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Desafios e aprendizagens do estagiário para o desenvolvimento das


habilidades terapêuticas na TCC a partir da supervisão: um relato de
experiência

Taiane Domingos Martins


Vera Costa Machado
Aline Da Silva Piason

Resumo: O presente artigo tem como objetivo relatar a experiência acadêmica da vivência do estágio
profissional supervisionado, realizado nas dependências de uma clínica situada na região
metropolitana de Porto Alegre. O objetivo geral deste artigo teórico de cunho qualitativo é discutir a
importância da supervisão clínica como instrumento indispensável para o desenvolvimento de
competências terapêuticas em terapia cognitivo - comportamental (TCC). A partir de uma breve
contextualização sobre o tema, o texto menciona dimensões do manejo clínico da TCC, em sequência
os aspectos relacionados sob a supervisão clínica e suas atividades necessárias para o
desenvolvimento de competências enquanto terapeuta em formação. O formato das supervisões, as
atividades formativas, a discussão de caso e a relação supervisor-supervisionando foram elencados
como fatores essenciais. Considera-se de grande valia o processo de aprendizagem ao longo do
período de estágio juntamente com a prática educativa envolvida na troca entre saberes teóricos-
práticos.

Palavras chave: Supervisão; Terapia Cognitivo- Comportamental; Desenvolvimento; Aprendizagem.

1 INTRODUÇÃO
Considera-se que no período de estágio está centralizada o maior volume de
atividades práticas que envolvem a formação acadêmica, cujo objetivo está focado em
desenvolver competências e habilidades nos estagiários para o futuro exercício profissional
compatíveis com os preceitos éticos e morais da Psicologia enquanto profissão. Esse fato é
ressaltado através do entendimento de que a formação é um processo de transformação não
apenas voltado para o desenvolvimento cognitivo, mas também na atitude clínica para que o
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graduando esteja apto ao exercício profissional ao final do curso. (Abdalla, Batista & Batista,
2008).
Para Bitondi e Setem (2007), a supervisão pode ser analisada como uma atividade de
ensino-aprendizagem, uma vez que tem como objetivo produzir mudanças no comportamento
do aluno, que representam a aquisição das habilidades terapêuticas. Essa atividade é
composta por discussões e reflexões feitas entre estagiários e supervisores sobre o que o
estudante vivencia no estágio.
Apesar da relevância da supervisão, torna-se importante salientar que ainda não há
uma uniformização de procedimentos nesta prática, ou seja, um protocolo padrão a ser
seguido. Com isso origina-se uma variabilidade de métodos que acabam sendo gerados por
distintos fatores, como, por exemplo, a linha teórica, formação pessoal do supervisor,
ausência de avaliação do processo supervisionado e a própria falta de um modelo já
consagrado. Há dificuldade em encontrar na literatura dentro do campo de pesquisa em
supervisão clínica, fator este que contribui para o uso da perspectiva pessoal do supervisor no
processo didático (Moreira, 2003).
Segundo Roth e Pilling (2008), definir supervisão é um desafio devido à diversidade
de variáveis influenciadoras no processo. Por esse motivo, podem ser encontradas diferentes
concepções, mas de forma geral entende-se que a supervisão é um momento contratual, de
relação formal e colaborativa entre supervisor e estagiário com o objetivo de
desenvolvimento, ensino e aprendizagem da prática clínica e que ocorre em um contexto
organizacional específico. Nesse sentido, cabe ao estagiário um relato honesto de seu
trabalho, e ao supervisor dar feedback e orientação a fim de facilitar o desenvolvimento de
competências e habilidades terapêuticas.
Em sua revisão literária Lima (2009), o supervisor de estágio possui cinco principais
funções, são elas: informar aspectos técnicos; teóricos e científicos relevantes para o processo
terapêutico; fomentar discussões que aparecem em supervisão com o objetivo de promover
uma nova descoberta/ possibilidade de atuação do estagiário; sugerir caminhos a fim de
ampliar a conduta prática e ética do fazer enquanto psicólogo; motivar o estagiário; ser capaz
de avaliar o desempenho do estagiário de maneira crítica observando pontos positivos e
negativos do seu supervisionando. Padesky (2004) sugere que esta função ocorra
necessariamente de forma colaborativa, entre supervisor e supervisionando como uma via de
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mão dupla, ofertando assim um resultado satisfatório no andamento das atividades e na


construção do atual graduando.
Um fator de grande valia na Terapia Cognitivo Comportamental e também se faz
relevante no contexto de supervisão, denomina-se aliança terapêutica, que no caso em
questão se diz respeito ao elo de compromisso mútuo gerado entre estagiário e supervisor. No
qual uma vez demonstrada empatia, atenção, respeito genuíno, cordialidade e competência
haverá como consequência a contribuição necessária para o andamento do processo. O
acolhimento e a compreensão das dificuldades partindo do supervisor garante confiança por
parte do estagiário. (Cordioli, 2008).

