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A. W.

Pink
Traduzido do original em Inglês
A Guide to Fervent Prayer
By A. W. Pink

Via: PBMinistries.org
(Providence Baptist Ministries)

Tradução por William Teixeira, Camila Almeida e Amanda Ramalho


Revisão por William Teixeira e Camila Almeida
Capa por William Teixeira

1ª Edição: Fevereiro de 2015

Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida
Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

Traduzido e publicado em Português pelo website oEstandarteDeCristo.com, com a devida permissão


do ministério Providence Baptist Ministries, sob a licença Creative Commons Attribution-
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desde que informe o autor, as fontes originais e o tradutor, e que também não altere o seu conteúdo
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Sumário

Prefácio ................................................................................................................................ 4
Oração Particular .................................................................................................................. 8
Uma Biografia de A. W. Pink, por Erroll Hulse ................................................................... 15

Um Guia Para a Oração Fervorosa

Introdução.......................................................................................................................... 21
01 • Hebreus 13:20-21 – Parte 1 ........................................................................................ 29
02 • Hebreus 13:20-21 – Parte 2 ........................................................................................ 37
03 • Hebreus 13:20-21 – Parte 3 ........................................................................................ 46
04 • 1 Pedro 1:3-5 – Parte 1 ............................................................................................... 55
05 • 1 Pedro 1:3-5 – Parte 2 ............................................................................................... 63
06 • 1 Pedro 1:3-5 – Parte 3 ............................................................................................... 71
07 • 1 Pedro 5:10-11 – Parte 1 ........................................................................................... 82
08 • 1 Pedro 5:10-11 – Parte 2 ........................................................................................... 90
09 • 1 Pedro 5:10-11 – Parte 3 ........................................................................................... 99
10 • 2 Pedro 1:2-3 ............................................................................................................ 108
11 • Judas 24-25 – Parte 1 ............................................................................................... 116
12 • Judas 24-25 – Parte 2 ............................................................................................... 123
13 • Apocalipse 1:5-6 – Parte 1 ........................................................................................ 132
14 • Apocalipse 1:5-6 – Parte 2 ........................................................................................ 141

Apêndices

A1 • Por Que e Como Devemos Orar? .............................................................................. 150


A2 • A Necessidade da Oração Secreta ............................................................................. 154
A3 • Quando As Orações Serão Atendidas? ...................................................................... 156
A4 • A Agonia de Cristo..................................................................................................... 159
A5 • Um Tratado Sobre Oração ......................................................................................... 194
A6 • Oração....................................................................................................................... 232
A7 • Verdadeira Oração: Verdadeiro Poder ....................................................................... 240
A8 • Orações Puritanas ..................................................................................................... 255
A9 • O Trono da Graça ...................................................................................................... 272

Referências da Biografia e dos Apêndices: ....................................................................... 286

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Prefácio

A necessidade vital do tema, a beleza e caráter bíblico das exposições, a profundidade das
considerações, a variedade dos ensinos práticos, são alguns dos motivos pelos quais muito
recomendamos a leitura, em oração, deste preciosíssimo livro que o Senhor agora nos
concede compartilhar com muitos irmãos, e com todos aqueles a quem ao nosso Deus
aprouver.

Precisamos de orações vivas e de vidas de oração. A oração é para alma o que a respiração
é para o corpo. Pelos movimentos desta respiração celeste entendemos que há vida, que
estamos vivos; ou não. Precisamos de homens dispostos a orar e não a pecar.

A oração é uma parte natural da adoração a Deus. Mas, para que possa ser aceita, deve
ser feita ao Único Deus Verdadeiro, em nome do Filho, com a ajuda do Espírito, segundo a
Sua vontade, com entendimento, reverência, humildade, fervor, fé, amor e perseverança
(João 14:13-14; Romanos 8:26; 1 João 5:14). Quão diferente isso é do que comumente se
chama “orar” para a maioria dos chamados “evangélicos” contemporâneos.

Atualmente, em meio à Cristandade, oração fervorosa é muitas vezes, tristemente, confun-


dida com gritarias, falas ininteligíveis, participação em “campanhas” e “correntes”, determi-
nação de “bênçãos e vitórias”, superstições, e arrogantes e ignorantes solicitações de
“promessas” que nunca foram prometidas pelo Senhor na Escritura, e por um conteúdo e
intenções humanistas e egocêntricas. Isso tudo é antes uma abominação! Deus livre o Seu
povo de tais absurdos!

Por que devemos orar? Oramos porque agradou ao Espírito Santo gravar nas Linhas Eter-
nas da Escritura Sagrada, e isso de forma abundante, o comando positivo para que oremos,
“sem cessar”, “em todo o tempo”, com “toda oração e súplica”, “vigiai, pois, em todo o tem-
po, orando”. Jesus ensinou Seus discípulos a orarem sempre e nunca desfalecer (1 Tessa-
lonicenses 5:17; Efésios 6:18; Lucas 21:36; 18:1; Salmos 86:3; 2 Timóteo 1:3; Atos 6:4).

Por que orar se Deus é soberano e decreta o fim desde o princípio, e já decretou de ante-
mão tudo que acontecerá (Isaías 46:10; Salmos 135:6; Salmos 115:3; Provérbios 16:4)? É
justamente o fato de Deus ser soberano e de fazer tudo que Lhe apraz, que torna possíveis
as nossas orações; se nosso Deus não fosse soberano e nem fizesse tudo “segundo o seu
beneplácito, que propusera em si mesmo” (Efésios 1:9) de forma que algo ou alguém
pudesse frustrá-lO ou impedi-lO (Isaías 43:13; Jó 11:10; 42:2) ou dizer-lhe: “Que fazes?”
(Daniel 4:35), de que adiantaria pedir algo a um deus tal como este que não tem todo o

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poder para conceder a petição? Ou como eu agradeceria e louvaria a Deus somente por
ter feito algo, se eu desconfiasse que Ele não o fez sozinho, ou que Ele é impotente para
fazer algo à parte da vontade da criatura ou das circunstâncias? Se Deus é soberano, todo-
poderoso, justo, bom e sábio, eu oro, suplico e louvo porque eu sei que se Ele quiser o fará,
e que operando Ele ninguém impedirá (Isaías 43:13). O Deus que decretou os fins desde o
princípio decreta também os meios para alcançar estes fins, se os fins são decretos eternos,
os meios (como por exemplo, as orações) também o são. Deus, em Sua providência ordi-
nária, faz o uso de meios, ainda assim, é livre para operar sem, acima e contra eles, como
Lhe agrade. Ora, Deus nos ordenou usar os meios: “portanto, vós orareis” (Mateus 6:9; 1
Tessalonicenses 5:17; Efésios 6:18; Lucas 21:36; 18:1). Assim não podemos esperar que
Deus nos abençoe, nem que estejamos fazendo Sua vontade, se não estamos usando os
meios que Ele mesmo prescreveu a nós em Sua Palavra, mas, antes, desprezando-os.

Assim disse o Senhor Jesus: “Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a
tua porta, ora a teu Pai” (Mateus 6:5-15). Aqui, o Senhor não especulou a respeito da possi-
bilidade dos Seus seguidores orarem em secreto ou não, Ele não diz “se talvez orares”, “se
quiseres orar”, “se tiveres tempo para orar”; não, o Senhor diz: “quando orares”, a oração
secreta e constante na vida dos verdadeiros seguidores de Cristo não é uma possibilidade,
é uma certeza plena. Jesus sabia muito bem que os Seus orariam. Assim como o pastor
usa o seu cajado para apartar as ovelhas dos bodes, a oração secreta é o cajado que sepa-
ra os filhos de Deus dos filhos do Diabo, pois aqueles que entram em seus aposentos e
fecham a porta, o fazem como filhos e para “orar a seu Pai”. Certamente os que assim não
fazem, e isso não lhes aflige nem incomoda, são bastardos e não filhos (Hebreus 12:8).

“A oração particular é o teste de nossa sinceridade, o indicador de nossa espirituali-


dade, o principal meio de crescimento na graça. A oração particular é a única coisa,
acima de todas as demais, que Satanás busca impedir, pois ele bem sabe que se ele
puder ser bem sucedido neste ponto, o Cristão falhará em todos os outros.” 1

No relacionamento do homem com Deus toda iniciativa parte de Deus, e então o homem
reage à ação inicial de Deus. Deus sempre age, nunca reage, Suas ações sempre são pri-
márias. Por exemplo: se alguém ama a Deus, é por Ele o amou primeiro (1 João 4:19), Se
alguém O escolhe, foi porque Ele o escolheu primeiro (João 15:16), se alguém é uma nova
criatura, é porque Ele antes o ressuscitou estando tal pessoa morta em delitos e pecados
(Efésios 2:1-10), de sorte que sempre as atitudes positivas dos homens em relação a Deus
são fruto de uma atitude primária, eterna, positiva, graciosa, benevolente e condescendente
da parte de Deus para com tal homem. Assim se tu não oras a Deus hoje, tema e trema!
pois pode ser que tu não ores na terra porque Cristo também não ora por ti no Céu, e nem
tenha orado por ti enquanto Ele esteve na terra, e talvez a única menção que Cristo tenha
feito de você durante as Suas orações foi: “não rogo pelo mundo” (João 17:9).

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Existem Cristãos que possuem uma vida de oração sem, no entanto, possuírem um conhe-
cimento bíblico correto; mas definitivamente não existem Cristãos que possuem um
conhecimento bíblico correto e não possuem uma vida de oração. Falar de Cristo não é o
mesmo que falar com Cristo. Ocupar-se nas coisas de Deus não é o mesmo que ocupar-
se, em oração com, o próprio Deus das coisas. Existem cristãos falsos que são constantes
em “oração”, mas é impossível que existam Cristãos verdadeiros que não sejam constantes
e diligentes na oração. Sobre isto o Puritano Joseph Alleine, diz:

“Aquele que negligencia a oração é um pecador profano e não-santificado. Aquele que


não é constante na oração é hipócrita, a menos que a omissão seja contrária ao seu
costume, sob a força de alguma tentação momentânea. Uma das primeiras coisas em
que se manifesta a conversão é que ela leva os homens a orar.” 2

Paulo diz ao Efésios que Deus predestinou os Seus para que “fossem santos”, e “por isso”
diz o salmista: “todo aquele que é santo orará a ti” (Efésios 1:4; Salmos 32:6). Por outro la-
do, aqueles que não oram são dignos, sim, desta oração: “Derrama a tua indignação sobre
os gentios que não te conhecem, e sobre as gerações que não invocam o teu nome” (Jere-
mias 10:25).

Os que se julgam versados nas Escrituras e como possuindo um bom conhecimento da sã


doutrina, que é segundo a piedade, mas que não cultivam um hábito de profunda oração
nem a valorizam, estão inchados e não edificados. Certamente as palavras de Martyn
Lloyd-Jones são verdadeiras:

“Nossa condição definitiva como cristãos é testada pelo caráter da nossa vida de ora-
ção. Isso é mais importante que o conhecimento e o entendimento. Não pensem que
eu estou diminuindo a importância do conhecimento. Tenho passado a maior parte da
minha vida tentando mostrar a importância de se ter um bom conhecimento e enten-
dimento da verdade. Isso é de importância vital. Só há uma coisa que é mais impor-
tante: a oração. O teste definitivo da minha compreensão do ensino bíblico é a quanti-
dade de tempo que eu gasto em oração... Se todo o meu conhecimento não me con-
duz à oração, certamente há algo de errado em algum lugar.” 3

Para que oremos com real fervor, precisamos oferecer orações “com o espírito, mas tam-
bém... com o entendimento”. Entendimento bíblico! Nesse sentido, o amado Charles Spur-
geon afirma que “as brasas da ortodoxia são necessárias para o fogo de piedade” 4. Sim,
de fato. Nesse sentido, crendo que o conhecimento bíblico de Deus relaciona-se diretamen-
te ao fervor de nosso amor por Ele — que quanto mais conhecemos e amamos a Deus,
mais a oração se torna para nós não somente um dever, mas também um deleite, uma

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necessidade vital e agradável —, vos convidamos a esta leitura, e que por fim, o próprio
Deus nos ajude a assim clamar: “Buscarei aquele a quem ama a minha alma! Leva-me tu;
correremos após ti” (Cânticos 3:2; 1:4).

“A oração em si mesma é uma arte que somente o Espírito Santo pode nos ensinar.
Ele é o doador de todas as orações. Rogue pela oração; ore até que consiga orar, ore
para ser ajudado a orar e não abandone a oração porque não consegue orar, pois nos
momentos em que você acha que não pode orar, é que realmente está fazendo as
melhores orações. As vezes quando você não sente nenhum tipo de conforto em suas
súplicas e seu coração está quebrantado e abatido, é que realmente está lutando e
prevalecendo com o Altíssimo.”5

Que o mesmo Senhor Jesus Cristo, centro destas palavras, aplique o que dEle há nas pala-
vras deste escrito com poder, pelo Seu Santo Espírito de graça e de súplicas, nos corações
de Seus escolhidos (Zacarias 12:10), para glória de Deus Pai.

Que nossos quartos sejam quartos de oração e que nossas vidas provem isto, para a glória
de Deus.

Amém e amém!

William Teixeira e Camila Almeida,


EC, 21 de outubro de 2014.

__________
[1] PINK, A. W. Oração Particular.
[2] ALLEINE, Joseph. Um Guia Seguro para o Céu. São Paulo: PES, 2002. p. 163.
[3] LLOYD-JONES, David Martyn. Como Está Sua Vida de Oração? Disponível em:
<http://www.bomcaminho.com/mlj002.htm>. Acesso: 30 nov. 2013.
[4] PIPER, John. A Vida e o Ministério de Charles Spurgeon. Disponível em: <http://www.desiringgod.org/conference-
messages/the-life-and-ministry-of-charles-spurgeon>. Acesso: 21 out. 2014. Tradução pessoal.
[5] SPURGEON, C. H. Oração Eficaz. Livreto do sermão Nº 700, publicado em português pela editora PES.

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Oração Particular
Por Arthur Walkington Pink

“Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que
está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente” (Mateus 6:6).
Por oito vezes ao longo deste versículo o pronome é usado no número singular e na segunda
pessoa, algo único em toda a Escritura, como que para enfatizar a indispensabilidade, im-
portância, e valor da oração particular. Nós devemos orar no quarto bem como na igreja:
de fato se a anterior for negligenciada, não é de todo provável que a última será de muito
valor. Aquele que é um dos participantes dos encontros de oração, de modo a ser visto pe-
los homens, e não é visto em seu quarto, sozinho, por Deus, é um hipócrita. A oração parti-
cular é o teste de nossa sinceridade, o indicador de nossa espiritualidade, o principal meio
de crescimento na graça. A oração particular é a única coisa, acima de todas as demais,
que Satanás busca impedir, pois ele bem sabe que se ele puder ser bem sucedido neste
ponto, o Cristão falhará em todos os outros.

Infelizmente, quão negligentes nós temos sido, quão tristemente nós temos falhado em
cumprir este dever, e que irreparáveis derrotados nós somos por esta pecaminosa negligên-
cia. Não é tempo propício para que alguns de nós atendam a esta palavra: “Considerai os
vossos caminhos” (Ageu 1:5-7)?! Irá este ano testemunhar uma repetição de tristes falhas
do passado? Podemos nós prosseguir roubando a Deus do que Lhe é devido, e nossas
almas da bem-aventurança da comunhão com Ele? O lugar secreto do Altíssimo é único
em visão, paz e alegria. O quarto é onde as forças são renovadas, a fé é despertada, as
graças são reavivadas. Nem sempre são os cuidados e prazeres deste mundo que são as
causas impeditivas, alguns permitem que os deveres públicos impeçam o desempenho dos
privados. Tenham cuidado, meus leitores, de estarem tão ocupados correndo de uma reu-
nião para a outra que as comunhões pessoais com Deus, em secreto, sejam desprezadas.
Alguns estão tão ativamente engajados em leituras, na preparação de sermões, que a co-
munhão particular com Deus é impedida.

Não são poucos os que estão confundindo os seus cérebros sobre profecia, quando eles
deveriam estar de joelhos diante de Deus. “O Diabo sabe que ele não é perdedor, e a alma
curiosa apenas uma pequena ganhadora, se ele pode persuadi-la a despender mais de seu
precioso tempo nos mistérios e altas coisas de Deus. Aquele que se afeiçoa a ler a Reve-
lação de João mais do que suas Epístolas, ou as profecias de Daniel mais do que os Salmos
de Davi, e ocupa-se mais sobre a conciliação de diferentes Escrituras do que sobre a
mortificação de concupiscências incontroláveis, ou é mais dado a vãs especulações do que
a coisas que promovem a edificação, este não é o homem que está separado para a oração

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particular. Aqueles que se afeiçoam a noções sublimes, expressões obscuras, e são ho-
mens de conceitos abstratos, são apenas a companhia de sábios tolos, que nunca desfru-
tam de algum deleite em estar com Deus, em particular. O quão santos, felizes, celestiais,
e humildes poderiam ter sidos muitos homens, se apenas dispendessem meia hora no quar-
to em oração, a qual eles gastaram em busca daquelas coisas que são difíceis de serem
entendidas” (Thomas Brooks, Puritano).

Os santos mais eminentes, nos tempos do Antigo e do Novo Testamento, dedicaram-se à


oração particular. “E Abraão plantou um bosque em Berseba, e invocou ali o nome do
SENHOR, o Deus Eterno” (Gênesis 21:33). Por que Abrão plantou aquele bosque, apenas
para que ele tivesse um local isolado, onde ele pudesse derramar sua alma diante de seu
Criador. “Por isso foi Isaque a meditar no campo à tarde” (Gênesis 24:63): a palavra hebrai-
ca para “meditar” também significa orar, e é proferida em outra parte apresentada como
“comungar” e “orar”. Assim, também, Jacó, Moisés, Samuel, Davi, Elias, Ezequias, etc. fo-
ram homens cujas devoções particulares são registradas na Escritura Sagrada. Em relação
a Daniel, nós lemos: “ele punha de joelhos, três vezes por dia, e orava, e dava graças diante
do seu Deus” (6:10), ocupado como ele deveria ter sido, ele não permitiu que as funções
públicas impedissem as devoções particulares.

O próprio Cristo, quando sobre a terra, exercitou-se muito a Si mesmo na oração particular:
refletindo sobre passagens como Mateus 14:23, Marcos 1:35, 6:46, Lucas 5:16, onde será
encontrado que Ele se retirou “em um monte”, “em lugar solitário”, “no deserto” para que
Ele pudesse estar sozinho com Deus, livre de pertubarções e distrações. Mas, por que este-
ve tanto em oração particular? Alguém tem sugerido as seguintes razões: Primeiro, para
dar uma grande honra e valor sobre a mesma: para ressaltar e magnificar este dever. Em
segundo lugar, para que Ele pudesse evitar todos os espetáculos e aparições de ostentação
e aplausos do povo: Ele era muito reservado da mera sombra de orgulho e vanglória. Em
terceiro lugar, a fim de definir para nós um tão abençoado padrão e gracioso exemplo, que
não devemos nos satisfazer apenas com orações públicas, nem somente com orações fa-
miliares, mas que também devemos nos aplicar à oração secreta. Em quarto lugar, para que
Ele pudesse confirmar a Si mesmo para os nossos entendimentos e consciências em ser
um misericordioso e fiel Sumo Sacerdote “que vive para sempre para interceder por nós”.

É o exercício de nós mesmos em oração secreta que nos distingue dos hipócritas, que reali-
zam seus exercícios religiosos somente para serem vistos pelos homens: Mateus 6:1, 2, 5,
16. O hipócrita considera em mais alta estima os aplausos de seus companheiros do que
considera a aprovação de seu Criador. A glória dos homens é a sua comida e bebida. A
marca distintiva de um hipócrita é que ele é uma coisa em público, mas outra bem diferente
em particular. Mas o verdadeiro Cristão conscientiza-se de sua vida de oração, sabe que

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Deus o vê e ouve em segredo, e cultiva a comunhão com Ele em reservado. A diligência
com que realizamos nossas devoções particulares é o critério de nossa sinceridade. Nós
nunca lemos na Escritura que Faraó, o Rei Saul, Judas, Demas, Simão, o Mágico, e os es-
cribas e fariseus alguma vez derramaram a sua alma diante do Senhor em secreto! O hipó-
crita está mais preocupado com um bom nome do que com uma boa vida, com uma reputa-
ção de piedade do que com uma boa consciência, não é assim os filhos de Deus. Em se-
gredo podemos mais livre, integral e seguramente derramar nossas almas a Deus, do que
podemos na presença dos nossos companheiros. Não há risco em abrir nosso coração e
confessar em detalhes os nossos pecados mais vis diante de Deus em reservado, mas po-
de haver um perigo considerável ao fazê-lo, mesmo diante de nossos companheiros Cris-
tãos. Ninguém com sabedoria e requinte pensaria em expor seus males físicos e doenças
a qualquer um, senão ao seu amigo íntimo ou médico; nem ele deveria tornar conhecidas
as suas fraquezas e iniquidades a qualquer um, senão para o seu melhor Amigo, o Grande
Médico. Não há necessidade de retraimento ou reserva na confissão quando nós estamos
à parte com Deus. Foi quando Davi estava sozinho na caverna (veja o título do Salmo) que
ele derramou a sua queixa e “mostrou-lhe o seu problema” (Salmo 142:2). Observe cuida-
dosamente a repetida “cada família à parte” e “suas mulheres à parte” de Zacarias 12:12-
14, para expressar não só a solidez de seu sofrimento tristeza, mas para mostrar a sua
sinceridade.

É impressionante observar que Deus tenha com frequência concedido as mais livres comu-
nicações de Si mesmo àqueles que estavam diante dEle em secreto. Foi desta forma com
Moisés no monte, quando Jeová deu-lhe a Lei, e novamente quando Ele o indicou o padrão
para o tabernáculo. Foi enquanto Daniel esteve envolvido em oração particular que Deus
enviou o Seu anjo para revelar a Ele os secredos de Seu conselho a respeito da restauração
de Jerusalém e a duração disto mesmo até o Messias (9:3, 21-27); como foi também du-
rante uma temporada, quando ele estava sozinho diante do trono da graça, que Deus lhe
assegurou que ele era “um homem muito amado” (10:11, 19). É em secreto que Deus usual-
mente concede Suas mais doces e escolhidas bênçãos. Cornélio foi grandemente elogiado
e graciosamente recompensado por causa de sua oração particular (Atos 10:1-4). A Pedro
foi concedida aquela maravilhosa visão sobre os gentios enquanto orava sozinho (Atos
10:9-13).

A Escritura registra bastante para ilustrar e demonstrar a grande prevalência da oração


particular. Oh, que maravilhas seguiram a luta secreta com Deus, as grandiosas misericór-
dias que foram obtidas, os juízos que foram desviados, os livramentos que foram garanti-
dos! Quando Isaque estava sozinho pedindo a Deus por uma boa esposa, ele conheceu
Rebeca (Gênesis 24:63-64). Enquanto Ezequias estava chorando e orando em particular,
Deus enviou o profeta Isaías para assegurar-lhe que Ele acrescentaria quinze anos aos

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seus dias (Isaías 38:5). Quando Jonas foi encerrado no ventre da baleia, ele foi devolvido
em resposta à sua súplica (2:1-10). Oh, o poder da oração particular: isto foi demonstrado
nos mortos sendo ressuscitados para a vida (1 Reis 17:18-22; 2 Reis 4:32-35). Que o
Espírito Santo graciosamente use estas considerações para estimular o escritor e o leitor.

“De manhã, SENHOR, ouves a minha voz; de manhã te apresento a minha oração e fico
esperando” (Salmo 5:3). Façamos com que esta seja nossa resolução, e desde que nós fo-
mos poupados, nossa prática, no decorrer do ano no qual acabamos de entrar. É ao mesmo
tempo nossa prudência e nosso dever assim começar cada dia com Deus. “Não buscará o
povo ao Senhor, seu Deus?”. Certamente, a luz da natureza impõe que nós deveríamos
agir assim, enquanto que a luz do Evangelho nos oferece ampla instrução e encorajamento
para o mesmo. Quando Ele nos diz: “Buscai a minha presença”, não deveriam os nossos
corações responder como ao Único a quem amamos: “buscarei, pois, SENHOR, a tua pre-
sença” (Salmo 27:8)? Mas, supomos que nossos corações têm crescido frios, e nós temos
perversamente nos desviado dEle? Bem, quando Ele diz: “Voltai, ó filhos rebeldes, eu cura-
rei as vossas rebeliões”, não deveríamos prontamente responder: “Eis-nos aqui, vimos ter
contigo; porque tu és o SENHOR, nosso Deus” (Jeremias 3:22)?

Oh, meu leitor, não há aqui o suficiente do que nós precisamos dizer ao Senhor nosso
Deus, o Único a quem servimos? Quão muitos e importantes são os interesses que habitam
entre nós e Ele. Nós estamos constantemente dependendo dEle, toda a nossa esperança
está nEle. Não está toda a nossa felicidade temporal e eternal na dependência de Seu
favor? Nós não temos necessidade de buscar a Sua aprovação, buscá-lO com todo o nosso
coração; suplicar como que por nossas próprias vidas que Ele levantará a luz de Seu rosto
sobre nós, para pleitear a justiça de Cristo como que por este meio somente nós podemos
esperar obter a benignidade de Deus (Salmo 71:16)?! Não estamos conscientes de que
nós tempos ofendido profundamente o Senhor nosso Deus pelos nossos numerosos e gra-
ves pecados, e temos, deste modo, contraído impureza? Nós não deveríamos confessar
nossa loucura e clamar por perdão e purificação pelo sangue de Cristo? Nós não temos re-
cebido incontáveis benevolências e bênçãos dEle, não devemos nós reconhecer o mes-
mo, e retribuir graças e louvores? Sim, oração é o mínimo que podemos oferecer a Deus.

Façamos agora umas poucas sugestões sobre como este dever deve ser cumprido. Em
primeiro lugar, reverentemente. Em todas as nossas aproximações a Deus, nós devemos
precisamente considerar a Sua exaltada majestade e inefável santidade, e humilhar-nos
diante dEle como fez Abraão (Gênesis 18:27). A expressão: “te apresento a minha oração”
(Salmo 5:3) significa um pensamento firme ou aplicação minuciosa da mente. Nós preci-
samos considerar sobre o cumprimento deste solene dever, como aqueles que têm no cora-
ção algo de grande importância com o qual nós não ousamos brincar. Quando nós viermos

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ao trono de graça e invocarmos o Altíssimo, não devemos oferecer sacrifícios de tolos: “Não
te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma
diante de Deus” (Eclesiastes 5:2). Aquele que atira uma flecha no alvo, a direciona com
mão firme e olho fixo, então quando inclinar o coração a achegar-se a Deus, isto deve ser
desembaraçado de todo o mais. Oh, seja capaz de dizer: “Firme está o meu coração, ó
Deus” (Salmo 57:7). Observe a isto que o temor da grandeza de Deus esteja sobre sua al-
ma junto a um profundo sentido de sua completa indignidade.

Em segundo lugar, sinceramente. Nós não podemos ser muito fortemente ou muito frequen-
temente advertidos contra esse mero culto externo a que estamos tão constantemente
inclinados, e que é a ruína de todo o bem espiritual. No passado, Israel foi acusado de fazer
menção ao nome de Deus, “mas não sinceramente” (Isaías 48:1). Os desejos de nossos
corações motivam e correspondem às petições que apresentamos. Como nós precisamos
implorar a Deus que isto seja gravado em nossos espíritos. Como nós necessitamos exa-
minar nossos corações e ver se o que pretendemos [é o mesmo] que falamos, pois “Não
tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão” (Êxodo 20:7). Habitue-se a desafiar a si
mesmo pelo questionamento: Eu sou coerente comigo mesmo quando eu invoco a Deus,
ou eu penso que posso impor-me a Ele com hipocrisia. “Perto está o SENHOR de todos os
que o invocam, de todos os que o invocam em verdade” (Salmo 145:18). Como um auxílio
a isto, pondere o alto valor destas coisas espirituais que você busca, sua profunda neces-
sidade delas, e questione: Eu realmente as desejo?

Em terceiro lugar, submissamente, ou seja, subservientemente à glória de Deus e nosso


próprio maior bem. Nossas petições devem sempre ser apresentadas com a condição: “Que
seja feita a Tua vontade”. Nós somos sempre inclinados a agir errado e com frequência não
sabemos “de que espírito sois” (Lucas 9:55). A oração de fé inclui submissão tão verdadei-
ramente quanto inclui confiança, pois se a última for sem a primeira, isto é presunção, e
não fé. Orar com fé não é acreditar em certa crença de que Deus nos dará aquilo que pedi-
mos, mas, ou melhor, que Ele nos concederá o que for mais sábio e melhor. Se nós soubés-
semos seguramente de antemão que Deus certamente nos daria todas as coisas que pedi-
mos, nós teríamos razão para ter medo de orar, pois com frequência nós desejamos coisas
que nos demonstrariam ser uma maldição se nós a obtivéssemos! Nossa sabedoria bem
como nossa obrigação é orar, condicionalmente e submissamente. Nós apenas nos curva-
mos diante da soberania de Deus.

Em quarto lugar, confidencialmente. Há alguns homens, que por causa de sua alta posição
ou austeridade de conhecimento consideram a todos inferiores, destes nós deveríamos ter
receio de nos aproximar. E por que não temos nenhuma boa palavra para apresentar ou
falar, assim nós deveríamos, portanto, abandonar a ideia de conversar com eles. Mas não

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há motivo pelo qual um crente seja desencorajado a conversar com Deus, não, Ele nos
ordena: “Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de rece-
bermos misericórdia” (Hebreus 4:16). Não deixem, então, que a percepção da grandeza e
santidade de Deus, nem que a compreensão de sua própria completa indignidade, dete-
nham vocês. Tal é a compaixão de Deus pelos humildes suplicantes que nem mesmo o
Seu terror os fará ter medo. É diretamente contra Sua vontade revelada que Seu povo de-
vesse assustar-se desta maneira. Ele teria encorajado a eles mesmos como filhos: “Porque
não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas rece-
bestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Romanos 8:15). Por
este mesmo espírito de adoção, nós somos trazidos para a proximidade, liberdade, e confi-
ança de filhos de Deus, e ainda que nós sejamos cheios de pecado, ainda “temos um Advo-
gado junto ao Pai” (1 João 2:1).

Em quinto lugar, fervorosamente. Davi disse: “Imploro de todo o coração a tua graça” (Salmo
119:58). Não é suficiente que nossas línguas balbuciem mera formalidade, nossos corações
devem estar neste fazer, nós somos mais preocupados com o exercício de nossas afeições
do que na escolha de nossas palavras. É para ser sentido que nós oramos mais distantes
de nossas memórias do que de nossas consciências. Mas, permita ser sinalizado que o
fervor na oração não é uma ação de nosso instinto animal então, não há gritaria e agitação
no corpo; atores agem estimulando a si mesmos em um grande fervor para comover as
suas audiências, e advogados para impressionar um juiz. O fervor é expresso na Escritura
como uma invocação ao nome do Senhor (Romanos 10:13), um levantar as mãos em
direção a Ele (Jó 11:13), uma árdua busca por Ele (Salmo 63:8), um apegar-se a Ele (Isaías
64:7), um derramar do coração perante Ele (Salmo 62:8). É uma luta na oração (Romanos
15:30). Deus odeia os mornos. Observem a intensidade de Daniel: 9:19. Davi compara a
sua oração a um “incenso” (Salmo 141:2), e nenhum incenso é oferecido sem fogo!

Antecipemos agora uma objeção. Eu poderia estar frequentemente em oração diante Deus,
mas o pecado tem tanto poder sobre mim que rompe a comunhão, e apaga completamente
o espírito de oração em meu coração, eu me sinto tão imundo que para mim seria um escár-
nio colocar-me diante do Três-Vezes Santo Deus. Ah, mas o ouvir de Deus em relação às
nossas orações independe de nossa santidade, mas sim da mediação de Cristo: “Não é por
amor de vós que eu faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu santo nome” (Ezequiel 36:22).
Não é pelo que os Cristãos são por si mesmos, mas por causa do que eles são em Cristo,
que Deus responde as suas súplicas: “a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradá-
veis a Deus por intermédio de Jesus Cristo” (1 Pedro 2:5). Quando Deus responde as nos-
sas petições não é por causa de nossos méritos, nem por causa de nossa oração, mas pe-
los méritos de Seu Filho (vejam Efésios 4:32). Tentem se lembrar, meus angustiados ir-
mãos, que vocês são membros do corpo místico de Cristo, e como Lutero disse: “Que ho-
mem cortará fora seu nariz por que há sujeira nele?”.

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Por mais desesperado que seja o nosso caso, maior é nossa necessidade de orar: se a
graça em nós está fraca, a contínua negligência em orar a fará ainda mais fraca. Se nossas
corrupções são fortes, a omissão em orar as fará ainda mais fortes. Os pecados que são
lamentados nunca impedem o acesso e sucesso de nossas petições. Jonas foi um homem
cheio de paixões pecaminosas, ainda assim, as suas orações prevaleceram com Deus:
(2:1, 2, 7, 10). Davi disse: “Se prevalecem as nossas transgressões, tu no-las perdoas”
(Salmo 65:3). Em outra ocasião ele disse: “O SENHOR ouviu a voz do meu lamento” (Salmo
6:8), suas próprias lágrimas oraram! Deus ouve os suspiros e gemidos daqueles que não
conseguem coloca-los em palavras. Então, encoraje a si mesmo pela grandiosidade da mi-
sericórdia de Deus, pelas Suas promessas pactuais, pela Sua paternidade, e pelas respos-
tas que você já recebeu no passado.

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Uma Biografia de A. W. Pink, por Erroll Hulse

Arthur Walkington Pink (1886 – 1952) e sua esposa Vera E. Russell (1893 – 1962)

Quanto ao Calvinismo e Arminianismo durante a primeira metade do século XX, um estudo


de caso mui interessante é a experiência de Arthur W. Pink. Ele foi um pregador e escritor
de talento excepcional que ministrou na Grã-Bretanha, América e Austrália. Quando mor-
reu, em 1952, em isolamento na ilha de Lewis, no nordeste da Escócia, ele era pouco co-
nhecido fora de uma pequena lista de assinantes de sua revista, “Studies in the Scriptures”
(Estudos nas Escrituras). No entanto, na década de 1970, havia grande demanda por seus
livros e seu nome era muito conhecido entre os editores e ministros. Na verdade, nesse
período, seria difícil encontrar um autor reformado cujos livros fossem mais lidos.

O ministério de pregação de A. W. Pink fora notavelmente abençoado nos Estados Unidos,


mas foi na Austrália que ele parece ter atingido o ápice de seu ministério público, e ali, em
particular, o seu ministério de pregação alcançou grandes alturas. Ele foi então confrontado
com o credenciamento pela União Batista e foi rejeitado por causa de suas opiniões Cal-
vinistas. Depois, ele ministrou em uma igreja Batista do tipo Batista Estrita. Dali ele foi des-
vinculado, uma vez que o consideraram um Arminiano! Um grupo considerável, no entanto,

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apreciava Pink, reconhecia o seu valor, e separaram-se daquela Igreja Batista Estrita para
formarem uma nova igreja de 27 membros. Então, de repente, em 1934, Pink pediu demis-
são e voltou à Grã-Bretanha. Sabe-se que uma rejeição é o bastante para prejudicar a vida
de um ministro, mas duas, em rápida sucessão, podem destruir um pastor completamente.
Assim isso se evidenciou para Arthur Pink. Ele nunca mais encontrou entrada significativa
para o ministério, embora ele tentasse o seu melhor. Ele buscou aberturas tanto no Reino
Unido e nos EUA, sem sucesso. Ele tornou-se cada vez mais isolado. Ele terminou seus
dias como um recluso evangélico na Ilha de Stornoway na costa da Escócia. Dizia-se que
não mais do que dez almas compareceram ao seu funeral.

Há muito que podemos aprender com a vida de A. W. Pink. Em primeiro lugar, delinearemos
a sua infância, em linhas gerais. Em segundo lugar, descreveremos a sua experiência na
Austrália, e traçaremos os efeitos adversos disso em sua vida. Em terceiro lugar, considera-
remos o impacto de seu ministério de escrita.

1. Início da vida

Arthur Pink nasceu em Nottingham, Inglaterra, em 1886. Seus pais eram piedosos. Eles
viviam conforme a Bíblia e santificavam o dia do Senhor. Arthur foi o primeiro dos três filhos
educados no temor e na admoestação do Senhor. Para a tristeza de seus pais, os três filhos
caíram em vida de incredulidade. Mas o pior estava por vir: Arthur abraçou a Teosofia, um
culto esotérico que reivindicava poderes do ocultismo! “Lúcifer” era o nome da principal
revista de Teosofia. A marca natural da personalidade de Arthur era a entrega sincera e
completa ao que fazia, e ele adentrou na Teosofia com zelo. A liderança foi oferecida a ele,
o que significava que ele teria que visitar a Índia. Ao mesmo tempo, um amigo que era um
cantor de ópera, observou que Arthur possuía uma aguda voz tipo barítono; ele instou com
Pink para avaliar uma carreira na ópera. Depois, de repente, numa noite, durante 1908,
Arthur foi convertido. Sua primeira ação foi pregar o Evangelho ao grupo Teósofo.

Simultaneamente à conversão de Pink, ocorreu um chamado para o ministério Cristão. Mas


as faculdades estavam nas mãos de liberais empenhados na destruição das Escrituras.
Arthur, porém, ouviu falar do Instituto Bíblico Moody, que fora fundada por D. L. Moody em
1889 e em 1910, com 24 anos, Pink partiu para Chicago a fim de começar um curso de dois
anos. Todavia, seu tempo em Moody durou apenas seis semanas. Ele decidiu que estava
perdendo tempo, e que ele deveria entrar diretamente em um pastorado — e seus profes-
sores concordaram! Ele não estava descontente, mas, antes, frustrado, que o ensino esti-
vesse lançado a um nível tão primário, de modo que este ensino não fez nada por ele.

Ao longo de 1910, ele iniciou seu primeiro pastorado em Silverton, Colorado, um campo de

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mineração nas montanhas de San Juan. Nós possuímos poucos detalhes deste período,
mas sabemos que a partir de Silverton, Pink mudou-se para Los Angeles. Ele sempre foi
um trabalhador, e isso é ilustrado pelo fato de que de uma vez, em Oakland, ele esteve
envolvido no evangelismo em tendas em seis noites por semana, durante 18 semanas!

De Los Angeles, ele se mudou para Kentucky. Foi ali que ele conheceu e se casou com
Vera E. Russell. Não poderia ter havido um melhor presente do céu. Vera era totalmente
comprometida com o Senhor. Ela era trabalhadora, talentosa, inteligente e perseverante.
Ela morreu apenas dez anos após morte de Arthur, na ilha de Stornoway.

A próxima mudança foi para Spartanburg, Carolina do Sul, de 1917 a 1920. O edifício desta
igreja consistia em uma pequena e frágil estrutura de madeira, enquanto ele e Vera viviam
em uma pequena casa de madeira sustentada por colunas de madeira. O aquecimento era
inadequado e, no inverno gelado a casa era como uma caixa de gelo.

Foi durante esse tempo que Pink começou a escrever livros. Houve dois significativos: um
com o título “Divine Inspiration of the Bible” (A Inspiração Divina da Bíblia), e segundo “The
Sovereignty of God” (A Soberania de Deus), cujo prefácio é datado em junho de 1918. Este
foi o livro posteriormente publicado pelos editores de The Banner of Truth. A primeira
edição, de acordo com I. C. Herendeen, seu primeiro editor na época, foi apenas de 500
cópias, e foi uma luta vender esse número. Quando o livro chegou a Banner, foi editado por
Iain Murray e melhorou bastante. Tornou-se um dos mais populares livros impressos da
The Banner of Truth. Em 1980, haviam sido vendidos 92 mil exemplares.

Após cerca de um ano em Spartanburg, Pink quase veio a sofrer. Ele sentiu uma forte con-
vicção de desistir do ministério e dedicar-se apenas a escrever, e num dado momento, este-
ve desconsolado. Vera escreveu a uma amiga dizendo que o marido estava mesmo pen-
sando em deixar o ministério e entrar em negócios, para ganhar dinheiro para o Reino como
uma melhor maneira de servir a Deus. Em 1920, Arthur renunciou ao pastorado em Spar-
tanburg. Ele e Vera mudaram-se e se estabeleceram em Swengel, Pensilvânia, a fim de
estarem perto do editor I. C. Herendeen.

Em meados de julho de 1920, ele permitiu-se realizar uma série de reuniões na Califórnia.
Grandes multidões se reuniram e muitos foram salvos. Em dado momento, 1.200 se reuni-
am para ouvir o Evangelho. Outras cruzadas e conferências ocorreram a seguir; era eviden-
te que Pink era eminentemente adequado para este tipo de ministério. Olhando para trás,
ao longo de sua vida, é evidente que ele experimentou mais bênção no ministério itinerante
do que ele o fez em um total de 12 anos no pastorado de igrejas. Isso relacionava-se ao
seu temperamento; ele preferia gastar seu tempo estudando mais do que fazendo visitas.

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Em 1921, Arthur e Vera voltaram à Pensilvânia. A compilação mensal, os Estudos nas Es-
crituras, apareceu pela primeira vez em 1922. Esta revista esteve ativa de forma contí-nua,
sem interrupção por 32 anos, até a morte de Arthur em 1952. Inicialmente, esta era uma
revista de 24 páginas, contendo de 4 a 6 artigos, como porções de uma série. Escrever
material expositivo em um elevado padrão, a este ritmo, a cada mês, é um tremendo teste-
munho de sua compreensão das Escrituras, e da benção e capacitação do Senhor. Todos
os seus artigos tinham que ser escritos à mão e finalizados para impressão pelo menos
dois meses antes da data de publicação. Estudos nas Escrituras tinha cerca de 1.000 exem-
plares em circulação, inicialmente, mas na maior parte de sua existência, o nível de subscri-
ção pairava em cerca de 500. O aspecto financeiro sempre foi precário, com apenas o
suficiente para cobrir os custos de impressão de um mês ao outro. Pink correspondia-se
com alguns de seus assinantes; eventualmente, isso compôs o seu trabalho pastoral. Du-
rante todo o tempo, ele foi auxiliado por sua trabalhadora esposa, que atuava como secre-
tária. Eles nunca tiveram filhos, sempre viveram mui humildemente, e sempre conseguiam
quitar suas despesas. Isso foi possível por meio de uma modesta herança deixada para ele
por seus pais e por meio de ofertas que ele recebia de seus leitores.

Durante 1923, Arthur caiu em uma profunda depressão, que culminou em um colapso ner-
voso. Neste momento um jovem casal que fora muito abençoado pelo ministério de Pink
veio a auxilia-lo, e Arthur foi cuidado por um período de vários meses de descanso forçado,
que o trouxe de volta à saúde normal.

Em 1924, uma importante nova direção veio em forma de cartas de convite, de uma editora
em Sydney, na Austrália. Antes de partir para a Austrália, não menos que a preparação de
quatro meses teve que ser feita em Estudos. Em seu caminho para a Austrália, Pink envol-
veu-se em mais conferências bíblicas, pregando no Colorado, depois em Oakland, Califór-
nia, e também São Francisco — de onde ele e Vera embarcaram, através do Pacífico, para
Sydney.

2. A Experiência de Pink na Austrália

O casal Pink esteve por um total de três anos e meio na Austrália. Esse período foi para
eles o melhor, mas também tornou-se o pior. Após a chegada, Arthur teve mais convites do
que ele, possivelmente, cumpriria. Inicialmente o seu ministério na Austrália foi um grande
sucesso. Uma multidão se reuniu; igrejas foram preenchidas; crentes foram reavivados; e
almas foram conduzidas ao Salvador.

A audiência crescia em todo lugar que ele pregava. No primeiro ano na Austrália, Arthur
pregou por 250 vezes. Ele costumava trabalhar até 2:00 da manhã para manter a Studies

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in the Scriptures em atividade. O casal Pink realmente deve ter sentido que, finalmente,
havia encontrado o lugar de realização permanente. Havia um poder evidente em seu minis-
tério. Um crente maduro declarou que ele atraía as pessoas “como um ímã”, e que ele pre-
gava “todo o conselho da Palavra de Deus”, e era capaz de pregar um sermão “de cada
palavra do texto”.

Este período revelou-se de grande alegria. Pink tinha neste momento 40 anos de idade. Ele
esteve pregando quase diariamente por mais de uma hora. Ele poderia chegar em casa às
22:00 horas e, em seguida, trabalhar até às 2:00 horas. Ele escreveu, “nunca antes, durante
nossos 16 anos no ministério, nós experimentamos tal bênção e alegria em nossas almas,
tal liberdade de expressão, e uma resposta tão animadora quanto experimentamos nesta
porção altamente favorecida da vinha de Cristo”.

Podemos ter certeza de que um vívido e poderoso ministério que salva almas despertará a
fúria de Satanás. E assim isso provou ocorrer, neste caso, quando a antiga serpente, o Dia-
bo, montou um astuto contra-ataque. Os líderes da União Batista eram fundamentalmente
opostos ao Calvinismo. Esses líderes convidaram Arthur Pink para ler um artigo sobre “A
Responsabilidade Humana”. Infelizmente, Pink não sabia que isso era um complô para
rebaixá-lo diante dos olhos do público, e em seu fervor sincero ele caiu na armadilha. Em
vez de recusar o convite, ele apresentou o artigo e, em seguida, respondeu a perguntas por
mais de uma hora. O resultado disso foi que a União Batista de New South Wales publicou
uma declaração de que eles concordavam, por unanimidade, em não apoiar o seu ministé-
rio. O que eles realmente queriam dizer (pois que eles mesmos não esclareceram qualquer
doutrina) é que eles não concordavam com a doutrina reformada de Pink. Eles eram funda-
mentalmente Arminianos. O efeito de tudo isso foi que os convites minguaram, e o amplo e
eficiente ministério do Pink na Austrália foi reduzido drasticamente.

Foi neste momento que uma das três Igrejas Batistas Restritas e Particulares convidaram
Pink para tornar-se o seu pastor. Esta igreja era conhecida como a igreja da Rua Belvoir
(Belvoir Street Church). Ali Pink ocupou-se como nunca em sua vida. Ele pregou 300 vezes
até o fim do ano, em 1926. Além de pregar três vezes por semana em Belvoir Street, ele
pregava em três lugares diferentes em Sydney a cada semana, para uma média de 200
pessoas em cada reunião. Ele ainda conseguia manter Studies in the Scriptures pela
queima do óleo da meia-noite.

Tribulação, no entanto, era iminente. A primeira parte do século XX foi um período de falta
de clareza doutrinária. Uma das evidências disso era a confusão sobre o Calvinismo,
Arminianismo e hiper-Calvinismo. Muitas igrejas estavam polarizadas. A União Batista era
Arminiana, e os Batistas Restritas Particulares tendiam a ser hiper-Calvinistas. Este provou

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ser o caso da Rua Belvoir. Até por volta de maio de 1927, os Pinks criam que haviam encon-
trado uma igreja permanente.

3. O Impacto do Ministério de Escrita de Pink

Se a história tivesse progredido normalmente, Arthur Pink teria sido esquecido. Há vários
líderes em cada geração, que são bem conhecidos, mas é pouco provável que seus nomes
serão lembrados por muito tempo. Quando Arthur Pink morreu, ele era conhecido por um
pequeno círculo de leitores, cerca de 500 dos que liam os seus periódicos mensais, Studies
in the Scriptures, os quais ele havia produzido fielmente com a ajuda de sua esposa Vera,
por 31 anos. No entanto, após sua morte, à medida que seus escritos foram reunidos e pu-
blicados como livros, seu nome se tornou muito conhecido no mundo evangélico de Língua
Inglesa. Durante os anos de 1960 e 70, houve uma escassez de escritos expositivos fiéis;
os escritos de Pink preencheram uma importante necessidade. Suas exposições são cen-
tradas em Deus, teologicamente convincentes e fiéis, bem como práticas e experimentais.
Isso era precisamente o necessário durante um período de seca espiritual. Os editores
descobriram o valor de seus escritos. O resultado foi impactante.

Por exemplo, Baker Book House publicou vinte e dois títulos diferentes por Pink, com um
total combinado de vendas em 1980 de 350.000 exemplares. Por volta da mesma data,
apenas três livros (Soberania de Deus, A Vida de Elias, e Enriquecendo-se com a Bíblia)
somaram 211.000. No entanto, como autores reformados contemporâneos têm se multi-
plicado, então a demanda por livros de Pink diminuiu.

Devemos lembrar que com o advento do século XX, as principais denominações já sofreram
perdas enormes para a alta crítica e o modernismo. Tal era o avanço do modernismo no
final do século XIX e na primeira metade do século XX, que a maioria das faculdades e
seminários bíblicos perderam-se para uma contemporânea incredulidade e anti-Cristianis-
mo. Em vez de produzir pregadores/pastores para as igrejas, eram enviados homens que
esvaziavam as igrejas. O exemplo mais marcante é o Metodismo. A adesão global ao Meto-
dismo cresceu de modo a ser a maior das igrejas Não-Conformistas. No entanto, esta deno-
minação foi praticamente aniquilada pelo modernismo.

Os escritos de Pink têm suprido não somente alimento para o espiritualmente faminto, mas
como Iain Murray afirma em sua obra The Life of Arthur W. Pink: “Pink tem sido extrema-
mente importante na revitalização e no estímulo à leitura doutrinária em nível popular. O
mesmo pode ser dito de poucos outros autores do século XX”.

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Introdução

Muito tem sido escrito sobre o que geralmente é chamado de “Oração do Senhor” (que eu
prefiro ao termo “Oração da Família”) e muito sobre a oração sacerdotal de Cristo em João
17, mas muito pouco sobre as orações dos apóstolos. Pessoalmente, eu não conheço ne-
nhum livro dedicado às orações apostólicas, e com exceção de um folheto sobre as duas
orações de Efésios 1 e 3 quase não tem havido exposição separada delas. Não é fácil expli-
car essa omissão. Alguém poderia pensar que as orações apostólicas são tão cheias de
doutrinas importantes e valores práticos para os crentes que eles deveriam ter atraído a
atenção daqueles que escrevem sobre temas devocionais. Enquanto muitos de nós muito
depreciam os esforços daqueles que nos querem fazer crer que as orações do Antigo Tes-
tamento são obsoletas e inadequadas para os santos desta Idade Evangélica, parece-me
que mesmo os professores Dispensacionalistas devem reconhecer e apreciar a adequa-
ção peculiar aos cristãos das orações registradas nas epístolas e no livro do Apocalipse.
Com exceção das orações de nosso Redentor, somente nas orações apostólicas encontra-
mos louvores e petições dirigidas especificamente ao “Pai”. De todas as orações das Escri-
turas, só estas são oferecidos em nome do Mediador. Além disso, apenas nestas orações
apostólicas encontramos a plenitude dos clamores do Espírito de adoção.

Quão grande benção é ouvir alguns santos idosos, que há muito tempo andam com Deus
e desfrutaram de comunhão íntima com Ele, derramando seus corações diante do Senhor
em adoração e súplica. Mas quanto mais abençoados que nós nos tenhamos o privilégio
de ouvir os louvores a Deus e clamores daqueles que conviveram com Cristo durante os
dias de Sua habitação entre os homens! E se um dos apóstolos ainda estivessem aqui na
terra, que grande privilégio consideraríamos ouvi-lo quando estivesse dedicado a oração!
Tão grande privilégio, me parece, que a maioria de nós estaríamos muito disposta a sofrer
uma inconveniência considerável e viajar uma longa distância, a fim de sermos assim favo-
recidos. E se o nosso desejo fosse concedido, quão atentos nós ouviríamos as suas pala-
vras, como se diligentemente procurássemos entesourá-los em nossas memórias. Bem,
nem tanta inconveniência, nem tal viagem é necessária. Aprouve ao Espírito Santo gravar
uma série de orações apostólicas para nossa instrução e satisfação. Não constatamos a
nossa apreciação de tal benefício? Será que já fizemos uma lista delas e meditamos sobre
sua implicação?

Não Encontramos Nenhuma Oração Apostólica Em Atos

Na minha tarefa preliminar de levantamento e classificação das orações registradas dos


apóstolos, duas coisas me impressionaram. A primeira observação foi uma surpresa com-
pleta, enquanto a segunda foi totalmente esperada. Aquilo que pode nos parecer estranho,

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e para alguns dos meus leitores, pode ser quase surpreendente, é esta: o livro de Atos, que
fornece a maioria das informações que possuímos sobre os apóstolos, não tem uma única
oração deles em seus vinte e oito capítulos. Ainda assim, um pouco de reflexão deve nos
mostrar que esta omissão está em pleno acordo com o caráter especial do livro; pois Atos
é muito mais histórico do que devocional, composta muito mais de uma crônica do que o
Espírito operou através dos apóstolos do que dentro deles. As ações públicas dos embaixa-
dores de Cristo estão ali ressaltadas, ao invés de seus exercícios privados. Eles são certa-
mente mostrados como sendo homens de oração, como é visto por suas próprias palavras:
“Mas nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra” (Atos 6:4). Uma e outra
vez nós os observamos envolvidos neste exercício santo (Atos 9:40; 10:9; 20:36; 21:5;
28:8), mas não nos é dito o que eles disseram [em oração]. O mais próximo que Lucas che-
ga de registrar palavras claramente atribuíveis aos apóstolos está em Atos 8:14-15, mas
mesmo ali, ele apenas nos dá a quintessência daquilo pelo qual Pedro e João oraram. Eu
considero a oração de Atos 1:24 como a dos 120 discípulos. A grande oração eficaz regis-
trada em Atos 4:24-30 não é a de Pedro e João, mas de toda a companhia (v. 23), que se
reuniram para ouvir seu relato.

Paulo, Um Exemplo Na Oração

A segunda característica que me impressionou, enquanto contemplava o assunto que está


prestes a envolver-nos, é que a grande maioria das orações gravadas dos apóstolos surgiu
a partir do coração de Paulo. E isso, como já dissemos, era realmente de se esperar. Se
alguém perguntar por que isto é assim, várias razões podem ser dadas em resposta. Em
primeiro lugar, Paulo era, por excelência, o apóstolo dos gentios. Pedro, Tiago e João minis-
traram principalmente aos crentes judeus (Gálatas 2:9), que, mesmo em seus dias de não-
convertidos, foram acostumados a dobrar os joelhos diante do Senhor. Mas os gentios ti-
nham saído do paganismo, e, então, era apropriado que seu pai espiritual fosse também o
seu exemplo devocional. Além disso, Paulo escreveu duas vezes mais epístolas Inspiradas
por Deus do que todos os outros apóstolos juntos, e ele deu expressão a oito vezes o
número de orações em suas epístolas que o outros fizeram nas suas. Mas principalmente,
chamamos a atenção para a primeira coisa que o Senhor disse de Paulo depois de sua
conversão: “eis que ele está orando” (Atos 9:11). O Senhor Jesus Cristo estava, por assim
dizer, batendo na tecla da vida subsequente de Paulo, pois ele seria eminentemente distin-
guido como um homem de oração.

Não é que os outros apóstolos eram desprovidos desse espírito. Porque Deus não emprega
ministros sem oração, uma vez que Ele não tem filhos mudos. “Clamam a ele de dia e de
noite” é apontado por Cristo como uma das marcas distintivas dos eleitos de Deus (Lucas
18:7). No entanto, alguns de seus servos e alguns de seus santos estão autorizados a des-

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frutar comunhão mais próxima e constante com o Senhor do que outros, e tal era obvia-
mente o caso (com exceção de João) com o homem que em uma ocasião, chegou a ser
arrebatado ao paraíso (2 Coríntios 12:1-5). Uma medida extraordinária “do espírito de graça
e de súplicas” (Zacarias 12:10) foi-lhe concedida, a fim de que ele parecesse ter sido ungido
com o espírito de oração acima até mesmo do que seus companheiros apóstolos. Tal era
o fervor de seu amor por Cristo e pelos membros do Seu Corpo místico, tal era a sua
solicitude intensa pelo seu bem-estar e crescimento espiritual, que continuamente jorrava
de sua alma um fluxo de oração a Deus e de ação de graças por causa deles.

O Amplo Espectro Da Oração

Antes de prosseguir, deve-se salientar que nesta série de estudos não proponho limitar-me
às orações de súplicas dos apóstolos, mas sim utilizá-las em maior alcance. Na oração es-
criturística está incluído muito mais do que simplesmente dar a conhecer os nossos pedidos
a Deus. Nós precisamos ser lembrados deles. Além disso, nós, os crentes, precisamos ser
instruídos em todos os aspectos da oração em uma época caracterizada pela superficia-
lidade e ignorância da religião revelada por Deus. A Escritura-chave que nos apresenta o
privilégio de expressarmos as nossas necessidades diante do Senhor enfatiza isto mesmo:
“Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conheci-
das diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças” (Filipenses 4:6). A menos
que expressemos gratidão por misericórdias já recebidas e demos graças ao Pai por Ele
nos conceder o favor continuado de fazer petições a Ele, como podemos esperar obter o
seu ouvir e, portanto, recebermos respostas de paz? No entanto, a oração, em seu sentido
mais elevado e máximo, se eleva acima das ações de graças pelos presentes outorgados:
o coração é retirado em contemplar o próprio Doador, de modo que a alma se prostre diante
dEle em veneração e adoração.

Embora não devemos nos desviar do nosso tema imediato e entrar no assunto da oração
em geral, no entanto, deve-se salientar que ainda há um outro aspecto que deve ter prece-
dência sobre ação de graças e súplica, ou seja, auto-aversão e confissão da nossa própria
indignidade e pecaminosidade. A alma deve solenemente lembrar-se de Quem é que ela
está se aproximando, que é o Altíssimo, diante de quem os serafins cobrem seus rostos
(Isaías 6:2). Embora a graça Divina tenha feito do Cristão, um filho, contudo, ele ainda é
uma criatura, e, como tal, está a uma distância infinita e inconcebível abaixo do Criador. É
adequado que ele deva sentir profundamente esta distância entre ele e seu Criador e
reconheça-a, tomando o seu lugar no pó, diante de Deus. Além disso, precisamos lembrar
que somos por natureza: não apenas criaturas, mas criaturas pecadoras. Assim, é neces-
sário que haja um sentimento e um reconhecimento disto enquanto nos curvamos diante
do Santo. Só desta forma podemos, com algum significado e realidade, pleitear a mediação
e méritos de Cristo como o fundamento de nossa aproximação.

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Assim, em termos gerais, a oração inclui a confissão dos pecados, petições para o forneci-
mento de nossas necessidades, e a reverência dos nossos corações para com o Doador.
Ou, podemos dizer que os ramos principais de oração são humilhação, súplica e adoração.
Por isso esperamos incluir no escopo desta série não apenas passagens como Efésios
1:16-19 e 3:14-21, mas também versos simples, como 2 Coríntios 1:3 e Efésios 1:3. Que a
cláusula “Bendito seja Deus” é em si uma forma de oração fica claro no Salmo 100:4: “Entrai
pelas portas dele com gratidão, e em seus átrios com louvor; louvai-o, e bendizei o seu
nome”. Outras referências podem ser dadas, mas que isto seja suficiente. O incenso que
foi oferecido no tabernáculo e no templo consistia de várias especiarias compostas em con-
junto (Êxodo 30:34-35), e era a mistura de um com o outro que fazia o perfume tão aromá-
tico e refrescante. O incenso era um tipo de intercessão de nosso grande Sumo Sacerdote
(Apocalipse 8:3-4) e das orações dos santos (Malaquias 1:11). De igual modo deve haver
uma mistura proporcional de humilhação, súplica e adoração em nossas abordagens ao
trono da graça, um não deve excluir o outro, mas deve haver uma mistura de todos eles
juntos.

Oração, Um Dever Primário Dos Ministros

O fato de que tantas orações são encontradas nas Epístolas do Novo Testamento chama
a atenção para um aspecto importante do dever ministerial. As obrigações do pregador não
acabam totalmente quando ele sai do púlpito, pois ele precisa regar a semente que ele
semeou. Por causa dos jovens pregadores, permita-me estender m pouco este ponto. Já
foi visto que os apóstolos perseveravam “na oração e no ministério da palavra” (Atos 6:4),
e, assim, eles deixaram um excelente exemplo a ser observado por todos os que os seguem
na vocação sagrada. Observe a ordem apostólica; ainda, sim, não se limitem apenas a ob-
servá-la, mas prestem atenção e pratiquem-na. O sermão mais laborioso e cuidadosamente
preparado é provável que seja inútil para os ouvintes, a menos que tenha nascido da an-
gústia da alma diante de Deus. A menos que o sermão seja o produto de fervorosa oração,
não devemos esperar que ele desperte o espírito de oração em quem a ouve. Como já foi
apontado, Paulo misturava súplicas com as suas instruções. É nosso privilégio e dever nos
retirarmos para um lugar secreto depois que deixamos o púlpito, e ali implorar a Deus para
escrever Sua Palavra nos corações daqueles que nos ouviram, para impedir o inimigo de
arrebatar a semente, e assim abençoar nossos esforços para que possam dar frutos para
o Seu louvor eterno.

Lutero costumava dizer: “Há três coisas que são necessárias para fazer um pregador de
sucesso: súplica, meditação e tribulação”. Eu não sei a partir de que elaboração o grande
Reformador fez isto. Mas acho que ele quis dizer o seguinte: que a oração é necessária
para trazer o pregador em um estado adequado para lidar com as coisas Divinas e revesti-

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lo com poder Divino; que a meditação na Palavra é essencial, a fim de fornecer-lhe material
para a sua mensagem; e que a tribulação é necessária como lastro para o seu navio, pois
o ministro do Evangelho precisa de tribulações para mantê-lo humilde, assim como ao após-
tolo Paulo foi dado um espinho na carne para que ele não se exaltasse indevidamente pela
excelência das revelações que lhe foram dadas. A oração é o meio designado para receber
comunicações espirituais para a instrução de nosso povo. Devemos estar muito tempo com
Deus antes que possamos ser capacitados a ir e falar em Seu nome. Paulo, ao concluir sua
epístola aos Colossenses, os informa das fiéis intercessões de Epafras, um dos seus minis-
tros, que estava longe de casa, visitando a Paulo. “Saúda-vos Epafras, que é dos vossos,
servo de Cristo, combatendo sempre por vós em orações, para que vos conserveis firmes,
perfeitos e consumados em toda a vontade de Deus. Pois eu lhe dou testemunho de que
tem grande zelo por vós” (Colossenses 4:12-13). Poderia um elogio como este ser feito a
seu respeito quanto à sua congregação?

Oração, Um Dever Universal Dos Crentes

Mas que não se pense que esta marca enfática das Epístolas indicam um dever apenas
dos pregadores. Longe disso. Estas epístolas são dirigidas a filhos de Deus em geral, e tu-
do o que neles está é necessário e adequado para sua caminhada cristã. Os crentes tam-
bém devem orar muito, não só para si, mas por todos os seus irmãos e irmãs em Cristo.
Devemos orar deliberadamente de acordo com esses modelos apostólicos, pedindo as
bênçãos particulares que precisamos. Eu há muito tempo tenho sido convencido de que
não há melhor caminho — caminho mais prático, valioso e eficaz — de expressar solicitude
e afeição para com os nossos irmãos em Cristo do que levá-los diante de Deus pela oração,
nos braços de nossa fé e amor.

Ao estudar essas orações nas Epístolas e meditar sobre elas cláusula por cláusula, pode-
mos aprender mais claramente que bênçãos devemos desejar para nós mesmos e para os
outros, isto é, os dons e graças espirituais das quais temos grande necessidade de ser solí-
citos. O fato de que essas orações, inspirados pelo Espírito Santo, foram colocados em re-
gistro permanente no Volume Sagrado declara que os favores particulares procurados aqui
são aqueles que Deus deseja que busquemos obter dEle (Romanos 8:26-27, 1 João 5:14-
15).

Os Cristãos Devem Dirigir-Se A Deus Como Pai

Vamos concluir estas observações preliminares e gerais, chamando a atenção para algu-
mas das características mais definidas das orações apostólicas. Observe, então, para quem
estas orações são dirigidas. Embora não exista uma uniformidade engessada de expressão,

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mas sim variedade adequada neste assunto, contudo a maneira mais frequente, em que a
Divindade é abordada é como Pai: “o Pai das misericórdias” (2 Coríntios 1:3); “O Deus e
Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (Efésios 1:3, 1 Pedro 1:3); “O Pai da glória” (Efésios
1:17); “O Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (Efésios 3:14). Nesta língua, vemos evidência
clara de como os santos apóstolos tomaram atenção à injunção de seu Mestre. Pois, quan-
do eles pediram a Ele, dizendo: “Senhor, ensina-nos a orar”, Ele respondeu assim: “Quando
orardes, dizei: Pai nosso, que estás nos céus” (Lucas 11:1-2). Isto Ele também ensinava
por meio de exemplo, em João 17:1, 5, 11, 21, 24 e 25. A instrução e exemplo de Cristo fo-
ram registrados para o nosso aprendizado. Nós não somos desatentos de quantos ilegal-
mente e levianamente se dirigiram a Deus como “Pai”, mas seu abuso não garante a nossa
negligência em reconhecer esse relacionamento abençoado. Nada é mais calculado para
aquecer o coração e dar a liberdade de expressão vocal do que uma percepção de que
estamos nos aproximando de nosso Pai. Se temos recebido verdadeiramente “o Espírito
de adoção” (Romanos 8:15), não vamos extingui-lO, mas, por meio dEle, clamemos: “Aba,
Pai”.

A Brevidade E Precisão Da Oração Apostólica

Em seguida, observemos a sua brevidade. As orações dos apóstolos são curtas. Não al-
guns, ou mesmo a maioria, mas todas elas são extremamente breves, a maioria delas
englobava apenas um ou dois versos, e a mais longo estende-se a apenas sete versos.
Como isto repreende as orações longas, sem vida e cansativas de muitos púlpitos. Orações
prolixas são geralmente vazias. Cito novamente Martinho Lutero, desta vez a partir de seus
comentários sobre a oração do Senhor dirigida aos leigos símplices:

“Quando orares deixe que as tuas palavras sejam poucas, mas os teus pensamentos
e afeições muitas, e acima de tudo, deixe-os serem profundos. Quanto menos falar,
melhor orarás. A oração externa e corpórea é aquele zumbido dos lábios, aquele bal-
buciar externo que é feito sem qualquer atenção, e que atinge os ouvidos dos homens;
mas a oração em espírito e em verdade é o desejo interno, os movimentos, os suspiros
que emanam das profundezas do coração. A primeira é a oração dos hipócritas e de
todos os que confiam em si mesmos, a última é a oração dos filhos de Deus, que an-
dam em Seu temor.”

Observe, também, a sua precisão. Embora extremamente breves, ainda assim suas ora-
ções são muito explícitas. Não havia palavras vagas ou meras generalizações, mas pedidos
específicos de coisas definidas. Quanta falha há neste ponto. Quantas orações ouvimos
que eram tão incoerentes e descabidas, tão carentes de sentido e unidade, que, quando o
Amém foi dito mal conseguíamos nos lembrar de uma coisa pela qual tinha sido dado gra-

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ças ou pedido que havia sido feito! Apenas uma impressão borrada permaneceu na mente,
e uma sensação de que o suplicante havia se envolvido em mais uma forma de pregação
indireta do que diretamente orado. Mas examine qualquer das orações dos apóstolos e será
visto, mesmo de relance, que as orações deles são como as que seu Mestre fez em Mateus
6:9-13 e João 17, composto de adorações definitivas e petições com grande definição. Não
há nem moralismo nem pronunciação de banalidades piedosas, mas o derramar diante de
Deus de certas necessidades e um simples pedido pelo provimento delas.

A Carga E Universalidade Das Orações Dos Apóstolos

Considere também a carga delas. Nas orações apostólicas registradas não há suplicas a
Deus para o suprimento de necessidades temporais e (com uma única exceção) não há
pedido para Ele interferir em benefício deles de forma providencial (embora petições para
estas coisas são legítimas quando feitas em proporção adequada às preocupações espiri-
tuais), em vez disso, as coisas que pediam eram totalmente de natureza espiritual e piedosa:
Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento
o espírito de sabedoria e de revelação; tendo iluminados os olhos do vosso entendimento,
para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da
sua herança nos santos; e qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os
que cremos, segundo a operação da força do seu poder (Efésios 1:17-19); segundo as ri-
quezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no
homem interior; para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; a fim de, estando arrai-
gados e fundados em amor, poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos,
qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de
Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus
(Efésios 3:16-19); que o vosso amor cresça mais e mais em ciência e em todo o conheci-
mento, para que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo
algum até ao dia de Cristo (Filipenses 1:9-10); para que possais andar dignamente diante
do Senhor, agradando-lhe em tudo (Colossenses 1:10); para que possamos ser inteira-
mente santificados (1 Tessalonicenses 5:23).

Note também a universalidade delas. Não que seja errado ou não espiritual orar por nós
mesmos, individualmente ou suplicar por misericórdias temporais e providenciais; pretendo,
em vez disso, direcionar a atenção para onde os apóstolos colocaram sua ênfase. Somente
uma vez nós encontramos Paulo orando por ele mesmo, e raramente por pessoas em parti-
cular (como é de se esperar com orações que fazem parte do registro público da Sagrada
Escritura, embora sem dúvida ele orou muito por indivíduos, em secreto). Seu costume
geral era orar por toda a família da fé. Nisso, ele segue de perto o padrão de oração que
nos foi dada por Cristo, que eu gosto de pensar como a Oração da Família. Todos os seus

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pronomes estão no plural: “Pai Nosso”, “dá-nos” (não apenas “dá-me”), “perdoa-nos”, e as-
sim por diante. Assim, encontramos o apóstolo Paulo nos exortando a fazer “súplica por to-
dos os santos” (Efésios 6:18), e em suas orações, ele nos dá um exemplo do mesmo. Ele
implorou ao Pai para que a igreja de Éfeso pudesse “perfeitamente compreender, com
todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e co-
nhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento” (Efésios 3:18-19). Que corretivo
para o egocentrismo! Se eu estiver orando por “todos os santos”, incluo a mim mesmo.

A Omissão Impressionante

Finalmente, deixe-me apontar uma omissão surpreendente. Se todas as orações apostóli-


cas forem lidas com atenção, encontraremos que em nenhuma delas foi dado espaço para
aquilo que ocupa tanta proeminência nas orações dos Arminianos. Nem uma vez encontra-
mos pedidos para que Deus salvasse o mundo em geral, ou derramasse o Seu Espírito
sobre toda a carne, sem exceção. Os apóstolos não oraram pela conversão de uma cidade
inteira onde uma igreja Cristã em particular estava localizada. Nisso eles novamente esta-
vam de acordo com o exemplo dado a eles por Cristo: “Eu não rogo pelo mundo”, disse Ele,
“mas por aqueles que me deste” (João 17:9). Deve-se objetar que o Senhor Jesus foi ali
orar apenas pelos Seus apóstolos ou discípulos imediatos, a resposta é que, quando Ele
estendeu sua oração além deles não era pelo mundo que Ele orou, mas somente para o
seu povo crente até o fim dos tempos (ver João 17:20-21). É verdade que Paulo ensina
“que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos [todas as
classes de] homens; pelos reis e por todos os que estão em eminência” (1 Timóteo 2:1-2a),
quanto a este dever muitos são lamentavelmente negligentes, embora isto não seja para a
sua salvação, mas “para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade
e honestidade” (v. 2b). Há muito a aprender com as orações dos apóstolos.

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Hebreus 13:20-21 – Parte 1

“Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a
nosso Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas, vos aperfeiçoe em toda a boa
obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por
Cristo Jesus, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém.”

Esta oração contém um epítome notável de toda a epístola, uma epístola para a qual cada
ministro do Evangelho deve dedicar atenção especial. Nada mais é tão necessário hoje,
quanto sermões expositivos sobre as Epístolas aos Romanos e aos Hebreus, a primeira
supre o que é mais adequado para repelir o legalismo, o antinomianismo e o Arminianismo
que agora são tão abundantes, enquanto a última refuta os erros cardeais de Roma e expõe
as pretensões sacerdotais dos seus clérigos. Isso fornece o antídoto Divino para o espírito
venenoso do ritualismo que agora está fazendo tais incursões fatais em tantas seções de
um protestantismo decadente. Aquilo que ocupa a parte central neste tratado vitalmente
importante e mui bendito é o sacerdócio de Cristo, que encarna a essência do que foi
prenunciado tanto em Melquisedeque quanto em Arão. No livro de Hebreus é mostrado que
Seu único sacrifício perfeito para sempre deslocou as instituições levíticas e pôs um fim a
todo o sistema judaico. Essa oblação toda-suficiente do Senhor Jesus fez completa expia-
ção pelos pecados de Seu povo, satisfazendo plenamente cada reivindicação legal que a
Lei de Deus tinha sobre eles, tornando assim desnecessário qualquer esforço deles para
apaziguá-lO. “Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santifi-
cados” (Hebreus 10:14). Ou seja, Cristo separou infalível e irrevogavelmente para o serviço
de Deus os que creram, e isso pela excelência de Sua obra consumada.

A Ressurreição Declara A Aceitação Da Obra Do Cristo De Deus

Aceitação de Deus em relação ao sacrifício expiatório de Cristo foi demonstrada pelo fato
de que Deus ressuscitou a Cristo dentre os mortos e o pôs à direita da Majestade nas
alturas. O que caracterizou o Judaísmo foi o pecado, a morte e o afastamento de Deus, o
perpétuo derramamento de sangue e o povo afastado da presença Divina. Porém o que
marca o Cristianismo é um Salvador ressuscitado e entronizado, que afastou os pecados
de Seu povo de diante da face de Deus e garantiu para eles o direito de acesso a Ele.
“Tendo, pois, irmãos, ousadia [liberdade] para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus,
pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo
um grande sacerdote sobre a casa de Deus, cheguemo-nos com verdadeiro coração, em
inteira certeza de fé” (Hebreus 10:19-22a). Assim, somos encorajados a nos aproximarmos
de Deus com plena confiança nos méritos infinitos do sangue e justiça de Cristo, dependendo

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inteiramente destes. Em sua oração, o apóstolo faz súplica para que a totalidade do que
ele havia estabelecido diante deles na parte doutrinária da Epístola seja efetivamente apli-
cada aos seus corações. Em uma breve, mas abrangente frase, Paulo ora para que toda
graça e virtude fossem operadas na vida dos Hebreus redimidos, para o que eles foram
exortados nos capítulos anteriores. Devemos considerar o objeto, o fundamento, o pedido
e a doxologia desta invocação de bênção.

Os Títulos Divinos Invocados Distintamente

“O Deus da paz” é Aquele a quem a oração é dirigida. Como eu indiquei em algum dos ca-
pítulos do meu livro chamado Compilações de Paulo, os vários títulos pelos quais os após-
tolos abordaram a Divindade não foram utilizados de forma aleatória, mas foram escolhidos
com discernimento espiritual. Eles não foram nem tão extremamente pobres na linguagem
a ponto de sempre suplicar a Deus usando o mesmo nome, nem eram tão descuidados a
ponto de se dirigirem a Ele com o primeiro nome que lhes viesse à mente. Em vez disso,
em suas abordagens a Ele, cuidadosamente escolhiam aquele atributo da natureza Divina,
ou aquela relação especial que Deus mantém com o Seu povo, que mais se conformava à
bênção específica que buscavam. O mesmo princípio de discriminação aparece nas ora-
ções do Antigo Testamento. Quando os santos homens do passado buscavam por força,
eles olhavam para o Poderoso. Quando desejavam perdão, eles apelavam para “a multidão
de Suas misericórdias”. Quando eles clamavam por libertação de seus inimigos, eles pleite-
avam a Sua fidelidade à aliança.

O Deus Da Paz

Eu abordei este título “o Deus da paz”, no capítulo 4 de Compilações de Paulo (pp. 41-46),
mas gostaria de explica-lo ainda mais com várias linhas de pensamento.

Primeiro, é um título distintamente Paulino, uma vez que nenhum outro escritor do Novo
Testamento emprega a expressão. Seu uso aqui é uma das muitas provas internas de que
ele era o escritor desta epístola. Ele ocorre seis vezes em seus escritos: Romanos 15:33 e
16:20; 2 Coríntios 13:11; Filipenses 4:9; 1 Tessalonicenses 5:23 e aqui em Hebreus 13:20;
“O Senhor da paz” é usado uma vez em 2 Tessalonicenses 3:16. É evidente, portanto, que
Paulo tinha um prazer especial em contemplar Deus neste caráter particular. E ele bem
poderia, pois este é algo extremamente bendito e abrangente; é por essa razão, que eu fiz
o meu melhor, de acordo com a medida de luz concedida a mim, para expor o seu signifi-
cado. Um pouco mais tarde eu sugerirei o porquê de Paulo, em vez de qualquer outro dos
apóstolos, ter sido aquele que cunhou esta expressão.

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Em segundo lugar, é um título forense, vendo Deus em Seu caráter oficial como Juiz. Isso
nos diz que Ele agora está reconciliado com os crentes. Significa que a inimizade e conflito
que existiam anteriormente entre Deus e os pecadores eleitos, agora chegaram ao fim. A
hostilidade anterior tinha sido ocasionada pela apostasia do homem de seu Criador e
Senhor. A entrada do pecado neste mundo perturbou a harmonia entre o céu e a terra, rom-
peu a comunhão entre Deus e o homem, e marcou o início da discórdia e luta. O pecado
evocou o justo desagrado de Deus e clamou por Sua ação judicial. A alienação mútua se
seguiu; pois, um Deus santo não pode estar em paz com o pecado, estando “irado com os
ímpios todos os dias” (Salmos 7:11). Mas a sabedoria Divina dispusera um modo pelo qual
os rebeldes seriam restaurados ao Seu favor sem a menor diminuição de Sua honra.
Através da obediência e sofrimentos de Cristo a reparação integral foi feita para com a Lei,
e a paz foi restabelecida entre Deus e os pecadores. Pelas operações graciosas do Espírito
de Deus, a inimizade que estava no coração de Seu povo é superada, e eles são trazidos
em leal sujeição a Ele. Assim, a discórdia foi removida e a amizade criada.

Em terceiro lugar, é um título restritivo. Deus é “o Deus da paz” apenas para aqueles que
estão unidos salvificamente a Cristo, pois agora não há nenhuma condenação há para
aqueles que estão nEle (Romanos 8:1). Mas o caso é muito diferente em relação àqueles
que se recusam curvarem-se perante o cetro do Senhor Jesus e a se abrigarem debaixo
de Seu sangue expiatório. “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não
crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” (João 3:36). Observe
que não é que o pecador ainda ficará sob a ira do Deus da Lei, mas que ele já está sob ela.
“Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens,
que detêm a verdade em injustiça” (Romanos 1:18). Além disso, em virtude de sua relação
federal com Adão, todos os descendentes deste são “por natureza filhos da ira” (Efésios
2:3), e entram neste mundo, como os objetos do desprazer judicial de Deus. Longe de ser
“o Deus de paz” para aqueles que estão fora de Cristo, “o SENHOR é homem de guerra”
(Êxodo 15:3). Ele “é tremendo para com os reis da terra” (Salmos 76:12).

“O Deus Da Paz”, Um Título Evangélico

Em quarto lugar, este título, “o Deus de paz”, é, portanto, um título evangélico. A boa nova
que Seus servos são comissionados a pregar a toda criatura é designada “o evangelho da
paz” (Romanos 10:15). Mui apropriadamente é assim nomeado, pois apresenta a Pessoa
gloriosa do Príncipe da paz e da Sua obra todo-suficiente pela qual Ele fez “a paz pelo san-
gue da Sua cruz” (Colossenses 1:20). O empreendimento do evangelista é explicar como
Cristo o fez, isto é, pela Sua entrada na terrível brecha que o pecado havia feito entre Deus
e os homens, e por ter transferido a Ele as iniquidades de todos os que creem nEle, sofren-
do a completa penalidade que era devida por essas iniquidades. Quando o Inocente foi feito

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pecado por Seu povo, Ele veio sob a maldição da Lei e da ira de Deus. É de acordo com o
Seu próprio propósito eterno de graça (Apocalipse 13:8) que Deus o Pai declara: “Desperta,
ó espada, contra o meu pastor, e contra o varão que é o meu companheiro” (Zacarias 13:7).
A justiça, tendo sido satisfeita, Deus está agora apaziguado; e todos os que somos justifi-
cados pela fé “temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5:1).

Em quinto lugar, é, portanto, um título da aliança, pois tudo o que foi acordado entre Deus
e Cristo foi de acordo com a estipulação eterna. “E o conselho de paz haverá entre ambos
os ofícios” (Zacarias 6:13). Foi eternamente concordado que o bom Pastor faria a completa
satisfação pelos pecados do Seu rebanho, reconciliando Deus com eles e eles com Deus.
Esse pacto entre Deus e o Fiador dos seus eleitos é expressamente denominado um “pacto
de paz”, e a inviolabilidade do mesmo aparece nessa bendita declaração: “Porque os mon-
tes se retirarão, e os outeiros serão abalados; porém a minha benignidade não se apartará
de ti, e a aliança da minha paz não mudará, diz o Senhor que se compadece de ti” (Isaías
54:10). O derramamento do sangue de Cristo foi o selo ou ratificação da aliança, como
Hebreus 13:20 prossegue em intimar. Em consequência disso, a face do Juiz Supremo está
envolta em sorrisos de benignidade enquanto Ele contempla o Seu povo em Seu Ungido.

Em sexto lugar, este título “o Deus da paz” é também um título dispensacional, e como tal,
teve um apelo especial para aquele que tão frequentemente o utiliza. Apesar de ser um
judeu por nascimento, e um Hebreu de Hebreus por formação, Paulo foi chamado por Deus
para “pregar aos gentios as insondáveis riquezas de Cristo” (Efésios 3:8). Este fato pode
indicar a razão pela qual esta denominação, “o Deus de paz”, é peculiar a Paulo; pois, ao
passo que os outros apóstolos ministravam e escreviam principalmente para a circuncisão,
Paulo era o apóstolo por excelência para a incircuncisão. Portanto, ele, mais do que qual-
quer um, renderia adoração a Deus em consideração ao fato de que a paz estava sendo
pregada aos que estavam longe, bem como para aqueles que estavam perto (Efésios 2:13-
17). A revelação especial foi feita para ele a respeito de Cristo: “Porque ele é a nossa paz,
o qual de ambos os povos fez um [judeus e gentios crentes]; e, derrubando a parede de
separação que estava no meio [a lei cerimonial, que sob o Judaísmo os havia dividido],
para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz [entre eles], E pela cruz
reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades” (Efésios 2:14-
16). Assim, por conta dele ter recebido essa revelação especial, havia uma propriedade
particular no fato do Apóstolo dos gentios se dirigir a Deus por meio deste título, ao fazer
súplica pelos Hebreus, assim como acontecia quando ele usava este título para orar pelos
gentios.

Por fim, este é um título relativo. Com isto eu quero dizer que ele está intimamente relacio-
nado à experiência Cristã. Os santos não são apenas os sujeitos daquela paz judicial que

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Cristo fez com Deus em nome deles, mas eles também são os participantes da graça Divi-
na, experimentalmente. A medida da paz de Deus que eles fruem é determinada pela medi-
da em que eles são obedientes a Deus, pois a piedade e a paz são inseparáveis. A conexão
íntima que existe entre a paz de Deus e a santificação dos fiéis aparece tanto em 1 Tessa-
lonicenses 5:23, como aqui em Hebreus 13:20-21. Pois em cada passagem a solicitação é
feita pela promoção da santidade prática, e em cada uma, o “Deus da paz” é suplicado.
Quando a santidade reinava sobre todo o universo, a paz também prevalecia. Não houve
guerra no Céu até que um dos chefes dos anjos tornou-se um demônio, e fomentou uma
rebelião contra o Deus três vezes santo. Como o pecado traz conflitos e miséria, assim a
santidade gera paz de consciência. A santidade é agradável a Deus, e quando Ele se
agrada tudo é paz. Quanto mais esta oração é ponderada em detalhe, e como um todo,
mais a adequação de seu discurso aparecerá.

A Ressurreição De Cristo Por Deus, Nosso Argumento

“Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso
Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas” (v. 20). Esta referência à libertação de
Cristo do túmulo eu considero como o argumento sobre o qual o apóstolo baseia o pedido
que segue. Posto que eu considero que este seja um dos versículos mais importantes do
Novo Testamento, darei a minha melhor atenção a cada palavra nele, tanto mais que parte
de seu conteúdo maravilhoso é tão pouco compreendido hoje. Devemos observar, em pri-
meiro lugar, o personagem no qual o Salvador é visto aqui; em segundo lugar, o ato de
Deus em trazê-lO dentre os mortos; em terceiro lugar, a conexão entre o ato e Seu ofício
como “o Deus de paz”; em quarto lugar, como esta causa meritória do mesmo era “o sangue
da aliança eterna”, e em quinto lugar, o poderoso motivo que a causa meritória fornece para
encorajar os santos, com confiança se achegarem ao trono da graça, onde eles podem al-
cançar misericórdia e achar graça para socorro em ocasião oportuna. Que o Espírito Santo
se digne a ser o nosso Guia, enquanto nós, em oração, ponderamos essa porção da ver-
dade.

O Grande Pastor Das Ovelhas

Este título de Cristo era mais pertinente e adequado em uma Epístola aos judeus conver-
tidos, pois o Antigo Testamento lhes havia ensinado a olhar para o Messias nessa função
específica. Moisés e Davi, tipos eminentes dEle, eram pastores. Quanto ao primeiro, é dito:
“Guiaste o teu povo, como a um rebanho, pela mão de Moisés e de Arão” (Salmos 77:20).
Sob o nome do segundo, Deus prometeu o Messias de Israel: “E suscitarei sobre elas um
só pastor, e ele as apascentará; o meu servo [o antitípico] Davi é que as apascentará; ele
lhes servirá de pastor” (Ezequiel 34:23). Que aqui Paulo faz referência a esta profecia em
particular é claro a partir de que ele chegou a dizer: “E farei com elas uma aliança de paz”

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(v. 25). Aqui em Hebreus 13:20, as mesmas três coisas estão reunidas: o Deus de paz, o
grande Pastor e a aliança eterna, e isto de uma forma (em perfeito acordo com o tema da
Epístola) que refutou a concepção errônea que os judeus tinham formado sobre o seu
Messias. Eles imaginavam que Ele lhes garantiria uma libertação exterior, como Moisés
fizera, e um próspero Estado nacional como Davi erguera. Eles não tinham ideia de que Ele
derramaria o Seu precioso sangue e seria colocado no túmulo, embora eles deveriam ter
conhecido e compreendido isso à luz da revelação profética.

Quando Cristo apareceu no meio deles, Ele definitivamente Se apresentou aos judeus nes-
tas características. Ele não apenas declarou: “Eu sou o bom pastor”, mas acrescentou o
seguinte: “o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (João 10:11). João Batista, o precursor
de Cristo, anunciou a Sua manifestação pública desta maneira: “Eis o Cordeiro de Deus,
que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Neste caráter dual, ou sob esta dupla revelação,
o Senhor Jesus havia sido profetizado em Isaías 53 (como visto contra o pano de fundo de
Ezequiel 34): “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava
pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele [ou seja, o Pastor, cujas ovelhas somos
nós!] a iniquidade de nós todos”! (Isaías 53:6; cf. Zacarias 13:7). Observe a congruência
maravilhosa da expressão entre o versículo seguinte da profecia de Isaías (53:7) e a oração
que estamos estudando. Isaías profetiza: “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua
boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus
tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca”. Observe como o mesmo Espírito que
inspirou Isaías leva Paulo a dizer em Hebreus 13:20 que Deus, não “levantou”, mas “tornou
a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas”. O fato de
que Deus trouxe de volta dos mortos este grande Pastor significa que o Pai tinha anterior-
mente O levado à morte como um Substituto, um Cordeiro expiatório, pelos pecados de
Suas ovelhas. Quão minuciosamente exata é a linguagem da Sagrada Escritura e quão
perfeita a harmonia — a harmonia verbal — do Antigo e do Novo Testamento!

Pedro, em sua primeira epístola, sob o Espírito, se apropriou da mesma profecia maravilhosa
sobre o Senhor Jesus. Depois de se referir a Ele como o “cordeiro imaculado e incontami-
nado”, por meio de Quem somos redimidos (1 Pedro 1:18-19), ele passa a citar algumas
das expressões preditivos de Isaías 53, aquela que fala sobre nós “como ovelhas desgar-
radas”; aquela que se refere à virtude salvadora da paixão expiatória de Cristo: “por suas
feridas fostes sarados”; e o ensino geral da profecia, que ao carregar os nossos pecados
em Seu próprio corpo sobre o madeiro, Cristo realizou o acordo celestial com o justo Juiz,
como “o Pastor e Bispo de vossas [nossas] almas” (1 Pedro 2:24-25). Assim, ele foi levado
a expor Isaías retratando o Salvador como um Cordeiro na morte e um Pastor na ressur-
reição. A inescusável ignorância dos judeus sobre Cristo neste ofício particular aparece
ainda mais nisto, ainda que a outro de seus profetas foi anunciado que Deus disse: “Des-

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perta, ó espada, contra o meu pastor, contra o homem que é o meu companheiro, diz o Se-
nhor dos exércitos; fere ao pastor...” (Zacarias 13:7). Ali Deus é visto em Seu caráter judicial
como estando irado com o pastor por nossa causa, uma vez que Ele levou os nossos
pecados, a justiça deve tomar satisfação dEle. Assim, “o castigo de nossa paz” foi colocado
sobre Ele, e o bom Pastor deu a Sua vida pelas ovelhas como uma satisfação das justas
reivindicações de Deus.

Este Grande Pastor

A partir do que foi exposto acima, podemos perceber melhor o motivo pelo qual o apóstolo
Paulo O chamou de: “o grande pastor”, Aquele que não apenas foi prenunciado por Abel,
pelos pastores patriarcais; tipificado por Davi, mas também retratado como o Pastor de
Jeová nas predições Messiânicas. Devemos notar que as Suas duas naturezas foram
contempladas sob esta denominação: “meu pastor [...] o homem que é o meu companheiro,
diz o Senhor dos Exércitos” (Zacarias 13:7). Como o profundo Goodwin apontou séculos
atrás, este título também implica todos os ofícios de Cristo: Sua função profética: “Como
pastor apascentará o seu rebanho” (Isaías 40:11; cf. Salmos 23:1-2); Seu ofício sacerdotal:
“o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (João 10:11); Seu ofício real: pois o mesmo
trecho que anunciou que Ele seria o Pastor sobre o povo de Deus, também O denominou
um “príncipe” (Ezequiel 34:23-24). O próprio Cristo aponta para a ligação entre Seu ofício
real e Sua descrição como um pastor: “E quando o Filho do homem vier em sua glória, e
todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e todas as nações
serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as
ovelhas” (Mateus 25:31-32). Ele é de fato este “grande Pastor”, todo-suficiente para o Seu
rebanho.

Um Pastor Deve Ter Ovelhas

“Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso
Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas”. Veja ali a relação do Redentor com os
remidos. Pastor e ovelhas são termos correlatos, não se pode chamar adequadamente
qualquer homem de um pastor se ele não tem ovelhas. A ideia de Cristo como Pastor im-
plica, necessariamente, que haja um rebanho eleito. Cristo é o Pastor das ovelhas, e não
dos lobos (Lucas 10:3), nem mesmo dos bodes (Mateus 25:32-33), pois Ele não recebeu
nenhuma ordem de Deus para salvá-los. Como a verdade fundamental da redenção
particular nos confronta em inúmeras passagens em toda a Escritura! “Ele não derramou a
Sua vida por todo o rebanho da humanidade, mas pelo rebanho dos eleitos que foi dado a
Ele pelo Pai, como Ele declarou em João 10:14-16, 26” (John Owen).

Observe também como este título indica a Sua Mediação: como o Pastor Ele não é o derra-

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deiro Senhor do rebanho, mas o Servo do Pai, que se encarrega e cuida dele: “Eram teus,
e tu mos deste” (João 17:6). A relação de Cristo em relação a nós é ainda vista na frase
“nosso [não o] Senhor Jesus”. Ele é, portanto, o nosso Pastor: nosso, em Seu ofício pas-
toral, que Ele ainda está mantendo; nosso, enquanto trazido dos mortos, para que nEle
ressuscitemos (Colossenses 3:1).

A Superioridade De Cristo, O Grande Pastor

As palavras “grande pastor das ovelhas” enfatizam a superioridade imensurável de Cristo


sobre todos os pastores típicos e ministeriais de Israel, assim como as palavras “um grande
sumo sacerdote” (Hebreus 4:14) acentuam a Sua eminência sobre Arão e os sacerdotes
Levitas. Da mesma forma, isso denota a Sua autoridade sobre os pastores que Ele coloca
sobre as Suas igrejas, pois Ele é “o Sumo Pastor” (1 Pedro 5:4) em relação a todos os sub-
pastores. Ele é o Pastor das almas; e uma delas vale muito mais do que todo o mundo, tal
é o valor que Ele coloca sobre elas ao redimi-las com o Seu próprio sangue. Esse adjetivo
também olha para a excelência de Seu rebanho, Ele é o grande Pastor sobre um rebanho
inteiro, indivisível composto tanto de judeus quanto de gentios. Assim, Ele declarou: “Ainda
tenho outras ovelhas que não são deste [judeus] aprisco; também me convém agregar es-
tas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor” (João 10:16. Este “um
rebanho”, um único rebanho, compreende todos os santos, tanto do Antigo e do Novo Tes-
tamentos (veja também como o Apóstolo Paulo estabelece essa unidade do povo de Deus,
por sua metáfora da oliveira em Romanos 11). A frase “o grande Pastor” também tem rela-
ção com Suas habilidades: Ele tem um conhecimento específico de todas e cada uma de
Suas ovelhas (João 10:3); Ele tem a habilidade de reuni-las, alimenta-las, e curá-las (Eze-
quiel 34:11-16); e Ele tem poder para preservá-las efetivamente. “E dou-lhes a vida eterna,
e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão” (João 10:28). Então, quão
grandemente nós devemos confiar nEle, amá-lO, honrá-lO, adorá-lO e obedecê-lO!

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Hebreus 13:20-21 – Parte 2

“Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso
Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas”. Nós devemos agora considerar cuidado-
samente o ato especial de Deus em direção ao nosso Salvador que o apóstolo Paulo aqui
utiliza como o seu apelo para a petição que se segue. No grande mistério da redenção,
Deus o Pai sustenta o ofício de Juiz supremo (Hebreus 12:23). Foi Ele quem colocou sobre
o Fiador deles, os pecados de Seu povo. Foi Ele quem solicitou a espada da vingança para
ferir o Pastor (Zacarias 13:7). Foi Ele quem rica e altamente O recompensou e O honrou
(Filipenses 2:9). “Saiba pois com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem
vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (Atos 2:36; cf. 10:36). Assim é no texto agora
diante de nós: a restauração de Cristo a partir do túmulo é aqui vista não como um ato de
poder Divino, mas de justiça Divina. Que Deus é aqui visto exercendo a Sua autoridade
judicial resulta do termo utilizado. Nós sempre seremos perdedores se, em nosso descuido,
deixarmos de observar e devidamente pesar cada variação individual na linguagem da
Sagrada Escritura. Nosso texto não diz que Deus “ressuscitou”, mas sim que Ele “tornou a
trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus”. Isso coloca diante de nós um aspecto contun-
dentemente diferente, contudo ainda mais abençoado da verdade, a saber, a libertação
legal do corpo de nosso Fiador da prisão da morte.

A Ressurreição De Cristo, Parte De Um Processo Legal

Havia um processo legal formal contra Cristo. Jeová depositou sobre Ele todas as iniqui-
dades dos Seus eleitos, e, assim, Ele foi declarado culpado aos olhos da Lei Divina. Assim,
Ele foi justamente condenado pela justiça Divina. Em conformidade com isto, Ele foi lançado
na prisão. Deus irou-se contra Ele como o portador do Pecado. Aprouve ao Senhor esmagá-
lO, exigir a plena satisfação dEle. Mas a dívida sendo paga, a penalidade da Lei tendo sido
infligida, satisfez a justiça e Deus foi apaziguado. Em consequência, Deus o Pai tornou-se
“o Deus da paz”, tanto em relação a Cristo quanto para com aqueles a quem Ele represen-
tava (Efésios 2:15-17). A ira de Deus sendo apaziguada e Sua Lei magnificada e honrada
(Isaías 42:21), Ele, então, exonerou o Fiador, O libertou e O justificou (Isaías 50:8, 1 Timó-
teo 3:16). Assim, isso foi predito: “Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo
da sua vida?” (Isaías 53:8). Em sua excelentíssima exposição de Isaías 53 — praticamente
inalcançável hoje — James Durham (1682) mostrou conclusivamente que o versículo 8
descreveu a exaltação de Cristo depois de Sua humilhação. Ele demonstrou que aqui o
termo “geração” [versão King James] faz referência à Sua duração ou continuidade (como
o faz em Josué 22:27). “Como a Sua humilhação foi baixa, assim a Sua exaltação foi inefá-

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vel: ela não pode ser declarada, nem adequadamente concebida, sendo a sua continuidade
para sempre”.

Resumindo-o em poucas palavras, Durham ofereceu o seguinte como a sua análise de


Isaías 53:8.

1. Algo é aqui afirmado sobre Cristo: “ele foi tirado (ou “elevado”) da opressão e do juízo”.

2. Algo é sugerido, que não pode ser expresso: “quem contará o tempo da sua vida
[continuação]?”

3. A razão é dada em referência a ambos: “Porquanto foi cortado da terra dos viventes”.

A cláusula “Da opressão e do juízo foi tirado” não se limita a chamar a atenção para o fato
de que Cristo foi preso, mantido sob custódia, e levado a julgamento perante o Sinédrio e
os magistrados civis. Pelo contrário, ela nos lembra principalmente que aquela severa humi-
lhação e sofrimento em que Cristo foi trazido ocorreu em consideração à Sua acusação pe-
rante o tribunal de Deus como o Marido e Fiador legal de Seu povo (Suas ovelhas, João
10:14-15), a penalidade devida por aqueles que pecaram contra Deus, Ele estava legal-
mente obrigado a pagar (já que Ele havia concordado voluntariamente em se tornar o
Marido deles). “Pela transgressão do meu povo ele foi atingido” (Isaías 53:8). Os invejosos
líderes Judeus (e seus seguidores), que com mãos ímpias crucificaram e mataram o Prín-
cipe da vida (Atos 2:23; 3:15), não tinham a menor consciência das grandes transações
entre o Pai e o Filho, agora sendo legalmente aplicadas por Sua instrumentalidade. Eles
estavam apenas prosseguindo em sua rebelião contra o Filho de Davi, o popularmente
aclamado Rei de Israel (João 1:49; 12:13), de uma forma consistente com a preservação
de seus próprios interesses egoístas como homens de poder, riqueza e prestígio entre os
Judeus. No entanto, em sua alta traição contra o Senhor da glória, a quem eles não conhe-
ceram (1 Coríntios 2:8) eles executaram a ordem de Deus (Atos 2:23; 4:25-28; cf. Gênesis
50:19-20) ao trazer o Substituto designado para a justiça como se Ele fosse um criminoso
comum.

