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APOSTILA DE CRIMINOLOGIA
Versão 2.0 em 15-11-2003

PROF. EVANDRO ANDRADE DA SILVA


www.direitopenal.cjb.net
e-mail: evandroandradesilva@yahoo.com.br
evandro114@yahoo.com.br
evandro.silva@mail.com

Programa de Criminologia – Universidade Estácio de Sá


Tipo Curso: 11 - GRADUAÇÃO Curso:1 - DIREITO
Versão Programa Disciplina: 1 Vigência: 1/1/1999 Até o momento
EMENTA:
Conceito. Evolução histórica. Teorias Criminologia e Direito. Política
Criminal. Criminologia e Ciências afins. Estatística criminal. Investigação
criminológica. Delinqüência infanto-juvenil. Criminalidade feminina. Sistemática penal.
Estudo da conduta criminosa. Vitimologia.
Fatores criminológicos e soluções. Constituição e sistemática penal.
Realidade prisional brasileira.
OBJETIVOS:
1. Estudar o indivíduo criminoso, a natureza da sua personalidade e
os fatores criminógenas.
2. Analisar a criminalidade e sua nocividade social.
3. Conhecer e propor meios capazes de prevenir a incidência e a reincidência no crime e
a recuperação do delinqüente.
CONTEÚDO PROGRAMÁTICO:
Unidade 1 - CONCEITO, EVOLUÇÃO HISTÓRICA E TEORIAS
Unidade 2 - CRIMINOLOGIA E DIREITO
Unidade 3 - Criminalidade e ciência afins
Unidade 4 - POLÍTICA CRIMINAL E ESTATÍSTICA CRIMINAL
Unidade 5 - DETERMINISMO CRIMINAL
Unidade 6 - INVESTIGAÇÃO CRIMINOLÓGICA
Unidade 7 - DELINQÜÊNCIA INFANTO-JUVENIL E CRIMINALIDADE FEMININA
Unidade 8 - CONDUTA CRIMINOSA E VITIMOLOGIA
Unidade 9 - SISTEMÁTICA PENAL E REALIDADE PRISIONAL
Unidade 10 - FATORES CRIMINÓGENOS E SOLUÇÕES
Unidade 11 - A CONSTITUIÇÃO FEDERAL E A SISTEMÁTICA PENAL

Conceito de Criminologia

A palavra Criminologia foi empregada pela primeira vez em 1883, por


Topinard, e aplicada deforma universal por Rafael Garofalo, em sua obra
"Criminologia".
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Para denominar essa matéria que é a "ciência do delito como conduta",


a história aplicou vários vocábulos, como "antropologia criminal", "biologia
criminal", "endocrinologia criminal", "reflexologia criminal".
Foi Lombroso quem deu início sistemático a antropologia criminal,
precedido anteriormente por João Batista Della Porta (1540/1615) Kaspar
Lavater (1741/1801) e Francisco Gall (1758/1828).
Tendo em vista a aproximação de várias classes do conhecimento,
englobando o saber criminológico e os diferentes âmbitos da realidade
que devem ser analisados para compreender o fenômeno da
delinqüência, define-se Criminologia como "ciência empírica e
interdisciplinar", que se ocupa da circunstância da esfera humana e social,
relacionadas com o surgimento, a comissão ou omissão do crime, assim
como o tratamento dos violadores da lei.

Jiménez de Asúa:

"A criminologia é a ciência causal-explicativa composta de quatro


ramos (antropologia criminal, psicologia criminal, sociologia criminal e
penologia) e distinta das ciências jurídico-repressivas (direito penal,
direito processual penal e política criminal), da ciência da investigação
criminal (compreendendo política criminal, medicina legal, penologia,
psiquiatria forense, polícia judiciária científica, criminalística, psicologia
judiciária e estatística criminal)". 1

É lícito afirmar que, como ciência unitária e interdisciplinar que é, a


Criminologia se interliga às ciências humanas. De fato, a Biologia, a
Psicologia e a Psicanálise são instrumentos essenciais à Criminologia
Clínica,
Por outro lado e como já foi explanado, a Criminologia igualmente se
relaciona com as ciências criminais: o Direito Penal lhe delimita o objeto; o
Direito Processual Penal inquire a ocorrência do ato criminal e se interessa
pelo exame da personalidade do delinqüente; o Direito Penitenciário,
através de seus laboratórios de Biotipologia, regula o programa de
ressocialização; a Medicina Legal, a Polícia Judiciária e "a Policiologia
colaboram na investigação científica da materialidade do fato criminoso.

1
Tratado de Derecho Penal, Buenos Aires, 1950, tomo I, p. 75.
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A classificação de Luis Jimenez de Asúa

É bem de ver que os três elementos relacionados ao fenômeno penal -


o crime, o delinqüente e a pena - constituem o centro das
preocupações das ciências penais no seu todo, ou seja, a denominada
Enciclopédia das Ciências Penais, ciências que assim são agrupadas e
classificadas por Luis Jimenez de Asúa: a) Ciências Histórico-Filosóficas:
História do Direito Penal, Filosofia do Direito Penal e Direito Penal
Comparado; b) Ciências Causal-Explicativas: Criminologia, Antropologia
Criminal, Sociologia Criminal, Biologia Criminal, Psicologia Criminal e
Psicanálise Criminal; c) Ciências Jurídico-Repressivas: Direito Penal, Direito
Processual Penal e Direito Penitenciário; d) Ciências Auxiliares e de
Pesquisa: Penologia, Política Criminal, Medicina Legal, Psiquiatria Forense,
Polícia Judiciária Científica, Criminalística, Psicologia Judiciária e Estatística
Criminal.

Ramos e atribuições da Criminologia

Importante salientar, ainda uma vez, a natureza científica da


Criminologia e sua autonomia. É ciência autônoma porque possui um
objeto perfeitamente delimitado: os fatos objetivos da prática do crime e
luta contra o delito. Sua esfera de ação, além disso, é demarcada pl
universo normativo do Direito.

Orlando Soares em sua obra , “Curso de Criminologia” disserta que a


delinqüência é composta de quatro fenômenos que são: o crime, o
delinqüente, a pena e a vítima.

A propósito, de assinalar que, em reunião internacional da Unesco, em


Londres, logrou-se desmembrar a Criminologia em dois ramos:
Criminologia Geral e a Criminologia Clínica. Desse conclave participaram
criminólogos do mais alto nível e, dentre eles, Pinatel, Kinber, Wolfgang,
Sellin e o brasileiro Leonídio Ribeiro. Esse desmembramento, do consenso
da Unesco, inclusive foi acolhido por Lopez-Rey e pelo ilustre médico e
professor italiano Franco Ferracuti.
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Para o sociólogo norte-americano Martin E. Wolfgang e para o


psicólogo italiano Franco Ferracuti, a Criminologia se desdobra em
Criminologia Sociológica e Criminologia Clínica. A Criminologia Sociológica
compreende o magistério e a investigação com base na Sociologia. A
Criminologia Clínica se manifesta por via da aplicação dos conhecimentos
criminológicos e do estudo dos problemas forenses e penitenciários,
consistindo, em síntese, na aplicação integrada e conjunta do saber
criminológico e técnico para solução de casos particulares, com fins de
diagnóstico e terapêutica.
As disciplinas preconizadas por Wolfgang e Ferracuti seriam de dois tipos:
a) disciplinas fundamentais ou ciências criminológicas: Biologia Criminal,
Psicologia Criminal, Sociologia Criminal, Penologia e Criminologia
propriamente dita; b) ciências anexas e Medicina Legal, Psicologia
Judiciária e Polícia Científica.2

Pontifica do explicitado, por sua objetividade e abrangência, a divisão


adotada pela Unesco, ou seja: Criminologia Geral e Criminologia Clínica,
competindo à primeira a comparação e sistematização dos resultados
obtidos nas diversas ciências criminológicas e estudando, a partir desse
momento, o criminoso, o crime e a criminalidade. O crime sendo
considerado consoante a situação do ato criminoso, sua forma, os fatores
da infração e a dinâmica de determinados delitos. O criminoso sendo
analisado segundo a disposição hereditária, o biótipo, o transtorno mental
e o mundo circundante. A criminalidade sendo encarada em razão de suas
tendências, dos tipos criminosos e da violência empregada.
Como bem esclarecem Wolfgang e Ferracuti, a Criminologia Clínica
consiste no approche interdisciplinar no caso individual, com a
contribuição dos princípios e métodos das ciências criminológicas. O
objetivo desse enfoque interdisciplinar é estudar a personalidade do de-
linqüente para estabelecer o diagnóstico criminológico e a prognose so-
cial, com proposta do plano de ressocialização do criminoso. Em outras
palavras: aplicar os princípios e métodos das criminologias especializadas,
comportando as seguintes etapas: exame, diagnóstico, prognóstico e
tratamento. O grande mérito do exame criminológico é aquele de ensejar
o conhecimento integral do homem delinqüente, sem o que não se
aplicará uma justiça eficaz e apropriada, restando mero critério de valo-
rização político-jurídica.
A Criminologia Clínica consiste na aplicação pragmática do conhecimento
teórico da Criminologia Geral, sem que isto desvirtue o caráter autônomo
daquela, conquanto intimamente ligadas ambas as criminologias. Além
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Criminologia Integrada – Newton Fernandes e Valter Fernandes – Ed. Revista dos Tribunais
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do mais, a pesquisa científica tem como ponto de partida a Clínica


Criminológica. Clínico e pesquisador se completam no progresso científico
da Criminologia.

De lembrar que é a Criminologia Geral que sistematiza os resultados


das criminologias especializadas e os dados da prática criminológica. O
caso particular demanda um estudo interdisciplinar, com supedâneo nas
ciências criminológicas e na experiência clínica dos centros de observação
e estabelecimentos de reeducação do delinqüente. A observação
científica é um dos métodos da Criminologia Clínica, seguida de
interpretação no caso de diagnóstico criminológico, ainda que na fase de
execução do tratamento reeducativo, antes, portanto, da classificação
penitenciária ou início do programa de reeducação do delinqüente.

Para Pinatel, e também para Carrol, a futura Criminologia sairá da


elaboração e sistematização da prática criminológica. Tem-se a
Criminologia Clínica como o traço de união entre a Criminologia
propriamente dita e a Penologia. A Criminologia Clínica, em última
instância, tem por finalidade o estudo da personalidade do delinqüente e
o seu tratamento. Dissente, por conseqüência, da Psiquiatria Criminal, que
se restringe à perícia psiquiátrica e à avaliação da responsabilidade
criminal. No plano científico, na verdade, a Criminologia Clínica principia
onde finda a Psiquiatria Médico-Legal, melhor dizendo, onde se abandona
o domínio patológico.
A rigor, o estudo da Criminologia Clínica deverá absorver sua
interdisciplinariedade e também os seguintes temas: Penologia, Direito
Penitenciário, exame médico-psicológico e social do delinqüente,
classificação penitenciária e plano de tratamento reeducativo do preso,
espécies de tratamento (institucional em semi-liberdade etc.), métodos de
trabalho reeducativo (pedagógicos, psicológicos, psiquiátricos, socioló-
gicos) execução do processo de cura reeducativo (labor nos centros de
observação, nas casas de reeducação, nos nosocômios de custódia e as-
sistência psiquiátrica etc.).
Embora voltada para a reeducação do delinqüente e sua reinserção
social, a Criminologia Clínica igualmente contribui para a prevenção da
criminalidade e para a extirpação das condições criminógenas da
sociedade através de pesquisas junto à coletividade e notadamente em
bairros miseráveis e favelas.
Compete, enfim, à Criminologia, servindo-se do método, científico, o
estudo do criminoso e do crime, como acontecimentos sociais que são,
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provindos de múltiplas causas internas e externas. Minudenciando a


conceituação, o criminologista Orlando Soares indica, com descortino, que
a Criminologia é ciência que pesquisa: as causas e concausas da
criminalidade; as causas da periculosidade preparatória da criminalidade;
as manifestações e os efeitos da criminalidade e da periculosidade
preparatória da criminalidade; a política a opor, assistencialmente à
etiologia da criminalidade e à periculosidade preparatória da
criminalidade.
É asserção pacífica que a Criminologia tem objeto independente e
determinado. Sendo uma ciência realista e não normativa, a Criminologia
tem como objeto a dimensão naturalística do evento criminoso.

O criminólogo absolutamente não poderá ser observador passivo da


sucessão criminal. Não. Ele terá que ser um participante ativo, seja como
cidadão, seja como pesquisador, contribuindo com seu know-how de co-
nhecimentos na abordagem e perquirição do fenômeno criminal.
Utilizar-se-á, o criminologista, da experimentação direta e indireta. Por via
da experimentação direta, alcançada por intermédio de dados propiciados
pelos sistemas penitenciários, ele terá elementos de valia para indagar,
verticalmente, a transição do homem normal ao homem delinqüente.
Concernentemente à experimentação indireta, ela será desenvolvida com
o estudo dos fatos anormais naturalmente sucedidos. Aqui, como ensina
Roberto Lyra, o criminólogo não poderá olvidar que "o crime é um fato
social de conseqüências jurídicas e não um fato jurídico de aspectos
sociais". Terá que saber o criminologista, por outro lado, que os fatos
sociais são processos de interação que envolvem as pessoas, os grupos
coletivos e as heranças sociais, não havendo critérios infalíveis para
diferenciar o homem que poderá delinqüir daquele que não poderá
delinqüir. Comporta, por oportuno, a afirmativa de Gabriel Tarde que
"nenhum de nós pode se gabar de não ser um criminoso nato
relativamente a um estado social determinado, passado, futuro ou possí-
vel". A idéia do crime, verdadeiramente, é inata no homem, talvez pre-
existindo à sua própria consciência.

A Criminologia é a ciência que estuda o fenômeno criminal, a vítima, as


determinantes endógenas, que isolada ou cumulativamente atuam sobre
a pessoa e a conduta do delinqüente, e os meios labor-terapêuticos ou
pedagógicos de reintegrá-lo ao grupamento social.
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Diferenças entre
Direito Penal
e
Criminologia
O Direito Penal sendo uma ciência normativa; é a ciência da repressão social ao
crime, através de regras punitivas que ele mesmo elabora. O seu objeto,
portanto, é o crime como um ente jurídico, e como tal, passível de suas sanções.
A Criminologia é uma ciência causal-explicativa, tem por objeto a incumbência
de não só se preocupar com o crime, mas também de conhecer o criminoso,
montando esquemas de combate à criminalidade.

A CRIMINOLOGIA NA HISTÓRIA - A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA


CRIMINOLOGIA

Condutas que outrora eram atos normais e obrigatórios dos costumes da


época, com o tempo se tornaram crimes, e condutas que outrora eram
crime, se tornaram fatos normais, conforme vejamos a seguir:
Salienta Lombroso que a mesma dificuldade que se apresenta no es-
tudo do crime, dentre os animais em geral, observa-se em relação aos
seres humanos primitivos.
Certas práticas, mais tarde consideradas delituosas, eram, por assim
dizer, a regra geral; todavia, algumas dessas práticas confundem-se em
suas origens com ações menos criminosas.
Tais práticas, nos diversos idiomas, em sua origem, revelam. que não
há uma diferença nítida entre ação e crime, surgindo logo depois a idéia
de pecado, ou seja, desobediência aos deuses.
Todas as línguas convergem no sentido de nos apresentar a rapina e o
assassinato como a primeira fonte da propriedade, aliás, um dos aspectos
do darwinismo social, como veremos oportunamente.
Algumas práticas comuns entre os selvagens foram criminalizadas no
curso da civilização, como, por exemplo, o aborto. Em certas épocas, a es-
cassez de alimentos, as dificuldades de vida e outros fatores constituíram
motivos, entre os primitivos, para a prática do abortamento.
O aborto premeditado, desconhecido dos outros animais, foi comum
entre os selvagens, tanto nas primitivas tribos orientais, como na
América, através de expedientes rústicos, tais como, pancadas
redobradas no ventre.
Contemporaneamente, algumas tribos aborígenes brasileiras
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conservam a prática do aborto da forma acima referida (in Direitos Huma-


nos na Amazônia, publicação do Inst. dos Ad. Brasileiros, ps. 226 e 227,
RJ,1997).
As mesmas causas do aborto tornaram freqüente o infanticídio, entre
os primitivos; sacrificava-se aquele que vinha logo após o primogênito ou
o segundo, e de preferência as meninas, como ocorria na Austrália e na
Melanésia.
Na Índia, do Ceilão ao Himalaia, infanticídio é consagrado pela religião.
No Japão e na China, segundo Marco Pólo, o infanticídio era uma forma
de reduzir o crescimento populacional. Da mesma maneira, na América e
na África.
Em algumas tribos da África Meridional, após o infanticídio a criança
era utilizada como isca para pegar leões; em certas regiões da Austrália
matavam-se as crianças e sua gordura era utilizada em anzóis, para as
pescarias.
Na América, dentre os tasmaiano, pele-vermelha e esquimó, a morte
da mãe era motivo para o infanticídio, porque o costume queria que as
crianças fossem enterradas com ela.
Havia outras causas para o infanticídio entre os primitivos: os
preconceitos, por exemplo, como a aversão aos gêmeos, encarados como
prova da infidelidade da mulher, pois entendia-se que o homem só podia
produzir um filho de cada vez (Lombroso, O HOMEM CRIMINOSO, pgs. 30
e segs.)
Na África, quando as mulheres não podiam criar seus filhos,
desesperadas pela fome, jogavam-nos no rio.
O dever de assassinar os pais idosos, com mais de 70 anos, conser-
vou-se, por transmissão hereditária, como um ato de piedade, mesmo
sem necessidade, e às vezes, por acreditar-se que as qualidades e
virtudes do sacrificado se transmitiriam aos descendentes.
Algumas vezes ocorriam sepultamentos em vida; as vítimas achavam
o fato natural e elas próprias pediam a morte, caminhando
deliberadamente em direção à cova onde deviam repousar em definitivo,
ou deixadas em abandono.
A religião ensinava que se entrava na vida futura no mesmo estado
em que se estava para deixar a Terra.
O hábito de matar os velhos e os doentes foi praticado na Europa,
Ásia, África e América.
Além do assassinato dos velhos e doentes, ocorriam homicídios de
crianças, mulheres e homens sadios, seja por motivos religiosos, seja por
instintos ferozes.
Às vezes, por ira, as disputas conjugais acabavam pelo assassinato da
mulher; o marido, após matá-la, comia o seu coração com um guisado de
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cabra.

As concepções lombrosianas, inspiradas na teoria de Darwin, sobre a


criminalidade dentre os animais:
Em síntese, no tocante à comparação entre o equivalente daquilo que
se considera crime, entre os homens, e certas ocorrências em relação às
plantas, Lombroso invocou as observações de Darwin e outros
naturalistas:
As plantas insetívoras (que comem insetos), cometendo assim
verdadeiros assassinatos deles, atraindo-os por meio duma secreção
viscosa, para em seguida os devorar, como meio de se nutrir.
Outras plantas caçam os insetos à semelhança da maneira como os
pescadores preparam armadilhas para os peixes.
Essas práticas sobressaem com muito mais evidência em relação ao
mundo animal, na ânsia de nutrição, por meio do sacrificio das outras
espécies, e, algumas vezes, através do canibalismo, quando então o ser
humano, assim como outros animais, devoram os da mesma espécie, não
só levados por fome, como também por outras motivações, tais como a
ira.
Por sua vez, Ferri distinguiu, só para o assassinato, várias motivações
entre os animais em geral.
Certos animais, por exemplo, da mesma espécie, vivem em comum,
mas os mais fortes devoram os mais fracos; isso é comum dentre os
peixes.
É freqüente não só o canibalismo dentre os animais, como o infanticí-
dio e o parricídio, desmentindo-se assim os devaneios sobre o amor
maternal e filial entre eles.
A fêmea do crocodilo, às vezes, come seus filhotes, que não sabem
nadar.
As abelhas defendem furiosamente as colmeias, onde armazenam o
mel, produto do seu labor.
Há roedores - a fêmea do rato, por exemplo - que devoram seus
filhotes, quando molestados.
A fêmea do sagüi, às vezes, come a cabeça do filhote, ou esmaga-o
contra uma árvore, quando cansada de carregá-lo.
Dentre os gatos, as lebres, os coelhos, alguns comem seus filhotes.
O canibalismo e o parricídio são encontrados dentre as raposas, cujos
filhotes se entredevoram, freqüentemente, e às vezes devoram a própria
mãe.
Certa perversidade, rebeldia e antipatia aparecem em animais com
de formações cranianas, determinando maus instintos e práticas
criminosas.
A velhice toma os animais desconfiados, teimosos, perigosos, agres-
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sivos, por isso são expulsos pelos companheiros e então, no isolamento,


tomam-se mais perversos.
A fúria, a ira e a raiva são comuns em certos animais, que matam seus
semelhantes, sem nenhum motivo, violando os hábitos da maioria.
Ocorrem também delitos passionais, por paixões exacerbadas, sobre
tudo pelo amor, pela cobiça, pelo ódio.
Dentre as aves e os pássaros, às vezes, o macho destrói o próprio ni-
nho, num acesso de fúria; aves domésticas atacam o ser humano.
Durante o cio, as fêmeas, dentre certos animais, tomam-se furiosas.
Observou-se que um casal de cegonhas fazia o ninho em um
vilarejo;um dia, quando o macho estava caçando, um outro mais jovem
veio cortejar a fêmea. Primeiro, ele foi rejeitado, depois tolerado,
finalmente acolhido. Posteriormente, os dois adúlteros voaram uma
manhã para o prado, onde o marido caçava rãs, e o mataram a bicadas.
Entre as cegonhas, o macho leva muito a sério o amor conjugal; quan-
do as pessoas, por divertimento, colocam ovos de galinha em seu ninho, o
macho, ao ver aquele insólito produto, se enfurece e entrega a "esposa às
outras cegonhas, que a dilaceram”.
Têm sido observadas certas práticas, entre as formigas, semelhantes
à violência sexual, por parte dos machos adultos contra os menores,
assim como entre certas aves.
Algumas vacas substituem o touro junto às companheiras, da mesma
forma que entre algumas galinhas.
Ocorrem, também, práticas sexuais dentre animais de diferentes es-
pécies, à semelhança da bestialidade, em relação ao ser humano.
Às vezes, as cegonhas massacram os filhotes das companheiras, sob
os olhos de suas próprias mães; outras matam os membros do bando que
no momento da imigração se recusam ou não conseguem segui-las.
Dentre bois e cavalos selvagens é comum um macho enfurecer-se
contra o outro, para conseguir a supremacia sobre as fêmeas.
Há animais domésticos que têm o hábito de furtar objetos dos bolsos
de quem os acariciam.
Certos cães domésticos devoram aves ou carneiros, dissimulando e
apagando os vestígios de seu gesto.
As bebidas alcoólicas produzem nos animais sintomas semelhantes
aos que ocorrem com os homens: tomam-nos irritáveis, tontos e param de
trabalhar, passando sem escrúpulos, à pilhagem e ao latrocínio.
O consumo da carne, dentre os carnívoros, toma-os ferozes.
Embora sejam poucos os animais, dentre os gatos, cachorros, elefan-
tes, cavalos, que se mostram brigões, indomáveis, assassinos, isso,
porém, tanto quanto dentre os seres humanos, repugna aos demais.
A premeditação e a emboscada são comuns nas práticas criminosas
dentre os animais.
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Os cinocéfalos (gênero de macacos de cabeça semelhante à do cão) são


perfeitos ladrões. Quando vão saquear uma plantação, colocam uma
sentinela, para que dê o alarme, no momento em que o homem se
aproxima. Esta sentinela deve ficar muito atenta, porque sabe que se
falhar, seus companheiros lhe infligirão a pena de morte (Lombroso, O
Homem Criminoso, ps. 4 a 25).

É importante para uma ciência que tenha um objeto e um método,


exame de seu conteúdo histórico. Na filosofia grega concebia-se a
infração contrário a coisa pública, e o delinqüente responsável por sua
ação, deveria sofrer uma pena como elemento pedagógico.
Na Idade Média, mais precisamente no começo do século XVII, a filosofia
e a teologia influenciavam o Direito Penal, havendo uma enorme confusão
entre delito e pecado, delinqüente e pecador.
No Código de Hamurabi, no século XVI e XVII a.c., tínhamos já as
responsabilidades distintas entre delinqüente rico e delinqüente pobre.
Não existe condições exatas de fornecer algo sistematicamente pronto
antes do início da escola clássica, pois o que em realidade havia eram
trabalhos esparsos.
A expressão Criminologia teria sido usada pela primeira vez pelo
antropólogo francês Topinard, em 1883. Em 1885, Rafael Garofalo,
apresenta uma obra científica A Criminologia.
A base fundamental do pensamento iluminista foi a partir do
reconhecimento do estado natural. No estado natural, os homens gozam
de igual liberdade e se perdem pelo contrato social, que fazem ganhar
sua liberdade civil e a propriedade de tudo que possuem.

O delinqüente que se coloca contra o contrato social é um traidor e,


portanto, é expungido do mesmo.
Cesare Bonesana, Marquês de Beccaria, é quem melhor coloca o
problema do delito e da pena. Adotam os iluministas posição crítica a
respeito das coisas existentes e também respeito ao Estado e sua
estrutura.
A Escola Clássica considera a pena um mal que deva eliminar outro mal.
Para a Escola Carrariana, todos os homens são iguais, livres e racionais.
Por tal fato, a pena é eminentemente retribucionista, e seu fundamento
está em ter o homem conspurcado o social.
Nos positivistas, apesar de terem afrontado claramente os clássicos,
encontramos correntes utilitárias, além do racionalismo e do cientificismo.
Foi em 1876, aproximadamente um século após o livro de Beccaria, que
tivemos a primeira edição do Homem Criminoso, de Cesare Lombroso.
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Tínhamos aí as ciências do homem e a contribuição das Origens das


espécies, 1859, de Darwin, e Descendentes do homem, 1871.
Foi Comte quem destacou a importância social da ciência, e com tal
significação, da sociedade social. Tudo isso implica a contradição de todo
pensamento iluminista, cujo alicerce é a metafísica.
Como veremos adiante, o nascimento do positivismo exerceu influência
extraordinária não só na Criminologia, como também no Direito Penal.

