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Maria Clara Pompílio Guimarães

Filosofia e Psicanálise (F6)

Nesta cadeira, tivemos o contato com perspectivas filosóficas e psicanalíticas que


poucas vezes são trazidas à tona no meio acadêmico. Foi extremamente enriquecedor o
diálogo que surgiu a partir dos textos trabalhados, que possibilitou a troca de experiências
pessoais do ponto de vista teórico.
O assunto que mais me intrigou foi a questão da análise e da pessoa preta; é um olhar
pouco trazido no contexto psicanalítico, e vemos, a partir das experiências citadas em aula,
como é um tema fundamental para o processo analítico destas pessoas. Conversamos sobre a
importância da/o analista está envolvida nas questões raciais, seja ela preta ou não, e que a
análise de uma pessoa preta pode sim acontecer com um/a analista branca. Porém, mesmo
com os apontamentos trazidos em aula, ainda penso que é de relevância para algumas pessoas
negras serem atendidas por profissionais negros; até pelo próprio processo de transferência,
ao ver a negritude do seu analista, a análise pode seguir um caminho diferente - e melhor - do
que se o analista fosse uma pessoa branca.
Essa situação foi abordada pela série This is us (2016), em que um personagem negro
estava em processo de analálise com uma psicanalista branca; eles chegam a discutir sobre a
escolha dele por uma analista branca de meia idade, que a analista diz não ser o público que
tende a procurá-la (homens negros). Na série, é trazida a questão da violência policial e o
assassinato de pessoas negras(o caso de George Floyd), e o personagem não consegue se
abrir com a analista, até que ele decide procurar um/a profissional preto, e a sua relação com
a análise muda.
Vendo as discussões abordadas por Franz Fanon, o trauma causado pelo preconceito
racial é de diferente grau, e deve ser entendido desta forma. A diferenciação que é feita desde
a infância entre crianças brancas e pretas, inegavelmente, traz questões a essa criança negra,
que se torna adulta e pode ainda não ter o entendimento de como essas vivências da infância,
que aconteciam justamente por ela ser negra, afetam a psique dela até hoje; por isso a
importância do processo de análise em alguns casos.
Além disso, o trauma do próprio processo escravatório dos seus parentes ainda está
presente nas gerações atuais. No Brasil, ainda ouvimos relatos de bisavós que foram
escravizados e contam essas histórias para seus bisnetos. Sabemos que a herança econômica e
social do período escravocrata persiste até hoje, mas pouco se fala da “herança psíquica”, se é
que podemos chamar desta forma. A série Psi(2014) retrata em um episódio questões de
transtornos psíquicos que se mostram a partir desses traumas geracionais focados em um
grupo específico, como a escravidão e o holocausto para as pessoas afrodescendentes e
judias.
Entende-se, portanto, que a discriminação sofrida hoje, além de ser um trauma
individual, também tem seu valor grupal e até geracional. Finalmente, o que me questiono é
como fazer com que o indivíduo exista com mais tranquilidade, o que parece ser o “objetivo”
de um processo de análise1, visto o contexto estrutural do racismo; Como há possibilidade de
olhar além desse aspecto fundamental2 na vida de uma pessoa negra?
Todos esses apontamentos resultam na forma que a pessoa preta foi subjetivada
diferentemente da pessoa branca, como já foi citado. É papel da psicanálise manter estudos
que consideram os aspectos interseccionais das diferentes existências. Quando estudamos o
modo que Freud ou Lacan observavam os indivíduos para propor suas teorias, vemos que era
um olhar eurocentrado; desconsiderando outras formas de subjetivação humana, que vão
depender de diversos fatores que, certas vezes, não são estritamente individuais e que nem
todas as sociedades humanas funcionam da mesma forma, nem tem os mesmas
problemáticas. A questão é que a branquitude ainda é considerada a forma normativa de
existência, por consequência, a subjetivação que é considerada geral ou padrão é a
subjetivação branca. Com pensadores e pensadoras pretos, indígenas, amarelos, as
subjetivações vão poder reconhecer as características diferenciáveis entre elas, que, é
importante deixar claro, não se limitam apenas à raça; o pensamento interseccional é
essencial para discussões mais completas. Considerar classe, gênero, transgeneridade,
sexualidade, e como esses fatores juntos afetam as individualidades humanas.
O que posso concluir, a partir das reflexões feitas nessa cadeira e nas minhas
experiências, é a necessidade da produção de conhecimento, pesquisa e conteúdos no geral -
entretenimento - ser feita por todos os tipos de pessoas, a importância da diversidade. E
quando se vê a psicanálise, me parece ainda mais necessária essa representatividade, para que
as características individuais possam ser consideradas e que a forma que a subjetividade é
vista não se limite a apenas uma.

1
Faço esse apontamento baseado apenas na minha concepção básica e na experiência no meu processo de
análise
2
No sentido que fundamenta muitos aspectos de sua existência, sabendo que não devemos limitar a existência
dela ao fato de que ela sofre racismo e é negra.
Referências:

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. tradução de Renato da Silveira. EDUFBA.
Salvador, 2008.
PSI, Temporada 3, episódio duplo “A Herança”. Contardo Calligaris/Max Calligaris/Marcus
Baldini. Brasil: HBO Brasil, 2014.
THIS is us, Temporada 5, episódio 2. Dan Fogelman. Estados Unidos: NBC, 2016

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