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Laboratório de Política, Comportamento e Mídia

LABÔ PUC-SP

A IMAGEM DE DEUS: Arte, História e Religião

Módulo III – 26 de março de 2019

Wilma Steagall De Tommaso


CV: http://lattes.cnpq.br/8209900139809763

 Pelo Concílio Ecumênico Vaticano II somos convidados a nos inspirar na arte e


na arquitetura dos cristãos do primeiro milênio. Sob a premissa de que o
simbolismo do templo cristão repousa na analogia que há entre o templo e o
Corpo de Cristo, a comunicação tem como objetivo entender como os cristãos,
a partir do século IV, após o Edito de Milão em 313, conceberam a arquitetura
e a arte nas paredes de seus templos.

 Na liturgia da Domus Ecclesiae, se celebrava em volta da mesa, a importância


era posta sobre o cenáculo na forma do que era a Última Ceia.

 O sentido teológico da Última Ceia é o retorno ao Pai, esse era o espírito da


liturgia doméstica dos primeiros cristãos. Pelo Batismo o cristão se torna filho e
na Eucaristia retorna ao Pai e essa é a casa dos cristãos, a Casa do Pai.

 A partir do Edito de Milão em 313, os cristãos deixam de celebrar na casas e


começam a celebrar em edifícios públicos, que eram mercados, pois homens
poderosos se converteram e doaram imóveis para a celebração do culto
cristão.
 Os cristãos entraram e celebraram a liturgia, mas quando terminaram,
perceberam que o espaço havia se transformado. A liturgia é transfiguração
do mundo.

 A carta aos Hebreus nos diz que a Igreja é a casa de Cristo, a casa do Filho.
Os cristãos tomam consciência de que o espaço está se tornando a sua casa.

 Entrando na Igreja os cristãos sentiam que a comunhão expressa um mundo


novo, uma nova criação, uma nova humanidade reconciliada, não mais
individualista, pois a vida de Deus é UNIDADE; compreenderam que é a liturgia
que faz o espaço.

 O que constitui esse espaço? É preciso compreender a liturgia como uma


passagem. Os cristãos se reúnem e pela Eucaristia entram na Casa do Pai.
No Santuário dos Santuários, na Jerusalém Celeste, na Praça de Ouro do
Apocalipse (Ap.21,22).

 A Eucaristia é o ingresso no Reino, começa quando os cristãos saem de


seus leitos e deixam suas casas domingo para ir à celebração eucarística e
termina no Escathon.

 Na casa do Pai entram “por Cristo, com Cristo, em Cristo”. A Ti Deus Pai
estamos todos aqui e então podemos dizer: “Pai Nosso que estais no céus”.

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 No Antigo Testamento (Êxodo 25), Moisés recebe de Deus a ordem de


construir duas tendas, as duas são separadas por um véu, a Carta aos
Hebreus (Hb 8,9-10) retoma o pedido feito ao profeta, interpreta e explica toda
a liturgia segundo a qual nasce o templo.
 A primeira tenda é a humanidade.

 O homem não pode caminhar para Deus, não pode ir por ele mesmo. Entre as
duas tendas há um véu que representa o pecado e a morte, ninguém jamais
superou essas duas coisas.

 A carta aos Hebreus diz, refletindo sobre essa estrutura veterotestamentária,


que na segunda tenda habita o Pai que enviou seu Filho, que atravessou o céu
e se fez Homem.

 Essas duas realidades juntas, as duas tendas, formam o Cristo, a unidade,


verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, a Unidade.

 Tudo o que é divino pode vir em direção ao homem e tudo o que é humano tem
acesso a Deus.

 Mas a Igreja ensina que essa unidade é a Igreja e que não coincide
perfeitamente com o Cristo, mas é ingresso ao Reino e a liturgia é essa
passagem.

 “Os cristãos levam ao altar: pão e vinho, as ofertas o universo, a terra e o


trabalho, tudo colocado no altar. Desce o Espírito Santo que transforma a
oferta em Corpo de Cristo – “Epiclese”.