ESCOLAS CRIMINOLÓGICAS

1.1) ESCOLA CLÁSSICA


Para esta escola, a responsabilidade penal do criminoso
baseia-se em sua responsabilidade moral, e se sustenta pelo
livre arbítrio, que é inerente ao ser humano.
Para os clássicos, o livre arbítrio existe em todos os homens
psiquicamente desenvolvidos e sãos. Possuindo tal faculdade
podem escolher entre motivos diversos e contraditórios e são
moralmente responsáveis por terem a vontade livre e imperadora. O
criminoso é totalmente responsável porque tem a responsabilidade moral,
e é moralmente responsável porque possui o livre arbítrio.

Cesare Bonesana, Marquês de Beccaria


Nasceu em Milão, em 1738 e faleceu em 1794. Educou-se
no Colégio dos Jesuítas, na cidade de Parma, tendo como cole-
gas Diderot e Voltaire, abastecendo-se intelectualmente do
ambiente da Revolução Francesa.
Revolta-se contra as arbitrariedades da justiça da época.
Em 1764, aos 27 anos, apresenta a obra "Dos delitos e das
penas". Por temer a Corte, seu trabalho foi impresso em Livorno.
Destacam-se entre os postulados fundamentais de Beccaria:
a) somente as leis podem fixar as penas para os crimes;
b) somente os magistrados poderão julgar os delinqüentes;
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c) a atrocidade se opõe ao bem público;


d) os juizes não podem interpretar as leis penais;

e) deverá existir proporção entre os delitos e as penas;


f) a finalidade das penas não é atormentar o culpado, mas
impedir que agrida de novo a sociedade e, por conseqüência,
destruir a todos;
g) as acusações não devem ser secretas;
h) a tortura do acusado durante o processo é uma ignomínia;
i) o réu não deve ser considerado culpado antes da sentença
condenatória;
j) não se deve exigir do réu o juramento;
k) a prisão preventiva não é sanção, mas apenas o meio de
assegurar à pessoa do presumível culpado e, portanto, deve ser
a mais leve possível;
l) as penas devem ser iguais para todas as pessoas;
m) o roubo é filho da miséria e do desespero;
n) as penas devem ser moderadas;
o) a sociedade não tem direito de aplicar a pena de morte;
p) as penas não serão justas se a sociedade não houver empre-
gado meios de prevenir os delitos;
q) a prevenção dos delitos é muito mais útil que a repressão
penal.
Beccaria ainda afirmava que "o indulto" é o fruto da imperfeição da lei, ou
da falta de compreensão das penas.

Francesco Carrara
O mestre de Pisa, que foi, sem dúvida alguma, o artífice da
escola clássica, afirmava:

"O homem deve ser submetido às leis penais por sua natureza moral;
em conseqüência, ninguém pode ser socialmente responsável pelo ato
praticado se moralmente irresponsável." 3

"A imputabilidade moral é indispensável para a imputabilidade social".


Garrara publicou Programma de derecho criminal, surgindo dois
princípios:
3
Programma de derecho criminal: parte general, vi I, p. 9, Bogotá, Temis, 1988.
14

a) que o principal objetivo do direito criminal é prevenir os


abusos por parte da autoridade;
b) que o crime não é uma entidade de fato, mas de direito.
O crime é a violação de um direito, dessa maneira escreveu
Garrara:
"Acreditei ter achado essa forma sacramental; e pareceu
que dela emanavam uma a uma todas as grandes verdades
que o direito penal dos povos cultos já reconheceu e proclamou nas
cátedras e no foro, expressei dizendo - o delito não
é um ente de fato, mas um ente jurídico. Com tal proposição
se abririam espontaneamente as portas de todo o direito criminal, em
virtude de uma ordem lógica e impreterível.
42
E esse foi o meu programa" .

1.2) ESCOLA POSITIVA


A escola antropológica é baseada no determinismo psicológico,
inaceitando o livre arbítrio e expungindo a responsabilidade moral dos
indivíduos.
O homem está sujeito a lei da causalidade e seus atos são
conseqüências internas e externas, que dão diretriz à vontade.

Cesare Lombroso
Nasceu em Verona, em 6 de novembro de 1835, descendente pelo lado
paterno de judeus-espanhóis, expulsos de pátria
pêlos Reis Católicos, em 1492.

Rafael Garofalo
Nasceu em 1852, vindo a falecer em 1934. Publicou o livro
Criminologia em 1884, foi Ministro da Corte de Apelação de
Nápoles. Iniciando-se do Criminoso nato, de Lombroso, imaginou que
houvesse sempre um delito em qualquer lugar ou época.
Do prisma do grande jurista, o ponto de partida seria sociológico.
Apesar de renunciar a uma universalidade absoluta da moral, determina
alguns instintos morais que fazem parte da espécie humana.
15

Classificou os delinqüentes segundo as descrições feitas por


Fedor Mijailovich Dostoievski nas obras: O idiota, Crime e
castigo, A Casa dos mortos, Os irmãos karamazov.
Dessa maneira, destacou:
a) os que agridem os sentimentos de piedade (assassinos);
b) os que agridem os sentimentos de probidade, (ladrões),
c) os que infringem ambos sentimentos, como os assaltantes e os
criminosos;
d) os cínicos, que cometem os crimes sexuais.

2.1) ESCOLA ECLÉTICA OU CRÍTICA


Os seguidores dessa escola definem o conceito de crime conforme a
escola positiva ou fazem uma reprodução da escola
clássica.

Franz Von Liszt em seu Tratado de Direito Penal Alemão,


afirma:
"é o injusto contra o qual o Estado comina pena, e o injusto,
quer se trate de delito do direito civil, quer se trate do injusto
criminal, isto é, do crime, é a ação culposa e contrária ao
direito." 4
Examinando-se essa definição, temos os seguintes caracteres:
1. O delito é sempre um ato humano, portanto, uma atuação
voluntária transcendente ao mundo exterior.
2. O delito é também um ato contrário ao direito, um ato
formal, que ataca um mandato de proibição de ordem jurídica,
implicando materialmente numa lesão ou perigo.
3. O delito é, finalmente, um ato culpável; melhor afirmando: um ato
doloso ou culposo de um indivíduo responsável.
O penalista alemão entende o delito como entidade jurídica.
Segundo Turati, o crime teria como elemento principal as
más condições econômicas da sociedade, e a miséria o fator
primordial da existência da criminalidade.

4
António Moniz Sodré de Aragão - As Três Escolas Penais, 3" ed.. Saraiva, São
Paulo, 1928, pp. 139-140.
16

Tarde explica como causa do crime, as causas sociais complexas.


Alexander Lacassagne afirmou:
"O meio social é o caldo de cultura da criminalidade; o
micróbio é o criminoso, um elemento que não tem importância, senão no
dia em que acha o caldo que o faça fermentar. As sociedades têm os
criminosos que merecem." 5

2.2) A Terceira escola


São fundamentos da terceira escola:

1. O direito penal deveria permanecer como ciência independente,


separando-se do pensamento de Lombroso, que pretendia incluí-lo na
criminologia.
2. O grande número de causas do delito não é exclusivo da
constituição criminal do indivíduo, adotando-se a teoria da
escola francesa, que invoca o sujeito predisposto, o que irá tornar-se em
delinqüente no momento em que o meio se tornar
favorável.
3. É necessário o trabalho conjunto de penalistas e sociólogos para atingir
as reformas sociais que melhorem as condições
de vida do povo, dessa forma aceitando-se os princípios da
escola francesa (exógenos).
4. A pena é como uma coação psicológica sobre os indivíduos,
examinando-a no plano de imputáveis ou inimputáveis.
Entre aqueles que organizaram a terceira escola temos Car-
nevale e Bernardino Alimena .

2.3) Escola neoclássica


Os positivistas atacaram os clássicos, pois estes consideravam o crime
apenas uma abstração, descuidando-se dos criminosos. As
circunstâncias de idade, sexo, surdo-mudez, estados
mórbidos, coação, reincidência, tornavam nesses criminosos,
variados, os matizes da inocência ou culpabilidade.
5
António Moniz Sodré de Aragão - As Três Escolas Penais, 3' ed.. Saraiva, São
Paulo, 1928, p. 147.
17

2.4) Escola neopositiva

O ilícito jurídico do crime tem um autor que é o ser humano, ou seja, o


criminoso, que não pode ser desprezado e suprimido.
Deve-se estudar e entender o criminoso, mas acima de tudo devemos
ser cuidadosos e atentos na proteção da sociedade, não sendo injustos e
impiedosos.
Entre os neopositivistas deve-se abrir espaço para os neo-
antropologistas. A antropologia criminal lombrosiana seria diferencial. A
antropologia de Saldafía é integral e trata antes da deformação, da ruína
do indivíduo, como efeito inicial do vício e do crime, e ao mesmo tempo,
como causa de sua continuidade.
Mendes Correia, por sua vez, é antropologista e gênio, repele a
antropologia criminal convencido da atipia dos criminosos por serem
inclassificáveis.
A antropologia física ou psíquica é o que interessa no estudo do
delinqüente, embora tenhamos outra que estabelece as relações do físico
com o moral, ou seja, a antropologia criminal.

2.5) Escola espiritualista

Embasa-se na Escola Clássica. Regressa ao livre arbítrio,


que foi impulsionado pela negação do criminoso nato.
Encontramos em tal escola Luchini, Vidal e Mayer.

2.6) Escola neo-espiritualista

Colocou-se como meio termo entre o livre arbítrio e o determinismo.


Propunha que se é certo que o homem tem liberdade, esta não existe no
sentido amplo, mas com limitações determinadas pelo meio ambiente,
reduzindo essa liberdade à convivência social. Era defendida por L. Proal
O crime e a pena, e o alemão De Baets.

2.7) Escola dogmática sociológica, biossociológica de Von


Liszt

Pela teoria de Von Liszt, o homem é o centro de seus estudos. Esta


Escola propôs a independência do Direito Penal, entretanto, por aceitar os
princípios da Escola Positiva (delito como fato natural e social, admitindo
as causas endógenas e exógenas) e os da Escola Clássica (delito como
18

ente jurídico e o livre arbítrio), veio a se tornar eclética.


Define o delito com um fato biossocial e ambiental, mas examinado
axiologicamente como ente jurídico. A pena, apesar de ser uma grande
preocupação para essa escola, não é um fim em si mesma, mas um meio.
Aceita a multa, a prisão condicional, a pena correcional e também a
absolutória.

O ESTUDO DA DELINQÜÊNCIA DEPOIS DE ENRICO FERRI

O continuador da escola de Ferri, Felipo Grispigni (1884-1955), destacou


na Sociologia criminal, o estudo da delinqüência como fenômeno social e,
portanto, como fenômeno de massa.

Elementos gerais da delinqüência


As formas de delinqüência dependem das condições de vida de um
povo, sua religião, seus costumes, sua história e o seu progresso.

Aqueles que alcançam grande desenvolvimento são tementes de uma


guerra nuclear.
A tecnologia de ponta acarreta um enfraquecimento de valores morais,
como a prostituição. Destacamos, desde logo, a República Norte
Americana, em que os delitos se alteraram para uma atividade mais
organizada, como os crimes do colarinho branco. .
Na Inglaterra, Alemanha, Itália, França, o crescimento da delinqüência
juvenil é um fato que se agrega a sua desorganização social. Da mesma
maneira, vamos encontrar essa extensão da delinqüência na Suécia, que,
em face de uma concepção ultra materialista, impregnada do socialismo,
traz resultados bastante cinzentos e funestos para aquela coletividade.
O que nos chama a atenção nos países ultra desenvolvidos é a
delinqüência oculta que se eleva de forma geométrica.

Fatores geográficos da delinqüência


As variações de tempo consagram determinados delitos nos
países frios e nos países quentes.
Os fatores geográficos já haviam chamado a atenção de Quételet, e da
mesma forma afirmados por Ferri, que em levantamentos, confirmaram a
predominância dos delitos contra a pessoa nas regiões equatoriais.
Manteve-se em primeiro lugar nas regiões frias, os crimes contra a
19

propriedade.

Fatores ecológicos: cidade e campo


O criminologista Denis Szabo, demonstrou a relação entre a
delinqüência e o meio urbano, demonstrou que a delinqüência no meio
urbano foi mais reduzida no século XIX.
Os resultados encontrados por Szabo devem ser levados em conta de
uma forma relativa, e aplicados com grande cuidado, devido as oscilações
das relações sociais.

Fatores econômicos

Cesar Herrero Herrero afirma em seu livro Los delitos económicos, que
"tanto o direito penal como a criminologia tem como parte de seu objeto o
conceito de delito.
O Direito Penal olha através de uma ótica normativa, a criminologia
trata de uma dimensão de maior amplitude".
Continua Herrero afirmando que "haverá delito econômico quando se
trata de uma conduta típica, antijurídica, imputável, culpável e punível,
sob as luzes de uma Lei pertencente ao direito econômico"48.
Niggemeier define delito econômico: "como as infrações penais que se
cometem explorando o prestígio econômico ou social, mediante o abuso
das formas e as possibilidades de configurar os contratos que o direito
vigente oferece, ou abusando dos usos e das razões de vida econômica,
embasados em alta confiança, infrações penais que, de acordo com a
forma que se cometem e as repercussões que têm, são idôneas para
perturbar ou colocar em perigo, acima do prejuízo dos particulares, a vida
e a ordem econômica" 6.

EVOLUÇÃO DA CRIMINOLOGIA

A sistematização científica da Criminologia constitui esforço recente,


abrangendo inclusive o estudo de sua evolução, segundo o critério de
divisão em períodos históricos ou fases, como o fez Israel Drapkin (Manual
de Criminologia, pp. 9-69).

6
Francisco Alonso Pérez - Introducción ao Estudio de Ia Criminología, Editorial
Reus, Madrid, 1999, p. 296.
20

Precursores da Criminologia na Grécia

Na antiga Grécia, a mitologia está repleta de condutas delituosas: ho-


micídios, roubos, violações. Zeus, por exemplo, o pai dos deuses, pode ser
considerado aquilo que Lombroso qualificou de "criminoso-nato"; ApoIo é
homossexual; Poseidão, deus do mar, é outro maníaco sexual; Vênus é
mentirosa, cruel e adúltera; Hermes, um criminoso precoce, e assim por
diante.
Dentre os pensadores gregos, que se destacaram no estudo dos
problemas criminais, encontramos algumas idéias precursoras.
Arquimedes (287-212 a.c.), grande fisico e matemático, figura como o
precursor da Criminalista, das perícias e exames criminais.

Considera-se Hipócrates o iniciador da corrente biologista da Crimi-


nologia, cujas particularidades examinamos noutra parte da presente
obra.
Por sua vez, Platão (427-347 a.c.) é considerado o precursor das correntes
sociológiocas da Criminologia; assinalava que o crime é produto do meio
ambiente; a miséria é um fator criminógeno, pois produz vadios e in-
divíduos sórdidos; o ouro é causa de muitos delitos, porquanto a cobiça
égerada pela abundância, que consegue apoderar-se da alma
enlouquecida pelo desejo.

Precursores da Criminologia em Roma

Em Roma, Sêneca (c. 4 a.C.-65 d.C.) é considerado o criminólogo de


maior destaque; em sua análise sobre a ira, ele a considera como motor
básico do crime, por isso que a sociedade está sempre em luta fratricida.
Sobre os aspectos das causas econômicas, como causa da criminali-
dade, não existe nada em Roma, salvo uma polêmica entre os que a
consideravam um fenômeno social e os estóicos e epicuristas, que
exaltavam a pobreza, fonte da felicidade e a força moral dos homens, pois
entendiam que a riqueza os entorpecia e corrompia.

os chamados "doutores da Igreja" e escolásticos não se ocuparam do


problema da criminalidade, até que o monge Tomás de Aquino (1226-
1274) sustentou algumas idéias próprias a respeito. Na Summa contra
gentiles afirma que a pobreza é em geral uma ocasião de roubo. Na
Summa Theologica, defende o furto famélico, e, sob certos aspectos,
idéias socialistas.
Por sua vez, o monge Agostinho, embora vivesse no período de 354 a 430
d.C., é considerado um pensador medieval; para ele, a pena de talião "é a
21

justiça dos injustos". Sustentava que a pena deve significar uma ameaça e
um exemplo. Deve ser também u'a medida de defesa social, mas,
principalmente, contribuir para a regeneração do culpado.

Da mesma fonna, a Astrologia - conhecida desde a Antigüidade, entre


os chineses, hindus, egípcios e os maias -, sustentava que o comporta-
mento se rege pelos atos e seus movimentos, influenciando assim a
conduta delituosa humana.
Aliás, desde a mais remota Antigüidade, a mitologia, a religião e
Astrologia estavam intimamente ligadas, servindo hoje de meios
auxiliares para diversas ciências. A Astrologia, por exemplo, é considerada
vestíbulo da Astronomia. .
A Demonologia, por sua vez, estudava a situação dos indivíduos lou-
cos, sujeitos a ataques de toda ordem, considerando-os possuídos pelos
demônios, o que permitiu inomináveis crueldades e torturas, sob o manto
de abusos da religião. Quando os algozes e torturadores dos tribunais da
Inquisição supliciavam o suspeito de heresia, faziam-no na finne e
fanática convicção de que, quebrantando as forças fisicas da vítima,
estavam com isso enfraquecendo as resistências dos demônios, os quais
supostamente dominavam os suplicados.
Assim, a Demonologia, tentando estabelecer a relação entre o corpo e
a alma humana - o orgânico e o psíquico -, preocupa-se com a "natureza e
as qualidades dos demônios"; ela tem antecedentes muito antigos, como
na religião do Irã, onde se adorava um deus bom (Ormuz) e um mau
(Ahra-Mani).

Renascimento e a Criminologia

O Renascimento, como se sabe, constituiu um renascer cultural, sus-


tentado pelos próprios humanistas dos séculos XIV, XV e XVI.
Em oposição aos que consideravam as "trevas medievais", os huma-
nistas exaltaram os novos tempos, em que ressurgem as Letras e as
Artes: Petraca orgulha-se de haver feito renascer os estudos clássicos, por
muitos séculos esquecidos; Boccaccio atribui a Dante o ressurgimento da
poesia e a Giotto, o renascer da pintura, e assim por diante.
Entre os filósofos e pensadores dos séculos XVI e XVII, relativamente à
Criminologia, destacou-se Thomas Morus (1478-1535), que foi chanceler
de Henrique VIII.

Em sua obra Utopia Morus descreve a enorn1e onda de criminalidade


22

que assolava a Inglaterra, na época em que ele viveu, época essa


marcada pela truculência oficial, com a aplicação sumária da pena de
morte. Aliás, o próprio Morus acabou sendo decapitado por determinação
de Henrique VIII.
A Utopia representa a primeira crítica, fundamentada, ao regime bur-
guês em ascensão e uma análise profunda das particularidades inerentes
ao feudalismo em decadência.
A primeira parte da obra é o espelho fiel das injustiças e misérias da
sociedade feudal; é, em particular, o martirológico do povo inglês sobre o
reinado de Henrique VIII, um tirano avarento. Eram, porém, várias as cau-
sas da opressão e sofrimento do povo: a nobreza e o clero possuíam a
maior parte do solo e das riquezas públicas; estes bens permaneciam
estéreis, enquanto a fome atormentava a população.
Além disso, nessa época, os grandes senhores mantinham na multidão
de vassalos, seja por amor ao fausto, seja para - como polícia particular,
capangas - assegurar a impunidade dos crimes praticados pelos seus
amos, ou ainda para utilizar ditos vassalos como instrumentos de
violência contra os habitantes da vila. Essa vassalagem era o terror do
camponês e dos trabalhadores em geral.
Por outro lado, o comércio e a indústria na Inglaterra não tinham muita
expansão antes das descobertas de Vasco da Gama e Colombo. Assim, as
gerações se. sucediam sem finalidade, sem trabalho, sem pão. A
agricultura estava em ruínas, desde que a nascente indústria da lã,
prometendo lucros espantosos, fez com que terras imensas fossem
transformadas em pastagens para carneiros. Em conseqüência disto, u'a
multidão de camponeses viu-se reduzida à miséria, provocando a
multiplicação da mendicidade, vagabundagem, roubos e assassínios.

Período da Antropologia Criminal (1876-1890)

Paralelamente ao desenvolvimento das Escolas de Direito Penal sur-


giram diversas teorias, que constituíram as bases da sistematização
científica da Criminologia, no século XIX.
Sob certo aspecto, as discussões estiveram centradas, em parte, no
enfoque filosófico acerca do binômio livre arbítrio e determinismo, em
relação às condutas delituosas do ser humano, e de outro lado na questão
antropológica, no ativismo.
Malgrado a vulnerabilidade de suas teorias, acerca do criminoso-nato,
Cesar Lombroso (1835-1909) desenvolveu uma série de estudos e
pesquisas, que polarizaram as atenções do mundo científico de então,
quando, em 1876, ele publica o seu momentoso livro o Homem
23

Delinqüente, onde aborda, inclusive, aspectos relacionados à


criminalidade em geral, dentre as diversas espécies animais, como vimos
anteriormente.
Dentre os fundadores da Escola Positiva, em Direito Penal, considera-
se Lombroso o antropólogo, Garofalo o jurista e Ferri o sociólogo.
Incontestavelmente, Lombroso teve o mérito de contribuir para a sis-
tematização científica da Antropologia Criminal, com o que desviou a
atenção do fato criminoso - até então a preocupação máxima dos crimina-
listas - abrindo o caminho para o surgimento da Escola Positiva, em oposi-
ção à Escola Clássica.

Período da Sociologia Criminal (1890-1905)

Este período evolutivo da Criminologia se confunde com o nome de


scola Francesa ou de Lyon, ou das teorias do meio ambiente. Estas teorias
compreendem todas as concepções sociais e ambientais que se
levantaram contra as concepções lombrosianas, as quais se centravam na
idéia de que s fatores endógenos, ou seja individuais, predominavam na
conduta do indivíduo, como decorrência do atavismo, resultando no
criminoso-nato.
Para a Escola Francesa, ao contrário, eram os fatores exógenos, isto é,
ambientais, os mais importantes em relação à conduta do indivíduo,
levando-o ao crime, em determinadas circunstâncias.
Para essas teorias contribuíram as idéias de Augusto Comte(798-1857),
os estudos de Quetelet, Emílio Ducpétiot (1804-1868).

Período da Política Criminal ou Fase Eclética (de 1905 às Tendências


Atuais das Teorias Criminológicas)

Esse período se caracteriza por uma espécie de trégua na discussão


inflamada, resultante do entrechoque de idéias entre as teorias francesas
e italianas, sobre as teorias lombrosianas.

Surgiram três Escolas:


1) A Terza Scuola
2) A Escola Espiritualista
3) A Escola de Política Criminal
24

Criminologia Tradicional ou Criminologia Clássica. Propostas ou


Programas de erradicação da miséria. Cestas básicas

A Criminologia Tradicional ou Criminologia Clássica engloba diferentes


matizes ou vertentes, originários todos, direta ou indiretamente, da fonte
comum: a Escola Positiva.
Para a Criminologia Tradicional ou Clássica há, fundamentalmente,
certos comportamentos humanos considerados maus, em si, apenados
em virtudes de normas que são, supostamente, produto de um consenso
coletivo, segundo as concepções da democracia burguesa, o liberalismo
político-econômico.
Em suma, a Criminologia Tradicional ou Criminologia Clássica se revela
estacionária, imobilista. Não atenta para o fundamental: a permanente
crise crônica do sistema capitalista, decorrente dos antagonismos e
contradições insuperáveis, inerentes ao próprio sistema.

CRIMINALIDADE E CIÊNCIAS AFINS

O termo enciclopédia se aplica a qualquer obra que abranja todos os


ramos do conhecimento.
Nesse sentido, destacaram-se os cognominados enciclopedistas fran-
ceses, elaboradores da teoria do liberalismo (século XVIII), que serviu de
fundamento ao advento do Estado liberal, após a Revolução Francesa
(1789).
Dentre esses enciclopedistas notabilizaram-se D'Alembert, Diderot,
Buffon, Hume, Montesquieu, Rousseau e Helvetius, que procuraram, antes
de tudo, "a distinção entre a justiça divina e a justiça humana, pugnando
pela soberania popular contra o absolutismo medieval, pelos direitos e ga-
rantias individuais contra o Estado totalitário do Direito divino" (cf. Rober-
to Lyra, Novíssimas Escolas Penais, ps. 5 a 8).
Essa época foi considerada o período humanitário do Direito Penal, a
partir da publicação da obra de Cesar Bonecasa (1738-1794), marquês de
Beccaria, nascido na Itália, trabalho esse intitulado Tratado dos Delitos e
das Penas, quando o autor contava 26 anos de idade, por volta de 1764;
modestamente, ele afirmou que escreveu dita obra sob a inspiração dos
enciclopedistas franceses.
Seja como for, acentua Enrico Ferri, nem os romanos, com sua extra-
ordinária intuição para os fenômenos jurídicos - intuição essa consubstan-
ciada no acervo notável que legaram à posteridade no campo do Direito
25

Civil-, nem os juristas da Idade Média lograram estruturar uma teoria ci-
entífica em matéria criminal, como sistema filosófico (La Sociologia Cri-
minelle, ps. 2 e 3).
Daí afirma-se que os romanos foram gigantes em matéria de Direito
Civil, porém, pigmeus no tocante ao Direito Penal.

