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INSTITUTO DE PESQUISAS NUCLEARES – IPEN

Materiais de Aplicação na Engenharia Nuclear

EDUARDO ROCHA

O REATOR À TEMPERATURA MUITO ELEVADA DE QUARTA


GERAÇÃO VHTR

São Paulo - SP
2021
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EDUARDO ROCHA

O REATOR À TEMPERATURA MUITO ELEVADA DE QUARTA


GERAÇÃO VHTR
Monografia apresentada ao Instituto de
Pesquisas Nucleares (IPEN), como parte das
exigências para conclusão da matéria de
Materiais de Aplicação na Engenharia Nuclear,
do curso de pós-graduação stricto sensu dessa
instituição.

São Paulo – SP
2021

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÂO......................................................................................... 3

2. OS REATORES NUCLEARES DE 1ª, 2ª, 3ª E 4ª GERAÇÃO................. 5

2.1. Os Reatores de 1 ª Geração ............................................................. 5

2.2. Os Reatores de 2 ª Geração ............................................................. 6

2.3. Os Reatores de 3ª Geração .............................................................. 6

2.4. Os Reatores de 4ª Geração .............................................................. 7

3. OS REATORES VHTR ............................................................................ 8

3.1. O Núcleo dos Reatores VHTR ........................................................ 10

3.2. O Combustível dos Reatores VHTR ............................................... 12

3.3. Vaso de pressão ............................................................................. 14

3.4. Sistema de controle e desligamento ............................................... 15

3.5. Tubulação de Gás Quente .............................................................. 16

3.6. Circulador ........................................................................................ 16

3.7. Trocador de Calor Intermediário ..................................................... 17

3.8. Turbina para ciclo direto e indireto .................................................. 18

3.9. Produção de hidrogênio .................................................................. 19

4. CONCLUSÂO ........................................................................................ 21

REFERÊNCIAS .............................................................................................. 22

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1. INTRODUÇÂO
A obtenção de energia de forma sustentável é um desafio constante para a
sociedade moderna. Mais que isso, ao olharmos para o processo de desenvolvimento
das formas de obtenção de energia, verificamos um acelerado crescimento
tecnológico no último século.
A obtenção de energia pela exploração dos recursos energéticos, como carvão
mineral e outros combustíveis fósseis, para utilização na indústria, transporte e
obtenção de energia elétrica se desenvolveu entre os séculos 18 e 19. O petróleo
passou a ser utilizado a partir do século 18, e sua utilização se acentuou com o
crescimento populacional, o aumento no consumo de aparelhos eletrônicos e
automóveis, impulsionados pela indústria. A matriz energética mundial tornou-se
extremamente dependente do petróleo e seus derivados. Na Guerra fria, o petróleo
foi um importante instrumento geopolítico, e as sucessivas crises energéticas da
segunda metade do século vinte evidenciaram a necessidade de se diversificar a
matriz energética, bem como preservar os recursos naturais. Diversos acordos para a
redução da emissão de gases que contribuem para o efeito estufa e para o
aquecimento global foram realizados entre os países signatários, para incentivar o uso
e geração de energia limpa e renovável.
No século 20, a obtenção de energia através da fissão nuclear foi concebida
inicialmente para fins bélicos e acabou por se tornar um meio de geração de energia
limpa: não dependente dos combustíveis fósseis e das condições climáticas e sem a
liberação de gases que contribuem para o efeito estufa. No decorrer da história,
apesar da ocorrência de alguns acidentes em usinas nucleares, como em Chernobyl
na Ucrânia, os reatores nucleares têm se demonstrado seguros e confiáveis. Inclusive,
tais acidentes foram utilizados para o aprimoramento dos sistemas de segurança dos
novos projetos de reatores e para atualização dos reatores já existentes. Em 2019,
havia 443 reatores nucleares de potência em operação, gerando 392,1GWe, em torno
de 16% de toda energia elétrica gerada no planeta. Somando-se o tempo de operação
de todos os reatores já produzidos, contabiliza-se um total de 18.329 anos de reatores
em operação (IAEA, 2019).
Os reatores nucleares atualmente em operação são considerados de segunda
ou terceira geração. Com o intuito de se melhorar a segurança nuclear, aprimorar a
utilização dos recursos naturais, diminuir a produção de rejeitos e o custo de
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construção e implementação das centrais, foi lançado o Fórum Internacional da
Quarta Geração. A ideia é fomentar a pesquisa de reatores de quarta geração
alinhados com os objetivos propostos, mesmo que, não se espere uma aplicação
comercial antes de 2030 (ABRAM; ION, 2008). O reator à temperatura muito elevada
VHTR (Very High Temperature Reactor) é um dos reatores de quarta geração
propostos no Fórum Internacional e será objeto dessa monografia.

