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Uma proposta desesperada

“Did You Say Twins?!”

MAUREEN CHILD

Série OS FORTUNE DO TEXAS – Vol. 6

Argumento:

Sargento da Marinha destinado a Operação Pai!

Todas as mulheres de Rede Rock se perguntavam como lhe jogar a luva ao novo
herdeiro dos Fortune, o sargento Sam Pierce. Parecia um presente do Céu para as
mulheres deste pequeno povo texano que Sam se convertesse no tutor das gêmeas de
uns amigos. Mas agora parece que Michelle Guillaire decidiu adiantar-se à disparada
geral e correr ao resgate deste cobiçado solteiro.

Assim é, senhoritas. Além de organizar as bodas de Miranda Fortune com seu amor de
juventude, que tanto está dando que falar, Michelle se ocupa também de cuidar das duas
pequenas órfãs. E embora tudo aponta a que é muita responsabilidade para uma só
pessoa, o brilho de seus olhos demonstra o contrário.

Voltará a demonstrar esta família texana que onde há um Fortune sempre surge
um verdadeiro amor do Texas ?

Outro Resumo

As manobras militares secretas eram uma rotina para Sam Pearce, contudo, as crianças
eram outra coisa... especialmente tratando-se de duas bebés gémeas. Por isso, não podia
recusar a ajuda de ninguém, mesmo que fosse a de uma mulher que prometera amá-lo e,
depois, desaparecera sem explicação alguma. Agora, que voltava a ter Michelle
Guillaire nos seus braços, não a deixaria escapar enquanto não esclarecesse algumas
coisas...
Os Fortune do Texas

1. O Homem mais Desejado - Anne Marie Winston

2. Um Encontro com o Perigo - Eileen Wilks

3. Um Homem de Êxito - Shirley Rogers

4. O Último Presente - Barbara McCauley

5. Os Sonhos mais Selvagens - Cathleen Galitz

6. Uma Proposta Desesperada - Maureen Child


LISTA DE PERSONAGENS

Sain «Tormenta» Pierce: para este sargento de Marinhe a batalha começou quando se
fez cargo das gêmeas. Mas quando recebeu os reforços, encontrou-se com uma luta
ainda pior... contra a mulher a que nunca tinha deixado de amar!

Michelle Guillaire: esta organizadora de festejos estava acostumada a celebrar as bodas


de outros casais, mas permitiria que um escuro secreto se interpor em sua segunda
oportunidade para amar ao homem de sua vida?

Chorã e Escupidora: vista-las destas irmãs as gêmeas tinham trocado drasticamente pela
morte de seus pais. portanto, não mereciam uma família?

Capítulo 1
-Muito bem -disse-se a si mesmo o sargento de Marinhe Sam Pierce enquanto
percorria com o olhar os quilométricos corredores do supermercado-. Que comece a
batalha.

Nesse momento, uma senhora maior que entrava na loja atrás dele o golpeou
com seu carrinho da compra no traseiro e, quando ele se girou, lançou-lhe um olhar
furioso.

-Desculpe, senhora -disse ele instintivamente.

-Por amor de Deus -disse ela, assentindo tão bruscamente que seu chapéu rosa
lhe caiu sobre a frente-. Não aprendeu no exército que não pode ficar parado em uma
porta?

-Sou um marinhe, senhora -corrigiu-a ele, tentando não pôr uma careta de
desgosto. Freqüentemente os civis não podiam distinguir a um marinhe de um cadete.

A mulher se colocou o chapéu em seu sítio e o olhou entreabrindo seus azuis


olhos.

-Filho, por mim como se é o capitão Kirk que está esperando a nave Enterprise
-espetou-lhe-. Tenho que fazer a compra e você está no meio.

-Sim, senhora -disse ele, apartando-se no ato.


A mulher deixou escapar um bufo e passou com o carrinho a seu lado.

-Maldito idiota -ouviu Sam que murmurava-.

Não deveria permiti-la entrada aos homens nos supermercados. Quão único
fazem é incomodar.

Ele estava de acordo com isso, pensou Sam, e se apartou ainda mais para deixar
acontecer o seguinte carrinho. Uma jovem que levava na cesta a um bebê gritão dedicou
um sorriso.

Estava incomodando. Não havia nada que odiasse mais que comprar. Um
homem podia viver a base de perritos quentes e burritos congelados. Mas sua vida
estava a ponto de trocar, recordou-se a si mesmo ao ver um carrinho livre.

Agarrou a fria barra de aço e soltou um grunhido. O melhor seria ver aquilo
como uma missão militar. Terei que examinar o terreno, encontrar o que necessitava e
fugir. A ser possível, vivo.

-Vá, olhe quem está aqui -disse uma voz feminina atrás dele.

Sam não pôde evitar um suspiro. Conhecia aquela voz. Pelo visto, o dia ia
piorando por momentos. Rendendo-se ao inevitável, girou-se e esboçou uma meia
sorriso.

-Senhora -disse, assentindo ligeiramente.

-Senhora? -repetiu Leeza Carter rendo-. Ouça, menino, virtualmente somos


família.

Ele não pensava o mesmo. Leeza Carter tinha irrompido nas vidas dos Fortune
quando chegou ao Santo Antonio com o Lloyd Wayne Carter, o ex-marido do Miranda
Fortune. Mas Lloyd morreu em um rodeio, ao tentar montar um bronco selvagem, e
todo mundo pensou que Leeza partiria depois da desgraça.

Mas desfazer-se dessa mulher, de cabelo tingido de loiro, olhos lavanda e uma
figura que recordava a do Mae West, era 'tão difícil como separar um chiclete da sola.
Tinha passado muitos anos perseguindo os cavaleiros de rodeio, e agora se ficou sem
seu principal troféu.

-Fazendo compras, né? -perguntou-lhe, olhando o carrinho vazio do Sam.

-Sim, senhora, e tenho um pouco depressa, assim, se me desculpar... -não


pretendia ser grosseiro, mas não tinha tempo para ficar conversando com uma mulher
que nem sequer gostava, nem para perguntar-se do que seria capaz aquela mulher. Com
essa firme ideia, concentrou-se na tarefa que tinha entre mãos.
Enquanto evitava o me choque com os outros carrinhos, levantou o olhar para os
letreiros que penduravam do teto: limpeza, higiene, maquiagem... Bom, ao menos havia
um corredor que podia evitar.

A música soava pelos alto-falantes, e de vez em quando uma voz interrompia a


melodia e anunciava alguma ganga. Mas Sam apenas a ouvia. Estoicamente procurou o
corredor que necessitava, tentando explicar-se como demônios se colocou nisso.

Michelle Guillaire deteve seu carrinho frente ao sortido de bolos e se perguntou


se se tinha mantido a dieta suficiente tempo.

-Bom -murmurou-se a si mesmo-, depois de tudo, uma dieta de verduras sem


nada de açúcar põe a qualquer de mau humor -sorriu e tomou uma caixa de donuts de
chocolate.

Pareceu-lhe absurdo recompensar-se com bolos por ter perdido algo mais de dois
quilogramas, mas estava muito faminta como para que lhe importasse. Rasgou o pacote
e tirou um donut para esconder-lhe enquanto fazia o resto de suas compras.

Era agradável sair e estar de novo entre as pessoas. Ultimamente tinha passado
muito tempo encerrada no escritório com a única companhia do ordenador. Sorriu a uma
menina que atirava da jaqueta de sua mãe e tentou ignorar a pontada que sentiu no
coração. Sempre tinha querido ter filhos.

E entretanto ali estava, com trinta e um anos e tão só como aquele pobre e
confundido soldado.

Michelle se deteve em seco, franziu o cenho e voltou a vista para observar com
atenção ao homem de uniforme. O pulso lhe acelerou enquanto mantinha o olhar fixo
nele.

Era alto, pensou, com seu cabelo castanho claro pulcramente recortado ao estilo
dos marinhe. Sua robusta mandíbula, seus largos ombros, suas altas pernas... E aqueles
penetrantes olhos verdes e aquelas tenras mãos que ela conhecia tão bem. Céus.

Tinham passado dez anos da última vez que ele a tocou, e entretanto, Michelle
sentiu um formigamento na pele. Respirou fundo e se disse a si mesmo que já eram
pessoas adultas. Poderiam ser amigos, embora o repentino calor que percorreu seu corpo
desmentia por completo aquela idéia.

Que ridículo, pensou enquanto se tragava com dificuldade o resto do donut.


passou-se a língua pelos dentes em busca de trocitos de chocolate, aplaudiu-se
cuidadosamente o cabelo e se alisou a parte frontal de seu pulôver vermelho. Lhe
ocorreu que talvez deveria sair dali o mais rápida e silenciosamente possível. Fingir que
não o tinha visto. Mas isso era impossível, pois seus pés já se dirigiam para ele.

A mente da Michelle estava tão frenética como seu coração. Tinha ouvido que
Sam estava na cidade, mas ela não esperava encontrar-lhe em um supermercado, e
muito menos solo na seção de... olhou ao redor e ficou perplexa. Comida de meninos?

À medida que se aproximava o ouviu murmurar, e o som de sua voz profunda e


resmungona lhe provocou um forte estremecimento. Imagens do passado passaram por
sua cabeça a toda velocidade. Os dois, abraçados na escuridão, as mãos do Sam lhe
percorrendo o corpo e seus sussurros vibrando por suas costas.

Franziu o cenho e se perguntou por que fazia tanto calor no supermercado.

-Cenouras, espinafres... A sério esperam que os meninos se comam isto?


-perguntou Sam em voz alta, sem dirigir-se a ninguém em particular.

-É difícil morder um bom filete quando ainda não se têm dentes -disse Michelle,
e se abraçou a si mesmo esperando sua reação.

Sam ficou completamente imóvel por uns segundos, até que, muito devagar,
voltou-se para olhá-la. Assim que aqueles olhos verdes se cravaram nos seus, Michelle
sentiu que os joelhos lhe fraquejavam. OH, Céus... Era igual a nos velhos tempos.

-Michelle.

Não havia um tom de bem-vinda ou afeto naquela voz, mas ao menos não lhe
tinha grunhido. Michelle tragou saliva e forçou um sorriso.

-Olá, Sam. Ouvi que tinha voltado para a cidade -de fato, todos seus conhecidos
se encarregaram de lhe transmitir a notícia.

As mãos do Sam se aferraram com tanta força aos potes de comida infantil que
seus nódulos empalideceram.

-Sim, voltei faz um mês.

OH, que bem estava indo tudo, pensou ela.

-Está... -começou, mas se deteve antes de pronunciar alguma palavra estúpida,


como «incrível»-. Tem bom aspecto -preferiu dizer.

-Você também -respondeu ele lhe percorrendo o corpo com o olhar. Michelle
sentiu como o calor a abrasava por dentro.

j-desculpa -disse uma mulher por detrás da Michelle, quem deu um coice e
apartou seu carrinho a um lado do corredor. Olhou à anciã senhora, embelezada com um
horrível chapéu rosa, e se perguntou por que olhava tão furiosa ao Sam ao passar
suborno a ele-. Bom, o que faz por aqui? -me colocando uma soga ao pescoço. -O que?

-Olhe isto -mostrou-lhe o pote de comida infantil que sustentava na mão direita e
fez um gesto para a prateleira-. Como se pode escolher entre tanta variedade? Que
classe de verduras? De que marca? Em potes ou em vasilhas? Cereais ou mingaus? -fez
uma pequena pausa-. E se for mingau, de que classe? Em pó ou líquida?

-Acreditava que você gostava mais da cerveja -disse ela com uma meia sorriso.

Ele a olhou repentinamente aos olhos.

-E assim é. A verdade é que agora mesmo me viria bem uma.

Michelle acreditou detectar um brilho de pânico em seus olhos, mas não, não
podia ser. Nada nem ninguém assustava ao Sam «Tormenta» Pierce. Não se tinha ganho
aquele apelido por ser precisamente assustadiço.

-O que acontece, Sam? -perguntou-lhe, e se disse a si mesmo que era a


curiosidade a que tinha provocado essa pergunta.

-OH, nada -murmurou. Voltou a colocar com muito tato o pote na prateleira,
como se temesse que se produje uma avalanche de potes-. Só que isto é o fim do
mundo.

-Acreditava que isso já aconteceu em março passado.

-O que?

Ela se encolheu de ombros.

-Vi um artigo no periódico. Já sabe, esse que revelava seu parentesco com os
Fortune -imaginava quão estranho teve que ser para ele descobrir que era um membro
da ilustre família.

Sam trocou de posição e franziu o cenho.

-Isto não tem nada que ver com isso. trata-se de... -negou com a cabeça
Demônios, não acredito que seja teu assunto.

De acordo, pensou ela. Seu problema não tinha nada que ver com a inesperada
pertença a uma família rica e poderosa. Então, do que se tratava?

-Parece algo sério.

-É-o.

Bom, pelo visto seguia tão loquaz como sempre. Tempo atrás, ela estava
acostumada burlar-se dele dizendo que se alguma vez o capturasse o inimigo, não
conseguiriam lhe arrancar nenhuma confissão. Nem sequer a ameaça da tortura poderia
conseguir dele mais de uma ou duas frases.

Sam cruzou os braços ao peito e separou as pernas em um gesto desafiante.

-Acabo de ser pai.

Michelle ficou olhando-o, completamente perplexa. Não se esperava uma notícia


assim. Não tinha ouvido nada de que Sam tivesse uma esposa. Uma pontada de rancor a
transpassou enquanto tentava imaginar-se à mulher que lhe tinha dado um filho. Mas o
que se esperou? Que depois de havê-lo deixado dez anos atrás ele ia ingressar em um
monastério? Ela mesma se tinha mudado e tinha uma vida própria. por que não podia ter
feito o mesmo Sam?

-Eu... -esforçou-se por encontrar as palavras adequadas. Pela expressão do Sam,


não parecia que queria ouvir o parabéns. Finalmente, encolheu-se de ombros e disse-:
Parabéns.

-Obrigado -respondeu ele com um tenso sorriso.

-Menino ou menina?

-são gêmeas.

Gêmeas. Ao imaginar-se a dois bebês com os brilhantes olhos verdes do Sam


teve que afogar um suspiro de inveja.

-E... desde quando?

-Há um par de horas.

-Diz-o a sério? -perguntou ela-. Não deveria estar no hospital com sua mulher?

-O que? -Sam a olhou e negou com a cabeça-. Não, não estou casado. Não o
entende. As gêmeas não são recém-nascidas. Têm já nove meses.

Outro carrinho se aproximava pelo corredor. Uma jovem se desculpou, deteve-se


entre a Michelle e Sam e agarrou dois potes de comida da prateleira. Um momento
depois os dois voltavam a estar sozinhos, escutando a aborrecida voz que anunciava
pelos alto-falantes as ofertas de carne de vaca.

-Estou confusa -disse Michelle.

-Bem-vinda ao clube -murmurou ele, e jogou uma olhada ao extremo do


corredor, onde se empilhava uma verdadeira montanha de fraldas-. OH, Céus...

-O que acontece? -perguntou ela, mais curiosa que nunca.

Sam voltou a vista para ela. A verdade era que preferiria olhar a Michelle.
Demônios, quanto tinha melhorado com o passado do tempo... A sudadera vermelha que
levava ocultava sua figura, mas os desgastados jeans que se atiam a suas esbeltas pernas
confirmavam que estas não tinham trocado muito. Seu cabelo negro azeviche
emoldurava seu rosto com forma de coração e caía sobre os ombros como um espesso e
suave fluxo, e seus olhos cor violeta brilhavam com preocupação e curiosidade.

Sorriu para si mesmo e recordou a insaciável curiosidade da Michelle e quantas


vezes lhe havia dito que, embora a curiosidade matou ao gato, ao menos morreu
informado.

Quanto a tinha sentido falta de... até contra sua vontade. depois de tudo, quando
uma mulher rechaçava uma proposta de matrimônio, o instinto natural fazia esquecê-la-
o mais rapidamente possível.

Por desgraça, esquecer a Michelle Guillaire era mais fácil dizê-lo que fazê-lo.

-Sam? -perguntou ela, devolvendo-o à presente-. vais dizer me o que te passa ou


não?

Maldição, nem sequer ele mesmo estava seguro do que lhe passava. passou-se
uma mão pela mandíbula, olhou-a fixamente aos olhos e reconheceu que o fazia falta
um pouco de ajuda. E nesse caso, por que não obter a da Michelle?

-As meninas são minhas afilhadas. Seus pais morreram faz uns dias enquanto
faziam mergulho. dentro de umas horas saio para o Hawai para as recolher.

-Tem a custódia? -perguntou ela tranqüilamente.

Não podia culpá-la por estar tão surpreendida. Ele mesmo seguia em um estado
de choque. Quando Dave lhe pediu que fora o tutor legal das meninas, ele tinha
acessado, sem chegar a imaginar-se que algum dia tivesse que desempenhar esse papel.
Pelo visto, o Destino tinha um curioso senso de humor.

-Pode me chamar Sargento Mãe.


Capítulo 2
A Michelle custou uns segundos assimilar a informação. lamentou-se pelos pais
que nunca veriam crescer a suas filhas, mas quando o pensou melhor, deu-se conta de
que aquele não era momento para a compaixão. depois de tudo, Sam só tinha um par de
horas antes de que seu avião saísse para o Hawai. O menos que podia fazer era ajudá-lo
a preparar-se, não?

-Eu me encarrego da comida -disse-lhe, fazendo-se carrego da situação-. Você


vá a pelos fraldas.

Ele tomou uma prolongada inspiração e soltou o ar de repente.

-A risco de parecer antiquado... não sei nada de bebês. Que talha de fraldas devo
escolher?

Michelle tampouco estava segura disso. Sendo filha única, não tinha estado
rodeada de meninos. E, embora tinha alguns amigos com filhos, nunca tinha
aprofundado na talha dos fraldas.

-Não sei. Que tal grandes? Se forem muito folgados, sempre pode pregá-los para
fazê-los mais pequenos. O contrário -resultaria-te mais difícil.

-Parece uma idéia razoável -disse ele, e se encaminhou para a montanha de


fraldas como se fora a atacar uma missão importante.

E, certamente, era uma missão importante, pensou Michelle desviando o olhar


para as prateleiras repletas de comida infantil. Ao menos os fabricantes tinham tido o
bom julgamento de indicar as idades nas etiquetas dos potes. Escolheu verduras, carne e
frutas, além de sucos e cereais. Sam voltou com dois pacotes de fraldas, que jogou no
carrinho.

-Que mais? -perguntou ele.

-Leite. Os meninos com essa idade já não precisam tomar leite maternizada.

-Graças a Deus -murmurou-. O leite é fácil de encontrar.

Michelle o seguiu empurrando o carrinho até o corredor do leite. Enquanto


caminhava, teve a possibilidade de admirar seu traseiro. Sam sempre tinha tido um
magnífico traseiro.

-Normal?

-Mmm? -levantou rapidamente o olhar, igual a uma adolescente a que tivessem


pilhado lendo um livro quente-. OH, sim. Normal está bem.
-Já está tudo? -perguntou, observando o conteúdo do carrinho.

-por agora -respondeu ela. Tinha a voz rouca, assim pigarreou para esclarecê-la
garganta-. Seu apartamento está preparado para as receber?

-Vêm com tão somente uma bolsa de fraldas. Já lhes comprei uns berços, se for
isso ao que te refere.

-Em parte.

-Há mais? -perguntou ele, como se temesse a resposta-. Têm comida e um lugar
onde dormir. Que mais se necessita?

-Muitas coisas -disse-lhe, e começou às enumerar em uma lista quando lhe


ocorreu outra idéia-. Ouça, Sam, por que não vou contigo e te ajudo?

Os rasgos do Sam se endureceram, e por um momento Michelle pensou que


rechaçaria sua oferta. E pensou também que talvez fora melhor assim. Estar a sós com o
Sam em seu apartamento não era tão boa idéia. Tinham passado dez anos, mas, a julgar
pelos frenéticos batimentos do coração de seu coração, todo esse tempo não tinha
bastado para conter o desejo que sentiam o um pelo outro.

Naturalmente, ele não parecia ter dificuldade em conter-se a si mesmo para não
equilibrar-se sobre ela, assim que talvez estava tudo em sua cabeça. Pelo visto o pesar
nunca desaparecia de tudo. E quando uma se encontrava cara a cara com o homem ao
que tinha amado com todo seu coração, era normal sentir-se um pouco... ou, mais, bem,
completamente aturdida.

Mas ela não era a mesma garota que tinha sido anos antes. Tinha trocado, tinha
crescido, casou-se e tinha enviuvado. Certamente Sam também tinha trocado. O que ela
estava sentindo não era mais que as brasas de um amor que tinha ardido no passado. Sua
reação era semelhante a dos cães do Pavlov, que ficavam a babar cada vez que
escutavam o tinido que precedia à comida. Por sua parte, ela ficava a babar se via o
Sam.

Mas isso não era um problema. Podia lhe demonstrar ao Sam e a ela mesma que
tinha feito o correto ao romper com ele.

-Você mesmo há dito que só tem um par de horas antes de partir -disse-lhe, ao
ver que ele seguia em silêncio-. Se te ajudar, acabará na metade de tempo.

Ele pensou na proposta durante um minuto e finalmente assentiu com


brutalidade.

-De acordo. Aprecio sua oferta.


-Para que estão os amigos? -perguntou Michelle, esboçando um sorriso muito
larga.

-É isso o que somos? Amigos?

-Poderíamos sê-lo -respondeu ela pacientemente-. É melhor que ser inimigos,


não te parece?

-Eu nunca fui seu inimigo, Michelle -disse-lhe com voz profunda.

-Já sei. É...

-Olhe, será mais fácil se não falarmos do passado -interrompeu-a ele-. por que
não começamos de zero? a partir de agora mesmo.

-De acordo -aceitou ela, e se apartou para que ele empurrasse seu carrinho para
as caixas.

Mas enquanto o seguia, disse-se a si mesmo que só porque não falassem do


passado não significava que ambos não estivessem pensando nele.

O apartamento do Sam era em realidade uma casita de madeira levantada em um


amplo terreno. Vários carvalhos davam sombra ao jardim dianteiro, e uma rede
pendurava entre as duas árvores mais próximas ao alpendre. A casa necessitava uma
mão de pintura, mas o branco desbotado e os portinhas negros lhe davam um aspecto
mais acolhedor e hospitalar que as imaculadas moradias vizinhas.

O caminho de entrada estava flanqueado por sendos leitos de crisântemos, que


contribuíam um toque de cor ao descuidada grama. E enquanto Michelle estacionava o
carro detrás o do Sam, uma parte dela se imaginou cuidando as flores, cortando a grama
e lhe dando a aquele lar um pouco de carinho.

repreendeu-se a si mesmo e se disse que tinha que controlar esses pensamentos,


sobre tudo com o Sam. Não só eram inapropriados; estava convencida de que tampouco
seriam apreciados.

Mas não podia evitá-lo. depois de tudo, seu trabalho era organizar eventos,
especialmente bodas. E um jardim como aquele seria perfeito para uma festa. Havia
muito espaço para acolher a um montão de convidados. imaginou as mesas e cadeiras
repartidas pela erva, com as toalhas brancas ligeiramente sacudidas por uma suave brisa.
Haveria farolillos de papel pendurando dos ramos e pequenos lucecitas brancos
brilhando entre a folhagem. Podia inclusive ouvir o murmúrio das conversações e- o
tinido da cristalería. Sim, o jardim dianteiro do Sam seria o lugar idôneo para uma festa
sem que fizesse falta arrumá-lo muito.

-Vem? -chamou-a ele junto ao porta-malas de seu carro.

-Sim -respondeu ela, desviando o olhar da decadente beleza do jardim para ele.
Agarrou a bolsa e saiu.

Fazia uma tarde de janeiro muito agradável, embora isso era muito normal no
Texas. Em dias como aquele os texanos recordavam por que gostavam tanto sua terra.
Um céu azul e espaçoso se estendia sobre suas cabeças, e uma ligeira brisa despenteou
os cabelos da Michelle enquanto se dirigia para o Sam.

Lhe arrojou as chaves, agarrou as bolsas e lhe indicou com a cabeça que
fechasse o porta-malas. Ato seguido, encaminhou-se para a porta e se deteve o pé dos
degraus para deixar que ela passasse.

Michelle colocou a chave na fechadura e abriu a porta. Em seguida viu um típico


lar de solteiro. O chão de madeira estava talher de meias três-quartos e cueca, uma pilha
de periódicos se cambaleava precariamente sobre uma cadeira que se balançava sobre
três patas, e o aroma de beicon frito se mesclava com o aroma de tabaco que
impregnava o ar.

-Acreditava que tinha deixado de fumar faz dez anos -recriminou-lhe ela.

-Fiz-o -respondeu ele, passando junto a ela em direção a uma porta no outro
extremo da habitação-. Ontem à noite tive uma partida de pôquer.

Aquilo explicava as garrafas de cerveja vazias e as bolsas enrugadas de batatas


fritas dispersadas sobre uma mesa.

OH, sim. Sam estava definitivamente preparado para levar meninos a sua casa,
pensou Michelle. Negou com a cabeça e o seguiu à cozinha. Uma cozinha que deveu
considerar-se vanguardista quando se construiu... lá por 1930.

Uns azulejos azul celeste, com o bordo azul marinho, alinhavam-se com o passar
do mostrador. A pia era o bastante profundo para esvaziar nele todo o conteúdo da
máquina de lavar roupa. Em um rincão se via um frigorífico minúsculo junto a uma
cozinha tão velha que parecia de lenha. Na parede oposta, um armário embutido
destinado a guardar a porcelana continha um sortido de pratos de papel e de coloridos
copos de plástico. Na diminuta mesa sob a ampla janela havia um prato com gema de
ovo petrificada e meia fatia de beicon... os restos, sem dúvida, do café da manhã do
Sam.

Michelle girou lentamente pela alargada e estreita cozinha.


-Bonito sítio tem aqui -disse-lhe.

Sam, que estava esvaziando as bolsas, deteve-se e a olhou fugazmente.

-Não esperava companhia.

-Mas está esperando bebês.

-Sim, e o que?

-Porque este lugar não é nem muito menos apto para meninos -disse ela,
procurando um sítio para guardar a comida infantil. Abriu um armário e ficou
boquiaberta ao ver a coleção de bolsas de batatas fritas e de sopa enlatada. Era isso tudo
o que Sam comia?, perguntou-se enquanto esvaziava uma prateleira para colocar as
vasilhas de frutas e verduras.

-A que te refere com «apto para meninos»?

-Refiro às coisas que tem dispersadas pelo salão. Um aparelho de vídeo, uma
mesa de centro com tabuleiro de cristal, uma cadeira de três patas que pode cair sobre
um menino a gatas.

Sam franziu o cenho e arrojou a bolsa vazia ao cubo do lixo.

-Inteirei-me do acidente do Dave e Jackie faz tão somente um par de horas


-disse-. Não tive tempo de... -calou-se um momento e a olhou-. Demônios. Nem que
tivesse tido uma semana teria pensado em preparar a casa para os meninos... OH, sim,
isto vai sair muito bem -murmurou, claramente aborrecido.