2 METODOLOGIA
Trata-se de um estudo qualitativo de caráter descritivo a partir das experiências
vivenciadas no campo de atuação do estágio profissional, entre os meses de Setembro à
Novembro, que terá como objetivo relatar e fomentar discussões sobre a formação do
graduando em psicologia com o viés da Abordagem Cognitivo - Comportamental (Gil, 2017).
O processo de supervisão clínica terá ênfase ao longo do relato, visando discorrer sobre sua
importância na vivência do estagiário. Logo, a realização do estágio supervisionado permitirá
o contato entre a prática profissional e a teoria estudada, a fim de proporcionar uma base
sólida no que se diz respeito à identidade e postura do futuro psicólogo (Pereira et al., 2018).

3 SUPERVISÕES COMO BASE DE APOIO AO ESTAGIÁRIO


De fato a supervisão ao longo do período de estágio permite ao graduando sentir-se
seguro frente às demandas impostas pela prática clínica. Assim, um ponto importante do
contexto de supervisão está ligado às relações estabelecidas. Logo, a relação entre supervisor
e estagiário é extremamente próxima, na qual cada um se expõe mostrando suas
vulnerabilidades e potencialidades. O objetivo da supervisão visa facilitar o processo de
aprendizagem por meio da observação, feedbacks, autoavaliação por parte do estagiário e da
resolução em conjunto de situações desafiadoras que possam surgir (Falender & Shafranske,
2004).
Esta sessão contemplará o relato de experiência com o foco no detalhamento das
supervisões realizadas ao longo do semestre de estágio. Dará ênfase para a importância da
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construção do vínculo entre supervisora e estagiária, suas implicações no desenvolvimento


profissional e o quanto esse processo auxilia na busca do fazer da psicologia enquanto
profissão provedora de saúde mental.
Além da relação entre estagiária e supervisora, outro fator que garantiu o andamento
satisfatório no desenvolvimento das atividades práticas deve-se a estrutura em que o mesmo
fora realizado. Para tal, houve a oferta de suporte entre a equipe operacional da clínica, corpo
de estagiários e supervisoras, pois na ocorrência de dúvidas havia acesso a recursos que
promovessem o esclarecimento das mesmas.
Com relação ao esclarecimento de dúvidas, manifestação de inseguranças, andamento
dos processos terapêuticos dos pacientes em atendimento e suporte teórico pude contar com
minha supervisora que será denominada de V., para manter o sigilo e ética profissional. De
antemão ressalto que o vínculo estabelecido contribuiu para o andamento de minhas
atividades de maneira ímpar, fornecendo autoconfiança e embasamento teórico-prático.
Os primeiros quatro encontros ocorreram na modalidade online com duração de 01
hora e tiveram como objetivo promover a adaptação teórica na TCC, baseados em leituras e
posteriormente discussão dos tópicos elencados como principais para agregar na construção
do saber e na preparação de manejos utilizados dentro da prática clínica. Houveram
momentos direcionados para a escuta empática e colaborativa por parte da supervisora
direcionada para minhas questões, como por exemplo, a exposição de ansiedades,
verbalização das inseguranças existentes e esclarecimento de dúvidas relacionadas a questões
práticas e éticas antes do início dos encaminhamentos para realização dos atendimentos.
Posteriormente aos encontros de adaptação, iniciaram os atendimentos, os mesmos
ocorriam conforme eram feitos os encaminhamentos de acordo com a demanda de procura
por parte dos prováveis pacientes. Iniciei atendendo uma paciente com demandas de baixa
autoestima, ansiedade e relacionamento abusivo. Logo, outros dois pacientes me foram
encaminhados, uma mulher jovem com questões relacionadas com a existência do luto em
decorrência da perda de sua mãe, a responsabilidade em assumir os cuidados do irmão mais
novo, manejo de controle de ansiedade com o auxílio de medicamentos psiquiátricos e
sintomas de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Outro é um adolescente com questões
pertinentes a fase de seu desenvolvimento envolvendo a iniciação do interesse sexual e
questões ligadas a anatomia do corpo e seu processo de transformação.
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As supervisões sucederam-se com a periodicidade semanal com duração de 01 hora