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2. OS REATORES NUCLEARES DE 1ª, 2ª, 3ª E 4ª GERAÇÃO
A obtenção de energia através da fissão nuclear é uma tecnologia
relativamente recente, uma vez que a primeira reação em cadeia autossustentada e
controlada ocorreu em 1942. Até o momento, três gerações de reatores nucleares de
potência foram concebidas e uma quarta geração está em pesquisa e
desenvolvimento. Atualmente, aproximadamente 443 reatores nucleares estão em
operação, gerando em torno de 16% de toda energia consumida no planeta.

Figura 1 – A evolução das gerações de reatores nucleares (ABRAM; ION, 2008)

2.1. Os Reatores de 1 ª Geração


Os reatores nucleares de primeira geração foram concebidos incialmente como
protótipos para geração de energia elétrica em um período cujo a energia nuclear
possuía uso específico nas aplicações militares. A primeira reação nuclear em cadeia
autossustentada ocorreu em 1942, no Laboratório de Argonne nos Estados Unidos,
que pertencia ao Projeto Manhattan. Em 1951, nesse mesmo laboratório, ocorreu a
primeira produção de energia elétrica por um reator nuclear, alimentando quatro
lâmpadas incandescentes.
Em 1954, a antiga União Soviética adaptou uma antiga instalação militar de
produção de plutônio para obtenção de um reator nuclear para fins pacíficos, chamado
Atom Mirny (átomo da paz). O reator de 6MW moderado a grafite e refrigerado à água
foi o precursor dos reatores RBMK utilizados em Chernobyl. Em 1956, o reator nuclear
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Magnox de 40MW, da usina britânica Calder Hall A, foi o primeiro a produzir energia
elétrica em escala comercial, contudo possuía uma finalidade secundária de produzir
plutônio para fins bélicos. Em 1958, na Pensilvânia, Estados Unidos, entrou em
operação o reator Shippingport, que era uma adaptação em escala maior do reator
utilizado no submarino nuclear Nautilus. Este foi o primeiro reator em escala comercial
a produzir energia elétrica exclusivamente com fins pacíficos.
Atualmente todos os reatores de 1ª geração produzidos entre as décadas de
1950 e 1960 foram descomissionados.

2.2. Os Reatores de 2 ª Geração


Os reatores nucleares chamados de segunda geração, são reatores comerciais
inspirados nos reatores de primeira geração, que passaram a operar no fim da década
de 1960, com vida útil prevista de 40 anos. As tecnologias mais difundidas nessa
geração são os reatores a água leve pressurizada (PWR – Pressurized Water Reactor)
e os reatores a água fervente BWR (Boiler Water Reactor). Segundo o IAEA (2019),
em 2019 dos 443 reatores em operação no mundo, 304 (68,6%) são PWR e 72
(16,2%) são BWR. Esses reatores também são denominados por reatores a água leve
(LWR Light Water Reactor).
Com relação às usinas de 2ª geração hoje em operação, mais de 80% utilizam
reatores abastecidos com urânio levemente enriquecido e refrigerados com água leve,
aproximadamente 10% fazem uso de reatores a urânio natural e refrigerados com
água pesada e uma parcela menor usa como refrigerante algum tipo de gás. As
refrigeradas a gás podem utilizar como combustível, tanto urânio enriquecido quanto
urânio em estado natural ou mesmo uma mistura de urânio com plutônio.
A maior parte dos reatores de segunda geração ainda em operação, localizados
nos Estados Unidos, União Europeia, América Latina e Ásia foi fabricada por uma das
três empresas: Westinghouse, Framatome (Areva) e General Electric (GE).

2.3. Os Reatores de 3ª Geração


Os reatores denominados como pertencentes a terceira geração,
correspondem a reatores de segunda geração aprimorados, com ampliação da vida
útil e a inserção de medidas avançadas de desempenho operacional. Destaca-se
como características evolutivas o aprimoramento de sistemas de segurança passivos,

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a melhora na eficiência energética, a otimização do projeto e construção com relativa
redução no investimento requerido e no tempo necessário para construção e
operação.
Dessa geração, o reator AP600 (Advanced PWR de 60MW da Westinghouse),
certificado em 1999 pela NRC, não foi comercializado, substituído pelo AP1000. O
modelo de reator ABWR (Advanced BWR da GE Hitachi Nuclear Energy) possui três
unidades em funcionamento no Japão (FGV, 2013).
Os reatores da “3ª geração +” introduziram uma evolução inteligente dos
sistemas passivos de segurança, envolvendo a utilização em maior quantidade
desses sistemas passivos, que dependem exclusivamente de fenômenos físicos
naturais, como a gravidade, a troca térmica por convecção e a circulação natural de
gases e líquidos. A vantagem desses sistemas está no fato de agirem
automaticamente quando as condições de projeto forem satisfeitas, não dependendo
da ação humana, ou de equipamentos eletromecânicos para serem atuados
(TRAVASSOS, 2014).
Esta é a geração mais avançada de reatores disponíveis, como o AP1000
(Advanced Passive 1000) de 1100MWe, da Westinghouse (FGV, 2013).

