamífero. E
aqueles grandes músculos no diafragma? Eles tinham de se apoiar em algo
forte, por isso se ligam à vértebra lombar, da mesma forma como se amarra
uma vela e um mastro. É assim com todos os mamíferos – das baleias ao
fascólomo –, mas, aparentemente, não para aquele coelho. Em vez de se
fixarem em algo firme, os músculos da barriga do animal estavam ligados
àquelas partes que pareciam asas de galinha.
David apertou uma das formações: ela se comprimia como uma mola e
depois voltava ao normal. Mas por que, no mundo dos mamíferos, um
coelho precisaria de um abdome provido de molas?
“Aquilo me fez pensar no modo como eles correm, como curvam as
costas a cada passada”, explicou-me mais tarde Carrier.
“Quando eles empurram o corpo com as patas traseiras, esticam as
costas e, assim que pousam sobre as patas dianteiras, as costas se curvam.
Vários mamíferos movem o corpo de forma semelhante”, ponderou. Até as
baleias e os golfinhos movimentam a cauda para cima e para baixo,
enquanto um tubarão se move lateralmente. “Um exemplo clássico é o
movimento do guepardo”, explicou David.
Bom, muito bom. David estava chegando em algo. Grandes felinos e
pequenos coelhos correm da mesma maneira, porém os coelhos contam com
uma “mola” embutida no diafragma e os felinos não. Um é rápido, o outro
precisa ser ainda mais rápido, pelo menos por uns instantes. E por quê?
Explicação simples: se as suçuaranas conseguissem capturar todos os
coelhos, não haveria mais presas e, por consequência, seria o fim das
suçuaranas. Mas os coelhos tinham um problema de nascimento: ao
contrário de outros animais que correm bem, não contam com uma “arma
reserva”
– não foram equipados com chifres, galhos ou cascos bons para dar
patadas e nem sequer andam protegidos pelo bando. Para os coelhos, é tudo
ou nada: ou conseguem garantir a própria segurança ou viram o almoço do
felino.
Ok, David achou que talvez aquelas molas tivessem algo a ver com
velocidade. O que faz alguém ser rápido? Começou a destrinchar os
componentes. É preciso contar com um corpo aerodinâmico, reflexos
perfeitos, quadris fortes, boa irrigação, fibra muscular de rápida recuperação.
Além de pés pequenos e hábeis, tendões elásticos e capazes de transmitir a
energia, músculos fininhos perto das patas e gordinhos perto das
articulações...
Droga. David não precisou de muito tempo para compreender que não
ia chegar em lugar nenhum. Diversos fatores contribuem para a velocidade e
vários deles estão presentes tanto nos coelhos como em seus predadores. Em
vez de descobrir as diferenças, ele estava encontrando as semelhanças. Por
isso, decidiu recorrer a um truque que o doutor Bramble havia ensinado:
quando não conseguir responder uma questão, inverta a equação. Esqueça o
que faz algo correr rápido e pense no que causa a perda de velocidade.
Afinal, não importava a velocidade que um coelho conseguisse atingir, mas
quão rápido ele pode continuar correndo até encontrar um buraco para se
proteger.
Havia ficado simples: além de uma corda prendendo a sua perna, a
maneira mais fácil de parar um animal que está correndo é retirando a sua
oxigenação. A falta de ar leva à queda de velocidade
– tente sair correndo enquanto segura a respiração e veja o que
acontece. Os músculos precisam de oxigênio para queimar calorias e
transformá-las em energia. Por isso, quanto melhor for a troca de gases
(entra oxigênio, sai dióxido de carbono), maior o tempo de manutenção de
uma velocidade elevada. É por essa razão que os ciclistas que participam da
Volta da França às vezes são pegos com sangue de outras pessoas nas veias:
essas transfusões ilícitas garantem um aporte adicional de glóbulos
vermelhos, o que resulta em oxigenação adicional aos músculos.
Espere um pouco... Isso significa que, para um coelho conseguir se
manter à frente da boca faminta que o persegue, ele precisa de mais ar do
que o mamífero que vem atrás dele. David conseguiu vislumbrar uma
máquina voadora vitoriana, uma daquelas malucas mas possíveis
engenhocas equipadas com pistão e válvulas de vapor, além de uma
infinidade de alavancas. Alavancas! Aquelas molas começavam a fazer
sentido. Tinham de ser alavancas que turbinavam os pulmões do coelho,
puxando o ar para dentro e para fora como aqueles acessórios usados para
estimular o fogo da lareira.
David checou os dados para ver se sua teoria fazia sentido e... bingo!
Ali estava a sua teoria, com a elegância e o equilíbrio de uma fábula de
Esopo: coelhos conseguem chegar a uma velocidade de 72 quilômetros por
hora, mas, graças à energia adicional necessária para operar as alavancas
(entre outras coisas), só conseguem manter essa velocidade por oitocentos
metros. Pumas, coiotes e raposas correm por mais tempo, porém a uma
velocidade máxima menor. A mola faz o equilíbrio do jogo, porque dá ao
indefeso coelho exatamente 45 segundos para viver ou morrer. Procure
abrigo logo e conseguirá viver mais, pequena lebre, ou aposte na corrida à
distância e morra em menos de um minuto.
“E se tirarmos as alavancas? Não é o mesmo mecanismo para todos os
outros mamíferos?”, especulou o cientista. Talvez por isso
o diafragma fique preso à vértebra lombar – não porque é rígida e
imóvel, mas porque tem flexibilidade e se curva!
“Parecia óbvio: quando um animal saía correndo e esticava as costas,
não era apenas para obter propulsão, mas para conseguir respirar”, contou
David. Ele visualizou um antílope correndo para salvar a vida no meio de
uma savana seca e, atrás dele, um enorme borrão. Olhou com atenção para a
mancha, congelou a imagem e analisou em câmera lenta:
Clique – conforme o guepardo se alonga para dar uma passada, a caixa
torácica vai para trás, puxando o ar para dentro dos pulmões e...
Clique – agora as patas dianteiras voltam para trás até quase tocar as
patas traseiras. A coluna do guepardo se curva, apertando a cavidade
pulmonar e forçando os pulmões a soltar o ar e...
E aí você tem a resposta – outra engenhoca vitoriana, embora com um
pouco menos de capacidade turbo.
O coração de David batia acelerado. Ar! Nossos corpos dependem da
obtenção de ar! Invertendo a equação, como o doutor Bramble havia
ensinado, ele chegou ao resultado: a busca do ar pode ter determinado a
configuração de nossos corpos.
Meu Deus, era tão simples – e tão desconcertante! Porque, se David
estivesse certo, tinha acabado de solucionar o maior mistério da evolução da
humanidade. Ninguém nunca havia suspeitado por que os antigos humanos
se diferenciaram de todos os outros seres ao se levantar do chão e ficar em
pé: eles queriam respirar! Tudo para abrir a garganta, encher o peito e sorver
o ar com mais facilidade do que qualquer outra criatura do planeta.
Mas isso era só o começo. Porque David percebeu que, quanto melhor
você respira, melhor você...

“Correr? Você está dizendo que os humanos evoluíram para correr?”


O doutor Dennis Bramble ouviu com interesse enquanto David Carrier
apresentava a sua teoria. Ajustou a mira e preparou
o tiro. Tentou ser gentil, afinal David era um aluno brilhante e com
ideias realmente criativas. No entanto, o professor suspeitava que, desta vez,
ele havia sido atacado pelo erro mais comum entre os cientistas: a “síndrome
do martelo à mão” – com um martelo na mão, tudo parece prego.
O doutor Bramble pouco sabia sobre as atividades que David exercia
fora da sala de aula, mas tinha conhecimento de que, nas tardes ensolaradas
de primavera, aquele aluno gostava de sair do laboratório e ir treinar corrida
em trilha nas montanhas Wasatch, que se erguiam ao fundo do campus da
Universidade de Utah. Como o professor também corria, ele entendia o
interesse pelo assunto, porém era preciso tomar cuidado com coisas desse
tipo: o maior risco ocupacional de um biólogo, depois de se apaixonar por
sua pesquisadora assistente, era cair de amores por seus hobbies. Você vira o
seu próprio objeto de testes, começa a ver o mundo como um reflexo de sua
vida e sua vida como uma referência para qualquer outro fenômeno no
planeta.
“David”, começou o doutor Bramble. “As espécies evoluíram de acordo
com o que tinham como ponto forte, e não com base nos pontos fracos. E,
como corredores, os humanos não são fracos – são péssimos.” Nem é preciso
recorrer ao campo da biologia – basta olhar para os carros e as motos.
Quatro rodas permitem andar com mais velocidade do que duas, porque,
quando o motorista se ergue, ele compromete o equilíbrio, a estabilidade e a
aerodinâmica. Agora transfira isso para o mundo dos animais. Um tigre
mede quase três metros e tem uma forma que lembra a de um míssil. É o
maior corredor da selva, enquanto os humanos precisam se virar com pernas
finas, passadas limitadas e nenhuma resistência ao vento.
“Ah, entendi”, disse David. Desde que deixamos de ser quadrúpedes,
tudo se perdeu. Perdemos a nossa velocidade original e a força da parte
superior do corpo.
Bom garoto, pensou Bramble. Aprende rápido.
Mas David não estava convencido. “Então por que perderíamos a força
e a velocidade ao mesmo tempo?”, continuou David. Ficaríamos
incapacitados para correr, lutar, escalar e se esconder entre os galhos das
árvores. Teríamos desaparecido da face da Terra – a não ser que houvesse
uma compensação muito boa. Certo?
O doutor Bramble teve de admitir que essa era uma maneira bem mais
inteligente de abordar a questão. Os guepardos são velozes mas também
frágeis: precisam caçar durante o dia para evitar os predadores noturnos,
como leões e panteras, abandonam suas presas e correm em busca de abrigo
quando surgem pequenos assassinos, como uma hiena. Já os gorilas são
fortes o bastante a ponto de erguer uma caminhonete, porém, com a
velocidade de locomoção desses animais (cerca de 48 quilômetros por hora),
a mesma caminhonete os alcançaria sem precisar sair da primeira marcha. E
somente depois vêm os humanos, que são um pouco guepardo, um pouco
gorilas – somos lentos e fracos.
“Então por que iríamos evoluir para dar origem a uma criatura mais
fraca em vez de uma mais forte?”, insistiu David. “Isso foi bem antes de
aprendermos a confeccionar armas. Qual era a vantagem genética,
portanto?”
O doutor Bramble visualizou o cenário. Ele imaginou uma tribo de
hominídeos primitivos, todos agachados, rápidos e fortes, que mantinham a
cabeça baixa por questão de segurança conforme se deslocavam escondidos
entre as árvores. Um dia, surgiu um indivíduo lento, magro e encurvado,
pouco maior do que uma mulher, bastante sujeito a ser alvo de tigres porque
caminhava em lugares abertos. Ele era fraco demais para lutar, lento demais
para escapar correndo, sem graça demais para atrair uma parceira e garantir
descendentes. Toda a lógica leva a crer que esse sujeito estava marcado para
ser extinto
– mas, por algum motivo, ele se tornou o ancestral de toda a
humanidade, enquanto os seus irmãos mais fortes e capazes desapareceram
sem deixar sinal.
Esse relato hipotético é uma descrição fiel da teoria do homem de
Neandertal. A maioria das pessoas pensa que os neandertais eram os nossos
ancestrais, porém eles constituíam uma espécie (uma subespécie, segundo
alguns) paralela, que competia com o Homo sapiens pela sobrevivência.
“Competir” é uma forma suave de colocar as coisas, já que eles sempre
levavam a melhor. Eram mais fortes, mais resistentes e, provavelmente, mais
ágeis. Tinham músculos mais compactos, ossos mais duros, capacidade
maior de suportar o frio e, pelo que sugerem os registros fósseis, cérebro
maior. Os neandertais eram caçadores talentosos e bons na criação de armas,
e talvez tenham desenvolvido uma linguagem antes de nós. Na corrida pela
conquista do mundo, saíram na frente: quando o primeiro Homo sapiens
surgiu na Europa, os neandertais já estavam estabelecidos ali com certo
conforto havia quase 200 mil anos. Se você tivesse de escolher entre os
neandertais e “nós do passado” numa aposta para saber quem ganharia a
parada, certamente apostaria nos primeiros.
E onde eles foram parar?
Cerca de 10 mil anos depois da chegada do Homo sapiens na Europa,
os neandertais desapareceram. Ninguém sabe o que aconteceu. A única
explicação é que algum misterioso fator X favoreceu a nossa espécie
(formada por criaturas mais fracas, mais magras e menos hábeis) sobre os
reis da cocada preta da Idade do Gelo. Não foi o uso de armas, não foi a
força, não foi a inteligência.
Poderia ter sido a capacidade de correr?, perguntou-se o doutor
Bramble. Será que é isso o que David está sugerindo?
Havia apenas uma forma de conferir: pesquisando os ossos.
“No início, eu fiquei bastante cético com a teoria de David, pelo mesmo
motivo que a maioria dos morfologistas ficaria”, conta a doutor Bramble.
Em poucas palavras, a morfologia é a ciência que funciona de forma oposta
à engenharia: observa como um corpo é formado e tenta descobrir como
deve trabalhar. Os morfologistas sabem o que observar em uma máquina de
movimento rápido, e sob nenhum aspecto o corpo humano bate com as
hipóteses. Basta olhar para as nossas nádegas para descobrir. “Em toda a
história dos vertebrados sobre a Terra – toda a história –, os humanos são os
únicos bípedes corredores que não têm cauda”, lembrou Bramble. A corrida
é como uma queda controlada, então como direcionar o movimento e evitar
cair de cara no chão sem contar com um acessório de equilíbrio, como a
cauda dos cangurus?
“Foi isso o que me levou, como outros, a abandonar a ideia de que os
humanos evoluíram como animais corredores”, disse Bramble. “E eu teria
mantido o meu ceticismo se não tivesse estudado paleontologia.”
O conhecimento do professor Bramble sobre fósseis permitiu observar
como o “projeto” humano se modificou ao longo de milênios e compará-lo
com o “projeto” de outras criaturas. Logo achou dados que não
combinavam. “Em vez de estudar do jeito convencional, como a maioria dos
morfologistas, e separar as coisas que eu esperava encontrar, comecei me
concentrando nas anormalidades”, revelou o pesquisador. “Em outras
palavras: o que estava ali que não deveria estar?” Ele dividiu o mundo
animal em dois grupos: animais que correm e animais que andam. No
primeiro grupo estavam cavalos e cães; no segundo, porcos e chimpanzés.
Se os seres humanos haviam sido projetados para caminhar a maior parte do
tempo e correr apenas nas emergências, nossa estrutura mecânica deveria se
assemelhar à apresentada pelos animais que caminhavam.
Os chimpanzés eram um ótimo ponto de partida. Além de um exemplo
clássico de animal que caminha, são o nosso parente vivo mais próximo –
depois de mais de 6 milhões de anos de evolução separada, ainda
partilhamos 95% da sequência do nosso dna com esses “primos”. Mas o
doutor Bramble ressalta que não temos em comum o tendão de Aquiles, que
liga a panturrilha ao calcanhar: os humanos exibem essa “peça”, os
chimpanzés não. Os pés também são bem diferentes: humanos têm pés com
curva, chimpanzés têm pés chatos. Nossos dedos dos pés são curtos e retos,
o que favorece a corrida; os dos chimpanzés são longos e abertos, ideais para
caminhar. Sem falar nas nádegas: nós temos glúteos fofos, os chimpanzés
não têm nada. Em seguida, o especialista se concentrou na pouca conhecida
membrana fibrosa que fica atrás da cabeça e é chamada ligamento nucal.
Ausente em chimpanzés e porcos, mas presente na anatomia de cães, cavalos
e... humanos.
A coisa era de espantar. O ligamento nucal é útil apenas para dar
estabilidade à cabeça quando um animal se move com velocidade – quando
caminha, não precisa dele. Nádegas grandes são necessárias para corridas.
(Faça um teste: contraia os glúteos e ande um pouco. A região permanece
macia, e só enrijece se você começar a correr. A função das nádegas é
impedir que o impulso da parte superior do corpo o leve de cara no chão.)
Da mesma manei-ra, o tendão de Aquiles não tem nenhuma utilidade para
caminhar e, por isso, não está presente na estrutura dos chimpanzés. Não
estava nem na composição do Australopithecus, nosso ancestral semissímio
que viveu há mais de 4 milhões de anos. Sinais do tendão de Aquiles
começaram a surgir há 2 milhões de anos com o Homo erectus.
Doutor Bramble passou a dedicar mais atenção aos crânios e levou um
susto. Santo Deus! Algo acontece por aqui!, pensou. A parte posterior do
crânio do Australopithecus era plana, mas, quando ele estudou o Homo
erectus, encontrou um sulco que parecia ideal para acomodar o ligamento
nucal. Uma cronologia confusa, porém inegável, começava a tomar forma:
ao mudar ao longo do tempo, o corpo humano adotou as características
essenciais de um animal corredor.
Bramble julgou aquilo estranho e se perguntou: “Como adquirimos
esses acessórios de corrida e outros animais que caminham não fizeram o
mesmo?”. Para um animal que anda mais do que corre, o tendão de Aquiles
seria apenas um perigo. Deslocar-se sobre duas pernas é como andar sobre
pernas de pau: é preciso apoiar o pé, transferir o peso do corpo para a perna
e repetir a operação. A última coisa que você poderia desejar seria a
presença de tendões flexíveis bem em sua base de apoio. E tudo o que esse
tendão faz é justamente esticar como um elástico...
Um elástico! O doutor Bramble sentiu um misto de orgulho e de
constrangimento. Elásticos... Ali estava ele, batendo no peito por não ser
como os demais morfologistas, que “iam riscando as coisas que esperavam
ver”. Desde o início, o estudioso tinha se deixado confundir pela miopia –
nem sequer tinha pensado no fator “elástico”. Quando David começou a
falar sobre corrida, o especialista pensou em velocidade. Mas existem dois
tipos de grandes corredores: os velocistas e os maratonistas. Talvez a corrida
humana estivesse mais para grandes distâncias do que para altas velocidades.
Isso explicaria a razão de nossos pés e nossas pernas serem tão densos e
contarem com tendões flexíveis – porque tendões flexíveis armazenam e
devolvem energia, como os elásticos nos aviões de madeira. Quanto mais
você torce o elástico, mais longe vai o avião. Da mesma forma, quanto mais
você consegue alongar os tendões, mais energia recebe quando a perna se
estende e dobra para trás.
“E se eu tivesse de projetar uma máquina de corrida para grandes
distâncias, seria exatamente isso o que eu colocaria nela – vários elásticos
para otimizar a resistência”, concluiu o doutor Bramble. Na realidade, correr
consiste em saltar, passando de um pé para o outro. Os tendões não são
importantes para andar, mas ótimos para os saltos, que exigem energia. Por
isso, esqueça a velocidade: talvez tenhamos nascido para ser os maiores
maratonistas do mundo.
“Você deve se perguntar por que apenas uma espécie no mundo tem
necessidade de juntar vários integrantes para correr 42 quilômetros sob o
calor para se divertir”, avaliou o especialista. “Isso fica por conta da
diversão.”
Juntos, o doutor Bramble e David Carrier começaram a testar a sua
teoria sobre o maior maratonista do mundo. Logo as comprovações surgiram
de todas as partes, mesmo de lugares para onde não estavam olhando. Uma
de suas primeiras grandes descobertas ocorreu por acaso, quando David
levou um cavalo a um passeio. “Queríamos filmar um cavalo em movimento
para observar como ele coordenava a respiração”, disse o professor.
“Precisávamos de alguém para manter o ritmo, por isso David correu junto
com o animal.” Ao ver o filme, algo parecia estranho, mas Bramble não
conseguia identificar o que era. Foi preciso voltar a imagem várias vezes
antes de concluir: embora o aluno e o cavalo corressem na mesma
velocidade, as pernas de David se moviam mais vagarosamente.
“Era impressionante”, explicou o doutor Bramble. “Embora o cavalo
tivesse patas compridas – e quatro delas –, David tinha um passo mais
longo.” David estava em ótima forma para um cientista, porém, com altura
média, peso médio e condicionamento médio, podia-se dizer que ele estava
na média. Restava uma explicação: por mais estranho que fosse, um humano
médio tem um passo maior que o de um cavalo. O cavalo parecia forçar os
enormes pulmões para a frente, porém os cascos se voltavam para trás antes
de tocar
o chão. Resultado: embora biomecanicamente corredores humanos
tenham passos curtos, ainda assim cobrem mais distâncias por passo que um
cavalo, o que significa maior eficiência. Em outras palavras, com a mesma
quantidade de gasolina no tanque, um humano pode, teoricamente, correr
uma distância maior que um cavalo.
Mas por que se ater à teoria se é possível ver na prática? Nos meses de
outubro, algumas dezenas de corredores e de jóqueis enfrentam a
competição Man Against Horse Race [algo como “corrida de homens contra
cavalos”], realizada em Prescott, no Arizona. Em 1999, um corredor local
chamado Paul Bonnet passou na frente dos cavalos que lideravam a
competição ao subir a íngreme en-costa da montanha Mingus e não viu mais
sinal deles até cruzar a linha de chegada. No ano seguinte, Dennis Poolheco
começou uma marca incrível: derrotou homens, mulheres e quadrúpedes por
seis anos seguidos, até Paul Bonnet recuperar o título em 2006. Só depois de
oito anos, um equino finalmente conseguiu chegar na frente dessa dupla de
corredores.
Descobertas como essa, porém, eram pequenas alegrias adicionais para
os cientistas de Utah enquanto eles se aproximavam de sua grande façanha.
Conforme David havia suspeitado no dia em que observou o cadáver do
coelho e viu a história da vida diante dele, a evolução parecia reduzida a
uma questão de ar: quanto mais evoluída a espécie, melhor o seu carburador.
Vejamos o caso dos répteis: David colocou lagartos para andar na esteira e
averiguou que eles nem sequer conseguem correr e respirar ao mesmo
tempo. O melhor que podem fazer é se mover com rapidez antes de parar e
ofegar.
Já o doutor Bramble estava trabalhando em outra camada evolucionária
com os felinos. Ele descobriu que, no momento em que vários quadrúpedes
correm, os órgãos internos se movimentam para lá e para cá como água
dentro da banheira. Cada vez que as patas dianteiras de um guepardo
atingem o chão, os intestinos se aproximam dos pulmões, forçando a saída
do ar. Quando o animal se prepara para o próximo passo, as partes internas
se voltam para trás, puxando o ar para dentro. O acréscimo de intensidade
aos pulmões, porém, tem um custo: o guepardo respira uma vez só a cada
passo.
Doutor Bramble ficou surpreso ao descobrir que todos os mamíferos
corredores estão restritos ao mesmo ciclo de “um passo, uma respiração”.
Em todo o mundo animal, ele e David só encontraram uma exceção: você.
“Quando os quadrúpedes correm, ficam limitados a um ciclo de uma
respiração por movimento”, explicou o professor. “Mas os humanos que
testamos nunca repetiam esse padrão. Eles podiam escolher várias
possibilidades e, em geral, preferiam a proporção de dois para um.” O
motivo por que temos liberdade para ofegar de acordo com a nossa vontade
é a mesma que nos faz ansiar por uma ducha numa tarde de verão: somos os
únicos mamíferos que nos livramos do calor sobretudo pelo suor. Todas as
criaturas cobertas de pelos se resfriam por meio da respiração, que centraliza
todo o sistema de regulação de calor nos pulmões. Mas os humanos, com
milhões de glândulas sudoríparas, contam com o melhor sistema de
refrigeração que a natureza já desenvolveu.
“Essa é a vantagem de ser um animal que sua e não tem pelos”,
esclarece David Carrier. “Enquanto suamos, podemos seguir em frente.”
Uma equipe de cientistas de Harvard identificou exatamente o ponto
medindo a temperatura retal de um guepardo que corria numa esteira.
Quando a temperatura atingia quarenta graus, o animal parava e se recusava
a correr. Trata-se da reação natural de todos os mamíferos: quando o calor do
corpo é maior do que conseguem liberar pela boca, precisam parar para não
morrer.
Fantástico! Pernas “com molas”, torsos firmes, glândulas sudoríparas,
pele desprovida de pelos, corpos verticais que retêm menos
o calor do sol – não é de espantar que sejamos os maiores maratonistas
do mundo. Mas e daí? A seleção natural envolve duas coisas – comer e não
virar alimento –, e conseguir correr 32 quilômetros não serve de nada se um
antílope desaparecer nos primeiros vinte segundos e um tigre conseguir nos
capturar em dez. Qual é a qualidade da resistência num campo de batalha
que depende da velocidade?

