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Barry Stevens

NÃO APRESSE O RIO


(ele corre sozinho)
ÍNDICE

Capítulo 1: LAGO.......................................................................................... 7

Capítulo 2: FOLHA.................................................................................... 64

Capítulo 3: MIRAGEM ..........................................................................112

Capítulo 4: NEVOEIRO .........................................................................157

Janela para o Turbilhão .........................................................................173

Aqui e Ali .......................................................................................................211

Considere as Margaridas do Campo ................................................229

Três Perguntas ...........................................................................................239

O Ouvinte ......................................................................................................247

O Primeiro Princípio ...............................................................................261

Capítulo 5: PEDRA .................................................................................280

UM PAPO COM BARRY ...........................................................................294


“— e há os terapeutas natos, como Barry Stevens."
Fritz Perls
“Como pessoa, não é fácil classificá-la (...) Tem um
pensamento e uma vida independentes, numa luta contín ua
para romper os laços que tendem a prender todos nós. (...) De
alguma forma atingiu uma sabedoria de vida excessivamente
rara nestes dias em que o conhecimento assumiu tamanha
importância.”
Carl Rogers
Este livro é um relato, na primeira pessoa, a respeito do uso
que a autora faz da Gestalt-terapia e dos caminhos do Zen,
Krishnamurti e índios americanos para aprofundar e expandir
a experiência pessoal e o trabalho através das dificuldades.
“Temos que nos colocar de cabeça para baixo e inverter nossa
maneira de abordar a vida”. Este episódio autobiográfico
mostra a autora neste processo, em 1969, durante um período
de três meses em contato com Fritz Perls, no Instituto Gestalt
do Canadá.
CIP-Brasil. Catalogação na Fonte
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Stevens, Barry, 1902-
S867n Não apresse o rio : ele corre sozinho / Barry Stevens :
[tradução de George Schlesinger ; supervisão da edição de Paulo Eliezer
Ferri de Barros]. — São Paulo : Summus. 1978.
(Novas buscas em psicoterapia ; v. 6)
1. Auto-realização 2. Consciência 3. Felicidade 4. Gestalt (Psicologia) I.
Título.
cdd—131.3
78.0539
—150.1982
índices para catálogo sistemático:
1. Arte de viver : Psicologia popular 131.3 2. Consciência de si :
Psicologia popular 131.3 3. Crescimento pessoal : Psicologia popular
131.3 4. Felicidade : Psicologia popular 131.3 5.
Gestalt: Psicologia 150.1982
Do original em língua inglesa
DON’T PUSH THE RIVER (it flows by itself)
Copyright © 1970 by Real People Press
Tradução de George Schlesinger
Revisão científica da edição e direção da coleção:
Paulo Eliezer Ferri de Barros
Proibida a reprodução total ou parcial deste livro, por qualquer meio e
sistema, sem o prévio consentimento da Editora.
Direitos para a língua portuguesa adquiridos por
SUMMUS EDITORIAL LTDA.
que se reserva a propriedade desta tradução.
Rua Cardoso de Almeida,’1287
05013-001 - São Paulo, SP
Telefone (011) 3872-3322
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e-mail: summus@summus.com.br
Impresso no Brasil
NOVAS BUSCAS EM PSICOTERAPIA

Esta coleção tem como intuito colocar ao alcance do público


interessado as novas formas de psicoterapia que vêm se
desenvolvendo mais recentemente em outros continentes.
Tais desenvolvimentos têm suas origens, por um lado, na
grande fertilidade que caracteriza o trabalho no campo da
psicoterapia nas últimas décadas, e por outro, na ampliação
das solicitações a que está sujeito o psicólogo, por parte dos
clientes que o procuram.
É cada vez maior o número de pessoas interessadas em
ampliar suas possibilidades de experiência, em desenvolver
novos sentidos para suas vidas, em aumentar suas capacidades
de contato consigo mesmas, com os outros e com os
acontecimentos.
Estas novas solicitações, ao lado das frustrações impostas
pelas limitações do trabalho científico tradicional, inspiram a
busca de novas formas de atuar junto ao cliente.
Embora seja dedicada às novas gerações de psicólogos e
psiquiatras em formação, e represente enriquecimento e
atualização para os profissionais filiados a outras orientações
em psicoterapia, esta coleção vem suprir o interesse crescente
do público em geral pelas contribuições que este ramo da
Psicologia tem a oferecer à vida do homem atual.
C APÍTULO 1: LAGO

Lake Cowichan, B.C. Três meses antes de 1970. Manchas de


céu azul e algumas nuvens claras. Muitas nuvens carregadas,
prestes a desabar sobre o lago frio e encrespado. Na relva, o
farfalhar das folhas secas das árvores de bordo. Campinas
enfeitadas de trigo que balança. Na outra margem do lago,
todas as árvores parecem quietas.
Algo estranho se passa dentro de mim. Não sei o que quero.
No momento em que escrevi isso, fiquei sabendo.
Em outubro de 1967 meu filho me enviou um formulário de
inscrição, dizendo: “Preencha! Você não se arrependerá!”. Eu
preenchi, e assim inscrevi-me para participar de um grupo que
se reuniria durante uma semana, das nove ao meio-dia, com
um homem chamado Fritz Perls, no Instituto Gestalt de São
Francisco. Eu não tinha ideia do que me esperava.
Numa manhã de segunda-feira, éramos quinze pessoas
reunidas com o Fritz, numa grande sala vazia da Oficina de
Dança. Outro grupo estava ocupando a sala do Instituto, que
era o sótão da casa de Janie Rhyne. Na Oficina de Dança , um
pouco de luz penetrava por uma porta situada num canto; a
porta dava para outra sala, que tinha janelas. Havia uma
cadeira grande, bastante confortável, para o Fritz. Nós
estávamos sentados em cadeiras dobráveis. Fritz disse: “Acho
difícil a gente se sentir íntimo nesta sala”. Formávamos um
pequeno círculo de gente no meio de um grande espaço vazio.
Meus pés estavam frios. Desejei estar usando meias de lã, em
vez de sandálias sem meias.
Fritz pediu que cada um de nós dissesse como estava se
sentindo em relação à sala. Todo mundo a sentia fria, de uma
forma ou de outra. Uma mulher quis que fôssemos todos para
o apartamento dela. Fritz perguntou o que sentíamos em
relação a isso. Não quisemos ir.
Neste momento, isto é tudo que quero escrever sobre aquel a
ocasião.
Dois anos depois, ela parece tão longe, tão longe, e agora
estou no Instituto Gestalt do Canadá, em Lake Cowichan,
B.C.
Ao ver o trabalho que o Fritz fazia com as pessoas em São
Francisco, fui ficando cada vez mais mistificado. Era óbvio
que ele sabia o que fazia, era óbvio que frequentemente
obtinha bons resultados. Mas, com os diabos, como é que ele
fazia?
Agora já sei como, e sinto falta da mistificação. Às vezes,
consigo recuperar um pouco daquela sensação, fazendo coisas
que ele fazia, embora saiam diferente, pois sou eu que estou
fazendo. Quando isso ocorre, sinto-me muito, muito bem.
Certa vez eu disse ao Fritz que não queria fazer uma coisa que
ele estava mandando. Então pensei: Bem, talvez isso tenha
algum valor que eu não consigo enxergar. Aí perguntei a ele :
“Mesmo assim você quer que eu faça?”. Ele não disse nada.
Como um índio, não disse absolutamente nada. Não havia
nenhuma parte dele que estivesse dizendo algo. Eu é que devia
decidir.
De outra feita, quando eu estava prestes a ocupar o lugar
quente (hot seat), notei que sobre a cadeira havia uma pasta
contendo parte do manuscrito dele.
Perguntei: “Devo sentar em cima ou tirar?”. Ele disse: “Você
está me perguntando”.
Nas duas ocasiões tive de decidir sozinha. Agora já não
pergunto tanto.
Não perguntar me restitui parte do meu poder.
Uma amiga minha, professora numa escola situada no deserto
da Califórnia, fez seus alunos transformarem a pergunta:
“Posso pegar a minha folha na sua mesa?” em “Vou até a sua
mesa pegar a minha folha”. Toda a classe ganhou mais vida.
Quando eu era pequena, costumava ter uma visão: um mundo
onde as pessoas saíam de todas as partes, como cabelos em pé
numa cabeça, e cada uma curvava-se diante de alguma outra.
Todas se curvavam. Ninguém fazia o que queria. Num mundo
como esse, ninguém tinha vez. Esse mundo não servia para
mim. Uma escuridão cheia de fogo e faíscas dolorosas tomava
conta da minha cabeça. Eu não queria viver num mundo
desses, e era obrigada a viver nele.
Quando digo “Por favor, posso?”, posso pensar que estou
sendo educada e superior. Ao mesmo tempo, sinto-me
inferior, fraca, pedinte, à mercê da outra pessoa. O outro tem
a minha vida nas suas mãos. Eu perco meu senso de Eu,
curvando-me diante de você. Quando simplesmente faço (sem
ser rude), sinto-me forte. Meu poder está em mim. Em que
outro lugar deveria estar o meu poder?
É claro que posso ser expulsa.
Fritz estava dando uma demonstração num auditório de uma
escola secundária. Um sujeito se levantou e deu o aviso
costumeiro de não fumar, regulamentos de incêndio, e assim
por diante. Após a demonstração, uma jovem perguntou ao
Fritz, que tinha fumado o tempo todo, como sempre: “Que
direito tem você de continuar fumando, quando alguns de nós
estavam mortos de vontade de um cigarro?”.
Fritz respondeu: “Não tenho o direito de fumar, e não tenho o
direito de não fumar — apenas fumo”.
Mulher: “Mas suponha que você seja expulso”.
Fritz: “Então serei expulso”.
Que horror! Toda essa gente olhando para mim como uma
pessoa expulsa. Nunca entendi completamente introjeção e
projeção; posso estar enganada. mas me parece que eu
introjetei a noção de que é ruim ser expulso, e então projeto -
a sobre os outros. Pois é claro que não sei quantas daquelas
pessoas teriam me olhado dessa forma, e quantas teriam me
invejado por fazer o que eu queria — mais outras noções sobre
as quais não pensei. Quando estou centrada em mim mesma,
nenhuma delas tem importância.
Quando eu era jovem, sabia disso. A minha tia Alice tinha
uma casa na praia. Aquela praia era um lugar mágico para
mim, o vento soprava, o sol brilhava, as nuvens voavam, as
ondas estouravam no seu próprio ritmo, independentemente
de tudo. Conchas muito brancas. Conchas douradas e
brilhantes. Quilômetros de praia branca. Dunas de areia que
se deslocavam o tempo todo. Grama. Pássaros pretos com asas
vermelhas. Pequenos lagartos. Às vezes uma garça azul
planando sobre um arbusto mais antigo. Ali tudo cantava.
Ali eu cantava, mesmo quando não fazia som. Agito, ergo
sum.
Certo verão, eu tinha catorze anos, a tia Alice viajou e m e
deixou com um rapaz de 26. Eu não gostava dele. Era um dos
aduladores da minha tia. E era uma víbora. Ele disse que a
“Sra. B.” tinha mandado eu cozinhar para ele.
Eu achava bastante provável ela ter dito isso. Mas não ia
cozinhar. Disse-lhe que não. Se eu cozinhasse, toda a minha
alegria iria desaparecer. Ele podia cozinhar sozinho. Ficou me
chateando. Mas eu não ia cozinhar. Talvez a tia Alice me
expulsasse ao voltar — me mandasse de volta para casa; mas
se eu cozinhasse para o Ruddy, detestando-o e detestando
cozinhar para ele, ficaria tomada de ódio e não aproveitaria a
praia agora. Aproveitei a praia agora, e esse prazer não me
podia ser tirado.
Agora estou com um pouquinho daquela sensação. Se eu amar
Lake Cowichan, e não puder ficar a meu modo, não estarei
amando, e não me importa ser expulsa.
Voltei a me sentir estranha. Não sei qual é o meu modo.
Na semana passada, na Califórnia, escrevi algo que estou com
vontade de botar aqui:
Hoje de manhã, antes de me sentar à máquina de escrever,
tanta coisa se passava na minha cabeça. Agora estou aqui
sentada, e nada vem.
Estou sentada numa varanda, diante de uma janela que dá para
o interior da casa, e o jardim atrás de mim está refletido nela.
Nas partes em que meu corpo interrompe o reflexo, v ejo uma
mesa — metade de uma mesa. Ela termina onde acaba o meu
próprio reflexo, e se transforma em árvores, plantas e
arbustos, aqui e ali uma perna de mesa, um painel ou uma
parede. Gosto dessa mistura. Nada sólido. Nenhuma
separação entre “dentro” e “fora”.
“Eu fico tão frustrado ao tentar transmitir que Gestalt não são
regras”, disse Fritz certa manhã num grupo em Lake
Cowichan.
“Ele é novo no trabalho, mas está se saindo bem”. Leia e note
o que você consegue tirar daí. Troque “mas” por “e”. Ele é
novo no trabalho e está se saindo bem. Leia, entenda; não é
nada. Faça-o algumas vezes, e então torna-se parte de si.
Faça-o o tempo todo, como uma regra, e volta a ser nada.
Use o que está à mão.
Um jovem tinha ocupado o lugar quente e trabalhado o
problema da sua importância com tanta liberdade como se não
estivéssemos ali. Dois dias depois, ocupou de novo o lugar
quente, olhou em torno de si e disse: “Estou com vergonha.
Toda essa gente olhando para mim’’. Fritz levantou -se e foi
até um armário. Voltou com uma pilha de folhetos e entregou-
os à pessoa mais próxima de si. Cada pessoa pegava um, e
passava o resto adiante. Cada pessoa começou a ler o folheto,
que era uma cópia de um artigo do Fritz. O jovem disse:
“Agora estou louco da vida com toda essa gente lendo o
folheto em vez de olhar para mim!”. Ele riu. “Muito
engraçada essa vergonha!”
Ele tornou presente algo de que não tinha consciência antes.
“Aprender é descobrir.”
“Mesmo que eu esteja certa na minha interpretação, se eu
contá-la a ele, roubo-lhe a oportunidade de descobrir por si
só.”
No Canadá, um funcionário da Agência de Assuntos
Indígenas estava numa balsa com Wilfred Pelletier, índio. O
funcionário do governo saiu para o convés, e quando passava
pela porta seu chapéu quase foi arrastado pelo vento. Ele sabia
que Wilfred o seguia, esteve prestes a avisá-lo, e não o fez.
Wilfred saiu e seu chapéu foi levado. “Por que vo cê não me
avisou?” O homem do governo respondeu: “Eu ia avisar, mas
depois lembrei que os índios não avisam as pessoas. Eles
deixam que elas descubram sozinhas”. Wilfred dobrou-se de
tanto rir. “Você ainda vai virar índio!”
Wilfred não foi índio ao deixar o seu chapéu ser levado. Ele
não notou.
Não teve autoconfiança. Não estava consciente.
Um pássaro: “ch-ch-ch-ch-ch”. Outro assobiando
suavemente. Cada um deles é ele próprio. Nenhum deles está
tentando ser o outro. O tordo-dos-remédios pega os cantos e
sons de muitos pássaros e os torna seus, e isto é próprio dele.
Paro. Noto dor no meu peito; leve, suave e dolorida. O que
faço com ela?
Deixe acontecer o que acontece. Minha respiração se torna
mais profunda, mais forte. E então, mais leve outra vez. Água
nos meus olhos, começo a compreender de uma maneira não
transmissível aos outros. E o meu próprio saber.
... Agora entrei no autismo: pensamentos, imagens, cenas e
planos do que farei quando — não será o que farei. Não tomar
consciência. Não notar.
Nada de pássaros, nada de ventos, nada de
interiores/exteriores misturados — não notar nada a não ser o
que está se passando na minha cabeça, nenhuma ligação com
a realidade. Nem mesmo notar a dor no lugar onde as bordas
da cadeira e as minhas coxas se juntam. Não tomar
consciência da dor no peito e em outros lugares.
Este “agora” é como todos os agoras, já se foi quando eu
começo a notá-lo. Já se transformou em alguma outra coisa.
Alguém conhece a história do Epaminondas? Era um menino
que tentava ser bonzinho e sempre fazia as coisas erradas.
Quando ele trouxe a manteiga para casa, ela estava toda
melada e inútil. Sua avó lhe disse que ele deveria ter posto
folhas frescas no chapéu, botado água fresca e trazido a
manteiga dentro. Na vez seguinte, teve de trazer um
cachorrinho. Recordou-se das instruções da avó. O
cachorrinho se afogou. A avó lhe ensinou como deveria ter
trazido o cachorrinho, e na vez seguinte ele o fez, mas não era
um cachorrinho e a coisa também não deu certo. E assim por
diante.
Me lembrei do que aprendi com essa história durante sessenta
anos. Pensei nela quando uma jovem me levou para o
aeroporto e insistiu em ficar até estar certa de eu ter partido
em ordem. Ela conta que levara duas pessoas com quatro
filhos para o aeroporto, e tinha ido embora, “e eles tiveram de
esperar doze horas!”
E eu, o que é que tinha a ver com isso?
Eu estava sozinha, e às vezes quando tudo sai errado,
acontecem coisas maravilhosas e eu aproveito coisas que teria
perdido se tudo tivesse dado certo. Se não, sempre posso
dormir.
Não gosto de ser tratada como se fosse outra pessoa. Sinto -
me como se não estivesse ali.
Nesta tarde ensolarada de setembro, conversando com uma
jovem na relva, o Natal entrou na conversa. Ela disse que não
gostava do Natal, mas que concordava com ele porque gostava
de algumas coisas, como fazer biscoitos e dá-los aos vizinhos.
‘‘Por que deixar isso para o Natal?”
“Você quer dizer, fazer em qualquer época do ano?” Ela
parecia excitada.
(“Não são as correntes que atam os corpos dos homens, mas
as correntes que atam as mentes dos homens.”)
Certo ano, mandei cartões de Natal em junho. Uma porção de
gente adorou receber cartões de Natal em junho. Muito mais
do que as que gostam de recebê-los no Natal.
Quando eu estava doente, alguém me mandou um pacote
contendo uma porção de coisas diferentes. Havia uma caixa
cheia de cartões de aniversário.
Eu não me lembro de quando as pessoas fazem anos, e
geralmente esqueço o meu próprio aniversário. Eu “nunca”
mando cartões de aniversário. Mas eu os tinha, e então,
sempre que pensava em alguém de quem gostava e não recebia
notícias há algum tempo, mandava um cartão de aniversário.
Algumas pessoas me escreviam contando o prazer que haviam
tido.
Três pessoas se lembram do meu aniversário e me mandam
cartões todo ano. Eu me aborreço.
Acabou de voar um pássaro de um galho atrás de mim. Agora
ele está na relva e eu vejo que é um tordo. Que importância
tem saber que tipo de pássaro ele é? Eu gosto de vê-lo no
reflexo, ver algo atrás de mim em vez de ver sempre algo na
minha frente. Existe um experimento de treinamento visual,
feito por Bates-Huxley, no qual a gente fecha os olhos e olha
para um local na base da nuca, onde ela se torna pescoço. É
muito aliviante. Quando eu o faço, percebo como os meus
olhos têm sido puxados para a frente, para a frente. As
inversões são parte da Gestalt. Romper algumas das corren tes.
As ferramentas conceituais da Gestalt certamente são úteis.
Me incomoda quando as ferramentas são usadas sem
compreensão da Gestalt, ou com compreensão parcial. Não
faça afirmações impessoais. Elas colocam tudo em algum
ponto lá longe, como se não fosse parte de mim. Eu me
incomodo quando as ferramentas são usadas etc.
“Quando o homem errado usa os meios certos, os meios certos
funcionam de forma errada.”
Com muita frequência, acontecem coisas boas quando as
ferramentas são usadas por gente de boa vontade que não as
compreende ou não as compreende totalmente. Às vezes,
alguém é apunhalado ou surrado de maneira inadequada, e
isto é prejudicial. Quando uma pessoa sem essa boa vontade
— alguém que não tem em mente seus próprios fins — usa
essas ferramentas, frequentemente são prejudiciais. E então,
as ferramentas são boas? Devem ser acessíveis? Ou devemos
jogar fora a linha, a agulha, e assim por diante? Ou restringir
o seu uso?
A resposta está na pessoa que responde. Gosto desse “está”.
Ela está errada se pensa que está certa. Ela está só com a sua
própria resposta. 1

1
The answer lies in the person who answers. I like that “lies”. It is a lie
if anyone thinks he has the right answer. He has only his own answer. A
tradução é livre devido à impossibilidade de se traduzir o trocadilho. O
verbo to lie significa “estar em”, “residir em”, e também “mentir”; o
substantivo lie significa “mentira”. A autora diz gostar da colocação do
verbo “estar em” ou “mentir" (the answer lies...) porque é mentira (it is
a lie...) se alguém pensa que tem a resposta certa. A primeira frase passa
a ter então duplo sentido, podendo ser entendida como: A resposta
(julgada certa) mente na pessoa que responde. (N. do T.)
A minha própria resposta, que é como se explodisse de dentro
de mim... A resposta é eu, e o que explode de mim é eu. Então
o que estou dizendo? Há a parte protetora de mim que deseja
tornar tudo seguro. Existe a parte de mim que corre riscos e
sabe que cabe a mim descobrir o meu próprio caminho, fazer
as minhas próprias escolhas, e se eu fizer muitas escolhas
erradas, é isso mesmo.
Eu me iludo quando deixo as outras pessoas escolherem por
mim. “Respeite a autoridade” é um dos logros mais bem-
sucedidos — respeitar a autoridade quando ela não está de
acordo comigo, com a minha autoridade. Não estou notando,
entendendo, e agindo por mim mesma. Eu penso. Eu penso
que esse sujeito deve estar certo por causa da posição dele, do
seu treinamento, da sua idade etc. Eu “digo a mim mesma”
que ele deve estar certo. O que quer que eu diga a mim mesma
é mentira para mim, e eu sou a pessoa a quem estou mentindo.
Jantei com uma mulher que conheci quando jovem, quando
ela possuía um espírito bastante rebelde, e também um bocado
de insegurança. No jantar, ficou claro que ela havia
abandonado o espírito rebelde e adquirido aquela espécie de
segurança que inclui uma bela casa, renda fixa, marido fixo,
e assim por diante. Não se devia falar sobre assuntos
perturbadores. Tudo estava muito bem e eu me senti triste.
Disse a mim mesma que estava certo, que ela havia escolhido
esse caminho, e o caminho era realmente muito bom,
confortável e agradável. Eu me senti “boazinha” a noite
inteira (acho). “Não perturbe nada”, estava tão claro no ar. Eu
o respirei como éter e adormeci.
Ela me levou para casa. Quando ela se foi, notei que estava
cantarolando algo que não consegui identificar. Continuei
cantarolando até o fim, antes de saber o que o meu eu
organísmico estava fazendo. Bem no final, vieram as
palavras: “Pobre Borboleta”. Eu conhecia a minha tristeza,
que era real.
Ninguém mais me confunde. Eu mesma o faço.
Fritz chama isso de “zona intermediária”, este lugar no q ual
eu confundo a mim mesma. Krishnamurti o chama de “mente
superficial”, que não consegue chegar ao fundo pela sua
própria natureza. Não importa quanto ela pense, ela ainda está
pensando — pensando em toda espécie de coisas que não
provêm de mim; e ainda assim, penso nelas como sendo eu.
Em seu livro Freedom from the Known — (Libertar-se do
conhecido) — Krishnamurti conta um fato que se passou
quando viajava de carro pela índia, com mais dois homens e
um motorista. Os dois homens estavam discutindo sobre
tomada de consciência, e fazendo perguntas a Krishnamurti.
O motorista não notou uma cabra e atropelou-a. Os dois
homens não notaram. “E com a maioria de nós se dá o
mesmo. Não tomamos consciência das coisas de fora e das
coisas de dentro.”
Fritz nos orientou para oscilarmos entre coisas de fora (“a
zona externa”) e coisas de dentro (“a zona interna”), chegando
a uma tomada de consciência.
Neste instante tenho vontade de voltar às “ferramentas
conceituais”, à eu protetora e à eu que se arrisca... A minha
mente está vazia outra vez. O que ali estava antes não está
presente agora. Noto que tenho vontade de fazer uma xícara
de chá. Isso não é evitar! Se esta máquina de escrever tivesse
um grito, meu grito estaria no papel. É claro que eu evito.
Evito uma porção de vezes.
Existe o evitar bom e o evitar ruim, e às vezes ficar com a
mente vazia não é evitar. Meu grito ocorre porque o Fritz
enfatiza o evitar, e não deixa as pessoas evitarem o que não
deve ser evitado (tomada de consciência). Muita gente acha
que “evitar é ruim”, e aplica isso a tudo que eles consideram
evitar.
Às vezes prefiro o Zen, mesmo que demore vinte anos.
Não tenho certeza de que a Gestalt não leva vinte anos para
atingir o mesmo lugar.
Não conheço nenhum jeito de evitar que as pessoas usem mal
qualquer coisa, inclusive o Zen.
E então — entrei no problema do mau uso. Estou evitando a
xícara de chá que não fiz? Ou meu organismo — o eu não-
pensante — usa o que tem à mão, e me levou ao que eu queria
por outro caminho?
Agora sei o que não estava comigo há pouco. A parte
protetora de mim quer deixar tudo seguro para todo mundo —
nada de mentirosos, de homens ruins, de falsos guias, de
distorcedores da mente, de exploradores, de charlatães... O
que vem a seguir eu não quero dizer porque é tão idiota —
nada de terapia imperfeita ou terapeutas imperfeitos.
Ao mesmo tempo, a minha experiência — a minha própria
observação — diz que tentar deixar tudo seguro — como os
Estados Unidos vêm tentando fazer há tanto tempo — leva à
loucura, como a guerra no Vietnã; e em todo caso, se
tivéssemos um mundo à prova de tolos, apenas tolos viver iam
nele.
Esse não é o mundo que eu quero. Eu me rebelo contra o
protecionismo da minha própria sociedade.
O método indígena de confiar nos próprios sentidos tem
sentido para mim.
Aqui entra uma parte da Gestalt da qual eu gosto. Uma parte?
Isso é tudo: “Perca a cabeça e chegue aos sentidos.”
Isso também pode ser mal-entendido e mal empregado.
Quando voltei a Lake Cowichan quatro dias antes, estava
confusa, não responsiva, não aqui. Eu não sabia o que estava
errado comigo. Tentei descobrir. Eu achava uma resposta,
mas ela não me adiantava nada, e novas respostas
continuavam vindo, sem fim.
A minha infelicidade parecia estar relacionada com este lugar.
No dia 1º de junho, Fritz mudou-se para cá com vinte de nós.
Ele não nos conhecia a todos. Muitos de nós conheciam
apenas um dos outros. Não tínhamos vivido juntos
anteriormente. Mudamo-nos, arrumamos, modificamos o
lugar, e o primeiro workshop começou às oito da manhã no
dia seguinte. Às dez horas começamos a elaborar coisas, tais
como a alimentação da comunidade. Era maravilhoso
observar e tomar parte no que estava acontecendo.
Fritz nos disse que haveria seminários das oito às dez da
manhã, seguidos de duas horas de trabalho na comunidade.
Das duas às quatro da tarde haveria tempo livre para quem
quisesse ensinar massagem, dança, arte ou qualquer outra
coisa. Das quatro às seis, um período de trabalho. Das oito às
dez da noite, novamente seminários e depois, reunião da
comunidade. Algumas coisas se inverteram e foram tentadas
de outra maneira — e às vezes voltavam à maneira inicial —
acontecendo à medida que íamos adiante. As coisas
continuaram seguindo esse caminho, até 24 de agosto, quando
Fritz saiu por um mês. Eu saí por três semanas e muitos ou tros
também saíram.
Teddy e Don mantiveram um workshop durante esse período.
Quando voltei, quatro dias atrás, tudo estava ORGANIZADO.
Quem mora onde, o que fazer, quando. Diagramas para o
grupo, tais como troca de guarda — a organização não-
organísmica da qual tanto não gosto, que não é comunidade
para mim.
Não pude ver meio de mudar isso. (Não importam os porquês,
nem se eu podia ou não mudar.) Eu não queria ser parte disso.
Eu queria ficar aqui. (Também não importam os porquês
disso.) Tentei decidir o que faria. Vi algumas coisas que
queria e podia fazer, e mesmo estas não chegaram a me atrair.
Eu estava sentindo uma espécie de náusea. Desviei -me de
tentar rir dela (esquecendo que “tentar é mentir” — trying is
lying) para tentar (este é um tentar diferente) me soltar com a
náusea e voltar. Decidi simplesmente não mostrar o jogo até
o Fritz voltar, no fim da semana. Riso de mofa. Não gostei da
decisão. Eu decidi. Decidi. Decidi. Nenhuma delas grudava.
E óbvio. Eu me sentia estranha.
Na terceira noite não consegui dormir, o que não é muito
comum. O aquecedor fazia barulho. Eu o desliguei. Estava
frio. Levantei-me e enchi uma bolsa de água quente. Não me
recordo das coisas que se passavam dentro de mim, mas
desliguei-as ou as aqueci também, e entrei numa outra espécie
de confusão. Por volta das quatro e meia, adormeci. Quando
acordei, preparei uma sopa de tomates porque me parecia
preferível a bolinhos de galinha.
(Ainda não reabasteci a minha cozinha.) Enquanto cozinhava,
notei uma canção em surdina na minha cabeça. Escutei para
descobrir qual era, e ouvi: “A velha égua cinzenta, ela já não
é mais o que era, não é mais o que era...”.
Quanto prazer na minha risada! A eu organísmica — meu
organismo — saindo, bem de dentro de mim. Como um
pequeno raio de sol, meus sentidos voltando, dissipando o
nevoeiro insensível no qual eu estivera imersa. Então, os
acontecimentos começaram a acontecer, o que era impossível
antes, quando eu estava insensível e não reagia. Eu e mim
somos uma só. (Z and me are one.) Isso aconteceu ontem.
Hoje é um dia lindo. Céu cheio de nuvens, chovendo. Vesti
um poncho sobre o pijama, para subir o morro e atender a um
telefonema interurbano. Era Neville, telefonando de Nova
York para saber a data dos workshops de outubro e novembro.
Era uma coisa de nada, e no entanto eu estava tão feliz falando
com ele. Ainda estou feliz, como se nada no mundo pudesse
mudar isso. É claro que não é verdade — mas ao mesmo
tempo é verdade. Nada no mundo pode transformar a minha
felicidade agora.
O que farei aqui se perdeu. Eu estou fazendo. Saí do futuro
onde não posso fazer nada exceto em fantasia, e entrei no
presente, onde tudo acontece.
Aprendi algo.
Recuperei algo, ou des-cobri e re-des-cobri (I have recovered
something, or uncovered it and re-discovered it), assim como
Fritz é um re-descobridor da Gestalt.

1948. Junho. Fui despedida da Escola de Vale Verde, que


naquela época estava em construção. Na diretoria sem
móveis, Ham me despedia e continuava dizendo: “Detesto
fazer isso. Você é muito eficiente”, e continuava a se
reassegurar de que estava certo. Eu não gosto de ver gente
sofrer, mesmo com as suas próprias confusões. É só depois
que fico achando ridículo.
Willie, o cozinheiro, me perguntou: “Como você está de
dinheiro, menina?”.
Alguns dos funcionários Hopi me convidaram para ir, junto
com meu filho (treze anos), viver com eles em sua aldeia, na
reserva indígena.
Blackie, o diretor de Sedona Lodge, veio a mim com uma das
mãos para trás. Em poucos minutos a sua mão apareceu, e ele
me ofereceu uma galinha assada.
Lisbeth Eubank nos convidou para ficarmos com ela em
Monte Navajo, ao norte da fronteira Arizona/Utah.
Fui de carro com uma enfermeira pública. Josephine
Scheckner, e sua secretária, Grace Watanabe. Na nossa frente
a caminhonete, muito alta, levando o equipamento de raio-x.
Com amortecedores extra-altos para proteger o equipamento
dos choques, o corpo da caminhonete balançava sobre as
molas, e parecia que ia capotar. Meu filho estava com o
motorista. Nós os perdemos no Lago Vermelho. A
caminhonete desapareceu.
Faço uma pausa... Na verdade não quero escrever sobre isso.
Foi um período muito inseguro das nossas sempre inseguras
vidas, e eu estava preocupada em cuidar de nós. Não me
esqueci dessa parte. E ainda assim, havia tanta coisa viva e
vital e quente, numa região de gloriosas rochas vermelhas, o
céu tão azul, o sol tão quente...
Estávamos bem próximas do Monte Navajo quando atolamos
na areia. Descemos e cavamos, e pusemos tábuas na frente das
rodas. Um índio navajo apareceu. Ele não estava lá — e de
repente estava. Era muito magro, e vestia uma calça de pijama
em farrapos e um casaco preto em farrapos. Na época, os
navajos eram desesperadamente pobres. Ele sorriu,
gesticulou, disse algumas palavras, e nós não tínhamos ideia
do que ele estava falando... Ele apontou para o céu e moveu a
mão como um avião voando em círculos. Então perguntou:
“Médica?”, e nós pensamos que ele estava se referindo a
Josephine, a enfermeira, embora o avião não parecesse ter
muito a ver com atolar na areia.
Então, fez com a mão como se estivesse fumando e pediu:
“Cigarro?”. Nós lhe demos alguns cigarros.
Josephine sentou no lugar do motorista. Grace e eu ficamos
atrás dos para-lamas traseiros, mãos no carro, prontas para
empurrar. Fizemos um sinal para o navajo vir e se colocar
entre nós, para nos ajudar. Ele colocou as mãos no carro da
mesma maneira que nós. Josephine engatou a marcha, e
quando o carro se moveu um pouco, Grace e eu nos curvamos
com toda a nossa força, para tirar o carro da areia. Ele avançou
lentamente, depois mais depressa — e se afastou de nós. Nós
nos endireitamos e olhamos para trás — e ali estava o navajo
parado, exatamente na mesma posição que lhe tínhamos
indicado, como se o carro ainda estivesse ali encostado em
suas mãos. Ele não tinha empurrado nada! Ele riu com a
alegria de uma criança.
Quando chegamos à montanha e contamos a Lisbeth o que
tinha se passado com o navajo, ela disse: “Ahhh. esse Hosteen
Yazzie!”. Mais tarde, quando Josephine e Grace já tinham ido
embora, fui com Lisbeth a uma “cantoria”, numa cabana que
ficava a cerca de quinze quilômetros. Lá chegando reconheci
o nosso comediante. Quando me viu, cobriu o rosto com as
mãos, como se tivesse corado — e tremeu de rir. Tenho
certeza de que ele tinha gostado de ver as expressões das três
mulheres brancas tentando seriamente dar algum sentido ao
seu absurdo.
Então parei de escrever, dei um passeio na neblina. Eu queria
estar de novo ali. Tanta tristeza em mim, recordando. Toda eu
tão triste que eu era a tristeza.
À noite, após o jantar, meu filho e Robert Tallsalt cavavam
em busca de artefatos. Esses artefatos eram dos índios anasazi
— não dos navajos, e sim de gente que os precedeu em
quinhentos anos, e Robert não tinha receio de desenterrá -los.
Certa noite meu filho disse a Robert, o cavador: “Há uma
cascavel perto do seu pé”. Robert respondeu: “Ela não está
me fazendo mal nenhum”, e continuou a cavar.
Nem todos os navajos se comportavam desse jeito frente a
cascavéis.
Um mês atrás, um curandeiro de índios canadenses me disse:
“O que eu sei é apenas um pingo daquilo que os meus
ancestrais sabiam”. Ele mostrou no espaço com o dedo
indicador quanto era um pingo. Nós pensamos o quanto
sabemos mais do que os nossos ancestrais... Penso agora nos
meus pais que não foram à escola depois dos doze anos. Eu
sei tanta coisa mais do que eles — de um lado. De outro, não
tenho certeza... Eles confiavam muito mais na sua própria
observação, na sua própria experiência, no seu próprio
conhecimento — muito menos em profissionais e autoridades.
A minha vida é por causa disso. Eu fui um bebê de
incubadeira. Os médicos de Manhattan me devolveram ao
meu pai porque de qualquer forma eu estava morrendo.
(Minha mãe ficou muito tempo no hospital, muito doente.)
Meu pai não estudou os livros. Ele estudou a mim, e descobriu
algo. E aqui estou eu. (A descoberta dele foi posteriormente
validada pela profissão médica, quando eles mudaram de
opinião a respeito de como tratar bebês prematuros.)
Tornar presente. Notar. Isso é Gestalt. Também é Gestalt. E
indígena — da antiga, da qual apenas parte sobrevive.
Ao escrever isto, sinto-me bem, forte e feliz. A tristeza se foi.
Volto a 1948. É claro que não é uma volta, eu recordo, entro
em contato com experiências do meu passado que estão
incorporadas em mim. Este é o único lugar em que essas
experiências existem. Onde está “o passado”? Já se foi. A
memória me dá a ilusão de que existe um passado.
Em 1948, na reserva dos navajos, as pessoas eram
desesperadamente (aos nossos olhos) pobres, famintas,
enfermas; e viviam tanto, gozavam tanto.
Eu sofria uma agonia de conflito. Não podia desejar que
ninguém fosse tão pobre, faminto e enfermo — e no entanto
eles pareciam mais felizes — gozando os acontecimentos
mais do que qualquer outra gente que eu conhecia.
Eu não sabia o que fazer com isso.
Em 1966, na reserva navajo, conversei com um mercador que
adorava Ayn Rand e detestava o “coletivismo”. Ele estendeu
ambos os braços num gesto que incluía os pobres navajos
(nessa época, nem todos os navajos eram pobres, talvez nem
mesmo a maioria) sentados no chão do lado de fora do seu
posto de mercadorias e disse: “Veja só o que o coletivismo
faz!”.
Certo dia, ele me disse que tinha uma casa em Farmington,
Novo México, “mas não consigo mais viver ali. Eu fico louco
quando estou fora da reserva”. Perguntei-lhe qual era a
diferença e ele respondeu: “É difícil dizer”. Fiz algumas
outras perguntas, e ele não soube respondê-las — realmente
não soube.
Então eu disse: “O que você gosta nos navajos?”, e ele
respondeu imediatamente, sem vacilar: “A felicidade deles
em viver!”.
Estranho. Naquela época eu parecia ter esquecido dos
polinésios e da felicidade deles. Eles não eram tão
desesperadamente pobres, famintos e enfermos. A maioria
deles, na época em que vivi no Havaí (1934-1945) não era
nada disso. Não me lembro de ter-me recordado disso na
reserva navajo em 1948.
Em 1966, uma mulher navajo me falou da vida dela em 1949:
“Todo mundo era tão feliz, e era meio triste, sabe, pensar ‘O
que vamos comer amanhã?’ Mesmo assim, tínhamos uma
sensação tão boa. Acho que é o estar e trabalhar juntos que
fazia tudo isso, que nos mantinha felizes. E quando chega a
primavera, todo mundo sai para o campo e planta milho, ou
qualquer outra coisa que possa ser cultivada, e no outono a
gente come ou guarda para o inverno... (suspiro) Às vezes eu
me pergunto onde foi que erramos”.
Quando me tornei tristeza, escrevendo sobre aquele verão,
comparei este lugar com aquele. Agora, não estou
comparando. Estou apreciando novamente a Ilha de
Vancouver. Eu me sinto bem aqui. As nuvens são lindas,
cobrindo o topo das montanhas. O que não está aqui não
existe, nem mesmo o calor, o sol e os banhos de três meses
atrás, em junho. Para mim é difícil lembrar qualquer momento
antes deste momento, e qualquer momento depois dele se
recusa a ser fantasiado na minha cabeça.
Uma hora atrás eu estava me perguntando quando chegaria o
correio. O correio parecia importante. Eu estava faminta para
que chegasse algo. Agora já não importa se vem ou não.
Eu gostaria de ficar deste jeito. Não há meio de eu me fazer
ficar assim.
Se existe algum, é tendo que me des-fazer. Não tenho ideia de
como cheguei aqui desta vez — nem consigo me lembrar do
que escrevi ou do que se tem passado dentro de mim. Apenas
me lembro vagamente de que estava triste.
Agora não estou o que chamo de “feliz”. Apenas me sinto
bem, e tudo está bem. Faço uma pequena ligação disso com a
anestesia, e em seguida me lembro de quando estava metida
em tanta confusão com meu marido e comigo mesma, e fiquei
com mononucleose. O médico me deu alguns remédios e
fiquei semicomatosa. Ele disse: “Sinto muito. Sinto muito
mesmo. A culpa foi minha”, e eu disse: “Não se lamente,
doutor. É maravilhoso.”
Meus lábios estavam gozados, a minha voz estava grossa e
mole, e eu não conseguia fazer nada. Agora, posso falar
direito — tentei neste instante.
Posso datilografar. Posso parar de datilografar e fazer outra
coisa. Tenho o domínio das minhas capacidades. Não posso
me fazer sorrir. O meu rosto se sente muito estranho quando
eu tento. Eu precisaria ter vontade de sorrir para que o sorriso
ocorresse. Como um índio? Você já tentou fazer um índio
sorrir?
Quando os índios hopis que trabalhavam na construção da
escola de Vale Verde não tinham vontade de sorrir, Ham
tentava “animá-los”. Ele cantava “Venham e dancem!” Ele
fazia “graça”. Eles pareciam mal-humorados — para nós. Eu
invejava o fato de eles sustentarem a situação contra o Ham.
Eu não me sinto mal-humorada agora. Simplesmente não me
sinto engraçada e nem com vontade de rir, e acho que iria
parecer mal-humorada para a gente branca daqui, e se eles
tentassem me alegrar, eu iria parecer ainda mais mal-
humorada porque ficaria como estou. O esforço deles não
seria recompensado. Fracasso. Resistência. Derrotá-los. Sorri
um pouco quando escrevi isso. É tudo tão bobo. Sorrir para
você para manipular você para você sorrir para mim para que
eu me sinta bem.
“Eles chamam isso de vida!”, foi o que me veio à cabeça,
exatamente no mesmo tom empregado por um hopi alguns
verões atrás. Eu tinha subido à Segunda Mesa com Bárbara
Bater, à procura de alguns amigos hopis. Havia uma dança,
uma dança hopi. Após a dança cerimonial, houve a hora da
comédia — fazer graça dos brancos. Um dos hopis pegou uma
mulher da audiência e dançou com ela no nosso estilo de
bailes, ao mesmo tempo fazendo graça pela forma que
dançava. A mensagem era clara. Não creio que ela não
pudesse ser entendida, mas o hopi não deixou dúvidas quando
virou a cabeça e gritou por cima do ombro: “Eles chamam isso
de dança!”.
Nem todos os costumes indígenas são para mim. Nem toda a
Gestalt é para mim. Os pontos onde os dois se juntam são
aquilo que eu quero.
Acabei de me levantar para ir ao banheiro — cantando. Meu
cantar aconteceu e eu gostei dele — do som, das vibrações no
meu peito, no meu pescoço e especialmente na cabeça,
embora também estivessem um pouco nos meus dedos dos
pés. Agito, ergo sum. Agora os meus ombros estão fazendo
um movimento ondulatório... meu tronco está entrando nele
— voltas cada vez maiores — agora um movimento de rolar,
como o daquelas bonequinhas de plástico com botõezinhos
vermelhos.
Agora, estou sentada de maneira totalmente diferente — solta,
livre, à vontade. Sinto minha coluna crescer, como acontece
frequentemente após ter “trabalhado” com o Fritz. (Ambos
gostaríamos de ter uma palavra melhor que “trabalhado”.) Eu
tenho 77 anos, lembre-se, e nem mesmo estou em boa forma
para essa quilometragem. Onde está a minha rigidez, as
minhas dores reumáticas (elas são poucas, mas agudas), em
toda chuva e neblina, com gotas de água escorrendo dos fios
elétricos. Eu me sinto tão aquecida — como se pudesse
aquecer tudo em volta de mim. (Não me sinto tão segura no
que se refere a pessoas!)
Eu me apeguei a algo através da Gestalt, uma nova
experiência. No passado, às vezes, com algumas pessoas,
tenho estado sem ego — quando elas também estavam...
Levantei-me para fazer uma xícara de chá e me apeguei a
outra coisa, algo como, ufa! depois de todos esses anos eu
entendo alguma coisa de mim. Agora não sei o que escrever
primeiro, então vou preparar o chá e ver o que acontece.
A chuva escorre das bordas do telhado. A chaminé do fogão
faz tin... tin... Gosto das pausas, e dos tins. A cortina está
balançando um pouco, por causa da janela aberta. A fumaça
sai de um cigarro no cinzeiro, e passa pela máquina de
escrever. A escada ao lado do ancoradouro parece estar ali
colocada para que alguém/algo suba da água. Quem? O quê?
Deixe cada pessoa imaginar o que quiser. A minha imagem é
amigável. Transforma-se em inimigo. Eu a faço voltar ao que
era. Falsidade. Ele não é, nem quem, nem o quê — é mais um
qual. Um pequeno rebocador, casco preto, estrutura superior
branca, formando pequenas ondas atrás de si e espirrando
água branca ao longo do cabo que o liga à balsa cheia de
madeira que está rebocando lago abaixo.
Suponha que a balsa começasse a puxar o rebocador para trás,
no sentido contrário do seu movimento. E a maneira como a
maioria de nós vive, me parece. E a maneira como eu tanto
vivi. Projeção? Introjeção? Retroflexão?
Importa? Às vezes me parece que eu introjeto, projeto a
introjeção, e retroflito a introjeção e a projeção. Não me
importa se isso faz sentido. Gosto de como soa. Em todo caso,
nenhuma delas é real. E simplesmente uma forma de encarar
algo, e esses conceitos não têm utilidade porque não gos to
deles. Algumas outras pessoas fazem coisas muito boas com
eles, porque gostam deles; e ainda outras contribuem com o
absurdo do mundo humano não sabendo o que fazem com
eles, e fazendo da mesma forma.
Num dos seminários de Harry Rand, uma assistente so cial
falou longamente (à guisa de pergunta) sobre relações-objeto
e uma porção de outras coisas que eu não entendo. Para mim,
era simplesmente um amontoado de palavras. Quando ela
terminou, Harry tirou o cigarro da boca e disse: “Para mim,
não passam de palavras. Diga-me o que você quer dizer”. Ela
não foi capaz.
Harry é (era?) um psiquiatra de Boston, um psicanalista, mas
tinha muito sentido, e às vezes era muito Fritz. Um estudante,
ao relatar o caso de um paciente que estava atendendo no
hospital, empregou uma torrente de jargão.
Harry escutou até o fim (não como Fritz) e no final disse:
“Você quer dizer que o sujeito está apavorado".
Harry teve um paciente que vinha e não dizia nada, e Harry
não conseguia fazê-lo dizer nada. De repente, Harry teve uma
imagem de si mesmo quando menino, ao ser mandado para o
diretor, e o diretor parecia ter três metros de altura e Harry
não conseguia dizer nada. (Isso é um pouco parecido com
Fritz.) Harry falou do que estava acontecendo dentro de si
(isso é semelhante ao Fritz, embora ainda não Fritz) — como
ele via o paciente a vê-lo (Harry) tendo três metros de altura
— e o homem começou a falar.

Não me lembro do que estava dizendo antes. Não force: vai


emergir.
Emerge.
Certa noite, aqui, o Fritz pediu a dois dos homens que
atuassem como coterapeutas. Na verdade ele não pediu, e nem
mandou. É uma espécie de mistura dos dois, ou algo no meio.
Ele disse (isto explica bem) que escolhessem um de nós como
paciente. Eles estavam em cantos adjacentes da sala e eu
estava sentada no meio da parede oposta a eles. Vi os olhos
deles movendo-se ao notar uma pessoa passar adiante, notar
outra, e assim por diante. Ambos chegaram a mim no mesmo
momento, e cada um deles teve um brilho nos olhos. Eu me
dispus, sentindo-me como se uma dupla de monstros dos quais
eu não tinha medo tivesse avançado sobre mim. e fui até o
lugar quente. Don e David vieram e sentaram-se num sofá
perto de mim, a pequena distância um do outro. Naquela
época, eles não eram realmente amigos.
Estou resistindo prosseguir. Não quero prosseguir. A razão é
que eu estou pensando nisso, tentando relembrar, recordar o
que veio antes do quê, escolher o que é importante e o que
pode ser deixado de lado. Desta maneira, eu me coloco em
apuros (dentro de mim e também com as outras pessoas, e às
vezes com um vaso ou uma panela; ou deixo as coisas cair, ou
queimo os dedos, ou alguma outra coisa, ou acontece algo
impossível como jogar fora uma carta que eu queria muito
guardar, ou rasgar algumas páginas de manuscrito quando
nem sequer cheguei a lê-las e não sei o que dizem). Então,
vou dar uma volta na chuva, esquecer, e ver o que surge.
A ordem não importa! Esta introdução ao que aconteceu é só
um esquema, em que qualquer uma das partes serve. (Nem
cheguei até a porta, quando isto surgiu.)
Eu pensava, antes, que devia dar explicações, para que as
pessoas não dissessem: “Então é isso que está se passando no
Instituto Gestalt do Canadá. Então isso é Gestalt -terapia”.
Desta vez, a coisa aconteceu deste jeito, com estas três
pessoas, mais o Fritz.
Don e David conversavam entre si a meu respeito. Fritz
jogava algumas palavras aqui e ali — ou talvez apenas ali. A
Gestalt enfatiza o falar com as pessoas, em vez de falar sobre
elas. Censurei Don e David por fofocarem. Eu estava
gostando. Então percebi que estava tremendo mais do que o
normal. Eu tremo (tenho tremores, em linguagem médica),
mas estava tremendo mais do que o normal. E então eu disse:
“Não estou com medo”. Eu não estava sentindo medo.
Comecei a perceber como as ordens e contraordens (dentro de
mim) pareciam se encontrar, colidir e produzir os tremores.
Olhei para dentro de mim, e notei que o meu corpo queria se
levantar da cadeira, e eu o estava mantendo sentado. Levantei -
me, dei alguns passos, e me virei. David disse: “Estou
experienciando você se afastar de mim”, como se esta fosse a
razão do meu movimento. Notei o meu corpo, e percebi a
hesitação de me mover na direção de David, embora não fosse
nada que não pudesse ser facilmente superado. Eu superei,
com facilidade. Então tomei consciência da hesitação — me
tornei apenas hesitação. Não “eu estou hesitando”, e sim “Eu
sou hesitação”. Mesmo o “eu sou” não estava ali. Então notei
Don, pernas dobradas à sua frente, sentado contra a parede,
como se estivesse com medo de mim. Eu disse a Don algo
semelhante a isso. Fritz disse: “É. Como um macaco na
abertura da sua caverna".
Don disse: “Alguns momentos atrás eu tive um relance (uma
expressão comum dele) de que queria dar um passeio com
você”.
Eu: “Você daria um passeio comigo agora?”.
Don disse que sim, e levantou-se do sofá. Lado a lado
caminhamos pelo quarto, um com o braço sobre o outro.
Não sei em que altura o ego me abandonou. Havia apenas um
estar presente.
Depois de darmos a volta pela sala, Don disse que se sentira
puxado por mim. Eu disse: “Depois dos três primeiros
passos”. Don concordou. “Nós começamos a andar juntos”.
Ele disse alguma outra coisa que eu não lembro.
Eu disse: “Explicação.” Ele disse: “Você quer uma explicação
de mim?”. Eu: “Não. Você me deu uma explicação. Você
disse a mesma coisa ali” (apontando para o outro canto da
sala).
Estávamos um de frente para o outro. A mão direita dele e a
minha mão esquerda estavam unidas. Estendi a minha mão
direita e disse: “Você se importa de segurar esta mão
também?”. Ele colocou a mão esquerda na minha direita.
Durante todo esse tempo, na minha cabeça não houve pensar
— nada de fantasias, instruções, nada. Eu estava pura e
simplesmente ali. O que quer que eu notasse, simplesmente
notava, sem nenhum tipo de objetivo ou ordem, e sem opinião.
A esta altura, notei o meu corpo e o expressei. “Eu cheguei
até aqui. Não vou adiante”. Nenhum pensamento, apenas a
expressão daquilo que tinha se tornado presente no meu
corpo. Percebi a mim mesma ali parada, como se tivesse
raízes, do jeito que eu estava.
Don disse: “E assim que eu quero que seja.”
Como a Gestalt, não há meio de dizer. Há somente muitos
meios. O que me veio à cabeça quando me sentei foi a série
de figuras do boi e do homem num dos livros Zen de Suzuki.
A última delas é um círculo sem nada dentro, e a legenda: “O
boi e o homem se foram."
Paciente e terapeuta se foram. Nenhum dos dois estava lá.
Homem e mulher se foram. Eu sentia a presença de Don e a
minha própria — de maneira muito mais aguda — e ao mesmo
tempo, Don e eu também nos tínhamos ido”. Eu e mim (Z and
me) também nos fomos. Havia apenas fatos, eventos, cada
fato como cada momento simplesmente estava lá — e já não
estava mais.
Não estava em nenhum lugar. Só o momento agora. E ainda
assim, tudo foi registrado e é acessível a mim.
Total naturalidade, e sem erros. Isto é perfeição. “Buscar a
perfeição”
não faz sentido para mim, a menos que signifique buscar tanto
e dar tantos nós que acaba havendo uma explosão. Eu (eu -
ego) tinha explodido em pedaços, e o organismo, que é mim,
assumiu o controle. Este é um caminho bastante árduo para se
chegar a isso.
Eu estive cozinhando uma sopa enquanto escrevia. Batata -
doce no forno, e vagem numa panela. Dentro em pouco, um
bife na frigideira, e então vou ficar com tudo isso, deixando
tudo isso acontecer. Oscilar facilmente para a frente e para
trás, sem esquecer do que estou “fazendo” — e também sem
me lembrar.
Quando Kay partiu, e ninguém se ofereceu para preparar
desjejum para o Fritz, ele disse: “Vou aprender a preparar o
meu próprio desjejum”. Certo dia ele me contou feliz — com
humildade e um toque de espanto — que naquela manhã tinha
cozinhado seus ovos perfeitamente, e sem relógio.
Eu me recordo de quando era jovem e sempre cozinhava sem
relógio.
Mesmo que estivesse absorvida num livro, eu notava cheiros
e quando era “hora” de fazer alguma coisa... De repente a
minha cabeça ficou cheia de relógios e marcadores de tempo
e outros artifícios de que não necessitamos.
Que loucura! Todo o trabalho das pessoas que os fazem, t odo
o trabalho das pessoas que ganham dinheiro para comprá -los.
Todo o desperdício de recursos naturais. Toda a dependência.
Manter a economia em andamento, as pessoas em andamento,
manter a economia em andamento, manter as pessoas em
andamento...
Quando Alan Watts falou em renda garantida para todo
mundo (e nada dessa baboseira de imposto de renda negativo,
quando se precisa declarar + ou -) ele disse que as pessoas
querem saber de onde virá o dinheiro. “Não vem de nenhum
lugar. Nunca veio”. Ele explicou que o dinheiro não passa de
uma medida, como os centímetros. Na Depressão de 1929, de
repente uma porção de gente ficou sem trabalho. Todos os
cérebros, aptidões, materiais estavam presentes, mas não
havia dinheiro. Ele disse que isto é o mesmo que um homem
ir como sempre ao trabalho, e o patrão virar -se para ele
dizendo:
“Sinto muito. Não há trabalho. Esgotaram-se os nossos
centímetros”. Todos os cérebros, aptidões, materiais ainda
presentes, mas não há centímetros.
É isso que eu sinto em relação à nossa “economia”. Para não
mencionar que é uma “economia” baseada em excessos.
Eu gosto de escassez — não privação, mas escassez é bom.
A iluminação que eu tive algumas páginas atrás foi a seguinte:
Durante toda a minha vida as pessoas me disseram que eu
podia (eu portanto devia) pegar empregos melhores do que os
que peguei. Eu não queria. Eu gostava de pegar um trabalho
de segundo plano, onde não precisasse ser tão falsa. Certa vez
peguei um trabalho desses que em três anos se transformou
num trabalho importante, com cortinas na janela e um
jardinzinho rebaixado do lado de fora. Eu estava atolada ali e
poderia muito bem seguir adiante; então trouxe uma bela e
apropriada lâmpada de mineração e uma prensa de madeira.
Mas havia aquelas vezes em que o presidente da firma entrava
e ficava olhando os sapatos, porque eu estava vestindo um
avental empoeirado e o cabelo todo despenteado, escavando
alguma coisa.
Mas havia algo que eu não entendia no fato de não qu erer
aceitar trabalhos maiores. Eu só sabia que não quer ia. Eu não
queria ser uma chefe. Agora isto está claro para mim. Wilfred
Pelletier chama isso de “organização vertical” — o sistema do
homem branco, e eu também não gosto disso. Ele escreve
sobre isso num artigo “Algumas Reflexões sobre Organização
e Liderança” (“Some Thoughts about Organization and
Leadership”), uma palestra dada à Irmandade de índios
Manitoba, em 1969.
Cerca de um mês atrás, passei uma semana participando de
uma conferência intercultural realizada em Saskatchewan,
“dirigida” por Wilfred, que deixou a coisa dirigir-se sozinha,
tomando parte nela. Não havia programas, horários e só um
homem deu uma palestra. Não estou certa de que devia fazê -
lo, mas ele falava e falava e falava. Eu saí, comprei algumas
frutas, voltei e passei os saquinhos. Como sempre, eu não
entendia como os índios podem ficar sentados aparentemente
tão amigáveis quando amolados por um homem branco.
Depois vim a descobrir: eles vão pescar e caçar em suas
cabeças.
Wilfred me contou como “o urso SPLASH! caiu na água, e
espirrou água por todos os lados”. Ele estendia os braços para
cima e para o alto. Puxa, como ele gostou.
Fritz diz que “Quando você se chateia, retire-se para algum
lugar onde se sinta mais confortável.”
Eu fiz isso num workshop de fim de semana com Jim Simkin.
Não sei se estava chateada, mas fiquei com dor de cabeça
(coisa rara), e uma dor tão forte na nuca que não conseguia
me interessar por nada a não ser isso. Eu disse a mim mesma
(Barry mentindo para Barry, como frequentemente ela faz)
que era porque eu não tinha dormido o suficiente na noite
anterior. Eu podia ter me estendido no chão e dormido. Em
vez disso, saí. Primeiro fui a Salmon Creek e senti o vento e
a areia sob os meus pés, e ouvi o barulho das ondas e senti o
cheiro do ar salgado, e vi as cores do céu, do mar, da areia, e
das dunas cobertas de grama, e senti a elasticidade dos meus
passos enquanto caminhava. Então voltei para a sala cheia de
gente — então voltei a Salmon Creek. Depois disso, fui até
uma ponta longínqua do Lago Mead, na hora do pôr-do-sol,
onde os rochedos dourados na outra margem estavam
refletidos na água, e peixes pulavam fora da água e
mergulhavam outra vez. Os arbustos ao longo da margem
farfalhavam, os pássaros assobiavam, e as minhas mãos
sentiam as pedras lisas da praia. (Quando contei isso a uma
amiga, ela disse que provavelmente se alguém que me
conhecesse estivesse na praia, diria: "Eu podia jurar que vi a
Barry, e de repente ela não estava aí”.) Duvido que a coisa
toda tenha levado mais do que cinco minutos. Esse tipo d e
viagem é maravilhosamente rápido. E lá se foi a dor de cabeça
— naquele momento, ou mais tarde.
A conferência intercultural foi dirigida (sem ser dirigida), de
uma maneira que Wilfred chama de “horizontal”. “Me parece,
ao observá-la. que a organização vertical provém de um
esgotamento ou ausência de comunicação. Se não se
consegue, de uma maneira ou de outra, ter um movimento
comunitário que seja uma necessidade espontânea que resulte
em algo, então a única alternativa é construir um tipo de
pirâmide e colocar o sujeito mais forte no topo; ou talvez ele
não seja colocado, simplesmente chega até lá. E uma
organização na qual não há comunicação, há simplesmente
ordens dadas pelo topo e passadas abaixo para os diferentes
níveis; isto não é mais uma sociedade — é uma máquina.”
Organização horizontal, conforme eu a experimentei com os
havaianos (faz tempo — agora já não sei como é), é como
Wilfred descreve a maneira indígena. Uma pessoa surge como
líder para uma coisa particular numa época particular — e
volta quando a época termina. A comunicação se faz presente.
Também experimentei isso entre os brancos, em lugares
ocasionais. Também a confiança se faz presente. Aqui em
Lake Cowichan nós estávamos trabalhando no sentido de uma
organização horizontal. Assim que alguma coisa saía um
pouco dos eixos, as pessoas forçavam uma forma vertical.
Mas nós a fazíamos voltar à horizontal. Agora, na ausência do
Fritz, ela se tornou vertical. Organização. Organização
intelectual em vez de organização organísmica.
O homem branco não percebe que é ele mesmo quem coloca
o seu fardo sobre as próprias costas. Então ele educa a todos,
e o coloca também sobre as costas dos outros.
“Isto é uma máquina.” Eu vejo a grande máquina triturando
todas as pessoas que a erigiram, e colocando-as sobre as
costas delas mesmas.
Na conferência intercultural, o homem que falava parou (por
alguns minutos) quando uma menina índia que estava sentada
no chão de repente se deitou, contorcendo-se com murmúrios
e grunhidos. O homem perguntou a um índio: “O que é que
ela tem?”. O índio disse simplesmente, casualmente: “O avô
dela morreu na noite passada”.
“Ah é?”, disse o conferencista. “E ela também tem alguma
doença?”
“Não creio”, respondeu o índio.
Nem todos os homens brancos passaram pela Gestalt (ou al go
parecido) e não sabem o valor de se liberar a tensão
organismicamente — pelo corpo inteiro. Mas este homem, o
conferencista. era chefe de um centro indígena nos Estados
Unidos, e não sabia nada sobre índios! Mão única. Nós
induzimos vocês à nossa sociedade. Nós não nos damos ao
trabalho de aprender sobre a sociedade de vocês.
Uma mulher que trabalhou em Bem-Estar Social, na Agência
de Assuntos Indígenas, trabalhara com toda a fé, sub indo
montanhas, entrando em canions, encontrando gente para
ajudar. Quando estava prestes a se aposentar, sentou-se numa
mesa de cozinha, pôs a cabeça entre as mãos e disse, com
tristeza, desânimo e dúvida: “E depois de tudo, eu ainda não
os entendo”.
Na minha linguagem, pela minha observação, suas palavras
significavam: “Não importa quanto eu me esforce, eles não
vão fazer o que eu lhes digo. Não descobri jeito de torná-los
iguais a mim.”
Alguns meses antes, eu a ouvi manifestar indignação a
respeito da moça navajo que trabalhava em seu escritório. Ela
disse que não gostava de como nós estávamos fazendo as
coisas. Eu disse a ela: “Isso NÃO é da sua conta”.
Ela respondeu: “Mas esta é a minha gente.” Eu disse: “Isso
não tem NADA a ver com o assunto”.
A organização vertical é uma máquina, e as pessoas que ficam
nela tornam-se pequenas máquinas dentro de uma máquina
grande, e não entendem as pessoas que se recusam a tornar-se
máquinas.
Eu sei. A mulher do bem-estar social também não me
entendia.
E tampouco o professor dos hopis, que passava bons
momentos — ambos passavam bons momentos queixando-se
um ao outro, o professor e a assistente social. Eu lavava
pratos, procurando manter a conversa mais longe possível dos
meus ouvidos. “Os índios são tão estúpidos.” (Com o se pode
ajudar gente que nós achamos estúpida?) “Os índios são tão
ingratos.” Mais e mais. Quando chegou a: “Eles são tão
grosseiros!” “Eu sei. Eles não dizem obrigado!”, eu não
aguentei mais. Então perguntei (sabendo perfeitamente bem a
resposta, e que as pessoas da Agência acham que só as pessoas
da Agência podem saber algo sobre os índios, e portanto me
coloquei de forma inquiridora): “Não é verdade que eles não
dizem ‘obrigado’ uns aos outros?” (eu adoro esse não dizer
“obrigado”, e gostaria que nós não disséssemos).
O professor dos hopis virou-se para mim e disse:
“Não, não dizem! Eles são muito grosseiros.”
(“E depois de tudo, eu ainda não os entendo.”)
Depois disso, sequei. Sinto agora que não há mais água no
poço — não há mais nada a ser escrito. Eu poderia voltar e
reler o que foi escrito e retomar alguns fios. Não tenho
vontade de fazer isso, e também não me preocupo.
Estou curiosa para ver com que vou despertar amanhã de
manhã. Neste instante sinto que amanhã não vai produzir nada
porque não há nada a ser produzido. Eu posso sempre entrar
num vaivém para ver o que acontece. Sempre acontece algo.
Os prismas na minha janela ainda estão vivos e cheios de
cores que se refletem na cortina. De onde foi que eles vieram?
Uma pequena cidade de luzes, reflexos, cores. Que mundo
para viver! Eu acho que me cansaria dele muito d epressa.

Manhã seguinte: Na noite passada sonhei que recebi uma carta


de Bertrand Russell. Ele dizia que tinha lido as seis primeiras
páginas de Person to Person 2 (De pessoa para pessoa) e
queria muito me conhecer. Eu me senti magoada por ele não
se lembrar que durante três anos estivemos muito próximos.
Ele dizia que viria aos Estados Unidos pela primeira vez.
Então, não me senti tão magoada, porque ele também não se
lembrava de já ter estado nos Estados Unidos.
Mas ainda me sentia um pouco magoada, porque as nossas
vidas em conjunto, na época, pareciam mais memoráveis do
que os Estados Unidos. Ele dizia que tinha um pouco de medo
de vir. que era um tanto assustador. Ele sempre tinha um
pouco de medo dos Estados Unidos. Naquela época, eu não
tinha.
Estou adorando a chuva. Tenho estado aqui sentada adorando-
a, sem notar que era isso que estava acontecendo. Hoje a
primeira fila de morros do outro lado do lago está visível, com
seus tordos e pinheiros. As montanhas de trás não estão.
É claro que eu sei que elas estão ali, mas agora para mim não
estão. O cenário mudou. Estou vivendo num mundo menor.
Me sinto aconchegada dentro dele.
Penso que não posso trabalhar com esse fragmento de sonho
à maneira da Gestalt. O que eu “penso” geralmente é mentira.
Então digo a mim mesma (outra mentira) que não vejo como
eu possa fazê-lo, e então terei de esperar até o Fritz voltar e
verei o que ele pode fazer comigo e com o fragmento. E,
talvez, provar que ele está errado (um pouco) a respeito da

2
Livro de Barry Stevens em conjunto com Carl Rogers. Publicado no
Brasil com o título De pessoa para pessoa, pela Editora Pioneira. (N.do
T.)
Gestalt? Esse despeito em mim, querendo provar que o Fritz
está errado, é pequeno, ocasional, e não muito forte, porque
sei que o Fritz também não gosta .de arrogância, e junto com
isso, ele tem uma humildade tão maravilhosa. E essa
“humildade” da qual Jesus falou, da qual tantos de nó s se
ressentem, porque até mesmo no dicionário ela significa ser
piamente dócil e submisso, submeter-se a injúrias, e assim por
diante. Nós nos ressentimos do nosso significado da palavra,
e com razão. Mas volte e aproxime-se de Jesus, e da tradução
da Bíblia para o inglês, e a palavra significa simplesmente
“gentil e suave”.
Aqui cada um cuida do seu próprio desjejum, cada um por si.
A exceção, no início, era o Fritz. Kay, que era paga para isso
e outras coisas — embora Fritz quisesse que isto fosse uma
comunidade na qual ninguém fosse contratado para fazer nada
— preparava o desjejum para ele. Quando ela foi embora, eu
o fiz, por duas manhãs, quando tive vontade. Na manhã
seguinte, não fiz mais. Eu lhe disse que nas manhãs anteriores
tinha sido para nós dois. Se eu tivesse feito na terceira manhã,
teria sido para ele. Ele expressou sua compreensão e
aceitação, sem usar uma única palavra. (Se eu não estivesse
cinco horas por dia participando de grupos, mais outras
coisas, gostaria muito de preparar o desjejum para nós dois —
com muito prazer.) Fritz dizia ocasionalmente que não
entendia nada de cozinha, que nunca tinha aprendido a
cozinhar. Mais tarde, naquele dia em que não preparei o seu
desjejum, ele disse com suavidade e gentileza: “Vou aprender
a preparar o meu próprio desjejum”. Suave, gentil e neutro.
Sem bancar o mártir, sem apelo, sem orgulho. Eu lhe arranjei
uma máquina de fazer café elétrica, que se desligava sozinha,
e enchi a geladeira dele com comida que ele gosta pela manhã,
mais algumas outras coisas. Daí em diante ele sempre cuidou
do seu próprio desjejum. Este lugar é dele. Ele o comprou. Ele
assumiu o risco. O que todos nós recebemos pelo fato de estar
aqui — cerca de noventa pessoas, até agora tornou-se possível
graças a ele. Ele é o descobridor da Gestalt-terapia. Sem a
propaganda habitual — apenas uma pequena brochura, e
informação oral — o seu novo livro Gestalt Therapy
Verbatim 3 vendeu 20 mil cópias em seis meses. Ele foi
homenageado pela Associação Psicológica Americana (da
qual não é membro) na convenção deste ano. Ele tem 76 anos.
É conhecido por sua arrogância. Ele prepara o seu próprio
desjejum e fica feliz por conseguir cozinhar direito os seus
ovos, sem relógio.

Como posso “gestaltizar” um fragmento de sonho no qual uma


carta de Bertrand Russell aparece nebulosa — como num
nevoeiro (eu não a vejo realmente) — e a caligrafia dele, que
eu conheço tão bem, não está ali embora parte da mensagem
apareça claramente? Isso me parece impossível. É mentira. Eu
penso (mentirosa) que é impossível. Eu sei que é possível. Se
não houvesse nada ali. Fritz diria: “Seja esse nada.”
Eu já trabalhei com este sonho à minha própria maneira, um
pouquinho.
Olhei para as seis primeiras páginas de Person to Person que
Bertie disse que leu, e que o levaram a querer me conhecer.
Essas páginas continham o Prefácio de Carl Rogers e a minha
Introdução. Pfuuu! O que é que se podia tirar disso? Não era
a essência do livro — nem de mim. Se ele tivesse lido Curtain
Raiser (Erguedor de cortinas), teria sido diferente.
Eu estava prestes a deixar o livro de lado — deixar o meu
pensamento de lado — mas confio nos meus sonhos. Li
aquelas seis páginas e descobri algumas coisas que tinha
esquecido, com as quais preciso estar em contato agora.
Leio rapidamente, mas voltarei a ler essas passagens. Elas são
profundamente relevantes para a minha vida, aqui, neste
momento.
Quero prosseguir com isto... Tenho medo de que o meu ego
julgue isto fascinante, pois o meu sentimento organísmico diz
que estou com fome, e “prosseguir agora” vai contra ele.
Intelecto/ego/eu não é suficientemente forte para resistir a

3Editado no Brasil por esta mesma editora, com o título Gestalt-terapia


explicada. (N. doT.)
mim. Deixo a máquina de escrever e vou até a geladeira e o
fogão.
A minha fome deve ter sido ignorada por algum tempo. Estive
ocupada preparando coisas simples, torradas com ov os. Uma
sensação de pressa quando não havia pressa alguma. Eu me
sentia fraca. Não tinha parado a tempo. Se tivesse surgido
uma emergência, eu me teria enganado. Felizmente, ela não
surgiu — e é claro que geralmente não surge —, mas viver
pronto para uma emergência (sem antecipação) é viver.
Ontem à noite foi muito bom o jantar.
Hoje de manhã os ovos fritaram um pouco demais.
Como eu gosto de suco de laranja! Saboreá-lo nos meus lábios
e na boca, senti-lo descer pelo tubo que conduz a comida, até
o meu estômago. Ali perco contato com ele. Eu prefiro ter
suco de laranja fresca uma vez por mês, do que essa coisa
reconstituída e congelada todos os dias. A única coisa a ser
feita com a maior parte da nossa comida de hoje é engoli -la e
esquecê-la, que é o que a maioria de nós faz. O Canadá não é
tão ruim como os Estados Unidos, mas está indo pelo mesmo
caminho. Não sei o que apareceu primeiro, o engolir e
esquecer, ou a comida ruim, mas precisamos interromper a
espiral e tomar outro rumo. Não creio que leis e pr ogramas e
planejamentos possam conseguir isto. Cada homem precisa
fazê-lo por si só. Então, a coisa acontece.
Eu não preciso obrigar ninguém a fazê-lo — só a mim mesma.
Então terei feito a minha parte, e a minha parte é tudo que eu
tenho de fazer. Fazer mais do que isso é fantasia, e conduz à
exaustão.

Bertie não gostava muito da “América”. Certa vez ele disse


que gostava mais agora do que no passado. Toda vez que ele
chegava, entrava numa espécie de turbilhão durante alguns
dias, uma espécie de confusão geral.
“Na América eu sou uma personalidade, e isto eu detesto.
Mas, mesmo assim, gostei mais da América desta vez do que
em ocasiões anteriores. E um país singular.”
Ele amava acima de tudo a costa irlandesa em Connemara,
onde experienciou aquela coisa para a qual temos tantos
nomes e todos eles soam tolos, de modo que não irei r otulá-
la. Na verdade, essa coisa está além dos rótulos. Em todo caso,
nessa costa áspera e tempestuosa (conforme ele a descreveu
— eu nunca estive lá) ele entrava de tal maneira em contato
com o universo, que todas as outras coisas que fazia na vida
pareciam bobas — que não valia a pena fazê-las. Como
arrancar uma formiga de um planeta.
Ou como eu, na época em que era editora na Gráfica da
Universidade do Novo México. Os professores-escritores
(que levavam anos para escrever um manuscrito de cem
páginas) começavam a me cutucar logo que o manuscrito era
aceito. Se eu já tinha trabalhado com ele. Se eu já o tinha
mandado para o prelo. Quando ia sair. Cutucões, cutucões,
cutucões. Durante um bom tempo eu resistia — embora
geralmente não o suficiente. Mas às vezes perdia terreno, e
passava a me cutucar ainda mais do que eles me cutucavam.
E de repente, explosão. Eu estava ao mesmo tempo dentro de
mim e fora de mim. Ali, sentada na escrivaninha, estava a eu-
formiguinha, sem ligar para nada a não ser o manuscrito que
estava editando, e levando totalmente a sério. E aqui estava a
eu grande, apreciando o maldito glorioso planeta no qual
nasci. O absurdo da eu-formiguinha! Eu ria. Eu continuava
rindo. Eu não era tão ridícula, ali sentada levando a sério a
vaidade (ou ego) de homens para os quais havia se tornado
tão importante a publicação. Eu queria sacudir todo mundo e
gritar: “ACORDE!”. Se eu pudesse BERRAR isso de cima de
uma montanha, seria melhor ainda. Em que fantasias
escabrosas eu tinha investido a minha vida, julgando-as reais.
O universo era eu — e eu, o universo. (Por que em inglês
escrevemos eu (Z) com maiúscula, e mim (me) com
minúscula? Esta não é uma pergunta para ser respondi da, mas
é gostoso perguntar, como abrir alguma coisa que foi fechada
antes — sem professor para me dizer: “E assim e pronto,
aprenda, e pare de perturbar a aula”.)

A luz da minha lâmpada de mesa brilha sobre a máquina de


escrever, um brilho azulado, sumindo no escuro quando se
afasta da lâmpada. A sombra do carro da máquina move-se
para esse escuro, e depois foge. A luzinha quadrada que
mostra que o motor está funcionando (como se eu não pudesse
ouvi-lo — e mesmo que não tivesse ouvidos, posso sentir as
vibrações) é cor de laranja forte, mais berrante do que a
própria máquina. Mãos tocando teclas. Quando noto esse
tocar, as minhas mãos ficam mais suaves do que estavam,
mais gentis, usando apenas a pressão necessária para acionar
as teclas, e não mais, e assim não há reação contra mim
mesma. Parece mais uma música. Eu me sinto em harmonia.
Até mesmo as batidas das teclas contra o rolo parecem mais
macias quando eu amoleço, menos resistentes. A ondulação
que passa pelo meu corpo e pelo meu rosto é algo que se faz
sentir como riso — não riso forte — um riso suave, como uma
pluma. Eu sou o meu próprio fazer.

Quando caminhávamos pelas charnecas de Cornwall, toda vez


que chegávamos a um portão, Bertie o abria e enquanto isso
eu pulava a cerca. Na quarta vez, ele falou: “Você não acha
que estou abrindo os portões para mim mesmo, acha?”.
Eu me senti vexada.
Mas se ele não estava abrindo os portões para si mesmo, por
que não me acompanhava e pulava a cerca?
Na época ele já era velho. Cinquenta e cinco anos. Agora ele
é um velho de noventa e eu já não sei nada do que ele sente.
Na época me parecia tão importante saber com qual dos dois
homens que eu amava eu deveria me casar. Trinta anos depois
parecia que não faria diferença alguma. Não posso explicar
isso. Ainda parece... Tendo escrito que não podia explicar,
comecei a pensar numa explicação, tentando chegar a uma
explicação: Que diferença faria se eu conseguisse uma
resposta? Mesmo que fosse uma resposta verdadeira. O que
eu poderia fazer com ela? O ego ficaria um pouco inchado
pela sua esperteza, isso é tudo... Gozado. Na época me parecia
assim. Levei tanto tempo decidindo, e pensava que devia ser
capaz de escolher. Então escolhi, e elaborei razões para minha
escolha.
Meu primeiro marido foi diferente. Ele foi um erro do qual
caí fora. A melhor decisão que já tomei. Não quero dizer que
ele era “ruim”. Simplesmente não era para mim.