 Cristo morre, o Pai o ressuscita. A oferta do cristão entrou no Corpo de


Cristo.

 O Corpo de Cristo eucarístico é constituído pelas ofertas. Essa oferta ao ser


transportada é a princípio ordinária, depois se transforma em Cristo
ressuscitado. O Corpo de Cristo é constituído do pão e do vinho do cristão que
celebra, isto é do seu trabalho. Não há Cristo eucarístico sem o cristão.

 Toda essa estrutura teológica deve ser respeitada na edificação de uma


igreja.
 “A igreja em sua estrutura deve ter visivelmente essas duas tendas — essa foi
a conquista dos cristãos dos primeiros séculos. A igreja deve ter
visivelmente essas duas tendas: humanidade e divindade que se
transformam em uma Pessoa, Cristo, a Unidade. Deve ser visível na estrutura,
a passagem de uma para outra e ao mesmo tempo deve ser visível a unidade,
porque Cristo é uma só Pessoa. Essa deve ser a inspiração para se construir
uma igreja. Esse é um fundamento sobre o qual não há objeções nem objeto
para discussões, essa é a nossa fé.” (Pe. Marko Ivan Rupnik, sj).

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 Na Basílica de Santa Maria Madalena, em Véselay, durante o solstício de verão


há pontos de luz no chão que traçam o caminho para a casa do Pai (segunda
Tenda) que é o Altar, que é Cristo.

 Na mesma Basílica durante o solstício de inverno, na semana do Natal, o sol


reflete nos capiteis norte nos quais estão representadas a fauna e a flora, a
criação e algumas cenas do Antigo Testamento que só são compreendidas à
luz de Cristo.

 Outro exemplo é a Basílica de Monreale, na Sicília, construída na mesma


época que Véselay. Um espaço que exprime o Corpo de Cristo e Cristo é a
Cabeça desse Corpo, a Esposa e o Esposo.
 O Corpo de Cristo, a humanidade revela todo o mistério do Pai, do Filho, do
pecado e da Redenção. Todo o Corpo de Cristo é impregnado dessa
revelação. Nesses mosaicos das paredes, os cristãos entenderam como se
fosse um filme que registra o que acontece aí. As paredes são o autorretrato da
Igreja e refletem a mentalidade, a forma da vida de Cristo.

 Uma imagem se explica com outra, uma encontra o sentido na outra, não há
nada separado, nada isolado. Um grande organismo onde tudo está ligado.
Esta é a arte dos cristãos, a arte da vida. Quando há um problema, o que se
pode fazer? Descobrir como Deus me fala e me salva através dessa situação.
Como uma coisa na outra, essa é a verdadeira teologia. E isso era ensinado
nas paredes das igrejas.

 A arte cristã que procura fazer ver as coisas, a criação e a humanidade


segundo o Cristo e não segundo uma ideia.

 No batismo o cristão afoga uma vida para iniciar uma outra vida. A morte é o
renascimento para a vida eterna. A vida eterna não começa com a morte, mas
com a vida transfigurada. Os cristãos começam onde o mundo fracassou.

 Jesus é o vivente: “mesmo que morras, viverás”.

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 Cláudio Pastro e o CV II

 O Concílio Vaticano II nos convida a voltar às raízes: são duas proposições


fundamentais: Ad fontes e Aggiornamento.
 Cláudio Pastro ficou bastante impressionado com o Concílio Ecumênico
Vaticano II (1962-1965) e a questão Ad fontes, que foi seu foco central. Para
ele, “a constituição do Concílio Vaticano II sobre a liturgia, a Sacrosanctum
Concilium, em seu número 34, fala-nos de uma nobre simplicidade: o estilo da
liturgia (entendidos aí todos os elementos que a compõem, entre eles a
iconografia) deve ser simples e austero, como aquele de Jesus.