As disciplinas que compõem a Enciclopédia das Ciências Penais

Partindo do quadro e da esquematização formulados por Luis Jiménez


de Asúa, com relação à classificação das ciências penais - a Enciclopédia
das ciências penais -, em seu Tratado de Derecho Penal (Tomo I, p. 92),
diversos autores têm elaborado variantes dessa classificação, com ligeiras
modificações de somenos importância, quanto ao agrupamento e na-
tureza dessas ciências (Luis Rodrigues Manzanera- Criminologia, pp. 58,
82 e segs.).
Essas ciências - como conjunto enciclopédico - podem ser agrupadas e
classificadas, segundo a sua natureza, da seguinte forma:

Ciências histórico-filosóficas
História do Direito Penal
Filosofia do Direito Penal
Direito Penal Comparado

Ciências causal-explicativas
Antropologia Criminal
Biologia Criminal
Psicologia Criminal

Antropologia é a ciência do homem, como ser social e animal.


A Antropologia se divide em dois amplos campos de estudo: um se refere
à forma física do homem, o outro a seu comportamento aprendido.
Chamam-se, respectivamente, Antropologia Física e Antropologia Cultural.

A Antropologia Criminal baseia-se nos princípios gerais da Antropologia,


Psicologia, Patologia, Psiquiatria, Biologia, Anatomia, Eugenia, Embriologia
e Biotipologia.
26

A Biologia Criminal é a ciência que trata dos seres vivos ou organismos,


suas origens, natureza e evolução.

Psicologia Criminal é o ramo da Psicologia que estuda as manifestações


psíquicas, através do estudo e da classificação dos processos psíquicos do
homem delinqüente.

Psicanálise Criminal é o ramo da Psicanálise que se dedica ao estudo da


personalidade do delinqüente, partindo das angústias e dos complexos de
culpa que o afligem, levando-o à procura da bebida, da droga,
enveredando pelos caminhos do crime, para a solução dos seus
problemas íntimos.

Sociologia Criminal é a ciência que estuda o fenômeno criminal do ponto


de vista da influência do meio social sobre a conduta humana criminosa.

(ESTRESSE)
TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

terrorismo, guerra, violência pessoal, seqüestro, etc.

O medo pode matar, e isso não é nenhuma novidade na medicina. A


ansiedade, que é a versão civilizada do medo, também mata. Os atos de
violência, em qualquer de suas formas, desde violência coletiva, como é o
caso da guerra, dos atentados, das violações de direitos, etc, até a
violência individualizada, como são os assaltos, os estupros, a tortura, etc.
podem ser comparados à uma espécie de câncer da alma.

As vítimas diretas ou indiretas (familiares, testemunhas, etc) da violência


correm um risco de desenvolverem algum transtorno emocional em torno
de 60%, enquanto a porcentagem da população geral tem este mesmo
risco reduzido a 20%.

As Vítimas do Terrorismo e Transtornos Mentais.

Carmem Leal, Presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria,


reconhece que as situações catastróficas como aquelas ocorridas no
World Trade Center, podem aumentar muito a incidência do Transtorno de
Estresse Pós-traumático. Alerta que nem todo o mundo está sofrendo do
Transtorno de Estresse Pós-traumático. Estar angustiado, ansioso ou
“nervoso”, estar reagindo emocionalmente de uma maneira algo estranha
27

por alguns dias não significa ter, obrigatoriamente, Transtorno de Estresse


Pós-traumático”.

Algumas observações têm constatado que só um terço das pessoas


expostas a estas situações traumáticas, não apenas às situações que
envolvam terroristas, mas também as catástrofes naturais, acidentes
viários e, inclusive, a violência doméstica, tem probabilidades de
apresentar o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (Shalev, 1992).
Outras pesquisas chegam a 54% (Weisaeth, 1989).

Sabe-se hoje, serem muito freqüentes as seqüelas psico-traumáticas nas


pessoas afetadas por atentados terroristas. Shalev (1992) encontra 33%
de Transtorno de Estresse Pós-Traumático em vítimas civis israelitas.
Medina et al. cita outros autores, como, por exemplo, Loughrey, que
encontra 23% de Transtorno de Estresse Pós-Traumático em 499 vítimas
do terrorismo em Irlanda do Norte, Abenhaim, com incidência de 18 % de
Transtorno de Estresse Pós-Traumático em 354 vítimas de 21 atentados
produzidos na França de 1982 a 1987 e, finalmente, Weisaeth, para quem
a incidência do Transtorno de Estresse Pós-Traumático chega a 54% em
vítimas do terrorismo e da tortura.

O diagnóstico do Transtorno por Estresse Pós-Traumático baseia-se


nos seguintes sintomas básicos:

1. Atitude psíquica de reviver o trauma, através de


sonhos e de pensamentos durante a vigília;
2. Comportamento de evitação persistente de
qualquer coisa que lembre o trauma e embotamento da
resposta a esses indicadores;
Estado afetivo hiperexitado persistentemente.

Do ponto de vista clínico, é bem possível que os Transtornos Fóbicos dominem o


quadro, como veremos abaixo, apresentando medo exagerado e sofrível para sair de
casa ou para freqüentar lugares públicos se a vivência foi bomba, incêndio ou coisa
assim. Também são freqüentes as Depressões persistentes com autodepreciação e
sentimentos de ser uma carga para os demais.
28

Quadro Clínico do Transtorno por Estresse Pós-Traumático


Sintomas %
1. Tensão no corpo 95
2. Mal estar em situações que recordam o trauma 90
3. Sentimentos depressivos 90
4. Freqüentes mudanças de humor 90
5. Dificuldades para conciliar ou manter o sono 88
6. Sobressaltos com ruídos ou movimentos imprevistos 88
7. Se irrita ou enfada com mais facilidade 82
8. Tendência ao isolamento dos demais 81
9. Sonhos desagradáveis ou pesadelos sobre o acidente 69
10. Sentimentos de culpa, auto-acusações 39
Seja devido a Depressão, seja pelo próprio Transtorno por Estresse
Pós-Traumático, o paciente sente seu futuro desolador, turvo, e sem
perspectivas. Depois da experiência traumática, a pessoa com
Transtorno por Estresse Pós-Traumático mantém um nível de
hiperatividade e hipervigilância crônica, com reação exagerada aos
estímulos (sobressaltos, sustos) e descontrole emocional, tendendo ora
à irritabilidade, ora ao choro.

Todos esses estudos sugerem que, de fato, é provável que alguns


tipos de eventos sejam mais traumáticos que outros e produzam taxas
e gravidades diferentes de Transtorno de Estresse Pós-Traumático.
Outra observação importante nesses trabalhos é que o Transtorno de
Estresse Pós-Traumático que aparece nas vítimas da violência terrorista
não tem preferência em relação ao sexo, sendo acometidos de igual
maneira tanto homens como mulheres diante dos atentados sobre a
população civil.
29

O CIDADÃO COMUM E O SEU DIREITO À LEGITIMA DEFESA

Para os defensores do desarmamento, as armas são como coisas vivas


com vontade própria. Eles descrevem armas como se elas tivessem
braços, pernas e vontade própria. Eles falam sobre "armas roubando
lojas "; e "armas matando pessoas". Para usar o "pensamento" dessa
nova classe de defensores dos grupos anti-armas, e para usar as
palavras como eles usam, deveríamos acreditar que carros vão a bares,
ficam bêbados e então correm para matar pessoas. Como "motoristas
bêbados não matam pessoas, carros matam pessoas"; Deverá acreditar
que martelos e madeiras constroem casas por vontade própria. Como
"pessoas não constroem casas, martelos e madeiras constroem por
vontade própria". Para essa classe, cada arma é realmente algum tipo de
Exterminador, e quando ninguém está olhando, crescem braços e pernas
nas armas e elas saem dos armários para matar pessoas. Todos acham
que o controle das armas será a solução para todos os problemas.
Quando o "controle das armas" chegar, não haverá mais roubos de
carros, acabarão os assaltos , não haverá mais crimes, cessarão os
nascimentos ilegítimos, todos os traficantes desaparecerão e o mundo
será bom. Muitos deles pensam que animais são mais importantes que
pessoas. Eles se preocupam mais em proteger animais do que proteger
pessoas. (1)

OBS: Mesmo no Brasil, matar animais silvestres é um crime


inafiançável , enquanto que o agressor poderá responder em liberdade
se matar uma pessoa.

Serão as armas a causa da violência? Menor número de armas será igual


a menor número de crimes? Muitas opiniões tem surgido, a maioria
movida por fatores pessoais na qual a pessoa coloca o seu próprio
sofrimento ou histórias que ouviu contar.

Automóveis matam mais do que qualquer outro meio violento .


Atropelamentos matam 30 por dia.
No ano de 1995 , 25.513 brasileiros morreram por acidentes de transito.
Os alvos principais foram os pedestres (43,3% - 11052) seguidos por
condutores (34.3% - 8754) e por passageiros (22,4% - 5.707) .Entre 1965
e 1973, na Guerra do Vietnã, um dos mais encarniçados combates deste
século, morreram 45.941 soldados americanos. A média foi de 5.104
baixas por ano - pouco menos da metade dos 11.052 brasileiros
fulminados por atropelamentos. Não estamos falando dos que ficaram
30

inválidos, e nem dos custos desses atropelamentos.


Em Porto Alegre, de janeiro a agosto de 1996, 52 pedestres morreram
atropelados. (2)

Na BR-386 com 445 Km de extensão, temos os seguintes dados:

• - Uma pessoa morre a cada 3,5 dias ;


• - Uma pessoa fica ferida a cada 10 horas ;
• - A cada 6 horas ocorre um acidente ;
• - O custo com atendimento médico - hospitalar a acidentados em
estradas federais no país custa cerca de US$ 22 milhões por ano.(19)

Na BR-290 com 725,6 Km, temos os seguintes dados:

• - Uma pessoa morre a cada 6 dias;


• - Uma pessoa fica ferida a cada 11 horas;
• - A cada 5 horas ocorre um acidente;
• - Um acidente custa uma média de US$ 27 mil à União, incluídos
neste valor gastos com patrulheiros e danos à carga, principalmente
quando são tóxicas. (20)

Será que as causas foram os veículos? Ou será que as causas foram as


pessoas imprudentes, irresponsáveis ou as leis que não são cumpridas e
que levam as pessoas a confiarem na impunidade; o desrespeito à vida
dos outros; a falta de educação e de princípios morais; ou seja muitas
podem ser as causas, mas certamente não foram os meios. Pois,
qualquer automóvel parado na garagem, não sai sozinho para atropelar
alguém.

Estatística Canadense :

O numero de mortes ocasionadas por carros no Canadá em 1991 foi de


3882. O numero de mortes ocasionadas por armas de fogo em 1990 no
Canadá foi de 66.
O custo do seguro mostra que armas de fogo são consideravelmente
menos perigosas que automóveis. A National Firearms Association
oferece um seguro de $2.000.000,00 por apenas $4,75 por ano. O
seguro de um automóvel varia de $400 a $2000 por ano. Todos as taxas
de seguro estão baseadas em estudos atuariais sobre riscos e histórias
de acidentes.

Carros versus Armas de fogo:


31

• - Você não necessita uma licença de motorista para comprar um


carro (ou gasolina)
• - Você não necessita referencias para comprar um carro.
• - Você não necessita se submeter a uma ficha policial para comprar
um carro.
• - Você não necessita justificar a compra de um carro.
• - Você não necessita ser membro de uma Associação ou Clube para
ter um carro.
• - Você não necessita guardar o seu carro trancado em uma garagem
fechada.
• - Você pode ter quantos carros você desejar. (32)

Muitas manchetes de jornal nos chamam a atenção, demonstrando que o


numero de mortes por outros meios, que não as armas de fogo, são em
grande número:

• - "Preso o homem que matou com a pá " (21)


• - "Bebeu e matou com faca... " (22)
• - "Menor esfaqueia marceneiro " (23)
• - "Família é assassinada a facadas " (24)

Mutatis mutantis, com as armas de fogo ocorre o mesmo . Nenhuma


arma por livre vontade mata alguém. Todos estão cansados de ouvir,
mas poucos param para pensar numa frase que diz: Armas por si só não
matam pessoas, pessoas matam pessoas. O Papa João Paulo II
declarou: "Quem mata é o homem, não a sua espada ou seus
mísseis".
O cardeal-arcebisbo, de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, defendeu
um maior numero de policiais nas ruas, com mais armas. (25)
Portanto não é tirando os meios que resolve o fato. Mesmo porque , o dia
em que as "armas forem considerados fora da lei , somente os fora da lei
terão armas".
Desarmar a população? Que população? A que paga impostos e mantém
o Governo? A que deseja ordem e progresso como diz em nossa
bandeira? Ou a população de assaltantes, criminosos, marginais que
proliferam, transformando o País num caos e colocando o trabalhador
honesto numa prisão albergue , da qual ele pode sair pela manhã para
trabalhar e voltar logo para casa e ficar trancado entre grades e portões
de ferro. Conforme estatísticas do Departamento de Armas, Munições e
explosivos ( DAME ), de Porto Alegre, nos últimos 3 anos, das pessoas
32

com porte de arma, somente duas se envolveram em confrontos, sendo


que uma foi legitima defesa e a outra foi o chamado disparo acidental.
Portanto, os tiroteios que ocorrem estão sendo realizados por marginais
e por armas clandestinas, pois sabemos que o numero de armas
clandestinas é muito maior que o numero de armas legais.
O contrabando ocorre em grande escala.

No Fantástico, foi mostrado a venda de armas clandestinas (desde


metralhadoras até fuzis de assalto) numa favela do Rio de Janeiro.
Porque não desarmar esses marginais?
Porque querer tirar do cidadão de bem o seu legítimo direito de defesa?
O Estado não possui condições de dar proteção ao cidadão que paga
impostos para ter segurança. Seria o caso de perguntar se isso não
estaria incluso no código do consumidor, no qual o cidadão está pagando
por um serviço que não está tendo. E mesmo assim o Estado que deveria
por lei proteger o cidadão, ainda deseja colocá-lo frente a frente com o
marginal, e ainda por cima desarmado?
Se o Estado não pode devolver a vida, não tem o direito de tirá-la. E está
tirando quando nega a legitima defesa ao cidadão.
A Policia não é onipresente, isto é, não pode estar presente o tempo todo
em todo o lugar. Normalmente ela chega após o fato ocorrido.

Podemos ter certeza de que se fosse realizado um plebiscito para


sabermos a opinião da população sobre o desarmamento, todos os
marginais votariam a favor, pois assim o "trabalho" deles ficaria mais
fácil, uma vez que somente eles teriam armas.

Existe uma questão crucial nas leis sobre controle de armas. Qual o seu
verdadeiro efeito?
Mais vidas serão salvas ou perdidas? Elas deterão o crime ou o
encorajarão? Para providenciar uma resposta mais empírica, foi realizado
um estudo sobre uma lei de controle de armas, - a permissão para o
porte de arma oculta, ou seja -sem ser visível.
Trinta e um Estados Americanos deram aos seus cidadãos o direito de
portar armas caso não possuíssem ficha criminal ou historia de doença
mental. O professor John R. Lott Jr., ( University of Chicago Law School)
juntamente com David Mustard ( graduado em economia pela University
of Chicago), analisaram as estatísticas criminais do FBI num total de
3.054 Condados Americanos entre 1977 e 1992. Os achados foram
33

dramáticos.
O estudo mostrou que os Estados reduziram os assassinatos em 8,5%, os
estupros em 5%; os assaltos à mão armada em 7% e os roubos com
armas em 3%. Se esses Estados tivessem aprovado essa lei antes,
teriam evitado 1570 assassinatos, 4.177 estupros; 60000 assaltos à mão
armada e 12000 roubos.

Para ser mais simples : "Os criminosos respondem racionalmente a


tratamento intimidatório." (John R. Lott Jr e David Mustard)

Preocupados com a real escalada da violência, logo ao inicio dos anos


80, políticos e autoridades ( tanto anti quanto pró-armas) autorizaram o
Departamento de Justiça Norte Americano a entabular uma pesquisa
nacional entre os criminosos, tentando descobrir-se como eles pensavam
sobre os diversos aspectos ligados direta e indiretamente ao teor de
suas "atividades".

Segundo o professor John Lott Jr e David Mustard, o fato de pessoas


portarem armas ocultas mantém os criminosos incertos quanto as suas
vitimas pois não sabem se estão armadas ou não. A possibilidade de
qualquer um poder estar carregando uma arma torna o ataque menos
atrativo. Os estudos mostraram que enquanto alguns criminosos evitam
crimes potencialmente violentos após a lei do porte de arma discreto,
eles não necessariamente abandonam a vida criminal. Alguns dirigem-se
para crimes no qual o risco de confronto com uma vítima armada é
menor. De fato, enquanto a diminuição de crimes violentos contra
vitimas portando armas diminui, crimes contra a propriedade aumentam.
(ex. Roubo de automóveis ou maquinas de vender). Isto certamente é
uma substituição que a sociedade pode tolerar.

Numa enquete com mais de 3.000 policiais em resposta a uma pesquisa


realizada pela associação beneficente da Policia da Georgia, mais de 90
% dos policiais disseram que leis para o controle de armas não ajuda o
trabalho policial, porque essas leis são dirigidas aos cidadãos honestos,
ao invés dos criminosos. A comunidade policial da Georgia também
afirmou que eles sentem que o proprietário de uma arma legalizada
procura aprimorar-se na educação com armas, treinamento e segurança.
Os oficiais foram unânimes em suas convicções de que leis limitando a
posse de armas pune cidadãos honestos, enquanto criminosos são
deixados livres para obter armas ilegais. Os comentários retornaram com
algumas sugestões incluídas :
34

• - "Controle de armas ? Não ! Punição aos infratores? Sim! (não aos


cidadãos de bem)."
• - "Eu acredito que as leis existentes necessitam ser reforçadas com
punições mais duras e os crimes cometidos com qualquer arma,
deveriam também ser punidos em toda a extensão da lei".
• - " Cidadãos honestos devem receber os direitos dados pela
Constituição. Um policial não tem nada a temer de um cidadão
honesto."
• - "O problema que nós estamos enfrentando são pobreza e drogas,
não armas. O Governo Americano deveria se preocupar mais com
segurança do transito, câncer, AIDS e álcool, os quais matam muito
mais pessoas a cada ano". (6)

Vitimas de violência geralmente são pessoas fisicamente mais fracas.


Permitindo uma mulher (habilitada) portar uma arma para sua defesa,
faz uma grande diferença quando abordada por um marginal. Armas são
um grande equalizador entre o fraco e o agressor. Um estudo sobre
300.000 portes de arma emitidos entre primeiro de outubro de 1987 e
31 de dezembro de 1995, na Florida - USA, mostrou que somente 5
agressões armadas envolvendo essas pessoas foram cometidos nesse
período e nenhum dessas agressões resultou em morte.

Alguns perguntam: "Discussões de transito entre pessoas armadas


pode resultar em morte ?"
Em 31 Estados americanos, sendo que alguns permitem o porte de arma
há décadas, existe somente um relato de incidente armado (no Texas),
no qual a arma foi usada após um acidente de carro. Mesmo neste caso,
o júri achou que o uso foi em legitima defesa - o proprietário da arma
estava sendo surrado pelo outro motorista. (John Lott Jr e Davis Mustard).

Na mesma pesquisa dos Drs. Wright e Rossi, entrevistando 6.000 Sheriffs


e oficiais policiais até o nível administrativo, sobre como eles viam as
armas em poder dos civis.

• - Mais de 76 % dos policiais entrevistados declararam que o uso de


uma arma por cidadãos ao defender uma pessoa, ou sua família, era
algo muito eficaz;
• - Mais de 86 % deles declaram que, caso não estivesse trabalhando
no cumprimento da Lei, teria uma arma para sua proteção .

Estudos realizados na Florida, Oregon, Montana, Mississipi e


Pennsylvania demonstraram que pessoas que são bons cidadãos e que
desejam se submeter ao processo do porte de arma não transformam-se
35

de uma hora para outra em psicopatas assassinos quando recebem a


permissão para portar armas.

Dois terços de todos os homicídios canadenses não envolvem


armas de fogo.
Estrangulamentos, facadas e surras contribuíram para a maioria dos
homicídios.

Álcool e drogas estiveram presentes em 50% de todos os homicídios em


1991. Historicamente o álcool tem sido estimado como o fator de maior
contribuição em 2 de cada 3 homicídios no Canadá.

Armas de fogo representam menos de 2% de todas as causas de mortes


no Canadá.
Raios mataram mais canadenses em 1987 do que proprietários legais de
armas.
No Canadá, entre 1961 e 1990, menos de 1% de todos os homicídios
envolveram armas de fogo legalmente registradas.

Canada - Causas de mortes –1992


Homens Mulheres Total Causas de mortes
39290 36921 76211 Doenças Circulatórias
30481 25167 55648 Todos os tipos de câncer
9411 7252 16663 Doenças Respiratórias
3774 3450 7224 Doenças Digestivas
1559 2034 3593 Distúrbios Mentais
2376 1061 3437 Colisão de Veículos
1932 727 2659 Suicídio sem Armas de fogo
985 1153 2138 Quedas Acidentais
991 59 1050 Suicídio com armas de fogo
309 176 485 Homicídio sem armas de fogo
167 108 275 Homicídio sem arma de fogo ou branca
178 69 247 Homicídio com arma de fogo
36

• - Antes de 1968, quando qualquer um podia legalmente adquirir


qualquer arma, nossas taxas de crimes eram a metade do que tem
sido desde 1974. Comparando dois períodos de 20 anos, um onde
uma pessoa podia legalmente possuir qualquer arma, e outro com
"leis restritivas "- , de 1974 a 1993, a taxa de homicídio no canadá
foi 2,4 assassinatos por 100.000 pessoas e de 1946 a 1965 foi cerca
de 1.1 por 100.000.

O numero de armas é um sintoma e não uma causa. Se armas


produzissem assassinatos, então Suíça, Israel e Noruega deveriam ter
taxas semelhantes aos EEUU, visto possuírem um grande numero de
armas. A lei Canadense de controle de armas foi efetivada em 1978.

• - Taxa de aumento de crimes violentos no Canadá entre 1977 e


1991: 89%
• - Taxa de aumento de crimes violentos nos EEUU entre 1977 e 1991:
58%.

Na ausência de armas de fogo, os criminosos acham outros meios ou


outros tipos armas. Nenhuma lei em nenhuma cidade, estado ou nação,
reduziu o crime violento ou diminuiu as taxas em comparação com
outras jurisdições sem essas leis.

OS QUATRO ELEMENTOS RELACIONADOS AO FENÔMENO CRIMINAL: DO


CRIME, DO DELINQÜENTE, DAS PENAS E DA VÍTIMA

Elementos do fenômeno criminal

Consideram-se elementos do fenômeno criminal os componentes deste, ou seja, o


crime, o criminoso, a pena e a vítima.
Historicamente, a Escola Clássica do Direito Penal (em que se destacou Francesco
Carrara, Itália, 1805-1888) considerava elementos clássicos dessa ciência penal o
crime e a pena, enfatizando assim esses dois aspectos do fenômeno criminal, ou seja,
a gravidade do fato, consistente na violação da norma dessa natureza, com a
conseqüente sanção imposta pelo poder competente do Estado.
Esse entendimento orientou as codificações penais surgi das no século XIX, como
no caso do nosso Código Criminal de 1830.
Aliás, a denominação Código Criminal- em lugar de Código Penaldemonstra, por si
só, a ênfase atribuída ao elemento crime; na atualidade, alguns penalistas ainda
preferem essa terminologia.
Mais tarde, porém, a Escola Positiva (em que se destacaram Lombroso e Ferri)
começou a chamar a atenção sobre o delinqüente, como ser vivo e efetivo,
aparecendo assim como o "protagonista da justiça penal", como o apresentou Ferri,
considerando-o em sua "personalidade individual, em sua identidade biológica e em
sua realidade como ser profundamente dependente do meio social em que vive".
Daí a oportunidade da afirmação de Gabriel Tarde:
37

"Nenhum de nós pode se gabar de não ser um criminoso-nato, relativamente a um


estado social determinado, passado, futuro ou possível."
A partir daí, o delinqüente passou a ter um papel destacado no Direito Penal,
suscitando a atenção dos criminólogos, filósofos, sociólogos, penalistas e outros, no
sentido do esforço de elaboração de normas legislativas específicas, pertinentes ao
sujeito ativo da infração penal, figurando assim como terceiro elemento do fenômeno
criminal.
Nesse sentido, surgiram as normas inscritas nos Códigos Penais, como aquelas
referentes à individualização da pena, periculosidade, aplicação de medida de
segurança, como ressaltamos noutro trabalho (Comentários ao Código Penal, Parte
Geral, p. 46).

O quarto elemento do fenômeno criminal


Contemporaneamente, a vítima, sujeito passivo da infração penal, foi classificada
como o quarto elemento do fenômeno criminal, pelos motivos que indicaremos, noutra
parte da presente obra ao tratar das peculiaridade e da situação daquela.
Em suma, os quatro elementos acima elencados constituem o centro das
preocupações das ciências penais, sob as diferentes angulações, próprias de cada uma
delas, como veremos oportunamente.
A propósito, convencionalmente, o termo penalista serve para designar o
estudioso, professor, tratadista de Direito Penal, enquanto o vocábulo criminalista se
aplica ao causídico, advogado que se dedica às causas criminais, cujo sucesso
profissional costuma proporcionar-lhe larga fama.

