Você está na página 1de 11

Didática e Prática de Ensino na relação com a Formação de Professores

AS CONTRIBUIÇÕES DA DIDÁTICA À FORMAÇÃO INICIAL: A VISÃO


DOS CONCLUDENTES DO CURSO DE PEDAGOGIA NOTURNO

Beliza Daniele Pereira Feitosa – Escola de Pastoral Catequética

Este trabalho tem como objetivo identificar as contribuições da Didática para a


formação de professores para o exercício da docência na Educação Infantil e nas Séries
Iniciais do Ensino Fundamental. A disciplina Didática, ofertada no quinto semestre do
curso de Pedagogia noturno de uma universidade pública do Ceará, tem como objeto o
ensino compreendido como prática social envolvida em múltiplas dimensões. A
Didática não pode ser considerada apenas como um conjunto de técnicas, métodos ou
regras a serem seguidas, que subsiste a parte de um contexto social. Adotamos como
percurso metodológico uma pesquisa de natureza qualitativa recorrendo ao uso do
questionário como instrumento de coleta de dados. Foram aplicados vinte e três
questionários com os possíveis concludentes do curso noturno de Pedagogia. Os
instrumentos aplicados demonstraram que a visão técnica da Didática não sofreu
mudanças significativas depois dos estudantes cursarem a disciplina. A falta de
aprofundamento, a abordagem tradicional e ausência da relação teoria e prática podem
ser indicados como aspectos que contribuíram para que essa mudança não se efetivasse
plenamente. Os resultados também revelaram a importância de temas clássicos da
Didática (planejamento, metodologia, avaliação) para os estudantes pesquisados.
Enfatizamos, junto com os autores pesquisados, que esses temas devem ser inseridos no
contexto das novas problematizações e demandas que o mundo atual traz ao exercício
da docência. A Didática, como disciplina pedagógica certamente contribuirá para a
formação docente ao superar a transmissão de conteúdos de forma mecânica,
trabalhando seu objeto, o ensino em sua relação com a aprendizagem, considerando sua
contextualização e multidimensionalidade, preparando assim o professor para uma
atuação crítica e consciente das demandas do mundo contemporâneo.

Palavras-chave: Didática; formação docente; multidimensionalidade

A Didática, disciplina dos cursos de formação de professores, tem como objeto o


ensino, compreendido como prática social envolvida em múltiplas dimensões. A
disciplina busca contribuir para que o aluno possa entender que o ensino faz parte da
realidade social em que está inserido, tendo também sua contribuição em influenciar
essa realidade social.
A Didática não pode ser considerada apenas como um conjunto de técnicas,
métodos ou regras a serem seguidas, que subsiste a parte de um contexto social. A

EdUECE- Livro 2
01708
Didática e Prática de Ensino na relação com a Formação de Professores

disciplina traz em si, o objetivo de contribuir para a formação inicial do pedagogo, para
que este possa ter uma visão crítica de ensino, refletindo a partir das situações concretas
em que se inserem as práticas pedagógicas. Com base nessa compreensão este trabalho
tem como objetivo geral identificar quais as contribuições da Didática no curso de
Pedagogia, para a formação de professores que irão atuar para o exercício da docência
na Educação Infantil e nas Séries Iniciais do Ensino Fundamental. Os objetivos
específicos foram: identificar quais conhecimentos, trabalhados na disciplina, são
considerados mais relevantes; e apontar aspectos que precisam ser superados no
desenvolvimento da disciplina.

Tomando por base uma investigação de natureza qualitativa, utilizamos como


fonte de dados a aplicação de questionários a estudantes do último semestre do curso
noturno de Pedagogia de uma universidade pública da cidade de Fortaleza, Ceará.