-Não é tão grave -disse ela, e dobrou cuidadosamente a bolsa antes de recolher a
que havia no chão-. Quero dizer que poderia o ter tudo listou em um dia ou dois. Só faz
falta um pouco de organização.

-Não tenho um dia ou dois -replicou ele, e olhou seu relógio-. Nem sequer tenho
duas horas.

Estava em um verdadeiro apuro. E o instinto da Michelle a incitava a ocupar-se


de tudo.

Mais tarde , possivelmente o lamentasse, mas de momento não pôde evitar uma
sugestão:

-por que não me deixa sua chave e eu me ocupo de preparar a casa enquanto está
fora?

-O que?

-A loja pode entregar os berços, e eu poderia o ter tudo preparado para quando
voltasse.
Sam a olhou em silencio durante um comprido minuto, sem estar seguro de ter
ouvido bem. Não tinha falado com a Michelle em uma década, e as últimas palavras que
intercambiaram não foram precisamente amistosas. E agora ela se oferecia voluntária
para tirá-lo do apuro?

por que?

-Digo-o a sério -continuou ela, que já se estava movendo pela cozinha,


recolhendo coisas, colocando os pratos na pia e abrindo o grifo para enxaguá-los-. Em
uma semana poderia o ter tudo preparado para os bebês.

-Estou seguro disso -disse ele, e se perguntou se sua voz soaria muito dura-. A
questão é: por que quer fazê-lo?

Michelle ficou imóvel. Lentamente, alargou uma mão para o grifo e o fechou. O
repentino silêncio esticou o ambiente até que ela se voltou para olhá-lo e lhe dedicou a
meia sorriso que, nos velhos tempos, sempre lhe acelerava o pulso.

-Digamos que por ajudar a um amigo -respondeu simplesmente.

Amigos.

Quão único nunca tinha sentido pela Michelle era amizade. Tinha-a desejado.
Tinha-a amado. Tinha-a cobiçado até o ponto de não pensar mais que em tocá-la. E
quando ela rechaçou sua proposta de matrimônio, tinha chegado a odiá-la. Mas nunca
tinha querido ser seu amigo.

-É por compaixão, verdade? -perguntou-lhe.

-Compaixão?

-Sim. Crie-me incapaz de dirigir isto e por isso te lança ao resgate?

Michelle o olhou surpreendida, enquanto se secava as mãos com um trapo


enrugado.

-Não pretendia te ofender. Só tentava te ajudar.

Maldição. Sam se passou uma mão pela cabeça, voltou a olhar seu relógio de
pulso e sentiu o tictac dos segundos. Não tinha pretendido ser grosseiro. Mas tampouco
tinha esperado encontrar-se a de casualidade nem remover velhos sentimentos que era
melhor manter enterrados. Embora, era culpa da Michelle que ele não tivesse sido capaz
de esquecer o passado?

Não.

Necessitava ajuda, sem importar quem a oferecesse?

Certamente.
Ela passou a seu lado em direção à porta, mas ele a agarrou por braço e a deteve.
Uma explosão de calor lhe estalou no peito. apressou-se a soltá-la, mas não foi o
bastante rápido.

-Michelle -disse, metendo-as mãos nos bolsos-, ouça, não queria ser um idiota.

-Não o foste.

-Sim o fui -insistiu-, mas nem sequer tenho tempo para me desculpar. Assim, se
de verdade me está oferecendo ajuda, você o... agradeço-lhe isso.

O sorriso da Michelle a ponto esteve de tombá-lo de costas. Maldita seja, não era
justo que aquela mulher lhe seguisse afetando tanto. disse-se a si mesmo que não era
uma boa idéia, que estar juntos muito tempo só podia lhes ocasionar dor a ambos. Mas,
por outro lado, não podia permitir-se rechaçar sua ajuda quando estava em uma situação
se desesperada.

Pensou que poderia ir ver a família Fortune e lhes pedir ajuda. Mas essa relação
ainda era muito recente e débil, e ele não se sentia cômodo com ela. Não, se ia receber
ajuda de alguém, era da Michelle.

-Estupendo -disse ela-, como pensa ir ao aeroporto?

-Irei em meu carro e o deixarei no estacionamento. Ela negou com a cabeça e se


dirigiu para a porta.

-Não tem por que fazê-lo -disse-lhe-. Eu te levarei e também te recolherei.


Necessitará ajudas com os bebês.

OH, ele não tinha nenhuma dúvida de que Michelle poderia ajudá-lo muito com
os bebês. Mas enquanto recolhia sua bolsa de viagem e saía da casa, perguntou-se quem
demônios ia ajudar o com ela.

Uma multidão os rodeava e passava em torno deles como um banco de peixes


em busca de comida. Quando os alto-falantes anunciaram a última chamada para o vôo,
Michelle esboçou um amplo sorriso.

-Boa sorte. Tem meu número de telefone. me chame quando souber em que vôo
volta.

-Farei-o -disse ele, jogando um olhar à fila de passageiros que se dirigia para o
avião-. Tenho que ir.
Michelle assentiu e, antes de saber o que estava fazendo, adiantou-se e lhe deu
um abraço. Imediatamente ficou aturdida e assombrada do que tinha feito. Deus, o que
estaria pensando Sam?

Mas um momento depois obteve a resposta. Sam a rodeou com os braços e lhe
deu um breve mas forte apertão. Então a soltou e desapareceu de sua vista.

E ela, como sempre, ficou sozinha.

Capítulo 3
Sam nunca tinha feito uma viagem que parecesse tão largo como aquele. Um
vôo militar ao Golfo Pérsico era um passeio em comparação.

Três dias mais tarde, uma larga fila de pessoas se deslocava lentamente pelo
corredor central do avião. Por toda a cabine se ouviam murmúrios de frustração,
enquanto os fatigados passageiros esperavam de pé a que seus companheiros de viagem
baixassem a bagagem de mão dos compartimentos superiores.

Sam não podia entender por que a gente se levava toda sua bagagem aos
assentos. Antes, a bagagem de mão consistia em uma pequena maleta. Agora incluía
ordenadores portáteis, violões, carrinhos de meninos, bolsas de roupa... Mas, depois de
um vôo de seis horas, que importância tinha esperar quinze minutos mais?

Um gemido soou a seu lado e ele girou a cabeça para olhar a uma das gêmeas.
Não podia as distinguir, mas já lhes tinha posto apodos. A que tinha protestado era a
Chorã, pois ficava a mugir com a coisa mais insignificante. E sua irmã era a Escupidora,
que soava algo mais suave que a Vomitadora. ganhou-se o nome aos cinco minutos,
quando vomitou a comida sobre o uniforme do Sam.

Ambas tinham estado protestando quase todo o vôo desde o Hawai. Desde não
ter sido pela ajuda das aeromoças, Sam estava seguro de que outros passageiros os
teriam atirado, a ele e às meninas, pela comporta mais próxima.

passou-se as mãos pelo rosto, sentindo-se como se levasse horas em um campo


de batalha. Só que em vez de balas, tinha que enfrentar-se a mamadeiras, fraldas sujos e
estridentes chiados.

Levantou a Chorã de seu assento e a colocou no regaço. Pô-lhe uma mão nas
costas para mantê-la erguida e se olharam o um ao outro.

-Ouça -disse-lhe brandamente-, já sei que isto não me dá muito bem, mas não
poderia me dar uma pausa?
Uma lágrima escapou do olho da pequena, escorregou por sua bochechuda
bochecha e desapareceu por dentro das dobras de seu pescoço. Ao Sam lhe encolheu o
coração.

Ela não o merecia. Nenhuma das duas. Mereciam o mesmo que todos os
meninos. Um bom lar e uns pais que as quisessem. Tudo o que tinham tido até uma
semana antes. perguntou-se, não pela primeira vez, o que estariam pensando e sentindo
as meninas. Saberiam que seus pais se foram para não retornar jamais? Estariam
assustadas ao ver tantas caras novas? Intuiriam o perdido que se sentia ele?

Esperou que não.

Pela extremidade do olho captou movimento. Como se alguém tivesse aberto


uma porta em alguma parte, a fila de pessoas começou a andar de repente. Uma atrás de
outra foram descendo do avião, e Sam recolheu às meninas e suas coisas. antes de que
pudesse levantar-se, um homem maior com um traje enrugado e expressão iracunda se
deteve junto a seu assento.

-Você e seus filhos arruinaram este vôo. Ja-. mais em minha vida tinha ouvido
tanto ruído -espetou-lhe, olhando furioso ao Sam e a cada uma das meninas.

O mesmo Sam tinha estado pensando o mesmo uns minutos antes, mas ouvir o
dizer a outra pessoa era algo muito distinto.

-Senhor -disse-lhe, olhando-o igual a olhava aos recrutas torpes no campo de


treinamento-, todos neste avião fomos uma vez bebês. Incluído você. E todos
chorávamos e incomodávamos de vez em quando a um velho caquético.

-Velho caquético? -repetiu o homem, claramente ofendido.

A Chorã soltou uma espécie de risita, um gorgojeo profundo e rouco que


pareceu elevar-se desde seu estômago. Sam lhe sorriu e devolveu o olhar ao homem,
que seguia imóvel no sítio.

-E-seguiu, em defesa das pequenas-, estas duas meninas têm muitos mais
motivos para queixar-se que você. Acabam de perder a seus pais em um acidente.
Tiram-nas de seu lar, afastam-nas de tudo o que lhes resulta familiar, metem-nas em um
avião com um desconhecido, e espera que estejam caladas? Olhe, senhor, se todo isso
lhe tivesse ocorrido a você, suspeito que teria feito muito mais ruído.

O homem teve a decência de parecer um pouco envergonhado, antes de pigarrear


e afastar-se pelo corredor. A mulher que ia detrás de sorriu ao Sam ao passar.

Bravo! -sussurrou-lhe.

Os últimos passageiros abandonaram o avião e


Sam ficou com as meninas que, da noite para o dia, converteram-se em suas
filhas. Que Deus os ajudasse a todos.

Michelle os ouviu antes de vê-los. Um berro saía do comprido corredor de


desembarque, segundos antes de que Sam aparecesse. Levava uma menina em cada
braço e uma bolsa de fraldas pendurada do ombro. Seu aspecto era o de um homem ao
bordo de um precipício, perguntando-se se seria muito má idéia saltar.

As dúvidas da Michelle sobre se devia implicar-se ou não desapareceram


imediatamente, varridas por uma onda de instinto maternal. Ao ver aquelas dois
caritas... tão similares... tão comovedoramente inocentes, derreteu-se por completo.

Correu para eles com os braços estendidos, e recebeu imediatamente um dos


bebês.

-OH, pobrecita -murmurou enquanto a menina se acurrucaba contra seu peito,


sem deixar de choramingar.

Sam soltou um profundo suspiro.

-Não acredito que nunca me tenha alegrado tanto de ver alguém.

Um breve estremecimento de prazer percorreu a Michelle antes de que pudesse


sufocá-lo. Mas, um segundo depois, deu-se conta de que Sam se alegrou igualmente de
ver uma matrona de oitenta anos disposta a ajudá-lo.

Tragou saliva para desfazer o nó de decepção que lhe tinha formado na garganta
e se disse a si mesmo que não passava nada. Ao fim e ao cabo, não queria que ele a
desejasse.

-Um mau vôo? -perguntou-lhe.

-Não pergunte -grunhiu ele, subindo à menina um pouco mais nos braços.

Michelle passou uma mão pelas costas do bebê, o que automaticamente acalmou
à pequena assim como ao Sam. Parecia esgotado, mas elas pareciam uns bebês
adoráveis.

-OH, vamos, vais dizer me que um marinhe grande e forte não pode dirigir a um
par de meninas pequenas?

Sam negou com a cabeça.

-Preferiria voltar para Golfo Pérsico, sozinho, armado com uma escopeta de
brinquedo, antes que repetir um vôo como este.
Um sorriso curvou os lábios da Michelle, mas quando ele a olhou com olhos
entreabridos, deixou de sorrir e assentiu.

-Nesse caso, será melhor que lhes leve a casa.

-Deus, que bem soa isso -disse ele com um gemido-ronco. girou-se e começou a
caminhar para o recolhimento de bagagens. Michelle se apressou a segui-lo-. Não tem
nem idéia de quanto desejei voltar para minha casa para descansar.

-Me imagino -disse ela. adorava sentir o calor daquele cuerpecito acurrucado
contra seu peito. A pequena se removeu um pouco, enterrou a cara no pescoço da
Michelle e esta não pôde evitar um suspiro de satisfação.

Céu Santo, aquele sentimento maternal era mais forte do que se imaginou. Não
fazia nem cinco minutos que conhecia essa menina e já a adorava. O qual não era bom,
pensou, recordando-se a si mesmo que esses bebês não eram deles. Demônios, nem
sequer podia visitá-los. Ela só estava ali para ajudar. Logo, desapareceria da vida do
Sam... outra vez.

Mas, por alguma razão, toda a lógica do mundo não bastava para rivalizar com
as emoções que a percorriam. Queria abraçar a essas meninas. as amar. Tentar as
compensar pelo que tinham perdido. E desfrutar com o que ela nunca poderia ter.

-Está-me escutando? -perguntou Sam.

Michelle deu um coice e o olhou.

-O que?

Ele negou com a cabeça e lhe dedicou um ligeiro sorriso.

-Outra vez sonhando acordada, né?

-Mais ou menos.-confessou, embora não ia contar lhe o que estava sonhando.

O bulício do terminal pareceu apagar-se quando ele a olhou aos olhos, e


Michelle sentiu que se afundava nessas profundidades verdes tão familiares.

OH, Céus...

-Algumas costure alguma vez trocam, verdade? -disse ele.

-A que refere? -perguntou, e a ponto esteve de tropeçar com seu próprio pé antes
de apartar o olhar dele.

-Refiro-me a que estava acostumado a estar nas nuvens todo o tempo.

-Nas nuvens?
-Sim -confirmou ele com uma meia sorriso-. Cada vez que falávamos de algo,
fixava-me em que seus olhos adquiriam uma expressão suave e sonhadora. antes de que
me desse conta, já estava voando para outro mundo.

Ela não soube o que responder a aquilo, assim que se manteve em silêncio. E por
isso mesmo pôde ouvi-lo como murmurava algo mais:

-Durante muito tempo senti falta disso.

Lhe fez um nó no estômago. Ela também o tinha sentido falta de. Não tinha sido
fácil rechaçar sua proposição. De fato, ver como se afastava dela foi o mais duro que
tinha feito jamais. Mas tinha estado segura de fazer o correto. Para ambos.

Um ano mais tarde, casou-se com o William. Não o tinha amado como amou ao
Sam, mas era um homem bom e amável. E quando morreu, dois anos depois de casar-
se, Michelle recuperou seu sobrenome de solteira e se separou de sua cabeça todos os
pensamentos relativos à família. convenceu-se a si mesmo de que algumas pessoas não
estavam feitas para formar uma família.

Embora agora, dez anos depois de perder ao Sam, já não estava tão segura disso.

As lembranças do passado os assaltaram a ambos enquanto foram recolher a


bagagem. Quando chegaram, quase todas as malas tinham sido retiradas já, e a bolsa
verde do Sam era quão única seguia dando voltas na cinta transportadora. Sam se
inclinou para agarrá-la, e ao fazê-lo-a bolsa dos fraldas se balançou para diante e o
golpeou na cara.

-dêem-me isso disse Michelle, e alargou uma mão para a bolsa amarela e laranja.

-Pesa muito -advertiu-lhe ele enquanto a tendia.

-Sou uma garota forte -respondeu ela.

-Sim -murmurou, apartando o olhar-, já o notei.

Cada um com uma bolsa e um bebê, dirigiram-se para o estacionamento.

A rua larga e mastreada parecia lhe dar a bem-vinda a casa. O sol descendia pelo
céu enquanto Sam colocava o carro no caminho de entrada e apagava o motor. Uma
semana. Tinha estado fora só uma semana, e logo que reconhecia o sítio.

As flores que bordeaban o caminho tinham sido podadas, a grama talhada e os


arbustos recortados. Um par de cadeiras de vime que tinha guardado na garagem
estavam no alpendre, pintadas de branco, e do alto da entrada penduravam vasos de
barro de hera.

Teria que haver o esperado. Michelle nunca tinha sabido ficar quieta. Se lhe
davam dez minutos e uma broxa de pintura, seria capaz de retocar a Capela Sextina.

Sacudiu a cabeça e se girou lentamente para olhasse.

-estiveste muito ocupada -disse-lhe secamente.

-Bom -fez um gesto para a casa sem deixar de olhá-lo-. Pensei que...

-Que a casa necessitava tanta ajuda como eu? -concluiu ele.

-Não queria dizer isso -defendeu-se ela-. Só ordenei umas quantas coisas.

-E pintaste, plantado Y... que mais, Michelle?

Ela apertou os lábios, e ele reconheceu o brilho de impaciência em seus olhos.


Pelo visto o tempo não tinha acalmado esse temperamento que sempre ameaçava saindo
à superfície.

-Olhe -espetou enquanto abria a porta do carro-, se você não gostar, volta a
trocá-lo.

Ele a agarrou por braço antes de que pudesse sair. Uma onda de calor o invadiu,
mas essa vez não a soltou. Essa vez se permitiu a si mesmo desfrutar com o prazer que
lhe provocava simplesmente tocá-la. Tinha passado muito tempo, muito, desde que
havia sentido algo semelhante.

Tinha tentado distrair-se com outras mulheres. Encontrar em outra pessoa o que
tinha descoberto na Michelle. Mas não conseguiu nada. Ninguém lhe afetava como ela.

OH, Deus, quanto a tinha amado. Sua mão, seu rosto, seu cabelo... Recordava
muito bem o tato de suas curvas sob as Palmas, a suave exalação que soltava quando ele
a penetrava. Vê-la, amá-la, tê-la entre seus braços tinha sido tudo o que desejava. Mas
então cometeu o engano de lhe propor o matrimônio, e ela o derrubou de seu castelo no
ar com um míssil certeiro.

Muitos lembranças, pensou enquanto um calafrio apagava as chamas de seu


interior. Soltou-a e abriu a porta do carro.

-Não hei dito que eu não goste.

-Então o que há dito exatamente? -perguntou ela saindo do carro. Apoiou um


cotovelo no teto do veículo e o olhou, espectador.
-Hei dito que estiveste ocupada -repetiu Sam, lhe mantendo o olhar-. Não
esperava que fizesse tudo isto, Michelle. Disse que foste preparar a casa para os bebês,
nada mais.

A expressão da Michelle trocou da indignação à vergonha em um instante.

-Fiz-o -disse, encolhendo-se de ombros-. Mas me sobrou um pouco de tempo


Y... -calou-se e suspirou-. Sinto muito -seguiu, tornando-se para trás uma espessa mecha
de seus negros cabelos-. Me... deixei levar pelo entusiasmo.

Ao Sam começaram a lhe formigar os dedos pela tentação de entrelaçá-los na


suave e sedosa juba da Michelle. Queria voltar a senti-la contra sua pele. E era um
desejo tão desesperado que queria que ela também o sentisse.

-De maneira que te deixou levar pelo entusiasmo, né? Onde ouvi eu isso antes?

Tal e como esperava, as lembranças afloraram ao rosto da Michelle. Viu como o


rubor se estendia por suas bochechas e pescoço. Ela se ergueu e olhou a todas partes
menos a ele.

-Agora o recordo -disse ele, fingindo que acabava de recuperar uma lembrança
longamente ignorada, quando em realidade teria que estar morto para esquecer algo que
tivesse relação com a Michelle-. Estávamos na última fila do cinema...

-Sam -lançou-lhe um olhar de pânico e se apartou uma mecha dos olhos.

Ele reconheceu a súplica naquele olhar. Michelle queria que se calasse. E talvez
essa fora a razão pela que não podia estar calado. Tinha estado calado dez anos. Dez
anos guardando-os lembranças para si mesmo. Mas já era suficiente. Ela tinha que sabê-
lo. Tinha que saber que ele o recordava tudo.

-Era um desses filmes em branco e negro dos anos trinta, em uma sessão
noturna... -assentiu e perdeu a vista no vazio, sentindo-o todo outra vez, como tinha
feito tantas vezes ao longo dos anos. O tranqüilo bairro se desvaneceu, e uma vez mais
voltou a estar no cinema às escuras, beijando a Michelle-. Tínhamos a sala inteira para
nós Y...

-Deveríamos colocar às meninas em casa, não crie? -apressou-se a interrompê-lo


ela.

-As luzes e sombras dançavam em seu rosto -acrescentou ele em tom


meditativo-. Não sei por que pagamos por aquele filme. Nem sequer a vimos.

-Sam... -disse Michelle com voz tensa. O percebeu em seu tom o eco de seu
próprio desejo, mas não podia deter-se. Em realidade, não queria deter-se.
Cravou-lhe o olhar e lhe pareceu ver como seus olhos violetas ardiam em
chamas. O coração lhe deu um tombo, mas mesmo assim seguiu falando. Tinha que
fazê-la recordar. Precisava saber se as lembranças podiam abrasá-la como a ele. E, sobre
tudo, precisava saber que ela não o tinha abandonado sem sofrimento.

Voltou a cara para a brisa, mas isso não apagou seu fogo interno.

-Tinha que te tocar, sentir sua pele contra a minha.

Ela fechou brevemente os olhos e se apoiou no carro.

-Não faça isto -murmurou-. Não nos faça isso a nenhum dos dois.

Mas era uma ordem muito fraco. Sam via como respirava com dificuldade e
como o pulso lhe acelerava na base do pescoço.

-Você também me necessitava, Michelle. Recorda?

Ela abriu os olhos e assentiu bruscamente.

-Recordo-o.

-Ali, na escuridão, subiu a meu regaço.

-Sam, por favor...

-E me levou a seu interior.

-OH, não... -Michelle pressionou as Palmas contra o carro e tragou saliva com
dificuldade.

-Fizemos o amor ali, Michelle, à luz da tela. Naquele cinema, solos entre as
sombras, fizemo-lo até que logo que pude respirar. Até que não me importou se podia
respirar ou não. Só me importava você. Estar contigo. dentro de ti.

-OH, Deus...

O fogo de seus olhos se apagou. Ao Sam lhe esticou tanto o peito que temeu que
ia explorar. Michelle o recordava. Tudo.

-E quando acabamos -seguiu, decidido a contá-lo tudo-, e estávamos apoiados o


um contra o outro, tremendo, recorda o que disse?

Passaram uns tensos segundos antes de que ela assentira e voltasse a tragar
saliva.

-Pinjente: «Sinto muito, Sam. Suponho que me deixei levar pelo entusiasmo»
-sussurrou.
Sam sentiu que lhe formava um doloroso nó no estômago, e teve que perguntar-
se a qual dos estava castigando em realidade ao abrir o baú das lembranças. Mas, fora a
quem fora, já era muito tarde.
Capítulo 4
Michelle respirou fundo e tentou ignorar os acelerados pulsados de seu coração.
Todo o corpo lhe ardia ao vermelho vivo por culpa das emoções recordadas, pelo anseia
de voltar às sentir.

«te acalme», disse-se a si mesmo. Tinha passado muito tempo. As coisas já não
eram como antes. naquela época ela tinha sido distinta, jovem e tão apaixonada que não
podia ver além da noite seguinte. Não se tinha preocupado, nem sequer tinha pensado
no futuro. Até que lhe pediu que se casassem. Que tivessem uma família. E então...
bom, que sentido tinha recordá-lo tudo agora?

Trocou de postura e se inclinou para lhes jogar uma olhada aos bebês em seus
assentos.

-Seguem dormindo -disse Sam-. Mas embora estivessem acordadas, não nos
entenderiam.

-por que faz isto? -perguntou ela tranqüilamente, felicitando-se a si mesmo pela
serenidade de sua voz. Não era grande coisa, tendo em conta que todo o corpo lhe
tremia.

-Fazer o que? -perguntou ele encolhendo-se de ombros.

-Basta já -espetou-lhe, lhe lançando um olhar que tivesse fulminado a um


homem mais débil-. Sabe muito bem o que está fazendo.
-Recordar os bons tempos com uma velha «amiga»?

Sam Pierce tentando parecer inocente era tão convincente como o Demônio com
um halo. Todo isso era ridículo. Ela não ia deixar se arrastar pelas lembranças nem ia
pedir desculpas pelo que tinha feito.

Nem tampouco ia envergonhar se ou lamentar-se por nada do que ela e Sam


fizessem juntos por amor.

-Tenta me fazer danifico? -perguntou-lhe, sem apartar o olhar dele.

-Demônios, claro que não. Não tento te fazer danifico -defendeu-se, passando
uma mão pelo cabelo. O gesto não alterou o mais mínimo seu corte militar.

-Então o que? -voltou a lhe perguntar-. Que sentido tem fazer isto?

-OH, tem que ter um sentido? Bom, então suponho que quero te fazer recordar.
-Crie que não o recordo? -por amor de Deus, de verdade acreditava Sam que ela
podia ter esquecido o tempo que compartilharam? Nem sequer ao casar-se com outro
homem tinha podido apagar ao Sam de sua mente, embora duvidava de que ele queria
ouvir isso.

-O que se supõe que devo acreditar? -murmurou ele, apoiando os antebraços no


teto do veículo. Entrelaçou as mãos e a olhou-. Cortou comigo faz dez anos, apesar de
tudo o que havia entre nós. E depois, ao nos encontrar de casualidade, diz que sejamos
amigos. E se supõe que eu devo aceitá-lo para enfatizar sua asseveração-. Foi você
quem não quis falar do passado.

-troquei que opinião também eu gostaria de sabê-lo –respondeu com uma voz
tão suave que a brisa quase se ocultava as palavras antes de que ele pudesse as ouvir.

-Sim, bom, pois eu também -fechou a porta dianteira do carro e se moveu para a
traseira. Então pigarreou e o olhou diretamente aos olhos-. Podemos nos ocupar dos
bebês e deixar este tema? Ou temos que falar agora sem mais remedeio?

«Sim, demônios!», quis gritar ele. Queria respostas. Não só à pergunta de por
que o estava ajudando; também queria saber o que tinha saído mal entre eles dez anos
atrás. Queria saber a razão pela que ela o tinha abandonado sem olhar atrás. O fato de
que isso o seguisse incomodando o irritava sobremaneira.

Deveria havê-lo superado. depois de tudo, não se tinha encerrado em um


monastério depois da ruptura. Mas bem ao contrário. Tinha estado com todas morre que
tinha podido, em um vão intento de tirar-se a Michelle Guillaire da cabeça. Tinha saído
com elas, deitou-se com elas e logo as tinha esquecido. Nenhuma tinha conseguido
chegar a seu coração nem de longe.

Mas Michelle... Ela o tinha feito sonhar com a família, com um lar, com o
amor... Para logo lhe fechar nos narizes a porta das ilusões. Uma dor que tinha
permanecido tanto tempo enterrado ressurgiu de repente e lhe oprimiu o coração.