Conceito de Crimonogênese

A Criminogênese é o capítulo da Criminologia que estuda os mecanismos de


natureza biológica, psicológica e social, através dos quais se engendram e
desencadeiam os comportamentos delituosos.
Trata-se, portanto, dum esforço que requer concorrência interdisciplinar, de
natureza sociológica, econômica, filosófica, política, médica, psicológica para a
conceituação da Criminogênese.
Sob esse aspecto, o psicológico, por exemplo, entrega-se à tarefa de compreender o
crime e descobrir por motivação: "Estudos psicanalíticos modernos vieram comprovar
que o delinqüente e aquele que jamais infringiu a lei não são diferentes
morfologicamente no sentido de Lombroso. São diversos na maneira de dominar os
impulsos anti-sociais, presentes nos criminosos e nos que não o são. Dessa forma, o
delinqüente realiza no plano real os próprios impulsos anti-sociais inconscientes. Já o
indivíduo socialmente adaptado tem maiores possibilidades em reconhecer que a
realização daqueles impulsos redundará em seu próprio prejuízo e no da comunidade"
(Luiz Ângelo Dourado -Raízes Neuróticas do Crime, p. 15).
Por sua vez, o político, o criminólogo, o sociólogo, e assim por diante, nas suas
respectivas áreas de conhecimento, enfocarão a questão criminal, buscando a
pesquisa de suas causas, bem como os meios de sua prevenção e modos de
tratamento do criminoso, e assim por diante, contribuindo para o aprimoramento da
Criminogênese, como lembramos alhures (Criminologia, ps. 127 e segs.).
38

A dinâmica do delito e o itinerário do crime (iter-criminis). As variáveis

Segundo os princípios tradicionais de Direito Penal, o delito apresenta


regularmente o chamado iter-criminis (itinerário do crime), o qual é iniciado pela
simples cogitação impunível (nuda cogitatio), seguindo-se a preparação (conatus
remotus) só punível quando em si constitui ilícito penal; adiante a execução (conatus
proximus) e a consumação (meta opta ta).
Nesse contexto, apresenta-se a seguinte indagação, formulada por Mezger: o
delito é um produto da disposição e da índole genuína do delinqüente e do meio
ambiente, ou seja, uma resultante dos fatores endógenos e exógenos?
Em outras palavras, como se desenvolve a dinâmica do delito? Discussões acaloradas
e intermináveis se desencadearam a respeito, isto
é, sobre a relação recíproca de ambos os tipos de causas e sobre o predomínio das
causas internas - as denominadas Teorias da disposição - e das causas externas - as
denominadas Teorias do meio - no advento de delito.
Hoje, de acordo com a concepção da dinâmica do delito, tanto as causas
pertinentes à disposição, como ao meio não são realidades unívocas, homogêneas,
admitindo-se outras formas de interpretação do fenômeno delituoso, eis que umas
disposições influem sobre as outras, das mais diferentes maneiras.
Há, por exemplo, disposições natas e predisposições, em função das disposição
herdada ou disposição germinal; disposição adquirida ou personalidade do sujeito, em
deternlÍnado momento.
Em suma, há concorrência duma série de aspectos, englobando causas e fatores,
que culminam com o. desencadeamento do delito (Mezger, Criminologia, ps. 249 e
segs.).
Assim, pode verificar-se a ocorrência duma série de causas e fatores
criminógenos, propícios à prática delituosa, mas a interveniência ou incidência de
outros aspectos ou circunstâncias - as chamadas variáveis - acabam influindo no
sentido de impedir a conduta anti-social, fazendo com que os freios inibitórios
prevaleçam, ou seja, ocorra o predomínio daquilo que Benigno Di Tullio denominou
forças crimino-repelentes, contra as forças crimino-impelentes (Tratado de
Antropologia Criminal, ps. 13 e 209).
O tema em apreço enseja a polêmica jurídico-penal acerca da condição, causa e
concausa do crime, como fato humano, como veremos em seguida.

Polêmica jurídico-penal acerca da condição, causa e concausa do crime, como fato


humano

Sem pretender aprofundar a apreciação do tema em apreço, vale, todavia,


ressaltar a opinião de Nélson Hungria a respeito:
"(...) o crime, no seu aspecto .objetivo, é umfato humano, compreendendo dois
momentos: uma ação (voluntário movimento corpóreo) ou omissão (voluntária
abstenção de movimento corpóreo) e um resultado (evento de dano ou de perigo)".
Entre "esses dois momentos deve existir, condicionando a imputatio facto, uma
relação de causa e efeito".
A controvérsia jurídica gira em tomo de saber quando a ação ou omissão tem o
suficiente relevo de causa; e nessa indagação pululam as teorias, que podem ser
classificadas em dois grupos:
a) teorias que não vêem diferença entre condição e causa;
39

b) teorias que diferenciam causa e condição, buscando estabelecer critérios para


dentre as condições destacar a causa (Comentários ao Código Penal, voI. I, tomo lI,
ps. 57 e segs.).
Concluiu Hungria, sustentando nada importa que haja cooperado outra força
causal, pois não existe diferença entre causa e concausa, entre causa e condição,
entre causa e ocasião, equivalendo-se em sua eficiência causal todas as forças, que
concorrem para o resultado, pois o sistema do nosso Código Penal é constmído sobre a
teoria da equivalência das condições: não distingue entre condição e causa." Causa é
toda conditio sine qua non" (ob. e loco cits.).
Por sua vez, preleciona Aníbal Bruno: "o resultado é o termo final de uma cadeia de
condições sucessivas ou concomitantes. O homem que concorre com uma dessas
condições sob a fonna de ação ou omissão reputa-se ter produzido o resultado desde
que sem ela este não pudesse ocorrer" (Direito Penal, I, tomo 1°, ps. 304, 305, 321 e
322).
De acordo com Giulio Battaglini, concausa é o antecedente que dispõe apenas de
efiç;iência parcial, vale dizer, de per si só insuficiente (Direi-to Penal, 1° voI., p. 216).
O tema relaciona-se ao disposto no art. 13, § § 1 ° e 2°, a a c, do Código Penal,
como ressaltamos noutro trabalho (Comentários ao Código Penal, Parte Geral, ps. 79 e
segs.).

Classificação geral dos crimes

A classificação geral dos crimes, ou seja, o crime apreciado quanto à sua


gravidade, moral idade, objeto, materialidade, do ponto de vista teórico, baseia-se nas
características da ação, nos efeitos que integram o fato, no bem jurídico protegido,
número e qualidade dos sujeitos considerados em cada caso e muitas outras
circunstâncias que dão lugar a uma série de classificações: figura de dano, de perigo,
materiais, de pura atividade, unissubsistentes, comuns, especiais.
O estudo dessas classificações contribui para a sistematização dos diversos títulos:
delitos de comissão e de omissão; dolosos e culposos (Sebastian Soler - Derecho Penal
Argentino, I, p. 221).
Esta classificação geral, entretanto, não deve ser confundida com a classificação
dos crimes em espécie, constante da Parte Especial dos Códigos Penais, que nasceu
duma necessidade prática, sendo que, com o tempo, estabeleceram-se detem1inados
princípios para a sua elaboração e sistematização (Carrara - Programa de Derecho
Criminal, Parte Geral, voI. I, ps. 109 e segs.).
A classificação geral dos crimes tem sido tratada pelos diferentes autores de
maneira não muito uniforme, como ressaltamos noutro trabalho (Comentários ao
Código Penal - Parte Geral, ps. 51 e segs.). Apresentamos a classificação que segue,
como expressão eclética das teorias a respeito dessa matéria:

Quanto à previsão legal, segundo a gravidade (crime e contravenção)

a) sistema tripartido: baseado na divisão crime, delito e contravenção, como o


sistema adotado na França;
b) sistema bipartido: baseado na divisão crime e contravenção, como
o sistema adotado na Itália, Brasil;
c) sistema unitário: não comporta as divisões acima previstas, como o
sistema adotado na Argentina, México, e extinta URSS.
40

Quanto à intenção

a) dolosos: quando o agente quer o resultado ou assume o risco de produzi-lo;


b) preterdolosos ou preterintencionais: quando há dolo no antecedente (crime
principal) e culpa no conseqüente (crime acessório), como no furto ou roubo (crime
principal) e receptação (crime acessório);
c) culposos: quando há culpa stricto sensu.

Quanto à materialidade

a) simples: modalidade que não apresenta elementos acidentais, como o


homicídio simples;
b) materiais ou de resultado: são os que se tomam perfeitos com a positivação do
resultado, como característico do tipo legal, com a inequívoca lesão do bem jurídico
protegido, como no caso do furto da coisa comum, na violação do domicílio, a extorsão
mediante seqüestro;
c) de lesão ou dano: aqueles que só se consideram consumados, quando ocorre,
no mais das vezes, uma lesão efetiva de um bem ou interesse penalmente tutelado;
neles o dolo é de dano, por exemplo, a calúnia, a difamação, a injúria, o
constrangimento ilegal;
d) de perigo: aqueles em que não é necessário que ocorra um dano efetivo e
concreto, bastando a simples existência da ação criminosa, como o fato de ter em
depósito substância entorpecente, ilegalmente;
e) instantâneos: aqueles em a atividade delituosa termina no momento preciso em
que o seu efeito se produz, como no furto, nas ofensas físicas;
f) permanentes ou contínuos: aqueles em que o ato deles constitutivos não sofre
interrupção, permanecendo o agente em estado de criminalidade ou de violação
ininterrupta da lei penal; em tais casos, a consumação se protrai ou interrompe,
dependendo da vontade do agente, ou de flagrante, como o cárcere privado, a
ocultação de menor. É claro que, se o agente se livrar do flagrante, nem por isso
estará isento de responsabilidade criminal, a ser apurada através de inquérito criminal
e subseqüente ação penal;
g) instantâneos de efeitos permanentes: aqueles cuja atividade delituosa se
configura em determinado ato, cujos efeitos perduram, como a bigamia;
h) complexos: quando uma infração penal envolve outra, distinta, alheia à
intenção do agente, como a morte da pessoa visada e ferimento de outra; ,
i) continuados ou sucessivos: aqueles em que o autor pratica vários atos
sucessivos e conexos, materialmente distintos, com uma só intenção e resolução
dolosa, como o agente que furta dum mesmo porta-talheres, várias peças, em dias
diferentes, dentro de breve espaço de tempo;
j) transeuntes: aqueles que não deixam vestígios, como a injúria verbal, a violação
de domicílio;
1) não transeuntes: aqueles que deixam vestígios, como o homicídio, a lesão
corporal;
m) privilegiados: aqueles cometidos em virtude de relevante valor social ou moral
(delictum privilegiatum ou delictum exceptum), como o homicídio privilegiado; o crime
consistente em receber de boa-fé, como verdadeira, moeda falsa ou alterada, e a
restitui à circulação, depois de conhecer a falsidade;
41

n) qualificados: aqueles que se revestem duma forma mais grave, em virtude de


ocorrerem circunstâncias que assim o qualificam, como o homicídio qualificado, o
aborto qualificado;
o) distanciados: aqueles cuja ação e o resultado se separam no tempo ou espaço,
como a sonegação ou destruição de correspondência, a extorsão, a extorsão mediante
seqüestro;
p) formais: quando a intenção do agente se presume do seu próprio ato, que se
reputa consumado independentemente do resultado que possa produzir, como a
falsificação de moeda, seja ou não posta em circulação;
q) putativos ou imaginários: aqueles em que o agente considera erroneamente
que sua conduta constitui crime, quando, na verdade não é, como no caso em que
alguém pensa ter alvejado certa pessoa, quando na verdade foi outrem que o fez;
.'
r) putativos por obra do agente provocador: quando, de forma insidiosa, uma
pessoa provoca o agente, levando-o a praticar o crime, ao J?esmo tempo que adota
providências com a finalidade de evitar a consumação do mesmo; são os casos de
flagrante preparado;
s) de sangue: aqueles cuja execução causa derramamento de sangue, com o
emprego de arma de fogo, instrumento perfurocortante;
t) hediondos: aqueles que se revestem das características dos qualificados e de
sangue.

Quanto ao sujeito

a) comuns: quando há violação do preceito penal, imposto indistintamente a


todos, praticado por qualquer indivíduo. Por oposição a crime especial, de mão morta;
b) próprios: diz-se daqueles que só podem ser praticados por determinada
categoria de pessoas, pressupondo no agente qualidade pessoal e particular condição
jurídica, como os crimes falimentares, que só podem ser praticados pelo devedor
comerciante; os crimes praticados por funcionários públicos;
c) de mão própria: aqueles em que todos os elementos do tipo penal devem ser
realizados pessoalmente pelo agente, sendo assim impossível a figura do concurso de
agentes. São semelhantes aos delitos próprios, pois também aqui apenas as pessoas
tipicamente referidas podem ser autoras. Todavia, nos delitos próprios é possível a
participação de terceiro, enquanto nos delitos de mão própria tal não acontece. Assim,
são delitos próprios e simultaneamente de mão própria o infanticídio, o abandono ou
exposição de infante, causa honoris, o peculato;
d) unissubjetivos ou individuais: aqueles em que a totalidade dos atos típicos
podem ser praticados por um único autor, como a injúria verbal;
e) plurissubjetivos ou coletivos: aqueles em que são dois ou mais os autores,
distinguindo-se, porém, duas subdivisões, ou seja, os unilaterais ou convergentes ou
de conduta convergente, nos quais as várias participações se orientam em um mesmo
sentido, como no crime de quadrilha ou bando, e os bilaterais ou plurilaterais em que
as várias participações são contrapostas, como no caso de rixa;
f) de mão morta: aqueles que só podem ser praticados pela pessoa indicada, em
função do próprio tipo, como no caso do adultério, do abandono material;
g) funcionais: aqueles cometidos por quem se acha investido de um oficio, ou
função pública, quando no exercício desta e relativamente a esta, como os crimes
42

praticados por funcionários públicos;


h) especiais: aqueles que exigem como elemento integrativo uma qualidade ou
condição especial do agente, como no caso dos crimes funcionais, falimentares,
militares;
i) multitudinários ou coletivos: aqueles que são praticados por multidão em
tumulto, contra pessoas ou coisas, por ocasião de manifestações públicas, greves;
j) bilaterais: aqueles para cuja consumação se exige o encontro de vontades de
dois agentes, como a receptação;
1) habituais: os que são praticados seguidamente pelo mesmo autor, com a
mesma uniformidade e o mesmo objetivo, como a falsa identidade, o exercício ilegal
da profissão de médico, dentista, advogado;
m) passionais: aqueles em que o agente é impulsionado por uma paixão ou
emoção violenta e irreprimível: o ciúme, um amor egoístico ou contrariado, um ultraje
à honra.

Quanto ao objeto

a) contra a coisa pública: embora no Direito Penal atual e divisão clássica do


direito romano - delicta publica e delicta privata - não tenha a mesma importância,
consideram-se crimes contra a coisa pública aqueles que afetam determinados bens
ou interesses eminentemente de ordem pública, tais como os crimes contra a
incolumidade pública, contra a segurança dos meios de comunicação e transporte e
outros serviços públicos, contra a saúde pública;
b) contra a coisa privada: aqueles que afetam exclusivamente os bens ou pessoas
privados, subdivididos em crimes de ação pública e de ação privada;
c) contra a economia popular: aqueles que resultam em lesão de economia
popular, previstos em legislação especial;
d) políticos: aqueles que têm feição exclusivamente política; na prática, hoje, não
mais existe essa modalidade, pois, o político está ligado ao social, ao econômico;
e) político-sociais: a distinção entre crime político e crime político-social provém do
Projeto do Código Penal de Ferri (Itália, 1921). "Antes do surto da grande indústria e do
socialismo, que é fruto seu, os crimes que visavam à organização social tinham feição
exclusivamente política. Esta, porém, passou para o segundo plano. A estrutura
econômica é que é hoje principalmente atacada. A característica específica da
delinqüência político-social é ser marcada pelo selo da mais incontestável abnegação,
do altruísmo mais puro e idealístico." (Virgílio de Sá Pereira).
f) militares ou castrenses: aqueles próprios, praticados por militares, contra a
hierarquia, a ordem jurídica, o dever, a segurança, a subordinação ou disciplina
militares, previstos na legislação militar;
g) crimes de guerra: aqueles que violam os princípios e as leis. Que reguIam a
guerra, praticados por militar ou assemelhado que é: participar de um conflito armado;
h) falimentares: aqueles praticados pelos comerciantes, cuja falência é
considerada fraudulenta;
i) principais: aqueles que antecedem necessariamente outros, sem o que estes
não podem existir, como o roubo (principal) em relação à receptação (acessório);
j) acessórios: aqueles que exigem um outro como principal e dos quais são
dependentes, como o assassínio a fim de assegurar a prática do roubo, a violação de
domicílio igualmente com o fito de roubo;
1) sexuais: aqueles praticados para satisfazer o impulso erótico ou tendências
43

libidinosas;
m) de lesa-pátria: os crimes de alta traição, quando atentam contra a segurança e
a soberania nacionais, por meio de inteligência com potências inimigas, durante o
estado de guerra ou greve convulsão social;
n) pluriofensivos: são aqueles que ofendem a mais de um bem jurídico tutelado
pela lei penal, como o roubo.

Quanto à conduta

a) comissivo: também chamados de ação; caracterizam-se por umfacere, ou seja,


a prática de atos positivos, contrários à lei penal, como o furto, o estupro;
b) omissivos: consistem em um non facere, ou seja, em deixar de fazer o que a lei
penal obriga, como o abandono material;
c) comissivos por omissão ou omissivos impróprios: consistem em produzir, por
meio de uma omissão um resultado definido na lei como crime; no caso, a omissão é
em si mesma incriminada, pois o que caracteriza a responsabilidade penal é ter o
agente faltado a um dever jurídico de agir para impedir o resultado, como o caso da
mãe que, por privar o filho, recém-nascido, de alimentação, deixa-o morrer;
d) comissivos e omissivos: também chamados delitos de conduta mista, pois se
expressam necessariamente em duas formas, isto é, positiva e negativa, ambas
cooperantes, como o parto suposto (comportamento comissivo no ato de apresentar o
filho de outrem a registro e omissivo na ocultação da filiação verdadeira);
e) necessários: aqueles que são praticados em estado de necessidade, em
legítima defesa, em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de
direito;
f) de ímpeto: também chamado ex impetu, caracterizam-se pelo desígnio delituoso
instantâneo ou repentino, motivado por cólera, paixão ou terror, sem preceder
deliberação, determinação ou raciocínio, ou seja, per moto imprevisto.

Quanto ao processo executivo

a) em grau de tentativa: diz-se crime tentado quando iniciada a execução o crime


não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente;
b) consumados: o crime é consumado quando nele se reúnem todos os elementos
de sua definição legal;
c) frustrados: "quando exaurida a ação o agente não logra obter o resultado
perseguido; a ação pode exaurir-se antes da total realização típica (tentativa perfeita),
coincidir com o momento consumativo, ou então ir além deste, mas sem determinar
nova realização típica, e.g., homicídio em que a vítima recebe 11 facadas, morrendo
da primeira; neste exato momento temos o tipo consumado, porém a ação vai exaurir-
se em momento posterior."
d) imperfeitos ou tentativa perfeita: aqueles que não foram consumados por ter
sido interrompidos, ou mal executados, ou, ainda, porque era inidôneo e o meio
empregado pelo agente. São também chamados crimes falhos ou frustrados;
e) perfeitos (delictum pefeito): aqueles que se revestem de todos os elementos
imprescindíveis à sua existência real, e em cuja execução, até sua consumação, a
intenção direta do agente foi inteiramente satisfeita.
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Quanto ao concurso de agentes

a) conexos: são aqueles praticados -1) ao mesmo tempo, por diversas pessoas
reunidas; 2) em conseqüência de um pacto previamente estabelecido, embora o delito
seja perpetrado em diferentes tempos e lugares; 3) como meio de execução de outros,
ou como expediente para procurar a impunidade; 4) quanto têm com outra infração
uma estreita interdependência, ou nexo de tal natureza que se torna impossível
apreciá-Ios isoladamente, cindindo a prova;
b) de concurso facultativo ou simplesmente co-autoria: são os crimes em que a
participação de dois ou mais agentes não constitui elemento fundamental para
configuração do delito;
c) de concurso necessário: são os crimes que exigem para a sua configuração o
concurso de duas ou mais pessoas, quer dizer, a própria descrição típica exige o
concurso, como nos crimes coletivos (caso da quadrilha OU bando) ou nos bilaterais,
sendo que nestes uma das pessoas pode não ser culpável, como nos crimes de
adultério e bigamia.

Quanto aos atos que compõem a execução

a) unissubsistentes: são aqueles cuja execução se compõe de um só ato, o 'qual


coincide com a consumação, não admitindo assim a tentativa, podendo-se citar o
perigo de contágio venéreo, a omissão de socorro, vilipêndio de cadáver.
b) plurissubsistentes: são aqueles cuja execução se compõe de vários atos ou
fases sucessivos, no tempo ou no espaço, como os crimes distanciados ou a distância,
de que são exemplos, a sonegação ou destruição de correspondência, a extorsão, a
extorsão mediante seqüestro.

Quanto à persecussão criminal

a) de ação penal pública;


b) de ação penal condicionada; c) de ação penal privada.
(Giuseppe Maggiore - Derecho Penal, voI. I, ps. 295 e segs.; João Mestieri - Teoria
Elementar do Direito Criminal, Tom. I, ps. 189 e segs.; Orlando Mara de Barros -
Dicionário de Classificação de Crimes, ps. 14 e segs.; Roberto Lyra - Direito Penal
Normativo, p. 96).

Classificação dos crimes em espécie

Como salientamos anteriormente, a classificação dos crimes em espécie decorre


duma necessidade prática de sistematização, não só para o estudo da natureza dos
mesmos, bem como para a sua codificação, observando-se algumas variações termino
lógicas nos Códigos Penais dos diferentes países, quanto às classes e subc1asses
daqueles.
Daí a denominação adotada pelos Códigos Penais, ou seja, Parte Especial, que
estabelece a classificação dos crimes em espécie, compreendendo-se como espécies
as partes do gênero, sendo que este abrange várias daquelas, conforme os critérios
45

jurídicos, políticos, filosóficos, sociológicos e econômicos, adotados pelo legislador.


Nessa ordem de idéias, o Código Penal (1940) estabeleceu, em sua Parte Especial, a
seqüência de Títulos em que classifica os crimes em espé cie, com os respectivas
rubricas, a saber: Titulo I - Dos Crimes Contra a Pessoa (arts. 121 a 154); Titulo II - Dos
Crimes Contra o Patrimônio (arts. 155 a 183); Título III - Dos Crimes Contra a
Propriedade Imaterial (arts. 184 a 196); Título IV - Dos Crimes Contra a Organização do
Trabalho (arts. 197 a 207); Título V - Dos Crimes Contra o Sentimento Religioso e
Contra o Respeito aos Mortos (arts. 208 a 212); Título VI - Dos Crimes Contra os
Costumes (arts. 213 a 234); Título VII - Dos Crimes Contra a Família (arts. 235 a 249);
Título VIII - Dos Crimes Contra a Incolumidade Pública (arts. 250 a 285); Título IX - Dos
Crimes Contra a Paz Pública (arts. 286 a 288); Título X - Dos Crimes Contra a Fé
Pública (arts. 289 a 311); Título XI - Dos Crimes Contra a Administração Pública (arts.
312 a 359).
Cabe ressaltar que, além dessas espécies de crimes, existem outras, constantes
da legislação penal extravagante, ou seja, previstas em leis específicas, elencando
determinados tipos penais, em decorrência do processo de desenvolvimento político,
econômico e social.
Haja vista, dentre outros textos legais, a Lei n° 4.898, de 09.12.1965Regula o
direito de representação e o processo de responsabilidade administrativa, civil e
penal, nos casos de abuso de autoridade; Lei n° 5.726, de 29.10.1971 - Dispõe sobre
medidas preventivas e repressivas ao tráfico e uso de substâncias entorpecentes ou
que determinem dependência fisica ou psíquica, e dá outras providências; Lei n°
8.072, de 25.07.1990, com alterações introduzi das pelas Lei n° 8.930, de 06.09.1994
e Lei n° 9.695, de 20.08.1998, dispondo sobre os crimes hediondos; Lei n° 9.455, de
07.04.1997 - Define os crimes de tortura.

Com efeito, a miséria e a pobreza não constituem causas ou fatores de-


terminantes, fatais, para que o indivíduo se tome delinqüente, bandido, assaltante,
narcotraficante, haja vista que, se assim fosse, a maioria da população mundial
enveredaria por essas práticas delituosas, posto que dita maioria é carente, excluída,
de acordo com as estatísticas existentes a respeito.
Por outro lado, era de se esperar que, dentre as pessoas pertencentes às famílias
abastadas, e que recebem esmerada educação, jamais ocorressem desvios de
comportamento, práticas criminosas; entretanto, isso não se verifica, pois muitas
delas cometem não só delitos típicos do "colarinhobranco", como também infração
penais comuns, ou seja, aquelas que os juristas burgueses e pequenos-burgueses
consideram peculiares às "classes subalternas" da sociedade, isto é, o proletariado.

A Patologia Social. Neuroses. Socioses. Forças crimino-impelentes

Como assinala J. Alves Garcia, Patologia é a Ciência dos processos mórbidos, de


suas causas, das alterações estruturais ou funcionais do organismo, e da sua
evolução. Todo processo patológico resulta da interação de causas endógenas e
externas, às quais se contrapõem as defesas do organismo. Todo processo passa pelo
clímax e atinge a fase crítica ou crise. Esta termina pela resolução, pela cura ou
restabelecimento da homeostase (estado de equilíbrio), por estado enfermiço
permanente, ou pela morte (Psicopatologia Forense, ps. 157 e segs.).
Por analogia, prossegue o referido autor, chama-se Patologia Social ao estudo das
46

desorganizações ou desarmonias internas da sociedade, somadas às pressões


externas. Então, o grupo intui o anormal, acusa o sentimento da mudança brusca da
estrutura social, do conflito de culturas, das transformações, ou do ritmo acelerado da
evolução histórica.
A crise histórico-social ocorre quando, por um conjunto de circunstâncias, a
situação anteriormente aceitável, toma-se daí em diante intolerável, seja por fatores
sociais, religiosos, políticos, econômicos, ou estes simultaneamente.
Ora, as psicoses e as neuroses têm origem em desregulações ou lesões do sistema
nervoso ou do organismo, sendo certo que a vida psíquica resulta do jogo perpétuo
das influências exteriores ou ambientais e das condições internas. "Nenhum fenômeno
mental, normal ou patológico, pode ser eXclusivamente endógeno, mas também
nenhuma influência exógena tem a sua eficácia característica se não encontra um
organismo preparado. Convencionou-se, por isso, ,dizer que certas afecções mentais
são predominantemente endógenas, enquanto outras não sobretudo exógenas".
Partindo desses princípios, o referido autor chama socioses aos distúrbios
psíquicos ou orgânicos que resultam, predominantemente, das transformações
bruscas das estruturas sociais e culturais.
Em suma, esse quadro social constitui uma força crimino-impelente,
conceituada noutra parte da presente obra.
Assim, o quadro social contemporâneo, em escala internacional, revela bruscas
alterações em sua estrutura sócio-cultural, com profundo reflexo com relação às
doenças mentais e orgânicas, a saber:
a) Aumento do infarto do miocárdio e do alcoolismo femininos, depois que as
mulheres foram expostas às mesmas tensões emocionais a que estão sujeitos os
homens, na luta pela sobrevivência e afirmação social;
b) Agravação da alcoolomania, sob a forma de Delirium tremens, devido às
vivências da solidão e da desesperança; carências alimentares;
c) Transformação da psicose maníaco-depressiva, com a quase desaparição das
grandes crises de excitação, a maior incidência da síndrome melancólica, sob várias
formas e graus;
d) Transformações dos delírios esquizofrênicos, de tipo místico-religioso e
cosmogênico, em delírios hipocondríacos, técnicos, cósmicos e astranáuticos;
e) Redução dos sistemas mentais das psicoses e neuroses, e maior incidência de
fenômenos psicossomáticos, ou organoneuróticos;
f) Aumento extraordinário, em âmbito mundial, das toxicomanias, sobretudo, nos
jovens.
Diante desse quadro, conclui que existe uma relação direta entre o progresso
tecnológico e o desenvolvimento da agressividade humana, invocando a opinião de
Arnold Toynbee: "O processo atual, em aceleração desordenada da tecnologia,
aumentou agora em grau alarmante a brecha as camadas consciente e inconsciente
da psique humana" (Psicopatologia Forense, ps. 463,465,481 e 482).