Didática: desafios da formação docente


A trajetória da Didática nos cursos de formação foi se configurando
historicamente por quatro momentos, conforme apontam os estudos das pesquisadoras
Oliveira e André (1997).
No primeiro período, em 1939, a Didática foi instituída como curso de
licenciatura e, mais tarde, transformada em disciplina dos cursos de formação de
professores, observa-se que neste momento, a Didática ainda não tinha uma delimitação
clara de seu objeto.
O segundo período, do inicio dos anos de 1950 até o final dos anos de 1970, o
ensino da Didática se reduz aos procedimentos e técnicas de ensino assumindo uma
suposta neutralidade cientifica e pedagógica, prevalecendo enfoque prescritivo,
normativo e instrumental.
No terceiro período, no final dos anos de 1970 ao início dos anos de 1980,
observa-se a crítica à Didática tecnicista culminando com a realização do I seminário
intitulado “Didática em questão”. O referido encontro é marcado por um lado, pela
negação de uma didática tecnicista, e por outro lado, pela reconstrução de uma didática
articulada com elementos teórico-práticos que favoreçam o processo pedagógico. Os
Endipes (Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino) têm sido importantes para
o desenvolvimento da área, promovendo a socialização das pesquisas, estudos e
reflexões acerca da trajetória do ensino da Didática.

EdUECE- Livro 2
01709
Didática e Prática de Ensino na relação com a Formação de Professores

O quarto período, que tem início na segunda metade dos anos de 1980, busca
aprofundar uma compreensão de Didática contextualizada que aborda o ensino, seu
objeto, como uma prática social que sofre múltiplas determinações.
Na direção da reconstrução de uma Didática crítica destacamos os
posicionamentos de Candau e Pimenta:
(...) a Didática é concebida como tendo por objetivo a compreensão
dos diferentes determinantes da prática pedagógica e a construção de
formas de nela intervir que favoreçam a formação de sujeitos sociais
reflexivos, críticos e comprometidos com uma democracia plena para
todos. (CANDAU, 1997, p. 94)

Observa-se que uma re-significação da didática emerge da


investigação sobre o ensino como prática social viva, nos contextos
sociais e institucionais nos quais ocorre. (...) As análises apontam para
a necessidade de tomar-se essa prática como ponto de partida para a
construção de novos saberes sobre o fenômeno ensino. (PIMENTA,
1997, p. 19-20)

A trajetória da Didática aqui apresentada demonstra os diferentes caminhos e


abordagens da disciplina em busca da definição e redefinição de seu papel na formação
docente. Hoje, a disciplina, procura superar os reducionismos de momentos anteriores,
por meio de uma compreensão que considera o caráter de prática social
multidimensional do ensino, ou seja, um processo que, a partir de sua contextualização,
sofre influências de aspectos sociais, históricos, políticos, culturais, éticos, afetivos.
No âmbito do movimento de reconstrução e ressignificação da Didática muitos
pesquisadores e estudiosos apresentaram suas contribuições no sentido de explicitar o
objeto de trabalho da área e apresentar elementos importantes para sua compreensão
considerando a amplitude e a complexidade do ensino.
Nessa direção, compreendemos que o objeto de estudo da Didática é o processo
de ensino, sendo uma disciplina de natureza pedagógica teórico-prática, que busca
compreender o ensino de forma contextualizada, crítica, criativa, contribuindo para a
formação do professor e para a transformação social.
De acordo com Veiga (1995) a Didática não se resume a um conjunto de
técnicas, muito menos a um manual de orientações didáticas, ao contrário, a Didática
deve proporcionar uma relação teórico-prática, mediando “o que”, “como” e o “para
que” do processo de ensino. Portanto, podemos compreender que a Didática busca
articular a teoria e a prática, trazendo elementos de questionamentos e desafios que
ocorrem na dinâmica da sala de aula, oferecendo condições para que o professor possa

EdUECE- Livro 2
01710
Didática e Prática de Ensino na relação com a Formação de Professores

refletir sobre a prática pedagógica. A autora destaca os seguintes objetivos para o ensino
de Didática nos cursos de formação docente:

a) Refletir sobre o papel sócio-político da educação, da escola e do


ensino; b) compreender o processo de ensino em suas múltiplas
determinações; c) instrumentalizar teórica e praticamente o futuro
professor para captar e resolver problemas postos pela prática
pedagógica; d) redimensionar a prática pedagógica através da
elaboração da proposta de ensino numa perspectiva crítica de
educação. (VEIGA, 1995, p. 80)