2.4. Os Reatores de 4ª Geração


Os reatores de quarta geração são, atualmente, um conjunto de projetos de
reatores em estudo, os quais se espera aplicação comercial entre 2030 e 2040. A
pesquisa envolve tanto os reatores como o ciclo combustível e as instalações, com o
objetivo de se obter melhora econômica, com menor custo de investimento e maior
eficiência energética, melhora na confiabilidade e na segurança nuclear, melhora na
resistência à proliferação e nas proteções físicas, a minimização de rejeitos nucleares
e a melhora na sustentabilidade.
O Fórum Internacional da Quarta Geração promovido no ano 2000, fruto da
iniciativa do Departamento Americano de Energia, fomentou a cooperação
internacional na definição dos objetivos para os sistemas de energia nuclear do futuro,
além de traçar as tecnologias-chave para alcançá-los. Seis sistemas foram
considerados os mais promissores, levando-se em conta o grau de inovação
tecnológica para promover a ampla cooperação. São eles:

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 VHTR – Very High Temperature Reactor system: reator de temperatura muito
elevada, acima de 1 000 ° C, resfriado a hélio, dedicado à produção de hidrogênio ou
cogeração de hidrogênio/ eletricidade;
 GFR – Gas-cooled Fast Reactor system: reator rápido resfriado a gás (hélio);
 SFR – Sodium-cooled Fast Reactor system: reator rápido refrigerado a sódio;
 SCWR – SuperCritical Water-cooled Reactor system: reator supercrítico
resfriado a água;
 LFR – Lead-cooled Fast Reactor system: reator rápido resfriado a chumbo ou
liga de Pb-Bi;
 MSR – Molten Salt Reactor system: reator de sal fundido.
De acordo com a avaliação do Fórum, o VHTR pontuou muito bem nos quesitos
pré-estabelecidos na seleção da tecnologia para os reatores do futuro. Com tudo, por
conta do seu ciclo de combustível aberto, requer reprocessamento para aumento da
sustentabilidade. Em relação a tecnologia aplicada, o VHTR é uma otimização dos
conceitos aplicados nos retores de alta temperatura, como nos de segunda geração.

3. OS REATORES VHTR
Os reatores à temperatura muito elevada (Very High Temperature Reactor) são
sistemas evolutivos dos reatores à alta temperatura (HTR – High Temperature
Reactors), propostos inicialmente na década de 1950 (ABRAM; ION, 2008).
A forma de obtenção de energia é basicamente a mesma em todos os reatores
térmicos de potência: a energia térmica obtida na reação de fissão nuclear em cadeia,
por meio de um sistema de resfriamento do núcleo do reator, é utilizada para geração
de energia elétrica através de sistemas intermediários. Em reatores do tipo PWR, por
exemplo, o sistema de resfriamento primário responsável pela remoção de calor do
núcleo do reator utiliza esse mesmo calor para aquecer água em um gerador de vapor,
que pertence a um circuito secundário. O vapor obtido no gerador de vapor flui pelo
circuito secundário até ser descarregado em uma turbina acoplada à geradores
elétricos e assim a energia térmica inicial é transformada em energia cinética (pelo
fluxo de vapor) que gira as paletas da turbina, obtendo-se energia mecânica, que é
convertida em energia elétrica pelos geradores elétricos acoplados.

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Os reatores VHTR também são conhecidos como reatores de alta temperatura
resfriados a gás HTGR (High Temperature Gas-cooled reactors) devido ao sistema de
resfriamento do reator que utiliza gás para a troca térmica, ao invés de água leve como
nos reatores LWR. Além do sistema de resfriamento, destaca-se a concepção do
combustível nuclear e do núcleo, o que permite o alcance de altas temperaturas
(próximas de 1000ºC), propiciando uma alta eficiência na geração de energia elétrica,
ou ainda, calor de processo para aplicações específicas, como a produção de
hidrogênio.

Figura 2 – Diagrama esquemático de um reator VHTR para planta de produção de


hidrogênio (ABRAM; ION, 2008)

Como mostrado na Figura 2, o calor obtido pela troca térmica no reator pode
ser utilizado em um trocador de calor intermediário, que pode utilizar hélio ou vapor
d’água, para prover calor de processo para uma planta de geração de hidrogênio.
Uma vez que o processo termoquímico (iodo-enxofre) ou de eletrólise utilizado nessas
plantas requer elevadas temperaturas, os reatores VHTR demonstram uma boa
viabilidade nessa aplicação. O hélio utilizado no sistema de resfriamento do primário
não é enviado diretamente para a planta de geração de hidrogênio por motivos de
segurança, evitando-se uma possível contaminação, caso produtos de fissão
escapem para o sistema primário (OLIVER, 2009).