Meu sonho. Humm. Ainda estou resistindo a trabalhar com


ele à maneira Gestalt. Não sei o que é essa resistência. Não
me sinto ameaçada. Sinto sim: “Ah, complicações demais”.
“Para quê?” Noto que agora está chovendo mais forte. Meus
olhos estão se fechando, como se eu estivesse com sono.
Bocejo — um belo e grande bocejo, agora que eu sei que é
gostoso e não o reprimo mais por ser “feio”.
Não é mais fácil datilografar do que trabalhar com o sonho. O
que é mais fácil, quando estou com sono ou cansada, é
continuar o que estou fazendo em vez de interromper e passar
para outra coisa. Estas palavras saíram de um semi-sono, mais
sono, mais sono. Estou me hipnotizando? Ou estou
simplesmente com sono, e o som da chuva contribui? Quando
me entrego a ele, é gostoso e eu não me incomodo. As
perguntas estão desaparecendo. Eu bocejo, e um som vem
junto: “Ahhhhhhhhh”, e isso também é gostoso. Às vezes me
parece que sentimentos sempre são bons, e que são apenas os
pensamentos a respeito dos sentimentos que me dão
problemas. Quando os pensamentos param, os sentimentos
ficam bem — mesmo os sentimentos dolorosos.
Quando eu entro neles, em vez de afastá-los. Agora os meus
olhos estão lacrimejando junto com o meu bocejar — os meus
bocejos estão cada vez maiores e mais fortes, e as minhas
pálpebras caem. Meu corpo se debruça sobre a máquina e
volta. É gostoso deixar as coisas acontecerem. O meu último
bocejo parecia um som de jardim zoológico. Meus pés
estavam debaixo da cadeira. Agora estão debaixo da mesa,
pernas esticadas, a planta dos pés no chão, em vez de só os
artelhos. Agora estão indo para a frente e para trás. Eu estou
me movendo toda para a frente/para trás, para a frente/para
trás, mesmo enquanto escrevo. Sinto-me como num velho
jogo: “A minha avó foi para Londres...”. Que jogo diverti do.
Estou com vontade de brincar aqui. Parece um bom jogo
Gestalt. Receio que não iria me entusiasmar com ele — ou
mesmo aceitá-lo — a menos que fosse feito em grupo e
chamado Gestalt-terapia.

Ainda estou balançando.

Agora já não consigo balançar e escrever ao mesmo tempo,


porque os meus braços estão se esticando e se encolhendo. O
ritmo é como um autômato. A cadeira estala. Meus pés batem
no chão. Agora o meu pescoço se joga para trás. Agora toda
eu estou envolvida.
Abruptamente o autômato para. Eu afundo na cadeira, braços
pendentes para os lados, sentindo o descanso após um bom
exercício. Expiro profundamente. Fora/dentro-fora/dentro.
Acontecendo sozinho.
Eu me sinto toda exercitada, e não estou mais com sono.
Muito bem. O sonho.
Eu sou o nevoeiro. Eu me coloco entre mim e tudo mais. Ao
mesmo tempo, eu deixo tudo mais macio, e isso é bom. (Volto
a ser o nevoeiro. Solta e descansada como estou, é muito mais
fácil.) Sou um nevoeiro engraçado — quente. Flutuante.
Vagueando. Aquelas palavras da carta teriam aparecido de
forma muito mais definida se não tivessem vindo através de
mim. Eu as diluí.
Eu não as apaguei. Você as leu direito através de mim — bem,
você não pode ver as palavras, mas você as ouviu através de
mim. Sendo nevoeiro, eu turvo seus olhos, mas não os seus
ouvidos.
“O quê? Que sentido isso faz?”
Não importa o sentido, continue sentindo.
Eu sou o nevoeiro entre a carta e a Barry. Entre a mensagem
e a Barry. Eu sou macio. Gosto da minha maciez. Gosto de
mim. A carta é definida de um lado de mim. Barry é macia do
outro lado de mim. A dor da carta não dói tanto quando passa
por mim.
Barry: Dor? Que dor? É claro, alguma dor. mas tanta que você
precise amaciar? Não torne as coisas fáceis para mim! Vá
embora!... Assim é melhor.
Agora a carta está mais perto de mim, e estamos juntas.
Como Carta, não consegui mais escrever. Para ser/sentir -me
Carta tive de passar para outra cadeira. Eu não soube por quê.
Agora me parece que a Maciez estava sentada aqui. Quando
mudei de cadeira e me tornei Carta, fiquei muito mais forte e
firme. As minhas mãos desceram até as minhas coxas e os
meus joelhos, subiram outra vez, desceram de novo, e ficaram
repetindo o movimento. Minha expiração/inspiração ficou
muito mais pronunciada — como se passasse por um tubo em
vez de passar por todo o espaço aberto da minha boca. Oito
vezes, dez vezes? Mais ou menos isso. Então tudo parou.
Como estou agora?
Estou certa de que não me sinto mais com 77 anos. Eu me
sinto gorda, mas não me sinto uma velha.
Como Carta outra vez (um pouco áspera) eu lhe disse: Eu li
aquelas seis páginas e quero conhecer você.
Barry (também áspera): Você me conheceu'. Você me
conhece! Você esqueceu aqueles anos.
Carta: Você esqueceu.
Barry: Não esqueci! Eu me lembro — você não. Você fala em
querer me conhecer, como se não me conhecesse.
Carta (em voz baixa): Toda vez é a primeira vez. (Mais alto)
Eu disse conhecer. Nós na verdade não nos conhecemos antes.
(A minha coluna está voltando a ganhar vida.) (Meus olhos
ficaram um pouco turvos. Comecei a negar o “Nós não nos
conhecemos antes” e meus olhos molhados são a negação da
minha negação.) Barry (com humildade): Você está certa. Nós
realmente não nos conhecemos antes. Nós pensamos que sim
(Um pouco zangada). Será que já conheci alguém?
Carta: Passado. Olhar para o passado é como olhar para o
futuro.
Barry: Você quer dizer que o passado é como uma bola de
cristal? Pode-se ver tudo nela. Todas as ilusões.
A Carta fica calada, e o silêncio é assentimento.
Barry: Mas aquilo das cercas aconteceu com o Bertie. E
também aconteceu aquela vez que ele veio almoçar no meu
apartamento em Nova York, e pediu clipes par a papel, e eu
levantei o colchão e tirei alguns do estrado, e ele perguntou:
“Você sempre guarda clipes para papel aí?”, Carta: E daí, para
que serve isso?
Barry (após uma pausa): Serve para eu saber que uma vez já
fui viva.
A Carta fica calada.
Barry: Fui! Fuil FUI!
A Carta fica calada.
O “fui” fica ressoando nos meus ouvidos. Fui.
Três letrinhas — fui — englobando todo o meu passado.
Puxa!
Todas as outras coisas que fui também estão dentro: Eu me
sinto bem com isso! Todas aquelas coisas horríveis também
são coisas insignificantes.
Tudo amontoado num pequenino fui. Eu as seguro na minha
mão fechada, sacudo e as JOGO fora.
A coisa toda é que isto funciona. E tudo saiu de mim.
A mensagem existencial que eu tiro desse sonho não é nova,
e nem mesmo é nova para mim. Mas a minha forma de sabê-
la mudou. Neste instante, eu sinto que cada célula de mim tem
consciência disso e que a minha presença estará um pouco
mais presente de agora em diante.
Agora estou pronta para o próximo passo — o medo “de
Bertie” de vir para os Estados Unidos. Toda coisa e toda não-
coisa no meu sonho sou eu. O sonho é meu, de mais ninguém.
A minha experiência e o meu experienciar são partes de
mim... Agora há luz em algumas das nuvens. As montanhas
atrás dos morros estão visíveis, e as nuvens são como
montanhas atrás das montanhas, formidáveis e gloriosas.
Poderosas. Quanto poder em tudo aquilo eu poderia pôr na
minha mão, se estivesse lá!
Eu sinto esse poder em mim e ele está em mim. Agora não
tenho medo dele.
Se você tentar copiar a minha viagem, você não a estará
acompanhando, porque não foi aí que a minha viagem
começou. Prossiga na sua viagem, aonde quer que ela o
conduza.
Agora vou comer. O meu comer não irá encher a sua barriga.
O lago brilha levemente.
Ainda me sinto bem por ter jogado fora aquele saquinho de
passado.
Espero que fique onde caiu.

Estou vazia outra vez. O que haverá amanhã para escrever?


Nenhuma resposta.
Saberei quando amanhã chegar.

Detesto exercícios.
Experimentar, explorar, experienciar — alegria. Eu nunca sei
o que está por vir.
Às vezes no passado, experimentar a mim mesma me causou
complicações. Eu sabia o que acontecia. Eu tinha uma meta.
Eu forçava. Experimentar sem meta, e sem tentar me prender
a algo a que chegar, isso nunca me causou complicações. E
mesmo que no futuro isso venha a acontecer, os votos a favor
ainda ganham.
Quando um terapeuta tem uma meta para o seu paciente, acho
que o paciente está em apuros. É claro que o terapeuta também
está em apuros, mas este é um desses apuros “normais” que
temos como “certos”. O tipo de problema que um paciente
tem quando um terapeuta tem uma meta para ele é um
agravante do problema inicial, que o levou a procurar o
terapeuta.
“Eu tento ao máximo não pensar.” — Fritz, referindo-se a si
mesmo como terapeuta. Quando estou na minha melhor
forma, não há terapeuta. Não sei nada e não sei o que estou
fazendo. Nessas horas, estou surpreendendo os outros, “tenho
meu próprio estilo” e fico deliciado com aquilo que acontece.
“Atribuir uma norma fixa a uma espécie em mutação é como
atirar às cegas num pássaro voando.”
Esta manhã cometi uma porção de erros datilográficos, fiquei
atolada, não gostei do que estou fazendo. Qual é a minha
meta?
Eu quero este livro pronto. O que veio antes, não sei. Quanto
menos gosto de fazê-lo, mais quero tê-lo pronto. Quanto mais
quero tê-lo pronto, menos gosto de fazê-lo.
O que se passa no meu corpo? Agora fiz essa separação
deliberadamente.
Ou simplesmente noto o que é? Em todo caso, quando eu noto
o meu corpo, é claro que não estou inteira. Mas já dei um
passo no caminho de sair da divisão na qual considero meu
corpo como uma coisa que me pertence. Eu faço com que ele
faça coisa, exatamente como tantas pessoas montam a cavalo
ou guiam um carro, ou varrem com uma vassoura.
Quando ontem notei o meu corpo e deixei que “ele” fizesse o
que quisesse, deixei que “ele” assumisse o comando (contra
todas as proibições da minha sociedade), e deixei que “eu
mesma” (eu falso) me submetesse a “ele”, tornei-me eu. Esta
manhã, estou novamente dividida. Eu sei que há dores nos
meus ombros, mas não as tenho presentes, não reajo a elas.
Da mesma forma que posso saber que há outra pessoa comigo
e não responder a ela. Quando sei que alguém está comi go e
deixo a pessoa de fora, não a tenho presente.
Quando a deixo entrar, ela se torna presente em mim.
Não estou querendo dizer que deixar de fora seja “mim”.
Deixar de fora o meu corpo é outra coisa.
“Aceitar o meu corpo” no sentido de nudez ou sexo n ão é
aceitar meu corpo. É aceitar uma ideia, uma abstração.
O arquiamigo no seu universo pode ser resumido na palavra
abstração,
significando qualquer ideia à qual o homem adere como se
ela fosse
mais viva do que ele próprio
— deixando um não-ele perfeitamente distinto;
um fantasma de tique-taques, meramente
concebido pelo cérebro do prodigioso tempo:
um espectro que anda e para)
E.E. cummings
Num mundo onde tudo precisa ser “instantâneo”, rápido, sem
esforço, sem observação, sem investimento de mim mesma no
que faço, e sem dor, as pessoas escavam (ou abstraem) alguns
pedaços da teoria de alguém, algumas ferramentas
conceituais, e as passam aos outros como “salvação”. Isso é
charlatanice.

Levamos bastante tempo para desmascarar todo o logro


freudiano, e agora estamos entrando numa fase nova e
perigosa. Estamos entrando na fase das terapias
estimulantes: ligando-nos em cura instantânea, em alegria
instantânea, em consciência sensorial instantânea. Estamos
entrando na fase dos homens charlatães e de pouca
confiança, que pensam que se vocês obtiverem alguma quebra
de resistência, estarão curados — sem considerar qualquer
necessidade de crescimento, sem considerar o potencial real,
o gênio inato em todos vocês.
Fritz, em Gestalt-terapia explicada
Nossa visão do terapeuta é que ele é semelhante àquilo q ue o
químico chama de catalisador, um ingrediente que precipita
uma reação, que de outra maneira poderia não ocorrer. Ele
não determina a forma da reação, que depende das
propriedades reativas intrínsecas das substâncias presentes, e
tampouco participa de qualquer composto que venha a ser
formado com sua ajuda. O que ele faz é simplesmente dar
início a um processo, e há alguns processos que, uma vez
iniciados, são automantenedores e autocatalíticos. Admitimos
ser este o caso da terapia. O que o médico põe a funcionar, o
paciente continua sozinho. O “caso bem-sucedido”, não é uma
“cura” no sentido de um produto acabado, mas uma pessoa
que sabe que possui ferramentas e equipamento para lidar com
os problemas à medida que estes surjam.
Ele ganhou espaço para trabalhar, sem ser estorvado pelas
bugigangas acumuladas de transações iniciadas mas não
acabadas.
Em casos tratados sob essa formulação, o critério do
progresso terapêutico cessa de ser uma questão de debate. Não
é uma questão de “aceitação social” aumentada ou melhores
“relações interpessoais”, vistos pelos olhos de uma autoridade
estranha e autoconstituída, porém a própria tomada de
consciência por parte do paciente de sua vitalidade elevada e
modo de funcionar mais efetivo. Embora os outros possam
também notar a mudança, a opinião favorável deles a respeito
do que aconteceu não é o teste para a terapia.
(“Estar livre da opinião deles” Quando eu estava aprendendo
a pintar, alguns anos atrás, meu filho caçoava das minhas
pinturas. Eu continuei pintando. Quando uma artista quis
emoldurar várias das pinturas, eu disse a ela: “Eu sei que elas
iriam parecer melhores, mas os defeitos que eu vejo ainda
estariam aí”. Continuei pintando, sem me desviar do meu
rumo, do meu próprio desenvolvimento, da minha
observação, seja por meio de troca ou de elogios. Eu não sou
assim com tudo, mas estou ficando mais forte.)
Tal terapia é flexível e é por si só uma aventura de vida. O
trabalho não se alinha com o conceito errôneo tão difundido
de o médico “descobrir” o que há de errado com o paciente
e “lhe dizer”. As pessoas têm estado a “lhe dizer” a vida
inteira e, na medida em que ele aceitou o que dizem, ele
também tem estado a se “dizer”. Mais ainda, mesmo que haja
a autoridade do médico, isso não vai mudar nada. O que é
essencial não é que o terapeuta aprenda algo sobre o paciente
e então lhe ensine, mas que o terapeuta ensine o paciente
como aprender sobre si mesmo. Isso envolve o fato de ele
tomar diretamente consciência de como, sendo um organismo
vivo, ele funciona na verdade. Isto se consegue com base em
experiências que são não-verbais.
Fritz, em Gestalt-terapia
4
Uma Xícara de Chá
Nan-in, um mestre japonês, recebeu um professor de
universidade que veio indagar a respeito do Zen.
Nan-in serviu chá. Encheu a xícara do visitante, e continuou
derramando.
O professor observou a enchente até que não pôde mais se
conter. “Ela já está cheia. Não cabe mais nada!”
“Como esta xícara”, disse Nan-in, “você está cheio — de
opiniões e especulações. Como posso lhe mostrar o Zen a
menos que você antes esvazie a sua xícara?”

Eu sou e faço o melhor que posso — tanto nas coisas práticas


quanto em relações com pessoas — quando não penso sobre.
Rompa com a memória psicológica, diz Krishnamurti. Livre -
se de convicções e interpretações — é tudo auto-hipnose. Eu
me debato com a gramática, tentando encontrar algum meio
de exprimir o que acontece quando faço isso. Desisto da luta
impossível.
É claro. Você sabe o que é claro? Eu não. Eu só lembro, agora.

Fritz: Se você quer ajudar, você é enganado.


“Você está tentando ajudar”, é uma das críticas mais sérias de
Fritz, a nós, como terapeutas. Quando uma pessoa no lugar
quente diz para o Fritz:
“Eu sei que você quer me ajudar”, Fritz diz: “Não”. Às vezes
ele acrescenta algo ou diz o que se passa dentro dele, que não
tem nada a ver com ajudar.
Quando tento ajudar, tenho a ideia de ajudar. Começo com um
conceito, tenho uma opinião, uma convicção, algum a noção
do que é “ajudar”, e tenho uma meta. Tudo isto está no meu

4
De Zen Flesh, Zen Bones. Paul Reps. Charles E. Tuttle Co., Inc. Tóquio.
(N. do E.)
“pensar”. O processo de fluir-livre que sou eu não tem metas,
e não pode funcionar quando eu as tenho — ou quando estou
pensando.
Às vezes, Krishnamurti é bem rude com pessoas que ficam
ajudando os outros. Um interlocutor perguntou: “E você?”.
Krishnamurti: Mas eu não faço de propósito, você percebe?
Essa é a diferença.
Krishnamurti: Um homem religioso é um homem que está só
— não um homem que é sozinho — sem dogmas, sem opinião,
sem passado — livre de condicionamentos e só, e apreciando
o fato.
“Observação/compreensão/ação!”, disse ele em Berkeley no
ano passado, sem deixar lugar para pensamentos entre as
palavras.
Nos últimos cinco anos eu o ouvi várias vezes dizer que o
gradualismo não é bom, que nós (eu) devemos fazer uma
mudança radical, e que esta mudança radical precisa ser feita
agora — agora mesmo. Eu sempre pensava: “Ótimo. Genial.
Estou disposta. Eu quero. Mas como posso fazê-la agora?”.
Parecia-me algo totalmente impossível.
Agora sei que agora é a única hora em que posso fazê-la.
Então, vem o sossego. Completamente sossegada. E ao
mesmo tempo, tudo está dançando.
Sem o sossego, com nenhum centro, a dança é minha, e é
fictícia.

Às vezes me aborreci com algo que o Fritz disse ou escreveu,


sem ter muito claro o motivo do meu aborrecimento. Certa
vez tentei falar com ele sobre algumas dessas coisas que
estavam na sua autobiografia In and Out the Garbage Pail
(Dentro e fora da lata de lixo), que na época ainda estava em
manuscrito. Não cheguei a nada. Eu me senti bloqueada por
ele. Mas então percebi que não estava sendo clara para ele. Eu
não conseguia me fazer clara.
Ele disse que eu estava tentando estar na cabeça dele. Eu?
Porque eu sabia mais do que ele sobre esses trechos. Era por
isso que eu queria que ele os mudasse.
Ele devia estar na minha cabeça! Então percebi que eu queria
usá-lo para chegar à clareza em mim mesma, e ele estava se
recusando a ser usado desta maneira.
Bem, eu deixo os outros me usarem apenas da maneira que
quero ser usada.
Agora tenho claro (a meu ver) que Fritz não cometeu o erro
de considerar o Zen uma salvação rápida: ele cometeu o erro
de desconsiderar o Zendo, sem ter se envolvido com ele. Eu
penso que o Zen sobreviverá.
Durante três meses aqui, pensei que simplesmente não estava
captando alguns aspectos da Gestalt-Terapia — uma certa
falta de visão em mim. Não me incomodei com isso:
simplesmente julgava que era assim. Os aspectos da Gestalt
que me atraíam eu aprendia, e me ocupava com isso. O resto
podia vir depois.

Afastei-me durante três semanas, e pensei que ao voltar


captaria o resto. Na volta, percebi que esses aspectos não me
atraem. Eu não quero aprendê-los, então não vou aprendê-los
— assim como nunca aprendi nada sobre adjetivos, advérbios
e predicativos nominais. Eles não me atraíam. Mas eu posso
usá-los.
Foi muito engraçado chegar a este centro de treinamento,
porque era a primeira vez na vida que eu seria treinada para
alguma coisa. Vim para o Canadá em busca de um sítio ou de
uma fazenda, de uma comunidade, um kibutz. Isso não morre
dentro de mim, mesmo que o custo da terra e a escassez de
lugares apropriados tenham até agora tornado a ideia
impossível. Eu vim para Vancouver sem planejar nada a não
ser uma reserva de avião e a viagem. Eu queria descobrir se
ainda era capaz de chegar sozinha a uma cidade estranha e me
virar. Havia duas pessoas para as quais eu podia telefonar,
sendo que uma delas era o Fritz, mas eu não iria telefonar
enquanto não me assegurasse de que poderia me arranjar sem
elas.
Até agora não tinha pensado que esta é uma maneira de lidar
com as coisas por meio da tomada de consciência. Percebi que
estaria conhecendo o Canadá e os canadenses de uma maneira
diferente do que se fosse apresentada, escoltada, dirigida,
recomendada para os lugares mais agradáveis, apoiada por
amigos.
Não telefonei para o Fritz enquanto não cheguei a um ponto
de desespero, me meti numa embrulhada sem ver saída, entrei
em pânico, saí do pânico e da embrulhada. Então fiquei
sabendo que eu ainda era capaz de me virar, e telefonei para
o Fritz. Certo dia no seu apartamento em Vancouver conheci
algumas das pessoas que iriam passar algumas semanas aqui.
Eu queria ver este lugar, e descobrir o que era. Por outro lado,
não conseguia me enxergar como sendo parte dele.
Após ficar procurando uma fazenda, voltei para Vancouver
duas noites antes de todos virem para cá. Eu estava me
sentindo sem saída em relação à fazenda no Canadá, e pensei
em vir com eles, ver o lugar e voltar para a Califórnia via
Victoria ou Seattle.
Fui até o bar para jantar, com sensação de poucos amigos.
Também me sentia desajeitada. O único lugar que havia para
sentar eram bancos no balcão. Sentei. Ao meu lado havia um
banco vazio e desejei que houvesse outro do outro lado.
Então, veio um homem e sentou no banco vazio. Ele não podia
ter ido sentar em outro lugar?
Eu também estava um tanto paranoide. Gordon tinha trazido
a minha mala para o hotel — cabelo comprido, mangas
arregaçadas acima dos cotovelos. Não era o meu tipo de hotel.
Eu pensava que eles não me queriam. Eu tinha também um
saquinho plástico com escova de dentes, pasta de dentes,
escova e pente, e o coloquei sobre a mesa enquanto me
registrava.
Também não era o meu tipo de hotel. Quando me afastei da
mesa para ir ao quarto com o elegante homenzinho que
carregava a minha mala, ele disse: “Oh!” e voltou para peg ar
o saquinho plástico que eu tinha esquecido. No elevador havia
meia dúzia de pessoas, todas muito empertigadas e distintas,
vestindo o que pessoas bem vestidas vestem. O elegante
homenzinho segurava o saquinho como se fosse uma caixa de
joias. Ele o transformou numa caixa de joias. Por um
momento, eu mesma o enxerguei dessa forma. Fiquei
impressionada. Gente esperta, os chineses.
O homem que veio sentar no banco ao lado do meu, e que eu
ignorei, comentou algo a respeito da minha beleza. Isso ocorre
com bastante frequência, e eu fico intrigada quando descubro
que é sincero. Eu não achava que esse aí estava sendo. F iz
algum agradecimento, esperando que fosse frio, mas achei
que parecia a minha mãe quando se zangava com o gato e
batia nele. As palmadas eram tão suaves que o gato ronronava.
O homem começou a jantar comendo metade de um grape-
fruit. Sempre que ele enfiava a colher, espirrava um pouco de
suco na minha testa ou nas minhas bochechas. Notei que ele
esperou acabar antes de me perguntar: “Espirrei em você?”.
Então olhei para ele, e ele tinha a pele tão clara que parecia
polida, o cabelo grisalho tão no lugar, uma camisa tão branca
e um paletó preto, impecável, intocado por mãos humanas,
como se tivessem acabado de tirá-lo do plástico; fiquei ainda
mais paranoide. Ele conhecia todas as garçonetes. Será que a
direção do hotel estava me observando por intermédio dele?
Eu tinha apenas passado um. pano molhado no rosto, penteado
meu cabelo para trás sem refazê-lo, e trocado de vestido antes
de descer para jantar. Estava com fome. Na Viagem de um
dia, vindo de Lago Kooteney, tínhamos parado só uma vez,
em Keremeos, onde comi um sanduíche e tomei uma xícara
de chá num lugarzinho gostoso. Em Keremeos, conheci um
corretor de imóveis cego.
Quando entrei no escritório dele, ele se levantou, estendeu a
mão e disse, muito à vontade: “Você vai ter de vir a mim. Sou
cego”. Ele descreveu as terras melhor do que qualquer outro
corretor. Disse: “Agora os preços não fazem sentido!”. Em
breve ficou claro para ambos que ele não tinha um lugar como
eu queria, mas não tentou me vender outra coisa.
O cavalheiro polido ao meu lado perguntou-me o que eu fazia
ali, e não tive vontade de lhe contar. Ele continuou sendo
cavalheiresco. Eu disse algumas coisas, não me recordo o quê.
A Gestalt-Terapia entrou na história, e ele me perguntou o que
era. Respondi: “Ela torna as pessoas responsáveis por si
mesmas”. Ele fez um meneio. “Livre empresa”, disse.
Ele comia muito mais depressa do que eu — praticamente
todo mundo come mais depressa do que eu —, acabou o bife,
estendeu o rosto na minha direção e disse: “Beije-me”. Eu
estava comendo um sanduíche de rosbife quente, e tinha muita
consciência da gordura nos meus lábios. Colocar essa gordura
naquelas bochechas polidas? Perguntei: “Com os lábios
engordurados?”.
“Com os lábios engordurados”, disse ele, o rosto ainda
estendido.
Beijei a bochecha dele. Ele foi embora.

Talvez aquilo tivesse algo a ver com isto. Sempre tudo tem
algo a ver.
Quando subi para o quarto não demorou muito para eu me
comprometer a vir para cá. Inscrevi-me no dia seguinte, e vim
um dia depois. Sozinha. Eu não ia ser terapeuta.
Quando fui entrevistada pela senhora do jornal local, a
entrevista saiu assim: Nós pedimos a ela que fizesse alguns
comentários pessoais sobre os workshops de Gestalt dirigidos
pelo Dr. F. Perls, psiquiatra. Ei-los: Eu gostaria de chamar
Fritz Perls de gênio, mas ele diz que as pessoas o chamaram
de gênio a vida inteira, e durante alguns meses ele acreditou
e então descobriu que simplesmente não conseguia
corresponder a isso. Então direi apenas que em workshops
com ele, eu experienciei mais caminhos de abordar e trabalhar
com o problema do ser humano do que julgava possível.
É com a minha própria humanidade que eu me preocupo.
Sinto-me bem dizendo isso, depois de tantos anos em que me
foi dito que devo “pensar nos outros”. A alternat iva parecia
ser “pensar em mim mesma”, e eu não gostava disso. Foi um
momento maravilhoso quando descobri que é quando eu não
penso — é então que sou mais disponível aos outros, que
tenho a maior consciência do que se passa à minha volta, que
funciono melhor. Pode parecer idiotice. Mas creio que cada
um de nós deve ter tido a experiência de fazer algo realmente
bem, sem pensar no que fazia — e a experiência de perder o
equilíbrio e a habilidade, ao começar a pensar. Há também as
vezes em que nos enganamos ou cometemos erros, e dizemos:
“Eu estava pensando em outra coisa”. Já ouvi Fritz Perls dizer
de si mesmo como terapeuta: “Tento ao máximo não pensar”.
Trabalhando comigo mesma para me livrar daquilo que me
impede de ser humana, deixo muito mais humanidade entrar
no mundo, onde certamente precisamos dela.
Nos dizem que cometer erros é “ruim”. Mas isto é parte da
aprendizagem — cometer erros e notá-los. Então — se não os
combatermos. — eles se corrigem. Como é que um bebê
aprende a andar?

Agora entendo um pouco melhor o “gênio”. Eu sou um gênio


quando o meu gênio está presente, da mesma forma que sou
uma cozinheira quando estou cozinhando, uma escritora
quando estou escrevendo. Outras vezes, não sou.
Na quarta semana aqui, Fritz nos disse para formarmos pares
paciente/terapeuta. Se eu tivesse deixado sair o riso que
surgiu dentro de mim, todo mundo teria gostado. Eu o mantive
lá dentro, e só eu o apreciei.
No fim da semana, quando veio a notícia daqueles que tinham
sido aceitos para prosseguir o treinamento, o meu nome estava
lá. Senti-me satisfeita pela aceitação e aborrecida com o meu
futuro. Se eu continuasse, teria de levar o treinamento a sério,
teria de me tornar uma terapeuta.

As minhas dores se foram há muito tempo. Notei quando elas


sumiram. Tenho estado apreciando, sem pensar em “livro” ou
“fazer”. Quando aprecio o que estou fazendo, é tolice receber
dinheiro em troca agora ou depois. Quando não aprecio o que
estou fazendo, o pagamento nunca é suficiente. A única forma
de ele ser suficiente é quando o dinheiro é tanto que posso
deixar o trabalho.

Estou com fome. Não com muita fome, mas o bastante. Parei
de fazer o que estava fazendo, e surge o pensamento (ou
tomada de consciência — que se transforma em palavras
quando as expresso por meio da máquina de escrever) de ir
hoje até Lake Cowichan comprar algumas coisas para poder
fazer o bolo de chocolate que prometi a Deke em junho, e ao
mesmo tempo alguma comida para a cabana do Fritz, de modo
que ele possa preparar o desjejum quando voltar, depois de
amanhã, que é domingo, e as lojas estarão fechadas.
Elas também fecham às segundas-feiras.
Quando me afastei da máquina de escrever, notei que teria de
trocar de roupa. Não “posso” ir para a cidade vestindo uma
camisola de flanela. Digo a mim mesma (olha a mentirosa
aparecendo) que não posso ir até Lake Cowichan vestindo
apenas uma camisola de flanela porque (e quão
frequentemente esta é a palavra-mentira) esta atitude seria
prejudicial ao Instituto. Mas se o Instituto não estivesse aqui,
será que eu o faria? Eu não sou idiota para fazer isso.
“Porque” é palavrão em Gestalt. Fazendo experimentos (não
é uma regra) notei como “por que” me afasta mais e mais de
mim e do que quer que tenha feito (bom ou mau); e como, sem
seguir o “porquê”, simplesmente digo o que fiz. A minha
força volta. (Em nossa sociedade “Por que você fez isso!”
chega a nós tão cedo, e com tanta frequência — uma acusação,
não um pedido de informação.) Sem “por que” eu me torno
mais índia, vivendo com os fatos, sem culpa ou orgulho —
essa gangorra da nossa existência que nos tira do nosso
centro, o ponto de equilíbrio.
No Garbage Pail, Fritz fala em certa vez ter se tornado um
idiota por algum tempo, espontaneamente. Não me admiro
que naquela ocasião ele tenha tido uma experiência incomum.
Nos grupos, às vezes, ele faz alguém representar o papel do
idiota como parte da terapia. Até agora, ninguém representou
o meu idiota.

Então, troquei de roupa, e enquanto tirava uma e vestia outra,


lembrei-me de quando era jovem e os dias de chuva
continham tanta felicidade. Não era só brincar na lama que
era gostoso, e fazer riachos, mas podíamos vestir roupas mais
velhas para ir à escola. Nós vestíamos roupas velhas sempre
— surradas, às vezes remendadas — exceto em ocasiões
escolares especiais, quando vestíamos nossas roupas de
domingo. As pessoas usavam roupas velhas para trabalhar em
dias de chuva — mesmo as pessoas que trabalhavam nos
escritórios de Wall Street. Era “prático”, nos dias antes da
abundância, varais e calçadas por todos os lados. A minha tia
Alice (que para mim às vezes era tão agradável quanto, outras
vezes, imbecil) adorava ir ao trabalho em dias de chuva,
espirrando água a caminho da parada do bonde; e além disso,
em dias de chuva ela não se importava em ir trabalhar, Uma
das alegrias de uma verdadeira emergência é jogar-se nela.
Outra é que as coisas não essenciais são deixadas atrás.
Quanto é essencial? Realmente essencial. Nossas
necessidades biológicas são poucas.

Márcia pediu para esconder-se aqui. Eu estava guardando a


comida que comprei e lavando pratos. Eu disse que estava
bem. Naquela hora não sabia que queria voltar a escrever.
Quando retornei de Cowichan e vi a máquina, não senti
atração nenhuma. Depois de guardar a comida, senti. Agora,
descubro que estou lenta, dispersa, que paro com frequência
— não há sensação de que a coisa está indo bem. Sinto Márcia
por cima dos meus ombros, embora ela esteja deitada no sofá.
Ela não está me incomodando. Ela nem mesmo disse nada. Eu
estou me incomodando. Quero trabalhar e superar isso... Bem,
terminou. Márcia acabou de sair. Duas vezes, antes, ela se
levantou, fez uma coisa ou outra, foi até o banheiro, abriu a
porta da geladeira, e eu me senti molestada. O que é que ela
estava fazendo? O que é que ela queria? O idiota da aldeia iria
se preocupar?
“Eu não conheço a Márcia muito bem.”
Isto é um porquê, uma mentira.
Eu não estou gostando muito de mim.
Eu me sinto mal-humorada, irritada, cansada, e não adianta
pensar nisso. Se eu mudar para “pensamentos bons”, poderei
me sentir melhor, ou pensar que me sinto melhor, mas ainda
estou no mesmo dilema — a separação entre eu e mim.
Entre num vaivém. Veja o que acontece.
Uma pequena balsa navegando pelo lago, sem madeira. Um
pequeno barco a motor espirra água, no sentido contrário. O
lago está todo encrespado, como um tecido enrugado. Na
laguna a água está mais quieta, quase parada.
Gotas de chuva sobre o lago. A minha cabeça está balançando.
Não, Não, Não. Deixe-me fechar os olhos e ter a sensação,
enquanto continuo a balançar a cabeça. Não não não não não.
Ah não. Ahh não. Digo isso em voz alta.
Minha voz está profunda, firme e segura, e ao mesmo tempo
suave. Ela se faz sentir congruente com o moviment o da
minha cabeça, no ritmo, no tom. Abro os olhos e à primeira
vista o lago parece estar de cabeça para baixo, como um céu
carregado. Eu me interesso. Minha cabeça para de dizer não.
Na metade do lago há uma clara divisão. A parte do meu lado
parece negra — a parte mais distante é como um gelo pesado.
Na laguna, perto de mim, as colinas do outro lado refletem -se
na água. Desligo a máquina de escrever e de repente —
sossego... Vejo os meus dedos que batem refletidos no vidro
da janela.
Atrás da janela, as ondas estão ficando mais fortes.
Balançando, transformando-se de novo em céu. Eu me sinto
balançar com as mesmas oscilações, como uma respiração. A
parte negra agora tem tons de preto e prateado, linhas pretas
e prateadas — linhas finas — que balançam, se mexem. A
mudança não tem fim.
Meu Não parece ser um Não para o atoleiro, estar atolada no
passado de x-minutos atrás, onde nada mais pode acontecer.
Tudo fantasia. Tudo ilusão. Acorde! Acorde!

“O Criador fez o mundo. Venha vê-lo.”


Oração dos índios pima.

Consigo!
Agora funciono. Escrevo muito melhor — e não é trabalho,
não parece ser. Em todo caso, o que é “trabalho”? Somos tão
confusos em relação a ele, que eu abandono a pergunta.
Certa manhã, na reserva dos navajos, Beulah, a cozinheira,
deu às crianças ovos fritos colocando-os nas mãos delas. Elas
levaram os ovos até o refeitório, sentaram-se à mesa e
comeram com as mãos.
QUE HORROR!
Isso foi comentado a mais de quinhentas milhas da reserva
durante duas semanas — pelos brancos.

Quando fui trabalhar na Escola de Vale Verde, vivíamos em


tendas. A escola estava sendo construída. Cerca de uma dúzia
de índios hopis lá trabalhavam, e eu não tinha ideia do que
eles pensavam de mim. Eles eram arredios. A
cozinha/refeitório era uma pequena casa de pedr a com uma
sala apenas, que já estava no lugar quando a terra foi
comprada. Foi colocado um piso novo, e uma mesa de madeira
— sem acabamento. Certa noite, depois de o chão e a mesa
terem sido muito esfregados e estarem realmente limpos, um
pequeno menino hopi derramou seu copo de leite. (Entrei
demais no escrever. A minha tomada de consciência falhou.
Agora mesmo notei fumaça e desliguei o que não devia estar
ligado. Eu deveria ter notado o cheiro antes de haver fumaça.
Não entrei no vaivém espontâneo que é o fluxo de
consciência.)
O leite derramado estava se esparramando rapidamente na
direção das bordas da mesa e cairia no chão. Empurrei a
cabeça do menininho para perto do leite, dizendo: “Depressa!
Lamba!”. Ele lambeu feliz, virando um pouco a cabeça de
modo que um olho ficava olhando para mim.
A sua mãe, Mona Lee, ficou confortavelmente sentada na
cadeira e disse: “Você não é como as outras mulheres brancas.
Elas dizem para pegar o pano. Quando a gente vem com o
pano, o leite já está no chão.”
Mais tarde, na mesma noite, fui até a cozinha. Mona Lee
estava sentada de costas para mim, conversando com um hopi
recém-chegado. Quando cheguei perto da porta, ele parou de
falar. Mona Lee virou a cabeça na minha direção e disse:
“Com ela, tudo bem”. Eles continuaram falando.
Dentro da minha própria sociedade — A minha vida ali era
sentida de forma tão mais vital, tão mais espontânea e viva.
Estamos matando os índios.
A América precisa dos índios.
Nós estamos matando a nós mesmos.
Os índios também pensam que precisamos deles.
“Índio” não é uma cor de pele. É uma maneira de viver que
não conduz ao Vietnã.
“Índio” é uma mulher navajo que me contou que quando
estava na escola, a professora de educação física lhe ensinou
a trapacear, a esbarrar de modo a provocar a saída de outro
jogador parecendo acidente, a ganhar. “E agora”, disse ela,
“preciso trabalhar tanto para tirar isso de mim.”
Alguns de nós também estamos trabalhando duro nisso.
Outros recém-começam a descobrir os jogos que fazemos, e
que estamos aqui é para ganhar.
Até mesmo maridos, esposas, pais e filhos, e filhos e pais, e
filhos e filhos.
Na conferência intercultural em Saskatchewan, um homem
branco sugeriu que um dos modos de ajudar os índios seria
educá-los a respeito do nosso sistema e procedimentos legais.
Os índios, todos concordaram, levam desvantagem na nossa
política e nas nossas cortes, porque dizem a verdade.
Quem deve mudar, os índios ou nós?
Em que mundo você prefere viver?

Hoje comprei um conjunto de colherinhas de medidas. Eu só


queria um desses conjuntos simples, de cabo curto. Tive de
comprar umas colheres de forma quadrada, com cabos, e uma
alça para pendurar, e ganchos que são fixos na parede.
Recordei-me da história do sucesso de Donald Stwart, e como
ele chegou lá em cima. “Quando alguém queria um selo de
dois centavos, eu vendia um selo de <tez centavos. Quando
um homem queria ir até o sexto andar eu o levava até o décimo
segundo!”
O estojo não é simples e os cabos são tão compridos que eu
decidi ser melhor pendurá-los perto de um canto da parede.
Não consegui deixar reta a barra com os ganchos. Por um
momento pensei: “Isso é ruim.” Então notei que de qualquer
forma as colheres não ficam alinhadas embaixo, porque são
graduadas pelo tamanho dos cabos, bem como da cavidade.
Era gostoso olhar a barra inclinando-se para baixo, para a
esquerda, e as colheres subindo também para a esquerda. E,
nesse momento, vi algo a meu respeito que incomodava o meu
marido e que nunca entendi antes. Ele ficava por conta quando
as coisas não estavam retas e arrumadas como deveriam
estar. Agora compreendo por que eu mesma fiquei tanto desse
jeito — não o suficiente para satisfazer o meu marido, mas o
bastante para me desgastar. Eu me aborreço quando sou
incomodada — quando uso a minha vida incomodando-me
porque as coisas não estão como deveriam estar. Era por isso
que eu tinha mais vida nos tempos dos clipes-debaixo-do-
colchão. Também tinha mais vida, vinte anos depois, quando
estive em Deep Springs. Eu estava vestindo um conjunto de
lã inglesa que tinha comprado no Canadá. Era uma lã
maravilhosa e um conjunto maravilhoso. Eu não esperava
nunca mais ter outro conjunto daqueles. Na cozinha sentei -me
num banco alto. O enorme marido da cozinheira, adepto da
Igreja de Cristo, disse com voz lamurienta: “Esse banco está
molhado”. Eu tinha notado depois de me sentar. O homem
continuou com suas lamúrias:
“Nada parece incomodar você...”. Eu era feliz demais para me
sentir incomodada. Crueldade, repressão — coisas como essas
me incomodavam muito, mas não muita coisa além disso.
Agora já não sou tão feliz, já não sou tão viva. Meus óculos
caem muito do nariz. Já não tenho mais aquele ambiente
próprio para mim. Por meio da Gestalt, estou trabalhando no
sentido de chegar à felicidade onde eu estiver.
Não fingir. Não procurar moedas de prata. Estar em contato,
com a mesma facilidade que fico quando estou num ambiente
que me libera. Estou trabalhando no sentido de me liberar.
Aqui é um lugar bom para fazer isso. A maioria das pessoas
não é muito espontânea, e tampouco eu. Ao mesmo tempo,
Gestalt e Fritz trabalham para liberar a minha espontaneidade.
Eu sinto que nesta comunidade estou vivendo nas pressões
sociais concentradas, e ao mesmo tempo o lugar está
trabalhando no sentido de me libertar. Eu ainda não consegui,
mas sinto a espontaneidade mais próxima da superfície do que
estava antes. Isso é excitante.

Hoje havia couves-flores no armazém. Algumas eram


suficientemente pequenas para eu comê-las em dois dias.
Outras eram imensas. Olhei o preço e cada uma custava 39
centavos. Todas do mesmo preço. Ridículo! Foi o que pensei.
Então notei que as pequenas eram novas, e muito brancas e
macias, e que as folhas pareciam ser daquelas que têm um
sabor delicioso. E então me lembrei do Havaí, como era
difícil tentar convencer os japoneses a colher para mim feijões
e vagens novas, mesmo assegurando-lhes que pagaria o
mesmo preço das grandes, e eles não perderiam nada.
Comprei uma couve-flor pequena. Há tempo que não como
couve-flor com gosto de couve-flor; já me esqueci do sabor
dela. Eu achava que não gostava mais de couve-flor. E
também meu estômago se sentiu bem com ela — nada de
indigestão. Preciso comer tão menos quando o gosto é bom.
Eu me sinto satisfeita, como se tivesse comido sobremesa.
Algumas pessoas estavam tomando sorvete na casa lá de cima,
enquanto assistiam televisão. (E sexta de noite, e não há
grupos até domingo à noite.) Eu gosto muito de sorvete. Mas
não quis.

Tanta coisa se passou dentro de mim ontem à noite enquanto


eu dormia.
Isso tem acontecido muito, desde agosto. Como se a
linguagem dos sonhos não fosse mais necessária, e as coisas
me são ditas diretamente. Não. É como terapia tendo lugar
dentro de mim, o tempo todo que durmo. Fritz disse que esse
é o fim da terapia — o organismo assumindo o comando.
Estou em dificuldade. Este livro era para dizer muita coisa
sobre Gestalt.
Quanto mais sei sobre Gestalt, menos posso dizer.
Quando fui para o Havaí, fiquei encantada e quis escrever um
livro. Três anos depois, ainda queria escrever o livro, e
percebi que seria um livro muito diferente, tendo
experienciado o Havaí mais profundamente. Isso continuou
acontecendo, e depois de dez anos percebi que não podia mais
escrever um livro sobre o Havaí.

“Você gostaria que eu carregasse a sua mala?”


A mudança Gestalt é: "Eu gostaria de carregar a sua mala”.
O passo seguinte não tem palavras.
O ex-poeta5
Malcolm Lowry
Madeira flutua na água. As árvores
Se arqueiam, ali está verde, a sombra
Uma criança passeia nos prados
Uma serraria, vê-se pela janela.
Conheci um poeta que chegou a isso:
O amor não se foi. apenas as palavras de amor,
Disse ele. As palavras se foram
E teriam pintado aquele navio
Cores vermelhas jamais tiradas
Em crepúsculos lívidos no Cabo.
Eu disse que também era bom.
Ele sorriu e disse: Algum dia
Deixarei este lugar como as palavras me
deixaram.

5
Copyright, 1962, Saturday Review, Inc. (N. do E.)
C APÍTULO 2: FOLHA

“Dois” me veio à cabeça, convencionalmente, para


identificar este capítulo. Notei o convencionalismo. Só isso.
Depois veio “Folha”. Fica “Folha”.
Não será substituído por nada.
Não entendo o que está se passando dentro de mim. Algum
tipo de alteração. Estou tomada de dor e fraqueza, esmagada.
Não há nenhuma parte de mim que não esteja assim. E então
há sossego e força. A duração nunca é a mesma... Neste
instante, sinto a dor, como se não tivesse força alguma...

Não tenho estado em busca de nenhuma ideia. Surge o


problema da responsabilidade. Eu o vejo simultaneamente de
duas maneiras e estou confusa.
Solto-me... A dor está tomando conta outra vez. Tanta coisa
me faz recordar a época em que estive doente. Neste instante,
era o médico me perguntando, no hospital: “Bem, onde você
se sente normal?”. Neste instante, não me sinto normal em
lugar nenhum. Eu nem mesmo sei o que é normal. Não fiz a
pergunta, mas apareceu uma resposta: “Normal é como o
tempo; chove ou faz sol, está ventando ou não, e como o dia
que é seguido da noite que é seguida do dia, é o crescer e
morrer”.
Esta manhã Fritz disse: “Você não esteve aqui para o
workshop de três semanas”. Uma constatação. Respondi:
“Não, não estive”. Isso tudo saiu por si só. Não foi um
programa. Não “me obriguei” a ficar falando. Não houve toda
a baboseira de “explicações”. Os pais pedem explicações. Os
professores pedem explicações. Pais e professores fazem
tanta parte da minha vida quando sou pequena. E depois,
“amigos”, patrões, esposos...
Ontem à noite, Fritz falou sobre si mesmo no grupo de Esalen,
de onde tinha acabado de voltar: “Pela primeira vez na vida
fui perfeito”. Ele disse que tinha visto claramente maya, a
ilusão. Eu vi essa ilusão claramente por um instante. O que
importa, o que acontece comigo ou com os outros quando é
tudo ilusão, como o homem que cai morto no meio de uma
peça de teatro?
Então a coisa fugiu. Entrou a “responsabilidade”, rasgando e
sacudindo tudo. Algumas coisas são ruins, e os terapeutas não
“deveriam”.
Fritz deixa acontecer algumas coisas que ele não “deveria”. E
não faz nada com elas.
Fritz também me deixa continuar de formas que eu não
“deveria”. E não faz nada com elas.
É tudo parte do mesmo jogo.
Eu começo a querer entender isso, e não consigo. A minha
mente não está vazia. O que “eu” queria entender, ou penso
que “deveria” não está lá. E nada mais está. E, mesmo assim,
não estou “vazia”.

Não escrevi nada durante dois dias, até hoje de manhã. (A


perfeição de estar aqui desta vez me esmaga.) Todas as partes
precisam ser vistas para conhecer a perfeição. Não posso
descrevê-la. Por favor, você pode descrever o mundo? Fiz um
bolo de chocolate, aquele que eu tinha prometido a Deke em
junho. Faz mais de dez anos que eu não faço um bolo, mesmo
antes de ter os tremores. Medir as quantidades, especialmente
as pequenas, foi tão difícil que se tornou absurdo. Cometi
tantos erros, e na medida do possível, os corrigi. O bolo estava
no forno quando notei que tinha esquecido a baunilha.
Esparramei um pouco em cima de cada camada e misturei com
um garfo.
Fiquei um pouco triste. Não era o bolo que eu tinha prometido
a Deke.
Todo mundo que gosta de bolo de chocolate, inclusive Deke,
achou que estava bom. Eles não estavam esperando outra
coisa.
Quando o bolo ficou pronto, me senti com sono/cansada e fui
para a cama. Deitei-me. Não dormi. O tempo passou. Deve ter
passado. Ele sempre passa. Então notei que estava apreciando
— realmente deleitada — o movimento das folhas do lado de
fora, os troncos castanhos, as muitas formas diferentes de
folhas, as sutis diferenças de cor. Eu não estava pensando
nelas.
Nada de palavras. Nada de análise. Nada de opinião.
Simplesmente apreciando.
Continuei a apreciar, sabendo que isto era algo que costumava
fazer com frequência. Quando eu era pequena, um adulto ou
minha irmã intrometia-se com alguma pergunta ou exigência
estúpida, e quando eu ficava brava por ter sido interrompida,
me diziam: “Mas você não estava fazendo nada”.

Na conferência intercultural, tanta coisa se passou entre nós.


Veio um homem da Agência de Assuntos Indígenas. Gostei
dele, e ele parecia uma tempestade, soprando e destruindo
tudo que estivera acontecendo. Formulou suas perguntas que
eram baseadas em suas respostas. A maioria de nós se sentiu
muito infeliz. Talvez todos nós, mas não sei o que alguns
sentiram.
No dia seguinte, quando o homem se foi, um padre branco
perguntou a um índio: “É assim que é quando nós (brancos)
entramos numa comunidade (indígena)?”. Um índio
respondeu, com uma explosão de alegria: “Se você aprendeu
isso, toda a conferência valeu a pena!”.

Náusea. Eu a senti. Fui para a cama e comecei a tremer.


Arrepios. Soluços. Olhos levemente turvos. Pouco som.
Soluços imensos, sentidos por todo o corpo, até mesmo um
pouco de soluços nos pés. Ondulações, como se fosse vomitar,
então “para” e começa outra vez.
Mais tarde, um pequeno suspiro. Então suspiros maiores,
rápidos, fortes, profundos.
Agora me sinto mais mole do que trêmula, com alguma força
na moleza.
Eu me solto. Durante quantas décadas insisti em me prender?
Aquela percepção das folhas. Tão plena. Completa. Nada a
ser acrescentado, nada a ser tirado. Nenhum desejo de mudar
nada. Prazer. Alegria. Não ficar para sempre deitada na cama,
uma vida inteira desse jeito, mas mergulhar nisso outra vez é
bom. Um dos furos no meu experienciar já não é mais um
vazio.
Ontem à noite fui até o grupo do David. Tudo parecia tão
claro. As cores me deleitaram. Cada pessoa era tão completa
e unicamente ela mesma. Havia clareza “lá fora" e no meu ser.
“Pela primeira vez na vida fui perfeita.” Me parece que
sabemos dessa possibilidade de perfeição, e lutamos por ela
de todas as formas que não nos conduzem até lá, que nos
afastam dela, como correr para a frente querendo chegar a um
lugar que está atrás de nós.
Após os meus soluços, “vi” algo que se transformou nas
palavras: “O problema do bem e do mal é que nós
estabelecemos o bem e o mal, e isso cria o problema”.

Recordo-me de ter visto vagamente que levantamos todos os


tipos de dificuldades, como uma barricada, pulamos por cima
delas e depois nos damos palmadinhas nas costas,
cumprimentando-nos pela nossa conquista. Vi isto ao notar o
que eu mesma e os outros faziam.
“Pensar é ensaiar.”
Isso é óbvio. Posso perceber o meu próprio pensar a qualquer
hora, e ali está ele. Enquanto não noto, não é óbvio.
Um dos experimentos Gestalt consiste em se formarem pares,
e cada pessoa dizer: “Para mim é óbvio que...”, tomando
cuidado de não interpretar.
Não parece nada iluminador o ouvir as pessoas dizer: “Para
mim é óbvio que você está sorrindo”. “Para mim é óbvio que
você está com a mão no joelho”, e assim por diante. Porém,
quando “Para mim é óbvio que você está sorrindo” e “Para
mim é óbvio que a sua voz está tremendo” se juntam, às vezes
alguma outra coisa se torna óbvia. Ater-me ao óbvio elimina
o dúbio, e eu me torno menos dúbia, entro em contato mais
direto. Após notar o óbvio em outra pessoa, quando me volto
para mim, “Para mim é óbvio que eu estou...”, noto todo tip o
de coisas em mim mesma que não tinha antes, e torno muito
mais presente a mim mesma o que estou fazendo.
Decididamente, isto não é alegria instantânea... É preciso
antes todo um trabalho.

É realmente loucura chamarmos a ilusão de “realidade” e a


realidade de “ilusão”.

Fritz disse: “Você não esteve aqui durante o workshop de três


semanas”.
Eu disse: “Não, não estive”.
Ambos fomos índios.

“Fantasia!”, diz o homem que lê Fatos ao homem que lê


Ficção, desconhecendo que os fatos são fantasia, e mesmo que
não o fossem na hora em que são escritos, o são na hora em
que são lidos.
Este lugar é gostoso. Com toda a chuva, não havia nada para
o grupo de jardinagem fazer. A maioria deles passou agora
para um grupo de bolos e doces, que não existia antes. Agora,
pela primeira vez a cozinha parece estar funcionando com
organização horizontal. Na organização vertical, todo mundo
que não trabalhava na cozinha tinha de ficar fora. Na
organização horizontal, podemos entrar, tomar chá ou café, e
nos divertir e conhecer melhor.

Estou experimentando assar bolos, doces e pães na minha


cabana. Primeiro, o bolo de chocolate com todos os seus
defeitos e correções. No fim saiu bom. Deve existir algo a ser
feito com farinha de painço, mas ainda não descobri o que.
Comprei um “pão de painço” em Victoria. Deke e eu o
comemos na volta, dividindo-o com algumas pessoas que
encontramos. Lamentei ter comprado um só. Na venda vi
farinha de painço e comprei um saco. Havia uma receita para
fazer mingau. Tentei, e o gosto saiu muito estranho. Mesmo
com creme e açúcar, continuou estranho. Então pensei em
tentar assar algum bolo. Eu me lembrei de que aquele pão de
painço tinha gosto de bolo, então fiz um bolo, substituindo a
farinha de trigo por farinha de painço, e açúcar branco por
açúcar mascaro. A massa tinha um gosto horrível. Ainda estou
pensando em algo que me tire esse gosto da boca. Talvez se
eu comesse outra coisa com sabor igualmente ruim, ficaria
neutralizado... Acabei de espiar o forno. A coisa não está
crescendo muito. Até agora só aprendi como não cozinhar
farinha de painço.
Meu Deus, saíram lindos. Eu os coloquei em forminhas. A
aparência saiu perfeita. Leves, finos e dourados, uma cor que
eu não sei o nome... O gosto também ficou bom. Um pouco
granulado, acho que é por causa da farinha. Vou deixar o
gosto assentar para ver como é que fica, antes de oferecer a
alguém.
...O que não contei é que primeiro li receitas em dois livros,
como que experimentando, antes de decidir qual usaria...
Agora estou de novo com aquele gosto na boca, apesar do
açúcar mascavo e da baunilha.

Hoje andei entrando em “projeção”. Acho que começou


ontem. Em vez de simplesmente fazer o que quero fazer aqui,
andei pensando (sic) que as outras pessoas pensam que eu
deveria fazer mais. Não tive um indício sequer de que isso
possa ser verdade, de modo que, mesmo sendo verdade, é
projeção. A verdade parece ser que eu quero fazer mais, ou
estar em mais coisas. Então é a velha confusão quero/tenho
de, com a qual trabalhei tanto um ano atrás. Me parece que é
hora de limpar a casa outra vez. Quando olho para os “tenho
de”, descubro tantos que não tenho de. Então os outros se
revelam “queros”. Quando assumo muitos “deveria”, sinto-
me tão carregada, tão biliosa, que nem mesmo quero fazer o
que gostaria de fazer, e todos eles parecem ser “tenho de”. Eu
“não passo” de uma escrava, forçada e oprimida, e a vida não
vale a pena ser vivida. E essa “não-vida” que não vale a pena
ser vivida.
Fritz sugeriu uma indústria para a comunidade — botar para
fora todos os doces de infelicidades, tais como: “Todas as
suas expectativas catastróficas vão se realizar”.

Quando saí do sono esta manhã, ouvi a chuva...


Estou atolada. Numa armadilha construída pela linguagem.
Estava prestes a escrever: “Abri os olhos”, e isso pareceu
ridículo. Como foi que fiz isso comigo mesma? Com os meus
dedos? Mudei para “Meus olhos se abriram” e isso também
pareceu bobo. Meus olhos. Eles me pertencem?
Estou vendo algo no haiku que não percebia antes. Gosto da
sensação de frescor que obtenho do haiku, a forma direta e
desimpedida. Notei que muitas tentativas americanas de haiku
eram sentimentais, e não haiku. Eu não percebia o que
percebo agora na memória. Será que a minha memória está
certa?
Não sei. Não importa. Estou a caminho de algo.
Suponha que eu... Lá vou eu de novo. Palavras desnecessárias.
Ouvidos se abrem
Chuva
Olhos se abrem
Sol.
Esta foi minha experiência de hoje de manhã.
Na tarde em que cheguei à conferência intercultural em
Regina, ao entrar na sala Wilfred dizia que os índios diz em
simplesmente “chuva”. Eles não entendem a nossa linguagem.
Wilfred: “Está chovendo. Quem está chovendo?”.
Dois anos atrás recebi uma carta de um professor da
Universidade de Chicago. Guardo poucas cartas. Esta eu
guardei para me recordar de algumas coisas que sei.
Por muito tempo você parecia estar dizendo exatamente o que
me descobri dizendo nos últimos anos — não que o fato de
dizer signifique que eu não precise aprender. Acho que mais
preciso ser lembrado das coisas que já sei do que ouvir coisas
que não sei.
Numa autobiografia honesta, a frase mais comum seria:
“Fiquei confuso”. Eu digo isso e sei que é verdade para mim,
mas os cumprimentos que recebo pelas minhas aulas, escritos
e palestras sempre empregam palavras como “lúcido”, ou
frases como “Você deixa as coisas tão claras”. Fico satisfeito,
mas não tenho certeza de entender. Qualquer que seja a
clareza por mim conseguida, eu a refino de tanta confusão,
que muitas vezes tenho mais presente a desordem do que
qualquer outra coisa.
Não estou seguro de para onde me dirijo. Cada vez mais quero
interromper os estudantes e colegas dizendo: “Estas são as
perguntas erradas, as palavras erradas, as categorias erradas,
as premissas erradas. Não se pode nem pensar nesse
vocabulário. Eu posso apenas conduzi-los cada vez mais
fundo na confusão e irrelevância”. E às vezes é o que faço.
Mas não quero realmente interrompê-los, porque então
simplesmente sou sugado para uma discussão que emprega o
mesmo maldito vocabulário. E eu quero me afastar dele e
entrar numa linguagem na qual possa pensar.
Se as reações dos alunos significam alguma coisa, eu pareço
ser um bom professor. Mas comecei a me entediar. Estou
cansado de repetir coisas que para mim parecem ser truísmos
autoevidentes. E quando descubro que se tratam de
percepções novas e radicais para os alunos, não sei se fico
satisfeito ou deprimido. Exemplo: Mostro a uma estudante
muito perspicaz que na sua tese ela fugiu do problema óbvio.
Ela concorda e disse de teve de fugir porque não tinha
resposta para ele. Eu digo que ela não precisa ter resposta
porque não existe, e que os problemas que ela não consegue
responder são exatamente os problemas que deveria explorar,
que se ela puder esclarecer uma ou duas questões, terá
desempenhado uma função utilíssima e relativamente rara.
Uma semana depois ela volta e me conta que aquilo que eu
lhe disse foi uma revelação esmagadora para ela, que foi a
primeira vez que ela percebeu que não é preciso ter respostas.
E continua: “Como foi que cheguei até aqui sem perceber
isto?”. Bem, todos nós sabemos a resposta a essa pergunta.
Acho que para mim é útil continuar dizendo essas coisas, mas
estou cansado. Quero ir adiante, entrar naquilo que não sei.
Em Deep Springs descobri que eu realmente era o que estava
fingindo ser, e ainda estou tentando integrar as implicações
disso.
Meu livro (ex-dissertação) estará pronto dentro de um ou dois
meses, e vou lhe mandar um exemplar. Em parte por causa do
tema, o tom é na sua maior parte pessimista e satírico, mas
creio que ele toca em algumas coisas que você poderá julgar
relevantes. Estou cansado desse livro, também. Essas
malditas coisas passam por tantas provas que seria preciso ser
exageradamente narcisista para não se cansar delas. Quero
passar para alguma outra coisa.
Na verdade não sou tão melancólico como pareço. Mas tenho
todo esse entulho acumulado, partes e pedaços de eus gastos,
e frequentemente parece que o mundo está querendo remendar
tudo em vez de me incentivar a jogá-los fora. E sendo
professor, estou exposto a uma cota dessas, maior do que o
usual.

Prossigo com aquilo que chamamos de “inglês”.


Esta manhã acordei “louca” da vida. O que quer dizer essa
“louca”?
Todos nós sabemos, e ninguém sabe. Mudo para “irritada”.
Eu me sentia irritada. Me sentia nhianhianhianhianhiá. Fiz de
novo o que não ia fazer. (Então devo ter tomado uma
resolução, a qual não tinha tornado presente até agora.) Ontem
à noite falei demais, alto demais-— um papo realmente
estúpido. Sinto como se tivesse vomitado durante horas e
horas. Isso não pode ser verdade.
Saí da minha cabana às quinze para as onze e voltei às onze e
meia, e não falei o tempo todo. Mesmo assim, parecem ter
sido horas, a noite inteira, como se eu tivesse estado envolta
numa nuvem de tagarelice maior do que a noite.
Eu não quero isso. É um dos meus problemas na minha
própria sociedade. A minha própria sociedade está aqui, e eu
estou buscando um jeito de viver dentro dela, aqui, onde
também recebo um apoio que não encontro na maioria dos
outros lugares.
Não foi tudo lixo. Só 95%.
Respondi perguntas, perguntas totalmente sem sentido tais
como o que o meu filho faz, o que a minha filha faz. A mulher
com quem conversei sabe que não quero fazer isso. Eu não
sou responsável por ela. Eu fui inútil para nós duas não sendo
responsiva a mim mesma. Uma vez notei o que estava fazendo
— e deixei. De maneira geral, gosto do rosto dessa mulher —
uma mistura de carrancas e sorrisos se mexendo, como cores
mutáveis que se sobrepõem.
Isso é algo que aprendi a fazer quando estava entediada e não
sabia o que fazer. Esse não-saber que o tempo passou. Ainda
continuo a fazer isso. Um padrão de comportamento obsoleto.
Um instante atrás, pensei: “Bem, lá se vai outra teoria” —
aquilo que percebo toma conta de si mesmo. Tenho percebido
esta minha estupidez por muito tempo e ela ainda não se foi.
Bem, mas esse perceber é depois, e eu tomo uma resolução de
não fazer outra vez. Desse jeito, só posso perder.
E, em primeiro lugar, ontem à noite eu fui até a Casa lá de
cima porque pensei (sic) que “deveria”, não porque quisesse
ir. Desse jeito só tenho a perder.
Mais cedo, nessa mesma noite, quando ainda não estava
cansada, estava muito melhor com aquela mulher, embora não
estivesse perfeito.
Gosto dela. Se eu não prestar mais atenção em mim, vou
começar a desgostar dela, talvez chegue mesmo a detestá-la e
evitá-la. Sentirei que estou me mantendo intacta, e estarei —
inclusive evitando a mim mesma. Este evitar não é deliberado.
Agora que sei mais a respeito do que sou, deste processo,
quero estar “com ele” ainda mais. Qualquer outro “com ele”
é ilusão.
Tenho estado a escrever o que vem. Neste instante, saí disso.
Escrevi um parágrafo três vezes antes de perceber que não
estou com vontade de continuar agora, que estou tentando
dizer alguma coisa. Então, torna-se “trabalho”. Tenho estado
pensando sobre, que é como... Bem, como falar sobre.
Nos grupos de Gestalt (aqui estou de novo interessada, alerta,
curiosa para ver o que virá a seguir) a pessoa que ocupa o
lugar quente às vezes recebe a exigência de não “fofocar ”.
Falar diretamente para a pessoa. É irrelevante se o que você
tem a dizer é “bom” ou “mim”, “negativo” ou “positivo”. Não
diga a outra pessoa “Ele...”, mas volte-se para a pessoa de
quem você está falando e diga “Você...”. Se a pessoa de quem
você está falando não estiver presente, coloque-a (isto é,
fantasie) no banquinho vazio em frente de você, e converse
com ela.
Essa exigência de não fofocar é feita dentro de uma situação
concreta. A pessoa troca de lugar. Ao fazer isso, nota -se tanta
coisa além do que pode ser possivelmente dito, e tudo isso
torna-se parte dela com o experienciar.
Eu, como membro do grupo, não tive a experiência dela, mas
tive a minha experiência do que sucedeu, e posso fazer isso
outras vezes sozinha, seja dentro do grupo ou fora dele:
diretamente, com uma cadeira vazia ou seja lá o que for.
Se eu fizer disso uma regra, o que não é Gestalt, estou em
apuros.
Na cozinha um homem expressou a sensação de estar sendo
enganado por um terapeuta que não estava fazendo um bom
trabalho. Uma moça (ela tem idade suficiente para ser mulher,
mas não cresceu tanto assim) disse: “Bem, ele passou por
maus bocados” e acrescentou umas poucas palavras sobre a
vida pessoal do homem (o “porquê” que apaga o que está
acontecendo). Então ela tremeu, olhou por cima do ombro.
“Sinto que há alguém parado atrás de mim. Estou fofocando.”
“Não fofoque” virou uma regra, uma proibição, outro saco nas
costas, quando tantos outros sacos já dificultaram o
crescimento dela.
Isso não é gestalt e nem Gestalt.
Supressão não é nenhum tipo de terapia.
“Eu me sinto frustrado em explicar que Gestalt não são
regras.”
Essa é a maldição: procurar regras e encontrá-las. Se você
encontra regras, não entendeu a Gestalt. E tampouco
entendeu a terapia centrada no cliente. E nem Jesu s, nem
Buda, nem John Dewey, nem Maria Montessori ou A. S. Neil.
Você pode aprender com o Mestre, mas depois você precisa
jogá-lo fora e prosseguir sozinho. É como aquilo que Szent-
Gyorgi escreveu a um jovem de Londres que tinha
perguntado: “Como devo pesquisar?”. A resposta de Szent-
Gyorgi foi: “Pesquise de acordo com a sua personalidade, se
tiver”.
Fritz: “Miquelângelo teria sido escultor mesmo que não
tivesse cinzel”.
“Eu só perguntei se você tem presente aquilo que está
fazendo. Eu não disse para você não fazer.”

Um livro é uma coisa curiosa. Entre esses dois parágrafos


preparei um molho. A vida também é curiosa, mais ou menos
da mesma forma.

De manhã, Teddy, Don e David reúnem as pessoas em


pequenos grupos, cerca de dez em cada um. De noite, Fritz se
reúne conosco durante duas horas ou mais. Parece que ele
pensa que deve dar algumas palestras. A primeira não
demorou muito. A segunda foi ainda mais curta. Ele disse que
estava tendo dificuldades com o que falar, que não gosta de
se repetir e é claro que ele já disse tudo antes. Depois disso,
algumas pessoas foram para o lugar quente, e ele “trabalhou”
com elas. Ele está mais suave, mais gentil, mas igualmente
firme e preciso. Não detectei nenhuma amargura ou rancor, e
havia mais compaixão. Ele parece mais à vontade. “Deve
haver algo para o meu método. Eu ainda estou aprendendo.”

Não completei a parte referente ao “não fofocar”. Notando o


não fofocar — o que acontece — notei também muitas outras
coisas. Como é simples ficar com aquilo que eu sei, que é tudo
que sei. Como fico desbloqueada quando elimino o que ouvi,
o que não sei, coisas que apenas acredito ou não acredito.
Muitas vezes um índio diz: “Não sei”, e os brancos estão
seguros de que o índio está mentindo porque ele deve saber (o
que aconteceu em Chilchinbito ontem à noite) — o irmão dele
esteve lá.
Wilfred Pelletier diz dos índios, incluindo a si mesmo: “Ele
só responderá uma pergunta de cada vez”. Gosto disso.
Quantas vezes me foram dadas tantas “respostas” que não
eram respostas para a minha uma pergunta. “Você tem visto
o Hal recentemente?” “Não”, seria uma resposta. Ou, “dois
meses atrás”, seria uma resposta. Neste caso, eles não podem
saber aquilo que eu quero saber sobre o Hal. Recebo toda a
“informação” sobre onde e quando viram o Hal, e o que
aconteceu antes e depois, e onde ele andou antes de o
encontrarem onde ele estava. Isso pode ser fascinante para
eles. Para mim não tem interesse. Não tem nada a ver com a
minha pergunta.
Será que eu faço isso? Estou certa que agora notarei quando
fizer.
Gostei tanto do Alex, um menininho que estava visitando o
amigo na casa em que eu vivia. Uma mulher perguntou: “Você
tem algum irmão ou irmã?”.
“Tenho”, respondeu Alex.

Hoje Fritz veio e disse: “Sobre a carta do John...”. Eu não


sabia nada sobre uma carta do John. Fritz mencionou “a
introdução”, “brochura”. Tudo ficou claro à medida que
prosseguíamos, e quando ele saiu, escrevi a carta que ele
queria que eu escrevesse, embora não tivesse dito.
Gosto disso. E lento, dar apenas a informação necessária, com
espaços no meio para reunir as imagens e completar a figura.
Quando o Fritz foi embora, a minha figura estava completa.
Eu não tinha perguntas.

Wilf Pelletier escreve: “A língua indígena não pinta um


retrato da mesma maneira que a língua inglesa. Ou seja, em
inglês, a maioria das pessoas tende a falar de detalhes, e
também sobre o óbvio. Em língua indígena, isto é, nos
dialetos que conheço, não se fala do óbvio. Não se diz bom
dia se é óbvio que é um bom dia, e nem se fala das condições
da estrada se é óbvio para a outra pessoa que ela também sabe
disso. Posso estar até certo ponto enfatizando isto em
demasia, mas é só para deixar a coisa clara. Quando falo de
uma linguagem pictórica, quero dizer que você forma suas
próprias imagens daquilo que aconteceu, na medida em que
os índios contam só o começo e o fim. Você então forma as
suas próprias imagens do que aconteceu e como você se
relaciona com o fato, e não como lhe seria dito em inglês, com
todas as palavras inseridas... Essas importantes dife renças
relacionam-se com a organização de muitas maneiras.
Quando um grupo de pessoas indígenas se junta para formar -
uma organização, elas não falaram em se organizar ou formar
uma organização. Em vez disso, falaram de como se
relacionam com isso. Não houve necessidade de se falar sobre
a organização, porque foi por isso que elas se reuniram
inicialmente”. 6
Isto é semelhante à minha experiência no Clube de
Melhoramentos de Koolaupoko, em Oahu, que se formou
sozinho porque muitos havaianos estavam interessados em
manter melhoramentos indesejáveis /ora de Koolaupoko.
Eu me tornei membro da direção. Não recebi votos e nem fui
indicada — simplesmente aconteceu quando o lugar foi bom
para mim. Foi só mais tarde que percebi como era poderosa a
nossa organização não-organizada, quando um membro das
Cinco Grandes (as cinco empresas que controlavam as ilhas
na época) veio para nos destruir, e teve de fazer um jogo sujo
para conseguir — e não conseguiu. Eles só pareciam ter nos
destruído. Foi preciso o ataque japonês a Pearl Harbor e as
consequentes uniões, e Henry Kaiser para consegui -lo
realmente. Esse trio acabou com todo estilo de vida do Havaí.

6
“Two Articles”, por Wilfred Pelletier, brochura, possível de ser
conseguida por U$ 1.00 por intermédio do Institute of Indian Studies,
Rochdale College, 341 Bloor Street West, Toronto 181, Ontario, Canadá.
(N. do E.)
O estilo indígena também desapareceu quase totalmente —
não por inteiro, mas nós o eliminamos; e em que bagunça nós
estamos agora —. não ouço ninguém negando, exceto
oficialmente ou diplomaticamente.
Quando terminei Person to Person, eu tinha aprendido tanto
com o fato de fazer o livro, que não me importava se ele fosse
publicado ou não. Agora, Kolman me diz que foi para Nova
York antes de vir para cá e um amigo lhe deu o Person to
Person. Ele manifesta a força que o livro lhe deu para
prosseguir no seu próprio caminho — recentemente
escolhido. Eu me sinto bem por meu filho ter assumido o risco
de entrar no negócio de publicações — um novo
empreendimento, sem experiência anterior no ramo e com
todo o mundo dizendo que ele iria fracassar porque não
conseguiria distribuição — para o livro chegar até as pessoas.
Por esta razão, ele manteve o custo mais baixo possível,
inclusive seu próprio lucro. Esta não é The American Way —
A Maneira Americana. Eu gosto. Não é muita gente que
aprecia o fato de a minha falta de dinheiro ser uma escolha
minha — não que fizesse muita diferença para os que não
apreciam. Eu seria louca, em vez de estúpida, só isso, de
escolher esta maneira. Eu gosto de dinheiro como todo o
mundo. Gostaria de ter montes de dinheiro. Só que não
consigo colocar o dinheiro em primeiro lugar, exceto numa
emergência. Há muito poucas emergências reais. Eu me sentia
mal em relação a essas poucas emergências até que li no
Panchatantra: “Não se entregue à escassez excessiva (um
pouco ajuda, em tempos difíceis)”.
Outras passagens são como:
Ao seguir as profissões
São feitas
Fatigantes concessões
Aos mestres
O sentido é mais do que a ciência
Portanto, busca a inteligência.
Parece estranho que há 3 mil anos houvesse este mesmo
problema com o qual estamos começando a lidar.
Eu gostaria que todo o mundo que julga importante ser
sofisticado, procurasse o significado da palavra no Oxford
Concise Dictionary. Ali o sentido não foi adulterado. Ou,
procure a derivação da palavra no Webster’s. Note quando
você se sente sofisticado, e aí está a descoberta sem
dicionário.
No início, quando somos jovens, sabemos disso por nós
mesmos. Nós “vestimos” essa roupa. Não percebemos que
todo o mundo também o faz e, quando ficam mais velhos, é
provável que tenham esquecido.
Uma das minhas amigas tem uma filha que ficou cega poucos
dias depois de nascer. Ela nasceu prematuramente e recebeu
oxigênio demais. Seus olhos murcharam como frutas secas.
Ela não é só cega. Ela não tem olhos. Na adolescência ela diz:
“Ugh! Não gosto dele. Ele é horrível”. “Detesto a cor desse
vestido!” São coisas que as irmãs dizem. Quantas coisas digo
eu, das quais não tenho experiência, só “conhecimento”?

Existe Walden, e existe Walden Twe. Aqui me parece ser


Walden Five, potencialmente. Kolman está maravilhado
porque na fazenda que ele achou para nós — embora ainda
não saibamos se vamos ficar com ela — parte do cenário
chama-se Skinner’s Bluf (O Blefe de Skinner), e por perto há
Walden.
Ontem à noite ele nos mostrou mapas e ressaltou que a
fazenda está numa “área muito estratégica — terras indígenas
de ambos os lados.” Os índios nos protegerão da invasão de
outros homens brancos.

A cada novo workshop penso a mesma coisa: “Parece que


desta vez não temos judeus”. Então as pessoas começam a se
referir ao seu judaísmo de uma forma ou de outra, ou dizem
algo como: “Para mim a liana parece irlandesa”, e então
alguém diz, depois de ficar assombrado: “Só posso dizer que
isso é opinião de goy7”. No fim das quatro semanas, sei que
muitos de nós são judeus. E então aparece um novo monte de
goys.
Fritz... Eu ia escrever algo sobre o Fritz. Joguei a primeira
palavra que me veio à cabeça, depois a seguinte, depois a
seguinte. Todas elas foram usadas de forma tão extravagante
que pareciam depreciativas. Começo de novo.
Esta noite eu disse ao Fritz o que notei no seu trabalho desde
que ele voltou. Ou melhor, eu disse que tinha notado e o meu
prazer em notar. Ele respondeu — sem orgulho ou exibição,
como um simples fato: “Finalmente sou perfeito. Cheguei.
Não posso fazer melhor”. Tenho a mesma sensação em
relação ao que ele faz agora — ou como ele é. Agora que ele
é perfeito à sua maneira, por quanto tempo estará interessado
em prosseguir?
Fora dos grupos ele não tem estado a cortejar ou exigir
aprovação. Deixou as pessoas dirigirem a comunidade cada
vez mais, confiando nelas. E isso inclui os assuntos
financeiros de Cowichan Lodge. Isso é confiança nas pessoas
— pois estas mudam e o lugar continua.
Perguntei ao Fritz a respeito de uma continuação da sua
autobiografia, sentindo que Fritz-agora não está muito no
Garbage Pail. Ele respondeu que não é mais ambicioso. No
sentido da autobiografia, não há dúvida de que ele estava
sendo sincero. Ele ainda está ansioso de ver o Garbage Pail
em forma de livro. Para mim, isso é parte de ambição. A sua
ansiedade não tem pressa como tinha antes, de modo que
talvez ela também esteja desaparecendo.
Sob este aspecto eu não tenho ambição. O que me interessa é
o que eu tiro deste escrever. Se ninguém ler, não faz mal.
Então qual é a minha ambição? As pessoas muitas veze s
reclamaram que eu não a tinha. Van Dusen disse que não era
verdade, que eu era espiritualmente ambiciosa — referindo-
se à ambição de ter mais experiências místicas, creio eu. Não
tenho isso, agora. Tenho sim o desejo de largar todo o lixo da

7
Goy — não-judeu, em iídische. (N. do T.)
minha cabeça. O lixo é muito menor do que era. Mas eu não
quero lixo nenhum.
Esta noite David sugeriu que nos dividíssemos em grupos
menores, usando mais gente como terapeutas. Fritz parecia ter
isso em mente. Ele fará a mudança no domingo à noite —
anunciando os terapeutas que tem na cabeça.
Quero fazer isso, por causa daquilo que eu ganho fazendo. De
qualquer maneira, teria de fazer mais do que faço. Tenho
medo de fazer — expectativas — porque estou (agora) me
comparando com Fritz e David aqui, e com Bob Hall em Mill
Valley, Larry Bloomberg em São Francisco, Frank Rubenfeld
em Nova York. Isto é parte do lixo do qual eu gostaria de me
livrar. Geralmente não me comparo com os outros. Nesta
situação, certamente, estou me comparando e não gosto. A
fantasia mostra o que espero, quando nem mesmo sei se Fritz
irá me incluir... Aparece outra coisa. Eu ser líder de um grupo
que inclui terapeutas! Estou no mesmo barco que o Kolman,
um barco do qual pensei ter saído anos atrás — falta de
confiança na minha capacidade por não ter tido anos de
“treinamento” atrás de mim. Eu sei bem, e isso não me faz
nem um pouco bem — uma típica situação neurótica. Quero
trabalhar comigo mesma para me livrar disso, e ao mesmo
tempo parece ser demais para mim, uma muralha de
dificuldades — construída por mim mesma, para poder passar
por ela — que eu sinto que é demais para mim. “Preciso de
ajuda.” Não preciso de ajuda. Posso me virar sozinha. Posso
sim.
Não tenho um plano.
Consegui.