Conforme a autora, tendo como objeto o ensino, a Didática deve contribuir para
percebê-lo como um todo complexo e em movimento, em que se relacionam: ensino e
aprendizagem, ensino e pesquisa, conteúdo e forma, teoria e prática, escola e sociedade,
finalidades e objetivos, ensino e recursos didáticos, ensino e avaliação. A seguir
apresentamos cada uma dessas relações.
O ensino não ocorre sem a aprendizagem. Para que possa ocorrer aprendizagem,
o professor deve levar em consideração o desenvolvimento social e individual do aluno,
privilegiando não apenas o aspecto cognitivo, mas outros aspectos éticos, afetivos,
motores e atitudinais, que são importantes para que o conhecimento possa ter sentido
segundo as necessidades e interesses dos estudantes no contexto social, tornando a
aprendizagem significativa.
Para Veiga (1995) a compreensão do ensino deve considerar as relações entre
ensino-aprendizagem, conteúdo-forma, ensino-pesquisa, teoria-prática e professor-aluno
na busca de superar dicotomias e alcançar visão mais totalizante do ensino como prática
social. Vale ressaltar que o ensino da Didática nos cursos de formação docente só pode
ser compreendido se for analisado historicamente considerando os aspectos sócio-
politicos em que se faz presente no contexto educacional brasileiro.

Os desafios atuais
A caminhada que se iniciou em 1982 com o seminário a Didática em Questão,
tendo continuidade com os Endipes, vem contribuindo para socialização de
experiências, diálogo, reflexões, levantamento de novas questões e possibilidades sobre
a área da Didática e seu objeto.
Para Martins e Romanowisk (2010, p. 60)

Colocar em discussão a didática e os processos de formação de


professores neste início de século é urgente. Mais ainda se essa
discussão se faz em um dos espaços mais importantes da área de
educação: o ENDIPE. É uma história que se constrói no movimento

EdUECE- Livro 2
01711
Didática e Prática de Ensino na relação com a Formação de Professores

de educadores-sujeitos e mostra que determinados momentos


históricos tiveram e têm uma importância significativa na
reconstrução do campo da Didática.

O contexto histórico em que ocorreu o seminário de 1982 e os primeiros Endipes


apresentavam um cenário de redemocratização do país. Os anos 1990 foram marcados
pela globalização e fortalecimento das políticas neoliberais, aumento da violência
urbana e das desigualdades, desenvolvimento das tecnologias digitais, mudanças na
organização produtiva, chegando aos dias atuais trazendo novos desafios e
questionamentos para a Didática. Candau (2000) apresenta alguns pontos para compor
uma agenda de trabalho de trabalho para a Didática no sentido de se articular e enfrentar
as demandas e emergências atuais. A autora propõe o enfrentamento com a crítica pós-
moderna , incorporando novas questões como as relativas à subjetividade, à diferença, à
construção de identidades, à diversidade cultural, à relação saber-poder, às questões
étnicas, de gênero e sexualidade, etc. (CANDAU, 2000). A autora defende que a
integração desses elementos à educação e à Didática, ampliam as possibilidades de
reflexão da área. Destacando que muitas são as dificuldades teóricas nesse campo
destaca que a principal contribuição da perspectiva pós-moderna à educação seja uma
visão mais rica, complexa e abrangente das relações entre cultura, conhecimento e
poder. (CANDAU, 2000, p.03).
Outro ponto proposto por Candau, (2000) é trabalhar de forma articulada com
outras áreas do conhecimento, numa perspectiva interdisciplinar, no sentido de romper
fronteiras e articular saberes. Considerando o ensino como objeto da Didática, o desafio
é trabalhá-lo numa perspectiva contextualizada e multidimensional considerando as
contribuições de diferentes áreas do conhecimento.
Outros pontos são propostos pela autora para a agenda de uma didática
contemporânea: favorecer os ecossistemas educativos, reconhecendo os diferentes
espaços de ensino-aprendizagem, diferentes âmbitos e instituições realizam práticas
educacionais; reinventar a didática escolar; apostar na diversidade, superando o caráter
monocultural da prática escolar, imprimindo dinamicidade, flexibilidade, diversificação
ao trabalho escolar; e revisitar temas clássicos da Didática como planejamento,
metodologia, avaliação, questões de disciplina e violência, concepções pedagógicas,
elementos que, segundo a autora materializam o ensino, por isso necessitam ser
repensadas e retrabalhadas no contexto dos desafios contemporâneos.