A palavra “prisão” pode ser considerada mais amplamente por aqueles apertos e pressões
de espírito que o Senhor Jesus resistiu ao sofrer a maldição da Lei, e o julgamento pela
terrível sentença infligida sobre Ele.

Foi ao Seu juízo iminente que Cristo se referiu quando disse: “Importa, porém, que seja
batizado com um certo batismo; e como me angustio até que venha a cumprir-se”! (Lucas

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12:50). E são às dores e confinamento da prisão que Sua agonia no Jardim e Seu brado de
angústia na Cruz devem ser atribuídos. Em última análise, o túmulo se tornou Sua prisão.

A Relevância Da Libertação De Cristo A Partir Da Prisão Da Morte

A palavra hebraica laqach traduzida na cláusula “Da opressão e do juízo foi tirado”, às vezes
significa libertar ou soltar, como um prisioneiro é liberado (veja Isaías 49:24-25; cf. Jeremias
37:17; 38:14; 39:14). A partir da opressão e juízo o Fiador foi retirado ou libertado, de modo
que “a morte não tem mais domínio sobre ele” (Romanos 6:9). Cristo recebeu a sentença
de absolvição Divina, assim como aquele que é julgado como tendo pagado a sua dívida é
libertado pelo tribunal. Cristo não apenas recebeu a absolvição, mas foi efetivamente liber-
tado da prisão, depois de ter pagado o último centavo exigido dEle. Embora Ele tenha sido
levado para a opressão e juízo, quando as plenas exigências da justiça foram cumpridas,
Ele não podia mais ser detido. O apóstolo Pedro expressou desta forma: “Ao qual Deus
ressuscitou, soltas as ânsias [ou “cordas”] da morte, pois não era possível que fosse retido
por ela” (Atos 2:24). Matthew Henry declara: “Ele foi retirado da prisão da sepultura por uma
ordem extraordinária do Céu; um anjo foi enviado com o propósito de remover a pedra e
colocá-lO em liberdade, pois a sentença contra Ele fora revertida, e retirada”. Nesse sentido
Thomas Manton insiste que a cláusula “quem contará o tempo da sua vida?” (Isaías 53:8)
significa quem “contará a glória da Sua ressurreição, como as palavras anteriores contam
a Sua humilhação, sofrimento e morte”?

Manton afirma com razão: “Enquanto Cristo esteve em estado de morte, Ele era efetiva-
mente um prisioneiro, sob a prisão da vingança Divina; mas quando Ele ressuscitou, então
o nosso Fiador saiu da prisão”. De uma forma mui útil, ele passa a mostrar que a força
peculiar da frase “tornou a trazer dos mortos” é melhor explicada pelo honroso compor-
tamento dos apóstolos, quando foram lançados ilegalmente na prisão. No dia seguinte, os
magistrados mandaram quadrilheiros para a prisão, ordenando à sua guarda que os
deixassem sair. Mas Paulo recusou ser “retirado secretamente” e ali permaneceu até que
os próprios magistrados formalmente “os tirassem” (Atos 16:35-39). Assim foi com Cristo:
Ele não saiu da prisão. Assim como Deus O havia “entregue” à morte (Romanos 8:32),
assim Ele “tornou a trazer[-Lhe] dos mortos”. Diz Manton:

Era como se fosse uma absolvição daquelas nossas dívidas, as quais Ele se compro-
meteu a pagar: como Simeão foi liberado quando foram realizadas as condições, e
quando José foi satisfeito com a visão de seu irmão, ele “trouxe-lhes fora a Simeão”
(Gênesis 43:23).

Isso foi Deus, em Seu caráter oficial como o juiz sobre todos, que com justiça libertou

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o nosso Substituto. Apesar de que Cristo, como nosso Fiador, foi oficialmente culpado
e, assim, condenado (Isaías 53:4-8), Ele era pessoalmente inocente e foi absolvido
assim, por Sua ressurreição (Isaías 53:9-11; Hebreus 4:15, 7:26-28, 9:14; 1 Pedro
1:19). Ao trazer Seu Filho da sepultura, Deus estava dizendo que esse Jesus, o verda-
deiro Messias, não morreu por Seus próprios pecados, mas pelos pecados de outros.

O Deus Da Paz Trouxe Cristo Dentre Os Mortos

Agora, observemos brevemente que foi como o Deus da paz que o Pai agiu quando Ele
“tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo”. A perfeita obediência e oblação
expiatória de Cristo tinham satisfeito todos os requisitos da Lei, retiraram as iniquidades
daqueles por quem a expiação foi oferecida, e aplacaram a Deus e O reconciliaram com
eles. Enquanto o pecado permaneceu, não poderia haver paz; mas quando o pecado foi
apagado pelo sangue do Cordeiro, Deus foi propiciado. Cristo tinha “feito a paz pelo sangue
da sua cruz” (Colossenses 1:20), mas enquanto Ele continuou na sepultura não houve
proclamação aberta da mesma. Foi por Seu trazer Cristo dentre os mortos que Deus fez
saber ao universo que Seu sacrifício havia sido aceito. Por meio da ressurreição de Seu
Filho, Deus o Pai declara publicamente que a inimizade havia acabado e a paz estabele-
cida. Ali estava a grande evidência e prova de que Deus fora apaziguado em direção ao
Seu povo. Cristo tinha feito uma paz honrosa, de forma que Deus pudesse ser ao mesmo
tempo “justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:26). Note também da
relação que Cristo sustentou quando Deus O libertou dentre os mortos: não foi como uma
pessoa privada, mas como a Cabeça federal de Seu povo que o Pai lidou com Ele, como
“grande pastor das ovelhas”, de modo que Seu povo foi, então, legalmente liberto da prisão
da morte com Ele (Efésios 2:5, 6).

As Petições De Cristo Por Sua Própria Libertação

É muito abençoado aprender com os Salmos — onde muita luz, não dada no Novo Testa-
mento, é lançada sobre os exercícios do coração do Mediador — que Cristo suplicou a
Deus pelo livramento do túmulo. No Salmo 88 (o tema profético deste é a paixão do Senhor
Jesus) nós O encontramos dizendo: “Chegue a minha oração perante a tua face, inclina os
teus ouvidos ao meu clamor; porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida
se aproxima da sepultura” (vv. 2-3). Desde que as transgressões de Seu povo foram
imputadas a Ele, essas “angústias” foram as tristezas e as tribulações que Ele experimentou
quando os salários que eram devido aos pecados de Seu povo foram infligidos e execu-
tados sobre Ele. Ele passou a exclamar a Deus: “Puseste-me no abismo mais profundo, em
trevas e nas profundezas. Sobre mim pesa o teu furor; tu me afligiste com todas as tuas
ondas” (vv. 6-7). Ali nos é concedida uma visão sobre o que o Salvador sentiu em Sua alma

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sob o golpe de Deus, como Ele suportou tudo o que estava contido na justa e santa maldi-
ção do Pai sobre o pecado. Ele não poderia ter sido levado a um estado inferior. Ele estava
em total escuridão, o sol por algum tempo se recusou a brilhar sobre Ele, como Deus escon-
deu dEle o Seu rosto. Os sofrimentos da alma de Cristo foram o mesmo que “a segunda
morte”. Ele sofreu a totalidade do que era para Ele, como o Deus-homem, o equivalente a
uma eternidade no inferno.

O ferido Redentor passou a dizer: “Estou fechado, e não posso sair” (v. 8). Ninguém, senão
o juiz podia legalmente libertá-lO. “Mostrarás, tu, maravilhas aos mortos, ou os mortos se
levantarão e te louvarão?” (v. 10). Em sua notável exposição, S. E. Pierce declarou:

Estas questões contêm o argumento mais poderoso que o próprio Cristo poderia
incitar diante do Pai por Si próprio, emergindo de Seu atual estado de sofrimento e de
Sua ressurreição do poder da morte. “Porventura os mortos se levantarão e te lou-
varão?”. No entanto, em mim Tu mostrarás prodígios ao levantar meu corpo da sepul-
tura, ou a salvação dos Teus eleitos não pode ser concluída, nem a Tua glória na mes-
ma pode brilhar plenamente. Tuas maravilhas não podem ser declaradas; os mortos
eleitos não podem subir novamente e louvar-Te, como devem, senão sobre o funda-
mento do meu Ser ressurreto.

“Eu, porém, Senhor, tenho clamado a ti” (v. 13). Que luz este Salmo lança sobre estas pala-
vras do apóstolo a respeito de Cristo: “O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com
grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido
quanto ao que temia” (Hebreus 5:7). Na linguagem profética do Salmo 2:8, Deus, o Pai diz
ao Seu Filho: “Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua
possessão”. Da mesma forma, nosso Senhor primeiro clamou por Sua libertação da prisão
do túmulo, e então o Pai “o trouxe”, em resposta ao Seu clamor. Eis como perfeitamente o
Filho do homem está conformado com a nossa total dependência de Deus. Ele, também,
embora Inocente, teve que orar por essas bênçãos que Deus já havia prometido a Ele!

Pelo Sangue Da Aliança Eterna

Em último lugar, considere que o grande ato de Deus aqui citado é dito ser “pelo sangue da
aliança eterna”. Quanto ao significado exato destas palavras não houve pequena confusão
na mente dos diferentes escritores sobre esta Epístola; e enquanto uma prospecção com-
pleta desta interessante questão está realmente fora do escopo do presente artigo, no
entanto, alguns dos mais eruditos de nossos leitores ficariam descontentes se deixássemos
de fazer algumas observações sobre isso. Então, pedirei aos outros que gentilmente supor-
tem-me enquanto eu lido com um detalhe um tanto quanto técnico. Uma leitura cuidadosa

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através da Epístola aos Hebreus mostra que a menção aqui é feita sobre “a aliança” (10:29),
“uma melhor aliança” (8:6), “uma nova aliança” (8:8), e aqui à “aliança eterna”. Não poucos
homens capazes concluíram que esta faça referência à mesma coisa por toda parte, mas
eu não posso concordar com eles. É bastante claro em Hebreus 8:6-13 que a nova e melhor
aliança feita com o Israel espiritual e Judá (isto é, a Igreja) está em oposição à primeira (v.
7) ou velha (v. 13) aliança feita com a nação de Israel no Sinai (que é o “Israel segundo a
carne”). Em outras palavras, o contraste é entre o Judaísmo e o Cristianismo sob dois
pactos ou economias diferentes, ao passo que “a aliança eterna” é a antítese desse pacto
de obras feitas com Adão como a cabeça federal da raça humana.

Embora o pacto das obras foi o primeiro em manifestação, a aliança eterna, ou pacto da
graça, foi o primeiro em ordem de origem. Em todas as coisas Cristo deve ter a preemi-
nência (Colossenses 1:18), e, portanto, Deus entrou em pacto com Ele antes que Adão
fosse criado. Esse pacto foi por diversas vezes designado como o “pacto da redenção” e
como o “pacto da graça”. Deus, nEle, fez plenas disposições e provisões para a salvação
de Seus eleitos. Essa aliança eterna tem sido administrada, sob diferentes economias, ao
longo da história humana, as bênçãos da mesma foram concedidas a indivíduos favore-
cidos através de todas as eras. Sob a Antiga Aliança, ou o Judaísmo, os requisitos e as
disposições da aliança eterna foram tipificados ou prenunciados particularmente por meio
da lei moral e cerimonial; sob a Nova Aliança, ou o Cristianismo, seus requisitos e disposi-
ções estão estabelecidos e proclamados no e pelo Evangelho. Em cada geração, o arrepen-
dimento, a fé e a obediência foram exigidos daqueles que participariam (e participam) de
suas bênçãos inestimáveis (Isaías 55:3). Em seus Esboços de Teologia, o renomado
teólogo A. A. Hodge diz o seguinte:

A frase “mediador da aliança” é aplicada a Cristo três vezes no Novo Testamento (He-
breus 8:6; 9:15; 12:24), mas, como em cada caso, o termo para o pacto é qualificado
por um ou outro adjetivo “novo” ou “melhor”, isso evidentemente aqui é usado para
designar não a aliança da graça propriamente, mas aquela nova dispensação daquela
aliança eterna que Cristo introduziu em pessoa, em contraste com a administração
menos perfeita dela, que foi instrumentalmente introduzida por Moisés.

Cristo, O Mediador De Uma Aliança Eterna

Assim, podemos tomar essas palavras “o sangue da aliança eterna” por seu valor nominal,
como uma referência ao eterno pacto que Deus estabeleceu com Cristo. À luz das frases
anteriores de Hebreus 13:20, é evidente que “o sangue da eterna aliança” tem uma conexão
tripla. Em primeiro lugar, ele é ligado ao título Divino aqui utilizado. Deus tornou-se historica-
mente “o Deus da paz”, quando Cristo fez propiciação e confirmou o acordo eterno com o

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Seu próprio sangue (Colossenses 1:20). Desde antes da fundação do mundo Deus havia
proposto e planejado esta paz entre Ele e os homens pecadores (Lucas 2:13-14) que Cristo
deveria efetivar; tudo estava conectado em conformidade com o pacto que foi eternamente
acordado entre Eles. Em segundo lugar, ele aponta para o fato da morte de Cristo. Como
o justo Juiz sobre todos, Deus, o Pai foi movido pelo derramamento do sangue precioso de
Cristo a restaurá-lO da sepultura e exaltá-lO a um lugar de honra e autoridade suprema
(Mateus 28:18; Filipenses 2:5-11). Visto que o Fiador totalmente cumpriu a Sua parte do
acordo, convinha que o Governador deste mundo O livrasse da prisão como aquilo que era
justamente devido a Ele. Em terceiro lugar, esta frase bendita está ligada ao ofício de Cristo.
Foi pelo derramamento de Seu sangue por eles, de acordo com o pacto da aliança, que o
nosso Senhor Jesus tornou-se “o grande Pastor das ovelhas”, Aquele que buscaria os elei-
tos de Deus, os traria para o rebanho, e ali os ministraria, os proveria e os protegeria (João
10:11, 15).

Deus trazendo o nosso Senhor Jesus dentre os mortos não foi feito simplesmente por con-
trato, mas também por causa de Seus méritos, e, portanto, é atribuído não apenas à “alian-
ça”, mas ao “sangue” dEle. Como o Filho de Deus, Ele não mereceu ou comprou isso, pois
honra e glória Lhe eram devidas; mas como o Mediador Deus-Homem, Ele obteve a Sua
libertação da sepultura como recompensa apenas por Sua obediência e sofrimentos. Além
disso, isso não ocorreu como pessoa privada, mas foi como a Cabeça de Seu povo que Ele
foi libertado, e isso garantiu a Sua libertação também. Se Ele foi restaurado a partir do
túmulo “através do sangue da eterna aliança”, igualmente assim eles devem ser. A Escritura
atribui a nossa libertação do túmulo não somente à morte de Cristo, mas também à Sua
ressurreição. “Porque, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que
em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com ele” (1 Tessalonicenses 4:14; cf. Romanos
4:25). Assim, a garantia é dada para a Igreja quanto à sua redenção completa e final. Deus,
no passado, expressamente fez a promessa ao Pastor: “Ainda quanto a ti, por causa do
sangue da tua aliança, libertei os teus presos da cova em que não havia água [ou seja, a
sepultura]” (Zacarias 9:11). Como foi “por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário”
(Hebreus 9:12), assim também no fundamento de valor infinito deste sangue, nós também
entramos na sala do trono celestial (Hebreus 10:19). Como Ele declarou: “porque eu vivo,
vós também vivereis” (João 14:19).

A Petição Bem Fundamentada

Passamos agora para petição em si. “Ora, o Deus de paz [...] Vos aperfeiçoe em toda a boa
obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por
Cristo Jesus”. Este versículo está intimamente relacionado com o conjunto da anterior, e a
bendita conexão entre eles inculca uma lição de grande importância prática. Esta pode ser
estabelecida, de forma simples, da seguinte maneira: a maravilhosa obra de Deus no pas-

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sado deve aprofundar a nossa confiança em Deus e fazer-nos buscar de Suas mãos, as
bênçãos e misericórdias para o presente. Uma vez que Ele tão graciosamente forneceu tal
Pastor para as ovelhas, uma vez que Ele foi apaziguado em relação a nós e agora nenhuma
carranca permanece em Seu rosto, uma vez que Ele demonstrou tão gloriosamente tanto
o Seu poder e Sua justiça em trazer de volta a Cristo dentre os mortos, uma continuidade
de Seu favor pode ser esperada de forma segura. Devemos olhar com expectativa para
Ele, dia a dia, por todos os suprimentos necessários de graça. Aquele que ressuscitou o
nosso Salvador é bem capaz de nos vivificar e fazer-nos fecundos para toda boa obra.
Olhemos, portanto, para “o Deus de paz” e pleiteemos “o sangue da eterna aliança” em
cada aproximação nossa ao propiciatório.

Mais especificamente, o fato de Deus ter trazido de volta a Cristo dentre os mortos é a Sua
garantia infalível para nós de que Ele cumprirá todas as Suas promessas aos eleitos, mes-
mo todas as bênçãos da aliança eterna. Isso fica claro em Atos 13:32-34: “E nós vos anunci-
amos que a promessa que foi feita aos pais, Deus a cumpriu a nós, seus filhos, ressus-
citando a Jesus; como também está escrito no salmo segundo: Meu filho és tu, hoje te gerei.
E que o ressuscitaria dentre os mortos, para nunca mais tornar à corrupção, disse-o assim
[por meio desta ação]: As santas e fiéis bênçãos de Davi vos darei”. Ao restaurar Cristo
dentre os mortos, Deus cumpriu a grande promessa feita aos santos do Antigo Testamento
(no qual todas as Suas promessas foram praticamente constantes) e deu garantia para o
desempenho e cumprimento de todas as do futuro, assim, concedendo-lhes virtude. As
“fiéis bênçãos de Davi” são as bênçãos que Deus jurou na aliança eterna (Isaías 55:3). O
derramamento do sangue de Cristo ratificou, selou e estabeleceu para sempre todos os
artigos nesta aliança. Deus, ao trazê-lO de volta dentre os mortos, garantiu ao Seu povo
que Ele infalivelmente lhes concederá todos os benefícios que Cristo obteve por eles, por
meio de Seu sacrifício. Todas essas bênçãos: regeneração, perdão, purificação, reconcilia-
ção, adoção, santificação, preservação e glorificação foram dadas a Cristo para os Seus
remidos, e estão seguras em Suas mãos.

Por Sua obra mediadora, Cristo abriu um caminho pelo qual Deus pode conceder, de forma
consistente com toda a glória de Suas perfeições, todas as coisas boas que fluem a partir
dessas perfeições Divinas. Como a morte de Cristo foi necessária para que os crentes
pudessem receber essas “fiéis bênçãos” de acordo com os desígnios Divinos, assim, a Sua
ressurreição foi igualmente indispensável, para que vivo no Céu Ele pudesse comunicar a
nós os frutos de Seu trabalho como que de parto e a recompensa de Sua vitória. Deus
cumpriu a Cristo todos os artigos pelos quais Ele se comprometeu na aliança eterna: Ele O
trouxe dos mortos, O exaltou à Sua mão direita, O investiu com honra e glória, fazendo-O
sentar-Se no trono de mediação, e deu a Ele aquele Nome que está acima de todo nome.
E o que Deus fez por Cristo, a Cabeça, é a garantia de que Ele cumprirá tudo o que Ele
prometeu aos membros de Cristo. É uma consideração mui gloriosa e bendita que o nosso

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tudo, tanto para o tempo e a eternidade, depende inteiramente sobre o que se passou entre
o Pai e Jesus Cristo: que Deus Pai se recorda e é fiel aos Seus compromissos com o Filho,
e que estamos em Sua mão (João 10:27-30). Quando a fé verdadeiramente apreende essa
grande verdade, todo o medo e incerteza são dissipados; toda legalidade e falatório sobre
a nossa indignidade, silenciados. “Digno é o Cordeiro” torna-se o nosso lema e canção!

Esse Tipo De Oração Produz Estabilidade Espiritual

Quão tranquilizador e estabilizador é para nós quando consideramos que temos uma parti-
cipação pessoal em todos os atos eternos que se passaram entre Deus Pai e do Senhor
Jesus Cristo em nosso nome antes mesmo que o homem fosse criado, assim como em
todos os atos que foram acordados entre o Pai e o Filho e em toda a Sua obra mediadora
que Ele operou e consumou aqui abaixo. É somente esta salvação da aliança, em toda a
sua bem-aventurança e eficácia, apreendida pela fé, que pode levantar-nos para fora de
nós mesmos e, acima de nossos inimigos espirituais, que pode permitir-nos triunfar sobre
nossas presentes corrupções, pecados e misérias. É completamente um assunto para a fé
estar envolvida, pois sentimentos nunca podem fornecer a base para a estabilidade espiri-
tual e paz. Tal só pode ser obtida por uma alimentação consistente da verdade objetiva,
que os conselhos Divinos da sabedoria e graça deram a conhecer nas Escrituras. Enquanto
a fé é exercida nisso, enquanto o registro dos compromissos eternos do Pai e do Filho são
recebidos na mente espiritual, a paz e a alegria serão a nossa experiência. E quanto mais
a fé se alimenta de verdade objetiva, mais somos fortalecidos subjetivamente, ou seja, emo-
cionalmente. A fé diz respeito a cada cumprimento passado das promessas de Deus como
uma certa evidência de Seu cumprimento de todo o restante de Suas promessas para nós,
em Seu próprio tempo e modo. Especialmente a fé considerará o cumprimento de Deus de
Sua promessa de trazer o nosso Senhor Jesus da sepultura sob esta luz. O próprio Pastor
foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai? Tão seguramente, então, todas as
Suas ovelhas serão libertadas da morte do pecado, vivificadas em novidade de vida, santifi-
cadas pelo Espírito Santo, recebidas no Paraíso, onde sua guerra finda, e ressuscitarão
corporalmente para a imortalidade no último dia.

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Hebreus 13:20-21 – Parte 3

“Ora, o Deus de paz... vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade,
operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus”. Como indicado anterior-
mente, existe uma ligação muito estreita entre esse versículo e o anterior. Aqui temos a
petição que o apóstolo ofereceu, em nome dos santos Hebreus, ao passo que o conteúdo
do versículo anterior deve ser considerado como o argumento sobre o qual ele baseou seu
pedido. Exatamente quão apropriado, poderoso e comovente fundamento era, prontamente
será visto. O apelo é feito ao “Deus da paz”. Como Aquele que estava reconciliado com o
Seu povo, Ele é suplicado para conceder esta bênção (cf. Romanos 5:10). Além disso, uma
vez que Deus havia trazido novamente nosso Senhor Jesus dentre os mortos, este era um
fundamento muito adequado sobre o qual Ele vivificaria os Seus eleitos espiritualmente
mortos, por meio da regeneração, os resgataria quando eles vagueavam, e completaria a
Sua obra da graça neles. Foi na qualidade de “o grande Pastor das ovelhas” que Nosso
Senhor Jesus foi ressuscitado por Seu gracioso Pai da prisão da sepultura, a fim de que
Ele seja capaz, como Alguém que vive para sempre, de cuidar do rebanho. O nosso grande
Pastor está atualmente suprindo todas as necessidades de cada uma de Suas ovelhas por
meio de Sua intercessão em nosso favor (Romanos 8:34; Hebreus 7:25). Por este meio
eficaz, Ele agora está dispensando dons aos homens, especialmente aqueles dons que
promovem a salvação de pecadores como nós (Efésios 4:8). Além disso, a mesma Aliança
eterna que prometeu a ressurreição de Cristo, também garantiu a glorificação do Seu povo.
Assim, o apóstolo invoca a Deus Pai, para aperfeiçoá-los de acordo com esse compromisso.

Uma Oração Por Santidade E Fecundidade

“Ora, o Deus de paz... vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade”.
Substancialmente, este pedido é por santificação prática e frutificação do povo de Deus.
Enquanto a Aliança eterna foi adequadamente denominada “pacto da redenção”, devemos
cuidadosamente ter em mente que Ele foi designado para proteger a santidade de Seus
beneficiários. Fazemos bem em refletir sobre o clamor profético que fez Zacarias, cheio do
Espirito Santo, que o “Bendito o Senhor Deus de Israel... [deveria] lembrar-se da sua santa
aliança... De conceder-nos que, libertados da mão de nossos inimigos [espirituais], o
serviríamos sem temor [servil], em santidade e justiça perante ele, todos os dias da nossa
vida” (Lucas 1:68, 72, 74-75). E, embora isso tenha também sido apropriadamente desig-
nado “aliança da graça”, ainda assim nós também devemos lembrar que o apóstolo Paulo
disse: “Porque a graça salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens [Gentios,
bem como aos Judeus], ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscên-
cias mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente, aguardando a

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bem-aventurada esperança...” (Tito 2:11-13). O grande objetivo da Aliança eterna, como de
todas as obras Divinas, era a glória de Deus e o bem de Seu povo. Isso foi designado não
apenas como uma demonstração da generosidade Divina, mas também como para prote-
ger e promover as reivindicações da santidade Divina. Deus não entra naquele pacto com
Cristo, a fim de anular a responsabilidade humana, nem o Filho cumpre os seus termos, de
modo a tornar desnecessária uma vida de obediência para os Seus remidos.

Cristo concordou não apenas em propiciar a Deus, mas a regenerar os Seus eleitos. Cristo
se comprometeu não somente a atender todas as exigências da Lei em lugar deles, mas
também a escrevê-la no coração deles e entronizá-la em suas afeições. Cristo compro-
meteu-se não apenas para tirar o pecado de diante de Deus, mas em torná-lo odioso e
abominável aos Seus santos. Antes da fundação do mundo, Cristo se comprometeu não
somente a satisfazer as exigências da justiça Divina, mas a santificar a Sua semente,
enviando o Seu Espírito em suas almas para adequá-las à Sua imagem e incliná-las a se-
guir o exemplo que Ele os deixaria. Tem sido pouquíssimo insistido, nos últimos tempos,
por aqueles que têm escrito ou pregado sobre o Pacto da Graça, que Cristo engajou-se não
somente pela dívida de Seu povo, mas pelo dever deles também; que Ele faria uma aqui-
sição da graça para eles, incluindo uma provisão completa para dar-lhes um novo coração
e um novo espírito, para conduzi-los a conhecer o Senhor, para colocar Seu temor em seus
corações e para torná-los obedientes à Sua vontade. Ele também se envolveu com a
segurança deles, a saber, que, se eles abandonassem a Sua Lei e não andassem em Seus
juízos, Ele visitaria as suas transgressões com a vara (Salmos 89:30-36); que se eles se
desviassem e se afastassem dEle, Ele certamente os restauraria.

Paulo Volta À Profecia Messiânica Em Oração

“Vos aperfeiçoe... para fazerdes a sua vontade”. Foi com o conteúdo da Aliança em seus
olhos que o apóstolo elevou esta petição. Nos capítulos anteriores foi demonstrado que a
profecia do Antigo Testamento apresenta o Messias prometido como o Fiador de uma
aliança de paz e como o “Pastor” de Seu povo. Resta agora ser demonstrado que Ele estava
ali retratado como um pastor que aperfeiçoaria as Suas ovelhas em santidade e boas obras.
“E meu servo Davi será rei sobre eles, e todos eles terão um só pastor” (Ezequiel 37:24).
Aqui o SENHOR anuncia que aquele Messias, a grandiosa semente de Davi, deve, em dias
vindouros unificar o Israel de Deus como seu Rei e os regerá, a todos e sem rival. No
mesmo versículo Ele declara ainda: “e andarão nos meus juízos e guardarão os meus es-
tatutos, e os observarão”. Assim, depois de ter confessado a Deus como “o Deus da paz”,
que libertou o Nosso Senhor Jesus do domínio da morte “através do sangue da eterna alian-
ça”, Paulo faz solicitação que Ele opere em Suas ovelhas “o que perante ele é agradável
por Cristo Jesus”. Pois, ainda que Deus prometeu fazer isso, Ele declara: “Ainda por isso

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serei solicitado pela casa de Israel” (Ezequiel 36:37). É sempre o dever sagrado do povo
da aliança de Deus orar pelo cumprimento de Suas promessas (como testemunham as
várias petições da Oração do Senhor). Vemos, então, que esta oração abrangente, ditada
pelo Espírito, não é apenas um epítome do conteúdo de toda esta epístola, mas também
um resumo das profecias Messiânicas.

A Fé Em Um Deus Reconciliado Produz Desejos Por Sua Glória

“Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a Sua vontade”. Tal petição como essa
pode ser corretamente oferecida enquanto alguém contempla a Deus como “o Deus de
paz”. A fé deve considerá-lO primeiro como reconciliado conosco antes que haja qualquer
verdadeiro desejo de glorificá-lO Enquanto houver algum horror sensível ao pensamento
de Deus, qualquer temor servil produzido pela menção de Seu nome, não podemos servi-
lO, nem fazer o que é agradável aos Seus olhos. “Sem fé é impossível agradar a Deus”
(Hebreus 11:6), e a fé é completamente oposta ao terror. Precisamos primeiro ter certeza
de que Deus não é um inimigo, mas nosso Amigo, antes que a gratidão de amor possam
nos levar a correr no caminho de Seus mandamentos. Essa garantia só pode vir até nós ao
percebermos que Cristo retirou os nossos pecados e satisfez cada reivindicação da lei de
Deus contra nós. “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor
Jesus Cristo” (Romanos 5:1). Cristo fez a paz perfeita e eterna “pelo sangue da sua cruz”
(Colossenses 1:20), em consequência disso, Deus fez com aqueles que se rendem ao jugo
de Cristo e confiança em Seu sacrifício uma “aliança eterna, que em tudo será bem
ordenado e guardado” (2 Samuel 23:5). Isso deve ser apreendido pela fé antes que haja
uma busca confiante dEle, ou de graça necessária para buscá-lO.

De outro ângulo, podemos perceber a adequação desta petição ser dirigida ao “Deus da
paz”, para que Ele agora nos aperfeiçoe em toda boa obra para fazer a Sua vontade. Pois,
fazer a vontade de Deus é mui essencial para o nosso deleite de Sua paz, de uma forma
prática. “Muita paz têm os que amam a tua lei” (Salmos 119:165), pois os caminhos de
Sabedoria “são caminhos de delícias, e todas as suas veredas de paz” (Provérbios 3:17).
Por isso, é absolutamente inútil esperar tranquilidade de coração, se abandonarmos os
caminhos da sabedoria por aqueles de autossatisfação. Certamente, não pode haver paz
de consciência enquanto qualquer pecado conhecido é entretido por nós. O caminho para
a paz é o caminho da santidade. “E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e
misericórdia sobre eles...” (Gálatas 6:16). A não ser que nós realmente resolvamos e nos
esforcemos para fazer aquelas coisas que são agradáveis aos olhos de Deus, haverá um
estado de turbulência e agitação dentro de nós, em vez de paz. Há um significado espiritual
mais profundo do que normalmente é percebido naquele título “Príncipe da paz”, que
pertence ao Filho encarnado. Ele poderia dizer: “eu faço sempre o que lhe agrada” (João

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8:29), e, portanto, uma calma imperturbável era a Sua porção. Que ênfase havia ali na-
quelas palavras: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou” (João 14:27)!

Paulo Ora Pelo Fortalecimento Dos Santos Em Seus Deveres

“Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a Sua vontade”. Esta petição coloca
diante de nós, por evidente implicação, o lado humano das coisas. Essas coisas pelas quais
o apóstolo Paulo fez solicitação em nome dos santos estavam relacionadas com aqueles
deveres que eles eram obrigados a realizar, mas para a cumprimento deles, a assistência
Divina é imperativa. A Aliança eterna previu a entrada do pecado, e assim fez provisão não
somente para retirá-lo, mas também para o estabelecimento da justiça eterna. Essa justiça
é a perfeita obediência de Cristo, pela qual a Lei Divina foi honrada e engrandecida. Essa
perfeita justiça de Cristo é imputada a todos os que creem, mas ninguém crê nEle salvifi-
camente até que o Seu Espírito implante um princípio de justiça em suas almas (Efésios
4:24). E essa nova natureza ou princípio de justiça se evidencia pela realização de boas
obras (Efésios 2:10). Não temos o direito de falar do Senhor Jesus como “O Senhor nossa
justiça”, a menos que sejamos praticantes pessoais da justiça (1 João 2:29). A Aliança
eterna, de modo algum deixa de lado a necessidade de obediência por parte daqueles que
participam de seus benefícios, mas fornece motivos comoventes e poderosos para mover-
nos a isso! A fé salvadora opera pelo amor (Gálatas 5:6), e visa agradar o seu Objeto.

Quanto mais as nossas orações são reguladas pelo ensinamento da Sagrada Escritura
mais elas serão marcadas por essas duas qualidades: os preceitos Divinos serão transfor-
mados em petições; e o caráter e promessas Divinos serão usados como nossos argumen-
tos. Quando o salmista, no curso de suas meditações sobre a Lei de Deus, declarou: “Tu
ordenaste os teus mandamentos, para que diligentemente os observássemos”, ele era, ao
mesmo tempo, consciente de seu fracasso e disse: “Quem dera que os meus caminhos
fossem dirigidos a observar os teus mandamentos”! (Salmos 119:4-5). Mas Ele fez mais do
que apenas lamentar os obstáculos do pecado interior; ele clamou: “Ensina-me, ó Senhor,
o caminho dos teus estatutos... Faze-me andar na vereda dos teus mandamentos, porque
nela tenho prazer” (Salmos 119:33-35). Assim também, quando buscou a confirmação de
sua casa perante o Senhor, Davi se alegou na promessa Divina: “Agora, pois, ó Senhor
Deus, esta palavra que falaste acerca de teu servo e acerca da sua casa, confirma-a para
sempre, e faze como tens falado” (2 Samuel 7:25; veja também 1 Reis 8:25-26; 2 Crônicas
6:17). À medida que nos tornamos mais familiarizados com a Palavra de Deus e descobri-
mos os detalhes do elevado padrão de conduta que é posto diante de nós ali, devemos ser
mais precisos e diligentes na busca de graça para realizar nossos diversos deveres; e à
medida que nos familiarizamos melhor com o “Pai das misericórdias” (2 Coríntios 1:3) e
Suas “grandíssimas e preciosas promessas” (2 Pedro 1:4), nós iremos mais confiantes a
Deus buscando por estes suprimentos.

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Uma Oração Por Restauração Do Vigor Espiritual

“Vos aperfeiçoe em toda a boa obra”. A palavra grega original aqui traduzida perfeitamen-
te é katartizō, que James Strong define como completar perfeitamente, ou seja, para reparar
(literal ou figurativamente), ajustar (veja o Nº 2.675 no Dicionário Grego de Concordância
Exaustiva, de Strong). Compare isso com a palavra teleioō usada em Hebreus 2:10; 10:1,
14; 11:40, que de acordo com Strong significa completar (literalmente), realizar, ou (figurati-
vamente) consumar em caráter (veja o Nº 5.048 no Dicionário Grego de Strong). A palavra
em nosso texto, katartizō, é usada para descrever a atividade exercida por Tiago e João,
filhos de Zebedeu, quando Cristo os chamou: eles estavam “consertando as redes” (Mateus
4:21). Em Gálatas 6:1, o apóstolo Paulo emprega esta palavra por meio de exortação: “Ir-
mãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espiritu-
ais, encaminhai o tal com espírito de mansidão...”. Era, portanto, mais adequado que este
termo fosse aplicado para o caso dos Cristãos Hebreus, que depois de crerem no Evange-
lho, se confrontaram com tal grande e prolongada oposição dos Judeus, de forma geral,
que vacilaram e estavam em necessidade real de serem advertidos contra a apostasia
(Hebreus 4:1; 6:11-12; 10:23, etc.). Como dito no início de nossa exposição, esta oração
reúne não somente toda a instrução doutrinal, mas também as exortações dos capítulos
anteriores. Os Hebreus haviam vacilado e falhado (Hebreus 12:12), e o apóstolo aqui ora
por sua restauração. Os léxicos (como Liddell e Scott, p. 910) nos dizem que katartizō, aqui
traduzido “aperfeiçoe”, literalmente faz referência ao reajuste de um osso deslocado. E não
é muitas vezes assim com o Cristão? Uma triste queda quebra a sua comunhão com Deus,
e ninguém, senão a mão do Divino Médico pode reparar os danos causados. Assim, esta
oração é adequada para todos nós, que Deus retifique cada capacidade de nosso ser para
fazer a Sua vontade e nos corrija para o Seu serviço cada vez que necessitarmos disso.

Observe quão abrangente é esta oração: “Vos aperfeiçoe em toda a boa obra”. Ela inclui,
como Gouge apontou: “todos os frutos de santidade em relação a Deus, e de justiça em
relação ao homem”. Nenhuma reserva nos é permitida pela regra extensa que Deus colo-
cou diante de nós, somos obrigados a amá-lO com todo o nosso ser, ser santificados em
todo o nosso espírito, alma e corpo, e crescermos em Cristo em todas as coisas (Deutero-
nômio 6:5; Lucas 10:27; Efésios 4:15; 1 Tessalonicenses 5:23). Nada menos do que a
perfeição em “toda boa obra” é o padrão pelo qual devemos almejar. A perfeição absoluta
não é possível nesta vida, mas a perfeição da sinceridade é exigida de nós; um esforço
honesto e verdadeiro empenho para agradar a Deus. A mortificação dos nossos desejos, a
submissão a Deus sob tribulações, e o desempenho de obediência imparcial e universal
são sempre o nosso dever sagrado. De nós mesmos somos totalmente incapazes de cum-
prir os nossos deveres, e, portanto, devemos orar continuamente pelo suprimento de graça,
para que possamos realizá-las. Não apenas somos dependentes de Deus para o início de

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toda a boa obra, mas também para a continuidade e progresso da mesma. Imitemos a
Paulo, que disse: “Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas prossigo para
alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não
julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que
atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, Prossigo para o alvo, pelo prê-
mio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3:12-14).

O Conhecimento Divinamente Revelado Requer Obediência

“Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade”. Que Ele, que já vos
familiarizou totalmente com a Sua mente, agora efetivamente vos incline para a realização
da mesma, mesmo a uma continuação de atenção solícita aos seus deveres como povo
redimido, até o fim. Não é suficiente que saibamos a Sua vontade; devemos fazê-la (Lucas
6:46; João 13:17), e quanto mais a fizermos, melhor a entenderemos (João 7:17) e provare-
mos a excelência dela (Romanos 12:2). Essa vontade de Deus que devemos nos exercitar
para realizar não é a vontade secreta de Deus, mas a Sua vontade revelada ou perceptiva,
ou seja, aquelas leis e estatutos, nos quais Deus requer nossa completa obediência (Deute-
ronômio 29:29). A vontade revelada de Deus deve ser a única regra de nossas ações. Há
muitas coisas feitas por Cristãos professos que, apesar de admiradas por eles e aplaudidas
pelos seus companheiros, não são nada mais do que “culto da vontade”, e uma sequência
de “preceitos e doutrinas dos homens” (Colossenses 2:20-23). Os Judeus acrescentaram
suas próprias tradições à Lei Divina, instituindo jejuns e festas de sua própria invenção. Os
iludidos papistas, com suas austeridades corporais, devoções idólatras e recompensas
empobrecidas, são culpados da mesma coisa. Nem estão alguns Protestantes, com suas
privações auto-concebidas e exercícios supersticiosos, livres desse mal Romanista.

“Operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus”. Estas palavras confir-
mam exatamente o que foi dito acima: somente é aceitável a Deus, o que está em conformi-
dade com a regra de que Ele nos deu. As palavras “perante ele” mostram que todas as nos-
sas ações estão sob Sua atenção imediata e são pesadas por Ele. Ao comparar outras Es-
crituras, descobrimos que somente são aprazíveis a Ele as obras que Ele nos ordenou reali-
zar e que são realizadas em Seu temor (Hebreus 12:28). Ele aceitará apenas aquelas que
procedem do amor (2 Coríntios 5:14), e que são feitas com um olhar unicamente fixado em
glorificá-lO (1 Coríntios 10:31). Nosso objetivo constante e esforço diligente não deve ser
nada menos do que isto: “Para que possais [nós] andar dignamente diante do Senhor, agra-
dando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra” (Colossenses 1:10). No entanto, deve-
mos receber capacitação Divina, a fim de fazer isso. Que duro golpe para a autossuficiência
e glória do eu é esta pequena frase, “operando em vós”! Mesmo após a regeneração somos
totalmente dependentes de Deus. Não obstante a vida, luz e liberdade que recebemos dEle,

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não temos força de nós mesmos para fazer o que Ele exige. Cada um tem de reconhecer,
“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o
querer está em mim, mas não consigo realizar o bem” (Romanos 7:18).

Aqui Há Uma Verdade Que Abate O Orgulho

Aqui, de fato, está uma verdade humilhante, mas a verdade é que os Cristãos são, em si
mesmos, incapazes de cumprir o seu dever. Embora o amor de Deus tenha sido derramado
em seus corações e um princípio de santidade (ou nova natureza) tenha sido comunicado
a eles, ainda assim eles são incapazes de realizar o bem que ardentemente desejam fazer.
Eles não somente ainda são mui ignorantes sobre vários dos requisitos da vontade revelada
de Deus, mas o pecado que habita sempre se opõe e procura inclinar seus corações em
direção contrária. Assim, é imperativo que diariamente busquemos a Deus por novos supri-
mentos de graça. Embora assegurados de que Deus certamente completará a Sua boa
obra em nós (Filipenses 1:6), isso não torna desnecessário o nosso clamor a Ele “ao Deus
que por mim [nós] tudo executa” (Salmos 57:2). O privilégio da oração também não nos
dispensa da obrigação da obediência. Ao contrário, na oração devemos pedir-Lhe que nos
vivifique para o cumprimento daqueles deveres que Ele requer. A bênção de acesso a Deus
não é designada para nos dispensar do uso regular e diligente de todos os meios que Deus
designou para a nossa santificação prática, mas se destina a suprir para nossa busca da
bênção Divina sobre o uso de todos os meios de graça. Nosso dever é este: pedir a Deus
para operar em nós “tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses
2:13); para evitar que extingamos o Seu Espírito por indolência e desobediência, especial-
mente depois de ter orado por Suas doces influências (1 Tessalonicenses 5:19); e para
usarmos a graça que Ele já nos concedeu.

“Operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus”. Há uma dupla referência
aqui: (1) a obra de Deus em nós; e (2) a Sua aceitação de nossas obras. É em virtude da
mediação do Salvador que Deus opera; não há comunicação de graça para nós a partir do
Deus da paz, a não ser por meio de e através de nosso Redentor. Tudo o que Deus faz por
nós, é por amor de Cristo. Cada operação graciosa do Espírito Santo em nós é o fruto de
uma obra meritório de Cristo, pois Ele adquiriu o Espírito para nós (Efésios 1:13-14; Tito
3:5-6) e atualmente está nos enviando o Espírito (João 15:26). Todas as bênçãos espirituais
derramadas sobre nós são em consequência da intercessão de Cristo por nós. Cristo não
é apenas a nossa vida (Colossenses 3:4) e nossa justiça (Jeremias 23:6), mas também a
nossa força (Isaías 45:24). “E da sua plenitude todos nós recebemos, e graça sobre graça”
(João 1:16). Os membros do Seu Corpo místico são completamente dependentes de sua
cabeça (Efésios 4:15-16). Nossa frutificação vem por meio de termos comunhão com Cristo,
pela nossa permanência nEle (João 15:5). É muito importante que tenhamos uma compre-

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ensão clara sobre esta verdade, se desejarmos dar ao Senhor Jesus o lugar que Lhe é
devido em nossos pensamentos e afetos. A sabedoria de Deus tem coisas tão planejadas
que cada pessoa da Trindade é exaltada na estima de Seu povo: o Pai como a fonte da
graça, o Filho em Seu ofício de mediação como o canal através do qual toda a graça flui
para nós, e o Espírito Santo, como o doador real disso.

Infinitos Méritos De Cristo, O Fundamento De Aceitação


Por Deus De Nossas Obras E Orações

Mas, essas palavras “por Jesus Cristo”, também têm uma conexão mais imediata com a
frase “o que perante ele é agradável”. Embora nossas obras sejam boas e sejam feitas em
nós por Deus, elas ainda são imperfeitas, uma vez que são maculadas pelos instrumentos
pelos quais são feitas, assim como a luz mais pura é escurecida pela sombra nublada ou
empoeirada da lâmpada através da qual ela brilha. No entanto, apesar de nossas obras de-
feituosas, elas são aceitáveis a Deus, quando feitas em nome de Seu Filho. Nossos melho-
res desempenhos são defeituosos e ficam aquém da excelência daqueles requisitos que a
santidade de Deus demanda, mas os seus defeitos são cobertos pelos méritos de Cristo.
Nossas orações, também, são aceitáveis a Deus somente porque nosso grande Sumo Sa-
cerdote adiciona a elas “muito incenso” e, em seguida, oferece-lhes sobre o altar de ouro
diante do trono (Apocalipse 8:3). Nossos sacrifícios espirituais são “aceitáveis a Deus por
Jesus Cristo” (1 Pedro 2:5). Deus somente pode ser “glorificado por meio de Jesus Cristo”
(1 Pedro 4:11). Nós devemos, então, ao Mediador, não somente o perdão de nossos peca-
dos e a santificação de nossas pessoas, mas também a aceitação de nossos imperfeitos
adoração e serviço a Deus. Como Spurgeon disse apropriadamente em seus comentários
sobre esta frase: “Que nadas e ninguéns nós somos! Nossa bondade não é em nada
nossa”.

Uma Doxologia

“Ao qual seja glória para todo o sempre. Amém”. O apóstolo olhava para a glória de Deus.
E como devemos glorificá-lo? Devemos glorificá-lO por uma caminhada obediente, fazendo
Sua vontade, realizando as coisas que são agradáveis aos Seus olhos, e adorando-O. A
construção de toda a sentença nos permite considerar esta atribuição de louvor como sendo
oferecida, tanto ao “Deus da paz”, a quem a oração é dirigida, ou ao “Grande Pastor das
ovelhas”, que é o antecedente mais próximo do pronome. Desde que a gramática permite
a isso e a analogia da fé nos ensina a incluir tanto o Pai e o Filho em nossa adoração,
então, que a glória seja atribuída a ambos. Que Deus seja louvado, pois Ele agora é “o
Deus de paz”, porque Ele tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus, porque Ele é
fiel aos Seus compromissos na Aliança eterna, porque todos os suprimentos de graça são

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dEle, e por Ele aceita nossa pobre obediência “por meio de Jesus Cristo”. Igualmente adore-
mos o Mediador: porque Ele é “nosso Senhor Jesus”, que nos amou e Se entregou por nós;
porque Ele é o “Grande Pastor das ovelhas”, cuidando e ministrando ao Seu rebanho;
porque Ele ratificou a aliança com o Seu precioso sangue; e porque é por Seus méritos e
intercessão que as nossas pessoas e os serviços são feitos “agradáveis” ao Altíssimo.
“Amém”. Que seja assim! Faça com que os louvores ao Deus redentor e propício sejam
entoados por toda a eternidade!

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1 Pedro 1:3-5 – Parte 1

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande
misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus
Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se
pode murchar, guardada nos céus para vós, que mediante a fé estais guardados na
virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo.”

Alguns extremistas dentre os Dispensacionalistas afirmam e insistem que as últimas sete


epístolas do Novo Testamento (de Hebreus a Judas) não dizem respeito a todos aqueles
que são membros do corpo místico de Cristo, mas são totalmente Judaicas, escritas pelos
apóstolos para a circuncisão e destinadas somente para eles. Tal afirmação feroz e perver-
sa é uma invenção arbitrária deles próprios, pois não há uma palavra nas Escrituras que
fundamenta a reivindicação deles. Pelo contrário, há muito nestas mesmas Epístolas que
repudiam claramente esse ponto de vista. Seguindo o pensamento deles pode-se também
afirmar que as epístolas de Paulo “não são para nós” (santos do século XX), porque elas
são dirigidas a grupos de crentes em Roma, Corinto, Galácia, e assim por diante. A identi-
dade precisa dos Cristãos professos a quem a Epístola aos Hebreus foi originalmente
dirigida não pode ser descoberta. É vital reconhecer, no entanto, que a Epístola é dirigida
àqueles que são “participantes da vocação celestial” (Hebreus 3:1), algo que de modo
algum pertencia à nação Judaica como um todo. Embora a Epístola de Tiago fora escrita
para “as doze tribos que andam dispersas”, no entanto, foi dirigida aos membros dos que
eram gerados de Deus (Tiago 1:18). As Epístolas de João são manifestamente as cartas
de um pai em Cristo aos seus queridos filhinhos (1 João 2:12; 5:21) e, como tal, transmitem
o cuidado solícito do Pai celestial para os Seus próprios, para aqueles que tinham Jesus
Cristo por seu advogado (1 João 2:1). A epístola de Judas é também geral, direcionada
para os “santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo” (v.1).

Àqueles Por Quem Pedro Oferece Esta Doxologia

A primeira Epístola de Pedro é dirigida “aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia,


Capadócia, Ásia e Bitínia” (1 Pedro 1:1). A Versão Americana Padronizada mais literalmen-
te o traduz: “aos eleitos que são forasteiros da Dispersão no Ponto...”, ou seja, para os Ju-
deus que estão ausentes da Palestina, residentes nas terras dos Gentios (cf. João 7:35).
Mas cuidado deve ser tomado para que o termo “estrangeiros” não seja limitado à sua força
literal, mas sim seja dado também o seu sentido figurado e aplicação espiritual. Isso não se
refere estritamente aos descendentes carnais de Abraão, mas sim à sua descendência
espiritual, que eram participantes da vocação celestial, e como tal, estavam longe de seu

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lar. Os patriarcas “...confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Porque...
claramente mostram que buscam uma pátria... desejam uma melhor [do que a Canaã
terrena], isto é, a celestial”. (Hebreus 11:13-16). Mesmo Davi, enquanto reinando como rei
em Jerusalém, fez um reconhecimento similar: “Eu sou um peregrino na terra” (Salmos
119:19). Todos os Cristãos são estrangeiros neste mundo; por enquanto eles “estando no
corpo”, estão “ausentes do Senhor” (2 Coríntios 5:6). Sua pátria está nos Céus (Filipenses
3:20). Assim, era aos peregrinos espirituais (residentes temporários) a quem Pedro escre-
veu, aqueles que tinham sido gerados para uma herança guardada nos Céus para eles (1
Pedro 1:4).

Nem todos os estrangeiros espirituais eram da linhagem natural de Abraão. Há mais do que
uma indicação nesta mesma epístola que, embora possivelmente a maioria deles eram
crentes judeus, contudo de modo algum todos o eram. Assim, no capítulo 2, versículo 10,
depois de afirmar que Deus os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz, o Apóstolo
Pedro passa a descrevê-los com estas palavras: “Vós, que em outro tempo não éreis povo,
mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcan-
çastes misericórdia”. Isso delineia precisamente o caso dos crentes Gentios (cf. Efésios
2:12-13). Pedro está aqui citando Oséias 1:9-10 (onde os “filhos de Israel”, no versículo 10,
referem-se ao Israel espiritual), o que é definitivamente interpretado por “nós” em Romanos
9:24-25: “Os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas
também dentre os gentios? Como também diz em Oséias: Chamarei meu povo ao que não
era meu povo”. Mais uma vez, no capítulo 4, versículo 3, Pedro diz por meio de recordação
para aqueles a quem ele está escrevendo: “Porque é bastante que no tempo passado da
vida fizéssemos a vontade dos gentios, andando em dissoluções, concupiscências, borra-
chices, glutonarias, bebedices e abomináveis idolatrias”. A última categoria de transgressão
só pode referir-se aos Gentios; pois os judeus (quando considerados como uma nação),
desde o cativeiro Babilônico, nunca caíram em idolatria.

A Oração Em Si

Ao examinarmos juntos a oração contida em 1 Pedro 1:3-5, consideremos oito coisas: (1)
a sua conexão, para que percebamos que todos estão incluídos pelas palavras “nos gerou
de novo”; (2) a sua natureza, uma doxologia (“Bendito seja”); (3) o seu Objeto, “o Deus e
Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”; (4) a sua atribuição, “Sua grande misericórdia”; (5) o
seu incitamento, “nos gerou de novo para uma viva esperança”; (6) o seu reconhecimento,
“pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”; (7) a sua substância, “para uma heran-
ça incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós”
e (8) a sua garantia, “que mediante a fé estais guardados”. Há muito aqui de interesse e
profunda importância. Portanto, seria errado para nós apressadamente ignorarmos tal pas-

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sagem com algumas generalizações, especialmente uma vez que ela contém uma tal rique-
za de reflexão espiritual, jubilosa que não deixará de edificar a mente e despertar a vontade
e as afeições de cada santo que medita corretamente sobre ela. Que possamos ser devi-
damente afetados por seu conteúdo e realmente adentremos em seu espírito elevado.

Em primeiro lugar, consideramos a sua conexão. Aqueles em cujo nome o apóstolo ofere-
ceu esta doxologia são citados de acordo com suas circunstâncias literais e figuradas no
versículo 1, e, em seguida, descritos por suas características espirituais: “Eleitos segundo
a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do
sangue de Jesus Cristo” (v. 2). Essa descrição refere-se igualmente a todos os regenerados
em todas as épocas. Quando conectada com a eleição, a “presciência de Deus” não se
refere à Sua presciência eterna e universal, pois esta envolve todos os seres e aconteci-
mentos, passados, presentes e futuros; e, portanto, tem por seus objetos os não-eleitos,
bem como os eleitos. Consequentemente, não há qualquer alusão à previsão de Deus de
nossa crença ou qualquer outra virtude nos objetos de Sua escolha. Em vez disso, o termo
presciência relaciona-se à fonte ou origem da eleição, a saber, a imerecida boa vontade e
aprovação de Deus. Para este sentido da palavra, veja os seguintes: Salmo 1:6; Amós 3:2;
2 Timóteo 2:19. Para um sentido semelhante da palavra previsão, veja Romanos 11:2.
Portanto, a frase “eleitos segundo a presciência de Deus” significa que as pessoas favore-
cidas, assim descritas, foram de antemão amadas por Ele, que foram os objetos de Sua
eterna graça, inalteravelmente agradáveis a Ele, enquanto Ele as previa em Cristo, “... pela
qual nos fez agradáveis [ou “objetos da graça”] a si no Amado” (Efésios 1:4-6).

Obediência, Um Sinal Indispensável Da Obra Salvífica Do Espírito

“Em santificação do Espírito”. É por meio das operações graciosas e eficazes do Espírito
que a nossa eleição por Deus Pai tem efeito (veja 2 Tessalonicenses 2:13). As palavras
“santificação do Espírito” têm referência à Sua obra de regeneração, pela qual somos vivifi-
cados (feitos vivos), ungidos e consagrados ou separados para Deus. A ideia subjacente
de santificação é quase sempre a de separação. Pelo novo nascimento, nós somos distin-
guidos daqueles que estão mortos em pecado. As palavras “para a obediência” aqui em 1
Pedro 1:2 significam que pelo chamado eficaz do Espírito, somos sujeitos ao chamado de
autoridade do Evangelho (versículo 22 e Romanos 10:1, 16) e, posteriormente, para os
seus preceitos. A Eleição nunca promove licenciosidade, mas sempre produz santidade e
boas obras (Efésios 1:4; 2:10). O Espírito regenera os pecadores para uma nova vida de
amável submissão a Cristo, e não a uma vida de autossatisfação. Quando o Espírito santifi-
ca a alma, é a fim de que ela possa adornar o Evangelho por uma caminhada que é regula-
da por ele. É pela sua obediência que um Cristão torna evidente a sua eleição pelo Pai, po-
is anteriormente ele era um dos “filhos da desobediência” (Efésios 5:6). Por sua nova vida
de obediência, ele fornece a prova de uma obra sobrenatural do Espírito em seu interior.

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“E aspersão do sangue de Jesus Cristo”. É importante que nós entendamos a distinção en-
tre a aspersão do sangue de Cristo e o derramamento dele (Hebreus 9:22). O derramamen-
to é em relação a Deus; enquanto que a aspersão é a sua aplicação ao crente, pelo qual
ele obtém o perdão e a paz de consciência (Hebreus 9:13-14; 10:22), e pelo que o seu
serviço é prestado de maneira aceitável a Deus (1 Pedro 2:5).

Uma leitura cuidadosa de toda a epístola torna evidente que estes santos estavam passan-
do por duras provas (veja 1 Pedro 1:6-7; 2:19-21; 3:16-18; 4:12-16; 5:8-9). Cristãos judeus
(que evidentemente compunham a maioria daqueles a quem originalmente Pedro se dirigiu)
já haviam sido severamente oprimidos, perseguidos, não tanto pelo mundo profano quanto
por seus próprios irmãos segundo a carne. Quão amargo e feroz era o ódio de tais judeus
incrédulos é demonstrado não somente a partir do caso de Estevão, mas pelo que o após-
tolo Paulo sofreu nas mãos deles (2 Coríntios 1:24-26). Como forma de incentivo, o apóstolo
Paulo deliberadamente lembrou seus irmãos Hebreus das perseguições que ele já havia
sofrido por amor de Cristo. “Lembrai-vos, porém, dos dias passados, em que, depois de
serdes iluminados, suportastes grande combate de aflições... e com alegria permitistes o
roubo dos vossos bens” (Hebreus 10:32-34). Ao mantermos esse fato em mente, uma me-
lhor compreensão é tida sobre muitos dos detalhes do livro de Hebreus. Além disso, isso
se torna mais evidente por que Pedro tem muito a dizer sobre a aflição, e por que ele se
refere com tanta frequência aos sofrimentos de Cristo. Seus irmãos estavam em necessi-
dade de um estímulo cordial que pudesse encorajá-los à resiliência heroica. Ele, portanto,
alongou-se sobre os aspectos da verdade Divina mais adequados a apoiar a alma, fortale-
cer a fé, inspirar a esperança, e produzir firmeza e boas obras.

Esta Oração É Uma Doxologia, Uma Expressão De Puro Louvor A Deus

Em segundo lugar, examinemos a sua natureza. É um tributo de louvor. Nesta oração, o


apóstolo não está suplicando a Deus, antes está oferecendo adoração a Ele! Este é tanto
o nosso privilégio quanto o dever, enquanto nós derramamos as nossas necessidades dian-
te dEle; sim, um deve sempre ser acompanhado pelo outro. É “com ações de graças” que
somos convidados a fazer com que as nossas “petições sejam em tudo conhecidas diante
de Deus” (Filipenses 4:6). E isso é precedido pela exortação: “Regozijai-vos sempre no
Senhor”, cuja alegria deve encontrar a sua expressão em gratidão e por atribuir a glória a
Ele. Se nós somos adequadamente afetados pelas bênçãos de Deus, não podemos deixar
de bendizer o Doador delas. No versículo 2, Pedro mencionou alguns dos mais notáveis e
abrangentes de todos os benefícios Divinos, e esta exclamação: “Bendito seja o Deus e Pai
de nosso Senhor Jesus Cristo!” é o eco, ou melhor, o reflexo do coração do Apóstolo Pedro,
em resposta à maravilhosa graça de Deus por si e pelos seus irmãos. Esta doxologia espe-
cial também deve ser considerada como um reconhecimento devoto dos favores inestimá-

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veis que Deus concedeu aos Seus eleitos, como ampliado no versículo 3. Enquanto o após-
tolo refletia sobre as gloriosas bênçãos concedidas aos pecadores merecedores do inferno,
seu coração foi inclinado à adoração fervorosa ao benigno Autor delas.

Assim pode ser, assim deve ser, com os Cristãos hoje. Deus não tem filhos mudos (Lucas
17:7). Eles não somente clamam a Ele dia e noite, em sua aflição, mas eles frequentemente
O louvam por Sua Excelência e Lhe dão graças por Seus benefícios. Enquanto eles medi-
tam sobre a Sua grande misericórdia, em tê-los gerado para uma viva esperança, enquanto
eles antecipam, pela fé, a herança gloriosa que, para eles, está reservada nos Céus, e
enquanto eles percebem estes fluxos do favor soberano de Deus vindo a eles através da
morte e ressurreição do Seu Filho amado, eles bem podem exclamar: “Bendito seja o Deus
e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo!”. Doxologias, então, são expressões de santa alegria
e de homenagem em adoração. Em relação ao bendito termo especial, Ellicott mui proveito-
samente observa:

Esta forma da palavra grega é consagrada a Deus somente: Marcos 14:61; Romanos
9:5; 2 Coríntios 11:31. É uma palavra completamente diferente de “bendito” ou “feliz”
das Bem-aventuranças e diferente de “bem-aventurada”, que é disto sobre a mãe de
nosso Senhor em Lucas 1:28, 42. Esta forma dela [em 1 Pedro 1:3] implica que essa
bênção é sempre devida em consideração a algo inerente à pessoa, enquanto aquela
apenas implica uma bênção que foi recebida.

Assim, vemos mais uma vez quão minuciosamente distintiva e precisa é a linguagem da
Sagrada Escritura.

O Glorioso Objeto De Louvor

Em terceiro lugar, nós contemplamos o seu objeto. Esta doxologia é dirigida ao “Deus e Pai
de nosso Senhor Jesus Cristo”, o que é explicado por Calvino, assim:

Porque, como anteriormente, ao chamar a Si mesmo o Deus de Abraão, Ele quis evi-
denciar a diferença entre Ele e todos os falsos deuses; assim, depois que Ele Se mani-
festou em Seu próprio Filho, Sua vontade é não ser conhecido de outro modo, a não
ser nEle. Daí, aqueles que formam suas ideias sobre Deus em Sua pura majestade,
à parte de Cristo, tem um ídolo em vez do verdadeiro Deus, como é o caso dos Judeus
e dos Turcos [isto é, dos maometanos, aos quais podemos acrescentar os Unitaria-
nos]. Todo aquele que, então, procura realmente conhecer ao único Deus verdadeiro,
deve considerá-lO como o Pai de Cristo.

Além disso, em Salmos 72:17, é predito sobre Cristo que “os homens serão abençoados

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nele” e que “todas as nações o chamarão bem-aventurado”. Diante disso, o cantor sagrado
irrompe nesse louvor em adoração: “Bendito seja o Senhor Deus, o Deus de Israel, que só
ele faz maravilhas” (v. 18). Essa foi a forma de doxologia do Velho Testamento (cf. 1 Reis
1:48, 1 Crônicas 29:10); mas a doxologia no Novo Testamento (2 Coríntios 1:3; Efésios 1:3)
é expressa em termos da autorrevelação da Divindade feita na Pessoa de Jesus Cristo:
“Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou” (João 5:23).

Aqui, Deus Pai não é visto absolutamente, mas relativamente, isto é, como o Deus e Pai de
nosso Senhor Jesus Cristo. Nosso Senhor é contemplado em Seu caráter de Mediador, ou
seja, como o Filho eterno investido de nossa natureza. Como tal, o Pai nomeou e enviou-O
em Sua missão redentora. Nessa qualidade e ofício, o Senhor Jesus O confessou e O
serviu, como o Seu Deus e Pai. Desde o início Ele esteve envolvido nos negócios de Seu
Pai, sempre fazendo as coisas que eram agradáveis à Sua vista. Ele foi regulado em todas
as coisas pela Palavra de Deus. Jeová era sua “porção” (Salmo 16:5), Seu “Deus” (Salmos
22:1), Seu “Tudo”. Cristo estava submisso a Ele (João 6:38; 14:28): “a cabeça do Cristo é
Deus” (1 Coríntios 11:3). Na forma de aliança, também, Ele era e é o Deus e Pai de Cristo
(João 20:17), não somente enquanto Cristo esteve aqui na terra, mas mesmo agora que
Ele está no Céu. Isso é claro a partir da promessa de Cristo depois de Sua ascensão: “A
quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá; e escreverei
sobre ele o nome do meu Deus” (Apocalipse 3:12). No entanto, esta subordinação oficial
de Cristo a Deus Pai em nenhum aspecto milita contra, nem modifica a Sua igualdade
essencial com Ele (João 1:1-3; 5:23, 10:30-33).

Pelo Fato De Deus Ser O Pai De Nosso Fiador, Ele É Também Nosso Pai

Deve ser observado atentamente que o louvor aqui é prestado não ao “Deus e Pai do
Senhor Jesus Cristo”, mas de “nosso Senhor Jesus Cristo”. Em outras palavras, a relação
de Deus conosco é determinada por Sua relação com o nosso Fiador. Ele é o Deus e Pai
dos pecadores somente em Cristo. Ele é adorado como o Cabeça da aliança e Salvador
dos Seus eleitos nEle. Este é um ponto de suma importância: a conexão que a Igreja man-
tém com Deus é estabelecida por aquela relação do Redentor com Deus, pois ela é de
Cristo, e Cristo é de Deus (1 Coríntios 3:23). O título “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus
Cristo” é a designação Cristã peculiar e característica da Divindade, contemplando-O como
o Deus da redenção (Romanos 15:6; 2 Coríntios 11:31; Colossenses 1:3). Quando um
israelita O chamava como “o Deus de Abraão, Isaque e Jacó”, ele O reconhecia e confes-
sava não somente como o Criador e Governador moral do mundo, mas também como o
Deus da aliança de sua nação. Assim, quando o Cristão O chama como “o Deus e Pai de
nosso Senhor Jesus Cristo”, ele O reconhece como o Autor da eterna redenção por meio
do Filho encarnado, que voluntariamente tomou o lugar de subserviência e dependência

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nEle. No mais elevado sentido da palavra, Deus não é o Pai de nenhum homem até que
ele se una Àquele a quem Ele comissionou e enviou para ser o Salvador dos pecadores, o
único Mediador entre Deus e os homens.

A linguagem na qual Deus é aqui adorado explica como é que Ele pode ser tão amável e
generoso para o Seu povo. Todas as bênçãos veem de Deus para as criaturas. Ele é quem
lhes deu a existência e supre as suas variadas necessidades. Igualmente assim, todas as
bênçãos espirituais procedem de Deus (Efésios 1:3; Tiago 1:17). O Altíssimo é “benigno
até para com os ingratos e maus” (Lucas 6:35). Mas as bênçãos espirituais são derramadas
a partir dEle não simplesmente como Deus, nem da parte do Pai absolutamente, mas a
partir do “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. No que segue, o apóstolo faz menção
à Sua grande misericórdia, de Seu gerar os eleitos para uma viva esperança, e para uma
herança que transcende infinitamente todo bem terrenal. E na concessão desses favores,
Deus é aqui reconhecido no caráter especial no qual Ele lhes outorga. Se for perguntado,
Como pode um Deus santo dotar homens pecadores com tais bênçãos? A resposta é, como
“o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”. É porque Deus Se agrada do Redentor que
Ele Se agrada dos redimidos. A obra de Cristo mereceu tal recompensa, e Ele a compartilha
com aqueles que Lhe pertencem (João 17:22). Tudo vem para nós do Pai, por meio do
Filho.

Sua Abundante Misericórdia, A Causa Da Eleição Da Graça

Em quarto lugar, vamos refletir sobre a sua atribuição, que é encontrada na frase “sua
grande misericórdia”. Assim como Deus não elegeu porque previu que qualquer um se
arrependeria e creria salvificamente no Evangelho — pois estes são os efeitos de Seu
chamado invencível, o que por sua vez é a consequência e não a causa da eleição — mas,
sim, “de acordo com seu próprio propósito” (2 Timóteo 1:9). Nem Ele regenerou por causa
de quaisquer méritos possuídos pelos sujeitos do mesmo, mas apenas por Sua própria
vontade soberana (Tiago 1:18). Sua grande misericórdia é aqui definida em oposição aos
nossos abundantes deméritos, e na medida em que estamos sensíveis aos nossos demé-
ritos, seremos movidos a prestar louvor à Sua grande misericórdia. Tal é o nosso terrível
caso por causa do pecado, de forma que nada, a não ser a misericórdia Divina pode so-
corrê-lo. Atentem para as palavras de C. H. Spurgeon:

Nenhum outro atributo teria nos ajudado, se a misericórdia fosse negada. Como nós
somos, por natureza, a justiça nos condena, a santidade nos desaprova, o poder nos
esmaga, a verdade confirma a ameaça da lei, e a ira a cumpre. É a partir da misericór-
dia de Deus, que todas as nossas esperanças começam. A misericórdia é necessária
para o miserável, e ainda mais para o pecaminoso. A miséria e o pecado são totalmen-

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te unidos na raça humana, e a misericórdia aqui realiza as suas nobres ações. Meus
irmãos, Deus graciosamente concedeu a Sua misericórdia para nós, e nós devemos
reconhecer que, felizmente, no nosso caso, a Sua misericórdia tem sido grande mise-
ricórdia!

Nós estávamos contaminados com pecado abundante, e somente a multidão das


Suas benignidades poderia ter retirado esses pecados. Nós estávamos infectados
com um mal abundante, e somente misericórdia transbordante alguma vez poderia
nos curar de toda a nossa doença natural, e fazer-nos encontrar o Céu. Nós temos
recebido graça abundante até agora; temos feito grandes saques no erário¹ de Deus,
e da Sua plenitude todos nós recebemos graça sobre graça. Onde abundou o pecado,
superabundou a graça... Tudo em Deus é em grande escala. Grande poder, Ele estre-
mece o mundo. Grande em sabedoria, Ele controla as nuvens. Sua misericórdia é
compatível com Seus outros atributos: é a misericórdia Divina, misericórdia infinita!
Você pode medir a Sua Divindade antes que possa contabilizar a Sua misericórdia.
Ela bem pode ser chamada de “abundante”, se ela é infinita. Ela sempre será abun-
dante, pois tudo o que pode ser extraído de lá será apenas como a gota de um balde
no próprio mar. A misericórdia que lida conosco não é a misericórdia do homem, mas
a misericórdia de Deus, e, portanto, uma misericórdia sem limites [Um Colar de
Pérolas, Sermão Nº 948 – N. do R.].

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1 Pedro 1:3-5 – Parte 2

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande miseri-
córdia, nos gerou de novo para uma viva esperança”. Começaremos este capítulo com uma
continuação de nossa análise da atribuição desta doxologia. Deus o Pai é aqui visto como
a Cabeça da aliança, do Mediador e dos eleitos de Deus nEle, e é, portanto, chamado por
Seu distintivo título Cristão (veja, por exemplo, Efésios 1:3). Este título O apresenta como
o Deus da redenção. “Grande misericórdia” é atribuída a Ele. Esta é uma das Suas perfei-
ções inefáveis, mas o seu exercício, como de todos os Seus outros atributos, é determinado
por Sua própria vontade imperial (Romanos 9:15). Muito se fala na Escritura sobre esta
excelência Divina. Lemos sobre sua “misericórdia” (Lucas 1:78). Davi declara: “Pois grande
é a tua misericórdia” (Salmos 86:13); “Pois tu, Senhor, és... abundante em benignidade”
(Salmos 86:5). Neemias fala de Sua “grande misericórdia” (Neemias 9:27). Ouça Davi
descrever o efeito de meditar sobre esse atributo, enquanto ele o tinha experimentado prati-
camente, sobre sua adoração: “Porém eu entrarei em tua casa pela grandeza da tua benig-
nidade; e em teu temor me inclinarei para o teu santo templo” (Salmos 5:7). Bendito seja o
Seu nome porque “a sua benignidade dura para sempre” (Salmos 107:1). Bem, então cada
crente pode se unir ao salmista, ao dizer: “Eu, porém, cantarei... a tua misericórdia” (Salmos
59:16). Para este atributo especial, os santos errantes devem olhar: “apaga as minhas
transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias” (Salmo 51:1).

A Misericórdia Geral E Especial De Deus Devem Ser Distinguidas

Deve ser pontuado que há tanto uma misericórdia geral quanto uma especial. Essa distin-
ção é necessária e importante, sim, algo vital; pois muitas pobres almas estão contando
com a primeira, em vez de olhar pela fé para esta última. “O Senhor é bom para todos, e
as suas misericórdias são sobre todas as suas obras” (Salmos 145:9). Considerando quan-
ta maldade abunda neste mundo, o coração discernente e contrito pode dizer com o sal-
mista: “A terra, ó Senhor, está cheia da tua benignidade...” (Salmo 119:64). Para o bem de
nossas almas, é essencial que nós compreendamos a distinção revelada na Palavra de
Deus entre esta misericórdia geral e a especial benignidade de Deus em relação aos Seus
eleitos. Em virtude de Sua eminência como um dom de Deus, Cristo é denominado “mise-
ricórdia a nossos pais” (Lucas 1:72). Quão acertadamente o salmista declara: “Porque a tua
benignidade se estende até aos céus” (Salmos 108:4; cf. Efésios 4:10); pois ali o propicia-
tório de Deus é encontrado (veja Hebreus 9, especialmente vv. 5, 23, 24), sobre o qual o
Salvador exaltado está agora assentado, administrando os frutos de Sua obra redentora. É
para lá que a alma condenada e sobrecarregada pelo pecado deve olhar por misericórdia
salvadora. Concluir que Deus é misericordioso demais para condenar alguém eternamente
é uma ilusão com que Satanás fatalmente engana multidões. A misericórdia do perdão é

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obtida somente através da fé no sangue expiatório do Salvador. Rejeite-O, e a condenação
Divina é inevitável.

Esta Misericórdia É Abundante Porque Ela É Misericórdia Da Aliança

A misericórdia aqui celebrada por Pedro é mui claramente particular e distintiva. É aquela
do “Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”, e flui para Seus objetos favorecidos “pela
[por meio da] ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”. É entre essas duas frases
que encontramos estas palavras firmemente apresentadas: “que, segundo a sua grande
misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança”. Assim, ela é uma misericórdia
pactual, misericórdia redentora, misericórdia regeneradora. Justamente ela é denominada
“grande misericórdia”, especialmente tendo em vista o Doador. Pois esta abundante mise-
ricórdia é emitida a partir do autossuficiente Jeová, que é infinito e imutavelmente bendito
em Si mesmo, que não teria sofrido nenhuma perda pessoal se Ele abandonasse toda a
raça humana à destruição. Foi de Sua mera boa vontade que Ele assim não o fez. Ela é
vista como “grande misericórdia”, quando olhamos o caráter de seus objetos, ou seja, rebel-
des depravados, cujas mentes eram inimigas contra Deus. Ela também aparece assim,
quando contemplamos a natureza de suas bênçãos peculiares. Elas não são as mais co-
muns e temporais, como a saúde e força, sustento e preservação que são concedidas aos
ímpios, mas os benefícios espirituais, celestiais e eternos, tais como nunca havia entrado
na mente do homem conceber.

Ainda é mais vista assim, como “grande misericórdia”, quando contemplamos os meios
através dos quais essas bênçãos são encaminhadas para nós: “pela ressurreição de Jesus
Cristo dentre os mortos”, o que pressupõe necessariamente Sua encarnação e crucificação.
Que outra linguagem, senão “grande misericórdia” poderia adequadamente expressar o Pai
enviando o Seu Filho amado para tomar sobre Si a forma de servo, assumir a Si mesmo
em carne e osso, e de ter nascido em uma manjedoura, tudo para o bem daqueles cujas
inumeráveis iniquidades mereciam o castigo eterno? Esse Ser bendito veio aqui para ser o
Fiador do Seu povo, para pagar as suas dívidas, para sofrer em seu lugar, para morrer, o
justo pelos injustos. Portanto, Deus não poupou Seu próprio Filho, mas chamou a espada
da justiça para feri-lO. Ele O entregou à maldição, para que Ele pudesse nos dar “também
com ele todas as coisas” (Romanos 8:32). Assim, ela é uma misericórdia justa, como o
salmista declara: “A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram”
(Salmos 85:10). Foi na cruz que os atributos aparentemente conflitantes da misericórdia e
da justiça, do amor e da ira, da santidade e da paz se uniram, assim como as várias cores
da luz, quando separadas por um prisma natural de neblina, são vistas maravilhosamente
unidas no arco-íris, o sinal e emblema do Pacto (Gênesis 9:12-17; Apocalipse 4:3).

O Meditar Sobre O Milagre Do Novo Nascimento Evoca Louvor Fervoroso

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Em quinto lugar, consideremos o incitamento desta doxologia, o qual é encontrado nas se-
guintes palavras: “que (quem), segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para
uma viva esperança”. Foi a constatação de que Deus havia vivificado aqueles que estavam
mortos em pecados que moveu Pedro a bendizê-lO com tanto fervor. As palavras “nos
gerou” referem-se à regeneração deles. Mais tarde, no capítulo, o apóstolo descreve-os
como tendo sido “de novo gerados” (v. 23) e no próximo capítulo dirige-se a eles como
“meninos novamente nascidos” (1 Pedro 2:2). Uma vida nova e espiritual, Divina em sua
origem, foi dada a eles, forjada em suas almas pelo poder do Espírito Santo (João 3:6).
Essa nova vida foi dada com o propósito de formar um novo caráter e para a transformação
da conduta deles. Deus enviou o Espírito de Seu Filho aos seus corações, comunicando,
assim, uma santa disposição, que, como o Espírito de adoção (Romanos 8:15), os inclinou
a amá-lO. Isso é denominado: uma nova geração, não somente porque é nessa ocasião
que a vida espiritual começa e que uma semente santa é implantada (1 João 3:9), mas tam-
bém porque uma imagem ou semelhança do próprio Progenitor é transmitida (1 João 5:1).
Como caído Adão “gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem” (Gênesis
5:3), assim acontece com o Cristão no novo nascimento: “E vos vestistes do novo [homem],
que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Colossenses
3:10).

Nas palavras “nos gerou de novo”, há uma dupla alusão: uma comparação e um contraste.
Em primeiro lugar, tal como Deus é a causa eficaz de nossa existência, assim Ele é também
de nosso bem-estar; nossa vida natural vem de Deus, e assim também acontece com a
nossa vida espiritual. Em segundo lugar, o apóstolo Pedro tem a intenção de distinguir o
nosso novo nascimento do antigo. Em nossa primeira geração e nascimento nós fomos
concebidos em pecado e formados em iniquidade (Salmos 51:5); mas em nossa regene-
ração somos criados “em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4:24). Pelo novo nasci-
mento somos libertos do poder reinante do pecado, pois somos, então, feitos “participantes
da natureza divina” (2 Pedro 1:4). A partir de agora há um conflito perpétuo dentro do crente.
Não somente a carne cobiça contra o espírito, mas o espírito cobiça contra a carne (Gálatas
5:17). Não é suficientemente reconhecido e compreendido que a nova natureza ou princípio
da graça necessariamente faz guerra contra a velha natureza ou princípio do mal. Esta
geração espiritual é atribuída à “grande misericórdia” de Deus, pois ela não foi induzida por
nada em ou de nós. Nós não tivemos nem mesmo um desejo por Ele; em todos os casos
Ele é capaz de declarar: “Fui achado daqueles que não me buscavam” (Isaías 65:1; cf.
Romanos 3:11). Como crentes O amam porque Ele os amou primeiro (1 João 4:19), da
mesma forma eles não se tornam buscadores de Cristo até que Ele primeiro os procure e
eficazmente os chame (Lucas 15; João 6:44; 10:16).

Esta geração acontece de acordo com a grande misericórdia de Deus. A misericórdia foi

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mais eminentemente demonstrada aqui. Pois a regeneração é a bênção fundamental de
toda a graça e glória, sendo a primeira manifestação aberta de que os eleitos recebem do
amor de Deus por eles. “Mas quando apareceu a benignidade e amor de Deus, nosso Sal-
vador, para com os homens, não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segun-
do a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito
Santo” (Tito 3:4-5). Como Thomas Goodwin tão bem expressou:

O amor de Deus é como um rio ou nascente, que corre no subsolo, e assim tem feito
desde a eternidade. Quando ele rompe em primeiro lugar? Quando um homem é efi-
cazmente chamado, então, este rio, que esteve subterrâneo desde a eternidade, e por
meio de Cristo na cruz, irrompe no próprio coração de um homem também.

É então que somos, experimentalmente, feitos filhos de Deus, recebidos em Seu favor, e
conformados à Sua imagem. Aí está uma notável demonstração de Sua benignidade. No
novo nascimento o amor de Deus é derramado no coração, e este é a introdução, bem
como o seguro penhor de todas as outras bênçãos espirituais, para o tempo e a eternidade.
Como o amor de Deus, ao predestinar, garante nosso chamado eficaz ou regeneração,
assim a regeneração garante a nossa justificação e glorificação (Romanos 8:29-30).

A Obra Divina Da Regeneração Precede O Nosso Arrependimento E Fé

Refaçamos agora os nossos passos, seguindo novamente sobre o fundamento que abran-
gemos, mas na ordem inversa. Até que uma alma seja nascida de Deus não podemos ter
qualquer apreensão espiritual da misericórdia Divina. Antes deste milagre da graça acon-
tecer, ela está possuída, mais ou menos, de um espírito farisaico. Bendizer sinceramente
a Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo por Sua grande misericórdia, é o reconhecimen-
to sincero de alguém que se afastou com repugnância dos trapos imundos de sua justiça
própria (Isaías 64:6) e que não coloca nenhuma confiança no carne (Filipenses 3:3). É
igualmente verdade que nenhuma pessoa não-regenerada já tem a sua consciência asper-
gida com o sangue apaziguador de Cristo, pois até que a vida espiritual seja transmitida,
arrependimento evangélico e fé salvadora são moralmente impossíveis. Portanto, não pode
haver compreensão de nossa desesperada necessidade de um Salvador, ou qualquer
confiança real nEle até que sejamos vivificados (feitos vivos) pelo Espírito Santo (Efésios
2:1), ou seja, nascermos de novo (João 3:3). Ainda mais evidente é que, desde que uma
pessoa permanece morta em pecado, com sua mente posta em inimizade contra Deus
(Romanos 8:7), não pode haver obediência aceitável a Ele; porque Ele nem se ilude nem é
subornado por rebeldes. E certo é que ninguém que está apaixonado pelos enfeites colo-
ridos deste mundo se conduzirá como “estrangeiros e peregrinos sobre a terra”; pois estão
perfeitamente em casa aqui.

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A Regeneração Produz Uma Viva Esperança

“Nos gerou de novo para uma viva esperança”. Este é o imediato efeito e fruto do novo
nascimento, e é uma das marcas características que distinguem os regenerados dos não-
regenerados. Esperança sempre diz respeito a algo futuro (Romanos 8:24-25), sendo uma
grande expectativa de algo desejável, uma antecipação de um bem prometido, seja real ou
imaginário. O coração do homem natural é largamente flutuante, e seus espíritos mantidos,
por contemplações de alguma melhoria em sua sorte que aumentará a sua felicidade neste
mundo. Mas na maioria dos casos, as coisas sonhadas jamais se materializam, e mesmo
quando o fazem, o resultado é sempre decepcionante. Pois nenhuma satisfação real da al-
ma pode ser encontrada em qualquer coisa sob o sol. Se tais almas desiludidas têm estado
sob a influência da religião feita pelo homem, então elas tentarão se convencer a olhar para
a frente, esperando por algo muito melhor para eles mesmos no futuro. Mas tais expecta-
tivas provarão ser igualmente vãs, pois elas são apenas as fantasias carnais de homens
carnais. A falsa esperança do ímpio (Jó 8:13), a esperança presunçosa de quem nem reve-
rencia a santidade de Deus, nem teme a Sua ira, mas que conta com a Sua misericórdia, e
a esperança morta de um professo sem graça, apenas zombarão de seus possuidores.

A Esperança Do Cristão É Tanto Viva Quanto Vivificante

Em contraste com as expectativas ilusórias acarinhadas pelo não-regenerado, os eleitos de


Deus são gerados de novo para uma esperança real e substancial. Esta esperança, que
preenche suas mentes e age sobre suas vontades e afeições (assim alterando radicalmente
a orientação de seus pensamentos, palavras e ações) é baseada nas promessas objetivas
da Palavra de Deus (que são resumidas no v. 4). Na maior parte de suas ocorrências, o
particípio adjetivo Grego zaō (viver; Nº 2198, no Dicionário grego de Strong) é traduzido
como “vivificante”, embora em Atos 7:38 (como aqui em 1 Pedro 1:3) ele é traduzido por
viva. Ambos os significados são precisos e apropriados neste contexto. A esperança do
Cristão é segura e firme (Hebreus 6:19), pois repousa sobre a palavra e juramento dAquele
que não pode mentir. É o dom da graça Divina (2 Tessalonicenses 2:16), um fruto do
Espírito (Romanos 5:1-5), inseparavelmente ligado à fé e ao amor (1 Coríntios 13:13). É
uma esperança viva porque ela é exercida por uma alma vivificada, sendo um exercício da
nova natureza ou princípio da graça recebida na regeneração. É uma esperança vivificante
porque ela tem a vida eterna como o seu objeto (Tito 1:2). Que gloriosa mudança ocorreu
antes de sermos gerados de Deus, muitos de nós éramos cativos de “uma certa expectação
horrível de juízo” (Hebreus 10:27), e, com medo da morte, éramos por “por toda a [nossa]
vida sujeitos à servidão” (Hebreus 2:15). Ela também é chamada de “uma viva esperança”,
porque é imperecível, uma que olha e dura para além do túmulo. Se a morte alcançar o seu
possuidor, longe de frustração, a esperança, então, entra em sua fruição.

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Esta esperança interior do crente não é apenas uma viva, mas vivificante, pois ela é como
a fé e o amor, um princípio ativo em sua alma, animando-o à paciência, firmeza e perseve-
rança no caminho do dever. Nisso ela difere radicalmente da esperança morta dos forma-
listas religiosos e professos vazios, porque a “fé” deles nunca os estimula à atividade es-
piritual ou não produz nada para distingui-los dos mundanos respeitáveis que não fazem
nenhuma profissão de fé. É a posse e exercício desta viva esperança que dá demonstração
de que temos sido “gerados de novo”. Por geração Divina uma vida espiritual é comunicada,
e esta vida se manifesta por desejos pelas coisas espirituais, por uma busca de satisfação
em objetos espirituais, e por um desempenho alegre dos deveres espirituais. A autentici-
dade e a realidade desta “viva esperança” são, por sua vez, é evidenciada por sua produção
de uma prontidão para a negação de si mesmo e pelo suportar das aflições, assim agindo
como “âncora da alma” (Hebreus 6:19) em meio às tempestades da vida. Esta esperança
distingue-se ainda mais, ao purificar o seu possuidor. “E qualquer que nele tem esta espe-
rança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” (1 João 3:3). É também uma “viva
esperança” na medida em que anima e vivifica o seu possuidor; pois, enquanto ele vê o
bendito alvo, a coragem é transmitida e a inspiração concedida, habilitando-o a perseverar
até o fim de suas tribulações.

A Virtude Salvífica Da Ressurreição De Cristo

Em sexto lugar, consideremos o reconhecimento desta oração, ou seja, “a ressurreição de


Jesus Cristo”. A partir da posição ocupada por essas palavras, é claro que elas estão rela-
cionadas e governam as palavras anteriores, bem como o versículo que se segue. Igual-
mente óbvio é que a ressurreição de Cristo implica a Sua vida e morte anteriores, embora
cada uma possua seu próprio valor distintivo e virtude. A conexão entre a ressurreição de
Cristo e o exercício da grande misericórdia de Deus o Pai, ao trazer-nos da morte para a
vida, e por colocar em nossos corações uma viva esperança, e por nos trazer para uma
herança gloriosa é algo mui real e profundo e como tal, exige a nossa atenção devota. O
Salvador ressuscitando dentre os mortos foi a prova crítica da origem Divina de Sua missão
e, portanto, uma ratificação do Seu Evangelho; foi o cumprimento das profecias do Antigo
Testamento a respeito dEle, e, assim, foi provado que Ele é o Messias prometido; foi a rea-
lização de Suas próprias previsões, e, assim, foi certificado que Ele é um verdadeiro profeta.
Isso determinou o contexto entre Ele e os líderes judeus. Eles O condenaram à morte como
um impostor, mas pela restauração do templo do Seu corpo em três dias, Ele demonstrou
que eles eram mentirosos. Ele testemunhou a aceitação pelo Pai de Sua obra redentora.

Há, no entanto, uma ligação muito mais estreita entre a ressurreição de Cristo dentre os
mortos e a esperança da vida eterna que está estabelecida diante de Seu povo. Sua emer-
são em triunfo a partir do sepulcro forneceu indubitável prova da eficácia do Seu sacrifício

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propiciatório, pelo qual Ele havia retirado os pecados daqueles por quem ele foi oferecido.
Isso sendo cumprido, pela Sua ressurreição, Cristo trouxe justiça eterna (Daniel 9:24), ga-
rantindo, assim, para o Seu povo a recompensa eterna, devida a Ele por Seu cumprimento
da Lei de Deus, por Sua própria obediência perfeita. Ele, que foi entregue à morte por nos-
sos pecados ressuscitou para nossa justificação (Romanos 4:25). Ouçam as palavras de
John Brown (a quem, devido ao comentário sobre 1 Pedro, eu devo muito):

Quando Deus “tornou a trazer dentre os mortos a nosso Senhor Jesus, grande pas-
tor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança”, Ele manifestou como sendo “o Deus
da paz”, a Divindade pacificada. Ele “o ressuscitou dentre os mortos, e lhe deu glória,
para que a vossa fé e esperança estivessem em Deus” (1 Pedro 1:21). Se Jesus não
tivesse ressuscitado, a nossa fé seria vã, e permaneceríamos nos nossos pecados (1
Coríntios 15:17), e sem esperança. Mas agora que Ele ressuscitou,

Nosso Fiador libertado, nos declara livres,


Por cujas ofensas Ele foi apreendido;
Em Sua libertação, a nossa própria libertação vemos,
E nos alegramos em ver Jeová satisfeito.

Mas mesmo isso não é tudo. A ressurreição de Nosso Senhor deve ser vista não ape-
nas em conexão com Sua morte, mas com a glória que se seguiu. Ressurreto dentre
os mortos, Ele recebeu “poder sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos
quantos lhe deste” [João 17:2]. Como isso é projetado para incentivar a esperança,
pode ser facilmente apreendido: “Porque ele vive, nós também viveremos”. Tendo as
chaves da morte e do mundo invisível, Ele pode e vai ressuscitar-nos da morte, e dar-
nos a vida eterna. Ele está sentado à direita de Deus. “Porque já estais mortos, e a
vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida,
se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória” [Colossenses
3:3-4]. Ainda não estamos na posse da herança; mas Ele, nossa cabeça e represen-
tante, está: “Mas agora ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas”
[Hebreus 2:8]. Quanto ao Capitão de nossa salvação, “Vemos, porém, coroado de
glória e de honra aquele Jesus... por causa da paixão da morte” [Hebreus 2:9]. A
ressurreição de Cristo, quando considerada em referência à morte que a precedeu e
a glória que a seguiu, é o grande meio de produção e fortalecimento da esperança da
vida eterna.

Pela fé, contemple agora Cristo sentado à direita da Majestade nas alturas, de onde Ele
está administrando todo o desenrolar daquela redenção que Ele consumou. “Deus com a

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sua destra o elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel [espiritual] o arrependimento e
a remissão dos pecados” [Atos 5:31).

Mais especificamente, a ressurreição de Cristo não é somente a base jurídica sobre a qual
Deus o Pai imputa a justiça de Cristo aos pecadores crentes, mas também é o mandado
legal sobre o qual o Espírito Santo passa a regenerar aqueles pecadores a fim de que eles
possam inicialmente crer em Cristo, se converterem dos seus pecados e serem salvos.
Infelizmente, como tantos outros pontos refinados da doutrina do Evangelho, isto é pouco
compreendido hoje. O espírito de um homem deve ser trazido de sua morte no pecado an-
tes que seu corpo seja o sujeito de uma ressurreição em glória no último dia. E enquanto o
Espírito Santo é Aquele que vivifica espiritualmente os eleitos de Deus, deve ser lembrado
que Ele é enviado, para fazer a Sua obra de salvação, pelo poder real de Cristo ressus-
citado, a Quem a autoridade foi dada como recompensa de Sua obra consumada (Mateus
28:18, Atos 2:33; Apocalipse 3:1). Em Tiago 1:18, o novo nascimento é delineado até a
soberana vontade do Pai. Em Efésios 1:19 e seguintes, o novo nascimento e suas graciosas
consequências são atribuídos à operação graciosa do Espírito. Aqui em nosso texto, ao
relatar a grande misericórdia do Pai, esta é atribuída à virtude do triunfo de Cristo sobre a
morte. Deve ser observado que a própria ressurreição de Cristo é descrita como gerá-lO
(Salmos 2:7; cf. Atos 13:33), enquanto que a nossa ressurreição espiritual é chamada de
regeneração (Tito 3:5). Cristo é expressamente chamado de “o primogênito dentre os
mortos” (Apocalipse 1:5). Assim Ele é chamado porque a Sua ressurreição marcou um novo
começo para Ele e para o Seu povo.

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1 Pedro 1:3-5 – Parte 3

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande miseri-
córdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo den-
tre os mortos”. Vamos começar este capítulo, continuando nossa consideração do reconhe-
cimento desta oração. Devemos lembrar que esta epístola é dirigida àqueles que são
estrangeiros, dispersos (v. 1). Mui apropriada então é esta referência à geração Divina dos
eleitos de Deus, pois é pela geração graciosa do Espírito Santo que os eleitos são consti-
tuídos estrangeiros ou peregrinos (ou seja, residentes temporários deste mundo), tanto no
coração quanto na conduta. O Senhor Jesus era um estranho aqui (Salmos 69:8), pois Ele
era o Filho do Deus do Céu; e assim também é o Seu povo, pois eles têm o Seu Espírito
dentro deles. Como esse entendimento reforça este milagre da graça! A geração Divina
não é apenas uma doutrina, mas a comunicação real para a alma da própria vida de Deus
(João 1:13). Anteriormente, o Cristão esteve dentro e [era] do mundo, mas agora a sua
“cidade [cidadania, Versão Americana Padrão – King James] está nos céus” (Filipenses
3:20). “Eu sou um peregrino na terra” (Salmos 119:19) é doravante a sua confissão. Para a
alma renovada por Deus, este mundo se torna um deserto estéril. Pois sua herança, a sua
casa, está no alto e, portanto, ele agora vê as coisas as coisas temporais e naturais sob
uma luz muito diferente.

Os Grandes Interesses Da Alma Regenerada São Alheios A Este Mundo

Os principais interesses de uma alma verdadeiramente nascida de novo não residem nesta
esfera mundana. Suas afeições estarão estabelecidas nas coisas de acima; e na proporção
em que elas são assim, seu coração é separado deste mundo. Sua estranheza é uma
marca essencial que distingue os santos dos ímpios. Aqueles que cordialmente abraçam
as promessas de Deus são devidamente afetados por elas (Hebreus 11:13). Um dos efeitos
seguros da graça Divina na alma é separar o seu possuidor, tanto no espírito e na prática,
do mundo. Seu prazer em coisas celestiais se manifesta em seu ser desapegado das coisas
terrenais, assim como a mulher no poço deixou o balde para trás, quando ela obteve de
Cristo, a água viva (João 4:28). Tal espírito o constitui um estrangeiro entre os adoradores
de Mamom. Ele é moralmente um estrangeiro em uma terra estranha, cercado por aqueles
que não o conhecem (1 João 3:1), porque não conhecem seu Pai. Eles também não enten-
dem as suas alegrias ou tristezas, não valorizam os princípios e motivos que o mobilizam;
pois as atividades e prazeres deles são radicalmente diferentes das suas. Não, ele se vê
no meio de inimigos que o odeiam (João 15:19), e não há ninguém com quem ele tenha
comunhão salvo com os poucos que “obtiveram fé igualmente preciosa” (2 Pedro 1:1).

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Entretanto, apesar de não haver nada neste deserto mundano para o Cristão, ele tem sido
“gerado de novo para uma viva esperança”. Anteriormente ele via a morte com horror, mas
agora ele percebe que ela fornecerá uma bendita libertação de todo pecado e tristeza e
abrirá a porta para o Paraíso. O princípio da graça recebido no novo nascimento não apenas
inclina seu possuidor a amar a Deus e agir com fé em Sua Palavra, mas também o conduz
a: “não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem” (2 Coríntios
4:18), inclinando suas aspirações para longe do presente em direção ao seu futuro glorioso.
Thomas Manton apropriadamente declara: “A nova natureza foi feita para um outro mundo:
ela veio de lá, e isso conduz a alma para lá”. A esperança é uma expectativa certa de bom
futuro. Enquanto a fé está em exercício, uma visão de felicidade sem nuvens é estabelecida
diante do coração, e a esperança entra no gozo da mesma. Há uma viva esperança exerci-
da dentro de um ambiente moribundo, e ela tanto apoia quanto revigora a todos nós que
cremos. Enquanto em atividade saudável, a esperança não somente nos sustenta em meio
às provações desta vida, mas também nos eleva acima delas. Oh, que os corações fossem
mais engajados nas antecipações alegres do futuro! Pois tais corações esperançosos nos
vivificam ao dever e nos estimulam à perseverança. Em proporção ao entendimento e força
da nossa esperança, nós seremos libertos do medo da morte.

A União Com Cristo Em Sua Ressurreição É A Causa Da Nossa Regeneração

Agora, mais uma palavra deve ser dita sobre a relação que a ressurreição de Jesus Cristo
dentre os mortos lança o fundamento para a nossa geração, pelo Pai, para esta viva espe-
rança. A obra de Cristo, horando a Deus e a triunfante saída do túmulo foram a base legal
não somente da justificação de Seu povo, mas também da regeneração deles. Misticamen-
te, em virtude de sua união com Cristo na mente e no propósito de Deus, eles foram libertos
de sua morte, nas mãos da Lei, quando o Fiador ressuscitou dos mortos. “Mas Deus, que
é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda
mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e
nos ressuscitou juntamente com ele...” (Efésios 2:4-6). Essas palavras se referem à união
corporativa da Igreja com sua Cabeça e sua participação judicial em Sua vitória, e não a
uma experiência individual. No entanto, uma vez que todos os eleitos ressuscitaram federal-
mente quando o seu representante ressuscitou, eles devem, no devido tempo, ser regene-
rados; uma vez que eles foram vivificados legalmente, eles devem, no devido tempo, ser
vivificados espiritualmente. Se Cristo não tivesse ressuscitado, ninguém teria sido vivificado
(1 Coríntios 15:17); mas porque Ele vive, eles também viverão.

