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AUTOCURA E EVOLUÇÃO

A METÁFORA DO CÂNCER PLANETÁRIO

Filipe Freitas
2
A Aurora.
2
AGRADECIMENTOS

Agradeço os pensadores, educadores, cientistas e artistas que vêm contribuindo para a


efetivação de uma nova percepção emancipatória para a humanidade;
Agradeço à minha mãe, Maria Cristina Freitas Castro de Melo Carvalho, pelo amor e por todo o
“background” ao longo dos meus 31 anos de vida;
Agradeço ao meu pai, Antônio Cândido de Melo Carvalho, que, desde as estrelas, me orienta com
seu discernimento, integridade e senso de justiça;
Agradeço à minha avó Maria Ignez de Melo Carvalho, referência maior de dedicação, serenidade
e paz de espírito;
Agradeço à minha família pelo ambiente criativo que me foi proporcionado ao longo de minha
formação;
Agradeço aos meus primos Alberto e Paulo Freitas Castro Fonseca, pela visão crítica e pelo ponto
de equilíbrio em longas reflexões ao longo dos últimos anos;
Agradeço a José Henrique Porto Silveira e toda a equipe da Alternativa Educação e Manejo
Ambiental, pelo ambiente favorável ao trabalho e à pesquisa, possibilitando-me a oportunidade
de estar junto às comunidades humanas, atestando o potencial de cura através de processos
educativos;
Agradeço a Caetano Scoralick Magalhães pela firme parceria e pelo grande incentivo ao meu
potencial;
Agradeço aos meus amigos e amigas que ouviram atentamente minhas conjecturas e meus
esboços do argumento que aqui apresento, oferecendo-me valiosas considerações para o
aprimoramento das idéias chaves do texto;
Agradeço ao meu orientador, Prof. Geraldo Tadeu, pela paciência e incentivo ao longo de todo o
processo;
Agradeço aos meus colegas da Turma 13 do Curso de Especialização em Educação Ambiental do
CEPEMG, pelas férteis discussões que travamos ao longo de tantos sábados de trabalho;
Agradeço a Rolando Toro e Liliana Viotti por me apresentarem a Biodança;
E por fim agradeço às crianças de todas as partes por me prover do amor natural que é o
fundamento do ser humano e a chave para a transformação do nosso padrão cultural.

F.F.
maio de 2006

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“Lembremo-nos
que vivemos em um tempo excepcional, em uma época única,
e que temos essa grande felicidade, esse incalculável privilégio,
de estarmos presentes ao nascimento de um novo mundo”.

Sri Aurobindo

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO....................................................................................................15
1. A TERRA COMO UMA HOLARQUIA ................................................................25
1.1 Autonomia e Holonomia como Polaridades Complementares................................25
1.2 A Visão de Mundo Excessivamente Orientada pelos Princípios Norteadores do
Masculino........................................................................................................29
2. AUTOCRIAÇÃO, A ESSÊNCIA DOS SISTEMAS VIVOS.......................................35
3. A AUTOPOIESE DO SISTEMA DE GAIA...........................................................43
4. A METÁFORA DO CÂNCER.............................................................................50
5. A DINÂMICA DO TUMOR...............................................................................55
6. A DIMENSÃO EMOCIONAL DO CÂNCER..........................................................73
7. PERSPECTIVA DE CURA................................................................................82
8. VISÃO SISTÊMICA COMO CENÁRIO COGNITIVO PARA A RESTAURAÇÃO
PLANETÁRIA..............................................................................................98
8.1 Uma nova concepção de mente....................................................................103
8.2 Ecologia Profunda......................................................................................107
8.3 Princípio Biocêntrico..................................................................................109
8.4 Aprendizado de Gaia..................................................................................111
8.5 Sustentabilidade........................................................................................112
9. TEMPO DE DOENÇA E TEMPO DE MORRER..................................................115
10. CONCLUSÃO.............................................................................................120
NOTAS............................................................................................................127
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................133

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INTRODUÇÃO

Este trabalho de pesquisa tem como objetivo fundamental contribuir na


formação de agentes de restauração planetária, buscando a incorporação de uma nova
lógica que possa reger os esforços de reação da sociedade humana no processo de
superação do agudo desequilíbrio causado pelo seu próprio padrão cultural e modelo de
desenvolvimento.
Espera-se que, a partir de uma percepção centrada na biosfera – e não na
espécie humana como ápice da pirâmide evolutiva –, grupos de mobilização e serviço
planetário possam se nutrir de perspectivas cognitivas capazes de efetivamente nos
auxiliar na concatenação dos esforços de superação da atual crise ecológica.
Nossa trajetória evolutiva apresenta um ponto de bifurcação de magnitude sem
precedentes. Atualmente estamos perdendo o jogo contra os atos de devastação da
natureza perpetrados pelos impulsos patológicos de nossa cultura de consumo
insaciável.
Superpopulação, tecnologia industrial poluente, doenças da civilização
(cardiopatias, câncer, derrames), doenças mentais (esquizofrenia, depressão),
acidentes, suicídios, crimes violentos, desemprego, alcoolismo, toxicomania,
esgotamento energético, catástrofes ambientais, exploração incontrolada dos recursos
naturais, contaminação das águas, aquecimento global, devastação de ecossistemas,
definhamento e morte dos solos. Chegamos a um momento crítico, em que
constatamos, diante de gigantescos arsenais nucleares, que a espécie humana, vista
como parte integrante do sistema terrestre, um tecido do Sistema de Gaia∗, vive uma
crise profunda, com nítido potencial de auto-aniquilação.


Sistema de Gaia é a denominação que será utilizada para se referir ao biossistema auto-regulador e auto-
mantenedor da Terra, identificado por James Lovelock e Lynn Margulis, no qual toda a gama de organismos
viventes e também o ar, os oceanos e a superfície terrestre se integram e se unificam em laços de
realimentação. Vista a partir dessa perspectiva, a Terra parece funcionar como um superorganismo
planetário vivo, capaz de ajustar e corrigir ininterruptamente os seus processos químicos, físicos e
biológicos, a fim de conservar as condições ideais para a vida e para a sua contínua evolução. Cf.
THOMPSON (2000), MARGULIS e SAGAN (2002), CAPRA (1997), RUSSELL (1991), SAHTOURIS (1998).

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A proposta deste trabalho, diante de sintomas evidentes, é apresentar, em
forma de analogias sistêmicas, as nítidas relações entre o padrão de organização da
humanidade inserida na biosfera, na atualidade, e o padrão do câncer no organismo
humano. Em síntese, o que se propõe é que identifiquemos as valiosas lições que a cura
do câncer no indivíduo nos traz para a orientação dos nossos esforços de superação da
crise planetária.
Fomenta-se uma compreensão sistêmica focada na unicidade da vida do
Sistema de Gaia, entendendo-se a crise por um viés geobiológico. Pode-se enxergar o
conjunto de idéias deste trabalho como uma espécie de diagnóstico, uma tomada de
consciência capaz de mobilizar o sistema emocional das pessoas no sentido de constituir
uma coalizão no âmbito da sociedade para efetivar um eficaz processo de cura.
Sustenta-se que, se seguirmos justificando os processos deletérios atuais a
partir de uma perspectiva antropocêntrica, ou seja, centrada no ser humano como a
“espécie rainha”, controladora de toda a natureza, é provável que permaneçamos
imobilizados em nosso próprio olhar autocentrado, divididos em facções que defendem
seus próprios pontos de vista, enquanto que os recursos biológicos e geológicos do
planeta continuam a ser carcomidos em um ritmo cada vez mais rápido.
A hipótese de um câncer planetário não é, em absoluto, uma novidade. Um
número significativo de cientistas e artistas já aventou essa hipótese e este trabalho
deverá se basear nessas visões para justificar esse isomorfismo∗ e, assim, buscar
processos de regeneração e vivificação, através de novos cenários cognitivos que visam
fortalecer o sentimento de autocura da humanidade e, conseqüentemente, do Sistema
de Gaia. Como afirma Peter Russell,

“A analogia com o câncer não pode ser ignorada. A civilização moderna


parece estar carcomendo indiscriminadamente a superfície do planeta,
consumindo em décadas recursos minerais que a própria Gaia herdou
bilhões de anos atrás. Ao mesmo tempo, a humanidade ameaça


Isomorfismo é um conceito que diz respeito a princípios ou propriedades gerais que aparecem em
diferentes disciplinas científicas. Tal conceito também pode ser utilizado na identificação de padrões
semelhantes encontrados em sistemas de complexidades diferentes. Cf. ESTEVES DE VASCONCELLOS
(2002), pág 196.

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destruir a estrutura biológica que levou milhares de anos para ser
criada (...) De fato, uma fotografia aérea de qualquer grande metrópole
com seus subúrbios espraiados lembra muito o modo como certos
cânceres crescem no corpo humano. A civilização tecnológica realmente
assemelha-se a um virulento tumor maligno que devora cegamente a
sua própria hospedeira ancestral num ato egoísta de consumpção” . 1

A contribuição primordial deste texto é, possivelmente, alimentar a perspectiva


de enxergarmos a metáfora do câncer do Sistema de Gaia não como um fato mórbido
ou gerador de desencanto pela vida. Mas, ao contrário, um processo necessário,
fundamental para que, a partir do reconhecimento emocional da enfermidade, tomemos
atitudes eficazes para a superação do distúrbio.
Da mesma forma que um ser humano que desenvolve um tumor maligno em
seu organismo precisa de um diagnóstico para iniciar o processo de cura, sustenta-se
que o biossistema planetário também precisa desse diagnóstico para que ações efetivas
de restauração do equilíbrio do Sistema de Gaia sejam tomadas.
E, como desdobramento desse diagnóstico, será apresentado, em linhas gerais,
um cenário cognitivo capaz de fortalecer o sentimento de autocura no âmago da
sociedade. Tal percepção da realidade visa contribuir para o processo de reorientação
dos modos humanos de forma a restaurar o senso de holonomia∗ perdido quando da
ascensão do pensamento antropocêntrico e individualista ocorrido nos últimos milênios.
Para se lograr alcançar tais objetivos, este trabalho de pesquisa foi dividido em
nove capítulos, além de uma conclusão.


Holonomia se refere à regra do todo mais amplo no qual um sistema está inserido e depende dele para
existir. Algo como “uma tendência integradora”, ou “uma transcendência de si mesmo” que precisa ser
equilibrada com o autogoverno, ou a autonomia. Este conceito será aprofundado adiante. Cf. SAHTOURIS
(1998), pág. 57 e BOHM (2001), pág. 209 e 210.

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O primeiro capítulo, intitulado “A TERRA COMO UMA HOLARQUIA”,∗ é
subdividido em duas partes. A primeira sub-parte, “Autonomia e Holonomia como
Polaridades Complementares”, visa alicerçar o trabalho a partir da noção chinesa de
opostos complementares – yin e yang – definindo assim uma estrutura conceitual
coerente para introduzir a perspectiva da autonomia e da holonomia como polaridades
complementares que encerram em si o padrão de equilíbrio dinâmico característico do
processo evolutivo da vida.
A segunda sub-parte, “Visão de Mundo Excessivamente Orientada pelos
Princípios Norteadores do Masculino”, propõe uma leitura do processo evolutivo da
espécie Homo sapiens de forma a caracterizar o surgimento, nos últimos milênios, de
uma visão de mundo excessivamente orientada pelo pólo arquetípico yang, cujas
características – racionalidade, competição, expansão e auto-afirmação – engendraram
um quadro de desequilíbrio estrutural que levou a humanidade a se fechar em si
mesma, a se colocar como o topo da criação e assumir uma postura de “dona da terra”,
subjugando todos os outros seres aos seus próprios desejos e objetivos.
Esse primeiro capítulo visa contextualizar o surgimento desse padrão cultural da
espécie humana de forma a identificá-lo como a própria estrutura motriz do padrão
isomórfico ao câncer no âmbito do planeta. Aproveita-se esta contextualização para
reforçar a compreensão da efemeridade da espécie humana em relação ao processo
evolutivo da Terra e também de salientar que todos os parâmetros que utilizamos para
definir nossas verdades e nossos métodos organizacionais são muito pontuais e não
podem ser vistos como verdades objetivas.
Os capítulos 2 e 3, intitulados “AUTOCRIAÇÃO, A ESSÊNCIA DOS SISTEMAS
VIVOS” e “A AUTOPOIESE DO SISTEMA DE GAIA”, buscam descrever o planeta como
uma unidade viva, valendo-se da Teoria de Gaia e da Teoria da Autopoiese. Todo o
raciocínio deste trabalho de pesquisa se baseia em características de sistemas vivos.
Faz-se essencial, portanto, que o leitor consiga compreender o planeta como um
biossistema auto-regulador, uma totalidade integrada que se auto-organiza e apresenta


Holarquia é um conceito cunhado por Arthur Koestler que significa a coexistência de seres menores em
totalidades maiores. A palavra criada por Koestler é isenta de implicações de superioridade, ou de que um
dos componentes da holarquia controle os outros de algum modo. Cf. MARGULIS e SAGAN (2002), pág. 24
e KOESTLER (1981), pág 48.

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os mesmos princípios de organização dos organismos vivos que a compõem, bem como
das células que compõem estes organismos vivos.
Depois de definirmos a Terra como um sistema auto-organizador, adentramos o
domínio do câncer propriamente dito, primeiramente delimitando os domínios de
linguagem através dos quais percorreremos esse caminho. O capítulo 4 “A METÁFORA
DO CÂNCER” visa esclarecer o caráter metafórico de todas as analogias sistêmicas e
isomorfismos apresentados ao longo do trabalho. A intenção é construir imagens
reconhecíveis que permitam a visualização global a partir de um eixo biocêntrico,
buscando transcender os enfoques atuais carregados de valores morais.
Em suma, busca-se uma linguagem unificadora para gerar compreensão de
processos similares em sistemas de complexidades muito diferentes. Entretanto, é de
especial importância que nenhuma analogia presente neste trabalho seja confundida
com a realidade objetiva. A geofisiologia, em cujo domínio podemos encaixar este
processo de identificação do câncer planetário, ainda é uma ciência nascente, incapaz
de gerar conclusões alicerçadas por evidências ontológicas.
Portanto, é crucial que se entenda a natureza metafórica destas analogias e
que elas sejam vistas como instrumentos cognitivos capazes de trazer à consciência
coletiva humana os patamares mortíferos de autodestruição ocasionados pelos modelos
políticos e econômicos praticados na atualidade, visando comover os indivíduos para a
necessidade de participação neste processo de transformação cultural.
Compreendida a linguagem a ser utilizada no trabalho, focamos a atenção nas
analogias existentes entre a dinâmica do câncer em um indivíduo e o padrão cultural e
econômico da sociedade humana no Sistema de Gaia. O capítulo 5 “A DINÂMICA DO
TUMOR” visa estabelecer e delinear os paralelos entre a doença em uma pessoa e a
situação planetária atual. A partir das particularidades fisiológicas das células cancerosas
em um tecido humano, podemos construir padrões isomórficos consistentes no cerne do
comportamento da humanidade no contexto planetário.
O capítulo 6, “A DIMENSÃO EMOCIONAL DO CÂNCER”, visa analisar os
procedimentos médicos mais eficazes no tratamento do câncer na atualidade, de forma
que possamos compreender os estreitos vínculos emocionais da doença. Neste capítulo,
serão analisados os trabalhos de Lawrence LeShan; James Creighton, Stephanie e Carl
Simonton; e Wilhelm Reich, de forma que se torne clara a relação entre o estado

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emocional do paciente e o surgimento e superação da doença. Dar-se-á uma atenção
especial a um tipo específico de estresse emocional como fator de extrema relevância no
surgimento do câncer: a perda da esperança de viver a vida da forma como ela é
sonhada.
O capítulo propõe um caminho circular de reflexão, associando conceitos de
estresse emocional, enfraquecimento dos mecanismos de defesa do corpo, substâncias
potencializadoras do câncer, neuroses sexuais e cultura repressiva. Procura-se
demonstrar que tais conceitos se remetem tanto à situação de um indivíduo acometido
pela doença, como que para toda a humanidade e sua relação com a biosfera, buscando
a verificação de que a dimensão emocional do câncer encontra paralelos significativos
na trajetória histórica dos seres humanos.
O capítulo 7, intitulado “PERSPECTIVAS DE CURA”, vem mostrar como os
tratamentos atuais estão conduzindo os pacientes em direção à cura a partir de um
trabalho de orientação e avivamento emocionais dos seus organismos, de forma que
fortaleçam seus sistemas imunológicos e possam superar a enfermidade.
Ao se descrever esses caminhos de cura no âmbito do indivíduo, traçam-se
paralelos que nos auxiliem na construção de planos de ação que se utilizem dos mesmos
princípios dos tratamentos e possam incorporar estratégias transdisciplinares no âmbito
social e ecológico. Espera-se mostrar com clareza as valiosas lições da superação do
câncer no indivíduo para nos orientarmos rumo a uma nova cultura planetária.
Estabelecidos estes paralelos, que se configuram como a base fundamental de
todo o raciocínio aqui apresentado, no capítulo 8, “VISÃO SISTÊMICA COMO CENÁRIO
COGNITIVO PARA A RESTAURAÇÃO PLANETÁRIA”, procura-se apresentar algumas das
profundas mudanças de percepção necessárias ao encaminhamento efetivo de novos
arranjos sociais capazes de criar uma nova cultura de integração e parceria, restaurando
o senso de holonomia da humanidade em relação ao Sistema de Gaia. Nesse ponto são
reunidas cinco dimensões cognitivas que se realimentam na constituição de uma nova
forma de pensamento. Uma nova concepção de mente, a ecologia profunda, o princípio
biocêntrico, o aprendizado de Gaia e a noção de sustentabilidade são apresentados
como premissas cognitivas que trazem consigo um grande potencial regenerativo e dão
sustentação ao pensamento sistêmico como alicerce a uma nova cultura caracterizada
por integração e equilíbrio dinâmico entre humanidade e natureza.

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O capítulo 9, “TEMPO DE DOENÇA E TEMPO DE MORRER”, busca trazer a
reflexão em torno do atual estágio da enfermidade do planeta, engendrando
considerações em torno da perspectiva de ação em nosso contexto atual. Estaremos
ainda no tempo de doença, em que os esforços são todos orientados para a cura? Ou
estaremos no tempo de morrer, em que devemos nos orientar para nos proporcionar o
fim mais digno possível, tendo em vista a impossibilidade da cura? Este trabalho de
pesquisa se posiciona na crença de que ainda vivemos o tempo de doença e que
existem formas viáveis de transformação cultural capazes de encaminhar os indivíduos,
comunidades e instituições à efetivação de uma nova cultura planetária.
Por fim, apresenta-se uma conclusão que traz reflexões em torno da própria
natureza do texto, aponta desdobramentos que emergem a partir deste raciocínio e
identifica a essência do trabalho como um esforço na busca de reconexão com o ser
planetário vivente.
Por se tratar de um trabalho acadêmico sem uma orientação efetiva que
direcione o trabalho dentro de uma linha de pesquisa sólida, em algumas passagens da
estrutura discursiva o leitor poderá notar certa superficialidade nos argumentos,
principalmente no que diz respeito à fisiologia do câncer e seus desdobramentos a partir
das ciências médicas. Espera-se, contudo, que as evidências apresentadas em forma de
isomorfismos possam abalizar o estudo e superar algumas dificuldades de pesquisa.
O trabalho também parece carecer de uma maior utilização de fontes primárias,
tendo em vista que sua construção se deu, preponderantemente, a partir de trabalhos
de síntese, obras cuja função é reunir informações oriundas de vários trabalhos
disciplinares de análise científica de forma a compor cenários paradigmáticos.∗
Tais obras incorporam várias teorias e fazem uma leitura dessas estruturas
conceituais de forma que o leitor possa ter uma visão ampla do assunto, sem, contudo,
se aprofundar em pormenorizações, cuja importância se dá principalmente no âmbito
dos especialistas.


Utiliza-se o conceito de paradigma no sentido em que KUHN (1987) propõe como sendo os pressupostos
nem sempre explicitados nas formulações de teorias que estabelecem crenças e valores sobre o mundo,
subjacentes à prática científica, que fundamentam os modelos e fornecem analogias e metáforas
apropriadas ao compromisso com os valores compartilhados pelas comunidades de cientistas.

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Tomo como referência o livro “O Ponto de Mutação”, de Fritjof Capra, ao qual
considero um marco epistemológico e cujas idéias influenciaram decisivamente este
trabalho. Em sua introdução, Capra diz o seguinte:

“Nosso exame abrange uma gama muito ampla de idéias e fenômenos, e


estou perfeitamente cônscio de que a apresentação das conquistas
detalhadas em vários campos será fatalmente superficial, dadas as
limitações de espaço e tempo e de meus conhecimentos. Entretanto, ao
escrever o livro, acabei por ficar fortemente convencido de que a visão
sistêmica que nele defendo aplica-se também ao próprio livro. Nenhum
de seus elementos é realmente original, e muitos deles podem estar
representados de um modo um tanto simplista. Mas a maneira como as
várias partes estão integradas no todo é mais importante do que as
próprias partes. As interconexões e interdependências entre os
numerosos conceitos representam a essência de minha própria
contribuição. Espero que o resultado, no seu todo, seja mais importante
do que a soma de suas partes.” 2

Sem comparar os trabalhos, com dimensões de pesquisa bastante diferentes,


acredito que a contribuição deste raciocínio deverá seguir um caminho semelhante à do
livro “O Ponto de Mutação”. Espero que o todo seja mais importante que suas partes e
que as lacunas metodológicas possam ser transcendidas pela compreensão da idéia-
matriz do trabalho: a busca por um arcabouço conceitual de perspectiva ecológica para
a constituição de planos de ação pragmáticos visando a superação da crise ecológica e,
consequentemente, do desafio evolutivo de vasta magnitude que temos enfrentado.
Por fim, para iniciarmos o trabalho propriamente dito, vale ressaltar que, por se
tratar de um tema de natureza transdisciplinar, este trabalho de pesquisa está
fundamentado, em grande medida, a partir de referências bibliográficas cujos
pressupostos da complexidade, da instabilidade e da intersubjetividade estão presentes
como matrizes epistemológicas.3
Como diz J. M. Keynes, citado em Esteves de Vasconcellos (2002), “a
elaboração de novas idéias depende da libertação das formas habituais de pensamento

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e expressão. A dificuldade não está nas novas idéias, mas em escapar das velhas, que
se ramificam por todos os cantos da nossa mente”.
A adoção desses pressupostos implica em alterações na forma de condução da
narrativa científica. A incerteza, o paradoxo e a metáfora vêm substituir a exatidão, a
lógica racional restrita e o formalismo da linguagem determinística. Essa mudança de
perspectiva não significa que devamos “trocar fatos por fantasia, nem rigor por
imaginação”.4 Ou seja, essa mudança de pressupostos não exigirá o abandono dos
procedimentos científicos, mas sim a superação de algumas limitações intrínsecas aos
conceitos e métodos que até então se utilizava.
Por mudar o seu paradigma, a ciência não está deixando de ser científica ou se
confundindo com outros domínios de explicações, mas sim, como diz Ilya Prigogine e
Isabelle Stengers, “se compatibilizando com os processos complexos que constituem o
mais familiar dos mundos, o mundo natural onde evoluem os seres vivos e suas
sociedades”.5

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1. A TERRA COMO UMA HOLARQUIA

1.1 Autonomia e Holonomia como Polaridades Complementares

Para iniciarmos o trabalho, deveremos delinear uma visão coerente do Planeta


Terra como uma unidade viva, um superorganismo que tem na fisiologia a disciplina
mais apropriada para estudar seu corpo geobiológico.∗
Ao fundamentarmos essa visão orgânica do planeta, espera-se uma
transformação radical da visão corrente que induz a apreciação da Terra como um
simples habitat, como uma estrutura inanimada, composta de rochas, água, ar,
meramente habitada por inúmeros seres vivos independentes que vivem em luta
constante por sobrevivência.
Essa percepção do planeta formado por partes dissociadas está no cerne do
nosso comportamento deletério. Desenvolvemos uma visão de mundo cujo centro é nós
mesmos. Tudo ao redor existe para nos prover daquilo que necessitamos. O ambiente e
os outros seres estão aí como recursos, meramente.
A visão de Gaia a ser descrita devolve-nos uma compreensão que
provavelmente esteve presente por tempos extensos nas sociedades primitivas, quando
os grupos humanos mantinham uma visão sagrada em relação à Terra e seus seres.∗∗
Enxergar a Terra como um superorganismo devolve-nos a noção de holarquia,
ou seja, sistemas aninhados em outros sistemas, cujas relações não são tomadas de
conotações de superioridade, maior importância ou controle de um sistema sobre o
outro. Cada unidade distinguida é um hólon, uma totalidade que também funciona como
parte. Cada hólon tem simultaneamente a autonomia – em grego, ‘autogoverno’ – de


Um dos primeiros cientistas a desenvolver um raciocínio que unificava a dimensão geológica e a dimensão
biológica do planeta foi o russo Vladimir Ivanovich Vernadsky (1863-1945). Ele chamou tanto os organismos
quanto os minerais de “matéria viva” e mostrou o que chamou de “ubiqüidade da vida”, ou seja, a
penetração quase completa e o envolvimento da “matéria viva” nos processos aparentemente inanimados
das rochas, das águas e do vento. Ver MARGULIS e SAGAN (2002), pág. 61 e ss.; e SAHTOURIS (1998),
pág. 71.
∗∗
Cf. EISLER (1989). O Cálice e a Espada é um trabalho valioso para a compreensão dos estágios anteriores
da evolução humana marcados por sociedades igualitárias. Em sua síntese, Eisler se orienta a partir das
descobertas arqueológicas para traçar um panorama abrangente da civilização.

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um todo e a dependência de uma parte, uma vez que está implantado em hólons mais
amplos, dos quais depende para existir.1
Por depender do sistema mais amplo, que se configura como seu ambiente, o
hólon deve conter em si uma tendência integradora; deve, como colocou Arthur
Koestler, “transcender a si mesmo”. Por conseguinte, o hólon em questão deve se
apropriar das determinações estruturais de seu ambiente e estabelecer um ritmo
adequado à fenomenologia do hólon mais amplo do qual faz parte. Essa tendência
integradora é o que chamamos holonomia.
Dessa forma, o hólon se orienta a partir de um equilíbrio dinâmico entre duas
polaridades complementares: autonomia e holonomia.
Essas duas tendências holárquicas podem ser relacionadas com a estrutura
desenvolvida no “I CHING” chinês, ou “O Livro das Mutações”, um dos mais antigos
livros de sabedoria da humanidade. O I CHING baseia-se na idéia de contínua flutuação
cíclica que envolve a noção mais ampla de dois pólos arquetípicos – yin e yang – que
sustentam o ritmo fundamental do universo.*
Os filósofos chineses viam a realidade, cuja essência primária chamaram TAO,
como um processo de contínuo fluxo e mudança. Todos os fenômenos são dinâmicos,
estão em movimento mediante a interação dos dois opostos yin e yang que fixam os
limites para os ciclos de mudança: “Tendo o yang atingido seu clímax, retira-se em favor
do yin; tendo o yin atingido o seu clímax, retira-se em favor do yang”.2
Fritjof Capra faz uma bela análise dos caminhos históricos e significados dos
pólos yin e yang em seu livro “O Ponto de Mutação”, estabelecendo íntima relação dessa
visão chinesa – de um universo dinâmico em constante mudança através da flutuação
de dois opostos complementares – com o fluir da nossa cultura e nossas transições
sociais:

*
Existe, no âmbito científico, uma intensa resistência em se incorporar conceitos oriundos de tradições e/ou
filosofias místicas por se temer uma distorção do pensamento científico e sua metodologia peculiar.
Utilizaremos a terminologia chinesa do yin e yang como pólos arquetípicos que sustentam o ritmo
fundamental do universo a partir de trabalhos científicos tais como o de Manfred Porkert (apud CAPRA,
1986) que os interpreta à luz da medicina chinesa, e o de YAN, Johnson F. (2004), que traça
surpreendentes paralelos entre a estrutura do I CHING e seus hexagramas baseados nas relações entre o
yin e o yang e as seqüências de proteínas do DNA, aclarando as implicações matemáticas e científicas da
terminologia taoísta dos opostos complementares.