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Para geração de energia, os reatores do tipo LWR costumam utilizar turbinas
convencionais empregando um ciclo Rankine similar ao utilizado em plantas com
caldeiras à vapor. Contudo, o conceito de reatores VHTR prevê a utilização de turbinas
à hélio em um ciclo direto com o sistema de resfriamento primário do reator, operando
em um ciclo do tipo Brayton. Além disso, outro conceito permite a utilização de um
sistema misto que possui além da turbina à hélio, um trocador de calor para prover
calor de processo. A seleção de materiais capazes de suportar às elevadas
temperaturas envolvidas, por um tempo de operação aceitável, torna-se mais um
desafio na concepção desses reatores.

3.1. O Núcleo dos Reatores VHTR


O núcleo dos reatores VHTR possuem duas configurações típicas: Pebble bed
(leito de cristais, em tradução livre) e prismática. Apesar da forma do elemento
combustível ser diferente entre as duas configurações, o arcabouço técnico para
ambos é o mesmo, como a estrutura do núcleo interno consistindo em componentes
cerâmicos e metálicos. As demais características como o combustível revestido, a
refrigeração a hélio, a densidade de baixa potência para se obter alta temperatura de
saída, ou ainda a concepção que permite a remoção passiva de calor do núcleo em
caso de acidentes que envolvam a perda do refrigerante, permanecem iguais.
Os refletores superiores, laterais e inferiores são de grafite. Os componentes
em grafite atuam como recipientes para os elementos combustíveis. Um cilindro
central metálico é instalado para suportar as estruturas cerâmicas, que por sua vez é
formado por uma parte cilíndrica e pelas estruturas superiores e inferiores. Os
componentes em grafite estão sujeitos a condições severas devido as altas
temperaturas do gás refrigerantes, bem como das forças decorrentes do processo e
das altas doses de radiação de nêutrons (KUGELER; NABIELEK; BUCKTHORPE,
2017).
A configuração prismática possui uma configuração do núcleo de blocos
prismáticos e faz uma alusão aos reatores nucleares das primeiras gerações, onde os
blocos hexagonais de grafite são empilhados de forma tal que possam ser
circundados por um vaso de pressão cilíndrico. O núcleo consiste basicamente em
elementos combustíveis hexagonais em grafite, elementos refletores, elementos
plenum, fontes de inicialização e materiais para controle de radioatividade. O núcleo

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ativo consiste em elementos combustíveis hexagonais em grafite, contendo cerca de
210 furos cegos para o elemento de combustível compacto e 102 furos passantes
para o fluxo de refrigerante hélio.

Figura 3 – Núcleo de Elemento combustível prismático (OLANDER, 2009)

Os blocos hexagonais permitem o empilhamento de elementos combustível em


padrões aproximadamente cilíndricos enquanto acomoda as barras de controle em
posições simétricas no núcleo. Os blocos hexagonais se encaixam relativamente
próximos, limitando o fluxo de refrigerante (hélio) nas lacunas entre os blocos. Além
disso, os padrões quase que cilíndricos minimizam a dispersão dos nêutrons na borda
externa do refletor (IAEA, 2010).
Uma outra forma de dispor o elemento combustível no núcleo do reator está
relacionada com a forma das partículas combustíveis. As partículas chamadas TRISO
(tri-isotrópicos), também chamadas de pebbles (“cristais”), são esferas contendo um
núcleo de material combustível, envolto por três camadas de carbono e uma camada
de carboneto de silício, envoltos por uma matriz esférica de grafite. (OLANDER, 2009).
Nesse conceito, as partículas de combustível atravessam o núcleo do reator,
sendo introduzidas na parte superior e recolhidas no leito do vaso do reator. Isso
permite que os cristais (pebbles) sejam inspecionados durante a operação do reator,
antes de serem realimentados no sistema, o que permite que o reator opere por longos
períodos. Com o reabastecimento durante o funcionamento, aumenta-se a
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capacidade operacional da planta, além de permitir que o reator opere com baixo
excesso de reatividade e enriquecimento reduzido (IAEA, 2010).

