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ISSN 1809-5313

Revista de Literatura,
História e Memória

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Revista de Literatura,
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HISTÓRIA E MEMÓRIA NA LITERATURA

UNIOESTE - CAMPUS DE CASCAVEL

Revista de Literatura,
História e Memória
2010: reflexões sobre
o bicentenário de
independências na América

VOLUME 6 - NÚMERO 8 - 2010

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© 2010, Edunioeste

Capa e Diagramação
Antonio da Silva Junior

Revisão:
Gilmei Francisco Fleck, Abel Santos de Oliveira Júnior, Bruna Otani Ribeiro e Robert
Thomas Georg Würmli

Organização:
Gilmei Francisco Fleck

Revista do Seminário de Literatura, História e Memória / Grupo de Pesquisa


em Educação, Cultura, Linguagem e Arte. v.1, n. 1.(2005)- .—
Cascavel : EDUNIOESTE, 2005
v. ; 23 cm

R454 Anual (2005-2008), semestral (2009- ). Alguns artigos em inglês,


espanhol e italiano, resumos em português, inglês, espanhol. Coletânea do
Seminário de Literatura , História e Memória do Programa de Pós-Graduação
Stricto Sensu em Letras. Colegiado de Letras, Português, Inglês, Espanhol e
Italiano. Disponível também em formato eletrônico. Cada número possui
título distinto.

ISSN: 1809-5313
1.Literatura – Periódicos 2. Estética – Periódicos 3. Literatura
comparada – Periódicos I. Grupo de Pesquisa em Educação, Cultura,
Linguagem e Arte
CDD 20.ed. 809.05

Os trabalhos publicados nesta revista estão mantidos na forma em que foram


enviados por seus autores, responsáveis pelo conteúdo ideológico, pela linguagem
que nele se emprega e pela forma em que o texto se apresenta.

Endereço para correspondência:


CECA - Centro de Educação, Comunicação e Artes /
Unioeste / Campus de Cascavel
Rua Universitária, 2069 - Prédio de salas de aula - 3º piso - sala 82
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Revista de Literatura,
História e Memória
2010: Reflexões sobre o
bicentenário de independências
na América

ISSN 1809-5313
VOL. 6 - Nº 8 - 2010
APRESENTAÇÃO
U NIOESTE / CASCAVEL

P. 5-9

2010: REFLEXÕES SOBRE O BICENTENÁRIO DE INDEPENDÊNCIAS NA


AMÉRICA – UMA BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO

FLECK, Gilmei Francisco (UNIOESTE/Cascavel)*

A segunda edição de 2010 de nossa Revista de Literatura, História e Memória


traz como centro das reflexões propostas o significativo ano de 2010, no qual os
países latino-americanos voltam seus olhares para o bicentenário de seus processos
de independência das metrópoles europeias que os colonizaram. Entre os aspectos
mais relevantes desse processo encontram-se as releituras da história pela ficção,
já que os textos híbridos – caracterizados como romances históricos – ganharam,
em nosso continente, uma dimensão que os projetou como uma das mais críticas
formas de escrita da contemporaneidade, segundo Aínsa (1988-1991)1 e Menton
(1993)2 .
De acordo com Larios (1997, p. 133 – nossa trad. do espanhol), o novo romance
histórico latino-americano “[…] torna-se crítica do presente e tenta, na ordem
consciente de sua geração, através da impugnação, da paródia, da ironia, da
desconstrução, do anacronismo, da simultaneidade de um passado alterno, uma
visão totalizada de mundo”. Tal intento se dá pelo fato de que, essa escrita híbrida
“[...] instaura em seu novo saber narrativo linguagens especializadas, exclusivas,
intertextualizadas, com as quais se disputa o saber científico da história a tarefa
final com o passado histórico: sua compreensão. (LARIOS, 1997, p. 133)3 . Buscamos,
pois, reunir um conjunto de textos, elaborados por especialistas e estudiosos, que
analisam tais representações quando estas se voltam, de uma ou outra maneira, às
releituras dos processos de independência das nações latino-americanos nesse ano
do bicentenário.
Revista de Literatura, v ol. 6 nº 8 2010 p. 5-9
História e Memória I SSN 180 9-5313
1809-5313
UNIOESTE CAMPUS DE CASCAVEL
2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

A pergunta mais complexa que nos moveu a tal eleição diz respeito à postura
da academia nesse contexto. Interessa-nos averiguar qual é a discussão que deve
ser levada a cabo pelo pensamento acadêmico nesse congestionamento de informações
sobre a efeméride e que papel representa esse pensamento para a sociedade como
um todo.
Talvez fosse o caso de começar pela própria expressão em si: Bicentenário
da Independência. Trata-se, como se pode notar, de uma efeméride comemorada
durante o ano de 2010, nos países hispano-americanos. Comemora-se, em vários
desses países, o segundo centenário de sua independência. Algumas perguntas
poderiam ser postas já de saída: se se comemora a independência é porque ela
ocorreu. Em que medida ocorreu e o que representa essa independência para a
situação atual desses países é a primeira discussão. Essa pode abranger diversos
âmbitos, como o político, o social, o econômico, o histórico, o cultural, e assim
por diante. O que representa, enfim para a população desses países os duzentos
anos de independência? Muito se pode dizer sobre isso, nos vários contextos, desde
aqueles que defendem a posição de que essa independência ainda não ocorreu
plenamente, até as mais variadas interpretações para o fato, a partir de uma simples
pergunta: o que é, enfim, ser independente em tempos atuais?
Outra linha de pensamento seria aquela que penderia para a problematização
da comemoração em si. Qual a função das efemérides para a sociedade e para os
grupos de poder nessas sociedades? Qual o sentido da celebração em si, com suas
comissões encarregadas de organizar congressos, desfiles e exposições, imprimir
livros, cartazes, faixas e selos, cunhar moedas e medalhas comemorativas, realizar
espetáculos artísticos, culturais e políticos, inaugurar obras grandiosas, umas não
tão faustuosas como outras, ou até mesmo preparar safras especiais de vinho com o
rótulo de “Bicentenário da Independência”, como vem ocorrendo desde o ano passado
em vários países hispano-americanos?
Discutir como cada comunidade cultural hispano-americana construiu o
discurso fundador de sua nacionalidade, escolhendo para essa construção os
elementos que pareceram significativos para aqueles que detinham o poder econômico
naquele momento é uma tarefa necessária. Refletir se esse discurso fundador ainda
tem sentido e como ele representa os diversos setores que constituem essas
comunidades também é, mais que interessante, necessário. A pergunta que deve ser
feita, mais que simplesmente sair à rua festejar uma data cujo sentido não entendemos
muito bem é: o que significa essa celebração para cada cidadão e também para quem
está patrocinando o desfile?

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Revista de Literatura, vol. 6 nº 8 2010 p. 5-9
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UNIOESTE CAMPUS DE C ASCAVEL
2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

Em termos gerais, pode-se dizer que o século XVIII representou o ingresso


na Modernidade como a conhecemos atualmente. Alavancadas na revolução industrial
que mudou totalmente as formas de produção no mundo e as relações sociais e
políticas dela decorrentes, essas mudanças também chegaram ao nível das ideias,
desembocando num repensar o mundo e o papel do indivíduo nesse mundo, conhecido
como Iluminismo. Depois de o Contrato social (1762), de Rousseau, ou da Declaração
dos direitos do homem (1789), entre tantas outras obras, o mundo já não seria o
mesmo. A Independência dos Estados Unidos da América, em 1776, e a Revolução
Francesa, em 1789, cujos bicentenários foram celebrados com a devida pompa,
consolidaram definitivamente as transformações em curso.
Paradoxalmente, a exportação das ideais de liberdade, igualdade e fraternidade,
divisa do processo revolucionário francês, pelos exércitos de Napoleão causou um
grande rearranjo no mapa político europeu e consequentemente mundial. Por um
lado, fez com que cada homem se sentisse cidadão e pela primeira vez pudesse
almejar ser dono de seu próprio destino. Por outro, como reação, fez surgir uma
onda de nacionalismos que acabou por fazer com que muitos se sentissem mais
iguais que outros.
Isso ocorre na Espanha: as ideias francesas que pretendiam ilustrar o país,
livrando-o das velhas pragas do conservadorismo religioso (a Santa Inquisição seguia
vigente), do imperialismo que espoliava as colônias americanas que pagavam a
conta de uma economia ancorada em valores da Idade Média, também faz surgir um
nacionalismo rancoroso, popular, mas conservador. A invasão francesa de 1808
apeia do trono a dinastia ilustrada dos Burbons, substituída por um governo títere
de Napoleão (no trono seu irmão, José, que os espanhóis com rancor apelidaram de
Pepe Botella). A reação popular é imediata e começa a Guerra de Independência
Espanhola, que também não deixa de ser uma espécie de Guerra Civil, que destruirá
o país até 1814. No extremo sul do país se reúnem as Cortes de Cádiz que redigem
a primeira Constituição da história espanhola, votada em 1812, mas que por seu
conteúdo liberal foi anulada pelo rei Fernando VII, o conservador devolvido ao
trono após a derrota de Napoleão.
Esse é o contexto das primeiras manifestações de independência ocorridas
ao longo do vasto território colonial espanhol nas Américas. Trata-se, como a Guerra
de Independência da Espanha, de um movimento amplo e complexo. São manifestações
variadas que incluem desde movimentos revolucionários, de acordo com os princípios
franceses, até simples moções de apoio negando o rei francês no trono da Espanha,
em defesa do rei espanhol na prisão. Entre 1809 e 1811, praticamente todas as regiões
da vasta administração espanhola na América instalaram Juntas de Governo

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2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

independentes do poder espanhol.


A lista dos bicentenários hispano-americanos se refere a essas juntas,
instaladas ao longo de 1810, e consideradas, na construção dos discursos fundadores
das novas nações que surgem pelo território americano nas décadas seguintes, como
marco da independência. As atuais repúblicas da Venezuela, Argentina, Colômbia,
México e Chile (nesta ordem cronológica), países cuja independência se consolida
nas décadas seguintes, constituem essa lista de 1810. A Bolívia preferiu adiantar-se,
escolhendo como data de seu Bicentenário, inaugurado com toda a pompa pelo
presidente Evo Morales, a Revolução de Chuquisaca, ocorrida em maio de 1809. O
Paraguai, num primeiro momento preferiu não se alinhar com Buenos Aires e declarou
sua Independência em 1811.
Merece destacar, no entanto, que são datas escolhidas praticamente ao acaso,
uma vez que a maior parte desses países teria sua independência “real”, por assim
dizer, consolidada bem mais tarde. Muitas dessas regiões enfrentariam a reação
espanhola que não tardou em chegar, principalmente naquelas regiões mais ricas,
como o México ou Peru. A Guerra de Independência, iniciada em 1810, apenas
terminou em 1823, quando com exceção das ilhas do Caribe, a Espanha foi derrotada
em todo o continente. O processo, no entanto, não termina com a retirada dos
espanhóis, uma vez que as várias regiões enfrentaram um longo período de guerras
internas, que praticamente duraria toda a primeira metade do século XIX.
Se, para a estruturação dos primeiros governos, republicanos todos, o modelo
foi a organização dos Estados Unidos da América, na guerra contra a Espanha, foi
importante o apoio dos ingleses. A Inglaterra foi a grande vitoriosa, uma vez que
pôde incorporar em seu domínio o comércio com essa vasta zona produtora de
matérias primas, compradora de seus produtos manufaturados e da prestação de
serviços, como a construção da malha ferroviária, a modernização dos portos, a
modernização das cidades e o financiamento das guerras locais, entre outros.
Na verdade, poucas mudanças ocorreram nesses países. Manteve-se a estrutura
econômica vigente na colônia, com a diferença de que agora o comercio se faz,
usualmente com os ingleses. Uma elite, em sua maioria branca ou levemente mestiça,
controla a propriedade da terra e dos meios de produção e mantém sob seu poder a
grande massa de trabalhadores, em geral formada por populações indígenas, mestiças
ou descendentes de escravos africanos trazidos durante a colônia. De acordo com a
região, também há uma população branca pobre, distribuída em geral na prestação
de serviços nos insignificantes centros urbanos. As cidades, com a independência e
o consequente afluxo de capitais estrangeiros, basicamente inglês, ou excedentes da
agricultura, pecuária e exploração mineral, começam a incrementar-se e veem surgir

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2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

uma incipiente classe média cuja importância crescerá com o passar do tempo.
Pensar o Bicentenário é pensar tudo isso, uma tarefa, evidentemente complexa,
como a realidade do conjunto de países que escolheu o ano de 2010 para suas
comemorações. Tão complexa, enfim, como a realidade de cada um desses países.
Apresentamos, em seguida, alguns trabalhos, que no limiar entre a literatura, essa
forma privilegiada de ler a história; a história e a memória, propõem-se a contribuir
para essa discussão. Desejamos a todos uma boa leitura.

NOTAS

1 AÍNSA, F. El proceso de la nueva narrativa latinoamericana de la historia y la parodia. El


Nacional, Caracas, p. 7-8, 17 dic. 1988.
AÍNSA, F. La nueva novela histórica latinoamericana. Plural, México, v. 240, p. 82-85, 1991.
2 MENTON, S. La nueva novela histórica de la América Latina: 1979-1992. México: Fondo de
Cultura Económica, 1993.
3 LARIOS, M. A. Espejo de dos rostros. Modernidad y postmodernidad en el tratamiento de la
historia. In: KOHUT, K. (Ed.). La invención del pasado: la novela histórica en el marco de la
posmodernidad. Franfurt; Madrid: Vervuert, 1997.

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Revista de Literatura,
História e Memória
2010: Reflexões sobre o
bicentenário de independências
na América

ISSN 1809-5313
VOL. 6 - Nº 8 - 2010
PRESENTACIÓN
PRESENTA
U NIOESTE / CASCAVEL

P. 11-15
FLECK, Gilmei Francisco (UNIOESTE/Cascavel)
Tradução (espanhol): RIBEIRO, Bruna Otani (UNIOESTE/Cascavel)*

2010: REFLEXIONES SOBRE EL BICENTENARIO DE LAS INDEPENDENCIAS EN


AMÉRICA – UNA BREVE CONTEXTUALIZACIÓN

La segunda edición de 2010 de nuestra Revista de Literatura Historia y Memoria


contiene, como tema central, un conjunto de reflexiones producidas durante el
significativo año de 2010, año en que los países latinoamericanos direccionan sus
miradas hacia la conmemoración del bicentenario de los procesos de independencia
de las metrópolis europeas que los colonizaron. Entre los aspectos más relevantes
de esta temática se destacan las relecturas de la historia por la ficción, ya que los
textos híbridos – caracterizados como novelas históricas – ganaron, en nuestro
continente, una dimensión que los proyectó como una de las formas más críticas de
escritura de la contemporaneidad, según Aínsa (1988-1991)4 y Menton (1993)5 .
De acuerdo con Larios (1997, p. 133), la nueva novela histórica latinoamericana
“[…] se vuelve crítica del presente e intenta, en el orden consciente de su generación,
a través de la impugnación, la parodia, la ironía, la deconstrucción, el anacronismo,
la simultaneidad de un pasado alterno, una visión totalizadora del mundo. Tal intento
ocurre por el hecho de que esa modalidad de escritura híbrida “[…] instaura en su
nuevo saber narrativo lenguajes especializados, exclusivos, intertextualizados, con
los que se disputa el saber científico de la historia la tarea final con el pasado
histórico: su comprensión. (LARIOS, 1997, p. 133)6 . Buscamos, por lo tanto, reunir
un conjunto de textos, elaborados por especialistas y estudiosos, que analizan dichas
representaciones cuando ellas se ocupan, de una manera o de otra, de las relecturas
correspondientes a los procesos independentistas de las naciones latinoamericanas.
La cuestión más compleja que nos llevó a formular esta elección se refiere a
la posición asumida por la academia en ese contexto. Nos interesa averiguar cuál es
la discusión llevada a cabo por el pensamiento académico en ese congestionamiento

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2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

de informaciones sobre la efeméride y la interpretación del papel que representa tal


pensamiento para la sociedad en su conjunto.
Tal vez sea conveniente empezar por la propia expresión en sí: Bicentenario
de la Independencia. Se trata, como se puede notar, de una efeméride celebrada
durante el año de 2010, en los países hispanoamericanos. Se conmemora, en varios
de estos países, el segundo centenario de sus independencias. Algunas preguntas
podrían ser formuladas desde el comienzo: si se celebra la independencia es porque
ésta efectivamente ocurrió. En qué medida ocurrió y/o qué representa esa
independencia para la situación actual de estos países, constituye la primera
discusión. Esta puede abarcar diversos ámbitos, como el político, el social, el
económico, el histórico, el cultural, entre otros. O también, puede preguntarse,
¿qué representa, en última instancia, para la población de estos países los doscientos
años de independencia? Mucho es lo que se puede decir acerca de tales asuntos en
diversos contextos; desde aquellos que defienden la posición de que esta
independencia todavía no ocurrió plenamente, hasta las más variadas interpretaciones
para el hecho, a partir de una simple pregunta: ¿qué significa, en definitiva, ser
independiente en los tiempos actuales?
Otra línea de pensamiento sería aquella que tendería a la problematización
de la propia conmemoración del Bicentenario. ¿Cuál es la función de esta celebración
de las efemérides para las sociedades y los grupos de poder en estas sociedades?
¿Cuál es el sentido de la celebración, con sus comisiones encargadas de organizar
conferencias, exposiciones y desfiles, imprimir libros, carteles, banderas y sellos,
acuñar monedas y medallas conmemorativas, realizar espectáculos artísticos,
culturales y políticos, inaugurar grandes obras, unas no tan ostentosas como otras,
o incluso preparar cosechas especiales de vino con la etiqueta “Bicentenario de la
Independencia”, como viene ocurriendo desde el año pasado en varios países
hispanoamericanos?
Discutir el modo en que cada comunidad cultural hispanoamericana construyó
el discurso fundador de su nacionalidad, escogiendo para esa construcción los
elementos que parecieron significativos para aquellos que detentaban el poder
económico en aquel momento resulta una tarea necesaria. Reflexionar sobre si este
discurso fundador todavía tiene sentido y cómo él representa a los distintos sectores
que constituyen estas comunidades también es, más que interesante, necesario. La
pregunta que debe hacerse, en lugar de salir a las calles a celebrar una fecha cuyo
significado no se entiende muy bien es: ¿Qué significa esta celebración para cada
ciudadano y también para quién está organizando el desfile?
En general, se puede decir que el siglo XVIII representó el ingreso en la

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Modernidad tal como la conocemos actualmente. Sostenidas en la revolución


industrial que cambió por completo las formas de la producción mundial y las
relaciones sociales y políticas de ella resultantes, estos cambios también llegarán al
nivel de las ideas, desembocando en un repensar el mundo y el papel del individuo
en este mundo, conocido como Iluminismo. Después del Contrato social (1762), de
Rousseau, o de la Declaración de los Derechos del hombre (1789), entre tantas
otras obras, el mundo ya no sería el mismo. La Independencia de los Estados Unidos
de América en 1776, y la Revolución Francesa en 1789, cuyos bicentenarios fueron
celebrados con la debida pompa, consolidarán definitivamente las transformaciones
en curso.
Paradójicamente, la exportación de los ideales de libertad, igualdad y
fraternidad, emblema del proceso revolucionario francés por los ejércitos de
Napoleón, provocó una gran reorganización en el mapa político europeo y,
consecuentemente, mundial. Por un lado, logró que cada hombre se sintiera
ciudadano y, por primera vez, pudiera aspirar a ser dueño de su propio destino.
Por otro, y en respuesta a esos logros, hizo surgir una ola de nacionalismos que
acabó por conseguir que muchos se sintiesen más iguales que otros.
Esto ocurre en España: las ideas francesas que pretendían ilustrar el país,
librándolo de las viejas plagas del conservadurismo religioso (la Santa Inquisición
seguía vigente), del imperialismo que expoliaba las colonias americanas que pagaban
la cuenta de una economía anclada en valores de la Edad Media, también hace surgir
un nacionalismo rencoroso, popular, más conservador. La invasión francesa de 1808
baja del trono a la ilustrada dinastía de los Borbones, reemplazada por un gobierno
títere de Napoleón (en el trono su hermano, José, que los españoles, con rencor,
apodaron Pepe Botella). La reacción popular es inmediata y se inicia la Guerra de la
Independencia Española, que también constituye una especie de Guerra Civil, que
destruirá el país hacia 1814. En el extremo sur de España se reúnen las Cortes de
Cádiz que redactan la primera Constitución de la historia española, votada en 1812,
que, sin embargo, por su contenido liberal fue anulada por el rey Fernando VII, el
conservador vuelto al trono después de la derrota de Napoleón.
Este es el contexto de las primeras manifestaciones de independencia ocurridas
a lo largo del vasto territorio colonial español en las América. Se trata, como la
Guerra de la Independencia de España, de un movimiento amplio y complejo. Son
manifestaciones variadas que incluyen desde movimientos revolucionarios, de acuerdo
con los principios franceses, hasta simples mociones de apoyo, negando al rey
francés el trono de España, en defensa del rey español en prisión. Entre 1809 y 1811,
prácticamente todas las regiones de la vasta administración española en América

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2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

instalaron Juntas de Gobierno independientes del poder español.


La lista de los bicentenarios hispanoamericanos se refiere a esas juntas,
instaladas a lo largo de 1810, y consideradas como marco de la independencia, en la
construcción de los discursos fundadores de las nuevas naciones que surgen por el
territorio americano en las siguientes décadas. Las actuales repúblicas de Venezuela,
Argentina, Colombia, México y Chile (en ese orden cronológico), países cuya
independencia se consolida en las décadas siguientes, constituyen esta lista de
1810. Bolivia optó por adelantarse, eligiendo como fecha de su Bicentenario,
inaugurado con gran pompa por el presidente Evo Morales, la Revolución de
Chuquisaca, que ocurrió en mayo de 1809. Paraguay, en un primer momento, optó
por no alinearse con Buenos Aires y declaró su independencia en 1811.
Cabe destacar, sin embargo, que son fechas elegidas prácticamente al acaso,
toda vez que la mayor parte de estos países tendría su independencia “real”, por así
decirlo, consolidada años más tarde. Muchas de estas regiones enfrentarían la
reacción española que no tardó en llegar, principalmente en aquellas regiones más
ricas, como México y Perú. La Guerra de Independencia, iniciada en 1810, apenas
terminó en 1823, cuando, con la excepción de las islas del Caribe, España fue derrotada
en todo el continente. El proceso, sin embargo, no termina con la retirada de los
españoles, ya que varias regiones enfrentaron un largo período de guerras internas,
que prácticamente duraría toda la primera mitad del siglo XIX.
Si para la estructuración de los primeros gobiernos, todos republicanos, el
modelo fue la organización de los Estados Unidos de América; en la guerra contra
España, lo importante fue el apoyo de los ingleses. Inglaterra fue la gran victoriosa,
ya que pudo incorporar en su dominio el comercio con esta vasta zona productora
de materias primas, compradora de sus productos manufacturados y de la prestación
de servicios, tales como la construcción del ferrocarril, la modernización de los
puertos, la renovación y el progreso de las ciudades y el financiamiento de las
guerras locales, entre otros.
En verdad, pocos cambios ocurrieron en estos países. Se mantuvo la estructura
económica existente en la colonia, con la diferencia de que ahora el comercio se
hace, usualmente, con los ingleses. Una élite, generalmente blanca o levemente
mestiza, controla la propiedad de la tierra y de los medios de producción y mantiene
bajo su poder la gran masa de trabajadores, cuya mayoría está formada por poblaciones
indígenas, mestizas o descendientes de esclavos africanos introducidos durante la
época colonial. De acuerdo con la región, también hay una población blanca pobre,
distribuida, en general, en la prestación de servicios en los insignificantes centros
urbanos. Las ciudades con la independencia y el consecuente flujo de capitales

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2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

extranjeros, básicamente de origen inglés, y los excedentes de la agricultura, la


pecuaria y la exploración minera, comienzan a crecer y ven surgir una clase media
incipiente, cuya importancia aumentará con el tiempo.
Reflexionar sobre el Bicentenario es pensar en todo esto, evidentemente, una
tarea compleja, como la realidad del conjunto de países que escogió el año 2010
para sus conmemoraciones. Tan compleja, en fin, como la realidad actual de cada
uno de estos países. Presentamos, a continuación, algunos trabajos, que en las
fronteras entre la literatura, esa forma privilegiada de leer la historia; la historia y la
memoria, se proponen contribuir con esa discusión. Deseamos a todos una buena
lectura.

NOTAS

*Professor Adjunto da Unioeste/Cascavel no Curso de Graduação em Letras Portugês/Espa-


nhol e do Programa de Pós-graduação stricto sensu em Letras: Linguagem e Sociedade, da
Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste/Cascavel). Coordenador do PELCA:
Programa de Ensino de Literatura e Cultura. Editor da Revista de Literatura, História e
Memória, juntamente com Lourdes Kaminski Alves.
*Acadêmica do curso de Letras Português/Espanhol da Unioeste/Cascavel. Integrante do curso
de extensão “Formação de tradutores: teoria e prática - uma perspectiva intercultural”,
vinculado ao PELCA- Programa de Ensino de Literatura e Cultura.
4 AÍNSA, F. El proceso de la nueva narrativa latinoamericana de la historia y la parodia. El
Nacional, Caracas, p. 7-8, 17 dic. 1988.
AÍNSA, F. La nueva novela histórica latinoamericana. Plural, México, v. 240, p. 82-85, 1991.
5 MENTON, S. La nueva novela histórica de la América Latina: 1979-1992. México: Fondo de
Cultura Económica, 1993.
6 LARIOS, M. A. Espejo de dos rostros. Modernidad y postmodernidad en el tratamiento de la
historia. In: KOHUT, K. (Ed.). La invención del pasado: la novela histórica en el marco de la
posmodernidad. Frankfurt; Madrid: Vervuert, 1997.

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História e Memória
2010: Reflexões sobre o
bicentenário de independências PRESENTATION:
na América

ISSN 1809-5313 FLECK, Gilmei Francisco (UNIOESTE/Cascavel)


VOL. 6 - Nº 8 - 2010 Translation (English): LEVINSKI,
Guilherme Luis Marins (UNIOESTE/Cascavel)*
U NIOESTE / CASCAVEL

P. 17-21

2010: THOUGHTS ON THE BICENTENNIAL ANNIVERSARY OF


INDEPENDENCES IN AMERICA – A BRIEF APPROACH

This year’s second edition of the Literature, History and Memory Journal
focuses its thoughts on the significant year of 2010, when the eyes of all Latin
American countries gazed upon the bicentennial anniversary of their processes of
independence from the European nations that colonized them. Among the most
significant aspects of this process, there lie fiction’s history replays, as the hybrid
texts – technically called historical novels – which afforded, in our continent, a
dimension that cast them as one of the most critical ways of writing past historical
events in the contemporaneous world, according to Aínsa7 (1988-1991) and Menton8
(1993).
According to Larios (1997, p. 133 – our translation from Spanish) the new
Latin American historical novel “[...] becomes critical of the present and tries, in
the conscious order of its generation, through the impugnation, the parody, the
irony, the deconstructionism, the anachronism, the simultaneity of an alternative
past, to reach to a totalizing vision of the world”. This is possible to happen once
this hybrid written “[…] installs in its new narrative knowledge specialized languages,
exclusive ones, intertextualized ones, with which it disputes with the scientifical
knowledge of History the final task concerning the historical past: its comprehension”
(LARIOS, 1997, p. 133 – our translation from Spanish)9 ..
The most complex question that led us toward such a choice relates to the
way Academy behaves in this context. It is our interest to verify which is the discussion
to be faced in face by the Academic thought in this jam of information on the
ephemeris and what role this thought plays for society as a whole.
Perhaps we had better start by explaining the following expression:
Bicentennial of Independence. As one can see, it is about an ephemeris celebrated

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2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

during the year of 2010, in American Spanish speaking countries, many of which
really reached their bicentennial anniversary. We could establish a few questions
right away concerning the thought that if independence is celebrated, it undoubtedly
happened. So, to what extent did it happen and what does it represent to the countries
where it occurred? That could lead to our first discussion here. This matter comprises
many aspects, as politics, society, economics, history, culture and so on. It is also
of interest to discuss what two hundred years of independence represents to these
countries. A lot can be said about it, in various contexts. We could, in this sense,
start from that point of view which defends the opinion that such an independence
did not yet occur, and then go to the most mixed interpretations for this fact, starting
with a simple question: in the modern world, what is it to be independent?
Another line of thought would be the one that tilted toward the problematic
of the celebration itself. What is the purpose of ephemeris for society and for the
groups of power within such societies. What is the sense of the celebration itself,
with the commissions trusted with the organization of congresses, parades,
expositions; printing books, posters, banners, seals; creating commemorative medals
and coins; carrying out artistic, cultural and political shows; making great deeds,
and others not so stately. Or even preparing special harvests for wines bottled as
“Bicentennial of Independence”, as has been happening since last year in many
American Spanish Speaking countries?
Discussing how each Spanish-American community built the discourse that
founded their nationality, picking the elements that seemed significant for those
who held economic power in their hands in that specific moment is also a necessary
task. Reflecting whether that founding discourse still makes sense and how the
numerous sectors that contribute to constitute these communities is not only
interesting, is also necessary. The question that remains, deeper than going out
onto the streets and celebrating something we do not entirely understand is: what is
the meaning such a celebration has to every citizen and also to the parade’s sponsors?
Generally speaking, one may say that the XVIII century played the role of a
ticket into Modernity, as we know it today. Then came the Industrial Revolution that
totally changed the ways of production in the world and the social and political
relations that resulted from them. Such changes reached the level of ideas, ending
up in rethinking the world and the role of the individual in this world, such era is
known as the Enlightenment.
After The Social Contract (1762), by Rousseau, or Declaration of the Rights
of Man (1789), among many other essays, the world was no longer the same. The
Independence of the United States of America, in 1776, and the French Revolution,

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2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

in 1789, the bicentennial of which were celebrated with the deserved pageantry,
consolidated the transformations for good.
As a paradox, exporting the ideals of liberty, equality, fraternity, all coming
from the French revolutionary process, by the armies of Napoleon, caused a great
rearrangement in the European political map and, as a consequence, in the world
map. On the one hand, it made each and every individual feel like a citizen with
possibilities like aiming to be the owner of his own destiny. On the other hand, as
a reaction, it created a wave of nationalisms that ended up making some feel in a
way more equal than others.
That happens in Spain: the French ideas that intended to illustrate the country,
ridding it from the old plagues of the religious conservatism (the Holy Inquisition
was still alive), and from the imperialism that spoiled the American colonies which
were then paying the bills of an economy anchored in values from the Middle Ages
also give life to a rancorous, popular, but conservative nationalism. The 1808 French
invasion alights the illustrated dynasty of the Bourbons from the throne, replaced
by a puppet of Napoleon (his brother Joseph, spitefully nicknamed Pepe Botella by
the Spaniards). A popular reaction was immediate and there started the Spanish
War of Independence, which can also be considered a Civil War that would destroy
the country up to 1814. In the southernmost part of the country, the Courts of Cádiz
gathered to write the first Constitution of the Spanish history, voted for in 1812, but
was canceled because of its liberal content by king Fernando VII, the conservative
one sent back to the throne after the defeat of Napoleon.
That is the context of the prime manifestations of independence that occurred
along the vast Spanish colonial territory in the Americas. Just like the Spanish War
of Independence, it is a wide and complex movement. They are numerous
manifestations that include from revolutionary movements, according to the French
themselves, to simple motions of support, preventing the French king from grasping
the throne of Spain, in a defense of the Spanish king in prison. Between 1809 and
1811, practically every region of the vast Spanish management in America would
build Government Committees independent from the Spanish power.
The list of Spanish-American bicentennials all refer to these committees,
settled all along the year of 1810, and regarded as a landmark of independence, in
the construction of the founding discourses of the new nations that would surge
around the American territory in the following decades. The current Republics of
Venezuela, Argentina, Colombia, Mexico and Chile (in this chronological order),
countries whose independences are reinforced in the following decades, constitute
this 1810 list. Bolivia preferred to stay ahead, choosing as its bicentennial date,

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2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

stately inaugurated by president Evo Morales, the Chuquisaca Revolution, which


happened it may 1809. At first, Paraguay preferred not to join Buenos Aires and
declared its independence in 1811.
It is noteworthy; however, that these are dates chosen entirely at random, as
most of these countries would only reach a real independence consolidated much
later. Many of these regions would face a Spanish reaction that did not last to come
true, mainly in those much richer regions, like Mexico or Peru. The War of
Independence, which started in 1810, only finished in 1823, when Spain was defeated
in all of the continents, except for the Caribbean Islands. However, the process does
not finish with the Spaniard’s retreat, as most of the regions faced a long period of
internal wars that would practically last for the whole first half of the XIX Century.
If for the organization of the first governments, all Republican, the model
was The United States of America, in the war against Spain the support from the
English was important. England was the great victorious, as it can bring about to its
power a commerce with this vast zone of raw material production, buyer of its
manufactured products and of their services, as the construction of a railway system,
harbor modernization, city modernization and the financing of local wars, among
others.
In fact, very few changes happened in these countries. The economic structure
of the colony kept on, with a slight difference: the commerce is now made with the
English. An elite, white or partly half-blooded in general, controls the propriety of
land and of the ways of production, and exerts power on a great mass of workers,
generally composed of indigenous, half-blooded indigenous, apart from descendants
of African slaves introduced during the colony. As proper for the region, there is
also a white and poor population, assigned into services in the developing urban
centers. With the independence and the consequent influx of foreign capital, basically
English, or exceeds of agriculture, cattle raising and mineral exploration, start
increasing and then there surges a developing bourgeoisie whose importance grows
with time.
Thinking about the Bicentennial is also considering all that, an evidently
complex task as the reality of the set of countries that chose 2010 for their
celebrations. The chosen thematic is as complex as the reality of each of these
countries. What follows are some essays that lie in the edge of Literature – or are
about it –, this privileged way of reading history. History and Memory propose to
contribute for this discussion. We wish you all a nice reading.

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2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

NOTES

*Acadêmico do curso de Letras Português/Inglês da Unioeste/Cascavel. Integrante do curso de


extensão “Formação de tradutores: teoria e prática - uma perspectiva intercultural”, vin-
culado ao PELCA- Programa de Ensino de Literatura e Cultura.
7 AÍNSA, F. El proceso de la nueva narrativa latinoamericana de la historia y la parodia. El
Nacional, Caracas, p. 7-8, 17 dic. 1988.
AÍNSA, F. La nueva novela histórica latinoamericana. Plural, México, v. 240, p. 82-85, 1991.
8 MENTON, S. La nueva novela histórica de la América Latina: 1979-1992. México: Fondo de
Cultura Económica, 1993.
9 LARIOS, M. A. Espejo de dos rostros. Modernidad y postmodernidad en el tratamiento de la
historia. In: KOHUT, K. (Ed.). La invención del pasado: la novela histórica en el marco de la
posmodernidad. Frankfurt; Madrid: Vervuert, 1997.

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História e Memória
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bicentenário de independências
na América

ISSN 1809-5313
VOL. 6 - Nº 8 - 2010
U NIOESTE / CASCAVEL

P. 23-24 SUMÁRIO

Por el camino de la Independencia: relectura de Las lanzas coloradas


de Arturo Uslar Pietri ........................................................................... 25
ZANDANEL, María Antonia

Simón Bolívar - do herói libertador ao homem desmistificado em


El general en su laberinto (1989), de Gabriel García Márquez ................. 45
STEDILE, Terezinha

Multiplicidad de perspectivas en el texto, paratextos y metatextos de


Conspiración contra Güemes: una novela de bandidos, patriotas,
traidores de Elsa Drucaroff ................................................................... 61
BARI, Camila

Una lectura burlesca de la independencia de Brasil: O Chalaça,


de José Roberto Torero (1994). .............................................................. 77
FLECK, Gilmei Francisco

Novela y atentado: El expediente del atentado (2007), de Álvaro Uribe. .. 85


GAMBETTA CHUK

As guerras de independência no romance histórico brasileiro


contemporâneo: conflitos, fissuras, dissenções ...................................... 97
ESTEVES, Antônio R.

Imagens da América em El otoño del patriarca ........................................ 113


FIORUCI, Wellington R.

http://e-revista.unioeste.br 23
Novelas socializadoras para educar al soberano ..................................... 123
MOLINA, Hebe Beatriz

Imaginario político y construcción de sentido en “La isla de Róbinson”


de Uslar Pietri ..................................................................................... 139
GONZALEZ ATENCIA, Juan Antonio

História e memória, uma relação conflituosa .......................................... 157


ZIOLI, Miguel

El huidizo sentido de la Independencia en La isla de Róbinson,


de Arturo Uslar Pietri. ......................................................................... 167
FEBRES, Laura.

“Quien habla es otra(o): el anverso y el envés de la historia


paraguaya en Madejas de Clío (2007) de Gloria Muñoz Yegros1 ” ............ 181
ZAMBRANO, Lilibeth

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Revista de Literatura, POR EL CAMINO DE LA
História e Memória
2010: Reflexões sobre
INDEPENDENCIA: RELECTURA
o bicentenário de
independências na América
DE LAS LANZAS COLORADAS
ISSN 1809-5313 DE ARTURO USLAR PIETRI
VOL. 6 - Nº 8 - 2010
U NIOESTE / CASCAVEL
ZANDANEL, María Antonia (UNCuyo)*
mazandanel@hotmail.com
P. 25-44

RESUMO: Em 1931 o escritor venezuelano Arturo Uslar Pietri publica Las lanzas coloradas, seu
primero romance histórico, no qual textualizará um importante segmento da epopeia levada a
cabo pelo Libertador, Simón Bolívar e, ao mesmo tempo, ocupar-se-á de documentar um segmen-
to das guerras pela independência americana. Para comemorar esse destacado episódio elegerá
um dos períodos de máxima tensão dramática e de maior densidade histórica (1810-1814), o
momento em que se enfrentam as forças proclives à independência e as forças realistas, leais ao
rei da Espanha. A reminiscência da guerra é o tema central da obra e esse confere à obra o seu
caráter de matéria histórica de forma que se apodera da quase toralidade do espaço narrativo. O
objetivo do presente trabalho consiste em determinar o paradigma escritural dentro do qual
podemos suscrever o romance, tendo em conta que durante um lapso significativo de tempo ele
foi estudado como uma reconstrução mimética dos fatos. Hoje, a luz das chamadas reescrituras da
história e a partir dos avanços teóricos que conhecemos, podemos destacar aspectos que se
aproximam em forma precoce aos registros característicos do fim do século.

PALAVRAS-CHAVE: Romance histórico; Romance da Independência; As guerras da Independên-


cia; Romance do Bicentenário

RESUMEN: En 1931 el escritor venezolano Arturo Uslar Pietri publica Las lanzas coloradas, su
primer novela histórica, donde textualizará un importante segmento de la epopeya llevada a cabo
por el Libertador, Simón Bolívar y, al propio tiempo, se ocupará de documentar un segmento de
las guerras por la independencia americana. Para conmemorar ese destacado episodio elegirá
uno de los períodos de máxima tensión dramática y de mayor densidad histórica (1810-1814), el
momento en que se enfrentan las fuerzas proclives a la independencia y las fuerzas realistas,
leales al rey de España. La reminiscencia de la guerra es el tema central de la obra y le confiere su
carácter de materia histórica al tiempo que se adueña de la casi totalidad del espacio narrativo. El
objetivo del presente trabajo consiste en determinar el paradigma escritural dentro del cual
podemos suscribir a la novela, teniendo en cuenta que durante un lapso significativo de tiempo
se la estudió como una reconstrucción mimética de los hechos. Hoy, a la luz de las llamadas
reescrituras de la historia y a partir de los avances teóricos que conocemos, podemos destacar
aspectos que se aproximan en forma temprana a los registros característicos de fin de siglo.

PALABRAS CLAVE: Novela histórica, Novelas de la Independencia, Las guerras de la Independencia,


Novela del Bicentenario.

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Revista de Literatura, v ol. 6 nº 8 2010 p. 25-44
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UNIOESTE CAMPUS DE CASCAVEL
2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

“Los clásicos son libros que cuanto más cree uno conocerlos de oídas, tanto más nuevos,
inesperados, inéditos resultan al leerlos de verdad”. Italo Calvino

En 1931, y en apariencia todavía dentro de los cánones de la llamada novela


histórica tradicional o clásica cuyo paradigma escritural se origina en el Romanticismo
con Walter Scott y se desplaza hasta bien avanzado el siglo XX, el joven escritor
venezolano Arturo Uslar Pietri formalizaba una de las novelas históricas más
destacadas y de mayor trascendencia que habría de producir la América Latina. El
propio autor recordaría con insistencia su preocupación por el sentido de nuestra
Historia, tema que dejaría plasmado en incontables ensayos y estudios dedicados al
asunto que se quiere, en esta primera novela de Uslar, textualizar. En este caso en
particular, las guerras por la Independencia y la ruptura de los lazos que nos
mantenían sometidos al yugo español serán los temas capitales de la novela más
estudiada del prosista venezolano. Domingo Miliani, uno de sus críticos destacados,
señala como uno de los rasgos distintivos de su prosa la capacidad y soltura de
Uslar de manifestarse a partir de la palabra, expresada con particular vehemencia
pero sin ensañarse, cuando las circunstancias así lo requerían.
Un acontecimiento cultural, marcadamente definitorio a los efectos del
fortalecimiento y la difusión de nuestras letras, lo contarían como uno de sus
personajes destacados. De sus charlas y cafés compartidos en París con sus colegas
latinoamericanos, esas preocupaciones literarias, pensadas y maceradas junto a sus
colegas latinoamericanos Alejo Carpentier y Miguel Ángel Asturias en estos
encuentros mentados por la crítica mientras procesaban e incorporaban en sus escritos
los avances de las vanguardias, particularmente de aquellos que provenían del
surrealismo. Montparnasse habría de ser en este punto un testigo privilegiado de
las preocupaciones tanto culturales como estéticas, literarias o retóricas y aun
políticas de estos destacados escritores.
El resultado de esas tertulias serán tres obras maestras, escritas por esa
época, al amparo de las mentadas influencias que tanta significación tendrían para
los escritos posteriores, publicadas en tiempos diversos por razones políticas; nos
referimos a Las lanzas coloradas (1931), la primera novela del escritor venezolano
Arturo Uslar Pietri, Ecue-Yamba-O, del cubano Alejo Carpentier (1933), escrita en
prisión en 1927, durante sus años juveniles y “Los mendigos políticos”, por entonces
un cuento que luego habría de transformarse en el capítulo I de El Señor presidente
(1946), del guatemalteco Miguel Ángel Asturias. Estas obras “comparten también
de algún modo una estética y una práctica del discurso novelesco. […] una misma
actitud crítica frente a la tradición literaria hispanoamericana y una misma pasión

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de independências na América

por la indagación de las raíces míticas e históricas del continente americano”.


(BOHÓRQUEZ, 2002, p. 572-573). Podemos referirnos a ellas como obras capitales
y al propio tiempo sobresalen como registros precursores de la literatura
hispanoamericana del siglo XX; constituyen, por otra parte, producciones escriturales
que anticipan los cambios que habrán de producirse en el mundo de las letras a
mediados de siglo.
Contemporáneo de nuestro autor, otro grande de las letras venezolanas,
Enrique Bernardo Núñez, concibe otra novela histórica magistral a la cual dará el
nombre de una isla caribeña: Cubagua; al mismo tiempo, el escritor se abocó a
teorizar desde una mirada significativamente vigente, la historia como un referente
ficcional. Nuñez habría de focalizar de este modo el discurso propio del universo
extratextual referencial hermanado con elaboraciones que provienen de la ficción1 .
Como señala en su estudio Llovera de Sola: “De la mano de ambos escritores
ingresan en la narrativa venezolana dos novedades: en el caso de Uslar Pietri, bien
asimiladas tendencias surrealistas, y en la novela de Enrique Bernardo Nuñez, una
nueva concepción del tiempo” (LLOVERA DE SOLA, 1972, p. 28). Publicadas ambas
novelas en 1931, tanto Las lanzas coloradas como Cubagua están anticipando ya en
algunos de sus aspectos un nuevo paradigma escritural que vería la luz,
mayoritariamente, durante las dos últimas décadas del siglo XX y la primera del
XXI.
En lo que respecta a la escritura de Enrique Bernardo Nuñez lo que nos
queda por recordar y rememorar, de la mano de Luis Britto García, es que su belleza
pasada “se ha tornado camposanto de sí misma, monumento, ruina” (BRITTO GARCÍA,
2005, p. 268). Cubagua, “la primera villa construida cerca del continente americano
y sumergida por un maremoto” (BRITTO GARCÍA, 2005, p. 269), víctima de la
fatalidad, concluirá sus días sumida en la destrucción. Significa en nuestra historia
y en nuestras letras, un espacio anteriormente poblado, un refugio de significativa
hermosura, anclado en las inmediaciones del mar Caribe, por una parte, y por otra
una de las novelas históricas que recoge la pluma del destacado escritor venezolano,
desde un matizado y polifacético ejercicio de anamnesis.
Desde la particular cosmovisión que imponen los registros a los que se ha
llamado posmodernos se nos permite llevar a cabo una relectura de estas novelas
fundantes, que anticipan un nuevo modo de ficcionalizar la materia histórica al
tiempo que el discurso va sumando paulatinamente procedimientos narrativos que
configuran diversos paradigmas novelescos. El nivel extratextual referencial se instala
en el plano discursivo alterando y subvirtiendo la reconstrucción histórica que las
novelas textualizan. En tanto, y al mismo tiempo, ambas novelas nos proveen dos

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de independências na América

modelos diversos de formalización de la materia narrativa.


Podemos tomar en consideración a los efectos de sustentar estos registros
que abrevan en la historia, una destacada e interesante afirmación del creador de
estos modos diferentes de leer los episodios históricos desde formas alternas para
abordar los discursos, el precursor de lo que estudiamos como nuevos modos de
formalizar estos registros, Hayden White cuando, al referirse a estas particulares
formulaciones discursivas, manifiesta lo siguiente:

[…] consideraré la obra histórica como lo que más manifiestamente es: es decir, una
estructura verbal en forma de discurso de prosa narrativa que dice ser un modelo, o
imagen de estructuras y procesos pasados con el fin de explicar lo que fueron
representándolos (WHITE, 1992, 14).

HACIA LA INDEPENDENCIA AMERICANA: LAS LANZAS COLORADAS.

En 1931 Uslar Pietri publica Las lanzas coloradas, su primer novela histórica
donde textualizará un importante segmento de la epopeya llevada a cabo por el
Libertador, Simón Bolívar y, al propio tiempo, de las guerras por la independencia
americana. El motivo que conduce a la escritura de estas páginas que tanta
trascendencia habría de tener posteriormente fue, al parecer, una invitación que con
motivo de la celebración del Centenario de la muerte del general Simón Bolívar,
llega a Uslar; éste acepta con beneplácito la convocatoria y le dedicará toda su
formación humanística y sus vastos conocimientos de la historia americana. Para
ello, para conmemorar ese destacado momento histórico, elegirá Uslar uno de los
períodos de máxima tensión dramática y de mayor densidad histórica (1810-1814),
el momento en que se enfrentan las fuerzas proclives a la independencia y las
fuerzas realistas, leales al rey de España. La reminiscencia de la guerra, tema central
del registro que le confiere su carácter de materia histórica, se representa en esta
novela del escritor venezolano, se adueña de la casi totalidad del espacio narrativo
y encarna los avances de las fuerzas proclives a la independencia en procura de
desalojar a las fuerzas partidarias, leales al rey de España. Renaud, por su parte,
señala con certera precisión el hecho de que:

Las lanzas coloradas cautiva al lector imponiéndole unos primeros planos inolvidables
sobre la salvaje crueldad de la guerra. […] la novela ofrece, más allá de su dimensión
histórica, una visión degradada y brutal del ser humano, del individuo, reducido a una masa
ya convulsiva, ya amorfa de ‘carne’. (RENAUD, 2002, p. 721).

28 POR EL CAMINO DE LA INDEPENDENCIA http://e-revista.unioeste.br


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de independências na América

Estas luchas oscuras y sangrientas se libran en territorio americano empujadas


por el irrefrenable y arrollador impulso de emancipación que habrán de desatar los
episodios bélicos; por otra parte, están precedidas, en la novela, por una admirable
recreación del clima espiritual, inestable y caótico, anticipatorio de la revulsión
social que antecede el estallido de la guerra civil: una guerra en particular, la guerra
por la independencia de Venezuela, la apropiación y recuperación del territorio que
les pertenece por derecho propio, aquel que les proporciona identidad, y el posterior
enfrentamiento de godos y naturales son los detonantes que disparan los
acontecimientos en la novela.
Las páginas que preparan el clima donde se gestan las ideas que habrán de
conducir al levantamiento armado cuya consecuencia será un mortífero e
indiscriminado derramamiento de sangre, el reguero de cuerpos devastados que
siembran y riegan la tierra venezolana, el odio fratricida que, ya desatado, resultará
imposible de ser contenido, la ferocidad de los implicados en la lucha, lo sagrado y
lo diabólico mezclados en un incomprensible contubernio, la falta de ideas claras
que, para la mayoría de los habitantes, expliquen medianamente el sentido de la
lucha armada, constituyen un amplio y significativo eje temático que concentra las
mejores páginas de la novela de la que nos ocupamos en esta oportunidad. Y es
precisamente en ellas donde se prepara el terreno, donde se propicia el clima
violentamente crítico que habrá de favorecer para más tarde desencadenar el
levantamiento armado, desde la apertura del mundo de las ideas, por una parte, y
por otro, cuando se elevan las compuertas que posibilitarán el avance y la ejecución
del primer tramo de las refriegas entre los bandos opositores. Son precisamente
estos caracteres, dispuestos hábilmente en un discurso inteligentemente estructurado,
los rasgos que le otorgan a la novela su novedosa especificidad, su carácter dramático
y dinámico, la persistencia futura de nuestros sucesivos enfrentamientos armados.
Como señala Rafael Fauquié (1983, p. 196),

La trama general de Las lanzas coloradas es una versión desgarradoramente crítica de uno
de los momentos más trascendentes de la historia venezolana. Todo en ella evoca alteración,
trastorno, ruptura: la abundancia convertida en escasez y miseria, el orden en caos, la
mesura en desmesura, la civilización en barbarie […] Visiones y convicciones del propio
Uslar sobre lo que fue la evolución de la historia del país. Aluvionales, apocalípticas,
tremendistas, esas percepciones revelan la versión personal de Uslar. Como él mismo
reconoce: ‘Sentía que en el impulso destructor y creador de la Guerra de Independencia se
había revelado de un modo pleno la condición criolla de nuestra humanidad’.

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La ruptura de lazos con la colonia, la emancipación respecto del poder de los


reyes de España, la apertura hacia los valores que traerían aparejados el afincamiento
de la Independencia y la libertad, la búsqueda de una identidad propia, autónoma,
soberana, capaz de destacar los rasgos propios de cada nación, la silenciosa lectura
de los pensadores que gestarán el mundo de las ideas que preceden a los episodios
ficcionalizados en la novela, son las preocupaciones y las temáticas que Uslar
desgrana en esta rescritura de la historia cuyo núcleo germinal se centra en parcelados
episodios de la independencia americana y también, muy significativamente, de los
prolegómenos correspondientes a los hechos bélicos que ayudan a explicar el sentido
de lo que se desarrolla ante nuestros ojos. El mundo de las ideas que se forjan
tímidamente al principio, al amparo de la oscuridad, en ámbitos caracterizados por
los sostenidos silencios y por los sitios escondidos y secretos, constituyen el fermento
que, lenta pero ineluctablemente, tornará posible el estallido bélico a la par que le
otorgan a los hechos que se narran consistencia y validez.

Un sótano espacioso e iluminado por algunos tragaluces altos que se abrían bajo la maleza.
[…] Veinte rostros prematuramente graves lo observaban entre la tamizada luz de la cava.
Gustaba un placer mezclado de desazón. El misterio y la aventura se habían abatido sobre
él súbitamente. Historia de ladrón, de sociedad clandestina, de hombre que posee grandes
secretos. Volvía a la reconquista de un reino infantil. Lo miraba todo con un deslumbramiento
niño. (USLAR PIETRI, 2002, p. 50).

El despliegue de este amplio campo semántico relativo al objeto mismo de la


textualización que, por otra parte, tiene una rigurosa pertinencia con la médula
misma de los episodios revolucionarios, en este caso, funcionará como el eje
centralizador del discurso. Estas ideas movilizadoras, tremendas, desafiantes,
repiquetean en las conciencias de los patriotas hasta provocar el fermento que tornará
posible el levantamiento de las magras fuerzas militares patriotas que harán frente
a los fuertemente armados ejércitos de los defensores del régimen, que se mantienen
leales al rey de España.