EdUECE- Livro 2
01712
Didática e Prática de Ensino na relação com a Formação de Professores

A trajetória da Didática revela um caminho no sentido oferecer elementos


significativos para a formação do professor. Um percurso que busca ultrapassar
abordagens reducionistas, avançar em relação a uma compreensão de Didática limitada
a uma racionalidade técnica. Dessa forma consideramos ainda atual o desafio proposto
no âmbito do Seminário a Didática em Questão, ou seja, a ruptura com uma didática
exclusivamente instrumental e a construção de uma didática fundamental, que de acordo
com Candau (1997) toma como objeto o ensino, numa perspectiva multidimensional, a
partir das analises sobre as práticas pedagógicas, contextualizando-as e repensando-as a
partir das reflexões sobre a prática.

Revelações da Pesquisa
Nesta pesquisa trabalhamos com um questionário, de oito questões, aplicado a
vinte e três prováveis concludentes em 2013.1 do Curso de Pedagogia noturno de uma
universidade pública na cidade de Fortaleza. Os questionários traziam perguntas que
buscavam identificar: qual a compreensão de Didática antes e depois da cursar a
disciplina; quais possíveis contribuições da disciplina para a formação inicial; quais os
critérios de avaliação da disciplina no contexto do curso de Pedagogia; dificuldades;
quais os conteúdos considerados mais importantes; o que faltou ser trabalhado na
disciplina. Para preservação da identidade dos sujeitos investigados, os identificamos
com o nome de pedras brasileiras.
No que se refere à primeira pergunta, “qual a percepção que o estudante tem
sobre a disciplina antes de cursá-la”, 78,3% dos sujeitos respondentes evidenciam uma
compreensão inicial de Didática ligada ao modo de ensinar. As respostas demonstraram
uma visão de Didática ligada ao senso comum e a uma compreensão que reduz a
disciplina à sua dimensão técnica. Na sequência, 13% dos estudantes afirmaram que
desconheciam a disciplina de Didática. Em seguida, 4,3% dos alunos apontaram a
disciplina como importante para sua formação. Por fim, 4,3% dos sujeitos ressaltaram
como disciplina fundamental para a prática. Ou seja, a maioria dos estudantes, no início
da disciplina, imaginavam que aprenderiam métodos de ensino como se a Didática se
resumisse a um manual de “como dar aulas”:
“Achava que a didática se resumia ao modo como é dada a aula.”
(Turquesa)
“Compreendia que era uma atividade para facilitar, inovar, refletir e
reformular as atividades desenvolvidas na sala de aula.” (Ametista)
“Que seria uma disciplina onde aprenderíamos técnicas e métodos de
ensino para nos auxiliar dentro de sala de aula.” (Ágata)

EdUECE- Livro 2
01713
Didática e Prática de Ensino na relação com a Formação de Professores

“Na minha concepção na disciplina de didática iria aprender a como


dar aula, como seria a metodologia e que recursos usar.” (Jade)