Jesus vive, e assim eu viverei.


Morte! teu aguilhão se foi para sempre!
Ele que Se dignou morrer por mim,

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Vive, para romper as cadeias da morte.
Ele [ressuscitou-me] do pó:
Jesus é a minha esperança e confiança.

A Vida Que Está Na Cabeça Deve Ser Comunicada Aos Membros Do Seu Corpo

A ressurreição de Cristo é a causa eficaz da nossa regeneração. O Espírito Santo não te-
ria sido dado a menos que Cristo houvesse conquistado o último inimigo (1 Coríntios 15:26).
E ido para o Pai: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós...
Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé
nós recebamos a promessa do Espírito” (Gálatas 3:13-14). As questões da regeneração
estão tão verdadeiramente relacionadas com a ressurreição de Cristo, quanto as da nossa
justificação, a qual é o resultado daquela fé salvadora em Cristo que só pode emanar a par-
tir de um coração renovado pelo Espírito Santo. Ele obteve para o Seu povo o bendito
Espírito para criá-los para a graça e glória. “Não pelas obras de justiça que houvéssemos
feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da reno-
vação do Espírito Santo, que abundantemente ele derramou sobre nós por Jesus Cristo
nosso Salvador” (Tito 3:5-6). Deus, o Pai derramou o Espírito Santo sobre nós em poder
regenerador por causa dos méritos da vida, morte e ressurreição de Cristo, e em resposta
à Sua mediação em nosso nome. O Espírito Santo está aqui para testemunhar de Cristo
aos eleitos de Deus, para operar a fé neles em direção a Ele, a fim de que eles “abundem
em esperança” (Romanos 15:12-13). Nossa libertação espiritual da sepultura da culpa,
poder e contaminação do pecado é tanto devido à eficácia do triunfo de Cristo sobre a
morte, quanto será a nossa vivificação física no Seu retorno. Ele é “o primogênito entre
muitos irmãos” (Romanos 8:29), sendo a própria vida de Cristo transmitida a eles quando
são novamente gerados.

O Poder Que Ressuscitou Cristo Fisicamente, Ressuscita Pecadores Espiritualmente

A ressurreição de Cristo é também o protótipo dinâmico de nossa regeneração. O mesmo


poder operado ao ressuscitar o corpo de Cristo é empregado no resgate de nossas almas
da morte espiritual (Efésios 1:19-20; 2:1). O Senhor Jesus é designado “o primogênito den-
tre os mortos” (Apocalipse 1:5) porque Sua emersão da sepultura não foi apenas o penhor,
mas a semelhança, tanto da regeneração dos espíritos de Seu povo quanto da criação de
seus corpos no último dia. A semelhança é óbvia. A geração é o começo de uma nova vida.
Quando Cristo nasceu neste mundo isso foi “em semelhança da carne do pecado” (Roma-
nos 8:3). Embora intocado pela mancha do pecado original (Lucas 1:35) e sem mácula pela
contaminação das transgressões reais, Ele estava vestido de enfermidade por causa da
iniquidade imputada. Mas quando Ele se ergueu do túmulo de José, em poder e glória, isso

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foi em um corpo apropriado para o Céu. Da mesma forma, na regeneração, recebemos
uma natureza que nos faz adequados ao Céu. Como Deus ressuscitando a Cristo, testemu-
nhou o Seu ser pacificado pelo sacrifício dEle (Hebreus 13:20), assim, gerando-nos outra
vez Ele nos garante nosso interesse pessoal nisso. Como a ressurreição de Cristo foi a
grande prova de Sua filiação Divina (Romanos 1:4), assim, o novo nascimento é a primeira
manifestação aberta de nossa adoção. Como a ressurreição de Cristo foi o primeiro passo
para a Sua glória e exaltação, assim, a regeneração é a primeira etapa de nossa entrada
em todos os privilégios espirituais.

A Glorificação É O Objetivo Da Regeneração

Nossa sétima consideração na análise desta doxologia é a sua substância: “Para uma
herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos Céus para
vós” (v. 4). A regeneração tem como objetivo a glorificação. Nós somos gerados espiritual-
mente para duas realidades: uma viva esperança no presente, e uma gloriosa herança no
futuro. É pela geração de Deus que nós obtemos nosso título à glorificação. O direto a
heranças vem por meio do nascimento: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que
não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” (João 3:5). Se não
[somos] filhos, então não podemos ser herdeiros; e temos que ser nascidos de Deus, a fim
de nos tornarmos filhos de Deus. Mas “se nós somos filhos, somos logo herdeiros também,
herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo” (Romanos 8:17). A geração não apenas confe-
re o título, mas também garante a herança. O Cristão já recebeu o Espírito, “o qual é o
penhor da nossa herança” (Efésios 1:14). Como a parte de Cristo era adquirir a herança,
assim a parte do Espírito é torná-la conhecida para os herdeiros; pois, “as coisas que Deus
preparou para os que o amam” Ele “no-las revelou pelo seu Espírito” (1 Coríntios 2:9-10).
É a esfera de ação do Espírito Santo a concessão de doces antecipações aos regenerados
do que está guardado para eles, traz algo da alegria celestial para o interior de suas almas
na terra.

O Novo Nascimento Nos Adequa Imediatamente Para O Céu

A geração Divina não somente concede o título e garante a herança celestial, mas também
concede uma adequação à mesma. No novo nascimento uma natureza que é adequada
para a esfera celestial é concedida, o que qualifica a alma para habitar para sempre com o
Deus três vezes santo (como é evidente, a sua comunhão com Ele presente); e, ao fim de
sua peregrinação terrena, o pecado que habita interiormente (que agora dificulta a sua
comunhão) morre com o corpo. Tudo é muito pouco percebido pelos santos na regenera-
ção, a saber, que eles são imediatamente capacitados para o Céu. Muitos deles, para a
grave diminuição de sua paz e alegria, supõem que eles ainda devem passar por um pro-

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cesso de disciplina severa e refino antes que eles estejam prontos para entrar nas cortes
acima. Isso é apenas mais uma relíquia do Romanismo. O caso do ladrão moribundo, que
foi levado imediatamente a partir de seu nascimento espiritual ao Paraíso, deve ensiná-los
melhor. Mas isso não ensina. Assim, permanece a tendência legalista do coração, mesmo
de um Cristão, de forma que é muito difícil convencê-lo de que na mesma hora que ele
nasceu de novo, ele foi habilitado para o Céu, como ele sempre seria caso permanecesse
na terra mais um século. Como é difícil para nós acreditarmos que nenhum crescimento na
graça ou passar por tribulações ardentes é essencial para preparar as nossas almas para
a casa do Pai.

Em nenhum lugar as Escrituras dizem que os crentes vão sendo preparados, ou gradual-
mente capacitados para o Céu. O Espírito Santo declara expressamente que Deus Pai “se-
gundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo... para uma herança”. O que poderia
ser mais claro? Nosso texto, por qualquer meio, sustenta-se sozinho. Os Cristãos já foram
feitos “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1:4), e o que mais pode ser necessário
para prepará-los para a presença Divina? A Escritura declara enfaticamente: “Assim que já
não és mais servo [escravo], mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por
Cristo” (Gálatas 4:7). A herança é um direito inato ou patrimônio do filho. Falar de herdeiros
não sendo elegíveis para uma herança é uma contradição de termos. A nossa aptidão para
a herança se baseia somente em sermos filhos de Deus. Assim como é verdade que se
alguém não nascer de novo não pode entrar ou ver o reino de Deus, assim, por outro lado,
segue-se, necessariamente, que uma vez que ele nasceu de novo ele está qualificado para
uma entrada e gozo do reino de Deus. Todo espaço para discussão sobre esse ponto é
excluído por estas palavras, que expressam um aspecto das orações de Paulo de agrade-
cimento em nome do Colossenses: “Dando graças ao Pai que nos fez [tempo passado]
idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12).

Pela Regeneração Nós Somos Casados Com Cristo

Pela regeneração somos feitos vitalmente um com Cristo e, assim, nos tornamos coerdeiros
com Ele. A porção da Noiva é a sua participação na porção do Noivo. “E eu dei-lhes a glória
que a mim me deste” (João 17:22), diz o Redentor dos Seus remidos. Isto, também, precisa
ser enfatizado hoje, quando tanto erro ostenta-se como a verdade. Em suas tentativas fan-
tasiosas de “manejar bem a Palavra”, os homens erroneamente dividiram a família de Deus.
Alguns dispensacionalistas sustentam que não somente existe uma distinção de privilégios
terrenos, mas que as mesmas distinções serão perpetuadas no mundo vindouro; que os
crentes do Novo Testamento olharão para baixo a partir de uma posição superior, a Abraão,
Isaque e Jacó; que os santos que viveram e morreram antes de Pentecostes não participa-
rão da glória da Igreja ou entrarão na herança “guardada no céu para vós”. Afirmar que os

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santos desta era Cristã ocuparão uma posição mais elevada e desfrutarão de privilégios
grandiosos, do que irão os de épocas anteriores é um erro grave e imperdoável, pois entra
em conflito com os ensinamentos mais fundamentais da Escritura sobre o propósito do Pai,
a redenção de Cristo, e a obra do Espírito, e repudia as características essenciais da grande
salvação de Deus. Escrevendo às igrejas da Galácia, em grande parte composta de gen-
tios, o apóstolo Paulo declara: “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão”
(Gálatas 3:7). Este texto por si só é suficiente para provar que o caminho da salvação de
Deus nunca mudou essencialmente.

Todos os eleitos de Deus são os compartilhadores comuns das riquezas de Sua graça
maravilhosa, vasos que Ele “de antemão preparou para a glória” (Romanos 9:23), a quem
Ele predestinou para serem “conformes à imagem de seu Filho” (Romanos 8:29). Cristo
agiu como o Fiador de toda a eleição da graça, e o que Sua obra meritória garantiu para
um deles, necessariamente garantiu para todos. Os santos de todas as épocas são coer-
deiros. Cada um deles foi predestinado pelo mesmo Pai (João 6:37; 10:16, 27-30; 17:2, 9-
12, 20-24); cada um deles foi regenerado pelo mesmo Espírito (Efésios 4:4), cada um deles
olhou para e confiou no mesmo Salvador. A Escritura não conhece a salvação que não
concerne aos coerdeiros com Cristo. Aqueles a quem Deus dá o Seu Filho, ou seja, toda
companhia de Seus escolhidos desde Abel até o fim da história da Terra, Ele também dá
livremente todas as coisas (Romanos 8:32). Que tanto Abraão e Davi foram justificados
pela fé é evidente a partir de Romanos 4, e não há destino mais elevado ou perspectiva
mais gloriosa do que a perspectiva do que aquela à qual a justificação concede título pleno.
A obra regeneradora do Espírito Santo é idêntica em todos os membros da família de Deus:
gerando-os, qualificando-os para uma herança celestial. Todos aqueles que foram eficaz-
mente chamados por Ele durante a era do Antigo Testamento receberam “a promessa da
herança eterna” (Hebreus 9:15). Filhos nascidos do Céu devem ter uma porção celestial.

A Natureza De Nossa Herança Eterna

“Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada
nos céus para vós”. A porção celestial reservada para o povo de Deus é aquela que está
de acordo com a nova vida recebida na regeneração, pois é um estado de perfeita santidade
e felicidade adequado para seres espirituais que possuem corpos materiais. Muitas e
variadas são as descrições dadas na Escritura sobre a natureza de nossa herança. Em
nosso texto (v. 5), é descrito como “a salvação, já prestes para se revelar no último tempo”
(cf. Hebreus 9:28), isto é, a salvação em sua plenitude e perfeição que deve ser concedida
ao redimido no retorno glorioso de Cristo. Nosso Senhor Jesus a descreve como “casa de
meu Pai”, em que “há muitas moradas”, a qual o próprio Cristo prepara agora para o Seu
povo (João 14:1-2). O apóstolo Paulo se refere a isso como “a herança dos santos na luz”

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(Colossenses 1:12). E aos futuros habitantes daquele reino glorioso como “filhos da luz” (1
Tessalonicenses 5:5). Sem dúvida, essas expressões apontam para a perfeição moral dEle
à luz resplandecente em cuja presença (Isaías 33:13; 1 Timóteo 6:13-16; Hebreus 12:29, 1
João 1:5) todos os santos habitarão um dia. Além disso, elas ressaltam a pureza imaculada
que caracterizará cada um daqueles que devem “habitar na casa do Senhor para sempre”
(Salmos 23:6; cf. Daniel 12:3; Apocalipse 21:27). Paulo descreve-a além, como “a cidade
que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hebreus 11:10), na qual os
olhos esperançosos do crente de Abraão estavam fixados. Ele também a chama de “um
reino que não pode ser abalado” ou “estremecido” (Hebreus 12:26-28; cf. Apocalipse 21:10-
27).

O apóstolo Pedro refere-se aos Cristãos como aqueles a quem Deus “em Cristo Jesus nos
chamou à sua eterna glória” (1 Pedro 5:10). Em outro lugar, ele chama a nossa herança
“reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 1:11). O Senhor Jesus
orou: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo,
para que vejam a minha glória que me deste” (João 17:24). O Cristo glorificado, em Sua
revelação ao apóstolo João, descreve a herança dos santos como “paraíso de Deus”
(Apocalipse 2:7), a partir do qual pode-se inferir que o Éden era apenas uma sombra.
Olhando adiante para este paraíso, Davi declara: “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua
presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” (Salmos
16:11).

O Significado Do Termo Herança

Em seu comentário sobre 1 Pedro, John Brown faz as seguintes e pertinentes observações
sobre a importância do uso do termo herança:

A bem-aventurança celestial recebe aqui, e em muitas outras passagens da Escritura,


a denominação de “herança”, por duas razões: para assinalar a sua natureza gratuita,
e para enfatizar a sua posse segura.

Uma herança é algo que não é obtido pelos próprios esforços do indivíduo, antes é o
dom gratuito ou legado de outro. A herança terrena do povo visível de Deus não foi
dada a eles, porque eles eram mais ou melhores do que as outras nações da terra.
Foi por que: “Tão-somente o Senhor se agradou de teus pais para os amar” (Deutero-
nômio 10:15). “Pois não conquistaram a terra pela sua espada, nem o seu braço os
salvou, mas a tua destra e o teu braço, e a luz da tua face, porquanto te agradaste
deles” (Salmos 44:3). E a herança celestial do espiritual povo de Deus é totalmente o

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dom da bondade soberana. “Porque pela graça sois salvos” (Efésios 2:5); “o dom
gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 6:23).

A segunda ideia sugerida pela expressão figurativa, “a herança”, quando usada em


referência à bem-aventurança celestial, é a segurança da posse pelo que ela é reali-
zada. Nenhum direito é mais inalienável do que o direito de herança. Se o direito do
doador ou testador estiver correto, tudo está seguro. A felicidade celestial, deve ser
vista como o dom do Divino Pai, ou como o legado do Divino Filho, pois é “firme a toda
a posteridade” [Romanos 4:16]. Se o título do requerente for apenas tão válido quanto
o direito do titular original, sua posse deve ser tão segura como o trono de Deus e de
Seu Filho.

A Excelência Da Nossa Herança

A excelência desta herança ou eterna porção dos redimidos é descrita por quatro expres-
sões. Primeiro, é incorruptível, e portanto é como o seu autor “o Deus incorruptível” (Ro-
manos 1:23). Toda corrupção é uma mudança de melhor para pior, mas o Céu é sem
mudança ou fim. Daí, a palavra incorruptível tem a força de resistente, imperecível. Nem
isso corromperá os seus herdeiros, como muitas heranças mundanas têm feito. Em
segundo lugar, é incontaminável, e, assim como o seu Comprador, que passou por este
mundo depravado tão incontaminado como um raio de sol é imaculado embora brilhe so-
bre um objeto imundo (Hebreus 7:26). Toda contaminação se dá pelo pecado, mas nenhu-
ma partícula da corrupção jamais pode entrar no Céu. Daí, incontaminável tem a força de
beneficente, incapaz de danificar seus possuidores. Em terceiro lugar, não se pode mur-
char, e, portanto, é como Aquele que nos conduz até lá, “pelo Espírito eterno” (Hebreus
9:14), o Espírito Santo, “o rio puro da água da vida” (Apocalipse 22:1). A palavra incontami-
nável nos fala deste rio de perene e perpétuo refrigério; seu esplendor nunca será prejudi-
cado, nem a sua beleza diminuída. Em quarto lugar, a frase guardada nos Céus fala da
localização e segurança da nossa herança (veja Colossenses 1:5; 2 Timóteo 4:18).

Ao considerarmos as quatro expressões descritivas no versículo 4, várias características


da nossa herança são exibidas. Para começar, a nossa herança é indestrutível. Sua subs-
tância é totalmente contrária a dos reinos terrenos, cuja grandeza se desgasta. Os impérios
mais poderosos da Terra, eventualmente se dissipam em razão da corrupção inerente.
Considere a pureza da nossa porção. Nenhuma serpente jamais entrará neste paraíso para
o profanar. Contemple a sua beleza imutável. Nem ferrugem deve manchá-la nem a traça
estragá-la, nem a eternidade produzirá uma ruga no rosto de qualquer um dos seus habi-
tantes. Pondere a sua segurança: É guardada por Cristo para os Seus remidos; nenhum
ladrão jamais a invadirá.

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Parece-me que estas quatro expressões são designadas para levar-nos a fazer uma série
de contrastes com a herança gloriosa que nos espera. Primeiro, considere a herança de
Adão. Quão breve o Éden foi corrompido! Em segundo lugar, pense sobre a herança que
“o Altíssimo distribuía... às nações” (Deuteronômio 32:8) e como elas a contaminaram com
a ganância e o derramamento de sangue. Em terceiro lugar, contemplem a herança de Is-
rael. Como, infelizmente, a terra que mana leite e mel murchou sob as secas e fomes que
o Senhor enviou, a fim de castigar a nação por seus pecados. Em quarto lugar, reflitamos
sobre a habitação gloriosa que foi perdida pelos anjos caídos, que “não guardaram o seu
principado” (Judas 6). Estes, miseráveis espíritos ignorantes não têm nenhum gracioso Su-
mo Sacerdote para interceder por eles, antes estão reservados “na escuridão e em prisões
eternas até ao juízo daquele grande dia”. Conhecêssemos a nossa própria corrupção
remanescente, bem poderíamos tremer e pedir com piedosa autodesconfiança (veja
Mateus 26:20-22): “O que nos impedirá de tal desgraça?”.

A Garantia De Que Nós Receberemos A Nossa Herança

Chegamos, finalmente, a refletir sobre a garantia infalível desta doxologia, que graciosa-
mente responde à pergunta dos santos trêmulos, exatamente considerando: “Que medi-
ante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar
no último tempo” (1 Pedro 5:1). Aqui está o tônico para o Cristão enfraquecido! Não ape-
nas a herança inestimavelmente gloriosa e preciosa é segura, “reservada no céu” para nós,
mas nós também estamos seguros, “guardados na virtude de Deus”. Aqui a doutrina do
Apóstolo Pedro coincide perfeitamente com o do Senhor Jesus e dos outros apóstolos.
Nosso Senhor ensinou que aqueles nascidos ou gerados de Deus creem no Seu Filho (João
1:11-13; 3:3-5), e que aqueles que creem têm a vida eterna (João 3:15-16). “Aquele que
crê no Filho tem [possui presente e continuamente] a vida eterna; mas aquele que não crê
no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” (João 3:36). Ele ainda
ensinou que aqueles que não creem, não acreditam porque eles não são Suas ovelhas
(João 10:26). Mas, depois, Ele continua:

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-
lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão.
Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão
de meu Pai. Eu e o Pai somos um” (João 10:27-30).

O Apóstolo Paulo Declara Também O Fato De Que Nenhum


Dos Irmãos De Cristo Jamais Perecerá

“Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a

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fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? [...] Mas em todas estas coisas somos mais do
que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a
vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir,
nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor
de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8:35, 37-39).

No entanto, a questão a ser respondida permanece: “Qual é o principal meio que o poder
de Deus exerce em preservar-nos, a fim de que possamos entrar e desfrutar de nossa
herança?”.

A Fé É O Meio De Nossa Preservação

“Que mediante a fé estais guardados”. As reflexões de John Brown sobre este ponto são
de grande valor:

Eles são “guardados”, preservados seguros, em meio a muitos perigos a que estão
expostos, “na virtude de Deus”. A expressão “virtude de Deus”, aqui pode referir-se
ao poder Divino tanto como exercido em referência aos inimigos do Cristão, controlan-
do os seus propósitos malignos e, como exercido na forma de influência espiritual na
mente do próprio Cristão, guardando-os na fé da verdade, “no amor de Deus e na
paciência de [nosso Senhor Jesus] Cristo” [2 Tessalonicenses 3:5; cf. 2 Timóteo 1:13-
14]. É, provavelmente, a última a que o apóstolo alude principalmente, pois ele
acrescenta: “mediante a fé”. É através da perseverante fé na verdade que o Cristão é,
por influência Divina, preservado de cair, e mantém a posse tanto daquele estado e
caráter que são absolutamente necessários para o gozo da herança celestial.

A perseverança, assim assegurada ao verdadeiro Cristão é a perseverança na fé e santi-


dade; e nada pode ser mais grosseiramente absurdo do que uma pessoa que vive na incre-
dulidade e no pecado, supor que ela esteja no caminho para a obtenção da bem-aventu-
rança celestial.

Embora Deus Nos Guarde, Nós Devemos Crer

Pelo poder onipotente do Deus Triuno, nós somos guardados “para a salvação, já prestes
para se revelar no último tempo”. Mas o mesmo Espírito gracioso que nos guarda também
inspirou Judas a escrever, “Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a
misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna” (Judas 21). Por meio dEle,
o apóstolo Paulo também escreveu: “Revesti-vos de toda a armadura de Deus...Tomando
sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do

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maligno” (Efésios 6:11, 16). Portanto deveríamos frequentemente clamar ao Senhor com
os apóstolos: “Acrescenta-nos a fé” (Lucas 17:5). Se o nosso clamor é genuíno, então pode-
mos estar certos de que Jesus, que é “o autor e consumador da nossa fé” (Hebreus 12:2)
ouvirá e responderá em uma forma mui adequada para a nossa necessidade, embora,
talvez, por meio da adversidade.

A referência do apóstolo à herança celestial dos crentes foi adequadíssima. Ele estava
escrevendo para aqueles que estavam, tanto natural como espiritualmente, longe de sua
terra natal, os estrangeiros em um país estranho. Muitos deles eram judeus convertidos, e
como tais, ferozmente confrontados e cruelmente tratados. Quando um Judeu se tornava
um Cristão, ele perdia muito: ele foi excomungado da sinagoga, tornando-se um pária em
meio ao seu próprio povo. No entanto, havia uma rica compensação para ele. Ele fora Divi-
namente gerado para uma herança infinitamente superior, tanto em qualidade e duração,
do que a terra da Palestina. Assim, os seus ganhos muito mais do que compensavam as
suas perdas (veja Mateus 19:23-29, especialmente v. 29). O Espírito Santo, então, desde
o início da Epístola, atraiu os corações daqueles santos sofredores a Deus, por estabelecer
perante eles a Sua grande misericórdia e abundantes riquezas da Sua graça. Quanto mais
eles estivessem ocupados com as mesmas, mais as suas mentes seriam levantadas acima
deste cenário, e seus corações seriam cheios de louvor a Deus. Enquanto poucos de nós
estão vivenciando qualquer tipo de tribulações semelhantes às deles, ainda assim, a nossa
porção está lançada em dias de trevas, e cabe-nos olhar além das coisas que são vistas e
fixar mais a nossa atenção sobre a futura bem-aventurança que nos espera; posto que
Deus designou a forma pela qual devemos glorificá-lO em adoração sincera, e apegar-nos
às Suas promessas por meio da “obediência da fé” (Romanos 16:26) até o fim!

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1 Pedro 5:10-11 – Parte 1

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória,
depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique
e estabeleça. A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém.”

Chegamos agora a uma oração apostólica cujo conteúdo, como um todo, é mui sublime.
Seu conteúdo é extremamente completo, e um estudo cuidadoso e meditação piedosa, se-
rão ricamente recompensados. Minha tarefa atual será realizada mais facilmente, pois es-
tou fazendo uso extensivo da excelente e exaustiva exposição desta passagem por Thomas
Goodwin. Ele foi favorecido com muita luz sobre esta porção das Escrituras, e eu gostaria
de compartilhar com meus leitores o que tem sido de muita ajuda e bênção para mim,
pessoalmente.

Há sete coisas que devemos considerar em relação a esta oração: (1) o suplicante, pois,
há uma relação íntima e marcante entre as experiências de Pedro e os termos de sua ora-
ção; (2) a sua localização, pois está intimamente ligada com o contexto, particularmente
com os versículos de 6 a 9; (3) o seu Objeto, ou seja, “o Deus de toda graça”, um título es-
pecialmente querido por Seu povo e apropriadíssimo neste contexto; (4) o seu fundamento,
pois assim deve ser considerada a cláusula, “que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna
glória”, (5) a sua petição, “ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”; (6)
sua qualificação “depois de havemos padecido um pouco”, pois embora essa cláusula
precede a petição, ainda assim, logicamente a segue, quando o verso é tratado homiletica-
mente; e (7) a sua atribuição: “A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém”.

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de
havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”
(v. 10). Com estas palavras, o apóstolo começa o seu apelo Àquele que é a Fonte da graça,
e Alguém, para quem o principal dos pecadores olha sem precisar se desesperar. Em
seguida, ele menciona aquilo que dá prova a todos os crentes que Ele é realmente o Deus
de toda a graça, a saber, o fato dEle tê-los chamado eficazmente da morte para a vida e
tê-los tirado da escuridão da natureza para a Sua maravilhosa luz. E isso não é tudo, pois
a regeneração é apenas um penhor do que Ele concebeu e tem preparado para eles, uma
vez que Ele os chamou para sua glória eterna. A percepção dessa verdade move o apóstolo
Pedro a rogar que, após um período de provas e aflição, Deus completaria a Sua obra de
graça dentro deles. Aqui devemos claramente entender que Deus preservará o Seu povo
da apostasia, os levará a perseverar até o fim, e, apesar de toda a oposição do mundo, da
carne e do diabo, os levará em segurança para o Céu.

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A Experiência Do Suplicante Sobre A Graça Restauradora E Preservadora

Primeiro, consideremos esta oração suplicante. A pessoa que se aproximou de Deus, as-
sim, era Simão Pedro. Enquanto Paulo tinha muito mais a dizer sobre a graça de Deus do
que qualquer outro dos apóstolos, foi deixado ao pobre Pedro denomina-lo de “o Deus de
toda graça”. Não teremos que procurar muito para descobrir a razão disso e a sua adequa-
ção. Enquanto Saulo de Tarso é o excelente troféu Neotestamentário da graça salvadora
(pois o rei Manassés é um caso igualmente notável no Antigo Testamento), certamente
Simão, que é o exemplo mais distinto no Novo Testamento (Davi fornece um paralelo sob
a era Mosaica) da graça Divina restauradora e preservadora. O que é isso que parece a
maior maravilha para um Cristão, que mais mobiliza e derrete o coração diante de Deus?
É a graça mostrada a ele enquanto ele estava morto no pecado, aquilo que o levantou para
fora do lamaçal e colocou-o sobre e dentro da Rocha Eterna? Ou será que é a graça
exercida em direção a ele após a conversão que lida com a sua desobediência, ingratidão,
afastamentos de seu primeiro amor, ofensas ao Espírito Santo, desonras a Cristo; e, no
entanto, apesar de tudo, ama até o fim e continua ministrando a todas às suas necessi-
dades? Se a experiência do leitor tiver algum em comum com a minha, ele não terá
nenhuma dificuldade em responder.

Quem, senão aquele que tem sido feito dolorosamente sensível da praga em seu interior,
que teve tantas provas tristes dos desesperados engano e maldade de seu próprio coração,
e que tenha percebido algo da excessiva malignidade do pecado, não apenas à luz da
santidade de Deus, mas enquanto isso é cometido contra o amor agonizante de seu Salva-
dor, pode estimar corretamente a triste queda de Pedro? Pois a ele não somente foi conce-
dido um lugar de honra entre os doze embaixadores do Rei da glória, mas o privilégio de
contemplá-lO no monte da transfiguração, e foi um dos três que testemunhou mais do que
qualquer outro as Suas agonias no Jardim. E depois, ouvi-lo, pouquíssimo tempo depois,
negando o seu Mestre e Amigo com juramentos! Quem, senão alguém que tenha experi-
mentado pessoalmente a “longanimidade de Deus” (1 Pedro 3:20, 2 Pedro 3:9,15), e tem
sido o destinatário de Sua “grande misericórdia” (1 Pedro 1:3), pode realmente estimar e
apreciar a maravilhosa infinita graça, (1) que moveu a Salvador a olhar tão tristemente,
ainda assim, ternamente, sobre aquele que errou a ponto de fazê-lo sair e “chorar amar-
gamente” (Lucas 22:62), (2) que o levou a ter uma conversa particular com Pedro depois
da ressurreição (Lucas 24:34, 1 Coríntios 15:5), e (3) que, acima de tudo, não somente
recuperou a ovelha perdida, mas o restaurou o apostolado (João 21:15-17)? Bem pode
Pedro confessar a Cristo, juntamente com o Pai e o Espírito, como “o Deus de toda graça”!

Os Duplos Deveres Dos Pastores Cristãos

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Em segundo lugar, ponderemos sobre a configuração dessa oração, pois se examinarmos
de perto veremos que há muito a ser aprendido e admirado. Antes de entrar em detalhes,
observemos o contexto geral. Nos versículos anteriores o apóstolo estava fazendo uma
série de exortações significativas. E uma vez que aquelas nos versículos de 6 a 9 são prece-
didas por imposições de Pedro sobre os servos públicos de Deus quanto às suas várias
funções (vv. 1-4), permita-me dirigir uma palavra a eles em primeiro lugar. Que todos os
sub-pastores de Cristo emulem o exemplo do que é aqui definido diante deles. Tendo orde-
nado aos crentes a andarem prudentemente, o apóstolo dobrou os joelhos e os encomen-
dou ao cuidado da graça de Seu Deus, buscando por eles aquelas misericórdias que ele
sentia que eles mais precisavam. O ministro de Cristo tem dois ofícios principais para exe-
cutar com aquelas almas que estão comprometidas ao seu cuidado (Hebreus 13:17): falar
de Deus para elas, e suplicar a Deus por elas. A semente que o ministro semeia não é sus-
ceptível de produzir muito fruto, a menos que ele, pessoalmente, a regue com suas orações
e lágrimas. É apenas uma espécie de hipocrisia dele o exortar seus ouvintes a passarem
mais tempo em oração, se ele não for um frequentador do trono da graça. O pastor só
cumpriu metade de sua comissão quando ele proclamou fielmente todo o conselho de
Deus; a outra parte deve ser realizada em privado.

Os Duplos Deveres Dos Ouvintes E Estudantes Da Palavra De Deus

O mesmo princípio é válido igualmente para aqueles no banco da igreja. O sermão mais
profundo lucrará pouco ou nada ao ouvinte, a menos que ele seja transformado em oração
fervorosa. Assim também com o que lemos! A medida em que Deus Se agrada em aben-
çoar estes capítulos para cada um, será determinada pela influência que eles têm sobre
você e os efeitos que produzem em você, conforme eles os levem aos joelhos em súplica
sincera, buscando poder da parte do Senhor. Da exortação, o apóstolo voltou à súplica. Fa-
çamos o mesmo, ou ficaremos sem a força necessária para obedecer aos preceitos. Para
os vários deveres inculcados no contexto, foi adicionada esta oração por capacitação Divina
para o desempenho deles, embora árduos, e pela perseverança em cada tribulação, embo-
ra dolorosa. Observe, também, o bendito contraste entre os assaltos do inimigo nos versí-
culos 8 e 9 e o caráter em que Deus é aqui visto, nos versículos 10 e 11. Não é isso desig-
nado para ensinar o santo que ele não tem nada a temer de seu vil adversário, enquanto
ele recorre Àquele em quem habita toda a espécie de graça que é necessária para a sua
presente caminhada, obra, combate e testemunho? Certamente esta é uma das principais
lições práticas a serem extraídas dessa oração, enquanto nós a vemos à luz de seu contexto.

A Nossa Capacidade De Resistir A Satanás Depende De Oração

A menos que diariamente olhemos para e lancemo-nos sobre “o Deus de toda graça”, é

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certo que nunca seremos capazes de “resistir firmes na fé” ao nosso adversário, o diabo,
que, “como leão, busca a quem possa tragar” (v. 8). E igualmente é certo que a graça Divina
é necessária para nós, se quisermos “ser sóbrios e vigilantes”. Precisamos de graça forta-
lecedora para que possamos resistir com êxito a um inimigo tão poderoso como o diabo;
precisamos de graça encorajadora, se devemos estar firmes na fé; e precisamos de graça
produtora de paciência, a fim de suportarmos humildemente as aflições. Não apenas todo
o tipo de graça está disponível para nós em Deus, mas todas as medidas, de modo que
quando nos encontramos uma esgotada, podemos obter uma nova. Uma das razões por
que Deus permite que Satanás ataque o Seu povo com tanta frequência e tão ferozmente
é para que eles possam provar por si mesmos a eficácia da Sua graça. “E Deus é poderoso
para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a sufi-
ciência, abundeis em toda a boa obra” (2 Coríntios 9:8). Então, tragamos para Ele todos as
vasilhas de nossas necessidades e nos inclinemos sobre a Sua plenitude inesgotável. Diz
F.B. Meyer: “O oceano é conhecido por vários nomes, de acordo com as margens que ele
banha, mas é o mesmo oceano. Assim, é sempre o mesmo amor de Deus, embora cada
necessitado perceba e admire sua especial adaptação às suas necessidades”.

A Notável Correspondência Entre A Experiência De Pedro


E Sua Exortação E Oração

Mas, como Thomas Goodwin mostrou, há uma relação ainda mais clara entre esta oração
e seu contexto, e entre ambos e a experiência de Pedro. Os paralelos entre eles estão tão
próximos e numerosos que eles não podem ser acidentais. No Getsêmani, Cristo ordenou
que ao Seu servo: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação” (Mateus 26:41), e em
sua epístola Pedro exorta os santos, “Sede sóbrios e vigilantes”. Anteriormente, o Salvador
o avisara: “Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo” (Lucas
22:31), e, como o Puritano expressou: “e agitar para fora toda a graça dele”. Então, no ver-
sículo 8 Pedro pontua o seu apelo à sobriedade e vigilância, dizendo: “porque o diabo, vos-
so adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar”.
Mas, em conexão com a amorosa admoestação com que Cristo o confortou: “Mas eu roguei
por ti, para que a tua fé não desfaleça” (Lucas 22:32). Como Goodwin ressalta: “Quando a
fé não falha, Satanás é frustrado”. Da mesma forma, o apóstolo Pedro, na sua exortação,
acrescenta: “Ao qual resisti firmes na fé”, o dom da fé, como Calvino o expõe. Embora a
autoconfiança e coragem de Pedro faltaram-lhe, de forma que ele caiu, contudo a sua fé o
livrou de dar lugar ao desespero abjeto, como Lucas 22:61-62, demonstra.

Nosso Senhor concluiu Seu discurso a Simão, dizendo: “e tu, quando te converteres [for
trazido de volta, restaurado], confirma teus irmãos” (Lucas 22:32). Da mesma forma, o
nosso apóstolo escreveu: “sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos

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irmãos no mundo” (v. 9); e, em seguida, ele orou para que, depois de terem padecido um
pouco, o Deus de toda graça os “aperfeiçoe [ou restaure], confirme, fortifique e estabeleça
[-os]”. Ele orou por eles, pelo mesmo tipo de libertação, como a que ele mesmo experimen-
tara. Finalmente, Goodwin observa que Cristo fortaleceu a fé de Pedro contra Satanás,
anunciando-lhe a Sua oração: “Mas eu roguei por ti”, acima do que o pior inimigo poderia
fazer. Portanto, Pedro também, após retratar o adversário dos santos em sua mais feroz
característica, como “um leão que ruge”, traz, por meio de contraste, estas palavras: “E o
Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de
havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”.
Ele, assim, assegura-lhes que Deus será o seu Guardião, Preservador e Fortalecedor. Se,
não obstante o seu triste lapso, ele foi recuperado e preservado para a glória eterna, isso é
uma garantia segura de que todos os verdadeiramente regenerados o serão também. Quão
admiravelmente a Escritura (Lucas 22) interpreta a Escritura (1 Pedro 5)!

A Escolha Divina De Instrumentos Maravilhosamente


Adequados Para Escreverem As Suas Escrituras

Antes de passar para a nossa próxima seção, observemos e admiremos a forma como os
instrumentos específicos que Deus emprega como Seus escritores para comunicar a Sua
Palavra foram pessoalmente qualificados e experimentalmente capacitados para as suas
diversas tarefas. Quem, senão Salomão era tão bem adequado para escrever o livro de
Eclesiastes? Pois a ele foi oferecido oportunidades excepcionais para beber de todas as
miseráveis cisternas deste mundo, e em seguida registrar o fato de que nenhuma satisfação
deveria ser encontrada nelas. Ele, assim, foi provido de um adequado plano de fundo para
os Cantares de Salomão, no qual um Objeto Satisfatório é exibido. Quão apropriada foi a
seleção de Mateus para ser o autor do primeiro Evangelho, pois ele era o único dos Doze
que detinha uma posição oficial antes de seu chamado para o ministério (um coletor de
impostos a serviço dos Romanos). Ele, dentre os quatro evangelistas, apresenta Cristo
mais claramente em Seu caráter oficial como o Messias e Rei de Israel. Marcos, aquele
que ministrou o outro (2 Timóteo 4:11), é o escolhido para apresentar a Cristo como o servo
de Jeová. Quem era tão eminentemente adaptado para escrever sobre o tema bendito do
amor Divino (como ele faz ao longo de sua Epístolas) quanto aquele que foi tão altamente
favorecido como o inclinar-se sobre o seio do Deus Amado? Assim, aqui Pedro é o único
que tão ternamente designou a Divindade como: “o Deus de toda graça”. E assim é hoje.
Quando Deus chama alguém para o ministério, Ele experimentalmente o capacita, qualifi-
cando-o para a obra específica que Ele o concede realizar.

Que Ele É “O Deus De Toda Graça” É Exclusivamente Uma Verdade Evangélica

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Em terceiro lugar, contemplemos o seu objeto: “O Deus de toda graça”. A natureza não O
revela como tal, pois o homem tem que trabalhar arduamente e ganhar o que ele obtém
dela. As obras da providência não o fazem, pois há um aspecto severo, bem como um be-
nigno nelas; e, como um todo, elas antes exemplificam a verdade que colhemos o que
semeamos. Menos ainda a Lei, como tal, apresentam a Deus nesta característica, pois sua
recompensa é uma questão de dívida e não de graça. É somente no Evangelho que Ele é
claramente manifestado como “o Deus de toda graça”. A nossa avaliação dEle como tal, é
exatamente proporcional à nossa desvalorização de nós mesmos, pois a graça é o favor
gratuito de Deus pelos que são indignos e merecedores do mal. Portanto, não podemos
realmente apreciá-lO até que sejamos feitos sensíveis à nossa absoluta indignidade e
vileza. Ele poderia muito bem ser o Deus da justiça inflexível e ira impiedosa aos rebeldes
contra o Seu governo. Tal de fato, Ele é para todos os que estão fora de Cristo, e continuará
assim por toda a eternidade. Mas o glorioso Evangelho desvela aos pecadores merece-
dores do inferno a maravilhosa graça de Deus para perdoar, e para purificar o mais sujo
que se arrepende e crê. A graça concebeu o plano da redenção; a graça o executa; e a
graça o aplica e o torna eficaz. Pedro previamente fez menção da “multiforme graça de
Deus” (1 Pedro 4:10), pois nada menos valerá para aqueles que são culpados de “muitas
transgressões” e “graves pecados” (Amós 5:12). A graça de Deus é múltipla, não só nume-
ricamente, mas em tipo, na rica variedade de suas manifestações. Todas as bênçãos que
desfrutamos devem ser atribuídas à graça. Mas a denominação: “o Deus de toda graça” é
ainda mais abrangente; sim, é incompreensível para todas as inteligências finitas. Este
título, como vimos, é colocado em oposição ao que se diz sobre o diabo no versículo 8,
onde ele é retratado em toda o seu horror: como nosso adversário, pela malícia; comparado
a um leão, pela força; a um leão que ruge, pelo pavor; descrito como andando em derredor,
pela diligência incansável, “buscando a quem possa tragar” a menos que Deus evite. Bem-
aventurado e consolador é o contraste: “Mas Deus”, o Todo-Poderoso, o Autossuficiente,
Todo-suficiente e Único “Deus de toda graça”. Quão consolador é destacar este atributo
quando lidamos com Satanás em tentação! Se o Deus de toda graça é por nós, quem será
contra nós? Quando Paulo foi tão severamente julgado pelo mensageiro (anjo) de Satanás
que foi enviado para esbofeteá-lo, e ele orou três vezes para a sua remoção, Deus lhe
assegurou o Seu alívio: “A minha graça te basta” (2 Coríntios 12:9).

O Deus De Toda Graça: Um Grande Incentivo À Oração

Embora menção seja feita frequentemente nas Escrituras sobre a graça de Deus e sobre o
Seu gracioso Ser, ainda assim, em nenhum lugar, senão neste versículo é que O encontra-
remos denominado “o Deus de toda graça”. Há uma ênfase especial aqui que solicita a
nossa melhor atenção: Ele não é simplesmente “o Deus de graça”, mas “o Deus de toda
graça”. Como Goodwin mostrou, Ele é “o Deus de toda graça” (1) essencialmente em Seu

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próprio caráter, (2) em Seu propósito eterno sobre o Seu povo, e (3) em Seu tratamento
eficaz para com eles. O povo de Deus, pessoalmente, recebe a prova constante de que Ele
é realmente assim; e aqueles cujos pensamentos são moldados por Sua Palavra, conhe-
cem que os benefícios com os quais Ele diariamente os supre são os desdobramentos de
Seu gracioso desígnio eterno para com eles. Mas eles precisam ir ainda mais para trás, ou
levantar os olhos ainda mais alto, e perceber que todas as riquezas da graça que Ele orde-
nou, e das quais somos feitos destinatários, são a partir de e em Sua própria natureza. “A
graça em Sua natureza é a fonte ou nascente; a graça de Seus propósitos é o manancial e
a graça em Suas dispensações, os córregos”, diz Goodwin. Foi a graça de Sua natureza
que O levou a formar “pensamentos de paz” sobre o Seu povo (Jeremias 29:11), como é a
graça em Seu coração que O move a cumprir o mesmo. Em outras palavras, a graça de
Sua própria natureza, o que Ele é em Si mesmo, é tal que garante o fazer o bem em todos
os Seus desígnios benevolentes.

Como Ele é o Todo-Poderoso, Autossuficiente e Onipotente, com Quem todas as coisas


são possíveis, assim Ele é também um Deus Todo-misericordioso em Si mesmo, não
carecendo de nenhuma perfeição que O torne infinitamente benigno. Há, portanto, um mar
de graça em Deus para nutrir todos os fluxos de Seus propósitos e dispensações que são
compartilhadas a partir dos mesmos. Aqui, então, está a nossa grande consolação: toda a
graça que há em Sua natureza, que faz com que Ele seja o “Deus de toda graça” para Seus
filhos, torna certo não somente que Ele assim Se manifestará tal para eles, mas garante o
suprimento de cada necessidade deles, e garante o transbordar das riquezas da Sua graça
sobre eles nos séculos vindouros (Efésios 2:7). Olhe, então, para além dessas correntes
de graça das quais você agora compartilha com o Deus-homem, Jesus, o Ungido, que é
“cheio de graça” (João 1:14), e peça por contínuo e maior suprimento a partir dEle. A estrei-
teza está em nós mesmos e não nEle, pois em Deus há uma oferta sem fronteiras e sem
limites. Peço-lhe (como eu me incito) que lembre que quando você vem para o propiciatório
(para dar a conhecer os seus pedidos) você está prestes a suplicar ao “Deus de toda graça”.
NEle há um oceano infinito para dispensar, e Ele ordena você a ir até Ele, dizendo: “abre
bem a tua boca, e ta encherei” (Salmos 81:10). Não em vão Ele declarou: “Seja-vos feito
segundo a vossa fé” (Mateus 9:29).

Somente Pela Fé Nós Podemos Fruir Do Deus De Toda Graça

O Doador é maior do que todos os Seus dons, mas deve haver uma fé pessoal e que se
apropria para que qualquer um de nós desfrute dEle. Só assim podemos particularizar o
que é geral. Deus é o Deus de toda a graça a todos os santos, mas a fé tem que ser dirigida
individualmente em direção a Deus por mim, se devo conhecer e deliciar-me nEle, no que
Ele realmente é. Temos um exemplo disso no Salmo 59, onde Davi declarou: “O Deus da

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minha misericórdia virá [ou “antecipará”] ao meu encontro” (v. 10). Aqui nós o encontramos
apropriando-se de Deus para si mesmo, pessoalmente. Observe, em primeiro lugar, como
Davi se apega à misericórdia essencial de Deus, daquela misericórdia que está incorporada
em Sua própria natureza. Ele exulta novamente no versículo 17: “A ti, ó fortaleza minha,
cantarei salmos; porque Deus é a minha defesa e o Deus da minha misericórdia”. O Deus
de toda graça é a minha força. Ele é o meu Deus, e, portanto, o Deus da minha misericórdia.
Eu reivindico a Ele como tal; toda a misericórdia que há nEle é minha. Uma vez que Ele é
o meu Deus, então tudo o que há nEle é meu. Foi, afinal, a misericórdia e a graça que estão
nEle que O levou a colocar Seu amor sobre mim e entrar em aliança comigo, dizendo: “Eu
serei seu Deus, e ele será meu filho” (Apocalipse 21:7). [...].

Assim, vemos que a misericórdia de Deus deve ser empregada em nosso nome, na hora
de nossa necessidade, como se cada um de nós fosse Seu único filho. Tão certo como her-
damos a culpa e misérias das transgressões de Adão, nós que estamos em Cristo, temos
posse de todas de graça e misericórdia de Deus.

Além disso, observa-se que Davi se apodera da intencional misericórdia Deus. Cada santo
indivíduo tem nomeada e atribuída a ele o que ele pode chamar de “minha misericórdia”.
Deus separou em Seu decreto uma porção tão abundante que nunca pode ser esgotada
tanto por seus pecados ou por suas necessidades. “O Deus da minha misericórdia virá ao
meu encontro”. Desde toda a eternidade Ele antecipou e fez antecipada provisão integral
para todas as minhas necessidades, assim como um pai sábio tem uma farmácia preparada
com remédios para as doenças de seus filhos. “E será que antes que clamem eu respon-
derei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei” (Isaías 65:24). Que maravilhosa condes-
cendência é que Deus torne isso uma característica de Si mesmo, de forma que Ele se
torne o Deus da misericórdia de cada filho Seu, em particular!

Finalmente, lancemos mão de Sua misericórdia distribuída, a qual é, na verdade, derrama-


da sobre nós a cada momento. Aqui, também, o crente tem toda ocasião para dizer: “O
Deus da minha misericórdia”, pois todas as bênçãos usufruídas por mim fluem de Sua mão.
Este não é um título vazio dEle, pois o fato do uso de Davi do que é registrado para nós na
Sagrada Escritura garante que Ele o fará bem. Quando eu o uso em verdadeira fé e
dependência como de criança sobre Ele, Ele Se compromete a cuidar dos meus interesses,
em todos os sentidos. Ele não somente é o meu Deus pessoalmente, mas também o das
minhas necessidades.

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1 Pedro 5:10-11 – Parte 2

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou”. No último capítulo (utilizan-
do a análise de Thomas Goodwin) foi apontado que este título mui abençoado tem relação
com o que Deus é em Si mesmo, o que Ele é em Seu propósito eterno, e o que Ele é em
Suas atuações em relação ao Seu povo. Aqui, nas palavras que acabamos de citar, vemos
as três coisas unidas em uma referência ao chamado eficaz de Deus, pelo que Ele traz uma
alma das trevas da natureza para a Sua própria maravilhosa luz (1 Pedro 2:9). Esta especial
chamada interior do Espírito Santo, que produz imediata e infalivelmente arrependimento e
fé em seu objeto, fornece, assim, a primeira prova evidente ou exterior que o novo crente
recebe de que Deus é, em verdade, para ele “o Deus de toda graça”. Embora esta não te-
nha sido a primeira saída do coração de Deus para ele, no entanto, está é a prova de que
o Seu amor fora estabelecido sobre ele desde a eternidade. “E aos que predestinou a estes
também chamou” (Romanos 8:30). Deus tem “elegido desde o princípio [o Seu povo] para
a salvação” (2 Tessalonicenses 2:13-14). No devido tempo, Ele opera a salvação deles
pelas operações invencíveis do Espírito, que capacita e faz com que eles creiam no Evan-
gelho. Eles creem através da graça (Atos 18:27), pois a fé é o dom da graça Divina (Efésios
2:8), e ela é dada a eles, porque eles pertencem à “eleição da graça” (Romanos 11:5). Eles
pertencem a essa eleição favorecida porque o Deus de toda a graça, desde a eternidade
passada, os escolheu para serem os monumentos eternos da Sua graça.

A Regeneração É O Fruto Da Eleição, Não A Sua Causa

A graça que havia no coração de Deus, que O levou a chamar-nos é evidente a partir de 2
Timóteo 1:9: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas
obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes
dos tempos dos séculos”. A regeneração (ou chamada eficaz) é a consequência e não a
causa, da predestinação Divina. Deus resolveu nos amar com um amor imutável, e este
amor designou que fôssemos participantes de Sua glória eterna. Sua boa vontade por nos
O moveu de modo infalível a realizar todas as resoluções da Sua livre graça para conosco,
de modo que nada pode impedi-lO, embora no exercício de Sua graça Ele sempre age de
uma maneira que seja consistente com as Suas demais perfeições. Ninguém magnifica a
graça de Deus mais do que Goodwin; no entanto, quando perguntado: “Será que a prerro-
gativa Divina da graça significa que Deus salva os homens, mesmo que eles continuem a
ser o que quiserem?”, ele respondeu:

Deus me livre. Nós negamos tal soberania assim compreendida, como se ela salvasse
qualquer homem sem regra, muito menos contra regra. O próprio versículo que fala

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de Deus como “o Deus de toda graça” em relação à nossa salvação acrescenta “que
nos chamou”, e nosso chamado é um chamado santo (2 Timóteo 1:9). Embora o fun-
damento do Senhor permaneça, ainda assim é acrescentado: “e qualquer que profere
o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (2 Timóteo 2:19), ou ele não pode ser salvo.

Ajuda-nos a obter uma melhor compreensão deste título Divino: “o Deus de toda graça”, se
o compararmos com outro encontrado em 2 Coríntios 1:3: “o Deus de toda a consolação”.
A principal distinção entre os dois está em sendo este último mais restrito ao aspecto da
dispensação da graça de Deus, como as palavras que se seguem mostram: “Que nos con-
sola em toda a nossa tribulação” (2 Coríntios 1:4). Como “o Deus de toda a consolação”,
Ele não somente é o Doador de toda a real consolação e o Sustentador em todas as
tribulações, mas também o Doador de todos os confortos temporais ou misericórdias. Pois,
qualquer refrigério natural ou benefício que nós derivamos de Suas criaturas é devido
somente a Sua bênção para nós. Da mesma forma, Ele é o Deus de toda a graça: graça
buscadora, graça vivificante, graça perdoadora, graça purificadora, graça da provisão, gra-
ça da restauração, graça da preservação, graça da glorificação, graça de todo tipo, e em
plena medida. No entanto, embora a expressão “o Deus de toda a consolação” sirva para
ilustrar o título que estamos aqui considerando, no entanto, fica aquém daquele. Pois, as
dispensações da graça de Deus são mais extensas do que as de Seu conforto. Em certos
casos, Deus dá a graça onde Ele não dá conforto. Por exemplo, a Sua graça iluminadora
traz consigo as dores da convicção do pecado, o que às vezes duram uma temporada longa
antes que qualquer alívio seja concedido. Além disso, sob Sua vara de correção, a graça
sustentadora é concedida, onde o conforto é retido.

Deus Dispensa todos os Tipos de Graça Precisamente de Acordo com a Necessidade

Não apenas há em Deus todos os tipos concebíveis de graça disponíveis para nós, mas
Ele sempre a concede justamente na hora de nossa necessidade; pois, nessa ocasião, o
Seu favor concedido gratuitamente obtém a melhor oportunidade em que mostrar-se. So-
mos livremente convidados a chegar com confiança ao trono da graça, para que possamos
“alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (He-
breus 4:16), ou como Salomão o expressou, que o Senhor Deus sustentasse a causa de
Seu povo Israel “a cada qual no seu dia” (1 Reis 8:59). Esse é o nosso gracioso Deus, mi-
nistrando a nós em todos os momentos, assim como em todas as questões. O apóstolo
Paulo declara (falando para os crentes): “Não veio sobre vós tentação, senão humana [ou
seja, apenas tal que é comum à natureza humana decaída, pois o pecado contra o Espírito
Santo só é cometido por tais que têm como que uma afinidade incomum com Satanás e
seus maus desígnios para impedir o reinado da graça de Cristo]; mas fiel é Deus, que não
vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para

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que a possais suportar” (1 Coríntios 10:13). O Senhor Jesus Cristo declarou: “Todo o peca-
do e blasfêmia [com exceção exatamente da mencionada acima] se perdoará aos homens”
(Mateus 12:31). Pois, o Deus de toda graça opera arrependimento e perdoa todos os tipos
de pecados, aqueles cometidos após a conversão, bem como aqueles antes, como os
casos de Davi e Pedro demonstram. Diz Ele: “Eu sararei a sua infidelidade, eu voluntaria-
mente os amarei” (Oséias 14:4). Plena causa cada um de nós tem para dizer ternamente a
partir da experiência: “a graça de nosso Senhor superabundou” (1 Timóteo 1:14).

A Prova Infalível De Sua Abundante Graça Em Direção Àqueles Que São Seus

“E o Deus de toda a graça... nos chamou à sua eterna glória”. Aqui está a maior e mais
grandiosa prova de que Ele é realmente o Deus de toda graça para o Seu povo. Nenhuma
evidência mais convincente e bendita é necessária para manifestar a boa vontade que Ele
tem por eles. A graça abundante que há em Seu coração em relação a eles e o propósito
beneficente que Ele tem para eles são feitas claramente evidentes aqui. Eles são “os
[únicos] chamados de acordo com o seu propósito” (Romanos 8:18), a saber, aquele “eterno
propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor” (Efésios 3:11). O chamado eficaz que
traz da morte para a vida é a primeira abertura irrompendo a graça eletiva de Deus, e é a
base de todos os atos de Sua graça por eles, posteriormente. É então que Ele começa
aquela Sua “boa obra” naqueles em que Ele finalmente completará no “dia de Cristo Jesus”
(Filipenses 1:6). Por meio disso, eles são chamados a uma vida de santidade aqui e a uma
vida de glória no porvir. Na cláusula “nos chamou à sua eterna glória”, somos informados
sobre aqueles de nós que uma vez já foram “por natureza filhos da ira” (Efésios 2:3), mas
agora, pela graça de Deus são “participantes da divina natureza” (2 Pedro 1:4), também
serão participantes da glória eterna de Deus. Embora o chamado eficaz de Deus não os
traga para a posse real disso, de uma vez, ainda assim, os qualifica totalmente e capacita-
os a participar de Sua glória para sempre. Assim, o apóstolo Paulo diz aos Colossenses
que está “Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos
na luz” (Colossenses 1:12).

Mas, olhemos para além do mais delicioso dos fluxos de graça para a sua Fonte comum. É
a infinita graça que há na natureza de Deus, que se compromete a fazer bom o Seu
propósito beneficente e que fornece continuamente estes fluxos. Deve ser bem observado
que quando Deus proferiu essa grande carta da graça “[Eu] me compadecerei de quem eu
me compadecer”, Ele a prefaciou com estas palavras: “Eu farei passar toda a minha bon-
dade por diante de ti, e proclamarei o nome do Senhor diante de ti” (Êxodo 33:19). Toda
esta graça e misericórdia que está no próprio Jeová, e que deve ser feita conhecida de Seu
povo, era para atrair a atenção de Moisés antes que a sua mente se voltasse a considerar
a soma dos Seus decretos ou graça designada. O verdadeiro oceano de bondade que está

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em Deus está empenhado em promover o bem de Seu povo. Foi essa bondade que Ele fez
passar diante dos olhos de Seu servo. Moisés foi animado pela contemplação de uma rique-
za tão ilimitada de benevolência, tanto que ele estava completamente certo de que o Deus
de toda graça seria realmente gracioso para aqueles a quem Ele escolheu em Cristo antes
da fundação do mundo. E é esta graça essencial enraizada no próprio ser de Deus que de-
ve ser o primeiro objeto da fé; e quanto mais a nossa fé é direcionada para a mesma, mais
nossas almas serão sustentadas na hora da tribulação, convencidas de que tal Pessoa não
falhará conosco.

O Argumento Em Que Pedro Baseia Sua Petição

Em quarto lugar, examinemos o fundamento sobre o qual o apóstolo Pedro baseia sua
petição: “E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”.
Esta cláusula é, sem dúvida, trazida para engrandecer a Deus e para exemplificar Sua ma-
ravilhosa graça. Ainda assim, considerada separadamente, em relação à oração como um
todo, é o apelo feito pelo apóstolo em apoio à petição que segue. Ele estava fazendo pedido
para que Deus aperfeiçoe, confirme, fortaleça e estabeleça os Seus santos. Isso foi equiva-
lente a dizer: “Desde que Tu já fizeste o maior, conceder-lhes o menor; vendo que eles de-
vem ser participantes da Tua glória eterna em Cristo, dê-lhes o que eles precisam enquanto
permanecerem neste mundo passageiro”. Se nossos corações fossem mais engajados com
quem nos chamou, e com o que Ele nos designou, não só nossas bocas se abririam mais,
mas seríamos mais confiantes, sendo cheias de louvores a Deus. Ele não é outro senão
Jeová, que está sentado no Seu trono resplandecente, cercado pelas adoradoras hostes
celestes, Quem em breve dirá a cada um de nós: “Vinde a Mim e deleita-te em Minhas
perfeições”. Você pensa que Ele reterá qualquer coisa que seja verdadeiramente para o
seu bem? Se Ele me chamou para o Céu, há alguma coisa necessária na terra que Ele me
negará?

Que apelo poderosíssimo e predominante é este! Em primeiro lugar, é como se o apóstolo


dissesse: “Tu tens atentado para as obras das Tuas mãos. Tu realmente os chamaste das
trevas para a luz, mas eles ainda são terrivelmente ignorantes. É Teu gracioso prazer que
eles passem a eternidade em Tua presença imediata no alto, mas eles estão aqui no
deserto, e estão rodeados de fraquezas. Então, tendo em vista tanto um quanto o outro,
continue todas as outras obras da graça em direção a eles e neles, que são necessárias a
fim de trazê-los para a glória”. O que Deus já fez por nós, não somente deve ser um motivo
de confiante expectativa do que Ele ainda fará (2 Coríntios 1:10), mas isso deve ser usado
por nós como um argumento ao fazer nossos pedidos a Deus. “Visto que Tu me regeneras-
te, faça-me agora crescer na graça. Visto que puseste em meu coração um ódio ao pecado
e uma fome de justiça, intensifica os mesmos. Posto que Tu me fizeste um ramo da Videira,

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faça-me um ramo mui frutífero. Pois que me uniste ao Teu Filho amado, permita-me mani-
festar os Teus louvores, para honrá-lO em minha vida diária, e, portanto, para recomenda-
lO àqueles que não O conhecem”. Entretanto, estou antecipando um pouco o próximo ponto.

O Nosso Chamado E A Justificação São Motivos De Grande Louvor E Expectativa

Nesta obra única do chamado, Deus Se mostrou ser o Deus de toda graça para você, e is-
so deve grandemente fortalecer e confirmar a sua fé nEle. “Aos que chamou a estes tam-
bém justificou” (Romanos 8:30). A justificação é composta de duas coisas: (1) Deus perdo-
ando-nos e declarando-nos ser “inocentes”, como se nunca tivéssemos pecado; e (2) Deus
nos declarando ser “justos”, exatamente como se tivéssemos obedecido perfeitamente a
todos os Seus mandamentos. Para estimar a plenitude de Sua graça no perdão, você deve
calcular o número e a atrocidade de seus pecados. Eles eram mais do que os cabelos da
sua cabeça; pois você “nasce como a cria do jumento montês” (Jó 11:12), e desde as pri-
meiras auroras da razão, toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má
continuamente (Gênesis 6:5). Quanto à criminalidade, a maioria de seus pecados foram
cometidos contra a voz da consciência, e consistiam em privilégios desprezados e mise-
ricórdias abusadas. No entanto, a Sua Palavra declara que Ele lhe perdoou “todas as ofen-
sas” (Colossenses 2:13). Como isso deve derreter o seu coração e levá-lo a adorar “o Deus
de toda graça”. Como isso deve fazê-lo plenamente convencido de que Ele continuará a li-
dar com você não de acordo com as suas transgressões, mas segundo a Sua própria bon-
dade e benignidade. É verdade, Ele ainda não o livrou da corrupção que habita no seu inte-
rior, mas isso concede nova ocasião para Ele mostrar a Sua paciente graça para com você.

Embora maravilhoso como é tal favor, ainda assim o perdão dos pecados é apenas meta-
de do lado legal da nossa salvação, e a parte negativa e inferior dela. Embora, por um lado,
tudo que estava registrado contra mim no que diz respeito ao débito tenha sido apagado,
contudo, por outro lado, não há um único item em meu crédito. Desde a hora do meu nas-
cimento até o momento da minha conversão nenhuma boa ação foi registrada na minha
conta, pois nenhuma das minhas ações ocorreu em um princípio puro, não sendo realizada
para glória de Deus. Fluindo de uma fonte suja, os fluxos de minhas melhores obras eram
poluídos (Isaías 64:6). Como, então, Deus poderia me justificar, ou declarar-me ter alcan-
çado o padrão exigido? Esse padrão é uma conformidade perfeita e perpétua à Lei Divina,
pois nada menos assegura a sua recompensa. Aqui, novamente as riquezas maravilhosas
da graça Divina aparecem. Deus não somente apagou todas as minhas iniquidades, mas
creditou em minha conta uma justiça plena e sem falhas, tendo imputado a mim a perfeita
obediência de Seu Filho encarnado: “Porque, se pela ofensa de um só, a morte reinou por
esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em
vida por um só, Jesus Cristo... Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos

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foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos [ou seja, legal-
mente constituídos] justos” (Romanos 5:17, 19). Quando Deus efetivamente lhe chamou, o
revestiu “com o manto de justiça [de Cristo]” (Isaías 61:10), e essa veste concede a você
um direito inalienável à herança (Romanos 8:17).

A Glorificação, Desde O Princípio, Era O Objetivo Final De Deus Para Nós

“Que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. Quando Deus regenera uma alma
Ele lhe dá fé. Ao exercer fé em Cristo, aquilo que a desqualificava para a glória eterna (ou
seja, a sua contaminação, culpa e amor ao pecado) é removida, e um título seguro para o
Céu é concedido. O chamado eficaz de Deus é tanto a nossa qualificação quanto um
pagamento inicial pela glória eterna. Nossa glorificação era o grande objetivo que Deus
tinha em vista desde o princípio, e tudo o que Ele faz por nós e opera em nós aqui, são
apenas os meios e os pré-requisitos para esta finalidade. Depois de Sua própria glória
nisso, a nossa glorificação é o propósito supremo de Deus ao eleger-nos e chamar-nos.
“Por vos ter Deus elegido desde o princípio... para alcançardes a glória de nosso Senhor
Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 2:13-14). “E aos que predestinou... também glorificou”
(Romanos 8:30). “Não temais, ó pequeno rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o
reino” (Lucas 12:32). “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está
preparado desde a fundação do mundo” (Mateus 25:34). Cada um desses textos estabelece
o fato de que o povo crente em Cristo deve herdar o reino celestial e eterna glória da parte
do Deus Triuno. Nada menos do que isso foi em que o Deus de toda graça estabeleceu o
Seu coração como a porção de Seus filhos amados. Assim, quando a nossa eleição é feita
manifesta inicialmente por Seu chamado eficaz, Deus é tão decidido quanto a essa glória
que Ele imediatamente nos concede um título a ela.

Goodwin deu um exemplo notável do que acabamos de dizer, a partir do relacionamento


de Deus com Davi. Enquanto Davi era apenas um simples menino pastor, Deus enviou
Samuel para ungi-lo rei abertamente diante de seu pai e irmãos (1 Samuel 16:13). Por esse
ato solene Deus o investiu com um direito visível e irrevogável ao reino de Judá e Israel.
Deus adiou por muitos anos a sua posse real do trono do reino, no entanto, seu título Divino
ao mesmo foi dado em Sua unção, e Deus Se ocupou em fazer isto firme, jurando não Se
arrepender. Então Deus suportou Saul (uma figura de Satanás), que ordenou todas as for-
ças militares de seu reino e a maioria de seus súditos, para fazer o seu pior. Deus fez isso
para demonstrar que nenhum conselho Seu pode ser frustrado. Embora por um período
Davi esteve exposto como uma perdiz nas montanhas e tinha que fugir de um lugar para
outro, no entanto, ele foi milagrosamente preservado por Deus e, finalmente, trazido ao
trono. Assim, na regeneração, Deus nos unge com o Seu Espírito, nos separa e nos conce-
de um título para a glória eterna. E embora posteriormente, Ele deixe os inimigos ferozes

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soltos contra nós, deixando-nos a enfrentar as mais difíceis lutas e contendas com eles,
ainda assim a Sua poderosa mão está sobre nós, nos socorrendo, fortalecendo e restau-
rando quando somos temporariamente vencidos e levados cativos.

Não Há Nada De Transitório Em Relação À Glória Para A Qual Somos Chamados

Deus não nos chamou para uma [glória] evanescente, mas para uma glória eterna, dando-
nos um título a ela no novo nascimento. Naquele momento, uma vida espiritual foi comuni-
cada à alma, uma vida que é indestrutível, incorruptível e, portanto, eterna. Além disso,
nessa ocasião recebemos “o Espírito de glória” (1 Pedro 4:14) como “o penhor da nossa
herança” (Efésios 1:13-14). Além disso, a imagem de Cristo está sendo progressivamente
moldada em nossos corações durante esta vida, o que o apóstolo Paulo chama ser “trans-
formados de glória em glória “(2 Coríntios 3:18). Assim, nós não somente somos feitos “idô-
neos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12), mas é-nos, então,
concedido um direito eterno de glória. Porque pela regeneração ou chamado eficaz, Deus
nos gera para a herança (1 Pedro 1:3-4); um título desta nos é dado nesse momento, o qual
é válido para sempre. Esse título é nosso, tanto pela estipulação do pacto de Deus quanto
pela herança testamentária do Mediador (Hebreus 9:15). “E, se nós somos filhos, somos
logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo”, diz Paulo (Romanos
8:17). Thomas Goodwin o resume da seguinte forma:

Coloque essas três coisas juntas: em primeiro lugar, que essa glória a que somos
chamados é em si mesma eterna; segundo, que a pessoa que é chamada tem um
nível de glória que começou nela, a qual nunca morrerá ou perecerá; terceiro, que ela
tem o direito à eternidade, e isso a partir do momento de seu chamado, e o argumento
está completo.

Essa “glória eterna” são “as abundantes riquezas da sua graça” que Ele derramará sobre o
Seu povo nos séculos vindouros (Efésio 2:4-7), e como esses versículos nos dizem, mesmo
agora, nós, jurídica e federalmente, nos assentamos “nos lugares celestiais, em Cristo
Jesus”.

“Que [em Cristo Jesus] nos chamou à sua eterna glória”. Deus não somente nos chamou
para um estado de graça, “esta graça na qual estamos firmes”, mas a um estado de glória,
glória eterna, Sua glória eterna, de modo que “nos gloriamos na esperança da glória de
Deus” (Romanos 5:2). Essas duas coisas estão inseparavelmente ligadas: “o Senhor dará
graça e glória” (Salmos 84:11). Embora sejamos as pessoas que serão glorificadas por isso,
é a Sua glória que é colocada sobre nós. Obviamente assim, pois somos criaturas total-
mente miseráveis e vazias, as quais Deus encherá com as riquezas da Sua glória. Na
verdade é “o Deus de toda graça” que faz isso por nós. Nem criação nem providência, nem

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mesmo o Seu lidar com os eleitos nesta vida, mostram plenamente a abundância de Sua
graça. Somente no Céu sua altura máxima será vista e apreciada. É lá que a manifestação
definitiva da glória de Deus será feita, ou seja, a própria honra e glória inefável com o qual
Divindade investe a Si mesmo. Não apenas contemplaremos aquela glória para sempre,
mas ela será comunicada para nós. “Então os justos resplandecerão como o sol, no reino
de seu Pai” (Mateus 13:43). A glória de Deus encherá tão completamente e irradiará nossas
almas que ela irradiará de nossos corpos. Então, o propósito eterno de Deus será plena-
mente cumprido. Nessa ocasião, todas as nossas esperanças mais queridas serão perfeita-
mente realizadas. Então, Deus será “tudo em todos” (1 Coríntios 15:28).

A Glória Eterna É Nossa Por Meio De Nossa União Com Cristo

“Que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”. A primeira parte desta cláusula é
melhor traduzida “em Cristo Jesus”, o que significa que o nosso chamado para fruir da glória
eterna de Deus existe em virtude de nossa união com Cristo Jesus. A glória pertence a Ele,
que é a nossa Cabeça, e é comunicada a nós somente porque somos Seus membros.
Cristo é o primeiro e grande Proprietário dela, e Ele a compartilha com aqueles a quem o
Pai deu a Ele (João 17:5, 22, 24). Cristo Jesus é o centro de todos os conselhos eternos de
Deus, os quais são “segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor”
(Efésios 3:11). Todas as promessas de Deus “são nele [Cristo] sim, e por ele o Amém” (2
Coríntios 1:20). Deus nos abençoou com todas as bênçãos espirituais em Cristo (Efésios
1:3). Somos herdeiros de Deus, porque somos coerdeiros com Cristo (Romanos 8:17).
Como todos os propósitos da graça Divina foram formados em Cristo, assim, eles são
efetivamente executados e estabelecidos por Ele. Pois, Zacarias, enquanto bendizendo a
Deus por ter “levantado uma salvação”, acrescentou, “Para manifestar misericórdia a nos-
sos pais, e lembrar-se da sua santa aliança” (Lucas 1:68-72). Estamos “conservados por
Cristo Jesus” (Judas 1). Desde que Deus nos chamou “para a comunhão de seu Filho Jesus
Cristo nosso Senhor” (1 Coríntios 1:9), ou seja, para participar (na devida proporção) de
tudo o que Ele é participante em Si mesmo, Cristo nosso Coerdeiro e Representante entrou
em posse dessa herança gloriosa e em nossos nomes está guardando-a para nós (Hebreus
6:20).

Toda A Nossa Esperança Está Vinculada Somente A Cristo

Parece bom demais para ser verdade que “o Deus de toda graça” é o seu Deus? Há mo-
mentos em que você dúvida se Ele, pessoalmente, te chamou? Será que ultrapassa a sua
fé, leitor Cristão, que Deus, em verdade, chamou você à Sua glória eterna? Então permita-
me deixar este pensamento de encerramento a você. Tudo isso é por e em Cristo Jesus!
Sua graça está estesourada em Cristo (João 1:14-18), o chamado eficaz vem por Cristo

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(Romanos 1:6), e a glória eterna é alcançada por meio dEle. O Seu sangue não foi suficiente
para comprar bênçãos eternas para pecadores merecedores do inferno? Então, não olhe
para sua indignidade, mas, para a infinita dignidade e méritos dAquele que é o Amigo de
publicanos e pecadores. Se a nossa fé compreende ou não, infalivelmente segura é que
esta Sua oração será respondida: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver,
também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória” (João 17:24). Essa contem-
plação não será transitória, como a que os apóstolos apreciaram no monte da transfigu-
ração, mas eterna. Como muitas vezes tem sido apontado, quando a rainha de Sabá con-
trastou sua breve visita à corte de Salomão com o privilégio daqueles que residiam ali, ela
exclamou: “Bem-aventurados os teus homens, bem-aventurados estes teus servos, que
estão sempre diante de ti” (1 Reis 10:8). Essa será a nossa porção feliz ao longo dos sé-
culos sem fim.

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1 Pedro 5:10-11 – Parte 3

Tendo considerado nos dois capítulos anteriores, o suplicante, a definição, o Objeto e o


apelo desta oração, vamos agora contemplar, em quinto lugar, a sua petição: “E o Deus de
toda a graça... ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”. A força apropri-
ada da gramática Grega faria a petição ser lida assim: “o Deus de toda graça... Ele mesmo
vos aperfeiçoe, Ele mesmo vos confirme, Ele mesmo vos fortaleça, Ele mesmo vos estabe-
leça”. Há muito mais contido nessas palavras do que aparece na sua superfície. A plenitude
do seu significado só pode ser descoberta por um exame paciente das Escrituras, assim,
determinando como os vários termos são utilizados em outras passagens. Eu considero as
palavras “Ele mesmo vos aperfeiçoe” como a principal coisa solicitada. As três palavras que
se seguem são, em parte, uma amplificação e, em parte, uma descrição do processo pelo
qual o efeito desejado seja alcançado, embora cada uma das quatro palavras requer ser
considerada separadamente. Expositores antigos — que adentraram nas coisas de modo
muito mais profundo e completo do que os nossos expositores modernos o fazem —, levan-
taram a questão de saber se esta oração recebe o seu cumprimento na vida presente ou
na vida por vir. Depois de pesar cuidadosamente os prós e os contras de seus argumentos,
concluí tendo em vista o alcance extraordinário da palavra grega katartizō (Nº 2675, em
Strong e Thayer), aqui traduzida por aperfeiçoar, que esta petição é concedida em uma
resposta dupla: aqui e no futuro. Considerarei a ambos em meus comentários.

Duas Significações Relevantes

Katartizō significa aperfeiçoar (1) por ajustar ou articular de modo a produzir um objeto
impecável; ou (2) por restaurar um objeto que se tornou imperfeito. Para que você seja
capacitado a formar seu próprio julgamento, definirei antes as passagens em que a palavra
Grega é de forma variada traduzida em outro lugar. Em cada passagem citada a palavra ou
palavras colocadas em itálico são a tradução em Português da palavra Grega traduzida
como aperfeiçoar em nosso texto. Quando o Salvador diz: “Mas corpo me preparaste [ou
“me equipaste”, tolerância admissível] (Hebreus 10:5), devemos entender, como disse
Goodwin, que “aquele corpo foi formado ou articulado pelo Espírito Santo, com a alma hu-
mana, em todas as suas partes, em um instante de sua união com o Filho de Deus”, e que
ele era imaculadamente santo, impecável, e sem mancha ou defeito. Katartizō é usado no-
vamente para expressar a consumação final e perfeita da obra da primeira criação de Deus:
“os mundos pela palavra de Deus foram criados” (Hebreus 11:03). Ou seja, eles estavam
de tal forma concluídos que nada mais era necessário para a sua perfeição; pois como
Gênesis 1:31 nos diz: “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom”.

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Mas essa mesma palavra Grega tem um sentido muito diferente em outras passagens. Em
Mateus 4:21 encontra-se na frase “consertando as redes”, em que se denota a reparação
do que foi danificado. “Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa,
vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão” (Gálatas 6:1). Neste
texto, isso significa tal como a restauração de um membro que está fora da articulação.
Sem dúvida, essa foi uma das significações que o Apóstolo Pedro tinha em mente quando
escreveu esta oração, pois aqueles por quem ele orava haviam sido desarticulados ou
dispersos por perseguições (1 Pedro 1:1, 6, 7). Paulo também tinha esse tom de significado
diante dele quando exortou os Coríntios divididos: “sejais unidos em um mesmo pensamen-
to e em um mesmo parecer” (1 Coríntios 1:10). Mais uma vez, a palavra é usada às vezes
para expressar o suprimento de uma deficiência, como acontece em 1 Tessalonicenses
3:10: “para que possamos ver o vosso rosto, e supramos o que falta à vossa fé?”. A palavra
falta implica uma deficiência. Mais uma vez, a palavra ocorre em Hebreus 13:21: “Vos
aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que
perante ele é agradável por Cristo Jesus” (Hebreus 13:21). Aqui o apóstolo ora para que os
santos avancem para maiores níveis de fé e de santidade nesta vida.

Nosso Aperfeiçoamento Tem Relação Com O Processo De Santificação

Desta forma, poderá ver, a partir de seu uso em outras passagens, que a palavra grega
traduzida como aperfeiçoar em 1 Pedro 5:10 pode oferecer um significado de algo como
isto: “O Deus de toda graça... Ele mesmo vos aperfeiçoe em todos esses níveis sucessivos
de graça que são necessários para que vocês alcancem a maturidade espiritual”. Esse
significado não necessariamente implica qualquer culpa pessoal ou fracasso naqueles por
quem se ora, assim como uma criança não deve ser responsabilizada por não ter ainda
atingido a plena estatura de um adulto ou de não ter atingido o conhecimento que vem com
a idade madura. É com este princípio em mente que Deus prometeu levar à perfeição a boa
obra que Ele começou na alma de seu povo (Filipenses 1:6). Um Cristão pode ir até a me-
dida de graça recebida do alto, sem qualquer divergência intencional em seu curso, e ainda
ser imperfeito. Este foi o caso com o apóstolo Paulo, um dos mais favorecidos dos filhos de
Deus, que confessou: “Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito” (Filipenses 3:12).
Houve, e há, algumas almas privilegiadas que nunca deixaram o seu primeiro amor, que
seguiram rapidamente na busca do conhecimento do Senhor, e que (como o teor geral de
suas vidas) têm se conduzido de acordo com a luz recebida. No entanto, mesmo estes têm
necessidade de mais adições de sabedoria e santidade para torná-los ramos mais fecundos
da videira e para movê-los sempre na direção à consumação de sua santidade no Céu.

Um exemplo disso aparece no caso dos santos de Tessalônica. Eles não somente haviam
experimentado uma conversão notável (1 Tessalonicenses 1:9), mas eles se comportaram

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da maneira mais exemplar e que mais honrava a Deus, de modo que o apóstolo deu graças
a Deus por eles por causa da “obra da vossa fé, do trabalho do amor, e da paciência da es-
perança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai” (vv. 2-3). Não somente
as suas graças interiores eram saudáveis e vigorosas, mas em sua conduta exterior eles
foram feitos “exemplo [padrão] para todos os fiéis” (v. 7). No entanto, Paulo estava mui
ansioso para visitá-los novamente, para que pudesse aperfeiçoar o que faltava em sua fé
(1 Tessalonicenses 3:10). Ele desejava que fossem abençoados com outras fontes de
conhecimento e graça que promoveria uma caminhada mais íntima com Deus e uma maior
resistência e superação de tentações. Pois essa fé que repousa sobre Cristo para perdão
e aceitação de Deus, que Ele concede na conversão, é também uma fé consciente se
fundamente sobre a nossa aceitação por Deus. Paulo refere-se a isto como a “plenitude da
inteligência” (Colossenses 2:2). Com essa bendita segurança, Deus nos dá a rica experi-
ência da “alegria indizível e cheia de glória” (1 Pedro 1:8) e do fazer firme a nossa vocação
e eleição, a fim de que uma entrada abundante em Seu reino seja iniciada nesta vida (2
Pedro 1:10-11). No entanto, este aperfeiçoamento também se aplica à recuperação e
restauração dos Cristãos que tropeçaram, como é evidente, no próprio caso de Pedro.

Pedro Ora Pelo Estabelecimento Ou Confirmação Da Fé Daqueles A Quem Se Dirige

Mas suponha que Deus assim conserte e restaure aqueles que foram achados em falta,
ainda assim, eles não podem cair novamente? Sim, de fato, e, evidentemente, Pedro teve
uma tal contingência em vista. Assim, ele acrescenta a palavra “confirmar”. Pedro anelava
que eles fossem tão confirmados na fé que eles não caíssem. Para os inconstantes e vaci-
lantes, esse foi um pedido para que eles não fossem mais lançados para lá e para cá, antes
fossem inamovíveis em suas crenças. Para os desanimados que, tendo posto a mão no
arado, não olhassem para trás por causa das dificuldades do caminho. Para aqueles que
estavam andando de perto com o Senhor, para que pudessem ser confirmados em santi-
dade diante de Deus (1 Tessalonicenses 3:13); pois os mais espirituais estão diariamente
em necessidade de graça sustentadora A palavra Grega usada (stērizō, Nº 4.741, em
Strong e Thayer) de um modo geral significam firmar ou confirmar. Ela ocorre nas palavras
de Cristo em Lucas 16:26: “está posto um grande abismo”. Ela é encontrada novamente
em conexão com Cristo e é traduzida assim: “manifestou o firme propósito de ir a Jerusa-
lém” (Lucas 9:51). É a palavra dirigida pelo Senhor ao próprio Pedro: “e tu, quando te con-
verteres, confirma [ou “fixa firmemente”] teus irmãos” (Lucas 22:32). Nosso Senhor estava
comissionando Pedro, com antecedência, para restabelecer aqueles de Seus condiscípulos
que também poderiam ceder à tentação de negar o Seu Mestre. Da mesma forma, Paulo
quis estabelecer e consolar os santos de Tessalônica a respeito de sua fé, e isso em relação
à tentação ou tribulação (1 Tessalonicenses 3:1-5).

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Pedro Ora Para Que Deus Se Agrade Em Conceder Força Moral A Eles

Mas, ainda que nós sejamos assim confirmados pela graça de Deus, de modo que não po-
demos cair total e finalmente, ainda assim, somos fracos e podemos estar labutando sob
grandes debilidades. Por isso, o apóstolo acrescenta à sua petição a palavra “fortalecer”.
Este verbo Grego (sthenoō, Nº 4.599 em Strong e Thayer) não é usado em outras partes
do Novo Testamento, mas, a partir de sua posição aqui entre “confirmar” e “estabelecer”,
ela parece ter a força revigorante contra fraquezas e corrupções. Lembro-me da oração
que Paulo ofereceu, em nome dos Efésios, para que fossem “corroborados com poder pelo
seu Espírito no homem interior” (Efésios 3:16). Paulo emprega um substantivo negativo
(asthenes, Nº 772 em Strong e Thayer), formado a partir da mesma raiz, em Romanos 5:6:
“Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios”. Em nosso
estado não-regenerado, estávamos totalmente desprovidos de capacidade e habilitação
para fazer aquelas coisas que são agradáveis a Deus. O estado de impotência espiritual de
uma alma não-regenerada não é apenas dito ser “fraco”, mas a condição do corpo quando
morto é expresso por um substantivo (astheneia, Nº 769) derivado de asthenes (Nº 772).
“Semeia-se em fraqueza”, ou seja, é sem vida, totalmente desprovido de qualquer vigor.
Mas, por contraste, “ressuscitará com vigor” (1 Coríntios 15:43); ou seja, isso deve ser dota-
do e capacitado com todas as habilidades das criaturas racionais, mesmo como as que os
anjos têm (Lucas 20:36), os quais “excedem em força” (Salmos 103:20). Assim, este pedido
pelo fortalecimento dos santos deve ser entendido como por suprimentos de graça que
fortalecerão as mãos cansadas e joelhos desconjuntados e os capacitarão a superar todas
as forças de oposição.

Pedro Ora Para Que Eles Possam Ser Estabelecidos Em Fé, Amor E Esperança

Apesar de sermos confirmados de modo que nunca seremos perdidos, e embora sejamos
fortalecidos para resistirmos contra as tribulações, ainda assim, podemos nos tornar instá-
veis e inseguros. Portanto, Pedro acrescenta a palavra “estabelecer” à sua petição. Ele está
preocupado para que eles sejam incansáveis em sua fé em Cristo, amor por Deus e espe-
rança da glória eterna. O verbo Grego (themelioō, Nº 2.311) é traduzido como “edificada”
em Mateus 7:25, “fundaste” em Hebreus 1:10, e “fundados” em Efésios 3:17. Em nosso tex-
to, ele parece ser utilizado como o oposto de oscilações de espírito e dúvidas de coração.
Pedro está dizendo algo como: Eu oro para que vocês sejam capazes de dizer com confi-
ança: “porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar
o meu depósito até àquele dia” (2 Timóteo 1:12), e que vocês não se desviem do caminho
do dever por causa da oposição que vocês encontram. Não importa o quão boa uma árvore
possa ser, se ela não estiver estabelecida na terra, mas sendo movida de lugar para lugar,
ela terá pouco ou nenhum fruto. Quantos podem traçar a esterilidade de suas vidas pela

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condição incerta de seus corações e julgamentos! Davi poderia dizer: “Preparado está o
meu coração, ó Deus, preparado está o meu coração”, e portanto, ele adicionou, “cantarei,
e darei louvores” (Salmos 57:7). Esta também é uma benção que somente Deus pode dar.
“Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar”, diz Paulo (Romanos 16:25). Ainda assim,
como Deuteronômio 28:9 e 2 Crônicas 20:20 mostram, devemos utilizar os meios indicados.

“Ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”. O objetivo último parece ser
mencionado em primeiro lugar, e, em seguida, as etapas através do que isso deve ser al-
cançado. Mas, se considerados em conjunto ou isoladamente, todos eles relacionam-se
com a nossa santificação prática. O acúmulo destes termos enfáticos indica a dificuldade
da tarefa do Cristão e sua necessidade urgente de suprimentos constantes de graça Divina.
A guerra do santo é uma de dificuldade incomum, e suas necessidades são profundas e
muitas; mas ele relaciona-se com “o Deus de toda graça”! Por isso, é tanto o nosso privilégio
e dever recorrer a Ele por meio de súplica insistente (2 Timóteo 2:1; Hebreus 4:16). Deus
providenciou graça correspondente a todas as nossas necessidades, ainda assim, esta flui
através dos meios que Ele designou. Deus irá nos “aperfeiçoar, confirmar, fortificar, e esta-
belecer”, em resposta à fervorosa oração, pela instrumentalidade de Sua Palavra, por Sua
bênção para nós aos vários ministérios de Seus servos, e santificando-nos a disciplina de
Suas providências. Aquele que deu ao Seu povo uma esperança segura também dará todo
o necessário para a realização da coisa esperada (2 Pedro 1:3); mas é unicamente a nossa
parte buscar a bênção desejada e necessária por meio da oração (Ezequiel 36:37).

Nosso Padecer Com Cristo Deve Preceder O Sermos Glorificados Com Cristo

Em sexto lugar, passamos a refletir sobre a qualificação desta oração: “depois de have-
mos padecido um pouco”. Esta cláusula está intimamente ligada com duas outras: (1) “que
em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória” e (2) a petição “Ele mesmo vos aper-
feiçoe”. O apóstolo não orou para que os crentes fossem removidos deste mundo, assim
que fossem regenerados, nem que eles fossem imediatamente aliviados de seus sofrimen-
tos. Ao contrário, ele ora para que os seus sofrimentos deem lugar à glória eterna “depois
de um tempo”, ou, como diz o original em Grego: “depois de um pouco de tempo”, pois todo
o tempo é curto, em comparação à eternidade. Pela mesma razão, as aflições mais severas
devem ser consideradas como “leves” e apenas “momentâneas” quando comparadas a um
“peso eterno de glória” que nos aguarda (2 Coríntios 4:17). Os sofrimentos e a glória estão
inseparavelmente ligados, pois “por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus”
(Atos 14:22). O apóstolo Paulo ensina claramente que aqueles de nós que somos filhos de
Deus deveremos realmente compartilhar da herança de Cristo, “se é certo que com ele
padecemos, para que também com ele sejamos glorificados” (Romanos 8:17). Se alguém
não carrega qualquer cruz, ele não ganhará nenhuma coroa (Lucas 14:27). Todos os que

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sofreram por amor de Cristo na terra serão glorificados no Céu; mas ninguém será glori-
ficado, salvo aqueles que, de alguma forma ou de outra, estão sendo “feito conforme à sua
morte” (Filipenses 3:10). Alguns dos sofrimentos do crente provem da mão da providência
de Deus, alguns de “falsos irmãos” (2 Coríntios 11:26; Gálatas 2:4), alguns do mundo profa-
no, alguns de Satanás e alguns de pecado interior. Pedro fala de “tentações” ou “tribula-
ções” (1 Pedro 1:6), mas elas são contrabalançadas pela “multiforme graça” (1 Pedro 4:10).
E ambas são dirigidas pela “multiforme sabedoria de Deus” (Efésios 3:10)!

A Nossa Conformidade Com Cristo Inclui Necessariamente


Nossa Comunhão Com Ele Em Seus Sofrimentos

A abundante graça de Deus não exclui tribulações e aflições, mas aqueles que são os
destinatários da graça Divina têm sido “ordenados para isso” (1 Tessalonicenses 3:3).
Então, não nos espantemos ou desfaleçamos por eles, mas busquemos a graça para nos
santificarmos. Os sofrimentos são necessários para os santos em várias considerações.
Em primeiro lugar, eles são designados para que os membros possam se conformar com
a sua Cabeça: “Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante
quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da
salvação deles” (Hebreus 2:10). Suficientes, então, para que o discípulo seja como o seu
Mestre, para que ele seja aperfeiçoado depois de ter sofrido por algum tempo. O próprio
Pedro faz alusão a esta ordem divinamente prescrita no caminho da salvação (ou seja, a
humilhação, em seguida, a exaltação, que se aplica não somente à Cabeça, mas aos Seus
membros também), quando ele se refere aos “sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a
glória que se lhes havia de seguir” (1 Pedro 1:11). Foi a vontade Divina que mesmo o Filho
encarnado deveria aprender a “obediência [submissão], por aquilo que padeceu” (Hebreus
5:8). Houve um ponto de viragem no Seu ministério quando Jesus começou “a mostrar aos
seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos, e dos
principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia” (Mateus
16:21). Por que Ele teve que sofrer assim? É porque Deus havia ordenado isso (Atos 4:28).
Cristo foi tentado pelo Diabo apenas por causa da malícia de Satanás em relação a Ele?
Não, pois foi “conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Mate-
us 4:1; cf Marcos 1:12-13; Lucas 4:1-2). Lembrem-se durante as tribulações, queridos san-
tos, que o próprio Salvador entrou no reino de Deus “por muitas tribulações” (Atos 14:22),
assim como nós devemos fazer. Assim, “naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu,
pode socorrer [“aliviar” ou “ajudar”] aos que são tentados” (Hebreus 2:18). Portanto, tenha-
mos “grande gozo quando cairdes [nós cairmos] em várias tentações” (Tiago 1:2), pois,
sofrer “como Cristão” é um meio pelo qual podemos glorificar ao nosso Deus redentor (1
Pedro 4:16). O privilégio de experimentar “a comunhão dos Seus sofrimentos” é um dos
meios indicado por Deus através do que podemos saber que estamos em Cristo, e não

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mais identificados com o mundo que agora permanece sob a ira de Deus (Filipenses 3:7-
11). Ouça as palavras de nosso Mestre (Mateus 5:10-12):

Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o


reino dos Céus; bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e,
mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, por-
que é grande o vosso galardão nos Céus; porque assim perseguiram os profetas que
foram antes de vós.

A Graça De Deus É Magnificada Ao Atender


As Nossas Necessidades E Confundir Nossos Inimigos

Em segundo lugar, o Deus de toda graça fez esta designação porque a Sua graça é me-
lhor vista em sustentar-nos e é mais manifesta ao nos trazer refrigério. Assim, encontramos
o trono da graça magnificado por Deus nos dar “graça, a fim de sermos ajudados em tempo
oportuno” (Hebreus 4:16). Grande parte da glória da graça de Deus aparece em Seu apoiar
os fracos, em libertar os tentados e em levantar os caídos. O Senhor não nos isenta do
conflito, mas nos sustenta no mesmo. O chamado eficaz garante a nossa perseverança
final, ainda assim, isso não torna desnecessárias as fontes contínuas de graça. Como Man-
ton expressou: “Deus não apenas lhes dará glória no final de sua jornada, mas sustenta as
suas despesas pelo caminho”.

Em terceiro lugar, nosso Pai nos conduz através de provas ardentes, a fim de confundir
aqueles que se opõem a nós. A graça reina (Romanos 5:21), e a grandeza de uma monar-
quia é demonstrada por sua subjugação dos rebeldes e ao derrotar seus inimigos. Deus
levantou o poderoso Faraó, a fim de manifestar Seu próprio poder. No contexto (1 Pedro
5:8), como já vimos, ele permite o diabo, como um leão que ruge, a rugir em nosso derredor,
se opondo e atacando-nos. Mas Ele faz isso somente para o frustrar, pois é “certo que os
presos se tirarão ao poderoso” (Isaías 49:25), e Deus “esmagará em breve Satanás debaixo
dos vossos [nossos] pés” (Romanos 16:20).

O Sofrimento Prova Nossas Graças E Faz O Céu Mais Glorioso

Em quarto lugar, o sofrimento é necessário para testar e provar as nossas graças: “a pro-
va da vossa fé opera a paciência” (Tiago 1:3). Considere o que Pedro diz sobre nós, que
fomos gerados “de novo para uma viva esperança”:

“Em que vós grandemente vos alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que
estejais por um pouco contristados com várias tentações, para que a prova da vossa fé,

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muito mais preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e
honra, e glória, na revelação de Jesus Cristo” (1 Pedro 1:6-7).

É o vento da tribulação que separa o trigo do joio, a fornalha que revela a diferença entre a
escória e o ouro. O ouvinte que é um “solo pedregoso” se ofende e cai: quando é “chegada
a angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo se ofende” (Mateus 13:21). Assim,
também, para a purificação e resplendor de nossa esperança, nossos corações têm que
ser mais completamente apartados deste mundo antes que eles se tornem estabelecidos
sobre as coisas do alto.

Em quinto lugar, a glória de nossa herança eterna é reforçada por nosso suportar a aflição.
Ouça as palavras de Thomas Goodwin:

O Céu não é simplesmente alegria e felicidade, mas uma glória, e uma glória vitoriosa
pela conquista “Ao que vencer” [as promessas são feitas] em cada uma das sete
cartas de Apocalipse 2 e 3. Esta é uma coroa conquistada por mestria, e assim por
esforço, de acordo com certas leis estabelecidas que devem ser observadas por aque-
les que militam (2 Timóteo 2:5). A glória vitoriosa por conquista e mestria é a mais
valiosa. A porção que Jacó ganhou “com a minha espada e com o meu arco” foi aquela
reservada para seu amado José (Gênesis 48:22). Nós somos mais do que vence-
dores, por meio dAquele que nos amou.

Graça É Fornecida Para Conflitos Internos E Externos

É um erro (cometido por alguns) restringir tanto as aflições do versículo 9 ou o sofrimento


do versículo 10 a perseguições e provações exteriores. Antes, todos os assaltos internos
(seja a partir de nossas próprias concupiscências ou de Satanás), e bem como todas as
tentações, sejam quais forem, devem ser incluídos. O contexto exige isso, as palavras: “Se-
de sóbrios e vigilantes”, relaciona-se às nossas concupiscências, bem como a todas as ou-
tras provocações à prática do mal, assim, o chamado a resistir ao Diabo claramente se
relaciona com suas tentações interiores para o pecado. A experiência de todos os santos o
exige, pois as suas dores mais agudas são ocasionadas por suas próprias corrupções.
Além disso, como Goodwin apontou, a nossa ação de colocar Deus diante dos olhos de
nossa fé como “o Deus de toda graça”, argumenta o mesmo; pois a Sua graça está princi-
palmente pronta para auxiliar-nos contra pecados interiores e tentações ao pecado. Além
disso, toda a Sua graça se estende não somente a todos os tipos de misérias exteriores,
mas a todos os males internos, que são a nossa maior tristeza, o que exige Sua graça
abundante sobre todo o mais, e para o que Sua graça é principalmente dirigida (Salmo
19:14; 119:1-16; Provérbios 3:5-7; 4:20-27) Sua graça é o grande remédio para todos os

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males a que o crente está sujeito. Alguns são culpados de pecados piores após a conversão
do que antes, e se não fosse o Deus de toda graça o seu Deus, onde eles estariam?

A Perfeição Em Graça É Progressiva E Escatológica

“Depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e
estabeleça”. Isso pode muito bem ser considerado como um pedido de graça para que
possamos obedecer a exortação encontrada em 1 Coríntios 15:58: “Portanto, meus amados
irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor”. Devemos estar
constantemente em oposição ao pecado e nos esforçando para sermos santos em toda
maneira de viver. Este pedido recebe um cumprimento parcial nesta vida, mas uma reali-
zação completa e mais transcendente no Céu. Os santos avançam para novos graus de fé
e de santidade, quando, após temporadas de hesitação e sofrimento, Deus os fortalece e
estabelece em uma forma mais estável de espírito. No entanto, apenas em nossa condição
permanente após a morte, essas bênçãos serão totalmente nossas. Somente então sere-
mos aperfeiçoados, no sentido de sermos plenamente conformes à imagem do Filho de
Deus. Nossos corações serão feitos “irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e
Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 3:13). Só então toda a nos-
sa debilidade findará e nossos corpos “ressuscitarão com vigor” (1 Coríntios 15:43). Então,
de fato, nós seremos eternamente estabelecidos, pois a promessa Divina é esta: “A quem
vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá” (Apocalipse 3:12).

A Doxologia Da Esperança Infalível

Em sétimo lugar, finalmente, chegamos à grande atribuição desta oração apostólica: “A ele
seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém”. “O apóstolo, tendo acrescentado
oração à sua doutrina, aqui adicionou louvor à sua oração”, diz Leighton. Isso expressou a
confiança do apóstolo de que o Deus de toda graça concederia a sua petição. Ele estava
certo de que o que ele pedira em nome dos santos seria a “glória” Divina, e que o Divino
“poderio” infalivelmente o operaria. Há, portanto, uma dica prática implícita para nós nesta
doxologia final. Isso indica onde o alívio deve ser obtido e onde a força deve ser encon-
trada em meio ao nosso sofrimento: ao olhar para a glória de Deus, que é a grande finali-
dade que Ele tem em vista em todo o Seu lidar conosco; e pela confiante crença no domínio
de Deus em realizar todas as coisas para o nosso bem (Romanos 8:28). Pois, se é Seu o
poderio, e Ele nos chamou à Sua glória eterna, então o que temeremos? Assim, certa é a
nossa glorificação (Romanos 8:30) de forma que devemos dar graças por isso agora. A
graça abundante e infinita de Deus está envolvida para efetivá-la, e Seu poder onipotente
garante a sua realização.