Exacerbação das contradições sociais e seus reflexos sobre a violência generalizada

O fato é que os desdobramentos do processo de evolução capitalista, em escala


internacional, a sua interação com os fenômenos político, jurídico, sociológico
intensificaram de tal forma a exploração do trabalho, que exacerbaram ao máximo as
contradições sociais e a luta de classes, aumentando as desigualdades e injustiças
sociais, a miséria, a fome, em contraste com o luxo e a ostentação duns poucos, que
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monopolizam a terra, os gêneros alimentícios, os medicamentos. Considere-se ainda


os que exploram o tráfico de drogas, de armas, mulheres, e de menores - tudo isso
mantido graças à operação de regimes políticos autoritários, de índole militar -, de tal
modo que, como num plano inclinado, a sociedade capitalista chegou ao ponto em que
se encontra, ou seja, aquilo que alguns chamam de síndrome da violência, que outra
coisa não é senão uma situação próxima duma convulsão social de proporções
incalculáveis, com um desfecho imprevisível, assumindo, em certos casos - como no
Brasil -, aspectos de verdadeira guerra civil, ou zona fronteiriça dela.
Efetivamente, como salienta Israel Drapkin, a civilização ocidental, com as suas
gigantescas cidade e a enorme concentração demográfica, está tomando o homem
neurótico. Esse modelo de civilização produziu um tipo humano fisico e organicamente
mal dotado, propenso à enxaqueca, à calvície, ao nervosismo, à frigidez sexual na
mulher e à impotência no homem (Manual de Criminologia, ps. 151 e 152).
Acresce que o homem traz em si um curioso paradoxo: a primitividade do seu
esqueleto e do seu organismo - ou seja, o conjunto de condições biopsicológicas -
impõem-lhe um ônus inferiorizante, pois a patologia humana é a mais fértil e variada
de toda a narrativa viva: nenhum outro animal é mais vulnerável (J. Alves Garcia - ob.
cit., p. 470).

A desnutrição, a fome e a violência estrutural da sociedade capitalista, em


concomitância com a criminalidade

A desnutrição, por sua vez, pode acarretar graves conseqüências. Em Menores e


Loucos afirmou Tobias Barreto: "O homem é o que come". George Guilhermet
asseverou: "Sem ir até a dizer com Brillat Savarin - dize-me o que comes e dir-te-ei
quem és - a alimentação exerce influência fisiológica, psicológica e social" (apud
Roberto Lyra Novíssimas Escolas Penais, ps. 13 e 176).
Num livro candente - Geopolítica da Fome - escreve Josué de Castro: "Fustigado
pela necessidade imperiosa de comer, o homem esfomeado pode exibir a mais
desconcertante conduta mental. Seu comportamento transforma-se como o de
qualquer outro animal submetido aos efeitos da fome." E lembra que cerca de 2/3 da
humanidade vive sob regime de fome crônica, subnutrida, contando-se dentre milhões
de criaturas as que têm morrido em conseqüência desse flagelo, pois, sinistramente,
conforme o adágio popular: A mesa do pobre é escassa mas o leito da miséria é
fecundo (ob. cit., ps. 6, 34, 60 e 95).
Nunca é demais recordar a célebre decisão absolutória, proferida pelo tribunal
francês de Chateau- Thierry, presidido pelo juiz Magnaud, magistrado que passou à
posteridade como o "bom juiz", ocasião em que foi absolvida a inditosa Luiza Menard,
num caso de furto famélico, por ter-se apropriado dum pão, pois se encontrava com
fome, sem trabalho e dinheiro, tendo a seu cargo um filho, como lembramos alhures
(Justiça e Criminalidade, ps. 79 e segs.).
As doenças mentais, por exemplo - uma porta larga para os desvios de conduta,
especialmente de natureza criminosa -, têm múltiplas causas, a começar pelas
carências alimentares, desde o período de gestação, agravando-se naturalmente com
a subnutrição nos primeiros anos de vida, como lembramos noutro trabalho (Extinção
das Prisões e dos Hospitais Psiquiátricos, p. 140).
A propósito, como observou Antônio Alfredo Fernandes, de "um contingente pré-
escolar de 22 milhões e 500 mil crianças, apenas 20% recebem assistência das áreas
de saúde e nutrição; 70% são subnutridas e desnutridas, com as células nervosas do
48

cérebro irremediavelmente afetadas", sugerindo inclusive a abertura de uma


Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara Federal para investigar o assunto e
criar uma legislação para a área pré-escolar, "única saída para que o Brasil deixe de
ser um país de não inteligentes" (Jornal do Brasil, 14.04.78).
Ora, em tais casos, a tendência é no sentido de que essas crianças, se
sobreviverem, constituirão no futuro, como adultos, débeis mentais, imprestáveis para
o trabalho útil e fecundo, enfim; um peso social morto.
Observa Hans von Hentig, com lógica irretorquível: já que três-quartos de todos os
crimes são crimes contra a propriedade, torna-se clara a importância da condição
econômica individual. Muitos outros crimes são causados indiretamente por
dificuldades econômicas, pois a fome, o frio, ou a vida dos cortiços não melhoram o
controle dos nossos atos (Crime, Causes and Conditions, p. 96).
Daí a advertência de von Liszí: "A influência das circunstâncias sociais e,
sobretudo, econômicas sobre a vida dos indivíduos começa muito tempo antes do seu
nascimento.
Remediai as circunstâncias econômicas desfavoráveis e salvareis, ao mesmo
tempo, o futuro das novas gerações.
É, pois, evidente que as circunstâncias sociais e, especialmente, econômicas
determinam a marcha da criminalidade" (apud Roberto Lyra Novíssimas Escolas
Penais, p. 171).

Por seu turno, a violência estrutural e institucional dos regimes políticos


autoritários, ditatoriais, ao impor um modelo econômico elitista, no interesse das
multinacionais - com o objetivo de privilegiar uns poucos, com salários principescos, a
fim de que constituam a clientela consumidora de produtos supérfluos - acabam
gerando desigualdades sociais e injustiças escandalosas, provocando agitação social,
greves, descontentamento e inconformismo generalizado, situação essa que é
aproveitada pelas forças conservadoras e dominantes da sociedade, para justificar o
desencadeamento da repressão político-social, aplicação de medidas de exceção,
decretação de estado de sítio, suspensão dos direitos e garantias constitucionais,
como ocorreu no Brasil, pós-1964.
Daí por que, acerca do chamado crime político-social, salientou Crispigni que as
maiores conquistas no sentido do aprimoramento das instituições democráticas terem
sido alcançadas justamente por essa espécie de crimes.
Não se pode ignorar que a queda das tiranias, a abolição da servidão da gleba, a
igualdade civil e política, os direitos do homem, a melhoria das condições de vida do
proletariado etc. não teriam sido possíveis sem o ímpeto dos crimes político-sociais
(apud Nélson Hungria - Comentários ao Código Penal, voI. I, Tomo 1 °, p. 185).

Características próprias da violência no meio urbano e no rural

No tocante ao proletariado urbano brasileiro, submetido à violência permanente do


modo de produção capitalista, estima-se o seu número em 12.500.000 de
trabalhadores, enquanto o proletariado rural, submetido a essa violência estrutural, é
estimado em 4,9 milhões, ou seja, 1/3 da forma de trabalho agrícola, segundo dados
da década de 1980.
Na área rural, devem ser acrescentados os assalariados temporários, chamados
"bóias-frias", trabalhadores rurais esses que vivem nas periferias dos centros urbanos,
sendo que a sua integração nos processos produtivos é eventual, ocorrendo somente
49

nas épocas de maior atividade agrícola (geralmente nas colheitas), e que


correspondem à categoria mais aniquilada da classe trabalhadora brasileira, atingindo,
aproximadamente, 10 milhões de pessoas; esses trabalhadores estão, ainda, sujeitos
à expropriação por parte dos intermediários ou contratadores dos serviços, junto aos
empresários agrícolas, intermediários esses cuja alcunha - "gatos" - bem identifica a
sua ação rapinante (Juarez Cirino - ob. cit., ps. 92 e 93).

Cumpre salientar que as alterações desordenadas no meio rural, a substituição


das culturas agrícolas, de subsistência, pela criação intensiva de gado, destinado à
exportação, provocam, dentre outras conseqüências, o êxodo rural, isto é, a migração
do homem do campo em direção às cidades, onde se espera melhor sorte, para não
acabar morrendo de fome; mas no meio urbano há .outras adversidades, tais como
dificuldade em dispor do solo, para construção de moradia, até mesmo na zona de
favelas, já supercongestionada, sem falar .na falta de ocupação, escolaridade,
assistência médica, condições mínimas de higiene e alimentação.
, O fato é que são crescentes os índices de violência no Brasil, como assinalou o
senador Geraldo Cândido, bastando citar o fato de que no primeiro trimestre de 1999
registraram-se 23 mil homicídios no País, o que permite estimar que esse número
deverá ultrapassar 50 mil por ano, futuramente.
Tal fato pode ser comparado com o que ocorre na Colômbia, em conseqüência da
guerra civil nesse país (Jornal do Senado, 08.06.2001, p. 5).

O gigantismo das cidades como fator criminógeno. Favelização

Em resumo, todo um elenco de dificuldades angustiantes, faz com que grande


número de pessoas acabe buscando refúgio sob viadutos, nas galerias de edifícios e
embaixo de marquises, constituindo os chamados "dormidores de rua", sem teto,
encontrados nas grandes cidades, onde perambulam durante o dia, fazendo pequenos
biscates, com minguados ganhos, caminho esse que leva fatalmente à prática
criminosa, inclusive por parte dos menores, que vivem sob essas condições de
existência, como lembramos noutro trabalho (Causas da Criminalidade e Fatores
Criminógenos, ps. 52 e segs.).
Ademais, os políticos demagogos têm objetivos exclusivamente eleitoreiros,
imediatistas, tais como a criação dos chamados "currais eleitorais", urbanos e rurais,
consistentes na concentração de eleitores em determinadas áreas, na condição de
"clientela cativa", favorecida com algumas construções, especialmente habitacionais.
Daí, por exemplo, a absurda substituição de favelas em áreas impróprias -
mangues e alagadiços -, compostas de barracos construí dos com pedaços de folha de
zinco e papelão, por outras habitações de alvenaria, como foi o caso da denominada
"favela da maré", às margens da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, ao longo da via
expressa Linha Vermelha, área essa cuja fetidez e insalubridade atingem limites
insuportáveis, devido sobretudo ao fato de a região constituir um desaguadouro de
esgotos, com elevados índices de poluição.

Acontece que ali é uma região de intenso trânsito rodoviário, despertando assim
os olhares daqueles que circulam, em automóveis e ônibus, podendo desse modo
revelar admiração por aquelas novas construções, obra de determinado político, sem
considerar as inconveniências acima apontadas.
Ora, o que o bom senso e a coerência recomendavam era um entrosamento entre
50

os governos municipais, estaduais e federal, no sentido de construções habitacionais,


prioritariamente, em áreas rurais, próximas aos centros urbanos, de modo que as
mesmas se destinassem ao cultivo de hortigranjeiros e criação de animais de pequeno
porte, destinados à alimentação, quer dos moradores desses conjuntos, quer para
efeito de venda a terceiros.
Em suma, a construção de conjuntos habitacionais, destinados a populações
carentes, nos moldes acima expostos, agrava a problemática do congestionamento e
superpopulação urbana, ou seja, o chamado gigantismo das cidades, um dos fatores
criminógenos, como ressaltamos noutros trabalhos ("O gigantismo das cidades como
fator criminógeno", in Rev. do Curso de Direito da UF de Uberlândia, voI. 17, 1988;
Incorporações Imobiliárias e Condomínio de Apartamentos, ps. 15 e segs.).
Com efeito, boa parte da população de alguns desses conjuntos habitacionais se
compõe de adolescentes, jovens ,que não têm ocupação nem habilitação profissional,
não dispondo de renda própria, mas, sobretudo devido à promiscuidade em que
vivem, mantêm relações sexuais precoces, procriando numerosos seres humanos,
débeis, doentios, com insuficiência de peso, com sombrias perspectivas de vida.
Além disso, no bojo desse contingente humano, principalmente por causa da
ociosidade, alastram-se as práticas delituosas, ramificações do narcotráfico, do tráfico
de armas, prostituição, e assim por diante, típicas do lumpemproletariado.

O lumpemproletariado como subproduto da violência capitalista

Na terminologia marxista, o vocábulo lumpemproletariado se aplica às camadas


sociais sem consciência política e de classe, entregando-se à prática de contravenções
penais e crimes, ou seja, jogatina, furtos, assaltos, seqüestros, tráfico de armas,
narcotráfico, usufruindo vantagem do comércio sexual, como "garotas e garotos de
programa", e assim por diante, trilhando o caminho escabroso da criminalidade, o qual
dificilmente oferece retorno.
Em suma, a maior parte desse contingente humano constitui o que tradicionalmente
se considera a canalha, malta, corja da sociedade, che gando a essa condição em
conseqüência de diversas causas e fatores criminógenos, de natureza biológica,
genética, psicológica, sociológica, e outros, como ressaltamos noutra parte da
presente obra, ao tratar das diversas concepções acerca do delinqüente, como explica
o darwinismo social.
Concluindo o lumpemproletariado é um subproduto da violência capitalista.

O abuso de poder do ponto de vista da criminalidade econômico-financeira .

Em sentido genérico, a expressão abuso de poder equivale a abuso de autoridade,


isto é, o uso imoderado ou exorbitante do poder público, por parte de um dos seus
agentes, quando no exercício das funções próprias do seu cargo, situação essa que, no
Brasil, é disciplinada pela Lei n° 4.898, de 09.12.1965, que regulou o direito de
representação e o processo de responsabilidade administrativa civil e penal, nos casos
de abuso de autoridade, disposições legais essas que, aliás, jamais tiveram qualquer
eficácia, em face do autoritarismo político reinante, que, pela sua própria natureza,
violenta de maneira permanente a legalidade democrática.
Entretanto, para efeito de estudos criminológicos, mais precisamente, no esforço
da construção da Teoria Crítica do Controle Social na América Latina, a expressão
51

abuso de poder assume conotações particulares e específicas, como veremos adiante.


De fato, as concepções tradicionais acerca da idéia de poder têm sido objeto de
várias considerações, nos últimos anos, sobretudo após a Reunião Inter-regional de
Expertos das Nações Unidas sobre "Delitos e Delinqüentes fora do Alcance da Lei", em
Nova Iorque, em 1979, como salienta Lola Aniyar de Castro (La Realidad Contra Los
Mitos, Maracaibo, 1982).
Por sua vez, o poder opera em vários níveis ou esferas; há centros de poder
político, como assembléias, administração, exército, polícia, magistratura, municípios,
partidos políticos, assim como existem também centros de poder econômico e centros
de poder ideológico.
Daí, "todo abuso de poder forma parte do mesmo exercício do poder que se
encontra dentro de uma formação social determinada, e obedece aos seus
mecanismos" (Lola Aniyar - ob. cit., ps. 127 a 133).
Nesse contexto, ao versar sobre o tema Direito Penal Econômico e Direito Penal dos
Negócios, salientou Heleno Fragoso que, no Brasil, o Direito Penal tem sido amargo
privilégio dos pobres e desfavorecidos, que povoam nossas prisões horríveis e que
constituem a clientela do sistema. A estrutura geral de nosso direito punitivo, em
todos os seus mecanismos de aplicação, deixa inteiramente acima da lei os que têm
poder econômico ou político, pois estes se livram com facilidade, pela corrupção e pelo
tráfico de influência (Rev. de Direito Penal e Criminologia, ps. 122 a 129, Forense, n°
33).

O tráfico de influência e a impunidade das multinacionais ou transnacionais

A América Latina se caracteriza, como se afirmou na Conferência de Puebla, por


uma escandalosa distância crescente entre pobres e ricos e a desumana pobreza de
extensas faixas da população. Há fome e desnutrição, salários aviltados, desemprego
e subemprego, enfermidade crônicas, analfabetismo, mortalidade infantil, falta de
morada adequada, injustiça nas relações internacionais, especialmente nas transações
comerciais, situações de neocolonialismo econômico e cultural, por vezes tão cruel
como o colonialismo político.
Nosso direito tem permanecido fiel à regra segundo a qual a responsabilidade
criminal é pessoal e subjetiva. As pessoas jurídicas não podem cometer crimes.
Segundo Brícola, no entanto, num estudo luminoso, essa regra não tem valor
ontológico e é apenas expressão da força das leis do poder econômico. Se se pretende
permanecer fiel à regra da responsabilidade penal subjetiva, é indispensável prever,
para as pessoas jurídicas, sanções administrativas comparáveis às sanções penais.
Constitui um dos fatos mais destacados do mundo contemporâneo a evolução
fantástica das empresas transnacionais, que operam largamente na América Latina.
Convém, assim, examinar em que medida é necessária e possível a repressão penal
dos abusos cometidos por essas sociedades. Os atos de corrupção realizados em
Lockheed na Itália, na Holanda e no Japão, que alcançaram repercussão internacional,
são apenas um dos exemplos de ações delituosas. Sugere-se a elaboração pelos
órgãos internacionais de códigos de conduta, que regulem a atividade dessas
empresas, embora os seus efeitos sejam bem limitados (Rev. de Direito Penal e
Criminologia, Forense, n° 33, ps. 122 a 129).
As imunidades diplomáticas, como vimos, têm servido de disfarce para um sem-
número de crimes, relacionados ao tráfico de drogas, armas, aliciamento de
mercenários, espionagem industrial e comercial, corrupção, suborno. Nesse sentido,
52

tornou-se particularmente escandaloso o episódio ocorrido, por longo período, na


embaixada brasileira na França, em que o seu titular recebeu a alcunha de
"embaixador dez por cento", pelo fato de perceber esse percentual, em decorrência
dos negócios realizados pelo seu país, fato esse denunciado pelo célebre Relatório
Saraiva, jamais, porém, divulgado ou apurado em suas últimas conseqüências, apesar
de iniciativas, nesse sentido, na Câmara dos Deputados, em Brasília.
Evidentemente, dispomos de instrumentos legais que reprimem os crimes de
natureza econômico-financeira, como a Lei n° 1.521, de 26.12.1951 (Altera
dispositivos da legislação vigente sobre crimes contra a economia popular), bem como
órgãos específicos, como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE),
criado pela Lei n° 4.137, de
10.09.1962 (Regula a repressão ao abuso do Poder Econômico), instrumentos esses,
porém, que se revelaram inócuos, sobretudo pós-1964, a partir de quando as
multinacionais impuseram o seu alvedrio à economia nacional. A propósito,
oferecemos a Indicação de n° 61/84, ao Instituto dos Advogados Brasileiros,
apresentando projeto de lei que modifica a composição do CADE, para nele incluir
representante dos advogados e de outros segmentos de nossa sociedade, proposta
essa rejeitada.

O frenesi ou delírio da era do automóvel. Motocicleta

o fenômeno, que denominamosfrenesi do automóvel, por exemplo, é


um caso típico de fator criminógeno.
Observe-se que falamos emfrenesi do automóvel, uma vez que, é ló
gico, o automóvel, por si só, não constitui fator criminógeno.
Entretanto, afigura-se como fator criminógeno o modelo econômico elitista,
baseado na ênfase da produção e propagação do consumo do automóvel, como
privilégio duns poucos, em detrimento dos interesses coletivos, devido à destinação
de recursos públicos para esse esforço de produção, através de incentivos fiscais,
remessa de lucros para o exterior,
juros, royalties, provocando com isso o agravamento do endividamento externo,
exigindo em conseqüência a exportação de gêneros alimentícios essenciais ao
consumo da população - como, no caso do Brasil: café, soja, feijão, arroz, milho,
carnes, frangos, frutas -, deixando aqui mesas vazias e bocas famintas.
Em resumo, esse conjunto de fatos assume o aspecto de fator criminógeno, pois daí
resultam injustiças e tensões sociais, elevação dos índices de acidentes de trânsito,
sobretudo devido ao mal uso do automóvel, com numerosas vítimas, mortas, com
deformação fisica, invalidez, sem falar nas neuroses urbanas, em conseqüência do
ruído aterrador e da insegurança coletiva, provocada pelo próprio ritmo de velocidade
desses veículos, pa norama esse que se pretende justificar em vão, sob a
inconsistente alegação de "preço do progresso", como lembramos noutro trabalho
(Causas da Criminalidade e Fatores Criminógenos, ps. 69 e segs.).
Em geral, nos países subdesenvolvidos, submetidos a regimes políticos
autoritários, de exceção, o povo não dispõe de liberdade política para organizar-se em
sindicatos atuantes, associações de defesa do consumidor e outros órgãos de proteção
da comunidade (J. M. Othon Sidou - Proteção ao Consumidor, Rio, 1977; Nina Ribeiro -
O Que Podemos Fazer, Brasília, 1978; Ester Kefauver - Em Poucas Mãos - O Poder de
Monopólio na América do Norte, Rio, 1967).
53

Sob esse aspecto o Brasil se encontra completamente desprovido, à mercê do


alvedrio das multinacionais, que controlam os principais setores de nossa economia:
alimentos, medicamentos, transportes, tratamento da saúde, poder publicitário e de
marketing (Mercadologia), através dos meios de comunicação social, a denominada
mídia, que introjetam nos cidadãos a concepção segundo a qual quem não possui
automóvel é infeliz. Haja vista que numa pesquisa realizada nos EUA, acerca do
significado individual do automóvel, muitos dos entrevistados declararam que "amam
os seus veículos" e "conversam com eles", enquanto outros revelaram que o
"automóvel está acima da própria família, mulher e filhos" (cf. Central Brasileira de
Notícias - CBN, 09.02.2002).
O mesmo se pode dizer em relação a motocicletas, sendo que alguns tipos das
mesmas poluem dez vezes mais do que os automóveis.

Os descalabros no trânsito de veículos rodoviários. Automóvel: símbolo de


desabaladas corridas. Criminalidade típica

No setor de trânsito, por exemplo, grassam a insegurança e impunidade, a


começar pela inexistência dum mínimo de requisitos nos automóveis aqui produzidos
e que circulam em nossas cidades e rodovias, Basta dizer que esses veículos não
dispõem de padrões de segurança que os habilitem a circular em países da Europa,
nos EUA e Japão, como ficou apurado por ocasião dos trabalhos realizados pela
Câmara dos Deputados, em Brasília (Nina Ribeiro - Em Defesa do Consumidor, Brasília,
1974).
Somos perenes recordistas mundiais em acidente de trânsito e parece haver certo
orgulho disso no subconsciente de muitos, pois sustenta-se que tal fato representa o
"preço do progresso", quer dizer, sinal de que somos um país em desenvolvimento, na
senda da prosperidade.
As multinacionais da indústria automobilística, do petróleo, do seguro de acidentes
e do tratamento da saúde se sentem à vontade no Brasil, pois representamos um
pasto fértil para as suas lucrativas e crescentes atividades.
A fraude, corrupção, permissividade e complacência da legislação e dos órgãos do
trânsito, bem como a tolerância da justiça penal, se harmonizam e satisfazem ao
status quo existente, deixando satisfeitas as multinacionais, que nos bastidores
manobram eficientemente no sentido de que não ocorram mudanças.
De acordo com os dados coligidos por Genoveva Miranda, enquanto em São Paulo,
em 1980, ocorreram 15.193 atropelamentos, ou seja, cerca de 40 por dia, em 1981 se
verificaram cerca de 26 mil acidentes dessa espécie, o que dá u'a média de um a cada
22 minutos.
Por outro lado, dados do Programa de Redução de Acidentes - com a sugestiva
sigla Pare -, vinculado ao Ministério dos Transportes, indicam que, em nível nacional,
cerca de 350 mil pessoas são acidentadas anualmente no trânsito rodoviário, sendo
que do total de acidentados, aproximadamente 40 mil correspondem a casos fatais
(cf. pronunciamento do senador Mauro Miranda, in Jornal do Senado, 16.08.2001, p.
10).
Os técnicos afirmam que em 1981 chegaram a 34 bilhões de cruzeiros os custos
de socorro e hospitalização das vítimas. Segundo eles, um em cada 4 atropelados
54

tinha mais de 50 anos.