Incestuoso.
Uma perfeita casa de loucos.
Nesta manhã é isto que este lugar está sendo para mim.
Esta sou eu?
Comprimida. Sou eu. Eu me sinto assim.
Ontem à noite saí da fantasia e entrei nisso, que eu sinto ser
diferente. A minha cabeça está quase toda vazia. Entram
alguns pensamentos. Não estou ensaiando. Não estou
respondendo ao lago, ao pato selvagem no lago, ou a mim.
Estou um pouco zangada.
Não estou sendo responsiva. Estou ignorando. Em algum
nível ainda discutindo comigo mesma. Neste instante, notei
outra vez o pato e o reflexo do pato na água — agora ele
mergulhou. Há somente círculos. Onde será que ele vai subir?
Agora, subiu, com algo na boca —- mergulhou outra vez. Ele
não discute consigo mesmo. Ele sabe.
Então, o que sei eu?
Sei que quero tomar uma chuveirada.

Vou embora daqui.


Quando estava assoando o nariz pensei: “Para quanto vai
diminuir o dinheiro que tenho no Canadá quando eu voltar
para os Estados Unidos?”. Isso é ir embora. Uma decisão já
tomada sem que eu tenha decidido. A hora de ir embora ainda
não se fez totalmente presente. Eu me sinto forte.
Fui até o ancoradouro. Ali estava maravilhoso, com as casas
coloridas refletidas na água, o ar tão fresco e puro.
“Voltar para os Estados Unidos? O que vou fazer lá, com a
mesma fragmentação de vida da qual não gosto aqui, e a
nuvem de poluição...”
Nenhuma resposta. Senti vontade de voltar para a minha
cabana, fazer as malas, jogar coisas fora, livrar-me do excesso
de bagagem. Na volta, ouvi os gritos vindos de um grupo, os
berros, e fiquei sabendo que todo o mundo estava envolvido
em algo semelhante nas duas outras salas que estão sendo
usadas por grupos. Eu me senti como a governanta de uma
casa de loucos enquanto caminhava pela grama. Comecei a
discutir comigo mesma: “É claro que não é assim”. Se “é” ou
“não é”, nada tem a ver comigo. Isso é o que eu sinto, e isso
é o que tem a ver comigo — e com mais ninguém.
O que ganhei aqui irá embora comigo, e me sinto bem com
isso.

Obrigada!
Você era o que eu precisava.
Amarei você para sempre!
Tchau!

O meu “amar para sempre” mudará se eu ficar, quando você


não for mais o que preciso.
Penso em fazer as malas e parece ridículo. Para que estou
fazendo as malas? Não sei para onde vou. Talvez seja apenas
uma fantasia, e daqui a pouco as malas estarão desfeitas outra
vez. “Estúpida, para que a pressa?”
Não há pressa. Não me sinto apressada. Só estou com vontade
de fazer as malas, e isso me faz bem, mesmo que eu deteste
fazer malas. Eu gosto de jogar fora.
Ganhei tanta coisa estando aqui. Isso me faz sentir bem. Sei
de algo que não sabia, corrijo um erro antes de cometê-lo, e
isso me faz sentir bem. Pensei que estava bem ter um centro
de treinamento num kibutz. Agora, sei que não quero esse
centro no meu kibutz.
Sinto que tenho tanta bagagem. Uggh.

“Carta do meu filho.” (Do meu ex-filho. Agora ele é dele


mesmo.) No último fim de semana tivemos o workshop com
o grupo de Ralston. Eu me saí muito bem! No início, sexta-
feira à noite, eu estava um pouco incerto (meu “menininho”),
dei a fantasia do tronco-cabana-corrente-de-água para
principiar. Uma moça entrou de verdade na cabana dela e
começou a chorar, então trabalhei com isso. Naquela noite e
no sábado de manhã eu não estava realmente ali, embora
tivesse havido um bom trabalho.
No sábado à tarde, depois do almoço, começaram os rojões.
Uma pessoa deu o primeiro disparo e aconteceram umas
coisas lindas. Eu estava todo lá e foi (fui) ótim o. Uma moça
tinha um bebê de treze meses com coração ruim; eles
decidiram fazer uma operação que não teve êxito. Ela te m
estado a se culpar durante dezesseis anos, mas desta vez ela
realmente ultrapassou. Ela trabalhou com isso alguns anos
atrás. Só o pensar não adiantou. Mas quando ela representou
o bebê e disse que ela (bebê) também queria a operação para
ter uma chance de vida plena, então conseguiu se soltar e
dizer adeus.
Depois dela, uma mulher ficou realmente louca, e estou
dizendo louca mesmo. Fazendo papel de louca, realmente.
Tombando, contorcendo-se, gestos esquizos, fora de contato,
chorando, berrando etc. Eu simplesmente notei a minha
própria indiferença aos ataques dela, e depois de ela ter
ignorado algumas instruções, apenas relaxei e esperei ela
acabar. Então lhe perguntei para que toda a encenação. Ela
ficou parada, e depois saiu por outra tangente. Finalmente, eu
a fiz relaxar (entrar de novo em contato com o corpo e
conosco) e ficamos por aí. Fiquei calmo o tempo todo,
entorpecido e sem rejeitar apenas — vagamente interessado.
A maioria das pessoas foi envolvida pelo espetáculo, e
silenciosamente elas abriram a boca quando perguntei para
que a encenação. Foi algo realmente novo para mim.
Meu Deus! As pessoas certamente são diferentes — embora
eu possa ver padrões fundamentais, a variedade é fantástica.
E eu ainda tenho muito a aprender! Acho que ainda vou ter de
aprender por uns dez-quinze anos e acumular um monte de
experiência para saber a metade daquilo que pode acontecer.
Divertido.
As minhas aulas estão indo bem — realmente agitando. Na
sexta-feira, uma moça de trinta anos saiu soluçando de uma
viagem de fantasia. Hoje ela entrou parecendo um farol. Na
sexta ela entrou em contato, trabalhou durante o fim de
semana e ultrapassou alguma coisa.

“Simplesmente notei a minha própria indiferença.’’


Isso é tudo. Que controvérsias eu tive para notar que quero ir
embora daqui. Não uma decisão que eu-ego tomei. Tudo que
eu tinha a fazer era notar.
No final, foi o que eu fiz.
Se orgulho ou vergonha, ou bom ou ruim, ou qualquer opinião
estiver presente, não estou “toda aí”.

Se a esta altura alguém pensa que eu levei o meu filho à


Gestalt, volte para o início. E ele também não está me
levando. Quando aos dezoito anos ele requereu o status de
CO 8, houve a usual investigação do FBI e o FBI lhe enviou
um resumo. Não foram citadas pessoas. Lugares sim. Foi
citado algo daquilo que as pessoas tinham dito. Cerca de
metade delas dizia que eu o tinha sob controle. A outra metade
dizia que quem me controlava era ele. As pessoas de cada lado
viam um aspecto do que ocorria, que na verdade é um oscilar
para a frente e para trás. Aos 23 anos, meu filho disse:
“Vamos encarar os fatos. Você é uma terapeuta para mim e eu
sou um terapeuta para você”.
Foi ele quem me trouxe um artigo de Carl Rogers, que veio a
criar Person to Person. Ele não acompanhou isso. Ele estava
lendo e relendo o Metamorphosis de Schachtel, que eu só li
uma vez e me chateei, exceto num capítulo.
Nós nos víamos apenas cerca de duas semanas por ano na
época em que me interessei por psicologia em Albuquerque,
e ele se interessou por psicologia em Pasadena. O meu
interesse surgiu das descobertas que fiz quando estive doente.
O interesse dele surgiu quando esteve em Caltech onde “vi
tanta gente que não está vivendo suas potencialidades.” Na

8
CO — Conscientious Objector — Objetor Consciencioso. Nos EUA
pode-se pedir isenção de serviço militar ou de participação em guerra,
apresentando-se justificativas aceitáveis e conscienciosas. Essas
justificativas são examinadas por uma comissão, e, uma vez aceitas, o
requerente obtém o status de objetor consciencioso, e a isenção do
serviço. (N. do T.)
época ele estudava química.
Química nunca me interessou. Ele queria estudar vírus e
genética. Antes disso, queria ir para uma escola agrícola e
aprender agricultura de uma forma que não me interessa. As
pessoas me disseram que eu o estava arruinando, permitindo
que ele fizesse isso. “Ele tem uma cabeça tão boa” (como se
uma cabeça boa não pudesse ser usada em qualquer coisa).
Antes disso, eu o estava arruinando ao permitir que ele
frequentasse escolas pobres, e deixando-o faltar muito às
aulas. “Ele nunca será capaz de ir para uma universidade.”
Gastei tanta energia rechaçando tudo isso — dele e de mim
mesma. Então, quando ele se candidatou a Caltech e Berkeley,
e foi aceito em ambos os lugares, as mesmas pessoas
disseram: “Não se pode deixar uma cabeça boa ficar por
baixo”.

Aqui em Lake Cowichan, algumas pessoas que têm passado


ou participado dos workshops me falaram do seu entusiasmo
pelo livro Person to Person.
O verdadeiro entusiasmo é apreciação. O entusiasmo falso
também recebo — é depreciação. Essa gente chegou até aqui.
Eu cheguei até aqui.
Acontece.

Aqui sou muito menos espontânea do que em muitos outros


lugares.
Aqui muitos profissionais acham o lugar fantasticamente
livre, o que é verdade, tratando-se de um instituto
psicoterapêutico. Estou descobrindo meios de liberar as
pessoas para a (verdadeira) espontaneidade. Quando eu for
embora, levarei isso comigo.
Eu também sou gente.
Após três noites de funcionamento perfeito como gestalt -
terapeuta, ontem à noite Fritz não esteve tão bem. “Três
passos para a frente e dois para trás?”, diz o Fritz às vezes,
referindo-se a como as pessoas se movem em terapia. Sempre
me pareceu que é dessa maneira que as crianças crescem. Às
vezes, por algum tempo, parecem ser cinco passos para trás,
e então são seis passos para a frente.
Em todo caso, ontem à noite ele começou seguindo uma pista
falsa. Seguiu um sistema em vez de notar a si mesmo. Ele fe z
isso durante um bom tempo, quando estava claro que a coisa
não estava levando a nada, e então se desmascarou dizendo:
“Volte aqui. Estamos num beco sem saída”. Deu um
diagnóstico a um, uma receita a outro. No fim das duas horas,
disse: “Esta noite estou lerdo”.
No Garbage Pail, ele diz que a maior parte da sua vida foi
passada em confusão, mas finalmente ele aprendeu a deixar a
confusão ser.
E isso que eu finalmente aprendi, quando estive doente, a
respeito do caos. Quando tentava sair dele, juntar os p edaços,
eu ficava exausta e não chegava a nada. Quando aprendi a
deixar a coisa ser, saí do caos.

Pensei (sic) que continuaria acabando negócios inacabados,


que é parte de um arrumar de malas sem pressa. Esta manhã
nem pensei nisso quando comecei a escrever. Agora, isso
emerge, e continuo. Não é importante, apenas conveni ente.
Ontem à noite refiz a gola de um vestido novo que estava se
desmanchando porque não tinha sido bem feita. Agora, posso
usar o vestido, em vez de ficar carregando. Quando ultrapasso
este tipo de situação inacabada (às vezes livrando -me dela,
jogando-a fora) muita coisa fica clara na minha cabeça. Fritz
diz que precisamos aprender a “limpar a nossa própria
bunda”. Para mim, é parte disso. Agora não me sinto
carregada, e ninguém ficará carregado se eu morrer.
Não faço isso diariamente ou com alguma programação. É
como poeira acumulada até se tornar demais. Às vezes sinto
falta desse tipo de programação — como quando transcrevi
durante meses as fitas para o Verbatim e esqueci toda a
correspondência — mas em geral não se acumula tanto.
A cabana do Fritz está cheia de negócios inacabados. Quando
eu tinha casa e família, dava uma busca na casa duas vezes
por ano, e tudo que não tivesse sido usado ou apreciado por
seis meses não valia a pena ser mantido.
Nós temos tanto medo de podermos precisar de algo no f uturo.
Glenn, que trabalhou com grandes empresas, diz que montes
de coisas são jogados fora, inclusive papéis importantes, e
simplesmente se diz: “Não está aqui”. O mundo não se
acaba... Lembre-me do horror do meu marido quando joguei
fora a minha certidão de casamento logo depois que nos
casamos. Ele disse que algum dia eu poderia precisar dela.
Nós atulhamos as nossas vidas e neuroticamente nos
lamentamos dos nossos fardos. Como o fardo do homem
branco querendo estragar o mundo em vez de deixá-lo ser
como é. Agora estamos amontoando coisas na estratosfera e
na Lua. E não me venha com “Não se pode impedir o
progresso”. O que temos a fazer é simplesmente parar de
chamar isso de progresso.
Agora estou novamente vazia, e os outros negócios
inacabados voltam a aparecer.
Deixo a máquina de escrever, com um leve interesse naquilo
que irá aparecer e preencher o resto desta página quando eu
voltar... Neste instante, pensei em outra coisa. Não importa.
Ou ela volta depois, ou aparece alguma outra coisa.
Com os milhões de coisas para dizer e os milhões de modos
de dizê-las, que importa qual delas aparece ou qual vai ser a
próxima? Alguns irão gostar mais de uma do que de outra,
outros gostarão mais da outra do que da uma. Algum tipo de
ordem interna se faz por si só, no tempo certo.

Simplifique. A quem você está tentando impressionar?

Tomei uma chuveirada, me vesti, comi, lavei os pratos e


algumas roupas.
Agora, estou sendo fortemente atraída para a máquina, a fim
de escrever o que descobri.
Algumas semanas atrás cheguei aqui vinda de Vancouver (e
antes de saber que vinha para cá, disse ao Fritz que queria dar
início a um sítio ou fazenda com um núcleo de pessoas, e
quando tivéssemos arranjado as coisas, outr as poderiam vir.
Ele disse: “Ah!”, e achei que estivesse concordando comigo
— que estivéssemos vendo a mesma coisa. Viemos para cá, e
logo me pareceu que ele estava deixando a ideia de um núcleo
trazendo tanta gente, quaisquer que fossem as razões —
ganhar mais dinheiro, difundir a Gestalt, foram duas que me
ocorreram. Mas pode ser que ele visse um “núcleo” de forma
diferente da que eu vejo...
O meu modo de ver, expandido com a experiência que tive
aqui, é o seguinte:
Alguns de nós, que vivemos mais à maneira Gestalt, dariam
início ao lugar, como quando nos mudamos para cá — pessoas
dispostas a assumir um risco, que não precisam ter “toda” a
informação de antemão (que, em todo caso, não é possível).
Eu era uma dessas que esperava dormir no chão porque
embora a casa de dois quartos estivesse vazia no dia que
chegamos, os proprietários relutavam em abandonar as
cabanas. Comprei um saco de dormir que podia ser aberto,
como um acolchoado, e uma manta que também podia ser
usada como poncho. Não precisei dormir no chão. Usei o
acolchoado, e o poncho quando chovia. Ainda não dormi no
chão, mas não sabia disso.
Ontem um psiquiatra que é coronel da Força Aérea chegou
com a esposa e seis filhos. Eles conheceram o Fritz em Esalen
no último fim de semana. (Hoje é sexta-feira.) Nesse meio
tempo, decidiram vir para cá, vieram com as seis crianças,
alugaram uma casa em Lake Cowichan antes de chegarem a
este lugar. Eles cuidaram de si mesmos. Queriam vir. Vieram.
Não se preocuparam em conseguir “todos os detalhes”.
Patos selvagens voando, às vezes descendo até o lago.
Fritz entrou e perguntou se eu queria ser líder por uma semana
— quando em fantasia estou me mudando para Okanagan.
(Decidi voltar para lá e procurar um sítio novamente — fiquei
realmente interessada em ir.) Não gostei de “desistir” disso.
Agora, sei que estou com medo de liderar um grupo
novamente, então é melhor fazê-lo ou ficarei carregando o
medo comigo para sempre, até fazer. Ficarei com medo até de
explorar Okanagan. Gostaria que o grupo começasse já, e não
na semana que vem. Não quero mergulhar no escrever e
“esquecer”. Quanto mais vivo agora, em contato comigo
agora e com todo o resto agora, notando os ensaios que
começam, melhor o farei.
Neste instante o meu agora é que estou com medo, e o meu
peito dói e quero chorar um pouco. Gostaria também de
berrar, e não quero fazer isso em grupo. Então, que aconteça.

Deixando a dor/medo tomar conta de mim — expressar-se em


som e movimento — agora já não estou tomada de dor e medo.
E ah! o mundo parece tão claro e brilhante!

Fritz mencionou que um dos psiquiatras que está aqui em


treinamento toma conta de sessenta pessoas num hospital, e
vai mudar as coisas ali, e convidou o Fritz a ir fazer algo. Fritz
não se incomoda com os detalhes, e eu não quero ser
incomodada por eles. Conversa de índios. Você forma a sua
própria figura, e quando isso é feito dessa maneira você (eu)
vive à vontade com ela e não se desgasta da maneira que
acontece quando você (eu) (as pessoas) recebe toda a
informação, e tem certeza (espera) que é assim qu e eles
pensam que é, e então não é.
Esse psiquiatra me disse: “Você não quer um emprego,
quer?”. Claro que não quero.
Durante oito anos, por insistência do meu marido e por eu
desejar mantê-lo feliz (sem saber que só ele podia fazer isso,
e de qualquer maneira era uma ideia tola) fui (com ele) assistir
a todos os filmes documentários sobre o Havaí.
Achei um distribuidor que me mantinha informada e íamos ao
Brooklyn, Queens, subúrbios, Centro, a qualquer lugar para
assisti-los. Li sobre o Havaí.
Aprendi tanto que certa noite num jantar, sentada ao lado de
um jovem que tinha estado lá, falei com tanta facilidade sobre
as ilhas, como se eu tivesse estado (“Você conhece aquela
prainha, Lumahai, logo atrás de Hanalei”, e assim por diante),
que ele finalmente disse: “Não conheço. Só estive lá por seis
meses”. As palavras eram ótimas, mas quando cheguei lá, o
que eu tinha jia cabeça não tinha nada, ou muito pouco, a ver
com o Havaí.
Fritz disse: “Tenho estado tão feliz aqui desde que voltei”.
Acredito nele.
Sentir-se “indolente” não precisa necessariamente ser infeliz.
E só quando eu penso que “deveria” ser outra coisa é que fico
infeliz, e tento mudar. A indolência é. A dor é. A tristeza é.
Felicidade é deixar todos os acontecimentos acontecerem. 9
E vejo também (com tão poucas palavras por parte dele) que
o núcleo dele está certo para ele. O meu está certo para mim.
Então, continuo com o meu.
Este núcleo de gente chegará a um bom funcionamento à
maneira da Gestalt — não um funcionamento perfeito. Isso
seria realmente fantasia. Mas as pessoas irão pegar o jeito. E
outra gente ouvirá falar do lugar... Até aí, tudo bem. Isso
acontecerá com certeza. Se eu for adiante, como estava
prestes a ir, estragarei tudo. Os intelectos irão se apegar
àquilo que eu digo, e isso vai estragar tudo. Então, é este aqui
o fim das páginas que eu “ia” escrever.
Ainda estou contente de ter começado a “arrumar as malas”,
de ter começado a me mexer nessa direção. Sinto que está
certo.
É claro que aprendi muita coisa aqui, foi o que eu disse esta
manhã ao Fritz. É claro que sim. Algumas vezes pensei “não
quero este lugar”. E aí que entra o futuro. Fiquei aqui. Saí e
voltei. Enquanto estou aqui, é porque quero.
Mesmo pensando (faz tempo que não penso assim, mas há
muitos anos eu pensava) que estou aqui porque não há outro
lugar para ir, não é por causa disso. Sempre há outro lugar
para ir. Escolhi este lugar porque o preferi em vez de outras
alternativas. A minha escolha pode ter sido boa ou má, mas
continua sendo a minha escolha, e não tem sentido dizer que
fui “forçada” a isso. “Eu não podia fazer outra coisa.” O
mundo está cheio de outras coisas.
Não tenho outra coisa a não ser outras coisas.
Quando o “eu não podia fazer outra coisa” é organísmico,
sempre dá certo. Quando Mimi me disse que afinal não estava
grávida, que ficara menstruada, e não ia comigo e com o
marido para a cidade — noventa milhas em estrada de terra

9
Hapiness is letting all the happenings happen. (N. do T.)
— eu não tinha nenhuma “informação” a não ser essa. Eu não
gostava da Mimi e achava que era melhor ela não ter um filho.
De alguma maneira, a eu organísmica sintetizou as coisas,
independentemente do meu “pensar”, e disse a Mimi que era
melhor ela ir a um médico. Nada de explicações, nada de
montes de palavras desnecessárias. As palavras que eu disse
saíram de forma clara e firme, definidas sem forçar. Mimi foi
— e ficou dois meses na cidade por ordem do médico. Ela
estava grávida, e se não ficasse sob cuidados médicos, teria
perdido o filho. Eu me senti bem. Se eu tivesse ignorado o
meu conhecimento organísmico, teria me sentido mal. E teria
estado mal. Para mim este é o único “mal” — um erro, a
escolha do errado. Se eu o lamento, eu me apego a ele: o erro
ainda está comigo. É melhor encontrar algum jeito de soltá-
lo. De outra forma, ainda estou cometendo o velho erro.
O que sucedeu comigo/Mimi foi estar presente: eu estava
presente. Então, não sei como tive a resposta.
Deparei com uma página do What is Life (O que é a vida) de
lrwin Schroedinger, que tenho estado carregando durante
anos. Deve fazer uns quinze anos desde que li o livro.
Um gaio azul está andando na relva. Que belo elmo negro ele
veste, da crista até o peito.
Schroedinger cita Theodore Gomperz (seja ele quem for):
Quase toda a nossa educação intelectual origina-se dos
gregos... Você não precisa conhecer as doutrinas e obras dos
grandes mestres da Antiguidade, de Platão e Aristóteles, você
pode nunca ter ouvido falar nesses nomes, e mesmo assim está
sob a magia da autoridade deles. Não só a sua influência nos
foi passada por aqueles que lhes deram continuidade em
tempos antigos e modernos, mas também o nosso pensamento
criativo, as categorias lógicas nas quais ele se movimenta, os
padrões que emprega (sendo portanto dominado por eles) —
tudo isso é em grande parte um artefato, produto dos
pensadores da Antiguidade. Devemos investigar com todo
cuidado o processo do vir-a-ser, a menos que cometamos o
erro de tomar por primitivo o que é resultado de evolução e
crescimento, e por natural o que na verdade é artificial.
O que é “terapia”?
Não psicoterapia ou fisioterapia. Terapia. Para mim não faz
diferença se entro na banheira ou no grupo. Certa vez entrei
numa aguda frustração, quando estava doente tentando (sic)
escrever um parágrafo. Acabaram saindo três páginas.
Finalmente, deixei de lado a loucura e entrei numa banheira
de água quente. Zing! Voltei à época em que tinha doze anos,
revivi três cenas correlacionadas (em diferentes lugares) e
compreendi totalmente (não intelectualmente) algo que tinha
me intrigado durante quarenta anos, e aprendi algo sobre
como “mim” funciona. A maior parte disso não é
particularmente relevante, mas uma das cenas era eu
caminhando pelos passeios de terra na aldeia em que vivia (eu
tinha me esquecido desses passeios de terra), repetindo o
tempo todo: “Não me importa. Não me importa. Não me
importa. Não me importa”, até que não me doesse mais. Eu
tinha tomado a minha própria decisão. Não fui forçada a
tomar. Tudo que minha mãe disse foi: “Ohh”, e o que ouvi na
voz dela me fez, pelo amor que eu lhe tinha (responsabilidade:
habilidade de responder), desistir de uma possibilidade que eu
muito queria, e muito me doeu — primeiro por eu querer,
depois por desistir. A minha decisão foi acertada. Aos doze
anos, eu já tinha me tornado adulta demais para ir à floresta
descarregar em pedras e paus, “descontando” no mundo de
fora, e isso estava errado — não estava certo. Agora, temos
grupos para fazer isso.
Pelo menos estamos começando a fazer sentido, embora uma
porção de falta-de-sentido esteja junto numa série de lugares,
onde a ideia é aceita sem compreensão. Então, há alívio sem
liberação para o crescimento: Fico suficientemente aliviado
para continuar vivendo do jeito que vivia: Posso sempre voltar
para outra dose. Talvez tentando um outro grupo. Dessa
maneira posso conhecer mais gente nova. “Nós, as pessoas do
grupo, sabemos das coisas.” O turbilhão social passado para
outro turbilhão ainda é turbilhão. Curta, cara, curta, não é
incrível?
“Eles chamam isso de dança.”

Fritz está feliz com o “belo exemplo de formação Gestalt” que


descobriu. O retrato em branco e preto de uma mulher com o
cabelo penteado para cima, num peignoir, sentada à
penteadeira, olhando para o grande espelho redondo ond e sua
imagem está refletida. Olhando-se a certa distância, é uma
caveira. O cabelo preto e o reflexo são os buracos dos olhos.
Estou esquecida dos outros detalhes. Qual dos dois é “o
retrato”?

Teddy está limpando a cabana do Fritz. Em torno disso podem


vir todos os tipos de pensamentos — pensamentos bons —
pensamentos mesquinhos.
Posso pensar (sentir) bem disso. Posso pensar (sentir) ma l
disso. Os sentimentos acompanham os meus pensamentos.
Posso deixá-los se misturar e ficar muito confusa.
Então “pense pensamentos bons”.
Não é bom. Ilusão.
Diga todos eles, e eles podem se anular. Nada de
pensamentos. Teddy está limpando a cabana do F ritz. Isso é
real. Todo o resto é fantasia.
Estou escrevendo.
Como vai indo?
Vai indo. Como não sei. Não penso a respeito.
Estou escrevendo.
Sou escritora?
Não.
A minha insistência em nunca me tornar alguma coisa
(carreira) agora faz sentido para mim. Às vezes me parecia
uma idiotice. Se eu me tornasse algo, pensaria em mim mesma
como sendo aquilo, me moldaria àquilo, e seria aquilo, que é
uma ilusão.
Neste instante fui ao banheiro. Pensei: “Preciso dizer ao Fritz
que a minha resposta é Sim.” Não veio nenhum medo. Nada
de imagens ou pensamentos "do que farei”. Simplesmente
Sim.
Todos os meus “porquês” para não querer liderar um grupo
aqui agora eram perfeitamente bons. O único problema é que
eram fantasias. Até chegar o momento, eu não podia saber o
que sentia. Podia apenas imaginar o que seria.
Quando o Fritz me perguntou, não me senti como pensei que
me sentiria; me senti como me senti. Tive de voltar da fantasia
de Okanagan para sentir.
Se tudo isso parece muito complicado, seguramente é. E
melhor não pensar. Coloquei as minhas próprias tolices à
medida que elas vinham para você poder ver o processo.
Emerson disse que era um arquiteto que construiu uma casa e
esqueceu de pôr as escadas. Eu lhe mostro algumas das
minhas escadas.
Seja honesta, merda!, é o grito dentro da minha cabeça. Ao
escrever ele se torna mais claro e inescapável. Ao m esmo
tempo ele se torna acessível a você, é o que simplesmente
acontece. E se acontece, isso se deve a outra pessoa, não a
mim. Este manuscrito não irá chegar a muita gente se outra
pessoa não der uma mão.

Monte Navajo. A cozinha é um lugar acolhedor, com grossas


paredes de pedra. Lá fora está nevando. Ken, que é meio
cherokee, Kee, que é navajo, e eu estamos nos divertindo,
liberando a nossa infelicidade acumulada com a falta de
humanidade no serviço indígena. Ken diz: “Em todo caso,
tenho o meu sítio e posso voltar para lá, de modo que não fico
com úlceras”. Digo: “Eu não tenho um sítio, mas posso
sempre ir para a estrada”. Kee diz: “Eu também!” Cada um de
nós tem a sua fantasia, um lugar para ir, para escapar.
Cada um de nós sabe que isso é ilusão. Nós expressamos nossa
alegria em toda sua liberdade e nos sentimos bem — ótimos.
Como rimos e nos divertimos! A situação é diferente da
mesma cena representada em muitos outros lugares — casas,
bares, em qualquer outra parte. O que vem a seguir também é
diferente.
Um jovem navajo, pobremente vestido, entra pela porta e fica
parado quieto, e então diz que quer uma carona até o
Escritório Central. Ken diz: “Não vamos voltar por lá”. O
navajo fica parado. Kee fica sentado. Às vezes um deles diz
algo, e então o outro. Então ninguém fala. Me pergunto se
estou escutando algo que pode ser uma conversa particular, se
devo continuar conversando com o Ken ou deixar Kee e o
jovem sozinhos. Não tenho nada com que contribuir. Kee e
Ken conhecem todo o país e o povo de uma forma que eu não
conheço.
Olho para Ken para ver se há alguma pista. Ele cruzou as
pernas e está olhando para o teto. Ele não só não está falando,
como parece ter se ausentado. Porque ele não diz logo ao
jovem, pelo menos tentando ser útil, em vez de praticamente
voltar as costas para ele?
Percebo a pista. Eu mesma fico calada. Todo o meu pensar se
dissolve. A minha cabeça está vazia. Não estou fazendo nada.
Isso continua por mais algum tempo. Então chega um pedaço
de informação, e eu digo: “O correio não veio hoje (dia
regular). Virá amanhã”.
Kee e o jovem trocam algumas palavras em navajo. O jovem
sai. Ele irá buscar o correio amanhã no Escritório Central.
Kee, Ken e eu nos juntamos amigavelmente para olhar
algumas pinturas de Franz Marc. Nosso estado de espírito
mudou.
Onde, na nossa sociedade, alguém para quando um estranho
entra pedindo uma carona?
Tomar consciência.
Sem isso, eu não teria percebido que não tenho com que
contribuir. Teria continuado a pensar, e o meu pensar teria
continuado como começou — “Seguramente Kee sabe disso.
Eu sou a mulher branca me intrometendo”.
Não houve “intromissão” quando a minha informação saiu de
dentro do meu silêncio.
Este silêncio está no lugar de onde veio a minha melhor forma
de funcionar quando era terapeuta. “O boi e o homem se
foram.”10
Este silêncio é o que tenho medo de não ter quando liderar um
grupo na próxima semana. Se eu soubesse que iria ter apenas
isso, não precisaria de mais nada. Notar e responder, sem
nenhum pensar se colocando no caminho.
E então, tudo acontece, e acontece algo que produz a
mudança. A análise é impossível, mesmo após o fato.
“Você notou o que havia nos hambúrgueres esta noite?”,
perguntou Kolmam. Foi ele quem os fez.
Com todo esse barulho, respondi, não consigo sentir direito o
gosto de nada. Pensei que estava inventando uma desculpa por
não ter notado. E então, ainda comendo o hambúrguer, notei
que era verdade. Com vinte pessoas fazendo barulho como
num almoço de domingo, não conseguia mesmo sentir o gosto
de nada, a não ser que fosse forte como alho ou pão.
Eu devia ter sabido que o que disse era verdade. Algo tão
ridículo como o barulho impedindo o paladar era impossível
de se “inventar”, e quando eu disse, fiquei surpresa e julguei
que não fazia sentido.
Quando o meu sentidor diz “Sim” e o meu pensador diz
“Não”, eis aí a confusão. O que eu sinto traz sentimentos que
contribuem para a confusão. E, além de tudo, o meu sentidor
diz coisas como “Com todo esse barulho, não consigo sentir
direito o gosto de nada”, que parece ser pensado.

O absurdo de ensaiar! Tenho estado notando as minhas

10
Referência à décima prancha zen. (N. do T.)
fantasias sobre liderar um grupo na próxima semana — não
só notando que eu as tenho: notando o que está nelas. Esta
manhã, havia na minha cabeça um grupo de seis pessoas, três
delas indistintas. As outras três eram Peter, Márcia e
Charlotte. Eles se mexiam e falavam, e eu falava com eles.
Não falava com o Peter. Imitava alguns dos movimentos de
Márcia e Charlotte. Além do fato de não saber o que eles
farão, há trinta pessoas em treinamento, talvez até mais a esta
altura, que serão divididas em grupos, não sei de quantas
pessoas cada um — talvez seis, talvez dez — e não tenho jeito
de saber quais as pessoas que estarão no meu grupo na
segunda-feira, ou nem mesmo se esses três estarão no mesmo
grupo. Essas três pessoas, como todas as outras, são reais no
meu mundo quando estão fisicamente no meu mundo. Quando
estão na minha cabeça não são reais. Nem sequer têm vida
própria. Elas se mexem, falam e fazem aquilo que eu imagino,
e nada mais.

O lago agora é luz, e linhas escuras se movem rapidamente da


direita para a esquerda. À minha direita. A minha esquerda.
Agora as linhas sumiram. Círculos escuros com centros
luminosos estão... já não estão mais.
Dentro de mim, também estão acontecendo todas essas
mudanças. “Como está você?”
Não sei. Quando noto, já me fui.
Agora o lago está cheio de ondinhas prateadas, movendo -se
da esquerda para a direita.

Como pode a Gestalt-Terapia usar fantasias para negar uma


experiência traumática?
A Gestalt não faz isso.
Ela usa a fantasia para negar uma fantasia.
Passei um mês no hospital em 1953. Quando fui para lá, eu
tinha expectativas. Uma delas era: Entrei em algo que não
entendo. Às vezes ao anoitecer, subitamente ficava muito fria.
Meu filho preparava uma bolsa de água quente e acendia a
lareira, e eu entrava debaixo do maior número possível de
cobertores. Ficava ali deitada, sentindo-me sugada através de
um túnel, com toda espécie de coisas estranhas acontecendo.
Tentava notá-las e recordá-las, para poder contar ao médico.
Jamais me recordei de qualquer uma delas — de nenhuma
sequer. Fiquei preocupada com isso. Não entendia o que
estava acontecendo, e tinha medo que pudesse piorar. Onde é
que eu estava entrando?
Quando fui para o hospital, alguns dias depois, o médico disse
que se isso acontecesse enquanto eu estivesse lá, que eu o
chamasse e ele viria imediatamente. A clínica onde ele
trabalhava ficava ao lado. Nesta fase, eu estava imersa na
opinião médica, e achei que ele poderia examinar o meu corpo
e descobrir algo. Se ele estivesse presente, talvez eu pudesse
contar algo do que se passava enquanto a coisa acontecia, e
isso daria alguma pista. Quando deitei numa cama de hospital,
este foi um dos meus confortos.
Toda vez que sentia essa estranheza chegando, telefonava.
Não conseguia o médico. Deixava recado. Ele não vinha.
Toda vez, na visita seguinte, ele se desculpava e me contava
o que tinha acontecido. Eu sabia como era a vida dele.
Acreditava nele. Não queria torturá-lo; eu torturava a mim
mesma.
Isso começava quando ele não vinha: primeiro esperança, e
um sentimento de alívio geral. E então, dor e desespero
quando ele não vinha, e eu passava por aquela estranheza mais
uma vez sozinha, com medo. Eu ficava zangada que ele não
vinha. Não ficava zangada com ele. Ficava zangada.
Nada disso era expressado — a dor, o desespero, a raiva. Eu
nem mesmo pensava em fazê-lo, e um hospital não é o lugar
mais encorajador. (“E ela, também está doente?”) Eu segurava
tudo dentro de mim, continha tudo com os meus nervos e
músculos (e ficava admirada porque não melhorava no
hospital, agora que estava “descansando”).
Após dois anos passados quase inteiramente na cama, cheguei
a saber que tinha de me deixar ficar tão doente quanto estava,
não tentar melhorar, não tentar fingir estar melhor do que
estava. “A Gestalt tenta estar em harmonia com o que é.”
“Não podemos deliberadamente provocar mudanças em nós
mesmos e nos outros.” “O organismo não toma decisões.
Decisão é uma instituição artificial. O organismo funciona
sempre com base na preferência!”

Naquele instante eu estava tentando lembrar (e é claro que não


consegui), e depois procurei em algumas anotações que fiz
para outra coisa, uma frase do Fritz que queria usar aqui.
Neste caso, eu queria usar as palavras dele, não as minhas.
Fritz entrou enquanto eu estava procurando. Que louca que
sou. Foi só quando ele estava prestes a sair, e pensei em pegar
novamente as minhas anotações (que eu já tinha explorado
sem achar o que queria) que pensei: “O cara está na sua
frente!” (A velha água cinzenta, já não é mais o que era...).
Perguntei-lhe as suas palavras. Ele respondeu: “Qualquer
tentativa de mudar está sujeita ao fracasso”. Com ecei a
escrever: “Qualquer tentativa de fracassar...” Fritz completou
“... está sujeita ao sucesso”.
(No grupo de treinamento avançado, Fritz certa vez nos disse
para tentarmos ser os piores terapeutas do mundo.)
“Qualquer tentativa de mudar está sujeita ao fracasso. Cria-se
uma força de oposição. Como quando você olha para o
vermelho e então fecha os olhos, e vê o verde que v em
depois.”

Louca. Doida. Doida, doida, doida. Aquilo que estou


procurando vem na minha direção e eu não vejo. Onde estou?

No Arizona, quando o meu filho estava com doze anos, certo


domingo ele quis sair para caçar coelhos. Naquele sítio as
crianças não tinham permissão de caçar sozinhas. Eu fui com
ele. Nós caminhamos e caminhamos por toda a floresta. Nada
de coelhos. Ele quis ir até o laguinho onde (ele tinha certeza)
haveria montes e montes de coelhos. Eu disse não, que
precisávamos voltar para o jantar. (Não importa “por que”.
Uma porção de explicações. Um monte de mentiras.) Ele
continuou falando dos coelhos no laguinho. Provavelmente
ele os imaginava ali, montes e montes de coelhos.
Um coelho pulou para fora dos arbustos a cerca de cinco
metros de onde estávamos, e parou. Ficou ali sentado.
Andamos mais dois metros antes de o meu filho vê-lo, olhos
atraídos pelo movimento do coelho saltando e sumindo. Tarde
demais.

Dois anos após ter estado no hospital, algo que comecei a


notar de forma diferente foi a minha exaustão. Comecei
notando o que me deixava exausta, como acontecia, e
livrando-me disso, de uma maneira ou de outra. Então percebi
que o que acontecera no hospital ainda estava me cansando.
Na época não vi o fato como o descrevo (vejo) hoje, mas
mesmo assim, eu vi. Como poderia eu livrar -me de algo que
ocorrera dois anos antes?
Fazendo a pergunta, obtive a resposta. (“A forma de
desenvolver a sua própria inteligência é transformar cada
pergunta numa afirmação. Se você transformar a sua pergunta
numa afirmação, o fundo do qual a pergunta surgiu se abre, e
as possibilidades são descobertas pela própria pessoa que faz
a pergunta.”) Eu ainda queria o que não tinha conseguido. Eu
mesma dei um jeito de conseguir. Meti-me de novo na cama
do hospital, e chamei o médico. Ele veio correndo da clínica
vizinha. Gostei. Mandei-o de volta para a clínica e fiz com
que ele corresse mais depressa para a minha cabeceira. Senti-
me melhor. Mandei-o de volta e fi-lo correr ainda mais
depressa para a minha cama. Gostei disso, e mandei-o embora
outra vez. Como eu estava gostando de controlar a ele e não a
mim!
Mas mesmo assim, faltava algo. O médico sabia muita coisa
a respeito do meu corpo que eu não sabia, mas certamente não
sabia mais do que eu a respeito daquela loucura que eu tinha
na cabeça. Quem poderia ajudar-me nisso? Aldous Huxley.
Então eu o fiz entrar, colocando-o do outro lado da cama. Não
precisei fazê-lo correr — ele não tinha-me torturado. Então,
simplesmente o coloquei ali. Então notei outra coi sa da qual
não gostava — o quarto de hospital. Não era acolhedor. Então
levei todos para um quarto na casa de Huxley na Califórnia.
Do lado esquerdo da cama estava o médico, que sabia mais do
que eu sobre o meu corpo. Do lado direito da cama estava
Huxley, que sabia mais do que eu sobre a minha mente. Eu
não precisava fazer nada — só deixar as coisas nas mãos
deles. Soltei-me — e comecei a gemer e me contorcer e tremer
e sacudir (quadris e ombros). Tudo isso aconteceu, com
“mim” confortavelmente dentro, despreocupada. Alguma
outra coisa começou a acontecer depois disso. Não me lembro
o que foi. Repeti esta fantasia diversas vezes, em dias
diferentes, cada vez parando num lugar diferente. Vi -me
tentada a prosseguir. Parei. Quando contei ao médico a
respeito disso (na época eu estava mistificada, hoje não) ele
disse: “Parece ser bom, mas tome cuidado”. Ele tampouco
sabia o que estava sucedendo.
Escrevi para Huxley e ele respondeu.
Estou me defrontando com prazos finais por todos os lados e
tenho estado, e estou, indecentemente ocupado. Daí a demora
em responder às suas interessantes cartas e a impropriedade
desta nota a todos, exceto seus comentários sobre o pseudo-
soluçar, tremer e sacudir, resultando numa sensação de
liberação e abertura para a cura.
Este é um fenômeno que observei em outros e experienciei em
mim mesmo, e parece ser uma das maneiras pelas quais a
enteléquia, ou inteligência fisiológica, ou self profundo, se
livra dos empecilhos que o ego superficial consciente coloca
no seu caminho. Às vezes há uma recordação de material
enterrado, com ab-reacões. Mas nem sempre. E quando não
há esta recordação, muitos dos resultados benéficos podem
ser obtidos quando o self profundo estabelece essa
perturbação no organismo — uma perturbação que
evidentemente solta muitos dos nós viscerais e que são
resultados e companheiros dos nós psicológicos. Perturbações
desse tipo eram comuns entre os antigos Amigos, o que os
levou a serem chamados de Quakers.
Quaking (estremecer) evidentemente é uma espécie de
equivalente somático da confissão e absolvição, uma
recordação de memórias enterradas e ab-reação a elas, com
dissipação do seu poder de continuar causando danos.
Devemos ser gratos às dádivas menores e mais singulares —
e estremecer evidentemente é uma delas; e de maneira
nenhuma, a menor.
Perguntei ao médico o que eram ab-reações. O dicionário não
dizia muita coisa. O médico tremeu ao se recordar, e me
contou ter estado com um homem que reviveu uma explosão
numa mina pela qual tinha passado, “passando por toda a
situação tal como a tinha experienciado antes”. O médico me
falou do terror na face do homem, e os berros dele, e sua
explosão com os barcos se agitando.
Soava como algo terrível — algo pelo qual eu não queria
passar. Não comparei com a minha própria experiência —
não associei isso com meus próprios tremores e contorções. E
tampouco o médico o fez. Nem mesmo suspeitei que a
experiência do homem era diferente de como o médico
experienciava o homem. Fiquei apavorada e parei de explorar
nessa direção. Que horrores poderiam surgir do meu passado
e me afligir? Quem sabe o mal que se encontra oculto nos
corações dos homens?

Em primeiro lugar, fui para o hospital com expectativas, e isso


é fantasia. Quando a minha fantasia não se realizou, eu me
controlei, e isso é fingimento, que também não é real. Quando
trabalhei deliberadamente com a fantasia, eu ainda estava me
controlando, dois anos após o fato, e isso não é real. O que
fiz, embora não o soubesse na época, foi desfazer uma fantasia
com outra.
Então ambas se sobrepuseram, e eu fiquei sendo — nesta área
— real, liberada do passado e disponível no presente.
Ploiiinnng! O passado se foi, exceto como recordação fatual.
Esse tipo de recordação não me incomoda. Não é nem bom
nem mau, simplesmente é o que é, como o escuro do lado de
fora da minha janela. Depois daquilo, quando pensava na
minha época no hospital, ela já não me cansava mais. Eu a
tinha abandonado.
Notei outra maneira pela qual eu me deixava exausta. Sempre
que pensava em ir ao médico, sentia-me cansada. Eu não
entendia isso. Eu gostava de ir a esse médico. Ele era a única
pessoa com quem eu mantinha comunicação real — conforme
descrevi em Person to Person. Então notei que quando
pensava em estar de novo com ele, eu me imaginava sentada
na cadeira do outro lado da sua escrivaninha — num lugar
onde me sentia tão fraca e cansada “que mal me podia
aguentar de pé”. Era dessa forma que as coisas corriam toda
vez que eu ia vê-lo. Quando eu fantasiava uma conversa com
ele, estando deitada no chão, não me cansava.
A primeira vez que fui a esse médico, já doente, me pareceu
que se eu pudesse simplesmente ficar deitada no chão, o que
eu lhe dizia teria mais sentido. Talvez ambos tivéssemos
conseguido chegar a uma conclusão mais cedo. Ir ao médico
e deitar-se no chão? Tchktchk. No mesmo instante ele fica
sabendo que você é neurótica, louca, exibicionista, ou
maníaca sexual (segundo as fantasias dele).
Quando tinha dezenove anos aprendi algo acerca dos médicos.
Um deles me disse para eu me “despir”. Levantei o vestido,
tirei-o pela cabeça, e fiquei nua. Ele pareceu horrorizado. Eu
me senti mal. Ao mesmo tempo, dentro de mim algo dizia:
“Eu não sou má! Eu só fiz o que você mandou! Pensei que os
médicos estivessem acostumados a corpos”. Continuei me
sentindo mal, envergonhada. Quando contei este incidente aos
amigos, deixei de fora a última parte e fiz uma história
engraçada, e isso foi falso.
Depois disso, passei a ser mais meticulosa com os médicos.
Eu lhes perguntava o que eles queriam exatamente dizer.
Então eu mesma me tornei um pouco mais meticulosa.
Toda a maldita sequência jamais teria acontecido se eu tivesse
dito ao médico o que se passava dentro de mim. Agora
acabou.

Aos trinta anos eu já tinha eliminado um monte de categorias,


conhecendo gente de muitas delas. O “zelador” era uma que
eu não tinha conhecido, exceto em situações muito oficiais,
quando eles estavam totalmente imersos no papel.
Eu tinha ficado tão confusa, tão atada, no final de umas férias
de dois meses, que fui ao meu chefe e lhe disse que lamentava
ter empregado mal as minhas férias, e que se eu voltasse ao
trabalho, eu também o atrapalharia. Eu tinha estado com a
minha família durante as férias. Ele disse que me daria mais
duas semanas se dessa vez eu fosse sozinha. Fui sozinha para
Bermuda, e não levei ninguém comigo, nem mesmo na minha
cabeça. Notei como isso era bom. No hotel ninguém se
incomodava se eu estava lá ou não, ninguém se incomodava
se eu comia ou não vinha a uma ou duas refeições. Aluguei
uma bicicleta. Começava a ir para um lugar, mudava de rumo
e ia para outro, e não precisava dar satisfações a ninguém.
Não precisava pensar em ninguém, ou me perguntar se eles
ficariam bravos ou preocupados quando eu voltasse.
Senti-me ótima — alerta, interessada, aproveitando.
(“Assuma responsabilidade por cada emoção, cada
movimento que você faz, cada pensamento que você tem — e
não jogue a responsabilidade sobre mais ninguém!”)
(Que bem — ou mal — faria manter alguém na minha
cabeça?) Tantas vezes funcionei maravilhosamente, sem
pensar. Apenas as coisas simples. O que mais é a vida? Fui
até o homem das bicicletas, disse a ele que não andava de
bicicleta há quinze anos, se eu podia alugar uma por um dia
inteiro; descobri que ainda sabia andar, mudei para um
aluguel semanal, que era mais barato. Eu ainda sabia andar de
bicicleta.
Fui de bicicleta até o aquário, que ficava em outra cidade —
não que em Bermuda um lugar fique muito longe do outro.
Observei os peixes num grande tanque que começava no nível
do chão e era mais alto do que eu. Estava realmente
apreciando os peixes. (Havia outras vezes em que me sentia
só, mas não nesse momento.) Uma voz disse: “Bom -dia”. Eu
sabia que não havia ninguém mais na sala comigo. Olhei para
cima, na direção da voz, e ali estava uma cabeça descansando
na borda superior do tanque. Gostei daquela cabeça.
A cabeça disse que era o zelador do museu. Nós batemos
papo, e a cabeça me convidou para jantar, e me perguntou se
eu gostaria de ir pegar peixes. Fantasiei montes de
maravilhosos peixes que nunca tinha visto antes, todas as
cores, e a água espirrando por todos os lados. A esta fantasia,
eu disse sim.
No dia seguinte, quando fui até o barco, fiquei surpresa em
encontrar apenas o zelador e um menino negro. Eu tinha
esperado (fantasiado) mais pessoas. Assim que saímos do
Ancoradouro Hamilton, o zelador começou a bater no menino
com uma corda. O menino esquivava-se a cada golpe. Toda
vez o zelador olhava para mim. Eu estava assombrada. Não
sabia o que fazer.
Fiquei quieta. Eu não sabia se isso era certo ou errado, mas
me pareceu a única coisa a fazer. O zelador batia com a corda,
o menino se esquivava, o zelador olhava para mim, e a água
espumante passava ao lado do barco.
Navegamos pela costa até outro ancoradouro, creio que era o
Ancoradouro Castle. Não havia nenhum outro barco por perto.
Passamos perto de uma ilha rochosa, que poderia muito bem
ser em rocha maciça, e ancoramos.
O zelador entrou na água. Estendeu-me a mão. Pulei para
dentro, sentindo apenas o alívio de o menino ser deixado em
paz (e eu também). Escalamos a rocha. Gostei da subida, da
rocha, do sol, do ar e fiquei rindo com o zelador que também
parecia feliz.
Quando chegamos ao topo, em pouco tempo ele me agarrou.
Eu me senti perdida, impotente, sem esperança. Ele estava me
empurrando para o chão. O menino não podia me ajudar mais
do que eu tinha podido ajudá-lo. Não havia mais ninguém para
se chamar.
Por cima do ombro direito do zelador, notei uma nuvem
diferente de qualquer outra nuvem que já tinha visto. Exceto
pelo fato de ser uma nuvem, nada era igual. Joguei a minha
mão esquerda por cima do ombro dele. (Agora assumo
responsabilidade por algo que na época pareceu ter sido feito
por alguma não-eu. “Acontece”, como costumam dizer...
Agora estou vendo o assumir responsabilidade por toda
ação...)
Fiz um sanduíche e levei para fora até o portão. Meus pés
pendurados, dentro da água. O movimento da água movia os
meus pés para cima e para baixo.
Disse ao Peter: “Parece que ela está brincando comigo”. Eu
não achava que a água estivesse sentindo isso, mas mesmo
assim, quando mudei para “Eu sinto que a água está brincando
com os meus pés”, algo sucedeu. Algo muito pequeno, mas
como se um pouquinho mais de mim tivesse sido acrescentado
a mim mesma.
“Assuma responsabilidade por toda ação.” Quando não
assumi responsabilidade por aquela ação, estava sendo muito
menos eu. Por outro lado, se mato alguém e digo “Deus me
mandou”, também não adianta. Eu o fiz.

As primeiras vezes que eu disse “Olhe!” não houve mudança


no zelador.
Eu tinha consciência disso, mas a minha atenção voltada para
a nuvem era mais forte do que qualquer outra coisa no meu
mundo. O zelador virou a cabeça e olhou para a nuvem. Pegou
um dos meus pulsos e me arrastou pelas rochas íngremes tão
depressa que tive uma imagem de mim mesma curvada como
um arco, e as minhas canelas batendo nas rochas. Entramos
na água, chegamos ao barco e saímos do ancoradouro. Não
havia nenhum absurdo — tudo fazia sentido. Ele disse que era
uma nuvem de furacão. Quando chegamos ao Ancoradouro
Hamilton, os sinais do furacão já estavam presentes.
Eu não gostava de falar muito sobre esses salvamentos que
aconteciam a toda hora. Às vezes, eu tentava explicar. Eles
aconteciam. Com frequência a minha vida parecia um
milagre. Eu não podia acreditar que tivesse sido escolhi da por
Deus para receber alguma atenção especial. De todas as
dificuldades em que me metia, eu sempre saía com tanta
rapidez e facilidade. Acreditar que eu o fizesse também
parecia me colocar numa categoria especial, e eu não gostava
disso — especialmente quando me parecia (depois) ter sido
“tomada” nessas ocasiões.
Obtive o primeiro relance do que me pareceu ser a verdade,
cerca de dez anos depois. Meu filho de nove anos e eu
estávamos numa praia, no Havaí, uma praia que conhecíamos
muito bem — na verdade, desde que ele nascera.
Ele estava na água, nadando. Eu estava na praia. Ele me
chamou dizendo: “Não consigo voltar!”. Nadei até lá para
ajudá-lo. Então, também eu estava ali, impossibilitada de
voltar da margem. Não havia mais ninguém que pudéssemos
chamar. Ele estava de costas, com o meu braço direito
enganchado no dele. Eu nadava, nadava, nadava e não
chegava a lugar nenhum. Ele entrou em pânico, virou-se e
ficou em cima de mim — quarenta quilos. Também comecei
a entrar em pânico, mas me controlei.
Duas pessoas saíram da mata ao longo da praia. Esperança!
Virei-me para eles. “Socorro! Socorro!” Eles viraram as
cabeças e olharam para nós, então se voltaram para o outro
lado e continuaram andando. Jamais me senti mais
desamparada, abandonada pela raça humana. Eles perdiam
tempo, e a praia era comprida. Estavam quase fora de vista
quando cheguei aos meus sentidos.
Notei alguns bloquinhos e pedaços de madeira flutuando em
direção ao mar aberto. Ao mar aberto. Eles deveriam estar
indo para a praia. A minha esquerda, notei um lugar onde
aquilo não acontecia. O movimento das ondas era em direção
à praia. Nadei paralelamente à praia até chegarmos às águas
que se movimentavam na direção dela. Então, a água e eu
juntas nos levamos para lá. Estávamos quase chegando
quando me senti exausta, como se não fosse mais aguentar.
Empurrei meu filho com toda a força, pensando: “Bem, pelo
menos ele vai conseguir”, e eu afundei, afundei, afundei. A
minha cabeça estava na água, com todo o resto do meu corpo.
Então meus pés tocaram a areia. Empurrei a areia com toda a
força (desta vez eu sabia que era eu) e parece que me fortaleci
ao empurrar. Quando cheguei à superfície, comecei a nadar
com as ondas, até a praia.
“Heroísmo”, fiúúú! Eu podia ter notado aqueles pedaços de
madeira logo no início — isso eu digo agora.
Naquela tarde, um jovem veio nos visitar e dar uma nadada.
Não lhe disse nada. Em vez disso, disse a mim mesma. Disse
a mim mesma que ele era jovem e forte, e um excelente
nadador, e que me meti em apuros porque era uma mulher
fraca, e se eu dissesse algo, ele daria risada por eu fazer
tempestade num copo d’água. Talvez ele tivesse mesmo dado
risada. (Como eu diria naquela época, seria diferente de como
eu diria hoje.) Eu me senti péssima quando ele voltou e disse:
“Ufa! Quase não consegui voltar". Ele era forte o bastante
para nadar de volta contra a correnteza. E se ele não tivesse
conseguido? Eu me senti culpada, e a minha culpa não era
ressentimento.
Tomar consciência. Se ambos tivéssemos tomado
consciência, a história inteira poderia ter sido contada: “Notei
a correnteza, nadei para onde não havia, e voltei”.
Quando meu filho e eu chegamos à praia, ficamos ali parados,
com as cabeças abaixadas, entre os joelhos. Não sei por que
fizemos isso. Depois ele disse: “Agora vamos entrar de novo
na água”. Como eu não quis! Quase decididamente eu não
queria. Eu me senti afogando. O mar era um monstro negro,
um horror. Eu era tão pequena e indefesa. Aááách. Sinto
vontade de vomitar.
Frequentemente o meu filho fazia mais sentido do que eu.
Voltamos a entrar.
O mesmo se dá com o meu medo de liderar um grupo. Se eu
fugisse, ainda teria medo de fazê-lo. Deste jeito, tenho um
pouco de medo da próxima vez, mas não como antes. Eu não
fui boa nem horrível — apenas medíocre.
Sem suficiente consciência — deles, de mim. O melhor, não
é preciso dizer, mas eu direi de qualquer forma, foi quando
Fritz entrou e Roy estava no lugar quente. Fritz — onde estão
as palavras. Ele estava todo ali com o Roy — não falsamente
ali. Real. O Roy ir-real ficou um pouquinho mais real. Que
batalha é essa! Quanto tempo leva, apenas para se conseguir
um pouquinho. Ainda assim, é o começo que precisa vir
primeiro — como eu liderando o grupo esta manhã, no
começo.

Valerie, Fritz e eu conversamos um pouco, depois que os


outros se foram. Valerie falou de uma mulher que está aqui e
que fez quatro anos de terapia reichiana em Nova York. E la
não sentiu que adiantou. Fritz: “Nada que é único é suficiente.
O corpo não é suficiente. A mente não é suficiente. A alma
não é suficiente”. Amém.
Fritz ficou para tomar uma xícara de chá com rum. “Estou me
movendo mais e mais na direção de encontrar a pessoa.” Foi
isso que ele fez com o Roy.
Ele disse ao Roy: “Desde que você está aqui, eu o tenho
ouvido grasnar. Você não tem voz”. Ele disse: “Você é um
artefato”. A sua voz estava neutra e macia, sem expectativa.

Férias.
Ficar livre.
Ficar vazio de.
Quando eu estava doente e sem dinheiro, tentando melhorar
de ambas as coisas, trabalhava o tempo todo. Toda sexta-feira,
ao anoitecer, as pessoas do lado de casa e do outro lado da rua
jogavam as coisas no carro e iam embora.
Eu tinha muita pena de mim mesma. Eu precisava de umas
férias mais do que ninguém, mas não podia sair. Eu tinha de
tentar melhorar e achar algum jeito de ganhar dinheiro.
Eu não suporto ter pena de mim mesma.
Após alguns fins de semana, fechei a loja na sexta-feira à
tarde e não pensei em ganhar dinheiro até segunda de manhã.
Tive umas férias maravilhosas — toda cheia de bons
sentimentos.
Quando estava trabalhando em Person to Person, certa manhã
notei que acordei, me levantei e fui direto para a máquina de
escrever — como um autômato. Eu estivera chegando perto
disso há algumas semanas, sem notar.
Quando notei, parei de escrever e percebi o que queria fazer,
e fiz. Estiquei-me toda, pendurando-me no batente da porta.
Depois, coloquei uma das mãos no fogão, a outra na mesa da
cozinha e fiquei girando as pernas. Tive fome e abri a porta
da geladeira. Então assei inhame no forno. Fui até a sala de
estar.
E assim por diante. Quando senti vontade de ir à cidade para
comprar tinta nanquim e pincel, não disse nada a mim mesma:
fui a pé até a cidade e comprei. Note-faça; note-faça. Nada
mais, durante dois dias. Na noite do segundo dia, fui ao
banheiro, sentei-me na privada, e enquanto estava sentada,
pensei com uma estranha alegria: "Puxa! Mas que férias
maravilhosas!”.
Essa foi a primeira vez que pensei nisso como sendo férias. A
forma como eu me sentia foi o que provocou isso.
E então meu interesse em fazer o livro voltou, e eu já não era
mais um autômato.
C APÍTULO 3: MIRAGEM

Nem tudo eu esqueci no grupo desta manhã. Sinto-me bem em


relação àquilo que esqueci. Esqueci que algumas pessoas
eram psiquiatras ou psicólogos, embora saiba que uma delas
é psiquiatra e uma outra é psicoterapeuta, e acho que mais
duas fazem algo do tipo. Me esqueci quase totalmente do Fritz
quando ele entrou, enquanto eu trabalhava com o Roy. Talvez
amanhã eu esqueça ainda mais. Vazia. Estar vazia de.

“— e não jogar a responsabilidade sobre mais ninguém". No


sítio (aproximadamente 140 quilômetros quadrados) e escola
(uma sala) onde trabalhei durante alguns anos, certo dia cinco
das crianças exigiram que eu lhes desse permissão para fazer
algo — estou esquecida do que era. Nesse sítio, as crianças
faziam coisas de arrepiar os cabelos dos visitantes. Elas me
pediam permissão para fazer algo tão ousado que eu não podia
dizer sim. Elas pulavam, pediam, insistiam. Desesperada, eu
disse: “Muito bem, vão em frente — mas lembrem-se! se
vocês fizerem isso, a responsabilidade é de vocês, não
minha”. Elas pararam de pular e berrar, e, silenciosamente,
pensativamente, saíram e fizeram alguma outra coisa.
Neste instante, estou cansada de palavras. Pensei em
continuar, mesmo sabendo que dentro em breve estaria com
vontade de jogar tudo fora.
Pobre Aldous Huxley e seus prazos, completando um artigo
enquanto morria devagar — fraco, doente, quase incapaz de
falar. E Laura julgando-o nobre.
Maya. Ilusão. “Mundo: a coisa em que vivemos.” — Tirado
de um Dicionário de Cinco Palavras composto por uma
criança de sete anos.

E tampouco fiquei deitada sem conseguir dormir, ensa iando


para o grupo de hoje. Me esqueci, e adormeci.

Quando Adrian van Kaam veio da Holanda para cá, ficou


pasmado com a noção americana de que um professor deve
estar disponível a todos. Na sua salinha em Brandeis, nós
estávamos fazendo algo juntos, resolvendo algo de maneira
semi-, mas não totalmente intelectual. Eu sentia algo
acontecendo dentro de mim notando algo acontecer dentro
dele. Knock knock! A pessoa foi embora. Antes de nos
aproximarmos novamente da forma como estávamos, knock
knock! Interrupção. Cada pessoa entrava com um pedido.
Parece que na Europa a sociedade oferece mais proteção, pelo
menos para os professores. Na minha própria sociedade, t enho
de providenciar a minha própria proteção — e isso está certo,
contanto que eu o faça.
Em Saskatchewan, no workshop intercultural, certa noite
Wilfred (índio) disse: “Estou me sentindo estranho”. Pediu à
sua irmã, Gracia, e eu que fôssemos ao seu quar to. No quarto,
Wilfred estava explorando sua “estranheza”, chegando a algo.
Houve uma batida na porta. Gracia disse enquanto descia da
cama: “É batida de homem branco!”. Uns sujeitos brancos
fizeram a besteira de entrar “alegremente”, um deles pulando
e rolando sobre a cama.
Na noite seguinte também cometi uma besteira, mais
silenciosa, mas ainda era a mesma coisa. Eu me surpreendi no
ato, e me senti triste. Deixei a não-consciência de um homem
branco me absorver. Eu fiz isso.

Sinto vontade de ficar louca. A palavra é “piração”. Fico


encalhada quando não consigo ficar mais louca do que isso.
Na verdade, parece ter sentido.
Talvez se eu ficasse mais louca, teria mais sentido.
Tentar “acompanhar” o Fritz é loucura. Quando você
consegue, ele não está mais ali.

Aos vinte anos, eu ria das fantasias de infância quando me


lembrava delas. As calçadas e ruas da nossa aldeia eram todas
de terra. Um menino que me atraía morava numa rua que
estava sendo aberta por uma razão qualquer.
Para chegar à sua casa, era preciso caminhar um quarteirão
por entre montes e montes de terra. Na minha fantasia, eu
andava por entre esses montes para ir vê-lo — com meu
cabelo penteado para cima, como uma dama, e vestindo um
vestido de baile brilhante, seguida de um cortejo. Era como
um sonho, e não me parecia ridículo. Eu também tinha seios
grandes. Viajando na minha fantasia, eu sabia que ele tinha
de me notar, e quão magnífica eu era.
Aos vinte, eu tinha outras fantasias. Eu não achava que estas
eram ridículas. Note as suas antes de rir das minhas. Então
podemos todos rir juntos.
Às vezes as fantasias são úteis — enquanto não me confundo
e penso que são realidade. Quando estava em dificuldades
com o meu marido, com medo de estar maluca (e eu estava
mesmo, só que não do jeito que achei que estava) desenvolvi
erupções intestinais e mononucleose, que naturalmente me
fizeram afundar ainda mais. Eu fantasiava que o médico era
um santo radiante que me amava, e fiquei nessa fantasia
quando precisei de repouso, sem nunca perder a ideia de que
ele era simplesmente um cara legal, um bom médico, e eu
gostava dele.
As fantasias espontâneas são diferentes. Uma repetida
fantasia minha, que não tenho tido nos últimos tempos, é ver -
me numa cabana num país maravilhoso. Estou deitada na
cama, e qualquer coisa que eu precise, me é trazida, embora
não haja pessoas em volta. Aprecio o repouso, e ao mesmo
tempo sei, ao ter essa fantasia, que repouso é o que eu preciso.
Recebo a mensagem e ajo. Deixo de lado algumas das coisas
que andei fazendo, e a fantasia desaparece.
O primeiro passo é notar. Tomar consciência do que está se
passando em mim.
Agora estou com vontade de fazer um rabisco.

O grupo desta manhã acabou. Amanhã? Amanhã, recebo as


pessoas que Don pegou para o grupo dele, e não sei quem são.
Poderia facilmente descobrir. De que adiantaria saber? Estou
me sentindo bem em relação a algo que me fazia sentir mal —
não me interessar em saber. Durante a Primeira Guerra
Mundial, eu me correspondi com uma porção de jovens que
estavam servindo — americanos, britânicos, franceses, e da
Nova Caledônia, que são uma espécie de franceses de outro
lugar. Um jovem escocês que não estava servindo me
escrevia. Ele tinha recebido o meu nome e endereço por mei o
de um amigo que o tirou do pacote de outra pessoa e nunca o
usou. O escocês usou.
Tivemos grandes momentos, por correspondência. Minha,
irmã perguntou: “O que ele faz?”. Eu não sabia o que ele fazia
e não me importava, e me senti mal (algo de errado em mim)
porque era importante para a minha irmã. “Como você pode
escrever para ele se não sabe o que ele faz?”, disse ela, sem o
mínimo tom de pergunta na voz. Ela não queria saber. Ela
estava me dizendo algo que eu não sabia o que era. Eu senti
um buraco em mim, algo que eu devia tampar. A minha irmã
era mais velha do que eu, e sabia tanta coisa.
Eu ainda estava na mesma dificuldade que tinha quando era
criança, quando meu pai me carregava toda vez que tínhamos
de caminhar alguma distância. Às vezes, aos domingos,
saíamos de casa e íamos até o bonde. Pegávamos o bonde até
a balsa. íamos de balsa para Nova York— casas, casas e casas,
às vezes fileiras delas, todas parecidas. Quando saíamos da
balsa, pegávamos outro bonde. Então descíamos, e
pegávamos outro bonde. Então descíamos deste bonde e
caminhávamos alguns quarteirões, virávamos, e mais alguns
quarteirões. Subíamos umas escadas. Minha mãe ou meu pai
batiam à porta ou tocavam a campainha. A porta se abria — e
ali havia gente que conhecíamos. Como é que meus pais
encontravam? Que gente inteligente. Eu não conseguia fazer
isso.
E então, quando eu soube a verdade a meu respeito, e um deles
me disse que não era verdade, o meu saber oscilou, ficou
diminuído por eu conhecer a inteligência deles. Eles devem
estar certos. Não, eu estava certa. Eles devem estar certos.
Não, eu estava certa! Eles devem estar certos. Não, eu estava
certa.
Eles devem estar certos. Não, eu estava certa. Eles estavam
certos, e eu errada.
Cometi este mesmo erro com o meu marido, por longo tempo.
Ele sabia tanta coisa. Tinha passado onze anos na
universidade, inclusive três em Oxford e quatro na faculdade
de medicina. Tinha vivido no exterior. Conhecia a França (e
sabia francês) e a Alemanha (e alemão) e geologia e
arquitetura e medicina e poesia em latim e gente famosa
(Julian Huxley, Henry Luce, Archibald MacLeish, Max
Beerbohm e alguns dos Mitsuis) e a índia (e birmanês) e
história e literatura inglesa. Quando ele falava da vida e das
pessoas, eu achava que ele devia conhecer a vida e a s pessoas
melhor do que eu. Também me parecia que não, mas eu
continuava achando que isso não podia ser, por causa de tudo
que ele sabia.
Quando fomos para o Havaí, ele não conseguiu aprender o
dialeto local.
Ele dava instruções a Sato-san, o jardineiro que trabalhava
para nós duas vezes por semana, e quando meu marido saía
para Honolulu, Sato-san vinha e me perguntava: “O que
patrão diz?”. O dialeto era facílimo para mim, e delicioso de
falar. Com todas as línguas, meu marido não tinha conseguido
nem falar nem aprender o dialeto. Por quê?
Por que ele não conseguia enxergar que fazia inimigos de
gente que não era inimiga? Havia apenas cinco pessoas em
quem ele confiava — quatro homens e eu. Assisti três dos
homens se tornarem “indignos de confiança” e senti que isso
estava se aproximando de mim. Quando deixei o Havaí (aos
43 anos) eu “nunca ia conseguir aprender nada”. De que
adiantava saber tanto se a gente ficava tão infeliz com isso?
Também havia Bertie Russel, e toda a infelicidade dele, e não
fazia sentido.
Foi então que levei o nosso filho, aos nove anos, para um
rancho no Arizona.
De todos os lados me disseram que isto estava errado. Uma
mulher japonesa que trabalhava como doméstica me disse que
no Japão, anos atrás, a nobreza sempre enviava os filhos para
viverem com os camponeses — como camponeses — “para
não perderem contato com sua origem”. Isso fazia sentido
para mim.
Ima, que me contou isso, também me contou outras coisas.
Durante a guerra, ela estava num ônibus para Honolulu. Um
marinheiro cuspiu nela. Ela ficou furiosa. Então se lembrou
de um trem no Japão, e de um japonês que foi muito rude com
um americano. “E a mesma coisa.” Esta foi a maneira dela de
pôr fim à situação, de clarear a mente. Cancelar. Ela lidava de
outra maneira com a Sra. B., uma cadela de mulher. Com ela,
explicava Ima, “de vez em quando a gente faz Uuff! Então
tudo fica bem por algum tempo”.

Esta manhã começou com Fritz entrando assim que Natalie


tomou o lugar quente. Eles trabalharam juntos,
maravilhosamente. Eu me intrometi uma vez, por causa da
minha estupidez. Às vezes fico satisfeita de as minhas
intromissões serem tão suaves que podem passar
despercebidas. (Não reconheci que era uma intromissão antes
de fazer. Eu tinha estado a falar comigo mesma, e ouvindo o
que aquela mentirosa dizia.) Depois disso, dois homens
ocuparam o lugar quente. Peter quer ajuda e está muito
determinado a fazer tudo sozinho. Quase no final ele falou da
sua frustração. Mencionei o que Fritz tinha dito: “Quando
tento galgar esta parede, sinto-me impotente”. Peter tentou,
então, galgar a parede. Realmente trabalhou com ela. Então
tentou vencê-la a golpes. E então tentou miná-la. Finalmente
disse: “Posso passar pela porta”, e abriu a porta e saiu.
Veio a imagem, a história Zen do homem agarrando as barras
da janela, enquanto a porta está aberta atrás dele.
Esta manhã saí bastante, dei a mim mesma uma instrução a
ser lembrada, guardada, para não ser esquecida. Desliguei-me
da instrução, sabendo que ela está gravada em mim. Meu
trabalho é tornar-me acessível a esse armazém, de modo que
ele seja acessível a mim de maneira apropriada, à medida que
as coisas acontecem. Hoje isso aconteceu um pouquinho mais
do que ontem.
Quando eu tento, o armazém não é acessível, mesmo que o
meu tentar seja apenas tentar prestar atenção ao que está
acontecendo. Então, a única coisa que me vem à cabeça são
regras, e isso não é nem Gestalt nem gestalt. Esse tentar é
como tentar aprender uma língua em vez de deixá-la penetrar,
sair, incomodamente e prosseguir. É como a diferença entre
ler um livro e parar a cada palavra que não sei (que ainda não
aprendi) e ler o livro adivinhando as palavras que não sei. Se
eu estiver certa, isso ficará provado quando a palavra aparecer
outra vez. Se estiver errada, isso será mostrado numa outra
vez — se é que eu não me preocupo em estar certa.
As intromissões desta manhã foram notadas no momento.
(Não depois.) Elas foram cuidadas. Eu não “tenho de” guardá-
las, trabalhar com elas, chorar por causa delas enquanto bato
no meu peito, tentar corrigi-las. Algumas delas acontecerão
novamente. Se eu focalizá-las, e ficar me censurando, não
terei notado “tudo” — que outras w7o aconteceram
novamente. Se eu me apego a elas, estou propensa a cometer
o mesmo erro. Quanto mais tento, mais fracasso, porque o erro
está no tentar.
Estou aprendendo. Com tão menos dor, menos porradas, agora
que estou disposta, agora que há menos torturas de mim por
mim. Menos divisão. Um movimento na direção de ser inteira,
de deixar o que chamo de mim tomar conta. Então, tanto eu
quanto mim teremos partido.
Fritz começou a tocar música em sua cabana aqui do lado.
Ouço tristeza na música. A minha própria tristeza começou a
surgir e se espalhar. Sinto-a toda em mim. Sou tristeza, e não
há nada de errado com a tristeza. A tristeza é.
Provavelmente nada pode ser explicado. George, trabalhando
com um sonho, era George batendo os braços como asas,
tentando voar, e afundando mais e mais em alguma coisa.
Então ele foi o menino do seu sonho, com um besouro
andando sobre o peito. Como George, ele detestava o besouro.
Como menino, quando o besouro tinha andado por lodo seu
braço até o pulso, subitamente o chão se firmou sob seus pés.
George não captou a mensagem mas sentiu algo. Talvez ele
chegue lá mais tarde. Quem mais pode conseguir isso a não
ser o George? Ninguém. É a mensagem dele.
Esta manhã, Fritz perguntou a Matalei depois de ela ter
desenvolvido um sonho e chegado a algo: “Você captou a
mensagem?”. Ela disse: “Sim”. Fritz: “Eu não sei o que é”.
Ele não precisa saber. Ele não perguntou a ela, como na
escola. “O que é?” Ele a deixou com o seu próprio saber, que
não precisa coincidir com o dele, e, em todo caso, é dela.
(“Bem, se você não pode me dizer, é porque não sabe.” Não
sei de onde vem isso. Eu ouço a frase sendo dita para mim,
algumas vezes no passado, com um ponto de exclamação no
final que dizia: “Você está errada!” — como “você está
mentindo”.)
“Muita água passou sob a ponte desde que nos encontramos
pela última vez”, disse Liz. “Água boa.”
O lago está correndo como um rio. Espuma nas ondas.
Tanta coisa fluiu desde ontem. Não consigo me recordar de
ontem. Quando desisto de tentar, aparece a primeira ida a
Duncan. E então estou sentada com Fritz, Barbara e Márcia
na cozinha, ontem, tarde da noite. Então o grupo da noite,
todos nós com o Fritz. Então o almoço, e o grupo da manhã
— sem detalhes. Tento me lembrar, e fico no vazio.
Esta manhã choveu novamente, e havia nuvens cinzentas e
baixas. Agora, o sol está refletido na água, prateado em alguns
lugares, brilhante em outros. A luz do sol entra pela janela,
aquecendo a máquina de escrever e as minhas mãos. Ainda
não me lembro do grupo de ontem pela manhã, só o fato de
saber que aconteceu, e aconteceu aqui. Não sei quem estava
nele ou o que fizeram ou o quê — Pat. Lembro-me de que
ontem Pat estava aqui. Peter... Bruce... Natalie... agora as
pessoas estão voltando.
Não há sequência para me lembrar. Agora me recordo de estar
na cozinha por volta das três e meia com Glenn e Tom. Tudo
está à minha disposição, tudo pode voltar. Todo o passado. O
que haveria eu de fazer com ele? É melhor deixá-lo ir — todo
ele.
Esta manhã, antes de o grupo chegar, senti que se todos
decidissem ir embora, seria ótimo. Eles estariam fazendo o
que eu queria que fizessem.
Agora, eu não teria sentido falta desta manhã. Eu estava muito
mais em contato com a minha imaginação espontânea, e tinha
mais confiança nela.
No começo deixei sair muitas dessas imagens, e poderia ter
havido um atalho se isso não tivesse acontecido. E, mais uma
vez, talvez não houvesse atalho. Nunca é possível voltar e
começar de novo. Tanta coisa mudou. “Nunca pisamos duas
vezes no mesmo rio.” Agora estou com uma sensação boa com
respeito a amanhã. Não quero mudar o dia de hoje. Amanhã é
outro rio.
Sinto-me bem com o meu não-saber. Interesse. Nada de
apreensão. Nada de fantasias.
Um exemplo da imaginação. Pat estava sendo o seu eu frouxo
e mole deitado no chão, e o seu eu durão sentado num banco,
oscilando entre um e outro. Notei que o seu durão estava
perdendo força, embora ainda fosse forte. O eu frouxo não
estava tão frouxo. Eu estava gostando disso. Então tive a
imagem de Pat em pé, entre o eu do banco e o eu do chão, e
pedi-lhe que fizesse isso. O que aconteceu então foi bom, e
encerrou o trabalho dela por hoje.
Ultimamente tenho estado a descobrir um erro meu, pouco a
pouco, descobrindo uma forma de... Bem, esqueça. Vou ficar
toda confusa entre “eu” e “mim” e... Esqueça isso também...
Quando cheguei aqui pela primeira vez. notei a minha grande
dificuldade em lembrar os sonhos das pessoas quando elas os
contavam. Não via como Fritz podia trabalhar com a pessoa
numa parte do sonho, e então voltar a outra parte num instante
e pronto! Eu pensava que ele devia se lembrar do sonho todo
conforme tinha sido contado. Nunca pude fazer isso. Eu seria
uma péssima terapeuta nessa área da Gestalt.
Recentemente tenho notado que quando deixo as palavras
passarem e faço a imagem do sonho enquanto ele está sendo
narrado, então às vezes algumas partes dele voltam, e posso
ter confiança de voltar para qualquer parte que surja, fazendo
a outra pessoa recordar-se dela. A outra pessoa caminha com
isso, e eu caminho com ela.
Quando não faço isso, fico muito confusa com o sonho e não
consigo me apegar a nada, ou se consigo, é de uma maneira
tão vaga e nebulosa que a outra pessoa não consegue se
relacionar com ele.
Às vezes ocorre algo estranho com essa formação de imagens.
Uma moça contou seu sonho (na primeira pessoa, conforme a
Gestalt) que começava no campo. Então ela caminhou, e
chegou a uma ponte. Esse era o fim do sonho.
Ela não cruzou a ponte. Isso é fácil de notar e recordar. Ela
quis começar com o campo, e me pareceu certo. Depois, quis
ir para algum outro lugar do sonho.
Pedi-lhe que fosse até a ponte, cuja imagem me veio naquele
momento. Ela foi, e disse que era uma ponte de arcos. No
começo eu tinha imaginado só uma ponte de arcos. Eu devia
ter perguntado qual era a cor da ponte — para não me admirar.
A minha era vermelha. Não é estranho que a ponte a tenha
levado para uma viagem da qual ela recebeu uma mensagem
existencial.
Em grupos tenho tentado ouvir, me lembrar e tenho me
cansado — e então “saio”, na cabeça, para descansar. Isso
estava certo quando era só isso que eu podia fazer, assim
como o passado está certo, quando o que fiz era tudo que eu
podia fazer. Eu não podia fazer mais nada.
Agora me parece que as minhas imagens do sonho, à medida
que ele está sendo contado — ou notar a imagem que aparece,
que pode ser a verdade — podem estar me abrindo para as
imagens que ocorrem quando o trabalho está em andamento.
Abertura para imagens.
Quando Runi acabou de trabalhar com Fritz, e saiu, Runi
disse: “Sou uma covarde”. Estávamos no intervalo. Eu estava
pondo algo de lado, abrindo espaço para as pessoas fazerem
café. A minha imagem foi “amedrontada”.
Perguntei a ela: “A palavra é ‘amedrontada’?”. Em um
momento ela concordou. “Covarde” é um julgamento, uma
fantasia. As pessoas podem dizer “Não.
você não é” e “Sim, você é”, e eu posso ficar confusa e lutar
contra a confusão e continuar fantasiando. “Amedrontada" é
uma realidade. Posso sentir, e sei que está aí.
Estou com vontade de botar um poema aqui.