Figura 4 – Esquema de um reator VHTR tipo Pebble bed (YURMAN, 2016)

3.2. O Combustível dos Reatores VHTR


Os dois conceitos de reatores, o prismático e o pebbled bed, apresentam como
diferença básica a geometria dos elementos combustíveis. Nos reatores prismáticos,
as partículas de combustível são inseridas em um tubo de grafite de 1,2cm de
diâmetro por 5cm de comprimento, chamado de compacto. Eles então são inseridos
nos orifícios do bloco de grafite hexagonal, formando o núcleo do reator.
Nos reatores pebbled bed são utilizados elementos combustíveis em formato
esférico, no qual as partículas TRISO (tri-isotrópicos) são dispostas em uma matriz
esférica de grafite. Cada partícula TRISO possui um núcleo de elemento combustível
físsil, revestido homogeneamente por camadas distribuídas de cerâmica. Apesar dos
dois conceitos de núcleo bem consolidados na aplicação em reatores a temperatura
elevada HTR, o modelo pebble bed é o mais aceito para compor o projeto dos reatores
a temperatura muito elevadas.

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Figura 5 – Elementos combustíveis para reatores VHTR pebble bed e prismáticos,
respectivamente (KUGELER; NABIELEK; BUCKTHORPE, 2017)

Cada partícula revestida é um elemento combustível em miniatura com um


núcleo de cerâmica que contém material combustível físsil, protegido por uma
sequência de camadas de revestimento de cerâmica. O núcleo do combustível é
comumente um composto de óxido ou carboneto de urânio (com vários
enriquecimentos), tório ou plutônio.
O núcleo esférico pode consistir em dióxido de urânio estequiométrico (UO2)
próximo da densidade teórica, sendo a principal fonte de energia que gera quase todos
os produtos da fissão, servindo como uma barreira significativa para a liberação de
radionuclídeos, imobilizando muitos dos produtos de fissão como compostos de
óxidos estáveis e retardando a liberação difusiva de outros, permitindo que eles se
decomponham em isótopos mais estáveis. Esses processos reduzem
substancialmente a liberação de produtos de fissão de partículas que empregam
compostos de óxido combustível (KUGELER; NABIELEK; BUCKTHORPE, 2017).
Os revestimentos cerâmicos de uso mais geral são o carbono pirolítico e o
carbeto de silício, embora uma variedade de outros materiais como carbeto de zircônio
continuem a ser desenvolvidos. A pesquisa e o desenvolvimento continuam em todo
o mundo para melhorar e ampliar ainda mais o envelope de desempenho do
combustível das partículas TRISO.

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Figura 6 – Imagem de um microscópio eletrônico de varredura de uma partícula TRISO9
(KUGELER; NABIELEK; BUCKTHORPE, 2017)

Para aplicação em reatores do tipo pebbled bed, as micropartículas de TRISO


são compactadas em uma matriz esférica de grafite com diâmetro de 60mm. Esses
elementos são continuamente inseridos e extraídos do reator a uma taxa de uma
unidade a cada 20 segundos. Apesar desse conceito de reatores utilizar um ciclo de
combustível chamado aberto, o combustível passa pelo reator inúmeras vezes.
Quando um elemento atinge sua taxa máxima de esgotamento, ele é substituído por
um novo. Devido a baixa radioatividade remanescente e a dificuldade do
reprocessamento, essa tecnologia acaba por contribuir para a não proliferação de
armas nucleares.

3.3. Vaso de pressão


A maior parte dos componentes do sistema primário são metálicos, como o
vaso de pressão do reator, as estruturas metálicas internas, o sistema de
desligamento, o sistema de circulação de hélio. O material para o vaso de pressão do
reator precisa ser forte e capaz de operar em altas temperaturas como o aço
modificado 9Cr 1Mo, que apresenta maior resistência em temperaturas elevadas.
Por tratar-se de uma aplicação ainda em pesquisa, os materiais precisam ser
qualificados em termos de resistência a solda, fabricação e adesão aos códigos e
procedimentos de projeto. Inclusive, as soldas são um ponto que requer bastante
atenção devido ao potencial de falha e vazamento.
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Além da proximidade entre as soldas, deve-se levar em conta um requisito
adicional para satisfazer a metodologia de análise e estudos de segurança
(localização e tamanho do defeito), e devem ser avaliadas do ponto de vista do exame
não destrutivo e do potencial de falha ou vazamento. Os principais mecanismos de
dano a serem abordados são a fratura, a fadiga e a fadiga por fluência. Os efeitos
potenciais do meio ambiente como temperatura, irradiação e envelhecimento também
devem ser abordados.

3.4. Sistema de controle e desligamento


As hastes de controle, que compensam a queima de combustível e os efeitos
da reatividade pela variação de potência, são usadas para controlar a operação do
reator em modos de operação normais rápidos e para desligar o reator. Devido ao
limite operacional das ligas já conhecidas, novos materiais reforçados com fibra de
carbono estão em desenvolvimento. Anseia-se que estes materiais permitam o
aprimoramento do controle de reatividade durante o desligamento e a utilização de
temperaturas mais elevadas em reatores.
As características dos compósitos são geralmente governadas pelas bases
individuais de seus constituintes. Esta é a principal vantagem de se empregar
compósitos em relação aos materiais convencionais,
obtendo-se uma mesclagem das diferentes
propriedades dos materiais da fibra e da matriz. O
uso de compósitos de carbono-carbono e
compósitos de material de fibra de carbono para
hastes de controle não é, até o momento, uma
tecnologia comprovada. As propriedades mecânicas
dos compósitos são estáveis a temperaturas em
torno de 2.000 °C e mudanças significativas nas
propriedades físicas e mecânicas, contudo, ocorrem
devido ao efeito da irradiação e da temperatura.