Sam tinha pensado muitas vezes no que diria ou faria se voltava a encontrar-lhe
Era estranho

-Foi você quem disse que começássemos de zero lhe recordou ela apontando-o
com o dedo Já sei que não estou em posição de objetar nada, mas eu gostaria de saber :

é sozinho por compaixão?

-Maldita seja, Michelle -disse ele.

Ela levantou a cabeça e lhe lançou um olhar assassino.


-Não te atreva a me amaldiçoar. Não tem direito.

Ele tomou ar e o soltou de repente.

-De acordo. Tem razão. Não tenho direito. Só tenho o desejo de te amaldiçoar.

-OH, que encantador -replicou ela assentindo-. Muito obrigado. Já me sinto


muito melhor.

-O que esperava que dissesse? -fechou sua porta e agarrou o abridor da porta
traseira-. Algo como: « Vá, me alegro de verte! »? Ou tudo bem: «Quer voltar a me
destroçar o coração?».

-Quão único esperava era te ajudar com os bebês.

-por que?

-O que?

-Perguntei-te por que -fez uma pausa e contemplou como a brisa revolvia seus
cabelos, cortados à altura dos ombros. perguntou-se se seguiriam cheirando a coco, mas
se disse a si mesmo que isso não importava. Ela não importava. .Embora a verdade era
que nem ele mesmo acreditava-. por que reformaste minha casa, por que me ajuda com
as meninas. por que o faz? Não me disse isso a última vez que lhe pergunte isso quando
finalmente a tinha visto não lhe tivesse ocorrido nada.

O dia do supermercado, tinha estado tão assustado ante a idéia de ocupar-se dos
bebês que não pôde pensar em como o afetava voltar a ver a Michelle. Mas agora era
distinto.

Quando saiu do avião e a viu esperando-os no terminal, a ele e às meninas, havia


tornado a ter as fantasias de antigamente, quando era jovem e estava louco por ela.
Tinha imaginado essa cena inumeráveis vezes. Ele voltando para casa depois de
trabalhar. Michelle esperando-o. Sonriéndole. Desejando-o. Inclusive se tinha
imaginado a um par de meninos brincando de correr de entusiasmo por ver papai de
novo.

E embora aquele dia era ele quem estava com as pequenas, a situação era tão
parecida com suas fantasias que tinha tido que reprimir-se para não agarrar a Michelle e
beijá-la com paixão, para perder-se nela até que o passado se desvanecesse e só ficasse
o presente. E o futuro.

-Sam?

O piscou e a olhou. Olhou-a realmente, não através do espelho da memória, mas


sim como era agora. Mais magra do que recordava, com mais enruga em torno de seus
olhos violetas... muito mais formosa. E a desejava mais que nada no mundo.
Mas podia superá-lo. Estava acostumado a não conseguir o que queria, não?

-Não -disse, com uma voz carregada de emoção-. Não temos que falar disso.

Os olhos da Michelle brilharam de alívio e se inclinou para tirar uma das gêmeas
de seus assentos traseiros.

-Ainda -acrescentou ele em um sussurro.

Tinha estado igual de ocupada no interior da casa, pensou Sam ao percorrer com
o olhar as habitações que uma vez lhe resultaram familiares. Cada peça do mobiliário
estava encerada e reluzente, refletindo a luz da tarde que entrava pelas janelas. O sofá
tinha almofadas novas, e da cozinha saía um aroma a frango que fez estragos no
estômago vazio do Sam.

Seguindo a Michelle, sentia-se como um visitante em seu próprio lar. Ela, por
sua parte, sentia-se como em sua casa, e o conduziu à habitação vazia que ele tinha
pensado transformar no quarto das meninas. Mas ao transpassar a soleira se deteve,
maravilhado.

Em três dias, Michelle tinha convertido uma habitação vazia em, um mundo de
fantasia para meninos. Os berços estavam montados e dispostas como camas as gema.
Entre elas havia uma mesita branca com um abajur e um par de livros infantis. Uma
pequena cadeira de balanço parecia esperar a que a ocupasse um conta contos.

O teto tinha sido pintado de azul celeste com nuvens brancas, e a mesma cor
chegava até a metade das paredes, onde se tinha pintado uma cerca branca, através de
cujos fitas de seda se viam flores vermelhas, amarelas e laranjas. Em conjunto, a
habitação parecia um jardim exterior. Havia duas cômodas e uma mesa para trocar às
meninas, bem provida de acessórios e fraldas.

O que tivesse podido fazer Michelle se tivesse tido mais de uma semana?,
perguntou-se Sam.

Lentamente, girou-se para olhá-la, maravilhado. Ela parecia nervosa, esperando


sua reação, perguntando-se se lhe daria as obrigado ou se ficaria furioso por tantas
mudanças.

-É incrível -disse ele. Entrou na habitação e se girou sobre si mesmo para


contemplar o resultado desde todos os ângulos.

-Você gosta? -perguntou, claramente aliviada.


-Como não vai gostar de me? -replicou, e deixou à a Escupidora em um dos
berços. A menina agarrou o cordeiro de peluche que havia no colchão e o mordeu na
orelha. Tinha fome, depois de vomitar tudo o que tinha comido-. Deveu-te que custar
muito trabalho.

Ela se encolheu de ombros, como lhe tirando importância a todas as horas que
tinha empregado nessa habitação.

-Não te parece que é muito? -perguntou, olhando uma parede-. Suponho que
me... -calou-se e o olhou.

Algo se removeu no interior do Sam, e teve que admitir que os sentimentos para
ela estavam muito perto de aflorar. Maldição. Não ia permitir que ocorresse. Não queria
passar outra vez por isso.

-Obrigado por tudo o que tem feito -disse, em vez de fazer algum comentário
estúpido-. De verdade que o aprecio.

Um imenso alívio cobriu a expressão da Michelle.

-Me alegro -disse-. E se quiser, posso ficar um momento para te ajudar a lhes dar
de comer e dormir.

Sam sabia que devia dizer que não. Sabia que devia lhe dizer que partisse.
Agora. Enquanto ainda quisesse que partisse. Mas uma parte dele não estava preparada
para ver como voltava a sair de sua vida. Ainda não.

-Isso estaria bem -disse.

O sorriso da Michelle o golpeou com tanta força que a ponto esteve de derrubá-
lo, e soube nesse instante que tinha cometido outro engano.

Ela se voltou para o bebê que tinha levado em braços e se inclinou sobre o bordo
do berço.

-Ainda não me há dito seus nomes -disse ao Sam, olhando-o por cima do ombro.

-Enjoe e Beth.

-Quem é quem?

-Aí me pilhaste.

-O que? -ergueu-se e o olhou, incrédula-. Não sabe as distinguir?

-Bom, as olhe -disse ele, um pouco à defensiva-. São tão parecidas como duas
ervilhas.
Michelle Miro às meninas Corto negro, grandes olhos azuis... De acordo, eram
as gemam idênticas. Mas cada uma tinha sua própria identidade. Não eram
intercambiáveis.

-Sam, tem que ser capaz de poder as diferenciar.

-Sim, já sei -admitiu com o cenho franzido-. Mas tenho um sistema infalível para
isso. Ao menos durante uma temporada.

-E qual é?

O se endireitou e se passou uma mão pela barba incipiente que começava a lhe
obscurecer a mandíbula.

-lhe tire os patucos.

-Como?

-Os patucos da Chorã. Quítaselos. -A chamas a Chorã?

-É um nome muito apropriado -respondeu ele, enquanto a menina soltava outro


berro-. Não te parece?

Michelle colocou um braço no berço e lhe deu à pequena um tapinha nas costas.

-E como chamas à outra?

-A Escupidora.

-Sam! -horrorizada, Michelle olhou o doce rosto do bebê no outro berço.

-Se visse o que fez a minha uniforme, entenderia por que a chamou assim -disse-
lhe ele-. Sou novo nisto, não? Se quer saber seus nomes verdadeiros, lhe tire os patucos.

Murmurando contra os neandertales e suas ridículas respostas aos pequenos


enigmas da vida, Michelle voltou a inclinar-se sobre o berço e desatou os cordões dos
sapatos mais pequenos que tinha visto em sua vida. Ao tirar-lhe a menina deu uma
patada de delícia, e Michelle lhe agarrou os pés para lhe tirar também os meias três-
quartos.

Nada mais fazê-lo, ficou olhando as novelo daqueles piececitos, fascinada.


Sacudiu a cabeça e se disse a si mesmo que tinha que admirar o engenho do Sam,
embora não estivesse de acordo com o que tinha feito.

-E bem? -perguntou ele-. Quem é essa?

Michelle agarrou um dos pés e leu o nome escrito na sola com tinta negra.

-Esta é Beth.

-Ah -Sam olhou à a Escupidora-. Assim que você é Enjoe.


A Michelle lhe escapou uma risita.

-Não posso acreditar que lhes tenha escrito seus nomes nos pés.

-Bom, o que outra maneira tinha de recordar quem era quem?

-OH, não sei... Olhando seus caritas, possivelmente? Procurando as pequenas


diferenças que as, fazem ser quem som?

-Para ti é fácil dizê-lo -grunhiu ele, e começou a despir a Enjoe-. Eu tive que ir
ao Hawai, me reunir com os Serviços Sociais, ir ao orfanato, onde só me deram quinze
minutos de instruções e uma bolsa de fraldas. Não tive muito tempo para procurar essas
«pequenas diferenças».

-Mas, e escrever em seus pés? -Michelle negou com a cabeça, escandalizada e ao


mesmo tempo fascinada pela solução do Sam.

-No orfanato lhes tinham sujeito ao peito etiqueta com seus nomes -murmurou
ele-. Como se fossem imigrantes esperando na Ilha do Ellis ou algo assim. Pensei que
isto seria melhor. Ao menos, ninguém mais que eu veria seus pés.

Um ligeiro apertão no coração fez que os olhos da Michelle se enchessem de


lágrimas. Sam Pierce podia falar como um tipo duro, mas no fundo era um brando. E,
soubesse ele ou não, aquelas meninas o tinham cativado.

Mas escrever em seus pés era um pouco... insólito. Tinha encontrado um modo
de manter suas identidades por separado e de evitar que fossem objeto da compaixão
dos desconhecidos. E ele seguiria as cuidando muito depois de que a tinta negra se
apagasse.

Michelle sempre tinha sabido que Sam seria um pai maravilhoso. Tinha-o
intuído dez anos antes, quando ambos eram jovens. Ainda recordava os largos bate-
papos que tinham tido, e como lhe tinha confessado que queria ter uma casa cheia de
meninos. Era um homem que desejava ter uma família. E agora, finalmente, tinha-a.
Não só pertencia a uma das famílias mais capitalistas do país, os Fortune, mas também
em cima era pai.

E Michelle não formava parte de sua vida.

Não era mais que uma amiga que o estava ajudando. Mas seria isso suficiente?
Poderia ser suficiente para os dois?
Quando as meninas estiveram banhadas, alimentadas e deitadas, a casa ficou por
fim em calma. O suave rangido dos móveis reconfortava às duas pessoas sentadas no
sofá.

Michelle pensou que teria que haver partido uma hora antes. Mas não o tinha
feito. Em vez disso, tinha jantado com ele em seu pequeno comilão e tinham falado de
várias coisas, evitando cuidadosamente o tema que os atormentava a ambos. Agora,
com os pratos lavados e a casa em silêncio, sabia que deveria agarrar a bolsa e sair pela
porta a toda pressa. Mas, por alguma razão, ainda não se via capaz de despedir-se. Uma
vez que saísse, não teria motivo para voltar. depois de tudo, as meninas não eram sua
responsabilidade. Não tinha nenhum direito sobre elas. Não podia as visitar quando
quisesse, para jogar e as abraçar.

E tampouco tinha direito a estar perto do Sam. Viu-o inclinar-se por volta da
chaminé para acender um pequeno fogo que os protegesse do frio de janeiro. Suas mãos,
fortes e hábeis, moviam-se com facilidade e perícia, colocando troncos e lascas. E ela
não pôde evitar recordar a sensação daquelas mãos movendo-se sobre seu corpo.
Quando ele acendeu um fósforo e prendeu os periódicos sob a lenha, e as chamas se
refletiram vacilantes em seus rasgos, a Michelle deu um tombo o coração.

Ele sempre tinha provocado esse efeito nela. Do primeiro momento que o viu,
Sam Pierce lhe tinha afetado como nenhum outro. A primeira vez que a beijou, o ar que
os rodeava se carregou de eletricidade, e mais tarde ela tinha jurado ter visto estrelas no
instante em que seus lábios se encontraram.

Mas as estrelas, a magia e a eletricidade não sempre eram suficientes. cedo ou


tarde, o mundo real tinha que invadir os mais formosos mundos de fantasia. E quando
isso ocorria, não podia ignorar-se.

Sam se separou das chamas e a olhou a ela durante um comprido minuto.


Michelle tentou ler sua expressão, seus olhos, mas a luz era muito fraco e, em qualquer
caso, talvez ela não queria saber realmente o que estava pensando. Talvez fora melhor
que nenhum dos dois pensasse muito no que estava acontecendo.

-Te senti falta de, Michelle -disse ele tranqüilamente.

OH, não. A Michelle lhe fez um nó na garganta e teve que tragar uma baforada
de ar como se fora uma dose de uma horrível medicina.

-Sam... -deslocou-se até o bordo do sofá e olhou ao redor em busca de sua bolsa.
«Agora», gritava sua mente. «Vete agora».

Então lhe ofereceu uma mão e ela teve uma oportunidade. Uma oportunidade
muito clara. Podia ser inteligente e sair daquela casa... ou podia tomar sua mão e, só por
uma noite, esquecer-se dos anos perdidos, do manhã e das inevitáveis despedidas que
tinham que chegar. Só por uma noite podia fingir que Sam seguia sendo dele.

Michelle?

Ela respirou fundo e deslizou uma mão para a sua


.

Capítulo 5
Sam enroscou os dedos ao redor dos da Michelle, e pela primeira vez em dez
anos voltou a sentir-se... completo. Era um pensamento que deveria aterrorizá-lo, pois
implicava que suas emoções e desejos o estavam arrastando de volta a uma situação que
não sabia dirigir. Nada bom poderia sair daquilo. Nada permanente. Nada sobre o que
construir uma vida.

Tinham passado muitas coisas entre eles. Muito dor. Desconfiança. Traição.
Sofrimento... Fora o que fora o que nesse momento vibrava no ar nunca poderia ser
mais que isso. Um instante roubado, arrancado da rotina diária.

E ao olhar em seus olhos violetas, resplandecentes à luz das chamas, soube que,
no momento, era suficiente. Era-o tudo. Não podia deixá-la partir. Não sem sentir a
magia uma vez mais. Atirou dela para levantá-la do sofá e a estreitou entre seus braços.
Buscou-lhe avidamente a boca enquanto ambos descendiam com suavidade até o tapete,
frente à chaminé. Os estalos e rangidos do fogo pareciam ressonar em suas veias. Sentia
que estava ardendo, e entretanto ansiava mais. Necessitava mais.

E ela também desejava mais. Sam o notou em sua resposta. Em como lhe
abraçava fortemente o pescoço, em como se pressionava contra seu corpo e se amoldava
contra ele.

Sam tomou posse de sua boca como se fora um comando de assalto. Separou-lhe
os lábios com a língua e lhe roubou seu fôlego e calor. Os gemidos da Michelle
avivaram seu desejo, e um zumbido elétrico lhe percorreu todo o corpo.

Apartou a cabeça e a olhou fixamente aos olhos.

-O que estamos fazendo, Sam? -sussurrou ela.

-Quão único podemos fazer, Michelle -respondeu-. Preciso te tocar. Preciso


sentir sua pele.

-OH, sim... -tragou saliva-. Eu também o necessito. Mais que nada.

Sam levou os dedos até os botões da camisa da Michelle e os desabotoou em


poucos segundos. Então deslizou uma mão no interior e tomou um peito. Com o polegar
lhe acariciou o mamilo através do encaixe, massageando-o em círculos, atirando,
beliscando-o brandamente, até que ela se retorceu baixo ele, jogou a cabeça para trás,
contra o tapete, e em silêncio lhe exigiu receber mais. E ele o deu. O deu a ambos.

Prodigalizou-lhe uma série de beijos úmidos e ardentes com o passar do pescoço


e sobre o peito, até que o deteve a barreira do prendedor. Seus hábeis dedos
encontraram o fechamento frontal e ao momento seguinte os dois peitos estavam
expostos a seu olhar. Passou a mão sobre a carne Lisa e suave e sentiu o mamilo
endurecido sob a palma.

Michelle se arqueou e lhe pôs uma mão em cima, mantendo-o pega a ele, como
se temesse que fora-se. Mas Sam não tinha intenção de ir a nenhuma parte. Não havia
outro lugar no mundo onde queria estar nesse momento. Um momento com o que tinha
sonhado e fantasiado durante muito tempo; tanto, que ainda não podia acreditar do todo
que a presença da Michelle fora real.

Entrelaçou os dedos com os seus e lhe levantou a mão a um lado, sujeitando-a


contra o chão. Continuando, agachou a cabeça e tomou o mamilo em sua boca,
passando a língua ao redor da ponta. Ela se estremeceu e agarrou com força sua mão, e
lhe roçou o mamilo com o fio de seus dentes, fazendo que se retorcesse ansiosamente.
Então fechou os lábios ao redor do peito e começou a sugar, saciando-se com sua
essência e sua alma.

Ela levantou os quadris do chão e se moveu ao mesmo ritmo que seu sangue
fervendo. Ele o percebeu, pois o mesmo calor o estava levando a limite de sua
resistência. Sua língua e seus lábios trabalhavam incesantemente sobre os peitos.
Saboreou-a uma e outra vez, até que sua própria cabeça começou a lhe dar voltas pela
vertiginosa sensação que o embargava.

-Sam -sussurrou ela com a voz entrecortada. O levantou a cabeça para olhá-la
aos olhos-. Sam, necessito-te. Necessito-te dentro de mim. Agora. Por favor, agora.

-Eu também te necessito, neném -disse-lhe, com uma voz afogada pelo desejo.

Com uma mão se tirou a camiseta e os jeans e os arrojou por cima do ombro.
Michelle se moveu com a mesma rapidez, tirou-se a camisa e o prendedor e deslizou as
mãos sob a cinturilla de suas calças de cor marrom clara.

Mas quando se dispôs a tirar-lhe Sam a deteve e se ajoelhou entre suas pernas.

-me deixe a mim -pediu-lhe, e ela assentiu, pois era incapaz de falar.

Os dedos do Sam se introduziram sob o linho e, lenta, muito lentamente, atirou


das calças para baixo, ao mesmo tempo que de seus braguitas. Foi beijando cada
centímetro de pele que despia, marcando o corpo da Michelle com o calor de sua boca.
Sentiu como a ela lhe acelerava o pulso e como o desejo crescia em seu interior. E
quando não pôde agüentar a tortura nem um segundo mais, terminou de lhe tirar as
calças de um forte puxão. Rígido e ardendo por dentro, percorreu com o olhar o
exuberante corpo que lhe oferecia.
Suas mãos ansiavam tocá-la, seu corpo demandava formar parte dela. E mesmo
assim queria mais. Queria explorar cada palmo da Michelle. Queria descobrir seus
segredos. Averiguar quem era essa nova mulher, de uma vez tão dolorosamente
familiar.

Ela levantou os braços para recebê-lo, e ele se inclinou para sentir o tato
daquelas mãos sobre sua pele. Sentiu a pressão de cada um de seus dedos enquanto lhe
deslizava as Palmas sobre as costas, os ombros e o peito. Quando sentiu que lhe
apertava o mamilo com a unha do polegar, estremeceu-se e lhe agarrou a mão.

Girando a cabeça, plantou-lhe um beijo em meio da palma, soltou-a e voltou a


retirar-se, longe de seu alcance. ajoelhou-se entre suas coxas e com as mãos explorou
seu centro de umidade. Introduziu dois dedos nas cálidas profundidades, e ela levantou
os quadris em resposta e pressionou as mãos contra o chão, como se procurasse algo ao
que aferrar-se em seu torvelinho particular.

E enquanto ele a torturava no interior com os dedos da mão esquerda, com os da


direita lhe esfregou e lhe acariciou o clitóris. Michelle soltou um grito afogado ao
receber a primeira carícia, sacudida por uma incandescente onda de calor que lhe
transpassou os ossos. Era muito, pensou. Muitas sensações de uma vez depois de estar
tanto tempo sem nada. E mesmo assim, queria mais. Queria suas mãos e sua boca sobre
ela, queria que a olhasse com olhos ardentes de desejo.

E então ele a olhou, fixamente, com os lábios apertados, e ela pronunciou seu
nome e moveu os quadris contra sua mão. Sim, tinha passado muito tempo sem sentir
algo como aquilo. Aquela magia tão maravilhosa. Aquela incrível conexão que
compartilhavam.

Sam introduzia e tirava os dedos, e ela sentiu como se abria a ele, recebendo-o
em seu interior. As pontas dos dedos seguiam lhe massageando o ponto sensível,
fazendo que ela se estremecesse antecipando-se a seguinte carícia e subisse e baixasse
os quadris ao ritmo que ele estabelecia. O coração lhe pulsava grosseiramente no peito,
até que ela não pôde ouvir mais que o fragor do sangue em seus ouvidos e os estalos do
fogo.

Iluminado pelas chamas, Sam retirou as mãos e, antes de que ela pudesse
protestar, levantou-a do chão e lhe levantou as pernas até que estas penduraram sem
remédio a cada lado de sua cabeça.

«OH, Meu deus», pensou ela, agarrando-se ao tapete. Sabia o que vinha a seguir
e, que o Céu a ajudasse, com quanta desespero o desejava. Tanto, que logo que podia
respirar.
E então Sam inclinou a cabeça e tomou com sua boca. Os lábios se fecharam em
torno da delicada carne e com sua língua explorou a fonte de umidade.

Avivada pelas chamas da paixão, Michelle se retorceu violentamente, agitando a


cabeça de um lado a outro mas sem apartar o olhar dele, vendo como a possuía.

-Sam -conseguiu dizer em um meio ofego-. OH, Sam, não pares.

O levantou a cabeça o suficiente para olhá-la aos olhos.

-Disso nada -disse, e seus dedos se aferraram a ela por detrás, lhe agarrando
firmemente o traseiro enquanto voltava a reclamá-la. Com seus lábios, língua e dentes a
levou a um frenesi que lhe acelerou ainda mais o coração e lhe cortou a respiração.

O orgasmo era iminente. De algum lugar no profundo de seu corpo, Michelle


sentiu a crescente tensão, as dolorosas pulsações que a levavam a clímax. Lutou
desesperadamente contra o imperioso ataque. Queria que aquilo durasse para sempre.
Queria alargar esse momento até a eternidade.

Mas Sam estava decidido. E não havia modo de negar-se.

Moveu rapidamente a língua por seu sexo ao tempo que voltava a introduzir dois
dedos em suas profundidades. E Michelle não pôde resisti-lo mais. A primeira onda a
golpeou com tal dureza que gritou o nome do Sam e voltou a pressionar as mãos contra
o chão. obrigou-se a manter os olhos abertos e fixos nele enquanto a segunda onda a
sacudia e a levava a gloriosa culminação.

E antes de que seu corpo deixasse de tremer, ele a voltou a tombar no chão e se
colocou em posição, apoiou as mãos a ambos os lados de sua cabeça e se introduziu
nela tão rápido que Michelle sentiu que lhe alcançava o coração.

Rodeou-o com as pernas e o manteve firmemente sujeito, enquanto se regozijava


com a deliciosa sensação de tê-la em cima e dentro dela.

-Necessito-te -sussurrou-lhe ele, olhando-a fixamente-. Maldita seja, ainda te


necessito.

Os olhos da Michelle se encheram de lágrimas para ouvir o desespero de sua


voz, mas um momento depois, esqueceu-o tudo quando ele se moveu contra ela. Guiou-
a em uma frenética dança, vibrante e exigente. E com cada. investida de seu corpo, Sam
ia cercando o coração e a alma.

Ela se aferrou a seus ombros, esticou as pernas ao redor de seus quadris e se


moveu com ele, lhe dando tudo o que lhe tinha dado, lhe demonstrando da única
maneira que sabia que ela também o necessitava.
Um torvelinho de sensações se formava redemoinhos em seu interior. A tensão
voltava a crescer. manteve-se ao ritmo do Sam, beijando-o, tocando-o, perseguindo
aquela selvagem e indescritível sensação. Desejava compartilhá-lo com ele. Fundir-se
com ele, ser um só corpo quando a magia os possuísse.

E quando finalmente chegou o clímax, possuiu-os a ambos. O gritou seu nome, e


ela não soube se o fazia como maldição ou como bênção. Mas justo então se precipitou
ao vazio, e Sam a recolheu em seus braços para suavizar a queda.

Três horas depois, Michelle soltou um gemido e se ergueu até sentar-se.


Contemplou as brasas da chaminé e disse com voz suave:

-De acordo, provavelmente foi um engano.

Sam se moveu a seu lado e se apoiou em um cotovelo.

-Em que ocasião foi um engano? -perguntou.

Ela o olhou por cima do ombro e tentou dominar a súbita descarga de desejo que
se estendeu por suas veias. Faziam o amor três vezes. Quando teria suficiente?

Ele levantou uma mão para arranhá-la nuca e ela contemplou maravilhada como
se moviam os músculos de seu peito.

Magnifico, pensou. Pelo visto, nunca poderia saciar-se dele.

O qual era uma razão mais pela que nada disso deveria ter ocorrido.

-Talvez deveríamos ir ver as meninas.

-Acabamos de fazê-lo -disse ele-. Não te ande com evasivas. Em que ocasião foi
um engano?

-Em qualquer delas... Em todas elas.

-Não pareceu te importar muito a última vez -assinalou ele.

Certo. Muito certo. A última vez não só não lhe tinha importado, mas também
quase o tinha violado. O pobre tinha estado exausto, e ela se subiu em cima e lhe tinha
assegurado que faria todo o trabalho.

Soltou um fraco gemido e afundou a cabeça nas mãos. Tinha passado muito
tempo após, mas nesses momentos parecia como sim tivesse ocorrido no dia anterior.
Sua mente voava de um pensamento a outro, e suspirou ao recordar quanto tempo lhe
havia flanco recuperar-se de sua perda. Agora, em troca, estava buscando-se mais dor.
Por amor de Deus, no que tinha estado pensando?
A resposta era muito simples: não tinha estado pensando em nada. Tinha estado
sentindo. E, Céus, que sentimentos!

Levantou a cabeça e olhou o fogo. Partes enegrecidas de madeira se empilhavam


sobre o ralo, e de vez em quando saltavam uns brilhos vermelhos, como os olhos dos
condenados no inferno.

«Estupenda analogia», pensou ela. «Sentindo-se um pouco culpado,


possivelmente?».

assegurou-se a si mesmo que não tinha tido intenção de que aquilo ocorresse.
Unicamente havia tentando servir de ajuda.