Iniciador11
Cautela com quem busca discípulos
o missionário
o iniciador
todos os proselitistas
todos que clamam ter descoberto
o caminho do céu.

Pois o som de suas palavras


é o silêncio da sua dúvida.

A alegoria da conversão

11
O título do poema em inglês é Pusher, que significa alguém que
“empurra”, “leva” ou “inicia" outros em alguma coisa. A palavra é usada
em gíria para designar o vendedor de drogas que procura convencer
alguém a provar — comprar a droga, ou seja, “iniciar’ a pessoa.
Acreditamos que o autor do poema faz aqui um paralelo entre o vendedor
de drogas e os mestres que trazem soluções prontas para as pessoas. (N.
do T.)
sustenta-os através da sua incerteza.

Persuadindo você, eles lutam


para persuadirem a si mesmos.

Eles precisam de você


tanto quanto dizem que você precisa deles:
há uma simetria que não mencionam
no seu sermão
ou no encontro
perto da porta secreta.

E suspeitando de cada um deles


cuide-se também destas palavras,
pois eu. dissuadindo você,
obtenho nova evidência
de que não há atalho,
não existe caminho,
nem destino.
Peter Goblen
(Cientista da região de San Francisco)
Primeiro de outubro. Estou aquecida pelo sol. Troco de roupa,
e ponho um vestido fresco. Antes, eu estava me sentindo bem
com o vestido quente, então tudo estava bem. Como é absurdo
pensar que preciso ser sempre quente com as pessoas, ou fria,
como é absurdo pensar qualquer coisa. Eu me sinto aquecida.
Eu me sinto fria. Estou aquecida. Estou fria. Amo você desta
vez. Não amo você desta vez. Não exija de mim o que eu não
tenho. Quem faz essa exigência? Eu mesma. Faço essa
exigência de mim, não há nós em mim. Entregue-se, e há um
pseudo-nós. Eu não estou lá — só o meu pseudo-eu. Quando
não exijo nada de mim, onde está a exigência? Não a sinto.
Posso saber que a exigência existe em outra pessoa, mas não
posso sentir a exigência dela. Só ela pode sentir.
“Posso ver o seu arranhão. Não posso sentir a sua dor.”
Olhei para cima e vi uma cachoeira na montanha mais
distante. Não é uma cachoeira. Apenas pareceu uma cachoeira
à primeira vista. Eu estava “errada”?
Gostei da cachoeira. Um átomo de deleite me invadiu.
Tomei algo por outra coisa (mis-take). Mas dificilmente foi
um engano (mistake).

Hoje, intervalo, uma mulher que tinha estado a exigir uma


resposta de um homem — um tipo particular de resposta, que
ela não conseguiu — veio a mim e ficou exigindo de mim. —
Eu disse algo. Ela continuou tal como antes.
Eu disse algo. Ela continuou tal como antes. Botei as mãos
nos ouvidos dela e disse: “Você não está ‘escutando’.” Ela
respondeu: “Bem, como é que eu posso escutar com as suas
mãos nos meus ouvidos?”.
Hoje no grupo, Fritz me pediu para deixar os outros
participarem “da maneira que está acontecendo nos outros
grupos”. Isso estava acontecendo ontem, então não precisei
fazer mudança nenhuma. Então ele acrescentou a escolha de
um coterapeuta, e também de uma supervisão. Mal eu tinha
conseguido equilíbrio numa posição, ele me muda para outra,
eu oscilo e perco o equilíbrio. Quero estar de novo neste
grupo, e me sair melhor amanhã — mas é bom que a mudança
venha agora. Eu poderia me esquecer de que não estou
pisando no mesmo rio.
Com gente nova saberei disso. Terei de notar. Trabalhar com
um coterapeuta, deixar os outros entrar também, e
“supervisionar” tudo isso?
O que significa “supervisão?”... Super-visão. Pior ainda. Eu
não tenho.
É ridículo. Procurei no Oxford Dictionary e não há a palavra.
Será que estou soletrando errado? superstição de supinar.
(“Virar a palma [da mão] para cima”)... Eu a encontro no
Webster’s School and Office Dictionary’, mas esse aí não é
muito mais do que uma cartilha. Lá diz “oversee” 12.
Então estou de volta a mim mesma. Nenhuma autoridade
externa. Tenho de fazer sozinha, seja o que for. Eu sei o que
é.
Ressinto-me dos puxões e apertos no meu peito outra vez.
Seguramente lembro-me dessa sensação. Exatamente quando
tinha conseguido arranjar a “vida direito”, de modo a estar
confortável nela, pum! Veio outra coisa e quebrou tudo.
Onde foi o “Pum!”?
O que me “atingiu” agora?
Será que sou eu que estou me atingindo? Enquanto penso
“Agora tenho de me recompor e começar tudo outra vez”.
Desta vez o fardo não parece tão pesado. Apenas me ressinto
de ter de fazer de novo.

Encontrei “supervisão” na página anterior, em super -”. Não


gosto dessa forma, mas suponho que isso torna esta edição do
Oxford Dictionary mais concisa. A palavra significa o que eu
pensava. Eu esperava talvez encontrar uma saída.
Agora não preciso de saída, e não sinto fardo nas minhas
costas.
Ontem à noite na Casa, onde o Fritz come, o molho curry era
quase todo caril 13. Ele comeu pão e tomou leite, e gostou, mas
ressentiu-se do caril. Ele disse isso na reunião da
comunidade. Parecia o meu ressentimento em relação a uma
porção de comidas neste continente: não só não é boa para
mim, mas também é tão não-sensível (unsense-ible). Eu gosto
do sabor do arroz, feijão, ervilhas, vagens, carneiro, bife, e

12
“Oversee” tem exatamente o mesmo significado que “supervision”. O
inglês oferece essa possibilidade devido ao fato de uma das palavras ser
de origem anglo-saxônica e a outra de origem latina. Ambas são
traduzidas por “supervisão”. (N. do T.)
13
Caril — (curry): Condimento usado como base no preparo do molho
curry. (N. do T.)
assim por diante. A maioria das pessoas que conheço tempera
tudo, tanto, que consigo apenas sentir o sabor do tempero.
Outra birra que tenho é com “cozido”, onde tudo é tão
misturado que não sinto o gosto de nada, e o gosto que sinto
é só do disfarce; ou então algo de que gosto para o almoço,
mas não para o jantar, como atum na panela.
Pratos misturados são bons para serem comidos como sobras,
mas às vezes eu gosto de comer a comida da qual as sobras
sobram.
Convidei o Fritz para jantar comigo, um jantar leve, não uma
ceia. “Ceia” vem das pessoas finas que “ceavam” (dined),
enquanto nós jantamos. Só no domingo houve ceia, por volta
de uma ou duas horas. Nós comemos o jantar, não ceamos.
Foi o melhor jantar que tive nos últimos tempos, com um
companheiro e ainda assim com tanto silêncio; e nenhum de
nós representou papéis ou fingiu. Pelo menos, se o Fritz
estava com um papel, eu não o notei; e eu não estava. Ele
devia chegar às cinco e meia ou seis horas. Às seis e meia ele
ainda não tinha chegado, então fui até a cabana dele e ele não
estava lá, então fui até a Casa e ele estava sentado na sala
lendo jornal. “Oh! Eu sabia que havia alguma coisa...”

Agora é o dia seguinte, após o grupo. Consegui. Sinto-me bem


por ter conseguido sem tentar fazer nada, o que parece ser não
fazer nada. Notar e acontecer. O resultado é que agora estou
muito mais presente... Lembro-me de algumas vezes ter me
sentido assim após o sexo, a maravilhosa felicidade de tudo
acontecendo, inclusive eu. Antes de o sexo tornar-se parte da
minha vida, havia tanto desse acontecer. Certa vez ouvi o
tique-taque de um relógio numa vitrina pela qual estava
passando — como se ouvisse cada um. A loja estava fechada
— eu os ouvi claramente através da vitrina.
Sons de um barco a vapor a certa distância. Pessoas sentadas
no ancoradouro e refletidas na água. Homem deitado sobre a
plataforma de saltos. Na água, a plataforma está deitada sobre
o homem. Pessoas se levantam e vão embora. Onde estão as
pessoas? Não importa. Não no meu mundo. Tut! um assobio
em algum lugar à minha esquerda. A direção é clara. Colinas
ondulando na água, colinas escuras, água clara. Noto a luz e
ela se torna uma superfície, como que ligada ao escuro de
baixo. Como olhar as bordas das nuvens... Então tentei forçar
uma imagem. Grrrrrrrrinnnnddd. Grrrrrrr. Eu a abandono.
Isso não é notar. É fazer. Não, tentar fazer.
Esta manhã quando não tentei no nosso sentido, voltei ao
sentido original de “tentar”. Se eu explicar isso, alguém vai
tentar, tentar dessa maneira. O sentido se perderia, tal como
foi perdido.
As pessoas ainda riem daquela velha história do homem que
estava separando batatas murmurando: “Decisões, decisões,
decisões!”. Do que elas (individualmente) riem, eu não sei.
Se ele estivesse separando as batatas com seu eu organísmico,
não estaria “tomando decisões”. Então estou sorrindo co m o
canto da boca voltado para baixo.
Esta manhã não tomei decisões. Eu não tinha um programa,
nem para mim nem para mais ninguém. Foi mais fácil porque
ontem à noite fui mais cedo para a cama. Isso deve ser tudo.
FOI MAIS FÁCIL PORQUE ONTEM À NOITE FUI MAIS
CEDO PARA A CAMA.
Às vezes tenho-me tornado frouxa por causa da exaustão, do
desespero ou da incapacidade de me segurar. Eu me sinto tão
bem que agora tudo sai mais fácil. Nunca gostei daqueles
heróis cristãos pintados por artistas frenéticos que julg avam
estar criando algo maravilhoso. Agora temos os artistas que
relaxam jogando tinta do balde. Pode ser interessante. Ainda
assim é tinta jogada de um balde. Como tal. não discuto com
ela.
O que aprendi esta manhã com o grupo foi tanto que eu seria
estúpida se tentasse escrever. Não teria tempo para mais nada.
E então, mesmo assim você não entenderia. Além disso, a
coisa está em cada átomo meu. Sinto que os meus dedos dos
pés sabem, as minhas mãos, os meus ombros, a minha barriga,
e a minha cabeça apenas sabem também. Se você cortasse a
minha cabeça, a minha mão continuaria sabendo. (Eu sinto.)
E aí que está o meu saber. Se ele não estiver em todo lugar,
não é saber. As enciclopédias estão cheias de
“conhecimentos”. Mas elas sabem? Nenhuma compreensão.
No jantar de ontem com o Fritz, às vezes dizíamos alguma
coisa. Não. Às vezes ele dizia alguma coisa. Às vezes eu dizia
alguma coisa. Tão poucas palavras.
Tanta compreensão. Comíamos devagar, saboreando a comida
levemente temperada. Ele disse: “As pessoas usam
condimentos em vez de saliva”.
Ele disse que às vezes me inveja, que tem pesadel os sobre
expansão.
Perguntei-lhe se ele estava se referindo a encontrar mais
habitações e assim por diante. “Pesadelos reais. Eu sei que é
a minha ambição.” Ver as coisas como são. Não me forçar a
forçar as ambições dele. Não me dizer que eu preciso ser mais
ambiciosa. Não me criticar pelo que eu sou. Ele me deixa ser.
Eu o deixo ser. Não intelectualmente: totalmente. As minhas
unhas o sabem, as minhas pálpebras também. Nenhuma parte
de mim se contém. Não estou “sendo razoável”. Separação e
confluência ao mesmo tempo. E nem irrazoável.
Simplesmente não-razoável. Sem raciocinar. Além da razão.
Além do entendimento e do desentendimento. Aqui há paz, há
amor, há tudo que quero e não estou querendo.

Ontem à tarde George me procurou. (Ele está agitado.) “A Pat


esteve no seu grupo esta manhã?” “Sim.” “Ela está ali (aponta
para as árvores) há tempo, chorando. Eu não sabia o que
fazer.” Não digo nada. “Achei melhor lhe contar.”
Por um momento, eu fiquei agitada. “Então ele joga as coisas
por cima de mim.” Mas então eu soube (acentuadamente no
meu peito, mas o saber estava em toda parte.) “Deixe estar.”
Nessa noite, no grupo do Fritz, Pat tomou o lugar quente. Ela
disse: “Pensei que não tinha orgulho nenhum. Hoje à tarde
descobri que não é verdade”. “Ajudar” é roubar.

Esta manhã, Forrest estava respirando muito leve. Ele disse


que se sentia confortável. Quando uso mal uma parte de mim
por muito tempo, eu me sinto confortável. Estou acostumada.
Sinto dor quando tento mudar. Nós trabalhamos com a
respiração dele (aqui o “nós” está certo) e ele fez algumas
descobertas, não só sobre o seu respirar, mas também sobre a
sua vida. (Nenhuma das coisas que lhe pedimos para fazer foi
exercício de respiração.) Minha forma de vida (ou de
pseudovida) não está lá fora: está aqui dentro de mim, e o que
eu faço com meu corpo fazer é parte disso.

Ontem à noite, no grupo grande, Fritz discorreu um pouco


sobre “a pergunta é o anzol de uma exigência”, e sobre o ato
de mastigar. Forrest perguntou ao Fritz se ele podia dar alguns
exemplos de transformar uma pergunta numa afirmação.
Houve um breve diálogo entre ambos. O diálogo terminou
quando Forrest percebeu que ao fazer a pergunta ele estava
sendo (intenção) “o bom aluno”. Ser algo, em vez de um
processo. Um artefato. Somente agora estou compreendendo
totalmente o que Fritz quer dizer quando se refere a
“artefato”. Alguma coisa feita pelo homem.
Agora estou com vontade de escrever cartas.

Esta manhã, “lá fora” parece não ter linha nenhuma. Nada de
montanhas. Lago e céu parecem ser o mesmo nevoeiro. As
linhas são estacas de madeira, mastros de ancoradouros,
ancoradouros. O mundo (meu mundo) termina a quinze
metros daqui.
“Nenhuma interpretação.” Nenhum pensar.
Ontem, George estava trabalhando com seu conflito
dominador-dominado. Ele já o fez bastante, desde o início em
junho. Tanto seu dominador quanto seu dominado pareciam
cansados, fracos, sem muita vontade de brigar. As pessoas do
grupo estavam expressando tédio. Pensei (sic)... Pensei
(uggh!) “Provavelmente eles já passaram por isso com o
George muitas e muitas vezes.” Pensei (uggh!).
“Provavelmente o George esteja tão cansado disso quanto
nós.” A certa altura, quando o George estava sendo um del es
falando com o outro, disse: “Estou entre vocês”. Meus olhos
se dirigiram para o chão, entre o lugar quente e a cadeira
vazia, com uma imagem quase não-pictórica do George ali
parado. Eu não lhe disse para fazer isso. O Larry estava como
terapeuta. “Deixe-o continuar com aquilo que ele está
fazendo” (uggh! que pensamento!). Eu me “esqueci” de que
deveria supervisionar. Apaguei isso.
Depois do George, trabalhamos com outra pessoa, e depois
com outra. Quando o grupo acabou, George disse ao sair —
Um enorme grou acabou de pousar desajeitadamente sobre o
ancoradouro. Ele bate as asas — está sobre um barco. Bate as
asas, está sobre o ancoradouro. Na borda do ancoradouro, seu
bico mergulha na água. Agora está um pouco encolhido,
olhando para a água como um gato.
George disse, feliz: “Tenho pensado (uggh!) no meu
dominador como sendo organísmico. Eu estou no meio!”.
Percebi que tanto seu dominador quanto seu dominado tinham
enfraquecido — era por isso que estavam fracos e cansados.
Se eu tivesse deixado a minha sensação (não-uggh!) se
manifestar enquanto ele estava trabalhando. George poderia
ter chegado ainda mais longe, e mais depressa. É aí que está
o gênio do Fritz.
O estilo de vida se mostra no corpo. É claro. De que outra
forma poderia ser? Eu sou meu corpo, meu corpo é eu. De que
outra forma posso me expressar? Se eu fico encolhida e não
digo nada, estou me expressando. Quando torço meus dedos
dos pés, estou me expressando. Quando enrijeço os ombros,
estou me expressando. Quando “não ouço”, estou me
expressando. Quando entro num padrão habitual, estou me
expressando como artefato, uma espécie de estátua que se
move e respira de forma artificial. Eu fiz a mim.
Esse grou não se fez. Ele não é pervertido (perverter: desviar -
se do seu uso pretendido).
Todos nós pervertidos, que nos pervertemos de uma maneira
ou de outra, ficamos tão zangados com aqueles que se
perverteram de maneira diferente, e queremos ainda mais
eliminar aqueles que não se perverteram tanto.
Todos esses artefatos estão brigando. O mundo da ilusão.
E o meu mim-artefato? Eu apago isso. Não quero entrar nisso.
Sou apenas uma velha senhora bacana... Quero riscar esse
“bacana”! Sei que também sou não-bacana. “Bacana” é
relativo a onde eu costumava estar: ver mais, aceitar mais,
agora, isso é bacana para mim. Procuro a palavra no
dicionário, para ver o que ela significa ali. Meu Deus, quantos
significados essa palavra tem — e em inglês (nice) ela deriva
do latim que significa “ignorante”!
Procuro “inocente” e escolho o significado que me serve aq ui,
“ignorante do mal (sem implicação de virtude)”. Estou
fazendo progressos nessa direção.
Não me zango tanto.
Procuro “zanga”. Em inglês (anger) vem de uma palavra que
significa “atrapalhado” (troubled). Eu estou muito menos
atrapalhada. “Troubled” vem de uma palavra que significa
“turbulento”.
Não estou contendo a minha turbulência; não estou sendo tão
turbulenta.
Bertie Russel dizia de si mesmo e do ciúme. “Consigo me
comportar muito bem, mas estou furioso por dentro.” Isso é
turbulência. Contida, se acumulando por dentro. Rompa um
pouquinho só a barragem, e parte do acúmulo se transforma
num riacho. Uma verdadeira ruptura libera uma torrente. Se a
torrente não for interrompida...
O nevoeiro está descendo sobre o lago. Porque a “esquerda"
está embaixo, comigo e com o lago, e a “direita” em cima?
Colinas cheias de bordos, com uma fila de pinheiros pontudos
no alto, emergem rapidamente. Céu azul.
A neblina se move bem acima da superfície da água. A
segunda fila de montanhas, mais altas, emerge. Verdes e
azuis, escuros e claros em cima e refletidas na água.
Se a torrente não for interrompida, depois há paz e alegria e
um estar de novo no mundo. Já vi isso acontecer. Às vezes a
torrente chora, às vezes é uma tempestade de raiva.
Geralmente depois o hábito da perversão toma conta de novo,
mas ainda assim a experiência de algo mais ali está, e teve
início o trabalho de romper os velhos hábitos. “Três passos
para a frente, dois passos para trás”, como diz o Fritz.
Como o crescimento das crianças. Acho que elas desenvolvem
uma estupidez que tortura a elas e a mim — então desaparece
— então aparece de novo e a criança precisa lidar com ela.
Como os pontos de costura chamados de “combinação”, onde
a gente dá três pontos para a frente e um para trás. Esse ponto
para trás fortalece o que de outra maneira seria fraco.
Person to Person termina com uma descrição de mim mesma
cuidando de uma mulher navajo que havia dado à luz uma
criança. Quando a mulher olhou para mim com confiança, sem
opinião, e eu abandonei meus pensamentos sobre ela e mim
mesma, então houve apenas um processo — tudo procedendo.
As fronteiras sumiram. Eu não mais me definia — ou a ela —
e não limitava nenhuma de nós por meio de uma definição.
A eu espontânea não tem pensamentos sobre. Ela
simplesmente faz, às vezes com palavras que entram... ou
saem... Não há dentro e não há fora.
Palavras, então, são uma expressão de mim agora, sem eu
pensá-las, da mesma forma que o meu sorrir ou não sorrir é
simplesmente uma expressão de mim. Não um hábito. Não
uma intenção. Não um propósito.
Hmmmm... Quantas vezes tenho presente a minha intenção
quando falo, quantas vezes tenho presente o que estou
fazendo? Ter presente, não só saber.
Eu posso saber, “estou tentando arrastá-lo”, e deixar a coisa
sair pelo meu ombro enquanto passo para outra coisa, ou
prosseguir com meu arrastão de palavras. Ter presente é estar
em contato, deixar meu saber fazer-se sentir em mim inteira,
antes de passar para outra coisa. Essa é a diferença entre saber
que estou andando na rua, e ter presente o fato de estar
andando na rua — sentindo o movimento do meu corpo, o pé
e a rua se juntando, se tocando.
Quando Fritz trabalha com o tornar presente, a lentidão em
dizer: “Agora tenho presente...” “Agora tenho presente...” e
assim por diante, é um auxílio para se entrar em contato, posso
dizer rapidamente o que vejo, sinto, penso, cheiro, e chegar a
uma grande quantidade, sem estar em contato com nada, que
é, na verdade, a forma como a maioria de nós vive a maior
parte do tempo. Posso ver num instante que você está com a
mão no joelho, mas “Para mim é óbvio que você está com a
mão no joelho” propicia uma pausa na qual posso entrar em
contato. Principio a ver a diferença entre o que geralmente
faço, e o ter presente. Essa lentidão é apenas no início, como
diminuir a velocidade para pegar outra estrada.
Quando faço coisas fora de mim — um escritório, um jantar,
um vestido ou um jardim — tendo presente o que estou
fazendo, não há separação, não há distância entre mim e o que
estou fazendo, não há apatia. Há inter-ação. Eu estou
envolvida. Não tenho um plano a cumprir, passo a passo. Eu
me movo passo a passo e o modelo toma forma, sem imagem
da forma final.
A forma de cozinhar as batatas pode mudar enquanto eu as
descasco e descubro mais sobre estas batatas e seu potencial.
Ou a forma de cozinhar pode mudar por causa de alguma outra
mudança — o forno não está funcionando, ou alguém chega
para jantar e precisa sair logo depois. Isso não é difícil quando
estou livre, movendo-me, tendo tudo isso presente. Não fico
perdida” com as mudanças. Elas são incorporadas. Co -
operação. Gosto das mudanças, sem fazer delas e de mim uma
coisa, e a “rotina chata” é impossível. Esta também é a
maneira de co-operar com as pessoas — e a maneira pela qual
pode vir a existir a viva e calorosa sociedade co-operativa,
que tantos (de nós) desejam.
Um vestido começado de um jeito pode adquirir outra forma,
parecendo fazer isso sozinho, embora na verdade a minha
tomada de consciência esteja se movimentando junto com o
material, e o material e eu estamos interligados.
Aquilo que estou fazendo, com madeira ou pedra, muda de
forma, ou de contorno, ou de modelo à medida que entro em
contato com as qualidades da madeira ou da pedra. Se quero
uma parede, a pedra e eu faremos uma parede, mas muitas
coisas nessa parede não serão conhecidas enquanto ela não
estiver completa.
Sem forçar.
Deixar acontecer.
Quando estou pintando, às vezes penso que sei qual a cor que
desejo usar a seguir. O pensar surge do meu condicionamento,
surge do passado.
Não presente. Às vezes, começo a mover o pincel em direção
à cor que penso desejar, mas a minha mão move o pincel para
outra cor — quase como se o pincel movesse a minha mão.
Acabo de me lembrar do Fritz dizendo a um pintor em Esalen:
“Enquanto o pincel não se mexer sozinho, você não estará
pintando”.
Fazer dessa maneira as coisas fora de mim — de modo que as
coisas participem... Vocabulário, gramática e conceitos estão
contra mim quando tento descrever esse fluxo
intercombinado. Eu poderia fazê-lo melhor com as mãos e os
braços... tenho a imagem de uma máquina de puxa-puxa. Sim,
algo assim — os braços de metal e o puxa-puxa em constante
movimento, parecendo ser um todo. Não se pode realmente
acompanhar o que está acontecendo.
Não sou “intelectual” quando faço as coisas dessa maneira.
Intelecto e o resto do organismo que é mim estão funcionando
juntos, com o intelecto desempenhando um papel menor —
essencial e menor. Então, “aceitar” a mim mesma e a vida é
impossível. Eu sou eu mesma e sou vida — e estas são
afirmações tolas e imprecisas com respeito àquilo que é. Não
há eu, não há mim — não há “eu mesma”, não há “vida”.
Quando “entendo o sentido” no nosso mundo fictício, isso
geralmente significa que aceitei os valores daqueles que me
cercam, que eu penso da mesma forma que eles. Como foi que
o significado de sentidos foi transformado em pensar,
chegando a julgamento e opinião?
Sentido é algo pré-verbal. Como criança, eu sentia a minha
fome, sentia a aspereza do terno de sarja grosseira do meu pai,
e a suavidade do rosto da minha mãe, antes de conhecer as
palavras que rotulam tudo isso. Eu sentia.
Agora, quase só uso palavras e não sinto nada. Quando digo
que estou surpresa, ou que fiquei surpresa, ou que ficarei
surpresa se — não estou sentindo nada, e muito menos
“surpresa”.
“Vazios, vazios, vazios — nada!”, dizia uma mulher alemã
usando o guarda-chuva para golpear os livros nas prateleiras
das bibliotecas.
As palavras que escrevo não são as palavras que você lê.
Seguramente temos de nos colocar de cabeça para baixo e
inverter nosso modo de ver a vida.
As luzes do prisma estão estranhas hoje. Na minha janela
ainda há vermelho, laranja, amarelo, verde, e em outro lugar,
também começando da direita, azul, branco, amarelo e
laranja. Na minha escrivaninha, uma larga faixa de amarelo
fundindo-se num largo vermelho — e a um centímetro daí
uma faixa longa e estreita de vermelho-claro, amarelo forte e
verde com uma aura violeta ao longo da borda. Há também
uma forma de bala na base da janela, com vermelho na ponta,
uma pequena faixa amarela, um pedaço verde, azul e um final
violeta. Um pouco adiante, um pequeno quadrado vermelho.
Uma faixa de vermelho-vivo, brilhando como o lago ao sol,
começa dentro de um prisma e chega até uma bolacha que est á
no peitoril. Cruzando essa cor, há uma profusão de cores
fortes, com um verde mais largo no meio. No começo, onde
ele começa, há uma mancha amarela, e faixas em ângulos
retos... Enquanto descrevo, tudo se transforma. O pequeno
quadrado ficou amarelo de um lado. O violeta é — era... Antes
de conseguir colocar no papel, transformou-se de amarelo em
rosa. Agora, a mancha vermelha está laranja de um lado, e o
verde está entrando no quadradinho. Sobre a mesa, as faixas
largas desapareceram. A “vara” ainda está aí. Enquanto
escrevi a outra mancha desapareceu — e depois reapareceu.
Não consigo acompanhá-las. Fiquei tentando e fiquei com dor
de cabeça. Vou descansar e apreciar. Faço isso... O momento
de fazer e o momento de escrever não são o mesmo. Nunca
podem ser. Este é um verdadeiro “impossível”. Uma lei do
meu ser da qual não posso fugir, assim como não posso fugir
à necessidade de ar.
Alguns minutos atrás, levantei-me e escovei os cabelos,
prendi-os com fivelas de prata. Notei, então, que estava
vestindo um pijama de flanela e botas. Com o pijama eu dormi
e acordei. As botas foram acrescentadas quando os meus pés
esfriaram. Quando fiz isso, fui inocente. Meus pés estavam
frios. Calcei as botas. Quando notei, enquanto escovava os
cabelos, não fui inocente. Tive pensamentos sobre, como se
aqui houvesse mais alguém. Fantasia. Ninguém está aqui.
Meus pensamentos não têm nada a ver com agora, mas com
um possível futuro — como sentir vergonha por não “fazer
direito” alguma coisa, ou tornar isso uma virtude, rindo,
fazendo “graça”, se alguém viesse. Alguém veio, na minha
fantasia. Ninguém está aqui. Exceto eu. Não, não há exceção.
Eu também não estava aqui. Não estava aqui da mesma forma
que antes.
“O constrangimento é a forma mais branda de paranoia.” Eu
fui paranoide.
Ainda sou, um pouco. Não voltei à inocência de antes. Sinto
tristeza. Essa inocência, de ser e fazer (funcionar) de maneira
apropriada para mim, se foi.
Eu me sinto como se. Como se eu devesse. Como se eu
devesse me trocar.
Como se eu devesse me trocar agora.
Junto com essa inocência perdida, sinto um pouco de orgulho
pelas últimas sentenças, em vez de simplesmente apreciar —
o que de fato eu faço. O orgulho é um artefato. Eu fiz alguma
coisa. Divisão, não um todo.
Notei que em muitas famílias hippies, ou tribos, as crianças
são “deixadas à solta”. Em parte, isso é bom. As crianças
vestem roupas ou não, como bem entendem. Também pulam
no colo de uma mulher, ela querendo ou não, a criança ali fica
até que tenha vontade de sair. Tive uma sensação de mal-estar
(em mim) em relação a isso, sem ter a coisa muito clara. Ela
“quer” a criança ali na cabeça dela (a mulher). É uma regra.
Ela continua pseudo-vivendo em sua cabeça, enquanto fica
contando que está muito cansada. Ela se faz de aceitadora do
homem que a deixou (“para ir transar as coisas dele”), por
meio de suas palavras, enquanto a voz está negando. Qualquer
que seja a sua experiência em drogas, depois ela a
intelectualiza. Como a minha amiga drogada me contando que
tinha visto, e depois dizendo: “Então o que todos nós temos
de fazer é...”.
Às vezes uma pessoa que experiencia a liberdade após
trabalhar no “lugar quente”, e pouco depois diz: “Então o que
eu tenho de fazer é...”.
O que eu “tenho de” fazer? O que eu tenho de fazer?”
Nada. Apenas estar presente.
O fazer (sem pensamento prévio) se faz por si só.
Ponho a minha mão esquerda no meu pulso direito. Minha
mão esquerda é o sujeito, meu pulso direito é o objeto. Ainda
segurando o pulso direito com a mão esquerda, pego um
pedaço de papel com a mão direita. Minha mão direita se
tornou o sujeito, o papel, o objeto. Junto as palmas das mãos
— não há sujeito, não há objeto. Não há divisão.
Agora, já escrevi bastante. Não quero fazer mais nada sentada
nesta cadeira. Quero sair daqui. Quando o fizer, saberei o que
quero fazer em seguida.
A primeira coisa que fiz foi tirar as botas. Elas estavam
pesando.
Já revelei coisas demais sobre a Gestalt. Agora (por exemplo)
todo mundo que ler isto saberá que o dominador e o dominado
de George não eram ele mesmo. Isso pode ser mal empregado.
Mas, diabos, tudo pode ser mal empregado. Se pusermos
“cuidado, pode ser prejudicial se mal empregado”, na areia,
na água, nas folhas, mesas, pessoas, pias, papel, escada, carne,
peixe, café, pessoas — sem exceção — seria uma chatice, mas
estaria correto.
Como as palavras me dão medo. Quando fui indicada como
uma das que continuariam o treinamento, pensei em
“terapeuta” e fiquei com medo.
Quando o Fritz disse "líder”, fiquei com medo. Quando o Fritz
disse “supervisora”, fiquei com medo. Não as palavras, os
meus conceitos do que elas representam. Fantasias.
Duas e meia. Comecei o dia de forma errada, não corrigi, e
hoje saiu todo errado, mesmo que tudo tenha dado certo.

Dia seguinte, dormi muito tempo, fiz algo por pouco tempo,
dormi muito tempo, fiz algo por pouco tempo. Os períodos de
sono tornaram-se mais curtos e os períodos de fazer tornaram-
se mais longos, sem eu forçar. À noite, me senti bem —
desperta e firme/leve e presente.
Tenho vontade de escrever sobre outra coisa. Estou me
chateando.
Fritz: Se você estiver se chateando, faça-o também — na sua
cabeça ou no mundo de fora — e volte refrescada.
“O que irá abrir a porta é consciência e atenção diárias —
consciência de como falamos, do que dizemos, de como
andamos, do que pensamos” — Krishnamurti.
“O continuum de tomada de consciência é fundamental.”
Fritz, que na primeira semana passava duas horas por dia
trabalhando conosco nisso — e era apenas uma introdução.
Quase sempre, quando Fritz diz a alguém: “Você tem
presente” (seja o que for que a pessoa esteja fazendo com as
mãos, com a voz, com a boca ou qualquer outra coisa) a
pessoa para de fazer. Então Fritz diz, com paciência e
compreensão: “Eu só perguntei se você tinha isso presente.
Não lhe disse para não fazer”.
Estou com vontade de botar aqui algo que não é daqui, e se
estou com vontade, a coisa tem seu lugar. Eu a escrevi no ano
passado. John Warketin gostou. Seu corpo de editores não
gostou. Vou procurar:

Recordo-me de quando, nos meus tempos de criança, acabava


de tomar todo o leite e me sentia maravilhosamente feliz
cuspindo saliva no copo e bebendo-a novamente. Eu ficava
fazendo isso até que alguma outra coisa me atraísse, e na vez
seguinte que tomava leite, fazia novamente. Isso aconteceu
até eu ter tirado disso tudo que pude, e não senti mais atração.
Quando meu filho tinha cerca de um ano, certa tarde ele tirou
sua soneca de costume, mas não ouvi seus ruídos de despertar
na hora de sempre. Pouco depois, fui verificar. Estava em pé
no berço, mexendo nas fraldas à procura de alguma coisa
marrom-dourada que tinha saído dele; em seguida, cobriu uma
das barras do berço com o material, totalmente absorvido,
como um mestre escultor. Ficou entretido por algum tempo.
Algumas das barras tinham sido completadas. Seu interesse e
sua felicidade davam gosto de ver. Na sua total concentração,
ele não tinha notado o som da porta se abrindo e não notou
que eu estava ali. Quando falei com ele, ele olhou para mim e
soltou um leve som de satisfação, que não tinha nada a ver
comigo, exceto o fato de ele estar expressando-o para mim.
Mais recentemente, estive com uma família de seis crianças
inglesas, sendo que a mais nova tinha três anos. O menino
vivia com o nariz escorrendo. O muco ficava pingando sobre
o lábio superior. Ele estava cheio de riso contando-nos algo
que tinha notado, e lambia o muco do lábio a cada três ou
quatro palavras, sendo que um dos grupos de palavras foi:
“Me parece muito estranho...”. Me parece muito estranho que
as nossas importâncias estejam tão fora de lugar, que
geralmente não gostamos muito de ter o nariz escorrendo, e
limpá-lo vem em primeiro lugar, antes de qualquer outra
coisa.
Mais ou menos na mesma época eu queimava uma porção de
lixo num barril de metal no fundo do quintal. Era um dia
úmido de primavera, um tanto frio. O fogo estava glorioso.
Eu estava muito feliz com todos os aromas e cheiros e sons e
cores da primavera, e com o fogo ardendo. Meu nariz
começou a escorrer. Revirei os bolsos. Não havia nada neles.
Pensei: “Preciso ir até em casa buscar um lenço de papel”.
Então pensei: “Por que preciso? Eu não ia quando era criança.
Eu evitava ir para casa de todas as formas possíveis”.
Limpei o nariz no braço. A sensação foi boa — o nariz
apertando-se contra o braço (eu me tocando), o frescor, a
umidade, apreciados dentro de tudo que eu estava apreciando.
Contei isso a uma das minhas amigas “livres”. Ela fez força
para não parecer revoltada.
Quando era criança, como eu gostava de fazer cocô no bosque
que havia do outro lado da rua! Eu não devia fazer isso: eu
devia voltar para casa e usar o banheiro. Mas, enquanto o
banheiro tinha sido interessante no começo, agora já não
havia nada de novo nele, e ele não tinha os odores de folhas
vivas e folhas podres, a fragrância de muitas coisas crescendo.
Eu nunca me cansava disso. Levantar a saia e evacuar. Eu
abaixava a cabeça para ver o que vinha saindo de mim,
encantada pelo jeito que a coisa vinha, pelo plop! chegando
ao chão, pelo odor que saía. Quando não saía mais nada, eu
ficava de lado e limpava o traseiro com algumas folhas. Nos
dias seguintes, às vezes, eu voltava para ver aquela parte de
mim que tinha deixado lá, notando as mudanças.
Às vezes eu chegava ao local por acaso e pensava: “Sim,
estive aqui”, e seguia meu caminho.
A urina também era fascinante. Não me lembro de tê-la
bebido, mas certamente brinquei com ela e às vezes lambia os
dedos.
Os adultos diziam que essas coisas eram “ruins”. Mas eu ainda
era suficientemente jovem para conhecer o meu próprio
prazer, embora não pudesse afirmá-lo contra os meus pais da
mesma maneira que o filho da minha irmã fez. Ele tinha uma
mãe diferente. Quando o menininho estava com três anos
(1920), os pediatras diziam que as bananas faziam mal para
as crianças: as crianças não deveriam comê-las. Minha irmã e
eu entramos num quarto e vimos a criança comendo uma
banana. Minha irmã, seguindo os pediatras, e não a si mesma,
disse: “Ugh! Ruim!” e estendeu a mão para pegar a banana. A
criança sacudiu a cabeça fazendo “Não” para a mãe, ao
mesmo tempo que sorria e esfregava o estômago. “Nhum —
nhum!”, dizia ela, pondo a mãe em seu devido lugar.
Em Samoa, alguns meses atrás, um policial nativo disse: “As
crianças simplesmente não olham para as coisas como nós
olhamos”. Certamente que não. Quando a minha filha ainda
não andava, certa vez no verão ela se arrastou nua pela areia
e pela relva, ocupando-se durante quatro horas. Aconteceu de
eu olhar pela janela e vê-la pegar algo que não pude ver o que
era, botar na boca, e mastigar, com evidente satisfação. Ela
voltou a fazê-lo mais algumas vezes. Achei melhor ir ver o
que era. Quando cheguei, ela colocou outra coisa na boc a.
Apertei o queixo dela, e um sapinho cinzento pulou fora.
Havia montes deles em volta. Estava claro que ela já tinha
comido alguns e gostado. Não a culpei, mas eu me senti
infeliz em relação a esses sapinhos sendo comidos vivos, e
encorajei-a a explorar em outras direções.
As crianças são exploradores, testadores, descobridores. De
que outra maneira eu posso descobrir a mim? Um menino de
cinco anos me disse: “Sou mais esperto do que as pessoas
pensam!”. Perguntei: “De que maneira?”. Sua resposta foi
uma canção, um verso solto no ar: “Faço coisas perigosas e
não me machuco!”.
Não lhe disse que não deveria fazer isso, nem que deveria. De
que outra forma pode haver liberdade? De que outra forma
pode haver alegria?

Esta manhã houve novamente um grupo de três horas. Depois,


saí. Foi importante sair da cabana. Notei que eu estava
querendo não ter o grupo na minha cabana, revirando-a,
estragando o silêncio e o meu estar só. Quando voltei, escrevi
uma carta, e enquanto escrevia percebi que as pessoas ainda
estavam aqui. Eu sabia que elas não estavam na cabana, mas
sentia como se elas estivessem. Na minha cabeça, eu as
imaginava “lá fora” — nos lugares em que tinham estado.
Fantasias. Eu poderia chamar um feiticeiro ou espalhar algum
pó mágico para livrar-me delas, e acreditaria que com isso
elas teriam ido embora. Agora elas ainda estão aí. Vamos ver
o que posso fazer.
Não basta dizer: “Na minha cabeça não há ninguém exceto
eu”. Se eu o dissesse com bastante frequência talvez viesse a
crer, mas seriam também apenas uma crença, e eu não gosto
de crenças.
Eu não estou aqui. Aqui está apenas mim. Estou sentada sobre
almofadas numa cadeira giratória. Uma cadeira giratória feita
de carvalho velho e forte.
Que orgulho é esse que faz com que eu queira que vocês
saibam que não se trata de uma moderna cadeira de escritório?
Estou datilografando. Vejo a máquina, e os meus dedos
saltando sobre as teclas. Quando noto que os vejo, começo a
senti-los, enquanto antes não os sentia. Agora a dança deles
está mais viva, e eu gosto disso — me sinto mais leve ao fazê-
lo. Meu ombro esquerdo está doendo, se faz sentir pesado e
machucado. Parei de escrever e entrei nisso. Então notei a
máquina com seu barulhinho, e voltei a escrever.
Desta vez vou desligar...
É surpreendente como aquela dor primeiro se deslocou e
depois se dissolveu; tudo que fiz foi prestar atenção a ela.
Agora ela não me aborrece mais.
Está vindo para o meu pescoço... Quando prestei atenção —
mais nada — nenhuma tentativa de fazer nada — ela tomou o
meu pescoço, passou para a minha cabeça. Continuei.
Simplesmente fiquei com ela. Ela desapareceu no meu
ouvido, do lado oposto ao que principiara.
Charlotte está sentada no ancoradouro, lendo. Agora, não está
lendo mais.
Gosto da Charlotte. Gostaria de estar com ela. Mas ela falaria.
Eu não lhe disse isso. Os dois ainda não se juntaram até agora
— meu gostar e não-gostar, o “mas” apagou o gostar. Não
pensei “Gosto da Charlotte e ela falará”.
Eu me afastei do meu gostar por causa do falar dela, e me
afastei do falar dela por causa do meu falar; não tenho
encontrado Charlotte.
As pessoas ainda estão aqui na minha cabana, porém mais
tênues, agora, e estão muito quietas — sem se mover, sem
falar.
O lago é todo círculos. Pequenos na laguna, maiores na parte
maior.
Dentro da laguna, há círculos de peixes. O peixe toca a
superfície e começa uma série de círculos, expandindo -se a
partir do pontinho até chegar a um tamanho fabuloso. Os
círculos giram enquanto se expandem. Três deles girando —
lá se foram, três novos, se foram, agora cinco — sete — acabei
de olhar para a direita e ali há oito círculos — onze —
girando, morrendo, novos começando. Não posso contá-los.
Posso apenas estimar — e então isso muda.
Do outro lado do lago, onde há uma casinha, os bordos se
tornaram quase todos dourados e cor-de-laranja. Coloco-me
naquela casa e ando dentro dela, sabendo que ela não é assim,
mas gostando de estar ali sozinha.
Ainda não estou sozinha, aqui — só sei que estou, não sinto
que estou, embora as pessoas de hoje de manhã quase já se
tenham ido. Não posso mais vê-las, mas elas ainda estão
presentes numa espécie de presença que não é a minha
própria.
Recosto-me e olho pela porta. Tanta quietude. É o que noto
em primeiro lugar. Os ancoradouros estão quietos. A casa de
barcos também. Gosto dessa quietude. Sinto um descanso.
Então noto fumaça subindo na margem oposta — e o
movimento da água — um movimento tênue, mas movimento.
Tremeluzindo, em alguns lugares. Neste instante não gosto
desse movimento. Gosto da quietude. Sorvê-la, absorvê-la...
E agora a minha cabana está quieta. Sinto a quietude.
Cadeiras, paredes, piso, janelas — todos quietos. E eu vivo
dentro disso. Meu rosto sorri. Eu sorrio. Eu me sinto toda
sorrindo. Agora não há ninguém aqui, fora eu.
Não preciso mudar o grupo para outro lugar. Basta deixá -los
sair completamente quando eles se vão, e ficar aqui sem eles.
A minha respiração fica mais profunda por si só. Sinto -me
bem. Não um bem de julgamento ou moral. Simplesmente
bem. Pronta para o que vier e se não vier, tudo bem.

O que é Gestalt?
Quando eu não sabia, não podia dizer, e agora que sei, não
posso dizer.
Sinto que já faz muito tempo que não percebo nada dentro ou
fora de mim, e é hora de despertar.
Estou fora de contato até mesmo com as pessoas que tive
recentemente.
Isso costumava me incomodar. Então notei que é como um
carrossel. Ele dá voltas e voltas e voltas, e um desses dias vou
conseguir ficar em cima. Sem tentar.
Neste instante, sinto que estou meio dormindo e gostaria de
acordar.

Depois do grupo. Sinto-me tão maior — não, mais alta. Tão


mais alta do que costumo me sentir em relação à máquina d e
escrever. Já senti esse “mais alta” em outras ocasiões, e
mesmo assim sinto-me nova. Mais jovem. Mais força através
de mim, mesmo na minha cabeça que tantas vezes é deixada
de fora. Movimento.
Muitos carrosséis voltaram esta manhã. Agora, já se foram.
Não importa. Olhei-os de novo, e eles voltarão — contanto
que eu não os persiga, nem a outra coisa qualquer.
Não é de admirar que os meus lados esquerdo e direito não
combinem.
Estou torta. Aqui há um homem que parece criança e é muito
infantil. Eu fluo com (aprecio) sua semelhança com crianças,
e ignoro a sua infantilidade. Eu não o confronto com isso.
Fritz o fez, esta manhã, e três horas depois o homem estava
se sentindo bem e dizia: “Eu sobrevivi!”.
Allen trabalhou com um fragmento de sonho. Quando el e
ocupou o lugar quente, expressou sua frustração em ten tar se
dar bem com o pai. “Não há nada a fazer a não ser ficar
afastado dele. Fiquei duas horas escutando-o
pacientemente...” e assim por diante. Então ele trabalhou com
um fragmento de sonho e em meia hora, talvez, percebeu que
seu pai tinha mudado, que ele (Allen) não deixava seu pai
mudar, tinha a velha imagem dele, e usava essa velha imagem
do pai como desculpa para as coisas grandes que ele (Allen)
queria fazer e não fazia. Lendo tudo isso cozinhado como eu
escrevi, parece que não há vida. A coisa toda parecia uma
aurora boreal brilhando e reluzindo no horizonte e no céu. Da
raiva e frustração, ele passou para amor e suavidade.
A maior parte do tempo eu fui real, indo pela intuição, pelo
movimento espontâneo de mim mesma, respondendo no
momento ao momento. Isso não dá trabalho, e “trabalhar”
com a pessoa é absurdo. “Brincar” também é uma palavra
errada. Nossa linguagem dividida não tem uma palavra para o
que sucede realmente.
“Obrigado.”
“De nada.”
Papéis atribuídos pela língua. “Obrigado” — beneficiário.
“De nada” — benfeitor. Um por cima, outro por baixo.
Em língua havaiana:
“Mahalo.”
“Mahalo.”
Não há distinção entre doador e receptor, apenas a
consciência de um fluxo intermediário. Não há por cima. Não
há por baixo. Não há papéis atribuídos pela língua. A
felicidade é, sem pensamentos a respeito.
No final, quando Allen estava amoroso e suave, fiquei
comovida. Não deixei que essa comoção se revelasse. Pensei
(sic): “Não o traga para dentro”.
Então, não saí e não o deixei entrar.
Por que fiz isso é irrelevante. Poderia buscar o porquê
infinitamente, ou chegar a uma resposta, e ainda seria
irrelevante. Quando começo com “por quê?” afasto -me mais
e mais daqui. “Porque” vai e vai, com um porquê atrás do
outro, e faz tanto sentido quanto se eu dissesse que eu sou
porque Bismarck ficou louco da vida com o Kaiser e
introduziu o serviço militar obrigatório.
Isso fez com que meu avô saísse da Alemanha, na época, sem
o que é improvável que ele tivesse conhecido e se casado com
minha avó, que na época tinha vindo da Irlanda para Londres.
Algum outro rapaz a teria levado primeiro. Isso é verdade.
Mas, e todos os outros acontecimentos e porquês e
antecedentes nas vidas dos meus avós e pais, e no mundo em
que (cada um) (todos) viviam? E no final, eu não teria sido se
meus pais não se tivessem juntado e me produzido na época
em que o fizeram. Eu não sou a minha irmã, que teve os
mesmos avós, e nem sou nenhuma das outras possíveis
crianças que poderiam ter sido.
Eu não saí, e não o deixei entrar. Foi o que fiz. Sinto-me
triste. Noto que estou contendo a minha tristeza. (“Não seja
emotiva! “) Agora estou triste por não conseguir sentir
tristeza. Então, que seja esta tristeza. Esta tristeza está aqui...
Olhos turvos. Dor no peito. Minhas pernas estão tristes.
Exploro, e descubro tristeza em mim inteira. A minha cabeça
começa a se mover da esquerda para a direita, desenhando um
sinal de menos. Então, para cima e para baixo. Esse
movimento desenha uma linha que corta o menos e o
transforma em mais.
Mais. Além de onde eu estava.
Agora a tristeza está mudando — está indo embora. O que
aparece em mim é mais vitalidade, mais vida. Agora aparece
o riso que é uma espécie de sorriso para o mundo. “Deus vê
tudo e sorri.”
Nada importa.
O passado se foi. O futuro não é, assim como o passado não
é.
Eu estou aqui
e
Eu estou livre.
No momento nada importa e não faço nada errado. Ou certo.

Não vivo muito com imagens de mim mesma. Faço isso


quando me vejo como uma velha senhora trêmula.
Ainda tenho regras. Elas tendem a ser erradas. As regras são
para os jogos. A vida não é um jogo. A vida não é séria,
tampouco. A vida não é algo que se pode falar sobre. A vida
é.
“Gestalt não é regra.’’ “Tornar-se presente é o ABC da
Gestalt” — Fritz.
“Tornar-se presente é o ABC e também o XYZ. Todo o resto
— tudo provém disso.” Harry Bone, psicólogo e
psicoterapeuta, o único membro não-psicanalítico do Instituto
de Psicanálise Alanson White.
Tornar-se presente é sem qualquer intenção. Nem boa. Nem
má.
Até aí fluiu facilmente. Não apresse o rio. Isso sempre me faz
recordar.
Eu estava começando a apressar, a dizer mais. Por que tento
expressar o que não posso?
Estou esperando tornar a minha descoberta acessível a outros.
Querendo “ajudar”.
Tentando.
Quando tento, tenho uma meta.
“Caramba!”, disse eu em voz alta, com um tom de descoberta
e alívio.
Quando uma árvore cai na minha direção, eu corro. Não estou
tentando.
Não estou me ajudando. Eu simplesmente o faço. Se eu penso,
enquanto penso não faço nada. Então, pode ser que seja tarde
demais.
"Observação, compreensão, ação.” — Krishnamurti.
Qualquer regra é um engodo. “Deixe as pessoas serem.” Com
a regra na minha cabeça, deixo outras pessoas serem. Não me
deixo ser. Eu faço algo para mim — deixar os outros serem.
Deixe-me ser. Com essa regra na minha cabeça, a minha
autoimagem se realiza, e eu massacro a mim mesma e ao
mundo — mesmo que seja suavemente — com boas intenções.

Lembro-me que duas vezes em cinco anos escrevi para o Carl:


“Lembre-se, você também é gente”, quando para mim estava
claro que ele estava se excluindo — xxxxxxxxando-se.
Estando presente (com “xxxx” sobrescrito às palavras
“estando presente”). Deixe estar esses x, para me lembrar que
eu estava principiando a explicar.
Juntar as coisas com ganchos. Em vez de deixar as coisas se
juntarem da forma que bem quisessem, em mim, em você.
“Em você.” Dou um sorriso zombeteiro.
Quem é esse você? Eu não sei quem é você, se é que há
alguém em mim.

Este lugar é uma casa de loucos — uma casa onde a loucura


pode vir à luz e começar a clarear.

A imagem da “velha senhora’" realmente aparece. Não tanto


em termos do que eu “deveria ser”, mas em termos do que
“não deveria fazer”. Como, eu não deveria ser boba. “Deveria
ser” mais séria. A seriedade é algo diferente.
No domingo, enquanto fazíamos uma graaaaande torta de
maçã, falei ao Glenn dessa minha seriedade que parece errada
— não a quero. Sei como ela entrou na minha vida. Isso não
adiantou para afastá-la. Como poderia ser possível?
Agora estou me apegando a ela.
Fumaça sagrada, vejo como não me deixo ser.

Em algum lugar, mais ou menos uma página atrás, vi algo a


meu respeito que não quis expor a ninguém mais. Sou capaz
de trabalhar com isso. Pensei (nhanhanhanhá). “Não qu ero
escrever isso para ninguém. Posso cuidar disso depo is,
sozinha.” Cortei isso de você — e de mim também. Agora não
sei o que é. Se eu buscar, a coisa se afastará mais e mais. Uma
vez ela já veio à tona.

Como um peixe, ela virá novamente, e quando isso acontecer,


reconhecerei.
Nas quatro ou cinco linhas do último parágrafo, a palavra
“índios”, foi o que passou de relance pela minha cabeça
enquanto olhava, com consciência de ver, as últimas quatro
ou cinco linhas do último parágrafo. Não tenho ideia do que
quer dizer.
Em seguida veio “Hora de comédia”. “Eu quero.” Alívio da
minha própria seriedade.
Sinto-me rindo por dentro. Pingos de chuva que gotejavam na
água agora dançam sobre ela. Sorrio. Sinto-me rindo. O que
se move, como os galhos dos arbustos, ri comigo. As ervas ao
vento riem comigo. Os barcos virados no ancoradouro, e o
próprio ancoradouro, não estão rindo. Bobos! Coisas bobas.
Não sabem rir. As folhas dos bordos balançando estão rindo.
“Hora de comédia” proporcionada por mim. Não preciso de
mais nada.
Meus olhos estão dançando.
Então, em seguida, tento ligar isso a “índios”, e pelo fato de
ter tentado, desconfio. Uma voz interior fala alto e forte:
“Certo, porra!”. Um verdadeiro amigo.
Neste agora, quando não estou mais louca, o lugar não é mais
uma casa de loucos.

Estou com vontade de dissertar. “A todos vocês jovens que


estão aí”.

Sempre julguei as novelas algo tolo. Todas as coisas estúpidas


feitas pelas pessoas que participam delas, sem as quais não
haveria livro.
Sempre?
Por seis meses li novelas, sempre daquelas com mordomos e
confusão. As heroínas pediam tudo que queriam, e
telefonavam para quem queriam e a pessoa sempre vinha. (Se
alguém não viesse, eu pulava essa parte.) Eu era essas
heroínas (sem as emoções delas) e tinha um descanso
maravilhoso enquanto lia.

Quando eu tinha dezenove anos e a minha irmã 25,


envolvemo-nos num triângulo com o marido dela. Certa noite
na cozinha, minha irmã e eu pusemos tudo em ordem. Estou
começando a achar que essa expressão caseira é muito
apropriada. Não me lembro muito dos detalhes. Lembro -me
sim que a minha irmã e eu nos jogamos nos braços uma da
outra, e gritamos. Então, simultaneamente, nos vimos como
personagens desses melodramas dos quais costumávamos rir,
e explodimos em gargalhadas, juntas. Então notamos o marido
dela ali parado, e captamos tudo que ele expressava sem
palavras — sentindo-se por fora, pasmado com o fato de
estarmos juntas, intrigado com o que estava se passando.
Tudo isso parecia estampado nele e podia ser resumido num
“Isso não deveria ser desse jeito!”
Esse era o jeito de viver. Entrar rapidamente, sair
rapidamente, e não acumular as coisas para fazer delas um
livro. Como ríamos das situações exageradamente dramáticas
— inclusive as nossas.
Por que ambas nos casamos com românticos?
Não posso falar pela minha irmã, que se casou jovem. Eu sei
que desisti de procurar o homem que queria, e me contentei
com um que tinha mais coisas de que eu gostava e menos
coisas que eu não gostava, e as-coisas-de-que-eu-não-gostava
pareciam mais fáceis de levar do que com outros.

Muito mais tarde. Ray começou a trabalhar com seu


fragmento de sonho num estado de raiva e confusão. Ele
esteve com raiva e confuso durante boa parte do tempo de
trabalho. Acabou saindo com um reconhecimento claro de que
tinha continuado com um padrão infantil em relação ao pai
depois de seu pai ter mudado, e que ele se apegava à tristeza
em relação ao pai e usava-o como desculpa para não realizar
o seu próprio potencial. No final, estava completamente
esclarecido e amoroso, acariciando a almofada que tinha
anteriormente estrangulado (tal como tinha estrangulado o pai
no sonho), enterrando o queixo nela: “Não quero soltá -la”.
O que pode ser dito é dito com tanta facilidade, agora. Antes,
não esperei a hora de dizer.
Tenho estado à procura de um livro de bolso. Queria mandar
para o meu filho algumas histórias desse livro. Emprestei
alguns livros para diversas pessoas daqui. Quando não
consegui encontrar esse livro, pensei que poderia estar com
outra pessoa. Esta tarde, quando despertei de uma soneca,
“vi” um envelope, e as minhas mãos colocando páginas do
livro no envelope. Não procuro mais o livro. Tudo que notei
está aqui em mim. Quando não estou em contato com isso,
estou fazendo alguma coisa errada.
Depois disso, notei o gosto ruim na minha boca do qual não
tenho gostado, e me perguntei o que poderia fazer. Imaginei
uma maçã. (Ou uma maçã se imaginou, conforme me
identifico com meu eu organísmico ou meu Eu intelectual.)
Ao descascar a maçã, pensei em “inverter” uma das
ferramentas da Gestalt.
A maçã começou a me descascar. Uuuugh. Não gostei.
Continuei descascando a maçã, com muito mais consciência e
cuidado do que antes. Se isso fez alguma diferença para a
maçã, não sei. Gostei da mudança em mim.

Ontem à noite. Bill ocupou o lugar quente com um sonho qu e


o deixou ansioso. Não há verbo para isso em inglês. 14
Estranho. Procurei no dicionário. Deriva de angere —

14
Em português existe o verbo “ansiar", embora seu significado não seja
exatamente o mesmo de “estar ansioso”, conforme se entende em jargão
psicológico. Ansiar = ter anseios. Estar ansioso abrange o ter anseios,
porém é mais amplo; e ter ou estar com ansiedade. (N. do T.)
estrangular, sufocar.
Bill falou monotonamente, como sempre. Tenho dificuldade
em escutar o que Bill diz. Fritz disse: “Estou sendo bloqueado
pela sua voz. Acho que temos de entrar nisso antes de
conseguir qualquer outra coisa”. Bill tornou-se a sua voz,
experienciou como se sufocava, e assim por diante. Fritz
disse: “Agora sufoque o meu pulso — não confio a você o
meu pescoço — e fale enquanto faz isso”. Bill fez, e a sua voz
saiu grave, cheia e ressonante. Ele pôde ouvir a ressonância,
sentir as vibrações. Nós também. Subitamente pareceu um
Bill muito diferente, não só mais forte — mais interessado —
como querendo ouvir mais.
Um pequeno barco a motor está se movendo rapidamente pela
água, como se a estivesse cortando, com uma onda forte atrás
de si. Um homem se levantou e se curvou sobre a popa,
parecendo estar fazendo algo com a onda.
Depois de trabalhar cerca de meia hora com sua voz, Bill
trabalhou com seu sonho de estar roubando um banco. Fritz
pediu-lhe que fosse o banco. Bill descreveu a si mesmo como
banco — estrutural e funcionalmente. Esse banco me causou
tédio. Fritz disse: “Não há gente nele. Não creio que esse seja
o banco que você roubou”.
Notar o que não está aí. Quando estou numa cidade poluída,
tenho consciência de que a poluição está e que o ar puro não
está. Mas em Torrrance, quando eu me aborrecia com o que
estava lá e com muitas coisas que não estavam, houve um não -
está que me entristecia e que eu não sabia o que era.
Finalmente, percebi. “Não há negros e não há judeus”, foi o
que me veio à cabeça. Era fácil verificar a ausência de negros.
Vi apenas um, varrendo o supermercado. Judeus — como é
que eu podia verificar? Pensei em meia dúzia de nomes judeus
comuns, e procurei na lista telefônica. Pensei em outros seis
ou sete, e procurei. Nenhum deles estava lá. Procurei na lista
dos distritos vizinhos, como Hermosa Beach, e encontrei em
todos eles cada um dos nomes muitas e muitas vezes.
Torrance era uma cidade realmente estranha. Um ano
morando lá, e o único acontecimento de que ouvi falar foi uma
reunião do WCTU 15. Nunca vi tanta cortesia junta, e senti que
estava vivendo num cemitério de fantasmas corteses. Eles
nunca me notaram. Fluindo suavemente eles passavam por
mim, dizendo “Com licença”, como se eu fosse um arbusto ou
uma árvore.

Todos se vestiam com roupas de cores leves. As vozes eram


todas macias. Tudo igual. Tudo igual. Tudo igual. Certo dia.
quando estava trabalhando com o Zen — Torrance realmente
me atraiu para isso — fui a pé para a cidade e cada pessoa era
única, viva, original, brilhantemente vestida. Reluzindo.
Posso vê-las agora, ali, da mesma maneira que as vi, mas falta
algo.
Não sei se elas estavam se encontrando ou se cada uma estava
completamente imersa em seu próprio mundo, fora de contato
com os outros. Naquela hora eu sabia o que estava ou não
estava se passando.
Deke costumava mostrar os filmes do Fritz com bastante
frequência — manusear o projetor. Ele está cansado disso e
não quer mais fazer. Agora, duas outras pessoas estão fazendo
o serviço. A coisa é nova para elas — usar a máquina, e os
filmes também são novos. Elas querem vê-los.
Contadores mudam. Secretárias mudam. Cozinheiros mudam.
Às vezes há confusão. Nada fatal. E não há muita
possibilidade de uma ordem muito estabelecida.

Fritz fala em “preencher os buracos” na personalidade de uma


pessoa.
Não gosto de como isso soa — como se fossem preenchidos

15
WCTU — Woman’s Christian Temperance Union: União Feminina
Cristã de Sobriedade. Grupo que se formou nos EUA por volta de 1879,
que acreditava que o ensino da sobriedade e moderação em bebidas
alcoólicas ajudaria a reduzir os efeitos negativos do álcool. (N. do T.)
de fora, com algo estranho. Não é isso que ele faz. Para mim,
parece mais entrar num fluxo — liberar o fluxo que tinha
bloqueado.

Esta manhã, ao entrar, Clara estava irritada. Nas palavras


dela: “Emputecida”. Mais tarde, ela chorou dizendo que
estava sempre “acalentando” as pessoas, e que não recebia
nada de volta. Depois de trabalhar, ela se sentiu aquecida e
acalentada e acalentando.
Naquela noite na cozinha, Fritz perguntou: “Hoje é seu
aniversário?”.
Quando respondi que não, ele disse: “Você está com cara de
aniversário”. Não me sentia no meu aniversário, e nã o sabia o
que ele queria dizer.
Pouco depois, eu disse que me sentia ridícula por aceitar
dinheiro fazendo algo de que gostava; isso foi quando o
homem da Universidade de British Columbia disse que me
mandaria um cheque pelas três horas que tinha passado c om
Irwin, num encontro de grupo; não me pareceu certo. Eu não
tinha trabalhado. Não senti que era trabalho e fui paga pelo
que recebi do encontro.
Fritz disse, meio em tom de gozação, que uma das regras da
Gestalt é uma coisa qualquer (me esqueci o que era), e a outra,
cobrar o mais caro possível.
Escutei algumas das outras pessoas presentes, então fiquei
divagando na minha cabeça. A mesma voz profunda,
parecendo vir do peito, da qual tinha gostado antes,
interrompeu dizendo: “Eu fui paga”. Uma segurança tão
completa e um sentimento tão amigável nela. Não havia
dúvida a respeito disso.
Eu sentia um amigo dentro de mim, e não precisava de amigos
em nenhum outro lugar. Aconchegada. Fui para a cama com
essa sensação.
O grupo desta manhã começou com uma mulher com quem eu
não queria trabalhar. Pensei: “Não, de novo!”. Duas coisas
que consegui trabalhando com ela foram: perceber que eu não
tinha medo da raiva e dos gritos dela, e ela conseguia ter
alguma percepção no final. Uma mulher do grupo fazia -lhe
recordar a sua madrasta. Na verdade ela não via a mulher
presente, quase não via, e a odiava. Depois de uma hora, ela
viu essa mulher. Estendeu o braço para tocá-la e disse: “Sinto
você diferente”. Acariciou a cabeça da mulher, em contato
com seu toque e então abarcou-a. Após algum tempo, riu:
“Nunca pensei que iria fazer isso!”.
Esse não é o fim, para ela, porém é mais um passo. Não notei
muitos erros. Senti-me bem em ser mais forte quando isso se
fez necessário.
Então, Ray, que ontem trabalhou tão bem, pulou para o lugar
quente. Eu queria uma pausa maior. Não cheguei a dizer.
Diversas vezes, notei algo — e duvidei da minha observação.
Uma vez notei algo, e não dei prosseguimento.
A minha observação foi clara — eu simplesmente a
abandonei. Todos nós perdidos em confusão. Deixei outra
pessoa sugerir algo que não fez sentido para mim, e eu mesma
cheguei a concordar. Então Fritz entrou. Ele captou a
confusão de Ray — fê-lo descrever o que era, e então dançar
a confusão — e então inverteu a dança. Ping! Ray captou a
mensagem da sua dança, e para mim ficou claro que era a
mensagem do sonho.
Então, a partir da sugestão errada que a mulher deu e que eu
aceitei.
Kolman ficou aceso e pronto para trabalhar. Trabalhou
maravilhosamente com o Fritz.
No final, todos os certos e errados pareceram estar bem. Eu
tinha notado muitos erros que cometera, e Fritz apontou um
deles quando disse para sempre pegar o “fenômeno” (A
confusão de Ray). Eu não me torturei com os erros e nem ri
deles, nem planejei não contê-los da próxima vez. Não fiz
nada, e tudo estava bem. Eles tinham sido notados —junto
com o bem que veio do erro maior. Nenhum esforço.
Nenhuma amolação. Nenhuma troca. Simplesmente a
presença deles.
Quando as pessoas saíram, elas tinham ido, e eu fiquei só.
Não sinto que é um aniversário, um dia de nascimento. Sinto-
me mais como um feto crescendo rapidamente. Hoje, por
alguns instantes, senti que estavam crescendo as minhas
orelhas — senti isso fisicamente, como se as orelhas
estivessem crescendo mesmo, e que até mesmo estavam sendo
abertos canais nelas, ou melhor, os canais estavam se abrindo
sozinhos.
Por alguns instantes, senti-me como se estivesse sendo toda
“tomada”, por algo em constante mutação. Até mesmo o meu
pescoço e a minha cabeça estiveram envolvidos — como se
houvesse mais sentimentos e sensações em ambos. Eu quis ser
inteiramente tomada, nesse instante, sentir tudo — e renascer.
Isso não aconteceu. Entrei e saí de agonias suaves durante o
dia inteiro — deixando-as vir e ir embora. Estou farta dessas
agonias suaves, que tanto tenho tido ultimamente. Mas não
quero livrar-me delas fazendo algo para me distrair, nem
tomando nada. Não quero isso, porque então perder ia o resto.
E tão difícil estar simplesmente aberta para o meu “amigo”.
Frequentemente peço, rogo ou suplico: “Venha, porra'.''.
Quando estamos em contato, quero segurar esse contato.
Tentando dirigir o que não pode ser dirigido. Não deixando
ser. Ontem à noite, entretanto, senti que entrei em contato até
o ponto de saber que estava sendo entendida, que o “meu
amigo” soube que o que eu realmente quero é parar com esse
absurdo, e agora estou trabalhando com isso... Acabo de me
lembrar que hoje, por algumas horas, senti que não estava
trabalhando, não estava fazendo nada — enquanto estava
sendo tomada por mim.
Agora voltei ao olho intelectual — uuupa! Pensei que estava
escrevendo eu.16 Agora, estou me sentindo mais olho do que
eu, e o que parecia absurdo voltou a ter sentido — ao sentir.
Olho-eu vê.
Então, meu jantar ficou pronto. Levantei-me e pus um pedaço
de frango no prato, uma batata e algumas beterrabas.

16
Jogo de palavras possível pelo fato de “eye” (“olho”) e “I” (“eu”)
serem homófonas. Ambas se pronunciam “ái”. A autora teve intenção de
escrever: “Agora voltei ao eu (I) intelectual” — e escreveu “Agora voltei
ao olho (eye) intelectual”. (N. do T.)
Enquanto fazia isso, o olho se sentiu amigável — como a voz
que disse “Certo, porra!” ontem à tarde, e “Eu fui paga”,
ontem à noite.
Suponha que tudo isso seja absurdo!
(Olho parece piscar.)
Suponha que sim. Eu gosto mais do absurdo de dizer quem
disse o quê (sejam filósofos, ou amigos ou inimigos), ler
jornais, ou falar sobre, como se eu soubesse alguma coisa, ou
adorar, ou deplorar, ou lamentar, ou repreender, ou elogiar,
culpar, superior, inferior, celebrar o que não é digno celebrar
— como mais um ano vivido ou vivido junto com alguém,
esperando-se a celebração — ou comprar coisas para mostrar,
ou fisgar amigos, ou ficar zangado, dócil, emputecido,
simpático, tomar pílulas para solidão e dor, ser quente ou frio,
tirar dez ou zero na escola, fazer-se de sábio ou fazer-se de
tolo quando tudo o que se quer é...
C APÍTULO 4: NEVOEIRO

Esta manhã não quis me reunir com o grupo. Não quero ter
dois grupos de duas horas na semana que vem, em vez de um
grupo de três horas. Dois grupos por dia. Isso não é vida. Não
é a minha vida. Vou dizer para o Fritz.
Quando pensei nas pessoas que estariam neste grupo, quis
ainda menos reunir-me hoje com eles.
Guy tinha acabado de começar a trabalhar quando Fritz
entrou. Ele fez um trabalho muito bonito com o Fritz. Foi
incrível ouvir uma voz envelhecida, (Guy é jovem) cantar
seus pensamentos — uma voz linda. Eu não sabia que ele
tinha essa voz.
Então Natalie foi para o lugar quente. Eu estava ansiosa para
trabalhar com Natalie. O trabalho com ela é tão lindo, e eu
gosto tanto dela. Pete entrou e assumiu a direção. Tudo bem
— ela possuía liberdade para isso, se e quando quisesse, e eu
também tinha. Às vezes eu o fiz. não com muita frequência.
Notei Pete atuando com seu eu de psiquiatra, misturado com
o que tinha aprendido de Gestalt. Pensei em apontar o não -
Gestalt. Não o fiz.
Pensei em dizer para o Fritz: “Eu não estou interessada em
treinar gente.
Eu não estou interessada em trabalhar com psiquiatras. Não
quero. Não vou”.
Sem brigas ou violências. Simples afirmativas bastam, de
mim para ele, dele para mim.
Quando as pessoas se foram, pensei nisso outra vez. Então me
lembrei da minha fantasia desta manhã, de como tinha
imaginado o grupo e como seria (não uma fantasi a detalhada,
mais como uma imagem), e não foi. Não sei de nada sobre
amanhã. Não sei como serão dois grupos de duas horas.
Quanto à parte de treinamento, o que me deixou aborrecida
foi pensar o que eu deveria fazer, como ficar sentada com ar
inteligente, e notar, e estar pronta para captar e indicar. Não
gosto disso.
De repente, percebi que não precisa ser assim. Notar, e
deixar-me crescer, evoluir. Isso é tudo. Agora, estou
fascinada para ver como isso funciona — o que vai acontecer.
Deixar-me acontecer. Não tentar me dirigir.
Os foras de hoje não importam. Eles estavam em mim esta
manhã, antes de eu fazer e notar o meu fazer. Não podia ser
diferente do que foi.
Tudo está bem. Eu me sinto bem, com felicidade e
antecipação misturadas, não forte, mas viva.
Quando tento manter as coisas na cabeça (como lembrar -me
de notar, lembrar-me de apontar os erros de Gestalt) fico com
dor de cabeça. Essa razão é suficiente para não fazê-lo —
além desse palavrão imundo e nojento, trapaceiro e vigarista,
“tentar”. Sinto-me bem em estar tão livre dele quanto estou.
Notar. Notar. Notar. Estar presente.
Toda vez que o Fritz entra e trabalha com alguém, quando ele
sai, penso:
“Que ato bom de ser acompanhado!”. Sinto que ele seria
capaz de notar se uma das minhas pálpebras não se movesse
com a outra quando pisco; e se as duas se movessem juntas,
ele também notaria.
“Tento ao máximo não pensar.” Seguramente isso deixa lugar
de sobra para notar.
Assim que o Fritz deixou o grupo, ele se tinha ido. Não tento
ser como ele, não fico aliviada por ele ter ido embora, não me
entristeço por não ser Fritz.
Quando ele sai, não fica na minha cabeça, e eu fico com as
pessoas que estão aqui. Isso em mim está bem... Acabei de
notar também que não me pergunto o que as pessoas irão
pensar de mim, depois de terem visto o Fritz trabalhar. Eu sou
eu. Ele é ele. Eu o abandono. Se não o fizesse, eu seria
invadida.
Se não tenho uma meta, como posso cometer um erro?

