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A noite das garrafadas

Ao longo da colonização do Brasil, observamos que as relações e diferenças entre a


metrópole e a população colonial promoviam uma situação de oposição que, em alguns
momentos, se estendeu a uma disputa entre brasileiros e portugueses. A Guerra dos
Mascates, por exemplo, exprimiu bem esse tipo de situação, quando os fazendeiros de
Olinda se voltaram contra os comerciantes portugueses do Recife. No período joanino,
vemos que essa mesma situação se manteve.
Quando alcançamos a nossa independência, vimos que essa rivalidade se preservava na
figura do próprio D. Pedro I. Em diversas ocasiões o imperador, de descendência
portuguesa, se envolveu com assuntos da antiga metrópole e tomou decisões que
muitas vezes colocavam em dúvida o seu compromisso junto aos interesses da nação
que comandava. Vários de seus ministros eram portugueses e muitos desses defendiam
irrestritamente o fortalecimento da autoridade imperial no país.
Alcançando os últimos anos do império, vemos que essa situação de desconfiança e
crítica ao imperador se agravou quando Líbero Badaró, jornalista de tendência liberal e
ferrenho opositor de D. Pedro I, foi misteriosamente assassinado. Tudo começou no dia
20 de Novembro de 1830, com o assassinato do jornalista Líbero Badaró, fundador do
“Observador Constitucional”, um periódico liberal, e conhecido por denunciar o
autoritarismo de D. Pedro I em suas matérias. O crime foi cometido por quatro
desconhecidos, mas a suspeita do assassinato ficou sobre o próprio governante,
suspeita que foi aceita como fato por muitas pessoas na época.
Em pouco tempo, o incidente foi tomado pela população como um desmando do
imperador. Mediante a conturbada situação, D. Pedro I organizou uma comitiva em busca
de apoio e prestígio em outras províncias do território.
Viajou para Minas Gerais em fevereiro de 1831. Porém, em cada cidade por onde passava
ouvia os comentários de insatisfação do povo pela morte de Líbero Badaró, ao mesmo
tempo que encontrava hostilidade por parte do povo mineiro, que murmurava contra ele
à sua presença e vaiava aqueles que porventura o recebessem com educação. Em Minas
Gerais, a comitiva imperial foi hostilizada com as portas das casas fechadas e cobertas
por mantos negros. Transtornado com a represália, D. Pedro resolveu voltar à capital do
império.
Com todos estes fatos que aumentavam a agitação no país, D. Pedro I volta ao Rio de
Janeiro no dia 11 de Março, encontrando lá não só hostilidade mas oposição ferrenha,
manifestada nas ruas da cidade. Durante os dias 12, 13 e 14 de Março aconteceram
conflitos no Rio de Janeiro que envolviam os constitucionalistas, defensores da
Assembléia Geral, e os absolutistas, portugueses adeptos do governo de D. Pedro.
No dia 13 de Março, os portugueses organizaram uma festa de boas-vindas para D.
Pedro, com o objetivo de promover suas ideias absolutistas e de tentar reanimar o
governador. A notícia do evento deixou os brasileiros incomodados com uma
homenagem para uma figura política tão questionada. Desse modo, começaram a
hostilizar os portugueses chamando os mesmos de “estrangeiros” ou bradando “morte
aos pés de chumbo”. Em pouco tempo, as ofensas se transformaram em uma enorme e
violenta baderna entre portugueses e brasileiros pelas ruas da cidade atacando os
lusitanos com garrafas, cacos e pedras. Este evento acabou conhecido como “A noite
das garrafadas”.

Os portugueses refugiaram-se em suas casas atirando de lá pedras e garrafas


quebradas nos liberais. O conflito se prolongou nos dias seguintes, tendo D. Pedro feito
várias tentativas para contê-lo, mas todas sem sucesso. A situação resultou na
abdicação do trono por D. Pedro, em favor de seu filho que tinha apenas 5 anos de
idade, D. Pedro de Alcântara, fato que aconteceu no dia 7 de Abril de 1831. D. Pedro
deixou de ser imperador do Brasil e em seguida abandonou o pais.
Do ponto de vista político, esse foi um dos últimos eventos que antecederam a retirada
de D. Pedro I do cenário. Antes disso, o imperador ainda tentou contornar a situação ao
promover a eleição de um ministério formado somente por brasileiros. Contudo, a
medida acabou não perdurando e novas manifestações contra o imperador o forçaram a
abdicar do trono brasileiro.

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