20
“É importante, e muito difícil para nós, ocidentais, entender que esses
opostos não pertencem a diferentes categorias, mas são pólos extremos
de um único todo. Nada é apenas yin ou apenas yang. Todos os
fenômenos naturais são manifestações de uma contínua oscilação entre
os dois pólos (…) A ordem natural é o equilíbrio dinâmico entre o yin e o
yang” .3

Ao longo da trajetória do pensamento chinês, os dois pólos arquetípicos yin e


yang nunca foram associados a valores morais. Aquilo que é considerado benéfico não é
vinculado ao yin ou ao yang. O equilíbrio dinâmico entre os dois é que pode ser visto
como algo benigno e, conseqüentemente, o que é maligno ou nocivo é o desequilíbrio
entre os dois pólos complementares.
Desde os tempos mais remotos da cultura chinesa o yin está associado ao
feminino e o yang ao masculino. Essas relações foram interpretadas pelo ocidente de
forma errônea, ao definir o feminino pertencente às mulheres e o masculino pertencente
aos homens.
Quando penetramos no domínio da biologia humana, podemos perceber
claramente que as características masculinas e femininas não estão nitidamente
separadas, mas ocorrem, em proporções variáveis, em ambos os sexos. Os chineses
acreditavam que todas as pessoas, homens e mulheres, passavam por fases yin e yang
ao longo de seu desenvolvimento, sendo que cada personalidade não é uma entidade
estática, mas a interação dinâmica entre os pólos feminino e masculino.
Capra segue analisando os padrões complementares desmistificando a
associação ocidental do yin e do yang como sendo um passivo e outro ativo,
relacionando essa visão aos modelos patriarcais que se utilizaram da atividade do
masculino yang e da passividade do feminino yin para manter as mulheres num papel
de subordinação e subserviência em relação aos homens.
Apresenta, por conseguinte, uma interpretação que coloca o yin como
correspondente às atividades integrativas, consolidadoras, cooperativas, intuitivas; e o
yang às atividades auto-afirmativas, expansivas, competitivas e racionais. E completa:
“a ação yin tem consciência do ambiente e a ação yang está consciente do eu. Em

21
terminologia moderna, poderíamos chamar à primeira ‘eco-ação´ e a segunda ‘ego-
ação’”.4
Nesse ponto podemos introduzir as noções de autonomia e holonomia como
dimensões complementares que interagem através dos pólos arquetípicos yin e yang.
Podemos sugerir que a autonomia é a dimensão yang das relações holárquicas, tendo
em vista a auto-afirmação, a preservação do eu, caracterizadas pela ação masculina,
agressiva e competitiva. Em contrapartida, a holonomia é o pólo yin, integrativo, cuja
compreensão ambiental é enfatizada e a noção do eu é contraída para se dar ênfase ao
todo, sustentando-se uma ótica cooperativa.
Vale ressaltar que, como descrito acima, nada é somente yin ou somente yang,
mas estão em constante ritmo flutuante através dos opostos complementares.
Outra observação importante é não conceber o yang, o ego, a competição e a
auto-afirmação como, por si mesmos, nocivos, ruins, ou negativos. Diferentemente da
interpretação ocidental preponderante, não existe um pólo caracterizado como o mal e
um pólo caracterizado como o bem. É o equilíbrio entre os dois que faz emergir o bem,
ao passo que o que se faz nocivo é o desequilíbrio entre o pólo yang e o pólo yin, como
veremos agora.

22
1.2 Visão de Mundo Excessivamente Orientada pelos Princípios
Norteadores do Masculino

A espécie Homo sapiens, vista como um hólon, desenvolveu, ao longo dos


últimos milênios, uma visão de mundo patriarcal (voltada para o domínio dos homens
sobre as mulheres), antropocêntrica (voltada para sua auto-afirmação), competitiva
(voltada para a expansão), individualista (voltada para o ego). Todas essas dimensões
tendem ao pólo arquetípico yang, desequilibradamente. Nos últimos milênios, a espécie
desenvolveu uma visão da vida excessivamente masculina, em uma estrutura de
distinção cognitiva que nos levou a perder a holonomia em relação ao sistema mais
amplo do qual somos componentes: o Planeta Terra.
Esse desequilíbrio arquetípico da espécie veio ao longo dos séculos
aumentando a importância da racionalidade em detrimento da dimensão intuitiva do
conhecimento, determinando o modelo competitivo de existência e asfixiando o intuito
cooperativo nas sociedades. Essa visão excessivamente yang foi responsável pelo ritmo
frenético de expansão da humanidade e introduziu, no âmago do nosso comportamento,
a noção prevalecente de hierarquias existenciais, em detrimento da visão holárquica da
vida.∗
A partir dessa visão de mundo, os seres humanos se colocaram no topo da
pirâmide evolutiva. Como exemplo clássico desta visão, cita-se a Bíblia judaico-cristã, as
escrituras sagradas mais acessadas de todos os tempos, que, logo em seu livro inicial,
“Gênesis”, apresenta o ser humano ocupando um lugar especial no plano divino: “Sede
fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e dominai-a. Sede o medo e o pavor de todos
os animais da terra e de todas as aves do céu, como de tudo o que se move na terra e
de todos os peixes do mar: eles são entregues nas vossas mãos. Tudo o que se move e
possui vida vos servirá de alimento, tudo isso eu vos dou, como vos dei a verdura das
plantas”.5


É importante diferenciar as hierarquias funcionais, profundamente difundidas na natureza, que não
pressupõem níveis de importância nem relações de subordinação e controle; das hierarquias existenciais,
típicas da civilização humana, que impõem ordens rígidas verticalizadas, nas quais o grupo que se posiciona
no alto escalão é visto como mais importante, mais nobre, mais preparado, cabendo a si mesmo o poder de
controlar e determinar os rumos do sistema. Cf. CAPRA (1986), págs. 276 e ss.

23
Desde a Antiguidade, noções materialistas, racionalistas, utilitaristas do mundo
natural validaram conceitualmente a dominação humana durante toda a era moderna.
Essas formulações, contudo, não podem ser vistas como origem da visão de
mundo antropocêntrica, mas sim uma catalisação de um fluxo cognitivo que remonta a
tempos mais antigos, cuja gênese não será analisada nesse trabalho.
O importante, nesse momento, é delimitar historicamente a presença de uma
cosmovisão antropocêntrica, patriarcal, hierárquica, cuja dinâmica é excessivamente
yang, que vem acompanhando o evoluir da sociedade humana há milhares de anos,
pelo menos desde o inicio da documentação da história através da escrita na
Mesopotâmia.
Pode-se notar, ao longo de toda a história documentada, a constante existência
de grupos humanos utilizando-se de artifícios políticos, bélicos, intelectuais, no sentido
de preservarem-se no topo da pirâmide, subjugando os demais seres humanos e os
outros seres vivos do planeta.
Se tomarmos como base estudos mais aprofundados da história evolutiva da
espécie Homo sapiens desde quando surgem os documentos e os registros que nos
possibilitam uma compreensão mais clara do processo, vamos conseguir rastrear, ainda
que intuitivamente, um fluxo constante desses grupos humanos orientados
excessivamente pelo pólo arquetípico yang – auto-afirmativo, expansionista – visando
prioritariamente – até mesmo compulsivamente – sua autonomia e negligenciando as
relações integrativas com o ambiente.
Sem o senso de holonomia necessário para se equilibrar à necessidade de
autonomia, imprimiu-se, nos últimos milhares de anos, o desenvolvimento de padrões
econômicos de explícita incoerência, caracterizados por consumo excessivo de energia e
degradação do ambiente.
Em um momento posterior vamos verificar que esses padrões econômicos
humanos são isomórficos ao padrão celular canceroso, visto que degeneram o corpo
hospedeiro – o hólon mais amplo – e consomem grandes montantes de recursos e
energia que, em uma situação de equilíbrio, seriam coerentemente destinados às outras
partes do corpo.
Essa visão de mundo antropocêntrica, masculinizante e hierárquica, que nos
acompanha desde os tempos mais remotos de nossa história escrita, costuma ser vista

24
como um modelo natural, com suas doutrinas sendo universalmente aceitas, ao ponto
de parecerem se constituir como leis da natureza.
Forças motrizes, pressões sociais, rituais, tradições, entidades divinas, leis,
linguagens, costumes, etiquetas, educação e trabalho são inconscientemente atrelados
às premissas dessa cosmovisão excessivamente yang, desprovida do senso de
holonomia.

Há, todavia, um aspecto da evolução profundamente relevante que não


costuma ser enfocado. Poucas vezes somos alertados que a história humana
documentada, que nos forneceu todos os parâmetros para a construção de nossas
verdades sagradas e nossos métodos organizacionais, tem apenas alguns milhares de
anos, sendo que o processo da vida no planeta tem mais de três bilhões de anos de
existência e mesmo a evolução do Homo sapiens abrange, no mínimo, 100.000 anos.6
A trajetória humana tal qual a conhecemos é a fase mais recente do
desdobramento da vida no planeta e, sem dúvida, exerce um fascínio especial em nós.
No entanto, quando transcendemos a perspectiva antropocêntrica e nos focamos na
vida planetária, a evolução humana passa a ser vista como um episódio muito breve e,
sob um ponto de vista temporal, chega mesmo a ser insignificante.
Para visualisarmos as proporções do processo da vida no planeta com a
evolução do ser humano, torna-se muito oportuna a narrativa concebida por David
Brower, um ambientalista californiano, citada em CAPRA (1997), na qual ele comprime a
idade da Terra nos seis dias da história bíblica da criação:

“Nesse cenário, a Terra é criada no domingo à zero hora. A vida, na


forma das primeiras células bacterianas, aparece na terça-feira de manhã,
por volta das 8 horas. Durante dois dias e meio seguintes, o microcosmo
evolui, e por volta da quinta-feira à meia-noite, está plenamente
estabelecido, regulando todo o sistema planetário. Na sexta-feira, por
volta das dezesseis horas, os microorganismos inventam a reprodução
sexual, e, no sábado, o último dia da criação, todas as formas de vida
visíveis se desenvolvem. Por volta de 1h30min da madrugada de sábado,
os primeiros animais marinhos são formados, e, por volta das nove e

25
meia da manhã, as primeiras plantas chegam às praias, seguidas, duas
horas mais tarde, por anfíbios e insetos. Dez minutos antes das dezessete
horas, surgem os grandes répteis, que perambulam pela Terra em densas
florestas tropicais durante cinco horas, e então, subitamente, morrem por
volta das 21h45min. Enquanto isso, os mamíferos chegam à Terra no
final da tarde, por volta das 17h30, e os pássaros já à noitinha, por volta
das 19h15min. Pouco antes das 22 horas, alguns mamíferos tropicais que
habitavam árvores evoluem nos primeiros primatas; uma hora depois,
alguns destes evoluem em macacos; e por volta das 23h40min aparecem
os grandes símios antropóides. Oito minutos antes da meia-noite, os
primeiros símios antropóides do sul se erguem e caminham sobre duas
pernas. Cinco minutos mais tarde, desaparecem novamente. A primeira
espécie humana, o Homo habilis, surge quatro minutos antes da meia
noite, evolui no Homo erectus meio minuto mais tarde e, nas formas
arcaicas do Homo sapiens, trinta segundos antes da meia-noite. Os
Neandertais comandam a Europa e a Ásia de quinze a quatro segundos
antes da meia-noite. Finalmente a espécie humana moderna aparece na
África e na Ásia onze segundos antes da meia-noite, e na Europa, cinco
segundos antes da meia-noite. A história escrita da humanidade começa
por volta de dois terços de segundo antes da meia-noite”.7

Observada sob essa perspectiva, a vida se faz muito, muito mais ampla e
complexa do que nossa aprendiz mente antropocêntrica é capaz de compreender
atualmente.
Entender o caminho da vida até surgir o Homo sapiens é realmente fascinante.
Este entendimento do processo de hominização, ainda incipiente, deverá nos
proporcionar visões antes inimagináveis de nossa própria constituição como ser vivo e
como espécie.
Descobertas arqueológicas nos mostram, por exemplo, que os seres humanos
antigos já se utilizavam da arte há mais de trinta mil anos. Pinturas rupestres datadas
desta época nos mostram que a grande arte fazia parte integral da evolução dos
modernos seres humanos, desde o princípio. Como assinalam MARGULIS e SAGAN

26
(2004), “a procura pelo ancestral histórico do homem é a procura pelo contador de
histórias e pelo artista”.
Pouco ainda se sabe sobre a trajetória humana e suas composições sociais até
o surgimento da escrita na Mesopotâmia. De qualquer forma, já existem estudos
definitivos que apontam para experiências humanas fundamentadas a partir de aguçado
senso de holonomia, nas quais a presença de deusas e imagens da natureza como
sagradas, como mãe-provedora, influenciaram o surgimento de sociedades pacíficas,
igualitárias e democráticas.
Trabalhos recentes de arqueólogos e historiadores, tais como James Mellaart,
Marija Gimbutas e Merlin Stone, deram-nos uma visão inteiramente nova das antigas
civilizações, conforme exemplificadas pela bem preservada cidade neolítica de Çatal
Huyuk, na atual Turquia. Em seus estudos, eles retrataram a existência de sociedades
bem planejadas e administradas, com grandes cidades, tecnologia agrícola, pinturas
murais, cerâmica decorada, esculturas e outras artes, e que, ao contrário de culturas
posteriores, não apresentavam sinais de fortificações, guerra, conquista, escravidão ou
qualquer desigualdade social importante. Pensam os estudiosos que homens e mulheres
trabalhavam em parceria e há provas em Çatal Huyuk de que os que passavam
necessidades eram socorridos por reservas públicas de alimentos ou com produtos das
hortas do templo da deusa.8
Esses estudos desafiam os postulados que sustentam a natureza anti-social da
espécie humana. Hoje contamos com provas evidentes de que grupos humanos
espalhados pela África, Oriente Médio e Europa viveram durante longos períodos se
orientando através da parceria e do respeito sagrado à natureza.
A arqueologia deverá ter essencial contribuição para que possamos entender e
refletir sobre como a nossa espécie se amotinou contra a ordem natural da vida no
planeta, como perdemos o senso de holonomia e nos centramos em nós mesmos,
egocentricamente, a partir de configurações sociais hierárquicas e modelos
organizacionais caracterizados por consumo excessivo de energia e degradação
ambiental.
Quando compreendemos o processo de evolução dessa visão de mundo
excessivamente yang, sem nos determos em conotações morais, somos capazes de
verificar isomorficamente o padrão do câncer em nosso comportamento como espécie,

27
sem que nos detenhamos em sentimentos de culpa moral. De fato, estaremos dando
um passo primordial para nossa cura como espécie, como integrante do Sistema de
Gaia. Como dizem Thorwald Dethlefsen e Rudiger Dahlke, “o câncer tem que ser
compreendido para que possamos compreender a nós mesmos”.9
Antes de adentrarmos no âmbito da doença propriamente dita e verificarmos
mais pormenorizadamente as relações de reconhecimento da enfermidade com a sua
cura efetiva neste trabalho de pesquisa, devemos conceber a visão autopoiética da vida,
a fim de sustentar, na Biologia, a condição de ser vivente do Planeta Terra.

28
2. AUTOCRIAÇÃO, A ESSÊNCIA DOS SISTEMAS VIVOS

Buscaremos lograr uma descrição convincente do planeta como uma unidade


viva e, para tanto, empreenderemos uma síntese de algumas teorias científicas de
grande originalidade que vieram despontando ao longo do Século 20, na medida em que
o pensamento sistêmico ganhava consistência. A coesão de um novo modelo conceitual
permitiu que uma nova Biologia emergisse, alterando incisivamente a compreensão do
fenômeno da vida tanto no micro, quanto no macrocosmo.
Essa nova Biologia e suas implicações culturais, contudo, ainda não obtiveram
êxito em penetrar nos sistemas de informação, seja através das mídias, seja através dos
sistemas de educação. Ainda prepondera a visão mecanicista do universo e suas partes
constituintes.
A máquina do mundo, um autômato sem propósito, é a metáfora dominante
desde o Século 16. Oriunda da Revolução Científica e associada aos nomes de, Galileu,
Descartes, Bacon e Newton,1 a visão do mundo como uma máquina veio substituir a
imagem mítica do planeta como uma entidade viva, como mãe nutriente, que
predominou na Idade Antiga, advinda de tradições filosóficas e religiosas que possuíam
uma visão organicista do planeta em seu cerne.
Ao longo dos últimos quatrocentos anos, a visão mecanicista do mundo foi
vigorosamente difundida e se espalhou pelos mais diversos domínios do conhecimento,
tornando-se a base do modo de pensar e agir das sociedades modernas.
A percepção mecanicista da vida transformou o planeta em uma estrutura sem
vida, mecânica, feita de rochas, água e ar, meramente habitada por seres vivos
independentes. Esse modelo permeou o raciocínio de Charles Darwin em seu impactante
trabalho que culminou com a Teoria da Evolução das Espécies e é o modelo da História
Natural ainda hoje utilizado nos sistemas de educação, apesar de todos os
desdobramentos da ciência ao longo do Século 20.∗
Com a estruturação da física quântica nas três primeiras décadas do Século 20,
muitos pressupostos que sustentavam a ciência mecanicista tiveram que ser revistos,


Para um aprofundamento na compreensão e delineamento das características do paradigma mecanicista e
sua influência em nossos modelos sociais ver CREMA (1988), CAPRA (1986), ESTEVES DE VASCONCELLOS
(2002).

29
diante de evidências contrárias advindas dos experimentos com os átomos. A metáfora
do mundo como uma máquina começava a ruir.
Abria-se uma nova e fascinante vertente de pesquisa na ciência, na qual várias
linhas de pensamento foram fazendo emergir a visão organicista do Universo,
conduzindo o pensamento científico a uma perspectiva holística da realidade e a
conseqüente elaboração da Teoria da Autopoiese e da Teoria de Gaia que, juntas,
apresentam uma nova compreensão do planeta como um superorganismo auto-
regulador.

Autopoiese foi a denominação que os neurobiólogos chilenos Humberto


Maturana e Francisco Varela atribuíram ao padrão metabólico que caracteriza os
sistemas vivos.
Auto, naturalmente, significa ‘si mesmo’ e poiese – que compartilha da mesma
raiz grega da palavra ‘poesia’ – significa ‘criação’. Sendo assim, autopoiese significa
autocriação. A partir da compreensão da autopoiese como a organização da vida, a idéia
de autocriação torna-se a característica central de qualquer forma vivente.
Mas, afinal, o que é vida? Essa pergunta, aparentemente simples, vem
acompanhando e desafiando os cientistas na busca pelas propriedades de um sistema
que são necessárias para que possamos chamá-lo de vivo.
Como podemos distinguir um sistema vivo de um sistema não-vivo? Sabemos
que somos seres vivos. Sabemos também que, embora imóveis aos nossos olhos, as
plantas estão vivas e que há seres vivos tão diminutos que não conseguimos enxergá-
los. Mas o que faz de todas essas instâncias que conhecemos como vivas estarem vivas
realmente? O que é a vida como um fenômeno do existir?
Diante de perguntas semelhantes a estas, Humberto Maturana se ocupava com
a “organização da vida”, na década de 1960. Refletindo sobre o que todos os seres vivos
têm em comum, ele buscava um padrão que os reunisse em uma mesma definição.
Antes, contudo, de prosseguirmos com a jornada intelectual de Maturana e de
seu colaborador Francisco Varela, é interessante que contextualizemos os avanços do
conhecimento na época. Ao longo dos anos 1960, a ciência passava por momentos de
grande fertilidade. Vivia-se a consolidação da concepção de auto-organização como idéia
central de um modelo qualitativo dos sistemas vivos.

30
O físico e ciberneticista Heinz Von Forster, citado em CAPRA (1997), havia
introduzido a frase “ordem a partir do ruído” para indicar que um sistema auto-
organizador não apenas “importa” ordem vinda de seu meio ambiente, mas também
recolhe matéria rica em energia, integra-a em sua própria estrutura e, por meio disso,
aumenta sua ordem interna.
Ilya Prigogine, físico e químico belga, ganhador do Prêmio Nobel, havia
demonstrado que os sistemas auto-organizadores eram abertos e operavam afastados
do equilíbrio termodinâmico. Ou seja, é necessário que exista um fluxo constante de
energia e de matéria através do sistema para que ocorra a auto-organização. Sua Teoria
das Estruturas Dissipativas pode ser considerada a primeira a abordar de forma
influente e detalhada o fenômeno da auto-organização.
Assim, a estrutura dissipativa de que fala Prigogine é um sistema aberto que se
conserva bem longe do equilíbrio termodinâmico, embora seja estável: a mesma
estrutura global se conserva, apesar do fluxo e da mudança constantes dos seus
compontentes. Prigogine cunhou o termo “estruturas dissipativas” para sublinhar a
íntima interação que existe entre a estrutura, de um lado, e o fluxo e a mudança (ou
dissipação) de outro.
Ele também demonstrou que as estruturas dissipativas auto-organizadoras
criam espontaneamente novas formas de ordem e novos modos de comportamento.
Quando o fluxo de energia aumenta, o sistema pode chegar a um ponto de
instabilidade, chamado de “ponto de bifurcação”, no qual tem a possibilidade de derivar
para um estado totalmente novo, em que podem surgir novas estruturas e novas formas
de ordem, novos padrões espontâneos qualitativamente diferentes.2
O grande avanço da concepção de auto-organização, na década de 1960,
montou o palco para a construção de um modelo conceitual que pudesse responder à
pergunta ‘o que é vida?’.
Essa trajetória intelectual em torno da noção de auto-organização demonstrou
claramente que os domínios das formas vivas e das formas não-vivas – de onde,
provavelmente, a vida emergiu há mais de três bilhões de anos atrás – têm interfaces
realmente tênues.
No início da década de 1970, Manfred Eingen, bioquímico alemão, concebeu o
conceito de “hiperciclos”, no qual sugere que a vida pode ter surgido a partir de uma

31
organização progressiva em sistemas químicos afastados do equilíbrio. Suas pesquisas o
levaram a introduzir o termo “hiperciclos” para descrever os sistemas de reações
especiais conhecidos como ciclos catalíticos.
Um catalisador é uma substância que aumenta a velocidade de uma reação
química sem ser, ele próprio, alterado no processo. Reações catalíticas são processos de
importância crucial na química da vida. Os catalisadores mais comuns são as enzimas,
componentes essenciais das células.
Quando Manfred Eigen estudou as reações catalíticas envolvendo enzimas,
observou que nos sistemas bioquímicos afastados do equilíbrio termodinâmico, ou seja,
expostos a fluxos de energia, diferentes reações catalíticas se combinavam para formar
redes complexas que podiam conter laços fechados de realimentação.
O espantoso foi que Eigen descobriu que, com tempo suficiente e um fluxo
contínuo de energia, tais ciclos catalíticos tendiam a se encadear para formar novos
laços fechados, nos quais as enzimas produzidas em um ciclo atuavam como
catalisadores no ciclo subseqüente. Hiperciclos são justamente esses laços nos quais
cada elo é um ciclo catalítico.
Tais hiperciclos mostram-se notavelmente estáveis e também capazes de auto-
replicar-se e de corrigir erros de replicação, o que significa que podem conservar e
transmitir informações complexas.
As pesquisas de Manfred Eigen mostram que essa auto-replicação – que é bem
conhecida nos sistemas vivos – pode ter ocorrido em sistemas químicos antes da
emergência de sistemas biológicos com estrutura genética. Tais hiperciclos são, de fato,
modelos não-vivos precursores dos sistemas vivos. E a lição a ser aprendida aqui é a de
que as raízes da vida atingem o domínio da matéria não-viva.3
Essa constatação é corroborada pelo fato de que um tornado, uma fogueira e
um redemoinho que se forma na água, estruturas não-vivas, apresentam características
de seres vivos, pois todos são estruturas dissipativas, centros dinâmicos de atividade
que se estabelecem como estruturas fechadas – no sentido de serem estáveis, de
poderem ser identificadas – mas que ao mesmo tempo são abertas, ou seja, as suas
partes constituintes são continuamente substituídas, em um processo ininterrupto de
troca de energia e matéria com o ambiente externo.

32
Para compreendermos melhor uma estrutura dissipativa, podemos tomar como
exemplo o Homo sapiens. A cada ano, 98% dos átomos de um corpo humano são
substituídos, mas ainda assim um padrão corporal é preservado.4
Como então continuamos sendo a mesma pessoa, se 98% do nosso corpo já
não é mais o mesmo? Como preservamos nossa identidade se aquilo que éramos há até
bem pouco tempo hoje já não faz parte de nós? Como a memória e a personalidade não
se esvaem junto com os átomos que se misturam com o meio adjacente?
Ao constatarmos essa constante substituição de nossa matéria-prima, somos
levados a nos enxergar não como algo sólido que permanece, mas como um padrão que
se perpetua. Temos que necessariamente nos transformar para que possamos conservar
nossa essência. Através da tecnologia, que nos permitiu enxergar para além da
capacidade dos nossos olhos, pudemos compreender que nosso corpo é, na verdade,
um fluxo perene de energia “dançando” junto com o ambiente que o encerra.
A cada instante, montantes de células morrem e se decompõem, ao mesmo
tempo em que incorporamos moléculas do ar e dos alimentos para produzir novas
células, utilizando a energia do Sol e dos outros seres para fazer movimentar uma
fábrica química autoperpetuante, num amálgama de trilhões de relações celulares
simultâneas.
Mas, de fato, ao contrário do tornado, do redemoinho e da fogueira, que, sem
nenhuma reação, encerram suas atividades no instante em que lhes falta a energia
motriz provida pelo ambiente, os seres vivos tomam caminhos, assumem escolhas,
intuem estratégias de preservação e agem organizadamente no sentido de evitar o
equilíbrio termodinâmico, que se traduz no fenômeno da morte.
Foi nesse ponto que Humberto Maturana e Francisco Varela intuíram que algo
de comum a todos os seres vivos se estabelecia. Ao constatarem que existe, nos seres
vivos, um ímpeto de perpetuação, a busca por estabilidade em meio às flutuações, a
criatividade na produção de novas formas de estruturação, Maturana e Varela
identificaram a vida nas formas autodelimitadas que continuamente especificam e
produzem sua própria organização através da produção de seus componentes, sendo
sua própria organização a variável que é mantida constante.5
Auto-organizadas, as formas vivas criam a si mesmas e se realizam
existencialmente como torrentes de ordem em estruturas que se dissipam na medida

33
em que incorporam novas substâncias e montantes de energia, sendo suas relações de
produção geradas recursivamente pelos componentes que a produzem, num fluxo
constante que as faz assemelharem-se “a redemoinhos em um rio de águas em fluxo
incessante”.6
Um padrão de organização autoperpetuante emerge em meio ao incessante
movimento de energia que flui através de limites membranosos, visto que toda a vida é
autodelimitada, possui membrana.∗
Esse padrão, como observaram Maturana e Varela, está relacionado ao fato de
os seres vivos serem redes químicas que se fecham em estruturas metabólicas circulares
nas quais o produto é o produtor daquilo que o produz.
A partir dessa complexidade metabólica, supera-se o nível meramente químico
e penetra-se no domínio dos sistemas biológicos providos de um ímpeto auto-regulador
caracterizado por perseverança evolutiva. E a esse padrão metabólico foi atribuído o
nome Autopoiese.
Como dizem Maturana e Varela em seu marcante livro “A Árvore do
Conhecimento”,

“É claro que o fato de que os seres vivos têm uma organização não é
exclusivo deles, mas sim comum a todas as coisas que podem ser
investigadas como sistemas. Entretanto, o que lhes é peculiar é que sua
organização é tal que seu único produto são eles mesmos. O ser e o fazer
de uma unidade autopoiética são inseparáveis, e isso constitui seu modo
específico de organização”.7

Um ser autopoiético opera como uma organização circular que se abre para as
mudanças na maneira como a circularidade é mantida, mas que não permite a perda da
própria circularidade. Forma um padrão em rede, no qual a função de cada componente
é ajudar a produzir e transformar outros componentes, enquanto a circularidade global
da rede é mantida. Desse modo, toda a rede, continuamente, produz a si mesma. A
cada momento, o conjunto é produto e, ao mesmo tempo, produtor de si mesmo.


Membranas parecem estabelecer um novo espaço-tempo, uma estratificação, um aninhamento de
sistemas metabólicos, que pode ser relacionada com a concepção de holarquia, observada anteriormente.