Essa era a questão que intrigava o doutor Bramble no início da década de


1990, quando ele tirou um período sabático e encontrou o doutor Dan
Lieberman numa visita a Harvard. Na época, Lieberman trabalhava na outra
ponta da “olimpíada animal”: ele havia colocado um porco numa esteira e
tentava descobrir por que esse animal era um corredor tão ruim.
“Repare na cabeça dele”, apontou Bramble. “Ela vira para todo lado. Os
porcos não têm ligamento nucal.”
As orelhas de Lieberman ficaram em pé. Como antropólogo
evolucionário, ele sabia que nada no corpo humano havia mudado tanto
quanto a forma do crânio, e nenhuma outra parte da anatomia revela mais
sobre quem somos. Até a panqueca do café da manhã tem sua importância:
as pesquisas de Lieberman revelaram que, conforme nossa dieta mudou ao
longo dos séculos, passando de uma alimentação baseada em raízes cruas e
carne de caça para pratos cozidos, como espaguete e carne moída, o rosto
humano começou a encolher. A cara de Benjamin Franklin era maior do que
a sua, e a de César provavelmente era maior ainda.
Os cientistas de Utah e de Harvard encontraram afinidades desde o
início, sobretudo por causa da opinião de Lieberman: ele simplesmente não
fez cara de espanto quando Bramble apresentou a teoria do Homem
Corredor. “Ninguém na comunidade científica levava a sério”, disse
Bramble. “Para cada atribuição do ato de correr, havia 4 mil para o ato de
caminhar. Quando eu levava o tema para conferências, todo mundo
ressaltava: ‘É, mas nós somos lentos’. Eles viam apenas a velocidade e não
conseguiam entender como a resistência poderia funcionar como uma
vantagem.”
Bem, para ser honesto, nem Bramble havia assimilado isso muito bem.
Na condição de biólogos, ele e David Carrier conseguiam decifrar o
“projeto” de um organismo vivo, mas precisavam de um antropólogo para
determinar qual era a finalidade daquele projeto. “Eu entendia bastante de
evolução e um pouco de locomoção”, conta Lieberman. “E Bramble
entendia horrores de locomoção, mas bem menos de evolução.”
Conforme trocavam histórias e ideias, Bramble podia contar com
Lieberman como uma espécie de parceiro de laboratório. Lieberman era um
cientista que acreditava que, para “colocar as mãos na massa”, era preciso
estar preparado para afundá-las no sangue. Como parte de sua aula sobre a
evolução humana, durante anos Lieberman havia organizado um “churrasco
ao estilo Cro-Magnon” em uma área de Harvard. Para demonstrar a
necessidade de manusear ferramentas primitivas, ele estimulava os alunos a
abater uma cabra usando apenas pedras pontudas, depois assava a carne em
um buraco. Quando o cheiro do churrasco se espalhava e a animação pós-
abate começava a crescer, a tarefa virava uma festa. “No fim, era a maior
farra”, contou o professor para a Harvard University Gazette.
No entanto, havia um motivo ainda mais importante para fazer de
Lieberman o sujeito certo para encarar o mistério do Homem Corredor: a
solução parecia estar relacionada com a especialidade dele – a cabeça
humana. Todos sabiam que, em algum momento da história, os humanos
primitivos tiveram acesso a um grande aporte de proteína, o que permitiu
que o cérebro crescesse como uma esponja dentro de um balde. Nosso
cérebro continuou aumentando até ficar cerca de sete vezes maior que o
cérebro de qualquer outro mamífero. Nossos ancestrais também consumiram
uma boa dose de calorias: embora o cérebro represente apenas 2% do peso
do corpo, ele exige 20% da energia total (no caso dos chimpanzés, o cérebro
demanda apenas 9%).
Doutor Lieberman se dedicou à pesquisa sobre o Homem Corredor com
o afinco criativo habitual. Em pouco tempo, os alunos que apareciam na sala
do professor, instalada no último andar do Peabody Museum, em Harvard,
ficavam espantados ao encontrar um cara de um braço só, molhado de suor,
correndo numa esteira com um pote de cream cheese vazio amarrado na
cabeça. “Nós, humanos, somos esquisitos”, explicava Lieberman enquanto
ajustava os botões de controle da esteira. “Nenhuma outra criatura tem um
pescoço parecido com o humano.” Ele parava para fazer uma pergunta para
o sujeito na esteira: “Qual a sua velocidade máxima, Willie?”.
“Consigo correr mais rápido do que esta coisa!”, respondeu Willie, com
a mão mecânica (a esquerda) tinindo contra a esteira. Willie Stewart perdeu
o braço aos dezoito anos depois de um acidente com um vagonete na
construção em que trabalhava, mas se recuperou a ponto de se tornar jogador
de rúgbi e triatleta campeão. Além do pote de cream cheese, que servia para
apoiar um giroscópio, Willie tinha eletrodos espalhados pelo peito e nas
pernas. Doutor Lieberman havia recrutado esse rapaz para testar a sua teoria
de que a cabeça humana, com uma posição única bem apoiada sobre o
pescoço, funciona como um “peso de teto”, como os que são instalados no
alto de edifícios para evitar que o vento faça estragos. O pesquisador
acreditava que as nossas cabeças não cresceram apenas porque melhoramos
na corrida: começamos a correr melhor porque as nossas cabeças cresceram
e garantiram mais estabilidade.
“Junto com os braços, a cabeça funciona para impedir que você gire ou
se incline ao dar um passo”, explica Lieberman. Os braços também
funcionam como um contrapeso para manter a cabeça alinhada. “Foi assim
que os bípedes solucionaram o problema de como manter a estabilidade da
cabeça, já que o pescoço é móvel. Trata-se de outra característica da
evolução humana que só faz sentido se pensarmos nas corridas.”
Mas o maior mistério continuava sendo a comida. Levando em conta o
incrível crescimento de nossas cabeças, Lieberman conseguiu determinar o
exato momento em que o cardápio do homem das cavernas mudou: 2
milhões de anos atrás, quando o Australopithecus (que tinha cérebro
minúsculo, mandíbulas enormes e dieta parecida com a de uma cabra,
baseada em plantas duras e fibrosas) evoluiu e se transformou no Homo
erectus, nosso ancestral magro e de pernas alongadas, que exibia uma cabeça
grande e os dentes menores e bem adaptados ao consumo de frutas e de
carne crua. Somente uma coisa poderia ter deflagrado uma transformação
tão grande: uma dieta que nenhum primata havia consumido até então, que
incluía uma considerável quantidade de carne, com alta concentração de
calorias, gorduras e proteínas.
“Mas onde eles arranjavam carne?”, perguntava Lieberman, com o
vigor de um sujeito que não se incomoda em abrir uma cabra com pedras
afiadas. “O arco e a flecha surgiram há 20 mil anos, as lanças há 200 mil
anos. E o Homo erectus existe há 2 milhões de anos. Isso quer dizer que,
durante a maior parte de nossa existência – por quase 2 milhões de anos! –,
os hominídeos conseguiam carne usando apenas as mãos.”
Lieberman começou a combinar as possibilidades: “Talvez
aproveitassem os restos deixados por outro predador. Quem sabe ficavam
esperando e roubavam um pouco enquanto o leão dormia”.
Não. Isso nos daria um apetite para a carne, porém não um acesso
confiável. E eles teriam de chegar no lugar de abate antes dos abutres, que
conseguem destrinchar um antílope em minutos e “mastigar os ossos como
se fossem balinhas”, como Lieberman gosta de comparar. Ainda assim,
talvez só conseguissem garantir algumas mordidas antes que o leão abrisse
os olhos raivosos ou um bando de hienas os expulsasse dali.
“Tudo bem, talvez não tivéssemos lanças. Mas talvez eles montassem
num javali e o sufocassem. Ou, então, o matassem a pauladas.”
Você deve estar brincando. Para essa tarefa, o nosso ancestral sairia
com os pés moídos, os testículos arruinados e as costelas quebradas. Talvez
ele ganhasse a parada, mas a um preço altíssimo: quebrar o tornozelo nas
imensidões pré-históricas durante uma caçada para conseguir o jantar seria o
mesmo que virar o jantar de alguém.
Não há como saber quanto tempo Lieberman levaria para decifrar o
mistério se o seu cachorro não aparecesse com a resposta. Uma tarde de
verão, o estudioso levou Vashti, mestiço de border collie, para uma corrida
de oito quilômetros pela lagoa Fresh Pond. Fazia calor e, depois de alguns
quilômetros, Vashti se acomodou embaixo de uma árvore e se recusou a sair
dali. Lieberman perdeu a paciência – era verdade que fazia calor, mas não
era tanto assim...
Enquanto esperava que o cão se recuperasse, Lieberman lembrou-se do
tempo em que fizera pesquisas com fósseis na África.
Recordou-se das ondas vibrantes do sol que atingiam a ensolarada
savana, a forma como o barro seco absorvia o calor e o transmitia para as
solas das botas. Os relatos de etnógrafos que ele havia lido alguns anos antes
também vieram à sua mente: os especialistas falavam de caçadores africanos
que iam atrás de antílopes pela savana e de índios tarahumaras que
perseguiam uma presa até que “ela caísse morta no chão”. Lieberman
sempre havia encarado esses relatos como uma espécie de lenda, fábulas de
uma era dourada de heróis bravos que nunca tinham existido. Entretanto, ele
começava a se perguntar...
“Quanto tempo seria preciso correr para conseguir levar um animal à
morte?”, era a sua grande dúvida. Felizmente, os laboratórios de biologia de
Harvard contam com a melhor máquina de pesquisa do mundo (como ficou
claro com a determinação deles de inserir um termômetro no reto de um
guepardo) e, por isso, todos os dados de que Lieberman precisava estavam
bem ao seu alcance.
Quando voltou ao escritório, começou a organizar os números. Um
corredor que estiver em média forma percorrerá de três a quatro metros por
segundo, ritmo aproximado de um cervo. Mas eis a diferença: quando um
cervo quiser acelerar para quatro metros por segundo, precisará entrar num
galope que exigirá respiração mais profunda – enquanto o humano
conseguirá ir mais rápido e permanecerá na mesma faixa de respiração.
Um cervo tem mais velocidade na largada, porém nós somos mais rápidos ao
longo da corrida. Assim, quando Bambi está no limite de sua capacidade
respiratória, nós mal sentimos dificuldade para respirar.
Lieberman continuou o seu estudo e fez uma comparação ainda mais
significativa: a velocidade máxima de galope para a maioria dos cavalos é
7,7 metros por segundo. Eles conseguem manter esse ritmo por cerca de dez
minutos, depois precisam reduzir para 5,8 metros por segundo. Já um
maratonista de elite conse-gue correr durante horas fazendo seis metros por
segundo. O cava-lo explode assim que é dada a largada, como descobriu
Dennis Poolheco na competição Man Against Horse Race, porém, com
paciência e alguma distância, é possível reduzir a diferença.
O pesquisador constatou que nem é preciso ir rápido: basta manter o
animal à vista e, em dez minutos, o humano começa a alcançá-lo
naturalmente.
Lieberman começou a calcular temperaturas, velocidades e pesos. Logo
estava tudo ali na frente dele: a solução para o mistério do Homem Corredor.
Para perseguir um antílope até a morte, era só forçá-lo a correr velozmente
num dia quente. “Se você se mantiver a uma distância moderada apenas para
que ele o veja, o bicho continuará correndo. Depois de dez ou quinze
quilômetros de corrida, ele entrará em hipertermia e não conseguirá se
recuperar.” Tradução: se conseguir correr dez quilômetros em um dia de
calor, você, caro amigo, será uma arma letal no mundo animal. Você se livra
do calor enquanto corre, mas os animais não são capazes de ofegar enquanto
galopam.
“Corremos sob condições que nenhum outro animal suporta”, concluiu
Lieberman. “E nem sempre são condições muito ruins. Se um professor de
meia-idade é capaz de se sair melhor que o seu cão em um dia quente,
imagine o que um grupo de caçadores motivados pode fazer com um
antílope superaquecido.”
É fácil imaginar o desprezo estampado na cara dos mestres do universo na
época, os neandertais, quando observavam aqueles novos Homens
Corredores perseguindo pequenos cervos ou correndo um dia inteiro sob o
sol quente, para voltar com apenas uma porção de tubérculos. O Homem
Corredor podia até obter boas quantidades de carne, mas não poderia correr
com a barriga cheia do alimento – por isso, na maior parte do tempo,
consumiam raízes e frutas, ricas em carboidratos, e guardavam a preciosa
carne de antílope para ocasiões especiais, porque as calorias eram
abundantes. Todo mundo participava da caçada – homens, mulheres,
crianças e avós corredores –, mas, apesar do trabalho em equipe, era mais
provável que o cardápio do jantar fosse alguma raiz em vez de um bom bife.
Que horror! Os neandertais não eram do tipo que vasculhavam a terra e
mastigavam raízes: comiam carne e apenas carne, e nada de pequenos cervos
sem graça. Eles queriam comida de verdade: ursos, bisões e alces,
temperados com bastante gordura; rinocerontes e seus fígados ricos em
ferro; mamutes com cérebros oleosos e ossos regados a tutano de dar água
na boca. Agora, tente caçar presas desse porte e é provável que você se torne
o prato principal. Para conseguir tal feito, era preciso ser mais esperto ou
mais hábil na luta. Os neandertais encurralavam a presa em emboscadas e
começavam um ataque feroz, uma tempestade de lanças de madeira com
quase três metros de comprimento. Esse tipo de caçada não era para seres
frágeis: os neandertais eram conhecidos por sofrer o tipo de machucado que
se vê no mundo dos rodeios, como fraturas no pescoço ou na cabeça
decorrentes do arremesso pelos ares feito por algum animal furioso. De toda
forma, eles podiam contar com os companheiros de bando para cuidar dos
machucados e enterrar os seus corpos.
Ao contrário de nossos verdadeiros ancestrais, os ágeis Homens
Corredores, os neandertais eram os poderosos caçadores que costumamos
achar que já fomos no passado. Ficavam lado a lado nas batalhas, um front
coeso de cérebro e bravura, espertos guerreiros cobertos de músculos, porém
refinados o bastante para cozinhar a carne dentro de fornos feitos de terra, a
fim de amaciá-la, e sensíveis o suficiente para manter mulheres e crianças
longe dos perigos.
Os neandertais dominaram o mundo – até que começou a ficar bom lá
fora. Cerca de 45 mil anos atrás, terminou o período conhecido como Longo
Inverno e começou a época de calor. As florestas encolheram, deixando
áreas extensas de planícies até o horizonte. Esse novo clima era ótimo para o
Homem Corredor: os bandos de antílopes eram numerosos e havia
tubérculos comestíveis por toda a savana.
Para os neandertais, as notícias não eram tão boas: as longas lanças e as
emboscadas em desfiladeiros não tinham utilidade contra animais de
pradaria, e as grandes presas, cardápio preferido dos neandertais, haviam
optado por recuar e se embrenhar na floresta. Mas por que eles simplesmente
não copiaram a estratégia de caça dos Homens Corredores? Eram espertos e
fortes o suficiente, porém esse era o problema: tinham força excessiva.
Quando as temperaturas passaram dos 32 graus, os quilinhos a mais fizeram
grande diferença – tanto que, numa maratona, para manter o equilíbrio da
temperatura, um corredor de 72,5 quilos teria uma desvantagem de quase
cinco minutos por quilômetro na comparação com um concorrente que pesa
45 quilos. Numa perseguição de duas horas a uma presa, os Homens
Corredores deixariam os neandertais mais de quinze quilômetros para trás.
Sufocados em seus músculos, os neandertais preferiram seguir os
mastodontes e entrar na floresta – e no esquecimento. O mundo novo havia
sido configurado para corredores, e nisso eles não eram bons.