no formato presencial nas dependências da clínica, como fora acordado entre ambas as partes
visando maior aproveitamento dos encontros. Ao longo do processo foram discutidos os
casos atendidos por mim, levantando minhas percepções obtidas em cada atendimento
realizado, possíveis propostas de aplicações de técnicas, desconfortos ocasionados em
decorrência da insegurança em realizar atendimentos de qualidade e obter os melhores
resultados como terapeuta.
Em determinados momentos conforme os atendimentos realizados ocorriam, discutia-
se sobre a aderência do paciente no processo terapêutico, item imprescindível no tratamento.
Uma vez identificado esse tópico, ocasionou um momento de extrema aflição por minha
parte, visto que aquela situação nova me desencadeou sentimento de insegurança e
incapacidade. Logo V., se dirigiu a situação trabalhando o quanto naquele momento minhas
questões pessoais estavam ligadas ao caso em questão. E que a não aderência do paciente no
tratamento se tratava da resistência do mesmo em trabalhar suas demandas não havendo
relação com a má conduta de minhas ações enquanto terapeuta.
Como supervisora, V. desempenhou o papel de facilitadora, compreendendo os
sentimentos e dificuldades apresentadas. Agindo de forma aberta e assertiva frente aos
posicionamentos realizados. Manifestou-se de maneira sincera, fornecendo feedbacks sobre o
desempenho na execução de minhas atividades, indicando ações que viabilizassem a melhoria
nos atendimentos prestados.
Para auxiliar no desenvolvimento das competências terapêuticas foram oportunizados
seminários mensais, envolvendo as abordagens: Sistêmica e Cognitivo - Comportamental,
com a apresentação dos casos clínicos atendidos pelos estagiários, visando ampliar a
consciência e acionar novos mecanismos terapêuticos. Conforme Tavora (2002), de fato
supervisionar os atendimentos clínicos implica, ainda, em suscitar no grupo de supervisão
reflexões acerca dos elementos subjetivos que os estagiários podem experienciar na relação
terapêutica com seus clientes/pacientes. A partir dessa reflexão, os psicólogos em formação
poderão distinguir os elementos pertencentes a si e ao sujeito sob acompanhamento
psicoterápico, o que irá favorecer o desenvolvimento de competências para o exercício
clínico como a escuta, por exemplo.
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4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
O objetivo da maioria dos graduandos está no momento de colocar em prática aquilo
que fora visto e experienciado dentro da instituição de ensino. Onde o mesmo vem
acompanhado de ansiedades, desejo de ser uma ferramenta de apoio quando procurado e
também pelo sentimento de estar atendendo suas próprias expectativas.
Uma vez iniciada a caminhada rumo à construção profissional me deparei com um
mundo de possibilidades, desafios e gratificações. Possibilidades que me permitiram repensar
minhas formas de atuação enquanto psicóloga em formação, com momentos de reflexão e
compartilhamento de experiências. Desafios, uma vez que a insegurança se fazia presente e
em determinados momentos necessitei buscar em mim recursos que até então não tinha me
dado conta que os possuía. Gratificações, por apesar dos desafios que surgiram e ainda
surgirão fui agente que proporcionou escuta empática, acolhimento e engajamento aos meus
pacientes para que seguissem na busca de resolução de seus conflitos e do seu
autoconhecimento.
E por fim o ponto principal deste artigo, a supervisão, o quanto os encontros
proporcionaram o meu crescimento enquanto futura psicóloga. Os momentos que me fizeram
sair da zona de conforto foram determinantes e serviram como combustível para ofertar o
atendimento adequado, às discussões dos casos, os insights promovidos por reflexões e o
vínculo que fora estabelecido junto a supervisora.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho buscou relatar a vivência do estágio profissional, os desafios e o que
fora trabalhado dentro dos períodos destinados a prática de supervisão. Também discorrer
sobre a importância do vínculo entre supervisora e estagiária e o quão benéfico para o
andamento das atividades práticas e na autoconfiança do graduando. De acordo com Sei e
Paiva (2011), além do acompanhamento das práticas desenvolvidas pelos estagiários é papel
do supervisor manejar angústias, sofrimentos e as relações do grupo de estagiários. A
necessidade de que esteja atento a esses quesitos advindos da prática do estágio é sinalizada,
também, por Emílio et al. (2012).
Pode-se dizer que o estágio supervisionado é o início para a inserção no trabalho
profissional. Em função disto este momento é tido como transitório na busca pelo novo papel
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a ser assumido (Monteiro, Nunes, 2008). Logo, o estágio ganha papel de destaque, pois
potencializa as vivências rumo a formação como psicoterapeuta, no desenvolvimento de
competências, de postura ética, teórica e prática.
As supervisões nos moldes da estrutura clínica mostraram-se de extrema relevância
para aumentar as chances de melhoria no conhecimento, na habilidade prática e nas
habilidades interpessoais. Nesse sentido, houve o crescimento da maturidade pessoal, da
criatividade, da capacidade de leitura apropriada do outro, o conhecimento de protocolos
específicos e a postura ética. Proporcionando assim a supervisão em um momento de realizar
questionamentos críticos e adquirir experiência prática.
De fato o bom relacionamento auxiliou tanto no contexto de expor os sentimentos
experimentados, na manifestação de inseguranças e no esclarecimento de dúvidas obtidas ao
longo a realização dos atendimentos. Nesse raciocínio, a aprendizagem alavancou-se a partir
da observação, discussão e vivência em atividades formativas ocasionando o aproveitamento
satisfatório dos recursos disponibilizados ao longo do estágio.