“ Santa Ceia” – Catacumbas “Santa Ceia” – Cláudio Pastro

 Desde o Renascimento, a arte havia se tornado cada vez mais acadêmica,


mais secular, arte com temas religiosos, mas não arte sacra. O devocionismo
levou os santos ao centro de muitos santuários no lugar de destaque, o lugar
central, que seria do Cristo, o Senhor ressuscitado. A proposta Ad fontes vai
permitir resgatar a arte do subjetivismo da livre expressão artística e dirigir a
ação litúrgica ao Senhor Ressuscitado.

 Como diz Pastro, “e a arte como expressão do belo, da presença, da glória de


Deus em nosso meio, não poderia ser a mesma dos últimos séculos”.
Santuário é o mesmo que presbitério: lugar mais importante de todo espaço
celebrativo, por isso deve ser de preferência, visível a toda assembleia; nele
ficam: altar, sedia, ambão, cruz processional, relíquia do santo ou mártir.

Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida


 Marko Rupnik e a crítica à modernidade.

 «A própria teologia tem a arte, e não a filosofia, como o seu primeiro amor. A
arte tem sempre uma ligação com a vida, enquanto o pensamento, o conceito e
a ideia levam-nos à abstração. Apenas a partir de uma nova vida é que uma
nova arte e cultura nascerão», aponta Pe. Rupnik.

 O religioso jesuíta revela que a sua «primeira inspiração é a Palavra de Deus»


e que, na arte litúrgica, «o guia principal é o Concílio Vaticano II», que «convida
a reler aquele grande período que foi o Primeiro Milênio, a era patrística» e a
procurar iluminação nos «fortes períodos da arte dos cristãos, como o
românico, o primeiro bizantino».

Logotipo “Ano da Misericórdia” Porta Santa - Cáritas de Roma Igreja da Irmãs Ursulinas - Verona

 «O objetivo principal de todas as obras que visam construir espaços litúrgicos é


o de criar lugares que expressem a Igreja, lugares onde o fiel encontra e
reencontra a sua identidade. As paredes da igreja são imagens da Igreja, e isso
significa que não é apenas um espaço, mas um espaço que reflete aqueles que
vivem nele.»

 Por isso «o espaço litúrgico, mesmo quando não está presente nenhuma
liturgia, permanentemente anuncia e revela, manifesta e celebra o que a Igreja
é», através de uma linguagem «simbólica», ou seja, «que encerra em si
mesma uma profundidade que se abre num relacionamento» envolvente.
Capela do Colégio São Lourenço de Brindisi - Roma

 O amor se realiza através do sacrifício de si mesmo. A forma do amor de Deus


na História é o Tríduo Pascal.

 Não posso com minha fantasia, atingir as formas clássicas da perfeição formal
para interpretar a perfeição escatológica. Para Berdiaev, essa é uma operação
puramente fantasiosa, de total falta de senso da verdade, porque a escatologia
não consiste na perfeição da carne, mas na perfeição da pessoa, na koinonia
(comunhão), na Igreja levada à salvação na comunhão da vida Trinitária.

 Não é possível fazer essa ligação (Antiguidade e Cristianismo). O homem não


precisa mais buscar a Deus, pois Deus se fez Homem. A união divino-humana
se faz em Cristo, não há mais nada a se indagar no campo religioso, há uma
religião como união, eu e Deus, isto é, está absolutamente resolvido em uma
união livre entre Deus e o homem.

“Cristo em Majestade” - Catacumbas “Pantocrator” - Cláudio Pastro “Pantocrator” - Pe. Rupnik

 A Verdade revelada é o amor – Cristo – o amor realizado é a beleza.

 A beleza realizada é a manifestação da verdade como amor.

 A verdade realizada é o bem e o amor realizado é a beleza.


 Para Cláudio Pastro e Pe. Marko Ivan Rupnik, a arte é um serviço litúrgico,
deve ser simbólica, levar o fiel à contemplação, sentir o desejo de ajoelhar-se e
rezar. Diferente da arte renascentista que leva ao deslumbramento pelo
virtuosismo do artista que a criou.

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