Confidencialmente, David Carrier sabia que a teoria do Homem Corredor


tinha uma terrível falha. O segredo persistiu até que ele quase virasse um
assassino.
“Eu estava ficando obcecado”, admitiu quando eu o entrevistei em seu
laboratório na Universidade de Utah, 25 anos e três títulos acadêmicos
depois daquela inspiração diante de uma mesa de dissecação, em 1982. Ele
agora era o doutor David Carrier, Ph.D., professor de biologia, com fios
grisalhos no bigode e óculos sem aros cobrindo os intensos olhos castanhos.
“Seria capaz de morrer apenas para conseguir algo e poder dizer: ‘Viu só?
Eu não disse?!’”
Esse era o problema: perseguir um animal até a morte é a versão da
evolução de um crime perfeito. A caça persistente (como os antropólogos
chamam) não deixa para trás nenhum sinal (nada de pontas de flechas nem
de outras armas). E como se investiga um caso em que um assassinato ocorre
sem produzir um cadáver, sem ter uma arma ou aparecer uma testemunha?
Apesar do brilhantismo psicológico do doutor Bramble e do conhecimento
do doutor Lieberman em fósseis, não havia como provar que as nossas
pernas já funcionaram como armas letais sem mostrar que alguém, em algum
lugar, realmente havia perseguido um animal até a morte. As pessoas podem
defender qualquer teoria sobre desempenho humano (“Somos capazes de
interromper os nossos batimentos cardíacos! Conseguimos entortar uma
colher apenas com a força da mente!”), mas, no final, uma teoria só se
transforma em fato crível se as comprovações forem inequívocas.
“O aspecto frustrante era que encontrávamos sustentação em todos os
lugares”, conta David. Jogue um dardo num mapa e terá grandes chances de
acertar um lugar onde já houve caça persistente. As tribos dos goshutes e dos
papagos, nativos da América do Norte, conhecem a prática, assim como os
bosquímanos do Kalahari, em Botsuana, os aborígenes australianos, os
guerreiros masai, do Quênia, os seris e os tarahumaras, do México. O
problema estava no fato de que esses relatos não vinham em primeira mão:
as provas eram mais ou menos equivalentes à certeza de que o famoso heroí
militar Davy Crockett fez as próprias roupas aos três anos de idade.
“Não conseguimos encontrar ninguém que tivesse participado de uma
caça persistente”, lamentou David. “Nem sequer alguém que tivesse visto.”
Não era de espantar o fato de a comunidade científica se manter cética em
relação a tudo aquilo. Se a teoria do Homem Corredor estivesse certa, tinha
de haver neste planeta, em meio a 6 bilhões de pessoas, pelo menos uma
capaz de capturar uma presa correndo. Podemos ter perdido a tradição e a
necessidade de correr, mas ainda teríamos a habilidade natural: nosso dna
não mudou ao longo de séculos e é 99% idêntico em todo o mundo, o que
significa que ainda temos alguns registros do antigo caçador coletor. E como
nenhum de nós consegue capturar um simples cervo?
“Por isso, decidi tentar eu mesmo”, disse David. “Na época de
estudante, participava de corridas nas montanhas e me divertia muito.
Quando queríamos estudar por que os humanos respiram de outra forma
enquanto correm, observávamos como isso nos afetaria como espécie. A
ideia me pareceu menos absurda do que soaria a alguém que nunca houvesse
saído do laboratório.”
Nem lhe pareceu estranho que, se não conseguisse encontar um homem
das cavernas, ele se tornaria um. No verão de 1984, David convenceu seu
irmão, Scott, um escritor free-lancer e repórter da National Public Radio, a
ir ao Wyoming para ajudá-lo a capturar um antílope selvagem. Scott não era
muito adepto de corridas, mas David estava em ótima forma e bastante
motivado pela possibilidade da imortalidade científica. O estudioso
imaginou que, entre ele e seu irmão, levaria apenas duas horas antes que
uma prova de 360 quilos caísse a seus pés.
“Seguimos pela estrada principal e depois por uma de terra durante uns
quilômetros até uma área desértica, ampla, aberta e totalmente seca, cercada
por montanhas. Ali havia antílopes por toda parte.” Foi assim que Scott
narrou o cenário para os ouvites do programa This American Life,
transmitido pela rádio em que trabalhava. “Paramos o carro e começamos a
correr atrás de três deles – um macho e duas fêmeas. Eles corriam rápido,
mas por distâncias curtas. Então paravam e ficavam nos olhando até nos
movermos. Partiam novamente. Algumas vezes, corriam quatro quilômetros;
outras, até oito.”
Perfeito! Tudo como David havia planejado. Os antílopes não teriam
tempo suficiente para se refrescar, e a dupla já estaria em seu encalço
novamente. Na cabeça do estudioso, bastariam mais alguns quilômetros e
eles voltariam para Salt Lake com a presa no carro e um vídeo definitivo
para mostrar ao doutor Bramble. Mas não era essa a impressão de Scott.
“Os três antílopes olhavam para mim como se soubessem o que
estávamos pensando, embora nem um pouco preocupados”, continuou Scott.
Não demorou para que ele descobrisse o motivo da calma dos bichos diante
do que deveria ser um anúncio de morte. Em vez de correrem até cair
exaustos, os antílopes usavam um recurso de bando: quando se sentiam
recuperados, davam voltas e entravam no grupo, de forma que David e Scott
não sabiam quais animais estavam cansados e quais estavam recuperados.
“Eles se misturavam e mudavam de posição”, contou Scott. “Não eram
indivíduos, mas uma massa que se movia pelo deserto como uma piscina de
mercúrio numa mesa de vidro.”
Durante mais dois dias, os irmãos caçaram bolas de mercúrio nas
planícies do Wyoming, sem perceber que estavam no meio de um imenso
erro. A falha de David era a prova indesejada de sua teoria: a corrida
humana é diferente da corrida de qualquer outro bicho. Não se pode capturar
um animal imitando a sua forma de agir, e também não adianta fazer a
aproximação bruta de corrida animal que mantivemos nos esportes. David e
Scott estavam confiando nos instintos, na força e na perseverança, e não se
deram conta de que a corrida humana de longa distância, no melhor ponto de
sua evolução, envolve bem mais que isso: é uma mistura de estratégia e de
habilidade aperfeiçoadas ao longo de milhões de anos que constitui uma
série de decisões do tipo “matar ou morrer”. E, como em qualquer outra arte,
a corrida humana de longa distância exige uma conexão de cérebro e de
corpo que nenhuma outra criatura consegue desenvolver.
Mas se trata de uma arte perdida, como Scott Carrier passaria a década
seguinte para descobrir. Algo estranho aconteceu naquelas planícies do
Wyoming: o fascínio da arte perdida invadiu o sangue de Scott e não o
abandonou mais. Apesar da falta de sucesso da expedição, ele passou anos
pesquisando a caça persistente em apoio ao irmão. Chegou a criar uma
organização sem fins lucrativos destinada a encontrar o “último dos
caçadores de longa distância” e recrutou o ultracorredor de elite Creighton
King, detentor do recorde do Grand Canyon até o surgimento dos irmãos
Skaggs, para participar de uma expedição ao mar de Cortez, onde tinham
dito que um minúsculo clã da tribo seri havia preservado uma conexão com
os nossos corredores de longa distância do passado.
Scott encontrou o grupo, porém era tarde demais. Dois idosos haviam
aprendido a correr no estilo tradicional com seus pais, mas estavam cerca de
meio século sem prática e velhos demais para demonstrar como era.
Chegou-se ao fim do caminho. Em 2004, a caça por uma pessoa em 6
bilhões no mundo havia durado vinte anos e levado a lugar nenhum. Scott
Carrier desistiu. David Carrier havia seguido em frente e agora estudava as
estruturas de combate físico dos primatas. O caso do “último dos caçadores
de longa distância” seria arquivado.
Foi quando o telefone tocou.

“Assim, do nada, eu me vi conversando com aquele estranho”, começou o


doutor Bramble. Ele parecia um fazendeiro, com cabelo grisalho e camisa de
rancheiro – cujo estilo combinava com os crânios de animais pendurados nas
paredes de seu laboratório. Tinha uma incrível capacidade de envolver as
pessoas numa boa história.
Bramble conta que, por volta de 2004, a equipe Utah-Harvard havia
identificado 26 sinais de corrida em distância no corpo humano. Com pouca
esperança de encontrar o “último caçador”, decidiram seguir em frente e
publicar a teoria de qualquer maneira. A revista Nature deu capa e um dos
exemplares deve ter ido parar na costa sul-africana, porque era de lá que
vinha a chamada.
“Não é difícil perseguir um antílope até matá-lo”, disse o estranho.
“Posso mostrar como se faz.”
“Desculpe, mas quem é o senhor?”
“Louis Liebenberg, de Noordhoek.”
Bramble conhecia todos os principais nomes da teoria das corridas, algo
que não era difícil, porque cabiam ao redor de uma mesa. Mas nunca tinha
ouvido falar de Louis Liebenberg.
“O senhor é caçador?”, perguntou o professor.
“Eu? Não.”
“Ah, então é antropólogo?”
“Não.”
“Qual a sua área?”
“Matemática. Matemática e física.”
Matemática?
“E como um matemático consegue perseguir um antílope?”
Bramble ouviu uma risada junto com a resposta: “Basicamente por
acidente”.

É incrível como a vida de Louis Liebenberg e a de David Carrier correram


em paralelo durante décadas sem que os dois soubessem disso. Na década de
1980, Louis também estava na universidade e, como David, também teve um
insight sobre a evolução humana em que poucas pessoas acreditaram.
Parte do problema de Louis era a sua especialidade: ele não tinha
nenhuma. Na época, estava com pouco mais de vinte anos e cursava
matemática e física na Universidade da Cidade do Cabo. Quando fazia aulas
opcionais de filosofia da ciência, começou a refletir sobre o “big bang da
mente humana”. Como saltamos dos pensamentos basicamente preocupados
com a sobrevivência, como as demais espécies, e passamos para conceitos
complicados como lógica, humor, dedução, pensamento abstrato e
imaginação criativa? Tudo bem, o homem primitivo “melhorou o
equipamento” com um cérebro maior – mas de onde veio o programa para
essa máquina? O aumento do tamanho do cérebro é um processo orgânico,
porém ser capaz de usá-lo para projetar no futuro e para mentalmente
relacionar uma pipa, uma chave e um relâmpago para concluir que se trata
de eletricidade era quase mágica. De onde veio aquela faísca de inspiração?
Louis acreditava que a resposta estaria nos desertos do sul da África.
Embora tivesse sido um garoto criado na cidade e que não entendia nada da
vida ao ar livre, ele tinha um palpite de que o melhor lugar para o
nascimento do pensamento humano era o local onde a vida havia começado.
“Eu tinha uma vaga intuição de que a arte da perseguição animal poderia
representar a própria origem da ciência”, conta Louis. E quem melhor para
estudar do que os bosquímanos do deserto Kalahari, que dominavam a arte
da perseguição animal e eram remanescentes vivos de nosso passado pré-
histórico?
Assim, aos 22 anos, Louis decidiu largar a faculdade e escrever um
capítulo da história natural testando a sua teoria com os bosquímanos. Era
um projeto insano e ambicioso para um cara saído da escola e sem
experiência em antropologia, em sobrevivência na selva ou em métodos
científicos. Ele não falava a língua da tribo, o !kabee, nem a segunda língua
adotada por eles, o africâner. Tampouco sabia qualquer coisa sobre
perseguição de animais, principal motivo de sua expedição. Mas e daí?
Louis não se importava. Achou um intérprete de africâner, fez contato com
guias de caça e antropólogos e finalmente seguiu pela rodovia Trans-
Kalahari para Botsuana, Namíbia... rumo ao desconhecido.
Como Scott Carrier, Louis logo descobriu que estava perdendo uma
corrida contra o tempo. “Fui de aldeia em aldeia procurando bosquímanos de
arco e flecha, já que eles ainda teriam as habilidades de perseguição”,
contou. No entanto, os safáris de caça e as propriedades rurais tinham
ocupado as antigas terras dos nativos, e a maioria já abandonara a vida
nômade para viver em áreas de proteção do governo. A decadência era
impressionante: em vez de percorrerem pelas planícies selvagens, muitos
sobreviviam com salários miseráveis que recebiam em troca do trabalho nas
fazendas e viam as irmãs e as filhas serem recrutadas para a prostituição.
Louis continuou procurando. Nos confins do Kalahari, finalmente
encontrou um bando de renegados que, segundo ele, “resolveu honrar a
liberdade e a independência e não aceitou se sujeitar ao trabalho manual e à
prostituição”. Como se soube depois, a procura por “aquela pessoa no meio
de 6 bilhões” dava certo apenas na matemática: no Kalahari, existiam apenas
ainda seis caçadores de verdade.
O grupo permitiu que Louis ficasse com eles e propôs que, depois de
instalado, ele agisse como um agregado sem muita função, basicamente
como acompanhante (o que aconteceu durante quatro anos). O rapaz criado
na Cidade do Cabo adotou a dieta dos bosquímanos, composta de raízes,
frutas, porcos-espinhos e lebres-saltadoras. Aprendeu a manter o fogo aceso
e a tenda fechada mesmo nas noites mais abafadas, porque os bandos de
hienas costumavam arrancar quem dormia em lugar aberto e atacar direto a
garganta. Louis aprendeu que, se encontrasse uma leoa faminta com seus
filhotes, bastava ficar ereto e demonstrar coragem para ela ir embora, mas,
se cruzasse com um rinoceronte, era melhor correr.
No que se refere ao aprendizado, nada mais eficiente do que a
sobrevivência: a mera necessidade de encher a barriga todos os dias e evitar
incomodar, por exemplo, dois chacais copulando embaixo de um baobá era
um modo excelente para Louis começar a absorver a maestria de um bom
caçador. Ele aprendeu a observar o cocô das zebras e a descobrir qual delas
era a dona de cada montículo, já que soube que os intestinos têm curvas e
voltas que dão formatos únicos às fezes. Aprendendo essa lição, ele
conseguia apontar uma zebra no meio do bando e segui-la por vários dias,
apenas de olho no cocô. Decifrou o caminho das raposas e recriou
exatamente o que o animal fazia em cada ponto: aqui, ele andou devagar
porque percebeu a presença de camundongos e de escorpiões, e a partir
daqui saiu andando com algo na boca. Marcas na terra avisavam onde um
avestruz havia parado para tomar um banho de poeira – bastava seguir para
encontrar os seus ovos. Os suricatos escolhem solos firmes para ter os seus
filhotes, então por que estariam escavando num lugar de areia fofa? Deve
haver um ninho de deliciosos escorpiões bem ali...
Depois de aprender a “ler a terra”, ainda faltava muito. O próximo nível
era decifrar um ambiente desprovido de marcas no chão, uma etapa que
recebia o nome de “caçada especulativa”. Louis percebeu que a única forma
de conseguir fazer isso era se projetar do presente para o futuro,
transportando-se para a mente do animal perseguido. Depois de aprender a
pensar como outra criatura, você consegue antecipar o que ela irá fazer e agir
previamente. Se isso parece hollywoodiano demais é porque você deve ter
visto diversos filmes policiais nos quais agentes conseguem “pensar com a
mente do assassino”. Mas, nas planícies do Kalahari, a capacidade de
projetar os pensamentos era um talento possível e essencial para a
sobrevivência.
“Quando persegue um animal, o caçador tenta pensar como o bicho
para saber aonde ele vai”, explica Louis. “Ao olhar os rastros, percebe-se o
movimento do animal e sente-se esse movimento no próprio corpo. É quase
um estado de transe, de tanta concentração. É até perigoso, porque você fica
paralisado e pode ir além do que é possível, até entrar em colapso.”
Visualização. Empatia. Pensamento abstrato e projeção mental: tirando
a parte do colapso, não é exatamente esse o exercício mental que usamos
para a ciência, a medicina e a criação artística? “Quando você segue um
rastro, estabelece relações de causa em sua mente, pois não tem certeza do
que o animal fez”, concluiu Louis. “Essa é a essência da física.” Com a caça
especulativa, os primitivos caçadores humanos foram além de ligar os
pontos: ligavam os pontos que só existiam em suas mentes.
Uma manhã, quatro integrantes do grupo dos renegados – !Nate,
!Nam!kabe, Kayate e Boro/xao – acordaram Louis antes do amanhecer e o
convidaram para uma caçada especial. Disseram que ele não comesse nada e
bebesse toda a água que conseguisse. Louis tomou uma xícara de café,
calçou suas botas e saiu atrás dos caçadores, que cortavam a savana em
plena escuridão. O sol se ergueu e passou a queimar as cabeças dos homens,
mas eles seguiram em frente. Finalmente, depois de caminhar mais de trinta
quilômetros, viram um bando de kudus, antílopes bastante ágeis.
Foi nesse instante que os bosquímanos começaram a correr.
E Louis ficou parado, confuso. Ele conhecia a técnica dos bosquímanos
de caçar com arco: consistia em se acomodar no chão, posicionar a flecha no
arco e mandar ver. Mas o que era aquilo? Ele tinha ouvido algo sobre
caçadas de persistência, porém achava que poderia ser apenas um fenômeno
entre golpe de sorte ou mentira: ou o animal já havia quebrado o pescoço ao
correr ou era conversa fiada mesmo. E aqueles caras estavam tentando
capturar um dos animais correndo! Impossível. Mas, quanto mais ele repetia
que não era possível, mais longe os caçadores iam. Louis parou de filosofar
e correu também.
“É assim que a gente caça”, disse !Nate, quando um ofegante Louis se
juntou ao grupo. Os quatro caçadores corriam rapidamente, mas com
suavidade atrás dos kudus. Quando o bando entrava no meio de arbustos, um
dos caçadores saía do grupo e espantava uma das presas para a parte aberta.
O bando se dispersava, agrupava-se, voltava a se dispersar, mas os quatro
caçadores corriam e cercavam um único kudu, afastando-o do bando sempre
que ele tentava se misturar com os outros, afugentando-o das árvores quando
ele tentava descansar. Quando tinham dúvida sobre qual perseguir, olhavam
para o chão, observavam os rastros e retomavam a perseguição.
Correndo atrás do bando, Louis se surpreendeu quando viu !Nate, o
caçador mais forte e hábil, perto dele. !Nate nem sequer levava um cantil,
como faziam os outros. Quase uma hora e meia de perseguição e Louis
descobriu o motivo: quando um dos caçadores mais velhos se cansava e saía
da caçada, passava o cantil para !Nate – que bebia toda a água e depois
trocava por outro cantil com água pela metade, no momento em que outro
caçador desistisse.
Louis vinha atrás, determinado a assistir à caçada até o final. Ele
começava a se arrepender por ter calçado botas de andar no mato – os
bosquímanos em geral calçavam mocassins bem leves, feitos de pele de
girafa, que permite que o pé respire. Louis observou como o kudu olhava,
parecia tonto... As pernas dianteiras tremiam e enrijeciam... Ele se recuperou
e tentou sair do lugar... Mas caiu no chão.
O mesmo aconteceu com Louis. Quando conseguiu chegar perto da
presa caída, estava com tanto calor que havia parado de suar. Caiu com o
rosto na areia. “Quando você se concentra na caçada, passa de todos os
limites. Não percebe que está exausto”, explicou Louis depois. De certa
forma, ele havia sido bem-sucedido, já que tinha conseguido aguentar e
correr como se o perseguido fosse ele. Seu erro foi se esquecer de olhar para
as próprias pegadas – como é fácil se esquecer de atentar para os próprios
sinais vitais! Os bosquímanos haviam aprendido a olhar de vez em quando
os rastros que deixavam. Se estivessem tão frágeis como as do kudu, eles
paravam, lavavam o rosto, colocavam um pouco de água na boca e deixavam
o líquido descer devagar pela garganta. Depois do último gole, caminhavam
e voltavam a observar os rastros.
A cabeça de Louis pesava e os olhos secos lhe davam uma visão turva.
Estava confuso, porém consciente o bastante para se apavorar: ele estava
deitado no deserto embaixo de um calor de 42 graus e sabia que tinha
somente uma chance de salvar a sua vida. Tirou a faca que levava na cintura
e tentou se aproximar mais do kudu morto. Se conseguisse abrir o animal,
poderia tomar a água que havia no estômago dele.
“Não!”, !Nate segurou Louis e o impediu. Ao contrário de outros
antílopes, os kudus se alimentam de folhas de acácias, tóxicas para os seres
humanos. !Nate acalmou Louis, pediu que aguentasse mais um pouco e saiu
correndo: mesmo depois de ter caminhado 32 quilômetros e corrido mais 24,
ele conseguiu cruzar outros vinte quilômetros para trazer água a Louis. E
!Nate não deixou que Louis bebesse de imediato o precioso líquido:
primeiro, jogou um pouco na cabeça dele, aí lavou o seu rosto e, só depois
que a pele de Louis perdeu um pouco de calor, permitiu que sorvesse alguns
goles moderados.
Mais tarde, depois que !Nate ajudou na volta para o acampamento,
Louis ficou impressionado com a eficiência livre de regras daquela caçada.
“Funciona bem mais do que com arco e flecha”, explicou. “Com flechas, é
preciso tentar várias vezes até acertar. Você pode ferir o animal, mas não
matá-lo, ou chegar na presa de-pois que as aves de rapina já sentiram o
cheiro de sangue. Outras vezes, o veneno presente na ponta da flecha precisa
de uma noite inteira para fazer efeito. Apenas uma pequena porcentagem das
flechadas tem êxito. Por isso, para o número de dias dedicados à caçada, o
resultado é bem melhor.”
Louis descobriu apenas em sua segunda, terceira e quarta caçadas de
persistência como tivera sorte na primeira tentativa: aquele kudu caiu depois
de duas horas, mas todos os outros exigiram de três a cinco horas (o que
corresponde, aproximadamente, ao tempo que a maioria das pessoas leva
para dar conta de uma maratona, versão atual da antiga caçada pré-histórica.
A diversão tem seus motivos.)
Para ter sucesso como caçador, Louis precisou se reinventar como
corredor. Ele havia sido um excelente atleta de meia distância na faculdade,
vencendo a competição dos 1.500 metros e chegando em segundo lugar na
de oitocentos, mas, para acompanhar os bosquímanos, tinha de esquecer
tudo o que aprendera com os treinadores modernos e começar a estudar as
lições antigas. Nas pistas, ele mantinha a cabeça abaixada, enquanto nas
savanas os olhos tinham de ficar elevados e alertas a qualquer movimento no
caminho. Ele não podia ignorar os sinais de dor – em vez disso, sua mente
tinha de estar o tempo todo atenta para o que acontecia na hora (ruídos nas
proximidades, quantidade de suor na testa) e para as projeções, conforme
entrava no mortal jogo de pensar à frente da presa.
O ritmo não era puxado demais: em média, os bosquímanos fazem uma
milha (1,6 quilômetro) em dez minutos, porém boa parte desse trajeto
ocorria na areia fofa e no mato e eles paravam bastante para observar os
rastros. Os bosquímanos conseguiam disparar e sair correndo de vez em
quando, mas sabiam reduzir o ritmo em seguida. E tinham de saber, porque
uma caçada de persistência era como pisar na linha de largada sem saber se
iriam enfrentar uma meia maratona, uma maratona ou uma ultramaratona.
Depois de um tempo, Louis começou a encarar a corrida da mesma maneira
como as pessoas encaram as caminhadas: aprendeu a reduzir a marcha e
deixar as pernas em um trote rápido e suave, um tipo de movimento básico
que poderia durar o dia inteiro, mas que deixava energias suficientes para
acelerar quando fosse preciso.
Sua alimentação também mudou. Para um caçador coletor, nada é
muito rígido: você pode caminhar de volta para casa depois de um exaustivo
dia procurando raízes e encontrar uma boa presa – que vai se transformar em
seu jantar. Por isso, Louis aprendeu a comer poucas quantidades em diversas
ocasiões e várias vezes ao dia em vez de fazer refeições pesadas. Assim,
nunca ficava com sede e encarava cada dia como se estivesse em meio a uma
corrida.
O verão no Kalahari foi substituído pelo inverno, porém as caçadas
continuaram. Os estudiosos de Utah-Harvard tinham errado nessa parte da
teoria sobre o Homem Corredor: a caçada de persistência não dependia do
calor do predador, porque os engenhosos bosquímanos tinham achado jeitos
de capturar presas em qualquer temperatura. Na época das chuvas, tanto o
pequeno antílope duiker quanto o enorme órix, com seus chifres que
parecem lanças, ficam superaquecidos, porque a areia úmida atrapalha o
deslocamento e obriga as pernas a fazer mais esforço. Já o enorme antílope
africano chamado búbalo, que pesa quase duzentos quilos, percorre as
planícies úmidas sem problemas, contudo se torna vulnerável e exposto
quando o solo resseca nos invernos secos. Na lua cheia, os antílopes são
ativos durante a noite e mais cansados durante o dia; na primavera,
encontram-se enfraquecidos pela diarreia decorrente do enorme consumo de
folhas verdes.
Na época em que Louis estava pronto para deixar a vida nas savanas e
ir para casa escrever The art of tracking: the origin of science [A arte da
perseguição: a origem da ciência], estava tão acostu-mado às corridas épicas
que, para ele, eram uma questão óbvia. Ele mal falou da corrida no livro,
porque se concentrou mais nas demandas mentais do que nas físicas para
uma caçada. Somente depois que um exemplar da revista Nature caiu em
suas mãos, ele entendeu o que tinha visto no Kalahari. E telefonou para
Utah.
“Você sabe por que as pessoas correm maratonas?”, perguntou ao
doutor Bramble. “Porque a corrida faz parte de nosso imaginário coletivo, e
nosso imaginário está associado às corridas. O domínio da linguagem, da
arte, da ciência, de viagens espaciais, das cirurgias intravasculares – tudo
está relacionado com a nossa capacidade de correr.” Correr é o superpoder
que nos tornou humanos, ou seja, é um superpoder que todos os humanos
têm.
“Mas por que tanta gente detesta correr?”, perguntei ao doutor Bramble,
quando ele terminou de me contar a história de Louis e dos bosquímanos.
“Se todos nascemos para correr, não deveríamos gostar?”
O professor começou a resposta com uma pergunta: “Isso é fascinante.
Estudamos os resultados da Maratona de Nova York de 2004 e comparamos
os tempos por faixas etárias. Descobrimos que, a partir dos dezenove anos,
os corredores ganham mais velocidade a cada ano, até atingir o pico aos 27
anos. Em geral, depois dessa idade, começam a ter um desempenho menor.
Por isso, a pergunta é esta: qual é a sua idade quando você volta a correr na
velocidade que tinha aos dezenove anos?”.
Certo. Achei uma página em branco em meu bloco de anotações e
lancei alguns números. Uma pessoa leva oito anos até atingir
o melhor tempo, aos 27 anos. Se ela desacelerar na mesma proporção
com que acelera, retornará ao mesmo desempenho oito anos depois, ou seja,
com 36 anos. Mas a conta não podia ser assim – eu achava que tinha a ver
com o fato de nos desgastarmos com a mesma velocidade com que
melhoramos. Provavelmente temos mais dificuldade de acelerar no
desempenho conforme envelhecemos, imaginei. Khalid Khannouchi tinha 26
anos quando quebrou o recorde mundial da maratona e ainda era rápido o
bastante aos 36 anos para chegar em quarto lugar nas classificatórias para as
Olimpíadas de 2008. Ele havia perdido apenas dez minutos em dez anos,
apesar de uma série de machucados. Pensando nesse caso, corrigi a minha
resposta.
“Quarenta”, comecei a falar, antes de ver o riso no rosto de Bramble. “E
cinco”, respondi. “Aos 45 anos.”
“Errado.”
“Cinquenta?”
“Não.”
“Mas não pode ser 55 anos...”
“Você tem razão”, falou Bramble. “Não pode ser 55 anos. É aos 64.”
“Você está falando sério? Mas, nesse caso...” Voltei aos números.
“Estamos falando de uma diferença de 45 anos. Você quer dizer que os
adolescentes podem perder para pessoas com o triplo da idade?”
“Não é incrível?”, Bramble comemorava. “Cite qualquer outra
modalidade esportiva na qual um atleta de 64 anos compete com rapazes de
dezenove. Natação? Boxe? Sem chance. Há algo estranho com os humanos:
não somos bons somente em corridas de resistência, mas conseguimos ser
bons nisso durante bastante tempo. Somos uma máquina feita para correr, e
uma máquina que não se desgasta.”
“Ninguém para de correr porque envelheceu”, sempre dizia Jack Kirk, o
“demônio da Dipsea”, “mas envelhece porque parou de correr...”
“E isso vale para ambos os sexos”, continuou o especialista. “As
mulheres apresentam os mesmos resultados que os homens.” Faz sentido, já
que uma transformação curiosa aconteceu quando descemos das árvores:
quanto mais nos tornamos humanos, mais parecidos ficamos. Homens e
mulheres têm basicamente o mesmo tamanho, pelo menos na comparação
com outros primatas – os gorilas e os orangotangos machos pesam quase o
dobro das fêmeas, e os chimpanzés machos são pelo menos um terço
maiores do que as fêmeas. No entanto, entre homens e mulheres, a diferença
é de apenas 15%. Com a evolução, fomos afinando a carne e nos tornando
mais sinuosos, mais cooperativos... Em resumo, mais femininos.
“As mulheres realmente foram subestimadas”, afirmou o doutor
Bramble. “Foram prejudicadas na evolução. Perpetuamos a ideia de que elas
ficavam ali sentadas, esperando que os homens chegassem com a comida,
porém não havia motivos para que não participassem das caçadas.” De fato,
seria estranho se as mulheres não fossem caçar com os homens, porque eram
elas que mais precisavam de carne. O corpo humano necessita mais da
proteína da carne na infância, na gravidez e durante a amamentação. Então,
por qual motivo as mulheres não tentariam ficar o mais perto possível da
fonte de fornecimento? Os nômades caçadores coletores mudavam os seus
acampamentos seguindo os rebanhos, porque isso fazia mais sentido do que
arrastar o alimento para casa.
E cuidar dos filhos em deslocamento não é tão difícil assim, como
mostrou a ultramaratonista norte-americana Kami Semick: ela gosta de
correr por trilhas em montanhas na região de Bend, no Oregon, levando a
filha de quatro anos, Baronie, numa espécie de “mochila”. Recém-nascida?
Também não é problema: na Hardrock 100 de 2007, Emily Baer derrotou
noventa competidores, entre homens e mulheres, e terminou a prova em
oitavo lugar apesar de parar em todas as estações de apoio para amamentar o
seu bebê. Os bosquímanos do Kalahari não são mais nômades, mas a
tradição da igualdade na caça ainda prevalece entre os pigmeus mbuti, do
Congo, entre os quais maridos e esposas se armam com redes e perseguem
porcos selvagens. “Como são totalmente capazes de parir um filho durante
uma caçada e participar da perseguição na mesma manhã”, conta o
antropólogo Colin Turnbull, “as mães não veem motivo para não fazer
parte.”
A imagem que o doutor Bramble fazia do passado começava a ganhar
nitidez e cores. Eu podia ver um bando de caçadores (jovens e velhos,
mulheres e homens) correndo incansáveis pelas pradarias. As mulheres na
frente, apontando o caminho rumo aos rastros recentes que viram enquanto
procuravam alimento, e atrás os homens, com os olhos no chão e as mentes
tentando adivinhar o próximo passo do kudu que estava a quatro quilômetros
de vantagem. No grupo, também estão adolescentes loucos para participar.
Os verdadeiros donos dos músculos vêm no final: jovens de vinte e poucos
anos eram os corredores e os caçadores mais fortes, observando os rastros e
guardando a força para o combate. E bem depois, as Kami Semicks da
savana, cuidando de crianças e bebês.
Afinal, qual a diferença em relação a nós? Nenhuma, exceto pelo fato
de que corríamos como loucos e ficávamos em grupo. Os humanos estão
entre os mais grupais e cooperativos de todos os primatas: a nossa única
defesa em um mundo árduo era a solidariedade, e não há razões para achar
que de repente nos afastamos dessa prática bem na hora do maior desafio – a
busca de alimento. Lembro-me do que os índios seris falaram a Scott Carrier
depois que o sol se pôs, naqueles dias em que tentavam reproduzir a caçada
de persistência. “Era melhor antes”, lamentou um ancião da etnia. “Fazíamos
tudo como uma família. A comunidade era uma família. Dividíamos tudo e
todos ajudavam, mas agora há tantas disputas e brigas, cada um por si.”
A corrida não fazia apenas parte das características dos seris como
pessoas. Como o treinador Joe Vigil diria depois sobre os seus próprios
atletas, fazia deles pessoas melhores.

