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ADPF 347 E A AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA COMO INSTRUMENTO CONTRA O

ESTADO DE COISAS INCONSTITUCIONAL DO SISTEMA CARCERÁRIO

Kananda Magalhães Santos 1


Nara Cristina Barbosa Souza 2
José Nijar Sauaia Neto 3

1 INTRODUÇÃO

A audiência de custódia foi recentemente regulamentada pelo Conselho


Nacional de Justiça através da Resolução nº 213 de 15 de dezembro de 2015, que
estipula em seu artigo 1º que todo preso em flagrante deverá ser apresentado ao juiz
no prazo de 24 horas para que este avalie a legalidade de sua prisão e a possível
ocorrência de tortura. (BRASIL, 2015).
Porém, embora tenha havido essa recente regulamentação, a previsão para a
realização da audiência de custódia existe em nosso ordenamento desde 1992,
através da ratificação de dois tratados internacionais de direitos humanos, quais
sejam, a Convenção Americana de Direitos Humanos (CADH) e o Pacto Internacional
sobre Direitos Civis e Políticos. (LOPES JÚNIOR, 2016).
Sendo assim, é interessante notar que, a partir do momento em que foram
ratificados, passaram a fazer parte do ordenamento brasileiro, o que significa dizer
que a partir daí passou a existir a previsão da realização da audiência de custódia.
(SANTOS, 2015). Mesmo com tal previsão as audiências de custódia levaram
décadas para serem implementadas, ressaltando-se nesta pesquisa o papel da
Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 347 como estopim para a
regulamentação feita pelo CNJ. (MORAES, 2017).
A referida ADPF declarou o estado de coisas inconstitucional do sistema
carcerário brasileiro, caracterizado por um quadro de massiva violação a direitos e
garantias fundamentais dos presos, determinando medidas a serem tomadas pelos
órgãos envolvidos, sendo uma dessas medidas a imediata e obrigatória realização
das audiências de custódia. (BRASIL, 2015). Assim, nota-se que a audiência de
custódia é instrumento processual penal com forte viés constitucional, voltado para a
proteção dos direitos humanos mais básicos, uma vez que auxilia na redução do

1 Graduanda em Direito pelo Centro Universitário UNDB. E-mail:


kanandamagalhaessantos@gmail.com
2 Graduanda em Direito pelo Centro Universitário UNDB. E-mail: ngsouza08@gmail.com
3 Professor Esp. do Centro Universitário UNDB. E-mail: jose.sauaia@undb.edu.br
encarceramento em massa e resguarda o indivíduo de prisões arbitrárias e de
violações à sua integridade física e psicológica.
Nesse sentido, faz-se necessário um estudo a respeito da instrumentalidade da
audiência de custódia na proteção a direitos fundamentais, para que tenhamos uma
maior compreensão acerca de seus fundamentos e benefícios. Outro ponto a se
destacar é a reflexão a respeito da situação carcerária do Brasil, que enfrenta
problemas sem precedentes e cujos ideais estabelecidos pela legislação jamais foram
alcançados. (ZERBINI, 2016).
É nítido que a audiência de custódia representa um mecanismo valiosíssimo
para a sociedade em si, uma vez que os problemas de que padece o sistema
carcerário acabam por afetar toda a população. Dessa forma, a ADPF 347 trouxe à
luz uma situação bastante preocupante a respeito da atuação dos poderes e órgãos
públicos no sistema prisional brasileiro, revelando um verdadeiro estado de
inconstitucionalidade massiva. É necessário, assim, um maior aprofundamento em
pesquisas acerca da audiência de custódia, pois trata-se de instrumento capaz de
auxiliar de forma efetiva na proteção dos direitos fundamentais da pessoa presa.
Nesse sentido, como objetivo geral, esta pesquisa se ocupará de Demonstrar
a importância da audiência de custódia como instrumento de garantia de direitos
fundamentais.
Especificamente, se ocupará de compreender a audiência de custódia, seus
fundamentos e objetivos, analisar a Arguição de Descumprimento de Preceito
Fundamental nº 347 e o conceito de estado de coisas inconstitucional do sistema
carcerário brasileiro, bem como correlacionar a determinação da ADPF 347 para a
realização das audiências de custódia e a eficácia desta na defesa de direitos
fundamentais dos presos.