Fritz, querido. O sentimento desta manhã de que ele nota tudo


— como se ele tivesse feito ou fizesse isso o tempo todo.
Neste instante, ele entrou por um momento e uma das coisas
que disse foi: “Isso é novo em mim, a coisa da voz. Você
notou esta manhã com o Guy? Estou deixando crescer
orelhas”. Crescer, crescer, crescer. TORNAR-SE
PRESENTE.
“Agora estou num período letárgico. Tudo que consigo fazer
são os grupos — nada mais.”
Contei-lhe a respeito do fato de eu notar meus erros e não me
incomodar, e ver o que frequentemente surge dos erros.
Fritz, encolhendo os ombros: “É claro. Os erros não
importam”. Vi isso completamente, totalmente, vi tudo e
sorri.
Dez minutos depois: “O que você (eu) quer dizer com erros
não importam!”, e pela minha cabeça passavam todos os tipos
de erros que importam sim, é claro que importam.
Então vi que não importam.
Então que importam.
Então que não importam.
Então que importam.
E agora, subitamente estou totalmente aqui, com o riso dentro
de mim, que estava me fazendo falta.
Meu marido: Alguma coisa importa?
Eu: (alterando a mim mesma, para o choque não ser grande
demais): Bem, não muito.
Eu não tinha isso o tempo todo. Tinha isso com frequência.
Agora, “vejo” uma pequena estátua da coleção Brundage —
Maya dando à luz Krishna. Ela está dançando.
Agora estou tão flexível... Me senti assim, levan tei-me para
ver se era verdade. A parte inferior das minhas costas ainda
está rija — pude sentir, e consegui apenas encostar os dedos
no chão, não as mãos. Fora isso estou — sinto-me fluida e me
movo com facilidade. E tão viva. Não me sinto sem peso sobre
a cadeira.
Mas quase, como se os meus ombros estivessem segurando o
meu tronco, meu pescoço segurando os meus ombros, minha
cabeça segurando o pescoço, e o que está segurando a minha
cabeça, não sei, mas a sensação é ótima.
Viro a cabeça de um lado para outro — nenhum incômodo.
Menos de um ano atrás, algumas pessoas pensavam que eu era
“nariz empinado”, quando tudo que eu tinha era um pescoço
rijo. Eu me afastava dos ombros. Tenho certeza de que não o
perdi. Aquela foi a última vez que alguém comentou.
Folhas de bordos caindo das árvores e flutuando na brisa, às
vezes subindo, mas no final pousando levemente sobre a água
da lagoa, onde continuam flutuando, como margaridas.
Em junho, aqui, trabalhei concretamente com meu peit o,
pescoço e cabeça. Onde estão eles agora?
A minha voz! Só agora a deixo vir.
As cordas esticadas irrompem
— e a música corre
As cordas frouxas são mudas
— e a música morre
Afinem a cítara17
nem muito alto nem baixo
Minha voz é a minha cítara.

Quanta coisa fizeram por mim essas duas semanas em que “fui
líder” — coisa que eu tinha medo.
Tudo se acerta. E por isso que não importa se faço algo errado.
Percebi isto enquanto cortava beterrabas. E a tentativa de não
cometer erros e a tentativa de corrigi-los que estraga tudo.
Tentar, tentar, tentar, quando sou feita desta maneira — como
as aves voando.

Ainda estou incomodada pelo “nada importa”. Não, não estou.


Estava.
Agora, enquanto ainda estou em contato com isso, vou
escrever. Quando estou no lugar dentro de mim que sabe que
nada importa, sou também cuidadosa, amorosa, sem pegar
mais do que preciso, sem ambição, não-competitiva.
Se há somente pão e manteiga, contento-me com pão e
manteiga. O peito de frango frio, as beterrabas, e meia batata
na manteiga tinham sabor de um prato dos mais sofisticados.
Funciono bem. Sem tudo isso, seria errado o “nada importa.”
No “nada importa” errado, subitamente tudo muda se a minha
vida estiver ameaçada — ou mesmo que só pareça estar. É
uma divisão entre “nada importa”, “contanto que” ou
“amanhã talvez eu me arrependa pelo que deixei hoje”. A
perfeição (tudo é bom) do “nada importa”, certo, não pode ser
perturbada. Talvez amanhã eu não fizesse por você o que fiz
hoje; mas ontem, quando fiz ou dei isso para você, ainda está
bem.
Não vou liderar nenhum grupo na semana que vem quando o
Fritz estiver fora, e posso ir amanhã para Vancouver, passar
o Dia de Ação de Graças (canadense — no começo de

17
Cítara (Sitar) = Instrumento de cordas, indiano. (N. do T.)
outubro) e ficar ali três ou quatro dias, ou uma semana se eu
quiser. Enquanto eu não chegar lá, não saberei se quero.

Sei que o estado que estou gozando agora (nem alto — nem
baixo) pode não durar. Pode “ir embora” a qualquer momento
— ou amanhã. Mas agora, acabei de lavar os pratos. Não os
lavei. Eles se lavaram comigo, e eu apreciei a água, e espuma,
os pratos e panelas; limpar os pedacinhos de beterraba do
fogão foi como um milagre: eles estão aí — e não estão mais.
Movimento do corpo. Todos os sentidos sentindo.
Antes, quando preparei o molho, notei como foi fácil ler a
receita, e as medidas não deram nenhum problema. Minhas
mãos tremeram só um pouco, não o suficiente para ser um
problema. Não havia incerteza no que eu estava fazendo.
Após a reunião desta noite, eu estava indo para o bar de Lake
Cowichan com o Guy. Os outros já tinham ido. O carro do
Guy estava mais longe do que a distância que costumo
caminhar com facilidade, mas não longe demais.
Além disso, havia uma subidinha no começo, mas no final
uma ladeira comprida para descer. Consegui. Enquanto
andava, notei que caminhava com facilidade. A part e inferior
das costas ainda estava rija, mas não houve difi culdade.
O resto de mim estava livre.
Quando chegamos ao carro do Guy, a bateria tinha-se
descarregado, e voltamos. Eu estava quase no fim da subida
forte quando percebi que caminhava facilmente, respirava
facilmente — falando enquanto andava...
Que se danem aqueles médicos que há catorze anos me
disseram para aceitar a minha condição tal como ela era,
porque eu jamais iria melhorar.
Escrevo isso e percebo que o meu “Que se danem” é leve e
fácil, uma espécie de gozação. Não estou mais zangada.
Costumava ficar zangada porque eles estavam me derrotando.
Toda vez que eu dizia que ia melhorar — sabendo que estava
fazendo progressos mesmo que os médicos não soubessem —
quando o médico olhava para mim com compaixão (que eu
apreciava — havia pelo menos uma dose de respeito) ou com
desgosto por uma velha não aceitar o que era, eu me sentia
como se colocassem um muro de quatro metros de grossura
entre mim e a melhora. Agora, já não me zango com o médico
que disse ter visto “centenas de casos” como o meu. Viu nada
(sorriso irônico).
Eles estão todos no passado do qual estou saindo. Sei que
amanhã ainda posso escorregar e cair de volta, e os ganhos
parecerão perdidos, mas a minha experiência de hoje à noite
se faz sentir sólida. Se eu perdê-la, posso abandoná-la. Ela
voltará.
Meus olhos estão turvos. Não muito turvos. Apenas turvos
como se fosse assim que devessem estar, e ficaram muito
tempo secos, sem serem lavados adequadamente.
Sei que se eu conseguisse soltar-me em mim (“repouso total”)
meus tremores poderiam diminuir. Certamente, levei muito
tempo para aprender a fazer isso. Nunca acreditei no
diagnóstico de “lesão permanente no sistema nervoso
central”. Lesão, sim. Permanente, não. Isto é, poderia ser
permanente se eu não encontrasse saída, e se eu não desse
suficiente atenção, mas não é necessariamente assim.
Meus tremores têm estado muito brandos esta noite — não
estão incomodando... Acabo de me lembrar do meu amigo da
Califórnia, com quem falei por telefone há pouco mais de um
mês. Não me recordo o que disse dos meus tremores, mas ele
disse (querendo ajudar?) “Sei que eles incomodam você, não
sei por quê.” Quando estão realmente ruins, eles me
incomodam — como quando não consigo assinar cheques de
viagem. O resto do tempo, sei que posso me livrar deles e
quero. E bobagem tremer assim quando não se precisa.
Geralmente não noto o inchaço do gânglio no meu pé, a menos
que pense primeiro, depois noto. Não dói. Esta noite, estou
notando o tempo todo, porque o sinto latejando. Não sei o que
está havendo, mas a sensação é boa — como um ponto morto
ganhando vida. Em julho notei um pequeno inchaço no meu
pé esquerdo, que não havia antes. Em agosto, ele estava
bastante grande. Perguntei o que era a um médico q ue veio
para cá — não, meu filho perguntou. Ele tinha medo que
pudesse ser câncer. Eu tinha certeza de que não era. Em todo
caso, o médico disse que era um gânglio, e que podia ser
tirado com pequenas palmadas, ou inserindo uma seringa para
puxar o material para fora.
Quando estava na Califórnia, Person to Person me levou a
conhecer um cirurgião ortopedista que não gosta de operar, e
prefere trabalhar de outras maneiras com seus pacientes. Ele
disse a mesma coisa do tratamento quando lhe perguntei o que
poderia fazer. Não era o que eu queria. Expliquei que queria
saber o que eu poderia fazer. Ele me perguntou sê eu já tinha
entrado em contato comigo mesma a nível celular. Eu ainda
não tinha. Ele me mostrou com os dedos a espécie de balão
que se tinha formado, com um pequeno tubo entrando por
baixo. Ele disse que o líquido entrava pelo tubo e se
desidratava, e não podia voltar pelo tubo. Ele disse que se eu
conseguisse deixar entrar algum líquido (líquido do corpo) no
balão, então o material desidratado poderia se dissolver e
voltar através do tubo. Trabalhei nisso aquela noite,
imaginando o que ele tinha descrito e ao mesmo tempo
estando diretamente em contato com a região inchada — da
mesma forma como se tem contato com o dedão do pé.
Apareceu um pensamento espontâneo: Não pode ser tudo da
mesma espessura — deve haver alguns pontos mais fracos.
Em seguida apareceram vários desses pontos na imagem, um
deles maior do que os outros, em cima. Retive este ponto na
cabeça — simplesmente retive. Fiquei surpresa quando uma
pequenina gota de água apareceu ali, brilhando como um
minúsculo laguinho. Então, através do ponto mais fraco, um
leve brilho surgiu dentro do calombo.
Enquanto escrevia isto, subitamente me lembrei da minha
mãe, quando meu pai e eu saímos num Ford Modelo T, em
1919, para viajar de Nova York para a Califór nia. Meu pai
nunca tinha guiado uma distância maior do que trinta milhas
de casa. Meu pai e eu nunca tínhamos passado de Tarrytown,
a minha mãe uma vez tinha ido para Ohio de trem. Naquela
época, não havia muita gente atravessando o continente de
carro. Não tínhamos coragem de dizer, às pessoas que
encontrávamos pelo caminho, aonde estávamos indo.
Primeiro, dizíamos: “Quedas de Niágara”. Quando lá
chegamos, passamos a dizer “Cleveland”. Quando cheg amos
a Cleveland, tivemos coragem e dissemos que íamos para
Kansas City. Ao chegar lá, fomos ainda mais corajosos (ou
audaciosos) e contamos às pessoas que estávamos indo para a
Califórnia.
Quando escrevo a respeito do que está acontecendo com o
meu corpo, e chego ao calombo com o qual nem tenho estado
trabalhando, sinto-me como nos sentimos quando passamos a
dizer que estávamos indo para a Califórnia. Ainda não
acreditávamos que chegaríamos lá, e certamente não
sabíamos se iríamos conseguir.
Não tenho trabalhado com o gânglio desde que voltei para cá.
Há tanta coisa com que trabalhar que eu teria de ser dezenas
de pessoas — talvez centenas — para dar conta de tudo.
Felizmente, quando algumas coisas se resolvem, outras se
esclarecem junto, ou pelo menos começam a se esclarecer.
Felizmente, sou um corpo interligado. Acabei de pensar: “Se
todo o resto de mim se esclarecesse ou estivesse a caminho de
se esclarecer por si só, talvez eu pudesse começar a ver se
consigo fazer nascer dentes”. Isso parece algo extremado,
mesmo para mim, mas eu não diria que é impossível para mim
— o mim que não é mim, que realmente é mim, ou realmente
é.
Onde está o “meu amigo”? Ele não falou comigo hoje, mas
neste instante estou com um sentimento amigável que me
torna inteira. Ainda sinto falta dele. Gostei da voz dele. Não
penso que “ele” seja masculino, mas possivelmente o
componente masculino em mim, misturado (mas não
confundido) com o feminino. Relativamente à minha voz em
outras ocasiões, esta voz é masculina — mas não masculino
em si. Na nossa língua, tem de ser ele ou ela, e nenhum dos
dois serve para mim.

Notei que os índios não têm aparecido muito ultimamente.


Acho que os deixei atrás. Então, de repente, eles voltam.
Quando eu voltar de Vancouver, qualquer coisa poderá entrar
aqui, e certamente não sei o que será. Só sei que se eu tiver
escorregado para trás, não será para sempre. O que é para
sempre?
Voltei ontem à noite — cinco dias e meio fora. Esperei duas
horas e meia em Nanaimo. Na estação de ônibus, uma doce
velhinha, vestida com um casaco verde, chapéu cor -de-rosa e
suéter, não queria partilhar sua rosquinha com uma vespa. A
vespa persistiu. Ela derramou meia xícara de café nos sapatos
tentando esquivar-se da vespa, e acabou desistindo. A vespa
pegou o que queria, que era muito pouco, e foi embora. Ela
podia ter comido o resto da rosquinha. Não comeu.
Em Duncan, esperei duas horas. Um jovem indiano de
turbante rosa-claro me convidou para tomar uma cerveja.
Eu estava cansada e me senti bem ao voltar. Hoje, perdi
terreno. Em Vancouver, a minha flexibilidade continuou.
Marion notou a diferença no meu andar. Notei que pequena
parte das minhas costas ainda estava rija, e trabalhei nisso,
com êxito. Hoje, não consigo trabalhar em nada, então fiquei
respondendo cartas. Quando senti sono, fui para a cama, e
acordei péssima.
A minha urina queima. Isso não tem acontecido.
Hoje me sinto estragada.
Enquanto respondia as cartas, mais e mais tinha vontade de
escrever isto — e agora que estou escrevendo, nada acontece.
Tenho pensado zombeteiramente — às vezes, quando lembro
deste escrever — “Parece cada vez mais um diário”. Então, o
que é que tenho contra diários!
Na minha infância, todo Natal eu costumava ganhar um diário
com capa de couro. Eu não escrevia nada, mas gostava de
senti-lo, e de olhar para ele. Isso foi tudo que aconteceu entre
mim e os diários até que meu marido insistiu para eu manter
um, o que fiz por algum tempo, até que me enchi. Ele
continuou mantendo, ano após ano, porém o chamava de
“livro de lugares-comuns”, o que o elevava a nível de
literatura. Ainda assim era um diário. Ano após ano.
Perguntei a Marion, que é meio índia (uma avó), qual é a
diferença mais importante entre índios e brancos. Ela
respondeu: “Trabalho. O índio trabalha e descansa — goza. O
branco diz ‘continue trabalhando.’ Ele se zanga quando o
índio não faz isso”.
Cansada. Doída. Mole. Mole. Gasta. Fatigada demais para
subir até a Casa, fraca demais.
Loucura. Loucura. A esta altura, desisti e me deitei sobre o
sofá. Por algum tempo, notei as minhas dores, e tensões, e não
parecia levar a nada.
Não estou habituada a isso. Prossegui — apenas notando — e
finalmente comecei a suspirar — um pequeno alívio. Daí por
diante, o alívio foi maravilhoso. Levantei, fui até a Casa sem
esforço, gostei de estar lá, me senti bem, e apreciei o jantar
Eu podia ter feito isso de manhã.
Eu podia ter feito isso ontem à noite.
Não é de admirar que hoje eu tenha me sentido estragada. Eu
estraguei — me estraguei.
Não estou me lamentando. Apenas. É isso aí. Neste instante,
estou me sentindo bem com o mundo girando e girando e
girando, e tenho outra chance de pegar o carrossel.

Tenho sentido que a Gestalt está sendo cada vez mais


estragada aqui.
Não estava vendo de maneira suficientemente clara para fazer
algo. Ontem vi.
Hoje, fiz.
Estávamos tendo uma reunião de grupo grande, que para mim
estava — bem, durante quatro ou cinco dias tenho sentido que
a coisa está uma várzea.
Esta noite senti a mesma coisa. “Escolha a pessoa que você
sente que lhe pode dar maior apoio.” O que quer dizer
“apoio”? Que tipo de apoio? Para que eu quero apoio? Então
os pares se juntam com outro par, e contam suas “forças” e
“fraquezas”. Eu me confundo toda com isso. O que é “força”?
O que é “fraqueza”? Todo mundo se “diverte” muito e talvez
aprenda alguma coisa, um pouquinho.
Fritz chegou tarde de São Francisco. Parecia feliz, mostrando
brochuras do Garbage Pail, junto com as provas das
ilustrações de Russ Youngreen.
Gostei dele. Um pouco disso, e a coisa continuou, dividindo -
se os grupos para amanhã de manhã. Fritz disse que cada
pessoa devia escolher o terapeuta com quem menos gostaria
de trabalhar. Dei risada. Fritz ouviu a minha risada e não
ouviu meu riso. “Não é piada”, disse ele. Não era — e era —
para mim.
Levei-o a sério, o que ele queria dizer, e o que se passou
dentro de mim é mais do que posso colocar em palavras. Em
parte, a minha risada foi surpresa — o inesperado. Em parte,
me senti bem com o desafio e fiquei surpresa por ter me
sentido bem.
Quando as manias dele acabaram, eu disse que gostaria de ter
algo como a semana de “continuum de tomada de
consciência”, que ele deu em junho.
Não esperava que ele captasse logo. Ele captou. Ele disse que
era o ABC da Gestalt, e que sem isso “a gente não passa de
classe média”. Ele pediu que qualquer uma das pessoas novas,
que ainda não tinham trabalhado com ele, que viesse e
ocupasse o lugar quente. “Você sempre tem alguma coisa
presente — preste atenção ao que é.”
De certa forma, para mim não há nada de novo nisso: “Agora
tenho presente...” ou “Agora estou com dor no pescoço” ou
“Vejo o rosto do Jack” ou seja lá o que for, e talvez
acrescentar depois se a consciência é agradável ou
desagradável. Ficou tão claro como as pessoas que ocuparam
o lugar quente começavam a evitar logo que tomavam
consciência de algo desagradável.
Preciso verificar isto em mim — e por que fiquei cheia do
“diário”. O que eu evito quando estou com outras pessoas.
Sinto-me bem, forte e excitada para entrar nisso. É melhor eu
ter consciência de mim mesma amanhã, quando as pessoas
que não me querem como terapeuta vierem, amanhã de
manhã, com instruções (do Fritz) para trazerem à luz os seus
ressentimentos. Quantos serão honestos e o farão? Quantos
farão trapaça, e irão para quem querem? Não tenho ideia...
Neste instante, tive a fantasia de todas as pessoas vindo a
mim.
A fantasia é gozada, e seria gozada se fosse real. O meu riso
é. Eu não o fiz.
Ele aconteceu. Na minha fantasia de todas as pessoas vindo
para cá, todas tinham expressões diferentes, desde sorriso até
alegria. Vi a postura dos corpos. Posturas individuais... Neste
instante, pensei: “Suponha que todas elas não me queiram, e
venham direitinho, e acabem não concordando com o que há
de errado em mim”.
Tudo fantasia. Não tenho ideia do que acontecerá amanhã.
Ontem e hoje, senti vontade de ir embora. Eu sabia que não
iria durar, mas seguramente senti o tal do “Ugh!”. Tanta
diversão gostosa. Isso eu posso ter em qualquer lugar.
Agora estou feliz com algo que é uma violação ao meu amor
de “voluntária”. Tanto pelo meu amor. Pffft! Dou nele um
beijo de adeus.
Algumas pessoas não tiraram nada do “ABC da Gestalt” do
Fritz. Ficaram entediadas. Algumas pessoas tiraram muita
coisa, e se interessaram muito. E assim que as coisas são.
Aqueles que tiraram algo gostam de mim por ter sugerido. Os
que não tiraram nada, provavelmente gostariam que eu não
tivesse sugerido, e podem aumentar suas queixas contra mim.
Uma mulher não tirou nada e disse que não adianta nada para
a terapia dela (ela é terapeuta), porque ela quer fazer as coisas
acontecerem — e ao mesmo tempo tem fé suficiente no Fritz
e em mim para prosseguir. Um homem que ocupou o lugar
quente e se perdeu no meio disse não estar sentin do falta de
nada, mas parecia determinado a encontrar aquilo de que nã o
sente falta.
As coisas estão mais vivas, de um modo diferente.
Sinto-me bem por ter seguido a verdade em mim. Muita gente
usa os grupos para dizer coisas que de outra forma não diria,
e eu gosto de dizer diretamente para a pessoa, sem o apoio do
grupo. Eu poderia facilmente dizer ao Fritz o que queria, fora
do grupo. Mais facilmente do que dentro do grupo.
Então, disse-lhe no grupo. Não foi difícil, mas eu esperava
alguma dificuldade — que não esperaria se falasse só com ele.
Em todo caso, isso eu não evitei.
Enquanto as pessoas estavam no lugar quente (uma de cada
vez) aprendi muita coisa observando-as — e observando o
Fritz com elas — e ao mesmo tempo, estava apreciando a
diferença entre eu em junho neste exercício de tomada de
consciência, e eu agora (mais consciente), sentindo outra vez
aquele florescer e crescer, no ponto onde tinha me sentido
encalhada. Não totalmente encalhada, mas sentindo estar
crescendo em algumas direções e não em outras.
Também me sinto bem por ter me chateado com as palavr as
do Fritz, dadas para o pessoal novo (acho que ele também se
chateou —- ele desistiu) e esta noite, ele fez o exercício de
tomada de consciência em lugar das palestras.
Sinto-me um pouco triste por ser hora de ir para a cama. Agora
não estou com muito sono, mas se eu não for dormir a uma da
manhã, e já é quase uma da manhã, não estarei em boa forma
para tomar consciência às oito, quando as pessoas chegarem.
Kolmam não estará aqui — este é o único que sei. Ele disse
que lamentava não ficar no meu grupo a semana inteira.
Respondi: “Nenhum ressentimento?” e me pareceu, pela sua
resposta, que ele se ressentia mais em relação a outro
terapeuta, embora suas palavras apenas tenham dito qu e ele
precisa esclarecer um enorme ressentimento com X, e que iria
fazê-lo.
Deverá ser uma manhã interessante. Pessoas que não gostam
de mim (pelo menos como terapeuta — isso não quer
necessariamente dizer que não gostem absolutamente de
mim), das 8 às 10, e das 10 às 11 teremos o grupo de
treinamento adiantado com o Fritz, que ele deixou de lado no
final de agosto, e no qual sempre aprendi muita coisa.
Dia seguinte.
Gostei (da perspectiva) do risco.
Esta manhã, antes das oito horas, entrei numa espécie de
loucura. Todo esse negócio de “ressentimento” pareceu
absurdo — como crianças brigando por causa de algo que
nunca aconteceu em lugar nenhum exceto em suas
(respectivas) cabeças. Tive vontade de rir e sair para passear
na chuva. Com as pessoas.
Mas isso não seria justo com elas, pensei. Você precisa levá -
las a sério.
Então fiquei séria, e foi uma atuação, uma encenação.
Então vá em frente e ria... Não estava mais com vontade de
rir, então isso passou a ser encenação.
Qualquer coisa que eu pensasse virava encenação. E claro.
Presa na armadilha.
Não quero atuar e não consigo ver nada para fazer a não ser
atuar. Uma atuação ou outra. Não quero nenhuma delas, e em
cinco ou dez minutos terei de...
Finalmente, sentei-me e juntei meus pedaços — com o que se
passava dentro de mim — entrei novamente em contato
comigo mesma e com o mundo — a luz se fez no céu, e em
mim.
Às oito e dez, pensei: “Será que esta manhã todo mundo está
‘sendo ruim’ — chegando tarde por estarem ressentidos pelo
fato do Fritz ter voltado a hora de começar para as oito, em
vez das nove?”
Comecei a ler uma fantasia de ficção científica que escrevi há
nove anos.
Ontem à noite Deke mencionou que havia muita Gestalt nela.
Eu não sabia sobre Gestalt quando esta história se escreveu.
Eu me agarrara à Gestalt — depois de anos de trabalho para
descobrir como tinha perdido o meu antigo talento de escrever
ficção. Quando consegui toda essa informação, fiquei
sabendo o que não fazer com os outros e seus escritos. Eu
ainda não conseguia escrever ficção. Então, busquei
conseguir. Finalmente, “eu” escrevi esta história e enquanto
acontecia, lembrei-me de como escrevia dessa maneira
quando era jovem, quando costumava ficar deitada no chão e
escrever histórias, às vezes contando aos meus pais e à minha
irmã o que acontecia na história enquanto ela se escrevia por
si só. Eles gostavam, e não me diziam que eu devia escrever
outras coisas.
Ao ler a história agora, fiquei muito interessada, e já eram
oito e vinte quando notei que ninguém vinha vindo, e pensei:
“Talvez não venha ninguém”.
Senti-me desapontada. As pessoas novas não estiveram em
grupo comigo, mas há toda aquela gente “antiga” que esteve.
Nenhum ressentimento?
Eu não podia acreditar... Acabei de notar que eu esperava que
eles estivessem ressentidos com a falta de excitamento, com
a lentidão — o tipo de coisa que ocorreu ontem à noite com o
Fritz quando ele estava demonstrando o ABC da Gestalt. Se
para alguém fosse isso, eles poderiam ficar abalados por se
ressentirem disso contra mim.
Especulação. Qualquer coisa que eu pense é especulação.
Especulação minha. Eu não sei de coisa alguma.
Quantos outros sentimentos tive esta manhã quando não veio
ninguém?
Continuei lendo a história e me senti bem ali sentada,
gostando. Deixei-me sentir toda sonolenta, e então não me
senti mais sonolenta. Então me senti sonolenta outr a, vez, e
fiquei chateada por ninguém ter vindo e por ter acordado,
quando poderia ter continuado a dormir. Então percebi o que
tinha aprendido da expectativa da vinda deles — o logro da
encenação; ficou claro, e mais uma vez eu soube que podia
apenas seguir a minha tomada de consciência do momento e
não teria sentido falta dela como senti.

Estou com vontade de botar aqui a história “Janela para o


Turbilhão” (Window to the Whirled). Eu sabia que tudo que
eu estava trabalhando antes tem relação com o que f aço agora,
mas não pensei na história como Gestalt antes de Deke
mencionar o fato. Gestalt, sim, é claro — até na forma como
foi escrita.
J ANELA PARA O T URBILHÃO18

Anne era jovem e encantadora — cabelos louros e lisos, olhos


verdes cor do mar, pele de marfim, e um corpo que não
precisava ser modificado em nenhuma parte. Uma moça como
essa, e as duas coisas que ela queria eram uma máquina de
costura com pedal e a sua avó. Por que, se ela podia ser atriz
de TV ou qualquer outra coisa que a maioria das moça s teria
vendido a alma para ser.
Anne dizia que iria se chatear. O que podia ser mais chato,
perguntavam-lhe, do que uma máquina de costura e uma avó?
Essa não era a opinião dela.
Sua avó tinha tido uma máquina de costura com pedal e às
vezes deixara Anne usá-la. Quando os pés de Anne estavam
sobre o pedal, um na frente, outro atrás, pedalando, ela sentia
que estava indo para algum lugar. A avó sempre tivera a
mesma sensação. Não comprava uma máquina elétrica
porque, dizia ela, não aguentaria ficar parada no mesmo lugar.
Anne nunca se chateava quando Vovó estava por perto. Elas
sempre iam juntas a algum lugar, mesmo quando estavam
sentadas na sala com todo mundo. Então, um dia Vovó
desapareceu, e Anne chorou. Mas então enxugou as lágrimas
e saiu à procura da Vovó. Quando chegou à Nova Inglaterra
em busca dela, sentiu-se muito desanimada e foi quando viu
um leilão na frente de um galpão, e parou para se distrair,
incapaz de conter seu desespero.
Ninguém sabia qual seria a próxima coisa a ser trazida do
galpão e colocada diante de todos para que fizessem seus
lances... E de repente apareceu uma velha máquina de costura
com pedal. Anne começou seus lances com vinte e cinco
centavos. Ninguém mais participou, e ela ganhou a máquina.
E de repente, sentiu que os seus pulmões tinham parado de
respirar.
Uma máquina de pedal! Talvez este fosse o jeito de achar a
Vovó.

18
“Window to the Whirld”, reimpresso da revista Fantasy and Science
Fiction, fevereiro, 1962. (N. do E.)
Quando os homens a trouxeram, ela imediatamente começou
a trabalhar; procurou nas gavetinhas, uma de cada lado, e...
seguramente! Numa delas havia um livreto de instruções, todo
rasgado, mostrando como lidar com a máquina. Na outra
gaveta havia uma pequenina prateleira de madeira com
buracos para os carretéis, e havia um carretei em cada buraco,
todos com linha — azul, verde, branco, vermelho, amarelo.
As linhas coloridas brilhavam de maneira estranha. Ela nunca
seria capaz de colocá-las na agulha, mas não podia
desperdiçá-las, então usou o carretel de linha branca. Havia
também uma grande bobina de linha branca e ela a usou para
a parte de cima.
Então, tirou um lenço do bolso, dobrou-o e juntou as duas
bordas. A luz do sol era filtrada por um grande olmeiro,
salpicando Anne e a máquina de luz e sombra. Ela usou o
lenço como pano de limpeza. Havia uma latinha de óleo numa
das gavetas, e ainda havia óleo dentro. O cheiro era bom
demais para ser óleo — parecia perfume; na verdade, parecia
flores. Por que a Vovó não tinha levado Anne consigo? Isso
doeu quando Anne pensou, e a dor a incomodou tanto que não
conseguiu fazer nada. Então, ela pensou nisso de maneira
diferente, sem ênfase, indagando: “Por que a Vovó não me
levou com ela?”. E desse jeito, a pergunta tinha resposta,
mesmo que ela ainda não tivesse descoberto qual era.
Começou a perceber que estava sendo lógica demais. Vovó
não era. E que estava tentando demais, coisa que a Vovó
sempre tinha dito que era ruim. “Simplesmente faça as
coisas”, explicava ela, “e elas saem do jeito que você quer —
embora você não soubesse que era, assim que queria.” Era o
que tinha acabado de acontecer. Se ela não tivesse parado de
procurar a Vovó, não teria notado o leilão e não teria achado
a máquina e começado a pensar do jeito certo... Se ela pudesse
ter escutado apenas a Vovó, pensou Anne. Mas havia todas as
outras pessoas dizendo a Anne que a Vovó não era muito boa
da cabeça.
Agora a máquina de costura estava brilhando como os trilhos
de uma ferrovia, levando-a a... Quando ela pensou nesse “a”
e aonde ele podia levar, balançou a cabeça, tirou o cabelo da
testa, e continuou a costurar. A Vovó dizia que qualquer coisa
sobre a qual se pudesse pensar era insignificante em
comparação com o que podia acontecer se a gente deixasse; e
que, pensando na coisa desejada a gente estreitava os
caminhos, de modo que só podiam acontecer coisas pequenas
e comuns. Então as pessoas diziam: “É claro. Vida é isso. O
que você esperava? Tapetes voadores?”. Quando Anne estava
dentro de si mesma e da Vovó, ela esperava; mas quando
estava dentro de outras pessoas ela decidia ser razoável e não
esperar demais. Agora estava se sentindo cada vez menos
razoável — ou mais razoável de uma outra maneira.
Quando a máquina de costura ficou ajustada para cantarolar
em vez de estalar, Anne pediu aos homens que a pusessem no
seu carro, c foi embora.
Quando chegou a uma encruzilhada no caminho, pegou a
direção que mais lhe agradou. Ao passar por uma cidade notou
uma loja e entrou para comprar uma cama de desarmar e uma
caixa de gelo, sem perceber que tinha mudado de rumo desde
os meses que passara dormindo em motéis e comendo em
restaurantes como todo mundo. Ela só sabia que estava
estranhamente feliz e que queria voltar para o oeste. Mas não
tinha pressa. Parava quando tinha vontade, e usava a máquina
de costura. As coisas que ela fazia eram cada vez mais lindas.
As pessoas queriam comprá-las, mas ela as dava de presente,
dizendo que eram preciosas demais para serem vendidas por
causa do que havia ali costurado. Ela própria não sabia o que
dizia, mas sabia que estava certa.
As pessoas queriam que ela ficasse, e lhe ofereciam um bom
local de trabalho, mas ela sempre colocava a máquina no carro
e ia para outra cidade.
E mais outra. E outra. Até que às vezes se perguntava se teria
algum sentido, ou se simplesmente estava revivendo um conto
de fadas absorvido na infância. Às vezes lhe parecia que o
conto de fadas estava ensinando as pessoas a viver, mas outras
vezes ela possuía dúvidas a respeito disso. Então se lembrava:
“Não pense!” e parava, e apreciava tudo em volta de si.
Por acaso chegou à Califórnia onde o tempo geralmente era
bom, e começou a levar a máquina de costura em seus
passeios para as montanhas, desertos ou lagos, e ali ficava,
sentada ao sol pedalando, o que não teria sido possível com
uma máquina elétrica que a gente liga na tomada. Ela deixava
a máquina para dar uma nadada, ou escalar uma montanha, e
estava se tornando cada vez mais forte e flexível. Também
estava se tornando mais linda — talvez radiante seja a palavra
— mas não notava isso: estava fascinada demais pelo fato de
estar aprendendo. As coisas continuavam vindo à sua cabeça.
Ela começou a entender matemática e física e muitas outras
coisas que não se tinha dado ao trabalho de saber porqu e as
julgava tolices. Pensou em se mudar para um lugar onde
houvesse uma universidade, para poder estudar, mas quando
conversou sobre isso com um homem que estava visitando a
cidade, um professor de Berkeley chamado Stan Blanton, ele
disse: “Por Deus, não faça isso! Você perderia o que tem, e
levaria cinquenta anos para aprender o que não tem”. Era
como a Vovó falava, e Anne se sentiu bem com ele. Ele era
uma pessoa bacana, mas um tanto triste. Tinha cinquenta anos
de idade e não fizera metade das coisas que queria fazer, por
causa das coisas que “tivera de” fazer, e não tinha certeza de
que as coisas que tinha feito tivessem valido a pena. Por isso
era difícil continuar a fazê-las, ele estava o tempo todo
cansado, e pensava que era porque ele era muito cônscio de
sua idade; então, apesar de há anos não se sentir tão jovem
quanto ao lado de Anne, e ela ser a melhor coisa que já lhe
tinha acontecido, ele foi embora.
Anne ficou então um pouco triste, pois ela parecia ter
possibilidades que outras pessoas não tinham. Sentiu -se
separada de algo. Porém, sempre podia juntar as coisas dentro
de si resolvendo-as na máquina de costura. Podia usar uns
acessórios que ainda não tinha experimentado, pensou.
Adaptou um deles à máquina, e pegou uma longa tira de pano
para ver o que dava. Mas por mais cuidadosa que fosse ao
costurar em linha reta, mantendo separadas as duas pontas d a
tira, ela sempre acabava com as pontas juntas, como um anel
torcido, de modo que o lado de fora entrava para dentro e o
lado de dentro saía para fora, até não se poder mais dizer o
que era fora e o que era dentro.
Anne pensou em brincar com as linhas que estivera
economizando, então pegou o carretei de linha amarela e
colocou-o no lugar dos carretéis, pegou o verde e o colocou
na parte superior, de modo que as linhas amarela e verde se
mesclassem como botões de ouro no campo. Mas quando
começou a pedalar, o pano escapou — e as linhas verde e
amarela continuaram se costurando entre si.
A coisa parecia não ter fim. Os dois carretéis estavam sempre
cheios. E em vez de linhas, estava aparecendo agora um
pedaço de pano. “Oh, eu adoraria ter uma capinha feita deste
pano!”, pensou ela, e continuou a pedalar. E o pedaço cresceu
e ganhou uma forma muito especial, e ela começou a ver o
contorno da sua capa, embora ainda fosse um pouco confuso
ver o dentro e o fora se misturando. Então pareceu que ela
havia acabado a capa, ou que a máquina tinha acabado, ou
ambas, pois ela não tinha certeza de quanto tinha saído dela e
quanto da máquina, e às vezes sentia que ela e a máquina não
eram duas coisas separadas. As máquinas não são como a
natureza, pensava ela. Na natureza a gente se sente entrando,
e sabe o que é ser árvore, rocha ou lago. Mas máquinas!
Até mesmo as máquinas de pedal não eram algo em que a
gente pudesse entrar. Elas não são naturais. Mas agora já não
tinha tanta certeza. Um ninho de passarinhos é natural. É feito
pelo passarinho. Um dique de castor é natural. É feito pelo
castor. E as máquinas são feitas pelos homens, mesmo quando
são feitas por máquinas porque os homens fizeram as...
Quando a capa ficou pronta, ela cortou os fios que a ligavam
à máquina, sentindo que estava cortando um cordão umbilical.
Então levantou-se, jogou a capa sobre os ombros para
descobrir como entrar nela, e se envolveu com ela.
Alguém bateu à sua porta, e ela disse: “Entre!”. E era Stan
Blanton. “Que bela capa!”, disse ele; e não era para dizer isso
que ele tinha viajado mais de duzentas milhas. “Não é mesmo
bonita?”, disse Anne. “Mas não consigo decidir qual é o lado
de dentro e qual é o de fora, e qual estou vestindo!” Ela deu
um pequeno safanão na capa enquanto falava, e o lado de
dentro e o de fora pareceram se misturar num rápido
movimento, e então a capa desapareceu. E Anne também.
Stan não foi capaz de dizer o que sentiu primeiro, ou se sentiu
tudo junto, misturado, como as cores de um delfim morrendo.
Ficou atônito, desapontado, intrigado, deliciado e muitas
outras coisas que não se deu ao trabalho de enumerar. Mas
quando essa mistura toda acabou, estava desolado. Tinha feito
um tremendo esforço para romper as forças das convenções
que diziam que ele devia manter-se afastado de Anne, um
tremendo esforço para soltar-se e vir procurá-la. E agora ela
desaparecia! Sentou-se numa cadeira com a cabeça entre as
mãos e os cotovelos apoiados sobre a máquina de costura, e
tentou compreender o que se passara. A resposta parecia
torturantemente próxima.
Mas subitamente ele começou a pensar em outras coisas.
Anne tinha desaparecido. Jovens desaparecidas e homens
mais velhos são matéria para um escândalo. Era melhor voltar
a Berkeley rapidinho. Depressa desceu as escadas, pegou o
carro e voltou para casa. Maybelle não estava lá. Ele se sentou
na sala de estar, pensando no que dizer a ela quando ela
voltasse e perguntasse aonde ele tinha ido. Sua cabeça doía.
O que poderia dizer?
Quando Maybelle entrou, ele olhou para cima e disse: “Oi,
bem”, como sempre. Ela disse: “Oi, bem” também como
sempre, e subiu as escadas como sempre.
Isso o deixou maluco. “Depois de tudo que passei!”, pensou.
Então ficou ainda mais maluco ao perceber que não tinha
passado por nada a não ser um monte de absurdos que não
tinham acontecido em outro lugar além da sua cabeça. Saiu
correndo da casa, e foi para a rua, sentindo-se um tolo, depois
de ter ficado todos esses anos sentado numa cadeira
resolvendo seus problemas de forma madura e chegando a
conclusões sadias. Agora, de repente via todos esses ano s
como submissão a algo que realmente não o importava, e o
que havia de maduro nisso? Sentira que estava tomando as
coisas em suas próprias mãos quando deixou repentinamente
a casa de Anne, mas tinha sido um boneco, arrastado por todas
aquelas coisas que não tinham valor para ele. Devia ter ficado,
e tentado encontrar Anne.
Na realidade, Anne voltou ao quarto logo depois que ele saiu
— isto é, se entendermos “na realidade" conforme a nossa
realidade. Ela havia estado fora semanas, e achou isso muito
refrescante. Depois dessa vez, ela começou a passar mais e
mais tempo visitando outros lugares, e suas ausências
começaram a ser notadas pelos vizinhos. Na vez seguinte em
que ela sumiu, alguém chamou a polícia e disse que ela havia
desaparecido, e suspeitou-se de um crime. Ninguém pensou
realmente nisso, mas queriam saber da vida dela, e um
“crime” era o sinal usado para fazer a polícia se meter na vida
dos outros. Stan era o único “homem no caso”, então o
detiveram em Berkeley. Maybelle o abandonou, e isso foi
satisfatório e conveniente.
O retrato de Anne apareceu nos jornais, junto com o de Stan;
não que houvesse evidências de que ele tivesse algo a ver com
o desaparecimento dela, mas a história era boa. Stan,
desgostoso, berrava: “É mentira! É tudo mentira!”, e é claro
que as pessoas não queriam acreditar, então ele “contou tudo”,
só para mostrar a elas. Depois disso, obteve permissão de ficar
em casa, porém foi examinado por psiquiatras. Certa noite
estava deitado na cama, longe de conseguir dormir, quando...
Anne subitamente surgiu ao lado de sua cama e disse: “O que
você está querendo, falando de mim desse jeito, como se eu
fosse uma curiosidade!?”.
Stan não perdeu tempo com palavras, que poderiam vir
depois, e preferiu agir primeiro. Estendeu a mão, agarrou a
capa, e bateu com ela na cabeça de Anne, dizendo: “Fique
aqui por algum tempo”.
Anne riu. “Estive em muitos lugares e aprendi muitas coisas”,
disse ela — e desapareceu.
Tristemente, ele jogou a capa sobre a cama e recostou -se nos
travesseiros. Diante dos seus olhos, a capa se ergueu da cama
e enrolou-se em torno de Anne, que de repente estava ali de
novo, rindo para ele. “Sem ela eu só posso desaparecer”,
disse, “não posso ir a nenhum lugar.” Agora que estava com
a capa, ela podia.
Stan estava ganhando os sentidos, agora que não tentava
fazer, ser ou viver algo em particular. Vestiu-se, foi para o
lugar onde Anne tinha vivido, e levou sua máquina de costura.
No motel mais próximo, começou a estudar como usá -la.
Tendo chegado à faixa de Moebius 19, o resto seria fácil. Então

19
Faixa de Moebius — É a figura geométrica formada por uma faixa
plana que sofre uma torção e tem posteriormente suas extremidades
ligadas. Partindo-se de um ponto qualquer na superfície externa da
faixa, e percorrendo-a, na volta seguinte se estará sobre este mesmo
foi até o quarto de Anne “procurar algo”. Seria facílimo achar
Anne. Tudo que precisava fazer era começar onde ela havia
estado, e seguir a faixa até onde ela estava. Vestiu sua capa,
e deu-lhe um safanão, como Anne tinha feito.
Era maravilhoso estar em lugar nenhum, o lugar entre tudo.
Ele não sabia que seria tão glorioso como ser o único navio
no oceano, ou o único esquiador num lago gelado. Ele tinha
sonhado com isso, mas julgara os sonhos simples desejos
impensados. Mergulhava, desviava, virava, tudo isso em cima
de nada, de modo que não havia possibilidade de cair. Ele
começou a sentir deliciosa ansiedade, uma curiosidade de
saber onde se encontraria quando a faixa acabasse e ele
achasse Anne. Como ela ficaria surpresa!
Zing!
Ele estava em seu próprio quarto, exatamente no lugar onde
Anne estivera. Mas Anne não estava lá. Que tolice! Jogou a
capa sobre a cama e sentou-se, puxando os cabelos. E também
ficou tão oprimido pelo fracasso que não lhe ocorreu que tudo
que precisava fazer era partir novamente. Aonde te ria ela
ido? Passado o presente, futuro também, e ele podia estar em
qualquer parte em qualquer tempo. Ele tinha tido tanta certeza
de ter resolvido o problema, e só conseguira voltar para casa.
Teve de repente um pensamento angustiante, que isso era tudo
que podia fazer.
Levantou-se da cama e caminhou pelo quarto, desceu, não que
tivesse algum sentido, mas ele precisava fazer alguma coisa
para não ter tanta certeza de não estar fazendo nada. Sentou -
se numa cadeira e esfregou as pálpebras com as mãos —
esfregou forte. Desta vez, não iria começar com nenhuma
ideia preconcebida. À medida que as ideias vinham, ele as
apagava, uma a uma, até que não sobrou nada. Mas de que
adiantava o vazio? Balançou a cabeça, zangado, e pensou:
“Ela que se dane. Vou fazer algo que eu quero fazer”. Subiu

ponto do lado interno; prosseguindo-se, após mais uma volta se está


novamente na superfície externa. (Obs.: E a figura que Anne costura
com a máquina empregando um dos acessórios que ainda não tinha
usado.) (N. do T.)
correndo, jogou a capa sobre os ombros, e continuou
deslizando pela faixa por entre as nuvens do lugar nenhum,
em direção a um lugar sobre o qual sempre tinha se
perguntado.
Era de manhã quando chegou. Uma manhã linda e clara, firme
como o outono e com um leve calor de verão no ar. Prédios
altos, isolados. Em torno de cada um deles havia áreas de
edifícios menores, com relva e árvores. As pessoas andavam
pelas ruas com roupas macias e brilhantes com flores, fazendo
com que a roupa dele parecesse extremamente boba. Voltou
depressa para a faixa e retornou ao motel onde tinha deixado
a máquina de costura, e deixou que ela lhe costurasse roupas
novas. Vestiu-as, recolocou a capa sobre os ombros e deslizou
para a frente, para onde tinha estado. Mesmo com as roupa s
novas, teve uma sensação de solidão. Em certos momentos,
ao passar perto de alguém, essa solidão se desfazia, mas
depois voltava. Ele queria se juntar a outras pessoas, e já que
algumas delas estavam indo para um dos prédios, também foi.
Parecia ser uma espécie de salão ou teatro. Não havia
tabuletas ou cartazes, então aproximou-se de um homem e
perguntou: “O que estão passando hoje?”.
O homem parou e um sorriso começou a se formar em seu
rosto. Então, disse depressa: “Sinto muito, pensei que você
fosse um dos nossos. Não sei bem que palavras uso para lhe
explicar. Isto é uma espécie de sala de diversões, acho. Será
que é certo dizer isso?”. Stan parecia pasmado, então o nativo
tentou outra vez. “Nós entramos quando queremos, escutamos
ou tomamos parte na peça, como quisermos. Não há nada
escrito. Nós apenas... Realmente não sei como dizer porque
nunca tive de explicar. Nós tomamos parte quando queremos
e saímos quando queremos. É muito divertido.”
“Divertido!”, disse Stan. “É confuso! Como você sabe quan do
a peça começa ou acaba?”
“Que ponto de vista estranho”, ponderou o nativo, “existe
alguma coisa que começa ou acaba?... Apesar disso suponho
que seja possível enxergar as coisas desse jeito, de um ponto
de vista muito limitado. Mas é muito irreal.”
“Irreal!”, disse Stan, com grande confiança de saber o que era
realismo.
“Veja, você está se perdendo!” Mas a sua própria vida dos
últimos tempos lhe veio à cabeça, e ele já não tinha tanta
certeza. Ainda assim, podia fazer uma concessão, então disse
magnanimamente: “Isso é só nas peças de vocês, é claro”.
“Bem, não é assim. Na verdade, nossa encenação serve em
parte para nos manter em contato com a realidade. Não estou
querendo dizer que é por isso que a fazemos. Nós gostamos
dela, e essa razão é suficiente. Mas também levamos um
pouco de espírito de realidade para o trabalho, e isso nos
impede de nos tornarmos sérios demais com coisas que são,
afinal, muito passageiras e limitadas.”
Stan revirou isso na cabeça. Precisou revirar bastante. “Todas
as peças de vocês são assim?”, perguntou. “Não há artistas
que trabalhem duro dando a vida pela profissão?”
Desta vez o nativo pareceu confuso. “Por que”, perguntou
finalmente, “deveria alguém dar a vida pela profissão!”
“Para melhorar as coisas”, respondeu Stan.
“E adianta? Acho que você deve ser daquela época”, disse o
nativo. “Uma era muito trágica toda — cheia de
incompreensão.”
“O que havia de incompreensão?”, perguntou Stan
ansiosamente. O nativo não respondeu. “Não me diga que ‘Se
você precisa perguntar, você jamais saberá’”, gritou Stan.
“Não”, disse o nativo, “eu poderia, mas não vou fazer isso.
Mas diga-me, como foi que você chegou aqui?”, e afastou-se
sem esperar resposta. Olhou para trás em direção a Stan, como
se estivesse convidando-o a segui-lo, porém Stan não notou.
A sua cabeça era uma maciça dor de ideias que estavam
invertidas. Então elas começaram a se mexer tão depressa que
ele não era capaz de dizer o que estava de cabeça para cima e
o que estava de cabeça para baixo. Naquele caos, de repente
Anne era a sua única âncora possível. Começou a caminhar
rapidamente pela rua. Se ele conseguisse encontrá-la! Então
andou mais devagar. Era isso que ele tinha de tirar da cabeça
— encontrar Anne. Sentiu uma pontada quando pensou que
ela poderia ter passado ao seu lado e o reconhecido, sabendo
onde ele estava — ou não estava — e ter ido embora sem falar
com ele. Conteve-se para não se virar e olhar se ela estava
atrás dele, e recolheu-se ao agora de seus sentidos de modo a
notar tudo no instante em que vivia. Então notou que estava
com fome. O que poderia fazer, se seu dinheiro não podia ser
usado neste lugar? E os numismatas? Havia cabinas de
telefone por perto e ele foi até uma delas. A lista p arecia
incrivelmente pequena. Procurou as instruções na capa, e feliz
descobriu que bastava discar Numismatas para obter a
informação que queria. Apareceu uma tela luminosa na
parede, e lá estava a lista de todos os numismatas.
Continuando a seguir as instruções, pegou um pedaço de
papel de um bloco especial ao lado do telefone, e segurou -o
diante da tela. Num instante, a informação foi transferida, e
ele deixou a cabina com o papel nas mãos. Ocorreu-lhe um
pensamento, ele voltou ao telefone e discou: “nego ciantes de
moedas”. A mesma lista apareceu na tela. Isso era algo
inteligente.
Todos os negociantes ficavam na mesma rua, então bastava
ele encontrar a rua. O primeiro homem a quem perg untou,
respondeu delicadamente, apontando com a mão: “Ande duas
quadras para lá, e pergunte de novo”. Quando perguntou de
novo, o homem apontou em outra direção e disse: “Uma
quadra para lá, e pergunte outra vez”. Na próxima parada, ao
perguntar, o homem apontou para uma rua e disse: “Do lado
direito, na metade do quarteirão”.
Tão simples!
Ele entrou na primeira loja que o atraiu, já que não sabia nada
a respeito de nenhum deles. O homem atrás da registradora
olhou o dinheiro que Stan lhe estendeu, e o devolveu dizendo:
“Terceira loja à direita. Ele vai lhe oferecer um preço melhor
do que o meu”.
Stan olhou para ele pasmado. “Por quê?”
“Ele tem um freguês que paga mais.”
“Mas você não quer o negócio para você?”
“Certamente”, disse o homem, “mas isso não é razão para
você deixar de conseguir o máximo que pode.”
Stan saiu da loja um pouco incrédulo. Na loja seguinte havia
uma mulher na sua frente, e ele notou que ela estava
oferecendo o mesmo tipo de dinheiro que ele tinha. Agora,
provavelmente conseguiria menos pelo seu, se é que iria
conseguir alguma coisa. Não parecia haver pechinchas. A
mulher e o recepcionista estavam ambos admirando o
dinheiro, então ele colocou o dinheiro dela numa caixa sob a
registradora, abriu outra caixa e deu outro dinheiro par a a
mulher. Ela pegou e saiu. Quando passou por Stan, ele notou
seus olhos.
Lembravam-lhe um pouco alguém, não muito. Talvez os olhos
fossem os mesmos e o cabelo diferente, o que fazia os olhos
parecerem diferentes. Em todo caso, ele não conhecia
ninguém neste lugar. Aproximou-se do recepcionista e este
pegou o dinheiro e disse alegremente: “Dois no mesmo dia!
Às vezes tenho de esperar anos! Posso dar um pouco mais
pelo seu do que dei à Sra. Chumley porque o Sr. Sringo ficará
muito feliz em não precisar mais adiar sua viagem. Agora ele
tem o suficiente para viajar”.
“Mas onde ele pode usar este dinheiro?”, perguntou Stan.
“No século XX, é claro. Vocês, pessoas que vêm do passado,
estão certas porque o dinheiro velho é real, mas quando nós
vamos para o passado, o nosso dinheiro é falso.”
Stan pegou o dinheiro novo que o homem lhe estendeu, e
caminhou em direção à porta. Quando passava pelo lugar onde
tinha notado os olhos da mulher, várias coisas se juntaram de
uma vez: “Anne!”, pensou. Mas não, não tinha certeza; essa
mulher era muito mais velha do que Anne. Ele estava
somando dois e dois, dizendo que era 22. Ainda assim, havia
uma coceirinha na sua nuca, insistindo que ele estava pelo
menos um pouco certo. Voltou ao homem. “O senhor tem o
endereço da Sra. Chumley?”
“Não, assim como não tenho o seu.”
Stan foi de novo até a porta, e o recepcionista o chamou.
“Certa vez ela falou algo sobre ‘as crianças’, que me fez
pensar que poderia ser professora.”
Não havia sinais conspícuos de restaurantes pelas ruas, mas
aqui e ali em casas particulares havia uma discreta placa
dizendo: “Comensais bem-vindos”. Ele entrou numa delas e
viu-se num pequeno saguão, de onde podia ver uma sala com
uma grande mesa redonda, onde estavam sentadas várias
pessoas. A comida tinha aparência e cheiro maravilhosos, e
ele quis caminhar imediatamente para uma cadeira vazia: mas
as pessoas estavam conversando como velhos amigos. Isso fez
com que ele tivesse vontade de juntar-se a elas, mas por outro
lado... Hesitou, parado no saguão, mas a plaqueta dizia:
“Bem-vindos...”, e não lhe restou o que fazer a não ser ir
sentar-se.
“Olá!”, disse um dos homens, em tom amigável. “Estávamos
conversando sobre...”, colocando-o a par da conversa.
Passaram-lhe a comida. O papo girava em torno de assuntos
que lhe eram estranhos, mas à medida que o tempo passava,
ele começou a se sentir à vontade. Quando as pessoas iam
terminando de comer, saíam, deixando algum dinheiro no
prato. Uma doméstica entrava, pegava os pratos e o dinheiro,
olhava para a mesa para ver o que precisava ser trazido.
Outras pessoas entravam e se sentavam, e a conversa
prosseguia, cobrindo todos os terrenos. E quando Stan tomou
coragem, passou a dizer algo de vez em quando, pois às vezes
era possível apontar uma falácia, mesmo que não soubesse de
que se tratava. Ele tinha notado isso quando criança, mas
naquela época ninguém lhe prestaria atenção. Aqui,
prestavam, e riam quando ele demonstrava um erro. Tendo
corrigido o erro, seguiam adiante.
Havia também pausas, quando ninguém falava; pareciam ser
os momentos em que todo mundo estava escutando. Ele
aprendeu algo com as pausas. Era como se a mente clareasse
e a informação entrasse de maneira desimpedida.
Quando Stan voltou para a rua, sentia-se refrescado, livre,
vivendo num mundo maior do que tinha conhecido antes.

A Sra. Chumley saiu da loja onde tinha trocado seu dinheiro


e voltou para a escola, cantarolando. Ela havia conseguido
outra vez. Devia existir um tempo no passado em q ue a sua
sorte acabaria, mas isso ainda não tinha ocorrido, e ela estava
aproveitando.
As crianças a receberam alegremente. Eram crianças
especiais, mas ninguém sabia disso fora elas mesmas e a Sra.
Chumley. Estavam registradas no Departamento de Educação
como crianças excepcionais, um termo trazido da metade do
século XX quando a palavra “excepcional” fora inicialmente
usada para crianças que não eram. Ela tirou o dinheiro e
colocou-o sobre a mesa, as crianças se levantaram e cada uma
delas pegou um pouco e pôs no bolso. Então saíram e se
espalharam, cada uma numa direção; cada uma delas comprou
algo insignificante — coisinhas comuns que qualquer pai
mandaria seu filho comprar, para consertar um carro, um ar -
condicionado ou um avião.
Quando retornaram à escola, todos se juntaram numa sala que
já tinha partes construídas, e puseram-se a trabalhar,
acrescentando partes novas em lugares que deixariam
pasmados os conhecedores de carros, condicionadores de ar
ou aviões. A Sra. Chumley observava. Ela apreciava a s
crianças trabalhando, atenta ao que faziam. Quando
inicialmente começou a trabalhar com elas, fingia estar
frustrada. Era bom para eles. Depois, já há algum tempo, ela
não precisou mais fingir.
Quando a campainha tocou, a Sra. Chumley perguntou a si
mesma quem poderia ser. Levantou-se e foi até a porta,
enquanto as crianças deixavam o trabalho e se espalhavam
pela sala, pegando livros e começando a ler. Estavam
divididas em pequenos grupos, com as mais velhas ensinando
as mais novas, como ocorre em toda boa escola. Havia A
Máquina, é claro, mas a Sra. Chumley tinha começado com
máquinas comuns, explicando que as usava para ensinar as
crianças, e quando se tornaram mais complicadas seria
preciso um perito ou um simplório para notar que eram
diferentes.
“Sra. Chumley!”, disse Stan. “Estou tão feliz em encontrá -
la!” E ele parecia tão feliz que a Sra. Chumley ficou feliz
também. Além disso, a situação parecia ser um pouco
diferente, e havia apenas uma coisa que a Sra. Chumley podia
dizer numa situação diferente: “Entre!”. Enquanto o conduzia
para a sala de aula, disse: “Eu preferia que outra pessoa me
tivesse achado, a minha neta, mas acho que ela não é tão
esperta quanto pensei que fosse. Às vezes penso que deveria
tê-la trazido comigo, mas desse jeito ela nunca descobriria por
si só”. Suspirou. “Acho que mesmo assim não descobriu.”
Stan olhou para a Sra. Chumley mais intensamente,
particularmente para os seus olhos. “Anne?”, perguntou:
“Sim”, respondeu a Sra. Chumley, “é o meu nome. Ohhhh!
Você está se referindo a Anne!”
“Acho que sim”, disse Stan. “Se não fosse ela eu não estaria
aqui.”
“Estou tão contente!”, disse a Sra. Chumley, afundando numa
cadeira. “Eu pensava que tinha dado a ela o suficiente para
prosseguir, mas ali é difícil se manter de pé, então às vezes
me perguntava se não tinha me enganado. Mas uma vez que
ela começou, tudo bem, mesmo que ainda não tenha chegado.
Afinal, quem foi que chegou? Conte-me.” E Stan contou. Isto
é, começou a contar, mas então tomou consciência das
crianças que escutavam. A Sra. Chumley lhe fez um aceno
para continuar. “Não temos segredos”, disse ela. “Isto é, eu
não tenho segredos para eles.”
Quando Stan acabou, a Sra. Chumley deu as explicações sobre
as crianças e si própria.
“Pensei que este era um mundo iluminado!”, exclamou Stan.
“É sim”, disse a Sra. Chumley, “só que eles já se habituaram
tanto que se esqueceram de que poderia ser mais iluminado.”
“E a senhora está desencalhando as coisas, suponho.”
“Bem, acho que sim”, disse a Sra. Chumley, “mas não é por
isso que estou fazendo.”
Stan foi até a máquina, e as crianças se juntaram em torno
dele, com expressões nas faces enquanto ele procurava
entender. Ele quis parecer inteligente e perguntou: “E para
que serve isso?”.
“Servia”, disse um dos meninos mais velhos. Olhou em volta
para as outras crianças. “Todo mundo entendeu?” Todos
fizeram que sim, e ele verificou um por um para ver se
ninguém tinha ficado de fora. E então: “Muito bem!”, disse
ele, e as crianças começaram a desmontar a máquina,
arrumando as peças em fileiras pelo chão.
A Sra. Chumley observava, deliciada. “Eles já entenderam!”,
disse ela.
“O quê?”, perguntou Stan.
“Na verdade não sei”, respondeu a Sra. Chumley, “mas até
agora não tentaram nada em matéria de viagens interestel ares,
então deve ser isso.”
“A senhora disse que eles entenderam”, protestou Stan, “então
seguramente deve saber o que é.”
“Eles entenderam a ideia básica”, disse a Sra. Chumley. “É
mais ou menos como resolver problemas de aritmética no
papel antes de saber fazer de cabeça. Depois, não é mais
preciso papel. Às vezes eu pensava que eles nunca iriam
conseguir.”
“Por que a senhora não lhes explicou?”
“Porque então eles apenas seriam capazes de fazer uso disso
de maneira limitada. Jamais iriam além se não descobrissem
sozinhos.”
Stan parecia assombrado. A Sra. Chumley parecia triste.
“Você poderia entender”, disse ela; “bastaria deixar de lado
aquilo que julga saber. Tudo que se pode fazer fora, pode-se
fazer dentro — é daí que vem a coisa. A maioria das pessoas
para do lado de fora. É por isso que em 1970 ainda há fios de
telefone e coisas do tipo.
“Me parece”, disse Stan, “uma faixa de Moebius mental.”
“Você entendeu!”
“Oh, não entendi não”, corrigiu ele.
“Entendeu sim — você não poderia ter dito para fora se não
tivesse entendido por dentro, e agora só falta voltar para
dentro.” Ela virou-se para as crianças.
“Agora vou para casa. Presumo que vocês não vão. Contem-
me quando voltarem.”
“Eles nunca lhe agradecem por tudo que a senhora faz por
eles?”, perguntou Stan.
“Por que haveriam de agradecer?”, perguntou a Sra. Chumley.
“Sabe que neste instante não tenho a menor ideia do que farei
a seguir?”
Stan estava começando a ter essa sensação enquanto abria a
porta para ela e caminhava ao seu lado para a rua. Que bom
que ele tinha chegado justo na hora que ela ia começar algo
novo! Que gostoso ir junto!
Mas na próxima esquina ela o deixou dizendo “Tchau”, com
toda a naturalidade, como se fosse vê-lo no dia seguinte.
“Mas, e Anne?!” Ele correu atrás dela, tentando segurá -la.
“Tenho certeza de que ela está a caminho!”
“Estou tão contente!” A voz da Sra. Chumley fez-se ouvir por
cima do seu ombro.
“Mas onde ela poderá encontrá-la?”
“Como vou saber, se eu mesma não sei onde me encontrar
enquanto não estou aqui?” E se foi.
Toda a aventura se desvaneceu outra vez. Ele voltou correndo
para a escola para perguntar às crianças. “Onde mora a Sra.
Chumley?”
“Onde tem vontade”, responderam.
“Preciso encontrá-la.”
As crianças olharam para ele com curiosidade, como se ele
fosse uma pessoa que tivesse perdido a forma. Então um sinal
de compaixão apareceu no rosto de uma das meninas, e ela
disse delicadamente: “Como foi que você a encontrou da
primeira vez?”.
Na loja!... Mas pode ser que ela nunca volte para lá. Ele estava
sentindo falta de alguma pessoa que estava ali, mas que ele
não via.
“Não pense nisso”, disse a menina, “e ela virá.”
E, então, a peça que faltava veio à sua cabeça: quando ele
cruzou com a Sra. Chumley, estava cuidando de sua
necessidade do momento. Mas poderia passar tanto tempo até
que seus caminhos se cruzassem outra vez.
“Quando não há outro jeito”, disse a menina, “esse é o único
jeito que há.”
Stan sentiu-se humilde diante daquela criança. Ela possuía
tanta certeza, certeza tão completa, de coisas que ele só tinha
vislumbrado e perdido outra vez. “Obrigado”, disse ele, e
saiu.
Tinha muito que pensar, e gostaria de saber o quê. Veio-lhe à
cabeça a ideia de que ele estava simplesmente acompanhando
ambas as Anne, como um velho tentando recuperar a
juventude por meio da juventude de outra pessoa. Quando elas
iam embora, ele sentia-se velho de novo. Mas por alguns
instantes ele a tinha recuperado por si só. Como conseguira?
Vagou pelas ruas, sem saber aonde ia ou o que estava à sua
volta, até que chegou a uma praça, com bancos ao sol, todos
do mesmo material, que captava o calor e o retinha. Sentou-
se num dos bancos, depois deitou-se, deixando penetrar o
calor de cima e de baixo, até que seus músculos relaxaram; e
ao soltar o corpo, ele aliviou também a sua cabeça.
Por que para ele era tão difícil estar sozinho? Para Anne e a
avó parecia tão fácil, e quando estava com elas, ele... Não,
quando estava com elas, ele as acompanhava, mas não era tão
livre quanto elas.
Alguém veio e sentou-se quieto na ponta de um banco
comprido. Ele não abriu os olhos. Mas por um instante
abandonou os pensamentos, e escutou. Ouviu pequenos
estalos, rangidos, e depois as asas dos pássaros, e os bicos
bicando, os pequenos saltos quando davam encontrões e
recuavam, apenas para voltarem a se encontrar. “Eles fazem
tudo com tanta facilidade”, pensou. “Por que isso não
acontece com a gente?” As pessoas tinham de tr abalhar para
ganhar a vida e criar filhos, é claro, mas por que isso era tão
difícil? Não deveria ser tão fácil para os humanos à sua
maneira quanto para os pássaros à maneira deles?
Por que as pessoas são tão estúpidas?, perguntou, e deixou
entrar na sua cabeça todas as coisas que estivera mantendo de
fora. A faculdade, percebeu de repente, provavelmente não
era o grupo especial e isolado que ele julgara ser.
Provavelmente em todo lugar havia a mesma coisa, com seus
incompetentes sentados em tronos, como ele tinha estado. Ah,
ele tinha reconhecido os outros. Quem ele não tinha
conseguido reconhecer era a si próprio. Ele não era assim.
Nunca seria como seus professores.
Grunhiu quando se lembrou de um estudante, inteligente mas
rebelde (Stan estremeceu com esse “mas”), que tinha
desenhado e usado um carimbo que retratava um livro aberto
e uma vela acesa, com os dizeres: Ajude a Acabar com a
Faculdade. Stan tinha conversado com o estudante, e fal ado
sobre “dignidade profissional”. O estudante dissera: “Não
gosto da palavra ‘dignidade’”. Stan percebia agora que a
“dignidade” que ele recomendara não passava de presunção.
O estudante lhe dissera, mas ele não tinha ouvido. Não
naquele momento. O estudante dissera: “Você está apenas
sendo bom e educado. Você não consegue ser humano?”. E
Stan respondera, de forma tão razoável (agora lhe parecia tão
imbecil): “Mais tarde você enxergará as coisas de forma
diferente”.
“Espero que não!”, tinha dito o estudante, distintamente do
que os outros faziam. “O que não entendo”, prosseguiu, “é
porque você não deixa a gente pensar. Quando alguém pensa,
você corta suas asas, e julga que o domou — se ele fica. Mas
o que você fez foi tirar dele a capacidade de voar.”
“As exigências da pesquisa...”
“Eu não quero fazer pesquisa, ficar rebuscando”, o estudante
o tinha interrompido. “Quero buscar. Mas é submeter-se ou
cair fora, e eu vou cair fora.”
Mais uma vez Stan estremeceu ao sol. O que era o homem?
Quando jovem, ele tinha tentado descobrir. Então aceitou um
papel, tornou-se um ator no palco com papel definido.
Definido por quem? Quando jovem, tinha enxergado outro
destino para si. E agora, enquanto se juntava com sua nova
juventude deixando-a penetrar dentro de si, sentia dores de
um tipo novo e diferente. Sentou-se e assoou o nariz, porque
senão ficaria com lágrimas nos olhos, e homem não chora.
Após colocar o lenço no lugar, sentou-se curvado, com as
mãos entre os joelhos, recordando-se de coisas que não queria
recordar. Pois ele tinha pensado que era corajoso, mas tinha
vivido curvando-se diante “das regras”. Certa vez ouvira um
estudante dizer a outro: “E mais um ídolo de pedra se perde
na selva ardente”, e ambos se foram.
Como tinha entrado nessa confusão? Primeiro submetera-se
às regras para passar pela faculdade, para ter um diploma de
modo que as pessoas ouvissem o que tinha a dizer. Mas
quando tirou o PhD., viu que tinha de subir ainda mais: aí as
pessoas o escutariam. Mas quando conseguiu ter um nome,
sacrificando a maior parte de si mesmo durante vinte anos, as
pessoas o escutavam apenas quando ele dizia o que elas
esperavam que ele dissesse. Qualquer desvio era justificado
como sendo causado pela idade ou excesso de trabalho. Os
feriados que se encontrava com Anne eram os únicos
momentos em que se lembrava de ter falado verdadeiramente
o que achava — o que ele próprio sabia.
Stan soluçava. Que pensassem o que quisessem. O que
importava era o que sabia dentro de si. Quanto mais soluçava,
mais claro ia ficando, como uma criança que chorando
consegue fugir da confusão e chegar de novo à luz do sol.
Ele começou a tomar consciência das coisas em torno de si,
aos pés que passavam, dos pombos que ainda estavam por
perto. Um pombo pousou no seu ombro, ele virou a cabeça
lentamente, sem sentir diferença entre si mesmo e o pombo.
Então, “Sra. Chumley!”, exclamou para a mulher sentada na
ponta do banco.
“Não é milagre”, disse ela. “Voltei à escola para procurar um
livro, e as crianças disseram que você estava com jeito de que
ia parar na primeira praça.”
“A senhora fugiu de mim, antes.”
“E isso também não foi bom?”
Ele explodiu numa gargalhada, com a glória de uma criança,
um riso cósmico que abarcava muito mais do que as palavras
podiam dizer, e nem tentou dizer nada. “Sinto-me tão pequeno
e tão grande”, disse um pouco depois.
“Quando a gente se sente pequeno e grande nos lugares
certos”, disse a Sra. Chumley”, a gente está no lugar da gente.
Estou com fome”.
No jantar, as pessoas faziam sentido e eram divertidas, até que
alguém mencionou as crianças que contaram ter estado n as
estrelas quando só tinham saído um pouco entre a hora da
escola e a hora do jantar. A Sra. Chumley colocou firmemente
a mão sobre a coxa de Stan. “Não se aborreça”, disse ela, “As
crianças sabiam o que esperar. Provavelmente disseram a
verdade para ver se eu sabia o que estava falando. Agora
acreditam em tudo que lhes digo. Espero ter sido cuidadosa.”
“Pensei que aqui fosse melhor”, disse Stan em voz baixa.
“E é. Não vai demorar muito para descobrirem o erro, e em
seguida darão risada e farão troça.”
Anne tinha chegado à cidade, e fora fácil adivinhar quem era
a “professora” que as crianças disseram que lhes mostrara o
caminho das estrelas. Ela foi até a escola e sentiu a Vovó;
ficou caminhando até que a percebeu por uma janela aberta.
Isto é, ouviu a voz da Vovó. Ao entrar, juntou-se a Stan e à
Vovó dizendo: “E como vai você, Sra. Chumley? Aliás, de
onde foi que você tirou esse nome?”.
“De um inglês”, disse a Vovó. “Ele disse que teria orgulho em
me dar o seu nome, então aceitei. Sente-se e coma. Há algo
que quero conversar com o Stan.” E voltando-se para ele:
“Você vai voltar?”.
“É claro”, respondeu ele. “Tenho de limpar uma sujeira que
fiz. Acho que vou começar reunindo todos os alunos que não
me escutavam.”
A Sra. Chumley balançou a cabeça. “Todos acabaram caindo
na mesma coisa, em algum outro lugar que parecia um pouco
diferente. Agora você não vai passar de um velho ruim da
cabeça. Quando você se vende ao rio, tem de gostar do rio.
Como ter de gostar de espinafre, mesmo que deteste. Vai
surgir uma nova escola, e todo mundo está cheio de ‘novas
escolas’; e você é capaz de ter nostalgia de Emerson, então
irá chamá-la de Escola Heisenberg — é como atualizar
Emerson. Dará muito dinheiro. Há um homem razoavelmente
jovem — que nunca conseguiu o mestrado — que agora é
presidente de uma das grandes fundações.”
“O que você sabe a respeito de agora?”, perguntou Anne.
“Quero dizer, agora naquela época?”
“Não fiquei aqui o tempo todo”, disse a Vovó, “e mesmo que
tivesse ficado, saberia mais sobre o agora daquela época do
que lá se sabe agora. Há muita coisa absurda nos livros de
história, mas algumas coisas se revelam depois, coisas que
não eram vistas na época. Você pode ver a mesma coisa na
sua vida, se olhar direito”; ela estava censurando Anne. Eu
voltei diversas vezes. “Trabalhei para a Schraffts, e suas
campanhas para as grandes fundações — almoços e coisas
assim. Estive num monte de reuniões, e tive dificuldade em
conter a minha língua.”
“Esse homem é mais aberto do que os outros”, disse ela a
Stan. “Vou lhe dar uma lista de pessoas que têm estado a
escrever — todas dizem a mesma coisa, mas de tantas formas
diferentes que as pessoas ainda não as conseguem juntar.
Junte-as, misture o creme daquilo que elas têm a dizer, e
apresente-o para esse homem”.
‘Vovó!”, protestou Anne. “Você está adulterando o passado!”
“Adulterando!”, resmungou a Vovó. “Essa é a palavra que as
pessoas usam quando, querem dizer: ‘Não engraxe essas
rodas, a gente poderia chegar a algum lugar!? Além disso, se
já aconteceu, como posso estar adulterando?”
Voltou-se para Stan, e começou a rabiscar nomes num pedaço
de papel.
Stan olhou os nomes e demonstrou um leve choque. “Esses
homens!”, protestou. “Eles não acreditam nos homens que
lhes dão a base!”
Anne, com um garfo cheio de salada a caminho da boca, parou
com a mão no ar. “Você está querendo dizer, os homens que
seguram os guarda-chuvas dos quais eles saíram debaixo?”
“Sinto muito. Quanto tempo leva para a gente deixar de ser
professor?”
“Você mudou!”, disse Anne com prazer. “Oh, Stan!”
“Vocês podem conversar mais tarde”, disse a Vovó. “Agora,
Stan, o que você tem a fazer é... não estou lhe contando
segredos nem forçando-o a nada, porque você poderia ler isso
sozinho se fosse à biblioteca. Ainda há muita coisa que você
precisa resolver sozinho porque a história também está cheia
de coisas que não aconteceram dessa maneira.” Ela continuou
rabiscando nomes, e ele ficou surpreso com a quantidade que
havia. Ele conhecia o trabalho de todos, mas os tinha
desmistificado, por uma ou outra “razão”, como não citar
fontes, contestar a autoridade estabelecida, místico demais,
em alguns casos nem mesmo tinham doutorado. Agora, o
trabalho deles estava se reorganizando em sua cabeça, e ele
pôde ver o que os fundadores de religiões tinham tentado, de
outra forma, muito mais compreensível para o século XX. E
isso estava acontecendo em tantos lugares diferentes! Olhou
novamente para a Vovó que continuava a escrever, e estendeu
a mão para fazer com que ela parasse. “Essa gente escreve
ficção científica!”, disse ele. “São escapistas!”
A Vovó reclinou-se e riu. Anne tirou um cigarro, fez um passe
com a mão, e a ponta do cigarro se acendeu. “É um truque”,
disse, “que aprendi no futuro.”
O riso de Stan foi mais forte do que o delas. “Muito bem,
Vovó, prossiga.”
“E só isso. O resto você vai ter de descobrir sozinho.” Então
virou-se para Anne: “Você já começou a trabalhar no hospital
psiquiátrico?”.
“Essa era para ser a minha surpresa!”
“Isso vai surpreender Stan”, disse a Vovó, “e eu também estou
interessada, porque ninguém parece saber como começou.”
“Trabalhei em muitos deles antes de descobrir o lugar certo
para fazer as coisas continuarem acontecendo”, disse Anne,
“mas agora tudo vai indo bem.
Alguns pacientes pediram para serem transferidos par a outros
hospitais e estão começando a ajeitar as coisas por lá. Na
verdade, foi muito simples. Sempre é simples, quando se acha
o lugar por onde começar. Simplesmente expandimos tudo um
pouco mais, e ninguém nota, ninguém presta atenção à
direção da expansão. De qualquer maneira, os chefes estão
muito ocupados escrevendo. Quando eles notarem o que
aconteceu, pensarão que eles mesmos o fizeram.
Provavelmente nem notarão que é uma escola — sem
diplomas, sem créditos, sem professores, todo mundo
aprendendo de todo mundo e de tudo, e somente para quem
está envolvido.
“Os ‘pacientes’ vêm de todos os tipos de trabalho, então
quando voltarem a trabalhar, tudo mudará um pouco. Estarão
mudando o trabalho... Quero dizer... Oh”, disse ela
aborrecida, “o que importa o que está mudando o quê? O que
importa é que está mudando.”
“Mas como as pessoas dos seus hospitais conseguem trabalhar
em lugares repletos de velhas ideias?”, perguntou Stan. “Acho
que elas acabariam se quebrando.”
“Algumas se quebram”, respondeu Anne, “mas são mandadas
de volta para nós e numa sociedade sadia vivem bem, e logo
que estão fortes saem de novo. Às vezes, é fácil. Elas trein —
Será que nunca vamos parar de usar palavras erradas?”,
perguntou ela meio brava. “Eles têm oportunidade de se tornar
eles mesmos, e isso é o que muita gente quer. Uma mulher foi
trabalhar num lugar um pouco antes do Natal, e descobriu que
durante trinta anos todo mundo tinha dado presentes de Natal
a todo mundo do lugar. Ela pensou que ficaria louca se
entrasse nisso, então ficou dizendo a todos: ‘Não vou lhe dar
nada de presente no Natal, então não me dê nada ou ficarei
sem jeito’. Ela não estava querendo mudar tudo. Estava
simplesmente falando de si mesma. E em pouco tempo todo
mundo estava dizendo a todo mundo: ‘Não vou lhe dar nada,
então não me dê...’. Eles disseram que foi o melhor Natal que
já tiveram. Ficaram felizes durante todo o mês de janeiro.”
“Todo mundo?”
“Bem, não. Havia uma velha que empregava e despedia muita
gente, e era ela quem contava aos novos empr egados a
respeito do velho costume, então eles achavam que tinham de
segui-lo. Ela ainda está aborrecida — há outras coisas que não
estão do jeito que ela quer — e ouvi dizer que ela está com
câncer. Quero dizer, está mesmo, e provavelmente não vai
viver muito tempo, mas isso é melhor do que todo mundo ficar
com câncer.”
“Vai ser divertido voltar”, disse Stan.
“Não é sempre que você vai achar isso”, disse a Vovó. “Às
vezes você pensará que nada disso está acontecendo, que você
inventou tudo para tornar a vida suportável, que tudo não
passa de imaginação. Você duvidará de si mesmo e da sua
própria sanidade. Talvez seja melhor você levar alguns desses
cigarros que a Anne encontrou, e então poderá fazer um passe
com a mão e saberá que são reais.”
“Será que não posso usar a senhora em vez disso?”, perguntou
Stan. “A senhora é a coisa mais segura que conheço.”
A Vovó não respondeu.
Anne disse, meio infeliz, meio encantada: “Você não vai
voltar conosco?”.
“Nos livros de história não há nada a meu respeito”, disse a
Vovó. “Sou completamente livre.”
“E...?” Stan estava tentando adivinhar, mas tinha certeza de
que não conseguiria.
“Há um espaço em branco um pouco adiante. Eu já passei
disso, então sei. Ninguém sabe o que aconteceu.”
“Então a senhora vai para lá para descobrir. Não é arriscado?”
“Assim espero”, disse a Vovó.