E certamente que o tinha ajudado. Com todo seu corpo.

OH, Deus.

-Tenho que ir -disse de repente, e moveu a cabeça de um lado a outro em busca


de suas roupas.

-Bem -disse ele lentamente-. Não tem feito falta muito tempo.

Michelle se deteve e o olhou.

-O que se supõe que significa isso?

-Só o que você cria que significa -respondeu, sentando-se a seu lado. Ao roçá-la
com o braço uma onda de calor se concentrou no estômago da Michelle, mas ignorou a
sensação.

-por que não me diz isso?

-Como quer. Está fugindo de novo.

Michelle ficou boquiaberta por uns segundos.

-Eu não estou fugindo. Só me parto... rapidamente. E que demônios quer dizer
com «de novo»?

-Virtualmente me afugentou com um pau, recorda? Fugiu então e está fugindo


agora.

-Aquilo não foi fugir -espetou ela à defensiva, e seguiu procurando sua roupa-.
Rompemos.

-Você rompeu.

-Tinha minhas razões -onde teriam ido parar seu prendedor?

-Razões que nunca te incomodou em compartilhar comigo -recordou-lhe ele.


Uma pontada de culpa a transpassou, mas a sufocou rapidamente. Não ia sentir
se mal por ter feito o que tinha que fazer.

-Não tinham importância.

-Talvez não para ti -replicou ele. Agarrou-a por braço e a girou, obrigando-a a
olhá-lo-. Mas quando alguém me rompe o coração e logo foge, sinto curiosidade por
saber a causa.

Michelle sentia cada vez mais frio. Era algo muito estranho, pois tão somente
uns momentos antes tinha estado ardendo de calor. Mas tinha sido o fogo dos olhos do
Sam o que a tinha esquentado, e agora só via gelo naquelas profundidades verdes.

-me diga por que o fez -ordenou-lhe, lhe apertando com força o braço.

Ela baixou o olhar até sua mão e voltou a subi-la até seus olhos.

-Está-me fazendo mal.

Ele a soltou imediatamente e negou com a cabeça.

-Sinto muito. Não lhe pretendia fazer isso inclinou-se a um lado, agarrou o
prendedor de debaixo de um abajur e o tendeu-. Mas ainda quero uma resposta. por que
o fez? por que me deixou?

Michelle ficou o prendedor em seguida, mas se sentiu mais nua do que tinha
estado toda a noite. Não queria falar do passado. Não faria nenhum bem e, além disso,
não queria lhe contar seus motivos. Eram só deles.

-Não quero falar disso, Sam -disse enquanto localizava a blusa, enrugada no
chão sob uma cadeira. Só ficava encontrar as calças para largar-se dali.

-Ah, bom, por que não o disse antes? -perguntou ele em tom irônico-. Né, se
Michelle não quer falar de um tema, não se fala desse tema, verdade? .

-Não há necessidade de ser sarcástico.

-me desculpe, mas nunca soube como etiquetar o sexo incrível com uma ex-
noiva.

Ela murmurou algo incompreensível.

-O que há dito? -perguntou ele.

-Hei dito que deveria provar os velhos tópicos: «Se não ter algo agradável que
dizer, não diga nada».

-É um caso, sabia? -disse ao tempo que se levantava. Agarrou os jeans do sofá e


os pôs-. Irrompe outra vez em minha vida, remove-o tudo e logo quer voltar a fugir.
-Sam...

-Quem é você? Alguém que cada dez anos, sente a necessidade de me chatear?

-Isso não é justo.

-Pode que não, mas é exato.

Ela voltou a percorrer a habitação com o olhar. Por fim! Agarrou as braguitas e
as calças e os pôs. Então se voltou para encará-lo, sentindo-se um pouco mais segura do
que estava nua.

-Sabe que não queria que isto passasse.

Passou uns segundos antes de que Sam soltasse um suspiro e se cruzasse de


braços.

-Sim, sei -admitiu-. Eu tampouco queria.

-Nesse caso talvez deveríamos apontá-lo na lista de lembranças e deixá-lo


passar.

-Pode fazer isso? -perguntou ele. Seu penetrante olhar a atravessou do outro
extremo da habitação, procurando a verdade que queria ouvir.

-Tenho que fazê-lo -limitou-se a responder ela. Agarrou sua bolsa e se dirigiu
para a porta.

Tinha aberto quando a voz do Sam a deteve.

-Michelle.

-Sim? -perguntou, olhando-o por cima do ombro.

-Obrigado por sua ajuda... com os bebês, refiro-me.

-De nada -conseguiu dizer antes de que se engasgasse pela emoção. Então saiu
da casa e do homem ao que sempre tinha amado, fechando a porta atrás dela.
Capítulo 6
Durante uma semana e meia, Sam o tentou tudo para manter a nova situação sob
controle. Mas, fizesse o que fizesse, lhe seguia escapando das mãos.

Tinha passado por duas babás, cinco mil fraldas, um frasco de aspirinas e Deus
sabia quantas penetradas. E tinha chegado a uma conclusão.

Era melhor marinhe que pai.

E agora sua última esperança de normalidade estava saindo pela porta.

-Essas meninas necessitam disciplina, sargento -disse a babá, ajustando-se seu


chapéu negro sobre os cachos cinzas-. Sem disciplina, é um caos.

Sam a olhou com uma sobrancelha arqueada.

-Um caos? Mas se nem sequer podem falar ainda.

A mulher soltou um bufo e fez uma careta, o que recordou ao Sam a sua
professora de quarto grau. A senhorita Henry tinha tido a alma de uma ameixa passa e o
caráter de uma serpente de cascavel. Sam teve a impressão de que essas duas mulheres
tinham muito em comum. depois de tudo, acaso ao chegar ele a casa um momento antes
não tinha ouvido chorar às duas meninas enquanto sua «babá» estava sentada lendo um
livro? Quando lhe perguntou por que não as estava atendendo, a velha senhora lhe disse
que tomar em braços a um menino que chorava só servia para lhe ensinar que chorando
podia conseguir-se tudo.
Sam, em troca, sempre tinha acreditado que, ao ser o pranto a única forma que
tinham os meninos de comunicar-se, era o que supunha que tinham que fazer.

-Tem que haver regras -disse a mulher, devolvendo-o à presente-. Sendo você
militar, seguro que pode entendê-lo -e, sem dizer mais nem esperar uma resposta, deu-se
a volta e partiu.

Sam se disse que aquela mulher o faria muito melhor como general que como
babá. Qualquer que esperasse que os meninos de nove meses seguissem regras não
podia considerar-se apto para o cuidado de bebês.

Entretanto, e até sabendo que tanto ele como as meninas estariam melhor sem
ela, ao vê-la partir sentiu um desespero como não tinha sentido em anos. Tinha que
encontrar a alguém que quisesse e se preocupasse com as meninas enquanto ele estava
trabalhando.
Miranda Fortune, sua tia, havia lhe recomendando o serviço de babás. E embora
ele sabia que só o tinha feito por ajudar, não tinha servido de nada. A primeira babá era
uma adolescente inexperiente, e essa última... bom, também se tinha partido.

Mas não pensava chamar o Miranda e lhe dizer que não tinha funcionado. Sua
tia tentaria ajudá-lo de novo e, sinceramente, Sam não queria estar mais em dívida com
a família que acabava de aceitá-lo. Suspirou e se passou uma mão pelo rosto. O fato de
que tivesse ido a sua nova família em busca de ajuda era indicativo de quão desesperado
estava. O não era um homem que fora pedindo auxílio a ninguém, mas sim sempre
preferia resolver seus próprios problemas e sair por si mesmo de qualquer situação
embaraçosa.

Mas de maneira nenhuma podia dirigir aquele problema sozinho. Voltou para a
casa e fechou a porta. Foi para o dormitório das meninas e se apoiou no marco.

As duas estavam dormindo, esgotadas atrás de seu vão intento por chamar a
atenção. A Chorã... Beth, disse-se a si mesmo severamente, estava enroscada formando
um novelo, com o polegar na boca. As bochechas ainda lhe resplandeciam pelos hilillos
chapeados das lágrimas. Sam pôs uma careta de dor e olhou à outra gêmea. Enjoe jazia
em seu cunita, abraçada ao cordeiro de peluche.

Aquelas duas meninas contavam com ele. Dependiam dele para ter um lar, um
lugar seguro. E ele não sabia nem por onde começar. passou-se uma mão pelo cabelo e
tentou imaginar-se como um homem que não sabia nada de temas familiares podia lhes
dar a aquelas meninas o que necessitavam.

Nesse momento Beth sorveu pelo nariz, e o suave som apressou ao Sam para que
fizesse o único que se havia dito que não faria.

girou-se e olhou o telefone na mesa do salão.

-Tem duas opções -murmurou-. Pode seguir dando voltas às cegas, ou pode te
tragar seu orgulho e chamar a Michelle.

Demônios, durante os últimos dez dias lhe havia flanco toda sua força de
vontade não fazer isso último. prometeu-se a si mesmo não voltar a cometer esse
engano. Mas a sentia falta de, maldita seja.

Havia tentando evitá-lo. E tinha estado tão ocupado que não deveria ter tido
tempo para pensar nela. Mas, por alguma razão, sempre estava aí, em sua mente,
acossando-o com as lembranças da última noite que passaram juntos, com imagens do
que poderia ter sido.
Chamá-la naquele momento só traria mais problemas. Mais complicações.
Atravessou a habitação, agarrou o telefone e olhou o teclado. E, embora seus dedos
começaram a marcar o número, seguiu dizendo-se que era um engano.

Então ela respondeu à chamada e quão único importou foi o som de sua voz.

Michelle levava uma semana e meia refugiada no trabalho. Seu negócio tinha
separado finalmente, e tinha que preparar duas festas de aniversário, umas bodas e um
batismo. Não ficava tempo para preocupar-se com o Sam e as meninas.

Ao menos isso era o que se dizia a si mesmo cada vez que seus pensamentos
voavam do projeto que tinha entre mãos à pequena casita ao outro lado da cidade.
perguntava-se se as meninas estariam bem, se Sam teria encontrado a alguém capaz das
cuidar, se a sentiria falta de tanto como ela a ele...

Irritada, apagou o ordenador portátil e o fechou com delicadeza. Como se


supunha que podia concentrar-se no quadragésimo aniversário do Jonathan Murray
quando o rosto do Sam seguia penetrando em sua mente? levantou-se e rodeou a mesa
da cozinha para olhar pela janela, mas logo que notou a luz do sol que se filtrava entre
os carvalhos e que desenhava formas salpicadas na erva, três pisos mais abaixo, nem
tampouco emprestou atenção ao bulício usual da concorrida rua.

Então a visão lhe nublou e em vez de ver o mundo exterior viu o rosto do Sam.
Quase podia saborear seu beijo, sentir suas mãos nela... O corpo lhe endureceu
imediatamente.

E então o telefone soou, desfazendo a imagem, e não esteve segura de se sentir-


se agradecida ou decepcionada.

-Por amor de Deus -murmurou, negando com a cabeça enquanto se dirigia para o
telefone. Tinha que deixar de sonhar acordada com o Sam-. Diga? -perguntou ao
levantar o auricular.

-Michelle? A voz do Sam Seus dedos apertaram com força o auricular e um


estremecimento lhe percorreu as costas. Tentou ignorar a sensação, mas se deu conta de
que era inútil. Assim era como reagia ante o Sam, de modo que em vez tentar fazer caso
omisso do efeito, possivelmente fora melhor encontrar um modo de viver com isso.

Sim, claro, pensou. Seguro que não seria difícil. Algo assim como acostumar-se
a viver ardendo em chamas.

De acordo, disse-se a si mesmo. Tinha que tranqüilizar-se. Mostrarse_ serena e


despreocupada. Podia fazê-lo... sempre que obtivesse que seu coração descesse de sua
garganta.
-Olá, Sam -saudou-o, enquanto enroscava os dedos no cordão do telefone-. Não
esperava que me chamasse.

-Seguro? -replicou ele-. Nem sequer depois de ter talhado e fugido a outra noite?

-Cortar e fugir? -repetiu ela-. Eu não fugi, simplesmente fui.

-Sim, lembrança que foi... a outra noite e faz dez anos.

-Faz dez anos tinha minhas razões para ir.

-Lástima que nunca te incomodasse nas compartilhar comigo.

Michelle não estava disposta a deixar-se arrastar por aquele velho argumento.
Não ia defender se por ter tomado uma decisão. Acaso não bastava o preço que tinha
pago ao perdê-lo?

-Olhe, Sam -disse, apertando o cordão com tanta força para romper a conexão-,
não tenho que te dar explicações sobre mim.

-Isso diz você.

-por que não o deixa como está?

Sam deixou escapar um suspiro.

-Não chamei por isso -disse com voz débil.

-por que chamaste então?

produziu-se um silêncio e ela o ouviu respirar fundo e soltar o ar de repente.

-A verdade é que te chamava pelas gêmeas -disse lentamente.

-O que ocorre? -perguntou ela, esquecendo-se de toda sua ira-. Estão bem?

-Sim, estão bem. É só que... -produziu-se outro breve silencio, antes de que Sam
o dissesse tudo de repente, como se queria soltá-lo antes de que pudesse trocar de
opinião-: Olhe, Michelle, estou em um apuro e necessito sua ajuda. Já sei que não estou
em posição de te pedir nada, especialmente depois do modo que iniciei esta chamada,
mas mesmo assim lhe peço isso.

Michelle piscou de assombro, apartou-se o auricular da orelha e o olhou durante


um par de segundos. Sam Pierce estava admitindo que necessitava ajuda? E dela? Vá,
sim que devia estar desesperado.

-Necessito a alguém que possa cuidar das meninas... temporalmente, quero dizer,
até que possa encontrar a alguém que se ocupe permanentemente.

-Mas tem uma babá, não? -perguntou ela, mas logo que as palavras saíram de
sua boca pôs uma careta e se golpeou a frente com a palma da mão.
-Como sabe você isso?

Magnífico. Agora Sam sabia que os tinha estado vigiando de perto a ele e às
meninas. O que seria o seguinte?, perguntou-se. Confessar que tinha passado por sua rua
três ou quatro vezes aquela semana com a esperança de vê-lo? Não, disso nada, decidiu
rapidamente. Aquele segredo seguiria sendo um segredo.

-Miranda me disse isso -não acrescentou que se havia posto muito pesada com
seu amiga, a tia do Sam, para lhe surrupiar a informação, nem que lhe tinha jurado não
dizer nada.

-Conhece o Miranda -disse ele. Era uma asseveração, não uma pergunta.

-Sim -confessou ela, mas se apressou a trocar de tema-. E bem? O que passou
com a babá?

-Não o fizeram bem.

-Fizeram? -acaso tinha tido mais de uma babá em menos de duas semanas?

-É uma história muito larga, mas o resultado é que necessito a alguém que me
ajude com os bebês uma temporada.

-por que eu? -perguntou, embora toda ela gritava «sim» por dentro.

-Porque apesar de todo o ocorrido entre nós, confio em ti para que delas cuide.
Fez-o muito bem a primeira noite -fez uma pausa e tomou ar-. Necessito-te, Michelle.
Necessito sua ajuda.

A Michelle deu um tombo o coração e teve que agarrar uma cadeira da cozinha
para sentar-se. Sam a necessitava. Mas isso certamente traria problemas, disse-se a si
mesmo. Era muito provável que surgissem complicações e se rompesse algum coração.
E entretanto queria dizer que sim. Seus braços ansiavam sustentar a aquelas meninas.

Mas estar na mesma casa que Sam... deixou-se cair na cadeira e respirou fundo
para tentar acalmar-se.

-OH, Sam, não sei se for boa idéia.

-Sei o que está pensando.

-Duvido-o -disse ela, imaginando-se ao Sam sobre ela, nu. Maldição. Não podia
permitir que um desvario passional voltasse a arrastá-la à dor.

Apartou essas imagens de sua cabeça e se obrigou a manter-se firme.

-Teria que haver umas regras básicas. -Que classe de regras básicas? -perguntou
ele com tom receoso.
-A classe que evitará que volte a acontecer o da outra noite.

-A que te refere?

-Ao contato físico -respondeu ela-. Não haverá o menor contato físico entre nós.

-De acordo.

-E nada de beijos -apressou-se a acrescentar, recordando o sabor de seus lábios.

-Isso se inclui na proibição do contato, não crie?

-Só me estava assegurando.

-Bem. Nada de contato e nada de beijos. Trato feito?

ia arrepender se disso, estava segura. Mas se não o fazia também se


arrependeria. Assim, se ia lamentar se de todos os modos, melhor que fora fazendo o
que tão desesperadamente desejava fazer.

-Trato feito -disse, antes de que qualquer pensamento racional pusesse


objeções-. Estarei aí pela manhã.

À manhã seguinte, às sete em ponto, Sam abriu a porta e se tomou um momento


para deleitar-se com a vista da Michelle. Estava estupenda com jeans e sudadera.
recolheu-se o cabelo em uma rabo-de-cavalo e se atou um lenço lavanda ao redor. A
seda ondeava em torno de seu rosto, e a cor parecia intensificar o violeta de seus olhos.

-Posso passar? -perguntou, arqueando uma sobrancelha.

-OH -disse ele, saindo de seu ensimismamiento-. Sim, claro -retrocedeu para lhe
deixar passo, e ao passar a seu lado, lhe roçou o peito com o ombro. Um estalo de calor
se propagou imediatamente por seu interior, da cabeça aos pés.

«Nada de contato», recordou-se e se disse a si mesmo que era uma boa regra...
mas muito difícil de acatar. Aspirou fundo e então o embriagou a fragrância de seu
perfume, uma mescla de lavanda e baunilha. Tragou saliva e se perguntou pela
centésima vez se estava fazendo o correto.

Mas, fora qual fora a resposta, sabia que não tinha eleição. Necessitava ajuda e,
apesar do ocorrido, confiava na Michelle para que cuidasse das meninas. Talvez lhe
rompesse o coração cada dez anos, mas as gêmeas estariam a salvo com ela.

Fechou a porta e se voltou para olhá-la, enquanto ela deixava o, bolsa e o estojo
de um ordenador portátil no sofá. Pelo visto tinha planejado trabalhar um pouco aquele
dia.
-E bem? -perguntou ela, colocando as mãos nos bolsos traseiros e olhando para o
corredor que conduzia aos dormitórios-. Estão acordadas?

Sam se pôs-se a rir.

-Só a partir das cinco.

Ela assentiu e desviou o olhar para ele. -Isto vai funcionar, Sam?

Soube ao que se referia; não tinha nada que ver com suas habilidades como
babá.

-Não sei -respondeu. Pensou que a sinceridade seria o melhor, e, além disso, se
dissesse qualquer outra ela costure saberia que estava mentindo.

Não tinha muito sentido negar que houvesse fogo à pessoa que estava vendo as
chamas.

Percorreu-a rapidamente com o olhar e se fixou nas palavras estampadas na


sudadera.

-Events with Flair? -perguntou.

Ela tirou as mãos dos bolsos e se passou uma mão pelo peitilho.

-É minha empresa. Meu negócio -explicou-. Organizo eventos sociais. Bodas,


festas, conferências...

-É boa?

-Muito boa.

O não o duvidava. De fato, estava seguro de que não havia nada que Michelle
não pudesse fazer se o propor... Salvo casar-se com ele quando o pediu.

Como era melhor não pensar nisso, conduziu a Michelle pelo corredor até a
habitação das meninas.

-Dava-lhes de comer faz uma hora, mas atiraram quase toda a comida, assim
certamente voltarão a ter fome muita em breve.

-De acordo -disse ela. Estava a tão somente um passo por detrás dele, mas Sam
não precisava ouvir sua voz para perceber sua proximidade. Podia sentir o calor que
emanava de seu corpo.

Entrou no dormitório e riu ao ver a expressão de surpresa nas diminutas caritas


que o olhavam. Beth estava erguida no berço, obstinada ao bordo enquanto dava botes
sobre o colchão. Enjoe estava sentada com o cordeiro em seu regaço, murmurando um
falatório incompreensível.
Mas nada mais vê-lo, seus olhos se abriram como pratos e seus roliços rostos se
iluminaram com uns sorrisos encantadores. Ao Sam lhe encolheu o coração, como se o
tivessem espremido dois pares de pequenas manitas. Tinham-no cativado. E elas
sabiam. Era difícil acreditar que duas semanas antes não tinham sido mais para ele que
as fotos que seus orgulhosos pais lhe tinham enviado. Agora, não podia imaginar-se sua
casa sem o som das risadas infantis e o aroma de leite e mingau.

Marte se levantou no berço e o fralda lhe caiu. Sam franziu o cenho. Ainda tinha
problemas com aqueles detalhes.

-Sinceramente, Sam -disse Michelle enquanto passava a seu lado para a


pequena-, não sabe como sujeitar um fralda?

-Acredito que os tira ela mesma -argumentou ele à defensiva-. Beth segue com
sua fralda posto -acrescentou olhando à outra menina.

Michelle também a olhou.

-Apenas, e te deixaste a cinta adesiva pega a sua barriga.

Sam se aproximou da pequena e franziu o cenho.

-Não param de mover-se, e assim não é fácil, sabe?

Michelle negou com a cabeça e tombou a Enjoe no berço.

-me dê um fralda limpo, quer?

O tomou um do montão que havia aos pés do berço e o tendeu. Logo, inclinou-se
sobre o bordo para ver enjoe pedalando no ar com suas pernas.

-De acordo, Michelle. Vejamos como lhe as concertas.

Ela girou a cabeça e o olhou com uma sobrancelha arqueada.

-É um desafio? -OH, certamente.

-Como quer -disse ela, e se voltou para a menina. Agarrou o cordeiro e o


aproximou de Enjoe, lhe roçando o nariz com o focinho. A pequena pôs-se a rir,
apanhou o brinquedo e o agarrou com força. E enquanto estava distraída, Michelle abriu
o fralda, o colocou e o sujeitou rapidamente.

-Preparado -disse, elevando ambas as mãos no ar, como uma cavaleiro de rodeio
que lhe tivesse jogado o laço a um bezerro.

-Fez armadilha -disse ele, erguendo-se e lhe lançando um duro olhar a Enjoe.
«Traidora», parecia lhe dizer com os olhos à pequena.

-Não tenho feito armadilha -protestou Michelle-. Não foi você quem me disse
uma vez que um marinhe tinha que improvisar, vencer e adaptar-se?
-É: «Improvisar, adaptar-se e vencer» -corrigiu ele.

-Isso hei dito.

-Não na ordem correta.

-Que diferença há?

-De um modo está bem -disse ele-. Do outro está mau.

Ela sacudiu a cabeça e respirou fundo.

-De acordo. Bom, seja na ordem que seja, é o que tenho feito.

O sorriso que esboçou foi tão radiante que Sam teve que reprimir-se para não
aproximar-se dela e lhe acariciar a bochecha, para não tomá-la em seus braços e saciar
seu desejo no beijo que levava desejando da última noite juntos.

O qual lhe recordou o tema que tinham que tratar antes de que pudessem meter-
se em mais problemas. Levava uma semana sem pensar nisso, mas não podia atrasá-lo
mais.

-Michelle -disse tranqüilamente, e ela deixou de sorrir ante a seriedade de seu


tom-, temos que falar sobre a outra noite.

Foi como se um véu caísse sobre os olhos da Michelle. Sua expressão se tornou
indecifrável, mas, queria ou não falar disso, terei que fazê-lo.

-Não há de que falar -disse ela-. Os dois estivemos de acordo em que foi um
engano. Já passou. Deixemo-lo estar.

-Não podemos. Em todo caso, ainda não.

-Sam, nosso trato foi...

-O trato foi que não haveria nenhum contato -interrompeu-a ele-. Mas ainda há
bastante contato entre nós.

-Não tem nenhum sentido discutir isto -insistiu ela-. Só fará que a situação seja
mais difícil

Não poderia ser muito mais difícil, pensou ele. Ali estava, junto à mulher que
tinha acossado seus sonhos durante dez anos, e parecia que estivessem a quilômetros de
distância. Como poderia ser mais difícil?

-Maldita seja, Michelle -disse, com a voz cheia de tensão por culpa da frustração
que o atendia por dentro-. Temos que falar de algo sobre o que deveríamos ter falado a
outra noite -olhou-a fixamente aos olhos-. Não usei nenhum amparo, recorda? Preciso
saber se você tomou alguma precaução.
Sam ardia de fúria. Reina-a do Rechaço, pensou, ao a ver desviar o olhar da
menina à parede. Uma vez mais havia tornado a negar o que havia entre eles sem nem
sequer oferecer uma explicação. Pois bem, nessa ocasião ia ter que falar com ele. Tinha
que saber se existia a mínima possibilidade de que fora a ser pai de três filhos!

-Michelle?

Ela aspirou fundo e lhe jogou um olhar fugaz.

-É um pouco tarde para preocupar-se por isso.

Ele o viu bem claro. Preocupar-se com um embaraço não era só responsabilidade
da Michelle. Mas, maldição, tocá-la depois de dez anos tinha sido como receber uma
descarga elétrica. Sorte tinha tido de seguir respirando.

-Sim, sei -disse, furioso consigo mesmo por ter permitido que ocorresse. Mas
tinha ocorrido, e tinham que superá-lo. E melhor tarde que nunca-. Não estava pensando
essa noite. Nenhum dos dois estávamos pensando.

Ela se estremeceu ligeiramente, e ele se perguntou se o estaria recordando. A


sensação de penetrar em seu corpo, os batimentos do coração de seus corações, a
plenitude da satisfação... Céus, só de recordá-lo voltava a excitar-se.
Capítulo 7

-Sei -disse ela, e o olhou finalmente aos olhos-. Mas foi um engano. Não voltará
a passar.

Era estranho quão vazio podia sentir um homem para lhe ouvir aquelas palavras
à mulher a que tanto desejava. Mas era melhor assim. Não tinha sentido voltar para um
beco sem saída.

-Sim -disse com dureza-, já deixamos isso claro. Mas não respondeste a minha
pergunta. E, só para que saiba, direi-te que estou são. Não tem que preocupar-se por
isso.

Que idiota tinha sido, recriminou-se Michelle. Nem sequer tinha pensado nisso.
Nos tempos atuais e a sua idade era uma imprudência. Mas confiava no Sam e sabia que
não lhe mentiria sobre algo assim.

-Obrigado. Acredito-te. E você deve saber que... eu também estou bem.

Sabia que estava sã. Só tinha havido dois homens em sua vida. Sam e seu
marido. E da morte do William, tinha vivido como uma monja.

Um sorriso forçado curvou os lábios do Sam.

-Não imaginava o contrário, Michelle. Mas segue existindo a possibilidade de


um embaraço. A menos que...

A Michelle lhe formou um nó no estômago que lhe subiu até a garganta.

-Não tem que preocupar-se por isso.

-Está segura de que não há possibilidade?

Michelle se tinha ficado petrificada. Uma dor quase esquecida lhe aguilhoou o
coração.