Em relação à questão “o que mudou ao fazer disciplina”, 34,8% dos sujeitos


respondentes consideraram que novos conhecimentos foram adquiridos, ampliando o
conceito sobre a Didática para a profissão docente; 34,8% responderam em parte; por
fim, 30,4% dos alunos mencionaram que a disciplina nada acrescentou em sua formação
inicial.
Entre os que ficaram insatisfeitos com a disciplina, sete estudantes informaram
que a Didática não acrescentou em sua formação inicial, relataram que não houve
relação entre teoria-prática por conta da metodologia da docente, mantiveram o conceito
e a concepção inicial de Didática. Podemos perceber que, os dados do questionário
confirmam que a concepção inicial não se modificou para esses estudantes:
“A disciplina de Didática foi insatisfatória, o docente preocupou-se
muito em repassar a teoria de vários estudiosos, não proporcionou a
reflexão das teorias, não houve relação entre teoria e prática.” (Água
Marinha)
“Porque não aprendi muito na disciplina. Mantive meu conceito e a
minha concepção.” (Lápis Lazuli)
Três sujeitos expressaram uma insatisfação com a disciplina, apontaram críticas
quanto à metodologia da docente, que se limitava à leitura de textos sem aprofundar as
discussões dos conteúdos e relatos de experiências dos estudantes, além disso, não
esclarecia as dúvidas dos alunos. Os estudantes informaram que a professora não
apresentou a ementa da disciplina dificultando o acompanhamento do programa da
Didática. As críticas demonstraram que não houve compromisso da docente nas aulas,
que a professora foi ausente no acompanhamento da disciplina que de forma tradicional
conduziu a Didática, como demonstram as declarações:
“Os debates em sala não foram tão aprofundados quanto deveriam. O
professor mostrou-se ausente e, muitas dúvidas não foram
esclarecidas.” (Granada)
“A professora de Didática não tinha um mínimo de didática para
passar a seus alunos. Acredito que ela estava regendo a disciplina
errada.” (Lápis Lazuli)
“Fomos quase autodidatas, a professora deixou muito a desejar, a
discussão dos textos muitas vezes deixava a desejar por conta da
docente responsável.” (Esmeralda)
Vale ressaltar, que a docente que ministrou a disciplina foi professora substituta
da instituição, o que nos leva a refletir sobre a importância de um quadro docente de

EdUECE- Livro 2
01714
Didática e Prática de Ensino na relação com a Formação de Professores

professores efetivos que atenda às demandas dos cursos de formação docente com
professores mais qualificados e com uma carreira doente mais estável.
Com relação à questão “a disciplina contribuiu em sua formação inicial?” 65,2%
dos sujeitos respondentes acreditam que a Didática contribuiu em sua formação inicial.
Na sequência, 17,4% dos estudantes ressaltaram que a disciplina contribuiu em parte, e
17,4% dos alunos declararam que a disciplina não contribuiu para sua formação.
À questão “como avaliam a disciplina” 26,1% dos sujeitos respondentes
consideraram ótimo; 26,1% dos estudantes consideraram bom; 34,8% dos alunos
avaliaram como regular; e 13% dos sujeitos como ruim.
Seis sujeitos avaliaram a disciplina como ótima, ressaltando a importância da
Didática não somente para o curso de Pedagogia, como também para os cursos de
licenciatura. Além disso, sugeriram que a disciplina dispusesse de mais tempo no
currículo do curso, e reforçaram que deveria ser regida por um professor da área, que
tivesse vivência com a Didática. Seis estudantes justificaram que a disciplina poderia ter
mais aulas práticas e vivencias em sala de aula, observando as aulas, por exemplo:

Poderia levar mais tempo, por exemplo, Didática I e II. Porque assim
poderíamos ver a teoria e prática. (Rubi)
A disciplina deveria ter mais credito, ou ser dividida entre Didática I e
II, por exemplo, pois esta disciplina é uma das mais importantes do
curso. (Cristal)
Creio que a disciplina deveria ser ministrada por um professor que
compreendesse muito bem sobre o assunto e já tivesse uma grande
vivência. (Opala)
Oito estudantes avaliaram a disciplina como regular, evidenciando também a
ausência de relações entre a teoria e a prática, dando significado para a compreensão da
dinâmica da sala de aula.
Dentre os que avaliaram a disciplina como ruim, três alunos destacaram o não
aprendizado na disciplina, afirmam que não houve o acompanhamento da docente, para
eles o aprendizado foi contemplado em outras disciplinas do currículo do Curso de
Pedagogia.
Ao referir-se sobre “quais as dificuldades encontradas na Didática” 56,5% dos
sujeitos respondentes apontaram a metodologia da docente que segundo os estudantes
foi ministrada de forma tradicional; 8,7% dos alunos não encontraram dificuldades com
a disciplina. Em seguida, 13% dos estudantes relacionaram à questão do tempo a
disciplina; 8,7% dos sujeitos não responderam ao item. Os demais, 4,3% dos alunos