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2 Pedro 1:2-3

“Graça e paz vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso
Senhor; visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade,
pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude.”

Nenhum estudo aprofundado das orações dos apóstolos, ou das orações da Bíblia como
um todo, seria completo sem um exame das bênçãos com que os apóstolos (com exceção
de Tiago), antecederam as suas epístolas. Essas saudações iniciais eram muito diferentes
do mero ato de cortesia, como quando o comandante dos soldados Romanos em Jerusalém
escreveu uma carta nestes termos: “Cláudio Lísias, a Félix, potentíssimo presidente, saúde”
(Atos 23:26). Os seus discursos introdutórios eram muito mais do que uma formalidade
cortês, sim, do que as expressões de um desejo gentil. Sua “Graça a vós e paz” era uma
oração, um ato de adoração, em que Cristo era sempre abordado em união com o Pai. Isso
significa que um pedido por essas bênçãos foi feito diante do trono. Tais bênçãos evidencia-
vam a afeição calorosa que os apóstolos tinham por aqueles a quem escreveram, e de-
monstravam os seus desejos espirituais em nome deles. Ao colocar estas palavras de
bênção no início de sua epístola, o apóstolo Pedro manifesta poderosamente como seu
próprio coração foi afetado pela bondade de Deus para com seus irmãos.

Aquilo que agora envolve a nossa atenção pode ser considerado sob os seguintes tópicos.
Primeiro, olharemos para a essência da oração: “graça e paz”, essas são as bênçãos supli-
cadas a Deus. Em segundo lugar, devemos ponderar a medida desejada de sua concessão:
“vos sejam multiplicadas”. Em terceiro lugar, contemplaremos o meio de sua comunicação:
“pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor”. Em quarto lugar, examinaremos
o motivo que levou o pedido: “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito
à vida e piedade” (v. 3). Antes de preencher esse esboço ou fazer uma exposição desses
versículos, apontaremos o que está implícito por meio desta oração (especialmente para o
benefício de jovens pregadores, para quem é especialmente vital aprender como um texto
deve ser ponderado).

As Implicações Vitais Desta Bênção

Na busca do apóstolo por Deus quanto a tais bênçãos como estas para os santos, as
seguintes lições vitais são ensinadas por implicação: (1) que ninguém pode merecer qual-
quer coisa das mãos de Deus, pois a graça e mérito são opostos; (2) que não pode haver
paz verdadeira à parte da Divina graça “Não há paz para os ímpios, diz o meu Deus” (Isaías
57:21); (3) que, mesmo o regenerado permanece em necessidade, constante precisão, da

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graça de Deus; e (4) o regenerado, portanto, deve ser vil aos seus próprios olhos. Se qui-
sermos receber mais de Deus, então devemos apresentar os nossos corações a Ele como
vasos vazios. Quando Abraão estava prestes a fazer súplica ao Senhor, ele humilhou a si
mesmo como “pó e cinza” (Gênesis 18:27); e Jacó reconheceu que ele não era digno da
menor de Suas misericórdias (Gênesis 32:10); (5) Tal pedido como o que Pedro está fazen-
do aqui é uma confissão tácita da total dependência dos crentes sobre a bondade de Deus,
de forma que somente Ele é capaz de suprir as suas necessidades; (6) Ao pedir que a gra-
ça e paz fossem multiplicadas a eles, o reconhecimento é feito que não só o início e conti-
nuidade delas, mas também o seu crescimento procede da boa vontade de Deus; (7) Por
isso, a intimação é dada: “abre bem a tua [nossa] boca” (Salmos 81:10) para Deus. Sim, é
um mau sinal o contentar-se com pequena graça. “Nunca foi bom aquele que não deseja
crescer mais”, diz Manton.

O Caráter Especial Da Segunda Epístola

Uma palavra também precisa ser dita sobre o caráter do livro em que esta oração particular
é encontrada. Como toda segunda Epístola, esta trata de um estado de coisas em que o
falso ensino e apostasia tinham um lugar mais ou menos proeminente. Uma das principais
diferenças entre as duas epístolas é esta: enquanto que em sua primeira Epístola, o pro-
pósito principal de Pedro era fortalecer e confortar os seus irmãos em meio ao sofrimento
a que estavam expostos devido ao mundo profano (pagão) (veja o capítulo 4), e ele agora
graciosamente os adverte (2 Pedro 2:1; 3:1-4) e confirma (2 Pedro 1:5-11; 3:14) contra um
perigo pior do que o mundo professo, a partir daqueles dentro da Cristandade, o qual os
ameaçava. Em sua primeira Epístola, Pedro tinha representado o seu grande adversário, o
diabo, como um leão que ruge (1 Pedro 5:8). Mas aqui, sem nomeá-lo diretamente, ele
retrata Satanás como um anjo de luz (mas, na realidade, a serpente sutil), que já não está
perseguindo, mas buscando corrompê-los e envenená-los por meio de falsos ensinamen-
tos. No segundo capítulo, esses falsos mestres são denunciados (1) como os homens que
haviam negado o Senhor que os resgatou (v. 1), e (2) como licenciosos (vv. 10-14, 19), que
dão liberdade aos seus apetites carnais.

O apóstolo Pedro dirige sua epístola aos que “alcançaram fé igualmente preciosa pela
justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 1:1, as palavras ordenadas aqui
de acordo com o texto grego e VKJ, nota marginal). A palavra fé aqui refere-se a esse ato
da alma através do qual a verdade divinamente revelada é salvificamente apreendida. Sua
fé é declarada ser “preciosa”, pois é um dos dons escolhidos de Deus e o fruto imediato do
poder regenerador do Seu Espírito. Isto é enfatizado na expressão “alcançaram” (lagchanō,
Nº 2975, em Strong e Thayer). É a mesma palavra Grega encontrada em Lucas 1:9: “coube-
lhe em sorte entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso”. Ela aparece novamente

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em João 19:24: “Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela”. Assim, esses santos
foram lembrados de que eles deviam a sua fé salvadora não a qualquer sagacidade supe-
rior da parte deles, mas apenas às distribuições da graça. Isso ocorreu com eles, como com
o próprio Pedro. A revelação foi feita a eles: não pela carne e sangue, mas pelo Pai celestial
(Mateus 16:17). Na distribuição de favores de Deus uma bendita porção havia caído para
eles, mesmo “a fé dos eleitos de Deus” (Tito 1:1). Eles a quem Pedro se dirige são os
gentios, e o nós em que ele se inclui são os judeus. Sua fé tinha por objeto a perfeita justiça
de Cristo, seu Fiador, pois as palavras “pela justiça do” são, provavelmente, melhor traduzi-
das e compreendidas “na justiça do” Divino Salvador.

A Substância Da Bênção De Pedro

Tendo assim descrito seus leitores por sua posição espiritual, Pedro acrescenta sua bênção
apostólica: “Graça e paz vos sejam multiplicadas”. A combinada bênção apostólica e sauda-
ção (que contém os elementos, graça e paz) é essencialmente o mesmo que a empregada
por Paulo em dez de suas Epístolas, bem como por Pedro em 1 Pedro. Em 1 e 2 Timóteo
e Tito, Paulo acrescentou o elemento misericórdia, como o fez João em João 2. Judas usou
os elementos misericórdia, paz e amor. Assim, nós aprendemos que os apóstolos, ao pro-
nunciarem bênçãos ditadas pelo Espírito sobre os crentes a quem escreveu, combinaram
a graça, a palavra de ordem na era da Nova Aliança (João 1:14, 17) com a paz, a distintiva
bênção Hebraica. Quem leu o Antigo Testamento com atenção se lembrará com que fre-
quência a saudação “a paz esteja contigo”, ou algo semelhante é encontrada (Gênesis
43:23; Juízes 6:23; 18:6; etc.) “Haja paz dentro de teus muros, e prosperidade dentro dos
teus palácios” (Salmos 122:7), clama Davi, enquanto ele contempla com expectativa as
bênçãos espirituais e temporais que ele deseja para Jerusalém e, portanto, a favor de Israel
(cf. vv. 6, 8, bem como todo o Salmo). Este texto mostra que a palavra paz era um termo
genérico para designar o bem-estar. Desde a sua utilização pelo Salvador ressuscitado em
João 20:19, concluímos que era um resumo de inclusão de toda bênção. Nas Epístolas e
Livro do Apocalipse [...] os termos graça e/ou paz são frequentemente usados em sau-
dações e bênçãos conclusivas. A palavra paz é usada de maneiras diversas por oito vezes
(Romanos 16:20; 2 Coríntios 13:11; Efésios 6:23; 1 Tessalonicenses 5:23; 2 Tessaloni-
censes 3:16; Hebreus 13:20; 1 Pedro 5:14; 3 João 14), seis dessas vezes em maior ou
menor proximidade com a palavra graça, que é usada dezoito vezes (Romanos 16:20, 24;
1 Coríntios 16:23; 2 Coríntios 13:14; Gálatas 6:18; Efésios 6:24; Filipenses 4:23;
Colossenses 4:18; 1 Tessalonicenses 5:28; 2 Tessalonicenses 3:18; 1 Timóteo 6:21; 2
Timóteo 4:22; Tito 3:15; Filemom 1:24; Hebreus 13:25; 1 Pedro 5:10; 2 Pedro 3:18; Apoca-
lipse 22:21). Obviamente, a cláusula “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja convos-
co”, ou alguma variação disso, é a mais característica bênção conclusiva empregada pelos
apóstolos. À luz da sua compreensão das realidades gloriosas da era do Evangelho (Atos

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10, 11, especialmente vv. 1-18), é evidente, por esta bênção, que o apóstolo Pedro vê e
abraça tanto judeus crentes e gentios crentes, como unidos no compartilhamento da plena
bênção de grande salvação de Deus.

Tendo um desejo sincero pelo bem-estar deles, Pedro pediu para os santos as mais precio-
sas bênçãos que lhes poderiam ser conferidas, para que eles pudessem ser moral e espiri-
tualmente enriquecidos, tanto interna como externamente. “Graça e paz” contém a soma
das dádivas do Evangelho e o suprimento de todas as nossas necessidades. Juntas, elas
incluem todos os tipos de bênçãos, e, portanto, elas são as coisas mais abrangentes que
podem ser solicitadas a Deus. Elas são os mais valiosos favores que podemos desejar para
nós mesmos, e para os nossos irmãos! Elas devem ser solicitadas por meio da fé, da parte
de Deus nosso Pai, em confiança na mediação e os méritos de nosso Senhor Jesus Cristo.
“Graça e paz” são a própria essência, assim como o todo, da verdadeira felicidade de um
crente nesta vida, o que explica o desejo do apóstolo de que seus irmãos em Cristo pudes-
sem abundantemente participar delas.

Pedro Ora Para Que Seus Irmãos Cresçam Na Graça

A graça não deve ser entendida no sentido do distintivo favor redentor de Deus, pois estes
santos já eram objetos desta graça; nem isso deve ser tomado como um princípio espiritual
dentro da natureza, pois este foi dado a eles no novo nascimento. Antes, isso se refere a
uma maior manifestação da natureza espiritual e semelhança Divina que alguém recebeu
de Deus e uma dependência maior e mais alegre sobre o Doador (2 Coríntios 12:9). Tam-
bém se refere aos dons Divinos que induzem a esse crescimento. Falando de Cristo, o
apóstolo João declara: “E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por [“so-
bre”, margem da American Standard Version] graça” (João 1:16). Matthew Poole comenta
da seguinte forma:

E graça por graça: temos recebido não gotas, mas graça sobre graça; não somente o
conhecimento e instrução, mas o amor e a graça de Deus, e os hábitos espirituais, na
proporção do favor e da graça que há em Cristo (permitindo nossas pequenas capaci-
dades); recebemos a graça livremente e com abundância, tudo a partir de Cristo, e
por causa dEle; pelo que vemos o quanto a alma que recebe a graça é obrigada a
reconhecer e adorar a Cristo, e pode ser confirmada no recebimento de mais graça, e
de esperanças de vida eterna. (Itálicos pelo autor)

É evidente a partir de 1 Pedro 4:10 que a graça de Deus é multiforme, sendo dispensada
aos Seus santos em várias formas e medidas de acordo com as suas necessidades, mas
para a edificação não somente do indivíduo, mas do Corpo de Cristo como um todo (Efésios

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4:7-16). No próprio final desta Epístola, Pedro ordena aos seus leitores, dizendo: “Antes
crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo” (2 Pedro 3:18;
cf. Efésios 4:15). Assim, vemos a adequação da oração de Pedro, que Deus exerceria ainda
mais Sua benignidade para com eles. Vemos também a necessidade da nossa oração,
desta mesma forma, para nós mesmos e para os outros.

Assim, vemos que, embora o significado fundamental e referência da graça é o favor reden-
tor de Deus, gratuitamente concedido, ainda assim o termo é frequentemente usado em um
sentido mais amplo para incluir todas essas bênçãos que fluem da Sua bondade soberana.
Desta forma é que a graça deve ser entendida nas bênçãos apostólicas: a oração para a
contínua e crescente manifestação da expressão da boa obra que Ele já começou (Filipen-
ses 1:6). “Graça e paz”. Os dois benefícios são adequadamente unidos, pois um nunca é
encontrado sem o outro. Sem graça conciliadora, não pode haver paz sólida e duradoura.
A primeira é a boa vontade de Deus para conosco; a última é a Sua grande obra em nós.
Na proporção em que a graça é comunicada, a paz é apreciada: a graça santifica o coração;
a paz conforta a alma.

Embora A Paz Comece Com A Justificação, Ela É Mantida Pela Nossa Obediência

A paz é um dos principais frutos do Evangelho, enquanto é recebida em um coração crente,


sendo aquela tranquilidade de espírito que advém da sensação de nossa aceitação da parte
de Deus. Não é uma objetiva, mas uma paz subjetiva que está aqui em vista. “Paz com
Deus” (Romanos 5:1) é fundamentalmente judicial, sendo o que Cristo fez por Seu povo
(Colossenses 1:20). Ainda assim, a fé transmite uma resposta à consciência a respeito de
nossa reconciliação com Deus. Na proporção em que a nossa fé repousa sobre a paz feita
com Deus pelo sangue de Cristo, e de nossa aceitação nEle, será a nossa paz interior. Em
e através de Cristo, Deus está em paz com os crentes, e o feliz efeito desta em nossos
corações é uma perceptível “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14:17).
Mas não estamos em uma capacidade para receber e desfrutar as bênçãos até que nos
rendamos ao senhorio de Cristo e levemos o Seu jugo sobre nós (Mateus 11:29, 30). É ne-
cessário, portanto, que Paulo diga: “E a paz de Deus, para a qual também fostes chamados
em um corpo, domine em vossos corações” (Colossenses 3:15). Este é o tipo de paz pelo
que apóstolos oraram em favor de seus irmãos. Esta paz é o fruto de uma segurança bíblica
do favor de Deus, o qual, por sua vez, vem da manutenção da comunhão com Ele por uma
caminhada obediente. É também a paz conosco. Estamos em paz conosco quando a cons-
ciência deixa de acusar-nos, e quando nossos afetos e vontades submetem-se a uma men-
te iluminada. Além disso, inclui a concórdia e amizade com os nossos irmãos em Cristo
(Romanos 5:5-6). Que excelente exemplo nos foi deixado pela igreja em Jerusalém: “E era
um o coração e a alma da multidão dos que criam” (Atos 4:32).

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A Medida De Concessão Desejada: A Multiplicação De Graça E Paz

Graça e paz são a presente herança do povo de Deus, e delas Pedro desejava que eles
fruíssem muitíssimo mais do que um simples gole ou prova. Como 1 Pedro 3:18 indica, ele
desejava que eles “crescessem na graça”, e que eles fossem cheios de paz (cf. Romanos
15:13); assim, ele fez solicitação nesse sentido. “Graça e paz vos sejam multiplicadas”. Por
essas palavras Pedro apela a Deus para visitá-los com ainda maiores e mais abundantes
demonstrações de Sua bondade. Ele ora não somente para que Deus possa conceder a
eles mais e maiores manifestações da Sua graça e paz, mas também que as fracas capaci-
dades deles compreendessem que o Deus fizera por suas almas poderia ser grandemente
ampliado. Ele ora para que uma oferta abundante de graça e de paz seja conferida a eles.
Eles já foram os participantes favorecidos desses favores Divinos, mas o pedido foi feito
por um aumento abundante desses benefícios. As coisas espirituais (ao contrário das mate-
riais) não saciam no gozo delas, e, portanto, não podemos ter em demasia delas. As pala-
vras “paz vos sejam multiplicadas” indicam que há graus de segurança sobre a nossa con-
dição em relação a Deus, e que nós nunca deixaremos de ser dependentes da livre graça.
As dimensões deste pedido nos ensinam que é nosso privilégio pedir a Deus, não somente
por mais graça e paz, mas por uma ampliação das mesmas, pelo que Deus é mais honrado
quando fazemos as maiores solicitações de Sua graça. Se nossos espíritos são estreitados
em seu deleite de graça e paz de Deus, é devido à insignificância de nossas orações e
nunca por qualquer avareza nEle.

O Meio Pelo Qual A Graça E Paz São Transmitidas

“Pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor”. O leitor atento, que não é muito
lento em comparar Escritura com Escritura, terá observado uma variação da saudação
usada por Pedro em sua primeira epístola (1 Pedro 1:2). Lá, ele orou: “Graça e paz vos
sejam multiplicadas”. A adição (“pelo conhecimento de Deus” etc.) feita aqui é significativa,
de acordo com a mudança de propósito de Pedro e adequação ao seu objetivo atual. O
estudante também pode ter notado que o conhecimento é uma das palavras de destaque
desta epístola (veja 2 Pedro 1:2, 3, 5, 6, 8; 2:20; 3:18). Devemos considerar também a
frequência com que Cristo é designado “nosso Senhor” ou “nosso Salvador” (2 Pedro 1:1,
2, 8, 11, 14, 16; 3:15, 18), pelo que Pedro traça um contraste acentuado entre os verdadei-
ros discípulos e os falsos professos do Cristianismo, os quais não se submeterão ao cetro
de Cristo. Esse “conhecimento de Deus” aqui mencionado não é natural, mas um conheci-
mento espiritual, não especulativo, mas experiencial. Nem é simplesmente um conhecimen-
to do Deus da criação e da providência, mas de um Deus que está em aliança com os ho-
mens através de Jesus Cristo. Isto é evidente a partir de seu ser mencionado em conexão
com as palavras “e de Jesus nosso Senhor”. É, portanto, um conhecimento evangélico de

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Deus que está aqui em vista. Não pode haver conhecimento salvífico, exceto em e através
de Cristo, mesmo como o próprio Cristo declarou: “ninguém conhece o Pai, senão o Filho,
e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mateus 11:27).

Na medida em que esta oração foi para que a graça e paz fossem “multiplicadas” aos santos
“pelo [ou no] conhecimento de Deus”, havia uma tácita indicação de que eles tanto mante-
riam e progrediriam nesse conhecimento. Calvino comenta da seguinte forma:

Através do conhecimento, literalmente, no conhecimento; apenas a preposição en [Nº.


1722, em Strong e Thayer] muitas vezes significa “através de” ou “com”: ainda assim,
ambos os sentidos podem se adequar ao contexto. Estou, no entanto, mais disposto
a adotar o primeiro. Pois, quanto mais alguém avança no conhecimento de Deus, todo
o tipo de bênção aumenta também igualmente, com a percepção do amor Divino.

O conhecimento espiritual e experiencial de Deus é o grande meio pelo qual todas as influ-
ências da graça e paz são transmitidas para nós. Deus trabalha em nós, como criaturas ra-
cionais de uma forma que está de acordo com a nossa natureza intelectual e moral, com o
conhecimento precedendo todo o mais. Assim como não há paz verdadeira à parte da gra-
ça, assim não há nenhuma graça ou paz sem um conhecimento salvífico de Deus; e ne-
nhum tal conhecimento de Deus é possível, senão em e através de “Jesus, nosso Senhor”,
pois Cristo é o Meio através do qual todas as bênçãos são transmitidas aos membros do
Seu Corpo místico. Quanto mais janelas há em uma casa, mais luz solar entra nela; deste
modo, quanto maior o nosso conhecimento de Deus, maior é a nossa medida de graça e
paz. Todavia, o conhecimento evangélico do santo mais maduro é apenas fragmentário e
frágil e, portanto, requer o aumento contínuo pela bênção Divina sobre aqueles meios que
foram nomeados para seu aperfeiçoamento e fortalecimento.

A Realização Divina Que Moveu Pedro À Oração

“Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo co-
nhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude” (v. 3). Nisso o apóstolo
encontrou a motivação para fazer a solicitação acima. Foi porque Deus já havia operado
tão maravilhosamente nestes santos que ele foi levado a solicitar que Ele continuasse a
lidar generosamente com eles. Também podemos considerar este terceiro versículo como
sendo trazido para incentivar a fé daqueles Cristãos: uma vez que Deus havia feito tão
grandes coisas por eles, eles devem esperar suprimentos mais liberais da parte dEle. Ob-
serve que o motivo inspirador foi puramente evangélico, e não legal ou mercenário. Deus
havia concedido a eles tudo o que era necessário para a produção e preservação da espiri-
tualidade em suas almas, e o apóstolo desejava vê-los mantidos em uma condição saudá-

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vel e vigorosa. O poder divino é o fundamento da vida espiritual, a graça é o que a sustenta,
e a paz é a atmosfera em que ela vive. As palavras “tudo o que diz respeito à vida e piedade”
também podem ser entendidas como referindo-se, finalmente, à vida eterna na glória: o
direito a ela, uma aptidão para ela, e uma garantia dela, que já haviam sido concedidos a
eles.

Finalmente, é essencial para o nosso crescimento Cristão perceber que o conteúdo do ver-
sículo 3 deve ser considerado como o fundamento da exortação nos versículos 5 a 7. Assim,
o suprimento solicitado no versículo 2 deve ser considerado como a capacitação necessária
para toda frutificação espiritual e boas obras. Vamos, então, exercer a maior diligência para
permanecer em Cristo (João 15:1-5), tanto em nossas orações e em todos os nossos
pensamentos, palavras e ações.

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Judas 24-25 – Parte 1

“Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos


irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória, ao único Deus sábio, Salvador nosso,
seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém.”

A oração para a qual agora voltamos a nossa atenção é particularmente cativante, mas a
sua beleza e bem-aventurança aparece ainda mais visivelmente quando ela é examinada
em conexão com o fundo sombrio. Ela conclui a Epístola mais solene no Novo Testamento,
uma Epístola que deve ser lida com temor e tremor, mas que deve ser deixada, após lida,
com ações de graças e louvor. Ela contém a descrição mais terrível a respeito daqueles
que professam o Cristianismo, mas não possuem as graças dos Cristãos, daquelas árvores
que pareciam prometer dar muito fruto para a glória de Deus, mas cujas folhas logo caíram
e rapidamente secaram. Seu tema é a apostasia, ou, mais especificamente, a corrupção de
grande parte da Igreja visível e da corrupção em curso resultante de uma Cristandade
apóstata. Ela apresenta uma imagem que mui tragicamente retrata as coisas como elas
são em nosso âmbito religioso atual, na maioria das chamadas “igrejas”, de forma geral.
Esta Epístola nos informa a respeito de como o processo de decadência começa em profes-
sos reprovados da religião e como a mesma ocorre até que estejam completamente corrom-
pidos. Ela delineia as características daqueles que desencaminham os outros por estas
suas obras más. Ela dá a conhecer o destino certo que aguarda ambos, os líderes e os que
são levados à apostasia. Esta Epístola é concluída com um contraste glorioso.

Muitos Pervertem O Evangelho Da Livre Graça Em Uma Licença Para Pecar

O Senhor Jesus deu aviso de que a semeadura da boa semente por Ele mesmo e Seus
apóstolos seria seguida pela semeadura de joio, no mesmo campo, por Satanás e seus
agentes. Paulo também anunciou que, não obstante os êxitos generalizados do Evangelho
durante sua vida, haveria uma “apostasia” antes que o homem do pecado fosse revelado
(2 Tessalonicenses 2:3). Essa “apostasia”, ou a apostasia da Igreja visível coletivamente
considerada, é representada pelo Espírito em alguns detalhes através da pena de Judas.
Como o próprio Cristo havia indicado, a obra inicial da corrupção seria feita furtivamente,
“enquanto os homens dormiam” (Mateus 13:25), e Judas representa os malfeitores como
“se introduziram com dissimulação” (v. 4), isto é, haviam se infiltrado secretamente ou
sorrateiramente. Eles são chamados de “homens ímpios, que convertem em dissolução a
graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo”. Ou seja,
enquanto fingiam magnificar a livre graça estes a pervertiam, falhando em aplicar de forma
equilibrada a verdade da santidade; e ao mesmo tempo que professavam crer em Cristo

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como Salvador se recusaram a se render ao Seu senhorio. Assim, eles foram lascivos e
antinomianos. Diante desta ameaça horrível, os santos foram exortados a “batalhar pela fé
que uma vez foi dada aos santos” (v. 3). Neste contexto, a fé significa nada menos do que
todo o conselho de Deus (Cf. Atos 20:27-31).

Essa exortação é aplicada como um lembrete para três exemplos terríveis e solenes da
punição imposta por Deus sobre aqueles que haviam apostatado. A primeira é que os filhos
de Israel a quem o Senhor salvou do Egito, contudo ainda cobiçaram suas panelas de
carne; e por causa de sua incredulidade em Cades-Barnéia toda uma geração daqueles foi
destruída no deserto (v.5; cf. Números 13; 14:1-39, especialmente vv. 26-37). O segundo é
o caso dos anjos que haviam apostatado de sua posição privilegiada, e agora estão “reser-
vados escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia” (v. 6). O terceiro é
o exemplo de Sodoma e Gomorra, que, por causa de sua indulgência comum na forma
mais grosseira de lascívia, foram destruídos pelo fogo do Céu (v. 7; Cf. Gênesis 19:1-25).
Ao que o apóstolo acrescenta que os corruptores da Igreja visível “contaminam a sua carne,
e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades”, sendo menos respeitosos aos seus
superiores que o arcanjo Miguel era ao seu inferior (vv. 8, 9). Ele solenemente pronuncia a
sentença divina: “Ai deles!” (v. 11). Sem a menor hesitação, ele compara-os e as suas obras
às obras de três personagens notoriamente ímpios: “pelo caminho de Caim” devemos en-
tender, a religião natural, que agrada à carne, que é aceitável para o não-regenerado; pelo
“erro de Balaão” devemos entender, um ministério mercenário que perverte a pura “doutrina
da verdadeira religião por causa de torpe ganância” (Calvino); e por “contradição de Coré”,
devemos entender um desprezo pela autoridade e disciplina, um esforço para eliminar as
distinções que Deus fez para a Sua própria glória e para o nosso bem (Números 16:1-3).

Judas Dá Um Claro Indício De Que Esses Falsificadores Estão Dentro Das Igrejas

Outras características desses malfeitores religiosos são dadas em termos figurativos nos
versículos 12 e 13. Deve ser particularmente notado que é dito que estes “banqueteiam-se
convosco” (os santos), o que nos dá mais evidências de que esses hipócritas, engana-
dores dos outros e de si mesmos, estão dentro das igrejas. Na segunda metade do versículo
13 até o versículo 15, sua condenação é pronunciada. Para os desviados há um meio de
recuperação; mas para os apóstatas não há nenhum. No versículo 16, Judas detalha outras
características dos falsos irmãos, que são características, infelizmente, evidenciadas em
muitos Cristãos professos dos nossos dias. Então Judas exorta o povo de Deus a lembrar
que os apóstolos de Cristo haviam predito que “nos últimos tempos haveria escarnecedores
[ou “zombadores”, Nº 1703 em Strong e Thayer (2 Pedro 3:3)] que andariam segundo as
suas ímpias concupiscências” (vv. 17, 18). Por “últimos tempos” deve ser entendido esta
dispensação Cristã ou final (ver 1 Pedro 4:7, 1 João 2:18), com uma possível referência pa-

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ra o clímax da culminação do mal em sua extremidade. Em seguida, Judas apela para aque-
les a quem ele está escrevendo, dirigindo a eles uma série de exortações necessárias e
salutares (vv. 21-23). Ele termina com a oração que agora consideraremos, concluindo a
mais solene de todas as Epístolas com uma mais gloriosa explosão de louvor do que
podemos encontrar em qualquer outra.

Judas Conclui Com Um Cântico À Triunfante Graça De Deus

“Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensí-
veis, com alegria, perante a sua glória, ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e
majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém”. Vamos considerar qua-
tro coisas em nosso estudo sobre esta oração: (1) seu plano de fundo geral; (2) a sua
conexão mais imediata; (3) as razões que moveram Judas a orar assim; e (4) a natureza e
Objeto desta oração.

Em primeiro lugar, deixe-me acrescentar algo mais ao que já foi dito, de uma forma geral,
sobre o plano de fundo desta oração. Parece-me que, em vista do que ocupava a mente do
apóstolo nos versículos anteriores, ele não se conteve de dar vazão a este hino de louvor.
Depois de ver o caso solene de toda uma geração de Israel perecer no deserto por causa
da incredulidade deles, ele foi movido a clamar, “Ora, àquele que é poderoso para vos guar-
dar de tropeçar”. Enquanto contemplava a experiência dos anjos sem pecado que caíram
de seu estado original, ele não podia deixar de tremer; mas quando ele pensou no Salvador
e Protetor de Sua Igreja, ele irrompeu em um esforço de adoração. Judas encontrou grande
conforto e segurança no bendito fato de que Aquele que começa uma obra de graça dentro
daqueles que foram dados a Ele pelo Pai nunca a abandonará até que Ele a aperfeiçoe
(Filipenses 1:6). Ele sabia que se não fosse pelo amor eterno e poder infinito, nosso caso
seria ainda o mesmo que o dos anjos que caíram, que se não fosse por causa de um Reden-
tor onipotente nós também deveríamos entrar em escuridão eterna e suportar o sofrimento
do fogo eterno. Percebemos que Judas não podia deixar de bendizer Aquele cuja mão pro-
tetora cobre cada um daqueles que foram comprados pelo Seu sangue.

Judas Equilibra Uma Terrível Consideração Da


Apostasia Com O Louvor Confiante A Um Deus Preservador

Depois de fazer menção desses exemplos terríveis de queda, é altamente provável que os
pensamentos do escritor desta Epístola voltaram-se para outra queda muito mais recente,
e que tinha vindo debaixo de seu próprio aviso imediato. É bem possível que, quando o
Senhor enviou os doze, “Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes” foram colocados juntos
(Lucas 6:16; 9:1-6), o grande apóstata, o “filho da perdição” (João 17:12) e aquele que es-

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creveria longamente sobre a grande apostasia! Quase não admite dúvida de que Judas
estava com a mente voltada para o traidor, o que o levou a exclamar, acrescentando de
forma enfática: “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar seja glória agora,
e para todo o sempre”. Ele provavelmente tinha em mente Judas Iscariotes, como o tiveram
os seus companheiros apóstolos, e talvez o tivesse ouvido perguntar junto com os outros:
“Porventura sou eu, Senhor?” em resposta à declaração de Cristo de que um deles estava
prestes a traí-lO. E sem dúvida este ficou chocado quando Judas Iscariotes começou a re-
velar abertamente seu verdadeiro caráter. Pois imediatamente depois de receber o bocado
que Jesus tinha mergulhado no prato para ele e ouvir uma desgraça pronunciada sobre si
mesmo, Judas repetiu hipocritamente a pergunta: “Porventura sou eu, Rabi?”, em seguida,
saiu para fazer esse ato mui desprezível para o qual ele tinha sido nomeado (João 6:70,
Mateus 26:20-25, João 13:21-30; Salmo 41:9, João 17:12). Ele não podia deixar de estar
ciente de que, em remorso, o traidor tinha se enforcado: e eu acredito que a sombra da sua
terrível desgraça caiu sobre Judas quando ele escreveu esta Epístola.

Mas Judas não sofreu essas contemplações tristes a ponto de afundá-lo em um estado de
desânimo. Ele sabia que seu onisciente Mestre havia predito que uma maré crescente de
mal se espalharia através da Igreja visível, e que embora tal misterioso fenômeno ocorresse
ali, havia razão sábia para isso na economia Divina. Ele sabia que, quanto mais ferozmente
a tempestade pudesse se enfurecer não havia ocasião para temer, pois o próprio Cristo
estava no barco, pois Ele havia declarado, “eis que eu estou convosco todos os dias, até a
consumação dos séculos [ou “eras”] (Mateus 28:20). Ele sabia que as portas do inferno não
poderiam e que não prevalecerão contra a Igreja (Mateus 16:18). Portanto, ele levantou os
olhos acima do presente século mau e olhou pela fé para o Cabeça e Preservador da Igreja
entronizado, rendendo adoração a Ele. Essa é uma lição muito importante a ser tirada do
cerne desta oração, e por isso eu me demorei muito tempo nela. Companheiros Cristãos,
vamos acatá-la devidamente. Em vez de estarmos muito ocupados com as condições do
mundo, com a ameaça da bomba atômica, com o agravamento da apostasia, permitamos
que nossos corações estejam cada vez mais ocupados com o nosso amado Senhor;
encontremos a nossa paz e alegria nEle.

A Promessa De Deus Para Nos Guardar De Tropeçar Está


Relacionada Ao Nosso Dever De Guardarmos A Nós Mesmos

Vamos agora considerar a conexão mais imediata desta oração. Em ocasiões anteriores,
temos visto quão útil foi que atentássemos cautelosamente ao contexto. É necessário fazê-
lo aqui, se o equilíbrio da verdade deve ser mantido e uma propensão para o antinomianis-
mo evitada. Não é honesto descansar na promessa implícita nesta oração: “Ora, àquele
que é poderoso para vos guardar de tropeçar”, a menos que tenhamos dado primeiro aten-

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ção ao mandamento do versículo 21: “Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus”. Os
preceitos e promessas podem ser distinguidos, mas eles não devem ser separados. Este
faz conhecido o nosso dever, enquanto aquele é para nosso encorajamento enquanto nós
genuína e sinceramente buscamos realizar os mesmos. Mas aquele que negligencia seu
dever não tem direito a nenhum consolo. Depois de descrever pormenorizadamente o iní-
cio, o curso e o final da apostasia da Igreja visível, o apóstolo acrescenta sete breves exorta-
ções aos santos nos versículos 20-23. Estes convocam ao o exercício da fé, oração, amor,
esperança, compaixão, temor e ódio piedoso. Estas exortações são meios para nos preser-
var de apostasia. Calvino começou seus comentários sobre estas exortações dizendo isto:

“Ele mostra a maneira pela qual eles poderiam superar todos os ardis de Satanás, ou
seja, por ter o amor unido à fé, e por estarem guardando-se, posto que estavam em
sua torre de vigia, até a vinda de Cristo.”

O Uso Apropriado Dos Preceitos, Advertências E Doutrinas Consoladoras

Vamos prestar atenção reverente às palavras fiéis de Adolph Saphir sobre este assunto de
vida ou morte:

“Há um esquecimento unilateral e sem base bíblica da posição real do crente (ou da-
quele que professa ser crente), como um homem que ainda está na estrada, na bata-
lha; que ainda tem a responsabilidade de negociar com o talento que lhe foi confiado,
de vigiar pelo retorno do Mestre. Agora, há muitos desvios, perigos, precipícios na
estrada, e devemos perseverar até o fim. Somente vencerão aqueles que são fiéis até
a morte, e serão coroados. Não é algo espiritual, mas carnal o tomar as doutrinas a-
bençoadas e solenes da nossa eleição em Cristo e da perseverança dos santos, que
nos foram dadas como um cordial para horas de desânimo e como o mais íntimo e
principal segredo da alma nas suas relações com Deus, e colocá-los no caminho co-
mum e cotidiano de nossos deveres e problemas, em vez de serem preceitos e adver-
tências da Palavra Divina. Não é apenas que Deus nos guarda através destes avisos
e mandamentos, mas a atitude da alma que negligencia e se distancia destas porções
da Escritura não é como criança, humilde e sincera. As tentativas de explicar as
advertências temíveis das Escrituras contra a apostasia estão enraizadas em um
estado muito mórbido e perigoso de espírito. Um precipício é um precipício, e é tolice
negar isso. “Se viverdes segundo a carne”, diz o apóstolo, “morrereis” [Romanos 8:13].
Agora, para guardar as pessoas de caírem ao longo de um precipício, não coloca-
remos uma cobertura fina e graciosa de flores, mas as proteções mais fortes que
pudermos; e pregos perfurantes ou pedaços cortantes de vidro para prevenir desas-
tres. Porém mesmo isso é apenas a superfície da questão. A nossa caminhada com

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Deus e nossa perseverança até o fim são grandes e solenes realidades. Estamos
lidando com o Deus vivo, e só a vida com Deus, em Deus e para Deus, pode ser de
qualquer proveito aqui. Aquele que nos tirou do Egito está agora guiando-nos; e se
nós O seguirmos, e isto até o fim, entraremos no descanso final.”

Está fora do alcance do que pretendi aqui fazer uma exposição completa dos preceitos
encontrados nos versículos 20-23, mas algumas observações são necessárias se quero
ser fiel em observar o vínculo inseparável que existe entre eles e nosso texto. Dever e
privilégio não devem ser divorciados, nem ousemos aceitar o privilégio de rejeitar o dever.
Se é privilégio do Cristão ter seu coração comprometido com Cristo na glória, ele deve estar
ao mesmo tempo trilhando o caminho que Ele designou e envolvido nas tarefas que Ele
atribuiu a ele. Ainda que Cristo é certamente Aquele que lhe impede de naufragar da fé,
não é em detrimento dos próprios esforços sinceros do discípulo que Ele faz isso. Cristo
lida com Seus remidos como criaturas responsáveis. Ele exige que eles se comportem
como agentes morais, empregando todos os seus esforços para superar os males que os
ameaçam. Embora totalmente dependente dEle, eles não devem permanecer passivos. O
homem é de natureza ativa, e, portanto, deve avançar para melhor ou pior. Antes da rege-
neração ele é, de fato, morto espiritualmente, mas no novo nascimento, ele recebe a vida
Divina. O movimento e exercício acompanham a vida, e essas ações devem ser dirigidas
pelos preceitos Divinos. Ouça as palavras de nosso Senhor: “Aquele que tem os meus
mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de
meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele”.

Como essas palavras devem ter ressoado na memória de Judas quando ele escrevia esta
Epístola (veja João 14:21-22).

Sete Exortações A Uma Vida De Santidade

“Mas vós, amados [em contraste com os apóstatas do versículo anterior], edificando-vos a
vós mesmos sobre a vossa santíssima fé” (v. 20). Na verdade, como diz Paulo: “o funda-
mento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus” (2 Timóteo
2:19a). No entanto, Deus exige que concordemos plenamente com Ele, por nossos próprios
esforços, em Seu propósito de eleição, tal como para nossa eterna salvação, ou seja, toda
a nossa santificação (1 Tessalonicenses 4:3). Pois, no mesmo versículo Paulo declara:
“qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (1 Timóteo 2:19b). Portan-
to, devemos suplicar pelo nosso crescimento e ter cuidado tanto sobre nós mesmos e nos-
sos irmãos. Não é suficiente ser firmado na fé; devemos aumentar diariamente, cada vez
mais esta firmeza. Pois crescer na fé é um dos meios indicados da nossa preservação. Nós
edificamos a nossa fé por um conhecimento aprofundado da mesma. “O sábio ouvirá e

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crescerá em conhecimento”; diz Salomão (Provérbios 1:5). Edificamos a nossa fé, medi-
tando sobre a sua substância ou conteúdo (Salmo 1:2, Lucas 2:19), por acreditar e apro-
priar-se dela, aplicando-a a nós mesmos, e por sermos governados por ela. Observe que
esta é uma “santíssima fé”, pois tanto exige quanto promove a santidade pessoal. As-sim,
podemos distinguir-nos de professos carnais e apóstatas. “Orando no Espírito Santo”.
Devemos ardente e constantemente buscar a Sua presença e poder Divino, que pode con-
ceder-nos a força de vontade e afeições, que são necessárias, a fim de cumprir com esses
preceitos.

“Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus” (v. 21). Veja por que o seu amor por Ele
é preservado em estado puro, saudável e vigoroso. Veja por que seu amor a Cristo está
em constante exercício, obedecendo Àquele que disse: “Se me amais, guardareis os meus
mandamentos” (João 14:15). “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração”
(Provérbios 4:23), pois se suas afeições diminuírem, sua comunhão com Ele vai se deterio-
rar e seu testemunho dEle será prejudicado. Somente se você se manter no amor de Deus,
é que você será distinguido de todos os professos carnais ao seu redor. Esta exortação não
é desnecessária para ninguém. O Cristão vive em um mundo cujas avalanches de neve
logo esfriam o seu amor por Deus se ele não o conservar como a menina dos seus olhos.
Um adversário malicioso fará tudo o que pode para jogar água fria sobre ele. Lembre-se da
solene advertência de Apocalipse 2:4. Oh, que Cristo nunca venha a queixar-se sobre você
ou sobre mim: “Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor”. Em vez disso,
que o nosso amor “cresça mais e mais” (Filipenses 1:9). Para isso, a esperança deve estar
em exercício: “esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna”
(v. 21). Versículos 22 e 23 nos dão a conhecer o nosso dever, e qual deve ser a nossa
atitude para com aqueles de nossos irmãos que caíram pelo caminho. Em relação a alguns
devemos mostrar compaixão, e por motivo de ternura podemos ficar apenas nas repreen-
sões leves e admoestações; de outra forma, aspereza poderia apenas conduzi-los ao de-
sespero e adiamento de seu olhar de arrependimento em direção a Cristo. Mas outros, que
diferem por temperamento, ou por motivo da dureza de coração, exigem fortes repreensões
para a sua recuperação, com advertências assustadoras quanto ao juízo de Deus contra
os pecadores obstinados que se opõe às Suas ameaças e demonstrações de misericórdia.
Isto devemos fazer para salvar “alguns com temor, arrebatando-os do fogo, odiando até a
túnica manchada da carne”.

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Judas 24-25 – Parte 2

“Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar”. Em uma análise mais aprofun-
dada da conexão desta oração, a seguinte pergunta é crucial: quem são estes que o Senhor
Jesus, preserva assim? Nem todo mundo que professa crer e ser um seguidor Seu, como
fica claro a partir do caso de Judas Iscariotes, é preservado por Deus da apostasia. Então
quem é que Ele preserva? Sem dúvida, Deus preserva aqueles que fazem um esforço ge-
nuíno para obedecer às exortações encontradas em versos 20-23, que foram discutidos no
final do capítulo anterior. Estes verdadeiros crentes, tão longe de estarem contentes com o
seu conhecimento atual e realizações espirituais, sinceramente se esforçam para continuar
a edificarem a si mesmos em sua santíssima fé. Estes verdadeiros amigos de Deus, muito
longe de serem indiferentes ao estado de seus corações, zelosamente vigiam suas afei-
ções, a fim de que o seu amor para com Deus seja preservado em estado puro, saudável
e vigoroso pelo exercício regular dos atos de devoção e obediência. Estes verdadeiros san-
tos, longe de terem prazer em flertar com o mundo e entregarem-se aos seus desejos car-
nais, têm seus corações envolvidos em “odiar até a túnica manchada pela carne”. Estes
verdadeiros discípulos oram fervorosamente pela ajuda do Espírito Santo, no desempenho
de todas as suas funções, e são profundamente solícitos para com o bem-estar dos seus
irmãos e irmãs em Cristo. Tais são os que, apesar de toda sua fraqueza e fragilidade, serão
preservados, pelo poder e graça de Deus, da apostasia.

Dois Princípios De Interpretação Necessários Para A Compreensão Desta Oração

É de vital importância para um bom conhecimento das Escrituras observar a ordem em que
a verdade está ali estabelecida. Por exemplo, encontramos Davi, dizendo: “Apartai-vos de
mim, malfeitores, pois guardarei os mandamentos do meu Deus”. Isso ele disse antes de
fazer a seguinte oração: “Sustenta-me conforme a tua palavra” (Salmo 119:115-116). Não
teria havido nenhuma sinceridade na oração a Deus para auxiliá-lo a menos que ele já
houvesse se determinado a obedecer os preceitos Divinos. É uma zombaria horrível que
alguém peça a Deus para sustentá-lo em um curso de sua vontade própria. Primeiro deve
vir o propósito e resolução santa de nossa parte, e, em seguida, a busca da graça capaci-
tadora. É de igual importância para a correta compreensão das Escrituras que tenhamos
um cuidado especial para não separarmos o que Deus uniu, desprendendo uma frase de
seu contexto de qualificação. Muitas vezes lemos a citação: “Minhas ovelhas jamais pere-
cerão”. Enquanto que isto é substancialmente correto, essas não são exatamente as pa-
lavras usadas por Cristo. Isto é o que Ele realmente disse: “As minhas ovelhas ouvem
[atenção!] a minha voz, e eu conheço-as [aprovação], e elas me seguem [contrariando as

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suas inclinações naturais]; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer [os atentos e
obedientes], e ninguém as arrebatará da minha mão” (João 10:27-28).

A Fé É O Meio Instrumental De Nossa Preservação

“Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar”. Nestas palavras, descobrimos
a primeira grande razão por trás da oração do apóstolo Judas, ou seja, a capacidade Divina
de preservar os santos da apostasia. O leitor perspicaz perceberá nas observações acima,
que a questão de como Cristo preserva o Seu povo tem sido antecipada e respondida. Ele
faz isso de uma maneira muito diferente daquela em que Ele mantém os planetas em seus
cursos, isto Ele faz pela energia física. Cristo preserva Seu próprio povo pelo poder espiri-
tual, pelas operações eficazes de Sua graça em suas almas. Cristo preserva o Seu povo e
não em um curso de autossatisfação imprudente, mas de autonegação. Ele os preserva, e
os inclina a observar Suas advertências, a praticar Seus preceitos e seguir o exemplo que
Ele nos deixou. Ele os preserva, concedendo-lhes perseverar na fé e santidade. Nós, que
somos Seus estamos “guardados pelo poder de Deus através da fé” (1 Pedro 1:5), e a fé
diz respeito aos Seus mandamentos (Salmo 119:66; Hebreus 11:8), bem como às Suas
promessas. Cristo realmente é “o autor e consumador da nossa fé” (Hebreus 12:2), mas
nós somos os únicos que devem exercer essa fé e não Ele. No entanto, pelo Espírito Santo,
Ele está operando em nós “tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade”
(Filipenses 2:13). Assim como a fé é o meio instrumental pelo qual somos justificados diante
de Deus, a nossa perseverança na fé é o meio instrumental pelo qual Cristo nos preserva
até a Sua vinda (1 Tessalonicenses 5:23; Judas 1).

Depois de exortar os santos quanto aos seus deveres (vv. 20-23), Judas, em seguida, dá a
entender para quem eles devem olhar para a sua capacitação e para obterem a bênção
sobre seus esforços: “Àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar”. Seus leitores
devem colocar toda a sua dependência por preservação no Senhor Jesus. Ele não diz isso
a fim de verificar a sua diligência, mas, sim, para incentivar a sua esperança de sucesso. É
um grande alívio para a fé saber que “poderoso é Deus para o [nós] firmar” (Romanos 14:4).
John Gill começa seus comentários sobre Judas 24, dizendo: “O povo de Deus está sujeito
a cair em tentação, em pecado, em erros e até mesmo em apostasia final e total, se não
fosse pelo poder Divino”. Sim, eles são dolorosamente sensíveis tanto de suas inclinações
más quanto por sua fragilidade, e, portanto, eles frequentemente clamam ao Senhor, “Sus-
tenta-me, e serei salvo, e de contínuo terei respeito aos teus estatutos” (Salmos 119:117).
Enquanto leem sobre Adão em um estado de inocência sendo incapaz de guardar-se de
cair, e também os anjos no Céu, eles sabem muito bem que criaturas imperfeitas e peca-
doras como eles são não podem guardar a si mesmas. O caminho para o Céu é estreito, e
há precipícios de ambos os lados. Há inimigos por dentro e por fora buscando a minha

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destruição, e não tenho mais força em mim mesmo do que o pobre Pedro teve quando Ele
foi posto à prova por uma empregada [Marcos 14:66-70].

Estas Metáforas Que Descrevem A Fraqueza Inerente Dos


Cristãos São Indicadores Para Que Direcionemos A Nossa Fé Para Deus

Quase todas as figuras usadas na Bíblia para descrever um filho de Deus enfatizam a sua
fraqueza e desamparo: uma ovelha, um ramo da videira, uma cana quebrada, um pavio que
fumega. É somente quando nós, experimentalmente, descobrimos a nossa fraqueza que
aprendemos a valorizar mais altamente Aquele que é capaz de nos guardar de cair. Há
algum dos meus leitores tremendo e dizendo: “Eu temo que também eu pereça no deserto”?
Isto não acontecerá, se a sua oração for sincera quando você clamar: “Dirige os meus pas-
sos nos teus caminhos, para que as minhas pegadas não vacilem” (Salmos 17:5). Cristo é
capaz de protegê-lo, pois Seu poder é ilimitado e Sua graça infinita. Que força isso deve
dar para o guerreiro exausto! Davi consolou-se com isto quando ele declarou: “não temeria
mal algum, porque tu estás comigo” (Salmo 23:4). Esta Epístola fala de duas salvaguardas
dos eleitos: uma antes da regeneração, e outra depois. No verso de abertura Judas os cha-
ma de “aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo”. Eles fo-
ram separados para a salvação do Pai em Seu decreto eterno (2 Tessalonicenses 2:13), e
“conservados”, antes de serem chamados eficazmente. Que fato maravilhoso e abençoado
é este! Mesmo enquanto vagavam longe do aprisco, sim, enquanto eles estavam despre-
zando o Pastor de suas almas, Seu amor os observava (Jeremias 31:3) e Seu poder os
livrou de uma sepultura precoce. A morte não pode ceifar um pecador eleito até que ele
tenha nascido de novo!

Cristo Não Eleva As Nossas Esperanças Meramente Para Frustrá-Las

O que acaba de ser pontuado deve deixar muito claro que não há qualquer dúvida sobre o
desejo da vontade do Senhor para preservar o Seu povo. Se Ele os guardou da morte
natural, enquanto estavam em um estado não-regenerado, muito mais Ele irá livrá-los da
morte espiritual agora que Ele os fez novas criaturas (cf. Romanos 5:9-10). Se Cristo não
estivesse disposto a “fazer abundar toda a graça” em relação a Seu povo (2 Coríntios 9:8),
para “guardar o meu [deles] depósito até àquele dia” (2 Timóteo 1:12), para “socorrer os
que são tentados” (Hebreus 2:18), e “salvar perfeitamente os que por ele se chegam a
Deus” (Hebreus 7:25), Ele certamente não nos atormentaria afirmando em cada passagem
que Ele é capaz de fazer essas coisas. Quando Cristo perguntou aos dois cegos, que lhe
suplicavam que Ele tivesse misericórdia deles: “Credes vós que eu possa fazer isto” (Mate-
us 9:28), Ele não estava sugerindo uma dúvida em suas mentes quanto à Sua prontidão
para dar-lhes a vista; antes Ele estava evocando a sua fé, como o versículo seguinte torna

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evidente. As palavras, “àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar”, é uma ex-
pressão geral, incluindo não só a sua força e vontade, mas a Sua bondade e generosidade,
que Ele já exerceu e continuará a exercer para a preservação do Seu povo.

Cristo É Comprometido Pelo Pacto À Obrigação De Preservar


Seu Povo Da Apostasia Total E Final

É verdade que o poder de Cristo é muito maior do que o que Ele exerce efetivamente, pois
o Seu poder é infinito. Ele estava tão disposto, que poderia guardar completamente o Seu
povo do pecado; mas por razões sábias e santas Ele não o faz. Como Seu precursor João
Batista declarou aos fariseus e saduceus: “mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos
a Abraão” (Mateus 3:9). Cristo poderia ter comandado uma legião de anjos para livrá-lO de
seus inimigos (Mateus 26:53), mas Ele não quis. O exercício do Seu poder era e é regulado
pelo propósito eterno de Deus; Ele exerce Seu poder somente na medida em que Ele
estipulou fazê-lo pelo Seu envolvimento na Aliança. Assim, as palavras “Àquele que é
poderoso para vos guardar de tropeçar” tem referência não a todo tipo de queda, mas de
ser vítima de erros fatais daqueles “homens ímpios” mencionados no versículo 4, de ser
desencaminhado por sofismas e exemplos de mestres heréticos. Como o pastor das
ovelhas de Deus, Cristo foi responsabilizado de preservá-las, não de impedi-las de se afas-
tarem, mas de que fossem destruídas. É dos pecados grosseiros citados no contexto, quan-
do unidos à obstinação e impenitência, que Cristo preserva o Seu povo. Estes são “pecados
de soberba” (Salmo 19:13), em relação aos quais, se alguém os comete e continua
impenitente, são pecados imperdoáveis (assim como o suicídio). Em outras palavras, é da
apostasia total e final que Cristo guarda todos os Seus.

Como um Salvador onipotente, Cristo foi comissionado à obra de preservação de Seu povo.
Eles foram dados a Ele pelo Pai, com esse fim em vista. Ele é, em todos os sentidos, quali-
ficado para esta tarefa, considerando tanto Sua Divindade quanto a Sua humanidade (He-
breus 2:18). Toda a autoridade foi dada a Ele no Céu e na terra (Mateus 28:18). Ele é tão
disposto quanto competente, pois é a vontade do Pai que Ele não perca nenhum daqueles
que fazem parte do Seu povo (João 6:39), e é nisto que Ele se deleita. Ele tem um interesse
pessoal neles, pois Ele os comprou para Si mesmo. Ele é responsável pela sua custódia.
Ele, portanto, os preserva de serem devorados pelo pecado. O nosso Salvador não é débil,
mas alguém que é revestido de onipotência. Isso se manifestou, mesmo durante os dias de
Sua humilhação, quando Ele expulsou demônios, curou os enfermos, e acalmou a tem-
pestade por Sua ordem e autoridade. Evidenciou-se, quando por um único pronunciamento
Ele fez aqueles que vieram prendê-lO caírem para trás por terra (João 18:6). Isso foi extre-
mamente demonstrado em Sua vitória pessoal sobre a morte e a sepultura. Esse mesmo
poder onipotente é exercido em ordenar todos os assuntos do Seu povo, e em dirigir

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continuamente suas vontades e ações em toda a sua peregrinação terrena. Da Sua vinha
Ele declara: “Eu, o Senhor, a guardo, e cada momento a regarei; para que ninguém lhe faça
dano, de noite e de dia a guardarei” (Isaías 27:3).

A Gloriosa Recepção Com A Qual Cristo Recebe E Apresenta O Redimido

“E apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória”. Aqui está a segunda
razão que levou a essa explosão de adoração. Cristo não só protege o Seu povo aqui, mas
tem provido felicidade para sua vida futura. Tal é a Sua graça e poder que Ele faz bem para
todos aqueles a quem Deus propôs e prometeu. A apresentação de Seu povo para Si mes-
mo é individual e corporativa. A primeira é no momento da morte, quando Ele leva o crente
para Si mesmo. Bem-aventurança indizível é esta, imediatamente após o crente deixar o
seu corpo, o seu espírito é conduzido à presença imediata de Deus, e o próprio Salvador o
admite no Céu e o apresenta diante do trono. O espírito desencarnado, livre de toda a
corrupção e mácula, é recebido por Cristo para a glória de Deus. Ele irá aperfeiçoar este
espírito resgatado de um pecador justificado (Hebreus 12:23), diante de Si mesmo com
grande complacência de coração, de modo que ele refletirá Suas próprias perfeições. Ele
vai honrá-lo grandemente, enchê-lo com glória, expressar-lhe o máximo de Seu amor, e
alegrar-Se com ele. Cristo recebe cada espírito lavado pelo Seu sangue com Seus abraços
eternos após sua morte, e os apresenta, com alegria, perante a Sua glória.

Nossa presente passagem também aguarda com expectativa o momento em que Cristo
apresentará publicamente o Seu povo corporativamente para Si mesmo, quando o Cabe-
ça e Salvador, que “amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” vai “apresentar a si
mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepre-
ensível” (Efésios 5:25, 27). Este será o certo e triunfante resultado do Seu amor, pois será
a consumação da nossa redenção. A palavra Grega para apresentar (Nº 2476, em Strong
e Thayer; cf. apresentar [present], Nº 3936, em Efésios 5:27) pode ser usada no sentido de
colocar ao lado de. Tendo purificado a Igreja de toda a sua poluição natural, a preparou e
adornou para o seu lugar destinado como a companheira da Sua glória, Ele, formal e oficial-
mente, a tomou para Si mesmo. Esta declaração eufórica irromperá: “Regozijemo-nos, e
alegremo-nos, e demos-lhe glória [a Deus]; porque vindas são as bodas do Cordeiro” (Apo-
calipse 19:7). Cristo terá feito a Igreja formosa com Suas próprias perfeições, e ela será
cheia de beleza e esplendor, como uma esposa ataviada para o seu marido. Ele, então,
dirá: “Tu és toda formosa, meu amor, e em ti não há mancha” (Cânticos 4:7). Ela será “a
filha do rei é toda ilustre lá dentro; o seu vestido é [será] entretecido de ouro”. É a ela que
se diz: “Então o rei se afeiçoará da tua formosura” (Salmo 45:13, 11), e Ele será para
sempre a satisfatória porção de sua alegria.

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As Escrituras também indicam que na alvorada da ressurreição, Cristo também apresentará
a Igreja ao Seu Pai (2 Coríntios 4:14), e dirá exultante: “Eis-me aqui a mim, e aos filhos que
Deus me deu” (Hebreus 2:13; cf. Gênesis 33:5; Isaías 8:18). Nenhum será perdido (João
6:39-40; 10:27-30; 17:12, 24)! E todos serão perfeitamente conformes à Sua santa imagem
(Romanos 8:29). Ele nos apresentará diante de Deus para Sua inspeção, aceitação e
aprovação. Diz Albert Barnes:

Ele nos apresentará no tribunal do Céu, diante do trono do Pai eterno, como Seu povo
resgatado, como recuperados das ruínas da Queda, como salvos pelos méritos de
Seu sangue. Eles não serão apenas ressuscitados dentre os mortos por Ele, mas pú-
blica e solenemente apresentados a Deus como Seus, como restaurados a Seu servi-
ço e como tendo um título no Pacto da Graça para a bem-aventurança do Céu.

É Cristo tomando o Seu lugar diante de Deus como o Mediador triunfante, possuindo os
“filhos”, como dom de Deus para Ele, confessando Sua unidade com eles, e Se deleitando
com os frutos do Seu trabalho. Ele lhes apresenta “irrepreensíveis”, justificados, santifica-
dos e glorificados”. A maneira pela qual Ele faz isso será “com alegria”, pois Ele então: “verá
o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito” (Isaías 53:11). Em Judas 15 aprendemos
sobre o destino que aguarda os apóstatas; aqui vemos a felicidade designada para os remi-
dos. Eles brilharão para sempre na justiça de Cristo, e Ele encontrará a Sua complacência
na Igreja, como participantes de Sua bem-aventurança.

Uma Grande Doxologia É Atribuída A Uma Pessoa Divina De Perfeições Infinitas

“Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e
para todo o sempre. Amém”. Chegamos a uma consideração da natureza e Objeto desta
oração. É uma doxologia, uma expressão de louvor; e embora seja breve, as verdades
Divinas sobre o qual incide são imensas. Vendo que o Senhor está vestido com glória e
beleza (Jó 40:10), devemos atribuir continuamente essas excelências a Ele (Êxodo 15:11;
1 Crônicas 29:11). Os santos devem publicar e proclamar as perfeições de seu Deus:
“Cantai a glória do seu nome; dai glória ao seu louvor” (Salmo 66:2). Isto é o que fizeram
os apóstolos, e devemos imitá-los. Aqui Ele é adorado por Sua sabedoria. Há algo aqui que
pode apresentar uma dificuldade para jovens teólogos que aprenderam a distinguir entre
os atributos incomunicáveis de Deus, como Sua infinitude e imutabilidade, e Seus atributos
comunicáveis, como a misericórdia, a sabedoria, e assim por diante. Vendo que Deus dotou
algumas de Suas criaturas, com sabedoria, como Ele pode ser chamado de “único sábio”?
Primeiro, Ele é superlativamente sábio. Sua sabedoria é tão vastamente superior à dos
homens e dos anjos que que em comparação com ela a sabedoria das criaturas é loucura.
Em segundo lugar, Ele é essencialmente sábio. A sabedoria de Deus não é uma qualidade

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separada de Si mesmo como acontece conosco. Há muitos homens que estão longe de
serem sábios; mas Deus não seria Deus se Ele não fosse onisciente, sendo naturalmente
dotado de todo o conhecimento e sendo Ele mesmo a fonte de toda a sabedoria. Em ter-
ceiro lugar, Ele é originalmente sábio, sem derivação. Toda a sabedoria vem de Deus, por-
que Ele possui toda a sabedoria em Si mesmo. Toda a verdadeira sabedoria das criaturas
é apenas um raio de Sua luz.

O objeto glorioso desta doxologia não é outro senão o Mediador do Pacto da Graça. As
razões para assim honrarmos a Ele são a onipotência e onisciência que Ele possui, que
são gloriosamente demonstradas na Sua salvação da Igreja. Em vista do que é predicado
dEle no versículo 24, não deve haver a menor dúvida em nossas mentes que “o único Deus
sábio” do versículo 25 não é outro senão o Senhor Jesus Cristo, pois é Seu domínio parti-
cular como um Pastor, a preservação de Sua Igreja da destruição e apresenta-la em glória
ao Pai. Além disso, o epíteto acrescentado: “Salvador nosso”, confirma o assunto. Aqui a
Divindade absoluta é atribuída a ele: “o único Deus”, como também é em Tito 2:13 (onde o
texto Grego seria mais precisa e literalmente traduzido como: “o grande Deus e Salvador
nosso, Jesus Cristo”), 2 Pedro 1:1 (onde o Grego deve ser traduzido como, “de nosso Deus
e Salvador Jesus Cristo”, testemunha as notas marginais da KJV e ASV), e muitos outros
lugares. Cristo, o Filho é “o único Deus”, embora isto não exclua o Pai e o Espírito. Prova-
velmente Ele está aqui designado como tal em contraste com os falsos e insensatos “deu-
ses” dos corruptores heréticos mencionados no contexto. Devo acrescentar que em compa-
ração, o Soberano Deus Triuno da Sagrada Escritura, que é mais gloriosamente represen-
tado no Deus-homem Jesus, o Cristo (que agora reina como o Senhor absoluto do univer-
so), o deus fictício dos Unitários, dos modernistas do século XX, e da maioria dos Arminia-
nos também é tolo e pueril.

Cristo É O Único Apto Para A Obra Atribuída A Ele

Cristo é poderoso e suficiente para tudo aquilo que concerne à Sua mediação redentora
que é aqui magnificada. Ele é adorado como Aquele que triunfantemente completará o tra-
balho que Lhe foi dado para fazer, um trabalho que nenhuma mera criatura, não, nem mes-
mo um arcanjo, poderia realizar. Ninguém, exceto Aquele que é Deus e homem poderia
atuar como Mediador. Ninguém senão uma Pessoa Divina poderia oferecer uma satisfação
adequada à justiça Divina. Ninguém, exceto o possuidor de mérito infinito poderia fornecer
um sacrifício de valor infinito. Ninguém, exceto Deus poderia preservar ovelhas no meio de
lobos. Em Provérbios 8, especialmente os versículos 12, 13, 31 e 32, Cristo é denominado
“sabedoria”, e é ouvido falando como uma pessoa distinta. Ele foi anunciado como o “Mara-
vilhoso Conselheiro” (Isaías 9:6). Ele designou a Si mesmo “sabedoria” em Lucas 7:35. Ele
é expressamente chamado de “sabedoria de Deus” (1 Coríntios 1:24), “no qual estão escon-

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didos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Colossenses 2:3). Sua sabedo-
ria aparece em Sua criação de todas as coisas (João 1:3), em Seu governo e sustentação
de todas as coisas (Hebreus 1:3), e por isso o Pai “mas deu ao Filho todo o juízo” (João
5:22).

A sabedoria consumada de Cristo foi manifestada durante os dias de Sua carne. Ele publi-
cou aos homens os segredos de Deus (Mateus 13:11), Ele declarou: “o Filho por si mesmo
não pode fazer coisa alguma [que, à luz do contexto seguinte significa que Ele não faz
nada, independentemente da vontade do Pai], se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto
ele faz, o Filho o faz igualmente” (João 5:19, 30, 28). Cristo, assim, afirma uma igualdade
de competências entre Ele e Seu Pai. Ele “não necessitava de que alguém testificasse do
homem, porque ele bem sabia o que havia no homem” (João 2:25). Aqueles que O ouviram
ensinar “se maravilhavam, e diziam: De onde veio a este a sabedoria, e estas maravilhas?”
(Mateus 13:54). A sabedoria única de Cristo apareceu em responder de forma a calar os
seus inimigos: “nunca homem algum falou assim como este homem” (João 7:46), testemu-
nharam aqueles que foram enviados para prendê-lO. Ele então confundiu Seus críticos de
modo que Mateus testemunha: “E ninguém podia responder-lhe uma palavra; nem desde
aquele dia ousou mais alguém interrogá-lo” (Mateus 22:46). Uma vez que, portanto, Ele é
dotado de onisciência, não encontraremos nenhuma falha com qualquer um de Seus lidares
para conosco. Vamos sim levar a Ele todos os nossos problemas; vamos confiar nEle de
maneira absoluta, colocando-nos e todas as nossas atividades em Suas mãos.

Os Maiores Louvores São Devidos Ao Senhor Jesus Cristo

Visto que Ele é “Ao único Deus sábio, Salvador nosso”, o único, suficiente e bem sucedido
Salvador, vamos louvá-lO como tal. Como aqueles nos Céus lançam as suas coroas diante
do Cordeiro e exaltam Suas perfeições incomparáveis, assim devemos fazer nós que ainda
estamos na Terra. Uma vez que Cristo Se sujeitou a tal desonra indizível e humilhação por
amor a nós, sim, suportou sofrimentos até a morte, e morte de cruz, quão prontamente e
de coração devemos honrar e magnificar a Ele, clamando com o apóstolo: “A Ele seja glória
e majestade, domínio e poder”! Glória é a exibição de excelência de tal forma que obtenha
a aprovação de todos os que a virem. Aqui, a palavra significa uma alta honra e considera-
ção que é devida a Cristo por causa de Suas perfeições, pela qual Ele ultrapassa infinita-
mente todas as criaturas e coisas. Majestade refere-se a Sua dignidade exaltada e gran-
deza Divina que fazem Ele ser honrado e preferido além de todas as Suas criaturas, tendo
recebido um nome que está acima de todo nome (Filipenses 2:9). Domínio é a regra abso-
luta ou propriedade que é adquirida pela conquista e mantida pela força ou poder superior
ao de todos os rivais. Isto o Deus-homem exerce de tal forma que “não há quem possa
estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?” (Daniel 4:35). Ele já esmagou a cabeça de Sa-

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tanás, Seu inimigo mais poderoso (Gênesis 3:15), e lançou o seu reino do mal no caos. “E,
despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si
mesmo”, em Sua morte na cruz (Colossenses 2:15). Poder, aqui, significa a autoridade de
governar, que é derivada do direito legal. Porque Cristo “sendo obediente até à morte, e
morte de cruz” (Filipenses 2:8-9), Deus o Pai exaltou ao lugar de autoridade e regente uni-
versal (Mateus 28:18), onde agora reina como “Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Apo-
calipse 19:16). Este governo universal, Cristo ganhou como um direito legal por Sua perfeita
obediência como o segundo Adão (Gênesis 1:26-28). Como o Deus-homem, Cristo não só
possui os méritos de autoridade e domínio sobre a terra em relação a todas as Suas
criaturas, mas também sobre todo o universo que Ele mesmo criou.

Rei Jesus Reina Agora E Para Todo O Sempre

“Ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e
para todo o sempre. Amém”. Observe bem a palavra em itálico. Radicalmente diferente foi
o conceito inspirado de Judas de tantos “estudantes de profecia” que adiam o reinado de
Cristo para uma futura era “milenar”. É ao mesmo tempo, as presentes e infinitas dignidades
do Mediador que estão aqui em vista. Ele já foi “coroado de glória e de honra” (Hebreus
2:9). A Majestade é Sua hoje, pois Ele é exaltado “acima de todo o principado, e poder” po-
is Deus “sujeitou [e não “sujeitará”] todas as coisas a seus pés” (Efésios 1:21-22). O Domín-
io também é exercido por Ele agora, e com a força pela qual Ele obteve o domínio Ele está
atualmente “sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hebreus 1:3). Mesmo
agora, o Senhor Jesus está assentado sobre o trono de Davi (Atos 2:29-35), “tendo subido
ao Céu, havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potências” (1 Pedro
3:22). Assim Ele reinará, e não apenas por mil anos, mas para sempre. Amém. E assim
Judas conclui a mais solene de todas as Epístolas com este hino de santa exultação sobre
a presente e eterna glória do Cordeiro.

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Apocalipse 1:5-6 – Parte 1

“E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dentre os


mortos e o príncipe dos reis da terra. Àquele que nos amou, e em seu sangue nos
lavou dos nossos pecados, e nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai;
a ele glória e poder para todo o sempre. Amém.”

A oração que está agora diante de nós realmente constitui a parte de encerramento da sau-
dação e bênção dos versículos 4 e 5 de Apocalipse 1, em que a “graça e paz” são buscadas
a partir do Deus Triuno em Suas Pessoas distintas: (1) “da parte daquele que é, e que era,
e que há de vir”, isto é, da parte do Senhor como o único autoexistente e imutável, Ele é
referido pelo equivalente de Seu nome memorial (Êxodo 3:13-17), pelo que Seu eterno Ser
e fidelidade em guardar a aliança são relembrados (Êxodo 6:2-5, “o Senhor” é igual a
“Jeová” em todo o Antigo Testamento); (2) “e da dos sete espíritos que estão diante do seu
trono”, isto é, do Espírito Santo na plenitude do Seu poder e diversidade de Suas operações
(Isaías 11:1-2); e (3) “da parte de Jesus Cristo”, que é mencionado como o último elo de
ligação entre Deus e o Seu povo. Uma denominação tríplice é aqui concedida ao Salvador:
(1) “a fiel testemunha”, que contempla e abrange toda a Sua vida virtuosa da manjedoura
à cruz; (2) “o primogênito dentre os mortos”, que celebra sua vitória sobre a sepultura, este
é um título de dignidade (Gênesis 49:3), e significa prioridade de classificação em vez de
tempo; e (3) “e o príncipe dos reis da terra”, que anuncia sua majestade real e domínio.
Este terceiro título contempla o Conquistador como exaltado “Acima de todo o principado,
e poder” (Efésios 1:21), como Aquele sobre cujos ombros o governo do universo tem sido
colocado (Isaías 9:6), que é ainda agora mesmo “sustenta todas as coisas pela palavra do
seu poder” (Hebreus 1:3), e diante do qual todo joelho ainda se dobrará (Filipenses 2:10).

Uma Sinopse Analítica Desta Oração

A anterior nomeação das perfeições e dignidades do Redentor evocadas a partir da boca


do apóstolo João nesta exclamação de adoração: “Àquele que nos amou, e em seu sangue
nos lavou dos nossos pecados, e nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; a ele glória
e poder para todo o sempre. Amém”. Assim, a natureza da nossa oração é novamente uma
doxologia. Seu objeto é o Filho de Deus encarnado em Seu caráter e ofício de mediador.
Seus adoradores são aqueles de “nós” que são os beneficiários de Sua mediação. Suas
razões são as nossas apreensões de Seu amor insondável, a eficácia da purificação de
Seu precioso sangue, e as dignidades maravilhosas que Ele tem conferido aos Seus remi-
dos. Sua atribuição é “a ele glória e poder”, e não apenas por mil anos, mas “para todo o

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sempre”, que termina com a segurança afirmação: “Amém”, assim será. Para o benefício
de jovens pregadores acrescentarei mais algumas observações sobre doxologias em geral.

As Doxologias São Necessárias Para Ampliar


Nossas Concepções Das Pessoas Da Divindade

As doxologias da Escritura revelam a nossa necessidade de formar concepções mais exal-


tadas sobre as Pessoas Divinas. Para fazer isso, devemos envolver-nos em meditações
mais frequentes e devotas em Seus atributos inefáveis. Quão poucos nossos pensamentos
se fixam sobre a exposição deles na criação material. A Divindade é “claramente vista” nas
coisas que Deus fez, e até mesmo os pagãos são acusados de culpa imperdoável por causa
de sua incapacidade de glorificar a Deus por Sua obra (Romanos 1:19-21). Não somente
os nossos sentidos se deleitam pelas cores bonitas das árvores e perfumes das flores, mas
as nossas mentes devem se exercitar sobre os movimentos e os instintos dos animais,
admirando a mão Divina que assim os equipou. Quão pouco refletimos sobre as maravilhas
de nossos próprios corpos, a estrutura, conveniência e perfeita adaptabilidade de cada
membro. Quão poucos nos unimos com o salmista em sua exclamação: “Eu te louvarei,
porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas
obras, e a minha alma o sabe muito bem” (Salmo 139:14). Quanto mais maravilhosas são
as faculdades de nosso homem interior, mais elas nos elevam acima de todas as criaturas
irracionais. Como melhor nossa razão é empregada do que em exaltar Aquele que tão rica-
mente nos dotou? No entanto, o pouco reconhecimento e gratidão é feita para o beneficente
Formador e Doador de nossos seres.

Quão pouco consideramos a sabedoria e o poder de Deus que se manifesta no governo do


mundo. Tomemos, por exemplo, o equilíbrio preservado entre os sexos no número relativo
de nascimentos e mortes, para que a população da Terra seja mantida de geração em gera-
ção, sem qualquer manipulação humana. Ou deixe-nos considerar os diversos temperamen-
tos e talentos dados aos homens, de modo que alguns são sábios para aconselhar, admi-
nistrar e gerir, alguns são mais qualificados para o trabalho braçal, e outros para servir em
funções ministeriais. Ou consideremos como Seu governo reprime as paixões mais baixas
dos homens, para que uma medida deste tipo de lei e ordem se mantida geralmente na
sociedade de modo que os fracos não são destruídos pelos fortes nem os bons são incapa-
citados de viver em um mundo que totalmente “jaz no Maligno” (1 João 5:19). Ou pensemos
como Deus estabelece limites para o êxito de ditadores vorazes, de modo que, quando
parece que eles estão aponto de devastar tudo à sua frente, eles são subitamente barrados
por Aquele que decretou que eles “daqui não passarão”. Ou reflitamos sobre como, na Sua
aplicação da lei da retribuição, os indivíduos e as nações são levadas a colher o que seme-
aram, seja isto bom ou mau. É porque nós redemos tão pouca atenção a estes e a uma

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centena de outros fenômenos semelhantes que tão raramente somos levados a clamar:
“Aleluia! pois já o Senhor Deus Todo-Poderoso reina” (Apocalipse 19:6).

As Doxologias São Totalmente Dedicadas Aos Louvores Da Divindade,


Em Particular Pelas Obras Da Graça Divina

Porém, são as obras maravilhosas de Deus no reino da graça, ao invés de na criação e da


providência, que são mais projetadas para levar o coração do povo de Deus à honrá-lO em
adoração. Mais particularmente, as obras em que o Amado de Seu próprio coração estava
e está envolvido em nosso nome nos levam à admiração e louvor. Assim acontece nos
versos que agora estamos ponderando. Tão logo a Pessoa e perfeições do Amante eterno
de sua alma são postas diante da mente e do coração do apóstolo João, ele gritou exultante:
“A Ele glória e poder para todo o sempre”. E assim é com todos os verdadeiros santos de
Deus. Essa exclamação é a resposta espontânea que sai de suas almas para Ele. Isso me
leva a apontar a uma coisa que é comum a todos as doxologias: nelas o louvor é sempre
oferecido exclusivamente à Divindade, e nunca a uma mera ação humana ou realização. A
auto-ocupação e autogratificação absolutamente não possui lugar nelas. Muito diferente é
isso do baixo nível comumente prevalente nas igrejas atualmente. Este escritor esteve uma
vez presente em um serviço onde um hino foi cantado, cujo coro dizia: “Ah, como eu amo
Jesus”. Mas eu não podia conscienciosamente participar disto cantando. Ninguém no Céu
louva ou magnifica suas graças, não devem os Cristãos fazer isso aqui na terra.

O Objeto Específico Desta Doxologia

O Objeto desta adoração e ação de graças é Aquele Bendito que empreendeu, com o Pai
e o Espírito Santo, para salvar o Seu povo dos seus pecados e misérias pelo preço do Seu
sangue e o braço do Seu poder. Em sua Pessoa essencial, Deus Filho é co-igual e co-eter-
no com o Pai e com o Espírito, “que é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém” (Ro-
manos 9:5). Ele é o incriado Sol da justiça (Salmo 84:11; Malaquias 4:2). Toda a glória da
Divindade reluz nEle, e por Ele todas as perfeições da Deidade se manifestaram. Em res-
posta a esta mesma homenagem, Ele declara: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o
fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso” (Apocalipse 1:8). An-
tes que os mundos fossem criados Ele entrou em Aliança de Noivado para encarnar-se,
para ser feito à semelhança da carne do pecado (Romanos 8:3) para servir como o Fiador
do Seu povo, para ser o Noivo de Sua Igreja, o seu completo e todo-suficiente Salvador.
Como tal, Ele é o homem da mão direita de Deus, o companheiro do Senhor dos Exércitos,
o Rei da glória. Seu trabalho é honroso; Sua plenitude, infinita; Seu poder, onipotente. Seu
trono subsiste para todo o sempre. Seu nome está acima de todo nome. Sua glória está
acima dos Céus. É impossível para exaltar-Lhe demasiadamente, pois o Seu nome glorioso
“está exaltado sobre toda a bênção e louvor” (Neemias 9:5).

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No contexto imediato este Ser adorável é visto em Sua pessoa teantrópica, como encar-
nado, como o Deus-homem Mediador. Ele está estabelecido sobre Seu triplo ofício como
Profeta, Sacerdote e Soberano. Seu ofício profético é claramente indicado no título “a Tes-
temunha fiel”, pois na profecia do Antigo Testamento, o Pai anunciou: “Eis que eu o dei por
testemunha aos povos” (Isaías 55:4). O próprio Cristo declarou a Pilatos: “Eu para isso nas-
ci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade” (João 18:37). Como tal,
Ele anunciou o Evangelho aos pobres e o confirmou por poderosos milagres. Seu ofício
sacerdotal é necessariamente implícito na expressão “primogênito dentre os mortos”, pois
na morte, Ele se ofereceu como sacrifício a Deus para fazer satisfação pelas transgressões
de Seu povo. Ele então ressurgiu novamente para que pudesse continuar a exercer seu
sacerdócio por Sua intercessão constante por eles. Seu ofício real aparece claramente na
designação “príncipe dos reis da terra”, pois Ele tem domínio absoluto sobre eles. Por Ele,
eles reinam (Provérbios 8:15), e para Ele, eles são ordenados a Lhe prestar fidelidade (Sal-
mo 2:10-12). A Ele devemos dar ouvidos, nEle devemos crer, e a Ele estamos sujeitos.
Individualmente e coletivamente estes títulos anunciam que Ele deve ser grandemente
respeitado e reverenciado.

Os Anjos Estão Cheios De Admiração Concernente Ao


Amor Redentor De Cristo Por Sua Igreja

Enquanto estava exilado na ilha de Patmos, João foi levado a contemplar Emanuel nas ex-
celências de Sua Pessoa, ofícios e obra. Quando isto aconteceu seu coração foi arrebata-
do, e ele exclamou: “Àquele que nos amou”. O amor de Cristo é aqui expresso pelo apóstolo
João no tempo passado, não porque é inoperante no presente, mas para concentrar a nos-
sa atenção sobre o que Ele fez anteriormente. O amor de Cristo é a mais grandiosa verdade
e mistério revelado nas Sagradas Escrituras. Esse amor se originou no Seu coração e
esteve em operação por toda a eternidade, pois antes que as montanhas fossem formadas
Seu prazer “estava com os filhos dos homens” (Provérbios 8:31). Que amor maravilhoso foi
demonstrado por Cristo em conexão com a Aliança Eterna, onde Ele concordou em servir
como o Fiador do Seu povo e de exercer todas as Suas obrigações. Que Ele devesse ter
complacência em criaturas de pó é a maravilha dos Céus (Efésios 3:8-10, 1 Pedro 1:12).
Que Ele houvesse posto o Seu coração sobre eles enquanto foram vistos em seu estado
caído é incompreensível. Esse amor foi expresso abertamente na Sua encarnação,
humilhação, obediência, sofrimentos e morte.

A Sagrada Escritura afirma que “o amor de Cristo, excede todo o entendimento” (Efésios
3:19). Ele está inteiramente além da computação finita ou compreensão. Que o próprio
Filho de Deus se dignasse a olhar para criaturas finitas foi um ato de grande condescen-
dência por parte dEle (Salmo 13:6). Que Ele tenha ido a tal ponto de apiedar-se deles é

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ainda mais maravilhoso. Que Ele nos amasse em nossa corrupção, transcende inteiramen-
te nosso entendimento. Que as inclinações do Seu coração em relação à Igreja O levassem
a deixar de lado a glória que Ele tinha com o Pai antes que o mundo existisse (João 17:5),
para tomar sobre Si a forma de servo, e tornar-se “obediente até à morte” por causa deles,
até mesmo “à morte de cruz” (Filipenses 2:7-8), supera todo o pensamento e está além de
todos os louvores. Que o Santo estivesse disposto a ser feito pecado por Seu povo (2
Coríntios 5:21) e a suportar a maldição para que a bênção infinita fosse a porção deles
(Gálatas 3:13-14) é totalmente inconcebível. Como S. E. Pierce tão habilmente expressou:

Seu amor é um ato perfeito e contínuo de eternidade a eternidade. Ele não conhece
abatimento ou decadência. Ele é um amor eterno e imutável. Ele excede toda a
concepção e ultrapassa toda a expressão. Para oferecer a maior prova no fato dele:
“Cristo morreu pelos ímpios” (Romanos 5:6). Em Sua vida Ele plenamente demons-
trou Seu amor. Em Seus sofrimentos e morte Ele o estampou com ênfase eterna.

O Amor De Cristo É Completamente Imparcial,


Não Evocado Por Qualquer Mérito Em Seus Objetos

O amor de Cristo era um amor totalmente desinteressado, pois ele não sofreu influência de
qualquer coisa em seus objetos ou quaisquer outras considerações externas a Si mesmo.
Não havia absolutamente nada em Seu povo, seja real ou previsto, para atrair o Seu amor;
nada presente, pois eles haviam se rebelado contra Deus e deliberadamente escolheram
para seu exemplo e mestre alguém que fora um mentiroso e assassino desde o início; nada
previsto, pois eles não poderiam ter nenhuma excelência, senão a que Sua graciosa mão
formou neles. O amor de Cristo infinitamente se destacou em pureza, em intensidade, em
seu desinteresse, e um amor como este nunca se moveu em qualquer peito humano. Cristo
nos amou de forma completamente livre e espontânea. Ele nos amou, quando não O amá-
vamos e lhe éramos desagradáveis. Estávamos totalmente incapazes de prestar-Lhe qual-
quer compensação adequada ou devolução. Sua própria bem-aventurança essencial e
glória não poderiam nem ser diminuídas pela nossa condenação, nem aumentadas pela
nossa salvação. Seu amor não foi convidado, nem atraído, mas completamente auto-
provocado e automotivado. Foi o Seu amor que levou à atividade todos os outros atributos,
Sua sabedoria, poder, santidade, e assim por diante. As palavras de Davi, “livrou-me, por-
que tinha prazer em mim” (Salmo 18:19), fornecem a explicação Divina da minha redenção.

O amor de Cristo foi um amor distinguidor. “O Senhor é bom para todos, e as suas misericór-
dias são sobre todas as suas obras” (Salmo 145:9). Ele é benevolente para com todas as
Suas criaturas, fazendo com o seu sol se levante sobre maus e bons, e enviando de chuva
sobre os justos e sobre os injustos (Mateus 5:45). “Ele é benigno até para com os ingratos

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e maus” (Lucas 6:35). Mas Cristo amou a Igreja e se entregou por ela com um amor que
Ele não possui por toda a humanidade. A Igreja é o único objeto especial e peculiar de Suas
afeições. Para ela, Ele reserva e entretém um amor único e devoção que a faz brilhar entre
todas as obras criadas de Suas mãos com o brilho inconfundível de uma favorita. Maridos
são convidados a amarem suas esposas “como também Cristo amou a igreja” (Efésios
5:25). O amor de um marido para com sua esposa é especial e exclusivo; assim Cristo nutre
por Sua Igreja uma afeição particular. Este Seu amor está sobre Sua Noiva e não sobre a
raça humana em geral. Ela é Seu tesouro peculiar. “Como havia amado os seus, que esta-
vam no mundo, amou-os até o fim” (João 13:1). Em vez de fazermos objeções capciosas a
esta verdade, desfrutemos de sua preciosidade. O amor de Cristo é também constante e
continuamente exercido sobre seus objetos “até o fim”; e, como veremos agora, é um amor
sacrificial e enriquecedor.

O Amor De Cristo Se Dirige À Nossa Maior Necessidade:


A Purificação De Nossos Pecados

As manifestações do amor de Cristo correspondem à nossa miséria e necessidade, as suas


operações são adequadas à condição e às circunstâncias de seus objetos. A nossa mais
triste necessidade era a lavagem de nossos pecados, e esta necessidade tem sido plena-
mente satisfeita por Ele. Seu amor por si só não poderia remover as nossas transgressões,
“Assim como está longe o oriente do ocidente” [Salmos 103:12]. As reivindicações de Deus
tinham que ser cumpridas; e a pena da lei teria que ser suportada. “Sem derramamento de
sangue não há remissão” (Hebreus 9:22), e Cristo amou a Igreja a ponto de derramar Seu
sangue precioso por ela. Por isso, o apóstolo João é aqui ouvido exclamando: “Àquele que
nos amou, e em [ou “por”] seu sangue nos lavou dos nossos pecados”. Esta é a segunda
razão inspiradora ou motivo por trás dessa bênção. Esta referência ao sangue de Cristo
ressalta necessariamente Sua Divindade, bem como Sua humanidade. Nada senão uma
criatura pode derramar sangue e morrer, mas só Deus pode perdoar pecados. É também
este é um testemunho da natureza e eficácia de Seu sacrifício vicário ou substitutivo. Como
este poderia não nos lavar de nossos pecados? Além disso, Ele celebra a prova suprema
do Seu cuidado por Seu povo: “Porque o amor é forte como a morte. As muitas águas não
podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo” (Cântico 8:6-7), que foi demonstrado na
cruz, onde todas as ondas e vagas da ira de Deus (Salmo 42:7) passaram por cima do
Portador do pecado.

O amor conquistador de Cristo foi evidenciado pelo Seu desposar dos eleitos de Deus, com-
prometendo-se com a sua causa, assumindo a sua natureza, obedecendo e sofrendo em
seu lugar. O apóstolo Paulo mostrou a origem desta bendita verdade com aplicação para
os crentes, quando disse: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em

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amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacri-
fício a Deus, em cheiro suave” (Efésios 5:1-2).

O Senhor Jesus sabia o que era necessário para a nossa salvação, e Seu amor o levou à
realização do mesmo. E os apóstolos Paulo e João entenderam e ensinaram sobre a pesa-
da dívida de amor e gratidão que é colocada sobre todos os felizes beneficiários da obra
salvadora de Cristo. Para “lavar-nos de nossos pecados” era a própria essência das coisas
que são necessárias para a nossa salvação, e para o que ser sangue foi derramado. Que
prova estupenda foi a de Seu amor! Nisto consiste o amor, que o justo voluntariamente e
de bom grado sofresse pelos injustos, “para levar-nos a Deus” (1 Pedro 3:18). “Mas Deus
prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores”
(Romanos 5:8). Notícias maravilhosas, são as que Cristo Jesus fez expiação completa por
aqueles que naquele momento eram Seus inimigos (Romanos 5:10)! Ele escolheu dar a
Sua vida por aqueles que eram por natureza e por prática rebeldes contra Deus, ao invés
deles terem sido um sacrifício destinado à ira de Deus para sempre. O culpado transgride,
mas o Inocente é condenado. Os ímpios ofendem, mas o Santo recebe a pena. O servo
comete o crime, mas o Senhor da glória paga por ele em seu lugar. Que razão temos nós
para adorá-lO!

O Amor De Cristo É Infinito E Imutável

Como Cristo pode sempre manifestar o Seu amor pelo Seu povo de uma forma que excede
o que Ele já fez? “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos
seus amigos” (João 15:13). Ainda que este era o Deus-homem, por fazer isso Ele mostrou
que Seu amor era infinito e eterno, incapaz de ser amplificado! Ele resplandeceu o Seu
amor em um pleno meridiano de poder e esplendor, no Getsêmani e no Calvário. Ali Ele
sofreu em Sua alma toda a terrível maldição que era devida e pagou pelos pecados de Seu
povo. Foi então que aprouve a Deus moê-lo e infligir tristeza à sua alma (Isaías 53:10). Sua
angústia era inconcebível. Ele gritou: “Por que me desamparaste?”. Foi assim que Ele nos
amou, e foi assim que Ele forneceu a fonte para nos purificar de nossas iniquidades. Através
do derramamento de Seu precioso sangue Ele expurgou Seu povo totalmente da culpa e
da contaminação do pecado. Unamo-nos ao louvor exultante de S. E. Pierce:

Bendito, eternamente bendito seja o Cordeiro que levou os nossos pecados e as


nossas dores! Seu suor de sangue é a nossa cura e saúde eternas. As dores de Sua
alma são o nosso livramento eterno da maldição da lei e da ira vindoura. O Seu car-
regar os nossos pecados em Seu próprio corpo no madeiro é a nossa eterna libertação
deles. Seu preciosíssimo derramamento de sangue é a nossa purificação eterna.

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“E em seu sangue nos lavou dos nossos pecados”. Pecados como que mancham nosso
registro perante Deus, poluem a alma e contaminam a consciência; e nada pode removê-
lo, exceto a expiação e purificação unicamente promovidas pelo sangue de Cristo. O peca-
do é a única coisa que o Senhor Jesus odeia. É essencial para a Sua santidade que Ele
assim faça. Ele o odeia imutavelmente, Jesus pode antes deixar de amar a Deus do que
amar o pecado. Não obstante o Seu amor para com Seu povo é ainda maior do que o Seu
ódio pelo pecado. Através de sua queda em Adão eles são pecadores; suas naturezas
caídas são totalmente depravadas. Por pensamentos, palavras e atos são pecadores. Eles
são culpados de literalmente inúmeras transgressões, pois seus pecados são mais numero-
sos do que os cabelos da sua cabeça (Salmo 40:12). No entanto, Cristo os amou! Ele os
amou antes que eles houvessem pecado em Adão, e Seus primeiros pensamentos sobre
eles em seu estado caído não produziram nenhuma mudança em Seu amor por eles; ao
contrário, isto lhe concedeu maior oportunidade para Ele demonstrar esse amor. Por isso,
Ele se encarnou, para que pudesse apagar os pecados deles. Nada era mais repugnante
para o Santo de Deus, no entanto, Ele estava disposto a ser um desconhecido para os fi-
lhos de sua mãe, desprezado e rejeitado pelos homens, escarnecido e açoitado por eles,
sim, abandonado por Deus por algum tempo, para que Seu povo pudesse ser purificado.

Cristo De Uma Vez Por Todas Lavou Os Pecados Do Seu Povo

Concordo plenamente com os comentários de John Gill sobre as palavras “nos lavou dos
nossos pecados”:

Isto não deve ser entendido como a santificação de suas naturezas, pois esta é a obra
do Espírito, mas, sim, como a expiação de seus pecados e justificação dos mesmos.

Em outras palavras, é a compra de redenção, e não a sua aplicação, o que está aqui em
vista. Este último, é claro, segue na regeneração, pois todos aqueles que a quem Ele lavou
judicialmente da culpa e da pena do pecado (de uma vez por todas no Gólgota) são no
devido tempo limpos e libertados do amor e do domínio do pecado. Aquilo que é dito nesta
cláusula diante de nós é que a culpa do pecado foi cancelada; a condenação; removida; a
maldição da Lei, tirada e a sentença de absolvição foi pronunciada. Esta é a porção de
todos os crentes: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo
Jesus” (Romanos 8:1). Devemos distinguir entre a justificação das nossas pessoas que
aconteceu de uma vez por todas (Atos 13:39) e o perdão dos pecados que cometemos co-
mo Cristãos (1 João 1:9). Estes últimos devem ser penitencialmente confessados, e então
somos perdoados e purificados com base no sangue de Cristo. É a justificação que está
sendo referida em Apocalipse 1:5, onde o apóstolo João está se regozijando no amor dA-
quele cujo sangue tem de uma vez por todas lavado as pessoas dos santos. A purificação

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permanente do pecado que é necessária no dia a dia é reconhecida em Apocalipse 7:13-
14, onde vemos os santos em brilhantes vestes brancas, vestes anteriormente manchadas
da viagem, que foram lavadas, dia após dia (cf. João 13:3-17).

Eu sei que Tu não somente amaste,


Àqueles a quem amas, até o fim,
Mas que deste a eternidade passada os amaste.
E assim amas a mim.

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Apocalipse 1:5-6 – Parte 2

Duas evidências do amor de Cristo por Seu povo são mencionadas nesta oração: Sua pu-
rificação de seus pecados por Seu próprio sangue, e o Seu valoriza-los pelas dignidades
que Ele lhes concede. Mas há também uma terceira expressão e manifestação do Seu a-
mor que, embora não claramente expressa, é necessariamente implícita aqui, ou seja, Sua
provisão para eles. Como o resultado da obra que o Seu amor O levou a realizar em lugar
deles, Ele meritoriamente garantiu o Espírito Santo para o Seu povo (Atos 2:33). Cristo,
portanto, envia o Espírito Santo para regenerá-los, para tomar as coisas de Cristo e revelá-
las a eles (João 16:14-15), para comunicar um conhecimento experiencial e salvífico do
Senhor Jesus, e produzir fé em seus corações para que eles creiam nEle para a vida eterna.
Eu digo que tudo isso está necessariamente implícito, pois somente por estas realidades
eles são capacitados a real e sensivelmente exclamar “o qual me amou”, sim, de modo que
cada um deles veja que este Cristo, o Filho de Deus “me amou, e se entregou a si mesmo
por mim” (Gálatas 2:20). Esta é a quintessência da verdadeira bem-aventurança, a saber,
ser assegurado pelo Espírito da Palavra que eu sou um objeto de amor infinito e imutável
de Cristo. O conhecimento disso torna-O “totalmente desejável” em minha estima (Cantares
de Salomão 5:16), regozija a minha alma, e santifica minhas afeições.

Por Meio Da Fé Salvadora, Alguém Olha Para Fora De Si Mesmo, Para Cristo

Veja aqui a apropriada natureza da fé salvadora. Ela se apega a Cristo e Seu sacrifício pe-
los pecadores como revelado pela Palavra da verdade. Ela diz: Aqui está uma carta de
amor do Céu sobre o glorioso evangelho do Filho de Deus, que relata o amor de Cristo e
as mais fortes e maiores provas possíveis do mesmo. Eu vejo que esta carta é para mim,
pois ela é dirigida aos pecadores, sim, até ao principal dos pecadores. Ela tanto convida
quanto ordena-me a receber este amável Ser Divino e acreditar sinceramente na suficiência
de Seu sangue expiatório pelos meus pecados. Por isso, O tomo como Ele é oferecido
gratuitamente pelo Evangelho, e confio em Sua própria palavra: “Todo o que o Pai me dá
virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37). Esta fé
não vem por sentimentos de meu amor a Cristo, mas pelo anúncio de Seu amor pelos
pecadores (Romanos 5:8; 10:17). É verdade, o Espírito Santo, no dia do Seu poder, faz
impressões sobre o coração pela Palavra. No entanto, o fundamento da fé não são essas
impressões, mas o Evangelho em si mesmo. O objeto da fé não é Cristo operando no
coração e suavizando-o, mas sim Cristo como Ele é apresentado para nossa aceitação na
Palavra. O que nós somos chamados a ouvir não é Cristo falando secretamente dentro de
nós, mas é Cristo que fala abertamente, objetivamente, sem nós.

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Os Benditos Frutos Da Fé Salvadora

Uma maldição mui terrível é pronunciada sobre todos os que “não amam ao Senhor Jesus
Cristo” (1 Coríntios 16:22). Solene, em verdade, é perceber que essa maldição recai sobre
a grande maioria dos nossos companheiros, mesmo nos países que têm a reputação de
serem Cristãos. Mas por que algum pecador ama a Cristo? Alguém só pode fazê-lo, porque
ele crê no amor de Cristo pelos pecadores. Ele percebe a maravilha e a preciosidade do
mesmo; pois “a fé opera pelo amor” (Gálatas 5:6), mesmo pelo amor de Cristo, que se ma-
nifesta em nossa direção. Ela recebe ou toma o Seu amor para o coração. Em seguida,
opera a paz na consciência, concede acesso consciente a Deus (Efésios 3:12), desperta
alegria nEle, e promove a comunhão com e conformidade a Ele. Essa fé, implantada pelo
Espírito Santo, que opera pelo amor, o reflexo de nossa apreensão e apropriação do amor
de Cristo, mata nossa inimizade contra Deus e leva a nos deleitarmos em Sua Lei (Roma-
nos 7:22). Tal fé conhece, sob a autoridade da Palavra de Deus, que os nossos pecados,
que eram a causa da nossa separação e alienação dEle, foram lavados pelo sangue
expiatório de Cristo. Quão inefavelmente bendito é saber que na plenitude dos tempos,
Cristo apareceu “para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hebreus 9:26), e que
Deus diz sobre todos os crentes “e jamais me lembrarei de seus pecados e de suas
iniquidades” (Hebreus 10:17).