Fernando no quiso oír más. Se marchó sin hacer ruido. En su cerebro la confusión bailaba
una zarabanda desenfrenada. Miranda. Los ingleses. La sangre de los reyes. El Diablo. La
efigie quemada en plaza pública. Los reyes. Dios. Miranda. El Diablo. Sería casi un mareo
físico. ¿Quién era aquel hombre temible que había venido a turbar la vida de todos? Le veía
el rostro horrendo coronado de llamas y las manos tintas en sangre de rey. ¿Quién era
aquel ser espantable que venía como un castigo? (USLAR PIETRI, 2002, p. 48)

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Ganaba y perdía a cada instante la conciencia de aquellos valores nuevos. Los ciudadanos.
La democracia. Sentía el deseo de repetirlo en baja voz como los niños sienten el deseo de
jugar con el juguete nuevo, de repetirlas, de decirlas a los otros, de oírlas murmurar
quedamente dentro de su cráneo. (USLAR PIETRI, 2002, p. 58)

El paulatino esparcimiento de las nuevas ideas, aquellas contenidas en El


Contrato Social de Rousseau (1762) y en otras lecturas de la época tales como la
Declaración de los Derechos del Hombre y del Ciudadano (1789) que entran a
América de la mano de Miranda, el precursor, destinadas a expandirse luego por
tierras americanas, arraigarán y consolidarán las ideas que lentamente tornarán
posible el levantamiento armado.
Por otra parte, detrás de los episodios puramente ficcionales, que se instalan
y se adueñan de los primeros capítulos de la obra, ocupando buena parte de la
construcción narrativa, aquellos segmentos que se cobijan al amparo de la
imaginación que los hace posibles, y como telón de fondo, veremos, narrados con
un preciosismo digno de destacarse, de qué modo se producen los ambivalentes y
sangrientos enfrentamientos de ambas facciones. Estamos, a nuestro entender, frente
a un registro de carácter narrativo que, pese a reconocerse a primera vista como un
paradigma de la modernidad2 , rompe prematuramente en algunos aspectos los moldes
canónicos de la novela histórica decimonónica cuyo paradigma se encuentra por
entonces un tanto debilitado y para algunos críticos en franca decadencia, destinados
en el corto plazo a desaparecer. Pese a esta observación tremendista de algunos
críticos, la novela histórica, con las consecuentes variaciones de los paradigmas,
estaba destinada a virar exitosamente hacia nuevas formas de representación:

Es innegable que la novela de Uslar Pietri se guía globalmente por un esquema lineal, pero
éste es doble, lo cual justifica la presencia de varias analepsis completivas y de no pocas
anticipaciones e indicios, destinados por una parte a acrecentar el suspense y por otra a
facilitar la orientación del lector en medio de un texto signado por la fragmentación, y
permite sobre todo un sofisticado juego de paralelos y contrastes, de conjunciones y
disyunciones, de cierres y aperturas inesperadas. También son de notar algunas elipsis de
valor dramático que apuntan a precipitar el curso de la acción. (RENAUD, 2002, p. 727)

La alteración de ese paradigma decimonónico adelanta ciertas formalizaciones


características de expresiones más recientes. Este registro discursivo se tiñe,
fundamentalmente, de algunas incorporaciones surrealistas, aprendidas junto a sus
destacados colegas latinoamericanos Miguel Ángel Asturias y Alejo Carpentier e
incorporadas en sus obras en forma significativamente temprana. Para valorar en su

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totalidad esta escritura del venezolano es necesario recordar la admiración y el


profundo conocimiento que nuestro autor tiene de los movimientos de vanguardia,
incorporados durante su estancia en París, los cuales habrán de añadirse al discurso
narrativo de Las lanzas coloradas. Estas reuniones parisinas que tanta significación
van a poseer en sus obras respectivas, tendrán además una reveladora influencia en
los registros posteriores.
Atendiendo a los modos de composición moderna esta novela de Uslar Pietri,
si tenemos en cuenta los procesos de elaboración del relato que se sustentan en su
formulación literaria, resalta fundamentalmente por la validación de nuevos
procedimientos que atienden entre otros aspectos a tener en cuenta el valor de la
palabra, la musicalidad de la prosa, al encantamiento y los juegos de palabras, la
significación que guardan las repercusiones sonoras y, consecuentemente, a sus
formulaciones lúdicas las cuales se destacan y sobresalen en el relato, otorgándole
al propio tiempo esa reconocida y siempre ponderada calidad literaria que las
caracteriza. Este singular aspecto de la novela ha sido observado y destacado también
por Douglas Bohórquez (2002, p. 572):

Vemos cómo desde su primera página la novela inicia una suerte de encantamiento mágico,
oral, metafórico, fundado en este trabajo de la palabra, del lenguaje, lo que redefine el
concepto de novela para la literatura venezolana y latinoamericana y su relación en tanto
que nueva propuesta narrativa, con nuestra tradición literaria.

La temática central de esta obra de juventud, por demás significativa en el


caso particular de Uslar Pietri, procura recuperar para nuestro capital simbólico el
momento del nacimiento de la patria al tiempo que apela a la textualización de los
tiempos augurales que habrían de conducir a la Independencia de nuestras tierras.
Hoy, por estos tiempos en los que nos encontramos transitando y rememorando el
Bicentenario de los hechos que condujeron a nuestra Independencia, esta novela de
Uslar adquiere una nueva significación, inserta en un corpus de obras que se ocupan
de testimoniar esos momentos relevantes para nuestras naciones. Es por ello que en
numerosos escritos nuestros estudiosos procuraron dejar evidencias de los sucesos
transcurridos en aquellos momentos históricos y, al propio tiempo, argumentaban
acerca de los cambios que se produjeron en el campo de las ideas, en las
transformaciones de los respectivos gobiernos, en las relaciones entre los diversos
países y en las políticas en general, aquellas que han tenido a nuestros antepasados
como protagonistas.
Nos interesan, particularmente en el caso de las letras que dan cuenta de
ellos, los registros escriturales correspondientes a ese momento fundante de nuestra
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patria, período en el que se inscribe el discurso de Las lanzas coloradas. Este


destacado suceso, eje significativo de la construcción discursiva de la que nos
ocupamos en estas instancias, está destinado a marcar la ruptura definitiva respecto
a la siempre controversial y polémica dominación española que, con posterioridad
al encuentro de América y España mantuvo durante siglos un conflictivo señorío
sobre los territorios propios y aún sobre la vida y el destino de sus originales
poseedores.
Poniendo en juego el autor el ejercicio de la memoria y con la intención de
recuperar un segmento destacado de las guerras por la independencia, el relato se
ocupará de revisar un breve pero a la vez intenso episodio del período que
corresponde a esos segmentos del pasado histórico, momentos que textualizan la
ardua y dificultosa emancipación americana después de relegar al pasado los duros
momentos de los tiempos de la colonia para dejar fluir aquellos episodios que los
llevarían a cortar los lazos con la corona en busca de la ansiada liberación. Jorge
Mañach (1991) reflexiona acerca de estos momentos que registran uno de los episodios
más significativos y violentos de nuestra historia:

Las lanzas coloradas es, en efecto, una evocación espléndida de aquel gran movimiento en
que el alma americana se sacude la congestión de tres siglos de torpor colonial y se
estremece en frenéticos ademanes por encontrar en la sombra su propia conciencia. Es un
espectáculo cruento y terrible de desgarramiento: el primer período de la guerra venezolana
de liberación. (MAÑACH, 1991, p. 24).

La diégesis rememorará a partir de un significativo viaje hacia esos momentos


cruciales del pasado histórico ese trecho acotado y a la vez ampliamente significativo
de nuestro pasado, el cual al tiempo que procura recuperar hechos reveladores de
un segmento destinado a testimoniar los sucesos que, tanto desde el plano de la
ficción como desde ciertos registros más ajustadamente testimoniales, precedieron
a los tiempos, a los sucesos, a los hombres, a las ideas que hicieron posible y
trazaron las intrincadas y enmarañadas alternativas que caracterizaron a los
acontecimientos destinados a trazar el camino de nuestra emancipación, una vez
concretada la separación y la ruptura del dominio real. El historiador Morales Padrón
(1975), por su parte, divide en tres los momentos que propician los estadios de la
Independencia para luego establecer un cuadro que representa las causas complejas
y las motivaciones que conducen a nuestros pueblos por itinerarios diversos hacia
la anhelada autonomía. Y es entonces cuando señala la complejidad de hechos que
se fusionan para lograr este acontecimiento histórico:

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[…] la revolución independientista de Hispanoamérica es un hecho histórico tan complejo


y variado, dado entre hombres de distintas posiciones y en zonas tan diversas, que no es
posible una generalización de causas determinantes. Hay, eso sí, circunstancias generales
que favorecen los hechos; pero los móviles, razones y personajes no son los mismos en las
orillas del Caribe que en el altiplano peruano o en la pampa rioplatense. (MORALES
PADRÓN, 1975, p. 88).

Complejas fueron sin duda también las causas y los motivos que llevaron a
los patriotas a buscar la autonomía en cuanto ella implicaba la ruptura con la corona,
desavenencia en muchos casos no deseada o no vislumbrada como una necesidad o
como un hecho positivo por los lugareños; compleja sería también con posterioridad
la búsqueda de un aparente aunque necesario restablecimiento de normalidad política
entre los respectivos gobiernos que debería producirse, no sin antes solucionar una
sucesión de enmarañadas dificultades, que habrían de surgir a partir de las diversas
crisis que dicha ruptura traería aparejada.
Una significativa relevancia, que ya hemos señalado, adquiere el mundo de
las ideas en la novela de Uslar, y el autor se encarga de destacarlas y valorarlas a la
luz de los sucesos que anticipan; esas lecturas propician la búsqueda de la identidad,
y al propio tiempo alinean esos elementos que se conjugan y aglutinan para preparar
el advenimiento de los episodios bélicos; episodios estos que se encuentran
magistralmente destacados en el encuentro de Fonta al momento de contactarse con
quienes propician esta ruptura para frecuentar más tarde las lecturas que modulan
el escenario político sobre el cual los hechos se desatan y “contribuye(n)3 a reforzar
el tenor antiépico de Las lanzas coloradas, cuando se ejerce sobre el grupo de los
criollos patriotas, que Fernando Fonta visita en su clandestinidad antes de que
estalle la guerra”. (LASARTE VALCÁRCEL, 2002, p. 465).
Los primeros capítulos, anclados fundamentalmente en el nivel de la ficción,
tienen por finalidad presentar a los personajes que se mueven en el mundo creado
para encuadrar el antagónico comportamiento de ambas clases sociales: patrones y
criados y, simultáneamente mostrar el espacio que los cobija, los escenarios donde
se muestra la conformación del espacio de la propiedad de la familia Fonta, en su
confortable hacienda de El Altar. En este espacio familiar, acogedor, hospitalario,
transcurrirán los primeros momentos de la novela que mostrarán la bonanza de la
que gozan por esos tiempos los poderosos.
El relato dará un vuelco significativo a partir del viaje de Fernando a Caracas
acompañado por su padre para completar su educación y del que tendremos noticias
en estos primeros registros del relato. Aquí Fernando se contacta con un ámbito de
intelectuales quienes, en sus reuniones, discurren y comparten pensamientos que

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se esparcen para el conocimiento de los grupos de hombres que incorporan las


tendencias y las nuevas ideas que ayudarán a gestar, lenta pero paulatinamente, los
episodios que conducirán a la emancipación americana. Los registros bélicos que
vendrán como consecuencia de la gestación de esa conciencia que acuña la necesidad
de romper los lazos que nos mantienen ligados a España, constituyen una de las
más destacadas exploraciones y afirmaciones que pretenden dejar al descubierto los
movimientos y las ideas que propiciaron precisamente la ansiada y al propio tiempo
temida ruptura.
Tanto las causas como los enmarañados motivos que darán su razón de ser a
los movimientos destinados a gestar y al propio tiempo a respaldar el estallido de la
independencia pueden adquirir y sustanciar su causalidad, según señala Morales
Padrón (1975), en las singularmente complejas razones que enumera a continuación:

La crisis monárquica española, que vamos a examinar seguidamente en su relación con el


mundo americano, traducida en escándalos familiares, invasión napoleónica, abdicaciones,
absolutismo fernandino, […], junto con la ayuda prestada por Inglaterra y los Estados
Unidos y la falta de comprensión o de entendimiento entre la Junta Central y la Juntas
americanas o, lo que es lo mismo, entre los gobernantes españoles y los patriotas, fueron
las circunstancias que propiciaron la independencia. (MORALES PADRÓN, 1975, p. 110).

Los sucesos narrados son protagonizados, por una parte, por personajes que
adoptan actitudes antagónicas respecto de la tendencia emancipadora y que, además,
encarnan y simbolizan ese parcelado fragmento de nuestra historia; dan cuenta, por
otra parte, de una visión no maniquea de los episodios en cuestión. No se trata aquí
del enfrentamiento de los buenos contra los malos, tampoco los representantes de
las fuerzas que apoyan los ideales de la Independencia reúnen la suma de valores:
baste como ejemplo de esto el caso emblemático de Fernando Fonta; pero tampoco
los partidarios del poderío español encarnan por su parte la suma de la malevolencia.
En todo caso, la novela se empeña en mostrar la complejidad que caracterizó
a los movimientos de emancipación y los confusos fermentos que la hicieron posible
desde el muestreo de la confusión de sensaciones que movilizaron a sus hombres,
e inclusive a partir de la ambigüedad de los sentimientos y las ideas que sostuvieron
la percepción y la visión de los episodios emancipadores. La novela destaca la
paulatina maduración de los pensamientos que se gestaron al amparo de la
clandestinidad:

-Entonces, según eso, todo lo que se necesita es hacer circular las ideas.
-Sí. Con eso sólo bastará. La acción de la democracia será milagrosa. Es una obra de

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entusiasmo”. De la noche a la mañana, por la sola virtud de su verdad cambiará la faz del
mundo. (USLAR PIETRI, 2002, p. 58-59)

Maryse Renaud (2002), por su parte, rescata en un artículo que centraliza en


el estudio de Las lanzas coloradas, determinados aspectos de la obra del escritor
venezolano que atrajeron sucesivamente y durante décadas la atención de la crítica,
algunos de los cuales fueron ya señalados y enfatizados en el momento mismo de su
publicación sobre todo aquellos que resaltaban el apego de esta obra de Uslar a la
llamada novela histórica clásica que seguía el camino trazado por el precursor de
estos escritos paradigmáticos, el novelista Walter Scott, maestro del género.
Con el transcurrir del tiempo, esta obra señera de nuestras letras
latinoamericanas, que se ocupa de ficcionalizar un momento crucial del pasado
histórico que nos representa, relata uno de los períodos más sangrientos de esa
etapa, al tiempo que la misma será focalizada desde ángulos diversos, según aspectos
que habrán de aportar las nuevas teorías que se comprometen en mostrar ciertos
enfoques y al mismo tiempo ofrecen lecturas más actuales, particularmente en lo
que se refiere a los viejos y conocidos registros. A nosotros, en esta instancia del
análisis, nos interesan particularmente aquellos que se ocupan de la tensión que se
establece entre lo que se ha denominado historia y ficción:

Al salir a la luz […] la novela tuvo una excelente acogida: se encomió el audaz virtuosismo
de su prosa signada por el impresionismo y una brillante concepción sinfónica, en una
palabra, se ensalzó el carácter novedoso de este texto que, aparentemente fiel a la clásica
novela histórica, se aleja sin embargo notablemente, ideológica y estéticamente, tanto del
modelo romántico a lo Walter Scott o de la novela realista española (Galdós, Baroja) como
de las novelas históricas venezolanas anteriores a él. (RENAUD, 2002, p. 53).

La novela deja al descubierto dos viajes simultáneos, uno por el tiempo, al


que ya hemos señalado, cuyo propósito consiste en textualizar episodios del período
revolucionario; el otro se formaliza por el escenario del espacio americano, donde
podemos observar los desplazamientos y los viajes, de los personajes primero y
más adelante, precipitados ya los sucesos bélicos y los movimientos de las tropas
de ambos bandos en busca de los enfrentamientos armados destinados a propiciar o
la libertad o la dominación. Se trata, en ambos casos, según lo afirmara Bolívar en
su tan desacreditado y criticado decreto, una guerra a muerte. Tal como lo señala
también el epígrafe de la novela en las palabras del general Paez, el cruel e inhumano
derramamiento de sangre se constituye en un elemento destinado a resemantizar
todo el relato.

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La novela destaca con maestría los prolegómenos y el esparcimiento de las


ideas que habrían de gestarse en primer lugar en forma clandestina para luego
provocar la ruptura que se daría en nuestra América de manera escalonada y alterna
en los diversos países que la conforman, hasta lograr la tan anhelada emancipación
respecto de los trescientos años de dominación española, tal como en los diversos
momentos del devenir lo soñaran y propiciaran nuestras mentes más preclaras. A
partir de este momento, formada la conciencia del inevitable enfrentamiento que se
avecinaba, vislumbrado por algunos el sentido de la palabra libertad, se produce la
ruptura, ya definitiva, con España. En tiempos diversos, en momentos distantes del
acontecer histórico, los distintos países habrían de debatirse en busca de su
independencia y, al mismo tiempo, se sumergían en la pesquisa de su respectiva
autonomía, sumada a la indagación del sentido del término identidad.
La novela por momentos se aproxima a los diseños de neto cuño tradicional,
y reproduce el modelo de escritura de Walter Scott, procura recrear el clima político
y cultural, y lo hace dentro del marco de las ideas, al tiempo que destaca el avance
de las lecturas y de las controversias que, poco a poco, y por caminos escarpados y
regados por la sangre fratricida va preparando el ámbito que hará posible la
quebradura destinada a romper los lazos que nos mantenía unidos a los destinos de
España. Es el propio Uslar quien manifiesta los motivos que lo llevan a textualizar
los episodios de la historia, interés que se inclina principalmente por los hechos
ocurridos en nuestras tierras americanas. Luego, con la clausura que significó el fin
de la dominación española habría de producirse como consecuencia una apertura
que estaría dirigida primordialmente a la búsqueda de lo nacional y de lo propio:

No entré por el camino de la novela histórica por gusto arqueológico o por manía
reconstructiva, sino porque pensé que para expresar lo nacional, fuera del mero paisajismo,
había que comenzar por buscarlo en las horas en que alcanzó su más alta y reveladora
tensión. Sentía que en el impulso destructor y creador de la Guerra de la Independencia se
había revelado de un modo pleno la condición criolla de nuestra humanidad. Fue el primer
momento en que el alma criolla pudo entregarse con fruición posesiva a la irrestricta
expresión de su ser. Por eso en mi novela lo reconstructivo tiene una importancia de marco
y todo el esfuerzo de expresar está concentrado en los seres y en su relación con los
sucesos. (USLAR PIETRI, 2002, p. 465).

Uslar es uno de los más destacados escritores de novelas históricas


venezolanas y quien habría de trazar el camino que otros creadores seguirían, si
bien desde diversos paradigmas novelescos. Uslar Pietri en algunas características
anticipa ciertos aspectos que más adelante otros escritores profundizarán hasta

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formalizar los llamados registros posmodernos. Será también, en los albores y


preludios mismos de nuestra historia literaria, el encargado de bosquejar aquellos
fundamentos destinados a delinear, posteriormente, nuestro modo de ser americanos.
En un registro más próximo al de la Modernidad, asumiendo algunos de sus rasgos
característicos, buscará plasmar Uslar nuestra fisonomía caracterizadora, aquella
que marcará una determinada forma de ser para perfilar los aspectos más aptos a los
efectos de configurar un privativo modo de ser, capaces de formalizar nuestra
mismidad.
La recurrencia sobre los modos de frecuentar el material histórico a los efectos
de la ficcionalización, marca y le otorga una particular variante a los modos de
representación, y un carácter singular a ese diálogo que la historia y el paso del
tiempo, junto a las transformaciones que nuestras naciones sufren a partir de sus
revoluciones, motines, refriegas, levantamientos, revueltas, asonadas, sediciones o
repetidas dictaduras, caracteres que, presentes ya en los inicios de nuestros tiempos
augurales, permanecerían como una característica de nuestro modo de ser. Estos
aspectos desafortunados de nuestra política habrán de sucederse reiteradamente a
lo largo de los tiempos, llegando en algunos momentos de nuestra historia a formalizar
episodios dictatoriales nefastos para nuestras sociedades.
Estas sucesivas eclosiones que se formalizan en los albores de nuestra historia,
contribuyen a modalizar ese carácter ruptural y sanguinario que los pueblos
latinoamericanos adoptaron para desligarnos del imperialismo español. Al mismo
tiempo, estos rasgos singulares de nuestros gobiernos dejarán al descubierto una
peculiar forma de ser para mostrar, de modo magistral, la crueldad reiterativa y
peligrosa que caracteriza, en todos los casos y a lo largo del tiempo, a las sucesivas
guerras fratricidas. El enfrentamiento y el odio entre hermanos, el derramamiento
indiscriminado de sangre, recordemos nuevamente el cuestionado “Decreto de Guerra
a Muerte”, ordenado por Simón Bolívar, la brutalidad incontinente, desatada durante
los enfrentamientos de las facciones en conflicto que nos traerán de inmediato a la
memoria la crueldad puesta a punto en función de la libertad de los pueblos de
nuestra América. Estos son los aspectos más significativos y también los más crueles
de los enfrentamientos armados.
Tal vez la referencia más compleja que movilizó a Uslar Pietri a escribir esta
novela sea la que corresponde a la época que se propuso testimoniar, consciente
también de que con ella estaba llegando a lo más profundo de la americanidad en
esa búsqueda alternativa de los procesos que deberían llevar a la integración de
nuestras tierras al tiempo que denunciaba como contrapartida una marcada disidencia
que se opondría a los deseos de unificación. Como señala el propio Miliani, “dentro

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del largo proceso emancipador de España que duró en Venezuela desde 1810 hasta
1821, los años cruciales fueron 1813 y 1814. (MILIANI, 1991, p. 115). También observa
el paulatino y sostenido florecimiento de una conciencia patriótica que consciente
pero también inconscientemente se gestaba en la mentalidad de los criollos más
jóvenes para eclosionar en un acto de ruptura. Y añade Miliani la cuestión acerca de
las motivaciones de quienes poseían o no condiciones para llevar adelante la causa
emancipadora y las razones que las sostienen:

Hijos de españoles, se hallaban vinculados por sangre y atavismo a la Corona. Sus padres
fueron, en la mayoría de los casos, mantuanos rancios con intereses bien fincados. Esta
adolescente aristocracia y la llamada casta de los pardos eran las únicas culturalmente
aptas para asimilar las ideas de la Enciclopedia y el contenido de la Declaración de los
Derechos del Hombre y del Ciudadano, que circulaban clandestinamente en traducción
castellana. […]. (THESAVRVS, 1968, p. 288-289).

Dos planos absolutamente delimitados marcan la estructura de Las lanzas


coloradas , uno el que corresponde al ámbito de la ficción, que abarca
mayoritariamente la diégesis ficcional, donde se destacan fundamentalmente sendos
personajes antagónicos: el señor de la hacienda, el pusilánime Fernando Fonta y
Presentación Campos, el vigoroso capataz, encargado de mantener sometidos a los
esclavos; el segundo plano, lo constituye aquel donde se incorpora a la diégesis a
los personajes históricos, Miranda, Bolívar, Boves, figuras heroicas que se
desempeñan en este fragmento de la guerra de la independencia, destacados cada
uno en su accionar, haciéndose cargo además de los ideales que preceden a su
funcionamiento. La forma de amalgamar la historia y la ficción en esta novela de
Uslar se puede observar en el modo de incorporarlos en el relato; serán mostrados
no desde la esencialidad de sus actuaciones históricas sino desde una distante
percepción que se desvanece para colocarlos en la categoría del mito. Mencionados,
esbozados, focalizados, observados a la distancia, destacados a partir de sus férreas
personalidades, la novela ficcionaliza también a quienes se manifiestan como un
“puro principio indeterminado”, una promesa que no se desarrolla, un diseño ficcional
que se perfila contrastante con un plano de fondo, una suerte de “significante vacío”,
según el decir de Dabove (2002), afirmaciones a las que agrega:

La no-presencia de Bolívar funciona, a un nivel superficial, como un claro elemento


verosimilizador. Es su presencia indirecta lo que le da, citando a Barthes, el ‘peso justo de
realidad’. (Barthes, 1995, p. 101) La introducción oblicua, indirecta, es lo que permite hacer
jugar al personaje sin “denunciar el procedimiento. (DABOVE, 2002, p. 628)

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Héroes y villanos, valientes o cobardes, personajes históricos o de ficción,


estos últimos ocupan la mayor parte del relato, se deslizan por las páginas de la
novela desafiando las acciones, los levantamientos armados y personificando al
mismo tiempo los pensamientos y las ideas que dan forma y sustento a los hechos
destinados a desencadenar y a culminar en el fortalecimiento de las fuerzas
independientistas, aquellas que acuerdan con la separación de la dominación
española, respaldados en los ideales y los pensamientos de unos pocos. Por otra
parte, el levantamiento de las fuerzas realistas que procurarán la defensa y la
recuperación definitiva de los territorios que han sido considerados hasta entonces
como dependientes y, al mismo tiempo, pertenecientes a la corona española.
Se torna necesario destacar, sin embargo, un aspecto que queda absolutamente
claro en el discurso de Las lanzas coloradas, y es el hecho de que muy pocos
protagonistas de ambos bandos tienen por entonces claro en sus conciencias las
ideas que pretenden defender y los fundamentos que sostienen las tendencias que
eventualmente salvaguardan. Este aspecto en particular ha sido observado con
claridad por Uslar Pietri y, en la propia novela, podemos observar esta falta de
claridad en las ideas y en los propósitos que mueven a la acción y el modo en que
los hombres ingresan a los bandos antagónicos empujados más por la casualidad o
por el azar que por ideales o convicciones meditadas e incorporadas previamente.
El lector percibe un discurso que se formaliza a partir del relato de los
acontecimientos que perfilan los rumbos de una nación; advierte, al mismo tiempo,
que estos sucesos no son el resultado de una ciega fatalidad ni guardan entre sí una
relación que pueda ser reducida a un mero razonamiento causal. La Historia, teñida
con la sangre de sus hombres, conlleva por eso mismo sus contradicciones, sus
debilidades, sus grandezas, sus flaquezas y hasta sus propias sinrazones.

CONSIDERACIONES FINALES

Pese a ser ésta una novela significativamente temprana en la producción del


escritor venezolano, Uslar cuenta solamente con 25 años cuando la escribe, la
crítica le brinda un amplio reconocimiento que habría de llegar de inmediato, tanto
en los medios intelectuales de España como en los de Latinoamérica, al punto de
convertirla en un clásico de nuestras letras. Es, de todas las novelas históricas
escritas por el polifacético escritor venezolano, la que ha sido más estudiada y
examinada por la crítica.
Hay que reconocer también que pese a ser éste uno de los registros más

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leídos y mentados a lo largo del tiempo faltan, sobre todo en los últimos tiempos,
los estudios críticos que desde miradas y perspectivas más actuales, apoyadas en
las nuevas teorías literarias, pongan en acto las nuevas corrientes de pensamiento,
al tiempo que acompañen y ponderen tamaño éxito de lectura y de aceptación crítica,
valorado y repetido a lo largo del tiempo. Maryse Renaud (2002), autora de una
significativa mirada de la obra, por su parte, destaca muy certeramente las posibles
y diversas focalizaciones, las eventuales relecturas que la prematura novela de Uslar
nos permite:

Hoy la relectura de Las lanzas coloradas nos depara nuevas posibilidades interpretativas:
a una dimensión que participa plenamente de las vanguardias de los años 20-30 se suma
otra, posmoderna, que permite enfocar esta novela como una obra precursora de la nueva
novela histórica latinoamericana. (RENAUD, 2002, p. 53- 54).

Merece destacarse a propósito de Las lanzas coloradas la presencia de por lo


menos dos aspectos que se destacan en este registro discursivo y que van a
consolidarse con singular importancia en épocas posteriores. Por una parte, la
oralidad, cuya relevancia y significación se gesta y madura durante esas largas charlas
con sus coetáneos hispanoamericanos en los cafés parisinos, durante los reiterados
exilios que imponen a nuestros hombres las frecuentes dictaduras; por otra parte,
otro de los rasgos prematuramente caracterizadores está constituido por los
procedimientos de focalización narrativa, dentro de los cuales se destaca el último
capítulo de la novela, con una singularidad narrativo-descriptiva asombrosa,
precozmente asertiva a la hora de dibujar esta reconstrucción del pasado.
Un aspecto sustantivo de las novelas históricas del autor lo constituye el
hecho de que la presencia del subtexto histórico o el marco referencial en sus
novelas no está inserto con la intención de cuestionar o impugnar la historia oficial.
No hay intención paródica en Las lanzas coloradas ni se procura a nivel discursivo
ni distorsionar ni alterar el referente historiográfico aunque se puedan encontrar
después de una rigurosa lectura pequeñas imprecisiones respecto del discurso
historiográfico. Pese a ello, el destacado escritor venezolano, profundo conocedor
de nuestra historia y eximio lector, bucea y escudriña en el pasado para tratar de
encontrar allí los fundamentos de los males del presente, esos que puedan validarse
para una eventual corrección o superación de los errores cometidos. Una nueva
mirada, siempre comprensiva pero al mismo tiempo fuertemente crítica, se desliza
sobre episodios, ideas y personajes destacados del pasado histórico.
Antes que procurar torcer el destino de los hombres y de los pueblos de

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nuestra América, a partir de la subversión o de la deliberada distorsión de un


discurso en tanto discurso histórico, buscará en la comprensión de los errores
cometidos en ese pasado la posibilidad de encontrar los fundamentos para corregir
el presente.
Consideramos el aspecto antes señalado, analizado como un rasgo altamente
pertinente, propio de la Modernidad, en el marco de su gestación literaria. Al propio
tiempo los paradigmas correspondientes al estadio siguiente de formalización del
relato histórico encontrarán precisamente aquí una de las diferencias sustanciales:
la mirada vuelta hacia el pasado histórico fundamenta su intencionalidad de delinear
una visión paródica de esos acontecimientos al tiempo que el acento estará puesto
en la voluntad de reescribir los sucesos históricos desde otro ángulo, esto es, con
la expresa voluntad de reconstruirlos para una mejor comprensión, no con la
intención de parodiarlos. El manejo del lenguaje y el entramado de un discurso
donde la referencialidad histórica ocupa un papel descollante, son usados por el
autor para componer un registro que manifiesta una textura magistralmente trabajada
en todos sus aspectos.

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Data de recebimento: 04/05/2010


Data de aceite para a publicação: 10/09/2010.

NOTAS

*Graduada en Letras en la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad Nacional


de Cuyo (1974). Actualmente cursa el Doctorado en esta Institución en el área de
Literatura Hispanoamericana. Es profesora Asociada Efectiva por Concurso de la
Cátedra de Literatura Hispanoamericana II, del Departamento de Literaturas Modernas
de la FFyL, U.N.Cuyo - Universidad Nacional de Cuyo- Mendoza, Argentina.
1 Cubagua presenta dentro del corpus de novelas históricas venezolanas otro
momento significativo de las escrituras de raíz histórica. Ampliamente novedosa y

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adelantada a su tiempo, Nuñez formula un registro escritural que, espigando un


particular manejo del tiempo, supera el paradigma y el modelo que corresponde al
momento histórico en que fue escrito, para avanzar hacia esos modos de ficcionalizar
la materia histórica más propios de las últimas décadas del s. XX. En este sentido
podemos afirmar que ambas novelas de estos dos destacados escritores venezolanos,
publicadas además el mismo año, se manifiestan como ejercicios que se adelantan y
de algún modo preanuncian las teorizaciones realizadas durante los momentos en
que se forjan los registros que hoy conocemos como nueva novela histórica.
2 Determinados preceptos caracterizadores de la Modernidad pueden ser enunciados
en atención a ciertos principios que enumeraremos a continuación, los cuales se
constituyen en verdaderos pivotes en torno a los cuales se estructuran los constructos
que apuntan a un modelo, sostenido a lo largo del tiempo, de ficcionalizar la materia
histórica: el reconocimiento y la consecuente valoración del poder de la palabra
para representar la realidad, la confianza en el sujeto enunciador en tanto responsable
del discurso, la concepción de los grandes relatos como mundos completos
generadores de sentido, la presencia en ellos de un narrador responsable del
correspondiente proceso de enunciación, la constante y sostenida búsqueda de un
sentido de la Historia.
3 El paréntesis es nuestro.

SOBRE A AUTORA:

María Antonia Zandanel es profesora y Licenciada en Letras. Especialista en Docencia


Universitaria. Profesora Asociada Efectiva de la Cátedra de Literatura
Hispanoamericana Siglo XX, de la Universidad Nacional de Cuyo. Directora del
Liceo “Domingo Faustino Sarmiento”. Investigadora de la Cecyt. Cuenta con
numerosas publicaciones y ha dictado conferencias, cursos de grado y de posgrado
en el país y en el extranjero. Es autora de Los procesos de ficcionalización del
discurso histórico en la leyenda de El Dorado. (2004); coautora de los Relatos de
nuestra América (1985;) coordinadora de un Dossier sobre Novela histórica (2004)
y Coeditora de Género y memoria en América Latina (2007). Ha colaborado con
numerosos capítulos de libros y artículos sobre temas de su especialidad: los
paradigmas de la novela histórica, las escrituras femeninas del siglo XX y el ensayo
latinoamericano.

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Revista de Literatura, SIMÓN BOLÍVAR - DO HERÓI
História e Memória LIBERTADOR AO HOMEM
2010: Reflexões sobre o
bicentenário de independências
na América
DESMISTIFICADO EM EL GENERAL
ISSN 1809-5313 EN SU LABERINTO (1989),
VOL. 6 - Nº 8 - 2010 DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ.
U NIOESTE / CASCAVEL

P. 45-59

STEDILE, Terezinha (PG-UNIPAN)* terezamaya@hotmail.com

RESUMO: Este artigo analisa de forma teórico-reflexiva o romance histórico El general en su


laberinto (1989), de Gabriel García Márquez, no qual se evidenciam aspectos da personagem que
contribuem para a configuração de um Simón Bolívar diferente do ícone histórico, dotado de
atributos comuns a qualquer ser humano, vivendo seus conflitos e revelando suas fraquezas. A
arte literária busca assim revelar que por trás do herói consagrado pelo discurso histórico, existe
o homem despojado de super-poderes, o qual deve ser também considerado. Apoiamo-nos, para
a realização deste trabalho, em teóricos como Fernando Aínsa (1991), Seymour Menton (1993),
Alexis Márquez Rodríguez (1995) e outros, no que diz respeito a seus estudos sobre o romance
histórico latino-americano e seu processo evolutivo. Tais diretrizes forneceram os parâmetros
necessários para o enquadramento da referida obra como um modelo de Novo Romance Histórico
Latino-americano.

PALAVRAS-CHAVE: Novo romance histórico latino-americano; Simón Bolívar; El General en su


laberinto (1989); Literatura e História.

RESUMEN: Este artículo analiza de manera teórica-reflexiva el romance histórico El general en su


laberinto (1989), de Gabriel García Márquez, en el cual se evidencian aspectos del personaje que
contribuyen para la configuración de un Simón Bolívar distinto del icono histórico, provisto de
atributos comunes a un ser humano cualquiera, viviendo sus conflictos y revelando sus debilida-
des. El arte literaria busca, de este modo revelar que por detrás del héroe consagrado por el
discurso histórico, existe el hombre despojado de superpoderes, el cual debe ser también
considerado. Nos apoyamos, para la realización de este trabajo, en teóricos como Fernando Aínsa
(1991), Seymour Menton (1993), Alexis Márquez Rodríguez (1995) y otros, respecto a sus
investigaciones acerca del romance histórico latinoamericano y su proceso evolutivo. Tales
directrices aportaron los parámetros necesarios para el encuadramiento de la referida obra como
un modelo de Nuevo Romance Histórico Latinoamericano.

PALABRAS CLAVE: Nuevo romance histórico latinoamericano; Simón Bolívar, El general en su


laberinto (1989); Literatura e Historia.

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O gênero romanesco híbrido que se situa entre os limites da ciência histórica


e a arte literária, criado por Walter Scott em 1819 e consagrado pela obra Ivanhoe,
passou a ser conhecido como romance histórico. Desde o período do Romantismo
Europeu, movimento dentro do qual esta forma híbrida de história e ficção foi gerada,
até nossos dias, este subgênero passou por várias transformações, mantendo-se ao
longo deste processo evolutivo, como o subgênero romanesco mais importante da
contemporaneidade. As principais teorias que estudam este processo evolutivo são
o substrato que nos possibilita, ao longo deste artigo, analisar o único romance
histórico até hoje escrito por Gabriel García Márquez, El general en su laberinto
(2002). Nesta obra, García Márquez enfrenta-se com o projeto estético que busca
descrever os últimos dias da vida do general Simón Bolívar, o Libertador das Américas.
O processo narrativo volta-se para o momento em que a personagem realiza sua
derradeira viagem descendo o rio Magdalena, em direção ao mar, de onde Bolívar
deverá partir para o exílio na Europa. Metáfora da morte, esta viagem representa
uma autêntica via-sacra da personagem que durante os oito meses que constituem o
tempo cronológico da obra, se vê permanentemente torturada por suas lembranças.
O autor, contudo, vai mais além ao ficcionalizar um espaço-temporal tão
decisivo da nossa história: possibilita sua reinterpretação e reinvenção quando nos
apresenta um Bolívar destituído da imagem consagrada que as estátuas de mármore
insistem em perpetuar. Sutil e magistralmente, a narrativa de García Márquez consegue
conduzir a trama de forma que esta permite ao leitor compreender que, nas correntezas
daquele rio de vida e morte descreve-se, metaforicamente, dois fluxos de águas
cronologicamente estabelecidos: um na superfície, visível, admirado, respeitado e
muitas vezes temido; outro nas profundezas, turbulento, silencioso, gradativamente
perigoso e ameaçador. O primeiro deles leva o herói conclamado; já o segundo,
conduz o homem desmistificado, atormentado pelo acúmulo de cicatrizes
sedimentadas pelo tempo, resquícios de decepções, desilusões e desenganos que se
agigantam. É desse profundo labirinto que emerge o temido Minotauro, soberano
em seu território, cobrando o seu tributo. A metáfora maior se desenha ante os
olhos do leitor que acompanha esta trajetória do herói dessacralizado em busca de
uma possível saída. Só o processo participativo e ativo de leitura pode encontrar o
novelo de Teseu e assim, vislumbrar os rumos neste labirinto de imagens e
pensamentos que a correnteza do Magdalena carrega em seus fluxos que congregam
história e literatura, num intenso diálogo que revela o passado e o presente de
nosso continente. Pertinentemente, Milton, em seus estudos analisa:

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Aproveitando-se dos episódios referentes aos últimos dias do Libertador – Bolívar


encurralado no labirinto de sua morte -, García Márquez recria aspectos da trajetória do
herói e, com eles, momentos cruciais da história da América do século XIX. No romance,
a figura histórica, o mito e o homem, formam o andaime poético que permite ao escritor
expandir o motivo da derradeira aventura de Bolívar à esfera do próprio dilema americano.
(MILTON, 1994, p. 131-139).

A história e a literatura se entrelaçam desde os tempos mais remotos, numa


fronteira permeável onde a seiva da história fomenta a literatura e por sua vez, esta
é uma fonte para o conhecimento histórico, como vemos nos poemas épicos, como
Guerra de Tróia; El Cantar de Mío Cid, ambos, monumentos literários consagrados
e fonte histórica.
Na antiguidade greco-latina, a historiografia se constituia um gênero literário
no qual o historiador se restringia a elaborar os relatos dos acontecimentos e bem
antes de surgir o subgênero romance histórico, a questão referente à “verdade” já
era, como se pode ver, arduamente discutida. Platão, ao analisar o assunto, chegou
a concluir que a poesia era apenas uma imitação das imagens, uma criadora de vãs
aparências. Isso levou Aristóteles a dar, na Poética (1963, p. 407), relevância à
questão, pois, o filósofo chega a afirmar que “a Poesia é mais filosófica e mais
elevada do que a História, pois a Poesia conta de preferência o geral e, a História,
o particular”. As proposições de Aristóteles são fundamentos teóricos importantes
para a questão da verdade. Cervantes foi um dos que voltou a abordar o assunto em
seu clássico Don Quijote de la Mancha (1605-1615). Dom Quixote discute as relações
entre literatura e história com a personagem Sansão Carrasco, retomando a idéia
aristotélica da relação entre ambas:

– Así es – replicó Sansón –-, pero uno es escribir como poeta y otro como historiador: el
poeta puede contar los casos no como fueron, sino como deberían ser; y el historiador los
ha de escribir, no como deberían ser, sí como fueron, sin añadir, ni quitar a la verdad cosa
alguna. (CERVANTES, 1997, p. 582).

Essa “rivalidade” ou “limitação” não chegou, de fato, conforme defende Fleck


(2008), a ser algo sério que viesse a comprometer a relação que sempre existiu
entre a história e a literatura, embora tenha servido, desde então, como respaldo,
uma espécie de escudo que protege a liberdade criadora do discurso poético. Até
mesmo a visão de que a literatura deveria mostrar as verdades históricas que ficaram
ocultas por detrás da perspectiva dos vencedores que, na maioria das vezes, senão
sempre, foram os que efetuaram os registros históricos, continua existindo.

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Em meados do século XIX, literatura e história desenvolveram uma ascendente


autonomia entre ambas e, à história coube explicar e interpretar os fatos
fidedignamente e, à literatura por sua vez, a liberdade da imaginação para a
dramaturgia, a mitificação dos episódios épicos, ficcionalizando-os, já que “al
novelista histórico le es lícito trasponer al pasado los pensamientos de su propio
tiempo, cosa que no sucede con el historiador: éste está subordinado a la exactitud,
a la verdad, al rigor científico.” (MATA, 1995, p. 44). A partir dessa panorâmica,
surge como subgênero narrativo o romance histórico, cujos ingredientes essenciais
são a nostalgia de uma destacada época e a sua efetiva evocação dentro de um
contexto em que se situa a ação.

En este sentido, novela histórica no es sin más la que narra o describe hechos y cosas
ocurridos o existentes, ni siquiera – como se suele aceptar convencionalmente – la que
narra cosas referentes a la vida pública de un pueblo, sino específicamente aquella que se
propone reconstruir un modo de vida pretérito, en su lejanía con los especiales sentimientos
que despierta en nosotros la monumentalidad. (ALONSO, 1987, p. 80).

Segundo Lukács (1977, p. 15-29), “Las condiciones histórico-sociales del


surgimiento de la novela histórica”, os primeiros registros do romance histórico se
encontram na obra de Walter Scott, de 1814, intitulada Waverley, embora a maioria
dos teóricos aponta sua outra obra, Ivanhoé (1819), como marco definitivo do início
do subgênero, pois é a partir desta que a modalidade conhece seu imenso êxito. As
circunstâncias sócio-políticas (organização de exércitos para as grandes guerras na
Europa) no início do século XIX impulsionaram os indivíduos a tomarem consciência
da sua importância histórica e Scott retira dessa realidade o eixo de seus romances.
Walter Scott, habilidoso escritor escocês, consegue estabelecer aquela que seria a
fórmula de elaboração do subgênero narrativo romance histórico, o qual passa a ser
adotado e seguido por uma infinidade de escritores em diferentes países.
Scott estruturou seus romances a partir da visão daquele que participa dos
acontecimentos históricos em seus aspectos mais peculiares. Scott “no altera los
acontecimientos históricos; simplemente, muestra la historia como ‘destino popular’
o, de otra forma, ve la historia a través de los individuos.” (MATA, 1995, p. 23). Sua
trama narrativa é capaz de avivar no leitor as cenas de usos e costumes descritas
minuciosamente, conferindo-lhes a relevância que realmente exerceram, isto é, dando-
lhes de certa forma um sentido contemporâneo. Scott soube captar com sensibilidade
as ocasiões históricas merecedoras de serem lembradas através da literatura, que
com seus recursos pode manter flamejante o passado fadado ao rigor dos registros
históricos. Tem sido tão importante o papel da literatura que muitas vezes os
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historiadores lançaram mão de seus artifícios para enriquecer a historiografia e as


idéias do romantismo contagiaram e se propagaram entre os escritores da época,
segundo afirma Carlos Mata, em decorrência de seus estudos:

La novela histórica es un género genuinamente romántico: y es que, como suele afirmarse,


la imaginación romántica hizo ser historiadores a los novelistas y novelistas a los
historiadores. Las ideas románticas ejercieron gran influencia en la historiografía de la
primera mitad del siglo XIX: Agustín Thierry atribuyó a la imaginación un papel decisivo en
la obra del historiador, en tanto que sólo ella podía vivificar los documentos [...] (MATA,
1995, p. 24).

Todavia há registros de alguns romances que aparentam ser históricos, escritos


na segunda metade do século XVIII, mas como a forma de atuação de suas personagens
e os costumes evidenciados são da época em que foram escritos, não podem ser
enquadrados como romance histórico.
Atualmente, história e literatura seguem testemunhando que uma não pode
prescindir da outra enquanto mecanismo de acesso ao conjunto de elementos que
compuseram o universo panorâmico do nosso passado a ser revelado sob diferentes
aspectos e detalhes. Infiltrar-se em possíveis brechas para desvendar mistérios
pretéritos das civilizações sempre há sido intenção do ser humano e essa curiosidade
latente encontra terreno fértil quando os registros da história são elaborados com
os matizes que a literatura dispõe. Essa ânsia por acessar o passado contribui,
sobremaneira, para a formação do homem pois:

Cuanto mejor conozcamos nuestro pasado, mejor entenderemos nuestro presente; y


cuanto mejor comprendamos nuestro presente, en mejores condiciones estaremos para
afrontar felizmente nuestro futuro. Si en la historia el hombre puede buscar su propia
identidad, la novela histórica contribuye a evitar la amnesia del pasado en una época
necesitada igualmente de raíces y de esperanzas. (MATA, 1995, p. 37).

As inferências de historiadores no âmbito literário são admitidas porque “el


historiador siempre es un intérprete y por lo tanto está más cerca de la ficción que
de la ciencia.” (MENTON, 1993, p. 55). Devido a sua relevância, este foi tema de
artigo para o professor de história E. Bradford Burns, da Universidade da Califórnia,
em Los Ângeles, publicado na Revista Interamericana de Bibliografia com o título
“Bartolomé Mitre: el historiador como novelista, la novela como historia.” Já em
1982, Tzvetan Todorov, semiólogo em evidência, “publicó ‘La conquista de América.
La cuestión del otro’. En ella condena a Colón por haber considerado inferiores a

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los indios, por su obsesión de convertirlos al cristianismo y por su búsqueda obsesiva


del oro.” (MENTON, 1993 p. 55-56). Este enfoque desenvolvido por Todorov sinaliza
para um posicionamento mais consciente e a evidência da aplicação da alteridade
para a obtenção da justa criticidade frente à história. Menton ainda acrescenta que
Todorov “escribió el libro para impedir que se olvide el genocidio de la Conquista:
‘Porque el otro queda por descubrirse’.” (MENTON, 1993, p. 56). É neste universo
histórico-literário que emergem importantes questões sócio-políticas muitas vezes
sonegadas a um povo que, embora tenha sido refém de culturas impostas, merece a
dignidade de apropriar-se de seu passado através do resgate da essência de sua
história, ainda que para isso haja uma desconstrução de uma história oficial, estratégia
esta que vemos presente na obra El general en su laberinto, de García Márquez, que
se vale da constituição híbrida do subgênero para evidenciar outras perspectivas do
passado de nossos heróis.
O Novo Romance Histórico Latino-americano – dentro do qual García Márquez
configura a personagem Simón Bolívar – distingue-se do modelo tradicional, segundo
aponta Fernando Aínsa (1991), por sua variedade, pela subordinação da reprodução
mimética de certo período histórico, pela distorção proposital da história através de
anacronismos, omissões ou exagerações, pela ficcionalização de personagens
históricos diferente da forma como Scott os apresenta. Outra característica desta
nova forma de produção do romance histórico, conforme registra Menton (1993, p.
46) é a presença da metaficção, recurso literário em destaque nas criações de Borges
e que se distingue pelos comentários do narrador sobre o processo de criação da
obra. A intertextualidade – conceito bahktiniano expandido por Julia Kristeva (1969)
e Gérard Genette (1982) – é também mencionada por Menton (1993), como mais um
referencial deste subgênero novelesco. Seymour Menton (1993, p. 44), ao estabelecer
algumas das principais características do novo romance histórico hispano-americano,
refere-se aos estudos de Julia Kristeva, analisando que para a teórica francesa “todo
texto se arma como um mosaico de citações; todo texto é a absorção e transformação
de outro texto.” Gérard Genette, por sua vez, aprofunda os estudos das relações
que se estabelecem entre um texto e outro em sua obra Palimpsestes: la littérature
au second degré (1982). Nesta obra, o teórico estabelece o termo “relações
transtextuais” que se configuram como um conjunto de cinco diferentes maneiras de
como um texto pode estabelecer diálogos com outros que o precederam.
O Novo Romance Histórico Latino-americano congrega em sua estrutura
também os conceitos bahktinianos (1980) de dialogia, carnavalização e paródia,
presença de extremos e absurdos inclusive na linguagem, que destacam as exagerações
humorísticas e enfatizam funções do corpo humano, com a finalidade de provocar,

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pela linguagem, uma inversão de poder, uma crítica acirrada pela ironia, o humor e
outros recursos linguísticos.
Alejo Carpentier, romancista cubano, é considerado o precursor do Novo
Romance Histórico na América Latina, com a obra El reino de este mundo (1949),
sendo o caráter cíclico da história a característica determinante de seu estilo novelesco
– aspecto que García Márquez reelabora em sua obra El general en su laberinto,
pela própria metáfora que homenageia, primeiro a Borges e depois, ao autor de
Viaje a la semilla (1969).
A história oficial latino-americana guarda em seus arquivos um manancial de
acontecimentos que, ao serem abordados pelos romancistas históricos, enriquecem
o universo literário, propiciando a acessibilidade a relevantes informações sobre
este continente através da ficção. As peculiaridades restritas a determinado fato
histórico ou a seus protagonistas podem, através do romance histórico, revelar
aspectos importantes do passado de homens e mulheres, cúmplices na construção
de uma história que, inevitavelmente produzirá sempre diferentes versões, dependendo
de quem a escreva.
Na América Latina, o romance histórico, ao ficcionalizar a história, desconstrói
a visão tradicional dos fatos relatada através do olhar estrangeiro, para oportunizar
outras perspectivas, baseadas nos detalhes e particularidades da realidade onde os
fatos aconteciam, fomentando as possíveis incursões de protagonistas de grandes
ou pequenos episódios, sua vida privada, seu cotidiano, os bastidores de sua história,
com a perspicácia peculiar do nativo desta América, disponibilizando registros da
nossa cultura com as nuances obrigatórias de um passado que nos pertence, mas
que foi registrado apenas sob a visão do colonizador europeu. As angústias e os
sonhos de um povo que viu desestabilizada sua estrutura e posteriormente
massacrada sua cultura, podem ser retratadas pelo viés da ficção de forma a
proporcionar uma sutil identidade entre os leitores latino-americanos e seus
antepassados.
Segundo as definições de romance histórico, expostas por Seymor Menton
em La nueva novela histórica de la América Latina 1979 – 1992, enquadram-se nesta
categoria “ aquellas novelas cuya acción se ubica total o por lo menos
predominantemente en el pasado, es decir, un pasado no experimentado directamente
por el autor.” (MENTON, 1993, p. 32) e, corroborando esta opinião, Anderson Imbert
(1951, apud MENTON, 1993, p. 33) defende que: “llamamos ‘novelas históricas’ a las
que cuentan una acción ocurrida en una época anterior a la del novelista.” Não
obstante, o romance de García Márquez, El general en su laberinto, foi escrito em
1989, mas se reporta a fatos da vida de Simón Bolívar até sua morte em 1830,

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configurando-se desta forma como romance histórico.


Considerando a magnitude histórico-literária latino-americana, analisamos
a obra El general en su laberinto (2002), de Gabriel García Márquez, a qual narra
a trajetória sócio-política e humana do líder Simón Bolívar, “El libertador”, a partir
de um prisma retrospectivo em que a personagem, desiludida, evoca por meio de
apelos à memória, seus desejos e conquistas, constatando o fracasso de seu maior
sonho: a unificação do continente latino americano.
Este romance histórico é um texto híbrido no qual convergem aspectos da
realidade factual e da ficção imaginativa. Uma obra na qual se percebe que o autor
mantém fidelidade à história oficial em relação a muitos aspectos apresentados no
romance, porém utiliza a prosa poética na qual o realismo mágico é convertido em
recurso literário a fim de configurar Bolívar como um ser humano comum, despojado
da imagem mitificada com que o discurso histórico busca retratá-lo. A literatura,
com seus liames, oferece a possibilidade de um texto dramático, permitindo que a
figura histórica de Simón Bolívar seja descrita com autenticidade, atribuindo à
personagem ficcional daí resultante, uma característica importante: a missão de
desmistificar uma imagem cultuada historicamente, revelando em pormenores os
bastidores da vida de um herói sacralizado.
Simón Bolívar – um homem perseguindo um sonho – um sonho perseguindo
um homem. É dentro dessa premissa que o autor desenvolve este romance, em que
as circunstâncias dramáticas dos acontecimentos indicam o labirinto em que a
personagem passa os últimos meses de sua vida. O título dado a esta obra instiga à
reflexão, pois alude a um tema mitológico, o do Minotauro, que em seu labirinto
devorava jovens que lhe eram ofertados em sacrifício. Sua derrota chega ao deparar-
se com Teseu, aquele que o leva à morte. Em sua derradeira viagem pelas águas do
rio Magdalena em direção a Cartagena de Índias e, supostamente depois para a
Europa, Bolívar sobrevive rodeado de lembranças as quais prolongam seus dias e
seus pesares. Assim como o Minotauro não se entrega facilmente ao jovem guerreiro,
ele tem que conviver diuturnamente em duelo contra este monstro, a morte. Um
tema constante, ressaltado metaforicamente inúmeras vezes por Márquez, traz à
tona a expectativa de Bolívar no decurso do calvário percorrido ao longo da narrativa,
em sucessivas paradas, propositalmente oportunizadas, para o encontro com amigos,
fantasmas de um passado cujas recordações o conduzem a um confronto com a
fatalidade irremediável que lhe reserva este labirinto. Simón Bolívar deixa transparecer
em atitudes, palavras, em simples expressões e até mesmo em omissões, a brevidade
do tempo que lhe resta, sinais estes reconhecidos por aqueles que o rodeiam, como
podemos ver neste trecho que destacamos a seguir. Nele o general Montilla e alguns

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amigos percebem a fragilidade de seu companheiro após uma visita em que ele, ao
despedir-se, lhes entrega uma medalha de ouro com sua efígie, gesto que repercutiu
como se fosse uma recordação póstuma, deixando escapar dos lábios de García del
Río, em baixo tom, a seguinte observação: “¯Ya tiene cara de muerto.” (GARCÍA
MÁRQUEZ, 2002, p. 150).
Ao mesmo tempo em que segue lentamente esta trágica viagem, o general faz
constantes paradas, nas quais revive seu passado e feitos heróicos que,
indelevelmente, compuseram um propício panorama para a construção do herói
mitológico, aclamado de norte a sul do continente, mas que o intrépido destino se
encarregou de transformar em um Quijote, obsecado pela esperança de reconstrução
de um mundo alicerçado na justiça e no ideal de união de todos os latino-americanos.
Este ser é, concomitantemente, atormentado pelo seu caótico micro-universo de
decepcionantes realidades. Assim como Cervantes reveste Don Quijote de atributos
que lhe facultam a capacidade de realizar as grandes façanhas que, em síntese,
representam os anseios do cidadão comum, mas desprovido da percepção das
conseqüências que estas podem provocar e sem avaliar as próprias limitações dentro
daquele processo, Gabriel García Márquez também resgata no tempo o valente
Bolívar, que desafia estruturas, rompe paradigmas, idealiza um sonho e tem como
seu fiel escudeiro José Palácios, homem que vive em constante simbiose com este
Quixote, abdica de sua própria existência para seguir um caminho à sombra de seu
amo, para servi-lo, conforme se pode ver no trecho selecionado:

José Palacios había entrado muy joven a su servicio, por disposición de la madre del
general, que era su dueña, y no fue emancipado de una manera formal. Quedó flotando en
un limbo civil, en el que nunca se le asignó un sueldo, ni se le definió un estado, sino que
sus necesidades personales formaban parte de las necesidades privadas del general. Se
identificó con él hasta en el modo de vestir y de comer, y exageró su sobriedad. (GARCÍA
MÁRQUEZ, 2002, p. 270).