-Completamente segura.

-OH -assentiu bruscamente-. Bom, melhor assim, verdade?

-Sim, é melhor assim -respondeu ela. girou-se e lhe sorriu a Enjoe, quem ficou a
fazer gorjeios. Certamente que sim, pensou com ironia. Era melhor não ter que
preocupar-se com estar grávida. Miúda sorte.
Alargou um braço e lhe acariciou a bochecha a Enjoe, deleitando-se com a
suavidade de sua pele. Que afortunada era ao não ser mãe, nem agora nem nunca. Que
afortunada por não poder sentir nunca o que era ter a um filho em seu interior. Por não
sustentar nos braços a uma criatura de sua carne e sangue e saber que tinha obrado um
milagre.

As lágrimas lhe empanaram a vista e teve que piscar para as apartar. Não queria
que Sam a visse chorar. Quereria saber a razão, e ela não podia contar-lhe nesses
momentos, como tampouco tinha podido fazê-lo dez anos antes. Além disso, já tinha
chorado muito por seus temores e tinha aprendido a viver com a horrível certeza de que
nunca poderia ter filhos.

E reviver essa dor, esse vazio, era algo que não podia suportar.

-Está bem? -perguntou-lhe ele, lhe pondo uma mão no antebraço.

Nada de compaixão, pensou ela. Isso seria sua ruína. E nada de contato. O tato
dê sua mão no braço lhe provocava uma onda de calor por todo o corpo. Desejava
ardentemente abraçá-lo e que a abraçasse. Queria que a inundação de sensações a
invadisse uma vez mais antes de condenar-se a uma vida sem o Sam. Mas não podia.
Nunca mais.

Nada tinha trocado. A situação era igual a dez anos antes. Ele era um homem
que queria e necessitava uma família. E ela era uma mulher que não podia lhe dar isso.

ergueu-se e se separou de seu alcance.

-Estou bem -disse, tentando que a mentira soasse convincente.

Então se inclinou para tirar enjoe do berço, e a pequena jogou os gorduchos


braços ao pescoço. Michelle sustentou à menina como uma barreira entre ela e Sam.

-Não chega tarde ao trabalho? -perguntou-lhe, esperando que a mudança de tema


o distraíra e apagasse a suspeita de seus olhos.

A tática funcionou, porque Sam olhou seu relógio e pôs uma careta.

-Demônios, é verdade -resmungou, e se dirigiu para a porta. deteve-se na soleira


e se girou para olhá-la-. Seguro que pode com tudo isto?

-Por amor de Deus, Sam, são bebês, não um reator nuclear. É obvio que posso.

-De acordo -disse ele assentindo-. Até mais tarde então.

Saiu à rua e aos poucos segundos Michelle ouviu o motor de seu carro. Olhou
pela janela e o viu afastar-se pela rua mastreada. Quando o carro desapareceu de sua
vista, pôde respirar com calma pela primeira vez desde que entrou naquela casa.
Enjoe seguiu com seus alegres gorjeios e pegou a Michelle na cara com suas
pequenas manitas. Lhe sorriu à pequena. Não importava que mais pudesse ocorrer;
estava decidida a desfrutar de do tempo que passasse com os bebês. E, o que tinha de
mau fingir por uma temporada que eram suas próprias filhas? Aquela situação
temporária chegaria a seu fim, Sam não necessitaria mais sua ajuda e ela retornaria a sua
vida normal. Em seu tranqüilo e pulcro apartamento, teria todo o tempo do mundo para
lamentar a perda do Sam e das gêmeas. Não seria melhor ter ao menos algumas
lembranças para consolar-se no terrível vazio que a aguardava?

Deu-lhe a Enjoe um beijo na cabeça e aspirou o doce aroma do bebê. Um aroma


que lhe recordava a angústia que sempre levaria no coração.

Sam tomou os papéis assinados do menino que estava sentado frente a ele e os
voltou a folhear, assegurando-se de que a letra «i» tivesse o ponto correspondente e a
letra «t» o palito horizontal. Quando ficou satisfeito, tendeu-lhe a mão direita ao novo
recruta.

-Parece que está preparado, senhor Jackson -disse-. dentro de seis semanas terá
que apresentar-se no acampamento. Lhe notificará com tempo a data e o lugar.

Enquanto o menino lhe estreitava a mão e logo se levantava sorridente, Sam


tentou recordar quando ele mesmo tinha sido um jovem ansioso por entrar nos Marinhe.

-Obrigado, senhor -disse Henry Jackson.

Sam negou com a cabeça e também se levantou.

-Sargento, senhor Jackson. Não pode chamar «senhor» a um sargento.

-Sim, senhor, sargento -sem perder o sorriso, girou-se e partiu para a porta do
escritório de recrutamento.

Sam ouviu uma risada a suas costas. girou-se e lhe sorriu ao sargento Jake
Cutter.

-Sou eu? -perguntou-lhe Sam-. Ou cada ano vem gente mais jovem?

-Não é você, Sam -disse-lhe Jake negando com a cabeça-. Cada vez são mais
jovens. Demônio, a outra explicação é que nos estamos fazendo velhos, e me nego a
aceitar isso.

-Eu também me nego -disse Sam, e se sentou para arquivar a solicitude do


Jackson.

-E bem? -perguntou Jake, girando em sua cadeira de madeira até que esta rangeu
como os ossos de um ancião-, como vai a vida na creche?
-Horrível -respondeu simplesmente. Jake tinha ouvido todas seus queixa desde
que Enjoe e Beth foram viver com ele. Como era possível que o mundo tivesse trocado
tanto em tão somente um par de semanas?

recostou-se em sua cadeira e olhou pela janela que tinha em frente. De acordo,
disse-se a si mesmo. Talvez o mundo não tinha trocado tanto. A cena que via pela janela
era a mesma de sempre. Os pedestres seguiam passando de um lado a outro, sumidos
em seus assuntos, enquanto os jovens em skate convertiam a rua em uma carreira de
obstáculos.

Levava dois meses no escritório de recrutamento e ainda ficava um ano naquele


posto. Era uma lástima, já que um trabalho assim lhe deixava muito tempo para pensar,
e o que ele precisava era ação. Ter algo que fazer. Tropas que preparar para o combate.
Inimigos que atacar. Algo no que concentrar suas energias. Algo que lhe impedisse de
pensar na Michelle e nas gêmeas e no resto de sua vida.

Suspirou e se passou uma mão sobre os olhos. Só estava cansado, assegurou-se a


si mesmo. Por isso o assaltavam continuamente pensamentos da Michelle. A fadiga
podia estragar a um homem. Demônios, não tinha tido uma tranqüila noite de sonho
desde que chegaram as gêmeas. E tampouco podia as culpar a elas.

As pequenas não se passavam toda a noite chorando, mas ele acreditava ouvir
cada respiração, cada sorvo, cada suspiro... e se levantava cinco vezes cada noite para
assegurar-se de que estavam bem. Para ser um homem que se gabava de poder dormir
sob um bombardeio, aquilo tinha que significar algo.

-por que demônios o faz, Sam?

Agradecido pela interrupção, apartou seus turbadores pensamentos e olhou a seu


amigo.

-Fazer o que?

Jake se inclinou para diante e apoiou os antebraços nas coxas, olhando-o


fixamente.

-Ficar com essas meninas. Não tem obrigação de fazê-lo -os rasgos do Sam se
endureceram, mas Jake seguiu falando-. Poderia ceder a custódia ao Estado.

-Não posso fazer isso -murmurou Sam, embora o envergonhava admitir que essa
tinha sido a primeira possibilidade que considerou detrás inteirar do acidente do Dave e
Jackie. Mas que homem solteiro não tivesse pensado em evitar a responsabilidade de
converter-se em pai da noite para o dia?
Mas isso foi então, e a decisão já estava tomada. As meninas eram delas e ficariam com
ele. Assim era como o tinha querido Dave. E ele ia manter a promessa a seu defunto amigo.

-Ninguém deveria esperar que troque sua vida por completo.

As gêmeas tinham direito a esperar isso, pensou Sam. Tinham-no perdido tudo, e era
seu dever as compensar. esfregou-se os olhos e moveu os ombros como se tentasse tirar-se de
cima a pesada carga que suportava. A carga não eram as meninas, a não ser a responsabilidade
de lhes dar a vida que deveriam ter tido.

Demônios, tudo o que ele ignorava a respeito da família poderia ocupar um par de
enciclopédias.

Nada de pressões, disse-se a si mesmo.

-Dave sim o esperaria -disse ao Jake-. Fiz-lhe uma promessa, e seguro que esperaria de
mim que a cumprisse.

-Dave está morto -replicou tranqüilamente Jake-. É uma lástima, mas assim é. Está
morto e não saberá se mantiver sua palavra ou não.

Sam esticou a mandíbula.

-Eu sim sei.

-Menino, é um cabezota -disse Jake-. Há muitos casais desejando adotar meninos, Sam.
Essas as gema encontrariam um bom lar em um abrir e fechar de olhos.

-Já têm um bom lar -disse Sam teimosamente. Ou, ao menos, teriam-no em quando ele
resolvesse tudo com eficácia militar.

-Estupendo. Mas não há muitos pais solteiros que sejam marinhem... e os marinhe têm

que estar preparados para um possível desdobramento em qualquer parte do mundo.

Sam se voltou e o olhou, e Jake assentiu ao ver a compreensão em seu rosto.

-Agora o compreende -disse-lhe-. Não tinha pensado nisso, verdade?

Não, não tinha pensado nisso. Sam se arranhou a nuca enquanto sua mente era um
torvelinho. Tudo marinhe tinha que estar preparado para que o destinassem a um ou outro sítio.
E isso significava que se era pai devia ter a alguém, um tutor, para seus filhos. Alguém com
quem os meninos pudessem ficasse enquanto o marinhe cumpria com sua missão.

E se um marinhe não podia ir a uma missão... não podia ser um marinhe.

-Maldita seja.

-Sabia que acabaria entendendo-o -disse-lhe Jake.


Magnífico. Aquilo sim que era um problema. Um grande problema, possivelmente, mas
podia ter solução. Só terei que pensar um pouco e lhe jogar imaginação.

depois de tudo, não estava completamente sozinho. Já não. Agora tinha uma família.

Sua mãe tinha morrido quando ele era um menino, e tinha sido seu padrasto quem o
adotou legal-mente. Mas, embora o homem o tentou, não tinha um dom para ser pai, e, de fato,
passava mais tempo dedicado a sua companhia de seguros que a seu filho. Finalmente morreu
de um ataque ao coração, dois anos atrás.

Mas, aos poucos meses, um detetive privado ficou em contato com o Sam e lhe
comunicou que era membro da família Fortune. de repente se encontrou com uma multidão
de parentes da que nunca tinha sabido nada.

Entretanto, essas relações eram muito recentes e frágeis para confiar nelas, e
Sam não queria ir aos Fortune em busca de ajuda. Ele não atuava assim.

Tinha que encontrar a solução por si mesmo, e isso só lhe levaria um pouco de
tempo.

Quando as gêmeas estiveram dormindo a sesta, Michelle acendeu o ordenador


portátil e se acomodou na mesa da cozinha. Graças a Internet e o telefone, havia muito
pouco trabalho que não pudesse fazer desde qualquer parte.

O primeiro que fez foi visitar sua página Web para consultar os correios
eletrônicos. Tinha três. Duas eram perguntas sobre o negócio, mas o último era do
Miranda Fortune.

Michelle, onde está, garota? me chame. Miranda.

Michelle se desconectou de Internet e agarrou o telefone. Marcou o número e


esperou. Ao sexto toque, ouviu-se o suave acento texano do Miranda.

-Diga?

-Olá, Miranda. Sou Michelle. Tenho lido seu e-mail.

-Graças a Deus -disse Miranda-. estive te buscando.

-por que? O que ocorre?

-Bom, vamos ver... -Michelle notou que estava sonriendo-, caso-me dentro de
um mês, vou celebrar uma festa para os sócios do Daniel a semana que vem e me fiquei
sem cozinheiro. E você? Como vai sua vida?
-Não tão ocupada -respondeu Michelle, recostando-se na cadeira-. Mas te estava
perguntando por que queria te pôr em contato comigo.

-Queria te dizer que não encarregue salmão para a comida das bodas -disse
Miranda com um suspiro-. Daniel prefere carne.

Michelle sorriu e tomou nota mental daquilo.

-É um texano de pura cepa, Miranda. É obvio que prefere carne.

-Sei -disse Miranda com uma risita-. Suponho que devo estar agradecida porque
não insista em que os convidados tenham que lhe jogar o laço a seu próprio jantar. Este
homem parece ter nascido em um século equivocado. Seguro que tivesse sido feliz
como vaqueiro.

-Possivelmente, embora não posso imaginar a ti como uma cólon das fronteiras.

-OH, Senhor, eu não, obrigado -Miranda respirou fundo e suspirou-. Temo-me


que eu gosto de muito as pequenas comodidades -então trocou inesperadamente de
tema-. Onde está? Chamei-te um par de vezes a sua casa esta manhã.

-A verdade é que... -ficou de pé e começou a caminhar de um lado a outro da


cozinha- estou em casa do Sam

-Sam? Meu sobrinho?

-O mesmo.

-Vá, carinho. Tem algo interessante que me contar?

Michelle se encolheu de vergonha.

-Não, só estou ajudando-o com os bebês.

-Mas se já me encarreguei de pô-lo em contato com uma agência.

-Pelo visto as babás que enviaram não o fizeram muito bem.

-por que não me disse nada? -perguntou Miranda com voz doída.

-Seguro que não queria te incomodar com nada mais -apressou-se a aventurar
Michelle.

-Não é uma moléstia, Michelle. É da família.

Dizia-o a sério. Miranda tinha um coração de ouro, e não lhe importava que Sam
e os outros herdeiros acabassem de ser encontrados. A família era a família e isso era
quão único importava.

-Estou segura de que sabe, Miranda -disse Michelle-, mas Sam é um solitário.
Sempre o foi.
-Mmm... isso é certo. Você o conheceu faz anos, verdade?

-Sim, assim é.

-Saltaram faíscas entre vós?

-Faíscas? -repetiu Michelle, recordando as chamas que ardiam em seu interior


cada vez que se aproximava do Sam. A palavra «faíscas» não o definia muito bem. Mas
bem se tratava de um incêndio florestal.

-Não te faça a parva comigo, Michelle Guillaire -burlou-se Miranda-. Posto que
não há nada que queira me contar, que tal se deves jantar amanhã e falamos dos planos
das bodas?

-Sim, suponho que poderia fazê-lo.

-Estupendo -disse Miranda-. Lhes dê às meninas um beijo de parte de sua tia


Miranda, quer?

Miranda pendurou em seguida e Michelle ficou olhando o telefone e ouvindo o


zumbido da linha. Seu amiga estava preparando algo, sem dúvida.

Pergunta-a era: o que, exatamente?

Pelo que Michelle estava segura era que não queria falar do Sam. Ao Miranda
não custaria muito imaginá-lo que ela mesma tinha descoberto recentemente.

Que seguia apaixonada pelo Sam Pierce.

Desesperadamente apaixonada.

Capítulo 8
Aquela tarde Sam entrou em sua casa e se deteve em seco.

Absolutamente aturdido, passou o olhar pelo salão, que parecia haver-se


transformado em uma loja para meninos. Uma sillita de dois lugares, dois coelhos de
peluche gigantes, um rosa e outro amarelo, uma pilha de caixas sem abrir e uma
montanha de fraldas.

-De onde demônios saiu tudo isto? -perguntou, embora estava sozinho na
habitação.

-Bom -ouviu-se a voz da Michelle-, quase tudo vem do Neiman-Marcus. E há


coisas da loja Babe Are Our Business.

-Neiman-Marcus? -repetiu Sam, perplexo, dirigindo-se para a outra habitação.


Sem querer lhe deu uma patada a uma boneca, que saiu disparada contra a parede e
emitiu uma vocecita dizendo: «Ma-ma». OH, Deus...
-Sim -respondeu Michelle-. Vamos, carinho -acrescentou em um murmúrio-.
Pode fazê-lo.

-Fazer o que? -perguntou ele, e se deteve na porta.

Michelle estava agachada junto às pequenas, sentadas em sendos tacatacas. As


duas expulsavam em seus assentos, estirando os pés para o chão e com as mãos
obstinadas aos anéis de cores que tinham em frente. Parecia que estavam desfrutando
enormemente.

Sam não pôde evitar um sorriso ao contemplar às gêmeas. Mas então desviou o
olhar para a Michelle e ficou boquiaberto. Sua rabo-de-cavalo estava torcida, seu
sudadera estava manchada de comida e seu radiante sorriso lhe chegava de brinca a
orelha.

Nunca a tinha visto tão formosa.

Sentiu que lhe encolhia o coração, como se uma mão invisível o estivesse
atendendo. Uma pontada de dor o atravessou, levando a tristeza por suas veias. Como
tinha agüentado dez anos sem vê-la? Como poderia passar os próximos dez minutos
sem tocá-la? E por que lhe seguia afetando? Maldita seja, não deveria ser tão duro.

Dez anos atrás, lhe tinha destroçado o coração. afastou-se de tudo o que
compartilharam e nem sequer lhe tinha dado uma explicação. Então, por que demônios
seguia desejando-a tanto? por que seu coração não podia entender o que sua razão tinha
aprendido? Que o que Michelle e ele compartilharam uma vez já tinha desaparecido...
enterrado sob os anos de vazio, envolto com o sudário da traição.

-Sam? Está bem?

O piscou e olhou fixamente aqueles olhos violetas que ainda o atormentavam.

-Sim, sim... -respondeu, decidido a não perder o controle-. Estou bem -se fixo
outra vez nas meninas, que aprendiam a andar em seus novos tacatacas-. Não posso me
permitir comprar nada no Neiman-Marcus. Como conseguiste tudo isto?

-Gabrielle se passou por aqui, fomos às compras Y...

Sam elevou uma mão em um gesto zombador de rendição. Sabia muito bem que
a filha do Miranda era uma força da natureza. Detê-la era tão difícil como resistir um
furacão.

-Disse-me que te dissesse que considere tudo isto como os presentes de um


batismo tardio.

-Perfeito -murmurou ele. Não tinha querido tocar o dinheiro que lhe
correspondia como herdeiro dos Fortune, assim que uma de suas primas tinha decidido
gastá-lo em seu lugar. E ele não tinha nem idéia de como devolver todo aquilo sem
ofender ao Gabrielle.

Famílias... Estava claro que teria que acostumar-se a muitas coisas.

Mas de momento, ajoelhou-se e observou como as meninas foram para ele,


arrastando as rodas dos tacatacas pelo chão de madeira. As duas tinham o rosto
iluminado de alegria, e era impossível não comover-se as vendo.

-Olá às duas -disse, lhes tendendo os braços-. O que têm aí?

Enjoe ficou a tagarelar e Beth a rir. Michelle os observou aos três, sentindo
como lhe encolhia o coração. Sabia que não deveria torturar-se assim, mas não sabia o
que outra coisa podia fazer. Tinha que ajudar ao Sam a cuidar das meninas, e não podia
fazê-lo sem querer as. Tinham-lhe chegado ao coração com a mesma facilidade com a
que rodavam para o homem que lhes sorria.

E já era inútil pretender que não lhe afetassem. Nunca poderia as esquecer.
Sempre se perguntaria onde e como estariam, se seriam felizes e se teriam boa saúde.

E também se perguntaria pelo Sam.

sentou-se no chão e se abraçou os joelhos, vendo a pequena família reunida. Ela


ficaria onde sempre teria que estar.

Fora.

De noite seguinte, Sam estava no alpendre de sua tia, no Kingston Status,


jogandoum sermão a suas filhas.

-E agora lhes leve bem, se não quererem que Miranda se arrependa de nos haver
convidado para jantar, de acordo?

As duas meninas riram, e ele não soube se aquilo era um bom ou um mau sinal.
Estoicamente, alargou uma mão e chamou o timbre.

Um momento depois a porta se abriu.

-me dê uma destas cositas tão adoráveis -disse Miranda com afetação, e quase
arremeteu contra Sam para lhe tirar a Enjoe dos braços. A apertou contra o peito e;
começou a balançá-la brandamente.

-Né, Miranda... -disse Sam, olhando com certo receio à a Escupidora-, será
melhor que não a mova tanto. Acaba de comer Y...

calou-se quando Enjoar, como era de esperar, vomitou a metade de seu jantar na
camisa de seda azul do Miranda. Sam afogou um gemido. Miúda primeira impressão da
família... Oxalá não fora um presságio dos desastres que estavam por chegar.
Mas Miranda não se alarmou absolutamente.

-OH, pobrecita -sussurrou, lhe apartando a Enjoe o cabelo da cara-. Está malote
da barriga?

A pequena sorriu e se acurrucó contra a mulher. Miranda jogou uma rápida


olhada ao Sam.

-Não se preocupe, querido -disse-lhe-. Os bebês sempre fazem coisas como esta.
Além disso, só é uma blusa, não é o fim do mundo.

Uma blusa que certamente custasse a metade de seu salário semanal, pensou
Sam. Não sabia se algum dia se acostumaria à riqueza de sua nova família. Mas tinha
que reconhecer que a amabilidade do Miranda era difícil de ignorar.

-Sinto-o muito -disse com um suspiro-. Me dê, eu a levarei.

-Não seja tolo -repreendeu-o sua tia-. por que não passam ao salão a saudar
enquanto a menina e eu vamos limpar nos?

Sem esperar uma resposta, Miranda se girou sobre seus caros saltos e se afastou
pelo vestíbulo, sem deixar de lhe fazer bajulações a Enjoe.

Beth lhe deu um tapa na bochecha ao Sam, quem a olhou com uma sobrancelha
arqueada.

-Você já deixaste que chorar todo o tempo, por que sua irmã não deixa de
vomitar tudo o que come? E não te ocorra fazer o mesmo, né? Com uma escupidora na
família já é suficiente.

A risada da menina o fez sorrir.

-vais ser sempre assim de encantadora, verdade?

Sujeitou com força a bolsa de fraldas, que tinha chegado ser uma extensão de
seu braço, e se dirigiu para as vozes que saíam do salão.

Tinha estado um par de vezes em casa do Miranda, mas aquele lugar sempre o
impressionava. Era uma mansão tão bonita e elegante que o fazia sentir-se como um
touro em uma loja de porcelana. O chão de ladrilhos reluzia fulgurantemente e sobre as
entradas em forma de arco se viam pinturas de parras e flores, dando a impressão de
estar caminhando por um jardim. Obras de arte mexicanas penduravam das paredes,
junto a quadros de pintores texanos. Embora não tudo era decoração e coisas pelo estilo.
Certamente, toda a estadia gotejava dinheiro e bom gosto, mas ao mesmo tempo se
respirava um ambiente acolhedor e caseiro.

Mesmo assim, Sam não estava acostumado a um estilo de vida semelhante, e


tinha o temor permanente de golpear um dos grandes floreiros ou de dar-se de bruces
contra uma vitrine repleta de cerâmica sulina. E ainda por cima, com a preocupação das
gêmeas, sabia que não poderia relaxar-se em nenhum momento.

À medida que se aproximava do salão, ouviu os suaves acordes de um violão


que saíam de uma equipe estéreo e as vozes se fizeram mais altas e claras. E então
reconheceu uma daquelas vozes como a da Michelle.

Franziu o cenho e se perguntou por que não lhe havia dito que ia a casa do
Miranda essa noite. Mas em seguida recordou que ultimamente não falavam muito entre
eles. A proibição de tocar-se parecia haver-se estendido à comunicação verbal.

A noite anterior, ela se tinha partido depois de que as gêmeas dessem seus
primeiros passos. Aquela manhã, apenas lhe tinha dirigido duas palavras quando chegou
a casa, e essa mesma tarde, quando ele entrou pela porta, agarrou sua bolsa e seu
ordenador portátil e se foi. O tinha estado a ponto de detê-la, de agarrá-la pelo braço e
obrigá-la a olhá-lo. Mas tinham feito um trato, e seria melhor para ambos que o
cumprissem.

Custasse o que custasse.

Sabia que não devia queixar-se. depois de tudo, Michelle tinha ido em sua ajuda
quando mais a necessitava. E as gêmeas estavam muito contentes e bem atendidas
durante o dia.

Mas uma parte dele, uma parte traiçoeira, queria mais. Queria falar com ela.
Queria tocá-la, abraçá-la, lhe fazer o amor. Queria que lhe dissesse por que o tinha
abandonado dez anos antes.

deteve-se na porta do salão e localizou imediatamente a Michelle, como se fora a


única presença na sala. Como se não merecesse a pena olhar a ninguém mais no mundo.

E era uma visão surpreendente.

Estava sentada sobre uma perna em um sofá de ante marrom. Tinha o cabelo
revisto, e suas ondulados mechas caíam sobre suas bochechas como um véu de veludo
negro. Sua pele resplandecia à luz da chaminé, e em seus olhos se refletia o fogo mágico
das chamas.

Então, como se tivesse advertido a presença do Sam, desviou o olhar da mulher


com a que estava falando e o olhou. Seus olhos se encontraram e Sam sentiu como a
invisível conexão o golpeava na garganta.

Passaram os segundos e o silêncio se estendeu e se fez por todo o salão. E eles


dois mantiveram o olhar fixo o um' no outro.
-Né... desculpem -disse finalmente Riley Sinclair-. Querem que lhes deixemos
sozinhos?

-Vale já, Riley -repreendeu-o sua esposa, Emma, estalando com a língua em
desaprovação.

Michelle apartou o olhar e ficou a retorcer nervosamente o bordo de sua saia


vaqueira.

-Entra, Sam -disse Justin Bond, situado atrás de sua esposa, Heather-. Quer
beber algo?

Ao princípio Sam negou com a cabeça. Mas ao entrar no salão e deixar a bolsa
de fraldas no chão, trocou de opinião e assentiu.

-Sim, uma cerveja me viria bem.

-Partindo -disse Justin dirigindo-se para o bar. Tirou uma cerveja da geladeira e
a tendeu-. Miranda nos há dito que foste vir com os bebês -olhou confundido ao Beth-.
Onde está a outra?

-Está com o Miranda. houve um pequeno problema.

-OH, vou ajudar a -disse Michelle imediatamente, e se levantou de um saltou.


Saiu do salão com a cabeça encurvada, e ao passar junto ao Sam, este se viu envolto por
uma baforada de perfume que lhe embriagou os sentidos.

Apertou os dentes e tomou um gole de cerveja, esperando que o aliviasse.

Não funcionou.

Enquanto a conversação se reatava, apoiou ao Beth em seu quadril e passou o


olhar pela gente reunida no salão. «Mais família», pensou. Justin Bond e Emma Sinclair
eram os filhos do Miranda, quem os tinha dado em adoção ao pouco tempo de nascer
porque não podia fazer-se carrego deles. havia os tornado a encontrar fazia muito pouco
tempo, e agora também eles deviam acostumar-se a formar parte do clã dos Fortune.
Eram suas primos, pensou Sam, sacudindo ligeiramente a cabeça.

