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A INTEGRAÇÃO DO APRENDIZ I

Terminada a Cerimónia de Iniciação, começa de imediato o importante capítulo da integração do


novo Aprendiz. Em bom rigor, essa integração tem já início no decorrer da própria Cerimónia de
Iniciação. Mas disso, quase de certeza, não tem o novo Aprendiz consciência. Porventura, de tal se
aperceberá (muito) mais tarde, quando, já completamente integrado, rememorar sua vida maçónica.

A Maçonaria organiza-se essencialmente em Lojas, grupos de maçons com ampla autonomia – mas
estrita convergência de princípios -, que cooperam no aperfeiçoamento individual de cada um. A
integração de um nóvel Aprendiz na Maçonaria corresponde, assim, à integração na Loja que o
acolhe, no grupo de que passa a ser mais um participante.

Essa integração ocorre mediante um processo com dois sentidos: depende do esforço e da actuação
da Loja perante o novo Aprendiz, mas também só é bem sucedida através da conduta e do
posicionamento deste em relação à Loja.

Ao integrar um novo elemento, desconhecedor de muitas das idiossincrasias da realidade a que se


juntou, a Loja, enquanto grupo, e cada um dos seus obreiros, individualmente, devem ter presente
que essa transição é um processo de delicado equilíbrio: o novo elemento tem a categoria de
Aprendiz, em sinal de que muito tem de aprender, no confronto e com o apoio dos mais antigos,
mas deve ser, só pode ser, é, tratado num plano de estrita Igualdade com os demais membros da
Loja; o novo Irmão é recebido com toda a afabilidade e familiaridade, mas deve ser, só pode ser, é,
tratado com pleno e integral respeito da sua personalidade, da sua privacidade; o novo Aprendiz
passa a dispor de um método de formação, de uma panóplia de conhecimentos, de um conjunto de
ensinamentos e valores que lhe são relembrados, mas deve ser, só pode ser, é, respeitado na sua
individualidade, nas suas escolhas, no seu pensamento, tudo se lhe facultando, nada se lhe impondo.

A integração de um novo elemento numa Loja não ocorre através do ensino àquele do que esta é;
processa-se através da aprendizagem por ele dessa realidade. A Maçonaria não se ensina – aprende-
se! Em Maçonaria, nada se impõe, tudo, desde que conforme aos seus princípios essenciais, se
aceita. Em Maçonaria, não há interpretações ou pensamentos certos ou errados, e muito menos
únicos. Em Maçonaria o pensamento individual, a crença de cada um, são integralmente respeitados
e a diversidade é encarada como uma riqueza para o conjunto. A integração de um novo maçon na
Loja, consequentemente, é um processo que deve ser, só pode ser, é, efectuado no pleno respeito da
individualidade, da personalidade, das características, do novo elemento. Individualidade,
personalidade e características que, juntando-se às que já existem no grupo, o enriquecem, o
fortalecem, o diversificam, enfim, o melhoram.

Os maçons gostam de dizer que a Maçonaria pega em homens bons e fá-los melhores. Mas a
inversa também é verdadeira: a integração bem feita, no respeito da individualidade do novo
elemento, no grupo, na Loja, faz com que esse homem bom torne a Maçonaria melhor! Qualquer
dessas melhorias ocorre naturalmente: não é a Loja que melhora o novo maçon – é este que se
aperfeiçoa, no confronto com seus pares, com os princípios morais com que mais assiduamente se
depara; a Loja, por seu turno, enriquece-se, melhora, cresce, qualifica-se, em função das melhorias,
dos aperfeiçoamentos, de todos os seus elementos, recentes e mais antigos, quaisquer que sejam os
seus graus e qualidades. Gera-se assim um círculo virtuoso em que o indivíduo beneficia do grupo
para se aperfeiçoar e aperfeiçoa o grupo em virtude da sua própria melhoria.

A integração de um novo Aprendiz não é, assim, um mero processo de enquadramento. É uma


verdadeira essencialidade da Loja. A integração do novo Aprendiz é o fermento que faz crescer a
valia do grupo, é o cimento que liga a Loja, é o mastique que confere flexibilidade ao conjunto.

Uma Loja demasiado tempo sem Aprendizes é uma Loja estéril, um grupo sem perspectivas de
futuro risonho. Será porventura constituída por muito Sabedores Mestres, por Fortes
temperamentos, mas faltar-lhe-á a Beleza do acompanhamento dos esforços de quem ainda só sabe
soletrar a Maçonaria, o estímulo dos seus progressos, a lembrança de que o esforço de
aprendizagem, de aperfeiçoamento, não acaba com a ascensão à Mestria, não cessa com a
experiência, não acaba com a antiguidade.

A integração bem feita de um novo Aprendiz não é, pois, apenas importante para este: é
intrinsecamente uma necessidade vital da Loja. É por isso que nenhuma Loja maçónica se pode dar
ao luxo de não providenciar pela correcta integração dos seus Aprendizes, não pode cometer o
desperdício de os abandonar à sua sorte e aos acasos do seu desacompanhamento. E, se porventura,
se der a esse luxo, se cometer esse desperdício, virá a pagar bem caro esse desmazelo!

Uma Loja maçónica não vive só para os seus Aprendizes, mas vive também, e muito, para eles.
Porque o esforço de acompanhamento destes cimenta a unidade do grupo; porque a formação destes
melhora a do grupo; no fundo, porque não são só os Aprendizes que aprendem com a sua Loja –
esta também aprende, e muito, com aqueles.

In Blog “A Partir Pedra” – Texto de Rui Bandeira (03.10.07)

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