A formação de Simón Bolívar teve como influência determinante, as idéias de


democracia e liberdade que então fomentavam as grandes mudanças políticas na
Europa, extraídas dos muitos livros de filosofia e literatura de autores clássicos do
século XVII que acessou em suas viagens ao velho continente, quando ainda não
imaginava que seria o “Libertador das Américas” e em seus discursos “a influência
dos grandes pensadores políticos do século XVII – Rousseau, Voltaire e Montesquieu,
como também de Locke – é nítida.” (CASTRO, 1973, p. 109). Esse cabedal de
conhecimentos, que vinha de encontro a um princípio de ideal de liberdade que
germinava pouco a pouco em Bolívar, assegurou-lhe a certeza de que a causa da

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América merecia o seu esforço e, numa tarde de verão no Monte Sacro em Roma –
lugar em que historicamente se haviam refugiados os plebeus romanos, em luta
contra os patrícios por uma igualdade de direitos –, movido pelo sentimento de
liberdade contra a opressão que a situação inspirava, Bolívar disse, com o vigor dos
seus 23 anos, ao seu amigo e professor Simón Rodríguez: “¯Juro perante você, juro
pelo Deus de meu país, juro pelos meus pais, juro por minha honra e pela pátria
que não darei descanso a meu braço, nem repouso à minha alma, enquanto não
romper os grilhões com que nos oprime o poder espanhol.” (CASTRO, 1973, p. 36).
Tal juramento foi relembrado pelo próprio Bolívar 20 anos mais tarde, quando
escreveu a Rodríguez:

‘- Lembra-se como escalamos o Monte Sacro para prometer sobre o seu solo sagrado a
liberdade de nosso país? Certamente eu não esqueci esse dia de glória imortal. Foi o dia
em que minha alma profética antecipou a esperança que não nos atrevíamos ainda a
expressar’. (CASTRO, 1973, p. 36).

Em tão pouco tempo a antiga realidade, na qual lhe sobravam reverências,


transformou-se em vivência postiça, de incríveis equívocos quase impossíveis de se
administrar. Por onde antes era aclamado com honra, agora com sua récua de
soldados miseravelmente vestidos, era confundido e ignorado como se fosse um
andarilho qualquer. Em uma das suas constantes paradas, em um convento, as noviças
cantavam canções de amor do repertório criolo, acompanhadas por uma monja
superiora com sua harpa e ao final uma delas passou o chapéu pedindo esmolas e a
superiora a interpelou: “¯No le pidas al enfermo.” ‘Pero la novicia no le hizo caso.
El general, sin mirarla siquiera, le dijo con una sonrisa amarga:’ “-Para limosnas
estoy yo, hija.” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2002, p. 49) e as deferências foram dadas ao
coronel Wilson que o acompanhava, por ter ares de autoridade com seu uniforme
bem alinhado, em contraste com as roupas de Bolívar, que ao final disse: “-Ya no
soy yo.” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2002, p. 49). Como se observa, o autor, de posse
de informações históricas tão significativas, desenvolveu seu enredo entre a glória
e o caus do mito. Tal como Quixote, Bolívar cumpria a sina de um homem sem
raízes e sem vínculos afetivos significativos. Se casou muito jovem com a espanhola
Maria Teresa Rodríguez del Toro, com a qual viveu um intenso e curto amor, pois
ficou viúvo aos 19 anos. Certa vez, declarou: “-Eu amava muito minha mulher. Quando
ela morreu, jurei nunca mais me casar. Mantive minha promessa.” (CASTRO, 1973,
p. 27). García Márquez aproveita-se desta promessa para configurar sua personagem,
pois, em um determinado contexto o narrador afirma: “nunca más habló de su esposa

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muerta, nunca más la recordó, nunca más intentó sustituirla.” (GARCÍA MÁRQUEZ,
2002, p. 257). A morte de Maria Teresa mudou completamente o rumo de sua vida
e ele próprio chegou a admitir: “-Vejam vocês como são as coisas. Se eu não tivesse
enviuvado, minha vida teria sido outra; eu não seria o general Bolívar, nem o
Libertador, embora reconheça que minha vocação não era para ser alcaide de San
Mateo.” (CASTRO, 1973, p. 27). No íntimo ele sabia que, se não tivesse sido o que
foi, teria abdicado de sua vocação e consequentemente, não seria feliz. García
Márquez, ao configurar ficcionalmente sua personagem, vale-se destes traços da
personalidade do herói e cria situações em que Bolívar sufoca a ansiedade que sente
diante das tantas incertezas impostas pela vida e pelos percalços dos combates,
envolvendo-se em romances fugazes e libertinos; porém entre uma aventura e outra,
em seu eterno navegar, tem como porto seguro a quitenha Manuela Sáenz, que
sempre volta a ocupar seu lugar de amante oficial. O autor, por muitas vezes expõe
sua personagem a situações que corroboram essa verdade, como vemos a seguir:

Mientras tanto, se consolaba en un idilio múltiple con las cinco mujeres indivisibles del
matriarcado de Garaycoa, sin que él mismo supiera jamás a ciencia cierta cuál hubiera
escogido entre la abuela de cincuenta y seis años, la hija de treinta y ocho, o las tres nietas
en la flor de la edad. Terminada la misión en Guayaquil escapó de todas ellas con promesas
de amor eterno e pronto regreso, y volvió a Quito a sumergirse en las arenas movedizas de
Manuela Sáenz. (GARCÍA MÁRQUEZ, 2002, p. 157).

Dessa forma, a obra vai revelando detalhes de um Bolívar que lastreou sua
trajetória com atos de coragem, decisão, astúcia e se confirmou como grande
estrategista. García Márquez cita, em sua obra, através da fala da personagem Miranda,
quando questionada por seu pai, sobre Simón Bolívar, a seguinte comparação: “-He
feels he´s Bonaparte.” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2002, p. 83) ou seja, ele se sentia o
próprio Napoleón. O estigmatizado mito, consagrado por suas grandes vitórias
“seguirá siendo el más grande de los colombianos hasta en los confines del planeta.”
(GARCÍA MÁRQUEZ, 2002, p. 78). Embora era assim que o vissem, na vida e nos
bastidores da política as coisas são como são e não como gostaríamos que fossem.
Deste modo, a narrativa romanesca expõe que não raras vezes Bolívar era surpreendido
por reveses que não lhe deixavam opções satisfatórias, como quando ofereceu a seu
grande amigo marechal Sucre o cargo de presidente, o qual o recusou. Com essa
resposta Sucre selou para sempre o destino de Bolívar, que afirmou: “-usted acaba
de tomar por mí la decisión final de mi vida.” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2002, p. 27).
E a narrativa segue descrevendo em detalhes a sequência de ações atribuídas a
Bolívar através da personagem que, naquela noite redatou sua renúncia ao comando

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supremo dos territórios livres do colonialismo espanhol.


Um dos traços demarcados enfaticamente na obra pelo autor é a recorrência
ao perfil da personagem na integralidade de sua trajetória. Como recurso literário,
o autor faz uso de retratos de Bolívar, pintados ao longo de sua vida, estrategicamente
aludidos no texto com o propósito de evidenciar a desconstrução do mito, refletindo
êxitos e fracassos, os quais configuraram seu perfil no imaginário popular. A
fidelidade aos seus verdadeiros traços é reproduzida por duas vezes, aos 16 e aos
32 anos, respectivamente em Madrid e no Haití. Conforme ia obtendo destaque, sua
figura se transformava e aquele mestiço, com resquícios de sangue africano em sua
linhagem, foi perfilado com traços de herói romano, porém, a decadência da
personagem fez com que sua verdadeira face fosse retratada impiedosamente, como
na tela de Espinosa, a qual o autor se refere neste fragmento: “[…] el retrato de
Espinosa no se parecía a nadie más que a él, a los cuarenta y cinco años, y ya
carcomido por la enfermedad que se empeño en ocultar y en ocultarse incluso a si
mismo hasta las vísperas de la muerte.” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2002, p. 187).
O sonho de Bolívar começa a ser corroído no mesmo dia em que alcança o
ápice. Os políticos começavam a organizar movimentos separatistas nos territórios
conquistados com a intenção de federalizar o continente, o que contrariava o ideal
libertador de Simón Bolívar. Esta foi a causa determinante para o desfecho caótico
de uma guerra que durou vinte anos. Para referir-se a esse aspecto histórico, García
Márquez elabora para a personagem uma situação em que lhe pedem para que assuma
a presidência do país em defesa da pátria, ao que Bolívar, já consciente do fim de
seu sonho, declara: “-ya no tengo patria por la cual sacrificarme. ” (GARCÍA
MÁRQUEZ, 2002, p. 43).
As constantes protelações de sua saída do continente rumo à Europa, por
várias vezes reiteradas na narrativa de García Márquez, nada mais eram do que a
eterna fuga do auto-enfrentamento diante da realidade. A fictícia estagnação do
tempo no compasso fúnebre do relógio que seguia marcando 01:07 se apresenta
como tábua de salvação.
À medida que a personagem seguia adiante com seu séquito, aumentavam
seus obstáculos, já não considerados desafios, mas sim componentes de um destino
irremediavelmente traçado. A cada golpe sofrido, a cada estratégia mal sucedida
que aflorava em sua memória, ela ia deixando pelo caminho parte de sua caravana,
um pouco dos pertences que ainda lhe restavam, algumas relíquias outrora preciosas,
mas que agora não passavam de simples quinquilharias. Assim, a personagem vai
se desvencilhando de seus bens materiais ao mesmo tempo em que seus sonhos se
desvanecem. Perspicazmente, o autor metaforiza essa realidade. A fidelidade moral

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da personagem com o compromisso de liberdade e união do continente latino-


americano não lhe permitiam paz de espírito e, num lampejo de lucidez entre tantos
devaneios, constata: “-en cambio yo me he perdido en un sueño que no existe.”
(GARCÍA MÁRQUEZ, 2002, p. 227).
Os registros históricos afirmam que Bolívar, em seu leito de morte, quando
recebia a extrema-unção, manteve seu peculiar sarcasmo e, comparando-se a
personalidades históricas, expressou: “- Os três grandes teimosos da humanidade
foram Jesus Cristo, Dom Quixote e eu”. (CASTRO, 1973, p. 208). Posteriormente,
ditou sua mensagem de despedida aos colombianos na qual conclama a todos pela
união do território americano e em seu delírio de morte divaga frases como: “-
vamos embora, levem minha bagagem para fora da fragata... não nos querem neste
país.” (CASTRO, 1973, p. 209). Os devaneios que o afligem na história factual são
transformados pela ficção em elementos integrantes do labirinto que o apavora até
seus últimos instantes de vida, quando só lhe resta aceitar a fatalidade diante da
bênção dos santos óleos conferida aos moribundos, ocasião em que tece comentários
sobre sua infelicidade de não acreditar na vida após a morte, a personagem expressa
angustiada: “-¡Cómo voy a salir de este laberinto!” (GARCÍA MÁRQUEZ, 2002, p.
271). Falece aos 17 dias do mês de dezembro do ano de 1830. Também na literatura
se fecha o ciclo de vida por tantas vezes ameaçado. O paralelo acima, entre história
e literatura, nos indica que, para subsidiar seu audacioso projeto, García Márquez
precisou recorrer a infindáveis fontes históricas e delas extrair o substrato que
possibilitou emoldurar sua personagem e, com a necessária dose de dramaturgia, a
perfilou. Analisando a dimensão do romance de García Márquez, Carlos Fuentes
(1990, p. 24), em Valiente Mundo Nuevo, comenta:

La narrativa de García Márquez, esta vez, es directa e históricamente localizada, pero la


iniciación lineal no tarda en florecer, hacia arriba y hacia abajo, y lateralmente, como una
planta, histórica, triste y vibrante, de la ilusión del poder y la traición del cuerpo. Siguiendo
al libertador Simón Bolívar en su viaje hacia la muerte, García Márquez no sólo desacraliza
a la estatua. Convierte a Bolívar en un ser reconocible y sufriente, cuya misión más grande,
quizás, fue la de liberar al continente de su obsesión fundadora con la utopía. (FUENTES,
1990, p. 24).

Pela leitura feita, podemos afirmar que a literatura, com seus recursos,
sintetizou em El general en su laberinto, um período fundamental para o continente
Latino Americano: a independência do colonialismo espanhol. García Márquez
reescreve os momentos finais da vida de Bolívar, dando um enfoque especial ao lado
mais puramente humano do Libertador, revelando um homem que definhava aos

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poucos, corroído pelas lembranças de um passado que oscilava entre glórias e


fracassos, elementos substanciais incluídos na narrativa para fazer com que fatos
negligenciados pela história oficial contribuíssem para a elucidação de uma verdade
que, talvez, não seja tão aprazível, pois revela aspectos da realidade que não condizem
com o perfil de mito, galardonado de vitórias, conquistas e glorificações que o
discurso edificador da história atribui ao herói, autêntico mestiço americano. O
autor se utiliza de um narrador onisciente para viabilizar sua trama novelesca, por
meio da qual aborda aspectos oficiais da história, porém o eixo que determina o seu
desenrolar são as ações íntimas da personagem e dessa forma disponibiliza um
acesso mais fidedigno à história reconfigurando-a, pela leitura que dela faz o romance
histórico.

NOTAS

Data de recebimento: 09/07/2010


Data de aceite para a publicação: 30/10/2010.
* Graduada em Administração de Empresas pela Universidade do Oeste do Paraná – UNIOESTE/
Cascavel – PR; pós-graduada em Língua Espanhola pela União Pan-Americana de Ensino –
UNIPAN/Cascavel – PR. Diplomada em Espanhol Língua Estrangeira Nível Superior – Instituto
Cervantes/Espanha.

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2008. 333 f. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita
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Universidad de Navarra, 1995.

Data de recebimento: 09/07/2010


Data de aceite para a publicação: 30/10/2010.

SOBRE A AUTORA

Terezinha Stedile é graduada em Administração de Empresas pela Universidade


do Oeste do Paraná – UNIOESTE/Cascavel - PR; pós-graduada em Língua Espanhola
pela União Pan-Americana de Ensino – UNIPAN/Cascavel – PR. Diplomada em
Espanhol Língua Estrangeira Nível Superior – Instituto Cervantes/Espanha; autora
da obra: Bocadillo Literario (Editora Isis/2010).

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bicentenário de independências
METATEXTOS DE CONSPIRACIÓN
na América CONTRA GÜEMES: UNA NOVELA
ISSN 1809-5313 DE BANDIDOS, PATRIOTAS,
VOL. 6 - Nº 8 - 2010
TRAIDORES DE ELSA DRUCAROFF
U NIOESTE / CASCAVEL

P. 61-76

BARI, Camila (Westminster College/University of Pittsburgh)*


baridec@westminster.edu

RESUMEN: Conspiración contra Güemes: una novela de bandidos, patriotas, traidores, de Elsa
Drucaroff, es una novela histórica de diseño complejo que juega con los reflejos entre el texto de
la novela y los paratextos historiográficos que la integran, y presenta una interacción dialógica
entre sus distintos discursos. La novela se centra en Martín Miguel de Güemes, el caudillo
heroico de la independencia sudamericana, marginado por la historiografía oficial. Usando paratextos
para aportar datos históricos controversiales, la novela adopta una postura irónica respecto al
debate histórico sobre la conspiración contra la vida de Güemes y sobre su conducta privada y
pública ubicando al lector en el centro de su composición deconstructiva/constructiva de la
historia.

PALABRAS CLAVE: Elsa Drucaroff; Martín Miguel de Güemes; Novela Histórica; Independencia
de América del Sur; Textos, paratextos y metatextos.

ABSTRACT: Conspiración contra Güemes: una novela de bandidos, patriotas, traidores, by Elsa
Drucaroff, is a historical novel of complex design that exchanges reflections between the text and
the historiographical paratexts and metatexts that are part of it, and presents a dialogical interaction
between its various narrative discourses. It focuses on Martín Miguel de Güemes, a chieftain and
hero of South American Independence, marginalized by the official history. Using paratexts to
convey controversial historical data, the novel adopts an ironic stand on the historical debate
about the conspiracy against Güemes’ life and on his private and public conduct, placing the
reader at the center of its historical deconstructive/constructive composition.

KEYWORDS: Elsa Drucaroff; Martín Miguel de Güemes; Historical novel; South American
Independence; Text, paratext and metatexts.

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“[E]staba en la conciencia de todos que la idea innata de la república residía en las cosas
mismas, como que había nacido con la revolución y era inseparable de la idea de
mismas
independencia.” (MITRE, San Martin I, 1890, p. 74)

“-¡Entonces él también… está en la conjura!


¯Era previsible, mi querida. Estaba…
- En la naturaleza de las cosas
cosas. Señora, esa naturaleza es horrible.
- Es que no es natural, es bien humana […]” (DRUCAROFF, 2002, p. 281)

Desde las últimas décadas del siglo veinte la crítica especializada está
llamando la atención sobre la gran cantidad de novelas históricas que a partir de la
segunda mitad del siglo XX se han publicado en Hispanoamérica. Se ha clasificado
estas novelas bajo términos como “nueva novela histórica,” “nueva crónica de indias,”
“novela neobarroca,” “ficción de archivo,” “metaficción historiográfica” o “novela
histórica posmoderna” (VIU, 2007, p. 83). Algunos críticos como Seymour Menton
y Fernando Aínsa han atribuido esta obsesión por la historia a una conciencia
poscolonizadora que se vitaliza alrededor del quinto centenario del encuentro de
España y América. Por su parte, María Antonia Zandanel resume así el propósito de
estas novelas:

A partir de una lectura siempre crítica del pasado histórico florecen en la últimas décadas
estas reescrituras cuyo objeto es desmitificar y enjuiciar ese pasado histórico o, más
ajustadamente, determinados segmentos de la historia. También, y desde otra perspectiva,
ciertos registros habrán de privilegiar la mirada que atiende al acto de la escritura en sí
mismo [...] El foco de atención se centra, en estos casos, en el proceso mismo de la
escritura para subrayar la relación que se establece entre la historia y la ficción. (ZANDANEL,
2004, p. 58).

Conspiración contra Güemes: una novela de bandidos, patriotas, traidores


(2002), de Elsa Drucaroff, perteneciente al subgénero nueva novela histórica, permite
analizar diversos aspectos del mismo tales como el reescribir los textos
historiográficos con la intención de llenar los vacíos dejados por la historia oficial
incorporando los sectores marginados y revelando la intencionalidad y la
epistemología que originaron y luego canonizaron esa historia. Se percibe también
en Conspiración contra Güemes la renovación de los paradigmas preexistentes de
la narrativa histórica introduciendo la ironía y la parodia al multiplicar la focalización
y al provocar juegos intertextuales por medio de paratextos y metatextos.
Otro aspecto notable es la incorporación de términos propios de la época,
modos de habla regionales y de género y de la producción y reacción conscientes de

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los personajes a los diversos niveles de lengua usados históricamente para dirigirse
a las personas según su clase social, su sexo o su edad. Todos los rasgos señalados
son caracterizadores de la nueva novela histórica según los críticos que primero se
han ocupado de ella como Fernando Aínsa, Seymor Menton, Noé Jitrik, por nombrar
sólo algunos.
La novela de Drucaroff narra los hechos ocurridos en el norte argentino
desde 1814 cuando “Güemes se fortalece como jefe gaucho de toda la resistencia”
frente al avance realista (DRUCAROFF, 2002, p. 344), hasta 1819, dos años antes
de su muerte, cuando fue objeto de un atentado homicida. De la rica historiografía
sobre el tema, la novela recoge los datos sobre esos años en un diseño complejo
que induce al lector a solazarse en el juego de reflejos entre el texto de la novela y
los paratextos historiográficos que la integran, y en el dialogismo que la autora
establece entre los distintos discursos dejando aun percibir por omisión, o por la
inclusión de algún metatexto, las palabras de los historiadores oficiales a los que
revoca sin citarlos explícitamente. De esta manera, la novela es una composición
que ubica a Martín Miguel de Güemes, un marginado por la historiografía oficial,
en el centro de la historia de la Independencia del Cono Sur. Revela también algunos
acontecimientos no tan conocidos de la vida del caudillo y, junto a ellos, la
intrahistoria de los detalles afectivos y personales de su vida íntima y la de aquellos
que formaron su entorno más cercano.
Don Martín Miguel de Güemes (1785-1821) fue hijo de una distinguida familia
de la sociedad salteña. Organizó a los gauchos de las estancias del norte en milicias
que con su estrategia de escaramuzas relámpago, sin dar nunca batalla formal,
enloquecieron a los ejércitos regulares españoles, algunos veteranos en las guerras
contra Napoleón, derrotándolos al impedirles el abastecimiento de vituallas y
caballada. Historiadores, como Mitre, Paz, Frías, coinciden en destacar el patriotismo
intachable de Güemes y su fidelidad indefectible hacia la causa de la Independencia.
Aunque San Martín aprobó y confió plenamente en las tácticas guerrilleras de los
gauchos, otros militares como Rondeau y French acusaron a Güemes de robo de
armas y caballos, y otros caudillos como Aráoz lo combatieron a pesar de que fue el
único que logró contener el avance de los realistas desde el Perú ofreciendo junto
con San Martín un doble frente que fue decisivo para la Independencia sudamericana.
El accionar de Güemes fue el obstáculo impenetrable para los ejércitos enviados
por el virrey del Perú que buscaban recuperar el Rio de la Plata penetrando por el
Alto Perú y por Chile. Sin Güemes, que debilitó constantemente las fuerzas españolas
entreteniéndolas en batallas que les causaban grandes bajas dejando casi impunes a
los gauchos, posiblemente San Martín no habría podido independizar a Chile y al

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Perú y los bien equipados ejércitos realistas habrían hecho retroceder al ejército
argentino del norte replegado en Tucumán y habrían llegado hasta Buenos Aires que
vivía confiada en sus logros y hasta dispuesta a negociar con el enemigo. Por otra
parte, la desintegración de la unidad nacional en la anarquía del año 20 (causada no
sólo por los caudillos locales, sino también por el desorden económico y social que
trajo la guerra y la interrupción del comercio con el Perú) hizo que los líderes del
movimiento independentista en Buenos Aires, con la anuencia de algunas elites
provinciales, buscaran alguna forma de organización centralizada en Buenos Aires
aunque no fuera ni tan republicana ni tan democrática ni tan federal.
Por su apertura hacia las clases bajas, por su manera de ignorar instituciones
y convenciones sociales imponiéndose con su gran carisma y magnetismo personal,
y por sus eventuales aventuras amorosas con mujeres casadas o solteras de buena
familia o de baja condición social a pesar de estar unido en matrimonio con la hija
de una familia de alcurnia, Carmen Puch, Güemes fue el blanco de los ataques de la
dirigencia porteña y de un grupo de la oligarquía del norte que llegó a conspirar
para asesinarlo. Herido de un balazo en una emboscada española facilitada por un
traidor salteño (GÁLVEZ, 2007, p. 181-182), Güemes falleció a los 36 años rodeado
de sus oficiales a los que dio instrucciones de no cejar hasta expulsar a los realistas
definitivamente del territorio argentino, lo que efectivamente se cumplió un mes y
días más tarde.
La novela de Drucaroff se estructura en cuatro partes, en cada una de las
cuales el narrador omnisciente relata algunos aspectos de la vida de Güemes desde
el punto de vista de un personaje distinto cada vez: en la primera parte, el punto de
vista es el de Trinidad del Portal de Méndez Ibarlucía, la aristocrática amante jujeña
de Güemes, resentida por las desatenciones del caudillo que no compensan los
peligros que debe correr por él; en la segunda, la narración se focaliza en Manuel
Eduardo Arias, el soberbio y rencoroso comandante de Güemes que para emularlo
y sobrepasarlo llega a la traición; en la tercera, escuchamos la voz en primera
persona y entendemos el mundo y las pasiones del mulato Panana, quien, por su
brutal capacidad de violencia, es elevado al grado de sargento y convertido en la
mano derecha de Güemes para aterrorizar a la aristocracia del norte cuando el
caudillo debe recurrir a exacciones de dinero y bienes para mantener a sus tropas;
en la cuarta, el relato se centra en los conjurados para asesinar a Güemes y en
Loreto Sánchez de Peón de Frías, la distinguida dama de la aristocracia salteña que
con ayuda de la liberta Benita logró desbaratar la conspiración gracias a su experiencia
de espía y organizadora de “una red que comprometía a mujeres de todas las ciudades
que jalonaban el camino entre Salta y Lima” (DRUCAROFF, 2002, p. 115). Esta red

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de inteligencia y de mensajeras “bomberas” espiaba en los campamentos realistas,


sonsacaba secretos tácticos en las tertulias e informaba a Güemes de los planes
militares de los españoles y de las conjuras de la poderosa clase alta norteña.
Las cuatro partes centrales de la novela están precedidas y cerradas por un
prólogo y un epílogo en los cuales el narrador omnisciente da paso a la voz de
Loreto Sánchez de Peón de Frías, quien, ya anciana en 1880, rememora y narra a su
bisnieta los acontecimientos de la vida de Güemes, en ocasión del aniversario de la
muerte del caudillo y del homenaje en que los más distinguidos apellidos de Salta,
probablemente descendientes de quienes conspiraron para matarlo incluyendo según
ella a su médico personal, planean rendir culto a su memoria (DRUCAROFF, 2002,
p. 339). A continuación del epílogo, la novela agrega unas páginas paratextuales,
aparentemente secundarias, que permiten incluir el debate historiográfico argentino
invitando al lector a tomar también parte de él: el detallado mapa de la región donde
los personajes históricos vivieron, combatieron y murieron, una precisa cronología
y, finalmente, la página de agradecimientos a las personas tanto de Salta como de
Buenos Aires, incluyendo a los descendientes de Güemes o de otros protagonistas
o testigos de los hechos, que le facilitaron datos y libros, documentos, tradiciones
y relatos orales. Por medio de estos paratextos que son los documentos y narraciones
históricas más pertinentes al tema, el narrador legitima su autoridad e incita al
lector a recorrer el orden temporal y los lugares geográficos de los hechos históricos
narrados y a continuar leyendo otras fuentes de información.
Además de estas secciones finales, los epígrafes que encabezan cada una de
las cuatro partes de la novela, son también paratextos en los cuales el narrador
despliega los distintos enfoques que ha tomado la historiografía argentina, creando
al mismo tiempo un espacio para que el lector adopte su propio punto de vista sobre
los hechos narrados. Esta multiplicidad de visiones y el tema mismo que se focaliza
en lo marginado por la historiografía canónica caracterizan la visión irónica de la
novela sobre unos hechos conspirativos y sobre la aceptación o rechazo que en su
época y a lo largo de los años han despertado el accionar público y la conducta
privada de Güemes.
De este modo, la novela promueve una interacción entre múltiples perspectivas
paratextuales y textuales que ubica al lector en el centro de su composición
deconstructiva/constructiva de la historia. En este sentido, la multiplicidad de puntos
de vista y la inclusión del lector es comparable a la composición de Las Meninas de
Velásquez que representa un ir y venir de miradas desde diferentes ángulos y que
crea un espacio para el espectador entre el plano del pintor con la tela y el grupo de
Meninas, y el plano, no representado directamente sino en la tela y reflejado en un

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espejo, de los reyes que contemplan la escena y posan supuestamente al lado o a


espaldas del espectador (FOUCAULT y SNYDER).
Los epígrafes que encabezan el prólogo, el epílogo, y cada una de las cuatro
partes de la novela establecen un diálogo con la historia generalmente aceptada
como la versión oficial del pasado argentino puesto que son citas de la Historia del
General Martín Miguel de Güemes y de la Provincia de Salta o sea de la Independencia
Argentina de Bernardo Frías y de las Memorias póstumas de José María Paz. Estos
epígrafes constituyen el referente historiográfico incluido explícitamente en el texto
de la novela. Las primeras palabras que nos salen al paso en el título mismo de la
novela y en el epígrafe del prólogo, las atribuye Bernardo Frías a los ancianos que
conocieron a Güemes: “No me hables más de ese bandido […] ¡Dios lo haya
perdonado!” (FRÍAS apud DRUCAROFF, 2002, p. 9). Ellas expresan la condena que
la gente decente de Salta fulminó contra las prácticas violentas de los gauchos
‘infernales’ de Güemes que extorsionaban por el terror a la familias pudientes de
Salta para obtener contribuciones a la causa independentista. El marco de los
paratextos historiográficos explícitos se cierra con el epígrafe del epílogo tomado
de las Memorias póstumas del General Paz. En él, el puntilloso militar que
consideraba a Güemes como un déspota, traza sin embargo el límite que aquellos
que odiaban al caudillo de los gauchos guerrilleros no deberían haber traspasado
jamás: la causa de la Independencia. Actuar contra Güemes y, peor aún, entrar en
connivencia con los españoles para librarse de él, era “hacer una verdadera traición
a los principios por los que se había derramado tanta sangre” puesto que Güemes
“era el único que se oponía al retorno de la tiranía peninsular” (PAZ apud
DRUCAROFF, 2002, p. 339).
Tenemos así desde antes de iniciar la narración de los hechos de la vida de
Güemes, desde los paratextos que encuadran la novela, un diálogo entre tres
interlocutores que no aprecian al caudillo en todos sus aspectos: la buena sociedad
que lo repudia como la oveja negra de la aristocracia salteña, Bernardo Frías que
decide recuperarlo para reivindicar y dar lustre al patriotismo de su clase pero a
costa de negar su acercamiento a la plebe, y José María Paz que no aprueba su estilo
miliciano pero reconoce el incuestionable patriotismo del caudillo y la indignidad
de sus enemigos.
De los tres interlocutores, la voz de Bernardo Frías parece ganar terreno en
el cuerpo de la novela, puesto que se reitera en los epígrafes de cada una de las
cuatro partes que constituyen la obra; sin embargo, la cita tomada de las Memorias
póstumas del General Paz es una condena contundente de la traición a los ideales
de la Independencia por parte de los miembros de la clase alta norteña que

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conspiraron para eliminar a Güemes. Con ello, se arranca del olvido a una figura
postergada en la historia oficial pero al mismo tiempo se cuestiona la validez de la
imagen blanqueada del Güemes aristocrático, para dar paso a la de un patriota
heroico pero no estatuario. Como dice María Antonia Zandanel “el andamiaje
paratextual ofrece al autor la oportunidad de jugar con el lector, impostando códigos
de lectura más propios de la ficción que de los registros historiográficos propiamente
dichos, hasta resquebrajar los parámetros de la especificidad de cada uno de ellos,
al cuestionar severamente las bases epistemológicas del conocimiento del pasado”
(ZANDANEL, 2004, p. 77).
En la primera parte, el epígrafe de Bernardo Frías confirma su intención de
destacar el predominio de la nobleza de Güemes sobre su condición de bandido. A
pesar de que el tema de la cita es la relación de Güemes con una señora casada
perteneciente a la alta sociedad jujeña, con un toque de cinismo el historiador lo
presenta defendiendo su vida íntima como un caballero de ley, como un soldado
valiente y como un gobernador con honra, quien pese a las exigencias de la sociedad
salteña logró conservar a su amante pero también contraer matrimonio con una
joven de familia distinguida, para confirmar así su pertenencia al estamento de la
gente decente.
El epígrafe que encabeza la segunda parte de la novela confirma por contraste
la creencia de Bernardo Frías de que la gente decente nace, no se hace. El comandante
Manuel Eduardo Arias –Arias a secas en la cita de Bernardo Frías— es un mestizo
hijo ilegítimo de un señor de la mejor sociedad jujeña y una india colla. Bernardo
Frías atribuye a Arias carencia de virtudes morales superiores porque “por su
condición social y por el medio en que se desenvolvió su vida, no había tenido
ocasión para recibir ni el ejemplo del hogar de rango, ni los principios morales que
educan y forman el espíritu de los grandes ciudadanos” (FRÍAS EN DRUCAROFF,
2002, p. 81).
En el texto de la novela el narrador pone este mismo prejuicio en la voz
falseada de la aristocracia jujeña que actúa por conveniencia: “[…] toda la familia
comentó admirada qué buen mozo y caballero era el gran militar y supo que
predominaba en él la nobleza de espíritu de los Arias Rengel, no la sangre de su
madre” (DRUCAROFF, 2002, p. 107). La falta de una formación virtuosa, dice
Bernardo Frías, lleva a Arias a envanecerse de sus triunfos militares y de la gloria
con que hipócritamente lo cubre la sociedad jujeña que lo necesita para su defensa.
El talento de Arias sólo le sirve, según Bernardo Frías, para asemejarse a Luzbel
que en su soberbia “se consideró igual y aún más que el Eterno” pues “de manera
semejante cegó el orgullo los ojos de este famoso gaucho, siendo sus dotes tan

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fuertes, tan grandes y excelentes, que se consideró en un momento de demencia


superior a Güemes” (FRÍAS EN DRUCAROFF, 2002, p. 81).
En el epígrafe de la tercera parte, Bernardo Frías muestra en grado máximo
su prejuicio sobre la degradación resultante de la mezcla de sangres. Según Bernardo
Frías, el mulato Panana no sufre como Arias un proceso gradual de decadencia que
va de la gloria a la vanidad, de ésta a la soberbia y de ella al magnicidio. Panana es
simplemente un soberbio, dice Bernardo Frías, cualidad que es intrínseca a su
condición de mulato “lleno de odio de casta” (DRUCAROFF, 2002, p.171) y de
deseos de venganza contra la clase alta y contra los enemigos de Güemes. Aunque
el mulato idolatra a Güemes, aclara Bernardo Frías, sin embargo puede llegar a lo
más bajo de su depravación moral cuando uno de sus tantos vicios, la riña de
gallos, lo tienta a traicionar a su mismo protector.
El epígrafe de la parte cuarta, también tomado de la Historia […] de Bernardo
Frías, trata del intento de asesinato de Güemes por un grupo de conspiradores
jujeños y salteños. Bernardo Frías califica a la conspiración de “horrorosa y
abominable” (FRÍAS EN DRUCAROFF, 2002, p. 217) pero la atribuye a resentimientos
e ideologías extremas que incentivan la perversión de los conspiradores, quienes,
por lo tanto, han dejado de ser gente decente.
Las citas historiográficas muestran así un juego pendular entre el Güemes
bandido y déspota y el Güemes patriota incorruptible. Pero el juego se multiplica
en reflejos porque el Bernardo Frías que escribió seis volúmenes para reivindicar a
Güemes como un caballero de honra es quien, según la protesta de Loreto Sánchez
de Peón de Frías, que es la narradora en primera persona del prólogo y del epílogo,
está “asfixiándolo en el mármol” (DRUCAROFF, 2002, p. 340), está dando muerte
al bandido –como ella prefiere llamarlo con verdadera estima– para que nazca la
estatua de mármol. Al mismo tiempo, sigue la narradora, la clase alta que inició los
homenajes a Güemes está robándoles a los pobres su Tata, robándoles la memoria
además de todo lo que les han robado (DRUCAROFF, 2002, p. 340). Al limpiar el
nombre de Güemes exaltándolo como un caballero y como paradigma heroico de la
aristocracia salteña, Bernardo Frías borra no sólo su imagen de bandido sino también
la del “mulataje indisciplinado” que lo seguía. Por el contrario, el General Paz, que
no aprecia el estilo militar de Güemes ni su acercamiento al vulgo, lo exalta en
cambio como el único que mantenía el objetivo de la Independencia y se oponía a
las invasiones realistas.
El paratexto tomado de la Memorias póstumas del General Paz concreta en el
epílogo la acusación, anunciada desde el título, de traición a la patria por los
enemigos de Güemes. Bernardo Frías, que exalta a Güemes como patriota, prefiere,

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sin embargo, blanquear la imagen del caudillo ignorando su entrañable deseo de


incluir a todas las etnias y a todas las clases sociales en la nueva nación independiente
que se está gestando. A su vez Paz, que lo desprecia por sus inclinaciones populistas,
lo reivindica como patriota y acusa a los traidores que buscaban su muerte.
La historiografía argentina que se ocupa de la lucha por la Independencia
sudamericana entre los años 1810 y 1819 se caracteriza por reflejar los desacuerdos
que desde el inicio del movimiento independentista surgieron entre los entes
geopolíticos que integraban las Provincias Unidas del Río de la Plata. La división
más notoria e influyente a través del tiempo fue sin duda la que enfrentó y enfrenta
todavía a Buenos Aires con el interior. Durante las primeras décadas del siglo XIX,
las alianzas y desacuerdos entre caudillos disgregaron el país en varias regiones
que se constituyeron a veces en republiquetas independientes, como es el caso del
Tucumán liderado por Aráoz, culminando en la anarquía del año 20 cuando cesó de
existir la unidad brindada por el gobierno porteño que se imponía como nacional.
En la historiografía de la Independencia argentina se puede distinguir entre
las historias clásicas, Bartolomé Mitre, Vicente Fidel López, – que explican el origen
de la nación en el cumplimiento del programa porteño de monopolizar el resto del
país desde el puerto de Buenos Aires – y el revisionismo histórico que en gran
parte cambió el centro de autoridad de Buenos Aires al interior y del grupo de poder
porteño a los caudillos de las provincias. Por otra parte, se distingue también una
historiografía militante que surgió después de la caída del peronismo y que confronta
tanto a la historiografía clásica o académica como a la historiografía revisionista,
aunque guardando muchos puntos de contacto con una y con otra en una gran
diversidad de posturas desde el liberalismo, al nacionalismo de derecha y de izquierda
(DEVOTO y PAGANO).
Conspiración contra Güemes: una novela de bandidos, patriotas, traidores
tiene como referente historiográfico principal la Historia del General Martín Miguel
de Güemes y de la Provincia de Salta o sea de la Independencia Argentina de Bernardo
Frías quien, en contraposición a los escritos sobre este tema por Bartolomé Mitre,
Vicente Fidel López y el General José María Paz, traslada el centro de atención de
Buenos Aires al norte argentino y consagra a Güemes como el factor fundamental
para la emancipación argentina. Esta visión desde las provincias coincide con la
historiografía revisionista nacionalista que exaltó la figura de Rosas en Argentina y
la de Artigas en Uruguay. Por otra parte,, el rol destacado que juega en la trama de
la novela la red de bomberas, que colaboró con Güemes en conjunción con las
damas espías de la aristocracia salteña, rompe la referencialidad con la orientación
elitista de la historia de Bernardo Frías para conectarla con la historiografía militante

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de los años 60 en adelante.


Haciendo aún más claro su deslinde con la historiografía oficial, el prólogo
y el epílogo de la novela protestan contra los homenajes que la sociedad salteña
decente organizó para ‘limpiar’ la figura de Güemes y convertirlo en un héroe
“matándolo otra vez, ahora asfixiándolo en el mármol” (DRUCAROFF, 2002, p.
340). Hasta 1880 prevalecieron las críticas a Güemes que encuentran su vocero en
el jujeño Joaquín Carrillo, autor de Jujuy, Apuntes de su Historia Civil (CARRILLO,
1877). Coincidiendo con León Pomer, Gregorio Caro Figueroa, periodista e
historiador salteño, afirma que “a partir de la segunda mitad del siglo XIX, intuyendo
esa necesidad de insertar el pasado de Salta como parte del pasado nacional, el
grupo principal salteño comenzó a clausurar las querellas contra la figura de Güemes”
desligándolo de los caciques anárquicos, demagógicos y disolventes para presentarlo
“como un arquetipo de gaucho decente, hombre de orden, de buenos modales y de
buena familia” (CARO FIGUEROA, 2010, p. 4).
Efectivamente, en junio de 1885, en el centenario de su muerte, casi toda la
sociedad salteña adhirió al homenaje a Güemes “organizado por el historiador y
abogado porteño Ángel Justiniano Carranza con el apoyo del gobierno provincial a
cargo de Juan Solá” (GÁLVEZ, 2007, p. 16). El historiador León Pomer (POMER,
2005, p. 158) señala que fue Bernardo Frías quien consagró ese viraje al distinguirlo
de los otros “jefes de montoneras del sur […], porque a diferencia de estos genios
diabólicos” Güemes es el “jefe de gauchos honrados y valerosos” y también “el jefe
de la clase culta, ilustrada y pudiente; el gobernador de una sociedad distinguida y
civilizada” (POMER, 2005, p. 159 citando a FRÍAS I, XXIV).
Al cerrar la novela protestando contra la neutralización de Güemes por medio
del homenaje al que asistieron hasta “los hijos, nietos y bisnietos de los que planearon
asesinarlo” (DRUCAROFF, 2002, p. 340), la referencialidad de Conspiración contra
Güemes: una novela de bandidos, patriotas, traidores a la historia de Bernardo
Frías toma un tono de parodia que rompe con el impecable patriotismo de las elites
argentinas y con las distinciones de sangre y de clase que todavía preocupan al
historiador salteño. Específicamente la novela contradice a Bernardo Frías cuando
pone en boca de Güemes comentarios sobre la falta de patriotismo de la clase
adinerada en contraste con el heroísmo de los pobres:

Hay mucha plata en Salta […] patriotas o realistas, nuestros comerciantes siguen vendiendo.
Lloran miseria pero no es para tanto. El camino a Lima se terminó y sin embargo siguen
haciendo negocios. Hace tiempo que le venden al enemigo [...] Buenos Aires no sostiene
ya casi nuestra guerra y si queremos echar a los españoles tendré que obligar a los vecinos

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a que contribuyan mucho más que antes. Hasta ahora pude mantener un equilibrio delicado:
pedirles ayuda concreta pero moderada (una ayuda que no les impedía llenarse los bolsillos),
proclamarlos como los heroicos sostenedores de la guerra, dejarlos contentos y apoyarme
en los pobres para combatir, en su auténtica voluntad de triunfar sobre los godos. Buenos
Aires no sabe hacer eso; no saben ganarse a los pobres, por eso le barren siempre el
ejército en el Perú. ¡Qué gente heroica es la gente humilde […]! ¡Qué desprendida! Uno
les da algo elemental, les reconoce lo mínimo, y ellos en cambio entregan la vida.
(DRUCAROFF, 2002, p. 159).

Desde el punto de vista de la clase alta, la guerra se había convertido en una


maldición, “en una necesidad de la región económicamente paralizada, una especie
de atroz modo de vida donde la matanza y el saqueo eran el trabajo de los pobres y
el contrabando con el enemigo, el de los ricos” (DRUCAROFF, 2002, p. 117). Hasta
las mujeres patriotas flaquean ante la situación y se plantean una posible traición a
los ideales de Independencia: “Niña, ¿no sería mejor dejar a los maturrangos invadir
y vencer para que nos sacaran de encima a ese Güemes tuyo, con su hato de mulatos
sucios y gauchos asesinos?” (DRUCAROFF, 2002, p. 148).
El narrador enfatiza la postura crítica de Güemes hacia el elitismo tradicional
de la clase alta argentina horrorizada de sus gauchos ‘infernales’: “¡El diabólico
sistema de Güemes! ¡Por favor! ¿Pero qué quieren, que los gauchos mueran por
ellos a cambio de nada?” (DRUCAROFF, 2002, p.160). “El mulataje no es tonto
[…]. Para tener de verdad mucha gente dispuesta a morir por uno, hay que ofrecer
algo más que un rato de saqueo y diversión” (DRUCAROFF, 2002, p.158).

[...] no es sólo que yo defiendo al honorable pueblo de Salta de los godos…, también lo
defiendo de los gauchos. Esa misma gente feroz que está dispuesta a morir para echar al
español está dispuesta a matar a todos los ricos que se pongan en mi contra. No, están
atrapados: van a tener que terminar aceptando que la chusma existe y que hay que compartir
con ella por lo menos algo, un poco de poder. (DRUCAROFF, 2002, p. 161)

La focalización de la novela en la red de damas salteñas que defendían a


Güemes desde las tertulias, mano a mano con las “bomberas” pertenecientes a los
estamentos plebeyos de la sociedad, la aparta también de la postura de Bernardo
Frías que no olvida clasificar a las personas por el color de su piel. La novela,
aunque da testimonio de la jerarquía estamentaria existente en la mentalidad de los
personajes, rompe con ella a través de la cercanía de Güemes con sus gauchos, a
través de la amistad entre la aristocrática Loreto y la negra Benita, su ex esclava, a
través de la revelación de las múltiples relaciones ilícitas entre la clase alta y las
etnias consideradas inferiores, y por último a través del amancebamiento con el

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caudillo de una dama aristocrática quien se identifica entonces afectivamente con


las carencias de las clases desplazadas de la sociedad. Coincide en esto con el
revisionismo nacionalista por su insistencia en la necesidad de dar “un lugar” a las
masas populares, aun a costa de contaminar de vulgarismo las costumbres de la
clase alta. Güemes describe a los marginados que integran el ‘mulataje’ con verdadera
visión integradora:

[S]on hombres despreciados, son hijos de esclavos arrancados de una tierra donde eran
libres, son indios vencidos y miserables, son bastardos sin padre que testifique su sangre,
son nadie. Nosotros los usamos para que trabajen y para que nos sirvan, para que mueran
por nuestras causas, la suya, la del rey, o la mía, los de los criollos de esta tierra. Las causas
de los hogares de señoras como usted, de los dos bandos. Ellos no tienen apellido, ni
origen, no tienen honra, dependen de nosotros, no existen. Existen solamente si les
damos un lugar. (DRUCAROFF, 2002, p. 25).

Además del juego de perspectivas provocado por la focalización desde cuatro


puntos de vista diferentes en cada una de las partes de la novela, y del diálogo de
los epígrafes paratextuales entre sí y con el texto, un metatexto historiográfico
facilita el dialogismo irónico entre interpretaciones históricas que dicen “una cosa
y otra al mismo tiempo” como adivinó Panana en los discursos políticos de Güemes
dirigidos a la clase alta o a la plebe. Se presenta así otro juego dialógico entre el
texto novelesco y sus referentes historiográficos implícitos que se perciben en la
resonancia del metatexto “estaba en la naturaleza de las cosas” que con variantes se
repite en diálogos significativos, aludiendo a la filosofía naturalista de la historia
que fundamenta las obras canónicas de la Independencia argentina, y en especial las
historias de Belgrano y de San Martín por Bartolomé Mitre. La causalidad naturalista
con que los historiadores argentinos canónicos consagraron la supremacía del grupo
dirigente porteño y especialmente de la Logia Lautaro disminuye el papel central de
San Martín en la organización política del país. Al mismo tiempo margina a Güemes
y desdibuja el rol esencial que desempeñó defendiendo la frontera norte de la patria
para facilitar el accionar del ejército sanmartiniano en el Perú.
Aunque Mitre afirmó la importancia de San Martín y con él de Güemes para
la Independencia argentina y sudamericana, lo hizo con retaceos. Mitre le niega a
Güemes conocimientos superiores de disciplina y organización militar a pesar de
que reconoce su patriotismo sin tacha y que sus tácticas milicianas fueron la mejor
contribución estratégica a la campaña libertadora del Perú y por lo tanto a la
Independencia argentina. La palabra de este historiador oficial se hace presente en
la novela a través del metatexto “estaba en la naturaleza de las cosas,” que

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curiosamente junto con frases como “era el orden normal” “estaba en la naturaleza
del hombre” “residía en las cosas mismas” y otras semejantes parece una muletilla
no sólo en las obras históricas de Mitre sino también en general en la historiografía
argentina del siglo XIX imbuida de la causalidad determinista del naturalismo al
estilo de Taine. Mitre específicamente alude con estas frases a la fatalidad de la
centralización en Buenos Aires de la nueva nación que surgía de las luchas por la
Independencia.
Con esto, Mitre está afirmando que el “orden normal” al que se oponían los
caudillos del interior era una república unificada bajo el liderazgo de Buenos Aires.
En la novela, la frase “estaba en la naturaleza de las cosas” es varias veces repetida
con retintín paródico por varios personajes importantes, a veces a dúo, reconociendo
la presión del poder porteño sobre la voluntad y valores tradicionales de las
provincias, pero, al mismo tiempo, expresando una irónica y burlona negación de la
fatalidad natural de ese orden como la única y necesaria respuesta para la organización
nacional a costa del sacrificio de las provincias y de sus líderes: “Su muerte estaba…
- En la naturaleza de las cosas. ¿Me lo va a contar?” (DRUCAROF, 2002, p. 340).
Al parodiar la frase, la novela está citando indirectamente esa historia canónica
que ignoró el peso de las provincias en la organización nacional y la está superando
con la mezcla de apropiación y burla que implica la parodia. Tanto para Mitre como
para Paz y para Bernardo Frías, los únicos líderes revolucionarios que mantuvieron
claro el objetivo de la Independencia para todo el territorio nacional fueron San
Martín y Güemes pero estos historiadores comprendieron también que, por ello, su
exaltación hubiera sido una amenaza a la apropiación de la revolución y su dirección
por parte de Buenos Aires cuya supremacía según ellos “estaba en la naturaleza de
las cosas” o sea, respondía a una causalidad fatal. La novela de Drucaroff, al parodiar
el naturalismo de la frase, da a entender la causa humana, “bien humana”
(DRUCAROFF, 2002, p. 281), que motiva a los historiadores a no discutir los
intereses comerciales de Buenos Aires que luchó por mantenerse como sede del
gobierno nacional y como único puerto importante del país para recibir los opulentos
beneficios del monopolio de las exportaciones e importaciones.
Curiosamente, Alejandro Horowicz, historiador y periodista combativo
contemporáneo, a quien Drucaroff dedica el libro y además menciona entre sus
asesores, reitera también la misma frase como metatexto en su obra El país que
estalló pero con un significado inverso, como haciendo un guiño de inteligencia al
lector para que revierta la forzada interpretación naturalista de la fatal centralidad
de Buenos Aires con la que Mitre, entre otros historiadores, contradice, por su
compromiso con el bloque dirigente porteño, su reconocimiento de la importancia

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de San Martín y de Güemes (HOROWICZ II, 2005, p. 90): “De modo que para
vencer era preciso que la guerra de Independencia deviniera batalla popular
continental; mientras no lo fuera, mientras las luchas se libraran por separado,
mientras sólo expresaran los acotados intereses del bloque portuario, la derrota
estaba en la naturaleza de las cosas” (HOROWICZ, 2005, p. 50).
La repetición del metatexto “estaba en la naturaleza de las cosas” con que los
personajes de Conspiración contra Güemes: una novela de bandidos, patriotas,
traidores parodian la causalidad aceptada por los historiadores canónicos de la
Independencia argentina responde por un lado a la aceptación de la premisa de que
hubo en ese momento de la historia argentina un potentísimo e invencible impulso
hacia la Independencia, mientras que, por otro lado, muestra que el tradicional
caudillo, herencia de la cultura colonial, no siempre generó luchas intestinas en
defensa de intereses locales y personales, sino que, como en el caso de Martín
Miguel de Güemes, sostuvo la causa de la Independencia nacional con su esfuerzo,
sus bienes y aun con su propia vida. Conspiración contra Güemes: una novela de
bandidos, patriotas, traidores se constituye así en una invitación a la complicidad
del lector en una conspiración que no es contra Güemes sino a favor de un mejor
conocimiento de su figura y de su significación para una historia nacional que
incluya a todos, a los ricos y a los pobres, a los negros, los blancos, los mestizos
y los mulatos, al interior y a Buenos Aires. El mensaje final de la novela es centrípeto,
la historia nacional como un gran vórtice que nos devora a todos y nos lleva a través
de su centro al interior del país donde arde un fuego que no se apaga, a otra
dimensión más transparente y equitativa donde existe un lugar para cada uno en
equidad y justicia.

Data de recebimento: 24/05/2010


Data de aceite para a publicação: 08/09/2010.

REFERENCIAS

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1991.
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v. 28, p. 13-31, 1991.
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Ediciones El otro, el mismo, 2003.

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y Letras-Universidad Nacional de Cuyo, 2004.

NOTAS

* Profesora y Licenciada en Letras por la Universidad Nacional de Cuyo, Mendoza, Argentina.


Ph. D. en Literatura Hispanoamericana y lengua española. Profesora asociada en
Westminster College, Investigadora del Center for Latin American Studies, University of
Pittsburgh.

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SOBRE A AUTORA:

Camila Bari es Ph.D. en Literatura Hispanoamericana y lengua española.


Profesora asociada en Westminster College, investigadora del Center for Latin
American Studies, University of Pittsburgh. Ha publicado estudios de género,
urbanismo y composición social y étnica en Latinoamérica: “Género, Independencia
y litoral marítimo en Juan de la Rosa: novela histórica fundacional de la nación
boliviana” (en prensa), ‘’Legitimación de la identidad mestiza en Juan de la Rosa:
memorias del último soldado de la independencia por Nataniel Aguirre’’, ‘’Imágenes
y roles femeninos en La casa de los espíritus de Isabel Allende’’, ‘’Pueblo de indios/
Ciudad española: Lectura urbanística de Oficio de tinieblas de Rosario Castellanos’’.
‘’Enfoque semiótico y sociocrítico de las imágenes de la mujer en la novela
hispanoamericana de los dos últimos fines de siglo’’.

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Revista de Literatura, UNA LECTURA BURLESCA DE LA
História e Memória INDEPENDENCIA DE BRASIL:
2010: Reflexões sobre o
bicentenário de independências
na América
O CHALAÇA, DE JOSÉ ROBERTO
ISSN 1809-5313 TORERO (1994).
VOL. 6 - Nº 8 - 2010
U NIOESTE / CASCAVEL

P. 77-84

FLECK, Gilmei Francisco (UNIOESTE/Cascavel)*


chicofleck@yahoo.com.br

RESUMO: Os fatos históricos envolvendo as diferentes circunstâncias que deram origem aos
processos de independências na América latina são um material rico e substancial para a escrita
híbrida de história e ficção na qual se configuram as diferentes modalidades de romances históriocs
contemporâneos. Ao longo desse texto buscamos analisar como se dá a reescritura, pela ficção,
desse processo de independência no contexto brasileiro na obra Galantes memórias e admiráveis
aventuras do virtuoso Conselheiro Gomes, o Chalaça (1994), de José Roberto Torero. Nessa
obra, embora o foco narrativo seja o Chalaça, D. Pedro I – o Imperador do Brasil – é personagem
de destaque e sua configuração recebe tratamentos paródicos e carnavalizados, os quais humanizam
o herói sacralizado pelo discurso historiográfico. Destacamos também a forte intertextualidade
da escrita de Torero com a tradição hispânica da novela picaresca.