Para um homem que tinha passado sozinho quase toda sua vida, era uma
mudança muito grande estar rodeada de família. Mas estava fazendo o possível por
acostumar-se.

-E bem? -perguntou, agachando-se no chão e colocando ao Beth entre suas


pernas-. Qual é o motivo desta reunião? Miranda nos tem que contar seus planos de
bodas?

Justin e Emma intercambiaram um olhar, e nesse breve segundo Sam viu o


assombroso parecido entre eles. depois de tudo eram gêmeos, pensou. Acariciou- as
costas ao Beth e se perguntou como seria para cada um deles ter descoberto
recentemente a existência de um irmão gêmeo. O tinha sido visto de perto quão unidas
estavam Enjoe e Beth, e não podia imaginar-se a ninguém as separando.

Nesse momento se ouviu o timbre da porta e Emma e Justin ficaram rígidos. O


nervosismo cobriu seus rostos, e Sam se perguntou que demônios estava passando.

-O que? -perguntou, mas ninguém lhe respondeu.

Os dois gêmeos adultos ficaram de pé ao mesmo tempo e se voltaram para a


porta, espectadores.

Miranda entrou no salão, seguida da Michelle com Enjoe nos braços, e Daniel
Smythe. O homem parecia tão inquieto como os gêmeos e Miranda tomou a mão e a
sustentou firmemente entre as suas.

Sinto chegar tarde -disse Daniel, olhando ao Justin e a Emma-. Queria vir antes
que outros, mas aconteceu algo Y... -Daniel -interrompeu-o Miranda-, não importa.
Quão único importa é que estamos todos, aqui e agora.

-Tem razão -disse Daniel assentindo. Endireitou os ombros e elevou levemente o


queixo.

Sam teve o pressentimento de que tanto ele como Michelle, Riley e Heather
sobravam ali. Era algo que só implicava às quatro pessoas que estavam de pé, frente a
frente. Entretanto, nem ele nem os outros podiam apartar o olhar.

-Justin -disse Miranda-, Emma... -fez uma pausa, tomou ar e lhe sorriu ao
homem com o que ia casar se-. Quero lhes apresentar a seu pai.

Justin e Emma se agarraram pela mão e olharam de uma vez ao Daniel.

Sam conteve a respiração, igual a todos outros no salão. Daniel soltou a mão do
Miranda e deu um passo e logo outro para os filhos cuja existência tinha desconhecido
até fazia pouco. As lágrimas lhe alagavam os olhos e tinha a boca torcida, como se
estivesse lutando por conter uma inundação de emoções que ameaçasse afogando-o.

-Nunca soube -disse, passando o olhar de um gêmeo a outro-. Se o tivesse


sabido, haveria... haveríamos... -a voz lhe quebrou. Não tinha sentido falar do que
poderia ter sido. Só importava o presente e o que pudessem fazer no futuro.

Emma foi primeira em romper a tensão. Sua bondosa natureza a animou a fazer
o correto. Soltou a mão de seu irmão e foi aos braços de seu pai. Durante um comprido
e silencioso momento, abraçou-o e se deixou abraçar. Daniel apoiou o queixo em sua
cabeça e esboçou um sorriso que tivesse derretido um coração de pedra. Finalmente
Emma se apartou e lhe sorriu.
-Olá, papai -disse brandamente.

Daniel sorveu pelo nariz e se passou uma mão pelos olhos.

-Isso sonha maravilhoso a meus ouvidos, carinho -disse. Então olhou a seu filho,
e por um momento ninguém falou, até que Justin deu um passo adiante e estendeu sua
mão direita.

-Papai?

Daniel deixou escapar o ar que tinha estado contendo e estreitou fortemente a


mão do Justin, antes de lhe dar um abraço tão comovedor como o que lhe tinha dado a
Emma.

Foi Enjoe quem se encarregou de romper a emoção, com um berro que fez
pedacinhos a magia do momento.

Miranda se pôs-se a rir e se aproximou do homem ao que tinha amado, perdido e


voltado a encontrar.

-Por fim estamos os quatro juntos -disse, brilhando de felicidade-. como sempre
devemos estar. Riley e Heather se aproximaram de seus respectivos cônjuges enquanto
todos falavam de uma vez. Por sua parte, Sam olhou a Michelle.

Trinta anos, pensou. Tinham passado mais de trinta anos desde que Daniel e
Miranda se conheceram. E apesar de todo esse tempo seu amor tinha sobrevivido, tinha
maturado, e os tinha reunido de novo.

Em menos de um mês estariam casados. Tinham superado as velhas feridas e


traições e tinham encontrado algo novo e precioso.

E, olhando a Michelle, Sam se maravilhou.

Capítulo 9
Meia hora mais tarde, Michelle seguiu ao Miranda à cozinha e esperou a que
abrisse a geladeira e tirasse um prato de filetes. Miranda deixou o prato na encimera
central de granito e olhou a Michelle com um sorriso envergonhado enquanto se
apartava uma lágrima da bochecha.

-Espero que não lhe tenhamos incomodado.

-Claro não -mentiu Michelle. É obvio que se havia sentido incômoda. Era muito
embaraçoso presenciar uma cena tão íntima e comovedora como o reencontro do Daniel
com seus filhos. Embora, ao mesmo tempo, sentia-se honrada de ter sido testemunha.
Não podia nem imaginá-lo que Daniel devia estar sentindo. E os gêmeos? Como devia
ser conhecer seu pai depois de tanto tempo?
Em comparação com tudo aquilo, a Michelle sua própria vida parecia muito
aborrecida e normal. Dois pais, uma casa nos subúrbios, uma infância sem problemas...
Queria chamá-los e lhes contar as novidades, mas seus pais estavam de viaje por todo o
país e não sempre respondiam ao telefone móvel.

-Não deveria ter ocorrido assim -disse Miranda, e Michelle deixou de sonhar
acordada para lhe emprestar atenção-. Tinha-o tudo planejado. supunha-se que Daniel
devia chegar cedo, antes que você e Sam -começou a abrir os armários, procurando
algo-. Mas, naturalmente, não o fez -deteve-se e olhou a Michelle-. E, sinceramente, não
queria fazê-lo esperar nem um minuto mais para que conhecesse seus filhos.

-É obvio que não -disse Michelle. tornou-se para trás e se aferrou ao bordo da
encimera-. Deve ser algo incrível -disse, recordando a expressão do Daniel.

-O que?

-Você e Daniel, lhes haver reencontrado finalmente, a vós mesmos e a seus


filhos.

Miranda tirou um grande garfo de uma gaveta e se voltou para ela.

-Não te faz uma idéia -disse, com tom-triste e melancólico-. É como se estivesse
sonhando e temesse despertar em qualquer momento. Se fizer um ano me houvesse dito
que algo assim ia acontecer, me teria posto-se a rir -negou com a cabeça e se levou uma
mão à base do pescoço, onde uma bonita cadeia de ouro reluzia à luz do teto-. Mas aqui
estamos, a um mês de nos casar e a ponto de jantar com nossos filhos.

Os olhos voltaram a encher-se o de lágrimas, e Michelle se apressou a ir para ela


e rodeá-la com os braços.

-Que ridículo é chorar por isso -murmurou Miranda.

-Não, não é ridículo -disse Michelle com um sorriso-. É perfeitamente


compreensível. -É feliz. E eu me alegrou de verte assim.

Miranda riu e se apartou.

-Obrigado, carinho. Tem um coração de ouro.

Michelle sentiu que as lágrimas ameaçavam afluindo a seus próprios olhos e se


disse a si mesmo que aquilo sim que era ridículo. seguindo desta maneira, muito em
breve as duas estariam chorando de alegria. Terei que trocar de tema rapidamente.

-Ontem disse que te tinha ficado sem cozinheiro -disse para aliviar a emoção, e
se fixou no prato de grossos filetes-. Não irás cozinhar você mesma, verdade?

A tática funcionou, pois Miranda pôs-se a rir e fez um gesto com a mão.
-Céus, não. Só vamos passar estes filetes pela churrasqueira. Nada complicado.
Todos os texanos nascem sabendo como preparar um andaime!

Era certo, pensou Michelle sonriendo enquanto Miranda ia de um lado a outro da


cozinha, investigando um território claramente desconhecido para ela. O qual não era
estranho; Miranda tinha crescido entre faxineiras, cozinheiros e choferes. Os Fortune
viviam em um mundo à parte. E agora Sam também era um deles, gostasse a ele ou não.
Ela, por sua parte, não estava segura do que fazer a respeito.

-Bom -disse Miranda agarrando um frasco de molho-, vou levar os filetes ao


Daniel. Deixaremos que sejam os homens quem se ocupe da comida. Não há nada que
goste mais a um homem que assar a carne crua ao fogo. Devem levá-lo nos gens ou algo
assim -sorriu maliciosamente-. bebeu na geladeira. por que não tira o que Sam e você
queiram tomar?

-Sim, agora mesmo vou -respondeu Michelle, e viu como seu amiga saía da
cozinha pelas portas batentes.

O que Sam quisesse, né? Isso sim que era um problema, disse-se a si mesmo.
Não tinha nem a menor ideia do que Sam queria.

Sam se sentou em uma cadeira entre os berços e contemplou às meninas


dormindo. «Uma grande noite», pensou. Ao menos para o Daniel e Miranda, e também
para justin e Emma.

Talvez fora um pouco tarde para que os quatro formassem a família que deviam
ter sido. Mas ao menos tinham uma oportunidade para conhecê-los uns aos outros e
formar parte de suas respectivas vidas.

-E isso é o que importa, verdade? -perguntou em voz alta.

A família. Nos últimos meses tinha tido mais família ao redor da que tinha tido
em toda sua vida. E embora o desconcertavam o bastante, tinha que admitir, embora só
fora a para si mesmo, que gostava da sensação de pertença a uma família tão numerosa.

Mas não só pensava nos Fortune... Não, seus pensamentos se centravam onde
não deveriam centrar-se. Na Michelle. Se Daniel e Miranda podiam voltar a estar juntos
depois de trinta anos, não seria possível que Michelle e ele fizessem o mesmo depois de
dez?

-Não seja estúpido -recriminou-se-. Nada trocou. Ela te deixou faz dez anos.
Quem te diz que não voltaria a te fazer o mesmo?
De repente, uma imagem da Michelle se formou em sua cabeça. O corpo lhe
reagiu imediatamente, e Sam soltou um fraco gemido de desconforto. Desejava-a. Em
corpo e alma. Sua mente evocou a visão de seu rosto, de seus olhos fixos nele em uma
habitação cheia de gente. Tinha lido toda classe de emoções naquelas profundidades
violetas, mas não podia estar seguro se as tinha visto porque queria as ver ou porque
realmente se refletiam.

Do único que estava seguro era que somente os anos de disciplina nos Marinhe
tinham impedido que fora para ela e tomasse em seus braços. Ansiava-a tão
desesperadamente que o corpo lhe doía de desejo.

E da noite que fizeram o amor, o desejo não tinha feito mais que crescer. Só a
parte racional de seu cérebro, cada vez mais abandonada, conseguia mantê-lo a
distância. Não podia arriscar-se. Outra vez não. Havia outras vidas implicadas, não só a
sua e a da Michelle. E não poria em perigo a felicidade de Enjoe e Beth por nada do
mundo.

As meninas eram o primeiro.

Uma das gêmeas sorveu pelo nariz, e Sam saiu de seus pensamentos e olhou a
Enjoe. Franziu o cenho e se perguntou se se estaria pondo doente. A partir daí o invadiu
um caudal de dúvidas. O que aconteceria uma delas adoecia gravemente? O que faria
então? Era um pai solteiro. Como poderia cuidar delas e ao mesmo tempo seguir com
seu trabalho para poder as manter? E como ia manter seu posto nos Marinhe? Os pais
das gêmeas nunca pensaram que morreriam a uma idade tão temprana. Ninguém tinha
pensado tal possibilidade.

Como demônios conseguiam sair adiante as mães solteiras?

Não estava completamente sozinho. Tinha pessoas às que poder recorrer em


caso de emergência, mas ainda ficava no ar a questão de um tutor legal que cuidasse das
meninas enquanto ele estivesse destinado a uma missão.

Soltou um fraco grunhido e fechou os olhos.

-Ainda não sei o que fazer, meninas -sussurrou, jogando a cabeça para trás-. São
muitas perguntas e muito poucas respostas. Mas lhes prometo que pensarei em algo.
Não lhes abandonarei nem lhes falharei jamais. E escutando a respiração das gêmeas,
Sam ficou dormido e voou para os sonhos que o levavam até a Michelle.
As duas semanas seguintes transcorreram em uma rotina quase acolhedora. Cada
dia era como o anterior. Michelle chegava cada manhã com seu ordenador portátil,
muito animada. Sam ia se trabalhar e ela e as meninas passavam o dia juntas.

Quando Sam voltava para casa, o primeiro que o recebia era o aroma do jantar, e
logo dois caritas sorridentes, alvoroçadas ao vê-lo. Michelle e ele compartilhavam uns
minutos de conversação, e ela se ia a sua casa se uma matilha de cães lhe pisasse nos
talões.

Duas semanas, e nada tinha trocado. E entretanto, tudo estava trocando, pensou
Sam enquanto caminhava para o alpendre.

Ele tinha trocado. surpreendeu-se a si mesmo dando-se pressa por voltar para
casa. E não só porque estivesse ansioso por ver as meninas.

A proibição de contato se fazia mais difícil de respeitar a cada dia que passava.
Cada vez que via a Michelle, sentia a necessidade de agarrá-la e beijá-la. Mas o que o
fazia mais difícil ainda era saber que ela sentia o mesmo. Podia vê-lo em seus olhos, em
sua expressão, em sua linguagem corporal.

E o desejo da Michelle alimentava o seu próprio até fazê-lo quase insuportável.

Sam se parou no alpendre e se deteve um momento para deleitar-se com o aroma


de frango que saía pela porta. Ouviu a voz da Michelle, que lhes estava cantando às
meninas. Uma das gêmeas soltou um grito e Sam sorriu, sabendo que se tratava da
extrovertida Enjoe.

As duas das gêmeas tinham desenvolvido sua própria personalidade, e ao Sam


custava imaginar-se como ao princípio não tinha podido as distinguir. A tinta negra com
a que tinha escrito seus nomes nas novelo dos pés se apagou com os banhos e o passado
do tempo... igual às lembranças que ele tinha de sua vida anterior, tranqüila e solitária.

Agora era o pai das meninas.

Aquele pensamento o golpeou com a força de um punho dirigido à garganta.

Dave e Jackie sempre seriam seus pais biológicos, mas agora as gêmeas eram
delas, e não poderia as amar mais se fossem de seu próprio sangue... Nem tampouco
podia imaginar uma vida sem elas.

Abriu a porta e escutou o chiado das dobradiças como se se tratasse de uma


sinfonia. Aquele ruído tão irritante significa «lar», algo que nunca acreditou que
chegaria a ter.
Michelle deixou de cantar e Sam suspirou e negou com a cabeça. Agora ela
deixaria suas tarefas e correria para a porta. Bom, eram adultos, maldição seja. Seguro
que os dois podiam controlar seus hormônios durante uns minutos.

-Papai está em casa -ouviu-se a voz da Michelle, aproximando-se.

Ao Sam lhe encolheu o coração para ouvir essas palavras. «Papai».

deteve-se na porta da habitação das meninas, e Michelle se voltou para ele com
uma meia sorriso.

-Olá -saudou-o, e Sam percebeu a alegria forçada em seu tom-. Não me tinha
dado conta da hora que era.

-cheguei um pouco mais cedo -admitiu ele, sem acrescentar que tinha sido a
propósito.

Ela assentiu e se levantou do chão, onde tinha estado sentada junto ao parque das
meninas, cheio de peluches e brinquedos.

-Bom -disse, lhes dedicando um último sorriso às gêmeas-, o jantar deveria estar
preparada. As meninas já jantaram; assim...

-Fique -interrompeu-a ele.

-O que?

-Para jantar -concluiu covardemente, e se perguntou por que demônios lhe


resultava de repente tão duro lhe falar com uma mulher a que conhecia intimamente.
Com as mãos e a boca lhe tinha percorrido cada palmo de seu corpo. Conhecia seus
segredos e seus prazeres. Sabia tudo dela, salvo a razão pela qual o tinha abandonado.

Aquela ferida ainda lhe doía, mas não era o momento de indagar nisso. Se a
acossava, Michelle partiria em seguida, e ele não queria que isso passasse.

-Não sei -disse ela, agarrando a prega de seu Top vermelho.

-por que não? -perguntou ele-. Tem que comer, e estou seguro de que tem feito
mais que suficiente, como sempre.

-Sim -respondeu. Mas, Sam...

-Só para jantar.

-Só para jantar?

-E talvez um pouco de conversação, também -passou-se uma mão pelo cabelo-.


Por amor de Deus, Michelle, não crie que podemos comer juntos sem nos equilibrar o
um sobre o outro?
Michelle se ruborizou ao visualizar aquela imagem, e Sam sentiu o calor que
desprendia. Maldição, o que havia entre eles era muito forte. Nunca tinha experiente
nada igual.

-Fique -voltou a dizer, com a voz carregada de emoções-. Jantar comigo.

Ela o olhou aos olhos durante um comprido minuto, e ele pensou que ia rechaçar
o. Mas, finalmente, assentiu.

-De acordo.

Tudo era muito acolhedor, pensou Michelle vinte minutos mais tarde quando ela
e Sam estiveram sentados à mesa, frente a frente. É obvio, era muito mais agradável que
estar sozinha em casa, tomando algum prato esquentado no microondas.

Cozinhar para o Sam era um prazer. Cozinhar para ela era um esgotamento.

antes de que seu marido morrera, tinha-lhe gostado de preparar a comida para
ambos. Mas desde que ficou sozinha, não lhe merecia a pena tanto esforço.

E agora a preocupava um pouco o muito que desfrutava fazendo as pequenas


tarefas cotidianas para o Sam.

-E bem? -perguntou, para distrair-se-. Alistaram-se novos recrutas ultimamente?

Sam se pôs-se a rir e mastigou um bocado de frango antes de responder.

-Hoje tive um caso bastante curioso.

-me conte.

-Bom, veio um menino ao que gostava da idéia de levar uniforme. Estava


convencido de que isso chamaria a atenção das garotas.

Michelle assentiu seriamente, mas seus lábios se curvaram em uma meia sorriso.

-Falando por meus amigas e conhecidas, devo dizer que esse menino tem razão.

Ele a olhou com uma sobrancelha arqueada.

-Terei-o em conta -disse-. Em qualquer caso, este menino queria o uniforme,


mas também queria assegurar-se de que disséssemos a seus superiores que não gosta de
levantar-se cedo.

-Está-me tirando o sarro.

-Absolutamente -respondeu ele com um sorriso-. O futuro geral queria receber


garantias de que por nada do mundo despertariam antes das nove da manhã.
-Como?

-E também queria deixar por escrito que não gostava de caminhar, e que
portanto deviam lhe atribuir um veículo.

-Deveu te encantar -disse ela, imaginando-a reação do Sam ante aquele menino.

-OH, sim, era um candidato de primeira.

-E o que lhe disse?

-Disse-lhe que se essa era a carreira militar que queria, deveria alistar-se na
Marinha, não nos Marinhe.

Os dois puseram-se a rir, e a risada do Sam alagou a Michelle como uma


corrente depois de uma seca.

-Sentia falta disto -disse ele tranqüilamente.

O sorriso da Michelle se apagou de seu rosto ao olhá-lo aos olhos e ler muito
naquelas profundidades verdes. Sabia que deveria ir-se em seguida, antes de que
cometer alguma estupidez como lançar-se a seus braços ou lhe pedir que a abraçasse.
Mas lhe resultava impossível partir naquele momento.

-Eu também te senti falta de, Sam -admitiu.

-Eu gostava de imaginar aos duas em uma cena como esta, rodeados por um
montão de pirralhos.

-Sei -disse ela-. Sempre soube o muito que desejava uma família.

-Prometi-me mesmo que não perguntaria isto...

-Então não o pergunte -interrompeu-o rapidamente-. Não olhe atrás.

-Não podemos olhar para outra parte, Michelle -replicou ele-. Não temos um
presente, e faz dez anos me disse que não havia futuro para nós. O passado é quão único
temos.

-Nesse caso não temos nada -levantou-se da cadeira e não a surpreendeu o mais
mínimo que ele também se levantasse.

Sam lhe pôs uma mão no antebraço e esperou a que ela o olhasse.

-Não siga fazendo isto.

-Fazendo o que?

-me fazer calar.

-Sam, isto não vai resolver nada.


Nesse momento, um forte golpe na porta os sobressaltou a ambos.

Sam franziu o cenho e se dirigiu para a porta. Michelle o ouviu abrir e falar em
voz baixa com alguém. Um momento mais tarde, retornou com um grande sobre na
mão.

-O que é isso? -perguntou ela, rodeando a mesa e aproximando-se dele.

-Uma carta certificada -respondeu, sem apartar o olhar do sobre-. De um


despacho de advogados -olhou fugazmente a Michelle e ela viu a preocupação em seus
olhos.

Abre-o, Sam.

O fez e tirou a carta que continha. Depois de desdobrá-la, leu-a uma vez e logo
outra. Então levantou o olhar e Michelle viu como a preocupação de seus olhos se
tornava em fúria.

-Do que se trata? -com o coração desbocado, alargou uma mão para a carta, até
sabendo que não era assunto dele.

Sam a tendeu e, enquanto ela a lia, lhe resumiu o conteúdo.

-Os pais do Dave, os avós das gêmeas, vão tentar conseguir a custódia.

Capítulo 10
-Não podem fazer isso -disse Michelle, folheando rapidamente os documentos
antes de olhar ao Sam-. Ou sim?

-Eles parecem acreditar que sim -murmurou ele entre dentes.


Michelle girou a cabeça para o corredor em sombras que conduzia à habitação
onde jogavam as duas meninas, alheias às mudanças que se produziam. Lentamente,
sentou-se na cadeira mais próxima.

-Não posso acreditá-lo -disse.

-Eu tampouco -espetou ele enquanto caminhava de um lado a outro, como um


animal que procurasse uma via de escapamento.

Michelle sentiu a ira que irradiava do Sam, mas também a frustração e a


angústia. E não o culpou.

Ela tinha visto quão Unidos as gêmeas e ele tinham chegado a estar durante as
últimas semanas. Sabia quanto significavam essa meninas para ele... e para ela mesma.

-O que vais fazer?

O lhe jogou um breve olhar.


-Não tenho nem idéia.

-Bom -disse ela firmemente, agarrando os documentos com força-, não pode lhes
permitir que fiquem com as meninas.

-Crie-te que não sei? -perguntou, com uma voz cheia de fúria misturada com
outras emoções.

-Então tem que pensar em algo.

-Sim, mas certamente necessitarei mais de dez segundos para idear um plano
-respondeu-lhe com sarcasmo.

-Né, estou de seu lado, recorda? -ficou em pé, incapaz de permanecer sentada.
Sentia a necessidade de mover-se, de andar, de agarrar às meninas e escapar do alcance
desses avós desconhecidos.

Sam se deteve, respirou fundo e soltou o ar de repente.

-Sei -disse-. É só que...

-Precisa lhe gritar a alguém.

-Suponho -admitiu-. Mas não serve de nada.

Um sorriso curvou os lábios da Michelle, e uma pontada agridoce transpassou o


coração do Sam. Ela o apoiava. preocupava-se com as meninas tanto como ele. E aquela
certeza o aliviava um pouco.

Então, esquecendo-se de seu acordo, seguiu seu instinto e a abraçou. Rodeou-a


com os braços e a apertou fortemente contra ele. Ela também o abraçou, lhe deslizando
as mãos pelas costas, lhe dando consolo e confiança. Sam aspirou seu perfume,
embriagando-se com seu aroma como se estivesse tomando uma parte de sua alma.

-Tudo sairá bem -disse ela.

-Sim -disse ele, desejando acreditá-la. Apoiou o queixo em sua cabeça e olhou
ao vazio.

-Temos que pensar, Sam. Entre os dois encontraremos uma solução.

Sam deixou escapar um suspiro. -Mais nos vale.

-Têm argumentos muito fortes -disse uma das advogadas da família Fortune à
manhã seguinte. Sandra Butler era uma mulher maior, com o cabelo curto e prateado,
uns olhos azuis e inteligentes, e irradiava um aura de segurança e confiança.
-Mas Dave e Jackie me nomearam seu tutor -disse Sam, tentando controlar o
temperamento que ameaçava estalando-. Não esperavam morrer tão logo, mas queriam
que eu ficasse com as meninas se passava algo, não seus avós. Dave me disse que seus
pais tinham quase cinqüenta anos quando ele nasceu. Demônios, terão noventa anos
quando as meninas cheguem à adolescência.

-Entendo-o, sargento -disse a advogada, tirando-se seus óculos de arreios


dourada. Deixou-as sobre o reluzente escritório e entrelaçou as mãos com um sorriso
que pretendia ser tranqüilizadora.

Então se levantou bruscamente, rodeou a mesa e se sentou juntou ao Sam.


Cruzou as pernas, atirou-se do bordo da saia e o olhou durante uns momentos.

-Os pais de seu defunto amigo alegam que, sendo você um homem solteiro, não
pode lhes oferecer às meninas um bom lar. Dizem também que seu trabalho é muito
instável.

-Instável? -repetiu ele burlonamente-. Tenho muitas menos probabilidades que


um civil de que me despeçam.

-Certo -disse ela, ainda sonriéndole-. Embora hajam famoso que, como marinho,
terá que deixar às meninas sós durante compridos períodos de tempo.

-Isso tem solução -apressou-se a responder-. Terei que nomear a alguém


responsável para que delas cuide ou não poderei ficar nos Marinhe. Estou trabalhando
nisso.

-Estupendo -a mulher assentiu-. quanto antes melhor.

-Sei.

-É uma lástima que não esteja casado -murmurou, mais para si mesmo-.
Inclusive nestes tempos a gente prefere ver os meninos em um lar tradicional.

-Casado?

-Isso seria o melhor, e solucionaria o problema que supõe o cuidado das meninas
enquanto você esteja destinado a uma missão.

Sim, certamente seria uma solução, pensou ele.

-E o fato de que você seja um herdeiro da família Fortune -seguiu falando a


advogada ajudará muito no que talvez seja uma dura batalha legal pela custódia.

-Isto não tem nada que ver com os Fortune -disse-. É algo entre os avós do Dave
e eu.

A senhora Butler negou com a cabeça.


-Não seja ingênuo, sargento. Se quiser a essas meninas, não deve assustá-lo
nenhuma ajuda que possa utilizar.

-Não estou assustado, senhora -replicou ele, indignado.

-Pois claro que não -corroborou ela para tranqüilizá-lo-. Quão único digo é que
seria melhor que enfrentássemos aos pais de seu amigo com toda a ajuda possível.

-Estou de acordo.