EdUECE- Livro 2
01715
Didática e Prática de Ensino na relação com a Formação de Professores

atribuíram a questões particulares da professora que interferiram no acompanhamento


da disciplina, 4,3% dos estudantes evidenciaram que a disciplina foi ofertada cedo. Por
fim, 4,3% dos sujeitos relacionaram às dificuldades as mesmas do curso noturno como
um todo.
Sobre “quais conteúdos foram importantes para sua formação”, 39,1% dos
sujeitos respondentes elegeram o planejamento de ensino e seus elementos; 17,4% dos
estudantes não consideraram nenhum conteúdo importante ao fazer a disciplina; 13%
dos alunos evidenciaram as concepções de ensino e os saberes docentes. Apenas, 13%
dos estudantes incluíram outros conteúdos da disciplina. Os demais, 4,3% dos alunos
consideraram todos os conteúdos; 4,3% dos estudantes ressaltaram a importância a
história da Didática; 4,3% dos alunos atribuíram a falta de competência da docente em
transmitir os conteúdo. Por fim, 4,3% dos sujeitos não responderam ao item.
Nove estudantes consideraram importante o planejamento de ensino e seus
elementos para sua formação. No entanto, o conteúdo, os dados do questionário
informam que o assunto foi visto apenas única vez na disciplina. Três alunos
mencionaram os saberes docentes e as concepções de ensino estando desta forma
diretamente interligada com sua ação pedagógica. Três sujeitos identificaram outros
conteúdos necessários para sua formação, entre eles citaram: a interdisciplinaridade e os
temas transversais perpassando aos conteúdos escolares.
Em relação à pergunta “quais foram as aprendizagens mais importantes?” 13%
dos sujeitos respondentes salientaram que não houve aprendizagem na disciplina; 8,7%
dos alunos consideraram os saberes docentes como aprendizagem importante para sua
formação; 52,2% dos estudantes aferiram ao planejamento de ensino e seus elementos.
Porém, 8,7% dos alunos não responderam adequadamente ao item. Os demais, 4,3% dos
alunos ressaltaram a importância do trabalho docente; 4,3% dos estudantes
evidenciaram a aplicação da teoria ao ensino; 4,3% dos sujeitos atribuíram como
significado da relação teoria-prática para sua formação. Por fim, 4, 3% dos alunos não
responderam ao item.
Quanto à última pergunta “o que faltou ser trabalhado na Didática” 17,4% dos
sujeitos respondentes enfatizaram uma maior interação entre a teoria e a prática; 39,1%
dos estudantes citaram o planejamento de ensino e seus elementos, como mencionamos,
como tema que, sendo dos mais importantes, deveria ser retomado para que os
estudantes compreendessem a ação de planejar; 8,7% dos alunos explicitaram o
aumento do tempo da disciplina para que fosse possível superar as dificuldades

EdUECE- Livro 2
01716
Didática e Prática de Ensino na relação com a Formação de Professores

apontadas. Porém, 13% dos estudantes asseveram que tudo faltou ser trabalhado na
disciplina. Os demais, 4,3% dos alunos explicitaram que faltou a disciplina articular
com a Educação Inclusiva, 4,3% dos sujeitos informaram que mesmo devido ao pouco
tempo da disciplina tudo foi desenvolvido, 4,3% dos sujeitos evidenciaram que as
tendências pedagógicas foram pouco discutidas em sala. Por fim, 4,3% dos estudantes
apontou a falta de conhecimento da docente para abordar melhor os conteúdos.
Podemos perceber, de acordo com as respostas dos sujeitos desta pesquisa, que a
disciplina de Didática não alcançou plenamente seus objetivos para os sujeitos
investigados, alunos concludentes do Curso de Pedagogia noturno da universidade em
que ocorreu a pesquisa, deixando muitas lacunas na formação docente.
Quando iniciam a disciplina, os alunos acreditavam que aprenderiam, passo a
passo, como se deve ensinar, como transmitir os conteúdos, reduzindo a disciplina a um
“livro de receitas”, ou seja, os estudantes traziam uma visão inicial da disciplina restrita
à didática tecnicista. Entretanto, desmistificar esse reducionismo constitui um dos
grandes desafios da Didática. Arriscamos relacionar o fato desta compreensão não ter
sofrido mudanças significativas, à forma como o trabalho se desenvolveu ao longo do
semestre. Como vimos, segundo os estudantes, a metodologia da docente não promoveu
o aprofundamento dos textos relacionados à disciplina, limitando-se aos trabalhos
escritos em detrimento das discussões e espaços para dúvidas e relatos de experiências,
o que dificultou o aprofundamento da compreensão de Didática. Outros aspectos
identificados com relação à docente foram: as ausências às aulas, pouco domínio dos
conteúdos da Didática, levando os estudantes a não se sentirem confiantes na disciplina,
como consequência disso, consideraram a disciplina cansativa e repetitiva, o que
resultou ausência da relação teoria e prática no desenvolvimento da disciplina.
Com relação aos conteúdos, os sujeitos identificaram como importantes para a
formação docente: planejamento de ensino e seus elementos, avaliação do processo de
ensino e aprendizagem, concepções pedagógicas de ensino, metodologia, relação entre
teoria e prática, currículo, saberes docentes, interdisciplinaridade. São conteúdos que
apontam para uma abordagem crítica e criativa da Didática, seguindo na direção de
algumas tendências atuais da disciplina.