PALAVRAS-CHAVE: Reescrituras da história; novo romance histórico latino-americano; narrativa


brasileira contemporânea; José Roberto Torero; Chalaça (1994)

RESUMEN: Los hechos históricos envolviendo las diferentes circunstancias que dieron origen a
los procesos de independencia en la América latina son materiales ricos y sustanciales para la
escritura híbrida de historia y ficción en que se configuran las diferentes modalidades de novelas
históricas contemporáneas. A lo lardo de este texto buscamos analizar cómo ocurre la reescritura,
por la ficción, de ese proceso de independencia en el contexto brasileño en la obra Galantes
memórias e admiráveis aventuras do virtuoso Conselheiro Gomes, o Chalaça (1994), de José
Roberto Torero. En esta novela, aunque el foco narrativo sea el Chalaça, D. Pedor I – el Emperador
de Brasil – es personaje de destaque y su configuración recibe tratamientos paródicos y
carnavalizados, los cuales humanizan al héroe sacralizado por el discurso historiográfico. Desta-
camos también la fuerte presencia de la intertextualidad de la escritura de Torero con la tradición
hispánica de la novela picaresca.

PALABRAS CLAVE: Reescrituras de la historia; nueva novela histórica latino-americana; narrativa


brasileña contemporánea; José Roberto Torero; Chalaça (1994)

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Según con la historiografía oficial, la independencia de Brasil se proclamó el


siete de setiembre de 1822. El autor de la proclamación, Don Pedro, era hijo del rey
de Portugal y se transformó en el fundador del sistema monárquico que estuvo
vigente en el país hasta 1889. La vida del primer Emperador de Brasil y sus galantes
y admirables aventuras han sido, a lo largo del tiempo, materia fértil para la literatura.
En las últimas décadas del siglo XX, con la proliferación de novelas históricas en el
país, él reaparece como uno de los protagonistas de Galantes memórias e admiráveis
aventuras do virtuoso Conselheiro Gomes, o Chalaça (1994), de José Roberto Torero.
En tono burlesco, parodiando la picaresca, el libro de memorias y el relato de
formación, la novela de Torero cuenta episodios de la vida del secretario particular
del emperador. Sin embargo, el protagonismo recae sobre la figura de D. Pedro I,
apeado de su trono y de sus pedestales, en esa relectura carnavalizada de la historia
que la novela proporciona. Al desbrozar la estructura narrativa de la novela, el
presente se vuelve a señalar el proceso de desmitificación de héroe principal de la
independencia de Brasil.
Desde su surgimiento, durante el Romanticismo, hasta las producciones
literarias de la contemporaneidad, la novela histórica es una de las formas más
críticas que la literatura ha encontrado para mimetizar la realidad histórica y
establecer una relación dialógica con la sociedad y con los discursos que emergen
de la historiografía hegemónica oficial. Para ello, se utiliza de toda una gama de
recursos discursivos potencialmente dotados de efectos de deconstrucción, una vez
que su lectura del pasado

[…] se vuelve crítica del presente e intenta, en el orden consciente de su generación, a


través de la impugnación, la parodia, la ironía, la deconstrucción, el anacronismo, la
simultaneidad de un pasado alterno, una visión totalizadora del mundo. Instaura en su
nuevo saber narrativo lenguajes especializados, exclusivos, intertextualizados, con los
que se disputa el saber científico de la historia la tarea final con el pasado histórico: su
comprensión. (LARIOS, 1997, p. 133).

La novela del brasileño José Roberto Torero Galantes memórias e admiráveis


aventuras do virtuoso Conselheiro Gomes, o Chalaça (1994) se ubica en este contexto
de producciones recientes. Además de beber en las aguas de la tradición literaria –
una vez que es una obra intensamente intertextual que parodia, entre otros géneros,
la picaresca española clásica al punto de hacer de las premisas de esa modalidad
literaria parte inherente de su estructura narrativa – revisa críticamente el pasado.
De este modo, la novela de Torero establece una relación íntima con el Lazarillo
de Tormes, articulando nuevos sentidos y lecturas por medio de ese acto paródico.

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A lo largo de la diégesis de la novela uno se enfrenta con la utilización de varios


recursos bahtinianos – especialmente la parodia, la carnavalización, el dialogismo
y la intertextualidad – esenciales a la construcción de una narrativa dentro de este
contexto deconstrucionista – como estrategias de lectura del pasado por la ficción
que vuelven a los primeros tiempos del Brasil independiente.
Tales recursos narrativos son empleados de forma especial en la configuración
discursiva del personaje del Emperador Don Pedro I. Así, la novela alcanza el
objetivo de revelar otras imágenes que no aquellas edificantes del primer monarca
brasileño ya cristalizadas por el discurso histórico exaltador de virtudes
conocidamente ausentes en el personaje histórico, garantizándole, en la existencia
ficcional, aquello que Fernando Aínsa (1991, p. 85) considera uno de los hechos
más sublimes de la nueva novela histórica: “La deconstrucción paródica rehumaniza
personajes históricos transformados en hombres de mármol”. Tal proceso se efectiva
a lo largo de la escritura de Torero de forma ejemplar.
En el texto paródico, polifónico e intertextualizado de Torero, el lector puede
darse cuenta de que, en la contemporaneidad, “la historiografía, al ceder a la mirada
demoledora de la parodia ficcional, a la distancia crítica del descreimiento novelesco
que transparente el humor, cuando no el grotesco, permite recuperar la olvidada
condición humana” (AÍNSA, 1991,p. 85) que hace con que los “hombres de mármol”
– al verse sometidos a los caprichos de la construcción discursiva – puedan adquirir
los más diferentes matices. En este sentido, la novela corrobora el hecho de que hoy
tanto la historia cuanto la ficción, de acuerdo con Linda Hutcheon (1991, p. 141),
obtienen su autoridad a partir de la verosimilitud, más que a partir de cualquier
verdad objetiva.
En esta novela, se narra la historia de Francisco Gomes da Silva, un portugués
de bajo escalón que vino a Brasil en 1808, cuando para acá se trasladó la corte
portuguesa, y que vendría a ocupar el puesto de secretario personal de D. Pedro I,
además de hacerse su amigo íntimo y conductor por el mundo de los placeres que
solamente una vida plebeya le posibilitaría, actuando como una especie de alcahuete.
La motivación inicial es la siguiente: José Roberto Torero se presenta como
estudioso que consiguió encontrar el hasta entonces perdido diario de Francisco
Gomes da Silva, o Chalaça, en un baúl en la casa de la tataranieta de este (a pesar de
haber tenido que pagar por el documento). El narrador presenta de manera
rocambolesca las peripecias vividas para poner la mano sobre el manuscrito, apócrifo
evidentemente, pasado en seguida a la narración de su contenido, ya en primera
persona, en la voz del mismo Chalaça. A ese relato el narrador injerta textos variados
como documentos y cartas, en su mayoría también apócrifos.

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Así, el narrador Torero – intencionalmente asociado por el nombre al propio


autor, a pesar de que eso solo se queda explícito en el prefacio y en notas de pie de
página a lo largo de la novela –, es quien selecciona y organiza la composición y
estructuración de la narrativa. Esa se compone, básicamente, de fragmentos de las
tales cartas encontradas, trozos de diario además de las propias historias del narrador
Torero que comenta la organización de las reliquias históricas por él encontradas.
Dicho ordenamiento hace la novela rica en anacronismos, polifonía, dialogía e
intertextualidades que garantizan a la producción de Torero todas las premisas
apuntadas por Aínsa (1991) y Menton (1993), para definir la nueva novela histórica.
En el prefacio, sin embargo, Torero (1994, p. 10) elucida que, por cuestiones
éticas y exigencias del editor, debe admitir que pairan dudas sobre la autenticidad
de los papeles. Comentarios en la misma dirección también aparecen a lo largo del
texto en notas de pie de página y constantes intromisiones del narrador en el proceso
de reproducción de los relatos que son explicitados en la tesitura de la novela.
Tal recurso metaficcional de comentar el propio texto concibe el tono de
verosimilitud a la narrativa, ya que la “honestidad” del narrador Torero estimula la
desconfianza para con el texto, además de establecer un diálogo de la literatura con
la historia oficial y, por su vez, de esta en relación a otras perspectivas de lectura de
los hechos históricos. Estas cuestiones se asocian, además, con e “juego de máscaras”
ya presente en la picaresca; la valoración de la apariencia de “hombre de bien” y de
autenticidad de los textos, factores que se realzan también en los paratextos de la
contratapa de la obra. Se tratan de características del género picaresco, de acuerdo
con Mario González al tratar de la picaresca española:

[...] a trapaça do pícaro atinge o leitor: o narrador se esforça para identificar-se com o autor
implícito e assim aparecer como o autor real. Esse processo se constrói por meio de uma
motivação realista do texto que conduz o leitor a sentir-se perante um documento e não
perante um texto ficcional. (1994, p. 268).

Estas son ideas funcionales en la novela de Torero, pues es el proceso de la


motivación realista que conduce la relectura crítica de la historia brasileña por el
punto de vista de Francisco Gomes da Silva. La cumbre de la imagen picaresca del
secretario del Emperador que intenta defender sus acciones por medio del discurso
se revela en el comienzo de la composición de una autobiografía, iniciada en el
capítulo 16 de la novela, y a partir de ahí intercalada con el diario. Se observa que la
inserción de la autobiografía tiene como objetivo claro, en un discurso que busca
convencer a los lectores, transmitir la idea de que él, Francisco Gomes, es un
hombre de bien.
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La forma autobiográfica del texto y las llamadas al narratario relacionan O


Chalaça, de forma explícita, con la picaresca española, en especial con el Lazarillo
de Tormes. Esta, así como la parodia hecha por Torero, se caracteriza por constituirse
en la línea narrativa en cuanto relato autobiográfico cuya motivación se apoya en el
carácter insignificante del protagonista, que no merece otro narrador sino él mismo
(CASTRO apud GONZÁLEZ, 1994, p. 219). De ese modo, la narrativa se construye
por el entrelazamiento de dos géneros tradiciones, en primera persona, la picaresca
y el relato autobiográfico.
El primer capítulo de la autobiografía de Chalaça, destinado a narrar su
“nacimiento metafísico” – el momento de su primer encuentro con su amo D. Pedro
I en un bar; el segundo capítulo de esas memorias (que aparece solamente en el
capítulo 18 de la novela) relata como se fortaleció su amistad con D. Pedro, siendo
tal proceso entendido como la continuidad de su “nacimiento metafísico”, o sea, la
infancia – o entonces la trayectoria de alcanzar una alta condición social. Aquí,
Francisco Gomes expone que su amistad funcionaba para el entonces Príncipe
heredero como un alivio frente a las exigencias de su rutina real (clases de buenas
maneras, de lenguas, de instrumentos musicales, etc.). Ello porque el pícaro era
incumbido de la “intermediação de relações não espirituais com as filhas do belo
sexo, serviço que as pessoas de menor instrução, na falta de conhecimentos mais
sutis sobre essa arte, denominam alcoviteiro” (TORERO, 1994, p. 66); actividad
para la cual Chalaça se hizo el favorito del Príncipe, siendo ésta desempeñada por
él con muchísima buena voluntad.
De ese modo, condiciendo recados, Chalaça apuntaba los encuentros
extraconyugales de D. Pedro, tarea exenta de muchos esfuerzos, una vez que las
mujeres se sentían muy honradas en acostarse con el Príncipe (TORERO, 1994, p.
66). Dicha focalización, permitida al Chalaça por su posición interna en los hechos
(además de una vivencia personal), aliada a su condición como narrador dispuesto
a defender sus actividades y función junto al Emperador, permiten la proficua relectura
del personaje histórico de D. Pedro. Muchos pasajes de la novela presentan a un D.
Pedro cuya vida desreglada se configura fundamentalmente por la carnavalización,
hecho que lleva a romper con la tradicional imagen que se ha construido de este
personaje histórico.
Un hecho histórico presentado de modo carnavalizado en la novela es el
episodio de la proclamación de la Independencia de Brasil, el siete de septiembre de
1822. En ese relato, que se encuentra en el capítulo 30 de la autobiografía apócrifa
y se titula “Que trata do regresso da viagem a Santos e de grandes obras que naquele
percurso se fizeram” (TORERO, 1994, p. 106), el autor bien aplica los elementos

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que conducen a la exaltación grotesca del cuerpo. Desde el punto de vista de Chalaça,
en aquella ocasión, al emprender el trayecto de la ciudad de Santos en dirección a
São Paulo, la comitiva del Príncipe estaba sufriendo indisposiciones intestinales
provocadas por una costilla de cerdo fuertemente sazonada que habían comido en
Santos, “cujo resultado é a evacuação constante de uma matéria fecal mais líquida
do que sólida” (TORERO, 1994, p. 107).
De acuerdo con Bakhtin (1987, p. 16-17), la descripción de la satisfacción de
las necesidades naturales (como la defecación), así como la vida sexual, bebida e
imágenes del cuerpo en los puntos en que el cuerpo entra en contacto con el mundo,
se relacionan con el principio de la vida material y corporal, que, bajo la forma
carnavalizada de una situación o personaje, realizan la transferencia al plan material
y corporal, o de la tierra y del cuerpo en su indisoluble unidad, de todo lo que es
elevado, espiritual, ideal y abstracto. Un hecho que sufre la configuración discursiva
ficcional del Emperador brasileño en la escritura de Torero.
A lo largo del viaje, como expone el Chalaça, D. Pedro, acometido de fuerte
diarrea se ve obligado a interrumpir la marcha. En el instante de la parada para las
debidas necesidades fisiológicas, llega el correo con la correspondencia de la corte
con la noticia de que el Príncipe había sido destituido debiendo regresar a Portugal.
Chalaça afirma que ya desconfiaba que tal afronta sería contestada de algún modo
por Don Pedro: sin embargo, se sorprendió por la reacción ocurrir en el acto. De
acuerdo con su relato, que sigue los manuales de historia de Brasil, el Príncipe
ordena a los miembros de su guardia que echen fuera los símbolos portugueses
(TORERO, 1994, p. 109), saca la espada y montado en su asno, demuestra “que
estava tomado e que o seu pensamento não andava no mesmo passo que as suas
emoções” (TORERO, 1994:110) y grita la famosa frase de la independencia de Brasil:
¡Independencia o muerte!
Al final del capítulo, el narrador Gomes, destila ironia, comentando lo
narrado:“é essa história que se conta até hoje no Brasil, e eu dou fé que é verdadeira.
[...] como julguei sempre a minha primeira obrigação obedecer cegamente às ordens
do meu amo, considerei-me a partir daquele dia o mais devotado defensor daquela
causa” (TORERO, 1994, p. 110). La ironía adviene del cuestionamiento: ¿Quién es
Francisco Gomes para que su discurso sea visto como verdadero? Él asume para si
la autoridad de narrador y afirma la credibilidad de su discurso, él que poco se
menciona en la historiografía oficial.
Hay otros eventos históricos importantes recreados en la novela, como el
relato de la redacción de la primera Constitución brasileña. En el capítulo 36, se
narra que, frente al descontentamiento de la población con el acto autoritario del

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Emperador, en disolver la Asamblea, Chalaça recibe la incumbencia de trabajar en


la nueva Constitución, realizando una adaptación grosera de varias cartas extranjeras.
Terminado el texto, Chalaça lleva la Carta al Emperador, que se encuentra en
la casa de Domitila de Castro, su amante, futura Marquesa de Santos, que en la
ocasión ya vivía en la corte (TORERO, 1994, p. 127). Una vez más, Chalaça echa
mano de la metaficción e invita al lector a comentar su propia opinión sobre Domitila:

Se tu és amigo da gramática, hás de ter reparado que escrevi „a? em vez de „uma?. É que
pela Titília ele esquecera as negras, as filhas dos oficiais, as esposas dos comerciantes e as
ciganas. A Mulher enfeitiçara o Imperador e o dominava com uma muito eficiente aplicação
da teoria do fluxo e do refluxo sanguíneo, conseguindo que ele atendesse seus caprichos.
Um deles era a chácara de Mata-Porcos, um belo solar onde Sua Alteza passava boa parte
do seu tempo. (TORERO, 1994, p. 127).

En ese fragmento, como en varios otros, el lector percibe la proyección que


se hace de la figura de D. Pedro en el relato de Chalaça, posibilitando verse, en los
dichos y acciones de éste la ideología de aquél. Se constituye, por tanto, la relación
dialógica entre el narrador Chalaça y el Emperador, que, en el conjunto de la obra,
se junta a la voz del narrador Torero en la configuración de la polifonía. Son las
múltiplas voces que figuran y establecen el discurso como algo heterogéneo, según
Bakhtin (1992), en la medida en que se efectúa el “diálogo” de las voces enunciadoras
del discurso con las varias otras instancias presentes en una narrativa, una práctica
que constituye, en la visión del teórico, la novela dialógica.
La circularidad sugerida por los anacronismos se asocia, en la tesitura de la
obra, a los otros recursos escriturales que hemos apuntado, de los cuales la
metaficción, la parodia del género picaresco, el dialogismo y la polifonía, segundo
el proyecto de recontar la historia brasileña y, principalmente, reconstruir la imagen
de D. Pedro por la óptica subversiva de la carnavalización en la perspectiva del
pícaro, tradicionalmente relegado al margen de la sociedad, que posibilita en O
Chalaça la presentación de nuevos puntos de vista, configurados bajo otra mirada
que la hegemónica y oficial, de los acontecimientos históricos analizados a lo largo
de este texto.
Así, se puede afirmar que la novela de José Roberto Torero demuestra ser un
ejemplar relevante de la novela histórica brasileña contemporánea, que mezclada
con la picaresca española, conduce a la relectura crítica del pasado brasileño, bien
como a la del propio género romanesco, potencializando la novela como lectora
privilegiada de la historia (MILTON, 1992).

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REFERENCIAS:

AÍNSA, Fernando. La nueva novela histórica latinoamericana. Plural, México, v. 240, p. 82-85, 1991.
BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François
Rabelais. Trad. Yara Frateschi Vieira. São Paulo: HUCITEC, 1987.
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Trad. Maria E. G. G. Pereira. São Paulo: Martins Fontes,
1992. 7
GONZÁLES, M. M. A saga do anti-herói: estudo sobre o romance picaresco espanhol e algumas
correspondências na literatura brasileira. São Paulo: Nova Alexandria, 1994.
HUTCHEON, L. Poética do pós-Modernismo: história, teoria, ficção. Tradução de R. Cruz. Rio de
Janeiro: Imago, 1991.
LARIOS, M. A. Espejo de dos rostros. Modernidad y postmodernidad en el tratamiento de la
historia. In: KOHUT, K. (Ed.). La invención del pasado: la novela histórica en el marco de la
posmodernidad. Frankfurt; Madrid: Vervuert, 1997.
MENTON, S. La nueva novela histórica de la América Latina: 1979-1992. México D. F: Fondo de
Cultura Económica, 1993.
MILTON, H. C. As histórias da história: retratos literários de Cristóvão Colombo. 1992. 189 f. Tese
(Doutorado em Letras) – Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, São Paulo, 1992.
TORERO, J. R. Galantes memórias e admiráveis aventuras do virtuoso Conselheiro Gomes, o
Chalaça. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

Data de recebimento: 28/05/2010


Data de aceite para a publicação: 09/08/2010

SOBRE EL AUTOR:

Gilmei Francisco Fleck possui graduação em Letras Português/Inglês e respectivas


Literatra e Português/Espanhol e respectivas Literatura pela URI- Universidade
Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões/Frederico Westphalen-RS;
especialização em Ensino de Inglês como Língua Estrangeira pela Unoeste-Chapecó-
SC e em Língua Espanhola e Respectivas Literaturas pela Unoeste/Xanxerê-SC;
mestrado e doutorado em Letras pela UNESP-Assis, com ênfase em Literatura
Comparada. Atualmente é professor adjunto da Unioeste-Cascavel, atuando nas áreas
de Literaturas Hispânicas e Cultura Hispânica no curso de graduação em Letras e na
área de Literatura Comparada no Programa de pós-graduação em Letras. É tradutor
e ensaísta, com interesse especial nos Gêneros Híbridos da Contemporaneidade,
atuando nas áreas de Ensino de Línguas Estrangeiras, Literatura Comparada e
Tradução. É coordenado do PELCA- Programa de Ensino de Literatura e Cultura e
vice-líder do grupo de pesquisa “Confluências da Ficção, História e Memória na
Literatura”, cadastrado no CNPq.

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Revista de Literatura, NOVELA Y ATENTADO:
História e Memória EL EXPEDIENTE DEL
Literatura e Cultura
na América Latina ATENTADO (2007),
ISSN 1809-5313 DE ÁLVARO URIBE.
VOL. 6 - Nº 8 - 2010
GAMBETTA CHUK, Aída Nadi
U NIOESTE / CASCAVEL (Benemérita Universidad
P. 85-95 Autónoma de Puebla)*
agambet@siu.buap.mx

RESUMEN: Álvaro Uribe (México D. F., 1953) es autor de varios relatos, traducidos al inglés, al
francés y al alemán; escribió una primera y brillante novela intitulada La lotería de San Jorge
(Andanzas, 2003), originalmente publicada en 1995. Entre otros libros: Recordatorio de Federico
Gamboa (1999), Por su nombre (2001), El taller del tiempo (2003), ganadora del Primer premio
de Narrativa Antonin Artaud y La parte ideal (2006). Este texto versará sobre El expediente del
atentado (Tusquets, 2007), que ficcionaliza un hecho histórico conocido: el atentado fallido
contra el Presidente Porfirio Díaz, ejecutado por Arnulfo Arroyo, el 16 de septiembre de 1897, en
vísperas del desfile militar conmemorativo del día de la Independencia, en medio de una multitud
congregada por los festejos patrios. A partir de este hecho, Uribe ficcionaliza este fragmento del
pasado, basándose, principalmente. en la investigación a cargo del escritor F. G. (o sea, Federico
Gamboa). Esta neonovela reflexiona sobre las complejas, lábiles e ineludibles relaciones textuales
entre Discurso Historiográfico y Discurso Literario (el de las neonovelas históricas).

PALABRAS CLAVE: Novela histórica; Atentado. Bicentenario; Álvaro Uribe.

ABSTRACT: Álvaro Uribe (México City, 1953) is the author of several reports translated into
English, French, and German. He wrote his first brilliant novel called La lotería de San Jorge
(Andanzas, 2003), first published in 1995. Besides other books he wrote Recordatorio de Federido
Gamboa (1999), Por su nombre (2001), El taller del tiempo (2003 - winner of the Price ‘Antonin
Artaud’ for narratives), and La parte ideal (2006). This text is going to be about El expediente del
atentado (Tusquets, 2007), which ficinlaizes an important historic event: the frustrated atentado
(16/09/1897) against the President Porfirio Díaz by Arnulfo Arroyo, near the military parade. The
investigation of Uribe is based in the official Mexican History and in the papers written by
Federico Gamboa. This essay investigates the complicated and fragile relations between
histroriographic discourse and fictionally discourse.

KEY WORDS: Historical novel; atentado; Bicentenary; Álvaro Uribe

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INTRODUCCIÓN

Ya en La lotería de San Jorge (1995), Álvaro Uribe1 había mostrado su habilidad


y fineza de narrador a la vez que su destreza para recrear acontecimientos históricos
por medio de voces diversas y aún contradictorias y perspectivas iluminadoras
alrededor de inevitables pasiones y circunstancias azarosas.
Novela y atentado bajo la mirada acuciosa de Álvaro Uribe El expediente del
atentado (TUSQUETS, 2007)2 reconstruye ficcionalmente un hecho histórico más
o menos olvidado, que recupera nuevas luces, sobre todo, ante el próximo
Bicentenario de la Independencia del México de 2010: el día 16 de septiembre de
1897, el Presidente Porfirio Díaz fue objeto de un atentado contra su persona, que
resultó fallido. Fue precedido y seguido por hechos históricos similares en México,
entre los cuales se destacan los siguientes: en noviembre de 1927, cuatro personas
dispararon contra el ex-presidente Álvaro Obregón, que circulaba en las cercanías
del lago de Chapultepec y le provocaron heridas en la cara y en una mano, hasta que
en julio de 1928, ya electo presidente, fue asesinado. Más tarde, en enero de 1929,
el candidato anti-reeleccionista José Vasconcelos y sus partidarios fueron atacados
con palos y puñales. Vasconcelos disputaba por entonces la presidencia a Pascual
Ortiz Rubio, quien la ganó y al día siguiente de haber tomado posesión, el 5 de
febrero de 1930, fue herido por Daniel Flores, a las puertas de Palacio Nacional.
Otro candidato presidencial opositor, Juan Andrew Almazán, salió ileso de los
atentados en Zacapu, Michoacán, en febrero de 1940 y de Hermosillo, Sonora, en
junio del mismo año; el 10 de abril de 1944, el presidente Manuel Ávila Camacho
también salió indemne, porque usaba chaleco anti-balas, de un ataque recibido del
teniente Álvaro Lama Rojas, quien le disparó en el patio de Honor; amén de otros
intentos contra él mismo y su hermano Maximino, que la policía impidió. Más
cercanos a nuestro tiempo histórico se han sucedido otros episodios sangrientos:
el asesinato del Obispo Manuel Posadas Ocampo, en 1993, dicen que por error de
los sicarios del narcotraficante Arellano Félix y, significativamente, el magnicidio
todavía hoy no del todo esclarecido del candidato a presidente, Lic. Luis Donaldo
Colosio Murrieta, en las Lomas Taurinas, Baja California, en 1994, en plena campaña
presidencial y el muy reciente complot e intento de ataque contra el actual presidente
Felipe Calderón Hinojosa, afortunadamente desarticulado el 12 de agosto de 2008.
Álvaro Uribe descubrió la génesis de su novela mientras leía el Diario de
Federico Gamboa, más conocido por su autoría de la novela Santa, escrita bajo el
magisterio novelístico de Zolá y los hermanos Goncourt. Continúa aún en la
actualidad sin aclaraciones totales que al propio tiempo resulten convincentes el

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misterio policíaco e histórico en torno al atentado fallido que sufriera el Presidente


Porfirio Díaz, el 16 de septiembre de 1897, en el jardín de la Alameda de la ciudad
de México, engalanada por la celebración del día patrio, y cuyo autor fuera Arnulfo
Arroyo. Los hechos datados y archivados consignan que, efectivamente, ese día, en
ese lugar, cuando se celebraba el 87° aniversario de la Independencia, un sujeto
llamado Arnulfo Arroyo, hijo de un sastre conocido, alcoholizado, burló las vallas
que protegían a las autoridades y los invitados principales, se acercó peligrosamente
al Presidente Porfirio Díaz y lo atacó asestándole un fuerte golpe en la nuca. Alarmado
por el suceso el Gral. Ortiz Monasterio, que formaba parte de la comitiva presidencial,
le dio un bastonazo al agresor, rompiendo el bastón; por su parte, el presidente
reaccionó diciendo que preservaran la integridad del agresor, quien fue rápidamente
capturado porque no ofreció resistencia. Se conjeturó sobre un cuchillo, que nunca
apareció.
Al día siguiente, Arroyo amaneció muerto en la Demarcación de Policía, de
modo que no tuvo oportunidad de ser enjuiciado ni tampoco se sabe si lo interrogaron
o si corroboraron alguna declaración suya, dicha de buen grado o que le fuera
arrebatada por malos tratos. El 18 de septiembre se detuvo al Jefe de Policía, Eduardo
Velázquez, y al personal supuestamente implicado, quien tampoco tuvo oportunidad
de ser enjuiciado ni investigado, al menos que se sepa, porque también, el día 24 de
septiembre, amaneció muerto el Jefe de Policía, de quien se dijo que había cometido
suicidio.
Uribe, en su novela, merced a su poderosa imaginación histórica y al manejo
atento de archivos, principalmente sobre el Porfiriato, ficcionaliza estos hechos,
insistiendo en que Arnulfo Arroyo era conocido en el ambiente político y sobre
todo, por el mismo Federico Gamboa, llamando su atención sobre el hecho de que
Gamboa, en su Diario, de algún modo, expresa e insiste en no querer ser relacionado
con Arnulfo, que había sido su compañero en la escuela secundaria, cuando era un
muchacho inteligente y promisorio, no como al final de sus días, en franca decadencia
y abandono, quizá propiciados por el alcoholismo y el consecuente desprecio de
quienes antes le habían mostrado consideración y afecto.
Otros documentos que ha considerado Uribe en su investigación, incluso
aceptados por él mismo, cuando fuera entrevistado por Mario Casasús en el Clarín
de Chile (CASASÚS, 2009) son: la biografía de Porfirio Díaz escrita por Bernardo
Reyes en 1903, Historia del gran crimen (1897), de Jesús Rábago, La camada (1912),
de Salvador Quevedo y Zubieta, El caso Villavicencio (1997), de Jacinto Barrera
Bassols, El mundo Ilustrado (1895), Semanario ilustrado, publicación periódica de
finales del S. XX de Rafael Reyes Spíndola, y la Editorial Clío (1992),cuyo fundador

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y director es Enrique Krause. Uribe ha trabajado con personajes históricos y


ficcionales: así, incluyó al anarquista Joseph Ventré, que parece que en 1897 estaba
en la ciudad de México; Federico Gamboa sólo aparece con sus iniciales “F.G.”,
pero es fácil identificarlo por ser novelista plenipotenciario, por su retrato personal
– pasiones políticas y amorosas extremas - por su adhesión al gobierno porfiriano
y por presentar un Diario y varias cartas a una de sus amadas.
Curiosamente, resulta próximo al mismo Uribe, por su condición de
diplomático y novelista, pero probablemente hasta allí nada más lleguen sus
similitudes biográficas. En cuanto a Porfirio Díaz, ahí está el personaje histórico,
el orgulloso militar, el estadista autoritario rodeado por sus fervientes
correligionarios; ídem en el caso de Arnulfo Arroyo, del Inspector Antonio
Villavicencio, del Jefe de policía, Eduardo Velásquez, recogidos en la novela como
personas reales, incluso con nombres propios y, en general, toda la atmósfera del
gobierno de Díaz; en cambio, Felipe González es un personaje inventado, eso sí, a
partir de los ministros reales del Porfiriato, como fueron el de Gobernación, Manuel
González Cosío y el de Guerra, Felipe Berriozábal. Por esta novela que versa sobre
un hecho consignado dentro de la historia del Porfiriato, Uribe recibió el Premio
Elena Poniatowska 2008, precisamente siendo Elena descendiente de la alta sociedad
porfiriana y hoy una escritora democrática, agudamente crítica de la realidad
sociopolítica actual, heredera de ese pasado porfiriano en más de un sentido.

EVOCACIÓN HISTÓRICA Y RECONSTRUCCIÓN ARCHIVÍSTICA

Esta neonovela histórica de Uribe se presenta como el entretejido del archivo


histórico que los lectores pueden evocar en sus operaciones de confrontación entre
las propuestas ficcionales y lo que ha permanecido en sus huellas mnémicas, amén
del reto de las operaciones de confrontación que pueden realizar, y los materiales
construidos por la brillante imaginación histórica de Uribe, que tiene carácter
plausible y que, por lo tanto, seducen a los lectores y, por lo menos, crean en ellos
dudas razonables ante el registro histórico ya consignado en los documentos oficiales.
El expediente del atentado está estructurada como un archivo que estaría
preparando F.G., o sea, Federico Gamboa, con múltiples documentos oficiales,
recortes de periódicos, declaraciones policiales y judiciales, todos encarpetados
para preparar un informe completo. Además, se agregan muchas cartas personales,
amorosas, a Cordelia y de ella para él, amén de monólogos de los personajes
históricos, que conjuntan un texto polifónico donde hay alrededor de quince voces

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diferentes que tiene que ver con segmentos del hecho en cuestión: el atentado fallido
a Porfirio Díaz, durante los festejos del 16 de septiembre de 1897 y unos pocos días
posteriores al mismo. O sea, la novela, siendo un texto terminado, juega con mostrarse
como un texto previo a una redacción definitiva, pero se trata de un juego ficcional
que le otorga a la novela una dimensión verosímil, a la vez que ambigua los hechos
porque algunos textos re-escritos, estaban ya narrados por la Historiografía,
mezclados con algunos apócrifos, pero factibles y otros, aunque ya están organizados
y narrados también, aparecen ante los lectores como materiales no incluidos aún,
como materiales que los lectores pueden creer espiar por sí mismos y pensar que
ellos los organizan y llegan a sus propias conclusiones deductivas.
Esta estrategia estructural domina la novela, donde, por una parte, se presenta
el contexto sociopolítico del Gobierno de Porfirio Díaz, que sería seguido y aún
perfeccionado por otros gobiernos mexicanos posteriores, no obstante ser
descalificado y más aún denostado por sus antagonistas. Por otra parte, la descripción
misma del atentado que conserva rasgos de otros conocidos crímenes y magnicidios,
es decir, la presencia de un sujeto extraño, generalmente excéntrico, que de motu
propio , o a nombre de otros, ataca a su objeto elegido de manera más o menos
planificada por el agresor y/o sus autores intelectuales, es apresado y luego es
asesinado o desaparecido no sólo él, sino, después, él o los que se supone lo
mataron, siendo esta cadena, a veces, bastante extensa, compleja, y sobre todo,
progresivamente más y más confusa. De modo que, al comienzo, hay mucho interés
por todo lo que presentan los periódicos, lo que circula en la doxa, hasta que,
finalmente, el cansancio, el desánimo e inclusive el hartazgo de los antes interesados
termina por hacer caer el hecho en cuestión en comprensible olvido generalizado.
La novela está estructurada en tres partes, llamadas “Carpetas” y un “Colofón”,
que resume el futuro del pasado de los principales personajes. La “Carpeta I”, intitulada
“Arnulfo Arroyo”, con nueve apartados; la Carpeta II, intitulada “Eduardo Velázquez”,
con dieciséis apartados y la “Carpeta III” intitulada “Villavicencio y los demás”, con
trece apartados. La organización de los materiales puede llevar a pensar a los lectores
en un texto previo al definitivo y también en que Federico Gamboa ya tenía todo
listo, fuera para una investigación policíaca o fuera para una novela que nunca
escribió. Uribe, por su parte, escribe esta novela, pero le otorga el mismo carácter
inconcluso que Gamboa dejara como impronta de un fallido magnicidio históricamente
no profundizado, o sea, como neonovela histórica ofrece versiones alternativas a
las de la Historia oficial, pero no es concluyente y vuelve a dejar abierto el
“expediente” que da título a su novela, como tarea en suspenso para los historiadores
revisionistas.

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RETRATOS Y MEMORIAS

El expediente del atentado es una neonovela histórica que describe


épocalmente la ciudad de México, sobre todo, el primer cuadro, donde transcurren
los hechos: la Plaza de Armas, la calle de Plateros, el Portal de Mercaderes, algunos
edificios públicos y cantinas, como el bar-room del inglés de Peter Gay. Los
narradores, como integrantes de un coro disímbolo, acrecientan ese realismo tópico
desde diversas perspectivas subjetivas a partir de las cuales enuncian sus verdades
en torno a la factualidad: magnicidio fallido, linchamiento del magnicida, muerte
del jefe de Policía más enjuiciamiento que deja libres a los culpables. Todo esto así
presentado desalienta la confianza de los lectores en el discurso historiográfico
oficial, al presentar hechos y personajes bajo luces más intensas y reveladoras,
pero no sólo centrado en la crítica del discurso historiográfico oficial, sino también
en una ficcionalización de Federico Gamboa como autor de novelas y como autor de
su propia imagen de político comprometido con el gobierno y con la cultura
porfirianos, incluso hasta el punto de rehusar todo aquello que lo comprometiera
políticamente y lo expusiera a perder la consideración de sus superiores. Teme
sobre todo perder su envidiable posición sociopolítica, o a relatar él mismo en Mi
Diario que, cuando en otro 15 de septiembre, el de 1910, frente al episodio de los
rebeldes revolucionarios maderistas, él intentando engañar al Embajador alemán
Bünz, le dijo que las barbas portadas eran un homenaje retrospectivo al Gral. Díaz
joven.
Federico Gamboa (Ciudad de México, 1864-1939), hombre de su época –
periodista, gacetillero, crítico teatral y novelista - de orígenes humildes, pasó de
segundo secretario a plenipotenciario, Secretario de Relaciones Exteriores bajo el
gobierno de Victoriano Huerta y representante diplomático en Brasil, Argentina y
Estados Unidos. Como novelista realista y el primer naturalista en México, se hizo
famoso con la publicación de Santa (1903), que fuera llevada al teatro y al cine y que
a su fallecimiento llevaba sucesivas impresiones con un tiraje de sesenta mil
ejemplares. No tuvieron la misma suerte sus últimas novelas: Reconquista (1908) y
La llaga (1910).
En su Diario, cuya publicación se iniciara en Buenos Aires, siendo los cinco
primeros tomos editados en 1908 y luego, en 1910, 1920, 1934 y 1938, reveladores de
un estilo menos cuidadoso pero con una gran honestidad en la mirada autobiográfica,
tal como lo expresa José Emilio Pacheco en su magnifico ensayo (PACHECHO,
1999, 16 - 21); fue reeditado como Mi diario, definitivamente por el Consejo Nacional
para la Cultura y las Artes en siete tomos, entre 1995 y 1996, al cuidado de Luis Rojo

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y Álvaro Uribe. En sus obras literarias Gamboa manifestó actitud crítica frente a las
injusticias del Porfiriato - cárceles insalubres, sórdidos prostíbulos capitalinos, en
fin, la desigualdad entre unos pocos poderosos y la mayoría miserable - pero nunca
manifestó nada negativo acerca de Porfirio Díaz, “su caudillo”.
Uribe no juzga a Federico Gamboa literariamente, pero lo cuestiona como
hombre del poder en el Porfiriato, sobre todo, a partir de la lectura de su Diario
(URIBE, 2007, p. 249), donde Gamboa confiesa el temor de que su bohemia vida
privada se hiciera de conocimiento publico; lo humaniza, mostrando sus debilidades
de hombre pusilánime y aún exhibe sus miserias privadas, al presentar las cartas de
su enamorada Cordelia que, por otra parte, tenía también una conducta no del todo
edificante, ya que se mostraba enamorada de F.G., pero, ya viuda, estaba por casarse,
por conveniencia económica, con el Jefe de Policía, Eduardo Velázquez, persona
calificada como despreciable por la vox populi y también por Uribe.
Por esas cartas se aprecia que la relación amorosa era tormentosa y por las
cartas de respuesta de F.G., que él quería mantenerla en secreto y así se lo exigía a
ella, hasta que, al final, rompe esa relación llena de inconvenientes para su posición
política, la cual vuelve a reestablecerse cada vez más deteriorada, lo cual no exculpa
al varón egoísta y convenenciero. El tratamiento cariñoso que Cordelia, “tu Cordelia”,
le brinda en estas cartas – ficcionales, por supuesto – se hace plausible porque el
retrato está pintado con trazos gruesos e impiadosos: el “Pajarito”, invocado
progresivamente en las cartas como “Mi amado Pajarito” (URIBE, 2007, p. 67),
“Queridísimo Pajarito” ( URIBE, 2007, p. 135), “Pajarito añorado” (URIBE, 2007,
p.187) y “Pajarito distante” (URIBE, 2007, p. 229) vocativos con los que nombra
dulcemente a F.G., desde el 18 de setiembre de 1897, en la ciudad de México, se
explica por el apodo que tenía F.G., por ser para sus enemigos “un pájaro de cuenta”,
aunque en la última carta, Cordelia, ofendida por la misiva en que el amado le pide
la separación mientras se aclara el asunto del linchamiento de Arroyo ( URIBE,
2007, p. 149), que sentía como definitiva, y más aún la del 20 de octubre de 1897,
dirigida a “la Cordera de mis pecados” (URIBE, 2007, p. 268), donde la considera
la única culpable de la pasión amorosa y le sugiere abandonar la ciudad rumbo a
Querétaro, ella le contesta atacando verbalmente al ingrato, llamándolo “Pájaro de
cuenta” (URIBE, 2007, p. 269).
El narrador, que le ha retirado el crédito al amante convenenciero, da un
matiz irónico, festivo y logra la franca hilaridad de los lectores, porque la pasión
amorosa ha desaparecido y sólo queda el muy revelador tratamiento rencoroso e
irrespetuoso de la malquerida y hasta bastante soez, de ambos amantes
desenmascarados. La vida pública no puede esconder la privada, llena de miserias,

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porque tampoco la pública es digna de encomio. Al centrar Uribe el retrato del


famoso novelista, tan conocido entonces y después por Santa, exhibe el lado oscuro
de todo un grupo social: el que rodeaba al Presidente Porfirio Díaz, el de la clase
alta mexicana de entonces. Ni qué decir de los estadios más bajos, representados
por el Jefe de Policía, Eduardo Velázquez, un individuo siniestro. Y otro tanto de
sus esbirros, crueles y sanguinarios, comandados por Antonio Villavicencio. Porfirio
Díaz está tratado con cierta distancia, como una figura histórica hierática, pero el
entorno de sus correligionarios y subordinados resulta muy elocuente en su
descalificación moral.
Los hechos que se precipitan tras el encarcelamiento de Arnulfo Arroyo, o
sea, su inmediato linchamiento tumultuario y después, la muerte del Jefe de Policía,
Eduardo Velázquez, presunto culpable. El asesinato de Arroyo se contraponía a la
actitud pública tan íntegra y hasta bondadosa de Díaz, cuando pidió que su atacante
fuera respetado en su integridad física. Aunque la novela, sin inculpar a Díaz,
siembra dudas porque los lectores, que conocen “la paz sepulcral” con que los
opositores calificaban el Porfiriato, no podrán a menos que recordar el crudelísimo
episodio del complot de Veracruz, en 1879, y la lapidaria frase enviada
telegráficamente al gobernador, de “Mátalos en caliente”, que habría pronunciado
Díaz.
Por otra parte, Arnulfo Arroyo, el victimario, es mostrado más bien como
una víctima de sus conocidos y falsos amigos en la última etapa de su vida, apenas
defendido por el monólogo de su madre, en “Cómo me lo dejaron” (URIBE, 2007,
p. 93-107) y, al final, inhumanamente atacado y asesinado por el Jefe de Policía y
sus hombres, sin clarificaciones de que fuera por su decisión o porque cumpliera
órdenes superiores, pero con la suspicacia necesaria para invitar al lector a que
saque sus conclusiones a la luz de otros hechos históricos que sí inculparan a
Porfirio Díaz.
Además del material periodístico de El Imparcial y de El Universal,
declaraciones de los imputados y variadas notas, reunido por F.G. con el propósito
de una investigación policíaca – de hecho parecen los materiales previos para un
thriller – o para una novela que Gamboa nunca escribió, tal vez por el temor de
incriminar a las autoridades porfirianas, de las citadas cartas y de otros textos
variados – tales como dos relatos supuestamente autobiográficos, el del mismo
Arnulfo Arroyo, de ultratumba en que se autojustifica del magnicidio planeado y el
de Genovevo Uribe, “Nadie me lo preguntó” (URIBE, 2007, p. 303- 309), donde
éste señala a todos los culpables del linchamiento –que en la novela aparece con y,
por su etimología, ya que viene del nombre del juez de Virginia Charles Lynch, S.

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XVIII- de Arroyo, sólo exculpando al Mayor Bellido y la serie intitulada ”Los que
saben”, 1, 2 y 3, repartidos en cada carpeta (URIBE, 2007, p. 47, 125 y 315), donde
el esclarecedor discurso de los hechos se atribuye, en cada caso, a un plural verbal,
“dicen”, con sujetos anónimos– hay que destacar la breve “Farsa en un acto”, que
también pudo haber escrito Gamboa, aunque no lo hizo, sobre los hechos y el
juicio seguido a los culpables del linchamiento de Arnulfo Arroyo, y que transcurre
en la Ciudad de México, entre el 15 y 22 de septiembre de 1897.
En el último capítulo, intitulado “Tiro de gracia” (URIBE, 2007, p. 325-326),
del Diario de F.G., éste confía haberse casado con una señorita que no identifica
para no mancillar su nombre y espera que sean sus futuros hijos los herederos de
las llaves de su baúl secreto, donde ellos conocerán la vida del padre en cierta
época y por qué no se atrevió a seguir siendo así” (URIBE, 2007, p. 326).
El Colofón de esta neonovela histórica, que ha permitido a sus lectores una
saludable y salvífica incertidumbre histórica, sintetiza, con las glorias del pasado
independentista, algunos hechos ignominiosos que, desafortunadamente, se asemejan
mucho al presente histórico de fines del siglo XX y comienzos de este siglo XXI
porque recuerda que los diez inculpados por el asesinato de Arnulfo Arroyo –
Antonio Villavicencio, Miguel Cabrera, Mauro Sánchez, Ignacio Pardavé, Sabino
Vázquez, Aracadio Sepúlveda, Antonio Cervantes, Francisco Huindzardt, Vicente
Noriega y Genovevo Uribe – después de seis años de apelaciones, consiguieron
que sus defensores obtuvieran un nuevo juicio, el 4 de junio de 1903 y ocho días
después fueron absueltos, quedando como único culpable el fallecido –
supuestamente por suicidio – Jefe de Policía Eduardo Velásquez, como único culpable.
A principios de 1911, meses antes del triunfo de la Revolución y del obligado
destierro de Porfirio Díaz rumbo a Francia, Antonio Villavicencio fundó una agencia
de detectives privados, formada por la mayor parte de sus antiguos agentes de la
policía capitalina, dedicados a espiar a Francisco I. Madero, con la especial
colaboración de Genovevo Uribe, quienes fueron apresados por el gobierno
provisional de la Revolución y liberados a los pocos días, por falta de pruebas que
los inculparan.
El expediente del atentado re-escribe la Historia con un discurso literario
incisivo que denuncia las falsas verdades y/o los olvidos de la Historia oficial,
vinculando pasado y presente históricos, con la insistencia cada vez más necesaria
y urgente sobre el hecho incontrovertible de que el pasado no cambia, pero sí su
organización factual e ideológica y, por lo tanto, la consecuente percepción de ese
pasado.

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NOTAS

* Profesora de Castellano, Literatura y Latín de la Facultad de Filosofía, Humanidades y Artes


de la Universidad Nacional de San Juan, Argentina (1965). Maestría en Literatura
Iberoamericana por la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad nacional Autónoma
de México (1976). Doctorado en Letras por la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad
Nacional Autónoma de México (1992).
1 Álvaro Uribe (Ciudad de México, 1953), Licenciado en Filosofía por la UNAM en 1977, fue
agregado cultural en Nicaragua y consejero cultural en Francia. Es autor de Topos (1980), El
cuento de nunca acabar (1981), La audiencia de los pájaros (1986), La linterna de los muertos
(1988), La lotería de San Jorge (1995), Recordatorio de Federico Gamboa (1999), La otra mitad
(1999), Por su nombre (2001) y El taller del tiempo (2003), ganadora del Primer premio de
narrativa Antonin Artaud en México y El Expediente del atentado (2007), acreedora al
Premio Elena Poniatowska 2008. Varias de sus obras han sido traducidas al inglés, al
francés y al alemán. Ha recibido innumerables elogios de la crítica especializada.
2 El cineasta Jorge Fons (El callejón de los milagros, 1995) actualmente prepara un film sobre el
fallido atentado de 1897 contra Porfirio Díaz, basando el guión en archivos históricos, pero
sobre todo en la novela de Uribe, El expediente del atentado. El guión está a cargo de
Fernando León y Vicente Leñero. Como actores se destacan Daniel Jiménez Cacho, Angé-
lica Aragón y José María Yazpik. Aragón Uribe ha estado muy cerca de esta filmación, llevada
a cabo en la Ciudad de México, en Puebla y en Zacatecas. El título del film es El Atentado y
será estrenado en septiembre de 2010, como parte de las celebraciones del Bicentenario
de la independencia.

REFERENCIAS

BURKE, Peter. ¿Qué es la historia cultural., Barcelona: Paidós, 2004.


CASASÚS, Mario, “Álvaro Uribe recrea en sus novela atentado contra Porfirio Díaz” en Clarín de
Chile, Santiago, 25 de enero de 2009.
GAMBOA, Federico. Mi diario, México: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes. Compila-
dores: Álvaro Uribe y Luis Rojo, 995-6.
DANTO, Arthur, Historia y narración. Ensayos de Filosofía Analítica, Barcelona: Paidós, 1989.
PACHECO, José Emilio, “Reloj de Arena” en Letras Libres; Coyoacán/México: Editorial Vuelta,
1999, p. 16-21.
RICOEUR, Paul. Tiempo y narración, México: Siglo XXI, T. III, 1996.
URIBE, Álvaro, La lotería de San Jorge, México: Tusquets, 2007.
_______. El Expediente del atentado. México: Tusquets, 2003.

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Data de recebimento:03/05/2010
Data de aceite para a publicação: 09/08/2010.

SOBRE A AUTORA:

Aída Nadi Gambetta Chuk posee Profesorado en Castellano y Literatura por


la Facultad de Filosofía, Humanidades y Artes de la Universidad Nacional de San
Juan, Argentina (1965); Maestría en Literatura Iberoamericana por la Facultad de
Filosofía y Letras de la Universidad Nacional Autónoma de México (1976) y Doctorado
en Letras por la Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad Nacional Autónoma
de México (1992). Sus principales áreas de investigación son: 1. Historiografías y
neonovelísticas mexicana y argentina de la segunda mitad de siglo XX y XXI; 2.
Literatura fantástica hispanoamericana de los siglos XX y XXI; Sus publicaciones
son numerosas en las áreas de referencia nacionales e internacionales. Participación
en Congresos y coloquios nacionales e internacionales. Cargo: P. I. T.C.C. Facultad
de Filosofía y Letras. Benemérita de la Universidad Autónoma de Puebla, México.

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Revista de Literatura, AS GUERRAS DE INDEPENDÊNCIA
História e Memória NO ROMANCE HISTÓRICO
2010: Reflexões sobre o
bicentenário de independências
na América
BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO:
ISSN 1809-5313 CONFLITOS, FISSURAS,
VOL. 6 - Nº 8 - 2010 DISSENÇÕES
U NIOESTE / CASCAVEL
ESTEVES, Antônio R. (UNESP-ASSIS)*
P. 97-111
aesteves26@uol.com.br

RESUMO: Setores tradicionais da historiografia brasileira, na linha da famosa cordialidade desse


povo tão mentada por importantes setores da intelectualidade nacional, costumam apresentar o
processo de independência do país como pacífico. No dia sete de setembro de 1822, o Príncipe
herdeiro português proclamou a independência do novo país e instaurou o regime monárquico
que durou até 1889. Manteve, com esse ato, sob sua coroa o imenso território que hoje constitui
o Brasil. Na verdade, o processo de construção do estado brasileiro não foi tão pacífico como
costumam contar em muitos livros escolares de história nem tampouco deixou de colecionar
conflitos ao longo de cerca de um século. Nas últimas décadas, historiadores e romancistas vêm
se encarregando de apontar as fissuras e dissenções desse processo. A história, desse modo,
aparece reescrita em vários romances com diferentes paradigmas textuais. Nesse contexto, o
presente trabalho aponta como três escritores contemporâneos trataram de aspectos das guerras
de independência. Assim, a leitura de Viva o povo brasileiro (1984), de João Ubaldo Ribeiro;
Lealdade (1997), de Márcio Souza e Anita (1999), de Flávio Aguiar, demonstra como a literatura
pode ler de modo privilegiado os signos da história.

PALAVRAS-CHAVE: romance histórico brasileiro contemporâneo; releituras da história; guerras


de independência no Brasil.

RESUMEN: Sectores tradicionales de la historiografía brasileña, siguiendo la idea de la cordialidad


de ese pueblo, defendida por importantes intelectuales, suelen presentar la independencia del
país como un proceso pacífico. El siete de septiembre de 1822, el hijo del rey de Portugal, que
entonces vivía en Brasil, proclama la independencia del nuevo país e instaura un régimen monárquico
que perdura hasta 1889 y mantiene unido en esa corona la inmensa extensión territorial que
constituye actualmente el país. En realidad el proceso de construcción del estado brasileño no
fue tan pacífico como cuentan los manuales de historia ni tampoco dejó de cosechar conflictos a
lo largo de casi un siglo. En las últimas décadas historiadores y novelistas se han encargado de
apuntar fisuras y disensiones en dicho proceso. La historia aparece así reescrita en varias novelas,
desde paradigmas escriturales diversos. En ese sentido, el presente trabajo muestra como tres
escritores trataron de aspectos de las guerras de independencia en el país en novelas históricas.

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2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

La lectura de Viva o povo brasileiro (1984), de João Ubaldo Ribeiro; Lealdade (1997), de Márcio
Souza e Anita (1999), de Flávio Aguiar, muestra como la literatura puede leer de modo privilegi-
ado los signos de la historia.

PALABRAS CLAVE: novela histórica brasileña contemporánea; relecturas de la historia; guerras


de independencia en Brasil.

A INDEPENÊNCIA E A CONSTRUÇÃO DA NAÇÃO: ELIMINANDO


DISSONÂNCIAS

Setores da historiografia tradicional brasileira, ao longo do tempo, dedicaram-


se a construir e a reiterar um discurso hegemônico que corrobora alguns pilares
básicos que marcariam a especificidade do país diante de seus vizinhos hispano-
americanos. Um deles é a unidade territorial. Costuma-se reiterar que os brasileiros
foram responsáveis por penetrar interior adentro, expandindo as fronteiras para
muito além do que determinava o tratado de Tordesilhas (1494), firmado entre
portugueses e espanhóis no início da ocupação das novas terras descobertas pelas
duas potências marítimas no Novo Mundo. Na verdade, mais da metade da dimensão
quase continental do país está localizada em territórios que inicialmente eram
possessão espanhola, fato que se deve ao espírito expansionista dos mestiços da
antiga colônia lusitana.
Da mesma forma, costuma-se reiterar que um território tão vasto apenas
permaneceu unido em torno de um único centro graças às estratégias de suas elites
políticas, principalmente no período posterior ao processo de independência. Da
mesma forma, o processo de independência, resultado de um acordo entre as
oligarquias locais e o Príncipe herdeiro português, com a consequente instalação
de um império em terras tropicais, ao contrário dos vizinhos, que preferiram o
regime republicano, serve para explicar a manutenção dessa unidade territorial e
cultural.
Historiadores e sociólogos também acabaram construindo e consolidando
um discurso que se fez hegemônico, que atribui à cordialidade do brasileiro, resultado
de um equilibrado processo de mestiçagem, a homogeneidade da cultura brasileira,
fato que acabaria garantindo a concórdia nacional e o bem estar social. Tal discurso
homogeneizante trata de, se não apagar, pelo menos desqualificar qualquer movimento
que tenha atentado contra a unidade territorial ou cultural ou que explicite os conflitos
sociais e/ou raciais, que não foram poucos e ocorreram ao longo de boa parte da
história do país.

