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pensamento

nacional
Acadêmico

A corda
e o sonho
Foto: Divulgação

mpreendedorismo é o recentes estudos. Ou o leitor acha não ideais; o que mais nos falta são bons
processo de transfor- que é gratuito o esforço do presidente projetos e planos de negócios”, afirma.
mar sonho em realida- francês Nicholas Sarkozy em criar o Pior: sem empreendedorismo, redu-
de –e em riqueza. Pouco Fórum Empreendedor Mundial? zem-se as chances de o País inovar, que
usual no vocabulário Quem faz essas afirmações é Fernan- é a chave atual da competição. “Apesar
dos gestores, “sonho” precisa entrar do Dolabela, professor da Fundação de produzirmos 10 mil doutores e 40
obrigatoriamente na pauta dos brasi- Dom Cabral, um dos maiores especia- mil mestres por ano, eles pouco trans-
leiros. Por quê? Para revertermos uma listas em empreendedorismo do Brasil. formam conhecimento em riqueza. Só
cultura nacional que rejeita e sabota Rejeitando modelos importados, ele o empreendedorismo pode virar esse
o empreendedorismo. Sonho é o que busca implantar um empreendedoris- jogo e libertar nossa economia das
leva a empreendedorismo. E este é o mo à brasileira, começando pela cons- commodities”, diz, em entrevista exclu-
que gera crescimento econômico com trução cultural. “Até investidores e in- siva a Adriana Salles Gomes, editora-
qualidade de vida, segundo os mais centivos à inovação já temos, ainda que -executiva de HSM Management.

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Alguém já lhe perguntou sobre qual é seu sonho? Possivelmente
não, porque a cultura brasileira amarra as pessoas ao tempo
presente, em vez de libertá-las para o futuro, representado
pelo sonho. Nesta entrevista, Fernando Dolabela, da Fundação
Dom Cabral, garante que a melhor chance de desenvolvermos um
empreendedorismo brasileiro é ensinar a sonhar

O Brasil é o sexto país mais empreende- sas. A região da Emilia-Romagna, na que a pergunta “Qual é seu sonho?”
dor do mundo, segundo o ranking 2009 Itália, durante cinco décadas ou mais quase não é feita aqui. Em regra, nem
do Global Entrepreneurship Monitor governada pelos comunistas, é um dos pela mãe, nem pelo pai –preo­cupados
(GEM), e, pela primeira vez, o empreen- exemplos mundiais mais vibrantes de com a segurança do filho, eles dizem
dedorismo por oportunidade superou empreendedorismo. Agora, diga-se, a “Passe no concurso”–, nem pelo pro-
o feito por necessidade. Então, por que rejeição começa bem antes da univer- fessor, líder político, chefe... Por nin-
não conseguimos ter uma instituição tão sidade; na escola e em casa. Quando guém!!! Sonhar é perigoso. Qualquer
pró-empreendedores como o Babson chega à universidade, o jovem está um que abrir o campo para o sonho
College norte-americano? culturalmente pronto, já assimilou as está abrindo a perspectiva de ausência
Porque, embora haja avanços, prevale- características –negativas e positivas– de controle, porque sonhos não são
ce uma triste realidade: falta-nos cultu-
ra empreendedora. Quando comecei a “descobri, empiricamente, que a pergunta
estudar empreendedorismo, em 1992,
a palavra era quase um “palavrão” e, ‘qual é seu sonho?’ quase não é feita aqui.
em certos órgãos públicos, até hoje é. em regra, nem pela mãe, nem pelo pai
Numa palestra que fiz em um deles, a
diretora me alertou: “Não use a palavra
–preocupados com a segurança do filho”
‘empreendedor’”. Esta subverteria os
funcionários, que sairiam de lá “pen- de sua cultura. Aqui, assimilou a rejei- controláveis. Por isso não adianta im-
sando em fazer coisas por conta pró- ção ao risco e à incerteza, a ausência portar modelo de empreendedorismo
pria”. E a rejeição vem de várias fontes. de vontade de ser protagonista. dos Estados Unidos. Falta-nos a base.
A universidade continua a ser uma
fonte de rejeição importante. A exce- Você está dizendo que nossa cultura sa- Isso é reversível?
lência de ensino superior no Brasil, bota o empreendedorismo... O único jeito de revertê-lo é fazer com
que é a universidade pública –ideo- Sim. Quando os estudos indicam que que as crianças aprendam a sonhar,
logicamente de esquerda–, renega o empreendedorismo é um tema cultural, antes de a cultura se cristalizar nelas.
mercado. Muitos jovens querem, como isso significa que é vinculado a valores Essa é a proposta da minha pedagogia
meta máxima, ser servidores públicos. e não um tema cognitivo, acadêmico- empreendedora, que levo há oito anos
-científico. Empreendedorismo é forma às escolas. Só que há mais uma má no-
Mas há empreendedorismo onde a es- de ver o mundo, estrutura de relações tícia, pelo menos para o público desta
querda é forte, como a Itália... com as pessoas. O Brasil como institui- revista: a escola particular está mais
Lógico, só a velha esquerda rejeita ção inibe o grande potencial de criati- atrasada nesse processo que a pública,
tudo vindo do mercado; tornou-se a vidade da população, impedindo-a de desconectada de uma visão de desen-
velha direita. A nova esquerda apren- empreender. A capacidade de sonhar e volvimento sustentável. Eu supunha
deu com o fracasso da Rússia, enten- de transformar o sonho em realidade que acolheria a educação empreende-
deu que inibir sonhos significa inibir é aplacada pela autocracia secular que dora, mas, no dia a dia, vi o contrário.
o futuro. Essa nova esquerda sabe que tira a autoestima das pessoas. Já implementei minha pedagogia em-
o Estado –o governo– só gera custos e preendedora em 2 mil escolas e apenas
que a riqueza é gerada pelas empre- Como explicar “sonho” neste contexto? três destas eram particulares. A escola
A aventura do empreendedor é conce- particular não consegue conferir qual-
ber o futuro e transformá-lo em rea­ quer prioridade ao empreendedoris-
A entrevista é de Adriana Salles Gomes, lidade, o que é sinônimo de sonho, e mo; na pública, pelo menos, empreen-
editora-executiva de HSM MANAGEMENT. em riqueza. Descobri, empiricamente, dedorismo é questão de sobrevivência.