34
A autopoiese, o padrão de redes autogeradoras, define a presença da vida.
Autopoiese é a autocriação e a autoperpetuação que caracteriza a vida encerrada dentro
de uma fronteira, uma membrana, qualquer que seja a natureza do ser vivo. Como diz
Francisco Varela, “o que permite definir a vida é uma organização e não os
componentes, por muito sofisticadas que sejam as propriedades enzimáticas ou
replicativas”. 8
Lynn Margulis e Dorion Sagan, em seu livro “O Que É Vida”, dissertam sobre a
autopoiese de forma eloqüente, situando o padrão autopoiético em meio aos seus
imperativos termodinâmicos, de dissipação de calor oriundo do Sol:

“… mas se a ordem interna aumentada é a da vida, então, havendo


acesso do sistema a uma fonte de energia e ao tipo certo de matéria
(nutrientes), ela se manterá indefinidamente. Essa é a autopoese (sic). A
autopoese é o que acontece quando um sistema químico autodelimitado
– baseado (…) em ácidos nucleicos e proteínas de moléculas longas –
atinge um ponto crítico e não pára mais de efetuar o metabolismo”.9

A tendência à auto-organização é intrínseca à autopoiese. Sistemas


autopoiéticos são capazes de ordenar processos altamente complexos, gerando formas
sempre criativas no perene desafio de manter sua estrutura, escolhendo caminhos para
prevenir, indefinidamente, o momento inevitável do equilíbrio termodinâmico, a morte.
A célula é a menor estrutura autopoiética hoje conhecida, é a unidade mínima
capaz de um metabolismo auto-regulador incessante. A origem da autopoiese no
Planeta Terra, na forma de células bacterianas, ainda é obscura. No entanto, grande
parte dos pesquisadores concorda que compostos complexos de carbono, expostos de
algum modo a uma energia incessante e à transformação ambiental, e encerrados em
vesículas oleosas presentes nos oceanos primitivos, podem ter se transformado em
células delimitadas por uma membrana.10
Os seres multicelulares são feitos de células autopoiéticas e podemos identificar
tendências isomórficas nas quais estes seres complexos substituem suas células com a
mesma dinâmica auto-replicadora que as células substituem suas macromoléculas
orgânicas. Devemos compreender que, ao atribuirmos a noção de autopoiese aos seres

35
multicelulares, estamos nos valendo de uma metonímia, pois a autopoiese em seu
contexto original de pesquisa referia-se ao padrão celular. De forma semelhante, a
identificação da autopoiese planetária segue o mesmo caminho isomórfico a partir do
entendimento do padrão de organização da biosfera.
A morte de uma criatura é uma forma de reciclagem semelhante ao processo
de substituição de células em um organismo multicelular e ao processo de substituição
das moléculas orgânicas em uma célula.
Ou seja, da mesma forma que uma célula substitui suas moléculas e uma
criatura constantemente substitui suas células em um processo autogerador, o sistema
planetário substitui suas criaturas, auto-regulando-se em uma superestrutura
autopoiética.
Usando a energia proveniente do Sol, a vida na Terra vem se desenvolvendo
autopoieticamente ao longo desses bilhões de anos. Quando enxergamos a vida a partir
da autopoiese, podemos dizer que a morte é ilusória. Como pura persistência
bioquímica, o padrão autopoiético terrestre, que une todos os seres vivos, nunca
morreu, é um mesmo fenômeno desde que surgiu na forma de corpos bacterianos
primitivos.
A percepção do padrão autopoiético, identificador do fenômeno da vida, na
fenomenologia da Terra como um todo, formando um sistema biogeoquímico planetário
auto-regulador é o ponto de sustentação para a compreensão do planeta como um ser
vivo. A Terra, como veremos, satisfaz a definição biológica de entidade viva como um
sistema autopoiético, uma estrutura dissipativa auto-organizadora.

36
3. A AUTOPOIESE DO SISTEMA DE GAIA

No intuito de apresentar de forma convincente o Sistema de Gaia e sua


natureza viva, devemos voltar mais uma vez à década de 1960, mais precisamente ao
Laboratório de Propulsão à Jato da NASA, em Pasadena, Califórnia, no ano de 1965.
James Lovelock, químico especializado em atmosferas, havia recebido a
incumbência de fazer um estudo crítico das experiências para detecção de vida, na
época, destinadas para Marte. Naquele momento histórico, havia uma crença bastante
forte de que poderia haver vida naquele planeta.
Em seus estudos, Lovelock tinha a nítida impressão de que as experiências de
prospecção de vida em outros planetas haviam sido concebidas de forma a encontrar
vida do tipo terrestre em outros ambientes planetários. Ele se perguntava se haveria
como desenvolver um modelo que pudesse reconhecer vida em qualquer de suas
formas prováveis, evitando o equívoco de buscar formas de vida próprias da Terra em
planetas nada semelhantes à ela.
Sua proposta seria a de procurar inconsistências na composição química da
atmosfera e superfície dos planetas para verificar se havia a presença de substâncias ou
processos que seriam inexplicáveis à luz da química inorgânica. Como ele mesmo diz:

“A idéia por trás disso era que, se o planeta possuísse vida, essa vida
seria obrigada a utilizar a atmosfera como fonte de depósito de
matérias-primas e também como um conveniente meio de transporte
para seus produtos. Esse tipo de uso da atmosfera planetária seria
revelado pelas alterações na sua composição química – as quais seriam
bastante improváveis no caso de processos fortuitos sem a presença de
1
vida”.

Provido de considerável quantidade de informações, Lovelock constatou que a


atmosfera de Marte apresentava-se bastante próxima de um estado de equilíbrio
químico. Sendo assim, de acordo com sua teoria, Marte era um planeta com poucas
probabilidades de possuir vida.

37
Para corroborar este prognóstico, seria necessário a utilização da mesma
metodologia em um planeta com vida. Naturalmente, o único ao seu alcance era a
própria Terra.
James Lovelock então montou uma experiência com um telescópio
infravermelho ficticiamente postado em Marte. Esse instrumento, voltado para a Terra,
teria facilmente descoberto que a atmosfera do nosso planeta apresenta uma
composição instável, cuja coexistência de dois gases reativos – metano e oxigênio –
seria impossível a partir das matérias-primas disponíveis e com a utilização da energia
solar.
Portanto, deveria haver algum processo na superfície da Terra capaz de
agregar a seqüência de intermediários químicos instáveis e reativos que proporcionasse
tal composição atmosférica, e esse processo provavelmente seria a vida.
Dessa forma, James Lovelock comprovou a eficácia de seu método,
proporcionando uma relação consistente entre as composições químicas atmosféricas e
o fenômeno da vida.
Sugerida a inexistência de vida em Marte, como era de se esperar, Lovelock
acabou desempregado e voltou para a Inglaterra, em 1966, acompanhado de um
questionamento que não saía de sua mente: como é que a Terra mantém uma
composição atmosférica tão constante se esta é composta de gases altamente reativos?
Diante de tão intrigantes evidências, surgiu, em seu pensamento, as primeiras
imagens de um biossistema planetário auto-regulador:

“Foi então que comecei a imaginar que talvez o ar não fosse apenas um
meio ambiente para a vida, mas também uma parte da própria vida. Em
outras palavras, parecia que a interação entre a vida e o ambiente, da
qual o ar é uma parte, era tão intensa que o ar poderia ser considerado
como uma pele de gato, ou o revestimento de um ninho de vespas: sem
vida, mas feitos por seres vivos para suportar um dado ambiente”. 2

James Lovelock estava diante de uma entidade de abrangência planetária, com


uma poderosa capacidade de regular seu clima e sua composição química. Aos poucos,

38
foi compreendendo que a hipótese de um sistema planetário auto-regulador significava
uma ruptura radical com a ciência convencional.
William Golding, prêmio Nobel de Literatura, era vizinho de Lovelock naquele
período. Em um passeio a pé, quando refletiam sobre tal hipótese, Golding sugeriu o
termo Gaia, referente à denominação da Terra pelos gregos antigos em seus mitos de
criação, para representar o sistema hipotético que Lovelock estava concebendo.
A hipótese de Gaia surgia como uma alternativa à sabedoria convencional que
via a Terra como um planeta sem vida, feito de rochas, atmosfera e oceanos
inanimados, meramente habitado pela vida. Gaia era “um verdadeiro sistema,
abrangendo toda a vida e todo o seu meio ambiente, estreitamente acoplados de modo
a formar uma entidade auto-reguladora”.3
Lovelock publicou a primeira versão extensa de sua idéia em um artigo
intitulado “Gaia as Seen Through the Atmosphere”, em 1972. Logo depois, Lovelock se
encontrou com Lynn Margulis, microbiologista norte-americana, que estava estudando
processos que Lovelock precisava entender para analisar como a Terra poderia regular
sua temperatura e composição de sua atmosfera, envolvendo organismos da biosfera.
Lovelock e Margulis iniciaram uma longa e proveitosa colaboração que resultou
na Teoria de Gaia plenamente científica. O conhecimento de Lynn Margulis acerca das
origens biológicas dos gases atmosféricos e as concepções de Lovelock provenientes da
química, da termodinâmica e da cibernética, reunidas em uma odisséia intelectual ao
longo da década de 1970, foram capazes de identificar, gradualmente, uma complexa
rede de laços de realimentação, a qual criaria a auto-regulação do sistema planetário.
Interligando plantas e rochas, animais e gases atmosféricos, microorganismos e
oceanos, um sistema altamente complexo de laços de realimentação regula o clima da
Terra, a salinidade dos oceanos e outras importantes condições planetárias. Segundo
Margulis, “a vida, efetivamente, fabrica e modela e muda o meio ambiente ao qual se
adapta. Em seguida, esse ‘meio ambiente’ realimenta a vida que está mudando e
atuando e crescendo nele. Há interações cíclicas constantes”.4
A Teoria de Gaia é uma teoria sistêmica em seu cerne. Reúne geologia,
microbiologia, química atmosférica, e desafia a visão científica tradicional que encara
essas disciplinas como compartimentos do conhecimento separados por natureza.

39
Ao compreendermos esses laços de realimentação constantes do Sistema de
Gaia, em que o magma do interior da Terra é transformado ininterruptamente em
crosta, a crosta é transformada em micróbios e organismos, posteriormente estes seres
vivos voltam a ser crosta e a crosta transforma-se novamente em magma para
completar o ciclo constante da autocriação, percebemos claramente que os domínios da
Geologia e da Biologia não podem estar separados. Toda parte ou aspecto geológico da
Terra que podemos encontrar são produtos da atividade da vida do Sistema de Gaia e
vice-versa.
Nosso planeta jamais foi um lar pronto para se usar, no qual as criaturas vivas
se desenvolveram e ao qual se adaptaram. Rochas foram constantemente rearrumadas
e se tornaram criaturas vivas, assim como as criaturas vivas rearrumaram rochas,
transformando-as em habitats propícios, como também se decompuseram em rochas,
transformando-se no próprio habitat. Como diz Elisabet Sahtouris,

“Vida não pode ser parte de um ser vivo. A vida é a essência ou o


processo de todo o ser vivo (…) Vida é processo de corpos, não de uma
de suas partes, e (…) sustentamos que o mesmo se aplica à Terra-Gaia
(sic) – que a vida é seu processo, seu tipo particular de organização
operante, e não uma de suas partes. Podemos dizer que os organismos
existentes em Gaia criam seus ambientes e são criados por eles, no
mesmo sentido em que dizemos que as células criam seus próprios
ambientes e são criadas por eles em nosso corpo”.5

Pode-se então afirmar que o equilíbrio certo de elementos químicos e ácidos


nos mares e solos e mesmo o equilíbrio da temperatura em toda a Terra – isto é, todas
as condições necessárias para a vida em nosso planeta – são regulados dentro do
planeta como o são em nosso corpo.
Assim, podemos identificar, com bastante clareza, uma rede global de
processos de produção e de transformação que nos oferece evidências da natureza
autopoiética do Sistema de Gaia.

40
Para verificar se o Sistema de Gaia pode realmente ser descrito como uma rede
autopoiética, vamos aplicar alguns critérios de identificação da autopoiese em
organismos vivos: autodelimitação, autogeração e autoperpetuação.∗
Em primeiro lugar, como em qualquer sistema autopoiético, Gaia é
autolimitada. Como vimos, a atmosfera da Terra é criada, transformada e mantida pelos
processos metabólicos da biosfera, assim como podemos verificar nas membranas
celulares, que são criadas, transformadas e mantidas pela redes químicas encerradas
em seu interior.
Maturana e Varela (2001) afirmam que “a membrana celular desempenha um
papel mais rico e diversificado do que uma simples linha de demarcação espacial de um
conjunto de transformações químicas, porque participa da célula tal qual os outros
componentes”. A atmosfera terrestre comporta-se da mesma maneira, influindo em
todos os processos de regulação planetária.
O Sistema de Gaia é também claramente autogerador. O metabolismo
planetário transforma substâncias inorgânicas em matéria orgânica viva, e também as
decompõe novamente em substratos não-vivos, unificando biosfera, solos, mares,
atmosfera em um complexo sistema de realimentação no qual todos os componentes da
rede, incluindo aqueles de sua fronteira atmosférica, são produzidos pela própria rede e
seus processos internos. Assim como ocorre em todo sistema autopoiético, seus
componentes apresentam-se como redes químicas que se fecham em estruturas
metabólicas circulares nas quais o produto é o produtor daquilo que o produz.
Nota-se que as bactérias desempenham um papel crucial nos processos auto-
reguladores terrestres, influindo na velocidade das reações químicas, atuando como um
equivalente biológico das enzimas em uma célula autopoiética.
Por fim, o Sistema de Gaia é, evidentemente, autoperpetuante. Todos os
componentes da rede metabólica planetária, incluindo os organismos da biosfera, os
oceanos, os solos e o ar, são continuamente repostos pelos processos de produção e
transformação do planeta. Durante a longa história evolutiva da vida a biosfera se
deparou com obstáculos e crises de grande magnitude, porém, sobreviveu, continuando
a regular as condições para a vida na Terra e a desencadear o imperativo evolutivo


Critérios definidos por Gail Fleischaker, citados em CAPRA (1997), pág. 173 e ss.

41
autoperpetuante, transcendendo formas e aumentando sua complexidade através de
adaptação e criatividade.
Miríades de bactérias, vivendo no solo, nas rochas e nos oceanos, bem como
no interior de todas as plantas e animais, regulam continuamente a vida na Terra.
Entende-se a rede autopoiética planetária criando-se e sendo criada por uma
abrangente teia microbiana em evolução.
A partir dessa perspectiva, parece a Terra um terceiro nível holárquico
autopoiético, assemelhando seu padrão metabólico de substituição química autocriativa
e autoperpetuante com aqueles apresentados por células – primeiro nível – e
organismos multicelulares – segundo nível.

A visão científica do planeta como um sistema vivo auto-regulador, contudo,


não é recente. James Hutton, considerado o pai da Geologia, ainda no Século 18
chamou a Terra de um superorganismo vivo e afirmou que a disciplina mais apropriada
para estudá-la seria a fisiologia. Vladimir Vernardsky, no início do Século 20, também
enxergava a natureza viva da Terra, concebendo a vida como uma “dispersão de
rochas”, um processo geoquímico do planeta como um todo.6
Contudo, nem Hutton e nem Vernardsky foram capazes de influenciar a visão
mecanicista do planeta que preponderou nos últimos séculos, atribuindo à Terra as
características de uma estrutura inerte, um mero palco passivo para o fenômeno da
vida.
A Teoria de Gaia de Lovelock e Margulis vem, aos poucos, transpondo os
obstáculos epistemológicos e a forte resistência do “establishment” científico,
produzindo vasto material de pesquisa e impressionando com o número cada vez maior
de cientistas e filósofos a considerarem metáforas não-mecânicas de sistemas naturais
como úteis para a interpretação dos processos geobiológicos do planeta.
Elisabet Sahtouris, no epílogo de seu abrangente livro “A Dança da Terra”,
argumenta, de forma inequívoca, sobre uma força cultural conservadora a impedir a
incorporação da visão do planeta vivo no cerne da atividade científica:

“Algum dia – se nossa espécie sobreviver, como continuo a ter


esperança de que aconteça –, acredito que a história registrará que o

42
reconhecimento de Gaia como um sistema autopoiético, um planeta
vivo, um organismo terrestre, foi combatido no Século 20 por
praticamente as mesmas razões por que foi combatida a teoria
heliocêntrica de Copérnico nos Séculos 16 e 17: porque viola crenças
fortemente enraizadas e ameaça interesses adquiridos. Durante a
Renascença, o homem não queria renunciar à idéia de que era a
criatura mais desenvolvida e mais amada por Deus, e que Deus, por
conseguinte, o encarregava de gerir a mais importante propriedade
imobiliária em todo o universo – nosso planeta, no seu centro exato.
Tampouco pode ele agora aceitar que não é o auge da evolução, (...) a
espécie apropriada para dirigir tudo mais – até mesmo que é a meta
“antrópica” do universo”.7

O que se buscou fazer neste capítulo foi fornecer uma sustentação biológica da
natureza viva da Terra para iniciarmos a descrição do atual processo isomórfico ao
câncer no Sistema de Gaia. Este trabalho sustenta que a visão antropocêntrica
excessivamente yang do mundo, desenvolvida por nossa espécie nos últimos milhares
de anos, produziu um padrão deletério caracterizado por um profundo desequilíbrio
estrutural que vem solapando a saúde do planeta da mesma forma que células de um
tumor orientadas egocentricamente estabelecem sua dinâmica patológica em um
organismo humano.
Nos próximos capítulos tentaremos apresentar uma visão da realidade que
possa contribuir para a preparação dos nossos espíritos no reconhecimento desse
padrão cognitivo patogênico da espécie, de forma a catalisar o processo de criação de
uma nova cultura planetária, de uma nova ecologia do conhecimento capaz de cessar a
devastação do ambiente e fazer regenerar os combalidos tecidos da vida.

43
4. A METÁFORA DO CÂNCER

Ao se iniciar esta parte do trabalho, torna-se necessário delimitar os domínios


de linguagem através dos quais percorreremos a desafiadora trajetória de identificar,
dentro de uma base conceitual coerente, um padrão semelhante ao câncer no Sistema
de Gaia, propiciando um diagnóstico que permita traçarmos planos de ação de cura que
se refletirão com a reintegração das sociedades humanas ao padrão de equilíbrio
dinâmico e ao fluxo de eficiência energética que caracterizam a fenomenologia dos
sistemas naturais que compõem o superorganismo planetário.
O que se busca fazer é construir imagens reconhecíveis que permitam a
visualização da situação global a partir de um eixo biológico. Espera-se transcender o
enfoque antropocêntrico carregado de valores morais e ilustrar as condições atuais do
planeta a partir de uma perspectiva centrada no conjunto da vida, refletindo a existência
de um ser orgânico que reúne a totalidade autopoiética dos sistemas naturais em seu
sistema metabólico auto-regulador.
Para tanto, paradoxalmente, precisaremos utilizar padrões visuais que estejam
próximos da realidade humana, de forma que possamos tornar familiares questões
relativas a um sistema que apresenta uma enorme complexidade além dos nossos
habituais parâmetros cognitivos.
O Planeta Terra flutua através de escalas imensas e suas partes se inter-
relacionam de maneiras profundamente complexas. A ciência fundamentada em sua
natureza viva é nascente e ainda carece de um código de linguagem que transmita
fidedignamente a fisiologia de sua complexidade.
Nesse contexto, a estrutura da linguagem a ser utilizada neste trabalho deverá
buscar analogias que nos aproximem de uma síntese, de uma compreensão integrativa
que nos faça perceber nossa presença como hólon integrante do Sistema de Gaia.
Sugere-se que um caminho eficiente nesse sentido seja a identificação de
padrões semelhantes em sistemas de complexidades ou linguagens diferentes, tal como
proposto por Ludwig Von Bertalanffy, em sua Teoria Geral dos Sistemas.
Bertalanffy, citado em ESTEVES DE VASCONCELLOS (2002), percebeu que “o
total de acontecimentos observáveis apresenta uniformidades estruturais que se
manifestam por traços isomórficos (…) nos diferentes níveis ou domínios”.1 Tais

44
analogias entre sistemas distintos permitem, segundo ele, “uma estrutura teórica
psicofisicamente neutra” que identifica princípios universais, enfocando padrões
aplicáveis à ciência dos “todos organizados”.2
Em suma, este trabalho é uma busca de isomorfismos, a busca por uma
linguagem unitária que possa gerar compreensão de processos similares em sistemas de
níveis holárquicos diferentes.
Tal procedimento parece se assemelhar à atividade cognitiva em sua dimensão
poética de geração de metáforas. Quando identificamos isomorfismos, estamos, em
última instância, produzindo metáforas que aproximem nosso processo de percepção do
mundo àquele fenômeno observado. Vivemos atualmente um fluxo que retroalimenta
uma inércia autodestrutiva produzida por um sentimento de incapacidade de nos
livrarmos da avalanche em curso.
A intenção deste trabalho se legitima na criação de uma metáfora capaz de
comover os espíritos humanos. Comover no sentido de “co-mover”, ou seja, fazer o
conjunto humano mover-se para fora da correnteza social que nos leva a um
“sumidouro cultural”.∗ A ciência contemporânea de essência organicista vale-se
imensamente dos recursos metafóricos para tornar identificáveis as miríades de padrões
que sustentam a complexidade dos sistemas naturais. Como argumenta James Lovelock,

“(…) quaisquer modelos que possamos construir da natureza serão, no


fundo, metafóricos, no sentido em que começa com alguma imagem ou
fórmula familiar para nós humanos e que é usada para representar as
complexidades da natureza em maneiras simples, compreensíveis e
úteis (…) Sinto-me cada vez mais impressionado com cientistas e
filósofos que consideram metáforas não-mecânicas de sistemas naturais
como úteis para interpretar a Teoria de Gaia”.3


Na Matemática dos Sistemas Dinâmicos, sumidouro é um lugar onde uma linha de fluxo degenera,
tornando-se um único ponto para o qual todos os pontos vizinhos fluem (…) Assim, o próprio sumidouro
representa um estado estacionário do sistema”. Ver STEWART (1991), pág. 109.

45
James Lovelock segue dizendo que “metáfora alguma deve ser confundida com
a realidade, e talvez uma grande variedade de metáforas seja uma apólice de seguro
contra a tentação de assim agir”.4
Esse posicionamento filosófico é de grande importância para a compreensão
adequada do presente trabalho. É de extrema necessidade esclarecer o propósito da
construção da metáfora do câncer planetário como um instrumento cognitivo na
construção de planos de ação de transformação cultural e criação de uma nova ecologia
do conhecimento, mas, em nenhuma hipótese, essa ação deve ser vista como a
elaboração de uma verdade objetiva.
Em qualquer experiência artística, há uma pluralidade de significados intrínseca
ao fazer poético e essa perspectiva pode, guardadas as devidas exigências do método
científico, ser aplicada quando se constata que existem variadas formas e modelos
capazes de representar a realidade do sistema observado com graus semelhantes de
autenticidade e eficácia.
Poderíamos apresentar a humanidade atual como um adolescente em crise, tal
como fez Elisabet Sahtouris em seu livro “A Dança da Terra”, ou mesmo o cérebro
global recém-formado, tal como descreveu Peter Russell em seu livro “O Despertar da
Terra”. Ambas, dentre outras, são metáforas oportunas e refletem, sob um determinado
ponto de vista, o significado da evolução humana.
Opta-se neste trabalho pela identificação de um padrão patológico, pois se
acredita que o câncer é uma das poucas metáforas capazes de trazer à consciência
coletiva humana os patamares mortíferos de autodestruição ocasionados pelos modelos
políticos e econômicos praticados na atualidade.
O câncer faz reverberar nos sentimentos humanos uma realidade bastante
próxima, presente no dia-a-dia das famílias de todos os povos, encadeando reflexões
existenciais profundas. É capaz de transpor barreiras cognitivas recorrentes no processo
de esfacelamento cultural em curso e integrar os diversos fragmentos da sociedade
humana em uma perspectiva de cura.
Apesar de sua natureza maligna, mortífera e implosiva, atualmente sabe-se que
o diagnóstico precoce, o reconhecimento emocional da enfermidade e a incorporação da
esperança de cura fazem os pacientes de câncer apresentarem significativas taxas de
superação efetiva da doença, hoje em torno de 30 a 40%.5

46
Uma pessoa que se cura do câncer usualmente vivencia um extraordinário salto
qualitativo de existência, um ponto de mutação, tal como chamou o psicoterapeuta
Lawrence LeShan. Seu livro “O Câncer como Ponto de Mutação” pauta-se em 35 anos
de vivências com doentes de câncer cujas experiências de cura são valiosas lições
aplicáveis à nossa realidade como espécie.
Os processos de cura do câncer são experiências emocionais intensas, férteis, e
ressoam na contemporaneidade, um momento histórico que, segundo cientistas e
místicos, é a iminência de grandes transformações em níveis cosmológicos e espirituais.
Este trabalho alimenta-se da convicção de que se, nos próximos anos, ocorre
um reconhecimento emocional da doença e o desenvolvimento de planos de ação que
estimulem a perspectiva de autocura em nossas comunidades, poderemos empreender
um processo de superação da enfermidade com grandes chances de êxito.
O câncer, contudo, avança rapidamente, no ritmo da devastação ambiental. A
esperança que move este trabalho é difundir a percepção do diagnóstico da doença
como ponto de partida para o processo de cura, uma condição inicial para que tal
processo decorra. O quanto antes reconhecermos emocionalmente a doença, maior o
potencial de cura intrínseco às nossas comunidades.
Da mesma forma que um ser humano que desenvolveu um tumor não terá
chances de restauração da saúde se o câncer não for diagnosticado, o mesmo, sustenta-
se, pode ser aplicado no contexto da totalidade humana. O tempo torna-se escasso na

medida em que os tecidos da vida são assolados e o nosso “capital natural” é
consumido obsessivamente.
Parece improvável que se faça emergir um espírito de cura se não nos
posicionarmos biologicamente dentro do Sistema de Gaia e possamos agir
conscientemente na transformação dos modelos sociais.
A compreensão da natureza cancerosa dos nossos sistemas econômicos e
políticos pode fornecer um arcabouço cultural que mobilize todo o “corpo da
humanidade”, como cunhou Sahtouris6, em direção à restauração do senso de


“O capital natural pode ser encarado como a soma total dos sistemas ecológicos que sustentam a vida (…)
Algo difícil de ser visto porque é a própria lagoa em que nadamos e, tal qual os peixes, nós não temos
consciência de estarmos na água”. Cf. HAWKEN et al (2002), pág. 141.

47
holonomia perdido com a cultura antropocêntrica excessivamente yang desdobrada nos
últimos milhares de anos.
O câncer é um desequilíbrio de todo o sistema. As células cancerosas são
reflexos aparentes de um processo que é estrutural. Mais do que identificar quais são as
células cancerosas e por que elas se tornaram malignas, o caminho da cura passa por
reconhecer a enfermidade, compreender-se enfermo, assumir a participação no
processo em curso e mobilizar-se para a cura.
Nos próximos parágrafos vamos aprofundar a compreensão dessas metáforas.
Procuraremos entender a dinâmica da enfermidade para extrair daí o real potencial de
cura que é gestado no interior desse desafio biológico.
A expectativa é que o “diagnóstico” do câncer não faça desabar nossa estrutura
já abalada, mas gere uma catalisação de força de reação e mobilize todo o organismo
planetário em direção à superação do distúrbio.
De certa forma, enxergamos uma analogia com o que acontece quando vamos
ao médico e recebemos a confirmação do câncer: ou sucumbimos na angústia do
desespero, ou somos tomados por sentimentos de revitalização e convicção, pois a
partir de então sabemos que a cura depende da nossa própria esperança e, com a
realidade trazida à tona, sabemos agora qual caminho seguir.

48
5. A DINÂMICA DO TUMOR

Compreendida a linguagem a ser utilizada neste trabalho, passemos agora para


o capítulo em que a doença em si será abordada, de forma a delinearmos a sua
presença em nossos padrões sociais e ecológicos.
Pois, o que é o câncer? No imaginário popular podemos identificá-lo
representado por um invasor poderoso capaz de destruir o corpo hospedeiro. Tal
imagem da enfermidade é, de fato, bastante difundida, embora não corresponda à
realidade.
Um câncer parece começar com células que contêm informações genéticas
modificadas através de processos de replicação defeituosos. Não se sabe ao certo como
se dão as alterações no DNA da célula, mas hoje se pode afirmar que o câncer é uma
doença genética.
Seja através de percauços bioquímicos aleatórios, seja através de ataque ao
DNA da célula por um carcinógeno – tais como alguns vírus, a nicotina, o álcool,
radiações, etc – o fato é que a célula modificada se torna incapaz de cumprir as funções
para as quais ela se constitui.
As mutações genéticas parecem afetar vários tipos de genes. Tais
transformações do DNA promovem mudanças de comportamento das células que
implicam no desenvolvimento e concretização de objetivos centrados em si próprias, em
desconsideração ao equilíbrio dinâmico do organismo do qual fazem parte. Entre essas
mudanças de atitude das células cancerosas, podemos identificar seis particularidades
fisiológicas capazes de caracterizar o processo cancerígeno em qualquer um dos mais de
cem tumores diferentes conhecidos atualmente:1

i. Células normais usualmente esperam por uma mensagem externa antes de


iniciar uma divisão. As células cancerosas geralmente simulam suas próprias
mensagens pró-crescimento.
ii. Células cancerosas ignoram o comando de bloqueio da divisão celular enviado
pelos tecidos adjacentes comprimidos pela expansão do tumor.
iii. Células saudáveis possuem um sistema de morte endógena inevitável, natural e
necessária, da qual dependem a normalidade dos corpos multicelulares,

49
denominada apoptose. Assim como a menstruação e a troca de pelagem, a
apoptose é natural. Os corpos humanos precisam dessa morte celular para viver.
As células cancerosas, contudo, ignoram este sistema e lutam para permanecer
vivas a todo custo.
iv. Tumores precisam de oxigênio e nutrientes para seguirem crescendo. Células
cancerosas são capazes de persuadir os vasos sanguíneos próximos a
construírem a infra-estrutura necessária para sobreviverem. Assumem uma
postura de adequarem o meio a elas e não o contrário, como seria saudável, de
elas se adequarem ao ambiente corpóreo.
v. Células saudáveis possuem um limite de crescimento. Não podem se dividir mais
do que em torno de setenta vezes, suficiente para sustentar uma pessoa por até
um século de vida saudável. As células cancerosas se reproduzem
indefinidamente.
vi. Algumas células com características cancerígenas especiais adquirem a
habilidade de se destacar da massa inicial, flutuar através da circulação, e iniciar
uma nova colônia em um órgão diferente de onde se originaram.