Sobre nossa confiança nos testemunhos Divinos do Evangelho dependem, em grande


medida, tanto a nossa santidade prática quanto o nosso consolo. Nosso amor a Cristo e
adoração a Ele crescerá ou diminuirá em proporção à nossa fé na Pessoa e obra de Cristo.
Onde existe uma garantia pessoal do Seu amor, não pode deixar de haver uma união com
os santos no Céu em louvor a Cristo por lavar-nos de nossos pecados (Apocalipse 5:9-10).
Mas muitos se oporão: “Eu ainda tenho tanto pecado em mim; e tantas vezes obtêm o domí-
nio sobre mim, de modo que eu não me atrevo a acalentar a segurança de que Cristo me
lavou dos meus pecados”. Se isso este é o seu caso, eu pergunto: Você se lamenta a
respeito de suas corrupções, e sinceramente deseja ser para sempre livrar delas? Se assim
for, isso é prova de que você tem o direito de se alegrar no sangue expiatório de Cristo.
Deus vê quão apropriado é deixar o pecado em você, para que nesta vida você seja mantido
humilde diante dEle e maravilhe-se mais em Sua longanimidade. É Sua designação que o
Cordeiro seja agora comido “com ervas amargas” (Êxodo 12:8). Este mundo não é o lugar
do seu descanso. Deus permite que você seja assediado por suas concupiscências, para
que você olhe adiante mais ansiosamente pela libertação e descanso que esperam por
você. Embora Romanos 7:14-25 descreva com precisão a sua experiência presente, Roma-
nos 8:1 também declara: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em
Cristo Jesus”!

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As Elevadas Posições E Privilégios Concedidos Aos
Cristãos Em Virtude Da União Com Cristo

“E nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai”. Aqui está o terceiro motivo inspirador
para a atribuição que se segue. Tendo reconhecido o endividamento dos santos pelo amor
e sacrifício do Salvador, o apóstolo João agora celebra, na linguagem dos “espíritos dos
justos aperfeiçoados” (Apocalipse 1:6; Hebreus 12:23), as elevadas dignidades que Ele lhes
conferiu. Nós, que somos filhos do Altíssimo, na devida medida, somos feitos participantes
das honras dAquele que é o Rei dos reis e nosso grande Sumo Sacerdote; e a apreensão
deste fato evoca uma canção de louvor a Deus. Quando percebemos que o Senhor Jesus
compartilha Suas próprias honras com Seus remidos, conferindo-lhes tanto dignidade real
quanto sacerdotal proximidade de Deus, não podemos deixar de exclamar, com exultação:
“a ele glória e poder para todo o sempre”. Somos virtualmente feitos reis e sacerdotes quan-
do Ele contraiu o cumprimento dos termos da aliança eterna, por este engajamento, fomos
assim constituídos. Por compra fomos feitos reis e sacerdotes quando Ele pagou o preço
de nossa redenção, pois foi por Seus méritos que Ele comprou esses privilégios para nós.
Federalmente fomos feitos assim, quando Ele subiu às alturas (Efésios 4:8; 2:6) e entrou
no interior do véu como nosso Precursor (Hebreus 6:19-20). De fato, nós somos feitos assim
em nossa regeneração, quando nos tornamos participantes de Sua unção.

“E nos fez reis e sacerdotes para Deus”. Aqui nós temos o Redentor exaltando e enobre-
cendo Seus remidos. Isto pressupõe e decorre do nosso perdão, e é o resultado positivo
da obediência meritória de Cristo à Lei de Deus (sem a qual Ele não poderia ter morrido no
lugar dos pecadores). Aquele que nos amou não somente removeu nossas impurezas, mas
também nos tem restaurado ao favor e comunhão Divinos. Além disso, Ele garantiu para
nós uma recompensa gloriosa; Ele tomou o nosso lugar para que pudéssemos compartilhar
o Seu. A fim de que possamos ser protegidos de certos erros insidiosos, que trouxeram não
poucos dos filhos de Deus em cativeiro, é importante perceber que essas designações não
pertencem apenas a uma classe muito seleta e elevada de Cristãos, mas também a todos
os crentes. Também é necessário, para que não sejamos roubados pelo Dispensacionalis-
mo, que compreendamos que essas dignidades pertencem a nós agora. Elas não estão
adiadas até a nossa chegada no Céu, e muito menos até ao amanhecer do milênio. Cada
santo tem estas duas honrarias conferidas a ele de uma vez: ele é um sacerdote real, e um
rei sacerdotal. Aqui vemos a dignidade e nobreza do povo do Senhor. O mundo olha para
nós como miseráveis e desprezíveis, mas Ele fala sobre nós como “ilustres em quem está
todo o meu prazer” (Salmos 16:3).

Quando Paulo diz em 2 Coríntios 1:21 que Deus “nos confirma convosco em Cristo, e o que
nos ungiu, é Deus”, ele está indicando que Deus nos fez reis e sacerdotes; pois a palavra

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ungido é expressivo de dignidade. Reis e sacerdotes eram ungidos quando inauguravam
em seus ofícios. Portanto, quando se diz que Deus ungiu todos os que estão em Cristo
Jesus, ele dá a entender que Ele os qualificou e autorizou ao cumprimento desses cargos
elevados. Ao elaborar um nítido contraste entre os crentes verdadeiros e falsos irmãos e
falsos mestres, o apóstolo João diz: “E vós tendes a unção do Santo... E a unção que vós
recebestes dele, fica em vós” (1 João 2:20, 27). Temos uma participação na unção de Cristo
(Atos 10:38), recebendo o mesmo Espírito com que Ele foi ungido (um belo tipo da unção
de Cristo é apresentado em Salmos 133:2). A bem-aventurança dos eleitos aparece na me-
dida em que são feitos reis e sacerdotes, em virtude do Nome em que eles são apresen-
tados diante de Deus. Aqueles que “recebem a abundância da graça, e do dom da justiça,
reinarão em vida por um só, Jesus Cristo” (Romano 5:17). Embora em todas as coisas
Cristo tenha a primazia, sendo “o Rei dos reis”, pois Ele foi “ungido com óleo de alegria
mais do que a teus [Seus] companheiros” (Salmos 45:7), ainda assim, os Seus compa-
nheiros são investidos com a realeza; e “qual ele é, somos nós também neste mundo” (1
João 4:17). Oh, a fé deve apropriar-se desse fato, e pela graça conduzir-nos em conformida-
de com ele!

Aparentemente, há um contraste projetado entre as duas expressões, “os reis da terra” e


“nos fez reis e sacerdotes para Deus”. Eles são reis, naturalmente, nós espiritualmente;
eles quanto aos homens, nós quanto a Deus. Eles são apenas reis, mas nós somos ambos,
reis e sacerdotes. O domínio dos monarcas terrestres é apenas passageiro; sua glória real
desaparece rapidamente. Mesmo a glória de Salomão, que superou a de todos os reis da
terra foi apenas de curta duração. Mas nós seremos co-regentes com um Rei, cuja fundação
do trono (Apocalipse 3:21) é indestrutível, cujo cetro é eterno, e cujo domínio é universal
(Mateus 28:18; Apocalipse 21:7). Devemos nos vestir com a imortalidade e ser investidos
de uma glória que nunca se esmaecerá. Os crentes são reis, não no sentido de que eles
tomam parte no governo do Céu sobre a terra, mas como partícipes da vitória de seu Senhor
sobre Satanás, o pecado e o mundo. Nisso os Cristãos também são distinguidos dos anjos,
pois eles não são reis, nem jamais reinarão, pois eles não são ungidos. Eles não têm união
com o Filho de Deus encarnado, e, portanto, eles não são “coerdeiros com Cristo”, como
são os redimidos (Romanos 8:17). Assim, longe disso, todos eles são “espíritos ministra-
dores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação” (Hebreus 1:14).
Dele é um lugar subordinado e uma tarefa subserviente!

Um Domínio Moral Exercido Pelo Cristão

Cristo não apenas realizou uma grande obra para o Seu povo, mas Ele efetua uma gran-
de obra neles. Ele não apenas os lava de seus pecados, os quais Ele odeia, mas Ele tam-
bém transforma pelo Seu poder as pessoas deles, as quais Ele ama. Ele não os deixa como

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Ele os encontra inicialmente sob o domínio de Satanás, o pecado e o mundo. Não, mas Ele
torna os reis. Um rei é aquele que é chamado para governar, que é investido de autoridade,
e que exerce o domínio; e assim o fazem os crentes sobre os seus inimigos. É verdade que
alguns dos sujeitos a que somos chamados para governar são fortes e turbulentos, ainda
assim, somos “mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou” (Romanos 8:37).
O Cristão é “rei a quem não se pode resistir” (Provérbios 30:31). Embora ele seja muitas
vezes superado em sua pessoa, contudo ele nunca deve ser superado em sua causa. Ainda
há uma lei em seus membros guerreando contra a lei de seu espírito (Romanos 8:23), mas
o pecado não terá domínio sobre ele (Romanos 6:14). Uma vez o mundo o mantinha em
cativeiro, presumindo ditar a sua conduta, de modo que ele temia desafiar seus costumes
e envergonhava-se de ignorar suas regras de conduta, mas agora “todo o que é nascido de
Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (1 João 5:4). Por
meio do dom da graça Divina da fé, somos capazes de buscar a nossa porção e deleite nas
coisas de cima. Observe bem as palavras de Thomas Manton sobre este assunto:

Rei é um nome de honra, poder e ampla possessão. Aqui nós reinamos espiritualmen-
te, enquanto vencemos o diabo, o mundo e a carne, em alguma medida. É algo princi-
pesco estar acima dessas coisas inferiores e pisar tudo sob os nossos pés em uma
santa e celeste dignidade. Um pagão poderia dizer: “Ele é um rei que não teme nada
e não deseja nada”. Aquele que está acima das esperanças e temores do mundo,
aquele que tem o coração no Céu e está acima das ninharias temporais, dos altos e
baixos do mundo, o mundo sob suas afeições; este homem é de um espírito real. O
reino de Cristo não é deste mundo, nem o é o de um crente. “E para o nosso Deus
nos fizeste reis e sacerdotes; e reinaremos sobre a terra” (Apocalipse 5:10), ou seja,
de uma forma espiritual. É algo bestial atender às nossas concupiscências, por outro
lado é algo majestoso ter a nossa conversação no Céu e vencer o mundo para viver
de acordo com a nossa fé e amor com um espírito nobre. Depois, reinaremos visível
e gloriosamente quando nos assentarmos no trono com Cristo.

Os santos ainda julgarão o mundo, sim, e também os anjos (1 Coríntios 6:2-3).

A Superioridade Do Auto-Governo Sobre A Regra Secular

O trabalho que é atribuído ao Cristão como um rei é governar a si mesmo. “Melhor é o que
tarda em irar-se do que o poderoso, e o que controla o seu ânimo do que aquele que toma
uma cidade” (Provérbios 16:32). Como um rei o Cristão é chamado a mortificar a sua própria
carne, resistir ao diabo, disciplinar seu temperamento, subjugar suas paixões e trazer cativo
todo pensamento à obediência de Cristo (2 Coríntios 10:5). Essa é uma tarefa que dura por
toda a vida. O Cristão não consegue realizá-la em sua própria força. É o seu dever buscar

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capacitação do alto, e recorrer à plenitude da graça que está disponível para ele em Cristo.
O coração é o seu reino (Provérbios 4:23); e é sua responsabilidade fazerem a razão e a
consciência, ambos formados pela Palavra de Deus, governarem os seus desejos de modo
que a sua vontade seja sujeita a Deus. É exigido dEle ser o mestre de seus apetites e regu-
lador de suas afeições, negar concupiscências ímpias e mundanas, e viver sóbria, justa e
piedosamente neste mundo. Ele deve “de tudo se abster” (1 Coríntios 9:25). Ele deve sub-
jugar sua impetuosidade e impaciência, recusar a vingar-se quando os outros o prejudicam,
refrear suas paixões, “vencer o mal com o bem” (Romanos 12:21), e ter tal controle de si
mesmo que ele se alegre com tremor (Salmos 2:11). Ele deve aprender o contentamento
em cada estado ou condição de vida que Deus, em Sua sábia e boa providência tenha o
prazer de colocá-lo (Filipenses 4:11).

Alguns monarcas terrenos têm não poucos súditos infiéis e indisciplinados que os invejam
e os odeiam, que se irritam com seu cetro, e que querem depô-los. No entanto, eles ainda
mantêm seus tronos. Da mesma maneira, o rei Cristão tem muitas e rebeldes concupiscên-
cias e traidoras disposições que se opõem e resistem continuamente ao seu governo, no
entanto, ele deve buscar graça para contê-las. Em vez de esperar a derrota, é o seu privi-
légio ter a certeza: “Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Filipenses 4:13). O
apóstolo Paulo estava exercendo seu ofício real, quando ele declarou: “Todas as coisas me
são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” (1 Coríntios 6:12). É nisso ele
nos deixou um exemplo (1 Coríntios 11:1). Ele também estava conduzindo-se como um rei
quando ele disse: “Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão” (1 Coríntios 9:27).
No entanto, como tudo nesta vida, o exercício do nosso ofício real é muito imperfeito. Ainda
não temos entrado totalmente em nossas honras reais ou agido em nossa dignidade real.
Ainda não recebemos a coroa, ou nos sentamos com Cristo em Seu trono, cujas cerimônias
de coroação são essenciais para a manifestação completa de nosso reinado. No entanto,
a coroa está guardada para nós, uma mansão (infinitamente superior ao Palácio de
Buckingham) está sendo preparado para nós, e essa promessa é nossa: “E o Deus de paz
esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés” (Romanos 16:20).

Os Privilégios Sacerdotais E Deveres Do Crente

Seguindo meu costume habitual, tenho me esforçado para fornecer o máximo de auxílio
onde comentaristas e outros expositores forneceram o mínimo. Tendo procurado explicar
em algum pormenor o ofício real do crente, menos necessita ser dito sobre o ofício sacer-
dotal. Um sacerdote é aquele a quem é dado um lugar de proximidade de Deus, quem tem
acesso a Ele, que tem santo relacionamento com Ele. É o seu privilégio ser admitido à
presença do Pai e ser dado sinais especiais de Seu favor. Ele tem um serviço Divino a
executar. Seu ofício é um de grande honra e dignidade (Hebreus 5:4-5). No entanto, isso

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não se refere a nenhuma hierarquia eclesiástica, mas é comum a todos os crentes. “Mas
vós sois a geração eleita, o sacerdócio real”. Os Cristãos são “o sacerdócio real” ordenado
a “oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pedro 2:5, 9). Eles
são adoradores da majestade Divina, e trazem com eles um sacrifício de louvor (Hebreus
13:15). “Porque os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca de-
vem os homens buscar a lei” (Malaquias 2:7). Como sacerdotes, eles devem ser interces-
sores por todos os homens, especialmente pelos reis e por todos os que estão em posição
de autoridade (1 Timóteo 2:1-2). Mas o exercício pleno e perfeito de nosso sacerdócio está
no futuro, quando, livres do pecado e dos temores carnais, veremos a Deus face a face e
O adoraremos de forma ininterrupta.

Uma Doxologia Apropriada Com Base Em Quem Cristo É E No Que Ele Fez

“A ele glória e poder para todo o sempre. Amém” [Apocalipse 1:6]. Este é um ato de ado-
ração, uma atribuição de louvor, um suspiro de adoração ao Redentor a partir do coração
dos redimidos. Cristãos variam muito em suas capacidades e realizações, e eles diferem
em muitos pontos de vista e práticas menores. Mas todos eles se unem com o apóstolo nis-
so. Todos os Cristãos têm substancialmente as mesmas visões de Cristo e o mesmo amor
por Ele. Onde quer que o Evangelho tenha sido salvificamente apreendido, ele não pode
deixar de produzir este efeito. Primeiro, há um reconhecimento devoto do que o Senhor
Jesus fez por nós, e, em seguida, uma doxologia é prestada a Ele. Enquanto contemplamos
quem foi que nos amou — não um companheiro mortal, mas Deus — nós não podemos
senão nos prostrar diante dEle em adoração. Ao considerarmos o que Ele fez por nós:
derramou Seu sangue precioso, os nossos corações são inclinados em amor a Ele. Na
medida em que percebemos como Ele concedeu tais dignidades maravilhosas sobre nós,
fazendo-nos reis e sacerdotes, não podemos deixar de lançar nossas coroas aos Seus pés
(Apocalipse 4:10). Quando esses sentimentos verdadeiramente dominam a alma, a Cristo
será concedido o trono de nossos corações. Nosso desejo mais profundo será o de agradar
a Deus e viver para Sua glória.

“A ele glória”. Esta é uma palavra que significa (1) brilho visível ou esplendor, ou (2) uma
excelência de caráter que coloca uma pessoa (ou coisa) em uma posição de boa reputação,
honra e louvor. A “glória de Deus” denota principalmente a excelência do Seu Ser Divino e
as perfeições de Seu caráter. A “glória de Cristo” compreende Sua Divindade essencial, as
perfeições morais de Sua humanidade, e o alto valor de todos os Seus ofícios. Secunda-
riamente, as manifestações físicas da glória de Jeová (Êxodo 3:2-6; 13:21-22) e do Seu
ungido (Mateus 17:1-9) são derivadas da grande santidade do Deus Triuno (Êxodo 20:18-
19; 33:17-23; Juízes 13:22; 1 Timóteo 6:16). Cristo tem uma glória intrínseca como o Filho
de Deus (João 17:5). Ele tem uma glória oficial como o Mediador Deus-Homem (Hebreus

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2:9). Ele tem uma glória meritória como a recompensa de Seu trabalho, e isso Ele compar-
tilha com Seus remidos (João 17:5). Em nosso texto, glória é atribuída a Ele, por cada uma
das seguintes razões. Cristo é aqui magnificado tanto pela excelência não-derivada de sua
Pessoa que O exalta infinitamente acima de todas as criaturas e pela Sua glória adquirida
que ainda será exibida diante de um universo reunido [...]. Há uma glória que pertence a
Ele como Deus encarnado, e isso foi proclamado pelos anjos sobre as planícies de Belém
(Lucas 2:14). Há uma glória que pertence a Ele, em consequência de Seu ofício e obra de
Mediador, e que pode ser devidamente celebrada apenas pelos remidos.

“E poder”. Isto, também, pertence a Ele em primeiro lugar por direito como o Deus eterno.
Como tal o domínio de Cristo é não-derivado e supremo. Como tal, Ele tem soberania abso-
luta sobre todas as criaturas, estando o próprio diabo sob Seu domínio. Além disso, o domí-
nio universal também é Seu por mérito. Deus fez “a esse Jesus”, a quem os homens crucifi-
caram, “Senhor e Cristo” (Atos 2:36). Toda autoridade é dada a Ele, tanto no Céu como na
terra (Mateus 28:18). Isso foi prometido a Ele na aliança eterna como recompensa de Seu
grande empreendimento. O reino mediatório de Cristo está fundamentado sobre a Sua
morte sacrificial e ressurreição triunfante. Estas dignidades são Suas “para todo o sempre”,
pois “do aumento deste principado e da paz não haverá fim” (Isaías 9:7, cf. Daniel 7:13-14).
Por meio de um fiel “Amém”, estabeleçamos o nosso selo à veracidade da declaração de
Deus.

Bem-aventurado é isso: antes que qualquer anúncio seja feito sobre os terríveis juízos des-
critos no Apocalipse, antes que uma trombeta de desgraça seja tocada, antes que um cálice
da ira de Deus seja derramado sobre a terra, os santos (pela bênção inspirada de João)
são primeiramente ouvidos louvando no cântico do Cordeiro:

“Aquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, E nos fez reis e
sacerdotes [não para nós mesmos, mas] para Deus e seu Pai [para a Sua honra]; a ele
glória e poder para todo o sempre. Amém”!

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Apêndices

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Por Que e Como Devemos Orar?
Por Thomas Boston

Devemos orar pelas coisas agradáveis à vontade revelada de Deus, e por essas coisas
somente: “E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo
a sua vontade, ele nos ouve” (1 João 5:14). Nós não podemos apresentar a Deus os desejos
ilícitos, nem petições em favor de nossa concupiscência (Tiago 4:3). Estas necessidades
devem ser uma abominação, e uma afronta ousada para um Deus santo. E, de fato coisas
más são tanto mais perversas ao serem trazidas ou endereçadas a um Deus santo.

O assunto de nossas orações deve ser regulado pela Palavra de Deus, onde Ele mostrou
o que Lhe agrada, e o que não agrada. O significado da boa vontade e prazer de Deus no
que diz respeito aos benefícios a serem concedido aos homens, e as nossas orações, de-
vem se restringir aos limites da vontade de Deus. Portanto, vejamos que tudo pelo que nós
oramos esteja dentro do compasso do mandamento ou da promessa de Deus.

Tais são todas as coisas que tendem para a glória de Deus: “Portanto, vós orareis assim:
Pai nosso, que estás nos Céus, santificado seja o teu nome” (Mateus 6:9). “Orai pela paz
de Jerusalém; prosperarão aqueles que te amam” (Salmos 122:6). Para o nosso próprio
bem, temporal, espiritual ou eterno: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos
vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos Céus, dará bens aos que lhe pedirem?”
(Mateus 7:11). “Faze bem, ó Senhor, aos bons e aos que são retos de coração” (Salmos
125:4).

Mas como devemos orar, se quisermos orar retamente e de modo aceitável?

1. Com entendimento; compreendendo o que dizemos (1 Coríntios 14:15). Portanto, nossas


orações devem ser feitas em uma língua conhecida. E, pois pronunciar palavras diante de
Deus, enquanto nós não sabemos o que falamos nunca pode, de fato, ser uma oração.

2. Com reverência: “Guarda o teu pé, quando entrares na casa de Deus; porque chegar-se
para ouvir é melhor do que oferecer sacrifícios de tolos, pois não sabem que fazem mal”
(Eclesiastes 5:1). Devemos manter uma reverência na expressão exterior, voz e gestos,
uma vez que na oração estamos diante do grande Deus. E especialmente no que se refere
ao interior, tenhamos uma apreensão terrível da majestade de Deus diante de quem nós
comparecemos, Salmo 89:7: “Deus é muito formidável na assembleia dos santos, e para
ser reverenciado por todos os que o cercam”. Hebreus 12:28: “Por isso, tendo recebido um
reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavel-

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mente, com reverência e piedade”. Temor e tremor acometem uma criatura, muito mais
uma criatura culpada, diante de um Deus santo. E o dirigir-se a Deus com presunção e
destemor é o resultado de um coração duro.

3. Humildemente: “Senhor, tu ouviste os desejos dos mansos; confortarás os seus corações;


os teus ouvidos estarão abertos para eles” (Salmos 10:17); com um profundo senso de nossa
própria indignidade e pecaminosidade em nossos espíritos. Na oração, chegamos a mendi-
gar, e não a comprar ou exigir nosso direito e, portanto, devemos ser sensíveis à nossa in-
dignidade: Menor sou eu que todas as beneficências, e que toda a fidelidade que fizeste ao
teu servo; porque com meu cajado passei este Jordão, e agora me tornei em dois bandos”
(Gênesis 32:10), e quanto mais graça, mais indignos seremos aos nossos próprios olhos:
“E respondeu Abraão dizendo: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó
e cinza” (Gênesis 18:27). E indo para Deus, devemos voltar nossos olhos para nosso interi-
or, com o publicano (Lucas 18:14) para as nossas próprias maldades do coração e da vida.

4. Com sensibilidade: estando profundamente afetados com um senso de nossas necessi-


dades, como o filho pródigo: “E, tornando em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm
abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-
lhe-ei: Pai, pequei contra o Céu e perante ti; já não sou digno de ser chamado teu filho;
faze-me como um dos teus jornaleiros” (Lucas 15:17-19). Ai! do que aproveita ir a Deus
com um coração insensível, sentar-se à Sua mesa sem fome espiritual, chegar à Sua porta
rica e cheia de bens, em nossa própria vaidade!? Tais são mãos vazias. Por isso humildade
é uma parte da preparação mui necessária para a oração, portanto, olhemos para os
nossos desejos, antes de irmos para a oração.

5. Com fé: “E, tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis” (Mateus 21:22). Quem
ora de maneira aceitável deve ser dotado de fé salvadora (Hebreus 11:6). Um incrédulo
não pode orar de modo aceitável: Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e
como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?”
(Romanos 10:14). Disso segue-se que as orações do homem não-regenerado estão todas
perdidas em relação à aceitação graciosa. Além disso, o crente deve estar no exercício da
fé na oração, pois a oração deve ser misturada com a fé.

É preciso ter uma fé particular, e confiança na oração, quanto às coisas pelas quais oramos:
“Por isso vos digo que todas as coisas que pedirdes, orando, crede receber, e tê-las-eis”
(Marcos 11:24). Pois onde a fé está completamente ausente, a oração nunca pode ser
aceita: Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando” (Tiago 1:6), visto que você estaria
desonrando a Deus grandemente por vir a Ele para pedir, sem qualquer expectativa ou
confiança de receber o que se pede.

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Pergunta: Como alguém pode ter fé? Resposta: Ao recorrer às promessas e acreditar nelas.
Se as coisas são absolutamente necessárias, a promessa assegura essas mesmas coisas
àqueles que vêm a Deus através de Cristo por elas, coisas tais como a paz, o perdão e etc.
[...].

6. Sinceramente. “Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invo-
cam em verdade” (Salmos 145:18). A hipocrisia e a dissimulação na oração — quando o
coração não acompanha os lábios — estraga a aceitação das orações. Há lábios engano-
sos (Salmo 17:1) quando as afeições não seguem o ritmo das palavras da oração; quando
o pecado é confessado, mas o coração não está humilhado sob a confissão; quando as pe-
tições são apresentadas, mas nenhuma vontade sincera existe pelas coisas que são pedi-
das. “E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração”
(Jeremias 29:13)

7. Fervorosamente: “Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros,
para que sareis. A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos” (Tiago 5:16).
Orações frias, sem vida e formais não recebem o selo de aprovação. Devemos, como em
um assunto mui severo, ser fervorosos (Romanos 12:11). Importunação na oração é muito
agradável a Deus, mas esta não consiste em uma infinidade de palavras (Mateus 6:7), mas
de uma seriedade sagrada do coração que anela ser ouvido (Salmo 143:7) suplicando ao
Senhor, por argumentos admissíveis, como alguém que é profundamente sincero (Jó 23:4).
Um coração aquecido por uma brasa viva do altar de Deus produzirá isso.

8. Com vigilância; vigiando em oração, como no texto. Cuidando do nosso espírito para que
não vacile. Pensamentos vagueantes em oração estragam as orações. Eles vêm como as
aves sobre a carcaça, e a devorarão se não forem expulsos. A estrutura de um coração
carnal é a mãe destes pensamentos vagueantes [...]. Nesse caso, a pessoa deve ser como
os construtores do muro, tendo a espátula em uma mão e a espada na outra, para com
resolução resistir a pensamentos vãos, e rechaça-los. Ou melhor, gire o canhão em direção
ao inimigo, considere-os como proporcionando uma nova oportunidade de humilhação, e
uma ocasião clara de se aproximar do trono da graça. Se eles se esforçarem contra, eles
não vão estragar a sua aceitação, mesmo que intentem isso.

9. Com perseverança; vigiando nisto com toda a perseverança como no texto. Quando
apresentamos a nossa petição diante do trono, não devemos deixá-la cair, antes devemos
perseverar nela (Lucas 18:1). Uma oração deve vir logo após outra, até que seja concedida
(Isaias 62:1). “E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não
houvermos desfalecido” [Gálatas 6:9].

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Finalmente, com dependência; espere no Senhor com humilde submissão à Sua santa von-
tade, e à procura de uma resposta: “Eu, porém, olharei para o Senhor; esperarei no Deus
da minha salvação; o meu Deus me ouvirá” (Miquéias 7:7). Temos que esperar em depen-
dência de Deus. Não admira que essas orações não sejam descuidadas, e que não estejam
preocupados com a resposta.

Mas todas as pessoas que oram assim são aceitas, ouvidas e respondidas?

1. Um homem não-regenerado não pode, portanto, orar, nem as orações de pessoas como
estas são aceitas a qualquer momento: “O sacrifício dos ímpios é abominável ao Senhor,
mas a oração dos retos é o seu contentamento” (Provérbios 15:8), “Deus não ouve a peca-
dores” (João 9:31).

2. O próprio povo de Deus nem sempre ora assim, nem todas as suas orações são aceitas.
Pois, diz o salmista: “Se eu atender à iniquidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá”
(Salmos 66:18).

3. Mas todas essas orações, sendo o fruto do Espírito de Deus nos santos, são apresentadas
pelo Mediador; e são aceitas, ouvidas e respondidas pelo Pai, embora Ele possa não
responder imediatamente (Salmo 22:2), contudo elas devem ser respondidas no devido
tempo, seja por concessão da própria coisa desejada, E, se sabemos que Ele nos ouve em
tudo o que pedimos, sabemos que alcançamos as petições que Lhe fizemos” (1 João 5:15);
ou algo tão bom quanto: “E disse Abraão a Deus: Quem dera que viva Ismael diante de teu
rosto! E disse Deus: Na verdade, Sara, tua mulher, te dará um filho, e chamarás o seu nome
Isaque, e com ele estabelecerei a minha aliança, por aliança perpétua para a sua descen-
dência depois dele” (Gênesis 17:18-19). “Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para
que se desviasse de mim. E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se a-
perfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que
em mim habite o poder de Cristo” (2 Coríntios 12:8-9).

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A Necessidade da Oração Secreta
Por Thomas Boston

A oração secreta não é necessária no que diz respeito ao mérito, como se pudéssemos
adquirir o Céu por meio dela. O único fundamento da esperança de vida eterna nas man-
sões de felicidade é a justiça de um Redentor crucificado. Mendigos não pagam dívidas,
mas confessam a sua insuficiência, dizendo com o profeta: “Pecamos, e cometemos iniqui-
dades, e procedemos impiamente, e fomos rebeldes, apartando-nos dos teus mandamen-
tos e dos teus juízos” (Daniel 9:5). Mas a oração secreta é necessária,

1. No que diz respeito ao mandamento de Deus. Ele, por um comando simples e expresso
a exige; e este mandamento a obriga como um dever necessário em relação a nós. Negli-
genciá-la, portanto, é uma violação direta do mandamento do grande Deus e Legislador; e
esteja consciente de que este é um ato de obediência necessário e adequado à vontade
Divina.

2. Para dar a Deus a glória de Sua onisciência e onipresença. Quando oramos ao nosso
Pai em secreto, nós claramente declaramos que acreditamos que Ele sabe e vê todas as
coisas, que as trevas e a luz são iguais para Ele; e que Ele é a testemunha e inspetor de
todas as nossas ações, e nos chamará a prestar contas por todos os nossos pensamentos,
palavras e ações, os quais são bem conhecidos por Ele.

3. Para evidenciar a nossa sinceridade, que não é para sermos vistos pelos homens que
oramos; que não somos movidos por motivos de ostentação e vanglória, mas de respeito à
ordem Divina, e um desejo sincero de servir a Deus; embora na verdade Ele não espera
que todos os que oram em segredo sejam, de fato, sinceros; pois, infelizmente! os homens
podem ser muito assíduos neste dever, e ainda estar longe de serem Cristãos sinceros, ou
aceitos por Deus quando o praticam.

4. No que se refere ao fato de que ninguém sabe do nosso caso tão bem como nós mesmos,
e, portanto, embora o pai da família ore em família, contudo devemos orar por nós mesmos,
a fim de darmos a conhecer o nosso caso em particular e desejos a Deus, visto que ninguém
pode saber ou pedir por essas bênçãos e misericórdias de Deus como nós mesmos, como
as que necessitamos e que são adequadas às nossas circunstâncias.

5. No que diz respeito a averiguarmos se conhecemos os nossos próprios corações. Não


podemos deixar de ter algo a dizer ao Senhor, que não podemos, nem seria de todo conve-
niente dizer diante dos outros, no que diz respeito tanto à confissão dos pecados quanto à

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súplica por misericórdia. Daí a noiva diz em Cantares 7:11-12: “Vem, ó amado meu, saia-
mos ao campo, passemos as noites nas aldeias. Levantemo-nos de manhã para ir às vi-
nhas, vejamos se florescem as vides, se já aparecem as tenras uvas, se já brotam as romã-
zeiras; ali te darei os meus amores”.

6. No que diz respeito aos nossos desejos recorrentes, continuamente a nos rodear diaria-
mente, e as tentações de hora em hora, estes podem convocar este exercício, quando não
é possível orar em família. Que homem é tão bem provido, tanto com bênçãos temporais
quanto espirituais, como a não ter ocasião para pedir suprimentos do alto? O homem é uma
criatura carente e pobre em todos os aspectos; como uma criatura que vive nas bênçãos
da providência, e como Cristão na graça que há em Cristo Jesus; e, portanto, ele deve
recorrer diariamente ao trono da graça pelos suprimentos necessários. E como estamos
diariamente cercados de tentações, e não temos forças para resisti-las ou repeli-las,
devemos buscar a força de Deus em Cristo por meio da oração, para que não caiamos e
venhamos a ser vencidos pelas tentações em nosso caminho.

Assim, evidencia-se a partir destas considerações que a oração é um dever necessário a


todos. E, certamente, todos os que provaram que o Senhor é misericordioso estarão consci-
entes que este exercício é importante e útil.

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Quando As Orações Serão Atendidas?
Por Christopher Love

DOUTRINA: Um homem deve ser levado a um estado de amizade ou de reconciliação com


Deus antes de qualquer oração que ele faça venha a ser aceita.

Eu provarei esta doutrina por três razões e depois a aplicarei.

1. Deus não aceita a pessoa por causa da oração, mas a oração por causa da pessoa.
Lemos em Gênesis 4:4: “atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta”. Deus atentou
primeiro pra Abel e depois para o seu sacrifício. Deus aceitou o serviço de Abel porque sua
pessoa estava em um estado de graça para com Ele. Deus deve estar em primeiro lugar
satisfeito com o trabalhador antes que Ele possa aceitar o seu trabalho. Isso também é visto
em Hebreus 11:5: “Pela fé Enoque foi trasladado para não ver a morte, e não foi achado,
porque Deus o trasladara; visto como antes da sua trasladação alcançou testemunho de
que agradara a Deus”. Agora, sem a fé em Cristo para justificar a sua pessoa, você não
pode agradar a Deus. Aqui reside a grande diferença entre os Papistas e nós. Os Roma-
nistas dizem que as obras justificam a pessoa; nós dizemos que a pessoa justifica as obras,
pois fazei a árvore boa e o seu fruto necessariamente será bom.

2. Até que sejamos trazidos a esse estado de reconciliação, não temos nenhuma partici-
pação na intercessão, satisfação e justiça de Jesus Cristo. E até que tenhamos uma partici-
pação nos mesmos, nossas orações não podem ser aceitas. Jacó não pôde receber a
bênção do pai, senão com as vestes de seu irmão mais velho; assim também não podemos
receber qualquer coisa das mãos de Deus, senão vestidos nas vestes de Cristo. Nenhuma
oração pode ser aceita por Deus, senão na e através da intercessão de Jesus Cristo. Se
Cristo não é um intercessor no Céu, nenhuma oração será ouvida na terra. Em Apocalipse
8:3, está escrito: “e veio outro anjo, e pôs-se junto ao altar, tendo um incensário de ouro; e
foi-lhe dado muito incenso, para o pôr com as orações de todos os santos sobre o altar de
ouro, que está diante do trono”. A palavra em Grego tem este propósito: que Ele adicionaria
orações às orações dos santos. É como se a oração de Cristo e de um crente fossem uma
só. Em Isaías 56:7, Deus promete: “Também os levarei ao meu santo monte, e os alegrarei
na minha casa de oração”. Nossas orações são como muitas cifras sem significado até que
a intercessão de Cristo seja adicionada a elas. Sem isso, nossas orações não podem ser
aceitas.

3. Até que nós estejamos em um estado de amizade e reconciliação, não temos a ajuda do

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Espírito de Deus para nos auxiliar; e se não temos a assistência do Espírito Santo, jamais
encontraremos aceitação diante dEle. Todos os pedidos que não são ditados pelo Espírito,
nada são senão os sopros da carne, coisas que Deus não considera. Agora, até que
sejamos reconciliados com Deus, não podemos ter o Espírito. Gálatas 4:6: “E, porque sois
filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai”.
Assim, pois, até que vocês sejam filhos, vocês não podem ter o Espírito. Tendo falado sobre
as razões, venho agora para a aplicação.

Aplicação

1. Se isto é assim, a saber, que um homem deve estar em um estado de amizade antes que
suas orações possam ser aceitas, então entendemos que tudo o que você faz antes deste
estado de reconciliação é odioso para Deus. Não somente as suas ações pecaminosas,
mas mesmo suas ações civis, naturais e religiosas. Não que elas são reprovadas em si
mesma, ou em relação a Deus, mas por causa daquele que as faz. Salmos 109:7: “e a sua
oração se lhe torne em pecado”. Você faz uma oração contra o pecado, mas Deus trans-
formará as suas orações em pecado. Muitas orações não podem transformar um pecado
em graça, mas o pecado deliberada e resolutamente praticado e continuado pode transfor-
mar todas as suas orações em pecado. Provérbios 21:27: “O sacrifício dos ímpios já é
abominação; quanto mais oferecendo-o com má intenção!”.

Um corpo enfermo torna toda a comida em humores corruptos, a qual um corpo saudável
torna em sadia nutrição. Eu li sobre uma pedra preciosa que tinha uma excelente virtude
nela, mas que perdia toda a sua eficácia se ela fosse colocada na boca de um homem
morto. A oração é uma ordenança de grande excelência, de grande eficácia, mas se estiver
na boca de um homem morto, se ela sai do coração de alguém que está morto em delitos
e pecados, ela perde toda a sua virtude. A água que é pura na fonte é corrompida no canal.

2. Esta doutrina derruba um dos principais pilares da Religião Romana, a justificação pelas
obras. Se Deus aceita a pessoa antes de aceitar as obras, como pode uma pessoa ser
justificada pelas obras? A menos que sua pessoa seja justificada, a menos que seja
reconciliada, suas obras são más obras, e más obras podem justificar? Boas obras não
fazem um bom homem, mas um homem bom faz boas obras. E poderá uma obra que um
homem fez bem, retornar e fazer o homem bom? Se não tivéssemos nenhuma outra razão
contra a justificação pelas obras (disse William Perkins), somente isto seria suficiente.

3. Permita que isso nos ensine não somente a olhar para a aptidão e disposição do seu
coração na oração, mas também a examinar quem é aquele que ora. É nosso dever, e é
muito bom olhar para a boa disposição do coração na oração, e olhar para a qualidade na

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execução do dever; mas o trabalho principal é cuidar da qualificação da pessoa, e ver se
você está em um estado de graça e reconciliação com Deus. Porque, se a pessoa não está
no favor de Deus, você pode ter certeza de seus pedidos não serão ouvidos nem aceitos;
antes Deus olhará para seus pedidos como os suspiros corruptos de seu coração pecami-
noso e corrupto. Você deve olhar, portanto, na realização do dever, se você pode ir a Deus
em oração, como um Pai.

Há muitos que cuidam da qualificação do seu dever, mas poucos cuidam da qualificação
da pessoa para ver se elas são ou não justificadas, se Deus é seu amigo ou não. Mas deve-
mos olhar principalmente para isso, pois, mesmo que o coração de um homem seja o mais
disposto, contudo se o homem não é justificado, a sua oração não pode ser aceita. Deus
não se importa com a retórica das orações (quão eloquentes elas possam ser), nem para
a aritmética das orações (quantas elas são), nem para a lógica delas (quão racionais e
metódicas elas possam ser), nem para a música delas (que harmonia e melodia de palavras
você possa ter); mas Deus olha para o caráter teocêntrico das orações, que brota a partir
da qualificação de uma pessoa, de uma pessoa justificada e santificada. É bom perguntar:
“Será que meu coração é reto? Meu espírito é manso? As minhas afeições são estimuladas
e fervorosas durante a oração?”, mas antes pergunte principalmente: “Será que a minha
pessoa é aceita por Deus?”.

4. Deixe-me fazer uma advertência aqui. Acautele-se para que você não faça confusão com
essa doutrina. Que ninguém pense que pelo fato de que Deus não aceita nenhuma oração
a menos que o homem seja justificado, portanto, homens ímpios estão dispensados da
oração. Pois, ainda que Deus não aceite a oração de todo homem, ainda assim, cada
homem no mundo deve orar, e isto por estas razões:

1) Eles devem orar como criaturas que estão em necessidade de seu Criador. Os corvos
clamam e Deus lhes dá carne.

2) O Senhor acusa os homens maus por não orarem a Ele. Jeremias 10:25: “Derrama a tua
indignação sobre os gentios que não te conhecem, e sobre as gerações que não invocam
o teu nome”. Romanos 3:11: “Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque
a Deus”.

3) Eles são ordenados a orar, em Atos 8: 22-23, Pedro disse a Simão, o Mago: “Arrepende-
te, pois, dessa tua iniquidade, e ora a Deus, para que porventura te seja perdoado o pensa-
mento do teu coração; pois vejo que estás em fel de amargura, e em laço de iniquidade”.

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A Agonia de Cristo
Por Jonathan Edwards

“E, posto em agonia, orava mais intensamente; e o Seu suor tornou-se


em grandes gotas de sangue que corriam até ao chão.” (Lucas 22:44)

Nosso Senhor Jesus Cristo, em Sua natureza original, era infinitamente acima de todo o
sofrimento, pois Ele era “Deus sobre todos, bendito eternamente”; mas, quando Ele se
tornou homem, Ele não foi somente capaz de sofrer, mas participou dessa natureza que é
extremamente débil e exposta ao sofrimento. A natureza humana, por causa de sua fra-
queza, é nas Escrituras comparada com a erva do campo, que facilmente murcha e se
deteriora. Assim, é comparada com uma folha; e ao restolho seco; e uma rajada de vento,
e da natureza do homem fraco é dito ser pó e cinza, por ter o Seu fundamento em pó, e por
ser esmagada pela traça. Foi esta natureza, com toda a Sua fraqueza e exposição aos
sofrimentos, que Cristo, que é o Senhor Deus onipotente, tomou sobre Si. Ele não tomou a
natureza humana para Ele em seu primeiro, mais perfeito e vigoroso estado, mas nesse
estado desesperadamente fraco em que ela está desde a queda; e, assim, Cristo é cha-
mado de “renovo”, e “a raiz de uma terra seca”, Isaías 53:2: “Porque foi subindo como reno-
vo perante ele, e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando
nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos”. Desta forma, como
a principal missão de Cristo no mundo foi sofrer, assim, agradavelmente a essa incum-
bência, Ele veio com tal natureza e, em tais circunstâncias, como mais feitas para abrir ca-
minho para o Seu sofrimento; por isso toda a Sua vida foi repleta de sofrimento; Ele come-
çou a sofrer em Sua infância, mas Seu sofrimento aumentou à medida que Ele se aproxima-
va do fim de Sua vida. Seu sofrimento após o início de Seu ministério público foi provavel-
mente muito maior do que antes; e a última parte do tempo de Seu ministério público parece
ter sido distinguido pelo sofrimento.

Quanto mais Cristo viveu no mundo, quanto mais os homens viram e ouviram dEle, mais
eles O odiavam. Seus inimigos estavam cada vez mais enfurecidos pela continuação da
oposição que Ele fez às suas concupiscências; e o Diabo tendo sido muitas vezes confun-
dido por Ele, cresceu mais e mais em fúria, e cada vez mais reforçou a batalha contra Ele,
de modo que a nuvem sobre a cabeça de Cristo crescia mais e mais escura, enquanto Ele
vivia no mundo, até que estivesse em Sua maior escuridão, quando Ele foi pendurado na
cruz e clamou: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste!” Antes disso, foi extrema-
mente sombrio, no momento de Sua agonia no jardim; do que temos um relato nas palavras
agora lidas; as quais proponho-me a fazer o tema do discurso presente. A palavra agonia
significa propriamente um conflito sério, como é testificado em batalhar, correr ou lutar. E,

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portanto, em Lucas 13:24. “Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que
muitos procurarão entrar, e não poderão”. A palavra no original, traduzida como porfiai é
agwnizesqe []. “Agonize, para entrar pela porta estreita”. A palavra é usada
especialmente para esse tipo de luta, que na época era exibida nos jogos Olímpicos, em
que os homens se esforçavam pela maestria na corrida, luta, e outros tipos tais de exer-
cícios; e um prêmio era estabelecido, o qual era concedido ao vencedor. Aqueles que, as-
sim, sustentaram, foram, na linguagem então usada, ditos agonizar. Assim, o apóstolo em
Sua epístola aos Cristãos de Corinto, uma cidade da Grécia, onde tais jogos eram exibidos
anualmente, diz em alusão aos esforços dos combatentes: “E todo aquele que luta”, no
original, todo aquele que agoniza, “de tudo se abstém”. O local onde eram realizados os
jogos foi chamado Agwn [], ou o lugar da agonia; e a palavra é particularmente usada
nas Escrituras para aquele esforço em fervorosa oração onde as pessoas lutam com Deus;
elas são ditas agonizarem, ou estarem em agonia, em oração. Assim, a palavra é usada
em Romanos 15:30: “E rogo-vos, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do
Espírito, que combatais comigo nas vossas orações por mim a Deus”; no original, sunagwni-
zesqai moi [], que vos agonizeis comigo. Assim em Colossenses 4:12:
“combatendo sempre por vós em orações, para que vos conserveis firmes, perfeitos e
consumados em toda a vontade de Deus”. No original agwnizwn [], agonizando
por vós. De modo que quando é dito no texto que Cristo estava em agonia, o significado é,
que a Sua alma estava em uma grande e séria luta e conflito. Isto foi assim em dois
aspectos:

1. À medida que Sua alma estava em um grande e doloroso conflito com aquelas terríveis
e incríveis visões e apreensões, as quais Ele tinha naquela ocasião.

2. À medida que Ele estava, ao mesmo tempo, em grande labor e séria luta com Deus em
oração.

Proponho, portanto, ao discursar sobre o tema da agonia de Cristo, distintamente desdobrá-


lo nestas duas proposições,

I. Que a alma de Cristo em Sua agonia no jardim teve aquelas terríveis e incríveis visões e
apreensões, as quais Ele era então sujeito.

II. Que a alma de Cristo em Sua agonia no jardim teve um grande e sério labor e luta com
Deus em oração.

I. A alma de Cristo em Sua agonia no jardim teve um doloroso conflito com aquelas terríveis,
incríveis visões e apreensões surpreendentes, das quais Ele era então sujeito.

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Ao ilustrar essa proposição me esforçarei para mostrar:

1. O que eram aquelas visões e apreensões.


2. Que o conflito ou a agonia da alma de Cristo foi ocasionado por aquelas visões e apre-
ensões.
3. Que esse conflito foi peculiarmente grandioso e angustiante; e,
4. O que podemos supor ser o plano especial de Deus em dar a Cristo aquelas terríveis
visões e apreensões, e leva-lO a sofrer esse conflito terrível, antes de ser crucificado.

Proponho mostrar,

I. Quais eram aquelas terríveis e incríveis visões e apreensões que Cristo teve em Sua
agonia. Isto pode ser explicado, considerando:

1. A causa daquelas visões e apreensões; e,


2. A maneira pela qual elas foram então experimentadas.

1. A causa daquelas visões e apreensões, que Cristo teve em Sua agonia no jardim, foi o
cálice amargo que Ele deveria em breve beber, posteriormente, na cruz. Os sofrimentos
aos quais Cristo se submeteu em Sua agonia no jardim, não foram Seus maiores sofrimen-
tos; embora fossem mui grandes. Mas Seus últimos sofrimentos sobre a cruz foram os Seus
principais sofrimentos; e, portanto, eles são chamados de “o cálice que Ele tinha de beber”.
Os sofrimentos da cruz, sob a qual Ele foi morto, estão sempre nas Escrituras representa-
dos como os principais sofrimentos de Cristo; especialmente aqueles em que “Ele levou os
nossos pecados em Seu próprio corpo”, e fez expiação pelo pecado. Seu suportar a cruz,
Seu humilhar-se e tornar-se obediente até à morte e morte de cruz, é dito como a principal
coisa pela qual os Seus sofrimentos evidenciaram-se. Este é o cálice que Cristo havia colo-
cado diante de Si em Sua agonia. É manifesto que Cristo tinha isso em vista, neste mo-
mento, a partir das orações que Ele então ofereceu. De acordo com Mateus, Cristo fez três
orações naquela noite enquanto no jardim do Getsêmani, e todas sobre este assunto, o
cálice amargo que Ele devia beber. Da primeira, temos um relato em Mateus 26:39: “E, indo
um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o Seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se
é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu que-
res”; sobre a segunda no versículo 42: “E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se
este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade”; e da terceira
no versículo 44: “E, deixando-os de novo, foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas
palavras”. A partir disso, parece claramente que se tratava de que Cristo tinha tais visões e
apreensões terríveis naquele momento. O que Ele insistiu, portanto, em Suas orações,
mostra no que Sua mente tão profundamente se concentrava. Foi Seu sofrimento na cruz,

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que devia ser suportado no dia seguinte, quando haveria trevas sobre toda a terra, e ao
mesmo tempo uma escuridão mais profunda sobre a alma de Cristo, sobre o que Ele tinha
agora tais vigorosas visões e apreensões angustiantes.

2. A maneira pela qual este cálice amargo foi agora definido na visão de Cristo.

(1). Ele tinha uma apreensão vigorosa disso impressa em Sua mente, naquela ocasião.
Antes, Ele teve uma apreensão do cálice que devia beber. Sua principal missão no mundo
era beber esse cálice, e, portanto, Ele nunca deixou de pensar sobre isso, mas sempre o
carregou em Sua mente, e muitas vezes falou disso aos Seus discípulos. Assim, em Mateus
16:21: “Desde então começou Jesus a mostrar aos Seus discípulos que convinha ir a
Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos
escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia”. Novamente no capítulo 20:17-19: “E,
subindo Jesus a Jerusalém, chamou à parte os Seus doze discípulos, e no caminho disse-
lhes: Eis que vamos para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos
sacerdotes, e aos escribas, e condená-lo-ão à morte. E o entregarão aos gentios para que
dEle escarneçam, e O açoitem e crucifiquem, e ao terceiro dia ressuscitará”. O mesmo foi
o tema da conversa no monte com Moisés e Elias, quando Ele foi transfigurado. Assim, Ele
fala de Seu batismo de sangue, Lucas 12:50: “Importa, porém, que seja batizado com um
certo batismo; e como me angustio até que venha a cumprir-se!” Ele fala disso novamente
para filhos de Zebedeu, Mateus:20:22: “Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o
que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber, e ser batizados com o batismo
com que eu sou batizado? Dizem-lhe eles: Podemos”. Ele falou dEle sendo levantado, João
8:28: “Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis
que eu sou, e que nada faço por mim mesmo; mas isto falo como meu Pai me ensinou”.
João 12:34: “Respondeu-lhe a multidão: Nós temos ouvido da lei, que o Cristo permanece
para sempre; e como dizes tu que convém que o Filho do homem seja levantado? Quem é
esse Filho do homem?” Assim, Ele falou sobre a destruição do templo de Seu corpo, João
2:19: “Jesus respondeu, e disse-lhes: Derribai este templo, e em três dias o levantarei”. E
Ele falou muito sobre isso um pouco antes de Sua agonia, em Seus conselhos agonizantes
aos Seus discípulos nos capítulos 12 e 13 de João. Desta forma, esta não foi a primeira
vez que Cristo tinha este cálice amargo em Sua visão. Pelo contrário, Ele parece sempre
ter tido ele em vista. Mas parece que neste momento Deus lhe deu uma percepção extra-
ordinária sobre ele. Um senso da ira que devia ser derramada sobre Ele, e dos incríveis
sofrimentos aos quais Ele devia se submeter, foi fortemente imprimido em Sua mente pelo
poder imediato de Deus, de modo que Ele teve apreensões muito mais plenas e vigorosas
da amargura do cálice que Ele devia beber do que Ele já houvera tido antes, e essas
apreensões eram tão terríveis, que a Sua fraca natureza humana afundou com a visão, e
esteve prestes a sucumbir.

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(2). O cálice de amargura foi representado neste momento como exatamente à mão. Ele
não somente teve uma visão mais clara e viva disso do que antes; mas isso foi agora
estabelecido diretamente à Sua frente, para que Ele pudesse, sem demora, tomá-lo e bebê-
lo; pois, em seguida, dentro dessa mesma hora, Judas estava por vir com o Seu bando de
homens, e Ele devia, então, entregar a Si mesmo em Suas mãos a fim de que Ele pudesse
beber o cálice no dia seguinte; a não ser que de fato Ele se recusasse a toma-lo, e assim
fizesse a Sua fuga daquele lugar para onde Judas viria; o que Ele teve oportunidade sufi-
ciente para fazer se Ele estivesse assim disposto. Tendo, então, demonstrado que essas
terríveis visões e apreensões foram as que Cristo teve no momento de Sua agonia; tentarei
demonstrar,

II. Que o conflito que a alma de Cristo então suportou foi ocasionado por aquelas visões e
apreensões. A tristeza e angústia que a Sua alma sofreu nesta ocasião, surgiu a partir
daquela visão plena e vigorosa, e imediata que Ele teve assim oferecida a Ele, sobre aquele
cálice de ira; pelo que Deus o Pai fez como que colocar o cálice diante dEle, para que Ele
o tomasse e bebesse. Alguns têm perguntado, o que ocasionou aquela angústia e agonia,
e muitas especulações têm existido sobre isso, mas o relato que a própria Escritura nos dá
é suficientemente completo nesta matéria, e não deixa espaço para a especulação ou
dúvida. A única coisa pela qual a mente de Cristo estava tão cheia naquela época era, sem
dúvida, o mesmo com que a Sua boca estava tão cheia; era o receio que Sua fraca natureza
humana tinha daquele cálice terrível, que era muito mais terrível do que fornalha ardente
de Nabucodonosor. Ele teve, então, uma visão próxima da fornalha de ira, na qual Ele seria
lançado; Ele foi levado para a boca da fornalha para que Ele pudesse olhar para ela, e
permanecer e ver as chamas furiosas, e ver as brasas de Seu calor, a fim de Ele pudesse
conhecer para onde estava indo e o que Ele estava prestes a sofrer. Isto foi o que encheu
a Sua alma de tristeza e escuridão, esta visão terrível como que O dominou. Pois, o que
era a natureza humana de Cristo diante de tão poderosa ira como esta? Este era, em si
mesmo, sem os auxílios de Deus, apenas um fraco verme de pó, uma coisa que foi esma-
gada pela traça, nenhum dos filhos de Deus já teve tal cálice colocado diante deles, como
sendo este o primeiro que qualquer criatura já teve. Mas, para não insistir por mais tempo
sobre isso, apresso-me a mostrar,

III. Que o conflito na alma de Cristo, nessa visão de Seus últimos sofrimentos, era terrível,
além de toda expressão ou concepção. Isso será evidenciado:

1. A partir do que é dito de Seu horror, pela história. Por um evangelista nos é dito, (Mateus
26:37): “começou a entristecer-se e a angustiar-se muito”. E por outro, (Marcos 14:33): “E

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tomou consigo a Pedro, e a Tiago, e a João, e começou a ter pavor, e a angustiar-se”. Estas
expressões expõem a intensa e avassaladora angústia em que estava a Sua alma. As
expressões de Lucas sobre Seu ser estar em agonia, conforme o significado da palavra no
original, implica não em comum nível de sofrimento, mas tal angústia extrema que Sua na-
tureza teve um violentíssimo conflito com isso, como um homem que luta com todas as Su-
as forças com um homem forte, que labuta e emprega a Sua força máxima para conquistar
uma vitória sobre ele.

2. A partir do que o próprio Cristo diz sobre isso, que não era acostumado a ampliar as
coisas para além da verdade. Ele diz: “A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai
aqui, e velai comigo” (Mateus 26:38). Que linguagem poderia expressar mais fortemente o
mais extremo grau de tristeza? Sua alma não estava apenas “triste”, mas “cheia de tristeza”;
e não somente isso, mas porque isso não expressa plenamente o nível de Sua tristeza, Ele
acrescenta, “até a morte”; o que parece sugerir que as próprias dores e sofrimentos infer-
nais, da morte eterna, haviam se apossado dEle. Os hebreus estavam acostumados a ex-
pressar o maior nível de tristeza que qualquer criatura pudesse ser passível pela frase: a
sombra da morte. Cristo tinha agora, por assim dizer, a sombra da morte trazida sobre a
Sua alma pela visão próxima que Ele tinha do cálice amargo, que agora estava posto diante
dEle.

3. A partir do efeito que isto teve sobre Seu corpo, causando aquele suor de sangue que
lemos no texto. Em nossa tradução diz-se, que “o Seu suor tornou-se como grandes gotas
de sangue, que corriam até ao chão”. A palavra traduzida como “grandes gotas” é no
original qromboi [], que significa propriamente caroços ou coágulos; pois podemos
supor que o sangue foi pressionado para fora através dos poros de Sua pele pela violência
daquela luta interna e conflito, de forma que quando chegou a ser exposto ao ar fresco da
noite, congelou e endureceu, como é a natureza do sangue, e por isso caiu dEle não em
gotas, mas em coágulos. Se o sofrimento de Cristo houvesse ocasionado apenas um suor
violento, isto teria mostrado que Ele estava em grande agonia; por deve ser um sofrimento
extraordinário e exercício da mente que faz com que o corpo esteja todo suado e exposto
ao ar livre, em uma noite fria, como aquela era, como é evidente em João18:18: “Ora, esta-
vam ali os servos e os servidores, que tinham feito brasas, e se aquentavam, porque fazia
frio; e com eles estava Pedro, aquentando-se também”. Esta era a noite em que Cristo teve
a Sua agonia no jardim. Mas a angústia e tristeza interior de Cristo não foram meramente
as causas que o levaram a um suor violento e universal, mas, o que o fez suar sangue. A
aflição e a angústia de Seu espírito eram tão indescritivelmente extremas como para forçar
o sangue através dos poros de Sua pele, e isto tão abundantemente como a cair em gran-
des coágulos ou gotas de Seu corpo ao chão. Venho agora mostrar,

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IV. O que se pode supor ser a finalidade especial de Deus em dar a Cristo de antemão
essas visões terríveis de Seus últimos sofrimentos; em outras palavras, por que foi neces-
sário que Ele deveria ter uma visão mais completa e extraordinária do cálice que devia
beber, um pouco antes que Ele bebesse, como Ele jamais havia tido antes; ou por que Ele
devia ter uma tal antecipação da Ira de Deus a ser suportada na cruz, antes que o tempo
viesse em que Ele, de fato, a suporia.

Resposta. Isto foi necessário, a fim de que Ele pudesse tomar o cálice e bebe-lo, como
sabendo o que Ele faria. A menos que a natureza humana de Cristo tivesse uma extraor-
dinária visão dada a Ele de antemão do que Ele devia sofrer, Ele não poderia, como homem,
conhecer totalmente, de antemão, o que Ele deveria sofrer, e, portanto, não poderia, como
homem, saber o que Ele faria quando Ele tomasse o cálice para bebê-lo, porque Ele não
conheceria plenamente o que o cálice era, sendo este um cálice que Ele nunca bebeu
antes. Se Cristo houvesse mergulhado a Si mesmo naqueles sofrimentos terríveis, sem es-
tar de antemão totalmente sensível de Sua amargura e horror, Ele teria feito o que Ele não
conhecia. Como homem, Ele teria mergulhado a Si mesmo em sofrimentos de quantidade
que Ele era ignorante, e assim teria agido de olhos vendados; e, claro, Sua apreensão so-
bre esses sofrimentos não poderia ter sido tão plenamente Seu próprio ato. Cristo, como
Deus, perfeitamente sabia o que eram aqueles sofrimentos; porém foi mais necessário
também que Ele conhecesse como homem; pois Ele devia sofrer como homem, e o ato de
Cristo em tomar esse cálice foi o ato de Cristo como Deus-Homem. Mas o homem Cristo
Jesus, até então, nunca havia tido a experiência de tais sofrimentos como Ele deveria agora
suportar na cruz; e, portanto, Ele não poderia conhecer plenamente o que eram antes,
senão por ter uma visão extraordinária deles estabelecida diante de Si, e um extraordinário
sentido deles impresso em Sua mente. Temos ouvido falar de torturas que os outros sofre-
ram, mas nós não sabemos completamente o que eram, porque nunca as experimentamos;
e é impossível que devamos conhecer plenamente o que eram, senão em uma dessas duas
maneiras, seja por vivencia-las, ou por ter sido oferecida uma visão delas, ou um sentido
delas impresso de uma forma extraordinária. Tal sentido foi impresso na mente do homem
Cristo Jesus, no jardim do Getsêmani, a respeito de Seus últimos sofrimentos, e isto causou
a Sua agonia. Quando Ele teve uma plena visão dada a Ele daquela Ira de Deus que Ele
devia sofrer, a visão foi esmagadora para Ele; o que fez a Sua alma cheia de tristeza até a
morte. Cristo estava para ser lançado em uma fornalha terrível de ira, e não era apropriado
que Ele mergulhasse nela de olhos vendados, como não conhecendo quão terrível era a
fornalha. Portanto, para que Ele não o fizesse, Deus em primeiro lugar, o trouxe e o colocou
na boca da fornalha, para que Ele pudesse olhar para dentro, e permanecer e ver as
ardentes e furiosas chamas, e pudesse ver para onde estava indo, e pudesse entrar
voluntariamente nela e suporta-la pelos pecadores, como sabendo o que era. Esta visão
Cristo teve em Sua agonia. Em seguida, Deus trouxe o cálice que Ele devia beber, e o

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colocou diante dEle, para que Ele tivesse uma visão completa do mesmo, e contemplar o
que era antes que Ele tomasse e bebesse. Se Cristo não tivesse totalmente conhecido o
que o horror daqueles sofrimentos era, antes que Ele os levasse sobre Si, Seu tomá-los
sobre Ele não poderia ter sido totalmente Seu ato próprio como homem; não poderia ter
havido nenhum ato explícito de Sua vontade sobre o que Ele era ignorante; não poderia ter
havido nenhum julgamento adequado, se Ele estaria disposto a submeter-se a tais sofri-
mentos terríveis ou não, a menos que Ele soubesse de antemão quão terrível eles eram;
mas quando viu que eles eram, por ter oferecida a Ele uma visão extraordinária deles, e,
em seguida, aceitou suportá-los; então, Ele agiu como conhecendo o que Ele fez; assim to-
mando esse cálice, e tendo tais sofrimentos terríveis, foi corretamente Seu próprio ato de
uma escolha explícita; e assim o Seu amor para com os pecadores, esta escolha dEle foi
maravilhosíssima, como também a Sua obediência a Deus nela. E era necessário que essa
visão extraordinária que Cristo teve do cálice que devia beber fosse dada neste momento,
pouco antes de ser preso. Este foi o momento mais adequado para isso, pouco antes que
Ele tomasse o cálice, e enquanto Ele ainda tinha a oportunidade de recusar o cálice; pois
antes que Ele tivesse sido detido pela companhia liderada por Judas, Ele teve a oportuni-
dade de fazer a Sua fuga à vontade. Pois o lugar onde Ele estava, era fora da cidade, onde,
absolutamente, Ele não estava confinado, e era um lugar deserto e solitário; e era o período
da noite; de modo que Ele poderia ter fugido daquele lugar par aonde Ele quisesse, e Seus
inimigos não teriam sabido onde O encontrar. Essa visão que Ele teve do cálice amargo foi-
lhe dada enquanto Ele ainda estava totalmente em liberdade, antes de ser entregue nas
mãos de Seus inimigos. O entregar-se de Cristo nas mãos de Seus inimigos, como Ele o
fez quando Judas veio, o que foi logo após a Sua agonia, foi propriamente Seu ato de tomar
o cálice, a fim de bebê-lo; pois Cristo conhecia a questão do que seria a Sua crucificação
no dia seguinte. Essas coisas podem nos mostrar a finalidade da agonia de Cristo, e a
necessidade que havia de tal agonia antes de Seus últimos sofrimentos:

APLICAÇÃO

1. Disto podemos aprender como foram os últimos terríveis sofrimentos de Cristo. Aprende-
mos isto a partir do efeito terrível que a clara previsão deles teve sobre Ele em Sua agonia.
Seus últimos sofrimentos foram tão terríveis, que a visão anterior que Cristo teve deles O
dominou e O assombrou, como é dito, Ele começou a estar apavorado. A própria visão des-
ses últimos sofrimentos foi tão terrível quanto a afundar Sua alma dentro da escura sombra
da morte; sim, tão terrível foi isso, que no doloroso conflito que a Sua natureza teve com
eles, Ele esteve todo em suor sangrento, Seu corpo foi todo coberto de sangue coagulado,
e não apenas o Seu corpo, mas o próprio chão debaixo dEle com o sangue que dEle caíra,
que havia sido forçado através de Seus poros pela violência de Sua agonia. E se apenas a

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visão do cálice era tão assombrosa, quão terrível foi o próprio cálice, como muito além de
tudo o que pode ser pronunciado ou concebido! Muitos dos mártires sofreram torturas
extremas, mas a partir do que foi dito, há todas as razões para pensar que todos aquelas
foram um mero nada em relação aos últimos sofrimentos de Cristo na cruz. E o que foi dito
oferece um argumento convincente de que os sofrimentos que Cristo suportou em Seu
corpo na cruz, embora eles fossem mui terríveis, ainda foram a menor parte de Seus últimos
sofrimentos; e que, ao lado desses, Ele suportou sofrimentos em Sua alma, que foram muito
maiores. Pois se fossem apenas os sofrimentos que Ele suportou em Seu corpo, apesar de
serem muito terríveis, não podemos conceber que a mera antecipação deles teria tal efeito
sobre Cristo. Muitos dos mártires, pelo que sabemos, têm sofrido torturas tão graves em
Seus corpos, como Cristo o sofreu. Muitos dos mártires foram crucificados, como Cristo foi;
e ainda assim as suas almas não foram tão oprimidas. Não houve evidência dessa incrível
tristeza e aflição de espírito, nem na antecipação de seus sofrimentos, ou na real duração
deles.

2. Pelo que foi dito, podemos ver a força maravilhosa do amor de Cristo pelos pecadores.
O que foi dito mostra a força do amor de Cristo de duas maneiras.

[1] Que ele foi tão forte como a levá-lO através dessa agonia interior na qual Ele estava,
nessa ocasião. O sofrimento que Ele, então, esteve realmente sujeito, foi terrível e assom-
broso, como foi demonstrado; e quão maravilhoso foi o Seu amor, que ainda permaneceu
e foi confirmado! O amor de qualquer mero homem ou anjo sem dúvida teria afundado sob
tal peso, e nunca teria sofrido um conflito em um suor tão sangrento como o de Jesus Cristo.
A angústia da alma de Cristo naquele momento foi tão forte a ponto de causar esse efeito
maravilhoso em Seu corpo. Mas o Seu amor aos Seus inimigos, miseráveis e indignos como
eram, foi ainda mais forte. O coração de Cristo, nesse momento estava cheio de angústia,
todavia era mais cheio de amor por vermes desprezíveis: Suas tristezas abundavam, mas
o Seu amor superabundou. A alma de Cristo foi esmagada com um dilúvio de sofrimento,
mas isto ocorreu a partir de um dilúvio de amor por pecadores em Seu coração, suficiente
para transbordar o mundo, e sobrepujar as mais altas montanhas de Seus pecados. Essas
grandes gotas de sangue que corriam ao chão foram uma manifestação de um oceano de
amor no coração de Cristo.

[2] A força do amor de Cristo, mais especialmente evidencia-se no fato de que, quando Ele
teve uma visão tão plena do horror do cálice que estava para beber, que tanto O assombrou,
Ele, não obstante, mesmo assim, toma-o e bebe-o. Então, parece ter sido a maior e mais
peculiar verificação da força do amor de Cristo, quando Deus coloca a porção amarga dian-
te dEle, e o deixa ver o que Ele tinha que beber, se persistisse em Seu amor pelos pecado-
res; e trouxe-O para a boca da fornalha para que Ele pudesse ver a Sua ferocidade, e ter

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uma plena visão da mesma, e teve tempo, então, para considerar se Ele entraria e sofreria
as chamas desta fornalha por tais criaturas indignas, ou não. Isso foi com a última consi-
deração do que Cristo faria; como se então, fosse dito a Ele: “Aqui está o cálice que você
deve beber, a menos que Você desista de Seu compromisso pelos pecadores, e mesmo
deixe-os perecer como eles merecem. Você tomará este cálice, e o beberá por eles, ou
não? Há uma fornalha na qual Você está prestes a ser lançado, para que eles possam ser
salvos; ou eles devem perecer, ou Você tem que suportar isso por eles. Ali Você vê quão
terrível é o calor do forno; Você vê qual a dor e angústia que Você deve suportar no dia
seguinte, a menos que Você desista da causa dos pecadores. O que Você fará? É tanto o
Seu amor que Você prosseguirá? Você lançar-se-á nesta terrível fornalha de ira?” A alma
de Cristo foi esmagada com o pensamento; Sua frágil natureza humana afundou diante da
triste visão. Isto o colocou nessa terrível agonia que ouviste descrita; mas Seu amor pelos
pecadores resistiu. Cristo não passaria por esses sofrimentos desnecessariamente, se os
pecadores pudessem ser salvos sem eles. Se não houvesse uma necessidade absoluta de
Seu sofrê-los para a salvação deles, Ele desejaria que o cálice passasse dEle. Mas, se os
pecadores, em quem Ele havia fixado o Seu amor, não pudessem, de acordo com a vontade
de Deus, ser salvos sem que Ele o bebesse, Ele escolheu que a vontade de Deus fosse
feita. Ele optou por seguir em frente e suportar o sofrimento, terrível como apareceu para
Ele. E esta foi a Sua conclusão final, após o conflito sombrio de Sua pobre e fraca natureza
humana, depois de ter tido o cálice em vista, e, por no mínimo o espaço de uma hora, já
tinha visto o quão incrível isto era. Ainda assim, Ele finalmente decidiu que Ele suportaria,
ao invés que aqueles pobres pecadores que Ele havia amado por toda a eternidade
perecessem. Quando o cálice terrível estava diante dEle, Ele não disse em Seu interior:
“Por que Eu, que sou tão grandiosa e gloriosa Pessoa, infinitamente mais honrado do que
todos os anjos do Céu, por que Eu deveria mergulhar em tão terríveis, incríveis tormentos
por vermes inúteis miseráveis que não podem ser proveitosos a Deus, ou a mim, e que
merecem ser odiados por mim, e não ser amados? Por que Eu, que tenho vivido desde
toda a eternidade no gozo do amor do Pai, lançar-Me-ei em tal fornalha por aqueles que
nunca podem me recompensar por isso? Por que Eu deveria me render a ser, assim,
esmagado pelo peso da Ira Divina, por aqueles que não têm amor por mim, e são meus
inimigos? Eles não merecem qualquer união coMigo, e nunca fizeram e nunca farão,
qualquer coisa para recomendarem-se a Mim. Em que serei mais rico por salvar um número
de inimigos miseráveis de Deus e Meus, que merecem ter a justiça Divina glorificada em
Sua destruição?” Tal, porém, não era a linguagem do coração de Cristo, nestas circuns-
tâncias; mas, pelo contrário, o Seu amor permaneceu firme, e Ele resolveu, mesmo assim,
em meio à Sua agonia, entregar a Si mesmo à vontade de Deus, e tomar o cálice e o beber.
Ele não fugiria para sair do caminho de Judas e daqueles que estavam com ele, mas Ele
sabia que eles estavam vindo, mas na mesma hora entregou-se voluntariamente em Suas
mãos. Quando eles vieram com espadas e varapaus para prendê-lo, e Ele poderia ter cla-

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mado por Seu pai, que imediatamente enviaria muitas legiões de anjos para repelir Seus
inimigos, e libertá-lO, Ele não quis fazê-lo; e os Seus discípulos, teriam feito resistência, Ele
não os sofreria, como você pode ver em Mateus 26:51, em diante: “E eis que um dos que
estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou da espada e, ferindo o servo do sumo
sacerdote, cortou-lhe uma orelha. Então Jesus disse-lhe: Embainha a tua espada; porque
todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. Ou pensas tu que eu não po-
deria agora orar a meu Pai, e que Ele não me daria mais de doze legiões de anjos? Como,
pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?” E Cristo,
em vez de esconder-se de Judas e dos soldados, falou-lhes, quando eles pareciam estar
perdidos se Ele era a pessoa a quem eles procuravam; e quando ainda pareciam hesitar
um pouco, sendo tomados de algum terror em Seus espíritos, falou-lhes de novo, e então
rendeu-se em Suas mãos, para ser preso por eles, depois que Ele lhes havia mostrado que
poderia facilmente resistir-lhes se quisesse, quando uma única palavra dita por Ele, jogou-
os para trás ao chão, como você pode ver em João 18:3, em diante: “Tendo, pois, Judas
recebido a coorte e oficiais dos principais sacerdotes e fariseus, veio para ali com lanternas,
e archotes e armas. Sabendo, pois, Jesus todas as coisas que sobre Ele haviam de vir,
adiantou-se, e disse-lhes: A quem buscais? Responderam-lhe: A Jesus Nazareno. Disse-
lhes Jesus: Sou eu. E Judas, que o traía, estava com eles. Quando, pois, lhes disse: Sou
eu, recuaram, e caíram por terra”. Assim poderoso, constante e violento foi o amor de Cristo;
e a provação especial do Seu amor acima de todas as outras em toda a Sua vida parece
ter sido no momento da Sua agonia. Pois, embora Seus sofrimentos fossem maiores
depois, quando Ele estava na cruz, ainda assim Ele viu claramente o que esses sofrimentos
seriam, no momento de Sua agonia; e esta parece ter sido a primeira vez que Jesus Cristo
teve uma visão clara do que eram estes sofrimentos; e depois disso a provação não foi tão
grande, porque o conflito terminara. A Sua natureza humana estava em uma luta com o
Seu amor pelos pecadores, mas o Seu amor havia conseguido a vitória. A questão, medi-
ante uma visão plena dos Seus sofrimentos, havia sido resolvida e concluída; e, portanto,
quando o momento chegou, Ele realmente passou por esses sofrimentos.

Mas há duas circunstâncias da agonia de Cristo que ainda fazem mais visível a força e
constância do Seu amor pelos pecadores.

1. Que, ao mesmo tempo em que Ele teve essa visão do horror dos Seus sofrimentos, Ele
também tinha uma percepção extraordinária sobre o ódio da impiedade daqueles pelos
quais esses sofrimentos deviam fazer expiação. Há duas coisas que tornam o amor de
Cristo maravilhoso: 1. Que Ele esteve disposto a suportar sofrimentos que eram tão gran-
diosos e 2. Que Ele esteve disposto a suportá-los para fazer expiação por impiedade que
era tão grande. Mas, para Seu ser propriamente dito, Cristo de Seu próprio ato e escolha

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suportou sofrimentos que eram tão grandes, para fazer expiação por maldade que era tão
grande, as duas coisas eram necessárias: [1] Que Ele deveria ter um senso extraordinário
de quão grande esse sofrimento devia ser, antes que Ele os suportasse. Isto foi dado em
Sua agonia. E [2] que Ele devia também, ao mesmo tempo, ter um senso extraordinário de
quão grande e odiosa era a maldade dos homens pelos quais Ele sofreu para fazer
expiação; ou quão indignos eram aqueles por quem Ele morreu. E ambos estes foram ofe-
recidos ao mesmo tempo. Quando Cristo teve um sentido tão extraordinário de quão amar-
go o Seu cálice devia ser, Ele teve muito a fazê-lO sensível de quão indigna e odiosa era
aquela impiedade do homem por quem Ele sofreu; porque a natureza odiosa e maligna
daquela corrupção nunca se evidenciou mais plenamente do que na raiva e crueldade dos
homens naqueles sofrimentos; e ainda assim, o Seu amor foi tão grande que, não obstante,
Ele passou a sofrer por aqueles que estavam cheios de tal corrupção detestável.

Foi a corrupção e injustiça dos homens que forjaram e efetuaram a Sua morte; foi a
impiedade dos homens que concordou com Judas, foi a maldade dos homens que O traiu,
e que O prendeu, e amarrou-O e levou-O para longe como um malfeitor; foi pela corrupção
e maldade dos homens que Ele foi denunciado, e falsamente acusado e injustamente julga-
do. Foi pela maldade dos homens que Ele foi repreendido, escarnecido, esbofeteado e cus-
pido. Foi pela impiedade dos homens que Barrabás foi preferido a Ele. Foi a impiedade dos
homens que colocou a cruz sobre Ele para a carregar, e que O pregou e O colocou em tão
cruel e ignominiosa morte. Isso tende a dar a Cristo um extraordinário senso da grandeza
e odiosidade da depravação da humanidade.

[1] Porque aqui no momento dos Seus sofrimentos Ele teve a depravação posta diante dEle
como ela é, sem disfarce. Quando ela matou Cristo, apareceu em Suas cores próprias. Aqui
Cristo viu em Sua real natureza, o que é o maior ódio e desprezo de Deus; na tendência
final e desejo dela, que é matar Deus; e, em Seu mais grandioso agravamento e maior ato,
que é matar uma Pessoa que era Deus.

[2] Porque nestes sofrimentos Ele sentiu os frutos daquela impiedade. Esta foi, nessa
ocasião, diretamente dirigida contra Ele mesmo, e em si mesma exercida contra Ele para
operar a Sua reprovação e tormento, o que tendia a imprimir um sentido mais forte de seu
ódio sobre a natureza humana de Cristo. Mas, ainda assim, ao mesmo tempo, tão maravi-
lhoso foi o amor de Cristo por aqueles que apresentavam essa corrupção odiosa, que Ele
suportou esses mesmos sofrimentos para livrá-los da punição daquela mesma corrupção.
A maravilha do amor de Cristo ao morrer, aparece em parte em que Ele morreu por aqueles
que eram tão indignos em si mesmos, como todos os homens têm o mesmo tipo de corrup-
ção em Seus corações, e em parte em que Ele morreu por aqueles que não eram apenas
tão ímpios, mas cuja iniquidade consistia em serem Seus inimigos; assim, Ele não apenas

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morreu pelos ímpios, mas pelos Seus próprios inimigos; e parte em que Ele estava disposto
a morrer por Seus inimigos, ao mesmo tempo em que Ele estava sentindo os frutos de Sua
inimizade, quando Ele sentiu os efeitos extremos e esforços de Seu ódio contra Ele no
maior desprezo e crueldade possíveis em direção a Ele, em Sua vergonha, tormentos e
morte; e em parte, na medida em que Ele estava disposto a fazer expiação por Seus inimi-
gos nestes mesmos sofrimentos, e por meio da mesma ignomínia, tormento e morte que
eram o fruto disso. O pecado e a maldade dos homens, pelos quais Cristo sofreu para fazer
expiação, foram, por assim dizer, postos diante de Cristo, em Sua visão.

Primeira inferência. Nisto esta impiedade foi apenas uma amostra da maldade da humani-
dade; pois a corrupção de toda a humanidade é da mesma natureza, e a maldade que está
no coração de um homem é da mesma natureza e tendência como em outro. Como na
água, o rosto corresponde ao rosto, assim o coração do homem ao homem.

Segunda inferência. É provável que Cristo morreu para fazer expiação por aquela verda-
deira impiedade individual que operou os Seus sofrimentos, que o reprovou, escarneceu,
esbofeteou, e o crucificou. Alguns de Seus crucificadores, por quem Ele orou para que
pudessem ser perdoados, enquanto eles estavam no próprio ato de crucificar Jesus, foram
posteriormente, em resposta à Sua oração, convertidos pela pregação de Pedro; como te-
mos um relato no segundo capítulo de Atos.

Outra circunstância da agonia de Cristo que demonstra a força do Seu amor é o ingrato
abandono dos Seus discípulos naquele momento. Os discípulos de Cristo estavam entre
aqueles pelos quais Ele suportou essa agonia, e entre aqueles por quem Ele iria suportar
os últimos sofrimentos, dos quais Ele agora tinha aquelas apreensões terríveis. No entanto,
Cristo já os tinha despertado a um interesse nos benefícios desses sofrimentos. Seus
pecados já haviam sido perdoados por meio daquele sangue que Ele estava indo derramar,
e eles já haviam sido ganhadores infinitos por aquela moribunda compaixão e amor que Ele
tinha por eles, e foram, por Seus sofrimentos, distinguidos de todos os demais do mundo.
Cristo havia colocado uma maior honra sobre eles do que em qualquer outro, fazendo-os
Seus discípulos em um sentido mais honroso do que Ele havia feito qualquer outro. E ainda
agora, quando Ele teve o terrível cálice colocado diante dEle, que Ele beberia por eles, e
estava em tal agonia diante da visão disto, Ele não viu nenhum retorno por parte deles,
senão a indiferença e ingratidão. Quando Ele só desejava que O assistissem, para que Ele
fosse consolado com Sua companhia, agora, neste momento, triste eles adormeceram; e
mostraram que não havia preocupação suficiente sobre isso para induzi-los a manterem-
se acordados com Ele nem mesmo por uma hora, embora Ele desejasse isso, uma vez e
outra vez. Mas ainda assim, este tratamento ingrato deles, por quem Ele devia beber o
cálice da Ira que Deus havia posto diante dEle, não O desencorajou a de tomá-lo, e bebê-

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lo por eles. Seu amor resistiu a eles; tendo amado os seus, amou-os até o fim. Ele não dis-
se dentro de Si mesmo quando o cálice trêmulo estava diante dEle: “Por que devo supor-
tar tanto por aqueles que são tão ingratos; por que Eu deveria lutar aqui com a expectativa
da terrível ira de Deus a ser suportada por mim amanhã, por aqueles que nesse meio tempo
não têm tanta preocupação por Mim, como para manterem-se acordados coMigo nem por
uma hora quando Eu desejo isso da parte deles?” Mas, ao contrário, com compaixões
ternas e paternais Ele desculpa esta ingratidão de Seus discípulos, e diz em Mateus 26:41:
“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a
carne é fraca”. E, seguiu, e foi apreendido, e escarnecido e açoitado e crucificado, e derra-
mou a Sua alma na morte, sob o peso da terrível ira de Deus na cruz por eles.

Terceira inferência. A partir do que foi dito, podemos aprender as maravilhas da submissão
de Cristo à vontade de Deus. Cristo, sendo uma Pessoa Divina, era o Soberano absoluto
do Céu e da terra, mas ainda assim Ele foi o mais maravilhoso exemplo de submissão à
soberania de Deus que alguma vez já houve. Quando Ele teve tal visão da terribilidade de
Seus últimos sofrimentos, e orou, se fosse possível que esse cálice passasse dEle, ou seja,
se não houvesse uma necessidade absoluta disto para a salvação dos pecadores, ainda
assim isto foi uma perfeita submissão à vontade de Deus. Ele acrescenta: “todavia, não
seja como eu quero, mas como tu queres”. Ele preferiu que a inclinação de Sua natureza
humana, que tanto temia tais tormentos intensos, fosse crucificada, ao invés de que a vonta-
de de Deus não fosse realizada. Ele se deleitava com o pensamento da vontade de Deus
que estava sendo feita; e quando Ele foi e orou pela segunda vez, Ele não tinha mais nada
a dizer, senão: “Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se
a tua vontade”; e assim na terceira vez. O que são tais provas de submissão, em relação
as que qualquer um de nós temos, por vezes, nas aflições que sofremos? Se Deus apenas
em Sua providência indica que isto seja a Sua vontade para que participemos como um
filho, quão dificilmente somos levados a ceder a ela, quão prontos para sermos insubmissos
e perversos! Ou se Deus põe a mão sobre nós em alguma dor aguda do corpo, como esta-
mos prontos a estar descontentes e impacientes; quando o inocente Filho de Deus, que
não merecia o sofrimento pôde submeter-se calmamente a sofrimentos inconcebivelmente
grandes, e disse uma e outra vez: que seja feita a vontade de Deus! Quando Ele foi trazido
e estabelecido diante daquela fornalha terrível de ira na qual Ele devia ser lançado, a fim
de que Ele pudesse olhar para isso e ter uma visão completa de Sua ferocidade, quando
Sua carne encolheu diante disso, e Sua natureza esteve em um tal conflito, que o Seu corpo
foi todo coberto por um suor de sangue caindo em grandes gotas no chão, mas Sua alma
calmamente entregou-se para que a vontade de Deus fosse feita, ao invés da vontade ou
inclinação de Sua natureza humana.

Quarta inferência. O que foi dito sobre este assunto também nos mostra a glória da obediên-

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cia de Cristo. Cristo foi sujeito à lei moral como Adão era, e Ele também estava sujeito às
leis cerimoniais e judiciais de Moisés; mas o principal comando que Ele havia recebido do
Pai era que Ele deveria dar a Sua vida, que Ele deveria voluntariamente entregar a Si mes-
mo a aqueles terríveis sofrimentos na cruz. Fazer isso era a Sua principal missão no mun-
do; e, sem dúvida, a principal ordenança que Ele recebeu, foi sobre aquilo que era a princi-
pal incumbência para que Ele fora enviado. O Pai, quando O enviou ao mundo, enviou-O
com os comandos sobre o que Ele deveria fazer no mundo; e Sua maior ordenança dentre
todas foi sobre isso, que foi a incumbência para a qual Ele foi principalmente enviado, que
foi para entregar a Sua vida. E, portanto, esta ordenança foi a principal prova da Sua obe-
diência. Foi a maior prova de Sua obediência, porque era, de longe, a ordem mais difícil:
todo o resto era fácil em comparação a isto. E a principal prova de que Cristo teve, se Ele
obedecesse a esta ordem, foi no tempo de Sua agonia; por que ocorreu uma hora antes
dEle ter sido preso, de acordo com Seus sofrimentos, quando Ele deveria ou render-se a
eles, ou fugir deles. E então foi a primeira vez que Cristo teve uma visão completa da dificul-
dade desta ordem; que parecia tão grande a ponto de causar aquele suor de sangue. Em
seguida, foi o conflito da fraca natureza humana com a dificuldade, depois foram as
dolorosas lutas e batalhas com o julgamento pesado que Ele teve, e então Cristo obteve
vitória sobre a tentação, provinda do medo de Sua natureza humana. Sua obediência resis-
tiu em meio ao conflito. Então, podemos supor que Satanás foi especialmente solto para
lidar com o medo natural que a natureza humana tinha de tais tormentos, e esforçar-se com
o seu melhor para dissuadir Cristo de prosseguir em beber o cálice amargo; pois a essa
altura, em direção a aproximar-se da vida de Cristo, Ele estava especialmente entregue nas
mãos de Satanás, para ser tentado por ele, mais do que Ele foi imediatamente após o Seu
batismo; pois Cristo diz, falando da época, Lucas 22:53: “Tenho estado todos os dias
convosco no templo, e não estendestes as mãos contra mim, mas esta é a vossa hora e o
poder das trevas”. Logo, Cristo, no momento de Sua agonia, esteve lutando não somente
com visões assombrosas de Seus últimos sofrimentos, mas Ele também lutou, nesse suor
sangrento, com os principados e potestades — argumentou Ele, nesse momento com o
grande leviatã que trabalhou com o Seu melhor para tentá-lo à desobediência. De modo
que, em seguida, Cristo teve tentações em todos os sentidos para atraí-lO para fora da
obediência a Deus. Ele teve tentações de Sua fraca natureza humana, que temia extrema-
mente tais tormentos; e teve tentações de homens, que eram os Seus inimigos; e Ele teve
tentações do abandono ingrato de Seus discípulos; e Ele teve tentações do diabo. Ele
também teve uma prova esmagadora da manifestação da própria ira de Deus; quando, nas
palavras de Isaías, agradou ao Senhor moê-lO e fazê-lO enfermar. Todavia, ainda assim
Ele não falhou, mas conseguiu a vitória sobre todos, e realizou esse grande ato de obedi-
ência naquele momento, ao mesmo Deus que se escondeu dEle, e demonstrou a Sua Ira
a Ele pelos pecados dos homens, que Ele devia em breve sofrer. Nada poderia movê-lO
para longe de Sua obediência fiel a Deus, mas Ele insistiu em dizer: “Seja feita a Sua

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vontade”, expressando não apenas a Sua submissão, mas Sua obediência; não somente a
Sua conformidade com a disposição da vontade de Deus, mas também com a Sua vontade
perceptiva. Deus lhe havia dado este cálice para beber, e tinha ordenado a Ele que bebes-
se, e isso era motivo suficiente para que Ele O bebesse; portanto, Ele diz, na conclusão de
Sua agonia, quando Judas veio com Seu bando: “não beberei eu o cálice que o Pai me
deu?” (João 18:11). Cristo, no momento de Sua agonia, deu uma prova inconcebivelmente
maior de obediência do que qualquer homem ou anjo já deu. Quanto mais além foi esta
prova de obediência do segundo Adão do que a provação de obediência do primeiro Adão!
Quão leve foi a tentação de nosso primeiro pai, em comparação a esta! E, no entanto o
nosso primeiro fiador falhou, e nosso segundo não falhou, mas obteve uma vitória gloriosa,
e seguiu, e tornou-se obediente até à morte e morte de cruz. Assim maravilhosa e gloriosa
foi a obediência de Cristo, pela qual Ele operou a justiça para os crentes, e cuja obediência
é imputada a eles. Não maravilha que esta seja uma doce punição semeada, e que Deus
permaneça disposto a dar o Céu como a Sua recompensa a todos os que creem nEle.

Quinta inferência. O que foi dito mostra-nos a insensatez da segurança dos pecadores em
serem tão destemidos diante da ira de Deus. Se a ira de Deus era tão terrível, que, quando
Cristo somente a esperava, Sua natureza humana foi quase sobrecarregada com o temor
dela, e Sua alma ficou assombrada, e Seu corpo todo em um suor sangrento; então quão
insensatos são os pecadores, que estão sob a ameaça da mesma ira de Deus, e são con-
denados a ela, e estão a cada momento expostos a isso; e, no entanto, em vez de mani-
festar intensa apreensão, estão calmos, leves e indiferentes; em vez de estarem tristes e
mui pesarosos, andam com um coração tranquilo e descuidado; em vez de chorar em amar-
ga agonia, muitas vezes estão felizes e contentes, e comem e bebem, e dormem tranquila-
mente, e prosseguem no pecado, provocando a ira de Deus mais e mais, sem qualquer
motivo de preocupação! Quão estúpidas e insensatas são essas pessoas! Deixem que tais
pecadores insensíveis considerem que esta miséria, da qual eles estão em perigo devido a
ira de Deus, é infinitamente mais terrível do que a que ocasionou em Cristo a Sua agonia e
suor sangrento. É mais terrível, tanto como isto difere em Sua natureza e grau, e também
uma vez que difere na Sua duração. É mais terrível em Sua natureza e grau. Cristo sofreu
aquilo enquanto confirmou que a honra da Lei Divina era plenamente equivalente à miséria
dos condenados; e em algum aspecto foi o mesmo sofrimento; pois era a ira do mesmo
Deus; mas ainda em outros aspectos, muito diferente. A diferença não surge a partir da ira
derramada sobre um e outro, pois é o mesmo furor, mas a partir da diferença de sujeito, o
que pode ser melhor ilustrado a partir da própria comparação de Cristo. Lucas 23:31:
“Porque, se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco?” Aqui, Ele chama a Si mes-
mo de uma árvore verde, e os homens ímpios de secos, indicando que a miséria que virá
sobre os homens ímpios será muito mais terrível do que os sofrimentos que vieram sobre
Ele, e que a diferença decorre da natureza diferente do sujeito. A árvore verde e a seca são

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ambas lançadas no fogo; mas as chamas atingem e consomem a árvore seca muito mais
intensamente do que a verde. Os sofrimentos que Cristo suportou diferem da miséria dos
ímpios no inferno em natureza e grau em relação aos seguintes aspectos.

1. Cristo não sentiu os tormentos de uma consciência culpada, condenada.

2. Ele não sentiu nenhum tormento do reinado de corrupções e concupiscências interiores


como as do condenado. Os ímpios no inferno são seus próprios algozes, seus desejos são
seus carrascos, e sendo sem restrições, (pois não há graça preventiva no inferno), seus
desejos enraivecerão como chamas furiosas em seus corações. Eles serão atormentados
com a violência desenfreada de um espírito de inveja e maldade contra Deus e contra os
anjos e santos do Céu, e um contra o outro. Ora, Cristo não sofreu nada disso.

3. Cristo não teve que considerar que Deus O odiava. Os ímpios no inferno têm isso para
fazer plena a Sua miséria, eles sabem que Deus odeia perfeitamente sem a menor piedade
ou respeito a eles, o que preencherá as suas almas com miséria inexprimível. Mas não foi
assim com Cristo. Deus retirou Sua presença confortável de Cristo, e escondeu dEle o Seu
rosto, e assim derramou a Sua ira sobre Ele, quando O fez sentir os seus efeitos terríveis
na Sua alma; mas ainda assim Ele sabia, ao mesmo tempo, que Deus não O odiava, mas
O amava infinitamente. Ele clamou por que Deus O abandonou, mas, ainda assim, ao
mesmo tempo, o chama de “Deus meu, Deus meu!”, sabendo que era ainda o Seu Deus,
embora O tivesse abandonado. Mas os ímpios no inferno saberão que Ele não é o Seu
Deus, mas o Seu juiz e inimigo irreconciliável.

4. Cristo não sofreu desespero, como o ímpio o faz no inferno. Ele sabia que haveria um
fim de Seus sofrimentos em poucas horas; e que depois Ele deveria entrar na glória eterna.
Mas será bem diferente com vocês que são impenitentes; se vocês morrerem em Sua con-
dição atual, vocês estarão em desespero perfeito. Nestas considerações, a miséria dos ím-
pios no inferno será imensamente mais terrível em natureza e grau, do que aqueles sofri-
mentos com os temores os quais a alma de Cristo estava muito sobrecarregada.

2. Isto infinitamente diferirá na duração. Os sofrimentos de Cristo duraram apenas algumas


horas, e não havia um propósito eterno neles, e a glória eterna sucedeu. Mas você que é
um pecador seguro, insensível, está todos os dias exposto a ser lançado na miséria eterna,
um fogo que nunca se apaga. Se, então, o Filho de Deus esteve em tal assombro, na
expectativa de que Ele devia sofrer por algumas horas, quão insensato é você que está
continuamente exposto a sofrimentos imensamente mais terríveis em natureza e grau, e
sem qualquer fim, que serão suportados sem descanso dia e noite para todo o sempre! Se
você tivesse um sentido pleno da grandeza daquela miséria a que você está exposto, e

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quão terrível é a sua condição atual por conta disso, seria neste momento colocado em tão
terrível agonia como a que Cristo sofreu; sim, se a sua natureza pudesse suportá-la, uma
ainda muito mais terrível. Agora veríamos você cair em um suor sangrento, chafurdando
em sua dor e gritando de terrível espanto.

Tendo, assim, me esforçado para explicar e ilustrar as duas proposições anteriormente


mencionadas no início deste discurso, passarei agora a mostrar,

II. Que a alma de Cristo em Sua agonia no jardim esteve em uma grande e séria luta e con-
flito em Sua oração a Deus. O labor e esforço da alma de Cristo em oração era uma parte
de Sua agonia, e foi, sem dúvida, uma parte indicada no texto, quando se diz que Cristo
estava em agonia; pois, como já vimos, a palavra é usada especialmente nas Escrituras em
outros lugares como esforço ou luta com Deus em oração. A partir deste fato, e a partir do
evangelista mencionar o Seu ser posto em agonia, e Seu orar fervorosamente na mesma
frase, bem podemos entender isso como menção ao o Seu esforço em oração como parte
de Sua agonia. As palavras do texto parecem expor como Cristo estava em agonia na
oração: “E, posto em agonia, orava mais intensamente; e o Seu suor tornou-se em grandes
gotas de sangue que corriam até ao chão”. Esta linguagem parece implicar, assim, o quanto
o trabalho e a seriedade da alma de Cristo foram tão grandes em Sua luta com Deus em
oração, que Ele estava em uma pura agonia, e todo em um suor de sangue.

O que eu proponho agora, nesta segunda proposição, é com a ajuda de Deus, explicar esta
parte da agonia de Cristo, que consistiu na agonia e luta de Sua alma em oração; o que é
o mais digno de uma investigação particular, sendo que, provavelmente, é apenas pouco
compreendido; embora, como aparece na sequência, o correto entendimento disto é de
grande utilidade e consequência na Divindade. Não é bem compreendido como eu concebo
comumente o que se entende quando se diz no texto que Cristo orava mais intensamente;
ou o que foi a coisa pelo que Ele lutou com Deus, ou qual foi o assunto desta fervorosa
oração, ou qual foi a razão pela qual Ele foi tão sério em oração neste momento. E, portanto,
para definir toda esta questão de uma forma clara, eu particularmente investigo,

1. De que natureza foi essa oração;


2. Qual foi o assunto desta fervorosa oração de Cristo ao Pai;
3. Em que capacidade Cristo ofereceu esta oração a Deus;
4. Por que Ele foi tão sério em Sua oração;
5. Qual foi o sucesso desta Sua luta sincera com Deus em oração; e depois faço alguma
aplicação.

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I. De que natureza foi esta oração de Cristo.

Orações que são feitas a Deus podem ser de vários tipos. Algumas são confissões por
parte do indivíduo, ou expressões de seu senso de Sua própria indignidade diante de Deus,
e são, portanto, os pronunciamentos de penitência a Deus. Outras são doxologias ou ora-
ções destinadas a expressar o sentimento que a pessoa tem da grandeza e glória de Deus.
Tais são muitos dos Salmos de Davi. Outras são discursos gratulatórios ou expressões de
gratidão e louvor pelas misericórdias recebidas. Outras são pronunciamentos submissos,
ou expressões de submissão e resignação à vontade de Deus, nas quais aquele que aborda
a Majestade do Céu exprime a conformidade de sua vontade com a vontade soberana de
Deus; dizendo: “Seja feita, Senhor, a Tua vontade” como Davi, em 2 Samuel 15:26: “Se,
porém, disser assim: Não tenho prazer em ti; eis-me aqui, faça de mim como parecer bem
aos Seus olhos”. Outras são petições ou súplicas; através da qual a pessoa que ora pede
a Deus e clama a Ele por algum favor desejado por ele.

Disso, a pergunta é: de qual desses tipos foi a oração de Cristo, que lemos no texto.