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O episódio da independência está inserido nesse discurso. Apesar de que em


geral a administração portuguesa não tenha sido tão centralizadora como se supõem
e que os episódios de reação à ocupação portuguesa e sua presença nestas terras
sejam mais frequentes do que se costuma contar em nossos manuais de história, é
consenso que o processo de independência tenha sido pacífico.
Na verdade, esse processo é resultado da expansão napoleônica ocorrida na
Europa pós Revolução Francesa, nos primeiros anos do século XIX. Tradicional
aliado dos ingleses, Portugal foi invadido pelos exércitos franceses em 1808, o que
fez com que, ao contrário do que fizeram seus parentes espanhóis, a família real
portuguesa optasse, por pressão e com ajuda dos ingleses, a fixar-se em sua principal
colônia.
Com a chegada da família real ao Rio de Janeiro, transformada em capital
provisória do reino, o Brasil foi elevado à categoria de Reino Unido a Portugal.
Mais tarde, com a derrota de Napoleão Bonaparte, as cortes portuguesas, dominadas
pelos liberais, redigiram a primeira constituição do país, exigindo o imediato regresso
do rei à Metrópole e devolvendo o Brasil a sua condição de colônia. Ao retornar à
Europa em 1820, o rei D. João VI deixou no Brasil seu filho Pedro, herdeiro da
coroa. A oligarquia conservadora brasileira, para não perder os muitos privilégios
adquiridos com a presença da corte por aqui, estabeleceu um pacto com o jovem
Príncipe, propondo a criação de um novo país do qual ele seria Imperador.
Oficialmente, de acordo com o discurso hegemônico tradicional, a
Independência do Brasil ocorreu no célebre grito de sete de setembro de 1822. No
entanto, nem todas as regiões acataram a decisão articulada no Rio de Janeiro. Os
militares portugueses da Bahia resistiram até o ano seguinte, o mesmo ocorrendo
com os do Grão-Pará. Em Pernambuco estourou um movimento republicano em
1824, assim por diante. É claro que tais movimentos foram sufocados com grande
violência pelas tropas do Imperador. A índole intransigente de D. Pedro I e seu
caráter folgazão acabaram por enfrentá-lo com a mesma oligarquia com quem tinha
pactuado. Essa disputa, entretanto, foi vencida pelas classes dominantes do novo
país, que levaram o Imperador a abdicar do trono em favor de seu filho de apenas
cinco anos e regressar a Portugal, onde morreu poucos anos depois, ainda na flor
da idade.
As diferenças locais então afloraram e o período da regência, antes que um
golpe de estado antecipasse a decretação da maioridade no imperador, foi bastante
conflituoso. Entre 1831 e 1840, quando D. Pedro II foi coroado aos quatorze anos de
idade, o Brasil viveu em diversos pontos de seu território, diversas rebeliões e
guerras civis, algumas das quais longas e sangrentas. Todas foram vencidas pelo

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governo central e teve início, então, o período da consolidação da unidade nacional.


A chegada da república, em 1889 depois de quase meio século de reinado de D.
Pedro II, encontrou o país já sem escravos, libertados no ano anterior, e preparado
para ingressar na modernidade, principalmente econômica. Da mesma forma,
consolida-se o projeto cultural do país.
Nas últimas décadas, diversos historiadores e romancistas vêm se dedicando
à tarefa de apontar as fissuras e dissenções no processo da independência. A história
aparece, então, reescrita em vários romances através de paradigmas escriturais
diversos. O presente trabalho mostra como três escritores brasileiros contemporâneos
trataram de aspectos das guerras de independência em seus romances. A leitura de
Viva o povo brasileiro (1984), do baiano João Ubaldo Ribeiro; de Lealdade (1997),
do amazonense Márcio Souza e Anita (1999), do gaúcho Flávio Aguiar, demonstra
como a literatura pode ler de modo privilegiado os signos da historia, de acordo
com a feliz expressão usada por Heloisa Costa Milton (1996), ao tratar das relações
entre história e literatura.

O FUTURO BARÃO DO IMPÉRIO À SOMBRA DA JAQUEIRA OU DA TARDIA


INDEPENDÊNCIA DA BAHIA

Pode-se dizer que Viva o povo brasileiro (1984), de João Ubaldo Ribeiro,
seja um roman-fleuve (MOISÉS, 2004, p. 407), que à semelhança do curso de um
imenso rio, através da sucessão da história de várias gerações, conta a própria
história do Brasil. Para ser mais exato, conta a história do povo brasileiro pela
metonímia de dois núcleos familiares originados na ilha de Itaparica, no recôncavo
baiano. Assim, ao longo de mais setecentas páginas, desfilam ante os olhos do
leitor acontecimentos que abrangem praticamente toda a história do país, desde o
século XVII até a última ditadura militar do século XX. Esses acontecimentos, como
se fossem um imenso desfile de carnaval, plenos de elementos paródicos, tentam
representar, não sem certo maniqueísmo por parte da voz narrativa, aquilo que o
escritor considera que seja a essência do povo brasileiro. Tempos e espaços, que
tratam de obedecer a uma lógica diversa do racionalismo cartesiano que marca boa
parte da cultura ocidental, se entrecruzam tendo como sustentação a concepção
temporal cíclica advinda da cosmogonia do Candomblé, marca importante da cultura
daquela parte do país.
De certa forma o romance trata de corroer os pilares da história hegemônica,
em geral escrita pelos brancos vencedores, e apeia de seus pedestais os falsos

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heróis erigidos por uma casta econômica e social que, para manter seus privilégios,
não hesita em falsear os fatos. A narrativa tenta, enfim, colocar em cena os verdadeiros
protagonistas da formação do povo brasileiro. Desde o princípio, os protagonistas
dessa espécie de epopeia ao revés são personagens populares, embora os episódios
da história nacional e regional formem uma espécie de pano de fundo para guiar o
leitor ao longo da história do país, como ensina o modelo clássico do romance
histórico consolidado desde o início do século XIX.
Para este trabalho interessa o primeiro capítulo do romance, que trata de um
episódio da independência da Bahia, ocorrida em 1823, quase um ano depois do
mentado Grito do Ipiranga. Nesse sentido, adquire especial relevância o fato de o
relato começar in media res: o romance começa com o episódio da independência,
para depois voltar aos acontecimentos do período colonial.
No processo de construção/descontrução dos heróis da independência da
Bahia, o romance trata de dois personagens. O primeiro deles, o alferes José Francisco
Brandão Galvão, cujo nome altissonante já faz parte do processo paródico, transforma-
se em herói por acaso e merece que lhe dediquem uma tela e que lhe levantem uma
estátua em sua natal ilha de Itaparica. Morreu na flor da idade, sem saber por que,
vítima de um disparo de um barco português que o atingiu quando ele caminhava
tranquila e distraidamente pela praia. Sua alma levanta voo e dá continuidade a uma
genealogia popular que povoa toda a narrativa, chegando até o século XX.
No outro extremo, o português Perilo Ambrósio Góes forja seu heroísmo ao
matar um escravo, empapando-se com seu sangue, para falsificar as feridas que não
tem, uma vez que acompanhou a principal batalha da luta da independência desde
longe, descansando tranquilamente à sombra de uma jaqueira. Além disso, ele constrói
um falso relato de sua participação heroica e não hesita em cortar a língua de outro
escravo, que tinha sido testemunho de tudo. Assim, o romance de João Ubaldo
Ribeiro ensina que o heroísmo da classe dominante é duplamente construído de
modo falso: com o sangue e com o emudecimento das classes dominadas.
Como se isso fosse pouco, Perilo Ambrósio não duvida em trair sua própria
família, de origem portuguesa, para apossar-se de suas propriedades e agradar às
novas autoridades brasileiras. Com esse duplo ato de traição, o português muda de
lado e se transforma em brasileiro, rico e poderoso. Como prêmio, pelo heroísmo e
pelas doações, ele recebe um título de barão do Império do Brasil e funda uma das
genealogias cuja história o romance conta: a dos dominadores, evidentemente.
A narrativa descortina, com várias tonalidades de ironia e paródia, algumas
das quais bordeiam o puro grotesco, uma história falsa, construída pela oligarquia
local, baseada na elaboração de falsas genealogias, manipuladas de acordo com o

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modelo europeu e o desejo de criar origens nobres e tradicionais. Pelo lado dos
oligarcas se constrói uma identidade falsa baseada não apenas na expropriação de
negros e mestiços, sejam escravos ou livres, mas também pelo roubo, pela corrupção
e pelos crimes de diversas espécies.
No entanto apesar de todo seu esforço, Perilo Ambrósio, o barão de
Parapuama, é estéril e morre sem deixar herdeiros. Sua riqueza é apropriada, também
através de uma série de armadilhas, por seu contador Amleto Ferreira-Dutton,
personagem através do qual o narrador ironiza a elite econômica baiana do século
XIX, fundada no falseamento: a riqueza conseguida por meio de negociatas e a
genealogia construída de modo artificial. O mulato bastardo Amleto inventa para si
uma origem inglesa e cria um sobrenome, apagando de suas origens a mãe negra e
disfarçando de modo grotesco seus traços físicos. Casa sua filha com um enteado
incompetente do estéril barão de Parapuama, selando a relação entre as duas famílias.
Perfeita união entre a riqueza expropriadora e as grandes negociatas realizadas
com ações cartoriais, sagrada pelo título de nobreza do império brasileiro.
A carnavalização, comum no romance histórico contemporâneo, contribui
para a inversão dos valores, sinalizando para uma releitura crítica da história, com
o objetivo de manter viva a chama da memória cultural. Assim, ela está presente em
todo o romance. O festim pantagruélico, nas pegadas de Bakhtin, é trabalhado de
modo ambivalente: quando se trata das elites, o grotesco carnavalizado leva a um
sentido por negação. O barão de Parapuama, por exemplo, é sempre associado a
uma figura grotesca, balofa, lambuzado de comida e sexo. Ele surge no primeiro
capítulo, “sentado embaixo de uma jaqueira, com as pernas esticadas e abertas,
comendo um pão de milho e dando dentadas enormes num pedaço de chouriço
assado” (RIBEIRO, s.d., p. 20), observado pelos escravos famintos, que sofrerão a
ação de suas maldades.
Não apenas comilança desenfreada, mas também a associação ao sexo e às
zonas baixas do corpo está presente. Já na primeira aparição ele passa “a mão gorda
e peluda pelo traseiro de Feliciano”, dizendo “pois destes cus da tua família ainda
não tive o meu quinhão completo, e chegará o dia em que te chamarei a meu quarto
para que te ponhas de quatro e te enfie essa chibata pelo vaso de atrás, que nisso
hás de ser bom.” (RIBEIRO, s.d., p. 20). Há que se recordar que a pouca distância
dali se desenvolve a épica batalha da independência da Bahia. Duplamente grotesco:
comilão e invertido, o que não impede, no entanto, que o barão passe o tempo
estuprando as escravas. Pela boca ele morrerá, envenenado aos poucos pelas artes
de uma de suas escravas ultrajadas.
Enfim, tais episódios da tardia e pouco heroica independência da Bahia, que

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em muito pouco coincidem a história hegemônica nacional, é o pórtico que João


Ubaldo Ribeiro usa para introduzir o relato da saga do povo brasileiro, uma história
prenhe de sofrimentos e tentativas de camuflar a presença do sague africano nas
famílias oligárquicas, cuja riqueza econômica, no entanto, se constrói a partir da
exploração do trabalho desses escravos.

LEALDADE A PORTUGAL OU UMA REPÚBLICA AMAZÔNICA?

“Um país morreu para que nascesse o Brasil”: esta enigmática frase aparece
na capa de Lealdade (1997), de Márcio Souza, conhecido por tratar em suas obras,
de maneira nada reverente, episódios da história de sua região de origem, a Amazônia
brasileira. Este romance é o primeiro de uma anunciada tetralogia ainda não concluída,
as Crônicas do Grão Pará e do Rio Negro, na qual o escritor amazonense pretende
contar a história da incorporação dos atuais estados amazônicos ao Império do
Brasil, durante a primeira metade do século XIX. Nessa primeira entrega conta-se o
que Márcio Souza chama de “anexação do território do Grão Pará ao Brasil”, episódio
que a história hegemônica brasileira costuma tratar como “a expulsão dos portugueses
do Pará”.
Nascida sob o signo das lendárias mulheres guerreiras, a região amazônica
foi explorada inicialmente pelos espanhóis, uma vez que seu território pertencia
integralmente à coroa castelhana, de acordo com os tratado de Tordesilhas. Mais
tarde foi ocupada pelos portugueses que subindo o emaranhado de seus rios, o
Amazonas e seus afluentes, foram plantando marcos e fundando vilas. Com o Tratado
de Madri, em 1750, que garantiu a Portugal o efetivo domínio dessa região, em 1751
a administração portuguesa dividiu seus domínios sul-americanos em dois estados
independentes entre si e diretamente subordinados a Lisboa: o estado do Grão Pará
e Maranhão, com capital na cidade de Belém do Pará e o estado do Brasil, com
capital no Rio de Janeiro. Em 1772, um novo desmembramento fez surgir o estado
do Grão Pará e do Rio Negro, mantendo a capital na cidade de Belém.
Com a instalação da família real portuguesa no Rio de Janeiro, em 1808, se
unificam os três estados então existentes, no Reino do Brasil, unido ao de Portugal
e Algarves. No entanto, com a independência do Brasil em 1822, os portugueses do
norte, Pará e Maranhão, não apenas as autoridades portuguesas que viviam na região,
mas boa parte da população que era lusitana, negam-se a obedecer às novas
autoridades, preferindo receber ordens diretamente de Lisboa, à qual estavam melhor
integrados. Foi necessária uma forte intervenção das tropas do Rio de Janeiro,

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derrotando o exército português e seus aliados locais, para que a região fosse
integrada de fato, não sem resistência nos anos seguintes, ao Império do Brasil.
Para contar esta história, Márcio Souza cria o personagem Fernando Simões
Correia, um paraense ilustrado, educado em Coimbra e conhecedor dos ideais da
Revolução Francesa. O relato da história de Fernando está dividido em três partes.
A primeira se ocupa dos acontecimentos ocorridos entre 1783 e 1810, época em que
estava em vigor o estado do Grão Pará e do Rio Negro. A segunda vai de 1810 a 1821
e praticamente coincide com a presença da família real portuguesa no Rio de Janeiro.
A última parte centraliza-se em 1823, com a atuação brutal das tropas brasileira na
cidade de Belém, cujo significativo título é “O trágico ano de 1823”.
Em sua descrição, o narrador traça com cores fortes o desenho das lutas
internas em Belém, cuja população dividia-se em três grupos diferentes: partidários
da integração ao Brasil; defensores da manutenção dos portugueses e um terceiro
grupo, ao qual pertence o protagonista, que prefere a criação de um novo país na
região amazônica. Desse modo, o romance soa anacronicamente como o relato de
uma utopia que pode ter sido e não se realizou.
O Grão Pará que o narrador apresenta no romance, e que o escritor costuma
defender em seus ensaios (SOUZA, 2004), é uma sociedade baseada na manufatura
de produtos locais e seu comércio com a Europa, resultado do projeto que o Marquês
de Pombal tentou implantar na região, na tentativa de integrá-la, bem como o reino
português, à primeira revolução industrial. Essa sociedade praticamente desconhecia
o trabalho escravo, o latifúndio ou a monocultura, as grandes máculas que o narrador
atribui à sociedade do Império do Brasil. Predominavam, além de pequenos
proprietários; coletores de matérias primas da selva amazônica, a borracha e as
famosas drogas do sertão; manufatureiros, transformadores dessa matéria prima;
trabalhadores de estaleiros para construção de barcos; e, sobretudo, as atividades
comerciais. O narrador trata de pintar, com cores suaves, um quadro que reproduz
uma sociedade feliz que é abruptamente desequilibrada com a chegada dos
“mercenários” a serviço do Império Brasileiro, dispostos a transformar a região em
uma espécie de periferia degradada à margem do Império.
O chefe das tropas brasileiras é um mercenário inglês, dos muitos contratados
pelo novo império para suprir a existência de um exército regular, o marinheiro
John Grenfell (1800-1869), famoso pela violência com que resolvia os problemas.
Os massacres perpetrados em Belém ficaram na memória histórica local, embora
seja um capítulo esquecido da história do Brasil. O mais importante desses
acontecimentos que passou à história como “o massacre do Brigue Palhaço”, conta
como 252 paraenses, principalmente negros, caboclos e indígenas, foram jogados

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no porão do referido barco, onde morreram sufocados, sem a menor piedade por
parte do almirante inglês. Trata-se de um dos episódios mais impressionantes do
romance, contra o qual o protagonista e seus amigos nada puderam fazer.
Ao lado de personagens ficcionais, como Fernando, ou sua amada, a francesa
Simone, surgem personagens históricos imortalizados nos turbulentos tempos da
“Adesão do Pará” ao Brasil. Entre os personagens históricos, o mais importante é
sem dúvida o Cônego Batista Campos (1782-1834), que na narrativa é amigo de
Fernando. Esse religioso jacobino era um árduo defensor da liberdade da região, a
quem o sanguinário Grenfell amarra à boca de um canhão, do qual só escapa pela
interferência das autoridades locais. Esse fato, que é histórico, aparece reconstruído
no romance com tanto realismo que o leitor menos versado na história da região,
poderia pensar tratar-se de pura ficção.
As ideias revolucionárias importadas da França entraram no Pará mais que
pelo contato direto da elite ilustrada que estudava na Europa, pela Guiana Francesa,
região ocupada pelos portugueses, e seus sócios brasileiros, como represália à
invasão de Portugal por Napoleão. O exército luso ocupou Caiena entre 1809 e 1817
e na ficção de Márcio Souza Fernando faz parte das tropas de ocupação. Ali ele
conhece o Agente do Diretório Revolucionário Francês, Victor Hughes (1762-1826),
que tinha aparecido como um dos protagonistas do romance El siglo de la luces, de
1962, de Alejo Carpentier, um dos fundadores do novo romance histórico hispano-
americano. Disso de aproveita o escritor amazonense, prestando uma espécie de
homenagem intertextual ao célebre escritor cubano, ao fazer com que Fernando
conheça Simone, a filha de um certo Dr. Carpentier, médico francês, pela qual ele se
apaixona e com quem estabelece interessantes diálogos em que discutem a situação
política do momento.
Os brasileiros finalmente vencem os conflitos do Pará de 1823 e instalam no
poder o representante do Imperador Pedro I. A situação, no entanto, era tensa e não
se resolveu. Uma década mais tarde, entre 1835 e 1840, explode na região uma forte
rebelião popular, que se transforma numa feroz guerra civil, conhecida como
Cabanagem, consequência da desintegração econômica da região, causada pela
integração ao Brasil. Novamente o Rio de Janeiro intervém violentamente, dizimando
quase um quarto da população da região, de acordo com os historiadores locais.
Esse novo acontecimento, no entanto, será o núcleo central do segundo romance da
tetralogia de Márcio Souza, uma vez que Fernando, o protagonista de Lealdade
tinha morrido no conflito anterior.

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MULHERES, NEGROS E MULATOS NA REVOLUÇÃO FARROUPILHA OU DE COMO


ANITA CONHECE GARIBALDI E VAI COM ELE PARA A ITÁLIA

O extremo sul do território brasileiro tinha sido durante todo o período


colonial palco de um a série de conflitos na infrutífera tarefa de fixar as fronteiras
entre os “castelhanos” e os portugueses. Trata-se de um território que, também
originalmente domínio dos espanhóis de acordo com as fronteiras de Tordesilhas,
teve fronteiras marcadas e remarcadas em várias ocasiões, criando na pouca população
local uma grande incerteza com relação a que autoridades deveriam obedecer de
acordo com o momento histórico. A região apenas passaria a integrar oficialmente
o domínio português a partir do Tradado de Madri, de 1750, consolidado pelo Tratado
de San Ildefonso, de 1777, assinado já depois da derrota dos guaranis das missões
jesuíticas, praticamente exterminados pelas tropas luso-espanholas em uma sangrenta
e pouco conhecida guerra que assolou a região entre 1750 e 1756.
Costuma-se dizer que os habitantes do atual estado do Rio Grande do Sul
foram fundidos pela força das armas e pelas constantes correrias entre os dois
lados de uma fronteira bastante móvel. Isso também fez com eles sempre olhassem
com extrema desconfiança as distantes autoridades do Rio de Janeiro, uma vez
implantado o Império do Brasil.
Entre 1835 e 1845, a região viveu a mais longa e sangrenta das guerras civis
do país: a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos. Se o conflito foi um
movimento separatista organizado pelos caudilhos locais ou se foi uma rebelião em
defesa dos interesses da liberdade econômica da região, tradicionalmente sempre
mais integrada ao mercado dos vizinhos do sul que à distante capital do Império,
depende da leitura que se faça. Há versões para todos os gostos, embora mais
recentemente historiadores, principalmente associados ao eixo hegemônico central
tendem a ler o movimento como defesa de interesses econômicos locais, sem real
intensão separatista. Do ponto de vista local, no entanto, o movimento criou todo
um imaginário que apontam para as diferenças com relações ao centro do país, não
escapando, inclusive de reduzidas leituras separatistas. Isso, no entanto, não elimina
a importância do movimento, nem muito menos diminui a violência e a perfídia,
cuja memória segue viva, plena de acontecimentos, ora marcados pelo heroísmo,
ora marcados pela desgraça e pelo sofrimento.
O italiano Giuseppe Garibaldi (1807-1882), futuro herói da guerra de
unificação de seu país, na época exiliado na região, teve uma participação na Guerra
dos Farrapos que costuma ser pintada com cores mais fortes do que em realidade
mereceria. Durante a ocupação de Laguna, no atual estado de Santa Catarina, com a

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criação da República Juliana (1836) aliada aos rebeldes gaúchos, o rebelde conheceu
uma jovem local que o acompanhou até o fim de seus dias e que passou à história
como a “heroína dos dois continentes”. Idealizada pelo marido em suas memórias,
dele ela herdou nome e fama. A obscura Ana Maria de Jesus, da qual pouco se
conhece antes de conhecer ao famoso italiano, passou à história como Anita Garibaldi
(1821?-1849) e entrou para a literatura como protagonista de uma série de romances
históricos, escritos nas varias línguas das regiões por onde passou: Brasil, Argentina,
Uruguai e Itália.
Assim, a jovem brasileira que seguiu o amado desde a pequena Laguna em
que vivia quando o conheceu, para ir morrer na distante Itália, sai das páginas da
história para ocupar o protagonismo em Anita, romance de Flávio Aguiar, publicado
em 1999. Na história de Anita, de seus amores com Garibaldi e da participação de
ambos na guerra dos esfarrapados gaúchos em defesa de uma república contra o
Império brasileiro, Flávio Aguiar se vale de um foco diferenciado. O narrador do
romance é um certo Costa, mulato alfabetizado e culto, que participa das mesmas
aventuras sempre ao lado do casal e, que tendo sobrevivido a ambos, rememora os
fatos em sua velhice.
Além do constante jogo metaficcional, uma vez que o que o leitor tem diante
dos olhos seriam as memórias apócrifas de Costa, a narrativa também se dedica a
discutir a história de Garibaldi e de sua participação nas guerras da região da bacia
do Prata, nelas incluída a Guerras dos Farrapos brasileiros. Discute, sobretudo, as
versões hegemônicas de várias histórias e, sobretudo o cânone literário brasileiro
do século XIX.
O fato de contar um período da história brasileira e do cânone literário
brasileiro sob o ponto de vista de um africano culto e alfabetizado, constitui-se
numa clara inversão. Também contribui nesse processo de descentralização o fato
de tratar de uma mulher analfabeta que abandonou um marido e seu país para seguir
o amado revolucionário. Trata-se, enfim de uma interessante inversão de focos, que
pode trazer uma revisão da história brasileira do século XIX. Nesse contexto, aparece
a Guerra dos Farrapos, cujos protagonistas, incluindo o celebrado Bento Gonçalves
(1788-1847) e os não menos heroicos David Canabarro (1796-1867) e o General
Neto (1803-1866), caudilhos do Rio Grande, são apeados de seus pedestais e
aparecem pintados com cores fortes, às vezes na grandiosidade de sua humanidade,
outras vezes na pequenez de atos sórdidos que costumam ser frequentes em uma
guerra.
Por outro lado, o romance conta os episódios da Revolução Farroupilha,
colocando o foco, não no revolucionário italiano, mas em uma mulher, oriunda de

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uma região periférica, para ser mais exato, da periferia da periferia, que é o que
representa Laguna, na primeira metade do século XIX, não já com relação a Paris, o
centro do mundo, mas com relação à própria Itália, então em processo de unificação,
ou mesmo em relação à capital do Império Brasileiro, a provinciana cidade do Rio
de Janeiro.
Da mesma, outra categoria de ex-cêntricos ocupa o centro do romance: negros
e mulatos. Anita, no romance aprende a ler pelas mãos de Costa, o mulato alfabetizado.
No exército farroupilha, o romance dá destaque ao “Corpo de Lanceiros Negros”,
comandado pelo abolicionista Teixeira Nunes (1802-1844), formado em sua maioria
por negros e mulatos que lutavam por sua liberdade e por uma sociedade mais
igualitária. Da mesma forma, o romance dá certo protagonismo para as “soldadeiras”,
essas mulheres que acompanhavam seus companheiros durante as marchas e as
batalhas e que eram praticamente responsáveis por boa parte da logística, quando
não lhes tocava também pegar em armas.
Enfim, o romance de Flávio Aguiar cumpre aquilo que Linda Hutcheon (1991)
aponta como uma das marcas da pós-modernidade, em especial da metaficção
historiográfica: o herói tradicional é desalojado de seu pedestal e o protagonismo
passa para os antes marginalizados, figuras periféricas da historia hegemônica que
abandonam sua posição ex-cêntrica para ocupar o centro da história.
Isso se faz com relação a um acontecimento histórico que costuma ser tratado
pela história, tanto pela história hegemônica da capital da nação, o Rio de Janeiro,
mas especialmente pela história do Rio Grande do Sul, com fortes traços épicos. O
contexto local costuma exaltar de modo exagerado os heróis gaúchos, uma espécie
de centauros da pampa, símbolo máximo do machismo e do patriarcalismo branco.
No contexto nacional, não se pode esquecer que o vencedor dos farroupilhas é o
futuro duque de Caxias, profissional em derrotar insurreições ao longo do Império,
que mais tarde será o patrono do exército nacional. Na galeria desses personagens,
quase sempre duplamente montados, em seus cavalos e em seus altos pedestais,
não havia lugar nem para os lanceiros negros do major Teixeira Nunes, nem para as
soldadeiras que acompanhavam seus homens pelos campos de batalha.

A MODO DE CONCLUSÃO

Nas últimas décadas pode-se constatar, em várias literaturas, por diferentes


motivos, a proliferação de romances que, de alguma forma, trazem fatos e personagens
históricos para o centro de suas ações. Trata-se de uma tendência universal que, no

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entanto, tem especial relevância nas literaturas latino-americanas dentre as quais a


brasileira.
Independente de se poder traçar uma genealogia para esse tipo de romance,
buscando suas origens no romance histórico do século XIX, como fazem muitos
estudiosos da questão; ou de circunscrever o fenômeno diretamente na pós-
modernidade, usando o conceito de metaficção historiográfica de Linda Hutcheon
(1991), não se pode negar a importância dessa releitura da historia proposta pelo
romance. Da mesma forma, tem pouca relevância classificar esse tipo de narrativa
em variadas subcategorias, como “romance histórico”; “novo romance histórico”;
“narrativa histórica” ou “ficção histórica”, entre outras. Por ser mais abrangente,
usamos a designação geral “romance histórico”, acrescida do modificador
“contemporâneo”, para localizá-la em relação o momento em que fala. De certo
modo, esse qualificativo também serve para sinalizar que essa modalidade de
romance histórico, mesmo quando ainda se valha de certas características que já
lhe eram pertinente quando do surgimento do gênero, ainda durante a vigência do
romantismo das primeiras décadas do século XIX, o faz em outro momento histórico,
outro contexto, nos quais nem o conceito de histórica, por mais factual que seja,
nem o romance, por mais preso à realidade que esteja, já não são os mesmos.
Escritores da segunda metade do século XX, por mais que pretendam, por
sua particular visão de história e por suas crenças com relação ao papel da literatura,
dirigir a leitura de suas obras, são conscientes do caráter pouco efetivo desse
desejo. Em tempos de pós-modernidade, de pós-estruturalismo, de
desconstrutivismo, e de uma quase predominância do elemento cultural em geral
sobre o estritamente literário, não se pode prescindir da liberdade que ampara o
leitor. Mesmo em obras nas quais o narrador (e eventualmente o autor, que pode
fazer daquele uma espécie de alter ego de si mesmo) pretenda direcionar a leitura,
não se pode ignorar o caráter polifônico, não apenas do romance em si, mas do
próprio discurso. O pacto de leitura, enfim, acaba predominando e dessa negociação,
necessária e enriquecedora, entre o texto (e por trás dele seu eventual emissor),
plurissignificativo sempre, e o olhar do leitor, no qual interferem sua experiência e
o universo em que está inserido, acaba resultando a significação do texto literário.
As histórias de que tratam os romances brevemente comentados, no bojo de
suas contradições, indicam caminhos possíveis através dos quais os leitores podem
reescrever a história do país. Expondo as fraturas dos discursos hegemônicos pela
ação da paródia, da carnavalização e dos diálogos intertextuais assentados na ironia,
os narradores põem por terra as máscaras do caricato discurso patrioteiro. Fazem
descer os heróis de seus altos pedestais vazios, aos quais tinham sido elevados

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pelos guindastes das classes dominantes como forma de garantir com mais facilidade
o controle da população em geral.
O significado da cultura brasileira surge assim dos interstícios dessas leituras,
que translada o valor para heróis anônimos, surgidos do sofrimento e da opressão.
São os ex-cêntricos, verdadeiros heróis que construíram esse país heterogêneo e
mestiço que é o Brasil. Pode parecer uma leitura ingênua e utópica, dirigida de
modo monofônico. Entretanto, no complexo tecido narrativo sempre surgem fissuras
que estilhaçam as verdades monolíticas, instaurando, em seu lugar, verdades
individuais através das quais os brasileiros podem encontrar uma identidade possível,
uma identidade cambiante e móvel, é bem verdade, mas que servem para elucidar
suas dúvidas momentâneas. E que, principalmente, mantenha viva a chama da
memória, espantando para longe o fantasma do esquecimento.
Ao fazer o leitor penetrar no mundo fantástico da ficção que recria o passado,
estes romances tentam indicar caminhos que não devem ser trilhados, ou caminhos
que podem ser trilhados, sugerindo por exclusão as opções mais plausíveis para se
chegar a um mundo utópico onde não haja a exploração do homem pelo homem. E
mesmo que o leitor prefira não seguir por essas sendas, ao regressar da viagem pelo
mundo da fantasia, estará mais preparado para suportar a realidade que o cerca e
quase nunca se aproxima de seus desejos. Melhor preparado, ele poderá, de modo
mais consciente, escolher qualquer outro caminho. Até mesmo começar a trabalhar
para a mudança dessa realidade com a qual não está de acordo.

NOTAS

* Professor Livre Docente da FCL-UNESP-ASSIS, onde atua nos Cursos de Graduação e Pós-
Graduação em Letras.

REFERÊNCIAS

AGUIAR, Flavio. Anita. São Paulo: Boitempo, 1999.


BAKHTIN, MIKHAIL. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. Trad. Yara F. Vieira, São
Paulo: HUCITEC, 1987.
ESTEVES, Antônio R. O romance histórico brasileiro contemporâneo (1975-2000). São Paulo: Ed.
UNESP, 2010.
HUTCHEON, Linda. Poética do pós-moderninsmo. Trad. R. Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. Rio de Janeiro: Record; Altaya, [s.d.].

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2010: Reflexões sobre o bicentenário
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MILTON, Heloisa Costa. O romance histórico e a invenção dos signos da história. In CUNHA, E.
L.; SOUZA, E. M. de (Orgs.). Literatura comparada: ensaios. Salvador: EDUFBA, 1996.
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 2004.
SOUZA, Márcio. Lealdade. São Paulo: Marco Zero, 1997.
SOUZA, Márcio. A literatura na Amazônia: as letras na pátria dos mitos. Coluna Literatura. 2004.
Em http://www.marciosouza.com.br/interna.php?nomeArquivo=coluna_literatura. Acesso 26 nov
2010.

Data de recebimento: 08/07/2010


Data de aceite para a publicação: 28/10/2010.

SOBRE O AUTOR:

Antônio Roberto ESTEVES é Mestre em Letras (Literatura Brasileira, IBILCE-UNESP-


S. J. RIO PRETO, 1990); Doutor em Letras (Literaturas de Língua Espanhola, USP,
1995) e Livre-Docente em Literatura Comparada (UNESP-ASSIS, 2006). Professor
da FCL-UNESP-ASSIS, onde atua nos Cursos de Graduação e Pós-Graduação em
Letras, dedica-se às Literaturas de Língua Espanhola, Literatura Comparada e Estudos
Culturais. Foi professor visitante entre 2002 e 2003 no Centro de Estudos Brasileiros
da Universidade de Salamanca, na Espanha. Tradutor e ensaísta, possui dezenas de
artigos publicados em vários países, em especial sobre as relações entre literatura
e história. Dentre seus livros se destaca O romance histórico brasileiro contemporâneo
(1975-2000) (São Paulo, Editora da UNESP, 2010).

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História e Memória EM EL OTOÑO DEL PATRIARCA
2010: Reflexões sobre o
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na América

ISSN 1809-5313
VOL. 6 - Nº 8 - 2010
U NIOESTE / CASCAVEL

P. 113-121

FIORUCI, Wellington R. (UTFPR – Universidade Tecnológica


Federal do Paraná)* tonfiorucci@hotmail.com

RESUMO: O presente artigo propõe-se a explorar, a partir de uma análise concisa, as relações
entre os discursos mítico e histórico no romance de Gabriel García Márquez El otoño del
patriarca (1975). A produção literária hispano-americana que aflorou no chamado movimento do
Boom editorial em meados da década de sessenta do século passado manteve intensa relação
com a história do continente americano. A memória do continente é reelaborada no espaço
inventivo do discurso ficcional, no cerne do qual o tempo mítico e o tempo histórico enfrentam-
se num tour de force plurissignificativo. De Colombo à presença norte-americana em terras
latinas, o romance reconstitui o passado por meio de uma linguagem simbólica, evocadora. Para
tanto, a narrativa inverte a perspectiva do colonizador, do discurso oficial, dando a palavra ora ao
ser autóctone, ora ao cidadão americano, mestiço, muitas vezes, asseclas a serviço do poder
estrangeiro. O relato polifônico é, assim, pluridimensionado, tendo como foco a figura atemporal
do patriarca, personagem sem nome que remete ao arquétipo do ditador latino-americano. O
escritor colombiano consegue em El otoño del patriarca conduzir com primor seus leitores pela
estranha realidade de um país tão mítico quanto seu ditador, realidade esta que vai se revelando
não menos absurda e complexa que a história sobre a qual ela se erige.

PALAVRAS-CHAVE: Gabriel García Márquez; El otoño del patriarca; América; história; ficção.

RESUMEN: El presente artículo se propone a explorar, a partir de un breve análisis, las relaciones
entre los discursos mítico e histórico en la novela de Gabriel García Márquez El otoño del
patriarca (1975). La producción literaria hispanoamericana que surgió con el llamado movimiento
del Boom editorial a mediados de la década de los sesenta del siglo pasado mantuvo intensa
relación con la historia del continente americano. La memoria del continente es reelaborada en
el espacio inventivo del discurso ficcional, en cuyo interior el tiempo mítico y el tiempo histórico
se enfrentan en un tour de force plurissignificativo. De Colón a la presencia norteamericana en
tierras latinas, la novela reconstituye el pasado por medio de un lenguaje simbólico, evocador.
Para eso, la narrativa invierte la perspectiva del colonizador, del discurso oficial, dando la palabra

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ora al ser autóctono, ora al ciudadano americano, mestizo, muchas veces, sectarios al servicio del
poder extranjero. El relato polifónico es, así, pluridimensionado, teniendo como foco la figura
atemporal del patriarca, personaje sin nombre que remite al arquetipo del dictador latinoamericano.
El escritor colombiano consigue en El otoño del patriarca conducir con maestría sus lectores por
la extraña realidad de un país tan mítico como su dictador, realidad ésta que se va revelando no
menos absurda y compleja que la historia sobre la cual ella se erige.

PALABRAS-CLAVE: Gabriel García Márquez; El otoño del patriarca; América; historia; ficción.
VE
ALABRAS-CLAVE

É certo, e já quase um lugar-comum, o fato de a produção literária do aclamado


escritor colombiano Gabriel García Márquez estar ligada à história do continente
americano. Com efeito, a forte presença de um discurso de base histórica em sua
narrativa atua como alicerce de construção do discurso poético, cuja tônica é a
releitura da história da América.
Ao abrir veios renovadores no diálogo entre os discursos histórico e ficcional,
o escritor torna fecundas, nos domínios do romance, as imagens construídas pelo
discurso da história. Para tanto, projeta tais imagens ao longo de seu universo
ficcional, inventando e recriando-as, contrariando, muitas vezes, a história oficial,
ao revelar-nos os bastiões de uma história excludente, pois, como afirma Leandro
Konder, “cabe à ficção inventar a verdade, denunciando a versão oficial como má
ficção” (1994, p.14)
Em El otoño del patriarca (1975), a história é componente deflagrador de um
processo criativo que prima pela invenção radical, no interior da linguagem artística,
dos ditos e entreditos da história. Ao aproximar o discurso histórico e o ficcional
García Márquez visa a eliminar o distanciamento consagrado pela leitura racionalista,
fonte de repúdio para o escritor conforme observa M. Meckled:

no hay entrevista suya en que no niegue o ataque, directa o indirectamente, el racionalismo.


Y cuando se le pregunta por qué a su juicio los franceses no se han entusiasmado tanto con
su obra como los lectores de otros países (incluyendo los norteamericanos), vuelve a
expresar su disgusto por los primeros ... diciendo que esto se debe a que los franceses, por
historia y tradición, son racionalistas, y que entre Descartes y Rabelais prefirieron quedarse
con Descartes. (MECKLED, 1985, p. 23)

A crítica veemente a esse racionalismo burguês que a sociedade de classes


europeia herdou da Ilustração e da Revolução Francesa, bem como toda forma de
consciência imposta pelo eufemismo ideológico da cultura ocidental cristã, ganha
mais intensidade no texto de El otoño del patriarca, justamente na alusão aos
torturadores franceses a serviço do ditador:

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no era cierto que los torturadores tuvieran sueldo de ministros como decían, al contrario,
se ofrecían gratis para demostrar que eran capaces de descuartizar a su madre y echarles
los pedazos a los puercos sin que se les notara en la voz, en lugar de cartas de recomendación
y certificados de buena conducta, ofrecían testimonios de antecedentes atroces para que
les dieran el empleo a las órdenes de los tortutadores franceses que son racionalistas mi
general, y por consiguiente son metódicos en la crueldad y refractarios a la compasión.
(GARCÍA MÁRQUEZ, 1996, p.232)

A referência declarada ao método dos torturadores franceses explica, valendo-


se de uma estratégia simbólica, o posicionamento do autor em relação ao racionalismo
ocidental. Além disso, o adjetivo metódicos que caracteriza os critérios de tortura
francês alude ao Discurso do Método (1637), obra expoente do racionalista francês
René Descartes. Tais aspectos reforçam o suposto irracionalismo latino-americano
defendido pelo escritor, que vai de encontro ao conclamado racionalismo europeu.
O escritor colombiano, de fato, recria a história, reinventa-a ao inscrevê-la
em um novo espaço, o âmbito poético, atemporal e dessacralizador por excelência.
É nesse espaço que o autor propicia a rediscussão do passado, tão salutar para a
compreensão do presente, ao articular narrativas ficcionais que primam pelos aspectos
de crítica e contestação.
El otoño del patriarca elabora a paródia das crônicas escritas sobre a América,
a começar pelos textos dos primeiros cronistas, como o próprio Colombo e seu
diário de navegação. No entanto, o romance vai além deste intertexto, evocando
simbolicamente toda a história do continente, desde os primórdios da conquista,
passando pela colonização e, por fim, chegando aos ditadores, que evocam a
contemporaneidade. Esse processo de recuperação da memória, porém, é conduzido
por uma narrativa que rompe com a consecução cronológica, fazendo com que
tenhamos, ao final, um grande mosaico histórico, simultaneamente descontínuo e
revelador de diversas temporalidades.
Neste sentido, vale lembrar que García Márquez considerou o texto histórico
de Colombo, os registros de seu diário de navegação, um dos primeiros textos
articulados sob os postulados do realismo mágico, como assinala o escritor em
entrevista a Michael Palencia-Roth, compilada por Alfonso Rentería Mantilla:

La llamada literatura mágica de América Latina, que es tal vez la literatura más realista del
mundo, está circunscrita a un área cultural muy concreta, el Caribe y Brasil. Se piensa que
su carga mágica se debe al elemento negro. Pero en realidad es anterior. La primera obra
maestra de la literatura mágica es el “Diario de Cristóbal Colón”. Y ya estaba tan contaminado
de la magia del Caribe que la propia historia del libro es inverosímil. (GARCÍA MÁRQUEZ,
Apud MANTILLA, 1979, p. 196)

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O escritor colombiano ressalta em sua abordagem do texto de Colombo a


intersecção entre o discurso histórico e o ficcional, viés fundamental para a análise
de sua poética, pedra angular do romance histórico contemporâneo. O navegador
genovês surge assim como elo entre o passado mítico, a invenção da América
perpetrada pela mente fantasiosa destes primeiros cronistas, e a história posterior
do continente, herdeira desta imaginação fundadora. O fragmento abaixo demonstra
a intertextualidade revista pela linguagem paródica do autor:

y por fin encontró quién le contara la verdad, mi general, que habían llegado unos forasteros
que parloteaban en lengua ladina pues no decían el mar sino la mar y llamaban papagayos
a las guacamayas, almadías a los cayucos y azagayas a los arpones, y que habiendo visto que
salíamos a recibirlos nadando entorno de sus naves se encarapitaron en los palos de la
arboladura y se gritaban unos a otros que mirad qué bien hechos, de muy fermosos cuerpos
y muy buenas caras, y los cabellos gruesos y casi como sedas de caballos, y habiendo visto
que estábamos pintados para no despellejarnos con el sol se alborotaron como cotorras
mojadas [...] (GARCÍA MÁRQUEZ, 1996, p. 44-45)

Este fragmento dialoga diretamente com o registro histórico impresso no


Diário de bordo do navegador a serviço da coroa espanhola, conforme pode-se
comprovar na comparação com o original:

Todos los que vi eran [...] muy bien hechos, de muy fermosos cuerpos y muy buenas caras
[...] y todos de buena estatura, gente muy fermosa, los cabellos no crespos, salvo corredíos
y gruesos como sedas de cavallo, y todos de la frente y cabeça muy ancha [...] y los ojos muy
fermosos y no pequeños [...]. (VARELA, 1986, p. 110-111).

A literatura apodera-se do discurso histórico e o subverte ao inseri-lo no


espaço dessacralizador do discurso poético. Portanto, valendo-se desta abordagem,
Colombo revela-se peça-chave do romance, como mais tarde acontecerá em El general
en su laberinto (1989):

Era una noche de vastos silencios, como en los estuarios colosales de los Llanos, cuya
resonancia permitía escuchar conversaciones íntimas a varias leguas de distancia. Cristóbal
Colón había vivido un instante como ése, y había escrito en su diario: ‘Toda la noche sentí
pasar las aves’. Pues la tierra estaba próxima al cabo de sesenta y nueve días de navegación.
También el general las sintió Empezaron a pasar como a las ocho, mientras Carreño
dormía, y una hora después había tantas sobre su cabeza, que el viento de las alas era más
fuerte que el viento ... ‘¡Dios de los pobres!,’ suspiró el general. ‘Estamos llegando’. Y así
era. Pues ahí estaba el mar, y del otro lado del mar estaba el mundo. (GARCÍA MÁRQUEZ,
1989, p.137)

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Embora Colombo não seja figura central em nenhum dos romances de García
Márquez, ao contrário do que acontece em inúmeros outros ao longo do século XX
na literatura hispano-americana1 , sua presença aponta para os eventos relacionados
à conquista. Certamente Colombo é um dos personagens mais intermitentes na obra
do escritor colombiano, que jamais fez questão de negar-lhe seu repúdio, conforme
declarou a Plinio Apuleyo Mendoza. Quando indagado sobre o personagem histórico
que mais detestava, não hesitou: “Cristóbal Colón. Además tenía la ‘pava’” (GARCÍA
MÁRQUEZ, 1982, p. 173).
O excerto supracitado de El otoño del patriarca, no qual Colombo figura
como personagem-símbolo, recria o encontro entre as civilizações europeia e
americana, com destaque para a linguagem irônica e polifônica, que por sua vez
configura a paródia da descoberta da América “querían cambiar a uno de nosotros
por un jubón de terciopelo para mostrarnos en las Europas, imagínese usted mi
general, qué despelote [...]” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1996, p. 45).
Inverte-se a posição do discurso oficial, escrito sob a visão dos
conquistadores, e abre-se espaço para a visão dos conquistados, detentores da
narração, cuja essência encontra-se na multiplicidade e na ironia do discurso. Segundo
vemos, o estrangeiro é visto pelos povos autóctones com humor e uma acentuada
crítica observada no uso de uma língua estranha “parloteaban en lengua ladina” e
um comportamento descrito com tom irônico e humorístico “se alborotaron como
cotorras mojadas”.
As diversas vozes narradoras apontam a inadequação linguística dos europeus
“no decían el mar sino la mar”, bem como a insuficência lexical para nomear a
riqueza do mundo novo “llamaban papagayos a las guacamayas, almadías a los
cayucos y azagayas a los arpones”.
Abre-se espaço para um discurso contestador, sustentado por uma consciência
crítica, ausente do ponto de vista dos textos históricos oficiais, nos quais os nativos
foram retratados como selvagens e qualificados de acordo com a seguinte tríade:
sem alma, nem rei, nem lei. Essa consciência crítica aflora na sequência:

[…] y nos cambiaban todo lo que teníamos por estos bonetes colorados y estas sartas de
pepitas de vidrio que nos colgábamos en el pescuezo por hacerles gracia, y también por
estas sonajas de latón de las que valen un maravedí y por bacinetas y espejuelos y otras
mercerías de Flandes, de las más baratas mi general [...] (GARCÍA MÁRQUEZ, 1996,
p.45)

Em vez de aceitarem a troca de presentes com entusiasmo e ingenuidade, os


nativos demonstram desprezo pelos objetos, cujo valor insignificante eles

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decididamente conhecem “sonajas de latón de las que valen un maravedí y por


bacinetas y espejuelos y otras mercerías de Flandes, de las más baratas”. Além
disso, vale a pena destacar o processo narrativo, que prolifera vertiginosamente,
concatenando as idéias por meio de repetidas conjunções aditivas, que acabam por
sugerir uma multiplicidade de vozes narrativas, ao contrário de um possível narrador
unívoco e autoritário.

Tal procedimento é reflexo de um discurso crítico e polifônico, em detrimento de uma


visão flagrante nos discursos da conquista. Na sequência, a narrativa ganha mais ironia à
medida que a inversão paródica se acentua: “[…] y como vimos que eran buenos servidores
y de buen ingenio nos los fuimos llevando hacia la playa sin que se dieran cuenta, pero la
vaina fue que entre el cámbieme esto por aquello y le cambio esto por esto otro se formó
un cambalache de la puta madre [...]” (GARCÍA MÁRQUEZ, 1996, p. 45).

Os estrangeiros são, então, conduzidos pelos povos nativos “sin que se dieran
cuenta”, isto é, não são mais os invasores que conduzem e enganam; estes obtêm
outro papel no processo de encontro das civilizações: são inseridos e absorvidos
pela cultura americana. Inversamente aos relatos canônicos, predomina no texto
ficcional a ótica dos nativos, perceptível na descrição dos estrangeiros como “buenos
servidores y de buen ingenio” e na linguagem que caracteriza o relato, marcada pelo
tom oralizante de sintagmas como “puta madre”, e a preferência pelo estilo direto,
sem pontuação, que realça a ironia e a crítica ao dar voz livre aos personagens
nativos.
O desfecho do primeiro capítulo culmina com a mudança da voz narrativa,
que enfoca o posicionamento do patriarca em relação à chegada do homem branco e
a descrição dessa pelos nativos:

Pero él estaba tan confundido que no acertó a comprender si aquel asunto de lunáticos era
de la incumbencia de su gobierno, de modo que volvió al dormitorio, abrió la ventana del
mar por si acaso descubría una luz nueva para entender el embrollo que le habían contado,
y vio el acorazado de siempre que los infantes de marina habían abandonado en el muelle,
y más allá del acorazado, fondeadas en el mar tenebroso, vio las tres carabelas. (GARCÍA
MÁRQUEZ, 1996, p. 45-6)

A crítica agora se torna mais ampla e veemente, atingindo os alicerces do


poder no continente ao revelar um descaso para com a interferência estrangeira,
sintoma de uma conivência entre os bastiões do poder no qual está implicado o
patriarca. A ideia confirma-se com a visão simbólica do patriarca, ao final, de “los

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infantes de marina” e “las tres carabelas”, juntando em uma intertextualidade


anacrônica as potências que dominaram a América no passado e a que o faz
atualmente, respectivamente os países ibéricos (Portugal e Espanha) e os Estados
Unidos. Nesse amálgama temporal funde-se, com a visão que o patriarca tem do
mar, a história do presente à do passado.
Por esse motivo torna-se tão relevante a presença de “las tres carabelas”,
remissão ao almirante genovês e sua descoberta, que representam o germe das
ditaduras que assolaram praticamente todo o território americano e cujo ciclo
histórico, opina ainda García Márquez “está lejos de ser concluido” (GARCÍA
MÁRQUEZ, 1982, p. 125).
Colombo representa a origem do mundo americano, o espírito aventureiro
por antonomásia, e inicia a construção histórica do continente, bem como sua
introdução no contexto renascentista da Europa. Segundo Michael Palencia-Roth
“él es el gran patriarca americano y, por tanto, la primera piedra sobre la que se
construye el monumental edificio de la tiranía” (PALENCIA-ROTH, Apud CAMACHO,
1997, p.175).
Ainda segundo Palencia-Roth, em comentário a aparição de Colombo em El
otoño del patriarca, ao final do primeiro capítulo, seja tanto na forma de texto como
de personagem histórico “[...] se introduce el episodio por medio de la técnica del
eterno retorno: el patriarca ‘evocó otra vez y vivió de nuevo’. En la concepción
mítica del mundo, todo se puede vivir de nuevo, y los hechos históricos que se
repiten llegan a ser mitos históricos” (PALENCIA-ROTH, 1983, p. 194).
Pode-se dizer grossu modo que a história latino-americana se inscreve sobre
as agruras do poder em todas as suas manifestações: política, militar ou econômica.
A presença singular do discurso do poder remete a uma história em grande parte
escrita sob a visão usurpadora de falsos “dias de glória”, cuja aparente verdade foi
se diluindo progressivamente entre lampejos de filosofia e modernidade. Essas
tentativas infrutíferas de impor uma cultura por meio das “armas” e do “evangelho”
revelam um processo transculturador que se defronta ao antagonismo de forças
ancorado no binômio homem e espaço.
Em El otoño del patriarca a narrativa constrói sua significação a partir da
alegorização do processo histórico, um testamento do percurso histórico da América
obtido em função de uma linguagem que se revela, nas palavras do próprio autor:
“representación cifrada de la realidad, una especie de advinanza del mundo [...] La
vida cotidiana en América Latina nos demuestra que la realidad está llena de cosas
extraordinarias” (Apud GONZÁLEZ BERMEJO, 1982, p. 258).

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Os supostos “dias de glória” são alegorizados de maneira que sintetizam


todo um processo histórico desvelando-nos uma “história não contada” sobre o
continente americano. Quando iniciamos a leitura de El otoño del patriarca penetramos
em um tempo erigido por uma memória que vai além da desmemória histórica, o
tempo mítico, cuja mecânica consiste na refiguração dessa memória a partir da sua
mola propulsora, a ficção narrativa: “Fue como penetrar en el ámbito de otra época,
porque el aire era más tenue en los pozos de escombros de la vasta guarida del
poder, y el silencio era más antiguo, y las cosas eran arduamente visibles en la luz
decrépita”. (GARCÍA MÁRQUEZ, 1996, p. 5).
O “eu” do relato, na verdade uma das tantas vozes do romance polifônico,
confirma-nos a presença de um espaço atemporal, imemorial, no qual se vê: “el
tiempo estancado en el interior, y en la madrugada del lunes la ciudad despertó de
su letargo de siglos con una tibia brisa de muerto grande y de podrida grandeza”.
(GARCÍA MÁRQUEZ, 1996, p. 5) ecoando imagens de um passado soterrado pelos
“escombros de la vasta guarida del poder” onde “el silencio era más antiguo”. A
alegoria, no entanto, reside na possibilidade de vislumbrar esse passado reconstruído,
já que apesar de tudo “las cosas eran arduamente visibles en la luz decrépita”.
Trata-se de uma alusão de forte cunho crítico à possibilidade de se rever o
passado antes encoberto por sombras, que foram se instalando ao longo de todo
uma história marcada pelo discurso falseador do poder. As luzes da manhã remetem
às novas imagens que são projetadas através da narração criadora, cabendo ao leitor
a tarefa de reorganizá-las.
El otoño del patriarca promove, como pôde-se depreender desta breve análise,
uma incursão pela história da América, relendo-a, reinventando-a e projetando sobre
ela imagens diversas e multissignificativas. García Márquez, desde sua obra de
estreia, La hojarasca (1955), debruçou-se sobre a complexa realidade americana,
bem como a maioria de seus companheiros do chamado boom da literatura hispano-
americana o fizeram.
Compondo um jogo temporal elástico na estrutura do romance, o escritor
redimensiona o passado e lança sobre ele novas possibilidades de leitura, em um
processo contínuo de desconstrução e reconstrução. A reflexão que se concretiza,
viabilizada pela linguagem poética, é alcançada, em grande parte, pelo recurso à
paródia, levando o leitor a um processo crítico de ressemantização do passado.