Figura 7 – Barras de controle


em material compósito de fibra de
carbono (KUGELER; NABIELEK;
BUCKTHORPE, 2017) .

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3.5. Tubulação de Gás Quente
A tubulação de gás quente é usada para transportar o refrigerante hélio a alta
temperatura, do núcleo do reator para os componentes do circuito de conversão de
energia, como trocadores de calor e turbinas (no caso do ciclo direto). Com o intuito
de se aumentar a eficiência térmica, essas tubulações são revestidas externamente
por material termicamente isolante.
Essas tubulações trabalham geralmente com fluxo coaxial, onde o fluido quente
circula internamente e o fluido mais frio circula externamente ao tubo. Os materiais
metálicos para essa aplicação devem ter elevada resistência à tração e à fluência,
como a liga metálica 800H em reatores HTR. Para o isolamento, materiais fibrosos
como Al2O3 podem ser usados em temperaturas elevadas. O uso de material
compósito carbono-carbono e fibra de carbono e cerâmica, apresentam excelente
potencial para os reatores VHTR, apesar de ainda não estarem tecnologicamente
comprovados (KUGELER; NABIELEK; BUCKTHORPE, 2017).

3.6. Circulador
A circulação de gás é imprescindível para a o aproveitamento da energia
térmica advinda do gás de resfriamento do reator, podendo operar em ciclos diretos
(com uma turbina a gás) ou indiretos (com um trocador de calor intermediário). O
desenvolvimento de pesquisas no intuito de se aperfeiçoar os sistemas dos
sopradores e dos compressores são importantes para o aumento global da
disponibilidade e eficiência dos reatores, especialmente à elevadas temperaturas.
Baseado na experiência prévia obtida nos circuladores dos reatores Magnox e
AGR, entende-se que a aplicação de circuladores radiais de um estágio, com um
volante suspenso apresenta uma elevada disponibilidade. Em relação aos materiais
aplicados, as ligas 800H, utilizadas em trocadores de calor intermediário, podem
fornecer a resistência à fluência necessária para o invólucro, bem como as ligas IN617
e IN625. O material IN607, utilizado nas pás de turbinas à vapor, se apresenta como
um material adequado ao impulsor. Outros materiais como IN638 e IN608 podem ser
utilizados em impulsores centrífugos (KUGELER; NABIELEK; BUCKTHORPE, 2017).
Em caso de grandes impelidores centrífugos, o processo de forjamento pode
ser descartado devido às limitações dimensionais. Assim, pode-se utilizar um
processo de sinterização ou fundição, como alternativa.

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3.7. Trocador de Calor Intermediário
O trocador de calor intermediário (IHX – Intermediate Heat eXchanger) é um
dos componentes submetidos às severas condições de operação devido às altas
temperaturas e as variações de pressão envolvidas. Nessa aplicação, os materiais de
domínio industrial como as ligas 617, a liga 800H, Haynes® 230, Hastelloy® X e
Hastelloy® XR estão próximas de seu limite operacional levando a necessidade de
desenvolvimento de novos materiais, como ligas resistentes a dispersão de óxido
(ODS) ou cerâmicas, que, contudo, ainda requerem avanços significativos nos
processos de obtenção antes de estarem adequadas ao uso. A necessidade de se
resistir a elevadas temperaturas é mais evidente nos processos de geração de
hidrogênio iodo-enxofre.
Os principais desafios na escolha de materiais para o trocador de calor são: as
variações de temperatura (entre 350 e 100ºC), a variação de pressão (entre 1 e 10
Mpa), as impurezas contidas no hélio, que podem levar a degradação induzida, efeitos
de envelhecimento e fragilização, soldagem e fabricação (KUGELER; NABIELEK;
BUCKTHORPE, 2017).
A forma convencional desse tipo de trocador é o projeto do tipo casco tubo, que
consiste em um vaso de pressão composto por feixes tubulares, cabeçotes do ciclo
secundário, circulador de gás do primário, com motor elétrico e defletores de gás do
lado primário. O conceito com o circulador integrado oferece maior proteção para os
componentes do circuito primário. Os sistemas de resfriamento gás-gás oferecem
arranjos mais compactos e robustos. Estudos sobre a aplicação de trocadores do tipo
placa estão em desenvolvimento, mas requerem mais estudos sobre as condições de
operação com hélio, a consistência das propriedades, revestimento para resistência
ao atrito, entre outros condicionantes.
Para a seleção de materiais, as ligas 800H e 617 são as mais promissoras, com
alternativas para a liga 230 ou liga X/ XR. Contudo, os estudos precisam investigar a
ruptura por fluência, bem como a fadiga por fluência. Com relação a soldabilidade, a
liga 230 aparenta ser aplicável, apesar da possível dificuldade na solda de baixas
espessuras. Outras ligas são mais fáceis de se soldar, mas requerem precauções
para se evitar trincas (KUGELER; NABIELEK; BUCKTHORPE, 2017).