2 METODOLOGIA

Quanto aos procedimentos técnicos a pesquisa classifica-se como bibliográfica


por utilizar como base material já elaborado constituído, principalmente, por livros,
teses e dissertações. Quanto aos objetivos a pesquisa é exploratória por se tratar de
um aprimoramento de ideias e descoberta de intuições, proporcionando um maior
aprendizado e aprofundamento no tema que se propõe. (GIL, 2010).
3 RESULTADOS (OU RESULTADOS E DISCUSSÃO)

Diante da atual conjuntura carcerária, o preso, sem audiência de custódia,


ficava aproximadamente quatro meses à espera de um andamento processual na
expectativa de ser ouvido em juízo. Dessa forma, metade da população carcerária era
composta de presos provisórios. A audiência de custódia, portanto, é um instrumento
primordial na averiguação do juízo para a necessidade da prisão. (NICOLITT, 2015).
Os dados do Relatório da Unidade de Monitoramento Carcerário do Maranhão
apontam que, de outubro a dezembro de 2014, quando as audiências de custódia
começaram a ser realizadas em São Luís, capital pioneira, ocorreram 92 audiências
de custódia, das quais foram aplicadas 49 medidas alternativas à prisão. No mesmo
período (outubro a dezembro), já em 2016, ano imediato após a regulamentação feita
em dezembro de 2015 pelo CNJ, ocorreram 368 audiências de custódia, das quais
153 medidas alternativas à prisão foram aplicadas, e dentro desse número houveram
22 relaxamentos de prisão. (BRASIL, 2018).
Dessa forma, é possível notar que as audiências de custódia contribuem de
forma significativa para a redução do número de prisões decretadas. Como visto, a
ADPF 347 declarou o Estado de coisas inconstitucional do sistema prisional brasileiro,
uma vez que este padece de sérios problemas, como a superlotação, que por sua vez
acarreta em outros problemas, como a degradação da saúde dos presos, da sua
dignidade moral e física.
Há uma massiva violação a direitos fundamentais, tais como a liberdade, tendo
em vista a enormidade de presos provisórios que aguardam meses e até anos para a
averiguação de sua prisão, o direito ao contraditório e à ampla defesa, a presunção
da inocência, a integridade física e psicológica, e por óbvio, a dignidade da pessoa
humana, que por si só abarca todos os demais direitos fundamentais.

4 CONCLUSÃO

Assim, uma vez que a audiência de custódia possibilita uma rápida


apresentação do preso perante o Juiz, uma das medidas decretadas pelo STF ao
julgar a ADPF 347 foi a imediata e obrigatória realização das audiências de custódia.
(BRASIL, 2015).
Portanto, diante do que foi apresentado, bem como dos dados fornecidos pela
relatório de monitoramento carcerário, conclui-se que a audiência de custódia tem,
efetivamente, contribuído para a redução da população carcerária, uma vez que
medidas alternativas são decretadas com maior rapidez, além de uma percepção mais
célere acerca da realização de prisões ilegais, o que resulta em seu imediato
relaxamento, sem que o preso passe meses na unidade penitenciária.
A averiguação de eventuais maus tratos ou torturas também contribui para que
tais atos sejam combatidos e coibidos no âmbito prisional. Dessa forma, a audiência
de custódia revela-se como um meio eficiente de proteção a direitos fundamentais,
auxiliando na amenização do estado de coisas inconstitucional em que o sistema
penitenciário brasileiro se tornou.
REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.


Brasília, DF: Senado, 1988.

BRASIL. Resolução nº 213, de 15 de dezembro de 2015. Conselho Nacional de


Justiça, Brasília, 2015. Disponível em: <http://www.cnj.jus.br/busca-atos-
adm?documento=3059> Acesso em: 30 ago. 2017.

BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito


Fundamental 347. Brasília, 09 de setembro de 2015.

BRASIL. Unidade de Monitoramento Carcerário. Tribunal de Justiça do


Maranhão. Relatório: Audiências de custódia. São Luís: Tjma, 2018. Disponível em:
<http://site.tjma.jus.br/umf/noticia/sessao/2191/publicacao/415083>. Acesso em: 20
jul. 2018.

GIL, Antônio Carlos. Como classificar as pesquisas? In:______. Como elaborar


projetos de
pesquisa. São Paulo: Atlas S.A., 2010. Cap. 4, p. 41-44. Disponível em:
&lt;https://professores.faccat.br/moodle/pluginfile.php/13410/mod_resource/content/1
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jul. 2017.

LOPES JÚNIOR, Aury. Direito processual penal. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2016.

MORAES, Alexandre de. Direito constitucional. 33ª. ed. rev. e atual. até a EC nº
95, de 15 de dezembro de 2016 – São Paulo: Atlas, 2017.

NICOLITT, André Luiz. Processo Penal Cautelar. 2ª. ed. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2015.

SANTOS, Cleopas Isaías. Audiência de Garantia ou sobre o óbvio ululante.


Empório do Direito. 2015. Disponível em:<
http://emporiododireito.com.br/audiencia-de-garantia-ou-sobre-o-obvio-ululante-por-
cleopas-isaias-santos-2/ > Acesso em: 05 set.2017.

ZERBINI, Marcelo. Da audiência de custódia: história e crítica. Revista Justiça e


Sistema Criminal, Curitiba, v. 8, n. 15, p.229-252, jul. 2016. Semestral. Disponível
em: <https://revistajusticaesistemacriminal.fae.edu/direito/article/view/82/76>. Acesso
em: 24 maio 2018.