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nacional

um termômetro
Busca do novo por imigrantes
europeus. Nativos assimilam cultura

EMPREENDEDOR
portuguesa e contribuem para a
atividade empreendedora
século 17

século 16

século 18
século 17

século 18

século 19
séculos 14 e 15

Índios domesticam
mandioca, criam
técnica para
extrair veneno

Inovação: navegação
e tecnologia de
construção de navios
Fiado=Capital
Engenhos Dote=Risco
Negócio: tráfico de escravos

Artesão faz facas, cunhas e anzóis, treina escravos e cria


Você implantou o método em 2 mil esco- produção em escala, transforma artesanato (produção
las... Quantas faltam, por curiosidade? individual) em negócio, não tem a mentalidade do artesão
São escolas de 126 cidades –cada esco- medieval, que só treinava aprendizes. Capital de risco:
la é um multiplicador disso na cidade. excedente passa a financiar negócios de terceiros
Considerando que o Brasil tem 5.650
cidades, faltam “apenas” 5.524 [risos].
empreendedorismo trata de futuro, dendo bem o ambiente de negócios
Explique como é sua metodogia. para o qual ainda não há respostas. ele poderá identificar oportunidades
Nela, a emoção, afastada do trabalho A partir daí os alunos começam a (clientes, concorrentes, ciclo de vida,
pelo modelo industrialista, reassume agir (empreendedorismo é pura ação) legislação, tendências etc.), e sua au-
sua importância. O potencial empreen- e trabalham mapas de sonhos, planos sência é causa constante de falências.
dedor, presente em todo ser humano, de negócios etc. Mas tudo isso requer 3) Rede de relações. É preciso apren-
é disparado pela emoção. Sem ela, não mudança dos professores, a começar der a construir uma rede de pessoas
há forma de desenvolver o protagonis- pelo fato de que sonho e empreendi- que ajude a conhecer o ambiente e a
mo, a criatividade e a perseverança, os mento não podem ser avaliados de concretizar o sonho.
três elementos cruciais ao empreende- fora, mas somente pelo próprio autor. 4) Capacidade de liderança. O desen-
dorismo; a razão vem em seguida, para volvimento desta é fundamental tanto
estruturar o caminho apontado pela E como você ensina empreendedorismo para convencer um investidor a apos-
emoção. Por esse motivo, os meus li- em suas oficinas para jovens? tar no sonho como para transmiti-lo e
vros didáticos são histórias, romances: Falo em sonho também, mas trabalho seduzir pessoas a acompanhá-lo.
é a melhor forma de descrever o estilo os elementos de suporte, que são basi-
de vida empreendedor. Preparo pro- camente quatro: Além de tachado de direitista, você não
fessores para iniciar sua relação com 1) Conceito de si. Todo empreendedor pode ser acusado de messiânico?
os alunos por meio de duas perguntas: necessita muito de autoconhecimen- Sonho parece coisa de messias, sim,
1) “Qual é seu sonho?”; 2) “O que você to para ter consciência do que sabe e, mas tenho a meu favor o fato de que a
fará para transformá-lo em realidade?”. principalmente, do que não sabe. As- relação entre empreendedorismo e de-
Essas duas perguntas são o eixo da sim, consegue construir complemen- senvolvimento é a maior verdade prá-
metodologia. Não são feitas no ensino taridades e buscar colaboradores. tica que existe, ainda que comprovada
convencional, que entrega tudo pron- 2) Conhecimento do setor visado. Esse recentemente. Foi só na década de 1970
to ao aluno –um contrassenso, porque é o elemento central. Somente enten- que os economistas norte-americanos