-Então, por amor de Deus, aceite o fato de que o nome dos Fortune pode ter
muito poder em qualquer jurado.

Ao Sam resultava muito difícil aceitar algo assim. Era um homem acostumado a
superar os obstáculos por si mesmo. Mas, por outro lado, estava tão preocupado com a
idéia de perder às meninas que tinha chamado ao Ryan Fortune e lhe tinha pedido que
lhe buscasse um bom advogado. Agora que já o tinha, seria uma estupidez não escutar
seus conselhos. Mas, mesmo assim, não gostava de reconhecer que a advogada tinha
razão.

Se as meninas eram tão importantes para ele, tinha que estar disposto a fazer o
que fora necessário. depois de tudo, que sentido tinha-ir à batalha sem munição?
Assentiu para si mesmo e tomou uma decisão. Usaria tudo o que tivesse em sua mão
para ganhar aquele caso. A advogada. Os Fortune. Consideraria o pleito legal como uma
missão militar. Reuniria suas forças, riscaria um plano e passaria à ação.

E detrás tomar essa decisão, uma idéia se formou em sua cabeça. Uma idéia tão
desatinada que não tinha mais remedeio que sair bem.

-nos casar? -perguntou Michelle, segura de não havê-lo entendido-. Quer que
nos casemos?

-Sim -respondeu Sam-. E tem que ser logo.

Tinha pensado nisso durante toda a manhã, e era a única solução que tinha
sentido.

-Se nos casarmos, conseguirei a custódia das meninas. Se quero seguir nos
Marinhe, devo ter a alguém que fique com elas enquanto eu esteja destinado -não era
fácil lhe propor o matrimônio à mulher que já o tinha rechaçado uma vez. Mas não lhe
ocorria outra coisa. Tinha que deixá-lo preparado o antes possível.

-É uma loucura -disse ela, agarrando a bolsa do sofá.


-Não é uma loucura -espetou ele-. É desespero.

Ela o olhou fugazmente e ele pôde ver a dor em seus olhos. Mas essa vez não
podia permitir-se abandonar.

-Olhe -alargou uma mão e a posou em seu antebraço-, considera-o uma proposta
de negócios.

-Negócios?

-Sim. Chama-o um matrimônio de conveniência. Necessito uma algemar E você


é a única mulher com a que posso me casar sem que todo mundo cria que é uma farsa. A
advogada acredita que se me casar e conto com o respaldo dos Fortune, poderemos
solucionar isto sem necessidade de ir a julgamento -passou-se ambas as mãos pelo
cabelo-. E, maldita seja, não vou perder às meninas.

-Mas... o matrimônio, Sam?

-É a única maneira -olhou-a fixamente-. Já me rechaçou uma vez... -teve que


ignorar o visível estremecimento da Michelle-. Mas esta vez é diferente. Será um
matrimônio de conveniência. Não por meu amor a ti, mas sim por nosso amor a essas
meninas.

Michelle se mordeu o lábio inferior e sua expressão se suavizou um pouco.

-Sei que você também as quer, Michelle -seguiu Sam-. Me ajude às manter a
salvo.

Ela o olhou fixamente aos olhos e soube que ia dizer que sim. Como poderia
dizer outra coisa? Já se tinha negado uma vez e isso lhe havia flanco tudo o que lhe
importava. Agora parecia que a vida lhe dava uma segunda oportunidade. Seria parva se
a rechaçasse.

Além disso, a situação era distinta, não? Sam já tinha a família que tinha
desejado. Ela podia ajudá-lo a criar às filhas que nunca poderiam ter tido juntos. E,
possivelmente, nessa ocasião ele entendesse por que o tinha abandonado tempo atrás.
Em vez de aprofundar nas velhas feridas poderiam criar um futuro juntos.

Mas deveria lhe falar do William? Não, ainda não. Mais tarde. Uma voz interior
lhe advertia que se Sam se inteirava de que tinha estado casada com outro homem,
procuraria outro modo de solucionar o problema. Gesso era algo que ela não desejava.

Sam estava esperando. Com o corpo endurecido e seus rasgos em tensão,


observava-a atentamente, esperando um sinal.

Michelle respirou fundo e assentiu.


-De acordo, Sam. Casarei-me contigo. Enquanto lhe dedicava um lento sorriso
de alívio, ela esperou estar fazendo o correto.

Tivessem preferido uma cerimônia singela e íntima, mas Miranda não o


permitiu. A pobre mulher estava tão entusiasmada com a idéia de que seu amiga fora a
casar-se com seu sobrinho, que o arrumou tudo para que as bodas se celebrasse no
Double Crown Ranch, o lar da família Fortune. E como Michelle e Sam queriam que o
matrimônio parecesse tão real como fosse possível, não tiveram mais remedeio que
aceitar.

Assim, tão somente duas semanas depois da repentina proposição do Sam,


Michelle se encontrou frente à imensa chaminé de pedra no salão do Ryan, com
margaridas no cabelo e um vestido verde de mangas largas. Miranda, sua dama de
honra, secava-se as lágrimas com um lenço e detrás do casal as gêmeas não paravam de
tagarelar. Quão únicos faltavam eram os pais da Michelle, quem, segundo sua última
chamada Telefónica, estavam em algum lugar de New Hampshire. Mas sim tinham
enviado seus melhores desejos e tinham prometido que seu seguinte destino seria Texas.

Um pequeno grupo de amigos e familiares rodeavam ao Sam e Michelle


enquanto estes pronunciavam seus votos. Justin, o padrinho, entregou o anel de ouro ao
Sam, quem o deslizou no dedo da Michelle. Para bem ou para mau, já estavam casados.

-Pode beijar à noiva -disse o pároco, sonriéndole ao Sam como um pai


orgulhoso.

-Sim, senhor -respondeu ele, embelezado com seu impecável uniforme azul, e se
girou para a Michelle para lhe sorrir e lhe dar o beijo tradicional.

Seus lábios se encontraram brevemente, mas foi como se do leve roce prendesse
a faísca da paixão contida. Sem podê-lo evitar, Sam intensificou o beijo e, abraçando-a
fortemente, sucumbiu a uma necessidade rechaçada durante tanto tempo. Poderia haver
ficado assim para sempre, e talvez o tivesse feito se Ryan não se aproximou por detrás
para lhe dar uma palma nas costas.

-Vamos, sobrinho -disse, rendo-. Deixa-a respirar e beija a alguns de seus


parentes!

Todo mundo se pôs-se a rir, e Sam interrompeu o beijo a contra gosto. Mas
então levantou a cabeça e viu a mesma paixão refletida nos olhos da Michelle. Aquilo o
desconcertou por completo. Sua intenção tinha sido manter um matrimônio de
conveniência, mas agora já não estava seguro de onde se colocaram. Estavam casados,
mas seria um matrimônio verdadeiro? Poderia esquecer a desconfiança e permitir-se a si
mesmo voltar a amar a Michelle como antes?

Essas dúvidas ficaram sem resposta quando os convidados se aproximaram e


começaram a felicitá-los por separado. Sam olhou a Michelle e viu como os Fortune lhe
davam a bem-vinda no clã.

-É um homem com sorte -disse uma voz atrás dele.

voltou-se para olhar ao Miranda e sorriu. Sua tia estava tão formosa como
sempre.

-Sim -disse-, suponho que o sou.

Ela entrelaçou um braço com o seu e lhe deu um golpecito no ombro.

-Não há nada que supor -replicou, seguindo a direção de seu olhar até a
Michelle, que estava sonriendo por algo que Gabrielle havia dito-. Quando lhes vi
juntos na janta do outro dia, soube que isto ia ocorrer.

-Sério? -perguntou Sam, reprimindo a risada.

-OH, certamente -disse ela-. Sabe? Não tinha nada em contra do primeiro marido
da Michelle, mas era muito major para ela. Embora, é obvio, nunca o disse.

Primeiro marido?

O eco daquelas palavras ressonou com tanta força em seus ouvidos que afogou a
voz do Miranda. Michelle tinha estado casada antes? Tinha-o rechaçado a ele e logo se
casou com outro homem? Lhe fez um nó no peito que lhe impediu de respirar, mas
mesmo assim se obrigou a seguir falando.

-Não era feliz? -perguntou a sua tia com toda a tranqüilidade que pôde.

-OH, ela dizia que sim. Mas eu não acredito. E quando William morreu, faz uns
anos, Michelle se voltou virtualmente uma ermitã -voltou-se para ele e sorriu-. Você a
resgataste. demonstraste ser um autêntico Fortune.

-Pode ser -disse ele distraídamente, embora seu interior era um torvelinho de
emoções. por que Michelle não lhe tinha contado nada?

-E agora não lhes sintam obrigados a ficar muito momento por aqui -disse
Miranda-. A cabana está preparada para sua noite de bodas, e as meninas estarão muito
bem comigo.

Ele assentiu, recordando que tinham acessado a passar a noite de bodas em uma
cabana do imóvel dos Fortune. Não puderam negar-se, já que o matrimônio tinha que
parecer todo o real possível.
Miranda se internou entre a multidão e Sam ficou a sós com seus pensamentos.
A fúria se mesclava com o desejo, e não soube qual das duas emoções era mais
poderosa. Quão único sabia era que tinha que estar a sós com a Michelle. E logo.

Enquanto caminhavam sob a noite para a cabana, Michelle olhou sua mão
esquerda e contemplou como o anel dourado resplandecia à luz da lua. As aves noturnas
cantavam na distância e uma suave brisa acariciava a terra, envolvendo-os a ela e ao
Sam. Estava casada. Com o homem ao que tinha amado sempre.

Mas seu noivo não era precisamente a imagem de um homem feliz, pensou ao
olhá-lo. Apenas lhe havia dito duas palavras da cerimônia. Embora não podia esquecer
que o matrimônio só era uma farsa. Entre eles nada trocaria, salvo a direção dela.

A luz saía da janela da cabana, recebendo-os na escuridão, e Michelle desejou


que as coisas fossem diferentes. Oxalá estivessem a ponto de compartilhar uma noite de
bodas autêntica.

Sam abriu a porta e se apartou para que ela passasse primeiro. Michelle entrou e
ficou maravilhada ao ver a estadia. Era uma simples cabana de madeira, mas estava
elegantemente decorada com grandes móveis, amaciados almofadões e um tapete tecido
à mão. O fogo ardia alegremente na chaminé, e sobre uma mesita havia uma garrafa de
champanha em um cubo de gelo e duas taças de cristal. Rosas e lavandas impregnavam
o quente ambiente com seu delicado aroma, e através de uma porta aberta Michelle viu
a grande cama de colunas e travesseiros de penugem. Uma cena do mais sedutora, lista
e à espera.

Um redemoinho de desejo se desatou em seu estômago e se propagou por todo


seu corpo. Os joelhos lhe fraquejaram, lhe secou a garganta e uma suave palpitação se
desatou em seu entrepierna. ia agarrar se a algo para manter o equilíbrio quando Sam
falou de repente:

-me fale do William.

tirou-se a jaqueta do traje e a jogou no outro extremo da habitação. Tinha


contido a ira e o sentimento de traição tanto tempo como tinha podido, mas agora ia
conseguir as respostas que Michelle lhe tinha negado durante tantos anos.

Ela se girou para olhá-lo, com uma expressão de absoluta perplexidade no rosto.

-William? -perguntou com um fio de voz.

-Sim -respondeu ele, com um grunhido-. Seu primeiro marido?

-OH, Meu deus.

Sam começou a desabotoá-los botões da camisa sem apartar o olhar da Michelle.


-Ao Miranda lhe ocorreu me contar que não parecia feliz com seu primeiro
marido, o pobre defunto William. E esperava que comigo sim fosse.

-lhe deveria haver isso dito -sussurrou ela, mais para si mesmo, e se sentou no
respaldo do sofá.

-Sim, deveria havê-lo feito. Quando te casou com ele, exatamente? Justo depois
de romper comigo?

Ela negou com a cabeça e se apartou uma lágrima que lhe escorregava pela
bochecha. Sam se comoveu, mas não estava disposto a deixar-se dominar pelas
lágrimas.

-Foi um ano mais tarde.

-Latido, um ano inteiro... -por sua parte, havia-lhe flanco dois anos deixar de
sonhar com ela. Aparentemente era mais fácil esquecer-se dele.

Lhe jogou um olhar fugaz e olhou para outro lado.

-Era muito maior que eu. Um homem bom e amável. Era...

-Não quero ouvir nada de São William -espetou Sam.

-Então o que quer? -perguntou ela, levantando-se para encará-lo.

-Quero saber por que te casou com ele e não comigo -agarrou-a pelos braços e a
atraiu para ele-. por que? Tenho direito ou seja o. Preciso saber por que me rechaçou e
te casou com um homem o bastante major para ser seu pai.

Ela se soltou, jogou-se o cabelo para trás e o olhou fixamente aos olhos.

-Porque ele não queria ter filhos -respondeu-. Já tinha criado a uma família. Não
lhe importava que eu...

-Que você o que?

-Que eu não pudesse ter filhos -confessou duramente.

Aturdido, Sam a olhou boquiaberto durante um minuto. Então soltou uma


gargalhada seca e rouca e se deu uma palmada na frente.

-E pensou que a mim se me importaria? Que não quereria me casar contigo por
isso?
-Você sempre quiseste ter filhos -disse ela-. Sempre estava falando de formar
uma família. E quando descobri que eu não lhe podia dar isso

-Jogou a patadas de sua vida -concluiu ele.

-Deixei-te partir -corrigiu ela-. Por seu próprio bem.


-OH, claro -disse ele assentindo-. Isso tem sentido. Destroçou-me o coração por
meu próprio bem.

-Crie que para mim foi fácil? Crie que eu gostei de ver como saía de minha
vida?

Ele se inclinou e a olhou com olhos entreabridos.

-Fora fácil ou não, fez-o. Não me deu eleição. Não confiou em mim. Foi me
dizer nada.

-Fiz-o por ti -gritou-lhe-. Para que pudesse encontrar a outra pessoa com a que
formar a família que sempre tinha querido.

Sam pensou que Michelle se acreditava realmente o que estava dizendo. Por
amor de Deus, tinha chegado a convencer-se a si mesmo de que ele preferia ter filhos
com outra mulher que tê-la a ela. E por isso tinha renunciado a uma vida em comum?

-É o mais estúpido que ouvi nunca.

Lhe deu uma bofetada, surpreendendo-os a ambos.

-Não diga isso -espetou-. Fiz o que tinha que fazer.

Ele se esfregou a dolorida bochecha e apertou a mandíbula.

-Alguma vez ouviste falar da adoção?

-Sim, mas...

-Poderíamos ter tido filhos os dois juntos, Michelle. Não têm que levar nossos
gens para que sejam nossos. Não crie que o que sentimos pelas gêmeas o demonstra?
Deus... Eu mesmo fui adotado!

-Fiz o correto -murmurou, passando-as mãos pelos antebraços-. Sei que foi o
melhor. Não tivesse querido ficar comigo.

-Mas já alguma vez estará segura disso, verdade? -ao pensar nos anos perdidos
sentiu que ia explorar de fúria. Mas com isso não conseguiria nada.

Ela elevou o queixo e o olhou com os olhos cheios de lágrimas.

-Sam...

-Abandonou-me -disse, aproximando-se. Pô-lhe as mãos nos ombros e a atraiu


tanto para ele que ela teve que jogar a cabeça para trás para olhá-lo-. Tomou a decisão
pelos dois e nos privou de toda uma vida.
A Michelle lhe entrecortou a respiração e outra lágrima lhe escorregou pela
bochecha. Para o Sam foi como se uma adaga lhe atravessasse o coração. Apertou os
dentes e a sujeitou com mais força.

-Encontrou com o William o que tinha comigo? Fez-te sentir isto? -sem lhe dar
tempo a reagir, tomou posse de sua boca, separou-lhe os lábios com a língua e com um
beijo tão exigente como generoso a obrigou a reconhecer o que ambos compartilhavam.

Ela, por sua parte, rodeou-o com os braços e se apertou contra ele, abandonando-
se às emoções que ardiam em seu interior. E quando, finalmente, ele apartou a cabeça e
lhe cravou o olhar, com sua última pergunta ainda visível em seus olhos, ela negou com
a cabeça.

-Não, Sam. Só você me faz senti-lo.

E, por essa noite, aquilo era suficiente.

Capítulo 11
Ao Sam não importava o manhã. O futuro podia esperar. Por aquela noite,
naquele instante, quão único queria estava ali, em seus braços.

Sem dizer uma palavra, levantou-a e a levou a dormitório. Ela se aferrou a ele, e
seus corações pulsavam ao mesmo ritmo desbocado. Deixou-a em chão e, depois de
despir-se rapidamente, ajudou-a a baixar a cremalheira do vestido.

A seguir foi deslizando-lhe pelas costas, centímetro a centímetro, revelando a


pele nua ante seu faminto olhar. Quando o vestido caiu a seus pés, fez-a girar-se e se
agachou para tomar um mamilo com a boca. Com a língua a submeteu a uma lenta e
doce tortura, enquanto com as mãos explorava suas apetitosas curvas. Ela se agarrou
com força a ele e se moveu em silêncio, lhe oferecendo mais e mais.

-Sam... Sam, necessito...

Ele sabia o que necessitava porque ele necessitava o mesmo. O fogo o consumia
por dentro, e quando a tombou de costas na cama, não lhe deu oportunidade para pensar.
Não queria que nenhum deles pensasse em nada. Não nesse momento. Esse momento
era para a paixão, para o desejo que tinham mantido oculto, mas vivo, durante dez anos.

Sua boca, rápida e premente, percorreu-lhe cada palmo de seu corpo. Mordeu-
lhe ligeiramente um mamilo e percebeu seus entrecortados pulsados. O ritmo o apressou
a aprofundar mais em sua exploração. Introduziu os dedos nela e sentiu como seu úmido
calor lhe dava a bem-vinda.

Ela levantou os quadris e lhe deu o que desejava, o que ambos desejavam.
Começou a mover rapidamente os dedos, entrando e saindo, enquanto com o polegar lhe
esfregava o clitóris. Levava-a a bordo do clímax e então se retirava, deixando-a
tremente e se desesperada por alcançar a culminação. E enquanto suas mãos
trabalhavam por debaixo, com a boca se ocupava dos peitos. Mordendo, lambendo e
sugando, levou-a às mais altas cotas de prazer que Michelle tinha experiente jamais.

O tempo se deteve enquanto reclamava à mulher que deveria ter sido dela.

Michelle apoiou os pés na cama e se aferrou aos lençóis, enquanto seu mundo se
estremecia e dava voltas em torno dela. Não podia pensar. Logo que podia respirar. A
boca e as mãos do Sam, tudo a invadia de uma vez. Seu corpo inteiro gritava e pedia
desesperadamente a liberação. A tensão se intensificava até níveis insuportáveis. Só
existia Sam. Uma bola de fogo crescia em seu interior. Desejo, puro e selvagem desejo.
Só Sam podia lhe fazer aquilo. Por ela. Tentou agarrá-lo, mas a mão caiu lánguidamente
por seu ombro ao tempo que um orgasmo incrível estalava em suas profundidades.

Acreditou ter gritado quando a primeira onda a golpeou com força, mas não
estava segura. Moveu os quadris, arqueou as costas e pressionou a cabeça contra o
colchão enquanto o prazer a alagava. E então, antes de que o último estremecimento a
percorresse, Sam esteve dentro dela. Formando um único corpo. Uma extensão de seu
coração. De sua alma. Penetrou-a por completo, mas mesmo assim ela se retorceu com a
esperança de que aprofundasse mais, de que chegasse tão dentro dela que nunca mais
pudesse sair.

Uma nova erupção lhe nublou a mente e a fez tremer com violência quando ele a
levou até o topo, sacudidos por uma necessidade que urgia ser satisfeita.

-me olhe -ordenou ele. E Michelle abriu os olhos, com a vista imprecisa pela
paixão, e o olhou fixamente enquanto ele se movia dentro dela, completando seu vazio-.
Me olhe -repetiu-. Só a mim -com uma mão tomou um peito e atirou do mamilo, e ela
se corcoveou e agitou, e com um grito de prazer recebeu outra quebra de onda de
delícia. E, antes de que a sensação se desvanecesse, lhe sussurrou-: Tome -e lhe cobriu
a boca com a sua enquanto se esvaziava em seu interior.

-Sam -disse brandamente Michelle uns minutos depois, quando esteve segura de
poder falar sem que a voz lhe tremesse-, quero que saiba...

-Não -cortou-a ele.

-Não o que? -perguntou ela, girando a cabeça no travesseiro para olhá-lo.

Ele se levantou da cama e caminhou nu para a janela. Abriu a cortina e olhou a


escuridão da noite.

-Não diga nada.


Maldição, nada tinha trocado... O sexo tinha sido incrível, mas não bastava para
lhe fazer esquecer a traição nem para aliviar a ira que ainda o carcomia.

A lua alagava a habitação como prata derretida. Sam se voltou para olhar a
Michelle e a luz o rodeou, banhando seu corpo com um resplendor surrealista.

-Sam, temos que falar.

Ele soltou uma breve gargalhada e negou com a cabeça.

-Quanto tempo estive te dizendo isso a ti? -perguntou, passando-as duas mãos
pela cabeça.

Ela viu como lhe estiravam os músculos do peito e voltou a invadi-la um


arrebatamento de desejo. Como podia sentir algo tão forte? Como podia desejá-lo cada
vez, mais?

-Já falamos bastante esta noite -disse ele, e ela percebeu a fúria em sua voz.

-Mas...

-Casou-te com outro, maldita seja!

Michelle se estremeceu e se mordeu o lábio.

-Foi -disse-. Eu fiquei sozinha Y...

O se golpeou o peito com uma mão.

-Eu também fiquei sozinho. Mas não corri a me casar com a primeira mulher que
se cruzou em meu caminho.

-William não foi o primeiro homem que se cruzou em meu caminho -defendeu-
se ela-. Foi um ano depois de que rompêssemos.

-Imagine ! -exclamou ele, levantando os braços e deixando-os cair-. Um ano


inteiro!

O sarcasmo golpeou a Michelle como um punho.

Agarrou a manta e se cobriu com ela.

-por que faz isto?

-Eu? -replicou ele-. Eu o estou fazendo?

-Sim -sem soltar a manta, levantou-se da cama e o encarou-. Todo isso pertence
ao passado.

Porquê não pode esquecê-lo?


-Já lhe disse isso: o passado é quão único temos. -Não tem por que ser assim.
-Mentiu-me -disse ele, lhe cravando o olhar. -Nunca te menti.

-Não me disse a verdade, que é o mesmo.


Isso era certo, pensou Michelle. Não podia discutir-lhe

-Fiz o que acreditei que era o melhor.

Sam soltou uma amarga gargalhada.

-Pois funcionou muito bem, verdade?

Ela agradeceu que estivesse escuro e que ele não pudesse vê-la ruborizar-se. Era
estranho como tinha trocado a situação. Mas agora, enquanto seu corpo ainda vibrava
pela paixão compartilhada queria que Sam soubesse que nunca tinha amado a ninguém
como a ele. Tinha que lhe fazer ver que a decisão que ela tinha tomado com vinte e um
anos tinha sido por amor, e que, se foi uma decisão equivocada, também ela tinha pago
pelo engano.

-Nunca quis te fazer danifico -disse-lhe antes de que pudesse perder os nervos.
Pô-lhe uma mão no peito e sentiu os rápidos batimentos do coração de seu coração-.
Minha intenção era me afastar para que pudesse encontrar a outra pessoa. Alguém que

desse-te a família que sempre tinha querido. É que não vê que por culpa dessa
decisão perdi tanto como você?

-Você foi quão único eu desejava -disse ele brandamente, fazendo que a
Michelle lhe encolhesse o coração.

Só ficava uma coisa por dizer. As palavras que tinha esperado dez anos para
pronunciar.

-Quero-te, Sam. Sempre te quis..

Ele soltou um fraco gemido.

-Michelle... -levantou uma mão e lhe apartou o cabelo da cara. Acariciou-lhe


brevemente a bochecha, antes de deixar cair a mão e negar com a cabeça-. Não me disse
isso. Não confiou em mim, nem em nosso amor, para me dizer a verdade.

-Queria fazê-lo.

-Mas não o fez -disse com voz de gelo-. Quando as coisas ficaram feias, rompeu
a relação e te partiu.

Michelle assentiu bruscamente.

-De acordo, talvez me comportei como uma covarde. Mas você tampouco foi do
todo inocente.
-Eu? -perguntou ele, claramente desconcertado.

-Sim. Disse que me amava desesperadamente, e entretanto deixou que me fora.

-Você me jogou de sua vida!

-E você foi!

Sam esticou a mandíbula e entrecerró os olhos.

-Não me deixou eleição, Michelle. Mas ficava um pouco de orgulho. Não ia


arrastar me a seus pés se não me queria.

Michelle suspirou.

-Eu sempre te quis. Mas, por amor de Deus,

Sam, era muito jovem -tragou saliva com dificuldade-. E tinha... medo.

-Do que?

-Pensei que quando descobrisse que eu não podia ter filhos, rechaçaria-me.
Assim que te rechacei eu primeira.

-Michelle...

-Não posso trocar o que fiz. Não posso retroceder no tempo e recuperar o que
perdemos. Maldita seja, Sam, era uma cria. Cometi um engano. Qual é sua desculpa?

-Que demônios significa isso?

-Significa que estava desejando renunciar a tudo o que pudemos ter juntos por
culpa de seu estúpido orgulho -espetou, sentindo uma pontada de ira-. Nem sequer quis
tentá-lo... Mas as coisas são distintas agora.

-Sim, são-o -disse ele-. Já não sou só eu. Agora tenho que pensar nas gêmeas.

-Sei, e quero...

-E não posso correr o risco de que lhes faça mal.

Michelle sentiu como uma bola de gelo crescia em seu interior até ameaçá-la lhe
cortando a respiração. As lágrimas afluíram a seus olhos, mas piscou com força para as
conter. Não ia chorar.

-Crie que lhes faria mal às meninas?

-Não intencionadamente. -O que está dizendo?

Sam respirou fundo e soltou o ar bruscamente.

-Estou dizendo que não me arriscarei outra vez a te amar.


O gelo que crescia no interior da Michelle se quebrou e se propagou por todo seu
corpo como se de afiadas lascas se tratasse. Só uns momentos antes tinha tido
esperança. Havia sentido o contato de suas almas. Mas agora, Sam estava mais longe
dela que nunca.

Sam negou com a cabeça e seguiu falando, com um tom mais suave mas não
menos decidido.

-Sei que ama às meninas. E agora sei que elas representam sua oportunidade de
ser mãe...

-Eu não me casei contigo para conseguir às meninas! -pô-lhe ambas as mãos no
peito e lhe deu um forte empurrão que o fez retroceder um par de passos-. Maldito filho
de cadela. Como te atreve a me dizer uma coisa assim? É que não me conhece?

-Sim, conheço-te muito bem -admitiu ele-. Talvez não lhes fizesse mal a
propósito, mas em qualquer caso, acredito que será melhor manter este matrimônio
como o que é. Um acordo.