Gostei de ter colocado essa história. Talvez coloque outra,


mais adiante... Noto meu prazer em “histórias.” Repetidas
vezes tenho vontade de voltar a escrever ficção, e não faço
nada em relação a isso. Talvez a vontade ainda não seja forte
o suficiente para levar-me a deixar de fazer o que estou
fazendo.
Segunda-feira à noite Fritz revitalizou o lugar, e o efeito
varzeano já quase desapareceu. Ele pôs fim ao oba-oba e
exigiu mais seriedade. “E claro que a terapia pode ser
divertida, mas não no início.” Gostaria que ele fizesse isso
com mais frequência. Tenho liderado um grupo, com Hal no
papel de co-líder, de manhã e à noite das oito às dez. Quatro
sessões, e estou me equilibrando outra vez. Eu não sabia o que
tinha perdido nos dez dias que não liderei e não participei de
grupos, mas sabia que tinha perdido algo. A sessão desta
manhã devolveu-me uma visão equilibrada. Trabalhei com
Neville e não consegui fazê-lo passar do ponto onde está
encalhada. Senti que nada aconteceu. Então Janet Lederman
entrou, e ouvi seus elogios como se fossem louvores cantados
ao salvador. Gosto dela. Quando ela prosseguiu com o Neville
a partir de onde eu tinha parado, mexendo-se com confiança,
pensei: “Ela conseguiu. Bem, de qualquer maneira não quero
ser terapeuta” — e não quero mesmo. Bem aqui dentro não
acho graça nisso — que estou aprendendo tanto com esses
grupos e não quero ser terapeuta. E isso aí, e tudo bem. Se eu
tivesse de me decidir, estaria numa enrascada, mas não tenho.
Nunca tenho que decidir, até que a certa altura decido, e aí
não há problema.
Janet também não produziu um milagre. Gostei de observá-la
trabalhando. Com ela, Neville passou para uma área um
pouquinho diferente daquela em que estava antes.
Harriet disse que queria trabalhar, e não trabalhava. Deixei -a
sozinha. Ela disse que queria trabalhar com tomada de
consciência. Ela pingava um pouquinho aqui, um pouquinho
ali. Mostrei-lhe isso. Fritz entrou e trabalhou com ela, e ela
apresentou um espetáculo atraente, como uma manipuladora
de fantoches. Acabou chorando mais do que se permitia
ontem, mas não chorou tudo. Levantou um pouco a máscara,
mas não a tirou. Progresso. Nada de terrível.
Então tivemos a hora de treinamento adiantado com o Fritz —
cerca de quinze de nós que são líderes e co-líderes. Fritz
perguntou quem estava em dificuldades. Ruth estava. Ela
disse que não estava toda ali, que havia muita coisa se
passando dentro dela. Fritz pediu-lhe que escolhesse alguém
do grupo com quem tivesse muita dificuldade, e trabalhasse
com a pessoa. Ela escolheu o Hal! O seguinte foi Bill, e ele
escolheu Greta. No trabalho de Greta, que Fritz assumiu,
pediu a ela que dissesse a cada um de nós “Tenho um
segredo”, e contasse algo. Para mim, ela disse: “Guardo um
segredo de você — não gosto nada de você”. Ela disse isso
com desgosto, e em tom bem duro.
Arrepios quentes percorreram os meus ombros e braços, e
talvez também outros lugares — depressa demais para poder
fixá-los, como uma luz de néon que pisca e desaparece. Bem
embaixo da pele — não mais fundo. Nunca tinha
experienciado arrepios quentes antes, e gostei. Era um
“segredo” tão engraçado. Eu sabia disso há meses.
No final da sessão, Neville veio e colocou os braços em to rno
de mim; muito caloroso — e ele não costumava ser — um
calor suave; ele disse que a sessão desta manhã tinha sido boa,
como se só tivesse percebido depois. É claro que foi boa.
Ele disse isso para mim. Talvez também tenha dito para a
Janet, e tirado algo do trabalho com ela. Mesmo que ele não
tenha dito a ela, sem saber da verdade, ela pode ter
participado.
Contei isso de forma bastante ordenada para deixar clara a
sucessão dos acontecimentos. Em suma, digo: é como a vida.
Não se pode analisá-la, e se você o fizer, o máximo que
conseguirá é juntar alguns pedaços que lhe tenham agradado.
Mesmo que você os junte de forma desagradável, como uma
tragédia ou martírio, essa forma estará lhe agradando, ou você
não o faria — e você não fará nada em relação ao fato, a
menos que/até que em algum ponto o prazer se torne des-
prazer: aí ele não suporta mais você.
Gozadas, todas essas palhaçadas que fazemos.
O padre Liebler, episcopal, contou-me que detestava ter de
admitir, mas usara um crucifixo pendurado na corrente do
cinto quando fora conversar pela primeira vez com os navajos,
décadas atrás. Os navajos lhe perguntaram o que era o
crucifixo, e ele lhes contou. Eles não se impressionaram.
Disseram: “Esse homem é louco. Eu não faria isso!”. O padre
Liebler me contou que os navajos não têm conceito de
autossacrifício.
Certa vez fui de Boston a Washington com várias pessoas,
sendo que uma delas era um jovem da índia, muito vivaz, que
estava estudando física.
Conversamos sobre as nossas crenças. Mencionei o pecado
original. Ele quis saber o que era. Contei-lhe. Ele riu da
absurda crença dos nativos e disse: “Eu, eu não me sinto
culpado!”.
Quando eu vivia em Novo México, um jovem morreu. Duas
famílias estavam igualmente envolvidas em sua morte, e o
tinham amado igualmente.
Uma delas era escocesa protestante. A outra família era
mexicana católica.
Quase tudo que uma família dizia ou fazia, ou sugeria a
respeito do funeral, horrorizava a outra. Era medonho. E
também muito engraçado.
Palhaçadas.
Condicionamento contra condicionamento.
Tortura.
Tortura sentida por gente.
Quando tudo não passa de condicionamento — não gente.

Na cozinha, após a sessão, Greta disse num tom amistoso, não


muito à vontade — um pouco forcado: “Barry, me arranja um
cigarro?”. Ela estava atrás de mim. Virei-me, dei-lhe o meu
maço de cigarros e o isqueiro, e quando ela os devolveu, olhei
em seus olhos, pronta e disposta a estar com ela. Os olhos dela
pareciam uma casa à noite, sem luzes acesas e com as portas
fechadas. Não sei o que há dentro da Greta, mas agora que ela
chegou ao ponto de declarar o seu desgosto por mim, em vez
de apenas demonstrá-lo, e com esse grupo adiantado no qual
ela terá de trabalhar comigo, talvez nos juntemos. Se eu
estivesse tentando agradá-la, ficaria doida, porque geralmente
tudo que faço é errado. Não me senti assim com ela no dia em
que estávamos num pomar de maçãs, e foi gostoso nada de
desgosto, apenas Greta. Por alguns momentos.
Ontem, no grupo adiantado, trabalhei com o Fritz. Ofereci -me
como paciente, e escolhi Ray e Hal como meus coterapeutas...
Naquele momento senti sono e fui dormir. Agora me sinto
lerda. E faminta. Tão faminta. Não deveria estar com fome.
(Ainda não é hora do jantar.) Sinto fome... Agora noto que a
minha “fome” é de indigestão — pimentão verde na galinha
do almoço — e esta manhã eu estava com diarreia. Isso foi
surpresa.
Dei ao meu estômago mingau de farinha de milho e manteiga.
Ainda não quero escrever sobre o trabalho com o Fritz, então
vou escrever sobre outra coisa e ver como me sinto.
Ontem à noite na reunião da comunidade, eu disse que
gostaria de passar duas horas neste local, sem falar. Fritz:
“Com todos esses principiantes!? Eles ficariam fantasiando o
tempo todo!”.
Não sei se ele pensou que me referia a ficarmos sentados em
silêncio.
Não me referi a isso. Me referi a fazer os serviços do local —
a rotina usual, mas não verbalmente. Ele sugeriu que esta
noite, na hora do jantar, não falássemos, “e talvez todo mundo
preste mais atenção ao ato de comer”. (Mastigar, saborear,
perceber o que está acontecendo na boca, e assim por diante.)
Esta manhã — não, só parece que foi hoje. Foi ontem de
manhã... quando penso nesta manhã é mais fácil entrar — e
qual é essa de precisão-sobre-oque-não-importa?
Eu estava tremendo um pouco, e deixei acontecer. Se eu me
faço tremer, ou é da mesma forma ou eu mudo. Quando o
tremor é organísmico, nunca é duas vezes igual — o
movimento, a evolução, a mudança, até mesmo o acalmar -se
é diferente. Primeiro tomo consciência da sala e das pessoas
em torno de mim, do meu corpo na cadeira, e assim por diante
— pelo menos de maneira difusa — mesmo quando fecho os
olhos. Então me torno a tremedeira. Não existe nada a não ser
a tremedeira e eu sou tremedeira. Hoje isso aconteceu também
com a respiração — depois que a tremedeira tinha-se
acalmado. Ray me perguntou: “O que está havendo?”;
respondi: “Respiração”.
No verão passado, eu estava na Casa com o Fritz. Ao voltar
para a minha cabana percebi que estava com raiva dele. Eu
sabia que não precisava enlaçá-lo com a minha raiva para me
acalmar, embora não tivesse ideia do que fazer.
Na cabana, deixei-me sentir a raiva, senti-la totalmente.
Tornei-me raiva. Quieta, parada, sem gestos, sem voz, eu era
a raiva. Não existia nada além de raiva.
Então, quando tentei me apegar a quem ou a que me provocara
raiva, não consegui. Era como caminhar por um nevoeiro para
alcançar algo que não está ali. Pareceu-me irrelevante “de
quem” ou “de que” eu tinha raiva. Tolice.
(Como algum conceito tolo dos nativos.)
Raiva.
Nada a não ser raiva.
Eu me senti bem.
Isso passou. Não estava mais com raiva. Tudo foi lavado. Não
consegui fazer voltar a raiva do Fritz mesmo tentando. Era
como algo que eu desejara anos atrás e não desejo mais, e nem
sequer consigo voltar à lembrança de ter desejado.
Eu tinha ocupado o lugar quente (inesperadamente) com
“medo” e “escuro” na cabeça. Conheço os meus medos no
escuro, e não fazem sentido para mim. Nunca fizeram sentido.
Tudo que posso dizer sobre eles tem suas exceções. A única
afirmação precisa é “medo” e “escuro”. “Amo o escuro e
tenho medo do escuro” é basicamente verdade, mas com
exceções.
Fritz disse que gostaria de tentar um atalho. Pediu -me que
ficasse no útero da minha mãe. Para isso, tive de cobrir os
olhos com as mãos, para que ficasse escuro. (Isso se suger iu
a mim insistentemente — não foi algo que decidi.) Consegui
entrar só em parte. O que aconteceu me interessou — minha
cabeça caiu e as minhas costas se enrolaram. Será que eu
estava me forçando a fazer isso, com base em fotos que vi?
Não senti isso. Ao mesmo tempo estava cética. Então os meus
pés, que estavam um pouco esticados para a frente, apoiados
no chão, começaram a se mover para trás. Também fui cética
em relação a isso, e fiquei achando que deveria mantê -los
onde estavam. Minhas pernas se tornaram insuportavelmente
desconfortáveis, e isso se aliviou quando as deixei moverem -
se sozinhas, dobrando os joelhos.
Gostei do escuro, mas sons agudos como uma tosse forte,
pernas de cadeira arranhando o solo, eram muito dolorosos
para mim — como se rompessem os meus tímpanos. Os sons
leves eram bons — como a tosse leve do Fritz que mais
parecia água escorrendo sobre mim.
Quando tirei a mão dos olhos fechados, querendo usá-la para
mostrar os ângulos dos sons agudos que chegavam a mim, a
luz ficou insuportavelmente forte — intensa. Fechei o olho o
mais depressa que pude.

Esta noite tivemos um jantar-e-depois em silêncio. Gostei


tanto da comida, e ao mesmo tempo — era como nadar no
oceano. Tanta sensação e consciência, tanto espaço. Gostei
dos sons que ouvi — gostei de ouvir, em vez de ser torturada
pelo ouvir.
Eu não sabia dos outros. Fiquei muito feliz quando muitos
pediram mais, durante a reunião da comunidade; Fritz sugeriu
que todo jantar fosse sem falar. Algumas pessoas tinham
perturbado (não na sala onde eu estava), fazendo gesto de
ordenhar vaca para pedir leite, dando risada. A viagem do ego.
Pensar, não sentir. Uma moça tinha dito “uma palavra” e duas
pessoas pularam em cima dela (silenciosamente). Não
mencionou que a palavra fora “Bosta!”, e que ela a dissera
rosnando. Mas é claro que ela estava com dificuldade.
Fritz sugeriu uma modificação no não falar, de modo que as
palavras essenciais pudessem ser ditas. A maioria das pessoas
gostou, e algumas guardaram a esperança de que as “poucas
palavras” sejam ditas em voz baixa. Glenn disse que era como
estar noutro mundo. Era mesmo.
É tão mais do que eu esperava; eu queria só duas horas sem
falar. Jantares sem falar!
Cada pessoa disse algo diferente. Tom disse que geralmente
fica calado durante o jantar, e que fica se martelando a cabeça
o tempo todo para dizer algo. Agora ele pode não falar sem se
martelar na cabeça.
Eu comi na sala de estar, e havia apenas uma outra pessoa lá.
Duas vezes tive o pensamento (sic) “Eu devia dizer algo”, e
punha uma porção na boca para me livrar dele, para tirá-lo da
minha garganta. Todo o resto foi divino, e a lavagem de pratos
também foi em silêncio, de modo que fiquei apreciando os
sons. Quando voltei a minha cabana, notei a quietude em mim,
e lavei lenta e silenciosamente os pratos do dia anterior que
estavam na pia. Varri o chão da mesma maneira. Coisas que
não tinham sido feitas foram feitas, com felicidade.
Uma mulher disse que após ter saído da Casa e ido para sua
cabana, estava sem fantasias. Algumas pessoas disser am que
mastigaram mais a comida — e comeram menos.
Estou admirada.
Na sessão em que voltei ao ventre da minha mãe, mencionei
ao Fritz que tenho fantasias com os sons no escuro quando
estou só, e não faço isso quando há luz. Fritz recomendou que
eu tentasse escutar os sons e enxergá-los como vozes (ou algo
assim). Para mim isso faz algum sentido — mais do que um
escuro de amor-medo. De certa forma, a coisa parece correta,
como se a minha coluna dissesse “sim”, embora eu não saiba
quais vozes ou palestras serei capaz de ouvir. Quis trabalhar
com isso na noite passada, e quero trabalhar com isso agora,
mas terei de estar em algum lugar mais isolado para fazê-lo.
Ou talvez eu possa fantasiar que não há ninguém no quarto ao
lado, e soltar-me no medo, e escutar os sons e deixar que se
tornem vozes.
Quando estive doente, uma das coisas que fiz foi pegar as
palavras “não gosto de cor-de-rosa” (que muitas vezes
dissera) e deixá-las escolher algo do passado e ver de onde
vinham, porque certamente elas não me serviam. O que eu
tinha em mente foi muito diferente do que ocorreu. (Agora,
eu ficaria muito cética se qualquer coisa saísse do jeito
esperado. Eu recebo a resposta, mas a forma de receber e o
conteúdo da resposta são tão diferentes do que espero que
sejam.) Ouvi “uma voz” nos meus ouvidos, dizendo: Não
gosto de cor de rosa não gosto de cor de rosa bem depressa.
Escutei. Só isso, escutei. “A voz” se transformou em três
vozes, então as três se tornaram claramente vozes femininas,
e então viraram as vozes da minha mãe, da minha irmã e da
minha tia Alice. Não importa aqui o que aprendi com isso. Vi
toda uma configuração e “não gosto de cor-de-rosa” ficou
totalmente claro para mim. Alguma outra pessoa não gosta de
cor-de-rosa.
Estou um pouco triste por não poder trabalhar um pouco mais
com amor/medo/escuro agora. Antes, quando estava
escrevendo, algumas das sensações voltaram, e pensei que
poderiam evoluir. Então veio um telefonema interurbano.
Então. Então. Então. Talvez neste fim de semana.
Quando acabei com a parte do ventre da minha mãe, e voltei
a estar com as pessoas, Fritz me disse para fechar os olhos
outra vez. (Eu não estava totalmente com as pessoas.) Ele
falou algo sobre “despersonalização”. Não sei o que isso quer
dizer. Eu não me sentia despersonalizada. Eu era eu e cada
outra pessoa era ela própria. Eu me sentia eu. Era sim.
Enxerguei lábios virados de cabeça para baixo. Então eles se
puseram na posição certa e se moveram em direção à minha
boca, e desapareceram na minha boca. Eu estava com dois
prendedores nos ombros — um em cada ombro — parecidos
com os prendedores que os homens costumavam usar nas
calças quando andavam de bicicleta, para que as calças não
ficassem presas na roda. Os prendedores eram brancos. Assim
que disse que eram parecidos com prendedores de bicicleta,
eles se tornaram escuros, quase pretos. Então o prendedor do
ombro esquerdo ficou branco, e quase desapareceu até só ficar
uma coisinha parecida com uma falange. Eu gostaria de saber
o que é isso, mas não adianta buscar a resposta. Se eu buscasse
e encontrasse, seria uma resposta inventada por mim.
Ou a resposta vem ou não vem.
Sinto falta do “meu amigo”, que sou eu.
Mas estou aprendendo mais a me deixar só.
No grupo pequeno desta noite. Hal disse que estava com sono,
e sentia-se incomodado pela sua responsabilidade de
terapeuta quando não conseguia responder. Alguém quis um
pouco de trabalho de tomada de consciência. Hal foi primeiro.
“Agora tenho presente” — dentro e fora da pele. Quando
acabou, perguntei: “Você está com sono?” Hal: “Não”.
Eu, agora: Sim, e estou excitada (não superexcitada) com
aquilo que acontecerá quando eu me deitar e fechar os olhos.
Quando às dez da noite entrei no grupo grande, era como um
teatro, com tanta gente, todo mundo diferente, cores tão
lindas, e uma espécie de fluxo entre as pessoas, e eu era
simultaneamente observadora e participante de tudo isso.
Quando fui para a cama, apressei o rio em vez de deixá-lo
correr sozinho. No começo não. Mas então gostei do que
estava acontecendo, e em vez de fluir com a corrente, fiquei
ávida e apressei — e perdi o acontecer-por-si-só. Tentando
mudar aquilo que amo, eu mato.
Tentar fazer mais funciona da mesma maneira que tentar fazer
menos.
Não devo ter feito muito isso ontem à noite, porque esta
manhã havia apenas um punhadinho de tristeza, e o meu corpo
está mais livre — muito mais livre. A minha coluna parece
fluir. Os meus ombros se mexem com facilidade. A miserável
rigidez que eu tinha “por causa do tempo chuvoso”, "por
causa do colchão vagabundo em que tenho dormido” (às vezes
eu mesma pensava isso), simplesmente não se faz presente. O
ar ainda está turvo. O colchão ainda é vagabundo. Eu mudei.
Fritz tem razão a respeito dos músculos da minha barriga: a
maioria deles está morta.
Esta manhã. Esta manhã. Que diabo aconteceu esta manhã.
Ali! No grupo de treinamento adiantado, Fritz disse: “Tenho
certeza quanto ao fenômeno. Não tenho certeza quanto às
projeções. Fiquem com o fenômeno e lidem com as projeções
da maneira que lhes ocorrer”.
Bravo! É o que eu sinto. Nunca aprendi esse negócio de
projeção — como lidar com projeções. Eu não me sentia
segura em relação a isso. Como líder de grupo, e até certo
ponto como treinadora de Gestalt, eu sentia que devia saber
tudo isso. Não sentia na minha própria maneira de trabalhar
com as pessoas; mas sim no caso de passar a Gestalt para os
outros. Quando Hal e eu começamos a trabalhar juntos, disse -
lhe que esperava que ele fosse forte naquilo que eu era fraca.
Esta manhã disse-lhe que o que eu tinha em mente eram
basicamente as projeções. No grupo adiantado, quando Fritz
nos pediu para expormos as nossas dificuldades como líderes,
Hal falou da sua incapacidade com projeções, ou algo assim,
e Fritz disse o que mencionei acima.
Liberdade!
Que eu tive o tempo todo e não usei. Não. Usei, mas ao mesmo
tempo achei que estava sendo inconveniente em usar — como
se faltasse algo. E é claro que faltava algo. Essa espécie de
embrulhada é muito confusa. Faltava algo, eu sabia que estava
“sentindo falta” do negócio de projeção. A minha percepção
de “faltar” focalizou-se no negócio de projeção. Na verdade,
qualquer pensamento sobre o que não estou fazendo (ou
fazendo) afasta a minha tomada de consciência do fenômeno,
e eu sinto falta da minha consciência do que está se passando
em mim ou em outra pessoa. E como ser convencida, pelo meu
marido, de que estava louca — e eu estava louca, mas não do
jeito que pensei que estivesse. A minha forma de estar louca
não podia se revelar enquanto eu focalizasse que pensava ser,
tentando decidir se era ou não.
O organismo não toma decisões.
A decisão é uma instituição artificial.
O organismo funciona sempre com base na preferência. —
Fritz.

Estou me deixando acontecer mais do que deixava. Não


muito, só um pouquinho. Esta manhã deixei acontecer (com
alguns minutos de atraso) o meu aborrecimento com a Harriet
por ela manipular o Hal, e com o Hal por ele concordar com
a manipulação. Isso precipitou um acerto de contas entre
Harriet e Hal. Eles tinham trabalhado algum tempo, e estavam
entrando numa calmaria (em que já tinham estado antes, mas
tinham saído), quando o Fritz entrou. Harriet parou. Eu queria
que o Hal dissesse ou fizesse algo para manter o movimento,
porque (palavra suja) ele estava sendo o terapeuta, (aspas) Ele
não fez nada, então eu fiz. Harriet e Hal puseram-se de novo
em movimento. Após alguns instantes, Fritz se meteu. De
maneira geral, foi uma sessão boa para Harriet, por ela ter
entrado em contato com algo. Depois do almoço, Harriet me
procurou e me agradeceu por trazê-la de volta, quando ela não
conseguiu se movimentar mais (a entrada do Fritz deixou -a
ainda menos inclinada a continuar).
No grupo adiantado, Fritz quis um fósforo. Ele quase não está
fumando tanto quanto fumava. Quase joguei um monte de
fósforo em cima dele, mas pensei: “Nunca vou conseguir
acertar — vai passar longe” — e joguei a caixa de qualquer
jeito, depressa, num único impulso da minha mão a partir de
onde ela estava (mão direita próxima à coxa esquerda) — sem
me colocar em posição e jogar como “deveria". A caixa não
foi para onde eu queria, mas passou ao alcance do Fritz, ele
se mexeu e agarrou-a facilmente — maravilhosamente. Que
funcionamento!
Estou muito menos inclinada a escolher alguém para
trabalhar, seja como “paciente”, seja como “coterapeuta”, ou
mesmo para estar em companhia.
Mais disposta a pegar quem aparece e trabalhar a partir daí.
Estou novamente vacilando com Hal como coter apeuta (fator
novo), mas estou começando a me equilibrar outra vez.

Fritz reduziu muito seu fumar. Agora, frequentemente quando


olho para ele, não está fumando. Costumava ser o contrário.
Após trabalhar com ele em agosto a respeito do meu fumar (e
outras coisas) me liberei tanto — chorando, contorcendo-me,
soluçando por mais de uma hora — e depois disso, quando
fumei um cigarro, o gosto realmente foi muito estranho.
Durante um dia e meio, notei que isso iria acontecer, e fumava
um cigarro. Quando o gosto não ia ser bom. não fumava — ou
começava, e largava. Diminuí os cigarros. Então entrei numa
de “fazer as coisas" antes de ir embora daqui, para uma
viagem com a Helen, muito tensa, e seu bebê brigão — Helen
muito negativa, realmente; expressando tanto desgosto — e
eu não podia fumar (no carro) quando queria, e quando
parávamos eu descia e fumava, e tudo se estragou.
Fritz agora é quase sempre um velho muito caloroso e gentil.
Passa mais tempo conversando com as pessoas do que
costumava passar. Tem muito mais paciência.
Eu estou querendo muito ficar mais com o resto da natureza,
e fazer outras coisas, além de grupos — pintar, cozinhar,
outros jeitos de fazer coisas.
Mas agora não quero ir embora daqui. Prefiro passar duas
horas por dia com grupos, em vez de quatro. Mas as coisas
são assim — e talvez duas horas também não sejam o que eu
quero. Aprendo muito com as quatro horas, e esta é uma
maneira de deixar sair mais de mim. Quero mais tempo para
outras maneiras. Mas não sei se esta maneira, e a pressão,
ajudarão as outras; ou se serão empecilhos. Quando sei não
sei, é muito mais fácil aceitar o que é do que pensar que outra
coisa seria (certamente) melhor.
Examinei com Neville e Hal o que Fritz disse esta noite. Em
suma: Projeções são teoria. Fenômenos são realidade.
Hoje o Fritz parecia cansado. Na reunião da comunidade ele
disse que os grupos estavam muito parecidos com grupos de
encontro. Eu também acho.
Algumas semanas atrás, eu estava liderando um grupo à
maneira da Gestalt.
Então ele disse para deixar outras pessoas entrar; não só o
coterapeuta, “como está acontecendo nos outros grupos”. Me
pareceu que foi isso que nos fez cair nesse negócio de
encontro. Pelo que ouvi, não creio que no meu grupo isso
tenha sido tão ruim quanto em outros. Sei que é pior do que
eu gostaria que fosse, e que eu também entro. Quando o
Neville participa, ele é ótimo. Algumas outras pessoas n ão
estão dispostas a aprender antes de falar.
Deixe-me voltar a eu, e ver como me saio. Aborreço-me com
algumas das interrupções. Eu acho que “devo” deixá-los falar
— eles foram reprimidos e devem ter permissão de falar. Eu
fico ressentida porque “devo” (o “devo” é meu) soltar os
bebês e deixá-los crescer.
Eu fico confusa com aquilo que eles dizem. Eu entro no
mesmo modo de pensar/falar. Eu os deixo continuar quando
acho que não estão chegando a lugar nenhum.
Soltar os bebês é bom em algumas circunstâncias. Aq ui, para
mim — Que se dane.
Eu gosto de aprender escutando e depois entrar, e eu quero
que os outros façam a mesma coisa.
Tudo isso também é absurdo. Jogue tudo fora e comece de
novo.
Fique no seu lugar, garota. Basta isso. Culpar os outros é
choramingar.
Isso não é só uma afirmação. Tenho muita consciência de tudo
que ela envolve. Upa! Tudo isso saiu num círculo maior, junto
com outras coisas. Agora, eu gostaria que nos reuníssemos
amanhã, para poder fazer algo, em vez de ter de esperar até
segunda-feira.
A única “preparação” que posso fazer é estar mais no lugar,
em tudo — mais consciente, inclusive consciência do que está
se passando dentro de mim, e dizer, especialmente nos grupos.
Se eu não fizer isso, estarei fugindo.
Acabei de ver outro círculo, que inclui mais coisas. Tudo
nesse círculo sou eu — minha própria falta de sentido, meu
próprio não-sentir. Seguindo aquilo que eu pensava (ugh!)
serem regras. Nem mesmo sei se as regras existiam fora da
minha cabeça. (Minha interpretação do que o Fritz disse.) Em
todo caso, seguir regras que não funcionam é o maior absurdo;
e deixar o Fritz ser a autoridade em vez de seguir a minha
própria autoridade, este é o maior absurdo de todos. Acho que
ele concordaria com isso. Seria até capaz de dizer: “Já estava
na hora!”. Hora de eu enxergar isso.
Ficar com o fenômeno. Com isso eu realmente concordo. O
fenômeno da outra pessoa e o meu próprio. Sempre mudando.
Movendo-se com as mudanças.
Acabei de ver um novo círculo, que inclui um território ainda
maior.
Meu Deus, como sou boba! Reconheço isso. Um grande
holofote ilumina o que acontece.
Agora, nada de choramingar.
Estou de volta ao “Tudo está bem.” Está bem que amanhã seja
amanhã, e que segunda-feira seja segunda-feira, e que sábado
e domingo estejam no meio. Não tenho ideia do que acontece
em cada um deles, e isso também está bem. Não preciso fazer
nada acontecer. Só deixar-me acontecer junto com aquilo que
acontece.
Sem sacos nas costas.
Sem análises.
Sem generalizações.
Sem pensar sobre.
Uma rosa é uma rosa, é uma rosa.
Estou com vontade de botar uma história aqui, então ai vai
outra história, que escrevi há vários anos. E mais lenta do que
“Janela para o Turbilhão”, e também tem outras diferen ças.
Quando a leio depressa, acho que é uma história ordinária.
Quando leio mais devagar, no ritmo dela, gosto, e sinto -me
bem com o que ela diz.
A QUI E A LI

Quando me disseram que tinha sido escolhida, fiquei toda


contente e por dentro tive medo, mas o contentamento foi
maior do que o medo, e isso me fez aguentar firme. Quando
apertei o botão, o contentamento e o medo eram quase iguais,
então eu ainda estava bem. Quando lá cheguei, a coisa já era
outra: o medo era total, medo de não poder voltar. Eu devia
ter sabido. A minha mãe frequentemente me dizia: “Veja bem
o que decide com seu coração, pois um dia ele será seu”. E
isso também tinha um jeito certo de acontecer. Mas mesmo
assim, logo que cheguei, me parecia que a coisa mais
importante do mundo era voltar.
Eu havia sido instruída de todas as maneiras possíveis —
preparada para toda e qualquer coisa que pudesse encontrar
ao chegar no futuro. Estava prevenida contra que eu não sabia.
E então, no momento que cheguei, não havia nada — apenas
eu e a noite semitropical. Talvez isso pareça fácil, mas não
foi.
Eu não podia crer. Não ousava me largar. E como querer
alguma coisa por muito tempo, por tanto tempo que quando a
coisa chega, está vazia.
Tínhamos escolhido o Havaí por uma série de razões. O clima
era brando. Quaisquer que fossem as minhas roupas,
provavelmente eu poderia trocá-las por algo apropriado.
Abrigo não seria problema imediato, comida tampouco, e eu
poderia lavar-me no mar. O povo do Havaí era tão misturado
racialmente que se a minha aparência fosse estranha para
2164, provavelmente não seria realmente notada. Com tantas
línguas e acentos diferentes, o meu passaria despercebido,
mesmo que os anos o tivessem piorado muito. As ilhas eram
pequenas e seria fácil orientar-me nelas. Ao mesmo tempo,
estão em contato com o resto do mundo, e eu poderia saber de
notícias úteis para mim. E assim por diante. O computador
havia recebido montes de dados. Sabíamos que as coisas
poderiam sair diferentes do que imagináramos, mas
precisávamos seguir o nosso próprio pensamento e arriscar o
resto, exatamente como se deve viver a vida. Exceto que
geralmente a gente vive um ano após o outro, sem pular 194
anos. Eu escolhera uma época que ficava à mesma distância
de nós que a Declaração da Independência. Essas eram as
mudanças que eu julgava poder absorver de um só golpe.
Meu aparecimento em 2164 se deu em Kaneohe, na parte de
Oahu voltada para os ventos. Isto é, eu estava só numa metade
do lugar, pois algo havia acontecido com a outra metade, e
não pude descobrir o que. Simplesmente parecia que ela não
estava lá. Era de noite, mas a lua estava clara. O trevo da
estrada ao pé do Pali tinha desaparecido. Eu podia ver alguns
sinais do lugar onde ele existiu, mesmo à luz do luar, por
causa de uma diferença na vegetação — uma espécie de
contorno; porém, o crescimento da selva havia apagado bem
os traços. Parecia que as coisas tinham ido para trás. O mesmo
acontecia com o pequeno caminho de terra que levava para o
topo do Pali. Pensei ver um carro se movendo, próximo ao
cume; mas se fosse mesmo, ele não tinha faróis, e por isso
talvez eu estivesse enganada. Cem toda certeza, o silêncio era
total. Eu tinha me esquecido que tanto silêncio era possível.
A noite parecia boa para subir o caminho do Pali até o outro
lado da montanha, e descer em Honolulu ao amanhecer. Eu
não temia nenhuma agressão, porque não parecia haver
agressão no ar; porém agressão não é a única coisa que pode
nos ferir. Eu não deveria me anunciar enquanto não tivesse
aclarado as coisas. Seria fácil anunciar-me simplesmente
fazendo ou dizendo coisas “erradas”.
Dirigi-me ao Pali, com flores noturnas abertas em profusão.
Esperei que isto fosse um bom sinal. Realmente fica-se no
vazio quando não se pode contar com nada. Talvez, tudo esteja
bem, mas...
Tropecei em algo e quando consegui me levantar, estava
voltada para uma direção levemente diferente; bem na minha
frente havia uma casinha que eu não tinha notado, sob a
sombra de uma sapucaia. Não tinha muito jeito de casa. Fiquei
com vontade de xeretar, e espiei por trás de um arbusto para
dentro de uma janela aberta. Não havia quase nada na casa,
mas na parede estava o mais belo televisor em cores que eu já
tinha visto — ocupava a parede inteira. Então ri comigo
mesma. As coisas exatamente iguais; gente vivendo em
casebres com televisão em cores. Eu estava acostumada com
esse tipo de absurdo.
Mas então uma criança chorou dentro da casa, e a mulher que
aparecia na tela do aparelho saiu e passou para o quarto,
saindo do meu campo de visão. Por alguns instantes ouvi
palavras confortadores. A criança parou de chorar. A mulher
voltou e entrou na tela, e continuou o que estava fazendo!
Então notei que não havia ninguém assistindo à televisão. Isso
me abalou. Tive de lembrar-me de como George Washington
se sentiria se se levantasse em 1969 e espiasse pela janela de
uma casa, até mesmo janela da Casa Branca.
Eu ficaria maluca se continuasse ali parada, sozinha ao luar,
tentando resolver o problema. Precisava obter mais fatos.
Foi difícil subir o caminho do Pali; ventava, a montanha se
erguia íngreme à esquerda e caía em precipício à direita. Mas
meus pés sentiam o caminho de terra, e descobri que estava
gostando. Era mais fácil caminhar por ele do que na época em
que fora asfaltado, embora de carro devesse ser b astante
desagradável, se é que alguém subia de carro. Mas é claro que
subiam! Havia marcas de pneus. Bem, se viesse um carro eu
o ouviria, mesmo que ele não tivesse faróis para me prevenir.
Mas não ouvi. Não houve perigo porque ele se movia tão
devagar que não ouvi nada do carro, a não ser um ruído de
algo se movendo sobre a terra.
Fiquei de lado para deixá-lo passar, mas a velocidade
diminuiu ainda mais, e uma voz de homem gritou: “Você tem
carne de porco?”. Se eu dissesse Sim, poderia meter-me em
apuros porque não tinha como provar; então disse Não, e
esperei o que aconteceria em seguida. “Pegue!”, disse o
homem, debruçando-se um pouco na minha direção; mas não
consegui ver direito o seu rosto.
Algo me foi jogado, e eu não sabia se devia agarrar ou deix ar
cair. Mas a voz parecia amigável — e talvez tenha sido por
isso que agarrei, e de repente me vi ali parada com um pedaço
de carne de porco crua nas mãos, enquanto o carro se afastava,
silenciosamente. Vi-o fazer outra curva e desaparecer, então
aparecer francamente na curva seguinte. Um braço surgiu por
alguns instantes ao luar, e pareceu lançar qualquer coisa sobre
o rochedo.
Clique! Ali era o lugar onde, segundo a crença dos antigos
havaianos, o cão da deusa Pele ficava à espreita, numa
caverna sob a estrada, e quem passasse à noite por aquele
lugar devia jogar um pedaço de came de porco para o cão, ou
ele sairia e morderia a pessoa — não! Não era isso. Era se a
pessoa tivesse came de porco no carro, tinha de dividi -la para
sua própria proteção. A mitologia deve ter-se misturado toda.
Bem, isso já havia acontecido antes. Em todo caso, eu não
acreditava mesmo. Tirei um pequeno saco plástico do bolso e
pus a carne de porco dentro. Poderia assá-la e comê-la antes
de ir para a cidade.
Que mundo! Aparelhos de televisão além da minha
compreensão, carros silenciosos, e gente que acreditava na
mordida do inexistente cão de uma deusa inexistente. Acho
que não é mais doido do que chegarmos até a lua e ainda
termos faculdades de quatro anos porque a Inglaterra as tinha
no século XVII, quando começaram, e a Inglaterra as tinha
porque no século XII as pessoas ricas enviavam seus filhos
para o continente a fim de ampliarem sua educação, e
decidiram que quatro anos era o suficiente para os filhos
ficarem longe de casa.
Quando cheguei ao cume do Pali, fiquei ali sentada,
observando a parte de Kaneohe que dali se via. Pude ver que
não havia luzes em Mokapu, onde costumava ficar a Base
Aérea e Naval. Parecia o blackout durante a guerra.
Involuntariamente estremeci. Outra vez, não!
Eu precisava ter mais fatos. Então me pus de pé e principi ei a
descer através do Vale Nuuanu em direção a Honolulu. Se
Honolulu ainda estivesse lá.
O vale tinha mudado. Sempre tinha havido um monte de
coisas crescendo no lugar, silvestres e cultivadas. A parte
cultivada tinha sumido. Nenhuma fazenda. Apenas a se lva. A
estrada de terra estava toda cheia de lama, e mesmo assim eu
gostava dela. Há anos eu não saía de estradas pavimentadas.
Continuei procurando placas indicativas que não existiam. A
caminhada parecia não ter fim. Até mesmo o grande cemitério
de Nuuanu, que costumava ficar dos dois lados da estrada,
tinha sumido. Só havia a selva. Ela realmente tinha tomado
conta de tudo. Não fosse pelo casebre e pelo carro com o
homem da carne de porco, eu teria pensado que talvez fosse a
única pessoa na ilha.
Após a caminhada, estava cansada. Atirei-me no chão e
dormi. Quando acordei, o sol já ia alto. Ele me salpicava com
seus raios passando pelas folhas dos mais belos jacarandás
que já vi. As cores eram as mesmas, mas não dá para imaginar
a diferença. O brilho era mais intenso, reluzindo, e as partes
sombrias eram mais profundas. Era possível mergulhar em
cada uma delas.
Foi o que fiz. Fiquei ali deitada, olhando as folhas rendadas
movendo-se contra o fundo azul do céu, com um sentimento
de toda a eternidade, e de mim mesma unida com a terra, com
as pedras, com a grama, com as coisas que crescem e com as
que não. crescem, como se todos nós fôssemos ilimitadamente
vivos.
Talvez seja por isso que não ouvi as pessoas enquanto elas
não estavam quase pisando em cima de mim. Ouvi suas vozes,
e desejei poder lê-las num livro. Era inglês, certamente, mas
o sotaque tinha mudado, e a palavra escrita não muda tão
depressa quanto a falada. Debati-me para entender o que
diziam.
As vozes eram agradáveis — macias, cadenciadas, subindo,
descendo —, uma variedade maravilhosa, parecia uma
canção.
Quando me viram, vieram e sentaram-se ao meu lado na
sombra. Nada de cumprimentos. E, depois disso, de certa
forma me incluíram e me ignoraram, ao mesmo tempo. Eu não
sabia se estava “dentro” ou “fora”.
Vestiam roupas simples e as cores eram bonitas. Pense nas
suas cores favoritas. Eram essas. Não havia muita diferença
entre as roupas dos homens e as das mulheres. Toda v ez que
eu notava algo de diferente numa roupa de homem, acabava
notando a mesma coisa numa de mulher — mas não em todas
as mulheres. Desisti.
Após algum tempo, trocamos algumas palavras e então ficou
claro que era como em todos os lugares sem pressa, onde a
gente tem tempo de pensar antes de responder, mesmo que
seja para dizer Sim. Era uma espécie de papo vazio, mais pela
música e pela amistosidade do que pelo que se dizia. Então
um deles me perguntou aonde eu ia.
“Pagar meus impostos”, respondi, pensando que este seria um
chute seguro, em qualquer lugar, em qualquer tempo. Eles
explodiram de rir! Então levantaram-se, como se tivessem
estado a me incomodar, e eu tivesse acabado de deixar isto
claro, e continuaram andando. Não sabia o que havia
acontecido. Para uma pergunta estúpida, uma resposta
estúpida? De qualquer maneira, eles não se ofenderam. Neste
curto espaço de tempo que passara com eles, eu já me
perguntava se alguma coisa poderia ofendê-los.
Eu estava faminta. Preparei um pedaço de carne e o co mi
junto com algumas framboesas da Jamaica que cresciam em
volta. Então notei as roupas que eu vestia, às quais eles nem
tinham prestado atenção. Eles deveriam ter prestado. Fui tola
em não trocá-las por algo menos chamativo, mas uma vez que
não o tinha feito, eles deveriam ter estado surpresos, curiosos
ou sem jeito. Então percebi que da mesma forma que sua fala
me era estranha, a minha deve ter sido estranha p ara eles, e
nisso tampouco prestaram atenção.
Será que eu era invisível ou algo assim? Não. Não me senti
assim enquanto estavam comigo. Me senti muito eu o tempo
todo — eu, de uma forma que raramente me sinto.
Bem, em todo caso, agora sabia um pouco mais sobre as
pessoas, roupas e coisas assim, e era melhor não mencionar
impostos, a menos que quisesse me fazer de palhaça. Talvez
este fosse um bom papel a desempenhar. Ele encobre uma
porção de asneiras.
Pare de pensar! É uma cilada. Suponha que esta gente não
goste de palhaços.
Era difícil dar uma boa olhada nas casas sem ser xereta, então
fiquei vagando por caminhozinhos e ruazinhas. Algumas
delas eram tão estreitas que até mesmo carros pequenos só
podiam passar um de cada vez, numa só direção. Vi algumas
pessoas trabalhando nos jardins e outras cantando, ou tocando
um instrumento que era mistura de violão com violoncelo.
Havia uma sensação boa em toda parte. De repente comecei a
rir, pensando em toda a preparação e cuidados, quando nada
disso se fazia necessário. Tudo que eu precisava fazer era
dirigir-me a essa gente e conversar com ela, talvez até mesmo
pedir um desjejum.
Então fui até uma casa, e uma mulher loira de cabelos
compridos e olhos verde-cinzentos, parecida com a deusa
Norse, atendeu a porta e perguntou:
“Quer tomar um chuveiro?”.
Ufff! Aqui estava eu, entrando nas coisas, pensei, e essa
mulher — bem, era como saltar do hoje para o amanhã, e de
repente descobrir que alguém já está no depois de amanhã. E
ao mesmo tempo — o que eu queria acima de tudo era um
bom banho, que foi oferecido antes mesmo de eu própria
notar.
Acho que a palavra para o meu sentimento é surpresa; mas
nós a temos usado tanto para não dizer nada, que para mim
ela já não diz nada.
A casa era feita de tábuas lisas do lado de fora, trabalhadas de
tal forma que se misturavam com o restante do cenário; o
interior era muito simples, mas o chuveiro era imenso. Entrei
nele, tirei a roupa e joguei-a num canto, virei a torneira — e
a água caiu de todo o teto, feito chuva. Fiquei correndo
debaixo da água como uma criança nua numa tempestade.
Nunca me tinha ocorrido que os nossos cubículos de chuveiro
me oprimiam, que a gente não pode se divertir muito neles, e
eu estava gostando desta liberdade.
Então soltei um grito, porque deixara as roupas no chão, num
canto que tinha julgado seguro, e agora estavam ensopadas.
Desliguei o chuveiro, e estava começando a pensar o que fazer
quando a porta se abriu com um rangido e um menino pequeno
de olhos azuis e rosto tranquilo — um Buda em miniatura, se
é que já vi algum — enfiou a cabeça e a mão, estendo alguma
coisa dobrada, e dizendo: “Você quer?”. Era um roupão, uma
espécie de quimono modificado. Joguei para trás os meus
cabelos molhados, com as mãos, vesti o quimono, e saí do
chuveiro. Havia um pequeno saguão, e mais adiante uma sala
com janelas quase até o chão, que davam para o jardim. Um
aroma de gengibre entrava pela sala — quase vazia — apenas
colchões no chão e pilhas de almofadas. Andei na direção
delas para arrumar algumas; sentei-me no chão, apoiada na
parede.
Era como um sonho no qual a gente sabe o que tem de fazer,
embora nunca o tenha feito antes.
Uma menininha preta, com cabelo africano, entrou
carregando uma bandeja de comida. Ela parecia azeviche
polido, reluzia toda. Não tinha mais de quatro anos, e brilhava
de satisfação com a façanha de me trazer a bandeja.
Peguei-a de suas mãos e ela sentou-se ao meu lado. Olhou
para mim seriamente por um tempo que me pareceu muito
longo e então disse: “Você é diferente”.
“Sou?”, disse eu. Eu poderia ficar sabendo de algo. “Em quê?”
Ainda com seriedade, ela respondeu: “Diferente”.
“Diferente de você?”, perguntei.
Ela balançou a cabeça.
“Diferente da sua família e amigos?”
Ela balançou a cabeça.
Eu mesma me sentia assim, e estava gostando, mas de quem
ou de que eu era diferente? Então ela se levantou, virou uma
cambalhota, olhou por cima do ombro na minha direção, e
saiu correndo. Então voltou com um grande copo de suco de
frutas gelado, uma mistura que eu nunca vira. Então saiu
correndo e eu a vi brincando lá fora. Quando uma mu lher que
trabalhava no jardim se aproximou dela, a menininha disse:
“Ela é diferente”. Contive a respiração, aguardando a
resposta, mas tudo que a mulher disse foi “Ali!” e continuou
a trabalhar na terra.
Após o desjejum, olhei admirada para a bandeja vazia. Eu
tinha apreciado o sabor, a textura e a cor de cada comida em
separado, e a combinação de todas elas, sem pensar u ma vez
sequer no que estava comendo. Agora que tinha acabado, não
conseguia adivinhar. Restou apenas um sentimento de
conforto e prazer. Peguei os pratos e talheres e procurei uma
cozinha, onde os lavei e coloquei num escorredor para secar.
Não havia toalhas. Assim que os coloquei no escorredor,
apareceu um insuflador que os secou. Na época da qual eu
vinha, esse aparelho era usado apenas para secar as mãos em
banheiros públicos, e ali eu não gostava tanto dele. Para os
pratos, era ótimo.
Voltei para sentar-me, mas lembrei-me das roupas molhadas
no chuveiro, e comecei a voltar para procurá-las — só que as
vi penduradas num varal ao sol, limpas e brilhantes. Mas não
gostei delas. Elas me pareceram grotescas, com uma forma
absurda, como algo usado por um espantalho. Meu corpo não
as queria mais. Sentei-me no degrau, com o vento soprando
entre os arbustos e alisando a minha face, e senti que podia
ficar ali sentada para sempre. Era melhor eu não ficar muito
tempo por aqui, pois — na verdade, o que importava?
No lugar onde me encontrava agora, a maior parte das
atividades que antes me pareceram tão importantes lá, eram
como ratos correndo em confusão. Olhei para como eu era,
um desses ratos. A única coisa que podia ser dita a favor
daquilo, era que tinha me ajudado a chegar aonde eu estava
agora.
Ninguém prestava atenção em mim, e isso era bom. O trabalho
prosseguia à minha volta. Supus que fosse trabalho. Parecia
aquilo que chamamos de trabalho. Mas era uma espécie de
brincadeira. Era como se todo mundo estivesse fazendo algo
que precisasse ser feito, mas sem levar a sério. Quase se podia
pensar que era um jogo, exceto o que se fazia.
Uma criança chamou a outra: “Devagar até a próxima
árvore!”, e as duas se puseram lado a lado, e começaram a se
mover tão devagar que mal se podia ter certeza de que não
estavam paradas; mas quando se observavam seus pés
descalços, um dos dois se arrastava lentamente pela grama,
parando um pouquinho à frente do outro pé. E então este
começava a se mover. “Que coisa estranha!”, como se o tempo
não existisse mais. “Você parou!”, disse uma delas. “Temos
de começar de novo”, e as duas correram para começar outra
vez.
Uma moça que parecia havaiana, aproximadamente com vinte
anos, aproximou-se da escada carregando uma cesta cheia de
verduras. Olhei para ela e perguntei: “Em que sou diferente
de você?”. Ela respondeu, num tom de óbvio: “Diferente de
você mesma”, e entrou na casa. O aroma das verduras me
envolveu enquanto ela passava, e era tão bom que mesmo que
fossem nabos, eu queria comê-los. Não nesse instante. Eu
ainda estava gozando o desjejum.
Mas não queria perdê-los para o almoço.
De repente me lembrei do secador de pratos. Pensei nele
porque acabara de notar que não havia fios perto da casa, e
tampouco tinha ouvido o ruído de motor elétrico.
A moça saiu da casa e sentou-se ao meu lado, com tanta
naturalidade como se fosse minha irmã.
“De onde vem a energia elétrica?”, perguntei, com meu
pensamento transformando-se em palavras com a mesma
rapidez que saíra antes, sem preâmbulos sociais, sem eu
tencionar que assim fosse. Primeiro quis me apresentar.
Mas, de alguma maneira, não consegui fazer isso. Me pareceu
um desperdício de vida.
“De onde vem a eletricidade?”, perguntou ela.
E eu fiquei ali sentada. Vem dos geradores, pensei, mas ela
está pensando em outra coisa e o que é? Mas um porquinho
subiu as escadas, farejando, e a moça se debruçou e esfregou
suas orelhas, e eu esqueci a minha pergunta.
Quando a pergunta se foi. pela minha mente passou “terra de
lótus”, e então isso também sumiu. Eu estava simplesmente
vivendo — vivendo em cada célula do meu corpo, como nunca
tinha vivido antes. Tudo em volta de mim estava acontecendo
e eu — também estava acontecendo.
O resto do dia foi como um sonho — o tipo de sonho no qual
tudo se faz sem esforço. Cortei bananas e ajudei a carregá-las
para um dos veículos silenciosos. Cavei uma vala para desviar
água. O que quer que os outros estivessem fazendo, eu
também queria fazer. Como uma criança, pensei, só que agora
eu tinha a capacidade de ser útil. Quando todos nos sentamos
no chão para jantar, eu não estava cansada. E tampouco estava
tomada por aquela inquietação irritante, a necessidade de ir
para algum lugar ou de fazer alguma coisa.
Ontem sonhei que era uma borboleta, e agora não sei se sou
um homem que sonhou que era borboleta, ou uma borboleta
que agora está sonhando que é homem.
Foi uma luta conseguir fazer a minha mente voltar ao motivo
da minha estada ali. Eu devia estar recolhendo informações,
tentando entender o que se passava. Mas por mais que
tentasse, não conseguia encontrar nenhuma forma ou ordem
para como as coisas se passavam. Nenhum padrão, rotina ou
regras. E mesmo assim, tudo andava de maneira tão suave e
refrescante, como se nunca antes tivesse sido exatamente
assim. Uma colisão ou acidente ocasional era motivo de riso
espontâneo, nada mais, e também isso jamais acontecia d uas
vezes da mesma maneira. Ninguém tentava se apegar a nada,
fazer de algo mais do que era. Como um pássaro voando por
cima do meu ombro — veio, e se foi.
Esses “enganos” pareciam ser parte do todo, que estaria
incompleto sem eles.
Depois do jantar, de algumas canções e brincadeiras que
tiveram seu momento espontaneamente, e por esta razão,
nunca podem ser repetidas, uma velha mãe disse: “O
Governador estará aqui”.
E logo em seguida tive arrepios. Apesar da amistosidade,
comecei a suspeitar que afinal tudo não era como parecia ser.
Por que o Governador haveria de vir? Censurei-me por ter-me
esquecido do porquê de estar ali, e da necessidade de ser
cuidadosa. Eu fora tão bem treinada, e jogara tudo fora em
questão de horas. Como uma criança que abandona o trabalho
e vai nadar. Eu não conseguia entender a mim mesma. O meu
cuidado fora um dos fatos que contribuíram para a minha
escolha. Eu o tinha deixado de lado, como um casaco quando
o tempo esquenta. Eu fora treinada para nunca ser apanhada
desprevenida, para estar sempre um passo à frente do outro —
e tinha sérias suspeitas de que essa gente estava dois passos à
minha frente.
“Por que ele vem para cá?”, exclamei nervosa, não por causa
de qualquer coisa presente, mas por causa do mundo de
suspeitas do qual eu vinha, e que eu trouxera comigo —
dentro de mim mesma.
“Porque vem”, disse a mulher delicadamente. A moça das
verduras inclinou-se e deu um tapinha no meu braço. Senti
que ela o fez como se faz com uma criança ou cachorrinho
que está com medo sem razão. Mas não seria isto para
apaziguar meus temores — ou as minhas suspeitas?
A menininha que me trouxera o desjejum brincava perto de
mim. Continuando a brincar, ela disse: “Diferente”.
Um veículo silencioso veio se arrastando, e um homem magro
e alto saiu dele, primeiro as pernas compridas, em seguida o
resto. Enquanto caminhava na nossa direção, um aroma
agradável veio com ele. De repente percebi que cada pessoa
possuía um leve cheiro de algo em torno de si — não um
perfume, seu próprio cheiro — e que o cheiro próprio da moça
das verduras — leve, elusivo — era de nogueiras. Eu tinha
pensado que todos esses odores vinham apenas dos jardins —
os odores de plantas, animais e pássaros — mas pertenciam
também às pessoas. E eu? Eles devem ter-me identificado
instantaneamente. E mandado chamar o Governador? Quando
aparecem estranhos?
O Governador veio na nossa direção e sentou-se na grama,
falando sobre o arco-íris daquela manhã. Parecia ter sido
excepcionalmente bom, e ele era particularmente apaixonado
por arco-íris. Sorriu na minha direção e disse: “Eles não
podem ser colhidos, sabe”.
Então houve uma pausa, uma espécie de comunhão que me
arrastou junto. Todo mundo ficou quieto. Eu queria romper o
silêncio com todas as perguntas que estavam agora na minha
cabeça, mas embora a minha boca se abrisse, a minha língua
não se mexia. Ondas começaram a lavar minha mente,
apagando todos os temores, perguntas, até não haver
absolutamente nada, e de certa forma este vazio continha tudo
dentro de si.
Foi o Governador quem quebrou o silêncio, e me surpreendeu:
“Você veio de um tempo muito distante?”. Isso não soa nada
terrível, mas você pode imaginar o que é ter o seu segredo
mais profundo, conhecido apenas por você mesmo,
subitamente, anunciado em público?
Procurei ser evasiva, mas apesar de mim mesma, e
contrariando todas as instruções e programas, respondi:
“Sim”.
Ele fez um meneio. “Você deve ser a primeira.”
Se eu era a primeira, como poderia ele...? Então entendi:
“Acho que sim”, disse eu. “Há outros aqui, de outras épocas?”
“Não...”
“Mas então...”
“Eles voltaram.”
“Daqui?”, exclamei incrédula.
“De agora”, corrigiu ele. “As pessoas do passado parecem
não ter aptidão para viver agora.”
Eu ainda estava intrigada com isso, quando o Governador se
encostou numa palmeira e fechou os olhos. “As ilhas eram
diferentes quando você vivia aqui”, disse ele, surpreendend o-
me outra vez. Ele respondeu à minha agitação como se tivesse
ouvido e entendido o meu pensamento. “Todos que vieram
para cá em alguma época viveram no Havaí. Ouvi dizer que
os árabes vão para a Arábia e os nova-iorquinos para Nova
York.”
Ocorreu-me que todas as nossas razões elaboradas, toda a
nossa computação, haviam-se originado do seguinte: eu tinha
sugerido o Havaí por ser um lugar onde me sentia em casa.
Tudo pareceu absurdo. Todo o trabalho, toda a discussão e
planejamento que haviam parecido tão necessários na época,
ao decidirmos sobre o Havaí! Tudo viera de mim, do meu
próprio interesse. Era o que eu queria. Como nos tínhamos
iludido, com todas as verificações! Só poderia ter sido
diferente se outra pessoa quisesse ter ido para outro lugar.
Então as informações teriam sido outras, e a resposta
diferente, de acordo com aquilo que ela quisesse. Por um
momento tive um relance da simplicidade desta gente à minha
volta, e compreendi a sua sabedoria. Então a coisa sumiu. Eu
gostaria que as coisas certas não sumissem sempre com tanta
facilidade, e que as erradas deixassem de entrar com tanta
facilidade — e então fiquei de novo com dor de cabeça,
quando elas se misturaram e eu não soube mais dizer qual era
qual.
“Todos os lugares são como este, agora?”, perguntei.
“Todos os lugares?” Ele abriu os olhos para captar o
significado disso, observando-me. “Não. Há alguns outros
como o nosso — pequenos lugares que por diversas razões
deixaram de ser importantes — embora também eles sejam
diferentes, é claro.”
“Como é possível ser deste jeito?”
“Nós gostamos de variedades”, disse o Governador.
“Variedade!”, exclamei, baseando-me na minha sensação de
algo maravilhosamente igual em toda parte. Mas o que era
igual era a sensação de bem-estar, um fundo comum. O que
era diferente era — bem, havia todas as coisas que
simplesmente não se juntavam. “Vocês parecem tão rurais”,
disse eu, “com aperfeiçoamentos modernos, é claro ”. Vi uma
tela de televisão — uma mulher saiu dela, e — de repente me
senti boba. Provavelmente tinha entendido tudo
erroneamente.
O Governador sorriu. “Interessante, não? Algumas pessoas
gostam.”
“Mas quem as constrói?”
“As pessoas que gostam de construí-las.”
“Mas suponha que não haja gente suficiente que queira
construí-las — quero dizer, suponha que haja mais gente
desejando-as do que gente disposta a construir.”
O Governador olhou para mim com compaixão. Deve ter sido
isso, pois não me senti estúpida ou ignorante, mas entendida
de uma maneira que eu mesma não me entendia. Era
reanimador — gostoso — ser entendida desta maneira.
Pareceu possível que um dia eu viesse a me entender. Mas não
respondia a minha pergunta, e perguntei de novo com os
olhos.
“Ninguém quer ficar fazendo a mesma coisa o tempo todo”,
disse ele.
“Não da mesma forma. Algumas vezes, sim.”
“Mas, e se há muita gente querendo?”
“Não há. Se as pessoas possuíssem tudo que gostam, teriam
coisas demais. E se todas as pessoas — ou a maioria —
tivessem as mesmas coisas, não haveria variedade quando se
fosse de uma casa para outra; e também não haveria o
compartilhar — pois como se pode compartilhar algo que todo
mundo também tem?”
Por um momento pareceu-me entender, mas novamente a
compreensão fugiu. Senti algo muito errado em relação a este
lugar que tinha me parecido tão certo. Era bom todo mundo
ter tudo, como nós, e a única coisa errada é que algumas
pessoas ainda não têm.
Então a voz da menininha ecoou na minha cabeça: “Você é
diferente”, e ouvi a moça dizendo: “Diferente de você
mesma”. Captei de relance um aspecto da divisão dentro de
mim — confusamente — pois queria fugir da retidão deste
lugar que estava me parecendo tão errada, e queria fugir do
erro do lugar, de onde eu vinha agora estava parecendo tão
certo. E eu estava sabendo do meu profundo amor pelas coisas
como eram aqui, e julgando-as erradas — como se fossem
uma ameaça — como se fossem algo que eu devia resistir,
como sempre resistira aos pensamentos obstinados que me
faziam querer sair de tudo que vivia, e começar de novo, sem
nada, só com um limoeiro. Querer fazer isso era ruim,
irresponsável, era não assumir seu lugar na vida e construir o
país e trabalhar por um mundo melhor para todos. Então
eliminei a dor e a alegria do meu saber, do meu próprio saber,
e fiquei claudicando na meia vida daquilo que os outros
dizem.
No mundo do qual eu vinha, todo mundo era difer ente de si
mesmo.
Tinha de ser. Ou pensava ser, o que acaba dando no mesmo.
Aqui, eu tinha a possibilidade de juntar-me a mim. Minha
mente clareou, e enxerguei — de maneira forte e firme. E vivi
quando compreendi, como se tirasse dos ombros um peso de
dez anos.
Jamais voltarei, pensei então. O pensamento estivera comigo
antes, mas não de forma tão clara como agora. Eles podiam
levar de volta a minha máquina, mas não tinham como
obrigar-me a entrar nela. Aquele mundo seco e sujo podia
viver sem mim. Disse isso ao Governador.
“Você não sente a necessidade de nos modificar?”, perguntou
ele. “Não pensa que somos ociosos, que perdemos o nosso
tempo? Não pensa que você poderia aperfeiçoar os nossos
veículos desmontando-os e descobrindo por que são tão
silenciosos, e acrescentando isto ao seu conhecimento de
como fazê-los andar mais depressa?”
“Não”, respondi. Então algo me fez novamente ser honesta.
“Tive algumas ideias a esse respeito”, disse eu. “Posso vir a
tê-las de novo em outras ocasiões. Mas elas se apagarão. Não
sei o que está ocorrendo, mas elas continuam parecendo cada
vez mais bobas — em pouco tempo. Não só bobas —
estranhas. Não pertencem a mim. Pode levar algum tempo até
eu me libertar completamente delas, mas não atrapalharão
vocês. Não vou deixar que atrapalhem.”
Fiquei admirada de ver lágrimas nos olhos do Governador.
Talvez fosse apenas um truque da estranha luz que parecia vir
dos céus.
“Ei!”, gritei de repente, pois tinha visto algumas luzes
movendo-se no céu, tão devagar que inicialmente não tinha
reparado que não eram estrelas.
“Planadores”, disse o Governador.
“Aviões? Mas como podem se mover tão devagar? Como
são?”
“Pássaros, suponho que se pode dizer — ou talvez como
folhas flutuando na água.”
Pedi-lhe que me contasse detalhadamente a esse respeito, mas
ele fez que não. “Não é má-vontade, mas o que posso dizer?”
“O que faz com que se movimentem?”, quis saber, e ele
respondeu: “Você poderia explicar um avião a jato a
Benjamin Franklin?”.
“Mas eu venho da era atômica!”, exclamei. “Agor a sabemos
tanta coisa mais -— quero dizer naquela época.’’
“O suficiente para entender tudo?”
“É claro que sim. Não quero dizer que já saibamos de tudo,
mas sabemos o suficiente para interpretar e ultrapassar, não
importa quão complexo...”
“Isso é parte da dificuldade”, disse ele; levantou-se e
caminhou até seu veículo. O que eu tinha captado sobre a
simplicidade? Antes de poder começar a pensar, um raio de
luz vindo do veículo iluminou o céu; apenas uma vez, e se
apagou. Quase instantaneamente o céu se encheu de brotos de
plantas gigantes — hibiscos, tuberosas, jasmins —, florindo,
morrendo e soltando novos brotos. As estrelas assumiram um
tamanho monstruoso, explodiram, espalhando milhões de
estrelinhas pelas montanhas e vales. As estrelinhas nos
banhavam, e não queimavam. Quando estendi as mãos para
pegá-las, elas piscaram e desapareceram. E sobre o Pacífico,
foguetes gritavam enquanto se erguiam para os céus, depois
explodiam com um barulho que parecia abalar as rochas em
torno de nós. Eu vibrava toda, me sacudia, e o excitamento
foi tanto, tão glorioso, que pensei que não iria aguentar. O céu
clareou num instante. Uma flor-da-noite surgiu — crescendo,
crescendo, até as pétalas brancas parecerem imensas canoas,
com o centro dourado brilhando. Eu estava atordoada,
envolvida, perdida, invadida.
Então subitamente se fez um silêncio, logo após o barulho e a
agitação.
A flor-da-noite desapareceu, e enquanto desaparecia suas
pétalas começaram a parecer um reflexo da ilha de Oahu —
ou era o contrário? À medida que a ilha do céu se tornava mais
real, a ilha onde eu estava se tornava menos. Qual era ilusão?
Então uma música cortou o silêncio, não como barulho, mais
como um zéfiro brincando com a brisa, tão suave que eu não
podia ter certeza de que era música o que ouvia.
Deitei-me na grama, rolei, apoiando a cabeça sobre os braços
e perdi a — eu estava prestes a dizer consciência, mas se foi
consciência o que perdi, o que ganhei?
Quando presentifiquei novamente as pessoas e as coisas ao
redor de mim, parecia que eu estava numa nuvem. As figuras
estavam em penumbra, as vozes eram murmúrios que mal se
ouviam. Então uma leve fragrância de nogueira, e fiquei
sabendo que a moça das verduras estava ao meu lado. Eu
parecia estar deitada sobre algo familiar que me entristeceu.
“Sentimos muito”, disse ela, e eu pude ouvir sua tristeza.
“Mas sem você lá, nós não poderíamos existir. Você é parte
do nosso vir a ser”. Enxerguei a minha vida de uma maneira
que nunca tinha me ocorrido antes. Ela enxugou uma lágrima
do meu rosto, e eu não sabia se a lágrima era dela ou minha
— então, fiquei sabendo que era nossa.
Ela tomou minha mão e colocou-a no lugar onde meus dedos
reconheceram o botão de partida. Juntas, apertamos.
Esta manhã, Fritz reuniu-se com todo o grupo. Primeiro falou
sobre sonhos. O que disse era muito claro para mim e eu ia
tentar lembrar. Não lembrei. Não me lembro de nada que ele
disse. Mas realmente notei o que ele disse, então
provavelmente estou certa. O que ele disse, que aceitei, foi
para o computador interno, e ficará à minha disposição —
quando eu necessitar. Não posso dizer a mais ninguém o que
ele disse. Eu tiraria zero num exame. Mas sei o que é, e sei
usar quando se trata de exames.
A Sra. Chumley acabou de voltar. Eis aqui outra história que
ela escreveu a meu respeito.
C ONSIDERE AS MARGARIDAS DO CAMPO

— ou como jogar um bom jogo de cartas


O título desta história, se é que é uma história, poderia muito
bem ser O Caminho do Zen, mas não é preciso dar a volta pelo
Oriente para chegar ao Ocidente. Em todo caso, ela trata da
Sra. Chumley — que voltou ao século XX, anos 70, para
visitar sua neta Anne. Alguns dos amigos de Anne
perguntaram à Sra. Chumley como ela havia aprendido aquilo
que sabia sobre a vida.
Havia tantas respostas, que a Sra. Chumley teve de sentir qual
seria a mais aceitável aos seus atuais inquiridores. Isso não
quer dizer que fosse inverdade, mas que era muita verdade.
Se você acha que existe apenas um caminho para Roma, você
não conhece Roma muito bem.
Com os amigos de Anne, a Sra. Chumley decidiu usar um jogo
de cartas para explicar. Vocês podem tirar informações de
como viver a partir de qualquer jogo, disse ela, mas eu vou
usar paciência, para que vocês possam tentar sozinhos, sem
precisarem recorrer a outra pessoa. Afinal, é preciso viver
sozinho. É só então que a gente realmente chega perto de outra
pessoa. Outra vantagem da paciência é que não se pode culpar
ninguém pelo fato de coisas terem ou não terem dado certo, e
tampouco dar crédito a ninguém. E tudo entre você e as suas
cartas.
Ela embaralhou as cartas, primeiro do jeito conhecido como
“científico”, e depois outra vez, do jeito amador. Essa lhe
parecia a melhor maneira de misturá-las totalmente, embora
às vezes se perguntasse se não poderia fazer com que
voltassem à disposição inicial. Entretanto, isso nunca pareceu
suceder, então não tinha que se preocupar muito — só o
suficiente para saber que não estava excluindo nada.
Então começou a colocar as cartas na mesa, a partir de uma
fila de oito cartas abertas. Depois colocou outra fila
parcialmente em cima, sem ocultar as cartas da primeira fila,
e prosseguiu dessa maneira até que as 52 cartas estivessem
abertas — pelo menos em parte — sobre a mesa. Havia apenas
quatro cartas na última fila, é claro.
Essa era uma das regras explicadas pela Sra. Chumley — a
maneira de distribuir as cartas. Se ela não for seguida, não se
estará jogando este jogo, e sim outro jogo qualquer. Não há
muitas regras para um jogo. Neste, os ases, — quando se
consegue alcançá-los — são colocados na parte superior,
como na maioria dos jogos de paciência, e a partir deles vai-
se colocando a sequência conforme o naipe, como ocorre
normalmente. Na parte inferior, imaginam-se quatro locais de
passagem para as cartas. Qualquer uma das cartas, exposta,
pode ocupar temporariamente um desses locais para
desimpedir o caminho, até poder ser colocada em outro lugar.
O nariz da Sra. Chumley começou a ficar úmido, como às
vezes acontecia quando ela e os germes antiquados do século
XX se juntavam. Seu lenço pulou fora da sua bolsa aberta,
que estava do outro lado da sala, indo diretamente para sua
mão. Ela o mandou imediatamente de volta, dizendo à neta:
“Anne, você pode trazer o meu lenço? Me esqueci de quando
estou”.
A mesa aberta, prosseguiu ela, é o caos. O objetivo é pôr
ordem no caos juntando as cartas em quatro montes na parte
superior. Só se pode mover uma carta de cada vez, a menos
que haja sequência: então é preciso mover toda a sequência,
ou nenhuma das cartas — a não ser que se queira deixar as
cartas nos locais de passagem por algum tempo, o que deve
ser feito de uma em uma.
Vejam, não há realmente muitas regras, e estas são
necessárias, porque sem regra nenhuma não há como sair do
caos. Sem regra nenhuma — e essas regras são apenas
limitações — não se poderia sequer reconhecer o caos. Se elas
não existem, é preciso inventá-las. Elas não restringem — e
sim, tornam o jogo possível.
Convenções são outra coisa. Pessoas que esperam descobrir o
Caminho estabelecem convenções para tornarem possível
jogar sem pensar, usando ainda outra série de regras. Aí a
coisa torna-se trabalho, e não jogo. Este é o tipo errado de
não-pensar, e chegarei ao tipo certo mais tarde. Convenções
são probabilidades, e quando a gente se limita a elas, perde as
possibilidades. É monótono. Além disso, num jogo com mais
de um jogador, as convenções só funcionam se todo mundo se
sujeita a elas. Quando até mesmo duas pessoas com
convenções diferentes se juntam, pode haver literalmente um
assassinato, embora uma regra possa ser a morte lenta. Isso
não melhora as coisas em nada.
Quando um dos lados segue as convenções e outro não, o lado
convencional perde. Certa vez, uma criança de seis anos me
venceu num jogo de xadrez porque conhecia as regras do jogo
mas não as convenções. Ela moveu a rainha como se fosse um
peão, o que me pegou desprevenida, porque estava
acostumada a jogar com gente convencional. Perdi. Não pude
me aborrecer com a criança, embora por um momento isso
tenha ocorrido, porque naquela época eu estava jogando com
os cavalos e sacrificaria qualquer coisa para salvá-los. Meus
adversários ficavam furiosos comigo quando eles perdiam,
porque para eles as convenções tinham se tornado regras, e
ficavam num beco sem saída quando eu quebrava o que
parecia ser uma regra, e mesmo assim não podiam me acusar,
porque não era regra. Sabe — como um guarda que não pode
levar você para a cadeia por algo que julgava poder, porque
você não violou a lei conforme ele pensava. Você apenas
violou uma convenção. É claro que se você “pensa” como os
guardas (foi possível ouvir a Sra. Chumley colocar a palavra
entre aspas) você acaba se submetendo, vai para a cadeia,
cumpre sua pena por algo que nunca fez, para expiar uma
culpa que não passa de fantasia.
Depois de ter jogado com os cavalos até me encher porque já
não havia mais nada a aprender com eles, passei para os
bispos, depois para as torres, e assim por diante. Cheguei ao
ponto de realmente conseguir fazer a maior balbúrdia com os
peões. Após ter jogado com todos eles, qualquer peça que
fosse necessária passou a ser usada da forma mais apropriada.
E por isso que já não jogo mais muito xadrez. Meus
adversários me abandonam porque ficam loucos da vida, o
que é bobagem. Vejam, eles continuam tentando me vencer
de uma forma que julgam ser a deles, que é a forma de todo
mundo, em vez de reagir à minha forma conforme a sua
própria forma — e quando as pessoas fazem isso, o xadrez se
torna muito interessante e excitante. O mesmo se dá com
bridge ou tênis.
A pessoa que me ensinou este jogo de paciência ensinou -me
algumas convenções como se fossem regras. A pessoa que
ensinou a ela as regras, ensinou as convenções ao mesmo
tempo, e nenhuma delas fazia distinção entre as duas coisas.
“Distribua as cartas em oito filas” e “Jamais preencha os
quatro locais de passagem” foram ensinadas ao mesmo tempo,
e colocadas na mesma categoria. Mas, enquanto a primeira é
uma certeza, a última é apenas uma probabilidade. Às vezes
as probabilidades não conseguem tirar você da enrascada em
que se encontra, e então é preciso procurar as possibilidades
— o que naturalmente você não poderá fazer se julgar que são
impossíveis. Então você fica atolado. E julga que o mundo
está contra você, o que de certa maneira é verdade, porém é
apenas o mundo fictício das convenções que está contra voc ê.
Quando você tenta sair dele, as pessoas berram: “Você não
pode fazer isso!”, e você tem tanta certeza de que não pode,
que provavelmente ficará com medo. Então você fica dentro.
E isso prova a todo mundo que não há saída, porque ninguém
tentou sair.
Quando alguém quebra uma convenção e se sai bem, as
pessoas dizem que teve sorte. Mas ele estava sendo preciso —
agindo de acordo com a realidade do momento. Agir em base
a qualquer outra coisa é ilusão. Como posso jogar este jogo
com base na disposição das cartas na última vez que joguei,
ou como poderão estar no futuro? Passado e futuro não têm
existência real porque o único tempo em que se pode agir é
agora. Pode-se pensar no passado ou no futuro, mas isso não
é viver porque se estará pensando sobre eles — não se pode
fazer nada em nenhum dos dois.
A Sra. Chumley subitamente percebeu suas andanças no
tempo e acrescentou: A menos que se esteja lá — mas então,
é claro, se está aqui, o espaço equivalente ao tempo agora.
E aqui, disse ela olhando para as cartas na mesa, está o jogo.
E o único que podemos jogar desta vez. Distintamente da
maioria dos jogos de cartas, pode-se ver onde cada carta está.
Isso é mais parecido com a vida. A gente sempre possui todas
as informações relevantes para agir aqui-agora. Quando nos
confundimos com futuro e passado e outros lugares, é que
passamos a não saber o que fazer. Mas não precisamos nos
preocupar com todos os outros tempos e lugares. E, de
qualquer maneira, o passado passou, e o futuro sai do
presente; então, se fizermos agora a jogada correta, o futuro
também sai direito.
A Sra. Chumley olhou novamente para as cartas e explicou:
Se houver algum ás exposto, ele é colocado em cima, e a partir
daí quaisquer cartas que possam ser colocadas sobre o ás, e
assim por diante. Não é necessário fazer isto imediatamente,
mas é como lavar os pratos: não há mal nenhum em fazer.
Algumas cartas são tiradas do caminho, e o jogo fica limpo
para o restante.
A seguir, se você vir alguma carta que possa ser colocada
sobre outra, deixe para depois. Você ainda não examinou o
campo todo. Isso é tentar resolver um problema sem incluir
toda a informação relevante que temos à disposição. Provoca -
se uma confusão.
Aliás, como este jogo em particular está lhes parecendo?,
perguntou ela a meia dúzia de pessoas que estavam ao seu
redor.
“Sem esperanças”, disse um.
“Impossível”, disse outro.
Um terceiro foi mais cuidadoso: “Não me parece muito
possível”.
A mim também não parece, disse a Sra. Chumley. Não é
daqueles que parecem fáceis — não que todos que parecem
fáceis realmente sejam. Mas se eu pensasse sobre, certamente
recolheria as cartas e começaria outro jogo.
Então, vou parar de pensar.
Um dos jovens afastou-se da mesa bufando. Um homem mais
idoso fez o mesmo, sem bufar porque gostava da Sr a.
Chumley. Uma moça também se afastou bufando, porque
gostava do jovem.
Quando paro de pensar, prosseguiu a Sra. Chumley, não tenho
qualquer opinião. Isso torna possível um monte de coisas.
Quando não tenho opinião, não sinto a necessidade de fazer
nada — nem de acabar com o jogo, nem de me debater nele.
Simplesmente fico interessada em examiná-lo — sabem,
como uma criança pequena que vê a gente pela primeira vez.
Ela examina a gente, antes de decidir o que vai fazer. Outra
palavra para isso é perscrutar.
Começo ao acaso, notando uma carta, por exemplo, este sete
de espadas.
Ele precisa cobrir um oito de espadas ou ser coberto por um
seis de espadas.
Então procuro e localizo o oito e o seis. Localizo — isso é
tudo. Não procurem prender-se a eles, porque irão fazer o
mesmo com todas as outras cartas, e a parte da mente que você
usa para isso não é capaz de guardá-las todas.
Então apenas localizo, e fica registrado em algum lugar no
fundo da minha cabeça. Quando todas estiverem lá, esse lugar
me dirá o que fazer.
“Ei”, disse o jovem que se tinha afastado, aproximando-se
novamente da mesa, “ela está se programando!” A moça
voltou e ficou ao lado dele. Ele pensou na maravilha que ela
era, sempre movendo-se de acordo com ele. O homem idoso
ficou onde estava, com as costas voltadas para os outros; mas
estava escutando.
A Sra. Chumley continuou localizando as cartas até ter
coberto quase todo o baralho, e as poucas que não tinha
localizado diretamente apareceram de maneira indireta.
Agora, disse ela, tenho a mesa toda na minha cabeça mesmo
que não saiba onde cada carta está, e então sei o que fazer
embora não saiba nada a respeito. Nem sempre me fez sentido
determinado movimento de cartas. Às vezes me sinto uma
boba, e às vezes me sinto muito precipitada e cami nhando
para um desastre. Mas o impulso vem de maneira tão segura
do computador interno que tenho de fazer. Apesar disso, sem
ter a disciplina em primeiro lugar, o impulso vem de outra
parte. Então, tudo pode parecer maravilhoso, e termina em
confusão.
As cartas moviam-se tão depressa em suas mãos que ninguém
conseguia acompanhar as jogadas; mas nenhum dos presentes,
que observavam atentamente, pôde surpreendê-la num erro. E
subitamente toda a mesa estava obviamente clara e pronta
para ser distribuída pelos quatro montes da parte superior.
“Mesmo que ela tivesse trapaceado, não poderia conseguir!”,
disse o jovem interessado em programação. “A senhora faria
de novo?”
A Sra. Chumley embaralhou as cartas e distribuiu -as
novamente. Esta parte inicial é um pouco cansativa, disse ela,
quando as cartas já estavam sobre a mesa. Quero dizer, até
que a gente se acostume e seja capaz de fazê-la
instantaneamente. Você quer fazer algo. Você está tão
habituado a fazer algo que se sente culpado quando não está
fazendo nada. Alguma coisa está errada. Você sente que
precisa se mexer. Mas se você estiver realmente em contato
consigo mesmo, saberá que não é verdade, o que você
realmente teme é que se não se mexer, outra pessoa o fará. A
maioria de nós receia o homem que não é cutucado e não faz
nada. Isso pode provir das explicações mecanísticas da
ciência — uma máquina não é algo autorregulador e
autoperpetuador: tem de ser estimulada por forças externas,
ou então cessará de funcionar. E quando as criaturas vivas são
concebidas em padrões mecanísticos, então nos sentimos
obrigados a mantê-las em funcionamento, e elevar ao máximo
a pressão para que funcionem, ou ligá-las novamente no caso
de terem parado.
Não é preciso ter medo de parar. Os corações continuam
batendo e os pulmões respirando. Ainda assim, quando vocês
fazem aquilo que julgam ser uma parada, é tão diferente do
que vocês faziam e que sentiam errado — como a menininha
que havia sido comprimida por tanto tempo, que quando o
médico a esticou ela se queixou: “Você me deixou torta!”.
É claro que existe um fazer-nada errado, assim como existe
um pensar-nada errado. É isso que torna as coisas tão
confusas. Você pode obrigar-se a não fazer nada,
pressionando a si mesmo, e isso é errado. Do jeito certo, você
se retira de todas as pressões, inclusive de suas próprias.
Parece ser um recuo, mas na verdade é só uma redução de
velocidade. Se você andar devagar numa rua em que os outros
estão correndo, parecerá que está andando para trás — se
estiver acostumado a correr.
Enquanto falava, a Sra. Chumley começara a pôr o dedo numa
e noutra carta, indicando que as estava localizando com os
olhos. Então começou a movê-las, às vezes de uma maneira
que fazia sentido aos que observavam, outras vezes não.
Então as cartas ficaram todas em ordem, seja nas quatro pilhas
no topo, sobre os ases, ou em colunas sobre a mesa, prontas a
serem colocadas sobre os ases.
“Nunca falha?”, perguntou uma mulher que não havia dito
nada até o momento.
“Sim, falha”, admitiu a Sra. Chumley, que não tinha
dificuldade em admitir nada. Então, nunca tenho certeza se o
jogo era impossível ou se me enganei — ou se me enganei
para perder alguns jogos porque estava cansada de ganhar.
“Cansada de ganhar!”, murmurou uma sombra de voz.
“O jeito mais fácil de ganhar é não se preocupar”, disse a Sra.
Chumley. Cada um de vocês deve ter notado isso por
experiência própria, uma ou outra vez. Você não se preocupa,
diz o que pensa e as coisas saem do jeito que você não pensava
que sairiam se dissesse o que pensa. Quando você diz o que
pensa e se preocupa, isso pode ser bom, ou pelo menos melhor
do que não dizer, mas não é a mesma coisa, ou então leva mais
tempo para chegar ao mesmo lugar. O mesmo se dá com o
fazer.
Existe também a sorte do principiante. Quando você sabe que
não sabe nada, quando não tem uma reputação a manter,
quando não está tentando impressionar ninguém, nem a si
mesmo — você simplesmente joga, e pronto!
Você consegue. Então você tenta repetir, e o tentar torna as
coisas diferentes. Da primeira vez, você não tinha na cabeça
quadro nenhum do que iria acontecer. Simplesmente agia
inteiro, e a coisa aconteceu e o surpreendeu. Da segunda vez,
você tenta produzir o que aconteceu da primeira vez, tentando
fazer o corpo agir da mesma maneira. Tudo isso se passa numa
parte da sua cabeça que não é muito boa para isso. Se você
trabalhar o suficiente, poderá ter êxito, mas se desgastará,
porque estará usando uma parte sua para forçar outra parte
sua, em vez de deixar tudo acontecer através de você inteiro.
Quando você faz algo por simples atração, não se trata
realmente de tentar. Você se mexe todo, inteiro, segundo seu
próprio plano. Você não interfere consigo mesmo. Quando
você tenta, está imaginando as coisas na sua cabeça, ou
“fazendo força” para conseguir. Quando você é bem-sucedido
agindo desta maneira, o êxito foi obtido apesar disso, e não
por causa disso, e você se desgastou no processo. É como
fazer funcionar uma máquina sem óleo. Você fica rijo e duro.
“Acho que isso tem algo a ver com os nossos dois sist emas
nervosos”, disse ela. Ela não podia dizer que sabia, porque
então teria de explicar o que sabia, e as palavras e conceitos
que podiam ser usados para uma explicação adequada ainda
estavam no futuro, aqui. Então teve de falar vagamente, sem
precisão.
“Os nossos dois sistemas nervosos na verdade são um só”,
disse ela, “porque trabalham juntos. Tentar separá-los é como
separar came e sangue. Um deles faz o nosso coração bater e
os nossos pulmões respirar, quer desejemos ou não. Ele age
por si só, como o computador interno. Fritz usa “computador”
para se referir à mente planejadora ou planificadora, da qual
posso facilmente tomar consciência; é aquela mente do
“pensar”, do eu-computador, aquela que eu posso usar. Esta é
a outra, é aquela que age basicamente de acordo com as
nossas intenções. Algumas pessoas a usam para pintar ou
assar bolos ao acaso.
Não percebem o absurdo de ser intencionalmente
“espontâneo”. Absurdo? Isso é impossível. Da mesma forma
como dizer “estou sendo espontâneo.”
Quando esta mente age demais ela interfere com a outra, em
vez de as duas funcionarem adequadamente de uma maneira
que sabem e não sabem.
Quando eu “me afasto disso” ou “não tenho desejos”, não o
faço inteiramente. Ainda estou interessada. Mas não
superinteressada. E eu inteira funciono da maneira que fui
feita para funcionar. Então, um sistema me mantém em
contato com o tempo e o consciente, e o outro com a ausência
de tempo e o inconsciente, e eu estou no meu lugar — tudo de
uma vez. Harmonia e precisão juntas. “Fazer distinção entre
negócios e arte é tolice”, disse ela. Tudo depende de como se
faz.
E então suspirou, o que não costuma fazer com frequência,
mas aqueles dois jovens ao seu lado pensavam que sabiam o
que é o amor, e estavam afundando nele, esquecendo-se do
mundo e de tudo.
“ESCUTEM!”, disse ela, tão bruscamente que assustou a
todos, exceto Anne, que entendeu. Cada um, exceto Anne,
trocou os sons que ouvia por algo que deveria ouvir, perdendo
a sinfonia de som, de cantos de pássaros, motores, respiração,
farfalhar, arranhar, murmurar, um ronco ou golpe ocasional
— perdendo também o silêncio atrás de tudo isso. Mas o
silêncio de Anne e da Sra. Chumley continuou, primeiro
cercando os outros, então invadindo-os até que eles se
tornaram o próprio silêncio, ao mesmo tempo que
continuavam sendo eles próprios. Eles eram e sabiam que
eram simultaneamente os átomos giratórios com vasto espaço
no meio, e pessoas que podiam ser tocadas, sentidas e
percebidas. E então, a sinfonia se ouviu. Houve amo r na sala,
amor sem fronteiras ou dimensões ou limitações, cada pessoa
inesperadamente e maravilhosamente ela mesma.
Os olhos do jovem estavam um pouco turvos ao dizer para a
moça: “Eu pensei que sabia...
E ela respondeu: “Eu sei... Eu também pensei que sabia”.
O homem idoso disse suavemente: “E um relógio parou... e
soube o significado do tempo”.