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Cultura de atividade empreendedora
é o Estado, mas a sociedade civil, única
Inovação que tem as condições necessárias: di-
Estado empreendedor nheiro, competência de gestão, capaci-
dade de inovação.
Marcos regulatórios pró-empreendedorismo
Mas a “tão empreendedora” China é di-
século 19
século 19

século 20

século 21

século 20

século 21
tadura... É um paradoxo?
A China simplesmente não é um mo-
delo sustentável no longo prazo. Para
continuar crescendo, ela vai ter de au-
mentar a educação e, ao fazê-lo, vai ter
reivindicações de liberdade e justiça
social. A China leva ao pé da letra o que
o Ocidente sempre fez: transformar as
pessoas em mais um fator de produção.
O empreendedorismo vai frontalmente
contra isso. Na própria Ásia não faltam
exemplos: Singapura, Coreia do Sul e
Japão, que têm os pilares da democra-
cia e elevado empreendedorismo, exi-
1809 Incentivo à inovação
bem altíssima qualidade de vida.
1830 Lei de patentes
Então, por que o GEM já apontou o Ja-
se deram conta de que as pequenas Se a releitura chegar à escola... O que pão na lanterninha da atividade em-
empresas geravam mais empregos que Schumpeter diz do empreendedor? preendedora, e o Brasil está lá na fren-
as grandes; ficaram perplexos. O em- Quando alguém inova, muda o merca- te, ao lado de Uganda e Bolívia?
preendedorismo era um não assunto do e as empresas se adaptam, subindo Há muitas sutilezas nas métricas, por
na academia. O [Joseph] Schumpeter, ao novo patamar da inovação. Só que isso devem ser vistas com espírito
que só agora é reconhecido para valer, muitas delas saem do jogo aí e ele cha- crítico. Há estudos que indicam que,
foi o primeiro a pôr o empreendedoris- ma a isso “destruição criativa”. Schum- quanto maior foi o crescimento econô-
mo sob os holofotes, quando afirmou peter diz que o novo sempre substitui o mico de uma cidade, menor foi a taxa
que a inovação é a grande propulsora velho –o empreendedorismo é o novo. de empreendedorismo, por exemplo. A
da economia. De lá para cá, diversos
estudos comprovaram a relação entre
empreendedorismo, desenvolvimento
“Uma das principais ferramentas
e qualidade de vida. do empreendedor é a informação
Essa cultura antiempreendedorismo é
e ele a tem na democracia, não
histórica no Brasil? Ou tem data recente? em ditaduras”
Autores dos extremos ideológicos,
de Caio Prado, com sua linha aris- Você acha que o período do regime mili- explicação é que as grandes empresas,
totélico-marxista, a Oliveira Viana, tar piorou a situação? que estão crescendo, oferecem um em-
visto como sendo de direita, sempre Uma das principais ferramentas do prego razoável melhor do que a ativi-
afirmaram que o Brasil foi gerado na empreendedor é a informação (ele tem dade do pequeno empreendedor. Isso é
época colonial pela combinação de de saber sobre mercados, concorrentes, o que acontece no Japão.
senhor e escravo, com economia ba- fontes de matéria-prima, tendências,
seada na exportação –o Brasil servo fontes de capital, projetos governamen- Só que, quando o emprego é uma ideia
de outros mercados– e, portanto, sem tais etc.) e ele a tem na democracia, cada vez mais abstrata, não basta...
empreende­dorismo. Mas isso começa não em ditaduras. Crescimento econô- Fato. O emprego é um conceito mal
a ser revisto desde que foi lançado, no mico acontece também em ditaduras, desenvolvido, cada vez mais percebido
final de 2009, o livro História do Brasil mas, se olharmos o mundo hoje, vere- como provisório. É mera evolução da
com Empreendedores. Jorge Caldei- mos que crescimento com qualidade escravatura. Até a expressão mercado
ra diz: “Havia um protoempreende- de vida está visceralmente associado de trabalho vem de mercado de escra-
dor no Brasil colonial, daí nosso PIB à democracia e à liberdade de em- vos; o patrão de hoje é o senhor de on-
maior que o português”. preender. O empreendedor real nunca tem. A relação de trabalho, na essência,