Ao refletirmos sobre essas características das células cancerosas, podemos


identificá-las isomorficamente no cerne do comportamento da humanidade dentro do
Sistema de Gaia. Quando fazemos esses comparativos, devemos ter em mente que
estamos lidando com sistemas de complexidades muito diferentes e, por isso, nossa
atenção não deve estar focada nos componentes específicos, mas nos padrões refletidos
na totalidade do sistema. Isso significa que os processos são semelhantes, embora as
estruturas sobre as quais operam sejam de natureza distinta e, conseqüentemente, as
variáveis em questão podem até mesmo ser qualitativa e quantitativamente diferentes.
Vejamos correspondentes sistêmicos do processo humano às particularidades
identificadas nas células cancerosas:

i. Células cancerosas: Células normais usualmente esperam por uma


mensagem externa antes de iniciar uma divisão. As células cancerosas
geralmente simulam suas próprias mensagens pró-crescimento.

50
Humanidade: Nos últimos séculos, a sociedade humana passou por um
processo frenético de crescimento populacional, apesar de todos os esforços
culturais para reprimir o impulso reprodutivo. Apenas no Século 20, os seres
humanos passaram de três bilhões para seis bilhões de indivíduos, e seguimos
aumentando nossas populações, principalmente nos países cuja pobreza é
endêmica.

A palavra que mais se houve em nossa perspectiva social é “crescimento”.


Simulamos mensagens pró-crescimento, do tipo “precisamos de crescimento
econômico para prover de nutrientes o crescimento das populações”, mesmo que
a situação do ambiente não comporte mais crescimento.

É oportuno salientar a diferença entre crescimento e desenvolvimento, no âmbito


humano, através das palavras do cancerologista sueco Karl Henrik-Ròbert:

“’Crescimento’, da maneira como eu entendia, significava um aumento


do uso de recursos limitados acompanhado da correspondente emissão
de detritos, ao passo que ‘desenvolvimento’ significava uma melhora da
condição humana, incluindo saúde, educação, informações, sabedoria,
liberdade e possibilidade de amar. O crescimento físico está
inerentemente limitado, mas o desenvolvimento pode continuar
indefinidamente – o que é uma distinção importante (…) Em sistemas
integrados de alto desempenho, o crescimento material continuado
torna-se contraproducente em relação ao desenvolvimento. Por isso, os
sistemas sustentáveis têm mecanismos próprios para reduzir a
velocidade do crescimento e acabar mantendo-o preso a um estilo
controlado. Se esse mecanismo ‘inteligente’ não estiver presente nos
sistemas em crescimento, então, a exemplo das bactérias que se
multiplicam nos recipientes de teste dos laboratórios, o único resultado
além de um determinado ponto de crescimento exponencial será a
morte súbita e a extinção (as bactérias não morrem de fome, mas das
próprias toxinas). Isso também se aplica ao caso das células de câncer,

51
que se multiplicam sem se desenvolver. Finalmente o tumor ameaça o
sistema do qual se alimenta (como acontece entre as bactérias, a
ameaça ao hospedeiro geralmente não decorre da competição por
nutrientes, mas dos efeitos colaterais do crescimento do tumor). O
mesmo se daria com o crescimento econômico? A expansão global dos
gases causadores do efeito estufa e da degradação do ozônio pareciam
indicar que esse era o caso”.2

ii. Células cancerosas: Células cancerosas ignoram o comando de bloqueio da


divisão celular enviado pelos tecidos adjacentes comprimidos pela expansão
do tumor.

Humanidade: Atualmente é inconcebível para qualquer governo ou empresa


assumir uma postura contrária ao crescimento. O imperativo social é crescer,
independentemente se o ambiente suporta ou não este crescimento. Calcula-se
em 20% o déficit da resiliência do planeta, ou seja, a incapacidade dos
ecossistemas de regenerarem-se através dos processos cíclicos de reposição
biológica primária. Esse déficit, que expõe claramente o desequilíbrio das práticas
econômicas humanas, cresce a uma taxa de 2,5% ao ano.3 Mesmo assim, apesar
das evidências de um colapso promovido pelos modelos econômicos adotados, a
humanidade segue obsessivamente enfocando o crescimento em todos os
sentidos, ignorando os comandos de interrupção do fluxo expansivo que chegam
através de sinais de exaustão dos ecossistemas pressionados pela ação de
arruinamento impetrada pelo sistema econômico da humanidade.

iii. Células cancerosas: Células saudáveis possuem um sistema de morte


endógena inevitável, natural e necessária, da qual dependem a normalidade
dos corpos multicelulares, denominada apoptose. Assim como a menstruação
e a troca de pelagem, a apoptose é natural. Os corpos humanos precisam
dessa morte celular para viver. As células cancerosas, contudo, ignoram este
sistema e lutam para permanecer vivas a todo custo.

52
Humanidade: As características da nossa cultura permitem um paralelo preciso
entre a desativação da apoptose nas células cancerosas e a obsessão dos seres
humanos em se manterem vivos a qualquer custo. Como nos diz Capra,

“A falta de espiritualidade, que se tornou característica da nossa


moderna sociedade tecnológica, reflete-se no fato de a profissão
médica, à semelhança da sociedade como um todo, negar a morte (…)
A antiqüíssima arte de morrer deixou de ser praticada em nossa cultura,
e o fato de ser possível morrer com boa saúde parece ter sido
esquecido”.4

Atualmente podemos verificar um número muito grande de seres humanos


debilitados por doenças e pela própria idade avançada, mas, salvo raríssimas
exceções, o procedimento usual é prolongar a vida o máximo possível. A morte
endógena, a “arte de morrer”, análoga à apoptose celular, deixou de prevalecer.
Essas constatações atingem um ápice quando entendemos que a eutanásia, a
prática pela qual se busca abreviar, sem dor ou sofrimento, a vida de um doente
reconhecidamente terminal, é considerada um crime em grande parte dos países.

iv. Células cancerosas: Tumores precisam de oxigênio e nutrientes para


seguirem crescendo. Células cancerosas são capazes de persuadir os vasos
sanguíneos próximos a construírem a infra-estrutura necessária para
sobreviverem. Assumem uma postura de adequarem o meio a elas e não o
contrário, como seria saudável, de elas se adequarem ao ambiente corpóreo.

Humanidade: Assim como as células cancerosas adaptam o ambiente às suas


demandas de oxigênio e nutrientes, a sociedade humana vem fazendo do
planeta um recipiente de recursos para sustentar seu processo de expansão
obsessiva. Da mesma forma que as células cancerosas impõem a produção de
vasos sanguíneos para alimentá-las, os seres humanos retalham a superfície do
planeta, abrem estradas por todas as partes, interrompem corredores ecológicos,
desenvolvem monoculturas que sulcam a terra e devastam a diversidade

53
biológica, constroem barragens gigantescas e desviam rios de seu curso natural,
abrem crateras para minerar elementos economicamente úteis, desflorestam
áreas gigantescas para implementar pastagens, etc.

Os seres humanos já usam mais da metade da água potável de superfície


disponível, transformaram entre um terço e metade da superfície da Terra firme,
fixam mais nitrogênio que todos os sistemas naturais do planeta e se apropriam
de dois quintos de toda a produtividade biológica primária terrestre.5 Seguindo o
mesmo padrão de ocupação das células cancerosas, a espécie humana, ao invés
de se adequar ao ambiente, impõe uma adaptação abusiva do ambiente aos seus
propósitos antropocêntricos, enfraquecendo permanentemente os sistemas
naturais do planeta. Como diz Janine Benyus, atualmente “é a Terra que tem que
se adaptar a nós, e não o contrário”.6

v. Células cancerosas: Células saudáveis possuem um limite de crescimento.


Não podem se dividir mais do que em torno de setenta vezes, suficiente para
sustentar uma pessoa por até um século de vida saudável. As células
cancerosas se reproduzem indefinidamente.

Humanidade: A analogia entre as células cancerosas e os seres humanos no


que se refere à perda de seus limites de crescimento pode ser alcançada na
análise dos processos de formação de impérios político-econômicos. Podemos
constatar claramente a perda do senso de organicidade no crescimento excessivo
das instituições humanas, principalmente as corporações transnacionais, que não
apresentam limites de crescimento e reprodução de suas estruturas,
indiferentemente se o ambiente comporta tamanha concentração de poder
econômico. Assim como o câncer, gigantescas organizações impõem ao Sistema
de Gaia um padrão baseado na dominação e na subjugação, sorvendo com
avidez o “capital natural” do planeta, forjando lucros estéreis ao passo que todos
os demais são obrigados a subsidiar o esgotamento da saúde do organismo.

54
Para ilustrar em números esse fenômeno, recorremos ao trabalho de Pat Roy
Mooney. Em seu livro “Século 21 – Erosão, Transformação Tecnológica e
Concentração do Poder Empresarial”, ele faz uma apresentação contundente de
“como as ferramentas bio e nanotecnológicas manipulam a matéria, se tornam
cada vez mais potentes e vão ficando cada vez mais concentradas nas mãos de
uma elite empresarial que luta por dominar o resto do planeta, à medida que se
erodem os fundamentos básicos da vida”.7

Para termos uma idéia desse processo de concentração patológica dos recursos,
basta verificarmos que, há 20 anos, nenhuma das 7.000 empresas de sementes
de maior peso no mundo tinha uma porção identificável do mercado comercial de
sementes. Hoje, as 10 principais empresas dominam um terço do mercado. Há
20 anos, as 20 maiores indústrias farmacêuticas tinham cerca de 5% do
comércio mundial de medicamentos receitados. Hoje as dez maiores empresas
controlam mais de 40% do mercado. Há 20 anos, 65 empresas de química
agrícola competiam no mercado mundial. Hoje, 9 companhias detêm
aproximadamente 90% das vendas de pesticidas. Noventa por cento das
patentes de tecnologias e produtos novos são controladas por transnacionais. A
começar este novo milênio, as 200 principais empresas do mundo representam
28% da atividade econômica global; as 500 maiores representam 70% do
comércio mundial e as 1.000 maiores controlam mais de 80% da produção
industrial do mundo.8 Este processo de concentração está em curso, apresenta
uma curva ascendente e não dá demonstrações de conceber um limite de
crescimento e reprodução de suas estruturas.

vi. Células cancerosas: Algumas células com características cancerígenas


especiais adquirem a habilidade de se destacar da massa inicial, flutuar
através da circulação, e iniciar uma nova colônia em um órgão diferente de
onde se originaram.

Humanidade: A capacidade que algumas células têm de colonizar outros órgãos


e induzi-los à mesma dinâmica cancerígena pode ser identificada no universo

55
humano com a propagação, nestes últimos séculos, de um arcabouço cultural
advindo das civilizações imperiais antigas, primeiramente agrupadas em território
europeu, que vem esmagando as culturas tradicionais e impondo o modelo de
expansão obsessivo, antropocêntrico, distorcido em suas bases holonômicas,
desequilibrado em seus fluxos de energia. Assistimos à dilatação de uma cultura
“pasteurizante” via canais de comunicação de massas de linguagem alienante e
com estruturas publicitárias bilionárias. Veículos controlados por corporações
transnacionais concentradoras de recursos, cuja organização tem a capacidade
de levar aos mais distantes núcleos comunitários humanos as mensagens de
estímulo à cultura de afastamento à ordem cíclica natural, de apego aos
processos lineares de acúmulo de recursos, de desperdício, consumo supérfluo e
fragmentação competitiva das comunidades, tal como células cancerígenas
criando metástases por todo o corpo.

Estes isomorfismos, tomando como base as características biológicas das


células cancerosas, têm por objetivo aprofundar os paralelos entre o câncer humano e o
câncer planetário, transcendendo as analogias cunhadas no âmbito das ciências
humanas e aproximando a reflexão das ciências naturais. Decerto que tais isomorfismos
carecem de maior sustentação na fisiologia, mas essa exposição, em âmbito preliminar,
dá mostras que ambos os fenômenos apresentam íntimas relações sistêmicas.
Outro viés para demonstrar tais relações sistêmicas entre o câncer humano e o
fenômeno de desequilíbrio por que passa o planeta atualmente pode ser encontrado na
obra do austríaco Wilhelm Reich. Reich, ao longo da década de 1940, empreendeu um
aprofundado estudo sobre a natureza do câncer, apresentando suas conclusões com um
estilo admirável e com clareza e precisão em sua obra intitulada “Biopatia do Câncer”,
de 1948.
Reich atribui um papel fundamental à emoção, carência sexual e aos bloqueios
caracteriais∗ no desenvolvimento da doença, cujas implicações serão analisadas no


Wilhelm Reich foi um cientista que gerou grande polêmica durante sua vida, expondo de forma incisiva as
mazelas orgânicas do ser humano causadas pela repressão instintiva e o bloqueio das funções primordiais
da sexualidade pela cultura. Ele desenvolveu, ao longo de sua experiência como psicanalista, uma análise
de caráter que embasou suas modalidades de intervenção terapêutica, focando a dissipação da couraça
caracterial produzida por um notável fenômeno de defesa às agressões do mundo social repressor.

56
próximo capítulo. Em sua descrição da fenomenologia do câncer como biopatia, ele
enfatiza o processo de putrefação do organismo causada pela grande quantidade de
toxinas produzidas pela desintegração dos tecidos originais e funcionamento das células
cancerosas e a crescente dificuldade do organismo de se desfazer dessas toxinas. Nas
palavras do biógrafo de Reich, Roger Dadoun,

“(…) as células cancerosas iniciam um processo de desintegração,


verdadeira putrefação em vida, que produz uma auto-intoxicação do
organismo, que logo se torna incapaz de promover a evacuação de
todos os resíduos e sucumbe. (…) O problema da terapia do câncer não
reside tanto na supressão dos tumores como na neutralização e
eliminação dos produtos da desintegração”. 9

Em seus estudos, Reich consegue demonstrar que o organismo é sufocado


pelos resíduos gerados pelo processo de desintegração tissular e funcionamento
desordenado das células cancerosas, que provocam a morte do organismo pelo acúmulo
de substância pútrida, visto que o organismo debilitado não consegue desenvolver
formas de eliminar ou neutralizar a quantidade enorme de toxinas produzidas.
Essa perspectiva se acopla às idéias do cancerologista sueco Karl Henrik
Ròbert, apresentadas anteriormente, que afirmam que as células de câncer ameaçam o
sistema do qual se alimentam não por conta da competição por nutrientes, mas pelos
efeitos colaterais do crescimento do tumor.
Por conseguinte, não é difícil relacionarmos o fenômeno de intoxicação do
organismo humano que sofre de câncer com o processo de envenenamento dos solos,
das águas e do ar causados pelo desenvolvimento civilizatório da humanidade.
Atualmente estamos despejando volumes impressionantes de substâncias
tóxicas no ambiente e a cada dia os sistemas de regulagem da Terra apresentam mais
dificuldades de neutralizar os fluxos de resíduos venenosos produzidos pelos nossos
sistemas de produção.
Para que logremos fazer uma analogia precisa entre a produção de toxinas em
um organismo canceroso e o funcionamento da sociedade humana e a produção
descontrolada de rejeitos tóxicos, inclusive nucleares, é oportuno recorrer ao livro “O

57
Ponto de Mutação” que, em sua introdução, descreve o desastre ecológico em grande
escala que estamos vivendo.
Capra demonstra como a superpopulação (tal qual um tumor) e a tecnologia
industrial têm contribuído de várias maneiras para uma grave deteriorização do meio
ambiente natural, do qual dependemos completamente. Enfatiza a poluição da
atmosfera e sua ação nociva em cadeia que desestabiliza as comunidades de plantas,
animais, induzindo mudanças graves no clima global, de forma que os meteorologistas
já falam de um véu nebuloso de poluição atmosférica que envolve todo o planeta.10
Capra segue sua análise da intoxicação do Sistema de Gaia enfocando a
poluição química:

“Além da poluição atmosférica, nossa saúde também é ameaçada pela


água e pelos alimentos, uma e outros contaminados por uma grande
variedade de produtos químicos tóxicos. Nos Estados Unidos, aditivos
alimentares sintéticos, pesticidas, agrotóxicos, plásticos e outros
produtos químicos são comercializados numa proporção atualmente
avaliada em mais de mil novos compostos químicos por ano. Assim, o
envenenamento químico passa a fazer parte, cada vez mais, de nossa
vida. (…) Tornou-se claro que nossa tecnologia está perturbando
seriamente e pode até estar destruindo os sistemas ecológicos de que
depende a nossa existência”.11

Além da poluição física do ambiente natural, estamos nos deparando com um


outro tipo de poluição que contamina a mentalidade da sociedade e incita a reprodução
e a perpetuação de um mesmo padrão de pensamento gerador das distorções de
comportamento verificadas. Trata-se da poluição informacional, o excesso de atenção
nos problemas, incoerências, desgraças. E esta pode ser vista como um outro aspecto
do acúmulo de toxinas provocado pelo tumor. Peter Russell assim coloca essa questão:

“Os ensinamentos indianos resumiram isso no ditado ‘Sarvam-annam’:


‘Tudo é alimento’ – onde ‘tudo’ inclui não apenas as comidas que
comemos e o ar que respiramos, mas também o que ingerimos através

58
dos sentidos. Experiências negativas, destrutivas ou agressivas terão um
efeito negativo, destrutivo ou agressivo sobre a nossa consciência. Na
realidade, nós poluímos a nossa mente tanto quanto poluímos o mundo
físico em que vivemos; e essa poluição mental pode afetar a nossa vida
tão drasticamente quanto a poluição física, se não mais”.12

Estabelecida a relação entre toxinas, poluição e câncer, seguimos com o


trabalho de delinear a enfermidade planetária. Thorwald Dethlefsen e Rudiger Dahlke,
em seu livro “A Doença como Caminho”, nos ajudam a aprofundar a compreensão das
relações sistêmicas entre o câncer em um organismo humano e o comportamento da
humanidade no Sistema de Gaia:

“(…) o corpo assiste como um número crescente de células mudam de


comportamento e, através de uma participação ativa, iniciam um
processo que por si mesmo não leva a nenhum resultado, mas que de
fato descobre seus limites no esgotamento do hospedeiro (solo
nutritivo). A célula cancerosa não é, como por exemplo as bactérias, os
vírus ou as toxinas, algo que vem de fora, pondo em risco o organismo;
ela é uma célula que até então estava a serviço do órgão e assim
atendia ao organismo como um todo proporcionando-lhe a melhor
chance de sobrevivência possível. Mas, subitamente, sua orientação se
modifica e ela abandona a identificação comum. Ela começa a
desenvolver e concretizar objetivos próprios sem a menor consideração
pelas demais células. Ela encerra sua atividade habitual, ou seja, sua
função específica dentro de um órgão, e coloca seu próprio
desenvolvimento em primeiro plano. Ela não se comporta mais como um
membro do ser vivente multicelular (…) Rompe sua união com a
comunidade celular e, a partir daí, espalha-se com rapidez e indiferença
através de uma divisão caótica, desrespeitando os limites morfológicos
(…) e construindo por toda parte seus pontos de apoio (metástases). O
que sobra da comunidade celular da qual se excluiu é usado como um
anfitrião que lhe dá de comer”.13

59
Se nos apropriarmos desse trecho do livro “A Doença como Caminho” e
substituirmos algumas palavras que se referem ao ambiente celular por palavras que
representem o ambiente terrestre, chegaremos legitimamente a uma descrição do
processo de ocupação e exploração humana no planeta.
“O câncer é uma expressão da nossa época e da nossa visão coletiva de
mundo”, afirmam Dethlefsen e Dahlke. Segundo eles, nosso todo racional é igual ao da
célula cancerosa. Somos capazes de uma expansão rápida e bem sucedida, mas não
conseguimos enfrentar os problemas de abastecimento. Temos um sistema de
comunicação que nos conecta com o outro lado do mundo, mas não conhecemos nossos
vizinhos. Há uma infinidade de facilidades, mas não sabemos o que fazer com elas.
Produzimos uma quantidade incrível de alimentos, mas chegamos a destruí-los somente
para manipular os preços.
A filosofia compartilhada pela humanidade pressupõe incontestavelmente o
progresso. “Trabalhamos, fazemos experiências e pesquisas – contudo, para quê?”,
perguntam Dethlefsen e Dahlke. “Em nome do progresso! E qual será o objetivo desse
progresso? Ainda mais progresso!” Os autores trazem então uma constatação
inquietante:

“A humanidade está envolvida numa viagem sem rumo. É por isso que
tem de estabelecer continuamente novos alvos para não se desesperar.
A célula cancerosa não pode simplesmente segurar uma vela para
iluminar a cegueira e a miopia da humanidade contemporânea. Em
virtude de visarmos apenas a expansão econômica, nós usamos o meio
ambiente como fonte alimentar e anfitrião e, atualmente, constatamos
surpresos que a morte desse hospedeiro implica a nossa própria morte.
Os homens contemplam o mundo como um grande celeiro: as plantas,
os animais, as matérias-primas. Tudo existe unicamente para que os
homens possam se espalhar de forma indiscriminada e ilimitada sobre a
Terra. De onde os homens que se comportam dessa maneira tiram a
coragem e a ousadia para se queixarem do câncer? Afinal, ele não passa
de um espelho que nos mostra o nosso comportamento, nossos

60
argumentos e, também, o fim do nosso caminho (…) Mas os homens
sempre quebram seus espelhos quando a imagem não os agrada! Os
homens têm câncer porque eles são um cancro”.14

Dentro da perspectiva de avaliar o ideal cego de progresso e o crescimento


econômico indiferenciado, Capra desenvolve uma profícua reflexão em torno dos
sistemas produtivos humanos, cujas medições de eficiência são capazes de evidenciar os
níveis absurdos de atritos sociais geradores de entropia – unidade relacionada com a
dissipação de energia – e dissolução dos recursos da economia em atividades
improdutivas.
A futuróloga Hazel Henderson (apud CAPRA, 1986) sublinha que a dissipação
de energia atingiu tais proporções em algumas sociedades industriais avançadas que os
custos das atividades improdutivas – manutenção de tecnologias complexas,
administração de vastas burocracias, mediação de conflitos, controle da criminalidade,
proteção dos consumidores e do ambiente, etc – absorvem uma parcela cada vez maior
do montante de riquezas de uma nação, levando a uma inflação sempre crescente.
Henderson chegou a cunhar o termo “estado de entropia” para o estágio de
desenvolvimento econômico em que os custos de coordenação e manutenção
burocráticas excedem a capacidade produtiva da sociedade, e todo o sistema soçobra
sob seu próprio peso e complexidade.15
Ao adotarem uma perspectiva ecológica e usarem conceitos apropriados para
analisar processos econômicos, os economistas se deparam com evidências de que
nossa economia, nossas instituições sociais e nosso ambiente natural estão seriamente
desequilibrados.
Um corpo enfermo, analogamente, vê seus fluxos de energia serem
arbitrariamente destinados ao tumor e à produção de mais células cancerosas que, em
última instância, são improdutivas para o sistema. O tumor exerce tamanha pressão que
gera um forte revés na dinâmica energética de todo o organismo. Acumula montantes
imensos de energia orgânica que acabam por se estagnar no processo de crescimento
indiferenciado de suas células. Enquanto isso, as demais partes do corpo padecem com
a escassez de energia e alimento em níveis sempre crescentes.

61
Por conseguinte, podemos fazer um paralelo entre o processo de demanda
energética sempre crescente em nível celular e o processo de inflação sempre crescente
em nossa economia.
Em um corpo humano, a energia é sorvida pelo tumor para alimentar seu
crescimento desencaminhado, privando os demais órgãos de um fluxo equilibrado de
nutrientes, da mesma forma que atualmente no planeta os recursos são sorvidos por
uma máquina institucional, descomunal em sua complexidade, que faz extorquir a
produção das nações e suas populações para alimentar um progresso sem rumo que
não vê nem na exaustão dos ecossistemas seu limite de crescimento obsessivo.
Sendo assim, os fenômenos vinculados ao atual estágio da economia humana e
suas seqüelas sociais parecem relacionar-se de forma muito precisa com a “economia”
em nível celular em um corpo que sofre de câncer, conforme assinalou Fritjof Capra:

“O crescimento indiferenciado tende a caminhar de mãos dadas com a


fragmentação, a confusão e o colapso geral da comunicação. Os
mesmos fenômenos são característicos do câncer em nível celular,
sendo o termo “crescimento canceroso” muito apropriado para o
crescimento excessivo de nossas cidades, tecnologias e instituições
sociais. Como existe uma interação contínua entre indivíduos e seu meio
ambiente natural e social, as conseqüências desse crescimento
canceroso são perniciosas para homens e mulheres, assim como para a
economia e o ecossistema. O restabelecimento do equilíbrio social e
ecológico também contribuirá para melhorar a saúde no plano
individual”.16

O americano Peter Russell é outro pensador que muito contribui para a


compreensão do câncer planetário. Em seu livro “O Despertar da Terra”, Russell
identifica o câncer como um fenômeno de baixa sinergia entre as células. Segundo ele,

“Sinergia não implica em qualquer coerção ou coibição, nem surge por


um esforço deliberado. Cada elemento do sistema trabalha
individualmente para atingir seus próprios fins, que podem ser os mais

62
variados. E, no entanto, eles espontaneamente agem de uma maneira
que favorece a todos, havendo assim pouco ou nenhum conflito
intrínseco”.17

Um exemplo de alta sinergia é o nosso corpo, visto que somos um


agrupamento de trilhões de células individuais, cada uma agindo em seu próprio
interesse, mas contribuindo simultaneamente para uma organização evolutiva comum.
Sinergia em um organismo é a essência da vida e está intimamente ligada à saúde. No
tecido maligno em um organismo com câncer, as células deixam de funcionar como
parte de um organismo maior e passam a se alimentar e se reproduzir às custas do
restante do corpo. Segundo Russell, as células cancerosas são células egocêntricas e,
neste aspecto, o câncer é um fenômeno de baixa sinergia.
Os antropólogos que estudam comunidades e sistemas tribais primitivos
também utilizam a idéia de sinergia para atestar quanto à participação de um indivíduo
em colaboração com sua coletividade. E em estudos antropológicos constatou-se que
grupos de alta sinergia tendem a ter poucos conflitos e agressões, seja entre membros
do grupo, ou entre um indivíduo e o grupo.18
Peter Russell avança em seu raciocínio identificando as relações de baixa
sinergia em nossa sociedade:

“A necessidade constante de manter e reafirmar um senso de identidade


proveniente da experiência – seja através da nossa busca de esforços
positivos de reforço, dos papéis que representamos, dos grupos a que
pertencemos, das crenças que defendemos, ou de algum outro processo
– leva-nos a usar o mundo para suprir e apascentar o “eu”. O resultado
é um modo de consciência exploradora. Tornamo-nos exploradores
daquilo que nos cerca, de outras pessoas e até mesmo de nossos
corpos. Nossa forma de exploração talvez seja mais sutil do que a do
rico industrial que explora operários miseráveis, mas nem por isso deixa
de ser exploração – o resto do mundo é usado a serviço da identidade.
É este modo de consciência que está no cerne da baixa sinergia da
nossa sociedade”.19

63
RUSSELL (1991) empreende um exame dos padrões através dos quais nossa
dimensão egóica opera em sociedade. Ele aborda o modelo de “eu” mais comum, de
acordo com o qual a maioria dos seres humanos age e que parece estar no âmago da
nossa baixa sinergia como espécie: a concepção de ego-encapsulado, termo cunhado
pelo escritor Alan Watts, que envolve uma individualidade separada e distinta do resto
do mundo, tal como o pensar que “eu estou aqui dentro” e o “mundo está lá fora”.
Essa dimensão encapsulada do ego, proeminente em nosso sistema social, nos
proporciona senso de distinção e singularidade individual. Isso é de considerável valor,
visto que biologicamente somos organismos auto-organizadores, auto-reguladores e
autodirigidos, e a noção de um “eu” individual separado contribui para nossa autonomia
como sistemas vivos.
Além disso, esse sentimento de unicidade e o fato de nos esforçarmos para
preservar nossa individualidade e nossa singularidade fazem com que o organismo
fisiológico tenha uma chance muito maior de sobrevivência. Essa habilidade em
sobreviver torna-se mais necessária e se exaspera em um ambiente excessivamente
auto-afirmativo, expansionista e competitivo como a sociedade humana atual.
Russell, contudo, mostra que quando o ego encapsulado é tomado como o
único senso do eu, acabamos vendo o mundo apenas em termos de ‘eu’ e ‘não-eu’ e
não desenvolvemos a percepção holística de “ser o todo”. E a conseqüência direta é
criarmos nosso senso de identidade baseadas em nossas percepções, experiências e
interações com o mundo exterior e não nos basearmos em nossa própria essência
interior. Pois, afinal, supõe-se que ela não se manifesta, tendo em vista que está
“encerrada por baixo da pele”.
Nosso “eu”, portanto, provém daquilo que nos rodeia e torna-se efêmero e
transitório, tanto quanto as experiências que lhe deram origem. Sendo assim, precisa
ser continuamente mantido, alimentado, protegido, reforçado.
Boa parte da atividade humana, alicerçadas pela presença predominante do
“eu” constituído a partir de experiências exteriores, está voltada para estabelecer e
defender nossas identidades encapsuladas e, como sugere Russell,

64
“O baixo grau de sinergia que observamos na sociedade pode remontar
a esse tipo de esforço. Se é interagindo com outras pessoas que
conquistamos nosso senso de identidade, precisamos que elas
reconheçam e reafirmem nossa existência (…) A vida torna-se então
uma busca incessante de reforço pessoal”.20

Se analisarmos subjetivamente a constituição do ego encapsulado até a


consolidação de uma perspectiva social de baixa sinergia é possível que nos
aproximemos da compreensão do fenômeno de gênese do câncer planetário.
Assim como Capra, Peter Russell sustenta que ambos os fenômenos, o câncer
humano e o câncer planetário, parecem estar intimamente relacionados, sendo talvez
duas facetas de um mesmo fenômeno:

“É possível que o câncer humano e o câncer planetário estejam ainda


mais intimamente relacionados do que esta analogia sugere: é possível
que ambos sejam apenas dois sintomas diferentes do mesmo problema.
O câncer humano tem se tornado cada vez mais prevalecente nas
últimas décadas, particularmente nas nações desenvolvidas do Ocidente.
Isso ao mesmo tempo em que essas nações iam se tornando cada vez
mais “malignas” na maneira de tratar o meio ambiente (…) Estamos
ainda descobrindo que inúmeros produtos (e.g., tinturas para cabelos,
loções bronzeadoras, fibras de amianto, fluidos de fotocopiadoras e
água clorada para beber) podem induzir o câncer, para não falarmos da
radioatividade e dos inúmeros agentes poluidores da atmosfera. Todos
esses exemplos decorrem da baixa sinergia da sociedade
contemporânea; e a baixa sinergia da sociedade parece levar a uma
baixa sinergia – e ao câncer – no indivíduo”.21

Como pudemos verificar neste capítulo, as relações sistêmicas entre o câncer


humano e o câncer planetário são bastante manifestas. Contudo, não é intenção desse
trabalho de pesquisa apresentar estudos aprofundados de comprovação fisiológica da
natureza carcinogênica dos nossos padrões sociais.