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NOTAS

* Professor de literatura da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) - Campus


Pato Branco, possui doutorado em literatura comparada pela UNESP (Universidade Esta-
dual Paulista Júlio de Mesquita Filho) - Campus de Assis.
1 Um estudo de fôlego publicado em livro em 2005 pelo polonês £ukasz Grützmacher rastreou
romances de língua espanhola publicados no último quartel do século XX que traziam
Cristóval Colombo como protagonista.

REFERÊNCIAS

CAMACHO, José Manuel Delgado. Césares, tiranos y santos en el otoño del patriarca: La falsa
biografía del guerrero. Sevilla: Diputación de Sevilla, 1997.
VARELA, Consuelo. Cristóbal Colón: los cuatro viajes. Testamento. Madrid: Alianza, 1986.
GRÜTZMACHER, £ukasz. ¿El descubridor descubierto o inventado? Cristóbal Colón como
protagonista de la novela histórica española e hispanoamericana de los últimos 25 años del siglo
XX. Varsovia: Instituto de Estudios Ibéricos e Iberoamericanos da Universidade de Varsovia, 2005.
GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. El olor de la guayaba – Conversaciones con Plinio Apuleyo Mendoza.
Barcelona: Bruguera, 1982.
GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. El otoño del patriarca. Buenos Aires: Sudamericana, 1975.
GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. El general en su laberinto. Bogotá: Editorial Oveja Negra, 1989.
GONZÁLEZ BERMEJO, E. “García Márquez: ahora doscientos años de soledad”, In: Gabriel
García Márquez. Madrid: Taurus, 1982.
MECKLED, Morkos. “García Márquez, el patriarca, el extranjero y la historia”, In: Cuadernos
Hispanoamericanos, 419, Madrid (mayo 1985), p.5-23.
PALENCIA-ROTH, Michael. Gabriel García Márquez: La línea, el círculo y las metamorfosis del
mito. Madrid: Gredos, 1983.

Data de recebimento: 29/08/2010


Data de aceite para a publicação: 26/10/2010.

SOBRE O AUTOR:

Wellington Ricardo Fioruci possui graduação (1997), mestrado (2002) e


doutorado (2007) em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita
Filho (UNESP-Assis) na área de Literatura Comparada. Atualmente é professor de
literatura no curso de Letras da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus
Pato Branco. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Comparada,
atuando principalmente nos seguintes temas: pós-modernismo, cinema, teoria
literária, literatura estrangeira, discurso paródico e discurso ficcional.

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Revista de Literatura, NOVELAS SOCIALIZADORAS
História e Memória PARA EDUCAR AL SOBERANO
2010: Reflexões sobre o
bicentenário de independências
na América

ISSN 1809-5313
VOL. 6 - Nº 8 - 2010
U NIOESTE / CASCAVEL
MOLINA, Hebe Beatriz (UNCuyo-CONICET)1
P. 123-138 hebemol@logos.uncu.edu.ar

RESUMO: Os jovens da Geração argentina de 1837, liderados por Esteban Echeverría, propõem-
se a conseguir a independência cultural, o que implica na argentinização das práticas sociais,
entre outros fatores. No âmbito literário, primeiro procuram fazê-lo por meio do artigo de
costumes; logo após, pelo romance. Os próprios autores (principalmente Vicente Fidel López,
Bartolomé Mitre y Ángel Julio Blanco) justificam sua escolha do gênero romanesco como instru-
mento formativo, propondo uma teoria literária básica, segundo a qual a moralidade e a verossi-
milhança são características essenciais de todo romance, tanto o histórico como o sentimental e
o de costumes. Para que o relato ficcional se converta em modelo de vida, os romancistas
pretendem que seus textos sejam um “espelho” no qual se reflita a sociedade tal qual é, mas este
espelho não é plano (objetivo e verídico), porém côncavo pois, mesmo quando mostra a realidade
com certo realismo, é subjetivo e idealizador. Neste artigo revisaremos a poética do romance que
configura estes escritores, particulamente no que se refere ao modo como o discurso romanesco
“reflete” a sociedade e propõe a axiologia ideal que deveria regular as prácticas sociais da nova
nação.

PALAVRAS-CHAVE: Romance argentino; romance de costumes; Vicente Fidel López; Bartolomé


Mitre; Ángel Julio Blanco.

RESUMEN: Los jóvenes de la Generación argentina de 1837, liderados por Esteban Echeverría, se
proponen alcanzar la independencia cultural, lo que implica la argentinización de las prácticas
sociales, entre otros factores. En el ámbito literario, primero intentan hacerlo por medio del
artículo de costumbres; luego, a través de la novela. Los propios autores (principalmente Vicente
Fidel López, Bartolomé Mitre y Ángel Julio Blanco) justifican su elección del género novelesco
como instrumento formativo proponiendo una teoría literaria básica, según la cual la moralidad y
la verosimilitud son los rasgos esenciales de toda novela, tanto la histórica como la sentimental
y la costumbrista. Para que el relato ficcional se convierta en modelo de vida, los novelistas
pretenden que sus textos sean un “espejo” en el que se refleje la sociedad tal cual es, pero este
espejo no es plano (objetivo y veraz) sino cóncavo pues, aun cuando muestra la realidad con
cierto realismo, es subjetivo e idealizador. En este artículo revisaremos la poética de la novela
que configuran estos escritores, particulamente en lo relativo al modo en que el discurso nove-

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lesco “refleja” la sociedad y propone la axiología ideal que debería regular las prácticas sociales de
la nueva nación.

PALABRAS CLACLAVESVES
VES: novela argentina; novela de costumbres; Vicente Fidel López; Bartolomé
Mitre; Ángel Julio Blanco.

Esteban Echeverría, cuando expone las “Palabras simbólicas” del Dogma


socialista, texto emblemático de la Generación de 1837, realiza un somero pero
terminante diagnóstico: “Somos independientes, pero no somos libres. Los brazos
de España no nos oprimen; pero sus tradiciones nos abruman” (1972, p. 148). También
indica el remedio: “Un orden político nuevo exige nuevos elementos para constituirlo.
Las costumbres de una sociedad fundada sobre la desigualdad de clases, jamás
podrán fraternizar con los principios de igualdad democrática” (1972, p. 146). El
maestro de la Joven Generación Argentina propone entonces a sus discípulos concebir
la política como un medio para difundir la educación y así, por medio de ésta y de
una literatura con identidad propia, “crear un proyecto de cultura nacional” (PÉREZ,
2002, p. 13). La ecuación es clara: para una sociedad nueva, nuevas costumbres; es
decir, para una sociedad argentina, costumbres argentinas; para cambiar las
costumbres hacen falta escritores que con la palabra corrijan las prácticas coloniales
y muestren el camino para la transformación social. La literatura “socialista” o
“progresista”, como ellos mismos la denominan, debe estar al servicio de ese proyecto
civilizador.
Uno de los nudos problemáticos que se les presenta en torno a ese programa
políticocultural radica en la elección del tipo textual más adecuado para transmitir
tales ideas y para lograr convencer al mayor número posible de ciudadanos. En la
“Ojeada retrospectiva sobre el movimiento intelectual en el Plata desde el año 37”,
Echeverría juzga que el artículo de costumbre al estilo de Larra es la forma literaria
“tal vez más eficaz y provechosa en estos países” hispanoamericanos (1972, p. 84).
El periodismo – gracias a las mejoras tecnológicas introducidas en las imprentas –
se expande con rapidez y llega a más hogares que el libro. La incorporación del
folletín, que –si bien puede incluir diversas clases de textos literarios – se especializa
en la novela, ensancha la curiosidad del lector y también amplía el espectro de los
destinatarios al interesar también a las mujeres. En consecuencia, las mejores
alternativas que se presentan, las más accesibles para promover un cambio rápido
en las prácticas sociales, son el artículo de costumbres y la novela, ambos en auge.
Esa labor educativa, sin embargo, no será muy fácil para los escritores debido
sobre todo a las características propias de esos tipos discursivos, muy cuestionados
por aquel entonces, incluso por los mismos autores. No obstante, particularmente

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la novela se impondrá como medio formativo gracias a la fundamentación teórica


que los propios novelistas expondrán en defensa del género. En estos debates, que
alcanzan difusión pública, se destacan algunos autores ahora reconocidos – como
Bartolomé Mitre y Vicente Fidel López – y otros ya olvidados – Ángel Julio Blanco
y Heraclio Fajardo – pero que también han contribuido a la aceptación social de
este tipo literario y, por consiguiente, a su afianzamiento como medio predilecto
para la argentinización de las costumbres.
En este artículo revisaremos la poética de la novela que configuran estos
autores, particulamente en lo relativo al modo en que el discurso narrativo ficcional
“refleja” la sociedad y propone la axiología ideal que debería regular las prácticas
sociales de la nueva nación.

DEL ARTÍCULO DE COSTUMBRES A LA NOVELA

En las letras argentinas el artículo costumbrista ha proliferado desde el primer


periódico, El Telégrafo Mercantil (1801) (VERDEVOYE, 2002, p. 154). Echeverría
mismo publica uno – “Apología del matambre” – en El Recopilador de Buenos Aires
y en El Republicano de Montevideo durante mayo de 1836. Según demuestra Beatriz
Curia, “[e]n el matambre, manjar de neto origen argentino, condensa Echeverría
varios rasgos de lo que podría llamarse nuestra identidad” (2006, p. 83).
Como tipo textual específico, el artículo de costumbres señala las lacras
sociales con el dedo acusador de un narrador crítico y ácido. El objetivo del ataque
es cualquier persona o situación de la vida cotidiana; por lo tanto, establece una
división social tajante entre los acusados –los otros, el ciudadano común – y el
acusador – el intelectual –, que es al mismo tiempo juez que sentencia. Cuando
estos autores-acusadores son jóvenes y sin autoridad social – como les sucede a
los de la Generación del 37 –, sufren el rechazo de la mayor parte de la sociedad
adulta, de los conservadores que añoran todavía los beneficios que tenían durante
el sistema colonial español, y del gobierno paternalista y autoritario de Juan Manuel
de Rosas. Incluso otros jóvenes – como Florencio Varela – disienten de sus propuestas
revolucionarias y desconfían de las cualidades de estos “reformistas” (WEINBERG,
1977, p. 72-77; 187-193). En consecuencia, la crítica y la acidez generan enemigos
más que ciudadanos conversos y, por ende, el artículo de costumbres no produce el
efecto deseado.
La otra alternativa es la novela, género nuevo, sin antecedentes en el Río de
la Plata. Este cambio de opción no parece ser consciente al comienzo, pero se

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advierte claramente en los dos semanarios más representativos de la Generación del


37: La Moda (1837-1838) de Buenos Aires, y su continuación, El Iniciador de
Montevideo (1838-1839). En el Gacetín semanal de música, de poesía, de literatura,
de costumbres abundan los artículos de costumbres – ya que de modas se trata – y
las notas sobre literatura se refieren sobre todo a la poesía y al teatro; en cambio, en
el periódico uruguayo de Miguel Cané (p.) y Andrés Lamas, empiezan a aparecer
comentarios sobre el “romance” y se incorporan – sobre todo, en el segundo tomo
de El Iniciador – narraciones ficcionales de diversos orígenes y hasta dos novelitas
de tono sentimental y trasfondo histórico-político del propio Cané: “Dos
pensamientos” y “Una historia”; en sentido estricto, las dos primeras de las letras
rioplatenses (CURIA, 2006 a)2 .
El paso de la preferencia de un texto al otro es lento porque ambas formas
provocan rechazo: el artículo de costumbres, por la insolencia del narrador; la
novela, porque trata historias sentimentales que enfrentan las “buenas costumbres”.
El futuro novelista e historiador Vicente Fidel López, en un artículo de La Moda,
“Importancia del trabajo intelectual”, reprocha a los profesionales y comerciantes:

[…] que pierdan su tiempo de ocio leyendo, si lo hacen, novelas inmorales, vacias ó
ridiculas –como el Hijo del Carnaval, la Abadesa, el Solitario, el Renegado y tanta otra que,
como estas, no sirven sino para extraviar la razon y el gusto, y por hacerlos incapaces hasta
de leer dos páginas seguidas, no solo de un libro serio y útil, sino tambien de un buen
romance; de un romance como los de Walter Scott, los de Victor Hugo, Vigny, Saint-Beuve
y demas romancistas de genio (La Moda, 1938, p. 187)3 .

López resume las críticas habituales que reciben por aquel entonces algunas
novelas –las “inmorales, vacias ó ridiculas” – y también recurre a la táctica más
frecuente por medio de la cual se defienden otras: el recurso a la autoridad de
renombrados escritores europeos y a su condición de “genios”. Entonces se produce
una doble paradoja: por una parte, que los intelectuales – futuros novelistas –
fomentan estas lecturas al tiempo que recomiendan cautela, pues se mantiene la
acusación de inmoralidad que – por diversas concepciones – pesan sobre ellas
desde el siglo XVIII (MOLINA, 2006); por otra parte, que se utilice un elemento
extranjero para nacionalizar costumbres. Tengamos en cuenta, además, que los
argentinos leen novelas desde mucho antes de que se animen a escribirlas y estos
ensayos novelescos recién nacidos deben competir con producciones extranjeras ya
consolidadas.
No obstante, poco a poco los escritores van descubriendo las ventajas de la
novela, sobre todo, que sea un tipo textual flexible pues no está condicionado por la

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preceptiva neoclásica, por no ser un género aristotélico. La novela nace huérfana de


respaldo académico. A los novelistas no les queda otro recurso que apelar a los
buenos modelos, aunque sean europeos. A través del folletín, de la publicación por
entregas y del sistema de suscripción previa, las obras se pueden difundir por todas
partes, o sea, tanto en hogares argentinos como extranjeros. Además, estas ventas
aseguran algún dinero a los autores que – como Cané, López, Mitre y Mármol –
viven en el exilio. Dado que las ventajas superan a las desventajas, los escritores
deciden adaptar el género a la finalidad “socialista” y nacionalizarlo (MOLINA,
2008 b).
El concepto de literatura socialista resulta de un movimiento dialéctico, de la
síntesis entre lo universal del clasicismo y lo individual del romanticismo. En un
artículo de El Iniciador, Juan Bautista Alberdi sintetiza la “fórmula completa”:
“[c]ombinar la patria y el individuo, el pueblo y el ciudadano, y en el equilibrio
armonico de esta combinacion esta encerrada la solucion del problema social” (1941,
p. 181). En esta fórmula la novela tiene un lugar destacado, a pesar de que es “la
poesía individual” (1941, p. 182).
En las preceptivas españolas, la novela es incorporada como “historia fingida”,
pero “su temática amorosa y su finalidad de entretener (delectare) afectaban a la
compleja moralidad censora de los neoclásicos” (GONZÁLEZ ALCÁZAR, 2005, p.
111). Sólo la posibilidad de usarla como canal de instrucción “para conocer la vida y
las costumbres de los hombres […] salva a la novela” de las acusaciones de
inmoralidad que pesaban sobre ella (GONZÁLEZ ALCÁZAR, 2005, p. 112).
Este argumento basado en el didactismo también es empleado por los
teorizadores argentinos. Vicente Fidel López, en su Curso de Bellas Letras, define
la novela como una idealización verosímil de la realidad, y de una parcela muy
precisa de esa realidad: la “vida privada o doméstica” que complementa la “vida
pública ó istórica” (1845, p. 295) que es asunto de la historia y de la épica, ya que
cada persona tiene una cara pública y otra privada. En la sociedad democrática a la
que se aspira, la vida cotidiana de los ciudadanos también es materia interesante y
útil. Y, porque la finalidad es elevada, los requisitos son exigentes:

Su objeto primordial es pintar la vida doméstica i ennoblecer los afectos, qe resultan de


estas relaciones morales en qe se apoya la familia. De aquí, nace la necesidad de qe la
novela sea moral es decir; qe renueva [sic] en nosotros las afecciones, qe les dé impulso,
qe les dé enerjia, i sirva para provocar fuertes simpatias enfavor de todo lo qe sea análogo
al órden, a la armonía i a la libertad doméstica, i qe puede servir para purificar la conducta
qe cada individuo deba guardar al practicar los deberes qe le corresponden (1845, p. 296).

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López no propone una moralidad de tipo neoclásica – como aplicación de


normas universales, abstracta (VAN THIEGEM, 1963) – sino una que implica respuesta
ética a conductas personales. Seguramente, tiene en cuenta la diferencia entre texto
moral y texto moralizador según la distinción formulada por Benjamin Constant en
sus Mélanges de littérature et de politique, que el argentino traduce y copia en uno
de sus cuadernos de apuntes:

[ ] La moral de una obra de imaginacion se compone de la impresión q. su conjunto deja


en el alma; si cuando uno deja el libro se encuentra mas lleno de sentimientos dulces,
nobles, generosos q. antes de haberlo empezado, la obra es moral, y de una alta moralidad.
[…]
Una obra de imaginacion no debe tener un objeto moral, sino un resultado moral (LÓPEZ,
Doc. 5451).

En esta línea argumentativa se entiende que López adhiera a los juicios de


Antonio Gil de Zárate respecto a que la novela española por excelencia es el Quijote
o que la “mayor perfeccion” la alcanza la novela histórica de Walter Scott porque le
ha dado a esta clase de composiciones “toda la utilidad de que son susceptibles”
(citado por LÓPEZ, 1845, p. 298-299). De su propia cosecha, López agrega:

[ ] La novela […] es una obra de partido i qe puede servir con eficacia para favorecer toda
clases de miras. Como la novela pone en accion toda clase de caractéres, puede sublimar
los unos i humillar los otros, promoviendo simpatías o antipatías llenas de veemencia i
capaces de servir poderosamente las pretensiones del autor (1845, p. 302).

El propio López se dedica a escribir novelas; elige la vertiente histórica al


estilo de Walter Scott para denunciar todas las formas de despotismo, tanto la de
los turcos cuando invadieron Grecia en Alí Bajá (Santiago de Chile, 1843), como la
de la Inquisición y del gobierno colonial español en La novia del hereje o La
Inquisición de Lima (versión completa: Buenos Aires, 1854-1855). A pesar de que la
novela histórica es la variedad más afamada, concita poco la atención de los
escritores, tal vez porque la historia propiamente argentina, o sea, desde 1810 no
había sido estudiada lo suficiente. Solo seis novelas organizan la trama ficcional en
torno de algún episodio de la gesta independentista: Soledad (1847), de Bartolomé
Mitre; Una noche de boda (1854), de Miguel Cané (p.); El isleño: Episodio de la
guerra de la Independencia (1857), de Manuel Romano; María de Montiel (1861), de
Mercedes Rosas de Rivera; El capitán de Patricios (1864), de Juan María Gutiérrez,
y El pozo del Yocci (1869-1870), de Juana Manuela Gorriti. A esta lista podemos

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agregar Capitán Vargas (ca. 1846), novela inconclusa y todavía inédita de Vicente F.
López.
El patrón de la novela como “obra de partido” es aprovechado por José Mármol,
quien en Amalia (Montevideo, 1851-1852; versión completa: Buenos Aires, 1855)
construye, desde un enfoque prospectivamente histórico, dos mundos antinómicos
totalmente irreconciliables: el patriótico, justo y magnámino de los protagonistas –
Daniel y Eduardo, los jóvenes de la Nueva Generación y los unitarios – vs. el
perverso y abusivo del antagonista por antonomasia, el tirano Juan Manuel de Rosas.
Esta visión dicotómica de la Argentina de 1840 pronto se convierte en modelo
novelístico y genera lo que hemos denominado el Ciclo de la Tiranía (MOLINA,
2007), compuesto por una docena de textos, tanto de varones (Estanislao del Campo,
Laurindo Lapuente, Felisberto Pélissot, Toribio Aráuz, José Víctor Rocha, Carlos L.
Paz, Francisco López Torres, Federico Barbará y Eusebio F. Gómez) como de mujeres
(Juana Paula Manso de Noronha y Juana Manuela Gorriti). El propósito de la mayor
parte de estos escritores es doble: no solo recordar ese nefasto período político
sino también alertar sobre posibles futuros tiranos; en definitiva, dar una lección
histórica a los ciudadanos.

EL DISCURSO NOVELESCO COMO ESPEJO CÓNCAVO

Durante su exilio en La Paz, entre 1846 y 1847, Bartolomé Mitre dirige La


Época, primer periódico cotidiano de Bolivia en el que – por esos años – se incorpora
el folletín. Las novelas en él editadas son luego vendidas como separatas del mismo
diario, en la llamada “Colección de folletines de La Época”. En este marco, Mitre
publica Soledad (1847). Precede este texto un prólogo en el que organiza argumentos
a favor de la novela: América no ha tenido hasta ese entonces novelistas destacados
porque este género nace en el segundo período del desarrollo de los pueblos; su
momento ha llegado. La novela es la “vida sujeta á la lójica” (1928, p. 94) y, por
ello, puede servir de instrumento educativo y de propaganda internacional:

La novela popularizaria nuestra historia […], pintaria los [sic] costumbres originales y
desconocidas de los diversos pueblos de este continente […] y haria conocer nuestras
sociedades […] representándolas en el momento de su transformación, cuando la crisálida
se transforma en brillante mariposa (1928, pp. 94-95).

Además de caracterizar la novela como un medio de conocimiento y de


propaganda entre pueblos, Mitre propone al pueblo boliviano primero y al
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hispanoamericano por extensión, que se anime a iniciar ese segundo estadio, o sea,
que crezca como sociedad nueva y renovada. Él mismo, en su novela, plantea un
modelo de sociedad, no perfecta pero sí perfectible, en donde los problemas los
resuelven las personas virtuosas de forma ética (UNZUETA, 1996, p. 142-170; 2006).
En esta conceptualización de la novela, interesa destacar la metáfora que
emplea el autor de Soledad: “Es un espejo fiel en que el hombre se contempla tal
cual es con sus vicios y virtudes, y cuya vista despierta por lo jeneral profundas
meditaciones o saludables escarmientos” (MITRE, 1928, p. 94). De modo similar a
López, Mitre opina que la novela refleja la realidad con un alto grado de fidelidad y
que, si en ella aparecen seres viciosos, la culpa no es del novelista sino de la
realidad, que los contiene.
El espejo, como ha explicado detalladamente Meyer Abrams, es la metáfora
que repiten los neoclásicos para sintetizar su teoría de la poesía como imitación de
la realidad, pero no de cualquier realidad sino de una que – por razones morales –
es despojada de particularidades, es generalizada y universal4 . En cambio, en la
definición de Mitre se confunden el principio neoclásico de la imitación con el
axioma romántico de la obra de arte como manifestación de la subjetividad del
autor, de modo tal que ese espejo del que habla Mitre no es uno plano (como el
paradigma neoclásico proponía), sino uno cóncavo5 .
Cabe ahora preguntarnos acerca de cómo inciden estas teorías en la producción
novelística. Mitre, López y los cincuenta novelistas (varones y mujeres) que publican
entre 1850 y 1870 anclan sus personajes en Buenos Aires, Chaco, Lima, Madrid,
Florencia o en cualquier otro lugar geográfico puntual y reconocible (con la excepción
de unos pocos relatos de Juana Manuela Gorriti). Los diversos narradores, en diálogo
permanente con sus destinatarios, aseguran una y otra vez que los hechos narrados
son “verídicos” o “históricos”, que han sido testigos de los hechos o han conocido
personalmente a los protagonistas, quienes les han contado sus cuitas, siendo todos
ellos dignos de confianza. En otras palabras: acercan el espejo a la realidad para
que el lector la reconozca y crea en la historia contada que ocurre en ese escenario
identificable, por lo tanto verosímil. Esto se observa especialmente en los relatos
sobre la tiranía de Rosas: el autor-narrador se esfuerza por que parezca que la
novela refleja la realidad sin desviaciones. Pero la novela es un espejo cóncavo: el
mayor acercamiento entre el objeto y el espejo permite una mejor definición de la
imagen, pero el tamaño del objeto imaginado es mayor que el original. Rosas y sus
secuaces son, entonces, una impresión nítida pero agrandada respecto del original.
El procedimiento contrario, el distanciamiento entre realidad y novela que se
produce cuando el autor ansía plasmar un mundo más ideal y más puro, ocasiona

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que la realidad se vea desdibujada y en forma invertida: ya no es real sino pura


ficción. El discurso narrativo se vuelve entonces más inverosímil y, por ende, menos
atractivo. Menos atractivo, entiéndase, para un público lector todavía bastante
conservador como el de Buenos Aires de mediados del siglo XIX. Esto ocurre sobre
todo respecto de las novelas de temática puramente sentimental, con escaso anclaje
en una circunstancia sociohistórica bien delimitada.
Es importante aclarar que estas relaciones entre realidad y mundo representado
no son necesariamente estables en una misma novela. El autor-narrador acerca o
aleja el espejo según la situación, pues no le conviene que la verosimilitud se
convierta en exigencia de veracidad, aun más, de verdad histórica irrefutable. Para
ejemplificar estos movimientos especulares, he elegido una novela sentimental hoy
casi desconocida, la cual – en medio de tópicos muy estereotipados – presenta la
novedad de cuestionar la verosimilitud romántica. Se titula Carlota o La hija del
pescador y aparece publicada en el folletín de La Tribuna en abril de 1858. Su autor
es Tomás Gutiérrez, un joven de alrededor de diecinueve años por ese entonces, del
que se conocen tres novelas más: El destino o La venganza de una mujer (1857),
Nunca es tarde cuando la dicha es buena (1858) y La maldición o El compadrito
(1859), además de poemarios y obras dramáticas.
Carlota comienza como muchas novelas románticas por la descripción de
una noche tormentosa y de una casa costera, en una ciudad que el autor no necesita
nombrar pues se identifica rápidamente con Buenos Aires:

[ ] El año de 18… habia hecho mas de la mitad de su carrera. […]


[ ] Serian apenas las seis y media de la tarde.
[ ] Negras nubes preñadas de lluvia, llenaban el vacio, y el relámpago que recorria los
espacios, bosquejaba en sus fúnebres crespones caprichosas figuras de deslumbrante
fuego.
[ ] Un viento recio del Sud-Este, batia rama con rama la frondosa copa de los corpulentos
ombúes, levanta[n]do en imponentes olas coronadas de espuma las aguas del hermoso Rio
de la Plata. […]
[ ] Tristísimo era el espectáculo de la tempestad á esas horas tan tristes por si mismas y
mas tristes son los alrededores del convento de los Recoletos con sus altísimas barrancas
y sus árboles solitarios.
[ ] Es allí donde pensamos llevar á nuestros lectores6 .
[ ] Por los tiempos en que pasan los sucesos que vamos á narrar, habia en el fatídico hueco
ó plazuela que sirve de espacioso átrio al dicho convento, varios ranchos ó chozas de
labradores (20 abr. 1858).

La descripción avanza de lo generalizado a la particularidad de las casas que

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están en lugar preciso: al costado del convento de los recoletos. Otros detalles
posteriores ayudarán a crear una imagen verista. Además, en el tercer folletín, cuando
el narrador está por presentar otro momento tormentoso para la naturaleza y para
los personajes, reflexiona sobre lo que está por describir y lo hace desde una
perspectiva que podríamos calificar como positivista, fomentada quizás por los
estudios de agrimensura de Tomás Gutiérrez:

[…] Existe la creencia en cierto modo quimérica de que la naturaleza acompaña en sus
desgracias al mortal, enlutando sus galas en aquellas situaciones últimas y escepcionales
de su vida, será verdad? no lo creemos, y sin embargo las apariencias, ó la casualidad, mas
bien, lo sanciona, aunque pensamos que somos nosotros únicamente los que
metamorfoseamos la natura segun el estado de nuestra alma.
[ ] Mil veces nos ha sucedido estar alegrísimos, y esas mil ocasiones nos ha parecido
cuanto nos rodeaba tan alegre como nosotros, aunque el cielo haya estado velado por la
tormenta […].
[ ] Luego, no hay duda, somos nosotros, ó es la casualidad solamente.
[…] Lo hemos creido siempre, con la frialdad del que raciocina; asi pensábamos ayer,
exentos de los grandes sentimientos de la tierra; lo creemos hoy? no, porqué? Porque hoy
padecemos, hoy estamos afectados por la agitacion de sentimientos hondos y encontrados.
[ ] Tal dirian los personages que vamos á ver (23 abr. 1858).

Gutiérrez acerca el espejo cóncavo a la realidad, pero ésta se ve menos


luminosa. Aleja entonces el espejo; aún más, el propio autor se vuelve reflector de
la realidad interior y pasional que lo constituye. No obstante, el problema de la
verosimilitud no se resuelve totalmente. Un poco más adelante, el narrador enfrenta
una posible objeción a la lógica de su diégesis:

Nuestros lectores al leer estas palabras que pongo en boca de Alberto Castillo, se
sorprenderán, diciendo quizas en sus adentros que hay inverosimilitud en ellas, puesto
que si Alberto había amado tan apasionadamente, era muy repentina é innatural su frialdad,
ó indiferencia, hácia el objeto de su antiguo amor. Pero no hay tal (26-27 abr.).

El narrador enumera luego unas cinco razones que justifican el interés naciente
de Alberto por Carlota, a contracara de su “antiguo amor” por Enriqueta, quien
resulta ser hermana menos de la protagonista. Termina el debate con estas palabras:
“el lector puede pensarlo de otro modo, mas esa es nuestra opinion”.
El foco de atención pasa de la verdad aprehensible por la razón, fundamento
neoclásico e ilustrado, a la verdad de los sentimientos del poeta romántico. El
espejo de la realidad se vuelve un espejismo, o sea, una ficción subjetiva con la que,
no obstante, los novelistas intentan construir una Argentina verosímil.
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LA ESTRUCTURA NOVELESCA COMO VEHÍCULO FORMADOR

La finalidad socializadora no es privativa de ningún tipo de novela: la histórica


da lecciones de historia, la sentimental enseña a dominar las pasiones y la
costumbrista educa criticando los hábitos deshonrosos. Pero el ámbito evocado no
es el mismo en cada caso: la historia evocada es nacional, las pasiones son
universales, las costumbres – en cambio – caracterizan individualmente a los pueblos
mientras los valores morales sobre los que se sustentan pertenecen a la axiología
cristiana, de alcance mundial.
Ángel Julio Blanco es el único novelista de nuestro amplio corpus que subtitula
un texto como “Novela de costumbres”. En la dedicatoria a José Manuel Lafuente
que sirve de prólogo a Luis y Estevan, aclara que su finalidad es sencilla: “describir
costumbres propias” (1859, p. 9), o sea, argentinas. Explica que las “costumbres, la
organización, el clima, las condiciones morales del individuo son causas de variacion
en la esencia y efecto de las pasiones”; en consecuencias, las pasiones no “son de
toda la humanidad, de todas las épocas y siempre las mismas” (1859, p. 9). Pero
Blanco, según confiesa en ese mismo texto, no ha podido cumplir su propósito
plenamente, sino solo “localizar las escenas”, por una falencia de la realidad argentina:

[…] no tenemos nada nuestro: […] somos como los monos, imitadores, ó como los
chinos, rutineros–ó nos estacionamos ó copiamos; esa es nuestra vida.
Una costumbre sola nos pertenece y debemos reclamar su privilegio – la de no estar en
paz ni aun con nuestra conciencia; – pero como la guerra no se aviene á mi carácter dejo
que esa costumbre de verter sangre la describa otro. […] Que escriba sobre sangre, el
que sea tan desnaturalizado que pretenda educar para la sangre una juventud que debe
tener otro destino (1859, p. 9).

También establece algunas limitaciones respecto de las posibilidades de


mejorar la condición humana mediante la educación o la literatura. Para este autor,
la bondad o la maldad son innatas:

[ ] Las costumbres se adquieren, pero las virtudes no […].


[…] Creo que la educacion no mejora al hombre sino que lo hace mas disimulador […]. Y
entiéndase bien que yo no cuestiono la influencia benéfica de la educacion, pero la limito
á dar vida propia, por decirlo asi, á dar organización á esos gérmenes del bien diseminados
en el corazon del hombre: para el que nace pícaro la educacion es impotente; solo hace
que sepa hacer ó encubrir mejos sus bribonadas (1859, p. 10).

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La educación tampoco ha sido apropiada para alertar acerca de la “relajacion


de costumbres del viejo mundo” al que los americanos han tomado como modelo, ni
para fortalecer el espíritu ante tales tentaciones. A este problema se suma otro
inconveniente, también genético: “El mal fascina y es siempre mas facil de seguir”.
Contra esta tendencia innata hacia el mal, sí puede actuar la educación, siempre y
cuando se respete el ritmo natural que tienen los pueblos en su desarrollo civilizador:
“Quisimos imitar el modo de ser de sociedades decrépitas, sin pasar como ellas
habian pasado, por todos los escalones de la vida, adquiriendo como ellas en cada
escalon, un caudal de esperiencia suficiente para resistir á los vaivenes” (1859, p.
10). Según Blanco, el escritor de costumbres tiene la función social de poner de
relieve “esos males propagados ya”, aunque sea muy difícil extinguirlos: “No se
salvarán los que han caido, pero retrocederán los que caminan” (1859, p. 10).
Finalmente, el novelista aclara que en sus textos ha combatido al que considera
el peor de los elementos de la sociedad: el egoísmo; y justifica esta postura en
fundamentos religiosos:

¿Qué seria del hombre sin el concurso del hombre?.... La humanidad entera está vinculada
por un deber sagrado – la proteccion al desvalido: – asi lo enseñan las teorías religiosas de
todas las sectas del universo y el catolicismo mas que cualquiera de ellas. […] Esa
hermandad, ese vínculo está en las leyes mismas de la naturaleza […]; esa hermandad,
esa proteccion es la vitalidad de la sociedad humana, y sin ella nada noble, nada grande,
nada bello se produciria en el universo (1859, p. 10).

Blanco encabeza un grupo de novelistas preocupados por mejorar la sociedad


argentina desde una perspectiva menos política (o sea, menos liberal) que la de
López, Mármol o Mitre. Algunos – como el propio Blanco, Carlos L. Paz, Ernesto
Loiseau, Tomás Giráldez, Fortunato Sánchez (“F.A.S.”) y Ramón Machali (“R. el
Mugiense”) – defienden los principios católicos; otros –con Francisco López Torres
a la cabeza– se manifiestan anticlericales pero cristianos. Todos coinciden en
proponer un modelo social basado en la familia y en los valores morales. Como ya
hemos explicado en otro artículo:

Analizando las estructuras narrativas de la novelística en su conjunto podemos observar


que las acciones principales se organizan recurrentemente alrededor de una oposición de
índole moral: lealtad / traición. Lealtad que es fidelidad en el amor, respeto por los padres,
responsabilidad hacia los hijos, lealtad con los amigos, patriotismo, gallardía en la defensa
de la justicia y de la libertad, fe en Dios, caridad con el pobre, cumplimiento de la palabra
empeñada, obediencia ante el amo, mesura en el uso de los bienes propios y escrupulosidad
en la guarda de los bienes ajenos; lealtad que, en definitiva, es la expresión de un espíritu

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amoroso que venera la vida (se es fiel a aquello que se ama) y, por ello, el fundamento de
la dignidad personal. Su opuesto, la traición, se manifiesta a través del adulterio, el abandono
de padres, hijos y cónyuges; la inconstancia y la coquetería; mentiras, robos y estafas;
cobardías y engaños de todo tipo; violaciones, delaciones, homicidios, suicidios y abortos,
abusos de poder político o eclesiástico; es decir, traición como odio y muerte (MOLINA,
2010, p. 202).

Esta escala de valores dicotómica condiciona la estructura diegética. En casi


todas las novelas, tras el avance momentáneo del polo negativo –sobre todo por
acciones de venganza (reclamo violento de lo que se cree propio, que genera
separaciones y dolores en las víctimas) –, la secuencia narrativa se resuelve
favorablemente para los protagonistas: se restablece la justicia, la familia dispersada
se vuelve a reunir, los antagonistas arrepentidos reciben el perdón evangélico. El
orden social, basado en el respeto mutuo, las normas morales y las leyes civiles, es
finalmente restaurado. La civilización se impone sobre la barbarie.
Estas recurrencias estructurales y axiológicas diluyen las peculiaridades
argentinas de las costumbres y de las situaciones planteadas, y le dan la razón a
Heraclio C. Fajardo (conocido sobre todo por ser traductor de novelas y por la
dirección de las revistas El Recuerdo y El Estímulo), quien opina que no existen
“ literaturas propias” porque “toda literatura debe tener por fin fundamental
universalizar los eternos principios de moral, de justicia y de libertad, que son
unos en todas partes”, si bien puede haber diferencias formales y de “colorido”
entre la literatura de diversas regiones (1865). Coincide con Blanco en juzgar que
los argentinos se caracterizan por calcar lo europeo y por ello duda de que se pueda
hablar de “literatura nacional”. Para él, esta sociedad tiene muy pocos elementos
originales: solo el gaucho y el indio.
Prueban estas aseveraciones de Fajardo las novelas que denuncian las
injusticias que padecen los habitantes de la pampa: El médico de San Luis (1860) y
Pablo o La vida en las pampas (1869, 1870), de Eduarda Mansilla de García
(“Daniel”); Emilia o Los efectos del coquetismo (1862), de Ramón Machali (“R. el
Mugiense”); Gubi Amaya: Historia de un salteador (1862), de Juana Manuela Gorriti;
y Aventuras de un centauro de la América meridional (1868), de José Joaquín de
Vedia. De modo similar, Tomás Gutiérrez expone los problemas que padecen los
niños abandonados, en La maldición o El compadrito (Páginas literarias) (1859);
Gorriti, los abusos de los antiguos conquistadores españoles en La quena: Leyenda
peruana (1851) y El tesoro de los Incas: Leyenda histórica (1865); y Juana Paula
Manso de Noronha, las injusticias del sistema esclavista brasileño en La familia del
Comendador (1854).

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En verdad, el debate de fondo no gira en torno a las posibilidades de


nacionalizar las costumbres a través de la literatura, sino que se centra en la sociedad
ideal a la que se desea pertenecer, es decir, la que todavía no existe plenamente
porque está siendo construida paso a paso. Y porque el referente es más futuro que
presente, la novela-espejo refleja pocos elementos reales, pero muchos ideales, por
lo que la representación de la realidad no es nítida; en consecuencia, se diluye la
capacidad formadora atribuida al género. De hecho, son escasas las novelas de este
período que han trascendido la historia literaria. No obstante, creemos que el esfuerzo
de aquellos novelistas pioneros merece este reconocimiento.

NOTAS

1 Doctora en Letras por la Universidad Nacional de Cuyo. Investigadora del Conicet. Profesora
Titular de Metodología de la Investigación, Facultad de Filosofía y Letras (U. N. de Cuyo -
Argentina). Miembro del Comité Académico y Profesor Estable de la Maestría en Literatu-
ra Argentina Contemporánea.
2 El número 1 del tomo II (del 15 de octubre de 1838) está integrado en su totalidad por
narraciones novelescas, sentimentales o históricas. Téngase en cuenta, además, que en el
último número de El Iniciador (t. II, nº 4, 1º de enero de 1839) se edita íntegramente el
“Código ó declaracion de los principios que constituyen la creencia social de la Republica
Argentina. Introduccion. Palabras Simbólicas de la fe de la Joven Generacion Argentina” (El
Iniciador, 1941, pp. 421-441).
3 En esta y en todas las demás citas respeto la grafía del original.
4 Esta metáfora es una analogía “constitutiva” porque proporciona “el plano o trazado y los
elementos estructurales” de esa teoría literaria (ABRAMS, 1962, p. 52).
5 Un espejo cóncavo es como el interior de un cucharón. Si colocamos un objeto frente a él, se
verá reflejado pero no con la fidelidad de un espejo plano: la calidad de la imagen dependerá
de la distancia entre el objeto y el espejo. Si los alejamos, el objeto se verá más borroso,
más pequeño e invertido. Si los acercamos, el objeto se verá más grande, también inver-
tido, pero la imagen quedará mejor definida. Sólo si aproximamos aún más el objeto al
espejo, aquél formará una imagen derecha, mayor, pero virtual, porque estará situada
detrás del espejo. Adviértase que las características de la imagen producida por el espejo
dependen de las decisiones que tome el físico: según qué imagen quiera obtener será la
distancia a la que coloque el espejo.
6 He modificado esta oración para hacerla inteligible. El original dice: “Es allí donde pensamos
á llevar nuestros lectores”.

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Data de recebimento: 12/08/2010


Data de aceite para a publicação: 10/10/2010.

SOBRE A AUTORA:

Doctora en Letras por la Universidad Nacional de Cuyo. Investigadora del Conicet.


Profesora Titular de Metodología de la Investigación, Facultad de Filosofía y Letras
(U.N. de Cuyo). Miembro del Comité Académico y Profesor Estable de la Maestría
en Literatura Argentina Contemporánea. Co-dirige con Beatriz Curia, el proyecto
“Rescate del patrimonio literario argentino: edición de textos deficientemente editados
o inéditos. La realidad del país a mediados del siglo XIX: contraste de voces en la
narrativa romántica”; por el cual han editado María de Montiel: Novela contemporánea
(1861), de Mercedes Rosas de Rivera (Teseo, 2010). Publicaciones: La narrativa
dialógica de Juana Manuela Gorriti (tesis doctoral, Editorial de la Facultad de
Filosofía y Letras, 1999); co-autora de Literatura de Mendoza: Espacio, historia,
sociedad, 3 vol., Gloria Videla de Rivero (Coord.) (Celim, 2000-2003) y de la
edición anotada de Lucía Miranda (1860) de Eduarda Mansilla (Iberoamericana-
Vervuert, 2007), dirigida por María Rosa Lojo; coeditora de Poéticas de autor en la
literatura argentina (desde 1950), dirección de Gustavo Zonana (2 vols., Corregidor,
2007 y 2010); y numerosos artículos referidos sobre todo a la literatura argentina
decimonónica. De próxima aparición por Corregidor: la edición anotada de Cuentos
(1880), de Eduarda Mansilla.

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História e Memória Y CONSTRUCCIÓN
2010: Reflexões sobre o
bicentenário de independências
na América
DE SENTIDO EN
ISSN 1809-5313 “LA ISLA DE RÓBINSON”
VOL. 6 - Nº 8 - 2010 DE USLAR PIETRI
U NIOESTE / CASCAVEL
GONZALEZ ATENCIA, Juan Antonio (UNCuyo)*
P. 139-155
gonzalezfcp@gmail.com

RESUMO: O presente trabalho relaciona a contribuição da literatura para a construção de imagi-


nários sociais na América Latina a partir da análise do romance La isla de Róbinson (1984), de
Arturo Uslar Pietri. Partindo da filiação liberal do autor, analizam-se as determinações de sentido
que se expressam na obra por meio de uma análise das ideias políticas e sociaiss que caracterizam
o campo ideológico no qual se ele se encontra. A abordagem ao texto se propõe a analisar, desde
as recorrências intertextuais, esta reescritura da história que tem como objetivos centrais inter-
pretar os seguintes aspectos: a) a ideia de um homem novo para uma sociedade nova e, desse
modo, a revolução individualista, tomando-se a imagen do náufrago que nos sugere a ideia do
homem que se constroi a si mesmo; b) a busca de uma solução revolucionária sem sujeitos nem
conflitos; este enunciado parece instalar a ideia da dificultade de se establecerem instituições
livres e democráticas em nossas nações e, por último, c) a modernização e a utopia individualista
que se instala a partir da ideia de um mundo cambiante; para isso o sujeito deberá se educar na
indústria, no manejo das artes mecânicas e nos metais. A análise das ideias de Simón Rodríguez,
mediadas desde a atualidade pelos pensamentos de Uslar Pietri, permite-nos trazer à discussão
alguns dos modos pelos quais se foram configurando nossas sociedades latino-americanas.

PALAVRAS-CHAVE: Arturo Uslar Pietri, La isla de Róbinson, construção de sentido, imaginário


social, liberalismo, ideias políticas.

RESUMEN: El presente trabajo relaciona el aporte de la literatura con la construcción de imaginarios


sociales en Latinoamérica a partir del análisis de la novela La isla de Róbinson 1984), de Arturo
Uslar Pietri. Partiendo de la filiación liberal del autor, se analizan las determinaciones de sentido
que se expresan en la obra a partir de un análisis de las ideas políticas y sociales que caracterizan
el campo ideológico en el que se ubica. El abordaje al texto se propone analizar, desde las
recurrencias intertextuales, esta reescritura de la historia que tiene como objetivos centrales
interpretar los siguientes aspectos: a) la idea de un hombre nuevo para una sociedad nueva y con
ello la revolución individualista en tanto la imagen del náufrago nos sugiere la idea del hombre
que se construye a sí mismo; b) la búsqueda de una solución revolucionaria sin sujetos ni
conflictos, este enunciado parece instalar la idea de la dificultad de establecer instituciones

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libres y democráticas en nuestras naciones y, por último, c) la modernización y la utopía individu-


alista que se instala a partir de la idea de un mundo cambiante; para ello se deberá educar en la
industria, en el manejo de las artes mecánicas y en los metales. El análisis de las ideas de Simón
Rodríguez mediadas desde la actualidad por los pensamientos de Uslar Pietri nos ha permitido a
poner en discusión algunos de los modos con que se fueron conformando nuestras sociedades
latinoamericanas.

PALABRAS CLAVES: Arturo Uslar Pietri, La isla de Róbinson, construcción de sentido, imaginario
social, liberalismo, ideas políticas.

¿Cómo estamos pensando los latinoamericanos nuestras sociedades a 200


años de la independencia?
Esta pregunta, de formulación a primera vista tan genérica como inabarcable,
requiere cuando menos, algunas precisiones que permitan reducirla a dimensiones
teóricas y prácticas abarcables, en particular a los límites de los conocimientos de
quien esto escribe, como a la extensión impuesta por la publicación de este tipo de
trabajos.
Diremos en primer lugar que nuestro enfoque en el análisis de esta novela
del escritor venezolano Arturo Uslar Pietri, privilegia la perspectiva de la construcción
de sentido en los imaginarios sociales, en términos de Castoriadis (1999), al
reconocer la capacidad de las sociedades de fundar sus propias constelaciones de
sentido, a partir de las cuales se piensan y constituyen como tales unidades.

La sociedad da existencia a un mundo de significaciones y ella misma es tan sólo en


referencia a ese Mundo. Correlativamente no puede haber nada que sea para la sociedad
si no se refiere al mundo de las significaciones, pues todo lo que aparece es aprehendido
de inmediato en ese mundo y ya no puede aparecer si no se lo considera en ese mundo. La
sociedad es en tanto plantea la exigencia de la significación como universal y total.
(CASTORIADIS, 1999, p. 312).

Dos aspectos nos parecen relevantes en esta vertiente teórica, a los efectos
de nuestro trabajo: El primero de ellos se refiere a la construcción de sentido acerca
de nuestras sociedades a partir del relato que nos proporciona la literatura
latinoamericana. Esta condición instituyente de la literatura y de la crítica literaria
ha sido señalada por reconocidas voces.

Es necesario poner de relieve, para calibrar la trascendencia de la dramática inopia del


pensamiento metacrítico (y autocrítico), que el discurso que reflexiona sobre la literatura
ha sido y es parte decisiva del intrincado proceso a través del cual América Latina imagina
su propia constitución y de la no menos compleja trama con que reconocemos una filiación

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que no por entreverada, heterogénea y fluida deja de definirnos en el azaroso curso de una
historia que tanto hacemos como nos construye (CORNEJO POLAR, 1993, p. X)

En nuestro caso particular, el de una novela histórica referida a las luchas


por la independencia y la formación de nuestras sociedades en la época poscolonial,
período histórico en el que se encuentra inmersa La isla de Róbinson. La novela
recrea la vida de Simón Rodríguez, quien fuera maestro del Libertador Simón Bolívar
y, según opiniones autorizadas, la persona que más influyera en su formación
intelectual.
El segundo aspecto está referido al análisis de algunas de las cuestiones
político-ideológicas involucradas en la novela y que contribuyen a elucidar, a nuestro
entender, los contenidos específicos de esa construcción de sentido, pensadas desde
su proyección en el presente.
A pesar de que Uslar Pietri se aparta de una “historia oficial” que ha procurado
ocultar los defectos de la personalidad de Simón Rodríguez, poniendo de manifiesto
rasgos de carácter y de pensamiento no exentos de contradicciones, analizamos La
isla de Róbinson como una recreación literaria, en cuya reescritura entra de lleno la
visión del autor. No nos detendremos a discernir la mayor o menor fidelidad de la
novela con el personaje histórico. Lo que nos interesa son las cuestiones de sentido
que pueden inferirse de esta reescritura en la construcción del imaginario social.
No podemos eludir al comienzo mismo de estos propósitos, una mínima
reflexión acerca de la relevancia de esta propuesta de análisis y de su relación con
la pregunta inicial: ¿Cómo estamos pensando nuestras sociedades?
En efecto, el cómo hace referencia directa al contenido. ¿Cuáles son las ideas
que circulan a propósito de las recreaciones que la novela hace de la historia, al
convertirla en su referente discursivo? En nuestro caso se trata de la guerra de la
independencia llevada a cabo por Bolívar y los incipientes esfuerzos por organizar
los nuevos estados, tarea en la que Simón Rodríguez se siente particularmente
comprometido:

Y lo peor es que no soy yo quien va a pedir ayuda si no quien va a ofrecerla. Soy yo quien
puede ayudarlo a completar la gran obra que está incompleta. Soy yo quien tiene las ideas
para que la independencia se transforme en la creación de una nueva sociedad. Soy yo el
dadivoso, el que regala, el que ofrece posibilidades que ellos ni siquiera sospechan (USLAR
PIETRI, 1984, p. 123).

Se trata de distinguir, junto con el contenido específicamente ideológico de


las ideas vertidas en la novela, entendidas en su referencia formal con la Historia

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de las Ideas como disciplina de la Ciencia Política, aquellos juicios de valor acerca
de la sociedad latinoamericana, y su posibilidad de ingresar en la modernidad política
a partir de la quiebra del orden colonial y su posterior sustitución por un nuevo
orden político.
El análisis de las significaciones importa, desde nuestra perspectiva, adentrarse
en la tensión entre lo instituyente y lo instituido – en términos de Castoriadis
(1999) – como constituyentes del sentido y la historicidad misma de las sociedades
en cuyo seno la política adquiere su propia significación.
Esta perspectiva de análisis interesa sobre todo porque permite poner el
énfasis en el proceso de legitimación de las nuevas repúblicas americanas. Posibilidad
que Simón Rodríguez pone frecuentemente en duda. “El mal de América es inveterado.
Tres siglos de ignorancia y abandono en el Pueblo y de indiferencia en el Gobierno
dan mucho que hacer hoy a los que emprenden instruir, animar y poner en actividad”
(USLAR PIETRI, 1984, p. 187).
Pero también porque nos permite acceder a otras dimensiones, menos
formalizadas desde el punto de vista ideológico, pero que forman parte del “sentido
común” que a modo de cosmovisión se instala en una sociedad y opera como
fundamento legitimante de una determinada forma (fórmula podría decirse también)
de dominación.1

Decimos ‘sentido común’ porque aparece ligado no sólo al discurso de las clases
dominantes, sino por formar parte de la cultura política y de las prácticas sociales de
nuestras sociedades, siendo, en ocasiones, fuente de interpretación del conflicto (o
expresión del mismo) aun por parte de los sujetos que lo padecen” (FUNES y ANSALDI,
2004; p. 451)

Otra respuesta posible para el cómo puede referirse al proceso por el cual
esos contenidos del sentido común pasan a formar parte del imaginario social.
En nuestro caso, encontramos una respuesta que nos parece adecuada para la
perspectiva que hemos elegido en el enfoque de Pierre Bourdieu, quien demanda la
necesidad de reinsertar “la obra o el autor en el sistema de relaciones constitutivas
de los hechos (reales o posibles) del que forma parte socio-lógicamente.” Para
trascender lo que denomina el “estudio ideográfico” de los casos particulares por sí
mismos y en ellos mismos, propone un abordaje superador de la tradición positivista.
(BOURDIEU, 2000, p. 23)

Así la teoría de la biografía como integración retrospectiva de toda historia personal del
artista en un presupuesto puramente estético, o de la representación de la ‘creación’

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como expresión de la persona del artista en su singularidad, pueden comprenderse


completamente solo si se las reinserta en el campo ideológico del cual forman parte y que
expresa, bajo una forma más o menos transfigurada, la posición de una categoría particular
de escritores en la estructura del campo intelectual, él mismo incluido en un tipo especifico
de campo político, que asigna una posición determinada a la fracción intelectual y artística
(BOURDIEU, 2000; p. 24).

De modo que al analizar esta obra en particular lo hacemos con esta


orientación de aportar al análisis del campo ideológico en el que se inscribe el
autor, de reconocida filiación liberal, tomando como referencia esta novela de
contenido eminentemente biográfico que, por las características del personaje y del
tiempo histórico que le toca vivir, está transida de incrustaciones ideológicas.
Dos aclaraciones indispensables antes de abordar el análisis de la obra: se
trata desde luego de “entradas” o abordajes a un texto por demás complejo – aún en
la elaboración de su estructura (MARBAN, 1997, p. 162/163). Por otra parte estos
abordajes se centran en el texto como una unidad de expresión ya que consideramos
que, a pesar del frecuente y por momentos abundante recurso a la intertextualidad
con que Uslar utiliza las obras y escritos de Simón Rodríguez, se trata de una
reconstrucción- novelada- de la historia, realizada desde el autor y, necesariamente,
desde el presente para reinterpretar el pasado.

En el mundo contemporáneo, y de manera especial en Hispanoamérica, la novela histórica


posee una importancia esencial, sobre todo en la medida en que la misma contribuye
poderosamente a una mejor comprensión del pasado, mediato o inmediato, casi siempre
en función del presente, y por tanto del futuro”. (MARQUEZ RODRÍGUEZ, 1986, p. 10).

UN HOMBRE NUEVO PARA UNA SOCIEDAD NUEVA. LA REVOLUCIÓN


INDIVIDUALISTA

Desde el comienzo de la novela, queda planteada una fuerte relación entre la


figura de Simón Rodríguez y Róbinson Crusoe, el personaje de Daniel de Foe, que
tiene a nuestro entender varias significaciones. La primera de ellas ligada al sentido
literal de las circunstancias que rodean al personaje original: un náufrago que con
su sola voluntad va a transformar una isla en su mundo. El hombre que se hace a sí
mismo. Esta imagen, fuertemente individualista, está reforzada por el cambio de
nombre que el propio Simón Rodríguez elige: el de Samuel Róbinson, adoptando el
apellido del célebre personaje.