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SAIBA MAIS SOBRE DOLABELA


Consultor e professor da Fundação Dom Cabral, Fernando forme ele explica nesta entrevista– e, no sentido econômico,
Dolabela é considerado um dos maiores especialistas em como instrumento de desenvolvimento sustentável e justiça
empreendedorismo no Brasil. Publicou 11 livros sobre o as- social. Sua metodologia Oficina do Empreendedor, por exem-
sunto, entre os quais O Segredo de Luísa (ed. Sextante), de plo, já implementada em cerca de 400 instituições de ensino
1999, em forma de ficção, reconhecido como o maior best- superior, atinge cerca de 4 mil professores e 200 mil alunos
-seller brasileiro na área, com mais de 100 mil exemplares por ano.
vendidos. Proprietário da empresa de consultoria e portal Starta,
Dolabela também criou alguns dos maiores programas de Dolabela ainda desenvolveu dois softwares de planos de
educação empreendedora do Brasil, da universidade à edu- negócios muito utilizados por start-ups: “MAKEMONEY” e
cação infantil. Suas metodologias de ensino são considera- “MinhaEmpresa” . Ele já prestou consultoria à Confederação
das bastante inovadoras por tratarem o empreendedorismo Nacional da Indústria e ao Conselho Nacional de Desenvolvi-
sobretudo como uma função do sonho e das emoções –con- mento Científico e Tecnológico (CNPq).

é desequilibrada, porque não é uma re- oito anos, mas têm menos opções de Suspeito que o intraempreendedor seja
lação social; tanto que máquinas subs- investimento do que desejam, por falta ainda mais raro. Estou errada?
tituem homens. O próprio Peter Dru- de bons planos de negócios, e acabam Ele existe no discurso. O sistema de
cker dizia, referindo-se a empregados focando as empresas-estrela. poder corporativo, baseado em coman-
de  alto nível, que eles tendem a não se do e controle, imunizou-se contra ele,
deixar subornar por ofertas de altos sa- O ambiente é mais propício do que foi... porque quem inova pode “atropelar” o
lários, fringe benefits, stock options; vão Sim, um avanço é o trabalho de uma chefe, o que é inconveniente.
querer ser donos dos negócios. organização como a Endeavor, por
exemplo. Mas, por todos os ran­kings, Como isso pode mudar nas empresas?
Até agora falamos do espírito empreen- o Brasil ainda não é propício aos em- Mudará quando elas forem horizontais
dedor. O que dizer sobre o capital em- preendedores. Em inovação, é pior: a e derem aos funcionários liberdade
preendedor no Brasil? associação de pesquisa das empresas e “espaço de si”, para que se sintam à
É um problemão. Como diz o econo- inovadoras tem um dado segundo o vontade. O Google é uma que dá esse
mista Mohamed Yunus, o dinheiro é um qual só 0,26% das brasileiras são inova- espaço. A hierarquia é útil em estru-
direito do ser humano do mesmo nível doras. Até em intraempreendedorismo, turas como uma linha de produção,
que alimentação, escola e moradia. No que remete a empreender dentro das quando se quer ganhar escala, mas
Brasil, o capital sempre foi voltado para empre­sas e se reflete em ação inovado- lima a capacidade de inovar.
as grandes empresas e até hoje, de al- ra, somos fracos: conforme o GEM, só
guma forma, é assim. Os investidores de 6% dos empregados inovam no Brasil
risco vêm se multiplicando nos últimos –e é um cálculo otimista. HSM Management

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