-E o que foi isso? -perguntou ela, famoso a cama desfeita atrás deles-. Uma
fusão?

-Um engano -respondeu simplesmente.

-Não pensava assim faz um minuto -recordou-lhe ela.

-Isso não trocou nada, Michelle.

Michelle sentia um frio glacial. apertou-se a manta a seu redor em um vão


intento de conseguir calor.

-Então seguiremos casados?

-Sim -disse ele-, se você estas de acordo. Ao menos até que tenha solucionado o
tema da custódia.

Que triste era tudo, pensou Michelle. Um dia que tinha começado de uma forma
tão formosa estava acabando na miséria mais horrível. Mas ela tinha tido sua
oportunidade com o Sam dez anos antes. Tinha-a perdido e o Destino não ia lhe dar
outra.

-É obvio -respondeu com tom aflito-. O que você necessite -envolta com a
manta, teve a sensação de que nada poderia aliviar o frio que a invadia.

-Obrigado... -começou a dizer ele, mas ela levantou uma mão.

-Não me dê as obrigado -disse com voz tremente-. Por isso mais queira, não me
dê as obrigado -acrescentou entre dentes-. Tudo isto é por culpa de seu orgulho.
-O que?

-Você é quem se aferra ao passado, Sam. Você é quem renuncia ao futuro nesta
ocasião -amassou-se mais com a manta e elevou o queixo-. Poderíamos havê-lo tido
tudo, isso é o mais triste. Quero-te, Sam. E te quererei enquanto viva -a voz lhe quebrou
apesar de seus esforços, mas embora viu como Sam se encurvava um pouco, obrigou-se
a dizer o que tinha que dizer-. Você vive com um amor de faz dez anos. Eu vivo com
um amor do presente -e, antes de que pudesse envergonhar-se mais, atravessou a
habitação para a porta. Mas ao chegar à soleira se deteve para um último sarcasmo-. A
guerra terminou, marinhe. Parabéns. ganhaste -e dito isso, saiu da habitação sem olhar
atrás.

E assim não pôde ver a dor que cobria o rosto do Sam nem a tristeza de seus
olhos ao vê-la partir.

Os dias seguintes transcorreram sumidos na névoa de uma dor tácita.

Sam cumpria com seu trabalho, mas nem seu empenho nem sua atenção estavam
nisso. Que demônios lhe importava se um pirralho se alistava aos Marinhe, quando só
podia pensar em como sua vida se estava caindo a partes?

Mas estar em casa não era mais fácil. Enquanto rastelava o jardim dianteiro,
deteve-se e olhou a Michelle e às meninas. Michelle ria e sorria às pequenas, quem batia
Palmas de puro gozo. Suas risadas suavizavam o frio ar invernal e atendiam o coração
do Sam.

Poderia... poderiam ter tantas coisas juntos. E entretanto, uma parte dele se
negava a esquecer o passado, como lhe recriminava Michelle. Talvez ela estivesse no
certo. Mas, como podia esquecer um homem que a mulher a que tinha amado o tinha
rechaçado? E o que lhe assegurava que não voltaria a fazê-lo?

-Sam!

A voz da Michelle o tirou de seus pensamentos. Soltou o restelo e deu um passo,


antes de dar-se conta de que ela não necessitava ajuda. Só queria que olhasse.

Uma das gêmeas, impossível distinguir qual da distância, estava-se levantando


por seu próprio pé. Cheio de orgulho, Sam a viu dar um passo e logo dois, até cair sobre
o traseiro.
-Isso foi fantástico, Bethie -exclamou Michelle enquanto levantava a pequena.
Sua voz estava carregada de amor e afeto.

Sam as alcançou em umas poucas pernadas. ajoelhou-se junto a elas e tomou em


braços a Enjoe. Contemplou aquelas caritas idênticas, emolduradas pelos capuzes de
seus casacos rosas, e logo desviou o olhar para a Michelle.

-Não é assombroso? -perguntou ela.

-Sim -respondeu, olhando-a fixamente aos olhos. adorava ver como o rosto lhe
iluminava de orgulho e amor pelas meninas-. É-o.

A Michelle lhe encolheu o coração e desejou desesperadamente que as coisas


fossem distintas. Mas não o eram. E nunca o seriam. Sam tinha tomado sua decisão.
Renunciaria a ela igual a tinha feito dez anos antes. De modo que o melhor seria
começar a aceitá-lo. Nesse mesmo momento.

Tendeu ao Beth e se levantou. Os braços lhe doíam tanto como o coração.

-Deixarei-lhes sozinhos um momento. Isto é uma ocasião familiar.

-Michelle...

Ela negou com a cabeça e tragou saliva para desfazer o nó de tristeza que lhe
tinha formado na garganta. Então, com passos cuidadosamente medidos, girou-se e se
encaminhou para a casa, deixando seu coração atrás.

Sam a viu afastar-se, e embora tinha nos braços a duas meninas renda-se, sentia
que seu coração e sua alma estavam vazias.

Três semanas depois...

A vida em casa tinha chegado a ser insoportablemente correta. Michelle cuidava


das meninas, preparava o jantar e se ocupava de seu negócio igual a sempre; com uma
só exceção: nunca falava com o Sam nem o olhava aos olhos. E ele, que Deus o
ajudasse, jogava terrivelmente de menos. Sobre tudo pelas noites em vela. O sofrimento
o estava matando, e tinha que reconhecer que estava sendo um imbecil.

Mas o fato de reconhecê-lo não trocava nada.

De pé em um rincão do salão do Miranda, contemplou a vários membros da


família Fortune indo freneticamente de um lado para outro. Pelo visto, terei que resolver
muitos detalhes de última hora para as bodas, para a que só faltavam uns minutos. Os
convidados se mesclavam entre eles e vagavam pela casa, falando e bebendo
champanha.

E Sam o observava tudo alheio ao festejo. Viu a Michelle, sonriéndole ao Kane


Fortune, e se perguntou se ele seria o único que via o cansaço em seus olhos ou quão
forçada era seu sorriso. Todo seu corpo o apressava a ir para ela e lhe falar. Mas, um
segundo depois, Michelle voltou a internar-se entre a multidão, controlando a festa que
tinha planejado tão meticulosamente.

Um puxão em suas calças lhe fez baixar o olhar. Beth o estava utilizando como
apoio para ficar de pé e manter-se em equilíbrio. Sorriu docemente e se deu conta de
que as gêmeas contavam com ele para ter uma vida segura e feliz. Já tinham sofrido
uma perda que nenhum menino deveria suportar. E ele estava decidido a não arriscar
sua felicidade.

Mas, era Michelle realmente um risco?, perguntou-lhe uma voz interior. Ou ele
mesmo estava usando às meninas como desculpa para proteger seu próprio coração?

Sacudiu a cabeça e olhou a Enjoe, quem seguia o exemplo de sua irmã e lhe
atirava da outra perna da calça. As duas meninas se balançaram e lhe são- . riram, e ele
lhes devolveu o sorriso apesar de sua confusão interior.

-Pensam que sou um idiota, verdade? -soltou um suspiro de impaciência-. Talvez


o seja. Demônios, como vou pensar se não consigo dormir? -perguntou, embora
duvidava de que às meninas importasse se dormia ou não.

-Acredito que tenho algo que o ajudará com isso -disse uma mulher a seu lado.

Sandra Butler lhe sorria radiantemente enquanto lhe tendia um sobre.

-O que é isto? -perguntou ele, alternando a vista entre o sobre e o sorriso de


satisfação da advogada.

-Isto, sargento -disse ela-, são os papéis da custódia.

-O que? -encheu de esperança, tomou o sobre, abriu-o e tirou os documentos.


Folheou-os rapidamente e olhou à advogada-. Diz-o a sério? Está tudo arrumado?

-Assinado, selado e entregue -disse ela, e tomou uma taça de champanha de uma
bandeja próxima-. Os avós estão de acordo com que fique com as meninas sempre e
quando puderem as visitar.

-as visitar? -repetiu ele, olhando às duas pequenas que já eram oficialmente
delas-. É obvio que podem as visitar! -sentiu que o punho de ferro que durante tanto
tempo levava lhe apertando o coração se afrouxava ligeiramente-. São seus avós.
-Sabia que veria as coisas desse modo -disse Sandra com outro sorriso-. E agora
-acrescentou, passando a vista pela multidão-, acredito que irei procurar um bom sítio
para a cerimônia.

-Senhora Butler? -chamou-a Sam quando ela se girava para partir.

-Sim?

Sam se encolheu de ombros.


-Não sei como agradecer-lhe

-Já o tem feito -assegurou-lhe ela, e desapareceu entre outros convidados.

Só de novo, Sam ignorou às pessoas que saíam a terraço e se agachou para tomar
às meninas em braços. Apertou-as contra o peito, tentando não lhes fazer danifico.

-Estão a salvo -sussurrou-lhes-. E sempre o estarão. Juro-lhes isso.

-Sam? -a voz da Michelle soou a seu lado-. Sam, o que está fazendo? vais
espremer às meninas.

Sam levantou a cabeça e a olhou aos olhos. Ao ver suas lágrimas, Michelle
sentiu que lhe parava o coração. Algo terrível devia ter ocorrido. Só uma verdadeira
tragédia poderia fazer chorar a um homem como Sam.

-O que acontece? -perguntou-lhe, morto de medo. Tirou ao Beth dos braços e a


acurrucó contra seu peito. Precisava sentir o calor do bebê.
-Tenho a custódia -disse ele, ainda sem poder acreditar-lhe

Uma estranha mescla de emoções se revolveu no interior da Michelle. Em


questão de segundos, sentiu-o tudo: alegria, tristeza, decepção... Sam tinha a custódia e
as meninas estariam a salvo com ele, mas isso significava que já não lhe necessitaria.

Com a cabeça lhe dando voltas, deu ao Beth um beijo na bochecha e aspirou o
doce aroma do bebê. Então olhou aos verdes olhos do Sam. Tinham tido três semanas
para falar, para tender uma ponte sobre o abismo que os separava, e não tinham sido
capazes de fazer nada. Ela tinha permanecido acordada cada noite, escutando como
vagava pela casa, como atendia às meninas e como se detinha na porta de seu
dormitório antes de voltar para seu próprio. Iene silêncio tinha chorado, lamentando
pela segunda vez em sua vida a perda do homem ao que amava.

Agora era muito tarde. Ela sabia, e só tinha uns minutos antes das bodas para
fazer saber também ao Sam. Não tinha sentido seguir fingindo.

-É maravilhoso, Sam -disse-lhe com dificuldade-. Me alegro por vós três.

O a olhou como se pudesse ouvir a despedida em sua voz.


-O que está dizendo? -perguntou, levantando a Enjoe.

Michelle negou com a cabeça e tendeu ao Beth. Quando Enjoar lhe tendeu os
braços, sentiu que lhe rasgava ainda mais o coração, mas se obrigou a dar um passo
atrás e cruzar as mãos à costas.

-Só estou dizendo o que ambos sabemos que é verdade -disse com voz
tremente-. Só nos casamos para que pudesse conseguir a custódia -cada vez lhe custava
mais falar, mas estava decidida..a seguir enquanto pudesse-. Agora que

conseguiste-a, já não me necessita. Embora estejamos divorciados, posso ficar


com as meninas quando estiver fora.

-Michelle...

-Já não me necessita aqui -repetiu, com mais firmeza essa vez-. Mudarei-me
amanhã. Pode começar a preparar o divórcio.

-Divórcio? -deu um passo para ela, mas Michelle negou com a cabeça.

-Vós dois, venham -chamou-os Riley Sinclair da porta de, a terraço-. As bodas
está a ponto de começar.

-Vamos -respondeu Michelle. Manteve- o olhar ao Sam durante um par de


segundos mais. E então se girou lentamente para afastar-se-. Adeus, Sam -sussurrou-lhe.

Capítulo 12
Sam não voltou a ter nem um momento a sós com a Michelle desde que ela se
separou de seu lado antes da cerimônia. Ocupada com os convidados e os garçons,
parecia estar em todas partes menos onde estava ele.

O clã dos Fortune ao completo se reuniu para as bodas do Miranda e Daniel.


Inclusive Leeza Carter estava ali. Sam a tinha visto antes, e parecia que o estava
passando muito bem. perguntou-se por que teria assistido a aquelas bodas quando era
óbvio que ninguém queria vê-la.

Deixou de pensar na Leeza e passou a vista por outros. Lily apenas se apartou do
lado do Ryan, como se não pudesse acreditar-se que seu marido tivesse sobrevivido a
um envenenamento. Os «herdeiros perdidos», como chamavam o Sam e aos outros
novos Fortune, adaptaram-se muito bem à numerosa família. Riley e Emma dançavam
na terraço enquanto Holly e Guy Blackwolf ajudavam a Tara e Jonas Goodfellow com
os bebês. O xeque Nico Tão-efi, o filho recém descoberto do Ryan, fazia ornamento de
sua realeza enquanto dançava com sua noiva, Esma Bakkar. Miranda e Daniel passavam
entre os convidados, agarrados da mão, como se resistissem a romper

o contato físico. Gabrielle e Wyatt Grayhawk estavam em um rincão falando


com o Freddie Suárez, e ao Sam pareceu que estavam muito sérios. Mas certamente os
dois agentes da lei estivessem falando do trabalho.

Um triste sorriso curvou seus lábios ao pensar que deveria ser um homem feliz.
Tinha a família que sempre tinha desejado. Mais ainda, tinha suficientes tias, tios,
primos e meio-irmãos para povoar uma pequena cidade. E, o mais importante, tinha
conseguido a custódia de suas filhas.

Então, se tudo era tão maravilhoso, por que se sentia tão desgraçado? O que
pergunta tão tola, pensou. Sabia muito bem qual era a razão. Se era desgraçado era
porque o merecia.

Tomou um comprido gole de sua cerveja geada, que lhe caiu no estômago como
uma bola de cimento. Com uma careta, deixou o copo na bandeja que levava um
garçom e voltou a esquadrinhar a multidão em busca de uma mulher em particular.

Localizou-a ao outro lado do salão. Michelle estava subindo as escadas por volta
do segundo andar. Tinha a mão no corrimão e evitava olhar aos convidados da planta
inferior, mas ao tomar a curva da lhe serpenteiem escada, Sam viu a dor em seus rasgos.

«Segue-a, idiota», gritou-lhe seu coração. E, pela primeira vez em muito tempo,
sossegou a voz da lógica e da razão e escutou o que deveria ter escutado desde o
começo.

Ao coração, que o tinha conduzido a Michelle. Ao coração que ainda a


necessitava desesperadamente.

-É um estúpido por deixá-la partir -disse-se a si mesmo.

Durante os últimos dez anos tinha lamentado sua perda, vivendo com a eterna
dúvida do que poderia ter sido. Agora tinha a oportunidade de reescribir a história, de
fazer realidade os velhos sonhos. Renunciaria a todo isso por culpa de seu orgulho?

Com a decisão tomada, foi atrás dela, como teria que ter feito a primeira vez que
ela o deixou. Atravessou lentamente o abarrotado salão, desculpando-se e apartando
com delicadeza a todos os que se interpunham em seu caminho, e com a vista fixa na
escada que o levaria até a Michelle. Então viu o inspetor Suárez subir os degraus de dois
em dois.

Um repentino temor o assaltou, e o instinto lhe fez acelerar o passo. Em suas


pressas por chegar até a Michelle, esqueceu-se de toda cortesia e educação enquanto
empurrava aos convidados.
No alto das escadas, Michelle olhou o comprido corredor enmoquetado que
conduzia à habitação do Miranda. Agradecida por afastar-se da gente e o bulício por uns
minutos, esfregou-se a têmpora em um intento por aliviar a dor de cabeça que não a
abandonava. Só queria assegurar-se de que o vestido de seu amiga estivesse preparado
para partir com seu marido de lua de mel e que assim não se produzira nenhum atraso.
Só porque seu próprio matrimônio fora a acabar mal não havia razão para permitir que
algo falhasse no do Miranda e Daniel.

Uma pontada de remorso lhe transpassou o coração, e se disse a si mesmo que


tinha que ir acostumando-se.

-É por sua culpa -murmurou enquanto a fúria se mesclava com a dor-. Por te
haver apaixonado por um homem tão cabezota. Não podia ter escolhido a um mais
razoável, OH não. Queria a um marinhe orgulhoso e teimoso.

Apertou os dentes e se deteve frente à porta fechada do dormitório do Miranda.


obrigou-se a não perder o sorriso. Logo as bodas teria acabado e ela poderia ir-se casa a
fazer as malas. OH, sim, era um pensamento muito agradável.

Entrou na habitação e se deteve em seco.

-Leeza?

A mulher loira que estava no outro extremo da habitação girou a cabeça para
olhá-la.

-O que faz aqui? -perguntou-lhe, franzindo o cenho.

-Eu ia perguntar te o mesmo -disse Michelle. Viu que o joalheiro do Miranda


estava vazio e que seu conteúdo tinha sido esparramado pelo penteadeira-. Está
roubando as jóias do Miranda?

-É uma lástima que tenha entrado aqui -murmurou Leeza, apontando-a com uma
pistola-. No lugar equivocado e no momento equivocado, querida -encolheu-se de
ombros, fazendo que seus grandes peitos se balançassem.

Michelle olhou a arma e os frios olhos da Leeza e soube que estava em um grave
apuro. Mas, coisa estranha, o medo não foi o bastante forte para mantê-la calada.

-Tem uma pistola? -perguntou. Então pensou um momento e sussurrou-: Foi


você, verdade?

-O que quer dizer?


Sam ficou gelado quando, ao outro lado da porta fechada, ouviu dizer a Michelle
que Leeza tinha uma pistola.

Deus Santo! De abaixo se elevava o som da música e das conversações entre os


convidados, fazendo que a cena parecesse irreal. Isso não podia estar acontecendo.
Michelle não estava naquela habitação com uma mulher desequilibrada que empunhava
uma arma.

Em um brilho de imagens, Sam viu o futuro frente a ele. viu-se si mesmo


abraçando às meninas, sozinho. Passando o resto de sua vida sem ouvir a risada da
Michelle. Sem tocá-la, sem tomá-la em seus braços... Uma horrível sensação de vazio
rugiu em seu interior, e soube que não poderia suportar um futuro assim. Não podia
estar sem ela. Não ia perder a. Essa vez não.

Deu- uma cotovelada ao Suárez, mas o inspetor se limitou a negar com a cabeça
e a levar um dedo aos lábios. Como demônios podia ficar escutando, sem fazer nada?
Não se dava conta de que Michelle estava em perigo?

O pânico lhe subiu pela garganta, mas mesmo assim permaneceu imóvel.
Custou-lhe toda sua preparação de marinhe manter a calma. Não podia perder os nervos.
Terei que atuar com lógica... E não estava servindo de nada. Estava disposto a lhe dar ao
inspetor Suárez um ou dois minutos para lhe permitir ouvir o que obviamente queria
ouvir. Mas assim que Michelle estivesse em perigo, jogaria a porta abaixo embora
tivesse que passar por cima da lei.

-Você envenenou ao Ryan Fortune -disse Michelle.

Leeza sorriu.

-Bom, suponho que lhe posso contar isso depois de tudo, não vais correr escada
abaixo para difundi-lo por aí, né? -pôs-se a rir, e o som de sua risada foi como o chiado
das unhas contra uma piçarra-. Sim, fui eu. E se o velho tivesse morrido segundo o
plano, eu não estaria aqui agora, procurando caldeirinha no joalheiro.

-por que queria matá-lo? -perguntou Miranda, esperando que se Leeza seguia
falando, alguém chegaria a tempo para salvá-la.

A outra mulher fez um gesto com a pistola, lhe indicando que entrasse mais na
habitação.

-Foi idéia do Lloyd. Naturalmente, não funcionou. Esse homem nunca fazia,
nada bem.
-Não o entendo -disse Michelle, embora o entendia tudo à perfeição.

Leeza soltou um bufo e, sem deixar de olhar a Michelle, agarrou sua bolsa e o
pendurou ao ombro.

-Lloyd pensava que se Ryan morria, Miranda receberia uma grande parte do
dinheiro dos Fortune. Você mesma viu como vive essa gente. O que lhes importaria
perder uns quantos milhões? Eu verti o veneno na licoreira durante aquela festa de bem-
vinda. Não imagina quanto me ri ao ver que a polícia acusava a um dos herdeiros -sorriu
ao recordá-lo, mas o sorriso se desvaneceu em seguida e em seu lugar apareceu uma
careta de desgosto-. O plano tivesse funcionado se esse velho estúpido tivesse morrido
como estava previsto.

-Mas não morreu.

-Não -Leeza negou com a cabeça e sua loira juba oscilou ao redor de seu rosto
como as meadas de um novelo desfiado-. que morreu foi Lloyd, e eu fiquei sem nada
-voltou a encolher-se de ombros, claramente zangada-. O que pode fazer uma mulher
como eu? Não vou recuperar minha juventude, mas tenho intenção de desfrutar uns
quantos anos mais, assim tomarei o que possa e desaparecerei.

-Aonde irá? -Michelle tragou saliva e passou rapidamente a vista pela habitação,
procurando um lugar onde proteger-se de um disparo. Por desgraça, a cama não parecia
a prova de balas.

-Não tão longe como teria que ter ido -disse Leeza-. Mas uma vez que tenha
empenhado estas jóias, terei bastante para uma temporada. Assim que te tenha tirado de
no meio, sairei do povo muito antes de que alguém advirta o desaparecimento destas
cosillas.

-Miranda se dará conta em seguida -disse Michelle, sem saber se aquela replica
ajudaria ou aceleraria o fim da conversação. Entretanto, enquanto Leeza seguisse
falando, não lhe dispararia, assim falar era quão único podia fazer.

«Maldita seja, Sam, por que não me está procurando? Necessito-te».

-Miranda está tão encantada com sua nova vida que não sentirá falta umas
quantas jóias

-levantou um pouco mais a pistola e Michelle olhou o canhão-. Pergunta-a é: o


que faço contigo?

-Acredito que eu posso responder a essa pergunta -disse o inspetor Suárez


irrompendo na habitação e apontando a Leeza com uma pistola.
Sam entrou imediatamente depois, e a Michelle caso lhe falharam os joelhos
pelo alívio que a alagou.

-Maldita seja -murmurou Leeza.

-Solta a arma, Leeza -disse-lhe Suárez-. Não tem escapatória.

Leeza pareceu pensar nisso por um instante, e finalmente arrojou a pistola sobre
a cama.

-Nunca teria que ter escutado ao Lloyd -disse a ninguém em particular-. Desde
que vim ao Texas só tive má sorte.

Ao Sam voltou a lhe pulsar o coração assim que rodeou a Michelle pelos ombros
e a apertou contra ele. Abraçou-a com tanta força que temeu lhe romper uma costela,
mas, quantas vezes terei que salvar à esposa de um de uma esquizofrênica?

-Acredito que os Fortune têm uma idéia distinta sobre quem teve má sorte desde
que chegou ao povo -disse Suárez-. Deixa sua bolsa na cama e ponha as mãos à costas.

-As jóias do Miranda estão na bolsa -disse Michelle.

-Sim, sei -respondeu ele com um sorriso-. Estava escutando na porta. Ouvi-o
tudo.

-Bom, isso sim que o piora tudo -disse Leeza, e permaneceu imóvel enquanto
Suárez lhe punha as algemas.

O inspetor se levou a detida para a porta e olhou ao Sam e a Michelle por cima
do ombro.

-Necessitarei que os dois emprestem declaração.

-Amanhã? -perguntou Sam.

-Estupendo -disse Suárez-. Vamos, Leeza. Acredito que você gostará do cárcere
do Santo Antonio.

Leeza ficou a balbuciar algo incompreensível, mas ninguém lhe emprestou


atenção. Quando Michelle e Sam ficaram sozinhos, o silêncio invadiu o dormitório
como um pesado manto. Michelle aspirou seu aroma, esperando reter uma lembrança
dele que a acompanhasse sempre. Momentos antes tinha estado às portas da morte, e
agora, com o Sam abraçando-a, sentia-se mais viva que nunca.

-Não acredito que tenha estado tão assustado em toda minha vida -disse Sam.

-Eu tampouco. Menino, me alegro de verte -abraçou-o pela cintura e se deleitou


com a sensação de estar pressionada contra ele. Durante uns angustiantes minutos tinha
temido não voltar a vê-lo.
-Michelle -apartou-a o suficiente para poder olhá-la aos olhos e lhe acariciou os
maçãs do rosto com os polegares. Ela sentiu como o calor de seu tato lhe chegava até a
alma-. Michelle, quero-te. Sempre te querido -ela afogou um gemido para ouvi-lo, mas
ele não tinha acabado-. fui um cabezota e um estúpido e estive a ponto de te perder por
isso -seu olhar lhe percorreu o rosto como uma carícia-. Tinha razão no que me disse.
Renunciei a tudo o que poderíamos ter tido juntos por culpa de meu orgulho. Fui muito
orgulhoso, e muito covarde, para ir detrás de ti e te exigir uma resposta. E quando
finalmente obtive essa resposta, o orgulho voltou a interpor-se. Maldita seja, Michelle,
os dois cometemos enganos... mas isso não voltará passar.

-Sam...

-Não -interrompeu-a-, me deixe terminar. Tenho que dizê-lo. Quero que o


entenda. Quando soube que estava em perigo e que não podia chegar até ti... -negou
com a cabeça e esboçou uma meia sorriso-. Estive a ponto de dar uma surra ao Suárez
para que me deixasse entrar. Não podia pensar em nada mais que te salvar.

A Michelle lhe fez um nó no peito, e a esperança começou a brotar em seu


coração.

-Já não me importa o passado -seguiu dizendo ele-. Nem o orgulho. Só me


importa o futuro. Nosso futuro.

-Sam...

-Não me diga que não -voltou a interrompê-la-. Ao menos, ainda não. Pensa
nisso. Quero ser seu marido, Michelle. Sempre quis sê-lo. Quero que estejamos juntos.
Quero que acreditamos nas meninas, que formemos uma família, como era nosso
desejo. me dê uma oportunidade -inclinou-se e a beijou brevemente nos lábios-. Não
posso viver sem ti. Amo-te muito. me dê uma oportunidade para fazê-lo bem esta vez.
Por favor, não me diga que não.

Michelle sentiu que a felicidade lhe fervia pelas veias como as borbulhas do
champanha. Seu teimoso e orgulhoso marinhe lhe estava oferecendo uma vida a seu
lado e parecia temeroso de que ela pudesse rechaçá-lo. Tomou o rosto com as mãos e
negou com a cabeça.

-Tolo -sussurrou-. Como pode sequer pensar que te diria que não? Amo-te. E te
amarei sempre.

Ele deixou escapar um suspiro, girou o rosto em sua mão e lhe beijou a palma.

-Sempre -murmurou, e voltou a inclinar-se para selar com um beijo seu amor,
seu matrimônio e tudo o que até então tinham desejado.

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