Em grande parte, tudo isso se deve ao sistema de aprovação de novos motoristas.
De acordo com o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, são muitas as facilidades para
obtenção de carteira de habilitação no Brasil: "Aqui, para ser considerado apto, basta
ter visão razoável, provar que não é analfabeto, conhecer os sinais de trânsito e
colocar o carro em movimento. E pronto! Depois de algumas ladeiras, a carta."
Uma das sugestões do psicólogo é a aplicação de testes psicotécnicos para todos,
a cada 3 anos, e o uso de eletroencefalograma nos exames, para eliminar motoristas
com problemas mentais.
Outra sugestão do referido especialista diz respeito à falta de condições de
trabalho dos motoristas profissionais: excesso de carga horária, alto nível de ruído e
calor. Tudo isso, mais os longos turnos - em média de 12 a 14 horas - provoca a
fadiga, uma das causas dos acidentes.
Em 1973, por exemplo, de acordo com estatísticas oficiais, apurou-se que 12% dos
motoristas de ônibus apresentavam disritmia, e todos dirigiam mais de 12 horas por
dia, transportando u'a média de cem pessoas por viagem. Dois anos mais tarde, uma
pesquisa também oficial constatou que 15% dos motoristas de uma empresa
particular eram portadores de sífilis e verminose. Isso, quando não tinham problemas
de hipertensão arterial e surdez, como lembramos alhures (Criminologia, ps. 115 e
segs.).

Os acidentes no trânsito, em virtude de os motoristas dirigirem alcoolizados. Bandidos


do volante

Por outro lado, os países mais desenvolvidos possuem leis severas, no que diz
respeito aos motoristas que tenham tomado bebidas alcoólicas. Na Alemanha, por
exemplo, é considerada como infração grave e embriaguez no volante. Bastam 2
copos de cerveja, apenas, para que o motorista seja considerado alcoolizado e, no
caso, a medida tomada é a cassação imediata e, na maioria das vezes, definitiva, da
carteira de motorista.
No Brasil, há um misto de sentimentalismo e escrúpulo, no que diz respeito à
cassação da carteira de habilitação, ora sob a alegação de que isso representaria a
perda do emprego, ora sob o fundamento de que o trânsito implica num risco
razoável. Com isso, um mesmo infrator ocasiona sucessivos desastres, causando
lesões corporais e morte, e enquanto responde aos processos, continua de posse de
duas carteira, sem ser molestado, ensejando novos desastres, provocados pelos que
denominamos "bandidos do volante" (Comentários ao Código de Processo Civil, art.
275, vol. I).
O emprego do álcool, como combustível automobilístico, trouxe novos
complicadores em relação à poluição ambiental, como veremos adiante, ao que se
soma ao fato de o motorista dirigir embriagado. É que, de acordo com a estimativa
duma Delegacia Especializada em Acidentes de Trânsito, cerca de metade dos
motoristas paulistanos, homens e mulheres, dirigem seus carros em estado de
embriaguez.
Conforme uma pesquisa realizada no Brasil, intitulada "A Influência do Etanol nas
Atividades Psicomotoras Envolvidas no Ato de Dirigir Veículos", constatou-se que o
álcool é rapidamente absorvido pelo aparelho gastrintestinal- cerca de 90% - em uma
55

hora. Sua solubilidade alta na água permite a passagem rápida por qualquer
membrana humana e, uma vez diluído no sangue, entra imediatamente em contato
com o cérebro. A princípio a pessoa entra num estado de excitação e, logo após, vem
a depressão, quando, segundo Kalant, ocorre "uma diminuição da reação de alerta e a
atividade dos centros regulatórios autônomos adquire um padrão bastante
aproximado do estado de sono". Ou seja, começou a surgir os sintomas do sono, com
a perda da capacidade de concentração e dispersão dos sentidos.
São os seguintes os distúrbios causados pela ingestão excessiva de bebidas
alcoólicas: visuais, sonolência patológica, reflexos retardados, hipoglicemia severa e
disritmias epileptiformes, na crise de abstinência de álcool.
Diante desse quadro é que se pode avaliar a extensão da impostoria e o descabido
regozijo da fala ministerial, ou seja, o teor dos discursos pro nunciados por ocasião da
solenidade de comemoração do alcance da meta de produção de 10,7 bilhões de litros
de álcool e da comercialização do milionésimo veículo a álcool, no Brasil (Publicação
da Comissão Executiva Nacional do Álcool- Secretaria Executiva, Brasília, 19.09.1983).
O que se escamoteou, nessa ocasião, foi a verdade acerca da poluição causada ao
meio ambiente, principalmente com o lançamento do vinhoto (resíduo da cana-de-
açúcar, com elevado teor tóxico) em nossos rios, ocasionando a destruição da fauna
aquática, com igual reflexo nos oceanos; o agravamento da dívida externa, pois essas
empresas automobilísticas remeterão, com esse aumento de produção de veículos,
mais dividendos, juros e royalties para as suas matrizes no exterior, e assim por
diante, resultando mais esfomeação e miséria para as camadas sociais carentes de
nosso povo.
Em Israel, por exemplo, no que diz respeito à severidade das leis de trânsito, há
um critério para a perda da carteira de habilitação: basta que o motorista some 8
pontos em inftações cometidas. Para o excesso de velocidade a punição é 1 mês sem
licença. Andar sem seguro são 8 pontos - e um juiz decide o tempo de cassação. O
motorista surpreendido sem documentos tem o prazo de 24 horas para apresentá-los.
Sendo alguém que estava suspenso, temporariamente, a perda é às vezes duplicada
de 1 para 3 anos.
Quanto ao Brasil, com o advento do Código de Trânsito Brasileiro (Lei n° 9.503, de
23.09.1997), adotaram-se regras similares.
Na Itália, no caso de grave responsabilidade pessoal em acidente de trânsito com
vítimas fatais, a carteira pode ser cassada, provisoriamente, até uma decisão judicial
(Vida e Saúde, SP, 1984).
Enquanto se observa esse quadro, em relação ao transporte individual, o setor de
transportes coletivos de tração elétrica, como convém ao Brasil, se encontra em
completo abandono. .
No capítulo intitulado O Delírio do Automóvel, do livro que publicou, o engenheiro
Renê Fernandes Schoppa demonstra, com argumentos e fatos irrespondíveis, o
absurdo da política de expansão da indústria automobilística, mesmo em relação aos
EUA, acarretando um elevado custo social, com a aplicação de recursos em planos
viários elitistas, para facilitar o transporte individual, poluição ambiental, e danos à
saúde pública (Para Onde Caminham Nossas Ferrovias? ps. 87 e segs.).

O consumismo como fator criminógeno

Por sua vez, o consumismo representa outro decisivo fator criminógeno, na


sociedade capitalista.
56

Como é notório, os chamados estímulos publicitários da sociedade capitalista têm


como único objetivo o lucro individual, sem que importem os meios empregados e as
conseqüências que daí possam advir.
Cria-se, assim, uma sensação artificial de progresso e fantasias, através do intenso
sugestionamento do público, no sentido de consumo dos bens produzidos e oferecidos,
através dos meios de comunicação social, produtos esses tantas vezes supérfluos e
nocivos à saúde, sem qualquer controle por parte das autoridades públicas, quer se
trate de alimentos, medicamentos, cosméticos e outros artigos, como, por exemplo, a
publicidade insidiosa em torno do cigarro e das bebidas alcoólicas.
Nesse contexto, até o abundante oferecimento nos supermercados gera ânsia de
adquirir o supérfluo; quando muitas vezes não é possível realizar esse desejo, então é
estimulada a prática de furtos, comO lembra Hans von Hentig (El Delito, voI. III, p. 43).
Partindo dessa linha de raciocínio, chega-se à conclusão de que a atual síndrome
de violência, característica da sociedade capitalista em geral, sobretudo no tocante à
criminalidade patrimonial, não representa outra coisa senão a resultante generalizada
da maciça publicidade em tomo do consumismo, que transborda pelos meios de
comunicação. Ora, com a recessão econômica, desemprego e carestia dominantes,
sob o capitalismo, não se poderia esperar outra reação coletiva, que se observa: o
incontrolável número de furtos, assaltos, seqüestros, sem falar nas práticas
estelionatárias.

A fabricação de armas, seu tráfico e as polícias particulares, como fatores de violência


e criminalidade

Some-se a isso o fenômeno do tráfico de armas de fogo, a propagação de sua


fabricação e venda; a existência de polícias particulares, firmas de segurança
bancária, cujo pessoal, em sua maioria, é recrutado dentre as camadas mais carentes
da população, sendo freqüente o extravio de seu armamento, inclusive o de armas de
grosso calibre, consideradas de uso privativo das Forças Armadas.
Lembram muitos observadores que o ano de 1968, no Brasil, representou o
momento de transição entre o crime habilidoso para o violento, porque foi justamente
nesse ano que o nefando "Esquadrão da Morte" começou a atuar, institucionalizando a
violência, sugestionando assim igual atuação violenta por parte dos criminosos em
geral, mostrando-lhes que o assalto à mão armada é muito mais proveitoso e eficaz,
sendo a surpresa um importante elemento para o êxito do assalto, como lembra
Nélson Pizzotti Mendes (Criminologia, ps. 320 e 323).
Em seu livro Agressão e Violência no Mundo Moderno, assim se manifesta o autor
norte-americano Friedrich Hackker: "Como compreender que um mesmo ato, quando
cometido por um é autorizado e legítimo, e quando cometido por outro, proibido e
repreensível?"
A propósito, observe-se a marcha das discussões, travadas no Senado Federal,
durante o ano de 2000, acerca da proibição e da regulamentação do porte de arma do
fogo, quando então vieram à tona argumentos patéticos a respeito, contrários à
proibição em exame (Jornal do Senado).
Aliás, é bastante significativo o fato de o ex-presidente estadunidense Ronald
Reagan, apesar de baleado no pulmão, no atentado que sofreu no dia 30 de março de
1981, ter-se recusado a adotar qualquer medida, em relação ao controle de venda de
armas de fogo a particulares, nos EUA.
É evidente que a fabricação e o comércio dessas armas representam um bilionário
57

negócio, além de expandir o crime organizado.

A "DELINQÜÊNCIA JUVENIL"

A problemática da inimputabilidade penal em face da idade

o emprego da expressão delinqüência juvenil tem suscitado interminável


discussão teórica, quanto à impropriedade técnica dessa terminologia.
A discussão está centrada no conceito analítico do delito, que, como se sabe,
consiste na ação ou omissão típica, antijurídica e culpável.
Ora, sustenta-se, desde que inexista um, dentre os três elementos, integrantes do
conceito analítico do delito - tipicidade, antijuridicidade e culpabilidade -, não se
configura a hipótese de prática delituosa.
No caso, o cerne da questão gira em torno da culpabilidade, que constitui o
elemento subjetivo do delito, isto é, o nexo moral que liga o agente ao fato criminoso
que lhe é imputado.
Na linha desse raciocínio, a culpabilidade pressupõe a imputabilidade, ou seja, a
capacidade moral atribuída ao homem, pelo fato que lhe é imputado - imputatio facti -,
como sua obra e a forma dessa imputação - dolo ou culpa -, imputatio juris, isto é, a
atribuição de um fato a um indivíduo para fazê-Io sofrer as conseqüências e torná-Io
responsável por isso.
Em outras palavras, o imputável é o penalmente responsável; o inimputável é o
irresponsável.

Em geral, os Códigos Penais não definem a imputabilidade, mas estabelecem as


condições de inimputabilidade, ou seja, as dirimentes, como é o caso de nosso Código
Penal de 1940, em cujos artigos 22 a 24 adotou o chamado critério biopsicológico
normativo, segundo o qual o agente é isento de pena ou esta é reduzida, em
determinadas circunstâncias, que o próprio Código prevê.
. Nos casos concretos, isto é, quando houver dúvida sobre a integridade mental do
agente, este será submetido a exame médico-legal, de natureza psiquiátrica, na forma
prevista pelo artigo 149, do Código de Processo Penal de 1941.
Adotou o legislador de nosso Código Penal de 1940 o princípio da chamada
responsabilidade moral, que se baseia na consciência e vontade do agente,
responsabilidade essa sobre a qual a pena deve atuar, para a realização de sua
finalidade inerente à sua natureza aflitiva, expiatória, retributiva e também tendente a
plasmar uma nova consciência no delinqüente.

Conceito de responsabilidade ou imputabilidade penal

Segundo Nélson Hungria, o Código Penal de 1940, não dá uma definição positiva
da responsabilidade, sob o ponto de vista jurídico-penal, limitando-se a declarar os
casos em que esta se considera excluída, assim se expressando: "Por dedução a
58

contrario do texto legal, verifica-se que a responsabilidade pressupõe no agente,


contemporaneamente à ação ou omissão, a capacidade de entender o caráter
criminoso do fato e a capacidade de .

 determinar-se de acordo com esse entendimento. Pode, então, definir-se a


responsabilidade como a existência dos pressupostos psíquicos pelos quais alguém é
chamado a responder penalmente pelo crime que praticou. Segundo um critério
tradicional, que o Código rejeitou, haveria que distinguir entre responsabilidade e
imputabilidade, significando esta a capacidade de direito penal ou abstrata condição
psíquica da punibi1idade, enquanto. aquela designaria a obrigação de responder
penalmente in concreto ou de sofrer a pena por um fato determinado, pressupostos da
imputabilidade. A distinção é bizantina e inútil. Responsabilidade e imputabilidade
representam conceitos que de tal modo se entrosam, que são equivalentes, podendo,
I,com idêntico sentido, ser consideradas in abstrato ou in concreto, a priori ou a
posteriori. Na terminologia jurídica, ambos os vocábulos podem ser indiferentemente
empregados, para exprimir tanto a capacidade penal in generis, quanto a obrigação de
responder penalmente pelo fato concreto, pois uma e outra são aspectos da mesma
noção" (Comentários ao Código Penal, voI. I, Tomo 2°, p. 314).
Entretanto, esse entendimento não é pacífico, do ponto de vista teórico, dele
discordando, por exemplo, Aníbal Bruno (Direito Penal, I, Tomo U, p. 27), José
Frederico Marques (cf. Euclides Custódio da Silveira, in Notas ao Direito Penal, 10 voI.,
p. 242), autores esses que distinguem responsabilidade e imputabilidade.

Capacidade de entendimento ético-jurídico do agente do delito

Como se sabe, segundo a sistemática adotada pelo nosso Código Penal de 1940, a
responsabilidade só deixa de existir quando inteiramente suprimidas no agente, ao
tempo da ação ou omissão, a capacidade de entendimento ético-jurídico ou a
capacidade de adequada determinação da vontade ou de autogoverno. Tal supressão,
porém, está indeclinavelmente condicionada a certas causas biológicas: "doença
mental", "desenvolvimento mental incompleto ou retardado" e "embriaguez fortuita e
completa". Foi, assim, adotado o método chamado misto ou biopsicológico, devendo
notar-se, entretanto, que o Código faz uma exceção a essa regra quando trata dos
menores de 18 anos, pois, nesta hipótese a causa biológica (imaturidade) basta, por si
só, irrestritamente, sem qualquer indagação psicológica, para excluir a
responsabilidade penal, como sustenta Nélson Hungria (Comentários ao Código Penal,
voI. I, Tomo 2°, ps. 314 e segs.).

As reações psíquicas do embrião e do feto e seus reflexos no comportamento futuro


do ser humano

Na realidade, o critério adotado pelo nosso Código Penal de 1940 tem origens e
explicações de natureza psicológicas, eis que, qualquer que seja o momento em que
surpreendemos o germe humano, desde a sua fecundação, até adquirir o caráter de
embrião (aos dez dias) ou de feto (aos dois meses), nele podem obter-se
experimentalmente dois tipos de reação: locais e globais, reações essas que,
progressivamente, adquirem um caráter unitário e intelectual, base das reações
psíquicas, cujo aparecimento se dá incontestavelmente pelo sexto mês do
desenvolvimento intra-uterino, coincidindo com a viabilidade do feto. Em suma, há
59

portanto uma psicologia pré-natal (Emilia Mira y Lopez)


Daí os efeitos nocivos, nos casos das gestantes que rejeitam a maternidade, isto é,
não desejam procriar, maldizem o feto, que se encontra em suas entranhas, utilizam-
se de substâncias para tentar abortar, por não disporem de recursos financeiros para
realizar o aborto, por meio de um médico.

Após a passagem migratória do feto para o mundo exterior, inicia-se a / I


evolução extra-uterina do recém-nascido, que atravessa diversas fases, até atingir a
primeira e segunda infâncias, daí passando à adolescência (do latim adolescere, que
significa crescer), que constitui um breve espaço de tempo, que precede a puberdade,
correspondendo aproximadamente ao período entre os 11 e os 13 anos nas meninas e
os 12 e 14 anos nos meninos. Nesse período, como ressalta Emilio Mira y Lopez,
observam-se, a par de notáveis transformações anatômicas e psicológicas, alterações
de conduta e mudanças morfológicas sensíveis. É o momento evolutivo do chamado
"estirón", ou seja, de um crescimento estatural acelerado.
À medida que a Psicologia vai progredindo, acentua-se a importância do estudo da
problemática existencial dos adolescentes, ampliando-se a duração admitida para
esse período, até compreender não somente a puberdade, mais também grande parte
da juventude, isto é, o segundo decênio da vida. De sorte que, já não é a adolescência
intercalada entre a meninice e a puberdade, mas sim entre a meninice e a maioridade,
variando em conseqüência os critérios legislativos de cada país, no tocante à
concessão dos direito sociais e responsabilidade civil e penal do indivíduo (Psicologia
Evolutiva da Criança e do Adolescente, ps. 23, 24 e 157).

Reflexos da problemática capitalista sobre o comportamento da criança e do


adolescente

Como é notório, o sistema capitalista vive inexoravelmente sujeito a crises


cíc1icas, crises essas de natureza complexa, isto é, social, política, econômica,
familiar, devido a diversas causas e múltiplos fatores, inerentes ao próprio capitalismo,
e que se manifestam através do desemprego, recessão, especulação desenfreada,
fome, miséria, impunidade da corrupção administrativa, ambição de lucros, utilização
nociva dos meios de comunicação social (rádio, televisão, filmes, jornais, revistas,
escritos e impressos pornográficos), exploração sexual, erotização, tráfico de drogas e
de armas, bem como numerosos outros aspectos.
Ora, tudo isso se reflete sobre a estrutura familiar, sobre o comportamento
humano, a moralidade pública, os costumes. Em conseqüência disso: "A sociedade
familiar decai. Crianças de oito, dez e doze anos se dedicam à prostituição na
Inglaterra. Jamais presenciei um comércio de sexo infantil como agora", disse Arthur
Nixon, delegado à Reunião Anual da Associação Britânica de Diretores de Colégio em
1981.

Hungria sentenciou: "O delinqüente juvenil é, na grande maioria dos casos, um


corolário do menor socialmente abandonado, e a sociedade, perdendo-o e procurando,
no mesmo passo, reabilitá-Io para a vida, resgata o que é, em elevada proporção, sua
própria culpa" (Comentários ao Código Penal, voI. I, Tomo 2°, ps. 353 e 354).
Note-se que a Lei n° 8.069/1990, assim considera e distingue a criança do
adolescente, para os efeitos legais.
"Art. 2° - Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos
de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade.
60

Parágrafo único. Nos casos expressos em lei, aplica-se excepcional


mente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade."
Cabe lembrar que a adolescência é o período de vida caracterizado por amplas e
profundas modificações psicossomáticas, em que se completa o desenvolvimento
morfológico-funcional do ser humano.
Durante essa fase da existência humana, definem-se os caracteres sexuais
secundários, avivam-se os processos intelectuais, a sensibilidade, e toda uma nova
problemática, de ordem biopsicológica, sócio-cultural e político-econômica, situação
essa que repercute na esfera jurídica, daí por exemplo o fato de que aos dezoito anos
completos o indivíduo está sujeito à convocação para efeito de prestação do serviço
militar, direito de voto e ser votado (arts. 14, § 1°, I, e 143, da Constituição de 1988),
assim como o homem contrair matrimônio, mediante consentimento dos pais ou de
representante legal (arts. 183, XII, e 185 e segs. do Código Civil de 1916).
Quanto à mulher, pode a mesma consorciar-se após completar dezesseis anos,
observadas as formalidades para o consentimento, acima referidas.

Terminologia adequada acerca dos desvios de comportamento da criança e do


adolescente

A expressão delinqüência juvenil foi usada pela primeira vez na Inglaterra, em


1815, por ocasião do julgamento de cinco meninos de 8 a 12 anos de idade.
Atualmente, essa expressão tem suscitado várias críticas, como assinalamos
acima, sendo empregada com diferentes sentidos, conforme a opinião dos autores,
para exprimir os seguintes conceitos, principalmente:
a) a delinqüência juvenil compreende os comportamentos anti-sociais praticados
por menores e que sejam tipificados nas leis penais;
b) a delinqüência juvenil não deve ser encarada sob uma perspectiva meramente
jurídica, devendo incluir também os comportamentos anormais, irregulares ou
indesejáveis;
c) a delinqüência juvenil abrange, além do que foi assinalado nas teorias
anteriores, aqueles menores que, por força de certas circunstâncias ou condutas,
necessitam de reeducação, cuidado, proteção.
Das três posições acima, a mais aceita é a primeira.
Salienta ainda César Barros Leal que, por ocasião do Segundo Congresso das Nações
Unidas sobre Prevenção do Delito e Tratame_to do Delinqüente, realizado em Londres,
em 1960, foi aprovada recomendação no sentido de que o significado da expressão
delinqüência juvenil deve restringir-se o mais possível às infrações do Direito Penal.
Em muitos países confunde-se delinqüência juvenil com inadaptação, cujo
conceito não apenas compreende menores autores de infrações penais, como também
retardados, neuróticos, desequilibrados, abandonados, órfãos, vagabundos etc. (A
Delinqüência Juvenil: Seus Fatores Exógenos e Prevenção, ps. 43 e segs.).
Aliás, o. Segundo Seminário dos Estados Árabes sobre Prevenção e Tratamento do
Delinqüente, realizado sob os auspícios das Nações Unidas, em Copenhague, em
1959,jáhavia concluído que os termos delinqüência e inadaptação não são
equivalentes, pois, os dois problemas são diversos, eis que a delinqüência de menores
abrange somente os atos que, pratiCados por adultos, seriam considerados delitos.
Por sua vez, o Seminário Latino-Americano sobre Prevenção do Delito e
Tratamento do Delinqüente, realizado no Rio de Janeiro, em 1953, embora concluísse
que a expressão delinqüência juvenil "era tecnicamente inadequada" ("por não reunir
61

os elementos essenciais do conceito doutrinário do delito"), reconheceu, contudo, que


pela inexistência de expressões substitutivas apropriadas, poderia continuar a ser
utilizada.

Casas dos desvios de comportamento da criança e do adolescente. As associações em


bandos para fins criminosos

Da mesma forma que em relação aos adultos, diversas causa,s - endógenas e


exógenas - influem sobre a conduta delituosa do menor.
Essas causas podem ser de natureza genética, psicológica, patológica, econômica,
sociológica, familiar.
As condições de vida miseráveis dos pais, fome, subnutrição, alcoolismo, consumo
de drogas, falta de condições mínimas de higiene, ausência de qualquer exame pré-
natal e hábito de fumar da gestante, enfermidades crônicas e outros aspectos,
marcam a vida do novo ser antes do seu nascimento.
No período de zero a sete anos, em que a criança mais necessita de assistência
sanitária e de nutrição, ocorrendo a falta desta, os neurônios (células nervosas com os
seus prolongamentos) do menor serão fatalmente atingidos, e o trabalho de
recuperação, mesmo usando-se os mais sofisticados métodos, não surte efeito, como
salientou Antônio Alfredo Fernandes (Jornal do Brasil, 14.04.1978).
Segundo o relatório da FAO (Organização para a Alimentação e Agricultura, órgão
da ONU), divulgado em 1978, o consumo médio de calorias nos países ricos subiu para
3.380, contra 2 mil calorias consumidas em média nos países subdesenvolvidos.
Essas disparidades, segundo a F AO, provocam males, sob um duplo aspecto, isto
é, tanto ocasionam doenças por subnutrição como pelo consumo excessivo de
alimentos ou a adoção de dietas inadequadas nos países ricos.
Está fora de dúvida, porém, que os males resultantes da fome são des-
proporcionalmente maiores para os pobres, até porque estas condições lhes são
impostas, como conseqüência das desigualdades internacionais e da exploração
exercida pelas potências imperialistas, através do controle de preço, açambarcamento
e distribuição de alimentos, nos diversos países capitalistas.
A subnutrição não é apenas um mal em si: todos os anos cem mil crianças ficam
cegas por causa daquela; 40% das mulheres adultas dos países subdesenvolvidos são
anêmicas.
Na América Latina, mais da metade das mortes entre as crianças de menos de
dois anos é atribuída a alimentação deficiente.
De acordo com as previsões de luan Pablo Terra, consultor da UNICEF (Fundo das
Nações Unidas para a Infância), se persistirem as condições atuais na América Latina,
morrerão nos próximos 20 anos, cerca de 30 milhões de crianças e outras tantas
sofrerão desnutrição grave (Rev. Bras. de Ciênc. Jurídicas, n° 1, ps. 76 e segs.).
Na década de 1980, a UNICEF divulgou um relatório específico acerca da situação da
criança no Brasil, registrando elevados índices de mortalidade infantil, devido, entre
outras causas, à falta de assistência pré-natal e cuidados médicos, durante o parto;
dito relatório salientou também aspectos relacionados à deficiência mental da criança,
em razão da subnutrição das mães, bem como do próprio menor, nos primeiros meses
de vida, com a conseqüente atrofia das células cerebrais, insuficiência de peso,
propensão a doenças etc. (Jornal Nacional, Brasília, 07.06.1984).
Ora, esse conjunto de causas e fatores enseja inexoravelmente a formação de
crianças deficientes e futuros adultos débeis mentais, por conseguinte, uma porta
larga para os desvios de comportamento, inclusive condutas delituosas, tomando tais
62

seres humanos um peso morto, uma carga inútil e nociva ao meio social em que
vivem. Paradoxalmente, esse mesmo meio social - através de seus órgãos punitivos -
acaba de liquidá-Ios, moral e fisicamente, nos seus estabelecimentos prisionais: as
mundialmente conhecidas "casas de horrores".