65
No atual estágio de pesquisa, parece suficiente a constatação do isomorfismo
entre as duas dimensões holárquicas – ser humano e biosfera – de forma que possamos
verificar com clareza o fenômeno de partes constituintes se amotinarem contra a ordem
holárquica, passando a agir egocentricamente, sem colaboração e responsabilidade pelo
todo-abrangente que as sustenta.
Tratou-se de delinear padrões semelhantes entre os dois níveis holárquicos de
forma que pudéssemos identificar a enfermidade como um ponto de partida para a
construção de planos de ação que integram as dimensões educacionais, psicológicas,
econômicas, culturais, políticas e espirituais. Como se vê, tais planos de ação são
transdisciplinares e podem ser traduzidos como estratégias de cura para uma
enfermidade que está dentro e fora de cada um de nós, seres humanos.
O capítulo seguinte apresenta as relações emocionais do câncer identificadas
pelas pesquisas médicas, de forma que possamos aprofundar o isomorfismo entre as
dimensões humanas e planetárias e estabelecer critérios para a aplicabilidade dos
procedimentos de cura no âmbito humano dentro da perspectiva social e ecológica.

66
6. A DIMENSÃO EMOCIONAL DO CÂNCER

A compreensão integrada dos problemas atuais como um câncer planetário dá-


nos uma grande oportunidade de descobrirmos nossos próprios erros de pensamento e
enganos. Desta maneira, podemos reunir todas as mais diversas facetas da crise global
que nos acomete em um único fenômeno que se apresenta como um desafio biológico.
Longe de afirmar objetivamente a existência do câncer planetário, este trabalho
pretende construir um panorama fundamentado em isomorfismos e analogias sistêmicas
que nos permita uma reflexão aprofundada em torno dos nossos modelos culturais e
nossa percepção diante do planeta e da vida como uma totalidade.
Espera-se que, ao analisarmos os procedimentos médicos que vêm obtendo
sucesso na cura do câncer em indivíduos, sejamos capazes de transportar tal sabedoria
para o âmbito planetário, delineando planos de ação de cura alicerçados por mudanças
cognitivas que abrangem os níveis físicos, mentais, emocionais e espirituais.
Para tanto, recorreremos aos trabalhos de James Creighton, Carl e Stephanie
Simonton e de Lawrence LeShan, cujas abordagens psicossomáticas no tratamento da
doença induzem-nos à compreensão da enfermidade planetária a partir dos mesmos
princípios.
É importante ressaltar que o tempo médio de sobrevida dos pacientes de James
Creighton, Carl e Stephanie Simonton, em meados da década de 1980, era o dobro do
registrado nas melhores instituições para tratamento de câncer e o triplo da média
nacional nos Estados Unidos. Além disso, a qualidade de vida e os níveis de atividades
dos homens e mulheres submetidos ao tratamento podem ser considerados
extraordinários.1 Salienta-se que Creighton e os Simontons sempre buscaram pacientes
com diagnóstico de doença maligna incurável, do ponto de vista médico (um
prognóstico que é intensamente compartilhado no que tange a situação da humanidade
no Planeta Terra).
Outra abordagem que se fará presente representando a linha psicossomática
do tratamento do câncer será a de Wilhelm Reich, considerado precursor de
movimentos integradores de mente e corpo na psicologia e na medicina.
O ponto de partida para nossa abordagem integrativa entre o fenômeno do
câncer no indivíduo e o câncer planetário, extraindo daí os princípios que norteiem o

67
processo de cura a partir de uma transformação cultural da humanidade, é a
compreensão cada vez mais precisa das relações entre as emoções e o câncer.
Tanto Creighton e os Simontons como Lawrence LeShan identificam o estado
emocional do paciente como um fator de extrema relevância no surgimento da doença.
Dentre vários sintomas de estresses emocionais estudados, um que chama atenção pela
sua freqüência é o que pode ser chamado de “perda da esperança”. James, Carl e
Stephanie relatam a presença da desesperança como indicador preponderante do
surgimento do câncer da seguinte forma:

“Acreditamos também que o câncer surge como uma indicação de


problemas existentes em outras áreas da vida da pessoa, agravados ou
compostos de uma série de estresses que surgem de 6 a 18 meses
antes do aparecimento do câncer. O paciente canceroso, de maneira
típica, reagiu a esses problemas e estresses com um sentimento de
profunda falta de esperança e de ‘desistência’. Esta reação emocional,
acreditamos, por sua vez dispara um conjunto de reações fisiológicas
que suprimem as defesas naturais do corpo, tornando-o suscetível à
produção de células anormais”.2

Lawrence LeShan compartilha da visão do mesmo processo originário e ressalta


a presença da desesperança como um aspecto do caráter das pessoas suscetíveis ao
câncer:

“A única coisa que surgiu mais nitidamente durante meu trabalho foi o
contexto em que o câncer se desenvolveu. Na grande maioria das
pessoas que entrevistei (certamente não em todas) existira, antes dos
primeiros sinais visíveis do câncer, uma perda da esperança de jamais
conseguir um tipo de vida que oferecesse uma satisfação real e
profunda, que proporcionasse uma sólida razão de ser, o tipo de
significado que nos deixa felizes de sair da cama pela manhã e
contentes de ir para a cama à noite – o tipo de vida que nos faz
aguardar com entusiasmo cada novo dia e o futuro. Com freqüência,

68
essa ausência de esperança surgia da impossibilidade da pessoa em se
relacionar e se expressar e da incapacidade de encontrar um substituto
significativo”.3

Ao longo de muitos anos de pesquisa, Lawrence LeShan notou a perda da


esperança em 70 a 80 por cento dos seus pacientes com câncer, ao passo que também
trabalhou com grupos de controle – pessoas sem câncer a quem submetia os mesmos
testes de personalidade – e encontrou o mesmo padrão em apenas 10 por cento das
pessoas.4
Traçando um paralelo com a situação humana no contexto planetário, a perda
de esperança de encontrar significado para a existência, através de uma maneira
individual de expressão e de relacionamentos, é típica da sociedade. Nota-se fortemente
a perspectiva de desalento dos seres humanos em relação ao futuro e às próprias vidas.
Esse sentimento implica em atitudes imediatistas do tipo “aproveitar enquanto é tempo”,
“gastar antes que acabe”, que vieram a se tornar padrões sociais de conduta,
influenciando em toda a dinâmica social da modernidade. Tais atitudes, por sua vez,
impulsionaram a cultura consumista que vem desgastando os ecossistemas terrestres de
maneira ininterrupta. O planeta parece ter se tornado algo descartável. “Afinal, a
destruição acontecerá, de uma forma ou de outra”. Podemos ouvir este tipo de
afirmação em diversos âmbitos da sociedade, cotidianamente.

Uma segunda constatação que Creighton e os Simontons e Lawrence LeShan


encontraram em suas pesquisas foi que os estresses emocionais crônicos – tais como a
perda da esperança de possuir uma vida significativa, ou quando a vida está confusa
demais e a maneira como lidamos com os acontecimentos não dá os resultados que
esperamos – tornam as pessoas suscetíveis a várias doenças, ao suprimir o sistema
imunológico, responsável por destruir as células cancerosas e os microorganismos
estranhos ao corpo.
De maneira muito simplificada, o sistema imunológico é composto de vários
tipos de células designadas a preservar a identidade somática do organismo. Esta rede
celular desenvolve capacidades defensivas às infecções e a qualquer coisa estranha ou
anormal que ameace sua identidade somática.5

69
A partir de sólidos pontos de vista a respeito, Lawrence LeShan afirma que

“Todos nós adquirimos câncer muitas vezes por dia. Enquanto os bilhões
de células individuais se dividem e se multiplicam, algumas perdem sua
ligação com o resto do corpo – sua habilidade para manter a relação
com o órgão no qual elas se encontram é destruída. Então surge um
câncer. Isso acontece repetidamente, mas nosso mecanismo de defesa
– não sabemos muito a respeito, porém ele existe – rapidamente toma
conta da situação”.6

Enquanto o organismo está forte física, mental e emocionalmente, as redes


celulares não permitem o avanço das células anormais, embora elas sejam produzidas
diariamente pelo organismo. Contudo, substâncias cancerígenas, radiação e, como
vimos, estresses emocionais podem enfraquecer nossa estrutura de defesa e acarretar
desequilíbrios hormonais que resultam num aumento da produção de células anormais.
A conseqüência é que a produção de células cancerosas é incentivada precisamente na
época em que o corpo é menos capaz de destruí-las.
LeShan, em seus mais de trinta anos de pesquisa com pacientes com câncer,
identificou a desesperança como um tipo de estresse emocional para o qual ficou
comprovada sua influência no enfraquecimento dos mecanismos de defesa do corpo
humano:

“Pelo menos um tipo de estresse emocional prolongado também pode


diminuir sua força [dos mecanismos de defesa]. O único tipo de estresse
emocional que conhecemos hoje em dia que certamente consegue
enfraquecê-la é a perda da esperança de jamais vivermos nossa vida de
maneira significativa, de jamais podermos cantar nossa própria canção e
nos relacionar, ser, criar, da forma que seja mais importante para nós”.7

Para estabelecermos uma conexão dessas descobertas científicas sobre o


câncer no indivíduo e seu correspondente planetário, faz-se interessante situarmo-nos
dentro de uma perspectiva histórica da humanidade, identificando tempos longevos que

70
remontam ao Pleistoceno (Antiga Idade da Pedra) sobre os quais existem registros
arqueológicos de culturas humanas igualitárias, pacíficas e democráticas, espalhadas por
todo o Oriente Médio, Norte da África e Europa.
Tais culturas se mostravam integradas com o ambiente natural e enxergavam a
natureza como uma grande mãe, uma deusa que lhes dava vida e tudo que era
necessário para sustentar homens e mulheres. Provavelmente não se concebia a Deusa-
mãe dessas antigas culturas como existindo fora da natureza. Ela não era a criadora
externa da natureza, mas a sua própria força criativa. O princípio orientador do
feminino, integrador e cooperativo, repercutia como diretriz da cultura, em aparente
equilíbrio com a dimensão masculina da sobrevivência no ambiente.
Podemos sugerir que as comunidades humanas que habitavam a interseção da
Europa, Ásia e África no final do Período Neolítico (em torno de 6.000 anos atrás)
vivenciaram uma grande transição cultural, passando de uma cultura de integração à
natureza e relações de parceria para outro tipo de cultura guerreira e dominadora
impetrada por caçadores ou nômades patriarcais adoradores de deuses masculinos.
Estas tribos, de uma forma geral, não eram pacíficas nem igualitárias e eram lideradas
por homens experimentados no manejo de armas.
A crônica histórica nos sugere que estes homens guerreiros formularam uma
visão de mundo baseada na crença de sua própria superioridade. Projetaram essa auto-
imagem em um deus autoritário e severo, justificando assim seus atos de dominação
sobre as mulheres e outros povos.∗
Não cabe aqui um aprofundamento do contexto histórico, mas podemos
mapear, em caráter preliminar – a partir desta transição de uma cultura de parceria e
integração para uma cultura de dominação e formação de impérios – a gênese de uma
cosmovisão que transformou os seres humanos em algo diferente e superior à natureza
e transformou também o ambiente natural em depósito de suprimentos e esgoto, um
mero espaço físico destinado a satisfazer os desejos e glórias de culturas dominadoras.
A formação de uma cultura com tais características não necessariamente nos
levaria a uma ação cancerosa no Sistema de Gaia, assim como, nas pesquisas atuais


SAHTOURIS (1998) e EISLER (1989) fazem uma descrição das transições culturais da história antiga
revelando a gênese da visão de mundo patriarcal, fragmentada e de afastamento da natureza que se
seguiu. Cf. SAHTOURIS (1998), págs. 189 e ss.

71
sobre o câncer, pessoas com traços caracteriais recorrentes nos pacientes enfermos
podem nunca manifestar a doença.
Mas é oportuna a reflexão no sentido de identificarmos, desde a Antiguidade,
procedimentos culturais que correspondem à dinâmica do surgimento do câncer em um
organismo humano, tais como células de um organismo desprovidas de holonomia, que
perdem sua conexão com o sistema e se autocentram egocentricamente.
Em caráter especulativo, podemos sugerir que as dificuldades impostas pelas
circunstâncias ambientais naquele momento possivelmente desencadearam estresses
emocionais que se retroalimentaram no comportamento dos indivíduos e os mecanismos
naturais de defesa, enfraquecidos, não impediram o avanço das culturas dominadoras e
espoliativas.
Chama-se a atenção para um detalhe: é curioso e significativo observar que
data desse período histórico a consolidação do álcool como agente etnofarmacológico no
seio da civilização humana. Tal substância veio a se tornar universal, se alastrando por
todos os continentes e se tornando parte do cotidiano dos seres humanos em grande
medida.
O etnofarmacologista Terence McKenna apresenta relações instigantes entre o
álcool e as neuroses sexuais da humanidade:

“Ela [a fase alcoólica da História] reforça a dominação masculina. Se


analisarmos o que o álcool faz farmacologicamente, verificaremos que
ele, de fato, diminui a sensibilidade às intimações sociais. Esta é uma
maneira técnica de dizer que, ao ingerir álcool, você se transforma
numa criatura enfadonha e num imbecil libidinoso. Seu julgamento
social normal fica prejudicado e você está preparado para fazer uma
conquista sexual. A maioria das neuroses sexuais da civilização ocidental
pode ser rastreada até se chegar a incidentes envolvendo marcas
sexuais precoces na presença do álcool. O álcool se acha tão
entranhado no terror e na atração simultâneos que sentimos pela
experiência sexual que ele se tornou parte invisível de nosso legado
cultural”.8

72
Não se pode dizer que o álcool seja o causador de algum fluxo ou
comportamento histórico específico. Mas é plausível supormos que ele seja um
potencializador de várias neuroses sociais que se seguiram. Assim também não
podemos dizer que o álcool é causador de um câncer de fígado ou o cigarro é causador
de um câncer de pulmão, mas sim seus potencializadores. Afinal, é notório que muitas
pessoas passam sua vida inteira ingerindo álcool e fumando tabaco e não desenvolvem
câncer. Mas é, de fato, interessante perceber a aguda presença de fatores
reconhecidamente carcinogênicos nos hábitos da humanidade ao longo desse processo
cultural.

Wilhelm Reich foi pioneiro na abordagem psicossomática do câncer. Já na


década de 1940, ele afirmava que “o câncer é uma doença que surge em conseqüência
da resignação emocional, uma carência bioenergética, uma renúncia à esperança”.9
Suas pesquisas heterodoxas adiantaram grande parte dos avanços médicos das
últimas décadas e é possível que seu trabalho continue sendo cada vez mais
considerado nos rumos do tratamento do câncer.
Reich, em suas pesquisas, sempre chamou atenção para os processos de
estase∗ sexual no desenvolvimento do câncer. Ele dizia que especialmente sob os efeitos
da repressão sexual, o equilíbrio energético que se manifesta no ritmo pulsátil
‘expansão-contração’ em todo o corpo humano se rompe em favor da contração; a
necessária e vital descarga energética, assegurada pela convulsão orgástica, fica
incompleta e insuficiente.
Estabelece-se, por conseguinte, o estado de estase sexual, de ‘estancamento
energético’, que se traduz por múltiplos sintomas: perda da motilidade plasmática,
espasmos e bloqueios musculares, anoxia e atrofia dos tecidos, resignação caracterial,
etc. Todos estes elementos foram reunidos por Reich sob o conceito “retração
biopática”.10
Segundo o biógrafo Roger Dadoun, Reich enxergava como “temível” a
repressão sexual. Em suas palavras:


Estase significa estagnação, paralisia, entorpecimento.

73
“Esta obriga o indivíduo a limitar e a reprimir seu desejo, seu
movimento de expansão (suas emoções e moções fundamentais), a
organizar defesas rígidas, formando uma ‘couraça caracterial’, a incorrer
num ‘rebaixamento da função energética global do organismo’. Algumas
fórmulas lapidares de Reich ressaltam esta estreita relação entre
sexualidade e câncer: ‘o câncer é uma biopatia sexual, uma doença de
carência sexual, uma manifestação das perturbações crônicas da
economia sexual humana’ (Reich acrescenta: ‘a esquizofrenia é a sua
expressão mais significativa no domínio emocional’)”.11

As neuroses sexuais criam um ambiente favorável ao surgimento dos estresses


emocionais. A retração biopática e a incapacidade do indivíduo de se expressar de forma
espontânea, sempre medindo os sentimentos e bloqueando-os para se ajustar a uma
dinâmica “monolítica” da cultura, desencadeou um círculo vicioso de insatisfação e
enfraquecimento, engendrando um panorama social super-fragmentado, no qual cada
indivíduo sente-se incapaz de influenciar os rumos da sociedade e aceita a contragosto o
infortúnio da vida nessa sociedade.
Esse padrão de destruição da vida gerado pela cultura repressiva faz com que
cada indivíduo mergulhe em uma prisão cultural que sorve toda a esperança de um
futuro sadio, integrado com o planeta e com os outros seres da Terra. E dá-se,
portanto, as condições propícias para o desenvolvimento da patologia isomórfica ao
câncer em âmbito planetário.
Em relação ao processo evolutivo humano, complementa-se que a transição de
culturas tribais, de comportamento sexual livre e desconhecimento do fluxo dos genes
paternos, para a cultura de famílias nucleares, caracterizada por repressão sexual e
linhas hereditárias bem definidas, parece ter ocorrido de forma concomitante ao
surgimento do patriarcado e da predominância alcoólica na cultura, todos estes aspectos
relacionados ao que os arqueólogos chamam de “invasões kurgas”, ocorridas entre
4.000 e 2.000 a.C.. 12

O leitor poderá notar que se criou um caminho circular neste capítulo,


buscando associar os conceitos de estresse emocional (a perda da esperança,

74
especificamente), enfraquecimento dos mecanismos de defesa, substâncias
potencializadoras do câncer, neuroses sexuais e cultura repressiva. É importante
perceber que tais conceitos se remetem tanto à situação de um homem ou mulher
acometido pelo doença, como que para toda a humanidade e sua relação com a
biosfera.
A dimensão emocional do câncer encontra paralelos significativos na trajetória
histórica da humanidade. A intenção deste trabalho é sugerir estas relações para nos
posicionarmos criticamente em torno da cultura preponderante e buscar abordagens de
cura que se assemelhem aos tratamentos emocionais introduzidos na medicina e na
psicologia.
Vejamos agora como Creighton e os Simontons e Lawrence LeShan vêm
conduzindo os pacientes em direção à cura a partir de um trabalho de orientação e
avivamento emocionais dos seus organismos, de forma que fortaleçam seus sistemas
imunológicos e sejam capazes de superar a enfermidade.
O capítulo seguinte visa descrever as estratégias de cura que vêm obtendo
êxito na dimensão dos seres humanos, no sentido de traçar paralelos que nos auxiliem
na construção dos planos de ação de cura planetária. Acredita-se que os mesmos
princípios do tratamento de seres humanos possam ser incorporados em nossas
estratégias transdisciplinares nos âmbitos social e ecológico. O câncer e sua superação
apresentam valiosas lições para nos orientarmos rumo a uma nova cultura planetária.

75
7. PERSPECTIVA DE CURA

Em geral, quando se fala em câncer, o tom da conversa muda, faz-se um


silêncio desconfortável, as pessoas desviam o olhar. Tudo isso indica a expectativa da
morte trazida pela doença. Não é nada confortável pensar nesta enfermidade maligna
que nos remete a um conjunto trágico de sentimentos.
O lamentável dessas expectativas de dor e morte é que elas costumam criar
uma profecia auto-elaborada e retroalimentar o avanço das células anormais e o curso
aparentemente inevitável da doença rumo ao colapso do organismo. A visão popular do
câncer é carregada de crenças negativas que reforçam a sua imagem fatal.
Um dos primeiros passos na superação da doença é transformar o sistema de
crenças que envolve o câncer e construir um panorama simbólico que traga força e
coragem no seu enfrentamento.
Torna-se fundamental que revertamos expectativas negativas como:

i. o câncer é sinônimo de morte;


ii. o câncer é um invasor forte e poderoso e não há como controlá-lo;
iii. os tratamentos são drásticos, danificam ainda mais o corpo e têm efeitos
colaterais numerosos e muito desagradáveis.

Um dos pilares da abordagem de James Creighton e Carl e Stephanie Simonton


é promover um novo sistema de crenças que torne-se um aliado no caminho para a
cura. Com isso, é trazida à tona uma compreensão mais lúcida sobre a doença,
amparada pela pesquisa médica. Assim, podemos entender a doença da seguinte forma:

i. o câncer pode ou não ser fatal. Identificar e reconhecer a doença em seus


estágios iniciais trazem grandes probabilidades de cura e expectativas positivas
em relação ao tratamento podem – não há mais dúvidas entre os médicos –
trabalhar em favor do paciente;
ii. o câncer não é um ataque invasor, mas um colapso interno. As próprias defesas
corporais são os inimigos mortais do câncer, não importa o que o tenha causado
inicialmente;

76
iii. os tratamentos podem ser um aliado importante para ajudar as defesas
imunológicas a superar o desequilíbrio.1

Um aspecto que se configura como essencial para o sucesso no processo de


cura é o reconhecimento emocional da doença. Esse aspecto é especialmente
importante em nossa abordagem do câncer planetário, tendo em vista que a realidade
atual induz as pessoas a colocarem distância entre si mesmas e o problema, tornando-
se estáticas, impassíveis e rígidas. Como dizem as ecologistas Joanna Macy e Molly
Young Brown:

“Quando estamos distraídos e receosos, e os prognósticos são adversos,


é fácil permitir o entorpecimento do coração e da mente. Os perigos
com que hoje nos defrontamos são tão abrangentes e tão difíceis de se
ver – e dolorosos de se ver, quando conseguimos fazê-lo – que esse
entorpecimento afeta a todos. Ninguém deixa de ser afetado por ele.
Ninguém está imune à dúvida, à negação ou à descrença acerca da
gravidade de nossa situação – e do nosso poder de alterá-la. Contudo,
de todos os perigos que podemos enfrentar, das alterações climáticas às
guerras nucleares, nenhum é tão grande quanto o torpor de nossas
reações”.2

Notemos que a linguagem de Macy e Brown evoca um dos conceitos chaves de


nossa abordagem: a desesperança como estresse emocional que enfraquece as defesas
do organismo. Como visto anteriormente, esta desistência da vida tem uma função
importante no desequilíbrio emocional que pode levar a um aumento da produção de
células anormais. Do ponto de vista físico, cria-se um clima que é ideal para o
desenvolvimento do câncer.
Creighton e os Simontons chamam a atenção para um ponto importante.
Devemos ter sempre em mente que todos nós criamos o sentido do acontecimento em
nossas vidas. Os indivíduos que assumem o papel de vítima têm participação ativa no
que lhes acontece por dar um significado a acontecimentos que provam que não há
esperança em suas vidas. Nossas reações dependem diretamente das nossas escolhas.

77
A intensidade do estresse é determinada pelo significado que damos a ele e pelas regras
que estabelecemos sobre a maneira como iremos reagir a ele.3
Nesse sentido, reconhecer emocionalmente o câncer não deverá fazer com que
nos sintamos culpados ou assustados. Nas palavras de Creighton e dos Simontons,

“O que desejamos é que, caso a pessoa consiga enxergar sua


participação nesse processo psicológico, ela venha a reconhecer que se
trata de um sinal para que tome uma atitude e faça algumas mudanças
na sua vida. Já que os estados emocionais contribuem para que surja a
doença, eles também podem contribuir para que surja a saúde. Ao
reconhecer a própria participação no aparecimento da doença, a pessoa
estará, portanto, reconhecendo o seu próprio poder para participar da
recuperação da sua saúde e estará dando os primeiros passos para a
sua própria recuperação”.4

O que este trabalho preconiza é que podemos enxergar o mesmo fluxo


psicológico na coletividade humana. Ao reconhecermos emocionalmente o surgimento
do câncer planetário e nossa participação no desenvolvimento da enfermidade, seremos
capazes de reconhecer também o poder de transformação latente em nossas mudanças
de comportamento.
Percebe-se atualmente um abrangente movimento de alteração de hábitos e
perspectivas, apontando para a compreensão do grave desequilíbrio do planeta dentro
da ótica das questões ambientais. Contudo, em tal compreensão não se subentende o
planeta como um ser vivo e sua situação de acometimento por uma doença que pode
ser fatal. O ambiente de discussão e debate é confuso, pois dá margem a diversos
pontos de vista antagônicos que acabam por deter os impulsos de mudança de
comportamento.
Faz-se necessário o reconhecimento emocional da enfermidade do planeta vivo,
do nosso corpo cósmico, de forma que possamos criar coesão na linguagem de reação e
catalisar com eficácia o processo de transformação cultural regenerativo e mobilizar as
comunidades humanas em direção à cura.