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Entonces todavía no había resuelto llamarse Róbinson. Era Simón Rodríguez o Simón
Carreño. Fue después cuando comprendió que su destino era el de Róbinson, el del
hombre solitario en la isla de naufragios. Todos irían llegando a la isla. [….] Llegaban a la
isla los hombres y las ciudades, los continentes y los paisajes […]. La isla era él mismo.
Allí llegaban todos. Los años y las gentes. Llegaban y partían. Nadie más que él era
Róbinson. Todo lo había tenido que hacer él mismo. Con lo que encontraba al azar, con lo
que lograba rescatar de los naufragios, con las manos, con la imaginación. Solo la mayor
parte del tiempo. (USLAR PIETRI, 1984, p. 13).

El cambio de nombre puede entenderse, también como el nacimiento de un


nuevo hombre, que recibe como un sacramento laico, las verdades de la Ilustración.

Ha llegado un nuevo tiempo. Todo va a cambiar en bien o en mal y los hombres no se dan
cuenta aferrados a sus innumerables costumbres y caducos privilegios. […] Cambian los
tiempos y las gentes pero la prédica no puede concluir. Ha llegado un nuevo tiempo y hay
que preparar una nueva humanidad. (USLAR PIETRI, 1984, p. 25).

Samuel Róbinson es el hombre nuevo de la ilustración naufragado en una


sociedad vieja a la cual pretende transformar del mismo modo que él se transformó:
individualmente y por el influjo de la educación- siguiendo los moldes y las premisas
de la Ilustración, especialmente en su versión francesa, que pretende hacer tabla
rasa con la sociedad y las instituciones para crear una nueva sociedad a partir de un
nuevo hombre, modelado por la también nueva escuela. Sólo que tanto la burguesía
como la centralización estatal no eran datos nuevos ni pasajeros en la Francia pos
revolucionaria y habrían de dejar una huella perdurable en la construcción del orden
nuevo.
Justamente se encuentra aquí una de las construcciones típicas de la mentalidad
liberal: es necesario educar primero para las libertades para luego otorgarlas: el
sistema educativo parirá el hombre nuevo apto para las virtudes republicanas.

La educación republicana tiene que ser distinta para formar republicanos. Educar hombres
para la razón, la libertad, la dignidad, el libre examen, el orden racional libremente aceptado.
La república no se puede hacer en los campos de batalla sino en la escuela. (USLAR
PIETRI, 1984, p. 127)

Mientras tanto, ¿cómo hacer una república sin republicanos? En una solución
típicamente Roussoniana, Simón Rodríguez recurre al “legislador providencial” en
el que la voluntad general se reconoce plenamente cuando las voluntades particulares
se extravían. Legislador que no podía ser otro que Simón Bolívar, su discípulo y
luego su mentor y protector.
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La oportunidad era en América y el único hombre que tenía capacidad para entender
aquello y poder para realizarlo era precisamente Bolívar. Simón, su amigo, su discípulo, su
compañero de tanto sueño y de tanta esperanza. (USLAR PIETRI, 1984, p. 122).

Simón Rodríguez aparece en la obra con plena conciencia de que la Revolución


francesa había, en principio, fracasado en su intento de consolidar una república
democrática por falta de una educación republicana, que la enseñanza de la época
no procuraba.

En Francia y con el fracaso de la Revolución, se había vuelto al viejo orden. El error estuvo
en no darse cuenta de que no era la guillotina lo que se necesitaba sino la escuela Siempre
terminaba por caer en el tema de la escuela. Era su obsesión. (USLAR PIETRI, 1984, p.
40).

Lo que falla aquí es la perspectiva histórica del largo plazo, que revela con
claridad que la Revolución fue una obra burguesa, interesada en conquistar libertades
y desconfiada de las manifestaciones democráticas. Estas habrían de desarrollarse
con posterioridad merced a la generalización de los conflictos sociales los cuales
tendrían su punto culminante- al menos en lo que a esta etapa del proceso histórico
se refiere- en las revoluciones de 1848, fecha en la que no por casualidad, se
publica el Manifiesto Comunista.
Esta implantación social de la república democrática sin conflictos merced a
la mediación de la educación, es también una revolución sin sujeto revolucionario,
ya que la burguesía como clase social se encontraba ausente en el proceso
revolucionario americano. “El drama de América Latina es que la democracia burguesa,
proclamada como objetivo, carece de su sujeto principal, la burguesía democrática.
(ANSALDI, 2008, (1) 35).
De un modo más general pueden anotarse el desconocimiento del conflicto
social y la función hegemonizadora de la educación en el control social como dos
características centrales en el modo de discurrir la concepción de la sociedad en el
pensamiento liberal.
No es que se pretenda desconocer aquí la capacidad de la educación para
impulsar los cambios y la movilidad social ni la originalidad de la pedagogía
propuesta por el maestro de Bolívar. La ignorancia no es la contrapartida de ningún
progreso en la conformación de la sociedad. Sólo nos interesa señalar el papel
sustitutivo del conflicto social que aquí se le asigna y que explica de un modo más
convincente el fracaso de las iniciativas individuales de Simón Rodríguez por instalar
una nueva orientación de la educación en los países liberados por Bolívar, que la

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desidia y el desinterés de los funcionarios de turno. Para decirlo en términos más


contemporáneos, no existía un soporte social para emprender esa reforma, ni una
voluntad política que la encarnara.
La duda acerca de la posibilidad de instaurar una república liberal y
democrática constituye un acicate permanente en las reflexiones de Simón Rodríguez
que Uslar intercala diestramente en el texto de la novela.“¿Podían los hombres vivir
en libertad o no? Él los había visto vivir en libertad en la América inglesa. Habían
podido en los Estados Unidos, pero no habían podido en Francia. ¿Podrían acaso
en la América del Sur? (USLAR PIETRI, 1984, p. 33).
Esta comparación asimétrica e incompleta con otras sociedades, tomadas
como modelos de libertad e igualdad, se repite como naturalizada al poner como
términos de la comparación – generalizada y abstracta- a sujetos de clases sociales
y contextos socio culturales completamente diferentes. El cholo, el indio, y aún los
criollos americanos, que Simón Rodríguez pretendía educar para la república, no
son comparables con sujetos representativos de la burguesía urbana europea que se
toman como término de comparación para resaltar la ignorancia e incomprensión de
nuestros pueblos.
No es que se desconozcan las diferencias, reiteradamente señaladas tanto en
la conformación social como en la necesidad de adaptar e innovar en materia educativa
a la realidad americana:

¿Podría o no llevarse la revolución a la tierra indiana? No podría ser la misma. No era la


misma gente, ni las mismas costumbres. […] Habría que pensar en una revolución distinta.
Habría que comenzar por preparar a la gente, por enseñarles a ser ciudadanos. […]
Róbinson repetía que había que educar al pueblo, prepararlo para vivir en la República. Si
no el ensayo fracasaría. (USLAR PIETRI, 1984, p. 33).

Estas diferencias resultan naturalizadas en la medida en que el análisis excluye


otros factores explicativos acerca de los diferentes tiempos y modos de incorporar
la modernidad, por parte de aquellas sociedades que han estado instalados y han
sido protagonistas o herederos de de la modernidad. Así como excluye un análisis
más pormenorizado del proceso de modernización de sus sociedades, no exento de
violencia ni de contradicciones como lo muestra por caso, el proceso revolucionario
francés, que proclamará la libertad y la igualdad como valores centrales a realizar
por la Revolución, pero que postergará la incorporación efectiva del elemento
democrático hasta que los movimientos revolucionarios de 1848, pongan en el
escenario político las reivindicaciones del pueblo como sujeto democrático.

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UNA SOLUCIÓN REVOLUCIONARIA SIN SUJETO NI CONFLICTO.

La duda acerca de las posibilidades de instaurar un régimen liberal y


democrático en la América del Sur, se presenta de forma reiterada. No obstante, la
idealización del régimen norteamericano, le lleva a ignorar que las libertades en
este país estaban reservadas para una clase de ciudadanos, condición que no alcanzaba
ni a los aborígenes ni a los negros, por no hablar de la exclusión de la mujer.
Estas comparaciones acerca de la superioridad de otros regímenes políticos
tomados como modelo – especialmente el caso de Estados Unidos para los países
latinoamericanos, es como contrapartida un reconocimiento de la incapacidad –
como una condición ontológica e insalvable, o en todo caso difícilmente superable,
de establecer instituciones libres y democráticas en estas latitudes. En todo caso
estas comparaciones son siempre de dudosa y limitada consistencia tanto en las
perspectivas utilizadas como en las variables comparadas.
Desde el punto de vista de las perspectivas teóricas, se puede observar una
tendencia a simplificar los enfoques, utilizando, con frecuencia un concepto
sumamente acotado de libertad y democracia para juzgar la vigencia de estos valores
tomados como modelos en la comparación. Si se considera por ejemplo, el sistema
de dominación y la capacidad para generar una relación de carácter hegemónico,
podrá observarse que entonces pueden llegar a considerarse otras variables en el
sistema de dominación que ponen en discusión la superioridad del modelo anglosajón
en punto a la realización de valores como la igualdad y la libertad, proclamados
como centrales del régimen demoliberal tardíamente establecido en los países
latinoamericanos con las salvedades conocidas.
Con el cambio de organización social y política desaparecería lo que Habermas
caracteriza como “publicidad representativa”, característica del Antiguo Régimen y
la sociedad estamental. Ya en los comienzos de la Revolución Francesa, Sieyés
había declarado los fundamentos del estamento burgués para representar a la nación.
En nombre de la utilidad social, el Tercer Estado se identificaba con la nación y
reclamaba el monopolio de la representación política. Esta temprana representación
social de la burguesía como un todo homogéneo e indiferenciado, formado por una
sumatoria de individuos en los que reside la legitimidad política, habría de perdurar
durante un largo tiempo. No sólo como principio político, sino como categoría de
análisis para referirse al pueblo, en tanto sujeto de los derechos políticos y titular
de las libertades que debería proteger el Estado como cometido principal. “Todo iba
a parecer nuevo y distinto. Todos iban a saber ser buenos y útiles, a aprender en la
naturaleza, en la vida, en el trabajo, en la práctica del bien. Mil Emilios, un millón

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de Emilios, el mundo corrompido salvado por un nuevo hombre. (USLAR PIETRI,


1984, p. 24).
En este camino, Benjamin Constant habría de establecer las características
de esta libertad moderna asociada a lo privado, como una categoría nueva en la
esfera de relaciones entre los ciudadanos y el poder público. Pero también vinculada
a unos derechos específicos, entre los que las libertades de pensamiento y de prensa
figuran como uno de los elementos más importantes para contener en sus límites el
poder del Estado.
El grado de acceso y la participación en el espacio público permanece
restringido a la clase burguesa tanto por razones funcionales (propiedad y
educación), como por la desconfianza que provoca el principio democrático entre
los liberales. Habrá que esperar una serie de cambios, en parte generados por el
propio proceso de industrialización y el aumento de poder del Estado
intervencionista, para desdibujar esta clara distinción entre lo público y lo privado
típica del liberalismo burgués y base de la existencia de un Estado de Derecho, que
proclama para esta clase la representación popular.
La ilustración genera una «esfera pública política» que define un espacio de
discusión y de crítica sustraído al poder del Estado. En realidad en la génesis del
Estado moderno está la distinción entre lo público y lo privado como dos esferas
diferentes que separan el ámbito del poder político estatal de la sociedad. Su acceso
está restringido, en una primera etapa, a la burguesía como actor calificado
socialmente para ocupar ese espacio. El «pueblo» no incluido en la clase burguesa,
aparece apartado de cualquier consideración sobre el poder y los derechos públicos.
La categoría ciudadano marca una clara diferenciación en cuanto a la pertenencia o
no a una comunidad política, pero también en lo que se refiere al ejercicio de los
derechos que esa categoría implica, en particular la de participar en el espacio
público: los derechos reclamados tienen un sentido restrictivo, alineado con las
aspiraciones de la burguesía como clase dominante.
En este espacio las personas privadas hacen uso público de su razón, uso
que es crítico frente al poder del príncipe. Aparece un nuevo público que ocupa
este espacio con un sentido diferente de las jerarquías sociales establecidas por el
Antiguo Régimen, que se sustrae a las jerarquías estamentales para ingresar en
condición igualitaria como ciudadanos de las luces. Pensemos por ejemplo en
Rousseau, emigrado de Ginebra, participando de los salones parisinos sin más
título que el de ser un amigo de las luces.
Esta distinción respecto de las jerarquías del Antiguo Régimen aparecen
claramente señaladas en la obra:

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Ahora veía que estaban los unos sobre los otros como carga añadida sobre carga. Sobre el
lomo del esclavo, sobre el lomo del capataz, sobre el lomo del amo, sobre el lomo del
corregidor, cobre el lomo del gobernador. Hasta llegar a aquel rey, a tres meses de barco,
a seis días de diligencia, a semanas de antesala y reverencia. (USLAR PIETRI, 1984, p. 7).

También hay que anotar que este espacio puede sostener su existencia pública
y abierta porque posee una cierta legitimación frente al poder que consiente por lo
menos en tolerarlo sin someterlo a represión. Las libertades civiles aparecen como
fundadas en el derecho natural de base racional, principio moderno por antonomasia,
que en su expresión más extrema se arroga el derecho de someter a crítica el orden
social y político imperante. Este derecho está reservado para quienes están calificados
por la riqueza y la cultura, condiciones características de la burguesía en ascenso,
que desconfía de la mayoría popular y la excluye conscientemente porque teme por
su participación en el poder. Ciudadanía es aquí sinónimo de ilustración, y el voto
censitario, que restringe el sufragio a los que poseen determinado nivel de ingresos,
establece de una manera taxativa los criterios de inclusión en los derechos políticos
y, por consecuencia, en el espacio público.
Precisamente en el extremo opuesto se encuentran los pueblos americanos,
privados de la participación en el gobierno por falta de riqueza e instrucción:

Cómo puede ejercer soberanía el pueblo si no lo hemos preparado. Este soberano ni


aprendió a mandar, ni manda y el que manda a su nombre lo gobernará, lo dominará y lo
esclavizará. Qué soberanía puede ejercer un pueblo ignorante y pobre. […] ¿Cómo se va
a hacer repúblicas sin ciudadanos? (USLAR PIETRI, 1984, p. 173)

La trabajosa construcción del Estado de Derecho en las naciones


latinoamericanas mantuvo siempre difusas estas distinciones en la medida en que
los límites del Estado y del Derecho estuvieron permanentemente afectados por un
bajo grado de institucionalidad, producto de las luchas políticas entre las facciones
y la influencia de las variadas formas de personalismo, que encuentran en el
caudillismo su expresión más típica y generalizada.
El Estado como construcción política supone la creación de solidaridades
extensas e impersonales, sobre las cuales se ejerce la dominación a través del aparato
burocrático. Pero esta significa, en definitiva, una nueva forma de sociabilidad y
una cultura política caracterizada en principio por una racionalidad de carácter
instrumental, propio de la modernidad. Forma que no habría de imponerse sin
luchas y conflictos. Con todo, queda claro que el espacio público estuvo dominado
por la presencia del sector más culto, que alternó permanentemente la función

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intelectual y literaria con la política.


La libertad de prensa y la difusión del libro van a permitir una paulatina
ampliación del público ilustrado que por razones funcionales (no todos saben leer)
y sociales (el “pueblo bajo” no es considerado como sujeto de derechos políticos)
queda limitado a la burguesía. La identificación de esta clase social con la Nación la
dotará de una especial legitimidad para ejercer la crítica desde el espacio público.
La “república de las letras”, formada por filósofos y hombres de letras ocupan un
lugar privilegiado en el espacio público burgués como sujetos de la cultura ilustrada.

MODERNIZACIÓN Y UTOPÍA INDIVIDUALISTA

En término de las ideas políticas que Uslar incorpora en la novela a partir de


la producción escritural de Simón Rodríguez, puede señalarse una clara relación
con los socialistas utópicos, bautizados así por Marx y Engels en razón de la ausencia
de consideraciones económicas y sociales en la construcción de sus modelos sociales,
así como su ignorancia acerca del poder estatal, al que sólo ven como un medio que
puede, en todo caso, permitir la realización de sus proyectos. La transformación de
la sociedad capitalista, cuyas lacras y contradicciones denuncian, devendrá de la
aplicación de su sistema en cuya exitosa multiplicación confían.
Las aspiraciones de Simón Rodríguez en términos de sus relaciones con el
poder, coinciden detalladamente con esta orientación del socialismo utópico.

Le confiarían todo lo necesario para arrancar. No una dependencia de gobierno, nada de


una secretaría de Estado. Un simple establecimiento de enseñanza donde él pudiera
aplicar y demostrar sus métodos. Cuando los demás comenzaran a ver los resultados no
tendrían más remedio que darse cuenta de la importancia y de las enormes posibilidades
del nuevo método. Le confiarían otros planteles, le pedirían consejo. El eco de la novedad
llegaría hasta Bolívar en su lejana línea de combate. […]. ‘Pero claro, si es Don Simón, mi
maestro. Por qué no me lo habían avisado. Hay que darle todos los medios necesarios para
que extienda esto a todo el territorio, a todas las gentes. Éste es el complemento de todo
lo que hemos logrado.’ (USLAR PIETRI, 1984, p. 126).

Esta filiación puede observarse también en la orientación de los estudios


propuestos por Simón Rodriguez para formar a sus alumnos-ciudadanos. En efecto,
según el pedagogo venezolano, hay que educar para la convivencia, base de la
cultura republicana, pero, además, educar en el manejo de las artes mecánicas y los
metales.

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Pero todavía de una manera más evidente puede observarse este vínculo en la
entrevista que mantiene con Andrés Bello, a la sazón instalado en el aparato de
poder en la República de Chile.
Refiriéndose al poema bucólico de Bello, diseñado “para que nuestra gente
sienta la belleza y el sentido religioso que hay en las simples tareas de la tierra.
Para que se olviden de la fama militar y de la ambición política.” (USLAR PIETRI,
1984, 121)

No le parecía mal a Róbinson, pero pensaba que era necesario darle otra dimensión a ese
deseo tan noble. ‘Hay que preparar a la gente para vivir en la sociedad nueva. El mundo está
cambiando. Ya no es el campo la única fuente de riqueza. Cada día aumentan más la
industria y las artes mecánicas. Hay que enseñar a nuestros hombres a valerse de los
metales’. ‘Va a ser difícil cantar a esas chimeneas que vomitan humo negro y esas máquinas
que resoplan y se agitan como pailas del diablo.’
Era el tema favorito de Róbinson. (USLAR PIETRI, 1984, 121)

En contraste con la versión agraria y pastoril de Bello, coincidente con el


modo predominante de producción en los países latinoamericanos de la época- la
inclinación industrialistas de Róbinson- Rodríguez, tiene claras connotaciones
saintsimonianas que él mismo pone de manifiesto.

‘El descubrimiento de la pólvora acabó con la nobleza’. ‘Le voy a pasar las publicaciones de
los saintsimonianos que tengo conmigo. La industria va a transformar el mundo. Habrá que
reorganizar todo para esa realidad nueva. Ahora existe el hecho social. Ya no más reyes, no
más nobleza, el mundo del mañana lo van a gobernar los industriales. Ya no más revoluciones
sino una nueva organización. El gobierno de la sociedad futura tendrá que ser científico. La
sociedad actual no es otra cosa que el mundo al revés.’ (USLAR PIETRI, 1984, 121).

Además de las referencias a las publicaciones, las alusiones aquí son precisas
y puntuales: preeminencia de la industria en la conformación de la nueva sociedad,
gobierno de la ciencia y de los industriales en un modelo tecnocrático de dominación.
El desconocimiento de las formalidades propias de una administración aunque
rudimentaria administración estatal, su desprecio por las formas burocráticas y su
desconocimiento del poder ejercido por los titulares de esas formas, completan si
se quieren este cuadro de desprecio por el poder político organizado, que contrasta,
como en los socialistas utópicos, con la confianza ilimitada en la aplicación de su
sistema- en su caso la educación- para producir la transformación de las sociedades.
Es decir una revolución si conflictos ni enfrentamientos de clase.

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A pesar de que la referencia en el cuerpo de la novela ocupa un lugar puntual,


que no tiene el grado de reiteración de su insistencia en el valor de la escuela para
la formación de la república, puede entenderse que estas precisas marcas textuales
evidencian las preferencias del autor en punto a la modernización de la sociedad
latinoamericana.
La figura del genio incomprendido y la actitud refractaria del poder político a
la aplicación de sus fórmulas salvadoras, completan una figura de importante
ascendencia en el imaginario social, que con frecuencia otorga a las individualidades
unas capacidades que no se condicen con el manejo de la cosa pública.
Por lo demás en la perspectiva liberal individualista en que está planteado el
proceso de modernización de la sociedad latinoamericana, la consideración de los
factores estructurales – en primer lugar los políticos y económicos – como
instrumentos de cambio, permanecen soslayados por la importancia que se otorga a
las actitudes y conductas individuales. Y es en este individualismo como principio
de acción política instalado en el imaginario social, donde se agotan todas las
posibilidades de construir, como contrapartida, un sistema político solidario.
A modo de provisorio cierre de estas reflexiones, parece oportuno aquí rescatar
el enfoque de Pierre Bourdieu (2000, p. 69) en el sentido de que

Las diferentes clases y fracciones de clase están comprometidas en una lucha propiamente
simbólica para imponer la definición del mundo social más conforme a sus intereses, el
campo de las tomas de posición ideológicas que reproduce, bajo una forma transfigurada,
el campo de las posiciones sociales. Agregando en nota aclaratoria: Las tomas de posición
ideológicas de los dominantes son estrategias de reproducción que tienden a reforzar en
la clase y fuera de la clase la creencia en la legitimidad de la dominación de la clase

La significación de los campos es siempre indisolublemente estética y política.


Aunque la autonomía entre las tomas de posición estética y política sea más o
menos grande según las épocas, más allá de las posiciones estructurales, nos
interesan aquí por su posibilidad de introducir en estos campos de significación (y,
correlativamente de poder) una gran variedad de significaciones, como expresión
de otras tantas expresiones culturales, que de otro modo quedarían inexpresadas y
ocultas.
Mariaca Iturri, refiriéndose al ámbito específico de la crítica literaria
latinoamericana afirma:

Más allá, por tanto, difícilmente podría seguir suponiéndose una ingenua pluralidad de
lecturas que se estructuran en una homogénea estrategia discursiva; es casi obvio que la

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heterogeneidad de interpretaciones es una diversidad en lucha por la hegemonía: tal o


cual «modernismo» canónico, tales métodos, tales deudas, tales reconocimientos, tales
homenajes. No puede ignorarse que las estrategias discursivas tienen ambiciones
monopólicas; no en vano las leemos cada día, o casi. (MARIACA ITURRI, 1993; p. 3).

Lo que se ha puesto en discusión es una forma de concebir la cultura – y en


consecuencia la literatura – en tanto principio de identificación y por tanto de
legitimidad. En este sentido, desde el campo intelectual, las distinciones adquieren
un valor político que es necesario ponderar en un doble sentido.
En primer lugar, sobre la unidad de la cultura latinoamericana, basada en las
expresiones consideradas más “cultas” y que han legitimado no sólo los campos del
saber y la investigación sino la concepción misma de nuestra realidad. Cuando se
afirma que “Históricamente es cierto que la literatura latinoamericana ha llegado a
constituirse en un discurso relativamente homogéneo –en su diversificación – e
integrador. Pero el discurso de la literatura es un discurso que se superpone al
político, el económico o al social, que no siempre observan aproximaciones. “La
unidad latinoamericana es un proyecto político que viene del siglo pasado, no una
realidad histórica.” (PIZARRO, 1985; p. 62), se está propiciando una distinción
relevante a los efectos de nuestra propia identidad en la medida en que forma parte
de su construcción.
En busca de la concreción de una historia de la literatura latinoamericana, la
autora de la cita expresa la convicción, que compartimos, en el sentido de que
“Nuestro esfuerzo es alentado sin embargo por el convencimiento de que el logro
de un discurso coherente de aprehensión conceptual de nuestro imaginario social
en la literatura es no sólo una manera de expresar al continente sino también una
manera de ayudar a construirlo.” (PIZARRO, año 1985, p. 87). Así,

[…] no es difícil inferir las consecuencias de estas luchas para el resto de la producción
literaria, extensiva a las demás expresiones de la cultura. Sin discutir aquí sus presupuestos,
puede verse con claridad el papel de los estudios culturales y la discusión de sus problemas,
respecto de la visibilidad de los intereses y posiciones de aquellos que buscan su lugar
como sujetos de la cultura y, en consecuencia, portadores de legitimidad social frente a los
recortes de quienes profesan los cánones-medidas de inclusión y de exclusión- y por tanto
el valor y la legitimidad de la producción cultural de los diversos actores sociales. La
muerte de los grandes relatos ha ocasionado, también, la confianza en el relato integrador
y homogeneizante del Estado-nación, abriendo paso a una multitud de relatos que buscan
recomponer la identidad de los sujetos. (BORDIEU, 2000, p. 160).

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La intención de este trabajo es precisamente, contribuir a poner en discusión


las ideas y los relatos que han ido conformando el modo con que los latinoamericanos
nos hemos venido pensando, a partir de poner en relieve las dimensiones
sociopolíticas de un texto literario, como el que nos ocupa. Que tiene el doble
valor de tomar como referente a un personaje y una época de particular trascendencia
para la formación de las sociedades latinoamericanas- Simón Rodríguez y la faena
de la independencia y la construcción de las nacionalidades. Y a un autor- Arturo
Uslar Pietri- que allende su reconocida calidad literaria, une la condición del escritor
a la del político y hombre de acción, siguiendo una larga y honorable tradición
latinoamericana.

NOTAS

* Es graduado en Ciencias Políticas y Sociales, Especialista en Docencia Universitaria, Magister


en Ciencia Política y Sociología- FLACSO- y Doctorando en Ciencia Política, UN Rosario.
Actualmente es Profesor Titular Efectivo de Doctrinas e Ideas Políticas en la Facultad de
Ciencias Políticas y Sociales de la UN Cuyo – Universidad Nacional de Cuyo, Argentina.
1 Es bien conocida en el ámbito de las ciencias sociales la conceptualización que Antonio
Gramsci realiza de la relación entre los intelectuales y el sentido común, atribuyéndoles a
estos, en tanto parte de una clase social, la responsabilidad principal en la elaboración de los
contenidos que a la postre sentarán las bases de una dominación hegemónica. Ver: AGUILERA
de PRAT, p. 65/66

REFERENCIAS:

ANSALDI, Waldo. A mucho viento, poca vela. Las condiciones históricas de la democracia en
América Latina. Una introducción, en ANSALDI, Waldo, (Director). La democracia en América
Latina, un barco a la deriva, Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2008. p. 29-50.
ANSALDI, Waldo. (2) La democracia en América Latina, un barco a la deriva, tocado en la línea de
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História e Memória I SSN 180 9-5313
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UNIOESTE CAMPUS DE C ASCAVEL
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Data de recebimento: 23/08/2010


Data de aceite para a publicação: 18/10/2010.

SOBRE EL AUTOR:

Juan Antonio Gonzalez Atencia es graduado en Ciencias Políticas y Sociales,


Especialista en Docencia Universitaria, Magister en Sociología y Ciencia Política y
Doctorando en Ciencia Política. Ha dictado cursos de grado y posgrado de su
especialidad en universidades estatales y privadas, habiendo dirigido trabajos de
investigación orientados principalmente al proceso de reforma del Estado. Ha sido
Director de la Carrera de Ciencia Política y Administración Pública en la Facultad
de Ciencias Políticas y Sociales. Actualmente es profesor Titular Efectivo de Doctrinas
e Ideas Políticas en la Universidad Nacional de Cuyo, docente investigador y profesor
de cursos de posgrado. Sus intereses actuales están orientados principalmente al
análisis de la cultura política y a las relaciones entre política y economía, temas de
su tesis doctoral y de los trabajos de investigación en curso.

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Revista de Literatura, HISTÓRIA E MEMÓRIA,
História e Memória UMA RELAÇÃO CONFLITUOSA
2010: Reflexões sobre o
bicentenário de independências
na América
ZIOLI, Miguel (UNESP-Assis)*
ISSN 1809-5313
VOL. 6 - Nº 8 - 2010
U NIOESTE / CASCAVEL

P. 157-165

RESUMO: Desde a consolidação do estruturalismo nas Ciências Humanas em meados do século


XX, que corroeu os pilares sobre os quais o pensamento positivista do século XIX erigia o
discurso da história, catalogado como ciência, historiadores, filósofos, críticos literários e outros
pensadores vêm travando um rico debate em torno às possíveis relações e/ou limites entre os
discursos histórico e literário, e o papel das narrativas em primeira pessoa na construção do
discurso da história. Tais discussões, apesar do radicalismo de algumas posições extremas que
chegam a colocar em dúvida a capacidade de o historiador poder captar objetivamente o fato
histórico, uma vez que sempre dependerá da mediação da linguagem, produzem interessantes
resultados quando se trata das memórias individuais, tradicionalmente vistas com desconfiança
como documento histórico, pois se referem a discursos construídos no âmbito da subjetividade.
O presente texto aborda alguns aspectos dessa discussão, apontando para uma solução mediado-
ra, a partir das reflexões de Paul Ricoeur, em seu livro A memória, a história e o esquecimento,
de 2007. Para os historiadores que utilizam a memória como fonte da história, uma nova perspec-
tiva teórica abriu-se, uma vez que para o filósofo francês, os textos memorialísticos criam novas
zonas de comunicabilidade entre grupos aparentemente desconexos e estabelecem zonas de
interdependência entre o público e o privado, um elo necessário na cadeia entre o historiador
fincado no presente e o passado que ele busca reconstitui através de suas pesquisas.

PALAVRAS-CHAVE: Memória; história; Paul Ricoeur.

RESUMEN: Desde la consolidación del estructuralismo en las Ciencias Humanas a mediados del
siglo XX, que derrumbó los pilares que sostenían, de acuerdo con el positivismo del siglo XIX,
el discurso de la historia, catalogado como ciencia, historiadores, filósofos, críticos literarios y
otros pensadores mantienen un rico debate sobre los posibles límites y/o relaciones entre
literatura e historia y el papel de las narrativas en primera persona en la construcción del discurso
de la historia. Dichos planteamientos, a pesar de algunas posiciones extremadas que ponen en
duda la capacidad que tendría el historiador en poder captar objetivamente el hecho histórico,
una vez que siempre va a depender de la mediación del lenguaje, producen interesantes resulta-
dos al tratar de memorias individuales, generalmente tratadas con desconfianza, pues son narra-
tivas construidas en el ámbito de la subjetividad. El presente trabajo trata de algunos aspectos de
dicha discusión, señalando hacia una solución mediadora, a partir de las reflexiones de Paul

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Ricoeur, en su libro La memoria, la historia y el olvido (2007). Para los historiadores que se valen
de la memoria como fuente de la historia, se abre una nueva perspectiva teórica, ya que para el
filósofo francés, los textos memorialísticos hacen surgir nuevas zonas de comunicabilidad entre
grupos aparentemente desconectados y establecen zonas de interdependencia entre lo público
y lo privado, un eslabón necesario en la cadena entre el historiador ahincado en el presente y el
pasado que trata de reconstruir en sus investigaciones.

PALABRAS-CLAVE: memoria; historia; Paul Ricoueur

Ao longo as décadas de 1950, 60 e 70, as Ciências Humanas assistiram ao


que o historiador François Dosse classificou como “o triunfo progressivo do
estruturalismo” (DOSSE, 2001, p. 72), método de investigação calcado no modelo
proposto pela lingüística de Ferdinand de Saussure (1857-1913) e na antropologia de
Claude Lévi-Strauss (1908-2009), cujo resultado levou a historiografia, sobretudo
de língua francesa, a privilegiar o estudo da estrutura em detrimento da conjuntura.
Definida como a filha do presente, na feliz expressão de Lucien Febvre, a
escrita da História reflete os acontecimentos mais significativos de seu tempo.
Durante as primeiras décadas do século XX, a História refletiu os acontecimentos
mais significativos daquele período caracterizado pelo enfrentamento dos Estados
Nacionais em busca de territórios e mercados, cujos embates resultaram em dois
conflitos mundiais fatos, em parte, responsáveis pela emergência da voz das massas
nos canteiros da História, expresso nos relatos dos horrores vividos nas trincheiras
das guerras marcadas por uma mortandade até então sem precedentes na história.
A publicidade dos relatos das atrocidades cometidas durante os conflitos
bélicos trouxeram a questão da memória para dentro do ateliê dos historiadores.
Após o fim da Segunda Grande Guerra (1939-1945), as guerras regionais patrocinadas
pelo confronto entre os Estados Unidos e a extinta União Soviética permitiram que
durante décadas o tema continuasse ocupando lugar de destaque nas oficinas da
história.
Em busca de suporte teórico para a questão da memória, os historiadores
encontraram-no no conceito de memória coletiva elaborado pelo sociólogo Maurice
Halbwachs (1877-1945) em seu clássico A Memória coletiva, um aporte metodológico
fundamental durante os anos regidos pelo estruturalismo. Halbwachs definiu a
memória como uma atividade natural, espontânea, desinteressada e seletiva, que
guarda do passado apenas o que lhe possa ser útil para criar um elo entre o presente
e o passado, ao contrário da história, que constitui um processo interessado, político
e, portanto, manipulador (BRESCIANI & NAXARA, 2004, p.40)

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Entretanto, na última década do século XX, com o fim das utopias políticas e
sociais representada pelo colapso do sistema socialista iniciou-se uma nova era que
Beatriz Sarlo (2007) classificou como tempos de guinada subjetiva no campo das
Ciências Humanas, caracterizada pelo retorno do interesse pelos percursos
individuais. De acordo com Sarlo:

Há décadas o olhar de muitos historiadores e cientistas sociais inspirados no etnográfico


deslocou-se para a bruxaria, a loucura, a festa, a literatura popular, o campesinato, as
estratégias de cotidiano, buscando o detalhe excepcional, o vestígio daquilo que se opõe
à normalização e as subjetividades que se distinguem por uma anomalia (o louco, o
criminoso, a iludida, a possessa, a bruxa) porque representam uma refutação às imposições
do poder material ou simbólico. Mas também se acentuou o interesse pelos sujeitos
“normais”, quando se reconheceu que eles não só seguiam itinerários sociais traçados,
como protagonizavam negociações, transgressões e variantes. (SARLO, 2007, p. 15-16)

Esse novo período pode ser atestado na grande quantidade de publicações


identificadas como escritas do eu. Esta mudança de paradigma, do estrutural ao
subjetivo, parece ter ocorrido tanto pelo vigor apresentado pela historiografia do
presente, que tem entre suas principais fontes a captação de depoimentos orais,
quanto pelo fortalecimento da História do Cotidiano que contribuiu igualmente
para que a memória individual ganhasse relevo como fecunda fonte da História.
Sarlo lembra que:

[...] as “histórias da vida cotidiana”, produzidas, em geral, de modo coletivo e monográfico


no espaço acadêmico, às vezes tem um público que está além desse âmbito, justamente
pelo interesse “romanesco” de seus objetos. O passado volta como quadro de costumes
em que se valorizam os detalhes, as originalidades, a exceção à regra, as curiosidades que
já não se encontram no presente. [...] Esses sujeitos marginais, que teriam sido relativamente
ignorados em outros modos de narração do passado, demandam novas exigências de
método e tendem à escuta sistemática dos “discursos de memória”: diários, cartas, conselhos,
orações. (SARLO, 2007, p. 17)

Assim, nas palavras de Beatriz Sarlo, as relações entre História e memória


são de desconfiança, “porque nem sempre a história consegue acreditar na memória
e a memória desconfia de uma reconstituição que não coloque em seu centro os
direitos da lembrança (direitos de vida, de justiça, de subjetividade).” (SARLO,
2007, p. 17) Trata-se de uma questão complexa porque as obras incluídas no chamado
gênero memorialístico são sem dúvida de difícil classificação e parece não haver
convergência teórica entre os especialistas.

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Uma breve incursão sobre o tema, tanto no âmbito das Letras, quanto no
âmbito da própria História deixa evidente essa complexidade. Para Jean-Philippe
Miraux, por exemplo, as memórias fariam parte de um gênero mais abrangente que
Georges Gusdorf denomina as escritas do eu, composto também pela autobiografia,
reminiscências, anti-memórias e diários íntimos. Segundo Miraux,

[...] em sua forma estrita, [as memórias] devem ser escritas por alguém que desempenhou
um papel importante na História, alguém que foi testemunha de acontecimentos históricos
notáveis, que freqüentou e observou aos grandes deste mundo, aqueles que em maior ou
menor medida influenciaram na vida de uma nação, nas decisões de um Estado, no espírito
de um povo. Nas memórias, salvo célebres exceções a escrita não se centra na história
pessoal do escritor, e o narrador apresenta-se mais como um relator, como um cronista e
não como personagem central. (MIRAUX, 2005, p. 17, tradução minha)

A definição de Miraux, no entanto, coloca questões, sobretudo para o campo


da História. Como definir um “papel importante na História”? E se, nas memórias, a
escrita centra-se na História pessoal do escritor? Nesse caso as narrativas intituladas
de “memórias” não seriam dignas de tal nomenclatura?
Os estudiosos da Literatura não apresentam uma distinção clara entre memória
e autobiografia. Para Gusdorf, por exemplo, mais importante do que definir um
gênero narrativo é tentar elucidar a significação e a intenção de uma obra e não
rotulá-la arbitrariamente para inseri-la numa determinada convenção. (GUSDORF,
Apud HERVOT & SAVIETTO, 2009, p. 17)
Entretanto, outros críticos, como Luiz Costa Lima, independente da classificação
que se dê ao gênero memorialístico, entendem que tais textos não serviriam como
documento histórico por sua alta dose de teor subjetivo, mas obstáculos como os
colocados por Costa Lima parecem inócuos e

A autobiografia não pode ser tomada como documento histórico, pois é o testemunho do
modo como alguém se via a si mesmo, de como formulava a crença de que era o outro que
atendia pelo nome do eu, um outro sem dúvida aparentado ao eu que agora escreve, com
reações semelhantes e uma história idêntica, mas sempre uma outra, a viver sob a ilusão
da unidade. (COSTA LIMA Apud HERVOT & SAVIETTO, 2009, p. 34)

Parece não haver dúvidas, entretanto, de que a historiografia, ao apropriar-


se do gênero memorialístico como mais uma de suas fontes, a apreendeu
primordialmente em sua dimensão social, portanto, coletiva. Como ressalta André
Burguière, no período em que este processo começou a se configurar, “a atenção
prioritária dos historiadores a partir dos Annales [passou a ser] concedida aos
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grupos e não mais aos indivíduos, às estruturas sócio-econômicas e não mais aos
acontecimentos [fato que] teve a vantagem de reconciliar os historiadores com as
exigências científicas que as ciências sociais fizeram avançar. (BURGUIÈRE, 1997,
p.52)
Essa apreensão da memória como fonte da História ocorreu após a longa era
das utopias coletivas, representada pela crítica literária estruturalista e pela leitura
marxista da História, período durante o qual pouco valor dava-se às expressões do
“eu’. Entretanto, nas duas últimas décadas com o crescente interesse pelo indivíduo,
expresso no boom editorial de biografias e “discursos de memória” os historiadores
passaram a mobilizar a memória como fonte da História e essa mobilização mostrou
haver uma vulnerabilidade teórica, um descompasso entre a prática e a teoria.
Os manuais historiográficos não fazem referência à memória individual como
conceito nem como fonte da História, ainda que não seja difícil perceber o uso cada
vez mais freqüente dessa fonte na elaboração de textos biográficos. O Dicionário
das Ciências Sociais, de André Burguière, por exemplo, inclui o verbete “Memória
coletiva”, mas não faz alusão à “Memória individual”. Em História e Memória, Jacques
Le Goff, ao tratar das relações entre história e memória coletiva, esclarece que o
conceito de memória é crucial, pois entende que “a memória coletiva foi posta em
jogo de forma importante na luta das forças sociais pelo poder” (LE GOFF, 2003, p.
422). Entretanto, seu texto, apenas incidentalmente, faz referências à memória
individual. E quando Pierre Nora fala em lugares de memória ou quando, na expressão
de Arno Mayer, vive-se “um frenesi de memória”, (MAYER, Apud SEIXAS, 2004, p.
43) é na questão da memória coletiva que esses historiadores centram sua atenção
e não na memória individual.
Esta situação tem suscitado interessantes discussões sobre a questão. Um
exemplo significativo pode ser encontrado em textos como o de Jacy Alves de Seixas,
cujo propósito é discutir a questão da memória no âmbito dos estudos históricos.
Para a historiadora, trata-se de um

[...] fenômeno novo e salutar que está na raiz de importantes movimentos identitários
(sociais e/ou políticos) e de afirmação de novas subjetividades, de novas cidadanias [...]
Responsável, por um debate que teve como desdobramento o aparecimento de novas
noções como as de “memórias subterrâneas”, “lembranças dissidentes”, “lembranças
proibidas”, “memórias enquadradas”, “memórias silenciadas, mas não esquecidas” e outras
que buscam dar conta da complexidade do fenômeno contemporâneo da memória [...]
(SEIXAS, 2004, p. 43)

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Segundo Alves de Seixas, as dificuldades atuais na relação história-memória


residiriam no fato de que a oposição que se construiu entre elas ocorreu sem rupturas
com a tradição aristotélica que apreendeu a memória em sua função cognitiva, ou
seja, apenas como conhecimento do passado, em detrimento da memória-ação e da
memória-afetiva que comporiam a tri-funcionalidade da memória (SEIXAS, 2004,
p. 43). Tal concepção parcial do conceito é que teria tornado problemática sua
historicização, pois neste “movimento inexorável e sem volta [em que] toda memória
hoje em dia é uma memória exilada, que busca refúgio na história, restando-lhe,
assim, os lugares de memória (de uma memória que vive sob ‘o olhar de uma história
reconstituída’) como seu grande testemunho” (SEIXAS, 2004, p. 43), a História
teria deixado de lado a memória-ação e a memória-afetiva.
Jacques Le Goff lembra que Mnemosyne, a titânide que personifica a memória,
é mãe das musas, entre as quais Clio, a musa da história. Em seu verbete “Memória”,
da Enciclopédia Einaudi, ele propõe uma relação dialética e generativa entre memória
e história: “a memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta” (LE
GOFF, Apud NEVES, 2009, p. 26.)
No âmbito da Literatura, Marcel Proust (1871-1922), autor de Em busca do
tempo perdido, um dos mais festejados clássicos da literatura mundial, mestre na
arte de trabalhar com os fios da memória involuntária, percebeu por outro ângulo a
questão da memória. Para Proust, a memória voluntária, a outra face da mesma
moeda, seria, “[...], sobretudo, uma memória da inteligência e dos olhos [que] nos
dá do passado apenas faces sem verdade” (PROUST Apud SEIXAS, 2004, p. 46).
Seguindo o pensamento de Proust, Jacy Alves de Seixas explica que essa memória
voluntária é uma memória uniforme e em grande medida enganadora, pois opera
com imagens que, apesar de representarem a vida, não “guardam nada dela”.
Assim, ao apreender a memória como fonte, a historiografia a teria apreendido
como memória voluntária, excluindo de seu campo a memória involuntária, esta sim
carregada de afetividade. Isto teria ocorrido porque, no decorrer do século XIX, ao
procurar constituir-se como ciência, a História o fez importando o modelo das
Ciências Naturais, estratégia que demandava fontes objetivas que a auxiliassem na
produção de uma narrativa de cunho realista, pretensamente isenta de subjetividade,
na intenção de evitar ou ao menos afastá-la das indeterminações da história. Cabe
indagar, então, se seria possível, efetivamente, separar a memória voluntária da
involuntária no instante de materializá-la em texto, uma vez que o produto final é a
narrativa e esta só se configurará como construção.
Para os historiadores que utilizam a memória como fonte da história, uma
nova perspectiva teórica abriu-se com A memória, a história e o esquecimento, de

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Paul Ricoeur (2007) obra na qual o pensador francês propõe um novo olhar, positivo,
sobre o problema das relações entre a memória e História. Segundo Ricoeur:

[...] apesar das armadilhas que o imaginário arma para a memória, pode-se afirmar que uma
busca específica da verdade está implícita no olhar sobre a coisa passada [...] Essa busca da
verdade especifica a memória como grandeza cognitiva. Mais precisamente, é no momento
do reconhecimento, no qual se conclui o esforço da lembrança, que essa busca da verdade
se declara. Sentimos e sabemos então que algo se passou, que algo aconteceu, que nos
implicou como agentes, como pacientes como testemunhas. (RICOEUR Apud LORIGA in
CASTRO GOMES, A & SCHMIDT B. B [Orgs], 2009, p. 19).

Em sua defesa em favor da memória, o pensador francês lembra que apesar


das críticas endereçadas à memória pelo alto teor de subjetividade, ela é o único
caminho possível entre o presente e o passado e, se a memória é acusada com
freqüência de ser pouco confiável, isso ocorre por que

[...] ela é o nosso único recurso para significar o caráter passado daquilo de que declaramos
nos lembrar. [...] Para falar sem rodeio, não temos nada melhor que a memória para
significar que algo aconteceu, ocorreu, se passou antes que declarássemos nos lembrar
dela. (RICOEUR, 2007, p. 40)

Ricoeur também tece considerações sobre o conceito de memória coletiva,


elaborado por Maurice Halbwachs, e que foi retomado por historiadores de distintos
matizes. O pensador francês indaga-se se não haveria “um plano intermediário de
referência no qual se operam concretamente as trocas entre a memória viva das
pessoas individuais e a memória pública das comunidades às quais pertencemos”.
(RICOUER, 2007, p. 141) A resposta evidencia a novidade de seu pensamento: esse
plano seria o da relação com os próximos, a quem temos o direito de atribuir uma
memória de um tipo distinto. Os próximos são as pessoas que contam para nós e
para as quais significamos, são pessoas situadas numa faixa de variação das distâncias
na relação entre o si e os outros. (RICOEUR, 2007, p. 141) E completa:

Variação de distância, mas também variação nas modalidades ativas e passivas dos jogos de
distanciamento e de aproximação que fazem da proximidade uma relação dinâmica
constantemente em movimento: tornar-se próximo, sentir-se próximo. Assim, a proximidade
seria a réplica da amizade, dessa philia celebrada pelos Antigos, a meio caminho entre o
indivíduo solitário e o cidadão definido pela sua contribuição à politéia, à vida e à ação das
polis. (RICOEUR, 2007, p. 141).

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Ricoeur levanta ainda outra questão. Ele se indaga em qual trajeto de atribuição
da memória se situam esses próximos. Para ele, a ligação com os próximos “corta
transversal e eletivamente tanto as relações de filiação e de conjugabilidade quanto
às relações sociais dispersas, segundo as formas múltiplas de pertencimento ou as
ordens respectivas de grandezas.” (RICOEUR, 2007, p. 141) Nesse sentido, é possível
pensar que os textos memorialísticos criam novas zonas de comunicabilidade entre
grupos aparentemente desconexos ou ainda estabelecem zonas de interdependência
entre o público e o privado.
Ao pensar positivamente a memória individual, Paul Ricoeur está indiretamente
propondo um novo olhar para o papel do memorialista. Ele não o percebe como um
simples auxiliar do historiador, mas como um elo na cadeia entre o historiador
fincado no presente e o passado que este busca reconstituir através de suas pesquisas.
Parece evidente que o historiador possa e deva desconfiar da imparcialidade
das narrativas memorialísticas, afinal todo memorialista confessa que vai contar
uma verdade, verdade esta que materializa uma visão particular dos fatos, mas o
historiador sabe que tal verdade é parcial e seu trabalho residiria em confrontá-la
com os fatos que se cristalizam pela produção de outros documentos e pela própria
memória dos demais personagens que participaram e narraram a sua verdade dos
mesmos fatos.
Com relação ao processo escritural e no âmbito dos estudos literários, Philippe
Lejeune (2008, p. 104) parece seguir na mesma direção do pensamento de Ricoeur,
ao destacar que o fato de que a identidade individual, na escrita como na vida, ao
passar pela narrativa não significa de modo algum que ela seja uma ficção. Ao se
colocar por escrito, o indivíduo apenas prolonga aquele trabalho de criação da
“identidade coletiva” em que consiste qualquer vida. É claro que, ao tentar ver-se
melhor, continua se criando, passando a limpo os rascunhos de sua identidade e
nesse movimento vai provisoriamente estilizá-los ou simplificá-los. Mas esse
indivíduo não brinca de se inventar. Ao seguir as vias da narrativa, ao contrário, ele
é fiel à sua verdade: todos os homens que andam na rua são homens-narrativas; é
por isso que conseguem parar em pé. Se a identidade é um discurso imaginário, a
autobiografia que corresponde a esse imaginário está do lado da verdade. Não há
nenhuma relação com o jogo deliberado da ficção. (LEJEUNE, 2008, p. 104).

NOTAS

* Mestre e Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista-UNESP-Assis.

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Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007
RICOEUR, P. A memória, a história e o esquecimento. Campinas: Ed. UNICAMP, 2007.
SEIXAS, J. A. de. Percursos de memória em terras de história: problemas atuais In BRESCIANI, S
& NAXARA, M, Memória e (res)sentimento. Campinas: Ed. UNICAMP, 2004.

Data de recebimento: 29/09/2010


Data de aceite para a publicação: 11/10/2010.

SOBRE O AUTOR

Miguel Zioli possui graduação em Letras Tradução pela Universidade Estadual


Paulista Júlio de Mesquita Filho (1985), graduação em História pela Universidade
de São Paulo (1993), Mestrado e Doutorado em Historia pela Universidade Estadual
Paulista Júlio de Mesquita Filho (2006;2011). Foi Bolsista CAPES-DS. Atua
principalmente nos seguintes temas: História do Brasil, Bento de Abreu Sampaio
Vidal, biografia, biografia política e oligarquia cafeeira, Paulo Duarte, Departamento
de Cultura de São Paulo, História Cultural.

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Revista de Literatura, EL HUIDIZO SENTIDO DE LA
História e Memória INDEPENDENCIA
2010: Reflexões sobre o
bicentenário de independências
na América
EN LA ISLA DE RÓBINSON,
ISSN 1809-5313 DE ARTURO USLAR PIETRI
VOL. 6 - Nº 8 - 2010
U NIOESTE / CASCAVEL

P. 167-179

FEBRES, Laura. (Universidad Metropolitana/Venezuela)*


lfebres@unimet.edu.ve

RESUMO: La isla de Róbinson, de Arturo Uslar Pietri, é, do nosso ponto de vista, uma das obras
mais exitosas dentro da produção deste venezuelano que nasceu em Caracas em 1901 e que
morreu em 2006. Nesse trabalho trataremos de três características importantes da produção
Uslariana que ressaltam ao longo desse romance histórico, os quais se vinculam à urgência que
existe no autor de converter o lápis em pincel do pensamento. A primeira delas será tratar da obra
La Isla de Róbinson como um romance histórico; a segunda é a sua pertinência, também, a outro
ramo literário muito conhecido, como é a literatura de viagens e, a terceira, a relação da escrita
com a realidade e o pensamento; problemática que subjaz ao longo de todo o texto. Este romance
histórico narra um dos períodos mais importantes na história da Venezuela e da América latina,
sua Independência. O narrador escolhe o momento em que ela rompe os limites do território da
Venezuela para se converter em um acontecimento Latino-americano e mundial. A obra é uma
reflexão sobre o sentido que teve este acontecimento para os latino-americanos, principalmente
através do pensamento de um de seus mais grandes ideólogos, Simón Rodríguez

PALAVRAS-CHAVE: Romance histórico, Independência, pensamento latino-americano, livro de


viagens.

RESUMEN: La isla de Róbinson, de Arturo Uslar Pietri es, desde nuestro punto de vista, una de
las obras más logradas, dentro de la producción de este venezolano quien nace en Caracas en
1901 y muere en 2006.En este trabajo trataremos tres rasgos importantes de la producción
Uslariana que resaltan dentro de esta novela histórica, los cuales se engloban en la urgencia que
existe en el autor de convertir el lápiz en pincel del pensamiento. El primero de ellos será tratar
a La Isla de Róbinson como novela histórica, el segundo, su pertenencia también a otra rama
literaria muy conocida, como es la literatura de viajes y la tercera, la relación de la escritura con
la realidad y el pensamiento; problemática que subyace a través de todo el texto. Esta novela
histórica narra uno de los períodos más importantes en la historia de Venezuela y de Latinoamérica,

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su Independencia. El narrador escoge el momento en que ella rompe los límites del territorio de
Venezuela para convertirse en un suceso Latinoamericano y mundial. La obra es una reflexión
sobre el sentido que tuvo este acontecimiento para los latinoamericanos, principalmente a través
del pensamiento de uno de sus más grande ideólogos, Simón Rodríguez.

PALABRAS CLAVE: Novela histórica, Independencia, pensamiento latinoamericano, libro de


viajes

“Leer es resucitar ideas sepultadas en el papel: cada palabra es un epitafio: llamarlas a la


vida es una especie de milagro, y para hacerlo es menester conocer los espíritus de las
difuntas o tener espíritus equivalentes que subrogarles: un cuerpo con el alma de otro
sería un disfraz de carnaval; y cuerpo sin alma, sería un cadáver.” Simón Rodríguez.

INTRODUCCIÓN:

La isla de Róbinson, de Arturo Uslar Pietri, es, desde nuestro punto de vista,
una de las obras más logradas, dentro de la producción de este venezolano quien
nace en Caracas en 1901, vive una vida llena de ricas experiencias, tanto en el campo
de la literatura como en el de la acción política y muere en el 2006.
Esta afirmación sobre la novela ha sido confirmada por Alexis Márquez
Rodríguez, cuando dice:

La isla de Róbinson es la mejor lograda de las novelas de Uslar Pietri. La más madura, la
más acabada, la mejor concebida y realizada. En ella se combinan mejor que en todas las
demás, por una parte la precisión y el enfoque temático y anecdótico, y por la otra un
acopio de recursos técnicos y de lenguaje de una extraordinaria riqueza. Todo lo cual se
estructura sabiamente y con una alta calidad estética, para formar un corpus relatístico en
verdad excepcional. (MÁRQUEZ RODRÍGUEZ, 1986, p. 23).