Resposta. Foi principalmente de súplica. Não foi penitencial ou confessional; pois Cristo
não tinha pecado ou indignidade para confessar. Nem era uma doxologia ou uma ação de
graças ou simplesmente uma expressão de submissão; pois nenhuma delas concorda com
o que é dito no texto, ou seja, que orava mais intensamente. Quando alguém diz orar fervo-
rosamente, implica um sincero pedido de algum benefício, ou favor desejado; e não apenas
uma confissão, ou submissão, ou ação de graças. Então, o que diz o apóstolo desta oração,
em Hebreus 5:7: “O qual, nos dias da Sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágri-
mas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia”,
mostra que era petição ou uma súplica sincera por algum benefício desejado. Não são con-
fissões, ou doxologias, ou ações de graças ou resignações, que são chamadas de “súpli-
cas” e “grande clamor”, mas petições por algum benefício desejado ardentemente. E, tendo,
assim, resolvido o primeiro inquérito, e mostrado que esta fervorosa oração de Cristo foi da
natureza de uma súplica por algum benefício ou favor que Cristo ardentemente desejava,
eu passo a investigar,

II. Qual foi o assunto desta súplica; ou que favor e benefício foi que Cristo tão ardentemente
suplicou nesta oração da qual temos um relato no texto. Agora, as palavras do texto são
expressão este assunto. Diz-se que Cristo, “posto em agonia, orava mais intensamente”,
mas ainda assim, não é dito pelo que Ele orou tão fervorosamente. E aqui está a maior difi-
culdade em compartilhar deste relato: mesmo o que foi aquilo que Cristo tão ardentemente
desejou, pelo que Ele tanto lutou com Deus naquele momento. E embora não seja expres-

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samente dito no texto, as Escrituras não nos deixaram sem luz suficiente nesta questão. E
quanto mais eficazmente para evitar erros, eu responderia,

1. Negativamente, aquilo pelo que Cristo orou tão fervorosamente, neste momento, não foi
para que aquele cálice amargo que Ele tinha que beber passasse dEle. Cristo, antes, havia
orado por isso, como no versículo seguinte, apenas um antes do texto, dizendo: “Pai, se
queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua”. É de-
pois disso que nós temos um relato que Cristo, posto em agonia, orava mais intensamente;
mas não devemos entender que, orava mais intensamente do que Ele tinha feito antes, que
o cálice passasse dEle. Que esta não foi a única coisa pelo que Ele assim orou fervorosa-
mente nesta segunda oração, as seguintes coisas parecem comprovar:

[1] Esta segunda oração foi depois que o anjo havia aparecido para Ele do Céu, fortale-
cendo-o, para mais alegremente tomar o cálice e beber. Os evangelistas nos informam que
quando Cristo veio ao jardim, começou a entristecer-se, e muito sobrecarregado, e que Ele
disse que Sua alma estava cheia de tristeza até a morte, e que, em seguida, Ele foi e orou
a Deus, que, se fosse possível o cálice passasse dEle. Lucas diz nos versículos 41 e 42:
“E apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos, orava, dizendo: Pai,
se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua”. E
então, depois disso, é dito no versículo seguinte, que apareceu um anjo do Céu que o for-
talecia. Agora isso pode ser entendido não o contrário do que o anjo lhe apareceu, forta-
lecendo-O e incentivando-O a passar por Sua grande e difícil obra, tomar o cálice e bebê-
lo. Assim devemos supor, que agora Cristo foi mais fortalecido e encorajado a continuar
com Seus sofrimentos: e, portanto, não podemos supor que, depois disso, Ele oraria mais
intensamente do que antes de ser liberto de Seus sofrimentos; e, claro, que era sobre outra
coisa que Cristo mais intensamente orava, depois do fortalecimento do anjo, e não que o
cálice passasse dEle. Ainda que Cristo pareça ter uma maior visão dos Seus sofrimentos
dada a Ele após este fortalecimento do anjo do que antes, que causou uma tal agonia,
ainda assim, Ele foi mais fortalecido e capacitado a uma maior visão deles, tendo mais força
e coragem para lidar com estas apreensões horríveis, do que antes. Sua força para suportar
sofrimentos é aumentada com o senso dos Seus sofrimentos.

[2] Cristo, antes de Sua segunda oração, teve uma intimação da parte do Pai, que não era
a Sua vontade de que o cálice passasse dEle. A vinda do anjo do Céu para fortalecê-lo
deve ser assim entendida. Cristo em primeiro lugar, ora para que, se fosse a vontade do
Pai, que o cálice pudesse passar; mas essa não foi a Sua vontade; e então Deus imediata-
mente após isto envia um anjo para fortalece-lO e encorajá-lO a tomar o cálice, o que era
uma indicação clara a Cristo que era a vontade do Pai que Ele deveria tomá-lo, e que Ele
não passasse dEle. E assim Cristo o recebeu; como é evidenciado a partir do relato que

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Mateus oferece sobre esta segunda oração. Mateus 26:42: “E, indo segunda vez, orou,
dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua
vontade”. Ele fala como quem agora tinha uma indicação, uma vez que Ele orou antes, que
esta não era a vontade de Deus. E Lucas nos diz como, a saber, por ter Deus enviado um
anjo. Ma-teus nos informa, como Lucas o faz, que em Sua primeira oração, Ele orou para
que, se fosse possível o cálice passasse dEle; mas então Deus envia um anjo para significar
que não era a Sua vontade, e para encorajá-lO a toma-lo. E então, Cristo tendo recebido
esta indicação clara que não era a vontade de Deus que o cálice passasse dEle, rende-se
à mensagem que recebeu, e diz: Oh, Meu Pai, se é assim como Tu agora indicas, seja feita
a Tua vontade. Portanto, podemos seguramente concluir que pelo que Cristo orava mais
intensamente depois disso, não era para que o cálice passasse dEle, mas por outra coisa;
pois Ele não oraria mais fervorosamente, do que Ele fez antes, para que o cálice passasse
dEle, depois de Deus ter sinalizado que não era Sua vontade que isso passasse dEle; supor
isto seria uma blasfêmia. E então,

[3] A linguagem da segunda oração, tal como é referida por Mateus: “Pai meu, se este cálice
não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade”, mostra que Cristo não
ora, então, para que o cálice passasse dEle. Isto certamente não é orar mais fervorosamen-
te para que o cálice passasse, é sim uma entrega a esta questão, e uma interrupção de
instá-la mais, e submissão a isso como algo determinado pela vontade de Deus, feita co-
nhecida pelo anjo. E,

[4] A partir do relato do apóstolo sobre esta oração, no capítulo 5 de Hebreus, as palavras
do apóstolo foram estas: “O qual, nos dias da Sua carne, oferecendo, com grande clamor
e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que te-
mia”. O grande clamor e lágrimas de que o apóstolo fala, são, sem dúvida, o mesmo que
Lucas fala no texto, quando Ele diz, “ele posto em agonia, orava mais intensamente”, pois
esta foi a imagem mais nítida e séria do clamor de Cristo, o qual não temos qualquer relato
em algum lugar. Mas, de acordo com o relato do apóstolo, aquilo que Cristo temia e pelo
que clamou tão fortemente a Deus nesta oração, era algo que Ele foi ouvido, algo que Deus
concedeu o Seu pedido, e, portanto, não era que o cálice passasse dEle. Tendo assim mos-
trado o que não foi pelo que Cristo orou nesta séria oração, eu prossigo para mostrar,

Em segundo lugar, pelo que foi que Cristo buscou tão ardentemente de Deus nesta oração.

Eu respondo em uma frase: era que a vontade de Deus fosse feita, no que se refere aos
Seus sofrimentos. Mateus oferece este relato expresso sobre isso, na própria linguagem da
oração que foi já fora recitada várias vezes: “Meu Pai, se este cálice não pode passar de
mim sem que eu o beba, seja feita Sua vontade!” Esta é uma entrega, e uma expressão de

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submissão; mas não é apenas isso. Tais palavras, “seja feita a Sua vontade”, como elas
são mais comumente usadas, não são entendidas como uma súplica ou pedido, mas
apenas como uma expressão de submissão. Mas as palavras nem sempre devem sempre
ser entendidas neste sentido na Escritura, mas às vezes devem ser entendidas como um
pedido. Assim, elas devem ser entendidas na terceira petição da Oração do Senhor “seja
feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. Ali as palavras são compreendidas tanto
como uma expressão de submissão, e também um pedido, como elas são explicadas no
Catecismo da Assembleia, e assim as palavras devem ser entendidas aqui. O evangelista
Marcos diz que Cristo saiu de novo e falou as mesmas palavras que Ele havia falado em
Sua primeira oração (Marcos 14:39). Mas, então, nós devemos entender isso como as
mesmas palavras da última parte de Sua primeira oração: “não seja, porém, o que eu quero,
mas o que tu queres”, como mostra o relato mais completo e minucioso de Mateus. Assim
que a coisa mencionada no texto, pelo que Cristo estava lutando com Deus nesta oração,
era que a vontade de Deus fosse feita no que refere aos Seus sofrimentos.

Mas, então, outro inquérito pode surgir aqui, a saber: o que está implícito em Cristo orando
para que a vontade de Deus fosse feita no que refere aos Seus sofrimentos? A isto eu
respondo,

[1] Isto implica um pedido para que Ele fosse fortalecido e apoiado, e habilitado para fazer
a vontade de Deus, passando por esses sofrimentos. O mesmo como quando Ele diz: “Eis
aqui venho (no princípio do livro está escrito sobre mim), para fazer, ó Deus, a tua vontade”
[Hebreus 10:7]. Foi da vontade preceptiva de Deus que Ele tomasse esse cálice e bebesse;
foi a ordem do Pai para Ele. O Pai Lhe deu o cálice, e foi estabelecido diante dEle com a
ordem que Ele deveria beber. Este foi o maior ato de obediência que Cristo deveria
executar. Ele ora por força e auxílio, para que a Sua pobre, fraca natureza humana fosse
apoiada, para que Ele não falhasse nesta grande prova, para que Ele não afundasse e
fosse engolido, e que Sua força superasse em muito que Ele não aguentasse, e que
consumasse a obediência indicada. Esta foi a única coisa que Ele temia, do qual o apóstolo
fala no capítulo 5 de Hebreus, quando Ele diz, “ele foi ouvido quanto ao que temia”. Quando
Ele teve um senso tão extraordinário do horror dos Seus sofrimentos impressos em Sua
mente, o medo disso O assombrava. Ele estava com medo de que Sua pobre, fraca força
fosse superada, e que Ele falhasse em uma tão grande provação, que Ele fosse engolido
por aquela morte que Ele estava para morrer, e assim, não fosse salvo da morte; e, por-
tanto, Ele Se ofereceu com grande clamor e lágrimas Àquele que era capaz de fortalecê-
lO, e apoia-lO, e salvá-lO da morte, para que a morte que deveria sofrer não pudesse
superar o Seu amor e obediência, mas que Ele pudesse vencer a morte, e ser salvo dela.
Se a coragem de Cristo falhasse no teste, e Ele não resistisse sob Seus sofrimentos da
morte, Ele nunca teria sido salvo da morte, mas Ele teria afundado no lamaçal profundo;

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Ele nunca teria ressuscitado dentre os mortos, pois a Sua ressurreição dos mortos foi uma
recompensa por Sua vitória. Se Sua coragem houvesse falhado, e Ele tivesse desistido,
Ele teria permanecido debaixo do poder da morte, e por isso todos nós teríamos perecido,
teríamos ainda permanecido em nossos pecados. Se Ele tivesse falhado, tudo teria falhado.
Se Ele não tivesse superado esse conflito doloroso, nem Ele nem nós poderíamos ter sido
libertados da morte, todos nós teríamos morrido juntos. Portanto, esta foi a preservação da
morte que o apóstolo fala, que Cristo temia e orava, com grande clamor e lágrimas. Seu
Ser superado pela morte era a única coisa que Ele temia, e por isso Ele foi ouvido quanto
ao que temia. Cristo orou, para que a vontade de Deus fosse realizada em Seus sofrimen-
tos, mesmo para que Ele não deixasse de obedecer a vontade de Deus em Seus sofrimen-
tos; e, portanto, isso segue no versículo seguinte naquela passagem de Hebreus: “Ainda
que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu”. Que foi a este respeito que
Cristo em Sua agonia orou tão fervorosamente, para que a vontade de Deus fosse feita, ou
seja, que Ele tivesse força para cumprir a Sua vontade, e não afundasse e falhasse em tais
grandes sofrimentos; é confirmado pelas Escrituras do Antigo Testamento, como particular-
mente a partir do Salmo 69. O salmista representa a Cristo neste salmo, como é evidente
pelo fato de que as palavras do Salmo são representadas como as palavras de Cristo em
muitos lugares do Novo Testamento. Esse salmo é representado como a oração de Cristo
a Deus quando Sua alma estava profundamente triste e assombrada, como foi em Sua
agonia; como você pode ver no 1º e 2º versículos: “Livra-me, ó Deus, pois as águas
entraram até à minha alma. Atolei-me em profundo lamaçal, onde se não pode estar em pé;
entrei na profundeza das águas, onde a corrente me leva”. Mas, então, a única coisa que é
representada como sendo o que Ele temia, estava falhando, e sendo oprimido, nesta
grande provação: Versículos 14 e 15: “Tira-me do lamaçal, e não me deixes atolar; seja eu
livre dos que me odeiam, e das profundezas das águas. Não me leve a corrente das águas,
e não me absorva ao profundo, nem o poço cerre a Sua boca sobre mim”. Então, novamente
no Salmo 22, que também é representado como a oração de Cristo sob Suas terríveis dores
e sofrimentos, nos versículos 19, 20 e 21: “Mas tu, Senhor, não te alongues de mim. Força
minha, apressa-te em socorrer-me. Livra a minha alma da espada, e a minha predileta da
força do cão. Salva-me da boca do leão”. Mas foi oportuno e adequado que Cristo, quando
prestes a se envolver em terrível conflito, buscasse, assim, sinceramente a ajuda de Deus
para capacitá-lO a fazer a Sua vontade; pois Ele precisava da ajuda de Deus, a força de
Sua natureza humana, sem a ajuda Divina, não era suficiente para sustentá-lO comple-
tamente. Isto foi, sem dúvida, no que o primeiro Adão falhou em Sua primeira provação, de
forma que quando a provação chegou, Ele não estava consciente de Sua própria fraqueza
e dependência. Se Ele tivesse sido, e se inclinado sobre Deus, e clamado por Ele, por Sua
ajuda e força contra a tentação, muito provavelmente teríamos permanecido criaturas
inocentes e felizes até hoje.

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[2] Isso implica um pedido para que a vontade e o propósito de Deus fossem obtidos nos
efeitos e frutos de Seus sofrimentos, na glória de Seu nome, que foi o Seu desígnio em si;
e, particularmente, na glória de Sua Graça, na salvação eterna e bem-aventurança de Seus
eleitos. Isto é confirmado por João 12:27-28: “Agora a minha alma está perturbada; e que
direi eu? Pai, salva-me desta hora; mas para isto vim a esta hora. Pai, glorifica o teu nome.
Então veio uma voz do céu que dizia: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei”. Ali,
o primeiro pedido é o mesmo primeiro pedido de Cristo aqui em semelhante tribulação:
“Agora está a minha alma perturbada; e que direi eu Pai, salva-me desta hora”. Ele ora em
primeiro lugar, como Ele faz aqui, para que pudesse ser salvo de Seus últimos sofrimentos.
Em seguida, depois que determinou dentro de si mesmo que a vontade de Deus era de
outra forma, que Ele não fosse salvo daquela hora, “mas para isto”, diz Ele, “vim a esta
hora”, e então, Seu segundo pedido após este é: “Pai, glorifica o teu nome!” Portanto, isto
é, sem dúvida, o significado do segundo pedido em Sua agonia, quando Ele orou para que
a vontade de Deus fosse feita. Isto é, que a vontade de Deus fosse feita naquela glória de
Seu próprio Nome que Ele pretendia nos efeitos e frutos de Seus sofrimentos, para que,
vendo que era Sua vontade que Ele deveria sofrer, Ele sinceramente ora para que a
finalidade de Seu sofrimento, na glória de Deus e salvação dos eleitos, não pudesse falhar.
E estas são as coisas pelo que Cristo tão sinceramente lutou com Deus em Sua oração, do
que temos um relato no texto, e não temos nenhuma razão para pensar que eles não foram
expressos em oração, bem como indicados. Não é razoável supor que o evangelista em
seu outro relato dos eventos mencione todas as palavras da oração de Cristo. Ele apenas
menciona a substância.

III. Em que capacidade Cristo oferece aquelas orações fervorosas a Deus em Sua agonia?

Em resposta a este inquérito, observo que Ele ofereceu aquelas orações não como uma
pessoa particular, mas como sumo sacerdote. O apóstolo fala da grande clamor e lágrimas,
como o que Cristo elevou como sumo sacerdote. Hebreus 5:6-7 “Como também diz, noutro
lugar: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque. O qual, nos dias
da Sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas [...]”. As coisas pelas quais Cristo
orou naqueles fortes clamores, eram coisas que não possuem um carácter particular, mas
de interesse comum a toda a Igreja da qual era o sumo sacerdote. Que a vontade de Deus
fosse feita em Sua obediência até à morte, que Sua força e coragem não falhassem, mas
que Ele suportasse, era de interesse comum; pois, se Ele falhasse, tudo teria falhado e pe-
receria para sempre. E é claro, que o fato de que o nome de Deus fosse glorificado nos
efeitos e frutos de Seus sofrimentos, e na salvação e glória de todos os Seus eleitos, era
algo de interesse comum. Cristo ofereceu aqueles fortes clamores com a Sua carne, da
mesma maneira que os sacerdotes de antigamente tinham o costume de oferecer orações

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com os Seus sacrifícios. Cristo misturou grande clamor e lágrimas, com Seu sangue, e por
isso ofereceu o Seu sangue e Suas orações em conjunto, para que o efeito e o sucesso de
Seu sangue fossem obtidos. Tais intensas orações agonizantes foram oferecidas com o
Seu sangue, e Seu sangue infinitamente precioso e meritório foi oferecido com as Suas
orações.

IV. Por que Cristo foi tão intenso naquelas súplicas? Lucas fala delas como muito intensas;
o apóstolo fala delas como grande clamor; e Sua agonia, em parte, consistiu nesta inten-
sidade, e o relato que Lucas nos oferece, parece implicar que o Seu suor sangrento era,
em parte, pelo menos, pelo grande trabalho e intenso sentido de Sua alma em lutar com
Deus em oração. Havia três coisas que concorreram naquela época, especialmente para
fazer com que Cristo fosse assim, intenso e comprometido.

[1] Naquela ocasião, ele teve um extraordinário senso de que terrível consequência seria,
se a vontade de Deus deixasse de ser feita. Ele teve, então, um extraordinário senso de
Seu próprio último sofrimento sob a ira de Deus, e se Ele tivesse falhado naqueles sofri-
mentos, Ele sabia que a consequência seria terrível. Ele tem agora uma visão tão extraor-
dinária do assombro da ira de Deus, o Seu amor pelos eleitos tende a tornar mais do que
ordinariamente sério que eles pudessem ser libertos do sofrimento daquela ira por toda a
eternidade, o que não poderia ter sido se Ele tivesse falhado em fazer a vontade de Deus,
ou se a vontade de Deus no efeito de Seu sofrimento houvesse falhado.

[2] Não é de admirar que esse extraordinário senso que Cristo teve naquela ocasião, quanto
ao alto preço dos meios de salvação de pecadores, fê-lO muito intenso pelo sucesso desses
meios, como você já ouviu.

[3] Cristo teve um extraordinário senso de Sua dependência de Deus, e de Sua necessidade
de Sua ajuda para capacitá-lO a fazer a vontade de Deus nesta grande provação. Embora
Ele fosse inocente, ainda assim Ele precisava de ajuda Divina. Ele era dependente de Deus,
como homem, e, portanto, lemos que Ele confiava em Deus. Mateus 27:43: “Confiou em
Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus”. E quando Ele teve uma
visão extraordinária do pavor daquela ira que Ele sofreria Ele viu o quanto isso estava além
da força apenas de Sua natureza humana.

V. Qual foi o sucesso desta oração de Cristo?

A isso respondo, Ele obteve todos os Seus pedidos. O apóstolo diz: “Ele foi ouvido quanto

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ao que temia”; em tudo o que Ele temia. Ele obteve a força e a ajuda de Deus, tudo o que
Ele precisava ser realizado. Ele foi capaz de cumprir e de sofrer toda a vontade de Deus; e
obteve toda a finalidade de Seus sofrimentos, uma plena expiação pelos pecados [...], a
salvação completa para cada um daqueles que foram dados a Ele na promessa da Reden-
ção, e tudo o que glorifica o nome de Deus, que em Sua mediação foi projetada para reali-
zar, nem um jota ou um til falhou. Aqui Cristo em Sua agonia foi, acima de todos os outros,
antítipo de Jacó, em Sua luta com Deus por uma bênção; em que Jacó o fez, não como
uma pessoa particular, mas como chefe de Sua posteridade, a nação de Israel, e pelo que
Ele obteve aquele louvor de Deus: “como príncipe lutaste com Deus” [Gênesis 32:28], e
disso, foi um tipo daquele que era o Príncipe dos príncipes.

APLICAÇÃO

Grande proveito pode ser obtido a partir da consideração do grande clamor e lágrimas de
Cristo, nos dias de Sua carne, de muitas maneiras para nosso benefício.

1. Isso pode nos ensinar de que maneira devemos orar a Deus, não de uma forma fria e
descuidada, mas com grande seriedade e comprometimento de espírito, e especialmente
quando estamos orando a Deus por coisas que são de infinita importância, tais como bên-
çãos espirituais e eternas. Tais foram os benefícios pelo que Cristo orou com tão grande
clamor e lágrimas, para que pudesse estar habilitado a fazer a vontade de Deus nessa
grande e difícil obra que Deus lhe havia ordenado, para que Ele não afundasse e falhasse,
mas tivesse a vitória, e assim, finalmente, fosse liberto da morte, e para que a vontade e o
propósito de Deus fossem obtidos como fruto de Seus sofrimentos, na glória de Deus e a
salvação dos eleitos.

Quando vamos diante de Deus em oração com um coração frio, embotado, e de uma forma
sem vida e apática, orar a Ele por bênçãos eternas, e de importância infinita para nossas
almas, devemos pensar nas fervorosas orações de Cristo, que Ele derramou a Deus, com
lágrimas e um suor sangrento. A consideração disto pode muito bem fazer-nos envergonhar
de nossas maçantes, inertes orações a Deus, em que, de fato, nós mais pedimos uma
negação do que pedimos para ser ouvidos; pois a linguagem de tal forma de orar a Deus,
é que nós não olhamos para o benefício pelo que nós oramos como de qualquer grande
importância, de modo que é indiferente se Deus nos responde ou não. O exemplo de Jacó
em luta com Deus pela bênção, deve nos ensinar a seriedade em nossas orações, mas,
sobretudo, o exemplo de Jesus Cristo, que lutou com Deus em um suor sangrento. Se fôs-
semos sensíveis como Cristo era da grande importância desses benefícios que são de

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consequências eternas, nossas orações a Deus por tais benefícios seriam diferentes do
que são agora. Nossas almas também estariam em labor intenso e luta, empenhadas neste
dever.

Há muitos benefícios que pedimos a Deus em nossas orações, que são em cada detalhe
de tão grande importância para nós como eram aqueles benefícios que Cristo pediu a Deus
em Sua agonia. É de tão grande importância para nós que estivéssemos habilitados a fazer
a vontade de Deus, e realizássemos uma obediência sincera, universal e perseverante aos
Seus mandamentos, como era para Cristo que Ele não deixasse de fazer a vontade de
Deus em Sua grande obra. É de tão grande importância para nós que sejamos salvos da
morte, como era para Cristo que Ele obtivesse a vitória sobre a morte, e assim fosse salvo
dela. É tão grande e infinitamente maior importância para nós, que a redenção de Cristo
fosse bem sucedida para nós, como foi para Ele, que a vontade de Deus fosse cumprida
nos frutos e sucesso de Sua redenção.

Cristo recomenda a intensa vigilância e devoção aos Seus discípulos, pela oração e exem-
plo, os dois ao mesmo tempo. Quando Cristo estava em Sua agonia, e veio e encontrou os
discípulos dormindo, Ele lhes ordenou a vigiar e orar, Mateus 26:41: “Vigiai e orai, para que
não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca”. Ao mes-
mo tempo, Ele estabeleceu-lhes um exemplo do que Ele lhes ordenou, pois embora eles
dormissem, Ele vigiava, e derramou a Sua alma naquelas fervorosas orações sobre as
quais você já ouviu; e Cristo em outros lugares nos ensinou a pedir essas bênçãos de Deus
que são de importância infinita, como aqueles que não obterão nenhuma negação. Nós
temos um outro exemplo dos grandes conflitos e comprometimento do espírito de Cristo
neste dever. Lucas 6:12: “E aconteceu que naqueles dias subiu ao monte a orar, e passou
a noite em oração a Deus”. E Ele esteve muitas vezes recomendando intensidade em cla-
mores a Deus em orações. Na parábola do juiz iníquo, em Lucas 18, no início: “E contou-
lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer, Dizendo:
Havia numa cidade um certo juiz, que nem a Deus temia, nem respeitava o homem. Havia
também, naquela mesma cidade, uma certa viúva, que ia ter com ele, dizendo: Faze-me
justiça contra o meu adversário. E por algum tempo não quis atendê-la; mas depois disse
consigo: Ainda que não temo a Deus, nem respeito os homens, Todavia, como esta viúva
me molesta, hei de fazer-lhe justiça, para que enfim não volte, e me importune muito. E
disse o Senhor: Ouvi o que diz o injusto juiz”.

Lucas 11:5, em diante: “Disse-lhes também: Qual de vós terá um amigo, e, se for procurá-
lo à meia-noite, e lhe disser: Amigo, empresta-me três pães, Pois que um amigo meu che-
gou a minha casa, vindo de caminho, e não tenho que apresentar-lhe; Se ele, respondendo
de dentro, disser: Não me importunes; já está a porta fechada, e os meus filhos estão comi-

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go na cama; não posso levantar-me para tos dar; Digo-vos que, ainda que não se levante
a dar-lhos, por ser Seu amigo, levantar-se-á, todavia, por causa da Sua importunação, e
lhe dará tudo o que houver mister”. Ele ensinou isso em Sua maneira de responder a ora-
ção, como na resposta à mulher de Canaã, Mateus 15:22, em diante: “E eis que uma mulher
Cananéia, que saíra daquelas cercanias, clamou, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem
misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada. Mas Ele não
lhe respondeu palavra. E os Seus discípulos, chegando ao pé dele, rogaram-lhe, dizendo:
Despede-a, que vem gritando atrás de nós. E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado
senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Então chegou ela, e adorou-o, dizendo: Se-
nhor, socorre-me! Ele, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar no pão dos filhos e
deitá-lo aos cachorrinhos. E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem
das migalhas que caem da mesa dos Seus senhores. Então respondeu Jesus, e disse-lhe:
Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde aquela
hora a Sua filha ficou sã”. E como Cristo orou em Sua agonia, como eu já mencionei vários
textos da Escritura, assim somos direcionados a agonizar em nossas orações a Deus.

2. Estas orações intensas e fortes clamores de Cristo ao Pai em Sua agonia mostram a
grandeza do Seu amor para com os pecadores. Pois, como foi mostrado, estes fortes cla-
mores de Jesus Cristo foi o que Ele ofereceu a Deus como uma pessoa pública, na qualida-
de de sumo sacerdote, e em nome daqueles de quem era sacerdote. Quando Ele ofereceu
Seu sacrifício pelos pecadores a quem Ele tinha amado desde a eternidade, Ele, além
disso, ofereceu orações fervorosas. Seus fortes clamores, Suas lágrimas e Seu sangue,
foram todos oferecidos juntos a Deus, e eles foram todos oferecidos para o mesmo fim,
para a glória de Deus na salvação dos eleitos. Eles foram todos oferecidos pelas mesmas
pessoas, a saber, pelo Seu povo. Por eles, Ele derramou Seu sangue e suor sangrento,
quando este caiu em pedaços coagulados ao chão; e por eles tão intensamente clamou a
Deus ao mesmo tempo. Isto ocorreu para que a vontade de Deus fosse feita na eficácia de
Seus sofrimentos, na eficácia de Seu sangue, na salvação daqueles por quem o sangue foi
derramado, e, portanto, essa intensidade demonstra Seu forte amor; isso demonstra quão
grandemente Ele desejava a salvação dos pecadores. Ele clamou a Deus para que Ele não
afundasse e falhasse nesse grande empreendimento, porque se Ele fizesse isso, os peca-
dores não poderiam ser salvos, mas todos pereceriam. Ele orou para que Ele obtivesse a
vitória sobre a morte, porque se Ele não conseguisse a vitória, o Seu povo nunca poderia
obter a vitória, e eles não conquistariam nenhuma outra forma, a não ser por Sua conquista.
Se o Capitão de nossa salvação não houvesse vencido neste doloroso conflito, nenhum de
nós teria vencido, mas teríamos afundado com Ele. Ele clamou a Deus para que Ele fosse
salvo da morte, e se Ele não tivesse sido salvo da morte em Sua ressurreição, nenhum de
nós jamais seria salvo da morte. Foi uma grandiosa visão contemplar a Cristo no grande
conflito em que estava em Sua agonia, mas tudo nisto ocorreu a partir do amor, daquele

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forte amor que estava em Seu coração. Suas lágrimas que fluíam de Seus olhos eram de
amor; Seu grande suor era de amor; o Seu sangue, Seu prostrar-se no chão diante do Pai,
era em amor; Seu fervoroso clamor a Deus foi a partir da força e ardor de Seu amor. Isto
foi considerado como única principal forma na qual o verdadeiro amor e boa vontade são
demonstrados em amigos Cristãos, um ao outro, que de todo coração orem uns pelos
outros; e é um caminho que Cristo nos direciona para mostrar nosso amor aos nossos inimi-
gos, mesmo orando por eles. Mateus 5:44: “Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos,
bendizei os que vos maldizem”. Mas alguma vez já houve qualquer oração que manifestou
o amor aos inimigos, a tal ponto, como os fortes clamores e lágrimas do Filho de Deus pela
eficácia de Seu sangue para a salvação de Seus inimigos; a luta e conflito de cuja alma em
oração foi tal a produzir a Sua agonia e Seu suor sangrento?

3. Se Cristo foi desta forma diligente em oração a Deus, para que o fim de Seus sofrimentos
fosse obtido na salvação dos pecadores, então quanto mais aqueles pecadores deveriam
ser condenados por não buscarem diligentemente a Sua própria salvação! Se Cristo ofere-
ceu tais fortes clamores pelos pecadores como Seu sumo sacerdote, que comprou salvação
a eles, Aquele que tem sido feliz desde toda a eternidade sem eles, e não poderia ser mais
feliz por eles, então, quão grande é a insensatez daqueles pecadores que buscam a Sua
própria salvação de uma forma tediosa e sem vigor; que se contentam com um atendimento
formal aos deveres da religião, com seus corações ao mesmo tempo muito mais intensa-
mente estabelecidos em outras coisas! Eles depois de participar de um tipo de dever de
oração pública, em que eles oram a Deus para que Ele tenha misericórdia deles e os salve;
mas depois que miserável enfadonho caminho é o que eles o fazem! Eles não aplicam o
Seu coração à sabedoria, nem inclinam os Seus ouvidos ao entendimento; eles não clamam
pela sabedoria, nem levantam a sua voz pela compreensão; eles não a buscam como a
prata, nem o procuram como a tesouros escondidos. Os clamores intensos de Cristo em
Sua agonia podem nos convencer de que não foi sem razão que Ele insistiu sobre isso, em
Lucas 13:24; de forma que devemos nos esforçar para entrar pela porta estreita, que é,
como já foi observado para você, no original Agwnizesqe [] “Agonize por entrar
pela porta estreita”. Se os pecadores estivessem um caminho esperançoso para obter Sua
salvação, eles agonizariam naquela grande preocupação como homens que estão tomando
uma cidade por violência, como em Mateus 11:12: “E, desde os dias de João o Batista até
agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele”. Quando um corpo
de soldados resolutos está tentando tomar uma cidade forte em que eles se encontram com
grande oposição, que conflitos violentos ocorrem ali antes que a cidade seja tomada! Como
os soldados pressionam contra as próprias bocas dos canhões dos inimigos, e sobre as
pontas de suas espadas! Quando os soldados estão escalando os muros, e fazendo sua
primeira entrada na cidade, que luta violenta ocorre entre eles e Seus inimigos que se
esforçam para mantê-los fora! Como eles, por assim dizer, agonizam com toda a sua força!

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Assim nós devemos buscar a nossa salvação, se quisermos estar em um semelhante cami-
nho para obtê-la. Quão grande é a loucura então daqueles que se contentam em buscar
com um espírito em forma fria e sem vida, e assim continuam de mês a mês, e de ano em
ano, e ainda assim se gabam de que eles serão bem sucedidos!

Quanto mais eles continuam a ser reprovados, aqueles que não estão em um caminho de
buscar a sua salvação em absoluto, mas completamente negligenciam Suas preciosas al-
mas, e atendem os deveres da religião não mais do que é apenas necessário para manter
Seu crédito entre os homens; e em vez de pressionarem em direção ao reino de Deus,
estão mui violentamente pressionando em direção à sua própria destruição e ruína, estando
apressadamente dirigidos por suas muitas e fortes concupiscências, como a manada de
porcos se apressou pela legião de demônios, e correu violentamente para baixo de um
despenhadeiro no mar, perecendo nas águas! Mateus 8:32.

4. Pelo que foi dito sob esta proposição, podemos aprender de que maneira os Cristãos
devem prosseguir no trabalho que está diante deles. Cristo tinha uma grande obra diante
dEle quando isso aconteceu, do que nós temos um relato no texto. Apesar de ter sido muito
perto do fim de Sua vida, no entanto, Ele, nessa ocasião, quando Sua agonia começou,
teve a principal parte do trabalho diante dEle para o que Ele veio fazer no mundo; que foi o
ofertar o sacrifício que Ele ofereceu em Seus últimos sofrimentos, e nisso realizar o maior
ato de Sua obediência a Deus. E assim os Cristãos têm um grande trabalho a fazer, um
serviço que realizarão para Deus, que é efetuado com muita dificuldade. Eles têm estabele-
cida uma corrida diante deles a qual eles têm que correr, uma guerra que é indicada a eles.
Cristo foi o sujeito de uma grande provação no momento de Sua agonia; assim Deus está
acostumado a exercitar o Seu povo com grandes provações. Cristo encontrou-se com gran-
de oposição naquela obra que Ele devia cumprir, assim os crentes semelhantemente en-
contraram grande oposição em correr a carreira que está posta diante deles. Cristo, como
Homem, tinha uma natureza frágil, que era, em si, muito insuficiente para sustentar um con-
flito, ou para suportar tal carga como a que estava vindo sobre Ele. Assim, os santos têm a
mesma natureza humana fraca e, junto com isso, grandes fraquezas pecaminosas que
Cristo não tinha, o que lhes colocam sob grandes desvantagens, e aumentam considera-
velmente a dificuldade de seu trabalho. Essas grandes tribulações e dificuldades que
estavam diante de Cristo, foram o caminho pelo qual Ele devia entrar no reino dos Céus;
para que Seus seguidores pudessem esperar que “por muitas tribulações nos importa entrar
no reino de Deus” [Atos dos Apóstolos 14:22]. A cruz foi para Cristo o caminho para a coroa
de glória, e assim ela é para os Seus discípulos. As circunstâncias de Cristo e de Seus se-
guidores nessas coisas são iguais, o Seu caso, portanto, é o mesmo; e, portanto, o com-
portamento de Cristo em tais circunstâncias foi um exemplo adequado para eles seguirem.
Eles devem olhar para o Seu Capitão, e observar de que maneira Ele passou por Sua

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grande obra, e as grandes tribulações que Ele sofreu. Eles devem observar de que maneira
Ele entrou no reino dos Céus, e obteve a coroa de glória, e assim eles também devem
participar da corrida que se coloca diante deles. “Portanto nós também, pois que estamos
rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o peca-
do que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta”
[Hebreus 12:1]. Particularmente,

(1). Quando os outros estão dormindo eles devem estar acordados, como foi com Cristo. O
tempo de agonia de Cristo foi de noite, o tempo em que as pessoas tinham o costume de
estar dormindo; foi o tempo em que os discípulos que estavam perto de Cristo dormiam;
mas Cristo, nessa ocasião, tinha outra coisa a fazer ao invés de dormir; Ele tinha um grande
trabalho a fazer; Ele manteve-se acordado, com o coração envolvido nesta obra. Assim
deve ser com os crentes em Cristo; quando as almas de Seus vizinhos estão dormindo em
Seus pecados, e sob o poder de uma insensibilidade e preguiça letárgicas, eles devem
vigiar e orar, e manter vivo o senso da importância infinita de Suas preocupações espiri-
tuais. 1 Tessalonicenses 5:6: “Não durmamos, pois, como os demais, mas vigiemos, e seja-
mos sóbrios”.

(2). Eles devem seguir em Seu trabalho com intenso labor, como Cristo fez. O momento em
que os outros estavam dormindo era um momento em que Cristo estava perto de Sua
grande obra, e estava comprometido nisso com todas as Suas forças, agonizante nisso;
conflitante e lutando em lágrimas e em sangue. Assim, os Cristãos devem, com o máximo
de seriedade, remir o Seu tempo, com as almas comprometidas neste trabalho, passando
por meio da oposição que eles encontram nisso, passando por todas as dificuldades e
sofrimentos que existem no caminho, correndo com paciência a carreira posta diante deles,
lutando contra os inimigos de Sua alma com todas as Suas forças; como aqueles que não
lutam contra a carne e o sangue, mas contra os principados e potestades, e os príncipes
das trevas deste mundo, e hostes espirituais da maldade nas regiões celestiais.

(3). Este labor e luta devem ser, para que Deus seja glorificado, e Sua própria felicidade
eterna obtida em um caminho de fazer a vontade de Deus. Assim foi com Cristo; pelo que
Ele tão intensamente se esforçou foi, que Ele pudesse fazer a vontade de Deus, para que
Ele mantivesse o Seu mandamento, Seu difícil mandamento, sem falhar nele, e que desta
forma, a vontade de Deus fosse feita, para glória de Seu eterno grande Nome, e para a
salvação de Seus eleitos, que Ele intencionou por meio de Seus sofrimentos. Aqui está um
exemplo que os santos devem seguir nestas santas luta, e corrida, e guerra, que Deus lhes
designou; eles devem se esforçar para fazer a vontade de Seu Pai celestial, para que eles
possam, como o apóstolo o expressa em Romanos 12:2: “experimenteis qual seja a boa,
agradável e perfeita vontade de Deus” [Romanos 12:2], e que neste caminho, eles possam
glorificar a Deus, e possam vir, por fim, a ser para sempre felizes no gozo de Deus.

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(4). Em toda a grande obra que eles têm que fazer, a sua visão deve estar em Deus, por
Sua ajuda para que sejam capacitados a superar. Assim fez o Homem Cristo Jesus, Ele se
esforçou em Seu trabalho, mesmo em tal agonia e suor sangrento. Mas como Ele se
esforçou? Não foi em Sua própria força, mas Seus olhos estavam em Deus, Ele clamou por
Ele por Seu auxílio e força para encorajá-lO, para que Ele não falhasse; Ele vigiou e orou,
como Ele desejou que os Seus discípulos fizessem; Ele lutou contra os Seus inimigos e
com os Seus grandes sofrimentos, mas, ao mesmo tempo lutou com Deus para obter a Sua
ajuda, para capacitá-lO a fim de obter a vitória. Assim, os santos devem usar a Sua força
em sua carreira Cristã ao máximo, mas não como dependendo de sua própria força, mas
clamando fortemente a Deus para que por Sua força os faça vencedores.

(5). Dessa forma, eles devem resistir até o fim, como Cristo fez. Cristo, desta forma foi bem
sucedido, e obteve a vitória, e ganhou o prêmio; Ele triunfou, e está assentado com o Pai
em Seu trono. Assim, os Cristãos devem perseverar e resistir em Sua grande obra até o
fim; eles devem continuar a executar Sua corrida até que eles cheguem ao Seu fim; eles
devem ser fiéis até a morte, como Cristo foi; e então, quando eles triunfarem, devem sentar-
se com Ele em Seu trono. Apocalipse 3:21: “Ao que vencer lhe concederei que se assente
comigo no meu trono; assim como eu venci, e me assentei com meu Pai no Seu trono”.

5. Por isso, pecadores sobrecarregados e angustiados, se algum tal está presente aqui,
que possa ter abundante fundamento de encorajamento para vir a Cristo por salvação. Aqui
há um grande incentivo para os pecadores, para que venham a este Sumo Sacerdote que
ofereceu tão forte clamor e lágrimas, com o Seu sangue, pela eficácia de Seus sofrimentos
na salvação dos pecadores. Pois,

Primeiro. Aqui há grande fundamento de segurança de que Cristo está pronto a aceitar dos
pecadores, e conceder-lhes a salvação; pois aqueles Seus fortes clamores que Ele ofere-
ceu na capacidade de nosso Sumo Sacerdote, demonstram quão intensamente desejoso
Ele foi disso. Se Ele não estivesse disposto a que os pecadores fossem salvos, sendo eles
sempre tão indignos disso, então, porque Ele lutaria assim com Deus por isso, em tal suor
sangrento? Clamaria alguém tão fervorosamente a Deus com tais caros clamores, em tão
grande esforço e fadiga da alma, por isso, se Ele não desejasse que Deus concedesse?
Não, certamente! Mas isso mostra quão grandemente o Seu coração foi estabelecido no
sucesso de Sua redenção; e, portanto, uma vez que Ele, por tais fervorosas orações, e por
tal suor sangrento, obteve a salvação do Pai pelos pecadores, Ele certamente estará pronto
para concedê-la a eles, se eles vierem a Ele por salvação; caso contrário, Ele frustraria Seu
próprio plano; e Aquele que tão intensamente clamou a Deus para que Seu propósito não
fosse frustrado, não frustrará, afinal, a Si mesmo.

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Segundo. Aqui está o mais forte motivo de segurança de que Deus está pronto para aceitar
todos aqueles que vêm a Ele por misericórdia através de Cristo, pois, por isso é que Cristo
orou naquelas fervorosas orações, essas orações sempre foram ouvidas, como Cristo diz
em João 11:4: “Eu bem sei que sempre me ouves”. E, especialmente, que eles possam
concluir, que ouviram o seu Sumo Sacerdote naqueles fortes clamores que Ele ofereceu
com o Seu sangue, e isto, especialmente na seguinte consideração.

(1) Elas foram as orações mais intensas que já foram feitas. Jacó foi muito intenso, quando
Ele lutou com Deus; e muitos outros têm lutado com Deus, com muitas lágrimas; sim, sem
dúvida, muitos dos santos têm lutado com Deus, com tal labor interior e lutas como a pro-
duzir efeitos poderosos sobre o corpo. Mas tão intenso foi Cristo, tão forte foi o esforço e
fervor de Seu coração, que Ele clamou a Deus em um suor sangrento; de modo que se
cada intensidade e importunação na oração sempre prevaleceram com Deus, podemos
concluir que aquela prevaleceu.

(2) Aquele que, nessa ocasião, orou era a Pessoa mais digna que alguma vez já elevou
uma oração. Ele tinha mais merecimento do que quaisquer homens ou anjos tinham diante
dos olhos de Deus, segundo o que Ele obteve mais excelente nome do que eles; pois Ele
era o Filho unigênito de Deus, infinitamente amável em Sua visão, o Filho em quem Ele
declarou uma e outra vez em quem Ele se agradava. Ele era infinitamente próximo e querido
por Deus, e tinha dez mil vezes mais merecimento aos Seus olhos do que todos os homens
e anjos juntos. E podemos supor que qualquer outra pessoa foi ouvida quando clamou a
Deus com tanta intensidade? Será que Jacó, um pobre homem pecador, quando Ele lutou
com Deus, obteve de Deus o nome de Israel, e tal elogio, que, como um príncipe, Ele havia
lutado com Deus, e prevalecido? E Elias, que era um homem de paixões e sujeito a corrup-
ções como nós, quando orava, intensamente, prevaleceu com Deus de forma a operar
aquelas grandes maravilhas? E o Filho unigênito de Deus, quando lutando com Deus em
lágrimas e sangue, não prevalecerá, e terá o Seu pedido concedido a Ele?

Certamente, não há espaço para supor tal coisa; e, portanto, não há espaço para duvidar
de que Deus dará a salvação àqueles que creem nEle, em Sua solicitação.

(3) Cristo ofereceu estas orações fervorosas com o melhor apelo por uma resposta que já
foi oferecido a Deus, a saber, o Seu próprio sangue; que era um equivalente para a coisa
que Ele solicitava. Ele não apenas ofereceu fortes clamores, mas Ele os ofertou com um
preço plenamente suficiente para comprar o benefício que Ele solicitava.

(4) Cristo ofereceu este preço e aqueles fortes clamores, os dois juntos; pois ao mesmo
tempo em que Ele estava derramando estes pedidos sinceros pelo sucesso de Sua Reden-
ção na salvação dos pecadores, Ele também derramou o Seu sangue. Seu sangue caía no

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chão no mesmo instante em que Seus clamores subiam ao Céu. Considerem estas coisas,
sobrecarregados e angustiados, pecadores, que estão prontos para duvidar da eficácia da
intercessão de Cristo por tais criaturas indignas como eles, e para colocar em questão a
prontidão de Deus em aceitá-los por causa de Cristo. Vão para o jardim, onde o Filho de
Deus estava em agonia, e onde Ele clamou a Deus tão intensamente, e onde o Seu suor
tornou, por assim dizer, em grandes gotas de sangue, e depois vejam qual conclusão vocês
extrairão de tal visão maravilhosa.

6. Os piedosos podem obter grande consolo no fato de que Cristo, como Seu Sumo Sacer-
dote, ofereceu tais fortes clamores a Deus. Vocês, que têm uma boa evidência de serem
crentes em Cristo, e Seus verdadeiros seguidores e servos, podem ser consolados no fato
de que Jesus Cristo é o Seu sumo sacerdote, que aquele sangue, que Cristo derramou em
Sua agonia, caiu no chão por vocês, e que aqueles intensos clamores foram elevados a
Deus por vocês, para o sucesso de seus labores e sofrimentos em todo aquele bem que
vocês permanecem em necessidade neste mundo, e em sua bem-aventurança eterna no
mundo vindouro. Isto pode ser um consolo para vocês em todas as perdas, e sob todas as
dificuldades, para que vocês possam encorajar a vossa fé, e fortalecer a vossa esperança,
e fazer com que vocês grandemente se alegrem. Se vocês estivessem em dificuldades
notáveis, seria um grande consolo para vocês terem as orações de um homem que vocês
consideram um homem de eminente piedade, e alguém que tivesse um grande empenho
junto ao trono da graça, e, especialmente, se soubessem que ele era muito intenso e muito
empenhado em oração por vocês. Porém, quanto mais vocês podem ser consolados nisso,
que vocês têm um empenho nas orações e clamores do Unigênito e infinitamente digno
Filho de Deus, e que Ele tão foi tão intenso em orações por vocês, como ouviram!

7. Disso podemos aprender quão intensos os Cristãos devem ser em Suas orações e esfor-
ços pela salvação dos outros. Cristãos são seguidores de Cristo, e eles deveriam segui-lO
nisto. Percebemos, a partir do que ouvimos, quão grande foi o esforço e fadiga da alma de
Cristo pela salvação dos outros, e que intensos e fortes clamores por Deus acompanharam
Seus trabalhos. Aqui Ele nos oferece o exemplo. Aqui Ele estabeleceu um exemplo para
os ministros, que devem, como cooperadores de Cristo ter dores de parto com eles até que
Cristo seja formado neles. Gálatas 4:19: “Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores
de parto, até que Cristo seja formado em vós”. Eles devem estar dispostos a gastarem-se
e serem gastos por eles. Eles devem não apenas se esforçar por eles, e orar fervorosa-
mente por eles, mas devem, se necessário for, estar prontos para sofrer por eles, e para
gastar não apenas a Sua força, mas o Seu sangue por eles. 2 Coríntios 12:15: “Eu de muito
boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos ca-
da vez mais, seja menos amado”. Aqui está um exemplo para os pais, mostrando como
eles deveriam operar e clamar a Deus pelo bem espiritual de seus filhos. Vocês veem como

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Cristo se esforçou e lutou e clamou a Deus pela salvação de Seus filhos espirituais; e vocês
não buscarão e clamarão intensamente por seus filhos naturais?

Aqui está um exemplo para as pessoas próximas, um pelo outro, como eles devem procurar
e clamar pelo bem da alma um do outro, pois este é o mandamento de Cristo: que eles de-
vem amar uns aos outros como Cristo os amou (João 15:12). Aqui está um exemplo para
nós, demonstrando como devemos intensamente buscar e orar pelo bem espiritual e eterno
de nossos inimigos, pois Cristo fez tudo isso por Seus inimigos, e quando alguns daqueles
inimigos estavam naquele mesmo instante tramando a Sua morte, e ocupados maquinando
como saciar a sua malícia e crueldade, em Seus mais extremos tormentos, e mais vergo-
nhosa destruição.

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Um Tratado Sobre Oração
Por John Bunyan

A oração é uma ordenança de Deus para o uso tanto público como privado: Mais ainda, é
uma ordenança que coloca aqueles que têm o espírito de súplica em estreita relação com
Ele, e também possui efeitos tão notáveis que alcançam grandes coisas de Deus, tanto
para uma pessoa que ora, como para aqueles por quem ela ora. Abre, por assim dizer, o
coração de Deus, e, através dela, a alma mesmo quando vazia, é preenchida. Através da
oração o Cristão também pode abrir seu coração a Deus como o faria com um amigo, e
obter um renovado testemunho de Sua amizade. Muitas palavras poderiam ser utilizadas
aqui para distinguir entre oração pública e privada, assim como entre a do coração e a dos
lábios. Também poderia dizer algo para fazer a diferença entre os dons e graças na oração,
mas, deixando este método de lado, desta vez me ocuparei somente em mostrar a alma da
oração, sem a qual toda elevação de mãos, olhos ou vozes seria completamente des-
provida de propósito.

O método que me proponho a seguir nesta ocasião será:

1. Mostrar qual é a verdadeira Oração.

2. Mostrar o que é orar com o Espírito.

3. O que é orar com o Espírito e com o entendimento.

4. E finalmente, fazer uma breve conclusão do tratado.

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I. O QUE É ORAÇÃO

A oração é o derramar de modo sincero, consciente e amoroso o coração ou a alma diante


de Deus, por meio de Cristo, no poder e ajuda do Espírito Santo, buscando as coisas que
Deus prometeu, ou que estão em conformidade com a Sua Palavra, para o bem da igreja,
com fiel submissão à Sua vontade.

Esta descrição contém, portanto, sete pontos. Orar é derramar seu coração ou a alma:

1. De modo sincero;
2. De modo consciente;
3. De modo afetuoso, derramando a alma diante de Deus, por meio de Cristo;
4. No poder ou ajuda do Espírito Santo;
5. Buscando as coisas que Deus prometeu, ou que estão que estão em conformidade com
a Sua Palavra;
6. Para o bem da igreja;
7. Com submissão fiel à vontade de Deus.

1. Quanto ao primeiro ponto: É derramar de modo sincero a alma diante de Deus. A sinceri-
dade é uma graça que faz parte de todas as demais que Deus nos concede, e todas as
atividades do Cristão são influenciadas por ela, caso contrário, Deus não as olharia. Isso a-
contece na oração, como particularmente disse Davi, falando sobre o assunto: “A ele clamei
com a minha boca, e ele foi exaltado pela minha língua. Se eu atender à iniquidade no meu
coração, o Senhor não me ouvirá” (Salmos 66:17-18).

A sinceridade é parte da oração, porque sem ela Deus não a considera como tal: “E buscar-
me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração” (Jeremias 29:13).
A falta de sinceridade fez Jeová rejeitar as orações que nos fala em Oséias 7:14, onde diz:
“E não clamaram a mim com seu coração” (isto é, em sinceridade), “mas uivam nas suas
camas”. Mas oram para dissimular, para exibir-se hipocritamente, para serem vistos pelos
homens e aplaudidos por eles. A sinceridade é o que Cristo elogiou em Natanael, quando
ele estava debaixo da figueira: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo”. Prova-
velmente este bom homem havia estado derramando a sua alma a Deus em oração debaixo
da figueira, fazendo-o com um espírito sincero e determinado diante do Senhor. A oração
que contém esse elemento como um de seus principais ingredientes, é a oração que Deus
escuta. Assim, vemos que “a oração do justo é o seu prazer” (Provérbios 15:8). Por que a
sinceridade deve ser um dos elementos essenciais da oração que Deus aceita? Porque a

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sinceridade induz a alma a abrir o coração perante Deus com toda simplicidade para apre-
sentar o caso claramente, de forma inequívoca, reconhecer a culpa sem falsidade, a clamar
a Deus desde o mais profundo de seu coração, sem palavras vazias e artificiais.

“Bem ouvi eu que Efraim se queixava, dizendo: Castigaste-me e fui castigado, como novilho
ainda não domado...” [Jeremias 31:18a]. A sinceridade é a mesma quando é silenciada em
um canto ou quando ela se apresenta para o mundo. Não sabe levar duas máscaras, uma
para aparecer, diante dos homens e outra para breves momentos, passados em solidão.
Ela se oferece ao olho perscrutador de Deus, e anela se ocupar no dever da oração. Não
possui apreço pelo esforço dos lábios, pois sabe que o que Deus vê é o coração, de onde
brota, para ver se a oração é acompanhada pela sinceridade.

2. É derramar de um modo sincero e consciente o coração ou alma. Não se trata, como mui-
tos pensam, de algumas expressões balbuciantes, de uma conversa lisonjeira, senão de um
movimento consciente do coração. A oração contém um elemento de múltipla e genuína
sensibilidade: algumas vezes para o peso que representa o pecado, outras a ação de gra-
ças pelas misericórdias recebidas, outras para a vontade de Deus a conceder Sua miseri-
córdia, etc.

(a) A consciência da necessidade de misericórdia, por causa do perigo do pecado. A alma,


digo, passa por uma experiência na qual suspira, geme, e o pecado a entristece, pois a ver-
dadeira oração, da mesma forma que o sangue brota da carne quando é aprisionada por
cadeias de ferro, expressa balbuciante o que procede do coração quando ela está sobre-
carregada com dor e amargura. Davi grita, clama, chora, desmaia em seu coração, seus
olhos lhe falham, se secam, etc. Ezequias lamentou-se queixosamente como uma pomba;
Efraim se lamenta; Pedro chorou amargamente; Cristo experimentou o que é “grande cla-
mor e lágrimas”; e tudo isso por estar ciente da justiça de Deus, da culpa do pecado, das
dores do inferno e da destruição. “Os cordéis da morte me cercaram, e angústias do inferno
se apoderaram de mim; encontrei aperto e tristeza. Então invoquei o nome do Senhor” (Sal-
mos 116:3-4). E em outro lugar: “A minha mão se estendeu de noite” (Salmo 77:2). E tam-
bém: “Estou encurvado, estou muito abatido, ando lamentando todo o dia” (Salmos 38:6).
Em todos estes exemplos, e muitíssimos outros que poderiam ser citados, pode ser visto
que a oração envolve uma profunda consciência motivada, principalmente, pela experiência
do pecado.

(b) Às vezes alguém é gratamente consciente da misericórdia que recebe; misericórdia que
alenta, conforta, fortalece, anima, ilumina, etc. Assim, vemos como Davi derrama a sua al-
ma para abençoar, louvar e magnificar o grande Deus por Sua bondade para com seres

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tão pobre, vis e miseráveis: “Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim
bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de ne-
nhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniquidades, que sara todas as
tuas enfermidades que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de
misericórdia, que farta a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a
da águia” (Salmos 103:1-5). E assim, a oração dos santos converte-se, às vezes, em louvor
e ações de graças, mas nem por isto deixa de ser oração. Este é um mistério: o povo de
Deus ora com seus louvores, como está escrito: “Não estejais inquietos por coisa alguma;
antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica,
com ação de graças” (Filipenses 4:6). A ação de graças oferecida com plena consciência é
uma poderosa oração aos olhos de Deus, que prevalece diante dEle de modo inefável.

(c) Na oração, a alma se expressa, por vezes, como já sabendo as bênçãos que há de
receber, e isso faz com que o coração se inflame: “Pois tu, Senhor dos Exércitos”, diz Davi,
“Deus de Israel, revelaste aos ouvidos de teu servo, dizendo: Edificar-te-ei uma casa. Por-
tanto o teu servo se animou para fazer-te esta oração” (2 Samuel 7:27). Esta confiança é
que moveu Jacó, Davi, Daniel e outros, à experiência prévia das misericórdias que recebe-
riam. Sem transes nem êxtase, sem balbuciar de maneira néscia e vazia algumas palavras
escritas em um papel, mas com o poder, com fervor e sem cessar estes homens apre-
sentaram gemendo sua condição diante de Deus, experimentando, como eu disse, as suas
necessidades, sua miséria e confiando em Seus propósitos de misericórdia.

Além disso, orar é derramar o seu coração e alma. Há na oração um ato em que o íntimo
se revela, em que o coração se rende a Deus, que a alma se derrama afetuosamente em
forma de petições, suspiros e gemidos: “Senhor, diante de ti está todo o meu desejo — diz
Davi no Salmo 38:9 — e o meu gemido não te é oculto”. E também: “A minha alma tem
sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?
Quando me lembro disto, dentro de mim derramo a minha alma” (Salmo 42:2-4). Note que
diz: “Derramo minha alma”, um termo que significa que na oração a própria vida assim como
todas as nossas forças, voam para Deus. Como diz em outro lugar: “Confiai nele, ó povo,
em todos os tempos; derramai perante ele o vosso coração” (Salmos 62:8). Esta é a oração
em que tem sido dada a promessa de libertação para a pobre criatura cativa no cativeiro.
“Então dali buscarás ao Senhor teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu
coração e de toda a tua alma” (Deuteronômio 4:29).

Continuemos: Orar é derramar o coração e alma a Deus. Isso também mostra a excelência
do espírito de oração. É para a presença do grande Deus onde a oração se retira: “Quando
virei e comparecei diante de Deus”. A alma que realmente ora assim, vê a vaidade de todas
as coisas debaixo do Céu; vê que só em Deus há descanso e satisfação para ela [...] Davi

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diz: “Em ti, SENHOR, confio; nunca seja eu confundido. Livra-me na tua justiça, e faze-me
escapar; inclina os teus ouvidos para mim, e salva-me. Sê tu a minha habitação forte, à
qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha
rocha e a minha fortaleza. Livra-me, meu Deus, das mãos do ímpio, das mãos do homem
injusto e cruel. Pois tu és a minha esperança, Senhor DEUS; tu és a minha confiança desde
a minha mocidade” (Salmo 71:1-5). Muitos falam de Deus com discurseira, mas a verdadeira
oração faz dEle sua esperança, seu auxílio, e seu tudo. A verdadeira oração não vê nada
de substancial ou de valor, exceto Deus. E isso ocorre (como eu disse antes), de modo
sincero, consciente e afetuoso.

Seguiremos dizendo que a oração é derramar o coração e a alma de modo sincero, cons-
ciente e afetuoso através de Cristo. Faz-se necessário acrescentar que é através de Cristo.
Caso contrário, cabe duvidar se é oração, mesmo que se empregue muita pompa e elo-
quência.

Cristo é o caminho pelo qual a alma tem acesso a Deus, e sem o qual é impossível que um
único desejo chegue aos ouvidos do Senhor dos Exércitos: “Se pedirdes alguma coisa em
Meu Nome, tudo o que pedirdes ao Pai em Meu Nome, será feito”. Esta foi a maneira que
Daniel orou pelo povo de Deus, em nome de Cristo: “Agora, pois, ó Deus nosso, ouve a
oração do teu servo, e as suas súplicas, e sobre o teu santuário assolado faze resplandecer
o teu rosto, por amor do Senhor” (Daniel 9:17). E o mesmo Davi: “Por amor do teu nome
(ou seja, por amor do Teu Cristo), Senhor, perdoa a minha iniquidade, pois é grande” (Sal-
mo 25:11). Agora, isso não quer dizer que todos os que proferem o nome de Cristo em su-
as orações estão realmente orando em Seu nome. O achegar-se a Deus através de Cristo
é a parte mais difícil da oração. O homem pode mais facilmente experimentar Suas obras,
e até mesmo desejar sinceramente Sua misericórdia, do que pode ir a Deus através de
Cristo. Aquele que vem a Deus através de Cristo deve conhecê-lO primeiramente: pois a-
quele que se achega a Deus deve crer que Ele existe. E também o que se aproxima de
Deus deve conhecer a Cristo “rogo-te que me faças saber o teu caminho”, diz Moisés, “e
conhecer-Te-ei” (Êxodo 33:13).

Somente o Pai pode revelar a este Cristo. E vir por meio de Cristo é um poder de Deus que
é dado à alma para abrigar-se na sombra do Senhor Jesus, como aquele que se abriga em
um refúgio. Por isso, Davi chama Cristo, muitas vezes de seu escudo, torre, fortaleza, rocha
de confiança, etc. E dá-Lhe esses nomes, não só porque Ele venceu seus inimigos, mas
porque achou favor junto a Deus Pai. Para Abraão foi dito: “Não temas, Abrão, eu sou o teu
escudo”, etc. (Gênesis 15:1). Então, quem se aproxima de Deus por meio de Cristo deve
ter fé, por meio da qual é revestido por Ele, e Ele aparece diante de Deus. Pois bem, aquele
que tem fé é nascido de Deus, nascido de novo, e, portanto, torna-se um de Seus filhos,

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em virtude disto está unido a Cristo e feito um membro Seu. Por conseguinte, uma vez que
foi feito um membro de Cristo, tem acesso a Deus. Digo membro de Cristo, pela maneira
como Deus o considera como parte de Seu Filho, como parte de Seu corpo, de Sua carne
e de Seus ossos, unidos a Ele pela eleição, pela conversão, pela iluminação. Deus coloca
o Espírito no coração deste pobre homem, de modo que agora se achega a Deus em virtude
dos méritos de Cristo, em virtude de Seu sangue, Sua justiça, Sua vitória, Sua intercessão.
E este está perante Ele, sendo aceito em Seu Filho amado. Sendo assim, esta pobre
criatura torna-se membro do Senhor Jesus, e, portanto, tem acesso ao trono de Deus, em
virtude desta união, uma vez que o Espírito Santo também está nele, habilitando-o a derra-
mar sua alma diante de Deus e a ser ouvido.

4. Orar é derramar o coração e alma de modo sincero, consciente e afetuoso diante Deus
por meio de Cristo, no poder e ajuda do Espírito. Essas coisas dependem de tal modo umas
das outras, que é impossível que haja oração sem que todas elas cooperem. Por mais exce-
lente que seja o nosso discurso, Deus rejeita toda súplica que não possua estas caracte-
rísticas. Se não se derrama o coração sincera, consciente e afetuosamente diante dEle, e
isso por meio de Cristo, não se faz outra coisa senão um mero esforço de lábios, o que está
longe de ser agradável aos ouvidos de Deus. Assim também, se não é no poder e ajuda do
Espírito, é como o fogo estranho que ofereceram os filhos de Arão (Levítico 10:1). Porém
disto falarei mais largamente mais adiante. Entretanto, concluímos que aquilo que não se
pede por meio dos ensinamentos e ajuda do Espírito não pode estar de acordo com a
vontade de Deus.

5. Orar consiste em derramar o coração e alma de maneira sincera, consciente e afetuosa


diante Deus por meio de Cristo, no poder e ajuda do Espírito, pedindo o que Ele prometeu,
e que está de acordo com a Sua Palavra. A oração é oração, quando está dentro do âmbito
e do propósito da Palavra de Deus, pois quando a petição está em desacordo com o Livro,
é uma blasfêmia, ou pelo menos, “conversas vãs”. Por isto Davi, em sua oração, não apar-
tava seus olhos da Palavra de Deus: “A minha alma está pegada ao pó; vivifica-me segundo
a Tua palavra” (Salmo 119:25). E também: “Lembra-te da palavra dada ao teu servo, na
qual me fizeste esperar” (Salmo 119:49). Certamente o Espírito Santo não vivifica nem mo-
ve diretamente o coração do Cristão sem a Palavra, mas por, com e através dela, trazendo-
a ao coração, e abrindo este, por meio do que o homem é impulsionado a se achegar ao
Senhor, e contar-Lhe a sua condição, e também a argumentar e suplicar conforme a Sua
palavra. Assim ocorreu no caso de Daniel, aquele poderoso profeta do Senhor. Compre-
endendo pelos livros que o cativeiro dos filhos de Israel estava chegando ao fim, ora a Deus
de acordo com a Palavra: “Eu, Daniel, entendi pelos livros (os escritos de Jeremias) que o

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número dos anos, de que falara o Senhor ao profeta Jeremias, em que haviam de cumprir-
se as desolações de Jerusalém, era de setenta anos. E eu dirigi o meu rosto ao Senhor
Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, e saco e cinza” (Daniel 9:2-3). Por
todas estas razões, o Espírito é o ajudador e guia da alma, quando esta ora de acordo com
a vontade de Deus, é o mesmo Espírito que a governa segundo a Palavra de Deus e Sua
promessa. Portanto, o próprio nosso Senhor Jesus foi retido em uma ocasião, como se sua
vida dependesse disso: “Posso, agora, orar a meu Pai, e Ele me daria mais de doze legiões
de anjos, mas como se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que acon-
teça?” Como dizendo: Se houvesse tão somente uma palavra sobre Ele nas Escrituras, logo
estaria longe das mãos dos meus inimigos, os anjos me ajudariam. A Escritura não justifica
esse tipo de oração. Devemos orar de acordo com a Palavra e com a promessa. O Espírito
levará através da Palavra, tanto na maneira como no tema da oração. “Orarei com o es-
pírito, mas também orarei com o entendimento” (1 Coríntios 14:15). Mas não há entendi-
mento sem a Palavra; pois sem ela, que sabedoria há?

6. Para o bem da Igreja. Essa cláusula abrange tudo o que tende para a glória de Deus, o
louvor de Cristo, ou o proveito de Seu povo; pois Deus, Cristo e Seu povo estão unidos de
tal maneira, que se orarmos para o bem de uma, a saber, a igreja, se ora necessariamente
pela glória de Deus e pelo louvor de Cristo. Porque, assim como Cristo está no Pai, os san-
tos estão em Cristo, e aquele que toca nos santos, toca na menina dos olhos de Deus. Orai,
pois, pela paz de Jerusalém e orareis por tudo o que deveis, Jerusalém não terá jamais paz
perfeita até estar no Céu, e não há nada que Cristo deseja mais do que tê-la ali, no lugar
que Deus, por meio de Cristo, lha deu. Assim, pois, o que ora pela paz e pelo bem de Sião,
ou a igreja, pede em oração o que Cristo comprou com Seu sangue e o que o Pai Lhe deu.

Pois bem, o que ora pedindo isto, tem de fazê-lo pedindo a abundância da graça para a
igreja; ajuda contra todas as tentações; pedindo que Deus não permita que nada a aflija
demasiado e arduamente, que todas as coisas cooperem para o seu bem, que Ele lhes
guarde irrepreensíveis e sinceros, para Sua glória, filhos sem culpa em meio a uma geração
maligna e perversa. Esta é a essência da oração de Cristo em João 17. E todas as orações
de Paulo seguiam este curso, como nos mostra o texto bíblico: “E peço isto: que o vosso
amor cresça mais e mais em ciência e em todo o conhecimento, para que aproveis as coisas
excelentes, para que sejais sinceros, e sem escândalo algum até ao dia de Cristo; cheios
dos frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus” (Filipenses
1:9-11). Como vocês veem, é uma frase curta, mas bela e de bons desejos para a igreja,
do começo ao fim, para que estejam firmes e perseverem, manifestando-se na melhor dis-
posição espiritual, ou seja irrepreensivelmente, com sinceridade e sem ofensa até o dia de
Cristo, quaisquer que sejam as tentações ou perseguições a que vocês forem submetidos.

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7. A oração se submete à vontade de Deus e diz, assim como Cristo ensinou: “Seja feita a
Tua vontade”. Por meio da qual, o povo de Deus, com toda a humildade, há de colocar-se,
as suas orações e tudo que tem, aos pés de seu Deus, para que Ele possa dispor deles
segundo melhor Lhe agrade em Sua sabedoria celestial. E, sem dúvida, Ele responderá ao
desejo de Seu povo da maneira mais conveniente para eles e para a Sua própria glória.
Por conseguinte, quando os santos oram submissos à vontade de Deus, não significa que
eles devem colocar em dúvida o Seu amor e bondade para com eles, mas que, devido nem
sempre serem igualmente prudentes, circunstância que às vezes Satanás se aproveita para
lhes tentar a orar por aquilo que, se alcançado, não redundaria em glória de Deus e nem
no bem de Seu povo, temos esta confiança nEle, que se pedirmos alguma coisa segundo
a Sua vontade, Ele nos ouve. E, se sabemos que Ele nos ouve em tudo o que pedimos, sa-
bemos que obtemos as petições que Lhe houvermos pedido, ou seja, pedindo-Lhe no espí-
rito de graça e de súplicas. Mas, como eu disse antes, a petição que não for apresentada
em e por meio do Espírito, não será atendida, por ser alheia à vontade de Deus, pois somen-
te o Espírito a conhece, e, portanto, é o único que sabe como orar em conformidade: “Por-
que, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele
está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus” (1
Coríntios 2:11). Mais adiante voltaremos a este ponto.

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II. ORANDO COM O ESPÍRITO

“Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento” (1 Coríntios 14:15). Pois
bem, orar com o Espírito (pois isto é o que faz a pessoa que ora, ser aceitável a Deus) é,
como já mencionado, a achegar-se a Deus sincera, consciente e afetuosamente por meio
de Cristo, o que necessariamente é uma obra do Espírito de Deus. Não há nenhum homem
ou igreja no mundo que possa se aproximar de Deus em oração, se não for com a ajuda do
Espírito Santo: “Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito” (Efé-
sios 2:18). É por isso que Paulo diz: “E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nos-
sas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo
Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que examina os corações
sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos” (Ro-
manos 8:26-27). Comentarei brevemente as palavras deste texto que mostra tão plena-
mente o espírito de oração e incapacidade do homem de orar sem Ele.

1. Considere primeiramente a pessoa que está falando, ou seja Paulo, em sua pessoa todos
os apóstolos. Nós apóstolos, os oficiais extraordinários, os edificadores prudentes (alguém,
que inclusive, foi arrebatado ao paraíso), “não sabemos o que havemos de pedir como con-
vém”. Não sabemos que coisas devemos pedir, ou por quem orarmos, nem por que meio
orar; nada disto sabemos sem a ajuda do Espírito. Devemos orar pedindo comunhão com
Deus por Cristo? Devemos pedir a fé, justificação pela graça, um coração verdadeiramente
santificado? Nada disto sabemos; “Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem,
senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus,
senão o Espírito de Deus” (1 Coríntios 2:11).

Além disso, se não sabem qual deve ser o tema da oração, a não ser pela ajuda do Espírito
Santo, sem Ele tampouco sabem como devem orar; portanto, o apóstolo acrescenta: “Espí-
rito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como con-
vém”. Eles não podiam realizar este dever tão bem e totalmente como alguns, em nossos
dias, creem que podem. Mesmo em seus melhores momentos, quando o Espírito Santo
lhes ajudava, os apóstolos tinham de contentar-se em proferir suspiros e gemidos inexpri-
míveis, uma vez que não tinha palavras para expressar.

Mas nisto os sábios de nossos dias estão tão especializados, eles já sabem de antemão
como orar e sobre que tema, estabelecendo uma oração para tal dia, até mesmo vinte anos
antes. Uma para o Natal, outra para a Páscoa, e os correspondentes seis dias depois, e
assim por diante. Eles contaram ainda as sílabas que devem conter. Também para cada

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festividade já têm preparadas as orações para aqueles que ainda não vieram a este mundo.
Ademais, lhes dirão quando devem ajoelhar-se, quando ficar em pé, quando sentar-se, e
quando se moverem. Tudo o que os apóstolos não chegavam a fazer, por não poderem
compor forma tão meticulosa, por causa do temor de Deus, que lhes constrangia a orar
como deveriam.

“Porque não sabemos o que havemos de pedir como convém”. Observe isto: “como con-
vêm”, pois o não atentar para esta palavra, ou pelo menos não entendê-la em seu espírito
e verdade, tem feito com que alguns inventassem, como Jeroboão, outra forma de adoração
que não seja a que está revelada na Palavra de Deus, tanto no que se refere ao tema como
à forma. Mas Paulo diz que precisamos orar como convém, algo que não podemos fazer
nem mesmo com toda a arte, habilidade, astúcia e engenho dos homens e dos anjos.
“Porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito...”.

“Sim, o mesmo Espírito” “ajuda nossa fraqueza”, não o Espírito e a concupiscência do ho-
mem: uma coisa é o que o homem pode imaginar e inventar em seu próprio cérebro, e outra
o que se lhe manda e deve fazer. Muitos pedem e não recebem, porque pedem mal (veja
Tiago 4:3), por isso nunca chegam sequer a estar perto de possuírem o que pedem. A ora-
ção acidental fortuita, não dissuade a Deus nem faz com Ele responda. Quando se está em
oração, Deus esquadrinha o coração, para ver de que raiz e espírito procede. “E aquele
que examina os corações sabe” (isto é, aprova) “qual é a intenção do Espírito; e é ele que
segundo Deus intercede pelos santos” (Romanos 8:27).

Pois, Ele só ouve aquilo que é conforme a Sua vontade, e nada mais. E somente o Espírito
pode ensinar-nos a pedir, porque é o único que tudo esquadrinha, ainda as profundezas de
Deus. Sem este Espírito, mesmo que tivermos mil devocionários, “Não sabemos pedir como
convém”, pois nos acompanha aquela fraqueza que nos incapacita totalmente para tal
necessidade. Fraqueza que consiste no seguinte, que é bem difícil de descrever:

Sem o Espírito, o homem é tão fraco que por mais que use outros meios não pode ter nem
mesmo um pensamento correto relacionado com a salvação e com Deus, com Cristo, ou
com Suas bênçãos. Portanto, o Espírito diz sobre os ímpios: “Não há Deus em todos os
seus pensamentos” (Salmo 10:4, tradução literal), a menos que O imaginem segundo eles
são. “Porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice” (veja Gêne-
sis 8:21). Se, então, como foi mostrado anteriormente, não podem conceber corretamente
ao Deus a quem oram, nem a Cristo, em cujo nome eles oram, nem as coisas pelas quais
oram, como poderão dirigir-se pessoalmente a Deus sem que o Espírito os ajude em sua
fraqueza?

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O mesmo Espírito pessoalmente é quem revela estas coisas às nossas pobres almas, e
quem as faz entender; pelo qual Cristo, quando prometeu enviar o Espírito, o Consolador,
disse aos Seus discípulos: “Ele receberá do que é meu e vo-lo anunciar”. É como se Ele
houvesse dito: “Eu sei que, por natureza estais em trevas e ignorância para entender as
Minhas coisas, e embora proveis este sistema ou o outro, vossa ignorância continuará, o
véu está posto sobre o vosso coração, e ninguém pode removê-lo, nem dar-lhes compreen-
são espiritual, senão o Espírito”.

A verdadeira oração há de proceder, tanto de sua expressão externa quanto de sua inten-
ção espiritual, do que nossa alma percebe à luz do Espírito, caso contrário, será rejeitada
como coisa vã e abominável, porque o coração e a língua não seguem em uníssono, nem
tampouco o podem, é certo, a menos que o Espírito nos ajude em nossa fraqueza. Davi
sabia disso muito bem, e por isso clamou: “Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca
entoará o Teu louvor” (Salmo 51:15).

Espero que ninguém imagine que Davi não conseguia falar e se expressar tão bem como
os demais, como qualquer um de nossa geração, como é evidente em suas palavras e a-
ções. Não obstante, quando este homem excelente, este profeta, vem para adorar a Deus,
o Senhor tem que ajudar-lhe, pois do contrário nada pode fazer. Ele era incapaz de pro-
nunciar uma única palavra acertada a menos que o Espírito mesmo ajudasse a sua fra-
queza.

2. É preciso que a oração seja no Espírito, para que seja eficaz. As orações que não são
movidas a partir do Alto, são como os homens: néscias, hipócritas, frias e indecorosas; e
[como] buzina aqueles que as pronunciam, tornam-se uma abominação a Jeová. Não é a
excelência da voz, nem o aparente afeto do que ora, o que Deus vê e considera, mas o
Espírito. O homem, como tal, está tão cheio de toda sorte de impiedade, que não somente
não pode ter uma palavra ou um pensamento puro, porém, muito menos uma oração purís-
sima e aceitável a Deus por Cristo.

Por isso, os fariseus, apesar de suas orações, ou por causa delas, foram rejeitados. Não
cabe a menor dúvida de que, em termos de palavras, eles eram perfeitamente capazes de
expressarem-se, e mais, destacavam-se pela prolixidade de suas orações, porém não
tinham a ajuda do Espírito de Jesus Cristo, portanto, o que eles faziam, o faziam somente
com sua própria fraqueza. Tudo isso foi a causa de que não puderam derramar suas almas
a Deus de modo sincero, consciente e afetuoso, no poder do Espírito. Esta é a oração que
vai para o Céu, por ser elevada no poder do Espírito, pois...

3. Somente o Espírito pode mostrar claramente ao homem o miserável que ele é por natu-

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reza, capacitando-lhe assim para a oração. Falar é apenas falar, como dizíamos, e é nada
senão somente culto de lábios quando não há uma experiência realmente eficaz de sua
baixeza. Oh, que hipocrisia horrível a da maioria dos corações! Quão horrenda mentira que
muitos homens orem hoje em dia somente para serem vistos! E tudo isso por não possuírem
uma experiência de sua própria miséria! Mas o Espírito mostra amorosamente à alma a sua
miséria, e mostra sua posição e o que provavelmente acontecerá com ela, lhe mostra
também o intolerável de sua condição. O Espírito é quem redargui eficazmente do pecado
e da miséria de uma vida sem Cristo, colocando assim, a alma em uma atitude aceitável,
séria, consciente, amorosa, para orar a Deus segundo a Sua Palavra.

4. Embora os homens vissem seus pecados, não orariam sem a ajuda do Espírito Santo.
Se não fosse por Ele, fugiriam de Deus, como Caim e Judas, e desesperariam por completo
de encontrar misericórdia. Quando uma pessoa está consciente do seu pecado e da maldi-
ção de Deus, é difícil persuadi-la de que deve orar, pois seu coração diz: “Não há esperan-
ça, é inútil buscar a Deus, sou uma criatura tão vil, infeliz e maldita, que jamais Ele me terá
em conta”. Então, vem o Espírito, acalma a alma, a ajuda a levantar o rosto para Deus
infundindo-lhe um pouco da experiência do que é a misericórdia, para que se aproxime de
Deus.

5. Deve ser no Espírito ou com Ele, pois se não é assim, ninguém pode saber como se
aproximar de Deus como convém. Os homens podem facilmente dizer que se achegam a
Deus em seu Filho, mas apegar-se a Deus “como convém”, e conforme a Sua vontade, é a
coisa mais difícil que pode ser concebida, se você quer fazê-lo sem o Espírito. É o Espírito
quem sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus. É o Espírito que deve
nos mostrar a maneira de nos achegarmos a Deus e também as coisas de Deus que o
fazem desejável: “Rogo-te que me mostre agora seu caminho”, diz Moisés, “para que Te
conheça” (Êxodo 33:13); e João 16:14: “Ele me glorificará, porque há de receber do que é
meu, e vo-lo há de anunciar”.

6. Porque sem o Espírito, ainda que o homem visse a sua miséria, e também a forma de se
aproximar de Deus, jamais poderia anelar ter comunhão com Ele, em Cristo, e em misericór-
dia, sem contar com a aprovação Divina. Quão grande tarefa, para a pobre alma que per-
cebe seu pecado e a ira de Deus, dizer em fé, apenas esta palavra: “Pai”! Eu vos digo que,
qualquer que seja a opinião dos hipócritas, esta é a maior dificuldade para o Cristão verda-
deiro: Não poder dizer que Deus é seu Pai. “Ah! infelizmente”, diz, “não me atrevo a chamar-
Lhe Pai”. Por isto precisamente é necessário que o Espírito seja enviado ao coração do
povo de Deus, para que clamem: “Pai”!

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Este é um esforço que, sem o Espírito, ninguém pode realizar conscientemente e em fé.
Quando eu digo conscientemente, quero dizer, sabendo o que é ser um filho de Deus, ser
nascido de novo. E quando digo em fé, quero dizer que a alma crê, por experiência genuína,
que a obra da graça foi feita nela. Esta é a única maneira de chamar a Deus de Pai; e não,
como muitos fazem, recitar de memória, de modo balbuciante, o Pai Nosso, tal como está
na letra do livro.

Não, a vida de oração pertence a um homem que possui o Espírito, depois de haver sido
sensibilizado quanto ao pecado, e ensinado a respeito de como deve se achegar ao Senhor
em busca de misericórdia, vem, digo, no poder o Espírito, e clama: Pai! Essa única palavra,
pronunciada em fé, é melhor do que mil orações — como os homens as chamam — escritas
e lidas oficialmente, de forma indiferente e morna. Oh, quão longe estão as pessoas de
perceberem isso, quando se dão por satisfeitos com o saber de cor, e ensinar a seus filhos,
o Pai Nosso, o Credo e outros tais, quando, somente Deus sabe, eles não têm uma verda-
deira experiência de si mesmos, do que Deus exige que Lhe ofereçamos através de Cristo!

Ah, pobre alma! Reflita sobre a tua miséria e clame a Deus para te mostre tua confusa ce-
gueira e ignorância antes que te habitues e ensine a seus filhos, a, rotineiramente, a chamá-
lO de Pai. Saibam que dizer que Deus é seu Pai, por meio da oração, sem ter uma expe-
riência da obra da graça em suas almas, é dizer que são judeus sem sê-lo, e, portanto,
mentir. Vocês dizem: Pai nosso, Deus diz: Vocês blasfemam. Vocês dizem que são judeus,
ou seja, os verdadeiros Cristãos, Deus diz: Mentem. “Eis que eu farei aos da sinagoga de
Satanás, aos que se dizem judeus, e não são, mas mentem” e “conheço... a blasfêmia dos
que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás” (Apocalipse 3:9 e 2:9).

E esse pecado é tanto maior, quanto mais o pecador se jacta com a pretensa santidade,
qual foi a postura dos judeus perante Cristo no capítulo 8 de João. Vemos ali como Cristo
lhes falou de sua condenação em termos inequívocos, a despeito das pretensões hipócritas
deles. E a história se repete. Alguns pretendem ser considerados os únicos homens hon-
rados, e tudo porque com as suas línguas blasfemas e corações hipócritas vão à igreja e
dizem: Pai Nosso! Mas ainda assim, apesar de que cada vez que dizem a Deus: “Pai Nos-
so”, blasfemem tão abominavelmente, necessitam fazê-lo por dever. E quando outros, de
princípios mais sóbrios, sentem escrúpulos de tão vãs tradições, lhes consideram como
inimigos de Deus e da nação. O povo de Deus, como sempre, é considerado como povo
turbulento, sedicioso e faccioso.

Permitam-me, pois, raciocinar um pouco com você, pobre alma cega, ignorante e aturdida.

(A) Talvez a sua melhor oração seja dizer: “Pai nosso que estás nos céus, etc.”. Você sabe

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o significado das primeiras palavras desta oração? Você pode, sem hesitação, se juntar ao
restante dos santos: “Pai Nosso”? Você verdadeiramente nasceu de novo e recebeu o Espí-
rito de adoção? Vês a ti mesmo em Cristo, e podes achegar-te a Deus como membro do
Seu Filho? Ou ignoras essas coisas, e ainda ousas dizer: “Pai Nosso”? Não é o Diabo teu
pai? E não fazes as obras da carne? E te atreves a dizer a Deus: “Pai Nosso”!

Pior ainda, não és um daqueles que perseguem ferozmente os filhos de Deus? Tu não os
amaldiçoou em seu coração muitas vezes? E ainda assim permites que de sua garganta
blasfema saiam as palavras: “Pai Nosso”! Ele é Pai daqueles a quem tu odeias e persegue.
Assim como o Diabo se apresentou entre os filhos de Deus (Jó 2:1), quando estes vieram
a comparecer perante o Pai, assim ocorre agora: se aos santos é ordenado orar dizendo:
“Pai Nosso”, toda a população cega e ignorante do mundo também deve usar as mesmas
palavras: “Pai Nosso”?

(B) E realmente dizes “Santificado seja o Teu nome”, de coração? Te esforças de todas as
formas honestas e legítimas para louvar o nome, a santidade e a majestade de Deus? É o
teu coração, teu estilo de vida, compatível com essa passagem? Te esforças para imitar a
Cristo em todas as obras de justiça que Deus pede de ti, e te ordena? Assim é, se és
daqueles que podem em verdade clamar, com a aprovação de Deus: “Pai Nosso”. Ou não
será este o último de teus pensamentos durante todo o dia? Não demonstras claramente
que tu és um hipócrita maldito, ao condenar com tua prática diária o que pretendes mostrar
em tua oração com a tua língua mentirosa?

(C) Você realmente quer que venha o reino de Deus, e que se faça a Sua vontade na terra
como no Céu? Mais ainda, mesmo se você, em palavra, diz: Venha o teu reino, não é certo
que levaria à beira da loucura ouvir o som da trombeta, ver como os mortos são ressusci-
tados, e você mesmo ter que comparecer diante de Deus, para dar conta de tudo o que
você fez no corpo? Além disso, acaso apenas pensar nisto não desagrada você no mais
alto grau? E se a vontade de Deus se faz na terra como no Céu, isto não será a sua ruína?
No Céu não há nenhum rebelde contra Deus, e se isso acontece igualmente na terra, você
não terá que ser lançado no inferno? E o mesmo quanto ao restante de suas petições.

Oh, que tristes aspectos teriam aqueles homens, e com que terror caminhariam pelo mun-
do, se eles soubessem a mentira e blasfêmia que sai de sua boca até mesmo em sua mais
perfeita simulação de santidade! Que o Senhor os desperte e os ensine, pobres almas, para
atender em toda a humildade que não sejam imprudentes e ignorantes a respeito de seu
próprio coração, e muito mais, quanto a sua boca! Quando compareceres diante de Deus
(como disse o sábio), “Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a
pronunciar palavra alguma” (Eclesiastes 5:2), especialmente a chamar Deus de “Pai”, sem
que você tenha alguma bendita experiência. Mas, prossigamos com nossas considerações.

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7. Para que a oração seja aceita, deve ser a oração com o Espírito, posto que somente o
Espírito pode elevar a alma ou o coração a Deus em oração: “Do homem são as prepara-
ções do coração, mas do SENHOR a resposta da língua” (Provérbios 16:1). Quero dizer,
que toda obra feita com Deus (e, particularmente, na oração), se o coração é acompanhado
pela língua, deve ser preparado pelo Espírito de Deus. Na realidade, a língua é muito capaz,
por si mesma, de agir sem temor nem sabedoria, mas quando é a resposta do coração, e
de um coração que foi preparado pelo Espírito de Deus, então fala segundo Deus ordena
e deseja.

São Palavras poderosas, as de Davi, quando ele disse que “a ti, SENHOR, levanto a minha
alma” (Salmo 25:1). Isso é uma obra muito grande para que o homem possa fazê-la sem o
poder do Espírito Santo... E eu acho que um dos principais motivos para que o Espírito de
Deus seja chamado de “o Espírito de graça e de súplicas” (Zacarias 12:10), é por ser Ele
quem ajuda o coração a implorar verdadeiramente. É por isto que Paulo diz: “Orando em
todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito” (Efésios 6:18), e: “orarei com o
Espírito” (1 Coríntios 14:15). A oração, se o coração não está nela, é como um som morto;
e o coração, se não for levantado pelo Espírito, jamais orará a Deus.

8. Assim como o coração tem que ser levantado pelo Espírito para orar corretamente,
também deve ser sustentado pelo Espírito, uma vez que o levantou, para poder continuar
orando. Eu não sei o que acontece nos corações dos outros, mas eu tenho certeza do que
se segue:

Primeiro: É impossível que os breviários que os homens têm feito levantem ou prepararem
o coração. Tal coisa é obra exclusiva do próprio Deus.

E segundo: Eu tenho certeza de que eles são igualmente impotentes para sustentar o
coração, uma vez levantado. E, sem dúvida, esta é a verdadeira essência da oração: que
o coração seja levantado próximo a Deus enquanto se ora a Deus. Era difícil para Moisés
manter os braços levantados para Deus em oração, porém muito mais difícil é manter no
alto o coração!

Deus se queixa precisamente disto, de que “Este povo... me honra com os seus lábios, mas
o seu coração está longe de mim” (Mateus 15:8), E, certamente, se me permitem mencionar
minha própria experiência, posso dizer-lhes sobre as dificuldades que encontro para orar a
Deus como convém. Sei que o que eu direi é o suficiente para que vocês, pobres homens,
cegos e carnais, formem estranhas opiniões sobre mim. Quando vou orar eu sinto que meu
coração se torna relutante em se aproximar de Deus, e não somente isto, mas uma vez em

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Sua presença experimento tanta aversão, que muitas vezes me vejo obrigado a pedir-Lhe,
que tome meu coração e o atraia a Si, em Cristo, e quando está ali, para que o mantenha
perto dEle.

Além disso, muitas vezes não sei o que pedir, tal é a minha cegueira, ou como orar, tal é a
minha ignorância. Ai de nós, se pela bendita graça, o Espírito não ajudar nossa fraqueza!
Oh, as dificuldades que o coração inicia no momento da oração! Ninguém sabe quantos
caminhos desertos e tortuosos o coração toma para sair da presença de Deus. Quanto
orgulho, também, se lhe é permitido expressar-se! Quanta hipocrisia, na presença dos
demais! E quão pouco se compreende então a oração entre Deus e a alma em secreto, a
não ser que o Espírito haja acudido para ajudar. Quando o Espírito entra no coração, há
oração verdadeira, mas não antes.

9. Para que a alma ore corretamente, deve ser em e com a ajuda e com o poder do Espírito,
porque sem Ele, é impossível que um homem se expresse em oração. Quero dizer que,
sem a ajuda do Espírito, é impossível que o coração, de modo sincero, consciente e afe-
tuoso, se derrame diante de Deus com aqueles suspiros e gemidos que devem sair de uma
alma que verdadeiramente ora. Não é a boca a primeira a considerar na oração, mas ver
se o coração está tão cheio de afeto e fervor, em conversa com Deus, que impeça a língua
de expressar seus sentimentos e desejos. Quando os desejos de um homem são tão
intensos, numerosos e potentes do que todas as palavras, lágrimas e gemidos que proce-
dem do coração não são suficientes para expressá-los, então se pode dizer que verdadeira-
mente deseja. O Espírito ajuda a nossa fraqueza, e faz e pede por nós com gemidos inex-
primíveis.

Pobre é a oração que é plenamente expressada com um determinado número de palavras.

O homem que realmente apresenta uma petição a Deus jamais poderá expressar com a
boca ou pena os desejos inefáveis, experiências, emoções e anelos que subiram ao Senhor
naquela oração. As melhores orações amiúde contêm mais gemidos do que palavras, e as
palavras que elas contêm são senão apenas uma pobre e superficial sombra do coração,
a vida e o espírito dessa oração. Não estão escritas as palavras da oração que pronunciou
Moisés, quando ele deixou o Egito e foi perseguido por Faraó, mas sabemos que fez retinir
o Céu com os seus clamores, clamores produzidos pelos indescritíveis e inescrutáveis
gemidos da sua alma em e com o Espírito. Deus é o Deus dos espíritos, e Seus olhos calam
até o coração. Eu duvido que tenham este detalhe em conta aqueles que pretendem ser
considerados como um povo de oração.

Quanto mais um homem se aproxima da perfeição na obediência de uma obra ordenada

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por Deus, tanto mais difícil a encontra, e isso se deve a que a criatura, como criatura, não
pode fazê-la. Empenho na oração (como mencionado acima) não é apenas um dever, mas
uma das obrigações mais eminentes e, portanto, mais difíceis. Bem sabia Paulo o que es-
tava dizendo quando escreveu: “orarei com o espírito” (1 Coríntios 14:15). Ele sabia muito
bem que não era o que os outros escreveram ou disseram que poderia fazer dele um ho-
mem de oração, somente o Espírito poderia fazê-lo.

10. Deve ser com o Espírito, pois do contrário, ao haver um defeito no ato em si, o será
também em sua continuação, na verdade, antes, produzirá um desfalecimento. A oração é
uma ordenança de Deus que deve perdurar necessariamente na alma tanto que esta se
encontra do lado de cá da glória. Mas, como eu disse antes, se não é possível para um ho-
mem elevar o coração a Deus em oração, tampouco é possível mantê-lo ali sem a ajuda do
Espírito. E sendo assim, para que persevere no tempo orando a Deus, é preciso que seja
com o Espírito.

Cristo nos diz que “devemos orar sempre, e nunca desfalecer” (Lucas 18:41), e também
nos diz qual é a definição de um hipócrita: ele não persevera em oração, sob quaisquer
circunstâncias, ou se o faz, não é com poder (Jó 27:10), ou seja, em espírito da verdadeira
oração, mas somente por pretexto (Mateus 23:14). Cair da experiência do poder à super-
ficialidade, é uma das coisas mais fáceis, mas elevar-se na vida, no espírito e poder no que
diz respeito a uma obrigação, especialmente em se tratando da oração é uma das coisas
mais difíceis. Supõe tal esforço que um homem, sem a ajuda do Espírito, não pode orar
nem uma única vez sequer, e muito menos perseverar, sem estar em uma doce forma de
orar, e em oração, assim, tanto orar quanto ter suas orações elevadas aos ouvidos do
Senhor do Sabath.

Jacó não só começou, mas ele perseverou: “Não te deixarei ir, se não me abençoares” (Gê-
nesis 32:26). O mesmo foi feito pelos outros santos (Oséias 12:4). Mas isso não poderia
ser feito sem o espírito de oração: é pelo Espírito, que temos acesso ao Pai (Efésios 2:18).
Outro caso notável se encontra em Judas, quando ele exorta os santos, por meio do juízo
de Deus sobre os ímpios, a estar firmes e perseverar na fé do Evangelho. Como excelente
maneira de fazer isso, sem a qual sabia que jamais poderiam fazê-lo, disse: “Mas vós,
amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito
Santo” (Judas 20).

Como dizendo: Irmãos, assim como a vida eterna é dada somente para os que perseveram
até o fim, assim também não podeis perseverar até o fim, a menos que prossigais orando
no Espírito. A grande fraude com que o Diabo engana o mundo, consiste em fazer que este

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continue na superficialidade de qualquer dever, na superficialidade da pregação, na superfi-
cialidade de ouvir a pregação, na oração, etc. Estes são aqueles que “tendo aparência de
piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” (2 Timóteo 3:5).

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III. ORANDO COM O ESPÍRITO E COM O ENTENDIMENTO

O apóstolo faz uma clara distinção entre orar com o Espírito e orar com o Espírito e com o
entendimento: “Orarei com o Espírito, mas também orarei com o entendimento” (1 Coríntios
14:15). Esta distinção foi feita porque os Coríntios não observaram que tudo quanto faziam
deveria ser feito para edificação própria, e também das outras pessoas, não somente para
a sua própria glória, como estava acontecendo. Entregues aos seus dons extraordinários,
como falar em línguas diferentes e etc., negligenciando a edificação dos irmãos; este foi o
motivo pelo qual Paulo lhes escreveu este capítulo, para fazê-los entender que, embora os
dons extraordinários fossem excelentes, a edificação da igreja era mais excelente ainda.
“Porque, se eu orar em língua desconhecida, o meu espírito ora bem, mas o meu entendi-
mento fica sem fruto (bem como a compreensão dos outros). Que farei, pois? Orarei com
o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também
cantarei com o entendimento” (1 Coríntios 14:14-15).

É, pois, conveniente que tanto o entendimento como o coração e os lábios participem na


oração. O que é feito com o entendimento é feito mais eficiente, consciente e sinceramente.
Isso foi o que fez o apóstolo rogar pelos Colossenses, para que Deus os enchesse “do
conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual” (Colossenses
1:9), e pelos Efésios, para que Deus lhes desse o “espírito de sabedoria e de revelação;
tendo iluminados os olhos do vosso entendimento” (Efésios 1:17-18), e também pelos Fili-
penses, que o seu amor abundasse “mais e mais em ciência e em todo o conhecimento”
(Filipenses 1:9).

É conveniente que um homem tenha compreensão suficiente de tudo aquilo que empreende,
seja secular ou espiritual, e, portanto, e com maior razão, devem desejar isto todos os que
aspiram ser pessoas de oração. Espero mostrar-lhes o que é orar com entendimento.

Entendimento significa falar em nossa própria língua e também experimentalmente: passa-


rei de largo do primeiro e me ocuparei somente com o outro. Para oferecer as orações cor-
retamente, é preciso que haja um entendimento sadio e espiritual em todos os que oram a
Deus.

1. Orar com entendimento é orar sob a orientação do Espírito, compreendendo a necessida-


de daquilo que a alma há de pedir. Embora um homem necessite sobremaneira de perdão
dos pecados, e de ser livrado da ira vindoura, se não entende, não o desejará em absoluto,
ou sentirá tanta indiferença e mornidão em seus desejos, que Deus aborrecerá mesmo a

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atitude espiritual de pedir essas coisas. Isso foi o que aconteceu com a igreja em Laodicéia:
lhes faltava conhecer o que é o entendimento espiritual; não sabiam que eram tristes, mise-
ráveis, pobres, cegos e nus; causa pela qual eles e todos os seus cultos eram considerados
por Cristo como uma abominação, a tal ponto que Eles lhes ameaçou vomitar de Sua boca
(Apocalipse 3:16-17). Os homens podem recitar as mesmas palavras que outros têm escrito
ou dito, porém se não o fazem com entendimento, mesmo que houvesse naqueles outros,
a diferença é grande, apesar de serem pronunciadas as mesmas palavras.

2. O entendimento espiritual percebe no coração de Deus a predisposição e boa vontade


para dar a alma aquelas coisas que necessita. Por este meio Davi poderia até mesmo supor
os pensamentos de Deus para com ele (Salmo 40:5). E o mesmo ocorria com a mulher
Cananéia (Mateus 15:22-28): pela fé, e por um correto entendimento, discernia, por trás da
severa atitude de Cristo, a ternura e o desejo de ajuda-la que havia em Seu coração; o que
lhe fez ser veemente e fervorosa, ainda mais constante, até que chegou a desfrutar da mi-
sericórdia que necessitava.