Fatores criminógenos que atuam sobre a criança e o adolescente. Bandos juvenis

Quanto aos fatores criminógenos, de natureza exógena, relacionados ao meio


social, aos aspectos psicológicos e psiquiátricos, que atuam negativamente sobre a
criança e o adolescente, destacam os autores os seguintes:
a) disciplina mais rígida ou descontínua da parte do pai; b) supervisão não adequada
da parte da mãe;
c) pai delinqüente e hostil;
d) mãe indiferente e hostil;
e) família sem coesão;
f) desejo marcante de afirmação pessoal na sociedade; g) atitude marcante de
desprezo e desafio;
h) marcante destrutividade;
i) aventureirismo;
j) instabilidade emotiva;
1) procedentes familiares de vício ou delinqüência; m) falta de ocupação;
n) influências extrafamiliares, más companhias;
o) famílias numerosas com problemas econômicos etc.
Segundo estudos realizados na extinta Alemanha Federal, cerca de metade das
crianças estava crescendo em meio a um ambiente em que devem contar, a cada
instante, com uma surra ou bofetada, ou seja, hábitos violentos por parte dos pais.
O relatório publicado a respeito informa que grande número de ocorrências
permaneciam ocultas, pois havia interesse em disfarçá-Ias, dificultando-se as
sindicâncias. Apesar disso, suponha-se como realista a cifra de 15.000 a 18.000 casos
anuais de maus tratos fisicos a crianças, com reflexos negativos sobre a sua
personalidade, conduta e reação emotiva TribunaIAlemQ., agosto, 1982).

No Brasil, embora não existam estudos a respeito, há indícios do mesmo


fenômeno, resultando inclusive, em alguns casos, fraturas em crianças, sob o disfarce
de quedas, acidentes.
No que tange às associações em bandos juvenis, elas existem de forma mais
estruturada e em maior número nos EUA, onde, por coincidência, é também maior o
índice de crime organizado (organized crime), embora ditas associações sejam
universalmente conhecidas, inclusive no Brasil, como salientamos noutra parte deste
trabalho.
As denominações dessas associações variam nos diferentes países, a saber:
gamberros (Espanha), vitelloni (Itália), teddy-boys (Inglaterra), blousons noirs (França),
Halbstarker (Alemanha), nosem (Holanda), anderujmer (Dinamarca), pasek
(Tchecoslováquia), hooligans (URSS e Polônia), pavitos (Venezuela), zazous (África),
bodgies (Austrália), taizo-zoke (Japão) e Tai-Pao (China), como assinala César Barros
Leal (ob. cit., p. 39).
No Brasil, inexistem estudos específicos, a respeito das associações em bandos
juvenis, com o objetivo de práticas delituosas; contudo, são flagrantes e exuberantes
63

os indícios e provas, quanto a existência desses bandos, sendo os menores


denominados, individualmente, de "trombadinhas" (São Paulo) e "pivetes" (Rio de
Janeiro).
Mutatis mutandis, da mesma forma que em relação aos adultos, existem cifras
douradas (em relação aos menores pertencentes às classes sociais privilegiadas),
cifras negras (práticas delituosas não detectadas, ou que escapam ao controle oficial)
e as práticas delituosas reprimidas, em conformidade com a legislação aplicável em
cada país.

Imaturidade penal

Estabeleceu o art. 23, do nosso Código Penal de 1940 que, os menores de dezoito
anos são penalmente irresponsáveis, ficando sujeitos às normas estabelecidas na
legislação especial, preceito esse reproduzido no art. 228 da Constituição de 1988.
. A legislação especial em causa consistiu em diplomas legais específicos, que se
sucederam até a vigência da Lei n° 8.069, de 13.07.1990-Estatuto da Criança e do
Adolescente -, que dispõe, dentre outras medidas, sobre a assistência, proteção,
vigilância, vida e saúde dos mesmos.
Como se vê, pelos princípios acima expostos, a imaturidade individual e individual-
sociai"do psiquismo das crianças e adolescentes constitui causa de exclusão ou
atenuação da imputabilidade, matéria essa que tem recebido as soluções mais
diversas através dos tempos: a equiparação penal do menor ao adulto, a exclusão da
pena para as primeiras idades, ou a sua atenuação subordinada ou não ao critério dos
discemimentos. "Hoje, o pensamento fundamental em referência à chamada
criminalidade dos menores, é que ela não constitui matéria do Direito punitivo, mas de
um regime tutelar" (AníbalBruno - Direito Penal, I, Tomo 2°, ps. 163 e segs.).

Critérios legislativos distintos sobre a incapacidade civil e penal dos menores de


dezoito anos. A "malícia supre a idade"

A incapacidade do indivíduo, segundo a lei civil, é de fato, e não de direito, quer


dizer, as pessoas consideradas incapazes, II-° sentido jurídico, têm direitos, mas não
os podem exercer, ou então, não 10 podem fazer de modo absoluto (art. 5°, I a IV, do
Código Civil de 1916, ou relativamente a certo número de atos (art. 6°, I a III, do
referido Código).
Todavia, isso implica dizer, dentre outros aspectos, que a incapacidade civil não
isenta o agente incapaz, quanto à obrigação de reparação do dano por ele causado, o
que ocorre por intermédio de seu representante legal (arts. 84 e 1.521, I e II, do
predito Código), como decorrência do princípio da responsabilidade por fato de
terceiro, como lembramos noutro trabalho (Responsabilidade Civil no Direito
Brasileiro, ps. 271 e segs.).
Nesse sentido, preleciona Clóvis Beviláqua, ao comentar o art. 155 do mencionado
Código, que dispõe sobre a obrigação de o menor, entre dezesseis e vinte e um anos,
responder pelo seu ato, quando agir deso1amente, assim se manifestando:
"A malícia supre a idade malitia supplet octatem. O menor que, do10samente,
esconde a sua idade consegue convencer a outrem, de que é capaz, não pode invocar,
depois a proteção da lei em favor de sua debilidade mental. A malícia não deve
aproveitar a ninguém, diz outro brocardo, nem, ainda, aos menores" (Código Civil, p.
340, vol. I, 1956).
64

Versando sobre o tema, salienta Ga1dino Siqueira que, "no homem a noção do
justo surge mais cedo do que a noção do útil", aduzindo o seguinte:
"A lei civil mesmo tem em tanta conta este fato de observação, que declara o
menor responsável pelos seus delitos ou quase-delitos civis, ainda que lhe seja
permitido anular suas obrigações convencionais, desde que prove ter sido lesado.
Daí por que a maioridade penal é fixada antes da maioridade civil nas
diferentes legislações" (cf. Direito Penal Brasileiro, p. 354, vaI. I, 1932).
Contudo, cumpre lembrar que a experiência legislativa brasileira adotou, no
passado, o critério de responsabilidade penal aquém dos dezoito anos, como veremos
adiante.

Experiência legislativa brasileira, acerca da responsabilidade penal, em função da


idade. Critério meramente presuntivo

o nosso Código Penal de 1890 estabeleceu em seu art. 27, que não são
criminosos, dentre outros, os menores de nove anos completos, e os maiores de nove
e menores de 14, "que obrarem sem discemimento" (§§ 1° e 2°).
Por sua vez, o art. 30, do mesmo diploma legal, dispôs que "os maiores de nove
anos e menores de 14, qlie tiverem obrado com discemimento, serão recolhidos a
estabelecimentos disciplinares industriais, pelo tempo que ao juiz parecer, contanto
que o recolhimento não exceda à idade de 17 anos".
Comentando o citado art. 27, do Código Penal brasileiro de 1890, salientou Oscar
de Macedo Soares que o critério de idade, adotado pelo Códi. go Criminal do Império
(1830) e pelo referido Código de 1890, teve como fonte de inspiração o direito
romano, que distinguia as três classes: infantes (até os 7 anos), impuberes (dos 7 aos
14 anos), minores (dos 14 aos 18 ou aos 21 anos).
Em suma, segundo o referido Código, em se tratando de menores de 9 a 14 anos,
que obrarem sem discernimento, a irresponsabilidade é plena; quanto àqueles, da
mesma idade, que obrarem com discernimento, a irresponsabilidade é semiplena, e
por isso determinava o Código fossem recolhidos a estabelecimentos industriais,
disciplinares, pelo tempo que o juiz determinasse, contanto que dito recolhimento não
excedesse a idade de 17 anos (Código Penal da República dos Estados Unidos do
Brasil, 3a ed., p. 34).
Por seu turno, a Consolidação das Leis Penais (Decreto n° 22.213, de 14.12.1933),
que vigorou até a entrada em vigor do Código Penal de 1940, dispôs em seu art. 27
que não são criminosos, dentre outros, os menores de 14 anos (§ 1°), enquanto o art.
30, do mesmo diploma punitivo, estabeleceu que "os menores de 18 anos,
abandonados e delinqüentes, ficam submetidos ao regime estabelecido pelo Decreto
n° l7.943-A, de 12.10.1927" (Código de Menores). .
Versando sobre a matéria, escreveu Francisco Pereira de Bulhões Carvalho, que
em relação aos menores infratores da lei penal de 14 a 18 anos, o Código de Menores,
de 1927, determinou "um verdadeiro sistema penal próprio, isto é, aplicação de
sanção penal relativamente indeterminada, correspondente à prática do delito e a ser
cumprida em reformatório ou estabelecimento anexo a penitenciária de adulto" (Di-
reito do Menor, p. 34).

O fato é que a fixação da idade, para efeito de responsabilidade penal, varia de


acordo com os Código Penais dos diversos países, atendendo naturalmente a critérios
relacionados às tradições jurídicas, condições sociais, situação econômica e outros,
65

variando a idade de 14 a 21 anos, como veremos oportunamente.


Por sua vez, o legislador de 1940 não cuidou da maior ou menor precocidade
psíquica dos menores de dezoito anos: "declarou-os por presunção absoluta,
desprovidos das condições da responsabilidade penal, isto é, o entendimento ético-
jurídico e a faculdade de auto governo" (cf. Nélson Hungria, Comentários ao Código
Penal, art. 23, vol. I, tomo 2°, 1955).
Em outras palavras, em virtude de mera presunção legal, de natureza
biopsicológica, os menores de dezoito anos são considerados imaturos, situação essa
que basta, por si só, irrestritamente, sem qualquer indagação psicológica, para excluir
a responsabilidade penal, deixando-os "fora do Direito Penal (00')' sujeitos apenas à
pedagogia corretiva de legislação especial" (cf. Exposição de Motivos ao Código Penal
de 1940, n° 19, infine).
Por seu turno, a Lei n° 7.209, de 11.07.1984, que alterou dispositivos do Código
Penal de 1940, manteve o mesmo critério sobre a inimputabilidade penal dos menores
de dezoito anos (art. 27 da Parte Geral).
Em outras palavras, não foram levados em conta os fundamentos de ordem
psicológica, concementes ao discernimento e inteligência, para efeito da fixação da
idade para a responsabilidade penal, como veremos adiante.

Discernimento e inteligência em função da idade do ser humano

Como seres humanos, embora com tenra idade, as crianças são também
suscetíveis de degenerescência, seja por fatores ou causas hereditárias, genéticas,
biológicas, sociais, econômicas, psicológicas, familiares, que podem exercer influência
maléfica sobre aquelas, a ponto de transformá-Ias em verdadeiros monstros, entes
perversos, insensíveis, cruéis, torpes, assassinos, sangüinários.
Daí a expressão criança-monstro, cujos casos concretos são conhecidos desde a
Antigüidade, constituindo objeto de estudos psiquiátricos (cr. Philip Solomon e Vemon
D. Patch, Manual de Psiquiatria, ps.530 e segs.; Arthur Ramos, A Criança Problema, ps.
31 e segs.).
Seja como for, o tema em apreço relaciona-se à problemática de natureza
psicológica, concemente ao discemimento e inteligência, que devem servir de
fundamento para a fixação da idade de responsabilidade penal.

Em síntese, discernimento é a faculdade que tem o indivíduo de distinguir


perfeitamente os atos que pratica, assim como calcular os seus efeitos.
Por sua vez, J. Alves Garcia assim conceitua a inteligência:
"Chamamos inteligência ao conjunto constituído por todos os dons,
talentos ou instrumentos que nos permitem adaptar às circunstâncias e desencumbir
das tarefas que nos propõe a existência.
Enquanto o desenvolvimento do corpo se opera até aos 20 ou mais anos, o da
inteligênCia detém-se aos 15 anos, ou mais geralmente nos 13 'ij anos, após o que
crescem a experiência e a educação, somente" (Psicopatologia Forense, ps. 91 e
segs.).
Concluindo, a problemática em apreço está intimamente relacionada ao fator
decisivo à afirmação individual, ou seja, o quociente da inteligência (QI) focalizado
noutra parte da presente obra.
Agora, a problemática da inteligência interessa como fundamento e critério para a
fixação da idade, para efeito de responsabilidade penal do indivíduo, como veremos
66

adiante.
Cabe lembrar ainda que, de acordo com os estudos sobre o assunto, o menor ou
maior quociente de inteligência, assim como o fenômeno do indi-" víduo superdotado
não resultam da hereditariedade, constituindo sim características individuais, da
mesma forma, por exemplo, como os dotes vocais, a bela voz, o talento artístico.

Direito Comparado acerca da fixação da idade para efeito de responsabilidade civil

De acordo com os dados coligidos por César Barros Leal, a idade fixada para efeito
de responsabilidade penal, nos diversos países, dentre outros selecionados, é a
seguinte: Haiti - 14 anos; Índia, Paquistão, Honduras, EI Salvador, Iraque-15 anos;
Birmânia, Filipinas, Ceilão, Hong-Rong, Bélgica, Nicarágua, Israel- 16 anos; Malásia,
Polônia, Grécia, Costa Rica - 17 anos; Brasil, Tailândia, Áustria, Luxemburgo,
Dinamarca, Finlândia, França, Suíça, Iugoslávia, Peru, Uruguai, Turquia - 18 anos; EUA
- há variação de critérios nos diversos Estados-Membros da Federação, entre
16,17,18,19 e 21 anos (ob. e loco cits.).
Percentualmente, a variação de idade, nos diferentes países, é a seguinte: 14 anos
(0,5%),15 anos (8,0%),16 anos (13,0%),17 anos (19,0%), 18 anos (55,0%), 19 anos
(0,5%) e 21 anos (4,0%).

Fundamento psicológico para afixação da idade, para efeito de responsabilidade


penal, aos quatorze anos

Como vimos anteriormente, de acordo com Nélson Hungria, nosso legislador não
"cuidou da maior ou menor precocidade psíquica" dos menores de dezoito anos,
simplesmente "declarou-os por presunção absoluta, desprovidos das condições da
responsabilidade penal, isto é, o entendimento ético-jurídico e a faculdade de auto
governo" (Comentários ao Código Penal, art. 23, voI. 2°, 1955).
Acontece que, de acordo com os estudos e as conclusões da Psicologia, o
desenvolvimento da inteligência no indivíduo se desenrola até aos 15 anos, ou mais
geralmente aos 13 Y2 anos, após o que conta somente o crescimento da experiência e
da educação (cf. J. Alves Garcia, Psicopatologia Forense, ps. 91 e 93).
Quer dizer, aos 15 anos o indivíduo já se encontra com suficientes discernimento e
inteligência para se desencumbir das tarefas lhe propõe a existência, inclusive o
entendimento ético-jurídico, a faculdade de autogoverno, enfim a capacidade para
entendimento acerca dos atos ilícitos penais.
Em face das considerações acima expostas e da realidade brasileira, toma-se
imperiosa a reflexão acerca da fixação da idade em quatorze anos, para efeito de
responsabilidade penal, como ressaltamos na Indicação n° 187/1995, oferecida ao
Instituto dos Advogados Brasileiros.
Isso se justifica em face da incontrolável violência, por parte dos menores de 15
anos no Brasil, e dos elevados indices de infrações penais por eles praticadas; por
outro lado, os mesmos competem ombro a ombro, em matéria de ferocidade, com os
delinqüentes adultos, no que diz respeito aos sangrentos motins e rebeliões, ocorridos
nos estabelecimentos correcionais, conforme o noticiário divulgado pelos meios de
comunicação social, freqüentemente, resultando daí várias mortes.
67

CRIMINALIDADE FEMININA E MASCULINA

Da criminalidade sexual. Erotização ou sexismo. Contágio venéreo

Considera-se criminalidade sexual o conjunto de ações anti-sociais,


praticadas para satisfazer o impulso erótico ou as tendências libidinosas do
indivíduo. .
A propósito, observa Nélson Hungria:
"A disciplina jurídica de satisfação da libido ou apetite sexual, re
clama, como condição precípua, a faculdade de livre escolha ou livre consentimento
nas relações sexuais" (Comentários ao Código Penal, voI. VIII, p. 111).
Desse modo, do ponto de vista jurídico-penal, considera-se liberdade sexual "a
liberdade de disposição do próprio corpo no tocante aos fins sexuais", cuja violação
consiste em vencer, mediante violência (fisica ou moral)"ou iludir, mediante fraude, a
oposição da vítima (idem, ibidem).
Daí as diversas modalidades delituosas dessa espécie, COITO prevê o Código
Penal, sob o título de crimes contra os costumes, a saber: crimes contra a liberdade
sexual; sedução e corrupção de menores; rapto; lenocínio e tráfico de mulheres;
ultraje público ao pudor (arts. 213 e segs.), como lembramos alhures (Sexologia
Forense, ps. 144 e segs.).

Cabe ressaltar a influência deletéria, exercida sobretudo pela televisão, quanto à


exaltação da erotização, ou seja, o chamado sexismo, como fator criminógeno, como
lembramos alhures (Comentários à Constituição da República Federativa do Brasil, lIa
edição).
Por outro lado, sob o título de periclitação da vida e da saúde prevê o art. 130 do
Código Penal a figura delituosa consistente em perigo de contágio venéreo, ou seja, as
denominadas Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST).
A propósito, a Corte de Justiça de Los Angeles condenou o espólio do ator Rock
Hudson, ao pagamento da importância de US$ 14,5 milhões de dólares (NCz$ 14,5
milhões), em favor do ex-amante dele, Marc Christian, com quem conviveu durante
cerca de dois anos, a partir de 1982. Em 1984, o relacionamento entre eles começou a
deteriorar-se porque Marc revelou ao seu amante, que se prostituíra com outro
indivíduo. Diante da iminência de um rompimento, o amante de Hudson ameaçou
revelar publicamente o homossexualismo do galã, arruinando assim sua máscula
reputação, construí da ao longo de muitos beijos, trocados com mocinhas, nas telas
dos cinemas.
Os membros do júri daquela Corte norte-americana entenderam que Marc
Christian "sofreu um choque emocional", porque, até pouco antes da morte de Hudson
(1985), ignorava ser este portador de AIDS, sujeitando-o, assim, ao perigo de contágio
(O Globo, 17.02.1989).
Por outro lado, em 1987, na Califómia (EUA), o cidadão Joseph Markowski foi
denunciado, por tentativa de homicídio, por ter doado sangue, mediante pagamento,
sendo portador de AIDS, além do fato de manter relações sexuais com cinco pessoas.
Surgiu então a polêmica, acerca da violação do princípio da reserva legal, visto que
não há lei penal específica sobre a matéria, em que se pudesse amparar tal imputação
penal (Fantásti co,19.07.l987).
Quid juris, em face dos princípios jurídicos brasileiros?
Versando sobre o ressarcimento, José de Aguiar Dias não deixa dúvida acerca do
caráter ilícito e do dever de indenizar, no caso de transmissão de doença venérea, em
68

face dos princípios que regem o ordenamento jurídico pátrio, nessa esfera (Da
Responsabilidade Civil, voI. lI, p. 445).
Recorrendo-se à opinião de Nélson Hungria, verifica-se que nosso Código Penal de
1940 não previu "a hipótese de superveniência da morte da vítima, conseqüente ao
efetivo contágio. Como resolver tal hipótese? Se o agente procedeu com dolo de
perigo ou dolo de dano, o fato ser-lhe-á imputado a título de "lesão corporal seguida
de morte" ou "homicídio preterintencional" (art. 129, § 1°). Se o antecedente, porém,
era simplesmente culposo, responderá por homicídio culposo (art. 121, § 3°)"
(Comentários ao Código Penal, voI. V, p. 396).
Até que ponto a falta de condições higiênicas essenciais, a promiscuidade sexual,
debilitamento orgânico, estresse e outros aspectos, são responsáveis pelos elevados
índices de incidência da AIDS, nos diversos países?
Segundo dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde, a China, por
exemplo, com mais de um bilhão de habitantes, não registrava casos de AIDS, salvo os
de 13 estrangeiros, lá residentes, que se encontravam então sob tratamento,
hospitalizados (Jornal do Brasil, 02.03.1988).

A criminalidade passional. Sadismo. Masoquismo. Sadomasoquismo

Do latim passionalis, de passis (paixão), passional é o vocábulo empregado na


terminologia jurídica, especialmente no Direito Penal para designar o que se faz por
uma exaltação ou irreflexão, ciúmes ou amor ofendido, desencadeando emoções,
violências, como ressaltamos alhures (Sexologia Forense, ps. 175 e segs.).
Para Aftânio Peixoto, paixão é a "emoção crônica", em tempo, por prolongada, e
aguda em manifestação, por violenta".
Segundo Nélson Hungria, emoção é um estado de ânimo ou de consciência
caracterizado por um viva excitação do sentimento. É uma forte e transitória
perturbação da afetividade, a que estão ligadas certas variações somáticas ou
modificações particulares das funções da vida orgânica (pulsar precipite do coração,
alterações térmicas, aumento da irrigação cerebral, aceleração do ritmo respiratório,
alterações vasomotoras, intensa palidez ou intenso rubor, tremores, fenômenos
musculares, alteração das secreções, suor, lágrimas e outras manifestações.
Há certa diferença entre emoção e paixão, embora esta seja originária daquela.
Kant dizia que a emoção é como "uma torrente que rompe o dique da continência",
enquanto a paixão é o "charco que cava o próprio leito, infiltrando-se, paulatinamente,
no solo".
Conclui Hungria: "Pode dizer-se que a paixão é a emoção que protrai no tempo,
incubando-se, introvertendo-se, criando um estado contínuo e duradouro de
perturbação afetiva em torno de uma idéia fixa, de um pensamento obsidente. A
emoção dá e passa; a paixão permanece, alimentando-se de si própria" (Comentários
ao Código Penal, voI. I, Tom. 2°, ps. 360 a 363).

O Código Penal de 1940 não transigiu, no terreno da responsabilidade penal, com


os emotivos ou passionais, que não exorbitam da Psicologia normal.
Ao contrário, o Código Penal de 1890 ensejou escandalosas absolvições, sobretudo
no âmbito do Tribunal do Júri, em face da norma estabelecida no art. 27, que
consideravam não ser criminosos: "Os que se acharem em estado de completa
privação de sentidos e de inteligência no ato de cometer o crime", como lembramos
alhures (Comentários ao Código Penal, ps. 125 e segs.).
69

Para Léon Rabinowicz, há um aspecto do amor sexual que é bastante


característico: o ódio que o acompanha. "Entre os dois amorosos só existe a carne:
nenhuma ternura, nenhum sentimento os retém, além do prazer carnal; por isso, entre
dois momentos de desejo, o ódio mistura-se com a volúpia".
Em suma, o crime passional culmina com a paixão homicida, enquanto o
suicídio é um sucedâneo do crime passional (O Crime Passional, ps. 60,95 e 142).
O interesse que a humanidade sente pelo homicídio, escreve Hans von
Hentig, reside no fato de que o matar ou ser morto fere suas fibras mais íntimas.
Embora, muitas vezes, sejam ignorados os motivos dos homicídios, a Estatística
Criminal tem que limitar-se a uma casuística desses motivos, assim agrupados: por
lucros; para encobrir outras ações ou crime; por conflito; de natureza sexual.
O chamado homicídio sádico, por exemplo, comporta numerosas variantes,
envolvendo ódio, mistério, sangue, erotismo, crueldade e homossexualismo. Certo
médico introduziu na vagina e no reto de sua amante, "vaselina, goma e estrofantina,
sendo que esta queima". Desesperada, a vítima procurou uma clínica, onde foi
atendida, cujo clínico de plantão diagnosticou apenas: "forte estado de excitação".
Pouco depois, falecia a vítima (Estudos de Psicologia Criminal, voI. lI, ps. 9 e segs.).
Nesse contexto se inserem sadismo (preversão sexual em que a satisfação erótica
advém da prática de atos de violência ou crueldade), o masoquismo (preversão sexual
em que a pessoa só tem prazer ao ser maltratada física e moralmente) e o
sadomasoquismo (preversão sexual que consiste na conjugação do sadismo e do
masoquismo), podendo em consqüência resultar lesões corporais ou morte, temas
esses que abordamos noutro trabalho (Sexologia Forense, ps. 140 e segs.).