“Mas tem um problema”, retomou o doutor Bramble, levando as mãos à


testa. “E está bem aqui.” Ele explicou que o nosso maior talento também
criou o monstro que pode nos destruir. “Ao contrário de qualquer outro
organismo da história, os humanos enfrentam um conflito entre o corpo e a
mente: temos um corpo programado para o desempenho e um cérebro que
está sempre em busca de eficiência.” A resistência permite viver ou morrer,
mas lembre: a resistência depende da preservação de energia, e isso é uma
atribuição do cérebro. “O motivo pelo qual algumas pessoas usam o seu
talento genético para correr, enquanto outras não, é porque o cérebro é um
mestre em negociação.”
Durante milhões de anos, vivemos num mundo sem policiais, carros ou
disque-pizza. Dependíamos de nossas pernas para garantir a segurança, o
transporte e a alimentação, e nunca era possível saber
o tamanho exato de uma tarefa. Na primeira caçada em que Louis
esteve presente, por exemplo, !Nate não havia planejado um percurso extra
depois de meio dia de caminhada e de uma caçada altamente estafante – e foi
o que teve de fazer para salvar a vida de Louis. Nem seus ancestrais podiam
ter certeza de que, depois de uma caçada extenuante, levariam a carne para
casa: o antílope que haviam perseguido desde o amanhecer, por exemplo,
poderia atrair predadores maiores ou mais bravos, forçando os caçadores a
abandonar o almoço e correr para salvarem suas vidas. A única forma de
sobrevivência era ter sempre algo de reserva – e aqui entra o cérebro.
“Esse órgão está sempre tentando achar um jeito de cortar custos,
conseguir mais com menos, economizar recursos e ter uma reserva para
casos de emergência”, explicou Bramble. “E você tem essa máquina incrível,
mas controlada por um piloto que pensa o tempo todo: ‘Tudo bem, como
posso fazer isso funcionar sem usar tanto combustível?’. Você e eu sabemos
como é bom correr porque tornamos essa atividade um hábito.” Mas, se
perder o hábito, a voz mais nítida berrando em seu ouvido será o antigo
instinto de sobrevivência, que o estimulará a relaxar. E aqui há uma ironia
espetacular: nossa imensa resistência proporcionou ao cérebro a energia de
que ele precisava para crescer, e o cérebro, agora, sabota essa resistência.
“Vivemos em uma cultura que considera os exercícios extremos uma
loucura”, lembra o doutor Bramble, “porque essa é a orientação que o nosso
cérebro dá: por que forçar a máquina se não precisamos fazer isso para
sobreviver?”
Para ser justo, o nosso cérebro sabia o que estava comandando em 99%
de nossa história – poder sentar-se e descansar era um luxo; então, quando
surgia a oportunidade, não devíamos desperdiçá-la. Apenas há pouco tempo
contamos com uma tecnologia que trouxe a preguiça para o nosso estilo de
vida, e isso aconteceu quando transferimos os nossos corpos duráveis,
próprios para a caça e a coleta, para um mundo de lazer artificial.
E o que ocorre ao se transplantar uma forma de vida para um ambiente
novo? Cientistas da nasa fizeram a mesma pergunta antes dos primeiros voos
ao espaço. O corpo humano foi feito para sobreviver sob a pressão da
gravidade – talvez a ausência dessa pressão funcionasse como um “atalho”
para a fonte da juventude, fazendo os astronautas se sentirem mais fortes,
rápidos e saudáveis. Afinal, toda caloria que podiam consumir se destinaria à
alimentação do cérebro e do corpo em vez de ficar tentando conter a
gravidade, certo?
Não exatamente. Quando os astronautas voltaram à Terra,
envelheceram décadas em poucos dias. Os ossos estavam mais fracos e os
músculos haviam atrofiado. Sofriam de insônia, depressão, exaustão e
indiferença. Até as papilas gustativas haviam mudado. Se você já passou um
final de semana prolongado jogado no sofá vendo televisão, conhece a
sensação, porque aqui, na Terra, criamos as nossas próprias bolhas de
gravidade zero – acabamos com as ocupações que o nosso corpo está
programado a fazer, e estamos pagando a conta. Quase todas as principais
causas de morte do mundo ocidental (problemas cardíacos, avcs, diabetes,
depressão, hipertensão e várias formas de câncer) eram desconhecidas dos
nossos ancestrais. Eles não podiam contar com remédios, porém tinham um
toque mágico – ou talvez dois, de acordo com os números que o doutor
Bramble mantinha.
“Seria possível controlar esses males com um único remédio”, disse.
Ele fez o sinal de “paz e amor” com os dedos, depois os virou para baixo e
começou a movê-los alternadamente. O Homem Corredor.
“É muito simples”, afirmou. “Basta mover as pernas. Porque, se você
não achar que nasceu para correr, não está apenas negando a história. Está
negando quem você é.”
Capítulo 29
“O passado não morre nunca. Nem sequer é passado.”
William Faulkner, Réquiem por uma freira

Eu já estava acordado e olhando para o nada quando Caballo


começou a bater na minha porta.
“¿Oso?”, chamou baixinho.
“Pode entrar”, respondi também em voz baixa. Olhei o relógio: eram
quatro e meia da madrugada.
Em meia hora, deveríamos estar em nosso encontro com os
tarahumaras. Alguns meses antes, Caballo os havia instruído a nos encontrar
em um pequeno vale com árvores de sombra na trilha para a montanha de
Batopilas. A ideia era subir até o pico, descer do outro lado e atravessar o rio
para alcançar o vilarejo de Urique. Eu não sabia o que Caballo faria se os
tarahumaras não aparecessem – nem o que eu faria se eles viessem.
Quem fazia o percurso a cavalo costumava reservar três dias para o
trajeto de 56 quilômetros de Batopilas a Urique, e Caballo queria percorrer
tudo em um dia. Se ficasse para trás, seria eu quem vagaria perdido pelo
desfiladeiro dessa vez? E se os tarahumaras não aparecessem, será que
Caballo tentaria nos levar para o fim do mundo em busca deles? Será que ele
sabia mesmo para onde estava indo?
Esses foram os pensamentos que roubaram o meu sono. E, pelo que vi,
Caballo também tinha suas preocupações. Ele entrou e sentou na beira de
minha cama.
“Você acha que os moleques dão conta?”, perguntou.
Por incrível que fosse, eles pareciam muito bem depois do dia em que
quase encontraram a morte no desfiladeiro. Haviam feito uma farta refeição
com tortilhas e frijoles quando chegaram, e eu não tinha ouvido nenhum som
que revelasse desentendimentos vindo do banheiro durante a noite.
“Quanto tempo a giardíase leva até se manifestar?”, perguntei. Pelo que
eu sabia, os parasitas da doença ficavam incubados no intestino por um
tempo antes de dar sinais de sua presença, como diarreia, febre ou dores de
estômago.
“Uma ou duas semanas.”
“Então, se eles acordarem sem sintomas hoje, devem passar bem até
depois da corrida.”
“A-hã”, concordou Caballo. “Sim.” Ele fez uma pausa, provavelmente
pensando em outra coisa. “Veja”, continuou, “vou ter de ficar de olho no
Barefoot Ted.” O problema agora não eram os pés dele, mas a boca. “Se ele
perturbar os rarámuris, eles não vão gostar”, disse Caballo. “Podem achar
que ele é outro Fisher e cair fora.”
“Mas o que podemos fazer?”
“Vou falar para o Ted ficar de bico calado. Não gosto de dizer o que as
pessoas devem fazer, mas ele vai ter de entender a mensagem.”
Levantei e ajudei Caballo a acordar os outros. Na noite anterior, um
amigo de Caballo havia colocado as nossas bagagens no lombo de uma mula
e partido para Urique, por isso tudo o que teríamos de carregar eram comida
e água suficientes para o trajeto. Bob Francis, o velho guia, havia se
oferecido para levar o pai de Luis na sua picape 4×4, evitando que ele
precisasse caminhar. Todo mundo se ajeitou rapidamente e, perto das cinco
horas, já seguíamos em direção ao rio. A lua no desfiladeiro brilhava na
água, e ainda havia morcegos voando sobre a cabeça de Caballo quando ele
nos conduziu por um caminho estreito, perto do rio. Fizemos uma fila
indiana e começamos uma corrida suave.
“Os moleques da balada são ótimos”, disse Eric, olhando os dois atrás
de Caballo.
“Eles estão mais para garotos que resolveram se comportar”, respondi.
“Mas a maior preocupação de Caballo é...”, e apontei para Barefoot Ted, que
vestia um short vermelho, calçava sua FiveFingers verde e exibia um
amuleto em forma de esqueleto pendurado no pescoço. Em vez de camiseta,
vestiu capa de chuva vermelha, com o nó preso embaixo do queixo e o resto
solto sobre os ombros. Presa no tornozelo ia uma corrente de sinos, que ele
havia colocado porque leu em algum lugar que os tarahumaras mais antigos
também a usavam.
“Quanta magia”, brincou Eric. “Já temos o nosso pajé particular.”
Quando o sol surgiu, havíamos saído do rio e chegado nas montanhas.
Caballo ia num ritmo firme, ainda mais firme do que no dia anterior.
Comemos durante o caminho, mastigando mordidas rápidas de tortilha e
barras de cereais, economizando nos goles de água caso a nossa provisão
tivesse de durar o dia todo. Quando apareceu luz suficiente para ver, virei e
olhei para trás para me orientar. A cidadezinha havia desaparecido, engolida
pela floresta. Até a trilha que ficava para trás parecia sumir no meio da
vegetação conforme andávamos. Eu tinha a impressão de que estávamos
mergulhando num mar verde sem fim.
“Não falta muito agora”, ouvi Caballo dizer. Ele apontava para algo que
eu não conseguia ver. “Vocês estão vendo aquele monte de árvores? É para
lá que vamos.”
“Arnulfo”, disse Luis, com a voz emocionada. “Prefiro conhecê-lo a
encontrar Michael Jordan.”
Cheguei mais perto e vi as árvores. Mas não vi ninguém.
“A gripe andou atacando por aqui”, constatou Caballo, reduzindo o
ritmo e ajeitando a cabeça para olhar as colinas em busca de um sinal de
vida. “Talvez alguns corredores apareçam mais tarde, se estiverem doentes.
Ou se tiverem de cuidar de suas famílias.”
Eric e eu trocamos olhares. Caballo não havia falado nada sobre surto
de gripe até então. Tirei meu kit de hidratação dos ombros e me preparei
para sentar e descansar. Melhor descansar agora e depois ver o que vem pela
frente, pensei, colocando a minha mochila no chão.
Quando voltei a olhar para cima, estávamos cercados por meia dúzia de
homens com saias brancas e blusas parecidas com as de piratas. Num piscar
de olhos, eles haviam se materializado. Ficamos quietos e surpresos,
esperando um sinal de Caballo.
“Ele é um destes?”, quis saber Luis.
Dei uma olhada nos tarahumaras até encontrar aquele sorriso familiar
no belo rosto que parecia acaju. Uau, ele veio. E o que era mais incrível: seu
primo Silvino estava bem a seu lado.
“É ele”, sussurrei. Arnulfo ouviu e olhou para mim. Seus olhos
esboçaram um sorriso discreto quando ele me reconheceu.
Caballo estava tomado pela emoção. Achei que fosse apenas alívio, até
que ele ergueu as duas mãos na direção de um corredor tarahumara com um
rosto tristonho, que lembrava o de Gerônimo.
“Manuel”, disse Caballo.
Manuel Luna não retribuiu o sorriso, mas encaixou as mãos de Caballo
nas suas. Cheguei perto. “Conheci o seu filho”, disse. “Ele foi muito bom
comigo, um verdadeiro caballero.”
“Ele me falou sobre você”, disse Manuel. “Ele gostaria de estar aqui.”
Aquele encontro emocionado de Caballo e Manuel quebrou o gelo. O
resto de nossa equipe circulava entre os tarahumaras, cumprimentando-os
com o aperto de mão que Caballo havia ensinado, um rápido toque da ponta
dos dedos.
Caballo começou a nos apresentar. Não pelo nome – acho que nunca
mais o ouvi falar nossos nomes. Ele tinha nos estudado nos últimos três dias
e, da mesma forma como vira um oso em mim e Barefoot Ted havia se
identificado com um macaco, determinou animais espirituais para cada um
de nós.
“El Coyote”, disse, colocando a mão nas costas de Luis. Billy virou El
Lobo Joven. Eric, quieto e observador, era El Gavilán, o gavião. Quando
chegou a vez de Jenn, vi um raio de interesse divertido nos olhos de Manuel
Luna. “La Brujita Bonita”, batizou Caballo. Para os tarahumaras, depois do
que aconteceu nos dois magníficos anos em Leadville e na épica batalha
entre Juan Herrera e Ann “La Bruja” Trason, chamar uma jovem corredora
de “a bruxinha bonita” tinha o mesmo impacto que apelidar um iniciante da
nba de “herdeiro de Jordan”.
“¿Hija?”, perguntou Manuel. Será que Jenn era filha de Ann Trason?
“Por sangre, no. Por corazón, sí”, respondeu Caballo.
Finalmente, Caballo chegou em Scott Jurek. “El Venado”, disse,
o que rendeu uma reação até do imóvel Arnulfo. Mas o que aquele
gringo maluco estava falando? Por que chamaria aquele sujeito alto, magro e
altamente confiante de “cervo”? Será que estava passando alguma dica para
os tarahumaras, informando como cada um iria se portar no dia da corrida?
Manuel se lembrava muito bem de como Caballo havia convencido os
tarahumaras em Leadville a seguir no encalço de Ann Trason e “caçá-la
como a un venado”. Será que Caballo tentaria favorecer os índios em
detrimento dos compatriotas? Ou talvez fosse uma organização? Talvez
Caballo estivesse tentando convencer os tarahumaras a pegar leve para que
os norte-americanos pudessem ter boa vantagem...
Tudo era misterioso, complicado e incerto para os tarahumaras, cujo
amor pela estratégia das corridas rivalizava com o gosto pela cerveja de
milho. Em silêncio, começaram a fazer brincadeiras entre si até Barefoot Ted
aparecer. Acidentalmente, ou de forma profética, Caballo o havia deixado de
lado nas apresentações, então ele decidiu se apresentar por conta própria.
“¡Yo soy El Mono!”, anunciou. Depois pensou: Será que existem
macacos no México? Talvez os tarahumaras não saibam o que é um mono.
Para garantir, começou a pular e a se coçar como um chimpanzé, com os
sinos pendurados no tornozelo soando e as mangas da capa de chuva batendo
em seu rosto. Ele acreditava que, de alguma forma, aquela mímica serviria
para apresentar um animal que eles não conheciam.
Os tarahumaras olharam fixamente para ele. Ninguém ali usava sinos
pendurados nas canelas.
“Ok”, deu continuidade Caballo, louco para acabar com aquele show.
“¿Vámonos?”
Acomodamos as mochilas nos ombros. Havíamos subido a montanha
por quase cinco horas seguidas, e seria preciso encarar mais sol se
quiséssemos cruzar o rio antes do anoitecer. Caballo assumiu a dianteira,
enquanto o restante de nós se acomodou junto com os tarahumaras numa fila
indiana. Tentei ficar no fim para não atrasar o ritmo de ninguém, mas Silvino
não quis saber. Ele só sairia do lugar se eu fosse na frente.
“¿Por qué?”, perguntei.
“Costumbre”, respondeu ele. Como era um dos melhores corredores
das partidas de bola do desfiladeiro, estava acostumado a ir atrás dos
companheiros de time e deixá-los dar o ritmo até que chegasse a hora de
encarar os quilômetros finais. Eu estava encantado por pensar que fazia parte
de um time misto de ultracorredores norte-americanos e tarahumaras e por
traduzir a Eric o que Silvino havia dito.
“Talvez”, disse Eric. “Ou talvez a corrida já tenha começado.” Ele fez
um sinal para frente: Arnulfo caminhava bem atrás de Scott, observando-o
com atenção.
Capítulo 30
“Poesia, música, mato, mar, isolamento – isso resultou numa enorme força
espiritual. Ficou claro que o preparo espiritual, tanto quanto ou ainda mais
que o preparo físico, precisa ser armazenado antes de uma corrida.”
Herb Elliott, campeão olímpico e recordista mundial na milha, que treinava
descalço, escrevia poesias e se aposentou invicto