Agora quero colocar outras histórias, escritas por outras


pessoas.
Não!, diz o censor. As suas histórias estão cada vez mais
próximas umas das outras. Deveriam estar mais espalhadas.
Quem foi que disse? Quem é esse ditador cheio de ordens, que
ordena com o bastão na mão para mostrar que é ele o mandão?
Sou eu! Sou eu o mandão. Eu sou as regras e eu tenho o
bastão.
Uhn-uh. Você não passa de um punhado de palavras que
julgam ser pensamentos. Mentira.
EU SOU PODEROSA.
Uhn — uh. Seu poder está em mim. Você o tem enquanto eu
a deixo ter.
Estou com vontade de botar outra história, e aqui está ela. Os
direitos autorais de Tolstoi já devem ter-se esgotado, então
vou simplesmente colocá-la. Me pergunto se alguém já fez
isso antes. Eu não fiz, e gosto da minha surpresa ao fazer.
T RÊS PERGUNTAS

L EON T OLSTOI

Certa vez ocorreu a um rei que se ele sempre soubesse a hora


certa de começar tudo; se sempre soubesse quais as pessoas
certas a escutar e a quem evitar; e acima de tudo, se sempre
soubesse qual a coisa mais importante a se fazer, jamais
falharia em nada que se dispusesse a levar a cabo.
E tendo-lhe ocorrido este pensamento, ele proclamou pelo seu
reino afora que daria uma grande recompensa a qualquer
pessoa que lhe ensinasse a hora certa para cada ação, e quem
eram as pessoas mais necessárias, e como poderia saber qual
a coisa mais importante a ser feita.
E homens estudados vieram ao Rei, mas todos responderam
suas perguntas de maneira diferente.
À primeira pergunta, alguns responderam dizendo que para
saber a hora certa para cada ação é preciso elaborar com
antecedência uma tabela de dias, meses e anos, e viver
estritamente de acordo com ela. Só assim, diziam eles, tudo
poderia ser feito no momento apropriado. Outros declararam
que era impossível saber de antemão a hora certa para toda
ação; mas que, não se deixando absorver por passatempos
ociosos, é preciso estar atento a tudo que se passa e então
fazer o que for mais necessário. Ainda outros disseram que
por mais atento que fosse o Rei, era impossível apenas um
homem decidir corretamente a hora certa para toda ação, mas
que ele deveria ter um conselho de sábios que o ajudaria a
determinar o momento adequado para tudo.
E ainda outros disseram que havia certas coisas que não
podiam esperar para serem expostas diante de um conselho,
mas que exigiam uma decisão imediata. Mas para que esta
decisão fosse tomada era preciso saber de antemão o que
aconteceria. E só os mágicos sabem isso; e, portanto, para
saber a hora certa para toda ação, é preciso consultar os
mágicos.
Igualmente variadas foram as respostas para a segunda
pergunta. Alguns disseram que as pessoas de que o Rei mais
precisava eram seus conselheiros; outros, os padres; outros,
os médicos; alguns disseram que os mais necessários eram os
guerreiros.
Para a terceira pergunta, sobre qual era a ocupação mais
importante: alguns disseram que a coisa mais importante do
mundo era a ciência. Outros disseram que era a prática da
guerra; e outros, ainda, disseram que era o culto religioso.
Sendo todas as respostas diferentes, o Rei não concordou com
nenhuma delas, e não recompensou ninguém. Mas ainda
disposto a encontrar as respostas certas para suas perguntas,
decidiu consultar um eremita conhecido em toda parte pela
sua sabedoria.
O eremita vivia num bosque de onde jamais saía, e não recebia
ninguém a não ser gente do povo. Então o Rei vestiu roupas
comuns, e antes de alcançar o abrigo do eremita, desmontou
do seu cavalo, e deixando atrás a sua guarda, caminhou
sozinho.
Quando o Rei se aproximou, o eremita estava cavando o solo
diante da sua choupana. Ao ver o Rei, ele o cumprimentou e
continuou a cavar. O eremita era frágil e fraco, e toda vez que
enfiava a pá no chão e revirava um pouco de terra, ouvia-se a
sua respiração pesada.
O Rei aproximou-se dele e disse: “Vim procurá-lo, sábio
eremita, para pedir-lhe que responda três perguntas: Como
posso aprender a fazer a coisa certa na hora certa? Quem são
as pessoas de que mais necessito, e às quais devo, portanto,
prestar mais atenção do que ao resto? E quais são os assuntos
mais importantes, e exigem primeiramente a minha atenção?”.
O eremita escutou o Rei, mas nada disse. Apenas cuspiu na
mão e recomeçou a cavar.
“Você está cansado”, disse o Rei, “deixe-me pegar a pá e
trabalhar um pouco no seu lugar.”
“Obrigado!”, disse o eremita, e tendo dado a pá ao Rei,
sentou-se no chão.
Após ter cavado dois canteiros, o Rei parou e repetiu suas
perguntas.
Novamente o eremita não deu resposta, porém levantou-se,
esticou o braço para pegar a pá, e disse:
“Agora descanse — e deixe-me trabalhar um pouco.”
Mas o Rei não lhe deu a pá, e continuou a cavar. Passou-se
uma hora, e mais outra. O sol começou a descer atrás das
árvores, e o Rei finalmente enfiou a pá no chão e disse:
“Eu vim à sua procura, sábio homem, em busca de respostas
para as minhas perguntas. Se você não pode dá-las, diga-me,
e voltarei para casa.”
“Aí vem alguém correndo”, disse o eremita; “vejamos quem
é.”
O Rei virou-se e viu um homem de barba correndo para fora
do bosque.
O homem segurava suas mãos contra o estômago, e sob as
mãos havia sangue. Quando chegou ao Rei, caiu desmaiado,
gemendo debilmente. O Rei e o eremita abriram as roupas do
homem. Havia um grande ferimento em seu estômago . O Rei
lavou-o da melhor forma possível, e improvisou uma
bandagem com seu lenço e uma toalha do eremita. Mas o
sangue não parava de correr, e o Rei não parava de retirar a
bandagem ensopada de sangue quente, lavando-a e atando-a
novamente. Quando finalmente o sangue parou de correr, o
homem se reanimou e pediu algo para beber. O Rei trouxe-lhe
água fresca. Entrementes, o sol já se tinha posto, e o tempo
esfriara. Então o Rei, com auxílio do eremita, carregou o
ferido para a choupana e deitou-o sobre a cama. Deitado, o
homem fechou os olhos e ficou quieto; mas o Rei estava tão
cansado pela caminhada e pelo trabalho que fizera, que
agachou-se na soleira, e também adormeceu — tão
profundamente que dormiu a noite toda, uma curta noite de
verão. Quando despertou pela manhã, demorou até conseguir
se recordar onde estava ou quem era o estranho homem de
barba deitado na cama, fitando-o intensamente com os olhos
brilhantes.
“Perdoe-me!”, disse o homem de barba com voz fraca, quando
viu que o Rei estava desperto, olhando para ele.
“Eu não o conheço, não tenho nada a perdoar”, disse o Rei.
“Você não me conhece, mas eu o conheço. Sou aquele inimigo
seu que jurou se vingar por você ter executado o irmão e se
apossado de suas propriedades. Eu sabia que você tinha vindo
sozinho ver o eremita, e resolvi matá-lo na volta. Mas o dia
passou, e você não voltava. Então saí do esconderijo para
encontrá-lo, e aproximei-me da sua guarda, eles me
reconheceram e me feriram. Fugi de lá, mas teria sangrado até
morrer se você não tivesse cuidado do ferimento. Eu queria
matá-lo, e você salvou a minha vida. Agora, se eu viver, irei
servi-lo como o escravo mais fiel e meus filhos farão o
mesmo. Perdoe-me!”
O Rei ficou muito contente em fazer as pazes com seu inimigo
com tanta facilidade, tendo-o ganho como amigo; não só o
perdoou, como disse que enviaria seus servos e seu próprio
médico para atendê-lo, e prometeu devolver suas
propriedades.
Deixando o ferido, o Rei saiu para a varanda e procurou o
eremita. Antes de partir, ele queria pedir mais uma vez uma
resposta para as perguntas que tinha formulado. O eremita
estava do lado de fora, de joelhos, espalhando sementes nos
canteiros que haviam sido cavados no dia anterior.
O Rei aproximou-se dele e disse: “Pela última vez, eu lhe rogo
que responda as minhas perguntas, sábio homem”.
“Você já obteve as respostas!”, disse o eremita, ainda
ajoelhado, olhando para o Rei parado à sua frente.
“Como? O que você quer dizer?”, perguntou o Rei.
“Você não vê”, replicou o eremita. “Se ontem você não
tivesse se apiedado da minha fraqueza e não tivesse cavado
estes canteiros para mim, e tivesse voltado, aquele homem o
teria atacado e você teria se arrependido de não ter ficado
comigo. Então a hora mais importante foi a hora em que você
estava cavando os canteiros; e eu fui o homem mais
importante; e fazer o bem para mim foi o seu assunto mais
importante. Depois, quando o homem correu na nossa direção,
a hora mais importante foi a hora em que você o estava
atendendo, pois se você não tivesse cuidado dos ferimentos
dele, ele teria morrido sem fazer as pazes com você. Então,
ele foi o homem mais importante, e o assunto mais importante
foi aquilo que você fez por ele. Então lembre-se: existe apenas
uma hora que é importante — Agora! É a hora mais
importante porque é a única hora em que possuímos algum
poder.”

Os olhos do Dick saltam e oscilam. O que ele vê salta e oscila.


A esta altura, ele tem tantos problemas com os óculos (que
usa desde os sete anos de idade) quanto sem eles. Ele quer
fazer uma consulta para novos óculos, e quer continuar sem
óculos. Ele me pediu alguns exercícios Bates-Huxley. Um
deles é: Imagine uma bola macia sendo segurada entre o
polegar e o médio. Com os olhos fechados, mova seus dedos
em conjunto, como se estivesse apertando a bola, e imagine a
bola mudando de forma enquanto você a espreme, passando
de redonda para oval. Então solte-a novamente, devagar.
Quando Dick fez isso seus dedos ficaram curvos e rijos. Dick
sempre parece estar pendurado. Ele notou isso, e o seu
tensionamento. “Pela primeira vez estou relacionando eu
forço (I-strain) com esforço ocular (eyestrain)!” Fritz tinha
dito a ele que há uma relação entre as bolas e os globos
oculares. Dick estava disposto a admitir isso como
possibilidade, mas não sentia. Agora foi capaz de relacionar
o esforço das mãos e dos olhos — estou admirada.
Fritz fala um bocado em confluência como sendo algo “ruim”;
é claro que é ruim se você ficar lá o tempo todo; e também o
terapeuta será um terapeuta vagabundo se entrar em
confluência com seu cliente, paciente — a pessoa que
procura. Se você não se perde nela, a confluência é bacana —
especialmente se for com a natureza em vez de ser com outra
pessoa, que pode levar a complicações. Gosto desta descrição
de Kenneth L. Patton: Palavras, nossas ou dos outros, nunca
podem ser mais do que um comentário sobre a experiência
vivida. Ler nunca pode substituir o viver. O que entendo de
uma árvore? Subi nos galhos e senti o tronco balançar ao
vento, e me ocultei entre as folhas, como uma maçã.
Deitei-me entre os galhos, e cavalguei neles, e rasguei a pele
das mãos e o pano das minhas calças subindo e descendo pela
áspera casca. Descasquei o salgueiro e afaguei a madeira
branca e doce, e meu machado mordeu as fibras puras, e a
serra deixou descobertos os velhos anéis e o cerne da madeira.
Por meio do microscópio copiei os traços das células, e sacudi
as raízes como cabelos nas minhas mãos; e masquei a goma e
enrolei a língua em torno da seiva, e senti as fibras da madeira
entre os meus dentes. Deitei-me entre as folhas de outono, e
minhas narinas beberam o fumo de seu sacrifício. Aplai nei o
tronco amarelo e bati pregos, e poli a madeira macia com a
minha mão.
Agora dentro de mim existem grãos e folhas, uma confluência
de raízes e galhos, florestas próximas e distantes, e um solo
macio feito de milhares de anos de plantas caídas, e este
sussurro, esta lembrança de dedos e narinas, o frágil brotar
das folhas reluzindo dentro dos meus olhos. Qual é a minha
compreensão das árvores se não esta realidade que está além
de pobres nomes? Assim os lábios, a língua, ouvidos e olhos
e dedos juntam suas vozes e falam para dentro, para a
compreensão. Se eu sou sábio, não tento conduzir o outro para
esse lugar estranho, sem lugar, que são os meus pensamentos;
mas eu o levo para a floresta e solto-o entre as árvores, até
que ele descubra as árvores dentro de si mesmo, e descubra-
se dentro das árvores.

Como podemos ser livres para olhar e aprender quando nossas


mentes, desde o instante em que nascemos até o instante em
que morremos, são moldadas por uma cultura particular,
dentro dos padrões estreitos do “eu”. Durante séculos temos
sido condicionados pela nacionalidade, casta, classe, tradição,
religião, língua, educação, literatura, arte, costumes,
convenções, propaganda de todos os tipos, pressões
econômicas, comida que comemos, clima em que vivemos,
família, amigos, nossas experiências — toda influência que se
possa imaginar — e portanto nossas respostas a cada
problema estão condicionadas.
Você tem consciência de estar condicionado? Esta é a
primeira coisa que você deve perguntar a si mesmo, e não
como se libertar do condicionamento. Pode ser que você
nunca se liberte, e se você disser: “Preciso me libertar”,
poderá cair em outra armadilha de outra forma de
condicionamento. Então, você tem consciência de estar
condicionado? Você sabe que mesmo quando olha para uma
árvore e diz: “Isto é um carvalho”, ou “Isto é uma figueira -
brava”, o nome da árvore, que é conhecimento de botânica, já
condicionou tanto a sua mente que a palavra o impede de
realmente ver a árvore. 20
Para entrar em contato com a árvore você precisa colocar a
mão nela, e a palavra não o ajudará em nada.

Estou limpando bem a casa, colocando todas essas coisas que


tenho carregado comigo. E como botar todas dentro de uma
única malinha conveniente. Mas não foi por isso que as
coloquei. A conveniência é secundária. A razão primeira foi
eu querer que estivessem aqui, conforme emergiram em meu
mundo — saíram do arquivo onde não estavam sequer sendo
lembradas há muito tempo — e entraram no livro. Quando a
primeira delas emergiu, eu não sabia que outras se seguiriam.
Agora estou com vontade de olhar o arquivo para ver o que
mais encontro ali. Isso é primário. O que sucede depois é
secundário.

20
De Freedom from the Known, por Krishnamurti. Harper & Row, Nova
York, 1969, p. 25.
O Ouvinte (The Listener), de John Berry, veio sem eu ter
precisado ir procurar no arquivo. Agora, estou procurando.
Encontrei. Vejo o crepúsculo, com nuvens que na maioria
parece terem sido transformadas em riscos e sombras, e um
pequeno pedaço de céu coberto de nuvens cinzentas, as
árvores nas montanhas ainda parecendo uma pintura, a água
do lago formando círculos em alguns pontos, ondulada em
outros, movendo-se como uma corrente em outros, as folhas
secas atapetando a margem, e eu digo: “Sim. Isso é verdade”.
O OUVINTE 21

J OHN BERRY

Era uma vez um pequeno violinista checo chamado Rudolf,


que vivia na Suécia. Alguns dos seus amigos achavam que ele
não era o melhor dos músicos porque era irrequieto; outros
achavam que era irrequieto por não ser o melhor dos músicos.
Em todo caso, ele conseguiu um meio de ganhar a vida, sem
competidores. Por escolha ou por necessidade, costumava
navegar pela Escandinávia em seu pequeno barco, totalmente
só, dando concertos em pequenas vilas portuárias. Se
encontrasse acompanhantes, muito bem; se não, tocava peças
de solo para violino; e uma ou duas vezes aconteceu de ele
querer tanto um piano que imaginou um, e então tocou sonatas
inteiras para violino e piano, sem qualquer piano à vista.
Certo ano, Rudolf navegou até a Islândia e começou a
trabalhar à sua maneira na costa rochosa daquele país. Era
uma terra difícil e obstinada; mas as pessoas desses lugares
difíceis não esquecem a lei da hospitalidade para com o
estrangeiro — pois seu Deus pode fazer com que eles se
tornem estrangeiros sobre a face da terra. As audiências eram
muito pequenas, e mesmo que Rudolf tocasse como um
violinista de primeira, nunca havia grandes demonstrações.
Desde tempos antigos a energia do povo era dirigida antes de
tudo para o trabalho duro. Às vezes o professor da escola os
reunia, e lembrava-lhes suas obrigações com os nomes de
Beethoven, Bach, Mozart e mais um ou dois cuja música
provavelmente não era muito ouvida naquelas terras.
Frequentemente as pessoas ficavam sentadas impassíveis
assistindo àquele rabequistazinho barulhento, e volt avam para
casa sentindo-se cultas. Mas pagavam.
Certa vez, quando Rudolf viajava entre duas cidades numa
parte da costa esparsamente habitada, o Nordeste se tornou
negro e ameaçador. Uma tormenta estava por desabar sobre a
Islândia. Rudolf estava circundando um cabo deserto e

21
Reimpresso com permissão da Krishnamurti Foundation. (N. do E. )
perigoso, e seu mapa lhe dizia que o ancoradouro mais
próximo ficava a meio dia de viagem. Estava começando a se
preocupar quando viu, a menos de uma milha da margem, um
farol sobre uma ilhota rochosa.
Na base do farol havia uma gruta profunda e estreita,
protegida por rochedos. Com alguma dificuldade, por causa
das ondas que se levantavam, conduziu o barco para lá e
prendeu-o firmemente a um anel de ferro pendurado no
rochedo. Um lance de degraus escavados na rocha conduzia
para o farol.
No topo do rochedo, contra as nuvens que corriam, via -se a
silhueta de um homem.
“Seja bem-vindo!”, ecoou a voz acima do som das ondas que
já começavam a se quebrar sobre a ilha.
A escuridão desceu rapidamente. O guarda do farol conduziu
seu hóspede por uma escada em espiral, até chegar à sala do
terceiro andar; em seguida ocupou-se dos preparativos para a
tempestade. Acima de tudo, tinha que prestar muita atenção à
grande lâmpada da torre, que dominava toda a região. Era uma
luz contínua, intensificada por refletores, e tampada por
postigos em intervalos regulares. A duração da luz era igual à
duração do escuro.
O guarda do farol era um velho imenso, com uma barba
grisalha que chegava até o peito. Lento, deliberado,
parecendo um urso, ele se movia sem desperdiçar movimentos
dentro do limitado mundo no qual era senhor. Falava pouco,
como se as palavras não tivessem muita importância
comparadas com as outras forças que envolviam sua vida. N o
entanto era afável, diferente dos outros elementos.
Após a refeição de pão preto e batatas cozidas, arengues,
queijo e chá quente, que foi comida na cozinha, em cima da
sala de estar, os dois homens ficaram sentados e cada um
contemplou a presença do outro. Acima deles ficava a sala de
manutenção, e acima desta a grande lâmpada emitia
mensagens de luz majestosas e silenciosas para os navios no
mar. A tempestade batia como um aríete nas paredes do farol.
Rudolf ofereceu tabaco, e subitamente sentiu-se imaturo ao
fazê-lo. O velho sorriu um pouco enquanto recusava com um
leve movimento de cabeça; era como se soubesse bem os usos
do tabaco e a necessidade de oferecê-lo, afirmando tudo isso;
e ainda assim — aqui também ele foi um pouco apologético
— como se fosse autocontido e sem a necessidade de nada que
não estivesse dentro do seu poder ou a que não confiasse o
seu poder. E ali ficou sentado, gentil e reflexivo, com suas
grandes mãos de trabalhador repousando sobre as gigantescas
coxas.
A Rudolf pareceu que o guarda do farol tinha inteira
consciência de todos os sons da tempestade e do seu violento
impacto sobre o farol, mas conhecia-os tão bem que não
precisava pensar neles; eles eram como os movimentos
involuntários do seu próprio coração e do seu sangue. Da
mesma maneira, sob a cortesia simples que o fazia falar com
seu hóspede, e escutá-lo, esta já era calma e misteriosamente
parte dele, com a mesma segurança que o continente ligado à
ilhota, e todas as ilhotas entre si, sob o oceano.
Gradualmente Rudolf juntou dados esparsos da vida do velho:
ele tinha nascido neste farol, 83 anos antes, quando seu pai
era o guarda. Sua mãe, a única mulher que conhecera, o
ensinara a ler a Bíblia, e ele a lia diariamente.
Não tinha outros livros.
Sendo músico, Rudolf também não tinha tido tempo de ler
muito — porém, tinha vivido em cidades. Pegou sua valise e
dela tirou o seu querido violino.
“O que o senhor faz com isso?”, perguntou o velho.
Por um segundo Rudolf pensou que seu anfitrião estivesse
brincando; mas a serenidade da expressão do outro fê-lo
sentir-se seguro. Não havia nem sequer curiosidade a respeito
do instrumento, e sim todo um interesse nele, a pessoa, que
incluía o seu “trabalho”. Na maioria das circunstâncias,
Rudolf teria julgado difícil acreditar que pudesse existir
alguém que não soubesse o que era um violino; no entanto,
agora não se sentia inclinado a rir. Sentiu-se pequeno e
inadequado.
“Eu faço música com isso”, gaguejou em voz baixa.
“Música”, disse o velho pensativamente. “Ouvi falar nisso.
Mas nunca vi música”.
“Música não se vê. Se ouve.”
“Ah, sim”, concordou o guarda do farol, quase com
humildade. Isso também estava na natureza das coisas dentro
da qual todos os trabalhos eram maravilhas, e todas as coisas
eram sabidas eternamente, e enternecedoras em sua
transitoriedade. Seus grandes olhos cinzentos repousaram
sobre o pequeno violino e lhe conferiram toda a importância
da qual um indivíduo é capaz.
Então algo na tormenta, no farol e no homem exaltou Rudolf,
encheu-o de compaixão e amor, e de uma especialidade
infinitamente maior do que a de si mesmo. Ele queria uma
obra de fogo e estrelas para o velho. E, com a tempestade
como acompanhante, ficou de pé e começou a tocar — a
Sonata Kreutzer de Beethoven.
Os momentos se passaram, momentos que foram dias na
criação daquele mundo de fogo e estrelas; abismos e alturas
de luta apaixonada, a ideia de ordem, e a resolução de tudo
isso na grandeza do espírito humano. Nunca antes Rudolf
tocara com tanta maestria — e nem com tal acompanhante.
Ondas e vento golpeavam a torre com suas mãos gigantes.
Firme acima deles, o farol lançava seus círculos seguros de
escuridão e luz. A última nota cessou e Rudolf deixou a
cabeça cair sobre o peito, respirando forte. O oceano
encharcava a ilha com um rugir de muitas vozes.
O velho tinha ficado sentado imóvel durante toda a obra, suas
grandes mãos apoiadas nas coxas, cabeça baixa, escutando
atentamente. Por algum tempo continuou sentado em silêncio.
Então ergueu os olhos, levantou as mãos calmamente, e fez
um meneio com a cabeça.
“Sim”, disse ele. “Isso é verdade.”

Fritz querido. Convidei-o a tomar chocolate quente comigo


esta noite.
Logo depois de entrar, ele disse: “Estou pensando que vou”.
Setenta e seis anos de idade.” Pela primeira vez na vida, estou
em paz. Sem lutar contra o mundo”, disse ele. Quando penso
no que isso quer dizer... Eu já estive confusa, me meti em
encrenca, e houve tempos em que estive em guerra com o
mundo, mas não é assim que eu descreveria a minha vida...
De certa forma, estive em guerra com o mundo a vida inteira,
mas o grau foi diferente. Por longos períodos foi mais como
uma corrente submarina, não suficientemente forte para
arrastar; e também nadei muito na superfície com a luz do sol
reluzindo na água e eu própria reluzindo ao sol.
É maravilhoso estar com o Fritz que chegou à paz.
“Não é lindo que na nossa idade possamos...” Seguramente
é...

Lasha é tão querida — e também tão inteligente. É também


tão intelectual, tão razoável, tão sem contato com o sentir, e
tão confusa. Esta noite Fritz contou que a ensinou a beijar,
que ela corou e então disse algo como: “Por que não haveria
eu de sentir isso?”. Por mais detestável que o velho tenha sido
(não sei quanto disso é lenda, e quanto é fanfarronice), com
Lasha ele não foi.
Eu posso facilmente me imaginar fazendo o mesmo.
Fritz segurou a minha mão quando saiu. Eu me senti beijada.
Ontem à noite, tendo chegado por mim mesma à minha
própria forma de ser líder de grupo e em certo grau, professora
— segundo a relação professor/aluno, quando Fritz disse:
“Preciso descobrir um jeito de ensinar” (Gestalt), eu me senti
livre para explorar sozinha. Gestalt, eu sei Gestalt é um meio
de ajudar as pessoas a chegar a alguma experiência de gestalt,
e como continuar a trabalhar sozinho. Esta é a minha
definição de “terapia”, que no começo do livro eu queria
redefinir e não sabia como. A melhor maneira de aprender
“como ensinar” é trabalhando comigo mesma e ao mesmo
tempo trabalhando com outros e vendo o que acontece.
O problema é o mesmo de sempre — o de Jesus, Buda
(santificados há séculos) —, o problema que o Zen lutou para
superar não dizendo nada que pudesse ser percebido
intelectualmente. O problema da “árvore da sabedoria”.

O problema dos nove pontos consiste em ligar os nove pontos


com quatro linhas que podem se cruzar, mas nunca podem se
sobrepor, sem levantar o lápis do papel. E preciso sair dos
pontos (que parecem ser os limites) para conseguir. Com os
nove pontos como intelecto, é preciso ultrapassá-lo, quando o
intelecto parece ser o único meio de resolver o problema.
Então você dá voltas e voltas e voltas, e não sai aqui.
Agora estou procurando algo que pede para entrar aqui —
uma página do In and Out the Garbage Pail, escrito em letras
góticas. Não consigo encontrar o livro. Pergunto -me se o
devolvi ao Fritz. Lembro-me de tê-lo guardado com cuidado.
Nesse caso, é melhor esquecer.
Em todo caso, achei algo que escrevi no ano passado que pode
ser jogado fora. Meu Deus! Como eu gosto de jogar coisas
fora!
Achei o texto
É óbvio que o potencial de uma águia será atualizado no
vagar pelo céu, ao mergulhar para pegar pequenos animais
para comer, e na construção de ninhos.
É óbvio que o potencial de um elefante será atualizado
através do tamanho, força e desajeitamento.
Nenhuma águia quer ser elefante e nenhum elefante quer ser
águia.
Eles se aceitam, aceitam seu ser (themselves). Não, eles nem
mesmo se aceitam, pois isto significaria uma possível
rejeição. Eles se assumem por princípio. Não, não se
assumem por princípio pois isto implicaria a possibilidade de
ser diferente. Eles apenas são. Eles são o que sã o, o que são.
Quão absurdo seria se eles, como os humanos, tivessem
fantasias, insatisfações e decepções. Como seria absurdo se
o elefante, cansado de andar na terra, quisesse voar, comer
coelhos e botar ovos. E que a águia quisesse ter a força e a
pele grossa do elefante.
Que isto fique para o homem — tentar ser algo que não é —
ter ideais que não são atingíveis — ter a praga do
perfeccionismo, de forma a estar livre de críticas, e abrir a
senda infinita da tortura mental.
Achei um desenho. É copiado. Sei quem me deu. Não sei
quem desenhou. Quero dá-lo para o Fritz, quero colocá-lo no
quadro de avisos, e quero mandá-lo para Russ Youngreen
fazer um melhor, em tinta preta, para ser usado aqui no livr o.
Prefiro a última alternativa. Vou fazer isso logo que esta folha
sair da máquina de escrever.

Agora a minha cama emerge, quente e acolhedora. Tentadora.


Atraindo-me para longe do piso frio. Apego-me ao meu sono,
do qual veio a imagem da cama.
Esta manhã meu humor está diferente. Não sei o que é.
O lago está meio místico-bobo agora. Será que eu estou
mística-boba esta manhã?
Uma gaivota passa voando — com um grasnido.
É mais importante (para mim) (agora) trazer alguém para a
vida do que ser moral.
Agora estou em confusão.
Dois patos passam voando. Ou serão gansos?
Mas é claro que uma pessoa precisa saber o que faz.
A pessoa não deve procurar a sua própria vida por meio de
outro, e pensar que está fazendo isso pelo outro.
Então, quem sabe o que está fazendo, e quantas vezes eu só
fico sabendo depois de ter feito?
Reconheça. Reconheça: “Estou fazendo isso por mim”.
Cuide-se!, é o que todo mundo diz, especialmente os pais para
os filhos.
Cuide-se! Não cometa erros ou lhe acontecerá algo terr ível. A
sua vida estará arruinada. Você nunca será aceito pela
sociedade. Você nunca vai conseguir chegar a nada.
Você não será aceito. Você não chegará a nada.
Cuide-se! (beware). Originalmente significa perceba-se,
esteja consciente (be-aware).
Esteja consciente — realmente consciente — e você não
precisa se preocupar com nada. Sem medo. É aí que está a
ausência de medo. Não cuide-se!
(Não seja cuidadoso.) Apenas perceba-se, esteja consciente.

Deke disse que o pessoal daqui levaria duas semanas para


acabar com as tolices que estavam acontecendo, às quais o
Fritz pôs fim — ou modificou muito (a ponto de outras coisas
estarem sucedendo), dizendo algumas coisas e fazendo
algumas modificações, em alguns minutos.
O que é “melhor”?
Alguém sabe. Alguém pode saber?
Num workshop de quatro semanas, já com uma semana de
confusão, duas semanas para descobrir e mudar é tempo
demais.
Demais.
Demais para mim.
Nunca posso saber como as coisas teriam se passado se eu as
tivesse feito de outra maneira. Nunca posso voltar para
provar. Descobri isso quando estive doente, quando tanto eu
quanto o médico quisemos começar outra vez para v er o que
teria acontecido se tivéssemos feito outra coisa. Não foi
possível. Tudo que aconteceu a partir do que fizemos
provocou mudanças. Não podíamos voltar para onde
estivéramos. Só podíamos prosseguir a partir dali.
“Nunca se pisa duas vezes no mesmo rio.”
A asneira da “prova”. De provar algo fazendo de novo. A
asneira de palavras como “fazer de novo”. Eu nunca posso
“fazer de novo”. Alguma coisa mudou.
Esta manhã estou gostando muito deste dicionariozinho
gordinho. As minhas mãos realmente o sentem. Meus olhos
realmente o vêem. Sinto afeto quando olho para ele, quando
o pego, quando o coloco sobre a mesa.
“Provar” vem de uma palavra que significa “teste”.
Procuro “teste”. Surpresa! Vem de uma palavra que significa
“artefato de terra”, como “telha, moringa, concha” etc. Esse
tipo de teste. Como juntar iodo e amido.
Não posso colocar hoje o meu dedo num jarro e descobrir
como ele estava ontem — ou alguns minutos atrás. Só posso
saber como está agora.
Não posso saber como eu estava ontem. Só posso abstrair algo
de mim-ontem. Quando abstraio do meu ontem e você abstrai
do seu ontem, e eu abstraio da minha experiência de ontem de
você, e você abstrai da sua experiência de ontem de mim, e
tudo isso entra em conflito...
Uma jovem estava zangada, agredindo com palavras: “Você
queria partir logo e eu me esforcei (e trabalhei duro) para
aprontar tudo para irmos, e agora você só quer ir daqui a uns
dias” “Fiz tudo isso por você”; era o que havia cm tudo que
ela dizia. Seu marido começou a dizer: “Quem queria partir
logo?”
(quando as férias começaram), e então levantou a mão e disse:
“Esqueça”.
Num tom neutro perguntou: “O que você quer agora?”. Ela
não disse nada.
Não era necessário. Seu rosto revelava que ela queria partir
logo, que sempre quisera, e que tinha estado a forçar a si
mesma e ao marido para conseguir o que queria.
Ontem à noite eu disse ao Fritz que gostaria de prepar ar o
desjejum dele para hoje. Manifestação de disposição. Hoje
não houve grupos. Nada de levantar cedo. Ele disse algumas
palavras que não lembro. Elas não formavam uma sentença,
mas formavam sentido. Ele está gostando de preparar seu
próprio desjejum.
Nuvens nas montanhas.
Uma gaivota está sentada sobre uma das grandes vigas
suspensas que seguram o ancoradouro no lugar. Outro pássaro
está voando. Quantos pássaros estarão voando, no mundo
inteiro?
Tristeza. Olhos molhados. Mãos leves e macias sobre a
máquina de escrever. A minha natureza ainda é, apesar de
todas as tentativas de destruí-la.
Macias, macias palavras. Suavidade. Sinto-me dissolver nos
ombros. Dissolver. Dissolver a couraça. Sentimento agudo,
quase dolorido, muito bom, esquisito, delicioso, como antes
do orgasmo. Meus órgãos genitais estão saltando. Pulsando.
Dissolver. Dissolver. Meus pés descalços estão frios e duros
sobre o piso. Dissolvê-los. Fazer isso (mentira) até que a
dissolução — aconteça por si só. Então deixo-a só. Sem tocá-
la. Nem um pouco, sequer com a cabeça. Meus pés estão
ficando vivos, como que passando do torpor para o comichão,
b b b b vejo a letra com os olhos fechados. Algo quer se
aproximar, outra letra que continua misturada com o b e não
posso ver muito bem. Aconteceu por si só. Eu a movo para
fazer a separação. É um e. E be. não b e. Meus olhos ainda
estão fechados. Note que não dei espaço (o sininho faz ting e
eu volto o carro da máquina (não tenho certeza de stes
parênteses, se vou acertar a tecla, b e . O intelecto entra e diz
sim! be (ser). A palavra em moda nestes tempos. Deixe-me
ver se aparece alguma outra coisa, se alguma outra coisa se
forma. Agora por cima de outra coisa que veio. Não consigo
ler através dos x’s. Saltou à vista. Como que escrito em fita
nova. Agora, nada de palavras.
Uma luz luminosa, tingida de rosa (olhos abertos). Por algum
tempo fiquei olhando e nada se formou. Só uma luz linda,
tingida de rosa.

Neste instante notei que aqueles fogos de artifício pré-


orgásticos sensacionais cessaram. Não sei quando. Agora, é
como se estivessem difusos através de mim. como carne de
vida/alegria, que antes não parecia morta, mas agora, olhando
para trás, fede. Como se nem sequer sangrasse. Onde estou
agora ainda não é o final... Mais alguns saltos genitais, agora,
como que dizendo “sim” — e sinto a minha testa ganhar vida,
as minhas costas, meus ombros e seios.
Forçar seria insanidade. Deixar ir e vir. Deixar o organísmico,
que sabe tanto mais que eu... Meus ombros. O que está
acontecendo nos meus ombros. Como se houvesse mãos fortes
colocadas sobre eles, mexendo-os daqui para lá. Como uma
massagem. É isso que está parecendo. Mas que massagem!
Com mãos de gigante trabalhando com os meus ombros —
fortes, gentis e imensas — imensas em relação a mãos
humanas, exatas para servirem aos meus ombros.
Agora essas mãos, sem deixar os ombros, estão trabalhando o
meu peito. Eu penso “Mas, e os meus músculos da barriga?
São eles que mais precisam”.
Contento-me em deixar meu organismo — mim, mover-me
como quer. Mim não preciso de instruções, muito menos de
eu... Minhas pálpebras inferiores se enchem de água, não o
suficiente para escorrer. Com o meu piscar os olhos se sentem
banhados.
Agora essas mãos parecem estar simplesmente segurando
meus ombros no lugar — com força. Ninguém mais está
fazendo isso. Meus ombros é que fazem. Como me sinto forte!
Como sou forte! A minha cabeça e o meu pescoço estão
ficando mais fortes. A força também está entrando no peito
— nos quadris, nas coxas, canelas, pés. Levanto-me e estico-
me. A minha mão e o meu braço direito estão balançando
loucamente. Deixo que entrem em fortes tremores. Paro de
datilografar, deixo que aconteça de novo com todo meu lado
direito se envolvendo. Noto que o meu lado esquerdo, até a
sola dos pés, se sentia forte — fraqueza do lado direito. Ainda
não entendo, mas do lado direito está ocorrendo algo que não
me lembro de ter acontecido antes, Movimento, Movimento
interno, Algo se passando.
Por enquanto chega. Não apresse o rio, ele corre sozinho. A
esta altura, se eu quisesse mais estaria apressando. Eu me
retiro, e deixo a receita para mim.
Voltei à máquina de escrever. Quando a larguei, comecei a
andar para o banheiro; mim parei, e comecei a oscil ar de um
lado para outro, com pequenos suspiros, esticando um pouco
os braços com um movimento para cima — para baixo, no
ritmo da oscilação.
Sinto meu pescoço ótimo! Sinto o meu pescoço.
Larguei de novo a máquina, e tendo dado os mesmos poucos
passos, minha barriga começou a apertar, indo para a frente,
e os quadris para trás.
Meus pés ficaram no lugar enquanto eu me dobrava, para a
frente e para trás, braços soltos indo na direção que
quisessem. Nunca duas vezes a mesma coisa. Se eu começasse
a fazer a mesma coisa, saberia que eu estou fazendo.
O organísmico mim é a variedade infinita, movendo-se com
as mudanças, nunca o mesmo rio. sempre trazendo surpresas.

Há dois dias não quero ser gestalt-terapeuta e não tenho sido


gestalt-terapeuta. Esta manhã Fritz trabalhou com Lasha, e
depois com o Tom. Lasha — por mais de três meses tão rígida
consigo mesma, sem se soltar, sem se permitir ser mu lher —
soltou-se, chorou, amou e foi lindo. Eu amei Lasha desde o
dia em que ela chegou. Toda resposta honesta e imediata que
eu lhe dava, era rejeitada — pela rigidez quando eu punha a
mão no seu ombro, pelas palavras quando eu dizia: “Sinto -me
tão bem em ver você outra vez”. (“Você está sendo
sarcástica?”) (Eu: “Se você ouviu sarcasmo, seus ouvidos
devem estar loucos”.). Quando esta manhã a sua concha se
rompeu e ela foi tão doce, tive medo (pensando) de chegar a
ela como eu queria. E se a minha ida a cortasse, fazendo com
que ela se fechasse de novo. Eu podia suportar ser deixada de
fora, como já fui; eu não podia suportar ver Lasha deixar a si
mesma de fora outra vez. Eu me debati um bocado (que
pareceu mais longo do que foi, tenho certeza), então me
soltei, deixei o meu amor sair e fui até ela.
Ela hesitou um momento — a hesitação estava em seus olhos
— e então me deixou entrar. Coloquei os meus braços em
torno dela e, abençoada Lasha, os braços dela em torno de
mim seguravam a minha cabeça como num berço, como um
carinho, como se ela estivesse segurando um bebê. A Lasha
real.
Agora sinto lágrimas nos olhos, e a luz do sol parece dançar
nelas, e agora uma delas está escorrendo pelo meu nariz,
enquanto outras descem por dentro dele. E agora, est ou
chorando. Não são lágrimas sentimentais. Não há
pensamento. Só o choro, e chorar também é bom.
Uma gaivota andando sobre um dos marcos de madeira.
Refletida na água, ela está andando de cabeça para baixo.
Saltou de um marco para outro cerca de vinte a 25 centímetros
— de cabeça para baixo e para cima ao mesmo tempo... Mais
uma vez. Ela fez de novo. Desta vez, ela era uma ave em cima
e uma sombra na água. Agora está chovendo e a água mudou
— não reflete muito e está toda salpicada de gotas de chuva.
Aqui é um lugar tão incrível para se viver com as mudanças,
para se viver mais agora. As pessoas também estão mudando.
Um homem que num dia diz que está aqui apenas para
aprender o que pode usar quando voltar aos seus pacientes,
qualquer dia pode descobrir que também está aqui em função
de si mesmo. Talvez já tenha descoberto. Continuar
conhecendo as pessoas onde elas estavam é perder onde estão
agora. Preciso conhecer as pessoas agora ou não as conhecerei
em lugar nenhum. Se eu conhecê-las de memória, não as
conheço, e não estou conhecendo. Memória não é conhecer, e
memória não sou eu, agora.
Sinto que hoje estou lerda e penso que o que estou escrevendo
deve ser bobagem. Mas neste instante preciso ser lerda, e isso
está bom e a bobagem também... Realmente senti o que disse,
e bobagem criou faíscas por todos os lados! O que aconteceu
com a bobagem?
Agora o lago está refletindo tudo — colorido.

Glen: Para agradar o Fritz, você tem de fazer o que não pode.
Shawn: Para agradar o Fritz, você tem de fazer o que pensa
que não pode. E não precisa dar a mínima se está ou não
agradando o Fritz.
Eu sei o que tenho de fazer para agradar o Fritz. Isto é, que
vai agradá-lo quando eu fizer. De outras maneiras, o agrado
já está presente. Mas eu tenho de fazer isso para agradar a
mim, e não o Fritz, a partir do meu próprio sentir, do meu
próprio querer. Enquanto eu não fizer, não passa de fantasia.
E agora, é melhor não pensar mais nisso, ou não farei. O
pensar pode durar para sempre, cada vez com mais detalhes
de algo que nunca aconteceu, de algo que não pode acontecer
enquanto eu estiver pensando nisso.
O P RIMEIRO PRINCÍPIO22

Quando se vai ao templo Obaku em Kioto, veem-se inscritas


sobre o portão as palavras: “O Primeiro Princípio”. As letras
são descomunalmente grandes, e os que apreciam a caligrafia
sempre as admiram como uma obra-prima. Foram desenhadas
por Kosen, duzentos anos atrás.
Quando o mestre as desenhou, ele o fez em papel, e dal i os
trabalhadores as ampliaram, escavando-as na madeira.
Enquanto Kosen esquematizava as letras, estava com ele um
discípulo que lhe tinha preparado vários galões de tinta para
a escrita; esse discípulo nunca deixava de criticar a obra do
mestre.
“Essa não está boa”, disse ele a Kosen após a primeira
tentativa.
“E essa?”
“Pobre. Pior que a primeira”, sentenciou o discípulo.
Kosen escreveu pacientemente uma folha após outra até juntar
84 primeiros princípios, ainda sem a aprovação do discípulo.
Então, quando o jovem saiu por alguns momentos, Kosen
pensou: “Esta é a minha chance de escapar ao olho aguçado
dele”, e escreveu apressadamente, com a mente livre de
distrações: “O Primeiro Princípio”.
“Uma obra-prima”, afirmou o discípulo.

Lama, lama, lama. Me sinto enterrada. Andando pela rua com


um fardo pesado nas costas. Perdi contato, não sei se estou
caminhando ou se estou construindo as escadas. É fácil passar
para a outra história e me sinto bem nela, mas ainda preciso
voltar e construir as escadas. Sem...
Estou pensando sobre! Estou pensando. Inventando meu
próprio trabalho. Lama, fardo. FORA!
Que surja o que for.

22
Tirado de Zen Flesb, Zen Bones, de Paul Reps. Charles E. Tuttle Co.,
Inc., Tóquio. (N. do E.)
Gosto do Van. Na primavera passada telefonei para ele e
disse: “Estou telefonando pelo George, que não sabe o que
fazer com a mãe dele”. “Mate-a”, disse ele amigavelmente —
sem conhecer o George ou a mãe.
Onde começou o trabalho de Lasha esta manhã? Atribuir um
princípio é voltar ao princípio do tempo — que, suponho, é
quando o primeiro organismo — ou seja lá o que for — tomou
consciência do tempo. Arbitrariamente, escolho o momento
em que Fritz fez um som de zzzz imitando a voz dela, e pediu -
lhe que fizesse isso com algumas pessoas. Ela fez, e então
começou a afastar os mosquitos de si — foi como ela
experienciou o som.
Então teve de ser um mosquito para diversas pessoas, antes
de chegar ao Deke. A partir do que aconteceu então, Fritz
pediu-lhe que fosse terapeuta do Deke. Então pediu-lhe que
voltasse ao lugar quente e ao terapeuta que escolhera no
início. Recordo-me de ela ter dito: “Você é sempre tão bacana.
Quando é que você vai começar a exigir?”. Não me lembro
das palavras que vieram depois — apenas que foram baixas e
macias, e acabaram com Lasha tornando-se real.
Quando vejo algo assim, penso: “Vá embora agora. Você não
tem idade suficiente para aprender”. Mas eu sei que não são
apenas anos como terapeuta: é onde estou, em mim. Trabalhar
comigo mesma, e o resto acontece por si.
Enquanto eu continuar bloqueando, a tomada de consciência
continuará interrompida. Cem anos como terapeuta não me
farão tão bem quanto desbloquear-me agora. A variedade do
trabalho do Fritz como terapeuta provém da sua tomada de
consciência. Aquilo que ele sabe, por causa de toda uma vida
como terapeuta, provavelmente o atrapalha tanto quanto
ajuda. Um cancela o outro. Fritz diz que procura ao máximo
não pensar. Durante a terapia, ele é como Carl Rogers — a
mesma conclusão: Carl diz que durante a terapia, qualquer
teoria só atrapalha o terapeuta.
Quando me fecho, começo a pensar. Me parece que é aí que a
encrenca começa — quando somos crianças. Esta manhã,
parei de pensar após ter me fechado, por meio de uma entrada
no meu corpo, deixando as coisas acontecerem nele. Depois
disso, me senti muito mais forte, e eu estava aqui sem pensar
— apreciando o trabalho que o Hal fez com Bob. Eu estava
muito presente. Mas ainda não sinto inteiramente que tenho
uma boca.

P: Você se orgulha de si mesmo?


Fritz: Não, não me orgulho de mim, mas não mais me
desprezo.

Pat: Fritz, tenho medo de você. Não posso contar com voc ê.
Fritz: Você pode contar com o meu amor. Você não pode
contar com o meu apoio.

Esta manhã, mais uma vez caí de cara no chão, no grupo de


treinamento adiantado. Karl ocupou o lugar quente e pediu a
Romily e eu que fôssemos suas co-terapeutas. Ele começou a
contar no passado. Em vez de lhe dizer que eu estava
impaciente com ele por não entender, tentei ser paciente e
mostrei-lhe o que estava fazendo. Estremeci toda — e
aconteceu o mesmo quando ele começou a contar no presente,
mas ainda sendo uma história, não um sonho.
Estremeci outra vez. Daí por diante, duvidei de tudo que
notava. Romily estava maravilhosamente mudada. Notei isso
e me senti bem. Notei como Karl se saiu maravilhosamente
quando Fritz assumiu o comando, e me senti bem. Mas eu
ainda estava me prendendo ao meu erro — e cometi outro.
Quando Karl acabou, disse-lhe que no começo eu fora falsa.
O passado é falar sobre. Sei disso. Deixei tudo con... — não,
isso são palavras. Não me senti confusa... Me senti
esclarecida, e ao mesmo tempo sem conseguir enxergar
alguma coisa. Como se eu estivesse olhando para o lago e
alguém visse um hidroavião que não estou vendo... Fritz me
disse que eu estava falando sobre. Reconheci o fato, e não
soube o que fazer com ele. Ele me deu uma pista dizendo: “Eu
sou — eu fui”. Ficar no agora. Eu estava procurando uma
forma de dizer o passado (que já não estava mais presente) no
tempo presente.
Não descobri como. Eu ainda estava me prendendo ao passado
que não estava presente em mim. Qualquer coisa que eu
fizesse agora era estragada pelo fato de eu me prender ao
passado (memória), que não estava presente em mim exceto
por eu conservá-lo. Fantasia.
Não lembro o que o Fritz me mandou dizer a cada pessoa.
Algo como
“Eu perco o momento quando” — e eu acrescentava: Eu perco
o momento quando tento ser algo que não sou. Eu perco o
momento quando me contenho. Eu perco o momento quando
penso sobre, e algumas outras frases.
Quando cheguei ao Glenn, não disse com força, porque com
ele estou mais no momento. Era “oportunidade” — talvez “Eu
perco a oportunidade.”
A única coisa que tenho a dizer a meu favor é que fiquei com
o fato — sem tentar qualificá-lo, modificá-lo, e assim por
diante. Fiquei realmente com ele.
Só depois percebi que não tinha dito “Eu não faço isso com
—” ou “Eu não faço isso o tempo todo”; não disse: “Fritz,
você sabe que ontem à noite, quando você disse que eu não
me sentia à vontade com a minha fisiologia, referindo -se a ‘ir
ao banheiro’, eu falei em voz alta e clara: EU GOSTO DE IR
AO BANHEIRO”.
Eu estava com o agora suficientemente próximo para não
pensar em nada disso naquele momento. Eu ainda estava me
contendo, deixando para dizer depois o que me vinha à
cabeça. A mesma coisa que fiz quando o Ray perguntou o que
os meus braços estavam fazendo nas braçadeiras da cadeira:
Eu notei, e contive o meu notar (para me assegurar dele), antes
de me expressar — meu experienciar. A mesma coisa que fiz
tantas vezes durante a semana de tomada de consci ência em
junho: preciso deixar sair a minha voz, deixar cantar o meu
sentimento: levou apenas um momento para eu notar o
sentimento — momentos (pareceram cinco minutos embora
eu não creia que tenham sido) para deixar o sentimento sair
em voz. (E também não disse hoje de manhã, quando dava a
volta pelo grupo, o que acabei de lembrar: “Eu estava me
saindo bem e feliz com isso, até que o Hal ficou sendo o meu
coterapeuta”. Foi bom não ter dito! Ou ruim. Pois é claro que
isso é algo que tenho de trabalhar com o Hal. O problema de
fazê-lo já está me encucando há algum tempo. Faço um
programa para dizer algo. Pelo menos (umas palmadinhas nas
costas) não perco muito tempo com isso. E então, na sessão
seguinte, estou pronta — e todo mundo entra aborrecido com
a partida de Don e a forma como ele resolveu ir, e eu entro
nisso — nem mesmo percebo o que me incomoda na voz do
Hal quando ele se junta ao falatório. Estou na minha zona de
tagarelice. Eu me afastei de mim mim mim mim mim MIM
MIM
MIM MIIIIIIIIIIIIM.
Escrevi três plaquetas.
NÃO PENSE
SEJA IR-RAZOÁVEL.
DEIXE OS ERROS PARA TRÁS — EM PRIMEIRO
LUGAR, ELES
NÃO VALIAM NADA.
Fritz disse que são programas. Pareceu gostar do último,
embora também seja um programa.
Perdi contato com meu conhecimento de que os erros não
importam.
Se eu não tivesse cometido o primeiro, não teri a cometido o
segundo. Se não tivesse cometido o segundo, o que se seguiu
não teria acontecido, e eu não estaria (agora) atada por nós e
com dor de cabeça, e ao mesmo tempo — estou postergando
o trabalho com a dor de cabeça. Adiando. Deixando para
depois. Mas a dor de cabeça é o que emerge.
Prestei atenção à dor de cabeça. O que emergiu então é aquilo
que não consegui recordar antes: Fritz me mandando dizer —
escapou de novo, exceto a expressão tanto quanto — como fiz
ontem à noite com a Pat, quando lhe disse: “Quero fazer uma
pergunta, e a estou deixando de lado porque não quero que
você responda, só quero perguntar —”, e disse a pergunta.
Agora a dor de cabeça está emergindo outra vez... Expressar
tanto aquilo que quero dizer quanto o que estou fazendo co m
isso.
Libere. Não delibere.
Quando estávamos terminando, e o Fritz já se tinha virado
para sair, eu disse: “Ei!”. Isso saiu de repente. Então parei
enquanto as palavras ficavam presas na garganta — retendo
(algo como): “Não gostei de você ter mencionado aquela
história do banheiro (ele mencionou outra vez) quando o que
provocou isso aconteceu depois”. Ele se virou e disse:
“Obrigado”, como se não estivesse sentindo, mas talvez tenha
sentido, mais tarde. Imagem: Fritz achando as moedas de
prata! Essas palavras soaram engraçadas.
Inferno. Eu sei Eu sei que viver com o que sei é importante.
Autêntico.
Real. E sei que é só o ego que se maltrata, que se “machuca”.
Ele realmente quer dizer “obrigado”, mesmo que esteja
machucado no momento. Tive essa sensação em relação a
Jesus e a cruz. Meu próprio saber — só agora estou
começando a ter contato com ele. Ego-eu acabando comigo,
me dando dor de cabeça, e eu quero que ego morra —
levantei-me e bati numa almofada. Ao bater, “ego” pareceu
tão bobo quanto aquela ponta de almofada nas minhas mãos.
Enchimento com pano em volta. Pano com enchimento
dentro. Enchimento com pano em volta com enchimento
dentro.
Tsss! um silvo passa pelos meus dentes.
Só ego. Do que eu quero me livrar. A única “pessoa” que eu
quero que morra, que eu quero espancar e matar é o ego, não
quero que o ego bata em mim. A única maneira de fazer isso...
brigar com o ego mantém o ego vivo, porque brigar consigo
mesmo é ego — é ser submisso... O que pensei que ia
aparecer, não apareceu. Em vez disso, quando fiquei submissa
— aos golpes do ego — tanto o ego quanto os golpes
desapareceram. Não àquilo que o ego diz, mas ao que o ego
faz... Quando me submeto àquilo que o ego diz, ainda sou ego.
Quando me submeto àquilo que o ego/az — dor —, a dor vai
embora, e o ego também.
Então obrigado, Fritz, pela dor.
Obrigado, Barry, pela dor.
Mesmo quando doía, eu lhe agradeço, Fritz.
Que seguramente soa como a religião cristã — a parte que eu
detesto.
Sei. Não estou detestando agora que entendo. Ainda acho
melhor jogar a Bíblia fora e começar de novo.
Jogar tudo fora e começar de novo.
Isso é bom, mas ainda estou doendo, alguma — ainda não
estou aceitando a dor... Fico com ela — não a seguro —
simplesmente a sinto, não faço nada e ela desaparece.
Enquanto estou com ela. não penso nela.
Instituto Gestalt do Canadá — uma escola cristã judaica
budista hindu.
Noto que me coloquei primeiro. (Sou cristã da mesma maneira
que Fritz é judeu. Somos classificados dessa forma.
Crescemos com ela no nosso ambiente. Nós não vamos à
igreja ou templo, e não acreditamos.) Bem. bom. A minha
voz-amigo não está tão forte como antes, mas há uma espécie
de sussurro. “E hora.” Talvez cie esteja se sentindo um pouco
estrangulado neste instante — ou não mais estrangulado e
ainda em recuperação, sem muita voz.
Tenho sentido falta dele.
Na semana passada e nesta semana, no “meu” grupo (isso
significa que quando o Fritz pede aos líderes de grupo que se
levantem, eu me levanto), tenho ansiado mais para que este
workshop termine do que continue. Agora, estou contente com
a continuação. Todo esse tempo, me senti como se estivesse
enterrada alguns palmos embaixo da terra — cavando a minha
saída aos pouquinhos, muito devagar. Agora, estou mais perto
da superfície — começando a ver a luz.
Fritz! Você não sabe como me saí. Você não sabe o que
descobri ontem, e que funcionou direito. Você não sabe o
progresso que fiz. (Estou me dando dor de cabeça outra vez.)
Fritz (meu Fritz): E então? Você quer parar aqui?
Fico aqui sentada, sabendo a resposta e sem dizer.
Não! Enquanto não tiver parado de de-liberar, quero
prosseguir.
Fritz, você ultimamente tem escorregado de volta. Pensando.
Analisando. Você perdeu sua paz. Ontem à noite você
mencionou um deveria. Seus deverias são ridículos para mim.
Só o ego poderia ter um deveria destes.
Fritz (meu Fritz): Então você foi concebida sem pecado?

Fritz está esperando o Garbage Pail sair. Seus amigos


gostaram. Ele está impaciente para saber o que os seus
inimigos dirão sobre o livro — quer dizer, sobre ele. Não sei
quanto tempo ele passa pensando nisso — só quando a coisa
emerge para mim — como acabou de acontecer agora,
encontrei-me com ele indo para a Casa. “Chegou alguma
carta?”, querendo dizer “Alguma coisa do” (aqui fico em
dificuldade, paro e penso, e continuo...) “Alguma coisa sobre
o Garbage Pail?”.
Tudo que sei é que se trata de pensar sobre — a zona
intermediária (Fritz), a zona de tagarelice (eu) e eu não posso
estar nessa zona de tagarelice só com uma asneira. Quando
estou lá, estou lá, e qualquer outro lixo pode vir comigo,
também.
Geralmente, quando o Fritz vem a mim, mesmo que eu queira
tocá-lo, espero que ele faça o primeiro gesto. Desta vez, movi -
me em direção a ele, pus minhas mãos sobre os seus ombros,
e nos beijamos. Quando ele parece feliz, ele parece feliz.
Cheio de beleza. Não me sinto muito mais forte, só um
pouquinho.

Seguramente não foi erro ter cometido um erro.

Esta manhã, quando fui para o grupo adiantado... Não gosto


do “adiantado.” O grupo das dez horas. O grupo das dez...
levei comigo uma venda para os olhos. Se eu tivesse feito isso
— vendado os olhos — tudo teria saído diferente. Diferente
em que, não sei. As possibilidades são todas as possibilidades
desta situação. Elas não incluem a Rússia, o México e o Lago
Cowichan.
Dentro daquela sala — todas as possibilidades — com
dezesseis ou dezessete pessoas — estão além da minha
capacidade de imaginar. Vendar os olhos, dentro dessas
limitações, poderia ter produzido qualquer coisa. Não vendei.
Eu queria vendar, e não vendei. Estava esperando. Esperando
a “hora certa.”
Suspeito que neste caso isso quer dizer: “Quando ninguém
estivesse prestando atenção em mim”. Em todo caso, foi um
ótimo exemplo de esperar a hora certa que nunca chega.
Maluca, maluca. Eu estava toda preparada para acertar o Hal
de primeira. Não houve. Eu não estava refreando nada. Estava
me sentindo à vontade.

Jerry Rothstein veio hoje de São Francisco, quase dançando


de excitamento por chegar, por estar aqui. Ele vai ter um
grupo de trabalho com miopia, às sextas-feiras. Glenn disse
que Karl não iria participar que não acreditava que os olhos
pudessem ser mudados. Eu disse ao Glenn que isso foi ontem.
Ele respondeu: “Ah, não, foi hoje de manhã”. Eu disse que
agora ele está com o livro de Bates (ontem à noite dei-o a ele)
e vai arranjar The Art of Seeing (A arte de ver), de Huxley.
Glenn: “Mas ainda hoje de manhã... ah, não, foi ontem de
manhã. Hoje de manhã ele estava falando sobre alongamento
dos globos oculares” (de Bates).
Essa é uma das coisas incríveis deste lugar: não se sabe onde
alguém está a menos que se esteja com a pessoa. Fora isso, é
provável que seja estava; isso é sempre verdade, só que aqui
fica tão claro que se torna inescapável. Isso seguramente torna
absurdo o falatório, quando se sabe que ao falar, a coisa talvez
já não seja mais verdade.
Fritz lutou contra Melissa, ontem, no grupo das dez, e outra
vez esta manhã no grupo da minha cabana; lutou contra as
formas de ela tentar controlá-lo, seus jogos de palavras que
reduziam a zero tudo que ele dizia. Às vezes ela chorava. Às
vezes brigava. Quando passava de um para outro, ele dizia:
“Esta é a sua outra forma”. Ele não aceitou nem um pingo das
manipulações dela.
Esta noite ele perguntou a ela (inquisidoramente, não solícito)
como ela está, e ela disse: “Diferente”. Ela parecia diferente,
também.
Com base na minha própria vida, sei que quando as minhas
velhas formas não funcionam, tenho de mudar. Acho que
nunca vou poder lutar com alguém da maneira que ele às
vezes luta, e não acho isso errado, para ele. Além disso, as
pessoas que o procuram escolhem a ele — ele — e são
responsáveis pelas suas próprias escolhas, assim como eu.
Quando Melissa veio para cá ela sabia que queria cair fora do
seu script23 de vida pré-planejado, e escolheu o Fritz. Estou
segura de que ela não queria aquilo que recebeu ontem e hoje.
A partir disso, hoje pela primeira vez ela está tendo algo do
que queria.
Bob D. é tão simpático, tão simpático. E tão queixoso. Não
tenho ideia do que fazer com isso e não adiantaria nada eu
fazer... Estou começando a ver os usos da frustração, botar as
pessoas em dilemas em que não podem se queixar. Gosto do
jeito que Carl Rogers tem de frustrar — não dando respostas,
junto com outra coisa... Também vejo onde Bob D. não é
queixoso, o que não percebi logo. Estou me sentindo um
pouco mais aguçada do que era.
Fritz mencionou meus predicados: espontaneidade versus
deliberação.
Não há nenhuma questão que eu queira na qual eu confie.
Vou para a cama sem deliberação.

Ontem, em certo momento eu realmente quis continuar com


os grupos.
Em alguns momentos, talvez. Em outros, eu nem mesmo
queria continuar aqui. Hoje de manhã, quando o lago e as

23
Script de vida: (também: argumento, roteiro de vida). Termo
empregado em análise transacional para se referir a um plano de vida que
a pessoa costuma seguir, e cujo desenlace, geralmente insatisfatório,
pode ser previsto. (N. do T.)
colinas estão aqui dentro — e estão aqui dentro — quantas
palavras. Olhe aqui. São sete horas da manhã, hora padrão do
Pacífico, e bastante perto do Norte para...
Tente outra vez.
Aqui há alguma luz no céu, não muita.
Neste instante sinto-me bem em estar aqui agora, e não estou,
e quando penso na hora que virá daqui a uma hora começo a
discordar de mim.
Está acontecendo algo nos meus ombros e pés. Algo que não
é dor e não sei o que é, e estou gostando.
Meu rosto parece que está queimando, como se estivesse
queimado de sol. Isso continua acontecendo, há mais de dez
dias.
O que está ocorrendo nos meus ombros e pés, que não é dor,
é movimento. Movimento bastante forte. Como forçar areia
molhada com a mão.
Este lugar é uma loucura, sabe? Dez mil metros quadrados,
com pequenas construções e gente quase o tempo todo dentro
das casas, e 34 pessoas indo para cima/para baixo para cá/para
lá e nunca se sabe onde ninguém está, dentro ou fora, se está
falando sobre o fora ou sobre o dentro, exceto o Fritz, que
nota tanta coisa mais do que o resto de nós e passa algum
tempo depois da reunião de comunidade jogando xadrez ou
cuidando da coleção de selos. Será?
Só sei que às vezes eu o vejo pela janela, sentado à sua mesa,
onde estão alguns enormes álbuns de selos e não tenho ideia
do que se passa dentro dele, não mais do que os outros tinham
a meu respeito quando eu jogava paciência.
Por que precisamos saber? Por que temos de fingir que
pensamos que sabemos? Por que temos que julgar se o que
está se passando é bom ou ruim?
O que posso dizer sobre um lugar onde a visão/experiência de
cada pessoa é diferente e continua mudando, e bom torna-se
ruim e ruim torna-se bom, e não gosto torna-se gosto, e gosto
torna-se não gosto, e agora mesmo agora mesmo, agora
mesmo já se foi antes que eu pudesse dizer.
A Sra. McGillicuddy foi para Alberta visitar sua irmã. O
presidente saiu para jogar golfe. A Sra. McGillicuddy está
falando com a irmã. O presidente está conversando com quem
está jogando golfe. A minha avó foi para Londres. Foi é, o
que comprou. O presidente estava de temo azul. A Sra. Mac
estava de vestido florido. Um Zendo é mais ou menos eficaz
do que um Instituto Gestalt? E por que ninguém sabe nem
pode saber. Não há como descobrir. Em primeiro lugar as
pessoas que vão são diferentes, e em segundo lugar as pessoas
que vão para um e para outro a fim de provar algo, já não são
as mesmas que eram no primeiro lugar. Isso é algo que estou
vendo, não algo em que estou pensando. Esta escola é melhor,
aquela escola é melhor, e se esta escola é pior, talvez acabe
sendo melhor. Nada importa exceto... Nada importa. Na
verdade, não. Ao mesmo tempo importa. Não me peça para
lhe dizer, descubra sozinho, seu vagabundo.
Eu sou a fonte da sabedoria.
O homem não é fonte de informação. É um depósito.
Que informações tenho realmente?
Há um pouco mais de uma milha daqui até Lake Cowichan.
Eu gosto de grupos?
Às vezes.
Eu não gosto de grupos?
Às vezes.
Faz tempo que estou aqui?
Uma milha e meia até Lake Cowichan.
Caro: Larry.
Caro Senhor:
Caro Sr. presidente, eu gostaria que o senhor não levasse o
mundo tão a sério a ponto de ter de fazer algo com ele.
Cara Barry, eu gostaria que você não levasse o mundo tão a
sério a ponto de ter de fazer algo.
Eu gostaria que você não se levasse tão a sério a ponto de ter
que fazer algo. Isso soa como o meu amigo, a voz. A voz
penetrou nas palavras enquanto elas se escreviam. Você não
pode ouvir a voz com a qual as palavras foram escritas.
Quando você as ler, estará lendo as minhas palavras com a
sua voz, e me dirá o que eu disse. A voz é a sua própria, então
escute, não diga para mim.
Toda vez que me apego a algo e me sinto brilhante, tudo que
escrevi antes parece banalidade. Não tenho vontade de jogar
tudo fora por causa disso. Eu estou começando agora, a partir
de onde estou. Sem tudo que precedeu isto, como poderia
estar onde estou?
Esta manhã o Fritz nos mandou escrever um ensaio sobre o
“deveria-ísmo”. Tenho certeza de que ele não disse “ensaio.”
Fui eu quem disse. Agora estou com dois significados de
“ensaio” na minha cabeça; gosto de um, e não gosto do outro:
um é aquele tipo de tentativa sem esforço, deixando as coisas
fluírem para que eu descubra o que são; o outro é uma
composição literária, arranjada de certa forma e redi gida em
certo estilo.
Vou tentar o primeiro:
O deveria vem do poderia. Poderia ter sido diferente. Eu
poderia ter sido diferente. Você poderia ter feito outra coisa.
O tempo poderia ter estado bom.
Eu poderia ter nascido com outros pais. Meu filho poderi a ter
feito carreira, ficado famoso e ganhado rios de dinheiro para
si mesmo (e para mim). Você poderia ter chegado na hora. Eu
poderia não ter cometido esse erro. (Como poderia, se até
fazê-lo, não parecia ser erro?) "Você poderia ter, eu poderia
ter” leva diretamente para “Você deveria ter” e "Eu d everia
ter”.
Um estudioso de semântica, chamado Harrington, cujo
primeiro nome esqueci, afirmou que conhecia um índio que
falava fluentemente sua língua tribal e a nossa. Harrington
perguntou ao índio se na língua indígena havia palavras
(significados) tais como “poderia” e “deveria.” O índio
permaneceu calado por algum tempo. "Não”, respondeu. “As
coisas simplesmente são.”
Acho que essa ausência deve existir também em outras
línguas indígenas, porque estou segura de ter visto índios
desconcertados quando brancos lhes diziam que as coisas
poderiam ter sido diferentes, que eles poderiam ter se
comportado de outra forma, ou que deveriam ter feito outra
coisa. Vi também o desconcerto dos brancos quando os índ ios
continuavam fazendo a mesma coisa depois de se lhes dizer
que não deveriam, e o desconcerto dos índios quando os
brancos ficavam desconcertados com o desconcerto dos
índios.
Fritz disse que se alguém tivesse uma saída para o deveria-
ísmo... Duvido que haja uma saída, mas um dos meios a serem
tentados é notar nossos “poderias” — não só nossos deverias.
Não gosto deles. Eu prefiro jogar poderia e deveria fora da
nossa língua, e ver o que acontece. Não que seja “ruim.”
Só que “não quero mais usar essas palavras”. Acho que todo
mundo iria concordar com isso em termos de o outro jogá-las
fora, e a maior parte das pessoas acharia muito difícil jogar
fora as suas próprias. Mas se fizéssemos isso, talvez
começássemos a perder os conceitos; e se uma pessoa
conseguisse, certamente não iria aceitar os poderias e deverias
dos outros. Palavras a serem jogadas fora, geralmente não de
forma deliberada; mas se as pessoas achassem que isso libera,
muitas delas (de nós) o fariam.
Estou cheia de falar sobre.
Necessitamos de uma mudança na linguagem (conceitos), se
quisermos ir adiante. Lá vou eu de novo.
Esta manhã, no grupo grande, uma coisa levou a outra, e eu
acabei com o Bart, que expressou seu desgosto pela minha
suavidade. Alguns momentos depois, senti-me forte e meu
corpo ficou ereto — só isso. Bart deu um salto para trás —
seus ombros se afastaram bastante. Ele disse que era "a
transição súbita.” Eu disse: “Muito bem. Estou aqui parada.
Vou ficar parada ereta”.
Fiquei ereta. Bart: E difícil alcançar você. Eu não tinha um
motivo quando disse, fiz isso. O pensamento me veio e eu
estava interessada em ver o que aconteceria. Fiquei muito
surpresa. Quanta coisa nós dois aprendemos em poucos
momentos, simplesmente fazendo algo em vez de falar sobre.
Fazer algo de outra forma. O que aconteceu com o Bart me
surpreendeu. O que aconteceu comigo me surpreendeu. Bart
teve a surpresa dele. Eu me sinto diferente, como se algo
tivesse despertado em mim.
Nós tínhamos de escolher alguém que nos desagradasse para
o que quer que fosse feito. Ninguém me desagrada totalmente.
Fiquei procurando alguém ao acaso, e vi o Bart parado
sozinho, e fui até ele. Não sei se o Bart pensou que o escolhi
porque ele me desagrada muito. Em todo caso, o que
aconteceu foi isso, e me parece que se em vez de eu escolher
a pessoa do grupo que mais me desagrada (ou seja lá o que for
preciso fazer), eu fecho os olhos, me movo e agarro alguém,
algo terá de acontecer, também assim.