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A corrosão depende da composição do refrigerante hélio e a possível
degradação devido a descarbonetação e a oxidação. O trabalho a frio pode afetar as
propriedades de fluência dos materiais, levando a uma redução na resistência, assim
um limite adequado deve ser definido para a fabricação.

3.8. Turbina para ciclo direto e indireto


De acordo com a concepção das plantas dos reatores VHTR, a produção de
energia pode ocorrer por ciclos diretos e indiretos. No ciclo direto, tipo Brayton, uma
turbina a gás recebe o fluxo de hélio quente diretamente do sistema de resfriamento
do núcleo do reator, que a faz girar, e através de um gerador acoplado converte o
movimento rotativo em energia elétrica.
O sistema indireto usa geralmente um trocador de calor intermediário, mas
também pode usar um gerador de vapor, que recebe calor do processo do sistema
primário de resfriamento do reator e transfere a energia térmica para um sistema
secundário de gás (ou vapor) para gerar eletricidade por meio de calor de processo.
As pás da turbina necessitam de uma atenção adicional nos modos de falha
em fadiga de alto e baixo ciclo, tal como em fluência. Os gradientes de temperatura
devido as variações térmicas do gás levam ainda a um complexo estado cíclico de
tensão-deformação (KUGELER; NABIELEK; BUCKTHORPE, 2017).
Para as turbinas de ciclo direto a resistência às elevadas temperaturas e o
extenso perfil de operação são os parâmetros decisivos na escolha dos materiais.
Para as pás das turbinas, o material fundido não é adequado, devendo ser
consideradas as ligas de cristal solidificado direcionalmente, com boas propriedades
de forja e estabilidade térmica. O disco central pode ser resfriado, uma vez que o limite
de temperatura para os materiais aplicados atualmente está em torno de 750ºC.
Estudos têm sido realizados para se investigar o comportamento do material
Udimet 720 na construção do disco central da turbina e dos materiais CM-247 LC DS
e IN 792 DS para as pás da turbina, especialmente em termos de tração, fadiga e
fluência em ambientes sujeitos a degradação pelas impurezas no hélio, a
descarbonetação e a corrosão.

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3.9. Produção de hidrogênio
A produção de hidrogênio a partir da água, utilizando-se uma fonte de energia
nuclear como os reatores VHTR, é uma atraente estratégia de obtenção de energia
limpa, com zero emissão de gases que geram efeito estufa, estando ainda alinhada
com a crescente demanda por hidrogênio (SAKABA et al., 2012).
A obtenção de hidrogênio por uma planta de iodo-enxofre integrada a um reator
VHTR tem sido objeto de estudo da Agência Japonesa de Energia Atômica (JAEA).
Para tanto, foi concebido um reator de testes HTTR (High Temperature Test Reactor)
integrado a uma planta de produção de hidrogênio para comprovar a viabilidade do
processo. O sistema consiste em um circuito de resfriamento primário que através de
um trocador de calor intermediário transfere calor para um sistema secundário, que
por fim alimenta uma planta de geração de hidrogênio.
O processo termoquímico de enxofre-iodo (S-I) para obtenção de hidrogênio
pela quebra da molécula da água, consiste em três reações químicas:
I2 + SO2 + 2 H2O = 2HI + H2SO4 – reação exotérmica que através de iodo,
dióxido de enxofre e água, é produzido iodeto de hidrogênio e ácido sulfúrico. Os
ácidos formados na primeira reação são decompostos por reações endotérmicas.
2HI = H2 + I2 – iodeto de hidrogênio é decomposto em hidrogênio e iodo
H2SO4 = H2O + SO2 + 0,5 O2 – ácido sulfúrico é decomposto em água, dióxido
de enxofre e oxigênio.
O iodeto e o dióxido de enxofre gerados na decomposição endotérmica são
reaproveitados na primeira reação, estabelecendo um ciclo fechado (SAKABA et al.,
2008).