78
Ao nos tornarmos conscientes da espiral de comportamento que tornou possível
o aparecimento da nossa própria doença, geramos convicção e energia compartilhada
para alterarmos, através da mudança de atitudes e valores, a direção da sociedade,
orientando-nos para o caminho da saúde.
Creighton e os Simontons observam quatro etapas psicológicas que ocorrem
quando do redirecionamento de volta à saúde no indivíduo. Vejamos que podemos
identificar etapas isomórficas no redirecionamento social que induz a saúde do planeta:5

i. “Com o diagnóstico de uma doença mortal, a pessoa adquire uma nova


perspectiva em relação aos seus problemas. Muitas das regras obedecidas
pela pessoa, subitamente, parecem triviais e insignificantes face à morte.
Com efeito, a ameaça dá à pessoa a permissão para agir de uma maneira
que não o era anteriormente. O comportamento assertivo é permitido. A
doença dá à pessoa o direito de dizer não”.

Da mesma forma, muitas das regras sociais que foram estabelecidas ao longo dos
últimos séculos se tornam insignificantes perante o desafio biológico terrestre. A
compreensão do câncer dá às comunidades humanas o ímpeto de se reorganizarem
e modificarem seus acordos tácitos de forma que a inércia cultural seja revertida em
processos assertivos de reconfiguração das relações.

ii. “A pessoa toma a decisão de mudar o seu comportamento, de ser uma


pessoa diferente. Como em geral a doença elimina regras, de repente
surgem opções. À medida que o comportamento muda, conflitos
aparentemente insolúveis começam a apresentar soluções. A pessoa começa
a perceber o que está dentro do seu poder para chegar a solucionar os
problemas ou pelo menos lidar com eles. Ela também descobre que a vida
não acabou ao se quebrar antigas regras e que as mudanças de
comportamento não resultaram em perda de identidade. Ao contrário, há
maior liberdade de ação e mais recursos disponíveis. A depressão em geral
desaparece quando os sentimentos reprimidos foram liberados e há uma
maior energia psicológica disponível”.

79
Tal mudança de comportamento em um contexto social deverá ocorrer de forma
semelhante. Ao nos tornarmos conscientes da doença mortífera que nós como parte
integrante do planeta experimentamos na atualidade, somos impelidos a modificar
nossas atitudes. Criam-se alianças comunitárias e há uma atmosfera de apoio
mútuo. Gera-se a energia de ativação para a revisão dos modelos vigentes e a
criação de alternativas estruturais. Promove-se a participação cidadã na medida em
que se dá vazão às emoções e sentimentos reprimidos pela cultura. A sensação é de
abundância de energia psicológica, pois paramos de sentir a sensação de “andar
sem sair do mesmo lugar” e encadeamos programas e planos de ação amparados
por uma crença compartilhada na cura. A educação se reorienta de forma a parar de
perpetuar o atual modelo e começa a reforçar o processo de mudança de
mentalidade, introduzindo efetivamente uma nova consciência como diretriz
cognitiva da sociedade.

iii. “Os processos físicos do corpo reagem aos sentimentos de esperança e há


um renovado desejo de viver, criando um ciclo reforçado a partir de um novo
estado mental. A esperança renovada e o desejo de viver dão início a um
processo físico que se traduz em uma melhora da saúde. Como a mente, o
corpo e as emoções agem como um só sistema, as mudanças no estado
psicológico resultam em mudanças do estado físico. E isto é um ciclo
contínuo, uma melhora do estado físico trazendo esperanças para a pessoa e
a esperança fazendo com que o estado físico melhore cada vez mais”.

Em âmbito social, na medida em que o sentimento de esperança na cura ganha


proeminência, processos de restauração ecológica dos ecossistemas passam a ser
implementados com vigorosa energia motriz. Recuperação das águas e solos das
bacias hidrográficas, aumento da diversidade biológica, reforma das cidades e dos
sistemas de produção, vivificação da saúde individual e coletiva nas comunidades,
todos os processos se integram a partir de um esforço conjunto da sociedade na
recuperação da saúde.

80
iv. “O paciente curado está melhor do que antes (…) A saúde que eles
recuperaram é, na realidade, superior à que tinham antes do aparecimento
da doença. Esta observação cabe, em grande parte, aos pacientes que
participaram ativamente de sua recuperação do câncer. Eles têm uma força
psicológica, um autoconceito positivo, uma sensação de controle sobre as
próprias vidas que representa, sem dúvida, um nível superior de
desenvolvimento psicológico. Muitos pacientes que participaram de forma
ativa da sua própria recuperação adotam uma atitude diferente e mais
positiva em relação à vida. Eles passam a ter esperança de que as coisas vão
melhorar e deixam de ser vítimas”.

Dentro desta perspectiva, o potencial atual da sociedade é imenso. Na medida em


que se restabelece a saúde individual e coletiva, uma quantidade muito grande de
soluções ecológicas e tecnológicas vão sendo implementadas e é permitido que toda
a inventividade do espírito humano seja aplicada em melhorias sociais. A repressão à
criatividade é dissipada e todo um corpo conceitual é posto em ação em favor da
humanidade e de todos os outros seres vivos, privilegiando o equilíbrio dinâmico e a
flexibilidade, constituindo um novo patamar civilizatório que apresenta um padrão de
alta sinergia. A sociedade, por conseguinte, cria um sentimento compartilhado de
renovação e enxerga com legitimidade os desafios sob uma ótica confiante e
resoluta.

Podemos aprofundar essas relações e verificar as claras semelhanças entre o


processo de redirecionamento à saúde no indivíduo e na coletividade humana.
Pode-se argumentar, todavia, que as estruturas que controlam a economia e
abafam a criatividade e a fluidez da sociedade, reprimindo os intuitos transformadores,
não deixarão que estas possibilidades de cura se tornem realidade. De fato, estamos
lidando com uma doença que pode ser fatal e esse abafamento da cura pode ocorrer,
tal qual ocorre em indivíduos acometidos pelo câncer que, embora se mobilizem para a
cura, não adquirem força suficiente para superar o tumor.
Nova analogia é oportuna neste ponto, quando se notam semelhanças entre a
visão popular do câncer como um inimigo poderoso que não pode ser controlado e a

81
crença popular nas estruturas controladoras da economia como imensamente poderosas
e que não podem ser dissipadas.
Na medida em que o câncer é visto dessa forma, como um adversário forte e
vigoroso, delega-se a ele uma força que ele não tem, pois, nas conclusões das
pesquisas médicas, o câncer é composto por células indolentes e confusas. Embora
sejam maiores que as células normais, as células cancerosas, em sua grande maioria,
não têm a orientação de invadir ou atacar, são fracas e apresentam um comportamento
desnorteado. Nas palavras de Carl Simonton,

“A imagem do câncer como uma doença poderosa decorre de uma


porção de idéias preconcebidas pelas pessoas. Veja bem, as pessoas
costumam dizer: ‘Minha avó morreu de câncer, embora tenha lutado
muito bravamente contra ele; portanto, o câncer deve ser uma doença
muito forte. Se fosse fraca, como poderia ter matado minha avó?’ Se
insistirmos no fato de que o câncer é uma doença fraca, as pessoas
terão de repensar a morte de suas avós e isso é por demais doloroso
(…) Já presenciei muitas pessoas inteligentes ficando demasiado
perturbadas diante da questão da debilidade básica das células
cancerosas. Esse, porém, é um fato biológico irrefutável”.6

De maneira semelhante, as estruturas controladoras do sistema econômico,


que parecem determinar a atual dinâmica cancerosa, também não têm como dinâmica
básica invadir ou atacar, mas consumir. Buscam o crescimento de forma ininterrupta e
têm sua força agigantada a partir de uma porção de crenças pré-concebidas pela
sociedade, embora, na verdade, sua dinâmica seja marcada pela debilidade e confusão.
Recorremos novamente à Joanna Macy e Molly Young Brown:

“À medida que as pessoas vão conhecendo o assunto, vamos


desmistificando o mecanismo da economia global. Quando vemos como
esse sistema opera, (…) apesar do aparente poderio da Sociedade de
Crescimento Industrial, é possível enxergar sua fragilidade – como ela
depende de nossa participação, e como ela está fadada a se devorar”. 7

82
Sociedade de Crescimento Industrial é o nome que elas atribuem a este modelo
de sociedade de crescimento ininterrupto e indiferenciado impetrado pelos sistemas
políticos e empresariais atrelados ao modus operandi do consumo sempre crescente e
do acúmulo estéril de recursos por uma parte da humanidade em detrimento do
equilíbrio sócio-ambiental e a satisfação das necessidades da maioria da população.
É muito interessante notar a relação que Macy e Brown sugerem entre o
mecanismo da economia global e nossa participação neste mecanismo. Na medida em
que compactuamos com o sistema econômico, criamos diversões alienantes para nós
mesmos como indivíduos e como nações, buscando atingir metas individualistas, muitas
vezes espoliativas, abrindo mão de nossa cidadania ao permitirmos que decisões que
afetam diretamente nossas vidas sejam tomadas por um grupo de políticos de intenções
questionáveis, e comprando produtos supérfluos que alimentam o mecanismo da
economia consumista que tem o desperdício como prerrogativa. Ao agirmos dessa
maneira, ofertamos nossa força biológica ao fortalecimento da Sociedade de
Crescimento Industrial, padrão isomórfico ao câncer. Se, todavia, entendemos o
mecanismo e deixamos de alimentá-lo, a fragilidade desse sistema se torna perceptível.
Parecem pertinentes as relações entre a imagem do câncer como uma doença
poderosa e a imagem das estruturas que controlam a economia global como um sistema
poderoso. No primeiro caso, pesquisas médicas mostram que o câncer é constituído de
células fracas e confusas e, no segundo caso, o mecanismo dá mostras de sua
fragilidade estrutural ao exigir a nossa participação para manter seus “motores”
funcionando.
Dessa forma, somos levados à compreensão de que o câncer não tem que ser
vencido, mas necessariamente tem que ser compreendido. Não devemos ir contra o
câncer, afinal, ele é parte de nós e estaremos indo contra nós mesmos. Mas,
compreendido o seu mecanismo, podemos parar de alimentá-lo, e podemos orientar a
destinação de nossa energia biológica para a construção de novos padrões culturais
benignos e harmoniosos.
Sob esta ótica, torna-se acessível o entendimento de que realmente criamos o
sentido dos acontecimentos em nossas vidas. Temos participação ativa no que nos
acontece. Nossas reações dependem diretamente das nossas escolhas.

83
Entender essa autonomia é especialmente importante nos processos de cura do
câncer, pois da mesma forma que uma pessoa pode tornar-se psicossomaticamente
doente, outra que está doente pode ir em direção oposta e tornar-se psicossoma-
ticamente saudável. A influência dos nossos sentimentos e expectativas faz-se evidente
ao longo do tratamento contra o câncer.
Nesse ponto introduzimos um importante conceito em nosso trabalho:
autocura. Apesar de sabermos que a mente pode tornar o corpo doente, usualmente
não pensamos em quanto podemos influenciar de forma consciente a nossa mente para
tornar o nosso corpo saudável de novo. Quanto maior a crença de que temos influência
sobre o curso da própria doença, maiores se tornam as expectativas de sucesso do
tratamento.
Pesquisas na área de “biofeedback” demonstram de maneira clara que é
correto o princípio fisiológico segundo o qual toda mudança de estado fisiológico é
acompanhada de uma mudança apropriada no estado emocional, consciente ou
inconsciente, e, inversamente, qualquer mudança no estado emocional, consciente ou
inconsciente, é acompanhada de uma mudança apropriada do estado fisiológico.8
No caso específico do câncer, as pesquisas mostram que este princípio,
traduzido na presença da crença na autocura, é um fator essencial para a revitalização
orgânica. Nas palavras de Capra:

“O desenvolvimento dessa atitude positiva é crucial para todo o


tratamento. Estudos realizados mostraram que a resposta do paciente
ao tratamento depende mais de sua atitude do que da gravidade da
doença. Uma vez gerados os sentimentos de esperança e expectativa, o
organismo traduz esses sentimentos em processos biológicos, que
começam a restaurar o equilíbrio e a revitalizar o sistema imunológico,
utilizando os mesmos caminhos que foram utilizados no
desenvolvimento da doença. A produção de células cancerosas
decresce, enquanto o sistema imunológico se torna mais forte e mais
eficiente para lidar com elas”. 9

84
Essa compreensão traz luz à intrigante questão sobre por que alguns pacientes
reagem de forma satisfatória ao tratamento e outros não. Hoje podemos perceber
claramente que, se o sistema total integrado de mente, corpo e emoções, que constitui
a pessoa como um todo, não está trabalhando para recuperar a saúde, então
intervenções simplesmente físicas não darão o resultado desejado.
Duas pessoas com tumores semelhantes levadas a tratamentos de radio ou
quimioterapia semelhantes podem apresentar reações muito diferentes, dependendo da
forma como elas encaram o processo de cura.
Ao trazer o raciocínio para o âmbito planetário, podemos aplicar com
consistência o princípio da influência emocional no desenvolvimento da doença ou da
cura. Hoje, se chegamos a uma comunidade do interior do Brasil e indagamos sobre as
expectativas em torno do futuro, ou seja, se as pessoas acreditam que a humanidade
vai conseguir superar a crise e se reintegrar à natureza para viver de forma sadia, é
provável que mais pessoas apontem para um depoimento desesperançado do que o
contrário.
Embora este trabalho não conte com pesquisas quantitativas que corroborem
essa suposição, ressoa no inconsciente coletivo a forte impressão de que a maioria das
pessoas não acredita na resolução dos problemas sociais, intuindo que a tendência é, na
verdade, o pioramento das condições de vida.
Nesse sentido, pouco tem adiantado as interferências de restauração do meio
ambiente. Por mais que haja um grande investimento de recursos nos trabalhos de
recuperação dos espaços físicos, o que se percebe é que o ritmo de destruição é sempre
maior e, no cômputo geral das iniciativas, os ecossistemas da Terra continuam se
enfraquecendo. A dimensão psicológica das comunidades humanas não está mobilizada
para a cura e, por conseguinte, as intervenções físicas não dão o resultado esperado.
Na medida em que a crença na autocura se estabeleça, influenciando
principalmente os sistemas de ensino-aprendizagem e o conteúdo dos programas de
comunicação social, deveremos encadear um processo análogo ao fortalecimento do
sistema imunológico de um organismo.
Ao vivificarmos as relações humanas em âmbito comunitário, introduzindo uma
nova forma de perceber a realidade e conseqüentemente de encarar os desafios, é

85
provável que ordenemos nosso potencial restaurador e as intervenções na dimensão
física atinjam os resultados esperados.
A “vontade de viver” define expectativas que resultam em mudanças
inconscientes que podem criar transformações extraordinárias no curso fisiológico. Se
um paciente espera melhorar, com certeza tomará os seus remédios e seguirá o regime
prescrito pelo médico, aumentando desta forma as suas possibilidades de recuperação.
Se ele acha que vai morrer, talvez ache que não vale a pena seguir as recomendações
de seu médico.
Da mesma forma, se uma comunidade acredita que os processos sociais irão se
resolver, a tendência é que haja cuidado e parcimônia com suas águas, solos e outros
recursos, esforços de revegetação, disciplina em relação à produção e destinação dos
resíduos, revigoração da confiança em seus familiares, vizinhos e companheiros de
equipe de trabalho, e assim por diante. Por outro lado, se não há essa expectativa de
melhoria, decerto não existirá força para cuidarmos dos rios, embelezarmos o ambiente,
organizarmos o sistema de lixo, nos esforçarmos para melhorar as relações já
desgastadas, etc. Como a tendência é negativa, não há como mobilizar
psicologicamente a coletividade humana. Creighton e os Simontons chamam esse
processo de “círculo de reforço”:

“Uma expectativa de sucesso, com freqüência, leva ao sucesso, o que


por sua vez fornece a prova de que a expectativa original estava
correta. Por outro lado, uma expectativa de fracasso conduzirá, em
geral, um resultado negativo, validando, portanto, a expectativa original
negativa. Quanto mais o círculo se repete, mais forte se torna a
10
expectativa, seja positiva ou negativa”.

Lawrence LeShan destinou trinta e cinco anos de sua vida para a pesquisa do
câncer. Psicoterapeuta de orientação holística, aprofundou significativamente a
compreensão da influência da renúncia à vida e da estagnação emocional no
desenvolvimento da doença. O foco do seu trabalho residiu na busca de mecanismos
que pudessem mobilizar o corpo do paciente em direção à cura:

86
“Parte da minha pesquisa foi dedicada à procura de uma resposta para
descobrir se podemos fortalecer o mecanismo de defesa contra o câncer
e aumentar a eficiência do sistema imunológico após o surgimento de
um tumor maligno. Será que se recuperarmos nossa esperança na
capacidade de viver nossa própria vida, nosso mecanismo de defesa
contra o câncer irá recuperar sua força e virá em auxílio do tratamento
médico? Será que, se procurarmos viver esse tipo de vida, nossa
capacidade de autocura agirá mais eficientemente e aumentará nossa
resistência ao câncer? A resposta fornecida por essa pesquisa é um
nítido sim”. 11

A abordagem psicológica de LeShan, reconhecidamente eficaz no trabalho de


superação do câncer no indivíduo, parece se aplicar vigorosamente no âmbito do câncer
planetário.
Para compreendê-la, é importante mencionarmos o legado da psicanálise de
Sigmund Freud, vertente técnico-filosófica que delineou preponderantemente o trabalho
psicoterapêutico do Século 20.
LeShan sintetiza as questões básicas da terapia psicanalítica clássica
estabelecidas por Freud da seguinte forma:

i. “Quais são os sintomas?” ou “O que está errado com esta pessoa?”


ii. “Qual a lesão oculta que está provocando os sintomas?” ou “Como ele ou ela
chegou a este estado?”
iii. “O que podemos fazer a esse respeito, seja para eliminar a lesão ou ajudar a
pessoa a compensá-la?”

Não há dúvida sobre a tremenda utilidade que o estabelecimento dessas


questões propiciou ao desenvolvimento da psicoterapia, através das quais se criou um
método para tratar muitas síndromes dolorosas e mutiladoras.
Entretanto, embora tais questões sejam aplicáveis em vários contextos, esta
não é uma abordagem proveitosa quando se trabalha com pessoas portadoras de

87
câncer. Este procedimento terapêutico não leva os pacientes a mobilizarem seus
próprios recursos de cura, fazendo com que ajudem no tratamento médico.12
LeShan enfatiza os aspectos culturais desse direcionamento terapêutico:

“Atualmente, quando as idéias sobre psicoterapia são tão difundidas,


quase sempre os pacientes esperam que o propósito dela seja descobrir
o que está errado com eles, como chegaram a esse estado e o que pode
ser feito a respeito disso. Eles chegam preparados para buscar, junto
com o terapeuta, a explicação de seus sintomas (no passado, no
presente, e como estão reagindo a eles, ou – entre os pacientes mais
sofisticados – em uma combinação de seu passado e seu presente). A
ampla divulgação da psicoterapia pela mídia e pela literatura, e as
conversas com amigos que passaram pelo processo, geralmente
suscitam expectativas muito precisas. O terapeuta, com a mesma
formação cultural, reforçada pelo treinamento profissional, quase
invariavelmente também possui as mesmas expectativas (…) Com esse
ponto de vista em comum, geralmente não verbalizado e, portanto, com
muito reforço mútuo acerca daquilo que a terapia está procurando e
tentando fazer, o processo tende a se dirigir inexoravelmente na direção
estabelecida por Freud. Nós, em nossa era pós-freudiana, estamos
dispostos a aceitá-lo como o caminho natural da prática terapêutica.
Esse realmente é o critério convencional sobre o assunto, fortalecido por
inúmeros romances, contos, apresentações na televisão e narrativas
13
pessoais”.

LeShan, baseado em sua longa experiência, conclui que, no auxílio


psicoterapêutico durante o processo de cura do câncer, deve-se encontrar um outro
conjunto de questões básicas. Se os terapeutas desejam fazer com que os pacientes
portadores de câncer utilizem sua capacidade de autocura e auto-renovação, trazendo-a
em auxílio do tratamento médico e ajudando a mobilizar seus sistemas imunológicos,
eles precisam reexaminar seu treinamento e reavaliar suas experiências, bem como se
confrontarem com as crenças de sua cultura e as expectativas de seus pacientes.14

88
Aprende-se, por conseguinte, que existe um outro conjunto de questões que
pode servir de base para o processo psicoterapêutico e que realmente ajuda os
pacientes a aumentarem sua resistência ao câncer. Nas palavras de LeShan:

“Essas novas questões referem-se ao que está certo com os clientes,


sua maneira natural de ser, de relacionar-se, de criar. Qual o tipo de
vida que os tornaria felizes ao se levantar pela manhã e contentes ao ir
para a cama à noite, que lhes proporcionaria o máximo prazer e
entusiasmo na vida? O que poderíamos fazer para que eles pudessem
se expressar em níveis físico, psicológico e espiritual, de forma
harmônica e ‘natural’ a todo o seu ser? (…) O que estamos fazendo aqui
é mudar a definição básica de psicoterapia. No passado, ela foi um
processo de eliminação de determinados sofrimentos e deficiências do
paciente, de redução de sintomas. A definição que estamos usando aqui
é essencialmente a da psiquiatra Karen Horney: ‘Um processo em que a
singularidade, a individualidade, a própria neurose, é removida do rosto
do paciente, onde age como uma venda, e transferida para a parte de
trás do pescoço, onde age como um motor de popa”! 15

A abordagem terapêutica desenvolvida por Lawrence LeShan, portanto, se


baseia em perguntas muito diferentes. Procura-se descobrir o que está certo no
paciente, não o que está errado. Estas são perguntas que podem mobilizar a capacidade
de autocura da pessoa:

i. O que está bem nesta pessoa? Qual sua maneira única e especial de ser, de se
relacionar, criar, que constitui sua própria e natural forma de viver? Qual a
música especial para sua vida, sua canção particular que faz com que ao cantá-la
ela se sinta feliz ao se levantar pela manhã e contente ao ir para a cama à noite?
Qual o estilo de vida que lhe proporciona prazer, entusiasmo, dedicação?
ii. Como podemos trabalhar juntos para encontrar essa maneira de ser, de se
relacionar e de criar? O que bloqueou sua percepção e/ou expressão no
passado? Como podemos trabalhar juntos para que a pessoa siga nessa direção

89
até conseguir viver uma vida plena e prazerosa, sem que lhe sobre tempo ou
energia para a psicoterapia?16

Tal perspectiva psicológica apresentada por Lawrence LeShan aplica-se ao


contexto social, no sentido que incute no inconsciente das comunidades a necessidade
de mudança de comportamento a partir da liberação da criatividade. Devemos observar
o que dá certo, o que é vigoroso, quais as nossas virtudes, quais as nossas vocações e
potencialidades.
Se empreendemos a tarefa de vasculhar o presente em busca do que está
errado e o passado para mapear as causas do atual desarranjo, tal como faz um
terapeuta convencional ao buscar os sintomas e suas causas referentes, costumamos
adentrar um labirinto emocional e dificilmente saímos de lá com uma compreensão
adequada. A tendência é que reforcemos a visão desesperançada por conta da
complexidade dos nossos conflitos.
Infelizmente este “círculo de reforço” está presente no caminho habitual de
nossa comunicação ao darmos ênfase aos problemas na tentativa de encontrar soluções
para eles. As mensagens intercambiadas nas comunidades apresentam, na maior parte
do tempo cotidiano, o lado obscuro da crise. Informações sobre a violência, os
desastres, a devastação ambiental, as guerras, a corrupção, imperam nos veículos de
comunicação e nas conversas habituais. Como salienta Peter Russell, “na medida em
que a sociedade se torna cada vez mais desesperançada quanto ao seu próprio futuro,
ela parece produzir mais casos de infortúnios para reforçar uma postura mental já
lúgubre e sombria”.17
Tal postura mental parece ser análoga à postura psicoterapêutica que
prevalece. Salienta-se que tal modelo de orientação psicológica foi fundado dentro de
uma cultura que já se orientava a partir dos impulsos negativos. Freud dava ênfase à
constatação de que a totalidade dos seres humanos são portadores de psicose,
perversão ou neurose. Estímulos básicos positivos não têm lugar na antropologia
psicanalítica, sendo considerados manifestações secundárias de impulsos primários
negativos.
Por conseguinte, a transformação cultural capaz de potencializar os
mecanismos de defesa da sociedade de forma que fortaleça a capacidade de autocura

90
da humanidade parece ser análoga à mudança de perspectiva dos psicoterapeutas, ao
reexaminarem seu treinamento, reavaliarem suas experiências e se confrontarem com
as crenças da cultura e as expectativas dos pacientes.
Um processo similar de reexame, reavaliação e confrontamento surge no
âmago das relações sociais quando se procura ajustar o foco da percepção para aquilo
que dá certo, ao invés de reproduzir os erros e reforçá-los.
Isso não significa que devamos negar os problemas, “varrê-los para debaixo do
tapete”. Muito pelo contrário. O reconhecimento emocional da enfermidade, conforme
dito anteriormente, é essencial para o encadeamento do processo de cura. A diferença é
que não devemos enfatizar a enfermidade, mas sim enxergar a potencialidade da nossa
natureza para criarmos recursos que facilitem o desenvolvimento de nossas virtudes,
nossas relações harmoniosas como o ambiente e a arte de viver que é singular em cada
ser humano.
No próximo capítulo apresentamos um novo cenário cognitivo, de forma que
possamos criar condições favoráveis para a geração de novos modelos sociais que
possibilitem e fortaleçam a visualização de um futuro positivo, o desbloqueio da
inventividade, a integração afetiva, a renovação orgânica e a compreensão de nossa
condição humana como um tecido do ser planetário vivo.

91
8. VISÃO SISTÊMICA: CENÁRIO COGNITIVO PARA A RESTAURAÇÃO
PLANETÁRIA

Ao considerarmos a profundidade da crise global, agora compreendida sob a


ótica da metáfora do câncer planetário, faz-se conveniente que consideremos nossas
soluções a partir de intensas transformações comportamentais, oriundas do
reconhecimento emocional da enfermidade e uma conseqüente tomada de decisão pelo
enfrentamento da situação e a criação de uma nova cultura planetária.
Devemos admitir que a reconquista do estado de holonomia em um mundo
caracterizado pela harmonia dinâmica da humanidade inserida na biosfera necessitará
da participação pessoal em um contexto de apoio mútuo, catalisando experiências reais,
generalizadas, possíveis de serem refletidas e que estimulem cada um de nós até as
raízes de nossas atitudes.
Por conseguinte, modelos de ação a serem criados deverão ser
multidimensionais e preconizar a integração entre atividades cognitivas e físico-
dinâmicas.
É importante que os modelos encerrem em si a totalidade do propósito de cura
e possam constituir a coesão necessária à força de experiências e projetos
complementares que atuarão em rede, buscando potencializar o que a humanidade
possui como vocação, delineando um novo modus operandi e consolidando um novo
fluxo cultural alicerçado por um novo paradigma social.
Entende-se por paradigma social “uma constelação de conceitos, de valores, de
percepções e de práticas compartilhadas por uma comunidade, formando uma visão
particular de realidade que constitui a base da maneira segundo a qual a comunidade
organiza a si mesma”. Essa definição de Fritjof Capra pressupõe a necessidade de um
paradigma ser compartilhado por uma comunidade. “Uma pessoa isolada pode ter uma
visão de mundo, mas um paradigma é compartilhado por uma comunidade”.1
Ao longo dos últimos séculos, o paradigma social alimentou e sustentou a
dinâmica patológica da nossa espécie. Entre postulados paradigmáticos que orientaram
as relações sociais, podemos citar alguns, entre outros, bastante significativos:

92
• A natureza estritamente mecânica do universo, que se compõe de partes
independentes, dissociadas umas das outras, criadas por um ente superior e
exterior ao universo;
• Leis da natureza exatas e evidentes, alcançadas pela linguagem matemática;
• A natureza como um aspecto feminino que deve ser dominado e ter seus
segredos arrancados e subjugados, sendo ela uma propriedade inesgotável dos
seres humanos;
• O Planeta Terra inerte, um mero habitat, no qual os seres vivos independentes
lutam constantemente pela existência, disputando recursos limitados;
• O caráter anti-social da natureza humana, necessitando de instituições
repressivas para ordenar as relações em sociedade.