REFERÊNCIAS
Abdalla, I. G.; Batista, S. H.; Batista, N. A. (2008). Desafios do ensino de psicologia
clínica em cursos de psicologia. Psicologia: ciência e profissão, v. 28, n. 4,.
Bitondi, F. R. e Setem, J. (2007) A Importância das habilidades terapêuticas e da supervisão
clínica: uma revisão de conceitos. Revista Uniara, n. 20, pp. 203- 212.
Carlos, G. A. (2017). Como elaborar projetos de pesquisa. 5. ed. São Paulo: Atlas.
Cordioli, Aristides V. (2008). Psicoterapias: abordagens atuais. Porto Alegre: Artmed.
Emílio, S. A.; Mataresi, A.; Horvat, C.; Figueiredo, P. Reflexões sobre a experiência de um
grupo de estágio em psicologia escolar. In: Molina, R.; Angelucci, C. B. (Org.).
Interfaces entre psicologia e educação. Desafios para a formação do psicólogo. São
Paulo: Casa do Psicólogo, 2012.
Falender, C., & Shafranske, E. P. (2004) Clinical supervision: a competency-based approach.
Washington, DC: APA.
Lima, M.F.E.M. (2009). Estágio supervisionado em Psicologia Escolar: desmistificando o
modelo clínico. Psicologia: Ciência e Profissão, 29(3), 638-647.
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Monteiro, N. R. O.; Nunes, M. L. T. (2008). Supervisor de psicologia clínica: um


professor idealizado? Psico-USF, vol. 13, n. 2, pp. 287-296.
Moreira, S. B. S. (2003). Descrição de algumas variáveis em um procedimento de
supervisão de terapia analítica do comportamento. Psicologia: Reflexão e Crítica,
16(1), 157-170. Recuperado de https://bit.ly/30SNEPz
Padesky, C. A. (2004). Desenvolvendo competências do terapeuta cognitivo: modelos
de ensino e supervisão. In: Salkovskis, P. M. (Org.). Fronteiras da terapia cognitiva.
São Paulo: Casa do Psicólogo. p, 235-255.
Pereira A. S., Shitsuka, D. M., Parreira, F. J., & Shitsuka, R. (2018). Metodologia da
pesquisa científica. Santa Maria. Ed. UAB/NTE/UFSM. Recuperado de
https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/15824/Lic_Computacao_MetodologiaP
esquisa-Cientifica.pdf?sequence=1.
Roth, A. D., Plling, S. A (2008). Competence framework for the supervision of
psychological therapies. Disponível em: Acesso em: 10 nov. 2020.
Sei, M. B.; Paiva, M. L. S. C. Grupo de supervisão em psicologia e a função de holding do
supervisor. Psicologia Ensino & Formação, v. 2, n. 1, p. 9-20, 2011. Disponível
em:http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2177-
20612011000100002. Acesso em: 19 nov. 2020.
Tavora, M. T. (2002). Um modelo de supervisão clínica na formação do estudante de
psicologia: a experiência da UFC. Psicologia em Estudo, 7(1), 121-130. Recuperado
de https://bit.ly/30U4gXg

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