Não há nada que induza tanto a alma a buscar a Deus e a clamar pedindo perdão, como o
entendimento de que no coração de Deus há o desejo de salvar aos pecadores. Se um ho-
mem visse uma pérola de grande valor envolta no barro, passaria de largo sem se preo-
cupar, por não entender o seu valor, mas uma vez que a conhecesse, correria grandes
riscos para obtê-la. Assim ocorre com as almas no que diz respeito às coisas de Deus. Uma
vez que chegaram a entender o seu valor, seu coração e todo o poder de sua alma correm
atrás delas, e não cessam de clamar até que as obtenha. Os dois homens cegos do Evan-
gelho, sabendo certamente que Jesus, que passava então, podia e queria curar as enfermi-
dades que os afligiam, clamaram, e ao verem-se repelidos, clamaram com mais força ainda
(Mateus 20:29-31).

3. Uma vez que o entendimento tem sido espiritualmente iluminado, descobrimos como a
alma deve se aproximar de Deus: o que serve de grande encorajamento. É assim também
com a miserável alma, como com alguém que tem uma obra a cumprir, e se não a fizer, o
perigo é grande; e se a fizer, também é grande a vantagem. Mas ela não sabe como come-
çar, nem como prosseguir, e então, em meio ao desencorajamento, abandona a tudo, e
corre o perigo.

4. O entendimento iluminado vê nas promessas de Deus suficiente amplitude para sentir-


se alentado a orar; o que lhe acrescenta força sobre força. Assim como quando os homens
prometem certas coisas aos que vêm por elas, isto constitui motivo de encorajamento para

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aqueles que conhecem tais promessas, assim ocorre com aqueles que conhecem as pro-
messas de Deus.

5. Uma vez iluminado o entendimento, está aberto o caminho para que a alma se achegue
a Deus com argumentos apropriados, às vezes na forma de luta, como no caso de Jacó
(Gênesis 32), às vezes em forma de súplica, e não apenas verbalmente, a não ser que até
mesmo no coração o Espírito introduziu, através do entendimento, argumentos eficazes e
capazes de comover o coração de Deus. Quando Efraim chega a compreender correta-
mente qual foi a sua vil atitude para com o Senhor, começa a lamentar-se (Jeremias 31:18,
19 e 20). E ao lamentar contra si mesmo, emprega tais argumentos que comovem o coração
do Senhor, obtém o Seu perdão, e se faz agradável aos Seus olhos por meio de Jesus
Cristo, nosso Senhor, “bem ouvi eu que Efraim se queixava”, diz Deus. “Castigaste-me e
fui castigado, como novilho ainda não domado; converte-me, e converter-me-ei, porque tu
és o Senhor meu Deus. Na verdade que, depois que me converti, tive arrependimento; e
depois que fui instruído (ou recebi instruções a respeito de mim mesmo), bati na minha co-
xa; fiquei confuso, e também me envergonhei; porque suportei o opróbrio da minha moci-
dade”. Estas são as queixas e lamentações de Efraim contra si mesmo, diante das quais o
Senhor irrompe nas seguintes expressões, capazes de derreter um coração: “Não é Efraim
para mim um filho precioso, criança das minhas delícias? Porque depois que falo contra
ele, ainda me lembro dele solicitamente; por isso se comovem por ele as minhas entranhas;
deveras me compadecerei dele, diz o Senhor” [Jeremias 31:20]. Podem, assim, perceber
que é necessário orar com o Espírito, mas também com o entendimento.

E para ilustrar o que foi dito com um símile, digamos por acaso que dois homens vêm pedin-
do à sua porta. Um deles é pobre, aleijado, está ferido e quase morto de fome, o outro é
uma criança saudável, cheio de saúde e vigor. Ambos usam as mesmas palavras para pedir
esmola. Sim, os dois dizem que estão morrendo de fome, mas, indubitavelmente, o pobre
e aleijado é o que fala com mais sentido, experiência e compreensão das misérias que
menciona em seu pedido.

Vê-se nele uma expressão mais viva quando ele lamenta sobre o que lhe ocorre costu-
meiramente. Sua dor e pobreza lhe fazem falar em um espírito de maior lamentação do que
o outro, por isso será socorrido antes por qualquer pessoa que tenha um pouco de afeto ou
compaixão natural. Isso se aplica exatamente com Deus. Alguns oram por costume e eti-
queta, outros na amargura de seus espíritos. Um ora por mera noção, puro conhecimento
intelectual; em outro, as palavras lhe saem ditas pela angústia de sua alma. Sem dúvida,
Deus atentará para estes, aos de espírito humilde e contrito, aos que tremem da Sua Pala-
vra (Isaías 66:2).

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6. O entendimento bem iluminado é também de admirável utilidade, tanto no que se refere
ao tema como à maneira de orar. Aquele que possui uma compreensão exercitada para
discernir entre o bem e o mal, e um sentido da miséria do homem e da misericórdia de
Deus, não necessita que os escritos de outros homens lhe ensinem a clamar por meio de
fórmulas de oração. Da mesma forma que, ao que sente dor, não é necessário ser ensinado
a dizer “Ai!”. Aquele cujo entendimento foi aberto pelo Espírito não tem necessidade de imi-
tar as orações de outros homens. Experiência real, o sentimento e a pressão que pesam
sobre seu espírito, fazem com que expresse, com gemidos, sua petição ao Senhor.

Quando as dores da morte atingiram Davi, e as angústias do sepulcro lhe rodearam, não
precisou de um bispo com sobrepeliz lhe ensinasse a dizer: “Livra agora, ó Senhor, a minha
alma” (Salmo 116:3, 4). Nem consultar um livro para ensinar-lhe uma fórmula para derramar
seu o coração a Deus. Por natureza, quando os homens estão enfermos, quando lhes aflige
a dor e a enfermidade, seu coração desabafa em doloridos lamentos e queixas aos que
lhes rodeiam. Este foi o caso de Davi no Salmo 38:1-12. E esse também, bendito seja o
nome do Senhor, é o caso dos que são dotados com a graça de Deus.

7. É necessário que haja um entendimento iluminado a fim de que a alma seja levada a
perseverar no serviço e dever da oração.

O povo de Deus não ignora os muitos ardis, truques e tentações que o Diabo usa para fazer
uma pobre alma, verdadeiramente desejosa de ter o Senhor Jesus Cristo, chegue a cansar-
se de buscar a face de Deus, e a pensar que Ele não quer ter misericórdia dela. “Sim”, diz
Satanás, “você pode orar o quanto quiser, porém não prevalecerá. Veja seu coração: duro,
frio, torpe e embotado. Não oras com o Espírito, não oras com verdadeiro fervor; teus pen-
samentos se desviam para outras coisas quando aparentas estar orando a Deus. Fora,
hipócrita; já basta; é inútil continuar lutando”.

Eis aqui, então, que, se a alma não é bem advertida, clamará no momento: “O Senhor me
desamparou, o meu Senhor se esqueceu de mim!” Enquanto a que está devidamente ins-
truída e iluminada diz: “Bem, buscarei ao Senhor e esperarei, não cessarei, ainda que não
me diga nenhuma palavra de consolo. Ele amava apaixonadamente a Jacó, porém lhe fez
lutar antes de obter a bênção”. Os aparentes atrasos de Deus não são provas de Seu desa-
grado, às vezes é possível que esconda Seu rosto dos santos que mais ama. Lhe agrada
em extremo manter os Seus em oração, encontra-los continuamente batendo na porta do
Céu. Pode ser, diz a alma, que o Senhor me prova, ou que Lhe agrada ouvir como lhe
apresento, gemendo, a minha condição.

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A mulher cananéia não quis considerar por reais negativas as que eram somente apa-
rentes; sabia que o Senhor era misericordioso. O Senhor vindicará os Seus ainda que seja
tardio. O Senhor tem me esperado muito mais tempo do que eu a Ele, e o mesmo ocorreu
com Davi. “Esperei com paciência”, diz (Salmo 40:1), isto é, passou muito tempo antes do
Senhor me responder, mas finalmente “se inclinou para mim e ouviu o meu clamor”. O
melhor remédio para isto é um entendimento bem informado e iluminado. É uma pena que
existam no mundo tantas pobres almas que verdadeiramente temem ao Senhor, e que, por
não estarem bem instruídas, frequentemente estão dispostas a dar tudo por perdido, cada
vez que Satanás emprega um de seus truques e tentações! Que o Senhor se compadeça
delas e lhes ajude a orar com o Espírito, e também com o entendimento. Aqui eu poderia
mencionar grande parte de minha própria experiência.

Nas minhas crises de agonia espiritual, eu tive fortes tentações para desistir e não buscar
mais ao Senhor, todavia havendo-me feito entender quão grandes pecadores eram aqueles
de quem Ele teve misericórdia, e quão grandes eram as Suas promessas aos pecadores,
e que não era ao que está são, mas ao doente, não ao justo, mas ao pecador, e não ao
que está pleno, mas ao que está vazio, a quem lhes comunicava a Sua graça e misericórdia,
e isto, com a ajuda do Espírito Santo, fez-me apegar-me a Ele, apoiar-me nEle, e que ao
mesmo tempo clamasse, ainda que no momento não enviou resposta. Que o Senhor ajude
a todo este pobre povo, tentado e afligido, a fazer o mesmo, e a perseverar, ainda que
tenham que esperar muito tempo, de acordo com o que o que foi dito pelo profeta (Haba-
cuque 2:3). E os ajude (para esta finalidade) a orar, não por meio das invenções dos ho-
mens, e de suas formas restritas, mas “com o Espírito, e também com o entendimento”.

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PERGUNTAS E RESPOSTAS

E agora, respondo uma ou duas perguntas, e então passo para outro ponto.

Pergunta 1. Mas o que faremos nós, pobres criaturas, que não sabemos orar? O Senhor
sabe que eu não sei como se deve orar, nem o que se deve pedir.

Resposta. Pobre coração! Te lamentas de que não sabes orar? Podes ver tua miséria?
Deus tem te mostrado que por natureza estás debaixo da maldição de sua Lei? Se assim
for, não erres; sei que gemes, e de fato, mui amargamente. Estou persuadido de que ape-
nas não podes fazer qualquer coisa em seu trabalho diário sem que a oração brote de teu
peito. Não subiram teus lamentos aos Céus desde de todos os cantos da tua casa? Sei que
é assim; e também teu próprio coração pesaroso testifica de tuas lágrimas, do esquecimento
de tua vocação etc. Não é verdade que o teu coração está tão cheio de desejos pelas coisas
da outra vida, que às vezes te esqueces até mesmo deste mundo? Leia Jó 23:12.

Pergunta 2. Sim, mas quando eu vou para o meu quarto, em secreto e trato de derramar
minha alma diante de Deus, não consigo dizer absolutamente nada.

Resposta.

(A) Ah, querida alma! Não é às tuas palavras que Deus presta mais atenção, de maneira
que não te escutes se não te apresentas diante dEle com um discurso eloquente. Não; Se-
us olhos estão postos no quebrantamento de teu coração, e isto é que faz com que os pró-
prios afetos do Senhor transbordem: “a um coração quebrantado e contrito não despre-
zarás, ó Deus” (Salmo 51:17).

(B) A escassez de tuas palavras pode ser devido à muita tristeza do teu coração. Davi
estava às vezes tão angustiado que não podia falar (Salmo 77:3-4). Entretanto, há algo que
pode servir de consolo para todos os corações pesarosos como o teu, a saber: embora,
devido à angústia de espírito não podes falar muito, o Espírito Santo coloca em teu coração
gemidos e suspiros mais veementes, mesmo quando sua boca está fechada, o teu espírito
não! Moisés, como já dissemos, fez ressoar o Céu com as suas orações, bem, que não
lemos que saíra uma única palavra de sua boca. Porém...

(C) Se desejas expressar-te mais plenamente ao Senhor, considere, primeiramente, tua


condição corrompida, em segundo lugar, as promessas de Deus, e em terceiro lugar, o co-

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ração de Cristo, que tu podes conhecer ou discernir por Sua condescendência e o derra-
mamento de Seu sangue que outorgou anteriormente a grandes pecadores. Apresenta,
pois, tua própria vileza, como lamentação; o sangue de Cristo, como argumento; e em tuas
orações, que a misericórdia que Ele tem concedido a outros grandes pecadores antes, junto
com Suas abundantes promessas de graça, abundem em teu coração. Ao mesmo tempo,
permita-me que te aconselhes o seguinte: não te contentes com palavras, nem tampouco
creias que é para estas que Deus olha unicamente; porém tantos se tuas palavras são
poucas ou muitas, que teu coração as acompanhe. Então Lhe buscarás e Lhe encontrarás,
porque Lhe buscarás de todo o teu coração (Jeremias 29:13).

Pergunta 3. Mas se, aparentemente, você tem falado contra todas as formas de orar que
não seja pelo Espírito Santo, porque tu dás instruções agora?

Resposta. Devemos exortar uns aos outros à oração, ainda que não devemos dar fórmulas
de oração. Exortar à oração com instruções Cristãs é uma coisa; e escrever fórmulas para
limitar o Espírito de Deus, é outra. O apóstolo não dá a mínima fórmula de oração, porém
insta conosco para que oremos (Efésios 6:18, Romanos 15:30-32). Portanto, ninguém deve
tirar a conclusão de que, por darmos instruções referentes à oração, é lícito instituir fórmulas
de oração.

Pergunta 4. Mas, se nós não usamos fórmulas de oração, como ensinaremos nossos filhos
a orar?

Resposta. Minha opinião é que os homens seguem um método errado para ensinar seus
filhos a orar, ensinando-lhes precocemente a recitar frases, como é comum em muitas po-
bres criaturas.

Parece-me muito melhor dizer-lhes que por natureza são criaturas malditas, que estão de-
baixo da ira de Deus por causa do pecado original e do seu próprio; explicar-lhes também
qual é natureza da ira de Deus, e a duração da miséria. Se isto se faz consciente, saberão
orar muito mais cedo. A maneira de aprender a orar é através da convicção de pecado, um
método que também serve para ensinar nossos amados filhinhos. Fazê-lo de outra maneira,
ou seja, esforçar-se para ensinar às crianças fórmulas de oração, antes que saibam qual-
quer outra coisa, é a melhor maneira de torná-los hipócritas malditos, e para inchar-lhes de
orgulho. Ensinem, pois, os seus filhos a conhecerem o infeliz estado e condição em que se
encontram. Falando-lhes do fogo do inferno, e de seus pecados; da perdição e da salvação,
da maneira de escapar de uma e gozar da outra (se é que vocês as conhecem), e isso fará

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com que as lágrimas brotem de seus olhos, e que sinceros lamentos saltem de seus cora-
ções. Então poderão dizer-lhes a que devem orar, e em que nome. Poderão também falar-
lhes sobre as promessas de Deus, e de Sua eterna graça estendida aos pecadores se-
gundo a Palavra.

Ah! Pobres filhos queridos! Que o Senhor abra seus olhos e faça deles Cristãos santos.
Davi diz: “Vinde, meninos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor” (Salmo 34:11).

Certamente ele não diz: “vou amordaçá-los mediante uma fórmula de oração”, mas “vos
ensinarei o temor do Senhor”, o que significa: “Vos ensinarei a ver o seu triste estado natural,
e instruí-los na verdade do Evangelho, o qual, por meio do Espírito, gerará oração em todo
aquele que em verdade o aprende”. Quanto mais ensinarem isso a seus filhos, mais eles
derramarão seus corações em oração a Deus.

Deus nunca considerou a Paulo como homem de oração, nem tampouco terá a outros, até
que ele foi feito convicto e convertido (Atos 9:11).

Pergunta 5. Mas como se explica o fato dos discípulos pedirem a Cristo para ensiná-los a
orar, como também João ensinava aos seus, e, em seguida, Ele fez a fórmula que hoje cha-
mamos de “Pai Nosso”?

Resposta. Não somente os discípulos, mas nós também queremos ser ensinados por
Cristo, e uma vez que não está aqui pessoalmente para nos ensinar, que Ele o faça pela
Sua Palavra e pelo Seu Espírito, pois Ele disse que enviaria o Espírito para substituí-lO
quando Ele partisse (João 14:16 e 16:17).

Quanto ao que se tem chamado de fórmula, eu não posso crer que o propósito de Cristo
fora dá-lo como tal e de uma maneira tão restritiva, por duas razões:

(1) Porque Ele mesmo ensina o contrário, segundo se infere consultando Mateus 6 e Lucas
11. Enquanto que se houvesse dado uma fórmula de oração inalterável, Ele não a teria
alterado.

(2) Não pensamos que os apóstolos hajam, jamais, observado semelhante fórmula, nem
tampouco que exortaram outros a fazê-lo. Esquadrinhe todas as suas epístolas, e perce-
bam que, ainda que eles eram tão eminentes como qualquer outro no que diz respeito ao
conhecimento para discernir e fidelidade para praticar, não oravam segundo o mundo mais
tarde, quis impor.

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Mas, em suma, cremos que Cristo, com estas palavras (“Pai Nosso”, etc.) Efetivamente ins-
trui aos Seus sobre os princípios que devem ser observados em suas orações a Deus:

(1) Orar com fé.


(2) Ore a Deus no Céu.
(3) Pedir o que é conforme a Sua vontade, etc. Ou seja, esta oração constitui um modelo
ou padrão para a oração.

Pergunta 6. Mas Cristo manda orar pedindo o Espírito, isto significa que os homens sem o
Espírito também podem orar e serem ouvidos? Veja Lucas 11:9-13.

Resposta. O discurso de Cristo, neste caso, é dirigido aos Seus discípulos, e aos que são
Seus (v. 1).

Quando Cristo lhes diz que Deus daria o seu Espírito Santo para aqueles que o pedissem,
devemos entender este dom como um acréscimo, porque se tratava dos discípulos, os
quais já tinham certa medida do Espírito. Ele diz: “Quando orardes, dizei: Pai nosso...” (v.
2). “Digo-vos” (v. 8). “E eu vos digo” (v. 9). “Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádi-
vas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho
pedirem?” Os Cristãos, embora Deus já lhes tenha dado, devem orar pedindo o Espírito, ou
seja, mais dEle.

Pergunta 7. Então, só deveriam orar os que sabem que são discípulos de Cristo?

Resposta. Correto.

1. Que toda alma que aspira por ser salva se derrame diante de Deus, ainda que pela ten-
tação não possa deduzir que é um filho Seu. E...

2. Se a graça de Deus está nele, será tão natural para ele gemer por sua condição como
para o bebê pedir o peito. A oração é uma das primeiras coisas que revelam que um homem
é Cristão (Atos 9:11). E se esta oração é como convêm, terá o seguinte caráter:

(A) Desejando Deus em Cristo, por Ele mesmo, por Sua santidade, amor, sabedoria e gló-
ria. A verdadeira oração, que vai a Deus por meio de Cristo, está centrada nEle e somente
nEle: “Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti”
(Salmo 73:25).

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(B) Poder gozar continuamente em sua alma a comunhão com Ele, tanto aqui como no
porvir: “eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” (Salmo 17:15). “E por isso
também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu” (2 Coríntios
5:2).

(C) A verdadeira oração é acompanhada por um esforço contínuo por aquilo pelo que se
ora: “A minha alma anseia pelo Senhor, mais do que os guardas pela manhã” (Salmo 130:
6). “Levantar-me-ei... buscarei aquele a quem ama a minha alma” (Cantares 3:2). Rogo-lhes
que observem como há duas coisas que induzem à oração: uma é a aversão ao pecado e
às coisas desta vida, a outra é um desejo anelante de comunhão com Deus em um estado
de santidade. Compare somente isso com a maior parte das orações que os homens fazem,
e se comprovará que não são senão um escárnio, a respiração de um espírito abominável.
A maioria dos homens, ou absolutamente não oram, ou se ocupam em zombar de Deus e
do mundo ao fazê-lo. Para isto, confronte as suas orações com a sua maneira de viver, e
verão facilmente que o conteúdo das orações é o que menos procuram em suas vidas. Que
triste hipocrisia!

Mostrei, então, brevemente: 1. O que é a oração. 2. O que é orar com o Espírito. 3. O que
é orar com o Espírito e com o entendimento também. Vamos agora a uma palavra de apli-
cação e conclusão.

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IV. APLICAÇÃO

Em primeiro lugar algumas palavras de instrução.

Uma vez que a oração é dever de todos e cada um dos filhos de Deus, dever mantido na
alma pelo Espírito de Cristo, todo aquele que se propõe a ocupar-se em oração ao Senhor
deve ser extremamente cuidadoso, e preparar-se para fazer isso com especial temor de
Deus, e com a esperança posta em Sua misericórdia por meio de Jesus Cristo.

A oração é uma ordenança de Deus na qual o homem se achega mais a Ele, portanto, todo
aquele que está em Sua presença, necessita tanto mais da ajuda de Sua graça, para orar
como convêm. É uma vergonha para um homem o comportar-se irreverentemente diante
de um rei, porém fazê-lo diante de Deus não é só vergonha, mas pecado. E assim como
um rei, se for sábio, não se agrada de um discurso composto de palavras e gestos indecoro-
sos, tampouco Deus se compraz no sacrifício dos tolos (Eclesiastes 5:1, 4). Não são os
longos discursos nem a linguagem eloquente que agrada aos ouvidos do Senhor, mas um
coração humilde, quebrantado e contrito. Portanto, receba a instrução de que as seguintes
cinco coisas são obstáculos para a oração, e até mesmo tornam vãs as petições da criatura:

1. Quando os homens olham para a iniquidade em seu coração no momento de orar diante
de Deus: “Se eu atender à iniquidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá” (Salmo
66:18). Quando há um amor secreto por aquilo contra o que, com teus lábios hipócritas,
pedes forças [para combater]. Nisto consiste a impiedade e perversidade do coração hu-
mano, que buscará amar e reter mesmo aquilo contra o qual ele ora: com seus lábios honra
a Deus, mas o seu coração está longe dEle (Mateus 15:8). Que desagradável seria ver um
mendigo pedindo esmolas com a intenção de lançá-las aos cães! O que primeiro disse:
“Rogo-te, que me dê isso”, e depois: “Não me dê isso” E isso é precisamente o que acontece
com este tipo de pessoas, com a boca dizem: “Faça-se Tua vontade”, e com o coração o
desmentem, com a boca, dizem: “Santificado seja o Teu nome”, e com o coração e com a
vida se deleitam em desonrar-Lhe todo o dia. Estas são as orações que se tornam em
pecado (Salmos 109:7), e embora orem amiúde ao Senhor, Ele jamais lhes responderá (2
Samuel 22:42).

2. Quando os homens oram para serem vistos, para serem ouvidos, e para serem tidos por
pessoas mui religiosas, e para coisas semelhantes a estas.

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Estas orações tampouco têm a aprovação de Deus, e é possível que jamais sejam aten-
didas com vistas à vida eterna.

Existem dois tipos de homens que oram com este fim. (A) Aqueles capelães de mesa que
se introduzem nas famílias dos ricos simulando render culto a Deus, quando na verdade a
sua ocupação principal é satisfazer os seus ventres, os quais têm sido notavelmente tipifica-
dos pelos profetas de Acabe, e pelos de Nabucodonosor, que, embora fingindo grande de-
voção, suas concupiscências e seus ventres eram o grande objetivo final que perseguiam
em suas vidas e em todas as suas atividades devocionais. (B) Também aqueles que bus-
cam fama e aplausos por sua eloquência, e procuram, acima de tudo, agradar os ouvidos
e os cérebros de seus ouvintes. Estes são aqueles que “oram para ser ouvidos pelos
homens”, os quais têm já a sua recompensa (Mateus 6:5).

Estas pessoas são descobertas da seguinte maneira: se expressam tendo em conta so-
mente o auditório, esperando receber depois os elogios. Seus corações se elevam e deca-
em segundo os elogios e congratulações que lhes são tributados. Eles gostam de orar de
forma prolífica, e para consegui-lo, repetem desnecessariamente as coisas uma e outra
vez. Não lhes importa de onde vêm os elogios. Seus louros são os aplausos calorosos dos
homens e, portanto, não lhes agrada entrar em sua câmara secreta, senão estar entre os
muitos. Porém, se alguma vez a consciência lhes impele a orar sozinhos, a hipocrisia fará
com que lhes ouça nas ruas, e quando sua boca termina, acabam-se as suas orações, pois
não aguardam para ouvir o que dirá o Senhor (Salmo 85:8).

3. Uma terceira classe de orações que Deus não aceitará é a que pede coisas injustas, ou
coisas justas, mas para gastar em deleites, e pensadas com fins injustos: “nada tendes,
porque não pedis. Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos
deleites” (Tiago 4:2-3). Ter propósitos contrários à palavra de Deus é um argumento de
peso para que Ele não atenda às petições que lhe são apresentadas. Para isso existem
tantos que oram por tal e tal coisa, e não a recebem. A única resposta de Deus é o silêncio.
Em troca de seus esforços, eles são recompensados por suas próprias palavras, e isso é
tudo.

Pergunta. Mas não é verdade que Deus ouve a certas pessoas ainda que seus corações
não sejam conformes ao Seu mandamento, como no caso de Israel, ao dar-lhes codornizes
que eles usaram em seus deleites?

Resposta. Se isso acontecer, é em juízo, e não em misericórdia. Certamente deu-lhes o


que eles queriam, porém melhor houvera sido para eles não haverem recebido, pois Ele

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enviou magreza às suas almas (Salmo 106:15). Ai do homem a quem Deus responde desta
maneira!

4. Há um outro tipo de oração que não é respondida, e é a que os homens oferecem e apre-
sentam diante de Deus apenas em seu próprio nome, sem comparecer no Nome do Senhor
Jesus. Pois, embora Deus tenha instituído a oração, e prometido ouvir Suas criaturas, isso
não significa que ouça aqueles que não tenham o nome de Cristo: “Se pedirdes alguma
coisa em meu nome, eu o farei” (João 14:14). Portanto, quer comais quer bebais, ou façais
outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (1 Coríntios 10:31).

Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, etc.; por mais devotos e zelosos, ferventes e
constantes na oração que sejam, somente em Cristo serão ouvidos e aceitos. Contudo, é
uma pena que a maioria dos homens não saibam o que é vir a Ele em nome de nosso
Senhor Jesus, o qual é a razão de que vivam como ímpios, orem como ímpios e morram
como ímpios. Ou, visto de outra forma, que não cheguem a outra coisa senão a que o ho-
mem natural pode fazer, isto é, para ser mais exato em suas palavras e ações no trato com
os seus semelhantes, e comparecer diante de Deus sem outra coisa senão com a sua
justiça própria.

5. O último que mencionaremos como impedimento à oração é a confiança na forma da


mesma, esquecendo de sua virtude. É fácil que os homens sintam predileção fanática por
tal fórmula de oração, como a encontra escrita em algum livro, mas, em troca, esquecem
completamente de indagarem a si mesmos se eles têm o espírito e o poder. Assemelham-
se a homens pintados e falando em voz de falsete. São a viva representação da hipocrisia,
e suas súplicas abominação. Quando eles dizem que derramaram a sua alma diante de
Deus, Ele responde que, na verdade, têm uivado como cães (Oséias 7:14).

Por conseguinte, quando propor ou pensar em orar ao Senhor do Céu e da terra, considere
os seguintes pontos:

(1) Pense seriamente no que necessitas e desejas. Não faça como muitos, que com as su-
as palavras não fazem nada, senão golpear o ar, e pedem o que não querem nem ne-
cessitam.

(2) Quando perceber o que necessita, não te desvies disto, cuide de orar sincera e inteli-
gentemente.

Pergunta. Então, se eu não sinto necessidade de nada, não devo orar?

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Resposta: 1. Se descobres que és insensível ao extremo, não poderás clamar por tua
insensibilidade se há anos não és sensibilizado. É o que se poderia chamar de experiência
da insensibilidade. Assim, pois, ore conforme o que sentes ser tua necessidade, e se te dás
conta de tua falta de sensibilidade espiritual, ore ao Senhor pedindo que te faça experi-
mentar Sua ausência.

Este tem sido o método dos santos homens de Deus: “Faze-me conhecer, Senhor, o meu
fim” (Salmo 39:4); “E os seus discípulos o interrogaram, dizendo: Que parábola é esta?”
(Lucas 8:9). A promessa diz: “Clama a mim, e responder-te-ei, e anunciar-te-ei coisas gran-
des e firmes que não sabes” (Jeremias 33:3).

2. Cuide para que o teu coração se eleve a Deus ao mesmo tempo em que tua boca: não
deixes que esta vá além de onde tu procuras colocar aquele. Davi levantava seu coração e
sua alma ao Senhor, e tinha boas razões para fazê-lo, pois se o coração do homem não vai
onde vai a sua boca, suas palavras não são mais do que meras honras de lábios; e ainda
que Deus pede e aceita os sacrifícios de lábios, estes, por si só, sem o coração, demons-
tram não somente falta de sensibilidade verdadeira, mas também a ignorância desta falta.

Então, se pensas em ser prolixo diante de Deus, procures que seja com o coração.

3. Cuidado com as expressões patéticas, e com o agradar-se em seu uso, esquecendo-se


de onde está a verdadeira vitalidade da oração.

Terminarei esta seção com uma ou duas advertências.

A primeira: Cuidado com rejeitar a oração por causa da súbita convicção de que você não
tem o Espírito Santo e nem ora com Ele. A grande obra do Diabo consiste em fazer todo o
possível para impedir as melhores orações. Ele bajulará o maldito hipócrita e mentiroso,
alimentando-lhe mil fantasias de atos meritórios, ainda que suas orações e tudo quanto ele
faz feda nas narinas de Deus, enquanto se coloca junto do pobre Josué, para resistir-lhe,
isto é, para persuadi-lo que nem sua pessoa nem seus atos são aceitos por Deus (Zacarias
3:1). Cuidado, então, com tais falsas conclusões e desânimos injustificados. Embora te as-
salte pensamentos como estes, longe de se sentir desencorajado por eles, use-os para orar
mais sincera e profundamente no espírito, ao achegar-se a Deus.

Em segundo lugar: Da mesma forma que estas tentações repentinas não devem fazer
que te abstenhas de orar e derramar tua alma diante de Deus, tampouco as corrupções de
teu coração devem servir de impedimento. Talvez encontre em ti tudo o que mencionamos

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anteriormente, e talvez tais coisas procurem intervir em tuas orações a Ele. A ti cabe, então,
julgá-las, orar pedindo ajuda contra elas, e prostrar-se tanto mais humildemente aos pés de
Deus, utilizando-se de sua vileza e corrupção como um argumento para implorar a graça
que justifica e santifica, em vez de deixar-te abater pelo desânimo e o desespero.

Davi fez: “Perdoe a minha iniquidade, pois é grande” (Salmo 25:11).

E agora algumas palavras de encorajamento.

1. O texto que se encontra em Lucas [capítulo 11] é muito encorajador para a pobre criatura
que tem fome de Cristo Jesus. Nos versículos 5, 6 e 7 contam a parábola de um homem
que foi ver seu amigo pedir emprestado três pães, que o outro lhe negou porque estava na
cama, mas, finalmente, por causa da sua importunação, se levantou e lhe deu o que ele
pedia. Isto nos dá a entender claramente que, mesmo que as pobres almas, pela fraqueza
de sua fé, não consigam ver que são amigas de Deus, jamais devem deixar de pedir, cla-
mando diante de Sua porta em busca de misericórdia. Atentem ao que Cristo disse: “Digo-
vos que, ainda que não se levante a dá-los, por ser seu amigo, levantar-se-á, todavia, por
causa da sua importunação”, ou desejos impacientes, “e lhe dará tudo o que houver mister”
[Lucas 11:8].

Pobre coração! Clamas dizendo que Deus não te tem em conta, descobristes que não és
Seu amigo, mas, antes, inimigo em teu coração e em suas obras ímpias e te encontras co-
mo se ouvira que o Senhor te diz: “Não me incomodes, não posso dar-te” — como na
parábola (Lucas 11:1-13) —, mas eu te digo, que chamando, clamando e gemendo; te digo
que embora não Se levante a dar-te por ser seu amigo, todavia, por causa da sua impor-
tunação Se levantará e lhe dará tudo o houver mister. “Se vós, pois, sendo maus, sabeis
dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens
aos que lhe pedirem?” (Mateus 7:011).

O mesmo se descobre na parábola do juiz iníquo e da viúva pobre (Lucas 18). A insistência
dela lhe venceu. E, certamente, a minha experiência diz-me que não há nada que pese
mais diante de Deus do que a importunação. Não é assim em relação aos mendigos que
vêm à nossa porta? Apesar de que na primeira petição não tenhais o menor desejo de dar-
lhes coisa alguma, se continuam a lamentar-se e sem quererem sair, senão com uma
esmola, se lhe dá; pois seus contínuos rogos vencem. Acaso não há afetos em vocês, que
são maus, e são vencidos por um mendigo importuno? Vá e faça o mesmo. É um motivo
que prevalece, e a experiência confirma-o. Levantar-Se-á e te dará tudo o que você neces-
sita.

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2. Outra fonte de encorajamento para a alma que treme miseravelmente ao experimentar o
seu pecado, é considerar o lugar, trono ou assento em que o grande Deus sentou-se para
ouvir as súplicas e orações das pobres criaturas: “o trono da graça” (Hebreus 4:16), “o
propiciatório” (Êxodo 25:22), o que significa que nos dias do Evangelho, Deus estabeleceu
sua morada na misericórdia e no perdão, e dali se propõe a ouvir o pecador, e falar com
ele como diz em Êxodo 25:22: “E ali virei a ti, e falarei contigo de cima do propiciatório”.

Pobres almas! Quão propensas são a ter pensamentos estranhos a respeito de Deus e de
Sua provisão para com elas, chegando precipitadamente à conclusão de que Ele não as
tem em conta, ainda que esteja sobre o propiciatório, e sentou-Se ali propositalmente, a fim
de poder ouvir e atender às suas orações! Se ele tivesse dito: “falarei contigo desde o meu
trono de juízo”, certamente farias bem em tremer e fugir da face da grande e gloriosa Majes-
tade, mas quando disse que ouvirá e falará com as almas desde o trono da graça ou desde
o propiciatório, deve sentir-se encorajado e esperançoso, ou melhor, animado a chegar-se
confiadamente a Ele para alcançar misericórdia, encontrar graça para socorro em ocasião
oportuna (Hebreus 4:16).

3. Existe ainda um outro motivo de encorajamento para continuar em oração a Deus, e é o


seguinte:

Além do fato de que há um propiciatório, donde Deus quer falar com os pobres pecadores,
também é um fato que, ao lado desse propiciatório está Jesus Cristo, regando-o constan-
temente com o Seu sangue. Por isso, é chamado de “o sangue da aspersão” (Hebreus
12:24). Quando o sumo sacerdote, debaixo da lei, havia de entrar no lugar santíssimo, onde
estava o propiciatório, não poderia fazê-lo sem sangue (Hebreus 9:7).

Por que era assim? Porque apesar de Deus estar sobre o propiciatório, Ele era perfeitamen-
te justo, ao mesmo tempo, também misericordioso. Assim, pois, o sangue havia de impedir
que a justiça caísse sobre as pessoas beneficiadas pela intercessão do sumo sacerdote
(como se entende em Levítico 16:13-16), pelo qual, toda a indignidade que temes não deve
impedir que te achegues a Deus, em Cristo, buscando por misericórdia. Tu argumentas que
és vil e, portanto, Deus não levará em conta a tua oração.

Certamente é assim, se te deleitas em tua vileza, e te achegas a Ele por mera simulação.
Porém se derramas teu coração diante dEle compreendendo tua impiedade, desejando
com todo o teu coração ser salvo da culpa e limpo da imundície, não temas, sua vileza não
fará com que o Senhor tape os Seus ouvidos para não ouvir-te. O valor do sangue de Cristo,
que foi aspergido sobre o propiciatório, detém o curso da justiça e abre uma comporta para
que a misericórdia de Deus chegue até você. Portanto, tenhas confiança para entrar no

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Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, o qual consagrou um novo e vivo caminho para
ti: não morrerás (Hebreus 10:19-20).

Além disso, Jesus está lá, não só para borrifar o propiciatório com o Seu sangue, mas que
fala, Seu sangue fala. Por isso Deus disse que, se vê o sangue, passará de ti, e a praga
não te tocará.

Se, pois sóbrio e humilde; achegue-se ao Pai em nome do Filho, e conta-Lhe teu caso com
a ajuda do Espírito Santo, e experimentarás então o benefício de orar com o Espírito e com
o entendimento também.

Algumas palavras de repreensão: um triste discurso aos que jamais oram.

“Orarei”, disse o apóstolo; e o mesmo diz o coração dos que são Cristãos. Portanto, tu que
não oras não és Cristão. A promessa diz: “todo aquele que é santo orará a ti” (Salmo 32:6).
Por conseguinte, tu que não oras és um ímpio e miserável. Jacó recebeu o nome de Israel
lutando com Deus (Gênesis 32), e todos os seus filhos levaram este nome depois dele
(Gálatas 6). Mas aqueles que esquecem da oração, que não invocam o nome do SENHOR,
são objeto de orações, sim, mas como esta: “Derrama a tua indignação sobre os gentios
que não te conhecem, e sobre as gerações que não invocam o teu nome” (Jeremias 10:25).
Que te parece isto, a ti que está tão longe de derramar teu coração diante de Deus, tu estás
dormindo como um cão, te levantas como um bêbado, e te esqueces de invocar a Deus?
O que farás quando estiveres condenado no inferno, porque não encontrou em teu coração
ocasião para pedir o Céu? Quem se lamentará com a tua dor, se não crês que vale a pena
pedir por misericórdia? Digo-te que os corvos, os cães, etc., se levantarão em juízo contra
ti. Pois eles, cada um segundo a sua espécie, dão a entender de alguma maneira que que-
rem um refrigério quando necessitam, porém tu não tens coração para pedir o Céu, embora
te vejas prestes a perecer eternamente no inferno.

Sirva isto de censura aos que se ocupam em leviandades, enganando e menosprezando o


Espírito Santo, por não buscar a Sua ajuda em oração. O que vocês farão quando Deus
pedir contas destas coisas? Vocês têm por alta traição falar uma palavra contra o rei; mas
ainda, tremem diante de tal pensamento, mas não lhes importa blasfemar contra o Espírito
do Senhor. Será bem-aventurado o seu fim se tratam de julgar com estas coisas? Enviou
Deus o Espírito Santo ao coração do Seu povo tendo como fim que vocês Lhe ofendam?
Isso é servir a Deus? Isso demonstra a reforma de sua igreja, ou não é, antes o sinal dos
reprovados implacáveis? Oh, que horror! Não basta que vocês sejam condenados por seus
pecados contra a Lei, mas também vocês têm que pecar contra o Espírito Santo? Será que
o Espírito da graça, santo, inocente e puro, a promessa de Cristo, Consolador dos Seus

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filhos, sem o qual ninguém pode servir aceitavelmente ao Pai; acaso, digo, há de ser este
o fardo de sua canção: vituperar, escarnecer e zombar dEle? Se Deus mandou a Coré e a
seus companheiros diretamente para o inferno por falar contra Moisés e Arão (Números
16), vocês creem que os que zombam do Espírito de Cristo escaparão impunes? (Hebreus
10:29). Nunca leram o que Deus fez a Ananias e a Safira, por dizerem somente uma mentira
contra o Espírito Santo (Atos 5:1-9), e Simão, o Mago por menosprezá-lO? (Atos 8:18-22).
E vocês creem que seu pecado será virtude, ou passará sem punição, a ponto que vocês
se ocupam em murmurar contra o Seu ofício, Seu serviço e Sua ajuda, que Ele dá os filhos
de Deus? Horrível coisa e menosprezar o Espírito da graça (Mateus 12:31, Marcos 3:29).

Tal como este é o julgamento daqueles que abertamente blasfemam contra o Espírito
Santo, em forma de desprezo e negação de Sua obra e serviço: assim também é triste para
vocês, que resistem ao Espírito de oração, por um modelo da invenção do homem. Um
autêntico truque do maligno, que as tradições dos homens deveriam ter melhor estima, e
ser mais reconhecidas do que o Espírito de oração. Em que é isto menor do que a abo-
minação maldita de Jeroboão, que impediu a muitos de irem a Jerusalém, o local e modo
que Deus ordenara para culto; e por estes meios atraiu tal desagrado da parte de Deus
sobre eles, de maneira que até hoje em dia não está abrandado? (1 Reis 12:26-33). Alguém
poderia pensar que os julgamentos de Deus de antigamente sobre os hipócritas daquele
tempo faria com que eles ouvissem a estas coisas e tomassem cuidado e temeriam fazê-
lo. Ainda os doutores de nosso tempo estão longe de estarem alertados pela punição de
outros, pois eles precipitam-se mais desesperadamente na mesma transgressão, a saber,
ao estabelecerem uma instituição humana, não ordenada nem recomendada por Deus; e
aqueles que não obedecerão o aqui mencionado, devem ser levados tanto para fora da
terra ou do mundo.

Deus requereu estas coisas de nossas mãos? Acaso Ele o fez, demonstre-nos onde? Se
não, como eu estou certo que não, então que maldita presunção é esta em qualquer papa,
bispo, ou outro, em ordenar no culto a Deus o que Ele não prescreveu? Não, ainda mais,
não é esta porção apenas da forma, na qual é em muitos textos da Escritura que nós somos
ordenados a dizer, mas mesmo todos devem ser confessados como o culto Divino a Deus,
não obstante estes absurdos contêm em si, os quais devido serem de longe descobertos
por outros, eu omito o ensaio deles. Novamente, embora um homem nunca esteja desejan-
do viver tão pacificamente, ainda que ele não possa, por causa da consciência, reconhece
que por uma das mais eminentes partes do culto a Deus, o qual Ele nunca ordenou, embora
este homem deva ser visto como faccioso, sedicioso, errôneo, herético, uma depreciação
à igreja, um sedutor de pessoas, e o que não? Senhor, o que será o fruto destas coisas,
quando em vez da doutrina de Deus, são impostas, ou seja, mais do que ensinadas, as
tradições de homens? Assim, o Espírito de oração é negado, e a forma é imposta; o Espírito

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é rebaixado e a forma exaltada; aqueles que oram com o Espírito, embora nunca tão humil-
des e santos, são considerados fanáticos; e aqueles que oram com a forma, embora apenas
com isto, são considerados virtuosos! E como os favorecedores de tal prática responderão
à Escritura, a qual ordena que a igreja deve afastar-se daqueles que “tendo aparência de
piedade, mas negando a eficácia dela” (2 Timóteo 3:5). E se eu dissesse que os homens
que fazem estas coisas acima citadas, promovem uma forma de oração que outros homens
fizeram, acima do espírito de oração, isto não levaria muito tempo para ser comprovado.
Pois aquele que promove o Livro de Oração Comum acima do Espírito de oração, promove
uma de forma feita por homens acima dAquele. Mas, isto fazem todos aqueles que banem,
ou desejam banir, aqueles que oram com o Espírito de oração, enquanto eles abraçam e
acolhem aqueles que oram apenas pela formam e isto porque eles assim o fazem. Portanto,
eles amam e promovem a forma de suas próprias invenções ou de outros, diante do Espírito
de oração, o que é a ordenança especial e graciosa de Deus.

Se vocês desejam a pureza da minoria, olhem para as cadeias na Inglaterra, e para dentro
das tabernas da mesma; e eu creio que vocês encontrarão aqueles que clamam pelo
Espírito de oração na cadeia, e aqueles que buscam apenas a forma das invenções de ho-
mens na taberna. Isto é evidenciado também pelo silêncio dos queridos ministros de Deus,
embora nunca tão poderosamente capacitados pelo Espírito de oração, se eles em consci-
ência não podem admitir aquela estrutura da Oração Comum. Se isto não for uma exaltação
do Livro de Oração Comum acima do orar pelo Espírito, ou pregar a Palavra, eu tenho toma-
do o meu alerta por inadequado. Não é agradável para mim, alongar-me nisto. O Senhor
por misericórdia converta o coração do povo para buscar mais pelo Espírito de oração, e
na força dEle, para derramar as almas diante do Senhor. Apenas deixem-me dizer que isto
é um triste sinal, que aquilo que é uma das partes mais eminentes do simulado culto a Deus
é anticristão, quando isto não tem nada a não ser a tradição de homens, e a força da per-
seguição, para defender e alegar por isto.

Concluirei este discurso com os seguintes conselhos para o povo de Deus:

1. Crê que, tão certo quanto tu estás nos caminhos de Deus, tu encontrarás as tentações.

2. Portanto, espere-as desde o primeiro dia de tua entrada na congregação de Cristo.

3. Quando chegarem, peça a Deus que te guie e ajude a superá-las.

4. Vigie cuidadosamente o teu próprio coração para que não te enganes contra as evidên-
cias do Céu, nem em teu andar com Deus neste mundo.

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5. Não confies nas lisonjas dos falsos irmãos.

6. Não te apartes da vida e do poder da verdade.

7. Olhe principalmente para as coisas que não se veem.

8. Desconfie dos pequenos pecados.

9. Que a promessa não seja impedida em teu coração.

10. Renoves a tua atitude de fé no sangue de Cristo.

11. Medite na obra de tua regeneração.

12. Não renuncies a correr com aqueles que vão na frente da corrida,

A graça seja convosco!

John Bunyan, 1660.

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Oração
Por Thomas Watson

“Mas eu faço oração.” (Salmo 109:4)

Uma coisa é orar, e outra coisa é ser constante na oração. Aquele que ora com frequência,
é dito ser dado à oração; como aquele que muitas vezes distribui esmolas, é dito ser dado
à caridade. A oração é uma ordenança gloriosa, ela proporciona o relacionamento da alma
com o Céu. Deus vem até nós pelo Seu Espírito, e nós vamos até Ele por meio da oração.

O que é oração?

É a apresentação dos nossos desejos a Deus por coisas agradáveis à Sua vontade, em
nome de Cristo.

“A oração e a apresentação de nossos desejos”; e, portanto, é chamado de dar a conhecer


as nossas petições, em Filipenses 4:6. Na oração chegamos como humildes pedintes, im-
plorando para ter as nossas necessidades atendidas. Isto é “apresentar os nossos desejos
a Deus”. A oração não deve ser feita a qualquer um, senão a Deus. Os papistas rezam para
os santos e anjos, que não conhecem as nossas queixas. “Abraão não nos conhece” (Isaías
63:16). É proibido adorar a qualquer anjo (Colossenses 2:18-19). Não devemos orar a quem
bem entendermos, mas somente Àquele em Quem podemos crer. “Como, pois, invocarão
aquele em quem não creram?” (Romanos 10:14). Nós não podemos depositar nossa fé nos
anjos, por isso não devemos orar a eles.

Por que a oração deve ser feita somente a Deus?

(1) Porque somente Ele ouve a oração. “Ó tu que ouves as orações” (Salmos 65:2). Nisto
Deus Ele é conhecido como sendo o verdadeiro Deus, a saber, que Ele ouve a oração.
“Responde-me, Senhor, responde-me, para que este povo conheça que tu és o Senhor
Deus” (1 Reis 18:37).

(2) Porque somente Deus pode nos ajudar. Podemos olhar para causas secundárias, e
chorar, como a mulher fez, “Acode-me, ó rei meu senhor”. E ele disse: “Se o Senhor te não
acode, donde te acudirei eu?” (2 Reis 6:26-27). Se estamos em perigos por fora, Deus deve
nos salvar desde o Céu; se estamos em agonia interior, somente Ele pode derramar o óleo
da alegria sobre nós; portanto, a oração deve ser feita apenas para Ele.

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Devemos orar “por coisas agradáveis à Sua vontade”. Quando oramos por coisas externas,
por riquezas ou filhos, talvez Deus veja que essas coisas não são benéficas para nós; e
nossas orações devem se conformar com a Sua vontade. Podemos, plenamente, orar por
graça: “Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1 Tessalonicenses 4:3).
Não devemos oferecer incenso estranho (Êxodo 30:9), pois quando oramos por coisas que
não são agradáveis à vontade de Deus estamos oferecendo incenso estranho.

Devemos orar “em nome de Cristo”. Orar em nome de Cristo, não é apenas mencionar o
nome de Cristo na oração, mas orar na esperança e confiança de Seus méritos. “Então to-
mou Samuel um cordeiro de mama, e sacrificou-o” (1 Samuel 7:9). Devemos levar o cordeiro
Cristo nos braços de nossa fé, e assim prosperaremos na oração. Quando Uzias ia oferecer
incenso sem ser por meio do sacerdote, Deus se indignou contra ele e o feriu com lepra (2
Crônicas 26:16). Quando não oramos em o nome de Cristo, na esperança de Sua media-
ção, oferecemos incenso à parte de um Sacerdote, e o que podemos esperar, senão
sermos repreendidos, e que Deus nos responda com coisas terríveis?

Quais são as várias partes da oração?

(1) Há a parte de confissão, que é o reconhecimento do pecado. (2) A parte de súplica,


quando tanto imploramos e oramos contra algum mal, ou solicitamos a obtenção de algum
bem. (3) A parte de congratulações, quando damos graças por misericórdias recebidas,
que é a parte mais excelente da oração. Na petição, agimos como homens; em ação de
graças, agimos como anjos.

Quais são os vários tipos de oração?

(1) Há a oração mental, 1 Samuel 1:13. (2) Oração vocal, Salmo 77:1. (3) Jaculatória, que
é uma súbita e curta elevação de nosso coração a Deus. “Então orei ao Deus dos céus”,
Neemias 2:4. (4) Oração inspirada, quando oramos por aquelas coisas que Deus coloca
em nosso coração. O Espírito nos ajuda com suspiros e gemidos, Romanos 8:26. Tanto as
expressões da língua quanto as impressões do coração, à medida que estão certos, provêm
do Espírito. (5) Oração prescrita. Nosso Salvador criou-nos um padrão de oração. Deus
prescreveu uma formula estabelecida de bênção para os sacerdotes, Números 6:23. (6)
Oração pública, quando oramos perante outras pessoas. A oração é mais poderosa quando
muitos se juntam e unem suas forças. Vis unita fortior [A união de forças é mais forte], Ma-
teus 18:19. (7) Oração particular, quando oramos por nós mesmos. “Entra no teu aposento”,
Mateus 6:6.

A oração que mais provavelmente prevalecerá com Deus é aquela que é corretamente a-

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presentada. Esta é como um bom remédio que contém os ingredientes certos; a oração
que é boa e que tem maior probabilidade de prevalecer para com Deus é aquela que tem
tais ingredientes nela:

[1] Ela deve ser misturada com a fé. “Peça-a, porém, com fé” (Tiago 1:6). Acredite que Deus
te ouve, e no devido tempo Ele te concederá as tuas petições, acredite em Seu amor e ver-
dade; creia que Ele é amor, e, portanto, não te rejeitará; creia que Ele é a verdade, e, por-
tanto, não negará a Si mesmo. A fé leva a oração a ser operosa. A fé é para a oração o que
a pena é para a flecha; a fé é a pena da seta da oração, e a faz voar mais rápido, e atingir
o trono da graça. A oração destituída de fé é infrutífera.

[2] Deve ser uma oração quebrantada. “Os sacrifícios para Deus são o espírito quebranta-
do” (Salmos 51:17). O incenso deveria ser triturado para tipificar o quebrantamento do
coração em oração. “Oh!”, diz, um Cristão, “eu não posso orar com esses dons de elo-
quência como outras pessoas”; como disse Moisés: “Eu não sou homem eloquente” [Êxodo
4:10]; mas você não sabe chorar? Será que o teu coração não pode se derreter em oração?
A oração misturada com lágrimas prevalece. As lágrimas caem como pérolas dos olhos.
Jacó chorou, e lhe suplicou e “e lutou com o anjo, e prevaleceu” (Oséias 12:4).

[3] A oração deve ser feita com zelo e fervor. “A oração feita por um justo pode muito em
seus efeitos” (Tiago 5:16). A oração fria, assim como o suplicante frio, nunca prospera. Ora-
ção sem fervor, é como um sacrifício sem fogo. A oração é chamada de “derramar da alma”,
dando a entender veemência (1 Samuel 1:15). A formalidade faz a oração minguar. A
oração é comparada com incenso: “Suba a minha oração perante a tua face como incenso”
(Salmos 141:2). Brasas vivas deveriam ser colocadas no incenso, para torná-lo odorífero e
perfumado; assim o fervor das afeições é como as brasas vivas para o incenso, isto é, faz
oração subir como um aroma suave. Cristo orou com fortes clamores (Hebreus 5:7). “Cla-
mor iste penetrando nubes” [Tal clamor atravessa as nuvens], disse Lutero. A oração
fervorosa, é como um conjunto de engrenagens que abrem as portas do Céu. Para orar
com este santo fervor e ardor da alma, considere:

(1) A oração sem fervor não é oração; tal pessoa está falando e não orando. Oração sem
vida não é mais oração do que a imagem de um homem é um homem. Tal pessoa pode
dizer como Faraó: “Eu sonhei um sonho” (Gênesis 41:15). Ela está sonhando, não orando.
Vida e fervor batizam um dever, e dão-lhe um nome.

(2) Consideremos quanta necessidade temos daquelas coisas que pedimos em oração. Va-
mos, em oração, pedir o favor de Deus; e se não obtivermos o Seu amor no qual nos delei-
tamos, isto resultará em maldição para nós. Oremos para que as nossas almas sejam lava-

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das no sangue de Cristo; pois se Ele não nos lavar, não temos nenhuma parte nele (João
13:8). Quando é que vamos levar as coisas a sério, senão quando estivermos orando pela
vida de nossas almas?

(3) É somente a oração fervorosa que tem a promessa de misericórdia afixada a ela. “E
buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração” (Jere-
mias 29:130. Ou seja, não há nenhuma promessa para orações mortas; a promessa é feita
somente para as orações fervorosas. As edificações entre os Romanos, possuíam portas
que ficavam sempre abertas, para que aqueles que pediam tivessem fácil acesso a eles;
assim o coração de Deus está sempre aberto à oração fervorosa.

[4] A oração deve ser sincera. Sinceridade é o fio de prata, que deve estar entrelaçado atra-
vés de todos os deveres da religião. A sinceridade na oração acontece quando temos san-
tos e graciosos objetivos; quando a nossa oração não é tanto por misericórdias temporais
como pelas espirituais. Nós enviamos a oração como se enviássemos um navio mercante,
para que possamos ter grandes retornos de bênçãos espirituais. Nosso objetivo é que
nossos corações sejam mais santos, que possamos ter mais comunhão com Deus e que
cresçamos na graça. A oração que deseja um bom objetivo, deseja uma boa execução.

[5] A oração que prevalecerá com Deus deve ter uma firmeza de mente. “Preparado está o
meu coração, ó Deus” (Salmos 57:7). Desde a Queda a mente é como o mercúrio, que não
pode permanecer imóvel; possui principium motus, mas não quietus [um princípio de mo-
ção, mas não de quietude]. Por vezes, os pensamentos vaguearão e dançarão para cima
e para baixo na oração, como um homem que está viajando para um determinado lugar e
sai da estrada, e começa a vaguear para onde ele não conhece. Na oração nós estamos
viajando para o trono da graça, mas quantas vezes nós, por vãs imaginações, saímos desta
estrada! Isto é errar mais do que orar.

Como curaremos estes pensamentos impertinentes e vãos, que nos distraem na


oração, e, tememos, impedem a sua aceitação?

(1) Em oração seja muito apreensivo da infinitude da majestade e pureza de Deus. Seus
olhos estão sobre nós em oração e podemos dizer como Davi: “Tu contas as minhas vague-
ações” [Salmos 56:8]. Os nossos pensamentos a respeito do que temos feito hoc agere
[neste ato], nos fazem pensar no dever em que estamos. Se um homem fosse apresentar
uma petição a um príncipe terreno, ele, ao mesmo tempo, poderia estar brincando com uma
pluma? Estabeleça-se, quando você orar, como que na presença de Deus. Se você pudes-
se olhar pelo buraco da fechadura do Céu, e ver quão devotada é a intenção os anjos em

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adorar Seu Deus, com certeza você estaria pronto para se envergonhar de seus pensa-
mentos fúteis e impertinências vis quando você se propõe a orar.

(2) Se você quiser manter sua mente fixa na oração, mantenha seu olho fixo. “A ti levanto
os meus olhos, ó tu que habitas nos céus” (Salmos 123:1). Muita vaidade entra pelos olhos.
Quando o olho vagueia durante a oração, o coração vagueia também. Pensar em manter o
coração fixo na oração, e ainda permitir o vaguear dos olhos é como pensar em manter sua
casa segura, e, contudo, deixar as janelas abertas.

(3) Se você deseja que seus pensamentos sejam mais constantes durante a oração ame
mais a Deus. O amor é um grande fixador dos pensamentos. Aquele que está apaixonado
não pode manter seus pensamentos fora do objeto de seu amor. Aquele que ama o mundo
tem os seus pensamentos sobre o mundo. Assim se amássemos mais a Deus, as nossas
mentes mais facilmente se fixariam nEle durante a oração. Se houvesse mais prazer no
dever, haveria menos distração.

(4) Implore pela ajuda do Espírito de Deus para fixar as suas mentes, e torná-las objetivas
e sérias na oração. O navio sem piloto flutua mais do que navega. Que os nossos pen-
samentos não flutuem para cima e para baixo na oração, precisamos que o bendito Espírito
seja nosso piloto para nos orientar. Só o Espírito de Deus pode controlar os pensamentos.
A mão trêmula pode antes traçar uma linha reta do que podemos manter nossos corações
fixos em oração sem o Espírito de Deus.

(5) Se familiarize com santas meditações em seu curso normal da vida. Davi estava cons-
tantemente meditando sobre Deus. “Quando acordo ainda estou contigo” (Salmos 139:18).
Aquele que se permite ter pensamentos vãos quando não está em oração, dificilmente terá
outros pensamentos durante a oração.

(6) Se vocês quiserem manter sua mente fixa em Deus, vigiem os seus corações, não ape-
nas após a oração, mas durante a oração. O coração estará apto a desviar-lhe, e terá mil
caprichos na oração. Lemos sobre os anjos subindo e descendo a escada de Jacó; assim
em oração vocês verão os vossos corações subindo ao Céu e, em um momento, descendo
sobre objetos terrenos. Oh! Cristãos, vigiem os seus corações em oração. Que vergonha é
pensar que quando estamos falando com Deus o nosso coração deve estar no campo, ou
em nossas casas de contabilidade, ou desta ou daquela forma, pensando nas sugestões
do Diabo!

(7) Busquem por maiores níveis de graça. Quanto mais lastro o navio tem, melhor ele nave-
ga; portanto, quanto mais o coração está lastreado com graça, mais estavelmente ele
navegará para o Céu em oração.

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[6] A oração que mais provavelmente prevalecerá com Deus deve ser argumentativa. Deus
ama que nós pleiteemos com Ele, e que usemos argumentos na oração. Veja quantos argu-
mentos Jacó usou em sua oração. “Livra-me, peço-te, da mão de meu irmão” (Gênesis
32:11). Os argumentos que ele usou provêm do mandamento de Deus: “Senhor, que me
disseste: Torna-te à tua terra”, verso 9; como se ele tivesse dito: “Eu não fiz essa viagem
por minha própria conta, mas segundo a Tua direção; portanto, por Tua honra deves me
proteger”. E ele usa outro argumento. “E tu o disseste: Certamente te farei bem” verso 12.
“Senhor, tu hás de negar a Tua própria promessa?”. Assim, ele foi argumentativo na oração;
e ele obteve não só uma nova bênção, mas um novo nome. “Não te chamarás mais Jacó,
mas Israel; pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste”, verso
28. Deus ama ser convencido com a força do argumento. Assim, quando nos aproximamos
de Deus em oração por graça, sejamos argumentativos. “Senhor, Tu chamas de Ti mesmo
o Deus de toda graça; e para onde devemos ir com nossa vasilha, senão para a fonte?
Senhor, a Tua graça pode ser transmitida, e assim ainda não é comprometida. Não tem
Cristo adquirido graça para pobres criaturas miseráveis? Cada dracma de graça custa uma
gota de sangue. Porventura Cristo morreu para comprar a graça para nós, e não desfru-
taremos do fruto de Sua compra? Senhor, é Teu deleite conceder misericórdia e graça, e
Tu limitarás a Ti mesmo, e Teu próprio deleite? Tu prometeste dar o Teu Espírito de graça;
a verdade pode mentir? a fidelidade pode enganar?”. Deus ama ser assim convencido com
argumentos quando estamos em oração.

[7] A oração que prevalece com Deus, deve estar associada com a reformação. ‘Se tu pre-
parares o teu coração, e estenderes as tuas mãos para ele; se há iniquidade na tua mão,
lança-a para longe de ti e não deixes habitar a injustiça nas tuas tendas” (Jó 11:13-14).
Quando você está em pecado seu coração é endurecido e os ouvidos de Deus ficam surdos
para você. É tolice orar contra o pecado, e depois pecar contra a oração. “Se eu atender à
iniquidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá” (Salmos 66:18). A magnetita perde o
seu poder quando é posta junto com alho; o mesmo acontece com a oração quando está
poluída com o pecado. O incenso da oração deve ser oferecido sobre o altar de um coração
santo.

Assim, você vê viu qual é a oração que deve prevalecer com Deus.

Primeira aplicação. A oração reprova (1) os tais que não oram de modo algum. A caracte-
rística de um réprobo é que Ele nunca invoca a Deus (Salmos 14:4). Será que aquele que
deseja receber uma esmola jamais pedirá por ela? Será que aqueles que desejam receber
misericórdia jamais a buscarão? [...] Cristo ofereceu orações com fortes clamores (Hebreus
5:7). Nenhum dos filhos de Deus nascem mudos (Gálatas 4:6).

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(2) A oração reprova os tais que deixam de orar, o que é um sinal de que eles nunca senti-
ram o fruto e conforto dela. Aquele que rejeita a oração rejeita o temer a Deus. “E tu tens
feito vão o temor, e diminuis os rogos diante de Deus” (Jó 15:4). Um homem que abandona
a oração, torna-se apto para cometer qualquer maldade. Quando Saul desistiu de consultar
a Deus ele buscou a bruxa de En-Dor [1 Samuel 28].

Segunda aplicação. Sejam pessoas constantes em oração. “Mas eu”, diz Davi, “faço ora-
ção”. Ore por perdão e pureza. A oração é a chave de ouro que abre o Céu. A árvore da
promessa não dará o seu fruto, a menos que seja sacudida pela mão da oração. Todos os
benefícios da redenção de Cristo são entregues a nós pela oração.

“Estou cansado de clamar; a minha garganta se secou; os meus olhos desfalecem espe-
rando o meu Deus” (Salmos 69:3).

(1) Deus pode nos ouvir quando não podemos ouvi-lO; assim é com a oração quando é
feita, Deus ouve, embora não responda imediatamente. Um amigo pode receber a nossa
carta, embora não envie-nos uma resposta imediatamente.

(2) Deus pode ser tardio para responder a oração, contudo Ele não vai negá-la.

Por que Deus atrasa a resposta à oração?

(1) Porque Ele gosta de ouvir a voz da oração. “A oração dos retos é o seu contentamento”
(Provérbios 15:8). Você deixa o músico tocar por longo tempo antes que você o recompense
com o seu dinheiro, porque você gosta de ouvir sua música (Cânticos 2:14).

(2) Deus pode atrasar a resposta de uma oração quando Ele não deseja negá-la, para que
Ele possa nos humilhar. Ele falou por muito tempo em Sua palavra para deixássemos os
nossos pecados, mas não quisemos ouvi-lO; portanto, Ele nos permite falar com Ele em
oração e deixar parecer que não nos ouve.

(3) Ele pode atrasar a resposta à oração, quando Ele não quer negá-la, porque Ele vê que
ainda não estamos aptos para receber a misericórdia que pedimos. Talvez nós oramos por
libertação quando não estamos preparados para ela; nossa escória ainda não foi purificada.
Queremos que Deus esteja pronto para dar, enquanto nós somos lentos para nos arre-
pender.

(4) Deus pode atrasar a resposta à oração, para que a misericórdia pela qual oramos possa
ser mais valorizada, e para que possa ser mais doce quando recebida. Quanto mais navios

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do comerciante estão no estrangeiro, mais ele se alegra quando eles retornam para casa
carregados de especiarias e joias; portanto, não desanime, mas siga a Deus com a oração.
Embora Deus possa ser tardio, Ele não a negará. A oração vincit invincibilem [vence o in-
vencível], ela prevalece com o Onipotente (Oseías 12:4). [...]. O Senhor foi impedido por
meio da oração de Moisés como com uma corrente de ouro. Está escrito: “deixa-me, para
que o meu furor se acenda contra ele”. O que fazia Moisés? Ele somente orava (Êxodo
32:10). Orações abrem as portas para a misericórdia. Mesmo que o teu caso seja tão triste,
se tu puderes orar então não precisarás temer (Salmos 10:17). Portanto aplica-te à oração.

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Verdadeira Oração: Verdadeiro Poder
(Sermão Nº 328)

Pregado na manhã de Sabath, 12 de agosto de 1860.


Por C. H. Spurgeon, em Exeter Hall, Strand.

“Por isso vos digo que todas as coisas que pedirdes, orando,
crede receber, e tê-las-eis.” (Marcos 11:24)

ESTE verso tem algo a ver com a fé em milagres; mas eu acho que tem muito mais refe-
rência ao milagre da fé. Iremos de qualquer forma, nesta manhã, considerá-lo a esta luz.
Eu acredito que este texto é a herança não só dos Apóstolos, mas de todos aqueles que
caminham na fé dos Apóstolos, acreditando nas promessas do Senhor Jesus Cristo. O
conselho que Cristo deu aos 12, e aos Seus seguidores imediatos é repetido a nós na Pala-
vra de Deus, nesta manhã. Que possamos ter a graça Divina para obedecê-la constante-
mente! “Todas as coisas que pedirdes, orando, crede receber, e tê-las-eis”. Quantas pes-
soas há que se queixam de que elas não gostam de oração. Elas a não negligenciam, pois
não se atrevem! Mas elas negligenciariam se elas se atrevessem, pois até agora não estão
encontrando nenhum prazer nela. E não devemos nos lamentar que, por vezes, as rodas
da carruagem são retiradas, e nós prosseguimos arduamente quando estamos em súplica?
Nós gastamos o tempo previsto, mas subimos de joelhos sem refrigério, como um homem
que se deitou na sua cama, mas não dormiu, de modo a realmente recuperar sua força.
Quando chega a hora novamente, a consciência leva-nos aos joelhos, mas não há nenhu-
ma doce comunhão com Deus; não conseguimos dizer-Lhe de nossas necessidades na
firme convicção de que Ele irá supri-las! Depois de ter passado mais uma vez através de
um certo tempo de declarações habituais, nós subimos dos joelhos, talvez mais atribulados
na consciência, e mais angustiados em espírito do que estávamos antes! Há muitos Cris-
tãos, eu penso, que têm a reclamar disto, que eles não oram tanto porque é uma coisa
abençoada o ser autorizado a aproximar-se de Deus, quanto porque eles devem orar,
porque isto é seu dever, porque sentem que se não o fizessem, perderiam uma das evidên-
cias certas de que são Cristãos!

Irmãos e irmãs, eu não vos condeno, mas, ao mesmo tempo, se é que posso ser o meio de
levantar-vos, nesta manhã, de tão baixo estado de graça para uma maior e mais saudável
atmosfera, a minha alma estaria excessivamente feliz! Se eu puder vos mostrar um caminho
mais excelente, se a partir de agora vocês puderem vir a olhar para a oração como um dos
exercícios mais agradáveis de vossas vidas, se vocês vierem a estimá-la mais do que o
alimento necessário, e valorizá-la como um dos melhores luxos celestes, com certeza eu

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terei atendido a um grande fim e vocês terão de agradecer a Deus por uma grande bênção!
Deem-me, então, a vossa atenção, enquanto eu imploro, em primeiro lugar, olhem para o
texto; em segundo lugar, olhem para vocês; e então, olhem acima de vocês.

I. Em primeiro lugar, OLHEMOS PARA O TEXTO. Se você olhar com atenção, eu penso
que você perceberá as qualidades essenciais que são necessárias para qualquer grande
sucesso e prevalência em oração. Segundo a descrição de nosso Salvador sobre oração,
deve haver sempre alguns objetivos definidos pelos quais devemos pleitear. Ele fala de
coisas: “todas as coisas que pedirdes”. Parece, então, que Ele não pensava que os filhos
de Deus iriam a Ele em oração quando não tinham pelo que orar! Outra qualificação essen-
cial da oração é o desejo sincero, pois o Mestre supõe aqui, que quando oramos temos
desejos. Na verdade, não é a oração, isto pode ser algo como a oração, a forma exterior
ou o esqueleto nu, mas não é a coisa viva, o todo-dominante, coisa onipotente chamada
oração, a menos que haja uma plenitude e transbordamento de desejos! Observe, também,
que a fé é uma qualidade essencial da oração bem sucedida: “crede receber, e tê-las-eis”.
Você não pode orar de modo a ser ouvido no Céu, e ter atendida a satisfação da sua alma,
a menos que você acredite que Deus realmente ouve e responderá a você! Há uma outra
qualificação que aparece aqui na própria superfície, a saber, que a expectativa de realiza-
ção deve sempre ir com uma fé firme: “crede receber, e tê-las-eis”. Não apenas acreditar
que “você deverá”, mas acredita que “você irá” recebê-las, conte-as como se fossem recebi-
das; considere-as como se você já as tivesse, e aja como se você as tivesse, aja como se
estivesse certo de tê-las: “crede receber, e tê-las-eis”. Vamos analisar estas quatro quali-
dades, uma por uma.

Para fazer uma oração de algum valor, deve haver objetivos definidos pelos quais pleitear.
Meus irmãos e irmãs, nós muitas vezes divagamos em nossas orações após isto, aquilo, e
aquilo outro, e não recebemos nada, porque cada um de nós realmente não deseja nada.
Nós tagarelamos sobre muitos assuntos, mas a alma não se concentra em qualquer obje-
tivo. Você às vezes não cai de joelhos, sem pensar de antemão no que você tenciona pedir
a Deus? Você pode fazer isso como uma questão de hábito, sem qualquer movimento do
seu coração! Você é como um homem que vai a uma loja, e não sabe que artigos ele gos-
taria de comprar; ele pode, talvez, fazer uma compra feliz quando ele está lá, mas certa-
mente não é um plano prudente a ser adotado. E assim o Cristão em oração pode depois
atingir a um desejo real, e obter o seu fim, mas o quão melhor seria se tendo gastado tempo
preparando a sua alma pela consideração e autoexame, ele chegasse a Deus por um
objetivo em que ele estava prestes a almejar com um pedido real? Pediremos uma audiên-
cia na corte de Sua Majestade, seria esperado que nós respondêssemos à pergunta: “Por
que você gostaria de vê-lo?”. Nós não iríamos esperar entrar na presença da Realeza, e

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depois pensar em alguma petição depois que estivéssemos lá! Da mesma forma, com o
filho de Deus; ele deve ser capaz de responder a grande pergunta: “Qual é a sua petição,
e qual é o seu pedido, e será feito a ti”. Imagine um arqueiro atirando com seu arco, sem
saber onde o alvo está! Ele seria propenso a ter sucesso? Imagine um navio, que numa
viagem de descoberta se faz ao mar sem o capitão, sem nenhuma ideia do que ele estava
procurando! Você esperaria que ele voltasse muito carregado ou com as descobertas da
ciência, ou com tesouro de ouro? Em tudo você tem um plano; você não irá para o trabalho
sem saber que você planejou fazer algo. Como é que você vai a Deus sem saber o que
você deseja obter? Se você tivesse algum objetivo, você nunca iria encontrar a oração
como sendo um trabalho chato e pesado! Estou convencido de que você anelaria por isso!
Você diria: “Eu tenho algo que preciso. Quem dera eu pudesse aproximar-me do meu Deus
e pedir a Ele por isso! Eu tenho uma necessidade, eu quero satisfazê-la; eu anseio que eu
possa ficar a sós, para que eu possa derramar meu coração diante dEle, e pedir-Lhe por
esta grande coisa após a qual a minha alma tão sinceramente suspira”.

Você encontrará que isto é mais útil para suas orações, se você tem alguns objetivos que
você almeja, e eu penso que, também, se você deverá ter algumas pessoas que você
menciona. Não apenas suplique a Deus pelos pecadores em geral, mas sempre mencione
alguns em particular. Se você é um professor de escola dominical, não basta pedir que sua
classe possa ser abençoada, mas ore por suas crianças, citadas pelo nome, diante do
Altíssimo. E se há uma misericórdia em sua casa que você deseja, não rodeie próximo do
caminho, mas seja simples e direto em suas petições a Deus. Quando você orar a Ele, diga-
Lhe o que você precisa. Se você não tem dinheiro suficiente, se você estiver em situação
de pobreza, se você estiver em apuros, relate o caso. Não use falsa modéstia com Deus!
Venha imediatamente ao ponto, fale honestamente com Ele, Ele não necessita de belas
frases baratas tais como as que os homens constantemente usarão quando eles não gos-
tam de dizer direito o que eles tencionam. Se você precisa de uma misericórdia temporal
ou espiritual, que o diga! Não saqueie a Bíblia para encontrar palavras para expressar-se;
expresse suas necessidades, nas palavras que naturalmente lhe ocorrem. Estas serão as
melhores palavras, dependa delas. As palavras de Abraão eram as melhores para Abraão,
e as suas serão as melhores para você. Você não precisa estudar todos os textos das Es-
crituras para orar, assim como Jacó e Elias fizeram, usando suas expressões. Se você fizer
isso, você não vai imitá-los; você pode imitá-los literalmente, e servilmente, mas lhe falta a
alma que sugeriu e animou suas palavras. Ore em suas próprias palavras. Fale claramente
a Deus. Pergunte ao mesmo tempo do que você precisa. Nomeie as pessoas, nomeie as
coisas, faça um alvo diretamente para o objetivo de suas súplicas, e eu tenho certeza que
você logo descobrirá que o cansaço e o desinteresse dos quais você muitas vezes se
queixa quanto às suas intercessões, não mais virão sobre você, ou pelo menos não tão
habitualmente como ocorre agora.

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“Mas”, diz alguém, “eu não sinto que eu tenha quaisquer objetivos especiais pelos quais
orar”. Ah, meu querido irmão, eu não sei quem você é, ou onde você mora, para estar sem
objetivos especiais para orar! Penso que cada dia traz tanto a sua necessidade quanto o
seu problema, e que eu tenho, todos os dias, algo a dizer ao meu Deus. Mas se nós não
tivermos um problema, meus queridos irmãos e irmãs; se tivéssemos atingido tal altura em
graça que não tivéssemos nada a pedir, amamos tanto a Cristo de forma que não tenhamos
necessidade de orar para que possamos amá-lO mais? Já temos tanta fé que deixamos de
clamar: “Senhor, aumente-a”? Você irá sempre, tenho certeza, por um pequeno autoexame,
logo descobrir que há algum objetivo legítimo pelo qual você pode bater à porta de miseri-
córdia e clamar: “Dá-me, Senhor, o desejo do meu coração!”. Mas se você não tem qualquer
desejo, você não tem, senão que pedir pelo primeiro Cristão tentado que você encontra, e
ele irá dizer-lhe de um. “Oh”, ele vai responder-lhe, “se você não tem nada a pedir para si
mesmo, peça por mim! Peça para que uma esposa doente possa ser recuperada; ore para
que o Senhor levante a luz do Seu rosto sobre um coração desanimado; peça que o Senhor
envie ajuda para algum ministro que tem trabalhado em vão, e gastado a sua força por
nada”. Quando você tiver feito para si mesmo, peça para os outros! E se você não pode
encontrar-se com alguém que pode sugerir um tema, veja aquela enorme Sodoma, esta
cidade como outra Gomorra estabelecida diante de você! Leve-a diante de Deus constan-
temente em suas orações e clame: “Oh, que Londres possa viver diante de Ti; que seu
pecado possa ser suspenso; que a Sua justiça seja exaltada; que o Deus da terra pode
obtenha para Si mesmo muitas pessoas desta cidade!”

Igualmente necessário é que, com um objetivo definido para a oração, deva haver um
desejo sincero pela sua realização. “Orações frias”, diz um velho teólogo, “pedem uma ne-
gação”. Quando pedimos ao Senhor com frieza, e não com fervor, o que fazemos, por assim
dizer, é parar Sua mão e impedi-lO de nos dar a bênção que muitos de nós fingimos estar
buscando! Quando você sabe o que precisa, sua alma se tornará tão afetada com o valor
desse meio, com sua própria excessiva necessidade dele, com o perigo que você correrá
a menos que o meio seja concedido, que você será obrigado a implorar por oração como
um homem implora por sua vida! Houve uma bela ilustração da verdadeira oração dirigida
ao homem na condução de duas nobres senhoras cujos maridos foram condenados a mor-
rer, e estavam prestes a serem executados. Quando chegaram diante do Rei George, e
suplicaram por seu perdão, o rei rude e cruelmente as repeliu. George, o primeiro; era como
sua própria natureza! E, quando se pronunciaram mais uma vez, e de novo, e de novo, elas
não puderam ser levantadas de seus joelhos. Elas tinham, na verdade, sido arrastadas da
corte, pois não se retirariam até que o rei sorrisse para elas e lhes dissesse que os seus
maridos viveriam. Infelizmente, elas não conseguiram, embora fossem mulheres nobres
perseverando em pedir pelas vidas de seus maridos. Esse é o caminho para que possamos
orar a Deus; devemos ter um desejo pelo que precisamos, de modo que não desistiremos

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até que o tenhamos, porém em submissão à Sua vontade Divina. Sentindo que a coisa que
pedimos não pode ser errada, e que Ele próprio prometeu isso, temos resolvido, deve ser
dada, e se não for dada, vamos pleitear a promessa de novo e de novo, até que as portas
do Céu tremerão antes que as nossas petições cessem! Não é de admirar que Deus não
nos abençoou muito nos últimos tempos, porque não estamos em oração fervorosa como
deveríamos estar! Oh, essas orações de coração frio que morrem nos lábios, aquelas súpli-
cas congeladas, estas não movem os corações dos homens, como eles moverão o coração
de Deus? Elas não veem de nossas próprias almas; elas não erguem-se da nascente do
interior desejo secreto de nosso coração, e portanto, elas não podem elevar-se a Ele, que
apenas ouve o clamor da alma, diante de quem a hipocrisia não pode ondular nenhum véu,
ou a formalidade praticar qualquer disfarce! Temos que ser sinceros, caso contrário, não
temos o direito de esperar que o Senhor ouvirá a nossa oração.

E, certamente, meus irmãos e irmãs, se isso fosse suficiente para conter toda a leveza, e
compelir uma seriedade incessante, aprenderíamos a grandeza do Ser diante do qual
suplicamos! Devo entrar em Tua Presença, ó meu Deus, e zombar de Ti com palavras de
um coração frio? Será que os anjos velam o rosto diante de Ti, e estarei contente em
tagarelar através de uma forma sem alma e sem coração? Ah, meus irmãos e irmãs, nós
pouco sabemos quantas de nossas orações são abomináveis ao Senhor! Seria uma
abominação para você, e para mim, ouvir os homens nos perguntando nas ruas, como se
eles não precisassem do que pediram. Mas não fizemos o mesmo com Deus? Não é esta
a maior dádiva do Céu para o homem e tornou-se para nós um dever morto e seco? Foi
dito de John Bradford que tinha uma arte peculiar na oração, e quando perguntado sobre o
seu segredo, ele disse: “Quando eu sei o que eu preciso, eu sempre insisto nesta oração
até que eu sinta que eu a pleiteei com Deus, e até que Deus e eu tenhamos comunhão um
com o outro nela. Eu nunca vou para outra petição até que eu tenha passado pela primeira”.
Infelizmente, alguns homens começam: “Pai nosso que está no céu, santificado seja o Teu
nome”; e antes que eles já tenham percebido o pensamento de adoração — “Santificado
seja o Teu nome” — eles começaram a repetir as palavras seguintes: “Venha o Teu Reino”.
Então talvez algo atinge sua mente: “Será que eu realmente quero que o Seu Reino venha?
Se fosse para vir agora, onde eu estaria?”. E enquanto eles estão pensando nisto, a sua
voz está continua com, “seja feita Tua vontade, assim na terra como no céu”. Então, eles
misturam-se às suas orações e executam as sentenças juntamente! Oh, permaneça em
cada uma até que você tenha realmente orado por ela! Não tente colocar duas flechas na
corda de uma vez, ambas irão se perder! Aquele que carrega a arma com as duas balas
não pode esperar ser bem sucedido! Dispare um tiro, primeiro, e depois carregue nova-
mente. Pleiteie uma vez com Deus e prevaleça, e, em seguida, pleiteie novamente! Obte-
nha primeiro uma misericórdia, e depois vá novamente para a segunda; não esteja satisfeito
em usar as cores de suas orações uma e outra até que ali não haja uma pintura para con-

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templar, mas apenas uma grande mancha, uma mancha de cores mal colocadas! Olhe para
a Oração do Senhor em si. Que claros e nítidos contornos existem nela. Há certas misericór-
dias definidas, e elas não se sobrepõem uma à outra. Ali elas permanecem, e enquanto
você olha para o todo, é uma imagem magnífica; não confusa, mas em bela ordem. Que
assim seja com suas orações! Fique em uma até que você tenha prevalecido nela, e depois
vá para a próxima. Com objetivos definidos, e com os desejos fervorosos misturados, aí
está o alvorecer da esperança de que você deve prevalecer com Deus.

Mas mais uma vez, essas duas coisas não são proveitosas se não forem misturadas com
uma ainda mais essencial e Divina qualidade, ou seja, uma fé firme em Deus. Irmãos e ir-
mãs, vocês acreditam na oração? Eu sei que vocês oram, porque vocês são o povo de
Deus. Mas vocês acreditam no poder da oração? Há muitos Cristãos que não acreditam.
Eles pensam que é uma coisa boa, e eles acreditam que às vezes ela faz maravilhas, mas
eles não pensam que a oração, a oração verdadeira, sempre é bem sucedida. Eles pensam
que o seu efeito depende de muitos outros aspectos, mas que não tem qualquer qualidade
ou potência essencial em si. Agora, a convicção da minha própria alma é que a oração é o
poder mais grandioso em todo o universo, que tem uma força mais onipotente do que a
eletricidade, atração, gravitação ou qualquer outra dessas forças secretas que os homens
chamam por nomes, mas que eles não entendem!

A oração tem tão palpável, tão verdadeira, tão certa e tão invariável influência sobre o uni-
verso inteiro como uma das leis da matéria! Quando um homem realmente ora, não é uma
questão de saber se Deus vai ouvi-lo ou não, Ele deve ouvi-lo, não porque há qualquer
compulsão na oração, mas porque há uma doce e abençoada compulsão na promessa.
Deus prometeu ouvir oração, e Ele manterá Sua promessa! Como Ele é o Deus Altíssimo
e verdadeiro, Ele não pode negar a Si mesmo. Oh, pense nisso! Que você, um homem
frágil, pode permanecer aqui e falar com Deus, e através de Deus pode mover todos os
mundos! No entanto, quando a sua oração foi ouvida, a criação não será perturbada; embo-
ra os mais grandiosos fins sejam atendidos, a providência não será desarranjada por um
único momento! Nenhuma folha cairá mais cedo da árvore; nem uma estrela se perderá em
seu curso; nem uma gota de água gotejará mais lentamente desde sua origem, tudo conti-
nuará o mesmo, e ainda assim, a sua oração terá efetuado tudo! Ela falará com os decretos
e propósitos de Deus enquanto eles estão sendo cumpridos diariamente; e todos eles dirão
para a sua oração, e clamarão: “Você é nossa irmã! Nós somos decretos e você uma ora-
ção; mas você é em si mesma um decreto, tão antigo, tão firme, tão remoto quanto nós so-
mos”. Nossas orações são os decretos de Deus em outra forma! As orações do povo de
Deus nada são, senão as promessas de Deus sopradas a partir de corações vivificados, e
as promessas são somente os decretos colocados em uma outra forma e modelo!

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Não diga: “Como podem minhas orações afetar os decretos?”. Elas não podem, exceto à
medida que as suas orações são decretos, e que, enquanto elas fluem, cada oração que é
inspirada pelo Espírito Santo em sua alma é tão onipotente e tão eterna quanto o referido
decreto, que disse: “haja luz, e houve luz” [Gênesis 1:3]. Ou, como o referido decreto, que
escolheu o Seu povo, e decretou a sua Redenção pelo sangue precioso de Cristo! Você
tem poder na oração, e você está hoje entre os ministros mais poderosos do universo que
Deus criou. Você tem poder sobre os anjos; eles voarão por sua vontade. Você tem poder
sobre o fogo e água e os elementos da terra; você tem o poder de fazer sua voz ser ouvida
além das estrelas! Onde os trovões morrem em silêncio, sua voz deve acordar os ecos da
eternidade. Os ouvidos de Deus, Ele mesmo, deve ouvir, e as mãos de Deus concederão
à sua vontade! Ele manda você clamar: “Tua vontade seja feita”, e Sua vontade deve ser
feita! Quando você pode pleitear a Sua promessa, então a sua vontade é a Sua vontade!
Não parece, meus queridos amigos, uma coisa incrível ter um tal poder nas próprias mãos,
como o de ser capaz de orar? Às vezes você já ouviu falar de homens que fingiam ter um
poder estranho e místico pelo qual eles poderiam chamar espíritos das grandes profunde-
zas, pelo qual eles poderiam fazer chover copiosamente, ou parar o sol. Foi tudo uma
invenção da fantasia, mas se fosse verdade, o Cristão é um mágico maior ainda! Se ele
tem apenas a fé em Deus, não há nada impossível para ele! Ele será resgatado das águas
mais profundas, ele será resgatado para fora dos períodos de problemas, na fome ele
deverá ser alimentado, da peste sairá ileso, em meio à calamidade ele andará firme e forte,
na guerra, ele estará sempre protegido, e, no dia da batalha, ele deverá levantar a sua
cabeça se ele pode apenas acreditar na promessa e mantê-la diante dos olhos de Deus e
pleiteá-la com o presságio da confiança inabalável!

Não há nada, repito, não há nenhuma força tão tremenda, nenhuma energia tão maravilho-
sa, como a energia com que Deus dotou cada homem, que como Jacó pode lutar, como Is-
rael pode prevalecer com Ele em oração! Mas temos que ter fé nisto; temos de acreditar
para oração ser o que é, ou então não é o que deveria ser. A menos que eu acredite que a
minha oração seja eficaz, ela não o será, pois de minha fé ela, em grande medida, depende-
rá. Deus pode conceder-me misericórdia, mesmo quando eu não tiver fé, isto será de Sua
própria soberana graça, mas Ele não prometeu fazê-lo. Mas quando eu tenho fé, e posso
invocar a promessa com desejo sincero, já não é uma probabilidade quanto a saber se eu
vou conseguir a bênção, ou se a minha vontade deve ser feita! A menos que o Eterno Se
desvie da Sua Palavra, a menos que o juramento que Ele tem dado seja revogado, e Ele
próprio deixa de ser o que Ele é: “e qualquer coisa que lhe pedirmos, dele a receberemos”
[1 João 3:22].

E agora para darmos um passo maior. Juntamente com objetivos definidos, desejos fervo-
rosos e forte fé na eficácia da oração, e, oh, possa a graça Divina fazer assim conosco,

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deve haver misturado uma expectativa de realização! Devemos ser capazes de contar com
as misericórdias antes que as recebamos, acreditando que elas estão a caminho. Lendo
outro dia em um doce livro pequeno que eu gostaria de recomendar à atenção de todos vo-
cês, escrito por um autor americano que parece conhecer o poder da oração completamen-
te, e para quem estou em dívida por muitas coisas boas, um pequeno livro chamado The
Still Hour, [A Hora Silenciosa, por Austin Phelps – 1820-1890] encontrei-me com uma refe-
rência a uma passagem no Livro de Daniel, capítulo 10, eu acho que, onde, como ele diz,
toda a maquinaria da oração parece ser desvelada. Daniel está de joelhos em oração, e
Miguel Arcanjo vem a ele. Ele fala com ele, e diz-lhe que, tão logo Daniel começou a aplicar
o seu coração a compreender e a humilhar-se diante de Deus, as suas palavras foram
ouvidas e o Senhor tinha enviado o anjo. Então ele diz-lhe da maneira mais semelhante
aos negócios do mundo: “Eu devia ter estado aqui antes, mas o Príncipe da Pérsia me
resistiu, no entanto, o Príncipe de sua nação me ajudou, e eu vim para confortar e instruí-
lo”. Veja agora, Deus sopra o desejo em nossos corações, e assim que o desejo está lá,
antes de clamar, Ele começa a responder! Antes que as palavras tenham percorrido metade
do caminho para o Céu, enquanto elas estão ainda tremendo em nossos lábios, conhecen-
do as palavras a serem ditas, Ele começa a respondê-las, envia o anjo! O anjo vem e desce
com a bênção necessária. Ora, a coisa é uma revelação se você pudesse vê-la com seus
olhos! Algumas pessoas pensam que as coisas espirituais são sonhos, e que estamos
falando fantasias. Eu acredito que há tanta realidade na oração de um Cristão como em um
relâmpago; e a utilidade e excelência da oração de um Cristão pode ser tão sensatamente
conhecida como o poder do relâmpago quando ele rasga uma árvore, quebra-lhe os ramos,
e a fende até a raiz!

A oração não é uma fantasia ou ficção! É uma coisa real verdadeira coagindo o universo,
ligando as Leis de Deus em grilhões, e compelindo o Alto e Santo a ouvir a vontade de Sua
pobre, porém favorecida criatura: o homem! Mas precisamos sempre acreditar nela;
precisamos exercer uma firmeza na oração, para contar sobre as misericórdias antes que
elas venham, para ter certeza de que elas estão chegando! Para agir como se as tivesse-
mos! Quando você pediu pelo seu pão de cada dia, não mais esteja incomodado com
cuidados, mas creia que Deus ouviu você, e dará isso para você! Depois de ter levado o
caso do seu filho doente diante de Deus, acredite que a criança vai se recuperar, ou se ele
não se recuperar, isso será uma bênção maior para você e mais glória a Deus e, assim,
leve isto a Ele. Seja capaz de dizer: “Eu sei que Ele me ouviu agora. Eu estarei na minha
torre de vigia; vou procurar meu Deus, e ouvir o que Ele dirá para a minha alma”. Você
alguma vez estará desapontado assim; Cristão, quando você orou com fé e esperou a
resposta? Presto meu testemunho aqui, nesta manhã, que eu nunca tive confiança nEle e
encontrei que Ele falhou comigo! Eu tenho confiado no homem e fui engado, mas o meu
Deus jamais negou o pedido que fiz a Ele quando eu tenho feito o pedido crendo em Sua
disposição de ouvir, e na certeza de Sua promessa!

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Mas eu ouço alguém perguntar: “Podemos orar por coisas temporais?”. Sim, você pode!
Em tudo, dê a conhecer as suas necessidades a Deus. Não é apenas para o espiritual, mas
para preocupações cotidianas. Leve seus menores dissabores diante dEle! Ele é um Deus
que ouve a oração; Ele é o Deus de seu lar, bem como o Deus do Santuário; esteja sempre
levando tudo o que você tem diante de Deus! Como um homem bom, que está prestes a
se unir com esta Igreja, me contou que sua esposa partiu: “Oh”, ele disse, “ela era uma mu-
lher que eu nunca poderia chegar a fazer qualquer coisa até que ela fizesse disto assunto
de sua de oração. Seja ela qual fosse, ela costumava dizer: ‘Eu devo fazer disto um assunto
de oração’”. Oh, por mais deste doce hábito de espalhar tudo diante do Senhor, assim como
fez Ezequias com a carta de Rabsaqué! Apresente-a, dizendo: “Tua vontade seja feita; me
entrego a Ti!”. Os homens dizem que o Sr. Muller de Bristol está entusiasmado porque ele
vai reunir 700 crianças e acreditamos que Deus proverá para eles, embora não há nada na
bolsa, muitas vezes, mas ele acredita que virá! Meus queridos irmãos e irmãs, ele não é
um entusiasta; ele só está fazendo o que deve ser a ação comum de todos os Cristãos! Ele
está agindo sobre uma regra em que os mundanos sempre zombarão porque eles não en-
tendem isso, um sistema que deve parecer sempre fraco ao julgamento do senso, visionário
e romântico, mas que nunca parecerá assim para o filho de Deus! Ele não age sobre o
senso comum, mas sobre algo maior do que o senso comum, sobre a fé incomum! Que
tivéssemos esta fé incomum para tomar a Deus em Sua Palavra! Ele não pode, e Ele não
permitirá que o homem que confia nEle seja envergonhado ou confundido!

Tenho, portanto, agora, da melhor maneira que pude, posto diante de vocês o que eu con-
cebo ser os quatro elementos essenciais da oração que prevalece: “Por isso vos digo que
todas as coisas que pedirdes, orando, crede receber, e tê-las-eis”.

II. Tendo, assim, lhe pedido para olhar para o texto, eu quero você agora OLHE PARA VO-
CÊ. Olhe para você em nossas reuniões de oração, e olhe para você em suas intercessões
privadas, e julgue-as tanto pelo teor deste texto.

Primeiro, olhe a seu respeito nas reuniões de oração. Eu não posso falar muito claramente
sobre este assunto, porque eu sinceramente acredito que os encontros de oração, que
geralmente são realizados entre nós têm muito menos das falhas do que eu estou a ponto
de indicar do que qualquer outro que eu já participei. Mas, ainda assim, eles têm algumas
das falhas, e eu espero que o que diremos será levado pessoalmente para casa por cada
irmão que tem o hábito de se envolver publicamente em súplica em reuniões de oração.
Não é um fato, que, logo que você entra na reunião, você sente que se é chamado a orar,
você tem que exercitar um dom? E que de fato, no caso de muitos homens orando (para
falar com dureza, talvez, mas eu acho que, honestamente), encontra-se em ter uma boa

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memória para lembrar um grande número de textos que sempre foram citados desde os
tempos do avô do nosso avô, e seja capaz de repeti-los em bom estado regular. O dom re-
side também em algumas igrejas, especialmente nas igrejas de vilas, em ter fortes pulmões,
de modo a ser capaz de resistir, sem respirar por 25 minutos quando são breves, e de três
quartos de hora, quando você se prolonga mais! O dom se encontra também no poder de
não pedir nada em particular, mas ao passar por uma série de tudo, não fazendo da oração
uma seta para um ponto, mas sim uma máquina indefinida que não tem nenhum ponto que
seja, e ainda assim se entende ser todo momento, que se destina a tudo e, consequente-
mente, nada! Esses irmãos são muitas vezes os mais frequentes a orar, os que têm aqueles
peculiares, e talvez, dons excelentes, embora eu certamente devo dizer que eu não posso
obedecer a injunção do Apóstolo em cobiçar muito sinceramente tais dons como estes!

Agora, se em vez disso, semelhantemente, um homem é convidado a orar, o qual nunca


orou antes em público. Suponho que ele se levante e diga: “Ó Senhor, eu me sinto um pe-
cador que mal posso falar conTigo. Senhor, ajuda-me a orar! Ó Senhor, salve minha pobre
alma! Que Tu salves meus velhos companheiros! Senhor, abençoe nosso ministro! Se
agrade em nos dar um avivamento. Ó Senhor, eu não posso dizer mais nada; ouça-me por
causa de Jesus! Amém”. Bem, então, você sente de alguma forma, como se você tivesse
começado a orar por si mesmo! Você sente um interesse neste homem, em parte por medo
que ele não deva parar, e também porque você tem certeza que o que ele disse, ele queria
dizer. E se outro deve levantar-se, depois disso, e orar com o mesmo espírito, você sai e
diz: “Esta é a verdadeira oração”. Eu preferiria ter três minutos de oração como essa do
que 30 minutos de outro tipo, porque aquele está orando, e o outro está pregando!

Permitam-me citar o que um velho pregador disse sobre o tema da oração, e dar-lhe a você
como uma pequena palavra de conselho: “Lembre-se, o Senhor não te ouvirá por causa da
aritmética de suas orações, Ele não conta suas quantidades. Ele não te ouvirá por causa
da retórica de suas orações, Ele não se importa com a linguagem eloquente em que é
transmitida. Ele não vai ouvi-lo por causa da geometria de suas orações, Ele não as compu-
ta pelo seu comprimento, ou por sua amplitude. Ele não vai considerá-lo por causa da
musicalidade de suas orações, Ele não se importa com vozes doces, nem com frases
harmoniosas. Nem Ele olhará para você, devido à lógica de suas orações, porque elas são
bem organizadas e excelentemente divididas. Mas Ele ouvirá você e Ele medirá a quanti-
dade da bênção que Ele lhe dará de acordo com a Divindade de suas orações! Se você
pode pleitear na Pessoa de Cristo, e se o Espírito Santo o inspirar com zelo e fervor, as
bênçãos que você deve pedir, certamente virão para você”.

Irmãos, eu gostaria de queimar todo o estoque de orações antigas que temos utilizado
nestes 50 anos; qual “o óleo que vai de vasilha para vasilha”; qual “cavalo que corre para a

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batalha”; qual o texto citado, mutilado, “onde dois ou três se encontraram, você estará no
meio deles, para abençoá-los”, e todas as outras citações que temos vindo a fabricar, pas-
sando a cópia de homem para homem! Eu gostaria que nós viéssemos a falar com Deus
apenas algo que saísse da nossa própria cabeça! Seria uma coisa grande para nossas
reuniões de oração, que seriam melhor atendidas, e estou certo de que seriam mais provei-
tosas se cada homem se livrasse daquele hábito de formalidade e falasse com Deus como
um filho fala com seu pai, pedindo-Lhe pelo que precisamos, e, em seguida, sentasse-se e
concluísse! Digo isto com toda a seriedade Cristã. Muitas vezes, porque eu não escolhi orar
em qualquer forma convencional, as pessoas disseram: “Esse homem não é reverente!”.
Meu querido senhor, você não é um juiz da minha reverência! Para o meu próprio Mestre,
eu estou de pé ou caio. Eu não penso que Jó citou ninguém; eu não penso que Jacó citou
o velho santo no Céu, seu pai, Abraão. Eu não encontro Jesus Cristo citando a Escritura
em oração. Eles não oraram com as palavras de outras pessoas, mas eles oraram com as
suas próprias. Deus não precisa que você vá recolhendo aquelas excelentes, mas muito
obsole-tas especiarias do antigo santuário; Ele quer o novo óleo destilado apenas da
azeitona fresca de sua própria alma! Ele quer especiarias e incenso, e não dos velhos baús,
onde foram guardados até que tenham perdido o seu sabor, mas Ele quer incenso e mirra
frescos, trazidos do Ofir da experiência de sua própria alma! Olhe bem para aquilo que você
realmente ora, não aprenda a linguagem da oração, busque o espírito de oração, e Deus
Todo-Poderoso te abençoe e te faça mais poderoso em suas súplicas.