Ao longo dos últimos séculos, estes postulados, amparados pela ânsia


expansionista européia, enalteceram valores de dominação, subjugação e posse, e
contribuíram decisivamente para moldar uma visão que suprimiu em grande medida o
pólo arquetípico feminino de nosso paradigma social.
No Capítulo 1 fizemos uma reflexão em torno da visão de mundo
excessivamente yang que engendrou as atitudes espoliativas no âmago da sociedade
humana e determinou a perda do senso de holonomia que resultou na enfermidade
planetária atual.
Esse comportamento fundamentado em pressupostos individualistas e na
dissociação do ser humano e da natureza foi reproduzido sobremaneira desde o fim da
Idade Média, ao longo de séculos de impressionante expansão.
Durante este período, consolidou-se a chamada ciência clássica, cujos
pressupostos se compatibilizavam com o paradigma social e contribuíram para definir o
comportamento individualista e expansivo característico da sociedade européia. Tais
pressupostos são os seguintes:

i. Simplicidade – análise reducionista, enfoque nas relações causais lineares,


meta de revelar ordens simples ocultas por trás de uma aparente
complexidade dos fenômenos;

93
ii. Estabilidade – determinação, previsibilidade, reversibilidade e
controlabilidade dos fenômenos naturais;
iii. Objetividade – versão única do conhecimento, crença de que é possível
2
conhecer o mundo “tal como ele é”.

Estes pressupostos mecanicistas foram, todavia, superados com a revolução


científica iniciada pelas teorias quântico-relativísticas na Física e reforçada pelas
transformações nas outras disciplinas encadeadas pelo novo conhecimento da natureza
da matéria.
Ao longo do Século 20, a ciência apresentou à humanidade um novo modelo de
realidade que desafiou grande parte dos alicerces conceituais que sustentaram a visão
de mundo predominante nos séculos anteriores.
As pesquisas quântico-relativísticas provocaram uma grande ruptura conceitual
e as verdades e certezas da ciência clássica que vieram sendo reproduzidas por
centenas de anos foram colocadas abaixo diante de incontestáveis evidências
experimentais.
Ao penetrarem no átomo, os físicos se depararam com uma realidade que em
nada se parecia com um mecanismo composto de partes independentes simples,
estáveis e objetivas, seguindo leis naturais exatas. Pelo contrário, o que os cientistas
enxergaram foi uma incrível interconexão entre as entidades subatômicas em um
padrão imprevisível estabelecido pelas relações entre as partículas e não pelas partículas
em si mesmas.
Nas palavras do físico Fritjof Capra,

“A teoria quântica mostrou que as partículas subatômicas não são


grãos isolados de matéria, mas modelos de probabilidade,
interconexões numa inseparável teia cósmica que inclui o observador
humano e sua consciência. A teoria da relatividade fez com que a teia
cósmica adquirisse vida, por assim dizer, ao revelar seu caráter
intrinsecamente dinâmico, ao mostrar que sua atividade é a própria
essência de seu ser. Na física moderna, a imagem do universo como
uma máquina foi transcendida por uma visão dele como um todo

94
dinâmico e indivisível, cujas partes estão essencialmente inter-
relacionadas e só podem ser entendidas como modelos de um
processo cósmico. No nível subatômico, as inter-relações e interações
entre as partes do todo são mais fundamentais do que as próprias
partes. Há movimento, mas não existem, em última análise, objetos
moventes; há atividade, mas não existem atores; não há dançarinos,
somente a dança”. 3

O paradigma social ainda não compartilha a profundidade das mudanças de


percepção que o conhecimento quântico-relativista evoca. Arraigadas noções
individualistas, dissociativas e fragmentárias têm que ser revistas sob a ótica de uma
nova ciência sustentada por novos pressupostos, a saber:

i. Complexidade – incapacidade de imaginar um objeto a não ser em conexão


com outros objetos, importância essencial do contexto, relações causais
recursivas, abordagem das contradições sem a tentativa de excluí-las;
ii. Instabilidade – indeterminação, imprevisibilidade, irreversibilidade e
incontrolabilidade dos fenômenos naturais;
iii. Intersubjetividade – versões múltiplas do conhecimento, princípio da
incerteza, impossibilidade de se conhecer o mundo “tal como ele é na
realidade”, conhecimento relativo às condições de observação.4

Tais concepções encadearam um profundo processo de reestruturação


científica, promovendo uma revolução epistemológica que embasa de maneira
consistente a mudança do paradigma social.
Surge, no âmago da ciência, uma nova cosmovisão holística que tem como
alicerce fundamental o “Princípio Organizador da Totalidade”. Ao invés de desmontar o
grande quebra-cabeças universal para compreender suas peças componentes, tal qual a
ciência veio fazendo ao longo dos últimos séculos, a compreensão holística tem o foco
na visão do quebra-cabeças como um todo, na figura que ele assume como totalidade, e
enxerga cada peça em relação a essa totalidade na qual elas se integram.

95
Ao incorporarmos a visão holística, passamos a enxergar o universo como um
todo interconectado, um padrão energético orgânico que não pode ser fragmentado,
estando presente em todas as partes, como uma mente cósmica que abrange a si
mesma no imenso e no ínfimo. Através de freqüências diferentes, esse padrão cósmico
da totalidade materializa-se em instâncias complementares que interagem criativamente
engendrando a extraordinária diversidade da matéria.
Conforme refletido acima, um paradigma social tem que ser compartilhado por
uma comunidade. Torna-se muito significativo perceber que essa profunda
transformação cognitiva advinda da nova ciência ainda não adentrou nas bases de nossa
cultura e a concepção reducionista do funcionamento da espetacular máquina universal
criada por um “grande engenheiro” ainda perdura, se realimentando pelas mídias, pelas
instituições sociais e pelos sistemas oficiais de educação. Estamos no Século 21 e a
grande maioria de nossas escolas ainda é orientada pela cosmovisão do Século 19.
Ao longo do Século 20, a percepção da realidade que emergiu da Física se
espalhou no âmbito das demais ciências, adentrando os conceitos centrais da Biologia,
da Medicina, da Psicologia, da Economia, da Sociologia, entre outras. A difusão das
idéias essenciais do pensamento holístico, tais como a interconexão essencial das partes
de um todo e a unidade e a diversidade em um universo indivisível, foi aos poucos se
tornando a base para o desenvolvimento das teorias científicas, incentivando a
aproximação dos domínios de pensamento e incitando a criação de uma perspectiva
transdisciplinar na ciência.
Ao longo das últimas três décadas do Século 20, o físico Fritjof Capra
empreendeu um vigoroso trabalho que buscou sintetizar a revolução do pensamento
que veio ocorrendo ao longo das décadas anteriores, fundindo diversas correntes de
pensamento que há séculos se desdobravam separadamente. Ao aproximar teorias de
campos diferentes em um contexto transdisciplinar, Capra propiciou uma visão clara das
mudanças culturais pelas quais a humanidade está passando a partir da ciência
contemporânea.
Uma inexorável força unificadora que expõe a profunda compatibilidade e
complementaridade entre as novas concepções científicas e as tradições espirituais de
todos os povos sustenta a estrutura conceitual que delineia de forma convincente uma

96
nova percepção de realidade que Capra chamou de “Visão Sistêmica”, reconciliando o
método científico com a sabedoria ancestral e apontando diretrizes para o futuro.
Nas palavras de Willian Irwin Thompson,

“Podemos ver que todas essas correntes fazem parte de um mesmo


lençol d’água, e todas estão convergindo para alimentar um único lago.
Vejo esse lago como uma metáfora para uma nova comunidade, uma
nova ecologia do conhecimento. À medida que essas diferentes
correntes de pensamento começarem a se interligar num ecossistema
mais amplo, começaremos a deixar a atuação particularizada da
pesquisa e inovação científicas para uma idéia diferente, que não será
apenas a de uma nova descoberta ou uma nova teoria, mas a de uma
nova cultura planetária”. 5

Em contraste com os pressupostos do paradigma social que preponderou nos


últimos séculos, a visão sistêmica altera profundamente a percepção da realidade, e
pode promover o resgate do senso de holonomia perdido e viabilizar o erguimento de
premissas sociais capazes de gerar o equilíbrio entre humanidade e biosfera. A seguir
apresentamos algumas dessas premissas que trazem consigo um grande potencial
regenerativo.

8.1 Uma nova concepção de mente

Faz-se de grande valia se buscar novas compreensões do fenômeno da mente.


Gregory Bateson foi um pensador que muito contribuiu para a superação das noções de
um universo estritamente mecânico, composto de partes independentes, dissociadas
umas das outras, e de um planeta inerte, sem vida, de onde os seres vivos tiram seu
sustento, tendo proposto uma nova definição para a mente como um fenômeno
sistêmico característico dos sistemas vivos, sociedades e ecossistemas.
Para que o processo mental ocorra, Bateson enumerou uma série de critérios
que os sistemas têm que satisfazer. Satisfeitos esses critérios, qualquer sistema estará

97
apto a processar informação e desenvolver fenômenos que associamos à mente, como,
por exemplo, o pensamento, a aprendizagem e a memória.
A mente, nesse contexto, é uma conseqüência necessária e inevitável de uma
certa complexidade que começa muito antes de os organismos desenvolverem um
cérebro e um sistema nervoso superior. A mente é, com efeito, uma propriedade
essencial dos sistemas vivos. Como disse Bateson, “a mente é a essência do estar
vivo”.6
Para se entender essa nova concepção de mente, faz-se oportuna a
compreensão do conceito de sistemas auto-organizadores, trabalhado pelo físico-
químico belga Ilya Prigogine, que sugere que os padrões de organização característicos
dos sistemas vivos podem ser resumidos em termos de um único princípio dinâmico, o
princípio da auto-organização. Capra assim descreve esse princípio:

“Um organismo vivo é um sistema auto-organizador, o que significa que


sua ordem não é imposta pelo meio ambiente externo, mas estabelecida
pelo próprio sistema. Em outras palavras, os sistemas auto-organizadores
apresentam certo grau de autonomia, o que não significa que sejam
isolados do ambiente em que vivem; pelo contrário, interagem com ele
continuamente, mas essa interação não determina sua organização. Eles se
auto-organizam.7

Os critérios para a ocorrência da mente na perspectiva de Bateson e os critérios


para a ocorrência da auto-organização na perspectiva de Prigogine são muito
semelhantes, quase idênticos, o que engendra a afirmação de que mente e auto-
organização são aspectos diferentes de um só fenômeno, o fenômeno da vida.
Por conseguinte, a partir desse novo ponto de vista, nas palavras de Capra,

“(...) a vida não é uma substância ou uma força e a mente não é uma
entidade que interage com a matéria. Vida e mente são manifestações
do mesmo conjunto de propriedades sistêmicas, um conjunto de
processos que representam a dinâmica da auto-organização. (...) A
descrição da mente como um modelo de organização, ou um conjunto

98
de relações dinâmicas, está relacionada com a descrição de matéria na
física moderna. Mente e matéria já não parecem pertencer a duas
categorias fundamentalmente distintas, como acreditava Descartes;
pode-se considerar que apenas representem aspectos diferentes do
8
mesmo processo universal”.

Capra, em seu relato autobiográfico “Sabedoria Incomum”, descreve a forma


como o conceito de mente de Bateson influenciou sua percepção:

“Fiquei bastante excitado quando percebi isso, pois para mim significou
não apenas minha primeira compreensão real do conceito de mente de
Bateson, mas também uma perspectiva inteiramente nova do fenômeno
da vida. (...) A partir desse momento meu entendimento da relação
entre mente e vida, ou mente e natureza, como Bateson diria, continuou
se aprofundando. Com isso passei a apreciar melhor a riqueza e a beleza
de seu pensamento. Compreendi de maneira plena por que lhe era
impossível separar mente e matéria. Quando Bateson observava o
mundo vivo, ele concebia seus princípios de organização como
essencialmente mentais, e imanência da mente à matéria em todos os
níveis de vida. Ele alcançou assim uma síntese única e singular entre
noções de mente e noções de matéria; uma síntese que, como ele
gostava de ressaltar, não era mecânica nem sobrenatural”. 9

Essa nova concepção de mente, de fato, é bastante inovadora e não parece ter
nada a ver com as coisas que normalmente se associam à palavra “mente”.
Sendo a mente a dinâmica da auto-organização, ela representa a organização
de todas as funções dos sistemas vivos. O conceito de mente de Bateson, portanto,
atribui o processo mental não só a organismos individuais, mas também a sistemas
sociais e ecológicos. A mente, segundo Bateson, é imanente não só no corpo, mas
também nos caminhos e nas mensagens fora do corpo. Existem manifestações mais
amplas de mente, das quais nossas mentes individuais são apenas subsistemas.

99
Como sugere Capra,

“Esse reconhecimento tem implicações bastante radicais para nossas


interações com o meio ambiente natural. Se separarmos os fenômenos
mentais dos sistemas maiores em que eles são imanentes, e os
confinarmos a indivíduos humanos, veremos o meio ambiente como
desprovido de mente e seremos propensos a explorá-lo. Nossas atitudes
serão muito diferentes quando nos apercebermos de que o meio
ambiente não só está vivo como também é dotado de mente, como nós.
(...) Na ordem estratificada da natureza, as mentes humanas individuais
estão inseridas em mentes mais vastas dos sistemas sociais e
ecológicos, e estes, por sua vez, estão integrados no sistema mental
planetário – a mente de Gaia –, o qual deve participar, finalmente, de
alguma espécie de mente universal ou cósmica”. 10

Finalizando seu raciocínio, Capra enfatiza que esta concepção de mente não é
restringida pela idéia tradicional de Deus. E cita Erich Jantsch: “Deus não é o criador,
mas a mente do universo”.11 Sendo assim, complementa Capra, “a deidade não é,
evidentemente, masculina ou feminina, nem se manifesta em qualquer forma pessoal,
mas representa nada menos do que a dinâmica auto-organizadora do cosmo inteiro”.12
Podemos agora nos recordar das palavras de Dethlefsen e Dahlke, citadas
anteriormente, que sugerem que a humanidade está envolvida em uma viagem sem
rumo, usando o meio ambiente como fonte alimentar, um celeiro, e tudo existe para
que os homens possam se espalhar de forma indiscriminada e ilimitada sobre a terra.
A nova e ampliada concepção de mente descrita acima nos traz um olhar
diferente e de reverência para o planeta, fazendo-o não mais um depósito de
suprimentos, mas o ser vivo do qual somos parte e dependemos inteiramente para
sobreviver.
Nas palavras de Elisabet Sahtouris,

“Quanto mais aprendemos sobre a natureza, incluindo a natureza


humana, menos sentido faz criar divindades à nossa própria imagem e

100
contar a nós mesmos mitos, como o que somos suas criaturas
prediletas. O sentimento intuitivo antiqüíssimo, de que há uma
inteligência maior e mais sábia que a nossa e à qual pertencemos, é
hoje confirmado pela ciência e podemos perceber agora que nosso
planeta pai e todo nosso cosmo vivo são muito mais belos e
impressionantes, na realidade de sua autocriação, do que qualquer mito
que inventamos enquanto lutávamos para aumentar nossos
conhecimentos. Finalmente, as buscas científica e religiosa podem
fundir-se no reconhecimento de que a natureza autocriativa – de Géia
(sic) e cósmica – é a nossa origem física e espiritual, a fonte de nossa
inspiração antiga e o guia experiente que sempre procuramos, o guia de
que necessitamos mais do que nunca, agora que estamos no limiar da
maturidade”. 13

8.2 Ecologia Profunda

A nova Biologia é um coeso conjunto de conceitos potencialmente importantes


na mudança de mentalidade das sociedades humanas. Por sua vez, a Ecologia, a ciência
que estuda as relações que interligam os seres vivos e que emergiu das escolas
organísmicas da Biologia, enriqueceu muito a maneira sistêmica de pensar, introduzindo
concepções importantes para a compreensão da dinâmica dos sistemas vivos no Planeta
Terra.
Duas dessas importantes concepções facilitaram o alcance de um entendimento
mais consistente da vida: comunidade e rede.
Entende-se por comunidade o conjunto de organismos aglutinados num todo
funcional por meio de suas relações mútuas. Hoje, todavia, se sabe que os organismos
não são apenas membros de comunidades ecológicas, mas também são, eles mesmos,
complexas comunidades, contendo uma multidão de outros organismos menores
dotados de considerável autonomia e que, não obstante, estão harmoniosamente
integrados no funcionamento do todo mais abrangente.
Ao longo do Século 20, verificou-se que as comunidades ecológicas organizam-
se à maneira de redes de relações de alimentação e, por conseguinte, as noções

101
relacionadas à interdependência essencial entre os variados organismos da biosfera
tornaram-se cada vez mais explícitas.
A “teia da vida” é uma idéia antiga, que tem sido utilizada por poetas e místicos
de várias épocas para expressar o entrelaçamento essencial entre os seres da natureza,
idéia que sugere uma apurada intuição em relação à nossa condição de participantes
dessa teia. 14
Entretanto, a perspectiva cultural que ganhou proeminência no âmago da
sociedade aponta para uma visão antropocêntrica da vida, que enxerga o ser humano
fora ou acima da natureza e como sendo fonte de todo o valor. O Homo sapiens é,
nessa visão, a imagem e a semelhança de Deus, tendo sido criado para dominar a
Terra.
Embora possamos identificar o valor dessa perspectiva no contexto histórico, ao
potencializar a capacidade de sobrevivência da espécie, a arrogância comportamental
que emergiu da concepção antropocêntrica é hoje a força motriz da cultura insaciável
que identificamos como o padrão cancerígeno do planeta.
Faz-se urgente a transformação cognitiva neste âmbito, promovendo a
compreensão ecológica profunda, em superação à perspectiva egocêntrica humana, que
é identificada inclusive dentro dos próprios movimentos ambientalistas.
O conceito de Ecologia Profunda surgiu na década de 1970, através do filósofo
norueguês Arne Naess, tanto como filosofia quanto como movimento social. A Ecologia
Profunda não separa o ser humano da natureza; enxerga-o como um fio da teia da vida,
enfatizando nossa interdependência com toda a vida sobre a Terra e a necessidade de
uma compatibilidade mútua entre os seres viventes.
Entretanto, a compreensão desta posição não-hierárquica do ser humano no
contexto planetário traz implicações de grande amplitude, muitas vezes incompatíveis
com o modo de vida da sociedade de crescimento industrial baseada nos valores
autocentrados que incitam a exploração do meio ambiente natural.
Isto se torna claramente perceptível na forma como uma parte do movimento
ambientalista lida com os processos de transformação de comportamento. Boa parte dos
ambientalistas segue defendendo a proteção da natureza tendo em primeiro lugar e
como objetivo último o bem-estar da humanidade.

102
John Seed, ativista australiano das florestas tropicais, alerta para a ineficácia do
raciocínio ambientalista raso que pressiona as populações através de exigências e
deveres:

“Aquilo que a humanidade é capaz de amar em virtude do mero dever


ou exortação moral é, infelizmente, muito limitado... A grande
moralização presente no movimento ecológico deu ao público a falsa
impressão de que cada um está sendo basicamente solicitado a se
sacrificar, a mostrar mais responsabilidade, mais preocupação e uma
moral mais adequada.(...) [Mas] o cuidado necessário flui naturalmente
quando o Eu se amplia e se aprofunda a ponte de sentir a proteção da
natureza livre, concebida como a proteção de nós mesmos”. 15

Ao dissiparmos a névoa que perpetua nosso olhar egocêntrico, aí sim começa a


ocorrer uma mudança de consciência em um nível mais profundo. É uma espécie de
libertação, que vai além de um processo meramente intelectual. Nas palavras de John
Seed:

“ ‘Estou protegendo a floresta tropical’ transforma-se em ‘Sou parte da


floresta tropical e me protejo. Sou a parte da floresta tropical que
acabou de desfrutar do pensamento’. E que alívio sentimos, então!
Acabaram-se milhares de anos de separação imaginária e começamos a
nos recordar de nossa verdadeira natureza. Ou seja, a mudança é
espiritual, às vezes chamada de ecologia profunda”. 16

8.3 Princípio Biocêntrico

Uma outra premissa de grande valia na estruturação de uma sólida base


cognitiva capaz de movimentar a roda da transformação cultural e que se mistura com
os princípios da ecologia profunda é o que o psicólogo e antropólogo chileno Rolando
Toro chamou de Princípio Biocêntrico.

103
Segundo Toro,

“Este princípio tem como ponto de partida a vivência de um universo


organizado em função da vida (...) um estilo de sentir e pensar que
toma como ponto de partida, e como referência existencial, a vivência e
a compreensão dos sistemas viventes. Tudo o que existe no universo,
sejam elementos, astros, plantas ou animais, incluindo o ser humano,
são componentes de um sistema vivente maior. O universo existe
porque existe a vida e não o inverso. As relações de transformação
matéria-energia são graus de integração da vida”. 17

O Princípio Biocêntrico, em suma, é o parâmetro essencial que orienta o


comportamento de forma que os movimentos possam nutrir o processo evolutivo, para
criar mais vida dentro da vida. Rolando Toro versa sobre a constituição de uma cultura
de vida:

“A desconexão dos seres humanos da matriz cósmica da vida gerou,


através da história, formas culturais destrutivas. A dissociação corpo-
alma e a repressão da experiência paradisíaca conduziram à profunda
crise cultural em que vivemos. Se tomamos como ponto de partida as
propostas intrínsecas que surgem do ato de viver e da comunicação
entre os seres vivos, temos que abandonar, com decisão absoluta,
qualquer tipo de fundamentação cultural baseada no dinheiro e no
assassinato. Os interesses da vida nem sempre se conjugam com as
exigências de nossa cultura. Assim, por exemplo, todo o delírio jurídico
do Oriente e do Ocidente, com seus códigos e tribunais de justiça, se
baseiam na propriedade privada, e não na vida. As guerras são também
a expressão dessa psicose coletiva que nega a sacralidade da vida. A
cultura deveria estar organizada em função da vida. Nossas formas
culturais são anti-vida”. 18

104
Assim, a cultura biocêntrica – a cultura ecológica profunda –, em superação à
cultura antropocêntrica, é a condição análoga, em nível planetário, à perspectiva celular
integrada ao organismo do qual faz parte, em superação à perspectiva autocentrada que
desencadeia a formação do câncer.

8.4 Aprendizado de Gaia

Entendermos a teia da vida e nos posicionarmos como um de seus fios é um


grande desafio para a educação e para a comunicação humanas. Abrandar o sentimento
profundamente arraigado de sermos os donos da Terra e incutirmos nas pessoas a idéia
de que somos nós que devemos nos adaptar à dinâmica do planeta, e não o contrário,
são tarefas bastante difíceis, ainda que plenamente viáveis.
O sentido de pertencer à Terra, de ser a Terra, enxergá-la como nosso corpo
cósmico, engendra novas formas de ser e agir. É o que aqui chamamos de “Aprendizado
de Gaia”, uma mudança espiritual de desencapsulamento dos nossos egos e uma
abertura sensível à extraordinária beleza da teia da vida em sua majestosa condição de
sistema vivente aninhado em sistemas viventes maiores.
Joanna Macy e Molly Young Brown, em seu livro “Nossa Vida como Gaia”, citam
o poeta californiano Robinson Jeffers, em um poema que capta o espírito dessa
transformação espiritual das pessoas que aprendem o sentido de estarem vivas em um
planeta vivo:

“...Adentrei a vida da floresta marrom,


E a grande vida dos antigos cumes, a paciência da pedra, senti as
mudanças nas veias
Na garganta da montanha, um grão em muitos séculos, temos nosso
tempo, não o seu; e fui o riacho
Escoando os galhos da floresta; e fui o alce bebendo; e fui as estrelas
fervendo de luz, vagando solitárias, cada qual senhora de seu
próprio ápice; e fui a escuridão
Ao redor das estrelas, inclui-as, elas eram parte de mim. Fui ainda a
humanidade, um líquen móvel

105
Na face da pedra redonda...
... como posso expressar a dignidade que encontrei,
que não tem cor, mas clareza;
19
Não o mel, mas o êxtase...”

8.5 Sustentabilidade

Segundo Fritjof Capra, entende-se por alfabetização ecológica (ecoliteracy) “a


compreensão dos princípios de organização, comuns a todos os seres vivos, que os
ecossistemas desenvolveram para sustentar a teia da vida”. 20
Tal definição permite-nos introduzir a noção de sustentabilidade como uma das
premissas do novo cenário cognitivo para a humanidade. Sustentabilidade foi definida
na década de 1980 por Lester Brown, ativista fundador do World Watch Institute, como
a capacidade de satisfazermos nossas necessidades sem diminuir as chances das
gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades.21 Tal conceito sugere idéias
de longevidade, abundância e sinergia.
Ao observarmos a natureza, vamos entender de forma clara que os
ecossistemas são comunidades sustentáveis de plantas, animais e microorganismos.
Destarte, para que possamos desenvolver comunidades humanas sustentáveis, não
precisaremos partir do zero. Temos modelos vigorosos nos quais podemos embasar
nossas ações de modo que cessemos a devastação ambiental e posicionemo-nos de
forma benigna no contexto do Planeta Terra, modificando nossa percepção e tornando-
nos agentes de restauração e fortalecimento da biosfera.
Como sugere Lester Brown, “assim como um câncer em contínuo crescimento
acaba destruindo seus sistemas de suporte de vida ao destruir seu hospedeiro, a
economia global em expansão contínua está destruindo lentamente seu hospedeiro – o
ecossistema da Terra”.22
Em nosso raciocínio da metáfora do câncer planetário, a criação de
comunidades sustentáveis faz-se análoga ao fortalecimento do Sistema de Gaia,
estabelecendo condições favoráveis para a dissipação dos núcleos malignos de atividade
da economia global que utilizam arbitrariamente os recursos do organismo para a
perpetuação de um padrão deletério insustentável.

106
A característica mais marcante da Terra é sua capacidade intrínseca de
sustentar a vida. Na medida em que criamos comunidades capazes de co-evoluir com o
planeta de forma sustentável, estaremos restaurando o senso de holonomia perdido e,
desta forma, superando a atual enfermidade caracterizada pela dissociação entre o ser
humano e a natureza do planeta.
Na medida em que nossos modos de vida, negócios, economia, estruturas
físicas e tecnologia tornam-se sustentáveis, o ecossistema Terra vai se fortalecendo e o
represamento nefasto de energia por parte dos grupos controladores da economia
global vai sendo dissipado.
Conforme dissemos anteriormente, o motor desse sistema atual depende de
nossa participação e, por enquanto, tal engrenagem tem sido prodigiosa no trabalho de
sufocamento energético das massas. As comunidades insustentáveis acabam fornecendo
sua força criativa para alimentar a dinâmica do desarranjo, tendo em vista que estão
enfraquecidas e não conseguem se mobilizar em sentido contrário.
Na medida em que vão se restaurando, desenvolvendo alternativas estruturais
que permitam a utilização de seu potencial criativo na consolidação de sistemas
sustentáveis, as comunidades humanas se emancipam do jugo do sistema institucional
preparado para beneficiar uma pequena parcela – o “tumor” – em detrimento de todo o
superorganismo planetário.
Este raciocínio parece lógico, mas apresenta dificuldades de efetivação. A
ciranda viciosa sobre a qual a dinâmica econômica cancerígena se sustenta apresenta-se
tal qual uma forte “correnteza” que exige que toda a energia seja utilizada para evitar
que a sociedade seja levada “rio abaixo rumo à queda”.
A atual mentalidade que permeia as relações humanas não parece capaz de
desenvolver métodos eficazes de sobreposição da força de tal “correnteza”. Por mais
que nos esforcemos, não estamos conseguindo evitar a aproximação do colapso.
Precisamos de um novo olhar sobre a vida. E é na construção de uma nova forma de
enxergar a realidade que sustentamos a visão sistêmica como linguagem, como
estratégia cognitiva para alavancar a reação da sociedade.
Acredita-se que, provendo as pessoas de uma nova forma de compreender a
vida e o universo, revisitando os conceitos básicos de formulação do mundo e da
cultura, criaremos uma estrutura ecológica de conhecimento capaz de vivificar nossas

107
esperanças, renovar os tecidos sociais e nos mobilizar para o grande desafio que temos
pela frente, criando um novo paradigma social embasado em um sentimento de
autocura e evolução.
Este novo olhar não é somente um sonho, mas está se tornando efetivo. São
muito numerosos os elos de uma nova sociedade em rede organizada e provida de
ferramentas e instrumentos para mobilizar as grandes massas, apesar do controle da
comunicação por parte das corporações de mentalidade cancerígena.
Mas, tal qual um rizoma, as novas perspectivas estão se espalhando pelos
cantos do planeta, através do uso hábil da internet e do alcance global de organizações
não governamentais que formam uma coalizão que dá o tônus a essa rede de ação.
Como sustenta o sociólogo Manuel Castells:

“Na sociedade em rede, as mudanças sociais (...) desenvolvem-se a


partir de identidades baseadas na rejeição dos valores predominantes na
sociedade – o patriarcado, o domínio e o controle da natureza, o
crescimento econômico e o consumo material ilimitados, etc. A
resistência contra esses valores começou com os poderosos movimentos
sociais que tomaram conta do mundo industrializado na década de 1960.
Por fim, nasceu desses movimentos uma visão alternativa, baseada no
respeito à dignidade humana, na ética da sustentabilidade e numa
concepção ecológica do universo. Essa nova visão constitui a base da
coalizão mundial de movimentos populares”. 21

Esta coalizão mundial das redes ecológicas de sustentabilidade ainda não


possui uma linha de ação unificada. O que se espera com a sistematização da metáfora
do câncer planetário é a catalisação de novas conexões que fortaleçam os grupos de
reação, provendo-os de um referencial capaz de transcender os antagonismos e
aglutinar as intenções de restauração da Terra, no qual eles possam se amparar na
construção de estratégias conjuntas de educação, comunicação e desenvolvimento de
novas tecnologias sociais.