Doze horas de sono chegaram ao fim. Sol forte, reflexos da


água brilhando. Ombros tensos. Tensos? A carne em torno dos
meus ombros e nas costas me dá a sensação de eu estar me
amassando.
Pelo menos me livrei do “eu tenho de”. Como me livrei do
“tenho de”.
Notando toda vez que pensava “eu tenho de”, e reconhecendo
que não tinha de, só pensava que tinha — e quando joguei
fora (não de propósito) os tenho de, o que sobrou foram os
queros. Claramente os queros — não mais misturados com os
tenho de.
Esta manhã estou confusa. Na quinta-feira, num grupo com o
Fritz, eu me expressei na mesma voz (alta e clara)... ao diabo
com isso. Fico em apuros assim que começo a escrever.
Confusão. Nada claro. Tudo leve e turvo e se dissolvendo no
nada. Não sinto que deveria trazer de volta.
Fritz, você não está notando os passos que dei, esses passos
arriscados, que não são arriscados, mas que eu sinto
arriscados, e então são. Eu sinto que você está me forçando a
andar mais. Não apresse-o rio, ele corre sozinho. Não quero
que você me diga que estou me saindo bem. Só quero que você
me deixe em paz. Já comecei. Deixe que eu me mova no meu
próprio ritmo. Note que estou me movendo agora, de uma
maneira nova, timidamente, mas estou, e antes não estava.
Deixe-me dar os meus passos tímidos, notando como eles são
bons e ganhando confiança por meio do meu próprio
experienciar. Não solte um grunhido fantasmagórico quando
digo que estou trabalhando com o problema dos grupos muito
pequenos — meu problema nos grupos muito pequenos, deixe
os outros terem os problemas deles. Realmente não ligo a
mínima para eles, exceto quando reforçam a minha
dificuldade. Os outros problemas estão em outro lugar, não
aqui, não em mim.
E a minha impaciência com o mesmo tipo de passos tímidos
dados pelos outros?
Não sou impaciente. Eu noto esses passos, e gosto deles. Os
dois Bobs deram passos tímidos e eu gostei, como pequenos
botões florindo. Não quero forçá-los. Penso que deveria. Não
que tenha de fazê-lo, mas que deveria. Neste Instituto Gestalt
com Fritz no comando. Ele quer que eu faça isso. Talvez ele
queira. Talvez ele não queira. Não sei; eu penso isso. O que
posso saber é só de mim. Eu não quero. Como meu peito incha
quando digo isso. Estou admirada, não esperava me sentir tão
bem e forte.
Às vezes tenho me forçado (nos meus termos), querendo ou
não, às vezes tenho me acompanhado. Como uma gagueira.
Falso/real/falso/real. Sem dizer o que estou fazendo, nem
mesmo para mim. Sem ser clara, dentro de mim ou com outra
pessoa. Esta semana houve tanta morte com o Fred, que pensei
que deveria assumir o comando e fazer algo, e às vezes fiz.
Eu não queria fazer.
Então mudo o meu “deveria” e o significado da palavra sai
diferente. Na verdade, ele se apaga: já não está mais aqui. Eu
“deveria” fazer o que quero fazer? Tolice! (Sensação de
absurdo, não de um modo de encarar ou decisão “razoável.”
Eu quero. E só isso que eu “tenho de” e “deveria”.
Eu quero.
Eu não quero.
Notar.
E nada de malditas explicações.
(Eric Berne diz que só precisamos de três palavras — sim,
não, agora.) Como a carta para o Jordan, que tentei três vezes
escrever. A primeira parte — sete linhas — respondendo a
três perguntas de duas cartas dele. A segunda parte tenta
responder a uma pergunta. Ela tem umas 25 linhas, e não
gosto do que escrevi e sei que não respondi à pergunta dele, e
não jogo fora e tento outra vez. Eu não quero responder a essa
pergunta, além de dizer: “Estou aqui e estou gostando”. Penso
que deveria dar mais informações sobre este lugar, e sobre o
meu entusiasmo; isto acontece. Não me obrigo a sentir.
Flui. Esta carta para o Jordan, estou me obrigando a fazer, e
sai uma porcaria.
Continuando a me obrigar, a carta sairá cada vez pior, e eu
ficarei cada vez mais frustrada.
Espirro espirro espirro espirro espirro — não sei quantos.
Uma série deles. O sol entra pela janela. Noto que estou
quente e grudenta, com essa camisola de flanela. Na minha
própria cabana, sozinha, e ninguém lá fora, e eu de camisola.
Tiro-a e me sinto bem. “Eu quero” é tão fácil.
Eu não “deveria” escrever para o Jordan sobre este lugar...
não só que não “deveria”, mas quando não estou envolvida,
não estou envolvida, e tudo que escrevo sai como um anúncio
de publicidade, e não o entusiasmo espontâneo que sinto
quando sinto.
Um “deveria” fora do caminho. Agora a carta ao Jordan vai
sair fácil, em oito linhas; e será mandada em vez de ficar na
minha mesa, encalhada.
Não posso saber se o Fritz está ou não me forçando, mesmo
que ele me diga. Depende de eu acreditar nele ou não —
quando estou onde estou agora.
Às vezes é uma sensação: então sei. Sem interferência do meu
pensar. É irrelevante se o Fritz tem estado ou não a me forçar.
Eu tenho me forçado.
Quando eu me livro do meu próprio forçar, o que os outros
fazem não me força — e eu não me sinto forçada. Não estou
sendo “resistente”. Apenas sou. Como os navajos quando não
deixam que nós os forcemos e não forçam a si mesmos.
Sinto o meu corpo — “de dentro”, para distinguir da sensação
que tenho quando coloco minhas mãos nele. Mas parece
bobagem dizer “de dentro”. Eu sou o meu corpo, o meu corpo
(eu)... eu estou viva. Agito ergo sum.
Que gramática imbecil nós temos, para expressar o real, para
expressar o que é. Ao me expressar, caio na cilada da
linguagem. O lago não está “lá fora”. Sinto-o fluir em-mim.
As árvores e montanhas não estão “lá fora”.
Sinto o sossego delas em mim. O céu não está “lá fora”. Sinto
a mesma leveza e vastidão em mim. O chão não está “lá fora”.
Estou em contato com o chão.
A cadeira em que estou sentada — hmmm... Quando chega a
vez da cadeira, sinto que caí na cilada da linguagem outra vez,
ou ainda. Esta cadeira e eu.
Sinto o fluir entre nós e o contato (toque).
Ou isso/ou aquilo — a separação intelectual que formou a
nossa linguagem, ou a partir da qual a nossa linguagem se
formou. Posso usá-la para dizer “A máquina de escrever está
sobre a mesa” e “Eu estou sentada sobre a cadeira” e “Eu
estou datilografando”, mas não para expressar o que se passa
dentro de mim entre nós.
Hmmmmm. A minha experiência não é a sua, e a não ser pela
cilada da linguagem, não há razão de eu expressar a minha.
Na verdade, eu a expresso sim, através do meu corpo que sou
eu. Olhos, cor da pele, postura... todas essas expressões e suas
mudanças são óbvias. Não preciso dizer uma palavra. Mas,
vivendo tão presa na cilada da linguagem, eu estou fora de
contato com o que experiencio. Tentando descrever o que é,
estou explorando a cilada. O que a nossa linguagem diz que
está “se passando”, distorce a realidade, e quando uso as
palavras e a gramática, eu me distorço. Na minha luta, torno -
me mais consciente da distorção, da inadequação entre as
minhas palavras e eu.
Márcia acabou de entrar. Vi quando ela estava chegando, e
tive um pequeno pensamento/movimento de levantar da
cadeira e pegar um quimono.
Abandonei-o.
O sol está quente. Eu estou quente. Eu estou aquecida pelo
sol. O sol está me aquecendo. No primeiro dia de novembro
no Canadá, onde nunca passei antes um primeiro de
novembro, estou aquecida, ficando muito quente.
Tenho um pensamento — acho que deixei de lado as minhas
situações inacabadas neste livro. Não me importa. Onde
comecei o parágrafo anterior não foi onde terminei. As
situações inacabadas estão em toda parte, no mundo inteiro.
Só aquelas às quais me prendo precisam ser “terminadas”,
para eu me soltar delas, deixar que sejam “passado”. Onde
comecei o parágrafo: O sol está quente, Eu estou quente. Eu
estou aquecida pelo sol. O sol está me aquecendo... eu ia
continuar com a gramática e então emergiu outra coisa.
Sol. Eu quente. Isso diz tudo, e deixa muito mais tempo para
gozar “eu quente. Sol”.
Quando Rick não estava disposto a trocar Shakespeare por
ser, achei que ele era um tonto. Descubro a minha própria
relutância em trocar o fluxo de palavras por inglês mestiço.
Cuidado. Quando interrompo o fluxo de palavras — naquele
momento, interrompi — tenho muito mais consciência. Meu
sentir se torna tão elevado, tão acima do normal que eu sinto
uma espécie de prazer doloroso — e agora reluto em voltar às
palavras.
“Mas elas podem ser úteis para outras pessoas.”
Que as outras descubram seu próprio caminho.
“Mas você usou livros...”
Em fantasia, algum outro argumento me passa pela cabeça.
Não me prendo a ele. Ele já não está aí.
Crianças brincando com água.
Crianças e água brincando.
Preencha o resto com o que você quiser. De qualquer maneira
sempre se faz isso. Quem tira de Person to Person algo que
não quer?
Crianças e água brincando.
Isso é real. O resto é fantasia. Continue sozinho.
O que o meu real de “crianças e água brincando” faz por você?
Certo dia. na biblioteca pública de Honolulu, vi uma mulher
robusta com um guarda-chuva no braço —
C APÍTULO 5: PEDRA

Pensei realmente ter acabado o livro na página anterior. Mas


não foi um ponto final.
Uma coisa continua a mesma: todo domingo eu gostaria que
houvesse mais um dia de fim de semana.
Ontem Jerry disse que gostaria de voltar o mais cedo po ssível
(ele já se foi) porque quer estar comigo e com o Fritz, e ambos
vamos embora. Eu disse que talvez não acabasse de escrever,
então ficaria mais tempo. Ele disse que isso o deixava em
situação difícil, porque queria que eu ficasse e queria que eu
terminasse o livro.
Acabei de passar pela mesma coisa com o meu filho, e é como
quando eu costumava dizer: “Gostaria que parasse de chover”,
e as pessoas diziam: “OH!
não diga isso! Nós precisamos das chuvas para as colheitas”.
Que diferença fazia — a chuva vinha e ia, independentemente.
Se as pessoas podem fazer chuva, essa capacidade não provém
do mesmo lugar que os meus desejos.
Eu sei porque esse livro muitas vezes me parece um lamaçal.
Porque é um lamaçal. Quando terminei Person to Person,
disse: “Agora preciso sair e viver, o mais que puder”. Isso não
é fácil. No final de Person to Person vi a árvore de Natal.
Agora estou lutando para chegar a ela. Não posso me fazer
chegar à experiência mística. Não há dúvida de que as drogas
podem fazer isso. Não provei drogas. A experiência mística
não é a minha meta. Já desisti disso. De verdade. Não estou
reprimindo um desejo. O desejo não está presente. Não tenho
uma meta — só às vezes uma meta bem imediata. Neste
sentido, estou correndo com o rio, sem tentar apressá-lo. Sob
outros aspectos, ainda estou aprendendo a me deixar
acontecer, e isso é algo delicado. Essa delicadeza se mostra
agora principalmente em relação àqueles saltos genitais que
mencionei. Durante o dia. eles não costumam acontecer.
Quando me deito, à noite, eles ocorrem com frequência.
Quando não aparecem, noto que estou ensaiando, e isso quero
abandonar. Geralmente esses ensaios não são fortes:
desaparecem quando olho para dentro do meu corpo. Numa
dessas últimas noites, não consegui parar de ensaiar.
Continuei fazendo isso, ficando mais e mais cansada. Imagem
espontânea: uma figura preta, alongada, com um formato
parecido com os apagadores de lousa das escolas, mexia -se
para a frente e para trás através da minha testa. Parecia um
sonho, pois a minha testa não estava realmente ali. O
apagador apagava os meus pensamentos. Eu me senti bem.
Então os pensamentos voltaram. Neste instante, me parece
que eu poderia tentar (experimentar) ser a observadora desses
ensaios.
Quando estava doente, uma das coisas que acontecia era o
mundo todo — inteirinho — estar cheio de gente amiga, e eu
me sentia bem e feliz com isso. Então flic! como o clique de
uma máquina fotográfica, o mundo inteiro ficava habitado por
gente que fazia mal aos outros, eu tinha medo, ficava
revoltada, e já não podia viver nesse mundo. Todas essas
palavras ocupam tempo e não servem para a experiência
flic/clic/flic/clic/flic/clic/flic/clic/flic/clic/, tão rápida, tantas
vezes. Eu me sentia presa por nós, pulava fora e entrava na
felicidade, então caía fora dela e voltava aos nós.
Alegria/desespero/alegria/desespero, e assim por diante.
Emoções poderosas, ambas, e um choque toda vez que
passava de uma para outra. Eu tinha de fazer algo.
Transformei-me na observadora do que estava acontecendo,
observei o que se passava, como se estivesse ocorrendo “lá
fora”.

A máquina de escrever parou. As luzes se apagaram. Tomei


um chuveiro e dali a pouco a água acabou. Então fiz o que
pude, algo que não exigisse água ou eletricidade, interessei -
me pelo que fiz, e perdi interesse em escrever. Agora estou de
novo com vontade de escrever. Sinto também que estou
decolando para algo novo — sem saber o que era antes, nem
o que será agora.

Um jovem japonês que não queria ir para o lugar quente, e


falava muito pouco, foi para o chão (de costas) e trabalhou
uma porção de problemas a partir do seu corpo, deixando
acontecer o que queria acontecer. Sempre me impressiono
com os resultados dos experimentos do Gestalt Therapy 24 .
Não fiz todos. Fazê-los conforme estão no livro é como tirar
um monte de peças da água e tentar grudá-las enquanto ainda
estão molhadas. Tenho vontade de reescrevê-los. Acho que é
algo como tentar escrever um livro de receitas provadas. Mas
não estou tentando provar todas — só deixá-las legíveis.
Não estou com vontade de continuar nisso. Quem eu penso
que sou, ajudando a colocar os experimentos de Gestalt em
inglês simples? “No momento em que você pensa que está
ajudando, está desfazendo tudo”. (Swami Vivekananda).
Porcaria de sessão matinal. Ontem à noite também foi
porcaria, mas diferente. No final, eu não me lembrava de
nada, mas estava com uma forte sensação de que tudo era
loucura, maluquice. Aprendi muita coisa e não sei o que. Não
importa. É parte da minha experiência, e é daí que eu aprendo.
Esta manhã “ninguém queria fazer nada”, na linguagem dos
grupos. Sugeri algo, Stella vetou, ninguém mais disse nada.
Fritz entrou. David começou algo por sugestão do Fritz e não

24
Gestalt Therapy — Livro de Frederick Perls, publicado em 1951. (N.
do T.)
foi muito longe. Não acho que seja possível não acontecer
nada. Sei que algo sempre acontece. “Nada aconteceu”
significa que não aconteceu nada de espetacular, ou que não
notei o que estava acontecendo.
Algumas pessoas do grupo começaram um papo de coquete l.
Eu disse que estava chateada. Quando falei, ouvi na minha
voz que estava irritada.
Isso é chateação — é o que a chateação é.
Tentei inverter as coisas — qualquer coisa — e tudo ficou
encalhado. Eu estava encalhada. Disse isso. Neville pegou um
dos meus prismas para virar as coisas de cabeça para baixo
para mim. Fiquei fascinada, como se estivesse olhando para
outro mundo. Quando vi as pessoas através do prisma, elas
eram interessantes, no puro sentido da palavra — sem
qualquer tipo de opinião, julgamento, avaliação ou exigência.
Simplesmente as apreciei.
Percebi uma coisa que eu mesma podia fazer: eu estava
sentada (“o que as pessoas fazem” em grupos). Levantei -me
e caminhei, ida e volta. Este simples movimento me deu uma
sensação boa. Comecei a perambular pela sala, fazendo coisas
— esvaziei algumas xícaras de café na pia, juntei algumas
cartas a serem respondidas. Fui até o banheiro, e na volta notei
um colar de índios de Cowichan, e pensei: “Natalie iria gostar
disso”, e o dei a ela. Joguei fora algumas coisas e dei mais
algumas de presente.
Eu tinha consciência do que os outros estavam fazendo de
uma maneira periférica. Não estava interessada. Nem
chateada. Interessada — não intencionalmente — pelo que eu
fazia.
Aconteceu dentro de mim uma porção de outras coisas que
não me recordo agora. Era como abrir uma janela pequena e
ver uma janela maior, abrir esta janela maior e ver uma maior
ainda, e abrir esta janela.
E de repente — LUZ.
Não uma coisa depois da outra, mas tudo ao mesmo tempo.
Nenhuma “sequência de fatos”. Eu preciso colocá-los em
ordem porque não há outra maneira, mas quando você os
recebe assim, essa não é a minha experiência, então misture
tudo de qualquer jeito — não importa como — e é isso aí: Não
me senti mais “presa” pelo grupo, tendo de me comportar de
uma maneira determinada.
Fiz as coisas que tive vontade de fazer na minha cabana. Tudo
na minha cabana estava à disposição dos outros. Eles podiam
fazer o que quisessem. Pincéis, tintas, papel, canetas, uma
cama para dormir ou só se deitar, e observar as folhas do lado
de fora, alguns pratos na pia para serem lavados, livros para
ler ou folhear — e também tinham a liberdade de sair. Eu não
podia dizer a eles para estarem livres. Então não estariam:
estariam “livres” com a minha permissão.
Escola. Tenho-me ressentido da escola. De várias maneiras.
Então o que se faz quando se está chateado com a escola?
Elimino. Não fui ao seminário de supervisão e nem ao
treinamento adiantado.
A extensão do meu fim de semana que eu tanto queria!
Leio as palavras, e elas não dizem nada. E tudo pensar, sem
qualquer expressão do meu sentir. Então misture tudo com luz
e ar e sol e brisa e sentir tudo isso e ver e rir e — Iúúúúúúú!
Liberdade. Bem aqui/agora neste centro de treinamento
chamado Instituto Gestalt do Canadá.
Não tenho pego a minha liberdade, que é a única forma de
poder dá-la a outra pessoa. Então culpo o lugar por me
prender. Meu conceito do lugar — não a realidade.
Meu conceito do lugar. Meu conceito do papel. Meu conceito
dos “grupos” e do que “deveria” acontecer neles. O que eu
“deveria” “fazer pelos outros”. O que eu "deveria” fazer
acontecer.
Ainda ontem eu disse ao Tom: “Como posso ser espontânea
indo aos grupos de 8 às 11 da manhã, e das 8 às 10 da noite?”
Éééé. Eu não tinha de ir... Eu devia ter enxergado isto. Pensei
em outras pessoas; “Bem, vocês não tinham de vir.” Mas eu
“tinha de” estar aqui, e me comportar de determinada
maneira.
Pensei nos lugares onde era mais espontânea do que estou
sendo aqui, senti saudade deles, e fiquei sabendo que queria
resolver isto aqui. Mas de que jeito? Ééééééééé.
De certa forma, esta manhã, enquanto eu fazia o que queria,
dentro das possibilidades desta cabana acessíveis também aos
outros — e quanta coisa para se fazer aqui se alguém tem
vontade —, não o suficiente para dias e dias, para todos nós
— agora estou certa disso — mas sim para sete pessoas
durante duas horas, disso estou certa.
De alguma forma, enquanto eu fazia e dizia, e enquanto
aconteciam coisas dentro do Deke, ele percebeu (expressou,
como se fosse novo para ele) o que seria uma “escola” (no
sentido de “educação”) se se tratasse realmente de educação,
e o que ele disse é a mesma coisa que o Fritz diz sobre o
“colégio” que ele gostaria de ter.
Agora, estou vendo quase tudo de outra maneira.
E agora estou com sono.

Dormi e tive um sonho.


Agora estou sabendo que este lugar é bom para mim e ruim
para mim — o que sempre soube. Em julho, não passei por
dilemas quanto a eliminar as aulas, ou conseguir eliminar as
aulas. Simplesmente eliminei. Notei que estava aceitando
alguns dos conceitos do Fritz que não estão de acordo comigo
— eles estavam se tornando parte de mim, e não eram o meu
ponto de vista...
Toda essa história sobre quem a gente introjeta, e por que
introjeta. Por que alguns psicólogos não notam o que eles
estão fazendo, e descobrem?
Uma linha do sonho: Fritz, com maldade e intenso desgosto:
“Carl Rogers é um mentiroso”. Talvez tenha sido “Odeio Carl
Rogers porque ele é um mentiroso”. No sonho, “eu” pensei
“Não é de admirar que Carl não queira se reunir com o Fritz”.
Tentei trabalhar com o lugar quente. Não adiantou.
Vou tentar alguma outra coisa da Gestalt. Vou perguntar ao
“meu Fritz”.
Eu: Pensei que esses dois homens pudessem se juntar. Agora
vejo que não podem. (Deixo de lado o meu Fritz, o btendo a
resposta sem ele.) Eles não se juntam fora de mim. Nenhum
dos dois quer. Dentro de mim...
Não o “meu Fritz” — a “minha Barry”. O que farei com isso?
Estou com dor de cabeça. Sei como posso dissolver essa dor
de cabeça, e isso aprendi com o Fritz. Se eu a dissolver, não
saberei o que o sonho está me dizendo.
Minha Barry: Diga isso para o sonho.
Eu: Sonho, você me atrapalha. Eu não me sinto assim
mesquinha e cheia de ódio, não tenho ódio do Carl, e nem me
sinto mesquinha em relação a ele.
Sonho: Eu lhe disse isso?
Eu: Não, o Fritz disse, como se fosse sempre assim em
sonhos. “Tudo no sonho é um aspecto de você mesmo.”
Sonho: (silêncio).
Eu: Então, você me deixa sozinha, para eu descobrir a minha
própria resposta. E você me deu a pista, não foi?
No sonho também havia “submissa”. Eu era submissa a dois
sujeitos, e não gostava muito de nenhum deles. Eram dois,
mas na verdade um só. Ficavam juntos como se fossem um
só. Diziam-me o que fazer, e eu fazia, para agradá-los. “Para
agradá-los.” É. Não me des-agradava fazer: só que não me
agradava especialmente, e não teria feito se eles não
quisessem.
Ainda fazendo — o que sempre fiz. Se eu realmente não
gostasse de fazer algo — não gostasse com força — não faria.
Seria: “eles querem que eu faça e o que me importa?”
Não era por amor aos caras. Eu não gostava deles, exceto pelo
fato de serem gente e eu gosto de gente.
Hmmmm. Eu também fazia para “mostrar" que era “livre”:
capaz de fazer.
Como ontem à noite.
Tudo é ontem à noite.
Eu fiz o que não estava com vontade de fazer — embora não
estivesse especialmente contra — para agradar os outros. Mas
não queria. Fui submissa. Submissa ao grupo. De uma parte,
gostei. Lutei contra o que não gostei. Des-gostei na medida
em que fazia algo para manter o que não gostava fora de mim.
jogando de volta para o lugar de onde tinha vindo, não
aceitando. Me senti bem com isso, e ao mesmo tempo não me
senti bem porque... Não vi o porquê. Agora vejo. Não teria
chegado a isso se em primeiro lugar não tivesse sido submissa
aos outros.
Hmmmm.
Coloco-me no “lugar quente” — ontem à noite o Fritz disse
que tinha notado que ainda não estamos prontos para a língua
inglesa. A língua inglesa ainda não está pronta para mim.
Obviamente, eu me coloco no "lugar quente”, mas isso não
abrange tudo que está envolvido nesta ação. Eu o fiz com a
vontade errada. A vontade certa é mim. A vontade certa — a
única a que eu devo me submeter — não me tirou do lugar
onde eu estava sentada.

Fui a Lake Cowichan com o Deke. Falamos sobre as coisas a


que chegamos aqui e como continuamos chegando à mesma
coisa — perdendo-a, reencontrando-a. Depois de voltarmos,
sentada na cozinha e achando difícil prender -me àquilo que
sei, percebi que continuamos a perder porque a sociedade em
que vivemos é contra. A linguagem está contra nós. A etiqueta
está contra nós. O hábito está contra nós. As convenções estão
contra nós. Precisamos de outro tipo de comunidade, na qual
nos tornemos mais fortes — com mais disposição para a
mudança — com maior compreensão da mudança básica (ou
“mudança radical”, na linguagem de Krishnamurti) a ser feita,
e com vontade de fazê-la. Não um deveria. Eu quero.
Quando Deke disse que ia até Lake Cowichan, eu sabia que
queria ir.
Então pensei: “Talvez ele queira ir sozinho”. Apaguei isso e
perguntei: “Você se importa de ter companhia?”. Ainda a
abordagem tímida, cheia de rodeios.
Em estilo indígena, eu poderia ter dito: “Eu quero ir a Lake
Cowichan” e deixar o Deke lidar com a coisa a partir daí, e
aceitar o que ele dissesse sobre si mesmo.
A caminho de Lake Cowichan contei-lhe isso, e praticamos
um pouco a outra maneira. Foi bom, com um véu tirado da
frente dos meus olhos.
É isso que eu quero — um lugar para praticar, e gente com
quem praticar. Estávamos fazendo mais disso em junho e
julho. Em agosto, quando chegou tanta gente nova, isso foi
deixado para trás. No começo de setembro, pensei: “A Gestalt
ficou tão estragada”.
No grupo desta manhã, algumas pessoas estavam brincando
com “Que tipo de liberação você conseguiu?”. "Eu tive uma
liberação freudiana”, “eu tive uma liberação reichiana”, e
assim por diante. Eu disse: “Tive uma liberação tipo Barry”.
Natalie quis saber o que era, e eu não fui capaz de dizer.
Consegui apenas dizer algumas coisas que são parte dela. A
partir dessa expressão, alguns minutos depois descobri o que
era uma “liberação tipo Barry”, e retive a resposta porque
“não seria compreendida”. Contei ao grupo o que estava se
passando dentro de mim, apaguei minha censura e disse:
“Usei a Gestalt (trabalhando com o meu sonho), quebrei as
regras da Gestalt, e isso é Gestalt”.
Ninguém demonstrou qualquer sinal de compreensão e não
me chateei.
Esse é o meu diploma.
Ainda não abandonei o campus, mas estou a caminho — uma
semana na Ilha Homby, ficando lá e olhando o lugar para onde
o Fritz pensa em se mudar e expandir. Parece uma
possibilidade para o que Fritz tem em mente — um sistema
“satélite” com um centro no centro, e em volta, como pétalas,
“movimento”, “terapia”, “arte”, e assim por diante. Não é o
que eu quero. Eu quero um lugar — o meu é muito mais difícil
de explicar. O dele é fácil de entender.
Isso faz o meu parecer confuso, mas não é. Sem formação,
sim. Que todas essas atividades surjam de nós, à sua própria
maneira, seja o que for, com a Gestalt contribuindo para a
libertação. Todas essas coisas cresceram a partir de nós — foi
assim que começaram. Eu quero um novo começo.
C ALIFÓRNIA , 1970.

A vida não se movimenta conforme dizemos ou escrevemos


— nem conforme pensámos que deveria se movimentar —
nem conforme tentamos fazer que se movimente. Ela é mais
ou menos assim:
Fritz estava preocupado com o fato de a maioria dos
treinandos não terem assimilado a Gestalt. Eles usavam as
técnicas, sem compreender. Podem acontecer coisas boas ao
se fazer isso, mas não se trata de Gestalt. Pode virar anti-
Gestalt.
Certa noite de novembro, na minha cabana Fritz me disse:
“Eles estão brincando de Gestalt”. Ele estava tomando
chocolate quente, com creme doce batido. “Tenho de
descobrir um jeito de ensinar”, disse ele, querendo dizer, um
jeito no qual essas coisas não acontecessem.
Eu também estava incomodada com aquilo que chamava de
“Gestalt estragada”, que parecia se afastar mais e mais da
Gestalt. Eu sabia que na minha comunidade gestalt isso não
aconteceria. As pessoas que para lá fossem iriam se
comprometer a realmente se ligar a ela — para si mesmas.
Em Vancouver, algumas semanas antes de mudar para
Cowichan, Fritz me levou à casa de Stan Fox para ver trechos
de alguns filmes sobre Fritz e Gestalt — filmes educacionais.
Depois, conversamos sobre um kibutz, que era o que ele
queria. Ele comprou Cowichan porque adorava o lugar perto
do lago, o pagamento à vista era de apenas $ 12.000 e ele
podia fazer algo lá até ter o que queria. Havia semelhanças
entre o que nós dois queríamos, e também diferenças. “V ocê
é psicoterapeuta e quer um centro de treinamento”, disse -lhe
eu. “Eu não sou terapeuta, não quero ser terapeuta, e quero
uma comunidade gestalt.” Eu disse que se encontrasse uma
propriedade bastante grande, ele poderia ter o seu centro de
treinamento nela. Eu visualizava o centro bem longe da
comunidade, com muito espaço entre os dois.
Em Cowichan percebi que um centro de treinamento na
mesma propriedade acabaria com a comunidade. Os dois eram
incompatíveis. Não compreendi isto: simplesmente soube —
da mesma maneira que soube que algumas coisas em
Cowichan estavam me fazendo evoluir, e outras me
atrapalhando.
Agora, entendo isso, também.
No último inverno, às vezes me vinha à cabeça o problema
que o Fritz tinha em relação ao treinamento de Gestalt.
Escrevi para ele, em Berlim: “Você quer descobrir um jeito
de ensinar. Como é que nós aprendemos?”. Essa parecia ser
uma boa pergunta — uma pergunta que levaria a “como
ensinar”.
Ontem, uma mulher do Oregon, com 76 anos de idade, me
procurou. Ela havia ouvido falar de mim — e Gestalt — por
intermédio de uma amiga da Austrália, que eu tinha conhecido
em março. Ela leu o Verbatim (Gestalt-terapia explicada) e
queria que eu trabalhasse com ela num sonho que a
incomodava. Ela já fora paciente de um psicanalista, e teve
muita dificuldade em ficar com o sonho. Começou a reviver
o sonho e quase imediatamente caiu em “associações livres”
e históricos de caso — explicações, interpretações. O jovem
e a floresta do sonho fizeram-na recordar uma experiência em
Bali, e ela começou a me contar a respeito disso. Teve muita
dificuldade em interromper isso e voltar ao sonho. O jovem
era um pouco parecido com Jesus, e ela começou a me contar
o que achava de Jesus, qual era sua experiência religiosa
passada, e assim por diante. A mulher que caminhava na sua
direção, no sonho, a fez recordar uma grafologista que não
conhecera, de quem estivera lendo algo. Ela me trouxera a
análise para ler.
Ela compreendeu seu hábito, sabendo que queria romper com
ele, e tendo a maior dificuldade em conseguir. Passamos mais
tempo voltando ao sonho do que com o sonho propriamente
dito. Ela tirou algo das duas coisas, e saiu com confiança de
agora poder trabalhar sozinha com seus sonhos. Ela o fará.
Ela não estava pronta para aceitar a mensagem recebida do
sonho, que era: Pare de lutar!
Quantas horas poderíamos ter passado na floresta de Bali,
com seu passado e crenças religiosas, e com a grafologista,
sem conseguir chegar a esta mensagem simples e direta vinda
do sonho — esta mensagem dela para si mesma?
E a partir desse tempo que passei com ela, de alguma maneira
que não entendo, subitamente percebi que se qualquer uma
das pessoas que vivessem na minha comunidade gestalt —
realmente vivessem lá—quisesse se tornar terapeuta, seria um
gestalt-terapeuta de primeira, usando instrumentos que
entende.
Eu não quero treinar terapeutas, e não estaria treinando
terapeutas, e a partir daí sairiam terapeutas realmente bons —
e destes, há muito poucos por aí.
“Como ensinar” é não ensinar.
Como a vida é simples. Viver tomando consciência, não
seguindo regras ou condicionamentos ou pensamentos ou
deverias e não deverias. Como é difícil ver todas as regras e
condicionamentos e pensamentos e deverias e não deverias
que se interpõem entre Eu e Tu, e entre eu e mim. Claro que
não se trata de toda a humanidade, pois as coisas variam de
lugar para lugar, de tempo para tempo, de cultura para cultura,
de subcultura para subcultura. E quando tentamos romper com
isso, estamos sujeitos a cair em outra cilada.
Reagir à convenção ainda é estar ligado à convenção.
Passando de uma opinião para outra, ainda estou no
emaranhado.
Consciência de ter uma opinião é consciência. Se eu tenho
uma opinião a respeito disso, estou de novo presa, sem
consciência. “A música está alta e está me cansando” não é
opinião. E observação. E estranho que viver com os fatos seja
algo vivido — sempre mutável — e viver com ilusões se torne
algo monótono, repetitivo e tolo. Vivemos com ilusões na
esperança ou expectativa de que em algum ponto do futuro
algo nos tire do nosso tédio.
Consciência.
Acontecer.
Felicidade.
Meu novo começo já começou. Ainda quero um sítio ou
fazenda onde, com outras pessoas, possa fortalecer o meu
começo, e onde aquilo que ocorre fora de todos nós seja
desconhecido.
Pergunta: Como posso ter certeza de que estou vendo o que
fazer?
Krishnamurti: Você não pode ver o que fazer, pode apenas ver
o que não fazer. A negação total desse caminho é o novo
início, o outro caminho. Este outro caminho não está no mapa,
e não pode ser colocado em mapa nenhum. Todo mapa é um
mapa de caminho errado, caminho antigo.

Se o episódio humano
agora tão autoameaçador
Continuar negando a expor-se diante da
natureza pura
Morrerá de podridão.
E a natureza pura não se incomodará.
— Galeria Puma
São Francisco
UM PAPO COM BARRY

(Entrevista com Barry Stevens, realizada por Paulo Barros em


junho de 1977)
P: Barry, conte-me algo sobre o título do seu livro, Don’t
Push the River (Não Apresse o Rio); eu estou procurando uma
boa expressão brasileira para a tradução. O que isso significa
para você?
B: É uma citação Zen, “Não Apresse o Rio, ele corre
sozinho”.
Para mim, significa deixar-se ir junto com a vida, sem tentar
fazê-la ir para algum lugar, sem tentar fazer com que algo
aconteça, mas simplesmente ir, como o rio; e, sabe, o rio,
quando chega nas pedras, simplesmente se desvia, dá a volta;
quando chega a um lugar plano, ele se espalha e fica tranquilo,
simplesmente vai se movendo junto com a situação em to rno,
qualquer que seja ela. Ficou claro para você o que isso
significa para mim? (P: Sim.) E eu acho interessante que há
muitas viagens por rio aqui nas redondezas — não sei se você
sabe — há o Rio Colorado e o Rio Verde, e o Dolores, e há
muita gente que ganha a vida e passa a maior parte dela no
rio, e para essa gente o título tem muito significado, porque
precisam acompanhar o rio, ou então se metem em apuros. Se
o rio os leva desta maneira em águas agitadas, não adianta
tentar escapar daquela maneira — eles precisam ir junto, e
por isso o título significa tanto.
P: No seu livro, você conta muita coisa boa sobre o povo do
Havaí e a sua forma de vida, e também sobre a comunidade
de Cowichan. O que você faria para começar uma comunidade
gestalt? Ou, o que você diria para pessoas que gostariam de
começar uma comunidade gestalt?
B: Veja, esta é uma coisa que eu gostaria de ter, uma
comunidade gestalt, mas não tenho. Se realmente as pessoas
têm algum propósito de se clarificar, de abandonar parte do
seu ego pessoal (coisas que neste país são extremamente
fortes, não sei como são em outros lugares); coloca-se tanta
ênfase sobre aquilo que eu quero, eu preciso conseguir isto,
eu preciso ter isto, para mim é importante ter este tipo de
trabalho, eu preciso fazer aquilo e você não deve me
atrapalhar; e, a menos que as pessoas estejam dispostas a
ceder, não vejo qualquer possibilidade de existir uma
comunidade. (P: Você não vê...?) Digo, a menos que as
pessoas estejam dispostas. Se elas tiverem algum interesse
real e disposição para entender e abandonar parte de seus
laços com o ego, e realmente trabalhar para se clarificar, então
vejo possibilidade.
P: Tenho pensado nisso — em formar algum tipo de
comunidade, e me pergunto se seria necessário ter alguém
com experiência neste tipo de vida, por exemplo, com um
pouco mais de experiência, que já tenha vivido desta maneira,
ou um grupo de caras mais jovens que pudessem fazer isso.
B: Para mim, gente jovem pode fazê-lo, se tiver se firmado no
propósito e possuir dentro de si o que for necessário. O que
tem acontecido — tivemos muitas comunidades neste país —
eram chamadas de comunas — e baseavam-se em ideias, e a
maioria delas fracassou porque tinha um ideal e tentaram
viver o ideal, e não deu certo. Os ideais nunca dão certo
porque deixam tanta coisa de fora — a realidade é diferente.
Existem algumas que sobreviveram — há uma no Sul que
sobreviveu. Nesse caso, o homem encarregado dela é jovem,
mas ele tem muita coisa firme dentro de si. Eu diria que seria
mais fácil para os chilenos do que para os americanos, e não
sei como seria para os brasileiros.
P: Temos algumas coisas em comum com os chilenos, que de
certa forma são diferentes de vocês aqui.
B: Veja, enquanto eu estiver olhando para os meus próprios
interesses e outra pessoa estiver olhando para os seus próprios
interesses, e estes nunca se encontrarem, então haverá
conflito; porém, se eu enxergar a cena maior... bem, por
exemplo, quando recentemente voltei da Califórnia — eu
estava vivendo na casa da Varanda, e ia sair de lá para que
outras pessoas pudessem ocupá-la. Eu ia ficar aqui (na casa
de Susan) parte do tempo, e Susan tinha-me dito que dormiria
fora e que eu poderia usar o dormitório dela e ter toda a
liberdade na casa, pegar coisas para comer e ir de um lugar a
outro, e eu preciso disso. Mas quando voltei, o que sucedeu
foi que todas as crianças ficavam lá a maior parte do tempo e
aquele é um lugar natural para as crianças, porque a casa tem
crianças dentro dela. Bem, se eu insistisse naquele quarto,
como me tinha sido prometido, haveria conflito. Do jeito que
as coisas são, quando vejo que a ordem natural é as crianças
ficarem lá, então eu me reorganizo e vejo como posso
conseguir o mesmo tipo de coisa para mim mesma, de modo
que não fique fisicamente abatida, como no ano passado, e
arranjo algum outro jeito para mim. Mas se eu insisto no que
foi combinado, a coisa fica toda bloqueada. Alguém tem de
ser capaz de enxergar qual é a organização natural, e deixá-la
acontecer, e ajeitar sua própria situação em termos de suas
necessidades. Mas se eu brigo com alguém para conseguir o
que necessito, tudo cai por terra. Uma das coisas que
aconteceram nas comunas foi que as pessoas tinham o ideal
de deixar vir todo mundo que quisesse, e havia um enorme
número de pessoas que vinham e não trabalhavam, só
comiam, e isso, é claro, não deu certo, e foi um dos grandes
problemas. Outro grande problema nas comunas foi o sexo.
As pessoas que vinham ainda estavam sob seu próprio
condicionamento em termos de sexo, e assim, apareciam
todos os ciúmes e essas coisas podres. Para mim, é importante
começar com pouca gente, pessoas que estejam realmente
juntas e trabalhando neste sentido, e não deixar entrar muitas
pessoas de uma só vez. Em Cowichan havia gente nova todo
mês, e algumas pessoas mais antigas ficavam e toda vez que
entrava gente nova, era claro que traziam consigo tudo que
estavam fazendo e como se comportavam no mundo exterior;
quando entra muita gente, a situação no lugar muda. Eu vi isto
acontecer algumas vezes no Havaí, onde havia uma vida
extraordinariamente pacífica — era muito lindo e existia
muita felicidade. Naquela época era difícil chegar até as ilhas
— não havia aviões, era preciso passar muito tempo num
navio, e não havia muita gente chegando; e aqueles que
chegavam, ou gostavam do modo de vida e se modificavam
segundo ele, ou não aguentavam e iam embora. Assim, nas
ilhas havia uma sensação de homogeneidade, era lindo, quase
todo mundo apreciando as mesmas coisas e vivendo muito
bem em conjunto. Mas então, no ano anterior a Pearl Harbour,
o exército trouxe 52 mil funcionários da defesa, e eles
chegaram do continente com seu ímpeto usual e assim por
diante, e aí ocorreu a transformação das ilhas. Eu vi havaianos
e orientais empurrando-se para entrar nos ônibus, pois esta era
a única maneira de poder continuar. Antes, todo mundo
simplesmente esperava sua vez. E isso começou a transformar
o povo nas ilhas, percebe, quando vem muita gente assim —
foi insuportável.
P: Você diz que a comunidade... você não diria que ela tem
que ser fechada — mas de certa forma tomar cuidado para não
deixar gente demais...
B:. É isso mesmo. E se há um núcleo, percebe, como havia no
Havaí, então este núcleo trabalha junto, e se você não deixa
muita gente entrar de uma só vez, então me parece que a
autosseleção é que tem lugar. E não é o caso de excluir
pessoas, mas elas podem vir e aquelas que se identificam, irão
gostar, e as outras desejarão mudar. Porém, se o núcleo é forte
o bastante em relação ao número de pessoas que entr am, os
outros não podem mudar o núcleo, e então, ou mudam com
ele, ou caem fora.
P: Você diria que um dos pontos pode ser algo diferente —
que não é importante ter alguém com experiência neste tipo
de comunidade, um líder, mas que o importante é construir
um modo de vida, um núcleo suficientemente forte para criar
e deixar as coisas acontecerem de maneira nova.
B: Sim, e não ter um plano antes de começar. Juntar -se e viver
com aquilo que é, pegar as coisas de fora e colocar tudo
dentro, e ver o que dá mais certo na situação. Porque se eu
tenho plano inicial, venho para a situação e tento impor o
plano, e então muita coisa não combina com o plano, e então
eu forço mais para fazer o plano funcionar, e você mencionou
os índios e a ecologia, e isso porque eles viviam na
consciência de seu meio ambiente — é por isso que podiam
entender, percebe. Ninguém pode saber tudo a respeito do
lugar onde vive. Apenas se pode aprender vivendo nele e
então, se eu me movo com as coisas e observo o que acontece,
a coisa dá certo: mas aqui tanta gente tem sua ideia própria,
até mesmo de uma comunidade, tanto que quando estávamos
aqui no primeiro verão, a casa da Varanda era chamada de
“casa da comunidade”, porque todo mundo podia ir para lá, e
muita gente veio com sua ideia própria de comunidade, sua
própria fantasia, tentando nos impor, e certo dia eu me reuni
com elas e disse: “Eu não vou mais usar a palavra
‘comunidade’”, e mudei o nome para casa da Varanda, porque
ela tem uma varanda, percebe. Então, se as pessoas chegam
com suas fantasias do que irão fazer e como as coisas vão
funcionar, então existe conflito o tempo todo. Mas se você
entra dentro para ver o que se consegue, com esta abordagem
certamente é possível.
Foi realmente engraçado, porque quando eu lhes disse que não
iria mais usar a palavra “comunidade”, muita gente fez careta:
“Bem, e o que é que você vai usar?”, eu respondi: “Nada”.
P: Você de certa forma acabou com as fantasias deles.
B: Certo. E da mesma forma, nos anúncios que temos enviado
deste lugar, temos dado uma descrição — algumas coisas que
possam ser diretamente entendidas, mas Steve botou “lindo”
quando eu só escrevi “vale deserto e isolado”; eu disse: “Não,
cada pessoa tem sua própria ideia do que é um vale lindo, e
elas virão para cá e ficarão desapontadas porque não
correspondemos às suas expectativas”; ele entendeu e
concordou, e tirou a palavra “lindo”. E às vezes eu peço às
pessoas que venham para cá sem expectativas, e se elas não
conseguem, peço que olhem para as expectativas e vejam
quão pouca informação existe nelas — o resto é tudo fantasia.
Duas moças de Washington pensavam que tinham vindo para
cá totalmente sem expectativas, e chegaram a Salt Lake City,
e ficaram desapontadas porque esperavam acampar à beira do
lago com árvores e relva verde, e não existe nada disso em
torno do Grande Lago Salgado. Então, eu acho que é
necessário, e as pessoas variam muito na compreensão disto,
mas eu acho muito necessário abandonar as expectativas e
simplesmente vir para cá — não estivemos aqui antes, não
sabemos nada sobre este lugar, há muita coisa que não
sabemos, e temos de descobrir enquanto avançamos. Isso eu
acho que pode funcionar, mas é tão frequente as pessoas terem
suas próprias ideias e, então, naturalmente, esperam que as
coisas sucedam de uma maneira determinada, e acabam
ficando muito aborrecidas quando isso não acontece. Mesmo
que a expectativa não tivesse qualquer validade. E isso que
acontece — é uma das dificuldades. De certa forma, é como
os pioneiros — os pioneiros americanos —, eles não sabiam
nada a respeito da terra em que estavam entrando, e entraram
e descobriram. Mas se soubessem, teriam passado muito mal.
P: Eu estava pensando em duas coisas — essas coisas que
você disse sobre não ter expectativas e ter consciência... isso
parece simplesmente estar disposto a descobrir algo novo que
pode ocorrer uma vez que se está junto...
(P: Sim.) porque o que eu estava pensando é, de certa forma,
que muita gente gruda suas energias a expectativas — sempre
procurando um ideal ou uma vida nova com expectativas, e
eu estava me perguntando se não se pode ter esta mesma
energia para tirar as pessoas de seus trilhos e tentar algo novo
sem expectativas, sem algumas fantasias.
B: Sim. Explorar outro caminho. Esta é a diferença. Quando
exploro, não sei o que existe, e olho em volta para ver e
descobrir, e se entro em alguma coisa com esta abordagem,
isso é muito diferente do que quando sei o que vou encontrar,
ou penso que sei e acabo não encontrando, me aborreço e todo
mundo está fazendo tudo errado. E eu gosto de abordar tudo
desta maneira.
Quando fui ao Chile (cerca de cinco anos atrás), não quis
aprender nada sobre o Chile, não quis que me contassem, mas
quis ir para lá e ver com os meus próprios olhos e com meu
próprio ser, sem expectativas. Não importa quais eram as
minhas expectativas, elas não teriam sido reais.
P: Eu lhe pergunto isto agora, porque estou seguro de estar
começando a ver e aprender coisas aqui, estando aqui com
vocês, mas outro dia e hoje de manhã a fantasia era que eu
teria de passar mais tempo — não sei quanto — apenas para
absorver realmente algumas coisas, e deixar que elas se
tornem mais profundas e mais naturais, sabe, antes de ir para
um lugar onde eu possa ter um núcleo para começar algo sem
estar atado a vocês. E daí eu perguntar: Como é que uma
comunidade gestalt seria diferente destas outras amarras que
eu não quero?
B: O difícil desta resposta é que com a Gestalt eu não sei o
que irei estar fazendo — na minha própria vida e na
comunidade — não sei o que a comunidade estará fazendo, e
então é difícil dizer, percebe. Se você tem um plano, você
pode dizer que acontecerá isto e aquilo. (P: Certo.) Mas
estando aberta a tudo que me cerca, gente, lugar e tudo mais,
e movendo-me junto, não sei onde irei parar, e não posso dizer
nada sobre isso.
P: Barry, estou ouvindo — e isso me fez recordar, sabe —
estou escutando o que você tem em comum com a abordagem
rogeriana...
B: Oh, sim! Os rogerianos — e Fritz, me parece — partem do
mesmo ponto, e uma vez eu pensei: “Oh, não seria
maravilhoso reunir Fritz e Carl simplesmente para encontrar
seus pontos de concordância”, porque esta é a verdadeira base
da coisa, percebe, mas Carl declinou o convite, e eu nem
perguntei ao Fritz porque eram precisos os dois. (P: O que
aconteceu?) Carl declinou — ele não quis. Naquela época
(não creio que seja verdade atualmente) acho que ele pensava
que eu queria forçá-lo para a Gestalt, mas eu não queria. É
simplesmente que os dois partem do princípio de que temos
tudo dentro de nós, e podemos resolver nossos próprios
problemas. E Carl enfatiza a aceitação, mas também sabia
frustrar (você viu o filme Glória — Os três Terapeutas?) (P:
Sim.) Quando vejo o filme, quase não consigo ficar sentada
com a frustração de Glória, por Carl não lhe dizer o que fazer.
E, estando com Carl, conheci essa frustração e conheço a
frustração da esposa dele com isso — quando ele não diz a
ela. Então havia muito de frustração, nessa ênfase sobre
aceitação. Fritz enfatiza a frustração, e junto vinha um bocado
de aceitação.
P: Outro dia você estava me dizendo que o que o Fritz lhe
acrescentou foi que você pôde ver mais claramente o que
estava fazendo.
B: Sim. Na época em que terminei o livro Person to Person
(De pessoa para pessoa) pensei, ótimo — eu já sei, e como é
que vivo isso? E com a percepção que tive através da maneira
de Fritz abordar a coisa, no início trabalhei com ele, mas
depois aprendi e fui capaz de fazer sozinha, de modo que pude
ver mais, todo o tempo. E me clarificar mais todo o tempo. E
ainda faço isso. E descubro coisas ridículas — que durante
anos trabalhei para não ser a mãe de Steve — para deixá-lo
livre — e não tenho nenhuma sensação de que ele é meu filho.
Às vezes eu digo, ele é meu filho, mas é como mencionar que
eu escrevo livros ou algo assim, não quer dizer nada, sabe.
Mas o que fiz com isso — ele não é meu filho, é uma pessoa
separada e eu estou com ele como com outra pessoa, mas tive
dificuldades o tempo inteiro — oh, durante tanto tempo —
cerca de quinze anos, por não me sentir especialmente atraída
pelas mulheres que ele ama. As mulheres de quem ele gosta,
com elas me sinto bem — estamos de acordo etc., mas as
mulheres que ele ama, não tenho sido receptiva a elas, e
descobri em algum ponto do caminho que eu estava me
punindo por causa disso, por não ser receptiva às mulheres
que ele ama (agora estou pensando em quatro delas). Só
recentemente, pouco antes de ir à Califórnia, trabalhei com a
fantasia da roseira e as minhas folhas tinham espinhos,
espinhos pequenos, e as folhas estavam viradas de modo que
os espinhos as estavam espetando; e quando trabalhei com
isso, descobri que eu ainda estava me espetando por causa
disso, e de onde é que isso vinha? Vinha do tempo em que ele
ainda nem tinha se casado, quando eu fiz a mim mesma a
promessa de gostar da mulher que ele escolhesse, qualquer
que fosse, de modo que ainda estava levando comigo a sogra,
mesmo tendo abandonado a mãe. E isto é tão absurdo. Então
agora me sinto muito mais à vontade por ter descoberto. Era
a promessa que fiz a mim mesma. Eu acho que é muito
importante olhar para as promessas que fazemos a nós
mesmos, porque elas são feitas com informações
insuficientes, como qualquer coisa que diga respeito ao
futuro. Eu nunca tenho inspiração bastante para o futuro eu
— posso ter agora o suficiente. Mas o absurdo de me apegar
à imagem de sogra e a minha promessa a mim mesma, quando
já tinha deixado de ser a mãe do meu filho.
Estar disposta a olhar para as raízes de algo que esteja me
causando dificuldades. Para mim, todos os meus problemas,
todos, estão dentro de mim, não estão lá fora com ninguém.
Estão todos comigo, quando estou disposta a olhar para dentro
de mim e descobrir a raiz da minha dificuldade, e numa
comunidade, obviamente, isso é importante.
P: Volto ao que você disse ter recebido da Gestalt, que é neste
seu exemplo, “uma forma de resolver suas dificuldades
sozinha”, como na fantasia da roseira — você percebeu algo
sobre sua relação com Steve e as mulheres que ele ama.
Desenvolveu uma maneira de trabalhar consigo mesma.
B: E há outras maneiras — a Gestalt oferece muitas maneiras,
eu seleciono aquela que me parece certa no momento. Às
vezes mantenho um diálogo e, com a segunda mulher de
Steve, eu constantemente entrava numa de estar sendo sugada
por ela e sentir pena dela etc.; havia algo de errado nisso e eu
não conseguia ver o que era — havia coisas que ela dizia,
como que se explicando, “Bem, entende, eu nunca ouvi minha
mãe dizer uma palavra áspera”, e eu começava a pensar nisso,
sabe, “Ah, sim, é difícil ouvir palavras ásperas se você nunca
ouviu sua mãe dizer nenhuma”. E depois, eu pensava: “Eu
nunca ouvia minha mãe dizer uma palavra áspera”. E aí está
uma explicação que não gruda, entende. E havia m il coisas
como essa acontecendo, até que um dia eu a coloquei na
cadeira vazia e comecei a conversar com ela e, em pouco
tempo, era a minha mãe que ali estava, e eu podia ouvi -la com
tanta clareza (ela está morta há mais ou menos trinta anos),
mas ali estava ela, tai como eu a tinha visto. A minha mãe
sempre me enfraquecia dizendo que não aguentava essas
coisas — que não era suficientemente — forte ela fazia isso
com o meu pai quando eu o enfrentava, e lhe dizia: “Oh, eu
não aguento isso, eu não aguento isso, vou desmaiar”, sabe,
coisas assim, e eu fui sendo minada, e estava entran do numa
coisa parecida. Então, quando a minha mãe apareceu e eu
conversei com ela e tudo ficou esclarecido, que eu não sou
mais criança, e ficou claro que aqui não há relação, e então
não fui mais sugada por Danelle, e eu acho, é claro, que ela
não gostou disso, mas aí o problema é dela — do meu eu
cuidei, e não estava fazendo nada contra ela. Eu nunca fiz
nada contra nenhuma das mulheres dele — nunca fiz nada
contra elas, mas por causa da minha própria confusão,
entende, eu estava sempre ordenando a mim mesma que
deveria gostar delas. O gostar é ou não é — não se pode
obrigar a si mesmo a gostar de alguém. Se eu me obrigo a
gostar de alguém, isso é falso, porque ou é ou não é. Neste
momento, é ou não é. Aí está outra coisa com relação às
comunidades — tudo que sei é que elas se baseavam em que
todo mundo devia amar todo mundo, e a vida não é assim,
amar o tempo todo. Certa vez eu estava numa escola
comunitária com um homem negro, e a escola era dirigida
pelos pais dos alunos, e eles estavam tentando f azer com que
todo mundo amasse todo mundo. Passei um dia com eles, e na
manhã seguinte eles me disseram que o homem (o negro) não
tinha entendido, e depois ele entrou e num intervalo eu
conversei com ele. Ele me disse: “Eu não entendo essa gente
— eles querem que todo mundo ame todo mundo o tempo
todo, e as coisas não são assim”. Ele disse: “Você sabe como
é — um dia um sujeito vem e lhe dá um grande abraço, e no
dia seguinte ele passa reto. E é assim que as coisas são". Mas,
conversando comigo, ele pôde ver tudo mais claro dentro de
si, e disse isso aos pais. Eles não entenderam nada. Tentar
forçar algo, entende, forçar sempre é errado. E isso é forçar e
pressionar — fazer com que todo mundo ame todo mundo, e
que eu tenha de amar todo mundo o tempo todo. Ao passo que,
quando vivo à vontade com... desta vez, estamos tendo
momentos ótimos juntos, e da outra não estaremos. E quando
há circulação e fluxo ... A família — a família americana é
supostamente sagrada neste país. E este mito é gigantesco. É
terrível — o que se passa nas famílias!
P: As famílias brasileiras são ainda mais sagradas (ambos
riem). Há muito mais pressões neste sentido. Eu estava
tentando voltar a algo sobre Rogers e Perls. Certa vez, lendo
um livro sobre Gestalt e refletindo sobre algo qu e se passou
comigo, o que eu entendi foi que a Gestalt às vezes é mais
centrada na pessoa, isto é, se ela está se falseando, se não está
centrada no que está realmente acontecendo, dentro de si, em
seu organismo, pede-se que ela exagere esta farsa ou entre em
contato com algo mais organísmico. Desta maneira, tenta -se
respeitar o que está se passando, o que a própria pessoa não
faz, ao ser falsa. Como você colocaria isso, Barry ... u ma
ponte?
B: Primeiro deixe-me dizer que não tenho estado com Carl
Rogers há algum tempo, e ouvi dizer que ele está muito mais
Gestalt do que costumava ser. Não tenho estado com ele, e
não posso dizer por mim. Mas é sempre preciso lembrar que
pessoas que dão início a coisas deste tipo, elas próprias estão
se movendo e modificando, e realmente não posso dizer nada
sobre o que Carl Rogers pensa atualmente em termos de
terapia centrada no cliente.
Eu não sei. E não sei onde o Fritz estaria se ainda estivesse
vivo, porque ele também estaria se modificando. (P: Certo.)
Mas me parece que Carl proporciona o clima, e conversando
sobre o passado, ele proporciona um clima no qual a pessoa
tem mais probabilidade de chegar ao real e descobrir como se
falseia. E, com o Fritz, ele mostra neste instante — a ter
consciência neste instante. E vai mais rápido — esta é uma
das coisas boas da Gestalt para mim — ela parece ser
decididamente mais rápida, simplesmente fazendo com que as
pessoas presentifiquem este instante. Se alguém tem um
momento de tristeza e começa a rir — sabe — mostrar o que
ela fez e fazê-la entrar em contato com isso nesse instante —
ela está sabendo que foi isso que ela fez. E isso vai muito mais
rápido do que se, durante um período de tempo, a pessoa
percebe “sim, é isso que eu faço”.
P: Isso é algo que eu tenho estado meio... eu sei que Rogers
também está, entre outras coisas, trabalhando muito mais na
congruência do terapeuta do que na aceitação ou empatia
total, e todas essas coisas. (B: Sim.) Mas o que eu vi foi —
Rogers saiu de Freud; Freud foi para o passado, formulou toda
a teoria; e então Carl disse: “Eu não vou colocar esta pessoa
nesta teoria”. Então, não vou procurar a criança e o que está
enterrado etc., e então passou a escutar — e as pessoas
conversavam com ele, não sobre o passado, mas sobre a
situação presente, e os dois ou três próximos anos. E então ele
lida com a pessoa neste período. Ele começou a escutar coisas
atuais porque não estava procurando outras coisas. (B: Sim.)
E Fritz fica ressaltando o que é real, o que é presente agora.
O que está acontecendo agora, e é aí que ele é radical. E se há
algo do passado, vá para lá ou o que é a mesma coisa, traga
para cá, agora!
B: Sim, E Perls e Rogers têm... a psicanálise volta a tudo que
aconteceu, vezes e vezes seguidas, e tudo, e se envolve nisso
mais e mais. Ao passo que com Carl e Fritz nós passamos por
muitas coisas traumáticas e as elaboramos dentro de nós, e
outras, não. E entre essas que não elaboramos, algumas estão
ativamente provocando dificuldades agora, e essas são as
únicas que precisam ser lidadas. Eles também têm essa base.
Reviver experiências passadas, o que acontece com muita
frequência na Gestalt, e tenho certeza que também acontece
na terapia centrada no cliente — reviver algo do passado é
sempre muito esclarecedor, porque a memória de algo que
está distorcido é muito diferente do que realmente sucedeu,
então quando eu revivo algo (eu sei que isso acontece
frequentemente em Gestalt)... Outra coisa que gosto na
Gestalt é que Fritz pegou coisas (ele mesmo disse isso), ele
pegou o feedback de Carl, só que de maneira distinta, e pegou
de Moreno, o psicodrama, sem ninguém mais tomar parte da
coisa (contracenar) de modo que lá está toda a pessoa, e não
sofre interferência de outros. E a couraça muscular de Reich,
e há ainda outro que não estou me lembrando. Mas, em todo
caso, ele pegou essas coisas e as modificou um pouco, e
juntou tudo. Então a Gestalt tem muito mais facetas do que vi
na terapia rogeriana. E eu também gosto disso.
P: Caminhando nesta direção — antes de Rogers, no Brasil,
havia quase que só psicanálises, ele representou um grande
avanço — uma abertura para muitas coisas. (B: Sim.) E no
Brasil as pessoas estão muito interessadas em Rogers, que é
uma coisa, bem mais antiga, e ali a Gestalt está apenas no
começo. Há muita gente interessada nela, lendo livros como
Gestalt-terapia explicada e Tornar-se presente, e o livro da
Fagan, e algumas vieram para cá para workshops em Gestalt
e realmente experimentarem, e de certo modo tentam,
Barry,... bem, de fato, temos um pequeno grupo que se r eúne
uma vez por semana, e chamamos alguns gestalt-terapeutas
daqui para nos darem workshops intensivos, e estamos
pensando, talvez, na fundação de um Instituto Gestalt. O que
você poderia dizer de útil para essas pessoas que estão
tentando entrar na Gestalt lá, sem muitas oportunidades de ter
experiências?
B: Eu gostei muito da abordagem das poucas pessoas (não
eram muitas) na Austrália que estavam interessadas em
Gestalt. A maneira deles era muito interessante. Eu levei
filmes para lá e conversei com eles, tive alguns grupos e, por
exemplo (vi outros fazerem coisas deste tipo)... duas
mulheres, uma era assistente social e outra era psiquiatra num
hospital, e a Austrália é tão rígida e retrógrada, que essas duas
mulheres, quando foram ao primeiro psicodrama, vestiam
calças, mas em casa tinham de mantê-las escondidas, porque
não podiam usar calças. O que elas fizeram foi — assistiram
aos filmes, realmente ouviram o que se passava, obtiveram
outras informações etc., e quando viam algo que podiam
tentar, tentavam entre si para ver como funcionava, o que
sucedia, e então começaram a usar com enfermeiras e quando
se deparavam com uma coisa nova, tentavam; e esta é uma
maneira bastante gestáltica de agir, entende. Não tentar
agarrar tudo, e sim pegar uma coisa e usar consigo mesmo, e
depois com as enfermeiras, entende. Havia uma mulher, outra
assistente social, que me contou que tinha um filho de sete
anos que não falava. Ela foi com ele a um terapeuta e a criança
continuou sem falar, sem dizer nada, e então ela sugeriu à
criança que falasse consigo mesma e a criança continuou sem
fazer nada. Então a mulher reconheceu o conflito em si
própria, e teve um diálogo com a cadeira vazia, com a criança
presente — e aconteceu que ela realmente pensava que seria
útil à criança fazer isso, mas não queria forçá-la. Então teve
o diálogo consigo mesma, com a criança presente, e a criança
começou a conversar com a cadeira vazia. Você percebe,
descobrir algo que pode ser usado, estar consciente de si
mesmo, e aprender à medida que avança. Isso faz sentido para
mim. Mas neste país, o que geralmente acontece com Gestalt
é que as pessoas escolhem algumas técnicas e as utilizam (elas
não as utilizam consigo mesmas), elas as utilizam com os
outros, não sabem do que se trata — às vezes acontecem
coisas boas, às vezes não. Mas a coisa não se mexe, não
cresce, só fica parada onde está.
P: Isso quer dizer que uma das maneiras é começar fazendo
conosco mesmo nesse pequeno grupo?
B: Sim. E...
P: E então, tomar consciência... (B: Certo.) Isso que você
contou sobre a criança, é realmente incrível.
B: Sim. Foi maravilhoso. Ela notou o que se passava dentro
de si própria, e então o fez com a criança presente, e a criança
começou a fazer. Você percebe, o que passou para a criança
foi algo tão diferente de qualquer coisa que a mulher pudesse
dizer — eu quero que você faça isso, porém ao mesmo tempo,
isto, e assim por diante... Mas quando ela teve um diálogo
consigo mesma, sobre o que se passava dentro dela, a criança
pôde se relacionar com isso. Foi maravilhoso.
P: Provavelmente ela foi muito mais clara — para si mesma,
e para a criança.
B: Certo. E por outro lado, quando as pessoas pegam os
truques e fazem algo —- essas são as pessoas que estudam, e
estudam, e não estão dispostas a fazer nada enquanto não
estiver perfeito. Sempre se esquivando, em vez de fazer o que
eu sei e aprender com isso, e depois fixar-se em outra coisa,
e mover-se. Da minha parte, eu não vejo conflito entre
rogerianos e Gestalt — eu passo facilmente de um para outro.
Carl nunca fez psicanálise e para ele isso foi uma bênção.
Nunca fez. Ele fez outras coisas antes — ele foi seminarista.
Deixou o seminário porque não podia acreditar naquelas
coisas a vida inteira, quando suas crenças já tinham mudado
tanto, e então saiu. Mas ele sabia qual era a situação, e que
não seria respeitado por não fazer psicanálise, mas ele seguiu
seu próprio caminho e foi muito xingado e, mesmo depois, foi
chamado de místico e desprezado. Mas ele se manteve firme,
e aí está. Fritz passou por toda a psicanálise, e às vezes parte
dela interferia porque você sabe que quando se fica muito
tempo numa coisa, às vezes ela volta, mesmo que você não a
aprove. E assim, às vezes, o psicanalítico aparecia. Mas, tudo
bem, eu posso reconhecer que é o resíduo psicanalítico dele,
e não preciso trazê-lo para mim.
P: Isso me traz uma pergunta. Você, Barry, você usa os
conceitos que o Fritz tirou da psicanálise? Por exemplo, ele
fala de projeção, introjeção, retroflexão, dessensibilização
(um ponto morto em alguma parte do corpo ou numa
experiência). Como é que você utiliza estes conceitos, se é
que os utiliza?
B: Fritz sempre falava dos buracos na personalidade. Essa não
é uma coisa com que eu tenha facilidade, de modo que nunca
cheguei a utilizar esse conceito. Para ele, ele contava o
extremo prazer que sentia quando alguém descobria os
buracos em sua própria personalidade. Mas, em termos de
mim mesma, é muito mais — como é que eu me bloqueio? E
como é que posso superar esse bloqueio? E é assim que eu
penso. E não faço uso de conceitos elaborados. E tento me
livrar ao máximo de conceitos.
P: Estou novamente ouvindo Rogers.
B: Ah, sim. E certa vez Susan comentou: “Você faz Gestalt à
maneira rogeriana”. Essa é minha abordagem. E eu, de
maneira nenhuma, sinto que todo mundo deva fazê-lo dessa
forma, porque há muitos terapeutas bons que não o fazem,
mas ela me atrai. E no começo Rogers me atraiu, entende. Na
época eu não sabia nada sobre Gestalt. Quando escrevi Person
to Person, eu ainda não tinha lido nada sobre Gestalt. E no
entanto, há Gestalt nesse livro.
E eu gosto muito disso — que a Gestalt, em si, não é uma
invenção, mas qualquer um de nós pode tomar consciência
dela a qualquer hora, e as coisas que temos inventado para nos
ajudar a tomar contato são partes — apenas algumas
ferramentas que podem ser usadas com bastante utilidade, ou
podem ser mal empregadas como quaisquer outras
ferramentas. Eu, por mim, não encontrei conflito nenhum
entre Rogers e Gestalt. Sim, existem coisas como os resíduos
psicanalíticos do Fritz, que não significam nada para mim, e
eu os deixo de lado. Mas sou capaz de reconhecer que se
penso que você está pensando algo, e esse pensamento é meu
— não é seu — eu não estou em contato com o seu
pensamento. Não sei o que está se passando dentro de você.
E não preciso saber. Este é um fato simples que sou capaz de
reconhecer. Sei reconhecer que se penso que alguém está se
sentindo deprimido, posso verificar em mim mesma para ver
se eu estou deprimida, e jogando a depressão sobre outra
pessoa. Essas coisas eu sei verificar sozinha, e elas realmente
não têm nada a ver com teorias. Talvez haja uma teoria que
se aplique a elas, mas isso não importa.
P: “Projeção” é apenas uma palavra? (B: Sim.) Ela não faz
você ter contato.
B: Eu não emprego a palavra projeção. Mas, na realidade, eu
a verifico em mim. Se estou projetando, posso perceber. Mas
este é apenas um processo de tomada de consciência, e eu não
uso o rótulo. Quando estive doente, uma das coisas que fiz...
Entende, eu fiquei de cama quase o tempo inteiro, durante
vários anos, vivendo sozinha, e não podia fazer nada. Não
podia ler, não podia escrever, e assim por diante, e uma das
coisas que fiz foi olhar para muitos fatos da minha vida e notar
coisas que se passavam em mim. Como uma coisa que eu
sabia era que por muitos anos não gostei de cor-de-rosa e
observei isso, e achei muito ridículo porque gosto do rosa do
céu, e na melancia, e mesmo assim, ficava o tempo todo
dizendo que não gostava de cor-de-rosa. Então me deitei e
fiquei com isso na cabeça, e então ouvi uma voz dizendo:
“Não gosto de cor-de-rosa, não gosto de cor-de-rosa, não
gosto de cor-de-rosa” e, no início, parecia uma pessoa
falando, e depois a voz se dividiu na minha tia Alice, na minha
mãe e na minha irmã Alice. Parece que a minha tia, que era
uma pessoa dominadora, dizia que não gostava de cor-de-
rosa, e a minha mãe e minha irmã pegaram isso dela. Agora a
minha tia... muitas coisas dela não tinham nada a ver, como
essa — era só deixá-las de fora, não deixar que entrassem.
Mas com a minha mãe e minha irmã, era diferente, e deixei
entrar, entende. E tudo isso simplesmente acontece, e fica
claro que fiquei com toda essa informação dentro de mim, e
quando me abri para ela... Descobri que gosto de muitas
coisas cor-de-rosa e não gosto de outras tantas.
***
Barry já passou dos setenta. E vive em sua cabana de madeira
a uns cem metros das outras casas deste sítio, num vale do
estado de Utah, perto de um rio com corredeiras e remansos.
Tem seu isolamento quando quer. E conheci poucas,
raríssimas pessoas com tanta disponibilidade para o contato.
Tem um interesse ativo, alerta, e muito perceptivo pelas
pessoas. Passamos três manhãs inteiras conversando, e nas
três vezes me surpreendi quando percebi como o tempo
passava rápido. E por várias vezes as suas gargalhadas
desataram as minhas. Ao me aproximar de sua cabana, um
pouco antes das oito, o martelar ativo de sua máquina de
escrever passava célere pela porta entreaberta.
Paulo Barros
NOVAS BUSCAS EM PSICOTERAPIA - VOLUMES
PUBLICADOS

1. Tornar-se Presente — Experimentos de crescimento em Gestalt-


Terapia — John O. Stevens.
2. Gestalt-Terapia Explicada — Frederick S. Perls.
3. Isto é Gestalt — John O. Stevens (org.).
4. O Corpo em Terapia — A abordagem bioenergética —
Alexander Lowen.
5. Consciência pelo Movimento — Moshe Feldenkrais.
6. Não Apresse o Rio (Ele corre sozinho) — Barry Stevens.
7. Escarafunchando Fritz — Dentro e Fora da Lata de Lixo —
Frederick S. Perls.
8. Caso Nora — Consciência corporal como fator terapêutico —
Moshe Feldenkrais.
9. Na Noite Passada Eu Sonhei... — Medard Boss.
10. Expansão e Recolhimento — A essência do t’ai chi — Al
Chung-liang Huang.
11. O Corpo Traído — Alexander Lowen.
12. Descobrindo Crianças — A abordagem gestáltica com crianças
e adolescentes — Violet Oaklander.
13. O Labirinto Humano — Causas do bloqueio da energia sexual
— Elsworth F. Baker.
14. O Psicodrama — Aplicações da técnica psicodramática —
Dalmiro M. Bustos e colaboradores.
15. Bioenergética — Alexander Lowen.
16. Os Sonhos e o Desenvolvimento da Personalidade — Ernest
Lawrence Rossi.
17. Sapos em Príncipes — Programação neurolinguística —
Richard Bandler e John Grinder.
18. As Psicoterapias Hoje — Algumas abordagens — leda Porchat
(org.)
19. O Corpo em Depressão — As bases biológicas da fé e da
realidade — Alexander Lowen.
20. Fundamentos do Psicodrama — J.L. Moreno.
21. Atravessando — Passagens em psicoterapia — Richard
Bandler e John Grinder.
22. Gestalt e Grupos — Uma perspectiva sistêmica — Therese A.
Tellegen.
23. A Formação Profissional do Psicoterapeuta — Elenir Rosa
Golin Cardoso.
24. Gestalt-Terapia: Refazendo um Caminho — Jorge Ponciano
Ribeiro.
25. Jung — Elie J. Humbert.
26. Ser Terapeuta — Depoimentos — leda Porchat e Paulo Barros
(orgs.)
27. Resignificando — Programação neurolingüística e a
transformação do significado — Richard Bandler e John Grinder.
28. Ida Rolf fala sobre Rolfing e a Realidade Física — Rosemary
Feitis (org.)
29. Terapia Familiar Breve — Steve de Shazer.
30. Corpo Virtual — Reflexões sobre a clínica psicoterápica —
Carlos R. Briganti.
31. Terapia Familiar e de Casal — Introdução às abordagens
sistêmica e psicanalítica — Vera L. Lamanno Calil.
32. Usando sua Mente — Aí coisas que você não sabe que não sabe
— Richard Bandler.
33. Wilhelm Reich e a Orgonomia — Ola Raknes.
34. Tocar — O Significado humano da pele — Ashley Montagu.
35. Vida e Movimento — Moshe Feldenkrais.
36. O Corpo Revela — Um guia para a leitura corporal — Ron
Kurtz e Hector Prestera.
37. Corpo Sofrido e Mal-Amado — Aí experiências da mulher com
o próprio corpo — Lucy Penna.
38. Sol da Terra — O uso do barro em psicoterapia — Alvaro de
Pinheiro Gouvêa.
39. O Corpo Onírico — O papel do corpo no revelar do si-mesmo
— Arnold Mindell.
40. A terapia mais breve possível — Avanços em práticas
psicanalíticas — Sophia Rozzanna Caracushansky.
41. Trabalhando com o corpo onírico — Arnold Mindell.
42. Terapia de vida passada — Livio Tulio Pincherle (org.).
43. O caminho do Rio — a ciência do processo do corpo onírico —
Arnold Mindell.
44. Terapia Não-Convencional — as técnicas psiquiátricas de
Milton H. Erickson — Jay Haley.
45. O Fio das Palavras — um estudo de psicoterapia existencial —
Luiz A.G. Cancello.
46. O Corpo Onírico nos Relacionamentos — Arnold Mindell.
47. Padrões de distresse — Agressões emocionais e forma humana
— Stanley Keleman.
48. Imagens do Self — O processo terapêutico na caixa-de-areia
— Estelle L. Weinrib.
49. Um e um são três — O casal se autorrevela — Philippe Caillé
50. Narciso, a bruxa, o terapeuta elefante e outras histórias psi —
Paulo Barros
51. O Dilema da Psicologia — o olhar de um psicólogo sobre sua
complicada profissão — Lawrence LeShan
52. Trabalho corporal intuitivo — Uma abordagem Reichiana —
Loil Neidhoefer
53. Cem anos de psicoterapia... — e o mundo está cada vez pior —
James Hillman e Michael Ventura.
54. Saúde e Plenitude: um caminho para o ser — Roberto Crema.
55. Arteterapia para famílias — abordagens integrativas —
Shirley Riley e Cathy A. Malchiodi.
56. Luto — Estudos sobre a perda na vida adulta — Colin Murray
Parkes.
57. O Despertar do Tigre — curando o trauma — Peter A. Levine
com Ann Frederick.

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