A criminalidade passional em face da eloqüência forense

Os arquivos judiciários, nos diferentes países, estão repletos de casos, relacionados à


violência sexual, crime passional, duplo suicídio, homicídio seguido de suicídio
frustrado, e outros, envoltos em sensacionalismo, que lograram escandalosas
absolvições, nos Tribunais do Júri, daí afinnar-se que um dos vícios da instituição do
júri resulta da influência da oratório sobre os jurados, quer dizer, os jurados decidem
segundo a eloqüência, fantasia e astúcia dos defensores, como lembramos alhures
(Curso de Direito Processual Penal, ps. 315 e 316).
Por sua vez, Enrique Ferri, que foi um gigante da oratória forense, obteve
retumbantes vitórias nos Tribunais do Júri, em memoráveis defesas penais, obras-
primas de literatura jurídica, em que o romanesco se confunde com as construções
legais, do maior rigor científico.
A defesa, por exemplo, de Carlos Cienfuegos, assassino da condessa Hamilton,
mereceu o título de Amor e Morte, uma apaixonante leitura, para os que se encantam
com as obras de espírito.
À certa altura, desse belo texto literário, assim se expressa o autor: "Estamos
perante um caso de homicídio, seguido de suicídio frustrado, em seguida ao amplexo
de amor, depois da febre e do frenesi que produzem, no momento fugitivo da volúpia,
o esquecimento da dor que atormenta, do destino inelutável".
E adiante: "Por amor se bate na pessoa amada, e até, por vezes, esta gosta de ser
batida. Mas pessoas menos cultas como regra geral, nas pessoas intelectualmente
mais elevadas como fenômeno ocasional e patológico - o amor, em vez de diminuir,
aumenta com as sevícias e os maus-tratos, e assim, as misérias do masoquismo levam
às violências do sadismo, que são as doenças do amor e a sua gangrena."
70

Prossegue:
"O amor nasceu com a violência. Nas florestas da humanidade primitiva, o macho
impunha-se, violentamente, à fêmea esquiva e possuía-a pela força. E só a lenta e
tormentosa elevação moral, de geração para geração, do Oriente místico até a Grécia
bela, até a poderosa Roma, conseguiu purificar e imprimir uma certa delicadeza ao
sentimento do amor, no qual, porém, palpita sempre, bem viva, a recordação
nostálgica da violência primitiva" (Discursos de Defesa, ps. 12 e 22).
Sob a ótica fascinante da arte, do canto e da literatura, escreve Ferri:
"A Cavalheira Rusticana passou do fraco êxito do conto aos triunfos
dum drama onde se sucedem rapidamente, em cenas emocionantes, o abandono da
amorosa, o adultério, o duelo de morte, onde um marido vinga a sua honra e um
amante paga com a vida a vileza do abandono e a sua boa sorte, onde enfim, os
principais personagens são criminosos passionais.
E o triunfo toma-se uma apoteose universal da arte italiana quando Mascagni
empresta a essas paixões, mas ou menos criminosas, a mágica beleza da sua música
nervosa é inspirada" (Os Criminosos na Arte e na Literatura, p. 86).

A prostituição masculina e feminina como fator criminógeno

o panorama legal, nos dias atuais, com relação à prostituição femini


na revela o seguinte quadro, nos diferentes países capitalistas:
a) proibicionismo: a prostituição era considerada um delito na extinta
URSS, países do leste europeu, EUA, países escandinavos);
b) abolicionismo: não há qualquer restrição à atividade prostitucional
(Brasil, Itália, Índia, Japão);
c) regulamentarismo: as prostitutas devem ser inscritas, submetidas com maior ou
menor rigor a medidas condicionantes de sua atividade (Tailândia, Bolívia, Colômbia,
Costa Rica, Equador, Venezuela, Peru, Uruguai).
Segundo o testemunho de Jean-Gabriel Mancini, há tanta prostituição nos países
que a proíbem quanto nos que a permitem.
O fato é que, para certas mulheres, dificilmente outra atividade
além da prostitucional-lhes renderia tantos ganhos, como o declarou uma delas,
perante um magistrado francês, que a processava criminalmente (Waldir de Abreu - O
Submundo da Prostituição, Vadiagem, Jogo-da-Bicho, ps. 17 a 38).
A prostituição masculina, nos diversos países capitalistas, grassa largamente,
tanto para satisfazer à lascívia feminina como masculina, de homossexuais ativos e
passivos; nos EUA, por exemplo, são impressos catálogos, com endereço, telefone e
demais indicações, acerca da prostituição masculina, constituindo um rendoso
negócio.
Antes do desmoronamento ou desmascaramento do denominado socialismo real
na extinta URSS, as autoridades soviéticas alegavam que o incremento do turismo de
estrangeiros havia provocado o aparecimento da prostituição naquele país, versão
essa desacreditada, após estudos e pesquisas divulgados a respeito.
A prostituição, como fator criminógeno, pode decorrer ou conduzir ao vício por
drogas, alcoolismo, chantagens, assaltos, escândalo, adultério, estando intimamente
ligada ao crime organizado.
Tanto a prostituta, ou prostituto, como o cliente podem ser infectados por doenças
venéreas, mas estas estão atualmente mais difundidas pelo amor livre,
homossexualismo e adultério do que pela própria prostituição (Philip Solomon e
71

Vernon D. Path - Manual de Psiquiatria, ps. 301 e 302).


A matéria comporta vários enfoques, como lembramos noutro trabalho (Direito
Penal - O Crime - O Processo - As Penas, ps. 109 e segs.).

Efeitos do propalado liberacionismo sexual

Segundo Wilhelm Reich, na URSS, após a Revolução Socialista (1917), a legislação


soviética simplesmente riscou a velha cláusula tzarista sobre o homossexualismo, que
castigava a atividade homossexual, com pesadas penas de privação de liberdade.
Com esse ato, o governo soviético deu um largo passo no sentido da liberalização
do movimento sexual-político, em relação à Europa ocidental e América, partindo do
princípio segundo o qual a homossexualidade, quer seja concebida como inata, quer
como resultado duma inibição do desenvolvimento psicossomático, é uma atividade
que não prejudica a ninguém.
Tais concepções geraram certa tolerância em relação às práticas homossexuais,
de tal forma que estas se propagaram em diversas camadas sociais, na juventude, no
seio das Forças Armadas, inclusive no meio operário. .
Por volta de 1925, no Turquestão, foi criada uma cláusula adicional ao Código
Penal da extinta União Soviética, que já previa penalidades pesadas para os
homossexuais. Surgiram espionagens e delações, desprezo por parte dos comitês do
Partido Comunista inclusive expurgos.
Em 1934, foi publicado um diploma legal assinado por Kalinin, declarando que as
relações sexuais entre homens eram consideradas como "crime social", com penas de
cinco a oito anos.
Entrementes, na Alemanha praticava-se em larga escala o homossexualismo,
envolvendo figuras de proa do nazismo; até Hitler caiu sob suspeita de práticas
homossexuais.
A imprensa soviética encetou então vigorosa campanha contra a ho-
mossexualidade, considerando-a "um fenômeno de desnaturação da burguesia
fascista", segundo o lema: "Exterminai os homossexuais e o fascismo desaparecerá".
Por sua vez, Wilhelm Reich formula interessante concepção acerca do que
denominou de "economia sexual", ou seja, aquilo que diz respeito à maneira de
regulação da energia sexual, isto é, a economia das energias sexuais do indivíduo, a
maneira pela qual o ser humano manobra a sua energia biológica, quanta energia ele
represa e quanta ele descarrega organasticamente. Os fatores que influem nessa
regulação são de natureza sociológica, psicológica e biológica, que devem ser objeto
de estudo e sistematização científica, em relação às práticas e manifestações
humanas (A Revolução Sexual, ps. 245a315).
A propósito, a República Popular da China, nos dias atuais, com uma população de
cerca de 1 bilhão de habitantes, obrigada que foi a estabelecer um rigoroso controle
populacional, está enfrentando sérios problemas de ordem sexual, ocorrendo ali
numerosos casos de violência dessa natureza, e estupros, com severas punições.

A criminalidade feminina. Aspectos psicossomáticos de natureza darwinística. A


mulher como instrumento de troca. O cérebro feminino

A questão da criminalidade feminina tem suscitado uma série de debates, em


tomo dos quais aparecem curiosos aspectos de natureza histórica, romântica,
72

preconceituosa, discriminatória, sentimental, psicológica, fantasiosa que precisam ser


examinados, sob o ângulo cientifico, para que daí se tirem conclusões práticas sobre o
tema.
Nessa linha de raciocínio, a Psicologia desenvolve esforços no sentido da distinguir
aspectos peculiares, relativos à conduta delituosa masculina e feminina.
Num trabalho notável, polêmico, com profundo teor científico, publicado no Brasil,
em 1894, pela Imprensa da Casa da Moeda, sob.os auspícios do Governo da República,
lembra Tito Lívio de Castro que os primeiros seres humanos - homem e mulher -
apareceram como os outros animais em geral, isto é, feras; à medida que se
desenvolveu a inteligência humana, a par de outros fatores, passou a haver
predomínio masculino, sobretudo devido à força física deste.
Por outro lado, o tipo de atividade, os exercícios físicos, a luta pela sobrevivência
e outros aspectos fizeram com que o tipo masculino passasse por mais variadas
transformações e adaptações cerebrais que o feminino.
Daí, sustenta, "a maior evolução cerebral é um caráter perfeitamente distintivo
em relação ao sexo; caracteriza quase tanto o sexo masculino, como as glândulas
mamárias o sexo feminino".
Em outras palavras, o autor parte do princípio segundo o qual, com base em
numerosas observações, o volume do crânio feminino é inferior ao masculino.
Salienta ainda que a mulher, pelo seu todo orgânico, se aproxima mais da criança
do que do homem, porquanto ela é menos cérebro do que este.
Histórica, política, econômica e sociologicamente, isso se deve, principalmente, ao fato
de que as tarefas executadas pela mulher, o seu esforço pela sobrevivência, a sua
participação na vida comunitária enfim, a sua ati vidade cerebral e a sua própria
alimentação foram inferiores, em quantidade e qualidade, em relação ao homem.
Lembra que, segundo a crença popular, a mulher é mais coração do que cérebro;
isso, porém, é equívoco, pois o músculo cardíaco não se contrai mais rapidamente e
de modo mais enérgico; não é maior, não é mais ativo, não se altera mais por excesso
dinâmico na mulher do que no homem.
Todos os órgãos do corpo humano estão em relação íntima com o cérebro, por
meio de seus filetes de comunicação nervosa; domina, assim, o princípio da simpatia
no organismo, não havendo antipatias, sendo o cérebro o órgão da cenestesia, e,
portanto, da personalidade.
Conclui então que o homem é cerebral, a criança e a mulher são medulares, pois o
homem possui mais cérebro, enquanto a mulher e a criança possuem mais medula
espinhal (parte do sistema nervoso central (parte do sistema nervoso central contida
na coluna vertebral).
Nesse contexto, o tipo de desenvolvimento social, de civilização, as relações de
produção e os costumes fizeram da mulher um instrumento de troca, um ser
semelhante ao escravo, podendo ser praticado o homicídio contra ela, impunemente,
dentre alguns povos.
Ela podia ser emprestada a um amigo, aliado ou estrangeiro; em alguns casos,
onde se praticava a antropofagia (como no Egito antigo), ela servia de alimento.
Dentre alguns povos, o cavalo e o cão tinham maior valor que a mulher. Entre outros,
que admitiam a poligamia, o adultério da mulher era
considerado um roubo, porque ela era propriedade do marido.
Durante a longa evolução humana, a mulher não foi mais do que objeto do
homem, em função das concepções políticas, econômicas, filosóficas, jurídicas,
religiosas e demais instituições dominantes.
A organização familiar, patriarcal, se resumia à noção de "grupo de escravos de
73

um mesmo senhor ou co-escravidão", e não "simpatias de consangüinidade", como


atualmente.
Em resumo, a mulher pouco precisou do cérebro, pouco serviu-se dele, por isso
não se desenvolveu cerebralmente. A biologia nos ensina o mecanismo das atrofias
por inanição.
Daí resulta que a mulher tem um cérebro e uma psique infantil, porque e só
porque foi submetida a uma existência que, pelas próprias contingências, buscou esse
resultado.
A instituição da escravidão e da família não são apenas análogas, e sim idênticas,
provindo do direito de conquista, sendo o escravo e a mulher submetidos, como parte
venci da e mais fraca, ao jugo do mais forte.

Assim, o cérebro da mulher não foi criado "para" ser o que tem sido e somente
isso. Podemos dizer que a sua organização cerebral está de acordo com o tipo de
civilização existente, as necessidades e aspirações femininas verificadas até agora,
com ilimitadas possibilidades de transformação, conclui Tito Lívio de Castro (A Mulher
e a Sociogenia).
Como se vê, trata-se duma visão acerca da mulher, afinada com os fundamentos
do darwinismo social.

A publicidade enganosa sobre a mulher na sociedade capitalista. Peculiaridades


somáticas: menstruação e puerpério

Nos dias atuais, sob pretextos estéticos, a publicidade capitalista continua


insistindo na recomendação, acerca de regimes alimentares especiais para as
mulheres, objetivando a pouca ingestão de alimentos, para que assim elas
mantenham a esbelteza, cintura fina, porte esguio, daí resultando a languidez, pouca
resistência fisica, desinteresse pelos exercícios, como ocorre há milênios, embora sob
outra motivação.
Podemos concluir que o tipo de organização social ainda existente
sob o capitalismo -, de predomínio masculino, centrado nas diversas esferas do poder,
isto é, do ponto de vista econômico, jurídico, cultural, ideológico, com arraigadas
tradições de ascendência masculina, não quer a evolução mental da mulher, por
vários motivos, dentre eles, o mais forte: porque o estado atual da mulher é o mais
conveniente ao regime vigorante, às concepções econômicas, políticas, jurídicas,
religiosas, filosóficas e assim por diante, que mantêm os privilégios de classe e o
elitismo dominantes. Daí por que se procura confundir e sabotar o movimento pela
emancipação da mulher, apresentando-o como algo ridículo, fútil, como se fosse uma
iniciativa de lésbicas (embora possa haver segmentos desse movimento, com essas
tendências), algo semelhante aos propósitos e manifestações dos homossexuais, com
os seus desfiles e demonstrações escandalosos.
Seja como for, a ilusória luta pela conquista do socialismo abriu novas e amplas
perspectivas para o movimento feminino e a emancipação da mulher.
Na verdade, a emancipação da mulher só se toma possível quando ela pode participar
em grande escala, em escala social, da produção, e quando o trabalho doméstico lhe
toma apenas um tempo insignificante. Esta condição só pode ser alcançada com a
grande indústria moderna, que não apenas permite o trabalho da mulher em grande
escala, mas até o exige, e tende cada vez mais a transformar o trabalho doméstico
privado em uma indústria pú blica (através não só das grandes empresas industriais
mas também da organização de creches, restaurantes, lavanderias, indústrias
74

alimentícias).
Desse modo, a luta pela sobrevivência e o crescente desenvolvimento capitalista
impeliram a mulher à participação direta na produção social, através da grande
indústria mecanizada, que acelerou o processo de ascensão e independência das
operárias, ampliando-Ihes as perspectivas e criando novas condições de existência,
infinitamente superiores ao confinamento patriarcal e artesanal, pré-capitalista (Lênin
- O Socialismo e a Emancipação da Mulher, Rio, 1956).
Por outro lado, como observa Alexandra Kollontai, a monogamia, o amor livre, as
uniões temporárias e a própria liberdade opcional de ser mãe solteira, sem que isso
seja necessário unir-se ao homem pelo casamento, são formas de existência que
coexistirão no futuro, pois, afinal, a mulher passou a ver no prazer, na variação sexual
descomprometida, como o homem, a maneira válida e espontânea de se satisfazer; o
mais deve constituir-se de trabalho e êxito profissional. De resto, o amor e o prazer
sexual não são tudo na vida (A Nova Mulher e a Moral Sexual, ps. 69 e segs.).
São curiosos, no entanto, certos aspectos legais, com relação ao comportamento
psicossomático feminino.
O Código Penal cubano, por exemplo, prevê a hipótese de que a menstruação
possa representar um fator de agressividade feminina, nos crimes contra a pessoa,
constituindo assim uma atenuante da pena.
Por outro lado, o estado puerperal, segundo o Código Penal brasileiro, de 1940,
pode determinar a alteração do psiquismo da mulher normal, ensejando situações,
teoricamente consideradas como "transitória conturbação da consciência", ou "loucura
emotiva", cabendo ao juiz invocar o parecer dos peritos-médicos, a fim de que estes
informem se a infanticida, ainda que isenta de taras psicopáticas, francas ou latentes,
teve a contribuir para o seu ato criminoso as desordens fisicas e psíquicas derivadas
do parto (Nélson Hungria - Comentários ao Código Penal, art. 123, vol. V, ps. 233 e
segs.).

Dados comparativos acerca dos índices de criminalidade feminina

De acordo com dados coligidos por Israel Drapkin Senderey, os índices de


criminalidade feminina aumentam à medida que aumenta a participação da mulher na
vida social, política e econômica do país em que vive.
Assim, comparativamente, são os seguintes os percentuais de criminalidade
feminina, entre países selecionados:

Argélia 4% Itália 9% Bélgica 13% Alemanha 15% França 17% Inglaterra 24%

Segundo o mesmo autor, tem-se utilizado o critério estatístico para estudar a


influência do sexo na crimina1idade, critério esse que não é aceito unanimemente
pelos especialistas do assunto, pois a Estatística serve para demonstrar que cada qual
tem razão, dependendo do ângulo de observação.
De acordo com o critério estatístico, existe um axioma no sentido de que a
criminalidade feminina é extraordinariamente menor do que a do homem. As
estatísticas nos revelam que a sexta parte dos crimes cometidos, o são pelas mulheres
e o resto pelos homens, o que é muito relativo.
Conclui o referido autor: "Isto ocorre com a crimina1idade em geral, não obstante,
se começarmos a observar particularmente os diversos delitos, veremos que esta
75

apreciação varia fundamentalmente, pois a delinqüência feminina irá aumentando até


chegar ao delito especificamente próprio da mulher, como no infanticídio, o aborto, o
'furto caseiro' etc." (Manual de Criminologia, ps. 159 e 161).
Afirma-se que larga faixa de delitos praticados pela mulher permanece nas
chamadas cifras negras, isto é, escapam à percepção penal, quer pelas dificuldades de
reunir provas, quer para se evitar o escândalo.
Nos prostíbulos dos EUA, por exemplo, se furta grande quantidade de dinheiro,
sem que se leve o fato ao conhecimento da polícia, salvo casos excepcionais (Hans
von Hentig - Estudios de Psicología Criminal, I, Hurto - Robo com fuerza en Ias cosas -
Robo com violencia o intimidación, p. 40).
Muitos furtos e roubos se desenrolam através da provocação de cenas e
escândalos, desmaios, rixas para desviar a atenção dos presentes e possibilitar a
prática criminosa.
Há também freqüentes enredos amorosos, familiares, matrimoniais, cenas de
escândalos, adultérios forjados, cartas comprometedoras, que propiciam lucrativas
chantagens (ob. cit., voI. m, p. 23).
Certos momentos, atos e cerimônias constituem verdadeiros convites ou estímulos
aos ladrões, como, por exemplo, a coroação da rainha da Inglaterra, em 1953, que
reuniu em Londres a aristocracia britânica, com suas requintadas jóias, para esplendor
da solenidade (ob. cit., voI. I, p. 65).

9.8. A mulher e a criminalidade passional

Freqüentemente, nos crimes passionais, o assassinato se mescla com o


sadomasoquismo. Há casos de cônjuges, marido ou mulher, ou de amantes, que logo
após liquidarem o seu par, muitas vezes de maneira brutal, recebem de imediato
cartas com temas declarações amorosas e propostas matrimoniais, de missivistas
desconhecidos, demonstrando com isso sensibilidade e admiração, pelo autor ou
autora de homicídio (Hans Von Hentig, ob. cit., voI. lI, ps. 9 e segs.).
Segundo León Rabinowicz, a mulher traída nem sempre se vinga sobre o marido
ou sobre a sua cúmplice. Com freqüência perdoa, por vezes suicida-se de desespero,
quando se vê abandonada para sempre, mas quando toma a decisão de se vingar, a
sua vingança é atroz. É um traço característico da psicologia da mulher. Exasperada,
passa a ser um monstro de ferocidade, que só respira vingança e só pensa em
submeter a sua vítima aos mais atrozes sofrimentos.
O mesmo autor, citando Paul Bourget, agrupa três tipos de mulheres que se
vingam: a envenenadora, que se vinga friamente, demoradamente; a revolverizadora,
felina, de nervos desarranjados (O Crime Passional, ps. 134 a 151).
Como decorrência da atividade, é mundialmente conhecida a atuação das
chamadas "gateiras" (autores de furtos) ,nos hotéis, onde exercem as funções de
faxineiras, arrumadeiras, copeiras.
A prostituição feminina constitui um dos mais graves fatores criminógenos,
propiciando escândalos, fraudes, corrupção, ameaças, furtos, roubos, agressões
fisicas, morte, transmissão de moléstias venéreas e outras práticas criminosas. Há
países, como vimos, em que a prostituição écrimlnalizada e penalmente reprimida;
outros a liberam ou regulamentam. Em qualquer caso, ela representa um elo com a
criminalidade.
Evidentemente, o quadro, com os seus diferentes aspectos, acima descritos, não
esgota a problemática em tomo da criminalidade feminina.
Tal quadro retrata apenas as contingências, isto é, as condições adversas, os
76

preconceitos, enfim, toda uma estrutura sócio-político-econômica obscurantista, com a


incidência de numerosos fatores criminógenos, tipicamente característicos do
capitalismo, influenciando negativamente a conduta feminina, direcionando mesmo o
sentido de certas práticas delituosas, imputadas à mulher, ao fazê-Ia crer, por
exemplo, que a sua plástica, seus atributos fisicos são tudo, ou quase isso, para a
obtenção de sucesso na vida.

Naturalmente, sob uma nova ordem social, sem a influência negativa desse
conjunto de fatores, acima examinados, a conduta feminina terá outro sentido a
direção, pois até então, como afirmou Afrânio Peixoto, a civilização fez da mulher
máquina de prazer: a mulher vadia, a cavalo de corrida, os gatos peludos e os
cãezinhos de luxo; e, somente numa sociedade onde todos trabalhem e sejam
remunerados apenas pelo seu trabalho, não haverá tempo a perder, nem riqueza a
acumular, e assim:
"O homem amará a mulher, simplesmente, decentemente, sem luxo, sem punhal,
sem perversões, sem morfina, sem revólveres, sem adultérios, sem profanações, sem
crimes passionais. Será uma função da vida, como as outras (...)" (Criminologia, p.
121).

Enfoque histórico-sociológico acerca da criminalidade feminina

Lembra Julita Lemgruber que, quando se discutem temas, acerca dos índices de
criminalidade, meios de combater a violência, situação penitenciária:, as pessoas
parecem visualizar antes o homem criminoso, o homem preso, enquanto que a figura
da mulher criminosa e da presidiária não costuma preocupar tanto, ou sequer vir à
baila, embora a questão tenha a sua especificidade.
Nesse contexto, é significativo o fato de os dados relacionados à distribuição de
inquéritos policiais ou processos criminais, não indicarem os protagonistas dos
mesmos, isto é, se são homens ou mulheres.
Contudo, tomando-se o ano de 1976 como ponto de referência, observa-se que na
época havia no Rio de Janeiro 310 mulheres e 8.511 homens, recolhidos nos diversos
estabelecimentos prisionais do Sistema Penitenciário, seja cumprindo pena ou
aguardando julgamento, o que então significava uma proporção de 3,5% mulheres e
96,5% homens para o total de detentos.
Considerando-se, em termos totais, a distribuição da população masculina e da
feminina na época, verifica-se uma flagrante discrepância, em matéria de percentuais
sobre criminalidade, ou seja, para uma população de 5.249.000 homens e 5.455.000
mulheres (isto é, 49% homens e 51% mulheres), a proporção de 3,5% mulheres e
96,5% homens, respectivamente, acima indicada, causa impressão ( Criminalidade
Feminina, in Rev. da OAB-RJ, Ano VI, voI. VIII, 1980, ps. 28 e segs.).
Para Lombroso, as mulheres seriam organicamente mais conservadoras do que os
homens, devido sobretudo à imobilidade do óvulo, comparada à mobilidade do
espermatozóide; mais passivas, tenderiam menos ao crime do que os homens.

Por seu turno, Freud entendia que o crime feminino representa uma rebelião
contra o natural papel biológico da mulher e evidencia um "complexo de
masculinidade".
Entretanto, em 1950, Otto Pollack surge com uma nova idéia: a mulher é tão
criminosa quanto o homem; a diferença nas taxas de criminalidade reflete, tão-
77

somente, o fato de que os crimes cometidos por mulheres são em geral menos
detectáveis do que aqueles cometidos por homens. Ademais, mesmo quando
descobertos, os crimes femininos são menos freqüentemente relatados às autoridades
e, quando relatados, há menor chance de que as mulheres sejam levadas a tribunais e
consideradas culpadas, não oferecendo, porém, o mencionado autor, dados
estatísticos confiáveis, para a comprovação de suas assertivas.
Estudos mais recentes, entretanto, trouxeram à baixa fatores sócio-estruturais,
com argumentos e dados plausíveis.
Em geral, sustenta-se que as mulheres cometem menos crimes porque o seu estilo
de vida apresenta-Ihes menos oportunidades para delinqüir: mais afeitas às lides
domésticas e menos expostas às pressões econômicas, já que a responsabilidade pela
obtenção de recursos necessários à manutenção da família tende a recair mais sobre
os homens, as mulheres estão menos sujeitas ao crime. Além disso, verificou-se
também que na faixa de idade em que, hipoteticamente, as mulheres estariam
ocupadas com os cuidados de seus filhos menores, há menor incidência na prática de
delitos.
Nessa ordem de idéias, as análises das tendências verificadas nas taxas de
criminalidade nos últimos anos parecem indicar que, à medida que há maior
participação feminina na força de trabalho e maior igualdade juridico-política entre os
sexos, a participação da mulher nas estatísticas criminais tende a crescer. Nos Estados
Unidos, por exemplo, entre 1960 e 1972, o número de detenções para mulheres
aumentou três vezes mais rapidamente do que para os homens. No Canadá, essas
detenções duplicaram, num período de nove anos. Na Índia, o número de presidiárias
quadruplicou entre 1962 e 1965. No Brasil, entre 1957 e 1971, as condenações de
mulheres cresceram duas vezes mais rapidamente do que as de homens, e,
paralelamente, a participação da mulher brasileira na população economicamente
ativa passa de 14,7% em 1950, para 17,9% em 1960, e finalmente, 21,0% em 1970
(Julita Lemgruber - ob. e 10c. cits., ps. 30 e 31).