108
9. TEMPO DE DOENÇA E TEMPO DE MORRER

Quando se lida com uma doença que pode ser fatal, costuma-se dividir as
abordagens terapêuticas em dois tempos: o tempo da doença, em que todos os esforços
são orientados para a cura, para prover o paciente das melhores condições de
recuperação e superação da enfermidade; e o tempo de morrer, quando a situação
orgânica do paciente já não inspira expectativas de melhora e o trabalho médico e
terapêutico se volta para prover à pessoa um processo de passagem o mais digno e
menos doloroso possível.
Ao evocarmos a metáfora do câncer para a situação planetária, uma
conseqüência usual é nos indagarmos se estamos no tempo de doença ou no tempo de
morte. Se a humanidade vai conseguir se reorganizar através de outros alicerces
culturais e se reintegrar à natureza do planeta, ou se chegamos a um ponto sem retorno
e é apenas uma questão de tempo para que a humanidade sucumba em torno de seus
próprios equívocos de percepção.
A perspectiva adotada por este trabalho de pesquisa é a crença de que ainda
vivemos o tempo de doença e que existem formas viáveis de transformação cultural
capazes de estancar o processo de devastação ambiental e reorientar os indivíduos,
comunidades e instituições. Acredita-se ser possível criar o sentido do desenvolvimento
de uma lógica biocêntrica capaz de restaurar a harmonia ecológica do planeta e,
consequentemente, superar a moléstia que nos acomete.
Entretanto, esforços concatenados e bastante eficientes terão que ser
realizados no sentido de promover um entendimento mais amplo da condição do planeta
para que os grupos humanos se motivem e se mobilizem para a cura. Conforme
dissemos, reconhecer emocionalmente a enfermidade e fortalecer os sistemas que
sustentam a vida do planeta fazem-se ações prementes.
É, contudo, muito difícil afirmar qualquer coisa em relação ao estágio do atual
desequilíbrio do planeta e sua força dissociativa. O mesmo ocorre na avaliação dos
pacientes com câncer. Nas palavras de Lawrence LeShan,

“Nós, que trabalhamos com pacientes com câncer, somos culpados por
algumas vezes brutalizarmos pacientes, quer seja por não reconhecer

109
que eles passaram da fase da doença para a fase da morte, quer por
tratá-los como se estivessem na fase da morte quando estão na fase da
doença. Para evitar essa brutalidade, os terapeutas devem estar
conscientes de sua orientação particular, compensá-la e ser tão sensíveis
quanto possível aos pacientes”. 1

Em sua visão, LeShan sugere alguns aspectos que ajudam ao terapeuta


identificar essa passagem de uma fase a outra:

“Uma maneira que considero útil para mim mesmo é o surgimento de


uma fadiga profunda, uma fadiga tão profunda que parece ser o
equivalente psicológico da exaustão adrenal. Os pacientes literalmente
não possuem mais energia para lutar pela vida. Eles participaram da
corrida, fizeram tudo o que foi possível, e não têm mais absolutamente
nenhuma energia para continuar. A exaustão é básica e total. Eles
apenas desejam descansar”. 2

Ao transpormos a perspectiva de um indivíduo para a perspectiva das


coletividades humanas, fica em aberto a reflexão sobre o nível de fadiga ao qual os
grupos e comunidades humanas estão submetidos. Ainda é possível verificar muita
energia de reação, mas o grau de inércia e desalento também parece muito intenso.
Embora a perspectiva adotada por este trabalho seja a crença no tempo de
doença, é bastante oportuno que se faça uma reflexão sobre o tempo de morrer, afinal
não existe nenhum parâmetro que nos ofereça a certeza de que não vamos vivenciar
esta fase.
Como nos dizem James Creighton, Carl e Stephanie Simonton,

“Talvez o fato mais assustador, carregado de emoções e difícil que a


vida deva assumir seja a morte. É terrível que o assunto da morte seja
praticamente um tabu na nossa sociedade. A omissão de discutir –
mesmo que somente para reconhecer – a morte acarreta o medo que
temos dela e a nossa incerteza em como abordá-la”. 3

110
Já foi mencionada a enorme dificuldade de se aceitar a morte e a busca
incessante por prolongar a vida a qualquer custo no contexto social contemporâneo,
mesmo que isso acarrete sofrimento pessoal e inchaço social. Essa é uma das
características de uma célula cancerosa, quando ela desativa os mecanismos de
apoptose (morte celular endógena) e busca se manter viva de qualquer maneira,
mesmo percebendo que as células jovens vêm para ocupar o seu lugar e fazer
regenerar os tecidos do corpo.
Para nos curarmos, provavelmente, não precisaremos matar ninguém, mas
teremos inevitavelmente que aprender a morrer. Essa sabedoria diz respeito à nossa
individualidade e ao nosso senso de pertencimento a um organismo maior que depende
da renovação equilibrada de seus tecidos.
Se não formos capazes de nos livrar do apego em relação ao nosso próprio
corpo e à nossa própria vida individual, se não conseguirmos verificar que nossa vida
continua em formas mais amplas mesmo depois da morte de nosso corpo,
provavelmente a nossa superpopulação e a crescente demanda por recursos impedirá a
reorganização social e entraremos no tempo de morrer.
E nesse momento de encararmos o tempo de morrer, o que deveremos fazer?
A visão de LeShan traz uma perspectiva alentadora:

“A essência da tarefa do tempo de morrer é enxergar a totalidade de


nossa vida como um padrão e uma sinfonia na qual os temas se
intensificam e gradualmente desaparecem, e o conjunto forma um todo
organizado e real. É necessário perdoar e aceitar a nós mesmos para
que, no final, sejamos reais conosco mesmos, e não – como muitos de
nós somos para nós mesmos durante nossa vida – um fantasma. (...) O
tempo de morrer torna-se, assim, a última aventura, uma aventura tão
importante quanto quaisquer outras experimentadas (...). Torna-se um
4
período de crescimento e desenvolvimento”.

E LeShan apresenta a sua meta, quando trabalha no contexto do tempo de


morrer:

111
“Mudar a cor do tempo de morrer, permitindo que seja, para cada
pessoa, uma excitante e interessante aventura em seu crescimento. Para
que este não seja um período árido, deprimente, mas, sempre que
possível, um período de vir-a-ser, de crescer, um avanço total em
direção à última tarefa que cada um de nós irá enfrentar, ou seja,
morrer tão bem, tão completamente, tão confiantes quanto nos é
permitido ser. Conhecer e afetuosamente aceitar quem somos, antes de
morrer”. 5

Se atingirmos a consciência de que vivemos o tempo de morrer, podemos


transformá-lo em um momento de extremo significado, buscando libertar nossas mentes
e nossos corpos dos condicionamentos nocivos que nos foram sendo acumulados ao
longo dos últimos milênios.
O fim da história torna-se um tempo de profundo aprendizado, em que
permitimos a exploração do extraordinário potencial de nossa espiritualidade, abrindo
veredas da imaginação e transcendendo a matéria para acessar os padrões de luz que
trazem a certeza de que a vida continua em outras escalas, de que o universo vivo
segue em seu curso e de que a vida, como disse Rainer Maria Rilke, não é um problema
para ser solucionado, mas um mistério para ser vivido.
Assim, o tempo de morrer é propício para que possamos evocar a gratidão em
rituais de celebração. Que possamos nos conhecer a nós mesmos, alimentando a
amplitude do mundo espiritual, acessando, através dos nossos aguçados sentidos, as
dimensões transcendentes do cosmos. Como diz David Steindl-Rast,

“É com a gratidão que a espiritualidade começa, com um senso de


gratidão por estar vivo, gratidão pela dádiva deste universo ao qual
pertencemos. No dar e no receber da vida de todos os dias, cada ação
pode se tornar uma grata celebração deste pertencer”. 6

Deve-se enfatizar aqui a crença de que vivemos o tempo de doença e na cura


da biosfera, o objetivo primordial deste trabalho. Entretanto, refletir sobre a morte faz-

112
se muito importante. Na medida em que lidamos de uma forma mais lúcida e menos
assustada com este encontro, mais forte parecemos ficar para fazer o que tem que ser
feito. Quanto menos amarga nos for a idéia da morte, mais fortalecido nos sentimos
para lutar pela vida. Uma vez que nos permitamos morrer, toda a perspectiva dessa
morte é alterada. Afinal, podemos melhorar nossa qualidade de vida de qualquer forma.
Como Capra nos diz,

“A necessária confrontação com a morte (...) toca no problema


existencial fundamental, característico da condição humana. [As
pessoas] são assim levadas naturalmente a considerar suas metas na
vida, suas razões para viver e sua relação com o cosmos como um
todo”. 7

Em suma, é isso que precisamos para ativar nosso potencial de reação para que
possamos nos organizar e efetivar as ações de regeneração dos tecidos da vida. O olhar
cuidadoso para a morte e o discernimento que subjaz dessa lucidez nos eleva a
esperança na vida. E, sobre esperança, são inspiradoras as palavras do estadista tcheco
Vaclav Havel:

“O tipo de esperança sobre o qual penso freqüentemente,...


compreendo-a acima de tudo como um estado da mente, não um estado
do mundo. Ou nós temos a esperança dentro de nós ou não temos; ela
é uma dimensão da alma, e não depende essencialmente de uma
determinada observação do mundo ou de uma avaliação da situação...
[A esperança] não é a convicção de que as coisas vão dar certo, mas a
certeza de que as coisas têm sentido, como quer que venham a
terminar”. 8

113
CONCLUSÃO

Este trabalho de pesquisa, em última instância, deve ser considerado um


trabalho filosófico. Afinal, muitas de suas afirmativas não estão corroboradas por
procedimentos de quantificação e mensurabilidade e não são mais do que especulações
sobre perguntas que não podem ser respondidas pela observação direta ou pela
experimentação. Contudo, como nos dizem Lynn Margulis e Dorion Sagan,

“É fascinante tentar discernir os fios dos conceitos culturalmente


herdados e lingüisticamente reforçados que norteiam até mesmo nossos
pensamentos de aparência mais original. Uma explicação da metafísica
pode não levar à verdade absoluta, mas certamente não deve ser um
anátema para as mentes científicas abertas”. 1

É com este espírito que procurei referenciar as idéias aqui apresentadas em


trabalhos de cientistas reconhecidos para mostrar que, embora a costura dos conceitos
seja um insight pessoal, todas as idéias têm embasamento nas obras de outros
pensadores. Este trabalho segue o propósito de transcender as inevitáveis separações e
limitações do sistema científico convencional e se imbui da missão transdisciplinar de
organizar idéias e difundi-las como elos de conexão à realidade viva do planeta. Como
diz James Lovelock, no prefácio do livro “A Dança da Terra”:

“Necessitaremos de sintetizadores e visionários independentes, que


possam extrair sentido dos dados produzidos pelo sistema científico e
apresentá-los de maneira que tornem nosso planeta vivo real para nós
dentro do contexto de Gaia e, portanto, confira sentido à nossa própria
vida e à vida de nossos filhos e netos”. 2

Em busca de uma síntese, toda a linguagem desenvolvida neste texto tem um


caráter metafórico, utilizando-se de isomorfismos que trazem subjacente a incerteza.
Partilha da crença de Terence McKenna de que “todos os modelos são provisórios e é
isso que preserva o estado de abertura daquilo que eles estão modelando”.3 A função

114
básica de um trabalho como esse é projetar um feixe de luz no mistério intrínseco à
realidade.
Vislumbram-se algumas complementações, objetos de futuros trabalhos de
pesquisa, para que o texto ganhe a consistência desejada. A principal delas talvez seja a
descrição de práticas físicas, orgânicas, que podem auxiliar no fortalecimento da saúde
individual e, conseqüentemente, no fortalecimento comunitário e institucional no
processo de mobilização para a cura da enfermidade planetária.
Entre as diversas práticas, podem ser citadas:

i. Meditação – prática capaz de direcionar o poder do pensamento na


direção da cura do Sistema de Gaia, sendo análoga aos processos de
visualização utilizados na cura do câncer em indivíduos;
ii. Yoga – modo de vida capaz de fortalecer integralmente os organismos e
proporcionar à mente um estado benéfico de concentração;
iii. Biodança – sistema vivencial que promove integração afetiva, renovação
orgânica e reaprendizagem das funções originárias da vida, fortalecendo
os vínculos conosco mesmos, com os outros e com o universo;
iv. Substâncias Enteógenas – experiências que promovem o contato
transcendental com a realidade, alargando as vias ordinárias da percepção
e reconectando os indivíduos com a realidade unificada da biosfera.
Fazem-se análogas às intervenções medicamentosas em tratamentos.

Estas e outras práticas visam o enaltecimento das virtudes humanas, buscando


a dissipação dos vícios e condicionamentos impostos pela cultura e que hoje tornam as
pessoas meros autômatos de reprodução da mentalidade patológica. Um outro trabalho
de pesquisa deverá aprofundar esta dimensão física do processo de restauração do
Sistema de Gaia.
Ao caminharmos para o final deste texto, pode-se identificar, em suma, que a
essência da busca é a reconexão ao ser planetário vivente. Independente da forma
como essa conexão se dê, é ela que permitirá a dissolução do represamento crônico da
nossa energia vital. Como diz Elisabet Sahtouris,

115
“Graças à nossa ciência brilhante, nossos instrumentos de medição e
computação, nossa tecnologia espacial, podemos ver o planeta como um
ser vivo uno, que entendemos mal e maltratamos à nossa própria custa.
Começamos a compreender que, enquanto o planeta tem grande
experiência e sabedoria a ensinar-nos, nossa falta de compreensão e
respeito levou-nos a explorá-lo como se ele só existisse para esse fim.
Só agora compreendemos que estivemos destruindo como vândalos o
planeta-mãe do qual dependemos e com o qual podemos aprender
muito sobre o uso mais sábio de nosso dom de liberdade consciente”. 4

A nascente (e também ancestral) visão de Gaia tem um singular potencial de


alterar nossa percepção e promover uma conexão espiritual com o planeta do qual
somos parte. A crise está em nossas mentes e sua solução, paradoxalmente, também
está.
Precisamos fundamentalmente mudar o enfoque, os valores, as metas e, por
mais difícil que isso possa parecer, é um fenômeno possível de acontecer, pois não
dependerá de forças exteriores. O processo é interno e temos, conforme nos salientam
Humberto Maturana e Francisco Varela, autonomia para nos transformarmos.
Precisamos, contudo, conhecer o conhecimento para que possamos assumir nossa
responsabilidade de criarmos o mundo com todos os outros seres que formam a teia da
vida:

“Não é o conhecimento, mas sim o conhecimento do conhecimento, que


cria o comprometimento. Não é saber que a bomba mata, e sim saber o
que queremos fazer com ela que determina se a faremos explodir ou
não. Em geral, ignoramos ou fingimos desconhecer isso, para evitar a
responsabilidade que nos cabe em todos os nossos atos cotidianos, já
que todos estes – sem exceção – contribuem para formar o mundo em
que existimos e que validamos precisamente por meio deles, num
processo que configura o nosso porvir. Cegos diante dessa
transcendência de nossos atos, pretendemos que o mundo tenha um
devir independente de nós, que justifique nossa irresponsabilidade por

116
eles. Confundimos a imagem que buscamos projetar, o papel que
representamos, com o ser que verdadeiramente construímos no nosso
viver cotidiano”. 5

A experiência de escrever este texto me trouxe à mente muitas vezes a noção


de responsabilidade. Vivi momentos de crise por não querer assumir a responsabilidade
sobre estas idéias, talvez por achar que elas talvez expressem um ponto de vista
equivocado e que tenha um efeito adverso, colaborando para que os grupos humanos
realmente sucumbam diante de tamanho desafio. Entretanto, no âmago de minha
percepção, trago a convicção de que estas idéias têm sentido e podem realmente
auxiliar na concatenação dos esforços de superação da crise planetária.
Como diz William Irwin Thompson, “as idéias, da mesma forma que as uvas,
crescem em cachos. As pessoas gostam de se agregar pelo simples fato de sentir que,
na videira, suas idéias se tornam mais completas e mais enriquecidas”.6 Como uma uva,
este texto faz parte de um grande cacho de idéias que vai criando aos poucos uma nova
forma de pensar, um jeito novo de olhar para nós mesmos, para as outras pessoas,
para os seres vivos, para o planeta.
É como participar de uma mutação genética orientada, uma transformação
profunda que resgata o senso de holonomia, equilibra os pólos complementares YIN e
YANG e promove uma transformação ontológica a partir de uma revolução do
pensamento.
Devemos seguir andando no fio da navalha, evitando os extremos objetivos e
subjetivos. Não há certezas, mas há evidências. Nas palavras de Maturana e Varela,

“Nessa trilha mediana, encontramos a regularidade do mundo que


experienciamos a cada momento, mas sem nenhum ponto de referência
independente de nós mesmos, que nos garanta a estabilidade absoluta
que gostaríamos de atribuir às nossas descrições. Na verdade, todo o
mecanismo da geração de nós mesmos – como descritores e
observadores – nos garante e nos explica que nosso mundo, bem como
o mundo que produzimos em nosso ser com os outros, será
precisamente essa mistura de regularidade e mutabilidade, essa

117
combinação de solidez e areias movediças que é tão típica da
experiência humana quando a olhamos de perto”. 7

As referências empíricas deste trabalho não permitem nenhuma afirmação


resoluta, porém sustentam um ponto de vista que, espero, nos leve a pensar mais
profundamente sobre o atual contexto de nossas vidas. Se o leitor chegou até aqui e
encadeou pensamentos em torno de sua existência, de sua relação com a teia da vida
do planeta, estimulando sensações de pertencimento a sistemas vivos mais amplos, este
trabalho atingiu seu objetivo.
Encerro este longo raciocínio utilizando as palavras do etnofarmacologista
Terence McKenna, que em sua sabedoria nos mostra que esperamos por nós mesmos
dentro da visão:

“Agora podemos nos dirigir para uma nova visão de nós mesmos e de
nosso papel na natureza. Somos a espécie adaptável a tudo, somos os
pensadores, os fazedores, os solucionadores de problemas. Esses
grandes dons que são somente nossos e que surgiram da matriz
evolucionária do planeta não existem para nós – para nossa
conveniência, nossa satisfação e maior glória. São para a vida; são as
qualidades especiais com as quais podemos contribuir para a grande
comunidade do ser orgânico, caso nos tornemos aquele que cuida, o
jardineiro e a mãe de nossa mãe, que é a terra viva. (...) A longa noite
da história humana está finalmente chegando ao fim. Agora o ar está
silencioso e o leste manchado com um rubor róseo da alvorada.
Entretanto, sempre soubemos que a noite no mundo se aprofunda e que
as sombras se alongam na direção de uma noite que não terá fim. De
um modo ou de outro a história do macaco insensato está praticamente
encerrada para sempre. Nosso destino é nos afastarmos sem
arrependimento do que fomos, encarar nós mesmos, nossos pais,
amantes e filhos, juntar nossas ferramentas, nossos animais e os sonhos
velhos, muito velhos, para podermos atravessar a paisagem visionária
da compreensão cada vez mais profunda. Com toda a esperança, lá,

118
onde sempre estivemos mais confortáveis, onde sempre fomos mais nós
mesmos, encontraremos a glória e o triunfo na busca para o significado
na vida infinita da imaginação, finalmente brincando nos campos de um
Éden reencontrado”. 8

119
120
Notas

Introdução

1.RUSSELL (1991), pág. 43 e 44.


2. CAPRA (1986), pág. 15.
3. ESTEVES DE VASCONCELLOS (2002), págs. 101 e ss.
4. LAZLO, Erwin apud Esteves de Vasconcellos (2002), pág. 23.
5. PRIGOGINE, Ilya e STENGERS, Isabelle, apud ESTEVES DE VASCONCELLOS (2002),
pág. 23.

1. A TERRA COMO UMA HOLARQUIA

1. Cf. SAHTOURIS (1998), pág. 57.


2. WANG CH´UNG, apud CAPRA (1986), pág. 33
3. CAPRA (1986), pág. 33
4. Ibid, pág. 35.
5. Cf. Bíblia de Jerusalém, 2003
6. Cf. CAPRA (1997), págs. 187 e 204
7. BRAUER, David, apud CAPRA (1997), págs. 206 e 207.
8. Cf. SAHTOURIS (1998), págs. 177 e ss.
9. DETHLEFSEN e DAHLKE (1999), pág. 237.

2. AUTOCRIAÇÃO, A ESSÊNCIA DOS SISTEMAS VIVOS

1. Cf. CAPRA (1986), págs. 49 e ss.


2. Cf. CAPRA (2002), pág. 30 e 31.
3. Cf. CAPRA (1997), pág. 85 e ss.
4. Cf. MARGULIS e SAGAN (2002), pág. 31
5. Cf. MATURANA e VARELA (1997), pág. 71.
6. WIENER, Norbert, apud CAPRA (1997), pág. 56.
7. MATURANA e VARELA (2001), pág. 56 e 57.

121
8. Cf. MATURANA e VARELA (1997), pág. 52.
9. MARGULIS e SAGAN (2002), pág. 89.
10. Ibid, pág. 89 e 90.

3. A AUTOPOIESE DO SISTEMA DE GAIA

1. LOVELOCK, J.: Gaia – Um Modelo Para a Dinâmica Planetária e Celular. In


THOMPSON (2000), pág. 79 e 80.
2. Ibid, pág. 81.
3. LOVELOCK, James, apud CAPRA (1997), pág. 92.
4. MARGULIS, Lynn, apud CAPRA (1997), pág. 94.
5. SAHTOURIS (1998), pág. 72.
6. Cf. SAHTOURIS (1998), pág. 70.
7. SAHTOURIS (1998), pág. 306 e 307.

4. A METÁFORA DO CÂNCER

1. BERTALLANFY, Ludwig Von, apud ESTEVES DE VASCONCELLOS (2002), pág. 196


2. Ibid, pág. 196.
3. LOVELOCK, James. Prefácio de SAHTOURIS (1998), pág. 19.
4. Ibid, pág. 19.
5. Cf. SIMONTON et al (1987), pág. 25.
6. Cf. SAHTOURIS (1998), pág. 214 e ss.

5. A DINÂMICA DO TUMOR

1. Adaptado de HAHN, Willian C. e WEINBERG, Robert A.. Rules for Making Human
Tumor Cells. New England Journal of Medicine, Vol. 347, No. 20, páginas 1593 -
1603, 14 de novembro de 2002, apud Gibbs (2003)
2. RÒBERT (2003), pág. 26.
3. Cf. documentação disponível no site do Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente – www.unep.org

122
4. CAPRA (1986), pág. 138.
5. Cf. HAWKEN et al (2002), pág 8.
6. BENYUS (2003), pág. 13.
7. Cf. MOONEY (2002), texto de contra-capa do livro.
8. Ibid, págs. 132 e 133.
9. DADOUN (1991), pág. 88, 91 e 92
10. Cf. CAPRA (1986), pág. 21.
11. Ibid, pág. 21.
12. RUSSELL (1991) pág. 258
13. DETHLEFSEN e DAHLKE (1999), pág. 234 e 235.
14. Ibid, pág. 236 e 237..
15. Cf. CAPRA (1986), pág. 385 e 386.
16. CAPRA (1986), pág. 387.
17. RUSSELL (1991), pág. 132.
18. Cf. RUSSELL (1991), pág. 133.
19. RUSSELL (1991), pág. 147.
20. Ibid, pág. 143 e 144.
21. Ibid, pág. 187.

6. A DIMENSÃO EMOCIONAL DO CÂNCER

1. Cf. CAPRA (1986), pág. 345.


2. SIMONTON et al (1987), pág. 21.
3. LESHAN (1992), pág. 26 e 27.
4. Cf. LESHAN (1992), pág. 28.
5. Cf. MATURANA e VARELA (1997), pág. 56.
6. LESHAN (1992), pág. 36.
7. Ibid, pág. 36.
8. ABRAHAM et al. (1994), pág. 162.
9. REICH, Wilhelm, apud DADOUN (1991), pág. 96.
10. Cf. DADOUN (1991), pág. 90.
11. DADOUN (1991), pág. 92.
12. ABRAHAM et al. (1994), pág. 159 e 160.

123
7. PERSPECTIVA DE CURA

1. Cf. SIMONTON et al (1987), pág. 80 e 81.


2. MACY e BROWN (2004), pág. 38 e 39.
3. Cf. SIMONTON et al (1987), pág. 73.
4. SIMONTON et al (1987), pág. 74.
5. Os trechos entre aspas são oriundos de SIMONTON et al (1987), pág. 74 e 75.
6. SIMONTON, Carl, apud CAPRA (1990), pág. 158.
7. MACY e BROWN (2004), pág. 33 e 34.
8. Cf. SIMONTON et al (1987), pág. 37.
9. CAPRA (1986), pág. 349.
10. SIMONTON et al (1987), pág. 77.
11. LESHAN (1992), pág. 36.
12. Cf. LESHAN (1992), pág. 46.
13. LESHAN (1992), pág. 46 e 47.
14. Cf. LESHAN (1992), pág. 47.
15. LESHAN (1992), págs. 48 e 49.
16. Cf. LESHAN (1992), pág. 34.
17. RUSSELL (1991), pág. 258.

8. VISÃO SISTÊMICA COMO CENÁRIO COGNITIVO PARA A RESTAURAÇÃO


PLANETÁRIA

1. Cf. CAPRA e STEINDL-RAST (1991), pág. 43.


2. Cf. ESTEVES DE VASCONCELLOS (2002), pág. 69 e ss.
3. CAPRA (1986), pág. 86.
4. Cf. ESTEVES DE VASCONCELLOS (2002), pág. 101 e ss.
5. THOMPSON (2000), pág. 12.
6. BATESON, Gregory, apud CAPRA (1986), pág. 284.
7. Cf. CAPRA (1990), pág. 69.
8. CAPRA (1986), pág. 284.

124
9. CAPRA (1990), pág. 70.
10. CAPRA (1986), pág. 285.
11. JANTSCH, Erich, apud CAPRA (1986), pág. 285.
12. CAPRA (1986), pág. 285.
13. SAHTOURIS (1998), pág. 270.
14. As idéias sobre biologia e ecologia apresentadas nestes últimos parágrafos foram
adaptadas de CAPRA (1996), págs. 43 e 44.
15. SEED, John, apud MACY e BROWN (2004), pág. 68 e 69.
16. Ibid, pág. 68.
17. TORO, Rolando, apud RIBAS (1995), pág. 53.
18. TORO, Rolando Inconsciente Vital e Princípio Biocêntrico. Apostila do Curso
de Formação Docente em Biodanza da International Biocentric Foundation.
19. JEFFERS, Robinson, apud MACY e BROWN (2004), págs. 37 e 38.
20. CAPRA (2002), pág. 238.
21. Cf. CAPRA (2002), pág. 237.
22. BROWN, Lester, apud MACY e BROWN (2004), pág. 30.
23. CASTELLS, Manuel, apud CAPRA (2002), pág. 228.

9. TEMPO DE DOENÇA E TEMPO DE MORRER

1. LESHAN (1992), pág. 150.


2. Ibid, pág. 150.
3. SIMONTON et al (1987), pág. 198.
4. LESHAN (1992), págs. 152 e 153.
5. Ibid, pág. 151.
6. Cf. CAPRA e STEINDL-RAST (1991), pág. 30.
7. CAPRA (1986), pág. 350.
8. HAVEL, Vaclav, apud CAPRA (2002), pág. 273.

CONCLUSÃO

1. MARGULIS e SAGAN (2002), pág. 55.


2. LOVELOCK, James. Prefácio de SAHTOURIS (1998), pág.19.

125
3. ABRAHAM et al (1994), pág. 100.
4. SAHTOURIS (1998), pág. 234.
5. MATURANA e VARELA (2001), págs. 270 e 271.
6. THOMPSON (2000), pág. 7.
7. MATURANA e VARELA (2001), pág. 263.
8. McKENNA (1995), pág. 342.

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