“¡Hola, oso!”, chamou o dono de um pequeno comércio, acenando lá de


dentro.
Dois dias depois de nossa chegada em Urique, a cidade inteira nos
conhecia pelos apelidos dados por Caballo. “A cidade inteira”, é bom
explicar, resumia-se a menos de um quilômetro em cada direção. Urique é
um lugar minúsculo, um vilarejo perdido no fundo de um desfiladeiro, como
uma pedra no fundo de um poço. Quando terminamos o nosso café da manhã
no dia seguinte, já estávamos totalmente envolvidos na vida social da cidade.
Um esquadrão nos arredores de Urique saudou Jenn quando ela passou,
chamando “¡Hola, Brujita!”. As crianças cumprimentavam Barefoot Ted
com gritos de “Buenos días, señor Mono”.
“Ei, Urso”, prosseguiu o moço. “Você sabe que ninguém jamais
derrotou Arnulfo? Sabe que ele venceu a corrida de cem quilômetros trêz
vezes seguidas?”
Nenhuma competição de cavalos, nenhuma eleição presidencial e
nenhum julgamento pelo assassinato de uma celebridade havia sido
acompanhado com tanta paixão pelos moradores de Urique como a corrida
organizada por Caballo. Cidade dedicada à extração mineral, que tinha
vivido o seu apogeu havia mais de um século, Urique só tinha dois motivos
de orgulho: a paisagem totalmente rude e os vizinhos tarahumaras. Agora,
pela primeira vez, um grupo de estrangeiros exóticos havia se deslocado até
ali para enfrentar essas duas condições, algo que era bem mais que uma
corrida: para o povo de Urique, era a única chance na vida de mostrar ao
mundo o que eles tinham de melhor.
E até Caballo se surpreendeu ao saber que a sua corrida havia
ultrapassado as expectativas e se tornara a “Copa do Mundo” das
ultramaratonas fora do circuito oficial. Nos últimos dois dias, não paravam
de chegar corredores tarahumaras, vindos de todos os lados. Quando
acordamos na manhã seguinte à chegada em Batopilas, vimos um grupo de
tarahumaras locais descendo a montanha. Caballo nem tinha certeza se os
índios da região de Urique ainda corriam – seu medo era que, como
aconteceu no trágico caso dos nativos de Yerbabuena, a construção da
estrada de asfalto tivesse transformado os corredores em caronistas. Estava
claro que se tratava de um povo que passava por transformação: os
tarahumaras de Urique ainda andavam com bastões de madeira (a versão
usada nos jogos de bola parecia mais com os bastões de hóquei), mas, em
vez das tradicionais saias brancas e sandálias, usavam shorts de corrida e
tênis ganhos na missão católica.
Na mesma tarde, Caballo ficou muito feliz ao ver um corredor de 51
anos chamado Herbolisto. Ele vinha correndo desde Chinivo, acompanhado
de Nacho, um campeão de 41 anos que vivia num vilarejo próximo ao dele.
Como Caballo temia, Herbolisto havia sido contaminado pela gripe. Mas ele
odiava a ideia de perder a corrida, já que era um dos amigos tarahumaras
mais antigos de Caballo. Assim, logo que se sentiu um pouco melhor,
encheu uma bolsa de pinole e partiu para a viagem de mais de 95
quilômetros, parando no caminho para convidar Nacho para se divertir um
pouco.
Na véspera do dia da competição, nosso grupo havia passado de oito
para 25. Em toda a extensão da rua principal de Urique, a discussão sobre
quem era o melhor estava acalorada: seria Caballo Blanco, o antigo veterano
que reunia os segredos dos tarahumaras e dos corredores norte-americanos?
Ou os tarahumaras de Urique, que conheciam como ninguém as trilhas e
tinham a seu lado o orgulho local, além da torcida? Alguns apostavam em
Billy, El Lobo Joven, que, graças à boa forma adquirida com o surfe,
chamou a atenção quando foi nadar no rio Urique. Mas a maior parte das
apostas se dividia entre dois astros: Arnulfo, o rei das Barrancas del Cobre, e
El Venado, o misterioso competidor estrangeiro.
“Sí, señor”, respondi ao cara do armazém. “Arnulfo venceu uma
corrida de cem quilômetros pelo desfiladeiro três vezes. Mas El Venado
venceu uma de cem milhas, ou seja, mais de 160 quilômetros, pelas
montanhas sete vezes.”
“Mas aqui faz muito calor”, retrucou ele. “E os tarahumaras se
alimentam de calor.”
“É verdade. Mas El Venado venceu uma corrida de 217 quilômetros por
um deserto chamado Vale da Morte em pleno verão. Ninguém correu mais
rápido que ele.”
“Ninguém ganha dos tarahumaras”, insistiu o comerciante.
“É o que ouvimos falar. Mas qual é a sua aposta?”
“El Venado”, revelou.
Os moradores de Urique estavam animados com os tarahumaras, mas
aquele gringo alto, calçado com um vistoso tênis cor de laranja, não parecia
com ninguém que eles haviam visto até então. Era mágico observar Scott
correr ao lado de Arnulfo: embora Scott nunca tivesse conhecido um
tarahumara e Arnulfo não soubesse nada sobre o mundo fora das barrancas,
de alguma forma aqueles dois sujeitos separados por 2 mil anos de cultura
haviam desenvolvido o mesmo estilo de correr. Haviam chegado em sua arte
por caminhos históricos opostos e se encontravam bem ali, no ponto
intermediário.
Eu me dei conta disso pela primeira vez na montanha de Batopilas,
depois que finalmente chegamos ao alto e a trilha aplainou conforme
circulava o pico. Arnulfo aproveitou a vantagem do platô para sair na frente.
Scott chegou a seu lado. Conforme a trilha se tornava sinuosa e o sol se
punha, os dois desapareceram de vista. Por alguns instantes, não se
conseguia distinguir quem era quem naquela dupla – apenas duas silhuetas
faiscantes se movendo em um ritmo idêntico.
“Consegui!”, exclamou Luis, mostrando-me a imagem que aparecia em
sua câmera digital. Ele havia corrido na frente e se virado bem na hora para
capturar tudo o que eu tinha tentado en-tender sobre corridas nos últimos
dois anos. O que havia de especial não eram as formas harmônicas de Scott e
Arnulfo, que combinavam até no sorriso: os dois transmitiam felicidade com
um prazer natural, como golfinhos brincando nas ondas. “Esta foto é uma
das que vai me fazer chorar quando eu voltar para casa”, disse Luis. “É
como capturar Babe Ruth e Mickey Mantle, os maiorais do beisebol, na
mesma foto.” Se Arnulfo tinha uma vantagem, não era o estilo nem o
espírito.
Só que eu tinha outro motivo para apostar as minhas fichas em Scott.
Durante os últimos e mais difíceis quilômetros do trajeto para Urique, ele
ficou perto de mim e eu não sabia o motivo. Ele tinha vindo até aqui para ver
os melhores corredores do mundo – por que perder tempo justamente com o
pior corredor que estava ali? Será que ele temia que eu atrasasse o passo de
todo mundo? Depois de sete horas descendo a montanha, encontrei a
resposta.
Aquilo que Joe Vigil dizia sobre caráter, tudo o que doutor Bramble
conjecturava sobre a trajetória antropológica, Scott tinha em sua própria
vida. Para ele, a razão por que competimos não é apenas para ver quem
ganha, mas realmente estar com o outro. Scott aprendeu isso antes de fazer
qualquer escolha, quando ainda corria com os garotos pelos bosques de
Minnesota. Ele não era bom de corrida, e não tinha motivos para achar que
um dia viria a ser, porém a alegria que deixava transparecer quando corria
era a mesma satisfação que sentia ao somar sua força ao poder de um bando.
Outros corredores tentam espantar o cansaço colocando seus iPods nos
ouvidos ou imaginando que estão correndo diante de uma multidão num
estádio olímpico, contudo Scott tinha um método mais simples: é fácil sair
de si mesmo quando você pensa em outra pessoa.[3]
É por isso que os tarahumaras fazem apostas como loucos antes de um
jogo de bola – isso os torna parceiros iguais no esforço e dá aos
competidores a convicção de que estão todos juntos. Da mesma forma, os
hopis acham que a corrida é uma forma de oração: oferecem cada passo
como sacrifício para alguém que amam e, em troca, pedem ao Grande
Espírito que reforce a energia individual de cada um. Sabendo disso, não era
estranho o fato de Arnulfo não se interessar por corridas fora do desfiladeiro
e Silvino não voltar a correr fora dali: se não estivessem correndo por seu
povo, qual era o sentido? Scott, com a lembrança de sua mãe doente sempre
presente, ainda era um adolescente quando percebeu a estreita relação entre
doação e competição.
Eu percebi que os tarahumaras buscavam força nessa tradição, porém
Scott tirava força de cada corrida. Ele era um arquivista e um inovador, um
estudante onívoro que dedicava seus pensamentos ao saber dos navajos, dos
bosquímanos do Kalahari e dos monges maratonistas do monte Hiei da
mesma maneira como pensava em níveis aeróbicos, limites de lactato e o uso
otimizado dos três tipos de fibras de contração muscular (e não dois, como
acha a maioria dos corredores).
Arnulfo não iria competir com um norte-americano veloz. Ele estava
prestes a enfrentar o único correspondente dos tarahumaras do século xxi.

Enquanto o sujeito do armazém e eu estávamos ocupados fazendo


prognósticos, vi Arnulfo passar. Ofereci a ele picolés para retribuir as
laranjas que havia me dado quando estive em sua casa e fomos juntos
procurar um lugar à sombra para descansar. Vi Manuel Luna embaixo de
uma árvore, porém ele parecia tão alheio e perdido em pensamentos que
achei melhor não incomodá-lo. Mas Barefoot Ted não pensou o mesmo.
“Manuel!”, gritou Ted do outro lado da rua.
Manuel ergueu a cabeça.
“Amigo, estou feliz por encontrar você”, foi dizendo Ted. Ele estava
procurando uma tira de borracha para tentar fazer seu próprio par de
sandálias ao estilo tarahumara, quando achou que precisava da orientação de
um especialista. Agarrou o famoso Manuel pelo braço e o levou até uma
pequena venda. Como se viu depois, Ted estava certo e as tiras de borracha
eram diferentes. Manuel fez uma mímica para mostrar que o comprador
queria uma peça com uma fenda no meio, de forma que o nó da tira dos
dedos ficasse no lugar certo e não se desgastasse no contato com o chão.
Alguns minutos depois, Ted e Manuel Luna saíram da lojinha, mediram
o pé de Ted e cortaram a tira de borracha com o meu canivete. Dedicaram-se
à tarefa durante a tarde, medindo e acertando o formato, e, pouco antes do
jantar, Ted caminhou pela rua exibindo seu novo par de Air Lunas. Dali em
diante, ele e Manuel Luna ficaram inseparáveis. Chegaram para jantar e, no
meio do restaurante lotado, procuraram um lugar para sentarem juntos.
Urique tem um único restaurante, mas, quando quem comanda a
cozinha é Mamá Tita, um só basta. Desde o amanhecer até a meia-noite, em
quatro dias seguidos, essa senhora com mais de sessenta anos manteve as
quatro bocas de seu antigo fogão a gás trabalhando sem parar, envolvendo a
cozinha num calor similar ao de uma sauna para garantir comida a todos os
corredores de Caballo: frango e cabra ensopados, peixe de rio frito, carne
grelhada, feijões e guacamole – um molho de abacate um pouco doce –, tudo
temperado com lima silvestre, óleo de chili e coentro fresco. No café da
manhã, o cardápio era composto de ovos mexidos com queijo de cabra e
pimenta suave e, para complementar, porções de pinole e panquecas tão
saborosas que eu não resisti e invadi a cozinha para aprender a receita
secreta.[4]
Quando os corredores das equipes tarahumara e norte-americana se
acomodaram em duas longas mesas no quintal dos fundos da casa de Tita,
Caballo pegou uma garrafa de cerveja e se levantou. Eu achava que ele daria
as instruções finais, mas suas intenções eram outras.
“Há algo errado com vocês”, começou. “Os rarámuris não gostam dos
mexicanos. Os mexicanos não gostam dos norte-americanos. Já os norte-
americanos não gostam de ninguém. E está todo mundo aqui, comportando-
se de um jeito bem diferente do esperado. Eu vi os rarámuris ajudando os
chabochis a atravessar o rio. Vi também os mexicanos tratando os rarámuris
como grandes campeões. E vejam estes gringos, tratando a todos com
respeito. Em geral, mexicanos, norte-americanos e rarámuris não agem
assim.”
Num canto, Ted achou que poderia ajudar Manuel traduzindo
o espanhol capenga de Caballo para um “espanglês” ainda mais
capenga. Conforme Ted tentava, um sorriso amarelo aparecia no rosto de
Manuel. Finalmente, ele parou por ali.
“O que vocês estão fazendo aqui?”, prosseguiu Caballo. “É preciso
plantar milho, cuidar de suas famílias. E vocês, gringos, sabem que tudo é
muito perigoso por aqui. Ninguém precisa falar sobre isso para os rarámuris.
Um de meus amigos perdeu alguém que amava, alguém que poderia ser o
próximo grande campeão rarámuri. Está sofrendo, mas é um amigo de
verdade. E por isso está aqui.”
Todos se calaram. Barefoot Ted colocou a mão no ombro de Manuel.
De todos os tarahumaras a quem ele poderia ter pedido ajuda para fazer as
sandálias, ele não havia escolhido Manuel por acaso.
“Eu achei que esta corrida seria um desastre, porque achei que vocês
estariam muito abalados para vir.” Caballo procurou ao redor, viu Ted e
olhou bem em seus olhos. “Vocês, norte-americanos, em geral tão egoístas e
orgulhosos, estão mostrando que agem de bom coração. Agir por amor, fazer
as coisas sem querer nada em troca. Vocês sabem quem faz as coisas sem
querer nada em troca?”
“Caballo!”, vieram os gritos. “Sim, isso mesmo. Gente maluca. Más
locos. Mas digo uma coisa sobre os malucos: eles veem o que os outros não
conseguem
ver. O governo está abrindo estradas, destruindo várias de nossas
trilhas. Algumas vezes a Mãe Natureza se vinga e varre tudo com enchentes
e deslizamentos. Mas nunca se sabe se teremos outra chance como esta.
Amanhã vamos participar de uma das maiores corridas de todos os tempos, e
vocês sabem quem vai vê-la? Só os más locos: vocês, malucos.”
“¡Más locos!” Erguemos brindes com cerveja no ar. Caballo Blanco, o
andarilho solitário das Sierras Altas, finalmente havia saído do esconderijo
para se ver cercado de amigos. Depois de anos de decepção, faltavam apenas
doze horas para que o seu sonho se realizasse.
“Amanhã, vocês vão ver o que as pessoas malucas veem. O dia começa
com o raiar do sol, porque temos muito a fazer.”
“Caballo! Viva Caballo!”
Capítulo 31
“Muitas vezes eu vejo um corredor mais rápido, quase um corredor
fantasma, indo na minha frente a um passo mais veloz.”
Gabe Jennings, vencedor dos 1.500 metros no US Olympic Trial de 2000