Uma ausência se destacou nas revelações do estudo, a relação teoria e prática,


um princípio fundamental para contextualização, dinamização e significação dos
conhecimentos trabalhados.

EdUECE- Livro 2
01717
Didática e Prática de Ensino na relação com a Formação de Professores

Em linhas gerais os resultados apontaram que a visão técnica da Didática não


sofreu mudanças significativas depois dos estudantes cursarem a disciplina. A falta de
aprofundamento, a abordagem tradicional e ausência da relação teoria e prática podem
ser indicados como aspectos que contribuíram para que essa mudança não se efetivasse
plenamente. Os resultados também revelaram a importância de temas clássicos da
Didática (planejamento, metodologia, avaliação) para os estudantes pesquisados.
Enfatizamos, porém, junto com os autores pesquisados, que esses temas devem ser
inseridos no contexto da contemporaneidade, das novas problematizações e demandas
que o mundo atual traz ao exercício da docência.
A Didática como disciplina do curso de Pedagogia, em nossa concepção, deve
ser entendida como uma área do conhecimento que envolve a problemática do ensino.
Como disciplina teórica e prática deve investigar a realidade do ensino, atentando para
sua complexidade.
Portanto a Didática, como disciplina pedagógica certamente contribuirá para a
formação docente ao superar a transmissão de conteúdos de forma mecânica,
trabalhando seu objeto, o ensino, em sua relação com a aprendizagem, considerando sua
contextualização e multidimensionalidade, preparando assim o professor para uma
atuação crítica e consciente das demandas do mundo contemporâneo.

REFERÊNCIAS

CANDAU, Vera Maria. (Org.) A didática em questão. Petrópolis: Vozes, 1997.


CANDAU, Vera Maria. “Didática hoje uma agenda de trabalho.” In: CANDAU, Vera
Maria (org.) Didática Currículo e Saberes Escolares. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.
CANDAU, Vera Maria. “Da Didática Fundamental ao Fundamental da Didática”. In:
OLIVEIRA, Maria Rita N. S.; ANDRÉ, Marli D. A.(org.) Alternativas do Ensino de
Didática. Campinas, SP: Papirus, 1997.
OLIVEIRA, Maria Rita N. S.; ANDRÉ, Marli Eliza D. A. “A Prática de Ensino de
Didática no Brasil: introduzindo a temática”. In: OLIVEIRA, Maria Rita N. S.;
ANDRÉ, Marli Eliza D. A.(orgs.) Alternativas do Ensino de Didática. Campinas, SP:
Papirus, 1997.
PIMENTA, Selma Garrido. “Para uma Ressignificação da Didática – Ciências da
Educação, Pedagógica e Didática (uma revisão conceitual e síntese provisória)”. In:
PIMENTA, Selma Garrido. (Org.) Didática e formação de professores: percursos e
perspectivas no Brasil e em Portugal. São Paulo: Cortez, 1997.
VEIGA, Ilma Passos Alencastro. “A Construção da Didática numa Perspectiva
Histórico-Crítica de Educação Estudo Introdutório”. In: OLIVEIRA, Maria Rita Neto
Sales. (Org.) Didática: Ruptura, Compromisso e Pesquisa 2ª ed. Campinas, SP: Papirus,
1995.

EdUECE- Livro 2
01718

Você também pode gostar