Figura 8 – Processo iodo-enxofre (CROSBIE; CHAPIN, 2003)

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A faixa de temperaturas envolvidas nas reações endotérmicas se adaptam
muito bem ao calor sensível fornecido pelo gás hélio dos reatores VHTR. Graças aos
princípios nucleares de segregação, bem como a utilização de um trocador de calor
intermediário antes de se fornecer o calor de processo, o projeto da planta de
hidrogênio pode ser concebido segundo normas convencionais não nucleares, já em
uso no mercado.

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4. CONCLUSÂO
A demanda global pela obtenção de energia limpa, com baixa emissão de
gases de efeito estufa como o dióxido de carbono, tem levado ao aprimoramento das
diferentes fontes de obtenção de energia já existentes. As energias limpas mais
difundidas como a solar e a eólica, não são suficientes para suprir em sua totalidade
as necessidades da sociedade, além de estarem condicionadas às condições
climáticas. Nesse contexto, a energia nuclear se apresenta como uma alternativa
viável, capaz de produzir energia de forma limpa e segura.
O Fórum Internacional da quarta geração promoveu a interação internacional
em prol do aperfeiçoamento das tecnologias em reatores nucleares para a obtenção
de sistemas sustentáveis, seguros e confiáveis, com redução de formação de
resíduos, baixa proliferação de elementos utilizados em armas nucleares e alta
eficiência energética. O reator nuclear a temperatura muito elevada (Very High
Temperature reactor VHTR) foi um dos conceitos que mais se destacou dentre as
possíveis soluções estudadas. A possibilidade de geração de energia através de um
ciclo Brayton de elevada temperatura e a utilização de calor de processo para geração
de hidrogênio (que também requer alta temperatura), ou ainda um sistema misto com
ambas as funções, é muito promissora.
Existem ainda alguns desafios a serem superados, especialmente na
tecnologia e desenvolvimento de novos materiais, uma vez que devido às altas
temperaturas envolvidas no processo, os materiais normalmente utilizados em outros
reatores de potência, em sua maioria, não podem ser aplicados. Estudos devem ser
conduzidos para se analisar a estabilidade térmica dos materiais, a fluência, a geração
de trincas e falhas por fadiga, especialmente na atmosfera que lhes será imposta.
Ainda assim, quando superadas as dificuldades técnicas, os reatores à
temperatura muito elevada serão possíveis protagonistas de um futuro próximo, como
uma tecnologia capaz de tornar a energia limpa acessível, devido a sua eficiência e
ao compartilhamento de informações promovidas no Fórum internacional, além de
seguros e confiáveis. A produção sustentável de hidrogênio poderá transformá-lo em
uma importante fonte de energia, reduzindo nossa dependência por combustíveis
fósseis.

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REFERÊNCIAS

ABRAM, Tim; ION, Sue. Generation-IV nuclear power: A review of the state of the
science. Elsevier - Energy Policy, 2008.

CROSBIE, Leanne; Douglas CHAPIN. Hydrogen Production by Nuclear Heat. MPR


Associates. Virginia, 2003.

FGV, Fundação Getúlio Vargas. O Futuro Energético e a Geração Nuclear. FGV,


2013. Disponível em: < https://conhecimento.fgv.br/sites/default/files/miolo_futuro_
energetico_web.pdf>. Acessado em: 12 de maio de 2021.

IAEA, International Atomic Energy Agency. High Temperature Gas Cooled Reactor
Fuels and Materials. IAEA: Vienna, 2010.

IAEA, International Atomic Energy Agency. Nuclear Power Status. IAEA, 2019.
Disponível em: < https://pris.iaea.org/PRIS/PRIS_poster_2019.pdf>. Acessado em: 10
de maio de 2021.

KUGELER, K; NABIELEK, H.; BUCKTHORPE, D. The High Temperature Gas-


cooled Reactor: safety considerations of the (V)HTR-Modul. European AtomicEnergy
Community, 2017.

OLIVER, Donald R. Nuclear Fuels: present and future. University of California,


Berkley, 2009.

SAKABA, Nariaki; SATO, Hiroyuki; OHASHI, Hirofumi; NISHIHARA, Tetsuo;


KUNITOMI, Kazuhiko. Development Scenario of the Iodine-Sulphur Hydrogen
Production Process to be Coupled with VHTR System as a Conventional
Chemical Plant. Journal of Nuclear Science and Technology, 2012.

TRAVASSOS, Roberto C. A. Modelos Tecnológicos de Reatores: Perspectivas e


Desenvolvimento no Mundo. Entrevista concedida à Associação Brasileira de Energia
Nuclear. Rio de Janeiro, 2014.

YURMAN, Dan. X-Energy and Southern Nuclear Team up for Advanced Reactor
R&D. Neuron Bytes. Disponível em: < https://neutronbytes.com/2016/08/27/x-energy-
and-southern-nuclear-team-up-for-advanced-reactor-rd/>. Acessado em: 11 de maio
2021.

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