Por volta das cinco horas da manhã, Mamá Tita já havia arrumado as
panquecas e o pinole quente sobre a mesa. Para essa refeição que antecedia a
corrida, Arnulfo e Silvino pediram que preparasse também pozole – um rico
caldo de carne com tomates e grãos de milho – e Tita, rápida como um
pássaro, apesar de ter dormido apenas três horas, aprontou o prato. Silvino
apareceu com um figurino especial para a corrida: uma linda túnica azul-
turquesa e uma saia zapete, com flores bordadas na bainha. “¡Guapo!”,
falou Caballo admirado, elogiando o visual.
Silvino abaixou a cabeça e comeu com vontade. Caballo andava pelo
quintal tomando café. Parecia incomodado. Ele passou a noite acordado,
planejando uma rota alternativa, depois de ter ouvido falar que alguns
plantadores da região pretendiam levar o gado por uma das trilhas. Quando
ele levantou e apareceu para o café da manhã, soube que o pai de Luis já
havia resolvido a situação junto com o velho Bob, o gringo companheiro de
Caballo nas andanças que vivia em Batopilas. Eles haviam encontrado
alguns vaqueros na tarde anterior, enquanto tiravam fotos da região, e
avisaram sobre a corrida. Agora, sem essa preocupação, Caballo procurava
outra. E não precisou se esforçar muito.
“Onde estão os garotos?”, perguntou.
Nenhuma resposta.
“É melhor eu ir ver”, ele disse. “Não quero que se matem sem tomar
café da manhã outra vez.”
Quando Caballo e eu saímos, ficamos surpresos ao ver que a cidade
estava ali, esperando para nos saudar. Enquanto estávamos dentro do
restaurante tomando café, os moradores haviam arrumado guirlandas de
flores e bandeirinhas de papel para enfeitar a rua, e uma banda de mariachis
com sombreros e roupas típicas começava a entoar músicas animadas.
Mulheres e crianças já dançavam pela rua, e o prefeito mirava em algum
lugar no céu, achando um jeito de disparar a arma sem acertar a decoração.
Olhei para o relógio e senti um aperto no peito: faltava meia hora para o
começo da prova. Como Caballo havia previsto, o percurso de 56
quilômetros até Urique já havia me deixado em frangalhos e, em trinta
minutos, eu faria tudo de novo e outros 24 quilômetros adicionais. Caballo
tinha caprichado na escolha do trajeto: iríamos subir e descer duzentos
metros em oitenta quilômetros, exatamente a mesma altitude vencida na
primeira metade da prova de Leadville. Caballo não era um admirador dos
organizadores dessa competição, mas, no que se refere à seleção de percurso,
não ficava nem um pouco atrás.
Caballo e eu subimos a colina até o pequeno hotel. Jenn e Billy ainda
estavam no quarto, discutindo se Billy deveria ou não levar uma garrafa de
água extra – que, por acaso, ele não sabia onde estava. Como eu tinha uma
de reserva que usava para levar café, corri até meu quarto, joguei o líquido
fora e dei a garrafa para o rapaz.
“Agora comam alguma coisa! E rápido!”, mandou Caballo. “O prefeito
vai disparar a largada às sete em ponto.”
Caballo e eu pegamos nossas coisas – um kit de hidratação com géis de
carboidrato e barras de cerais para mim, uma garrafa de água e um pouco de
pinole para ele – e voltamos pela colina. Ainda tínhamos quinze minutos.
Fomos até o restaurante de Tita e vimos que a animação de rua tinha virado
um minicarnaval. Luis e Ted dançavam com as senhoras mais velhas e
tentavam afastar o pai de Luis, que queria entrar na dança. Scott e Bob
Francis batiam palmas e cantavam com os mariachis. Os tarahumaras de
Urique trouxeram o seu próprio grupo de percussão, que marcava o tempo
na calçada com os bastões de madeira, chamados de palia.
Caballo estava encantado. Entrou na multidão e começou a imitar
Muhammad Ali, dando socos no ar. A plateia adorava e Mamá Tita mandava
beijos.
“¡Ándale! Vamos dançar o dia todo!”, Caballo berrou, com as mãos
diante da boca, formando um megafone. “Mas só se ninguém morrer. Aqui é
preciso tomar cuidado!” Ele se virou para os mariachis e fez um gesto para
que parassem. Chega de música. O show vai começar.
Caballo e o prefeito começaram a espantar quem estava dançando na
rua e a chamar os corredores para a linha de largada. Nós nos juntamos,
formando um emaranhado de rostos, corpos e roupas de todos os tipos. Os
tarahumaras de Urique vestiam shorts e tênis de corrida, mas também
levavam seus palias. Scott tirou a camiseta. Arnulfo e Silvino, vestidos com
trajes vistosos que haviam comprado especialmente para a corrida,
acomodavam-se perto de Scott – os “caçadores de cervo” não perderiam El
Venado de vista nem por um segundo. Em uma espécie de acordo tácito, nos
ajeitamos atrás de uma linha invisível no asfalto em mau estado e ficamos
atrás dela.
Meu peito estava rígido. Eric deu um jeito de se aproximar e disse:
“Olha, tenho más notícias para você. Você não vai vencer. Não importa o
que faça, vai passar o dia nisso. O melhor, então, é relaxar, seguir seu ritmo e
aproveitar. Tenha isto em mente: se parecer que está custando esforço, você
está se exigindo demais”.
“Mas posso esperar que eles tirem uma soneca e fazer a minha jogada”,
disse.
“Sem jogadas!”, avisou Eric. Ele não queria que aquela ideia passasse
pela minha cabeça nem de brincadeira. “Sua tarefa é voltar para casa
caminhando sobre os dois pés.”
Mamá Tita se aproximou de cada corredor, olhando nos olhos enquanto
apertava as nossas mãos. “Ten cuidado, cariño”, orientava.
“¡Diez!... ¡Nueve!...”
O prefeito tinha a ajuda da plateia na contagem regressiva.
“¡Ocho!... ¡Siete!...”
“Onde estão os garotos?”, berrou Caballo.
Olhei ao redor. Nenhum sinal de Jenn e Billy.
“Faça ele parar!”, gritei em resposta.
Caballo recusou com a cabeça e se arrumou para a posição de largada.
Tinha esperado anos e arriscado a sua vida por este momento – não iria
postergá-lo por ninguém no mundo.
“Brujita!”, apontavam alguns guardas que estavam atrás de nós.
Jenn e Billy chegaram correndo pela colina quando a população já
estava no cuatro. Billy vestia calças de surfista e estava sem camisa,
enquanto Jenn apareceu com shorts pretos de lycra e um top de corrida da
mesma cor, com os cabelos presos em dois rabos laterais, como Pippi
Meialonga. Distraída com seu fã-clube militar, Jenn jogou a mochila com
comida e meias reservas para o lado errado da rua, espantando os presentes,
que se abriram conforme a mochila sumiu. Saí correndo atrás, peguei a
mochila e passei ao pessoal de apoio bem na hora que o prefeito apertou o
gatilho.
Bum!
Scott pulou e deu seu grito, Jenn urrou e Caballo berrou. Os
tarahumaras se limitaram a correr. A equipe de Urique partiu em bando,
desaparecendo na trilha de terra no meio das sombras pré-amanhecer.
Caballo havia avisado que os tarahumaras pegariam pesado, mas aquilo era
demais. Scott veio logo atrás, com Arnulfo e Silvino em seus calcanhares.
Eu corria devagar, deixando a multidão passar, até ficar em último lugar.
Seria legal ter companhia, porém, naquele momento da corrida, eu me sentia
mais seguro sozinho. O pior erro que poderia cometer seria atrapalhar o
ritmo de alguém.
Os primeiros três quilômetros eram um trecho plano na saída da cidade,
numa trilha de terra que levava até o rio. Os tarahumaras de Urique foram os
primeiros a chegar na água, mas, em vez de entrar e seguir em frente para
uma travessia de 46 metros em águas rasas, pararam de repente e começaram
a vasculhar a margem, olhando as rochas bem de perto.
Mas que diabos...?, perguntava-se Bob Francis, que havia saído na
frente com o pai de Luis para fazer fotos de um ponto do outro lado do rio.
Ele viu quando os tarahumaras de Urique pegaram as sacolas plásticas que
tinham escondido entre as pedras na noite anterior. Com os bastões de
madeira embaixo do braço, colocaram os pés dentro das sacolas, amarraram
e começaram a cruzar o rio, demonstrando o que acontece quando a nova
tecnologia substitui algo que funcionou bem por 10 mil anos: com medo de
molhar os preciosos tênis ganhos do Exército da Salvação, eles atravessaram
o leito com um equipamento totalmente caseiro.
“Deus do céu! Nunca vi nada igual”, disse Bob.
Os tarahumaras de Urique ainda estavam passando as rochas
escorregadias quando Scott chegou na beira do rio. Entrou direto na água,
Arnulfo e Silvino vindo logo atrás. Os tarahumaras pisaram no outro lado da
margem, tiraram os sacos plásticos dos pés e os guardaram dentro dos shorts
para usar novamente em outra ocasião. Começaram a subir a íngreme duna,
com Scott bem perto e areia voando para todos os lados. Quando os
tarahumaras de Urique chegaram na trilha de terra que levava ao alto da
montanha, Scott e os Quimare estavam juntos.
Enquanto isso, Jenn começava a ter problemas. Ela, Billy e Luis haviam
atravessado o rio junto com os demais tarahumaras, mas, quando chegaram
na duna, a mão esquerda da corredora a incomodava. Os ultracorredores
costumam prender garrafas de água com alças e tiras nas mãos, para facilitar
o uso. Jenn havia dado a Billy uma de suas garrafas e improvisado uma
segunda para si mesma: prendeu uma garrafa de água mineral com uma faixa
ao redor da mão. Ao abrir caminho pela duna, a invenção caseira se revelou
incômoda. Era um problema pequeno, porém ela teria de conviver com ele
por todos os minutos das próximas oito horas. Jenn deveria manter aquilo?
Ou seria melhor se arriscar a correr pelo desfiladeiro levando uma
quantidade insuficiente de água?
Jenn tentou ajeitar a faixa. Ela sabia que a única esperança na
competição com os tarahumaras seria ir com tudo. Se ela arriscasse e fosse
firme, beleza. Mas, se perdesse uma corrida como aquela porque apostara na
segurança, não se perdoaria nunca. Jenn se livrou da garrafa e imediamente
se sentiu melhor – mais ousada até, o que a levou à proxima decisão
importante. Eles estavam no meio do primeiro “moedor de carne”: uma
colina íngreme de cinco quilômetros e com pouca sombra. Quando o sol
apertasse, ela teria menos chances de se aproximar dos tarahumaras
“comedores de sol”.
“Droga!”, pensou alto Jenn. Vou aproveitar para ir agora enquanto
ainda está fresco. Depois de poucos passos, ela se afastava do grupo. “Até
mais tarde, colegas”, disse ao passar.
Os tarahumaras deram início à caçada. Dois veteranos, Sebastiano e
Herbolisto, passaram na frente dela, enquanto outros três a cercaram. Jenn
achou uma brecha e saiu correndo, ganhando distância. Na mesma hora, os
tarahumaras voltaram a tentar cercá-la. Amantes da paz na vida cotidiana,
aquela tribo não estava para brincadeiras na hora da competição.
“Eu odeio dizer isso, mas Jenn não vai aguentar”, disse Luis para Billy
quando os dois a viram escapar pela terceira vez. Eles haviam percorrido
apenas cinco dos oitenta quilômetros da prova, e ela já estava disputando
centímetro por centímetro com um grupo de cinco tarahumaras. “Ninguém
corre desse jeito se quiser terminar a prova.”
“Ela sempre consegue dar um jeito”, garantiu Billy.
“Acho que não desta vez”, retrucou Luis. “Não contra esses caras.”
Graças à engenhosidade do planejamento de Caballo, todos nós
poderíamos assistir àquela disputa em tempo real. Ele havia armado um
trajeto em formato de Y, com a linha de largada bem no meio. Dessa
maneira, os moradores poderiam ver a corrida várias vezes, nas diversas idas
e vindas dos participantes, e cada competidor poderia saber qual distância o
separava dos líderes da prova. Esse desenho também apresentava outra
vantagem inesperada: naquele exato momento, Caballo tinha vários motivos
para suspeitar dos tarahumaras de Urique.
Caballo estava quatrocentos metros atrás – assim, tinha uma visão
perfeita de Scott e dos “caçadores de cervo” conforme eles reduziam a
distância em relação ao grupo de Urique na colina, do outro lado do rio.
Quando viu que eles vinham em sua direção depois de fazer a primeira meia-
volta, ficou impressionado: em um trecho de apenas seis quilômetros, o
grupo de Urique havia aberto uma vantagem de quatro minutos. Aqueles
nativos, além de deixar para trás os dois melhores corredores da etnia,
também tinham superado o maior destaque na subida de montanhas de toda a
história das ultramaratonas no Ocidente.
“Não, não pode ser. Droga!”, resmungou Caballo, que corria em um
grupo com Barefoot Ted, Eric e Manuel Luna. Quando chegaram no ponto
de meia-volta da milha de número 5 (quilômetro 8) na pequena aldeia
tarahumara de Guadalupe Coronado, Caballo e Manuel começaram a fazer
perguntas a alguns índios que assistiam à prova. Não demorou muito para
descobrirem o que havia acontecido: os tarahumaras de Urique estavam
seguindo trilhas secundárias e cortando caminho. Mais do que raiva, Caballo
sentiu um pouco de pena. Os corredores de Urique perderam a antiga forma
de correr e sua confiança também, concluiu. Eles não eram mais o povo
corredor: apenas tentavam desesperadamente não fazer feio perto das
sombras do que foram no passado.
Caballo perdoou o grupo como amigo, mas não na condição de diretor
da prova. E anunciou: a equipe de Urique estava desclassificada.

Eu tomei um susto quando cheguei ao rio. Havia me concentrado tanto em


observar o meu andar no escuro e rever as minhas instruções de passo (dobre
os joelhos, passos de ave, sem deixar vestígios...) que, no instante em que a
água do rio chegou aos meus joelhos, caiu a ficha: eu havia corrido três
quilômetros e não sentia absolutamente nada. Melhor: eu estava leve e solto,
ainda mais animado e com mais energia do que no início da prova.
“Vá lá, Oso!”, Bob Francis me animava do outro lado do rio. “Há uma
colina ali na frente, e não é nada demais.”
Saí da água e encarei a duna, com mais confiança a cada passo. Tudo
bem, eu tinha 77 quilômetros pela frente, mas, da forma como estava indo,
talvez conseguisse passar dez ou mais quilômetros antes de começar a fazer
esforço. Passei à subida da trilha de terra bem quando o sol surgia no alto do
desfiladeiro. Na hora, tudo se iluminou: o rio brilhante, a floresta verdejante,
a cobra-coral que estava ali pertinho de meu pé...
Dei um grito e saí da trilha, aproximando-me da encosta íngreme e me
agarrando nos galhos para não cair. Podia ver a cobra ali do meu lado, quieta
e curvada, pronta para atacar. Se eu avançasse, estaria arriscado a uma
picada fatal; se me movesse no sentido do rio, poderia cair no desfiladeiro. O
único jeito era tentar desviar pelo lado, passando de um arbusto a outro.
Fiz o primeiro movimento me agarrando na vegetação, depois o
segundo. Quando estava alguns metros adiante, virei-me e olhei para a trilha.
A cobra ainda bloqueava o caminho, mas por um bom motivo: estava morta.
Alguém já havia dado uma paulada nela. Limpei a poeira de meus olhos e
contabilizei os prejuízos: arranhões feitos pelas pedras nas duas canelas,
espinhos nas mãos e coração pulando no peito. Tirei os espinhos com os
dentes e limpei os machucados com um pouco de minha água. Hora de
continuar. Não queria que ninguém achasse que eu havia me machucado ou
ficado apavorado por causa de uma cobra morta.
O sol estava cada vez mais forte conforme eu subia, mas, depois do
frescor do início da manhã, parecia mais estimulante do que cansativo.
Continuei me lembrando dos conselhos de Eric (“Se parecer que está
custando esforço, você está se exigindo demais”), então decidi me desligar e
parar de controlar o meu passo de forma obsessiva. Admirei a vista do
desfiladeiro ao meu redor, enquanto o sol se erguia sob o alto da colina, do
outro lado do rio, deixando tudo dourado. Rapidamente estarei no alto
daquele pico, pensei.
Alguns instantes depois, Scott apareceu numa curva da trilha. Ele
passou por mim com um sorriso e fez sinal de positivo, para sumir em
seguida. Arnulfo e Silvino vinham logo atrás, com as camisas esvoaçando
como velas. “Devo estar perto da meia-volta dos oito quilômetros”, presumi.
Continuei subindo as próximas curvas e logo vi Guadalupe Coronado. Era
pouco mais que uma escola com as paredes pintadas de branco, algumas
casas pequenas e uma minúscula venda, que oferecia refrigerantes quentes e
pacotes de biscoito cobertos de poeira. Mesmo assim, eu conseguia ouvir os
gritos e os sons dos tambores a um quilômetro e meio de distância.
Um bando de corredores acabava de sair de Guadalupe e se esforçava
para alcançar Scott e os Quimare. À frente do grupo, ia La Brujita.

No instante em que percebeu a sua chance, Jenn não hesitou. Na caminhada


de Batopilas, ela havia notado que os tarahumaras corriam morro abaixo da
mesma forma como faziam para subir, com um passo constante e controlado.
Jenn, ao contrário, adorava acelerar nas descidas. É meu único ponto forte,
por isso eu tenho de aproveitar, decidiu. Assim, em vez de se desgastar
brigando com Herbolisto, ela decidiu deixá-lo estabelecer o ritmo da subida.
Assim que chegaram no ponto de meia-volta e começaram a longa descida,
ela assumiu a vantagem e acelerou fundo.
Desta vez, os tarahumaras a deixaram passar. Ela saiu tão na frente que,
na subida seguinte – um trilha estreita e rochosa que formava o segundo
“braço” do Y, na milha de número 15 (quilômetro 24) –, Herbolisto e os
outros não conseguiram mais se aproximar dela. Jenn se sentia tão confiante
que, ao chegar na meia-volta, parou para respirar e encher a garrafa. Até
então tivera muita sorte com a água: Caballo havia pedido aos moradores de
Urique que se espalhassem pela beira da trilha com potes de água potável e
parecia que, sempre que Jenn tomava o seu último gole, surgia outro
voluntário.
Ela ainda estava enchendo a sua garrafa quando Herbolisto, Sebastiano
e o restante do grupo chegaram perto. Passaram direto, sem parar, e Jenn os
deixou ir. Depois de se sentir reidratada, começou a descer a colina. Em três
quilômetros, ela os alcançou e os ultrapassou novamente. Calculou o
caminho à frente e estimou por quanto tempo conseguiria manter vantagem.
Logo à frente havia três quilômetros de descida, depois mais seis
quilômetros em trajeto plano de volta à aldeia, e depois...
Bam! Jenn caiu no meio das rochas, deslizando com o peito no chão
antes de parar. Ficou ali deitada, cega de dor. Sua joelheira arrebentou e caiu,
num dos braços havia sangue. Antes que conseguisse se recuperar e tentar
ficar em pé, Herbolisto e o grupo passaram por ela como um raio. Um por
um, a ultrapassaram e desapareceram, sem nem sequer olhar para trás.
Eles devem estar pensando: “Isto é o que acontece com quem não sabe
correr nas pedras”, imaginou Jenn. Bem, podem estar certos. Rapidamente,
ela se ergueu para ver o que havia acontecido. As canelas pareciam pizzas,
porém a joelheira estava apenas solta e o “sangue” que parecia vir de sua
mão era só um pouco de chocolate de uma das barras de cereais que levava
para se abastecer no caminho. Ela deu alguns passos com cuidado, depois
correu um pouco e se sentiu melhor que o esperado. Estava tão bem que, ao
chegar no fim da colina, já havia alcançado e ultrapassado todos os
tarahumaras que haviam passado por ela no caminho.
“Brujita!” Os moradores de Urique gritaram felizes quando viram Jenn
voltando à cidade, machucada mas sorrindo ao chegar na milha de número
20 (quilômetro 32). Ela parou no posto de apoio para repor os suprimentos e
uma felicíssima Mamá Tita, limpando as canelas ensanguentadas da
corredora com o avental, disse bem alto: “¡Cuarto! ¡Estás en cuarto
lugar!”.
“Eu estou o quê? Num quarto?” Jenn já estava no caminho que saía da
cidade antes que o seu pobre espanhol permitisse saber o que Mamá Tita
tentava dizer: quarto lugar! Apenas Scott, Arnulfo e Silvino seguiam na
frente dela, e ela vinha bem perto. Caballo havia acertado ao escolher o
nome espiritual de Jenn: La Bruja havia voltado para se vingar doze anos
depois da corrida de Leadville.
Mas isso só aconteceria se Jenn conseguisse vencer o calor. A
temperatura passava dos 38 graus quando ela começou a entrar na parte mais
quente – o trecho sinuoso e acidentado da aldeia de Los Alisos. A trilha
seguia uma parede de rocha que subia, prolongava-se e voltava a subir,
ganhando e perdendo cerca de novecentos metros. Qualquer subida da parte
de Los Alisos estaria entre as mais árduas que Jenn já conhecera, e havia
cerca de meia dúzia delas, uma depois da outra. O calor refletido pelas
pedras parecia queimar a pele, mas ela tinha de correr perto do paredão para
se manter na trilha e não cair desfiladeiro abaixo.
Jenn havia acabado de chegar no alto de uma das colinas quando
subitamente teve de se apertar contra o paredão: Arnulfo e Silvino vinham
na direção dela, lado a lado. Os “caçadores de cervo” haviam surpreendido
todo mundo: o esperado era que os tarahumaras ficassem no encalço de Scott
o dia todo e tentassem ultrapassá-lo na chegada, mas, em vez disso, haviam
deixado a presa para trás e lideravam a prova.
Ela se encostou na rocha quente para dar passagem. Antes que tivesse
tempo de perguntar onde estava Scott, precisou colar na rocha novamente.
“Scott subia aquilo com uma intensidade que eu nunca tinha visto”, contou
Jenn depois. “Ele ia calmo, na dele. Até me perguntei se ele tinha me visto
ali, estava tão concentrado... Mas aí Scott levantou o olhar e gritou: ‘Ei,
Brujita, uhuuu!’.”
Scott parou para falar sobre o trecho que vinha pela frente e avisar onde
ela encontraria água. Perguntou sobre Arnulfo e Silvino: a que velocidade
haviam passado? Pareciam bem? Jenn disse que eles estavam com uns três
minutos de vantagem e faziam esforço.
“Bom”, disse Scott. Deu uns tapinhas nas costas de Jenn e partiu.
Jenn viu Scott se afastar e percebeu que ele corria perto da borda da
trilha, fazendo as curvas de forma perigosa. Era um velho truque de Marshall
Ulrich: é mais difícil para quem está na frente olhar para trás e ver como está
quem o persegue. Scott não havia sido surpreendido pela arrancada de
Arnulfo: o cervo havia trocado de lugar com os caçadores.