En el campo político Arturo Uslar Pietri desempeñó muchas funciones, entre


ellas podemos mencionar la de Ministro de Educación (1939-1940), Secretario de la
Presidencia (1941-1943), Senador del Congreso de la República (1959-1963) y llegó
a participar en las elecciones de 1963 para optar por la Presidencia de la República
de Venezuela, pero fue derrotado.
Los géneros literarios no encasillaron su producción, los ejerció todos: poesía,
teatro, ensayo, novela y cuento. Y no sólo esto, fue un maestro del artículo
periodístico. Publicó un libro famoso de viajes El globo de colores y varios estudios

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sobre artistas plásticos como Giotto y Leonardo de Vinci. Su primera novela histórica
Las Lanzas Coloradas (1930) escrita en París, cuando disfrutaba de la compañía de
Miguel Ángel Asturias y Alejo Carpentier, ha sido traducida hoy a muchos idiomas.
En este trabajo trataremos tres rasgos importantes de la producción Uslariana
que resaltan dentro de esta novela histórica, los cuales se engloban en la urgencia
que existe en el autor de convertir el lápiz en pincel del pensamiento. El primero de
ellos será tratar a la Isla de Róbinson como novela histórica, el segundo, su
pertenencia también a otra rama literaria muy conocida como es la literatura de
viajes y la tercera, la relación de la escritura con la realidad y el pensamiento;
problemática que subyace a través de todo el texto.
Las aristas de estos tres problemas confluyen en uno solo, la creación de la
novela. Ninguno de ellos es tan rígido como una cárcel, como tampoco es firme la
identidad para el personaje principal, quien se inicia como Simón Rodríguez, cambia
su nombre al de Samuel Róbinson y nuevamente termina llamándose Simón
Rodríguez. Esto viene relacionado con su condición de hijo expósito, a quien ni su
padre ni su madre confirieron una identidad. Lo mismo sucede, parcialmente, con
otros personajes importantes de las novelas de Arturo Uslar Pietri, Fernando e Inés
Fonta en las Lanzas Coloradas, que a pesar de tener padre legítimo no poseen
conexión afectiva con él y Don Juan de Austria, el hijo bastardo de Felipe II, quien
pasa sus primeros años de vida sin conocer a su padre y sin saber su verdadera
identidad. Uslar Pietri parece sentirse fascinado por estos personajes, que están
muy cerca de definir al sujeto latinoamericano, que en su gran mayoría carece de
representación de la figura paterna.

La instancia paterna, cuya función esencial es la de estatuir y promover la ley, no cumple ni


puede cumplir aquí su misión porque se desmorona de su posición en el significante. […]
Ser hijo de significa que el individuo, en cuanto sujeto humano, está capturado en un red
de relaciones que lo preceden y condicionan su manera de percibirse y de aprehender el
mundo. […] Sin punto de apoyo estabilizador, Fernando (al igual que Simón Rodríguez en
esta novela) se va a la deriva, en busca de un asidero inalcanzable. El árbol que no puede
echar raíces muere. La existencia privada del arraigamiento paterno ve truncadas sus
posibilidades de ser. (LÓPEZ, 2002, p. 658)1

La novela trata diversas problemáticas que, como vasos comunicantes,


amalgaman las experiencias del personaje principal con las del autor y a su vez, las
de otros muchos hombres con las cuales éstas se funden. Serán reveladas, entonces,
en la escritura sus voces como lo más preciado durante el viaje que se describe; lo
único que queda después del naufragio.

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Eran infinitas voces de una legión de hombres. Pero siempre era la suya. Hasta aquella de
ahora con que llamaba a Cocho, entre el ruido del mar. Voz de viejo, cascada, seca, tosida.
No te sientes allí. No sobre la caja de papeles, no sobre aquel rescoldo de incendio, no
sobre aquel eco de lo más viviente de todo lo que él había vivido. (USLAR PIETRI, 1981, p.
183).

1- LA NOVELA HISTÓRICA Y LA INDEPENDENCIA

La obra puede ser considerada como novela histórica porque narra uno de
los períodos más importantes en la historia de Venezuela y Latinoamérica, su
Independencia.2 Pero no se habla solamente en ella de este período histórico sino
también de aquellos precursores que contribuyeron con sus pensamientos y acciones
a realizar el sueño de una América libre y productiva. En el ensayo magistral Godos,
insurgentes y visionarios analizará la contribución de muchos de ellos en la
construcción del imaginario del continente, por eso esta novela nos describe la
personalidad de algunos de los que fueron contemporáneos de Simón Rodríguez.
Muchos de ellos comparten ese terreno movedizo que limita con la locura,
como es el caso de Fray Servando Teresa Mier quien afirmaba que “El evangelio fue
predicado en América al mismo tiempo que en el resto de los otros continentes.
Desde el siglo I de la Era Cristiana por Santo Tomás-Quetzalcoatl.” (USLAR PIETRI,
1981, p. 37). También nuestro imaginario participa de la visión del indio que tenía
René de Chateaubriand en Atala o los amores de dos salvajes que Simón Rodríguez
traduce del francés. “Había que ser un francés, como aquel fino y modulado hablar,
para haber podido tener aquella visión del indio. Nunca los habíamos visto así
Servando.”3
Basta esta pequeña frase para analizar el juego que establece el autor entre el
estilo directo e indirecto en la novela. Las pinturas del narrador aparecen en estilo
indirecto, mientras que las frases de los personajes tomadas de otros textos, aparecen
entre comillas. Así el narrador nos introduce a través de estas señales gráficas
dentro de su juego temporal que pretende darnos la sensación de un mundo con
tiempos diferentes. No es lo mismo el tiempo lento de la Colonia caraqueña que el
tiempo rápido de la República norteamericana, ni estos se parecían al tiempo en el
París Postrevolucionario. Ni tampoco sería el mismo que nos dibuja cuando la
balsa conduce a Simón Rodríguez hacia su morada definitiva. “La velocidad y la
densidad del tiempo habían ido cambiando a su alrededor.” (USLAR PIETRI, 1981,
p. 44).

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Para esta novela Arturo Uslar Pietri escoge como nudo principal de la trama
el momento en que la Revolución de Independencia escapa a los límites de un solo
territorio para convertirse en un suceso Latinoamericano y mundial. Las Lanzas
Coloradas, primera novela de Arturo Uslar Pietri describe los inicios de este proceso
en el territorio venezolano.

En Las lanzas coloradas, de la Independencia sólo se escoge la primera parte de su


suceder, los años que van de finales del siglo XVIII cuando era Capitán General Manuel
Guevara y Vasconcelos hasta 1814, año de la batalla de la Victoria. El período colonial de
cierta paz que en ella se narra es muy pequeño, pero nos da a entender que la riqueza
agrícola y cierto desarrollo cultural alcanzado en ese período van a ser destruidos por la
guerra que comienza. Pensamos, entonces, que la guerra es el personaje principal de esta
primera novela. (FEBRES, 2001, p. 258)

Sin embargo, la guerra no tiene ningún sentido en sí misma y es en La isla de


Róbinson, donde Arturo Uslar Pietri intenta recuperar el significado, planteándonos
también la interrogante de si es posible conferirle significado a los hechos humanos.
Probablemente lo logramos con el lápiz pero será posible conseguirlo en la realidad.
La isla de Róbinson se desenvuelve como una novela histórica donde la noción
de historia es problematizada, porque a ratos es escrita por un loco. En ella la
historia, definida como aquella que confiere la explicación a los hechos humanos
realizados en el pasado, es cuestionada. Sería más auténtico escribir una novela
picaresca de la Independencia y no su historia:

¿Todavía me tiene usted por loco? Antonio José de Irisarri negó con azoramiento y
vehemencia.” […].
“Esto no está para escribir historia. Don Antonio José, sino más bien para hacer una novela
picaresca increíble. Todos los Rinconetes, los Lazarillos, los Guzmanes, los Pablos, se
quedarían chiquitos. Hágala usted. (USLAR PIETRI, 1981, p. 325).

La revolución de Independencia, como la mayoría de las revoluciones, no


produjo un cambio en la vida del hombre: “Cambian el gobierno pero no cambian
las costumbres. Ése es el error de las revoluciones. Cambian las leyes pero no tocan
la escuela. Tiempo perdido.” (USLAR PIETRI, 1981, p. 73). Fue una guerra sumamente
compleja, y a través de su estudio podemos acercarnos a lo que verdaderamente
somos y seremos como pueblo.

Sentía que en el impulso destructor y creador de la Guerra de Independencia se había


revelado de un modo pleno la condición criolla de nuestra humanidad. Fue el primer

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momento en que el alma criolla pudo entregarse con fruición posesiva a la irrestricta
expresión de su ser. […]
La novela es para él maestra de la vida, y su condición imaginaria no invalida su mensaje de
comprensión y acercamiento al proceso social de un pueblo. (CASTRO, 2002, p. 632).

No solamente en la Guerra de Independencia hubo un afán destructivo y


sacrificial, como el que observamos en Las Lanzas Coloradas, sino que observamos
un intento constructivo como el de Simón Rodríguez. Por eso, la historia narrada
en esta novela no va a tratar sólo del pasado sino también del tiempo futuro: “Lo que
ha pasado no se puede borrar. Lo que hay que preparar es el futuro. Pero un futuro
que pueda pertenecer a esas gentes.” (USLAR PIETRI, 1981, p.70). Para Alexis
Márquez Rodríguez el tiempo futuro forma parte estructural de la novela, el narrador
de ella tiene el don de “recordar el porvenir, que no otra cosa sería la capacidad de
adivinar el futuro.” (MÁRQUEZ RODRÍGUEZ, 1986, p. 46).
De la misma forma como se cuestiona la historia y sus conceptos, los de
revolución e Independencia, también se cuestiona la política: “Podríamos debatir
sobre matemáticas o sobre química, que son ciencias verdaderas, pero no sobre
política.” (USLAR PIETRI, 1981, p. 326).
A pesar del cuestionamiento que la novela hace del sentido de las cosas, en
los baúles de Simón Rodríguez después de su muerte es lo único que queda. Ese
sentido de la Independencia nos lo confieren las voces de sus más importantes
personajes citados en la novela. No la de sus personajes pequeños, como los pícaros,
que ni siquiera la entienden. La voz principal sería la de Simón Rodríguez, su más
importante ideólogo, por la comprensión americana que tiene del fenómeno: “Si él
no había venido para buscar puestos o prebendas sino para realizar la obra gigantesca
de hacer a América de nuevo y darle sentido completo a la Independencia.” (USLAR
PIETRI, 1981, p. 165).
También la de Simón Bolívar criticada por muchos personajes en el transcurso
de la novela: “Gual tenía una visión clara y razonada de la situación. El libertador ve
demasiado en grande. De allí el problema.” (USLAR PIETRI, 1981, p. 160).
Además de la visión de Antonio José de Sucre:

Le confió que la Asamblea le iba a pedir que redactara el proyecto de constitución para el
nuevo Estado. Ya tenemos la experiencia de todos estos años y deberíamos conocer las
fallas y los errores de los sistemas constitucionales que hemos ensayado. Vamos a proponer
instituciones que no sean meras copias, sino respuestas directas a nuestras necesidades
y características. (USLAR PIETRI, 1981, p. 228).

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Pero es la primera voz, la que prevalece, la de Simón Rodríguez o Samuel


Róbinson, porque se esfuerza en pintar sus ideas que inmediatamente muestran su
contradictoria concreción: “Tiene usted razón, soy contradictorio. Yo he querido
hacer de la tierra un paraíso para todos, la convierto en un infierno para mí. Pero
¿qué quiere usted? La libertad me es más querida que el bienestar.” (USLAR PIETRI,
1981, p. 298).
La libertad no es la única idea que puede hacer feliz al hombre. Sin embargo,
por ella se sacrifican todos los demás anhelos que tiene la sociedad americana. Por
lo tanto el resultado de la contienda no será, según Simón Rodríguez, definitivo; si
no se educan otras virtudes ciudadanas. Con respecto a esto la novela está llena de
los más sabios pensamientos, tomados por el autor directamente de los textos de
Simón Rodríguez, utilizando el recurso de la intertextualidad y el estilo directo que
recuerda sus ideas:

Esta Independencia que hemos proclamado no es sino un armisticio, una suspensión de


armas. Hay que hacer pueblo, hacer dirigentes, formar republicanos sobre una herencia de
despotismo y monarquía. Cómo puede ejercer soberanía el pueblo si no lo hemos preparado.
Este soberano ni aprendió a mandar, ni manda y el que manda a su nombre lo gobernará y
lo esclavizará. (USLAR PIETRI, 1981, p. 198).

Uno de los ideales más queridos para el maestro Simón Rodríguez es crear
un cuerpo social donde cada uno de los individuos concientizara su papel dentro de
él: Los hombres viven juntos, Peña, pero carecen de la idea fundamental de la
asociación que es pensar cada uno en todos para que todos piensen en él. Eso no lo
enseñaba nadie. […]. Por eso viven todos contra todos y no hay sociedad.4 (USLAR
PIETRI, 1981, p. 162).
Además de las virtudes ciudadanas, Simón Rodríguez le concede un papel
muy importante a la productividad en la sociedad americana, que debe ser lograda a
través de la educación y el trabajo: “Enseñen y tendrán quien sepa, eduquen y tendrán
quien haga. Enseñar a trabajar, a vivir en sociedad, a producir.” (USLAR PIETRI,
1981, p. 198). Y también, “El hombre no es ignorante porque es pobre, sino al
contrario. (USLAR PIETRI, 1981, p. 206).
No sólo hablaba de la educación del hombre en la sociedad, sino de la del
hombre individual, como persona, al que se le habían aplicado normas que lo habían
prostituido:

Si no se cambia al hombre nada se cambia. Hay que tomarlo tierno y fresco. Sin nada todavía
en la cabeza. […] Es por la cabeza por donde se le hace, o por donde se le permite

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encontrarse a sí mismo. Hablaba de sus ensayos en las Escuelas de Caracas y de lo que


había visto en Francia. […] Más daño hace un abuelo imbécil hablando a su nietecito, que
todo el bien que pueda procurarle a éste la escuela más avanzada. Lo que vuelve a aparecer
en el niño es el viejo hombre con sus mismas sinrazones, sus miserables malos hábitos de
pensamiento, sus rancias ideas y normas. (USLAR PIETRI, 1981, p. 54).

Consideramos que para analizar el fenómeno de la Independencia a fondo


hacen falta otras voces con sentido en la novela. La voz de las mujeres que
acompañaron a Rodríguez en su largo periplo por América. Ellas no hablan en
estilo directo, solamente aparecen trasmitidas por el narrador. No habla la francesa,
sin nombre, que muere contaminada por las aguas del Río Magdalena; tampoco
habla Manuela Gómez, la indígena, madre de su hijo Cocho, quien acompaña a
Simón Rodríguez en la balsa que lo conduce hasta el pueblo en donde morirá.
No deja el narrador de afirmarnos que ellas le hacen la vida más grata al
personaje, pero no contribuyen en la empresa de darle sentido a la Independencia y
mucho menos a cuestionarla. “Si no hubiera sido por esas pobres mujeres aniñadas
y trabajadoras, hubiera sido mucho peor su vida.” (USLAR PIETRI, 1981, p. 177).
Otra de ellas, sin nombre ni individualidad ninguna, sí habla. No sabemos qué
dice. Con ella mantiene una relación sexual y es comparada con la tierra y se relata
su habla con el mismo lenguaje de la tierra. ¿Qué dice su merced? Voy a entrar en la
tierra. (USLAR PIETRI, 1981, p. 155).
Pero no sólo es falta de voz e individualidad, sino que las mujeres citadas no
comprenden el pensamiento de Simón Rodríguez y mucho menos son capaces de
compartirlo:

¿Cómo le iba a explicar a ella que pensaba marcharse para aquella tierra perdida en el fondo
del mundo llena de guerras, indios, monos y loros? Parecía que iban juntos por la calle pero
se perdían en la más completa separación de pensamientos e imaginaciones. (USLAR
PIETRI, 1981, p. 146).

En el caso de las mujeres que acompañan a Simón Bolívar en su periplo “La


señora Tristán. Teresa Laisnay” sólo dice: “Ven” le dijo Teresa a Bolívar. Lo llevó a la
alcoba. En una cuna de madera oscura dormía una niña de pocos meses. “¿Es?” “Es
mi hija.” Bolívar la vio con sorpresa y le pasó con suavidad la mano por la cara.” “Se
llama Flora.” (USLAR PIETRI, 1981, p. 52). Es todo lo que dice ella en estilo directo.
Algo más fluido es el diálogo de Manuelita Sanz que para mostrarlo acude al
estilo directo nuevamente:

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Estos mojigatos de Lima le han hecho ver que es escandaloso que yo me muestre en su
casa. Que debemos vencernos nosotros mismos. Ha visto usted, señor Rodríguez, mayor
disparate. Que ya no podemos unirnos legalmente ante los hombres debemos hacer el
sacrificio de separarnos. ¡Qué gracioso! ¡Qué fácil! Él seguirá para el Sur donde no le
faltarán toda clase de descocadas, zorras, tías, busconas, gamberras. Allá se las halla. Y que
yo me vuelva, como chica regañada, a la casa del inglés. No señor, no y mil veces no.
(USLAR PIETRI, 1981, p. 196).

El sentido de la Independencia no es entendido en la novela por la mayoría de


los latinoamericanos, por lo menos por la mitad de ellos, las mujeres, según el
narrador, para las que utiliza siempre el estilo indirecto. Por eso, este se volverá tal
vez un contrasentido que estudiaremos más a fondo en el siguiente punto de nuestro
trabajo, cuando nos enfrentemos al monstruo que aparece en los libros de viajes.

2- EL LIBRO DE VIAJES:

Dejaríamos incompleto el estudio de esta novela si solamente la viéramos


como una novela histórica sobre la Independencia y no hiciéramos conexión con
todo el trasfondo de la literatura de viaje, que ya su mismo título enuncia: La isla de
Róbinson, que nos recuerda las peripecias de Róbinson Crusoe. En esta isla el
personaje se siente frecuentemente solo, por eso busca la compañía silente de las
mujeres, de fray Fray Servando Teresa Mier, de Simón Bolívar, de sus alumnos y de
su último discípulo Camilo Gómez quien lo acompaña a la hora de su muerte. Pero
esta compañía transitoria nunca es definitiva. Samuel Róbinson vuelve a estar solo
en su isla, una y otra vez.
El personaje principal ha leído la historia que esta novela parodia: “Más
tarde, cuando leyó la historia de Róbinson Crusoe, se dio cuenta de que él también,
a su manera, había sido un náufrago aventado en una isla. Una isla grande y
desconocida.” (USLAR PIETRI, 1981, p. 22).
América, esta isla que él intenta conocer se le resiste. No logra abarcarla en
sus continuos viajes y mucho menos dominar sus recursos fundamentales. Róbinson,
el naufrago por antonomasia que desde niños conocimos, se convierte en el viajero
Simón Rodríguez o Samuel Róbinson, el gran ideólogo de de la Independencia, que
viene definida en el libro como una gran tormenta. “Soy un náufrago. Un naufrago
del mar, o casi, y uno ciertamente de la vida. Hasta aquí me ha traído la tormenta.”
(USLAR PIETRI, 1981, p. 186).

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La mayoría de los personajes son arrojados por esta tormenta fuera de su


tierra nativa. Hay párrafos en la novela que recuerdan los libros de viaje donde le
océano juega un papel fundamental: “Cuando se descolgaban desmayadas de viento
las velas a lo largo de la arboladura, a mecerse por horas y días en una calma de
estaño azul, en mitad del océano.” (USLAR PIETRI, 1981, p. 150).
Y en ese océano, como en el primer libro de viajes La Odisea, está el monstruo
que espera aniquilar al viajero. Este monstruo también actúa en tierra y representa
la forma en que se destruye al personaje principal:

Fue con esas garras y con esas fauces, disimuladas, escondidas, untuosas, con las que lo
atraparon y lo destruyeron. Todo lo cambiaban, lo adulteraban, lo fingían. El venía a buscar
a Bolívar y se lo habían escamoteado. Él quería organizar una república y lo que brotaba a
su espalda, como retoño de mala hierba tenaz, era la vieja mentira, el orden vetusto de
salas, patios y corrales, el mi amo de la indiada, el orgullo de los señores de nada. Él
sembraba una escuela y que brotaba era un hospicio de mendigos. (USLAR PIETRI, 1981,
p. 152).

La realidad que él quería crear, se convierte en otra cosa. La realidad se le


resiste. Pareciera que la ley de la causalidad funcionara al revés y todo lo previsto
se transformara en su antítesis. Frente a esto lo único seguro era el viaje, lo transitorio
y sin raíces. Esto es lo único verdadero.
De esta manera la Independencia se convierte, para Simón Rodríguez en un
viaje interminable que acaba con su muerte. Episodios como su huída de Caracas a
París, por su complicidad en la revuelta de Gual y España. Luego su viaje por este
continente con el que luego será uno de los grandes libertadores de América, Simón
Bolívar; a quien concientiza de la importancia de su misión y ayuda a planificar su
actividad futura en episodios como el de Monte Sacro. Su regreso a América para
acompañar al Libertador en su misión. La separación de ambos. Su estadía en Arequipa
donde imprimirá parte de sus obras. Su viaje a Chile intentando hacer realidad sus
ideas científicas. Y su muerte en la absoluta soledad, sólo acompañado por un
discípulo Camilo Gómez, en la cercanía de un pequeño pueblo, Amotape en Perú.
Son algunos episodios que no nos dejan ninguna duda de que la novela participa
abiertamente de la estructura de la novela de viajes que el autor ya señala en su
título y termina con la muerte del personaje: “Róbinson había dejado la isla”. (USLAR
PIETRI, 1981, p. 357).

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2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

3- LA ESCRITURA EN LA ISLA DE RÓBINSON

Sin embargo, el libro de viajes y la novela histórica se van escribiendo


consecutivamente, sin dejar de reflexionar acerca del proceso de construcción de
este libro, que es la creación novelística de La Isla de Róbinson, pintada sólo con el
lápiz.
En la novela las citas a autores, títulos y párrafos de libros, y periódicos son
tantas, que ellas mismas van construyendo la obra. En ella, la mayoría de sus
personajes, no sólo cuentan la realización de sus hazañas sino que también las leen
y las escriben: “Salió lentamente y de espaldas. Bolívar continuaba dictando. Escribía
al General Briceño Méndez, al Licenciado Revenga, al coronel Diego Ibarra. Cambiaba
de tono y cambiaba el invisible interlocutor. (USLAR PIETRI, 1981, p. 222).
De la misma forma escribe Antonio José de Sucre su experiencia con Simón
Rodríguez, alias Samuel Róbinson, el maestro del Libertador:

Al describir a Ud. todas las locuras de este caballero tendría que ser muy largo. Ud.
pensará que yo estoy muy enfadado con él y no es así. Considero a Don Samuel un hombre
muy instruido, benéfico cual nadie, desinteresado hasta lo sumo y bueno por carácter y por
sistema; pero lo considero también una cabeza alborotada con ideas extravagantes, y con
incapacidad para desempeñar el puesto que tiene bajo el plan que él dice y que yo no sé
cuál es; porque diferentes veces le he pedido que me traiga por escrito el sistema que él
quiere adoptar para que sirva de regla y en ocho meses no me lo ha podido presentar.
(USLAR PIETRI, 1981, p. 234).

El personaje principal escribe durante la trayectoria novelística varios libros


y muchas cartas de las cuales la novela cita constantemente fragmentos. Pero su
grafía no era uniforme, sino que intentaba no sólo impresionar con lo que se contaba
sino con la forma como éste material estaba escrito.

No era nada escribir en el rincón del cuarto pobre donde se acodaba por horas, abstraído
de todo. Lo peor era la disputa continua con el impresor. ¿Qué necesidad hay de ser tantos
tipos distintos de letras de todos tamaños? La gente se va a confundir. No se preocupe
usted. Ya aprenderán. Escribir es pintar ideas. Lo que yo trato es de pintarlas con más
claridad. ¿Cómo sabe uno donde está lo importante en esas páginas grises y parejas de los
libros ordinarios? (USLAR PIETRI, 1981, p. 260).

Existen una gran cantidad de referencias en la novela de que la Independencia


se creará y también se aniquilará a través del lenguaje. Su autor y su personaje
principal están escribiendo ambos varios libros:

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Se llamaría: El libertador del Mediodía de América y sus compañeros de armas defendidos


por un amigo de la causa social. […]. Sin embargo, como todo en esta novela termina
cambiando su esencia, este libro también la varía ya no era un libro, a pesar de que se
acumulaban por centenares los pliegos sobre su mesa, sino un diálogo iracundo con todos
los que no querían oír ni entender. (USLAR PIETRI, 1981, p. 253-254).

Para Simón Rodríguez la Independencia tenía un sentido que muchos no


querían o no podían entender. Sólo la comprenden sus grandes voces. Por eso se
dedica a través de sus escritos a conferirle ese sentido que no es claro para todos.
Pero de esa búsqueda sólo nos queda aquella “caja de papeles” “aquel eco de lo más
viviente de todo lo que él había vivido.” (USLAR PIETRI, 1981, p. 183) que intenta
Uslar Pietri recrear con su pincel en la novela.

NOTAS

Doutora em História pela Universidade Católica Andrés Bello de Caracas, Venezuela. Profes-
sora da Universidade Metropolitana de Caracas, Venezuela.
1 Paréntesis de la autora.
2 Para Uslar toda novela era histórica. “El campo de la novela es el tiempo, pero no la época,
sino la acción del pasado en el presente y la transformación continua del presente en pasado
a través del personaje, sus relaciones y sus fantasmas.
Es en este sentido que toda la novela es histórica por naturaleza, porque es una tentativa de
contener un tiempo y de mantenerlo vivo en términos de presente, aunque la acción que se
relate haya ocurrido muchos siglos antes.” (Uslar, 2002, p. 886)
3 La itálica está entre comillas en el texto.
4 Las itálicas sustituyen a las comillas en el texto.

REFERÊNCIAS

DELPRAT, Francois. (Coord.) Arturo Uslar Pietri. Las Lanzas coloradas. Primera narrativa. Madrid;
Barcelona; La Habana; Lisboa; París; México; Buenos Aires; São Paulo; Lima; Guatemala; San José;
Caracas: ALLCA XX, 2002.
FEBRES, Laura. (Comp.) A los amigos invisibles Visiones de Arturo Uslar Pietri. Caracas:
Universidad Metropolitana, 2006.
GARCÍA ARAUJO, Mauricio; et all. Todo Uslar. Caracas: Universidad Metropolitana, 2001.
MÁRQUEZ RODRÍGUEZ, Alexis. Arturo Uslar Pietri y la nueva novela histórica. Caracas: Contraloría
General de la República, 1986.
RODRÍGUEZ, Simón. Sociedades americanas. Caracas: Biblioteca Ayacucho- versión digital- 1990.

178 EL HUIDIZO SENTIDO DE LA INDEPENDENCIA http://e-revista.unioeste.br


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USLAR PIETRI, Arturo. La isla de Róbinson. Barcelona, Caracas, México: Seix Barral, 1981.
______. Las Lanzas Coloradas. Caracas: Biblioteca Ayacucho, 1979.
______. La vista en el tiempo. Bogotá: Editorial Norma, 1990.
______. El globo de colores. (1975). Caracas: Monte Ávila, 1975.
______. Godos, insurgentes y visionarios. Barcelona: Seix Barral, 1986.
______. Giotto y compañía. Caracas: Fundación Mendoza, 1987.

Data de recebimento: 19/08/2010


Data de aceite para a publicação: 25/10/2010.

SOBRE A AUTORA

Laura Febres es profesora tiempo completo en la Universidad Metropolitana.


Licenciada en Letras en la Universidad Católica Andrés Bello, Magister en Literatura
Latinoamericana Contemporánea de la Universidad Simón Bolívar, Doctor en Historia
de la Universidad Católica Andrés Bello, todas en Caracas, Venezuela. Tiene libros
publicados: Perspectivas críticas en la Obra de Teresa de la Parra, Pedro Henríquez
Ureña, Crítico de América y La historia en Mario Briceño-Iragorry, varias
compilaciones y más de cincuenta artículos publicados como capítulos de libros y
en revistas arbitradas. Ha participado en muchos congresos nacionales e
Internacionales realizados En España, México, Argentina, Uruguay, Ecuador,
Colombia y República Dominicana.

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Revista de Literatura, “QUIEN HABLA ES OTRA(O):
História e Memória EL ANVERSO Y EL ENVÉS DE
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bicentenário de independências
na América
LA HISTORIA PARAGUAYA
ISSN 1809-5313 EN MADEJAS DE CLÍO (2007)
VOL. 6 - Nº 8 - 2010 DE GLORIA MUÑOZ YEGROS1 ”
U NIOESTE / CASCAVEL
ZAMBRANO, Lilibeth (Universidad de
P. 181-190
Los Andes-Mérida/Venezuela)* lilibethza@yahoo.es

RESUMO: O libro de contos Madejas de Clío (2007), da escritora paraguaia Gloria Muñoz
Yegros, revela as lacunas deixadas pela história convencional. O discurso dos setores hegemônicos
nunca manifestou, como jamais o fará, a visão, a sensibilidade, as motivações e nem as circunstân-
cias do desemparo, da exploração y marginalização dos setores sociais desprotegidos do Paraguai.
O texto de Muñoz Yegros converte-se, nesse sentido, em uma proposta narrativa alternativa, por
meio da qual se concede a palavra aos que a história oficial negou o direito à expressão da voz. O
livro de Muñoz apresenta-se para nós como uma prática escritural alternativa, a qual se empenha
em romper com os moldes culturais homogêneos da literatura hegemônica. A autora paraguaia
põe de manifesto, de forma direta, as vozes dos que fazem parte da história subalterna. Madejas
de Clío dá conta dos rastros que deixaram as vozes dos deslocados e silenciados, marcando os
seus modos de resistência e assinalando os pontos “álgidos” da história paraguaia.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura paraguaia, história paraguaia, Madejas de Clío, Gloria Muñoz


Yegros, velamentos, desvelamentos, lacunas da história oficial

RESUMEN: El libro de cuentos Madejas de Clío (2007) de la escritora paraguaya Gloria Muñoz
Yegros, pone al descubierto las lagunas dejadas por la historia convencional. El discurso de los
sectores hegemónicos nunca manifestó ni lo hará la visión, la sensibilidad, las motivaciones ni las
circunstancias de desamparo, explotación y marginación de los sectores sociales desprotegidos
del Paraguay. El texto de Muñoz Yegros se convierte, en este sentido, en una propuesta narrativa
alternativa a través de la cual se hace hablar a quienes la historia oficial les ha negado una voz. El
libro de Muñoz se nos presenta como una práctica alternativa que se empeña en romper los
moldes culturales homogeneos de la literatura hegemónica. La autora paraguaya pone de manifiesto
de forma directa las voces de los que forman parte de la historia subalterna. Madejas de Clío da
cuenta de las huellas que han dejado las voces de los desplazados y silenciados, marcando sus
modos de resistencia y señalando los puntos álgidos de la historia paraguaya.

PALABRAS CLAVE: Literatura paraguaya, historia paraguaya, Madejas de Clío, Gloria Muñoz
Yegros, velamientos, develamientos, lagunas de la historia oficial.

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[…], es mucho más que una metáfora del Paraguay porque entre el primer cuento y el
último hay un tránsito en círculos, […] para mostrar a nuestras mujeres, de nuestra
América, para mostrar a las mujeres de Paraguay que van hilando en una madeja, […] una
historia de rebeldía, de dignidades muy dolorosas y también de solitarias dignidades […]
y todo va saliendo, […], como si Gloria extendiera la mano para que pudieran escapar
estas mujeres de esas condenas diversas que les impuso la sociedad colonial al desarrollo
de la historia de Paraguay […] (STELLA CALLONI, Buenos Aires, 2007).

Como es sabido, el globo terráqueo y el tiempo representan a Clío, como una


forma de mostrar que la historia abarca todos los lugares y todas las épocas. Este
aspecto es desarrollado en Madejas de Clío (2007), de Gloria Muñoz Yegros, en la
medida en que su texto de ficción intenta abarcar los momentos cruciales de la
historia paraguaya. A Muñoz, como a Clío, no le interesa revelar los rastros del
pasado como mera ubicación temporal de lo que ha sucedido. Más bien, se preocupa
en manifestar la visión profunda e interior de lo acontecido, poniendo al descubierto
aquellos aspectos vedados de los hechos. En este sentido, Muñoz Yegros urde una
trama diferente con nuevos hilos de la historia de personajes olvidados y dejados al
margen. La madeja representa a una maraña y simboliza el devenir. En las “madejas
de Clío” se constata lo visible sobre lo invisible.
Así, el revés del tejido de Clío transparenta una especie de negativo de los
sucesos, de las actitudes y los momentos de personajes que aguardan en silencio.
Se trata de un mapa simbólico del tiempo que la autora muestra fechando sus cuentos,
una suerte de filigrana que moldea de otro modo la historia del pueblo paraguayo.
Gloria Muños Yegros tira constantemente del hilo de la madeja para desentrañar los
sentidos profundos en la memoria de sus personajes y se vale de la ficción como
mecanismo mediante el cual logra conjurar el tiempo y el olvido. La escritura como
tejido (en el sentido propuesto en Madejas de Clío) se plantea rehacer el sendero
arruinado y asolado del Paraguay, al desandar los rastros de personajes excluidos
por la historia convencional, para continuar o reiniciar el tejido en una nueva tela.
Pero Muñoz no se limita al carácter de complicidad de un mismo devenir frente al
dramático recomenzar (como Penélope y Schahrasad), escribe-reescribe-teje-desteje-
cuenta-recuenta con el propósito de restablecer la memoria paraguaya resquebrajada.
De este modo, narrar supone para la autora el acto de restitución del tejido deshecho
para acceder a otro modo de comprender-se y de identificar-se. Gloria Muñoz Yegros
vuelve a las fibras que dieron origen al tejido, para reencontrarse con lo femenino
paraguayo, con la materia y las texturas de su propia historia desplazada. Muñoz
Yegros replantea la historia a partir de la reiteración de lo mismo en diferenciadas
puntadas.

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El epígrafe de Madejas de Clío (2007), tomado por Muñoz de la novela La


isla sin mar (1987), de Juan Bautista Rivarola Matto, constituye un punto de partida
y/o el hilo conductor fundamental para la mejor comprensión del texto. A través de
las palabras de su personaje don Faustino se nos refiere la condición de
incomunicación que ha caracterizado al Paraguay. Se nos señala en el epígrafe las
múltiples pérdidas a las que ha estado sujeto este país y su invisibilidad frente al
resto del mundo. Muñoz Yegros reelabora la imagen del Paraguay concebida por
Rivarola Matto, de un país que ha sido atropellado de diferentes maneras y condenado
a vivir en su concha de caracol. A partir del epígrafe podemos leer las narraciones
de Muñoz como una suerte de rompecabezas que se dispone por la articulación de
las distintas referencias históricas cruzadas. Por otro lado, es notable el trabajo
fotográfico de Rocío Ortega2 que acompaña y precede a cada relato.
Así, tenemos la combinatoria de varios textos (fotos, epígrafe, dedicatorias,
trozos de poemas y los cuentos en sí mismos) acoplados a un todo y que contribuyen
con el universo de significaciones del libro en su conjunto. En las fotografías aparece
la imagen femenina3 colmada de gestos sugerentes y sugestivos. Tenemos la sensación
de una figura en movimiento. Ella disimula y se muestra en el juego de pliegues de
su vestido, su gestualidad, el detalle, el velo, las sombras, el rostro entre nieblas,
las miradas y los espacios en los que aparece. Con estas imágenes fotográficas el
acto de tejer-narrando cobra otro sentido. Es decir, se convierte en la rasgadura del
velo para mostrar lo que esconde y abriga, más allá del simple acto de deshacer el
tejido de Penélope. Con ello, los textos narrativos se redimensionan y ponen en
evidencia los rostros encubiertos por la historia hegemónica.
La revelación y el develamiento son prácticas por las que opta Clío-narradora
para poner al descubierto la miopía con respecto a la historia paraguaya. Madejas
de Clío es un texto que no cesa de replegarse y desplegarse. Los agenciamientos4
constantes entre unos y otros textos constituyen un elemento simbólico que conforma
un sistema narrativo abierto. A partir de estas inserciones se vinculan contenidos
semánticos y pragmáticos distintos, con registros de enunciación múltiples.
Madejas de Clío está compuesto por diecinueve cuentos cada uno fechado
con un año específico (“Año 1540”, “Año 1570”, “Año 1648”, “Año 1725” y así
sucesivamente) y al mismo tiempo subtitulado (“Arde, Juliana, arde”, “Elvira y el
trópico”, etc.). La fecha indica un momento histórico determinado. Con este recurso
se les asigna a las distintas ficcionalizaciones de la historia, por un lado, un efecto
de verosimilitud y, por otro lado, se distinguen los momentos puntuales de la historia
paraguaya no registrados por la historiografía.

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Gloria Muñoz pone en tela de juicio los modos como la historia oficial
observa, registra y da cuenta de los acontecimientos. Muñoz en sus relatos articula
los hechos del pasado con los del presente: desde los momentos conflictivos de la
conquista (“Año 1540. ¡Arde, Juliana, arde!” y “Año 1570. Elvira y el trópico”),
pasando por el período colonial (“Año 1648. La excomunión de don Diego” y “Año
1725. La cama portuguesa”), siguiendo por la independencia (“Año 1821. El primo
Gaspar” y “Año 1865. A la sombra el viejo Brigadier”), la posguerra del ’70 (“Año
1873. La vara de guayabo y el general” y “Año 1877. Los conjurados”), el período de
los sucesivos golpes de estado y cortos gobiernos dictatoriales (“Año 1905. El
nombre de la mujer más hermosa de la historia”, “Año 1915. Si tuvieran madrina”,
“Año 1922. La sopa del triunfo”, “Año 1933. Madrina de guerra”, “Año 1935. Llueve y
está oscuro” y “Año 1940. Leche de víbora”), dando cuenta de los momentos de la
dictadura de Alfredo Stroessner (“Año 1975. El juez sin camisa” y “Año 1982. Carta
a Angelina”), hasta llegar a la transición democrática (“Año 1997. El secreto tormento
de lo cotidiano”) y el momento actual (“Año 2005. Cartas a España” y “Año 2006.
El viaje de don Calixto”).
La autora pone el dedo en la llaga, al mostrarnos los lados problemáticos y
las tensiones de la historia remota y la más inmediata del Paraguay. Clío-Gloria
Muñoz, teje el anverso y el envés de la historia paraguaya. Se trata de las historias
de los(as) desamparados(as) en un registro inusual de las voces solitarias del pueblo
paraguayo. Las historias de los Yegros, protagonistas de la independencia del
Paraguay, de Don Diego, el Viejo Brigadier, el primo Gaspar se apoyan en parte en
registros documentales y, en gran medida, se inspiran en la memoria colectiva, en
lo que queda de ellos de leyenda.
Es preciso destacar que aunque en el libro de Muñoz Yegros existan historias
de personajes masculinos, en la mayoría de los cuentos la figura protagónica es
femenina y cumple un rol relevante. El hecho de que las instancias femeninas
sobresalgan en el texto de Gloria Muñoz, responde a la misma historia de Paraguay,
protagonizada en gran medida por mujeres. Es decir, fueron ellas quienes tuvieron
la osadía histórica de reconstruir desde las cenizas a un país desvastado por dos
guerras funestas y a quienes les tocó redimir la memoria usurpada al pueblo
paraguayo. Por ello, distinguiremos del libro Madejas de Clío las historias de
mujeres, en particular, los relatos “Año 1540 ¡Arde, Juliana, arde!” y “Año 1570.
Elvira y el trópico”. Nos referiremos a “Año 1725. La cama portuguesa” y “Año 1877.
Los conjurados”, con el propósito de enfatizar ciertos recursos expresivos-narrativos
recurrentes y significativos. Lamentablemente, por cuestiones de espacio y tiempo
no podremos referirnos al resto de los cuentos que componen Madejas de Clío.

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En los cuentos señalados la figura protagónica es una mujer al margen de la


historia convencional. En cada una de las historias mencionadas se narran distintos
modos de rebeldía femenina. En “Año 1540 ¡Arde, Juliana, arde!”, la protagonista,
conciente de su rol de sujeto y asumiendo su propia historia, organiza una
sublevación de todas las mujeres guaraníes en asentamientos españoles, con la
intención de romper las ligaduras que las oprimen y tachan sus identidades. Juliana,
con sentido crítico de su situación de explotación y marginación, cuestiona su vida
y la de sus compañeras al lado de unos hombres que las obligan a adoptar una
identidad falsa y que atentan contra su memoria guaraní, amenazándolas con el
olvido:

Todas ellas fueron bautizadas y sus floridos nombres guaraníes cambiados por otros sin
sentido ni alma, su desnudez vestida por aquellos bastos y mezquinos lienzos para habitar
decentes las casas de lujuria de sus señores españoles, como concubinas y como siervas,
en fin, para todo servicio, desde el lecho a los surcos de la siembra, al cuidado del ganado,
al acarreo del agua y todos los trabajos que se precisasen […] (MUÑOZ, 2007, p. 14).

Juliana rechaza profundamente las formas de vida en los asentamientos de


españoles. Ella considera que la figura amenazante del español censura la palabra
de cada una hasta hacerla inaudible y se convierte en la tachadura de su cultura:

Juliana no podía consentir la irremediable maldición de tristeza y desgracia extendida


como un manto implacable sobre su gente, sobre ellas, las mujeres arrancadas a su acendrado
pueblo para hacer parte de este otro extraño y ajeno. Una resuelta turbulencia crecía en su
interior y arrasaba con tranquilo valor todas las barreras de la razón y del temor que
imponían sus señores (MUÑOZ, 2007, p. 15).

La percepción del mundo de Juliana y los suyos es en absoluto diferente a las


acepciones del mundo de los españoles: “En unos días, los extranjeros celebrarían
los ritos a la muerte de su Dios, un hombre escuálido y triste colgado de una cruz
que el sacerdote paseaba entre cánticos y el humo de los incensarios […]” (MUÑOZ,
2007, p. 14). A través de esta referencia se pone al descubierto, por un lado, la
incomprensión de las indígenas guaraníes de dichas prácticas que desconocen y
difieren de las propias y, por otro lado, la imposición de unos rituales que contradice
la experiencia religiosa de los antiguos guaraníes. “[…] El hombre trasciende cuando
se libera de su pesantez y es palabra divina encarnada, recién entonces será
verdaderamente hombre y la Tierra Sin Males totalmente poblada” (MUÑOZ, 2007,
p. 16). Es evidente que quien enuncia lo hace desde la perspectiva de las indígenas.

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Este narrador no se identifica con ninguna voz masculina o femenina. Pero no se


trata de una voz neutra, más bien representa a una voz colectiva, un “ellas”, las
indígenas, quizás también la voz de Clío, quien en su condición de musa eleva las
voces de las excluidas.
En el cuento “Año 1570. Elvira y el trópico” tenemos a la mujer española, la
otra cara de una misma moneda, víctima de las circunstancias y del modelo patriarcal
quien, como Juliana, es obligada a abandonar su espacio natural, sus modos de vida
y la posibilidad de desarrollarse en libertad, para adoptar maneras distintas de
relacionarse con el mundo. Este nuevo modelo de vida desencaja a Elvira del ritmo
al que está acostumbrada (como ocurre también con Juliana):

[…] El aire caliente fue desprendiendo de su cuerpo las medias, los sobrevestidos, los
corpiños, los zapatos y, aún aligerada, su carne seguía ardida, con un calor que desataba
deseos impuros, imperativos, que no menguaban con los embarazos ni el puerperio. Se
había aficionado, ya durante su estancia en San Vicente, al pecaminoso baño diario, no
podía prescindir de las aguas que absorbían el fervor de su piel, una caricia de seda que la
aplacaba e incitaba al mismo tiempo (MUÑOZ, 2007, p. 24).

Gloria Muñoz, nos muestra el desarraigo al que está sujeta la mujer, cuando
se le arroja de la casa de su propio ser, obligándola a negar lo que ella es en sí, para
sí y por sí misma. Tanto la una como la otra (cada una representando a las de su
bando, su frontera) son despojadas y acosadas por las redes del poder masculino. A
pesar de ello, ambas responden, a su modo, transgrediendo las fronteras que las
confinan y las limitan. Juliana y Elvira, son protagonistas a las que les toca vivir y
luchar solitariamente contra los estereotipos familiares, los prejuicios de la época y
la reclusión masculina. A estas historias de mujeres, “sepultadas también en el
olvido” (Presentación de Stella Calloni, Buenos Aires, 5-XII-07), se les restituye su
sentido en el curso del relato de ficción. En estos textos se nos muestra los actos de
liberación femenina que implica defender su derecho a la diferencia, más allá de la
mera reivindicación. Porque Juliana, Elvira y las otras mujeres se levantan contra la
subordinación a unos sistemas genealógicos exclusivamente masculinos, organizados
en una sola línea de filiación entre hombres y que desconoce el origen de las relaciones
de las mujeres con su entorno.
Los distintos relatos que conforman el libro de Muñoz cumplen la función de
problematizar ciertos aspectos frágiles de la historia oficial, como el que concierne
al ideologema del mestizaje. A través de este paradigma no se llega a dilucidar los
aspectos conflictivos de los procesos de interacción cultural. El mestizaje no
constituye una herramienta metodológica idónea con la cual analizar los procesos

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de comunicación cultural y sus ingredientes “híbridos”. Esto es así por el rasgo


ideológico que caracteriza su discurso, favoreciendo la hegemonía de los sectores
criollos que tomaron el poder luego de la caída del sistema colonial. El paradigma
del mestizaje cultural se configura a partir de un sentido de igualdad que no es tal,
pues su discurso manipulativo encubre mecanismos de desigualdad. Por otro lado,
cuestiona el paradigma aculturativo que nos presentan a las figuras subalternas
como actores sociales pasivos, imposibilitados para resistirse a los procedimientos
de homogeneización impuestos por Occidente: “[...] la teoría de la aculturación,
lejos de mostrar los procesos de interacción cultural con todas sus contradicciones
e incógnitas, termina siendo ante todo un discurso de la asimilación [...]” (LIENHARD,
2003, p. 140).
En el cuento “Año 1725. La cama portuguesa”, Gloria Muñoz se basa en la
referencia a la figura de la “loca” Juana que un amigo le contara, quien había enterrado
vivo a su marido. Lo de la cama portuguesa se toma por la cama exuberante que se
encuentra en la Casa de la Independencia: “Me tocó contarle a ella, yendo a restaurar
la Casa-oratorio de los Cabañas la anécdota de Juana que enterró vivo a su marido
y la trayectoria familiar de la cama que hoy se encuentra en la Casa de la Independencia
y que también perteneciera a Fernando de la Mora” (COLOMBINO, 2007, p. 9). La
autora recoge de los otros ciertos relatos que ella reconstruye, reelabora y reformula.
Opera haciendo ampliaciones de estos relatos, en la medida en que los transforma
y redimensiona. Amplifica el horizonte textual a partir de su propio horizonte de
expectativas. La historia se interrumpe cada tanto, para insertarse un trozo del
interrogatorio del Pesquisidor a doña Juana por la muerte del señor De La Mora. Se
trata de un interrogatorio que no tenemos completo y el cual solo podemos suponer.
Paralelamente se nos va contando los hechos en los que se vio envuelta doña
Juana. Se nos dan indicios de su existencia y la de los otros dentro de la historia.
Las interrupciones se suceden de forma alternativa, manteniéndose los hilos de las
distintas historias suspendidos. La historia de ella junto a De La Mora es diferida
por el interrogatorio y la investigación que tiene lugar en la oficina del Juez
Pesquisidor. Esta a su vez es aplazada por la entrada de tanto en tanto de Juan de
Mena. La articulación de este último hilo nos conduce a la revelación de la forma
cómo doña Juana logra salvarse de la sentencia de la ley. Por otra parte, la hebra que
corresponde a la historia de ella junto a De La Mora y sus desequilibrios mentales,
nos conduce al develamiento de los motivos por los cuales ella enterró vivo a su
esposo.
La autora usa las cursivas para insertar otro registro de la historia, como dos
formas de narración que se presentan yuxtapuestas, paralelas y/o simultáneas. La

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primera, la de la presente de la narración y de la enunciación (de hechos pasados)


que remite a las circunstancias actuales que padecen los personajes y, en cursivas,
los momentos de la historia de los personajes que aluden a las situaciones previas
e iniciales, que anteceden a los que se presentan en el primer registro y agregan
datos al lector para la comprensión de la situación que se enuncia al principio.
Este recurso expresivo se usa también en el cuento “Año 1877. Los conjurados”,
donde de igual modo se dan dos registros de la historia, con o sin cursivas, que
ponen en evidencia una estructura teatral subyacente. El primer registro de la historia,
sin cursivas, es articulado por un narrador heterodiegético. El segundo registro, en
cursivas, es organizado por un narrador homodiégetico, la visión de la historia
desde la figura femenina en situación de monólogo. Ambos registros sugieren un
cambio de escenas y de cuadros, en los que los personajes aparecen y desaparecen,
unos en el espacio-escenario de la cárcel, otro en el de la casa de Petrona y su
madre, uno más, el de la calle cuando aparece Otazu-i y el resto de la escena.
Madejas de Clío nos seduce porque nos permite conocer cuándo las mujeres
paraguayas llegan a convertirse en sujetos de su propia historia. La autora profundiza
en la rebeldía indígena y femenina contra quienes las mantenían en un estado de
servidumbre o esclavitud. Pretende lacerar el sistema colonial esclavista y masculino.
El momento crucial de la rebeldía de las mujeres desemboca en sus liberaciones o
sus muertes. En los cuentos aludidos se juzga a la mujer y se le condena a muerte
porque no siguen las normas sociales impuestas5 . Ellas son víctimas del sistema
social patrilineal que no toma en cuenta los sentimientos y los deseos de la mujer.
Por otro lado, el manejo del lenguaje que respeta el habla propia de sus personajes
en el medio y las circunstancias en las cuales aparecen insertos, contribuye con el
develamiento de la cara engañosa de la historia hecha por los sectores dominantes.
El lector se identifica con el dolor y la situación de desplazamiento y
marginación de los personajes. Se trata de la historia que no cuenta para la
historiografía. Por último, consideramos que es ineludible en Madejas de Clío la
mirada aguda de la historia y el tratamiento crítico de los acontecimientos. Los ojos
de la autora hurgan en las distintas capas de la historia y logran poner al descubierto
sus tensiones, el encubrimiento de la condición colonial de hoy, los puntos más
vulnerables de los hechos y la situación de anonimato de sus actores/actrices.

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Revista de Literatura, vol. 6 nº 8 2010 p. 181-190
História e Memória I SSN 180 9-5313
1809-5313
UNIOESTE CAMPUS DE C ASCAVEL
2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

NOTAS

*Graduada en en Letras: Lengua y Literatura Hispanoamericana y Venezolana y Magister Scientiae


en Literatura Iberoamericana por la Universidad de Los Andes (Mérida/Venezuela). Doctora
en Filosofía por la Universidad de Zürich, Suiza. Actualmente se desempeña como profesora
agregada e investigadora del Instituto de Investigaciones Literarias “Gonzalo Picón Febres”
de la Universidad de Los Andes (Mérida/Venezuela).
1 Tataranieta de Antonio Tomás Yegros, prócer de la Independencia de Paraguay, convertido en
personaje protagónico del cuento “A la sombra el viejo Brigadier” del libro que nos ocupa.
Narradora y dramaturga, nació en Asunción en 1949. En la actualidad se desempeña como
Directora General de Patrimonio Cultural en el Ministerio de Cultura. A partir de 1969 se
destacó como actriz y dramaturga en los grupos teatrales “Tiempoovillo” y “Laboratorio”.
Realizó varias versiones de cuentos y novelas de autores paraguayos y otros autores de la
literatura universal. De sus trabajos de interpretación y adaptación destaca su versión de la
novela Yo El Supremo de Augusto Roa Bastos. Entre sus obras estrenadas y publicadas: “La
Divina Comedia de Colón”, “La prohibición de la niña Francia”, “Primera comunión”, “Perlas
nacrológicas”, “Cenizas degolladas” y “La dama del domingo a la mañana”. Dentro de su
producción narrativa publicada tenemos su primera novela Polca 18 (1999). Tiene varios
proyectos narrativos en proceso.
2 Arquitecta. Se dedica a Políticas Culturales y es Directora de Gabinete del Secretario de
Cultura del Paraguay (Ticio Escobar).
3 Lea Schvartzman, modelo y responsable del diseño gráfico de Madejas de Clío.
4 Véase la noción de agenciamiento acuñada por el filósofo francés Guilles Deleuze. Para él:
“[…] Un agenciamiento es precisamente ese aumento de dimensiones en una multiplicidad
que cambia necesariamente de naturaleza a medida que aumenta sus conexiones […]”
(1997: 14-15).
5 Sólo doña Juana en “Año 1725. La cama portuguesa” logra salvarse de la sanción de la ley y la
condena de muerte.

REFERENCIAS:

DELEUZE, Guilles. “Introducción: Rizoma”. En: Mil Mesetas. Capitalismo y esquizofrenia, Valencia/
España: Pre-Textos, 1997.
LIENHARD, Martin. La voz y su huella. México: Editores Casa Juan Pablos y Universidad de
Ciencias y Artes de Chiapas, 4a. Edición, 2003.
MUÑOZ Yegros, Gloria. Madejas de Clío. Asunción/Paraguay: Arandurã, FONDEC (Fondo Nacional
de la Cultura y las Artes), 2007.

Data de recebimento: 04/08/2010.


Data de aceite para a publicação: 10/10/2010.

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1809-5313
UNIOESTE CAMPUS DE CASCAVEL
2010: Reflexões sobre o bicentenário
de independências na América

SOBRE LA AUTORA:

Lilibeth J. Zambrano C., es licenciada en Letras (Mención: Lengua y Literatura


Hispanoamericana y Venezolana) y Magister Scientiae en Literatura Iberoamericana
por la Universidad de Los Andes (Mérida/Venezuela). Obtuvo el título de Doctora
en Filosofía por la Universidad de Zürich, Suiza. Se desempeña como profesora
agregada e investigadora del Instituto de Investigaciones Literarias “Gonzalo Picón
Febres” de la Universidad de Los Andes (Mérida/Venezuela). Tiene varios trabajos
publicados en revistas y en memorias de congresos nacionales e internacionales. En
la actualidad coordina y organiza un Colectivo Interdisciplinario Internacional:
“Desplazamientos, intercambios fronterizos y transformaciones espaciales”. Cuenta
con una publicación digital de su trabajo de doctorado “El rostro vedado de la voz”
(Ayvu rova ikatu’?va jahecha), por la Universidad de Zürich, 2010, Suiza, dedicado
a la literatura paraguaya.

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