Eu disse: “Olhe para você”. Eu quero que você continue o trabalho e olhe em volta para
seus próprios quartos. Ó, irmãos e irmãs, não há nenhum lugar para onde alguns de nós
precisamos estar tão envergonhados de olhar, como para a porta de nosso quarto! Não
posso dizer que as dobradiças estão enferrujadas; elas abrem e fecham em suas solenida-
des. Eu não posso dizer que a porta está trancada e selada, nós não negligenciamos a
oração em si mesma, mas aquelas paredes, aquelas vigas para fora da parede, tal como
um conto podem dizer! “Oh”, a parede pode gritar, “eu ouvi você quando estava com tanta
pressa que mal conseguia passar dois minutos com o seu Deus! E eu ouvi você, também,
quando não estava nem dormindo nem acordado, e quando você não sabia o que estava
dizendo”. Então, uma viga pode clamar: “Eu ouvi você vir e passar 10 minutos e não pedir
nada, pelo menos o seu coração não pediu, os lábios se moviam, mas o coração estava
em silêncio”. Como uma outra viga pode clamar: “Eu ouvi você gemer em sua alma, mas
eu vi você ir embora desconfiado, sem acreditar que sua oração foi ouvida, citando a prome-
ssa, mas não pensando que Deus a cumpriria”. Certamente as quatro paredes do quarto
podem vir juntas e cair sobre nós, em Sua ira, porque nós temos tantas vezes insultado
Deus com a nossa incredulidade, e com a nossa pressa e com toda sorte de pecados. Te-
mos insultado a Ele mesmo em Seu assento de misericórdia, no local onde Sua condescen-
dência é mais plenamente manifestada! Não é assim com você? Não devemos confessar

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isto, de nossa parte? Vejam, pois, irmãos e irmãs Cristãos, que uma mudança seja feita e
que Deus possa torna-los mais poderosos e mais bem sucedidos em suas orações do que
têm sido até agora!

III. Mas, para não mais detê-lo, o último ponto é, olhe para cima, OLHE PARA CIMA. Olhem
para cima, irmãos e irmãs Cristãos, e deixem-nos clamar. Ó, Deus, o Senhor nos deu uma
arma poderosa, e nós temos permitido que ela enferruje! [...] Não seria um crime vil se um
homem tivesse um olho dado a ele que ele não abrisse, ou uma mão que ele não quisesse
levantar, ou um pé que cresceu duro porque ele não quis usá-lo? E o que devemos dizer
de nós mesmos, quando Deus nos deu poder na oração, o poder incomparável, cheio de
bem-aventurança para nós mesmos e as misericórdias inumeráveis para os outros, e este
poder ainda está estagnado? Oh, se o universo fosse tão imóvel quanto somos, onde
deveríamos estar? Ó Deus, Tu dás a luz do sol, e ela brilha com ele! Tu dás a luz, mesmo
para as estrelas e elas brilham; aos ventos Tu dás força e eles sopram; e para o ar Tu dás
vida e move-se, e os homens o respiram! Mas, para o Teu povo Tu deste um presente que
é melhor do que a força, a vida, e a luz, e ainda assim eles permitem que ele permaneça
inerte, quase esquecido que eles possam exercer tal poder, raramente o exercitam, embora
eles seriam abençoados com incontáveis miríades! Chore, Cristão! Constantino, o impera-
dor de Roma, viu que nas moedas de outros imperadores, suas imagens estavam em uma
postura ereta, triunfando. Em vez disso, sobre a mesma, ele ordenou que a sua imagem
estivesse de joelhos, pois ele disse: “Esse é o caminho pelo qual eu tenho triunfado”. Nós
nunca triunfaremos até que a nossa imagem esteja gravada de joelhos!

A razão pela qual temos sido derrotados, e assim, que nossos estandartes estão na poeira,
é porque não temos orado. Vão, voltem para o seu Deus, com tristeza, confessem perante
Ele, filhos de Efraim, que estando armados e levando arcos, viraram as costas no dia da
batalha! Vá ao seu Deus e diga-Lhe que se as almas não estão salvas, não é porque Ele
não tem poder para salvar, mas porque você nunca teve dores de parto, por assim dizer,
pelo nascimento de pecadores perecendo! Seus corações não têm soado como uma harpa
por Quir-Heres [Isaías 16:11], nem o seu espírito foi movido por causa das defesas da tribo
de Rubem. Acordem, acordem, vós povo de Israel; sejam surpreendidos, vocês, descuida-
dos, vocês que têm negligenciado a oração. Vocês pecadores que estão na própria Sião, e
que estão à vontade, despertai-vos! Lutem e se esforcem com o seu Deus, e, em seguida,
a bênção virá, as primeiras e as últimas chuvas de Sua misericórdia, e a terra produzirá
abundantemente, e todas as nações O chamarão bem-aventurado! Olhem para isso então,
e clamem.

Uma vez mais, olhe para cima e se alegre. Apesar de você ter pecado contra Ele, Ele te

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ama mesmo assim! Você não tem orado a Ele, nem buscado sua Face, mas eis que Ele
ainda clama a você: “Buscai a Minha Face”. E Ele não diz: “Buscai-me em vão”. Você pode
não ter ido até a fonte, mas ela flui tão livremente quanto antes. Você fecha os olhos para
o sol, mas ele ainda brilha sobre você com todo o seu resplendor. Você não tem sido atraído
para perto de Deus, mas Ele espera ser ainda gracioso, e está pronto para ouvir todas as
suas petições! [...] Que bendita coisa que é que o Senhor no Céu está sempre pronto para
ouvir! Agostinho tem um pensamento muito bonito sobre a parábola do homem que bateu
na porta de seu amigo à meia-noite, dizendo: “Amigo, dá-me três pães” [Lucas 11:5]. Sua
paráfrase decorre algo parecido com isso: “Eu bato na porta de misericórdia, e é na calada
da noite; não virão alguns servos da casa me responder? Não, eu bato, mas eles estão
dormindo. Ó, vocês Apóstolos de Deus, vocês mártires glorificados, vocês estão dormindo,
vocês descansam em suas camas, vocês não podem ouvir a minha oração! Mas não
responderão os filhos? Os filhos não estão prontos para vir e abrir a porta para o seu irmão?
Não. Eles estão dormindo. Meus irmãos que partiram, com quem tive doce conselho, os
quais eram os companheiros do meu coração, você não podem me responder, pois vocês
descansam em Jesus. Suas obras vos seguiram, mas vocês não podem trabalhar para
mim. Mas, enquanto os servos estão dormindo, e enquanto os filhos não podem responder,
o Mestre está desperto, acordado à meia-noite também! Pode ser meia-noite para a minha
alma, mas Ele me ouve, e quando eu estou dizendo: ‘Dê-me três pães’, Ele vem para a
porta e me dá tanto quanto eu preciso”. Cristão, olhe para cima, então, e alegre-se! Há sem-
pre um ouvido aberto, se você tem uma boca aberta! Há sempre uma mão pronta, se você
tem um coração pronto! Você tem apenas que clamar, e o Senhor ouve! Não, antes de
chamar, Ele responderá, e, enquanto você está falando, Ele ouvirá! Não recuem, então, em
oração! Vão até Ele quando chegar à sua casa. Não, em sua própria maneira, levantem os
seus corações em silêncio, e qualquer que seja a sua petição ou pedido, peçam em o Nome
de Jesus, e isso vos será feito.

No entanto, mais uma vez, olhem para cima, queridos irmãos e irmãs Cristãos, e alterem
suas orações a partir de agora. Olhem para a oração não mais como uma ficção romântica
ou como um dever árduo. Olhem para ela como um verdadeiro poder, como um verdadeiro
prazer. Quando os filósofos descobrem algum poder latente, eles parecem ter um prazer
de colocá-lo em ação. Eu acredito que tem havido muitos grandes engenheiros que proje-
taram e construíram algumas das mais maravilhosas obras humanas não porque eles seri-
am remunerados, mas simplesmente por um amor de mostrar seu próprio poder para reali-
zar maravilhas, para mostrar ao mundo o que a habilidade poderia fazer, e o que o homem
pode realizar; eles têm tentado empreendimentos em especulações que podem nunca ser
remunerados, tanto quanto eu posso ver, a fim de que eles possam ter uma oportunidade
de mostrar sua genialidade. Ó Cristãos, será uma grande tentativa empreender grandes
obras, e exibir o seu poder, e você que tem um poder mais forte do que jamais foi exercido

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por qualquer homem além de seu Deus, você permitirá permanecer assim? Não, pensem
em algum grande objetivo e estiquem os tendões de sua súplica por ele! Que cada veia do
seu coração esteja cheia até à borda com o rico sangue do desejo, peleje, e lute e se
esforce com Deus por ele, usando as promessas e pleiteie os atributos, e veja se Deus não
lhe dá o desejo do seu coração. Eu desafio você neste dia a exceder em oração a recom-
pensa do meu Mestre! Eu lanço o desafio para você! [...] Abra sua boca tanto que Ele não
possa preenchê-la! Vá para Ele agora por mais fé nas firmes promessas [...] Tente fazê-lo,
ou como eu prefiro colocá-lo assim, leve as suas petições e necessidades e veja se Ele não
honrará você. Experimente se você crê que Ele cumpre a promessa e o abençoa ricamente
com o óleo da unção do Seu Espírito pelo qual você será poderoso em oração!

Não posso deixar de acrescentar apenas estas poucas sílabas antes que vocês vão embo-
ra. Eu sei que há alguns de vocês que nunca oraram em suas vidas. Você fez algum tipo
de oração, talvez, muitos anos, mas nunca orou sequer uma vez. Ah, pobre alma, você de-
ve nascer de novo, e até que seja nascido de novo você não pode orar como tenho instruído
o Cristão a orar. Mas deixe-me dizer isto a você. Será que o seu coração por muito tempo
busca a salvação? Tem o Espírito sussurrado: “Vinde a Jesus, pecador, Ele ouvirá você”?
Acredite neste sussurro, pois Ele te ouvirá! A oração do pecador despertado é aceitável a
Deus. Ele ouve o quebrantado de coração e cura-o também. Leve os seus gemidos e seus
suspiros a Deus e Ele te responderá. “Ah, mas”, diz alguém, “não tenho nada a declarar”.
Bem, apenas peça como fez Davi: “Perdoe a minha iniquidade, pois é grande” [Salmos
25:11]. Você tem esse fundamento, a sua iniquidade é muito grande! Então pleiteie pelo
sangue precioso, para que todo apelo prevaleça, diga: “Por causa de Seu Amado que
derramou o Seu sangue”, e você prevalecerá, pecador! Mas não vá a Deus e peça miseri-
córdia com o seu pecado em suas mãos; o que você pensa sobre o rebelde que apareceu
diante da face de seu soberano, e pediu perdão com a adaga da degola em seu cinto e
com a declaração de sua rebelião em seu peito? Será que ele merece ser perdoado? Ele
não poderia merecê-lo, em qualquer caso, e certamente ele mereceria dupla condenação
por ter assim zombado de seu mestre enquanto ele fingiu estar procurando por misericórdia!
Se uma mulher houvesse abandonado seu marido, você acha que ela teria o descaramento,
com testa de bronze, de voltar e pedir o seu perdão inclinando-se sobre o braço do seu
amante? Não, ela não poderia ter tal descaramento, e ainda é assim com você, talvez
pedindo misericórdia e permanecendo no pecado, orando para se reconciliar com Deus, e
ainda assim acalentando e entregando-se às suas luxúrias! Desperte! Desperte! E invoque
o teu Deus, pecador! O barco se aproxima da rocha, talvez amanhã possa bater e ser
sacudido, e você será lançado nas profundezas insondáveis da condenação eterna!

Eu digo, invoque o seu Deus; e quando você O invocar, lance fora o seu pecado, ou Ele não
o ouvirá. Se você levantar as mãos profanas com uma mentira em sua mão direita, uma

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oração é inútil em seus lábios! Ó, venha a Ele, diga-Lhe: “Tire toda a iniquidade; nos receba
graciosamente; ame-nos livremente”, e Ele ouvirá você, e você deve ainda orar como prínci-
pe prevalecente e um dia deverá estar como os mais que vencedores diante do trono estre-
lado dAquele que para sempre reina sobre todos, Deus bendito para todo o sempre! Amém.

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Orações Puritanas

Sumário:

Em Oração...................................................................................................................256
Dedicação Matinal.......................................................................................................256
Necessidades Matinais................................................................................................257
Manhã..........................................................................................................................258
Sinceridade..................................................................................................................258
Anseios por Deus.........................................................................................................259
Encontro com Deus...................................................................................................259
Devoção...................................................................................................................... 260
Auxílio Divino...............................................................................................................261
Confissão e Petição.....................................................................................................261
Consagração e Adoração............................................................................................262
O Vale da Visão...........................................................................................................263
Contentamento.............................................................................................................263
As Profundezas...........................................................................................................264
Graça Ativa..................................................................................................................265
Corrupções do Coração...............................................................................................265
Purificação...................................................................................................................266
Refúgio.........................................................................................................................267
Auxílio Espiritual..........................................................................................................268
Descansando em Deus................................................................................................268
Louvor Noturno............................................................................................................269
Oração da Noite...........................................................................................................270
Noite de Renovação.....................................................................................................270

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Em Oração

Ò, Senhor, em oração eu lanço-me além, no mundo eterno, e neste grande oceano minha
alma triunfa sobre todos os males, às margens da mortalidade. O tempo, com os seus diver-
timentos alegres e decepções cruéis nunca parecem tão irrefletidos quanto nessa ocasião.

Em oração vejo-me como nada; Encontro meu coração buscando-Te com intensidade e
anelo com sede veemente viver para Ti. Bendito sejam os fortes ventos do Espírito que me
apressam em meu caminho para a Nova Jerusalém.

Em oração todas as coisas aqui abaixo desaparecerem, e nada parece importante, senão
a santidade de coração e a salvação dos outros.

Em oração todas as minhas preocupações mundanas, medos, angústias desaparecem, e


são de tão pouca importância como um sopro de vento.

Em oração minha alma exulta interiormente com pensamentos vivificados com o que Tu
estás fazendo pela Tua Igreja, e eu anseio que Tu obtenhas um grandioso nome da parte
dos pecadores que voltam a Sião.

Em oração eu sou erguido acima das carrancas e lisonjas da vida, e saboreio as alegrias
celestes; entrando no mundo eterno eu posso entregar-me a Ti com todo o meu coração,
para ser Teu para sempre.

Em oração eu posso colocar todas as minhas preocupações em Tuas mãos, estar inteira-
mente à Tua disposição, não tendo nenhuma vontade ou interesse próprio.

Em oração eu posso interceder pelos meus amigos, ministros, pecadores, pela igreja, Teu
reino vindouro, com maior liberdade, esperanças ardentes, como um filho ao seu pai, como
alguém que ama ao seu amado.

Ajuda-me a estar sempre em oração e nunca cessar de orar.

•••

Dedicação Matinal

Deus todo-poderoso, enquanto eu cruzo o limiar deste dia, eu confio a mim mesmo, alma,

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corpo, afazeres, amigos, ao Teu cuidado. Vigia-me, guarda-me, orienta-me, dirija-me, santi-
fica-me, abençoa-me. Inclina o meu coração para os Teus caminhos. Molda-me totalmente
à imagem de Jesus, como um oleiro faz com o barro. Que meus lábios sejam uma harpa
bem afinada para ressoar Teu louvor. Faça com que aqueles ao redor de mim vejam-me
vivendo pelo Teu Espírito, pisando o mundo sob os pés, não conformado às mentirosas
vaidades, transformado por uma mente renovada, revestido de toda a armadura de Deus,
brilhando como uma luz que nunca esmaece, demonstrando santidade em todas as minhas
ações. Não permita que nenhum mal neste dia manche meus pensamentos, palavras,
mãos. Que eu possa peregrinar em caminhos lamacentos com uma vida pura de mancha
ou mácula. Em operações necessárias, faça com que minha afeição esteja no Céu, e meu
amor elevado em labaredas de fogo, meu olhar fixo em coisas invisíveis, meus olhos aber-
tos para o vazio, fragilidade, zombaria da terra e de suas vaidades. Que eu possa enxergar
todas as coisas no espelho da eternidade, à espera da vinda de meu Senhor, ouvindo o
chamado da última trombeta, apressando os novos Céu e terra. Ordene neste dia todas as
minhas comunicações de acordo com a Tua sabedoria, e ao ganho do bem comum. Não
permita que eu não seja beneficiado ou feito útil. Que eu possa falar cada palavra como se
fosse a minha última palavra, e andar cada passo como o meu último. Se a minha vida
findar hoje, que este seja o meu melhor dia.

•••

Necessidades Matinais

Oh Deus, o autor de todo bem, eu venho a Ti pela graça que mais um dia necessitará para
seus deveres e ocasiões. Eu saio para um mundo perverso; eu trago comigo um coração
mau. Eu sei que sem Ti eu não posso fazer nada, de forma que tudo com o que eu esteja
preocupado, embora inofensivo em si mesmo, pode revelar-se uma ocasião de pecado ou
de insensatez, a menos que eu seja sustentado por Teu poder. Segura-me e estarei à salvo.

Preserve o meu entendimento da sutileza do erro, meus afetos do amor aos ídolos, o meu
caráter da mancha do vício, a minha confissão de toda forma de mal. Que eu não participe
de nada em que eu não possa implorar a Tua bênção, e em que eu não possa convidar a
Tua inspeção. Prospera-me em todos os empreendimentos legais, ou prepara-me para as
decepções. Não me conceda nem pobreza nem riqueza. Alimente-me com alimento conve-
niente para mim, para que eu não esteja abastado e negue a Ti e diga: Quem é o Senhor?
Ou seja pobre, e roube, e tome o Teu nome em vão.

Que cada criatura seja boa para mim pela oração e pela Tua vontade. Ensina-me a utilizar
o mundo e não abusar dele, para que melhore os meus talentos, redima o meu tempo, ande

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em sabedoria para com os de fora, e em bondade para com os de perto, para que faça o
bem a todos os homens e, especialmente, aos meus irmãos Cristãos. E a Ti seja a glória.

•••

Manhã

Senhor Compassivo, Tuas misericórdias me trouxeram ao amanhecer de outro dia. Vão


será este dom, a menos que eu cresça na graça, aumente em conhecimento, amadureça
para a colheita espiritual. Permita-me neste dia conhecer-Te como és, amar-Te suprema-
mente, servi-Te totalmente, admirar-Te plenamente. Por meio da graça, faça com que
minha vontade responda-Te, sabendo que o poder de obedecer não está em mim, mas que
somente o Teu livre amor me capacita a servir-Te. Aqui, então, está o meu vazio coração,
transborde-o com Teus dons preciosos; aqui está o meu cego entendimento, afugente as
suas brumas de ignorância.

Oh, sempre vigilante Pastor, conduz-me, guia-me, cuide de mim neste dia; sem Teu cajado
de restrição eu erro e me perco. Limite o meu caminho para que eu não vagueie em nocivo
deleite, e beba seus fluxos venenosos; dirige os meus pés para que eu não seja enredado
nos laços secretos de Satanás, nem caia em suas armadilhas ocultas. Defende-me dos
ataques inimigos, de circunstâncias más, de mim mesmo. Meus adversários são parte inte-
grante de minha natureza; se agarram a mim como a minha própria pele; eu não consigo
escapar de seu contato. No meu levantar e deitar eles grudam em mim, eles atraem com
iscas constantes; meu inimigo está no interior da cidadela. Venha com poder onipotente e
expulse-o, fira-o à morte, e anule em mim, neste dia, cada partícula de vida carnal.

•••

Sinceridade

Senhor da imortalidade, diante de quem os anjos e arcanjos escondem o rosto, capacita-


me a servi-lO com reverência e piedoso temor. Tu que és Espírito e requer verdade no ínti-
mo, me ajude a Te adorar em espírito e em verdade. Tu que és justo, não me deixe abrigar
o pecado em meu coração, ou satisfazer um temperamento mundano, ou buscar satisfação
nas coisas que perecem.

Apresso-me em direção a um momento quando os propósitos e posses terrenos parecerão

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vãos, quando será indiferente se eu tenho sido rico ou pobre, bem-sucedido ou decepcio-
nado, admirado ou desprezado. Mas será de um momento eterno se eu tenho lamentado
pelo pecado, sentido fome e sede de justiça, amado o Senhor Jesus com sinceridade, glori-
ando-me em Sua Cruz. Que estes objetivos absorvam minha principal solicitude! Produza
em mim esses princípios e disposições que tornam o Teu culto em perfeita liberdade.

Expulsa de minha mente todo o medo e vergonha pecaminosos, para que, com firmeza e
coragem eu possa confessar o Redentor diante dos homens, prosseguir com Ele ouvindo
a sua reprovação, ser zeloso com o Seu conhecimento, ser preenchido com a Sua sabedo-
ria, caminhar com Sua circunspecção, solicitar o Seu conselho em todas as coisas, recorrer
às Escrituras por Suas ordens, manter em minha mente a Sua paz, sabendo que nada pode
me acontecer sem Sua permissão, nomeação e administração.

•••

Anseios por Deus

Meu querido Senhor, eu posso apenas dizer que Tu sabes que eu não anseio por nada,
senão Tu mesmo, nada, a não ser santidade, nada a não ser união com a Tua vontade. Tu
me concedeste esses desejos, e só Tu podes dar-me o que é desejado. A minha alma
anseia por comunhão com o Senhor, por mortificação da corrupção que habita dentro de
mim, especialmente o orgulho espiritual. Quão precioso é ter um terno sentimento e clara
apreensão do mistério da piedade, da verdadeira santidade! Que bem-aventurança é ser
como Tu, tanto quanto for possível para uma criatura ser como Seu Criador! Senhor, dá-
me mais da Tua semelhança; dilata a minha alma para conter a plenitude da santidade;
faça-me viver mais para Ti. Ajuda-me a estar menos satisfeito com as minhas experiências
espirituais, e quando eu me sinto à vontade após doces comunhões, ensina-me que é muito
pouco o que eu conheço e faço.

Bendito Senhor, permita-me elevar-me para perto de Ti, e amar, e anelar, e pleitear, e lutar
conTigo, e aspirar pela libertação do corpo de pecado, pois meu coração está errante e
sem vida, e minha alma lamenta-se ao pensar que alguma vez perca de vista o Seu Amado.
Envolve a minha vida em Divino amor, e mantenha-me sempre desejoso por Ti, sempre
humilde e resignado à Sua vontade, mais fixo em Ti mesmo, para que eu possa estar mais
capacitado para a obra e sofrimento.

•••
Encontro com Deus

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Grande Deus, em público e privado, no santuário e em casa, seja minha vida imersa em
oração, cheia do espírito de graça e de súplicas, cada oração perfumada com o incenso do
sangue expiatório. Ajude-me, defende-me, até que do orar no chão eu passe para o reino
de louvor incessante. Instado pela minha necessidade, convidado por Tuas promessas,
chamado pelo Teu Espírito, eu entro em Tua presença, adorando-Te com piedoso temor,
impressionado com Tua majestade, grandeza, glória, todavia incentivado por Teu amor.

Eu sou totalmente miserável, bem como totalmente culpado, não tendo nada de mim mes-
mo com o que recompensar-Te, mas eu trago Jesus a Ti, nos braços da fé, pedindo à justiça
dEle que compense as minhas iniquidades, regozijando-me de que Ele será pesado na
balança por mim, e satisfará a Tua justiça. Bendigo-Te que do grande pecado tira grande
graça, que, embora com receio de que o pecado mereça punição infinita por ser cometido
contra um Deus infinito, ainda assim, há misericórdia para mim, pois onde a culpa é mais
terrível, ali a Tua misericórdia em Cristo é mais livre e profunda. Abençoa-me, revelando-
me mais de Teus méritos salvíficos, fazendo com que Tua bondade passe adiante de mim,
falando de paz ao meu coração contrito; fortalece-me para que eu não Te deixe até que
Cristo reine supremo em meu interior, em cada pensamento, palavra e ação, em uma fé
que purifica o coração, vence o mundo, opera pelo amor, prende-me a Ti, e sempre se
apega à cruz.

•••

Devoção

Deus, meu fim, o meu maior e mais nobre prazer é estar familiarizado conTigo e com a mi-
nha alma imortal e racional; é doce e deleitoso olhar para o meu ser quando todos os meus
poderes e paixões estão unidos e empenhados em buscar-Te, quando minha alma anseia
e apaixonadamente suspira por conformidade conTigo e pelo pleno gozo de Ti; nenhumas
horas passam com tanto prazer quanto as que são gastas em comunhão com o Senhor e
com o meu coração.

Oh, quão desejável, quão proveitoso para a vida Cristã é um espírito de santa vigilância e
zelo de Deus sobre mim quando a minha alma nada teme, exceto o pesar de ofender-Te,
Deus bendito, meu Pai e amigo, a quem eu amo e anseio com deleite, ao invés de ser feliz
em mim mesmo! Sabendo, como eu sei, que este é o temperamento piedoso, digno da mais
alta ambição, e a mais alta busca das criaturas inteligentes e Cristãos consagrados, que
minha alegria se derive de glorificar a Ti e deleitar-me em Ti. Anseio preencher todo o meu
tempo para Ti, seja em casa ou no caminho; colocar todas as minhas preocupações em

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Tuas mãos; estar inteiramente à Tua disposição, não tendo nenhuma vontade ou interesse
próprio. Ajuda-me a sempre viver para Ti, a tornar-Te o meu último e único fim, para que
eu nunca mais em qualquer circunstância ame meu próprio eu pecaminoso.

•••

Auxílio Divino

Tu és o Deus Bendito, feliz em Si mesmo, fonte de felicidade para Tuas criaturas, meu cria-
dor, benfeitor, possuidor, defensor. Tu me criaste e tens me sustentado, me auxiliado e li-
vrado, me salvado e guardado; Tu és, em cada situação, capaz de satisfazer as minhas
necessidades e misérias.

Que eu viva por Ti, viva para o Senhor, nunca sendo satisfeito com o meu progresso Cris-
tão, senão à medida que eu me assemelhar a Cristo; e puder ser conformado com Seus
princípios, temperamento e conduzido a crescer a cada hora em minha vida. Deixe Teu
amor sem precedentes restringir-me à santa obediência, e torna o meu dever em meu pra-
zer. Se os outros julgarem minha fé como loucura, minha mansidão como fraqueza, meu
zelo como tolice, minha esperança como ilusão, minhas ações como hipocrisia, me alegro
em poder sofrer pelo Teu nome.

Mantenha-me caminhando firmemente em direção ao país das delícias eternas, que o pa-
raíso seja a minha verdadeira herança. Auxilia-me pela força do Céu que eu nunca venha
a voltar atrás, ou desejar prazeres enganosos que se acabarão em nada. Enquanto eu sigo
minha jornada celestial, pela Tua graça, me deixe ser conhecido como um homem sem
ambições, senão de um desejo ardente por Ti, e pelo bem e a salvação de meus seme-
lhantes.

•••

Confissão e Petição

Santo Senhor, tenho pecado por vezes sem número, e sido culpado de orgulho e increduli-
dade, de falhas em encontrar Tua mente em Tua Palavra, de negligência em buscar-Te em
minha vida diária. Minhas transgressões e inconstâncias apresentam-me como uma lista
de acusações, mas Bendigo-Te que estas não ficarão contra mim, por tudo ter sido colo-
cado sobre Cristo. Continue a subjugar minhas corrupções, e concede-me a graça de viver

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acima delas. Não permita que as paixões da carne, nem as concupiscências da mente
tragam o meu espírito em sujeição, mas governa-me em liberdade e poder.

Agradeço-Te que muitas das minhas orações foram recusadas. Eu pedi errado ou não
tenho pedido, eu tenho orado a partir das minhas concupiscências e sido rejeitado, eu an-
siava pelo Egito e me foi dado um deserto. Continue com Sua Obra paciente, respondendo
“não” às minhas orações erradas e me levando a aceitar isto. Purifica-me de todo desejo
falso, de toda aspiração vil, de tudo que for contrário aos Teus estatutos. Eu agradeço por
Tua sabedoria e Teu amor, pois todos os atos de disciplina a que estou sujeito, por vezes,
me colocam na fornalha para refinar meu ouro e remover minha escória.

Nenhum julgamento é tão difícil de suportar como um senso do pecado. Se Tu me permi-


tisses escolher entre o viver em prazer e manter os meus pecados ou tê-los queimados
com julgamento, dá-me aflição santificada. Livra-me de todo mau hábito, de cada acréscimo
de pecados anteriores, de tudo que ofusca o brilho da Tua graça em mim, de tudo o que
me impeça de me deleitar em Ti. Então Te bendirei, Deus de Jesurum, por me ajudar a ser
reto.

•••

Consagração e Adoração

Meu Deus, eu sinto que é o Céu Te agradar, e ser o que Tu queres que eu seja. Oh, que
eu fosse santo como Tu és santo, puro como Cristo é puro, perfeito como o Seu Espírito é
perfeito! Estes, eu sinto, são os melhores mandamentos no Teu livro, e devo desobedecê-
los? Devo quebrá-los? Estou sob tal necessidade, posto que eu vivo aqui?

Ai, ai de mim que sou um pecador, se eu ofender este Deus bendito, que é infinito em bon-
dade e graça! Oh, não, se Ele me punir por meus pecados, isto não faria meu coração ir
tão longe a ponto de ofendê-lO; mas apesar de eu pecar continuamente, Ele continuamente
renova a Sua bondade para mim.

Às vezes eu sinto que eu poderia suportar qualquer sofrimento, mas como posso desonrar
este Deus glorioso? O que devo fazer para glorificar e adorar este mais Excelente dos
seres? Oh, que eu pudesse consagrar a minha alma e o corpo para o Seu serviço, sem
restrições, para sempre! Oh, que eu pudesse me entregar a Ele, de modo a nunca mais
tentar ser de mim mesmo! ou ter qualquer vontade ou afetos que não sejam perfeitamente
conformes à Sua vontade e Seu amor! Mas, infelizmente, eu não consigo viver e não pecar.

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Oh, anjos glorifique-nO incessantemente, e, se possível, prostrem-se ao chão diante do
bendito Rei do Céu! Eu me delongo para suportar um período com eles em louvor incessan-
te; mas quando eu tiver feito tudo o que posso para a eternidade eu não serei capaz de
oferecer mais do que uma pequena fração da homenagem em relação ao que o glorioso
Deus merece. Dá-me um coração cheio de Divino e celestial amor.

•••

O Vale da Visão

Senhor, alto e santo, manso e humilde, Tu me trouxeste para o vale da visão onde eu vivo;
embora nas profundezas, vejo-Te nas alturas; cercado por montanhas de pecado eu con-
templo a Tua glória. Permita-me aprender pelo paradoxo que o caminho para baixo é o
caminho para o alto, que ser rebaixado é ser elevado, que o coração quebrantado é o cora-
ção curado, que o espírito contrito é o espírito alegre, que a alma arrependida é a alma
vitoriosa, que não ter nada é possuir tudo, que carregar a cruz é usar a coroa, que dar é
receber, que o vale é o lugar da visão. Senhor, durante o dia as estrelas podem ser vistas
a partir de poços mais profundos, e quanto mais profundos os poços, mais brilhantes Tuas
estrelas resplandecem; conceda-me encontrar Tua luz em minha escuridão, Tua vida em
minha morte, Tua alegria em minha tristeza, a Tua graça em meu pecado, Tuas riquezas
em minha pobreza, a Tua glória em meu vale.

•••

Contentamento

Pai Celestial, se eu tiver que padecer necessidade, e ficar despido, e estar em situação de
pobreza, faz meu coração estimar Teu amor, conhece-lo, ser constrangido por ele, apesar
de eu ter negado todas as bênçãos. É de Tua misericórdia o afligir-me e provar-me com
necessidades, pois, por estes caminhos eu vejo os meus pecados, e desejo a separação
deles. Permita-me de bom grado aceitar a miséria, dores, tentações, se eu puder, assim,
sentir o pecado como o maior mal, e ser liberto dele com gratidão a Ti, reconhecendo este
como o maior testemunho de Teu amor.

Quando Teu Filho, Jesus, entrou em minha alma, em vez do pecado, Ele tornou-se mais
caro para mim do que o pecado tinha sido anteriormente; Seu governo gentilmente substi-
tuiu a tirania do pecado. Ensina-me a crer que se algum dia eu tivesse algum pecado subju-

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gado devo não apenas esforçar-me para superá-lo, mas devo convidar a Cristo para habitar
no lugar dele, e Ele deve tornar-se para mim mais do que a luxúria vil havia sido; que Sua
doçura, poder e vida estejam lá. Assim, devo procurar uma graça a partir dEle ao invés do
pecado, mas não devo clamar por isso à parte dEle mesmo.

Quando eu estiver com medo dos males que virão, conforte-me ao mostrar que em mim
estou prestes a morrer, desgraçado e condenado, mas em Cristo eu estou reconciliado e
vivo; que em mim mesmo eu acho insuficiência e nenhum descanso, mas em Cristo há
satisfação e paz; que em mim mesmo que eu sou fraco e incapaz de fazer o bem, mas em
Cristo eu tenho capacidade de fazer todas as coisas. Embora agora eu tenha Tuas graças,
em parte, logo tê-las-ei perfeitamente naquele estado onde Te mostras totalmente reconci-
liado, e tão suficiente, eficaz, amando-me completamente, com o pecado abolido. Oh,
Senhor, apresse esse dia.

•••

As Profundezas

Senhor Jesus, dá-me um arrependimento mais profundo, um horror do pecado, um pavor


de aproximar-me dele. Ajude minha castidade a fugir dele e zelosamente resolver que meu
coração será somente Teu.

Dê-me uma confiança mais profunda, para que eu possa me perder para me encontrar em
Ti, o lugar de meu repouso, a primavera do meu ser. Dê-me um conhecimento mais profun-
do de Ti mesmo como Salvador, Mestre, Senhor e Rei. Dá-me maior força na oração secre-
ta, mais doçura em Tua Palavra, um segurar mais firme de Tua verdade. Dá-me santidade
mais profunda no falar, no pensar, no agir, e não me deixes buscar a virtude moral à parte
de Ti.

Are profundamente em mim, grande Senhor, lavrador celeste, para que meu ser seja um
campo arado, com as raízes da graça se espalhando por toda parte, até que somente Tu
sejas visto em mim, Tua beleza dourada como safra de verão, Tua fecundidade como a
abundância do outono.

Eu não tenho nenhum Mestre, senão a Ti somente, nenhuma lei, senão a Tua vontade,
nenhum prazer, senão a Ti mesmo, nenhuma riqueza, senão a que Tu me dás, nenhum
bem, senão a Tua bênção, nenhuma paz, senão a que o Senhor me concede. Eu não sou
nada, senão o que Tu me fazes ser. Eu não tenho nada, senão que eu recebo de Ti. Eu

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posso não ser nada, mas esta graça me adorna. Esvazia-me profundamente, querido
Senhor, e, em seguida, encha-me a ponto de transbordar com água viva.

•••

Graça Ativa

Oh Deus, que Teu Espírito fale em mim para que eu possa falar conTigo. Oh, Senhor Jesus,
grande Sumo Sacerdote, Tu abriste um novo e vivo caminho pelo qual uma criatura caída
pode se aproximar de Ti e ser aceita.

Ajuda-me a contemplar a dignidade de Tua pessoa, a perfeição de Teu sacrifício, a eficácia


da Tua intercessão.

Oh, que bem-aventurança acompanha a devoção, quando em todas as provas que me afa-
digam, os cuidados que me corroem, os medos que me perturbam, as fraquezas que me
oprimem, eu posso vir a Ti em minha necessidade e sentir a paz que excede todo enten-
dimento!

A graça que restaura é necessária para me preservar, orientar, guardar, prover e ajudar. E
aqui Teus santos incentivam a minha esperança; eles eram miseráveis e agora estão
enriquecidos, presos e agora estão livres, atribulados e agora são vitoriosos.

Cada novo chamado ao dever exige mais graça do que eu agora possuo, mas não mais do
que é encontrada em Ti, tesouro Divino em quem habita toda a plenitude. Para Ti eu olho
por graça sobre graça, até que cada vazio feito pelo pecado seja reposto e eu seja cheio
de toda a Tua plenitude.

Que os meus desejos sejam ampliados e as minhas esperanças encorajadas, para que eu
possa honrar-Te por toda a minha dependência e a grandeza da minha expectativa.

Sê comigo, e me prepare para todos os sorrisos da prosperidade, para as carrancas da


adversidade, para as perdas de bens, para a morte de amigos, para os dias de trevas, para
as mudanças da vida, e para a última grande mudança de todas. Que eu possa encontrar
Tua graça suficiente para todas as minhas necessidades.

•••
Corrupções do Coração

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Oh Deus, que Teu Espírito fale em mim para que eu possa falar conTigo. Eu não tenho ne-
nhum mérito, permita que o mérito de Jesus repouse sobre mim. Eu não mereço, mas eu
olho para a Tua misericórdia. Eu sou cheio de fraquezas, concupiscências, pecados; Tu és
cheio de graça.

Eu confesso o meu pecado, meu pecado frequente, meu pecado voluntário; todos os meus
poderes de corpo e alma estão contaminados: a fonte de poluição está enraizada dentro da
minha natureza. Existem câmaras de imagens imundas dentro de meu ser; eu tenho ido de
um aposento odioso para outro, caminhado na terra de ninguém, de imaginações perigosas,
altivo nos segredos de minha natureza caída.

Estou totalmente envergonhado do que eu sou em mim mesmo; eu não tenho nenhum
renovo em mim, nem frutos, senão espinhos e abrolhos; eu sou uma folha desaparecendo
que o vento arrebata; eu vivo nu e estéril como uma árvore de inverno, inútil, digno de ser
cortado e queimado. Senhor, Tu tens compaixão de mim?

Tu tens dado um golpe severamente o meu orgulho, o falso deus do eu, e eu quedo em
pedaços diante de Ti. Mas Tu me deste outro Mestre e Senhor, Seu Filho, Jesus, e agora
o meu coração está voltado para a santidade, a minha vida acelera como uma flecha de
um arco em direção à plena obediência ao Senhor. Ajude-me em todas as minhas ações a
acabar com o pecado e a humilhar meu orgulho. Salve-me do amor do mundo e da soberba
da vida, de tudo o que é natural para o homem caído, e deixe que a natureza de Cristo seja
vista em mim a cada dia. Dai-me a graça de suportar a Tua vontade sem murmuração e
com prazer, não só para ser cinzelado, ao quadrado ou antiquado, mas separado da velha
rocha onde estive incorporado durante tanto tempo, e tirado da pedreira para os ares
superiores, onde eu possa ser edificado em Cristo para sempre.

•••

Purificação

Senhor Jesus, eu peco. Faça com que eu nunca deixe de entristecer-me por causa disso,
nunca esteja contente comigo mesmo, nunca imagine que posso chegar a um ponto de
perfeição. Mate a minha inveja, governe a minha língua, esmague o meu eu. Dá-me a graça
de ser santo, bondoso, gentil, puro, pacífico, de viver para Ti e não para mim mesmo, de
imitar as Tuas palavras, atos, espírito, de ser transformado à Tua semelhança, de ser con-
sagrado totalmente a Ti, de viver inteiramente para a Tua glória.

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Livra-me do apego às coisas impuras, de associações erradas, da predominância das pai-
xões más, da adulação do pecado, tão logo ele surja; para que com auto-aborrecimento,
profunda contrição, sincero coração buscador eu me achegue a Ti, lance-me sobre Ti,
confie em Ti, clame a Ti, seja liberto por Ti.

Oh Deus, Todo Eterno, ajuda-me a compreender que todas as coisas são sombras, mas
que Tu és a substância, todas as coisas são areias movediças, mas Tu és a rocha, todas
as coisas estão mudando, mas Tu és a âncora, todas as coisas são ignorância, mas Tu és
sabedoria.

Se a minha vida deve ser um crisol em meio ao fogo ardente, que assim seja, mas assenta-
Te à boca da fornalha para vigiar o metal para que nada se perca. Se eu pecar voluntária,
grave, angustiadamente, em graça retire a minha tristeza e conceda-me canção; remova o
meu pano de saco e me vista com beleza; silencie meus suspiros e encha a minha boca de
cântico, a seguir, conceda-me temporada de verão como a um Cristão.

•••

Refúgio

Oh Senhor, cujo poder é infinito e sabedoria infalível, ordene as coisas de forma que elas
não possam nem impedir-me, nem desencorajar-me, nem ofereçam obstáculos para o
progresso de Tua causa. Permaneça entre mim e toda a contenda, que nenhum mal acon-
teça, nem o pecado corrompa os meus dons, zelo, realizações. Que eu possa seguir o de-
ver e não qualquer dispositivo tolo de mim mesmo. Não me permita laborar em obra que
Tu não abençoarás, para que eu possa servi-Te sem desonra ou débito. Conceda-me
habitar em Teu lugar secretíssimo, sob Tua sombra, onde a proteção é impenetrável, a
salvo da seta que voa de dia, da peste que anda na escuridão, da contenda das línguas,
da malícia da má vontade, da dor da conversa indelicada, dos laços da [má] companhia,
dos perigos da juventude, das tentações da vida madura, das aflições da velhice, do medo
da morte. Sou completamente dependente de Ti para apoio, conselho, consolo. Ampara-
me pelo Teu espírito livre, e que eu não imagine ser o suficiente de modo a estar preservado
de cair, mas que eu possa sempre prosseguir, sempre abundante na obra que Tu me dás
a fazer. Fortalece-me pelo Teu Espírito em meu interior para todo o propósito da minha vida
Cristã. Todas as minhas joias, as entrego à sombra da segurança que está em Ti, o meu
novo nome em Cristo, meu corpo, alma, talentos, caráter, meu sucesso, esposa, filhos,
amigos, trabalho, meu presente, meu futuro, meu fim. Toma-os, porque são Teus, e eu sou
Teu, agora e para sempre.

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•••
Auxílio Espiritual

Pai Eterno, é uma maravilha de amor, que Tu tenhas enviado o Teu Filho para sofrer em
meu lugar, que Tu nos deste o Espírito para ensinar, consolar, guiar, que o Senhor con-
cedeu o ministério de anjos para me proteger em redor; que todo o Céu coopere para o
bem-estar de um miserável verme. Permita que Seus servos invisíveis sejam sempre ativos
por mim, e regozijem-se quando a graça se expande em mim. Não os faça descansar até
que meu conflito esteja terminado, e eu esteja vitorioso na terra da salvação.

Conceda com que a minha propensão para o mal, amortecimento para o bem, resistência
às ações de Seu Espírito, nunca façam com que Tu me abandones. Que o meu duro cora-
ção desperte a Tua piedade, e não a Tua ira, e se o inimigo obtém uma vantagem devido
a minha corrupção, permita ser visto que o Céu é mais poderoso do que o Inferno, que
aqueles por mim são maiores do que aqueles que estão contra mim. Levanta-Te para meu
auxílio na riqueza das bênçãos da Aliança, mantenha-me alimentado nas pastagens de Tua
Palavra fortalecedora, examinando as Escrituras para encontra-lO ali.

Se a minha obstinação for visitada com um flagelo, conceda-me receber a correção humil-
demente, de forma a bendizer a mão que repreende, discernir o motivo da censura, respon-
der prontamente, e voltar à primeira obra. Permita com que todas as Suas relações pater-
nais me façam participante de Sua santidade. Conceda com que a cada queda eu possa
afundar mais baixo em meus joelhos, e que quando me levantar, possa ser nas alturas mais
elevadas da devoção. Que a minha cruz seja santificada, cada perda seja ganho, cada
negação uma vantagem espiritual, cada dia sombrio a luz do Espírito Santo, cada noite de
tribulação uma canção.

•••

Descansando em Deus

Oh Deus, altíssimo, gloriosíssimo, o pensamento de Tua infinita serenidade me alegra, pois


estou labutando e sofrendo, perturbado e angustiado, mas Tu estás para sempre em per-
feita paz. Teus desígnios não Lhe causam nenhum receio ou precaução de insatisfação,
eles permanecem firmes como os montes eternos. Teu poder não conhece nenhuma obri-
gação, Tua bondade nenhuma restrição. Tu tiras ordem da confusão, e minhas derrotas
são Tuas vitórias: O Senhor Deus onipotente reina.

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Eu venho a Ti como um pecador, com preocupações e tristezas, para lançar cada ansiedade
inteiramente a Ti, cada pecado clamando pelo precioso sangue de Cristo; reaviva a pro-
funda espiritualidade em meu coração; permita-me viver perto do grande Pastor, ouvir a
Sua voz, conhecer Seus sons, seguir os Seus chamados. Guarda-me do engano ao fazer-
me habitar na verdade; do mal, ajudando-me a andar no poder do Espírito. Dá-me mais
intensidade de fé nas verdades eternas, ardendo dentro de mim pela experiência das coisas
que eu conheço; faça-me nunca ter vergonha da Verdade do Evangelho, que eu possa
suportar a sua reprovação, vindicá-lo, ver a Jesus como em Sua essência, conhecendo-O
no poder do Espírito.

Senhor, ajuda-me, pois estou frequentemente morno e frio; a incredulidade deforma a mi-
nha confiança, o pecado me faz esquecer de Ti. Faça com que as ervas daninhas que cres-
cem em minha alma sejam cortadas em suas raízes; concede-me conhecer que eu real-
mente vivo somente quando eu vivo para Ti, para que todo o restante seja insignificante.
Somente a Tua presença pode fazer-me santo, devoto, forte e feliz. Habita em mim,
gracioso Deus.

•••

Louvor Noturno

Doador de tudo, outro dia está terminado e eu tomo o meu lugar sob a cruz de meu grande
Redentor, onde a cura flui continuamente, onde o bálsamo é derramado em cada ferida,
onde me lavo de novo no sangue todo-purificador, certo de que Tu me vês sem manchas
do pecado. Ainda um pouco, e eu irei para Sua casa e nunca mais serei visto; ajuda-me a,
cingindo os lombos de minha mente, acelerar o meu passo, apressar-me como se cada
momento fosse o último, que a minha vida seja em alegria, e minha glória, a morte.

Agradeço-Te pelas bênçãos temporais deste mundo: o ar refrescante, a luz do sol, a comida
que renova a força, as roupas que vestem, a habitação que abriga, o sono que dá descanso,
o dossel estrelado da noite, a brisa de verão, a doçura das flores, a música dos ribeiros, os
carinhos felizes da família, parentes, amigos. As coisas animadas, as coisas inanimadas,
servem para o meu conforto. Meu cálice transborda. Não me deixes ser insensível a essas
misericórdias diárias. Tua mão concede bênçãos, Teu poder evita o mal.

Eu trago a minha homenagem de agradecimento por graças espirituais, o pleno calor da fé,
a alegre presença do Teu Espírito, a força de Tua vontade restringidora, Seu cessar da
artilharia do inferno. Bendito seja o meu Senhor soberano!

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Oração da Noite

Oh, amante do Teu povo, Tu tens todo o meu ser colocado nas mãos de Jesus, meu Re-
dentor, Comandante, Marido, Amigo, e tens mui cuidado de mim, nEle. Mantenha-me santo,
inocente, imaculado, separado dos pecadores; que eu possa desconhecer a voz dos estra-
nhos, mas ir a Ele onde Ele está, e seguir para onde Ele conduz. Banha-me definitivamente
na fonte de remoção do pecado, purifica-me agora da profanação deste dia, de suas falhas,
deficiências de virtude, extremos prejudiciais, para que eu possa apresentar um caráter
perfeito em Jesus. Ó, Mestre, que lavaste os pés aos discípulos, seja mui paciente comigo,
seja mui condescendente com os meus defeitos, conduze-me até que Tua grande obra em
mim seja consumada. Eu desejo vencer meu eu em cada aspecto, superar o corpo com
suas paixões e concupiscências, manter minha carne subjugada, guardar a minha huma-
nidade de todos os pecados mais grosseiros, examinar o poder sutil da minha mente
natural, viver inteiramente para Tua glória, ser surdo à censura imerecida e aos elogios dos
homens. Nada pode ferir meu homem interior recém-nascido, que ele não possa ser ferido
ou morrer; que nada possa estragar o domínio do Seu Espírito dentro de mim; é suficiente
ter Tua aprovação e da minha consciência. Mantenha-me humilde, dependente, extrema-
mente alegre, tão calmo e tranquilo como uma criança de peito, mas zeloso e ativo. Não
desejo tanto fazer, quanto ser, e eu anelo ser como Jesus; se Tu me fazes justo, eu serei
justo; Senhor, eu pertenço a Ti, faça-me digno de Ti.

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Noite de Renovação

Meu Pai, se Tua misericórdia tivesse limites, onde seria o meu refúgio da justa ira? Mas o
Teu amor em Cristo é sem medida. Assim, eu me apresento a Ti com pecados de comissão
e omissão, contra Ti, meu Pai, contra Ti, adorável Redentor, contra Ti e Teus esforços, oh
Espírito Santo, contra os ditames da minha consciência, contra os preceitos da Tua Palavra,
contra os meus próximos e eu. Não entres em juízo comigo, pois eu não defendo nenhuma
justiça própria, e não tenho escusa para a iniquidade. Perdoe o meu dia escurecido com o
mal.

Esta noite, eu renovo a minha penitência. Todas as manhãs, eu me comprometo a Te amar


mais intensamente, servir-Te mais sinceramente, ser mais dedicado na minha vida, ser
totalmente Teu; no entanto, eu logo tropeço, retrocedo, e tenho que confessar a minha fra-

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queza, miséria e pecado. Mas eu Te bendigo que a obra consumada de Jesus não precisa
da adição de minhas ações, que a Sua oferta é a satisfação suficiente pelos meus pecados.
Se os dias futuros forem meus, ajuda-me a transformar a minha vida, a odiar e detestar o
mal, a fugir dos pecados que confessar. Faça-me mais firme, mais atento, mais orante. Não
permita que nenhum mau fruto brote das sementes do mal que minhas mãos semearam;
Que nenhum próximo se endureça na vaidade e loucura pela minha falta de prudência. Se
hoje eu tive vergonha de Cristo e Sua Palavra, ou tenho mostrado crueldade, maldade,
inveja, falta de amor, falar impensado, temperamento impetuoso, que estes não sejam
nenhuma pedra de tropeço para os outros, ou desonra para Teu nome. Oh! Ajuda-me a dar
exemplo do modo correto; que eu nunca seja repreendido por vício ou tente a Deus, e assim
prove quão belos são os caminhos de Cristo.

Extraído de O Vale da Visão: Uma coleção de Orações e Devocionais Puritanos, editado por
Arthur Bennett. Reformatado e atualizado na linguagem atual pelo Eternal Life Ministries.

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O Trono da Graça
(Sermão Nº 1024)

Pregado na manhã do Dia do Senhor, 19 de novembro de 1871.


Por C.H. Spurgeon, no Tabernáculo Metropolitano, Newington.

“O Trono da Graça.” (Hebreus 4:16)

Estas palavras são encontradas embutidas neste verso gracioso: “Cheguemos, pois, com
confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim
de sermos ajudados em tempo oportuno”. Elas são uma joia engastada em ouro; a verda-
deira oração é uma aproximação da alma, através do Espírito de Deus, ao trono de Deus;
não é a pronunciação de palavras. Não é somente o sentimento de desejos; é a progressão
dos desejos a Deus, a aproximação espiritual de nossa natureza ao Senhor nosso Deus. A
verdadeira oração não é um mero exercício mental, nem uma performance vocal, mas é
muito mais profunda do que isso, é a transação espiritual com o Criador do Céu e da Terra.
Deus é Espírito invisível aos olhos mortais, e apenas pode ser percebido pelo homem
interior, o nosso espírito dentro de nós, gerado pelo Espírito Santo em nossa regeneração,
discerne o Grande Espírito, comunga com Ele, Lhe dirige seus pedidos e recebe dEle res-
postas de paz. É um negócio espiritual do começo ao fim; sua intenção e objetivo final não
é para o homem, mas achegar-se a Deus. Para tal oração, é necessária a obra do Espírito
Santo; se a oração fosse de lábios somente, nós precisaríamos apenas da respiração em
nossas narinas para orar; se a oração fosse de desejos somente, muitos excelentes desejos
são facilmente sentidos, até mesmo por homens naturais; mas quando é o desejo espiritual
e a comunhão espiritual do espírito humano com o Grande Espírito, o Espírito Santo deve
estar presente em absoluto! Ele deve dar-lhe sua vida e poder, ou então, a verdadeira
oração nunca será apresentada; a coisa oferecida a Deus usará o nome e terá a forma,
mas a vida interior de oração estará muito longe disso.

Além disso, é claro a partir da coleção do nosso texto, que a interposição do Senhor Jesus
Cristo é essencial à oração aceitável; como a oração não será verdadeiramente oração sem
o Espírito de Deus, assim ela não será uma oração que prevalece sem o Filho de Deus!
Ele, o grande Sumo Sacerdote que deve ir além do véu por nós; não, através de Sua
Pessoa crucificada o véu deve ser inteiramente retirado! Até então, nos encontramos
afastados do Deus Vivo. O homem ou a mulher que, apesar do ensino da Escritura, tenta
orar sem um Salvador insulta a Divindade, e aquele que imagina que seus próprios desejos
naturais, chegando diante de Deus sem estarem aspergidos com o precioso sangue serão
um sacrifício aceitável diante de Deus, comete um erro! Ele não trouxe uma oferta que Deus

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pode aceitar mais do que se tivesse golpeado o pescoço de um cão, ou oferecido um sacri-
fício impuro. Operada em nós pelo Espírito, apresentada por nós, por meio do Cristo de
Deus, a oração torna-se poder diante do Altíssimo, somente assim e de nenhuma outra
maneira.

Por ordem, queridos amigos, para que eu possa despertar-vos à oração, nesta manhã, e
para que suas almas possam ser levadas a aproximarem-se do trono da graça, eu propus
tomar estas poucas palavras e tratá-las como Deus me habilitará. Vocês têm começado a
orar; Deus começou a responder; esta semana tem sido muito memorável na história desta
Igreja. Números maiores do que nunca de uma só vez vieram à frente para confessar a
Cristo como nítida resposta às súplicas do povo de Deus, como se a mão do Altíssimo
tivesse sido vista estendida do Céu entregando a nós as bênçãos que pedimos! Agora,
vamos continuar em oração, sim, vamos reunir forças em intercessão, e quanto mais conse-
guirmos, mais zelosos sejamos para que tenhamos mais e mais êxito! Não nos deixemos
estreitados em nossos próprios corações, uma vez que não está estreitado em nosso Deus.
Este é um bom dia, e um tempo de boas novas; e vendo que temos ouvido do Rei, estou
mui ansioso que devemos falar com Ele por milhares de outros, para que eles também, em
resposta às nossas súplicas, possam ser trazidos para perto de Cristo. Na tentativa de
explorar o texto nesta manhã, vou abordá-lo assim: Em primeiro lugar, aqui está um trono;
em seguida, em segundo lugar, aqui está a graça; então vamos colocar os dois juntos, e
vamos ver a graça em um trono; e colocá-los juntos em uma outra ordem, veremos a sobe-
rania manifestando a si mesma, e resplandecente em graça.

I. O texto fala de um trono: “O trono da graça”. Deus deve ser visto em oração como nosso
Pai; que é o aspecto mais querido por nós, mas não devemos considerá-lO como se Ele
fosse como nós somos, pois o nosso Salvador tem qualificado a expressão: “Pai Nosso”,
com as palavras, “que estás no Céu”. E junto aos calcanhares deste nome condescendente,
a fim de nos lembrar de que nosso Pai ainda é infinitamente superior a nós, Ele nos manda
dizer: “Santificado seja o teu nome, venha o teu reino”, de modo que nosso Pai ainda deve
ser considerado como um Rei. E na oração não só chegamos aos pés de nosso Pai, mas
também ao trono do Grande Monarca do Universo! O Propiciatório é um trono, e não pode-
mos esquecer disso; e a oração deve ser sempre considerada por nós como uma entrada
nos tribunais da realeza do Céu; se queremos nos comportar como devem os cortesãos,
na presença de uma ilustre majestade, então não estamos em perda por conhecermos o
espírito correto em que devemos orar. Se na oração, chegamos a um trono, é claro que o
nosso espírito deve, em primeiro lugar, ser reverente e humilde; espera-se que o assunto
levado ao Rei manifeste homenagem e honra. Os orgulhosos que não reconhecem o Rei,
os traidores que se rebelam contra a Soberana Vontade devem, se forem sábios, evitar

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qualquer aproximação ao trono. Deixe o orgulho morder o meio-fio a uma distância; deixe
a traição espreitar pelos cantos, pois apenas a reverência humilde pode vir diante do Rei,
quando Ele senta vestido com Suas vestes de majestade. Em nosso caso, o rei diante do
qual chegamos é o mais alto de todos os monarcas, o Rei dos reis, o Senhor dos senhores!
Imperadores são apenas as sombras de Seu poder imperial; eles se denominam reis por
direito Divino, mas que direito Divino eles têm? O senso comum ri e escarnece de suas
pretensões!

Só o Senhor tem direito Divino, e a Ele somente o Reino pertence! Ele é o Bendito e único
Soberano. Aqueles são apenas reis nominais, são levantados, e colocados pela vontade
dos homens, ou pelo decreto da providência, mas Ele é, sozinho, o Senhor, o Príncipe dos
reis da terra:

“Ele não se senta em um trono precário,


Nem permite que seja emprestado.”

Meu coração, não se esqueça de prostrar-se em tal presença; se Ele é tão grande, coloque
a boca no pó diante dEle, pois Ele é mais poderoso do que todos os reis! Seu trono tem
influência em todos os mundos! O Céu obedece alegremente; o inferno treme da Sua
carranca; e a terra é obrigada a prestar-Lhe homenagem voluntária ou involuntariamente.
Seu poder edifica ou destrói! Criar ou esmagar, tanto um quanto outro é muito fácil para
Ele! Alma minha, certifique-se de que quando você se aproxima do Onipotente, que é como
um fogo consumidor, você tire os sapatos, e adore-O com mais humildade. Além disso, Ele
é o mais Santo de todos os reis; Seu trono é o grande Trono Branco, imaculado e claro
como cristal. “Os Céus não são puros diante dele, e aos seus anjos atribui loucura” [Jó
15:15; 4:18]; e tu, uma criatura pecadora, com que humildade deve se aproximar de Deus?
Familiaridade pode haver, mas não deixe que seja ímpia; ousadia deve haver, mas não
deixe que seja impertinente. E lembre-se você está na terra, e Ele nos Céus; você ainda é
um verme da terra, uma criatura esmagada pela traça, e Ele é o Eterno; antes que os
montes nascessem Ele era Deus, e se todas as coisas criadas devem passar de novo, ain-
da assim Ele é o mesmo! Meus irmãos e irmãs, eu tenho medo de que não nos curvemos
como deveríamos diante da Majestade Eterna; mas a partir de agora, vamos pedir ao
Espírito de Deus para colocar-nos em um bom estado de espírito, para que cada uma de
nossas orações seja uma aproximação reverente à infinita Majestade nas alturas.

Há um trono, e, portanto, em segundo lugar, devemos nos aproximar com gozo devoto; se
eu me encontro favorecido pela graça Divina e estou entre aqueles benditos que frequen-
tam Seus átrios, não hei de sentir prazer? Eu poderia estar em Sua prisão, mas eu estou
diante do Seu trono; eu poderia ter sido expulso de Sua presença para sempre, mas é-me

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permitido aproximar-me dEle, até mesmo em Seu palácio real, em Sua câmara secreta e
graciosa audiência; não hei de ser grato? Não irá a minha gratidão subir em alegria, e não
hei de sentir que estou tão honrado que eu sou feito o destinatário de grandes favores
quando estou autorizado a orar? Porque é que o teu semblante estava triste, ó suplicante,
quando estavas diante do trono da graça? Se você estivesse diante do trono da Justiça
para ser condenado por suas iniquidades, suas mãos poderiam muito bem estar em seus
lombos; mas agora você está favorecido para vir diante do Rei em Suas vestes de seda de
Amor, deixe seu rosto brilhar com santo gozo! Se as suas tristezas são pesadas, diga-Lhe,
pois Ele pode aliviá-las; se os seus pecados são multiplicados, confesse-os, pois Ele pode
perdoá-los! Ó vocês cortesãos nos salões de tal monarca, exultai, e misturem louvores com
suas orações!

É um trono, e, portanto, em terceiro lugar, sempre que for abordado deve ser com total sub-
missão. Não oramos a Deus para instruí-lO quanto ao que Ele deve fazer; nem por um
momento devemos ter pretensão de ditar a linha do procedimento Divino. Estamos autori-
zados a dizer a Deus: “Assim e assim queremos ter isso”, mas temos de acrescentar cada
vez mais: “Mas, vendo que somos ignorantes e podemos estar confundidos; vendo que
ainda estamos na carne, e, portanto, pode ser causado por motivos carnais; não como nós
queremos, mas como Tu queres”. Quem deve ditar no trono? Nenhum leal filho de Deus
por um momento imagina que ele deva ocupar o lugar do Rei! Ele inclina-se diante dAquele
que tem o direito de ser o Senhor de todos, e embora ele profere seu desejo sinceramente,
com veemência, importunamente, e implora e pede mais uma vez, ainda assim, está cada
vez mais com esta necessária ressalva: “Tua vontade seja feita, meu Senhor, e se eu pedir
qualquer coisa que não está de acordo com a Tua vontade, o meu mais profundo desejo é
que Tu sejas bom o suficiente para negar o Teu servo. Vou tomar isto como uma resposta
verdadeira, se Tu me recusares, se eu pedir o que não parece bom aos Teus olhos”. Se
fôssemos constantemente lembrados disso, eu penso que seríamos menos inclinados a
pleitear determinadas solicitações diante do trono, pois sentiríamos: “Estou aqui em busca
de minha própria vontade, conforto e proveito, e talvez eu possa estar solicitando aquilo
que desonraria a Deus; portanto, falarei com a mais profunda submissão aos decretos
Divinos”.

Mas, irmãos, em quarto lugar, se é um trono, este deveria ser abordado com expectativas
aumentadas. Bem coloca o nosso hino:

“Você está vindo a um Rei,


Traga consigo grandes petições.”

Nós não nos achegamos, por assim dizer, na oração apenas ao tesouro de Deus, onde Ele

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distribui Seus favores aos pobres; nem chegamos à porta dos fundos da Casa da misericór-
dia para receber os restos quebrados, que, no entanto, é mais do que merecemos; nem
para comer as migalhas que caem da mesa do Mestre, que é mais do que poderíamos rei-
vindicar. Mas quando oramos, estamos de pé no Palácio, no chão brilhante do próprio salão
de recepção do grande Rei, e, assim, estamos em um terreno vantajoso! Na oração nós
estamos onde os anjos se inclinam com as faces cobertas; ali, mesmo ali onde os querubins
e serafins adoram diante desse mesmo trono é que as nossas orações ascendem! E vamos
nos achegar ali com pedidos atrofiados e estreitados, e com fé retraída? Não, não se vem
a um rei por estar dando moedas e cabras, Ele distribui amplamente peças de ouro; Ele
espalha não como homens pobres, pedaços de pão e carne ruim, mas ele faz um banquete
de coisas gordurosas, de coisas gordurosas cheias de medula, de vinhos puros, bem purifi-
cados!

Quando o soldado de Alexandre foi perguntado sobre o que ele queria, ele não pediu pouco
segundo a pequena natureza de seus próprios méritos, mas ele fez uma demanda tão forte
que o tesoureiro real recusou-se a atendê-la, e levou o caso a Alexandre; e Alexandre em
direito real respondeu: “Ele sabe o quão grande é Alexandre, e ele pediu a um rei; deixe-o
ter o que ele pede”. Acautelai-vos, de imaginar que os pensamentos de Deus são como os
vossos pensamentos, e os Seus caminhos como os vossos caminhos! Não tragam diante
de Deus petições restritas e desejos estreitos, e digam: “Senhor, de acordo com estes”,
mas lembrem-se, tão alto quanto o Céu está acima da terra, assim estão os Seus caminhos
acima dos vossos caminhos, e os Seus pensamentos acima dos vossos pensamentos.
Pedi, portanto, conforme a qualidade Divina, peça grandes coisas, pois você está diante de
um grande trono. Que sempre sentíssemos isso quando nos achegamos diante do trono da
graça, pois, então, Ele faria por nós muito mais abundantemente além daquilo que pedimos
ou pensamos.

E amado, posso acrescentar, em quinto lugar que o espírito certo para se aproximar do
trono da graça é o da firme confiança. Quem duvidaria do Rei? Quem se atreve a contestar
a Palavra imperial? Foi bem dito que se a integridade fossa banida dos corações de toda a
humanidade, ainda deveria habitar no coração dos reis; é vergonhoso para um rei mentir!
O mendigo mais pobre das ruas é desonrado por uma promessa quebrada, mas o que
podemos dizer de um rei, se sua palavra não pode ser acreditada? Que vergonha para nós,
se somos incrédulos diante do trono do Rei do Céu e da terra! Com o nosso Deus diante
de nós em toda a Sua glória, sentado no trono da graça, se atreverá o nosso coração a
dizer que desconfia dEle? Vamos imaginar ou que Ele não pode, ou que não cumprirá a
Sua promessa? Banidos sejam tais pensamentos blasfemos, e se eles têm que vir, que
venham sobre nós quando estamos em algum lugar nos arredores de seus domínios, se tal
lugar existe, mas não em oração quando estamos em Sua presença imediata, e O contem-

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plamos em toda a glória do Seu trono da graça! Certamente ali é o lugar para o filho confiar
em seu Pai, pois o súdito leal confia em seu monarca; e, portanto, longe estejamos de ser
vacilantes ou desconfiados! Firmeza de fé deve ser predominante, diante do propiciatório.

Apenas uma outra observação sobre este ponto, e isso é: se a oração está chegando diante
do trono de Deus, ela deve sempre ser realizada com a sinceridade mais profunda, e no
espírito que torna tudo real. Se você é desleal o suficiente para desprezar o Rei, pelo menos
para o seu próprio bem, não O escarneça na face, e quando Ele está em Seu trono; se você
ousa repetir palavras sagradas em qualquer lugar, de modo insincero, não deixe que seja
no palácio de Jeová! Se uma pessoa pede uma audiência com a realeza, e, em seguida,
diz: “Eu nem sei por que eu vim; eu não sei se eu tenho algo muito especial para solicitar;
eu não tenho nenhum processo muito urgente a pleitear”. Ele não seria culpado por tanta
loucura e baixeza? Quanto ao nosso grandioso Rei, quando ousarmos em Sua presença,
que tenhamos uma incumbência ali. Como eu disse em outro domingo, vamos tomar cuida-
do de não brincar em oração; isso é insolência para com Deus. Se eu sou chamado a orar
em público, eu não preciso ousar usar as palavras que são destinadas a agradar os ouvidos
dos meus companheiros de adoração, mas tenho que perceber que eu estou falando com
Deus, e que tenho negócios a tratar com o grande Senhor. E, na minha oração particular,
se, quando me levanto de minha cama de manhã me ponho de joelhos e repito algumas
palavras; ou quando eu me retiro para descansar à noite e passar pela mesma forma
regular, eu mais peco do que faço algum bem, sem que a minha alma fale ao Altíssimo.
Você acha que o Rei do Céu tem o prazer de ouvi-lo pronunciar palavras com uma língua
frívola e uma mente insensata? Você não O conhece! Ele é Espírito, e os que O adoram
devem adorá-lO em espírito e em verdade! Se você tiver algumas formas vazias no prato,
vá e derrame nos ouvidos dos tolos como você, mas não diante do Senhor dos Exércitos!

Se você tem certas palavras para expressar o que você anexa a uma supersticiosa reve-
rência, vá e as pronuncie nos tribunais espalhafatosos da prostituta Roma, mas não diante
do glorioso Senhor de Sião! O Deus espiritual procura adoradores espirituais, e os tais Ele
aceitará, somente os tais! Mas o sacrifício dos ímpios é abominável ao Senhor, e apenas
uma oração sincera é o Seu deleite. Amados, reúnam toda a sua atenção exatamente nisto:
a oração não é ninharia; é um ato eminente e elevado; é um privilégio grande e maravilhoso.
Sob o antigo império Persa a alguns da nobreza era permitido a qualquer momento vir ter
com o rei, e este era considerado o mais alto privilégio possuído por mortais. Você e eu, o
povo de Deus, temos uma licença, um passaporte para virmos diante do trono do Céu, a
qualquer momento que quisermos, e somos encorajados a ir ali com muita ousadia! Mas,
não esqueçamos que não é algo mediano ser um cortesão da corte do Céu e terra, adorar
Aquele que nos fez e sustenta nossa existência. Na verdade, quando tentamos orar, pode-
mos ouvir a Voz dizendo, desde a excelente glória: “dobre o joelho”. De todos os espíritos

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que veem ante face de nosso Pai que está no Céu, mesmo agora eu ouço uma voz que
diz: “Ó, vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do Senhor que nos criou. Por-
que ele é o nosso Deus, e nós povo do seu pasto e ovelhas da sua mão. Adorai ao Senhor
na beleza da santidade; tremei diante dele toda a terra” [Salmos 95:6-7; 96:9].

II. Deixe que o resplandecer e o brilho da palavra “trono” sejam demais para a visão mortal,
nosso texto agora nos presenteia com o brilho suave e gentil da encantadora palavra
“GRAÇA”. Somos chamados para o trono da graça, não ao trono da Lei. O rochoso Sinai
uma vez foi o trono da Lei, quando Deus veio ao Parã com 10.000 dos Seus santos. Quem
desejava aproximar-se de tal trono? Nem mesmo Israel. Os limites foram estabelecidos
sobre o Monte, e se, apenas um animal tocasse o Monte, seria apedrejado ou traspassado
com um dardo! Ó que vocês — os hipócritas que esperam poder obedecer à Lei, e pensam
que podem salvar-se por ela — olhassem para as chamas que Moisés viu, e se encolhes-
sem trêmulos e desesperados! Nós não nos aproximamos deste trono agora, pois, através
de Jesus o caso é alterado; para uma consciência purificada pelo sangue precioso não há
ira sobre o trono Divino; embora às nossas mentes atribuladas:

“Uma vez este foi um assento de ira ardente,


E lançava chamas devoradoras.
Nosso Deus pareceu um fogo consumidor,
E Zeloso era o Seu nome.”

E, bendito seja Deus, não temos nesta manhã que falar sobre o trono de Justiça Final.
Diante do qual todos nós iremos, e como muitos de nós temos crido, o encontraremos como
sendo um trono de graça, bem como de justiça, pois, Aquele que está assentado sobre o
trono não pronunciará nenhuma sentença de condenação contra o homem que é justificado
pela fé.

Mas eu não tenho te chamado nesta manhã, para o lugar de onde a trombeta da ressur-
reição soará de modo estridente e claro; ainda não vemos os anjos com suas espadas
vingativas saírem para ferir os inimigos de Deus; ainda não estão abertas as grandes portas
do abismo do inferno para engolir os inimigos que não tem o Filho de Deus reinando sobre
eles. Ainda estamos no terreno da oração, e pedindo uma reconciliação com Deus, e o
trono a que estamos por vir, e do qual falamos neste momento é o trono da graça. É um
trono criado propositalmente para a dispensação da graça; um trono do qual cada pronun-
ciação é enunciação da graça. O cetro que está estendido a partir dele é o cetro de prata
da graça; os decretos proclamados a partir dele são propósitos de graça; os dons que estão
espalhados para baixo de seus degraus de ouro são dons da graça, e aquele que está

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assentado sobre o trono é a própria graça! Este é o trono da graça para a qual nos aproxi-
mamos quando oramos, e deixe-nos por um momento ou dois pensarmos sobre isso, por
meio de incentivo para consolo daqueles que estão começando a orar. De fato, para todos
nós que estamos orando, homens e mulheres, se em oração eu venho diante do trono da
graça, então, as falhas das minhas orações serão esquecidas. No início de sua oração,
queridos amigos, vocês sentir-se-ão como se vocês não orassem; os gemidos de seu espí-
rito, quando vocês levantarem-se dos joelhos, são tais que vocês pensam que não há nada
neles; e quão apagada, suja e manchada oração é! Não se preocupem, vocês não vieram
ao trono de justiça, se não quando Deus percebesse a falha na oração Ele a desprezaria;
suas palavras falhas, seus suspiros e gagueira estão diante de um trono da graça!

Quando qualquer um de nós tem apresentado a sua melhor oração diante de Deus, se nós
víssemos como Deus vê, não há dúvida de que teríamos grande pranto sobre ela, pois há
pecado suficiente na melhor oração que já foi feita para assegurar que seja lançada para
longe de Deus! Mas não é um trono de justiça, repito, e aqui está a esperança para as
nossas mancas, hesitantes súplicas. Nosso Rei condescendente não mantém um cerimo-
nial imponente em Sua corte como o que tem sido observado em príncipes entre os ho-
mens, onde um pequeno erro ou uma falha assegurariam ao peticionário ser demitido em
desgraça. Oh, não! Os clamores defeituosos de Seus filhos não são severamente criticados
por Ele; o Supremo Senhor Tesoureiro do Palácio de cima, nosso Senhor Jesus Cristo, tem
o cuidado de alterar e modificar cada oração antes que Ele a apresente; Ele faz a oração
perfeita com a Sua perfeição, e prevalente com Seus próprios méritos. Deus olha para a
oração, tal como apresentada por meio de Cristo, e perdoa todas as suas próprias falhas
inerentes. Como isso deve encorajar qualquer um de nós que nos sentimos fracos, errantes
e inábeis na oração! Se você não pode suplicar a Deus como por vezes você fez em anos
passados; se você se sente como se de uma forma ou de outra você tem enferrujado no
trabalho de súplica, nunca desista, mas continue ainda, sim, e venha mais vezes, pois não
é um trono de severas críticas, é um trono de graça ao que você veio! Então, além disso,
na medida em que é um trono da graça, as falhas do próprio suplicante não impedem o su-
cesso de sua oração. Que falhas existem em nós! Quão inaptos estamos para chegarmos
diante do trono de Deus! Nós, que estamos todos contaminados com o pecado por dentro
e por fora; algum de vocês ousaria pensar em orar, se não fosse porque o trono de Deus é
um trono da graça? Se eu pudesse, eu confesso que eu não o faria. Um Deus absoluta e
infinitamente santo e justo, não poderia, em coerência com a Sua natureza Divina respon-
der a qualquer oração de um pecador como eu sou, se não fosse que Ele providenciasse
um plano pelo qual a minha oração chegue até Ele, já não em um trono de absoluta Justiça,
mas a um trono que também é o Assento de Misericórdia, o Propiciatório, o lugar onde
Deus se encontra com os pecadores na mediação de Jesus Cristo! Ah, eu não poderia
dizer-lhes: “Ore”, nem mesmo para vocês santos, a menos que fosse um trono da graça!

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Muito menos eu poderia falar de oração para vocês pecadores, mas agora eu vou dizer isso
para todo pecador aqui, embora ele pense de si mesmo como o pior pecador que já viveu,
clame ao Senhor e busque-O enquanto Ele pode ser encontrado! Um trono da graça é um
lugar adequado para você; vá de joelhos! Por simples fé vá para o seu Salvador, pois Ele
é quem é o trono da graça! É nEle que Deus é capaz de dispensar graça aos mais culpados
da humanidade. Bendito seja Deus, nem as falhas da oração, nem ainda as do suplicante
devem calar nossas súplicas ao Deus que Se deleita em corações quebrantados e contritos!
Se é um trono da graça, então, os desejos do suplicante serão interpretados. Se eu não
consigo encontrar palavras para expressar os meus desejos, Deus, em Sua graça lerá os
meus desejos sem as palavras; Ele compreende os Seus santos, o significado de seus
gemidos. Um trono que não fosse gracioso não poderia sensibilizar-se para interpretar as
nossas petições, mas Deus, o Ser infinitamente gracioso, irá mergulhar na alma de nossos
desejos, e Ele lerá ali o que nós não podemos falar com a língua. Você já viu uma mãe,
quando seu filho está tentando dizer alguma coisa, e ela sabe muito bem o que o pequeno
tem a dizer, e o ajuda quanto às palavras, pronunciando as sílabas para ele? E se o
pequeno tem quase esquecido o que ele queria dizer, você vê a mãe sugerir a palavra, e
assim o sempre bendito Espírito desde o trono da graça, nos ajudará, e nos ensinará
palavras, não, escreverá em nossos corações Seus próprios desejos!

Temos na Escritura casos onde Deus coloca palavras na boca dos pecadores. “Tomai con-
vosco palavras, e convertei-vos ao Senhor; dizei-lhe [Oséias 14:2]: ‘Recebe-nos graciosa-
mente e nos ame voluntariamente’”, diz Ele. Ele colocará os desejos, e colocará a expres-
são desses desejos em seu espírito por Sua graça; Ele direcionará os seus desejos para
as coisas que você deve buscar; Ele vai ensiná-lo às suas necessidades, embora você
ainda não as conheça; Ele irá sugerir-lhe Suas promessas para que você seja capaz de
pleiteá-las; Ele, de fato, é o Alfa e o Ômega para as suas orações, assim como Ele é a sua
salvação; como a salvação é do princípio ao fim por graça, desta forma a aproximação do
pecador ao trono da graça é por graça do início ao fim!

Que consolo é este! Não iremos nós, meus queridos amigos, com maior ousadia aproximar-
nos deste trono, como a sugar o doce significado desta preciosa Palavra de Deus: “O trono
da graça”? Se é um trono da graça, então, todas as necessidades de quem vem, serão
atendidas. O Rei desde tal trono não dirá: “Você deve Me trazer presentes; você deve Me
oferecer sacrifícios”. Não é um trono para receber homenagem; é um trono para a distri-
buição de presentes! Vinde, então, vocês, os pobres como a pobreza em si! Venham, vocês
que não têm méritos, e são destituídos de virtudes! Venham, vocês que são reduzidos a
uma falência mendicante pela Queda de Adão e por suas próprias transgressões! Este não
é o trono de majestade que se apoia pela tributação de seus súditos, mas um trono que se
glorifica pelo fluxo que sai como uma fonte com torrentes de coisas boas! Venham, agora,

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e recebam vinho e leite, que são dados de graça, sim, vinde e comprai vinho e leite sem
dinheiro e sem preço. Todas as necessidades do suplicante serão supridas, porque é um
trono da graça; e assim, todas as misérias dos suplicantes receberão misericórdia! Suponha
que eu venha para o trono da graça com o peso de meus pecados? Há Alguém no trono
que sentiu o peso do pecado há muitas eras atrás, e não se esqueceu de seu peso.
Suponha que eu venha carregado de tristeza? Há um Ser ali que conhece todos os sofri-
mentos a que a humanidade pode ser sujeita. Estou deprimido e angustiado? Tenho medo
de que o próprio Deus me abandou? Há Alguém sobre o trono, que disse: “Meu Deus, Meu
Deus, por que me desamparaste?”. É um trono de graça que se deleita em olhar para as
misérias da humanidade com olhos ternos, de modo a considerá-las, e aliviá-las. Venham,
então! Venham, então! Venham, então, vocês que não são apenas pobres, mas miseráveis;
você cujas misérias os levaram há muito tempo para a morte, e ainda a temem. Vocês os
cativos, venham em suas cadeias! Vocês escravos, venham com os ferros nas vossas
almas! Vocês que jazem nas trevas, venham para fora com os olhos vendados como vocês
estão; o trono da graça olhará para vocês, se vocês não podem olhar para ele, e dará a
vocês o que vocês não têm nada para dar em troca e vai libertá-los, embora vocês não
possam levantar um dedo para libertarem-se!

“O trono da graça”. A palavra cresce à medida que eu a reviro em minha mente, e para mim
é um reflexo mui deleitoso, que se eu chegar ao trono de Deus em oração, eu posso sentir
mil defeitos, mas ainda há esperança. Eu costumo sentir-me mais satisfeito com a minha
oração do que com qualquer outra coisa que eu faço; eu não acredito que é uma coisa fácil
orar em público, de modo a conduzir as devoções de uma grande congregação corretamen-
te; às vezes ouvimos pessoas elogiadas por pregar bem, mas se houver alguém capacitado
a orar bem, haverá um dom igual, e uma graça maior nele. Mas, irmãos e irmãs, suponha-
mos, em nossas orações há defeitos de conhecimento? É um trono da graça, e nosso Pai
sabe que temos necessidade dessas coisas. Suponham, há defeitos de fé? Ele vê a nossa
pequena fé, e ainda não a rejeita, pequena como ela é. Ele não mensura, em todo caso, os
nossos dons pelo nível de nossa fé, mas pela sinceridade e veracidade da fé. E se houver
defeitos graves, mesmo em nosso espírito, e falhas no fervor, ou na humildade da oração,
ainda, embora estes defeitos não devam existir lá e sejam deploráveis, a graça condes-
cende com tudo isso; ela perdoa todos estes, e ainda a sua mão misericordiosa está esten-
dida para nos enriquecer de acordo com as nossas necessidades. Certamente isso deve
induzir muitos que não oram a orar, e deve fazer com que nós, acostumados há muito
tempo a usar a arte consagrada de oração, nos aproximemos com maior ousadia do que
nunca ao trono da graça!

III. Mas, agora, em relação ao nosso texto como um todo, ele nos transmite a ideia de
GRAÇA ENTRONIZADA. É um trono, e o que se senta sobre ele? É a graça personificada

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que está aqui assentada em dignidade, e realmente, hoje a graça está em um trono. No
Evangelho de Jesus Cristo, a graça é o atributo mais predominante de Deus. Como vem a
ser tão exaltada? Nós respondemos, a graça tem um trono pela conquista. A graça desceu
à terra na forma do Bem-Amado, e juntou-se com o pecado. Longa e afiada foi a luta e a
graça parecia estar sendo pisada pelo pecado, mas a graça finalmente se assenhoreou do
pecado, o jogou em seus próprios ombros e, apesar de tudo, embora esmagada sob o peso,
a graça carregou o pecado até a cruz, e o pregou ali, matou-o lá, levou-o até à morte para
sempre e triunfou gloriosamente! Por esta causa, a esta hora a graça senta em um trono,
pois venceu o pecado humano, suportou a pena da culpa humana, e abateu todos os seus
inimigos. A graça, por outro lado, se senta no trono, pois, sentou-se ali por direito. Não há
injustiça na graça de Deus; Deus é tão justo quando Ele perdoa um crente, como quando
Ele lança um pecador no inferno.

Eu acredito na minha própria alma que há tanto, e tão pura justiça na aceitação de uma
alma que crê em Cristo, como haverá na rejeição daquelas almas que morrem impenitentes,
e são banidas da presença de Jeová. O sacrifício de Cristo permitiu a Deus ser justo e
justificador daquele que crê. Aquele que conhece a palavra “Substituição”, e pode apre-
ender o seu significado corretamente, verá que não há nada devido à justiça de qualquer
crente; Jesus Cristo pagou todas as dívidas do crente e Deus seria injusto se Ele não sal-
vasse aqueles por quem Cristo sofreu vicariamente, para quem a Sua Justiça foi concedida,
a quem é imputada. A graça está no trono pela conquista, e permanece lá por direito. A
graça está entronizada hoje, irmãos e irmãs, porque Cristo consumou a Sua obra, e
ascendeu ao Céu. Está entronizada em poder. Quando falamos de Seu trono, nós quere-
mos dizer que ela tem poder ilimitado; a graça não se assenta no banquinho de Deus; a
graça não está nas cortes de Deus, mas ela se senta no trono! É o atributo reinante; ela
reina hoje. Esta é a dispensação da graça, o ano da graça, a graça reina pela justiça para
a vida eterna. Vivemos na era da reinante graça, tendo em vista que Ele vive sempre para
interceder pelos filhos dos homens, Jesus também é capaz de salvar perfeitamente os se
achegam a Deus por meio dEle.

Pecador, se você encontrasse a graça pelo caminho, como um viajante em sua jornada, eu
ordenaria você a familiarizar-se a ela, e pedir a sua influência; se você devesse reconhecer
a graça como um comerciante no comércio, com o tesouro na mão, eu ordenaria cortejar
sua amizade, pois isso enriquecerá você na hora da pobreza; se você visse a graça como
um dos nobres do Céu, altamente exaltados, eu ordenaria que você buscasse a sua aten-
ção. Mas, quando a graça se assenta no trono, peço-vos, para aproximarem-se dela de
uma vez! Ela não poderia estar mais elevada; ela não poderia ser mais excelente, pois está
escrito: “Deus é amor”, que é um apelido para a graça! Oh! venha e se curve diante dela!
Venha adorar a infinita misericórdia e graça de Deus! Não duvide, não pare, não hesite; a

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graça está reinando! A graça é Deus! Deus é Amor! Oh, que você, vendo a graça assim
entronizada, venha e a receba! Eu digo, então, que a graça está entronizada pela conquista,
por direito e por poder, e acrescentarei, está entronizada em glória, porque Deus glorifica a
Sua graça. É um de Seus objetivos fazer a Sua graça ilustre; Ele tem prazer em perdoar os
penitentes, e assim mostrar a Sua graça perdoadora; Ele tem prazer em olhar para
peregrinos e restaurá-los, para mostrar Sua graça restauradora; Ele tem prazer em olhar
para o coração partido e confortá-lo, para que Ele possa mostrar a Sua graça consoladora.
Há graça de vários tipos para ser obtida, ou melhor, a mesma graça atuando de diferentes
maneiras, e Deus Se deleita em fazer a Sua graça gloriosa. Há um arco-íris rodeando o
trono semelhante à esmeralda, a esmeralda de Sua compaixão e Seu amor. Ó almas felizes
que podem crer nisso e acreditando que possam vir imediatamente e glorificar a graça,
tornando-se exemplos de Seu poder!

IV. Por último, o nosso texto, se lido corretamente, tem em si esta SOBERANIA RESPLAN-
DECENTE EM GLÓRIA — A GLÓRIA DA GRAÇA. O propiciatório é um trono, embora a
graça esteja ali, ainda é um trono; a graça não desloca a soberania. Ora, o atributo da
soberania é muito alto e terrível, sua luz é como uma pedra de jaspe, preciosíssima, e como
uma pedra de safira, ou, como Ezequiel chama “de terrível cristal” [Ezequiel 1:22]. Assim
diz o Rei, o Senhor dos Exércitos: “Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei
misericórdia de quem eu tiver misericórdia... Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus
replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou
não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e
outro para desonra? [Romanos 9:15, 20-21]. Estas são grandiosas e terríveis palavras, e
não devem ser replicadas. Ele é um Rei, e Ele fará o que quiser; ninguém poderá deter a
mão, nem lhe dizer: “O que fazes?”. Mas, ah, que nenhum de vós esteja abatido pelo pensa-
mento de Sua soberania, eu convido vocês para o texto. É um trono, ali há Soberania. Mas,
para cada alma que sabe orar, cada alma que por fé vem a Jesus, o verdadeiro propicia-
tório, a soberania Divina não possui nenhum aspecto sombrio e terrível, mas está cheio de
amor! É um trono da graça de onde deduzo que a soberania de Deus para um crente, para
um suplicante, para aquele que se aproxima de Deus em Cristo, é sempre exercida em
pura graça. Para você, para você que vem a Deus em oração, a soberania opera sempre
assim: “Terei misericórdia daquele pecador que não merece, embora nele não haja nenhum
mérito; ainda assim, porque Eu posso fazer o que quero do que é Meu, Eu vou abençoá-lo;
vou fazê-lo Meu filho; vou aceitá-lo. Ele será Meu no dia em que eu reunir minhas joias”.
Sobre o propiciatório, Deus nunca exercita a soberania a não ser em forma de graça! Ele
reina, mas neste caso a graça reina pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso
Senhor.

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Existem essas duas ou três coisas a serem pensadas, e eu fiz. No trono da graça, a sobe-
rania está localizada sob laços de amor. Devo falar com palavras específicas aqui, e devo
hesitar e fazer uma pausa para obter sentenças corretas, para que eu não erre, enquanto
me esforço para falar a verdade em simplicidade. Deus fará o que quiser, mas no propicia-
tório Ele está sob obrigações; obrigações de Sua própria autoria, pois Ele entrou em Aliança
com Cristo, e assim em Aliança com o Seu Escolhido. Embora Deus sempre será um
soberano, Ele nunca quebrará a Sua Aliança, nem alterará a Palavra que saiu de Sua boca.
Ele não pode negar um Pacto de Sua própria criação. Quando eu venho para Deus, em
Cristo, a Deus no propiciatório, não preciso imaginar que por qualquer ato de soberania,
Deus deixará de lado a Sua Aliança. Isso não pode ocorrer, é impossível. Além disso, no
trono da graça, Deus é novamente vinculado a nós por Suas promessas. O Pacto contém
em si muitas promessas graciosas, extremamente grandes e preciosas. “Pedi, e dar-se-
vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á” [Mateus 7:7]. Ainda que Deus tenha
dito esta Palavra ou uma Palavra para esse efeito, foi na Sua própria opção de ouvir a
oração ou não, mas não é assim agora. Pois agora, se é a verdadeira oração é feita por
meio de Jesus Cristo, a Sua verdade O faz ouvi-la! Um homem pode ser perfeitamente livre,
mas no momento em que ele faz uma promessa, ele não é livre para quebrá-la; e o Deus
Eterno não quebrará a Sua promessa; Ele tem prazer em cumpri-la; Ele declarou que todas
as Suas promessas são Sim e Amém em Cristo Jesus. Mas para o nosso consolo, quando
observamos a Deus sob o aspecto alto e terrível de um soberano, temos isso para refletir:
que Ele está sob vínculos do Pacto, em relação à promessa de ser fiel às almas que O
buscam. Seu trono deve ser um trono da graça para o Seu povo!

E novamente o mais doce pensamento de todos, cada promessa da Aliança foi confirmada
e selada com sangue, e longe esteja do Deus Eterno derramar desprezo sobre o sangue
do Seu Filho amado! Quando um rei envia uma carta para uma cidade, Ele pode anterior-
mente ter sido absoluto, e pode não ter havido nada para verificar suas prerrogativas, mas
quando a cidade tem a sua carta, então, pleiteia seus direitos perante o rei. Semelhante-
mente, Deus deu ao Seu povo uma carta régia de bênçãos incontáveis, concedendo-lhes
as fiéis misericórdias de Davi. Muito da validade de uma carta depende da assinatura e o
selo, e, meu amado, quão firme é a Carta do Pacto da Graça! A assinatura é a caligrafia do
próprio Deus, e o selo é o sangue do Unigênito! O Pacto está ratificado com sangue, o
sangue do Seu próprio Filho amado; não é possível que possamos pleitear em vão com
Deus quando pleitearmos o sangue que selou a Aliança, em tudo bem ordenada e segura!
O Céu e a terra passarão, mas o poder do sangue de Jesus com Deus não pode falhar! Ele
fala quando estamos em silêncio, e ele prevalece quando somos derrotados. Melhores
coisas dos que o de Abel ele pede, e seu clamor é ouvido. Vamos com confiança, pois,
levemos a promessa em nossos corações; quando nos sentirmos aterrorizados por causa
da soberania de Deus, cantemos alegremente:

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“O Evangelho eleva o meu espírito,
A um Deus fiel e imutável
Estabelece as bases para a minha esperança
Em juramentos, promessas e sangue.”

Que Deus, o Espírito Santo, nos ajude a usar corretamente, deste momento em diante: “O
trono da graça”. Amém.

Sola Scriptura!
Sola Gratia!
Sola Fide!
Solus Christus!
Soli Deo Gloria!

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Referências da Biografia e dos Apêndices:

Todas as seguintes obras foram traduzidas e publicadas em Português pelo website


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Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas usadas nesta tradução são da versão Almeida
Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007, 2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

BIOGRAFIA:

Uma Biografia de A.W. Pink, por Errol Hulse


Via: ChapelLibrary.org • © Copyright 1998 Chapel Library • Título em Inglês: Biography of A.W.
Pink, by Erroll Hulse • Tradução por Camila Almeida • Revisão por William Teixeira

APÊNDICES:

A1 • Por Que e Como Devemos Orar? – Thomas Boston


Via: Monergism.com • Título em Inglês: For What, And How We Are To Pray?
Tradução por William Teixeira • Revisão por Camila Almeida

A2 • A Necessidade da Oração Secreta – Thomas Boston


Via: Ilyston.wordpress.com • Título em Inglês: The Necessity Of Secret Prayer
Tradução por William Teixeira • Revisão por Camila Almeida

A3 • Quando As Orações Serão Atendidas? – Christopher Love


Via: aPuritansMind.com • Título em Inglês: When Will Prayers be Heard?
Tradução por William Teixeira • Revisão por Camila Almeida

A4 • A Agonia de Cristo – Jonathan Edwards


Via: CCEL.org • Título em Inglês: Christ’s Agony

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Tradução por Camila Almeida • Revisão por William Teixeira

A5 • Um Tratado Sobre Oração – John Bunyan


Via: CimientoEstable.org • Título em Inglês: A Discourse Touching Prayer
Traduzido do Espanhol por William Teixeira • Revisão por Camila Almeida

A6 • Oração – Thomas Watson


Via: ReformedSermonArchives.com • Título em Inglês: Prayer
Tradução por Camila Almeida • Revisão por William Teixeira

A7 • Verdadeira Oração: Verdadeiro Poder, Sermão Nº 328 – C. H. Spurgeon


Via: SpurgeonGems.org • Título em Inglês: True Prayer, True Power!
Tradução por Camila Almeida • Revisão por William Teixeira

A8 • Orações Puritanas
Via: EternalLifeMinistries.org • Título em Inglês: The Valley of Vision: A Collection of Puritan Prayers
& Devotions
Tradução e Revisão: William Teixeira e Camila Almeida

A9 • O Trono da Graça, Sermão Nº 1024 – C. H. Spurgeon


Via: SpurgeonGems.Org • Título em Inglês: The Throne Of Grace
Tradução por Camila Almeida • Revisão por William Teixeira

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 Confissão de Fé Batista de 1689  Queda, a Depravação Total do Homem em seu Estado
 Conversão — John Gill Natural..., A, Edição Comemorativa de Nº 200
 Cristo É Tudo Em Todos — Jeremiah Burroughs  Quem Deve Ser Batizado? — C. H. Spurgeon
 Cristo, Totalmente Desejável — John Flavel  Quem São Os Eleitos? — C. H. Spurgeon
 Defesa do Calvinismo, Uma — C. H. Spurgeon  Reformação Pessoal & na Oração Secreta — R. M.
 Deus Salva Quem Ele Quer! — J. Edwards M'Cheyne
 Discipulado no T empo dos Puritanos, O — W. Bevins  Regeneração ou Decisionismo? — Paul Washer
 Doutrina da Eleição, A — A. W. Pink  Salvação Pertence Ao Senhor, A — C. H. Spurgeon
 Eleição & Vocação — R. M. M’Cheyne  Sangue, O — C. H. Spurgeon
 Eleição Particular — C. H. Spurgeon  Semper Idem — Thomas Adams
 Especial Origem da Instituição da Igreja Evangélica, A —  Sermões de Páscoa — Adams, Pink, Spurgeon, Gill,
J. Owen Owen e Charnock
 Evangelismo Moderno — A. W. Pink  Sermões Graciosos (15 Sermões sobre a Graça de
 Excelência de Cristo, A — J. Edwards Deus) — C. H. Spurgeon
 Gloriosa Predestinação, A — C. H. Spurgeon  Soberania da Deus na Salvação dos Homens, A — J.
 Guia Para a Oração Fervorosa, Um — A. W. Pink Edwards
 Igrejas do Novo Testamento — A. W. Pink  Sobre a Nossa Conversão a Deus e Como Essa Doutrina
 In Memoriam, a Canção dos Suspiros — Susannah é Totalmente Corrompida Pelos Arminianos — J. Owen
Spurgeon  Somente as Igrejas Congregacionais se Adequam aos
 Incomparável Excelência e Santidade de Deus, A — Propósitos de Cristo na Instituição de Sua Igreja — J.
Jeremiah Burroughs Owen
 Infinita Sabedoria de Deus Demonstrada na Salvação  Supremacia e o Poder de Deus, A — A. W. Pink
dos Pecadores, A — A. W. Pink  Teologia Pactual e Dispensacionalismo — William R.
 Jesus! – C. H. Spurgeon Downing
 Justificação, Propiciação e Declaração — C. H. Spurgeon  Tratado Sobre a Oração, Um — John Bunyan
 Livre Graça, A — C. H. Spurgeon  Tratado Sobre o Amor de Deus, Um — Bernardo de
 Marcas de Uma Verdadeira Conversão — G. Whitefield Claraval
 Mito do Livre-Arbítrio, O — Walter J. Chantry  Um Cordão de Pérolas Soltas, Uma Jornada Teológica
 Natureza da Igreja Evangélica, A — John Gill no Batismo de Crentes — Fred Malone

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— Sola Fide • Sola Scriptura • Sola Gratia • Solus Christus • Soli Deo Gloria —
2 Coríntios 4
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Por isso, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos;
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Antes, rejeitamos as coisas que por vergonha se ocultam, não andando com astúcia nem
falsificando a palavra de Deus; e assim nos recomendamos à consciência de todo o homem,
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na presença de Deus, pela manifestação da verdade. Mas, se ainda o nosso evangelho está
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encoberto, para os que se perdem está encoberto. Nos quais o deus deste século cegou os
entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória
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de Cristo, que é a imagem de Deus. Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo
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Jesus, o Senhor; e nós mesmos somos vossos servos por amor de Jesus. Porque Deus,
que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações,
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para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. Temos, porém,
este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós.
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Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados.
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Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; Trazendo sempre por
toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se
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manifeste também nos nossos corpos; E assim nós, que vivemos, estamos sempre
entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na
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nossa carne mortal. De maneira que em nós opera a morte, mas em vós a vida. E temos
portanto o mesmo espírito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nós cremos também,
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por isso também falamos. Sabendo que o que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará
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também por Jesus, e nos apresentará convosco. Porque tudo isto é por amor de vós, para
que a graça, multiplicada por meio de muitos, faça abundar a ação de graças para glória de
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Deus. Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o
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interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação
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produz para nós um peso eterno de glória mui excelente; Não atentando nós nas coisas
que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se
não veem são eternas. Issuu.com/oEstandarteDeCristo