“Apenas termine a prova”, eu dizia para mim mesmo. “Nada mais. Basta
terminar a prova.”
Antes de encarar a subida para Los Alisos, parei para tentar me
controlar. Enfiei a cabeça na água do rio e a deixei ali por uns instantes,
desejando que aquilo me esfriasse e o fluxo de oxigênio me colocasse de
volta na realidade. Eu havia acabado de chegar na metade do trajeto e levado
cerca de quatro horas. Quatro horas, para uma maratona em terreno difícil,
sob o calor do deserto! Eu estava adiantado, começava a me sentir
competitivo. Como deve estar a situação de Barefoot Ted? Ele pode ter se
machucado nestas pedras. E Porfilio parecia estar com dificuldades....
Felizmente, o contato com a água havia ajudado. Descobri
o motivo por que eu me sentia bem mais forte aquele dia do que em
todo o trajeto de Batopilas: estava correndo como os bosquímanos do
Kalahari. Eu não tentava ultrapassar o antílope, e sim mantê-lo à vista. O que
havia me matado durante o percurso de Batopilas era tentar acompanhar o
ritmo de Caballo e dos outros. Agora, a minha luta era contra a corrida, e não
contra os corredores.
Antes que a ambição aumentasse demais, era hora de tentar outra tática
dos bosquímanos: fazer uma avaliação cuidadosa da situação. Nesse
momento, percebi que a minha situação era pior do que eu achava. Estava
com sede, com fome e com menos de meia garrafa de água. Eu não havia
urinado em mais de uma hora, o que não era bom sinal considerando a
quantidade de água que estava tomando. Se não me reidratasse logo, e
mandasse algumas calorias para o estômago, teria sérios problemas para
enfrentar a montanha-russa que era aquela sequência de colinas. Quando
cheguei no rio, enchi a minha garrafa com água e joguei dentro algumas
pílulas de iodo. Esperei meia hora para purificar, enquanto bebi o restante de
minha água limpa e comi uma ProBar – barra de cereais com uvas-passas,
tâmara, aveia e até arroz integral.
Boa medida. “Melhor se precaver”, avisou Eric ao passar por mim no
outro lado do rio. “Lá em cima é pior do que você se lembra.” Eric admitiu
que as colinas eram tão duras que ele chegou a pensar em desistir. Uma
notícia ruim como essa poderia parecer um soco no estômago, porém Eric
acreditava que a pior coisa que se pode dar a um corredor é falsa esperança.
O que deixa um competidor tenso é o inesperado, mas, se ele sabe o que o
espera, pode relaxar e se concentrar no esforço.
Eric não exagerou. Por mais de uma hora eu subi e desci as colinas,
convencido de que estava perdido e iria desaparecer no meio do nada. Só
havia uma trilha e eu estava nela – mas onde diabos estava o pomar de
toranjas de Los Alisos? Era para estar a apenas uns seis quilômetros do rio,
porém eu tinha a impressão de ter corrido dezesseis quilômetros e não via
nada. Finalmente, quando as minhas coxas ardiam e quase não me
obedeciam mais, a ponto de eu suspeitar que iria entrar em colapso, vi
alguns pés de toranja numa colina lá na frente. Subi e voltei a descer rumo a
um grupo de tarahumaras de Urique. Eles tinham ficado sabendo da
desclassificação e decidiram descansar na sombra antes de caminhar de volta
à cidade.
“No hay problema”, um deles me disse. “Eu estava cansado demais
para continuar na prova.” E me passou um velho pote de alumínio. Avancei
no recipiente coletivo de pinole, sem me preocupar com o risco de giardíase.
Estava refrescante e deliciosamente granulado. Engoli um bocado, depois
outro, e olhei para o percurso que havia acabado de fazer. Lá longe, o rio era
um risquinho sumindo na paisagem. Eu não conseguia acreditar que havia
corrido tudo aquilo. Ou que ia fazer tudo isso de novo.

“É inacreditável!”, disse Caballo, quase sem fôlego.


Ele brilhava de suor e tinha os olhos bem abertos de entusiasmo.
Conforme se esforçava para recuperar a respiração, as gotas de suor
escorriam pelo peito como uma chuva sob o sol mexicano. “Que
acontecimento incrível! E aqui, no meio do nada!”
Por volta da milha de número 42 (quilômetro 67,5), Silvino e Arnulfo
ainda estavam na frente de Scott, e Jenn vinha logo atrás dos três. Na
segunda vez que passou por Urique, Jenn sentou numa cadeira para beber
uma Coca-Cola, porém Mamá Tita a abraçou e tentou fazê-la se erguer.
“¡Puedes, cariño, puedes!”, Tita a incentivava, lembrando a corredora
de que ela tinha capacidade.
“Eu não estou desistindo”, protestou Jenn. “Só preciso beber algo.”
Mas as mãos de Tita estavam nas costas de Jenn, empurrando a menina
de volta à rua. E bem na hora: Herbolisto e Sebastiano tinham aproveitado o
trecho plano da cidade para ganhar uma vantagem de quatrocentros metros
em relação a Jenn. Billy resolveu deixar de correr no passo de Luis e tentar
ganhar alguma vantagem também.
“Isso está emocionante!”, empolgou-se Caballo. Ele vinha cerca de
meia hora atrás dos líderes e isso o incomodava – não pelo fato de que não
ganharia a prova, mas porque corria o risco de não ver a chegada. O
suspense era tão insuportável que ele decidiu abandonar a competição e ir
até Urique, para ver se conseguiria chegar antes da decisão final.
Ao ver Caballo fazendo isso, fiquei tentado a fazer o mesmo. Estava tão
cansado que não consegui achar o meu caminho pela pequena ponte que
cobria o rio – quando me dei conta, estava dentro da água e tive de
atravessar o leito a pé pela quarta vez. Meus pés encharcados pareciam tão
pesados que era difícil erguê-los conforme eu me deslocava e mandava areia
para todos os lados. Já estava correndo o dia todo e ali me encontrava outra
vez, na base de uma subida quase alpina e aparentemente sem fim, naquele
ponto em que eu quase desisti pela manhã quando dei de cara com uma
cobra morta. Não havia possibilidade de terminar o trajeto antes do anoitecer
e, desta vez, teria de encarar uma corrida na escuridão.
Abaixei a cabeça e comecei a arrastar os pés. Quando ergui o olhar
outra vez, vi crianças tarahumaras ao meu redor. Fechei os olhos e os abri
novamente. As crianças ainda estavam ali. Fiquei tão feliz ao constatar que
não se tratava de uma alucinação que por pouco não chorei. Não fazia a
menor ideia de onde elas tinham vindo e por que haviam escolhido me
acompanhar, mas juntos fomos subindo rumo ao topo da colina.
Depois de andar comigo cerca de oitocentos metros, as crianças
entraram em uma trilha quase invisível e fizeram sinal para que eu as
acompanhasse.
“Não posso”, disse, lamentando.
Elas entenderam e sumiram no meio dos arbustos. “¡Gracias!”,
respondi, mas elas já haviam partido. Continuei lutando para subir a colina,
insistindo num trote que mais parecia uma caminhada vigorosa. Quando
cheguei numa parte reta, as crianças estavam ali, à minha espera. Então era
assim que os tarahumaras de Urique haviam conseguido abrir uma vantagem
tão grande. As crianças continuaram ao meu lado por um tempo e voltaram a
sumir no meio da vegetação. Oitocentos metros depois, apareceram outra
vez. Aquilo já estava virando um pesadelo: eu corria e corria e nada mudava.
A colina parecia se estender para sempre e, em todos os lugares para onde eu
olhava, apareciam aquelas “crianças do milho”.
O que Caballo faria?, eu me perguntei. Ele estava sempre metido nas
trilhas desertas daquele desfiladeiro e sempre conseguia encontrar o seu
caminho. Ele iria se concentrar em fazer tudo com facilidade, falei para mim
mesmo. Porque correr assim já não é pouca coisa. Depois, tentaria correr
com leveza. Faria isso sem esforço, como se não se importasse com a altura
da colina ou a extensão da trilha...
“Oso!” Lá vinha Barefoot Ted em minha direção, com um ar excitado.
“Alguns garotos me deram um pouco de água e eu consegui me
refrescar um pouco”, contou. “Aí acabei jogando a água no corpo...”
Eu tive dificuldade para acompanhar o relato de Ted porque a sua voz
parecia sumir, como um rádio fora de sintonia. O nível de açúcar em meu
sangue estava tão baixo que eu me sentia à beira de um desmaio.
“...E eu continuei correndo. Quando me liguei, droga, a água tinha
acabado...”
Pelo que pude entender da falação de Ted, faltava um quilômetro e
meio até o ponto de dar meia-volta. Ouvi com impaciência, desespe-rado
para chegar na estação de apoio para comer uma barra de cereais e respirar
fundo antes de encarar os oito quilômetros finais.
“...Falei para mim mesmo que, se tivesse de mijar, era melhor que fosse
numa dessas garrafas, para o caso de chegar a uma situação extrema, sabe?
Extrema mesmo. Aí mijei na garrafa e estava laranja. Não tinha um aspecto
bom. E também estava quente. Eu acho que houve quem me viu mijando na
garrafa e pensou: ‘Esses gringos são estranhos mesmo...’”
“Espere”, interrompi, começando a entender o que ele dizia. “Você não
está bebendo xixi, não é?”
“Foi o pior! O mijo com o pior gosto que já senti em toda a minha vida.
Daria para engarrafar e vender, porque aquilo faria um morto voltar à vida.
Eu sei que é possível beber urina, mas não quando ela está aquecida e
chacoalhando em seus rins por 64 quilômetros. Foi uma experiência horrível.
Eu não beberia de novo aquele xixi nem que fosse o último líquido
disponível no planeta.”
“Tome aqui”, disse, oferecendo o restante de minha água. Eu não
entendia por que ele não havia voltado até a estação de apoio e enchido a
garrafa, já que estava tão preocupado assim, mas eu me sentia cansado
demais para fazer perguntas. Barefoot Ted parou de falar, encheu a própria
garrafa e saiu em disparada. Por mais estranho que fosse, não havia como
negar a determinação e a habilidade daquele sujeito – estava a menos de oito
quilômetros do final de uma corrida de oitenta quilômetros calçando apenas
sandálias de borracha, e seria capaz de beber xixi para chegar ali.
Somente depois que cheguei na meia-volta de Guadalupe consegui
entender o motivo de Barefoot Ted estar tão sedento: toda a água havia
acabado. As pessoas também haviam sumido, já que todos os moradores
tinham ido a Urique para a festa da chegada. A minúscula venda estava
fechada e não havia ninguém que pudesse dizer onde ficavam os poços. Eu
me acomodei em uma rocha.
Minha cabeça girava e a boca estava seca demais. Ainda que eu
conseguisse dar algumas mordidas em algo, estava muito desidratado e seria
incapaz de seguir o trajeto até a linha de chegada. A única maneira de
apontar em Urique era caminhando, mas eu me sentia exausto para andar.
“Isso que dá ter dó dos outros”, disse a mim mesmo. “Fui generoso, e o
que recebi em troca?”
Eu sentei ali, derrotado. A respiração pesada por causa da árida subida
tornou mais difícil a identificação de outro ruído – um assobio estranho e
longo, que parecia cada vez mais próximo. Fiz esforço para ver o que era e,
ali naquela colina perdida, vi o velho Bob Francis.
“Ei, amigo”, disse Bob, tirando dois frascos com suco de manga de sua
mochila e agitando um pouco. “Eu achei que você poderia gostar de um
refresco.”
Eu mal podia acreditar. Bob havia caminhado oito quilômetros de
trilhas pesadas embaixo daquele sol apenas para me levar um suco? Mas aí
lembrei que, alguns dias antes, Bob havia ficado impressionado com o
canivete que eu havia emprestado para Barefoot Ted confeccionar as suas
sandálias. Era um souvenir de minhas viagens à África. Como Bob havia
sido tão amável com todos nós, dei o canivete de presente a ele. Talvez a
presença milagrosa de Bob por ali tenha sido apenas uma feliz coincidência,
mas, quando eu bebi aquele suco e me senti pronto para correr o final da
prova, não pude deixar de sentir que a última peça do enigma dos
tarahumaras começava a fazer sentido.

Caballo e Tita acharam um lugar no meio da multidão perto da linha de


chegada, esticando o pescoço para tentar ver quem liderava a corrida.
Caballo tirou do bolso o velho Timex com pulseiras arrebentadas: seis horas
de prova. Talvez ainda fosse cedo, mas havia uma possibilidade de...
“¡Vienen!”, gritou alguém. Estão chegando!
A cabeça de Caballo parecia que ia saltar. Ele olhava fixamente para a
estrada, tentando enxergar entre as cabeças das pessoas que dançavam.
Alarme falso. Era apenas uma nuvem de poeira e... Não! Era para valer!
Balançando os cabelos escuros e com a camisa vistosa, lá vinha Arnulfo,
ainda na liderança.
Silvino estava em segundo lugar, Scott vinha logo atrás. A um
quilômetro e meio da chegada, Scott passou Silvino. Mas, em vez de passar
como um raio, Scott bateu nas costas de Silvino e disse: “Vamos lá!”. Fez
sinais para que Silvino o acompanhasse, e este juntou forças para seguir
passo a passo com Scott. Juntos, seguiriam atrás de Arnulfo.
Saudações e gritos animavam o som dos mariachis conforme os três
corredores abriam caminho rumo à linha de chegada. Silvino sumia e voltava
a aparecer – não conseguia acompanhar o ritmo de Scott. Esse último seguia
em frente: já havia chegado nesse ponto antes e sabia que sempre tinha uma
reserva. Arnulfo olhou para trás e viu o sujeito que havia derrotado os
melhores corredores do mundo vindo logo atrás dele, com toda a vitalidade.
Assim que Arnulfo cortou o centro de Urique, os gritos ficaram cada vez
mais altos conforme ele se aproximava da linha. Quando cruzou a chegada,
Tita estava em lágrimas.
Arnulfo já havia caído nos braços da plateia no momento em que Scott
chegava em segundo lugar. Caballo correu para saudá-lo, porém Scott
passou sem falar uma palavra. Ele não estava acostumado a perder,
especialmente para um desconhecido, numa corrida improvisada no meio do
nada. Isso nunca havia acontecido antes. Mas Scott Jurek sabia o que tinha
de fazer.
Scott se aproximou de Arnulfo e se curvou, saudando-o.
As pessoas ficaram malucas. Tita correu para abraçar Caballo e o
encontrou em lágrimas. No meio daquela confusão, Silvino cruzou a linha de
chegada, seguido de Herbolisto e Sebastiano.
E Jenn? A decisão de vencer ou morrer finalmente havia chegado a um
limite.

Quando Jenn entrou em Guadalupe, estava prestes a desmaiar. Ela se


acomodou embaixo de uma árvore e colocou a cabeça tonta entre os joelhos.
Um grupo de tarahumaras a cercou, tentando estimulá-la a ficar em pé
novamente. Ela ergueu a cabeça e fez uma mímica pedindo algo para beber.
“Água?”, perguntou. “Água purificada?”
Alguém colocou uma Coca-Cola quente em suas mãos.
“Melhor ainda”, disse ela, sorrindo com esforço.
Ela ainda bebia o refrigerante quando ouviu gritos. Sebastiano e
Herbolisto estavam se aproximando do vilarejo. Jenn os perdeu de vista no
momento em que as pessoas se aglomeraram para cumprimentar e oferecer
pinole. Mas, em seguida, ela viu Herbolisto diante dela, estendendo a mão.
Com a outra mão, apontou para a trilha. Ela ia também? Jenn negou com a
cabeça: “Não agora”. Herbolisto começou a correr, depois parou e voltou.
Estendeu a mão novamente. Jenn sorriu e agradeceu: “Vá em frente!”.
Herbolisto acenou e partiu.
Logo depois que ele havia desaparecido na trilha, os gritos começaram
outra vez. Alguém disse que El Lobo estava vindo.
Billy! Jenn ofereceu a ele um longo gole de Coca-Cola e se ergueu
enquanto ele bebia o líquido. De todas as vezes que correram juntos e em
todos os finais de tarde em Virginia Beach, a dupla nunca havia terminado
uma prova lado a lado.
“Pronta?”, perguntou Billy.
“Pode apostar.”
Juntos, eles correram pela longa colina e passaram voando pela
pontezinha. Chegaram a Urique comemorando um belíssimo resultado:
apesar das pernas machucadas de Jenn e da forma pe-culiar de Billy se
preparar para uma corrida, haviam chegado na frente de quase todos,
vencendo até Luis e Eric, dois ultracorredores experientes.
Manuel Luna havia desistido no meio da prova. Apesar de ter feito
todos os esforços para cumprir o combinado com Caballo, a dor pela perda
do filho o deixara pesado demais para competir. No entanto, ao mesmo
tempo que não conseguia se dedicar à corrida, estava bastante comprometido
em ajudar um dos competidores. Manuel subiu e desceu distâncias de olho
em Barefoot Ted. Logo, estava cercado por Arnulfo... Scott... Jenn e Billy.
Uma coisa estranha aconteceu: conforme os corredores reduziram a
velocidade, as saudações ficaram mais intensas. Sempre que um deles
cruzava a linha de chegada – Luis e Porfilio, Eric e Ted –, imediatamente se
virava e começava a incentivar os que ainda estavam na prova.

Do alto da colina, eu podia ver o brilho de luzes vermelhas e verdes sobre a


estrada para Urique. O sol havia sumido e eu estava ali correndo naquele
crepúsculo prateado nas profundezas do desfiladeiro, com uma lua
brilhando. Nesse cenário, parece que tudo parou no tempo – menos você. E
então, naquele ermo sombrio, apareceu o andarilho solitário das Sierras
Altas.
“Quer companhia?”, perguntou Caballo.
“Eu adoraria.”
Juntos, passamos a ponte de madeira, e o ar frio vindo do rio me deu
uma incrível sensação de leveza. Quando chegamos no último trecho antes
da cidade, era possível ouvir as cornetas. Lado a lado, passo a passo, Caballo
e eu corremos até Urique.
Nem sei se cheguei a cruzar a linha de chegada. Tudo o que vi foi um
rabo de cavalo se movendo conforme Jenn atravessou a mulidão para me
receber. Eric me segurou antes que eu caísse e despejou uma garrafa de água
fria em minha nuca. Arnulfo e Scott, com os olhos já vermelhos, colocaram
uma cerveja na minha mão.
“Você foi incrível”, disse Scott.
“É”, respondi, “incrivelmente lento.” Eu havia feito o trajeto em doze
horas, tempo suficiente para Scott e Arnulfo correrem duas vezes a prova
inteira e, ainda assim, chegarem na minha frente.
“É o que estou falando”, insistiu Scott. “Já passei por isso, passei por
isso várias vezes. É mais difícil do que correr velozmente.”
Andei com dificuldade até perto de Caballo, que estava acomodado
embaixo de uma árvore enquanto a festa corria solta a seu redor. Logo, ele
estaria em pé novamente para fazer um magnífico discurso em seu espanhol
sofrível. Ele apresentaria Bob Francis, que chegaria na cidade bem a tempo
de presentear Scott com um cinto cerimonial dos tarahumaras e Arnulfo com
um canivete. Caballo, que desistira do prêmio em dinheiro, viria a ficar
impressionado com os baladeiros Jenn e Billy, que mal tinham grana para
pagar a passagem de ônibus de volta para El Paso, mas dariam seu dinheiro
aos corredores tarahumaras que chegaram depois deles. Caballo também
riria muito com a dança de Herbolisto e Luis imitando os movimentos de um
robô.
Mas tudo isso aconteceria depois. Agora, Caballo se sentia feliz por
estar sentado embaixo daquela árvore, sozinho, sorrindo, tomando cerveja,
contemplando a realização de seu sonho bem diante de seus olhos.
Capítulo 32
“ Aquela cabeça havia ficado ocupada com os problemas insolúveis da
sociedade contemporânea por tanto tempo, e ele ainda continua lutando,
com sua dedicação e sua energia sem fim. Seus esforços não foram perdidos,
mas ele provavelmente não irá viver para ver os resultados.”
Theo van Gogh, 1889

“Você tem de ouvir isso”, disse Barefoot Ted, pegando-me pelo braço.
Droga. O sujeito me achou quando eu estava tentando escapar da
loucura que havia se transformado aquela festa na rua e ir mancando até o
hotel, para cair de exaustão. Eu já tinha ouvido todos os comentários pós-
corrida de Ted, inclusive as suas observações sobre os altos teores de
nutrientes presentes na urina humana e a incrível capacidade desse líquido
como branqueador dental. Nada do que ele falasse poderia ser mais tentador
que me esticar para dormir num sofá-cama. Mas não era Ted o autor dos
relatos desta vez: era Caballo.
Barefoot Ted me levou de volta para o quintal de Mamá Tita, onde
Caballo entretia Scott, Billy e mais alguns ouvintes fascinados. “Vocês
nunca acordaram numa sala de emergência”, dizia, “e se perguntaram se
queriam mesmo acordar?” Com isso, ele anunciou uma história que eu havia
esperado quase dois anos para ouvir. Não precisei de muito tempo para
entender por que ele havia escolhido aquele momento. No amanhecer
seguinte, cada um seguiria seu caminho para casa. Caballo não queria que
esquecêssemos o que havíamos partilhado e, por isso, pela primeira vez, ele
revelou quem era.

Seu nome de batismo era Michael Randall Hickman. O pai era sargento da
artilharia no Corpo de Fuzileiros Navais e, por causa de sua ocupação, com
frequência a família mudava de endereço na Costa Oeste norte-americana.
Como um errante magrelo que sempre precisava se defender ao chegar numa
escola nova, o jovem Mike tinha como prioridade máxima descobrir onde
funcionava a Associação Atlética da Polícia mais perto da nova casa e se
matricular nas aulas de boxe.
Os garotos musculosos sorriam e batiam as luvas ao ver o esquisitão
com cabelos de hippie se dirigir ao ringue, mas os sorrisos sumiam assim
que o longo braço esquerdo do recém-chegado começava a estalar diante de
seus olhos. Mike Hickman era um garoto sensível e detestava machucar os
outros, porém isso não o impediu de se tornar muito bom naquilo. “Os meus
preferidos eram os sujeitos grandes e musculosos, porque eles perdiam para
mim”, lembra Caballo. “Mas, na primeira vez em que eu derrubei um,
comecei a chorar. Por um tempão, depois disso, não quis derrubar ninguém.”
Depois de terminar os estudos, Mike seguiu para a Universidade do
Condado de Humboldt, na Califórnia, com o objetivo de estudar religiões
orientais e a história dos nativos norte-americanos. Para pagar a
universidade, ele começou a lutar em lugares desconhecidos, apresentando-
se como Gypsy Cowboy, “caubói cigano”. Como não tinha medo de se
exibir em ginásios que raramente viam um rosto de pele branca, muito
menos um sujeito vegetariano que ficava defendendo a paz no mundo e os
sucos orgânicos, logo Cowboy estava fazendo certo sucesso.
Conquistou a atenção de empresários mexicanos, que adoravam chamá-
lo de lado para fazer propostas de carreira:“Oye, compay. Vamos começar
um chisme, espalhar um boato de que você é um amador de alto nível vindo
dos rincões do leste. Os gringos vão adorar. Todos os gabachos dali vão
apostar até os filhos em sua vitória”.
Gypsy Cowboy não se importava: “Para mim, está ótimo”.
“Dê um jeito de não ser derrubado antes do quarto round”, avisavam –
ou terceiro, ou sétimo, seja lá qual fosse o round combinado. Cowboy
conseguia se garantir contra os enormes pesos-pesados apenas escapando
dos golpes até chegar a hora de atingir a lona, mas, quando os adversários
eram ágeis latinos de peso médio, ele tinha de lutar para salvar a vida.
“Algumas vezes eles tinham de me tirar sangrando de lá”, revelou.
Mesmo depois de terminar o curso, ele continuou lutando. “Viajei o
país todo lutando, tomando socos, dando outros, às vezes perdendo, às vezes
ganhando. Mas, basicamente, o que eu fazia era apresentar um bom show e
aprender como lutar sem sair lascado.”
Depois de anos sobrevivendo no submundo das lutas, Cowboy juntou
suas economias e partiu para Maui, no Havaí. Ali, fugiu dos resorts e rumou
para o leste, para a parte úmida e escura da ilha, onde ficavam os santuários
escondidos de Hana. Ele queria achar um sentido para a sua vida. Acabou
encontrando Smitty, um eremita que vivia numa caverna isolada. Smitty
levou Mike a uma caverna e começou a lhe mostrar os locais sagrados e
desconhecidos de Maui.
“Smitty foi o cara que me apresentou a arte de correr”, contou Caballo.
Às vezes, eles saíam no meio da noite para correr os 32 quilômetros da trilha
Kaupo até a Casa do Sol, no topo do monte Haleakala, a 3 mil metros de
altitude. Ficavam ali, quietos, enquanto os primeiros raios da manhã
inundavam o Pacífico, e aí voltavam correndo, alimentando-se apenas de
mamões que colhiam dos pés. Aos poucos, o briguento Mike Hickman
desapareceu. Estava nascendo Micah True, um nome inspirado no “espírito
destemido e corajoso” do fiel profeta do Antigo Testamento, Micaías, e
também na lealdade de um velho vira-latas chamado True Dog. “Nem
sempre vivi de acordo com o exemplo de True Dog, porém é algo que pode
servir como objetivo.”
Durante uma de suas corridas pela floresta em busca de inspiração, o
então renascido Micah True encontrou uma linda moça de Seattle que estava
passando férias ali. Eles não podiam ser mais diferentes – Melinda era uma
estudante de psicologia, filha de um rico investidor, enquanto Micah
praticamente era um homem das cavernas –, mas os dois se apaixonaram.
Depois de um ano no meio do nada, Micah resolveu que era a hora de voltar
para o mundo.

Uau! Gypsy Cowboy derrotou o seu terceiro rival...


E o quarto...
E o quinto...
Com Melinda ao seu lado e as corridas na floresta fortalecendo as suas
pernas, Micah era praticamente invencível. Ele conseguia dançar e pular até
que os braços do adversário parecessem cimento. Quando os punhos
enfraqueciam, Micah partia para cima e jogava o sujeito na lona. “O amor
me inspirou, cara,” explicou. Micah e Melinda foram morar em Boulder, no
Colorado, onde era possível correr pelas trilhas das montanhas e ganhar
dinheiro nos ringues de Denver.
“Ele realmente não parecia um lutador”, contou-me Don Tobin, então
campeão de kickboxing na categoria peso leve nas Montanhas Rochosas.
“Ele usava cabelos compridos e levava aquele par de luvas velhas, que
pareciam ter pertencido a Rocky Graziano.” Don Tobin ficou amigo de
Cowboy e virou seu sparring (espécie de treinador). Até hoje, elogia a ética
de Cowboy: “Ele fazia um treinamento inacreditável por conta própria.
Quando completou trinta anos, saiu e correu trinta milhas. São 48
quilômetros!”. Poucos maratonistas norte-americanos alcançavam um
desempenho desses.
Quando seu período invicto chegou a doze lutas, a fama de Cowboy
havia crescido a ponto de levá-lo para a capa de um jornal semanal de
Denver chamado Westword. Sob o título “Cidade do soco”, havia uma foto
de página inteira de Micah, com o peito suado à mostra, as mãos em posição
de luta, os cabelos voando e os olhos exibindo o mesmo vigor que eu havia
visto duas décadas depois, quando o encontrei em Creel. “Enfrento qualquer
um pela quantia certa de dinheiro”, era a frase atribuída a Cowboy.
Qualquer um, é? A matéria caiu nas mãos de uma empresária de
kickboxing da espn, que logo foi atrás de Cowboy e fez uma proposta.
Embora Micah lutasse boxe, e não kickboxing, ela queria colocá-lo no
mesmo ringue para uma luta transmitida pela televisão para todo o país
contra Larry Shepherd, quarto colocado no ranking de pesos médio-pesados.
Micah adorou a publicidade e os altos valores, porém suspeitou que fosse
tramoia. Poucos meses antes, ele era um hippie sem endereço que meditava
no alto de uma montanha e, agora, queriam colocá-lo para enfrentar um
mestre nas artes marciais, que conseguia quebrar blocos de concreto com a
cabeça. “Era uma grande piada”, explicou Micah. “Eu era aquele hippie de
cabelos compridos que queriam jogar na arena para dar risada.”
O que aconteceu em seguida resume a vida de Caballo: as escolhas
mais fáceis que ele tinha para fazer na vida eram sempre entre a prudência e
o orgulho. Quando a campainha soou no programa Superfight Night, da
espn, Gypsy Cowboy abandonou a sua habitual estratégia de saltar e dançar.
Em vez disso, saiu correndo pelo ringue e atacou Shepherd com uma
enxurrada de golpes de esquerda e de direita. “Ele não sabia o que eu estava
fazendo, por isso se acomodou no canto para tentar descobrir”, lembrou
Micah. Foi quando Cowboy ergueu o braço para dar um soco violento, mas
teve uma ideia melhor: “Dei um golpe tão forte em seu rosto que quebrei o
meu dedo – e o nariz dele”.
Ding ding ding!
O braço de Micah estava solto no ar enquanto um médico examinava os
olhos de Shepherd para ter certeza de que as retinas ainda estavam lá. Outro
nocaute para Gypsy Cowboy. Ele mal podia esperar para voltar para casa e
comemorar com Melinda. No entanto, mais tarde soube que ela tinha um
golpe bem mais violento para lhe desferir. E, antes que aquela conversa
terminasse – antes que ela acabasse de contar sobre o seu envolvimento com
outro cara e os planos de ir morar com o novo parceiro em Seattle –, a
cabeça de Micah parecia estourar de tantas perguntas. Perguntas que não
eram para Melinda – eram para ele mesmo.
Ele havia acabado de quebrar a cara de um homem pela televisão e para
quê? Para ter valor para alguém? Para ser um performer que tinha as suas
conquistas medidas apenas pelo afeto de outra pessoa? Ele não era estúpido:
conseguia ligar os pontos entre o garoto nervoso com um pai durão, ao estilo
de O Grande Santini – o dom da fúria, e o solitário em busca de amor que
ele havia se tornado. Em resumo: será que ele era um grande lutador ou
apenas um sujeito carente?
Logo depois, a revista Karate entrou em contato. O jornalista disse que
as classificações anuais estavam prestes a sair e, graças à luta, ele ocuparia o
quinto lugar nos pesos médio-pesados do ranking nacional. A carreira de
Cowboy iria explodir. Assim que a revista estivesse nas bancas e as
propostas começassem a chegar, ele receberia muitas oportunidades
milionárias para descobrir se gostava realmente de lutar ou se lutava para
que gostassem dele.
“Desculpe-me”, respondeu Micah ao repórter. “Mas eu acabei de
decidir que vou me aposentar.”
Fazer Gypsy Cowboy desaparecer era mais simples do que acabar com
a identidade de Mike Hickman. Tudo o que não coubesse na mochila ficaria
para trás. Mandou desligar o telefone e fechou o apartamento. Sua casa se
tornou uma picape Chevy ano 1969: passava as noites num saco de dormir
na parte aberta e, de dia, fazia bicos limpando gramados ou ajudando em
mudanças. E, em qualquer tempo que sobrasse, corria. Se não pudesse ter
Melinda, iria se conformar com a exaustão. “Eu acordava às quatro e meia
da manhã, corria 32 quilômetros e era maravilhoso”, contou. “Trabalhava o
dia todo, e queria me sentir daquele jeito novamente. Então ia para casa,
tomava uma cerveja, comia um pouco de feijão e corria de novo.”
Ele não tinha a menor ideia se corria velozmente ou não, da forma certa
ou não, até um final de semana do verão de 1986, quando seguiu para
Laramie, no Wyoming, para dar uma olhada na Rocky Mountain Double
Marathon. Ele se surpreendeu ao vencer a prova em seis horas e doze
minutos, derrotando maratonistas um atrás do outro. Descobriu que
participar de ultramaratonas era ainda mais difícil do que lutar boxe. No
ringue, o adversário determina a intensidade de seus golpes, enquanto nas
trilhas a sua desgraça está em suas próprias mãos. Para alguém que queria
derrotar a si mesmo até a insensibilidade, a corrida extrema parecia um
esporte terrivelmente sedutor.
Talvez eu possa até me tornar um profissional, se conseguir me livrar
desses malditos machucados... Esse pensamento rondava a mente de Micah
quando ele chegava com sua bicicleta numa rua
íngreme de Boulder. A próxima cena que viu foram as luzes da sala de
emergência do Hospital Comunitário de Boulder: tinha os olhos cobertos de
sangue e a testa cheia de cortes. Tudo o que lembrava era que havia batido
contra uma superfície de pedra e saíra voando.
“Você tem sorte de estar vivo”, avisou o doutor, e essa era uma maneira
de enxergar a situação. Outra era que a morte ainda era um problema que
rondava a sua cabeça. Micah havia acabado de completar 41 anos e, apesar
de sua façanha na ultracorrida, o que podia imaginar naquela sala de hospital
não era muito animador. Não tinha plano de saúde, casa, parentes próximos,
emprego regular. Nem sequer tinha dinheiro para ficar uma noite em
observação, nem uma cama onde se recuperar se resolvessem mandá-lo
embora dali.
Ele havia escolhido viver sem dinheiro, porém com liberdade, mas será
que queria morrer daquele jeito? Um amigo emprestou o sofá de sua casa e
ali ele refletiu sobre seu futuro por alguns dias. Micah sabia muito bem que
só os rebeldes sortudos saem cobertos de glória. Desde a época da escola
admirava Gerônimo, o bravo apache que costumava fugir da cavalaria norte-
americana correndo pelas terras do Arizona a pé. Mas qual foi o final dele?
Morreu numa reserva poeirenta, prisioneiro, bêbado, e na miséria.
Quando Micah se recuperou, foi para Leadville. Ali, naquela noite
mágica correndo pelas florestas com Martimano Cervantes, ele encontrou as
suas respostas. Gerônimo não poderia correr livre para sempre, mas talvez
um “índio gringo” pudesse. Um índio gringo que não tinha nada, não
precisava de nada e não tinha medo de desaparecer do planeta sem deixar
vestígios.

“Mas como você se sustenta?”, perguntei.


“Com suor”, respondeu Caballo. Todos os verões, ele deixa a sua
cabana e vai de ônibus até Boulder, onde a sua antiga picape espera por ele
atrás da casa de um fazendeiro simpático. Durante dois ou três meses, ele
reassume a identidade de Micah True e retoma o seu trabalho no transporte
de móveis. Assim que junta dinheiro suficiente para viver um ano, ele vai
embora, sumindo no desfiladeiro e voltando a ser Caballo Blanco.
“Quando eu estiver velho demais para trabalhar, vou fazer o que
Gerônimo faria se o tivessem deixado”, conta. “Vou andar até o fundo do
desfiladeiro e achar um lugar calmo para deitar.” Não existia melodrama
nem autopiedade nas palavras de Caballo, apenas a compreensão de que um
dia a vida que ele havia escolhido iria pedir um último gesto de
desaparecimento.
“Por isso, talvez eu volte a ver vocês”, concluiu Caballo, quando Tita
começou a apagar as luzes e a nos mandar dormir. “Talvez não.”

No amanhecer do dia seguinte, os guardas de Urique esperavam perto do


antigo micro-ônibus parado na frente do restaurante de Tita. Quando Jenn
apareceu, eles voltaram a atenção para ela.
“Hasta luego, Brujita”, disseram.
Jenn mandou beijos com um gesto exagerado e entrou no ônibus.
Barefoot Ted entrou em seguida, com cuidado. Seus pés estavam envoltos
em tantas faixas que mal cabiam nos chinelos japoneses. “Eles não são ruins,
mesmo. Só pouco macios”, insistiu. Acomodou-se ao lado de Scott, que se
ajeitou para abrir espaço.
O restante do grupo entrou e tentou se acomodar do jeito mais
confortável possível para enfrentar a viagem que tínhamos pela frente. O
“tortilheiro” da cidade (que também acumula as funções de barbeiro,
sapateiro e motorista de ônibus) sentou atrás do volante e ligou o motor. Lá
fora, Caballo e Bob Francis caminhavam ao longo do ônibus, colocando as
mãos em nossas janelas.
Manuel Luna, Arnulfo e Silvino pararam perto da dupla quando o
ônibus saiu. O restante dos tarahumaras já havia iniciado a longa caminhada
de volta para casa, mas aqueles três, embora fossem percorrer uma distância
ainda maior, ficaram por ali para nos ver partir. Por um longo tempo, eu
podia vê-los parados na estrada, acenando, até que toda a cidade de Urique
desapareceu atrás de uma nuvem de poeira.
Agradecimentos
Em 2005, Larry Weissman leu uma pilha de recortes da revista em que eu
trabalhava e resumiu tudo em uma única pergunta: “Todas as suas matérias
falam sobre resistência. Há algo que você ainda não tenha contado?”.
“Tem, sim. Ouvi falar de uma corrida no México...”
Desde então Larry e a sua fantástica esposa, Sascha, fizeram
o papel de meus agentes e “ajudantes na organização do pensamento”,
ensinando-me a transformar ideias dispersas em uma proposta coerente e me
cobrando sempre que eu atrasasse algum prazo. Sem eles, este livro seria
apenas um projeto sobre o qual eu falaria depois de tomar algumas cervejas.
Agradeço à revista Runner’s World, em especial ao então editor Jay
Heinrichs, que me mandou pela primeira vez às Barrancas del Cobre e
depois aceitou rapidamente (bem rapidamente) a minha proposta de publicar
uma edição totalmente dedicada aos tarahumaras. Devo muito a James
Rexroad, grande fotógrafo, pela companhia e pelas magníficas fotos feitas
naquela viagem. Agradeço a um sujeito que tem um cérebro enorme e uma
capacidade pulmonar imensa, o editor emérito da Runner’s World, Amby
Burfoot, extraordinariamente generoso com o seu tempo, o seu
conhecimento e a sua biblioteca. Ainda preciso devolver 25 livros que ele
me emprestou – prometo entregar se ele me acompanhar em mais uma
corrida.
Dedico um agradecimento especial à revista Men’s Health. Se você não
é um leitor dessa publicação, está perdendo uma das melhores e mais
consistentes revistas publicadas nos Estados Unidos. Fazem parte da equipe
editores como Matt Marion e Peter Moore, que dão apoio a ideias absurdas,
como mandar repórteres que vivem se machucando para os confins do
mundo atrás de índios invisíveis. A Men’s Health permitiu que eu treinasse
para a maratona recebendo salário e depois me ajudou a dar forma ao relato
decorrente da experiência. Tudo que escrevi para Matt chegou em suas mãos
na forma bruta e saiu lapidado.
Por ser tão mal representada pela mídia, a comunidade dos
ultracorredores ofereceu um apoio incrível à minha pesquisa e à minha
experiência pessoal. Ken, Pat e Cole Chlouber sempre me fizeram sentir em
casa em Leadville e me ensinaram mais do que eu esperava aprender sobre
corridas de burro. Da mesma forma, a diretora da prova de Leadville,
Merilee O’Neal, atendeu a todos os pedidos que fiz e me deu um abraço
destinado aos atletas que terminam a prova, mesmo sem eu ter conseguido
realizar essa façanha. Muito obrigado a David “Wild Man” Horton, Matt
“Skyrunner” Carpenter, Lisa Smith-Batchen e Jay, seu marido, Marshall e
Heather Ulrich, Tony Krupicka – pessoas que partilharam comigo as suas
incríveis histórias e os segredos das trilhas. Sunny Blende, grande
nutricionista dos ultracorredores, impediu um desastre no deserto quando
Jenn, Billy, Barefoot Ted e eu desajeitadamente acompanhamos Luis
Escobar na competição de Badwater em 2006. É dela a melhor definição que
já ouvi sobre essa modalidade esportiva: “As ultramaratonas são
competições de comida e bebida, com um pouco de exercício e uma
paisagem para dar graça”.
Se você não se sentiu incomodado com as estranhas divagações durante
a leitura deste livro, você e eu temos de agradecer a Edward Kastenmeier,
meu editor na Knopf, e a seu assistente, Tim O’Connell. Agradeço também a
Lexy Bloom, editora sênior da Vintage Books, que fez importantes
observações e comentários durante o caminho. De alguma maneira, eles
descobriram como “tirar a gordura” de meu texto original sem alterar o
sabor. Também agradeço ao meu amigo Jason Fagone, autor do excelente
livro Horsemen of the esophagus [Cavaleiros do esôfago], que me ajudou a
entender a diferença entre contar experiências e cair na autoindulgência.
Max Potter me deixou escrever sobre a prova de Leadville para a revista
5280 e é um raro escritor, nobre o bastante a ponto de incentivar quando
outro autor decide seguir em frente. Patrick Doyle, incrível pesquisador da
5280, conseguiu confirmar vários dados da misteriosa vida de Caballo – até
desenterrou uma foto perdida de um jornal que mostra os seus dias de luta
por prêmios sob a identidade de Gypsy Cowboy. Anos atrás, Susan Linnee
me deu um emprego na Associated Press que eu não merecia, e depois me
ensinou como dar conta do trabalho. Se mais pessoas conhecessem Susan,
menos falariam mal dos jornalistas.
Para ser um grande atleta, é preciso escolher os pais com sabedoria;
para sobreviver como escritor, é preciso fazer o mesmo com a família. Meus
irmãos, minhas irmãs, minhas sobrinhas e meus sobrinhos deram um apoio
incrível e me perdoaram pelas faltas em aniversários e outros eventos.
Acima de tudo, devo muito à minha esposa, Mika, e a minhas lindas filhas,
Sophie e Maya, pela alegria que espero ter ficado evidente nestas páginas.
Hoje sei como os tarahumaras e os Más Locos conseguem viver de
forma tão bela. Eles são pessoas raras e maravilhosas, e passar um tempo
com eles foi um dos maiores privilégios de minha vida. Eu gostaria de ter
tido tempo para tomar mais um suco de manga com aquele incrível “índio
gringo”, Bob Francis, que morreu logo depois da corrida. Não sei como isso
aconteceu, mas, assim como a maioria das mortes nas Barrancas del Cobre,
o seu fim permanece um mistério.
Enquanto ainda se acostumava com a perda de seu velho e fiel amigo,
Caballo recebeu a oferta de sua vida. A North Face, empresa fabricante de
artigos para esporte de aventura, propôs um patrocínio. Finalmente, uma
garantia para o futuro de Caballo e de sua corrida.
Caballo pediu para pensar com calma, por cerca de... um minuto.
“Não, obrigado”, decidiu. “Não quero que ninguém faça nada a não ser
correr, divertir-se, dançar, comer e comemorar conosco. A arte de correr não
serve para fazer os outros comprarem produtos. É preciso liberdade, cara.”
[1] Bola dos pés: parte acolchoada da planta do pé localizada na extremidade
anterior do metatarso.
[2] A política da Nike de tirar das prateleiras os modelos mais vendidos a cada

dez meses inspira algumas explosões raivosas nos fóruns de corredores. O


Nike Pegasus, por exemplo, foi lançado em 1981, atingiu o seu apogeu
dois anos depois e, mais tarde – mesmo sendo o tênis de corrida mais
apreciado de todos os tempos –, foi tirado de linha em 1998, apenas para
ser relançado com nova cara em 2000. Por que tamanha operação? Não
para aperfeiçoar o modelo, como me contou um antigo designer de tênis
da Nike que trabalhou no projeto do Pegasus original, mas para melhorar
a renda. O objetivo da empresa é triplicar as vendas ao estimular os
corredores a comprarem dois, três, quatro pares de tênis de uma vez,
estocando em casa por precaução, caso o modelo favorito venha a
desaparecer.
[3]Todas as dúvidas que eu tinha sobre essa teoria caíram por terra no ano

seguinte, quando fui acompanhar Luis Escobar na Ultramaratona de


Badwater. Às três da manhã, segui de carro para dar uma olhada, ver
como estava Scott, e o encontrei enfrentando uma subida de seis
quilômetros. Ele já havia corrido 129 quilômetros sob um calor de 52
graus e mantinha um ritmo que poderia lhe render um novo recorde, mas,
quando me viu, as primeiras palavras que saíram de sua boca foram:
“Como está El Coyote?”.
[4] O segredo de Tita (tudo bem, ela não vai se importar): bata arroz cozido e

cubra com banana e um pouco de fubá. Então acrescente leite de cabra


fresco e misture bem. Fica perfeito.
Table of Contents
Capa
Folha de rosto
Créditos
Dedicatória
Epígrafe
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Agradecimentos
Notas

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